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Matriz de Avaliação Socioambiental da Arquitetura de Meios de Hospedagem em Áreas Protegidas

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Studies all over the world indicate that economic activities related to tourism are growing, particularly those supported by natural attractions. At the same time, preservation efforts are resulting in new protected areas and constant improvement of management tools for the existing ones. In Brazil, the SNUC – National Conservation Units System, created a kind of protected areas where economic exploration is legal, such as the APA – Environment Protection Area and it is common to find lodges there. In many cases these hotels stand out by offering ecotouristic experiences, where the visitor makes contact with nature and the local population, contributing to their sustainability. Those lodges cause potential impacts and, as they depend on natural, social and cultural resource preservation, ways of diminishing the negative effects of their presence are being searched for. There are many examples of successful undertakings in this task. This study investigates the architecture of lodges installed inside the APA Costa de Itacaré – Serra Grande, in the southern coast of Bahia State, Brazil, in order to discover the differences in comparison to similar lodges located outside of protected areas, on the coast of Ilhéus. The weight up matrix concept was used to create the MASArq, Architecture Socio-environmental Evaluation Matrix, defining weights for six parameters with some specialists participation. Data were collected with a 40 question form-questionnaire in 51 lodges, from a universe of 104. The result showed that lodges located inside the APA have a more sensitive architecture to social and environmental matters, compared to those outside of it. On the other hand, this group (inside APA) has a global medium score far from the maximum: 400 points out of 1000. The group outside of the APA received only 310 points. For parameters such as “energy” and “sanitary conditions” both groups got a similar score; for the remain, “water”, “inside comfort” (the best result of the “inside the APA” group, with 70% of the maximum score), “biota” and “social-economic conditions”, all results were favorable to the inside the APA group. But for the two parameters considered the most important, “water” and “energy”, this group received only 21% and 18% of maximum score, respectively, indicating that there is much room for the lodges’ facilities improvement within protected areas. There are few official demands and patterns for lodges in protected areas and, with deficient control and guidance, architectural sustainability depends on the eventual conscience of idealist owners with futuristic vision for investing in details that will make a difference for society and the business.
Studies all over the world indicate that economic activities related to tourism are growing, particularly those supported by natural attractions. At the same time, preservation efforts are resulting in new protected areas and constant improvement of management tools for the existing ones. In Brazil, the SNUC – National Conservation Units System, created a kind of protected areas where economic exploration is legal, such as the APA – Environment Protection Area and it is common to find lodges there. In many cases these hotels stand out by offering ecotouristic experiences, where the visitor makes contact with nature and the local population, contributing to their sustainability. Those lodges cause potential impacts and, as they depend on natural, social and cultural resource preservation, ways of diminishing the negative effects of their presence are being searched for. There are many examples of successful undertakings in this task. This study investigates the architecture of lodges installed inside the APA Costa de Itacaré – Serra Grande, in the southern coast of Bahia State, Brazil, in order to discover the differences in comparison to similar lodges located outside of protected areas, on the coast of Ilhéus. The weight up matrix concept was used to create the MASArq, Architecture Socio-environmental Evaluation Matrix, defining weights for six parameters with some specialists participation. Data were collected with a 40 question form-questionnaire in 51 lodges, from a universe of 104. The result showed that lodges located inside the APA have a more sensitive architecture to social and environmental matters, compared to those outside of it. On the other hand, this group (inside APA) has a global medium score far from the maximum: 400 points out of 1000. The group outside of the APA received only 310 points. For parameters such as “energy” and “sanitary conditions” both groups got a similar score; for the remain, “water”, “inside comfort” (the best result of the “inside the APA” group, with 70% of the maximum score), “biota” and “social-economic conditions”, all results were favorable to the inside the APA group. But for the two parameters considered the most important, “water” and “energy”, this group received only 21% and 18% of maximum score, respectively, indicating that there is much room for the lodges’ facilities improvement within protected areas. There are few official demands and patterns for lodges in protected areas and, with deficient control and guidance, architectural sustainability depends on the eventual conscience of idealist owners with futuristic vision for investing in details that will make a difference for society and the business.

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Programa Regional de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente

Universidade Estadual de Santa Cruz
Mestrado em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente

UESC

FREDERICO SILVEIRA COSTACURTA

MATRIZ DE AVALIAÇÃO SÓCIO-AMBIENTAL DA ARQUITETURA: UM ESTUDO DOS MEIOS DE HOSPEDAGEM EM ÁREA PROTEGIDA DE USO SUSTENTÁVEL NO LITORAL SUL DA BAHIA, BRASIL

ILHÉUS, BAHIA 2006

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FREDERICO SILVEIRA COSTACURTA

MATRIZ DE AVALIAÇÃO SÓCIO-AMBIENTAL DA ARQUITETURA: UM ESTUDO DOS MEIOS DE HOSPEDAGEM EM ÁREA PROTEGIDA DE USO SUSTENTÁVEL NO LITORAL SUL DA BAHIA, BRASIL

Dissertação apresentada ao Programa Regional de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente, da Universidade Estadual de Santa Cruz, como parte dos requisitos para obtenção do título de mestre. Área de concentração: Gestão do Trópico Úmido Orientador: PhD Fermin de la Caridad Garcia Velasco

ILHÉUS, BAHIA

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2006

3 FREDERICO SILVEIRA COSTACURTA

MATRIZ DE AVALIAÇÃO SÓCIO-AMBIENTAL DA ARQUITETURA: UM ESTUDO DOS MEIOS DE HOSPEDAGEM EM ÁREA PROTEGIDA DE USO SUSTENTÁVEL NO LITORAL SUL DA BAHIA

Ilhéus, Bahia, Setembro de 2006.

Fermin de la Caridad Garcia Velasco – PhD UESC / USP (Orientador)

Alexandre Schiavetti – DS UESC

Adolfo Lamar – DS UESC

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Às memórias de meu pai, José, e de meu irmão, José Alexandre. À minha mãe, Maria Zélia, jornalista, escritora, musicista, artista, professora, pelo apoio incondicional, pelos palpites no texto, pelo exemplo de uma vida, pela bravura, pela semente plantada em mim. A meus filhos, Marcelo, Débora e Marina, e meus sobrinhos Felipe, Daniele, Victoria, Pedro, Gustavo e Guilherme por me oferecerem, natural e diariamente, milhares de razões para acreditar em um mundo melhor. A minha irmã, Cristiane, e a meus amigos e amigas de toda a vida, por terem, cada um a seu modo, colocado alguns tijolos na parede que sustenta meu sentimento sócio-ambientalista.

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AGRADECIMENTO

Ao Professor Fermin Velasco pela orientação, pela confiança, pelos ensinamentos, pelo apoio e pela amizade. Aos Professores Max de Menezes, Fermin Velasco e Neylor Calazans pela seriedade e carinho com que sempre cuidaram do PRODEMA e da turma VII do Mestrado em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente. Ao Professor Alexandre Schiavetti pela longa trajetória de seus palpites, ensinamentos, críticas, elogios e pela participação na definição da matriz de avaliação como especialista. À Professora Sandra Holanda pelo trabalhoso envio de sua dissertação sobre a APA de Jericoacoara e pela participação na definição da matriz de avaliação como especialista. A Anne Becher pela participação na definição da matriz de avaliação como especialista e pelo comentário a respeito do preenchimento (“It was fun”). Ao Professor Mauricio Cetra, pelos ensinamentos sobre estatística. A todos os meus colegas da turma VII e aqueles de outras turmas com que convivemos como aluno especial. Aos proprietários dos empreendimentos visitados, em especial meus “alunos” participantes do Programa de Certificação em Turismo Sustentável – PCTS. Em especial a Ana Lúcia, minha esposa, pelo carinho e paciência.

v MATRIZ DE AVALIAÇÃO SÓCIO-AMBIENTAL DA ARQUITETURA: UM ESTUDO DOS MEIOS DE HOSPEDAGEM EM ÁREA PROTEGIDA DE USO SUSTENTÁVEL NO LITORAL SUL DA BAHIA, BRASIL RESUMO Em todo o mundo estudos indicam grande crescimento das atividades econômicas relacionadas ao turismo, especialmente aquele desenvolvido em regiões com atrativos naturais. Ao mesmo tempo, esforços preservacionistas resultam em criação de novas áreas protegidas e constante aperfeiçoamento das ferramentas de controle das existentes. No Brasil, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC prevê a possibilidade de exploração econômica em alguns tipos de Unidades de Conservação, como a Área de Proteção Ambiental – APA, e é comum ali encontrar meios de hospedagem instalados. Estas pousadas e hotéis, normalmente, diferenciam-se por oferecer experiências ecoturísticas, aquelas em que o visitante entra em contato com a natureza e a população local e contribui, de alguma forma, para a sua sustentabilidade. Estes meios de hospedagem também são potenciais impactantes e, como dependem da preservação dos recursos naturais, sociais e culturais para a sua longevidade, buscam formas de reduzir os efeitos negativos de sua presença em uma área especial. Há diversos exemplos de empreendimentos bem sucedidos nesta tarefa. Esta pesquisa investigou a arquitetura de meios de hospedagem localizados na APA Costa de Itacaré – Serra Grande, no litoral sul da Bahia, para descobrir o seu verdadeiro diferencial, comparando com a arquitetura de empreendimentos localizados fora de áreas protegidas, no caso, litoral do município de Ilhéus. Utilizou o conceito de matriz ponderal para criar a MASArq, Matriz de Avaliação Sócio-Ambiental da Arquitetura, definindo pesos para seis parâmetros com ajuda de especialistas consultados. Os dados foram coletados com um questionário – formulário com 40 perguntas em 51 meios de hospedagem, a partir de um universo de 104. O resultado demonstrou haver, sim, uma arquitetura mais sensível às questões sócio-culturais nos meios de hospedagem localizados dentro da APA, em relação àquela dos situados fora da APA. No entanto, a pontuação média geral deste grupo (dentro da APA) resultou bastante abaixo da pontuação máxima a ser obtida: 400 pontos em 1000. O grupo localizado fora da APA conquistou apenas 310 pontos. Em parâmetros como “energia” e “condições sanitárias” os dois grupos obtiveram pontuação semelhante; nos demais, “água”, ”conforto ambiental” (melhor desempenho do grupo de dentro da APA, com 70% da pontuação máxima), “biota” e “condições sócio-econômicas”, todos os resultados foram favoráveis ao grupo localizado na APA. No entanto, nos dois parâmetros considerados mais importantes como “água” e “energia” este grupo alcançou, respectivamente, apenas 21% e 18% da pontuação máxima, o que indica ainda haver muito espaço para melhorias das instalações dos meios de hospedagem em áreas protegidas. Há poucas exigências e padrões para edificações de meios de hospedagem nas Unidades de Conservação e, sem fiscalização e orientação, a sustentabilidade da arquitetura acaba dependendo da consciência eventual de empreendedores idealistas com visão de futuro para investir em detalhes que deverão fazer grande diferença para a sociedade e para o negócio. Palavras-chave: arquitetura; arquitetura bioclimática; meio-ambiente; turismo.

vi SOCIOENVIRONMENTAL EVALUATION MATRIX: A STUDY OF LODGING’S ARCHITECTURE INSIDE A PROTECTED AREA IN BAHIA SOUTHERN COAST, BRAZIL ABSTRACT Studies all over the world indicate that economic activities related to tourism are growing, particularly those supported by natural attractions. At the same time, preservation efforts are resulting in new protected areas and constant improvement of management tools for the existing ones. In Brazil, the SNUC – National Conservation Units System, created a kind of protected areas where economic exploration is legal, such as the APA – Environment Protection Area and it is common to find lodges there. In many cases these hotels stand out by offering ecotouristic experiences, where the visitor makes contact with nature and the local population, contributing to their sustainability. Those lodges cause potential impacts and, as they depend on natural, social and cultural resource preservation, ways of diminishing the negative effects of their presence are being searched for. There are many examples of successful undertakings in this task. This study investigates the architecture of lodges installed inside the APA Costa de Itacaré – Serra Grande, in the southern coast of Bahia State, Brazil, in order to discover the differences in comparison to similar lodges located outside of protected areas, on the coast of Ilhéus. The weight up matrix concept was used to create the MASArq, Architecture Socio-environmental Evaluation Matrix, defining weights for six parameters with some specialists participation. Data were collected with a 40 question form-questionnaire in 51 lodges, from a universe of 104. The result showed that lodges located inside the APA have a more sensitive architecture to social and environmental matters, compared to those outside of it. On the other hand, this group (inside APA) has a global medium score far from the maximum: 400 points out of 1000. The group outside of the APA received only 310 points. For parameters such as “energy” and “sanitary conditions” both groups got a similar score; for the remain, “water”, “inside comfort” (the best result of the “inside the APA” group, with 70% of the maximum score), “biota” and “social-economic conditions”, all results were favorable to the inside the APA group. But for the two parameters considered the most important, “water” and “energy”, this group received only 21% and 18% of maximum score, respectively, indicating that there is much room for the lodges’ facilities improvement within protected areas. There are few official demands and patterns for lodges in protected areas and, with deficient control and guidance, architectural sustainability depends on the eventual conscience of idealist owners with futuristic vision for investing in details that will make a difference for society and the business. Keywords: architecture; bioclimatic architecture; environment; tourism.

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LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Atividade econômica mundial relacionada ao turismo prevista para 2005 e 2015 (em bilhões de dólares) .............................................................. 12 Figura 2 – Atividade econômica relacionada ao turismo na América Latina e Brasil prevista para 2005 (em bilhões de dólares) ........................................... 12 Figura 3 - Maho Bay, nas Ilhas Virgens: exemplo de intervenção arquitetônica de baixo impacto sócio-ambiental negativo .................................................... 24 Figura 4 - Maho Bay, nas Ilhas Virgens: passarelas suspensas e definição de locação reduzem o impacto sócio-ambiental negativo .................................... 25 Figura 5 - Eco-tendas de Maho Bay, nas Ilhas Virgens: solução com maior conforto e mantendo o baixo impacto sócio-ambiental negativo ..................... 27 Figura 6 - Confrontação de características de um meio de hospedagem convencional e um destinado a experiências ecoturísticas (eco-pousada) ..... 30 Figura 7 – Mapa da região estudada .............................................................. 51 Figura 8 – Chalé executado com materiais locais e integrado ao ambiente ... 52 Figura 9 – Exemplo de passarela suspensa para evitar pisoteio .................... 62 Figura 10 – Exemplo de intervenção arquitetônica integrada ao ambiente ..... 64 Figura 11 – Exemplos de elementos de proteção contra o sol ........................ 67 Figura 12 – Praia do Pé de Serra, Uruçuca ..................................................... 76 Figura 13 – Itacaré – Foz do Rio de Contas .................................................... 78 Figura 14 – Ilhéus – Foz do Rio Cachoeira ..................................................... 79 Figura 15 – MASArq: Indicadores sócio-ambientais da arquitetura de meios de hospedagem e perguntas a eles relacionadas ................................................ 91 Figura 16 – Teste de Levene para variâncias iguais ....................................... 96 Figura 17 – Teste T e estatística de grupo ...................................................... 96

viii Figura 18 – Diagramas de eixos ortogonais considerando as pontuações referentes aos seis indicadores dos Meios de Hospedagem estudados dentro da APA (abaixo à direita), fora da APA (abaixo à esquerda) e ambos (gráfico maior) ............................................................................................................... 97 Figura 19 – Gráfico de correlação entre as variáveis ...................................... 99 Figura 20 – Dendograma dos meios de hospedagem ................................... 102 Figura 21 – Dendograma dos meios de hospedagem e a representação de agrupamentos observados ............................................................................ 103 Figura 22 – Pontuação média total obtida pelos meios de hospedagem pesquisados e porcentagem relativa à pontuação máxima, separados nos grupos “dentro da APA” e “fora da APA” ....................................................... 104 Figura 23 – Pontuação total obtida pelos meios de hospedagem pesquisados, sobrepondo os grupos “dentro da APA” e “fora da APA” e a pontuação máxima ........................................................................................................................ 106 Figura 24 – Pontuações médias por parâmetro e porcentagens em relação às pontuações máximas obtidas pelos grupos de meios de hospedagem pesquisados, “dentro da APA” e “fora da APA”, e as pontuações máximas de cada parâmetro .............................................................................................. 108 Figura 25 – Pontuações obtidas no parâmetro “água” pelos meios de hospedagem pesquisados, sobrepondo os grupos “dentro da APA” e “fora da APA”, e as pontuações máximas deste parâmetro ........................................ 110 Figura 26 – Pontuações obtidas no parâmetro “energia” pelos meios de hospedagem pesquisados, sobrepondo os grupos “dentro da APA” e “fora da APA”, e as pontuações máximas deste parâmetro ........................................ 113 Figura 27 – Pontuações obtidas no parâmetro “condições sanitárias” pelos meios de hospedagem pesquisados, sobrepondo os grupos “dentro da APA” e “fora da APA”, e as pontuações máximas deste parâmetro .......................... 116 Figura 28 – Pontuações obtidas no parâmetro “condições sócio-econômicas” pelos meios de hospedagem pesquisados, sobrepondo os grupos “dentro da APA” e “fora da APA”, e as pontuações máximas deste parâmetro .............. 118 Figura 29 – Pontuações obtidas no parâmetro “biota” pelos meios de hospedagem pesquisados, sobrepondo os grupos “dentro da APA” e “fora da APA”, e as pontuações máximas deste parâmetro ........................................ 120

ix Figura 30 – Pontuações obtidas no parâmetro “conforto ambiental” pelos meios de hospedagem pesquisados, sobrepondo os grupos “dentro da APA” e “fora da APA”, e as pontuações máximas deste parâmetro ................................... 122 Figura 31 – Pontuações médias e porcentagens em relação à pontuação máxima obtidas em três questões específicas pelos meios de hospedagem pesquisados, “dentro da APA” e “fora da APA”, e as pontuações máximas de cada questão ................................................................................................. 123 Figura 32 – Quantidade de Meios de Hospedagem que receberam as 10 maiores pontuações no “Total Geral” e que também ficaram entre os 10 com maiores pontuações em cada parâmetro ...................................................... 125 Figura 33 – Quantidade de Meios de Hospedagem que receberam as 10 maiores pontuações em “Energia” e que também ficaram entre os 10 com maiores pontuações nos outros parâmetros .................................................. 126 Figura 34 – Quantidade de Meios de Hospedagem que receberam as 10 maiores pontuações em cada parâmetro e estão localizados dentro da APA ........................................................................................................................ 128

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Distribuição de categorias de impacto ambiental nos diversos sistemas de avaliação ambiental de edifícios .................................................. 70 Tabela 2 - Universo dos meios de hospedagem que correspondem aos critérios da pesquisa ...................................................................................................... 80 Tabela 3 - Total dos meios de hospedagem na região pesquisada ................ 81 Tabela 4 - Amostra definida dos meios de hospedagem ................................. 82 Tabela 5 - Opinião de profissionais sobre a pontuação dos indicadores sócioambientais (parâmetros) da arquitetura de meios de hospedagem ................ 94 Tabela 6 - Indicadores sócio-ambientais (parâmetros) da arquitetura de meios de hospedagem, sub-indicadores e pontuações máximas definidas, adotadas na pesquisa ...................................................................................................... 95 Tabela 7 – Correlação entre os indicadores .................................................... 99

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SUMÁRIO
RESUMO ................................................................................................. v ABSTRACT ............................................................................................. vi LISTA DE FIGURAS .............................................................................. vii LISTA DE TABELAS ............................................................................... x

APRESENTAÇÃO ................................................................................ 01 PARTE 1 – INTRODUÇÃO 1.1 SUSTENTABILIDADE E TURISMO ..................................................... 04

1.1.1 Fracasso do modelo de desenvolvimento ............................................. 04 1.1.2 O surgimento do turismo e hotelaria ..................................................... 06 1.1.3 Turismo sustentável .............................................................................. 08 1.2 ÁREAS PROTEGIDAS ......................................................................... 39

1.2.1 O surgimento das áreas protegidas no mundo e no Brasil ................... 39 1.2.2 O Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC ................ 42 1.2.3 Área de Proteção Ambiental Costa de Itacaré Serra Grande ............... 48 1.3 SUSTENTABILIDADE E ARQUITETURA ........................................... 52

1.3.1 As bases da arquitetura bioclimática ..................................................... 52 1.3.2 Sistemas de avaliação de edifícios ....................................................... 68

xii 1.3.2.1Sistemas internacionais ........................................................................ 68 1.3.2.2No Brasil ............................................................................................... 71 1.4 1.5 O PROBLEMA ...................................................................................... 73 OBJETIVOS .......................................................................................... 74

1.5.1 Objetivo Geral ....................................................................................... 74 1.5.2 Objetivos específicos ............................................................................ 74

PARTE 2 – MÉTODOS 2.1 2.2 2.3 2.4 ÁREA DE ESTUDO .............................................................................. 76 UNIVERSO DE PESQUISA E DEFINIÇÃO DA AMOSTRA ................ 79 PESQUISA, TÉCNICA DELFOS E MATRIZ PONDERAL ................... 82 ANÁLISE DOS DADOS ........................................................................ 84

PARTE 3 – RESULTADOS E DISCUSSÃO 3.1 3.2 PARTICIPAÇÃO DOS ESPECIALISTAS ............................................. 93 ANÁLISE ESTATÍSTICA ...................................................................... 95

3.2.1 Teste de Significância e Teste T ........................................................... 95 3.2.2 Análise das componentes principais ..................................................... 96 3.2.3 Análise de agrupamento ....................................................................... 99 3.3 3.4 GERAIS ............................................................................................... 104 PARÂMETROS ................................................................................... 107

3.4.1 ÁGUA .................................................................................................. 108 3.4.2 ENERGIA ............................................................................................ 111 3.4.3 CONDIÇÕES SANITÁRIAS ................................................................ 114

xiii 3.4.4 CONDIÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS ................................................ 117 3.4.5 BIOTA .................................................................................................. 119 3.4.6 CONFORTO AMBIENTAL .................................................................. 120 3.5 3.6 QUESTÕES ESPECÍFICAS ............................................................... 122 CORRELAÇÕES ENTRE OS PARÂMETROS .................................. 124 PARTE 4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................. 129 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................... 134 APÊNDICE ...…………....…………………………………..…………..… 141

1 APRESENTAÇÃO

Meios de hospedagem povoam o imaginário da maioria das pessoas. São lugares onde estamos longe de casa, não precisamos nos preocupar com arrumação e limpeza, podemos ter aparelhos televisores e condicionadores de ar para usufruirmos à vontade; ali estão os melhores banhos, aquecidos e longos, e as toalhas mais felpudas. Estarmos hospedados em um hotel ou pousada nos faz sentir menos responsáveis, simplesmente “de férias”.

Mas há um novo tipo de pousada, desconhecido de um grande número de viajantes. É aquele localizado em áreas naturais, ou em áreas já declaradas como sendo preferenciais à proteção ou, até, em áreas legalmente protegidas. Nessas áreas as questões relacionadas ao meio-ambiente, e nele incluem-se as populações, seus costumes e cultura, recebem uma abordagem diferenciada, um cuidado especial. E os meios de hospedagem que se localizam no interior dessas áreas especiais também devem ter características especiais. Hospedar-se em um deles pode significar experiências únicas, vivenciar a natureza e compreender como pequenas atitudes individuais podem fazer a diferença na sociedade moderna.

A primeira impressão, ao chegar a uma pousada, é composta pelas principais características de sua arquitetura: materiais utilizados, estilo da fachada, paisagismo,

2 cores, volumetria, sombreamento. Está formado o “clima” da pousada e ele pode influenciar nossas atitudes durante a estadia e, quem sabe, pelo resto da vida. Além desses detalhes há outros que muitas vezes passam despercebidos e produzem efeitos positivos consideráveis, como equipamentos que consomem pouca quantidade de água ou energia, utilização de móveis e decoração com madeira certificada, ou seja, de reflorestamento, utilização de fontes alternativas de energia e sistemas construtivos que privilegiem a iluminação e ventilação natural.

Mas essa pousada existe? Será que estar em uma área protegida faz com que o meio de hospedagem adquira características diferenciadas? Este diferencial é refletido na sua arquitetura?

Este trabalho investiga, justamente, os diferenciais sócio-ambientais apresentados por meios de hospedagem no interior de áreas protegidas, em especial aqueles evidenciados em sua arquitetura. Para tanto, desenvolve metodologia própria - MASArq - de avaliação das características sócio-ambientais da arquitetura a partir de experiências semelhantes no Brasil e no mundo.

Divide-se em quatro partes. A Parte 1 apresenta a introdução dos temas e o aprofundamento das questões relacionadas a sustentabilidade, turismo, áreas protegidas e arquitetura; experiências com turismo realizado em áreas protegidas de

3 várias regiões do mundo, inclusive do Brasil ilustram o estado atual do tema. A seguir descreve-se o problema em si e definem-se os objetivos da pesquisa.

A Parte 2 concentra-se na metodologia desenvolvida para a pesquisa; apresenta-se a área de estudo, a APA Costa de Itacaré – Serra Grande e o município de Ilhéus. Os fundamentos da metodologia são enunciados em seguida: os municípios são caracterizados, o universo da pesquisa é definido, assim como a amostra selecionada e é apresentado o instrumento de coleta e análise de dados, assim como a teoria relativa, incluindo a técnica Delfos e a matriz ponderal.

A Parte 3 trata dos resultados da pesquisa, apresentando as pontuações indicadas por cada especialista e a adotada para análise dos dados. A análise estatística dos dados busca a confirmação da viabilidade dos dados e dos grupos apresentados. A seguir, interpreta-se os dados obtidos de acordo com os seis parâmetros utilizados, destacando-se as semelhanças e as diferenças dos grupos e das unidades amostrais através de análise exploratória.

A Parte 4 apresenta considerações sobre o estudo e perspectivas de sua utilização prática.

4

PARTE 1 – INTRODUÇÃO

“Há algum tempo os ambientalistas perguntavam o que os desenvolvimentistas poderiam fazer pelo meio ambiente. Hoje, dizem o que eles, ambientalistas, podem fazer pelo desenvolvimento” Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente, na abertura do Seminário “A Mata Atlântica e o SNUC”, Ilhéus, 27/05/2006.

1.1

SUSTENTABILIDADE E TURISMO

1.1.1 Fracasso do modelo de desenvolvimento

O desenvolvimento, em si, tem sido sistematicamente colocado em questão. O que, antes, era analisado apenas do ponto de vista econômico, devido à degradação do meio ambiente e injustiças sociais, ganhou novas abordagens e preocupações, caracterizando, segundo Acselrad e Leroy (2002), o fracasso de um projeto desenvolvimentista dominante. A ótica do desenvolvimento sustentável estimula a melhoria da qualidade de vida não só das pessoas da época atual, como as das gerações futuras. A Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos publicou em 2002 um estudo que dizia que desde 1999 a economia estaria absorvendo 120% da capacidade produtiva do planeta (HIROTA, 2002): A economia baseada nos finitos combustíveis fósseis, o incrível aumento da população mundial, o desmatamento descontrolado, a poluição atmosférica e de rios e oceanos, coloca-nos na encruzilhada da história em que decisões terão que ser tomadas e novos caminhos descobertos e

5 seguidos. Arquitetos e urbanistas podem participar da ordenação do processo de ocupação do planeta ao propor modelos desenvolvidos a partir do conceito da sustentabilidade.

O atual interesse por temas relativos ao ambiente é interpretado por Serrano (1997) como um desejo contemporâneo de “retorno à natureza”, traduzido em proteção do meio ambiente e a salvaguarda dos saberes das comunidades tradicionais, elementos necessários para a reformulação das posturas predatórias da sociedade mais ampla em relação ao próprio ambiente.

Franco (2001) recorda que a Agenda 21, em seu capítulo 7, prescreve a necessidade do Planejamento Ambiental, afirmando que a redução da pobreza urbana só será possível mediante o planejamento e a administração do uso sustentável do solo e que tal planejamento deve fornecer sistemas de infraestrutura ambientalmente saudáveis: disponibilidade de suprimento de água, qualidade do ar, drenagem, serviços sanitários e rejeito de resíduo sólido. Deve promover, ainda, segundo a autora, tecnologias de obtenção de energia mais eficientes, assim como fontes alternativas e renováveis de energia. A autora lembra, ainda, que ao seguir as diretrizes da Agenda 21 os países devem incentivar as indústrias a utilizarem materiais de construção nativos, tecnologia e projetos com uso mais eficiente de energia, tecnologias de construção e manutenção com uso intensivo de mão-de-obra, para gerar empregos.

6 Franco (2001) enumera os quatro fatores de ordem antropogênica que mais influenciam na sustentabilidade ambiental: poluição, pobreza, tecnologia, estilos de vida; sugere, também, que a sustentabilidade se assenta em três princípios:

1. Conservação biodiversidade.

dos

sistemas

ecológicos

sustentadores

da

vida

e

da

2. Garantia da sustentabilidade das atividades que utilizam recursos renováveis. 3. Manter a ação humana dentro da capacidade de carga dos ecossistemas sustentadores.

1.1.2 O surgimento do turismo e hotelaria

As rotas comerciais da antiguidade geraram, na Ásia, Europa e África, núcleos urbanos e de hospedagem para atendimento aos viajantes. Na Idade Média, mosteiros e abadias eram responsáveis pelas hospedagens, como uma obrigação moral e espiritual. Com o advento das monarquias, a hospedagem passou a ser exercida pelo próprio Estado, como afirmam Andrade et al. (2004), ou em albergues e estalagens. A atividade econômica relacionada à hospedagem apenas surgiu com a Revolução Industrial e a expansão do capitalismo. Os hotéis como hoje são conhecidos apenas surgem no início do século XIX. A grande transformação do turismo aconteceu após a Segunda Guerra Mundial, com a expansão da economia mundial, melhoria da renda de grande faixa da população e melhoria dos sistemas de transporte e comunicação.

7 Ainda segundo os autores, o conceito de quarto com banheiro privativo, conhecido hoje como apartamento, foi introduzido por César Ritz no primeiro empreendimento hoteleiro planejado em Paris, em 1870 e chegou aos Estados Unidos em 1908 com o Statler Hotel Company.

No Brasil, durante o período colonial, os viajantes se hospedavam nas casasgrandes de engenhos e fazendas, nos conventos e nos ranchos à beira das estradas. Andrade et al. (2004) ainda lembram que era comum o quarto de hóspedes nas casas de família. Na segunda metade do século XVIII foi construído um edifício exclusivamente para hospedaria no Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro e é quando surgem as estalagens, embriões de futuros hotéis. Com a chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro e a abertura dos portos, também vieram muitos estrangeiros e aumentou a demanda por alojamentos; nos anos seguintes os proprietários de pensões, hospedarias e tavernas passaram a utilizar a denominação de hotéis.

Para incentivar a criação de hotéis no Rio de Janeiro no início do século XX o governo criou o Decreto 1160 que isentava de impostos por sete anos os cinco primeiros grandes hotéis que ali se instalassem. Em 1908 foi inaugurado o Hotel Avenida, o maior do país.

Grandes hotéis se instalaram nas capitais, nas estâncias minerais e nas áreas de apelo paisagístico a partir da década de 30. A Embratur foi criada em 1966 e promoveu incentivos fiscais na implantação de hotéis e iniciou uma nova fase do

8 turismo nacional, o que provocou mudanças nas leis de zoneamento dos municípios, tornando segundo Andrade et al. (2004), a legislação mais flexível e favorável à construção de hotéis. Assim, nos anos 60 e 70 chegaram ao Brasil as redes hoteleiras internacionais, com novos padrões de serviços e preços. Segundo os autores, até os dias de hoje grupos hoteleiros promovem políticas sistemáticas para ampliar sua participação no mercado brasileiro, visando, inclusive, segmentos menos atendidos, como os hotéis econômicos.

1.1.3 Turismo sustentável

Segundo Dias (2003), a aplicação dos princípios da sustentabilidade ao turismo compromete-se ao colocar-se lado a lado a ampla divulgação dada ao tema e os limitados progressos alcançados. O autor cita, para ilustrar a evolução entre as relações turismo e desenvolvimento, diversas declarações e documentos de organizações como Organização Mundial do Turismo (OMT) e o Conselho Mundial de viagens e Turismo (WTTC) e destaca a transição entre o predomínio dos aspectos sócio-culturais e econômicos do turismo ao novo paradigma da sustentabilidade (DIAS, 2003). São eles:

a- Declaração de Manila sobre o Turismo Mundial (1980) b- Declaração dos Direitos e Código do Turista de Sófia (1985) c- Declaração de Turismo de Haya (1989)

9 d- Carta do Turismo Sustentável de Lanzarote (1995) e- Agenda 21 para o Setor de Viagens e Turismo (1993) f- Código Ético Mundial para o Turismo de Santiago do Chile (1999) g- Declaração de Osaka para o Milênio (2001)

Dias (2003) considera a Carta do Turismo Sustentável de Lanzarote um marco de referência para o desenvolvimento turístico sustentável, pois engloba os princípios fundamentais atribuídos a esse conceito, embora registre que, mesmo antes do Relatório Brundtland, em 1987, as declarações de Manila e de Sófia já abordavam as questões relacionadas ao turismo e suas implicações nos costumes, crenças e comportamento, assim como no patrimônio natural e cultural. O autor afirma, então, que no âmbito do turismo o “paradigma da sustentabilidade não supõe nada de tão novo”.

O desenvolvimento turístico é um processo de mudança e Dias (2003) insiste na necessidade de monitoramento permanente e na criação de um sistema de informações que inclua variáveis relacionadas ao conceito de sustentabilidade, principalmente as ambientais e as socioeconômicas.

O Conselho Mundial de Viagem e Turismo (World Travel & Tourism Council – WTTC) apresenta-se como um fórum dos líderes empresariais no segmento e trabalha para receber a adesão dos governos à meta de aumentar o reconhecimento da

10 importância de um dos maiores geradores mundiais de emprego e renda (WTTC, 2003). O Conselho lançou o conceito de “novo turismo”, como um desafio para avançar a uma nova dimensão do segmento, uma resposta a um mundo muito mais complexo. Baseia-se em entregar produtos de sucesso comercial, mas de uma maneira em que se garanta benefícios para todos, não apenas para as pessoas que viajam, mas também para as comunidades que eles visitam e para seus respectivos ambientes natural, social e cultural. Para o WTTC, viagens e turismo significam empregos, uma comunidade de um quarto de bilhão de pessoas trabalhando no setor até o fim desta década. Para tanto, apresentam os três pontos básicos para o sucesso da proposta:

1. Governos reconhecem o segmento de Viagem e Turismo como prioridade máxima. 2. Negócios equilibram questões econômicas com questões relacionadas a povo, cultura e meio ambiente. 3. Busca conjunta de crescimento e prosperidade em longo prazo.

A atividade turística ocupa hoje, evidentemente, um relevante papel na economia mundial. Ao lado da indústria do petróleo e da indústria bélica, representa uma das atividades econômicas com maior representatividade da atualidade.

Segundo dados da OMT (Organização Mundial do Turismo), em 1995 o mercado do turismo atingiu cerca de U$$ 3,4 trilhões, e a previsão para o ano de 2005

11 é que o turismo será responsável por 11,3% da mão de obra empregada. Dados do WTTC indicam que o segmento do turismo é responsável por 11% do PIB mundial, emprega 200 milhões de pessoas e transporta cerca de 700 milhões de viajantes internacionais ao ano e todos esses dados devem dobrar até 2030 segundo Christ et al. (2003). Ainda segundo os autores, turismo representa um dos cinco maiores itens de exportação para 83 por cento dos países.

A atividade turística também vem sendo temática de discussões sobre os impactos causados ao meio ambiente natural e as comunidades onde se desenvolvem. Aspectos que devem ser destacados são os "efeitos perversos" advindos do turismo. Os empregos gerados pela atividade caracterizam-se por sua freqüente ligação com o setor informal, apresentando muitas vezes precariedade, sazonalidade, subqualificação, e até mesmo condições subumanas a que esses trabalhadores se submetem. O turismo também pode gerar efeitos sociais bastantes negativos, como aculturação, prostituição, impactos de ordem ambientais excessivamente predatórios e prejudiciais aos ecossistemas locais (PEREIRA, 2000 citado por FARIA et al., 2002).

Segundo o WTTC, a demanda turística global será responsável por 6.201 bilhões de dólares de atividades econômicas e prevê crescimento para 10.679 bilhões em 2015 (Figura 6). As previsões para a América Latina indicam 133,4 bilhões de dólares de atividade econômica, crescendo a 228,4 bilhões em 2015 (Figura 7).

12

ATIVIDADE ECONÔMICA MUNDIAL RELACIONADA AO TURISMO
( EM B ILHÕES D E D ÓLA R ES) F ON T E: W T T C , 2 0 0 5

10.679,00
12.000,00 10.000,00 8.000,00 6.000,00 4.000,00 2.000,00 -

6.201,00

2005

2015

Figura 1 – Atividade econômica mundial relacionada ao turismo prevista para 2005 e 2015 (em bilhões de dólares). Fonte: WTTC, 2005.

A atividade econômica relacionada ao turismo no Brasil deve resultar em 55,1 bilhões de dólares em 2005 e alcançar 93,8 bilhões em 2015 (WTTC, 2005).

ATIVIDADE ECONÔMICA RELACIONADA AO TURISMO
( EM B ILHÕES D E D ÓLA R ES) F ON T E: W T T C , 2 0 0 5

228,40
250,00 200,00

133,40
150,00 100,00 50,00 -

93,80 55,10

América Latina Brasil

2005

2015

13
Figura 2 – Atividade econômica relacionada ao turismo na América Latina e Brasil prevista para 2005 (em bilhões de dólares). Fonte: WTTC, 2005.

Ainda segundo o WTTC, o segmento de viagens e turismo no Brasil deve gerar 5.827.720 empregos, cerca de 7,0% do total, um a cada 14,4 empregos. Até 2015 este número deve chegar a 7.261.140 (WTTC, 2005).

O crescimento do setor terciário, aliado a uma nova divisão social, técnica e territorial do trabalho é, segundo Braga, M. (2004), uma tendência da economia mundial na contemporaneidade. A autora afirma que é nesta vertente que as atividades em turismo se inserem, bem como ganham um novo contorno. Nos anos 60, a indústria do lazer e turismo é incrementada acentuando algumas variantes como o turismo cultural, ecoturismo etc. O Plano Nacional de Municipalização do Turismo, nos anos 90, demarca as políticas que norteiam o setor, centrando foco nas ações locais e envolvendo a reorganização de espaços, a questão ambiental e a gestão do território.

Ganha realce a região turística correspondendo a certa densidade de frequentação (sic), serviços e equipamentos turísticos e com uma imagem que lhe caracteriza. A noção de região é reconfigurada com outro nível de complexidade, envolvendo a produção, a circulação e o consumo (BRAGA, M., 2004). A autora afirma que é preciso reconhecer o turismo em sua dimensão ética e perceber como faces de um mesmo processo: as condições de turista e morador, a degradação social e a destruição ambiental, a produção, a circulação e o consumo. Lembra que o que se denomina

14 “alma de um lugar” são os costumes, instituições, arquitetura, configuração territorial e as multiplicidades de formas e tempos na e da paisagem. Braga, M. (2004) confirma a frase: “Uma cidade será boa para o turista se ela for boa para seus moradores”.

Em abril de 2003 o Governo Federal lançou o Plano Nacional de Turismo que, entre outras coisas, criou os Fóruns Estaduais e fixou diretrizes, metas e programas para o setor a serem implantados até 2007 (AGECOM, 2003). Dentre as metas estava a geração de 1,2 milhão de empregos, gerar 8 bilhões de dólares em divisas com o aumento para 60 milhões de passageiros nos desembarques domésticos e 9 milhões de turistas estrangeiros ao ano no Brasil. Na Bahia, o setor de turismo empregou, em 2002, 415.800 pessoas, sendo 75.600 empregos diretos. Recebeu 4,05 milhões de visitantes, gerando receita de 811 milhões de dólares (AGECOM, 2003).

Na reunião de 11 de março de 2004 do Conselho Nacional de Turismo (MINTUR, 2004) o Ministro do Turismo, Walfrido dos Mares Guia confirmou a definição da meta de 9 milhões de turistas estrangeiros ao ano, sendo que em 2003 a meta era receber 4,4 milhões de turistas e chegou-se ao número de 4,096 milhões, contra 3,78 milhões em 2002; informou que houve um acréscimo de 8,52% no ingresso de divisas em 2003, justificando a meta de 3,6 bilhões de dólares em 2004 e 8 bilhões de dólares para 2006, confiando na integração com a América do Sul e os vôos fretados (charters). No entanto, confirmou o decréscimo do número de desembarques domésticos, de 34 milhões em 2002 para 30,8 milhões em 2003, relacionando-o à crise da aviação comercial no Brasil.

15 O turismo tem um leque de alternativas de emprego muito grande, pois envolve não apenas os profissionais com formação específica, com graduação em turismo, mas muitos outros profissionais. Beni (2005) relata que pesquisas da Universidade de São Paulo têm revelado que o turismo impacta 52 segmentos diferentes da economia e que tem participado de várias bancas de mestrado e doutorado em várias partes do país em áreas como medicina, engenharia agrícola, educação física, arquitetura, por exemplo, e todas com foco no turismo.

Serrano (1997) considera que o turismo, especialmente sua variação “ecológica” ou “ambiental” é uma tentativa quase literal de reencontrar a natureza e Ruschmann (1997) sugere, para salvaguardar a atratividade e a originalidade das atrações para as gerações futuras, uma política turística eficaz que deve considerar a condução racional da ocupação territorial pelas facilidades turísticas e equipamentos de lazer e o controle de sua expansão.

A priorização dos objetivos ao se caracterizar o turismo, segundo Faria e Carneiro (2001) envolve o ponto de vista do cidadão que usufrui o turismo e o ponto de vista do local e da comunidade que recebe esse turista. Para as autoras, a satisfação do turista deve interessar à comunidade local assim como a

sustentabilidade socioeconômica da comunidade também deve interessar ao próprio turista e, pensando nisso, Andersen (1995), Ceballos-Lascuráin (1995), Serrano (1997), Ruschmann (1997), Cooper et al. (2001), Mitraud (2001), Mehta (2002) elencaram pontos a serem considerados para o desenvolvimento do turismo em harmonia com a proteção do meio ambiente, especialmente identificar e minimizar os

16 problemas ambientais originários das operações dos equipamentos, minimizar impactos ambientais resultantes da arquitetura, construção e operação dos equipamentos turísticos, praticar a economia no consumo de energia e água, respeitar os interesses da população local, incluindo suas tradições, cultura e desenvolvimento futuro.

Ecoturismo vem sendo definido com profundidade crescente, como no Congresso Mundial de Ecoturismo de Belize, em 1992, nas Diretrizes para uma Política Nacional de Ecoturismo, em 1994, ou pelo Instituto de Ecoturismo do Brasil, em 1995. O Instituto Brasileiro de Turismo, EMBRATUR, em seu manual Pólos de Ecoturismo: Planejamento e Gestão aborda definições de “ecoturismo” historicamente; o que antes era “encontro do Homem com a Natureza em seu estado selvagem”, foi ampliado para “modalidade turística que tem como motivação principal viajar para áreas naturais, pouco modificadas e livres de contaminação, com o objetivo específico de estudar, admirar e desfrutar ativamente de suas paisagens, plantas e animais silvestres, assim como das manifestações culturais existentes nessas áreas”. O ecoturismo, portanto, seria uma maneira de assegurar a conservação da natureza e aumentar o valor das terras deixadas em estado natural e os lucros financeiros devem ser convertidos à conservação ambiental, ao sucesso econômico do empreendimento e às populações residentes (CEBALLOS-LASCURÁIN, 1995). Para que isto aconteça, o planejamento e o esquema físico do projeto (de instalações turísticas em áreas naturais), segundo Cooper et al. (2001), podem acontecer juntamente com a introdução de medidas destinadas a proteger o ambiente, alinhadas com a política sócio-ambiental. A própria instalação turística em áreas protegidas deve ser a

17 evidência visual de um desenvolvimento sustentado bem planejado e torna-se o retrato fiel de nossa preocupação e de nossa compreensão do meio ambiente (ANDERSEN, 1995). Para Andersen (1995), ela deve ser uma extensão criativa do mundo natural e servir como uma janela que integre o visitante à natureza.

Para o turismo, “interpretação” é uma forma de acrescentar experiências à visita a um atrativo. Mc Arthur (1998) catalogou diversas definições do termo e o Departamento de Parques, Florestas e Recreação de Vermont, nos Estados Unidos descreve que “interpretação é a criação de uma experiência ou situação em que o indivíduo é desafiado a pensar e possivelmente tomar decisões quanto aos recursos naturais”. O autor cita que dentre as formas não-verbais de interpretação estão publicações, placas e painéis, museus, pinturas e a locação, o projeto e a construção dos edifícios. Este último ganha destaque por Mc Arthur (1998) que afirma que talvez a forma mais utilizada de interpretação não-verbal seja a demonstração de mensagens através da arquitetura inteligente, referindo-se às construções de edifícios para turismo como um tipo de escultura que reflete as características do local e pode demonstrar princípios ecologicamente sustentáveis. Afirma, ainda, que o projeto, desde a escolha do local de implantação dos edifícios, pode utilizar luz, espaço e até mesmo sons para auxiliar na interação dos visitantes com o ambiente e a operação do próprio edifício e esta interação com os hóspedes pode criar uma experiência interpretativa altamente interativa e eficiente.

Khan (2003) criou a escala de graduação ECOSERV com a finalidade de avaliar a expectativa dos turistas em relação à sua experiência ecoturística e aos serviços a

18 ela relacionados. Derivada de outra denominada SERVQUAL, a metodologia de Khan apresenta seis dimensões para análise: eco-tangíveis1, segurança (previsibilidade), confiabilidade, consideração, empatia e tangíveis. A autora definiu sua população amostral como turistas que tivessem realizado uma viagem ecológica nos últimos dezoito meses e considerou esse tipo de viagem como aquela que acontece em áreas naturais para interagir, experimentar e aprender outras culturas e auxiliar economicamente comunidades locais que trabalham no sentido da conservação e preservação do ecossistema. Escolheram 1051 associados da The Ecotorism Society, uma organização baseada nos Estados Unidos, e destinos que variaram do Alasca à América do Sul e da África à Ásia. A pesquisa revelou que ecoturistas esperam encontrar empresas que considerem o meio-ambiente, e preferem serviços cordiais, que sejam informativos, confiáveis e responsáveis. Além disso, concluiu que o mais importante para ecoturistas são instalações apropriadas ao meio ambiente e equipamentos que minimizem a degradação ambiental, os dois subitens eco-tangíveis que obtiveram maior pontuação dentre todos. Aspectos como apelo visual do material promocional, empatia dos funcionários, pontualidade dos serviços, por exemplo, receberam pontuação bastante inferior à recebida pela adequação ambiental das instalações. Investir numa arquitetura sustentável de um meio de hospedagem pode significar, portanto, um diferencial decisivo e uma demonstração de sensibilidade aos anseios do mercado.

1

Tangíveis (tangibles) e eco-tangíveis (eco-tangibles) podem ser interpretados como aspectos fisicamente percebidos, sendo estes últimos relacionados, também, a questões ambientais.

19 Eagles et al. (2002) confirmam que turismo em áreas protegidas é uma parte considerável, e em crescimento, da economia de vários países. Citam como exemplo o impacto econômico do turismo em áreas protegidas nos Estados Unidos e Canadá, entre 236 e 370 bilhões de dólares em 1996, apesar de aceitarem que os dados para avaliação econômica desta atividade são raros e, quando disponíveis, pouco confiáveis. Como resultado, a sociedade subestimaria os benefícios dela derivados e não destinaria recursos necessários para aproveitar seu potencial inteiramente, o que Wells (1997 citado por EAGLES et al., 2002) chamou de quase universal subinvestimento em proteção de áreas naturais.

Os autores afirmam que todas as áreas protegidas demandam algum tipo de infraestrutura de serviços ao visitante, desde um painel informativo numa reserva natural até uma vila ou cidade inteira. Insistem que toda a infraestrutura deve ser cuidadosamente projetada e operada e, ainda, refletir os valores locais. Um projeto adequado aumentaria o conforto do visitante e melhoraria sua resposta aos estímulos de estar em um local especial (EAGLES et al., 2002). Citam que tanto o Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos (1993) e o Conselho de Turismo da Austrália (1998) publicaram excelentes roteiros para projetos turísticos em parques e que são pouco impactantes sobre o meio ambiente. Como exemplo, citam a Reserva Particular Sabi Sabi, na África do Sul, adjacente ao Parque Nacional Kruger, utilizado para criação de gado antes de sua aquisição em 1974. Desenvolveram um programa de reintrodução do rinoceronte branco e do leão, empregam mais de 100 locais com suas famílias e evitam a supressão de vegetação através de turismo de baixa densidade. Há três pousadas e os efluentes líquidos são coletados por gravidade para um tanque

20 de separação de 10.000 litros, o lodo é retirado periodicamente e o líquido drenado aos poucos através das raízes das plantas para uma pequena área alagada, onde vivem diversas espécies de pássaros.

Holanda

(2001)

afirma

que

duas

tendências

globais

ocorrendo

simultaneamente e que estão fortemente interligadas. Uma delas é a rápida expansão da indústria do turismo, com uma demanda crescente por um turismo especializado, particularmente o de áreas naturais protegidas. Outra é a mudança de estratégias para o manejo de áreas protegidas. Para a autora, conservacionistas e administradores dessas áreas estão começando a reconhecer a importância de integrar a preservação dos recursos com as necessidades das populações que circundam as áreas protegidas e estão chegando ao acordo de que são importantes as atividades voltadas ao desenvolvimento integrado. A crescente demanda por turismo em áreas protegidas combinada com a necessidade de provê-las de atividades econômicas pode significar a oportunidade de atender as duas tendências de uma forma sustentável.

Eagles et al. (2002) afirmam, também, que há um intenso debate sobre os méritos de permitir ou não acomodações para pernoite em alguns tipos de áreas protegidas. Descrevem alguns argumentos para que instalações de pousadas ou acomodações sejam aceitas em áreas protegidas, especialmente as de maior tamanho:

21 1. Há maior controle por parte do gestor da área protegida (Unidade de Conservação, no Brasil) sobre os complexos de hospedagem e a forma de utilização do parque pelos visitantes. 2. O visitante acaba passando mais tempo no parque e há menor necessidade de transporte e, portanto, menor impacto negativo dele decorrente; há, ainda, maior possibilidade de desfrutar suas atrações. 3. Acomodações e instalações projetadas adequadamente podem atrair visitantes a regiões sub-utilizadas. 4. Benefícios financeiros através de taxas ou contribuições referentes às despesas com hospedagem ou alimentação em instalações localizadas no interior dos parques.

Por outro lado, enumeram razões de preocupações e de se evitar instalações no interior de parques, ou Unidades de Conservação:

1. Acomodações turísticas, em si, não combinam com uma área natural e são invasivas visualmente e potencialmente poluidoras. 2. Há impactos secundários decorrentes de serviços ligados à hospedagem. 3. Há uma tendência de crescimento dos serviços de hospedagem, o que dificulta o controle. 4. Há maior possibilidade de levar benefícios a comunidades instaladas nas adjacências dos parques se os meios de hospedagem estiverem localizados nas vilas próximas aos parques.

22 Os autores citam, ainda, outro exemplo, o Parque Chumbe Island Coral, na Tanzânia, localizado numa ilha anteriormente não habitada no Oceano Índico, e que possui imensa biodiversidade em sua barreira de corais. Criado em 1992, dispõe de sete bangalôs que podem receber até 14 visitantes cada. Além disso, visitas de um dia são permitidas a outros 12 turistas. O projeto, sensível ao meio ambiente é revelado, segundo os autores, pela arquitetura nas seguintes maneiras:

1. Coleta de água de chuva pelos telhados; a água é filtrada e armazenada em cisternas subterrâneas. 2. Aquecimento solar para banho. 3. Reciclagem de águas de banho. 4. Ventilação natural. 5. Compostagem dos resíduos dos banheiros, produzindo fertilizantes. 6. Energia fotovoltaica para iluminação.

A crescente demanda por turismo sustentável e produtos ecoturísticos convive com críticas de ambientalistas e o debate sobre como responder a elas (GOODWIN; FRANCIS, 2003, citados por FONT; HARRIS, 2004). Além das tarefas de melhorar o desempenho das empresas turísticas e influenciar o mercado, certificações para atividades relacionadas a turismo têm surgido como ferramentas para reduzir impactos ambientais e obter vantagens competitivas, pela visibilidade e confiabilidade transmitidas pelo certificador. Font e Harris (2004) estudaram cinco programas de certificação turística aplicadas em países em desenvolvimento, que apresentavam questões relacionadas à sustentabilidade e que incluíam questões sociais e culturais,

23 como Green Globe 21 (internacional), Certificate for Sustainable Tourism (Costa Rica), Green Deal (Guatemala), Smart Voyager (Galápagos) e Fair Trade Tourism, da África do Sul. Chegaram à conclusão de que há sérias limitações em todos eles, especialmente em relação à capacidade de medir eficientemente as variáveis e às possíveis aplicações práticas: para Font e Harris (2004), medem aspectos excessivamente subjetivos e os indicadores não mostram a realidade como um todo. Há, portanto, carência de instrumentos práticos de avaliação e certificação e que, ainda, possam orientar e refletir de forma objetiva as características relacionadas à sustentabilidade das empresas turísticas, em especial os meios de hospedagem, principais investidores e potenciais agentes de degradação socioambiental.

No Brasil, recentemente foi criado o Conselho Brasileiro de Turismo Sustentável – CBTS, com a proposta de estabelecer instrumentos de apoio aos empresários e profissionais do turismo. A principal ação foi criar o Programa de Certificação em Turismo Sustentável, sob a coordenação do Instituto de Hospitalidade, com sede em Salvador, Bahia, que inclui a criação de uma Norma Técnica: a Norma Nacional para Meios de Hospedagem – Requisitos para a Sustentabilidade, a assistência técnica patrocinada a empresários e a certificação dos meios de hospedagem; esta norma enumera o que denominou Princípios do Turismo Sustentável (INSTITUTO DE HOSPITALIDADE, 2006):

a) Respeitar a legislação vigente b) Garantir os direitos das populações locais c) Conservar o ambiente natural e a biodiversidade

24 d) Considerar o patrimônio cultural e os valores locais e) Estimular o desenvolvimento social e econômico dos destinos turísticos f) Garantir a qualidade dos produtos, processos e atitudes g) Estabelecer o planejamento e a gestão responsáveis

Os meios de hospedagem que seguirem estes princípios e aplicarem o que indica a norma estarão aptos a receber a certificação, o que indicará uma situação em que se espera menor impacto negativo sobre recursos sócio-ambientais.

A

aplicação

plena

de

conceitos

genuinamente

de

ecoturismo

ao

empreendimento denominado Maho Bay, nas Ilhas Virgens, justifica sua utilização como exemplo ativo de que é possível empreender de forma a minimizar efeitos sobre recursos naturais e, até, recompor características originais afetadas anteriormente à própria instalação do empreendimento.

Figura 3 - Maho Bay, nas Ilhas Virgens: exemplo de intervenção arquitetônica de baixo impacto sócio-ambiental negativo. Fonte: Hawkins et al., 1995, p. 134.

25

Selengut (1996) projetou chalés que puderam ser edificados entre árvores e plantas existentes, materiais de construção foram içados e transportados por passarelas suspensas que protegeram a rara vegetação, evitaram erosão e continuam servindo os hóspedes (Figura 1). Após mais de vinte anos de operação, a propriedade foi recuperada de forma que o hábitat para plantas e animais é mais sadio do que antes da instalação, segundo Selengut (1996).

Figura 4 - Maho Bay, nas Ilhas Virgens: passarelas suspensas e definição de locação reduzem o impacto sócio-ambiental negativo. Fonte: Hawkins et al., 1995, p. 134

Selengut (In: HAWKINS et al., 1995) construiu, portanto, em Maho Bay, nas Ilhas Virgens, 114 bangalôs (Figura 2) em forma de tendas utilizando projeto sensível ao meio ambiente.

26 Em outro empreendimento, vizinho a Maho Bay, nas Ilhas Virgens, denominado Estate Concordia, utilizou técnicas de construção solar passiva e cuidados com o terreno original na execução de nove unidades de luxo; também próximo executou 12 outras unidades de luxo inteiramente com materiais de construção reciclados e que utiliza energia solar no Harmony Resort. Por mais de 19 anos, Selengut realizou pesquisas e construiu os dois resorts, com avanços tecnológicos até então impensáveis, como permitir o controle do consumo de energia ao hóspede através de computadores instalados no quarto, ou suprir o empreendimento de eletricidade totalmente com energia solar e eólica. Respostas a questionários confirmaram que os hóspedes aprovavam o conforto de banheiros privativos, geladeiras e ventiladores no teto, ao contrário de Maho Bay, nas Ilhas Virgens. No entanto, Selengut também pode concluir que os hóspedes haviam perdido a experiência íntima com a natureza permitida nos bangalôs em forma de tenda de Maho Bay, que mantinha uma das mais altas taxas de ocupação do Caribe: 70% ao longo do ano e 95% na alta estação. O autor confirmou sua surpresa ao perceber que seus clientes preferiam hospedar-se em tendas que haviam custado 7.000 dólares ao invés das unidades do Harmony, de custo próximo a 80.000 dólares cada. Criou, então, o que ele chamou de “ecotents”, ou “eco-tendas” (Figura 3), unindo a proximidade da natureza de Maho Bay com amenidades consideradas importantes do Harmony.

27

Figura 5 - Eco-tendas de Maho Bay, nas Ilhas Virgens: solução com maior conforto e mantendo baixo impacto sócio-ambiental negativo. Fonte: Hawkins et al., 1995, p. 132

Em 1991, o governo das Ilhas Virgens, a partir de uma oficina (workshop) sobre Sustainable Design, ou Projeto Sustentável, publicou The Guiding Principles of Sustainable Design, ou Princípios Direcionadores do Projeto Sustentável, onde os autores indicam projetos solares, uso de materiais de construção reciclados, energia de fontes eólicas ou fotovoltaicas, disposição responsável de resíduos, ecologia da construção e outros aspectos de projetos sustentáveis que podem servir de referência.

Na Costa Rica, Blake e Becher (1996) desenvolveram um sistema de classificação para instalações de hospedagem para ecoturismo; segundo as autoras, muitas instalações de hospedagem de ecoturismo são verdadeiramente “verdes”, enquanto outras pouco apóiam esforços conservacionistas, causam impacto ambiental relevante, pouco contribuem com a economia local ou promovem a cultura das

28 comunidades à sua volta e tentam ganhar vantagens com a grande demanda atual do ecoturismo.

Em 1994, o Ministro do Turismo das Bahamas anunciou uma iniciativa voltada ao ecoturismo, com o objetivo de criar novos empregos nas ilhas, aproveitar seu apelo natural ao ecoturismo e expandir o mercado de turismo; foi decidido elaborar e implantar diretrizes voltadas às atividades ecoturísticas (MCGREGOR, 1996); enumerou ações para se aplicar um plano de turismo sustentável e várias afetam direta ou indiretamente as intervenções arquitetônicas e o planejamento urbano. Borrie et al. (1998) descreveram com detalhes as nove etapas de um sistema de planejamento criado nos E.U.A. denominado L.M.A. ou Limites de Mudanças Aceitáveis (L.A.C., Limits of Acceptable Change) que considera a identificação precisa de valores e conceitos locais, assim como as oportunidades de recreação e, ao definir as opções de localização das instalações, avaliá-las e eleger a preferencial, implementando condições de monitoramento.

Schlüter (1995) descreveu e analisou brevemente o que se passava a ser denominado “ecolodges”:

“[...], paralelamente à popularização da expressão “ecoturismo” para identificar uma forma de turismo em harmonia com o meio ambiente, começou-se a chamar “ecolodges” às diferentes formas de alojamento cuja filosofia de projeto e operação se adequava a um turismo baseado na natureza e que causavam baixo impacto negativo no meio físico e humano em que se localizavam.” (SCHLÜTER, 1995, p.72, tradução nossa)

29 A autora afirma que a expressão “ecolodges”, ou eco-pousadas, começou a se popularizar em países ou regiões que buscavam diferenciais de mercado e apostavam no ecoturismo, como a Costa Rica, Amazônia, África do Sul e África Oriental. Schlüter (1995) também cita o exemplo de Selengut em Maho Bay, nas Ilhas Virgens, em que, segundo a autora, as construções mimetizam-se com a paisagem e da Costa Rica, um dos principais destinos ecoturísticos do mundo, que determina que a altura dos edifícios de alojamento não poderia superar a de uma palmeira.

Em relação ao turismo na Patagônia Argentina, a autora cita que sempre esteve estreitamente ligado a seu patrimônio natural e na região costeira recebeu grande impulso com a criação do Sistema de Reservas Provinciais de Chubut. O alojamento era construído com a intenção de satisfazer as necessidades dos turistas e levava em consideração o seu perfil econômico e o estilo arquitetônico que reinava na época e, na área dos parques nacionais próximos a opção foi o estilo alpino, pela semelhança com o espaço dos Alpes europeus. A autora descreveu características de meios de hospedagem da Patagônia Norte, conhecida como Região dos Lagos. Chamados de hosterias, na sua maioria próximos a centros urbanos e ligados a redes de energia e água, coleta de esgoto e lixo. Por outro lado, no centro da Patagônia há uma série de lagos de grande beleza cênica e distantes dos principais centros urbanos. Ali, os alojamentos denominam-se cabañas e seriam de construção recente e supostamente em seu projeto e operação seriam tomadas medidas para interferir o mínimo possível na natureza. A autora cita três exemplos: as Cabañas Lago Vintter, bastante arejadas, sem luz artificial e cujo combustível para calefação é retirado ao redor; a Cabaña Huente-Có, bastante utilizada para trabalhos de pesquisa de campo e que contava

30 com gerador de energia e com a lenha dos bosques para calefação e cocção; e o Complejo Turístico Las Margaritas, construído considerando-se elementos de preservação ambiental, conta com sistema de tratamento de efluentes e coleta de água do lago e consumida após análise, separa-se o lixo para compostagem do orgânico e lenha é utilizada para calefação e cocção (SCHLÜTER, 1995). A autora conclui afirmando que para satisfazer as necessidades do turista e não impactar o meio ambiente é necessário que empresários, arquitetos, engenheiros e gestores públicos comecem a considerar as novas tecnologias.

O contraste entre um meio de hospedagem voltado a ecoturismo ou a um público que deseja experimentar experiências ecoturísticas e um convencional foi estudado por Hawkins et al. (1995) e simplificado pelos autores na Figura 4, de forma a auxiliar empreendedores e planejadores.

CONVENCIONAL Luxo Estilo genérico Foco no relaxamento Atividades nas instalações Desenvolvimento invasivo

ECO-POUSADA Necessidades básicas de conforto Estilo específico Foco na atividade e educação Atividades na natureza Desenvolvimento integrado com o meio ambiente local

Propriedade de grupo ou consórcio Lucros baseados na capacidade de ocupação, serviços e preços

Propriedade individual Lucros baseados no projeto estratégico, locação, baixa capacidade de ocupação, serviços, preços

Alto investimento Atrações chave são as instalações e o entorno Serviços e apresentação luxuosos das

Moderado a baixo investimento Atrações chave são o entorno e as instalações Refeições e serviços bons e saudáveis, com

31
refeições Vendas por operadoras Não há guias ou intérpretes da natureza influência cultural local Vendas independentes (mais comum) Operação focada nos guias e intérpretes da natureza Figura 6 - Confrontação de características de um meio de hospedagem convencional e um destinado a experiências ecoturísticas (eco-pousada) Fonte: Hawkins et al.(1995)

Holanda (2001) apresentou considerações de três casos no Brasil de áreas protegidas e como o turismo tem sido desenvolvido. O quadro mapeado nas três APA estudadas mostra que duas práticas comprometem a sustentabilidade de seus recursos. A autora cita fatores que estão associados à falta de planejamento do turismo nas áreas e ao intenso fluxo de visitantes. Há regras que orientam o desenvolvimento do turismo em seu meio, mas sofrem com os efeitos negativos de um turismo mal planejado e de uma prática depredadora, como alguns destinos tradicionais. Outro exemplo valoriza sua condição de área protegida, ao incentivar o ecoturismo, com a participação da comunidade local.

A APA da Serra de Aratanha localiza-se nos distritos de Pacatuba, Maranguape e Guaiúba, no Estado do Ceará e é uma unidade de conservação de grande potencial ecoturístico, mas pouco conhecida. Ali foi implantado um projeto de educação ambiental promovido pela Universidade Federal do Ceará, o Projeto Parque Vivo, que desde 1993 tem contribuído com a formação de uma consciência ecológica, principalmente entre estudantes do ensino fundamental e médio do sistema educacional público e privado. Vinte e oito trilhas foram criadas até dezembro de 1999 e verificou-se que as trilhas estão criando condições para fixar as pessoas na

32 localidade, uma vez que as perspectivas de melhoria crescem dentro da infra-estrutura local (HOLANDA, 2001).

No Estado do Pará, a APA da Ilha de Algodoal - Maiandeua foi alvo, segundo Holanda (2001) de alguns fenômenos que degradam o ambiente. A partir da década de 80, a Ilha começou a passar por transformações devido ao turismo mal planejado. Aumento e acúmulo de lixo, perda do aspecto cênico da Ilha, desmatamentos ilegais e retiradas de pedras da orla marítima para construção de casas de veranistas. As fortes pressões em relação a loteamentos de suas áreas contribuíram para o agravamento dos problemas ambientais e sociais e para a luta pela sua institucionalização como Área de Proteção Ambiental, conquista efetuada no ano de 1990. Ali encontram-se algumas comunidades de pescadores, dentre elas destaca-se a vila de Algodoa, com potencial turístico natural. No entanto, a oferta de equipamentos e serviços, apresentava-se deficitária, com necessidade de reorientação para que o turismo ali praticado possa ser enquadrado dentro das propostas do turismo sustentável. Defendeu-se a idéia de que as orientações no campo dos equipamentos e serviços fossem norteadas pela concepção da conservação, e disseminadas entre os agentes que colaboravam com o turismo na ilha.

Na APA de Corumbataí, a Represa do Lobo, localizada no Estado de São Paulo, é um lugar destinado à pesquisa e à recreação. Segundo Holanda (2001) é considerada uma das poucas opções de entretenimento, baseado em recursos hídricos, para suas populações rurais e urbanas. Nos últimos vinte anos, é cenário de

33 impactos ambientais, devido à ocupação ocasionada por residências de verão, construídas em torno da Represa. A ausência de planejamento ou percepção de que o ambiente estava deteriorando a terra e a água contribuiu para tornar a Represa imprópria para banho. Foi realizado estudo com o intuito de discutir os impactos sócioambientais, ocasionados pelo uso turístico dos recursos hídricos da Represa do Lobo. Visou contribuir com o planejamento de sua utilização. Investigaram-se as mudanças da qualidade da água, relacionadas ao uso recreacional, e avaliou-se se a capacidade de carga foi ou não transposta, a partir de amostras da água, coletadas da Represa em situações típicas do fluxo turístico. O estudo concluiu que o turismo, atividade potencial para o desenvolvimento da APA, é uma atividade ambígua, que gera valorização local e, ao mesmo tempo, promove degradação ecológica e exploração financeira.

A Norma Nacional para Meios de Hospedagem, do Programa de Certificação em Turismo Sustentável (INSTITUTO DE HOSPITALIDADE, 2006) apresenta, em seu item 5, Requisitos Ambientais para o Turismo Sustentável, as práticas para minimizar a degradação do ambiente e, em particular, no sub-item 5.3, as condições a serem aplicadas à arquitetura e impactos da construção. Reforça a idéia de integrar a arquitetura à paisagem, minimizando impactos desde a construção à operação do meio de hospedagem e indica a adoção de medidas para minimizar impactos como movimentos de terra, impermeabilização do solo, remoção de vegetação, alteração na fauna e flora, cursos d’água, utilização de materiais derivados de espécies ameaçadas, despejo de resíduos. Sugere o aproveitamento de materiais disponíveis

34 na região e o desenho arquitetônico compatível com o entorno e em harmonia com os ambientes natural e cultural. Cria, ainda, exigências e cita sugestões quanto às emissões de efluentes e resíduos sólidos e apresenta medidas quanto à eficiência energética e conservação e gestão do uso da água.

Apesar de reconhecer que o turismo é uma atividade adequada às APA, Holanda (2001) insiste na necessidade de monitoramento de seus impactos. Para a autora, em áreas denominadas frágeis, a mais cuidadosa construção de equipamento turístico cria impactos ambientais que necessitam ser mantidos sob controle, a fim de preservar a autenticidade e a originalidade da paisagem original. Holanda (2001) cita os lodges do Amazonas, construídos em áreas densamente arborizadas, distantes algumas horas de suas principais cidades, próximos a correntezas, lagos e rios menores e que se constituem em meios de hospedagem do turismo ambiental e ecológico e, segundo a autora, devem ser submetidos a um rigoroso controle das autoridades turísticas e ambientalistas que, através de legislação específica, procuram integrar os projetos arquitetônicos à paisagem local, valorizando seu exotismo e evitando agressão ao ecossistema.

Exemplos indicam a preocupação de pesquisadores e autoridades com o efeito de atividades inerentes ao turismo em áreas naturais ou frágeis e a sua normatização, assim como sugerem a necessidade de uma regulamentação eficiente e realista que organize e crie parâmetros para a implantação de edificações e instalações de apoio. As visões oferecidas por Selengut (1996), Blake e Becher (1996) e McGregor (1996)

35 são concordantes na medida em que sugerem e incentivam a criação de planos de diretrizes para ocupação arquitetônica. Apresentar um diagnóstico das intervenções arquitetônicas pode ajudar a direcionar a ocupação de áreas voltadas ao turismo de forma organizada, ambientalmente coerente e adequada aos princípios do turismo sustentável. Podem os arquitetos e toda a equipe de planejamento absorver, resgatar e valorizar a cultura local, incluindo em seus trabalhos práticas regionais e trabalhadores residentes, de forma a envolvê-los, efetivamente, nos empreendimentos turísticos desde o planejamento? Selengut (1996) afirmou que realizou encontros com a comunidade local antes de diversas decisões quanto ao planejamento de Maho Bay, nas Ilhas Virgens, No entanto, Ruchmann (2001) refere-se à dificuldade do ecoturismo contribuir para a conservação dos ecossistemas das comunidades receptoras, protegendo-os, apesar da visitação e da construção de equipamentos específicos. Ao mesmo tempo, em diversos países desenvolvidos, e mesmo em alguns poucos países em desenvolvimento, como vimos, cresce o número de publicações e profissionais especializados em arquitetura ecológica, ou, até, arquitetura voltada ao turismo sustentável, como é o caso de Selengut (1996). No Brasil os estudos voltados à arquitetura ambientalmente sustentável concentram-se na habitação unifamiliar e na adaptação de premissas e conceitos internacionais (RODRIGUES, 2003). arquitetura, baseada nos verdadeiros conceitos do turismo Esta e

sustentável

autenticamente brasileira necessita de estudos e embasamento teórico.

No Brasil são comuns casos de ampliação ou reformas em pousadas ou hotéis sem que a obra se apóie em projetos adequadamente desenvolvidos (ANDRADE et al., 2004). Os autores afirmam que isso acontece porque os empresários julgam

36 desnecessário o investimento em consultorias ou projetos e confiam em sua própria experiência, causando desperdícios e custos adicionais, muitas vezes permanentes, pois podem decorrer da organização espacial e de decisões de difícil reformulação posterior, como posição das aberturas, sistemas hidráulicos e de aquecimento de água, escolha de materiais, por exemplo, e muitas vezes demonstrando pequena sensibilidade às questões relacionadas à sustentabilidade, em especial ao meio ambiente.

Hawkins et al. (1995) reforça a importância do papel do arquiteto no desenvolvimento do ecoturismo e turismo sustentável, e que pode ser compreendido e derivado dos objetivos do próprio turismo sustentável. O projeto de instalações para essa finalidade, segundo o autor, deve sempre buscar a preservação das qualidades essenciais do local nos sítios escolhidos para o empreendimento e o arquiteto deve ser chamado a participar na determinação dessas qualidades e da adequação ou não da instalação naquele local ou sítio. Para Hawkins et al. (1995), o sucesso relativo do projeto arquitetônico será compreendido como a qualidade do conjunto final de estruturas, terra, recursos naturais e contexto cultural; ou seja, se a arquitetura consegue tornar-se uma soma natural ao local, em forma e espírito, ela alcançou sucesso.

Wood (2003), fundadora da The International Ecotourism Society (Sociedade Internacional de Ecoturismo) e Diretora Executiva desde a fundação, em 1990, até 2002, identificou, em extensa pesquisa realizada em 2003, fatores-chave de viabilidade econômica para eco-pousadas, com destaque para o projeto e instalações,

37 mais uma demonstração da importância de um planejamento consciente e da arquitetura do meio de hospedagem:

1. Destino onde o meio de hospedagem se encontra: recursos de vida selvagem, segurança e acessibilidade. 2. Valor: relação entre preço de tarifas e características como projeto, instalações, local, natureza e serviços. 3. Interpretação e atividades disponíveis. 4. Capacidade de gestão. 5. Acesso a capital

Meios de hospedagem planejados, construídos e operados com preocupação ou com as questões são sócio-ambientais para o

(ecolodges,

eco-pousadas)

importantes

desenvolvimento sustentável de comunidades (SWEETING, 2004) embora sejam muito variáveis os desempenhos sociais e os impactos ambientais destes empreendimentos. Segundo Sweeting (2004), enquanto a demanda por eco-pousadas deve crescer dez por cento ao ano nas próximas décadas, o setor enfrenta diversos desafios e precisa de uma abordagem

38

estratégica para suportar o potencial de crescimento. O autor afirma que o grande número de pousadas localizadas em áreas naturais no interior ou próximas de áreas protegidas com elevada biodiversidade demonstra a necessidade de pousadas para manter padrões e práticas benéficas ao meio ambiente.

Sweeting (2004) realizou uma pesquisa com eco-pousadas e seu resultado indica haver uma capacidade inadequada dos governos para proteger ecossistemas frágeis do grande desenvolvimento do turismo que, por sua vez, ainda segundo o autor, pode afetar negativamente o valor dos recursos naturais dos quais as eco-pousadas dependem. O autor conclui que há necessidade crescimento de uma estratégia da para corresponder das ao

sustentável

indústria

eco-pousadas,

incluindo investimentos em cooperação com financiadores, consultores (incluindo arquitetos), operadores e

empreendedores.

39

Ao mesmo tempo, a atividade turística encontra em destinos de recursos naturais privilegiados um terreno fértil para se desenvolver e gerar emprego e renda. Cresce, em todo o mundo, a demanda de visitação que acrescente a experiência ecoturística, o encontro com a natureza, espécies animais e vegetais e a interação com as comunidades locais. Há diversos exemplos da devastadora ação da invasão de regiões de recursos diferenciados – naturais e sociais – por um turismo pouco planejado e pouco focado na sustentabilidade daquele destino. No entanto, o turismo é reconhecido como possível grande aliado na busca pela preservação. Exemplos evidenciam que a prática de princípios do turismo sustentável pode provocar significativa redução dos custos operacionais, aumento da satisfação dos clientes, colaboradores e comunidade, impacto muito menor sobre recursos naturais e a longevidade do empreendimento em si. Dias (2003) cita o Hotel Meliá Jardim Europa, de São Paulo, e o Hotel Tropical Cataratas, de Foz do Iguaçu, como alguns desses exemplos de sustentabilidade na hotelaria. O primeiro investiu num projeto de gestão ambiental e numa parceria com a WWF (World Wildlife Foundation), enquanto o segundo investiu R$ 800 mil em reformas e treinamento para obter o ISO 14.001, a certificação ambiental. E uma das características de um meio de hospedagem, por exemplo, que busca a prática dos princípios do turismo sustentável, é adequar o seu meio físico, suas instalações, ou seja, a sua arquitetura, a estes princípios. A necessidade de estabelecer empresas de meios de hospedagem rentáveis e com saúde financeira cria, portanto, a necessidade de pensar a sua arquitetura a partir dos princípios da sustentabilidade.

40 1.2 ÁREAS PROTEGIDAS

1.2.1 O surgimento das áreas protegidas no mundo e no Brasil

A Revolução Industrial provocou profundas mudanças na sociedade moderna. Na Europa e, especialmente, na Inglaterra, surgiram reações aos impactos sócioambientais decorrentes do crescimento populacional das grandes cidades devido à instalação de inúmeras indústrias têxteis que demandavam mão-de-obra. Dias (2003) lembra que apenas com a Revolução industrial do século XVIII apareceu o conceito de horas de trabalho limitadas e que, anteriormente, não se conhecia o “tempo livre” como nos dias de hoje. Ainda no século XIX as principais reivindicações das associações operárias eram a redução da jornada de trabalho e as férias, regulamentadas a partir dos últimos anos daquele século. Havia, também, a preocupação com a saúde e o bem-estar, provocando o surgimento e o incremento, segundo Dias (2003), de vários balneários na Europa, como Bath, Brighton, Ostende e Vichy. Durante o século XIX aconteceu uma fase do turismo da alta burguesia e, no final do século, uma segunda fase caracterizada pela incorporação dos empregados médios, mas com renda insuficiente para os padrões da fase anterior, causando a descoberta das férias econômicas. Ainda, no início do século XX e antes da Primeira Guerra Mundial, surge o turismo da classe média alta (DIAS, 2003).

Este cenário promoveu o surgimento do desejo de contemplação da natureza, e o início de uma preocupação ecológica que impulsionou algumas discussões de como conservar as áreas representativas da vida natural no planeta. Estas idéias se

41 expandem e em 1872, os Estados Unidos, para proteger e manter a diversidade biológica, criam o Parque Nacional de Yellowstone, a primeira unidade de conservação no mundo. Segundo Miller (citado por FARIA et al., 2002), a região foi reservada e proibida de ser colonizada, ocupada ou vendida. Foi designada como parque público ou área de recreação para benefício e desfrute da população, e toda pessoa que ocupasse a área desrespeitando as normas vigentes seria considerada infratora.

A partir do século XIX, a idéia de se proteger áreas naturais toma um grande impulso principalmente na Europa e nos Estados Unidos, locais onde os processos de industrialização e urbanização encontravam-se em franca expansão. Da necessidade de proteger os ecossistemas surge o modelo de Área Natural Protegida, que pode ser definida como uma superfície de terra ou mar dedicada à proteção e manutenção da diversidade biológica, assim como dos recursos naturais e culturais associados, e manejada através de instrumentos legais e eficazes.

A maior parte da superfície da Terra possui baixa densidade de ocupação por seres humanos. São áreas denominadas não-urbanas ou rurais, e a maioria das pessoas que ali vivem trabalha diretamente conectada com recursos naturais. Os diversos “serviços dos ecossistemas” desenvolvidos nas áreas rurais possibilitam à maioria da população viver nos ambientes urbanos de alta concentração. Manter parte da terra adjacente às áreas urbanas e cultiváveis sem intervenção humana provê serviços vitais dos ecossistemas, como hábitat para vida selvagem, controle de enchentes e erosão e recarga dos aqüíferos. Terras não perturbadas também

42 diminuem efeitos da poluição e reciclam dejetos, segundo Raven e Berg (2004). Os autores ainda afirmam que as terras não degradadas são importantes para pesquisas científicas e atividades educativas. Concluem realçando a importância de áreas naturais para o lazer, ou o que eles chamam de “importância para o espírito humano”.

Conforme Costa (citado por FARIA et al., 2002), o primeiro esforço significativo feito no Brasil para participar do movimento internacional de criação de áreas naturais protegidas aconteceu em 1911, quando foram realizados os primeiros estudos feitos em nosso país, contendo uma descrição detalhada de nossos diferentes ecossistemas e uma apresentação do estágio de conservação de cada uma dessas regiões. O estudo teve intenção de subsidiar as autoridades brasileiras para a criação de um conjunto de parques nacionais. Somente em 1937 é criado o primeiro parque nacional brasileiro: o Parque Nacional do Itatiaia, localizado na Serra da Mantiqueira, próximo à divisa dos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. O parque foi criado com o objetivo de estimular a pesquisa científica e oferecer lazer às populações que viviam nas cidades (DIAS, 2000 citado por FARIA et al., 2002).

O mesmo autor cita que mais três parques foram criados nessa mesma década: o Parque Nacional do Iguaçu (PR), para proteger as cataratas; o de Sete Quedas (PR), para proteger as cachoeiras; e o da Serra dos Órgãos (RJ), protegendo um trecho da Mata Atlântica, onde está a famosa formação de pedra conhecida como “Dedo de Deus”. Na criação dos parques nacionais, segundo Faria et al. (2002), o Brasil importou o modelo americano de conservação, que separa o homem do ambiente natural, esquecendo que dentro das florestas brasileiras, aparentemente

43 intocadas, vivem muitas populações que estabelecem uma relação de dependência direta com a natureza, bem distinta das relações reconhecidas pela sociedade urbanoindustrial contemporânea.

A partir da década de 60 são verificados os primeiros resultados da implantação do modelo de áreas naturais protegidas no Brasil e as ações estavam concentradas na fiscalização dessas áreas, onde o homem deveria se manter distante sob risco de ameaças a preservação da vida natural. Atualmente muito se tem discutido a respeito das áreas protegidas, e novas tendências propõem que a conservação deve se converter em um elemento do desenvolvimento, vital e integral e, que as áreas protegidas devem ser manejadas como elementos interdependentes, juntamente com outras atividades e uso dos solos (DIAS, 2000, citado por FARIA et al., 2002).

1.2.2 O Sistema Nacional de Unidades de Conservação - SNUC

Código Florestal, Política Nacional de Recursos Hídricos, Política Nacional da Biodiversidade, Lei de Proteção à Fauna, Código de Pesca, SISNAMA, SNUC, Resoluções CONAMA, Estatuto da Cidade, Lei de Crimes Ambientais: a legislação ambiental brasileira é bastante abrangente e reconhecida internacionalmente como muito avançada (HIROTA, 2002). O SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (BRASIL, 2004) prevê diversas possibilidades para a criação de Unidades de Conservação – UC e os administradores de UC devem cumprir algumas exigências para que a finalidade de preservar recursos naturais e

44 promover, se for o caso, a exploração sustentada, seja atingida. As Áreas de Proteção Ambiental – APA são ferramentas de organização espacial e prevêem sua utilização democrática e, do ponto de vista do que se conhece como tal, sustentável, ou seja, explorar de forma a não privar futuras gerações de desfrutar dos recursos ali existentes. Para tanto, alguns dos mecanismos de organização de sua ação são o Plano de Manejo, o Zoneamento Ecológico-Econômico, O Conselho Gestor, dentre outros. Há, inclusive, algumas APA que têm incluídos em seu interior Núcleos Urbanos Consolidados – NUC, como é o caso da APA Costa de Itacaré Serra Grande, no litoral Sul da Bahia. Neste caso, há, ainda, a legislação municipal que deve direcionar a ocupação urbana e indicar os caminhos de expansão do NUC, através do zoneamento, plano diretor e índices que restringem a densidade das edificações, as exigências de áreas permeáveis por lote, as próprias dimensões dos lotes, altura da construção e outros indicadores. Para as áreas não urbanas, no entanto, haveria liberdade para que o cidadão definisse as características de sua construção: dimensões, pavimentos, localização. Há regras definidas pela legislação ambiental e o IBAMA, por exemplo, encarrega-se de fiscalizar, mas, numa APA, há mais controle, mais exigências e uma legislação própria que indica setores para usos do solo permitidos. Em ambos os casos – urbano e não-urbano – pode-se esperar uma consciência maior dos moradores no que diz respeito às questões do meio ambiente: cuidados no desmatamento, atenção ao destino dos resíduos, utilização racional e adequada de materiais locais, como madeira, palha, bambu, areia, terra, por exemplo. Teoricamente, também, poder-se-ia chegar à conclusão de que as construções planejadas, projetadas e executadas dentro dos limites de uma APA são

45 diferenciadas. Por ação e influência do Plano de Manejo, do Conselho Gestor, do Plano Diretor do Município e dos próprios cidadãos.

A Lei 9.985 de 18 de julho de 2000 instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) e estabeleceu critérios e normas para a criação, implantação e gestão de unidades de conservação (BRASIL, 2004). Unidades de Conservação – UC, são definidas no SNUC como “espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as áreas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção” (BRASIL, 2004). Dentre vários objetivos do SNUC, podemos destacar:

1. Promover o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais. 2. Proporcionar meios e incentivos para atividades de pesquisa científica, estudos e monitoramento ambiental. 3. Favorecer condições e promover a educação e a interpretação ambiental, a recreação em contato com a natureza e o turismo ecológico.

O SNUC é gerido pelos seguintes órgãos: Ministério do Meio Ambiente, com a função de coordenar o Sistema; Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA responsável por acompanhar a implementação do Sistema; o Instituto Brasileiro dos

46 Recursos Naturais Renováveis - IBAMA, os órgãos estaduais e municipais, que devem implementar o SNUC, subsidiar as propostas de criação e administrar as unidades de conservação federais, estaduais e municipais, nas suas respectivas esferas de atuação (HOLANDA, 2001).

As Unidades de Conservação integrantes do SNUC dividem-se em dois grupos com características específicas:

I. Unidades de Proteção Integral: têm como objetivo básico preservar a natureza, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais, com exceção dos casos previstos pelo próprio SNUC. As categorias deste grupo são as seguintes: 1. Estação Ecológica 2. Reserva Biológica 3. Parque Nacional 4. Monumento Natural 5. Refúgio da Vida Silvestre

II. Unidades de Uso Sustentável: seu objetivo básico é compatibilizar a conservação da natureza com o uso sustentável de parcela dos seus recursos naturais. As categorias deste grupo são as seguintes:

47 1. Área de Proteção Ambiental 2. Área de Relevante Interesse Ecológico 3. Floresta Nacional 4. Reserva Extrativista 5. Reserva de Fauna 6. Reserva de Desenvolvimento Sustentável 7. Reserva Particular do Patrimônio Natural

Atualmente 6,3% do território nacional são cobertos por Unidades de Conservação federais, sendo que 2,78% são de proteção integral e 3,52% são de uso sustentável. Acrescentando Unidades de Conservação estaduais, municipais e as Reservas Particulares do Patrimônio Nacional – RPPN, alcançamos o percentual estimado de 8% do território nacional (IBAMA, 2003).

O território da Bahia é rico em recursos naturais e contém áreas prioritárias para a conservação nos mais diversos biomas, a exemplo da caatinga, do cerrado e da mata atlântica, possui 36 Unidades de Conservação, sendo 29 Áreas de Proteção Ambiental – APA, duas Áreas de Relevante Interesse Ecológico – ARIE, uma Estação Ecológica, quatro Parques Estaduais, nesses biomas que totalizam 5,88% do território baiano correspondendo a 3.336.874 ha. (KHOURY, 2004).

48 A categoria Área de Proteção Ambiental – APA foi criada através da Lei nº. 6.902 de 27 de abril de 1981. Sua criação inspirou-se no modelo de Parque Natural, um tipo de área protegida compatível com áreas privadas já existente em Portugal, Espanha, Franca e Alemanha (IBAMA, 2001). Tem como objetivo: proteção ambiental, conservar ou melhorar as condições ecológicas locais e assegurar o bem-estar das populações humanas.

De acordo com o SNUC (2004), Área de Proteção Ambiental – APA é uma área em geral extensa, com certo grau de ocupação humana, dotada de atributos abióticos, bióticos, estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas, e tem como objetivos básicos proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais.

Ainda segundo o SNUC (2004), as APA deverão dispor de um Conselho presidido pelo órgão responsável por sua administração e constituído por representantes dos órgãos públicos, de organizações da sociedade civil e da população residente. O Decreto 4.340, de 22 de agosto de 2002 regulamentou artigos do SNUC e, trata, em seu Capítulo IV, do Plano de Manejo das Unidades de Conservação, em especial, em seu artigo 14, da necessidade de elaboração de diretrizes para o diagnóstico da unidade, zoneamento e programas de manejo. Este Decreto, em seu Capítulo VII, aborda a autorização para exploração de bens e

49 serviços e, em seu artigo 30, proíbe a construção e ampliação de benfeitorias sem autorização do órgão gestor da unidade de conservação.

Embora se observe crescimento quantitativo das unidades de conservação federais brasileiras, comparando-se o ano de 2001 com as estatísticas relativas a 1994, e com a extensão territorial do país, esse percentual, segundo Holanda (2001) ainda é tímido. A autora cita exemplos, como o da Costa Rica, que possui 20% de seu território sob proteção federal. Existem, no Brasil, áreas de enorme importância que não estão protegidas. Holanda (2001) afirma, ainda, que há, nas unidades, deficiência de pessoal em número e qualificação, falta de regularização fundiária das áreas de uso indireto e inadequada infra-estrutura e, por isso mesmo, EMBRATUR e IBAMA defendem a ampliação dessa rede de unidades de conservação, levando-se em conta a sua fragilidade, a ameaça de destruição e sua importância para a conservação de espécies raras ou ameaçadas de extinção.

1.2.3 Área de Proteção Ambiental Costa de Itacaré Serra Grande

O órgão estadual de turismo, a Bahiatursa, definiu regiões turísticas na Bahia com a finalidade de facilitar investimentos e criar diferenciais mercadológicos. A Costa do Cacau é composta por sete municípios: Canavieiras, Santa Luzia, Una, Ilhéus, Itabuna, Uruçuca, Itacaré; possui um importante corredor ecológico, o bioma predominante é a Floresta Atlântica, considerado pelas Nações Unidas um hotspot, ou seja, de preservação prioritária e apresenta recursos naturais variadíssimos, inclusive

50 contando com uma Reserva Biológica, um Parque Estadual, diversas RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) e duas APA (Área de Proteção Ambiental), e já reúne diversos empreendimentos com características de “turismo de natureza que possibilita experiências ecoturísticas”. O turismo nesta região aparece como uma possibilidade de recuperar uma economia de monocultura em crise por conta das dificuldades enfrentadas pela lavoura cacaueira, como a queda de preços no mercado internacional e a praga “vassoura de bruxa” (ALGER; CALDAS, 1996). Portanto, empreendedores podem pretender um aproveitamento de um grande crescimento da atividade ecoturística na região e planejar instalações sem critério e sem compromisso com a ética do turismo sustentável. É possível sugerir a esses empreendedores modelos de intervenção arquitetônica de baixo impacto sócio-ambiental e sustentáveis também do ponto de vista econômico?

Localiza-se ao Norte da Costa do Cacau, ocupando uma faixa litorânea de 28 km de extensão e uma área de 62.960 ha. Abrange os municípios de Ilhéus, Uruçuca e Itacaré.

Foi criada pelo Decreto Estadual No. 2.186 de 7 de junho de 1993. Seu zoneamento foi estabelecido pelo Decreto Estadual No. 1.334 de 19 de dezembro de 1996 e sua ampliação foi autorizada pelo Decreto Estadual No. 8.649 de 22 de setembro de 2003. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Recursos Hídricos – SEMARH afirma que o objetivo desta APA é proteger os remanescentes da Mata Atlântica e seus ecossistemas, garantindo a manutenção da biodiversidade e

51 potencializando a atividade turística, valorizada pela presença de falésias rochosas e um litoral especialmente belo.

52

Mapa da região estudada incluindo os meios de hospedagem da amostra
420 430 440 450 460 470 480 490 500 510

842 0

;; ;; Itacaré ;;;; ;
Pa rq ue Es t adu al Se rra do Co ndu ru

;;;;;; ;;; ;

842 0

841 0

APA Serra Grande Itacaré

841 0

840 0

Uruçuca Coaraci Almadina Itajuípe

; ;;

;
Me ios de H ospe dag em pesqu isa dos den tro da APA

840 0

839 0

Lag oa En ca nta da

839 0

838 0

Rio Almada

837 0

APA Lagoa Encantada e Rio Almada
;; ;

838 0

837 0

Barro Preto
836 0

836 0

835 0

Itabuna

Ilhéus ; ;

834 0

833 0

;; ; ;;;; ;; ;; ; ;; ;; ;; ; ;

Me ios de H ospe dag em pesqu isa dos 834 0 fo ra d a APA
833 0

;

835 0

420

430

440

450

460

470

480

490

500

510

40

0

40

80 Kilometers

N
BAHIA
#
Salv ador

W S

E

Figura 7 – Mapa da região estudada. Coordenadas em UTM.

53

1.3 SUSTENTABILIDADE E ARQUITETURA

1.3.1. As bases da arquitetura bioclimática

“The true basis for the more serious study of the art of architecture lies with those indigenous humble buildings that are to architecture what folklore is to literature, or folksong to music…”
22

Frank Lloyd Wright, Arquiteto, 1930.

Figura 8 – Exemplo de chalé executado com materiais locais e integrado ao ambiente. Fonte: Mehta et al., 2002, p. 55

Diversas expressões têm sido utilizadas para definir aplicações “ambientalmente corretas” das intervenções arquitetônicas. Ao mesmo tempo, meios de comunicação, em geral, têm contribuído pela “simplificação” e “urbanização” em excesso da imagem do arquiteto contemporâneo. Enquanto os cursos de arquitetura e urbanismo, assim como as diversas possibilidades de extensão, pós-graduação,
2

A verdadeira base para o estudo mais sério da arte da arquitetura reside nas rústicas edificações indígenas que são para a arquitetura o que folclore é para a literatura ou as canções folclóricas para a música. Tradução nossa.

54 mestrado e doutorado, esforçam-se por preparar profissionais de visão abrangente e sintonizados nos debates do mundo acadêmico em nível multidisciplinar, o mercado de consumo de “projetos de arquitetura” insiste em adquirir projetos padronizados, globalizados e, comumente, descompromissados com questões ambientais. A atuação do arquiteto é extremamente variada, o que aumenta a responsabilidade do profissional e afeta, em paralelo, a sua imagem pela confusão que essa multiplicidade pode causar; desde a visão do global, ao se pensar a dimensão de cidades e comunidades inteiras, à escala do objeto, passando, também, pelas edificações, o foco nas duas dimensões de sua criação acaba sendo o diferencial a se esperar do verdadeiro arquiteto: a função e a forma (estética). Um foco é supervalorizado pelo cidadão comum: agradar ao senso estético. A função do ambiente projetado influencia questões relacionadas a conforto, eficiência energética, praticidade, coerência, adequação de custos e, principalmente nos dias de hoje, responsabilidade ambiental, que costuma passar longe dos olhares do grande público, que desconhece este traço dos profissionais da arquitetura.

Adequação ao clima e às características do meio ambiente sempre esteve presente na história da civilização humana (CORBELLAS; YANNAS, 2003). Temos exemplos da arquitetura e do urbanismo grego e romano, das casas primitivas de populações indígenas e vários outros em que o espaço protegido humano adapta-se à topografia, vegetação, calores e frios, construindo espaços modificados em que humanos encontrassem conforto. Paralelamente, segundo Conde (citado por CORBELLAS; YANNAS, 2003), com a evolução e sofisticação tecnológica que

55 introduziu materiais mais elaborados e disponibilizados maciçamente, instalou-se um padrão globalizado nas cidades e um planejamento que não leva em conta as questões ambientais.

Barnett (In: STITT, 1999) lembra que apenas há pouco mais de um século, com o advento de energia disponível e de baixo custo, vidro em grandes painéis e condicionadores de ar, a arquitetura soltou suas amarras e esqueceu a antiga verdade de que as mais importantes concessões pela construção são ditadas pela Terra. A autora lembra que incorporar elementos de uma arquitetura tradicional – aquela espontânea e que, de forma intuitiva resolve questões relacionadas ao conforto, proteção e praticidade - pode aumentar a eficiência energética e habitabilidade de uma edificação. Cita exemplos, como a adição de materiais isolantes na massa de paredes ou as cores, inclusive a das coberturas, como fator de economia de energia e aumento do conforto.

É antiga, portanto, a preocupação de arquitetos com a adequação de seus projetos às necessidades do meio ambiente. O arquiteto americano Frank Lloyd Wright, um dos arquitetos mais importantes do século XX, reconhecido pelo American Institute of Architects como o mais importante arquiteto americano de todos os tempos, idealizou, em meados do século passado, uma arquitetura orgânica para o desenvolvimento de estruturas básicas, em que projetistas e empreendedores desenvolveriam estilos arquitetônicos que parecessem brotar da natureza única de cada local, de forma integrada e espontânea (FRANCO, 2001).

56

Ian McHarg (citado por STITT, 1999), autor do famoso livro Design with Nature (1969), mantém a afirmação de que a arquitetura afasta-se do meio ambiente, considerando que arquitetura moderna nem moderna seria, pois não estaria utilizando qualquer corpo de conhecimento desenvolvido em tempos modernos e que toda arquitetura desde a revolução industrial teria sido projetada sem referências à natureza. Este autor reforça a tese de que, historicamente, o homem efetivamente projetou e construiu suas edificações com a natureza. Teve que compreendê-la para sua própria sobrevivência. Lembra que etnógrafos que estudaram sociedades primitivas esforçaram-se em visualizar o ambiente para compreender a cultura, idioma, religião, ética e arte. Etnógrafos seriam, então, testemunhas de que sociedades antigas são, de fato, adaptações específicas a ambientes específicos. Segundo o autor, a proximidade entre o ambiente e a pessoa perdeu-se na cultura ocidental, física e intelectualmente. Espanta-se como, em tão pouco tempo, uma tradição que teria durado por toda a história da humanidade (adaptação dos povos ao clima e ambiente) tenha sido abandonada. De fato, a arquitetura globalizada contemporânea impõe estilos, materiais e sistemas construtivos por interesses comerciais e busca de supremacia cultural, relegando ao exotismo a arquitetura regional adaptada ao clima como é o caso dos termicamente eficientes iglus, dos esquimós, as construções de barro do México e Brasil, as grossas paredes brancas com poucas aberturas, típicas do Mediterrâneo, ou as ventiladas ocas indígenas da região amazônica.

Van der Ryn e Calthorpe (1986) buscaram na ecologia a base para (re) definir arquitetura ecológica; segundo os autores, ecologia não é apenas a formulação

57 matemática de algumas de suas subdisciplinas, mas, num contexto mais amplo, uma ciência dos relacionamentos entre “coisas” vivas e entre elas e elementos físicos e químicos: uma ciência que nos ajuda a compreender como o mundo trabalha. Ecologia, então, possuiria o potencial para ser a base da ciência da arquitetura e do design. Esta ciência seria a provedora de molduras para fascinantes ligações entre ciência e tecnologia aplicadas à ocupação espacial pelo homem. Como exemplos, os autores citam a tecnologia de polímeros que funcionam como a pele humana, ou como a atmosfera terrestre e, também, as redes eletrônicas de informação que refletem ecossistemas e provêm uma memória e uma história de fenômenos naturais que influenciam design e arquitetura. Assim, edifícios e intervenções arquitetônicas seriam como “organismos”, as vilas e cidades desenvolvem-se nesse contexto e a arquitetura pode expressar profundos conceitos sociológicos, antropológicos e históricos.

Barnett (citado por STITT, 1999) insiste na expressão “construção verde”, ou arquitetura verde, e que há muito espaço no mercado para edificações cada vez mais “verdes”; além disso, e no entanto, o mercado atua de forma muito conservadora, o que dificulta a exposição das vantagens desse padrão construtivo de custo semelhante e grandes vantagens sobre métodos convencionais de construção e pouco eficientes do ponto de vista de racionalização do uso de água e energia, por exemplo.

Planejamento Ecológico (Ecological Planning) foi explicitado como um método de projeto de paisagem por Aberley (citado por STITT, 1998) em consonância com as teorias de MacHarg, autor de Design with Nature. Para os autores, enquanto

58 “planejamento” seria um processo que utiliza informações científicas e técnicas, considera e atinge consenso dentro de um conjunto de possíveis escolhas, “ecologia”, por sua vez, seria o estudo das relações entre as coisas vivas, incluindo as pessoas, e seu ambiente biológico e físico. “Planejamento ecológico” poderia, então, ser definido como a utilização de informações biofísicas e socioculturais para sugerir

oportunidades e restrições para tomadas de decisões consensuais sobre a utilização das paisagens. Cita o geógrafo Donald Meinig: “Meio ambiente nos suporta como criaturas; a paisagem nos mostra como culturas”, interpretando-o na afirmação de que a compreensão da ecologia fornece conhecimento sobre padrões, processos e interações da paisagem e revela como interagimos entre nós e nossos ambientes, natural e construído.

Arquitetura bioclimática, então, teria surgido na década de 1950, como uma reação “ecológica” ao chamado estilo internacional, que utilizava soluções puramente formais em detrimento das tradições locais, desconsiderando variáveis climáticas, por exemplo. Um dos precursores teria sido Victor Olgyay, que apresentou a expressão “abordagem bioclimática” (bioclimatic approach) na arquitetura em seu livro Arquitetura e Clima. O conceito (arquitetura bioclimática) evoluiu muito nas últimas quatro décadas, segundo Viggiano (2002) e interage, atualmente, com formulações teóricas e práticas de ecologia profunda e sustentabilidade. O filósofo norueguês Arne Naess, no início da década de 1970 citou a expressão ecologia profunda para diferenciá-la da ecologia rasa, antropocêntrica e que atribui um valor instrumental ou de uso à natureza. O que ele chamou de ecologia profunda não separa seres humanos do meio ambiente natural.

59

A arquiteta Marta Adriana Bustos Romero, em seu livro Arquitetura Bioclimática do Espaço Público (ROMERO, 2001), apresenta uma retrospectiva do ponto de vista do desenho da paisagem pública e urbana em sintonia com os trabalhos aqui citados e afirma que as práticas da arquitetura e do desenho urbano concretizam-se sem considerar impactos ao ambiente.

A autora descreve características do que ela chama de “triunvirato dos clássicos”: Olgyay, Givoni e Fanger. Olgyay (citado por ROMERO, 2001) propôs um esquema para construção de uma casa estável (reduz forças negativas e aproveita todos os recursos naturais favoráveis ao conforto humano) numa concepção quatripartita: clima, biologia, tecnologia, arquitetura; Olgyay publicou Design with Climate que, segundo Romero (2001) teria sido o primeiro texto de fácil compreensão que apresentasse recomendações climáticas e um método que considerasse as variáveis do lugar. Givani, e seu livro Man, Climate and Architecture, mostra a interrelação entre homem, clima e arquitetura com destaque para elementos climáticos de radiação solar, temperatura do ar, ventos, umidade da atmosfera, condensação e precipitações (citado por ROMERO, 2001).

Considerando o enfoque ambiental da tradição vernácula, Romero (2001) lembra os estudos de Bernard Rudofsky publicados como Architecture without Architect, publicado em 1964. Fotografias de hábitats vernáculos do mundo inteiro mostram como o homem fazia naturalmente seu abrigo em perfeita harmonia e

60 adaptação com o meio. A autora muda o enfoque para arquitetura solar e registra o número 167 da revista Architecture d’Aujourdhui, de 1973. A edição denomina-se “Architecture du Soleil” e destaca realizações adequadas ao clima e ajuda a compor o panorama que servirá de base aos projetistas após a chamada crise do petróleo. Nos anos seguintes a arquitetura solar ganha forças como reação à inadequação térmica da arquitetura moderna, através de suas modalidades solarizada (com sistemas ativos de captação sobrepostos aos volumes construídos), autônoma (reivindica

independência energética) e bioclimática (modifica volumes internos e sua pele, para melhorar o fluxo energético) (ROMERO, 2001).

Romero (2001) cita ainda um dos raros estudos de desenho urbano com preocupação ambiental: Johan Van Lengen divulga técnicas tradicionais mexicanas de construção e procura estabelecer uma ponte entre o saber erudito dos profissionais da construção e o saber popular transmitido de geração para geração. É o “Manual do Arquiteto Descalço” (LENGEN, 2004), com desenhos e linguagem de fácil compreensão e com o registro da cultura vernácula da construção de residências e edifícios públicos, para diversos climas.

Cook (citado por ROMERO, 2001) acredita que o desenho bioclimático tenha sido redescoberto e denominado “solar passivo” com a crise do petróleo em 1973. Para o autor, em todas as épocas a cultura e o clima de um lugar têm sido geradoras de idéias originais e de preservação dos valores humanos. A arquitetura bioclimática, então, resgataria os elementos necessários para o desenvolvimento de expressões artísticas, assim como a própria arquitetura com um desenho adequado, de um novo

61 regionalismo. Da mesma forma, López de Asiain (citado por ROMERO, 2001) define o enfoque bioclimático como o esforço para compreender um lugar, com seus condicionantes físicos e climáticos, mas também históricos, culturais e estéticos, prérequisitos para desenvolver a ação arquitetônica.

Um bom exemplo de produção arquitetônica atual, no Brasil, que privilegia o regionalismo e a eco-eficiência é citado por Rovo e Oliveira (2004): a obra de Severiano Porto, em especial as elaboradas em mais de trinta anos de atuação na região amazônica. Afirmam que o arquiteto atenta indiscutivelmente para a ação do clima e a economia dos meios. Citam que Porto reconheceu a riqueza dos recursos disponíveis na região, tais como as soluções construtivas adotadas pela arquitetura autóctone – mais uma nomenclatura para a arquitetura praticada de forma espontânea e regional - e a habilidade da mão-de-obra no manejo da madeira. O arquiteto teria observado como os indígenas e os caboclos teriam sincronizado suas vidas com o rigor do clima, respeitando a delicada vegetação e as variações dos rios; dispõem suas casas de maneira que a ventilação percorra todo o ambiente, elevam-nas do solo para evitar unidade em excesso e protegê-las da cheia. As autoras descrevem o conjunto da Aldeia SOS do Amazonas, instalações de uma instituição para crianças órfãs, projetado por Porto na cidade de Manaus, como diversas edificações interligadas pela sinuosa circulação coberta, construída em madeira e folhas de palmeira, lembrando os grandes espaços comunitários das ocas indígenas.

Ao interpretar a história da vida de Frank Lloyd Wright, Franco (2001) remetenos à infância e adolescência do arquiteto, quando, durante algum tempo, teve a

62 oportunidade de entrar em contato com ambientes naturais numa fazenda no sudoeste de Wisconsin. Na década de 1930, Wright publicou The Disappearing City e Broadacres, onde apresenta uma proposta de desenvolvimento familiar em um acre (aproximadamente 4.000 metros quadrados), um modelo ideal de cidade horizontal e de baixa densidade que, ainda segundo Franco (2001), aproxima-se de certo modo dos conceitos contemporâneos de “sustentabilidade urbana”; Wright afirmava, na época, que se poderia colocar naquela disposição toda a população dos Estados Unidos numa área equivalente ao estado do Texas e que, portanto, o resto do país poderia ser uma “imensidão verde”.

A resposta ao clima, à cultura e às características de cada lugar, assim como o melhor aproveitamento de recursos ambientais como energia e água, são o ponto de encontro das diversas janelas abertas pelas correntes da arquitetura. Da mesma

forma, urbanistas e arquitetos que aderiram às linhas de ação com enfoque bioclimático, solar – e suas variantes –, ecológico, sustentável, verde, ou tantos outros, reforçam em uníssono as críticas à arquitetura moderna, que teria sido um deslize da história da cultura humana ao soterrar sólidas e eficazes práticas de construção de abrigos em adequação ao clima e ao lugar e edificar sobre elas um “estilo” global, como se fosse possível uma manifestação cultural –arquitetônica– criada como resposta aos inputs de megalópoles do mundo industrializado ver sua imagem refletida nas avenidas de médias aglomerações urbanas de países tropicais em

desenvolvimento, por exemplo. Vistas como idealismo e romantismo, uma espécie de vestígio do século XVII, tais movimentos desenvolveram-se e lançam mão de inovações tecnológicas para difundir, mesmo no concorrido mundo capitalista,

63 métodos de projeto e planejamento arquitetônico e urbano, que aposente, mesmo parcialmente, o ângulo antropocentrista e regate o biocentrismo, em que seres humanos façam parte da natureza, ao invés de, simplesmente, apropriar-se de seus recursos.

Figura 9 – Exemplo de passarela suspensa para evitar pisoteio. Fonte: Mehta et al., 2002, p. 23

Andersen (1993) apresentou critérios relacionados à arquitetura, em especial à de meios de hospedagem para ecoturismo ou turismo em áreas especiais, sugerindo que se estabeleça um mecanismo de avaliação desta arquitetura para orientar e direcionar as decisões de quem pretende realizar uma viagem com verdadeiras experiências ecoturísticas; dentre eles:

64 1. A escala do empreendimento é adequada à comunidade local e à capacidade do meio ambiente de suportar as instalações? 2. Os membros da comunidade estiveram envolvidos no planejamento e na construção das instalações? 3. O projeto das instalações utiliza formas da cultural tradicional e materiais disponíveis nas proximidades? 4. As instalações incluem um “senso de fantasia” ou algum atrativo especial que remeta os usuários às características da região? 5. As fontes de energia são amistosas ao meio ambiente e sustentáveis? 6. Os materiais de construção são atóxicos e livres de agentes nãobiodegradáveis? 7. São utilizadas tecnologias apropriadas para tratamento de resíduos orgânicos e outros resíduos? Utiliza-se reciclagem? 8. Os edifícios e as áreas pavimentadas são locadas de forma a evitar erosão? 9. Móveis e outras acomodações são adequados ao padrão arquitetônico e parâmetros ambientais?

65

Figura 10 – Exemplo de intervenção arquitetônica integrada ao ambiente. Fonte: Mehta et al., 2002, p. 112

Romero (2001) estudou os diversos autores que têm tratado o edifício como um “elemento de controle do clima”. A autora concluiu que todos eles procuram a relação harmônica entre ambiente e desenho visando ao conforto e apontam características que deveriam ser consideradas na construção dos edifícios. Propõem normas de desenho urbano e arquitetônico e, segundo Romero (2001), são unânimes em destacar os seguintes elementos:

1. O sítio selecionado pelas vantagens do microclima deve ser projetado para maximizá-las.

66 2. Localização, forma, volume e configuração geométrica. Compacidade,

superfície exposta, aproveitamento de soluções de volumetria. Incluem-se aqui a solução da fachada, o tipo de cobertura e a altura do piso ao teto. 3. A importância relativa da cobertura é dada segundo o impacto da radiação, a ventilação, o volume de radiação solar, marquises, a reflexibilidade e emissividade dos materiais. 4. Orientação. Minimizar exposições negativas, incluindo as fachadas principais. 5. Plantas. Compacidade, grau de liberdade (circulação de ar), superfícies expostas, elementos para receber radiação solar controlada: terraços e solário. 6. Janelas: tamanho, localização e detalhes. 7. Materiais de construção: propriedades físicas e térmicas. 8. Superfícies externas: cores, suas tonalidades e relação com a radiação (absorção, brilho e ofuscamentos). 9. Dispositivos de proteção e ganho solar. Proteções naturais no exterior, como pátios internos, domos, beirais, balanços, pórticos e brises, sombreamento das janelas, tetos e muros.

A metodologia de Romero (2001) concebe o edifício como um sistema que mantém complexas relações energéticas com o meio que o rodeia. Seu estado de energia interior é determinado pelo equilíbrio que se produz entre os ganhos e perdas de energia pelo edifício, com relação à capacidade acumuladora. Considera a forma e a “pele” do edifício como seus elementos fundamentais, assim como os “protetores da pele”, elementos que detêm a radiação solar antes que chegue à envoltura do edifício, permitindo a ventilação, a visão (eventualmente) e a entrada de luz. Destaca aspectos

67 característicos da pele do edifício, formada pelo que a autora chamou de um conjunto de barreiras e conectores energéticos entre o exterior e o interior, elemento importante para o estudo de adaptação ao clima das edificações:

1. Assentamento: grau de contato do edifício com o terreno. 2. Adjacência: contato da pele com outros locais ou edifícios. 3. Robustez: composição construtiva dos fechamentos do edifício. 4. Perfuração: permeabilidade da pele devido às dimensões e posição das aberturas. 5. Transparência: relação entre área envidraçada e superfície total do edifício. 6. Isolamento: resistência à passagem de calor. 7. Textura: rugosidade superficial. 8. Cor: absorção superficial. 9. Variabilidade: possibilidade de mudar seus panos cegos, transformar elementos opacos em transparentes e vice-versa, ou isolantes em não isolantes.

68

1. Vegetação 2. Beirais 3. Quiosques 4. Coberturas 5. Pérgulas 6. Planta livre

v

Figura 11 – Exemplos de elementos de proteção contra o sol Fonte: Carmona (1988, In: ROMERO, 2001, p. 144)

Um projeto ou uma edificação construída segundo concepções bioclimáticas podem ter um efeito multiplicador de educação ambiental, pois neles poderão estar transitando, repousando, se alimentando, trabalhando e entrando em contato com detalhes de cunho ambiental, centenas, milhares de pessoas que retornarão à sua casa, à sua cidade, à sua própria visão de mundo, com uma semente de que talvez seja mudar um pouco o mundo a partir de mudanças dentro de suas próprias casas.
“O lugar para arquitetos aprenderem a construir, antes de tudo, é o estudo da natureza.” Frank Lloyd Wright, arquiteto, 1958.

1.3.2 Sistemas de avaliação de edifícios

1.3.2.1 Sistemas internacionais

Os primeiros métodos de avaliação ambiental de edifícios foram desenvolvidos na década de 1990, na Europa, nos Estados Unidos e Canadá, como parte das estratégias para cumprimento das metas ambientais estabelecidas a partir da ECO’92 (SILVA et al., 2003). Foram desenvolvidos de forma a encorajar a demanda do mercado por níveis superiores de desempenho ambiental e os autores afirmam que estes sistemas

apresentavam, em alguns casos, alto nível de detalhes e, em outros, excessiva

vi simplificação para orientar projetistas ou sustentar a atribuição de selos ambientais.

Praticamente todos os países europeus, além dos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Japão e Hong Kong, possuem um sistema de avaliação de edifícios. Silva et al. (2003) descreveram duas categorias de sistemas: aqueles mais simples e orientados para o mercado e outros, orientados para pesquisa, abrangentes e com fundamentação científica. Dentre os primeiros, citam o BREEAM, Building Establishment Environmental Method, desenvolvido no Reino Unido, o LEEDMR, Leadership in Energy and Environmental Design, dos Estados Unidos e o CSTB ESCALE, da França. Na segunda categoria, descrevem o BEPAC e seu sucessor, Green Building Challenge – GBC, financiado inicialmente pelo governo do Canadá.

Os autores descrevem o BREEAM, como o primeiro e mais conhecido sistema de avaliação do desempenho ambiental. Através de uma lista de verificação, confirma-se, ou não, o atendimento de itens mínimos de desempenho. Os créditos são ponderados e chega-se a um valor único, sendo que sua principal característica é basear-se em análise de documentos e na verificação da utilização de dispositivos específicos.

O LEEDMR começou a ser desenvolvido em 1996 nos Estados Unidos para facilitar a transferência de conceitos de construção ambientalmente responsável para os profissionais e para o mercado americano. O desempenho ambiental do edifício é avaliado ao longo de todo o seu ciclo de vida. Satisfeitos

vii alguns pré-requisitos, atribui-se créditos que indicam o grau de conformidade do atendimento aos itens avaliados. Possui uma estrutura simples e Silva et al. (2003) consideram ser este o motivo de receber críticas.

Para desenvolver um novo método capaz de respeitar diversidades técnicas e regionais, um consórcio internacional criou o Green Building Challenge, GBC; segundo Silva et al. (2003), a diferença do GBC em relação à primeira geração de sistemas de avaliação ambiental de edifícios, é o fato de apresentar uma classificação de desempenho e a tentativa de respeitar as necessidades de cada local. O GBC estabelece desempenhos de referência e as equipes de avaliação indicam a melhor ponderação entre as categorias de impactos.

Os autores analisaram os critérios de ponderação dos diversos sistemas, afirmando que nem todos atribuem pesos a indicadores, devido à dificuldade de decidir objetivamente que impactos são mais críticos que os demais. No GBC, por exemplo, a sua ferramenta GBTool prevê a aplicação de pesos diferenciados por categoria e sugere uma ponderação padrão a partir de dados canadenses, que pode ser alterada pelas equipes de avaliação dos países participantes. A Tabela 1 apresenta diversos sistemas de avaliação ambiental de edifícios a partir de uma adaptação para definir as categorias e permitir a comparação. Questões relacionadas a energia, por exemplo, ganham maior importância em apenas três dos seis exemplos de sistemas de avaliação, enquanto o tema “água” não recebe atenção especial de nenhum dos sistemas. Por outro lado, a qualidade do ambiente interno, ou o conforto ambiental,

viii apesar de não ser a mais importante categoria para nenhum dos sistemas de avaliação, aparece em todos com relativo destaque.
Tabela 1 - Distribuição de categorias de impacto ambiental nos diversos sistemas de avaliação ambiental de edifícios
Categoria
Estratégias de Implantação Uso de água Uso de energia Materiais e resíduos Prevenção de poluição Qualidade ambiente interno Qualidade de serviços Gestão ambiental processo Desempenho econômico

BREEAM
24,7% 4,5% 8,3% 9,8% 24,5% 12,4% 1,7% 14,1% 0,0%

HKBEAM
3,4% 3,4% 35,6% 18,6% 3,4% 27,1% 0,0% 8,5% 0,0%

LEED

TM

MSDG
17,0% 5,0% 26,0% 26,0% 0,0% 24,0% 2,0% 0,0% 0,0%

CASBEE
3,0% 9,1% 9,6% 21,1% 1,2% 22,4% 33,6% 0,0% 0,0%

GBTool
8,8% 4,0% 4,0% 12,0% 16,3% 23,0% 12,0% 10,0% 10,0%

20,3% 7,3% 21,7% 18,8% 0,0% 18,8% 2,9% 10,1% 0,0%

Fonte: Silva et al., 2003, p. 11

1.3.2.2 No Brasil

A integração do Brasil ao projeto GBC aconteceu em 2000 durante a conferência Sustainable Buildings 2000 e a estratégia para implementação da pesquisa no país está centrada no Programa Nacional de Avaliação de Impactos Ambientais de Edifícios (BRAiE), coordenado pela UNICAMP (SILVA et al., 2003).

Os autores afirmam que “não é possível copiar ou simplesmente aplicar um método estrangeiro no Brasil, com base no sucesso que tal método tenha obtido em seu país de origem” (SILVA et al., 2003, p. 13). Por exemplo, todos os métodos estrangeiros dão importância significativa à emissão de CO 2 durante a operação dos edifícios, o que é compreensível para países de clima

ix frio ou com matrizes energéticas baseadas no uso de combustíveis fósseis. No caso brasileiro, Silva et al. (2003) lembram que a necessidade de refrigeração dos ambientes é muito maior que a de aquecimento, a eletricidade utilizada tem origem, na sua maior parte, em fontes hidráulicas e apenas uma parcela pequena do aquecimento de água provém do combustível fóssil (gás). Lembram, ainda, que alguns itens incluídos em determinados métodos de avaliação são excessivamente detalhados para os padrões brasileiros e, devido à ausência de desempenhos de referência e dados ambientais, para o desenvolvimento de um sistema nacional de avaliação de edifícios sugerem iniciar por um nível de ambição mais baixo, que contemple todos os aspectos ambientais e inclua temas sociais.

Os autores indicam alguns princípios para se desenvolver estratégias nacionais de avaliação da sustentabilidade de edifícios (SILVA et al., 2003):

a) Migrar da avaliação ambiental para a avaliação da sustentabilidade dos edifícios. b) Definir os requisitos a avaliar. c) Diminuir a possibilidade de subjetividade. d) Definir uma estrutura evolutiva do formato de pontuação, composto por uma série de pré-requisitos complementada por créditos ambientais. e) Criar blocos conceituais de critérios, de forma orientada à avaliação do desempenho e que seja viável praticamente.

x f) Estabelecer um critério para ponderação, como consultar um painel de especialistas (no caso do BREEAM chegou-se a um indicador único de desempenho).

Os autores atestam a necessidade de pesquisa de base, no Brasil, afirmando que o único esquema de certificação ou classificação de desempenho ambiental existente é o selo PROCEL, que classifica

equipamentos do ponto de vista de seu padrão de consumo energético.

1.4 O PROBLEMA

“Pouco modificadas” (EMBRATUR, 1995), “mínimo impacto” (Congresso Mundial de Ecoturismo, 1992), “utilização de forma sustentável” e “valorização do patrimônio arquitetônico” (IEB, 1995) são expressões que denotam um nível de aceitação das atividades preparatórias às de turismo em áreas naturais ou protegidas, como um mal necessário, mais recomendável que a invasão descontrolada ou a atividade meramente extrativista, alternativas ao turismo de natureza. Lindberg (2001) utiliza a expressão “responsável” ao definir ecoturismo: “É uma viagem responsável a áreas naturais, com conservação do ambiente e melhoria do bem-estar das populações locais”. Devemos propor limites e regulamentar a exploração de áreas naturais pelo turismo e suas necessárias instalações? Hospedagem, sanitários, bares, restaurantes, pontes, trilhas, acessos, guaritas, postes, encanamentos, caixas d’água, estacionamentos, casas de força e tantas outras intervenções ecoturísticas

xi devem seguir diretrizes e modelos? A definição aborda a responsabilidade do visitante, mas antes desta, há a responsabilidade do planejador em elaborar programas de educação direta (aulas, palestras, manuais, cartilhas, placas etc.) e indireta (expor e valorizar sistemas construtivos que privilegiam a economia de energia, sistema de captação de água de chuva ou de reutilização da água, planejamento de coleta seletiva de resíduos sólidos e sua reciclagem, utilização de madeira certificada e de reflorestamento na construção e mobiliário, mínima intervenção sobre vida silvestre e mínima remoção de vegetação, por exemplo). Como um planejamento de qualquer empreendimento voltado ao turismo considerado sustentável pode envolver as comunidades locais e como os trabalhos de projeto, construção e operação das instalações podem contar com a experiência e disponibilidade dos moradores da região? Diegues (1997) afirma que, num primeiro momento, esses atores sociais (membros da comunidade nativa) eram invisíveis e os chamados planos de manejo dos parques sequer mencionavam sua existência, cujo reconhecimento e, até, o da sua importância para a conservação da diversidade biológica é fenômeno recente. É possível a um projeto de instalações a serem construídas dentro dos frágeis limites da natureza revelar um forte elo com os princípios do turismo sustentável? O projeto arquitetônico de instalações turísticas em áreas protegidas, para Rodrigues (2003), precisa ir além dos requisitos básicos de um abrigo e agregar a natureza como fonte de inspiração.

1.5 OBJETIVOS

xii 1.5.1 Objetivo Geral

Identificar diferenciais sócio-ambientais apresentados por Meios de Hospedagem no interior de áreas protegidas, em especial a Área de Proteção Ambiental Costa de Itacaré – Serra Grande.

1.5.2 Objetivos específicos

Classificar os Meios de Hospedagem costeiros e não urbanos a partir do cuidado teórico e prático de sua arquitetura, seu planejamento e sua operação, com o patrimônio ambiental, social e cultural no entorno da Mata Atlântica do Sul da Bahia.

Comparar a arquitetura praticada por Meios de Hospedagem localizados no interior e no exterior de uma Unidade de Conservação de Uso Sustentável no entorno da Mata Atlântica do Sul da Bahia.

São possíveis conseqüências da presente pesquisa fornecer subsídios a gestores públicos, empresários e profissionais relacionados às áreas protegidas para aprimorar suas ações e a legislação, apresentar modelos, particularmente adequados ao entorno da Mata Atlântica brasileira, para requisitos e restrições a serem aplicados a construções em Unidades de Conservação de Uso Sustentável, em especial aquelas próprias a meios de hospedagem, muito vulneráveis a ações sócio-ambientais inadequadas e desenvolver um novo referencial à discussão da sustentabilidade para

xiii pesquisadores de temas relacionados a arquitetura, turismo, impactos ambientais, conforto ambiental, engenharia sanitária e ambiental, energia, educação ambiental e outros. Além disso, espera-se contribuir com a discussão sobre metodologias de avaliação sócio-ambiental de edificações em geral.

PARTE 2 – MÉTODOS

2.1 ÁREA DE ESTUDO

A sede do município de Uruçuca encontra-se distante da costa e Serra Grande é um distrito localizado no litoral com grande vocação turística devido a suas praias, trilhas e floresta. Quase a totalidade da área do município encontra-se dentro dos limites da APA Serra Grande Itacaré e o turismo começa a sofrer a pressão de estar entre Ilhéus e Itacaré. Já possui algumas pousadas e atrativos voltados ao turismo de natureza. Não apresenta um plano diretor e um plano estratégico de turismo, que regulamentem e direcionem a expansão desta atividade no distrito. Seus mais conhecidos atrativos são a praia do Pé de Serra e o mirante localizado no canto da praia mais ao norte, ambos vítimas de grande pressão imobiliária direcionada especialmente à atividade turística.

xiv

Figura 12 – Praia do Pé de Serra, Uruçuca Fonte: SEMARH

Itacaré teve origem numa aldeia de índios Pataxós, depois associados à colônia de pescadores; cresceu com o desenvolvimento do comércio pelo Rio de Contas que é a ligação da Chapada Diamantina com o Oceano Atlântico. É uma cidade antiga: o povoado foi batizado de São Miguel da Barra do Rio de Contas, em 1731, elevado à categoria de município em 1732 e apenas em 1931 é que passou a ser chamado Itacaré (GUIMARÃES, 2003). O cultivo de cacau chegou a ser sua principal atividade, mas com a crise cacaueira, grande parte da atividade econômica passou a ser baseada no turismo, principalmente após a construção da BA-001, a estrada que liga Ilhéus a Itacaré, embora a tradição da pesca ainda sobreviva. A região e o município já foram alvo de diversos estudos sobre o impacto da crescente atividade turística e imobiliária e possuem um grande número de empreendimentos hoteleiros de portes variados, desde grandes resorts a pequenas pousadas familiares. Após a ampliação dos limites da APA o município teve praticamente toda sua área inscrita nos limites de proteção desta Unidade de Conservação, inclusive o

xv núcleo urbano. Guimarães (2003) afirma que a cidade de Itacaré ainda possui um centro histórico com diversas casas e casarões com relevância cultural e, apesar de iniciativas isoladas, pouco se tem feito para conservar esse patrimônio.

Figura 13 – Itacaré – Foz do Rio de Contas Fonte: SEMARH

Ilhéus é o município mais antigo e importante da região. Foi sede de uma das Capitanias Hereditárias, doada a Jorge de Figueiredo Corrêa em 1534. Parte de seu território está incluída nos limites da APA Lagoa Encantada e Rio Almada, mas a grande maioria está fora de áreas protegidas. A degradação de recursos naturais, como rios, restingas, mangues, já é fato no município, que luta contra uma pressão populacional e social decorrente da evasão rural das últimas décadas causada pela crise da principal lavoura da

xvi região, o cacau. Graças, em parte, ao sistema de plantio desta cultura, a Mata Atlântica pôde ser parcialmente preservada, pois a cabruca implica em manter árvores que sombreiem o solo e os cacaueiros. De grande potencial, a atividade turística ainda sobrevive do binômio sol e praia, deixando de lado verdadeiros patrimônios como a Floresta Atlântica e a cultura relacionada à literatura produzida por Jorge Amado e outros escritores. Possui grande número de pousadas e hotéis, urbanos e de praia.

Figura 14 – Ilhéus – Foz do Rio Cachoeira Fonte: P.M.I.

2.2

UNIVERSO DE PESQUISA E DEFINIÇÃO DA AMOSTRA

Para definição do universo da pesquisa foram excluídos os meios de hospedagem de características essencialmente urbanas – mesmo que

xvii localizados em área protegida - e selecionados os que se localizam em áreas costeiras e de características tipicamente não-urbanas. A adoção deste critério se justifica pela situação atípica da APA Costa de Itacaré Serra Grande que contém um Núcleo Urbano Consolidado e se pretende investigar meios de hospedagem típicos de áreas protegidas. Os meios de hospedagem que correspondem a estes critérios foram divididos em sete núcleos, sendo três em Itacaré – Praia da Concha, Estrada Parque e Praia da Tiririca –, um em Uruçuca – Serra Grande – e três em Ilhéus – Olivença, Praia do Sul e Praia do Norte. Compõem, no total, um conjunto de 104 unidades, sendo que 53 situamse em Ilhéus e fora dos limites de áreas protegidas e 51 localizam-se em Itacaré e Uruçuca, dentro da APA Serra Grande – Itacaré. Por possuírem características essencialmente urbanas foram excluídos deste universo 39 meios de hospedagem de Ilhéus e 40 de Itacaré. Os meios de hospedagem pesquisados são distribuídos conforme a Tabela 2 e o total de meios de hospedagem na região pesquisada são apresentados na Tabela 3.

Tabela 2 - Universo dos meios de hospedagem que correspondem aos critérios da pesquisa

Município

Núcleo Olivença

Meios de Hospedagem 15 31 7 53 6 32 7 6 51

APA Não Não Não

Ilhéus Ilhéus Ilhéus

Praia do Sul Praia do Norte Subtotal

Uruçuca Itacaré Itacaré Itacaré

Serra Grande Praia da Concha Estrada Parque Praia da Tiririca Subtotal

Sim Sim Sim Sim

xviii Total 104

Tabela 3 - Total dos meios de hospedagem na região pesquisada

Município

Núcleo

Meios de Hospedagem Não-urbanas Urbanas Subtotal 53 39 92 6 6 32 40 72 Total 170

APA Não Não

Ilhéus Ilhéus

Uruçuca

Não-urbanas Subtotal

Sim

Itacaré Itacaré

Não-urbanas Urbanas Subtotal

Sim Sim

A opção foi pela amostragem não-probabilística mista, utilizando critérios como área e, ainda, disposição para receber o pesquisador, o que poderia caracterizar, também, uma amostragem de conveniência (DENCKER, 2004).

Com o propósito de alcançar uma amostra de até 50% do universo, o pesquisador dirigiu-se aos meios de hospedagem e, após apresentar-se, solicitou a presença de alguém que conhecesse o empreendimento para uma breve entrevista. Além disso, o próprio pesquisador participou como consultor de visitas técnicas a meios de hospedagem incluídos no universo da pesquisa, no âmbito do Programa de Certificação em Turismo Sustentável, e pôde transcrever dados.

xix

Acrescentando os meios de hospedagem de que o pesquisador já dispunha de dados aos que se propuseram a colaborar com a pesquisa, a amostragem ficou definida conforme apresentado na Tabela 4.

Tabela 4 - Amostra definida dos meios de hospedagem

Município

Núcleo Olivença

Meios de Hospedagem 12 11 3 26 3 16 1 5 25 Total 51

APA Não Não Não

Ilhéus Ilhéus Ilhéus

Praia do Sul Praia do Norte Subtotal

Uruçuca Itacaré Itacaré Itacaré

Serra Grande Praia da Concha Estrada Parque Praia da Tiririca Subtotal

Sim Sim Sim Sim

2.3 PESQUISA, TÉCNICA DELFOS E MATRIZ PONDERAL

Dencker (1998) define pesquisa descritiva como aquela que procura descrever fenômenos ou estabelecer relações entre as variáveis. Utiliza técnicas padronizadas de coleta de dados como o questionário e a observação sistemática. A opção desta pesquisa é pelo formulário – questionário, desde que é preenchido pelo pesquisador em entrevistas padronizadas e é fruto,

xx também, da observação do pesquisador. São perguntas fechadas com escala e alternativas fixas (DENCKER, 1998).

Uma das técnicas mais conhecidas do método prospectivo, a técnica Delfos surgiu na década de 1960 com base em trabalhos desenvolvidos por Olaf Helmer e Norman Dalker, pesquisadores da Rand Corporationa (Califórnia, EUA). Posteriormente, esta técnica caracterizada como um método intuitivo e interativo foi utilizada com sucesso na previsão da evolução do sistema de turismo, nos Estados Unidos, Canadá e países latino-americanos (MATTOS, 2004).

Em linhas gerais, Mattos (2004) define a metodologia Delfos como uma consulta sucessiva a um grupo de especialistas através de um questionário, que é repassado várias vezes até que seja obtida convergência das respostas. A autora cita a experiência de Molina e Rodriguez (1991, citados por MATTOS, 2004) que utilizaram a técnica como alternativa aos métodos de prognóstico e previsão utilizados para conhecer a situação futura de determinados sistemas.

No Brasil a autora cita o exemplo da professora Doris Ruschmann (1994, citada por MATTOS, 2004) na área de turismo e dos professores André Luiz Fischer e Lindolfo Albuquerque (2001, citados por MATTOS, 2004), que utilizaram a técnica Delfos de forma considerada por eles como satisfatória, junto a um público qualificado de profissionais na área de recursos humanos e o resultado foi denominado DELPHI RH 2010, uma ampla projeção de

xxi tendências para gestão de recursos humanos no Brasil (ALBUQUERQUE e FISCHER, 2001).

Com efeito, Ruschmann (1997) aparece como referência em se tratando de técnica Delfos, além de sua aplicação em turismo. A professora utilizou-a em sua tese de doutorado com sucesso e de seu trabalho resultou, inclusive, a publicação do livro Turismo e Planejamento Sustentável, importante fonte de dados e informações para pesquisadores e profissionais da área.

Murphy (1998, citado por MATTOS, 2004) afirmou, no entanto, que os estudos sobre esta metodologia têm discutido sua validade enquanto método científico, por criar conhecimento novo, mas ao mesmo tempo reafirma que deve ser considerado como um processo válido por fazer uso da melhor informação disponível, sejam dados científicos ou de sabedoria coletiva dos participantes.

Nesta pesquisa foi aplicada uma técnica variante, desde que coletou opiniões de alguns especialistas para uma “sintonia fina” a partir da opinião do próprio autor na definição dos pesos para os parâmetros (indicadores) determinados na matriz ponderal. Enquanto a base dessa técnica é a constituição de um painel de especialistas que devem responder a sucessivas rodadas de perguntas em busca do consenso, escolhidos por um comitê organizador, no caso da presente pesquisa alguns especialistas receberam o convite para participar, por meio eletrônico e na matriz definitiva (MASArq) foi adotada a média simples entre a opinião de todos, inclusive o autor da

xxii pesquisa. Foram enviadas quinze mensagens eletrônicas a especialistas, pesquisadores e professores, convidando-os a participar. Destas, cinco foram respondidas, três de forma adequada: Anne Becher (1), Sandra Holanda (2) e Alexandre Schiavetti (3).

Anne

Becher

graduou-se

em

Estudos

Latino-americanos

pela

Universidade de Carleton (1987) e obteve grau de mestre em Lingüística Hispânica pela Universidade de Colorado (1992), ambos nos Estados Unidos; é conhecida e respeitada como autora especializada em assuntos relacionados ao meio-ambiente. Reside na Costa Rica desde 1993 e é co-autora do The New Key to Costa Rica, famoso guia deste país do Caribe, um dos mais importantes destinos ecoturísticos mundiais, atualmente em sua edição 17 e que apresenta, a cada edição, pesquisa sobre turismo sustentável com mais de cem meios de hospedagem orientados ao ecoturismo. É autora, também de Biodiversity: A Reference Handbook, de 1998, e American Environmental Leaders: a Biography Dictionary, de 2000.

Sandra Maria Monteiro Holanda é doutoranda em Gestão de Empresas pela Universidade de Coimbra, Portugal. Mestre em Administração pela Universidade de Fortaleza. É consultora do Banco do Nordeste, tem diversos artigos publicados em periódicos como Estudios y Perspectivas en Turismo (Argentina), Turismo, Visão e Ação, Revista Econômica do Nordeste, em livros e em congressos, no Brasil e no exterior. Sua dissertação de mestrado teve como tema “Análise das expectativas e percepções dos segmentos de turistas

xxiii da APA de Jericoacoara, quanto à oferta de produtos turísticos: uma abordagem baseada em variável subjetiva”, em 2001, pela UNIFOR, Fortaleza.

Alexandre Schiavetti é ecólogo graduado pela Universidade Estadual Julio de Mesquita Filho, UNESP, obteve o título de mestre em Ciências da Engenharia Ambiental, em 1997, pela Universidade de São Paulo, USP e, em 2002, obteve o grau de doutor em Ecologia e Recursos Naturais, pela Universidade Federal de São Carlos, UFSCAR, com o tema “Aspectos da Estrutura, Funcionamento e Manejo da Reserva Particular do Patrimônio Natural”. É pesquisador Associado do Núcleo de Áreas Protegidas do Instituto de Estudos Sócio-ambientais do Sul da Bahia - IESB, professor Adjunto da Universidade Estadual de Santa Cruz, UESC, possui diversos artigos publicados em revistas e livros, no Brasil e no exterior.

Para avaliação da adequação sócio-ambiental de cada meio de hospedagem foi preenchida uma matriz ponderal a partir de um questionário, a MASArq. Esta matriz é derivada do modelo de Listagem Ponderal desenvolvido por Batelle (BRAGA, B. et al., 2002) e apresenta seis grupos de indicadores de adequação.

Segundo Braga, B. et al. (2002), listagens ponderais são uma evolução consolidada das listagens comparativas com ponderação e reconhecem o método de Batelle como seu melhor exemplo. Este método é utilizado em Estudos de Impactos Ambientais (EIA) e baseia-se na listagem de parâmetros ambientais e a importância relativa de cada um dos parâmetros em relação à

xxiv soma dos impactos do projeto é dada pela atribuição de pesos. Braga, B. (2002) cita suas principais características:

1. É abrangente e seletivo ao mesmo tempo 2. É bastante objetivo para comparação de alternativas 3. Não permite a interação de impactos 4. Permite previsão de magnitude pelo emprego de escala normalizada de valores 5. Não distingue a distribuição temporal

O modelo original de Batelle é constituído por 78 parâmetros representativos de componentes ambientais e a cada um deles está associado um peso previamente definido que estabelece sua importância relativa em face dos demais na constituição dos impactos.

O Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos Estados Unidos desenvolveu, em 2005, uma metodologia preliminar denominada “Whole House Calculator” para avaliar as características físicas e o desempenho geral de edificações baseada na metodologia de Batelle, citada como um dos mais tradicionais sistemas de avaliação de impactos ambientais, em especial nas áreas de recursos hídricos, rodovias, usinas nucleares e outros projetos. Utiliza quatro “pontos de vista”: ecologia, fatores físicos e químicos, fatores estéticos e interesse humano e social. Estes fatores foram divididos em dezoito componentes e estes divididos em 78 parâmetros (O’BRIEN et al., 2005).

xxv

Os autores da “Whole House Calculator” basearam-se na metodologia de Batelle para abordar as questões objetivas e subjetivas de peso e quantificação em um projeto considerado complexo e para gerar pontuações que poderiam ser utilizadas para serem comparadas entre si. A “Whole House Calculator” utiliza pontuações para 70 a 90 escolhas em dois estágios. O usuário é convidado a distribuir cem pontos de acordo com a importância por ele atribuída ao longo dos fatores apresentados.

Para a MASArq foram determinados seis indicadores sócio-ambientais e para a definição dos pesos para cada indicador, de forma que a somatória resultasse 1000, o autor contou com a participação dos especialistas em conjunto com a sua própria experiência, conforme descrito anteriormente.

Cada indicador tem sua pontuação definida pela somatória da pontuação recebida por algumas perguntas determinadas, que também recebem pesos proporcionais às outras, e são, sempre, três possibilidades de resposta: “sim”, “parcialmente” ou “não”. Conforme a resposta, a pontuação para aquela pergunta assume 100% da pontuação máxima prevista, caso seja “sim”; 50%, caso seja “parcialmente” e 0%, no caso da resposta ser “não”. Caso todas as perguntas referentes a um indicador obtenham “sim”, aquele indicador obterá, também, 100% da pontuação definida na composição inicial da matriz. Caso contrário, receberá um número inferior, na proporção em que as perguntas a ele referentes recebam “parcialmente” ou “não” como respostas. Aquele que mais se afastar da pontuação máxima estará, teoricamente, mais se afastando,

xxvi também de utilizar uma arquitetura de baixo impacto sócio-ambiental negativo. Os indicadores e as perguntas a eles referentes estão listados na Figura 15.

2.4 ANÁLISE DOS DADOS

A aplicação do Teste T com amostras independentes deverá indicar ou não a significativa diferenciação entre os dois grupos estudados, o grupo de meios de hospedagem localizados no interior da APA e o grupo de meios de hospedagem externos à APA. Esta análise é fundamental para legitimar o conjunto amostral utilizado e viabilizar a posterior análise exploratória dos dados.

As características dos dados a serem coletados e analisados indicam a viabilidade de utilização da técnica denominada “análise das componentes principais”, principalmente pela variedade de parâmetros (seis) e possibilidades de correlações entre eles. Segundo Gimenes et al. (2004), o objetivo também é verificar algum padrão que possa ser interpretado. Esta técnica transforma os dados de forma a localizar os eventos amostrais como pontos relacionados a eixos ortogonais. A forma de agrupamento destes pontos indica tendências a serem analisadas, assim como a correlação entre os diversos parâmetros.

Gimenes et al. (2004) também sugere, para dados dispostos a partir de parâmetros e em grupos distintos, a técnica “análise estatística de agrupamento”, ou cluster analysis, utilizada para identificar agrupamentos de características similares entre os eventos amostrais. O resultado é uma figura

xxvii chamada “dendograma”, em forma de árvore com ramificações ligando todos os eventos amostrais. Aqueles que estiverem ligados por uma ramificação mais curta deverão compartilhar de características semelhantes. Aqueles que estiverem ligados por ramificações mais longas deverão possuir características significativamente diferentes. A partir de “cortes” a distâncias variáveis pode-se verificar, ou não, a formação de grupos que confirmem a efetiva diferenciação entre dois grupos a serem analisados.

A partir da possível confirmação da significativa diferenciação entre os grupos pretende-se passar a uma análise exploratória dos dados e verificar como os dois grupos comportam-se tanto em relação à pontuação total obtida quanto em relação àquelas obtidas em cada parâmetro. Caso algum parâmetro específico destaque-se por pontuações extremas significativas, ele será, também, analisado de forma exploratória. Pretende-se estabelecer e confirmar as correlações entre os parâmetros já estudadas.

xxviii
Figura 15 – MASArq Indicadores sócio-ambientais da arquitetura de meios de hospedagem e perguntas a eles relacionadas
(continua)

1 A B C D 2 A B 3 A B 4 A B C 5 A B C 6 A B 7 A B C D 8 A B C

ENERGIA - PROCESSOS DE ECONOMIA Há métodos formais de economia de energia? Materiais e equipamentos utilizados são indicados para economia de energia? Há aproveitamento de luz solar em detrimento da elétrica? Há educação direta ou indireta quanto ao consumo racional de energia? ENERGIA - FONTES ALTERNATIVAS As fontes de energia são sustentáveis e compatíveis com o meio ambiente? Há intenção explícita de utilizar fontes alternativas de energia? CONFORTO AMBIENTAL - ISOLAMENTO TÉRMICO Materiais utilizados são isolantes térmicos eficientes? Utiliza recursos paisagísticos de sombreamento e isolamento térmico? CONFORTO AMBIENTAL - VENTILAÇÃO NATURAL Posição e desenho das aberturas facilitam a ventilação natural? Paisagismo privilegia a ventilação natural? Divisões internas facilitam a circulação de ar? CONDIÇÕES SANITÁRIAS - LIXO Há programas explícitos de redução e reutilização de resíduos sólidos? Há programa de coleta seletiva de lixo? Usuários são informados e convidados a participar de coleta seletiva de lixo? CONDIÇÕES SANITÁRIAS - ESGOTO O esgoto é devolvido ao meio ambiente após tratamento adequado? Há fossas sépticas ou sistemas de filtragem e sumidouro para esgotos? ÁGUA - APROVEITAMENTO Há sistema formal de aproveitamento de água de chuva? Há aproveitamento adequado de água de rios, córregos e nascentes? Há tratamento adequado da água para consumo humano? Há reaproveitamento de águas servidas? ÁGUA - RACIONALIZAÇÃO DO CONSUMO Há métodos formais de economia de água? Equipamentos e utensílios são indicados para economia de água? Há educação direta ou indireta quanto ao consumo racional de água?

Figura 15 – MASArq Indicadores sócio-ambientais da arquitetura de meios de hospedagem e perguntas a eles relacionadas

xxix
(conclusão)

9 A B C D E 10 A B C D E 11 A B C D 12 A B C

BIOTA - FAUNA Houve preocupação declarada durante o planejamento e projeto das instalações com as espécies animais locais? Houve preocupação declarada durante a execução das instalações com as espécies animais locais? Há preocupação declarada com as espécies animais locais? Há programas específicos de proteção a espécies animais locais? Há mecanismos para afastar espécies animais indesejáveis ao invés de exterminá-las? BIOTA - FLORA Houve preocupação declarada durante o planejamento e projeto das instalações com as espécies vegetais locais? Houve preocupação declarada durante a execução das instalações com as espécies vegetais locais? Há preocupação declarada com as espécies vegetais locais? Há programas específicos de proteção a espécies vegetais locais? Houve consciência ecológica na escolhas de espécies vegetais utilizadas no paisagismo? CONDIÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS - EMPREGO Os membros da comunidade local participaram ativamente do planejamento e construção das instalações? Os membros da comunidade local participam ativamente do dia-a-dia do empreendimento? A manutenção e serviços às instalações são executados por membros da comunidade local? A decoração, os móveis, os objetos à mostra são obras de membros da comunidade local? CONDIÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS - RESPEITO À CULTURA Os membros da comunidade local foram consultados sobre a localização e as dimensões do empreendimento? A cultura e a arquitetura local foram consideradas nas decisões de projeto das instalações? O estilo e a decoração refletem a cultura local?

xxx

PARTE 3 – RESULTADOS E DISCUSSÃO

3. 1. PARTICIPAÇÃO DOS ESPECIALISTAS

Cada especialista demonstra sua linha de pensamento na pontuação sugerida. Becher (1) classifica as questões relacionadas a energia (duas pontuações 100) e esgoto (100) como mais significativas, enquanto para Holanda (2) e Schiavetti (3) as questões relacionadas à água são mais importantes (300, para Holanda e 250 para Schiavetti), embora Schiavetti tenha classificado questões de energia com mesma pontuação (250); para o autor deste estudo (4) as condições sócio-econômicas e as sanitárias teriam impacto maior (240 e 220, respectivamente). Considerando a média, resultou uma maior pontuação para “água”, a seguir para “energia” e, depois, “condições sanitárias” e as “sócio-econômicas”. Os resultados estão demonstrados nas Tabelas 5 e 6.

xxxi
Tabela 5 - Opinião de profissionais sobre a pontuação dos indicadores sócio-ambientais (parâmetros) da arquitetura de meios de hospedagem

INDICADORES PROFISSIONAIS ENERGIA Processos de economia de energia Fontes alternativas de energia CONFORTO AMBIENTAL Isolamento térmico Ventilação natural CONDIÇÕES SANITÁRIAS Lixo Esgoto ÁGUA Aproveitamento de água Racionalização do consumo de água BIOTA Fauna Flora CONDIÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS Oportunidade de emprego Respeito à cultura local 85 80 80 85 70 90 80 100 65 65 100 100 1

PONTUAÇÃO 2 3 4

100 100

125 125

75 75

75 75

25 75

40 70

75 75

75 75

110 110

150 150

100 150

75 75

50 50

75 75

75 75

50 50

75 25

130 90

xxxii
Tabela 6 - Indicadores sócio-ambientais (parâmetros) da arquitetura de meios de hospedagem, sub-indicadores e pontuações máximas definidas, adotadas na pesquisa

INDICADORES

PONTUAÇÃO SOMATÓRIA 1000 1000

ENERGIA Processos de economia de energia Fontes alternativas de energia CONFORTO AMBIENTAL Isolamento térmico Ventilação natural CONDIÇÕES SANITÁRIAS Lixo Esgoto ÁGUA Aproveitamento de água Racionalização do consumo de água BIOTA Fauna Flora CONDIÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS Oportunidade de emprego Respeito à cultura local

200 100 100 123 51 72 175 85 90 215 99 116 141 70 71 146 85 61

3.2

ANÁLISE ESTATÍSTICA

3.2.1 Teste de Significância e Teste T

A análise inferencial determinou, através do Teste de Significância com supostas variâncias iguais, que há significativa diferenciação entre os dois grupos, dentro e fora da APA. O Teste T, com amostras independentes,

xxxiii confirma a viabilidade de utilização do conjunto amostral estudado. As Figuras 29 e 30 apresentam o resultado (t = -3,434; gl = 49; p = 0,001).

F Variâncias supostamente iguais 0,568

Significância 0,455

Figura 16 - Teste de Levene para variâncias iguais

APA

QUANTIDADE

MÉDIA

DESVIO PADRÃO

DESVIO PADRÃO MÉDIO

NÃO SIM

26 25

309,5346 401,0800

100,7383 88,9897

19,7564 17,7979

Figura 17 - Teste T e estatística de grupo

3.2.2 Análise das componentes principais

A análise das componentes principais é uma técnica de transformação de variáveis, que transforma os dados de tal forma a descrever a mesma variabilidade total existente. Pode ser descrita como a rotação de pontos existentes originando eixos, ou componentes principais, que dispostos num espaço as duas dimensões representem variabilidade suficiente que possa indicar algum padrão a ser interpretado (GIMENES et al., 2004).

Na Figura 31 estão três diagramas de eixos ortogonais mostrando o resultado da análise dos componentes principais aplicada aos resultados obtidos na presente pesquisa. Os diagramas que apresentam os resultados dos dois grupos separadamente demonstram um agrupamento dos eventos

xxxiv “dentro da APA” preferencialmente tendendo ao quadrante superior direito, com dez eventos, enquanto o diagrama do grupo “fora da APA” apresenta apenas um evento nesse mesmo quadrante e evidencia uma tendência de agrupamento no quadrante superior esquerdo, demonstrando a efetiva diferenciação entre os dois grupos.

3 2 1 0 -3 -2 -1 -1 -2 -3 -4
3 2 1 0 -3 -2 -1 -1 -2 -3 -4 0 1 2 3

0

1

2

3

3 2 1 0 -3 -2 -1 -1 -2 -3 -4 0 1 2 3

Figura 18 - Diagramas de eixos ortogonais considerando as pontuações referentes aos seis indicadores dos Meios de Hospedagem estudados dentro da APA (abaixo à direita), fora da APA (abaixo à esquerda) e ambos (gráfico maior)

A análise do gráfico de correlação entre as variáveis indica a correlação entre os seis indicadores, demonstrada na Figura 32 e na Tabela 7,

xxxv confirmando a análise exploratória anteriormente descrita. Os indicadores “energia”, “condições sanitárias” e “água” aparecem de forma a sugerir uma correlação forte entre eles, ou seja, os meios de hospedagem que receberam pontuação alta em um destes indicadores teriam maior probabilidade de um bom desempenho também nos outros dois. Da mesma forma, os dados sobre os indicadores “biota”, “condições sócio-econômicas” e “conforto ambiental” sugerem forte correlação entre eles.

A análise dos gráficos em conjunto (FIGURAS 31 e 32) permite a constatação de que os meios de hospedagem situados dentro da APA, por seu posicionamento no gráfico de eixos ortogonais, possuem uma tendência a um melhor desempenho nas variáveis “conforto ambiental”, “biota” e “condições sócio-econômicas”, concentradas, também, no quadrante superior direito de ambos os gráficos.

Correlação entre variáveis
1.0
SÓCIO-CULTURAL CONFORTO BIOTA

0.5 FATOR 2 0.0

xxxvi

Figura 19 - Gráfico de correlação entre as variáveis

ENERGIA

CONFORTO AMBIENTAL

CONDIÇÕES SANITÁRIAS

ÁGUA

BIOTA

CONDIÇÕES SÓCIOECONÔMICAS

ENERGIA CONFORTO AMBIENTAL CONDIÇÕES SANITÁRIAS ÁGUA BIOTA CONDIÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS

1,0000 0,0990 0,3477 0,4807 0,1173 0,0210

1,0000 0,1407 0,4522 0,6652 0,8424

1,0000 0,4772 0,2618 0,0507

1,0000 0,4990 0,3315

1,0000 0,7138

1,0000

Tabela 7: correlação entre os indicadores

3.2.3 Análise de agrupamento

O objetivo da análise estatística de agrupamento, ou cluster analysis, é encontrar e separar objetos em grupos similares, mesmo a partir de um grande número de parâmetros, de forma a evidenciar aspectos marcantes da amostra (GIMENES et al., 2004). A classificação hierárquica a partir dos resultados desta pesquisa resultou no dendograma da Figura 20, executado utilizando a distância euclidiana.

Dendograma é uma figura em forma de árvore, horizontal, com ramificações interligando dois eventos, dois grupos de eventos ou um evento a

xxxvii um grupo deles. Conforme a distância a partir do ponto 0 aumenta, também aumentam as diferenças entre os eventos ou grupos de eventos interligados.

A análise do dendograma sugere uma grande diferenciação entre todos os meios de hospedagem deste estudo. No entanto, alguns agrupamentos foram formados e podem indicar semelhanças entre as pousadas de cada um dos dois grupos.

Por exemplo, os eventos 42 e 7 possuem grande semelhança, embora o primeiro esteja dentro da APA e o segundo, fora. Suas pontuações em todos os parâmetros foram idênticas, e não apenas na somatória final, o que confirma e explica o agrupamento indicado no dendograma. No entanto, são dois eventos que diferenciam-se muito dos demais, fato demonstrado na distância de sua interligação com os outros eventos. A análise das pontuações das pousadas referentes aos eventos 42 e 7 demonstra a causa desta grande diferenciação: diferentemente da grande maioria dos meios de hospedagem, ambas receberam pontuação alta no parâmetro “energia”, 140,4 pontos.

Por outro lado, estão dentro da APA os eventos 28 e 29 e estão fora da APA os eventos 23 e 24, duas duplas que aparecem no dendograma com evidente semelhança e pontuações muito próximas em todos os parâmetros. A mesma análise pode ser feita para os eventos 20 e 21, para os eventos 17, 18 e 19 e os eventos 15 e 16, todos de grande semelhança e fora da APA. Ainda com razoável semelhança aparecem os eventos 6, 41 e 39, embora neste caso apenas o primeiro pertença ao grupo de fora da APA.

xxxviii

Para se verificar a existência de grupos com relativa semelhança observa-se eventos interligados a uma distância relativamente pequena. Desta maneira, destacam-se quatro agrupamentos (Figura 21). O primeiro, composto pelos eventos 36, 33, 35 e 31, caracteriza-se por apresentar todos de fora da APA. No segundo, com os eventos 32, 29, 28, 30, 34, 38, 5 e 40, apenas um é de dentro da APA, ou seja 12,5% dos eventos. Há, no entanto, equilíbrio entre os dois tipos de pousadas no terceiro grupo, formado pelos eventos 48, 44, 9, 8, 37, 6, 41, 39, 43, 10, 14 e 49. São cinco de dentro da APA e 7 de fora. Todos os eventos do quarto grupo são de dentro da APA, 11, 12, 16, 15, 18, 17, 19, 20, 21, 22, 24, 23, 25.

Três dos grupos, portanto, apresentam características próprias e específicas, o que confirma a relativa diferenciação entre os dois tipos de pousadas, apesar do fato de que há um grande número de pousadas que não se ligam entre si. Este fato indica uma individualização excessiva em ambas as situações, dentro e fora da APA, ou seja, que as características de grande parte das pousadas não permitem agrupamentos por semelhança. Neste caso, evidenciam-se eventos como os 47, 26 e 1, representando pousadas cujos conjuntos de características são altamente específicos e significativamente diferentes de todas as demais.

xxxix

42 7 1 4 2 3 27 36 33 35 31 32 29 28 30 34 38 5 40 48 44 9 8 37 6 41 39 43 10 14 49 45 11 12 16 15 18 17 19 20 21 22 24 23 25 13 46 50 51 26 47

0

FORA DA APA

10

20
D I S T Â N C IA S

30

40

Figura 20 - Dendograma dos meios de hospedagem

xl

42 7 1 4 2 3 27 36 33 35 31 32 29 28 30 34 38 5 40 48 44 9 8 37 6 41 39 43 10 14 49 45 11 12 16 15 18 17 19 20 21 22 24 23 25 13 46 50 51 26 47

0

FORA DA APA

10

20
D I S T Â N C IA S

30

40

Figura 21 - Dendograma dos meios de hospedagem e a representação de agrupamentos observados

xli 3.3 GERAIS

Após a totalização dos pontos obtidos por cada meio de hospedagem em cada pergunta, depois em cada parâmetro (APÊNDICE 1) e, depois ainda, no conjunto de parâmetros, chegou-se à média dos que se localizam dentro e fora da Área de Proteção Ambiental, em comparação entre eles e com a pontuação máxima a ser obtida, no caso, 1000 pontos. A média dos meios de hospedagem dentro da APA resultou 401 pontos, enquanto a média das pousadas fora da APA chegou a 310 pontos. Respectivamente, esses valores significam que, em média, o primeiro grupo conquistou 40,1% dos pontos possíveis e o segundo, 31% (Figura 16).

PONTUAÇÃO MÉDIA TOTAL OBTIDA PELOS MEIOS DE HOSPEDAGEM PESQUISADOS

1000 900 800 700 600 500 400 300 200 100 0
FORA DA APA PONTUAÇÃO MÁXIMA DENTRO DA APA

40% 31%

Figura 22 – Pontuação média total obtida pelos meios de hospedagem pesquisados e porcentagem relativa à pontuação máxima, separados nos grupos “dentro da APA” e “fora da APA”.

xlii

Nove pontos percentuais é a diferença de um grupo para o outro. É uma diferença pouco significativa, mas caracteriza uma leve superioridade daquele localizado dentro da APA. Para pousadas em áreas protegidas a pontuação equivalente a apenas 40% sugere que muito ainda deve ser corrigido e a análise de cada parâmetro pode melhor direcionar a interpretação dos resultados desta pesquisa.

A Figura 17 apresenta, em superposição e em ordem crescente de pontuação, o total de pontos recebidos por cada meio de hospedagem, os 26 fora da APA e os 25 dentro da APA, destacando, também, a pontuação máxima, no caso 1000 pontos. A análise resultante é similar à anterior: apesar de destacar superioridade dos meios de hospedagem internos à APA, é visível a grande distância de ambos os grupos em relação à pontuação máxima.

xliii

PONTUAÇÃO TOTAL OBTIDA PELOS MEIOS DE HOSPEDAGEM PESQUISADOS DIVIDIDOS EM "DENTRO DA APA" E "FORA DA APA" 1000 900 800 700 600 500 400 300 200 100 0
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 C LA SSIF IC A ÇÃ O D OS M EIOS D E HOSPED A GEM PONTUAÇÃO M ÁXIM A FORA DA APA DENTRO DA APA

Figura 23 – Pontuação total obtida pelos meios de hospedagem pesquisados, sobrepondo os grupos “dentro da APA” e “fora da APA” e a pontuação máxima.

Este formato de gráfico possibilita a visualização em superposição do desempenho dos dois grupos e a comparação entre eles. O diferencial a favor do grupo composto por pousadas de dentro da APA é reforçado se analisamos o número de unidades amostrais que receberam pontuação total abaixo de 300 pontos. Apenas quatro, contra doze do outro grupo.

A mesma análise é válida se contarmos o número de meios de hospedagem com pontuação total acima de 400 pontos. São 14 do grupo dentro da APA, contra apenas seis do outro grupo.

Os resultados indicam haver maior preocupação com as intervenções arquitetônicas de meios de hospedagem se eles se encontram no interior de

xliv áreas protegidas, ao mesmo tempo em que retratam uma realidade em que essa diferença é relativamente pequena em relação ao grupo de pousadas de fora da APA e, principalmente, bastante distante da pontuação máxima. Este quadro indica uma realidade em que a arquitetura do meio de hospedagem e suas características relacionadas à sustentabilidade não aparecem como prioridade à maioria dos empreendedores dessa atividade econômica. Argumentos relativos à economia resultante da operação de um edifício “ecológico” ou diferenciais mercadológicos pela crescente demanda por instalações sustentáveis ainda não parecem convencer empresários.

A análise a seguir, por parâmetros, pode indicar interpretações úteis à compreensão do tema.

3.4

PARÂMETROS

São seis os indicadores sócio-ambientais que compõem a matriz de avaliação desta pesquisa: energia, conforto ambiental, condições sanitárias, água, biota e condições sócio-econômicas. O desempenho das instalações dos meios de hospedagem em relação a cada um deles pode apresentar novos ângulos à interpretação do resultado aqui apresentado.

A Figura 18 apresenta a pontuação média dos meios de hospedagem dentro e fora da APA, para cada parâmetro, sempre comparando com a pontuação máxima a ser obtida, lembrando que cada parâmetro recebeu um

xlv peso diferente, proporcional à sua relevância, de acordo com o autor e alguns especialistas consultados.

PONTUAÇÃO MÉDIA POR PARÂMETRO OBTIDA PELOS MEIOS DE HOSPEDAGEM PESQUISADOS

250

200

150

100

59% 70%

58% 21% 14% 15%
BIOTA CONDIÇÕES SÓCIOECONÔMICAS

60% 46% 32%

45% 50 17% 18%
ENERGIA CONFORTO AMBIENTAL CONDIÇÕES SANITÁRIAS

ÁGUA

FORA DA APA PONTUAÇÃO MÁXIMA DENTRO DA APA

Figura 24 – Pontuações médias por parâmetro e porcentagens em relação às pontuações máximas obtidas pelos grupos de meios de hospedagem pesquisados, “dentro da APA” e “fora da APA”, e as pontuações máximas de cada parâmetro.

3.4.1 ÁGUA

Os especialistas determinaram as questões relacionadas à água como as mais importantes, no que diz respeito à sustentabilidade das edificações dos meios de hospedagem. Aproveitamento de água de chuva ou, então, de águas servidas (de ralos), captação e tratamento adequado, métodos formais de economia de água (troca de toalhas e roupa de cama a cada dois ou três dias, por exemplo), utilização de equipamentos de baixo consumo, como caixas de

xlvi descarga com opções de volume, temporizadores e aeradores nas torneiras; além dessas opções, educação direta e indireta sobre consumo de água é uma possível característica da arquitetura que pode afetar este consumo e aumentar sua adequação sócio-ambiental.

As porcentagens médias dos meios de hospedagem fora e dentro da APA, em relação à pontuação máxima foram, respectivamente, 14% e 21%. São números muito baixos, principalmente para um parâmetro de importância destacada. Praticamente nenhum meio de hospedagem possui equipamentos voltados à economia de água, ou mesmo dispõe de algum tipo de educação voltada à conscientização sobre o tema. É comum, sim, a prática de trocar toalhas a cada dois dias, com exceção de quando o cliente solicita a troca diária: 22 pousadas, entre as que estão dentro da APA e 11 fora da APA; ou seja, 88% das pousadas do primeiro grupo praticam a troca de toalhas a cada dois dias e apenas 42% do segundo grupo adotam esta prática de forma regular.

O conhecimento e a prática de ações voltadas à racionalização de consumo e economia de água ainda parecem ser apenas teoria, para os grupos estudados, que indicam retratar, em sua arquitetura, uma realidade de descaso com a perspectiva de escassez ou redução de disponibilidade deste recurso para a sociedade.

xlvii A observação do gráfico (Figura 19) permite observar a grande similaridade entre os dois grupos, que praticamente se confundem, e a distância de ambos entre a pontuação máxima para o parâmetro “água”.

P O N T UA ÇÃ O O B T ID A N O P A R Â M E T R O "Á G UA " P E LO S M E IO S D E H O S P E D A G E M P E S Q UIS A D O S D IV ID ID O S E M "D E N T R O D A A P A " E "F O R A D A A P A "

220 200 180 160 140 120 100 80 60 40 20 0
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26
C LA S S I FI C A Ç ÃO D OS M EI OS D E H OS P ED A GEM N ES TE P A R ÂM ETR O PONTUAÇÃO MÁXIMA FORA DA APA DENTRO DA APA

Figura 25 – Pontuações obtidas no parâmetro “água” pelos meios de hospedagem pesquisados, sobrepondo os grupos “dentro da APA” e “fora da APA”, e as pontuações máximas deste parâmetro.

Marques (2000) ao estudar eco-pousadas (“ecolodges”) na região do Amazonas e em doze unidades pesquisadas identificou que 75% não tratavam sua água, 77% possuíam poços artesianos e os outros obtinham água de concessionárias públicas ou a tratavam com cloro. Aquele estudo não abordou questões relacionadas ao consumo, economia ou racionalização da utilização da água, mas mostrou uma prática comum aos meios de hospedagem distantes de centros urbanos e dos sistemas de abastecimento de água por empresas concessionárias, como as eco-pousadas: poços artesianos, coleta direta de nascentes, rios ou lagos. A constatação desta pesquisa de que há

xlviii pouca iniciativa e ações práticas de proprietários de pousadas, sejam em áreas protegidas ou não, no que diz respeito ao controle do consumo de água ganha importância quando a grande maioria dos meios de hospedagem em meio natural parece retirar água de aqüíferos sem critério e sem preocupação com o risco de redução da sua disponibilidade.

3.4.2 ENERGIA

O segundo parâmetro em importância para o grupo de especialistas é a energia. Enquanto a pontuação máxima do parâmetro “água” foi definida como 215, a determinada para “energia” foi 200, muito próxima e demonstra, ainda, grande importância do tema.

Mais uma vez, o desempenho da arquitetura dos meios de hospedagem num quesito importante foi muito fraco. Praticamente idênticos, os percentuais em referência à pontuação máxima dos dois grupos estudados, dentro e fora da APA, foram 18% e 17%. Isto significa, mais uma vez, muito pouca atenção e investimentos significativos. numa área que pode trazer economia e diferenciais

Fontes sustentáveis e alternativas de energia, métodos, materiais e equipamentos voltados à economia de energia, como sensores de presença para iluminação, aparelhos certificados de baixo consumo, ventilação natural, aquecimento e geração solar de energia, geradores eólicos, hidroelétricas de pequeno porte são opções de que empreendedores podem se utilizar para criar

xlix economia e melhorar a sustentabilidade da arquitetura e de seu

empreendimento.

Assim como nas questões relacionadas à água, a arquitetura estudada parece ainda não aplicar conceitos modernos relacionados a consumo e racionalização do consumo de energia. Por exemplo, apenas dez pousadas, cinco de cada grupo, utilizam coletores solares para aquecimento da água de banho. Isto significa 19% e 20% dos meios de hospedagem, em cada grupo, utilizando uma fonte sustentável de energia, número que indica timidez na iniciativa de buscar sustentabilidade para os empreendimentos e para o turismo em áreas frágeis e protegidas.

Na observação do gráfico (Figura 20), mais uma vez destacam-se a semelhança entre os dois grupos, a distância da pontuação máxima e a indicação de que, assim como no importante quesito “água”, é indiferente, para a arquitetura praticada por meios de hospedagem, estar dentro ou fora de uma área protegida.

l

PONTUAÇÃO OBTIDA NO PARÂMETRO "ENERGIA" PELOS MEIOS DE HOSPEDAGEM PESQUISADOS DIVIDIDOS EM "DENTRO DA APA" E "FORA DA APA" 200 180 160 140 120 100 80 60 40 20 0
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26
C LA S S I FI C A Ç ÃO D OS M EI OS D E H OS P ED A GEM N ES TE P A R ÂM ETR O

PONTUAÇÃO M ÁXIM A

FORA DA APA

DENTRO DA APA

Figura 26 – Pontuações obtidas no parâmetro “energia” pelos meios de hospedagem pesquisados, sobrepondo os grupos “dentro da APA” e “fora da APA”, e as pontuações máximas deste parâmetro.

No estudo de Marques (2000) na região do Amazonas em doze unidades pesquisadas apenas uma utilizava energia alternativa, incluindo velas e lampiões a querosene; este meio de hospedagem, ainda, dispunha de técnicas de economia de energia, como baterias para suprimento de eletricidade. Segundo a autora, outro hotel de selva também utilizava velas e lampiões a gás, mas havia experimentado painéis solares nas áreas públicas, com resultado pouco satisfatório. Como a maioria dos outros hotéis, este utiliza um gerador, que é desligado à noite devido ao ruído. A pesquisa descobriu que 41,7% dos proprietários de eco-pousadas do Amazonas pesquisadas interessavam-se por energia solar e 20% pela eólica.

O resultado apresentado por Marques (2000) corrobora com o desta pesquisa e confirma a conclusão de que há muito a se conquistar no quesito energia no setor de turismo, inclusive aquele que a autora define como “dependente dos recursos naturais”. Na região da presente pesquisa parece

li haver necessidade de estudos técnicos sobre coletores solares para aquecimento de água, tendo em vista alguns relatos de corrosão precoce devida às características da água de Itacaré.

Mesmo assim, e de forma similar à análise quanto à racionalização de consumo de água, pouco se faz para diminuir a utilização de energia nos meios de hospedagem pesquisados. Todos são servidos pela concessionária local e o custo da eletricidade ainda é relativamente baixo e desestimula investimentos em alternativas. Parece claro que o setor de hospitalidade, de forma geral, ainda não incorporou em sua rotina procedimentos de eficiência energética.

3.4.3 CONDIÇÕES SANITÁRIAS

As condições sanitárias proporcionadas pela arquitetura referem-se a como a construção afeta questões relacionadas aos resíduos, sólidos ou líquidos. A opção pela reutilização de itens consumidos no dia-a-dia do meio de hospedagem, por separar lixo reciclável, por tratar adequadamente os efluentes, seja encaminhando para a coleta de uma concessionária, seja construindo fossas sépticas e sumidouros de acordo com as normas sanitárias.

A observação do gráfico (Figura 21) mostra, mais uma vez, bastante semelhança entre os dois grupos estudados, dentro e fora da APA no quesito “condições sanitárias”. A diferença, agora, consiste na porcentagem de ambos em relação à pontuação máxima: 58% e 59%, respectivamente, ou seja, com leve vantagem para o grupo de fora da APA. Enquanto 17 pousadas de dentro

lii da APA possuem algum tipo de coleta seletiva de lixo, 14 de fora da APA adotam tal prática, mesmo parcial. 68% e 54% são números que indicam razoável atitude em relação aos resíduos sólidos e, ainda, pouca diferença entre os dois grupos, mas leve vantagem para os de dentro da APA.

O que ajuda a aumentar a pontuação em ambos os grupos é a quase unânime opção por tratamentos adequados dos efluentes líquidos, fossas sépticas com sumidouros, com três exceções entre os de fora da APA e duas, de dentro da APA, em que há evidência de tratamento insuficiente dos resíduos líquidos.

Há, portanto, semelhança entre os dois grupos estudados e maior proximidade da pontuação máxima para este parâmetro, confirmando a interpretação anterior.

PONTUAÇÃO OBTIDA NO PARÂMETRO "CONDIÇÕES SANITÁRIAS" PELOS MEIOS DE HOSPEDAGEM PESQUISADOS DIVIDIDOS EM "DENTRO DA APA" E "FOR A DA APA" 180 170 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26
C LA S S I FI C A Ç ÃO D OS M EI OS D E H OS P ED A GEM N ES TE P A R ÂM ETR O

PONTUAÇÃO M ÁXIM A

FORA DA APA

DENTRO DA APA

liii
Figura 27 – Pontuações obtidas no parâmetro “condições sanitárias” pelos meios de hospedagem pesquisados, sobrepondo os grupos “dentro da APA” e “fora da APA”, e as pontuações máximas deste parâmetro.

No estudo de Marques (2000) sobre eco-pousadas (“ecolodges”) na região do Amazonas, em doze unidades pesquisadas, 91,7% tratavam efluentes com sistemas sépticos eficientes, mas simples, enquanto apenas 9,1% usavam outros métodos. Estes dados espelham-se na presente pesquisa, onde o percentual em relação à pontuação máxima obtida pelos meios de hospedagem foi o maior dentre todos os parâmetros. A preocupação com o destino dos efluentes já é antiga e incorporada em projetos e implantações de meios de hospedagem. No caso desta pesquisa, apesar de não serem servidas por coleta de esgotos por empresa concessionária, as pousadas demonstraram preocupação e a grande maioria possui fossas sépticas com sumidouro, seja por preocupação ambiental ou por mera intenção em reduzir a poluição visual, dos recursos hídricos e atmosférica, o que afastaria seus clientes.

3.4.4 CONDIÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS

A arquitetura de um meio de hospedagem pode afetar as condições sócio-econômicas através da possibilidade de gerar emprego e renda, promover a cultura local através do estilo, das cores e dos materiais, assim como da utilização da produção de artesãos locais na decoração e mobiliário, por exemplo.

Neste parâmetro ficou evidenciada a diferença do desempenho da arquitetura das pousadas localizadas na APA, com 60% da pontuação máxima

liv para esse quesito, contra 46% das pousadas fora da APA. Em ambos os grupos houve pouca ou nenhuma participação da comunidade na definição de localização e dimensões do empreendimento, enquanto é comum a participação de locais no dia-a-dia das pousadas, como funcionários ou prestadores de serviços.

O estilo, caracterizado pelos materiais, formas, cores e outras características plásticas da construção, reflete plenamente a cultura e a arquitetura local em 19 pousadas e parcialmente em duas pousadas no grupo de dentro da APA, 76% e 8%, totalizando 84% das pousadas deste grupo. No outro grupo, são apenas quatro (15%) que têm na arquitetura o reflexo da cultura local e 16 (62%) parcialmente, totalizando 77%. As evidências são de que há maior conscientização dos empreendedores de meios de hospedagem na APA em relação às práticas arquitetônicas e à cultura local.

O gráfico (Figura 22) mostra que, mesmo com as demonstrações citadas anteriormente, há meios de hospedagem com muito baixa pontuação no parâmetro “condições sócio-econômicas” nos dois grupos estudados; abaixo de 60 pontos (44% da pontuação máxima) há duas pousadas de dentro da APA e nove de fora da APA, o que demonstra que o grau de preocupação não é unânime.

lv

PONTUAÇÃO OBTIDA NO PARÂMETRO "CONDIÇÕES SÓCIOECONÔMICAS" PELOS MEIOS DE HOSPEDAGEM PESQUISADOS DIVIDIDOS EM "DENTRO DA APA" E "FOR A DA APA" 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 C LA SSIF IC A ÇÃ O D OS M EIOS D E HOSPED A GEM N EST E PA R Â M ET R O PONTUAÇÃO M ÁXIM A FORA DA APA DENTRO DA APA

Figura 28 – Pontuações obtidas no parâmetro “condições sócio-econômicas” pelos meios de hospedagem pesquisados, sobrepondo os grupos “dentro da APA” e “fora da APA”, e as pontuações máximas deste parâmetro.

3.4.5 BIOTA

A influência da arquitetura sobre fauna e flora (biota) refere-se à preocupação com as espécies animais e vegetais durante as fases de projeto, execução e operação de um meio de hospedagem. Bloquear caminhos naturais de animais, excesso de iluminação ou ruído, manter animais em cativeiro, por exemplo. Ainda, há maneiras sustentáveis de combater pragas, mantendo-as afastadas ao invés de exterminá-las. Ou, eliminar espécies vegetais nativas e utilizar espécies exóticas no paisagismo.

lvi Dentre as pousadas localizadas no interior da APA, 56% demonstraram, através da arquitetura e paisagismo, consciência ecológica na escolha de espécies vegetais locais e 36% demonstraram consciência parcial. Por outro lado, apenas 16% das pousadas fora da APA desenvolveram padrão arquitetônico e paisagístico com plena consciência ecológica e 65% com consciência parcial. Empreendedores de meios de hospedagem em áreas protegidas parecem desenvolver maior sensibilidade ambiental em relação às questões da flora, o que não acontece em relação à fauna.

Combinando as duas questões, fauna e flora, a pontuação dos meios de hospedagem em relação à pontuação máxima ainda é pequena, com sensível vantagem para as pousadas de dentro da APA. Enquanto apenas oito pousadas (30%), do grupo de fora da APA, obtiveram pontuação acima de 40 pontos (28% da pontuação máxima), esse número sobe para treze (52%), no grupo de dentro da APA. Fauna e flora são indicadores importantes da sustentabilidade ambiental e os dados indicam que há, ainda, pequena preocupação com eles por parte dos meios de hospedagem e refletida em sua arquitetura e paisagismo.

lvii

PONTUAÇÃO OBTIDA NO PARÂMETRO "BIOTA" PELOS MEIOS DE HOSPEDAGEM PESQUISADOS DIVIDIDOS EM "DENTRO DA APA" E "FOR A DA APA" 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 C LA SSIF IC A ÇÃ O D OS M EIOS D E HOSPED A GEM N EST E PA R Â M ET R O PONTUAÇÃO M ÁXIM A FORA DA APA DENTRO DA APA

Figura 29 – Pontuações obtidas no parâmetro “biota” pelos meios de hospedagem pesquisados, sobrepondo os grupos “dentro da APA” e “fora da APA”, e as pontuações máximas deste parâmetro.

3.4.6 CONFORTO AMBIENTAL

Talvez este parâmetro seja o mais percebido pelo usuário do meio de hospedagem. Mesmo assim, foi considerado pelo autor e especialistas, relativamente, o de menos peso como parâmetro de sustentabilidade na arquitetura. O conforto ambiental é percebido nas características isolantes dos materiais e cores, no sombreamento, na posição e dimensões das aberturas, o que determina iluminação e ventilação, na divisão espacial e sensações em geral.

A arquitetura dos meios de hospedagem dentro da APA obteve seu melhor desempenho, nesta pesquisa, no parâmetro “conforto ambiental”: 70%

lviii da pontuação máxima. Isto significa um cuidado especial com as

características de suas instalações relacionadas ao conforto. 56% das pousadas de dentro da APA utilizam adequadamente o paisagismo para sombrear e maximizar a ventilação natural e 36% utilizam parcialmente este recurso, enquanto apenas 23% das pousadas do outro grupo o utilizam completamente e 23% parcialmente. Mais uma vez o grupo de dentro da APA demonstra adequação. utilizar recursos arquitetônicos e paisagísticos com maior

O gráfico (Figura 24) mostra a grande variedade de pontuações nos dois grupos. Há pousadas com pontuação máxima, no grupo de dentro da APA e, neste mesmo grupo, há uma pousada com pontuação zero. Enquanto a maioria das pousadas deste grupo apresentou pontuação bastante próxima à máxima, 14 acima de 100 pontos, o outro grupo apresenta apenas uma pousada com essa pontuação. Mais uma vez, e agora de forma bastante evidente, o grupo de dentro da APA atingiu desempenho com grande diferença em relação ao outro grupo.

lix

PONTUAÇÃO OBTIDA NO PARÂMETRO "CONFORTO AMBIENTAL" PELOS MEIOS DE HOSPEDAGEM PESQUISADOS DIVIDIDOS EM "DENTRO DA APA" E "FORA DA APA" 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 C LA S S I FI C A Ç ÃO D OS M EI OS D E H OS P ED A GEM N ES TE P A R ÂM ETR O

PONTUAÇÃO M ÁXIM A

FORA DA APA

DENTRO DA APA

Figura 30 – Pontuações obtidas no parâmetro “conforto ambiental” pelos meios de hospedagem pesquisados, sobrepondo os grupos “dentro da APA” e “fora da APA”, e as pontuações máximas deste parâmetro.

3.5

QUESTÕES ESPECÍFICAS

Três questões, ainda, ilustram as diferenças de desempenho sócioambiental da arquitetura de meios de hospedagem dentro e fora da APA.

Como já foi demonstrado, 86% das pousadas de dentro da APA refletem a cultura local em sua arquitetura, em oposição a 45% das de fora da APA. 76% dos meios de hospedagem utilizam adequadamente as aberturas para promover ventilação natural em detrimento da ventilação forçada ou refrigeração artificial. E 70% das pousadas na APA conseguem, através de recursos arquitetônicos, prover de luz natural grande parte dos ambientes, dispensando grande quantidade de iluminação elétrica durante o dia. As do outro grupo apresentam índice de apenas 33%.

lx

PONTUAÇÃO MÉDIA OBTIDA POR MEIOS DE HOSPEDAGEM
QUESTÕES ESPECÍFICAS

35 30 25 20 15 10 5 0
ESTILO E DECORAÇÃO ABERTURAS LUZ SOLAR X ELÉTRICA REFLETEM CULTURA FAVORECEM LOCAL VENTILAÇÃO NATURAL FORA DA APA PONTUAÇÃO MÁXIMA DENTRO DA APA

86% 76% 70%

45 %

43% 33%

Figura 31 – Pontuações médias e porcentagens em relação à pontuação máxima obtidas em três questões específicas pelos meios de hospedagem pesquisados, “dentro da APA” e “fora da APA”, e as pontuações máximas de cada questão.

São questões específicas de relevância para a arquitetura e refletem uma maior adequação sócio-ambiental da arquitetura dos meios de hospedagem dentro da APA. Mais do que isso, apresentam pontuação próxima à pontuação máxima para estas questões.

3.6

CORRELAÇÕES ENTRE OS PARÂMETROS

lxi Uma das características dos dados coletados é a grande variação de pontuações obtidas nos seis parâmetros entre os meios de hospedagem. Por exemplo, um meio de hospedagem pode ter recebido uma pontuação total alta graças a um desempenho excelente em apenas um ou dois parâmetros, apesar de ter obtido pontuações baixas nos outros quesitos. Este fato é comprovado após a análise da Figura 26: dos dez meios de hospedagem que receberam as maiores pontuações totais, apenas quatro estavam entre os dez com maiores pontuações tanto no parâmetro “água” quanto no “condições sanitárias” e cinco no parâmetro “energia”. Ou seja: das dez pousadas com maiores pontuações, mais da metade não obtiveram boas notas nos importantes quesitos “água”, “condições sanitárias” e “energia” e, por outro lado, receberam pontuação superior em “conforto ambiental”, “biota” e “condições sócio-econômicas”.

lxii

Quantidade de Meios de Hospedagem que receberam as 10 m aiores pontuações no "Total Geral" e que tam bém ficaram entre os 10 com m aiores pontuações em cada parâm etro

10 9 8 8 7 7 6 5 5 4 4 3 2 1 0
ENERGIA CONFORTO AM BIENTAL CONDIÇÕES SANITÁRIAS ÁGUA BIOTA CONDIÇÕES -SÓCIO ECONÔM ICAS

7

4

Figura 32 – Quantidade de Meios de Hospedagem que receberam as 10 maiores pontuações no “Total Geral” e que também ficaram entre os 10 com maiores pontuações em cada parâmetro.

Em análise semelhante e considerando os meios de hospedagem desta pesquisa, independentemente de sua localização, que tenham obtido as dez maiores pontuações no parâmetro “energia”, e comparando-os com as pontuações recebidas nos outros, pode-se estabelecer relações entre os parâmetros. Daqueles, oito meios de hospedagem também receberam pontos suficientes para estarem entre as dez maiores pontuações do parâmetro “água”, enquanto para os demais parâmetros este número resultou em menos de cinco pousadas, conforme indicado na Figura 27. Este fato indica uma correlação entre os parâmetros “energia” e “água” e sugere que a preocupação com consumo e utilização racional destes recursos acontece de forma semelhante e simultânea. Ao mesmo tempo, percebe-se uma consciência não-

lxiii linear em relação aos princípios do turismo sustentável, reforçada pelo fato de que apenas um meio de hospedagem aparece entre os dez mais bem pontuados em todos os parâmetros.

Quantidade de Meios de Hospedagem que receberam as 10 m aiores pontuações em "Energia" e que tam bém ficaram entre os 10 com m aiores pontuações nos outros parâm etros 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 0
CONFORTO AMBIENTAL CONDIÇÕES SANITÁRIAS ÁGUA BIOTA CONDIÇÕES SÓCIOECONÔMICAS

8

5 4 3 4

Figura 33 – Quantidade de Meios de Hospedagem que receberam as 10 maiores pontuações em “Energia” e que também ficaram entre os 10 com maiores pontuações nos outros parâmetros.

Considerando a questão principal deste estudo, o diferencial da arquitetura de meios de hospedagem dentro de áreas protegidas, a análise da relação entre os seis parâmetros sugere áreas em que há efetivos avanços e a prática aproxima-se do que se espera da arquitetura de meios de hospedagem em áreas protegidas e que respeitem os princípios do turismo sustentável. A Figura 26 indica quantos meios de hospedagem, dentre os dez de maiores pontuações em cada parâmetro e no total geral, estão localizados dentro da APA. O resultado é claro: todas as dez pousadas com maiores pontuações em “conforto ambiental” e “condições sócio-econômicas” estão localizadas na APA. E no quesito “biota”, são nove dentro da APA. Para os parâmetros “’água”,

lxiv “condições sanitárias” e “energia”, foram, respectivamente, apenas seis, seis e cinco meios de hospedagem dentro da APA. No total geral, dos dez meios de hospedagem com maiores pontuações, oito estão dentro da APA. Esta análise indica possíveis avanços na forma de pensar e agir de proprietários de meios de hospedagem em áreas protegidas em relação a assuntos ligados a geração de emprego e renda, apoio a produtores locais, respeito à cultura regional, ao mesmo tempo em que demonstra um reconhecimento da importância da adequação ao clima e do diferencial de adaptar aberturas, sombreamento, materiais, cores para aumentar o conforto ambiental de hóspedes e usuários. Por outro lado, questões declaradas pelos especialistas como de maior importância, as relacionadas à racionalização do consumo de recursos como água e energia parecem, mais uma vez, relegadas a segundo plano, seja pela aparente abundância e facilidade de acesso na região estudada, seja pela falta de consciência, ou pela relação custo-benefício insuficiente.

Quantidade de Meios de Hospedagem que receberam as 10 maiores pontuações em cada parâmetro e estão localizados dentro da APA

10 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 0 9 8 6 5 6

10

TOTAL GERAL

ENERGIA

CONFORTO AMBIENTAL

CONDIÇÕES SANITÁRIAS

ÁGUA

BIOTA

CONDIÇÕES SÓCIOECONÔMICAS

Figura 34 – Quantidade de Meios de Hospedagem que receberam as 10 maiores pontuações em cada parâmetro e estão localizados dentro da APA.

lxv

lxvi

PARTE 4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

Áreas protegidas são importantes instrumentos de controle da degradação causada pela intervenção humana em áreas naturais, frágeis e de preservação prioritária. Turismo em áreas protegidas pode significar diversos impactos negativos sobre recursos naturais e suas instalações deveriam significar modelos de respeito e cuidado com o patrimônio sócio-ambiental da região.

Meios de hospedagem são empreendimentos que precisam de atrativos naturais ou construídos para atrair clientes. No caso de áreas protegidas, a efetiva preservação dos recursos pode ser a garantia de longevidade ao negócio de hospedagem. Através da arquitetura de um meio de hospedagem o empreendedor pode alcançar alguns objetivos como:

1. Economia 2. Educação ambiental 3. Captação de clientes 4. Satisfação de clientes 5. Geração de emprego e renda 6. Aproximação com a comunidade 7. Benefícios ao meio ambiente

lxvii A pesquisa e seu resultado indicam a confirmação da metodologia aqui desenvolvida, MASArq, como um novo instrumento de avaliação da arquitetura, aqui utilizada para estudo de meios de hospedagem. A grande abrangência e a participação de especialistas com aplicação da técnica Delfos reforçam sua aplicabilidade, versatilidade e universalidade, apesar do caráter regional desta aplicação.

O estudo apresentado buscava compreender as diferenças entre a arquitetura de meios de hospedagem dentro e fora de uma área protegida, numa região especial para o meio ambiente e a biodiversidade mundial. O resultado foi bastante claro: sim, há diferenças e todas elas apontam para uma arquitetura mais consciente, mais adequada do ponto de vista sócio-ambiental, nas pousadas localizadas dentro da APA. Há questões e há parâmetros em que essa diferença assume grandes dimensões. Nas questões relacionadas a conforto ambiental e condições sócio-econômicas os dados apontam para um destaque do desempenho dessa arquitetura.

No entanto, nas outras premissas, há pequena variação entre os resultados da arquitetura de pousadas dentro e fora da APA e mais: os resultados foram ruins, muito aquém do que poderia ser esperado de meios de hospedagem em áreas protegidas ou, mesmo, fora de áreas protegidas e em localidades não-urbanas.

As questões consideradas prioritárias, pelo peso concedido pelo grupo de especialistas, “’água” e “energia”, são, também, questões de alcance

lxviii mundial. A escassez de água é uma realidade em diversas regiões do planeta e a atividade turística tem a responsabilidade de conservá-la sempre que possível, assim como o acesso à água limpa e potável será um importante determinante na definição de localização de empreendimentos turísticos. Segundo Tabasaran e Hilel (2003a) a escala do desafio é significativa, pois apenas nos Estados Unidos turismo e recreação consomem 946 milhões de metros cúbicos de água por ano, sendo que 60% deste volume referem-se à área de hospedagem. Na Europa, este volume equivale a 843 milhões de metros cúbicos, o consumo médio por turista europeu, considerado um padrão mundial, corresponde a 300 litros de água por dia e o consumo do turista de luxo pode ultrapassar 880 litros por dia.

O Encontro Mundial pelo Desenvolvimento Sustentável, em Joanesburgo (2002) registrou que o turismo é um dos setores que mais consomem energia e sugeriu aos governos que incluíssem a eficiência energética nas políticas relacionadas à atividade turística. O peso atribuído pelos especialistas nesta pesquisa justifica-se pela magnitude da importância do tema. Tabasaran e Hilel (2003b) afirmam que cerca de 50 bilhões de kWh são consumidos nos Estados Unidos anualmente apenas na área de hospedagem, e em todo o planeta esse número alcançaria 5.000 milhões de kWh, o equivalente a 80% do consumo energético do Japão. Como esse consumo está diretamente relacionado ao padrão do hotel, eco-pousadas têm, adicionalmente, vantagens por minimizálo. Dados indicam que, enquanto hotéis de uma estrela da rede Accor consomem 157 kWh por metro quadrado por ano, duas estrelas têm seu

lxix consumo aumentado em 46% e quatro estrelas chegam a mais de 380kWh por metro quadrado por ano (TABASARAN; HILEL, 2003b).

A pesquisa confirma uma realidade distante da solução de problemas que afetam o planeta e têm forte reflexo local. Tanto questões sobre a água quanto sobre energia têm abordagem superficial e inadequada pela grande maioria dos meios de hospedagem pesquisados, refletida por suas decisões arquitetônicas. Grandes problemas globais relacionados ao meio ambiente estão longe de serem entendidos e resolvidos na prática da construção turística e esse fato resulta em uma situação inaceitável em se tratando de construções de meios de hospedagem localizados numa região especial como a frágil Mata Atlântica do sul da Bahia.

Conclusão semelhante foi apresentada por Marques (2000). Após pesquisa com doze eco-pousadas na Amazônia, pôde concluir que apesar de estarem em uma região altamente inspiradora e utilizarem estilos

arquitetônicos baseados na cultura local, muito poucas práticas ligadas à sustentabilidade são refletidas em sua arquitetura. A autora confirma que não há padrões internacionalmente aceitos para a arquitetura de eco-pousadas, mas muitas de suas características já são bastante conhecidas.

Resultado: a pontuação geral da presente pesquisa reflete uma realidade preocupante. Há poucas exigências e padrões para as edificações de meios de hospedagem nas Unidades de Conservação de Uso Sustentável e, sem fiscalização e orientação, a sustentabilidade da arquitetura desse tipo de

lxx empreendimento acaba dependendo da consciência própria e ocasional de empreendedores que possuem idealismo e visão de futuro suficiente para investir em detalhes que, se não hoje, em muito breve deverão fazer grande diferença para a sociedade e para o negócio.

Outro direcionamento nas decisões de arquitetura reflete-se no conforto oferecido aos usuários e no respeito às características sócio-culturais locais; aparece com algum destaque nesta pesquisa, embora haja indicações de que isto seja devido ao diferencial mercadológico e à disponibilidade de materiais e mão-de-obra. Selengut (In: HAWKINS et al., 1995) já havia constatado que ecoturistas preferiram o contato com a natureza de suas eco-tendas em Maho Bay, nas Ilhas Virgens, ao luxo de seu resort Harmony State. Além da proximidade com o ambiente, Maho Bay foi construído utilizando materiais e técnicas ancestrais da região, com a participação de moradores locais, sem comprometer a qualidade da edificação para seus usuários.

Há, então, espaço para pesquisas que caminhem no sentido de compreender as vantagens práticas e os motivos que levam investidores a optar por uma arquitetura mais sensível às questões sócio-ambientais. Da mesma forma, este padrão de avaliação da arquitetura de meios de hospedagem, MASArq, pode ser modelo para dirigir e orientar novos empreendimentos hoteleiros em Unidades de Conservação ou em áreas naturais e frágeis, seja pela necessidade ambiental ou pelo diferencial mercadológico. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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lxxvii APÊNDICE 1

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