GIACOIA JR, Oswaldo. “Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos.” Cáp.

I em Metafísica Contemporânea, por Guido Imaguire, Custódio Luis S. Almeida, Manfredo Araújo de Oliveira (Org), p. 13-39. Rio de Janeiro, RJ: Vozes, 2007.

Digitalizado por Gilberto Miranda Junior – gil-jr@uol.com.br

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Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos
Oswaldo Giacóia. Junior

1. Metafísica, platonismo e niilismo
Um dos traços mais marcantes da filosofia de Nietzsche consiste em sua pretensão, sustentada desde seus primeiros escritos, de, ao reverter o platonismo, também superar a metafísica pela transvaloração dos supremos valores da cultura ocidental. Para ele, a raiz profunda, a base completamente desenvolvida do pensar metafísico se encontra sistematizada no idealismo platônico, com a doutrina das idéias e a conseqüente oposição entre os mundos sensível e inteligível, constituindo o segundo o real (o ser, a essência permanente) contraposta à enganosa e insubsistente da aparência sensível (vir-a-ser, simulacro) e, portanto, a instância de julgamento acerca de sua realidade e valor. Desse modo, o anúncio da 'morte de Deus' está necessariamente associado à pretensão suprema de ter superado a metafísica, pois, como afirma Heidegger, antes de se referir a Deus em sentido religioso e cristão, "Deus é o nome para o âmbito das idéias e dos ideais. Esse âmbito do supra-sensível vale como mundo verdadeiro e autenticamente real desde Platão ou, dito mais exatamente, desde a interpretação grega tardia e cristã da filosofia platônica. Diferenciando-se dele, o mundo sensível é apenas o mundo do aquém, o mundo mutável e, por isso, o mundo meramente aparente, não real. O mundo do aquém é o vale de lágrimas, diferenciando-se do monte da felicidade eterna no além. Se, tal como acontece ainda em Kant, chamarmos mundo sensível ao mundo físico em sentido lato, o mundo supra-sensível é o mundo metafísico"1.

1. HEIDEGGER, M. Nietzsches Wort "Gott ist tot". In: Holzwege. 6. Auflage. Frankfurt/M- Vittorio Klostermann Verlag,

1980, p. 212 [Tradução portuguesa: HEIDEGGER, M. Caminhos de floresta. Trad. Irene Borges Duarte et alii. Lisboa: Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, s.d., p. 250s].

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1 Nietzsche- fim da metafísica e os pós-modernos

É, portanto, em ligação estreita com Platão e com o platonismo que se firma a identificação entre bem, belo e verdadeiro, instituindo um vínculo indissolúvel entre conhecimento, verdade e moralidade, assim como a idéia de uma significação ética para a existência do mundo e do homem. Essa interpretação pode ser referida tanto à meditação intensa sobre a filosofia platônica quanto à influência de Schopenhauer. Para este, com efeito, "colocar a força que produz o fenômeno do universo - e que, com isso, determina a constituição do mesmo - em ligação com a moralidade da intenção; e, por meio disso, demonstrar uma ordenação moral do universo como fundamento da ordenação física, este foi desde Sócrates o problema da filosofia"2. Consideremos, pois, esse ponto como uma das idéias-chave de interpretação nietzscheana: o traço dominante tanto na teoria quanto no caráter do homem Platão teria consistido em seu instinto ou impulso ético. Platão seria, antes de tudo, um político e um legislador. Todos os seus outros talentos e capacitações, inegavelmente pronunciados, estariam a serviço daquela vocação predominante - tirânica, como afirma Nietzsche. Foi em vista da ética e da política que Platão mobilizou sua teoria do conhecimento, sobretudo a parte consistente na doutrina das idéias. Essa teria sido a principal conseqüência, ou reação, desencadeada nele pela experiência vivida com o moralista Sócrates. Um dos principais pontos de apoio dessa tese é dado pela célebre distinção platônica entre dois gêneros de saber: o conhecimento racional (nous) e a correta opinião (doxa aletes), que se diferenciam pela proveniência - respectivamente, a partir de uma doutrina baseada em fundamentos, no primeiro caso, própria dos deuses e acessível apenas a poucos mortais; e a partir do convencimento desprovido de fundamentação, no segundo, acessível a todos os homens. Em associação com isso, Nietzsche interpreta, a seu modo, o relato de Aristóteles, de acordo com o qual Platão teria primeiramente partilhado a doutrina heraclitiana, segundo a qual todas as coisas sensíveis se encontram em fluxo perpétuo - à qual teria permanecido fiel até seu encontro com Sócrates3. Valendo-se do trabalho críti2. SCHOPENHAUER, A. Die Welt als Wille und Vorstellung II. Cap. 47. In: Sämtliche Werke. Ed. Wolfgang Frhr. Von Löhneysen. Frankfurt/M: Suhrkamp Verlag, 1986, vol. II, p. 755. Não havendo indicação em contrário, as traduções são de minha responsabilidade. 3. "Depois dos sistemas que mencionamos vem a filosofia de Platão, que a muitos respeitos segue esses pensadores, mas tem características próprias que a apartam da Escola Itálica. Tendo-se familiarizado desde jovem com Crátilo e com as doutrinas heraclitéias (de que todas as coisas sensíveis se encontram em perpétuo estado de fluxo e não se pode ter conhecimento delas), manteve mais tarde essas opiniões. Sócrates, no entanto, ocupava-se com questões éticas e negligenciava o mundo natural como um todo, mas buscava o universal nesses assuntos de Ética e, pela primeira vez, aplicou o pensamento às definições. Platão aceitou a sua doutrina, sustentando, porém, que o problema não dizia respeito às coisas sensíveis e sim a entidades de outra espécie - e, por este motivo, a definição não podia versar sobre qualquer coisa sensível, uma vez que estas mudavam constantemente" (ARISTÓTELES. Metafísica, livro I, cap. 6, 987a-987b). Adoto a tradução de Leonel Valandro (Porto Alegre: Globo, 1969, p. 50).

interpreta no mesmo sentido deste último a sentença de Heráclito. por princípio. Então. inédito durante a vida do filósofo. As demais citações do mesmo ou de outro manuscrito dessas preleções serão referidas à: Werke (Ed. O que significa que Platão não teria dado à sentença o significado que lhe deu o próprio Heráclito. 1873). II. Heraclit von Ephesus (Acta Societatis Philologae Lipsiensis. SCHUSTER. contendo as Vorlesungsaufzeichnungen escritas entre o semestre de inverno de 1871/1872 ao semestre de inverno de 1874/1875. ministradas por Nietzsche na Universidade da Basiléia. 4) (abreviada como Werke. influenciado por seu mestre Crátilo. por exemplo. korei tem um sentido muito enfático. . No último caso. correspondendo à Abteilung 2 (segunda seçcão). Band (vol. G. toda permanência qualitativa e espacial estaria. porém apenas se torna perpetuamente isso ou aquilo. constitui um dos manuscritos para a série de preleções sobre a filosofia de Platão. nenhum pedacinho de terra permanece terra. o filólogo Schuster (a quem segue de muito perto)4. KGW). Oyden menei tem o acento principal"5. mas sim aquele dos heraclitianos. pensa apenas que nenhuma coisa no mundo furta-se finalmente ao declínio. segundo Schuster e Nietzsche) implica que nada permanece definitivamen- 4. NIETZSCHE. No primeiro caso. e oyden menei se relaciona a cada parte da substância: nenhum pedacinho da mesma permanece o mesmo que ele é. isso significa então que todas as coisas renovam permanentemente o teor de suas partes. de acordo com a qual panta korei kai oyden menei ("tudo muda e nada permanece"). Para Nietzsche. O volume. Esses apontamentos manuscritos para preleções encontram-se em: Nietzsche Werke. 1995. isso significa então que nenhuma coisa individual permanece eternamente em sua existência individual. Nietzsche afirma que Platão. Nisso ele segue os heraclitianos: enquanto Heráclito. Colli e M. Essa interpretação é a de Platão. e baseando-se particularmente em Crátilo 402a. em verdade. 207ss. Este texto. tendo sido concebida como uma tentativa de servir àqueles que querem ler Platão e consideram importante preparar-se para isso. 5. foi publicado em 1995. se dissermos que toda coisa singular passa. e panta korei nada mais significa do que toda coisa tem uma vez que seguir adiante de seu lugar aqui. II. ainda que se mantenha inalterada por longo tempo. Berlim/New York: De Gruyter. então estaria correto o que Platão designa como o ponto de vista dos heraclitianos. P. 4). segundo a demonstração de Schuster p. A escolha da segunda opção (aquela genuinamente de Heráclito. e nenhuma permanece. Einführung in das Studium der platonischen Dialogue (Introdução ao estudo dos diálogos platônicos).Oswaldo Giacoia Junior 15 co-filológico de seu colega. Kritische Gesamtausgabe (doravante KGB). esse deslocamento de acento para cada um dos componentes da sentença de Heráclito corresponde a uma decisão filosófica de relevância capital. com indicação do número das páginas. De acordo com a interpretação de Nietzsche. Band III. duas direções hermenêuticas de implicações diversas se abrem perante aquela proposição: "Se dissermos a matéria de todas as coisas modifica-se perpetuamente. 150. banida do mundo. Montinari (Berlin/New York: de Gruyter). por mais longo tempo do que um momento. F. A citação acima se refere à p. Ed. a saber. A referida introdução constitui a preleção proferida no semestre de inverno de 1871/1872. 4. que nenhuma coisa é isso ou aquilo. todo peso recai sobre oyden menei.

que supõe. Isso configura o seguinte resultado geral: a sentença de Heráclito interpretada no sentido de que nenhuma coisa na natureza permanece eternamente. Sendo assim. mas é platônico-cratiliana. Heráclito justamente não é primeiramente o pai daquela doutrina do desprezo dos sentidos: ao contrário. tudo passa. Tal inferência tem por base sua distinção entre dois gêneros de conhecimento. como mundo da doxa polemiza Parmênides"6. inclusive o céu e a terra atuais. essa conclusão "também não procede do heraclitiano Protágoras. tampouco pode haver qualquer gênero de conhecimento (episteme) correspondente a tais essências. ele não poderia concernir a nada que fosse sensível. episteme = doxa = aisth).16 1. pois se nenhum conhecimento racional do mundo sensível é filosoficamente legitimável. Resultado: desespero gnoseológico. A outra escolha (a de Crátilo e Platão) implica que tudo está em fluxo incessante portanto nem o mais ínfimo atributo de nenhuma coisa sensível existente permanece idêntico a si mesmo. só que não universalmente válido. que tudo passa e novamente retorna. ele primeiro fundamentou a mathesis sobre opsis e akoe. a cada instante. ao tomar o outro caminho . Ibid.ou seja. diferente de si mesmo. Protágoras pensava existir uma episteme. mutáveis . o proveniente do nous (intelecto). de maneira que nenhum conhecimento racional é possível acerca delas. Para Nietzsche. não inviabiliza todo e qualquer conhecimento das coisas sensíveis. de acordo com a hipótese. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos te na natureza. pois todo sensível. que seria o mesmo que aesthesis e a doxa que sobre ela repousa (portanto. por definição. Ao contrário. extraiu da sentença a seguinte conclusão: todas as coisas sensíveis se encontram em perpétuo fluxo e alteração. esse foi também o caminho de Protágoras. Todas as coisas existentes são transitórias. . porém que há conhecimento. e a correta opinião (doxa aletes).porém com consistência e identidade suficientes para permitir um certo gênero de conhecimento a seu respeito. pois subsistência supõe inerência. o que tem por conseqüência que nada se pode pensar como constituindo a essência de tais coisas. por sua vez. mas tudo retorna igualmente de modo perpétuo. no entanto. ceticismo.o de Crátilo -. um conhecimento que tem por base a experiência e os sentidos. que torna cada coisa. Platão. portanto reflexão com base (Grund) na experiência (fé incondicional na gnosis): contra o mundo dele. Sendo o primeiro imutável. Ele pensa que só há uma espécie de conhecimento. está mergulhado no eterno fluxo da insubsistência. Apenas veta a possibilidade de um conhecimento que ultrapassa o âmbito da aisthesis e da doxa que sobre ela se assenta . identidade e permanência. isso afeta também a noção de um fundamento ab- 6. inclusive em suas ínfimas partes. pessimismo prático.

que acabou persuadindo-se de que não devia dizer nada e se contentava em mover o dedo. De Sócrates: poderosa influência da idealidade 7. e a respeito do que muda nenhuma declaração verdadeira se pode fazer. o igual. Ele negava que a abstração fosse abstraída. NIETZSCHE. opinava que isso não se pode fazer sequer uma vez7. que correspondem a entidades intelectuais idênticas. Temos que pensar que Platão partiu de tais abstrações como bom. "Os conceitos socráticos. Werke II. Como poderia ser abstraído o sempre permanente daquilo que sempre se modifica!"8 Nos conceitos socráticos . algo singular. não estão também sujeitos ao erro. p. e criticou Heráclito por ter dito que é impossível entrar duas vezes no mesmo rio. p. a dos que se dizem discípulos de Heráclito. livro IV. estando também livres da contradição. Op. disseram que no tocante àquilo que por toda parte e a todos os respeitos está sempre mudando evidentemente nada se podia afirmar com segurança. encontra Platão seu ponto de partida e uma tábua de salvação: esses predicados universais. Foi essa a opinião que floresceu na mais extrema das doutrinas acima mencionadas. como vissem que todo esse mundo sensível está em movimento.convém notar que é. 4. também nesse passo. De onde extraímos esses conceitos? Não a partir da experiência. das abstrações empregadas em sentido adjetivo (justo. Metafísica. Crátilo. o que é belo? Jamais vemos o justo. eis aí algo que não estava primeiramente in sensu e depois in intellectu. belo. não do conceito cavalo. igual) e não prioritariamente no sentido substantivo (como o conceito do cavalo) -. justo. Nesse ponto situa-se a intervenção decisiva da influência socrática: Sócrates considerava o domínio ético cognoscível por conceitos. sempre apenas nomeamos belo. Ao contrário. qual a defendida por Crátilo. belo. 8. não podem estar sujeitos às variações e à insubsistência que afeta os entes sensíveis. 153. 5. O que é justo. ARISTÓTELES. De Crátilo: disposição desesperada sobre o mundo dos phainomena. cit. Ninguém viu o belo.. antes trazemo-los para a experiência e aplicamo-los à experiência. o testemunho de Aristóteles: E. nenhum conhecimento possível.Oswaldo Giacoia Junior 17 soluto para o conhecimento do bem e da virtude. por outro lado. Cap. Todo o sensível em fluxo. privando a existência de toda significação autenticamente moral . de onde sabemos algo deles? Surge a pergunta cardeal pela origem dos conceitos. Por isso. F. Nós os temos em nós. justo. Nietzsche tem em vista. 103. . com auxílio dos sentidos. à mutação. etc. 1010a. o belo. pois ele.o que constitui a tragédia de todo moralista e reformador político. sobretudo.

Mas os conceitos éticos dão apenas a ocasião para a separação. dessa forma. Adestramento na formação de conceitos e definições. Todavia. . Ibid. Ibid. inalteráveis como o próprio conceito. dos quais cada um deles. Ibid. por não ter desenvolvido suficientemente a doutrina dos conceitos puros. de per si. forma-se a grande concepção da doutrina das idéias: ao mesmo tempo.. É certo que ele não discerniu suficientemente os objetos desse saber.18 1. 11. p. cognoscíveis por meio deles. fornecem apenas a ocasião apropriada para uma reflexão metafísica-mente mais profunda . pode-se encontrar um saber relacionado àquilo que é permanente e supra-sensível. 10. Platão acreditava com Heráclito que todo singular [está] em fluxo perpétuo. do fundador de seitas. p.. Herbart: "consideremos esses conceitos universais como conhecimentos de objetos reais. 149. As coisas empíricas são suas cópias.cabe a Platão extrair deles. o permanente não é como que o caráter do gênero e a lei natural. o método a seguir para a correta descoberta dos conceitos: a dialética11. . O que é inalterável. os conceitos socráticos não constituem. O conceito (noema) não poderia estar meramente na alma. a união com o corpo é uma penitência. ele encontrou o caminho para lá. Dos pitagóricos: a figura do reformador ético-político. Modelo na luta contra seu tempo. está aí dado apenas uma vez: esses objetos reais são as idéias platônicas". 154.Só depois da mais íntima receção do elemento pitagórico. Esta se forma por meio da combinação do elemento socrático com o elemento haurido do pitagorismo hierático. não por meio do singular)10. as derradeiras conseqüências. A alma é imortal. Nietzsche: fim da metafísica e os pós modernos ética. sem que a ele correspondesse algo na efetividade. ideal e ético não coincidem. por meio de Sócrates. assim também aos nossos conceitos universais têm que corresponder objetos. pode-se afirmar 9. Existem muitos verdadeiros onta. 168. Direção para a meditação ética. o fundamento da doutrina das idéias. Sócrates ensinava que. semelhantemente ao conceito correspondente. em combinação com a influência dos pitagóricos. a fundação da academia9. Como se pode perceber. Aos conceitos correspondem apenas outras tantas coisas efetivas. no domínio da ética. Cf. porém existe ao lado do que é singular e para além da mudança (não no singular. em sua espécie. A influência dos conceitos socráticos permite a refutação da interpretação cratiliana da sentença de Heráclito e.. o filósofo tem que se libertar o mais possível do corpo. Nesse sentido. ele encontrou determinações conceituais universais: do mesmo modo que às nossas singulares percepções sensíveis (intuições) correspondem objetos singulares.

volúpia. o elemento ético na gênese da doutrina das idéias13.principalmente a indisposição moral contra a realidade mais próxima.. "livrar-se tanto quanto possível dos sentidos torna-se a tarefa ética. entregues ao simulacro e à incerteza. porque ela repousa sobre a ilusão. ódio. Dedicar plenamente sua vida ao culto da dialética. Eles jazem na ilusão: sua grandeza nada vale. em combinação com a doutrina pitagórica da precedência da alma. Sócrates constatou que a maioria dos homens vive justamente apenas aí. Este não produz nenhum saber. Cf. carne. 162. sangue. É de Sócrates e dos pitagóricos que Platão herda o ódio contra a sensibilidade. não tem correspondência em Heráclito. etc. apenas uma doxa12. Ibid. que naturalmente não se pode ver e observar. Os sentidos como perturbadores da paz do 12. e não nos concerne.que. ou ele é inteiramente inapreensível. Então estaríamos condenados a viver num mundo totalmente irrisório.p. o apartar-se dos outros homens. que pesa como um fardo sobre o pensamento: corpo. 13. No mundo da aparência. Nietzsche discerne. O doutrinamento pela dialética é contraposto ao conhecimento pela retórica e escrita. Existe tal saber? Crátilo o negava: então inexiste também qualquer verdadeiro ser das coisas.p. outro ensinamento socrático que encontra em Platão. sob o impacto da influência socrática. à sua tarefa e destinação pertence a iniciação. Péricles. principalmente os maiores e mais ilustres.1bid. e ser de igual modo permanente e inabalável.Ibid. em aparência e escuridão.. portanto. a sensualidade .)14. . não sobre o saber. 14. como já pudemos indicar anteriormente. Aqui se origina o desprezo platônico pelo mundo sensível e pelos sentidos . o caminho para o conceito é sempre a dialética: ao conceito correto corresponde então necessariamente um ente. Eis. 152. uma ressonância profunda: o mundo do verdadeiro filósofo é o universo inteligível das puras abstrações. Todo ensinamento na academia se refere à dialética. sendo a dialética o método para a derivação desse saber. enganoso. paixão. A depreciação da efetividade Sócrates acrescenta a depreciação dos homens: ele emancipa Platão da veneração. Nessa ponte entre o especulativo e o moral.Oswaldo Giacoia Júnior 19 que o traço fundamental da paideia socrática consiste em superar todo conhecimento obscuro. Platão nada sabe de um intuitivo apreender das idéias. sempre autocontraditório. confuso. constituindo a tarefa de vida para o filósofo a descoberta do reino dos conceitos. senão justamente por meio do conceito. existem apenas grandezas puramente aparentes (mesmo Homero. O verdadeiro saber teria que se referir ao que é permanente.

se o ponto de partida para a asserção de um mundo supra-sensível foi dado pelas hipóteses éticas de Sócrates. 16. com a correspondente doutrina das idéias. Do mesmo modo como o sol está para o mundo sensível. que todavia não se confronta conosco na efetividade? De onde determinamos aquela semelhança das coisas com a idéia? Aqui vem em auxílio de Platão a doutrina da imortalidade da alma. e a doutrina platônica da alma. 162. O ser-bom. onde ele não é mais perturbado e seduzido. 15. do qual elas não estão autorizadas a se libertar por seu próprio poder. não a perfeição estética. assim também está. E como o sol é superior à luz que promana e ao olho que ilumina. então pode bem ser possível o verdadeiro conhecimento"15. onde toda sensibilidade se cala. Isso constitui um dos traços mais característicos da assimilação por Platão da influência do orfismo e do pitagorismo: Platão deve aos pitagóricos a hipótese de uma multiplicidade de onta e. agathon. também de natureza ética será o elemento prevalente na doutrina platônica da alma. como a fonte de vida e crescimento. a idéia do bem: ela é a fonte do ser e do saber. porém a ética" . não sensíveis.. Esse elemento nos fornece a base para o reconhecimento da mútua pertença entre a oposição mundo sensível x mundo inteligível. Ibid. então ela leva uma existência incorpórea num mundo superior17. Relativamente a isso. Se a alma separou-se do corpo. Dessa maneira. a tarefa consistia em "encontrar um mundo. Ibid. Essa incondicional predominância do elemento ético no pensamento de Platão permite vislumbrar uma rede de correspondências entre a doutrina das idéias e a teoria platônica da alma. p. no mundo inteligível. por outro lado. p. Se é possível desembaraçar-se deles. no qual a divindade as instalou para castigo.. que o verdadeiramente Bom reconhece como o seu mundo. As almas. que ilumina as coisas existentes e permite ao olhar humano discerni-las como elas são. p. idéia a que corresponde o ápice da ascese platônica do saber e da dialética. estão ligadas ao corpo para castigo. ouvir e sentir. Com efeito. 166s. a perfeição pertence à essência de toda a idéia. como diz Philolau. como perturbadores da paz do pensador. Como. o corpo é um cárcere. onde não há mais nenhum ver. posto que vivemos apenas no mundo empírico? De onde chegamos ao ison. 153.20 1. é ela quem torna possível a cognoscibilidade e o conhecimento das idéias. assim como a doutrina de que as coisas empíricas seriam imitações daquelas verdadeiras onta. a suprema perfeição do mundo das idéias é dada precisamente pela idéia do bem. 17. Ibid. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos homem ético. porém. . chegamos a poder saber algo das idéias.. por um lado. em verdade. assim também a idéia do bem é superior ao ser e ao saber.

DUVAL. Berlim/New York/München: De Gruyter/DTV. A tese desenvolvida por Platão. no plano da existência humana. a ordem dos valores que Platão tinha instituído entre o conhecimento do que permanece idêntico e o devir: ele considera que a verdade é a realidade do devir e que o conhecimento é uma fonte de erros e ilusões"20. 20.Oswaldo Giacoia Junior 21 A postura heraclitiana . n. uma aposta em Heráclito contra Platão: "Nietzsche reverte. DUVAL. a oposição entre corpo e alma. Op. à oposição entre mundo sensível (domínio da aparência e do movimento) e mundo inteligível verdadeiramente real (domínio das essências imutáveis) corresponde. "a linguagem e o conhecimento requerem uma certa estabilidade no devir. A vida no brilho da aparência como meta"19. a respeito dessa rede sistemática de correspondências. O nascimento da tragédia. ao mesmo tempo e sob a mesma relação. 199. Nietzsche et le Platonisme. de acordo com a interpretação de Nietzsche. não ser: a condição da realidade é a identidade do ser. out. R. In: Sämtliche Werke. insubsistente a realidade e o conhecimento. da estética e da política. 4. portanto ainda anterior à publicação de seu primeiro livro. Por isso. p. cit. melhor. G. como uma simples reversão de posições. Num fragmento póstumo do final de 1870 a abril de 1871. 625. Montinari. vol. pois a nobreza dessa parte consiste precisamente em seu parentesco com o domínio eterno do inteligível. Como o afirma R. Mas é também sob a pressuposição do ser como idêntico que se baseia a possibilidade da ciência. 19. Duval.p.tornava./1969. portanto. n. tem razão Duval quando reconhece ser o essencial da filosofia de Nietzsche uma reversão da inversão platônica. Vrin.a saber. tomaria a liberdade de acrescentar o seguinte: como. LUI. para a parte mais nobre da alma . O verdadeiro ser não pode também. Kritische Studienausgabe (doravante KSA). entretanto.. se desdobra em reversão no plano da moral. 7 [156]. 1980. tanto mais puro. Fragmento póstumo do final de 1870 a abril de 1871. então a reversão. . Assim.tal como a interpreta Platão . t. seu componente imortal . é. Paris: J. para a parte intelectiva.uma queda e um cárcere. que a existência das idéias demonstra que a alma teve uma vida anterior e independente de sua ligação com o corpo. no plano da teoria do conhecimento e da ciência. In: Revue des Sciences Philosophiques et Théologiques. 7. Colli e M. a doutrina das idéias está visceralmente imbricada com a doutrina da imortalidade da alma. senão nada corresponderia a nossas palavras e conceitos. p. 627. mas segundo a lógi- 18. Ed. e que essa ligação constitui. no plano do saber. A esse juízo. Nietzsche já havia formulado seu programa filosófico: "Minha filosofia: platonismo revertido: quando mais afastado do verdadeiro ente. a oposição entre opinião e ciência e. De modo algum. eles requerem que o devir não seja universal"18. R. ao mesmo tempo. como sabemos. belo.

à sua genealogia do niilismo. é observar que interpretar o tema do fim da metafísica em Nietzsche implica interpretar o que ele compreende por niilismo e compreender como ele próprio se posiciona em relação a essa experiência de significação epocal. 212s [Trad. isto é. 251]. M. p. cit.ainda saturado de positivismo e hegelianismo. então nada mais permanece a que o homem se possa agarrar. tal como ela correspondia ao empreendimento ético-filosófico de Platão. Op. uma das vias privilegiadas para a tematização do fim da metafísica em Nietzsche consiste precisamente em sua análise do niilismo. violenta. entendido enquanto experiência histórica da ausência de fundamento. e. instituídos pelo platonismo. . Por essa razão. Se Nietzsche pode ser considerado nosso contemporâneo. tanto que esta se isola contra a sua essência e. então isso se deve. de crença inabalável na onipotência da racionalidade científica. 213 [Trad. do conhecimento racional. Nietzsche compreende a sua filosofia própria como o contramovimento contra a metafísica. sobretudo. Op. M. como todo o anti-. portuguesa. pois. 251]).0 anúncio da morte de Deus significa. cit. que tem 21. p. cujo conceito Nietzsche formulou como niilismo. enquanto metafísica.. nada é o dístico para a escalada do niilismo. mais importante do que retomar a polêmica com Heidegger acerca da permanência ou não do pensamento de Nietzsche no âmbito da metafísica22. nunca consegue pensar a sua essência própria" (HEIDEGGER. Heidegger observa: "Se Deus morreu. a filosofia ocidental compreendida como platonismo. enquanto mero contramovimento. portuguesa. em que os valores dominantes na cultura ocidental. para Nietzsche. Op. cit. Contudo. 22. Por isso. são conduzidos à extração de suas derradeiras conseqüências.. para ele. que não mais reflete. e segundo o qual se possa orientar"21. p. sobretudo. O contramovimento de Nietzsche contra a metafísica é. a transvaloração de todos os valores seria a catástrofe da metafísica: um processo que obedece a uma lógica imanente. No final do século XIX . que cresce a cada século.22 1. "A metafísica. da ausência de um mundo supra-sensível de valores vinculantes. precipitada: como uma corredeira que quer chegar ao fim.. a consciência da propagação desse nada. como em direção a uma catástrofe: inquieta.. Nietzsche registrava: "Já há longo tempo toda nossa cultura européia se movimenta com [tal] tortura de tensão. isto é. a sua força que desperta e edifica. presa na essência daquilo contra o que se vira. A esse respeito. Nesse léxico nietzscheano. pois é nela que se descreve a crise irreversível de toda pretensão à objetividade e à fundamentação. contra o platonismo. em derradeira instância. enquanto mera reviravolta desta. p. HEIDEGGER. Op. enquanto fundamento supra-sensível e enquanto meta de tudo o que é efetivamente real. do ponto de vista de seu diagnóstico do fim da metafísica. o enredamento sem saída na metafísica. Desse modo. ela permanece necessariamente. cit. se o mundo supra-sensível das idéias perdeu a sua força vinculativa. está no fim. do ponto de vista dos fins essenciais desse trabalho. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos ca da auto-supressão.

Montinari. em sua busca incessante de causas. a partir das considerações feitas até aqui. 350s. cit.Oswaldo Giacoia Junior 23 medo de refletir" . justo e injusto. lícito e ilícito. "a história dos próximos dois séculos.mas igualmente bem e mal. Fragmento póstumo de novembro de 1887 a março de 1888. casualidade. 25. Em que consiste. virtude e vício. Colli und M. vol. daquilo que vem. 13. NIETZSCHE. um sentido nas coisas e cursos de acontecimentos. ser .. F. Fragmento póstumo do outono de 1887. nela predominando o pensamento de tipo teórico. 12. que ainda nos afeta? A definição de Nietzsche é a seguinte: "Niilismo: falta a meta. 189s. Op. Ibid. G. é necessário recorrer à perspectiva genealógica. Berlin/New York/München: De Gruyter/DTV. estamos ainda longe de compreender tanto o essencial do niilismo. bem caberia a interrogação: Por que a falta de resposta a essa pergunta constitui o niilismo? E ainda mais: em que essa fórmula e a problemática nela implicada podem ainda nos concernir? Para uma tal interrogação. Com essa explicação. na medida em que esta. Pois a forma geral da racionalidade lógica provém de uma inspiração congenitamente socrático-platônica. finalidade. vol. a solução seria: porque as respostas historicamente propostas a todas as questões relevantes (a todo "por quê?") assentavam sobre um mesmo pressuposto: a possibilidade de encontrar uma causa. O que equivale a dizer que tinham como pré-condição a vigência de valores superiores como sentido. existência e os modos de ação dos entes e de seus processos de transformação.que os supremos valores se desvalorizam"25.eis o sinal distintivo do niilismo. então. verdade. NIETZSCHE. a reconstituição de sua gênese nos reconduz à aurora de nossa própria cultura. Sem essa resposta. emergiu à superfície da consciência filosófica como a escalada do niilismo. In: KSA. revolver o enraizamento histórico daquele movimento que. Para tanto. 1980. 23. Kritische Studienausgabe (doravante KSA). p. . que não pode mais vir de outro modo: a ascensão do niilismo"24. In: Sämtliche Werke. mantém uma íntima relação com as referências de valor atualmente em vias de dissolução. razões e princípios que explicam a essência. que sustenta todo um sistema metafísico de interpretação global do universo e da condição humana no mundo. Ora. Esse anúncio conserva para nós o mais vivo interesse. A falta de resposta para a pergunta: "Por quê?" . F. como também a medida em que essa problemática ainda nos concerne. n. n. 24. realidade. 11 [411]. p. desde seus primórdios. nos últimos séculos. Ed. como se define. Como já se pode notar. a esse respeito. pois aquilo que Nietzsche pretendeu narrar foi a antecipação de nossa realidade. 9 [35]. etc. perde-se a perspectiva do sentido e do valor. esse niilismo. falta a resposta para o 'porquê'? O que significa niilismo .

uma representação delirante. ou científica. desde então. . F. essa representação "veio ao mundo pela primeira vez na pessoa de Sócrates: aquela fé inabalável em que o pensar. O nascimento da tragédia.esse não pode se recusar a ver em Sócrates o ponto de inflexão e o vértice da assim chamada história universal27. 27. Podemos saciá-la. sim com vistas à legalidade de um sistema solar inteiro. 15. justamente por isso ela se tornou a grande força propulsora do desenvolvimento intelectual28. pela indicação de fundamentos. durante algum tempo. uma escola filosófica é substituída pela outra.24 1. como. 30. repousa inteiramente sobre a vigência universal do princípio de razão suficiente. A simples pergunta "por quê?" é como uma pulsão. ela jamais pôde ser de novo completamente removida. 99s. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos Considerada do ponto de vista genealógico. Porém. p. NIETZSCHE. nos mais remotos domínios do mundo cultivado e como a autêntica tarefa para toda aptidão mais elevada.Maskierter Nihilismus. uma cultura teórica. Ibid. nunca suspeitada. Springe: Zu Klampen Verlag. pelo fio condutor da causalidade. Para Nietzsche. do qual. essa universalidade da avidez científica carrega consigo. mas nenhum fundamento é seguro em longo prazo. Fundamentalismus . Eis para onde é necessariamente conduzida uma cultura que se obstina a fazer passar pelo crivo da pergunta "por quê?" todos os seus conteúdos cognitivos e esquemas de ação. vol. 1. alcançaria os mais profundos abismos do ser. como a onda pela onda. conduziu a ciência ao alto-mar. portanto. Cada um deles cai. nossa cultura nasce sob o signo de uma obsessão explicativa. como. p. Desde suas origens. mas também até de corrigi-lo"26. quem tornou presente para si mesmo tudo isso. 26. como vimos. a começar pelas mais primitivas ordenações religiosas. primeiramente por meio dessa universalidade. Dito de outro modo. In: KSA. o logos científico vê-se acossado pela compulsão à fundamentação. uma universalidade da ânsia de saber.. junto com a surpreendente pirâmide de saber da atualidade . TÜRCKE. e que o pensar estaria em condições de não apenas conhecer o ser. sob uma compulsão à fundamentação. o mistagogo da ciência. C. Quem alguma vez tomou visível para si como depois de Sócrates. 99. por meio dela. Entretanto. uma rede comum do pensamento foi estendida sobre o conjunto do globo terrestre. Ela é o tendencial triturador de todos os fundamentos dados e o insaciável investigador de novos fundamentos. que constitui uma espécie de delírio de onipotência da razão. 28. e impelido por ele a percorrer a inteira cadeia dos conceitos e princípios. p. 2003.

Em primeiro lugar. ou numa linguagem articulada. Todo fundamento se deve a essa pergunta [por quê? OGJ. num suspiro. então. Pois a periferia do círculo da ciência tem pontos infinitamente múltiplos. p. porque a divindade fundou e ordenou o mundo para o nosso melhor. Ibid.Oswaldo Giacoia Junior 25 O culto. a lógica gira sobre si mesma e finalmente morde a própria cauda"31.. que deveria descerrar e assegurar de uma vez por todas o solo do espírito.. "Isso e isso é assim porque. poderíamos prosseguir perguntando. O nascimento da tragédia. ou seja. Ela torna possível todo fundamento.. 31. pura e simplesmente o bem29. proteção e segurança. enquanto nos guiarmos por essa ordenação. "nessas fronteiras. Teremos repouso." O "por que" é o agent provocateur de todos os fundamentos. Por que ela o fez.. uma vez mais. E por que ela fez isso? Porque ela própria é boa. os costumes e os usos valem porque a divindade os exige? Sim. 101. onde se detém estarrecido perante o inexplicável. o homem nobre e talentoso. Cada um de seus re- 29. porém por que. ainda antes da metade de sua existência. 29. Todo fundamento é um "por quê?" tranqüilizado e imobilizado em um "por causa de". 30. nos quais fracassa o otimismo oculto na essência da lógica. Como exemplo privilegiado da conversão da racionalidade científica em seu contrário . NIETZSCHE. um sem-fundo. encontra-se inevitavelmente diante daqueles pontos fronteiriços da periferia. Op. e enquanto ainda não se deixa absolutamente ver como. Ibid. o círculo poderia ser inteiramente mensurado. mas não deixa nenhum deles em paz30. quer ela se expresse numa face distorcida pelo sofrimento. Com a compulsão à fundamentação.]. O encontro dessa barreira incontornável constitui para ele a experiência assustadora de que. nesse ponto a racionalidade é levada a perceber que o último fundamento é necessariamente um abismo. Acossada pela compulsão a reproduzir infinitamente a mesma pergunta: "Por quê?". então? Por causa de nos-so bem-estar. 30.desse movimento de morder a própria cauda -. os ritos. E isso é assim.. a palavra mágica que em geral primeiramente abriu a porta para o reino dos fundamentos. cit. F. podemos citar a penetrante análise a que Christoph Türcke submete a lógica de Aristóteles: O Organon. . ela os exige? Porque a própria divindade os criou e ordenou. o machado estará sempre colocado na raiz de cada novo fundamento que possa ser exibido. e assim ad infinitum. p. E por que razão ela é o Bem absoluto. fez naturalmente o contrário. a ciência se precipita irresistivelmente para seus limites. p. algum dia.

o niilismo é sintoma de declínio. pobre pássaro que se sentiu livre e agora bate nas paredes dessa gaiola! Ai de você. na experiência histórica de que a total emancipação da razão esclarecida produz necessariamente a corrosão das referências tradicionais de valor. essa ascensão se traduz na vivência consciente da impossibilidade de princípios inabaláveis. e às vezes se estende como seda e ouro e devaneio de bondade. A gaia ciência. 14 [86]. Fragmento póstumo da primavera de 1888..e já não existe mais "terra"!33 Assim. Nietzsche exprime esse sentimento de vertigem e insegurança que acompanha uma vida permanentemente em alto-mar. Paulo César de Souza. p. 147. Ibid. 13. é verdade que ele nem sempre ruge. como se lá tivesse havido mais liberdade . que garantem a coesão e integridade de uma cultura. a escalada do niilismo traz também consigo à superfície da consciência aquele elemento desestabilizador. NIETZSCHE F. No aforismo 124 de A gaia ciência . NIETZSCHE.mais ainda. Por causa disso. sem continentes e territórios demarcados. 2001. derribando qualquer pretensão a fundamento último. que o sentido de seu progresso conduz precisamente a esse desalento. pois nessa escalada são extraídas as conse- 32. p. Mas virão momentos em que você perceberá que ele é infinito e que não há coisa mais terrível que a infinitude. In: KSA. n. Essa desestabilização. processo de declínio e perda de potência.. desde o princípio havia algo desestabilizador nesse solo32. imanente a todo "por quê?". pois. vol. antes pelo contrário: ele é antes o resultado necessário de um lento. F. Trad. em busca de novos princípios e razões. cortamos todo laço com a terra que ficou para trás! Agora tenha cautela. 36. até então insuspeitado. que nos remete incessantemente à necessidade de seguir avante. e assim a lógica revolveu finalmente esse solo até a insegurança universal. pequeno barco! Junto de você está o oceano. Op.p. 264s. na medida em que tais valores e princípios são os pilares de sustentação. 34.26 1. um sinal de dissolução. Oh.que precede imediatamente a célebre parábola sobre o homem louco que anuncia a "morte de Deus" -. de fragmentação de uma unidade cultural. 33. se for acometido de saudade da terra. sempre de novo lançada à deriva: Deixamos a terra firme e embarcamos! Queimamos a ponte . . lança a racionalidade científica no que Nietzsche denominou de Horizonte do infinito. Não é o niilismo a causa da decadência cultural. Esse é o sentido daquela fórmula lapidar: "O niilismo não é a causa. mas apenas a lógica da decadência"34. cit. São Paulo: Companhia das Letras. em nenhum deles pudemos nos tranqüilizar definitivamente. Aforismo 124. Em verdade. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos sultados caiu sob o franzir de testa do "por quê?".

In: KSA. Para tanto.. A expressão recorre à etimologia do termo. ser entendido como o acontecimento de significado histórico-mundial em que a consciência filosófica.. embora de maneira inconsciente. Op. o termo remete ao acontecimento decisivo que conduz ao desenlace da tragédia grega. Uma produtiva ambigüidade constitui o nó górdio de tais processos: por um lado. vol. Se isso é plausível. velada. O que eu narro [afirma Nietzsche] é a história dos próximos dois séculos [. Fragmento póstumo de novembro de 1887-março de 1888. "Por que é. por detrás deles. inverter. 36. p. um instante da mais profunda auto-reflexão do homem36.. 11 [119]. OGJ. Descrevo aquilo que vem: a ascensão do niilismo. Quando os valores cardinais são levados até a extração de suas derradeiras conseqüências. Posso descrevê-la porque aqui se passa algo necessário .] que ele venha: creio que há uma das maiores crises. por outro lado. o sentido oculto do curso dos acontecimentos. há um movimento na direção de perempção. na crise de validade dos valores antigos e na ausência de novos valores universalmente reconhecidos.]. reverter. Op. . então reconstituir cuidadosamente a lógica dessa catástrofe. doravante necessária a ascensão do niilismo? Porque são nossos próprios valores de até agora que nele extraem sua última conclusão: porque o niilismo é a lógica.os sinais disso estão por toda parte. cit. Tomado em sua acepção original. pois. esgotamento (catástrofe aqui significando esvaziamento e consumação). de nossos grandes valores e ideais"35. apenas faltam olhos para tais sinais. nada mais tem subsistência. 13. Aqui. O niilismo deve. pois. portanto. nem censuro [o fato de. revelando. Fragmento 11 [411]. é necessário que a realização desses valores tenha alcançado sua plenitude.n. Ibid. ao perfazer-se integralmente um movimento circular. revela-se que. pensada até o fim. cit. não louvo.Oswaldo Giacoia Júnior 27 qüências lógicas inexoráveis das pretensões sustentadas com base nesses mesmos valores que se esvaziam. A lógica da catástrofe A esse movimento gostaria de denominar lógica da catástrofe. com sentido de revirar. porém. o que não poderia ter ocorrido nos primórdios do processo nem no meio do caminho. desde a origem. a partir de katastrophe (reviravolta) e katastrephein. proporciona um im- 35. 189s. 2. In: KSA. a volta sobre si mesmo (catástrofe no sentido de reversão e retorno ao princípio). esteve associado aos primeiros.. faz também a experiência do elemento nadificante (nihil) que. p. com o propósito de descrever sua dinâmica e sua necessidade. 56s.

V. 3. Na outra vertente. o cristianismo deve ser interpretado.). . Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos subsídio para a compreensão do niilismo e de seus efeitos. o privilégio concedido à crítica genealógica do cristianismo na decifração da lógica da decadência. Ela traz consigo a "sublevação dos escravos na moral". o mais cortante ataque de Nietzsche. que põe em ação um contramovimento de superação do niilismo.28 portante 1. a esse respeito. mundialmente missionária fé dos judeus e dos cristãos trouxe à tona o niilismo37. Pode-se descrever e acompanhar esse movimento a partir da reflexão sobre o sentido de alguns textos obscuros. Para nós. nos quais Nietzsche reflete sobre o niilismo. chegamos com Nietzsche à constatação paradoxal: justo a mais poderosamente efetiva de todas as religiões monoteístas. impõe mundialmente sua "moral do rebanho" e. em primeiro lugar. que sistematiza e universaliza as condições de conservação e reprodução do ascetismo platônico. p. GERHARDT. o niilismo. figurando as categorias da razão como causa do niilismo. o ascetismo cristão é particularmente relevante. ameaça o futuro do homem. a ênfase é concedida ao aspecto lógico. Sabemos que o conceito nietzscheano para isso é o da paradoxal Selbstaufhebung (auto-supressão). não se origina apenas no cristianismo. A catástrofe da veracidade cristã Examinemos. cabe lembrar que. como potência civilizatória do mundo moderno. Por isso. In: BRAUN. retraçar o movimento de voltar-se contra si e negar-se. entre as formas de ascetismo. com destaque para a relação intrínseca entre a ascensão do niilismo e o predomínio da interpretação cristã da existência. mas tem raízes históricas anteriores. 1993. Ele não deixa de parecer singular. sobretudo. uma entre elas que chega ao excesso. Die Zukunft der Vernunft -aus der Perspektive einer nichtmetaphysisichen Philosophie. Ressentiment und Apokalypse. em dupla vertente: numa delas. em sua sobrevinda aliança com a ciência moderna. Volker Gerhardt: há. 286. (ed. a milenarmente sobrevivente. 37. e para a qual vale. para Nietzsche. originado no ponto de viragem. na catastrófica extração das derradeiras conclusões. E. privilegiando o aspecto ético. Entretanto. Würzburg: Königshausen & Neumann. que supera tudo o até então existente. será de especial interesse destacar o engendramento interno da crise. inclusive no presente. Desse modo. Como observa. que está na base de uma não menos complexa dialética sem síntese reconciliadora dos opostos. por isso. É a dominação sacerdotal judaico-cristã. na medida em que a decadência e sua lógica.

sua consideração interessada . estava a veracidade: esta finalmente se volta contra a moral. em oposição à sua pequenez e acaso na corrente do vir-a-ser e do passar. o caráter de perfeição [. isto é. sentido. Constatamos agora em nós mesmos necessidades. 38. a despeito do sofrimento e do mal. essa análise genealógica da escalada do niilismo. . vol. 2 [127]. que se encontra o niilismo". em pleno movimento. com isso. 2) Ela serviu aos advogados de Deus. ou mesmo a corrupção como causas do niilismo.. precisamente conhecimento adequado justamente para o mais importante. física. O niilismo está à porta: de onde nos vem esse mais ominoso de todos os hóspedes? .in summa: moral foi o maior antídoto contra o niilismo teórico e prático. cit. n. Porém. 12.1) Ponto de partida: é um erro indicar "estados de carência social". ainda não é inteiramente capaz de produzir niilismo. no homem. O niilismo europeu 1 Que benefícios proporcionou a hipótese moral cristã? 1) Ela conferiu ao homem um valor absoluto. 2 Porém. ao mesmo tempo em que se nos descerra o horizonte de sentido presente na afirmação acima citada: "numa interpretação bem determinada da existência. que ele tomasse partido contra a vida. A obscuridade dessa passagem se esclarece à luz de uma exegese do célebre Len-zer-Heide Fragment. que agora nos aparecem como necessidade do não-verdadeiro: por outro lado. desejabilidade"38. . em primeiro lugar. descobre sua teleologia. entre as forças que a moral cultivou.e agora o discernimento dessa longa mendacidade incorporada. em si mesma. Nele podemos surpreender. portanto. na medida em que legou ao mundo. o niilismo se encontra numa interpretação bem determinada.Oswaldo Giacoia Junior 29 Acompanhemos. Penúria. ou "degenerações fisiológicas". Fragmento póstumo do outono de 1885-outono de 1886. a partir da catástrofe da veracidade cristã. In: KSA. a radical recusa de valor. intelectual. intitulado O niilismo europeu. na interpretação cristão-moral.] o mal apareceu pleno de sentido. Elas permitem sempre ainda interpretações totalmente distintas. penúria psíquica. a interpretação cristã-moral. um saber a respeito de valores absolutos e conferiu-lhe.. p. que desesperadamente se procura repelir. Ela evitou que o homem se desprezasse como homem.. atua como estimulante para o niilismo. Op. que se desesperasse pelo conhecimento: ela foi um meio de conservação. 3) Ela instituiu. 125s. a lógica da catástrofe e da superação. implantadas pela i n terpretação moral.

Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos são delas que parece depender o valor pelo qual suportamos viver. vol. a relação entre o niilismo e as categorias da razão. cit.medimos o valor do mundo em conformidade com categorias Que se referem a um mundo puramente fictício''40. ou finalidade. O fragmento indica como o problema fundamental a que a interpretação cristã da existência vem a dar resposta é precisamente aquele do valor. p. 11 [99]. São Paulo: Abril. Esse antagonismo: não poder apreciar aquilo que conhecemos e não podermos apreciar aquilo que gostaríamos de mentir para nós mesmos. Fragmento póstumo do verão de 1886 a outono de 1887. O imenso beneficio dessa interpretação compete em ter provido a humanidade com uma perspectiva de sentido e de valor. Nesse importante fragmento póstumo. trata-se sempre de uma categoria da razão. por injunção de sua veracidade sublimada. Adotamos a tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. Fragmento póstumo de novembro de 1887 a março de 1888. de modo que a catástrofe niilista consiste. In: Nietzsche: obras incompletas. seja no que diz respeito à existência em meio ao fluxo perene do vir-a-ser. 388s. vol. 13. Op. numa das principais forças geradas pela interpretação moral-cristã do mundo. a consciência científica. 46s. tomando por base o fragmento póstumo 11 [99].. que dá apoio a uma interpretação do vir-a-ser e do valor da existência humana na corrente do devir. p. na auto-supressão da moralidade cristã. Op. e traz à luz os elementos de inverdade (as considerações de interesse) contidos na moral cristã. p. 1974. levada a seu extremo. n. por dever de probidade intelectual. considerado como "estado psicológico".. Ora. In: KSA. 39. Nesse sentido. vê-se compelida a renegar uma moral que incorpora elementos de inverdade. ou ainda quanto ao conhecimento do absoluto. ou seja. . Coleção Os Pensadores. Comecemos com a citação de seu resultado: "Resultado: a crença nas categorias da razão é a causa do niilismo . Para suportar a existência. O primeiro desses estados de autoconsciência do niilismo é analisado por Nietzsche na perspectiva da categoria do "sentido". Em conseqüência. essa veracidade se sublima no rigor da consciência científica contemporânea. seja quanto à justificação do mal. cit. A catástrofe das categorias da razão Examinemos. Em cada um deles. ela é considerada por Nietzsche como a figura ancestral da honestidade intelectual moderna. como conteúdo da consciência reflexiva. o homem tem necessidade de interpretar o vir-a-ser como dotado de um sentido. em seguida. então. A busca da verdade e do conhecimento a respeito de tais questões transforma a veracidade numa virtude. In: KSA. resulta num processo de dissolução39. 211s. 12. 4. intitulado Crítica do niilismo.30 1. 40. Nietzsche tematiza três formas do niilismo.

de um frustrador "foi tudo em vão". a terceira forma do niilismo surge como consciência da mendacidade do mundo metafísico. Desse modo.a um todo racional. então a saída consistiria em renegar o vir-a-ser.). Este consistiria na fonte de realidade e significação para o mundo e para o homem. de modo que o homem perde a crença em seu valor. A representação de uma unidade. A terceira forma do niilismo como estado psicológico supõe dadas as duas figuras anteriormente examinadas.enquanto suporte de uma interpretação global do vir-a-ser.Oswaldo Giacoia Junior 31 como tendendo para um alvo.uma realidade.com a descoberta de que o vir-a-ser é a única realidade .O que aconteceu. e como descrença na categoria de verdade . contingentes e efêmeros. enquanto sentimento de vazio. a uma totalidade integrada e orgânica . O niilismo surge. O niilismo ocorre. promovendo a reconciliação entre a finitude aleatória e o infinito necessário. se o devir não é amparado por nenhuma totalidade infinita em que o indivíduo pudesse se integrar e resgatar o sentido e o valor para o absurdo de sua existência. repudiá-lo como sombra e aparência. as categorias de "verdade" e "ser" propiciariam as condições para a hipótese de um verdadeiro mundo. quando sente que através de sua particularidade contingente não atua um todo infinitamente valioso. com a descoberta de que não existe nenhum alvo no e para o devir. E com isso. o homem inventa para si mesmo um mundo verdadeiro para poder atribuir um valor à sua própria vida. no fundo? O sentimento de ausência de valor foi alvejado quando se compreendeu que nem com o conceito de fim. de infinito valor (panteísmo. ao qual estaria ligado o seu sentido e valor. contudo. nessa ótica. aqui também se chega à descoberta que a invenção do mundo sob a perspectiva da verdade corresponde a necessidades psicológicas. metafisicamente contraposta ao ser verdadeiro. . o desalento sobre a pretensa finalidade é causa do niilismo. Porém. então. monismo. ao mesmo tempo que não nos é mais lícito valorizar aquilo em que gostaríamos de continuar a crer. e surge como escapatória para as situações existenciais geradas a partir delas. que o acontecer do mundo e da história não são processos que se desenvolvem em vista de um fim a ser alcançado. A segunda forma do niilismo como estado psicológico é presidida pela categoria de "totalidade" . que não conseguimos suportar. Isto é. nessa primeira forma. . mas o essencial é que haja uma meta. Se nenhum sentido ou finalidade preside o curso do vir-a-ser. de uma organização e sistematização globais conectaria a multiplicidade caótica dos seres individuais. Nessa interpretação. Balanço final: desprezamos o resultado que alcançamos pelo conhecimento. com a descoberta de que nenhuma totalidade redime a diáspora do vir-a-ser. etc. que pudesse oferecer uma resposta à pergunta: Por quê? Diversas podem ser as formas de conceber essa finalidade. antitético ao fluxo fantasmático da temporalidade e do vir-a-ser.

em perspectivas utilitárias para conservação da vida -. por causa das categorias da razão. Com isso. Em suma: as categorias "fim". essa foi precisamente a interpretação hegemônica na história da metafísica ocidental.. "ser".41 Assim. por sua vez. o mundo se torna sem valor. Ibid. Uma vez que. Essa forma diferente de questionamento permitiria deslocar o objeto da desvalorização.. assim.. as três formas em que o niilismo historicamente se apresenta correspondem à consciência de que uma interpretação global da existência baseada nas categorias de sentido. Ora. desvalorizar o mundo. quando eles se demonstram inaplicáveis . foram outra vez retiradas por nós . com as quais tínhamos imposto ao mundo um valor. é falso.. nem com o conceito de verdade se pode interpretar o caráter global da existência. Percebemos.todos esses valores são. que se referem a um mundo puramente fictício. não se tem absolutamente mais nenhum fundamento para se persuadir de um verdadeiro mundo. suscitada em meio à escalada irreversível do niilismo. o desvaloramos. em que sentido a crença nas categorias da razão é a causa do niilismo. traz à luz uma reviravolta e. então essa origem está em contradição com a exigência de validade incondicional das categorias. Essa compreensão. 42.. Resultado: a crença nas categorias da razão é a causa do niilismo -medimos o valor do mundo por categorias. resultados de determinadas perspectivas de utilidade para a manutenção e intensificação de formações humanas de dominação: e apenas falsamente projetados na essência das coisas.. ibid.e agora o mundo parece sem valor. com ela. Se aquela crença tem origem na "hiperbólica ingenuidade" do homem . outra perspectiva de questionamento e interpretação. totalidade e ser não se sustenta mais. conquista- 41. . caberia intentar uma revolução no modo de pensar: ao invés de. assim como pelo valor dessa proveniência. em virtude do colapso da crença nas categorias da razão. nada é alvejado e alcançado. do ponto de vista psicológico. justamente com eles. "unidade". falta a unidade abrangente na pluralidade do acontecer: o caráter da existência não é "verdadeiro". Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos nem com o conceito de unidade. É sempre ainda a hiperbólica ingenuidade do homem: colocar a si mesmo como sentido e medida de valor das coisas42. Resultado final: todos os valores com os quais até agora procuramos tornar o mundo estimável para nós e afinal. com isso.32 1. aprender a perguntar pela proveniência da crença naquelas categorias.

com a qual passaremos a nos ocupar: Niilismo como declínio e regressão da potência do espírito: o niilismo passivo: como um signo de fraqueza: a força do espírito pode estar extenuada. característica dos moribundos. compreende-se também a afirmação de acordo com a qual o niilismo. no entanto. exaurida. apenas retardam e mantêm em suspenso o desenlace inevitável. Fragmento póstumo do outono de 1887. é marcado por uma ambigüidade essencial: ele pode configurar tanto uma síndrome de declínio. ou estéticos44. a demonstração de sua inaplicabilidade ao todo não é mais nenhum fundamento para desvalorarmos o todo"43. acalma. [de modo que . 44. de prolongar a qualquer preço uma existência agonizante. sejam eles religiosos. avança para o proscênio. In: KSA. Nele são feitas tentativas desesperadas. 9 [35]. p.OGJ] tudo o que reconforta. que está na origem da metafísica ocidental. Por essa razão. ou políticos.1bid. cura. de modo que os valores singulares guerreiam entre si. 12. aqui se encontra em questão o horizonte lógico-transcendental das formas tradicionais de sentido e valoração.OGJ] a síntese entre valores e metas (sobre a qual repousa toda cultura forte) se dissolve. destruição. Ao final desse percurso. entre tais tentativas pode-se contar as mais díspares formações típicas dos períodos de declínio de forças: a guerra entre valores particulares se destruindo anarquicamente em paroxismos de violência selvagem (como o anarquismo 43. podemos perceber que as duas análises da lógica da catástrofe se recobrem e complementam. Nietzsche exibe aqui o complexo e multiforme fenômeno do niilismo passivo.Oswaldo Giacoia Júnior 33 mos o direito de subtrairmos dela nossa fé e nossa veneração. [de modo que . afastando qualquer suspeita de contradição. Sob essa ótica.niilismo e fundamentalismo Decifrado o enigma do niilismo como lógica da decadência. . 5. cit. n. recorrendo a toda sorte de expedientes que.. desse modo "depois de desvalorarmos essas três categorias. de regressão. ou morais. vol. de modo que as metas e valores até então vigentes são inadequados e não encontram mais nenhuma crença. quanto de potência ascendente do espírito. Modos e virtualidades do niilismo . Op. antes trazendo à luz a imbricação categorial entre lógica e religião. Essa ambivalência corresponde à diferença entre niilismo ativo e passivo. enquanto processo de desvalorização dos valores supremos. a ênfase se desloca da catástrofe da veracidade cristã para as categorias centrais e os grandes sistemas metafísicos de interpretação da natureza e da história como causa do niilismo . entorpece. sob diferentes disfarces. 350s.ou seja.

por milênios. p. que constitui uma das mais inquietantes características de nossa própria atualidade. A gaia ciência. sim trivial. durante séculos ainda haverá cavernas em que sua sombra será mostrada"45. para compensar e amortecer o torturante sentimento de vazio. "Depois que Buda morreu..a tudo o que acalma. e agora são conjurados tanto mais energicamente quanto menos dão sustentação. consumo. . Em outro extremo. anestesia. ou moral. cit. Op. a necessidade de estimulantes fortes. onde estão rompidos os fundamentos de veneráveis grandes religiões. lá onde se espalha o "ininterrupto abalo de todas as condições sociais. 46. tinham constituído toda uma sociedade. Aforismo 108. aparentemente contraditória. É essa cumplicidade que torna apenas superficial a antítese entre os opostos. Deus está morto. o fundamentalismo revela-se. como alma gêmea do niilismo passivo. por exemplo). é manifesto46. como meio para conter a anarquia e estancar a exaustão. ao culto fetichista do profano. sua sombra ainda foi mostrada numa caverna durante séculos . Ao escrutínio genealógico. Essa carência denuncia uma simbiose. quando as metas e 45. entretenimento e conforto . política.uma sombra imensa e terrível. ou ao apego fanático às ruínas de fundamentos peremptos. e impele à busca desesperada por segurança e lenitivo. Op. Aqui estamos em face de uma trama entre o niilismo passivo e o fundamentalismo.. Ele não se mostra apenas lá. entre o sentimento de ausência de valor. que torna o fundamentalismo uma formação reativa. Ele sobrecarrega de santidade objetos cujo status profano. e o ardente desejo de segurança e salvação. onde todas as [relações] recém-formadas caducam antes de poder ossificar. reconforta. onde tudo o que é estamental e o que se mantém de pé é volatilizado. recorrendo. o do niilismo passivo. mas tal como são os homens. religiosa. NIETZSCHE. a fraqueza da vontade. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos russo no final do século XIX. C. a eterna insegurança e movimento". cit.34 1. seja por meio da narcose artística. por um lado. TÜRCKE. a corrupção dos costumes. um fenômeno compensatório do niilismo. Nietzsche terá sido um dos primeiros a refletir com acuidade sobre esse parentesco inusitado. Ao fundamentalismo [escreve Christoph Türcke] pertence sua inversão. por exemplo. por outro. 144. todo sagrado é dessacralizado". Ao contrário. 135. os quais. emergem a imperiosa necessidade de certezas e estabilidade em todos os domínios mais elevados da cultura: o reavivamento da experiência do sagrado. onde "são dissolvidas todas as relações firmemente enferrujadas com seu cortejo de veneráveis representações e intuições. mais propriamente. ele toma justamente o caminho contrário. o ceticismo e a libertinagem do espírito. F. p. a incondicional rendição hedonista a uma vida de prazer.

Ele denuncia o niilismo europeu. por sua vez. Ele já se instila no monoteísmo do judaísmo. enquanto Nietzsche tinha notado que o niilismo estava embutido no Ocidente desde o princípio. Ibid. A única saída seria conduzi-lo até as suas derradeiras conseqüências. Por outro lado. Ele tem uma profunda comunidade com Nietzsche. o fundamentalismo é a tentativa desesperada de elidi-lo... p. isso apenas se torna manifesto. Daí a atualidade dessa genealogia e a importância de suas descobertas para o entendimento tanto da necessidade quanto da lógica de vários processos que caracterizam o esgotamento da modernidade cultural. uma submissão à autoridade de relações sob as quais um ser prospera. não um gesto ativo de superação. Na modernidade. Em Nietzsche. porém. fazendo-o começar com a modernidade. esse fundamento intocado. Niilismo como signo de intensificada potência do espírito: como niilismo ativo: ele pode ser um signo de fortaleza: a força do espírito pode estar tão acrescida. que para ela as metas até então vigentes ("convicções". o niilismo pode também adquirir outra figura. um sinal de insufici- 47. própria da fraqueza. em refleti-lo em toda sua extensão e profundidade.o apego fundamentalista é apenas reação ao sentimento de perda. jamais poderia ser alcançada por denegação. Apenas que ele o percebe com vista curta. e regressar ao originário fundamento seguro da fé.. poderia também ser capaz de ultrapassá-lo. Enquanto Nietzsche compreendeu que nenhum caminho passa ao largo desse niilismo. A superação consiste em atravessá-lo de ponta a ponta. no entanto. pois não é possível contornar o niilismo quando se o compreende de uma perspectiva interior. cresce. 49s. faltando. além dessa face reativa e venenosa. Ele simplesmente decreta não tomar parte nisso. que somente um feitio de homem que o padece inteiramente. em algum lugar. à liquidação do último fundamento. a força para se desprender delas . ele próprio.Oswaldo Giacoia Junior 35 valores até então vigentes revelam sua inadequação às novas condições de existência. o pretenso desembarque do niilismo se demonstra como um embarque mais profundo nele: sua autodenegação47. O recurso ao último fundamento conduz. Esta. . ou seja. como se ele mesmo não estivesse saturado há longo tempo com o niilismo. no momento em que se esvai a substância do Ocidente cristão. desembarcar da nefasta dinâmica niilista da modernidade. ganha força. uma crença exprime universalmente a coerção de condições de existência. vivê-lo como niilismo ativo. que se tem que atravessar como a criança ao sarampo. artigos de fé) se tornaram inadequadas. sem perecer ao fazê-lo. Examinado às claras. Com efeito. e [decreta] ter ainda. O fundamentalismo é o grande moderno rebelar-se contra a autodestruição da fundamentação última.

de criação de novos valores. . produtivamente. mas ela difere da reação vingativa. senão porque. 5 [71]. pergunta-se Nietzsche. como incremento de força do potencial destrutivo. aqueles que não têm necessidade de extremos artigos de fé. mas novamente por posições extremas. Uma interpretação soçobrou: porém. Aqui estará o signo da potência alcançada: poder dispensar. uma crença. na ausência de finalidade e sentido é o afeto psicologicamente necessário. porém inversas. Op. p. como se tudo fosse em vão*9.um poder negativo de destruição das condições peremptas. cit. um "por quê"?. e constitui condição inicial e preparatória para novas referências de valor. Seu maximum de força relativa. aqueles que podem pensar a respeito do homem com uma significativa redução de seu valor.. ou melhor. absurdo. suficientemente poderosa. por um lado. porque ela valia como a interpretação. então. 21 ls. serve de base para um novo gesto instaurador. em geral. aqueles que estão à altura da maioria dos malheurs e por isso não temem tanto esses ma- 48. Posições extremas não são substituídas por posições moderadas. Sua resposta: Os mais comedidos. seja que a decadência ainda hesita. O niilismo representa um patológico estado intermediário (patológica é a imensa generalização. 350s. sim na existência. sem ressentimento. n. 9 [35]. como amam. desta vez positivo. Para a instituição de novas tábuas de valor. Fragmento póstumo. cit. O niilismo aparece agora não porque o desprazer na existência fosse maior do que antes. n. E assim. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos ente fortaleza para também. que é o cimento de toda cultura ascendente.. por outro lado. em si mesma. nos tornamos desconfiados de um "sentido" no mal. quando a fé em Deus e numa ordenação moral não pode mais ser mantida. instituir-se outra vez uma meta. de novas sínteses entre metas e valores. porém fazendo-o em chave afirmativa. 49. ainda é apenas um estado intermediário . e ainda não inventou seus meios auxiliares48. convicções absolutas e valorações incondicionais. que. a fé na absoluta imoralidade da natureza. Mas que. a energia destrutiva não é ainda. Que homens se demonstrarão. como os mais fortes. Fragmento póstumo. Op. parece como se não houvesse absolutamente nenhum sentido na existência. Deparamo-nos aqui com a figura do niilismo ativo. aqueles que não apenas admitem. uma boa parte de acaso. sem com isso se tornar pequeno e fraco: os mais ricos em saúde. p.36 1. Atravessar até mesmo o niilismo ativo exigirá pensar sem subterfúgios a perspectiva de uma existência desprovida de sentido e meta. ela o alcança como força violentamente ativa de destruição: como niilismo ativo. hedonista ou nostálgica do niilismo passivo. a inferência: absolutamente nenhum sentido): seja que as forças produtivas não são ainda suficientemente fortes.

p. na compreensão do conjunto dos sintomas. 13. com vistas à transição para novas condições de existência. Todo movimento terrível e poderoso da humanidade criou também.que o conhecimento da natureza e da história não nos permite mais tais 'esperanças'. 51. 71. 10 [22]. ainda que no suntuoso atavio dominical da moral) . Fragmento póstumo do outono de 1887.Ibid. para o que é necessário a mais aguda sensibilidade e refinamento do sentido histórico: Para a história do niilismo europeu "O período de não clareza.homens que estão seguros de seu poder e. De fato. In: KSA. um movimento niilista. seria um sinal de um incisivo e sobremaneira essencial crescimento. À sombra do niilismo extremo faz-se mais necessária do que nunca a mais sofisticada arte da interpretação. é preciso não se deixar confundir pelos sinais dos tempos. 468. representam a alcançada força do homem50. o autêntico niilismo. 50. os fortes"51. cit. das tentativas de toda espécie para conservar o velho e não deixar escapar o novo. vol. os sintomas de declínio pertencem aos tempos do mais formidável seguir adiante. libertar-se das estreitas perspectivas do maniqueísmo precipitado. n. O período dos três grandes afetos: • do desprezo. para tornar possível uma nova compreensão. Fragmento póstumo. Sob certas circunstâncias. Isso eu compreendi52. ao mesmo tempo. .. • da destruição. a apuração da faculdade de discernir. todo crescimento traz também consigo um formidável desmoronar e passar. mais do que nunca. n.que todos os antigos ideais são ideais hostis à vida (nascidos da decadência e determinantes da decadência. • da compaixão. os novos da vida ascendente . In: KSA. p. 12.Oswaldo Giacoia Júnior 37 Iheurs . que impele os fracos a resoluções. O fundamental aqui consiste na capacidade de discernimento global. que viesse ao mundo a mais extrema forma do pessimismo. 11 [150]. para decifrar enigmas. . Op. com orgulho consciente. O sofrimento. 52.entendemos o antigo e estamos longe de ser suficientemente fortes para um novo. O período da catástrofe: • a escalada de uma doutrina que seleciona os homens. vol.. e do mesmo modo. O período da clareza: compreende-se que velho e novo são antagônicos: os valores antigos nascidos da vida declinante.

da grosseria em nossos modos tradicionais de avaliação. se assim é. como experiência de desvalorização dos supremos valores.nele.isto sem perfazer a catástrofe. torna-se paradoxalmente autor e personagem do drama. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos Daí porque é imprescindível não perder o refinamento hermenêutico diante do caráter ambíguo do mundo moderno . trouxe o sentido e a lógica do processo ao nível da consciência de si -. não está à altura do tempo"53. exterior ao próprio movimento de consumação. que já uma vez se perdeu em cada labirinto do futuro. Com efeito. p. por causa disso. 468s. contudo. Ibid. Para Nietzsche. que. In: KS A. debaixo de si. p. Por isso. de maioridade conquistada.e que. os mesmos sintomas podem ser indício tanto de impotência quanto de fortaleza.38 1. dessa maneira. por que Nietzsche pôde auto-estilizar-se como o primeiro niilista consumado da Europa. enquanto 53. poderiam ser mal-entendidos como fraqueza. 10 [23]. o limiar de uma nova era. 11 [411]. Também o valor da verdade. é que pode deixar para trás o niilismo e falar do futuro . em razão do embotamento de nossa percepção. ao refletir a ascensão do niilismo. 54. já viveu em si mesmo até o fim o próprio niilismo . fora de si"54. 189s. Compreende-se melhor. . como um espírito de pássaro profético. Em resumo. sob a coerção das quais até então se desenvolvera a força espiritual. Fragmento póstumo. vol.quando se tornou perempta e opressiva a autoridade daquelas mesmas condições. os valores supremos e derradeiros reconhecidos pela moderna racionalidade científica. E. Sua reflexão pressupõe e só pode surgir sobre a base e a partir do niilismo perfeito. isto é. Nietzsche se apresenta "como um filósofo e ermitão por instinto. como um espírito ousado e experimentador.. então essa conclusão afeta também a possibilidade da verdade e da fundamentação última do conhecimento. Somente o pensador em quem o niilismo. sem deixar resíduos nem ressentimento . Nesse esforço para discernir o período da catástrofe. do esgotamento completo.que tem o niilismo atrás de si. n. é sob tais condições que pode também ser ainda intensificada a força produtiva do espírito . que olha para trás quando narra aquilo que virá: como o primeiro niilista perfeito da Europa. 13. as formas tradicionais de percepção. E os sinais de força. ela não pode excluir-se do processo e alçar-se a uma perspectiva de juízo final. foi inteiramente consumado. "o sentimento. a consciência filosófica. como sentimento de valor. sua interpretação do niilismo repousa sobre um pressuposto que constitui também o resultado fundamental de sua crítica da moral e da metafísica: nosso tempo é a era da insubsistência das valorações absolutas e incondicionais.

n. uma simplificação para fins da vida"55. In: KSA. cairia sob o veto de tal conclusão. Ele institui o valor das coisas justamente em que a esse valor nenhuma realidade corresponde. pois. nem correspondeu.. porém apenas um sintoma de força da parte daquele que institui valores. "coisa em si". cit. 12.Oswaldo Giacoia Junior 39 absoluto. Fragmento póstumo do outono de 1887. p. 55. . 350s. 9 [35]. Op. em verdade. o mais extremo. nesse sentido. não existe nenhuma verdade. vol. nem uma constituição ou significação incondicional das coisas: "Isso mesmo é um niilismo e.