A BUSCA DO JESUS HISTÓRICO´ por Albert Schweitzer Em síntese: Trata-se de um livro publicado em 1906 pelo famoso médico A.

Schweitzer (1875-1965), que abandonou sua carreira na Europa a fim de se dedicar às populações carentes da África como médico e missionário. Albert Schweitzer (1875-1965) nasceu na Alsácia (na época, província alemã) e dedicou-se à Música, à Medicina e às populações pobres da África Equatorial Francesa (atual Gabão), para onde embarcou em 1913. Em 1906, quando ainda estudava Medicina, publicou sua mais famosa obra, que tem o título português ³A Busca do Jesus Histórico´¹; percorre os autores racionalistas que instituíram a crítica dos Evangelhos nos séculos XVIII e XIX. A obra vale por ser um marco da historiografia, pois relata um passado ultrapassado pela crítica contemporânea; esta procura ser mais madura e fundamentada, cultivando o chamado ³Método da História das Formas´; cf. PR 318/1988, pp. 195 ss. A seguir, serão apresentados alguns dos autores considerados por A. Schweitzer, enriquecendo assim os conhecimentos históricos do leitor. 1. Hermann Samuel A. Reimarus (1694-1768): rapto do cadável Até o século XVIII os Evangelhos eram tranqüilamente aceitos sem que alguém pudesse em dúvida a sua fidelidade histórica. O iluminism o ou racionalismo do século XVIII deu início e à suspeita de não historicidade do texto sagrado. Seguiram-se teorias várias tendentes a desfazer o Transcendental nos Evangelhos de maneira, porém, preconceituosa e gratuita. Hermann Samuel Reimarus encabeça a lista. Nasceu em Hamburgo aos 22/12/1694 e nessa cidade lecionou línguas orientais até o fim da vida (1768). Em 1906 observava Schweitzer: ³Quando nosso período de civilização estiver completo, a teologia alemã se destacará como um fenômeno único na vi da mental e espiritual do nosso tempo. Pois em parte alguma a não ser no temperamento alemão se pode

para garantir a paz no lar. realizando feitos que na época eram tidos como milagrosos. a fim de que o corpo. os evangelistas. não pudesse ser reconhecido´ (Schweitzer. de modo que Jesus se viu abandonado. Todavia o povo recusou empunha r armas contra os romanos. Eles no entanto esperaram prudentemente cinqüenta dias antes de fazer o anúncio da segunda vinda de Jesus. filosófica ou o deísmo. A teoria de Reimarus. Paulus pretende desembaraçar o texto sagrado da carga ³mística´ imposta pelos evangelistas. agudeza crítica. e proclamaram para todo o mundo que ele em breve voltaria. em sua mentalidade simplória e ignorante. destacando-se. em nome de um messianismo nacionalista pretendia libertar do jugo romano o povo de Israel. não fez escola. Cativou adeptos. agitador político. visão histórica e sentimento religioso ± sem os quais nenhuma teologia profunda é possível´ (p. Em conseqüência Gottlob Paulus concebeu profunda aversão a todas as experiências que ultrapassem o alcance da razão. não negava a historicidade dos relatos de milagres. teriam dado a aparência de fenômenos extraordinários a tais feitos. entre os adversários. Após a sua morte os discípulos resolveram restaurar o ideal messiânico que os havia agitado. caso fosse encontrado. propalado na sua obra ³Apologia dos Cultores Racionais de Deus´ (1774 -1778). preconceituosa e arbitrária como é. sentia -se obrigado a fingir que tinha comunicação com o espírito de sua falecida mãe. ± Os Evangelhos seriam o relato oficial dessa aventura. apregoando um messianismo religioso e espiritual: ³Roubaram o co rpo de Jesus e o esconderam. 30). 2. Segundo tal obra Jesus seria mero homem. Estaria assim explicado o pioneirismo de Reimarus. Heinrich Eberhard Gottlob Paulus (1761-1851): fenômenos naturais Era filho de um pai que julgava ter comunicação com os mortos. Este autor professava a religião natural. Johann Salomo Semler. 5). mas procurava dar-lhes interpretação meramente natural. . A própria crítica racionalista encarregou -se de refutá-la. morreu desesperado sobre uma cruz. Ao ler os Evangelhos. p.encontrar com a mesma perfeição o complexo vivo de condições e fatores de pensamento filosófico.

. p. precipitado. voltou a si quando Cristo o chamou. 157: ³O espetáculo de um pai doente. não vendo nas suas manifestações senão sintomas patológicas de visionários desequilibrados. ao morrer. de madrugada. Por simples coincidência venturosa. cada um dos presentes se serviu da matalotagem que trouxera consigo. uma aversã o profunda contra tudo o que é sobrenatural. É um fato real e histórico.. O erro está em atribui -lo a causas transcendentes.E é por isso que tanto se admirou toda aquela multidão e queria proclamar rei o Salvador? O caminhar sobre as águas foi um simples passear na margem com as ondas. Neste momento despontou o sol no horizonte e envolveu o Salvador nas rutilâncias de ouro dos seus esplendores nascentes. . ± E é em tão pouca água que ia afundando Pedro? As ressurreições? Simples despertar de letargias. explicada. quando passaram casualmente dois conhecidos vestidos de branco. nevropata. Paulus. exclama: ³ Moisés! Elias!´. mas caíra em letarg ia quatro dias antes e fora deposto atrás de uma porta. no a lto do Tabor com três de seus apóstolos. Algumas amostras: Achava-se Jesus. desde a sua infância. Lázaro. vítima de contínuas visões e alucinações... .Eis como o Pe. Pedro. que assim todos os dias restituem a vista aos nati-cegos! E o espanto de toda Jerusalém? E o processo desta cura instaurado pelos Fariseus? Foram motivados pela aplicação corriqueira de um colírio conhecido? A multiplicação dos pães? Nada de mais: a exemplo daquela criança. diz o Dr. lambendo os pés de Jesus. Assim interpretou os acontecimentos maravilhosos dos Evangelhos. Jesus empregou apenas um colírio conhecido e usado pelos oculistas. de Jesus e dos Apóstolos. Eis a Transfiguração do Senhor. não morrera. despertara em Paulus. em sua obra ³O Cristianismo em sua origem histórica e divina´. por exemplo. Pedro Cerruti refere as interpretações dadas por Paulus. psicologicamente e ³naturalizada´! Cristo cura um cego de nascença.

Com efeito. Apenas isto é certo. para Strauss. Assim os discípulos atribuíram a Jesus feitos portentosos que o assemelhavam ao Messias p redito no Antigo Testamento. que preferiu negar a historicidade dos milagres. onde a parte do Tentador é interpretada por um fariseu). que a concepção de Jesus como tendo recebido o Espírito em Seu batismo era independente e anterior à outra concepção que o tomava como tendo nascido de forma sobrenatural do Espírito. . teríamos que supor que Ele o fez meramente pelas aparências. como o vê Schweitzer: ³Se o arrependimento de João era um batismo de arrependimento com vistas a ³aquele que há de vir´. construída de sugestões do Antigo Testamento.Que há de mais óbvio e mais natural? ± Mas ninguém seguira a doença de Lázaro? Ninguém presenciara a sua morte e seu sepultament o? E o espanto geral. Eis alguns espécimens do procedimento de Strauss. 97 -98)´. ainda envolvido nos planos mortuários. é simplesmente lenda cristã primitiva. porque vê nos Evangelhos um conjunto de mitos ou histórias fictíci as. como se dirá logo a seguir. Jesus não poderia considerar -se sem pecado quando se submeteu a ele. só poderiam ser tidos como históricos alguns poucos episódios e a morte de Jesus na cruz. Também as interpretações de Paulus foram criticadas pela crítica racionalista. L. tudo o que escapa ao controle da razão é mito. que em alguns casos se cruzam e em alguns sobrepõem-se uma às outras. pp. 3. não saberíamos dizer. Friedrich Strauss (1808-1874): mito Strauss opõe-se às explicações dadas por Paulus. 1941. ou como simbólica. Se foi no momento do batismo que a consciência de sua messianidade despertou. A história da tentação é igualmente insatisfatória. que era uma pedra sepulcra? (cf. seja interpretada como sobrenatural. De outra forma. portanto. A crise do mundo moderno. nos Sinópticos diversas camadas de lenda e narrativa. quando Lázaro. saiu vivo detrás daquela ³porta´. Franca. Nós temos. seja de uma luta interior ou de eventos externos (como por exemplo na interpretação de Venturini.

Ora a peleografia mais e mais demonstra que os Evangelhos datam da segunda metade do século I. em João 21. Ver a propósito PR 398/1995. Ora na Igreja nascente . segundo o qual a história procede por tese. . compromisso conciliatório. por isto Strauss postulava uma data tardia (século II) para a redação dos Evangelhos. obrigando -os a observancias judaicas. sem que antes eles não soubessem nada sobre Jesus. 104). e a mesma idéia é refletida. num outro ângulo de refração. queria sub ordinar à Lei de Moisés os pagãos convertidos ao Cristianismo. A lenda seguinte que foi adicionada ± a pesca milagrosa de Pedro ± surgiu do dito sobre ³pescadores de homens´. a forma do chamado é modelada sobre o chamado de Eliseu por Elias.a síntese seria a Igreja Católica. 290ss. judaizante. tendo começado a respectiva redação por volta do ano 50. no qual as duas tendências se encontram parcialmente absorvidas. no decorrer de cinco anos foram pu blicados cerca de cinqüenta ensaios sobre o assunto. pp. diante dos quais Strauss se revelou um péssimo polemista.a antítese terá sido a corrente paulina. não pode ser determinado´ (p. Ferdinand Christian Baur (1792-1860): tendências Baur aplicou à história do Cristianismo nascente o esquema dialético de Hegel. que seriam dispensados da Lei de Moisés e introduziriam a cultura helenística para dentro do Cristianismo. . Na verdade. o embelezamento ou a idealização de uma figura do passado requer tempo. Se a purificação do templo é histórica. 4. faz-se aos poucos. ou se ela surgiu da aplicação messiânica do texto. antítese e síntese. aberta aos pagãos. .a tese foi a corrente petrina.O chamado dos primeiros discípulos não pode ter acontecido como é narrado. As hipóteses levantadas por Strauss suscitaram polêmica e oposição. A missão dos setenta não é histórica.

e raramente um livro é tão diretamente nascido do entusiasmo quanto aquele que Renan planejou entre as colinas da Galiléia´ (p. Gl 1. Ela ofende e atrai. predominantemente paulino. de in spiração petrina com alguns elementos paulinos. 6 -10). nem é provável que seja superada em sua própria linha. ³para avistar -me com Cefas e fiquei com ele quinze dias´ (cf. 119). 12 deste fascículo. 11 -14). de característica neutra. Escrita com grande habilidade literária. Eis como Schweitzer a avalia: ³Dificilmente haverá outra obra sobre este assunto como tão abundantes lapsos de gosto ± e do tipo mais deprimente ± como a Vie de Jésus de Renan. a Vie de Jésus . A propósito é de notar que tal teoria baseada nas premissas da filosofia de Hegel mais do que na consideração dos textos do Novo Testamento. São Pedro foi o primeiro a apregoar o universalismo da fé cristã (ver At 4. São Paulo reconhecia a autoridade da Igreja-mãe. Escreveu uma famosa ³Vida de Jesus´. 18s). seria mera especulação teológica ainda mais tardia. poderiam tornar forma num corpo de vitrine de uma loja de arte eclesiástica na Place St. que em 1867 estava na 13ª edição e foi traduzida para várias línguas. O gentil Jesus. Ainda assim. a linda Maria. há algo de mágico sobre a obra. 5. Quanto ao incidente de Antioquia (Gl 2.12). em meados do século II terá sido redigido Marcos. os belos galileus qu e formavam a companhia do ³simpático carpinteiro´. mas. o de Lucas. no concílio de Jerusalém Pedro e Paulo distribuíram entre si harmoniosamente as tarefas do apostolado (ver Gl 2. perdeu a fé e tornou -se livre pensador. É arte cristã no pior sentido do termo ± a arte da imagem de cera. Sulpice.Os Evangelhos Sinóticos representariam as tentativas de conciliação redigidas no século II: o de Mateus. que ele foi visitar ao voltar do seu retiro na Arábia. após ler a literatura crítica alemã. em estilo de romance¹. 1 -48). Quanto ao Evangelho de João. ver p. Ernest Renan (1823-1892): estilo de romance Foi seminarista. Ela nunca será realmente esquecida. pois a natureza não é pródiga em mestres do estilo. foi também o primeiro a receber um pagão ± o centurião Cornélio com seus familiares ± na Igreja sem lhe impor a Lei de Moisés (ver At 10.

afirmava: ³Jesus apregoou o Reino de Deus. a Vida de Jesus é um romance do diletantismo tão na moda durante o século XIX e de que Renan foi o perfeito modelo (Guignebert. Wm 1893 foi destituído da cátedra por ensinar teorias não católicas: as fórmulas de fé seriam apenas metáforas e símbolos. 229). mas o que veio. como tal. constituindo a escola escatologista. segundo Loisy e sua escola. mas está sempre pensando no grande público e na maneira de lhe interessar. Como obra de ciência. No tocante a Jesus. Jesus terá esperado essa catástrofe. p. 6. na qual.de Renan foi acolhida com aplausos pelos incrédulos. Renan declara representar o Cristo do quarto Evangelho. Alfred Loisy (1857-1940) e os escatologistas Foi católico e. que aguardavam ansiosamente uma intervenção de Deus: mediante um cataclisma universal. cit. tudo o que nos Evangelhos insinua a Igreja como sociedade estável e dur adoura. o autor impõe aos textos s uas próprias sugestões. felicidade e paz. Tais idéias foram professadas outrossim por Charles Guignebert. C. frustrados. o Altís simo viria destruir o reino da iniqüidade dominante na Terra e instauraria um reino de justiça. Johannes Weiss. ³há uma espécie de insinceridade no livro. apresentar a face esquerda a quem esbofeteia a direita (cf. Consequentemente. indução de filósofo racionalista´ (Weinel). . Escreve Cerruti (obra citada. do início ao fim. apregoando uma ³Ética do provisório´: não r esistir aos assaltantes. imaginação de poeta. lecionou no Institut Catholique de Paris. XXVIII-XXX). foi a Igreja´.. por isto quis preparar os discípulos para esse grande evento. págs. dar a túnica a quem quer levar o manto. 162): ³Obra de arte. nenhum valor´. exerceu vasta influência sobre a camada populacional de cultura média. Mas também foi severamente criticada. Mt 5. Com outras palavras: Jesus terá compartilhado a expectativa dos judeus de seu tempo. Burkitt. mas não acredita na autenticidade dos milagres daquele Evangelho. enganado como estava no tocante à escatologia). Ele declara escrever uma obra científica. sujeitos a diversas interpretações. fundaram a Igreja (pois Jesus mesmo não a fundou. op. ³Ele fundiu assim duas obras de caráter díspar´ (Schweitzer. 38 -42). só pode ser acréscimo tardio devido aos discípulos que. p. com ³visão de pintor.

. Em conseqüência fundavam-se confrarias religiosas como as de Mitra. os Apó stolos são enviados a todos os povos (cf.. Átis. assim a parábola do joio e do trigo refere ao paulatino crescimento das sementes até que chegue o dia da messe (cf. . Osíris.. Dionísio..A propósito convém notar: se nos Evangelhos se encontram alusões ao juízo final e à glória celeste. existem também (indícios presentes em todos os manuscritos antigos) de que Jesus contava com a longa duraçã o de sua obra. entrega de símbolos e de fórmulas dentro de uma atmosfera de dramaticidade. os ritos aplicados compreendiam loções purificadoras. Filho e Espírito Santo). Eichhorn. Deus salvador nos mistérios de Átis. Zagreu. a quem eram transmitidas doutrinas religiosas secretas. Avatares (homens divinos) da Índia Encarnação do Verbo. o mesmo se depreende da parábola do grão de mostarda que cresce a ponto de tornar -se uma grande árvore. parecia ser o culto das religiões de mistérios. onde o ³mista´ devia chegar à união com a Divindade. Especialmente importante. História das Religiões comparadas: Gunkel. no caso. Mt 13.. Eis algumas das semelhanças que fundamentariam a pretensa dependência do Cristianismo: Trindades babilônicas e Trimurti da Índia Trindade cristã (Pai. 18 20). Osíris. A crítica assumiu ainda outro aspecto 7. 24 -30). Dionísio Jesus Salvador. Adônis. Wrede No fim do século XIX os estudos da história haviam progredido tanto que os pesquisadores procuraram descobrir a origem do Cristianismo no ambiente religioso pagão que cercava o povo de Israel. Estas constavam de ritos dos quais participavam apenas os iniciados. Mt 28. ressurreição nos mesmos mistérios ressurreição de Cr isto. doutrinas que deviam levar o iniciado à felicidade e à salvação.

dos pés.loções purificadoras Batismo. do corpo). por isto. Alguns críticos chegaram mesmo a negar a existência de Jesus. as trevas. Afirmando a dependência do Cristianismo em relação aos cultos pagãos. porque lembra o triângulo eqüilátero.. Paulo terá helenizado o Cristianismo nascente. ocorrem cá e lá sem que haja dependência. 2) Também há símbolos cujo significado é o mesmo para todos os homens e.. Assim o levantar as mãos para o céu. figura sempre igual a si mesma e. a luz. o fogo. A propósito seja observado: 1) há manifestações religiosas espontâneas a todo homem que: por ser espontâneas.. Assim a água como sinal e fator de purificação (donde a loção das mãos. para a razão. visto que a noção de Deus feito ho mem é. invencível: quatro. Tão radical posição hoje em dia não conta com sérios adeptos. idem. Ascese budista ascese cristã. . 3) O conceito de ascese ou mortificação das paixões desregradas para que exista união com Deus é outro elemento que aflora por si mesmo à co nsciência de todo homem sincero. O Apóstolo Paulo terá sido o responsável pela distorção paganizante da pregação semita de Jesus. o ajoelhar -se. os historiadores classificavam como lendária a mensagem histórica que acompanha a Boa -Nova de Cristo. assim três é sinal de perfeição.. donde o valor po sitivo de 3 + 4 e 3 x 4. totalmente inconcebível. o sal. por isto. o prostrar-se por terra. podem aparecer em regiões (e religiõ es) diversas sem que haja dependência. banquetes sagrados Eucaristia. 4) O simbolismo de certos números é o mesmo para todos os povos.

30 -33: a) A Trindade cristã (Pai. a tartaruga. o destruidor e o renovador. A respeito veja -se quanto já foi ponderado em PR 266/1983. porém. casado com Cali. verifica -se que as narrações pagãs estão muito distantes do evento professado pelo Cristianismo. Examinaremos os mitos mais freqüentemente aduzidos: . no fim do mundo. Ora um exame mais detido mostra a oposição frontal entre um e outro termo. em religiões não cristãs há tríades de deuses distintos uns dos outros e entendidos em sentido politeísta. Trindade quis assumir a natureza humana. O Cristianismo professa que a segunda Pessoa da SS. Acontece.. o cavalo. o javali. o criador casado com Sarasvati. da casta dos guerreiros. politeísta?... as crenças hindus professam a metamorfose de Visnu em sucessivos avatares como seriam o peixe. será panteísta?. a deusa da destruição).. com suas façanhas cruéis e sua vida devassa foi a antítese do que o Cristianismo atribui a Jesus Cristo.) seriam paralelas à Encarnação do Verbo. Filho e Espírito Santo) seria análoga às tríades de deuses da Babilônia (Anu. Krishna. Visnu aparece também em dois heróis (Rama e Krishna)..5) Nos casos em que há identidade de sinais (água. que na mensagem cristã há um só Deus. pp. a fim de santificar o homem e o mundo. que a lenda divinizou.. Siva. o leão.. Têm suas aventuras e lutam entre si pela hegemonia.. monoteísta? Se a mentalidade difere de um caso para o outro.. cuja natureza é tão rica que ela se afirma em três pessoas (que não são três deuses nem repartem a natureza divina) É de notar que os cristãos passavam por ³ateus´ no Império Romano pelo fato de não cultuarem os deuses da mitologia greco -romana ± o que bem mostra como eram infensos ao politeísmo.. Ao contrário. b) As encarnações de Visnu. Como se vê. a deusa da beleza. sem nada perder do que é de Deus.. c) Quanto aos pretensos paralelos de ressurreição. torna -se improvável a dependência. Bel. é preciso investigar qual a mentalidade que inspira o uso de tal símbolo. Krishnamurti. Ea) ou à Trimurti hindu (que professa Braama. refeição sagrada entendida como partilha). que se manifesta em avatares (Buda.

consumada feiticeira. Para dirimir o litígio. tal seria a paixão e a ressurreição de Adônis! Cibele.Dionísio Zagreu. o coração de Dionísio escapara à voracidade dos Titãs. porém. fez morrer a Ninfa. pouco depois. Depois disto reteve consigo o jovem pastor Átis. reinaria doravante sobre os mortos. despedaçado e devorado por Titãs. foi morto. Júpiter concedeu ainda a Cibele que a cabeleira do seu protegido continuasse a crescer e que o seu dedinho ficasse sempre em movimento. Em vão. porém. instigados por Hera. enquanto a múmia reconstituída se conservasse em Heliópolis. Este. se esforçou por reanimá -los. Apenas o seu irmão Osíris. ficando livre para dispor dos quatro meses restantes. Tal terá sido a ³ressurreição´ de Átis! Como se percebesse. decepou o cadáver e dispersou os pedaços! ± Tal terá sido a Paixão de Osíris! ± Ora. continua a lenda. morte e ressurreição de Jesus Cristo´. irmã e esposa desse infeliz. nascido da união de Júpiter com sua filha Perséfona. esposa de Júp iter. Set ou Tifon mostra a seu convivas um cofre maravilhoso e promete doá -lo a quem o achar exatamente proporcionado ao seu tamanho. seu marido poderia ter uma vida nova no outro mundo. mãe dos deuses. Seria despropositado querer aproximá -los entre si. Cibele então obteve pelo menos que o corpo de Átis permanecesse incorrupto. todos esses mitos estão muito longe de transmitir o autêntico conceito de ressurrei ção da Divindade. diz o mito. que Átis p referia à própria Cibele. Tal terá sido a ³ressurreição´ de Osíris! O belo Adônis. tornou a unir os membros espalhados. que não suspeitava da cilada. Júpiter decidiu que passaria quatro meses com uma e quatro meses com outra. rainha dos infermos. foi morto por um javali. nele se acomodou. não podem ser tidos como . Ora Júpiter (segundo uma lenda) ou Semele (segundo outra) engoliu tal coração e em conseqüência deu à luz um outro Dionísio. Isis. Set fez pregar a tampa e lançar o cofre no Nilo. ± Como se vê. ± Como se vê. Foi-lhe revelado contudo que. amado simultaneamente por Vênus e Proserpina. sucumbiu à ferida que sofrera no segundo instante do seu desespero. as duas deusas o reclamaram então. este episódio da mitologia se difer encia radicalmente do que se chama ³a paixão. Todavia.

Tal fenômeno não implica dependência do conteúdo ou da mensagem do Cristianismo em relação às religiões não cristãs. é a redenção enquanto remissão do pecado. ± O paganismo não tinha a noção de pecado ³ofensa a Deus´. Morte e Ressurreição de Jesus. na verdade. ao passo que o Cristianismo a propõe como fundo de cena da sua mensagem. tendo em vista o alívio dos sofrimentos terrestres. ela não representava ideal algum a que os gregos aspirassem. dos próprios cristãos. É simplório ou anticientífico aproximar entre si termos cuja inspiração fundamental é antagônica. apregoa a expiação e o perdão dos pecados. a plenitude da vida em comunhão com Deus mediante a oblação de Cristo. o Sol. devem -se ao fato de que os sentimentos religiosos são basicamente os mesmos em todos os homens. há. sabe -se que a idéia de ressurreição era muito estranha ao pensamento helenista. Muito a propósito diz o escritor cristão Tertuliano no começo do século III: ³A pregação da ressurreição. é o que reconhece o crítico liberal R. sem negligenciar tal aspecto da salvação (tenh am-se em vista os milagres realizados por Jesus). visto que a inspiração fundamental do Cristianismo é .. d) O conceito de salvação nas religiões pagãs geralmente se refere ao plano medicinal e mágico. Reitzenstein: ³O que há de novo no Cristianismo.paralelos ou analogias da Paixão. o Cristianismo é essencialmente monote ísta. as trelas exprimem o brilho da Divindade que ilumina o homem. A temerosa seriedade da pregação do pecado e da expiação não se acha no helenismo´ (Po imandres. p. que recorre aos mesmos símbolos e gestos para se exprimir. sim. abalou as nações com a sua novidade´ (De resurrectione carnis 3). inaudita até então. a ceia ou a refeição exprime a comunhão ou participação. Aliás. 180). pois para muitos destes o corpo era o cárcere ou o sepulcro da alma. a Luz. Leipzig 1904.. não brotaria do âmago da mentalidade helenista a concepção de ressurreição como meta para os homens. e) Se há semelhança de expressões entre as religiões helenistas ou orientais e o Cristianismo. O Cristianismo. consequentemente. ao passo que a mitologia é politeísta. assim o uso da água e das abluções rituais significa naturalmente a pureza interior... O Cristianismo não recusou adotar expressões religiosas dos povos pré -cristãos na medida em que correspondem ao patrimônio religioso comum de todos os homens e. uma religiosidade natural no pagão e no cristão.

enveredando por trilhas mais fundamentadas. 162: Os possessos do demônio eram simples loucos ou pessoas excêntricas e ³uma palavra meiga basta muitas vezes nesse caso para ³expulsar o demônio´. 8. ¹ Tradução de W. Método não necessariamente racionalista. pp. Foram propostas teorias preconceituosas. p. ¹ Eis dois espécimens desse estilo citados por Cerruti. e não dos judeus. Sergio Paulo de Oliveira e Cláudio Rodrigues. Paulo não disse palavra contra os direitos de S. 477 pp. cf. Conclusão O livro de Albert Schweitzer é importante como i nformativo da história da crítica dos Evangelhos desde o começo do século XVIII até o início do século XX. As . 14). dizia Paulo. Fischer. Este episódio ainda vem a ser um testemunho indireto da autoridade do Primaz: Paulo diz ter chamado a atenção de Pedro justamente porque o exemplo deste Apóstolo era de tal modo persuasivo que coagia moralmente os étnico-cristãos a o imitarem ou a observarem a Lei de Moisés: ³Se tu.11 -14). Novo Século. São Paulo. Paulo ³atesta ter sido Simão Pedro o chefe do serviço evangélico. era mal interpretada. 491 -201.diferente da do paganismo. sob pena de trabalhar em vão´ (Les Évangiles synoptiques 14). vives à maneira dos gentios. Note -se que. De tudo isso conclui Loisy que o gesto de S. APÊNDICE Seja brevemente considerado o chamado ³incidente da Antioquia´ (Gl 2. embora fosse legítima. mostra o esforço de intelectuais racionalistas para explicar o teor do Livro Sagrado sem o apoio da fé. A falha de Pedro p arece ter consistido em não estar plenamente cônscio da influência que ele exercia ou em não ter percebido que sua condescendência para com amigos. o homem com o qual era preciso entrar em acordo . PR 318/1988. como forças os gentios a se fazerem judeus?´ (Gl 2. 160 x 230 mm. que a própria crítica no século XX rejeitou. pois pode ser cultivado também em chave católica. que és judeu. Pedro a exercer tal influência sobre os fiéis. Ed. perturbando a Igreja inteira. na sua atitude forte. que são o Método da História das Formas.

. lhe garante a cura. XVI)´. porque ³a presença de um homem superior que trate o doente com mansidão e com alguns sinais sensíveis. c.curas são devidas ao influxo moral exercido por Jesus. é muitas vezes um remédio decisivo´ (Vie de Jésus.