UNIDADE I Estrutura e Função das Proteínas

Aminoácidos

1
A
Aminoácido livre
Comuns a todos os -aminoácidos das proteínas

I. VISÃO GERAL
As proteínas são as moléculas mais abundantes e com maior diversidade de funções nos sistemas vivos. Praticamente todos os processos vitais dependem dessa classe de moléculas. Por exemplo, enzimas e hormônios polipeptídicos controlam e regulam o metabolismo corporal, enquanto proteínas contráteis no músculo permitem a realização dos movimentos. Nos ossos, a proteína colágeno forma uma estrutura para a deposição de cristais de fosfato de cálcio, atuando como as barras de aço no concreto armado. Na corrente sangüínea, proteínas como a hemoglobina e a albumina plasmática transportam moléculas essenciais para a vida, enquanto as imunoglobulinas combatem bactérias e vírus causadores potenciais de infecções. Em suma, as proteínas apresentam uma diversidade incrível de funções; todavia, todas têm em comum a característica estrutural: são polímeros lineares de aminoácidos. Este capítulo descreve as propriedades dos aminoácidos; o Capítulo 2 mostra como esses blocos constitutivos simples são unidos para formar proteínas com estruturas tridimensionais singulares, tornando-as capazes de desempenhar funções biológicas específicas.

H
+H N 3
Grupo amino

C

C COOH COOH
Grupo carboxila

A cadeia lateral é distinta para cada aminoácido.

O carbono encontra-se entre os grupos carboxila e amino

B
II. ESTRUTURA DOS AMINOÁCIDOS
Embora mais de 300 diferentes aminoácidos tenham sido descritos na natureza, apenas 20 deles são usualmente encontrados como constituintes de proteínas em mamíferos. (Nota: Esses são os únicos aminoácidos codificados pelo DNA, o material genético da célula [veja a página 395].) Cada aminoácido (exceto a prolina, que possui um grupo amino secundário) apresenta um grupo carboxila, um grupo amino primário e uma cadeia lateral distintiva (“grupo R”) ligados ao átomo de carbono α (Figura 1.1A). Em pH fisiológico (aproximadamente 7,4), o grupo carboxila encontra-se dissociado, formando o íon carboxilato, carregado negativamente (–COO–), e o grupo amino encontra-se protonado (–NH3+). Nas proteínas, quase todos esses grupos carboxila e amino estão combinados nas ligações peptídicas e, em geral, não estão disponíveis para reações químicas, exceto pela possibilidade de formação de pontes de hidrogênio (Figura 1.1B). Portanto, em última aná-

Aminoácidos combinados em ligações peptídicas

NH-CH-CO-NH-CH-CO

As cadeias laterais determinam as propriedades das proteínas

Figura 1.1 Características estruturais dos aminoácidos (mostrados em sua forma completamente protonada).

se são apolares (apresentam distribuição homogênea de elétrons) ou polares (apresentam distribuição desigual de elétrons. (Continua na Figura 1. que é incapaz de receber ou doar prótons. de participar em ligações iônicas ou formar pontes de hidrogênio (Figura 1. as cadeias laterais apolares dos aminoácidos tendem a agrupar-se no CADEIAS LATERAIS APOLARES H +H N 3 H COOH pK1 = 2.2 Pamela C. Ferrier lise. As cadeias laterais desses aminoácidos podem ser vistas como “oleosas”. é mostrada aqui e continua na Figura 1. ou semelhantes a lipídeos.3. Figuras 1. é a natureza dessas cadeias laterais que determina o papel do aminoácido na proteína. Nas proteínas encontradas em soluções aquosas – um ambiente polar –. p.2 e 1.) . 1. como no caso de ácidos e bases.3). Aminoácidos com cadeias laterais apolares Cada um desses aminoácidos possui uma cadeia lateral apolar.2).2 A classificação dos 20 aminoácidos comumente encontrados nas proteínas. 19).10. Harvey. Cada aminoácido é mostrado em sua forma completamente protonada. Champe. Por isso. de acordo com a carga e a polaridade de suas cadeias laterais. Richard A.3 +H N 3 H COOH +H 3N C H C CH3 C COOH pK2 = 9. é útil classificá-los de acordo com as propriedades de suas cadeias laterais − ou seja. Os valores de pK para os grupos α-carboxila e α-amino dos aminoácidos apolares são semelhantes àqueles mostrados para a glicina. pela propriedade de promover interações hidrofóbicas (veja a Figura 2. Localização dos aminoácidos apolares nas proteínas. com os íons hidrogênio dissociáveis representados em vermelho. A. Denise R.6 H3C CH CH3 Glicina Alanina Valina H +H N 3 H COOH +H N 3 H COOH CH3 +H 3N C C C C COOH CH2 CH H3C CH3 Leucina H CH2 CH2 CH3 Isoleucina Fenilalanina H +H N 3 H COOH +H N 3 C C COOH +H 2N H C COOH CH2 C N H CH CH2 CH2 S CH3 H2C CH2 CH2 Triptofano Metionina Prolina Figura 1.3.

2 9.3 A classificação dos 20 aminoácidos comumente encontrados nas proteínas de acordo com a carga e a polaridade de suas cadeias laterais.3 Ácido glutâmico CADEIAS LATERAIS BÁSICAS pK1 = 2.2 C C H C C COOH OH CH2 pK2 = 9.5 C NH2+ NH2 C H NH 6.7 +H 3N C C COOH CH2 C O OH pK2 = 3.2 pK3 = 9.1 pK3 = 10.5 12.1 H H CH3 Treonina H COOH +H 3N OH Tirosina 10.Bioquímica Ilustrada 3 CADEIAS LATERAIS POLARES DESPROVIDAS DE CARGA H +H H +H 3N H COOH OH +H N 3 3N C COOH pK1 = 2.9 3.2 H +H 3N C pK2 = 9.0 Histidina Lisina Arginina Figura 1.8 SH Cisteína pK2 = 8.9 O Ácido aspártico CH2 CH2 C OH pK2 = 4. (Continuação da Figura 1.8 C COOH pK2 = 9.1 H pK3 = 9.2 2.0 pK2 = 6.8 pK1 = 1.2 H +H N 3 1.3 pK1 = 2.) .5 CH2 CH2 CH2 N H pK3 = 12.0 COOH +H 3N H C COOH CH2 C +HN CH2 CH CH2 CH2 CH2 NH3+ pK3 = 10.2.8 +H 3N H COOH pK3 = 9.1 Serina H +H N 3 pK1 = 1.7 COOH +H N 3 C C H C COOH CH2 C O NH2 O Asparagina CADEIAS LATERAIS ÁCIDAS CH2 CH2 C NH2 Glutamina CH2 pK3 = 10.5 10.

pelo aminoácido valina. embora as cadeias laterais da cisteína e da tirosina possam perder um próton em pH alcalino (veja a Figura 1. mais raramente.4). Richard A. Aminoácidos com cadeias laterais polares. Cadeias laterais como sítios de ligação para outros compostos. A cadeia lateral da prolina e seu N α-amínico formam uma estrutura rígida em anel. Proteína solúvel Proteína de membrana A anemia falciforme é uma patologia que resulta da substituição do glutamato. Aminoácidos apolares ( ) agrupados na superfície de proteínas de membrana. componente importante do sítio ativo de muitas enzimas. A geometria sem igual da molécula da prolina contribui para a formação da estrutura fibrosa do colágeno (veja a página 45) e. 26). Além disso. 2. com freqüência.6 Ponte de hidrogênio entre o grupo hidroxila fenólico da tirosina e outra molécula contendo um grupo carbonila. Membrana celular interior da proteína (Figura 1. Um exemplo é a albumina. Harvey. a cistina. Desse modo.5).5 Comparação entre o grupo amino secundário encontrado na prolina e o grupo amino primário encontrado em outros aminoácidos. 1. desprovidas de carga elétrica Esses aminoácidos apresentam carga líquida igual a zero em pH neutro. portanto. que atuam como gotículas de óleo coalescendo em ambiente aquoso.4). apresenta um grupo amino secundário. Entretanto. . Figura 1. como o interior de uma membrana. interrompe as hélices α encontradas em proteínas globulares (veja a p. O grupo hidroxila polar da serina. um aminoácido com grupo R polar. como a alanina. Ferrier Aminoácidos polares ( ) na superfície de proteínas solúveis. Prolina. 2. da treonina e. (Veja a página 19 para discussão sobre a formação da ligação dissulfeto. de modo que esse aminoácido difere dos demais (Figura 1.4 Localização dos aminoácidos apolares em proteínas solúveis e de membrana. 36).3). uma proteína do plasma sangüíneo que funciona como transportadora de uma grande variedade de moléculas. os grupos R apolares são encontrados na superfície da proteína. o grupo amida da asparagina e os grupos hidroxila da serina e da treonina podem servir como sítio de ligação para cadeias de oligossacarídeos nas glicoproteínas (veja a p. na subunidade β da hemoglobina (veja na p. nas proteínas localizadas em ambiente hidrofóbico. tais como o grupo fosfato.) Figura 1. Nas proteínas. 158). treonina e tirosina contém um grupo hidroxila polar que pode participar da formação de pontes de hidrogênio (Figura 1. com grupo R apolar. Denise R. sendo freqüentemente denominada de iminoácido. Esse fenômeno é o resultado da hidrofobicidade dos grupos R apolares. que contém uma ligação cruzada denominada ponte dissulfeto (–S–S–). Cada cadeia lateral da asparagina e da glutamina contém um grupo carbonila e um grupo amida. interagindo com o ambiente lipídico (veja a Figura 1.6). os grupos R apolares preenchem o interior da proteína à medida que ela se dobra e ajudam a estabelecer sua forma tridimensional. Champe. Grupo amino secundário H +H N 2 Grupo amino primário H COOH +H 3N C CH2 CH2 C CH3 COOH H 2C Prolina Alanina B. da tirosina pode servir como sítio de ligação para estruturas. H C CH2 Tirosina O H O C Grupo carbonila Ponte de hidrogênio +H N 3 COOH Muitas proteínas extracelulares são estabilizadas por ligações dissulfeto. com 5 átomos. A importância dessas interações hidrofóbicas para a estabilização da estrutura protéica é discutida na página 19. Ligação dissulfeto. Figura 1. Cada um dos aminoácidos serina.4 Pamela C. A prolina. que podem também participar de pontes de hidrogênio. A cadeia lateral da cisteína contém um grupo sulfidrila (–SH). os grupos –SH de duas cisteínas podem oxidar-se e formar um dímero. e não primário.

as cadeias laterais da lisina e da arginina estão completamente ionizadas.7). são denominadas estereoisômeros. Por exemplo. Por exemplo. Além disso. 2. Aminoácidos com cadeias laterais básicas As cadeias laterais dos aminoácidos básicos são aceptoras de prótons (veja a Figura 1. que são imagens especulares uma da outra (Figura 1. Em pH fisiológico. 1 Primeira letra única = = = = = = Cys His Ile Met Ser Val = = = = = = Cisteína Histidina Isoleucina Metionina Serina Valina C H I M S V D. quando a histidina encontrase incorporada em uma proteína. o aminoácido de ocorrência mais freqüente recebe aquela letra como símbolo.3).7 Abreviaturas e símbolos para os aminoácidos de ocorrência mais freqüente. o Z é atribuído ao Glx. Letra próxima à letra inicial. em cada par. a histidina é fracamente básica. as cadeias laterais desses aminoácidos estão completamente ionizadas. dependendo do ambiente iônico fornecido pela cadeia polipeptídica da proteína. Alguns símbolos de uma letra soam. F. Propriedades ópticas dos aminoácidos O carbono α de cada aminoácido está ligado a quatro grupos diferentes e. portanto. Em contraste. Nomes com sons semelhantes.3). I = isoleucina. A glicina é a exceção. Os códigos de uma letra são determinados pelas seguintes regras: 1. e o X é atribuído a um aminoácido não-identificado. Se apenas um aminoácido começa com determinada letra. em inglês. é opticamente inativa. é um átomo de carbono quiral ou opticamente ativo. é atribuído um símbolo de uma letra. Primeira letra única. então G = glicina. a letra B é atribuída ao Asx. isômeros ópticos ou enantiômeros. tais como a hemoglobina (veja a p. significando tanto ácido glutâmico quanto glutamina. sua cadeia lateral pode apresentar carga positiva ou neutra. significando tanto ácido aspártico quanto asparagina. Para os demais aminoácidos. designadas D e L. K = lisina. de forma semelhante ao início do nome do aminoácido que representam. Os aminoácidos que apresentam um centro assimétrico em seu carbono α podem existir em duas formas. 2 Os aminoácidos de ocorrência mais freqüente têm prioridade = = = = = Ala Gly Leu Pro Thr = = = = = Alanina Glicina Leucina Prolina Treonina A G L P T 3 Nomes com sons semelhantes (conforme pronunciado em inglês) = = = = = = = = Arg Asn Asp Glu Gln Phe Tyr Trp = = = = = = = = ("aRginine") (contém N) ("asparDic") ("glutEmate") Q ("Q-tamine") F ("Fenylalanine") Y ("tYrosine") W (duplo anel na molécula) E. ou W = triptofano (“twyptophan”. 31). Essa é uma propriedade importante da histidina e contribui para o papel que esse aminoácido desempenha no funcionamento de proteínas. Abreviaturas e símbolos para os aminoácidos de ocorrência mais freqüente O nome de cada aminoácido possui uma abreviatura associada de três letras e um símbolo de uma letra (Figura 1.8 As formas D e L da alanina são imagens especulares (imagens no espelho). tão próxima quanto possível no alfabeto à letra inicial do nome daquele aminoácido. Todos os aminoácidos encontrados nas OH CO H C +H3N CH3 ina lan L-A HO OC H C N H C H3+ 3 D-A lan ina Figura 1. As duas formas. pois seu carbono α apresenta dois átomos de hidrogênio como substituintes e. para enfatizar o fato de estarem carregados negativamente em pH fisiológico (veja a Figura 1. em geral. portanto. Arginina Asparagina Aspartato Glutamato Glutamina Fenilalanina Tirosina Triptofano R N D E 4 Letra próxima à letra inicial Asx = Glx = Lys = Aspartato ou = asparagina Glutamato ou = glutamina Lisina = Aminoácido = indeterminado B (próxima do A) Z K X (próxima do L) Figura 1. Se mais de um aminoácido começam com determinada letra. Entretanto. então aquela letra é utilizada como seu símbolo. Os aminoácidos de ocorrência mais freqüente têm prioridade. denominados aspartato e glutamato. como diria Elmer Fudd). . Por exemplo. 3. com um grupo carboxilato carregado negativamente (–COO–). Em pH fisiológico. Por exemplo. a glicina é mais freqüente que o glutamato. Aminoácidos com cadeias laterais ácidas Os aminoácidos ácido aspártico e ácido glutâmico são doadores de prótons. F = fenilalanina. com carga positiva. 4. e. o aminoácido livre não apresenta carga elétrica em pH fisiológico.8).Bioquímica Ilustrada 5 C. Esses aminoácidos são. assim.

Champe. representado por HA: HA ácido fraco → ← H próton 1 Região de tamponamento Equivalentes OH– adicionados 1. A concentração de prótons em solução aquosa é expressa como pH.) III. Ferrier proteínas apresentam a configuração L. Denise R. Lembre-se que os ácidos podem ser definidos como doadores de prótons e as bases como aceptoras de prótons.9 Curva de titulação do ácido acético. os aminoácidos contêm grupos α-carboxila fracamente ácidos e grupos α-amino fracamente básicos. O tampão pode ser produzido pela mistura de um ácido fraco (HA) com sua base conjugada (A–). Se um ácido. (Veja na página 253 uma discussão acerca do metabolismo de D-aminoácidos. é a forma ionizada de um ácido fraco. A capacidade tamponante máxima ocorre quando o pH for igual ao pKa. quanto menor o Ka. portanto. mais forte o ácido. tomando o logaritmo de ambos os lados da equação. no entanto.6 Pamela C. Harvey. cada aminoácido ácido e cada aminoácido básico contém um grupo ionizável na cadeia lateral. for adicionado a tal solução.8 O “sal” ou base conjugada. Além disso. Se uma base for adicionada. Assim. HA) FORMA II (acetato. Por definição.) Se isolarmos [H+] na equação anterior. Por outro lado. que no processo é convertido em HA. onde pH = log 1/[H+] ou –log[H+]. mas . A relação quantitativa entre o pH da solução e a concentração de um ácido fraco (HA) e sua base conjugada (A–) é descrita pela equação de Henderson-Hasselbalch. Tampões Um tampão é uma solução que resiste a mudanças de pH quando se adicionam pequenas quantidades de ácido ou base. são encontrados em alguns antibióticos e em paredes celulares de plantas e bactérias. Ka. CH3COO– FORMA I (ácido acético.5 pKa = 4.0 [II] > [I] A forma salina ou base conjugada [I] = [II] 0. Derivação da equação Considere a liberação de um próton por um ácido fraco. pode ser neutralizado pelo A–. como o HCl. mais fraco é o ácido. é [I] > [II] 0 0 3 4 pH 5 6 7 Figura 1. A– ) OH– A. a constante de dissociação do ácido. menos ácido foi dissociado e. PROPRIEDADES ÁCIDO-BÁSICAS DOS AMINOÁCIDOS Em solução aquosa. Os D-Aminoácidos. pois indica que a maior parte de HA dissociou-se em H+ e A–. (Nota: Quanto maior o Ka. obteremos a equação de Henderson-Hasselbalch: [A– ] [HA] pH pKa + log B. Richard A. Ácidos (ou bases) são descritos como “fracos” quando ionizam em proporção limitada. o HA pode neutralizá-la. sendo convertido em A– nesse processo. A–. multiplicando ambos os lados por –1 e substituindo pH = –log [H+] e pKa = –log Ka. tanto os aminoácidos livres quanto alguns aminoácidos combinados por meio de ligações peptídicas podem atuar como tampões.

10). Dissociação do grupo carboxila.10). neutras e básicas. a uma velocidade determinada por sua carga negativa líquida. uma solução de ácido acético (HA = CH3–COOH) e acetato (A– = CH3–COO–).8. A constante de dissociação do grupo carboxila de um aminoácido é denominada K1. A liberação do próton resulta na formação do grupo carboxilato. os dois grupos encontram-se protonados (como mostrado na Figura 1. resiste a mudanças no pH entre os pHs 3. A separação de proteínas plasmáticas por meio de cargas elétricas é realizada tipicamente em pH acima do ponto isoelétrico (pI) das principais proteínas. a forma básica não-protonada [CH3–COO–] é a forma predominante na solução. Em pHs acima do pKa. Essa estrutura é mostrada como a Forma II (a forma dipolar da molécula. Em pHs abaixo do pKa.8. por exemplo. de modo que a carga dessas proteínas é negativa. o grupo –COOH da Forma I pode dissociar-se.10 Formas iônicas da alanina em soluções ácidas. um par conjugado ácido/base ainda pode servir como tampão efetivo quando o pH da solução estiver até +1 unidade de pH afastado do pKa.8. Titulação de um aminoácido 1. Se as quantidades de HA e A– forem iguais. pois a molécula contém um segundo grupo titulável.3 Alanina em uma solução ácida (pH menor que 2) Carga líquida = +1 Alanina em uma solução neutra (pH aproximadamente 6) Carga líquida = 0 (forma isoelétrica) H C COO– CH3 FORMA II OH– H H2N C COO– CH3 pK2 = 9. A curva de titulação de um aminoácido pode ser analisada como descrito anteriormente para o ácido acético. Considere a alanina.Bioquímica Ilustrada 7 OH– H +H N C 3 CH3 FORMA I pK1 = 2. possui carga líquida igual a zero. Como mostrado na Figura 1. A . com pKa de 4. Em um campo elétrico. a forma ácida protonada [CH3–COOH] é a forma predominante. doando um próton ao meio. Em pHs baixos (ácidos). o pH é igual ao pKa. Aplicação da equação de Henderson-Hasselbalch. Esse aminoácido contém um grupo α-carboxila e um grupo α-amino.9. com capacidade tamponante máxima no pH 4. 2.1 Alanina em uma solução básica (pH acima de 10) Carga líquida = –1 FORMA III Figura 1. e não Ka. veja a Figura 1. essa é a forma isoelétrica da alanina − ou seja. –COO–. Também denominada zwitterion.8 e 5. Variações nos padrões de mobilidade são indícios de certas doenças. as proteínas movem-se no sentido do eletrodo positivo. C. À medida que o pH da solução é aumentado.

Quando o pH é igual ao pK1 (2. portanto. Pares tampões. O ponto isoelétrico (pI) é o pH no qual um aminoácido é eletricamente neutro − ou seja. O segundo grupo titulável da alanina + é o grupo amino (–NH3 ). Em pH neutro. K2. 4. Harvey. 5. Dissociação do grupo amino. é possível calcular a curva de titulação completa de um ácido fraco. do mesmo modo descrito para o ácido acético: Onde I é a forma completamente protonada da alanina e II é a forma isoelétrica da alanina (veja a Figura 1. em que os grupos amino e carboxila estão ionizados. Ponto isoelétrico. É um ácido muito mais fraco que o grupo –COOH. enquanto o pKa para o + grupo acídico seguinte (–NH3 ) é o pK2. pKs da alanina. Pela aplicação da equação de Henderson-Hasselbalch a cada grupo acídico dissociável. Denise R. Curva de titulação da alanina. A dissociação seqüencial de prótons dos grupos carboxila e amino da alanina está resumida na Figura 1.) A liberação de um próton pelo grupo amino protonado da Forma II resulta na forma completamente desprotonada da alanina. Ferrier equação de Henderson-Hasselbalch pode ser utilizada para analisar a dissociação do grupo carboxila da alanina. O pKa para o grupo mais acídico (–COOH) é o pK1. a Forma III (veja a Figura 1.10). 2.10.7 pK 9. e o par –NH3 /–NH2 pode tamponar na região ao redor do pK2. Cada grupo titulável apresenta um pKa numericamente igual ao pH no qual exatamente metade dos prótons foram removidos daquele grupo.11 mostra a variação no pH que ocorre durante a adição de base à forma completamente protonada da alanina (I). a soma das cargas positivas é igual à soma das cargas negativas. Para um aminoácido como a alanina. Essa equação pode ser rearranjada e convertida em forma logarítmica para dar: pH pK1 + log [II] [I] H – H2N C COO CH3 FORMA III Região de tamponamento Equivalentes OH– adicionados Região de tamponamento [II] = [III] 3. portanto. mostrado na Figura 1.8 Pamela C. Observe o seguinte: – a.10).3 0 2 4 pH p 6 8 10 H +H N C 3 CH3 FORMA I H – C COO CH3 FORMA II Figura 1.5 0 [I] = [II] pI = 5. Quando pH = pK. é maior.3). até produzir a forma completamente desprotonada (III). mas a carga líquida é zero. estão presentes na solução quantidades iguais das Formas II e III.0 0. pK1 = 2. a alanina existe predominantemente como a Forma dipolar II. c. Champe. Richard A. Quando o pH é igual ao pK2 (9.11 Curva de titulação da alanina. por exemplo. que apresenta apenas dois hidrogênios dissociáveis .10. O par –COOH/–COO pode servir como tampão + em pH ao redor do pK1.5 1. A Figura 1. (Nota: Seu pKa. existem na solução quantidades iguais das Formas I e II da alanina.1 pK2 = 9. b. apresenta constante de dissociação muito menor.0 1.1).

A equação de Henderson-Hasselbalch é útil para a determinação da quantidade de droga encontrada em cada lado de uma membrana entre dois compartimentos com diferença de pH. Em pH fisiológico. o estômago (pH 1. são classificadas como anfotéricas e chamadas de anfólitos (eletrólitos anfotéricos). por sua vez. arginina e lisina apresentam. a forma desprovida de carga. portanto. Carga líquida dos aminoácidos em pH neutro. . Por exemplo. B.Bioquímica Ilustrada 9 (um do grupo α-carboxila e um do grupo α-amino).4). a forma desprovida de carga HA consegue permear através das membra– nas. a concentração efetiva da forma permeável de cada droga em seu sítio de absorção é determinada pelas concentrações relativas das formas carregada e desprovida de carga. A razão entre as duas formas é. Obstrução pulmonar provoca aumento no dióxido de carbono e causa a redução do pH.) Substâncias como os aminoácidos. desprovida de carga. A equação é útil também para calcular as quantidades das formas iônicas de drogas com características ácidas e básicas. HA H +A + – B ABSORÇÃO DE DROGAS – pH = pK + log [Drogas ] [Drogas-H] No pH do estômago (1. Assim.5) estará predominantemente protonada (COOH) e.12A).0 a 1. ESTÔMAGO Bases fracas (BH+) também podem liberar um H+. enquanto A não consegue. determinada pelo pH no sítio de absorção e pela força do ácido fraco ou da base fraca. Assim. por exemplo. no sistema tampão do bicarbonato. pK = 3. representada pelo pKa do grupo ionizável. a equação de Henderson-Hasselbalch prevê de que modo as mudanças na concen– tração do íon bicarbonato [HCO3 ] e na pCO2 influenciam o pH (Figura 1. para um ácido fraco como a aspirina. (Nota: Os aminoácidos glutamato. e a perda de um próton produz a base desprovida de carga (B). atravessa membranas.1). além desses. histidina.5). Por exemplo. todos os aminoácidos apresentam um grupo carregado negativa+ – mente (–COO ) e um grupo carregado positivamente (–NH3 ). ou (B) as formas iônicas das substâncias.3 + 9.5) e o plasma sangüíneo (pH 7. que podem atuar como ácidos ou bases. Portanto. Drogas desprovidas de carga elétrica geralmente atravessam membranas mais rapidamente que moléculas com carga. por exemplo. resultando em acidose respiratória. HA H+ AH+ HA LÚMEN DO ESTÔMAGO SANGUE Figura 1. Drogas ácidas (HA) liberam um próton (H+).3) e o pK2 (9. normalmente possui carga elétrica. à medida que as concentrações de HCO3– ou CO2 são alteradas. o pI está a meio caminho entre o pK1 (2. A BICARBONATO COMO UM TAMPÃO pH = pK + log [HCO3– ] [H2CO3] Um aumento no íon bicarbonato faz com que o pH aumente. BH + Membrana lipídica B + H+ H+ AH+ Uma droga passa através de membranas com mais facilidade quando não apresenta carga elétrica. A forma protonada das drogas básicas. Para uma base fraca como a morfina.11). muitas drogas são ácidos fracos ou bases fracas (Figura 1. no entanto. Outras aplicações da equação de Henderson-Hasselbalch A equação de Henderson-Hasselbalch pode ser utilizada para calcular de que maneira o pH de uma solução fisiológica responde a mudanças na concentração de um ácido fraco e/ou de sua correspondente forma de “sal”. Ele corresponde ao pH em que predomina a Forma II (com carga líquida igual a zero) e em que há também quantidades iguais das Formas I (carga líquida +1) e III (carga líquida –1). veja a Figura 1. outros grupos potencialmente carregados em suas cadeias laterais. ALVÉOLOS PULMONARES CO2 + H2O H2CO3 H+ + HCO3- D. enquanto + BH não o faz.7. o pI é a média entre pK1 e pK2 (pI = [2. 6. ambos ligados ao carbono α.12 A equação de Henderson-Hasselbalch é utilizada para prever: (A) variações no pH. determinando a formação de um ânion – carregado (A ).1]/2 = 5.12B). uma droga como a Aspirina® (ácido fraco. aspartato.

que possui um grupo amino secundário). Champe.13 Símbolos utilizados nos mapas de conceitoschave. oferecendo aos estudantes mais eficiência em situações clínicas ou em outros exames com características multidisciplinares. Ao contrário dos padrões ou diagramas de fluxo linear. energia livre). os autores criaram uma série de mapas de conceitos-chave bioquímicos.14). . Ferrier A Quadros de conceitos vinculados (completamente protonados) IV. como o dobramento incorreto das proteínas pode levar à doença do príon. Pensando assim. Em pH fisiológico. Detalhes fornecidos com a finalidade de enriquecer a compreensão desses conceitos tornam-se. de forma que os estudantes possam encontrar com mais facilidade as melhores maneiras de integrar as novas informações ao conhecimento já consolidado. carregado negativamente. Richard A.13B) ou entre o mapa e os outros capítulos deste livro ou em livros complementares desta série (Figura 1. inadvertidamente.10 Pamela C. o grupo α-carboxila está dissociado. os conceitos incluem abstrações (por exemplo. de modo que se lê uma afirmação válida. Os estudantes aprendem a perceber visualmente relações não-lineares entre os fatos. O tamanho do quadro e da letra indicam a importância relativa de cada idéia. e o grupo + α-amino está protonado (–NH3 ). . Vínculos cruzados podem assim identificar conceitos centrais para mais de uma disciplina. Aminoácidos podem Liberar H+ vinculados B Conceitosum mapa dentro de Degradação das proteínas corporais é produzido pela Conjunto de aminoácidos Síntese e degradação simultâneas leva à Renovação das proteínas A. fosforilação oxidativa) e compostos (por exemplo. 2. O mapa conceitual é. os mapas de conceitos-chave podem conter vínculos cruzados. Vínculos cruzados. com a idéia central posicionada no topo da página. como a proteína se dobra em sua conformação nativa . fontes de desatenção. Os conceitos que seguem a partir dessa idéia central são delineados em quadros (Figura 1. . for– mando o íon carboxilato (–COO ). a conexão passa a ter sentido. Como é construído um mapa de conceitos-chave? Síntese das proteínas corporais é consumido pela Conjunto de aminoácidos C Conceitos com vínculos cruzados com outros capítulos e outros livros nesta série . Quadros de conceitos vinculados.13A). que permitem ao leitor visualizar relações complexas entre as idéias representadas em diferentes partes do mapa (Figura 1. Harvey. RESUMO DO CAPÍTULO Figura 1. Linhas são desenhadas entre os quadros dos conceitos para mostrar quais estão relacionados. MAPAS DE CONCEITOS-CHAVE Os estudantes às vezes encaram a Bioquímica como uma série nebulosa de fatos ou equações a ser memorizada. Cada aminoácido apresenta um grupo -carboxila e um grupo amino primário (exceto a prolina. em contraste com referências cruzadas em textos lineares. ou seja. os mapas conceituais funcionam como matrizes ou guias para organizar as informações.13C). com os conceitos mais gerais e inclusivos no topo do mapa e os conceitos mais específicos e menos gerais abaixo. De modo ideal. que ilustram graficamente as relações entre as idéias apresentadas no capítulo e mostram como a informação pode ser agrupada ou organizada. e não como um conjunto de conceitos a ser compreendido. Parece estar faltando um mapa do caminho − um guia que forneça aos estudantes uma compreensão intuitiva de como vários tópicos encaixam-se para fazer sentido. uma ferramenta para visualizar as conexões entre os conceitos. Cada aminoácido também apresenta . . A legenda na linha define a relação entre dois conceitos. As setas nas linhas indicam em que sentido a conexão deve ser lida (Figura 1. Denise R. processos (por exemplo. glicose-6-fosfato). Em nossos mapas bioquímicos. portanto. Esses conceitos amplamente definidos são priorizados. Structure of Proteins 2 V. O material é apresentado de maneira hierárquica. como por exemplo a doença de Creutzfeldt-Jakob 1. Os educadores definem conceitos como “regularidades percebidas em eventos ou objetos”.

em especial. . como a proteína se dobra para assumir sua conformação nativa. desprovidas de carga Cadeias laterais ácidas Ácido aspártico Ácido glutâmico Cadeias laterias básicas Arginina Histidina Lisina caracterizadas por que prediz Asparagina Cisteína Glutamina Serina Treonina Tirosina A capacidade tamponante caracterizadas por que prediz que A cadeia lateral se dissocia em –COO– em pH fisiológico A cadeia lateral é protonada e geralmente apresenta carga positiva em pH fisiológico encontradas O tamponamento ocorre unidade de pH a partir do pKa que prediz encontradas encontradas encontradas Na superfície de proteínas que atuam em ambiente aquoso e no interior de proteínas associadas a membranas No interior de proteínas que atuam em um ambiente aquoso e na superfície de proteínas (como proteínas de membrana) que interagem com lipídeos Máxima capacidade tamponante quando pH = pKa que prediz que pH = pKa quando [HA] = [A–] Nas proteínas.. Portanto. 2 Figura 1. Desse modo. a natureza química da cadeia lateral determina o papel que o aminoácido terá em uma proteína.Bioquímica Ilustrada 11 Aminoácidos (completamente protonados) são compostos por podem Grupo -carboxila (–COOH) está Grupo -amino (–NH3+ ) está Cadeias laterais de 20 tipos diferentes Liberar H + e atuam como desprotonado (–COO–) em pH fisiológico protonado (–NH3 ) em pH fisiológico + compostas por Ácidos fracos conforme descrito pela Equação de HendersonHasselbalch: pH = pK a + log [A–] —— [HA] Cadeias laterais apolares Alanina Glicina Isoleucina Leucina Metionina Fenilalanina Prolina Triptofano Valina Cadeias laterais polares.. formando ligações peptídicas.. a maior parte dos – grupos -COO e -NH3+ dos aminoácidos está combinada. Structure of Proteins .. esses grupos não estão disponíveis para reações químicas.14 Mapa de conceitos-chave referentes à estrutura protéica.

O ponto B representa a região de capacidade tamponante mínima. O peptídeo contém glutamina.1 As letras de A a E designam certas regiões na curva de titulação para a glicina (mostrada abaixo). O ponto D representa o pK do grupo carboxílico da glicina. A relação quantitativa entre o pH de uma solução e a concentração de um áci– do fraco (HA) e sua base conjugada (A ) é descrita pela equação de Henderson-Hasselbalch. e.5 1. O tamponamento ocorre na faixa do pKa +1 – unidade de pH. ácidos e básicos.5 E D C B A Resposta correta = C. O ponto B representa a região de máxima capacidade tamponante. B. E.0 1. O ponto A representa a região em que a glicina está desprotonada.2 Qual das seguintes afirmativas a respeito do peptídeo mostrado abaixo está correta? Gly-Cys-Glu-Ser-Asp-Lys-Cys A. Champe. Ferrier uma cadeia lateral (são 20 cadeias laterais diferentes para os 20 aminoácidos) ligada ao átomo de carbono α. assim como os aminoácidos que apresentam carga quando ligados às cadeias peptídicas.adicionados 2. ou pI. O peptídeo contém uma cadeia lateral com um grupo amino secundário. como tal.0 0. O ponto C representa o ponto isoelétrico. assim como o ponto D. C. portanto. formar uma ligação dissulfeto. dos sete resíduos de aminoácidos. O carbono α de cada aminoácido (com exceção da glicina) está. A prolina (Pro) contém um grupo amino secundário. Todos os aminoácidos livres. A natureza química dessa cadeia lateral determina a função do aminoácido na proteína e fornece a base para a classificação dos aminoácidos em apolares. Harvey. . B. D. situação na qual [A ] = [HA]. Richard A. A glicina está completamente protonada no ponto A. 0 0 2 4 pH 6 8 10 A. C. apresentaria cadeia lateral com carga elétrica positiva em pH 7. 1. O ponto E representa o pI para a glicina. Denise R. D. A abreviatura de três letras para a glutamina é Gln. Apenas a forma L dos aminoácidos é encontrada nas proteínas sintetizadas pelo corpo humano. fica a meio caminho entre pK1 e pK2 para este ácido monocarboxílico e monoamínico. O ponto E representa a região em que a glicina está completamente desprotonada. Qual das seguintes afirmativas a respeito dessa curva está correta? Equivalentes de OH. Os dois resíduos de cisteína podem. 1.12 Pamela C. Resposta correta = D. O ponto C representa a região em que a carga líquida da glicina é zero. em condições oxidantes. ligado a quatro diferentes grupos químicos é um átomo de carbono quiral ou opticamente ativo. polares desprovidos de carga. Questões para Estudo Escolha a ÚNICA resposta correta. podem servir como tampões. A maioria dos aminoácidos contidos nesse peptídeo apresenta cadeias laterais que estariam carregadas positivamente em pH 7. O peptídeo é capaz de formar uma ligação dissulfeto interna. Apenas um (Lys). é máximo quando pH = pKa.