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Escola Diaconal

São Francisco de Assis


-------- DIOCESE DE APUCARANA --------

CARTAS
PAULINAS

Frei Ildo Perondi


APRESENTAÇÃO
Caros futuros Diáconos: Paz e Bem!
Esta é a Apostila do nosso Curso de “Cartas Paulinas”. Ela é um material introdutório e sempre
incompleto, porém já tem um pouco de história. A primeira redação foi feita pelo Frei Cácio Roberto
Petekov, a partir das aulas do Pe. Fonsati, em Ponta Grossa. Depois disso fui fazendo vários acréscimos e
mudanças, sobretudo lendo os livrinhos do José Bortolini da Coleção “Como Ler...” da Paulus. E fui
acrescentando outros dados a partir da leitura de outros livros, sobretudo o livro Lettere Paoline e altre
lettere, de Alessandro Sacchi e collaboratori.
A finalidade da apostila é sempre dar uma introdução, seja ao tema, como a cada uma das Cartas,
sobretudo contextualizando cada escrito e dando informações sobre o ambiente da comunidade ou da
pessoa que recebeu o escrito.
As aulas levarão em conta o que apresentamos nesta apostila, mas vamos nos deter ao texto das
cartas. É preciso ler Paulo! O que – devemos reconhecer – não é assim tão fácil. Paulo tem o auxílio dos
secretários e utiliza um bom grego (vamos sofrer por não termos um bom conhecimento da língua original).
Além disso, para compreendermos toda a profundidade dos seus escritos precisamos conhecer e entender os
termos que o Apóstolo usa e qual o sentido que dá a eles.
Nosso método de estudo será contextualizar o escrito e depois ler. Para ler o Apóstolo é preciso não
ter pressa. Ler devagar, entender o significado de cada expressão. E vamos perceber a importância das
pequenas palavras, sobretudo as preposições. São elas que indicam a relação entre um termo e outro que
Paulo faz muito bem. Tenho certeza que o fato de ler Paulo apressadamente, é o que faz seus escritos
muitas vezes parecer sem sentido e quase nunca comentados – apesar de presentes em nossa liturgia.
É certo que diante de alguns escritos (Cl, Ef, 2Ts, 1 e 2 Tm e Tt) vamos nos defrontar com o
problema da autenticidade paulina ou não. Em geral preferimos adotar uma postura mais conservadora, mas
sem excluir a opinião daqueles autores que possuem outra visão. O problema da autoria não será resolvido
tão logo. Então neste curso, o mais importante é ler e estudar os textos inspirados e descobrir os seus
conteúdos.
Utilizaremos para o estudo a versão da Bíblia de Jerusalém. Porém, ainda que seja a melhor versão
para estudo, ela é limitada. Ter outras versões, compará-las e confrontá-las, e (quando é possível) ir ao texto
grego será uma maneira para entender melhor o texto e descobrir sua riqueza e conteúdo. As notas de
rodapé da BJ são importantes, mas também limitadas. Por isso, as notas da Bíblia do Peregrino ajudam a
completar esta deficiência.
A vocês compete a missão de não querer esgotar Paulo num breve curso como este. Esta é apenas
uma porta que se abre. Ler e reler estes escritos (muitos deles os primeiros textos do NT) ajuda a tirar
aquela idéia equivocada tão mal difundida por alguns autores que qualificam o Apóstolo como duro, frio,
machista, submisso ao império... (penso que leram mal seus escritos). Cabe a vocês continuar lendo e
estudando e enriquecer esta apostila.
Nós podemos dizer das Cartas o mesmo que o Apóstolo escreveu a respeito dos textos sagrados que
tinha em mãos: “Tudo o que se escreveu no passado é para nosso ensinamento que foi escrito, a fim de
que, pela perseverança e pela consolação que nos proporcionam as Escrituras, tenhamos a esperança”
(Romanos 15,4).
Que as Cartas de Paulo nos ensinem a conhecer melhor a mensagem de Deus! Que elas nos ajudem
a sermos perseverantes nas dificuldades que vamos encontrar em nossa caminhada! Que elas nos animem a
sentir a consolação que Deus nos dá quando precisaremos de um ombro amigo. Mas, sobretudo, que estas
Cartas alimentem a nossa esperança! É a esperança que nos ajuda a sermos melhores, a caminhar, a não
desanimar e fazer de nossas comunidades lugar de encontro, de comunhão e de caridade como foram as
comunidades que receberam estes textos do Apóstolo!
A vocês: graça e paz! Que o Senhor nos abençoe e que tenhamos um Bom Curso!

Frei Ildo Perondi (ildo@sercomtel.com.br)

2
CARTAS PAULINAS
1. Introdução
Nos escritos do NT encontramos vinte e uma Cartas. Treze delas são atribuídas ao Apóstolo Paulo
(algumas tem sua autoria questionada, como veremos adiante), e outras são colocadas sob a autoridade de
outras figuras significativas da Igreja primitiva: duas são de Pedro; três de João; uma de Tiago e uma de
Judas. E temos a “Carta” aos Hebreus de um autor desconhecido e que erroneamente foi atribuída a Paulo.
Para a fé cristã estes escritos têm uma grande importância, seja porque são “canônicos”, seja porque deram
origem à sucessiva reflexão teológica. Lendo as Cartas percebe-se logo que os autores manifestam um vivo
testemunho da vida das primeiras comunidades. Estas Cartas enriquecem muito o quadro que obtemos do
livro dos Atos dos Apóstolos, composto no final do I século.
As Cartas Paulinas são uma reflexão teológica ou pastoral num segundo momento (com exceção da
Carta aos Romanos). Antes disso, houve o trabalho missionário de fundar e organizar as comunidades. É
certo que o número de comunidades fundadas pelo Apóstolo Paulo e seus companheiros foi muito maior
daquelas que receberam alguma Carta. Outra constatação importante é que não foi possível conservar todos
os escritos paulinos. Algumas cartas se perderam e não estão no cânon bíblico.
Antes do estudo propriamente dito das Cartas Paulinas, vamos conhecer um pouco melhor a figura
do seu autor. Sem conhecê-lo bem, é também sempre mais difícil entender toda a riqueza da sua mensagem.
O ambiente e o contexto de cada uma das comunidades será conhecido por ocasião do estudo particular de
cada Carta.

2. Paulo de Tarso
O Apóstolo Paulo nasceu entre os anos 5 e 10 dC, na cidade de Tarso da Cilicia (At 9,11; 21,39;
22,3). Era filho de judeus, da tribo de Benjamin e como era o costume foi circuncidado ao oitavo dia. São
Jerônimo informa que seus pais eram de Giscala, na Galiléia. Paulo cresceu seguindo a mais perfeita
tradição judaica (Fl 3,5). Tinha uma irmã e um sobrinho que moravam em Jerusalém (At 23,16). Sua
profissão era artesão, fabricante de tendas (cf. At 18,3). O seu estado civil também é um tanto incerto, ainda
que na maioria das vezes se afirme que era solteiro. De fato, em 1Cor 7,8 ele escreve “Aos solteiros e ás
viúvas, digo que seria melhor que ficassem como eu”. Mas em 1Cor 9,6 ele escreve “Não temos o direito
de levar conosco nas viagens uma mulher cristã, como fazem os outros Apóstolos e os irmãos do Senhor e
Pedro?”.
Ainda jovem foi para Jerusalém e, na escola de Gamaliel, se especializou no conhecimento da sua
religião. Tornou-se fariseu, ou seja, especialista rigoroso e irrepreensível no cumprimento de toda a Lei e
seus pormenores (At 22,3).
Cheio de zelo pela religião, começou a perseguir os cristãos (Fl 3,6; At 22,4s; 26,9-12; Gl 1,13).
Esteve presente no martírio de Estevão, cujos mantos foram depositados aos seus pés (At 7,58). Continuou
perseguindo a Igreja (At 8,1-4; 9,1-2) até que se encontrou com o Senhor na estrada de Damasco (At 9,3-
19). A experiência de Jesus mudou completamente a sua vida. De perseguidor passou a ser o anunciador até
a sua morte, provavelmente em 68 dC.
Na sua primeira missão apostólica, entre os anos 45 e 49, anunciando o Evangelho em Chipre,
Panfilia, Pisidia e Lacaônia (At 13-14), passou a usar o nome grego de Paulo de preferência a Saulo 1, seu
nome judaico (At 13,9).
Era um homem bem preparado, além de conhecer bem a sua religião (o que pode ser comprovado
pelas muitas citações ao AT), possuía boas noções de filosofia e das religiões gregas do seu tempo. Em
Tarso, sua cidade natal, havia escolas filosóficas (dos estóicos e cínicos) e também escolas de educadores.
Ali nasceu Atenodoro, professor e amigo do imperador Augusto. Paulo algumas vezes utiliza frases desse
educador: “Para toda criatura, a sua consciência é Deus” (Cf. Rm 14,22a). Ou: “Guarde para você, diante de
Deus, a consciência que você tem” ou: “Comporte-se com o próximo como se Deus visse você, e fale com
Deus como se os outros ouvissem você” (Cf. 1Ts 2,3-7). Além disso conhecia bem o grego e o método da
retórica. Esforçava-se para compreender o modo grego de viver. Além disso era cidadão romano (At
1
Talvez seu verdadeiro nome hebraico fosse Saul, em homenagem ao primeiro rei de Israel e que também era da tribo de
Benjamin.
3
16,37s; 22,25-28; 23,27). Embora não mencione isso em suas Cartas, como se o desprezasse, pois para ele a
verdadeira cidadania é outra (Fl 3,20). Porém, ele soube tirar proveito desse título, bem como de toda a
bagagem cultural adquirida, para conduzir todos a Jesus (1Cor 9,19-22).
Lendo as Cartas percebemos o caráter do Apóstolo: às vezes muito meigo e carinhoso; às vezes,
severo. Não abria mão das suas idéias e ameaçava com castigos. Escrevendo às comunidades comparava-se
à mãe que acaricia os filhinhos e era capaz de dar a vida por eles (1Ts 2,7-8). Sentia pelos fiéis as dores do
parto (Gl 4,19). Amava-os, e por isso se sacrificava ao máximo por eles (2Cor 12,15). Mas era também pai
que educava (1Ts 2,11), que gerava as pessoas, por meio do Evangelho, à vida nova (1Cor 4,15). Sentia,
pelas comunidades que fundou, o ciúme de Deus (2Cor 11,2), temendo que elas perdessem a fé. Quando se
fazia necessário, exigia obediência (1Cor 4,21).
Muitas vezes Paulo é apresentado como alguém distante do povo e das suas comunidades, incapaz
de manifestar sentimentos, indiferente ao drama das pessoas, anti-feminista, moralista e assim por diante.
Os que vêem Paulo com esses olhos esquecem-se de suas viagens, cadeias, sofrimentos, perigos e,
sobretudo, sua paixão por Jesus e pelo povo2. Era capaz de amar todos os membros de todas as
comunidades, sem distinção, chamando-os de “queridos” e “amados” ou “irmãos”. Queria que todos fossem
fiéis a Deus. Assim se tornariam seus filhos, como por exemplo, era Timóteo (1Cor 4,17). É interessante ler
as suas Cartas e anotar com quanta freqüência ele usava expressões, tais como: tudo, todo, sempre,
continuamente, sem cessar, etc., e com elas expressar sua constante preocupação para com todos. E basta
uma leitura mais cautelosa das suas Cartas para descobrir que Paulo não é assim tão insensível e que todo o
seu apostolado vem carregado de sentimentos. “Nós vos falamos com toda liberdade, ó Coríntios, o nosso
coração se dilatou. Não é estreito o lugar que ocupais em nós, mas é em vossos corações que estais na
estreiteza. Pagai-nos com igual retribuição; falo-vos como a filhos: dilatai também vossos corações!”
(2Cor 6,11-13).
Encontrou dificuldade para ser aceito como Apóstolo. As suspeitas vinham do fato ser um
perseguidor e sobretudo porque não foi escolhido pessoalmente por Jesus. Quatorze anos após a sua
conversão, subiu a Jerusalém, para o Concílio, onde defendeu a não circuncisão para os pagãos. Ele mesmo
se defendeu das acusações (Gl 1,12, 2Cor 9,2-3; 12,1-4). Para ele, anunciar o Evangelho era uma obrigação:
“Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (cf. 1Cor 9,15-17).
Em sua incansável missão de anunciar o Evangelho Paulo sofreu muito, mas não desistiu. Ele
mesmo relata algumas das situações difíceis que passou: “Muitas vezes, vi-me em perigo de morte. Dos
judeus recebi cinco vezes os quarenta golpes menos um. Três vezes fui flagelado. Uma vez apedrejado.
Três vezes naufraguei. Passei um dia e uma noite em alto-mar. Fiz numerosas viagens. Sofri perigos nos
rios, perigo dos ladrões, perigos por parte de meus irmãos de estirpe, perigos dos gentios, perigos na
cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos dos falsos irmãos! Mais ainda: fadigas e duros
trabalhos, numerosas vigílias, fome e sede, múltiplos jejuns, frio e nudez!” (2Cor 11,23b-27). Teve que
lutar contra os falsos missionários (cf. 2Cor 10-12) que anunciavam um Evangelho fácil, que fugiam da
humilhação e da tribulação. Anunciavam um Jesus sem a cruz. Paulo anunciava o Jesus Crucificado, ainda
que isso fosse escândalo (1Cor 1,23)3. Porém a cruz não era o fim. O mesmo Jesus da cruz é também o
Jesus Ressuscitado (1Cor 15).

3. Paulo e os Atos dos Apóstolos


Se Lucas, na segunda parte dos Atos (16-28), fala unicamente da atividade do Apóstolo Paulo, isso
não significa que ele tenha sido o único. Paulo tornou-se o símbolo de todos os missionários que souberam
levar a Boa Nova de Jesus Cristo pelo mundo afora. E Paulo sozinho não teria atingido seu êxito, se não
fosse a grande ajuda de tantas pessoas que com ele abraçaram a fé, que o acolhiam em suas casas (At
16,15.34; 18,3.7) ou que contribuíram com alguma ajuda para as suas necessidades (Fl 4,15-16; 2Cor 11,9).
Também é importante notar que nem sempre podemos ficar somente com as informações históricas
que Lucas nos dá sobre Paulo. Alguns estudiosos simplesmente as ignoram, já que lendo os Atos se
descobre que o objetivo principal de Lucas não é tanto a informação histórica, mas a transmissão da
mensagem. Outros estudiosos tomam os dados dos Atos com cautela e tentam conciliá-los com os dados
das Cartas, sobretudo sobre as suas viagens.
2
J. BORTOLINI, Introdução a Paulo e suas Cartas, 5-6.
3
É importante notar que para os judeus alguém que fosse condenado a morte, e suspenso numa árvore, era considerado um
maldito de Deus (Cf. Dt 21,22-23).
4
Os Atos dos Apóstolos foram escritos cerca de 15 anos após a morte do Apóstolo. Como se sabe,
Paulo não era muito bem aceito em certos grupos cristãos. Lucas tentou resgatar a imagem e o trabalho
evangelizador do Apóstolo. Paulo é, para Lucas, a figura ideal para representar o caminho do discípulo na
história. Um caminho feito de testemunhos em meio aos conflitos. Mostra que o caminho do discípulo não
é diferente do caminho do Mestre (cf. o Evangelho de Lucas). Por isso, serve-se de alguns (não todos) os
fatos marcantes da vida de Paulo, apresentando-os a seu modo e segundo sua visão. A estrutura dos Atos
dos Apóstolos muitas vezes coincide com a do Evangelho de Lucas.
Nem sempre os Atos e as Cartas coincidem nas informações. E nesses casos, devemos dar mais
crédito às Cartas. Dois exemplos comprovam isso4. Comparando At 17,17 e 18,5 com 1Ts 3,1a.6a. Lucas
afirma que “Enquanto Paulo esperava em Atenas, ficou revoltado ao ver a cidade cheia de ídolos...
Quando Silas e Timóteo chegaram da Macedônia, Paulo se dedicou inteiramente à Palavra,
testemunhando diante dos judeus que Jesus era o Messias”. Paulo contudo, tem outra versão: “Assim, não
mais podendo agüentar; resolvemos ficar sozinhos em Atenas, e enviamos a vocês Timóteo... Agora,
Timóteo acaba de chegar da visita que fez a vocês, trazendo boas notícias sobre a fé e o amor de vocês”. A
comparação mostra claramente a diferença. De acordo com os Atos, Paulo estava sozinho em Atenas.
Quando os dois companheiros chegam, Paulo já está em Corinto. De acordo com a 1Ts, Paulo e Silas ficam
sozinhos em Atenas e Timóteo vai e volta sozinho de Tessalônica. Evidentemente deve-se dar crédito à
versão de Paulo.
Outro exemplo vem de 2Cor 11,24-25, em que Paulo afirma: “dos judeus recebi cinco vezes os
quarenta golpes menos um. Fui flagelado três vezes; uma vez fui apedrejado; três vezes naufraguei; passei
um dia e uma noite em alto-mar”. Olhando para o que Lucas diz de Paulo nos Atos, podemos perguntar:
Onde estão as referèncias às cinco vezes em que Paulo afirma ter sido punido com as 39 pauladas? Lucas
ignora completamente as 195 chicotadas que Paulo recebeu. E onde os Atos falam de flagelações? Lucas
contenta-se em narrar uma (At 16,22-23), omitindo as demais. Por quê? Certamente porque em seus
planos.bastava narrar uma flagelação. Nos Atos não se mencionam as três flagelações.
Também Lucas narra somente o grande naufrágio da quarta viagem (na qual talvez estava presente).
E lembramos que quando Paulo escreve suas Cartas ainda estamos na terceira viagem. E mesmo assim
garante ter passado 24 horas em alto-mar.
O certo, porém, é que a vida e obra de São Paulo são bem maiores do que aquilo que nos relatam os
Atos e as Cartas.

4. Paulo e Jesus
Paulo seguramente não viu o Jesus histórico e nem ouviu sua voz e suas palavras. Teve uma forte
experiência do Cristo Ressuscitado (At 9,3-9; 1Cor 15,8). Alguns não queriam reconhecê-lo como Apóstolo
pelo fato de não ter sido um dos Doze Apóstolos e de não ter sido escolhido por Jesus e de não ter vivido
com Ele.
Alguns textos das Cartas dão margem a interpretações diferentes. Por exemplo, em 2Cor 5,16b ele
escreve: “Mesmo que tenhamos conhecido Cristo segundo as aparências, agora já não o conhecemos
assim”. Outro texto como 2Cor 12,1-6 poderia induzir que Paulo estivesse em Jerusalém por ocasião da
Paixão do Senhor. Há outros que pensam que Paulo fazia parte do Sinédrio5 e que tenha votado pela
condenação de Jesus, a partir da expressão “dei meu voto” (cf. At 26,10). Porém, a maioria dos autores
segue a linha de que Paulo de fato não conheceu pessoalmente Jesus e não teve contato com ele.
O Apóstolo não tinha ainda em mãos os evangelhos escritos. Ele os trazia impressos na sua carne,
marcada por toda sorte de sofrimentos (1Cor 11,21-29), a ponto de estar crucificado com Cristo (Gl 2,19),
trazendo em seu corpo as marcas da paixão de Jesus (2Cor 4,10; Gl 6,17), e completando, no seu corpo, o
que faltava das tribulações de Cristo (Cl 1,24). Assim ele podia dizer que “já não sou eu que vivo, mas é
Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).
Pelos escritos do Apóstolo Paulo, nós verificamos também algumas diferenças entre o seu modo de
anunciar e o modo como Jesus anuncia. Jesus anunciou a sua mensagem praticamente aos judeus, da
Galiléia, pois segundo os sinóticos, Jesus só foi a Jerusalém para a Páscoa, quando foi crucificado e morto e
depois ressuscitou. Paulo, por sua vez, percorreu o império romano e foi à Roma (capital) como parte final

4
J. BORTOLINI, Introdução a Paulo e suas Cartas, 27.
5
Parece um tanto difícil que Paulo fizesse parte do Sinédrio. Em At 23,1-10, se vê que ele nem sabe que é o Sumo Sacerdote
quem preside o Sinédrio. Ou teria sido um erro de Lucas?
5
da sua vida, onde sofreu a sua paixão. Jesus falava em aramaico e anunciava o reino em parábolas, criadas a
partir da observação atenta da vida simples do povo da roça e das aldeias. Paulo, ao contrário, embora
também soubesse falar o aramaico, anunciou e escreveu em grego, porque seus ouvintes eram judeus da
diáspora e pagãos que falavam a língua oficial da época. Paulo também era um bom observador da vida
cotidiana, porém usava as imagens sobretudo da vida e da cultura urbana, das grandes cidades. Ele falava
do atletismo, dos esportes, da construção civil, das paradas militares, das lutas nos estádios, da vida dos
soldados, etc.6 Por isso, tentava inculturar a mensagem de Jesus de Nazaré (que viveu a maior parte do
tempo na Galiléia) para o universo da cultura grega.

5. A “conversão”
Os Atos relatam três vezes a conversão de Paulo, e as versões nem sempre são iguais. Antes, os
relatos se complementam e se justificam. A primeira vez (At 9,1-25) insere-se no contexto do martírio de
Estêvão e de outras conversões. Encaixa-se entre a conversão do eunuco etíope (8,26-40) e a de Cornélio
(10,1–11,18). A segunda vez o relato é feito aos judeus (22,1-21). E a terceira vez (26,1-23) é narrada
diante das autoridades políticas (judeus e não-cristãos). No plano de Lucas os três relatos da conversão de
Paulo seriam uma espécie de proclamação universal: aos cristãos, aos judeus e aos não-judeus. Lucas pode
querer mostrar o universalismo da mensagem de Paulo.
O evento de Damasco, historicamente foi sempre conhecido como “conversão de São Paulo” (temos
inclusive a festa no dia 25 de janeiro). Porém, Paulo não utiliza nunca a palavra “metanóia”. Também o que
aconteceu com Paulo não segue o sentido que no AT os Profetas davam ao termo: “voltar”; “retornar”.
Paulo não retornou ao farisaísmo. Ao contrário ele abandona o rigor da Lei.
Sabemos que Paulo havia se tornado um fariseu sem reprovação (Fl 3,6b). Era o máximo que um
fariseu poderia alcançar, ser chamado de “irrepreensível”, isto é, que observasse toda a Lei, seguramente
também que cumprisse os 613 preceitos7. Os fariseus ( = separados) de fato acreditavam que o Messias
viria quando todo o povo cumprisse a Lei fielmente, por isso consideravam o “povo da terra” e da Galiléia
uns “malditos” porque não cumpriam a Lei (cf. Jo 7,49).
Portanto, o que Paulo faz é “encontrar” o verdadeiro caminho; encontrar-se com o Senhor. Depois
da experiência no caminho de Damasco, ele volta a estudar tudo o que tinha aprendido e se dedica a
conhecer a mensagem de Jesus. Alguns estudiosos entendem que este foi um longo processo até abraçar de
vez o seguimento de Jesus Cristo e tornar-se o grande evangelizador.

6. Um missionário que escreve cartas às suas Igrejas


O grande carisma de Paulo é ser missionário. Depois de ter fundado as florescentes comunidades
cristãs no mundo helenístico, ele não as deixou privadas de assistência, mas as acompanhou com a sua guia
pastoral: a “preocupação por todas as Igrejas” representa, como ele mesmo afirmava, a sua “preocupação
quotidiana” (2Cor 11,28). E para manter os contatos com essas comunidades, para ajudá-las a resolver os
seus problemas e para rendê-las mais eficazes no seu testemunho ao mundo circunstante, Paulo se tornou
escritor: as suas cartas nasceram da missão e em vista da missão.
Paulo conhecia o bom funcionamento do correio do império romano e soube fazer deste meio, um
instrumento de evangelização. Foi assim, sem saber e sem querer, o primeiro grande escritor do Novo
Testamento.
As Cartas foram escritas em função da situação concreta das comunidades. O Apóstolo
acompanhava o crescimento das mesmas, com todos os seus problemas e dificuldades. Por isso, também a
sua leitura hoje deve levar em conta a situação específica da comunidade à qual foi destinada cada uma
delas.
O seu modo de ser missionário também é diferente da mentalidade grega da época. Paulo trabalhava
e ganhava o seu sustento com o próprio trabalho. E era um trabalho manual. Para as elites abastecidas de
bens e culturalmente favorecidas, o único trabalho que dignificava o ser humano era o trabalho intelectual.
6
J. BORTOLINI, Introdução a Paulo e suas Cartas, 17.
7
Um judeu observante segue 613 preceitos, baseados na Lei. Destes, 365 (número dos dias do ano) são em forma negativa: “Tu
não farás...” e 248 (número dos ossos do nosso corpo) são em forma positiva: “Tu farás...” Para maiores informações e também
para ver a lista completa dos 613 mandamentos, indico o livro do Ephraim: Jesus, judeu praticante, Paulinas, p. 205-237.
6
Numa sociedade onde em algumas grandes cidades até dois terços da população era escrava, Paulo
encontrou seu lugar social entre os trabalhadores empobrecidos, ainda que pudesse fazer valer seus direitos
de Apóstolo e fundador de comunidades (1Cor 9,1-18; 2Cor 11,7-12).

7. O Epistolário Paulino
O conjunto das Cartas Paulinas compreende um total de treze Cartas que reivindicam a paternidade
do Apóstolo Paulo. A ordem em que se encontram no cânon bíblico não reflete a data em que foram
escritas, mas foram organizadas segundo a sua extensão.
Alguns procuram agrupar as Cartas do seguinte modo:
a) Cartas maiores: Romanos, 1-2 Coríntios, Gálatas e 1-2 Tessalonicenses.
b) Cartas da prisão: Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemon.
c) Cartas pastorais: 1-2 Timóteo e Tito.
Outra classificação pode ser feita a partir da possível autoria das mesmas:
Cartas Proto-Paulinas: que seguramente são autênticas, isto é, que são de autoria do Apóstolo Paulo,
e que são aceitas por todos os estudiosos: Romanos, 1-2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e
Filemon.
Cartas Deutero-Paulinas: são aquelas cuja autenticidade não é segura ou é negada por um certo
número de estudiosos: Efésios, Colossenses e 2 Tessalonicenses.
Trito-Paulinas: 1-2 Timóteo e Tito. Essas dificilmente seriam do Apóstolo Paulo, pois usam uma
linguagem diversa e tratam de problemas que existiam nas comunidades no final do I século.
É certo que algumas Cartas de Paulo foram perdidas. Em 1Cor 5,9 já se fala de uma Primeira Carta
aos Coríntios. Em Cl 4,16, Paulo se refere a uma Carta escrita aos cristãos de Laodicéia. E temos ainda a
famosa “Cartas em lágrimas” aos Coríntios (2Cor 2,4). Alguns estudiosos afirmam que a Carta aos
Filipenses é um conjunto de vários bilhetes. E também que a 2Cor é um ajuntamento de várias cartas,
enviadas em datas diferentes.
As Cartas não foram escritas do próprio punho pelo Apóstolo. Ele as ditava (cf. Rm 16,22) e às
vezes assinava (cf. Gl 6,11). Talvez a carta a Filemon tenha sido o único escrito com sua própria mão.

8. O estilo e linguajar das Cartas Paulinas


Em Tarso havia o comércio de escravos, que Paulo deveria conhecer bem, pois usa essa imagem
para falar da morte e ressurreição de Jesus (1Cor 6,20; 7,21-25). E várias vezes ele usa a imagem da
“compra e resgate” para ilustrar a ação de Jesus em favor dos cristãos.
Também havia uma ambiente cultural muito grande: arte, arquitetura, esportes, etc., e que Paulo
conhecia muito bem, basta ver como usa seus conceitos para elaborar suas metáforas, como por exemplo a
questão da “parada militar”.
Em suas Cartas encontramos vários hinos (1Cor 13; Fl 2,5-11; etc.) que podem ser provenientes das
comunidades onde Paulo evangelizava e que talvez não sejam de sua autoria, e que eram usados nas
celebrações. Porém, nada impede que entre os tantos dons do Apóstolo, pudesse também ter o poético.

9. Possível cronologia
Não é fácil datar corretamente a vida e atividade de Paulo. Segue um possível esquema8:
+ ano 5: Nascimento em Tarso.
+ ano 11: Começa a freqüentar a escola na Sinagoga.
+ ano 20: Muda-se para Jerusalém para estudar e tornar-se fariseu na Escola de Gamaliel.
+ ano 35: Experiência no caminho de Damasco: a “conversão”.
Até o ano 37: Está na Arábia, Damasco e faz uma rápida viagem a Jerusalém (Gl 1,17-18).
Até os anos 44 ou 45: Passa alguns anos em sua terra natal, Tarso.
No ano 45: Estadia em Antioquia da Síria.
Anos 46 a 48: Primeira viagem missionária.
8
Cf. J. BORTOLINI, Introdução a Paulo e suas Cartas, 43-44.
7
Ano 49: Em Jerusalém para o “Primeiro Concílio” da Igreja (At 15,1-35).
Anos 49 a 52: Segunda viagem missionária.
Anos 53 a 58: Terceira viagem missionária.
Anos 59 a 62: Quarta viagem missionária.
Ano 68: Morre mártir em Roma.

10. As etapas da história


Para compreender as Cartas Paulinas é importante situá-las no seu contexto histórico. A história das
primeiras comunidades do NT pode ser dividida em três grandes partes9:

Dos anos 30 a 40 Dos anos 40 a 70 Dos anos 70 a 100


O anúncio do Evangelho entre A expansão Missionária no Organização e consolidação
os judeus mundo grego das comunidades

a) Dos anos 30 a 40
É um período curto de apenas dez anos. O ponto de partida é a manifestação de Pentecostes (At 2,1-
36) que gera o anúncio da Boa nova por toda a Palestina (At 2,41.47; 4,4; 5,14; 6,7; 9;31). Este período é
também chamado “Movimento de Jesus”. Este período termina com a crise provocada pela política do
imperador Calígula (37-41) e pela perseguição dos cristãos por parte do rei Herodes Agripa (41-44)10.
Neste período a maioria dos cristãos era formada por judeus convertidos. Fundavam comunidades
ao redor das sinagogas, à margem do judaísmo oficial. O seu crescimento obrigou-os a criar novas formas
de organização, como por exemplo, a escolha de novos animadores, chamados diáconos (At 6,2-6).
O objeto da pregação era o anúncio da chegada do reino (Mt 10,6) e a Morte e Ressurreição de Jesus
(At 2,23–3,6; 3,14-15; 4,10-12). Os evangelhos ainda não tinham sido escritos. E por isso eles liam o AT a
partir do evento Jesus Cristo e repetiam os ditos e feitos de Jesus a partir do testemunho dado por aqueles
que tinham visto e ouvido Jesus Cristo.
Já neste período aparecia a primeira divergência entre os cristãos judeus. Havia um grupo mais
ligado a Estevão, que buscava uma abertura aos judeus da diáspora e ao helenismo (At 7,1-53). De outro
lado havia o grupo ao redor de Tiago, ligado aos judeus da Palestina, que defendia uma fidelidade à Lei de
Moisés e à “Tradição dos Antigos” (Mc 7,5; Gl 1,14). Na primeira perseguição só os cristãos ligados ao
grupo de Estêvão foram perseguidos (At 8,1). Porém, na segunda perseguição, aquela de Herodes Agripa
(At 12,1-3), todos os grupos cristãos eram alvo da repressão. Esta perseguição aos cristãos, na Palestina,
teve como conseqüência a missão para fora do território judeu. Paulo e Barnabé, seguindo a linha de
Estêvão, estavam entre esses missionários que foram pelo mundo para formar novas comunidades.

b) Dos anos 40 a 70
A perseguição, o desejo missionário e a vontade de anunciar a boa nova a “toda a criatura” (Mc
16,15) levou os cristãos para fora da Palestina. Nesses trinta anos o Evangelho se expandiu por todo o
império, chegando a todas as grandes cidades, inclusive a capital Roma, o “fim do mundo” (At 1,8).
Se seguirmos a descrição das três viagens de Paulo e seus companheiros, narradas nos Atos dos
Apóstolos, vemos que eles percorreram em torno a 16 mil quilômetros. Enfrentaram muitos problemas
(2Cor 11,25-26) e também dificuldades da própria missão de anunciar o Evangelho.
Além disso, a mensagem de Jesus foi marcada pelas mudanças de contextos. Vejamos as principais:
→ Do Oriente → para o Ocidente
→ Da Palestina → para a Ásia Menor, Grécia e Itália

9
CRB. Viver e Anunciar a Palavra (Coleção Tua Palavra é Vida nº 6), 15-27
10
É importante não confundir os três Herodes que governaram na época dos escritos do NT: a) Herodes, chamado o Grande,
governou sobre toda a Palestina de 37 a 4 aC. É aquele que aparece em Mt 2,1.16, no nascimento de Jesus e no massacre das
crianças inocentes. Foi ele que iniciou a construção do Templo que existia na época de Jesus. b) Herodes, chamado Antipas,
governou sobre a Galiléia de 4 aC até 39 dC. Ele aparece em Lc 23,7, por ocasião do julgamento de Jesus. Foi também o autor da
morte de João Batista (Mc 6,14-29). c) Herodes, chamado Agripa, governou sobre toda a Palestina de 41 a 33 dC. Ele aparece
nos Atos dos Apóstolos (At 12,1.20). Mandou matar o Apóstolo Tiago (At 12,2).
8
→ Da cultura judaica → para a cultura grega (helenismo)
→ Da realidade rural → para a realidade urbana
→ Das comunidades ao → para comunidades ao redor das casas (oikój) nas periferias
redor das sinagogas das grandes cidades da Ásia e da Europa.

Estas passagens foram marcadas profundamente pela mudança de mentalidade e pela tensão entre os
cristãos vindos do judaísmo e os novos cristãos que vinham de outras culturas (At 15; Gl 2). Foi um
doloroso processo de conversão com muitos conflitos ao interno do próprio cristianismo. Imaginamos a
dificuldade dos cristãos judeus, formados dentro da visão judaica da Lei, e que deviam abrir-se para uma
visão universal de Deus. A passagem da visão de um povo eleito, privilegiado por Deus entre todos os
povos para a certeza de que em Cristo todos os povos faziam parte de um único povo (multirracial e
pluricultural) diante de Deus (Ef 2,17-18; 3,6).
As comunidades que surgiam, pequenas e frágeis, levavam a sério a mensagem de Jesus. E foram os
outros a reconhecer isso. Em Antioquia, para distingui-los, deram a eles o nome de Cristãos (At 11,26). E
começaram assim a adquirir a sua própria identidade. Os Atos dos Apóstolos relatam a beleza e o vigor
dessas primeiras comunidades (At 2,42-47; 4,32-37).
Mas a dificuldade nossa hoje é que não temos as notícias de todas as primeiras comunidades. Os
Atos e as Cartas relatam basicamente a missão do Apóstolo Paulo e das comunidades surgidas através da
sua missão. Quase nada sabemos do trabalho de outros missionários, das comunidades espalhadas pelo
norte da África, na Itália e pelas outras regiões e que estavam presentes no dia de Pentecostes (At 2,9-10).
Pouco sabemos também das comunidades da Síria e da Arábia, cujo centro era Antioquia. A comunidade de
Antioquia chegou a competir em autoridade e influência com a de Jerusalém. Foi desta comunidade que
Paulo partiu para as suas viagens missionárias, e onde viveu muito tempo.

c) Dos anos 70 a 100


Alguns fatos políticos ajudam a entender esta terceira fase da história. A ascensão de Nero ao poder
do império romano, com a perseguição aos cristãos, o martírio dos Apóstolos Pedro e Paulo. O massacre
aos judeus, sobretudo no Egito (66 dC) e a revolução judaica na Palestina, iniciada no ano 68 dC e que
levou à brutal destruição de Jerusalém no ano 70. As comunidades cristãs ainda eram pequenas e sem
influência, e por isso se tornaram alvos fáceis da perseguição romana.
Por outro lado, a destruição de Jerusalém e o fim do estado judaico e das suas instituições religiosas,
provocou a separação definitiva entre cristãos e judeus. Tornaram-se duas religiões distintas, inimigas entre
si, que se excomungavam mutuamente. E foi também o período do surgimento de muitas religiões e
doutrinas gnósticas e mistéricas, que começavam a invadir o império romano. Elas penetraram também nas
comunidades cristãs e provocaram novos conflitos e tensões.
No final do século I os cristãos foram perseguidos pelo imperador Domiciano. O cristianismo foi
declarado religião não-lícita pelo império.

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1 e 2 TESSALONICENSES
1. A cidade de Tessalônica
Tessalônica foi fundada em 315 aC por Cassandro, general de Alexandre Magno, no lugar de uma antiga
vila chamada Thermas. Para habitar a nova cidade, Cassandro transferiu a população de muitas pequenas
vilas do Golfo Termaico.
A nova cidade recebeu o nome em homenagem à sua mulher, Thessalonike, irmã de Alexandre Magno,
portanto, filha de Felipe II da Macedônia. Thessalonike tinha nascido no dia da vitória de seu pai sobre os
tessálios em 353 aC. Tessalônica, de fato, significa “vitória dos tessálios”.
A cidade de Tessalônica ocupava um lugar privilegiado e estratégico no mar Egeu. Estava situada no fértil
vale do rio Vadar, protegida ao norte pelas montanhas Khortiatis e aberta ao sul para o golfo Termaico. Seu
porto era um dos mais movimentados do mar Egeu. Distava 150 km de Filipos pela via Egnatia que
colocava em contato com a região do Épiro de um lado e com o Bósforo de outro.
Na época de Paulo era, no dizer de Strabão, “a metrópole da Macedônia - a mais populosa cidade”. O
escritor romano Cícero, que se exilou ali de maio a novembro de 58, escreveu: “Tessalônica está situada
no meio do nosso império” (as Atticum 3,19). O poeta Antípatro (50 aC - 25 dC) nela nascido, a celebra
como “Mãe de toda a Macedônia”.
Em 168 aC, os romanos conquistaram a Macedônia e a transformaram em Província Romana. Em 146 aC,
Tessalônica tornou-se a capital da Província Imperial da Macedônia. Nela, morava, o procônsul romano,
representante do imperador. Após a batalha de Filipos em 42 aC, obteve de Augusto o título de “cidade
livre”. Era administrada por uma assembléia popular eleita anualmente pela população e por magistrados
chamados “politarcos”. Como era costume na época, somente os cidadãos nascidos em Tessalônica
tomavam parte na vida democrática da cidade. Os pobres, escravos, libertos e estrangeiros domiciliados
(metecos) estavam excluídos da organização da cidade.
No tempo de Paulo, Tessalônica era uma cidade de segunda grandeza no império, pouco menor que
Alexandria do Egito, Antioquia da Síria, Corinto, Éfeso, Cartago e Lião nas Gálias.
Sua população era formada por grande número de romanos e gregos, e caracterizada por fortes contrastes
políticos-sociais. De um lado os comerciantes e armadores vindos de todas as partes do império, com todos
os direitos e de outro a grande massa de pobres. Os escravos eram quase a metade da população. Havia
também uma numerosa e influente colônia judia, com sua própria organização, com sinagoga, tribunal e
conselho de anciãos e o privilégio de “religião lícita”. No campo religioso, havia em Tessalônica,
como nas outra grandes cidades do Império Romano, um grande sincretismo religioso.
A deusa principal da cidade era Nike – a deusa da vitória. Havia ainda templos dedicados a Zeus ou Júpiter
– pai de todos os deuses; Netuno ou Posseidon – deus do mar; Ísis e Osíres – deuses do Egito e outros. Um
dos principais cultos era o de Dionísio – Baco, um dos cultos de mistério com fortes ligações com a vida
pós-morte. De fato, uma das tribos deslocadas por Cassandro na fundação de Tessalônica, chamava-se
Tribos Dionisias. As moedas da cidade traziam a esfinge desse deus.
O culto do imperador também ocupava um lugar importante. Tessalônica se orgulhava com o título de
Neókoros, concedido somente às cidades que tinham permissão de construir templos ao imperador. O culto
ao imperador era um modo de conservar o privilégio de cidade livre. Os judeus sabiam disso e acusaram
Paulo e seus companheiros de propor um outro rei – Jesus (At 17,7).
Durante a conquista turca, a cidade passou a ser chamada Salônica, mas a partir de 1937 retomou seu antigo
nome de Tessalônica.

2. A Evangelização
A permanência de Paulo na cidade não foi muito longa. At 17,2 fala de apenas três semanas. Mas as
cartas deixam supor alguns meses, de tal modo que Paulo teve tempo de aplicar-se a um trabalho manual e
material para assegurar sua sobrevivência (lTs 2,9) e, ao mesmo tempo, constituir uma comunidade
bastante numerosa e formada sobretudo de pagãos convertidos (lTs 2,10) e com uma certa "organização"
(1Ts 5,12-13). Quanto à classe social dos cristãos, At 17,4 fala de “damas da sociedade” e 1Ts 4,11 fala
em “ganhar o sustento com as próprias mãos”. Baseados nesses textos, os exegetas falam de uma mínima
percentagem de membros da classe média e alta e a grande parte de trabalhadores manuais, isto e,
escravos, artesãos e pessoal do porto.
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Como era seu costume, Paulo dirigiu-se, em primeiro lugar, aos judeus e por três sábados ensinou
na sinagoga (At 17,2). Sua pregação teve certo sucesso (At 17,4). Mas uma insurreição de judeus invejosos
(At 17,5-10) obrigou Paulo e seus companheiros a abandonar a cidade, indo para Beréia (At 17–10 ) e
depois para Atenas (At 17,15ss).
De Atenas, Paulo enviou Timóteo a Tessalônica (lTs 3,1) para sustentar a jovem Igreja. Parece que
era desejo seu ir pessoalmente à Tessalônica, outra vez. Mas algo que desconhecemos atrapalhou seus
planos.
Durante sua permanência em Tessalônica, os judeus, provavelmente incitaram os pagãos contra
Paulo e contra os neo-convertidos. Sua partida da cidade não foi suficiente para serenar os ânimos. Os
cristãos eram ainda objeto de calúnias por parte dos judeus (lTs 3,6-10). Assim na impossibilidade de ir
pessoalmente, Paulo enviou Timóteo. Nesse ínterim, Paulo partiu de Atenas, onde sua mensagem não foi
bem recebida, para Corinto, onde Timóteo o encontrara no seu regresso de Tessalônica.

3. As Cartas
Segundo At 18,5 e lTs 3,6 as duas cartas foram escritas durante a permanência de Paulo em Corinto,
pelo ano 50/51, durante a sua segunda viagem missionária.
a) A primeira carta é fruto da descrição, feita por Timóteo, da situação da jovem Igreja.
Esta Carta não é somente a primeira em ordem de tempo, mas também o primeiro escrito do Novo
Testamento. No que se refere ao essencial da vida cristã, as notícias eram boas. Os cristãos de Tessalônica
permaneciam firmes na fé, esperança e caridade. Sua fé tinha sido aprofundada por causa das dificuldades e
das provas encontradas (cf. lTs 1,3; 3,6-8). No entanto, a comunidade não tinha entendido bem a doutrina
sobre a Parusia, e se preocupava pela sorte de seus membros mortos antes da vinda de Cristo (4,13). Isso
gerava desvios morais, angústias, tristezas e até ociosidade.
Assim a carta de Paulo tem duplo objetivo:
- um encorajamento da fé dos cristãos e uma ação de graças por sua operosidade (1–3);
- corrigir os desvios que surgiram na comunidade, sobretudo no que se refere à sorte dos mortos na
ressurreição e sobre a segunda vinda de Cristo (4,13–5,10).
b) Os estudiosos que defendem que a segunda carta também é de autoria do Apóstolo Paulo, afirmam que
ela foi escrita, provavelmente, alguns meses depois da primeira Carta e praticamente tem o mesmo objetivo.
Talvez as palavras de Paulo “nós os que estivermos vivos...” em lTs 4,15 tenham motivado ainda mais a
preocupação de uma parusia iminente. O Apóstolo procura desfazer tais idéias descrevendo os sinais que
precederão a vinda de Cristo (2,1-12) e exortando todos a se dedicarem ao trabalho (3,10-12).

4. Estrutura das Cartas


a) 1 Tessalonicenses – É dividida em duas partes:

1,1 ENDEREÇO

1,2 – 3,13 1ª PARTE: AGRADECIMENTOS E RECORDAÇÕES


1,2-3 → agradecimento pela fé, caridade e esperança dos
Tessalonicenses;
1,4-10 → ampliação do agradecimento: a resposta dos
Tessalonicenses â pregação de Paulo;
2,1-12 → Paulo retoma o agradecimento: a pregação de Paulo
em Tessalônica;
2,13-16 → confirmação do agradecimento: a resposta dos
Tessalonicenses ao anúncio evangélico;
2,17–3,5 → o tempo do afastamento: não podendo ficar em
Tessalônica, Paulo enviou Timóteo;
3,6-13 → retomada do agradecimento: Timóteo retornou
trazendo boas notícias.

11
É uma grande ação de graças pela realidade da Igreja de Tessalônica. É
quase uma crônica emocionante, mas cheia de gratidão a Deus. Paulo
lembra a sua expulsão de Filipos, o encontro com os tessalonicenses, a
acolhida do anuncio do Evangelho, o período transcorrido na cidade, as
dificuldades suas e dos cristãos, a viagem de Timóteo e as boas notícias
recebidas. E termina com uma oração para que Senhor faça crescer
sempre mais os tessalonicenses no amor e na conduta irreprovável.

4,1 – 5,22 2ª PARTE: EXORTAÇÕES E VÁRIOS ENSINAMENTOS:


4,1-2 Introdução
4,3-8 → a busca da santidade no amor;
4,9-12 → o amor fraterno;
4,13-18 → o destino daqueles que morreram;
5,1-11 → os tempos e o momento do fim;
5,12-13 → os responsáveis da comunidade;
5,14-22 → exortações conclusivas.

5,23-28 CONCLUSÃO

Na primeira parte se nota a presença do binômio “nós-vós”. O “nós” dos missionários e o “vós” dos
tessalonicenses. Isso mostra a indiscutível comunhão que unia Paulo e seus companheiros à comunidade de
Tessalônica. O nexo dessa união é a aceitação do anúncio de Jesus morto e ressuscitado. A participação
nesse fato cria a união entre os evangelizadores e os evangelizados. Essa união se dá pela palavra acolhida e
anunciada, a mesma fé e esperança. Nasce assim uma nova união. Basta notar o freqüente uso do termo
“irmãos” na carta (14 vezes).
Na segunda parte, prevalece os motivos de exortação, encorajamento, instrução (4,10ss; 5,12). Aqui Paulo
se mostra como guia da comunidade. Fala com decisão, segurança e autoridade. Usa verbos no imperativo.
Mas não se trata de uma exposição fria de princípios morais. Paulo fala ao coração e procura convencer.
Percebe-se a consciência que Paulo tem de sua própria vocação apostólica.

b) 2 Tessalonicenses:
1,1-2 ENDEREÇO
1,3-12 AGRADECIMENTO E INTERCESSÃO
1,3-5 → Fé e amor mútuo dos tessalonicenses;
1,6-7 → Punição dos perseguidores;
1,11-12 → Oração pela comunidade de Tessalônica
2,1-12 A VINDA DO SENHOR (PARUSIA)
2,1-2 → O dia do Senhor não é eminente;
2,3-5 → O fim será precedido da manifestação do homem ímpio;
2,6-7 → Esta será porém impedida de um misterioso obstáculo;
2,8-12 → Destruição do homem ímpio com todos os seus adeptos.
2,13 – 3,15 EXORTAÇÃO
2,13-17 → Novo agradecimento a Deus e exortação a manter as
tradições;
3,1-5 → Solicitação de orações;
3,6-15 → Repreensão àqueles que se comportam de modo
indisciplinado.
3,16-18 SAUDAÇÃO FINAL
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5. Mensagem:
Alguns pontos importantes que podemos concluir das duas cartas:
a) Temos aqui exemplo do que era o kerigma missionário, onde já se pode perceber um sentido
trinitário do anúncio. Insiste-se na adesão ao único e verdadeiro Deus.
b) Pelas Cartas se pode perceber também as dificuldades encontradas, os primeiros problemas que
surgiram nas comunidades e o modo como o Apóstolo tentou resolvê-los.
c) O Evangelho é verdadeiramente “Palavra de Deus” (2,13). A 1Ts é o primeiro escrito do NT. Esta
Carta não é endereçada a pessoas, mas a uma Igreja (1,1). É o novo Israel que Deus amou e escolheu (1,4;
2Ts 1,11).
d) É interessante a preocupação com a Parusia e a Escatologia e as soluções propostos por Paulo.
e) Na comunidade percebe-se já a existência de alguns ministérios, a quem Paulo recomenda o
respeito (1Ts 5,12). Porém, todos são instrumentos na mão de Deus (1Ts 4,9) e devem se ajudar
mutuamente (1Ts 5,14).
f) A oração é importante para o bem da comunidade, que tem também os dons do Espírito
(carismas). Os cristãos devem ter o discernimento, porém não devem apagar o Espírito e não devem
desprezar as Profecias (1Ts 5,19-21).
g) Os cristãos devem esperar com paciência à vinda de Cristo, portanto, devem trabalhar e inserir-se
na vida social, ganhando o pão de cada dia com o trabalho (cf. 2Ts 3,5-15). A história humana prossegue o
seu curso, sem que possamos estabelecer a data do seu fim.
i) Os temas trabalhados nestas duas Cartas permanecem atuais. O anúncio da palavra é sempre novo.
“Por esta razão é que sem cessar agradecemos a Deus por terdes acolhido sua Palavra, que vos pregamos
não como palavra humana, mas como na verdade é, a Palavra de Deus que produz frutos em vós, os fiéis”
(1Ts 2,13). De outra parte, muitos são os que hoje anunciam a Palavra com fins enganosos, anunciam ainda
o “fim do mundo” (por ignorância ou com objetivos econômicos), enganando multidões. Palavra de Deus é
palavra que produz a vida e não o medo!

CARTA AOS FILIPENSES


1. A cidade de Filipos
O primeiro nome da antiga vila era Krenides ou “cidade das fontes”, por causa das fontes de água que
brotavam no local. Tinha sido fundada pelos habitantes da ilha de Tasos, a 12 km do mar sobre uma colina
de onde se vislumbrava uma vasta planície muito fértil. Seu porto natural era a vila de Neápolis, hoje
chamada Cavalla.
Em 358-357 aC, ameaçados pelos trácios, os habitantes de Krenides, pediram auxílio ao rei da
Macedônia, Felipe II, pai de Alexandre Magno. Este veio em sua ajuda e mudou o nome da vila para
Filipos em honra de seu pai Felipe I, rei da Macedônia. Felipe II fortificou e aumentou a nova cidade.
Filipos ocupava um ponto estratégico, pois dominava todas as rotas de caravanas da Grécia e da
Trácia. Por ela passava a importante via Egnátia, que unia a Itália à Ásia Menor.
Nas montanhas vizinhas foram descobertas ricas jazidas de ouro e prata. Tudo isso contribuiu para o
enriquecimento da cidade.
No ano 168 aC Filipos foi conquistada pelos romanos. Esta ficava cerca de 1100 km de Roma.
Foi na sua planície que em 42 aC, Otávio e Marco Antônio, herdeiros de César derrotaram Cassius e
Brutus, os últimos defensores da república. Quando César Augusto se tornou imperador romano
estabeleceu uma colônia de veteranos soldados romanos em Filipos e lhe deu o nome de “Colonia Augusta
Julia Philippensium”. Concedeu-lhe, também, o privilégio de “Jus Italicum” com a qual seus habitantes
eram cidadãos romanos. Sua população era formada por trácios, macedônios e em grande parte por
romanos.
Após a batalha de Actio, na qual Otávio venceu Marco Antônio, novos veteranos foram enviados a
Filipos. A cidade de Filipos perdeu a primazia para Tessalônica que tornou-se a capital da Província
13
Romana da Macedônia. Porém, Filipos manteve seus privilégios e era administrada por Roma. Filipos tinha
direitos de colônia romana (At 16,12).
Na época de Paulo, a cidade estava em declínio, pois as minas de ouro e prata estavam esgotadas.
Havia, na cidade, uma colônia judia muito pequena, pois não possuíam sinagoga. Na cidade havia, além dos
cultos locais trácios e macedônios, culto ao imperador romano, coexistindo com outras religiões vindas do
Oriente, chamadas religiões mistéricas.

2. A comunidade de Filipos
Filipos, assim como Tessalônica e Beréa, foram evangelizadas por Paulo, na sua segunda viagem
missionária (At 15,36–18,22). Paulo, Silas, Timóteo e Lucas chegaram a Filipos em 50/51 vindos de
Trôade. Desembarcaram em Neápolis, porto distante 12 km da cidade. Filipos foi a primeira cidade da
Europa a ser evangelizada. Em At 16,6-10, Lucas procura mostrar como essa missão é guiada pelo Espírito.
Como não havia sinagoga na cidade, Paulo e seus companheiros, no sábado, foram para fora da
cidade, às margens de um rio, onde provavelmente os judeus costumavam rezar (At 16,13). As primeiras
conversões aconteceram entre as mulheres. A mais conhecida é Lídia, era uma comerciante de púrpura,
natural de Tiatira, na Ásia Menor, que foi batizada por Paulo com toda a sua família (At 16,14-15). Foi
Lídia quem hospedou Paulo e seu grupo. A nova Igreja devia contar com poucos judeus. Era formada,
sobretudo, por gentios e as mulheres, parecem ter ocupado um lugar importantes nela.
Não sabemos quanto tempo Paulo permaneceu em Filipos. Podemos supor uma estadia de alguns
meses. Sua permanência na cidade foi tumultuada pela libertação de uma jovem escrava que possuía um
espírito de adivinhação (At 16,16ss). Os donos da escrava, que obtinham lucros com suas adivinhações, se
sentiram lesados e denunciaram Paulo e Silas aos magistrados. Ambos foram presos, açoitados e colocados
na prisão. Esta é a primeira prisão do Apóstolo.
À noite, um violento terremoto sacudiu a prisão e libertou os prisioneiros. O carcereiro tentou o
suicídio, julgando que os prisioneiros haviam fugido. Impedido por Paulo, se converteu e foi batizado com
toda a sua família (At 16,24-34). No dia seguinte, sabendo que Paulo não podia ser flagelado nem preso,
pois era cidadão romano, os magistrados o libertaram com Silas e rogaram para que deixassem a cidade (At
16,35-40).
Paulo partiu de Filipos em direção de Tessalônica com Silas e Timóteo. Lucas ficou na cidade.
Paulo o reencontrou ali na sua segunda visita a Filipos (At 20,5-6). Alguns autores pensam que Lucas era
originário de Filipos.
Ao partir, Paulo deixou uma jovem e dinâmica comunidade, que continuou a crescer e prosperar e
que se manteve fiel ao Evangelho. O Apóstolo se identificou muito com essa comunidade. Ele a chamou de
“minha alegria e minha coroa” (Fl 4,1).
Numa cidade onde havia o culto ao Imperador, que se fazia passar por “Deus e Senhor”, Paulo
anuncia o Evangelho que se torna Boa Notícia. É em “nome de Jesus” que vem a libertação. Nome que está
acima de qualquer outro nome e em nome do qual se dobre todo joelho (cf. Fl 2,8-11).
Paulo esteve, ainda outras vezes em Filipos. Foi ali provavelmente que durante sua terceira viagem
missionária, pelo ano de 58, vindo de Éfeso, Paulo escreveu a Segunda Carta aos Coríntios. Na primavera
do ano seguinte, voltando de Corinto, Paulo celebrou a Páscoa em Filipos (At 20,5ss). Em Fl 1,26 e 2,24
Paulo manifesta o desejo de retornar à cidade. Esse desejo deve ter sido realizado após sua primeira prisão
em Roma.
Muitas vezes, os filipenses enviaram auxílio para Paulo: em Tessalônica (Fl 4,16), em Corinto (2Cor
11,9) e durante sua prisão (Fl 4,18) em Éfeso ou Roma.

3. A carta
A Carta aos Filipenses é chamada “Carta da alegria”. É uma carta de amigos. Parece quase um
contraste: Paulo está preso (situação de sofrimento) e a comunidade passa também por dificuldades, e a
Carta fala tanto da alegria. É uma Carta para animar, dar força e esperança. Não há nela nenhuma
argumentação teológica. Mesmo quando fala dos judaizantes, não é com intenção polêmica, mas somente
para alertá-los. Seu tom é íntimo e muito familiar.
Mas a carta suscita alguns problemas. Não se discute sua autenticidade, mas sua unidade. A
Tradição sempre testemunhou uma única carta de Paulo aos filipenses. Porém, Policarpo de Esmirna em
14
sua Carta aos Filipenses, alude “às cartas” de Paulo aos mesmos destinatários. Uma parte dos autores
modernos afirma a unidade de Filipenses. Outros, baseados em critérios literários, levantaram a hipótese de
três pequenas cartas ou bilhetes. Os argumentos são os seguintes:
a) a alusão que Policarpo faz às “cartas” de Paulo;
b) o próprio Paulo, em Fl 3,1, parece aludir à uma outra carta;
c) a ruptura no discurso e no tom em Fl 3,1 e 3,2 e em 4,9 e 4,10.
A violenta denúncia dos adversários do capítulo 3 não se enquadra nos capítulos 1 e 2. Também em
4,10-20, onde o Apóstolo desenvolve o motivo do agradecimento, não combina com o conteúdo precedente.
Assim, a hipótese que Filipenses é formada por três pequenas cartas, é bastante aceita hoje. Em ordem
cronológica as cartas seriam as seguintes:

4,10-20 Carta A
1,1–3,1a + 4,2-7.21-23 Carta B
3,1b.4,1.8-9 Carta C

“Carta A”: Fl 4,10-20


Paulo se encontrava preso. Os cristãos de Filipos souberam e preocupados com a sua situação
enviaram-lhe donativos através de Epafrodito, membro da comunidade, que tinha também, o dever de
assisti-lo na prisão. Provavelmente, logo após a chegada de Epafrodito, Paulo teria enviado esse bilhete de
agradecimento.

“Carta B”: Fl 1,1–3,1a + 4,2-7.21-23


Epafrodito, que fora enviado para assistir Paulo em sua prisão, ficou gravemente enfermo. A
comunidade de Filipos soube de sua doença e preocupou-se também com ele. Uma vez restabelecido, Paulo
enviou-o de volta com esse novo bilhete em que fala de sua condição de prisioneiro por causa do
Evangelho, manifesta esperança de uma libertação em breve e exorta os filipenses à concórdia.

“Carta C”: Fl 3,1b-4,1.8-9


Nesse texto, Paulo já não se refere mais à sua prisão e alerta a comunidade sobre o perigo de certos
adversários. Com toda probabilidade, Paulo se refere aos judaizantes.

Quanto ao local e data em que a carta foi escrita, as opiniões acompanham as hipóteses de unidade
ou não. Segundo a opinião tradicional, que aceita a unidade da carta, essa foi escrita em Roma, durante a
prisão de Paulo, entre os anos 61-63. Outros admitem que a carta foi escrita em Cesaréia onde Paulo esteve
preso por dois anos, entre 59-60 (At 23,23-34,27).
Para os que admitem a hipótese de várias cartas, Paulo teria escrito em Éfeso. A proximidade das
duas cidades explicaria as constantes viagens e notícias de ambas as partes. Porém, os Atos dos Apóstolos
não mencionam nenhuma prisão de Paulo em Éfeso. Mas existe a possibilidade como se pode deduzir de
alguns acenos em 2Cor 1,8; 11,23. Então, a carta teria sido escrita em Éfeso durante a terceira viagem
missionária pelo ano de 56/57, e seria colocada entre a 1Cor e a 2Cor.

4. Mensagem (Comunidade de Filipos e a Carta)


a) At 16-18 quer mostrar que duas décadas depois da morte e ressurreição de Jesus, a Boa Notícia
está chegando a outros continentes. Os quatro Evangelhos ainda não haviam sido escritos. Para Paulo, o
Evangelho é uma pessoa concreta: Jesus Cristo!
b) Quem anuncia a Palavra corre o risco de ser perseguido e preso. Mas o Evangelho não se deixa
acorrentar. E mesmo o conflito pode ser motivo de crescimento da mensagem (conversão e batismo do
carcereiro e sua família). Paulo sabe que o martírio pode acontecer e está disposto a recebê-lo. Isso significa
ir logo para junto de Deus, mas por causa da comunidade, ele acha que é mais importante continuar a viver
(Cf. 1,21-26).
c) Filipos era uma das principais cidades de Macedônia (At 16,12). Isso significa que o Evangelho
está entrando nos centros urbanos; que está se encarnando na cultura das grandes cidades.

15
d) A Carta aos Filipenses nos mostra que Paulo já vê a necessidade de organizar as comunidades.
Elas têm os epíscopos e diáconos.
e) A ausência da sinagoga mostra que a comunidade pode nascer independente dos judeus. É a
abertura aos outros povos.
f) Outro fator importante é a presença e a participação das mulheres na Igreja nascente. É numa casa
delas que a Igreja se reúne. A carta fala ainda de outras duas (Evódia e Síntique), ainda que estejam em
conflito, Paulo lembra que elas o ajudaram muito na luta pelo Evangelho.
g) Na carta temos um importante hino cristológico. Talvez já existisse e que fosse cantado nas
celebrações e Paulo o tenha inserido na Carta. Este hino é a síntese do Evangelho que ele anuncia. O hino
tem dois movimentos: 1. Descendente. É Jesus que se esvazia, se tornou humano, humilhou-se, foi
obediente, servo e desce ao mais profundo da condição humana, e termina na cruz (cf. Is 52,13–53,8). Jesus
é sujeito da sua ação... 2. Ascendente. Deus é sujeito e exalta Jesus, ressuscitando-o e colocando-o no posto
mais elevado que possa existir. Jesus é Senhor do Universo e da história (cf. Is 52,13-15; 53,10-12).
h) Paulo também se encarnou. De hebreu, circuncidado, fariseu, perseguidor da Igreja, observador
da lei, sem reprovação (cf. 3,5-6), por causa de Cristo, Paulo perde tudo, abandona a Lei e através da fé
busca a justiça (cf. 3,7-9). Também ele se esvaziou: “Considero tudo uma perda” (3,8). Também ele se
considera um servo (1,1).
i) Em meio a tantas opções de religiões, os filipenses escolhem seguir Jesus Cristo, alguém que
morreu na cruz. Paulo também sofre a perseguição. A comunidade também enfrenta as dificuldades, mas
continua carregando a sua cruz.
j) A comunidade de Filipos compreendeu bem o que é a mensagem de Jesus Cristo. Ser cristão é ser
solidário, partilhar, repartir... É isso que a comunidade fez (4,10-20). Comunidade solidária com as
necessidades do Apóstolo e com o sofrimento na doença de Epafrodito. Também Paulo faz isso, se for
preciso vive na necessidade e sofre as privações... Mas isso não é problema, porque “Tudo posso nAquele
que me fortalece!” (4,13).
l) A Carta mostra também como a missão evangelizadora é uma tarefa comunitária. Basta ver o
nome das pessoas envolvidas (Paulo, Timóteo, Silas, Epafrodito, Lídia, Sízigo, Evódia, Síntique...).
m) A comunidade deve se preocupar e defender-se dos “cães” e dos falsos operários. Aqueles que
querem dividir, que querem anunciar um outro evangelho. Diante desses, Paulo reage com dureza. O
Apóstolo se mostra contrário aos “judaizantes” que querem que os pagãos façam a circuncisão, do contrário
serão impuros (cf. 3,2-3). Mas também são perigosos aqueles que querem um evangelho fácil, sem a cruz
(cf. 3,18).
n) A carta nos mostra o lado carinhoso e da ternura. É muito interessante ver como algumas palavras
bonitas aparecem no texto: alegria, ternura, coração... Os filipenses estão “em seu coração” (1,7); são seus
“amados” (2,12); “queridos e saudosos irmãos” (4,1). E também é uma Carta onde surgem algumas das
frases mais belas da Bíblia: “Deus é testemunha de que eu quero bem a todos vocês com a ternura de Jesus
Cristo” (1,8); “Tudo posso nAquele que me fortalece!” (4,13); “Alegrai-vos sempre no Senhor!” (4,4);
“Permanecei firmes no Senhor!” (4,1); etc.
o) A Carta é quase uma oração, uma celebração, uma eterna ação de graças que o Apóstolo parece
rezar enquanto escreve. Isso nos mostra o lado místico de Paulo e também a importância da oração e da
vida espiritual das nossas comunidades hoje.
p) Os cristãos devem se modelar no exemplo de Cristo que se humilhou e por isso foi exaltado. O
cristão deve viver em comunhão fraterna, fruto do amor e da renúncia aos próprios interesses, vivendo no
meio de uma sociedade perversa e má (2,12-16). Eles devem imitar o comportamento de Paulo e dos
demais evangelizadores (3,12-17).
q) Quem segue a Cristo, mesmo em meio a dificuldades, vive a alegria (3,1; 4,4). Colocando em
prática tudo aquilo que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer modo
mereça louvor, o Deus da paz verdadeiramente estará com eles (4,8-9).
r) Os cristãos devem viver com esperança: esperar pelo dia glorioso de Cristo (1,10); esperar pela
ressurreição (3,11), esperar pela pátria celeste (3,20). É certo que Paulo pensa ao momento da morte
individual de cada um, mas também fica vivo o pano de fundo de uma esperança numa escatologia
cósmica, que assinalará a transformação de todo o mundo segundo o plano de Deus.

16
AS CARTAS AOS CORÍNTIOS
1. A cidade de Corinto
A fundação da antiga cidade de Corinto perde-se no tempo, calcula-se que foi em torno a mil anos
antes de Cristo. Era uma cidade famosa por seus vasos pintados e bronze trabalhado; um importante centro
marítimo e comercial.
Em 146 aC, o cônsul Lucius Mummius arrasou completamente a antiga cidade para suprimir uma
rival comercial do novo porto de Delos do qual os romanos dominavam todo o mar Egeu.
Um século mais tarde, em 46 aC, Júlio César, após sua vitória sobre Pompeu, mandou reconstruir a
cidade com o nome de “Laus Julia Corinthus”. Seus primeiros habitantes foram romanos, sobretudo
soldados das legiões vencidas em Farsola. A eles, logo se juntaram povos provenientes de outras vilas da
Grécia e de outras partes do império. A princípio a nova Corinto vivia da exploração das ruínas da antiga
cidade de onde retiravam muitos tesouros. Mas, por causa de sua excelente posição geográfica, entre dois
mares, a nova cidade prosperou. Também, o porto de Delos, seu concorrente, entrou em declínio na guerra
contra Mitridates.
Corinto estava situada a 8 km do istmo que une o Peloponeso ao continente. Era formada por duas
partes; a cidade alta ou Acrópole e a cidade baixa. A Acrópole estava situada sobre o monte chamado
Acrocorinto com 573 m de altura. Era habitada apenas por soldados e por pessoas que trabalhavam nos
templos ali construídos, tais como o da deusa Fortuna, do Sol, de Ísis e Osíres e, sobretudo, o grande templo
de “Afrodite Pândemos”, ou “Vênus de todo o povo”.
A cidade baixa era a parte habitada pelos civis. Estava situada entre dois portos:
O porto de Lecaion ou Laqueu, a oeste, no golfo de Corinto. Recebia os navios vindos da Itália,
Espanha e norte da África.
O porto de Cencre ou Cencréia, a leste, a 10 km ao oriente, no Golfo Saronico, em direção de
Atenas no mar Egeu.
Os dois portos eram unidos pelo Diolkos, uma estrada para navios com 9 km de extensão. Por ela,
através de um engenhoso sistema de transporte, os navios eram transferidos de um mar a outro. Esse meio
de transporte conferia uma extraordinária vida à cidade. Estava sempre cheia de marinheiros, capitães e
soldados. Os impostos e as taxas eram uma preciosa fonte de riquezas; o comércio prosperava e Corinto
tornou-se uma cidade rica e célebre. Era a terceira cidade do Império, depois de Roma e Alexandria.
Por isso, no ano 27 aC, foi elevada à categoria de capital da Província Senatorial da Acaia,
suplantando sua rival Atenas. Nela morava o procônsul romano.
Além dos dois portos, Corinto era dominada pelo templo de Afrodite Pândemos, situado na
Acrocorinto com suas mil sacerdotisas (hieródulas), ou prostitutas sagradas. Os historiadores não estão de
acordo sobre a natureza das cerimônias realizadas neste templo. Para uns a prostituição sagrada era uma
prática constante. Para outros, acontecia apenas nas grandes festas da deusa.
Além do culto de Afrodite, Corinto abrigava uma multidão de deuses e cultos: Ísis e Osíres, Cibele
da Frígia, Esculápio – deus da medicina, Posseidon ou Netuno – deus do mar, cujo templo estava situado no
istmo. Todos os anos eram celebrados os ‘jogos ístmicos’ em honra de Posseidon. Havia, ainda, o culto do
imperador.
Na época de São Paulo, Corinto contava com aproximadamente 500 mil habitantes dos 2/3 eram
escravos. Outros estudiosos afirmam que eram em torno a 250 mil pessoas. Temos dificuldade em saber
exatamente, pelo fato que os escravos não eram contados.
Cicero chamou Corinto de “Farol de toda a Grécia”. Mas a cidade não gozava de boa fama. Os
antigos escritores, diziam que nela dominavam a riqueza e a luxúria. Os atenienses difamavam sua imagem
por causa de sua licenciosidade e corrupção moral. Inclusive formaram-se expressões com seu nome, como:
“menina coríntia” para dizer prostituta; “viver à moda coríntia” indicava um modo dissoluto de viver.
Ali vivia também uma importante colônia de judeus que provavelmente habitavam na região do
porto de Lecaion. Foi entre eles que Paulo começou a evangelização de Corinto.

17
2. A evangelização de Corinto
Paulo chegou em Corinto pelos anos 50/51, vindo de Atenas (At 17,32) em sua segunda viagem
missionária. Dois acontecimentos nos permitem datar com certa precisão a permanência de Paulo na
cidade:
a) At 18,2: diz que chegando a Corinto, Paulo foi morar com Áquila e Priscila, “chegados a pouco
tempo da Itália...” depois do decreto do imperador Cláudio, que expulsou de Roma todos os judeus. Esse
edito de Cláudio foi emanado no 12º ano de seu governo, que corresponde aos anos 49/50 dC.
b) At 18,12-17: narra o comparecimento de Paulo diante do procônsul da Acaia, Galião que era
irmão de Sêneca. Ora, pode-se determinar com precisão o governo de Galião em Corinto, entre a primavera
de 51 e 52 dC.
Portanto, Paulo esteve em Corinto do final do ano 50 até a primavera de 52.
Ao chegar à cidade, Paulo foi morar com Áquila e Priscila (At 18,2), negociantes de tecidos que
mantinham comércio em Corinto e Éfeso. Paulo começou a trabalhar com eles, fabricando o cilício – um
grosso tecido de pele de cabras. Não sabemos se Áquila e Priscila já eram cristãos ou foram convertidos por
Paulo. Conforme seu costume, Paulo trabalhava toda a semana e aos sábados pregava na sinagoga. Somente
após a chegada de Silas e Timóteo de Tessalônica, trazendo ajuda financeira, sobretudo dos filipenses
(2Cor 11,9; Fl 4,15-16), é que Paulo dedicou-se inteiramente à evangelização.
Suas pregações na sinagoga surtiram algum efeito. Alguns judeus se converteram, entre eles o chefe
da sinagoga chamado Crispo (At 18,8).
Porém, diante da resistência dos judeus, Paulo abandonou a sinagoga e passou a pregar na casa de
um certo Tício Justo (Titus Justus), talvez um prosélito de origem latina, cuja casa estava ao lado da
sinagoga (At 18,7).
Logo surgiu uma comunidade cristã, formada em sua grande maioria por gregos convertidos e
alguns judeus, eram pessoas muito humildes (1Cor 1,26-29; 12,2). Paulo permaneceu em Corinto 18 meses.
E nesse espaço de tempo evangelizou também a região circunvizinha, assim que na 2Cor se fala das Igrejas
da Acaia. Foi, também, durante essa sua estadia em Corinto, que Paulo escreveu as duas cartas aos
Tessalonicenses. O que deu coragem e certeza a Paulo em sua missão foi uma visão do Senhor(cf. At 18,9-
10).
O êxito da evangelização de Paulo, moveu os judeus a acusá-lo no tribunal do procônsul Galião (At
18,12ss). Talvez a acusação fosse de pregar uma religião ilícita, “um culto contrário à lei”. Porém, Galião
não viu crime nenhum na ação de Paulo e o deixou livre (At 18,15).
Paulo partiu de Corinto em companhia de Áquila e Priscila em direção de Éfeso (At 18,18),
deixando uma comunidade numerosa e florescente. Era a primeira grande comunidade cristã chamada a
viver em um contexto grego-romano, e é fácil imaginar as dificuldades que teve de enfrentar.
Após a partida de Paulo, esteve em Corinto um homem chamado Apolo, um judeu de Alexandria
convertido ao cristianismo (At 18,24-28). Era um homem brilhante e eloqüente, versado nas Escrituras.
Suas pregações foram importantes para a Comunidade e muitos passaram a preferi-lo em vez de Paulo. Mas
Apolo não apoiava essa atitude e por isso não quis voltar mais a Corinto (1Cor 16,12). Também o apóstolo
Pedro visitou a comunidade como afirma Dionísio de Corinto.
Tudo isso concorreu para o crescimento e fortalecimento dos cristãos de Corinto. Era uma
comunidade viva e repleta de carismas. Mas logo apareceram os antigos vícios do paganismo. Consciente
desse perigo, Paulo, durante sua permanência em Éfeso, na sua terceira vigem apostólica, escreveu uma
carta aos coríntios (1Cor 5,9-13). Essa carta se perdeu, embora alguns autores acreditam que uma parte dela
estaria em 2Cor 6,14-7,1.
Algum tempo depois, enviou Timóteo à Corinto (1Cor 4,17). Este “vos recordará as minhas normas
de vida em Cristo Jesus”. Não sabemos mais nada sobre essa viagem.
Ainda em Éfeso, Paulo recebeu uma delegação da Igreja de Corinto, composta por Fortunato, Acaio
e Estefanes que traziam uma carta da própria comunidade pedindo esclarecimentos sobre vários assuntos.
Ao mesmo tempo, foi informado pelos da “casa de Cloé” sobre as desordens e divisões que haviam na
comunidade.
Baseado nesses dados, Paulo escreveu a segunda carta aos coríntios, que hoje é, para nós, a Primeira
Coríntios. Nela comenta sobre os problemas da comunidade e responde à carta recebida. Provavelmente a
carta de Paulo foi levada pela própria delegação que viera de Corinto. Não sabemos como a carta foi
recebida. Porém, os problemas nela abordados não aparecem na outra carta.

18
Logo depois, Paulo enviou Tito à Corinto para preparar a coleta para Jerusalém já planejada em
1Cor 16,1-4. Porém, com a chegada de novos pregadores, provavelmente judaizantes, a situação tinha
mudado na comunidade cristã. A autoridade e a pregação de Paulo eram contestadas. Informado da
situação, Paulo resolve ir pessoalmente a Corinto.
Em alguns textos das duas cartas aos Coríntios, podemos descobrir o desenrolar dos fatos:
a) Conforme 1Cor 16,5-9, o plano de Paulo era permanecer em Éfeso até Pentecostes; depois ir à
Macedônia e de lá a Corinto onde passaria o inverno e provavelmente faria a coleta para as Igrejas da
Palestina. Com a nova situação, mudam-se os planos.
b) Conforme 2Cor 1,15-16, Paulo prefere ir diretamente de Éfeso a Corinto; de lá visitar a
Macedônia; retornar a Corinto onde faria a coleta e partiria para a Palestina.
c) De fato, Paulo esteve em Corinto, onde foi contestado e ofendido gravemente, provavelmente não
pela comunidade, mas pelos judaizantes. Porém, os cristãos pareciam estar do lado dos novos pregadores.
Paulo ficou muito pouco tempo em Corinto, e em vez de ir à Macedônia como se propusera (2Cor 1,15-16),
retornou imediatamente a Éfeso.
d) De lá escreveu sua terceira Carta aos Coríntios, conhecida como “Carta em lágrimas” (2Cor 2,4).
Essa carta também está perdida.
e) Tito retornou a Corinto, talvez levando a “Carta em lágrimas”.
f) Paulo pretendia permanecer em Éfeso, aguardando a volta de Tito. Porém, a revolta dos ouvires
de Éfeso contra Paulo (At 19,23-41), obrigou-o a partir para a Macedônia.
g) Tito, voltando de Corinto, encontrou Paulo na Macedônia e lhe trouxe boas notícias. A
comunidade estava outra vez do lado de Paulo (2Cor 7,6-16). Então, de algum lugar da Macedônia, talvez
Filipos, Paulo escreveu sua quarta carta aos coríntios, que é a nossa Segunda Coríntios.
h) Provavelmente o próprio Tito voltou a Corinto levando a carta e preparou a chegada de Paulo.
Esse chegou na cidade no inverno de 57/58 onde ficou três meses (At 20,6). Ali escreveu a carta aos
Romanos.

3. Primeira Carta aos Coríntios


Essa é a resposta às informações recebidas em Éfeso, trazidas pelos da “casa de Cloé” (1Cor 1,11) e
também uma resposta às perguntas feitas pela própria comunidade por meio da carta trazida pela
delegação.
Provavelmente os da “casa de Cloé”, informaram Paulo sobre as desordens e divisões existentes na
comunidade. A resposta de Paulo pode ser identificada nos capítulos 1-6.
A carta trazida pelos representantes da comunidade pedia também explicações sobre vários
argumentos da vida comunitária: matrimônio e virgindade, permissão de comer as carnes imoladas aos
ídolos, ressurreição, etc. A resposta a estes pontos está nos capítulos 7-15.

a) Divisão da Carta:
A maioria dos biblistas considera que Paulo ordenou a Carta com base às informações e as
perguntas que vieram de Corinto. Na primeira parte (1,10–6,20) corrige os abusos dos quais foi informado
que havia na comunidade; depois (cc. 7–14) dá a sua resposta a alguns pontos que foram pedidos por
escrito (7,1; cf. 8,1; 12,1) e por último enfrenta o problema da ressurreição final (c. 15).
Porém, existem alguns biblistas que pensam que Paulo tenha ordenado a Carta seguindo a retórica grega.
Preferimos seguir a primeira hipótese.

b) Estrutura:

1,1-9 SAUDAÇÕES E AGRADECIMENTO

I - 1,10–6,20 ALGUNS COMPORTAMENTOS NEGATIVOS


1) 1,10–4,21: a divisão em partidos
a) 1,10-17: introdução
b) 1,18–3,4: a verdadeira sabedoria
c) 3,5–4,21: os pregadores cristãos

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2) 5,1–6,20: Três abusos graves
a) 5,1-13: o incestuoso
b) 6,1-12: brigas entre cristãos
c) 6,12-20: a fornicação

II - 7,1–14,40 ORIENTAÇÕES E CONSELHOS


1) 7,1-40 Matrimônio e virgindade
a) 7,1-16: os esposos cristãos
b) 7,17-24: cada um permaneça na sua condição
c) 7,25-40: as virgens, os celibatários e as viúvas
2) 8,1–11,1 As carnes sacrificadas aos ídolos
a) 8,1-13: liberdade cristã e atenção aos irmãos mais pobres
b) 9,1-27: o exemplo de Paulo
c) 10,1-13: os israelitas e a tentação da idolatria
d) 10,14–11,1:orientações práticas
3) 11,2–14,40 As assembléias comunitárias
a) 11,2-16: o véu das mulheres
b) 11,17-34: a Ceia do Senhor
c) 12,1–14,40:os carismas
- 12,1-31: a sua função da Igreja, corpo de Cristo
- 13,1-13: “Hino ao Amor”
- 14,1-40: orientações práticas

III – 15,1-58 A ESPERANÇA CRISTÃ


1) 15,1-34 A ressurreição final
2) 15,35-53 Características do corpo ressuscitado
3) 15,54-58 Hino triunfal

16,1-24 EPÍLOGO E PÓS-ESCRITO

c) Mensagem
Muitos pontos chamam a atenção nesta Carta, que tem uma finalidade ligada à vida prática. Talvez o
mais importante é que a salvação tem uma dimensão comunitária. Paulo enfrenta os problemas, em três
dimensões: análise da situação, o confronto com os dados essenciais da fé e enfim propõe as soluções
possíveis.
Alguns eixos fundamentais para entender a Carta:
a) O Deus, Pai de Jesus Cristo: Deus é o Criador de tudo por meio da sua sabedoria (1,21). É Ele
que dá vida a tudo e ao qual os que crêem devem orientar a sua vida. Tudo vem dele e nós devemos viver
para Ele (8,6).
b) O Cristo da cruz: É parte fundamental do anúncio Paulino. Por força desta morte cruenta, Jesus se
torna nossa Páscoa (5,7); o Cordeiro imolado pelos nossos pecados (15,3). Mas seu sentido só se
compreende pela sua ressurreição. Por isso “Jesus é o Senhor” (12,3). Dele vem a sabedoria (2,10-16).
c) O Espírito Santo: É Ele que guia a comunidade mediante o dom dos carismas (12,7-11). Deus Pai
continua sua obra através da ação do Espírito para a salvação de toda a humanidade.
d) A comunidade dos santos: a comunidade cristã é o povo de Deus, daqueles que são santificados
em Cristo Jesus (1,2). A Igreja é o templo de Deus (3,9), e sua característica é a unidade, mesmos com
funções diversas dos seus membros, mas que não pode dilacerar o corpo de Cristo (1,13). Nela se entra pelo
batismo (1,13-15; 10,2; 12,13) e este corpo se torna visível na Ceia do Senhor, onde deve haver
solidariedade (11,23-29), porém se necessário deve excluir aqueles que são causa da sua destruição (5,11),
porém esta é uma função medicinal (5,5).
e) A moral paulina: O Apóstolo exige dos membros da Igreja um elevado comportamento moral e
ético, sobretudo na questão sexual, onde se deve viver o amor recíproco entre homem e mulher (6,16), este
deve ser vivido no âmbito da família (7,3-6). A consciência determina as linhas práticas do comportamento
baseadas na fé cristã. Não se deve escandalizar os estrangeiros. E a vida deve ser vivida na espera
escatológica... Portanto, o amor deve guiar as relações entre os membros da comunidade.
20
4. Segunda Carta aos Coríntios
Esta Carta para ser bem entendida deve ser colocada no âmbito das polêmicas afrontadas por Paulo
na comunidade. Porém, pode supor que os problemas enfrentados na Primeira Carta já tenham sido
superados.
Paulo fala da sua viagem à Macedônia para encontrar Tito (1,13). Depois inicia um discurso
apologético sobre o seu ministério apostólico, defendendo-se dos “falsos apóstolos”. Paulo se diz “cheio de
consolação” mesmo vivendo no meio das tribulações por causa do anúncio do Evangelho. Na Carta Paulo
fala da sua famosa coleta em favor dos pobres de Jerusalém.
Alguns autores acreditam que os capítulos 10-13 dessa carta seriam na realidade a “carta em
lágrimas”.

a) Estrutura da 2Coríntios:
1,1-11 SAUDAÇÕES E AGRADECIMENTO
I - 1,12–7,16 UMA CRISE JÁ SUPERADA
1) 1,12–2,13: Os fatos passados: a visita; uma ofensa recebida; a carta amarga
2) 2,14 –7,4: A auto-defesa de Paulo
a) 2,14-17: introdução
b) 3,1–4,6: o ministério da nova aliança
c) 4,7–5,10: em vista da glória futura
d) 5,11–6,2: o ministério da reconciliação
e) 6,3–7,4: o comportamento do Apóstolo
3) 7,5-16: Conclusão dos fatos passados. O encontro com Tito
II - 8,1,–9,15 AS COLETAS PARA OS POBRES DE JERUSALÉM
1) 8,1-24: A comunhão no serviço dos santos
2) 9,1-15: Por uma eucaristia de todas as Igrejas
III - 10,1–13,10 SEGUNDA DEFESA DO APOSTOLADO
1) 10,1-11: A acusação de fraqueza
2) 10,12-18: A acusação de ambição
3) 11,1–12,18: O elogio do Apóstolo
4) 12,19–13,10: Expectativa de uma próxima visita
13,11-13 EPÍLOGO E SAUDAÇÃO FINAL

CARTA AOS GÁLATAS


1. A GALÁCIA
A palavra “Galácia” podia ser entendida de três modos diferentes. Designava:
a) país da Europa habitado pelos gauleses e chamada, em latim, de Gália;
b) a região da Ásia Menor ocupada pelos gauleses no séc. III a.C.;
c) a Província Romana da Galácia, formada após a morte do rei Amintas em 24 d.C.
À Galácia propriamente dita foram juntadas a parte oriental da Frígia, a Licaônia, a Isauria e o
Ponto. A Província Romana compreendia todos esses territórios. Esta Província da Galácia dependia do
imperador e era governada por um legado pretoriano. O governador morava em Ancyra (atual Ancara), que
era a grande metrópole da região.

2. OS DESTINATÁRIOS DA CARTA
A carta é endereçada às “Igrejas da Galácia” (1,3). Porém, como entender o termo “Galácia”, já
que com ele se podia designar a Galácia propriamente dita no norte da Ásia Menor e a Província Romana
da Galácia?

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Assim, a carta, pode ter sido enviada a um grupo de Igrejas situadas na Galácia propriamente dita,
que Paulo evangelizou na sua segunda e terceira viagem missionária (At 16,6; 18,23), e seria o primeiro
escrito Paulino; ou aos habitantes da província romana da Galácia, isto é, às Igrejas de Antioquia da Pisídia,
Icônio, Listra e Derbe, que Paulo fundou na sua primeira viagem missionária (At 13,14–14,22). As duas
opiniões possuem seus defensores e argumentos de valor. A maioria dos exegetas, opta pela tese da Galácia
propriamente dita, embora Lucas não mencione as Igrejas aí fundadas.
Essas comunidades eram formadas em sua maioria por gentios, gálatas convertidos (5,2; 6,12) Toda
a argumentação da carta se apóia na não necessidade da circuncisão, pois quem salva é a fé em Jesus Cristo
e não a circuncisão. Se eles se fazem circuncidar, o Cristo não lhes servirá para nada (5,2). De outro lado,
muitos textos mostram que entre os leitores da carta havia judeus de nascimento e prosélitos. (2,15;
3,13.23.25.28; 4,3). Isto é, os leitores da carta conhecem o AT e a dialética rabínica. Caso contrário, Paulo
não se serviria tanto da Bíblia para apoiar sua argumentação doutrinal.
Com exceção da carta aos Romanos, Gálatas é o escrito paulino onde se encontra o maior número de
citações do Antigo Testamento. Portanto, os destinatários da carta eram em sua maioria pagãos,
provavelmente prosélitos e uma minoria de judeus de nascimento. É o mais “paulino” de todos os escritos
do Apóstolo. E os temas aqui tratados serão melhor desenvolvidos da Carta aos Romanos.

3. OCASIÃO E OBJETIVO
Paulo evangelizou a Galácia durante sua segunda viagem missionária (At 16,6). Sua permanência na
região, ao que parece, se prolongou por causa de uma doença (Gl 4,13). Foi bem recebido pelos gálatas
(4,14). Infelizmente não sabemos onde Paulo pregou. Seu ministério foi frutuoso, pois os gálatas receberam
o Espírito Santo (3,2) e muitos milagres aconteceram entre eles (3,5). Segundo Paulo, tudo andava bem
(5,7).
Parece que Paulo, na sua terceira viagem, visitou novamente essas comunidades (4,13). Depois de
sua partida, as Igrejas da Galácia sofreram a infiltração dos “judaizantes” (eram cristãos de origem
judaica que sustentavam a necessidade da observância da Lei de Moisés, como meio indispensável para a
salvação). Provavelmente, vindos de Antioquia da Pisídia, ensinavam um “evangelho” diferente daquele
que Paulo pregava (Gl 1,6-8).
Esse grupo de judeus-cristãos era liderado por uma pessoa que desconhecemos, mas com uma
autoridade reconhecida (Gl 5,10). Não sabemos, também, como Paulo chegou ao conhecimento da situação
da Galácia. Mas, é certo que ao escrever a carta estava muito bem informado.
A carta nos mostra qual a tática usada por seus adversários. Atacavam seu apostolado e sobretudo
sua independência em relação aos Apóstolos. Acusavam Paulo de não ter nenhum mandato para sua missão
entre os gentios e ninguém atestava sua missão, a não ser ele mesmo. Segundo estes adversários, para
agradar os neo-convertidos e ser estimado por eles, Paulo omitia em sua pregações as partes essenciais do
Evangelho.
Mas atacavam sobretudo o “Evangelho de Paulo”. Para eles, a Lei Mosaica era o sinal da Aliança
eterna, dada pelo próprio Deus. Portanto, se os gálatas quisessem participar dessa Aliança, e serem cristãos
completos, e ter parte nos bens messiânicos, deviam ser circuncidados (5,2; 6,12) e observar as festas
judaicas (4,10).
Alguns gálatas parecem que ficaram fascinados com a nova doutrina (3,1). De fato, os judaizantes
apoiavam sua doutrina no AT, na prática de Jesus Cristo e dos Apóstolos, e das Igrejas da Palestina. A seus
olhos, Paulo teria pregado um evangelho incompleto. Eles estavam a ponto de aceitar um “outro
evangelho”. Já começavam até a observar “dias, meses, estações e anos” (4,10).
Mas parece que ainda não haviam aceitado a circuncisão (5,2) e os adeptos do novo evangelho não
eram muitos. Assim, ainda havia esperança de conservá-los na verdadeira fé em Jesus Cristo.
Qualquer que fosse o sucesso de seus adversários, Paulo se sentia inquieto. Desejava estar presente
para admoestá-los (4,20). Mas na impossibilidade de ir pessoalmente, escreveu a carta para persuadi-los.
Teria, Paulo, ao contrário de ditar suas cartas como era seu costume, escrito, ele mesmo toda a carta? Ou a
observação de 6,11 se refere apenas aos últimos versículos?

4. DATA E LUGAR DE COMPOSIÇÃO


Há muita incerteza quanto a data e o local em que a carta foi escrita. Os autores que admitem que a
carta foi escrita às Igrejas do Sul da Galácia, isto é, a Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe, propõem
uma data em torno ao ano de 49. Assim, a carta aos Gálatas seria a primeira carta de Paulo.
22
Porém, devemos reconhecer que a carta for escrita após o Concílio de Jerusalém. De fato, a reunião
em Jerusalém descrita em Gl 2,1-10 é, sem dúvida, a mesma relatada em At 15.
Para aqueles que sustentam uma destinação às Igrejas da Galácia propriamente dita, a carta teria
sido escrita em Éfeso entre os anos 54 a 57, na terceira viagem de Paulo. Alguns preferem datá-la em 57 da
cidade de Corinto, por causa da grande semelhança com Romanos escrita ali em 58. Porém, a data mais
aceita é entre 54-57, depois da Primeira Coríntios, na cidade de Éfeso.

5. DIVISÃO
É difícil encontrar consenso entre os biblistas quanto à divisão da Carta. Eis uma boa proposta:
INTRODUÇÃO (1,1-10)
a) Pré-escrito (1-5)
b) Exortação e tema da Carta: a mensagem anunciada por Paulo é o único Evangelho, ao qual os
Gálatas devem permanecer fiéis (6-10).

I - PROVA AUTOBIOGRÁFICA (1,11–2,21)


a) O Evangelho de Paulo provém de uma revelação (1,11-24)
b) Este foi reconhecido pelos “notáveis” de Jerusalém (2,1-10)
c) Ele o defendeu coerentemente também diante de Pedro (2,11-21)

II – ARGUMENTAÇÃO DOUTRINAL (3,1–4,31)


a) A experiência cristã dos Gálatas (3,1-5)
b) Argumento com as Escrituras: o exemplo de Abraão (3,6-29)
- a bênção a ele prometida se recebe somente mediante a fé (3,6-14)
- a lei não pôde anular a promessa (3,15-18)
- a lei é o “pedagogo” que deixou o lugar a Cristo (3,19-29)
c) Liberdade e adoção filial (4,1-31)
- a obra de Cristo e do Espírito (4,1-7)
- a experiência feita pelos Gálatas no momento da conversão (4,8-20)
- novo argumento com as Escrituras: as duas alianças (4,21-31)

III – EXORTAÇÕES (5,1–6,10)


a) Convite à adesão à fé que opera por meio da caridade (5,1-12)
b) Liberdade e vida no Espírito (5,13–6,10)
- O amor como resumo da lei (5,13-15)
- Viver segundo o Espírito (5,16-24)
- União fraterna e espera escatológica (5,25–6,10)

PÓS-ESCRITO (6,11-18)

6. MENSAGEM
a) Cristo, autor da nossa liberdade:
O plano de Deus se realiza na pessoa de Cristo. Ele é a realização da promessa feita a Abraão (3,16).
“Quando chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei,
para resgatar os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial” (4,4-5). O Ressuscitado
(1,1) é aquele que se deu a si mesmo pelos nossos pecados, para tirar-nos deste mundo perverso, segundo a
vontade de Deus e Pai nosso (cf. 1,4). Nele temos a verdadeira liberdade e se a perdemos voltamos a ser
escravos (2,4-5; 4,7.9. “Cristo nos resgatou da maldição da Lei, tornando-se Ele mesmo maldição por nós”
(3,13). A Cristo devemos a verdadeira e definitiva liberdade (5,1.13). Qualquer pessoa pode obter esta
liberdade, mas somente na adesão a Cristo e sua obra: “Quanto a mim, não aconteça gloriar-me senão na
cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”
(6,14).

b) A justificação mediante a fé:


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A adesão a Cristo e a participação à sua experiência de morte e vida é feita mediante a fé”...não sou
eu que vivo, mas Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne eu a vivo na fé no Filho de Deus
que vive em mim” (2,20). Mediante a fé se obtém a justificação: “fomos justificados pela fé em Cristo e
não pelas obras da lei” (2,16), pois se a justificação vem pela Lei, Cristo morreu em vão (2,21; 5,4). É certo
que a Lei agiu como um “pedagogo” que nos conduziu a Cristo (3,24). Paulo tem em mente a Lei que
separada da fé autêntica se tornou uma série de prescrições, que são observadas para querer tornar-se bom
aos olhos de Deus. O preceito do amor se torna mais importante (5,13-14) e a lei animada pelo Espírito
(6,2), faz com que a fé opere por meio da caridade (5,6).
Em síntese a polêmica de Paulo com a Lei é porque não quer minimizar a ação de Cristo em favor
da salvação da humanidade. Especialmente deve ter em mente os cristãos vindos do paganismo, aos quais
se queria exigir a circuncisão. Aceitar a Lei seria rejeitar Cristo e tornar vã a sua cruz.
OBS. O problema da “justificação” apresentado aqui e melhor desenvolvido na Carta aos Romanos, historicamente
produziu muitos problemas entre a Igreja Católica e as Igrejas Protestantes, ainda que os pontos em comum eram maiores que os
pontos divergentes. Assim, mais do que louvável foi a Declaração Conjunta, assinada entre a Igreja Católica Romana e a
Federação Luterana Mundial em 1999, tentando superar estas divergências.

c) A obra do Espírito no coração dos cristãos:


A obra redentora de Cristo se realiza por meio do Espírito. Os Gálatas receberam o Espírito não
porque cumpriram as obras da lei, mas pela sua adesão a fé em Cristo (3,2-3). Foi através de Cristo que eles
puderam experimentar Deus como Pai e puderam sentir-se filhos: “E porque sois filhos, Deus enviou ao
nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Abba, Pai!” (4,6). Ora foi este Espírito que os
arrancou da escravidão, para torná-los filhos. E sendo filhos, são também herdeiros! (4,7). Este mesmo
Espírito que guia os cristãos no caminho para Deus, inspirando neles desejos contrários aos desejos da
carne (5,16-26).
A justificação mediante a fé é também um meio com o qual Deus reúne a Igreja, na qual está
presente o “Israel de Deus” (6,16), isto é, o povo eleito dos tempos escatológicos. Esta é a Jerusalém
celeste, que gera os seus filhos na liberdade, uma comunidade marcada não pelas práticas legalistas, mas
por uma vida de fé e de amor. A Igreja é universal, não somente porque é aberta a todos, mas porque nela,
mediante a adesão a Cristo, todos encontram a sua unidade: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem
livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (3,28). Assim caem todas as
barreiras de classe, sexo, casta, cultura que dividem a humanidade, tornando assim possível uma
experiência profunda de comunhão fraterna. A adesão à Igreja não pode mais ser resultado de fatores que
pertencem à história, à sociedade ou à cultura, mas somente da decisão da fé: por isso, todos podem tornar-
se filhos de Deus sem o dever de abandonar aquilo que de válido e bom existe no seu âmbito cultural.

OBS. Os pontos 5 e 6 são baseados em A. SACCHI E COLLABORATORI. Lettere Paoline e altre Lettere (Logos 6. Elle Di Ci, Torino
2002) p. 157-170.

CARTA AOS COLOSSENSES


1. A cidade de Colossos
Colossos ou Colossas era uma antiga cidade da Frígia, situada na margem esquerda do rio Lico.
Distava 200 km de Éfeso e uns 15 km de Laodicéia e 20 km de Gerápolis (Hierápolis). As três cidades
estavam situadas na região sul da Frígia. No I século tinha em torno a 200 mil habitantes.
Os escritores gregos, Heródoto e Xenofonte, descrevem Colossos como a mais bela, rica e
importante cidade da região. Por ela passava uma importante estrada que unia Éfeso à Cilícia e à Síria. Por
ali passaram os exércitos dos reis persas Ciro e Xerxes em suas conquistas da Ásia Menor. A região
circunvizinha era rica em pasto; daí a grande criação de gado miúdo. Colossos era importante porque nela
havia uma grande indústria de lã.
Porém, a partir de 250 aC, a cidade foi perdendo importância, pois Antíoco II Theós fundou sobre a
antiga cidade chamada Dióspolis ou Roas, a cidade de Laodicéia em honra de sua mulher Laódice. A nova
cidade, distante apenas 16km de Colossos, tornou-se uma importante sede de uma escola de médico-
24
oculistas (Ap 3,8) e anos mais tarde tornou-se a capital do distrito. Toda essa região tornou-se depois
domínio do rei Átalo III de Pérgamo, que em 133 aC deixou seu reino para os Romanos. Em 129 aC a
Frígia tornou-se parte da Província Romana da Ásia.
Assim, na época de Paulo, Colossos era uma pequena e insignificante cidade da Ásia. Pelo ano de
60/61 aC, durante o império de Nero, as três cidades, Colossos, Laodicéia e Gerápolis, foram destruídas por
um terremoto que assolou todo o vale do rio Lico. As cidades foram reconstruídas, mas a primazia coube a
Laodicéia e Gerápolis. Gerápolis tinha se tornado um importante centro por causa de suas águas termais.
Em 628, a cidade foi novamente destruída por outro terremoto e nunca mais foi reconstruída. Seus
habitantes fundaram uma nova cidade 4km ao norte com o nome de Khonas.
O povo frígio era propenso ao misticismo e à fantasia. Praticava um culto supersticioso aos anjos e
demônios que existia ainda no século IV como demonstram as atas do Concílio de Laodicéia.
Na região havia também um grande número de judeus. Segundo Flavio Josefo (Ant. XII, 147-153),
o procônsul romano Valério Flacco (61-62 aC) seqüestrou o dinheiro dos judeus recolhido para o Templo
de Jerusalém (por isso foi processado e deposto). Foi dessa região que saiu o fundador dos montanistas, um
antigo sacerdote de Cibele convertido ao cristianismo. O culto principal era o de Cibele. Porém, graças ao
trabalho dos colaboradores de Paulo, a região tornou-se profundamente cristã e muito unida ao apóstolo
Paulo.

2. A comunidade de Colossos
Segundo os Atos dos Apóstolos, Paulo evangelizou a Frígia em duas ocasiões: na sua segunda
viagem missionária quando percorreu a região norte indo da Psídia para a Galácia (At 16,6); e na terceira
viagem ao dirigir-se para Éfeso (At 18,23).
Porém, baseados em Cl 2,1, podemos deduzir que ele nunca esteve em Colossos e Laodicéia. Por
conseguinte, essas comunidades não foram fundadas diretamente por ele. Foram seus colaboradores que
evangelizaram a região sul da Frígia.
As Igrejas de Colossos e as de Laodicéia e Gerápolis foram fundadas por Épafras, um colossense.
Provavelmente com Filemon, um outro colossense, e Ninfas, natural de Laodicéia, encontrou Paulo em
Éfeso e se converteu. Paulo o chama de “nosso amigo e companheiro de serviço...” (Cl 1,7). Não sabemos
se Épafras fundou as comunidades cristãs de Colossos e das cidades vizinhas a mando de Paulo ou não. O
certo é, que ele mantém Paulo sempre informado sobre a comunidade (Cl 1,9) e recorre ao Apóstolo para
superar as dificuldades que surgem. De outro lado, Paulo fala e age com a consciência de ter autoridade
sobre a comunidade como se fosse ele o fundador.
A única fonte de informação sobre a comunidade de Colossos é a própria carta. Dela resulta que a
Igreja de Colossos era composta em sua grande maioria por cristãos provenientes do paganismo (Cl 1,21-
27; 2,13). Porém, devia haver uma percentagem de judeu-cristãos. Épafras devia ser de origem pagã.
Também as comunidades de Laodicéia e Gerápolis deviam ter a mesma constituição. Convém notar
que Laodicéia é recordada no Apocalipse (Ap 3,14) e ali se celebrou um concílio no final do século IV.
N.B.: O cristianismo, além da Frígia, floresceu também na Misia e Lídia. As comunidades de Pérgamo,
Esmirna, Sardes, Filadélfia e Tiatira serão Igrejas ativas no final do século I. Não sabemos nada sobre suas
fundações. Porém, podemos supor que elas também nasceram durante o ministério efesino de Paulo.

3. A Carta
Colossenses é uma das “Cartas do Cativeiro”, pois Paulo ao escrever a carta afirma estar preso (Cl
4,3.10.18). Mas não diz o lugar de sua prisão, porque provavelmente, era conhecido dos destinatários.
Segundo Atos dos Apóstolos, Paulo foi encarcerado ao menos três vezes:
- At 16,23-40: Em Filipos, durante sua segunda viagem missionária, mas por uma única noite;
- At 23,33–26,32: Em Cesaréia, na Palestina, por dois anos, entre 58-60;
- At 28,16.30: Em Roma, em liberdade vigiada, ou prisão domiciliar, por dois anos, entre 61-63.
A carta aos Efésios é muito próxima de Colossenses pelo estilo, linguagem e teologia, e, portanto,
ambas devem ter sido escritas do mesmo lugar. Em Fm 23-24 e Cl 4,10-14 são lembradas as mesmas
pessoas, o que também supõe a mesma data. A prisão romana de Paulo parece ser a data e o local mais
indicado para as três cartas.
Épafras, fundador da Igreja de Colossos, se encontrava junto do apóstolo. Paulo o chama de “meu
companheiro de prisão em Cristo Jesus” (Fm 23). Não quer dizer que ele também estivesse preso, mas que
condividia a mesma sorte de Paulo, pois, provavelmente morava na mesma casa.
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Provavelmente, Épafras tenha ido a Roma relatar a Paulo o estado da comunidade de Colossos e, ao
mesmo tempo, pedir conselhos e ajuda contra uma nova doutrina que perturbava o ambiente da
comunidade. Épafras sabia do grande interesse de Paulo pela comunidade cristã de Colossos e também de
Laodicéia.
Os colossenses tinham progredido em sua fé e na caridade (1,4.8; 2,5). Porém, surgia uma falsa
doutrina que ameaçava o bem-estar da Igreja. Não é fácil, precisar com exatidão que doutrina era essa.
Paulo a chama de “filosofia” (2,8).
Note-se que se entendia por filosofia qualquer doutrina, mesmo religiosa, sobre o mundo e a vida.
Não sabemos se Paulo tinha ou não elementos suficientes para saber exatamente o conteúdo dessa doutrina.
As alusões na carta são muito vagas. Podemos detectar algumas suas características:
- Em primeiro lugar, nota-se um certo influxo de correntes judaizantes. Não se trata do judaísmo que
Paulo combate energicamente em Gálatas e Romanos. Mas um resquício de judaísmo misturado com idéias
de outras religiões pagãs. Paulo faz apenas uma menção à circuncisão (2,11-13). Talvez esses “filósofos”
pregassem a circuncisão, porém sem dar-lhe importância para a salvação como faziam os judaizantes.
Pregavam a observância de festas anuais, mensais e dos sábados (2,16); a rígida abstinência de alimentos
(2,16.20-22);
- Davam grande importância às “potências”, isto é, a seres celestes que estariam associados aos
astros e que exerciam um certo papel sobre o mundo. Paulo fala de “elementos do mundo” (Cl 2,8) de culto
dos anjos (2,18), de “tronos, dominações, principados e potestades” (2,10.15). Esses seres aparecem como
mediadores entre Deus e os homens, religando a segundo plano a mediação de Cristo. Nesses elementos
todos, vislumbra-se uma clara influência das religiões de mistério, tão em voga na época;
- Um terceiro elemento parece provir de uma espécie de “gnosis”, pois se ressalta a importância do
“conhecimento”. Não se sabe qual o conteúdo desse conhecimento. Porém, através dele, se tinha acesso a
um mundo superior.
Não sabemos também se o pregador dessa doutrina era judeu, pagão ou cristão. Paulo chama esse
perigoso sistema doutrinal de “argumentos capciosos” (2,4), de “vãs e enganosas especulações da filosofia”
(2,8). Não se trata de uma apostasia do cristianismo, mas de um desvio doutrinal.
As conclusões de Paulo são rigorosas: “Quem se une a essa doutrina se separa do Cristo. Ele é o
único mediador entre Deus e os homens” (Cl 2,9-15).
Não sabemos se Paulo escreveu a carta por sua própria iniciativa ou a pedido de Épafras. É bem
provável que o próprio Épafras tenha feito a tarefa de secretário. A carta foi levada a Colossos por Tíquico
(4,7) que deve ter levado também o bilhete a Filemon e acompanhado Onésimo (4,9). Épafras continuou em
Roma assistindo Paulo em sua prisão (4,12). A ordem de Paulo para que a carta fosse lida também em
Laodicéia, dá a entender que também ali se sentia o mesmo perigo .
Timóteo é nomeado como o remetente junto com Paulo, enquanto que Tíquico é enviado a Colossos
com Onésimo, obviamente com o encargo de levar a Carta (4,7-9). Junto com Paulo se encontram diversos
colaboradores: Aristarco, Marcos, Jesus chamado o Justo, Lucas, Demas e sobretudo Épafras (4,10-14).
Este último é apresentado como aquele que, depois de ter fundado a comunidade de Colossos, informou o
Apóstolo sobre a fé da comunidade e os problemas existentes. A Carta contém também uma saudação de
Arquipo (4,17). Todos estes personagens (a exceção de Tíquico e Jesus chamado Justo) são nomeados
também no bilhete a Filemon (Fm 2.11.23), o cristão em cuja casa se reunia com muita probabilidade a
comunidade de Colossos. E no fim a Carta traz a firma de Paulo.

4. Divisão da carta (seguimos o esquema proposto por J.-N. Aletti):

PRÉ-ESCRITO (1,1-2)
I. EXORDIUM (1,3-23)
- Agradecimento de Paulo (3-8)
- Intercessão (9-14)
- Expansão cristológica (15-20)
- O anúncio dos temas a serem tratados (21-23)
a) a obra de Cristo para a santidade dos fiéis (21-22)
b) fidelidade ao Evangelho recebido (23a)

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c) e anunciado por Paulo (23b)
II. ARGUMENTAÇÃO (1,24–4,1)
(desenvolvimento em ordem inversa aos temas anunciados acima)
A) O combate de Paulo pelo anúncio do Evangelho (1,24–2,5)
B) Fidelidade ao Evangelho recebido (2,6-23)
- exortações iniciais gerais (6-7)
a. advertências às práticas de culto (8)
b. motivos cristológicos: Cristo e os fiéis com ele (9-15)
a’. retomada das advertências: resistir às doutrinas erradas (16-19)
- exortações conclusivas (20-23)
C) A santidade dos fiéis (3,1–4,1)
- exortações gerais e princípios introdutivos (1-4
a. mortificar o homem terreno (5-9a)
b. motivações: desvestidos do homem velho e revestidos do homem novo (9b-11)
a’. viver a novidade em Cristo (12-17)
- exortações sobre a vida familiar e doméstica (3,18–4,1)
III. EXORTAÇÃO FINAL (4,2-6)
PÓS-ESCRITO (4,7-18)

5. Autenticidade:
A autoria paulina é atestada pela tradição antiga da Igreja. Porém, no final do século XVIII e início
da século XIX, essa foi fortemente contestada. Muitos biblistas, tanto Católicos como Protestantes,
questionam se a Carta é de Paulo; se é de um discípulo (Timóteo?); se é um resumo da Carta aos Efésios. A
Escola de Tubinga a considerou um produto dos círculos gnósticos do II século. Motivos para duvidar é
que não faltam: 34 vocábulos que não estão em outras partes do NT; 28 que não estão nas demais Cartas
Paulinas; uma dezena que se encontram somente em Efésios. Existem muitas repetições e sinônimos;
faltam alguns dos temas mais caros a Paulo: justiça, justificação, Lei...
O estilo é mais solene. Também ele depende do assunto a ser tratado. Também a teologia de
Colossenses não é tão diferente das outras cartas.

6. Mensagem:
a) O objetivo da Carta aos Colossenses é combater um erro que existia na comunidade: uma
excessiva importância era dada ao culto das potências angelicais. O autor, lembra que Deus no seu plano
salvífico assegurou a Cristo uma tarefa importante. Ele é o mediador da criação (1,15); mediante o seu
sangue derramado reconciliou todas a humanidade com Deus. Cristo é a “cabeça do corpo que é a Igreja”
(1,18.24), e em modo diverso é também o chefe das potências celestes (2,10). Aprouve a Deus em Cristo
fazer habitar toda a Plenitude (1,19) para poder comunicar aos fiéis “a Plenitude da divindade” que habita
em Cristo plenamente (2,9-10), garantindo assim plena dignidade a todos os batizados.
Hoje deveríamos pensar também em tantos erros que de tempos em tempos surgem em nossas
comunidades e produzem estragos grandes. A exemplo de Paulo, deveríamos também estar preocupados
com a boa formação doutrinal e catequética dos nossos dirigentes das comunidades.
b) Através da obra de Cristo os fiéis são libertados do poder das trevas e obtém a remissão dos
pecados (1,13-14). Assim os fiéis são reconciliados com Deus e com todo o universo (1,20). Tudo isso por
meio do batismo, para despojar-se do homem velho e revestir-se do homem novo.
O mundo moderno com todas as suas “luzes”, não deixa de ter as “trevas” que levam tantos à
perdição. Tantas pessoas que vivem alienadas, oprimidas, vivendo como “pessoas velhas”. Se queremos dar
continuidade ao reino de Deus, anunciado e iniciado por Jesus, precisamos construir a nova sociedade, com
homens novos, mulheres novas, que vivam os novos valores do Reino.
c) Os batizados passam a fazer parte da Igreja “corpo de Cristo”, onde não há mais divisões (3,11).
A Igreja é a unidade de todos os seus membros. Ela continua a ser de caráter local (4,15), mas assumindo
uma dimensão universal, pois através dela e por meio dela Cristo realiza desde agora sua senhoria cósmica.

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Somos também chamados hoje a superar as divisões em nossas comunidades, a ajudar a construir
este “corpo de Cristo”. E “agindo localmente e pensando globalmente” cuidar também de toda a vida
terrestre, afinal Deus é o Criador de tudo e a nós humanos foi confiado o cuidado da criação. Não idolatrar
a natureza, mas prestar-lhe todo o cuidado e respeito que ela merece.
d) A adesão a Cristo e a Igreja dá origem ao conhecimento da vontade Deus e de levar uma vida
santa, que se distingue pela prática do amor fraterno e das virtudes (3,12-15), seja nos deveres familiares e
sociais. Maridos, mulheres, pais, filhos, patrões, servos... todos são chamados a um relacionamento novo e
fraterno. (OBS. Este item está melhor elaborado na Carta aos Efésios).
Hoje vivemos uma situação de grave crise familiar. Seja entre os esposos, mas também entre pais e
filhos. Missão de nossa Igreja é acompanhar as famílias e ajudá-la nas suas crises, através das pastorais,
preparando bem as pessoas para o matrimônio. Igualmente, o relacionamento social entre patrões e
trabalhadores precisa ser iluminado pela Palavra de Deus e pela Doutrina Social da Igreja. Vivendo
“revestidos da caridade” faremos “reinar a paz de Cristo em nossos corações” (cf. 3,14-15)

CARTA AOS EFÉSIOS


1. A cidade
Éfeso estava situada na foz do rio Caistro na Ásia Menor, quase em frente da ilha de Samos. Era um
importante centro de tráfego, terrestre e marítimo entre o Ocidente e o Oriente.
Os primeiros habitantes da região parece terem sido os Cários. Logo depois, os fenícios teriam
fundado no local um santuário em honra de uma divindade feminina adorada sob o símbolo da lua. Esse
santuário começou a atrair gente de vários países que ali achavam o direito de asilo. Sob o domínio dos
Jônios, Éfeso tornou-se a principal das doze cidades que formaram a Confederação Jônica. Passou depois
para o domínio dos Persas e depois Alexandre Magno a conquistou em 334 a.C.. Lisímaco, general de
Alexandre, recebeu-a em herança na morte desse. Mas foram os Átalos de Pérgamo que a embelezaram e
enriqueceram.
Em 129 a.C. passou ao domínio romano. Tornou-se a capital da Província Romana da Ásia. De fato,
na época era a maior metrópole da Ásia. No tempo de Paulo a população da cidade era de aproximadamente
de 225 mil habitantes, que viviam do comércio e do turismo. Éfeso era essencialmente uma cidade religiosa.
Ali estava o templo da grande Mãe Diana ou Artêmis, divindade da fecundidade. O templo, uma das
maravilhas do mundo antigo, foi construído no século VI a.C.. Em 356 a.C. foi destruído pelo fogo ateado por
um certo Erostrato, que desejava tornar-se célebre.
Existia, também, em Éfeso um grande número de bruxos e feiticeiros. Muitos deles se converteram
ao cristianismo (At 19,19).
Embora sede de um procônsul, Éfeso era administrada por um conselho de cidadãos aos moldes de
Atenas. Em Éfeso existia uma considerável colônia de judeus.

2. A comunidade de Éfeso
Paulo passou a primeira vez por Éfeso, no final de sua segunda viagem missionária (At 18,19ss).
Por pouco tempo pregou na sinagoga e prometeu voltar. Ali, separou-se de seus companheiros Áquila e
Priscila. Ao voltar na sua terceira viagem missionária, Paulo já encontrou um pequeno núcleo cristão,
provavelmente obra de Áquila e Priscila e possivelmente também de Apolo. Permaneceu na cidade por
longo tempo, por quase três anos. (At 20,31).
Começou pregando na sinagoga por três meses. Diante da incredulidade dos judeus, passou a pregar
na escola de um senhor chamado Tirano, entre as 11 e 16 horas. Sua pregação alcançou grande êxito, pois
muitos dos bruxos e feiticeiros da cidade se converteram e queimaram seus livros mágicos em praça
pública. At 19,11ss fala de milagres que confirmaram sua pregação. Durante sua permanência em Éfeso,
Paulo escreveu a Primeira Coríntios, Gálatas e provavelmente Filipenses. Sua atividade missionária
provocou o surgimento de comunidades cristãs nas cidades da região, não diretamente por ele, mas através

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de seus colaboradores. Conhecemos um deles, Épafras, um colossense de origem pagã que foi convertido
por Paulo em Éfeso. Épafras é o fundador das Igreja de Colossos e Laodicéia. Paulo foi ajudado em sue
ministério por Timóteo e Erastro (At 19,22), Gaio e Aristarco (At 19,29) e Tito.
O apostolado de Paulo foi interrompido pela revolta dos ourives em Éfeso, liderados por Demétrio
(At 19,24ss). De fato os artesãos, fabricantes de templos de prata da deusa Artêmis (Diana) se sentiram
prejudicados pela pregação de Paulo contra a deusa. A revolta conseguiu contagiar toda a cidade que
gritava: “Grande é a Artêmis dos Efésios” (At 19,28).
Embora, os Atos dos Apóstolos, não mencionem nenhuma prisão de Paulo, em Éfeso, a maioria dos
autores admitem sua possibilidade. Durante esse cativeiro, que não deve ter sido muito longo, Paulo teria
escrito a carta aos Filipenses.
A conseqüência da revolta dos ourives foi a partida de Paulo da cidade (At 20,1).

3. Destinatários
O título “aos efésios” (1,1) não consta em nenhum manuscrito anterior ao século IV. O papiro P46, o
mais antigo que temos e que é datado em torno ao ano 200 dC., traz o seguinte destinatário: “àqueles que
são santos e fiéis em Cristo Jesus”. O título “as efésios” também está ausente nos códices Vaticano e
Sinaítico e autores antigos como Orígenes, Basílio, Pelágio e outros. Em todos esses textos encontramos
apenas: “aos santos e fiéis”. De outro lado, é a carta “mais fria” de São Paulo. Não contém saudações
pessoais nem referências a circunstâncias concretas da estadia do Apóstolo em Éfeso.
Foram feitas três propostas a respeito dos destinatários:
a) Efésios seria a carta de Paulo aos Laodicenses (Cl 4,16). Essa destinação é conservada no cânon
de Marcião (140 dC). O texto da Carta é o mesmo, mas a destinação de Ef 1,1 é aos Laodicenses. Sabemos
que a igreja de Laodicéia não foi fundada por Paulo, mas por seu colaborador Épafras. Isso explicaria o
caráter impessoal da carta e a ausência de saudações e notícias pessoais. Mais tarde o nome dos destinatários
teria sido apagado por causa da condenação do bispo de Laodicéia em Ap 3,14-19. Porém, convém notar que
também o bispo de Éfeso é repreendido (Ap 2,4-6).
b) Efésios seria uma Carta circular a várias Igrejas da Ásia. A Carta seria dirigida a todas as Igrejas
da Ásia: Éfeso, Laodicéia, Pérgamo, etc. No primeiro versículo teria se deixado em branco o nome dos
destinatários que seria preenchido por cada comunidade onde a carta fosse lida. Assim se explicaria o
caráter impessoal da carta. A carta seria posteriormente denominada “aos efésios”, porque a Igreja de Éfeso
era a mais importante de toda a Ásia. Alguns autores pensam que o próprio Tíquico, portador desta carta,
como também aquelas de Colossenses e Filemon, fosse o encarregado de colocar o nome de cada
comunidade ao enviar-lhes uma cópia da mesma.
Essa hipótese remonta ao século XVI embora com formulações diferentes. Porém, pode-se
questionar por que Paulo não escreveu “às Igrejas da Ásia” como escreveu “às Igrejas da Galácia” (Gl 1,2)
ou “aos santos que se encontram na Acaia inteira” (2Cor 1,1)?
Alguns autores chegaram a supor que Paulo teria escrito “na Ásia”. Mas o erro de um copista teria
transformado “na Ásia” em “tois ousin” = “os que estão”.
c) A carta é destinada à Igreja de Éfeso. A maior parte dos manuscritos contém a inscrição “em
Éfeso”; e mesmo aqueles que omitem concordam com a destinação efesina da carta.
A falta de notícias no final da carta seria compensada pela presença de Tíquico encarregado disso
(Ef 6,21-22). Tíquico terá a mesma missão em Colossos (Cl 4,7-8).
Mas como explicaria o caráter genérico e impessoal da carta, pois Paulo viveu três anos em Éfeso
(At 20,31)? Textos como 1,15; 4,21; 3,2 parecem supor que o autor não evangelizou os destinatários da
carta.
d) Opinião atual: hoje, a maioria dos críticos da carta optam pela destinação circular da Carta ou a
destinação aos laodicenses. A afinidade doutrinal entre Colossenses e Efésios; o pedido de Paulo em Cl 4,16b;
o mesmo portador das cartas, Tíquico (Ef 6,21; Cl 4,7), orientam para a destinação de “aos laodicenses”.
Alguns autores que admitem a hipótese de uma “carta circular”, pensam na destinação a um número restrito
de comunidades, tais como Éfeso, Laodicéia e uma ou outra igreja da região.

4. Autenticidade paulina
Na antigüidade, a paternidade paulina de Efésios foi aceita unanimemente. O próprio texto se refere a
Paulo várias vezes (1,1; 3,1; 4,1), além da menção de Tíquico, conhecido colaborador de Paulo. Também
essa Carta é colocada entre os escritos paulinos nos cânones mais antigos da Igreja, inclusive no cânone de
29
Marcião, embora com o título “aos laodicenses”. Entretanto no final do século XVIII a autenticidade
paulina foi colocada em dúvida pelos motivos seguintes:

a) Diferenças na língua e no estilo: Em Efésios encontramos cerca de 50 vocábulos que não são
encontrados nos demais escritos paulinos (exceto as cartas pastorais); cerca de 40 vocábulos não aparecem
em outros textos do NT, muitos destes se encontram na LXX e nos escritos dos Santos Padres. Alguns
vocábulos presentes nos escritos autênticos de Paulo, aparecem aqui com significado diverso, como: Igreja,
mistério, plenitude... Por outro lado, faltam alguns termos tipicamente paulinos, como: irmãos, justo,
justificar... O termo justiça, mesmo presente, é utilizado para indicar uma virtude moral.

b) O estilo é mais pesado, com frases longas, repetições, redundâncias, verbos com muitos
complementos... (1,3-14; 1,15-23; 2,1-10; 3,1-6). É próximo ao estilo dos hinos de Qumrã e da LXX.

c) No campo doutrinal, a Igreja não é mais a comunidade local, mas o conjunto de todos os fiéis, os quais
formam um corpo de quem Cristo é a cabeça. Cristo vem apresentado em força da sua ressurreição, como o
pantokra,twr (Onipotente, Senhor do Universo, Soberano Universal...), deixando em segundo lugar
sua morte na cruz. A relação entre Israel e os pagãos são vistos com outra luz. A escatologia é apresentada
como uma realidade já realizada na vida atual dos fiéis. O AT é apresentado de forma nova, dando espaço a
longas citações.

5. Semelhança com Colossenses


Dos 115 versículos de Efésios, 73 possuem paralelo exato em Colossenses. Um terço das palavras de
Colossenses estão em Efésios. Apenas três perícopes não possuem nenhum paralelo em Colossenses:
Ef 2,6-9; 4,5-13; 5,29-33.
Os paralelos mais evidentes são:
Efésios Colossenses
1,6-7 = 1,13-14
1,15 = 1,9
2,1.5 = 2,13
2,15 = 2,14
3,1-13 = 1,14-29
4,15-19 = 2,19
4,22-24 = 3,9-10
5,6 = 3,6
Etc...
A impressão que se tem é que Efésios é simplesmente Colossenses ampliada. Nota-se também, que
o autor de Efésios emprega, às vezes, palavras usadas por Paulo em outras cartas, mas com sentido
diferente. Por exemplo: musth,rion “mistério” em Cl 1,26; 2,2; 4,3 indica o “Cristo em vós”, a pessoa de
Cristo escondida na sua igreja. Mas em Ef 1,9 e 3,4 a mesma palavra indica o plano salvífico de Deus no
qual judeus e pagãos serão unidos em Cristo.

6. Diferença de conteúdo
O acento de Efésios é posto principalmente sobre o Cristo ressuscitado e exaltado, enquanto que a
morte é somente um pressuposto (2,13-16). Existem poucas referências à Parusia, em relação a outras
cartas. Já não se espera uma volta iminente de Jesus.
A Igreja é mais universal que nas outras Cartas. Em Rm 12,5 e 1Cor 12,12-27 o “Corpo de Cristo”
se refere à igreja local, mas em Ef 4,1-16 todos os cristãos são membros de Cristo. Ele é o chefe da Igreja
universal. A Igreja inteira é a “esposa de Cristo” (5,23-32).
Também a doutrina sobre o matrimônio em 5,21-23 é mais desenvolvida.
Tudo isso favorece aos defensores da não autenticidade paulina a Carta. Por outro lado, os
defensores da autenticidade podem se utilizar também destes argumentos. Paulo costuma se
inculturar,adaptar-se às novas realidades, aos novos ambientes. A realidade da região de Éfeso era diversa e
Paulo utiliza o linguajar local, e podia muito bem ter o auxílio de alguém que conhecesse a cultura e este
linguajar. E também poderíamos encontrar aqui a evolução do pensamento Paulino sobre alguns temas,
como por exemplo: Igreja, justiça, ressurreição...
30
Nenhum dos argumentos, isoladamente, são suficientes para negar a autoria paulina de Efésios.
Todavia, tomados em conjunto, deixam, segundo muitos autores, sérias dúvidas sobre a paternidade
paulina. Efésios é, certamente, um desenvolvimento mais maduro da teologia de Paulo. Efésios estaria para
Colossenses, assim como Romanos está para Gálatas. Também a Tradição é unânime na atribuição da carta
a Paulo. É, ainda, muito difícil supor que igrejas paulinas aceitassem calmamente um escrito não paulino
com falsificação de seu nome.
Os que não aceitam a autoria paulina, atribuem a Carta a um seu discípulo que teria escrito algum
tempo após sua morte. Porém, é bastante fantasiosa a hipótese de que a Carta teria sido escrita por Onésimo
para servir de introdução à coleção das Cartas Paulinas.
Entre os que admitem a paternidade paulina, existem também os que acham que Paulo pediu a um
secretário que escrevesse a carta baseada em Colossenses.

7. Data e lugar de composição


Admitindo que Efésios seja de Paulo, deve-se colocar sua composição durante a prisão romana do
Apóstolo, entre os anos 61-63. Efésios é contemporânea de Colossenses e Filemon.

8. Divisão da carta
ENDEREÇO (1,1-2)

I - O MISTÉRIO DA SALVAÇÃO (1,3–3,21)


1) Hino de louvor a Deus pelos benefícios concedidos aos fiéis (1,3-14)
a. eleição (4-6a)
b. redenção (6,b-7)
c. conhecimento do mistério (8-10a)
d. chamado dos judeus à fé (10b-12)
e. o chamado dos pagãos (13-14).
2) Agradecimento e reflexão (1,15–2,22)
a. a supremacia universal de Cristo (1,15-23)
b. também os gentios foram ressuscitados em Cristo (2,1-10)
c. Cristo derrubou o muro que separava judeus e gentios (2,11-22).
3) Solene oração de Paulo (3,1-21)
a. introdução (3,1)
b. parênteses explicativo: conhecimento do mistério de Cristo (3,2-13)
c. oração para obter o pleno conhecimento de Cristo (3,14-21).

II – EXORTAÇÃO (4,1–6,20)
1) Apelo à unidade e carismas (4,1-16)
2) A nova vida em Cristo (4,17–5,20)
3) Conselhos sobre a vida doméstica (5,21–6,9)
4) O combate espiritual (6,10-20).
CONCLUSÃO (6,21-24)

9. Mensagem
É considerada a “Carta Magna da Igreja”; a síntese completa e mais desenvolvida da mensagem
paulina. Não é uma carta polêmica, mas solene e litúrgica. Porém, essa carta contém uma reflexão
aprofundada sobre o mistério da salvação, concebido desde a eternidade em Deus e atuado em Cristo Jesus
e na Igreja.
Por obra de Cristo os judeus são os primeiros a receber esta mensagem, pois eles esperaram por ela.
Mas agora ela é dirigida também aos gentios. Antes havia entre eles a barreira da Lei. Os gentios não são
mais estrangeiros nem hóspedes, mas cidadãos dos santos edificados sob o fundamento dos Apóstolos e dos
Profetas, tendo Cristo como pedra angular. Nele são edificados para tornar-se morada de Deus por meio do
Espírito Santo (2,19-22).
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Esta reconciliação se atua na Igreja, que é o corpo de Cristo, que possui a plenitude de toda a
divindade (1,22-23). Os cristãos devem viver vida nova, inclusive nas relações familiares (5,21–6,9), pois
abandonaram o homem velho e os seus vícios e se revestiram de homens novos (4,20-24).

CARTA AOS ROMANOS


IMPORTÂNCIA DA CARTA
A Carta aos Romanos representa a síntese mais elaborada da teologia paulina, mesmo faltando a
eclesiologia. Sob o aspecto histórico, Romanos ocupa uma grande importância porque:
a) Santo Agostinho teve um último impulso à conversão lendo a Carta aos Romanos (Confissões
8,12,23);
b) Foi o ponto de partida da Reforma Protestante: Lutero escreveu seu “Comentário aos Romanos”,
em 1515, e aí já se encontram sua idéias sobre a justificação;
c) Calvino, no seu livro Christianae religionis institutio fundamenta sua doutrina da predestinação
na Carta aos Romanos (1539);
d) O Concílio de Trento, fundamenta em Romanos a doutrina Católica da justificação e do pecado
original;
e) Em 1918, Karl Bart iniciou o novo movimento protestante tendo como ponto de partida o
“Comentário à Carta aos Romanos”;
f) A tradução Ecumênica da Bíblia começou pela Carta aos Romanos. Segundo o pastor M. Boegner
‘o texto das nossas divisões’ devia tornar-se ‘o texto do nosso encontro’ (1965).
g) Em 31 de outubro de 1999, em Augsburgo, na Alemanha, foi firmada a Declaração Conjunta
sobre a Doutrina da Justificação (DCDJ), assinada entre a Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica
Romana. Sabemos que grande parte de todo o problema historio em torno da Justificação foi a interpretação
na Carta aos Romanos.

A IGREJA DE ROMA
É a primeira carta de Paulo à uma Igreja que não fundou. Pergunta-se, então, quem anunciou o
Evangelho na capital do império? Nessa época, Roma possuía aproximadamente um milhão de habitantes,
formado por grupos étnicos diferentes vindos de toda a parte do império. Entre eles estava uma grande
colônia judaica. O primeiro testemunho de judeus em Roma vem de 139 a.C. Na época do Novo
Testamento eram aproximadamente 50 mil judeus; habitavam a região de Trastévere e possuíam mais de 10
sinagogas. Os judeus sofreram medidas restritivas por parte dos romanos e sua religião era chamada
“superstitio bárbara”.
É no interior dessa comunidade judaica que vamos encontrar a origem da Igreja de Roma.
Provavelmente os primeiros a levar a Boa-Nova até Roma foram os peregrinos judeus, prosélitos que
presenciaram o acontecimento de Pentecostes em Jerusalém no ano 30 d.C. e se converteram com o sermão
de Pedro (At 2,14.41). O certo é que não sabemos exatamente quem foram esses primeiros missionários.
Evidentemente, a presença de cristãos deu lugar a discussões e tumultos no gueto judeu de Roma.
Assim escreve Suetonio na “Vida de Cláudio”: ‘Judaeos assidue tumultuantes impulsore Chresto Roma
expulit’.
Sem dúvida esse “Chresto” era de fato Cristo que se tornara o pomo da discórdia nas sinagogas de
Roma, obrigando o imperador Cláudio a decretar a expulsão dos judeus de Roma. Isso ocorreu no ano 49.
Priscila e Áquila que nessa ocasião tiveram que abandonar Roma, foram para Corinto onde encontraram-se
com Paulo (At 18,1-3).
Assim a comunidade cristã que era formada por judeus-cristãos e gentios convertidos com a expulsão dos
primeiros, tornou-se uma comunidade de cristãos provenientes dos pagãos. A proibição de reunir-se nas
sinagogas obrigou-os a procurar as casas dos cristãos. Essa separação da sinagoga não foi somente local,
mas deu origem a muitas comunidades domésticas compostas somente de gentios-cristãos.
Mais tarde, quando Nero revogou o edito de Cláudio, muitos cristãos-judeus voltaram a Roma. Mas
encontraram uma comunidade cristã nova, emancipada dos laços com o judaísmo e muito numerosa. A
convivência entre os dois grupos nem sempre foi pacífica.
Quando Paulo escreveu essa carta, a comunidade na sua maioria era formada de pagãos-cristãos (Rm 1,5-
32
6.13; 11,11-13; 15,16). Basta ver a relação dos nomes que aparece no final da Carta. Muitos deles não são
nomes judeus. Era uma comunidade marcada por divisões (Rm 14-15). Alguns autores pensam que essa
comunidade não possuía a estrutura de Igreja antes da chegada de Paulo, daí a omissão da expressão
“Igreja” no endereço da carta.
Sem dúvida, o fortalecimento da fé cristã em Roma foi obra de Pedro e Paulo. É difícil precisar o ano da
chegada de Pedro em Roma. At 12,17 fala da fuga de Pedro de Jerusalém, mas não oferece nenhuma base
para se dizer que ele tenha ido à Roma. É certo também que Pedro não estava em Roma quando Paulo ali
esteve pela primeira vez (61-63 d.C.).
Mas os dois Apóstolos receberam o título de “fundadores da Igreja de Roma” talvez quase que substituindo
os fundadores da cidade de Roma, Rômulo e Remo, cuja festa se celebrava aos 29 de junho, data depois
cristianizada. Esse título se deve também ao fato que ambos foram martirizados em Roma: Pedro no ano de
64; Paulo no ano de 68.
Foi a comunidade que mais sofreu com a perseguição, principalmente a de Nero. Será considerada a
comunidade ‘Mãe de todas’ por causa da morte de Pedro e de Paulo.

A CARTA
Objetivo da Carta aos Romanos
A Carta aos Romanos é um escrito de ocasião ou uma carta doutrinal?
Normalmente as cartas de Paulo são escritos ocasionais, isto é, procuram responder a situações
concretas dos destinatários ou do próprio Apóstolo (cf. 1 e 2Ts, 1 e 2Cor, Gl e Fl).
Porém, segundo alguns autores, a carta aos Romanos parece não se encaixar nessa lógica: parece, à
primeira vista, que Paulo fez uma exposição do seu sistema teológico. Alguns autores chamaram a carta de
“christianae religionis compendium” (Melauchtou). Mas aí faltam aspectos como a escatologia, cristologia,
Eucaristia...
Mas atualmente se procura fazer uma leitura histórica da carta. Porém o problema é: onde encontrar
a chave histórica interpretativa da carta?
a) Para alguns essa chave interpretativa deve ser buscada na comunidade cristã de Roma e nos seus
problemas eclesiais. Paulo teria escrito a carta com o objetivo de reconciliar e pacificar a Igreja Romana
dividida entre gentios-cristãos e judeus-cristãos.
b) A situação histórica interpretativa não estaria na Igreja Romana, mas em Paulo e na situação em
que se encontrava. Isto é, ele já tinha evangelizado todo o Oriente e projetava evangelizar a Espanha. Por
isso escreve aos romanos: a carta seria uma espécie de bilhete de visita que ilustraria sua mensagem
evangélica. Muitos autores acham que Roma não era apenas uma parada na viagem à Espanha, mas um
lugar importante para a pregação do Evangelho.
c) O problema estaria entre Paulo e Jerusalém. O Apóstolo estava preocupado com um possível
confronto com os chefes da Igreja de Jerusalém onde deveria defender o Evangelho anunciado nas Igrejas
gentio-cristãs. Em particular, a carta aos Romanos estaria unida à crise da Galácia e seus reflexos no judeu-
cristianismo na Palestina. Paulo, portanto, exporia aos romanos o evangelho que pensava defender em
Jerusalém. É muito difícil optar por uma das alternativas somente. O certo é que a Carta aos Romanos não
poder ser entendida como um escrito dogmático-ahistórico. Na carta, Paulo se preocupa com problemas
concretos da comunidade romana (12,1–15,13); mas na parte dogmática não faz referências a seus
destinatários (cf. 1-11); e Paulo sabia que indo à Jerusalém levar o resultado da coleta feita em Corinto
como “sinal de comunhão” (15,26) teria que vencer a aversão dos judaizantes e a desconfiança dos chefes
da Igreja de Jerusalém.
d) Contrariamente a quanto se afirmou por muito tempo, não é um tratado teológico, mas é sim um
texto pastoral, como todas as Cartas de Paulo. Nasceu por sua paixão pela evangelização entre os pagãos.
Paulo afirma ser “ministro de Jesus Cristo” (15,16). Além disso é a Carta de Paulo que mais cita nomes de
pessoas (11 mulheres e 18 homens). Portanto, Paulo devia não somente saber o nome das pessoas, mas suas
alegrias e suas tristezas; suas riquezas e seus problemas.

Local e data da Carta


A carta não faz menção do lugar onde foi escrita. Mas, com muita probabilidade, foi escrita em
Corinto. Paulo, esteve em Corinto pela primeira vez durante sua segunda viagem missionária quando
evangelizou a cidade. Permaneceu ali por um ano e meio (At 18,11). Retornou a Corinto durante a terceira
33
viagem missionária vindo de Éfeso e da Macedônia. Esteve na cidade por três meses (At 20,2-3) durante o
inverno de 57/58. Nesse período, Paulo fez a coleta para a Igreja de Jerusalém (Rm 15,25-29). Foi também,
com grande probabilidade, que escreveu a carta aos Romanos. Alguns indícios da carta nos permitem essa
afirmação:
a) 16,1: Paulo recomenda aos romanos, a diaconisa da Igreja de Cencréia, Febe. Alguns autores
pensam que Febe seria a portadora da carta.
b) 16,23: Paulo envia saudações da parte de Gaio “que hospeda a mim e a toda a Igreja”. É natural
identificar esse personagem com o Gaio que o Apóstolo batizou em Corinto (1Cor 1,14).
C) 16,23: Também “Erastro, administrador da cidade” envia saudações aos romanos. Sem dúvida é
o mesmo Erastro que permaneceu em Corinto conforme 2Tm 4,20.

Divisão da carta
Em alguns aspectos é uma carta difícil de ser dividida. Existem inúmeras propostas de divisão:
Sugerimos esta:

SAUDAÇÃO E AÇÃO DE GRAÇAS (1,1-15)


I – O EVANGELHO É A FORÇA DE DEUS QUE SALVA (1,16–8,39)
Tema geral (1,16-17)
a) A ira de Deus (1,18–3,20)
b) A salvação vem pela fé (3,21–4,25)
c) Viver de modo novo (5,1–8,39)
II – DEUS E ISRAEL (9,1–11,36)
III – A VIDA CRISTÃ (12,1–15,13)
CONCLUSÃO (15,14–16,27)
Ministério de Paulo, projetos, saudações, recomendação e louvor

Chave de leitura da Carta


Apresentamos abaixo uma possível chave de leitura da Carta aos Romanos; é uma hipótese sugerida
pela Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB): um esquema que leva a uma leitura trinitária da Carta, a partir
do confronto entre o estado de miséria e o estado de salvação da humanidade.
1,18–3,20 3,21–4,25
descrição dos pagãos e judeus descrição da humanidade Leitura PAI
no domínio do pecado salva pela Graça de Cristo jurídica
5,1-14 5,15–6,23
a humanidade solidária a Adão a humanidade tem a chance de Leitura FILHO
ser solidária a Cristo sacramental
7,1-25 8,1-39
a humanidade escrava da Lei a humanidade liberta Leitura ESPÍRITO
pelo Espírito espiritual SANTO
9,1–10,21 11,1-36
Rejeição de Israel a Jesus Cristo Israel tem acesso Leitura SALVAÇÃO
a salvação em Cristo histórica TRINITÁRIA

AS CARTAS PASTORAIS
Introdução

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As cartas a Timóteo e a Tito são chamadas “Pastorais” desde o século XVIII. O título é
perfeitamente justificado porque são endereçadas a pastores das Igrejas, amigos e colaboradores de Paulo,
e porque contém conselhos e deveres de caráter pastoral dos dirigentes de comunidades.
No epistolário paulino, excetuando a Carta a Filemon – que tem um objetivo diferente, são as únicas
cartas dirigidas a indivíduos. Porém esses indivíduos, Timóteo e Tito são responsáveis por Igrejas, dois
discípulos prediletos do Apóstolo. Apresentam, também, uma certa homogeneidade de vocabulário, estilo e
perspectiva teológica espiritual. Portanto, formam um bloco bem definido no conjunto do “Corpus
Paulinum”.
Em relação a essas cartas, deve ser entendido em sentido amplo, quase sinônimo de “comunitário”.
De fato, as instruções dadas aos pastores, abarcam todos os setores da vida eclesial: desde a oração até o
relacionamento inter-pessoal.
Essas orientações são, muitas vezes, fundamentadas com textos de catequese, liturgia, profissões de
fé, que são baseadas na tradição.
Assim, “as pastorais”, além de fornecer um interessante panorama de organização das comunidades,
apresentam, também, uma preciosa documentação da catequese primitiva. A grande preocupação dessas
cartas é “conservar e transmitir fielmente o ‘depósito da fé’”.
Porém outros dois problemas monopolizaram o debate das Cartas Pastorais.
Sob o ponto de vista teológico, foram consideradas em alguns ambientes protestantes alemães, como
um clássico exemplo de um “cristianismo burguês”, isto é, caracterizado pela perda da tensão escatológica
e marcado por tendências institucionalizantes. Assim se falou em “proto-catolicismo”, porque o objetivo
das cartas seria conformar o projeto cristão com o ambiente da época.
Rebatendo a crítica Protestante, os autores Católicos procuraram mostrar a continuidade dessas
cartas com a Tradição cristã primitiva.

O problema da autenticidade paulina


O problema surgiu no século XIX com a crítica racionalista. Em 1804, J. E. C. Schmidt negou a
autenticidade de Primeira Timóteo. Aos poucos a negação atingiu também as outras duas cartas que foram
atribuídas a um falsário do século II, o qual teria usado o nome de Paulo para combater o gnosticismo e dar
crédito à doutrina do episcopado monárquico na Igreja. Outros autores, menos radicais, atribuíram as cartas
a um discípulo de Paulo ou a São Policarpo de Esmirna ou a um membro do seu clero.
Atualmente, muitos autores Católicos e mesmo não Católicos admitem a autenticidade paulina das
Cartas Pastorais.
a) Os argumentos contra a autenticidade paulina são:
- Vocabulário diferente das outras cartas.
- O estilo é lento e monótono sem a variedade das outras cartas.
- O vocabulário com muitos termos novos; algumas palavras são substituídas por outras. Ex:
parusia por epifania para dizer a volta de Cristo.
Resposta: Nem o estilo, nem o vocabulário são decisivos para negar a autoria paulina, sobretudo se
tomarmos em consideração a participação ativa dos secretários (Rm 16,22) que não eram simples copistas.
Também, o estilo e o vocabulário são normalmente condicionados pelo argumento tratado, pelo
estado de espírito do autor e pelos destinatários diretos dos escritos. Paulo, nas Pastorais, usa um tom
familiar e simples porque se dirige, como pai, a filhos responsáveis por comunidades.
b) A doutrina: é mais normativa-jurídica. Insiste-se na fidelidade à “verdade”. A fé é vista como um
conjunto de verdades a qual se deve crer, e não como adesão à pessoa de Cristo.
Resposta: Sem dúvida, a doutrina das pastorais é muito mais pobre e ao tipo prático-normativo.
Mas, isso depende do objetivo que o autor quer alcançar e das circunstâncias históricas em que escreve.
c) Os erros combatidos seria o gnosticismo na forma que assumiu no século II.
Os hereges possuem uma mentalidade dualista (1Tm 4,3-5; 2Tm 2,18; Tt 3,5); dá-se mais
importância ao aspecto intelectual da fé do que às obras (Tt 3,5)
Resposta: Os erros combatidos nas Pastorais, não se apresentam como um sistema doutrinal bem
definido como o gnosticismo do século II.
Talvez se tratasse do início da gnose ou de alguma tendência gnóstica do próprio judaísmo (Tt 1,14
fala de fábulas judaicas).

35
Note-se, também, que enquanto o gnosticismo de Marcião e Valentino rejeitava o Antigo
Testamento em bloco, as Pastorais o supervalorizam.
d) A organização eclesiástica seria muito desenvolvida. Prevalece a Igreja das estruturas no lugar da
Igreja Carismática. Já aparecem bem delineados os membros de uma hierarquia interna na Igreja
(epíscopos, presbíteros, diáconos).
Resposta: Uma organização eclesiástica bem evoluída, é a razão mais forte contra a autoria paulina.
Porém devemos evitar dois exageros:
- Não existe nenhum interesse pela hierarquia nos escritos do Novo Testamento anteriores às
Pastorais. É um juízo falso.
Nota-se certos graus de hierarquia em algumas comunidades: os Atos dos Apóstolos falam de
“epíscopos e presbíteros”; “epíscopos e diáconos” em Fl 1,1; são mencionados os chefes de Igrejas em 1Ts
5,12; 1Cor 16,16; Rm 12,8.
As Pastorais apresentam, apenas, uma maior preocupação pela organização das comunidades, daí a
maior insistência nesses termos.
Essa organização é apresentada como perfeita. Na realidade o processo organizativo chegará ao
ponto definitivo somente no século II com a doutrina do episcopado monárquico como aparece nos escritos
de Santo Inácio de Antioquia.
e) Nas Pastorais, ainda há muita confusão: presbíteros e epíscopos são, praticamente, sinônimos;
Tito Timóteo não são bispos residenciais, mas itinerantes à disposição do único chefe de todas as
comunidades. As notícias pessoais de Paulo não se enquadram no que sabemos do Apóstolo sobretudo
através dos Atos.
Resposta: Certamente os dados biográficos e cronológicos das Pastorais não se enquadram na vida
de Paulo até o ano de 63.
É certo, também, que o autor dos Atos dos Apóstolos não tencionava fazer uma biografia de Paulo.
Seu objetivo era outro (At 1,8). Já vimos na introdução a Paulo que nem sempre Atos e Paulo coincidem, e
- nestes casos sempre devemos dar mais razão aos escritos paulinos.
O problema é saber o que aconteceu com Paulo após o ano de 63. Sabemos que Paulo desejava ir à
Espanha. Se, de fato, aconteceu essa viagem, só pode ter sido após sua libertação da primeira prisão em
Roma (63/64d.C.). As Pastorais são ambientadas no retorno dessa viagem, entre os anos 65-67d.C. Paulo
teria, então, feito sua última viagem à Ásia para rever sua comunidades. Nessa ocasião, deve ter deixado
Timóteo como “epíscopo” de Éfeso e Tito da ilha de Creta.
Paulo esteve ainda em Mileto onde se separou de Trófimo que estava doente (2Tm 4,20), em
Nicópolis (Tt 3,12) e em Trôade (2Tm 4,13). Parece ter sido preso novamente em Trôade, pois deixou ali
seu manto e alguns pergaminhos. Esteve também na Macedônia e dali entre 65 e 66 teria escrito a Primeira
Carta a Timóteo e a Tito. Levado prisioneiro para Roma em 66, de lá teria escrito sua última carta, a
Segunda Timóteo, quando já pressentia seu fim (2Tm 4,6-8). Paulo foi decapitado em Roma em 67/68 d.C.

Destinatários das cartas


a) Timóteo
Era originário da cidade de Listra na Licaônia. Seu pai era grego e sua mãe judia (At 16,1). Não se
fala nada sobre seu pai, talvez já morto quando conheceu Paulo. Foi educado por sua mãe Eunice e por sua
avó Lóide que lhe transmitiram a fé judaica e o conhecimento da Lei de Moisés (2Tm 3,15). Mas por ser
filho de pai gentio não foi circuncidado ao oitavo dia. Provavelmente conheceu Paulo por ocasião da
segunda viagem missionária.
Tornou-se conhecido da comunidade cristã e gozava de grande estima. Foi durante a segunda
viagem missionária, ao passar novamente por Listra que Paulo batizou-o e o tomou como seu colaborador.
E para facilitar seu contato com os judeus, Paulo fez com que Timóteo fosse circuncidado (At 16,1). Desde
então, tornou-se o colaborador fiel do Apóstolo. Esteve com Paulo no momento em que foram escritas as
cartas: 1-2 Tessalonicenses (1Ts 1,1; 2Ts 1,1); 2 Coríntios (2Cor 1,1); Romanos (Rm 16,21); Filipenses (Fl
1,1); Colossenses (Cl 1,1) e Filemon (Fm 1). Acompanha Paulo na Macedônia (At 17,14-15); a Corinto (At
18,5) e a Éfeso (At 19,22). Desempenhou várias tarefas de confiança de Paulo e muitas vezes difíceis (1Ts
3,1-2.5-6; 1Cor 4,17; 15,10; Fl 2,19-24; Rm 16,21).

36
Timóteo tinha uma saúde delicada (1Tm 5,23) e um caráter tímido e indeciso (1Cor 4,17; 16,10-11;
1Tm 4,12) talvez reflexo de sua educação familiar e da personalidade de Paulo com quem conviveu.
Não sabemos quando recebeu a imposição das mãos (1Tm 4,14; 2Tm 1,6). A primeira carta a ele
destinada apresenta-o como responsável da Igreja de Éfeso. Paulo escreve para encorajá-lo e alertá-lo
contra os falsos doutores (1,3-20; 4,1-5; 6,3-10).
Esteve, provavelmente, com Paulo na época de seu martírio. Depois deve ter retornado a Éfeso
onde, segundo a tradição, morreu mártir no ano de 97.

b) Tito
Tudo o que sabemos de Tito provém dos poucos dados fornecidos pelas cartas paulinas. Não é
mencionado nos Atos dos Apóstolos. Era filho de pais gregos (Gl 2,3). Foi convertido ao cristianismo pelo
próprio Paulo (Tt 1,4; 1Tm 1,2; 2Tm 1,2) que o chama de “filho”. Não foi circuncidado, como Timóteo.
Sua conversão deve ter ocorrido na primeira viagem missionária, pois no final dessa foi com Paulo e
Barnabé à Jerusalém para a assembléia em 49/50 (Gl 2,1-5; At 15,2).
Acompanhou Paulo a Éfeso durante a terceira viagem missionária. Dali foi enviado por Paulo para
Corinto (2Cor 2,12ss; 7,6ss; 12,18) e mais tarde, outra vez para organizar a coleta em Corinto e nas Igrejas
da Acaia (2Cor 8,6.23; At 20,4; Rm 15,26). Foi provavelmente ele que levou a perdida “Carta em lágrimas”
até Corinto.
Após a libertação da sua primeira prisão romana, Paulo o encarregou do governo da Igreja de Creta
(Tt 1,5). Depois foi encontrar-se com Paulo em Nicópolis no Épiro, sendo substituído em Creta por
Artemas e Tíquico (Tt 3,12). Não sabemos se de Nicópolis ou de Roma, Paulo enviou-o para evangelizar a
Dalmácia (2Tm 4,10) onde seu culto é muito difundido ainda hoje.
Tito parece ter sido um homem forte, de intuito rápido e ótimo organizador. É provável que após a
morte de Paulo, tenha voltado para Creta. Segundo uma antiga tradição, Tito morreu em Creta com 93 anos
de idade.

As cartas
a) Primeira Carta a Timóteo
Foi escrita, provavelmente, na Macedônia pelo ano 65/66.
Objetivo: A Carta quer alertar Timóteo enquanto dirigente da Igreja de Éfeso,a respeito dos falsos
doutores (1,3-20; 4,1-11; 6,3-10). Além da defesa da sã doutrina, a Carta apresenta uma série de
admoestações a Timóteo e aos que dirigem ou ocupam cargos diretivos na comunidade. São admoestações
sobre a vida interna da comunidade.

Divisão:

SAUDAÇÃO (1,1-2)

INTRODUÇÃO (1,3-11)
a) Missão de Timóteo (1,3-4)
b) Necessidade de afrontar os desvios (1,5-11)
- identidade dos falsos doutores (1,5-7)
- a lei foi feita para os injustos e não para os justos (1,8-11)
CORPO DA CARTA
a) Transmissão do Evangelho sob a supervisão de Paulo (1,12-20)
- vocação de Paulo (1,12-17)
- responsabilidade de Timóteo (1,18-20)
b) Como comportar-se na casa de Deus (2,1–3,15)
- oração (2,1-15)
- ministérios (3,1-13)
- texto conclusivo (3,14-15)
c) A sã doutrina da piedade (3,16–4,11)
- o mistério da piedade (3,16)
- ataque contra a apostasia (4,1-5)
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- o verdadeiro pastor (4,6-10)
- texto conclusivo (4,11)
d) Instruções a Timóteo sobre o governo (4,12–6,2)
- a conduta de Timóteo (4,12–5,2)
- orientações para as várias categorias de fiéis (5,3–6,2a)
- texto conclusivo (6,2b)
e) Modo de tratar com os que se desviaram (6,3-10)
- o retrato do falso doutor (6,3-5)
- eficácia da piedade unida à moderação (6,6-10)
f) Transmissão do Evangelho com a supervisão de Deus (6,11-16)
- o comportamento e o testemunho do homem de Deus (6,11-14)
- texto doxológico conclusivo (6,15-16)
- acréscimo: recomendações aos cristãos ricos (6,17-19)
CONCLUSÃO (6,20-21)

b) Segunda Carta a Timóteo


Esta Carta seguramente foi escrita durante a segunda prisão de Paulo em Roma (2Tm 1,8; 2,29)
entre os anos 66/67.
Paulo chama Timóteo a Roma o quanto antes (4,9.21), dando a impressão que pressente que o
martírio se aproxima. Não sabemos o motivo dessa segunda prisão de Paulo. É certo que Paulo
experimentou uma série de abandonos e até de traições (1,15; 4,14s). Estava com ele, em Roma apenas
Lucas. Os outros colaboradores estavam longe por causa do apostolado ou por outros motivos (4,10).
A 2Tm representa o testamento espiritual de Paulo, que já tem consciência do fim próximo (4,6).
Assim, podemos entender a recomendação para que Timóteo se dedique com todas as forças ao serviço do
Evangelho (1,6–2,13; 4,1-8), à defesa da verdadeira doutrina (3,10-17) e à luta contra os falsos doutores.
Outro motivo é informar Timóteo de sua grave situação e pedir-lhe que venha a Roma o mais rápido
possível (4,9).

Divisão:

SAUDAÇÃO E AÇÃO DE GRAÇAS (1,1-5)


CORPO DA CARTA
1. O verdadeiro pastor (1,6-18)
a) testemunho corajoso (1,6-8)
b) o dom da salvação (1,9-10)
c) o exemplo de Paulo (1,11-18)
2. O comportamento de Timóteo (2,1-26)
a) transmissão das verdades ouvidas (2,1-2)
b) participação aos sofrimentos do Apóstolo (2,3-7)
c) comunhão total com Cristo (2,8-13)
d) Luta contra as falsas doutrinas (2,14-26)
3. Os últimos tempos (3,1-17)
a) apostasia final (3,1-9)
b) o comportamento de Timóteo no passado (3,10-13)
c) exortação à fidelidade (3,14-17)
4. Textos finais (4,1-18)
a) solene admoestação (4,1-5)
b) testamento de Paulo (4,6-8)
c) notícias e recomendações (4,9-18)

SAUDAÇÕES FINAIS

38
c) Carta a Tito
Foi escrita na Macedônia entre 65/66 d.C. e deve ser colocada entre a Primeira e a Segunda Timóteo
A Carta é uma breve instrução que o Apóstolo dá a Tito, seu colaborador na evangelização da ilha
de Creta. Tito deve organizar a “hierarquia” nas várias comunidades (2,5), combater as falsas doutrinas, e
admoestar todos os que ocupam cargos importantes nas comunidades.

DIVISÃO:
ENDEREÇO E SAUDAÇÃO (1,1-4)

MISSÃO DE TITO (1,5-9)


CORPO DA CARTA (1,10–3,11)
1. Proteger-se dos falsos doutores (1,10-16)
2. Orientações sobre as relações com certos fiéis (2,1-15)
a) exortações para os velhos, os jovens e os escravos (2,1-10)
b) motivação: a graça de Deus se manifestou (2,11-14)
c) conclusão (2,15)
3. Orientações para as relações com os não-crentes (3,1-8)
a) exortações práticas: submissão às autoridades (3,1-2)
b) motivação: manifestação da bondade de Deus (3,3-7)
c) conclusão (3,8)
4. Proteger-se dos falsos doutores (3,9-11)
RECOMENDAÇÕES FINAIS E SAUDAÇÃO (3,12-15)

CARTA A FILEMON
1. Autoria e data:
A autoria de Filemon não é questionada por ninguém. Somente ela, entre as epístolas, é uma carta
pessoal privada, aliás o texto mais pessoal do Apóstolo Paulo. É também a mais breve das cartas de Paulo.
Filemon (vem do grego: philemon = “amoroso”). Mas dele também não sabemos muito. Era um cristão de
Colossas, ainda que não se fale dele na Carta aos Colossenses, mas na casa dele se reuniam os cristãos (Fm
2). Talvez não é a mesma comunidade que recebeu a Carta. Filemon deve ter sido convertido por Paulo
(provavelmente em Éfeso), pois a Paulo ele deve muito: “É claro que não preciso fazer você se lembrar de
que também você me deve a própria vida” (Fm 19). Paulo o chama de Koinonós “irmão na fé” ou sócio.
Também não sabemos quem são Ápia (esposa de Filemon?) e nem Arquipo (filho de Filemon?) a
quem Paulo chama de “companheiro de luta”.
Em 11, Paulo joga com o nome Onésimo (do grego “útil”) e alude aos serviços que Onésimo lhe
tinha prestado. Paulo não pede explicitamente a alforria de Onésimo, mas que Filemon perdoe a Onésimo
por qualquer ofensa que ele tenha feito e que o receba como irmão, não como escravo. O apelo não ataca
diretamente a instituição da escravatura, mas cria uma atmosfera em que seria difícil a sobrevivência da
mesma. É uma carta que levanta muitas perguntas, algumas das quais ficam sem resposta.
Filemon é, justamente com Colossenses, Efésios e Filipenses, umas das “epístolas do cativeiro” e foi
enviada a Colossas através de Tíquico, que levou também a Carta aos Colossenses, mais provavelmente de
Éfeso, então a data seria em torno de 56-57. Alguns defendem que Paulo estava preso em Roma, então deve
ser datada em torno a 62-63. Foi escrita do próprio punho por Paulo.

2. Divisão:
a) Saudação.(1-3)
b) Exortação: Ação de graças pela fé e amor fraterno de Filemon. Alusão ao que deve ser feito (4-9)
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c) Tese: súplica em favor de Onésimo (10)
d) Motivações (11-18)
- Utilidade de Onésimo para Filemon (11)
- Utilidade de Onésimo para Paulo (12-14)
- Nova condição de Onésimo (15-16)
- A garantia dada por Paulo (17-18)
e) Epílogo / conclusão (19-20)
f) Recomendações e saudação final (21-25)

3. Mensagem
É certo que vinte séculos depois, muitos gostariam de ver neste escrito, uma firme condenação do
sistema escravagista. Paulo seguramente sabia que as comunidades cristãs ainda eram pequenas dentro do
grande império. Elas ainda não tinham força para derrotar um sistema. Se não se podia mudar o grande,
devia-se atuar no micro. Portanto, é aqui que a carta a Filemon tem sua grande mensagem. Não importa
ainda a mudança social, mas a maneira do relacionamento entre os membros da comunidade. Depois da
carta, torna-se difícil que duas pessoas possam ser verdadeiramente irmãos se existe entre eles a divisão
“patrão-escravo”. Paulo pede a Filemon que receba Onésimo “não mais como escravo... mas como um
irmão caríssimo” (vv.15-16).
Paulo se recorda do que escreveu aos Gálatas “já não há mais escravo nem livre” (Gl 3,28). A vida
comunitária deve superar todas as divisões levando à igualdade entre as pessoas. Mais tarde, São João
Crisóstomo, o mais radical intérprete de Paulo no campo social, continuará esta missão.

QUEM INVENTOU CRISTO?


O mundo cristão não seria o mesmo sem a mensagem que São Paulo transmitiu ao Império Romano. Para conquistar fiéis,
ele fez concessões que desagradaram aos discípulos de Jesus – e ainda despertam acirradas discussões
entre pensadores e religiosos. Afinal, Paulo espalhou ou deturpou a palavra de Cristo?

Estamos no ano 34 da era cristã. Passaram-se poucos anos desde a crucificação de Jesus. Sua mensagem espalhou-
se rapidamente por toda a Palestina e seus discípulos eram implacavelmente perseguidos, principalmente pelos judeus. Os
seguidores de Jesus são acusados de heresia e traição à Lei de Moisés. Em Jerusalém, um jovem judeu chamado Saulo faz
verdadeiras atrocidades com os cristãos. Persegue-os furiosamente, invade suas casas e os manda para prisão. Informado de
que, a cada dia, cresce a comunidade cristã em Damasco, na Síria, pede e obtém do Sinédrio, o Supremo Tribunal da
comunidade judaica de Jerusalém, cartas de recomendação aos rabinos daquela cidade, autorizando-os a caçar os hereges
cristãos. Acompanhado de alguns homens, percorre a cavalo os cerca de 200 quilômetros até Damasco. Depois de sete dias
de viagem, sob um sol escaldante, consegue finalmente avistar as muralhas da cidade. Mas, de repente, uma forte luz vinda
do céu incide sobre ele e assusta seu cavalo, que o joga no chão. Naquele instante, o jovem judeu ouve uma voz que diz:
"Saulo, Saulo, por que me persegues?" Atônito, ele indaga: "Quem és, Senhor?" A voz responde: "Jesus, a quem tu
persegues. Mas levanta-te, entra na cidade e te dirão o que deves fazer".
O séquito de Saulo permanece mudo de espanto, sem entender de onde vem aquela voz. Saulo, por sua vez, ergue-
se do chão, mas não consegue enxergar nada. Em Damasco, permanece três dias e três noites em jejum, refletindo sobre o
estranho acontecimento, até ser visitado por Ananias, um discípulo de Cristo, que lhe diz: "Saulo, meu irmão, o Senhor me
enviou. O mesmo que te apareceu no caminho por onde vinhas. É para que recuperes a vista e fiques repleto do Espírito
Santo". Nesse exato momento, duas escamas caem dos olhos de Saulo, que volta a ver. Em seguida, ele é batizado.
Convertido, Saulo de Tarso tornou-se aquele que talvez tenha sido o mais importante difusor da palavra de Jesus: São
Paulo.
O episódio acima, narrado em detalhes no livro Atos dos Apóstolos, do Novo Testamento, teria marcado
radicalmente a vida de Paulo. Não é possível provar que ele tenha de fato acontecido. Os textos bíblicos são as únicas
fontes disponíveis para se reconstituir a história do santo – acreditar neles é uma questão de fé. Tenha ocorrido de forma
tão espetacular ou não, a conversão de Paulo mudou para sempre os rumos da religião cristã. Para muitos teólogos, Paulo
foi um personagem fundamental nos primeiros anos do cristianismo. Seu trabalho de evangelização foi, em grande parte,
responsável pelo caráter universal da doutrina cristã e sua mensagem, expressa em cartas enviadas às comunidades que
fundava, ainda hoje é considerada o alicerce da jurisprudência, da moral e da filosofia modernas do Ocidente. Enquanto a
maioria dos apóstolos que conviveram com Jesus restringiram sua pregação à Palestina, Paulo levou a palavra de Cristo
40
para lugares distantes, como a Grécia e Roma. Sua importância na construção da Igreja primitiva é tão grande que muitos
estudiosos atribuem a ele o título de pai do cristianismo.
"Paulo desempenhou um papel maior na evangelização dos primeiros cristãos", diz o biblista Jerome Murphy-
O’Connor, professor da Escola Bíblica e Arqueológica de Jerusalém e um dos maiores estudiosos do santo. O historiador
André Chevitarese, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em cristianismo e judaísmo antigos,
concorda: "O cristianismo, tal como existe hoje, deve muito a Paulo. Se não fosse o apóstolo, ele provavelmente não teria
passado de mais uma seita judaica". Isso não quer dizer que o trabalho dos 12 apóstolos tenha sido irrelevante, mas eles
pregaram numa região, a Palestina, que viria a ser devastada pelos romanos entre os anos 66 e 70. "Sem dúvida, Paulo foi o
apóstolo que teve maior repercussão com o passar dos séculos", afirma o teólogo Pedro Lima Vasconcellos, professor do
Departamento de Teologia e Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo. O termo
apóstolo, no sentido de evangelizador, é freqüentemente usado para se referir a São Paulo. Não há evidências históricas,
entretanto, de que ele tenha conhecido Jesus Cristo.
A influência de Paulo é indiscutível. Mas, para uma corrente de historiadores e teólogos, ele deturpou os
ensinamentos de Jesus Cristo – a ponto de a mensagem cristã que sobreviveu ao longo dos séculos ter origem não em
Cristo, mas em Paulo. Esses pensadores julgam ser mais correto dizer que o que existe hoje é um "paulinismo", não um
cristianismo. "As cartas de São Paulo são uma fraude nos ensinamentos de Cristo. São comentários pessoais à parte da
experiência pessoal de Cristo", afirmou o líder pacifista indiano Mahatma Ghandi, em 1928. Opinião semelhante tem o
prêmio Nobel da Paz de 1952, o alemão Albert Schweitzer, que declarou: "Paulo nos mostra com que completa indiferença
a vida terrena de Jesus foi tomada".
As principais críticas da corrente antipaulina concentram-se em pontos polêmicos das cartas do apóstolo. Nelas,
entre outras coisas, Paulo defende a obediência dos cristãos ao opressivo Império Romano, bem como o pagamento de
impostos, faz apologia da escravidão, legitima a submissão feminina e esboça uma doutrina da salvação distinta daquela
que, segundo teólogos antipaulinos, teria sido defendida por Jesus. "A mentira que foi Paulo tem durado tanto tempo à base
da violência. Sua conversão foi uma farsa", afirma Fernando Travi, fundador e líder da Igreja Essênia Brasileira. Os
essênios eram uma das correntes do judaísmo há 2 mil anos, convertidos na primeira hora ao cristianismo. "Ele criou uma
religião híbrida. A prova disso é o mundo que nos cerca. Um mundo cheio de guerra, de sofrimentos e de desespero."
(Superinteressante janeiro/2004 - Por Yuri Vasconcelos)
OBS: Este texto é ilustrativo e o professor não concorda com ele. Serve para estudo e ver o que se publica sobre Paulo.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA
BARBAGLIO, G. As Cartas de Paulo I (Coleção Bíblica 4. São Paulo: Loyola 1989) p. 507
BARBAGLIO, G. As Cartas de Paulo II (Coleção Bíblica 5. São Paulo: Loyola 1991) p. 430
BORTOLINI, J. Introdução a Paulo e suas Cartas (São Paulo: Paulus, 2001) p. 106
BORTOLINI, J. Como ler a Carta ... (Coleção “Como Ler – um volume para cada Carta de Paulo” São Paulo:
Paulus, 1991-2002)
FABRIS, R. As Cartas de Paulo III (Coleção Bíblica 6. São Paulo: Loyola 1992) p. 543
SACCHI, A. E COLLABORATORI. Lettere Paoline e altre Lettere (Logos 6. Elle Di Ci, Torino 2002)

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR
BARBAGLIO, G. 1-2 Coríntios (Coleção PCB. São Paulo: Edições Paulinas, 1993) p. 177
BAUMERT, N. Mulher e homem em Paulo (Coleção Bíblica 26. São Paulo: Loyola, 1999) p. 428
BORTOLINI, J. Introdução a Paulo e suas Cartas (São Paulo: Paulus, 2001) vídeo 90 min.
BOSH, J. S. Escritos Paulinos (Coleção Introdução ao Estudo da Bíblia 7. São Paulo: Ave Maria 1998) p.
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CERFAUX L. Cristo na Teologia de Paulo (São Paulo: Editora Teológica-Paulus, 2003) p. 441

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COMBLIN, J. Epístola aos Filipenses (Coleção Comentário Bíblico NT (Petrópolis: Vozes-Imprensa
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COMBLIN, J. Segunda Epístola aos Coríntios (Coleção Comentário Bíblico NT (Petrópolis: Vozes-Imprensa
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