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A Camisa Social Branca

E continuando a fazer relatos de meu passado, me lembrei do episódio da camisa


social que ficou vermelha de sangue, também ocorrido em 1968.
Tava eu na faculdade da UFRJ quando colegas me chamaram para ir a uma
manifestação de rua contra o jornal O Globo, pois o mesmo era a favor da
ditadura militar. Detalhe: eu usava calça Lee e camisa social de algodão branca
com manga abotoada nos pulsos. Meu pai era funcionário público e tinha que
usar terno, camisa social e gravata e, quando a camisa ficava encardida, passava
para mim. Na ocasião, algumas pessoas achavam que eu era viciado e usava a
camisa para esconder picadas de agulha no braço.
Esperava ir junto com a Glorinha do DCE, mas, por algum motivo que
desconheço, fui com outras pessoas. O meu grupo era composto por 5 caras. Eu,
o Uirtz, que era o líder, o Marco Antonio, meu vizinho da Tijuca e colega de sala,
um estudante do colégio militar e um outro cara que não me lembro de onde era.
Seguimos de ônibus até a Praça Onze, onde nos juntamos à estudantada que já
tava na rua protestando. O objetivo era entrar na Rua de Santana para chegar à
sede do jornal que ficava uns quinhentos metros depois. A PM formou uma
barreira bem na esquina com a Presidente Vargas, de modo que não era possível
passar sem enfrentá-los.
Aí começou o conflito. Os PMs jogaram bombas de gás lacrimogêneo e nós
jogamos pedras. Então, numa cena para sempre gravada na minha mente,
começaram os tiros de revólver. Parecia milho pipocando no fogo. Foi o caos,
todo mundo correndo sem rumo, tentando se proteger. E o tal cara desconhecido
foi atingido por um disparo. Seus olhos ficaram esbugalhados de espanto, dor e
pavor e passou a vomitar sangue. Olhou para mim e, postura cambaleante, caiu
na minha direção. Agarrei o cara e gritei para os outros acudirem. Tentei parar a
hemorragia, mas tinha sido atingido no peito. Todos se uniram e conseguimos
parar um taxi para levá-lo a um hospital. Uirtz e Marco Antonio foram com ele já
que eu, sem saber ainda porque, não podia ir.
Então percebi que a manifestação estava se dispersando, não havia mais aquela
energia de luta, mas somente medo e pânico. O colega do colégio militar olhou
pra mim e disse: cara, você tem que se esconder, pois a tua camisa está toda
suja de sangue! Aí eu vi que era um alvo fácil para os meganhas. Ato seguinte
ouvi as sirenes das viaturas do DOPS e PM que corriam em frenesi atrás dos
manifestantes. Num movimento rápido, corremos alucinados pela avenida na
direção do viaduto dos Marinheiros. Tentamos entrar em algum ônibus, mas
nenhum deles queria parar. Até que um acabou parando, mas graças aos muitos
passageiros que gritaram para o motorista deixar a gente entrar. Por alguns
minutos nos sentimos a salvo dentro do coletivo. No entanto o motorista e o
trocador estavam com medo e ameaçavam nos entregar à primeira viatura
policial que surgisse.
Assim, resolvemos saltar e, adiante, nos enveredamos por uma rua transversal e
ficamos apavorados pelo fato de a rua ser sem saída (o final dava para a linha do
trem da Central do Brasil). Já sem saber o que fazer, fomos acudidos por uma
senhora moradora que, vendo nosso drama, nos chamou e acolheu em sua casa.
Fechou a porta e todas as janelas da casa e pediu silêncio a todos. Vendo o
sangue em minha camisa e sabendo que eu não podia ficar com ela, foi até um
armário pegou uma outra, dizendo: essa camisa do meu filho vai te servir, pois
ele tem mais ou menos o teu tamanho. Conduziu-me até um tanque nos fundos
da casa onde me lavei para tirar o sangue do colega e pediu que eu colocasse a
camisa do filho. Deu-nos um pouco de água e café e deixou que ficássemos por
algum tempo lá. Umas duas horas depois, o colega do colégio militar foi dar uma
olhada na Avenida Presidente Vargas e, constatando que o clima era de relativa
calma, voltou e disse: acho que podemos ir. Agradecendo pela ajuda e pela
coragem por ter nos ajudado, nos despedimos da senhora, a quem prometi voltar
para devolver a camisa. Adiante pegamos um taxi e fomos para casa.

Depois, pensando com calma sobre o episódio, resolvi não devolver a camisa.
Isso porque seria dar mais um susto naquela senhora que já tinha sofrido demais
por minha causa e outro porque, de um certo modo, aquela camisa, que guardei
por muitos anos, passou a ser uma espécie de tributo ao colega atingido que,
felizmente não morreu do ferimento.

E até hoje fico curioso de saber o que a senhora fez com a minha camisa social
branca.

Diógenes, o grego
13/08/2010

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