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A BUSCA DO JESUS HISTÓRICO

A BUSCA DO JESUS HISTÓRICO

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A BUSCA DO JESUS HISTÓRICO´ por Albert Schweitzer Em síntese: Trata-se de um livro publicado em 1906 pelo famoso médico A.

Schweitzer (1875-1965), que abandonou sua carreira na Europa a fim de se dedicar às populações carentes da África como médico e missionário. Albert Schweitzer (1875-1965) nasceu na Alsácia (na época, província alemã) e dedicou-se à Música, à Medicina e às populações pobres da África Equatorial Francesa (atual Gabão), para onde embarcou em 1913. Em 1906, quando ainda estudava Medicina, publicou sua mais famosa obra, que tem o título português ³A Busca do Jesus Histórico´¹; percorre os autores racionalistas que instituíram a crítica dos Evangelhos nos séculos XVIII e XIX. A obra vale por ser um marco da historiografia, pois relata um passado ultrapassado pela crítica contemporânea; esta procura ser mais madura e fundamentada, cultivando o chamado ³Método da História das Formas´; cf. PR 318/1988, pp. 195 ss. A seguir, serão apresentados alguns dos autores considerados por A. Schweitzer, enriquecendo assim os conhecimentos históricos do leitor. 1. Hermann Samuel A. Reimarus (1694-1768): rapto do cadável Até o século XVIII os Evangelhos eram tranqüilamente aceitos sem que alguém pudesse em dúvida a sua fidelidade histórica. O iluminism o ou racionalismo do século XVIII deu início e à suspeita de não historicidade do texto sagrado. Seguiram-se teorias várias tendentes a desfazer o Transcendental nos Evangelhos de maneira, porém, preconceituosa e gratuita. Hermann Samuel Reimarus encabeça a lista. Nasceu em Hamburgo aos 22/12/1694 e nessa cidade lecionou línguas orientais até o fim da vida (1768). Em 1906 observava Schweitzer: ³Quando nosso período de civilização estiver completo, a teologia alemã se destacará como um fenômeno único na vi da mental e espiritual do nosso tempo. Pois em parte alguma a não ser no temperamento alemão se pode

os evangelistas. agitador político. apregoando um messianismo religioso e espiritual: ³Roubaram o co rpo de Jesus e o esconderam. Após a sua morte os discípulos resolveram restaurar o ideal messiânico que os havia agitado. 2. ± Os Evangelhos seriam o relato oficial dessa aventura. em nome de um messianismo nacionalista pretendia libertar do jugo romano o povo de Israel. filosófica ou o deísmo. Eles no entanto esperaram prudentemente cinqüenta dias antes de fazer o anúncio da segunda vinda de Jesus. preconceituosa e arbitrária como é. 30). morreu desesperado sobre uma cruz. destacando-se. . propalado na sua obra ³Apologia dos Cultores Racionais de Deus´ (1774 -1778). para garantir a paz no lar. a fim de que o corpo. de modo que Jesus se viu abandonado. Todavia o povo recusou empunha r armas contra os romanos. Segundo tal obra Jesus seria mero homem. Paulus pretende desembaraçar o texto sagrado da carga ³mística´ imposta pelos evangelistas. Ao ler os Evangelhos. A teoria de Reimarus. A própria crítica racionalista encarregou -se de refutá-la. em sua mentalidade simplória e ignorante. Este autor professava a religião natural. Em conseqüência Gottlob Paulus concebeu profunda aversão a todas as experiências que ultrapassem o alcance da razão. mas procurava dar-lhes interpretação meramente natural. Heinrich Eberhard Gottlob Paulus (1761-1851): fenômenos naturais Era filho de um pai que julgava ter comunicação com os mortos. não fez escola. realizando feitos que na época eram tidos como milagrosos. 5). Estaria assim explicado o pioneirismo de Reimarus. Cativou adeptos. não negava a historicidade dos relatos de milagres.encontrar com a mesma perfeição o complexo vivo de condições e fatores de pensamento filosófico. p. agudeza crítica. e proclamaram para todo o mundo que ele em breve voltaria. visão histórica e sentimento religioso ± sem os quais nenhuma teologia profunda é possível´ (p. Johann Salomo Semler. entre os adversários. sentia -se obrigado a fingir que tinha comunicação com o espírito de sua falecida mãe. caso fosse encontrado. não pudesse ser reconhecido´ (Schweitzer. teriam dado a aparência de fenômenos extraordinários a tais feitos.

lambendo os pés de Jesus. de Jesus e dos Apóstolos.Eis como o Pe. mas caíra em letarg ia quatro dias antes e fora deposto atrás de uma porta. que assim todos os dias restituem a vista aos nati-cegos! E o espanto de toda Jerusalém? E o processo desta cura instaurado pelos Fariseus? Foram motivados pela aplicação corriqueira de um colírio conhecido? A multiplicação dos pães? Nada de mais: a exemplo daquela criança. Pedro Cerruti refere as interpretações dadas por Paulus. em sua obra ³O Cristianismo em sua origem histórica e divina´. no a lto do Tabor com três de seus apóstolos. p. exclama: ³ Moisés! Elias!´.E é por isso que tanto se admirou toda aquela multidão e queria proclamar rei o Salvador? O caminhar sobre as águas foi um simples passear na margem com as ondas.. cada um dos presentes se serviu da matalotagem que trouxera consigo. explicada. . Por simples coincidência venturosa. ao morrer.. Pedro. não morrera. precipitado. diz o Dr. ± E é em tão pouca água que ia afundando Pedro? As ressurreições? Simples despertar de letargias. . nevropata. de madrugada. Neste momento despontou o sol no horizonte e envolveu o Salvador nas rutilâncias de ouro dos seus esplendores nascentes. uma aversã o profunda contra tudo o que é sobrenatural.. Lázaro. desde a sua infância. não vendo nas suas manifestações senão sintomas patológicas de visionários desequilibrados. por exemplo. voltou a si quando Cristo o chamou. Assim interpretou os acontecimentos maravilhosos dos Evangelhos.. Jesus empregou apenas um colírio conhecido e usado pelos oculistas. É um fato real e histórico. Algumas amostras: Achava-se Jesus. psicologicamente e ³naturalizada´! Cristo cura um cego de nascença. 157: ³O espetáculo de um pai doente. despertara em Paulus. vítima de contínuas visões e alucinações. Paulus. quando passaram casualmente dois conhecidos vestidos de branco. O erro está em atribui -lo a causas transcendentes. Eis a Transfiguração do Senhor.

Jesus não poderia considerar -se sem pecado quando se submeteu a ele. é simplesmente lenda cristã primitiva. teríamos que supor que Ele o fez meramente pelas aparências. tudo o que escapa ao controle da razão é mito. . seja interpretada como sobrenatural. que a concepção de Jesus como tendo recebido o Espírito em Seu batismo era independente e anterior à outra concepção que o tomava como tendo nascido de forma sobrenatural do Espírito. A crise do mundo moderno. ou como simbólica. Também as interpretações de Paulus foram criticadas pela crítica racionalista. seja de uma luta interior ou de eventos externos (como por exemplo na interpretação de Venturini. só poderiam ser tidos como históricos alguns poucos episódios e a morte de Jesus na cruz. Assim os discípulos atribuíram a Jesus feitos portentosos que o assemelhavam ao Messias p redito no Antigo Testamento. 1941. Franca. Apenas isto é certo. onde a parte do Tentador é interpretada por um fariseu). saiu vivo detrás daquela ³porta´. porque vê nos Evangelhos um conjunto de mitos ou histórias fictíci as. não saberíamos dizer. Se foi no momento do batismo que a consciência de sua messianidade despertou. para Strauss. como se dirá logo a seguir. L. nos Sinópticos diversas camadas de lenda e narrativa.Que há de mais óbvio e mais natural? ± Mas ninguém seguira a doença de Lázaro? Ninguém presenciara a sua morte e seu sepultament o? E o espanto geral. construída de sugestões do Antigo Testamento. 3. que preferiu negar a historicidade dos milagres. A história da tentação é igualmente insatisfatória. Com efeito. portanto. que era uma pedra sepulcra? (cf. ainda envolvido nos planos mortuários. Friedrich Strauss (1808-1874): mito Strauss opõe-se às explicações dadas por Paulus. Eis alguns espécimens do procedimento de Strauss. quando Lázaro. como o vê Schweitzer: ³Se o arrependimento de João era um batismo de arrependimento com vistas a ³aquele que há de vir´. Nós temos. pp. que em alguns casos se cruzam e em alguns sobrepõem-se uma às outras. De outra forma. 97 -98)´.

a tese foi a corrente petrina. obrigando -os a observancias judaicas. . diante dos quais Strauss se revelou um péssimo polemista. compromisso conciliatório. . e a mesma idéia é refletida. Ver a propósito PR 398/1995. no qual as duas tendências se encontram parcialmente absorvidas. faz-se aos poucos. sem que antes eles não soubessem nada sobre Jesus. por isto Strauss postulava uma data tardia (século II) para a redação dos Evangelhos.O chamado dos primeiros discípulos não pode ter acontecido como é narrado. pp. 290ss. não pode ser determinado´ (p. As hipóteses levantadas por Strauss suscitaram polêmica e oposição. Na verdade.a síntese seria a Igreja Católica. A missão dos setenta não é histórica. A lenda seguinte que foi adicionada ± a pesca milagrosa de Pedro ± surgiu do dito sobre ³pescadores de homens´. o embelezamento ou a idealização de uma figura do passado requer tempo. aberta aos pagãos. segundo o qual a história procede por tese. queria sub ordinar à Lei de Moisés os pagãos convertidos ao Cristianismo. que seriam dispensados da Lei de Moisés e introduziriam a cultura helenística para dentro do Cristianismo. Se a purificação do templo é histórica. judaizante. Ora a peleografia mais e mais demonstra que os Evangelhos datam da segunda metade do século I. a forma do chamado é modelada sobre o chamado de Eliseu por Elias. ou se ela surgiu da aplicação messiânica do texto. em João 21. . Ferdinand Christian Baur (1792-1860): tendências Baur aplicou à história do Cristianismo nascente o esquema dialético de Hegel. tendo começado a respectiva redação por volta do ano 50. 104). num outro ângulo de refração. antítese e síntese. no decorrer de cinco anos foram pu blicados cerca de cinqüenta ensaios sobre o assunto. 4.a antítese terá sido a corrente paulina. Ora na Igreja nascente .

foi também o primeiro a receber um pagão ± o centurião Cornélio com seus familiares ± na Igreja sem lhe impor a Lei de Moisés (ver At 10. no concílio de Jerusalém Pedro e Paulo distribuíram entre si harmoniosamente as tarefas do apostolado (ver Gl 2. 6 -10). os belos galileus qu e formavam a companhia do ³simpático carpinteiro´. seria mera especulação teológica ainda mais tardia. a linda Maria. em meados do século II terá sido redigido Marcos. após ler a literatura crítica alemã. poderiam tornar forma num corpo de vitrine de uma loja de arte eclesiástica na Place St. nem é provável que seja superada em sua própria linha. há algo de mágico sobre a obra. que ele foi visitar ao voltar do seu retiro na Arábia. Gl 1. 18s). predominantemente paulino. Ainda assim. Ernest Renan (1823-1892): estilo de romance Foi seminarista. Escreveu uma famosa ³Vida de Jesus´. 11 -14).Os Evangelhos Sinóticos representariam as tentativas de conciliação redigidas no século II: o de Mateus. mas. São Pedro foi o primeiro a apregoar o universalismo da fé cristã (ver At 4. o de Lucas. em estilo de romance¹. É arte cristã no pior sentido do termo ± a arte da imagem de cera. 1 -48). Ela nunca será realmente esquecida. A propósito é de notar que tal teoria baseada nas premissas da filosofia de Hegel mais do que na consideração dos textos do Novo Testamento. perdeu a fé e tornou -se livre pensador. Escrita com grande habilidade literária. Eis como Schweitzer a avalia: ³Dificilmente haverá outra obra sobre este assunto como tão abundantes lapsos de gosto ± e do tipo mais deprimente ± como a Vie de Jésus de Renan. Quanto ao Evangelho de João. e raramente um livro é tão diretamente nascido do entusiasmo quanto aquele que Renan planejou entre as colinas da Galiléia´ (p. que em 1867 estava na 13ª edição e foi traduzida para várias línguas. O gentil Jesus. Sulpice.12). de característica neutra. São Paulo reconhecia a autoridade da Igreja-mãe. pois a natureza não é pródiga em mestres do estilo. ³para avistar -me com Cefas e fiquei com ele quinze dias´ (cf. a Vie de Jésus . 5. Quanto ao incidente de Antioquia (Gl 2. 119). de in spiração petrina com alguns elementos paulinos. 12 deste fascículo. ver p. Ela ofende e atrai.

nenhum valor´. indução de filósofo racionalista´ (Weinel). segundo Loisy e sua escola. Mas também foi severamente criticada. na qual.de Renan foi acolhida com aplausos pelos incrédulos. lecionou no Institut Catholique de Paris. Alfred Loisy (1857-1940) e os escatologistas Foi católico e. dar a túnica a quem quer levar o manto. Com outras palavras: Jesus terá compartilhado a expectativa dos judeus de seu tempo. 162): ³Obra de arte. Renan declara representar o Cristo do quarto Evangelho. o Altís simo viria destruir o reino da iniqüidade dominante na Terra e instauraria um reino de justiça. do início ao fim. p. por isto quis preparar os discípulos para esse grande evento. apresentar a face esquerda a quem esbofeteia a direita (cf. Escreve Cerruti (obra citada. mas o que veio. 6. No tocante a Jesus. sujeitos a diversas interpretações. afirmava: ³Jesus apregoou o Reino de Deus. felicidade e paz. Mt 5. Ele declara escrever uma obra científica. págs. apregoando uma ³Ética do provisório´: não r esistir aos assaltantes. constituindo a escola escatologista. enganado como estava no tocante à escatologia). Johannes Weiss. Burkitt. 229). exerceu vasta influência sobre a camada populacional de cultura média.. Wm 1893 foi destituído da cátedra por ensinar teorias não católicas: as fórmulas de fé seriam apenas metáforas e símbolos. que aguardavam ansiosamente uma intervenção de Deus: mediante um cataclisma universal. frustrados. 38 -42). mas está sempre pensando no grande público e na maneira de lhe interessar. Consequentemente. Tais idéias foram professadas outrossim por Charles Guignebert. tudo o que nos Evangelhos insinua a Igreja como sociedade estável e dur adoura. só pode ser acréscimo tardio devido aos discípulos que. Jesus terá esperado essa catástrofe. ³Ele fundiu assim duas obras de caráter díspar´ (Schweitzer. XXVIII-XXX). op. a Vida de Jesus é um romance do diletantismo tão na moda durante o século XIX e de que Renan foi o perfeito modelo (Guignebert. fundaram a Igreja (pois Jesus mesmo não a fundou. ³há uma espécie de insinceridade no livro. com ³visão de pintor. p. o autor impõe aos textos s uas próprias sugestões. Como obra de ciência. como tal. C. imaginação de poeta. mas não acredita na autenticidade dos milagres daquele Evangelho. . foi a Igreja´. cit.

Zagreu. Átis. no caso. Deus salvador nos mistérios de Átis. existem também (indícios presentes em todos os manuscritos antigos) de que Jesus contava com a longa duraçã o de sua obra. Avatares (homens divinos) da Índia Encarnação do Verbo. Mt 28. Osíris. Wrede No fim do século XIX os estudos da história haviam progredido tanto que os pesquisadores procuraram descobrir a origem do Cristianismo no ambiente religioso pagão que cercava o povo de Israel. os ritos aplicados compreendiam loções purificadoras. Dionísio Jesus Salvador. Adônis.. a quem eram transmitidas doutrinas religiosas secretas.. Em conseqüência fundavam-se confrarias religiosas como as de Mitra. doutrinas que deviam levar o iniciado à felicidade e à salvação.A propósito convém notar: se nos Evangelhos se encontram alusões ao juízo final e à glória celeste. A crítica assumiu ainda outro aspecto 7. Osíris. Mt 13. Eichhorn. o mesmo se depreende da parábola do grão de mostarda que cresce a ponto de tornar -se uma grande árvore. parecia ser o culto das religiões de mistérios. onde o ³mista´ devia chegar à união com a Divindade. assim a parábola do joio e do trigo refere ao paulatino crescimento das sementes até que chegue o dia da messe (cf.. . Dionísio. 24 -30). entrega de símbolos e de fórmulas dentro de uma atmosfera de dramaticidade.. Eis algumas das semelhanças que fundamentariam a pretensa dependência do Cristianismo: Trindades babilônicas e Trimurti da Índia Trindade cristã (Pai. os Apó stolos são enviados a todos os povos (cf. 18 20). História das Religiões comparadas: Gunkel. Filho e Espírito Santo).. ressurreição nos mesmos mistérios ressurreição de Cr isto. Estas constavam de ritos dos quais participavam apenas os iniciados. Especialmente importante.

Assim o levantar as mãos para o céu. Alguns críticos chegaram mesmo a negar a existência de Jesus. dos pés.. O Apóstolo Paulo terá sido o responsável pela distorção paganizante da pregação semita de Jesus. podem aparecer em regiões (e religiõ es) diversas sem que haja dependência.loções purificadoras Batismo. os historiadores classificavam como lendária a mensagem histórica que acompanha a Boa -Nova de Cristo. o ajoelhar -se. Ascese budista ascese cristã. Afirmando a dependência do Cristianismo em relação aos cultos pagãos. A propósito seja observado: 1) há manifestações religiosas espontâneas a todo homem que: por ser espontâneas.. por isto. o sal.. do corpo). 4) O simbolismo de certos números é o mesmo para todos os povos. visto que a noção de Deus feito ho mem é. o fogo. ocorrem cá e lá sem que haja dependência. por isto. banquetes sagrados Eucaristia. donde o valor po sitivo de 3 + 4 e 3 x 4.. Paulo terá helenizado o Cristianismo nascente. invencível: quatro. Tão radical posição hoje em dia não conta com sérios adeptos. figura sempre igual a si mesma e. Assim a água como sinal e fator de purificação (donde a loção das mãos. . assim três é sinal de perfeição. totalmente inconcebível. a luz. o prostrar-se por terra. 3) O conceito de ascese ou mortificação das paixões desregradas para que exista união com Deus é outro elemento que aflora por si mesmo à co nsciência de todo homem sincero. 2) Também há símbolos cujo significado é o mesmo para todos os homens e. porque lembra o triângulo eqüilátero. idem. as trevas. para a razão.

refeição sagrada entendida como partilha).. Krishnamurti. Bel... o destruidor e o renovador. porém. que se manifesta em avatares (Buda.. Têm suas aventuras e lutam entre si pela hegemonia. será panteísta?. no fim do mundo... Ea) ou à Trimurti hindu (que professa Braama. Siva. que a lenda divinizou. Ao contrário. b) As encarnações de Visnu... as crenças hindus professam a metamorfose de Visnu em sucessivos avatares como seriam o peixe. em religiões não cristãs há tríades de deuses distintos uns dos outros e entendidos em sentido politeísta. o javali.) seriam paralelas à Encarnação do Verbo. Krishna. da casta dos guerreiros.. a tartaruga. Acontece.5) Nos casos em que há identidade de sinais (água. o criador casado com Sarasvati. Examinaremos os mitos mais freqüentemente aduzidos: . Filho e Espírito Santo) seria análoga às tríades de deuses da Babilônia (Anu. c) Quanto aos pretensos paralelos de ressurreição. O Cristianismo professa que a segunda Pessoa da SS. cuja natureza é tão rica que ela se afirma em três pessoas (que não são três deuses nem repartem a natureza divina) É de notar que os cristãos passavam por ³ateus´ no Império Romano pelo fato de não cultuarem os deuses da mitologia greco -romana ± o que bem mostra como eram infensos ao politeísmo. casado com Cali. monoteísta? Se a mentalidade difere de um caso para o outro. o cavalo. Visnu aparece também em dois heróis (Rama e Krishna). a deusa da beleza. politeísta?. Como se vê.. 30 -33: a) A Trindade cristã (Pai. Ora um exame mais detido mostra a oposição frontal entre um e outro termo. que na mensagem cristã há um só Deus. verifica -se que as narrações pagãs estão muito distantes do evento professado pelo Cristianismo. pp. a deusa da destruição). sem nada perder do que é de Deus. A respeito veja -se quanto já foi ponderado em PR 266/1983. a fim de santificar o homem e o mundo. com suas façanhas cruéis e sua vida devassa foi a antítese do que o Cristianismo atribui a Jesus Cristo. é preciso investigar qual a mentalidade que inspira o uso de tal símbolo.. torna -se improvável a dependência. Trindade quis assumir a natureza humana. o leão.

porém. Todavia. que não suspeitava da cilada. decepou o cadáver e dispersou os pedaços! ± Tal terá sido a Paixão de Osíris! ± Ora. Cibele então obteve pelo menos que o corpo de Átis permanecesse incorrupto. porém. Set ou Tifon mostra a seu convivas um cofre maravilhoso e promete doá -lo a quem o achar exatamente proporcionado ao seu tamanho. tal seria a paixão e a ressurreição de Adônis! Cibele. rainha dos infermos. Tal terá sido a ³ressurreição´ de Osíris! O belo Adônis. Este. fez morrer a Ninfa. nascido da união de Júpiter com sua filha Perséfona. enquanto a múmia reconstituída se conservasse em Heliópolis. Tal terá sido a ³ressurreição´ de Átis! Como se percebesse. Para dirimir o litígio. morte e ressurreição de Jesus Cristo´. seu marido poderia ter uma vida nova no outro mundo. o coração de Dionísio escapara à voracidade dos Titãs. Foi-lhe revelado contudo que. foi morto. Apenas o seu irmão Osíris. ± Como se vê. pouco depois. que Átis p referia à própria Cibele. Em vão. instigados por Hera. todos esses mitos estão muito longe de transmitir o autêntico conceito de ressurrei ção da Divindade. foi morto por um javali. Seria despropositado querer aproximá -los entre si. consumada feiticeira. irmã e esposa desse infeliz. tornou a unir os membros espalhados. amado simultaneamente por Vênus e Proserpina. Isis. as duas deusas o reclamaram então. este episódio da mitologia se difer encia radicalmente do que se chama ³a paixão. ficando livre para dispor dos quatro meses restantes. diz o mito. despedaçado e devorado por Titãs. continua a lenda. Set fez pregar a tampa e lançar o cofre no Nilo. se esforçou por reanimá -los. mãe dos deuses.Dionísio Zagreu. sucumbiu à ferida que sofrera no segundo instante do seu desespero. Depois disto reteve consigo o jovem pastor Átis. nele se acomodou. Júpiter concedeu ainda a Cibele que a cabeleira do seu protegido continuasse a crescer e que o seu dedinho ficasse sempre em movimento. não podem ser tidos como . Júpiter decidiu que passaria quatro meses com uma e quatro meses com outra. reinaria doravante sobre os mortos. Ora Júpiter (segundo uma lenda) ou Semele (segundo outra) engoliu tal coração e em conseqüência deu à luz um outro Dionísio. esposa de Júp iter. ± Como se vê.

p.. inaudita até então. sabe -se que a idéia de ressurreição era muito estranha ao pensamento helenista. é a redenção enquanto remissão do pecado. Tal fenômeno não implica dependência do conteúdo ou da mensagem do Cristianismo em relação às religiões não cristãs. pois para muitos destes o corpo era o cárcere ou o sepulcro da alma. consequentemente.paralelos ou analogias da Paixão. que recorre aos mesmos símbolos e gestos para se exprimir. É simplório ou anticientífico aproximar entre si termos cuja inspiração fundamental é antagônica. Leipzig 1904. A temerosa seriedade da pregação do pecado e da expiação não se acha no helenismo´ (Po imandres. ao passo que o Cristianismo a propõe como fundo de cena da sua mensagem. o Sol. 180). dos próprios cristãos. Reitzenstein: ³O que há de novo no Cristianismo. a ceia ou a refeição exprime a comunhão ou participação. sem negligenciar tal aspecto da salvação (tenh am-se em vista os milagres realizados por Jesus). sim. O Cristianismo não recusou adotar expressões religiosas dos povos pré -cristãos na medida em que correspondem ao patrimônio religioso comum de todos os homens e. O Cristianismo. apregoa a expiação e o perdão dos pecados. Muito a propósito diz o escritor cristão Tertuliano no começo do século III: ³A pregação da ressurreição. há. o Cristianismo é essencialmente monote ísta. Morte e Ressurreição de Jesus. uma religiosidade natural no pagão e no cristão. e) Se há semelhança de expressões entre as religiões helenistas ou orientais e o Cristianismo. a plenitude da vida em comunhão com Deus mediante a oblação de Cristo. ela não representava ideal algum a que os gregos aspirassem. d) O conceito de salvação nas religiões pagãs geralmente se refere ao plano medicinal e mágico. tendo em vista o alívio dos sofrimentos terrestres. abalou as nações com a sua novidade´ (De resurrectione carnis 3). as trelas exprimem o brilho da Divindade que ilumina o homem. assim o uso da água e das abluções rituais significa naturalmente a pureza interior. Aliás. é o que reconhece o crítico liberal R. não brotaria do âmago da mentalidade helenista a concepção de ressurreição como meta para os homens. visto que a inspiração fundamental do Cristianismo é . ao passo que a mitologia é politeísta... a Luz. devem -se ao fato de que os sentimentos religiosos são basicamente os mesmos em todos os homens. na verdade.. ± O paganismo não tinha a noção de pecado ³ofensa a Deus´.

Ed. Sergio Paulo de Oliveira e Cláudio Rodrigues. Fischer. vives à maneira dos gentios. p. 14). 160 x 230 mm. Este episódio ainda vem a ser um testemunho indireto da autoridade do Primaz: Paulo diz ter chamado a atenção de Pedro justamente porque o exemplo deste Apóstolo era de tal modo persuasivo que coagia moralmente os étnico-cristãos a o imitarem ou a observarem a Lei de Moisés: ³Se tu. 8. De tudo isso conclui Loisy que o gesto de S. Foram propostas teorias preconceituosas. na sua atitude forte.11 -14). pp. que a própria crítica no século XX rejeitou. o homem com o qual era preciso entrar em acordo . Pedro a exercer tal influência sobre os fiéis. como forças os gentios a se fazerem judeus?´ (Gl 2. Novo Século. As . 491 -201. 162: Os possessos do demônio eram simples loucos ou pessoas excêntricas e ³uma palavra meiga basta muitas vezes nesse caso para ³expulsar o demônio´. ¹ Eis dois espécimens desse estilo citados por Cerruti. APÊNDICE Seja brevemente considerado o chamado ³incidente da Antioquia´ (Gl 2. dizia Paulo. Conclusão O livro de Albert Schweitzer é importante como i nformativo da história da crítica dos Evangelhos desde o começo do século XVIII até o início do século XX. 477 pp. e não dos judeus. São Paulo. enveredando por trilhas mais fundamentadas. Método não necessariamente racionalista. A falha de Pedro p arece ter consistido em não estar plenamente cônscio da influência que ele exercia ou em não ter percebido que sua condescendência para com amigos. perturbando a Igreja inteira. Paulo não disse palavra contra os direitos de S. cf. mostra o esforço de intelectuais racionalistas para explicar o teor do Livro Sagrado sem o apoio da fé. que és judeu. era mal interpretada. embora fosse legítima. sob pena de trabalhar em vão´ (Les Évangiles synoptiques 14). que são o Método da História das Formas. Paulo ³atesta ter sido Simão Pedro o chefe do serviço evangélico. ¹ Tradução de W. pois pode ser cultivado também em chave católica.diferente da do paganismo. Note -se que. PR 318/1988.

. XVI)´. c. lhe garante a cura.curas são devidas ao influxo moral exercido por Jesus. porque ³a presença de um homem superior que trate o doente com mansidão e com alguns sinais sensíveis. é muitas vezes um remédio decisivo´ (Vie de Jésus.

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