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Universidade Regional de Blumenau

A IMPORTÂNCIA DO CURRÍCULO NA FORMAÇÃO DO SER SOCIAL

Paolo Moser1

Zilá Gomes de Moraes Flores2

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo realizar uma análise bibliográfica a respeito da
importância/influência do currículo na formação do ser social. Para tanto, busca-se apoio nas
idéias de teóricos curriculares, bem como em suas conclusões a respeito do impacto destas
correntes no “ser em construção”. Trata-se de um artigo de caráter explicativo, sem o objetivo
de apresentar novas metodologias e/ou tendências para a estruturação curricular atual. A
motivação para a realização do presente levantamento teórico baseia-se nas constantes
discussões a respeito da estruturação curricular escolar, tema comum nos discursos
pedagógicos atuais. Procura-se identificar qual o perfil do cidadão que está sujeito a um
modelo curricular específico (como, por exemplo, a linha tradicional, crítica ou pós-crítica).
Lembra-se também que, quando tratamos de seres humanos, não existe uma “padronização”
de formação, portanto as idéias aqui expostas não podem ser aceitas de forma estrita e
homogênea; são considerações gerais, que não se propõem a levar em conta a subjetividade de
cada cidadão.

Palavras-chave: Currículo. Aluno. Sociedade. Formação.

1 INTRODUÇÃO

1
Aluno do curso de pós-graduação lato sensu em Interdisciplinaridade na Prática Pedagógica e graduado em
Licenciatura Plena em Matemática
2
Graduada em Educação Física, Especialista em Psicopedagogia, Mestre em Educação nas Ciências –
UNIJUI/RS, componente do grupo de Estudos CRISÁLIDA – Infância, Sociedade e Cultura/UNIJUÍ/RS.
Orientadora da Divisão de modalidades de Ensino – DME da Universidade Regional de Blumenau/FURB/SC.
2

Os ambientes escolares, quase que em sua totalidade, são organizados por currículos
estáticos, pré-definidos e regidos por estritas legislações. A pergunta que fica no ar é: a
sociedade contemporânea ainda exige e comporta os modelos curriculares propostos pelas
Diretrizes e Parâmetros Curriculares Nacionais, ou é necessária uma reforma para flexibilizar
o saber escolar de acordo com cada contexto? À luz das teorias existentes a respeito de
currículo, a resposta a esta problematização é o que pretende apresentar este artigo.
Por fim, espera-se que o presente artigo desperte no leitor um interesse pela dualidade
teoria/prática curricular e que leve o mesmo a reflexões a respeito dos paradigmas que ainda
existem quando o assunto é fazer educação escolar, prática fundamental à estruturação e
consolidação social do indivíduo.

2 METODOLOGIA

Segundo o critério de classificação proposto por Vergara (2005), a presente pesquisa


classifica-se metodologicamente, quanto aos seus fins, como Descritiva, pois busca descrever
o fenômeno da organização curricular de nossa escola tradicional à luz das teorias existentes,
ao mesmo tempo que apresenta-se como um artigo Explicativo, que procura traçar a relação
existente entre esta mesma organização curricular, a preparação e o sucesso do ser humano
enquanto ser social. Quanto aos seus meios, a pesquisa apresenta-se como Bibliográfica, pois
todo seu referencial teórico, bem como os dados aqui apresentados encontram-se em livros da
área da Educação.
Como fundamentação teórica, busca-se, através de pesquisa bibliográfica, as opiniões
de teóricos da área curricular, de forma a legitimar o conhecimento divulgado, concedendo-
lhe embasamento científico que permita apresentar conclusões, deveras, livres de achismos e
subjetivações.

3 REFERENCIAL TEÓRICO

Nos itens seguintes, apresentar-se-á o embasamento teórico a respeito do currículo,


bem como as linhas curriculares existentes. Os dados aqui concatenados foram obtidos a
partir da pesquisa bibliográfica dos autores referenciados.

3.1 O CURRÍCULO: O QUE É? DE ONDE VEM? PARA QUE SERVE?


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Ao tomar-se a etimologia da palavra currículo (do latim curriculum), ver-se-á que,


literalmente, currículo significa pista de corrida, um percurso a ser realizado (SILVA, 2003).
Falar em currículo é olhar para a formação acadêmica, afinal, é ela a legitimadora das
práticas curriculares, sendo estas pertencentes às mais variadas correntes. E este currículo
influencia de forma direta e proporcional a formação e atuação profissional do ser humano.
Logo, pode-se concluir que, além de direcionar a prática acadêmica, o currículo tem impacto
direto sobre a constituição do aluno como ser social, ou seja, suas implicações ultrapassam,
em muito, as paredes da sala de aula. Sobre esta questão, Popkewitz diz que:

O foco nas relações estruturais que padronizam os acontecimentos da escolarização


pode ser analisado na simples palavra currículo. O currículo expressa conjuntos de
relações sociais e estruturais através dos próprios padrões de comunicação sobre os
quais é formulado. O currículo, os métodos e a classe escolar foram invenções para
reforçar a coerência racional, a sequência interna. [...] Falar sobre o currículo
pressupõe, então, um conjunto de suposições e valores sociais que são claramente
aparentes, mas que limitam a gama de escolhas disponíveis. As fórmulas
pedagógicas associadas ao currículo, no entanto, se modificam com o tempo já que a
pedagogia relaciona-se com padrões complexos dentro e fora da escola.
(POPKEWITZ, 1997, p. 30-31)

O interesse e o estudo a respeito do currículo escolar não é algo, deveras, recente. Já


em 1918, surge um livro escrito por Bobbit, intitulado “The Curriculum”, onde o autor busca,
de uma forma metaforicamente “industrial”, a eficiência da organização do saber, de forma a
torná-lo científico e especializado. A consolidação dos estudos sobre currículo tal qual a
conhecemos hoje, deu-se através da divulgação das idéias de Ralph Tyler, em meados do
século XX. Tyler também sistematizou o currículo de forma técnica, dividindo a educação em
uma estrutura rígida de três eixos: currículo, ensino e avaliação. Percebe-se claramente essa
divisão e a preocupação com a “necessidade” de atendimento destes quesitos em suas idéias,
como deixa claro Silva, ao discorrer a respeito da obra de Tyler:

Ralph Tyler consolidou a teoria de Bobbit quando propõe que o desenvolvimento do


currículo deve responder a quatro principais questões: que objetivos educacionais
deve a escola procurar atingir; que experiências educacionais podem ser oferecidas
que tenham probabilidade de alcançar esses propósitos; como organizar
eficientemente essas experiências educacionais e como podemos ter certeza de que
esses objetivos estão sendo alcançados. (SILVA, 2003, p.25)

O currículo, no Brasil, começa a assumir uma postura mais “séria”, e organizada a


partir da década de 30, com o Manifesto dos Pioneiros, de 1932. A partir daí, ao longo da
evolução da história da educação brasileira, começam a aparecer documentos oficiais que
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legitimam, controlam e normatizam o currículo da educação nacional, de forma a padronizar o


ensino e garantir os saberes básicos que todos os estudantes devem possuir. Dentre estes
documentos, podemos citar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação para a Educação
Nacional (LDB), as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), os Parâmetros Curriculares
Nacionais (PCNs) e Referenciais Curriculares Nacionais (RCNs). O objetivo do presente
artigo não é estudar a fundo estes documentos, portanto recomenda-se a leitura dos mesmos
àqueles que possuam interesse na estruturação desta documentação.
Com o objetivo de analisar o impacto social da organização curricular do saber
acadêmico, é necessário saber que existem variadas correntes curriculares, e que cada corrente
desta produz um saber distinto.

3.2 AS LINHAS CURRICULARES

Existem três linhas e/ou correntes curriculares, de acordo com SILVA (2003). São
elas: a teoria tradicional, a teoria crítica e a teoria pós-crítica, cada qual com suas respectivas
metodologias e seus representantes. De forma a fundamentar o presente artigo, discorre-se, a
seguir, a respeito das características de cada uma destas correntes.

3.2.1 Teoria tradicional

A Teoria Tradicional Curricular propõe uma estruturação rígida dos conteúdos


necessários à formação profissional do aluno, numa meta-conformidade com a teoria de
administração econômica de Taylor, onde o ponto principal a ser prezado é a eficiência. Tem
Bobbit como seu idealizador e figura histórica principal, sendo este legitimado,
sequencialmente por Ralph Tyler e John Dewey (sendo, este último, mais progressista que
seus antecessores). Silva refere-se ao precursor dos estudos curriculares afirmando que:

[...] de acordo com Bobbit, o sistema educacional deveria começar por estabelecer
de forma precisa quais são seus objetivos. Esses objetivos, por sua vez deveriam se
basear num exame daquelas habilidades necessárias para exercer com eficiência as
ocupações profissionais da vida adulta. (SILVA, 2003, p.23)

Apesar de ter sido a primeira teoria curricular de qual tem-se informação, a teoria
tradicional ainda é encontrada na maioria das escolas e universidades. Ainda são poucas (em
proporção ao número total), as instituições que tentam fugir do tradicional, o que acaba por
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limitar também os profissionais que nelas trabalham. Existem outros fatores que levam os
profissionais da educação a um certo “comodismo” estacionário, como má-remuneração, falta
de um plano de carreira justo, etc, mas não é objetivo do presente artigo entrar no mérito desta
discussão.
Enfim, a questão principal das teorias tradicionais pode ser assim resumida:
conteúdos, objetivos e ensino destes conteúdos de forma eficaz para ter a eficiência nos
resultados. (SILVA, 2003).

3.2.2 Teorias críticas

Em meados dos anos 60, começam a emergir novas formas de enxergar o currículo,
sob uma ótica ideológica marxista, onde teóricos do currículo vêem na linha tradicional uma
forma de dominação e de submissão popular, por parte da elite dominante. Surge aqui uma
mistura de currículo com idealismo. Passa-se a considerar o currículo vigente, tradicional, um
legitimador do capitalismo opressor. O poder, a dominação, por parte das classes ricas, dá-se
a através da disseminação de suas práticas e costumes, o que tende a ocasionar uma
hegemonia cultural, “abafando” a cultura das classes submissas, que acabam por perder sua
identidade e viver em função de uma realidade imposta, de forma rígida e inquestionável.
Em ambas as visões, a problematização é a mesma: currículos tradicionais são formas
de manipular e as classes. Para tanto, propõem-se novas formas de encarar e organizar os
currículos: as teorias críticas, onde seria necessária uma resignificação do termo currículo.

Na perspectiva fenomenológica, o currículo não é, pois, constituído de fatos, nem


mesmo de conceitos teóricos e abstratos: o currículo é um local no qual docentes e
aprendizes têm a oportunidade de examinar, de forma renovada, aqueles significados
da vida cotidiana que se acostumaram a ver como dados naturais. (SILVA, 2003, p.
40)

A principal característica desta corrente é conscientizar os alunos de sua posição e da


sua importância cultural e econômica nas sociedades complexas, promovendo a emancipação
e libertação dos mesmos. Como maiores representantes desta corrente, temos Willian Pinar,
Michael Apple, Henry Giroux e o brasileiro Paulo Freire, com sua famosa (e auto-
explicativamente nomeada) “Pedagogia da Libertação”. Moacir Gadotti, o pedagogo que dá
continuidade ao legado de Freire, sucintamente relata a visão crítica curricular, dizendo:
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Numa pedagogia oposta à pedagogia do colonizador (que na falta de melhor


expressão chamamos de pedagogia do conflito), o educador reassume a sua
educação e seu papel eminentemente crítico: à contradição (opressor-oprimido, por
exemplo), ele acrescenta a consciência da contradição, forma gente insubmissa,
desobediente, capaz de assumir a sua autonomia e participar na construção de uma
sociedade mais livre. (GADOTTI, 1989, p. 53).

3.2.3 Teorias pós-críticas

Com a evolução do pensamento humano/acadêmico, ao longo dos anos, surge uma


nova linha na teoria curricular: a teoria pós-crítica. Aqui, enfatiza-se o multiculturalismo,
destacando-se as diversidades do mundo contemporâneo.
Questões que antes eram motivos de segregação e distinção entre pessoas, como sexo,
raça, classe social, agora são incluídas e discutidas diretamente nos currículos. O movimento
feminista tem grande influência nesta revolução. Antes disto, os currículos eram diferentes
para o sexo masculino e feminino, bem como havia distinções nas profissões assumidas por
cada um dos gêneros. Não é preciso ir muito longe para perceber que negros e homossexuais
sofriam (e, infelizmente, ainda sofrem, em muitas sociedades) da mesma separação.
Aqui, mais do que nunca, busca-se uma identidade cultural a partir das minorias,
rompendo com o “monopólio” da cultura hegemonizada pela classe dominante e direcionada
a grupos pré-determinados. Numa versão mais progressista da crítica, o multiculturalismo, ao
enfatizar a manifestação de múltiplas identidades e tradições culturais, fragmentaria uma
cultura nacional única e comum, com implicações políticas regressivas (SILVA, 2003, p. 89).
O Brasil, por ser um país de muita miscigenação, apresenta dificuldades para a
implementação do multiculturalismo. Sabe-se que, infelizmente, o conhecimento distribui-se
de forma desigual para os diferentes setores da população, e esta diferença deve ser levada em
consideração na elaboração dos currículos.

O pós-modernismo questiona os princípios e pressupostos do pensamento social e


político estabelecidos a partir do iluminismo. As idéias de razão, ciência,
racionalidade e progresso constante que estão no centro desse pensamento estão
indissoluvelmente ligadas ao tipo de sociedade que se desenvolveu nos séculos
seguintes (SILVA, 2003, p. 111).

Enfim, com a teoria pós-crítica, o objetivo é reduzir as diferenças sociais e possibilitar


o acesso do conhecimento a todos, porém, mantendo a identidade dos grupos sociais e criando
no estudante um pensamento multicultural, aberto às diferenças sociais e na individualidade
do sujeito, contribuindo para e conseqüente diminuição do preconceito e da segregação social,
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ao mesmo tendo que fragmenta o modelo hegemônico de dominação proposto pela teoria
tradicional.

4 ANÁLISE DOS DADOS

Conforme mencionado na Metodologia (Item 2), o presente artigo baseoua-se em uma


pesquisa bibliográfica realizada nas obras dos autores citados no Referencial Teórico e
relatadas nas referências ao final deste artigo.
Para uma análise clara dos conceitos encontrados, foi organizado o quadro 1
definições teóricas elaboradas pelos autores analisados nesta pesquisa.

TYLER (1974, p. 45) – Linha Tradicional “Currículo é o conjunto de objetivos educacionais e


conteúdos que visam desenvolver determinados
comportamentos, os quais se delineiam a partir dos
objetivos e se concretizam a partir dos conteúdos”

POPKEWITZ (1997, p. 121) – Linha Crítica “currículo pressupõe, então, um conjunto de


suposições e valores sociais que são claramente
aparentes, mas que limitam a gama de escolhas
disponíveis.”

FREIRE (1977, p. 98) – Linha Crítica “O conteúdo programático (currículo) da educação


não é uma doação ou uma imposição – um conjunto
de informes a ser depositado nos educandos – mas a
devolução organizada, sistematizada e acrescentada
ao povo, daqueles elementos que este lhe entregou de
forma inestruturada.”
SILVA (2003, p. 97-98) – Linha Pós-Crítica “o currículo é um local no qual docentes e aprendizes
têm a oportunidade de examinar, de forma renovada,
aqueles significados da vida cotidiana que se
acostumaram a ver como dados naturais”
e
“O currículo é autobiografia, nossa vida, curriculum
vitae: no currículo se forja nossa identidade. O
currículo é texto, discurso, documento. O currículo é
documento de identidade”
Quadro 1 – concepções de currículo

Com base nas assertivas acima, e no resgate das obras de seus autores, montou-se um
banco de dados que permite analisar a importância/influência do currículo na formação do ser
social. A escolha de dois autores para a “linha crítica” (Popkewitz e Freire) parece sensata ao
autor do presente artigo, visto que existe uma cumplicidade e uma complementação aparente
entre as idéias de ambos. Uma vez já definidas e apresentadas as obras utilizadas nessa análise
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pelo referido quadro, é importante esclarecer que não serão referendados novamente os anos
das obras dos autores já mencionados, deixando fluente a leitura desse artigo.
Primeiramente, abordou-se a obra de um dos precursores das teorias curriculares: o
educador americano Ralph Tyler, autor (dentre outras obras), do livro “Princípios básicos de
currículo e ensino”. Neste, o autor procura apresentar, em linhas gerais, um modo de encarar o
programa de ensino como um instrumento eficiente de educação. Para isso identifica quatro
questões fundamentais que devem ser respondidas quando se desenvolve qualquer currículo e
plano de ensino. São elas: que objetivos educacionais a escola deve procurar atingir; que
experiências educacionais podem ser oferecidas e que tenham probabilidade de alcançar esses
propósitos; como organizar eficientemente essas experiências educacionais; como ter certeza
de que esses objetivos estão sendo alcançados.
No conteúdo exposto ao longo do livro, Tyler sugere métodos para estudar as questões
acima propostas. Em sua visão, o autor afirma que o cotidiano dos jovens já fornece uma
parte considerável de seu desenvolvimento educacional; a função do currículo escolar bem
estruturado seria a de focar nos detalhes que não são cobertos pelos ensinamentos desse
ambiente para promover o desenvolvimento desses estudantes e suas necessidades mais
evidentes. O currículo de Tyler é visto como uma atividade neutra, para racionalização do
ensino e planejamento estratégico do mesmo. Pode-se observar claramente o desejo de
“padronização” no indivíduo a ser formado nesta estrutura curricular; objetiva-se o tecnicismo
racional através do estabelecimento de um currículo estático que vise, principalmente, a
organização, a ordem e a estabilidade social. O estudante é moldado segundo padrões pré-
estabelecidos e tradicionais e, após este processo, é avaliado para que ocorra a “medição” da
assimilação deste molde.
Já para o professor norte-americano Thomas Popkewitz, as reformas no contexto da
escolarização constituem-se como um mecanismo de ajuste dos processos pedagógicos às
demandas sociais, políticas e econômicas da sociedade em transformação. Nesse ponto, o
currículo exerce um poder muito abrangente a respeito desta reforma, pois é ele que norteará
“o que” e “quando” a aluno deve aprender para seu efetivo sucesso e inserção no meio social.
O autor discute de que formas o fazer acadêmico pode gerar não somente uma ordem
institucional, mas também capacidades e desejos individuais. Fazendo uma análise da
organização curricular de seu país, Popkewitz identifica claramente como a mesma é gerada e
gerenciada pela estrutura governamental, em busca da formação dos cidadãos ideais das
sociedades modernas, aptos ao trabalho especializado e galgado em princípios éticos/morais.
O autor critica essa forma de posicionar o currículo pois, segundo o mesmo, ela limita a gama
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de escolhas do indivíduo a respeito de sua própria individualidade. Para Popkewitz, o


currículo deve ser estruturado de maneira que prepare, além de uma força de trabalho atenta
ao conhecimento científico, ao raciocínio rápido, de caráter moral e ético equilibrados, uma
geração proprietária de idéias.
O pesquisador e escritor brasileiro Tomaz Tadeu da Silva relata outro aspecto
interessante a respeito da ligação currículo-ser social. Silva diz que, com base em suas
pesquisas e suas reflexões, percebe-se que, normalmente, existe a estagnação de uma
determinada forma de currículo, momentos posteriores à sua implementação. E isso gera um
paradigma tão grande quanto os propostos por Tyler antes dele: onde encontra-se a “dosagem
correta” entre tradicionalismo e criticismo, entre racionalização e dinamização, entre teoria e
prática? O autor deixa claro que as idéias inovadoras não são inovadoras para sempre e, a
partir do momento em que estas efetivamente chegam ao “poder”, acomodam-se em sua
regularidade, passando, ao longo do tempo, do caráter de revolucionária para tradicionalista
novamente. Nas palavras de Tomaz, “quando o „outro‟ vira o „dentro‟, quando o estranho vira
familiar, quando a heterodoxia vira ortodoxia, quando a teoria vira catecismo, o movimento,
paralelamente, congela” (2003, p. 54). Para que isso não ocorra, recomenda que não
“idolatrem-se gurus”, ou seja, de nada adianta aplicar teorias curriculares de forma mecânica e
superficial; é necessário um constante monitoramento da prática vigente, em função de poder
continuar sempre melhorando, pois, a partir do momento que ocorra a
estagnação/acomodação de uma forma única de conceber-se o currículo escolar, acontece
novamente a redução dos horizontes dos estudantes. Ou seja, uma estagnação curricular pode
acabar com o multiculturalismo presente nas sociedades modernas complexas, contribuindo
para o aumento das diferenças, do preconceito e da exclusão social.
E a respeito destas revoluções, tem-se na obra do brasileiro Paulo Freire talvez o maior
exemplo de “pedagogo revolucionário”. Freire critica o currículo existente através do conceito
de “educação bancária”. Nesta analogia, o currículo tradicional está afastado da realidade das
pessoas que fazem parte do processo de aprendizado. O aluno torna-se um mero receptor de
conhecimento, o que o autor compara ao processo de depositar dinheiro em uma conta
bancária. Freire cria o conceito de “temas significativos” (ou temas geradores), sob os quais o
currículo deveria fundamentar-se, de forma primária e principal. Estes temas geradores seriam
trazidos à escola pelos próprios alunos, a partir de sua própria realidade social. No estudo dos
casos, professor e aluno estudam e aprendem juntos e, com base nisto, possuem ferramentas
para legitimar a mudança e a melhoria social. Segundo esse autor a politização da educação só
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se dará quando as “classes dominadas” puderem se apropriar culturalmente da transmissão


dos conhecimentos.
Percebe-se aqui que a consistência e o impacto das concepções de Freire na formação
do ser social é enorme: a educação galga-se nos fatores sociais do educando; é uma geração
curricular de “fora para dentro”, e não de “dentro para fora”, tal qual a teoria curricular
tradicional. É efetiva no que diz respeito à formação do ser humano enquanto ser político e
passível de promover mudanças em sua vida e em seu meio. Graças a estas características
deveras “revolucionária”, a teoria curricular de Paulo Freire ganhou muitos adeptos ao longo
do mundo. O maior problema é a dificuldade de vencer os paradigmas e botá-la em prática.
Analisando as obras destes autores, conclui-se que o currículo tem sim, uma forte
influência sobre o ser social a ser educado nos ambientes escolares. Percebe-se claramente
que, na idéia tradicional, árida, focada em eficiência, pregada por Ralph Tyler, objetiva-se a
formação de um indivíduo com características sociais voltadas à força de trabalho,
perseverante em seu molde industrial e com limites bem definidos entre o certo e o errado;
entre o que é necessário saber e o que é desnecessário. Na teoria de Popkewitz, começa a
aparecer a preocupação com as outras faces sociais do indivíduo. Ainda objetiva-se a
formação de uma mão-de-obra especializada e eficiente, mas passa a acontecer,
concomitantemente, a crítica às limitações impostas pelo currículo técnico/tradicional, que
limita o ser humano quanto à sua individualidade; é preciso trabalhadores sim, mas
trabalhadores estes conscientes de seu potencial, de sua singularidade e de seu direito à
liberdade.
Silva remete à quebra de “rótulos” quando o objetivo é o multiculturalismo promovido
pela ação curricular; para que a sociedade seja plural e harmoniosa (respeitando a presente
dicotomia) faz-se necessário uma constante avaliação e reforma no sistema curricular das
escolas. Por fim, Paulo Freire prega um currículo flexível, elaborado a partir dos temas
geradores trazidos pelos próprios alunos, a partir de suas próprias realidades. O professor é
um facilitador e um aprendiz junto com o aluno, fornecendo subsídios para que o mesmo
possa, efetivamente, inserir-se na sua realidade como cidadão social crítico, político e
transformador, resistente aos padrões pré-estabelecidos, capaz de promover uma sociedade
libertária e igualitária.
Conclui-se assim que cada teoria curricular tem seu reflexo social, conseqüente ao
preparo do indivíduo para as situações do cotidiano. Cabe aos governos e às próprias escolas,
definir qual o “tipo” de cidadão pretende-se construir.
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5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao término desta pesquisa, conclui-se que seres humanos submetidos a propostas


curriculares distintas apresentam tendências à práticas sociais também distintas. As correntes
teóricas acerca do currículo apresentam alternativas para as escolas e universidades
contemporâneas, porém, ainda existem muitos paradigmas a serem quebrados para a
implantação das mesmas. Cabe aos professores e as instituições analisarem o referencial
elaborado e adaptar sua estruturação curricular.

É necessário lembrar que uma proposta curricular pode ser composta de “fragmentos”
de várias teorias; não faz-se necessário (e muito menos obrigatório) a adoção de uma visão
unilateral. Não existe forma única: através da pluralidade podem-se construir cidadãos
políticos, críticos, cultos e honestos.

REFERÊNCIAS

BOBBITT, F. The curriculum. New York: Arno Press, 1972.

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 4ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

GADOTTI, M. Educação e poder: introdução à pedagogia do conflito. 9. ed. São Paulo:


Cortez, 1989.

POPKEWITZ, T. S. Reforma educacional - uma política sociológica: poder e


conhecimento em educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

SILVA, T. T. Documentos de identidade: uma introdução as teorias do currículo. Belo


Horizonte: Autêntica, 2003.

TYLER, R. Princípios básicos de currículo e ensino. Porto Alegre: Globo, 1974.

VERGARA, S. C. Métodos de pesquisa em administração. São Paulo: Atlas, 2005.

ABSTRACT
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This article objects itself to make an bibliographical analysis about the curriculum
importance/influence in the formation of the social human been. To make this possible, it
takes support in the ideas and conclusions of curriculum theorist about the impact of these
theories in the “man under construction”. It‟s a explicative article, without the objective to
propose an new methodology or tendency to the nowadays curriculum structure. The
motivation to do this theory job is the constant discussion about the school curriculum
structure, main theme of the pedagogical speeches in these days. It tries to identify the profile
of the citizen who‟s under a peculiar curriculum model (like traditional, critic or after-critic,
for example). It‟s important to remind that when the speech is about human beings, doesn‟t
exist a “standard pattern” about it‟s formation, so the ideas that are expose here can‟t be
accept in a strict and congenial form; they are general considerations, without the propose of
to make a subjective analysis of any citizen.

Keywords: Curriculum. Student. Society. Formation.