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A MEDICINA VETERINÁRIA E A SOCIEDADE: PARA QUEM E

PARA QUE?

O MODELO DE DESENVOLVIMENTO DA SOCIEDADE E AS


POLÍTICAS DE ENSINO NA MEDICINA VETERINÁRIA1

1. INTRODUÇÃO

Para refletirmos sobre o curso de medicina veterinária e sobre qual relação que
estabelece com a sociedade e com qual setor social, prioritariamente, é necessário
compreendermos o desenvolvimento e a forma de reprodução da sociedade em que
vivemos. Para isso, é importante fazermos uma leitura histórica da construção das atuais
condições sociais em que nos encontramos e relacionarmos isso com as grandes áreas
em que um (a) profissional de medicina veterinária pode atuar. Só assim, conseguiremos
compreender como o ensino de veterinária pode ser entendido dentro de uma lógica de
concepção de mundo e do modelo de desenvolvimento hegemônico na sociedade.
O modelo de desenvolvimento adotado, principalmente na agricultura, pelo país
na década de 60, 70 teve determinante influência sobre a definição e expansão dos
cursos de Veterinária. Hoje, a orientação que segue é da grande produção para a
exportação e o mercado dos PET-SHOP’s, com pouca, ou sem nenhuma, relação com a
realidade, tanto agrária quanto urbana, do país.
A isto, está conectado o processo pedagógico e a elaboração dos Projetos
Políticos Pedagógicos, muitos ainda em andamento, dos cursos de Veterinária. Uma
educação basicamente bancária e um processo de reformulação dos currículos baseados
basicamente numa concepção liberal – como veremos no decorrer do texto – com pouca
ligação orgânica com as reais necessidades da maioria da população brasileira.
Pretendemos, com este estudo, novamente (Piccin & et al, 2003) polemizar estas
questões no meio acadêmico, principalmente no Curso hora em debate.

1
Mauricio Botton Piccin – Diretor de Extensão da UNE, Coordenador Nacional da ENEV – 02/03, Marcos Botton
Piccin - Coordenador Nacional da ENEV – 02/03. Acadêmicos do Curso de Veterinária da UFSM.
2. O ENSINO DE VETERINÁRIA E O MODELO DE
DESENVOLVIMENTO

Durante boa parte do século XX até a década de 70, o Brasil passou por um
processo intenso de industrialização. Essa modernização também chegou ao campo
através da chamada “Revolução Verde” que trouxe o “pacote” tecnológico produzido,
principalmente na I e II guerra mundial (adubos e demais produtos químicos,
mecanização, sementes híbridas). Isso resultou na implementação um modelo de
produção e uma concepção de desenvolvimento da agricultura brasileira, consolidando-
se o complexo agro-industrial, pois se tornou possível à indústria obter altos lucros.
(Gomes, G., 2002).
Essa “modernização” da agricultura brasileira provocou um profundo êxodo
rural causando uma intensa ocupação2 das cidades de forma desordenada sem
planejamento por parte do Estado, trazendo sérios problemas de saúde pública para um
considerável número de pessoas.
Além do emprego, outros fatores relacionados às condições de vida também
contribuíram para essa migração: educação, sociabilidade, lazer, transporte, infra-
estrutura básica e de serviços (energia, comunicação, saneamento, moradia, saúde,
assistência social e legal) (Carvalho, H. M., 1999).
“Nessas circunstâncias, a modernização acelerada da agricultura e o elevado crescimento
da indústria vieram acompanhados da continuidade da pobreza no campo e de um
processo caótico de urbanização acelerada que generalizou o problema do subemprego
para as grandes metrópoles do país, (até meados do século XX o trabalho em atividades
de baixíssima produtividade era uma realidade basicamente rural). Assim, o Brasil
conclui seu processo de internacionalização das estruturas fundamentais da segunda
Revolução Industrial, no final da década de setenta, após quase cinqüenta anos de
vigoroso crescimento econômico, com praticamente um quarto de sua força de trabalho
subempregada, sendo que quase 60% deste contingente viviam nas cidades”(Sampaio Jr.,
1999).

A modernização capitalista do campo brasileiro ocorreu sob uma formação


nacional latifundiária baseada na produção para a exportação, monocultura e integração
com o capital industrial multinacional (Gorender, J., 1979).
Dessa forma, a concepção política de desenvolvimento da agricultura é
orientada a partir de uma lógica de gestão de negócios da grande empresa capitalista no

2
Dependendo do autor e do enfoque da análise do fenômeno, poderemos encontrar como urbanização como
conseqüência do deslocamento das pessoas do campo para a cidade ou, simplesmente de êxodo rural.
campo. Isso ocorre principalmente, através dos interesses agroindustriais internacionais
que fazem com que o conjunto de instituições de assistência técnica pública e privada se
tornem reféns do modelo tecnológico instituído, difundindo através de projetos e
políticas públicas tratando grandes e pequenos produtores como um só universo, ou
seja, um processo de homogeneização ideológica. (Carvalho, H. M., 2003).
Com isso, consolida-se a chamada burguesia rural, grande proprietária de terras
com produção em escala para exportação, altamente tecnificada e mecanizada (Germer,
C., 1994). O grau de concentração de terras no Brasil podemos ver na tabela 1, em
anexo.
Mas vale a pena destacar aqui, que enquanto o percentual de imóveis até 10ha é
de 31,6% e ocupa 1,8% da área total, os imóveis acima de 2000ha são 0,8% e ocupam
31,6% da área total.
É na pequena produção que se encontram o maior número de unidades
produtoras, por conseqüência, é onde grande parte dos profissionais de veterinária
trabalham ou trabalharão, através de cooperativas e associações. Não serão raras às
vezes que esses se depararão com a contradição entre o ensino baseado no modelo da
grande produção, do agribussines e a realidade da pequena produção e do campesinato.
“... o Centro-Oeste a segunda bacia leiteira, é formado por 70% de pequenos produtores...
O setor não é apenas agronegócio, pois 36% das pequenas propriedades têm no leite um
reforço para a renda...” (Revista Globo Rural, n. 220, p. 38, fev - 2004).

Ou ainda, como podemos ver na tabela 2, em anexo, sobre a produção de alguns


gêneros agrícolas.
Muitas vezes os pequenos produtores, de forma alienada aderem à matriz
tecnológica dos grandes produtores com a esperança de se tornarem pequenos
capitalistas. O problema é que as capacidades de reprodução das condições de produção
não são suficientes para mantê-los no mercado capitalista. Poucos conseguem resistir,
pois alcançam um nicho de mercado, possuem um pouco mais de terra do que a média
dos pequenos agricultores, por estarem em um solo com topografia melhor, por terem
herdado capital constante (maquinários, benfeitorias), por terem sido capazes de
gerenciar melhor os recursos à sua disposição.
Entretanto, esses são absolutamente a minoria entre os pequenos produtores.
Segundo Carvalho (2003), teríamos hoje no Brasil aproximadamente um milhão de
famílias nessas condições. Essa fração é denominada de pequena burguesia rural.
Num outro extrato ou fração temos em torno de cinco milhões de famílias rurais
que não conseguiram acumular capital e dinheiro, por motivos opostos aos anteriores.
Estes estão marginalizados do processo produtivo capitalista, justamente pelo emprego
da matriz tecnológica dominante. A esses se denominou de campesinato3.
O curso de veterinária, de maneira geral, também é orientado por esse modelo
tecnológico, ou seja, para repassá-lo e implementá-lo. Temos toda nossa formação
baseada no agronegócio, na grande produção, mesmo esses sendo a minoria dos
estabelecimentos no campo. Isso acontece de forma consciente ou alienada a partir da
orientação das pesquisas e da extensão, do conjunto de técnicas e práticas que
aprendemos nos mais diversos espaços na Universidade e até mesmo no conjunto de
valores e concepções repassados através da grande maioria dos professores (as) que, por
sua vez, também obtiveram a mesma orientação em sua formação. Para isso houve uma
grande investida por parte do Estado, através de políticas públicas, empresas
internacionais, e instituições de ensino para aplicar a nova tecnologia que surgia através
do modelo extensionista “domesticador” praticado de forma intensa, principalmente na
implantação da revolução verde.
Isso faz com que recebemos uma formação na mesma perspectiva do modelo
dominante para a reprodução e manutenção do atual status quo. A partir daí, a atuação
do médico (a) veterinário (a) não considera as diferenças sociais, políticas, econômicas
e culturais dos agricultores. Homogeneíza a aplicação de um modelo tecnológico
compatível com a grande produção, definido a partir dos interesses da agroindústria
internacional monopolista. Por conseqüência, intensifica ainda mais o processo de
exclusão dos camponeses que representam a grande maioria das pessoas do campo.
Entretanto, as Universidades e em especial os cursos de medicina veterinária,
não devem centrar sua preocupação em salvar as cinco milhões de pequenas
propriedades, mas sim, contribuir para salvar da fome e da pobreza as cinco milhões de
famílias que nelas vivem (aproximadamente 25 milhões de pessoas). Para isso, temos
que romper com a atual matriz tecnológica imposta e impetrada nas universidades.

3
A expressão campesinato está relacionada não apenas com a maneira de produzir, mas, sobretudo, com a
possibilidade de alcançar a reprodução simples dos meios de vida e de trabalho através da mudança da sua situação
atual. Na situação atual, em particular devido aos equívocos do modelo de produção e das tecnologias adotadas, esse
extrato de agricultores familiares estão em processo de exclusão social.
Faz-se necessário uma outra relação entre universidade e sociedade, se
configurando muito mais como comunicação à extensão (Freire, R. B., 2000), para a
partir daí, pensarmos num outro modelo de produção que permita aos agricultores,
primeiramente, superar essa situação de empobrecimento crescente, ou seja, romper
com a dependência cultural e técnica dos valores dominantes e, portanto, resistir à
exclusão social.
Contudo, é preciso ter uma matriz tecnológica que resgate os valores dos
camponeses e que considere sua realidade para propor alternativas à garantia da
produção de seu alimento e das condições básicas para sua sobrevivência e resistência
no campo. Junto a isso, é fundamental estar articulada com o entendimento da
necessidade da reforma agrária e urbana, pois não devem ser pensadas de forma
separada, como um processo de democratização e acesso a terra. Dessa forma, a
veterinária estará contribuindo para a resolução do principal problema social no campo,
pois é para isso que a Universidade deve existir.

3. A VETERINÁRIA E A REFORMA AGRÁRIA E URBANA

Um processo amplo de reforma agrária poderia imprimir uma forte demanda por
profissionais capacitados para atuar nessa realidade, além de multiplicar a oferta de
trabalho para a medicina veterinária. Agora, de nada adiantará se o ensino de veterinária
continuar sendo orientando por um modelo tecnológico que ocasiona a expulsão de
camponeses do campo.
Nesse sentido, o movimento estudantil da veterinária, através da ENEV4, tem
realizado ações concretas nas universidades para intervir nessa realidade na perspectiva
de sua transformação. A realização dos estágios de vivência em assentamentos de
reforma agrária tem a finalidade de colocar o estudante em contato com a realidade do
camponês e diagnosticar o quanto é inadequado o “pacotão” que aprendemos nos cursos
de veterinária.
Como conseqüência da questão agrária abordada acima, onde o modelo de
produção capitalista (e a matriz tecnológica) desencadeia um processo de concentração
de terra e riqueza expulsando milhares de camponeses do campo, temos a questão

4
Executiva Nacional dos Estudantes de Veterinária.
urbana. O ponto central dessa questão consiste em democratizar o modo de ocupação do
solo urbano e promover uma radical inversão nas políticas públicas. (Sampaio Jr.,
1999).
Os principais centros urbanos sofreram ao longo das últimas décadas um
processo agudo de ocupação desordenada e isso ocasionou diversos problemas de saúde
pública - no seu conceito amplo - a grandes parcelas da população, como por exemplo,
moradia, saneamento básico, desemprego.
É também responsabilidade das Universidades produzirem ciência e tecnologia
para a resolução desses problemas. O curso de veterinária também deve dar respostas a
essas demandas expressas a partir de um problema social da grande maioria da
população. É só observarmos as intermináveis favelas da grande São Paulo e Rio de
Janeiro, por exemplo.

4. A VETERINÁRIA, A SAÚDE PÚBLICA E OS PET-SHOP’S

Hoje temos um ensino de veterinária que se relaciona com essa questão,


majoritariamente a partir de um modelo médico hospitalocêntrico e uma visão clínica
individualizada que não permite compreendermos os processos causais dos problemas
de saúde coletiva. Podemos perceber quando analisamos a área de ensino sobre
pequenos animais (clínica, terapêutica) desconectado de qualquer relação com as
pessoas e seus problemas sociais (Santa Rosa, 2003a).
Dessa maneira, acompanhamos o espantoso crescimento dos animais de
companhia que se expressa, como conseqüência, a partir de um processo de
estabelecimento de valores individualistas e de uma outra forma/padrão de vida,
ocasionada principalmente, pela implementação do neoliberalismo que influenciou em
todos os aspectos da vida das pessoas. Contudo, vemos o crescimento desordenado de
PET-SHOP’s, impulsionado pela possibilidade de altos lucros com esse setor, os quais
criam falsas necessidades de consumo.
É para atender ao chamado MERCADO que a grande maioria dos cursos de
veterinária do Brasil se adaptam cada vez mais em seus processos de reforma do
currículo. Mesmo representando uma considerável forma de emprego de médicos
veterinários, mesmo que na maioria das vezes como balconistas, a atenção dada pelos
cursos de veterinária a essa demanda colocada pelo mercado capitalista não atende ao
conjunto da sociedade, mas apenas aos interesses de grupos restritos com poder de
vocalização ampliada, não representando o compromisso de transformação e/ou
inclusão social. Da mesma forma se enquadra a orientação hegemônica do ensino de
veterinária para atender demandas do agronegócio brasileiro.
Acompanhando o processo de definição do conceito ampliando de saúde,
definido pela Organização Mundial de Saúde e contemplado pela legislação brasileira;
principalmente pelo forte enfrentamento realizado pelo movimento sanitarista durante a
década de 80, o ensino de veterinária tem o dever social de aprofundar as práticas de
ensino em vigilância sanitária, controle de zoonoses e animais, controle de endemias,
controle de infecções emergentes, infecções hospitalares, em saneamento, na vigilância
à saúde em todas as frentes, na educação em saúde, na gestão, no planejamento e no
controle e mobilização social. (Santa Rosa, 2003b).
Entretanto, é necessário o ensino de veterinária possibilitar a compreensão dos
problemas sociais já abordados, bem como, suas principais causas. Assim, diagnosticará
a gênese desses principais problemas sociais, a forma que deverá contribuir para propor
soluções e intervir no sentido de superá-los melhorando a qualidade de vida da
população. Isso implica mudarmos definitivamente a orientação atual dos projetos
político-pedagógicos dos cursos. Para fazer isso, devemos necessariamente, nos dispor a
realizarmos esse debate de forma democrática e participativa com todos os setores
sociais (Piccin et al., 2003).
A partir desse diagnóstico, a ENEV, mais uma vez tem ações concretas para que
o ensino de veterinária seja concebido a partir do conceito ampliado de saúde pública.
Para isso, desenvolve juntamente com os demais cursos da saúde uma Vivência Estágio
na Realidade do Sistema Único de Saúde (VERSUS) em parceria com o Ministério
da Saúde. Essa atividade permite aos estudantes que participam dessa vivência
refletirem sobre a formação profissional para propor as transformações necessárias no
ensino.
5. O PROCESSO EDUCACIONAL E PEDAGÓGICO DO CURSO DE
VETERINÁRIA E A ELABORAÇÃO DAS REFORMAS CURRICULARES.

Até agora, desenvolvemos basicamente a leitura do modelo de desenvolvimento


e produção da sociedade e como o ensino de veterinária contribui para a reprodução e
implementação desse modelo de produção na sua área de conhecimento e atuação
social. Porém, é necessário compreendermos o processo educacional e pedagógico para
entendermos a forma como isso se implementa na sala de aula durante toda a formação
do profissional, muitas vezes, de uma forma alienada pelo próprio educador.
A educação/ensino é um processo resultante de um conjunto de relações sociais
concretas num determinado contexto social. Portanto, é importante analisarmos quem
toma as decisões sobre quais os objetivos do processo educativo, quais as estratégias
para se alcançar esses objetivos e por final, quais os conteúdos definidos para isso. Em
uma sociedade de classes, naturalmente, essas definições serão antagônicas se realizadas
por cada classe social. Pela análise que fizemos até agora, fica claro que quem toma
essas definições é a classe dominante.
“A classe dominante promove tipos de educação contrários aos que a
classe dominada cria no seu processo de resistência. A primeira faz uma
educação para reforçar a exploração e a dominação. E as classes subalternas,
ao contrário, precisam de uma educação que favoreça suas lutas de libertação”
(Fleuri, p. 49, 1992).

Não é difícil de fazermos essa reflexão a partir da nossa realidade concreta. Na


grande maioria, se não na totalidade, das universidades e dos cursos de veterinária
poderemos chegar ao diagnóstico de um processo pedagógico que reforça o atual status
quo da sociedade.
É fácil percebermos vários exemplos de uma educação autoritária na sala de
aula. Uma educação autoritária é aquela em que as decisões fundamentais são definidas
ou controladas por aqueles que tem “autoridade”, no parâmetro do repasse e construção
do saber, tal autoridade é dada como inquestionável. Diante disso, basta cumprir as
decisões superiores, ninguém discute, ninguém diverge ou duvida. Aqui os “alunos” não
passam de objetos do professor como meios para transferência do saber (Fleuri, 1992).
Esse modelo pedagógico autoritário de educação visa formar profissionais que
saibam repetir idéias prontas repassadas de forma alienada, ou seja, os profissionais são
condicionados a pensar e viver segundo aos interesses definidos pelos outros sem sua
participação.
“Desta maneira, este pode explorar, oprimir, reprimir sem que o primeiro
faça muita resistência e apresente reação séria. No fundo o objetivo dessa
proposta educacional é adaptar as pessoas a uma sociedade em que
predominam as relações de opressão”.(Fleuri, R. M., p. 50, 1992).

Notamos, freqüentemente em sala de aula diversos mecanismos (estratégias) de


implementação da educação autoritária. Essa relação autoritária pode se dar a partir da
própria disposição dos “alunos” em sala de aula, onde só o professor pode falar e os
demais ficam de boca calada, sentados sem se mover, enfileirados. Outros mecanismos
como a chamada, as provas, as notas também se caracterizam como importantes
mecanismos de controle pelo professor.
Sobre o conteúdo, é imperativo que os “alunos” aprendam as teorias dos grandes
cientistas e sábios sem sequer, muitas vezes, entender de fato o que significa porque
muitas vezes o contexto em que essas teorias foram elaboradas são completamente
diferentes do contexto em que são retomadas, pois não se estimula a reflexão e a
discussão sobre as diversas interpretações e concepções sobre determinados assuntos.
Desse modo, a avaliação é utilizada meramente como um mecanismo que
realimenta um processo não criativo onde basta repetir o que já falaram, escreveram ou
fizeram. Quem se adapta a isso recebe como recompensa a nota e consegue seu diploma
conseguindo uma posição melhor na escala social (Fleuri, R. M., 1992).
Podemos observar ou outro modelo pedagógico que muitas vezes se expressa
nos debates sobre a reformulação do currículo da veterinária. Esse é o modelo de
educação liberal o qual, geralmente se apresenta como contraposto ao modelo
autoritário, mas que na verdade servem aos interesses dos grupos dominantes.
Constatamos no dia – a – dia no nosso curso, muitas vezes a afirmação de que o
“aluno” deve ser um sujeito livre para definir o que quer estudar e fazer suas escolhas,
da forma que quiser, buscar seus objetivos autonomamente e desenvolver suas
habilidades individuais. Para esse processo não se aplicaria métodos coercitivos, mas
emulativos para agir por si só.
Entretanto, esse modelo de educação estimula e reforça o individualismo, a auto-
afirmação, a custa inclusive da negação do outro. Isso estabelece relações de
competição e exclusão fomentando relações de opressão dos mais fortes sobre os
demais. O mais preocupante é que vemos isso todo o dia no nosso curso é o discurso
mais presente nos processos de reforma curriculares do ensino de veterinária.
“... tanto o modelo autoritário de educação quanto o liberal contribuem
para a manutenção da estrutura social de classes. O sistema educacional, com
efeito, em nossa sociedade (FREITAG, 1979) está montado para formar
alguns (os proprietários ou seus executivos) para mandar os outros (os
trabalhadores pobres) para obedecer e, com isso, se submeter aos processos de
exploração impostos pela classe dominante” (Fleuri, R. M., p. 54, 1992).

Se quisermos colocar a veterinária aos interesses da maioria, devemos


necessariamente, pensarmos em um outro modelo de educação que se oponha ao
modelo autoritário e liberal. É preciso, estabelecermos nesse modelo que o sujeito do
processo educacional seja o coletivo e não o individual, o chefe, o professor. É
fundamental que as decisões que orientam a ação coletiva sejam tomadas através da
participação de todos, para que prevaleçam os interesses da maioria.
Alguns autores chamam esse modelo educacional como “educação
libertadora”, a qual deve fomentar a compreensão crítica da realidade e a ação
participativa para transformá-la em função das necessidades de todos.
Para isso temos que mudar radicalmente a relação professor-aluno5, ou melhor,
educador-educando, pois as estratégias educacionais devem ser dialógicas e
participativas. A organização da sala de aula deve mudar para que seja possível
estabelecer as condições para esse outro modelo. É importante estimular os conflitos ao
invés de suprimi-los. Todos devem expressar as opiniões, posições e interesses, pois
isso dará uma dinamicidade criativa permitindo a construção do conhecimento dos
grupos e da sociedade.
“... a educação autoritária apresenta diferenças em relação à educação
liberal, mas ambas tem pressupostos semelhantes e concorrem para a
manutenção da estrutura social e exploração e dominação. A educação
libertadora se contrapõe aos modelos anteriores, porque tem elementos
constitutivos radicalmente diferentes e contribui para o desenvolvimento das
relações participativas e críticas que favorecem a organização popular em suas
lutas por libertação” (Fleuri, R. M., p.57, 1992).

Portanto, os processos de transformação do currículo e da concepção de ensino


de veterinária devem, necessariamente, estar ancorados em uma profunda análise dos

5
Esses termos largamente usados pelo método de educação hegemônico na sociedade representam e expressam uma
carga de valores autoritários historicamente construídos. Professor a pessoa que sabe tudo e dele ninguém duvida ou
questiona. O aluno (a: não; luno: luz) aquele que não tem luz, ou seja, não sabe nada e deve ficar quieto para
aprender. Segundo Paulo Freire, ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, as pessoas se educam em
comunhão, mediatizadas pelo mundo. Por isso, Paulo Freire costuma chamar de educador e educando.
movimentos e das forças sociais que impulsionam o desenvolvimento da sociedade. Se
isso não acontecer de forma democrática e participativa onde ocorra a opção por uma
concepção de desenvolvimento da sociedade, as mudanças serão meros ajustes na
lógica do mercado onde mais uma vez não atenderá a demanda social pela produção de
ciência e tecnologia para a resolução dos problemas da grande maioria da sociedade
brasileira.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O que definiu(e), de forma geral, a elaboração (escolha dos conteúdos, modelo


pedagógico e político) dos cursos de veterinária foi e ainda é, o modelo de
desenvolvimento hegemônico adotado pela sociedade. Então, aqui cabe uma pergunta.
Qual é o modelo econômico hoje adotado pelo país e como isso influencia na definição
dos cursos, nos rumos da Universidade Brasileira? Essa questão merece ser bastante
discutida e por isso não pretendemos encerrar a discussão aqui; mas, a lógica que
orienta a política econômica no Brasil continua sendo a mesma de 500 anos atrás. Ou
seja, o beneficiamento da elite brasileira em detrimento da ampla maioria da população.
Se durante grande parte de nossa história enviamos para a Europa produtos primários
para serem industrializados, hoje é o superávit primário que expropria a população
brasileira.
O debate sobre os rumos de nosso curso, ou da Universidade, não pode ser feito
desconectado de um projeto de desenvolvimento social, de nação. Por que se o for, será
um debate falso e o curso continuará servindo a um pequeno setor social.
A luta para colocar a veterinária a serviço das necessidades da maioria da
população, também é uma luta para o Brasil mudar de política econômica e de modelo
de desenvolvimento. Por isso, os que querem de fato que estas mudanças aconteçam,
tem como aliados todos aqueles setores sociais que lutam pela alteração de modelo de
desenvolvimento do país.
7. ANEXOS

Tabela 1. – Estrutura Fundiária Brasileira, 2003


Estratos área total (ha) imóveis % dos imóveis área total (ha) % de área área média (ha)
Até 10 1.338.711 31,6% 7.616.113 1,8% 5,7
De 10 a 25 1.102.999 26,0% 18.985.869 4,5% 17,2
De 25 a 50 684.237 16,1% 24.141.638 5,7% 35,3
De 50 a 100 485.482 11,5% 33.630.240 8,0% 69,3
De 100 a 500 482.677 11,4% 100.216.200 23,8% 207,6
De 500 a 1000 75.158 1,8% 52.191.003 12,4% 694,4
De 1000 a 2000 36.859 0,9% 50.932.790 12,1% 1.381,8
Mais de 2000 32.264 0,8% 132.631.509 31,6% 4.110,8
Total 4.238.421 100,0 % 420.345.382 100,0% 99,2

Fonte: Cadastro do Incra – situação em agosto de 2003

Tabela 2:
Participação da agricultura familiar na produção total

100
80
60
40
20
0
Fumo

Mandioca

Cebola

Feijão

Suínos

Leite

Milho

Uva

Aves/ovos

Fonte: Censo Agropecuário/IBGE – 1995/96


8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

Carvalho, H. M. O camponês no capitalismo atual. Revista Sem Terra, n. 19, 2003.


___________. O meio agrário e agricultura na atualidade. mimeo. 20 p.1999.
Fleuri, R. M. Educar pra que? Contra o autoritarismo da relação pedagógica na
escola. São Paulo – Uberlândia: Cortez – Ed. UFU, 1992. 6 Ed.
Freire, R. B. Repensando a extensão universitária. Participação, n. 07, p. 12 – 15,
2000.
Germer, C. O desenvolvimento do capitalismo no campo brasileiro e a reforma agrária.
in: Stédile, J. P. (Coord.). A questão agrária hoje. P. 144 – 151, 1994.
Gomes, G. Reforma Agrária: algumas questões atuais. In: Revista da Associação
Brasileira de Reforma Agrária – ABRA, Volume 31 – n° 1 – Jan/ABR 2002
Gorender, J. (1979) Gênese e desenvolvimento do capitalismo no campo brasileiro. in:
Stédile, J. P. (Coord.). A questão agrária hoje. P. 15 – 44. 1994.
IBGE, Censo Agropecuário. Participação da Agricultura Familiar na produção.
1995/1996.
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Kiss, J. O caminho do meio. Revista Globo Rural, n. 220, p. 30 – 40, 2004.
Piccin, et al. Reforma curricular, projeto político-pedagógico: interpretações e
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Sampaio Jr., P. A. A questão agrária e os dilemas da formação nacional. mimeo. 2 p.
1999.
Santa Rosa, I. C. A. A veterinária como profissão da saúde e a construção do projeto
político-pedagógico. in: ENEV. Relatório da reunião ENEV – MEC. Santa Maria:
ENEV, 2003b.
___________. Algumas reflexões sobre a veterinária. mimeo, 2003a.