Fernando Pessoa

Cancioneiro
Ciberfil Literatura Digital

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Versão para Adobe Acrobat Reader por Rodolfo S. Cassaca

Março de 2002 Permitida a distribuição Visite nosso site: www.ciberfil.hpg.ig.com.br ou mande-nos um e-mail: ciberfil@yahoo.com

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Cancioneiro:
Nota Preliminar 1. Em todo o momento de atividade mental acontece em nós um duplo fenômeno de percepção: ao mesmo tempo que tempos consciência dum estado de alma, temos diante de nós, impressionando-nos os sentidos que estão virados para o exterior, uma paisagem qualquer, entendendo por paisagem, para conveniência de frases, tudo o que forma o mundo exterior num determinado momento da nossa percepção. 2. Todo o estado de alma é uma passagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espírito. E — mesmo que se não queira admitir que todo o estado de alma é uma paisagem — pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. Se eu disser “Há sol nos meus pensamentos”, ninguém compreenderá que os meus pensamentos são tristes.

3. Assim, tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espírito, e
sendo o nosso espírito uma paisagem, tempos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens. Ora, essas paisagens fundem-se, interpenetram-se, de modo que o nosso estado de alma, seja ele qual for, sofre um pouco da paisagem que estamos vendo — num dia de sol uma alma triste não pode estar tão triste como num dia de chuva — e, também, a paisagem exterior sofre do nosso estado de alma — é de todos os tempos dizer-se, sobretudo em verso, coisas como que “na ausência da amada o sol não brilha”, e outras coisas assim. De maneira que a arte que queira representar bem a realidade terá de a dar através duma representação simultânea da paisagem interior e da paisagem exterior. Resulta que terá de tentar dar uma intersecção de duas paisagens. Tem de ser duas paisagens, mas pode ser — não se querendo admitir que um estado de alma é uma paisagem — que se queira simplesmente interseccionar um estado de alma (puro e simples sentimento) com a paisagem exterior. [...]

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................. 11 A morte chega cedo...................................... 35 Chove ? Nenhuma chuva cai.............. 23 (?) Azul ou verde ou roxo ..ÍNDICE Abat-Jour........................................... 46 De quem é o olhar ............ 47 Ditosos a quem acena.......... 16 As horas pela alameda.......................................................................................... 27 Bate a luz no cimo................................................................................................................................................................................................................................................................................... 49 4 ................................................................................................................. .................................. 28 Brilha uma Voz na Noute .................................................................................................................................. ao luar ........... 31 Cerca de grandes muros quem te sonhas Conselho ................................................. 37 Como a noite é longa! ................................... 34 Chove.............. 45 De onde é quase o horizonte .......................................... 44 Da minha idéia do mundo ................................. 38 Como inútil taça cheia........................................... É dia de Natal................................... 22 Autopsicografia ...................................... 20 Às vezes entre a tormenta ...................................................................... 30 Cansa Sentir Quando se Pensa .................. 10 A minha vida é um barco abandonado............................................................. 29 Canção.................................. 18 Assim........... 9 A Grande Esfinge do Egito ....... 33 Chove.................................................................. 15 Aqui onde se espera ........................................................................ 7 Abdicação................................................. 13 A alcova............................................................................. 8 Abismo ...................................................................................................... 41 Contemplo o lago mudo ............................................... 48 Dizem que finjo ou minto .......................................... 21 Atravessa esta paisagem o meu sonho ................................................................................................................................................................................................................................................................... 12 Andei léguas de sombra ............................................................................. 43 Dá a surpresa de ser......................... 17 As minhas Ansiedades ........................................ sem nada feito e o por fazer .................................................................................................. porque a mesma chuva ...................................................................................................................... 40 Conta a lenda que dormia............. Há silêncio...................... 42 Contemplo o que não vejo ........... 14 Ao longe..................................................... 36 Começa a ir ser dia............................................................................................................................... 39 Como uma voz de fonte que cessasse .......................................................................................................................................... 25 Baladas de uma outra terra......................... 32 Cessa o teu canto!...................... 19 As tuas mãos terminam em segredo...............................

.............................................................................. 82 Glosa......................................................................................................................... 56 É brando o dia............ 86 Ilumina-se a Igreja por Dentro da Chuva............. 99 5 ........................ 54 Do vale à montanha......... 73 Esta espécie de loucura ............................ 55 Durmo........ 93 O Maestro Sacode a Batuta ............................................................................................................................................................................................................................... ........................................................................ 95 O que me dói não é................................................................................................................. brando o vento ................................................................................................................... não sei onde ou como ............................................ .......................... 85 Guia-me a só a razão ................... 98 Põe-me as mãos nos ombros............. 64 Além-Deus ...... 91 Não: não digas nada!.............................................................. 60 Em Busca da Beleza......... 61 Em horas inda louras........................................ 90 Não digas nada!............... 70 Eros e Psique ................................ lindas ........................................................................................................................... 87 Intervalo ............................................................................................................................................... 52 Dorme....................... 92 O Andaime ..................... ao despertar não sei ......................................................................................................................................................................................... 69 Entre o sono e sonho.......................................................................................................................................... 83 Gomes Leal ............ 68 Entre o luar e a folhagem ........................................................................... 57 Ela canta........................... 84 Grandes mistérios habitam....................... tranqüila pastorinha.............................. Se sonho.... 97 Pobre velha música! ......... que a vida é nada! ................................ 80 Fresta ........... 63 Em plena vida e violência .................................... ............................................. 81 Fúria nas trevas o vento................... 59 Elas são vaporosas................................ 88 Isto................................... 89 Liberdade......Dizem? ................................................................................................................................................................................. pobre ceifeira................................................................................. 58 Ela ia.............. 62 Emissário de um rei desconhecido................................................. 53 Dorme sobre o meu seio.............................. 65 Entre o bater rasgado dos pendões....................................................... 51 Dorme enquanto eu velo................ 78 Fosse eu apenas............................................................................................................................................................................... 76 Flor que não dura ............................................................... 74 Feliz dia para quem é ..... 50 Dobre............... 71 Esqueço-me das horas transviadas............................................................................................................................................................................................................................................................. 77 Foi um momento .................................................................................

............................ 104 Vaga...........................................................................Sonho........ .......... Não sei quem sou.................................. .............. 100 Sorriso audível das folhas ..................... no azul amplo solta ............ 105 6 ......................................... 102 Teus olhos entristecem.................................. 101 Tenho Tanto Sentimento ....................................................... 103 Tomamos a Vila depois de um Intenso Bombardeamento........

.. Era dia E longe de aqui.. Faz no chão incerto Um círculo a ondear. Bem sei.. E entre a sombra e a luz Que oscila no chão Meu sonho conduz Minha inatenção. 7 .. No quarto deserto Salvo o meu sonhar. Quanto me sorria O que nunca vi! E no quarto silente Com a luz a ondear Deixei vagamente Até de sonhar.Abat-Jour A lâmpada acesa (Outrem a acendeu) Baixa uma beleza Sobre o chão que é meu..

tão inútil. E regressei à noite antiga e calma Como a paisagem ao morrer do dia. Eu sou um rei que voluntariamente abandonei O meu trono de sonhos e cansaços.Abdicação Toma-me. Em mãos viris e calmas entreguei. ó noite eterna. corpo e alma. Deixei-as pela fria escadaria. Minhas esporas de um tinir tão fútil. E meu cetro e coroa — eu os deixei Na antecâmara. Despi a realeza. 8 . Minha espada. pesada a braços lassos. feitos em pedaços Minha cota de malha. nos teus braços E chama-me teu filho.

Vácuo. Tudo — eu e o mundo em redor — Fica mais que exterior. Fico sem poder ligar Ser. o momento. E súbito encontro Deus.. E súbito isto me bate De encontro ao devaneando — O que é sério. alma de nome A mim. idéia. Tudo de repente é oco — Mesmo o meu estar a pensar. à terra e aos céus. Perde tudo o ser.Abismo Olho o Tejo. 9 .. e de tal arte Que me esquece olhar olhando. E do pensar se me some. o lugar. e correr? O que é está-lo eu a ver? Sinto de repente pouco. ficar.

.. Escureceu tudo. Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim.... Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme. 10 .. entre ele e a pena que escreve Jaz o cadáver do rei Quéops. Funerais do rei Quéops em ouro velho e Mim! .A Grande Esfinge do Egito A Grande Esfinge do Egito sonha por este papel dentro. olhando-me com olhos muito abertos........ E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo E uma alegria de barcos embandeirados erra Numa diagonal difusa Entre mim e o que eu penso... Ouço a Esfinge rir por dentro O som da minha pena a correr no papel... E sobre o papel onde escrevo. Caio por um abismo feito de tempo. Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena.. Escrevo — perturbo-me de ver o bico da minha pena Ser o perfil do rei Quéops . Escrevo — e ela aparece-me através da minha mão transparente E ao canto do papel erguem-se as pirâmides... De repente paro.

ao seu destino. casado com o seu fado ? Ah! falta quem o lance ao mar. E é para além do mar a ansiada Ilha. O vento embala-te sem te mover. peregrino Frescor de afastamento. Por que não ergue ferro e segue o atino De navegar. no ermo porto.A minha vida é um barco abandonado A minha vida é um barco abandonado Infiel. Os limos esverdeiam tua quilha. e alado Torne seu vulto em velas. Morto corpo da ação sem vontade Que o viva. vulto estéril de viver. 11 . puro e salgado. no divino Amplexo da manhã. Boiando à tona inútil da saudade.

Pois breve é toda vida O instante é o arremedo De uma coisa perdida. E quem tenha alcançado Não sabe o que alcançou. O ideal não acabou. 12 . O amor foi começado.A morte chega cedo A morte chega cedo. E tudo isto a morte Risca por não estar certo No caderno da sorte Que Deus deixou aberto.

Passa uma caravana. 13 . E apagaram-se as lâmpadas Na alcova cambaleante. Há um oásis no Incerto E. Esquece-me de súbito Como é o espaço. e o tempo Em vez de horizontal É vertical. como uma suspeita De luz por não-há-frinchas. Tudo prestes se volve Um deserto macio Visto pelo meu tato Dos veludos da alcova.Andei léguas de sombra Andei léguas de sombra Dentro em meu pensamento. Não pela minha vista. Floresceu às avessas Meu ócio com sem-nexo.

A alcova Desce não se por onde Até não me encontrar. Sinto-me um reposteiro Pendurado na sala Onde jaz alguém morto. A noção de mover-me Esqueceu-se do meu nome. Não há Cá-dentro nem lá-fora. 14 . Qualquer coisa caiu E tiniu no infinito. Deixo de me incluir Dentro de mim. E o deserto está agora Virado para baixo. Na alma meu corpo pesa-me. Ascende um leve fumo Das minhas sensações.

Serena a passar. mas meu ser Tornou-se-me estranho. Que angústia me enlaça ? Que amor não se explica ? É a vela que passa Na noite que fica. ao luar. Que é que me revela ? Não sei.Ao longe. 15 . ao luar Ao longe. No rio uma vela. E eu sonho sem ver Os sonhos que tenho.

só sossego — De não ter a amargura De reinar. Aqui onde. Gozando da ventura — Sossego. só sossego — Se sente a noite vindo. dormindo.. só sossego — Isso que outrora era. só sossego — Como no exílio um rei. aqui estarei — Sossego. só sossego — O nome venerando.. só sossego — De todo o coração ? 16 . — Sossego.Aqui onde se espera Aqui onde se espera — Sossego. E nada importaria — Sossego. Aqui. Que ter a negação — Sossego. só sossego — Da dor e da esperança. Que mais quer quem descansa — Sossego. mas guardando — Sossego. só sossego — Que fosse antes o dia.

E ouve-se no ar a expirar — A expirar mas nunca expira — Uma flauta que delira..As horas pela alameda As horas pela alameda Arrastam vestes de seda. Silêncio a tremeluzir. Vestes de seda sonhada Pela alameda alongada Sob o azular do luar... 17 .. Que é mais a idéia de ouvi-la Que ouvi-la quase tranqüila Pelo ar a ondear e a ir...

Para que a Vida passe E colher esqueça aos gestos.As minhas Ansiedades As minhas ansiedades caem Por uma escada abaixo. Os meus desejos balouçam-se Em meio de um jardim vertical. 18 . Música excessivamente longínqua. Na Múmia a posição é absolutamente exata. Música longínqua.

Leve correr dos dias sem ação. que esqueço de querer. E a mesma falsa mocidade cansa. sem nada feito e o por fazer Mal pensado. Vejo os meus dias nulos decorrer. sem nada feito e o por fazer Assim. deixem-se sonhar sem esperar! 19 . E o cansaço de nada me aumentar. a esperança. Como a quem com saúde jaz no leito Ou quem sempre se atrasa sem razão. sim. Tênue passar das horas sem proveito. Perdura. Vadio sem andar. ou sonhado sem pensar. Ah. E a tarde exterior seu tédio verte Sobre quem nada fez e nada quere. posta a um canto e ida Sem que alguém nela fosse. Mas a mesma esperança o tédio invade. nau sem mar. Obra solentemente por ser lida. Inútil vida. meu ser inerte Contempla-me. como uma mocidade Que a si mesma se sobrevive.Assim.

meu amor.. Os teus olhos são negros e macios Cristo na cruz os teus seios (?) esguios E o teu perfil princesas no degredo..As tuas mãos terminam em segredo As tuas mãos terminam em segredo. Será o haver cais num mar distante. Pobre do rei pai das princesas feias No seu castelo à rosa do Levante! 20 . quedo O vendo põe o seu arrastado medo Saudoso o longes velas de navios. Mas quando o mar subir na praia e for Arrasar os castelos que na areia As crianças deixaram.. Entre buxos e ao pé de bancos frios Nas entrevistas alamedas..

Às vezes entre a tormenta Às vezes entre a tormenta. como o mal feito está feito. E. Sofremos? Os versos pecam. restam os versos que deito. com que a alma se alimenta. E tudo é chuvas que orvalham folhas caídas que secam. raia uma nesga no céu. quer num quer noutro caso. quando já umedeceu. Mentimos? Os versos falham. 21 . E às vezes entre o torpor que não é tormenta da alma. raia uma espécie de calma que não conhece o langor. vinho no copo do acaso. Porque verdadeiramente sentir é tão complicado que só andando enganado é que se crê que se sente.

Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol. estrada a arder em aquele porto.. O porto que sonho é sombrio e pálido E esta paisagem é cheia de sol deste lado. Não sei quem me sonho.. renque de árvore. 22 . como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada...Atravessa esta paisagem o meu sonho Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios Que largam do cais arrastando nas águas por sombra Os vultos ao sol daquelas árvores antigas. E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro... E passa para o outro lado da minha alma... e entra por mim dentro.. Esta paisagem toda. Súbito toda a água do mar do porto é transparente E vejo no fundo. E os navios passam por dentro dos troncos das árvores Com uma horizontalidade vertical. Liberto em duplo. E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem E chega ao pé de mim. abandonei-me da paisagem abaixo.. O vulto do cais é a estrada nítida e calma Que se levanta e se ergue como um muro.....

E assim nas calhas de roda Gira. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. Na dor lida sentem bem. Mas só a que eles não têm. a entreter a razão.Autopsicografia O poeta é um fingidor. E os que lêem o que escreve. 23 . Esse comboio de corda Que se chama coração. Não as duas que ele teve.

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é água nua. ou roxo quando o sol O doura falsamente de vermelho. Jazem longínquos.. Capitães. por mais que descante Sobre a ignorância natural do mar. Quanto em terra ou em nada nunca esquece. quando são Grandes as ondas e é deveras mar Parece incertamente recordar. Só o mar às vezes. Mas. como a poesia. Serva do obscuro ímpeto distante Que. vem da lua Que uma vez o abate outra o levanta. contramestres — todos nautas Da descoberta infiel de cada dia Acaso vos chamou de ignotas flautas A vaga e impossível melodia. vasante. Acaso o vosso ouvido ouvia Qualquer coisa do mar sem ser o mar Sereias só de ouvir e não de achar? 25 .. O mar é água. Quem sabe se no espaço vácuo há portas? O sonho que me exortas A meditar assim a voz do mar. Os grandes capitães e os marinheiros Com que fizeram a navegação. casual (?) ou mol(e). Quem sabe o que é a alma ? Quem conhece Que alma há nas coisas que parecem mortas. Evoco porque sinto velho O que em mim quereria mais que o mar Já que nada ali há por desvendar. lúgubres parceiros Do nosso esquecimento e ingratidão. ou verde. O mar é áspero (?).(?) Azul ou verde ou roxo Azul. a murmurar. É uma vez abismo e outra espelho. Mas sonho. Ensina-me a saber-te meditar. Pressinto-o.

Quem atrás de intérminos oceanos Vos chamou à distância ou quem Sabe que há nos corações humanos Não só uma ânsia natural de bem Mas, mais vaga, mais sutil também Uma coisa que quer o som do mar E o estar longe de tudo e não parar. Se assim é e se vós e o mar imenso Sois qualquer coisa, vós por o sentir E o mar por o ser, disto que penso; Se no fundo ignorado do existir Há mais alma que a que pode vir À tona vã de nós, como à do mar Fazei-me livre, enfim , de o ignorar. Dai-me uma alma transposta de argonauta, Fazei que eu tenha, como o capitão Ou o contramestre, ouvidos para a flauta Que chama ao longe o nosso coração, Fazei-me ouvir , como a um perdão, Numa reminiscência de ensinar, O antigo português que fala o mar!

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Baladas de uma outra terra
Baladas de uma outra terra, aliadas Às saudades das fadas, amadas por gnomos idos, Retinem lívidas ainda aos ouvidos Dos luares das altas noites aladas... Pelos canais barcas erradas Segredam-se rumos descridos... E tresloucadas ou casadas com o som das baladas, As fadas são belas e as estrelas São delas... Ei-las alheadas... E são fumos os rumos das barcas sonhadas, Nos canais fatais iguais de erradas, As barcas parcas das fadas, Das fadas aladas e hiemais E caladas... Toadas afastadas, irreais, de baladas... Ais...

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Bate a luz no cimo...
Bate a luz no cimo Da montanha, vê... Sem querer eu cismo Mas não sei em quê.... Não sei que perdi Ou que não achei... Vida que vivi, Que mal eu a amei!... Hoje quero tanto Que o não posso ter, De manhã há o pranto E ao anoitecer... Tomara eu ter jeito Para ser feliz... Como o mundo é estreito, E o pouco que eu quis! Vai morrendo a luz No alto da montanha... Como um rio a flux A minha alma banha, Mas não me acarinha, Não me acalma nada... Pobre criancinha Perdida na estrada!...

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. Ó Universo.. que me guia! Cinzas de idéia e de nome Em mim.. Sermente em ti eu sou-me. Mero eco de mim.... e a voz: Ó mundo. o horror da alegria Deste pavor. me inundo De ondas de negro lume Em que pra Deus me afundo. 29 . eu sou-te. do archote Se apagar. Oh. Brilha uma voz na noute De dentro de Fora ouvi-a..Brilha uma Voz na Noute ..

Forma longínqua e incerta Do que eu nunca terei. Os pinhais e eu estar triste. 30 .. Mas cessa.Canção Silfos ou gnomos tocam?.. E agora não há mais música Do que a dos pinheirais. Por que choro não sei. Roçam nos pinheirais Sombras e bafos leves De ritmos musicais. Tão tênue melodia Que mal sei se ela existe Ou se é só o crepúsculo. como uma brisa Esquece a forma aos seus ais.. Ondulam como em voltas De estradas não sei onde Ou como alguém que entre árvores Ora se mostra ou esconde.. Mal oiço e quase choro.

No ar da noite a madrugar Há uma solidão imensa Que tem por corpo o frio do ar.Cansa Sentir Quando se Pensa Cansa sentir quando se pensa. Pesa-me o informe real que existe Na noite antes de amanhecer. (Tudo isto me parece tudo. frio. Neste momento insone e triste Em que não sei quem hei de ser. Tudo isto me parece tudo. Mundo mudo. nada é assim!) 31 . Mas noite. negror sem fim. silêncio mudo — Ah. nada é isto. E é uma noite a ter um fim Um negro astral silêncio surdo E não poder viver assim.

onde é visível o jardim Através do portão de grade dada. Deixa as flores que vêm do chão crescer E deixa as ervas naturais medrar.. Onde ninguém o vir não ponhas nada. Faze de ti um duplo ser guardado. Faze canteiros como os que outros têm. Onde os olhares possam entrever O teu jardim com lho vais mostrar.. Para que te conheçam só assim.Cerca de grandes muros quem te sonhas Conselho Cerca de grandes muros quem te sonhas. Por trás do qual a flor nativa roça A erva tão pobre que nem tu a vês. Depois. 32 . e nunca o vê ninguém. Põe quantas flores são as mais risonhas. que veja e fite. Mas onde és teu. E que ninguém. possa Saber mais que um jardim de quem tu és — Um jardim ostensivo e reservado.

E a melodia Que não havia. enquanto O ouvi. ouvia Uma outra voz Com que vindo Nos interstícios Do brando encanto Com que o teu canto Vinha até nós.Cessa o teu canto! Cessa o teu canto! Cessa. 33 . Ouvi-te e ouvi-a No mesmo tempo E diferentes Juntas cantar. Se agora a lembro. Faz-me chorar. que.

34 . Antes isso que nevar.Chove. Lá para o Norte é melhor: Há a neve que faz mal. Pois se escrevo ainda outra quadra Fico gelado dos pés. E o frio que ainda é pior. Deixo sentir a quem quadra E o Natal a quem o fez. Pois apesar de ser esse O Natal da convenção. É dia de Natal Chove. Quando o corpo me arrefece Tenho o frio e Natal não. Chove no Natal presente. É dia de Natal. E toda a gente é contente Porque é dia de o ficar.

Há silêncio.. Como um grande desejo que nos mente. Chove longínqua e indistintamente.. Nada em mim sente. 35 . o sentimento é cego. não há céu que eu sinta. Nada apetece. porque a mesma chuva Não faz ruído senão com sossego. Não paira vento. mas um sussurrar Que de si mesmo. se esquece. ao sussurrar. O céu dorme. Chove.. porque a mesma chuva Chove. Chove. Quando a alma é viúva Do que não sabe. Chove.Chove. Chove.. Como uma coisa certa que nos minta.. Há silêncio.. Tão calma é a chuva que se solta no ar (Nem parece de nuvens) que parece Que não é chuva. Meu ser (quem sou) renego.

e não posso.. Há sempre escuro dentro de mim... Os céus da tua face. chamar-te meu.. alguém dentro de mim ouve A chuva.... Então onde é que eu sinto um dia Em que ruído da chuva atrai A minha inútil agonia ? Onde é que chove.Chove ? Nenhuma chuva cai. Como se a hora me estorvasse. ó claro céu ? Eu quero sorrir-te.. Ó céu azul. E a cor do outono é um funeral de apelos Pela estrada da minha dissonância. E o escuro ruído da chuva É constante em meu pensamento.. que eu o ouço ? Onde é que é triste. Ah... E eis que ante o sol e o azul do dia... E a luz e a sua alegria Cai aos meus pés como um disfarce.. Se escuro. No claustro seqüestrando a lucidez Um espasmo apagado em ódio à ânsia Põe dias de ilhas vistas do convés No meu cansaço perdido entre os gelos.. e os derradeiros Tons do poente segredam nas arcadas.. Chove? Nenhuma chuva cai. 36 . Eu sofro. na minha alma sempre chove. Meu ser é a invisível curva Traçada pelo som do vento. como a voz de um fim.

em vão. nem eu. Em vão. Só sinto o indefinido Do coração vazio. não. A Ter uma cor fria Onde a negrura cessa. 37 . Numa menor negrura Da sua noite escura. e o céu Azula-se de verde Acinzentadamente. Na noite que se perde. o mal-dormido. Em vão o dia chega Quem não dorme. Um negro azul-cinzento Emerge vagamente De onde o oriente dorme Seu tardo sono informe. Nem sinto vir o dia Da solidão vazia. a quem Não tem que ter razão Dentro do coração. Que é isto que a minha alma sente ? Nem isto. E há um frio sem vento Que se ouve e mal se sente. Não sinto noite ou frio. Mas eu. O céu negro começa.Começa a ir ser dia Começa a ir ser dia. Que quando vive nega E quando ama não tem.

Hoje nada existe... minha ama.. Dormir a sorrir E seja isto o fim.. Uma canção triste. Amei tanta coisa. 38 .. Era uma princesa Que amou. Já não sei.. Aqui ao pé da cama Canta-me. perto Do leito onde esperto. Como estou esquecido! Canta-me ao ouvido E adormecerei...... ama. Vem p’r’ao pé de mim..Como a noite é longa! Como a noite é longa! Toda a noite é assim. Que é feito de tudo ? Que fiz eu de mim? Deixa-me dormir. Senta-te.

Como inútil taça cheia Como inútil taça cheia Que ninguém ergue da mesa. Ficção num palco sem tábuas Vestida de papel seda Mima uma dança de mágoas Para que nada suceda. Transborda de dor alheia Meu coração sem tristeza. Sonhos de mágoa figura Só para Ter que sentir E assim não tem a amargura Que se temeu a fingir. 39 .

a voz que do meu tédio nasce Parou.. 40 .Como uma voz de fonte que cessasse Como uma voz de fonte que cessasse (E uns para os outros nossos vãos olhares Se admiraram). silêncio a que a hora assiste. p’ra além dos meus palmares De sonho.. Quando morreu o vento e a calma pasce. E Deus.. asas nos ares. O mistério silente como os mares. grande lago mudo.. Apareceu já sem disfarce De música longínqua. o informe mundo onde há a vida... a Grande Ogiva ao fim de tudo. perto ou longe. A paisagem longínqua só existe Para haver nela um silêncio em descida P’ra o mistério... E... O mundo.

Se espera. E falso. dormindo espera. se bem que seja obscuro Tudo pela estrada fora. Chega onde em sono ela mora. E. Sonha em morte a sua vida. E. E orna-lhe a fronte esquecida. Ele dela é ignorado. Longe o Infante. que viria De além do muro da estrada. e encontra hera. uma grinalda de hera. E vê que ele mesmo era A Princesa que dormia.Conta a lenda que dormia Conta a lenda que dormia Uma Princesa encantada A quem só despertaria Um Infante. Ele buscando-a sem tino Pelo processo divino Que faz existir a estrada. Sem saber que intuito tem. Antes que. E. vencendo estrada e muro. esforçado. inda tonto do que houvera. A Princesa Adormecida. Mas cada um cumpre o Destino — Ela dormindo encantada. tentado. ele vem seguro. 41 . Rompe o caminho fadado. já libertado. Ergue a mão. Vencer o mal e o bem. Ela para ele é ninguém. Ele tinha que. Deixasse o caminho errado Por o que à Princesa vem. em maresia. Verde. Ã cabeça.

Não sinto a brisa mexê-lo Não sei se sou feliz Nem se desejo sê-lo. Trêmulos vincos risonhos Na água adormecida. O lago nada me diz. Por que fiz eu dos sonhos A minha única vida? 42 .Contemplo o lago mudo Contemplo o lago mudo Que uma brisa estremece. Não sei se penso em tudo Ou se tudo me esquece.

Tudo é do outro lado. Embora o vento abrande. Mas triste é o que estou. E quanto em mim desejo Está parado ante o muro. Confunde-se o que existe Com o que durmo e sou. Nem há ramo agitado Que o céu não seja imenso. Por cima o céu é grande. Não sinto. 43 . Há folhas em vaivém. é quase escuro. No que há e no que penso. não sou triste.Contemplo o que não vejo Contemplo o que não vejo. É tarde. Sinto árvores além.

quando é que eu embarco? Ó fome.Dá a surpresa de ser Dá a surpresa de ser. quando é que eu como ? 44 . Seus seios altos parecem (Se ela tivesse deitada) Dois montinhos que amanhecem Sem Ter que haver madrugada. E a mão do seu braço branco Assenta em palmo espalhado Sobre a saliência do flanco Do seu relevo tapado. Faz bem só pensar em ver Seu corpo meio maduro. Meu Deus. Tem qualquer coisa de gomo. Apetece como um barco. É alta. de um louro escuro.

Vácuo além do profundo. Escada absoluta sem degraus.Da minha idéia do mundo Da minha idéia do mundo Caí.. Tudo tem outro sentido. Além-Deus! Além-Deus! Negra calma... caos De ser pensado como ser...... ó alma. 45 . Clarão do Desconhecido... Visão que se não pode ver.. Sem ter Eu nem Ali.. Vácuo sem si-próprio.. Mesmo o ter-um-sentido....

46 . A vida? Não acredito.De onde é quase o horizonte De onde é quase o horizonte Sobe uma névoa ligeira E afaga o pequeno monte Que pára na dianteira. E com braços de farrapo Quase invisíveis e frios. Um pouco de alto medito A névoa só com a ver. Faz cair seu ser de trapo Sobre os contornos macios. A crença? Não sei viver.

Mas a realidade De eu ter passos comigo ? Às vezes. Se acenderem as velas E não houver apenas A vaga luz de fora — Não sei que candeeiro Aceso onde na rua — Terei foscos desejos De nunca haver mais nada No Universo e na Vida De que o obscuro momento Que é minha vida agora! Um momento afluente Dum rio sempre a ir Esquecer-se de ser. quando eu Por mim próprio mesmo Em alma mal existo. Não os meus tristes passos. na penumbra Do meu quarto.De quem é o olhar De quem é o olhar Que espreita por meus olhos ? Quando penso que vejo. Quem continua vendo Enquanto estou pensando ? Por que caminhos seguem. 47 . E assim a hora passa Metafisicamente. Espaço misterioso Entre espaços desertos Cujo sentido é nulo E sem ser nada a nada. Toma um outro sentido Em mim o Universo — É uma nódoa esbatida De eu ser consciente sobre Minha idéia das coisas.

E sobe até mim.. Dôo-me até onde penso. Eu sofro sem pena a vida. 48 .Ditosos a quem acena MARINHA Ditosos a quem acena Um lenço de despedida! São felizes : têm pena. No cais de onde nunca parto.. Órfão de um sonho suspenso Pela maré a vazar. já farto De improfícuas agonias.. E a dor é já de pensar. A maresia dos dias..

Dizem que finjo ou minto Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não uso o coração. O que me falha ou finda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé. Sentir. Tudo o que sonho ou passo. sinta quem lê! 49 . Eu simplesmente sinto Com a imaginação. É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Não. Sério do que não é. Livre do meu enleio.

Dizem? Dizem? Esquecem. Não fazem? Igual. Não dizem ? Disseram. Por quê Esperar ? Tudo é Sonhar. Fazem? Fatal. 50 .

51 . Olhei-o pávido e absorto Como quem sabe estar morto.Dobre Peguei no meu coração E pu-lo na minha mão Olhei-o como quem olha Grãos de areia ou uma folha. Com a alma só comovida Do sonho e pouco da vida.

dorme. Sonho-te tão atento Que o sonho é encantamento E eu sonho sem sentir. Os meus desejos são cansaços.. Quero-te para sonho.Dorme enquanto eu velo. Vaga em teu sorrir..... Dorme enquanto eu velo. 52 . Deixa-me sonhar. Não para te amar. Dorme. Nada em mim é risonho.. A tua carne calma É fria em meu querer. dorme.. Nem quero ter nos braços Meu sonho do teu ser..

53 . Nem paz nem alegria Para quem. Com a alma enganada. por amar. Dando o que nunca damos. Não há lugar nem dia Para quem quer achar. Achou-a em confusão. que a vida é nada! Dorme. Melhor entre onde os ramos Tecem docéis sem ser Ficar como ficamos. Em quem ama confia. que tudo é vão! Se alguém achou a estrada. Sem pensar nem querer. que a vida é nada! Dorme.Dorme.

Tudo é nada.. Sem mágoa nem amor. O ‘spaço negro é mudo.. e. e tudo Um sonho finge ser. Sonhando de sonhar. No teu olhar eu leio O íntimo torpor De quem conhece o nada-ser De vida e gozo e dor. No teu olhar eu leio Um lúbrico vagar.. ao adormecer. Dorme. Dorme sobre o meu seio.Dorme sobre o meu seio Dorme sobre o meu seio.. 54 . Saibas do coração sorrir Sorrisos de esquecer. Dorme no sonho de existir E na ilusão de amar.

Da montanha ao monte. Cavaleiro monge. Caminhais secretos. Pr casas. Por penhascos pretos. Por Quinta e por fonte. cavalo de sombra. Por quanto é sem fim. Cavalo de sombra. Do vale à montanha. Atrás e defronte. Caminhais aliados. Caminhais em mim.Do vale à montanha Do vale à montanha. Cavaleiro monge. Cavalo de sombra. Cavaleiro monge. Da montanha ao monte. 55 . por prados. Do vale à montanha. Sem ninguém que o conte. Da montanha ao monte.

Durmo. Se sonho. Melhor é nem sonhar nem não sonhar E nunca despertar. pois que despertei Para o que inda não sei. ao despertar não sei Que coisas eu sonhei. Se sonho. ao despertar não sei Durmo. Durmo. Se durmo sem sonhar. 56 . desperto Para um espaço aberto Que não conheço.

Assim fosse meu pensamento! Assim fosse eu. o mundo é quanto nós trazemos. E tudo é isto. brando o vento É brando o sol e brando o céu. Há porque vemos.. assim fosse eu! Mas entre mim e as brandas glórias Deste céu limpo e este ar sem mim Intervêm sonhos e memórias. tudo é isto! 57 .. Ser eu assim ser eu assim! Ah.É brando o dia. Existe tudo porque existo. brando o vento É brando o dia.

levando-me. Ah. cheia De alegre e anônima viuvez. E a consciência disso! Ó céu! Ó campo! Ó canção! A ciência Pesa tanto e a vida é tão breve! Entrai por mim dentro! Tornai Minha alma a vossa sombra leve! Depois. Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando! Ah. Ondula como um canto de ave No ar limpo como um limiar. Na sua voz há o campo e a lida. canta. Canta. e ceifa. Ouvi-la alegra e entristece.Ela canta. pobre ceifeira Ela canta. passai! 58 . sendo eu! Ter a tua alegre inconsciência. e a sua voz. pobre ceifeira. E há curvas no enredo suave Do som que ela tem a cantar. Julgando-se feliz talvez. E canta como se tivesse Mais razões pra cantar que a vida. poder ser tu. canta sem razão! O que em mim sente ‘stá pensando.

.. 59 ... Seu vulto perde-se na escuridão... a saudade minha. esse indistinto Abismo entre o meu sonho e o meu porvir.. E em terras longe do que eu hoje sinto Serás. O seu rebanho. Só sua sombra ante meus pés caminha. rainha não. Deus te dê lírios em vez desta hora. Segui-a.. “Em longes terras hás de ser rainha Um dia lhe disseram. mas em vão.. E eu serei teu regresso. mas só pastora _ Só sempre a mesma pastorinha a ir. Pela estrada da minha imperfeição.Ela ia. tranqüila pastorinha Ela ia. como um gesto de perdão.. tranqüila pastorinha.

. Passam sozinhas... Passam e agitam a brisa. Como um fumo indo.. em rodas. a fio. Seu vulto feito de todas.. Sob o.. 60 ... dançar Com perfumes soltos Entre os canteiros e os buxos..Elas são vaporosas MINUETE INVISÍVEL Elas são vaporosas.. Ora uma brisa que treme Sua leveza solene. Pálida. E assim vão indo. as rosas Nadas da hora lunar.. disperso pelo ar.. Pálidas sombras.. a rarear. a pompa indecisa Da sua flébil demora Paira em auréola à hora.. Vêm.. Passam nos ritmos da sombra. No jardim lívido e frio... Ora é uma folha que tomba. aéreas. Pelo ar longínquo e vazio. Nas alamedas.. delindo Seu perfil único e lindo. Pálido pálio lunar . Chora no som dos repuxos O ritmo que há nos seus vultos.

Os versos teus. Mas vi depressa. 61 . Já tive a alma sem descrença presa Desse teu sonho. Que a própria idéia em nós dessa beleza Um infinito de nós mesmos dista. Nem à nossa alma definir podemos A Perfeição em cuja estrada a vida. o céu talvez o tenha. dolorido epicurista. já sem a alma acesa. O mar tem fim. a chorar perdemos.Em Busca da Beleza Soam vãos. Mas não a ânsia da Coisa indefinida Que o ser indefinida faz tamanha. Da Perfeição segui em vã conquista. que perturba a vista. Achando-a intérmina. que a minha dor despreza.

tantos Que encantam os atentos ventos.. Prantos de intentos. As vindas vendo das varandas. Brincam no tempo das berlindas. 62 . Mas em torno à tarde se entorna A atordoar o ar que arde Que a eterna tarde já não torna! E o tom de atoarda todo o alarde Do adornado ardor transtorna No ar de torpor da tarda tarde.. brandas. lindas Clorindas e Belindas. lindas Em horas inda louras.. De onde ouvem vir a rir as vindas Fitam a fio as frias bandas. lentos. E há nevoentos desencantos Dos encantos dos pensamentos Nos santos lentos dos recantos Dos bentos cantos dos conventos.Em horas inda louras.

. E as bruscas frases que aos meus lábios vêm Soam-me a um outro e anômalo sentido. 63 . Meu orgulho o deserto em que em mim estou.... Eu cumpro informes instruções de além. Inconscientemente me divido Entre mim e a missão que o meu ser tem... E a glória do meu Rei dá-me desdém Por este humano povo entre quem lido. Já viram Deus as minhas sensações.. Minha missão será eu a esquecer. Mas há! Eu sinto-me altas tradições De antes de tempo e espaço e vida e ser.Emissário de um rei desconhecido Emissário de um rei desconhecido.... Não sei se existe o Rei que me mandou.

pela janela aberta. De repente uma sonolência Cai sobre a minha ausência. Vê que. Desce ao meu próprio coração. Será que a mente. Há uma paisagem toda incerta E um sonho todo a apetecer ? 64 . já desperta Da noção falsa de viver.Em plena vida e violência Em plena vida e violência De desejo e ambição.

. ficar. e correr? O que é está-lo eu a ver? Sinto de repente pouco.. o lugar. Sem ter turbilhonado.. Deus é a sua sombra. Vácuo.... O Universo é o seu rasto. E do pensar se me some. Fico sem poder ligar Ser. Tudo de repente é oco — Mesmo o meu estar a pensar. fora de Quando. E súbito encontro Deus.. e de Passando. II/ PASSOU Passou..... Perde tudo o ser. De Porquê. E súbito isto me bate De encontro ao devaneando — O que é ser-rio.. Vasto por fora do Vasto Sem ser. alma de nome A mim. Turbilhão de Ignorado..Além-Deus Abismo Passou A Voz de Deus A Queda Braço sem Corpo Brandindo um Gládio I/ ABISMO OLHO O TEJO.. 65 . e de tal arte Que me esquece olhar olhando. Tudo — eu e o mundo em redor — Fica mais que exterior. o momento. que a si se assombra. à terra e aos céus. idéia.

. Mesmo o ter-um-sentido..... Ó Universo... Mero eco de mim.. Tudo tem outro sentido. que me guia! Cinzas de idéia e de nome Em mim... Vácuo além de profundo.. Clarão de Desconhecido... De dentro de Fora ouvi-a. do archote Se apagar... o horror da alegria Deste pavor.III/ A VOZ DE DEUS Brilha uma voz na noute.... Oh.... 66 . E eu fico tristonho Por não saber se a curva da ponte É a curva do horizonte. Escada absoluta sem degraus... V/ BRAÇO SEM CORPO BRANDINDO UM GLÁDIO (Entre a árvore e o vê-la) Entre a árvore e o vê-la Onde está o sonho? Que arco da ponte mais vela Deus?. Sem ter Eu nem Ali.. caos De ser pensado como ser.. Além-Deus! Além-Deus! Negra calma... Visão que se não pode ver. IV/ A QUEDA Da minha idéia do mundo Caí. Vácuo sem si-próprio. me inundo De ondas de negro lume Em que para Deus me afundo. Sermente em ti eu sou-me.. e a voz: Ó mundo. ó alma. eu sou-te.

Mas entre quê e quê?. ou é real? Deus é um grande Intervalo. ou de lado? [1913?] 67 .. E o pombal elevado Está em torno na pomba..Entre o que vive e a vida Pra que lado corre o rio? Árvore de folhas vestida — Entre isso e Árvore há fio? Pombas voando — o pombal Está-lhes sempre à direita.. Entre o que digo e o que calo Existo? Quem é que me vê? Erro-me..

Entre o bater rasgado dos pendões
Entre o bater rasgado dos pendões E o cessar dos clarins na tarde alheia, A derrota ficou : como uma cheia Do mal cobriu os vagos batalhões. Foi em vão que o Rei louco os seus varões Trouxe ao prolixo prélio, sem idéia. Água que mão infiel verteu na areia — Tudo morreu, sem rastro e sem razões. A noite cobre o campo, que o Destino Com a morte tornou abandonado. Cessou, com cessar tudo, o desatino. Só no luar que nasce os pendões rotos ’Strelam no absurdo campo desolado Uma derrota heráldica de ignotos.

68

Entre o luar e a folhagem
Entre o luar e a folhagem, Entre o sossego e o arvoredo, Entre o ser noite e haver aragem Passa um segredo. Segue-o minha alma na passagem. Tênue lembrança ou saudade, Princípio ou fim do que não foi, Não tem lugar, não tem verdade. Atrai e dói. Segue-o meu ser em liberdade. Vazio encanto ébrio de si, Tristeza ou alegria o traz ? O que sou dele a quem sorri ? Nada é nem faz. Só de segui-lo me perdi.

69

Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim É o quem eu me suponho Corre um rio sem fim. Passou por outras margens, Diversas mais além, Naquelas várias viagens Que todo o rio tem. Chegou onde hoje habito A casa que hoje sou. Passa, se eu me medito; Se desperto, passou. E quem me sinto e morre No que me liga a mim Dorme onde o rio corre — Esse rio sem fim.

70

meu Irmão.E assim vêdes. Ele buscando-a sem tino Pelo processo divino Que faz existir a estrada. Deixasse o caminho errado Por o que à Princesa vem. ainda que opostas. E. (Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio Na Ordem Templária De Portugal) Conta a lenda que dormia Uma Princesa encantada A quem só despertaria Um Infante. Mas cada um cumpre o Destino Ela dormindo encantada. Chega onde em sono ela mora. Longe o Infante. e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor. que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito. Ele dela é ignorado. Sem saber que intuito tem. uma grinalda de hera. E vencendo estrada e muro. já libertado. Se espera. Rompe o caminho fadado. Vencer o mal e o bem. ele vem seguro.. A Princesa Adormecida. a mesma verdade. Verde. que viria De além do muro da estrada. são. E falso. esforçado. Antes que. E orna-lhe a fronte esquecida. dormindo espera. Sonha em morte a sua vida.Eros e Psique . Ela para ele é ninguém.. 71 . tentado. se bem que seja obscuro Tudo pela estrada fora. Ele tinha que.

ou em dormência desde cerca de 1888. Publicado pela primeira vez in Presença. Ergue a mão. n. pois se não devem citar (indicando a origem) trechos de Rituais que estão em trabalho [In VO/II.os 41-42. Casais Monteiro.] 72 . Acerca da epígrafe que encabeça este poema diz o próprio autor a uma interrogação levantada pelo crítico A. epígrafe ao meu poema “Eros e Psique”. Coimbra. de um trecho (traduzido. eu não citaria o trecho do Ritual. e encontra hera. pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal.E. À cabeça. Se não estivesse em dormência. indica simplesmente — o que é fato — que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem. em carta a este último: A citação. em maresia. inda tonto do que houvera. maio de 1934. E vê que ele mesmo era A Princesa que dormia. extinta.

Trigueiros Os céus da tua face. fadas De sepulcros a orgíaco. No claustro seqüestrando a lucidez Um espasmo apagado em ódio à ânsia Põe dias de ilhas vistas do convés No meu cansaço perdido entre os gelos E a cor do outono é um funeral de apelos Pela estrada da minha dissonância... e toda estradas.. 73 . Hóstia de assombro a alma..Esqueço-me das horas transviadas PASSOS DA CRUZ Esqueço-me das horas transviadas o Outono mora mágoas nos outeiros E põe um roxo vago nos ribeiros.... e os derradeiros Tons do poente segredam nas arcadas. Aconteceu-me esta paisagem....

Porque. enfim.Esta espécie de loucura Esta espécie de loucura Que é pouco chamar talento E que brilha em mim. Não me traz felicidade. sempre haverá Sol ou sombra na cidade. na escura Confusão do pensamento. Mas em mim não sei o que há 74 .

75 .

E no exterior azul que vê Simples confia! Azul do céu faz pena a quem Não pode ser Na alma um azul do céu também Com que viver Ah. a ironia De só sentir a terra e o céu Tão belo ser Quem de si sente que perdeu A alma p’ra os ter! 76 . e se o verde com que estão Os montes quedos Pudesse haver no coração E em seus segredos! Mas vejo quem devia estar Igual do dia Insciente e sem querer passar. Ah.Feliz dia para quem é Feliz dia para quem é O igual do dia.

Flor que não dura Flor que não dura Mais do que a sombra dum momento Tua frescura Persiste no meu pensamento. 77 . Só nunca mais. ó flor. te vi Onde não sou senão a terra e o céu. Não te perdi No que sou eu.

Sei eu se quando A tua mão Senti pousando ‘Sobre o meu braço. Senti ou não ? Não sei. Tudo isto é nada. Súbito e etéreo. um pouco..Foi um momento Foi um momento O em que pousaste Sobre o meu braço. 78 . Mas lembro E sinto ainda Qualquer memória Fixa e corpórea Onde pousaste A mão que teve Qualquer sentido Incompreendido.. Mas numa estrada Como é a vida Há muita coisa Incompreendida. Não houve um ritmo Novo no espaço ? Como se tu. A tua mão E a retiraste. E um pouco. Num movimento Mais de cansaço Que pensamento. Sem o querer.. No coração. Em mim tocasses Para dizer Qualquer mistério. Mas tão de leve!..

Que nem soubesses Que tinha ser. 79 . Assim a brisa Nos ramos diz Sem o saber Uma imprecisa Coisa feliz.

Fosse eu uma metáfora somente Escrita nalgum livro insubsistente Dum poeta antigo.. num crepúsculo de espadas.Fosse eu apenas. Noite de Vida sem amanhecer Entre as sirtes do meu dourado assomo. Mas doente. Fada maliciosa ou incerto gnomo Fadado houvesse de não pertencer Meu intuito gloríola com Ter A árvore do meu uso o único pomo... e . Morrendo entre bandeiras desfraldadas Na última tarde de um império em chamas.. de alma em outras gamas. Uma coisa existente sem viver. não sei onde ou como.. 80 ... não sei onde ou como Fosse eu apenas.

81 .Fresta Em meus momentos escuros Em que em mim não há ninguém. Entrego-lhe o coração. Vejo o longínquo horizonte Cheio de sol posto ou nado Revivo. conheço. existo. Nada mais quero nem peço. E tudo é névoas e muros Quanto a vida dá ou tem. ainda que seja ilusão O exterior em que me esqueço. erguendo a fronte De onde em mim sou aterrado. Se. E. um instante.

Fúria nas trevas o vento Fúria nas trevas o vento Num grande som de alongar. Parece que a alma tem Treva onde sopre a crescer Uma loucura que vem De querer compreender. Não há no meu pensamento Senão não poder parar. Raiva nas trevas o vento Sem se poder libertar. 82 . Estou preso ao meu pensamento Como o vento preso ao ar.

e a fantasia siga A seu infiel e irreal sabor. Quem me dispôs para o que não pudesse ? Quem me fadou para o que não conheço Na teia do real que ninguém tece ? Quem me arrancou ao sonho que me odiava E me deu só a vida em que me esqueço.Glosa Quem me roubou a minha dor antiga... Me deixou só no fogo e no torpor ? Quem fez a fantasia minha amiga. “Onde a minha saudade a cor se trava ?” 83 . Negando o fruto e emurchecendo a flor ? Ninguém ou o Fado. entre o incêndio da alma em que o ser periga. E só a vida me deixou por dor ? Quem.

Seus três anéis irreversíveis são A desgraça. sinistro. A plúmbea mão Lhe ergueu ao alto o aflito coração. Inúteis oito luas da loucura Quando a cintura tríplice denota Solidão e desgraça e amargura! Mas da noite sem fim um rastro brota. Apolo em seu regaço A Saturno entregou. poeta. erguido. sangrando lasso. o apertou. 84 . Este. a alguns o astro baço. E. a solidão. Oito luas fatais fitam no espaço. álgida e ignota. a tristeza. Vestígios de maligna formosura : É a lua além de Deus.Gomes Leal Sangra.

E à minha alma é cataclismo O limiar onde está. Como nos sonhos as há. Porque o limiar é medonho E todo passo é uma cruz. Hesito se sondo e cismo. Inda que em dia tristonho. São aves cheias de abismo. Então desperto do sonho E sou alegre da luz.Grandes mistérios habitam O limiar do meu ser. O limiar onde hesitam Grandes pássaros que fitam Meu transpor tardo de os ver. 85 .

vejo. Olho. Ter-me-ia outro criado. a razão Deus me deu. Como ousarei dizer: «Cego. acredito. Alumia-me em vão ? Só ela me alumia. fora eu bendito» ? Como olhar. para ver Para além da visão — Olhar de conhecer. Pensar um descaminho. Se ver é enganar-me. Tivesse quem criou O mundo desejado Que eu fosse outro que sou. Deu-me olhos para ver. Deus os quis dar-me Por verdade e caminho. 86 . Não me deram mais guia. Não sei.Guia-me a só a razão Guia-me a só a razão.

.. E apagam-se as luzes da igreja Na chuva que cessa ... Soa o canto do coro. Súbito vento sacode em esplendor maior A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe Com o som de rodas de automóvel. 87 ... Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso.Ilumina-se a Igreja por Dentro da Chuva Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia.... O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar.. latino e vento a sacudir-me a vidraça E sente-se chiar a água no fato de haver coro. E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça. E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro ... A missa é um automóvel que passa Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste ...

sem corpo ou boca. porque o só fingi Em sonhos que nem sei? Seja o que for. porque não sabia.. seria? Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei? Foi só qualquer ciúme meu de ti Que o supôs dito. imerecida e louca — A que as deusas esperam da ledice Com que o Olimpo se apouca.Intervalo Quem te disse ao ouvido esse segredo Que raras deusas têm escutado — Aquele amor cheio de crença e medo Que é verdadeiro só se é segredado?. Não foi um outro. Quem te disse tão cedo? Não fui eu. que te não ousei dizê-lo. Te falou desse amor em mim presente Mas que não passa do meu pensamento Que anseia e que não sente? Foi um desejo que. Mas quem roçou da testa teu cabelo E te disse ao ouvido o que sentia? Seria alguém. Que o supôs feito. quem foi que levemente. A teus ouvidos de eu sonhar-te disse A frase eterna. 88 . A teu ouvido vagamente atento. porque o não direi..

Sério do que não é. É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Sentir? Sinta quem lê! 89 . Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Livre do meu enleio. Não. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé. Tudo o que sonho ou passo.Isto Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não uso o coração. O que me falha ou finda.

Livros são papéis pintados com tinta. que peca Só quando. Que não sabia nada de finanças Nem consta que tivesse biblioteca.Sebastião. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma. Ter um livro para ler E não fazer! Ler é maçada. a bondade e as danças.. seca.. Flores. Quer venha ou não! Grande é a poesia. bem ou mal.. música. Mais que isto É Jesus Cristo. essa. Como o tempo não tem pressa. em vez de criar. Sem edição original. 90 . Esperar por D. o luar.. E a brisa.Liberdade Ai que prazer Não cumprir um dever. Estudar é nada.. Mas o melhor do mundo são as crianças. quanto há bruma. Quanto é melhor. e o sol. Sol doira Sem literatura O rio corre.. De tão naturalmente matinal.

Não digas nada! Não digas nada! Nem mesmo a verdade Há tanta suavidade em nada se dizer E tudo se entender — Tudo metade De sentir e de ver.... Não digas nada Deixa esquecer Talvez que amanhã Em outra paisagem Digas que foi vã Toda essa viagem Até onde quis Ser quem me agrada. 91 .. Mas ali fui feliz Não digas nada.

Não: não digas nada! Não: não digas nada! Supor o que dirá A tua boca velada É ouvi-lo já É ouvi-lo melhor Do que o dirias. És melhor do que tu. O que és não vem à flor Das frases e dos dias. Não digas nada: sê! Graça do corpo nu Que invisível se vê. 92 .

Só no palco era rainha: Despiu-se. Este seu correr vazio Figura. Horas. Gulosas da margem ida. Rola mais que o meu desejo. e o reino acabou. anos. quanto do meu passado Foi só a vida mentida De um futuro imaginado! Aqui à beira do rio Sossego sem ter razão. Ondas do rio. Que lembranças sonolentas De esperanças nevoentas! Que sonhos o sonho e a vida! Que fiz de mim? Encontrei-me Quando estava já perdido. breves Passam — verduras ou neves Que o mesmo sol faz morrer.O Andaime O tempo que eu hei sonhado Quantos anos foi de vida! Ah. Impaciente deixei-me Como a um louco que teime No que lhe foi desmentido. tão leves Que não sois ondas sequer. A ‘sp’rança que pouco alcança! Que desejo vale o ensejo? E uma bola de criança Sobre mais que minha ‘s’prança. dias. A ilusão. A vida vivida em vão. Gastei tudo que não tinha. Leve som das águas lentas. Sou mais velho do que sou. anônimo e frio. 93 . que me mantinha.

Leva não só lembranças — Mortas. Sou já o morto futuro. 94 . porque hão de morrer. Ondas passadas. levai-me Para o alvido do mar! Ao que não serei legai-me. Que cerquei com um andaime A casa por fabricar. Só um sonho me liga a mim — O sonho atrasado e obscuro Do que eu devera ser — muro Do meu deserto jardim.Som morto das águas mansas Que correm por ter que ser.

e do outro lado Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo .... E do alto dum cavalo azul. a minha infância Está em todos os lugares e a bola vem a tocar música. da direita para a esquerda.. Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo.. Lembra-me a minha infância. Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância. Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa Com orquestras a tocar música. o maestro. E o muro do quintal é feito de gestos De batuta e rotações confusas de cães verdes E cavalos azuis e jockeys amarelos ... E a música cessa como um muro que desaba.. e eis na minha infância De repente entre mim e o maestro. Todo o teatro é o meu quintal.. E dum lado para o outro..O Maestro Sacode a Batuta O maestro sacode a batuta.. (Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos. Vai e vem a bola. Prossegue a música. aquele dia Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal Atirando-lhe com.) Atiro-a de encontra à minha infância e ela Atravessa o teatro todo que está aos meus pés A brincar com um jockey amarelo.. A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos. Ora um cavalo azul com um jockey amarelo.. 95 . Todo o teatro é um muro branco de música Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade Da minha infância.. uma bola que tinha dum lado O deslizar dum cão verde. muro branco.. e um cão verde E um cavalo azul que aparece por cima do muro Do meu quintal.. jockey amarelo tornando-se preto. ora um cão verde.. cavalo azul com um jockey amarelo... E a música atira com bolas À minha infância.. A lânguida e triste a música rompe .

com uma bola branca em cima da cabeça. pousando a batuta em cima da fuga dum muro.Agradece. 96 ... Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo. sorrindo. E curva-se.

São as formas sem forma Que passam sem que a dor As possa conhecer Ou as sonhar o amor. Caíssem suas folhas Entre o vestígio e a bruma.. (Fernando Pessoa.O que me dói não é O que me dói não é O que há no coração Mas essas coisas lindas Que nunca existirão. uma a uma. São como se a tristeza Fosse árvore e. 5-9-1933) 97 ..

Não sei se te ouvi Nessa minha infância Que me lembra em ti. Recordo outro ouvir-te. Enche-se de lágrimas Meu olhar parado. 98 .Pobre velha música! Pobre velha música! Não sei por que agrado. Com que ânsia tão raiva Quero aquele outrora! E eu era feliz? Não sei: Fui-o outrora agora.

Tudo é ilusão. 99 .. Põe-me as mãos nos ombros.. Meu desde onde venho. Minha vida é escombros.Põe-me as mãos nos ombros.. A minha alma insonte. E vê tudo estranho...... Sonhar é sabê-lo. Põe a tua mão Sobre o meu cabelo. Beija-me na fronte. Sou o ser que vê. Eu não sei por quê.

Lapso da consciência entre ilusões. Fantasmas me limitam e me contêm. Nada quero nem tenho nem recordo. Não tenho ser nem lei. Não sei quem sou neste momento. Não sei quem sou. Se existo é um erro eu o saber. Sonho. Na hora calma Meu pensamento esquece o pensamento. Coração de ninguém. Se acordo Parece que erro.Sonho. 100 . Durmo sentindo-me. Sinto que não sei. Minha alma não tem alma. Dorme insciente de alheios corações.

Ri e olha de repente Para fins de não olhar Para onde nas folhas sente O som do vento a passar Tudo é vento e disfarçar. de estar olhando Onde não olha. Quem primeiro é que sorri? O primeiro a sorrir ri. voltou E estamos os dois falando O que se não conversou Isto acaba ou começou? 101 . Mas o olhar.Sorriso audível das folhas Sorriso audível das folhas Não és mais que a brisa ali Se eu te olho e tu me olhas.

102 .Tenho Tanto Sentimento Tenho tanto sentimento Que é freqüente persuadir-me De que sou sentimental. E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a errada. Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada. Temos. E vivemos de maneira Que a vida que a gente tem É a que tem que pensar. Qual porém é a verdadeira E qual errada. Que não senti afinal. Que tudo isso é pensamento. todos que vivemos. ao medir-me. ninguém Nos saberá explicar. Mas reconheço.

Não me ouves.. 103 . Continuas ouvindo O que estás a pensar. Até que neste ocioso Sumir da tarde fútil. Se esfolha silencioso O teu sorriso inútil. Teus olhos entristecem Nem ouves o que digo.. Te disse tanta vez.Teus olhos entristecem. Dormem. Creio que nunca o ouviste De tão tua que és. de triste. Já quase não sorrindo. Começas um sorriso. e prossigo. sonham esquecem.. Continuo a falar. Olhas-me de repente De um distante impreciso Com um olhar ausente. Digo o que já..

E o da criança loura? 104 . Tem as tripas de fora E por uma corda sua Um comboio que ignora..Tomamos a Vila depois de um Intenso Bombardeamento A criança loura Jaz no meio da rua. Longe. A cara está um feixe De sangue e de nada. Cai sobre a estrada o escuro. ainda uma luz doura A criação do futuro.. Luz um pequeno peixe — Dos que bóiam nas banheiras — À beira da estrada.

Não sei o que é nem consinto À alma que o saiba bem. O meu passado não volta. Vai uma nuvem errando. Visto da dor com que minto Dor que a minha alma tem. no azul amplo solta Vaga. E isto lembra uma tristeza E a lembrança é que entristece. no céu sem gente. A nuvem flutua calma. Não é o que estou chorando. Dou à saudade a riqueza De emoção que a hora tece. o que chora Na minha amarga ansiedade Mais alto que a nuvem mora. Mas. em verdade. Entra mais na alma da alma. 105 . Está para além da saudade.Vaga. Mas como. O que choro é diferente. no azul amplo solta.

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