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Recurso Adesivo doutrina

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O RECURSO ADESIVO E SUA APLICAÇÃO NOS JUIZADOS ESPECIAIS

Sumário: 1) Considerações iniciais; 2) Terminologia; 3) Razões históricas para o surgimento do recurso adesivo; 4) Características do recurso adesivo; 5) Justificativa e finalidade; 6) Aplicação nos Juizados Especiais; 7) Considerações finais; 8) Referências.

1)

Considerações iniciais

Por causa das crescentes discussões sobre os meios de impugnação nos Juizados Especiais Cíveis e, particularmente, sobre o cabimento ou não do recurso adesivo neste rito, é proveitoso o presente estudo. A lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais, nº 9.099 do ano de 1995, surgiu com o objetivo de acelerar o processo, demonstrado através dos princípios dispostos em seu artigo 2º: “o processo orientar-se-á pelos critérios da oralidade, simplicidade, informalidade, economia processual e celeridade, buscando, sempre que possível, a conciliação ou a transação”. Em 2004, a celeridade e a razoável duração do processo tornaram-se princípios constitucionais, albergados no art. 5º, inc. LXXVIII. Torna-se extremamente necessária a utilização do recurso subordinado no âmbito dos juizados especiais cíveis, permitindo o recurso adesivo ao recurso inominado e, para tanto, defenderemos esta linha, a qual será explicada no presente trabalho. 2) Terminologia

Ao contrário do que parece e infere-se a partir de sua nomenclatura, o recurso adesivo não é uma espécie de recurso. Ele, em verdade, é um modo de interposição de recurso: uma maneira especial interpor o recurso de apelação, por exemplo.1,2 As únicas diferenças encontradas estão: no momento de sua interposição, pois poderá ser interposta após o fim do prazo para o recurso
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Entende Nelson Nery Junior: “o denominado recurso adesivo nada mais é do que uma das maneiras de interpor-se aqueles quatro recursos. Em síntese, o recorrente pode utilizar-se dos recursos de apelação, embargos infringentes, recurso especial e recurso extraordinário de duas formas: pela via denominada principal ou pela adesiva. O recurso adesivo, assim, é apenas uma ‘forma’ de interposição daqueles quatro recursos” (Teoria Geral dos Recursos. Recursos no Processo Civil 1, 6ª ed. 2004, pág. 52). 2 Jorge, Flávio Cheim, Teoria Geral dos Recursos Cíveis, 2ª ed. 2004, pág. 325.

principal, e na sua subordinação ao recurso principal. Contudo, ele tem os mesmos requisitos do recurso a que se sujeita. Ante a necessidade de disposição expressa na lei, haja vista o princípio da legalidade estrita no que cerne à matéria de recurso, jamais poderia o recurso adesivo ser considerado autônomo ou sui generis, diante da falta de sua disciplina legal3, isto é, não se encontra inserido no rol taxativo do artigo 496 do Código de Processo Civil pátrio. Além da atecnia quanto ao termo “recurso”, também ocorre com o “adesivo”. Com a devida vênia, transcrevo as palavras de Moacyr Amaral Santos:
“Adesivo” é o que se une, o que se junta. Enquanto isso, o recurso adesivo se contrapõe ao recurso principal, a este não se juntando. Quando muito o recurso adesivo se junta ao procedimento recursal instaurado com a interposição do recurso principal. Melhor fora se se lhe desse a denominação de recurso condicionado, ou subordinado, porquanto o está à existência de recurso principal.4

Por sua vez, Afonso Fraga e Pontes de Miranda, citados por Vicente Greco Filho, utilizaram a expressão “recurso paralelo”.5 Em melhor entendimento, Flávio Cheim afirma que o recurso deveria se chamar subordinado, porque não se trata de adesão, mas de interposição de um novo recurso que é dependente do recurso principal, além de não haver adesão material.6 Esta discussão é meramente acadêmica, pois não há problemas em se utilizar a expressão “recurso adesivo”, que é a terminologia utilizada no direito comparado. E é assim que trataremos no decorrer deste trabalho. 3) Razões históricas para o surgimento do recurso adesivo

O recurso adesivo ou subordinado, no sistema processual brasileiro e, especificamente, no Código de Processo Civil, demorou a ser instituído. Isto porque, até 1973, era necessário que as partes entrassem com recursos principais, mesmo quando houvesse sucumbência recíproca e satisfação com o decidido. Existia, de acordo com o Código de 1939, uma iniqüidade, porque, caso um dos sucumbentes interpusesse, havia a possibilidade de ele ter a sentença reformada em seu favor. Assim, conseqüentemente, o outro sucumbente, uma vez que não tinha a intenção de entrar com
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Souza, Bernardo Pimentel, Introdução aos Recursos Cíveis e à Ação Rescisória, 3ª ed 2004, pág. 120. Santos, Moacyr Amaral, Primeiras Linhas de Direito Processual Civil, 11ª ed Vol 3 1989-1991, pág 200. 5 Greco Filho, Vicente, Direito Processual Civil Brasileiro, 16ª ed Vol 2 2003, pág 286. 6 Jorge, Flávio Cheim, Teoria Geral dos Recursos Cíveis, 2ª ed. 2004, pág. 324.
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recurso, sofreria mais do que o decisum da sentença de 1º grau e, inclusive, poderia sucumbir totalmente, caso a decisão do tribunal decidisse. Toda esta problemática existia pela rigidez e incentivo do Código pretérito à interposição de recursos. A sobrecarga do Judiciário era, portanto, inevitável. Para inibir esta possibilidade, o sucumbente recorrido deveria, também, entrar com um recurso contra a parte que sucumbiu no mesmo prazo do recorrente. Havia temor de que o outro litigante pudesse atacar a decisão e o recorrente, àquela época, interpunha sem vontade. A partir de 1973, o sucumbente não tem mais motivo para temer a interposição do recurso do adversário. Como, com probidade, Flávio Cheim Jorge enaltece, “desse modo, evita-se a utilização de recursos sem muita convicção e, conseqüentemente, a desnecessária carga de trabalhos nos tribunais”.7 A existência de dois recursos principais afeta a velocidade do processo. Vale ressaltar que o recurso adesivo não se assemelha à resposta ao recurso da parte adversa. Não se pode pedir a reforma da decisão em seu favor na resposta, mas somente pelo recurso adesivo.8 A celeridade e a economia processual, princípios encontrados no art. 2º da lei dos Juizados Especiais, são afrontadas, pois a maioria das decisões, como será demonstrado no decorrer do trabalho, não conhecem deste instituto tão eficaz para o rápido andamento do processo. Desde já, notamos que o novo instituto veio para agilizar o bom andamento processo, fazendo valer os princípios acima elencados. 4) Características do recurso adesivo

O recurso adesivo, que surgiu no ordenamento jurídico brasileiro no Código de Processo Civil de 1973, foi disciplinado pelo artigo 500, o qual dispõe o seguinte:
Art. 500. Cada parte interporá o recurso, independentemente, no prazo e observadas as exigências legais. Sendo, porém, vencidos autor e réu, ao recurso interposto por qualquer deles poderá aderir a outra parte. O recurso adesivo fica subordinado ao recurso principal e se rege pelas disposições seguintes.

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Greco Filho, Vicente, Direito Processual Civil Brasileiro, 16ª ed Vol 2 2003, pág. 326. Idem, pág 289.

Através de sucinta análise do dispositivo, só é aplicado o recurso adesivo quando houver sucumbência recíproca, transmitidos pela expressão “vencidos autor e réu”. Não pode, por conseguinte, ser interposto por terceiro ou pelo Ministério Público. Haja vista que os únicos legitimados a entrarem com o recurso adesivo são o autor e o réu, só se pode entrar contra um recurso da outra parte, não existindo, verbi gratia, recurso adesivo a recurso de terceiro. O recurso adesivo é admitido na apelação, nos embargos infringentes, no recurso extraordinário e no recurso especial (inciso II). Luiz Guilherme Marinoni amplia este rol disposto no Código. Por interpretação jurisprudencial, entende o ilustre mestre que sobre o recurso ordinário constitucional, em face da semelhança com a apelação, também pode recair recurso adesivo.9 Este instituto é deveras eficaz para evitar a interposição de recursos e o prolongamento do processo. Em verdade, quando há sucumbência recíproca, é muito comum que as partes estejam conformadas com a decisão judicial e esperem, ansiosas, para que transcorra o prazo do recurso. Com as palavras de Carlos Silveira Noronha, através das quais se demonstra o conformismo dos sucumbentes:
Constituía-se uma cena pitoresca, mas comum às portas dos cartórios e secretarias dos juízes e tribunais, o fato de ficarem os advogados das partes, cada um com a sua petição, no último dia e hora do fechamento do prazo, à espera do recurso do outro. Caso um recorresse, o outro faria o mesmo. Mas, se um não tomasse a iniciativa, o outro também se manteria inerte, transitando a sentença em julgado.10

Entretanto, nada impede que uma das partes resolva entrar com recurso contra aquela decisão ora aceita por ambos e, assim, surpreende a parte contrária. Deve haver, entretanto, interesse de a parte entrar com o recurso em questão. Uma vez que é princípio do processo a isonomia ou a litigância com paridade em armas, deve-se re-equilibrar as partes caso alguma circunstância superveniente possa causar superioridade ou inferioridade para uma parte em relação à outra.11 Deste modo, o prazo para se interpor o recurso adesivo é o mesmo prazo do recurso que será aderido, a contar da publicação do despacho que admitir o recurso principal. No caso do recurso contra sentença do juiz dos juizados especiais, o prazo é de 10 dias. O princípio da isonomia, incorporado pelo art. 500, inc.
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Marinoni, Luiz Guilherme, e Arenhart, Sérgio Cruz, Manual do Processo de Conhecimento, 4ª ed. 2005, pág. 568. Noronha, Carlos Silveira, Do Recurso Adesivo, 1ª edição 1974, pág. 58. Rio de Janeiro: Forense, 1974. 11 Cintra, Antônio Carlos de Araújo, Grinover, Ada Pellegrini, e Dinamarco, Cândido Rangel, Teoria Geral do Processo, 19ª ed. 2003, pág. 53.
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I, encontra-se tutelado no artigo 125, inciso I, do Código de Processo Civil, o qual diz: “o juiz dirigirá o processo conforme as disposições deste Código, competindo-lhe: I – assegurar às partes igualdade de tratamento”. Além disto, o recurso adesivo está intimamente ligado ao recurso principal. O professor Humberto Theodoro Júnior, com probidade, o qualifica como acessório do recurso principal.12 Há tal previsão no inciso III do art. 500, para o qual o recurso adesivo “não será conhecido, se houver desistência do recurso principal, ou se for declarado inadmissível ou deserto”. Vale ressaltar que, se a parte já ofereceu recurso principal, não poderá apresentar recurso adesivo, pois, assim, haveria preclusão consumativa13. O direito de a parte recorrer já existiu e foi aproveitada pela mesma. Para finalizar este tópico, convém elucidar o disposto no parágrafo único do artigo em discussão, o qual dispõe que as mesmas regras do recurso principal quanto às condições de admissibilidade, preparo e julgamento no tribunal superior serão aplicadas ao recurso adesivo. 5) Justificativa e finalidade

Ao contrário do que muitos pensam, o recurso adesivo não é uma ferramenta para ajudar o mal recurso — que seria o recurso, principal, interposto fora do prazo legal — ou facilitar alguma parte que não haja interposto seu recurso, mas serve para desestimular, através de um efeito psicológico, a interposição de recursos meramente acautelatórios, carentes de inconformismo. O interesse em interpô-lo nasce quando se sabe que a outra parte entrou com o recurso. Tal pensamento decorre do fato de que a parte só interporá se a outra interpuser, pois elas estão satisfeitas com a prestação judiciária e, enfim, com o julgado.14 Já que ele é um instrumento que inibe a interposição de recursos ou o seu prosseguimento — caso em que o recorrente poderá desistir-lhe —, a celeridade, princípio processual, é
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Theodoro Júnior, Humberto, Curso de Direito Processual Civil, 41ª ed. 2004 Vol I, pág. 524. “Inadmissível a interposição de apelação adesiva pela parte que apelou principalmente. O recurso subordinado só é dado à parte que se conformaria com a sentença se a outra não recorresse” (TJRS 15ª C., Ap. 596158344, rel. Des. Araken de Assis, j. 19.9.96, v.u., RJTJRS 180/381) 14 Como escreve Flávio Cheim Jorge, “Muitas vezes, até se tinha a intenção de se conformar com o julgado e não recorrer, eis que a decisão, da forma como prolatada, era de bom tamanho. No entanto, no receio do outro litigante ataca-la, interpunha, desde logo, sem muita convicção, o seu próprio recurso” (Teoria Geral dos Recursos Cíveis, 2ª ed. 2004, pág. 321).

alcançada. O fato de saber o recorrente que, posteriormente, um recurso pode ser “aderido”, deixa-o mais cauteloso antes de acionar o Judiciário. Isto imprime maior velocidade aos processos. Outrossim, se o principal não for conhecido ou se o recorrente desistir do recurso principal — pois há a possibilidade de nova decisão que piore sua situação —, o adesivo quedará inviabilizado, pois lhe é dependente. A intenção do recorrente-adesivo não é a de protelar o processo, pois o quantum designado lhe foi razoável.15 Além do mais, a parte que realmente está inconformada com a decisão judicial entra, de pronto, com o recurso.16 Ademais, o recurso adesivo reduz o processo de conhecimento, já que as partes não têm interesse em interpor recurso, de acordo com o conformismo já explanado. Acrescenta com clareza, ainda, Noronha:“a indecisão de cada uma das partes em ingressar com o recurso principal pode resultar na inexistência deste, após o decurso do prazo, hipótese em que a sentença transita em julgado, acelerando a solução do litígio”.17 Continua o mestre enunciando mais argumentos em prol do recurso adesivo. Caso o Tribunal resolva acolher as alegações do recurso que aderiu ao principal, torna-se claro que o recorrente-principal quererá aceitar o sentenciado em 1º grau. Ora, uma vez que é subordinado ao principal, o recorrente, nesta situação, pode desistir e, assim, o recurso adesivo desaparecerá e não será conhecido, o que lhe é benéfico. Mais uma vez, a celeridade e economia processuais são constatadas. Segue raciocínio similar Moacyr Amaral Santos, o qual encontrava problemas antes da instituição do recurso adesivo. Acontecia que, mesmo que uma parte estivesse conformada com a decisão do juiz, esta ficaria induzida a entrar com o recurso para evitar que uma nova decisão a desfavorecesse. Conclui:
Visto esse problema sob vários aspectos, inclusive o de redução do volume de recursos e, de certa forma, visando a prestigiar o princípio da lealdade processual, o Código de Processo Civil vigente, à semelhança de legislações processuais estrangeiras contemporâneas, estabeleceu que, no caso de ambas as partes serem parcialmente sucumbentes e de apenas uma delas recorrer, à outra assiste a faculdade de, apesar de esgotado o prazo legal para a interposição do recurso, mas dentro de prazo limitado, oferecer também sua impugnação ao julgamento.18(grifos nossos)
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“O CPC, art. 500, III, expressa que o recurso adesivo não será conhecido se o recurso principal for declarado inadmissível, o que, in casu, ocorreu. Não conheço do recurso” (do relator Min Edson Vidigal, STJ, 5ª T., REsp 30.134-1-RJ, j. 2.2.94, v.u. RSTJ 63/315). 16 Jorge, Flávio Cheim, Teoria Geral dos Recursos Cíveis, 2ª ed. 2004, pág. 327. 17 Noronha, Carlos Silveira, Do Recurso Adesivo, 1ª ed. 1974, pág. 59. 18 Santos, Moacyr Amaral. Primeiras Linhas de Direito Processual Civil. 11ª ed. 1989-1991 Vol 3, pág 200.

Em decorrência da aceitação, implícita, da reformatio in peius pelo Código de 193919, acontecia muito a parte somente interpor recurso por puro temor do recurso adversário, o que prejudicava a economia processual e a rapidez do processo. O mestre Jose Afonso da Silva, com clareza, expõe: “Essa rigidez, que se observava no CPC, de 1939, estimulava, ou antes, compelia o recuso de ambas as partes na sucumbência inversa, embora alguma delas, ou talvez as duas, já se sentisse conformada com a sentença”.20 E continua Amaral Santos:
Aquele que deseja recorrer é que vai pensar duas vezes antes de abrir a via recursal, com recurso principal, dando margem ao outro de, após o prazo, aderir, propiciando julgamento contra o interesse daquele. Então, balanceará a situação para verificar se não é mais conveniente ficar com o que já obtivera do que arriscar-se a perdê-lo na busca de um pouco mais.21

Desde que surgiu e foi instituído no Código de Processo Civil brasileiro, o recurso adesivo só se exerce a favor dos princípios processuais e constitucionais que baseiam nosso sistema. 6) Os Juizados Especiais

O recurso, adjetivado pelos operadores do Direito como inominado, está previsto no artigo 41 da lei dos Juizados Especiais (9.099/95), que dispõe: “da sentença, excetuada a homologatória de conciliação ou laudo arbitral, caberá recurso para o próprio Juizado”. Consoante a previsão do artigo 42 da lei dos Juizados Especiais, este recurso deve ser interposto em até 10 dias. De pronto, percebemos que o prazo é diminuído de 05 dias em relação à apelação do procedimento ordinário. A celeridade, além de outros princípios, é levada à risca nos juizados especiais. Ademais, não se pode interpor qualquer recurso nos Juizados Especiais. Somente o recurso inominado, semelhante à apelação do procedimento comum, os embargos de declaração são previstos pela lei nº 9.099/95. Esta restrição a somente dois tipos de recursos serve,
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Diferentemente, defende Flávio Cheim Jorge: “Ademais, é importante ressaltar que o recurso adesivo não tem relação direta com o princípio da proibição da reformatio in pejus. Há certos autores que acabam por confundir essa situação, dizendo que ‘o problema da reformatio in pejus fica praticamente arredado com a interposição do recurso do apelado, porque este, exercitando seu direito subjetivo de impugnar a apelação autônoma, postula contra o apelante principal um empioramento do julgamento anterior’” (Teoria Geral dos Recursos Cíveis, 2ª ed. 2004, pág. 328). 20 Silva, José Afonso da, Do Recurso Adesivo no Processo Civil Brasileir, 2ª ed. 1977, pág. 107. 21 Idem, pág. 108

justamente, para não prejudicar o bom andamento do processo, atalhando a utilização de expedientes que possam procrastinar o trâmite processual, que a decisão transite mais rapidamente e que, por fim, o princípio constitucional do acesso à justiça prevaleça. Especificamente sobre os embargos de declaração, aqui, não interrompem o prazo como no procedimento ordinário, mas suspendem-no, e, por isso, não protelam a prestação jurisdicional e estão a par da celeridade almejada no procedimento especial. Embora traga consigo inúmeros benefícios, as Turmas Recursais do Brasil não têm aceitado a utilização do recurso adesivo ao recurso e, para tanto, alegam que não há previsão legal e que vai de encontro aos princípios, já citados anteriormente, do procedimento especial. No entanto, por analogia e por fazer valer mais ainda os princípios objetivados pelo procedimento sumariíssimo, o recurso pode ser adesivado ou aderido, apesar de sua não previsão expressa na lei nº 9.099/95. Vale dizer que ele, apesar de não previsto no rol do art. 496 do CPC, é utilizado. A lei especial não haveria de excepcionar o proveitoso recurso. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e São Paulo já instituíram, em 2001, no Fórum Permanente dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais do Brasil, o seguinte enunciado. Com igual texto, existe o Enunciado n. 11.4 do Encontro das Turmas Recursais do Rio de Janeiro:22 “Enunciado 88. Não cabe recurso adesivo em sede de Juizado Especial, por falta de expressa previsão legal (Aprovado no XV Encontro – Florianópolis/SC)”. 23 Com texto equânime, a Conclusão do Encontro dos Magistrados dos Juizados especiais da Bahia disse que: “não cabe recurso adesivo porque não há previsão legal para tal”. 24 De igual forma, consolidando, em 2003, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, na “Consolidação dos Enunciados do IX Encontro do Fórum Permanente de Coordenadores de Juizados Especiais Cíveis e Criminais do Brasil”, que ocorreu em Belo Horizonte, estabeleceu, em 2003, no tópico 11.4, o mesmo texto do acima transcrito. 25 Só para reiterar, decidiu a Primeira Turma das Turmas Recursais da Bahia:
Decisão: Decidiu, à unanimidade de votos, NÃO CONHECER DO RECURSO ADESIVO de Zilma Alves de Araújo, por não ter previsão legal, e NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO do Bompreço Bahia S/A, para condená-lo nas custas processuais e honorários advocatícios, que arbitro em 20% (vinte por cento) sobre o valor da condenação. A Súmula do julgamento servirá de Acórdão nos termos do art. 46
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Souza, Bernardo Pimentel, Introdução aos Recursos Cíveis e à Ação Rescisória, 3ª ed 2004, pág 815. Disponível em: <http://www.tj.rs.gov.br/institu/je/enunciadosciveis.html>. Acesso em: 16 out. 2005 24 Souza, Bernardo Pimentel, Introdução aos Recursos Cíveis e à Ação Rescisória, 3ª ed 2004, pág 816. 25 Disponível em: <http://orbita.starmedia.com/tj.rj.paracambi/paginas/enjec.htm>. Acesso em: 16 out. 2005.

da Lei nº 9.099/95 (JDCIT-TAM-00352/02-1 CV, Data da Sessão: 16/05/2005). (grifos nossos)

Parece que os Tribunais Egrégios deste país estão andando de encontro às boas inovações e consideráveis avanços das normas procedimentais, como julgamento dos acórdãos 123.946 e 128.060, respectivamente, emanados pelo juiz relator Arnoldo Camanho de Assis, retirada da Revista dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais Números 8 e 9, do Distrito Federal e Territórios:26
PROCESSO CIVIL. INTIMAÇÃO DE TESTEMUNHAS RESIDENTES EM OUTRA COMARCA POR CARTA PRECATÓRIA. DESCABIMENTO EM SEDE DE JUIZADOS ESPECIAIS. EXCLUSÃO DO MOTORISTA DA EMPRESA-RÉ DO PÓLO PASSIVO DA RELAÇÃO PROCESSUAL. DECISÃO QUE, EM TESE, PODERIA CAUSAR GRAVAME APENAS AO AUTOR, NÃO ESTANDO A RÉ, PORTANTO, LEGITIMADA A QUESTIONAR O ATO JUDICIAL QUE ASSIM DECIDIU, ATÉ PORQUE A MESMA DISPÕE DE AÇÃO REGRESSIVA PARA A EVENTUALIDADE DE SUA CONDENAÇÃO. INDEMONSTRADOS, TANTO PELO AUTOR, QUANTO PELA RÉ, OS FATOS CONSTITUTIVOS DOS DIREITOS QUE ALEGAM TER, É DE SER MANTIDA A SENTENÇA QUE JULGA IMPROCEDENTE A PRETENSÃO INAUGURAL E O PEDIDO CONTRAPOSTO. RECURSO ADESIVO. DESCABIMENTO NO MICROSISTEMA DOS JUIZADOS ESPECIAIS. PRECEDENTES DA TURMA RECURSAL. 5. Não se admite recurso adesivo em sede de juizados especiais, não só porque inexiste previsão na lei de regência, como porque não há compatibilidade entre o seu processamento e o rito especial e célere preconizado pelo diploma legal específico. 6. Recurso conhecido e desprovido. Sentença confirmada. (ACÓRDÃO Nº 123.946). (grifos nossos) ACIDENTE DE TRÂNSITO - CULPA RECÍPROCA - RECURSO ADESIVO, NÃO CONHECIMENTO - PREVISÃO LEGAL, AUSÊNCIA Civil e Processual Civil. Recurso adesivo. Não conhecimento. Acidente de trânsito. Culpa concorrente. Sentença de parcial procedência. 1) Não se conhece de recurso adesivo em sede de Juizados Especiais, não só porque inexiste previsão na lei de regência, como porque não há compatibilidade entre o seu processamento e o rito especial e célere preconizado pelo diploma legal específico. 2) Se os depoimentos de testemunhas não se prestam a solucionar a controvérsia, pode o juiz decidir o feito com base na análise dos depoimentos pessoais das partes e das fotografias constantes dos autos. 3) Correta é a sentença que, diante da prova colhida nos autos, dá pela existência de culpa recíproca, acolhendo parcialmente o pedido deduzido na inicial e o pedido contraposto e compensando os créditos até chegar ao valor efetivamente devido por uma das partes à outra. 3) Recurso improvido. Sentença mantida. Decisão: Recurso do autor conhecido e desprovido. Recurso adesivo não conhecido. Unânime. (ACJ 790/99, TRJE, PUBL. EM 07/08/2000; DJ 3, P.50). (grifos nossos)

Todavia, este entendimento não mais é remansoso na jurisprudência brasileira. Em decisão proferida pela Turma Recursal da Justiça Federal do Rio Grande do Norte, que abaixo
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Disponível em: <http://tjdf19.tjdf.gov.br/cgi-bin/tjcgi1?livro=8&mgwlpn=servidor1&nxtpgm=plejhtmc&origem= inter> e <http://tjdf19.tjdf.gov.br/cgi-bin/tjcgi1?livro=9&mgwlpn=servidor1&nxtpgm=plejhtmc&origem=inter>. Acesso em: 18 out. 2005.

transcrevemos em sua inteireza, decidiu-se em prol do cabimento do recurso adesivo no procedimento dos juizados especiais:
RECURSO ADESIVO. CABIMENTO. RECONHECIMENTO DE TEMPO DE SERVIÇO. EMPREGADA DOMÉSTICA. INEXISTÊNCIA DE PROVA DOCUMENTAL. FORÇA MAIOR. DECURSO DO TEMPO. INADMISSIBILIDADE. A Turma Recursal, à unanimidade, entendeu ser cabível, em sede de Juizados Especiais Federais, o recurso adesivo, julgando-o, no entanto, prejudicado, em razão do provimento do recurso do INSS. O Juiz Janilson Bezerra de Siqueira, em voto oral, face à inexistência de regulamentação própria nas Leis 10.259/02 e 9.099/95, considerou que, sendo uma forma de adesão, tal recurso não precisa estar elencado na lei específica, bastando a previsão do recurso principal. Levantou ainda que o recurso adesivo atende à agilidade processual, na medida em que desestimula a interposição de recursos simultâneos, mesmo quando não presente o inconformismo. No mérito, por maioria, vencido o Juiz Francisco Eduardo Guimarães Farias, a Turma Recursal, em acolhimento ao recurso do INSS, reformou a sentença que julgou procedente a pretensão de reconhecimento de alegados dez anos de tempo de serviço prestados como empregada doméstica e provados unicamente com a declaração da empregadora. O entendimento esposado pelo magistrado de 1º grau fundou-se na existência de força maior, que impediria a requerente de apresentar documentos contemporâneos, hipótese autorizada pela própria legislação previdenciária, consistente no decurso de tempo de quase vinte anos. O Relator, divergindo desse posicionamento, ponderou que tal acontecimento não merece ser qualificado como força maior, vez que não se reveste dos requisitos da imprevisibilidade ou extraordinariedade. Ademais, suscitou o fato de que o lapso de tempo alegado é suficientemente considerável para apontar a existência de qualquer indício de prova documental. (Turma Recursal da JFRN. Recurso nº 2004.84.13.000123-1, Relator: Almiro José da Rocha Lemos, julg. em 05/03/2004, composição: Janilson Bezerra de Siqueira, Francisco Eduardo Guimarães Farias e Almiro José da Rocha Lemos). (grifos nossos)

Jorge Alberto Quadros de Carvalho Silva, embora defenda que não é possível ser utilizado o recurso adesivo nos juizados especiais, menciona que os tribunais do Paraná e de Goiás o aceita.27 Já julgou a Turma Recursal do Paraná, de recurso inominado da Comarca de Ibiporã, com méritos para o relator Vitor Roberto Silva:
CIVIL. COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA. ADQUIRENTE. DESISTÊNCIA. PARCELAS PAGAS. DEVOLUÇÃO. PARCELAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. CLÁUSULA CONTRATUAL. INTERPRETAÇÃO. COMISSÃO DE CORRETAGEM. CONTRATO AUTÔNOMO. MULTA. REDUÇÃO. IPTU. VALOR DA CONDENAÇÃO. EQUÍVOCO. REDUÇÃO DE OFÍCIO. 1. É incabível a devolução das parcelas aos adquirentes de forma parcelada, pois a resolução do ajuste ocorreu, de fato, por iniciativa dos promitentes compradores. 2. A penalidade imposta aquele que deu causa à ruptura do negócio não se confunde com multa moratória. 3. À míngua de ajuste expresso em sentidocontrário, é do vendedor a responsabilidade pelo pagamento da comissão de corretagem, por ele contratada e que importa em ajuste autônomo da compra e venda. Já os impostos incidentes sobre o bem, na vigência do ajuste, são de responsabilidade dos compradores, por expressa previsão contratual. 4. O valor principal da condenação é reduzido de ofício, porquanto computados juros moratórios antes do correto termo inicial desse encargo. Recurso
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Silva, Jorge Alberto Quadros de Carvalho, Lei dos Juizados Especiais Cíveis Anotada, 2ª ed 2001, pág. 131.

principal não provido. Recurso adesivo provido em parte. Redução de ofício do valor da condenação. (Autos 2004.469-1/0 – fls. 2).28 (grifos nossos)

Ainda que não provido, ou seja, não acatado, no mérito, o recurso principal, esta decisão não afetou o recurso adesivo, que foi provido em parte. Caso não fosse aceito o recurso adesivo no Código de Processo Civil e, especificamente, na lei 9.099/95, a injustiça predominaria na decisão acima. Inclusive no Distrito Federal, a Primeira Turma Recursal já decidiu pró-recurso adesivo:
CIVIL. PROCESSUAL CIVIL. DANO MORAL. OCORRÊNCIA. RECURSO ADESIVO. CABIMENTO. 1) O recurso adesivo não é meio de impugnação autônomo, a reclamar previsão legal específica, podendo e devendo ser admitido em sede de juizados especiais. 2) É grave a culpa do fornecedor que lança, indevidamente, o nome do consumidor em cadastros restritivos de crédito quando as prestações foram pagas antes mesmo do vencimento. 3) O valor das indenizações nos juizados especiais devem guardar, tanto quanto puderem, semelhança com aquelas fixadas pelo juízo comum, sob pena de se desprestigiar quem busca a justiça do povo. (ACJ DF 20020310108655, Rel. Juiz GILBERTO PEREIRA DE OLIVEIRA, 25/02/2003.). (grifos nossos)

Por sua vez, Joel Dias Figueira Junior e Mauricio Antonio Ribeiro Lopes afirmam que nada impede que as Leis de Organização Judiciária regulem a matéria do recurso em questão nos Juizados Especiais. É necessário, entretanto, que o Código de Processo Civil não vá de encontro a algum artigo ou princípio da lei especial.29 Ainda alicerçando nosso ponto de vista, com sapiência justifica João Roberto Parizatto:
Inobstante seja faculdade a cada parte interpor, independentemente, no prazo legal, será admissível também no Juizado Especial, nos casos de sucumbência recíproca, a interposição de recurso adesivo, mediante o recurso interposto pela outra parte, nos termos do art. 500 do Código de Processo Civil, a ser ofertado no prazo de resposta (CPC, art. 500, I), do recurso aforado no Juizado Especial (parágrafo 2º do art. 42).30

Não se precisa de muito raciocínio para afirmar que não há argumentos para a não aceitação do recurso adesivo nos juizados especiais. Resta claro que não há previsão legal do recurso adesivo na legislação dos juizados especiais. De acordo com o princípio da taxatividade, para o qual os recursos devem estar previstos, por silogismo, estaria de acordo com a lei o seu não cabimento. Como já foi explicitado, o recurso adesivo deveria estar listado no artigo 496 do Código de Processo Civil. Sem embargo, ele é aceito e utilizado no procedimento ordinário,
28

Disponível em: <http://www.tj.pr.gov.br/juizado/images/Acordaos/Sessao15_240504/2004.469-1.pdf>. Acesso em: 21 out. 2005. 29 Figueira Junior, Joel Dias; Lopes, Mauricio Antonio Ribeiro, Comentários à Lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais, 1995, pág. 195. 30 Parizatto, João Roberto, Comentários à Lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais de acordo com a lei nº 9.099, de 26-09-1995, 1996, pág. 104.

porque não se trata de um recurso propriamente dito, mas, como dito, um método de interposição de recurso. 7) Considerações Finais

Através do demonstrado, torna-se evidente a possibilidade de utilização do recurso adesivo nos Juizados Especiais. Em primeiro lugar, pelo fato de ele não ser, essencialmente, uma espécie de recurso, devido à sua não previsão no artigo 496 do CPC, o que deveria ocorrer, em decorrência do princípio da taxatividade dos recursos. Demais, ao contrário do que se alega, por ser catalisador do processo, facilitando o rápido trânsito em julgado da decisão dos Juizados Especiais e evitando, assim, a interposição de recursos desnecessários. Revela-se, portanto, notória a utilidade do recurso adesivo nos juizados especiais. Contraditoriamente, pois, estão os julgados que negam o seu cabimento. Estes inutilizam explicitamente o princípio da celeridade processual, encontrado no já transcrito artigo 2º da lei 9.099/95. A lacuna existente na lei em questão, quanto à não previsão do recurso adesivo, significa que não é vedado este instituto. Necessita, então, ser preenchida pelo Código de Processo Civil, o qual dita as regras gerais dos procedimentos cíveis. 8) Referências

BRASIL. Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973. Institui o Código de Processo Civil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L5869.htm>. Acesso em: 20 out. 2005. BRASIL. Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995. Dispõe sobre os Juizados Especiais Cíveis e Criminais e dá outras providências. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ LEIS/L9099.htm>. Acesso em: 20 out. 2005. CARVALHO, Luis Gustavo Grandinetti Castanho de; CAMPOS, J. E. Carreira Alvim Antonio; SILVA, Leandro Ribeiro da; e PRADO, Geraldo Luiz Mascarenhas. Lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais comentada e anotada. 2ª edição. Rio de Janeiro: Lúmen Juris, 2002.

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