GIACOIA JR, Oswaldo. “Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos.” Cáp.

I em Metafísica Contemporânea, por Guido Imaguire, Custódio Luis S. Almeida, Manfredo Araújo de Oliveira (Org), p. 13-39. Rio de Janeiro, RJ: Vozes, 2007.

Digitalizado por Gilberto Miranda Junior – gil-jr@uol.com.br

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Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos
Oswaldo Giacóia. Junior

1. Metafísica, platonismo e niilismo
Um dos traços mais marcantes da filosofia de Nietzsche consiste em sua pretensão, sustentada desde seus primeiros escritos, de, ao reverter o platonismo, também superar a metafísica pela transvaloração dos supremos valores da cultura ocidental. Para ele, a raiz profunda, a base completamente desenvolvida do pensar metafísico se encontra sistematizada no idealismo platônico, com a doutrina das idéias e a conseqüente oposição entre os mundos sensível e inteligível, constituindo o segundo o real (o ser, a essência permanente) contraposta à enganosa e insubsistente da aparência sensível (vir-a-ser, simulacro) e, portanto, a instância de julgamento acerca de sua realidade e valor. Desse modo, o anúncio da 'morte de Deus' está necessariamente associado à pretensão suprema de ter superado a metafísica, pois, como afirma Heidegger, antes de se referir a Deus em sentido religioso e cristão, "Deus é o nome para o âmbito das idéias e dos ideais. Esse âmbito do supra-sensível vale como mundo verdadeiro e autenticamente real desde Platão ou, dito mais exatamente, desde a interpretação grega tardia e cristã da filosofia platônica. Diferenciando-se dele, o mundo sensível é apenas o mundo do aquém, o mundo mutável e, por isso, o mundo meramente aparente, não real. O mundo do aquém é o vale de lágrimas, diferenciando-se do monte da felicidade eterna no além. Se, tal como acontece ainda em Kant, chamarmos mundo sensível ao mundo físico em sentido lato, o mundo supra-sensível é o mundo metafísico"1.

1. HEIDEGGER, M. Nietzsches Wort "Gott ist tot". In: Holzwege. 6. Auflage. Frankfurt/M- Vittorio Klostermann Verlag,

1980, p. 212 [Tradução portuguesa: HEIDEGGER, M. Caminhos de floresta. Trad. Irene Borges Duarte et alii. Lisboa: Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, s.d., p. 250s].

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1 Nietzsche- fim da metafísica e os pós-modernos

É, portanto, em ligação estreita com Platão e com o platonismo que se firma a identificação entre bem, belo e verdadeiro, instituindo um vínculo indissolúvel entre conhecimento, verdade e moralidade, assim como a idéia de uma significação ética para a existência do mundo e do homem. Essa interpretação pode ser referida tanto à meditação intensa sobre a filosofia platônica quanto à influência de Schopenhauer. Para este, com efeito, "colocar a força que produz o fenômeno do universo - e que, com isso, determina a constituição do mesmo - em ligação com a moralidade da intenção; e, por meio disso, demonstrar uma ordenação moral do universo como fundamento da ordenação física, este foi desde Sócrates o problema da filosofia"2. Consideremos, pois, esse ponto como uma das idéias-chave de interpretação nietzscheana: o traço dominante tanto na teoria quanto no caráter do homem Platão teria consistido em seu instinto ou impulso ético. Platão seria, antes de tudo, um político e um legislador. Todos os seus outros talentos e capacitações, inegavelmente pronunciados, estariam a serviço daquela vocação predominante - tirânica, como afirma Nietzsche. Foi em vista da ética e da política que Platão mobilizou sua teoria do conhecimento, sobretudo a parte consistente na doutrina das idéias. Essa teria sido a principal conseqüência, ou reação, desencadeada nele pela experiência vivida com o moralista Sócrates. Um dos principais pontos de apoio dessa tese é dado pela célebre distinção platônica entre dois gêneros de saber: o conhecimento racional (nous) e a correta opinião (doxa aletes), que se diferenciam pela proveniência - respectivamente, a partir de uma doutrina baseada em fundamentos, no primeiro caso, própria dos deuses e acessível apenas a poucos mortais; e a partir do convencimento desprovido de fundamentação, no segundo, acessível a todos os homens. Em associação com isso, Nietzsche interpreta, a seu modo, o relato de Aristóteles, de acordo com o qual Platão teria primeiramente partilhado a doutrina heraclitiana, segundo a qual todas as coisas sensíveis se encontram em fluxo perpétuo - à qual teria permanecido fiel até seu encontro com Sócrates3. Valendo-se do trabalho críti2. SCHOPENHAUER, A. Die Welt als Wille und Vorstellung II. Cap. 47. In: Sämtliche Werke. Ed. Wolfgang Frhr. Von Löhneysen. Frankfurt/M: Suhrkamp Verlag, 1986, vol. II, p. 755. Não havendo indicação em contrário, as traduções são de minha responsabilidade. 3. "Depois dos sistemas que mencionamos vem a filosofia de Platão, que a muitos respeitos segue esses pensadores, mas tem características próprias que a apartam da Escola Itálica. Tendo-se familiarizado desde jovem com Crátilo e com as doutrinas heraclitéias (de que todas as coisas sensíveis se encontram em perpétuo estado de fluxo e não se pode ter conhecimento delas), manteve mais tarde essas opiniões. Sócrates, no entanto, ocupava-se com questões éticas e negligenciava o mundo natural como um todo, mas buscava o universal nesses assuntos de Ética e, pela primeira vez, aplicou o pensamento às definições. Platão aceitou a sua doutrina, sustentando, porém, que o problema não dizia respeito às coisas sensíveis e sim a entidades de outra espécie - e, por este motivo, a definição não podia versar sobre qualquer coisa sensível, uma vez que estas mudavam constantemente" (ARISTÓTELES. Metafísica, livro I, cap. 6, 987a-987b). Adoto a tradução de Leonel Valandro (Porto Alegre: Globo, 1969, p. 50).

4). segundo a demonstração de Schuster p. porém apenas se torna perpetuamente isso ou aquilo. O que significa que Platão não teria dado à sentença o significado que lhe deu o próprio Heráclito. Nisso ele segue os heraclitianos: enquanto Heráclito. tendo sido concebida como uma tentativa de servir àqueles que querem ler Platão e consideram importante preparar-se para isso. 1995. correspondendo à Abteilung 2 (segunda seçcão). F. isso significa então que nenhuma coisa individual permanece eternamente em sua existência individual. segundo Schuster e Nietzsche) implica que nada permanece definitivamen- 4. mas sim aquele dos heraclitianos. Einführung in das Studium der platonischen Dialogue (Introdução ao estudo dos diálogos platônicos). Montinari (Berlin/New York: de Gruyter). influenciado por seu mestre Crátilo. 150. II. e oyden menei se relaciona a cada parte da substância: nenhum pedacinho da mesma permanece o mesmo que ele é. ainda que se mantenha inalterada por longo tempo. Esses apontamentos manuscritos para preleções encontram-se em: Nietzsche Werke. todo peso recai sobre oyden menei. Nietzsche afirma que Platão.Oswaldo Giacoia Junior 15 co-filológico de seu colega. que nenhuma coisa é isso ou aquilo. Band (vol. Ed. G. Para Nietzsche. em verdade. 1873). nenhum pedacinho de terra permanece terra. e nenhuma permanece. 4. P. banida do mundo. então estaria correto o que Platão designa como o ponto de vista dos heraclitianos. e baseando-se particularmente em Crátilo 402a. por princípio. II. Heraclit von Ephesus (Acta Societatis Philologae Lipsiensis. Band III. Berlim/New York: De Gruyter. 207ss. de acordo com a qual panta korei kai oyden menei ("tudo muda e nada permanece"). Então. SCHUSTER. com indicação do número das páginas. KGW). 4) (abreviada como Werke. . Oyden menei tem o acento principal"5. A referida introdução constitui a preleção proferida no semestre de inverno de 1871/1872. esse deslocamento de acento para cada um dos componentes da sentença de Heráclito corresponde a uma decisão filosófica de relevância capital. inédito durante a vida do filósofo. Essa interpretação é a de Platão. contendo as Vorlesungsaufzeichnungen escritas entre o semestre de inverno de 1871/1872 ao semestre de inverno de 1874/1875. por exemplo. As demais citações do mesmo ou de outro manuscrito dessas preleções serão referidas à: Werke (Ed. Este texto. interpreta no mesmo sentido deste último a sentença de Heráclito. korei tem um sentido muito enfático. a saber. No primeiro caso. pensa apenas que nenhuma coisa no mundo furta-se finalmente ao declínio. De acordo com a interpretação de Nietzsche. Kritische Gesamtausgabe (doravante KGB). toda permanência qualitativa e espacial estaria. duas direções hermenêuticas de implicações diversas se abrem perante aquela proposição: "Se dissermos a matéria de todas as coisas modifica-se perpetuamente. constitui um dos manuscritos para a série de preleções sobre a filosofia de Platão. NIETZSCHE. O volume. A escolha da segunda opção (aquela genuinamente de Heráclito. e panta korei nada mais significa do que toda coisa tem uma vez que seguir adiante de seu lugar aqui. A citação acima se refere à p. se dissermos que toda coisa singular passa. o filólogo Schuster (a quem segue de muito perto)4. No último caso. por mais longo tempo do que um momento. Colli e M. foi publicado em 1995. 5. ministradas por Nietzsche na Universidade da Basiléia. isso significa então que todas as coisas renovam permanentemente o teor de suas partes.

diferente de si mesmo. Todas as coisas existentes são transitórias. mas tudo retorna igualmente de modo perpétuo.ou seja.porém com consistência e identidade suficientes para permitir um certo gênero de conhecimento a seu respeito. Protágoras pensava existir uma episteme. Isso configura o seguinte resultado geral: a sentença de Heráclito interpretada no sentido de que nenhuma coisa na natureza permanece eternamente. pessimismo prático. e a correta opinião (doxa aletes). Sendo o primeiro imutável. identidade e permanência. Heráclito justamente não é primeiramente o pai daquela doutrina do desprezo dos sentidos: ao contrário. ao tomar o outro caminho . essa conclusão "também não procede do heraclitiano Protágoras. como mundo da doxa polemiza Parmênides"6. esse foi também o caminho de Protágoras. que torna cada coisa. não inviabiliza todo e qualquer conhecimento das coisas sensíveis. extraiu da sentença a seguinte conclusão: todas as coisas sensíveis se encontram em perpétuo fluxo e alteração. que tudo passa e novamente retorna. Ao contrário. isso afeta também a noção de um fundamento ab- 6. ele primeiro fundamentou a mathesis sobre opsis e akoe. pois se nenhum conhecimento racional do mundo sensível é filosoficamente legitimável.o de Crátilo -. inclusive em suas ínfimas partes. Platão. um conhecimento que tem por base a experiência e os sentidos. ele não poderia concernir a nada que fosse sensível. porém que há conhecimento. Sendo assim. a cada instante. de maneira que nenhum conhecimento racional é possível acerca delas. Para Nietzsche. só que não universalmente válido. por definição. tampouco pode haver qualquer gênero de conhecimento (episteme) correspondente a tais essências. episteme = doxa = aisth). pois todo sensível. de acordo com a hipótese. pois subsistência supõe inerência. no entanto. Apenas veta a possibilidade de um conhecimento que ultrapassa o âmbito da aisthesis e da doxa que sobre ela se assenta . . mas é platônico-cratiliana. o proveniente do nous (intelecto). que supõe. está mergulhado no eterno fluxo da insubsistência. que seria o mesmo que aesthesis e a doxa que sobre ela repousa (portanto. Ibid. ceticismo. mutáveis . tudo passa. o que tem por conseqüência que nada se pode pensar como constituindo a essência de tais coisas. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos te na natureza. Resultado: desespero gnoseológico. portanto reflexão com base (Grund) na experiência (fé incondicional na gnosis): contra o mundo dele. inclusive o céu e a terra atuais. por sua vez.16 1. Ele pensa que só há uma espécie de conhecimento. A outra escolha (a de Crátilo e Platão) implica que tudo está em fluxo incessante portanto nem o mais ínfimo atributo de nenhuma coisa sensível existente permanece idêntico a si mesmo. Tal inferência tem por base sua distinção entre dois gêneros de conhecimento.

"Os conceitos socráticos. à mutação. sobretudo. que acabou persuadindo-se de que não devia dizer nada e se contentava em mover o dedo. e criticou Heráclito por ter dito que é impossível entrar duas vezes no mesmo rio. Por isso. ARISTÓTELES. qual a defendida por Crátilo. não estão também sujeitos ao erro. não do conceito cavalo. opinava que isso não se pode fazer sequer uma vez7. cit. Todo o sensível em fluxo. Foi essa a opinião que floresceu na mais extrema das doutrinas acima mencionadas. que correspondem a entidades intelectuais idênticas. livro IV. Ao contrário. 5. O que é justo. não podem estar sujeitos às variações e à insubsistência que afeta os entes sensíveis. 8. a dos que se dizem discípulos de Heráclito. Cap. com auxílio dos sentidos. antes trazemo-los para a experiência e aplicamo-los à experiência. p. Temos que pensar que Platão partiu de tais abstrações como bom. o belo. encontra Platão seu ponto de partida e uma tábua de salvação: esses predicados universais. De Crátilo: disposição desesperada sobre o mundo dos phainomena. disseram que no tocante àquilo que por toda parte e a todos os respeitos está sempre mudando evidentemente nada se podia afirmar com segurança. Nesse ponto situa-se a intervenção decisiva da influência socrática: Sócrates considerava o domínio ético cognoscível por conceitos. das abstrações empregadas em sentido adjetivo (justo. Como poderia ser abstraído o sempre permanente daquilo que sempre se modifica!"8 Nos conceitos socráticos . 153. pois ele. 1010a. justo. de onde sabemos algo deles? Surge a pergunta cardeal pela origem dos conceitos. o que é belo? Jamais vemos o justo. NIETZSCHE. 103. justo. nenhum conhecimento possível. F. Crátilo. sempre apenas nomeamos belo. o igual. Nietzsche tem em vista. e a respeito do que muda nenhuma declaração verdadeira se pode fazer. De Sócrates: poderosa influência da idealidade 7. Werke II. p. . igual) e não prioritariamente no sentido substantivo (como o conceito do cavalo) -. belo. belo. etc. Metafísica.Oswaldo Giacoia Junior 17 soluto para o conhecimento do bem e da virtude.convém notar que é. o testemunho de Aristóteles: E. Ninguém viu o belo. também nesse passo. Nós os temos em nós. Ele negava que a abstração fosse abstraída. como vissem que todo esse mundo sensível está em movimento. eis aí algo que não estava primeiramente in sensu e depois in intellectu. De onde extraímos esses conceitos? Não a partir da experiência.o que constitui a tragédia de todo moralista e reformador político. estando também livres da contradição. 4. Op. privando a existência de toda significação autenticamente moral .. por outro lado. algo singular.

fornecem apenas a ocasião apropriada para uma reflexão metafísica-mente mais profunda . 11.. Cf. de per si. Dos pitagóricos: a figura do reformador ético-político. É certo que ele não discerniu suficientemente os objetos desse saber. Esta se forma por meio da combinação do elemento socrático com o elemento haurido do pitagorismo hierático. as derradeiras conseqüências. Platão acreditava com Heráclito que todo singular [está] em fluxo perpétuo. forma-se a grande concepção da doutrina das idéias: ao mesmo tempo. .cabe a Platão extrair deles.Só depois da mais íntima receção do elemento pitagórico. no domínio da ética. Ibid. dos quais cada um deles. a fundação da academia9. Como se pode perceber. O que é inalterável. pode-se afirmar 9. semelhantemente ao conceito correspondente. Aos conceitos correspondem apenas outras tantas coisas efetivas. Sócrates ensinava que. em combinação com a influência dos pitagóricos. dessa forma. porém existe ao lado do que é singular e para além da mudança (não no singular.. o método a seguir para a correta descoberta dos conceitos: a dialética11. sem que a ele correspondesse algo na efetividade. Todavia. por não ter desenvolvido suficientemente a doutrina dos conceitos puros. A influência dos conceitos socráticos permite a refutação da interpretação cratiliana da sentença de Heráclito e. o filósofo tem que se libertar o mais possível do corpo.18 1. A alma é imortal. ele encontrou o caminho para lá. As coisas empíricas são suas cópias. p. Herbart: "consideremos esses conceitos universais como conhecimentos de objetos reais. Ibid. p. Adestramento na formação de conceitos e definições. o permanente não é como que o caráter do gênero e a lei natural. em sua espécie. do fundador de seitas. os conceitos socráticos não constituem. ele encontrou determinações conceituais universais: do mesmo modo que às nossas singulares percepções sensíveis (intuições) correspondem objetos singulares. 154. está aí dado apenas uma vez: esses objetos reais são as idéias platônicas". Nietzsche: fim da metafísica e os pós modernos ética. 10.. Modelo na luta contra seu tempo. Existem muitos verdadeiros onta. a união com o corpo é uma penitência. não por meio do singular)10. pode-se encontrar um saber relacionado àquilo que é permanente e supra-sensível. Mas os conceitos éticos dão apenas a ocasião para a separação. cognoscíveis por meio deles. 168. 149. assim também aos nossos conceitos universais têm que corresponder objetos. Ibid. . O conceito (noema) não poderia estar meramente na alma. o fundamento da doutrina das idéias. Nesse sentido. inalteráveis como o próprio conceito. Direção para a meditação ética. ideal e ético não coincidem. por meio de Sócrates.

constituindo a tarefa de vida para o filósofo a descoberta do reino dos conceitos. Existe tal saber? Crátilo o negava: então inexiste também qualquer verdadeiro ser das coisas. Este não produz nenhum saber. carne. "livrar-se tanto quanto possível dos sentidos torna-se a tarefa ética. Platão nada sabe de um intuitivo apreender das idéias. o apartar-se dos outros homens.1bid.Oswaldo Giacoia Júnior 19 que o traço fundamental da paideia socrática consiste em superar todo conhecimento obscuro.. No mundo da aparência. Ibid. outro ensinamento socrático que encontra em Platão. Eles jazem na ilusão: sua grandeza nada vale. confuso. não tem correspondência em Heráclito. ódio. porque ela repousa sobre a ilusão. paixão. Dedicar plenamente sua vida ao culto da dialética. à sua tarefa e destinação pertence a iniciação. . volúpia.p. e não nos concerne. Cf. 162. que pesa como um fardo sobre o pensamento: corpo. Sócrates constatou que a maioria dos homens vive justamente apenas aí. senão justamente por meio do conceito. uma ressonância profunda: o mundo do verdadeiro filósofo é o universo inteligível das puras abstrações. Péricles. sempre autocontraditório. O doutrinamento pela dialética é contraposto ao conhecimento pela retórica e escrita.Ibid. apenas uma doxa12. ou ele é inteiramente inapreensível. existem apenas grandezas puramente aparentes (mesmo Homero. Então estaríamos condenados a viver num mundo totalmente irrisório. principalmente os maiores e mais ilustres. É de Sócrates e dos pitagóricos que Platão herda o ódio contra a sensibilidade. Os sentidos como perturbadores da paz do 12. A depreciação da efetividade Sócrates acrescenta a depreciação dos homens: ele emancipa Platão da veneração. 152. o caminho para o conceito é sempre a dialética: ao conceito correto corresponde então necessariamente um ente. 14. portanto. em combinação com a doutrina pitagórica da precedência da alma. que naturalmente não se pode ver e observar. Eis. sob o impacto da influência socrática.)14. não sobre o saber. sangue. enganoso.que. e ser de igual modo permanente e inabalável. Nietzsche discerne. O verdadeiro saber teria que se referir ao que é permanente. entregues ao simulacro e à incerteza. etc. em aparência e escuridão.principalmente a indisposição moral contra a realidade mais próxima. a sensualidade . Todo ensinamento na academia se refere à dialética.p. sendo a dialética o método para a derivação desse saber. como já pudemos indicar anteriormente. 13.. o elemento ético na gênese da doutrina das idéias13. Aqui se origina o desprezo platônico pelo mundo sensível e pelos sentidos . Nessa ponte entre o especulativo e o moral.

por outro lado. Com efeito. não sensíveis. O ser-bom. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos homem ético. a suprema perfeição do mundo das idéias é dada precisamente pela idéia do bem. As almas. assim também está. Se a alma separou-se do corpo. . posto que vivemos apenas no mundo empírico? De onde chegamos ao ison. Do mesmo modo como o sol está para o mundo sensível. onde ele não é mais perturbado e seduzido. p. com a correspondente doutrina das idéias. onde não há mais nenhum ver. Ibid. e a doutrina platônica da alma. que o verdadeiramente Bom reconhece como o seu mundo. agathon. em verdade. p.. a perfeição pertence à essência de toda a idéia. Dessa maneira. por um lado. no mundo inteligível. Esse elemento nos fornece a base para o reconhecimento da mútua pertença entre a oposição mundo sensível x mundo inteligível. 17. não a perfeição estética. que ilumina as coisas existentes e permite ao olhar humano discerni-las como elas são. chegamos a poder saber algo das idéias.. como a fonte de vida e crescimento. Essa incondicional predominância do elemento ético no pensamento de Platão permite vislumbrar uma rede de correspondências entre a doutrina das idéias e a teoria platônica da alma. é ela quem torna possível a cognoscibilidade e o conhecimento das idéias. no qual a divindade as instalou para castigo. onde toda sensibilidade se cala. como diz Philolau. 166s. porém a ética" . então ela leva uma existência incorpórea num mundo superior17. como perturbadores da paz do pensador. ouvir e sentir. Ibid. 162. então pode bem ser possível o verdadeiro conhecimento"15. idéia a que corresponde o ápice da ascese platônica do saber e da dialética. p. Se é possível desembaraçar-se deles. também de natureza ética será o elemento prevalente na doutrina platônica da alma. Ibid.20 1. 153. 16. estão ligadas ao corpo para castigo. Relativamente a isso. do qual elas não estão autorizadas a se libertar por seu próprio poder. que todavia não se confronta conosco na efetividade? De onde determinamos aquela semelhança das coisas com a idéia? Aqui vem em auxílio de Platão a doutrina da imortalidade da alma.. se o ponto de partida para a asserção de um mundo supra-sensível foi dado pelas hipóteses éticas de Sócrates. 15. porém. a tarefa consistia em "encontrar um mundo. E como o sol é superior à luz que promana e ao olho que ilumina. o corpo é um cárcere. Como. assim como a doutrina de que as coisas empíricas seriam imitações daquelas verdadeiras onta. Isso constitui um dos traços mais característicos da assimilação por Platão da influência do orfismo e do pitagorismo: Platão deve aos pitagóricos a hipótese de uma multiplicidade de onta e. a idéia do bem: ela é a fonte do ser e do saber. assim também a idéia do bem é superior ao ser e ao saber.

Colli e M. n. a oposição entre corpo e alma.p. tanto mais puro. Num fragmento póstumo do final de 1870 a abril de 1871.DUVAL. Kritische Studienausgabe (doravante KSA). Ed.uma queda e um cárcere. portanto. no plano da teoria do conhecimento e da ciência. seu componente imortal . se desdobra em reversão no plano da moral. R. 627. ao mesmo tempo. é. Assim. no plano da existência humana./1969. A tese desenvolvida por Platão.tornava. cit.. p. De modo algum. portanto ainda anterior à publicação de seu primeiro livro. Nietzsche et le Platonisme. A vida no brilho da aparência como meta"19. DUVAL. In: Sämtliche Werke. 1980. 7. Fragmento póstumo do final de 1870 a abril de 1871. mas segundo a lógi- 18. Montinari. out. Duval. de acordo com a interpretação de Nietzsche. 625. a respeito dessa rede sistemática de correspondências. 199. então a reversão. no plano do saber. tem razão Duval quando reconhece ser o essencial da filosofia de Nietzsche uma reversão da inversão platônica. a oposição entre opinião e ciência e. LUI.a saber. 4. t. "a linguagem e o conhecimento requerem uma certa estabilidade no devir. da estética e da política. belo. Por isso. e que essa ligação constitui. Berlim/New York/München: De Gruyter/DTV. à oposição entre mundo sensível (domínio da aparência e do movimento) e mundo inteligível verdadeiramente real (domínio das essências imutáveis) corresponde. não ser: a condição da realidade é a identidade do ser.tal como a interpreta Platão . O verdadeiro ser não pode também. que a existência das idéias demonstra que a alma teve uma vida anterior e independente de sua ligação com o corpo. insubsistente a realidade e o conhecimento. Mas é também sob a pressuposição do ser como idêntico que se baseia a possibilidade da ciência. G. para a parte intelectiva. p. n. Op. O nascimento da tragédia. R. 19. 7 [156]. Paris: J. pois a nobreza dessa parte consiste precisamente em seu parentesco com o domínio eterno do inteligível. ao mesmo tempo e sob a mesma relação. A esse juízo.Oswaldo Giacoia Junior 21 A postura heraclitiana . entretanto. 20. como sabemos. eles requerem que o devir não seja universal"18. Nietzsche já havia formulado seu programa filosófico: "Minha filosofia: platonismo revertido: quando mais afastado do verdadeiro ente. a ordem dos valores que Platão tinha instituído entre o conhecimento do que permanece idêntico e o devir: ele considera que a verdade é a realidade do devir e que o conhecimento é uma fonte de erros e ilusões"20. a doutrina das idéias está visceralmente imbricada com a doutrina da imortalidade da alma. vol. senão nada corresponderia a nossas palavras e conceitos. Vrin. como uma simples reversão de posições. Como o afirma R. . para a parte mais nobre da alma . melhor. tomaria a liberdade de acrescentar o seguinte: como. uma aposta em Heráclito contra Platão: "Nietzsche reverte. In: Revue des Sciences Philosophiques et Théologiques.

sobretudo. mais importante do que retomar a polêmica com Heidegger acerca da permanência ou não do pensamento de Nietzsche no âmbito da metafísica22. Op. pois. cit. 213 [Trad. e segundo o qual se possa orientar"21. do conhecimento racional. p. se o mundo supra-sensível das idéias perdeu a sua força vinculativa.22 1. A esse respeito. portuguesa.. Por essa razão. 251]). enquanto mera reviravolta desta. cit. então isso se deve. entendido enquanto experiência histórica da ausência de fundamento. a consciência da propagação desse nada. isto é. 212s [Trad. presa na essência daquilo contra o que se vira. 22. que tem 21. são conduzidos à extração de suas derradeiras conseqüências. Op. que não mais reflete. como todo o anti-. p. como em direção a uma catástrofe: inquieta. a filosofia ocidental compreendida como platonismo. Op. enquanto metafísica. em que os valores dominantes na cultura ocidental. pois é nela que se descreve a crise irreversível de toda pretensão à objetividade e à fundamentação.ainda saturado de positivismo e hegelianismo. está no fim. contra o platonismo. Se Nietzsche pode ser considerado nosso contemporâneo. cit. instituídos pelo platonismo. a transvaloração de todos os valores seria a catástrofe da metafísica: um processo que obedece a uma lógica imanente. ela permanece necessariamente.. Contudo. No final do século XIX . para Nietzsche. que cresce a cada século. O contramovimento de Nietzsche contra a metafísica é. tal como ela correspondia ao empreendimento ético-filosófico de Platão. tanto que esta se isola contra a sua essência e. do ponto de vista dos fins essenciais desse trabalho. nunca consegue pensar a sua essência própria" (HEIDEGGER. e. isto é. é observar que interpretar o tema do fim da metafísica em Nietzsche implica interpretar o que ele compreende por niilismo e compreender como ele próprio se posiciona em relação a essa experiência de significação epocal. "A metafísica. para ele. Desse modo. precipitada: como uma corredeira que quer chegar ao fim. nada é o dístico para a escalada do niilismo.. .. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos ca da auto-supressão. violenta. do ponto de vista de seu diagnóstico do fim da metafísica. p.0 anúncio da morte de Deus significa. em derradeira instância. sobretudo. enquanto mero contramovimento. cujo conceito Nietzsche formulou como niilismo. M. 251]. Nesse léxico nietzscheano. cit. Heidegger observa: "Se Deus morreu. à sua genealogia do niilismo. Nietzsche registrava: "Já há longo tempo toda nossa cultura européia se movimenta com [tal] tortura de tensão. Op. enquanto fundamento supra-sensível e enquanto meta de tudo o que é efetivamente real. M. o enredamento sem saída na metafísica. portuguesa. Nietzsche compreende a sua filosofia própria como o contramovimento contra a metafísica. HEIDEGGER. da ausência de um mundo supra-sensível de valores vinculantes. uma das vias privilegiadas para a tematização do fim da metafísica em Nietzsche consiste precisamente em sua análise do niilismo. Por isso. a sua força que desperta e edifica. então nada mais permanece a que o homem se possa agarrar. p. de crença inabalável na onipotência da racionalidade científica.

NIETZSCHE. casualidade.eis o sinal distintivo do niilismo. verdade. . Op. Para tanto. vol. a reconstituição de sua gênese nos reconduz à aurora de nossa própria cultura. vol. Berlin/New York/München: De Gruyter/DTV. a solução seria: porque as respostas historicamente propostas a todas as questões relevantes (a todo "por quê?") assentavam sobre um mesmo pressuposto: a possibilidade de encontrar uma causa. Em que consiste. In: KSA. 12. perde-se a perspectiva do sentido e do valor. etc. existência e os modos de ação dos entes e de seus processos de transformação. que sustenta todo um sistema metafísico de interpretação global do universo e da condição humana no mundo. 24. como se define. estamos ainda longe de compreender tanto o essencial do niilismo. Colli und M. F. que não pode mais vir de outro modo: a ascensão do niilismo"24. O que equivale a dizer que tinham como pré-condição a vigência de valores superiores como sentido. revolver o enraizamento histórico daquele movimento que. pois aquilo que Nietzsche pretendeu narrar foi a antecipação de nossa realidade. F. In: Sämtliche Werke. lícito e ilícito. 350s. p.mas igualmente bem e mal. que ainda nos afeta? A definição de Nietzsche é a seguinte: "Niilismo: falta a meta. ser . G. Pois a forma geral da racionalidade lógica provém de uma inspiração congenitamente socrático-platônica. 9 [35]. na medida em que esta. desde seus primórdios. Montinari. 11 [411]. Fragmento póstumo do outono de 1887. falta a resposta para o 'porquê'? O que significa niilismo . em sua busca incessante de causas. virtude e vício. Sem essa resposta. emergiu à superfície da consciência filosófica como a escalada do niilismo.Oswaldo Giacoia Junior 23 medo de refletir" . Kritische Studienausgabe (doravante KSA). "a história dos próximos dois séculos. daquilo que vem. Com essa explicação. razões e princípios que explicam a essência. finalidade. justo e injusto. p. n. n.que os supremos valores se desvalorizam"25. NIETZSCHE. 189s. 1980. como também a medida em que essa problemática ainda nos concerne. a esse respeito.. 25. realidade. A falta de resposta para a pergunta: "Por quê?" . esse niilismo. um sentido nas coisas e cursos de acontecimentos. nos últimos séculos. Como já se pode notar. 23. nela predominando o pensamento de tipo teórico. a partir das considerações feitas até aqui. Esse anúncio conserva para nós o mais vivo interesse. então. Ed. 13. é necessário recorrer à perspectiva genealógica. Ora. Fragmento póstumo de novembro de 1887 a março de 1888. Ibid. bem caberia a interrogação: Por que a falta de resposta a essa pergunta constitui o niilismo? E ainda mais: em que essa fórmula e a problemática nela implicada podem ainda nos concernir? Para uma tal interrogação. cit. mantém uma íntima relação com as referências de valor atualmente em vias de dissolução.

O nascimento da tragédia. durante algum tempo. nossa cultura nasce sob o signo de uma obsessão explicativa. do qual. Quem alguma vez tomou visível para si como depois de Sócrates. o mistagogo da ciência. Eis para onde é necessariamente conduzida uma cultura que se obstina a fazer passar pelo crivo da pergunta "por quê?" todos os seus conteúdos cognitivos e esquemas de ação. e que o pensar estaria em condições de não apenas conhecer o ser. nunca suspeitada. pela indicação de fundamentos. a começar pelas mais primitivas ordenações religiosas. justamente por isso ela se tornou a grande força propulsora do desenvolvimento intelectual28. 28. 30. Para Nietzsche. nos mais remotos domínios do mundo cultivado e como a autêntica tarefa para toda aptidão mais elevada. mas também até de corrigi-lo"26. essa representação "veio ao mundo pela primeira vez na pessoa de Sócrates: aquela fé inabalável em que o pensar. uma representação delirante. p. vol. alcançaria os mais profundos abismos do ser. p. 1. desde então. Dito de outro modo. Ibid. Desde suas origens. que constitui uma espécie de delírio de onipotência da razão. conduziu a ciência ao alto-mar.esse não pode se recusar a ver em Sócrates o ponto de inflexão e o vértice da assim chamada história universal27. pelo fio condutor da causalidade. 26. NIETZSCHE. 27.Maskierter Nihilismus. In: KSA. quem tornou presente para si mesmo tudo isso. 99. Entretanto. portanto. como. Fundamentalismus . primeiramente por meio dessa universalidade. como vimos. o logos científico vê-se acossado pela compulsão à fundamentação.. . ou científica. Springe: Zu Klampen Verlag. repousa inteiramente sobre a vigência universal do princípio de razão suficiente. 2003. C. 99s. ela jamais pôde ser de novo completamente removida. sim com vistas à legalidade de um sistema solar inteiro. e impelido por ele a percorrer a inteira cadeia dos conceitos e princípios. uma rede comum do pensamento foi estendida sobre o conjunto do globo terrestre. TÜRCKE. essa universalidade da avidez científica carrega consigo. Ela é o tendencial triturador de todos os fundamentos dados e o insaciável investigador de novos fundamentos. p. sob uma compulsão à fundamentação. A simples pergunta "por quê?" é como uma pulsão. uma universalidade da ânsia de saber. junto com a surpreendente pirâmide de saber da atualidade . Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos Considerada do ponto de vista genealógico. Porém. mas nenhum fundamento é seguro em longo prazo. F. uma cultura teórica. 15. como a onda pela onda. como. Podemos saciá-la. Cada um deles cai. por meio dela. uma escola filosófica é substituída pela outra.24 1.

encontra-se inevitavelmente diante daqueles pontos fronteiriços da periferia. F. enquanto nos guiarmos por essa ordenação. Op. algum dia. Acossada pela compulsão a reproduzir infinitamente a mesma pergunta: "Por quê?". a palavra mágica que em geral primeiramente abriu a porta para o reino dos fundamentos. poderíamos prosseguir perguntando. onde se detém estarrecido perante o inexplicável. "nessas fronteiras. 31. Em primeiro lugar. os costumes e os usos valem porque a divindade os exige? Sim. E por que ela fez isso? Porque ela própria é boa. pura e simplesmente o bem29. então. ou seja. 29. uma vez mais.. então? Por causa de nos-so bem-estar. nesse ponto a racionalidade é levada a perceber que o último fundamento é necessariamente um abismo. 101. a lógica gira sobre si mesma e finalmente morde a própria cauda"31. que deveria descerrar e assegurar de uma vez por todas o solo do espírito.Oswaldo Giacoia Junior 25 O culto. um sem-fundo.desse movimento de morder a própria cauda -. o homem nobre e talentoso. Pois a periferia do círculo da ciência tem pontos infinitamente múltiplos. nos quais fracassa o otimismo oculto na essência da lógica. a ciência se precipita irresistivelmente para seus limites. quer ela se expresse numa face distorcida pelo sofrimento. o círculo poderia ser inteiramente mensurado. Ela torna possível todo fundamento.. cit. Teremos repouso. e assim ad infinitum. ainda antes da metade de sua existência.. E isso é assim. podemos citar a penetrante análise a que Christoph Türcke submete a lógica de Aristóteles: O Organon. Ibid. Todo fundamento se deve a essa pergunta [por quê? OGJ. Por que ela o fez. 30. p. NIETZSCHE. ela os exige? Porque a própria divindade os criou e ordenou. Cada um de seus re- 29. Como exemplo privilegiado da conversão da racionalidade científica em seu contrário . fez naturalmente o contrário." O "por que" é o agent provocateur de todos os fundamentos. num suspiro. p. O nascimento da tragédia.]. proteção e segurança. porém por que. porque a divindade fundou e ordenou o mundo para o nosso melhor. os ritos. p. mas não deixa nenhum deles em paz30. e enquanto ainda não se deixa absolutamente ver como. Com a compulsão à fundamentação. ou numa linguagem articulada.. 30. O encontro dessa barreira incontornável constitui para ele a experiência assustadora de que. Todo fundamento é um "por quê?" tranqüilizado e imobilizado em um "por causa de". . o machado estará sempre colocado na raiz de cada novo fundamento que possa ser exibido. Ibid. E por que razão ela é o Bem absoluto. "Isso e isso é assim porque..

na medida em que tais valores e princípios são os pilares de sustentação. p.mais ainda.p. pobre pássaro que se sentiu livre e agora bate nas paredes dessa gaiola! Ai de você. que nos remete incessantemente à necessidade de seguir avante. derribando qualquer pretensão a fundamento último. mas apenas a lógica da decadência"34. Não é o niilismo a causa da decadência cultural. desde o princípio havia algo desestabilizador nesse solo32. Op. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos sultados caiu sob o franzir de testa do "por quê?". sempre de novo lançada à deriva: Deixamos a terra firme e embarcamos! Queimamos a ponte . o niilismo é sintoma de declínio. na experiência histórica de que a total emancipação da razão esclarecida produz necessariamente a corrosão das referências tradicionais de valor. é verdade que ele nem sempre ruge.e já não existe mais "terra"!33 Assim. Fragmento póstumo da primavera de 1888. A gaia ciência. Aforismo 124. vol. n. 264s. 33. em nenhum deles pudemos nos tranqüilizar definitivamente.26 1. Por causa disso. NIETZSCHE F.que precede imediatamente a célebre parábola sobre o homem louco que anuncia a "morte de Deus" -. Paulo César de Souza. . 147. sem continentes e territórios demarcados. antes pelo contrário: ele é antes o resultado necessário de um lento. São Paulo: Companhia das Letras. 36. que o sentido de seu progresso conduz precisamente a esse desalento. Mas virão momentos em que você perceberá que ele é infinito e que não há coisa mais terrível que a infinitude. se for acometido de saudade da terra. a escalada do niilismo traz também consigo à superfície da consciência aquele elemento desestabilizador. 34. que garantem a coesão e integridade de uma cultura. 14 [86]. In: KSA. No aforismo 124 de A gaia ciência . 2001. 13. e às vezes se estende como seda e ouro e devaneio de bondade. p. como se lá tivesse havido mais liberdade . NIETZSCHE. pequeno barco! Junto de você está o oceano. F. imanente a todo "por quê?". lança a racionalidade científica no que Nietzsche denominou de Horizonte do infinito.. cortamos todo laço com a terra que ficou para trás! Agora tenha cautela. um sinal de dissolução. e assim a lógica revolveu finalmente esse solo até a insegurança universal. pois nessa escalada são extraídas as conse- 32. em busca de novos princípios e razões. cit. Esse é o sentido daquela fórmula lapidar: "O niilismo não é a causa. Ibid. Essa desestabilização.. Trad. essa ascensão se traduz na vivência consciente da impossibilidade de princípios inabaláveis. Em verdade. Oh. processo de declínio e perda de potência. Nietzsche exprime esse sentimento de vertigem e insegurança que acompanha uma vida permanentemente em alto-mar. de fragmentação de uma unidade cultural. até então insuspeitado. pois.

. pois. a partir de katastrophe (reviravolta) e katastrephein. portanto. Fragmento póstumo de novembro de 1887-março de 1888. OGJ. A lógica da catástrofe A esse movimento gostaria de denominar lógica da catástrofe. inverter. Ibid. Uma produtiva ambigüidade constitui o nó górdio de tais processos: por um lado. reverter. 2. O que eu narro [afirma Nietzsche] é a história dos próximos dois séculos [. por outro lado. velada. embora de maneira inconsciente. na crise de validade dos valores antigos e na ausência de novos valores universalmente reconhecidos. Tomado em sua acepção original. um instante da mais profunda auto-reflexão do homem36. não louvo. com o propósito de descrever sua dinâmica e sua necessidade. cit. esgotamento (catástrofe aqui significando esvaziamento e consumação). esteve associado aos primeiros. o sentido oculto do curso dos acontecimentos. Aqui. A expressão recorre à etimologia do termo. O niilismo deve. o termo remete ao acontecimento decisivo que conduz ao desenlace da tragédia grega.. Op. . doravante necessária a ascensão do niilismo? Porque são nossos próprios valores de até agora que nele extraem sua última conclusão: porque o niilismo é a lógica. com sentido de revirar. In: KSA. apenas faltam olhos para tais sinais. 189s. por detrás deles. porém. p.os sinais disso estão por toda parte. revela-se que. Op.n. Para tanto. proporciona um im- 35. revelando. desde a origem. 13. 56s. o que não poderia ter ocorrido nos primórdios do processo nem no meio do caminho. é necessário que a realização desses valores tenha alcançado sua plenitude. ao perfazer-se integralmente um movimento circular.Oswaldo Giacoia Júnior 27 qüências lógicas inexoráveis das pretensões sustentadas com base nesses mesmos valores que se esvaziam. Se isso é plausível. então reconstituir cuidadosamente a lógica dessa catástrofe. ser entendido como o acontecimento de significado histórico-mundial em que a consciência filosófica. faz também a experiência do elemento nadificante (nihil) que. pois. Quando os valores cardinais são levados até a extração de suas derradeiras conseqüências. nem censuro [o fato de. Fragmento 11 [411]. pensada até o fim.]. 11 [119]..] que ele venha: creio que há uma das maiores crises. 36. Descrevo aquilo que vem: a ascensão do niilismo. há um movimento na direção de perempção. p. nada mais tem subsistência. In: KSA.. a volta sobre si mesmo (catástrofe no sentido de reversão e retorno ao princípio). "Por que é. vol. de nossos grandes valores e ideais"35. Posso descrevê-la porque aqui se passa algo necessário . cit.

que põe em ação um contramovimento de superação do niilismo. 37. por isso. impõe mundialmente sua "moral do rebanho" e. Entretanto. nos quais Nietzsche reflete sobre o niilismo. Na outra vertente. privilegiando o aspecto ético. em sua sobrevinda aliança com a ciência moderna. Ressentiment und Apokalypse. o cristianismo deve ser interpretado. 1993. em dupla vertente: numa delas. Por isso. na catastrófica extração das derradeiras conclusões. Como observa. Würzburg: Königshausen & Neumann. inclusive no presente. na medida em que a decadência e sua lógica. GERHARDT. cabe lembrar que. p. ameaça o futuro do homem. o mais cortante ataque de Nietzsche. em primeiro lugar. V. o privilégio concedido à crítica genealógica do cristianismo na decifração da lógica da decadência. mundialmente missionária fé dos judeus e dos cristãos trouxe à tona o niilismo37. Sabemos que o conceito nietzscheano para isso é o da paradoxal Selbstaufhebung (auto-supressão). retraçar o movimento de voltar-se contra si e negar-se. 3. In: BRAUN. a milenarmente sobrevivente. chegamos com Nietzsche à constatação paradoxal: justo a mais poderosamente efetiva de todas as religiões monoteístas. Para nós. sobretudo.28 portante 1. para Nietzsche. a ênfase é concedida ao aspecto lógico. como potência civilizatória do mundo moderno. Die Zukunft der Vernunft -aus der Perspektive einer nichtmetaphysisichen Philosophie. figurando as categorias da razão como causa do niilismo. É a dominação sacerdotal judaico-cristã. originado no ponto de viragem. Desse modo. mas tem raízes históricas anteriores. a esse respeito. que está na base de uma não menos complexa dialética sem síntese reconciliadora dos opostos. Volker Gerhardt: há. Ele não deixa de parecer singular. será de especial interesse destacar o engendramento interno da crise. A catástrofe da veracidade cristã Examinemos. que supera tudo o até então existente.). (ed. o niilismo. e para a qual vale. Ela traz consigo a "sublevação dos escravos na moral". uma entre elas que chega ao excesso. o ascetismo cristão é particularmente relevante. não se origina apenas no cristianismo. . que sistematiza e universaliza as condições de conservação e reprodução do ascetismo platônico. com destaque para a relação intrínseca entre a ascensão do niilismo e o predomínio da interpretação cristã da existência. 286. Pode-se descrever e acompanhar esse movimento a partir da reflexão sobre o sentido de alguns textos obscuros. E. entre as formas de ascetismo. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos subsídio para a compreensão do niilismo e de seus efeitos.

in summa: moral foi o maior antídoto contra o niilismo teórico e prático. Ela evitou que o homem se desprezasse como homem.. cit. O niilismo está à porta: de onde nos vem esse mais ominoso de todos os hóspedes? . Constatamos agora em nós mesmos necessidades. 2 [127]. Fragmento póstumo do outono de 1885-outono de 1886. Op. em primeiro lugar. isto é. ao mesmo tempo em que se nos descerra o horizonte de sentido presente na afirmação acima citada: "numa interpretação bem determinada da existência. em si mesma. . um saber a respeito de valores absolutos e conferiu-lhe. na interpretação cristão-moral. atua como estimulante para o niilismo. portanto.. ou mesmo a corrupção como causas do niilismo. que agora nos aparecem como necessidade do não-verdadeiro: por outro lado.] o mal apareceu pleno de sentido. sentido. 2 Porém. n. o caráter de perfeição [. descobre sua teleologia. intitulado O niilismo europeu. na medida em que legou ao mundo. 2) Ela serviu aos advogados de Deus. p. 38. que ele tomasse partido contra a vida. 12. a despeito do sofrimento e do mal. intelectual. em pleno movimento. penúria psíquica. que se desesperasse pelo conhecimento: ela foi um meio de conservação. precisamente conhecimento adequado justamente para o mais importante. . que se encontra o niilismo". In: KSA. A obscuridade dessa passagem se esclarece à luz de uma exegese do célebre Len-zer-Heide Fragment. a interpretação cristã-moral.. física. O niilismo europeu 1 Que benefícios proporcionou a hipótese moral cristã? 1) Ela conferiu ao homem um valor absoluto. Elas permitem sempre ainda interpretações totalmente distintas. entre as forças que a moral cultivou. no homem. que desesperadamente se procura repelir. Penúria. Porém. ou "degenerações fisiológicas". a radical recusa de valor.e agora o discernimento dessa longa mendacidade incorporada.1) Ponto de partida: é um erro indicar "estados de carência social". a partir da catástrofe da veracidade cristã. desejabilidade"38. o niilismo se encontra numa interpretação bem determinada. implantadas pela i n terpretação moral. com isso.Oswaldo Giacoia Junior 29 Acompanhemos. 125s. ainda não é inteiramente capaz de produzir niilismo. 3) Ela instituiu. a lógica da catástrofe e da superação. estava a veracidade: esta finalmente se volta contra a moral. em oposição à sua pequenez e acaso na corrente do vir-a-ser e do passar. essa análise genealógica da escalada do niilismo. sua consideração interessada . vol. Nele podemos surpreender.

como conteúdo da consciência reflexiva. vê-se compelida a renegar uma moral que incorpora elementos de inverdade. São Paulo: Abril. cit. Em conseqüência. a consciência científica.. 388s. p. por injunção de sua veracidade sublimada. A busca da verdade e do conhecimento a respeito de tais questões transforma a veracidade numa virtude. que dá apoio a uma interpretação do vir-a-ser e do valor da existência humana na corrente do devir. seja no que diz respeito à existência em meio ao fluxo perene do vir-a-ser. In: KSA. Em cada um deles. O fragmento indica como o problema fundamental a que a interpretação cristã da existência vem a dar resposta é precisamente aquele do valor. n. e traz à luz os elementos de inverdade (as considerações de interesse) contidos na moral cristã. 12. o homem tem necessidade de interpretar o vir-a-ser como dotado de um sentido. In: Nietzsche: obras incompletas. considerado como "estado psicológico".. vol. em seguida. seja quanto à justificação do mal. intitulado Crítica do niilismo. vol. Comecemos com a citação de seu resultado: "Resultado: a crença nas categorias da razão é a causa do niilismo . de modo que a catástrofe niilista consiste. p. O primeiro desses estados de autoconsciência do niilismo é analisado por Nietzsche na perspectiva da categoria do "sentido". ela é considerada por Nietzsche como a figura ancestral da honestidade intelectual moderna. Op. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos são delas que parece depender o valor pelo qual suportamos viver. Nesse sentido. resulta num processo de dissolução39. 40. 11 [99]. Nesse importante fragmento póstumo. Fragmento póstumo de novembro de 1887 a março de 1888. ou ainda quanto ao conhecimento do absoluto. na auto-supressão da moralidade cristã. p.medimos o valor do mundo em conformidade com categorias Que se referem a um mundo puramente fictício''40. Coleção Os Pensadores. 4.30 1. a relação entre o niilismo e as categorias da razão. por dever de probidade intelectual. Nietzsche tematiza três formas do niilismo. Para suportar a existência. In: KSA. 211s. essa veracidade se sublima no rigor da consciência científica contemporânea. cit. trata-se sempre de uma categoria da razão. A catástrofe das categorias da razão Examinemos. Ora. levada a seu extremo. 1974. Adotamos a tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. Op. 13. ou finalidade. Esse antagonismo: não poder apreciar aquilo que conhecemos e não podermos apreciar aquilo que gostaríamos de mentir para nós mesmos. ou seja. tomando por base o fragmento póstumo 11 [99]. 39. numa das principais forças geradas pela interpretação moral-cristã do mundo. 46s. O imenso beneficio dessa interpretação compete em ter provido a humanidade com uma perspectiva de sentido e de valor. . Fragmento póstumo do verão de 1886 a outono de 1887. então.

O que aconteceu.enquanto suporte de uma interpretação global do vir-a-ser.com a descoberta de que o vir-a-ser é a única realidade . e como descrença na categoria de verdade . contingentes e efêmeros. Este consistiria na fonte de realidade e significação para o mundo e para o homem. Porém. as categorias de "verdade" e "ser" propiciariam as condições para a hipótese de um verdadeiro mundo. ao mesmo tempo que não nos é mais lícito valorizar aquilo em que gostaríamos de continuar a crer. no fundo? O sentimento de ausência de valor foi alvejado quando se compreendeu que nem com o conceito de fim. de um frustrador "foi tudo em vão".a um todo racional. Nessa interpretação. de modo que o homem perde a crença em seu valor. A terceira forma do niilismo como estado psicológico supõe dadas as duas figuras anteriormente examinadas. aqui também se chega à descoberta que a invenção do mundo sob a perspectiva da verdade corresponde a necessidades psicológicas. E com isso. nessa primeira forma. metafisicamente contraposta ao ser verdadeiro. Isto é. que não conseguimos suportar. A segunda forma do niilismo como estado psicológico é presidida pela categoria de "totalidade" . A representação de uma unidade. etc.Oswaldo Giacoia Junior 31 como tendendo para um alvo. a terceira forma do niilismo surge como consciência da mendacidade do mundo metafísico. então a saída consistiria em renegar o vir-a-ser. O niilismo surge. então. mas o essencial é que haja uma meta. se o devir não é amparado por nenhuma totalidade infinita em que o indivíduo pudesse se integrar e resgatar o sentido e o valor para o absurdo de sua existência. nessa ótica. enquanto sentimento de vazio. O niilismo ocorre. a uma totalidade integrada e orgânica . de uma organização e sistematização globais conectaria a multiplicidade caótica dos seres individuais. . repudiá-lo como sombra e aparência. o desalento sobre a pretensa finalidade é causa do niilismo.). Desse modo. . de infinito valor (panteísmo. ao qual estaria ligado o seu sentido e valor. promovendo a reconciliação entre a finitude aleatória e o infinito necessário. Se nenhum sentido ou finalidade preside o curso do vir-a-ser. monismo. Balanço final: desprezamos o resultado que alcançamos pelo conhecimento. quando sente que através de sua particularidade contingente não atua um todo infinitamente valioso. contudo. com a descoberta de que não existe nenhum alvo no e para o devir. com a descoberta de que nenhuma totalidade redime a diáspora do vir-a-ser. que pudesse oferecer uma resposta à pergunta: Por quê? Diversas podem ser as formas de conceber essa finalidade. o homem inventa para si mesmo um mundo verdadeiro para poder atribuir um valor à sua própria vida. antitético ao fluxo fantasmático da temporalidade e do vir-a-ser. que o acontecer do mundo e da história não são processos que se desenvolvem em vista de um fim a ser alcançado.uma realidade. e surge como escapatória para as situações existenciais geradas a partir delas.

Essa compreensão. o mundo se torna sem valor. desvalorizar o mundo. "ser". quando eles se demonstram inaplicáveis . por causa das categorias da razão. falta a unidade abrangente na pluralidade do acontecer: o caráter da existência não é "verdadeiro". assim. o desvaloramos.. outra perspectiva de questionamento e interpretação.41 Assim. justamente com eles. Com isso. então essa origem está em contradição com a exigência de validade incondicional das categorias. com as quais tínhamos imposto ao mundo um valor. aprender a perguntar pela proveniência da crença naquelas categorias. Ora. Ibid. Percebemos.32 1.. não se tem absolutamente mais nenhum fundamento para se persuadir de um verdadeiro mundo. em virtude do colapso da crença nas categorias da razão. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos nem com o conceito de unidade. Resultado: a crença nas categorias da razão é a causa do niilismo -medimos o valor do mundo por categorias.. ibid. .todos esses valores são. resultados de determinadas perspectivas de utilidade para a manutenção e intensificação de formações humanas de dominação: e apenas falsamente projetados na essência das coisas. que se referem a um mundo puramente fictício. nem com o conceito de verdade se pode interpretar o caráter global da existência. suscitada em meio à escalada irreversível do niilismo. por sua vez. totalidade e ser não se sustenta mais. do ponto de vista psicológico. caberia intentar uma revolução no modo de pensar: ao invés de. conquista- 41. Resultado final: todos os valores com os quais até agora procuramos tornar o mundo estimável para nós e afinal. Em suma: as categorias "fim". com ela. Se aquela crença tem origem na "hiperbólica ingenuidade" do homem . Essa forma diferente de questionamento permitiria deslocar o objeto da desvalorização.em perspectivas utilitárias para conservação da vida -.e agora o mundo parece sem valor. É sempre ainda a hiperbólica ingenuidade do homem: colocar a si mesmo como sentido e medida de valor das coisas42. essa foi precisamente a interpretação hegemônica na história da metafísica ocidental... Uma vez que. em que sentido a crença nas categorias da razão é a causa do niilismo. assim como pelo valor dessa proveniência. as três formas em que o niilismo historicamente se apresenta correspondem à consciência de que uma interpretação global da existência baseada nas categorias de sentido. nada é alvejado e alcançado. foram outra vez retiradas por nós . traz à luz uma reviravolta e. é falso. com isso. 42. "unidade"..

característica dos moribundos. antes trazendo à luz a imbricação categorial entre lógica e religião. Fragmento póstumo do outono de 1887. ou morais. n. com a qual passaremos a nos ocupar: Niilismo como declínio e regressão da potência do espírito: o niilismo passivo: como um signo de fraqueza: a força do espírito pode estar extenuada. exaurida. [de modo que . enquanto processo de desvalorização dos valores supremos.niilismo e fundamentalismo Decifrado o enigma do niilismo como lógica da decadência. Op. de prolongar a qualquer preço uma existência agonizante. sejam eles religiosos. 9 [35]. quanto de potência ascendente do espírito. que está na origem da metafísica ocidental. entre tais tentativas pode-se contar as mais díspares formações típicas dos períodos de declínio de forças: a guerra entre valores particulares se destruindo anarquicamente em paroxismos de violência selvagem (como o anarquismo 43. 350s. cit. podemos perceber que as duas análises da lógica da catástrofe se recobrem e complementam. a demonstração de sua inaplicabilidade ao todo não é mais nenhum fundamento para desvalorarmos o todo"43.ou seja. entorpece. avança para o proscênio. ou políticos. recorrendo a toda sorte de expedientes que. 44. apenas retardam e mantêm em suspenso o desenlace inevitável. Nele são feitas tentativas desesperadas. afastando qualquer suspeita de contradição. In: KSA. 12. compreende-se também a afirmação de acordo com a qual o niilismo. aqui se encontra em questão o horizonte lógico-transcendental das formas tradicionais de sentido e valoração. desse modo "depois de desvalorarmos essas três categorias. de modo que as metas e valores até então vigentes são inadequados e não encontram mais nenhuma crença.OGJ] tudo o que reconforta. cura. Nietzsche exibe aqui o complexo e multiforme fenômeno do niilismo passivo. [de modo que . Sob essa ótica.. p. Essa ambivalência corresponde à diferença entre niilismo ativo e passivo. vol. Por essa razão.OGJ] a síntese entre valores e metas (sobre a qual repousa toda cultura forte) se dissolve. de modo que os valores singulares guerreiam entre si. no entanto. a ênfase se desloca da catástrofe da veracidade cristã para as categorias centrais e os grandes sistemas metafísicos de interpretação da natureza e da história como causa do niilismo . sob diferentes disfarces. acalma.1bid. . de regressão. Modos e virtualidades do niilismo . 5.Oswaldo Giacoia Júnior 33 mos o direito de subtrairmos dela nossa fé e nossa veneração. ou estéticos44. é marcado por uma ambigüidade essencial: ele pode configurar tanto uma síndrome de declínio. Ao final desse percurso. destruição.

que torna o fundamentalismo uma formação reativa. Ele não se mostra apenas lá. 144. o do niilismo passivo. por milênios. ou moral. e agora são conjurados tanto mais energicamente quanto menos dão sustentação. "Depois que Buda morreu. emergem a imperiosa necessidade de certezas e estabilidade em todos os domínios mais elevados da cultura: o reavivamento da experiência do sagrado. a necessidade de estimulantes fortes. onde todas as [relações] recém-formadas caducam antes de poder ossificar. sim trivial. é manifesto46. NIETZSCHE. a eterna insegurança e movimento". e impele à busca desesperada por segurança e lenitivo. Ele sobrecarrega de santidade objetos cujo status profano. como meio para conter a anarquia e estancar a exaustão. Ao fundamentalismo [escreve Christoph Türcke] pertence sua inversão. mais propriamente. para compensar e amortecer o torturante sentimento de vazio. religiosa. a incondicional rendição hedonista a uma vida de prazer. sua sombra ainda foi mostrada numa caverna durante séculos . reconforta. Aqui estamos em face de uma trama entre o niilismo passivo e o fundamentalismo.34 1. Ao escrutínio genealógico. aparentemente contraditória.a tudo o que acalma. . quando as metas e 45.. a fraqueza da vontade. C. p. onde "são dissolvidas todas as relações firmemente enferrujadas com seu cortejo de veneráveis representações e intuições. durante séculos ainda haverá cavernas em que sua sombra será mostrada"45. o fundamentalismo revela-se. Em outro extremo. todo sagrado é dessacralizado". Nietzsche terá sido um dos primeiros a refletir com acuidade sobre esse parentesco inusitado. política. Ao contrário. p. a corrupção dos costumes. consumo. tinham constituído toda uma sociedade. por exemplo. É essa cumplicidade que torna apenas superficial a antítese entre os opostos. 46. Op. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos russo no final do século XIX. TÜRCKE. F. recorrendo. 135. Op. lá onde se espalha o "ininterrupto abalo de todas as condições sociais. que constitui uma das mais inquietantes características de nossa própria atualidade. Essa carência denuncia uma simbiose. cit. cit. entre o sentimento de ausência de valor.. onde estão rompidos os fundamentos de veneráveis grandes religiões. por um lado. ele toma justamente o caminho contrário. como alma gêmea do niilismo passivo. e o ardente desejo de segurança e salvação. mas tal como são os homens. Aforismo 108. por exemplo). o ceticismo e a libertinagem do espírito. por outro. Deus está morto. ou ao apego fanático às ruínas de fundamentos peremptos. onde tudo o que é estamental e o que se mantém de pé é volatilizado. anestesia.uma sombra imensa e terrível. ao culto fetichista do profano. os quais. seja por meio da narcose artística. um fenômeno compensatório do niilismo. A gaia ciência. entretenimento e conforto .

. sem perecer ao fazê-lo. Enquanto Nietzsche compreendeu que nenhum caminho passa ao largo desse niilismo. poderia também ser capaz de ultrapassá-lo. Examinado às claras. fazendo-o começar com a modernidade. uma submissão à autoridade de relações sob as quais um ser prospera.. ganha força. não um gesto ativo de superação. Niilismo como signo de intensificada potência do espírito: como niilismo ativo: ele pode ser um signo de fortaleza: a força do espírito pode estar tão acrescida. p. faltando. pois não é possível contornar o niilismo quando se o compreende de uma perspectiva interior. a força para se desprender delas . Com efeito. desembarcar da nefasta dinâmica niilista da modernidade. esse fundamento intocado. ele próprio. A única saída seria conduzi-lo até as suas derradeiras conseqüências. enquanto Nietzsche tinha notado que o niilismo estava embutido no Ocidente desde o princípio. Ele tem uma profunda comunidade com Nietzsche. Por outro lado. artigos de fé) se tornaram inadequadas.o apego fundamentalista é apenas reação ao sentimento de perda. Ele denuncia o niilismo europeu. um sinal de insufici- 47. isso apenas se torna manifesto. Esta. e [decreta] ter ainda. além dessa face reativa e venenosa. Na modernidade. Apenas que ele o percebe com vista curta. que se tem que atravessar como a criança ao sarampo.Oswaldo Giacoia Junior 35 valores até então vigentes revelam sua inadequação às novas condições de existência. vivê-lo como niilismo ativo. uma crença exprime universalmente a coerção de condições de existência.. no momento em que se esvai a substância do Ocidente cristão. Ele já se instila no monoteísmo do judaísmo. 49s. O fundamentalismo é o grande moderno rebelar-se contra a autodestruição da fundamentação última. à liquidação do último fundamento. porém. própria da fraqueza. no entanto. jamais poderia ser alcançada por denegação. Em Nietzsche. por sua vez. que para ela as metas até então vigentes ("convicções". em algum lugar. cresce. como se ele mesmo não estivesse saturado há longo tempo com o niilismo. Ibid. o pretenso desembarque do niilismo se demonstra como um embarque mais profundo nele: sua autodenegação47. Ele simplesmente decreta não tomar parte nisso. ou seja. O recurso ao último fundamento conduz. o fundamentalismo é a tentativa desesperada de elidi-lo. Daí a atualidade dessa genealogia e a importância de suas descobertas para o entendimento tanto da necessidade quanto da lógica de vários processos que caracterizam o esgotamento da modernidade cultural. o niilismo pode também adquirir outra figura. em refleti-lo em toda sua extensão e profundidade. A superação consiste em atravessá-lo de ponta a ponta. que somente um feitio de homem que o padece inteiramente. e regressar ao originário fundamento seguro da fé..

um "por quê"?. sem ressentimento. mas novamente por posições extremas. mas ela difere da reação vingativa. Uma interpretação soçobrou: porém. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos ente fortaleza para também. aqueles que não têm necessidade de extremos artigos de fé.. hedonista ou nostálgica do niilismo passivo. Fragmento póstumo. Fragmento póstumo. n. O niilismo representa um patológico estado intermediário (patológica é a imensa generalização. aqueles que não apenas admitem.. ou melhor. sem com isso se tornar pequeno e fraco: os mais ricos em saúde. Para a instituição de novas tábuas de valor. que é o cimento de toda cultura ascendente. de novas sínteses entre metas e valores. desta vez positivo. a inferência: absolutamente nenhum sentido): seja que as forças produtivas não são ainda suficientemente fortes. e constitui condição inicial e preparatória para novas referências de valor. em geral. 49. . pergunta-se Nietzsche. a energia destrutiva não é ainda. por outro lado. p. Deparamo-nos aqui com a figura do niilismo ativo. Op. 350s. sim na existência. cit. Que homens se demonstrarão.36 1. uma boa parte de acaso. como amam. como incremento de força do potencial destrutivo. produtivamente. O niilismo aparece agora não porque o desprazer na existência fosse maior do que antes. parece como se não houvesse absolutamente nenhum sentido na existência. 9 [35]. convicções absolutas e valorações incondicionais. ainda é apenas um estado intermediário . cit. suficientemente poderosa.um poder negativo de destruição das condições peremptas. 5 [71]. Mas que. então. de criação de novos valores. nos tornamos desconfiados de um "sentido" no mal. Atravessar até mesmo o niilismo ativo exigirá pensar sem subterfúgios a perspectiva de uma existência desprovida de sentido e meta. 21 ls. Seu maximum de força relativa. quando a fé em Deus e numa ordenação moral não pode mais ser mantida. E assim. Op. n. porém inversas. Aqui estará o signo da potência alcançada: poder dispensar. a fé na absoluta imoralidade da natureza. Sua resposta: Os mais comedidos. p. que. seja que a decadência ainda hesita. por um lado. aqueles que podem pensar a respeito do homem com uma significativa redução de seu valor. como os mais fortes. na ausência de finalidade e sentido é o afeto psicologicamente necessário. aqueles que estão à altura da maioria dos malheurs e por isso não temem tanto esses ma- 48. Posições extremas não são substituídas por posições moderadas. como se tudo fosse em vão*9. uma crença. porque ela valia como a interpretação. em si mesma. e ainda não inventou seus meios auxiliares48. instituir-se outra vez uma meta. serve de base para um novo gesto instaurador. absurdo. ela o alcança como força violentamente ativa de destruição: como niilismo ativo. senão porque. porém fazendo-o em chave afirmativa.

10 [22]. O fundamental aqui consiste na capacidade de discernimento global. os novos da vida ascendente . .Ibid. De fato.homens que estão seguros de seu poder e. p. com orgulho consciente. In: KSA. • da destruição. representam a alcançada força do homem50.que todos os antigos ideais são ideais hostis à vida (nascidos da decadência e determinantes da decadência. Todo movimento terrível e poderoso da humanidade criou também. um movimento niilista. • da compaixão. 71. mais do que nunca. vol. o autêntico niilismo. os sintomas de declínio pertencem aos tempos do mais formidável seguir adiante. com vistas à transição para novas condições de existência. p. e do mesmo modo.que o conhecimento da natureza e da história não nos permite mais tais 'esperanças'. é preciso não se deixar confundir pelos sinais dos tempos. para tornar possível uma nova compreensão. ainda que no suntuoso atavio dominical da moral) .. 51. seria um sinal de um incisivo e sobremaneira essencial crescimento. Op.. 13. ao mesmo tempo. para decifrar enigmas. O período da clareza: compreende-se que velho e novo são antagônicos: os valores antigos nascidos da vida declinante. 11 [150].entendemos o antigo e estamos longe de ser suficientemente fortes para um novo. 50. In: KSA. para o que é necessário a mais aguda sensibilidade e refinamento do sentido histórico: Para a história do niilismo europeu "O período de não clareza. 12. À sombra do niilismo extremo faz-se mais necessária do que nunca a mais sofisticada arte da interpretação. Isso eu compreendi52. O período da catástrofe: • a escalada de uma doutrina que seleciona os homens. libertar-se das estreitas perspectivas do maniqueísmo precipitado. das tentativas de toda espécie para conservar o velho e não deixar escapar o novo. que viesse ao mundo a mais extrema forma do pessimismo. a apuração da faculdade de discernir. 52. os fortes"51. vol. todo crescimento traz também consigo um formidável desmoronar e passar. O período dos três grandes afetos: • do desprezo. n. que impele os fracos a resoluções.Oswaldo Giacoia Júnior 37 Iheurs . cit. Sob certas circunstâncias. na compreensão do conjunto dos sintomas. 468. n. Fragmento póstumo. . O sofrimento. Fragmento póstumo do outono de 1887.

é que pode deixar para trás o niilismo e falar do futuro . a consciência filosófica. as formas tradicionais de percepção. então essa conclusão afeta também a possibilidade da verdade e da fundamentação última do conhecimento.que tem o niilismo atrás de si. "o sentimento. isto é. In: KS A. fora de si"54. já viveu em si mesmo até o fim o próprio niilismo . 10 [23]. por causa disso. por que Nietzsche pôde auto-estilizar-se como o primeiro niilista consumado da Europa. ao refletir a ascensão do niilismo. é sob tais condições que pode também ser ainda intensificada a força produtiva do espírito . 11 [411]. vol. não está à altura do tempo"53. 189s. Para Nietzsche. trouxe o sentido e a lógica do processo ao nível da consciência de si -. contudo. n. E. Em resumo. se assim é. Somente o pensador em quem o niilismo. em razão do embotamento de nossa percepção. poderiam ser mal-entendidos como fraqueza. que. o limiar de uma nova era. como sentimento de valor. Com efeito. como um espírito de pássaro profético. Nietzsche se apresenta "como um filósofo e ermitão por instinto. ela não pode excluir-se do processo e alçar-se a uma perspectiva de juízo final.nele.38 1. sem deixar resíduos nem ressentimento . debaixo de si. Também o valor da verdade. Ibid. os valores supremos e derradeiros reconhecidos pela moderna racionalidade científica. foi inteiramente consumado. Sua reflexão pressupõe e só pode surgir sobre a base e a partir do niilismo perfeito. p. . dessa maneira. do esgotamento completo. como um espírito ousado e experimentador. Por isso. p. sob a coerção das quais até então se desenvolvera a força espiritual. que já uma vez se perdeu em cada labirinto do futuro.. 468s.isto sem perfazer a catástrofe. sua interpretação do niilismo repousa sobre um pressuposto que constitui também o resultado fundamental de sua crítica da moral e da metafísica: nosso tempo é a era da insubsistência das valorações absolutas e incondicionais.e que. 13. os mesmos sintomas podem ser indício tanto de impotência quanto de fortaleza. Fragmento póstumo. E os sinais de força. da grosseria em nossos modos tradicionais de avaliação. Nesse esforço para discernir o período da catástrofe. exterior ao próprio movimento de consumação. 54.quando se tornou perempta e opressiva a autoridade daquelas mesmas condições. torna-se paradoxalmente autor e personagem do drama. enquanto 53. como experiência de desvalorização dos supremos valores. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos Daí porque é imprescindível não perder o refinamento hermenêutico diante do caráter ambíguo do mundo moderno . de maioridade conquistada. Compreende-se melhor. que olha para trás quando narra aquilo que virá: como o primeiro niilista perfeito da Europa.

9 [35]. não existe nenhuma verdade. cit. Ele institui o valor das coisas justamente em que a esse valor nenhuma realidade corresponde.Oswaldo Giacoia Junior 39 absoluto. Op. vol. pois.. In: KSA. porém apenas um sintoma de força da parte daquele que institui valores. nem correspondeu. 12. nem uma constituição ou significação incondicional das coisas: "Isso mesmo é um niilismo e. Fragmento póstumo do outono de 1887. cairia sob o veto de tal conclusão. em verdade. 55. uma simplificação para fins da vida"55. 350s. "coisa em si". . n. p. o mais extremo. nesse sentido.

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