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Gilberto Freyre - Sobrados e Mucambos (Trechos)

Gilberto Freyre - Sobrados e Mucambos (Trechos)

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GILBERTO FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS

A casa patriarcal perdeu, nas cidades e nos sítios, muitas de suas qualidades antigas: os senhores dos sobrados e os negros libertos, ou fugidos, moradores dos mucambos, foram se tornando extremos antagônicos. CAPÍTULO I O SENTIDO EM QUE SE MODIFICOU A PAISAGEM SOCIAL DO BRASIL PATRIARCAL DURANTE O SÉCULO XVIII E A PRIMEIRA METADE DO XIX Com o domínio holandês e a presença, no Brasil, o Recife, simples povoado de pescadores em volta de uma igrejinha, e com toda a sombra feudal e eclesiástica de Olinda para abafá-lo, se desenvolvera na melhor cidade da colônia e talvez do continente. Passados trinta anos de domínio holandês, o Norte voltaria à rotina agrícola e à uniformidade Católica. O “tempo dos framengo” deixara no brasileiro do Norte, insignificante como realidade, mas considerável pelo potencial – que não era senhor nem escravo, mas o primeiro esboço de povo e de burguesia miúda que houve entre nós. O conflito entre Olinda e o Recife. Terá sido principalmente um choque entre os interesses rurais e os burgueses. Nos documentos brasileiros do século XVIII, já se recolhem evidências de uma nova classe, ansiosa de domínio: burgueses e negociantes ricos querendo quebrar o exclusivismo das famílias privilegiadas de donos simplesmente de terras, no domínio sobre as Câmaras ou os Senados. O mercador ou reinol de origem baixa, como o aventureiro das minas, a maior sedução por que se deixava empolgar, quando bem-sucedido nos negócios, era a de tornar-se membro da nobreza rural, imitar-lhe o gênero de vida, comprando engenho, plantando cana ou café. O financiamento à grande lavoura colonial atraiu desde cedo agiotas, que parecem ter se dedicado ao mesmo tempo à importação de escravos para as plantações. Judeus. Daí, o relevo que alguns historiadores dão aos judeus na fundação da lavoura de cana e na indústria do açúcar no Brasil. A capacidade de diferenciação que revelaram esses burgos, crescendo de simples pontos de armazenagem e embarque dos produtos da terra, em populações autônomas, com os senhores dos sobrados falando grosso e forte para os das casas-grandes do interior, ou perdoando-lhes as dívidas mediante os ajustes de casamento entre a moça burguesa e o filho de senhor de engenho, parece ter sido conseqüência das fortunas acumuladas pelos intermediários e negociantes, alguns de origem israelita. De modo que a figura do intermediário – negociando principalmente com escravos – não podia deixar de assumir importância considerável dentro do regime mórbido de economia patriarcal. O intermediário viveu dessas feridas conservadas abertas. As cidades começaram a crescer à custa dos senhores de terras e de escravos, assim explorados. A figura do judeu não teve essa grandeza de criador, viveu à sombra do português patriarcal. E quase sempre móvel e provisório nos lugares. Também entre os Mineiros se exerceu a atividade do intermediário e do usuário. Comboeiro ficou se chamando na região das minas esse papão. Horror enorme, mas não sem certa atração. Tinha os mesmos lucros de cento por cento sobre fazendas e mercadorias das cidades vendidas nos engenhos. No século XVIII e através do XIX, a força do intermediário, vinda do século XVII, só fez acentuar-se. Sua fugira acabou enobrecida na do correspondente, na do comissário de açúcar ou de café, na do banqueiro.

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Repita-se que a lavoura no Brasil gozara nos primeiro tempos de favores excepcionais. Favores com que a Coroa prestigiou a iniciativa particular dos colonos de posse, concedendolhes grandes privilégios políticos e, à sombra desses, privilégios econômicos. Mas com o desenvolvimento da indústria das minas, com o crescimento das cidades e dos burgos, sente-se declinar o amor Del-Rei pelos senhores rurais. A política econômica da Metrópole portuguesa que, a partir do século XVIII, foi a de deixar a grande lavoura um tanto de lado, colocando sob o seu melhor favor as cidades e os homens de comércio, e até a gente miúda, encontraria continuador em Dom João VI. A cobrança de dívidas. Seria menos um abuso que a regularização de relações entre credor e devedor – outrora irregularíssimas, o devedor da casa-grande quase não fazendo caso do credor de sobrado. As próprias gerações mais novas de filhos de senhores de engenho, foram-se tornando desertores de uma aristocracia. O bacharel, o aliado do Governo contra o próprio Pai ou o próprio Avô. Aliados da Cidade contra o Engenho. Bacharéis e médicos raramente voltavam às fazendas e engenhos patriarcais depois de formados. Pelo número de escravos se avaliava, com efeito, a importância do senhor rural. Em toda parte, o processo de agrucultura destruidora da natureza dominou com maior ou menor intensidade no Brasil patriarcal. Mauá e os ingleses modernizariam a técnica de transporte. Os serviços urbanos se aperfeiçoariam e com eles – iluminação, calçamento, e, por fim, saneamento – os estilos de vida nas cidades. A vida ficaria mais livre da rotina doméstica. A rua – outrora só de negros, mascates, muleques – se aristocratizaria. CAPÍTULO II O ENGENHO E A PRAÇA; A CASA E A RUA Só depois de bem iniciado o século XVIII é que na área mineira foram-se radicando, em número considerável, famílias ao solo. Burgos cenográficos que desapareciam e reapareciam como se fossem cenários de teatro de feira. Seus contatos de cultura com a Europa quase que se interrompiam de todo à proporção que se distanciavam do litoral. A diferença regional de estilos de vida na América Portuguesa: a maior predominância de padrões europeus de cultura, nos pontos de colonização por homens casados; e menos, naquelas regiões colonizadas por homens, em sua maioria, solteiros, ou simplesmente amasiados com caboclas da terra. Que haviam de fazer as senhoras de sobrado, às vezes mais sós e mais isoladas que as iaiás dos engenhos? Quase que só lhes permitiam uma iniciativa: inventar comida. Nos sobrados e nas próprias casas-grandes de sítio, ou assobradadas, de subúrbio, a cozinha não teve a mesma importância que nas casas de engenho; nem a mesa, onde se sentava para cear quem aparecesse. Nas cidades e nos subúrbios, a vida era, em certo sentido, mais retraída e menos exposta aos hóspedes que nos engenhos. A senhora de engenho quase nunca aparecia aos estranhos. Foi no Rio de Janeiro que a mulher começou a aparecer aos estranhos. Os burgueses de sobrado foram naquelas cidades do Norte do Brasil homens de praça ou de rua, ao contrário dos do Rio de Janeiro e da Bahia que raramente deixavam o interior dos sobrados. As ruas, parece que tiveram nas cidades mais antigas do Brasil seu vago caráter sindicalista ou medievalista. Ou de certa procedência. Rua dos Pescadores. Rua dos Judeus. Foi a Cidade que, aliada à Igreja, desenvolveu entre nós não só a assistência social, representada pelos hospitais, pelos hospícios, pelas santas-casas, como a medicina pública, geralmente desprezada pela família patriarcal.

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Ouro exemplo de sentido cooperativista deram os negros em Ouro Preto, organizando-se sistematicamente para fins de alforria e de vida independente. E os negros forros, operários da indústria do ouro, terminaram donos da mina da Encardideira ou Palácio Velho. A relativa facilidade de vida na região do açúcar, já afetada pela descoberta das minas, foi declinando ainda mais com o surto do café. Tudo foi ficando mais caro: mais difícil de ser adquirido pelos fidalgos rurais do açúcar. Os fidalgos do açúcar começaram a ser eclipsados pelos do café. As casas-grandes do interior a ser eclipsadas pelos sobrados das capitais. As fazendas do Sul principiaram a absorver os negros do Norte. O Norte começou a ficar sem negro para plantar cana. Foi quando os furtos de escravos tornaram-se uma calamidade e um escândalo nas ruas das cidades do Norte. Os interesses agrários dominavam ainda a presidência da maior parte das províncias, a justiça e a polícia. Compreende-se assim a benignidade para com as quadrilhas de ladrões de escravos em províncias como a de Pernambuco. Mas também se desviam escravos de uns engenhos para outros. Dos engenhos menores para os maiores. Não se pode generalizar a respeito do Brasil, afirmando que a aristocracia rural, entre nós consolidada principalmente nas casas-grandes de engenho, encarnou sempre os interesses conservadores e de ordem, enquanto as cidades, os sobrados burgueses, as próprias ruas, teriam sido sempre os focos de revoluções democráticas e de movimento liberais. A intervenção da Metrópole por intermédio do vice-rei ou do capitão-general na economia particular e a favor da gente miúda – deve ter atuado poderosamente nas atitudes políticas dos proprietários de terra do século XVIII e da primeira metade do XIX. CAPÍTULO III O PAI E O FILHO Towner lembra que nas sociedades primitivas o menino e o homem são quase iguais. Dentro do sistema patriarcal, não: há uma distância social imensa entre os dois. Morto nessa idade Angélica, o menino era adorado. Essa espécie de volúpia talvez se derivasse dos Jesuítas: do seu afã de neutralizar o rancor dos índios contra os brancos e particularmente contra eles, padres, diante da grane mortalidade de culuminzinhos que se seguiu aos primeiros contatos dos dominadores europeus com a população nativa. Dos seis ou sete anos aos dez, ele passava a menino-diabo. O menino branco também apanhava. Castigado por uma sociedade de adultos em que o domínio sobre o escravo desenvolvia, junto com as responsabilidades de mando absoluto, o gosto de judiar também com o menino. O regime das casas-grandes continua a imperar, um tanto atenuado, nos sobrados. Dos seis aos dez ou aos doze anos, idade teologicamente imunda, durante a qual o indivíduo apenas se fazia tolerar pelas maneiras servis, pelos modos acanhados, pelo respeito quase babugento aos mais velhos. Pelo colégio, como pelo confessionário e até pelo teatro, o Jesuíta procurou subordinar à Igreja os elementos passivos da casa-grande: a mulher, o menino, o escravo. Mas a educação do Jesuíta foi a mesma que a doméstica e patriarcal nos seus métodos de dominação, embora visando fins diversos dos patriarcais. Os colégios dos padres foram talvez as massas mais imponentes de edificação urbana no Brasil dos primeiros séculos coloniais. O gosto pelo diplomata de bacharel, pelo título de mestre, criaram-no bem cedo os Jesuítas no rapaz brasileiro. Esses alunos de colégios de padres foram, uma vez formados, elementos de urbanização e de universalização, num meio influenciado poderosamente pelos autocratas das casasgrandes e até dos sobrados mais patriarcais das cidades ou vilas do interior.

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Mas nos colégios de padre é que principalmente se educaram, em maior número, as grandes figuras da política, das letras e das ciências brasileiras dos tempos coloniais e do Primeiro Império. Deve-se ainda salientar a ação disciplinadora dos colégios de padre, no sentido de conter os excessos de diferenciação da língua portuguesa no Brasil. Naturalmente o padre-mestre era quase um purista, desejando uma língua de casagrande ou de sobrado que não tivesse mancha de fala de negro. O vício de falar arrastado veio caracterizar não matutos sem importância, mas grandes famílias rurais. No Seminário de Olinda, alunos que se destinavam não só às ordens sacras, mas a outras carreiras: rapazinhos desejosos de fazer os estudos de Humanidades; e estudando não só latim e Filosofia, mas Matemáticas, Física, Desenho. Era a orientação de Azevedo Coutinho que assim rompia com os restos da tradição jesuítica de ensino colonial. Já outra era a fisionomia dos colégios que pela mesma época – fins do século XVIII, princípios do XIX. Um dos aspectos que mais o impressionaram foi o atraso com relação às ciências: o ensino era ainda todo literário e eclesiástico. Mas foi com Pedro II que essa tendência se acentuou; e que os moços começaram a ascender quase sistematicamente a cargos, outrora só confiados a velhos de longa experiência da vida. O bacharelismo, ou seja, a educação acadêmica e livresca, desenvolveu-se entre nós com sacrifício do desenvolvimento harmonioso do indivíduo. Chegara a época de ser quase tão bonito morrer moço, aos vinte, aos trinta anos, como morrer anjo, antes dos sete. Morrer velho era para os burgueses. Os “gênios” deviam morrer cedo e, se possível, tuberculosos. Com a ascensão social e política desses homens de vinte e trinta anos foi diminuindo o respeito pela velhice, que até aos princípios do século XIX fora um culto quase religioso, os avós de barba branca considerados os “numes da casa”. Os santos, os mortos e eles, velhos. Era o declínio do patriarcalismo. Fenômeno que lhe pareceu “exclusivamente nosso” quando parece caracterizar, com seus excessos, toda transcrição do patriarcalismo para o individualismo. CAPÍTULO IV A MULHER E O HOMEM Mas a beleza que se quer da mulher, dentro do sistema patriarcal, é uma beleza meio mórbida. O padrão de moralidade, característico do sistema patriarcal, dá também ao homem todas as oportunidades de iniciativa. Muita mulher brasileira deve se ter salvado da loucura graças ao confessionário. Nos primeiros tempos de colonização do litoral, a mulher gozou de uma liberdade maior de ação. Torna-se uma vergonha o homem parecer-se com mulher, e uma impropriedade, a mulher parecer-se com homem. O homem patriarcal, no Brasil, com a sua barba de mouro e suas mãos finas cheias de anéis, foi uma mistura de agressividade machona e de molície efeminada. No Brasil rural patriarcal, foi a mulher a cavalo. Foi subproduto da influência de rapazes brasileiros que iam estudar leis nos centros europeus, a influência francesa a atingir um dos pontos mais íntimos do sistema patriarcal. Donde se poder sujeitar a essa generalização o fato de que a mulher de sobrado foi, no Brasil, criatura mais frágil que a de casa-grande. Estudando-se a história política e literária do Brasil durante a fase patriarcal, um traço que nos impressiona nos indivíduos da classe dominante, é a preponderância de subjetivismo. Uma ausência quase completa de objetividade.

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Essa dona de casa ortodoxamente patriarcal, o Padre Lopes Gama não se conformava que, nos princípios do século XIX, estivesse sendo substituída nos sobrados, por um tipo de mulher menos servil e mais mundano. Numa sociedade como a patriarcal brasileira, cheia de repressões, abafos, opressões, o carnaval agiu, como, em plano superior, agiu a confissão. Com esse tipo semipatriarcal de vida mais mundana para a gente elegante de sobrado, alargou-se a paisagem social de muita iaiá brasileira no sentido de maior variedade de contatos com a vida extradoméstica. Esse alargamento se faz por meio do teatro, do romance, da janela, do estudo de dança, de música, de francês. A influência de mulher que faltou sobre o filho menino ou adolescente foi a da mãe que compreendesse o mundo para o qual ele caminhava às cegas e sem um esclarecimento. E atribuía, em nítidas palavras, “a fraqueza orgânica das nossas mulheres” aos “maus hábitos sociais”. A supremacia do médico sobre o confessor, na vida da família brasileira, esboçada desde as primeiras décadas do século XIX, veio marcar fase nova na situação da mulher. Aquelas idealizações de morte foram se esvaindo com a maior influência do médico sobre a mulher o sobre o meio social. O absolutismo do pater familias na vida brasileira – pater familias que na sua maior pureza de traços foi o senhor de casa-grande de engenho ou de fazenda – foi se dissolvendo à medida que outras figuras de homem criaram prestígio na sociedade escravocrática. Com a ascendência dessas figuras e dessas instituições, a figura da mulher foi, por sua vez, libertando-se da excessiva autoridade patriarcal, e, com o filho e o escravo, elevando-se jurídica e moralmente. Em 1886, condenava-se aí o abuso de celebrar-se a santa missa em casas particulares, nos oratórios de família. Guardava-se da vista e dos ouvidos das mulheres a atividade mais séria dos homens; no caso das sociedades secretas, todo o trabalho em prol da Liberdade, da Independência, da Democracia. “A inferioridade” da mulher substituiu à “inferioridade da raça”. Sellin assinalou o grande número de moças raptadas dos sobrados e das casas-grandes, na segunda metade do século XIX. Esses raptos marcam, de maneira dramática, o declínio da família patriarcal no Brasil e no começo da instável e romântica. A solução que se generalizou foi a do rapto: solução favorecida pela intrusão da “justiça de juiz” em zona outrora exclusivamente dominada – repita-se – pela “justiça” do patriarca de casa-grande ou de sobrado. CAPÍTULO V O SOBRADO E O MUCAMBO Com a urbanização do País, o equilíbrio entre brancos de sobrado e pretos, caboclos e pardos livres dos mucambos não seria o mesmo que entre os brancos das velhas casasgrandes e os negros das senzalas. Senhor e escravo tornaram-se metades antagônicas ou indiferentes uma ao destino da outra. O sobrado conservou quanto pôde a função da casa-grande de guardar mulheres e guardar valores. A vida moral na Nova Holanda de modo nenhum foi superior à do Brasil rural e português. O recife holandês, ao contrário, foi um burgo de beberrões. Além do que o pobre ou o homem médio que não tivesse casa com viveiro de peixe, no dia que quisesse dar-se ao luxo de comer peixe fresco, para variar do seco, tinha que enfrentar não um atravessador apenas, mas toda uma série de intermediários.

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Em Minas Gerais: a princípio o fornecimento de gado aos açougues, no distrito dos diamantes, estivera nas mãos de Francisco do Amaral, comerciante rico, que conseguira tal privilégio do governo. Nesses conflitos entre o interesse geral da população das cidades e os intermediários e açambarcadores do comércio de carne fresca, de peixe, de farinha, convém recordar que os governadores coloniais quase sempre estiveram ao lado do povo e contra os magnatas. As Câmaras, no que se refere ao suprimento de víveres às cidades, mais de uma vez estiveram do lado dos interesses particulares e contra os gerais. Mas devia-se também salientar o efeito, sobre os preços da carne, dos tributos que eram impostos a cada boi de açougue. Quase o mesmo sucedia com relação ao peixe. Só a Provisão Régia de 17 de julho de 1815 declarou “injusto, e abusivo tudo que exigia pelo uso do mar, e praia”, tendo-se verificado então uma revolta dos pescadores contra os proprietários de terras. Mas na monocultura do café apenas se prolongou a do açúcar, foi justamente nas grades províncias monocultoras que se sentiu mais agudamente, no meado do século XIX, a carestia dos gêneros alimentícios. Donde os abusos da monocultura terem se acentuado no Brasil sob o liberalismo econômico do Império, com prejuízo maior para aquelas regiões onde os monocultores eram os únicos, ou quase os únicos, a se beneficiarem com os lucros dos “gêneros exportáveis” à custa da produção, quase nenhuma, de alimentos. A liberdade não era bastante para dar melhor sabor à vida dos negros fugidos que simplesmente conseguiam passar por livres nas cidades. Com o correr dos anos, a gente abonada foi cada vez se diferenciando mais da pobre pelo tipo menos vegetal de casa. A nobreza da casa estava principalmente nos elementos mais duradouros de sua composição. Depois de 1888, o cortiço só fez aumentar, não tanto de área, como de densidade. Assenhoreou-se de muito sobrado velho. De muito morro. Pode-se até sustentar que o morador de mucambo construído em terreno seco, enxuto, a cobertura dupla protegendo-o bem da chuva, foi e é indivíduo mais higienicamente instalado no trópico que o burguês e sobretudo a burguesa do antigo sobrado. Ou que o pequenoburguês de casa térrea. Salvador parece ter conservado no século XVII e no XVIII o ar meio agreste da descrição de Gabriel Soares. Precisavam assim de se assegurar dessa regularidade de gêneros de primeira necessidade, produzindo-os o mais possível em casa. Entre Maceió e São Luís do Maranhão, onde foi maior o domínio da cultura. Holandesa. Esta teria agido, com as suas qualidades tradicionais de asseio, sobre a higiene da casa burguesa do Nordeste, no sentido do maior uso do azulejo. Mas não se pode atribuir a esse domínio, nem aos holandeses, o relevo que tomou o azulejo na arquitetura de sobrado e de igreja do Brasil. Em Portugal o azulejo era empregado largamente, e daí é que primeiro se comunicou ao Brasil. “Praia” queria dizer então imundície. O rio é que era nobre. Sabido que o sistema de saneamento nas cidades brasileiras foi por muito tempo o do “tigre” – o barril que ficava debaixo da escada dos sobrados, acumulando matéria dos urinóis, para ser então conduzido à praia pelos negros. O grosso do pessoal das cidades defecava no mato, nas praias, no fundo dos quintais, ao pé dos muros e até nas praças. Desde os dias de Dom João VI que a rua, por sua vez, começou a defender-se dos sobrados. O sítio foi o ponto de confluência das duas especializações de habitação patriarcal e de arquitetura paisagista no Brasil: a urbana – isto é, o sobrado, com a porta e a varanda para a rua – e a casa de engenho ou de fazenda. A casa de sítio ou a chácara parece que foi por muito tempo mais casa de fazenda do que de cidade.

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Depois da chegada do Príncipe Regente, foi a casa urbana, o sobrado burguês, que sofreu europeização mais rápida e nem sempre no melhor sentido. A europeização da casa suburbana seria mais lenta. Pela qualidade do seu material, e até pelo plano de sua construção, o mucambo ou a casa de pobre corresponde melhor ao clima quente que muito sobrado. CAPÍTULO VI AINDA O SOBRADO E O MUCAMBO Os senhores eram agora o elemento contestador do Estado por causa de suas dívidas enquanto, principalmente os grandes do comércio e da indústria das grandes cidades, tornaram-se os defensores por excelência da “Ordem”. Já não era, como outrora, tão forte o preconceito contra a mercancia da parte dos brasileiros. E a atitude de muitos brasileiros já agora era a de que o comércio – outrora atividade considerada inteiramente vil – devia ser deles, filhos da terra; e não de “adotivos” e de estranhos que estavam constituindo-se em poder, na verdade, maior que o dos senhores de terras trabalhadas por escravos, em volta de casas-grandes cujos donos dependiam cada vez mais dos negociantes de sobrados. Mesmo com os riscos de fuga, porém, eram meninos portugueses que os negociantes preferiam para caixeiros de lojas e armazéns. Não foram poucos os bacharéis, doutores ou intelectuais brasileiros, filhos de portugueses, que se fizeram notar pelo ardor da lusofobia. Se desde os começos do século XVIII os reis de Portugal vinham prestigiando os “mascates” e negociantes contra os excessos de poder econômico e político desenvolvidos pelos senhores de terras brasileiramente feudais, agora – começos do século XIX – era na própria imprensa brasileira que se esboçava a glorificação da figura do comerciante, da do industrial, da do artista, aos quais se foi atribuindo função importantíssima na vida já quase nacional do Brasil. Pode-se generalizar: a tendência no Brasil, depois que as artes e os ofícios e, principalmente, as industrias e o comércio foram se impondo como atividades necessárias ao País e compensadoras do esforço de quantos soubessem cultivá-las. Caixeirinhos de tamancos tornaram-se no Brasil do século XIX senhores comendadores, excelências, titulares. Caixeiros – repita-se – chegaram a barões, a viscondes, a grande do império. Desde os fins do século XVIII foi se verificando no Brasil considerável invasão das atividades industriais e até mercantis por gente nobre mais afoita em desembaraçar-se do preconceito ruralista. Essa concepção – a de que o sobrado ainda patriarcal e já burguês é que representava a melhor ou mais alta civilização brasileira, ao findar o século XVIII e começar o XIX – parece ter sido geral entre os homens esclarecidos da época. Um dos característicos da elegância ou da modernidade de vida na capital maranhense, era a importância, maior do que em Minas, que tinha a mulher. Donde o europeísmo do ambiente de São Luís do Maranhão na primeira metade do século XIX: precisamente quando esse europeísmo se apresentava quase superado em Ouro Preto por influências rústicas. Para os observadores brasileiros nascidos ou formados na era colonial, uma das mais ostensivas alterações na organização social do País, desde a chegada ao Rio de Janeiro de D. João, vinha sendo precisamente o declínio do poder patriarcal familial, como que substituído nas cidades pelo poder suprapatriarcal – embora ainda patriarcal em vários dos seus aspectos – não só do Bispo como do regente, do Rei e, afinal, do Imperador. CAPÍTULO VII O BRASILEIRO E O EUROPEU

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A colônia portuguesa da América adquirira qualidades e condições de vida tão exóticas – do ponto de vista europeu – que o século XIX, renovando o contato do Brasil com a Europa – que agora já era outra: industrial, comercial, mecânica, a burguesia triunfante – teve para o nosso País o caráter de uma reeuropeização. Em certo sentido, o de uma reconquista. Ou de uma renascença – tal como a que se processou na Europa impregnada de medievalismo, com relação à antiga cultura greco-romana. Apenas noutros termos e em ponto menor. Tudo isso que dava um tom tão oriental à nossa vida dos dias comuns foi empalidecendo ao contato com a nova Europa; foi se acinzentando. Esse período de europeização da nossa paisagem pelo preto e pelo cinzento, começou com Dom João VI; mas acentuou-se com Dom Pedro II. Daí, ao seu ver, o aumento alarmante da tuberculose coincidir com o período de reeuropeização ou europeização dos hábitos de comer e de vestir: ou com as modas francesas e inglesas de roupa a que se refere quase furioso. Essa curiosidade, esse gosto, essa alegria nos foram comunicados nos fins do século XVIII, e através do XIX, pelos Enciclopedistas e pelos revolucionários franceses e angloamericanos. O domínio holandês foi, assim, uma época de interpenetração de influências. Mas estes ficaram com a experiência do tempo dos flamengos a agir sobre a sua vida no sentido ecumênico; nunca mais seria perfeita sua acomodação ao império português na América. Não seria absoluta sua reinteração social no complexo lusitano. As regiões que mais se europeizaram nem sempre foram as mais ricas. A segregação social esteriliza o homem ou o grupo humano e leva-o ao retardamento nos estilos da vida. A repugnância do imperialista europeu pelo mucambo nem sempre terá sido exclusivamente moral ou higiênica: talvez também econômica, por querer impor a estandardização e o uso de suas mercadorias. Estímulos, também, de cultura – o contigente judaico na colonização industrial daqueles dois centros; e no outro caso – na área mediterrâneo-mineira – a ação de estímulos semelhantes, de cultura cosmopolita, provocados, porém não determinados, pelo fator econômico. O que o Judeu trouxe para o Brasil como elemento de diferenciação foi principalmente a capacidade para o comércio internacional, que nos enriqueceria de uma variedade de contatos, impossíveis dentro da exclusividade portuguesa. Também a especialização científica e literária que neles se aguçara por efeito daquela riqueza de contatos, distanciando-se dos portugueses rurais e cristãos-velhos. Pais negociantes e filhos doutores – tal foi o seu processo de ascensão social. O comercio internacional dos Judeus parece ter criado, para Minas, pontos de contato com o estrangeiro, favoráveis aos impulsos de diferenciação não só social e intelectual, mas também, política. Em minúcias de moral, em preconceitos de pudor, foi talvez onde a brasileira, impregnada de tradições árabes, mais resistiu à penetração inglesa ou francesa. Com a decadência da economia apoiada no escravo, acentuou-se a importância do europeu que aqui viesse, não como simples negociante, como os ingleses desde os tempos coloniais, à sombra do Tratado de Methuen. Como operário ou artífice, que substituísse o negro e a indústria doméstica e, ao mesmo tempo, viesse satisfazer a ânsia, cada vez maior, da parte do mais adiantado burguês brasileiro, de europeização dos estilos de casa, de móvel, de cozinha, de confeitaria, de transporte. No Rio de Janeiro a europeização dos edifícios públicos e dos sobrados de alguns dos homens mais ricos da Corte começara com a chegada do Príncipe. Com a missão de artistas franceses que veio para o Brasil no tempo de Dom João VI. Tudo que era português foi ficando “mau gosto”; tudo que era francês ou inglês ou italiano ou alemão foi ficando “bom gosto”.

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Grandes cargas de panos, móveis, louças, artigos de luxo, franceses, inundaram os portos do Brasil, logo que a França pôde competir com a Grã-Bretanha na conquista do mercado brasileiro. O brasileiro, mal saído das sombras do sistema patriarcal e da indústria caseira, deixouse estontear da maneira mais completa pelos brilhos, às vezes falsos, de tudo que era artigo de fábrica vindo da Europa. Natural que fosse se acentuando a rivalidade entre o artífice ou o operário da terra, e o operário ou o artífice estrangeiro, que surgia com grande réclame pelos jornais ou protegido pelos governos. A idéia de o operário ou artífice estrangeiro estar fazendo sombra ao mulato, o português da venda estar tirando a oportunidade ao filho de família pobre de enriquecer no comércio a retalho, foi crescendo nas cidades, a ponto de explodir, em algumas, em reações nativistas contra o europeu. No Rio de Janeiro, no Recife, em Belém do Pará. Mas a europeização do trabalho, e até certo ponto a do comércio, se impusera com o declínio da economia rigidamente patriarcal e com a industrialização da vida brasileira. Com os novos estilos de vida, de conforto, de arquitetura criados pela abertura dos portos ao comércio europeu e para satisfazer os quais não estava apto o artífice de engenho, o mulato livre, o operário da terra. Só o estrangeiro. O artífice branco, o técnico estrangeiro se tornaram tão necessários como o próprio ar à organização mais industrial e à estrutura mais burguesa, mais urbana, mais mecanizada, da vida brasileira. O nativismo gritou contra a concorrência do adventício louro ao “caboclo da terra”. Mas o técnico europeu repita-se que acabou triunfado. CAPÍTULO VIII RAÇA, CLASSE E REGIÃO Deve-se atribuir a tais sentimentos ou idéias de obrigações de paternidade da parte de alguns patriarcas, considerável influência na interpenetração das condições de raça e classe que desde os começos da colonização do Brasil vêm se verificando no nosso País e resultando em constantes transferências de indivíduos de cor, da classe a que pareciam condenados pela condição da raça materna e, até certo ponto, deles – a condição de dominados – menos para a condição de dominadores que para a de marginais ou intermediários entre dominadores ou dominados. A substituição do paternalismo dos padres pelo del-Rei se acentuou com o alvará de 7 de julho de 1735, abolindo o poder temporal dos missionários e declarando-o incompatível com as obrigações do sacerdócio. A raça não os desclassificava para cargos e honras. O alvará de 4 de abril de 1755 foi, a esse respeito, de uma nitidez absoluta, declarando não haver infâmia alguma no casamento de portugueses ou brancos com índias. Só se exigia dos ameríndios, para lhes ser concedido o status de súditos, que se fizessem cristãos. Os indígenas tinham o fidalgo. Dessa nobreza é que se escolhiam os que deveriam mandar nos demais. Tudo indica, porém, que para o grosso dos colonizadores os índios eram uma figura só: o Índio. Decidiu-se que enquanto os índios não tivessem capacidade para se governarem, haveria um diretor branco ou português nomeado pelo governador da capitania. Os diretores cedo se tornavam, em grande número de casos, opressores e exploradores dos indígenas. É que, como raças subjugadas, se sentiam necessitados menos de liberdades abstratas que da proteção efetiva que reis e papas pareciam ser os mais aptos a lhes conceder contra senhores brancos e padres Católicos desabusados no exercício. O homem de cor, civilizado e cristianizado, podia ser socialmente tão português como qualquer português e tão cristão como qualquer cristão. O que agiu mais constantemente na área gaúcha, no sentido de diminuir distâncias entre classes e raças, foi o freqüente estado de guerra.

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Do estudo das expressões ou variações de status na história da sociedade brasileira, nunca se deve separar a consideração da situação regional do indivíduo ou do grupo, tantas vezes modificadora de outros aspectos do seu status. Talvez em nenhuma outra área brasileira de colonização portuguesa mais antiga tenham sido mais nítidas do que na de Pernambuco, as distinções não tanto de cor quanto de classe. Mais forte que a condição de raça, como condição ou base de prestígio, eram evidentemente, a condição de classe e a própria condição de região de origem ou residência do indivíduo. Desde remotos dias coloniais que os homens de governo, no nosso País, preocuparam-se em proibir aos escravos e aos pretos não só a ostentação de jóias como a de armas, considerando-se que umas e outras deviam ser insígnias da raça e da classe dominantes. O direito de galopar ou esquipar ou andar a trote pelas ruas das cidades repita-se que era exclusivo dos militares e dos milicianos. O que se verificava repita-se que era vasta tentativa de opressão das culturas nãoeuropéias pela européia, dos valores rurais pelos urbanos, das expansões religiosas e lúdicas da população servil mais repugnantes aos padrões europeus de vida e de comportamento da população senhoril, dona das Câmaras Municipais e orientadora dos juízes de paz e dos chefes de polícia. Deu-se a degradação de artes e hábitos mestiços que já se haviam tornado artes e hábitos da raça, da classe e da região aristocrática, em artes e hábitos de classes, raças e regiões consideradas inferiores ou plebéias. CAPÍTULO IX O ORIENTE E O OCIDENTE Confirma-se aqui o fato de que o brasileiro do litoral ou de cidade viveu, durante a primeira metade do século XIX, sob a obsessão dos “olhos dos Estrangeiros”. Desses traços orientais muitos foram transmitidos ao Brasil desde os primeiros anos de colonização. Aqui se desenvolveram a seu modo sob o favor da política de segregação da Europa adotada pelos portugueses com relação à sua colônia americana depois que se descobriram nesta parte da América esmeraldas e diamantes, além do ouro dos Gerais. É que os orientadores do Regente e ele próprio agiram menos em função de uma política castiçamente portuguesa ou ibérica com relação ao Brasil, do que de uma política imperialmente inglesa, ou britânica, de absorção e dominação de povos e culturas extraeuropéias. De muita quinquilharia asiática e africana se supria a América Portuguesa no Oriente, antes do francês assenhorear-se desse gênero de comércio. Todo esse comércio, porém, desenvolvera-se à sombra do comércio de escravos da áfrica para o Brasil; e continuava a depender desse tráfico e da estabilidade do sistema agrário, patriarcal e escravocrático brasileiro, para sua conservação. O que importava a esses apologistas da importação de “homens livres” do Oriente para o Brasil era satisfazerem o inglês quanto à exigência de abolição do tráfico de escravos. Não foram somente chins ou chinas, que desde os dias coloniais se introduziram no Brasil para competir com escravos africanos nos serviços de campo e no doméstico. Também asiáticos de outras procedências. Antes da abertura oficial dos portos brasileiros ao comércio estrangeiro, já que o Brasil acolhia, além de naus da índia sempre necessitadas de “provisões” ou de “reparos”, navios ingleses, e às vezes anglo-americanos, que procuravam os três portos principais da colônia sob o mesmo pretexto, de comerciar os artigos trazidos do oriente. Não nos esqueçamos de que em 1839 o chá era ainda monopólio dos chineses. Não só o chá da China: também o da índia “muito superior”. A generalização do uso da faca e do garfo individuais entre a burguesia brasileira marca uma das vitórias mais expressivas do Ocidente sobre o Oriente nas nossas cidades.

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A vitória do Ocidente industrial sobre o Oriente artesão teve, no Brasil, efeito nitidamente democratizante. Generalizou-se o uso de pentes, leques, perfumes, outrora restritos a pequeno número. Judiaria é o orientalismo que parece não ter havido, rigorosamente, nem em Salvador da Bahia nem noutra qualquer cidade do Brasil português. Os judeus, entre nós, foram quase sempre gente encoberta que só na sombra praticava seus ritos, seguia seus costumes, comia suas comidas e regalava-se com seu ouro, sua prata e suas pedras preciosas, evitando, assim, os duros castigos do Santo Ofício. Nem por isto devem ou podem os judeus ser desprezados como agentes mais ou menos secretos de orientalismo. O Oriente continuou a se fazer sentir fortemente no Brasil até os primeiros dias do reinado de Dom Pedro II. 1840. Daí em diante tal é a penetração do Ocidente no comércio, na economia, na cultura moral do Brasil ainda patriarcal e já burguês, que o Oriente se manifesta apenas em sobrevivências. Transferida a Corte de Portugal, de Lisboa para o Rio de Janeiro, um dos efeitos dessa transferência do centro político do Império lusitano foi deslocar para o Brasil grande parte do comércio da Índia com a antiga Metrópole, aumentando, assim, as relações da América Portuguesa com o Oriente. O referido Luccock, comerciante arguto, viu com olhos de inglês a importância que assumiram essas relações se a Grã-Bretanha não se apressasse em dificultálas, como de fato as dificultou, com o Tratado de 1810 e com os privilégios obtidos para o seu comércio sobre o próprio comércio português. CAPÍTULO X ESCRAVO, ANIMAL E MÁQUINA Com o começo de generalização do uso da máquina é que verdadeiramente principiou a libertação do negro, da escravidão e da servidão. O que parece é que sem inquietação moral ou trepidação sentimental, só por efeito de aperfeiçoamentos materiais ou técnicos não se realizam progressos dos chamados morais. O maior espanto de Kidder numa cidade da importância de Salvador, foi a ausência de tração animal. Foi a sobrevivência de tração humana. Mercadorias carregadas aos ombros de escravos. Homens carregados por homens. Senhores carregados por servos. Homens habituados a mulheres doces e passivas, parece que os modos desembaraçados das inglesas, das francesas, das mulheres do Norte reformado, não os atraíam às mesmas mulheres senão para namoros efêmeros: nunca para o casamento ou o amor conjugal. Compreende-se assim, que a Igreja de São Jorge, no Rio de Janeiro, se tornasse o centro da devoção africana a Ogum. Médicos de formação européia tiveram que travar áspera batalha com curandeiros africanos ou da terra, íntimos conhecedores de ervas ou plantas tropicais e protegidos às vezes – o caso do “preto Manoel” – por senhores prestigiosos de casas-grandes e de sobrados patriarcais. Apareceu então uma interpretação antes etnocêntrica que econômica do fato: que os brancos estavam deixando que os médicos – quase todos brancos – matassem a gente de cor. Como, porém, começara desde os primeiros decênios do século XIX a imigração dos europeus do tipo dos irlandeses que foram chamados pela plebe do Rio de Janeiro de “escravos brancos”, era natural que negros e pardos desconfiassem de que os brancos poderosos ou ricos desejavam a substituição dos pretos e pardos por trabalhadores também brancos. Figuras elevadas a redentores de pardos e pretos aos quais é possível que suas ervas beneficiassem, de fato, mais que as drogas européias, quase inócuas no combate ao chamado mal asiático. Tanto que foi nesses anos que se desenvolveu no Brasil, entre brancos esclarecidos, a homeopatia. Pois não nos esqueçamos do fato de que divididos por ódios ou rivalidades de castas, de línguas, de regiões e de cultos em moçambiques e congos, minas e coromatins, ladinos e negros da Costa, os africanos e os descendentes de africanos no Brasil sofreram influências no

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sentido de sua coesão. A primeira delas, a condição de escravos de grande parte deles. A segunda, a condição de africanos ou de descendentes de africanos. Entre essas outras influências, a que resultava do fato de terem feito parte do mesmo lote de negreiro com destino ao Brasil. A que resultava do fato de serem membros da mesma irmandade Católica – em geral, de São Benedito – ou do mesmo bando de capoeiras ou de capangas de cidade. E, principalmente, a que resultava do fato de serem devotos ou iniciados do culto religioso alongado em movimento secreto de insurreição social que parece ter sido, entre nós, o culto de São Jorge-a-Cavalo – ou seu equivalente: o de Santo Antônio militar – praticado por negros e escravos como disfarce do culto de Ogum e em oposição ao mesmo culto – de São Jorge-a-Cavalo – praticado pelos senhores dos sobrados, pelos militares das cidades, pelos brancos econômica e politicamente poderosos. A perseguição sistemática da polícia do Regente aos capoeiras dos rabos-de-arraia e das cabeçadas é que os perverteu em bailarinos ainda mais incômodos: bailarinos de navalha e de faca de ponta. Em 1821 já era diversa a situação no Rio de Janeiro: os ferimentos e as mortes estavam se tornando numerosos na cidade; e muitas delas praticadas por escravos negros e mulatos. Entretanto esses negros, é que conteriam as turbulências e reprimiam a revolta de mercenários irlandeses e alemães quando esses europeus armados, soldados prediletos de Pedro I, sublevaram-se em 1828. A estupidez da repressão é que principalmente perverteu batuques em baixa feitiçaria, o culto de Ogum, em grosseiro arremedo de maçonaria, a capoeiragem, em atividade criminosa e sangüinária. São várias as evidências de que o escravo africano ou descendente de africano, no Brasil, sempre que tratado paternalmente por senhor cuja superioridade social e de cultura ele reconhecesse, foi indivíduo mais ou menos conformado com seu status. E a rotina pode-se generalizar que era a do mínimo de máquina e a do máximo de trabalho escravo, apenas auxiliando pela energia do boi ou pela energia da mula. Era uma aversão, a dos proprietários de engenhos e de estâncias, de granjas e de fazendas, pelos aperfeiçoamentos de técnica de produção. Foram principalmente os brasileiros dessa “classe mulâtre” que com maior rapidez apreenderam de mecânicos europeus do novo tipo suas técnicas ou artes. Num Império democrático como o do Brasil todos os brancos eram iguais. A cor da pele formava, por si, em presença de uma “raça inferior” ou de uma “casta servil”, uma como aristocracia: a aristocracia dos brancos. E a essa aristocracia ou casta podia ter fácil acesso qualquer inglês, mesmo simples operário ou caixeiro de companhia de mineração. A máquina vinha diminuir a importância tanto do escravo como do senhor. Vinha valorizar principalmente o mestiço; e também o branco pobre, sem outra riqueza ou pobreza que a da sua técnica, necessária ou essencial aos proprietários de terras ou de fábricas e à comunidade. A máquina vinha concorrer para fazer de uma meia-raça uma classe média. Depois de 1808 e, principalmente, de 1835 a 1850, melhoramentos ou inovações notáveis de técnica sanitária e de transporte, de iluminação e de arborização de ruas foram aparecendo na cidade do Rio de Janeiro, na do Recife, na de São Paulo e até em Rio Grande, em Pelotas, em Porto Alegre, em Belém. Salvador e Ouro Preto é que se retardaram em várias desses melhoramentos. Várias das modificações que sofreram então paisagens e instituições ligam-se direta ou indiretamente à cessação do tráfico legal de escravos, cujo volume o clandestino nem sempre conseguiu suprir; nem pôde manter. Os capitais foram tomando, assim, outros rumos. Deixando de concentrar-se no comércio de escravos, tornaram-se disponíveis para os melhoramentos mecânicos, para as compras de máquinas ou simplesmente de cavalos e de vacas de leite, superiores ou de raça, para a construção de sobrados de luxo. Com a cessação do tráfico é que o emprego dos mesmos capitais reverteu para os melhoramentos materiais do País.

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Ao golpe de morte na escravidão que foi a cessação do tráfico regular, sucedeu-se outro: a epidemia de cólera-morbo, ou cólera asiática, que devastou senzalas de casas-grandes de engenhos e de fazendas persistentemente patriarcais. Mas por uma como compensação biológica e não apenas sociológica, quase ao mesmo tempo em que a cólera asiática devastava principalmente a população africana e escrava das senzalas e dos mucambos, a febre amarela aparecia, para especializar-se em matar europeu ou branco puro. Há até quem atribua à febre amarela a função patriota de ter guardado o Império da cobiça européia ou britânica. E na verdade parece ter ela impedido a desnacionalização do Brasil sob a influência de uma transferência, demasiadamente rápida, de domínio econômico, das mãos dos senhores de escravos e dos traficantes de negros para as dos senhores de bancos e dos traficantes de máquinas de ferro ou a vapor. CAPÍTULO XI ASCENSÃO DO BACHAREL E DO MULATO Por volta de 1830, a valorização social começara a fazer-se em volta de outros elementos: em torno da Europa. Eram tendências encarnadas principalmente pelo bacharel, filho legítimo ou não do senhor de engenho ou do fazendeiro. Porque ninguém foi mais bacharel nem mais doutor neste País que Dom Pedro II. Nem menos indígena e mais europeu. Seu reinado foi o reinado dos Bacharéis. Por um lado, inimigos da aristocracia matuta, por outro lado, encontraram nela, esses bacharéis novos, seus aliados naturais para os planos revolucionários de independência política da colônia e até para as aventuras de ação romântica. Em nossa literatura colonial, essa voz de bacharel é talvez a primeira que exalta o trabalho do escravo, a ação criadora, brasileiramente criadora, do proletariado negro, índio e principalmente mestiço na formação nacional. Parece que o povo custou a admitir nos bacharéis, nos doutores e até nos barões e nos bispos, a mesma importância que nos “capitães-mores” ou nos “sargentos-mores”. A ascensão do bacharel se fez, muitas vezes, pelo casamento com moça rica ou de família poderosa. Diz-se de alguns moços inteligentes, mas pobres ou simplesmente remediados, que não foi de outro jeito que chegaram a deputado às Cortes e a ministro do Império. A farda do Exército, os galões de oficial, a cultura técnica do soldado, a carreira militar – sobretudo a híbrida de militar-bacharel – foi outro meio de acesso social do mulato brasileiro. A atividade política, no sentido revolucionário, das milícias ou do Exército Brasileiro – Exército ou milícias sempre um tanto inquietos e trepidantes, desde a Guerra do Paraguai – talvez venha sendo, em parte, outra expressão de descontentamento ou insatisfação do mulato mais inteligente e sensitivo, ainda mal-ajustado ao meio. O título de capitão-mor arianizava os próprios mulatos escuros. Insistindo em realizar com escravos, o que outros sistemas econômicos começavam a realizar com máquinas e não apenas com animais, o sistema patriarcal brasileiro viu no mestiço impregnado de ingresias ou francesias um revolucionário a abafar ou reprimir. Tarefa difícil, dado o sucesso alcançado desde a primeira metade do século XIX, por numerosas mestiços em especialidades necessárias, não diremos ao desenvolvimento, mas à salvação do Brasil do perigo de estagnar-se em subnação tristonhamente arcaica. CAPÍTULO XII EM TORNO DE UMA SISTEMÁTICA DA MISCIGENAÇÃO NO BRASIL PATRIARCAL E SEMIPATRIARCAL

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Nem todos os vícios dos negros foram adotados pelos mulatos e pelos brancos pobres. A ação do meio cultural sobre o indivíduo: sobre o físico do mestiço que, indeciso, às vezes, entre origens contraditórias, pendia para a origem socialmente nobre quando a favor dela agiam influências sociais e de cultura. Pelo menos no caso da afinidade, vamos provisoriamente dizer psicológica, de um grupo de nortistas de composição étnica quase igual à dos baianos, com sulistas de formação étnica predominantemente européia, pelo menos quase isenta de sangue africano quando comparada com a pernambucana ou a baiana – o fator raça empalidece sob a atuação, evidentemente mais poderosa, de semelhanças de formação histórica. Ou de experiência social. No Brasil, uma coisa é certa: as regiões ou áreas de mestiçamento mais intenso se apresentam as mais fecundas em grandes homens.

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