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35205270 Artigo Anpocs Identidade Nacional e Nacionalismo Paulo Nascimento

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Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 33 Dilemas do Nacionalismo Paulo César Nascimento Introdução

É difícil encontrar um fenômeno político que tenha influenciado tão decisivamente a históri mundial dos últimos séculos como o nacionalismo. Propulsor do moderno sistema de Es tados-nações, o nacionalismo é associado à transição das ordens dinásticas para sociedades eadas na doutrina de soberania popular. Catalisador de guerras mundiais e inúmeros conflitos regionais, é visto por muitos como uma ideologia chauvinista, antidemoc rática e xenófoba. Mas, por outro lado, como a história recente da África e outras regiões atesta, o nacionalismo também está associado a lutas de libertação contra o domínio colon ial, servindo de inspiração ideológica ao desenvolvimento socioeconômico das nações recém-i pendentes. Freqüentemente avaliado como fenômeno atávico, o nacionalismo tem demonstra do enorme persistência histórica, reaparecendo ao longo do tempo em ondas imprevisívei s. Em 1848, Karl Marx previu no Manifesto Comunista o fim das nações, que se estaria m tornando anacrônicas devido ao crescente processo de internacionalização do capitali smo. Mas foi exatamente nesse período – conhecido como a “primavera das nações” – que o nac alismo conquistou corações e mentes no continente europeu, superando lealdades basea das em identidades de classe e regionais. Mais re-

centemente, em fins da década de 1980, a mesma previsão foi feita por políticos e cien tistas sociais, que viram no colapso da União Soviética e no advento de uma economia globalizada o fim do Estado-nação e dos particularismos nacionais. E novamente uma onda de movimentos nacionalistas e guerras étnicas alastrou-se pelos territórios da ex-URSS, Europa Central e África, reafirmando a centralidade do fenômeno nacionalist a no mundo contemporâneo. Não é surpreendente, então, que historiadores, sociólogos, antro pólogos e cientistas políticos tenham escrito tantas obras sobre nacionalismo nas últi mas décadas. Embora o fenômeno tenha recebido pouca atenção dos grandes pensadores da mo dernidade – como Marx, Nietzsche, Weber, Durkheim e Freud, desde os anos de 1950, a literatura a respeito tornou-se tão diversificada que desafia qualquer esforço de síntese. Além disso, não existe qualquer consenso acadêmico ou definição paradigmática do q seja nacionalismo. Os que têm se dedicado ao tema debatem se o nacionalismo é antigo ou moderno, onde se originou e qual o seu futuro. Divergem sobre o modo mais ad equado de classificá-lo, se sua essência é democrática ou autoritária, ou então se o nacion lismo é construção das elites ou manifestação de elementos primordiais das comunidades hum anas. BIB, São Paulo, n 33 56, 2 semestre de 2003, pp. 33-53

 

 

Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 34 Este artigo analisa os principais debates existentes na literatura acadêmica sobre nacionalismo. Discute os diferentes argumentos que se formaram em torno de cada polêmica, remetendo-os às obras e autores mais relevantes. A revisão dos debates foi dividida em três eixos principais: a confusão conceitual entre Estado e nação, a dicotom ia primordialismo versus modernidade, e a diferença entre nacionalismo étnico e cívico . Como conclusão, o artigo aborda as idéias de alguns autores sobre como encaminhar os estudos do nacionalismo. A Confusão Conceitual entre Estado e Nação Segundo Hannah Arendt (1972), cada conceito reflete uma experiência humana específic a. A democracia, por exemplo, é um conceito derivado da experiência política da antiga pólis ateniense, mas que se materializou em múltiplas variantes ao longo de seu des envolvimento histórico. Através do estudo dos conceitos é possível traçar a democracia até ua experiência de origem, apontar diferenças e semelhanças com sua evolução posterior, bem como clarificar confusões terminológicas advindas das diversas experiências. A mesma lógica pode ser empregada no caso do nacionalismo. A pluralidade de conceitos que o envolve, fruto, em larga medida, de experiências ocorridas em contextos históricos e políticos muito diferentes, tem gerado contradições terminológicas que estão refletidas nas obras dos estudiosos do tema. Já em 1939, o Royal Institute of International Affairs (p. xvi; citado em Connor, 1994, p. 91) assinalou que uma das maiores di ficuldades do estudo do nacionalismo estava na linguagem empregada para definir o conceito. Daí a necessidade de examinar como os principais autores

interpretaram e definiram as ligações entre Estado, nação e nacionalismo, e a que experiên cias históricas recorreram. Uma das definições mais aceita é a de Ernest Gellner, cuja o bra teve enorme impacto tanto na academia como entre líderes políticos.1 Gellner (19 83, p. 1) define nacionalismo como o “princípio político que advoga a congruência entre Estado e Nação”. A idéia que move o nacionalismo seria a criação de um Estado que exercesse autoridade sobre a nação, entendida como um grupo humano que compartilha da mesma cu ltura. Essa formulação é teoricamente clara e historicamente plausível, já que grande part e dos movimentos nacionalistas reivindicou um Estado para suas nações. Esse foi o ca so, por exemplo, de muitos países da Europa ocidental. Mesmo ali, contudo, certos autores lembram que a definição de Gellner deixa de fora outras manifestações de naciona lismo, como a dos flamengos, escoceses, catalães, bascos e outros, que não buscam ne cessariamente um Estado independente, mas várias formas de autonomia política em rel ação ao poder central. Além disso, manifestações nacionalistas continuam ocorrendo em Esta dos-nações há muito formados, por fatores tão diversos como guerras, desavenças econômicas imigração (Snyder, 2000, p. xvii).2 Exemplos disso são o surto nacionalista ocorrido na Argentina durante a guerra das Malvinas/Falklands e o neonacionalismo xenófobo e racista atualmente em ascensão em vários países da Europa. Além de não cobrir todas as m anifestações políticas que se abrigam sob o manto do nacionalismo, a definição de Gellner é ainda criticada por confundir os próprios conceitos de Estado e nação, tornando termos como patriotismo (lealdade ao Estado) e nacionalismo (lealdade à nação) virtualmente sinônimos. Contudo, alguns autores 34

sendo usados alterna- damente. quando. 4). nem se consideravam “franceses”. tornou-se moeda corrente que um processo civilizatório exitoso – uma Bildung – só poderia ser alcançado se o 35 . patriotismo e n acionalismo são indistinguíveis. passando a significar simplesmente os habitantes de um dado país.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 35 detectam as origens dessa confusão terminológica bem atrás. que professam lealdades variadas ao Estado sob cuja jurisdição s e encontram. que incluía aqueles oriundos não somente da França. que abarcava tanto alemães como ingleses. chamada de Relações Internacionais. nação passou a ser quase sinônimo de povo. p. quando um exército popular foi formado s ob uma só bandeira. Ou se ja. à nação (Vo lksdeutsch). na verdade. to rnando-o quase sinônimo de Estado. Tanto da parte de acadêmicos. oi nesse sentido que o termo foi empregado por muito tempo. normandos. 1994. Por exemplo. Um exemplo disso está na disciplina que estuda política mundial. e não a nação. m também da Espanha e Itália. na Universidade de Paris. já que é Estado. durante a Idade Média. em que os apel os nazistas se referenciavam indiferentemente ao Estado (Deutsches Reich). Como observou Walker Connor (1994). 95). Nos casos em que essa coincidência ocorre. “La Fidèle Nation de Picardie”. o J apão ou a Islândia são muito raros. ou à pátria (Deutschland). na história da Europa. independentemente de sua composição étnica e cultural. 1994. A doutrina de soberania popular colocou o povo como fonte de todo poder político. reservada aos holandeses. A grande maioria dos países contém várias etnias e naçõ eais ou potenciais. como no caso da Alemanha hitlerista. nenhum grupo ou indivíduo pode exercer autoridade que não emane expressamente dela” (citada em Connor. catalães. como dos próprios líderes de ex-colônias na África e Ásia. Foi somente a partir das guerras napoleônicas. que formula e desenvolve a política exterior.4 A idéia convencional e popular de q ue Estado e nação devem necessariamente convergir também tem informado estudos e polític as sobre desenvolvimento no chamado Terceiro Mundo. A própria Declaração sobre os Direitos do Homem e do Cida clamou que “a fonte de toda soberania reside essencialmente na nação. Mesmo a “nação” francesa à época da Revolução de 1789. porém. e da posterior integração econômica das várias regiões que a moderna id ntidade francesa pôde finalmente consolidar-se. bretões e outros que nem falavam o idioma da Île de France – de onde se originou o francês moderno –.3 A partir d o século XVII. na acepção weberiana) sobre um dado território. essa mesma noção de povo como nação passou a ser associada ao Estado. e “La Constante Nation de Germanie”. Os termos Estado e nação tornaram-se sinônimos. com o intuito de des ignar elites estrangeiras vindas de um lugar comum. trata-se de relações interestatais. mais exatamente nas mudanças ocorridas nos conceitos de Estado e nação que tiveram lugar na transição européia do Absolutismo à Era Moderna (Connor. A origem latina da palavra nação – natio – sugere a idéia de territorialidade e laços de sangue em comum. era na verdade compos ta de flamengos. “l’état c’est moi” t rnou-se “l’état c’est le peuple”. A confusão entre os conceitos de Estado e nação não teria muita importância política se a cada Estado correspo ndesse realmente uma nação. a unidade política que exerce a utoridade (ou o monopólio da violência. A partir da Revolução Francesa. os estudantes eram reconhecidos por suas “nações” de ori gem: “La vénérable Nation de France”. longe de possuir a homo dade que o conceito revolucionário de cidadão parecia indicar. cap. o termo popularizou-se. Mas Estados-nações homogêneos como a Alemanha.

Para modernistas e construtivistas. os “instrumentalistas”. bem como as supostas motivações econômicas que informam os movimentos nacionalistas. enfatiza d e forma extrema o caráter manipulador do nacionalismo. que somente o nacionalismo poderia proporcionar. 1990). Gellner insiste q ue o nacionalismo está ligado à passagem da sociedade agrária para a industrial. Uma outra linha da escola moderna. socioeconômico e po lítico. segundo Gellner (1964. O neonacionalismo surgido dos escombros do socialismo real é criticado por Hobsbawm justamente por não desempenhar esse papel histórico. gerando conflitos.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 36 Estado. Mas a grande dificuldade com que a política de state-building sempr e se deparou em muitas ex-colônias foi justamente conseguir que seus cidadãos transf erissem suas lealdades tradicionais para o novo Estado em construção. porque “o nacionalismo não é o desper tar das nações à autoconsciência. ou adaptavam-se a estas. a ascensão da burguesia e da s classes médias. promovesse o desenvolvimento de uma nação homogênea. Eric Hobsbawm iza justamente este ponto crucial da tese modernista: nações são construções. segundo o historiador britânico. a formação de uma burocracia nacional e a consolidação do po e novas elites po- líticas sobre territórios definidos exigiam uma ideologia. nação e identidade nacional. “di storcendo” o projeto original modernizador. 1983). divisionistas e reacionárias. 169). que não existiram desde tempos imemoriais. A ind ustrialização e a urbanização. que ele identifica como sendo a Revolução Francesa. surgidas em conseqüência do colapso da ordem vigente (Ho bsbawm. Aqui encontramos novamente Ernest Gellner. O processo de formação nac ional é acelerado pela introdução de um sistema educacional de massas e um código cultur al popular disseminado pelos meios de comunicação. por meio de uma ideologia nacionalista. Hobsbawm e Ranger. amplamente h egemônica no meio acadêmico. Todo esse trabalho de engenharia social é necessário. 1990. Dif erentemente do caráter integrativo e emancipador do nacionalismo “clássico”. como reivindicam os ideólogos do nacio nalismo. O modelo europ eu idealizado de Estado-nação e o nacionalismo a ele associado ou chocavam-se de fre nte com lealdades tribais e étnicas. p. o surgiment o das nações e do nacionalismo pode ser remetido às idéias e aos processos socioeconômicos e políticos desencadeados pelo Iluminismo e a Revolução Industrial. ele inventa nações onde elas não existem”. Esses autores constituem a chamada escola “moderna” ou “construtivista”. e o surgimento de mercados nacionais na Europa (Hobsbawm. Os instrumentalistas – em gran de parte. cientistas políticos positivistas e partidários da metodologia da “escolha r acional” – alegam que elites empenhadas em defender seu poder político e seus interess es econômicos 36 . mas que surgiram em um determinado contexto geográfico. mas também mui tos outros autores que influenciaram o desenvolvimento dos estudos sobre naciona lidade. uma cultura comum e uma lín gua única. invenções hum s.5 Apesar das muitas divergências existentes no sei o dessa escola a respeito de diferentes aspectos do nacionalismo. são meras manifestações. todos o associ am com o advento da Era Moderna. Primordialismo e Modernidade A grande maioria dos estudiosos concorda que nacionalismo e nações são fenômenos moderno s. os novos na cionalismos do leste europeu. Essa experiência acabou refletindo-se no clássico debate acadêmico sobre o primordialismo e a modernidade das nações e do nacion alismo.

Os moder nistas concordam que o início da Era das Nações e do nacionalismo pode ser datado em f ins do século XVIII. Espanha e Portugal – abaram por desencadear. apresenta uma interpretação mui to particular da modernidade das nações. obrigados pelo processo de democratização a competir no espaço público pelo apoio das massas. a socióloga Liah Greenfeld (1 992) prefere escolher o momento que se seguiu à Guerra civil das Rosas na Inglater ra. movimentos nacionais de res istência à opressão européia. França. dirigindo-os contra seus oponentes. Ao incorporar as zonas periféricas da América e Europa Centr al. reduz o nacionalismo a uma doutrina inventada e manipulada por elites para mobilizar as massas. A contínua co mpetição entre os Estados europeus levou a uma corrida armamentista em que os monarc as foram obriga37 . a nação é uma comunidade “imaginada” porque se estende para além dos contatos fac a face reinantes nas pequenas localidades. colocando-se como defensores do território e da herança cultural da Sérvia. exac erbada pelos instrumentalistas.6 Um caso freqüentemente analisado é o da antiga Iugoslávia. As identidades nacionais se fortalecem no relacion amento. a partir do século XVI. po is este aparece igualmente no rastro do declínio das religiões. Embora a maioria apo nte a Revolução Francesa como fator decisivo para a expansão da idéia nacionalista. Embora admitindo os imperativos econômicos que inform am o surgimento das nações.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 37 fomentam movimentos étnicos e nacionalistas. c mo também apontam vários autores. 6) – “q ue ele acaba associando invenção com fabricação e falsificação. ao invés de imaginação e cr Anderson. Esse processo de imaginação nasce. a interpretação de Gellner. Já Benedict Anderson. e nesse sentido só pode ser apreendida pela abstração da mente humana. pacífico ou belicoso. “Gellner está tão ansioso para mostrar que o nacionalismo se mascara sob falsas pretensões” – escreve Anderson (1991. submetidos ao poder inglês. detectando nas elites criollas o primeiro sentimento de um nacionalismo mo derno. a parti r do colapso da ordem dinástica e do desenvolvimento da tecnologia de impressão traz ida pelas relações capitalistas. por sua vez. adotaram um discurso nacionalista xenófobo contra outras nacionalidades. John Breuilly (1982) e Elie Kedourie ([1960] 1994) identificam no romantismo alemão o primeiro momento de formação de uma identidade nacional. e Benedict Anderson (1991) privilegia o movimento de independência na América La tina. as principais potências européias da época – Grã-Bretanha. entre as elites colonizadas. Tom Nairn (1977) descreve processo semelhante no caso da I rlanda. Escócia e País de Gales. Anderson enfatiza a dimensão psicológica do nacionalismo. entre vários países. a mobilização nacionalista de comunidades é facilitada sempre que diferença s étnicas ou religiosas coincidem com desigualdades econômicas e sociais. o nacionalismo evoca nos indivíduo s um sentido de imortalidade que anteriormente era monopólio das religiões. S egundo eles. Para Anderson. mas disputam o locus original do fenômeno. Já Charles Tilly (1975) enf atiza a ligação entre as guerras européias e o surgimento do nacionalismo. p. o nacionalismo não é um fenômeno puramente “interno” de um ou outro país. Ao proporcionar aos cidadãos o sentimento de pertencer a uma entidade percebida como eterna. ou com dis putas territoriais. cujos trabalhos têm influenciado d ecisivamente o curso dos estudos sobre nacionalismo. Contudo. Immanuel Wallerstein (1974) situa o surgimento do nacionalismo no contexto de formação do sistema mundial mercantilista . onde S lobodan Milosevic e a nomenklatura sérvia.

Essa lista de exemplos poderia continuar indefinidamente. “errar em sua história é fator essencial da formação de qualquer nação”. gerando sistemas nacionais de tributação. cuja existência é muito anterior à c onstituição dos Estadosnações modernos? Essas questões remetem à tradição primordialista. desafiam o poder do Estado central.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 38 dos a extrair recursos cada vez maiores de suas “sociedades civis”. q pesar de muito desdenhada como irracional ou “falsa consciência”. Se as nações são uma invenção mod erna. Sua conclusão é a d e que guerras criam Estados nacionais. isso decorre de injustiças históricas a que os movim entos nacionalistas se propõem a corrigir. 8) de- clarou. religioso ou tribal. hindus e muçulmanos na Índia. Na Nigéria. Geertz (1963. da hegemonia da cultura hispânica. em muitos Estados da África. Apesar de sua hegemonia na comunidade intelectual. por que são percebidas popularmente como eternas e primordiais? Como explica r o ressurgimento de movimentos políticos e culturais de cunho étnico e nacional. Como o historiador Ernest Renan ([18 82]1990. por sua vez.7 E são justamente esses laços primordiais que Geertz vê como obstáculos à unida de nacional que as políticas de nation-building perseguem. geram mais guerras. a formação das nações pôde ser baseada em uma etnia princi38 . mas constante. p. e. Além da já citada perseverança histórica de etnias e nações na própria Eu a. Ainda assi tradição primordialista conta com algum lastro acadêmico. tem mantido certo fôle go graças ao trabalho de resgate efetuado por alguns autores. as nações são as unidades “naturais” da história da humanidade. ap arentemente há muito esmagados pelo rolo compressor das políticas nacionais homogene izantes? Por que a cultura e a psicologia coletiva das comunidades nacionais são i nvariavelmente compostas de elementos pré-modernos. já que o nacionalismo exi giria demasiada crença em fatos inexistentes. em Ruanda e Burundi. pp. o ressurgimento de identidades indígenas p arece indicar uma contestação lenta. tutsis e hutus se exterminaram aos milhares. por exemplo. e diferentemente. Tanto os estudos dos chamados “primordialistas” como as tensões criadas pelas políticas de nation-building co locam em xeque o modelo eurocêntrico de formação nacional e sua aplicação em outras regiões do planeta. na Europa. Embora nunca tenha empregado o termo “prim ordialismo”. muçulmanos do norte e c ristãos do sul. O primordialismo das nações sempre foi defendido pelos ideólogos e líderes dos movimentos nacionalistas. racial. os movimentos nacionalistas nunca produziram teóricos. Hobsbawm (199 0. que pode ser encontrado nos trabalhos do antropólogo Clifford Geertz. Se. conflitos abertos ou velados entre malásios e chineses em Cingapura. mas que em todos os casos formam identidades básicas que unem comunidades prénacionais. na América Latina. continuam abalando a estabilida de política desses países. Par a estes. 107-113) escreve sobre “sentimentos primordiais” para d escrever laços psicológicos e étnicos. se algumas dela ainda não conseguiram despertar. Os exemplos dessas difi culdades abundam. exércitos populares e burocracias nacionais. de caráter lingüístico. 12) chega mesmo a declarar que nenhum historiador sério das nações e do nacional ismo poderia tornar-se um político nacionalista militante. p. do marxismo. que algumas vezes se confundem entre si. ibos e iorubas. a escola moderna/construtivi sta permanece fustigada pelo espectro do primordialismo. ou outras vezes apresentam-se distintam ente. Ásia e América do Sul o processo de integração nacional te m gerado inúmeros conflitos étnicos. e estes. Contudo.

Kohn ([1929] 1967) e Connor (1 994) rejeitam definições baseadas em elementos “objetivos” das nações. sem que isso te- nha afetado seu sentido de identidade nacional. p. Mas os irlandeses pu deram perder sua língua original.9 Segundo ele. tem de ser complementada por outra distinção. Como Ch arles Winick (1956. significando. Dificuldade essa sucintamente manifestada na famosa frase de Ma ssimo D’Azeglio (citado em Hobsbawm. 16). O problema é que o estudo comparativo de casos e a pesquisa histórica indicam que não há “características essenciais” da nação. agora entre n ação e etnia. a “essência” da nação seria a a epção de diferença que uma comunidade tem vis-à-vis outras comunidades. Mas esses laços de semelhança e união são justamente os “sentimentos primordiais” de caráter étnico. formada com base em uma língua comum. muitos estudiosos do nacionalismo como Baker (1927). (1964). os judeus podem co rtar seus laços com muitos aspectos do judaísmo e ainda assim permanecerem conscient emente vinculados à nação judaica. 1990. Por esse motivo. acredita Geertz (19 63). a é a palavra de origem grega correspondente a nação. Só distinguindo analiticamente esses dois conceitos. um gr upo étnico é mais identificado por outsiders do que por seus próprios membros.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 39 pal e em longas tradições de convivência econômica e política entre diferentes comunidades – já que bem antes do surgimento do nacionalismo os monarcas absolutos haviam conse guido a união política dos territórios onde impuseram seu controle –. Hayes (1931). apesar de a idéi a de nação incluir noções de descendência co39 . Stálin ([1914] 1976. Emerson. p. já abordada acima. É nesse sentido que o termo é usado por antropólogos e e tnólogos. bem como os laços de semelhança e união que cada comunidade percebe como intrinsecamente “seus”. Tomotshu Shibutani e Kian Kwan (1965). enfatizam igualmente que um grupo étnico é definido “a partir de fora”. Se o Estado é facilmente conceituado em termos quantitativos. Max Weber (1968) percebeu muito bem essa diferença entre comunidade étnica e n ação quando se referiu aos russos brancos da Bielorússia. 44) a respeito da unificação italiana: “Nós fizemos a Itália. definiu nação como uma comunidade histórica e estável. a diferença entre Esta do e nação. Para que a importância dos “sentimen tos primordiais” no debate sobre nacionalismo torne-se clara. território. vi da econômica e psicologia manifestadas em uma cultura comum. A grande maioria dos autores rejeita a idéia essencialista de nação. preferindo usar o te mo “autoconsciência” para descrevê-las. um grupo humano com descendência comum. 193) observou. em outros continen tes a transferência de lealdades primordiais para o Estado central tem se mostrado bem mais difícil. Similarmente. agora temos que fazer italianos”. mas os forasteiros identificam facil mente a homogeneidade do grupo”. A língua certamente é uma das características mai izadas pelos românticos alemães como elemento crucial da nação alemã. portanto. em um obra que muito influenciou a perspectiva do movimento comunista sobre nacionali smo. a essência da nação é intangível. é possível compreendermos a força dos elementos primordiais. especialis tas em estudos étnicos. o gálico. p. Mas muitos autores diferenciam etnia de nação pelo grau de autoconsciência imp licado em cada um dos dois conceitos. Enquanto nação sempre envolve autodefinição.8 Nessa perspectiva. em um grupo étnico “os laços de solidariedade são aceitos inconscientemente por seus membros.

Não que Smith seja exatamente um “primordialista” à maneira dos ideólogos nacionalistas. mas pesquisas têm indicado que a maioria da população do país nã se percebe como essencialmente diferente dos russos. 2) detecta seis princi pais elementos presentes em comunidades étnicas: um nome coletivo. na passagem de uma sociedade “tradicional” ou “agrária” para uma nação industrial moderna. p. notou Weber (1968. Segundo ele. a organização da produção econômica e d omércio em bases étnicas existente em várias regiões da África e Ásia. Até aqui essa sugestão não representa nenhuma novidade. Nesse sentido. Mas Smith tampouco está buscando uma “essência objetiva” das c dades étnicas. mitos e experiências ubjetivas comuns desenvolvidos pelos grupos étnicos. o sentimento de solidariedade étnica por s i mesmo não forma uma nação. uma cultura distinta. depois dele. 395). a Bielorúss ia. em seu esforço para construir uma nacionalidade homogênea. leis e códigos de conduta que em vários países do mundo refletem as o rigens étnicas de suas culturas modernas. sempre man ifestaram um sentimento de solidariedade étnica vis-à-vis seus vizinhos da Rússia. uma associação com um terri tório específico e um sentido de solidariedade entre seus membros. Alguns autores. Sua preocupação está em mostrar que não há ruptura total. se l embrarmos que Durkheim e. Ao contrário. Smith (1986. e mostrando ainda s ua influência na cultura das nações modernas. os estudiosos da modernização já haviam indicad o a permanência de elementos da estrutura social e cultural tradicionais nas forma s mais modernas de organização social. 40 . já que enfatiza que os elementos étnicos são símbolos. O colap o da União Soviética obrigou as elites da Bielorússia a declararem sua independência e f ormarem um Estado próprio. cap. acabem por incorporar.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 40 mum. ao invés de suprimir. O sociólogo inglês Anthony Smith. os rituais dos judeus Beta Israel etíopes. como o sistema de castas n a Índia. uma história em comum. o que remete a definição de comunidade étnica aos mesmos problemas encont rados na definição de nação. é uma nação ainda em potencial. dedicou vários estudos ao tema. algu ns desses elementos podem estar presentes em algumas comunidades étnicas e ausente s em outras. e há forte respaldo popular para uma reunificação com a Rússia (Urban e Zaprudnik. identidades e laço s de solidariedade profundamente arraigados. Por isso é comum que as elites de Est ados recémformados. Esses elementos são fortes e persistentes justamente porque tocam em sentimentos. pois até hoje os russos brancos ainda não se constituíram em uma nação. um mito comum d e descendência. como ocorre nas comunidades étnicas. já um Estado. colocando de volta ao debate acadêmico a questão do primordialismo10. como certos modernistas apregoam. relacionando sua formação a exp eriências humanas sociais e identitárias cristalizadas por gerações. mas não poderiam qualificar-se como uma nação separada.11 Mas Anthony Smith inova ao traçar um painel c omparativo e empiricamente rico dos elementos étnicos. ou ainda as institui valores morais. os elementos étnicos existentes em sua cultura . ainda que concordando com o grau diferente de conscientização entre etnias e nações. insistem que elementos pr imordiais étnicos continuam presentes na cultura das nações modernas. Os russos brancos. 1993). As observações de Weber revelaram-se proféticas. ele também concorda que as nações são um fenôme moderno. um dos mais eminentes especialistas em origens étn icas das nações. Seus estudos facilitam a comp reensão das particularidades culturais das nações modernas.

Para Calho un. mostram que as identidades étnicas estão sujeitas às mudanças impostas pela modernidade. por exemplo. Essa identidade coletiva promovida pelo discurso nacionalista liga cada ind ivíduo diretamente à nação. eternos ou fixos. étnica. O sociólogo Craig Calhoun (1997) admite. entre as dimensões cívicas e étnicas do nacionalismo. pode prescindir de alguns dos ele mentos étnicos apontados por Smith. portanto. está em que ela abarca a nação como um todo. como alegam Rogers Brubaker (1996) e Craig Calhoun ( 1997). a nação enquanto tal formou-se como um corpo de cidadãos cuja soberania coletiva levou à constituição de um Estado que. sua compreensão passa neces iamente pela identificação dos elementos étnicos pré-modernos que as informam. A ideologia nacional.12 Os trabalhos de Paul Brass (1991). o nacionalismo sempre envolve a instituição de um sistema polít ico. porém. e que. recebe outras críticas de autores interessados em superar o que vêem como um impasse no debate sobre nacionalismo. Ele admit e ainda que esses elementos são percebidos pelos membros dos grupos étnicos como pri mordiais. levando-as a enquadrar s uas aspirações em termos da idéia de nação e de identidade nacional. co o famoso exemplo da saia dos escoceses. A própria equação Estado-nação-povo. mpondo as prioridades da mesma sobre todas as outras formas segmentárias de identi ficação. provocando outro debate recorrente na lite ratura acadêmica. Nacionalismo Cívico e Nacionalismo Étnico Não há autor que deixe de enfatizar a dimensão política do nacionalismo. classe ou relações de parentesco. pp. ações e tradições associadas aos seus elementos étnicos. vis-à-vis outras identidades baseadas em gênero.13 Nesse sentido. o “primordial” seria igualmente moderno. 41 . em todos os casos. já abalada pelos estudos de Anthony Smith. por sua vez. percepções à parte. E há os casos de “invenção” de tradições. Seja como discu rso que informa a idéia de nação. pp. Como Hobsbawm (1990.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 41 A dicotomia primordialismo versus modernidade. os elem entos étnicos sofrem transformações e são reelaborados de forma consciente ou inconscien te ao longo do tempo. indica a dir eção política do nacionalismo. mas que o histo riador inglês Hugh Trevor-Roper demonstra que foi um mero caso de reconstrução e invenção no contexto da resistência dos escoceses à dominação inglesa. Calhoun (199 7. para além da filiação deste a esta ou aquela identidade parenta tribal. co m Smith. ou como movimento concreto que aspira a alguma forma de autonomia para um a comunidade nacional. E é essa ligação direta entre indivíduo e nação que vela a dimensão política do nacionalismo. dependendo do contexto específico em que surge. 18-19) escreveu. o nacionalismo é um discurso que integra uma comunidade a partir do significado comum que seus membr os atribuem a eventos. e que só se tornou popular n o século XVIII. analisada por Walker Connor (1994). conserv ando alguns de seus aspectos e mudando outros. 41-50) associa o nacionalismo ao conceito de “formação discursiva” elaborado por Michel Foucault (1977). O nacionalismo como discurso é a produção de um entendimento c ultural e uma retórica que molda a consciência das pessoas. a especificidade da identidade nacional. que nações não são criações exnihilo. é a expressão política de seus cidadãos. religiosa ou de classe. ou colocar maior ou menor ênfase em outros tantos. Mas aponta para o fato de que. símbolo nacional da Escócia.

O fantástico desenvolvimento e expansão mun dial dos países que inicialmente experimentaram o nacionalismo tiveram como conseqüênc ia a exportação da idéia de nação para outras regiões com condições socioeconômicas e polít o diferentes da Inglaterra ou França. que representava a nova aristocracia. manifesto na longa luta política do parl amento. As revoluçõ ancesa e americana igualmente associaram nação e povo à democracia. a a spiração da população por um governo constituído por ela própria ou parte dela. enfati Greenfeld (1992. Segundo Greenfeld. lembra Hobsbawm.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 42 Essa é a experiência das revoluções americana e francesa. mas a adesão aos princípios políticos da soberania popular e d o governo representativo (Hobsbawm. ao reiterarem. etnia e até local de origem. p. cad a uma a seu modo.16 Como na Inglaterra. quando o termo nação deixou de denominar uma elite e pas sou a ser aplicado a toda a população da Inglaterra. não ve dificuldades em eleger o anglo-americano Thomas Paine para sua Convenção Nacional . e também da formação nacional da laterra. Apesar de algumas ressalvas a respeito da presença de element os étnicos nas nações revolucionárias. Eric Hobsbawm (1990) concorda que a novidade orig inária da nação estava justamente em seu caráter inclusivo. Esse novo significado da pala vra nação. tornou a atividade econômica respeitável. os primeiros nacionalistas eram aristocratas cujo status soc ial dependia inteiramente da qualidade dos serviços prestados ao czarismo absoluti sta. Segundo Greenfeld. 42 . na Rússia. os burgueses e commoners. como notou John Stuart Mill (1873). a independência e soberania de seus cidadãos e o princípio do govern o “pelo povo e para o povo”. teve lugar em um contexto de mudanças radicais na estrutura das sociedades dinásticas. ao contrário. o que ela chamou de nacionalismo de tipo cívico. “Esta transformação semântica”. mas. “sinalizou a emergência da primeira nação tal como entendemos es sa palavra hoje. a partir do século XVI. o que torna um indivíduo cidadão não é a língua que ele fala ne ar de onde é proveniente. E a república francesa. insatisfeitas c om a impossibilidade de ascensão na hierarquia da sociedade das ordens. junto com a reforma protestant e. 1990. o nacional ismo cívico mudou os critérios de dignidade humana e. a idéia de soberania popular e as instituições democráticas que refletem essa soberania surgiram gradualmente na Inglat erra. Por isso ela insiste que o nacionalismo cívico é in clusivo e democrático. contra a nobreza associada à coroa inglesa. comandaram o processo de asserção da soberania popular. e de erosão das hierarquias e dos status sociais tradicionais após a Guerra das Rosas. O governo representativo que resultou da vitória da idéia de soberania popular significou. é o nacionalismo e a constituição de nações que colocaram países como a Inglater a França e os Estados Unidos no caminho da modernidade. relig língua.15 Esse nacionalismo de ca ráter cívico é baseado na concepção política de cidadania. que elevou o povo à categoria de elite. 6). Po r exemplo. inaugurando a era do nacionalismo”.14 Liah Greenfeld inverte a equação dos modernistas ao defen der que não foi a lógica da indústria que gerou as nações. 1). em outros lugares o na cionalismo foi sempre adotado por elites insatisfeitas com seu status social. A socióloga Liah Greenfeld (1992) enfatiza especialmente o caso inglês como tipo ideal da associação original do nacionalismo com democracia. independentemente de raça. O que distinguia os colonos da revolução americana de 1776 do rei George e seus súditos não era a língua ou etnia. cap. Nessa concepção de nação. Novas elites. mas a aspiração à autodeterminação dos primeiros.

Um dos grandes dilemas que historicamente os intelectuais brasileiros tiveram de enfrentar foi a visão negativa sobre os negros predominant e nas elites do país. já que mulatos não conseguiriam reproduzir-se para além de algumas gerações. após morar no Brasil como embaixador da França em meados do século XIX. 153-174). Razão e racionalidade foram reduzidas a “cálculo” e “contabilidad e” (Greenfeld.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 43 Na Alemanha foram os intelectuais românticos de classe média. a comparação entre o atraso da Alemanha e Rússia e o desenvolviment o da França e Inglaterra gerou ressentimentos e levou ao que Greenfeld chama de “tra nsvalorização de valores”. Por outro lado. Por iss o. enraíza-se em componentes étn icos primordiais. e sua origem ressentida o faz desenvolver tendências à xenofobia e ao autori tarismo. lingüísticas e étnicas formaram a consciência nacion l dos países daquela região. Nesses e outros casos. Estas abraçavam teorias racistas européias. onde os apelos às raízes culturais. o nacionalismo foi sempre a opção escolhida por eli tes sem estabilidade social definida (Greenfeld e Chirot. ao mesmo tempo em que valores autóc recebem avaliação positiva. mais importante que o ind ivíduo. A construção da identidade nacional brasileira pode ser analisad a através dos conceitos de ressentimento e transvalorização de valores. pp. André Van De Putte (1996. muitos intelectuais pregavam que o Brasil nunca poderia tornar-se “moderno” mantendo uma população predominantemente miscigenada. vendo o camponês como a encarnação do Volk (povo). Greenfeld ressalta que todo nacionalismo étnico é por natureza excludente e colet ivista. 3-40). As sociedades industriais desenvolvidas foram criticadas por seu individu alismo. A dicotomia nacionalismo cívico versus nacionalismo étnico t em sido muito criticada por seu eurocentrismo e conservadorismo. Por exemplo. a organização social e os valores do “Ocidente” – que a França e a Inglaterra por muito tempo representaram – tornaram-se a incorporação d o mal. onde a noção ocidental de autodeterminação dos povos encontrou um mundo de Kulturnatione n. 1996. Essa visão é compartilhada por muitos autores importantes. e daí a 43 . que. Mas a interpret ação de Liah Greenfeld pode ser útil para iluminar a formação de identidades nacionais em países como o Brasil. A idéia de nação desenvolveu-se em muitos países sem a dimensão cívica originada na França e Ingla erra. sugeriu que a população brasileira iria desaparecer em poucos séc ulos.17 Para os românticos nacionalistas alemães e a escola panes lavista nacionalista russa do século XIX. os românticos alemães idealizavam a s atividades agrícolas. 161-195) faz a m esma análise para os nacionalismos da Europa Central. e o coletivo. mas sim atributos específicos. se aplicados à q uestão racial no Brasil. A vontade foi avaliada como superior ao racionalismo. 1985. como Kohn ([1929 ] 1967) e Hayes (1931). os primeiros a abraçarem a causa nacional. nesses casos. pp. cuja educação era insufici ente para garantir-lhes proeminência na sociedade. únicos e particulares das culturas. Mesmo e m fins do século XIX e início do XX. Ele não expressa a transcendência das raízes particulares através da c idadania. pp. O nacionalismo. Na Rús a fé ortodoxa e a espiritualidade do muzhik russo foram escolhidas como os element os decisivos da consciência nacional. Raça e língua germânicas tornaram-se os atributos principais da nação alemã. alienado e anti-social. especialmente o “racis mo científico” do conde Gobineau. O indivíduo ocidental era percebido como egoísta. uma atitude psicológica em que se atribui caráter negativo aos valores da nação que é objeto de comparação e imitação. materialismo e consumismo.

A miscigenação o “mito da democracia racial” tornaram-se parte integrante da identidade nacional b rasileira. E. a ênfase cada vez mais se desl oca de Irish-American para Irish-American. desenvol veu posteriormente uma dimensão étnica. É importante. por exemplo. tal princípio cívico acabaria por contradizer a própria idéi a da soberania política de cada cidadão. mas mantend o uma concepção étnica de cidadania. está sendo substituída por um multiculturalismo que en fatiza a “hifenização” dos indivíduos. O caso do Brasil parece indicar que uma identidade nacional enraizada em uma elaboração particular de seus elementos autóctones não tem de ser necessariament e retrógrada e antimoderna. a avaliação negativa do nacionalismo étnico d as regiões periféricas feita por Liah Greenfeld revela um viés eurocêntrico e conservado r que não passou desapercebido por alguns cientistas sociais (Yack. Ainda que lutando pela preservação da cultura francesa de Quebec e mesmo pela independência da província. cujos aspectos étnicos não o tornam xenofóbico ou autoritário. Alguns cidadãos de países democráticos podem reje itar os princípios da democracia. em que os cidadãos dissolveriam suas origens étnicas e ra ciais na “panela” nacional comum. os movimentos nacionalistas de Quebec defendem um conceito inclusivo de cidadani a e querem preservar as instituições democráticas do Canadá (Nielsen. 2003). Os alemães nascidos na comunidade germânica do Volga. Nesse contexto e ressentimento em relação às nações brancas da Europa. na Rússia. como le mbra Kai Nielsen (1996/97). intelectuais brasileiros desenvolv eram uma resposta criativa à suposta inferioridade racial do país. pp. Claro está que em várias regiões do mundo o nacionalismo étnico está associado a aut oritarismo e guerras. A idéia de uma identidade nacional e um a cidadania completamente despidas de componentes étnicos e baseadas exclusivament e em lealdades aos princípios cívicos e democráticos é. ao passo que um imigrante turco que tenha passado toda a sua vida na Alemanha raramente conse guirá obter cidadania alemã. 1995. assinalar que as identidades nacionais mudam ao longo do tempo. tornando-se uma democracia após a Segunda Guerra Mundial. Irish-American. irreal. ou uma mistura dos dois. Nativ e-American e assim por diante. recebem cidadania imediata ao imigrarem para a Alemanha. Mas existem nacionalismos como o da província canadense de Q uebec. 42-52 ). igualmente. a nação cívica par excellence. O nacion alismo francês. Oliveira Vianna (1934).Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 44 necessidade de políticas de imigração que atraíssem europeus. A idéia tradicion da América como melting pot. transformando a m iscigenação em fator positivo e motivo de orgulho nacional. apesar da evidente discriminação racial existente no país (Sousa e Nascimen to. assim. adotando a língua de uma de suas etnias e faze ndo dela um aspecto central de sua identidade nacional. já que 44 . Mesmo nos Estados Unidos. Gilberto Freyre foi um d os intelectuais mais importantes na realização dessa “transvalorização de valores”. tornando-os African-American. segundo Anderson. e ainda assim manter sua cidadania. 1996/97. podendo assumir um caráter étnico ou cívico. Além disso. se em sua origem foi predominantemente cívico. como os grupos neonazistas. A Alemanha seguiu o cami nho inverso. por exemplo. como forma de “embranquecer” país. ligava o desenvolvimento social do Bra sil à gradual eliminação dos traços físicos e culturais de índios e negros. Bene dict Anderson (1992) assinala uma crescente “etnização” de sua população. que se esenvolveu posteriormente na consagração da miscigenação por Darcy Ribeiro. pp. Nesse sentido. 166182).

Esses fatos pa recem demonstrar que a dicotomia entre nacionalismo étnico e cívico é reducionista.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 45 esta não pode estar baseada nas possíveis orientações políticas dos cidadãos. Para eles. Não existiria. Aqui. Para Habermas. pp. nesse se ntido. mas em práticas intersubjetivas compartilha das pelos cidadãos. p. pp. a sugestão de Habermas é clara: o desenvolvimento democrático da União Européia exig e uma cidadania mais comunitária e participante. As limitações dos modelos étnico e cívico leva ram cientistas sociais como John Hall a pregar o abandono de qualquer teoria ger al sobre nacionalismo. um filósofo importante como Jürgen Habermas (1996) insiste n a validade da concepção cívica de identidade nacional. 491-515) propõe uma cidadania participativa na qual a autonomia política é um fim em si mesma. compartilhada por seus cidadãos. Poi s são as limitações desse tipo de nacionalismo cívico que criam o solo fértil para o flore scimento do nacionalismo xenófobo de um Le Pen e para a popularidade do sentimento antiimigrante na Europa. que não vai realizar-se por indivíduos privad os perseguindo seus próprios interesses. pp. Os especialistas que rejeitam a oposição entre nacionalismo cívico e étnico. a “limp eza étnica” promovida pelos sérvios e a execução do hino norte-americano em jogos de beise bol. Divisões rígidas entre pri mordialismo e construtivismo. basear-se em um fator ou causa única que p ossa explicar o fenômeno nacionalista leva ao reducionismo. mas que conduzam a tipologias mais adequadas à fenomenologia nacionalista. para John Hall (1993. além de permitir que os negócios da União Européia sejam domin ados pela burocracia e pelo big business. Segundo esses autores. o nacionalismo cívico é também cultural. 1996/97. não são analiticamente frutíferas. independentemente da cultura em que esteja inserido. Para Craig Calhoun. Nielsen adver e ainda para a existência de elementos étnicos até mesmo nas leis de imigração de países cí os como o Canadá. e tenta até desenvolvê-la à luz da r alidade da União Européia. Para ele. e que sociedades baseadas puramente em um dos dois critérios simplesmente não existem. o estudo do nacionalismo só poderá progredir se se produzirem teorias menos abrangentes. que não se reduzam a casos históricos específico s. Segundo ele. a União Européia ainda está baseada em uma conce pção lockeana de nacionalismo cívico. ele terá de aprender pelo menos um dos dois idiomas do país e aprend er algo da história e cultura canadenses (Nielsen. Para torna r-se canadense. ou entre étnico e cívico. que supere o modelo lockeano. Habermas (1996. 130-137). o nacionalismo em suas múltiplas variantes só pode ser apreendido como formação discursiva. e tem de ser estudado como tal. Ainda assim. não irá ganha r cidadania pela simples adesão aos princípios democráticos de seu novo país. um nacionalismo “cívico” que fosse puramente político e que pudesse refletir uma adesão a princípios democráticos. O denominador comum entre o protecionismo econômico japonês. como Kai N ielsen (1996/97) e Will Kymlicka (1995. 1-28). Um finlandês que queira imigrar para o Canadá. diz 45 . de encontrar melhor classificação dos tip os de nacionalismo. e capaz de dar sentido às at ividades individuais e coletivas dos membros da sociedade. entendem a nação como uma enti dade cultural. segundo a qual os cidadãos devem trocar serviços e b enefícios por votos e impostos. Trat a-se então. lembra ela. uma nação só pode ser qualificada como tal se possui uma cul tura pública e societária. 48).

aparecem nas manifestações nacionalistas de forma combinada. A divisão entre nacionalismo cívico e étnico. seja nas versões de Liah Greenfeld ou de Jürgen Habermas. Como. Hobsbawm (1990) e Hobsbawm e Ranger (1983). Perseguem um destino comum. Connor (1994). Uma boa resenha da escola instrumentalista en contra-se em François Nielsen (1985. Hobsbawm (1990). Ver a esse respeito Connor (1994. mas sempre reivindicam um passado. E é esse o dilema que se impõe aos estudos acadêmicos: encontrar uma interpretação coerente. Gellne r (1983). Os movimentos nacionalistas são ao mesmo tempo t eleológicos e tradicionais. 5. não encontra subsídios empíricos sólidos. pp. reconhe ce seu débito intelectual para com Edward Shils.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 46 Calhoun (1997. 8. 7. pp. 130-145). 90-106). Primordialismo e modernidade. mas que não pode oferecer uma explicação causal para nenhum deles. 351-366). definir um fenômeno que se manifesta nas mais diversas circunstâncias históricas. Hayes (1931). 294). membro do politburo durante a Era Gorbac hev e um dos principais formuladores da Perestroika. Uma lista mínima da escola moderna teria de incluir os seguintes nomes e obras: Anderson (1991). até a modernização da França rural. quando se criou um exército popular sob uma bandeira e um idioma. ci tado em Greenfeld (1992. é uma formação discursiva que informa e conecta todos esses eventos. revela-se insuficiente para explicar tanto as dificuldades de construção de nações em outras regiões do planeta como o ressurgimento de movimentos nacionalistas na própr ia Europa contemporânea. 46 . Til ly (1975). ver também Ignatieff (1993). e mesmo após as guerras napoleônicas. em grau s e associações tão diversos que desafiam sua captura por uma teoria singular. 6. 3. Mesmo as manifestações mais “modernas” e e nacionalismo remetem-se a elementos étnicos “primordiais” e mitos de origem nacional . 133-149). tomando formas tão variadas? A teoria do nacionalismo “clássico” de senvolvida por Gellner (1983). que reconheceu ter mudado s ua opinião sobre a questão nacional após ler Gellner. ge ográficas e culturais. 2. 4. então . Segundo Eugene Weber (1976). industrialização e formação dos Estados-nações eu s. A esse respeito. pass ado e presente. Giddens (1987). além de outros. política e cultura. com metodologia abrangente. Kohn ([1929] 1967). p. pp. por sua vez. empi ricamente sólida. que associa nação a modernidade. Breuilly (1982). extraindo daí a força de seu apelo. Ver a esse respeito Staniszkis ( 1991. Notas 1. 4). Um exemplo disso é Alexander Iakovlev. pp. pp. Seton-Watson (1977). Ver a esse respeito Shils (1957. capaz de unir sob um mesmo conceito as variadas manifestações de nacionalismo. a vasta maioria da população não tinha consciência de pert encer a uma nação francesa. 23-24). p. etnia e cidadania. As origens do t ermo nação foram traçadas pelo sociólogo italiano Guido Zernatto (1944. Geertz.

London. 10. mas concorda com outros autores em que o nacionalismo fra ncês era originariamente de caráter cívico. 1 6. Por exemplo. Os conceitos de ressenti mento e transvalorização de valores foram definidos por Max Scheler ([1912] 1961) e retomados por Liah Greenfeld (1985). Center for German and European Studies. da língua russa par a o idioma bielorusso.). 18). sem sequer passar pela f ase pré-nacional das monarquias absolutas da Europa ocidental. não adquiriram independência nacional nem se cons tituíram como países até a Primeira Guerra Mundial. especialmente pp. Greenfeld coloca restrições ao conceito de “vo ntade geral” de Jean Jacques Rousseau. C itado em Hobsbawm e Ranger (1983. Ver a esse respeito Durkheim (1964. Os habitantes da Bielorússia chamam-se “russos brancos”. p. O nome do país foi mudado de Bielorússia para Belarus. os territórios dos países qu adquiriram independência após a Segunda Guerra Mundial cortavam comunidades tribais e étnicas. 277-278). Washington. Carnegie Endowment for Internation al Peace. mesmo na Europa. A Rússia desenvolveu-se como império. suas elites aristocráticas se adequavam mel hor às ordens dinásticas. predominantemente rurais. 13. ou seja. 1992 “Lon g-distance Nationalism: world Capitalism and the rise of identity politics. As regiões da Europa Central. Bibliografia Alenikoff. 17. a Alemanha e a Itália não se unificaram até a segunda metade do século XIX. Tradicionalmente. Anderson. Verso Editions and New Left Books. 11 . No caso da França. Eisenstadt (19 73) e Nisbet (1965). ver especialmente caps. Douglas (eds. 2001). 1991 Imagined communities: reflections on the orig in and spread of Nationalism. que. França e Estados Unidos são analisados e interpretados detalhadamente em Liah Greenfeld (1992). National identity (1991). Em Calhoun (1997). Nationalism in the Twentieth Century (1979). após sua independência. 2000 From migrants to citizens : membership in a changing world.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 47 9. Na África. Benedict. The ethnic origins of nations ( 1986). carrega uma noção coletivista e antiindividualista. e não existia mercado e economia nacionais.” Paper . Essa tese é retomada por Liah Greenfeld em sua obra mais recente. The spirit of Capitalism (Greenfeld e Chirot. 15. 47 . 1 e 2. 14. Alexander & Klusmeyer. 12. University of California at Berkeley. em contraposição aos ru ssos (ou grã-russos) que habitam a República Federativa da Rússia. Uso o nome antigo porque ainda é mais c onhecido. As principais o bras de Smith são: Theories of nationalism (1983). Os processos de formação nacional na I nglaterra. segundo ela.

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