P. 1
Conceito de processo[1]1

Conceito de processo[1]1

|Views: 1.189|Likes:
Publicado porManoela Oliveira

More info:

Published by: Manoela Oliveira on Aug 22, 2010
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOC, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

08/07/2013

pdf

text

original

Prof. Fredie Didier Jr.

Aula 28/07

Acepções do termo “processo”.
O processo pode ser examinado sob perspectiva vária. Variada será, pois, a sua definição. O processo pode ser compreendido como método de criação de normas jurídicas, ato jurídico complexo (procedimento) e relação jurídica. Sob o enfoque da Teoria da Norma Jurídica, processo é o método de produção de normas jurídicas. O poder de criação de normas (poder normativo) somente pode ser exercido processualmente. Assim, fala-se em processo legislativo (produção de normas gerais pelo Poder Legislativo), processo administrativo (produção de normas gerais e individualizadas pela Administração) e processo jurisdicional (produção de normas pela jurisdição). É possível, ainda, conceber o processo negocial, método de criação de normas jurídicas pelo exercício da autonomia privada1. Para esse livro, importa destacar a concepção de processo como método de exercício da jurisdição. Sob esse enfoque, o conceito de processo pertence à Teoria do Direito2, para além da Teoria do Processo, que de resto é um excerto daquela.
A jurisdição exerce-se processualmente. Mas não é qualquer processo que legitima o exercício da função jurisdicional. Ou seja: não basta que tenha havido processo para que o ato jurisdicional seja válido e justo. O método-processo deve seguir o modelo traçado na Constituição, que consagra o direito fundamental ao processo devido, com todos os seus corolários (contraditório, proibição de prova ilícita, adequação, efetividade, juiz natural, duração razoável do processo etc.). A análise do modelo de processo civil brasileiro será feita no capítulo sobre o devido processo legal e os demais princípios do processo.
1

PASSOS, José Joaquim Calmon de. Comentários ao Código de Processo Civil. 8ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1998, v. 3, p. 4; ROCHA, José Albuquerque. Teoria Geral do Processo. 5ª ed. São Paulo: Malheiros, 2001, p. 22-23; BRAGA, Paula Sarno. BRAGA, Paula Sarno. Aplicação do devido processo legal às relações privadas. Salvador: Jus Podivm, 2008; , p. 40-43. 2 FAZZALARI, Elio. “Processo. Teoria generale”. Novissimo Digesto Italiano, v. 13, p. 1.068-1.069.

que é sub-ramo daquela.. 137-138. 100). 82. p. No instantâneo. FERNANDES. Teoria do fato jurídico – plano da existência. que é uma “combinação de atos de efeitos jurídicos causalmente ligados entre si”. 2003. 2002... p. O conceito de processo.Para Paula Costa e Silva. 35. neste sentido. define a sua natureza e lhe dá a denominação e há o ato ou os atos condicionantes do ato final. obtido através de uma cadeia causal dos efeitos de cada ato (CARNELUTTI. p. No cronologicamente indiferente. 83. a prestação jurisdicional6. distinta daquela aqui utilizada. Antonio Carlos Ferreira. p. 504). Antonio Scarance. 10ª ed. Teoria Geral do Procedimento e o procedimento no processo penal. no caso do processo judicial. 2000. condicionantes e final. Trata-se de ato jurídico “cujo suporte fáctico é complexo e formado por vários atos jurídicos. relacionados entre si. Em sentido muito próximo:. Aplicação do devido processo legal às relações privadas. o processo deve ser melhor encarado como um fato jurídico. O procedimento é atocomplexo de formação sucessiva5. os atos se sucedem numa ordem necessária e preestabelecida. 3 MELLO. Esboço de uma teoria das nulidades aplicada às nulidades processuais. 124. que adere tipicamente ao último ato da seqüência.. Acto e Processo – o dogma da irrelevância da vontade na interpretação e nos vícios do acto postulativo. classificando os “tipos complexos”: “Eles são classificados como (a) tipos complexos de formação concomitante ou instantânea. é sinônimo de procedimento. (b) de formação cronologicamente indiferente e (c) de formação sucessiva. (. é um conceito da Teoria do Direito. 2000. mas um “ato-procedimento”. 4 PASSOS.) No ato-complexo há um ato final. de modo que constituem partes integrantes de um processo. que produz um efeito final. 1955. sese relacionam-se entre si. José Joaquim Calmon de. Um exemplo muito importante de tipo complexo de formação sucessiva é o processo ou procedimento”. Os autores trabalham com outra acepção de ato complexo. todos os atos ocorrem na mesma unidade de tempo. Francesco. (ob. Salvador: JusPodivm. Examina-se o processo a partir do plano da existência dos fatos jurídicos. I Fatti Giuridici Processuali Penali. Teoria geral do direito. especialmente da Teoria do Processo. Paula Sarno. Giovanni. p. os atos se sucedem no tempo. No mesmo sentido. Trata-se de um ato jurídico complexo. Enquadra-se o procedimento na categoria “ato-complexo de formação sucessiva”: os vários atos que compõem o tipo normativo sucedem-se no tempo4. que o caracteriza. que possuem como objetivo comum. São Paulo: Saraiva. p. pelo que podem variar indiferentemente. Coimbra: Coimbra Editora. os quais. Marcos Bernardes de. definido este como um conjunto ordenado de atos destinados a um certo fim”3. cit. São Paulo: RT. porquanto seja um conjunto de atos jurídicos (atos processuais). Trad. São Paulo: Lejus. BRAGA. Processo. ordenadamente no tempo. No de formação sucessiva. 2005. p. assim considerado como aquele em que “os diversos atos estão agregados porque visam produzir um dado efeito. 31-33. mas uma ordem não prefixada e necessária.. 6 Há quem entenda que o processo não é um ato complexo. também aqui. Rio de Janeiro: Forense. E arremata.) 5 CONSO. do tipo “acto-procedimento”. . p.O processo sob a perspectiva da Teoria do Fato Jurídico é uma espécie de ato jurídico. Milano: Giuffrè. Paula Costa e.” SILVA. 2008.

como da existência de litígio. e do genus ‘procedimento’ é possível extrair a species ‘processo’. Curitiba: Juruá. acusação ou mesmo risco de privação da liberdade ou dos bens”8. cit. Processo jurisdicional democrático. que não se realize por meio de um procedimento em contraditório. 1.” (FAZZALARI. No Brasil. p. NUNES. que também não aceita a idéia de processo como relação jurídica. Elio. ainda como um procedimento em contraditório. no exercício de um poder normativo) que não seja “processual”. é muito rara. uma relação jurídica. Dierle José Coelho. não se faz necessário abandonar a idéia de ser o processo. Tradução Elanie Nassif. p. juiz-réu. Teoria generale”. Aroldo Plínio. atualmente. pode-se encará-lo pela perspectiva do plano da eficácia dos fatos jurídicos. 207. p. os ‘contra-interessados’) estejam sob plano de simétrica paridade. Salvador: Editora Jus Podivm. e se tal participação é armada de modo que os contrapostos ‘interessados’ (aqueles que aspiram a emanação do ato final – ‘interessados’ em sentido estrito – e aqueles que queiram evitá-lo.). autor-perito.). então o procedimento compreende o ‘contraditório’. Elio. Essas relações jurídicas processuais formam-se em diversas combinações: autor-juiz. (org. 2006. o processo pode ser encarado como efeito jurídico. autor-réu. 2007. 418. processo é o procedimento estruturado em contraditório7. não eram entendidas como susceptíveis de se desenvolverem processualmente. Pedro Henrique e Scarance. ou seja. Ver Conso. Rio de Janeiro: Aide. Ainda de acordo com a Teoria do Fato Jurídico.Pode-se cogitar do procedimento como um gênero. Luiz Manoel Gomes Jr. p.072. p. de um direito fundamental à processualização dos procedimentos: “que sustenta a processualização de âmbitos ou atividades estatais ou privadas que. ou. 7 FAZZALARI. Técnica processual e teoria do processo. GONÇALVES. até então. Constituição e processo. faz-se mais articulado e complexo.. juiz-órgão do Ministério Público etc. Luiz Rodrigues Wambier e Fredie Didier Jr. 68-69 e 102-132. 8 DANTAS. “Direito fundamental à processualização”. Instituições de Direito Processual. segundo a visão de FAZZALARI9. o juiz) deve dar a tais destinatários o conhecimento de sua atividade. a possibilidade de atuação estatal (ou privada. ou seja. desenvolvendo o pensamento de Fazzalari. juiz. processo é o nome que se atribui ao conjunto das relações jurídicas que se estabelecem entre os diversos sujeitos processuais (partes. ou seja. ou seja. Sucede que. auxiliares da justiça etc. 94). 9 Para Fazzalari. talvez inexistente. Campinas: Bookseller. de que o processo seria uma espécie. Paula Costa e Silva. Neste sentido. 2001. também. 2008. então. Cogita-se.. Neste sentido. Miguel Calmon. se “o procedimento é regulado de modo que dele participem também aqueles em cuja esfera jurídica o ato final é destinado a desenvolver efeitos – de modo que o autor dele (do ato final. “Processo. Paula Sarno Braga. . desprendendo-se tanto da atividade jurisdicional. Note-se que para se encarar o processo como um procedimento (ato jurídico complexo de formação sucessiva).

que também se chamaria processo.. 252. COUTURE. p. 2ª ed. 39. tanto serve para designar o atofato jurídico (omissão no exercício de uma situação jurídica por determinado tempo) como o efeito jurídico (encobrimento da eficácia de uma situação jurídica). GRECO. que seria abstrato. 1. Rio de Janeiro: Forense. 4ª ed. II. Buenos Aires: EJEA. p. Teoria Geral do Processo. Teoría General del Derecho Procesal. 57-63. 2005. 1. formularam críticas à noção de processo como relação jurídica: GONÇALVES. 12 Trata-se de concepção francamente majoritária. Cândido Rangel. James. v. Artur Anselmo de. No Brasil. Luiz Guilherme. 2001. 1964. p. que não poderiam ser ao mesmo tempo o próprio processo10. São Paulo: Malheiros. p. estático e. I. 1. v. V. 1998. 2006. Francesco. Talvez talvez fosse mais adequado considerar o processo. .). 2009. Coimbra: Almedina. Humberto. p. 2009. E. Marco Tullio. p. Torino: Giappichelli. 1980. Aroldo Plínio. In: DIDIER JR. p. 35. Teoria Geral do Processo Civil. Salvador: Jus pPodivm. 25. . Adolfo. Milano: Giuffrè. p. Tradução Paolo Capittanio. p. ALVIM. incapaz de refletir o fenômeno processual em sua inteireza. t.Pode causar estranheza. p. Rodrigo. Técnica processual e teoria do processo. Instituições de Processo Civil. 97-101. é corriqueira na ciência jurídica. v. p. p. 2. . Por metonímia. 20. 1. ZANZUCCHI. É por isso que se costuma afirmar que o processo é uma relação jurídica complexa12. v. 82. 1. Coimbra: Almedina. 1964. I. sobretudo. 1. 1958. Prescrição. 2009. Assim. Curso de Direito Processual Civil – Teoria Geral do Processo. Tradução e Notas Ricardo Rodrigues GamaMiguel Angel Rosas Lichtschein (trad. estando o processo regulado pelo Direito. Diritto Processuale Civile. apesar das críticas. 51-124) sistematizou-se a concepção de relação jurídica processual. Diritto Processuale Civile. Instituições de Direito Processual Civil. v. dentre outrosPara a crítica: GOLDSCHMIDT. 314. por isso. um 10 11 CARNELUTTI. 25-26. 242. capacidades. p. 109-110. Napoli: Morano. 1. . 2ª ed. por exemplo. Buenos Aires: Lexis Nexis. 2005. DINAMARCO. 1. 2010. Daniel Francisco. Carreira. tal como ainda hoje utilizada. p.. KLIPPEL. Pedro Henrique Pedrosa. As objeções doutrinárias tentam realçar. 1. v. competências. CASTRO. A prática. “Situações Jurídicas Processuais”. . 2009. v. 169. Teoria do Processo – Panorama Doutrinário Mundial – 2ª série. p. porém. J. NOGUEIRA. 396-398. Fundamentos del Derecho Procesal Civil. Assim. CARNELUTTI apontara o problema. Campinas: Bookseller. de fato. pode-ser afirmar que essas relações jurídicas formam uma única relação jurídica11.). RIVAS. 2009. Desde Bülow (BÜLOW. CampinasBuenos Aires. Giuseppe. a utilização de um mesmo termo (processo) para designar o fato jurídico e os seus respectivos efeitos jurídicos. São Paulo: RT. Curso de Direito Processual Civil. Oskar Von. 78. Porto Alegre: Livraria do Advogado. Niterói: Impetus. 1.. v. Rio de Janeiro: Aide. Essa relação jurídica é composta por um conjunto de situações jurídicas (direitos. Diritto e processo. 764. Crisanto. 1961. ônus etc.: EJEA. 1964. 12ª ed. n. 40. ao afirmar que. 2005. com algumas variações. Fernando Luso. Fredie (org. MARINONI. MANDRIOLI. THEODORO JR. Eduardo J. Elementos para uma Teoria Contemporânea do Processo Civil Brasileiro. Instituições de Direito Processual Civil. Buenos Aires: Julio César Faria. p. v. 15. p. . Direito Processual Civil. As críticas não conseguem elidir a constatação de que o procedimento é fato jurídico apto a produzir as relações jurídicas que formam o processo. MITIDIERO. 319.. p. Rio de Janeiro: Forense. 70. 6ª ed. LZN. Lições de Processo Civil. Rio de Janeiro: Forense. 2002. 140-141. 51ª ed. Leonardo. não pode deixar de dar ensejo a relações jurídicas. p. Adotam o conceito de relação jurídica processual . Principios Generales del Proceso. sob esse viés. v. a insuficiência do conceito. dentre outros: CHIOVENDA. Teoria das Exceções e dos Pressupostos ProcessuaisLa teoria de lãas excepciones procesales y los presupuestos procesales. deveres. SOARES. 2010.) titularizadas de que são titulares por todos os sujeitos do processo. 1.

estabelecer um conceito de processo como relação jurídica. 14 NOGUEIRA.110) . p. 28. c) da un punto di vista (pur esso concreto ma) dinamico è un atto giuridico complesso. 20.”. Diritto e processo. Observe que o O termo “processo” serve. 767. No caso do direito brasileiro. 15 Sobre o tema. do em nível ponto de vista teórico. não se faz necessário abandonar a idéia de ser o processo. Padova: CEDAM. Francesco. p. p. 46. Teoria Geral do Procedimento e o procedimento no processo penal. ou. . sem examinar o direito positivo. 3. primeiramente. Fredie (org. definir teoricamente o conteúdo dessa relação jurídica. n. pelas demais normas processuais. para encarar o processo como um procedimento (ato jurídico complexo de formação sucessiva). que deverá observar o modelo constitucional de processo estabelecido na Constituição. v. Luigi. uma relação jurídica. Dierle José Coelho. 35. Azione e Legittimazione. Processo jurisdicional democrático. Pedro Henrique Pedrosa. (FOSCHINI. assim como pode haver outras tantas relações jurídicas processuais decorrentes de fatos jurídicos processuais”14. São Paulo: RT. cit. Teoria do Processo – Panorama Doutrinário Mundial – 2ª série. nestes termos. p. 1958. 208-250. MONACCIANI. p. parte I. In: Rivista di Diritto Processuale. 2010. então. É preciso lembrar que se trata de uma relação jurídica cujo conteúdo será determinado. Antonio Scarance. Salvador: Juspodivm. Natura Giuridica del Processo. É possível. não basta afirmar que o processo é uma relação jurídica. 1948. o perfil e o conteúdo das situações jurídicas que compõem o processo. também. Note-se que. In: DIDIER JR. Não se pode. amplamente. Napoli: Morano. Milano: Giufffrè. Como ressalta PEDRO HENRIQUE PEDROSA NOGUEIRA. parte I. 13 CARNELUTTI. conceito lógico-jurídico que não engloba o respectivo conteúdo desta relação jurídica. será preciso compreender o devido processo legal e os seus corolários. “há a relação jurídica processual (que não deve ser usada com a pretensão de exaurir o fenômeno processual). em seguida. NUNES. FERNANDES. III. no entanto. V. ainda como um procedimento em contraditório. que devem observância à àquela15.). 1951. Assim..conjunto (feixe13) de relações jurídicas. Gaetano. 16 FOSCHINI bem percebeu essa multiplicidade de enfoques: “la nostra conclusione è che il processo: a) da un punto di vista (astratto) normativo è un rapporto giuridico complesso. 2005. b) da un punto di vista (concreto) statico è una situazione giuridica complessa.. o que faremos no capítulo próprio. p. Ou seja: não há como saber. para definir o conteúdo eficacial da relação jurídica processual. por exemplo. segundo a visão de FAZZALARI. tanto para designar o ato processo como a relação jurídica que dele emerge16. pela Constituição e. Situações Jurídicas Processuais.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->