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André Ricardo Pontes – RA: 200500200

Professor Hélio – Seminários de Filosofia


Esquematização Geral da obra Conversas, de Maurice Merleau-Ponty

A obra Conversas, resultado de uma série apresentada semanalmente pelo


autor em uma rádio, faz reflexões sobre a interação do homem com o mundo
sensível. Merleau-Ponty nos mostra que devemos mudar nossa postura prática,
herdada de uma cultura cartesiana de objetividade, já que o pensamento é
resultado da interação entre os nossos sentidos e o mundo. Enquanto mantivermos
essa postura utilitarista, perceberemos o mundo como a única realidade possível –
ou, a melhor possível. Para sua argumentação, Merleau-Ponty usará muitas
referências à pintura, já que esta utiliza temas que são parte do mundo sensível,
como as luzes e as cores.

Para Merleau-Ponty, o mundo é criado relacionando-se presença e


significações, mais a integração do sujeito (interação dos sentidos). Ou seja, o
mundo não é algo indiferente ao sujeito. Este está no mundo, faz parte do mundo,
e a perspectiva é determinante para a interpretação do mundo.

Assim, a consciência (os comportamentos humanos e o conhecimento), as


emoções são resultados dessa interpretação do mundo, que, por sua vez, é
resultado da interação entre o sujeito que percebe e o mundo que é percebido. O
sujeito, assim, percebe a si mesmo como o conjunto de emoções, consciência,
corpo físico, que formam uma unidade. Esta está e faz parte do mundo percebido.

A Arte Moderna terá papel determinante nessa nova relação do sujeito com
o mundo, pois não é descritiva. A idéia desta Arte não é descrever o mundo, mas
fazer com que o mundo apareça, surja, e comunique-se por si com o observador.
Merleau-Ponty se interessará não em categorizar, mas sim em analisar aquilo que
se manifesta (o fenômeno, o mundo). Como nos mostrará no exemplo de Cézanne,
não haverá, portanto, o desenho prévio de uma obra. As cores é que, sozinhas,
mostrarão ao observador a obra.

Capítulo I: O mundo percebido e o mundo da ciência


Neste capítulo, Merleau-Ponty analisará a separação entre a consciência e o
mundo, entre o subjetivo e objetivo, que é o pensamento corrente desde Descartes
acerca do conhecimento. Segundo esta teoria, nossa percepção de mundo não
passa de uma ilusão, e somente o conhecimento objetivo, através da matemática,
da ciência, é que será possível compreender o verdadeiro mundo, que aparece a
cada um de formas diferentes, mas teria uma essência única independente do
observador.

Merleau-Ponty questiona a idéia de que somente a ciência poderá possuir


um conhecimento válido sobre a realidade, através do rigor teórico, das medições
quantitativas e da pretensa objetividade. O autor irá questionar exatamente essa
pretensão que os meios científicos possuem de ser bastiões da objetividade: “Não
se trata de negar ou de limitar a ciência; trata-se de saber se ela tem o direito de
negar ou de excluir como ilusórias todas as pesquisas que não procedam como ela
por mediações, comparações e que não sejam concluídas por leis, como as da física
clássica, vinculando determinadas conseqüências a determinadas condições”.

A ciência descobre, portanto, que não possui o conhecimento definitivo.


Possui apenas modelos teóricos provisórios, que durarão até que surja um modelo
melhor. Isso significa que os cientistas, então, começam a abandonar essa idéia de
deter o conhecimento sobre o mundo real. Evidentemente, isso derruba a convicção
de que a ciência descreve o mundo objetivamente, como ele é. Não tendo mais a
perspectiva desse mundo independente do observador, a ciência se aproximará da
filosofia e da arte, no sentido dessa nova visão de mundo percebido dependente de
quem o observa. Segundo Merleau-Ponty, esta é uma visão nova e é a
característica do nosso tempo.
André Ricardo Pontes – RA: 200500200
Professor Hélio – Seminários de Filosofia
Esquematização Geral da obra Conversas, de Maurice Merleau-Ponty

Capítulo II: Exploração do mundo percebido: o espaço


Este capítulo trata da compreensão do mundo pela noção histórica de
espaço, isto é, a noção derivada da geometria, da matemática. As artes, durante
muito tempo, foram baseadas nessa visão de mundo, nessa percepção de forma e
grandeza que tinha valores absolutos e bem-definidos. A própria ciência, apesar de
não abandonar os métodos abstratos de análise do espaço, passa a entender que
esses métodos não se aplicam de forma precisa no mundo.

Esta reflexão sobre o espaço levará Merleau-Ponty a apontar convergências


entre as artes e a ciência. A arte apresenta um esquema que nos mostrará como
percebemos uma coisa que, no campo perceptivo, é algo que possui forma e
extensão.

Merleau-Ponty aponta também que a nossa percepção do mundo é a


percepção de um meio familiar, utilizando, para isso, o exemplo da lua, que
enquanto está baixa no horizonte, parece maior do que quando está alta no céu, e
explica que isso se dá pela familiaridade com a extensão horizontal - extensão em
que nos movemos - do que com a extensão vertical. Para Merleau-Ponty, esse tipo
de familiaridade não seria apreendido pelo conhecimento racionalista, pois este
separa claramente o sujeito e objeto. Por isso, ele conclui que a filosofia volta a
buscar a unidade entre corpo e espírito.

Capítulo III: Exploração do mundo percebido: as coisas sensíveis


Enquanto a psicologia tradicional entendia a sensação como algo externo ao
corpo, percebido pelos nossos sentidos, a psicologia moderna, por outro lado,
entende que a percepção é fruto da interação entre o objeto e o sujeito. Existem
muitas qualidades em nossa experiência que não têm quase nenhum sentido se as
separarmos das reações que provocam em nosso corpo, o que denota que a
sensação é resultado da qualidade do objeto dentro da experiência humana, onde
esta dá significado àquela.

Em outras palavras, o objeto é percebido dependendo daquele que interage


com o objeto, quando as qualidades deste recebem significados. As qualidades que
percebemos, portanto, são o resultado do objeto em si mais os atributos externos
como o momento em que a interação ocorre, as emoções deste momento, etc. O
objeto, por si, não tem significado. Mas esta união interagindo com a minha
consciência forma a experiência que eu tenho, e forma a relação que eu tenho com
o mundo.

Para Merleau-Ponty, "as coisas estão revestidas de características humanas


(dóceis, doces, hostis, resistentes) e, inversamente, vivem em nós como tantos
emblemas das condutas que amamos ou detestamos. O homem está investido nas
coisas e as coisas estão investidas nele".

Capítulo IV: Exploração do mundo percebido: a animalidade


Neste estágio em que se encontram a ciência e as artes, é patente que
reconheçamos o espaço apenas como uma extensão da humanidade, ou seja, as
experiências que temos, todas as nossas interações com o mundo exterior e os
objetos que nele estão, são projeções de nosso próprio eu. Indo além, é preciso
entender que, sendo nossa experiência limitada, devemos respeitar todos os entes
que interagem com o mundo à sua maneira: "O mundo se oferece também aos
animais, às crianças, aos primitivos, aos loucos, aos que o habitam à sua maneira,
que também coexistem com ele".

A idéia de que o homem possui um lugar privilegiado, e/ou está destinado a


dominar a natureza e o mundo, e os animais existem para servi-lo era comum nos
André Ricardo Pontes – RA: 200500200
Professor Hélio – Seminários de Filosofia
Esquematização Geral da obra Conversas, de Maurice Merleau-Ponty

autores clássicos. Essa idéia é questionada, e Merleau-Ponty aponta que os ditos


homens civilizados se esforçam em busca de uma coerência e um significado
absoluto que não existe.

O homem precisa, portanto, entender e assumir que vê o mundo como uma


ilusão, que não há uma coerência no mundo, que o significado que se vê no mundo
depende sempre do juízo daquele que está vendo, e que essa visão do mundo será
mais clara quando tivermos o entendimento de que somos animais que estamos no
mundo, e não superiores aos demais participantes dessa realidade, nem destinados
a dominar esses demais participantes (a natureza, os animais, etc.).

Capítulo V: O homem visto de fora


Neste capítulo, Merleau-Ponty faz uma análise daquilo que a nossa
experiência ingenuamente entende como natural sobre o homem. Observando o
homem como entidade isolada, e não como parte, a separação entre corpo e
espírito nos parece coerente. De fato, é fácil, ainda que errôneo, entender a
consciência e o corpo como coisas separadas. Essa é a idéia corrente de séculos, e
é especialmente a idéia imposta pelas religiões em geral.

Já a idéia moderna diz que não vivemos isolados em nossa própria


consciência, e mesmo nossas experiências só têm valor no contato com o outro.
Nossa própria existência só é percebida pelo contato com o outro.

A consciência, ou o espírito só se realiza na participação no mundo. A


humanidade não é a união de indivíduos isolados, mas sim uma situação dialética
entre essa união de indivíduos isolados e uma consciência coletiva onde cada
indivíduo é apenas uma parte do todo.

Segundo o autor, não se pode excluir os outros de nossa existência, já que a


vida coletiva é necessária para a felicidade. No grupo, somos ainda indivíduos, e
individualmente não existimos sem as experiências apreendidas do grupo, o que
nos leva a olhar a espécie como um todo, ver que não existimos autonomamente,
de forma separada no grupo.

Capítulo VI: A arte e o mundo percebido


Assim como vimos anteriormente que a formação da experiência é um
evento que ocorre na interação do objeto e suas qualidades com aquele que está
percebendo este objeto e suas qualidades, com a arte dá-se o mesmo. Não há
nenhuma análise, nenhuma forma de se descrever a experiência que poderia
substituir a própria experiência. Isso não é trivial, pois o senso comum diz que ao
analisar a obra, pensamos no que foi retratado, mas quando se observa uma
pintura, não se tem a sensação de interagir com o objeto retratado, e sim interagir
com a própria pintura.

O tema de uma pintura não precisa ser analisado, e sim a pintura, ou seja,
como esse tema é constituído pelo pintor. Entretanto, não significa que apenas a
forma importa. O que importa é a constituição da forma e do conteúdo. Essa
constituição é que, interagindo com a consciência do observador, vai gerar a
experiência. Nesse sentido, a arte moderna, o cubismo, as formas atuais de arte
são, sem dúvida, um choque na idéia antiga de análise não da obra em si, mas do
que a obra teria, como pretensão, de retratar ao observador. O observador deixa
de ser passivo no sentido de observar algo pronto e apenas receber a informação, e
passa a fazer parte da obra, que gerará uma experiência em cada observador. Ele
será co-responsável pela experiência que a pintura, ao ser admirada, causará.
André Ricardo Pontes – RA: 200500200
Professor Hélio – Seminários de Filosofia
Esquematização Geral da obra Conversas, de Maurice Merleau-Ponty

Além disso, o mundo não é somente formado pelas coisas naturais. Ele é
composto também de quadros, músicas, livros, e esse “mundo cultural” fornece
experiências distintas das experiências do mundo natural, e mergulhar nessa
experiência é a forma de “contemplar as obras de arte da palavra e da cultura em
sua autonomia e riqueza originais”.

Capítulo VII: O mundo clássico e o mundo moderno


Neste capítulo, Merleau-Ponty elenca as diferenças entre o mundo clássico e
o mundo moderno, ponderando que o mundo clássico era o mundo das perfeições,
da coerência, do absoluto, enquanto o mundo moderno é relativizador, cheio de
nuances. O conhecimento, no mundo clássico, buscava a perfeição, a objetividade
na descrição da natureza, e o mundo moderno, por sua vez, entende que não
existe objetividade, que o conhecimento é subjetivo e temporário. Essa
subjetividade também se estende à política, por exemplo, quando as palavras
assumem significados distintos dependendo do grupo que as profere. Será essa
mudança da objetividade para a subjetividade um sinal de declínio?

É preciso entender essas ambigüidades que cercam nosso mundo moderno.


Para o autor, a forma de alcançar a clareza é não tratando de coisas ambíguas
exigindo clareza e distinção. Essa, segundo Merleau-Ponty, é a “forma mais
insidiosa do romantismo, é preferir a palavra razão ao exercício da razão”.

Ademais, o autor também questiona: será que o mundo clássico era, de


fato, afeito à perfeição? Será que os autores das pinturas tão bem acabadas que
vemos atualmente viam suas próprias obras como algo finalizado? Merleau-Ponty
diz que possivelmente o grande espaço de tempo que nos separa dos autores
clássicos faz com que não tenhamos capacidade de dar continuidade em seus
trabalhos, e por isso temos essa sensação de completude quando admiramos suas
obras. Mas será que, durante a época em que essas obras eram criadas, seus
autores sentiam a mesma sensação de imperfeição e incompletude que um artista
moderno ao criar uma obra? Ou seja, será que, de fato, o mundo clássico entendia
que o valor de fato da experiência era objetivo? Ou isso é apenas uma visão que
nós temos dos antigos?

Assim, o autor concluirá Conversas apontando o que seria o problema de


nosso tempo: “fazer, por meio da nossa experiência, o que os clássicos fizeram no
tempo deles como o problema de Cézanne, que era fazer do impressionismo algo
sólido como a arte dos museus”. Resta evidente pelo exemplo final, e pelo fato de
que hoje vemos o impressionismo retratado nos museus, apesar de, em sua época,
ter sido visto como uma afronta à arte, que o autor acredita que a ambigüidade e a
subjetividade sempre permearam o mundo humano, inclusive no período clássico, e
o que, diferencia, de fato, o mundo clássico do mundo moderno é que se tem
atualmente o entendimento desse mecanismo. Na verdade, o que entendemos hoje
pela objetividade buscada pelo mundo clássico é, como qualquer outra experiência
humana, uma ilusão, dessa vez causada pela distância temporal dos fatos e da
análise desses fatos.