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O Carapuceiro –

(2005)
A ARTE DE CHUTAR TAMPINHAS

[OU UMA CERVEJA COM JOÃO ANTONIO]

o tio flana. Flaneur-bandeira-2, sempre depois das oito. o cara la na esquina da


augusta, ali na área do nova babilônia, a ingerir a cerveja de canudinho.
desbotado, feição de retrato de página policial, pé de página. todo dia que
passo, na viagem da arte de chutar tampinhas, mesma coisa. a cerveja de
canudinho, como aquilo me avexa os nervos. jeito de larápio. e é, diz o
balconista. e tira onda c´as puta, cada onda sem graça. personagem que
desconcentra minha viagem ao fim da noite. mas logo adiante, nos mesmos
derredores, a vida volta a ter punch, com o mendigo-punhetinha, sempre
expulso da frente das boates. simplesmente por tudo aquilo que explica sua
alcunha na área. mira uma puta da sua preferência e goza ali mesmo debaixo
do cobertor paraíba, sábio homem. as putas amam, toda fêmea gosta de ser
olhada com gosto. só os leões-de-chacara que o chutam. a vida é cara,
ninguém paga meia nessa passagem, mas a punhetinha ainda é a grande
delícia de graça.

COMUNICADO À PRAÇA

aos chegados que se locupletavam nos sarapatéis-dançantes do velho sítio


carapuçal, avisamos: aquela cara xilo-corisca do periódico das antigas vai
vingar aqui tambem breve nesse brog _cheio de links fulêros, gonzolendas,
rodapés e remixões. entao entornem mais uma, seus felas, e estanquem a
fuzarca queixatória que funeriza o juizo deste que vos funga o cangote. e
enquanto as novas feições não ficam prontas, vamos rabiscando com a velha
bic escrita fina as impressões da viagem diária ao fim da noite. dito isto, como
assoberbam os editorias do estadao das coisas, acreditamos ter dito tudo

UM HOMEM 'A CAVALO

quando enfiei a mão no bolso da calça, encontrei um ovo. de galinha. no


esquerdo também, outro. os meus estavam no jardim suspenso de sempre,
conferi, sabe-se lá o que não acontece quando a noite eu rondo os bares.q
aurora era aquela meu deus? não retornava de protesto algum, não lembrava
nem mesmo, àquela altura, do ditado popular do omelete, não dormira com
aves pernaltas, vôte. havia subtraído da cozinha de uma festa? tentação de
jogar aqueles ovos em alguém, ali no largo da batata. sujar a camisa limpinha
dum burga ou dum plêba. dois ovos graúdos, rajados, talvez de galinha-
capoeira. bom, prefiro não quebrá-los. passo na catraca com jeito. a moça
encosta. o boy passa roçando. o evangélico quase. desço com os ovos salvos
na calça. maria, na cozinha, diz, na lata: -``seu francisco, o sr. não comprou os
ovos que eu pedi...” foi ai que os ovos viraram uma linda mágica. para uma
maria passada. pena q não tinha criança em casa.
POST DERRAMADO

arrependido da leseira lúdico-amorosa-salineira que preparou lá no word, ele


prefiro não postá-la, digo, o tio. Bartleby, o escriturário, perturba o juízo dele,
cond´eu...

brogueiro é que nem cachaceiro, descuidou ele zoneia com horrendas


declarações públicas _essa é a graça de não levar-se a sério, beber ao vivo,
morrer se for preciso, neo-rondon das novas selvas, amarais neto do aperto
nacionalista, taz-brincano?, issaqui, lobantunes, é apenas peixassado na
George Foreman do conhecimento do inferno... O tio não come, engole farelos
e trocadilhos-alpistes, q fastio da peste essas mulerez!

DE OLHOS BEM FECHADOS

O tio lê o horóscopo dele & dela só ao final da tarde. Pra evitar influências
durante a jornada. O tio adora plagiar o Quiroga e a Bárbara Abramo,
astrólogos, e fazer seu dia à risca, seguindo cada linha das previsões.
Como um cara lá do livro de Roberto Arlt, "viagem terrível", acha. O tio é libra
com libra. Pense numa pessoa redundantemente equilibrada, sempre no fio da
navalha...

O tio larga as costuras pra fora. Está na rede da sala, podemos vê-lo
lagarteando-se, embora suspenso entre os armadores. Curte o solzinho de
nada na SP-geladeira. Ih, o tio está nu, com “breve romance de sonho” ,de
Arthur Schnitzler, sobre as partes pudendas. Finge que lê. Aquele livro deu
nalguma coisa como "de olhos bem fechados", de S. Kubrick . Ele conta: certa
noite, durante uma troca de confidências, uma mulher provoca ou seduz o
marido ao lhe contar uma fantasia sexual do passado. Uma lindeza só.

Por isso que o tio bebe, comovido com coisas desse naipe. [o tio avisa: o tio
aqui vive baseado em fatos reais].

O tio mama

O tio costura pra fora. Tricôs-encomendas. A punheta atrapalha o tio. O ex-


amor-pra-quase-sempre no MSN fala como se fosse o gato, que sente a falta
das nossas fodas e testemunha fodas alheias. O gato bebia meus restos e
ganhava sashimis pela decência. A NET não desligou o canal 80. Os textos
inacabados, catedrais de Colônia. Terron manda notícias do Hotel Concorde,
balada em andamento. O SexyHot [80] é a morte da punheta com imaginação.
Desliguem. Eutanásia do pornô dja, favore moça do 0800... Lili aquela morena
do JT por perto. O condomínio atrasado num é nada diante das ofertas de
Baco. O tio bebe.
Fragmento do cangaço amoroso

"Se eu soubesse que chorando/ empato a tua viagem/ meus olhos eram dois
rios/ que não te davam passagem." [Lirismo de Volta-Seca, cangaceiro do
bando de Lampião]

Minha adorável sexagenária

O tio ainda na paudurescência matinal faz uma Amarcord rapido mirando o teto
e o papel da lâmpada japonesa:
Nada pior do que tentar se masturbar e não ter novo enredo possível. A
morena, aquela branquinha do elevador, a jambo-girl, a saia quadriculada de
Denise [parecia a da moça do filme Blow Up], a sabedoria de Ana Helena
tantas vezes alvejada. Dalva, a cozinheira da outra pensão da Bispo Cardoso
Ayres. Os peitos de Moema na peça-cabeça de Alberto, a delicadeza de Laila,
a voz de aeroporto de Simone, a musa de Casa Caiada. Pau duro, pau mole.
Um desgosto.
Desço para as proximidade dos jardins, onde dormem os tantos gatos da
pensão de dona Lampa, Lampinha. E bato levemente na porta da minha
adorável sexagenária, eterno retorno. Que me recebe como careço.
Nada pergunta, tão-somente me acolhe no seu colo quentinho. Sabe que
desabo. Nem desce a mão até meu pau, como sempre fazia. Adormeço com
seus cafunés.

mamadeira*

O tio bebe. O tio gosta de entornar sarjetas com luas minguantes. Panicado, o
tio chuta portas de ferro. O tio sorve uma linda sobrinha no banheiro do bar. O
tio está inadimplente até os dentes, deve obturações e tártaros ao dentista. O
tio é cheio de teses. O tio desligou o canal 80, sexyhot, para recuperar a
imaginação e os bons enredos na hora sagrada do vício solitário. O tio é quase
Onan, o bárbaro. O tio adia as costuras para fora até não sobrar mais relógio
que adiante. O tio quer vender o apartamento para comprar uma sepultura,
acusa o amigo JRT exilado no seu hotelzinho fulero. O tio está sem plano de
saúde, o tio precisa de uma costela fixa para abafar a jaca e varrer a velha da
foice dos seus derredores.[depois de pierre merót, no seu sensacional
“mamíferos”, livro foda]
haikais de outono

Zen no último

Contemplo a lua
Enquanto cago
Na beira do lago

Divã

Que coisa feia


Complexo de édipo
Com a mãe alheia

Ultimo forró em sapopemba

Minha nega
Contigo me derreto
Qual manteiga

O desprezo

Não tem consolo


Mas um dia eu te atinjo
Nem que seja com um tijolo
Na saúde e na doença...

Homenagem pra lá de romântica de Adão <bagaceiro> Iturrusgarai à iniciação


sexual deste escriba abaixo assinado.

O CAVALEIRO DA CASA DA IGNORANÇA

Desde que soube da criação e dos bons frutos da Casa do Saber,


centro de estudos chiques de São Paulo, já devidamente alcunhado de
Daslusp, meu amigo Pereira, tosco no último, cotovelos gastos nos balcões de
botequim, inimigo declarado do neo-iluminismo, danou-se, avalovarou-se, oxe.
Quer porque quer abrir a sua Casa da Ignorança. Está na praça a colher
subscrições de apoio ao seu projeto. Entornou a aguardente do destemor e da
coragem, e agora não há mais como removê-lo de tal engenho e arte. É líquido
e certo como tudo aquilo que ingere.

Beauvoirs de butique

“Mais encanadores e menos Sartres”, brada o entrevado, retomando


uma antiga peleja desta Pátria de extremos,sempre entre o 8 ou 80. “Chega de
Beauvoirs de butique”, provoca, bandeira das ignorâncias desfraldada.
“Abaixo as peruas nietszcheanas, que gastam seus aforismos até com
as oiças de vendedoras de shoppings”, abestalha-se, combatendo o que julga
ser o seu bom combate. E mesmo que os amigos todos, esclarecidos, tentem
ignorá-lo, ele segue, avante, montado no burro do desconhecimento, às
quedas, embriagu ês de teimosia e de cachaça, triste figura, lá vai o nosso bom
e risível cavaleiro.

Como eliminar uma mulher

“Fora os mauricinhos kantianos”, prega ainda o destemido Quixote de


boteco, cujos moinhos são os ventiladores de teto.
De todos os cursos da Casa do Saber, sempre na mira da sua espada
chauvinista, um, em especial, o chamou para a briga: “Drama Grego - Formas
Trágicas de Eliminar uma Mulher”.
“Pera lá, comequié?”, soluçou, na sua crítica da pinga mineira de
alambique pura.
“Isso mesmo que ouviste!”, aquiesceu a moderninha civilizada, discípula
do professor daquele curso, sr. Antonio Medina Rodrigues. “Ele analisa a
maneira como os gregos encaravam a mulher e o feminino na antiguidade e
como esses modelos trágicos deixaram marcas recorrentes na subjetividade do
ocidente”, completou, lendo o catálogo do combatido estabelecimento.
O cavaleiro da Casa da Ignorança perdeu de vez a paciência e, do alto
do lombo do mal-entendido, esporou: “Comigo não tem essa viadagem de
subjetividade recorrente, uma mulher é uma mulher é uma mulher,e nela não
se bate nem com uma flor!”

HAI-KAI DE TARDEZINHA

amor na rede

gozo suspenso

entre paredes

O HOMEM Q VENDIA ESPIRÓGRAFOS

ele deu boa tarde e começou a fazer desenhos automáticos na folha branca da
prancheta. boliviano, creio. “coloque la platila en una superficie rigida y el disco
en el interior dentado, escoja um orificio y jire...”

quanto mais o ônibus chacoalhava melhor ficavam os gráficos. vermelhos,


azuis, verdes, pretos. “apenas um real”. tanta mercadoria mais fácil de vender,
meu deus, eu pensava, e o desalmado desse velho índio escolhe logo
espirógrafos! “...juntando el engrenaje del disco y el el engrenaje del
instrumento.”

“compra mãe”, acendeu a bolota dos olhos a menina preta linda. “eu quero”,
enfezou-se a branquinha cabelinho de milho. a japinha pegou o espidógrafo
dela. uma outra lá atrás a chupar o dedo.
“es um instrumento que realiza graficos com rapides, alluda a realizar ejercicio
de motricidad, tamben alluda a decorar los cuadernos”.

também comprei o meu. espidógrafos são ótimos contra a ansiedade amorosa


e os seus cotovelos da espera. adquira também o seu e pare de roer as unhas
vermelhas, minha linda penélope de sexta-feira.

AMORES PLATÔNICOS TREPADAS HOMÉRICAS

O sexo no MSN. Intimidade em dez segundos. E depois, como fazer para curar
o amor platônico se não rolar uma trepada homérica??? ...pra ficar tão-
somente na comparação mais trágica e mais grega, saca?

Kill bill gates? Ou, como diria na minha pátria, Mate Severino, mate!

As cartas nas narrativas russas ou antigas demoravam séculos, léguas.


Intimidades no lombo dos ursos, velho tchecov, nos trenós, rosebuds.

Agora em dois segundo não estarás apenas lambendo selos das cartas,
estarás no platonismo lambendo paus, cus ou bucetas, a depender do gosto. E
tê-los, tê-las, tetas?

Jovens, não esqueçam das ruas, dos banheiros, dos telhados, das mentiras, da
história do olho, da baciazinha de leite na qual ela senta com a bunda como um
gato a bebê-la... pra levantar pingando a vida pelo taco, segui-la, a lama, o
charco, o pântano do amor até chegar no ponto mais fraco, a porra a nos colar
xifópagos.
manual de civilidade destinado às meninas para uso nas escolas

de Pierre Louÿs

Não diga: "Minha buceta."


Diga: "Meu coração."

Não diga: "Estou com vontade de foder."


Diga: "Estou nervosa."

Não diga: "Acabo de gozar como uma louca."


Diga: "Sinto-me um pouco fatigada."

Não diga: "Vou masturbar-me."


Diga: "Vou voltar."

Não diga: "Quando eu tiver pentelho no cu."


Diga: "Quando eu for grande."

Não diga: "Eu prefiro a língua ao pau."


Diga: "Só gosto de prazeres delicados."

Não diga: "Entre as refeições só bebo porra."


Diga: "Sigo uma dieta especial."

Não diga: "Tenho doze consolos

em minha gaveta."
Diga: "Nunca me entendio quando estou só."

Não diga: "Os romances honestos me chateiam."


Diga: "Eu gostaria de ter algo interessante para ler."

Não diga: "Quando se lhe mostra uma pica, ela se zanga."


Diga: "É uma original."

Não diga: "É uma menina que se masturba até quase morrer."
Diga: "É uma sentimental."

Não diga: "É a maior puta da terra."


Diga: "É a melhor menina do mundo."

Não diga: "Ela deixa-se enrabar por todos aqueles que a masturbam."
Diga: "Ela flerta um pouco."

Não diga: "Ela é uma lésbica raivosa."


Diga: "Ela não flerta de jeito nehum."

Não diga: "Eu a vi ser fodida pelos dois buracos."


Diga: "É uma eclética."

Não diga: "Ele dá três sem tirar da buceta."


Diga: "Ele tem o caráter muito firme."

Não diga: "Ele gozou em minha garganta e eu na dele."


Diga: "Trocamos algumas impressões."

Não diga: "Seu pau é demasiado grosso para minha boca."


Diga: "Sinto-me bem pequena quando converso com ele."

Nâo diga: "Ele fode muito bem as menininhas, mas não sabe enrabá-las."
Diga:" É um simplório."

A LIÇÃO DO VINIL

Lento braço de radiola, vitrola à antiga, a passar nas costas dela a noite toda.
Na bundinha, movimentos como o de um DJ no scratch, roçando o vinil, nas
primeiras horas da manhã.

tokio em decadência
Em plena crise do salmão chileno, está de volta à praça o edificante espetáculo
do sushi erótico. Pânico em SP. Uma mulher nua coberta da iguaria. Nada
mais frugal. E a farra dos carnívoros ao redor.

Há uns seis anos atrás, depois de visitar _profissionalmente_ uma dessas


casas, relatei o nobre costume na extinta e saudosa coluna “Macho”, na revista
da Folha. Escrevi com o lirismo e a devoção às mulheres que sempre
correram nas veias deste passional que vos beija os pés. Chupada pela TV, a
pauta virou um sururu dos diabos, sendo responsável por aquilo que os
vigilantes da moral e dos bons costumes denominam vulgarmente de baixaria.
Sushi erótico X Latininho [no sbt].

Nenhuma gueixa merece aquela condição de távola-pornô, mulher-barquinho...


Esta e outras atrações dos lupanares modernos minam o romantismo da noite.
Como os bingos de mulheres ou churrascos que rolam nos inferninhos da
augusta, fumacê com cheiro de sauna-eucalipto.

Sorte que as boas casas à antiga ainda resistem gaulesamente país afora. E
as boas casas de luz vermelha sempre, ontem e hoje, têm nome de mulher, a
cafetina-mor, a dama da noite. Como a “Casa da Carmem” em Porto Alegre, a
“Casa de Bete Cuscuz” em Teresina, a “Casa de Odete” no Recife, outra de
Maceió cujo batismo me foge e tantos outros bordéis onde o dengo, o bolero
agarradinho ,o cafuné e o xenhenhém de uma boa rapariga ainda fazem a
felicidade dos homens de boa vontade.
BÍBLICO

O padre botava o pequeno coroinha no colo e lia e lia e lia a Bíblia


religiosamente, meu Deus. O menino foi crescendo, crescendo, crescendo, até
que um dia a ordem dos colos inverteu-se.

[trecho do conto "o homem q odiava os livros", q faz parte da antologia


"dentro de um livro", da casa da palavra", rio,2005].

A ROMANA, PARTE III, QUASE A PARTIDA

Eu voôoouuuu pra´donde estiveres, meu novo inferno. E repito aqui, de público,


a pedidos teus, o que disse de madrugada, a gente rindo do português dos
bêbados que estás aprendendo. Cansei da guerra Eros X Tanatos. Eu aceito a
passagem. Eu aceito as condições, o teu dinheiro gringo. Estou decidido. Eu
aceito tudo, já não me resta ninharias do amor pequeno que a outra teve, sem
punch, sem firmeza... Cansei de ser homeless sob falso teto de estrelas
bilaquianas. Como surgiste numa hora tão rara, o perigo das horas que pega o
homem tão frágil. Vôo. Como uma arribançã. Vou até com as minhas próprias
asas. Não há mais tempo possível por estas bucetas plagas. Repito aqui,
mesmo com a codorninha que reconheci ontem, tão linda sob lua do bar da
Dida, mesmo com a miss gasolina do desespero, eu vou por causa da tua
aposta no meu pau e no meu cheiro, pra´donde estiveres, caralho, mas q país
mesmo era aquele que no celular não conheço o código? Eu já estou voando
pra ti, juriti, meu novo amor, não vês?, mesmo não compreendendo as
palavras, pero do jeito que me dizia, ouvi a urgência do gozo, da tua voz
naquele hotel de Los Angeles, agora lembro, estavas lá, adonde teus olhos por
uma janela qualquer de bandeja aqui me chegavam, que coisa doida, a mulher
que viaja, suas pernas tão longas, suas botas valentinas, sonho crepax que tive
no terreiro de macumba, havia lua crescente no céu quando telefonavas, so
não sei como cheguei ontem em casa, para ouvir a tua promessa de felicidade,
enquanto a gente batia aquela, punheta ao longe, eu vou, mas diz pra´donde,
meu novo hotel do inferno inadiável...

ALICE NO COLO DO TIO

Me conta que deu pro maconheiro cabeludo ali no quarto da casa da família
mesmo. O cuzinho. As meninas que contam história para animar a vida do tio.
Bem na hora do almoço. Barulho da família. A primeira vez que deu o cuzinho
foi numa praia do Nordeste. Meio tubo de K&Y na viagem. Assanha o tio com
uma foto de shortinho. Menina má. A mãe já via essa maldade toda desde
cedo, ela diz. A mãe odeia o cabeludo maconheiro, mãe é mãe, ora. Gosta de
foder perto da família, equalizar os sussurros de acordo com os decibéis que
rolam na casa naquela justa hora. Mas outro dia deu num parque, pena que o
cara andava perfumado, “gosto de cheiro de homem, sabe?"
CIÊNCIA DO GOZO

Agora é pra valer, deu na science e nas gazetas mundo afora: não há lógica
darwiniana por trás do orgasmo da fêmea. Aquela coisa de foder com o
imaginário voltado pra reprodução é furada bíblica. Não fazia mesmo menor
sentido. Para elas, orgasmo é diversão, loucura, ego, apego, amor, gritaria,
gata no telhado, chamego, dengo, petit mort, xenhenhém, zolhinhos bem
fechados, nirvana, a noite do meu bem. Lindo que assim seja. E revoguem-se
as disposições em contrário. E dá-me vinho, amore, que a vida é nada.

AS ENFEZADAS, AS PREPARADAS...

Da dificuldade da fêmea fazer cocô. Lindo mote de capa da revista TPM, com
reportagem de Renata Leão, bela moça, fino faro. Compareço lá com a crônica
do homem-laxante. Deixo ai pequena amostra intestinal, em livre sample de “tia
julia e o escrevinhador”, novela de vargas llosa:

Para dores de amor, nada melhor do que leite de magnésia(...). Na maior parte
das vezes, os chamados males de amor, etcétera, são distúrbios digestivos,
feijões duros que não digerem, peixe estragado, entupimento. Um bom
purgante fulmina a loucura do amor.

Tenho dito. E que o trono lhe seja leve. E como dizia minha mãe, quem olha a
própria merda é uma criatura sem inveja. Corta. Barulho de descarga. Agora
reparem só que sorriso mais lindo que ela solta!

DIRETO DA AUGUSTA

ESCOLHA A SUA NOIVA E TENHA UMA GRANDE NOITE DE NÚPCIAS.


faixa na frente da maison, na nossa red light street, velha Augusta. “tudo
virgem”, tira onda o porteiro da boate. “quem vai pegar o bouquet de flores?”,
diz uma das noivas.

vira-latas, putas, mendigos, bandidos, cheira-colas viajando na lanhouse. mil e


uma noites da velha augusta. o cheiro, no meu nariz de proust dos pobres, é de
eucalipto e churrasquinho de gato. a carne fraca. gabirus no esgoto. cafetões a
pampa.

outras meninas se pegam na calçada, a nova modinha é atrair os machos com


lesbianismo explícito, fantasia óbvia das antigas. o café paris anuncia, no
mesmo naipe: SHOW DE SEXO COM LÉSBICAS. o casarão informa: PAGUE
R$ 30 E BEBA ATÉ CAIR. a tajmahal, armarinho que vende e aluga fantasias,
exibe na vitrine as suas sherezades.

o caribe faz aniversário e sorteia mulheres para os clientes decentes. no carro


do playboy racionais mc´s: “estilo cachorro”. aquela q diz assim: “Conheço um
cara que é da noite, da madrugada/ que curte varias fitas, varias baladas/ ele
gosta de viver, e viajar/ sem medo de morrer, sem medo de arriscar...”

putinhas de boné tirando onda de patrícias, e quantas luanas de pernas


compridas!... os salões de beleza 24 horas, fazendo chapinhas, aplicando
luzes, unhas vermelhas, unhas postiças, e a academia de ginástica levantando
bundas, que serão usadas naquela mesma madruga.

A ROMANA, parte II

a romana escreveu. de paris, fina a ruiva. não como a de moravia, morena,


mas na alma _esse lindo anagrama de lama_ são duas putinhas quase
siamesas.

[quer conhecê-la, leia mais bem abaixo, do dia em que suas botas à valentina
pisaram machucando com jeitinho e deixaram marcas roxas nas minhas
costelas...]

a romana roda o mundo e tem um homem em cada porto. gulliver do amor & do
sexo mais ninfo. o que os olhos não vêem o coração não sente, mando-lhe o
pára-choque mais óbvio, melhor dos álibis antes do meu próximo abismo.

DA SÉRIE AFORISMOS EMBRIAGADOS

e da costela de david beckham deus fez o metrossexual.

OLHA O AVIAOZINHO*

Quando telefona, lá de Juazeiro, minha mãe sempre pergunta se já comi


e o que comi, velho hábito do atento coração materno. Já tomou muitos sustos,
acostumada que é ao seu mundo onde reina a gastronomia da sustança, onde
os homens, fome histórica nos olhos, não têm medo do colesterol nem das
artes finais da velha da foice.
Desta vez, porém, além do susto de sempre, ela divertiu-se aos montes.
“Uma colherinha de peixe robalo com grapefruit ao molho de grapefruit, azeite
e flocos de ouro”, dei o serviço do “ont the spoon”, uma das atrações do
Mosaic. “Uma delícia, mãe”, provoquei, afrescalhado. “Tô te estranhando,
menino, tu criado na carne de peba, tatu, cuscuz de milho e bode!”, disse o
mesmo gracejo de sempre. “Sei não, hein, se teu pai souber tu nunca mais pisa
por aqui”.
Mas depois rolou outra colherinha: “Tempura de camarãozinho ao molho
de maionese picante e caviar”. Assim uma vida no diminutivo, mas que passou
no crivo da minha apurada fisiologia do gosto. As colherinhas, aliás, já que
botamos a maternidade no meio, lembram aquele sublime momento infantil em
que a mãe diz “olhe o aviãozinho” e tenta alimentar o filho querido. A terceira,
bônus-track de Shin Koike, o chef: “sashimi de wagyu com figo ao molho panzu
e pasta de gergelim”.
Se a melhor maneira de descobrir as boas inclinações morais de um
sujeito é pela delicadeza do palato, como pregava o gorducho Balzac, eu
estava me consagrando ali no Mosaic. Com o “kobe beef”, então, fui às alturas.
É carne de uma vaca toda metida, que se alimenta de cerveja e cereais finos,
além de receber massagens no corpo, como a mais merecida das moças. Daí
a maciez das suas fibras. “Na próxima encarnação eu quero ser uma vaca
dessas, isso é que é vida”, diz Lourenço, garçom pernambucano da casa.
De agrado e agrado, nem precisei passar na bisteca do “Sujinho” na
volta, como tinha brincado com a editora desta revista. Ótima viagem
gastronômica _se minha mãe lê uma frescura dessas!_ para levar uma gazela,
ali nos primeiros dias de romance, para brincar de “olhe o aviãozinho”... e vê-la,
olhinhos bem fechados, bonequinha de luxo com flocos de ouro nos lábios.
[*publicado neste domingo na revista da Folha, que circula apenas em
SP]

A ROMANA E/OU TE AMO ALBERTO MORAVIA

a gente é tão doido, e doído com acento agudo e tudo por uma pessoa, q a
gente não sabe que pode chegar outra/o um dia. e sempre chega. donde
encosta a romana. a ruiva. tão de outrora, deus mio, aquela que eu havia
conhecido dum simpósio da unesco, cinco, seis anos atrás. quase a adriana do
romance de moravia, de tão puta, pois.

eis q a moiçola, agora na flor dos 30, ou quase, volta a são paulo, para uma
felicidade tão rara. como pode fazer um homem velho tão feliz, mesmo tão
rápido. doido era aquele avião partindo e ela chorando por nós dois, italiana,
caralho, não suporto despedidas... aquelas botas, tão crepax, tão valentina, tão
pendor milanesa, e as nossas fodas em espanhol caricato, tão gozadas e
lindas, onomatopéias e babéis imperfeitas...

thanks por fazer esquecer romances d´outrora, linda romana, jogo-lhe todas as
moedas em tuas fontanas, como pode querer tanto um feio se és a mais bela?,
a mais bela de todas???

donde ela diz, graciosa, que voltou ao priapismo da velha Roma, que o mundo
moderno a desacostumou com essas coisas...

mas os aviões, o aeroporto, transformam qualquer ensaio de amor no amor


mais foda, o amor a jato a atingir as nuvens, o boeing, algodão de céus, o
calor das despedidas que viram chuvas...
CÓDIGO DE BOM-TOM DOS TEMPOS MODERNOS

CAP. I -§ 1º

Se beber não passe email. As chances de dar merda, ora, são enormes. Pedir
alguém que você mal viu em casamento, desmanchar o namoro dos sonhos,
escrever pornografia para a madre superior, xingar o amigo, zoar o freguês,
desonrar o(a) parceiro (a), desmerecer os carinhos, atordoar os sentidos,
desmascar os ímpios, passar na cara dos eventuais incorruptíveis...

Ao sair para beber, deixe o computador desligado, o que certamente dificultará


a volta [da rua] direito para o outlook da insensatez, o hotmail das perdições, a
pororoca de um spam cardíaco, a ressaca moral dos itens enviados...

DA ARTE DE SER COMIDO PELAS FÊMEAS

Fui lá no Saca Rolha, programa do bravo Lobão (olha o jabá!), Marcelo Tas e
Mariana Weickert, uma graça de gazela. Canal 21, SP. Só falamos de
sacanagem: a da política, na qual marmanjos molham mãos alheias, e da
filosofia da alcova propriamente dita. Sobretudo da bela arte de ser comido
pelas fêmeas, digo, introduzido, biblicamente devorado, tá delícia tá gostoso, o
homem, a próstata, o mito. Queriam q vocês vissem a cara de espanto de
M.W., que confessou nunca ter enrabado um mancebo. Rapariga em flor, ainda
tem muito tempo para tal ofício. E dá-me vinho que a vida é nada!
CARTAS PARA MISS CORAÇÕES

EU ME CASEI, E AGORA?

O que a "sábia e almodovariana senhora" diria para uma mulher que acabou de
se casar/juntar? Sei, podem ser muitas coisas, mas não custa nada tentar...
Bjos, Dan (SP)

A CIGANA RESPONDEU:

Estimada consulente, aproveite o enlace para cometer a mais linda e nobre das
pornografias: a phoda com intimidade. O mais é assombro e preconceito de
frase feita ou filosofia de pára-choque. Evite as dê-erres <discussões de
relação> e os pantins nos feriadões; fuja da pizza dellivery mesmo nas
tempestades de São Paulo _a mussarela em domicílio provoca o fastio de viver
e de phoder. Evitem idem a pijamização dos pombinhos. O pijama, tenho dito,
burocratiza o desejo, o pijama, meu coração, é o paletó de madeira do amor.
Sem mais, despeço-me, atenciosamente, sua M.C. Solitários.

EU QUERO ME CASAR, E AGORA?

Eu preciso de uma ajuda . Urgente ! Eu preciso de alguém, eu preciso de um


namorado, estou ha muito tempo sem ninguém, só fico sofrendo, me iludindo
com gente sem coração. Ajude me!
Ass. Andrea Rosa (SP)

A CIGANA RESPONDEU:

Frágil e amável criatura, vejo aqui, na borra do café batizado com domecq, que
em breve, muito breve, terás um homem pra chamar de seu... pra te pegar no
colo, te deitar no solo e te fazer mulher. Não ficarás chupando o frio chicabon
da solidão no inverno que se aproxima. Não. Um cabrón que te desprezou está
a caminho, em passos de cavalo branco, escute só o barulho das patas, o
cowboy do asfalto, que parece saído de uma peça de Sam Sheppard... Vai
fazer tremer o teu pobre coração, como nas letras de bolero, prepara-te, esse
fogo nas entranhas está com os dias contados. Carinho, M.C. Solitários
OS REMÉDIOS DO AMOR & OS COSMÉTICOS D´ALMA

MISS CORAÇÕES SOLITÁRIOS, velha cigana nascida na Andaluzia e criada


sob todos os sóis e mistérios dos sertões do Velho Chico, estreou, nos idos de
1.999, uma tribuna de aconselhamento no antigo sítio O Carapuceiro. Sábia
conhecedora do destino humano, adaptou mui rapidamente a sua quiromancia
ancestral para as consultas virtuais _a primeira madame nos Tristes Trópicos a
adotar ousado método. O seu aconselhamento tirou muitas raparigas do caritó,
devolveu amores em três dias, afastou outros malassombros sentimentais,
recuperou o gozo de octagenários, confortou corações aflitos e emprestou paz
e sossego a cornos entregues à cachaça e aos boleros de radiola de ficha.

Esse verdadeiro bálsamo para almas penadas está de volta ao nosso convívio,
agora mais interativa e poderosa do que nunca. Se estás a sofrer, amigo ou
amiga, consulte a nossa velha e sábia cigana. O seu fastio de viver está com
os dias contados. Escreva agora mesmo para carapuceiro@uol.com.br e
consulte a nossa sábia e almodovariana senhora. A sua missiva pode ser
assinada com pseudônimo ou batismo verdadeiro.

CERVEJA PRA LAVAR

Embora eu esteja muito amargo pra tomar cerveja, como cantam os meninos
do Eddie, vamos curar a ressaca com Carlos Pena Filho, poeta do caralho
[malditamente esquecido] do Recife das antigas. É dele, avec Capiba, “a
mesma rosa amarela”, agora justamente aboiada em shows e discos por Junio
Barreto, dandi e ombudsman das moças da rua Augusta. O bar citado nos
versos ai abaixo fechou há um ano. Fica aqui a homenagem àquele recanto
que sempre foi um lírico cemitério de cabaços de musas e boyzinhas avulsas:

“Por isso no Bar Savoy


O refrão tem sido assim:
São trinta copos de chopp
São trinta homens sentados
Trezentos desejos presos
Trinta mil sonhos frustrados.”
O AMOR E AS RESSACAS BRABAS

Sim, dia 21 de maio foi o DIA NACIONAL DA CACHAÇA... mas


somente agora nosso redator de efemérides, guarda-livros e tradutor de
javanês, conseguiu lembrar-se de tão nobre folhinha do calendário outonal.
Um brinde, pois, à danada, mais destruidora de lares do que qualquer
mulher-cachorra no auge.
Um brinde à danada, que já levou muitos fígados de homens de boa
vontade; em compensação fez muitas almas leves, pra agüentar o tranco, o
trabalho, as assombrações e os dias.
Um brinde à danada, espoleta para tantos barracos amorosos, mas
ainda o mais eficaz dos remates para os males do mundo e as dores de corno.

O AMOR E OS BICHOS

_Este cachorrinho é seu, senhor?


_Era meu até há alguns momentos; mas a senhorita assumiu de repente
um notável ar de propriedade em relação a ele.
[Isabel e Ralph, no livro "O Retrato de uma Senhora", de Henry James].
Do amor e dos animais que o cercam.
Tenho saudade dos gatos. Quando cheguei lá, ele já havia sido
batizado, fazia tempo, com o meu último sobrenome de dono de armarinho
português. deus está nas coincidências, soprava o ímpio sr. rodrigues.
Os gatos, esses quadrúpedes metafísicos, estão para o amor assim
como os cães, esses bobos alegres, estão para a amizade besta.
Os cães chafurdam na cama de manhã, nos sorriem latindo, como na
lírica do Rei; os gatos se enroscam sabiamente nas pernas da dona, que
mimetizam os gestos safados do bicho, e dali os gatos assistem às fodas,
enquanto escrevem, a seis mãos, a linda pornografia das intimidades mais
longas.

SE ORIENTE, RAPAZ

deu na BBC: o governo chinês acaba de proibir restaurantes de servir comida


nos corpos de mulheres nuas. A proibição ocorre no justo momento em que o
sushi erótico volta com tudo em SP, conforme noticiou a ronda noturna deste
carapuceiro. No final do séc. passado, a vigilância sanitária chegou a fechar
várias boates desta província que promoviam tal banquete-nada-platônico.
quem quiser conferir a pajelança nipornô, basta ir à Coquetel, na nestor
pestana 189, ali quase na frente do castelinho da Kilt.
O CINEMA AQUI DE CASA

Nada como aquela olhadinha que ela dá quando lá embaixo. Ainda e pra
sempre, da série “detalhes tão pequenos de nós dois”. A vida se resume a
observar, microscópio de eros, rei roberto e nelson, a mulher e o seu drama.

Nada como aquela olhadela, sobrancelhas assanhadas, mirando lá de nossos


países baixos cá para cima do nosso cocuruto alumbrado.

Tão lindamente sacana, ah, que nega a minha nega, derreto-me como
manteiga no último tango!

Ela quer saber se estou gostando, claro que estou mortinho ali no pré-gozo.
Tem um orgulho, “vê como faço bem feito e com gosto”, ali naquela olhadinha
plongé, contra-plongé, depende de quem vê...

O QUE É ROUBAR A DASLU DIANTE DE FUNDÁ-LA

Pois é, moça, tava aqui ouvindo “don´t be cruel”, do velho elvis, manhazinha
priápica, cabeça lá em ti, derramadamente lírico, ai vêm uns caras me
importunar, ao telefono, dizendo q to fazendo apologia ao crime... por conta da
carta aberta aos ladrões do caminhão da daslu. Ah, assim com esses tiras no
meu juízo eu me panfletizo todo, baby, cê sabe, don´t be cruel. A carga
simbólica. A buraqueira social. meus pensamentos 1789. A carta asssombrada
da burberry. Aê ladrão, Apologia não, era elogio explicito mesmo, pena q se
deram mal, pobre só se fode no Brasil, so no ilícito. E como anda abusada a
burguesada. Antes envergonhava-se de ser 5% e ser dona de quase tudo do
luxo do pedaço; hoje contrata assessoria de imprensa para celebrar o fosso
nas colunas. Como disse o velho Brecht sobre os bancos, o que é roubar a
daslu diante de fundá-la???

CARTA ABERTA AOS ASSALTANTES DO CAMINHÃO DA DASLU

Caros assaltantes, parabéns pelo feito épico. Nada tem sido tão vergonhoso
neste País de São Saruê como a maneira com a qual esse magazine de
bacanas tem divulgado a abertura da sua nova loja na cidade de São Paulo. É
a celebração desavergonhada e escrota, vide colunas sociais, do buraco entre
fodidos e milionários por estas plagas. Vocês, acostumados a roubar cargas,
talvez nem tenham percebido o sentindo simbólico desse assalto de grife. Nem
devem atentar para essas frescas observações do escriba das carapuças.

Parabéns corajosos cabróns. Ali vocês não estavam metendo as mãos apenas
em um caminhão cheio de bolsas capazes de sustentar milhares de lascados,
verdadeiras e materializadas bolsas-família de fato. Não. Foi uma tomada
simbólica da bastilha no país dos banguelas. E ai, nobilíssimos ladrões, como
são bonitas essas gravatas de milzinho da Burberry, né? E os sapatos, vixe?!

Caríssimos ladrões, sabe o que disse o cara da Burberry no Brasil sobre o


heróico gesto de vossas excelências: “Imagine a Daslu inaugurar sem a nossa
coleção???”

Sacaram só? Que dó. Vosmiscês devem estar mortos de preoucados, né?

Uma carguinha de R$ 1,3 milhão? Nada mal. Adonde estiverem, nobres


ladrões do assalto simbólico da hora, aceitem os parabéns deste pobre porém
honesto recptador de carapuças.

NAS TUAS CURVAS CAPOTEI MEU CORAÇÃO

Para aquela meia dúzia que sempre me pergunta adonde ler minhas linhas
bêbadas: fiz para a revista “V”, já nas bancas, uma reportagem-caminhoneira
que sai de juazeiro do norte (CE) e acaba aqui em sumpaulo. A saga foi
fotografada por um puta de um lambe-lambe de primeira, Tiago Santana, coisa
fina. Foram quatro dias na boléia, nos postos de gasolina, nos puteiros das br´s
e veredas, curvas de capotar o coração, como diz o pára-choque. Pra
completar, a prosódia-road foi editada por Ronaldo Bressane, timoneiro da
referida publicación.

Boto ai abaixo só a cabecinha da matéria, pra sentirem a poeira. Nao boto toda
pq so tem graça com as fotos, o cinema, a montagem das páginas:

Como pescar um caminhão de 17 toneladas do fundo de um rio?


Pescadores profissionais de surubim, mentirosos amadores,
caminhoneiros, mototaxistas e civis à paisana em geral matutam, matutam,
matutam no final da tarde lesada de Belém do São Francisco (PE), aqui na
região onde a fumaça verde anunciou, faz é tempo, como Polígono da
Maconha.
Menino como o diabo aos pés dos adultos. Palpitam, viajam, mas
ninguém leva em conta. “Tem que descer lá embaixo, amarrar uma corda e
pedir pro trator da prefeitura puxar”, diz um barrigudinho. “Vai cuidar dessas
lombrigas, pirraia”, um velho ranzinza dá-lhe um cascudo, mas de leve. O
menino desconta com um chute, à vera, num dos vira-latas, que também
parecem discutir, numa assembléia à parte, o destino daquele possante
submerso.
O caminhão despencou de uma das balsas que atravessam veículos,
gente e bichos do território pernambucano para o baiano. A balsa remendada
do velho Chico pendeu, descontrolou-se, o caminhão, carregado de pedra
granito timbungou rio adentro, 20 metros, arrastando ainda duas motos. Um
cabra ribeirinho morreu na tentativa de salvar a sua bicicleta nova. [Como
pobre só se fode!]. Continua...
FRAGMENTO PARA O LIVRO ABERTO DE DEVOÇÕES &
PORNOGRAFIAS

...donde uma iluminação noturna, seguida de polução int/noite/quarto de hotel


de luxo, escorre pela coxa, mesmo com a outra <a que veio de longe, muito
longe, império romano> ao lado. Iluminação de uma morena toda vazada de
luz, como aquelas santas baianas, por um caminho escuro, estreito, e o
estremecimento no sonho, epifania dos diabos, bacia d´água e de flores sob os
seus pés acima do taco, solo do nosso último tango, na frente do espelho de
taras, exibições & danças, cheiro nas fuças do cunnillingus mais longo,
coreografia do gato, e a golden shower iluminada a me banhar com as dores
inconfundíveis de mais uma despedida.

MAIS UMA CARTA PARA MISS CORAÇÕES SOLITÁRIOS

FOGO NAS ENTRANHAS

Senõra,
Tu que conheces os recônditos da alma humana do alto de sua bola de cristal,
tu que vês passado, presente e futuro nas cartas do tarô dos sóis, luas e
estrelas andaluzes, responde a esta jovem atormentada: o fogo que
queima minhas entranhas se apagará com a volta do falcão querido que foi
voar para outras paragens e, vira e mexe, dá sinais de vida, ainda que
virtualmente? Ou o falcão só está maltratando meu pobre músculo
cardíaco, enredando-me em sua confusão infinita - e assim, devo buscar um
novo xodó bem bom por esse mundão de Deus?
Grata pela resposta,
Moça Ansiosa.

A NOSSA CIGANA DE PLANTÃO RESPONDE:

Dadivosa gazela,
se manuseias o teu obscuro objeto de desejo como bolinas as palavras, esse
falcão está feito, nos céus e na terra, pois muito me admira o ritmo e a
prosódia da tua missiva. Se o macho-de-rapina saltou mesmo a cerca para
outras plagas, te viras com os gaviões que arranham as portas do teu barraco.
Te joga, moiçola, e apaga esse fogo em destemidas mangueiras. Não gastes à
toa os cotovelos da espera, não chupes facilmente o chicabon da saudade...
Melhor gastar os joelhos nos vagabundos carpetes, melhor gastar o palato em
ritmados boquetes! Carinho, tua M.C. Solitários
CATECISMO DE DEVOÇÕES & PORNOGRAFIAS

À maneira dos velhos manuais de devoção e pornografia, O Carapuceiro


se propõe a construir aqui, com todos os dedos de prosa roçando os buracos
dos sentidos, o nosso livro público de êxtases, prazeres e sensações épicas &
baratas.
Rabiscos iniciais para o nosso catecismo de amores & lindas putarias.
[Sintam-se à vontade, com pseudônimos ou batismos reais, para ajudar no
tecimento do nosso livro].
Primeiras anotações para o manual de devoções e intimidades:
1)Tudo pela fêmea e por fazê-la gozar todos os santos dias;
2)Da arte de chupar buceta e do gosto por mangas como pedagogia
recomendável aos meninos;
3)As narrativas e fábulas contadas durante as fodas _sexo com
historinha;
4)O cigarro pós-foda, mesmo para os não-fumantes;
5)Os bambuais do kama sutra e da desnecessidade de novas posições;
6)A beleza da foda calminha, fodinha-camomila;
7)A punhetinha mútua na sesta e o sono dos justos;
8)O que aprender com os gays;
9)O que aprender com os travestis;
10) o que aprender com as bolachas...

BREVE CATECISMO PARA O AMOR DE MUITO

Da série “maneiras de dizer eu te amo, porra!!!” _ sem carecer do consumismo


idiota da data dos pombinhos neoliberais:

Admirá-la, sempre na paudurescência, enquanto ela se olha no espelho para


conferir a roupa.
&&&
Beijar os pés da moça em público, sempre que possa, como numa crônica de
Antonio Maria.
&&&
Se for liso, pobre de marre-marré, dar uma bijuteria de R$ 1,90 com a devoção
e a dramaturgia de uma jóia da Tiffany´s _vide “Bonequinha de Luxo”, o filme.
&&&
Levar chá de erva-cidreira na cama e ler um conto-fábula de Ítalo Calvino para
niná-la.
&&&
Conduzi-la ao jantar num restaurante bem farto, com sobremesa idem, para
mostrar que ela é linda, foda, uma formosura, e não precisa emagrecer nem
mesmo as 21g do peso da morte.
&&&
Acompanhá-la nas compras e agarrá-la pra valer nos provadores, se possível
fodê-la pelo cantinho das calcinhas novas [de pano] recém-adquiridas.
&&&
Aplicar a lição do vinil: 1) passar a mão nas costas dela,a noite toda,
carinhosamente, como se fosse o braço de uma velha radiola; 2) de manhã
passar a mão na bundinha dela como se fosse um DJ fazendo scratch.
&&&
Comprar, vez em quando, um patê especial para o felino dela _os gatos estão
para o amor assim como os cães para a amizade.
&&&
Pedir de presente, sempre que possa, uma linda golden-shower _forma de
mostrar que ama tudo_ glândulas, tripas & coração_ que seja ou tenha origem
no corpo dela.
&&&
Ser firme na hora em que ela for melindrada ou agredida por alguém, seja o
guardador de carro, seja o garçom, seja o Roberto Jefferson, o presidente,
seja quem for.
&&&
Não cobiçar a mulher do próximo quando estiver ao lado dela; pode parecer o
mínimo, mas é um puta presente. Alem do mais, você, velho cabrón, evitará
aqueles insuportáveis torcicolos que não curam nem mesmo com o milagrosos
emplastos Sabiá ou Brás Cubas.
&&&
Em vez de condená-la em uma pisada na bola _tipo foder gostoso com outro
numa festa!_, tirar proveito erótico disso, provocando-lhe para ouvir outras
boas histórias.
&&&
Conhecer todos os riachinhos da sua buceta e explorá-los com devoção oral,
manual e escrita.

DO LIVRO ABERTO DE DEVOÇÕES, INTIMIDADES & PORNOGRAFIAS

No que concerne ao olho masculino nas visões matutinas:

Quando ela acorda, aquelas marquinhas no corpo feitas pela noite, atrito de
peixes que passeiam nos subterrâneos dos lençóis.

Cabelos feitos algas doidas, o seu incômodo mais bonito; algum tédio diante da
reabertura do mundo chato, ela se espreguiça, ossinhos que estalam sob a
réstia do sol dos sérios que atravessa a cortina.

Agora ouço o barulho do mijinho dela, música ao longe aqui do quarto.


Paudurescência da aurora; ensaio uma punheta da nostalgia precoce, como se
a danada tivesse ido embora num teletransporte de fio terra; ela volta ainda
mais manhosa, quase um gato a inventar botes câmera lenta num sashimi da
véspera.
O pau toca a sua bundinha sem a pressa da foda, quase como fossem feitos
um para o outro e tivessem todo o tempo do mundo. As almas já se entendem,
os corpos quase, ela pensa “qualé a desse cara?”.

Toco fogo no café e o cheiro sobe, polvo do amor mobilizo-me entre o forno,
esquentar os pães, as frutas dos impressionistas, a manteiga do primeiro
tango, acorda maria bonita, que a polícia do pensamento já está de pé. Um
homem nos ensaios de amor, velho J.L.Godard, carece de muitas mãos,
línguas, dedos, certezas.

A SOLIDÃO DO EMPLASTO

Casei muito, descasei outro tanto. Amo os dois. A sestinha linda pós-almoço e
a solidão-solitude de cagar de porta de banheiro aberta pro mundo. Casei,
rapariguei ao extremo, bukowskiei-me ás vezes caricato, recolhi-me,
caracolzei-me, sístole & diástole, amém. Sei das vantagens de um estado de
coisas, e também do estado de outras...

Mas nunca me senti tão só, certa manhã de anteontem pós-brava-farra de dois
dias sem tirar de dentro da celebração, quando de um torcicolo... Cadê eu
conseguir botar o tal emplasto!?

Não que uma linda fêmea sirva tão-somente para isso, muito pelo contrário.
Peralá. É que a geografia do torcicolo era esquista, meio no pescoço meio nas
costas, eqüidistante do alcance correto e cego dos membros superiores.

Não que eu quisesse aquela moça q ajeita o vestido como se o mar estivesse
na barra em ondas apenas para tal responsa...

Mas um emplasto, nada no trapézio do cérebro como a idéia fixa de Brás


Cubas, dispara o alarme da solitude. Não que ninguém me ame e ninguém me
chame de Baudelaire, nada disso, a vida como ela é, por si, tem sido generosa
com o flaneur dos pobres...

Que falo é de outra coisa, talvez da solidão dos enfermos, do que a minha mãe
diz “meu filho, tenha um filho, de repente adoece...”

Somente a solidão, essa pantera, velho Augusto, o dos Anjos, foi minha
companheira inseparável? Tudo bem, lindo, podemos nascer e morrer
sozinhos, como diz o homem-comício, mas essa solidão se revela ainda mais
na hora em que a geografia esquisita das costas recebe o mais torto dos
emplastos.
VOYEUR DE NUVENS

Tirar umas horas pra ver a dramaturgia das nuvens. cabeça deitada na grama.
Ou na espreguiçadeira. No mato ou na beira da piscina mais urbana, como
deu-se a última sessão desse escriba. Não falo de seguir estrelas, ora direis,
rapariga bilaquiana. A dramaturgia das nuvens per si, bando de doidivanas,
como no teatro, mesmo . Monstros, netunos, choques, guerras, miles davis nas
trombetas, encenações, beijos de algodão, meninas em colos imaginários de
Lewis Caroll, tudo que é sólido e que se desmancha em fiapos de gente...
repare nos seus monstros internos nas nuvens, o serial-killer que habita a sua
carcaça, o assassino dentro do torax, como em thompson, todos levitam na
lona dos céus, caralhos de asas, bucetinhas felpudas, bucetinhas de manga...

MACABÉA CONSULTA MISS CORAÇÕES SOLITÁRIOS

Extremosa Senhora,
Mudei-me pro Sul Maravilha e desde então o banzo me acomete e entrei numa
roda-viva de aproveitamento mútuo, „leitadas‟ casuais que não preenchem meu
vazio interior. O modus-vivendi daqui é deveras diferente do do meu Recife, até
paquerar tem sido um aprendizado.
Gostaria de saber vossa abalizada opinião sobre meu momento atual e que
caminhos devo seguir. Queria muito um namorado pra dormir de pé enroscado
e fazendo cafuné e ganhar ursinho de pelúcia no dia 12 de junho, mas tenho
pena de maltratar Santo Antonio buscando esses fins escusos.
Procuro uma alma gêmea na colônia de pernambucanos do Rio de Janeiro?
Insisto com os cariocas, que parecem ter o item „galinhagem‟ de série, de
fábrica? Me conformo em ser fubanga? Agradeço desde já a vossa
colaboração.
Assinado - Macabéa
ps- “fubango‟‟ é um neologismo que aprendi aqui. Os adeptos da fubangagem
têm até comunidade no Orkut -
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=661725 - e lá descobri o conceito
efetivo do termo, vide verbete abaixo:
FUBANGA (O) = 1. Homem ou mulher que tem relações eventuais, sem
compromissos, porém dentro dos mais rigorosos preceitos éticos com relação a
seu par momentâneo 2. Indivíduo cuja fugacidade afetivo-corpórea sobrepuja
os aspectos meramente voláteis do relacionamento contemporâneo, buscando
uma experiência sublime mesmo que a curto prazo.

M. C. SOLITÁRIOS RESPONDE:

Boa alma macabéica e docemente lispectorsa, a fugacidade afetivo-corpórea


do carioca é realmente uma desgraça. Os mancebos do balneário fazem
questão de manter esse espírito avícola, só curável com um bom par de
chifres, diga-se. Afinal de contas só uma gaia bem botada humaniza esse tipo
de bípede, seja ele de quaisquer plagas. Pernambucanos da colônia? Ô raça
cachaceira e trabalhosa! Mas pelo menos a paudurêscência é garantida,
sustança de primeira. Entre desgalinhizar um macho da Guanabara e aprumar
um mancebo de Pernambuco, melhor fubangar-se com as duas espécies,
enquanto o amor-colherzinha na casa de Vênus cresce! Cariño, M.C. Solitários

HAI KAI

vagabundo vagalume
mas quando estás com outro
me apago de ciúme

CÃO VADIO EM CAMINHÃO DE MUDANÇA

Hora de revirar as gavetas, jogar no lixo ou guardar pra sempre,


como lindamente canta a deusa Vanusa. Mudança à vista. O cachorro vadio
perdido em cima do caminhão. Passa-se o ponto. A naftalina amorosa
conserva as cartas e fotos, apesar das sabotagens baratas. Hora de guardar
pra sempre, Mr. Postman, a missiva que atravessou a dutra, 15 de fevereiro,
ano da graça 2005: "Voce me tornou mais livre... e principalmente me ensinou
a ser mulher". Corações iluminados. Colibris na planta que compramos juntos
para encobrir vergonhas e janelas. É o que fica valendo. O amor pra sempre
selado no cuspe do selo.

Guardar pra sempre: “O eterno é, em todo caso, antes uma dobra na


vestimenta do que uma idéia.” Menina atrevida a mexer com Benjamin.
Fragmentadinha, meu deus, e sem medo. Promessa de felicidade, beleza de
epígrafe da monografia dela, nega que me veio como presente dos céus... ou
das lamas... onde afundam os vagabundos iluminados de Kerouac e outros
anjos da estrada. Ai de mim, velho Benjamin. O presente-
apocalipse, crepusculozinho de nada. Naquele ano caíram torres, brinde bin
laden no baixo gávea, sob lua minguante, poeira de mitos, e eu, pré-40,
farejava o amor à parte, vê se pode?

agora o Velho Saturno, guarda noturno das nossas melancolias, ganhando por
hora, uma fortuna, uma proteção, libra com libra, leão... e todos os destinos
doidos... Guardar pra sempre: “Ao Xico, meu homem”, dedicatória de tal
monografia. Sobe a frase na nuvem do ópio que agora me entorpece, como
sobe um crédito pré the-end. Guardo essa fumaça no tórax. Guardar pra
sempre também: “Erfahrung” _o espirro do gato, o cheiro das fodas, a porra
escorrendo na perna, até formar um riachinho na cicatriz do joelho dela.

Guardar ainda, dona Clarice: a ranhura dos tecidos, da pele amarfanhada, da


carne, da via-crucis do corpo. Mais uma caixa, por favor, e nela guardo: o
nosso último tango na beira da Dutra. A caixa sangra como os joelhos no taco.
Cimento o chão da minha queda de vermelho.
AMOR SOB ENCOMENDA*

Nos anos 80, no Recife, inaugurei um serviço especial de “poemas


de amor sob encomenda”, que eu apelidei de “Miss Corações Solitários”, como
no livro de Nathanael West, que acabara de ler. Marketing da necessidade de
um escriba só o couro e o osso, que olhava a sua própria sombra magra e
tinha medo. A estratégia foi um sucesso. Depois de um anúncio no “Diário de
Pernambuco”, eu não dava mais conta dos pedidos e passei a terceirizar
sonetos e acrósticos, tarefa fácil na terra de Manuel Bandeira e João Cabral.
Ajudei a começar romances, reatar namoros, dar esperanças, iludir
“boyzinhas”, parabenizar amadas, encorajar amantes, suspirar viúvos,
incendiar mancebos e reacender o fogo de lindas afilhadas de Balzac.
A felicidade não se compra, como já nos avisou o cinema, mas que
amealhei algumas patacas, amealhei. Recife virou uma festa, melhor do que a
Paris de Hemingway.
O motivo dessa crônica, no entanto, não é o de ficar apenas
mascando o chiclete da nostalgia. Nada disso. O motivo é de arrepiar. E se
chama Marina Cavalcante. Pernambucana de Olinda, hoje habitante do bairro
de São Matheus, na zona leste de São Paulo, tinha 20 anos quando me
encomendou um poema para o namorado.
Agora com 39, viu este mal-assombro que vos escreve no programa
de TV do Lobão _o “Saca-Rolha”, que passa no canal 21 de SP_ e,via email,
me contou a sua história. “Ele, Roberto, achava que eu o traia, por isso pedi o
poema sobre a minha fidelidade, pra fazer ele chorar, lembra?” ela pergunta.
Claro que não recordo. Eram tantos casos. O poeta Jaci Bezerra, velho amigo
e testemunha ocular da história, que o diga.
E aí, conta logo, Marina: “Ele, Roberto, acreditou em mim, vivemos
um lindo amor por cinco anos, o amor da minha vida, por isso a minha
felicidade de achar o sr. na televisão, pra agradecer, tanto tempo depois”.
Homem que é homem chora bonito, chora mais alto. Não me contive
com o episódio. Marina casou com outro aqui em São Paulo, hoje está
separada, e diz que não esquece o motivo daquele velho poema. Bela história.
Deu até vontade de retomar as encomendas, as costuras para fora. Bom saber
que a poesia comove até um macho à moda antiga, do tipo que ainda manda
flores, caso do amor de Marina.
[*texto reproduzido da coluna "modos de macho & modinhas de
fêmea", que circula nos jornais "O Estado do Paraná", "Diário de
Pernambuco", entre outros]
DA DRAMATURGIA DO ORGASMO

O fingimento do gozo também pode ser uma prova de amor, como o amor
vadio das putas;
antes o fingimento do que a ausência da dramaturgia amorosa de fato;
tem um quê de distanciamento brechtiano no orgasmo fingido;
tem até mesmo um gozo que deveras sente;
tem mais de verossímil no fingido do que em muitos ditos verdadeiros;
a favor das que fingem com decência;
melhor que fingir a velha dor de cabeça;
contra a verossimilhança exagerada dos orgasmos com caras & bocas;
a favor do agrado do teatro, puro teatro, como na canção almodovariana de La
Lupe.

DANAÇÕES JUNINAS

Olha pro céu meu amor / Vê como ele está lindo /Olha pra quele balão multicor
/ Como no céu vai sumindo / Foi numa noite igual a esta / que tu me deste o
teu coração/ O céu estava em festa / porque era noite de São João / Havia
balões no ar / xote, baião no salão / E no terreiro o teu olhar / que incendiou
meu coração...

<Luiz Gonzaga tocando fogo na fogueira do carapuceiro>


CATECISMO DE DEVOÇÕES, INTIMIDADES & PORNOGRAFIAS -PARTE
XIX

Da phoda em dias de menstruação e da travessia de outros mares vermelhos:

Não deve haver cerimônia diante do ciclo;

nem mesmo para o sexo oral mais devoto;

sair de lá debaixo tingido, tingido;

o orgulho diante do espelho, como uma pintura, urucum no rosto;

as fuças cheirando o sangue mais puro;

os lençóis brancos com as marcas da pintura rupestre, tribos de alcovas e


cavernas;

o amor carece do gosto pelo sangue, pelas glândulas, pelo que vem das
entranhas;

contra o banho imediato após as phodas;

contra os saponáceos, e contra a própria água.

DOS PRAZERES COMPARTILHADOS

Essa eu aprendi com Michel Foucault, quem diria, num livrinho que se lê no
avião, no ônibus, no último metrô _”A mulher/Os rapazes”. A arte do vínculo
conjugal. Fiquei a favor dos estóicos, que não fogem do casamento, como os
cínicos; depois me bateu a dúvida: não estarei eu mais para os cínicos? Havia
saído de um grande amor e sofria a tentativa de recanalhizar-me, coisa difícil,
pois as moças lindas, andarilhas nas terças francesas do Vegas <rua
Augusta!> despertam vontade de casar...

Mas preguei os olhos nisso: “Da estética dos prazeres compartilhados”. Ótimo.
O casamento não como algo objetivo e procriador, falo como a arte de dormir
de conchinha, amanhã de manhã, o café pra nós dois, como canta o Rei. Há
uma linguagem nos prazeres divididos, não obrigatoriamente da linguagem
periquitosa... como aquelas aves que despertam a fúria do narrador de
Graciliano em São Bernardo...

Embora haja sim a necessidade de uma estética das mãos dadas, do passeio,
dos óculos escuros gastos sob o mesmo sol, da invenção do flaneur-
pombinhos, da felicidade imediatista e besta do almoço dos domingos.
DA SURUBA-LOUNGE
da suruba moderna enquanto reinvenção de uma nova erótica. Não aquele
bacanal anos 1970, coisa mais démodé. Falamos de um congraçamento fim-
de-festa, suruba-lounge, arriando do sofá para o taco do derradeiro tango. Um
beijo aqui em um, um beijo ali em outra. Uma dança gostosa, uma devoção na
contra-mão da casa, uma ida ao banheiro, flertes, um boquete na escada, um
fumo e uma rapidinha na varanda... Erotismo enevoado que vai ficar na
memória para lindas fodas do casal nos dias seguintes, sem que nenhum tenha
perdido pra valer o rumo da vida.

[tô na seção três palavras do trópico, hablando sobre pornografia, ressaca &
boemia. www.uol.com.br/tropico

<e haja autopropaganda do alma sebosa que vos sopra a nuca: o jb de hoje,
segunda, tece loas sobre o programa de tv Saideira, cuja apresentação é
por conta deste mal-diagramado q vos posta. a matéria "academia brasileira da
boemia literária" está no http://jbonline.terra.com.br>

A PELEJA DOS XIFÓPAGOS

Eram irmãos siameses, xifópagos, unidos pelo tórax. Os gostos, porém,


eram díspares. Virgílio, fino, leu James Joyce, essas coisas, antes mesmo de
se despedir do primeiro dente de leite. Camilo José, ingênuo e cândido, era
viciado em histórias de príncipes, auto-ajuda e Paulo Coelho. Virgílio agüentou,
de forma resignada, até a leitura, normalmente em voz alta, de “Veronika
Decide Morrer.” Até que o coro grego anunciou a tragédia. Na cena de sexo do
“11 Minutos”, outro best-seller do mago, Virgílio tentou desvencilhar-se a todo
custo, chegando inclusive a ferir-se no embate. Passaram a viver, dali por
diante,como cão e gato inseparáveis. Certo dia, senhores, em bravo duelo
sonâmbulo, Virgílio alvejou, à queima roupa _embora a contragosto, não
apreciava esteticamente o assassinato de tão perto_ Camilo com um tiro na
perna. Deram entrada no nosocômio, deu polícia. Condenado sumariamente,
havia uma estupenda dúvida jurídica: é justo Virgílio, pobre vítima, ser obrigado
a pagar a mesma pena? Consultaram todos os alfarrábios para farejar alguma
jurisprudência. Não havia caso do gênero em toda a esfera. Enquanto o
tribunal superior não se manifesta, estão lá, Vírgilio e Camilo José, dividindo o
mesmo corpo, mesmo infortúnio, a mesma cela.
[*um dos episódios do conto "O Homem que odiava os livros", da coletânea
"Dentro de um livro", ed.Casa da Palavra, Rio]
CATECISMO DE DEVOÇÕES, INTIMIDADES & PORNOGRAFIAS [PARTE
XX]

“A mulher amada/ quando mija/ é so refresquinho/ de graviola” [Marcelo


Mário de Melo, escriba pernambucano]

tudo é lindo na mulher amada, melhor ainda os cheiros fortes, fedores e


sujeirinhas da mulher amada, o suorzinho das axilas da mulher amada, quase
uma bucetinha a mais as axilas da mulher amada, meu deus, lá está a danada,
sob o solzão veranico se derrete a mulher amada, gosto de apreciar a
merdinha bem esculpida da mulher amada, tão minha e tão íntima, o suorzinho
de todas as juntas e dobradiças, ali debaixo do joelho, eu quero, e quando a
perna dobra, o salzinho sobre ozolhos quando a gente beija, o pescocinho
suado, lindamente grudento, por favor, amigos do comércio, não vendam
desodorantes à mulher amada, não vendam arcondicionados, não refresquem
a costela amada, tudo é perfume francês na mulher amada, o mijo é licorzinho
dos deuses, sob o céu que nos protege, golden shower que traz bonança,
sustança, chega meu rosto sertões-vereda refloresce, os pássaros cantam na
caixa torácica, derrama, derrama, derrama, amor da porra a descer pela perna
esquerda, da mulher amada, lambuzamentos que encobrem as feridas
doutrora, tudo lindo a escorrer, farejo todos os cheiros da danada, o olho do
cuzinho, velho bataille, é lirismo só, rapaz, exala o sentido da vida e mais um
pouco, resume o mundo, guarda os segredos dela inteira, mulher é metonímia,
cada partezinha uma giganta [d´àpres baudelaire], ali, sim, no cuzinho, again,
está o silêncio mais lindo da mulher amada, donde tudo é lindo, tudo é sorte,
tudo delírio, o cuzinho em flor da mulher amada, coxas, o pezinho sujo nas
havaianas, poeira das ruas, marcas, cerimônia do lava-pés da mulher amada,
lambendo os dedinhos, descoberta dos segredos dos seus passos, direito de ir
e vir entre seus rins, como na canção, assim assim como na vida, agora o
cheiro da foda por toda a casa, a atrair os pássaros lá de fora, que encontram
os pássaros da caixa torácica, que, como a capa da música do Rei, assistem a
tudo e não dizem nada, tudo é lindo e belamente dramático na foda, mecânica
da carne que se enrosca, o pau come até a alma, paudurescência ad infinitum,
o amor é mesmo o viagra do espírito.

FARRA LÍTERO-PROFANA EM CAMPINAS - povo foda e generoso do


Espaço Garagem, rua Duque de Caxias, 524, faz hoje, a partir das 19h, festa-
relançamento das minhas "sobras completas", celebrando a vinda da 3ª edição
de "Modos de Macho & Modinhas de Fêmea" (ed. record) e o que restou da
"Divina Comédia da Fama" (ed. Objetiva). Nas picapes: djs Peixe Vinil e
Bit.Cho.
ABSINTO OU UM FADO COM NICK CAVE

da cor das lentes dos meus óculos verdes o absinto _original,


espirituoso, como escrito no rótulo_ que os amigos terron & bel me trouxeram
da curva do rio tejo.
bebo lentamente a garrafa, para enxugar o desassossego, para invocar
sá-carneiro e a sua ponte do tédio entre ele & o outro, bebo para celebrar as
quedas e por amor desesperado aos trôpegos. meus óculos de absinto cada
lente é uma roda de imaginária bicicleta bêbada tentando andar no fundo do
cálice. e que coincidência, amigos de belas noites e tranqueiras: no dia em que
a garrafa pousou na minha sorte, ela estava a mudar-se, malas e cuias, para
os ares lisboetas...
há uma canção no fundo da garrafa desse absinto, destampo-a, ela
salta: algo como nick cave cantando um fado.
há um desespero na minha dança.
fome de viver da gota!
ela, cabelos feito algas marinhas, bóia no fundo da garrafa verde. as
sobrancelhas espessas e cheias de dúvidas.
bebo a morte amorosa aos poucos, aos poucos, aos poucos.

EU VEJO FLORES EM VOCÊ

Adoro imitar david bowie e comer flores em cercas & festas, fome de
viver, como agora no aniversário de estrela. Umas 20 flores vermelhas no
estômago e 30 rosas amarelas, como as do cabelo da fê, olha lá mr. coelho-de-
alice, visse!, num sou de sair de casa para fingir que existo qual gente-isopor
que se mata apenas pelo trabalho e vai morrer por isso com muito gelo n´alma
e bajulice, sebosa soul, cool que só vendo, dinheiro em forma de vermes
neoliberais a roer o esqueleto, prefiro um ensaio de amor, uma suruba-lounge,
a mesma rosa amarela de capiba, junio barreto & carlos pena filho, ah, o
lirismo, fudeu, e quero ver quem vai ser mais rico do que eu quando o caixão
descer, quando o forno cremar, quando a vela acender no velório do notório,
quero ver o narcisismo derretendo nas mãos dos piedosos cristãos ou dos
salvadores judeus, sejam mendigos ou banqueiros, adoro os mortos cheios de
dinheiro. FUDEUS. Graças a zeus, quero ver qualé o bom, a boa, quando as
ilusões perdidas forem cremadas e restar apenas eu e o velho Flaubert a
zombar de todos nas crendices da madrugada.
DA DEPILAÇÃO E DOS EXAGEROS DA DIAGRAMAÇÃO DOS PÊLOS
MAIS ÍNTIMOS

O desmatamento das raparigas tem acompanhado a desgraça das nossas


matas;

urge um Greenpeace que lute pela Amazônia das moças;

contra as bucetinhas com bigodinhos nazistas;

ou bucetinhas cobertas ou descobertas de tudo, clareiras generalizadas são


bem-vindas;

contra os desenhozinhos sem graça;

contra a chamada “depilação artística”;

contra a higienização do amor e do desejo;

a favor dos pêlos;

quem tem nojinho não merece o paraíso;

contra o hedonismo envergonhado;

contra o café sem cafeína, contra a cerveja sem álcool;

porra, honra o útero de la madre;

honra a foda que te deu a porra;

porra, honra, a la Cioran, até mesmo a inconveniência de haver nascido.


VIDA QUE DÓI, DRINK COWBOY

Doeu a vida nos ossos quando o tempo fechou e Gainsbourg cantava “manon”.
O frio quando vem de dentro não há casaco que o amacie. Tive que beber um
trago curto e forte.

Vida que dói, vida cowboy.

E lembrei o choro lindo e sincero dela, choro de ontem, ao telefone, e a nossa


interminável troca de delicadezas pós-massacre amoroso, como nas peças de
Sheppard, motelzinho de beira de estrada e o desânimo dos amantes no
espelho quebrado a tiros de 38 e lágrimas.

Uma mulher em soluços faz a terra tremer mil vezes e um coração derreter
suas futuras safenas sem lastro e concreto. O tempo fechou, aqueles minutos
de desamparo do lusco-fusco nos olhos, como se nada tivesse adiante da
neblina, nem mais as curvas perigosas do corpo da rapariga.

Capotei meu coração, como diz o sábio pára-choque, em manhãs, phodas de


ladinho & abismo de rosas.

DO DRAMA QUE É O DOGVILLE DA CAMA

Da agonia da phoda, dos pés que não batem direito lá embaixo, do pau
e da buceta que parecem dois inimigos clássicos, dos membros inferiores e
superiores desajeitados, dos corações que batem mas não tocam de ouvido,
das almas que podem até se entenderem lá nas nuvens, dos corpos que
tilintam fogo mas não interagem, da dramaturgia da cama como fim de um
grande e interessantíssimo prefácio.

NO QUE CONCERNE AO QUAERENS QUEM DEVORET

Ou procurando alguém para devorar. Assim o glorioso São Pedro, na primeira


epístola universal, versículo 8, se refere ao capeta. Assim podemos nos ver em
alguns momentos da existência, com a urgência da carne a nos tocar como um
alarme histérico e necessário. Eliminemos o temor do arrependimento à luz de
Santo Agostinho, que um dia, no altar da sabedoria, nos disse: “Senhor, livrai-
me das tentações, mas não hoje!”.
CARTA DE AMOR

ela me manda, bem de longe, uma carta com uma fábula de alberto
moravia. a da camaleoa e o porco-espinho. “há milhões de anos uma camaleoa
enamorou-se de um porco-espinho” (in fabulas proibidas). e conta o que avista
da janela entreaberta de roma.
as cartas de amor são comoventes. quando recebidas em hotel,
entonces, são mais comoventes ainda. como uma que me chegou, certa feita,
num hotel do centro de porto alegre, ares do guaíba. você pára tudo e pede um
vinho para sorvê-la.
mesmo quando você tem feito samba e amor até mais tarde, como me
pegou esta missiva da fábula, a carta a tudo supera. ainda mais escrita numa
novilíngua que mistura português arcaico, castelhano e italiano, um nó na
sintaxe, uma doideira no léxico. e citações do cortazar de “cosmonautas na
autopista”, além da arte de amar do velho ovídio.
mesmo que eu abra a cortina aqui dos fundos da espelunca e aviste
aquela moça sob o raro sol do inverno paulistano. mesmo que use óculos
escuros à sophia loren. mesmo que ela tenha todas as supostas imperfeições
que tanto amo numa mulher: estrias mais lindas, nas laterais, sob medida
naquela pele morena e uma bunda demasiadamente humana, daquelas que
nunca sairiam em comerciais de bronzeadores ou cerveja. agora ela se molha.
com a mangueira. a laje cercada de flores. outra que parece a mãe estende
roupas.
por mais que seja possível um email de amor, por mais que se faça um
sexo ao telefone, por mais histéricos que sejam os tambores da selva, por mais
que dialogue-se no messenger, por mais que o sexo me pegue... nada
convence mais do que uma carta de amor, a letra da ponta dos dedos e a tinta
como sangue, transfusão ao longe...

DO HELL ON HELLS OU O INFERNO DE SALTOS

Só, as poderosas! Só, as fetichistas! Só, as garantidas!


Desde o coturno veneziano da Renascença _aqui nascia o sapato de
plataforma_ até o saltinho de cristal das putas Cinderelas de então... O salto
alto é a delícia e o prazer de nós todos. Elas nos pisam machucando com
jeitinho, tanto para a agonia, como para o êxtase, como nos sopra Ann
Magnuson. Elas nos machucam com salto-agulha, elas nos ameaçam, o
sapato como arma e símbolo de poder, o sapato mata.
Pode ser também uma linda bota à Valentina, aquela deusa que saiu da
costela de Crepax!

manchete do carapuceiro para o boletim de ocorrência da daslu: É O


FIM DA PRIMAVERA DE PRADA!!!
<com três exclamações, como recomendava a flor de obsessao
rodrigueana!!!>
CATECISMO DE DEVOÇÕES, INTIMIDADES & PORNOGRAFIAS

Gasto o que restou das retinas fatigadas na escritura do nosso


“Catecismo de Devoções & Pornografias”, um livro que virá ao mundo em
outubro, sob a lua em libra com libra, por uma editora cujo lema é vender
pecados _uma nova casa impressora de pendor sado-anarco-utópico-masoch,
ainda mantida em segredo para não abalar a bolsa dos valores
gutenberguianos e outros negócios da Bacia das Almas derivativas.
Como já revelamos aqui nesta freguesia pequenas amostras do
catecismo, é chegado o momento de rogarmos por sugestões dos leitores
sobre ensinamentos e dramaturgias da intimidade _essa invenção,pasmem!,
do século XX, coisa historicamente recentíssima cada vez mais carente de
ensinamentos e crônicas de costumes. A esta nobre causa nos oferecemos e
contamos com vossos ilustres dedos a nos apontar caminhos e desvendar os
mistérios dos orifícios.
Fica ai um breve guia de leituras sobre o mesmo tema, que nos tem
servido de prumo, além das práticas corriqueiras de alcova:
*Três filhas da mãe, de Pierre Louis.
*Teresa Filósofa, anônimo do século XVIII.
*As onze mil varas, Apollinaire.
*Crimes do Amor, Marques de Sade.
*Para ser caluniado, poemas de Verlaine.
*Bocage, Obras Completas.
*Cânticos, da Bíblia.
*Henry Miller, Obras Completas.
*Saló, filme de Pasolini
*Esse obscuro objeto de desejo, filme de Buñuel
Etc etc etc

A MOÇA TRISTE DA BOATE KALLIFA

No cyber café da augusta, o lindo travesti atualiza a sua página de anúncios; a


puta bloga, unha vermelha e dedógrafa. O tio, meio homeless, lua minguante
como elegante chapéu, style, sai do “nove canções”, cambaleante,
paudurescente, bolinações, as coxas ruivas, longas, o cinema.

O tio, cada dia um hotel, cada noite uma cama, adormece com o neonzinho
piscando um coração vermelho no branco do seu olho.

O tio sonha com a moça da beira daquela estrada perdida, São Sebastião do
Paraíso... A menina dos olhos mais verdes e mais tristes, cor de lodo de uma
existência escorregadia. A moça da boate Kallifa. Infinita tristeza n´alma, petite
mort, encomenda dos deuses.

O piercing na língua. O céu pela fresta da goteira, a lua em vírgula.

Um “eu te amo” tão precoce, mesmo depois do sexo bem pago. Ou terá sido o
assobio do vento, como no conto de Tchecov? O barulho dos caminhões no
asfalto impedem de ouvir outras promessas, chove elipses pelo buraco da
telha.

A vontade de morrer por ali mesmo, docemente, naquela calma de amante que
acabou de beber o veneno.

DE UMA BONEQUINHA DE LUXO E SEUS OLHOS LINDAMENTE


PINTADOS

Nada de acreditar nessa historinha de “você já é bonita com o que Deus


lhe deu!” Dorival Caymmi, saravá meu pai!, é uma beleza de homem, sábio,
mas esse verso, aqui neste catecismo, não soa bem aos ouvidos. Pinte esse
rosto que eu gosto e que é só seu. Com todos aqueles lápis que lhe fazem uma
criança brincando de colorir o desejo.

DOS PEITOS & SUAS FALAS

<“ai, meus peitos estão tão inchados e grandes”, diz ela, lindamente
menstruada>.

quando os peitos dela saltam da blusa parecem dizer coisas


independentemente da dona; as tetas tremem, aqueles segundos de existência
própria, capazes de convulsões nas retinas; quando os peitos dela saltam há
um novo discurso no mundo, falam mais do que toda a Escola de Frankfurt,
orações, diatribes, blasfêmias, bocage e suas obras completas; quando os
peitos dela saltam da blusa, meu deus, a humanidade paralisa, os cegos vêem,
levanta-te e anda, até Lázaro se anima; quando os peitos dela saltam da blusa,
um espetáculo, a carne trêmula, a metonímia da existência, a câmera escura, o
lambe-lambe da minha cegueira, o 3x4, rolleyflex, a digital, o Cristo Redendor
da nossa varanda, o instantâneo,o postal-mor, as coisas findas que a polaróide
guardou.
RAPADURA É DOCE, MAS NAO É MOLE NAO

O cabra mal começa, acabou-se. De tanto punch, de tão amargo, de tão


doce – prosa-rapadura, contraditória?!
A gente lê voando, priu, num sopro.
É porrada, mas sem ser chato. O cara tem a manha, a música que não
deixa esvaziar a pista.
Prosódia corrida que vem lá dos cafundós, lá de nós. Da moral dos
banzos que guardam o possível blues da palha da cana. Os gritos que dão em
Zumbis e negros que embranquecem, como no escravo do conto "Meu Negro
de Estimação". Fábula à Michael Jackson?
Marcelino Freire escreve como quem pisa no massapê, chão de barro
negro, como a fala preta amassada entre os dentes, no terreiro da sintaxe, dos
diminutivos dobrados nas voltas da língua, como o outro Freyre, o com "y".
É doce, mas num é mole não.
É música, de quem assobia e chupa a cana caiana das heranças. De
quem masca o bagaço das pestes, das chagas, dando um nó de pulha no falar
da casa-grande, a fala supostamente civilizatória... até hoje.
Assim falou Totonha, no seu canto XI: Morrer já sei. Comer também. De
vez em quando, ir atrás de preá, caruá. Roer osso de tatu. Adivinhar quando a
coceira é só uma coceira, não uma doença.
Aqui não tem o iluminismo besta.
Tem o pau-grande & a senzala embranquecida de desejos.
É doce, mas num é mole não.
Tem a assonância, música que se bole entre Luiz Gonzaga e Caymmi,
que vai deixando rastro, como num assobio da prosa esquecida e grande do
Hermilo Borba Filho.
E o “Solar dos Príncipes”, que conto! "Dialética do esclarecimento” para
os sugadores estéticos da pobreza parda, branca ou negra. Sorria, sorry,
periferia, você está sendo invadido pelas câmeras do cinema-verdade!
Na maciota, o Freire de Sertânia, Pernambuco, e da bagaceira de São
Paulo – não o Freyre à sombra das pitangas de Apipucos –, dá belas
chibatadas no gosto médio e preconceituoso, com gozo, gala, esporro, com
doce perversidade, sempre no afeto que se encerra numa rapadura.
É doce, mas num é mole não.
Esse é o mantra. Do Freire com “i” de Burundi e de Haiti, dos pretos de
longe e dos pretos daqui de perto, das pretas, de todas as negas entregues
aos tarados acidentais, das índias, das boyzinhas de Cuba e do Pina, da dor
mestiça, banzo de todas as freguesias.

*trata-se do texto de apresentação dos "contos negreiros", novo livro


desse escriba da porra que é marcelino freire. honra e tanto ser convidado a
cometê-la. e todo mundo no lançamento, que acontece hoje, dia 19, às 19h, na
livraria da Vila, ali na fradique coutinho 915. vamos celebrar mais essa grande
história da literatura brasileira sem mofo e cheia de punch. nos vemos na fila da
cerveja.
DA JUSTIFICATIVA ESPECÍFICA DA PEDAGOGIA DA MANGA

Chupar manga desde a aurora dos anos educa para o ato de sorver uma
buceta com gosto e delicadeza. Lambuzamento sem cerimônia. Vezes só um
fiozinho de fibra entre os dentes, como um pentelho; vezes o mergulho da face
toda sobre a vulva amada. Chupar com gosto, deixar o nariz pleno daquele
cheiro o dia todo, assim como o aroma preservado na ponta dos dedos. Evitar
lavar as mãos para explorar, nos passeios, hedonismo do flâneur, o olfato na
ponta dos mesmos dedos.

NO QUE CONCERNE AO LAPSUS LINGUAE

Aqui o lapso de língua diz respeito àquela criatura que preguiçosamente se


debruça sobre a vulva ou o pau e não se devota, limitando-se a um mero favor
sexual sem vigor ou alma. A burocratização do sagrado ato de sorver o objeto
de desejo. Falta de manga na infância, no caso dos meninos; falta de espiga de
milho cozido, no tocante às meninas.

O TERROR AMOROSO NOS TEMPOS DAS DIGITAIS

Um perigo para os adúlteros, traidores ou simples e bissextos puladores


de cerca essa coqueluche das maquininhas de fotos digitais. Elas estão por
toda parte, festas, restaurantes, bares, eventos... Como estão embutidas
também nos celulares, a brigada moralista, também onipresente, pode muito
bem enviar na hora, na bucha, para o email da suposta vítima do chifre, o B.O.,
o flagrante delito. Isso é o que se pode chamar, à vera, de tecnologia de
“ponta”.
Muito melhor e eficiente do que as velhas cartas anônimas por meio das
quais os Bovarys e as Bovarys de antigamente eram denunciadas. As
missivas, aliás, hoje foram substituídas pelos hotmails anônimos da vida –
quem-avisa-amigo-é@hotmail.com, candinha@hotmail.com...
Mas nada como a fotinha, embora possa dar em muita confusão sem
sentido ou lastro de verdade. Dependendo do enquadramento, um simples
beijo mais perto da boca pode render um rebuceteio dos diabos. Um olhinho
fechado _às vezes por charme ou cansaço_ pode ser o fim do mundo. Uma
tragédia nas páginas policiais. Cena de sangue num bar da avenida São
João...
Pior é que, além dos delatores _velhos Calabares do amor_, há ainda o
efeito Blow Up. Lembram do filme de Antonioni? [Na fita, um fotógrafo revela,
sem querer, um crime que estava rolando no exato momento em que disparava
sua câmera em um parque. O crime estava por trás do beijo de um casal].
Os fotologs são mestres no efeito Blow Up. Você vai ver as fotos de uma
festa e, pimba, lá está o(a) amado(a) em caliente fuça-fuça ou, pior, nos braços
de um(a) outro(a) qualquer. De cortar o mais lupicínico dos nervos de aço.
Infelizmente as maquininhas estão soltas por ai, sempre revelando,
como na canção bossanovista, enormes ingratidões. Antes os bons tempos da
filosofia de pára-choque, como leio agora no velho caminhão que sacoleja aqui
na frente da minha janela: “O que os olhos não vêem o coração não sente”.
PRA QUE DISCUTIR COM MADAME

Nunca fui muito chegado a madame Beauvoir. Sartre e sua náusea só


me pegaram no pós-sarampo adolescente. Não mais. No ramo, sempre joguei
mais no time do velho Camus, que por sinal foi um ótimo goleiro _que posição
mais existencialista e angustiante, não?!
Acontece que deixei Sartre, pra sempre, num quarto de pensão do
Recife, mas madame não. Ela me pegou depois de velho. E por uma razão
aparentemente, chinfrim, banal, emoções baratas: a correspondência trocada
com o escritor Nelson Algren, a quem amava de muito. Agora releio as
missivas no livro de “um amor transatlântico”. O mais sensacional é o exagero
amoroso, o tratamento _"meu muito doce e querido amado"_ hiperbólico e
teimosamente redundado e enfeitado por madame. Um amor fudido, um amor
da porra. Enquanto isso, o chato do marido JPS ficava comendo as aluninhas
da Sorbonne.
Nas cartas, desaparece a Beauvoir forte e destemida _querem mais
destemor do que a coragem de amar para valer? Te joga, madame! Ai damos
de cara com uma mulher lindamente ansiosa, derramada e brega como é o
amor de vera e os seus arredores letrosos: “Eu já disse que o amo? Oh, sim,
sim, sim, meu amor. Sua Simone”.
Ainda com os olhos marejados pelas “cartas transatlânticas”, peguei
bigu no metrô e fui ver “Madame”, de Manuela Dias, no Centro Cultural SP _só
até domingo. Livremente inspirado em Beauvoir, a peça escancara a dor e a
delícia de ser mulher, esse bicho nada simples, mas tão foda e maravilhoso
que até os supostos defeitos são adoráveis, vixe como eu amo esses labirintos
todos.
Pra me deixar ainda mais besta e feliz, Manuela mandou, no seu texto,
uma breve homenagem, sample afetivo, a um post desse escriba que vos
sopra o cangote _aquele textículo que fala da beleza do orgasmo fingido. Au
revoir, madame, foi linda essa semana em sua agradável companhia. P.S. a
autora da peça também tem o seu amor d´além mar.

DE COMO UM SEM-TETO COPULA DEBAIXO DE UMA MARQUISE EM


PLENA LUZ DO DIA
“Foder num tem lugar nem hora”. Me diz Marcos Antônio Pereira, 43
anos, que dorme com Lourdes Mariana de Souza Castro, 39, sob marquise de
rua Augusta, quase esquina com Fernando de Albuquerque, megalópole
paulista, cobertores paraíba sujos como o céu caborno que não dá chances ao
soneto de bilac. mulambo eu, mulambo tu. “Nosso barulho num é nada na
zoada da cidade, mar de carro”, prossegue. “Como ninguém presta atenção em
gente suja, só tem nojo e medo, podemos dar uma ´totinha´ à vontade”.
Donde “totinha”, no Pernambuco das antigas _de onde veio o casal-,
vem a ser a phoda com ph, as vias de fato, a conjunção bíblica e carnal,
daquelas de “fazer menino” e tudo, só para deixar o velho Malthus _e sua tese
da falta de batatas_ se revirando no túmulo da mesquinhez humana.
DO QUE DIZEM OS PEITOS PEQUENOS E OUTRAS GRANDEZAS DO
AMOR

Cesse tudo que a musa siliconada canta, que um peitinho mais alto se
alevanta. Furando a camiseta, como nenhuma outra teta; entregue à boca,
devoção quase materna; entre o céu e a língua, que o celebra; depois o outro,
o da esquerda, adonde bate a existência; o céu, a terra, a devoção, os deuses
que dançam naquela magreza; um peitinho dizendo pro outro, como num flerte,
lá vem o homem que nos merece, já pensaste?

NO QUE CONCERNE VÊ O OBJETO DE DESEJO COM AS LENTES DE


HELMUT NEWTON

Meus olhos para você são as lentes de Helmut Newton, quando miro os
teus passos, botas, chapéu, sobretudo, me sinto com a câmera de Helmut
Newton, a lhe mostrar para o mundo, os olhos das fêmeas & machos, você no
espelho, como naquelas clássicas para a Vogue, minhas retinas a dissecá-la,
cada gesto, elipse, cada pose.

DE QUANDO UMA ROSA NÃO É MAIS UMA ROSA NÃO É MAIS UMA
ROSA NÃO É MAIS UMA ROSA

Perdão, Gertrud Stein, mas uma rosa não é mais uma rosa, uma rosa,
uma rosa, como bem disseste lindamente. Aprendi o avesso dessa clássica
boutade recentemente, numa viagem de caminhão de Juazeiro do Norte a SP
[fins reporteiros e gonzolendas para a revista “V”].
Uma gazela que fez o test-drive pé na estrada, musa da rio-bahia, achou
desconfortável, mas viu uma grande vantagem: vai aumentar o número de
cabrons que mandam flores, como aquele amante à moda antiga da canção do
Roberto, como no fabulário dos velhos mais safados.
Tudo começou nas beiras de caminho, postos de gasolina,
caminhoneiros do Brasil. Uma rosa barata, três mirréis, que vira calcinha,
desconstruindo a lógica mais lírica, uma calcinha que dura no máximo um dia,
dissolve-se no ar , na phoda ou na boca, feito hóstia consagrada, amém.

[feira de santana,bahia, 2005]


DO CATECISMO DE DEVOÇÕES, INTIMIDADES & PORNOGRAFIAS

Existem várias maneiras de arruinar aquela grande noite. A noite dos sonhos, a
noite do meu bem, como canta Dolores Duran. Uma delas, além da ansiedade
que estala no corpo feito aqueles taxímetros dos fuscas de praça das antigas, é
tentar reinventar a roda, digo, o sexo, como se fosse possível recriar o Kama
Sutra.

Ao contrário do que supunha a lindeza do lirismo de Manuel Bandeira, as


almas até podem se entender desde o primeiro flerte, os corpos não.

Não tente reinventar o Kama Sutra nas primeiras noites...A dramaturgia da


cama não é para amadores. O sexo é uma coisa tão séria que só deveria ser
feito pelos devassos, pelos afilhados do Marquês de Sade e pela madre
superiora. Não é qualquer donzelo que resiste às firulas da alcova, a ginástica
das pernas, à coreografia dos braços e ao bate-coxa propriamente dito.

A verdadeira e religiosa pornografia é a intimidade. Ai sim, quando atingimos


esse nirvana, Bandeira volta a ter razão: podemos até dispensar as almas, pois
os corpos já se entendem. Ai passa a valer o verso do pernambucano: “Se
queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma”.

Com esse sexo cheio de pernas e mil e um malabarismos, coisa de quem


assimilou das lições taradas da revista “Nova” ou do cirque du Soleil, você
pode levar o seu parceiro a uma bela câimbra ou contusão mais séria. Coitado,
ele pode ter que fumar aquele cigarro pós-coito em uma clínica ortopédica ou
em um milagroso massagista japonês.

DO FABULÁRIO DAS ALMAS SIMPLES

“a essa hora, meu filho, casais já brigam, maiores barracos, maiores dê-erres
(discussões de relação) e tu ainda a espreguiçar-te”, disse o pequeno agricultor
ao filho homem. “levanta-te, vamos plantar flores”.

“mas meu pai, prefiro que o suor do meu trabalho sirva tão-somente para as
festas, casamentos, celebrações...”, esforça-se o rebento.

“se formos depender apenas de falsidades e efemérides morreremos todos de


fome, os casais brigados é que precisam de nós como abelhas carecem de
pólen”.

[holambra, 2005]
NOSSA HISTÓRIA DE AMOR NUNCA VAI ACABAR

Ih, carai, nosso amor pode até ter acabado, mas o juiz esqueceu de
apitar o fim.
Graças a deus a torcida foi simbora, os barbaros, digo, os idiotas,
pegaram um pau da peste, e nada foi resolvido.
Tudo foi so notícia em boca alheia. Igual sair em jornal, ou seja, nada.
Aliás, posso te contar dum grafite anarquista de Espanha,que li num banheiro
de viagem a Barcelona? “NÃO COMPRE JORNAL, MINTA VOCE MESMO!!!!!!”
Seis exclamações? Nelson rodrigues e o seu duplo. Ele amava esses
raiozinhos ortográficos! alias, eu acho q sonhei esse grafite...
O juiz.
trimmmmm
Nunca ouvido.
Ai fomos para a prorrogação.
O medo do goleiro diante do pênalti, Peter Handke... cabra la que bebe
e trabalha com W.Wenders...
Ai, pra completar, eu acho que já sou uma alma de mulher que ama
futebol. O juiz.
Placa subindo do acréscimo. Meu pau e o meu Santos em apuros, foda-
se robinho.
Vixi, ai quando eu achava que não tinha mais nada..
Pênalti mal-marcado.
Ela me empurrou, mas nem tanto.
Na risca da grande área.
Primmmmm, trimmmm, onomatopéia sem a rima do fim..
O juiz esqueceu de apitar, isso é futebol ou filme francês de Godard???

HAI-KAI DO ÚLTIMO TANGO

minha nega

contigo derreto

qual manteiga
DO ATO INTRÍNSECO E GRAVEMENTE DESORDENADO

<para o espírito elevado de henry miller, a quem me devoto todo santo


dia>

A crucificação encarnada.
Duas punhetas obrigatórias, no mínimo, até mesmo para os casados,
independentemente das phodas: uma na santa hora de pôr a matéria para
descansar; outra ao alvorecer. São duas sagradas orações ao corpo, com as
quais derramamos um tanto da violência das nossas glândulas mais primitivas.
Mais sagradas ainda depois que a Santa Madre Igreja reconfirmou, já no
papado de Bento XVI, a sua intriga com o ato do vício solitário, como faz
constar no item 2352 da novíssima edição do seu Catecismo: “Na linha de
uma tradição constante, tanto o magistério da Igreja como o senso moral dos
fiéis afirmam sem hesitação que a masturbação é um ato intrínseco e
gravemente desordenado”.

DE NOSSAS CHUVAS E DE OUTROS DERRAMAMENTOS

Porra, deu no “Estadão das Coisas”: PAULISTANO PERDE


ESPERMATOZÓIDES. Linha fina: nos últimos dez anos, concentração de
gametas nos homens de SP caiu um terço, segundo dados do Hospital Albert
Einstein. Tudo bem, ainda não há pânico, mas há o medo do reprodutor diante
da espécie. A pesquisa é baseada na coleta de esperma dos doadores da
cidade.
Ninguém sabe o motivo dessa redução da porra. A fumaça que desce
para os testículos, qual caxumba primitiva, apagando os vestígios dos moços?
A pressa que aniquila o verso? Essa mania escrota de homens acuados? O
macho está mesmo perdido diante da fêmea dos novos tempos? O
metrossexualismo precoce? A bela noite da cidade e a autoflagelação da
ressaca, como diz meu amigo ouricuriense Pedramérico? As OSS, o trio das
Orientais-Sem-Sentimentos que flanam na pista dos cassinos e das diversões
eletrônicas?
Ah, blow-up, blow job, calaboca e beija!
Ainda bem que viajo muito, penso cá dentro, em busca da fuleragem-
maresia ou simplesmente de viver de brisa, lição do tísico bandeira que pode
até enferrujar a alma, mas assopra o esqueleto.
Porra, cá entre nós, num P.S. de garoa, me derramo todo por ti, o dia
inteiro, nuvem de calças, enquanto tu mijas absinto e esverdeia a lente dos
meus óculos grandes, contra-plongé de vitrais dos teus grandes lábios.
OS JARDINS SUSPENSOS DAS PORNODEVOÇÕES*

No que concerne à arte de amar, à moda Bataille & Sade, não à


modinha de Ovídio _muito profilático. Boca suja e libertária, língua, cunilingus.
Chupar manga e sorver milho cozido como pedagogia formadora do sexo oral
para mocinhas e mancebos. Pornodevoções. Aos teus pés, a submissão
ocasional contra o politicamente correto, contra a divisão de tarefas, a favor do
escravo na alcova, por uma nova erótica, sempre, e em todos os sentidos. Uma
erótica sempre acima da econômica de Xenofontes ou dos dias que escorrem
como a menstruação _esperando Godot? Não. Todo mês esperando o Chico.
A pornografia contra o novo papa, a pornografia como hóstia consagrada, a
pornografia como nossos jardins mais secretos.

<do "catecismo de devoções, intimidades & pornografias", já no prelo da


Editora do Bispo, província de São Paulo de Piratininga>

BREVE SERMÃO DO CALABOCA E ME FODE

me segura, ó musa safa, que outro valor mais alto se alevanta..., aqui dentro
das calças; me segura, me oiça, peraí, que o velho benjamin me diz coisas,
como numa sessão espírita; fragmentos de qualquer discurso cortado pelo
barulho da metrópole..., como o vento na montanha gelada no conto de
tchecov; orai por mim, velho benjamin, desde aquele dia que te ouço... na luz
de fim de tarde alumiaste, a tez que me guia inté hoje, bem sabes. ; orai por
mim, velho benjamin, nos mapas dos corpos inertes, que se contorcem nos
leitos, como dores de arrecifes; me segura, menina, que hoje te pego na curva,
e a gente conversa bem muito, até suplicares, como bem fazes, “calaboca e
me fode!”; mesmo que seja no banheiro, do bar que expulsa foste, mesmo que
me bote uma carreira, pra cheirar nas tuas coxas, de modo que o nariz, na
vanguarda do desejo, escorregue coxa adentro, e tu me sugues para sempre.

ACERCA DO QUI BENE AMAT, BENE CASTIGAT

A expressão em latim é simples: quem ama bem, castiga bem. Aqui tratamos
não somente da posse imaginária sobre o território amoroso. Os buracos
d´alma são mais intrigantes. Aqui caberia perfeitamente os discursos da
perversidade como forma de manter a criatura amada colada à sua costela.
Além dos castigos físicos mais verdadeiros, como os tapas & tapinhas, os
pingos devotos da vela sobre a bundinha a ser devorada, o semi-estupro
carregado de álibis, o tango primeiro e único sobre taco da sala do amante
ainda estrangeiro aos olhos.
DA DEVASSIDÃO COMO POLÍTICA DA FÊMEA DE TODAS AS ERAS

a purificação de uma mulher só é possível na medida em que ela resolve


ser uma devassa, como entre o povo tártaro; devassa no sentido de não temer
o despudor nem a língua salivante da inveja; devassa como política libertária;
como entre os negros do Rio Gabão e da Costa da Pimenta, que entregavam
suas mulheres aos próprios filhos, a melhor das bênçãos;como no reino de
Judá; só a lascívia embeleza uma fêmea; só mesmo os povos embrutecidos
pela superstição, reza o marquês, podem acreditar no contrário; e acreditar no
contrário é ir contra a nossa própria natureza.

VIDA MODO DE USAR -SÉRIE MINIPERFIS DE VIZINHOS I

silas, barba branca de profeta, apanhava raízes e cascas medicinais nos


sertões da bahia. agora é livreiro/sebista aqui em sumpaulo. Sua livraria em
cima de uma árvore da esquina da augusta com a antonio carlos. ele conta.
aprecia mais botar os livros para conversar e fuder uns com os outros do que
propriamente negociá-los. “vem cá, reich, fica aqui em cima da biografia do
matarazzo”, ele bodeja, rindo do possível encontro do mestre do sexo com o
símbolo-mor da burguesia paulista. “t.s. eliot hoje vai trocar idéias com ezra
pound”. e lá os dois bardos se colam na lombada. os “morangos mofados”
[ainda da edição cantadas literárias] de caio fernando abreu despencam na
“fome de amor” da fogosa anaïs nin... uma big-loira peituda folheia “o fio
perigoso das coisas”, idéias para possíveis que antonioni transformou em
contos. folheia mas não leva, mas tem cara de quem sabe das coisas. silas se
ausenta e ninguém quer roubar aquele tipo de mercadoria. pego “fome de
amor”, da mesma anaïs, para tomar uma cerveja lendo ali no solzinho da
calçada. henry miller fica desolado e nos mira da janela do puteiro. “seu
guimarães vai campear com eucydes...” Silas prossegue com a sua arrumação
na calçada, mas é possível vê-lo mesmo é entre os galhos da árvore, com a
sua prosa pendurada como folhas e sua barba de profeta brincando com as
nuvens.
BRECHOSSEXUAL, SEU PASSADO O CONDENA

Depois do metrossexual e do übersexual _que também se lambuza de


creminhos, mas é mais homem, como o clichê George Clooney, sabe?_,
estamos diante do brechossexual, aquele que simplesmente se veste com
roupas à moda antiga, estica de brechós.
E o problema desse novo tipo de macho é exatamente esse: seu
passado o condena.
Ele não tem nem culpa, mas os trajes,roupas de desconhecidos e até
de respeitáveis defuntos, acabam não deixando a clássica herança, à Brás
Cubas, “que a terra lhe seja leve”. Muito pelo contrário, dizem os vermes que
roerão o seu cadáver.
O novo termo surgiu num banquete madrugador e nada platônico entre
JR Terron, Ronaldo Bressane e este q vos sopra o cangote. Bressane, no
caso, seria o legítimo representante da referida neobossa, reza a nossa
calúnia.
Mas confesso que já vivi um tanto na pele de um brechossexual
também. Até que me veio a hora do espanto. Minha linda camisa colorida, que
cobria uma velha dor, começou a aprontar. Nesses tempos de vidas passadas
em alta, pensei logo nas feições do morto que um dia a vestiu. O vento, numa
noite em que nem uma folha se mexia, balançou logo as cortinas.
Parecia conto G.K. Chesterton, escriba de malassombros tantos.
Eu com uma bela afilhada de Balzac, serena e sábia no ritmo do desejo,
e a camisa sem querer sair das minhas costelas. O diabo da estampa tinha
vida própria e se agarrava ao meu esqueleto do semi-árido como em espinhos
de cactus.
Até que arranquei a desalmada veste, vupt, e joguei com força no chão.
No que a camisa, vocês não acreditam, ganhou vôo próprio e dependurou-se
sozinha lá no cabide ao longe. “Vôti”, balbuciei, e ali mesmo se foi o ser erétil
que me habitava. Pelo vôo da camisa, ou o defunto era goleiro dos bons, à
Mazurkievski, ou trapezista, e do Cirque du Soleil, no mínimo.
E histórias do gênero não faltam. Um amigo comprou um sapato que
sempre queria ir para o lado contrário. Ele queria “tomar uma” e o pisante
desobedecia. Devia ser de um religioso, um respeitável abstêmio, ou de um
mauricinho babaca morto precocemente, quem sabe.
As fêmeas também são vítimas de tais marmotas. Uma amiga aqui de
São Paulo comprou um vestido que subia,com ou sem vento, na primeira
esquina. Nas festas, então, algo soprava de baixo como na cena clássica de
Marilyn Monroe. Teria pertencido,por acaso, a Del Fuego, à Rose de Primo no
auge, à Marquesa de Santos?
Ah, velho e bom Kardec, não apenas os corpos, mas também as vestes,
carregam mistérios que os homens modernos desconhecem.
DE UM PAPO COM XICO SÁ

<por Joca Reiners Terron>

Eu caí do telhado
Gato é assim mesmo: bandido
"Gosto de gato porque não existe gato policial", dizia Buñuel
Fritz the cat era um gato frito
Às vezes acaba o amor pela mulher e o gato sobrevive
Acaba o amor pelo rabo da mulher e o gato continua
Extensão das danadas
O amor pelo gato ou o amor do gato pelo rabo da mulher?
Gato lambe buceta, são dos nossos
Os bichos gostam de lamber buceta e assistir fodas
Os viados trash botam sardinha no cu pros gatos lamberem
São do tempo em que o correio era levado pela diligência e perseguido por
índios
São os sambistas do mundo animal
De terno branco de linho
Nos becos
De caso com a lua mas sabendo que ela é um amor destinado ao fracasso
Lua só na sarjeta
Lua cheia refletida na enchente

[mais & melhores terrons no blog http://www.hellhotel.blogger.com.br/ ]

DA PEQUENA MORTE PROVOCADA POR UMA LADY SCARPIN

A pequena má só usa scarpin. E diz “só faço o que eu quero”. Pisa com o seu
elegante scarpin na costela de onde veio. Afasta de lado um pouquinho a
calcinha e mija nos óculos esverdeados e gigantes do sr. que a admira aos
seus pés. “Só faço o que eu quero”. Ela se vê, sádica e orgulhosa, no espelho
do quarto do motel de beira de estrada, meio do caminho entre eles dois. Por
uma brecha da janela quebra um coraçãozinho vagabundo de néon, dá mais
um gole na boca da garrafa de conhaque e desce lindamente com a buceta
sobre a face do velho safado, de modo a por instantes matá-lo.
PLONGÉ, CONTRA PLONGÉ, O CINEMA, O AMOR

Nada como aquela olhadinha que ela dá quando lá embaixo.


Ainda e pra sempre, da série “detalhes tão pequenos de nós dois”. A vida se
resume a observar, microscópio de eros, rei roberto e nelson, a mulher e o seu
drama.
Nada como aquela olhadela, sobrancelhas assanhadas, mirando lá de nossos
países baixos cá para cima do nosso cocuruto alumbrado.
Tão lindamente sacana, ah, que nega a minha nega, derreto-me como
mantchega!
Ela quer saber se estou gostando, claro que estou mortinho ali no pré-gozo.
Tem um orgulho, “vê como faço bem feito e com gosto”, ali naquela olhadinha
plongé, contra-plongé, depende de quem vê...
Como eu gosto, ela diz, posso?
Aperto com força os seus cabelos, resvalando numa fração de segundo para
um carinho no rosto, lado esquerdo, com o lado B da mão e dedos,
quiromancia e mistérios.
Ela desce lá naquele cantinho fronteiriço, desenha a história do olho com riscos
da língua em círculos, lambe a última costura da minha pobre existência,
nirvaniza-me, petite mort, e assina nossos batismos lindos com lambidas
góticas, assim como quem escreve inocentemente na areia, coraçãozinho
flechado, e o nome de quem aposta, como se o amor fosse um jogo do bicho.
Não resisto à olhadinha lá de baixo, vem cá, estou longe e perto, meu amor,
tudo em volta está deserto, tudo certo, como na canção do 2 e 2 são cinco.
Como nosso universo é tão perfeito aqui na cama, só na cama, lá embaixo, na
cama zen, japão do amor, horizontalizo-me, para sempre, viro réptil, nunca
mais me levanto, nunca mais me levanto e ando, odeio meus Lázaros internos,
agora eu quero mais é nadar no seco, melhor jeito de navegar aos teus pés, e
de vez em quando, quer saber?, afundo as mãos nos arrecifes e te dou um
peixinho, como aquele do conto de Virgílio Piñera, que aprisiono nas
profundezas sujas das nossas existências.

<*Republicado, a pedidos, da fase pre-blog do Carapuceiro>


DO USO DAS PÍLULAS DA PAUDURESCÊNCIA ARTIFICIAL*

Nada contra a química a serviço da vida, como reza o mantra-lobby da


indústria;
vovô viu o Viagra. É a lição da nova cartilha. Lindo que ele possa reviver seus
dias de Casanova;

que o tiozinho-loki elimine a sua insegurança, encontros pioneiros com


desafiantes gazelas;

que o Cialis seja leve 36 horas depois; que o Levitra e tantos quantos forem...

mas os novos tempos põem minhocas na cabeça das moças: serei eu ou


apenas a pílula mágica?;

o priápico pela própria natureza também perde muito com tal isonomia
farmacêutica;

ele confessa: “agora serei ´mais um´ apenas”;

mas não seremos nós os moralistas certos para tal missa;

muito menos é o nosso papel nesse humilde catecismo;

que seja simples, pois: que as picas subam, ora, ora, e as bucetas umedeçam.

<*mais um texto escrito agorinha para o "catecismo de devoções, intimidades &


pornografias", no prelo da editora do bispo www.editoradobispo.com.br >
PARA REABRIR O APETITE DAS MOÇAS

Nada mais bonito do que uma mulher que come bem, com gosto,
paladar nas alturas, lindamente derramada sobre um prato de comida, comida
com sustança. Os olhinhos brilham, a prosa desliza entre a língua, os dentes,
sonhos, o céu da boca. Ela toma uma caipirinha, a gente desce mais uma,
sábado à tarde, nossa doce vida, nossos planos, mesmo na velha medida do
possível.
Pior é que não é mais tão fácil assim encontrar esse tipo de criatura.
Como ficou chato esse mundo em que a maioria das mulheres não come mais
com gosto, talher firme entre os dedos finos, mãos feitas sob medida para um
banquete nada platônico.
Época chata essa. As mulheres não comem mais, ou, no mínimo, dão
um trabalho desgraçado para engolir, na nossa companhia, alguma folhinha
pálida de alface. E uma tal de rúcula? Vixe!
A gente não sabe mais o que vem a ser o prazer de observar a amada
degustando, quase de forma desesperada, uma massa, um cuscuz
marroquino/nordestino, um cabrito, um ossobuco, um barreado, um bife à
milanesa, um torresmo decente, uma costela no bafo.
Foi embora aquela felicidade demonstrada por Clark Gable no filme ''Os
Desajustados'', quando ele observa, morto de feliz, Marilyn Monroe devorando
um prato. E elogia a atitude da moça, loa bem merecida, abafa o caso.
Toda preocupação feminina agora está voltada para a estatística das
calorias, as quatro operações da magreza absoluta, ditadura da tabuada, lero
lero, vida noves fora nada. É como se todas fossem posar para a ''The Face''
do dia para a noite, fazer bonito nos editoriais de moda, vôte! Mal sabem que
isso não tem, para homem que é homem, quase nenhuma importância.
François Truffaut, o francês cineasta, padrinho sentimental deste
cronista de costumes, já alertava, em depoimentos registrados em suas
biografias, o valor insuperável das mulheres normais e o seu belo mundo de
pequenas imperfeições. Tudo sob medida das nossas taras sem réguas, sem
balanças, sem trenas.
Além do prazer de vê-las comendo, coisa mais linda, pesquisas recentes
mostram que as mulheres com taxas baixíssimas de colesterol costumam ser
mais nervosas, cricris, chatas, dão mais trabalho na rua, em casa, no bar,
pense no barraco!
Nada mais oportuno para convencê-las a voltar a comer, reiniciá-las
nesse crime perfeito.
Às fogazzas, aos pastéis, ao cabrito assado e cozido, ao sanduíche de
mortadela, ao lombo, de lamber os lábios, ao chambaril, ao churrasco de
domingo para orgulho do cunhado, que capricha na carne e incentiva os
pecados. E aquela fava, meu Deus, com charque, enquanto derrete a manteiga
de garrafa, último tango do agreste!!!
O importante é reabrir o apetite das moças, pois homem que é homem,
como diz meu velho mantra, não sabe sequer _nem procura saber_ a diferença
entre estria e celulite.
SE V. FOR ONDE V. FOR EU VOU TAMBÉM

Hoje, dia 29 na folhinha, encontro aquele puta cara do Fellini, o Cadão


Volpato, sabe?, para umas cantadas literárias. A poeta Micheliny Verunschk,
lirismo puro nas veias, nos acompanha nessa viagem ao fim da noite. Todos
leremos textos inéditos e coisas & loisas. O sol deu as caras, talvez seja
Primavera, apareçam por lá e nos paguem cervejas, fumaças, vinhos, que a
vida é nada.

O dito Encontro de Prosa & Poesia e vice-versa, organizado por Heitor Ferraz e
Marcelino Freire, rola no Sesc Consolação, ali na dotô Vila Nova [Vila
Buarque, SP].

Amanhã, 30, mesmo horário, tem André Sant'Anna & Fabiano Calixto
em prosódia com Fábio Weintraub.

O resto, como diz Shakespeare, na letra homônima do referido e sempre vivo


Fellini, “é dormir, morrer, sonhar talvez”.

MULHER DE TRINTA -OU UM DEDO DE PROSA COM O VELHO BALZAC

Nada como uma legítima afilhada de Balzac.


Por mais que o apelo das ninfetas seja sempre renovado nos sermões
da mídia, as balzaquianas sempre terão o seu lugar mais nobre no altar das
nossas devoções, intimidades & lindas pornografias.
O melhor de tudo isso é que a discípula de Balzac esticou lindamente a
sua beleza e sobrevida. Se no século XIX, o conceito ficava restrito a uma
mulher de 30 anos, não mais que isso, o balzaquianismo hoje, com o avanço
da ciência e dos cosméticos, começa dos 40 para cima, idade em que elas
estão “no ponto” para uma madureza ainda mais bela e tentadora.
Desde a Lolita de Nabokov que o encontro de um homem maduro com
uma gazela em flor rende bons dramas, teatro, cinema, novelas... além de
riscar, num bater de cílios, o fósforo do desejo no cocoruto de mocinhas,
senhores grisalhos ou cafas propriamente ditos.
Reparem no caso do tio (Edson Celulari) e a viçosa Lurdinha (Cleo
Pires), no folhetim de Gloria Perez, “América”.
Mas Lurdinha chega a ser interessante não apenas pela contagem dos
anos. A morena da praia vale porque não é simplesmente uma ninfeta. Trata-
se de uma lolita.
Para ser ninfeta, basta ter pouca idade e frescor; para ser uma lolita é
preciso ser uma menina má, impiedosa, de modo a ferver a testosterona no
juízo alheio, como no modelo clássico e nabokoviniano.
Carece ter, como na lição de “Mon amour meu bem ma femme”, peça
bregolírica de Reginaldo Rossi, “esse corpo de menina, e esse jeito de mulher”.
Uma ninfeta pode ser tão-somente uma menina chata, cri-cri, cheia de
nove-horas e catchup até na alma. Raramente uma ninfeta se torna uma lolita,
são poucas, embora muitas acreditem que estão sendo o máximo.
Mesmo assim, com toda maldade de uma lolita como Lurdinha, nada se
compara a uma afilhada de legítima de Balzac. Jamais vale a pena trocar uma
mulher dessa faixa, com seu ritmo e o seu luxo de existência, por duas de
17,18, 20, como sugere a clicleria do ramo.
Muitos homens caem nesse conto óbvio da pouca idade, largam
precipitadamente as suas fêmeas, enfiam-se debaixo dessa arapuca amadora
do desejo como um pássaro amador e faminto. Seria o inconsciente incendiado
pela invenção do incesto?
O pior é que a explicação talvez não seja tão freudianamente sofisticada
assim. Homem é tão retardado e demora tanto para crescer que, mesmo
depois dos 40, se encanta com gazelas que têm, de alguma forma, a sua idade
mental, a sua falta de madureza.
Ah, nada mais irritante do que a pressa de viver e o sexo fast-food das
ninfetas.
Não têm paciência sequer para um jantar demorado, com drinques e
boa conversa. Não têm a linguagem amorosa do diálogo e estão longe de
saber o que seja minimamente um companheirismo.
Não têm sabedoria nem mesmo para dormir de “conchinha” ou
“colherzinha”, o lindo sono dos amantes de verdade.
Ah, velho Balzac, comigo a beleza tem mão contrária: troco fácil, fácil,
uma dupla de gazelas por uma só criatura da tua costela.

ESTRATÉGIA DE BAR -OU FAZ DE CONTA QUE SOU O PRIMEIRO

Ailton não é apenas um bom garçom. É especial. Criatura abençoada.


Especialíssimo. Do tipo que cria laços de estima e consideração com os
fregueses. Do tipo que ouve, aconselha, amansa os traídos, acalma as
mulheres de bêbados infiéis, bota ordem na casa, devolve uma certa paz ao
universo.
Melhor ainda, Ailton é do tempo em que garçom sempre sabia o
resultado do futebol. Do tempo em que torresmo não fazia mal, do tempo em
que os homens não tinham medo da sorte nem do colesterol.
Toda essa “sabença”, como ele trata a soma de sabedoria com
experiência, é servida de bandeja à freguesia.
No boteco, ele é tudo ao mesmo tempo: sócio-proprietário, caixa,
segurança e DJ _e só toca vinilzão de samba antigo. Adora João Nogueira.
“Oh, minha romântica senhora tentação/ não deixes que eu venha sucumbir/
neste vendaval de paixão”. Essa toca até furar o disco. Principalmente quando
tem alguém chorando as pitangas amorosas. Entre tantas serventias, esse
negócio de amor e dor é com ele mesmo. É mestre, rima e solução da parada.
Eu mesmo já fui perdidas vezes consolado pelo cara. Dor de corno,
daquelas que não passam com cachaça ou aspirina, é com ele mesmo. Vai no
ponto, na veia, um neurocirurgião do amor. Primeiro o afago, a compreensão e
o ouvido ao alcance do freguês. No fundo musical, põe logo o vinilzão com
“Peito Vazio”, de Cartola _``Procuro afogar no álcool a tua lembrança/ mas noto
que é ridícula a minha vingança...” Dois, três conselhos depois a gente está
pronto para outra, digo, outro chifre.
Numa dessas sessões “macho em crise”, Ailton me deu uma dica genial.
Notou, sensível que é, a minha dificuldade em descolar uma nova costela, uma
nova deusa para enfeitar o meu pobre muquifo em desalinho. Uma dica
importantíssima. Simples, simples de tudo, até boba, mas de uma sabedoria e
tanto. Uma beleza de estratégia.
“Seguinte, meu amigo, chega de saudade... Senta aqui, nessa primeira
cadeira do boteco, que a vida vai sorrir pra ti”, disse, arrumando uma mesa
bem na calçada, quase na rua, de frente para o crime.
Sem deixar a bola cair, emendou:
“Ora, compadre, todo dia tem uma mulher que sai para o bar, revoltada,
muito revoltada, e diz para ela mesma: ´HOJE EU VOU DAR PRO PRIMEIRO
QUE ENCONTRAR”.
Desde então procuro sempre ser esse `primeiro´ homem
estrategicamente bem localizado que pode tirar proveito, com toda delicadeza
desse mundo, da fúria justa e caseira de uma mulher.

CAMPANHA NACIONAL PELA VOLTA DO CAFUNÉ

Dos dengos femininos, ou historicamente femininos, o que mais nos faz


falta, é o cafuné.
Nos dias avexados de hoje, não há mais tempo nem devoção para os
delicados estalinhos no cocoruto do mancebo.
Pela volta imediata do mais nobre dos gestos de carinho e delicadeza.
Nem que seja pago, como o sexo das belas raparigas dos lupanares, mas que
devolvam vossas mãos às nossas cabeças.
Pela criação imediata da Casa de Cafunés Gilberto Freyre, como me
propõe, em sociedade, a amiga Maria Eduarda Risoflora Belém. Ótima idéia a
ser espalhada por todo o país. Milhares de casas, guichês, varandas, redes
debaixo de coqueiros, sofás na rua... Tudo a serviço dos breves e deliciosos
estalinhos dos dedos das moças.
Gilberto Freyre era um entusiasta do cafuné e a ele dedicou páginas e
páginas. GF, aliás, escrevia como quem dá cafuné, prosa mole, ritmo dos mais
sensoriais. Como também assenta palavras outro Freire, sem o estilingue do
Y, o Marcelino de “Contos Negreiros”.
Que machos & fêmeas sejam treinados, em um programa social de
emergência, para reaprenderem o hábito do cafuné.
Melhor: que seja feita uma campanha de saúde pública. Ah, quantas
doenças de fundo nervoso seriam evitadas, quantos barracos de casais seriam
esquecidos, quantos juízos agoniados seriam libertos!
Sem se falar no erotismo que desperta o dengo, como anotou outro
sociólogo, o francês Roger Bastide, no seu belo ensaio “Psicanálise do
Cafuné”. Pura libido.
Delícia de se sentir; beleza de se ver. O cafuné de uma mulher em outra,
ave palavra!, puro cinema, para além muito além do lesbian chic.
Como era comum, na leseira de fim de tarde, nos quintais e nas
calçadas.
Ao luar, então, sertões e agrestes adentro, era puro filme de Kurosawa.
O resto era silêncio.
Ai que preguiça boa danada, ai que arrepio no cangote, quero de volta
meus cafunés.
Viver de brisa, como na receita de Bandeira, numa rede na rua da
Aurora, sob a graça dos dedos de uma morena jambo ou de uma morena
caldo-de-feijão.
Como pode uma criatura, como esses rapazes de hoje, passarem pela
vida sem provar do êxtase de um cafuné?
Pela obrigatoriedade do cafuné nos recreios escolares, nas missas, nos
cultos, nos intervalos dos jogos de qualquer esporte.
Não é possível que se condene toda uma geração a viver sem cafuné.
Eis uma questão de segurança nacional. Tão importante como aprender a
assinar o próprio nome. O cafuné, aliás, é a assinatura em linda e barroca
caligrafia de mulher.

TRATADO GERAL DOS CHATOS, O REMAKE

Aqui vai uma livre atualização do clássico almanaque “Tratado Geral dos
Chatos”, que o escriba Guilherme Figueiredo pôs no mundo há mais de meio
século. Cá estamos com uma nova lista destas criaturas capazes de nos
subtrair a paciência e nos deixar tão inquietos quanto as vítimas do Pediculus
púbis, como são conhecidos cientificamente os insetos homônimos que atacam
as partes mais baixas e indefesas de um cristão de fé.
Bons e inocentes tempos aqueles em que os chatos se resumiam aos tipos
agrícolas, como o chato-pra-chuchu, ou às criaturas crentes na meteorologia,
como os chatos-de-galocha, que já saíam de casa prevenidos contra qualquer
enchente, vento ou maré. Haviam ainda os menos ofensivos, como os da
espécime aforismática _sempre com uma filosofia de pára-choque na ponta da
língua para importunar.
O certo é que eles se multiplicaram como os invertebrados homônimos e hoje
dominam o país, os lares, as repartições, os logradouros públicos, as salas de
espera... Existem os chatos-24 horas, estes vampiros da paciência alheia,
como diria o bruxo do Cosme Velho _só para citar outro tipo fenomenal de
chato, que é aquele que sempre inicia uma conversa com a inseparável
locução “como diria...”
Enfim, só nos resta ser mais chatos ainda, o que tenho buscado nestas
linhas, afinal de contas ainda não nasceu o ser humano capaz de chatear um
chato sem que portasse a mesma peçonha. Como perdemos, nesses tempos
corretos, o gosto pelo assassínio e maltratos do gênero, sobra a este cabeça-
chata que vos impacienta mapear os maçantes mais visíveis e
contemporâneos. Ei-los:

Megasuperultrahype – O chato mais veloz do Oeste. Trata-se da criatura


atualizadérrima nas últimas tendências e apostas do mundinho dos modernos
da noite e da mundanidade em geral. Sabe a nova gíria dos clubes de Londres
e já baixou no computador a última faixa do DJ paquistanês pós-electro que
será a sensação no inverno novaiorquino. Na hora de falar, apresenta-se como
um Guimarães Rosa clubber, ninguém compreende um só vocábulo.

Fêmea sitcom – Aquele tipo metropolitano metido a chique que acha que a
vida é um seriado americano, um Sex and City sem fim. Nos salões,
principalmente nas bocas-livres, está sempre com um prosseco à mão. Adora
vernissages.

Chatos de época - Rabugentos, inconsoláveis, sempre a resmungar pelo


borogodó que se foi. Não é uma questão de idade, ataca também raparigas em
flor, como as gazelas que fazem um tipo “virgens suicidas” e ouvem Renato
Russo e Smiths como se fossem mademoiselles do século XIX.

Garçonete-cabeça – Aqui encarno um rápido chato de época para lembrar o


tempo em que garçom vestia preto e branco, com gravatinha borboleta, o
chopp chegava gelado, ele sabia o resultado do futebol e ainda nos servia de
ombro para uma dor amorosa de ponta. Hoje, nos bares de moda, as
garçonetes são lindas, descoladas, podem passar a noite a discorrer sobre
cinema coreano, mas o serviço que é bom... nécaras, como diz o meu amigo
Sabião Bestunes, o monstro de Sabará.

Mario de Andrades digitais – Pessoas que escrevem e-mails enormes, como


as famosas cartas do modernista paulistano. Esse homem matou muitos
pobres e desnutridos carteiros de tanto fazê-los gastar sola de sapato, pois se
correspondia com o país inteiro... Embora desse a impressão a cada
interlocutor que aquela troca de cartas embutia uma linda e única afinidade
eletiva. Todos os anos vem à tona um novo carregamento de missivas do
gênero. Escreveu para tocadores de coco do Nordeste, índios, mitos
amazônicos, gorilas...

[a lista continua em futuras edições deste papiroblog]

ABUNDANS CAUTELA NON NOCET*

Isto é uma alerta, breve missiva ao bispo:


Greve de fome não é brinquedo de menino. Em Cabrobó, PE, menos
ainda. Terra da melhor maconha destas plagas, portanto terra da mais
genuína e oca das laricas.
Mesmo para quem não traga, o fastio vai pro beleléu, simbora.
Digo isso ao imaginar esse pobre bispo, que resolveu fazer abstinência
logo nas beiradas daquele maconhal do velho Chico.
Mesmo para quem não fuma, o apetite dispara, na hora. Lá, quem
respira já embute a larica.
Periga é o bispo virar comida, como o velho Sardinha, lembra-se?,
lindamente devorado pelos índios, de batina e tudo, epa!,deixa dilço!
[Se bem que os jesuítas a-do-ra-vam esse tipo de sacrifício,
nera?,esqueciam até a lavagem cerebral das suas cartilhas.]

*O excesso de cautela não prejudica.


HOMENS MENTEM, MULHERES ILUDEM

No varejo ou no atacado, quase todos nós já fomos ou continuamos corruptos.


Independentemente de gênero e de classe. Não carecemos nem citar aqui a
sociologia mais picareta ou os grandes cronistas de usos e costumes, como o
nosso venerado Padre Carapuceiro, para chegar a estas pobres conclusões.
Quando à mentira, que tem pernas curtas mas bem torneadas como as de
Lurdinha, também não há dúvidas: todos somos mentirosos.
A diferença, porém, ai porém, é que as fêmeas não mentem
simplesmente, elas têm o dom de iludir, coisa mais sofisticada, como na
canção. Os machos, coitados, simplórios, abusam amadoristicamente deste
recurso tão natural quanto a água e o óleo de peroba.
É isso mesmo, até os melhores exemplares da raça masculina cometem
as suas trapaças, dissimulações, subterfúgios, maquiagens na face da quase
sempre insuportável realidade. Do presidente da corte superior ao
trombadinha. A diferença é que uns ainda coram, enquanto outros nem se
incomodam com as faces infestadas por cupins.
Todo esse nariz de cera, esse lero-lero da cumeeira dessa crônica, para
dizer que folheei dia desses, na espera do dentista, “101 mentiras que os
homens contam _e por que elas acreditam” (ed. Ediouro), da norte-americana
Dory Hollander, um clássico da psicologia barata. Aliás, nem no dentista foi, o
fato deu-se no consultório do homeopata, quer dizer, no analista...
Minto. Comprei mesmo o livro no sebo, por dever de ofício, e o devorei,
olhos de traça. Que mentira que lorota boa, seu escriba de meia tigela, seu
Zelig, que fica inventando desculpas para as leituras mais vagabundas.
Dane-se, comprei, li e gostei, pronto.
Melhor assim. E quer saber, é um clássico da psicologia popular
universal. Está para a fofoca de salão como “A Interpretação dos Sonhos” [by
Freud] está para a psicanálise. São frases que podem ser ditas tanto em
Manhattan como no sertão do Cariri. Dona Hollander fez uma pesquisa séria,
ouvindo muita gente, sobre nossas mentiras, nem sempre sinceras, e nossas
piores promessas.
Vai de um inocente "estou cansado demais" a um irresponsável "eu te
amo" _dito na hora errada à mulher errada, no lugar errado”. Começo, meio e
fim e a nossa cuca ruim, como na canção do príncipe Ronnie Von.
Por que elas acreditam, então? A psicóloga arrisca várias respostas.
Uma delas: as mulheres acham que ceticismo e romantismo não podem andar
juntos, sob pena de estragar as coisas.
Dona Hollander nos separa em dois blocos: os perigosos e, digamos,
aéticos, que abusam da mentira, que enganam por "esporte e lucro", de forma
inescrupulosa; os mentirosos ocasionais, que se mostram dissimulados sob
pressão e desviam a realidade com pequenas lorotas, artifícios para se livrar
da "fúria feminina".
Nessa categoria estão também aqueles que poderíamos chamar de
canalhas líricos, inocentes galanteadores como o personagem Bertrand
Morane, no filme "O homem que amava as mulheres", do velho Truffaut,
padrinho sentimental deste cronista.
Dublês de d. Juans, os Bertrands apenas enfeitam, douram a realidade
nas suas peregrinações em busca das mulheres.
Seja qual for a sua classificação, a leitura do livro pode ser feita de forma
séria e compenetrada, na linha auto-análise, ou apenas como um delicioso
chiclete para a mente, ora.
À guisa de tira-gosto, ficam ai algumas casquinhas e caldinhos de
fraseado:
"As únicas fantasias sexuais que tenho são com você".
"Você é maravilhosa, merece alguém melhor do que eu".
"Relaxe, é apenas uma amiga".
"Vou deixar minha mulher".
"O que me atrai em você é a sua mente".
"Não, não acho você gorda".

CONTRA O DESMATAMENTO DAS FÊMEAS

Que modinha de fêmea mais sem graça essa das bucetas (há quem prefira a
asséptica, científica e impenetrável palavra “vagina”!) diagramadas,
desenhadinhas, parecendo aquelas firulas de estádio em dia de jogo-festa da
seleção brasileira! Parecendo os desenhos na grama do Serra Dourada, coisa
mais parnasiana e danada. Ai que saudade da velha Playboy de Sônia Braga,
e mais ainda da classe de Claudia Ohana, aquela linda mata atlântica dos
tempos coloniais, floresta negra, dantesca, amazônica,labiríntica, amém!.

Chamam a tal modinha até de "depilação artística", reparem só no descalabro.


Prefiro recorrer ao Ministério Público e denunciar esse vergonhoso crime de
desmatamento pubiano. É o maior desastre ecológico do país desde que os
franceses e portugueses começaram a roubar toras de pau-brasil -aliás, crime
com pau no meio não desperta o menor interesse deste Carapuceiro.

Estão acabando com as nossas matas mais nobres. Em nome de


diagramações ridículas, muitas vezes só um tufinho de nada de pêlo, espécie
de buceta-Cebolinha... buceta-reco, um absurdo qualquer assim. As
depiladoras que inventam moda vibram nas revistas do gênero. As clientes
pedem coraçõezinhos, letras iniciais do namorado ou do urso, um anti-mimo
sem menor apelo erótico, morte do lirismo, fim do mais lindo rebuceteio.

Toda essa onda começou com as irmãs J., brasileiras com salão da vanguarda
depilatória em Nova Iorque. Estão fazendo as bucetas das celebridades e
endinheiradas americanas. Virilhas de grife. Todas lisinhas e sem graça... e
norte-americanas, pra completar. Como se fossem desenhadas com moldes,
pequenos arabescos, caminhos de rato, como se chamavam os erros dos
barbeiros de antigamente.

Por um Green Peace das bucetinhas.

Que modinha mais sem graça. A fêmea pode muito bem depilar-se, ter os seus
ditos cuidados íntimos, mas sem mexer muito nessa flora de valor inestimável.
Sem desmatar-se, sem descobrir os mistérios do mundo, sob pena de ver
esgotados os seus mananciais, aguinhas e caldinhos do mais puro desejo.

[republicado, a pedidos, da fase site do velho carapuça]

FAÇA CARA DE ABANDONO, VOCÊ ESTÁ NA CARENÇOLÂNDIA

Bem-vindos ao reino da Carençolândia. Ou Carencialândia, como rezam os


anais mais antigos.Bem-vindos, vírgula, nós todos, salvo melhor juízo, já
habitamos este país imaginário.

Aqui se fala o carencês, o dialeto da necessidade. Tanto a fome de viver,


automática, quanto a precisão mais desértica, o ronco da alma e da carcaça, a
existência que pede água.

Eis a pátria almodovariana do ataque de nervos, do fogo nas entranhas e do


calor na bacurinha.

Até as gazelas em flor estão numa ansiedade louca. Querem resolver a vida
num bater de cílios, peruinhas de luxo, como se a vida tivesse jeito. “No meu
blog ou no seu?”, suspiram.

As crianças nunca tiveram tão histéricas com as suas mamadeiras-game. Até o


velho Herodes já não passa de um bem comportado senhor de batinas, sempre
a sussurrar um inocente "vinde a mim as criancinhas!"

Na Carençolândia todos andam com placas gigantes, homens-sanduíche, com


um enorme PEDIDO DE ATENÇÃO, como um Messenger ao vivo, fraquezas e
ossos à mostra.

Haja carência. Os escritores e candidatos a escritores escrevem cada vez


mais, ainda bem, e carecem de leitores. Os mesmos 100 leitores, como dizia
Sthendal, disputados à tapa na velha Carençolândia. Ah, os escritores vagam
como os fantasmas na poeira de fim de mundo da Carençolândia, como
estivessem naquele livro mexicano das terras de Pedro Páramo.

Cândida, uma amiga, viciada em Carma-Cola e orientalismos tantos, já passou


por todas as religiões e correntes, todas os ramos da yoga... agora me escreve
para dizer que, mesmo com um pé na Índia, haja bhangra no iPod, nunca
conseguiu ser expatriada do reino da Carençolândia. <LEIA AMANHA SOBRE
OS MACHOS CARENÇOLANDESES>

Carentown,capital da Carençolândia, 12 out/2005


NEON VERMELHO PISCANDO NA ALMA

Diz ai, velho e safado Bukowski, que eu, free-style, vou seguindo teu mote: “o
sonho de um homem é uma puta com um dente de ouro”*

Por que os homens, mesmo os que têm mulheres incríveis, fodidas,


procuram as putas?
É uma pergunta tão antiga quanto o cuspe. Uma indagação tão
respeitável quanto a clássica "o que querem as mulheres?''.
Uma das melhores respostas sobre o assunto foi a do monstro sagrado
Jack Nicholson.
Por que, afinal, um cara charmoso, foda, rico, e interessante como ele,
capaz de ficar com as melhores fêmeas desse mundo, ainda apelava para tal
expediente?
O velho lobo do celulóide mandou no ângulo:
"Ora'', grunhiu, barítono de ressaca, "não pago somente para que essas
respeitáveis mulheres se desloquem até a minha casa. Pago caro, sim, pela
possibilidade de poder mandá-las embora na hora em que eu bem entender''.
Seria a grande vantagem do sexo pago sobre o sexo com as ditas
"normais''. Embora a gente saiba que com nenhum tipo de mulher o almoço é
de graça.
Mesmo sábio, o diagnóstico Nicholson ainda não abarca toda natureza
dessas moças de vida nada fácil. Uma puta é gigante, do tamanho de uma
mulher do velho Crumb, por embutir as melhores proezas de uma fêmea: tem o
colo quente de mãe, o sexo capaz de matar a fome de viver do mais atávico e
esquelético dos homens de qualquer deserto, a paciência do melhor dos
terapeutas e..., o melhor, não tem a submissão chata das Amélias!
Sim, já ia esquecendo, grande Jack, quem pensa que eles querem
dormir conosco? Mas quando elas nos escolhem, meu velho, para o sono dos
justos, nos transpõem sonhos molhados, sonhos lindos como filmes de Lynch.
De joelhos, pois, para a devoção sob a luz do poste da rua Augusta, nos
inferninhos pulverizados de eucalipto ou nas alcovas de luxo das impagáveis
Belas da Tarde, Catherines, Severines, raparigas e quengas legítimas de todas
as praças.
Como são lindas!
As putas de verdade, claro, por vocação, em cujas almas e retinas
piscam, desde nascença, a luzinha vermelha. As de verdade, autênticas. Não
essas garotas neoliberais ao extremo, que fodem para pagar faculdade, para
comprar roupa de grife... Parecem mulheres com taxímetros, bucetas de flat,
essas não entram na minha casa nem no lar doce lar do velho amigo
Nicholson.

<*no livro ESSA LOUCURA ROUBADA QUE NÃO DESEJO A NINGUEM A


NÃO SER A MIM MESMO AMÉM, da editora 7 letras, trad. Fernando Koproski
>
VESTIDA PARA MATAR? DEMORÔ!

O que fazer enquanto a sua costela, sua fêmea, mulher, amante ou


namorada se arrumam para sair?
Aí está uma das grandes questões da humanidade. Sorte tinha o velho
Adão, que pegou o mundo ainda sem muitas opções no vestuário,ainda livre da
praga da indústria fashion.
Mesmo assim, Eva demorava horrores para escolher a parreira mais
fresca, a mais enfeitada, aquela com detalhes e nervuras que lembram a
costura Lacroix, o babado Valentino, os usos & costumes Galliano...
O que fazer enquanto ela põe roupa e tira roupa, mulher alterada, doida
demais, peça por peça do armário?
Com que roupa eu vou, pro samba, pro for all, pro rock, pra house ou pro
tecno que você me convidou?
Põe e tira, vai ao espelho, pede a sua opinião... Liga para pedir a opinião
do amigo gay _afinal de contas você, velho macho da serra das Capivaras, não
entende nada dessas modas & modinhas_, volta ao espelho, muda só a parte
de baixo, agora muda só a parte de cima, troca o brinco, o colar novo, “ah,
esse não combina”...
Não adianta você dizer que está ótimo, dizer que nunca viu mulher tão
linda, dizer que nunca a viu tão deusa, dizer que é a mulher da sua vida, a que
se veste melhor, a de gosto estupendo, a mais francesa das francesas, a
bonequinha de luxo posando na frente da Tiffanys, a Audrey das Audreys,
Catharenin Deneveuve, Juliette Binoche...
De nada adianta. Ficamos falando sozinhos nesse momento ímpar do
mulherio.
O que fazer?, então, como perguntava o velho Lênin antes do tsunami
neoliberal e capitalista?
Relax, meu jovem, relax, caro mancebo, tranquilidade, cabrón. Como
não tem remédio e nem nunca terá, o jeito é retomar tempo perdido a nosso
favor. Já tive mulheres que demoravam o tempo de um jogo de futebol _com
prorrogação e morte súbita_ para escolher a “roupa certa”. Vi muitas decisões
de campeonato graças às dúvidas fashion da costela amada. Gracias.
Putas escritores, como Joyce e o velho Hemingway, deixaram grandes
obras graças às demoras das “patroas”. Grandes inventores, alô, Grahmbel,
responde, idem ibidem. O humorista Grouxo Marx agradeceu publicamente à
sua mulher por deixar-lhe livre para criar ótimos textos nestes intervalos. Os
exemplos são muitos. Meu amigo Pereira, velho porco chauvinista da Móoca,
volta à infância e monta castelos e castelos de legos _isso quando não treina
tiro ao alvo no quintal de casa, onde mantém sua velha coleção de aves raras
empalhadas.
E quando ela, além da dúvida da roupa, diz que está gorda? Aí já é
bronca demais para uma só crônica, meu chapa . Fui e fica para a próxima.
MEU IRMÃO MATOU UM CARA

Meu irmão,q eu achava que não faria mal a uma mosca, tomou umas e,
por resposta a velhas humilhações públicas de um polícia, matou o cara. Foi
uma merda, minha mãe ficou louca, a cadeia era podre e eu gastei o que tinha
e o que não tinha de grana _só para impedir que o matassem, na cela imunda,
por encomenda da PM porca. Só de envenenamento foram várias tentativas.
Uma tropa de choque chegou a invadir, na madruga, a casa da minha
mãe, ameaçando a família, inclusive crianças, netos, sobrinhos, sobrinhas...
Se não tivesse arrumado a porra de uma arma, o máximo que meu
irmão teria feito era sair no tapa, aplicado uma surra, uma sova, varejo da
honra _essa bobeira da macheza demasiadamente humana. Mas catou fácil,
fácil, ligeiro, a porra de um revólver. Estava feita a desgraça.
Por essas e por outras,grito com o velho Hemingway, adeus às armas!

QUEM SONHA NA SESTA TEM NUVENS COMO DOCE DE


SOBREMESA
agora te miro, minha sophia loren,zolhinhos boiando, nuvens fiéis, que
enganam os homens, algodão doce, que cá de baixo, tentam entendê-las,
como se retinas... as desenhassem,
quase e sempre, o próprio drama
[das sobrancelhas] das mulheres.
vida: tudo é goteira. te miro boiando sobre o drinque cowboy, no
molhado de nós, sob luz fulêra,
[da fluorescente amarela,]
mas agora me escapas, pela cortina,
estampadinha, meu deus,
que só meus zolhos. que só meus zolhos estourados, como gomos de
ácidos
[[[das antigas.]]]
cortina vagaba de hotelzinho de beira de estrada. lua minguante pelo
buraco da janela, virgulazinha de lua sobre o conhaque. bem antes de virar
ponto e vírgula na sarjeta
[refração pós-domecq.]
os caminhões no asfalto abafam nossos possíveis
sins e dúvidas
foda-se a elipse.
cadê sam sheppard,
que iria cruzar contigo
esse paraíso?
vejo ao longe
mario bortolotto,
que nos traz o que sobrou de deus, um sorriso deveras, do que
inventamos como deus,
e algo dito assim, numa voz de neblina, goela de tom waits, mas com
segunda voz de nick cave:
porra, vocês tão parecendo terra de cemitério, só querem comer gente!
Vamo beber, daqui a pouco é alvorada-blues lá na Roosevelt!
DO CAFAJESTE E DAS SUAS CARICATURAS
O cafajeste ou é sexy ou é risível. Não há outra saída para este animal,
bem soube fazê-lo o velho e bom Ruy Guerra. Ou tem a manha ou torna-se
caricato na primeira piscadela. Ou é Paulo Cesar Pereio ou apenas um ensaio
de Didi Mocó Sonrisal. Didi é gênio, ora, mas é macaco de outro galho.
O cafajeste amador é uma piada. Quer comer todas as gostosas e a
nenhuma se devota. Blefe. Não sabe, nem nunca procurou saber, que no amor
e no sexo, não existe mensalão nem milagre. O cafa à vera não é nada óbvio.
Sabe, inclusive, que nem só de gostosas vive o homem. É capaz de
devotar-se àquela mulher que ninguém dá nada por ela. E de repente descobre
que trata-se de uma foda sem precedentes, um vulcão nunca dantes
despertado para as artes da alcova.
Para o cafa de verdade, não há feiúra muito menos boniteza.
O cafa amador parece vestir-se sob encomenda de uma figurinista.
Camisa aberta, corrente, malandragem-fake, essas coisas. E sempre um pé no
metrossexualismo ou na tendência.
No cafa sexy, qualquer peça lhe cai bem, pois a ciência da sua pegada
está no olho e no drinque caubói, claro.
O cafajeste sexy entra no saloon e não atira para todo lado. Não gasta
balas à toa. Sempre escolhe um alvo.
O caricato e amador gasta as balas do colt até com as mulheres dos
amigos, embora não tenha arma para matar sequer uma formiga.
O falso cafa é “garganta”.
Comendo ou não comendo, diz que comeu e espalha a lenda. Seu
caminhãozinho não perde a viagem... Mas areia que é bom de verdade...
O cafajeste sexy é discreto.
Acredita sobretudo, e caso a caso, na arte da conquista, na devoção
pura e simples. Nem que seja por uma noite apenas e nada mais. Diante dele,
toda mulher se sente uma deusa,uma Vênus.
O canalha amador faz falsas promessas. O cafa sexy, predador
evoluído, sabe que a fêmea moderna pode muito bem estar querendo _estarei
gozando, como diria uma profissa do telemarketing!!!_ apenas foder.
O cafa caricato se acha. O cafa sexy sabe que hoje está por cima e
amanha pode muito bem estar por baixo _mas que seja, pelo menos, de uma
bela buceta, claro.
No catecismo do cafa sexy, não há nojinhos nem proibições. O amador é
asséptico e limpinho.
O cafa sexy enfrenta e atravessa lindamente os mares vermelhos da
menstruação da fêmea com vigor.
Quando enfia os dedos numa buceta, o cs _cafa-sexy_ passa o dia sem
lavar as mãos. Para ficar lembrando ali o tempo todo. Ta numa reunião de
trabalho, mas sempre com os dedos a tocar levemente a napa; ta na fila, e os
dedos a tocar a napa; ta na missa e não pára de fazer o sinal da cruz...
Melhor ainda: o cafa sexy quando se arrisca na cozinha é mestre em
comidas sem nenhum requinte e com muita pimenta e alho. Haja alho. Aí,
como na receita no meu amigo Joca Reiners Terron, passa o dia com a mão
direita cheirando a buceta e a esquerda cheirando a alho.
São realmente os dois melhores cheiros que um homem pode usufruir
na face da terra.
O cafa sexy, senhores, se pudesse, voltava para o útero por dentro da
buceta da mulher mais linda da cidade, como na crônica do amor louco de
Bukowsky.
O amador se contenta, muitas vezes, com uma foda virtual no
Messenger. Sem cheiros, sem odores, nada visceral.
Ele ainda não sabe que para curar um amor platônico é preciso uma
bela trepada homérica.

<*texto também publicado na revista Sexy, de aniversário, que está


saindo das bancas quase nesse instante>

O MACHO CARENÇOLANDÊS, ESSE CARENTE-MOR

§ Bravas fêmeas expulsas do paraíso por um deus misógino fundaram a


Carençolândia, no tempo em que tudo era apenas o fogo e o verbo. Mas foram
os machos, porém, que se firmaram, nos dias que correm, como os mais
legítimos cidadãos carençolandes. §§ Cuidado, frágeis!, eles estão perdidos,
sejam metrossexuais, übersexuais ou brechossexuais [aqueles que só usam
roupas com encosto de brechó]. §§§ Fracos, não agüentam o tranco das
mulheres mais destemidas. Arrotam macheza nos botecos, mas logo que põem
as patas em casa uivam para a lua minguante e sonham com uma chuva de
coleiras. §§§§ O macho carançolandês não passa meia hora separado, não
vive sequer o luto amoroso da resoluta que aplicou-lhe um conga no meio da
bunda - a padoca mole e farta que dantes já prescrevia o chute. Ele vai lá e
agarra a primeira que passa, nem que seja um manequim de gesso, como
ocorreu ao meu amigo Sizenando, aquele mesmo que trabalhava como
galhudo-mor nas crônicas de Rubem Braga. Enquanto o manequim era levado
de um lado a outro da rua, para uma troca de vitrines, ele abofelou-se com a
loira gessificada e a entope de gala até hoje. §§§§§ Bem-vindos ao reino da
Carençolândia, esse golfo inevitável da existência. §§§§§§ Sim, na
Carençolândia ninguém vem a passeio e o turismo é proibido. §§§§§§§ A
Carençolândia é uma espécie de Mali, de Níger, de Burkina Fasso, de Guiné
Bissau, de Chade... d´alma. A Carençolândia é o vale do Jequitinhonha
metafísico que chia como catarro em nossos pulmões e tórax _diga 33!!!
§§§§§§§§ Carençolândia não tem sequer feriado. §§§§§§§§§ Um programa
populista e eleitoreiro de saúde pública agora trouxe Prozac, Lexotan, Frontal e
zilhões de remédios tarjas pretas para este reino. Os compromidos foram
postos em toda a rede de água de Carençolândia... Adicionados ao sal, ao
açúcar... Mesmo assim não houve um sorriso sequer, nem mesmo do gato
lisérgico de Alice.

[Carentown, capital do reino da Carençolândia, 17 de outubro do ano da


graça de 2005]
ARMADO, EM DEFESA EXPLÍCITA DO PATRIMÔNIO NACIONAL

Ora, ora, ora, macacos do Jardim Botânico me mordam diante de tamanha


bananice. Deu na Reauters, para espanto até do meu gato Menezes, que
lambeu os bigodes, ao longe : “A sensualidade e a beleza da mulher carioca
não poderão mais ilustrar os cartões postais do Rio de Janeiro. A Assembléia
Legislativa do Estado aprovou nesta terça-feira um projeto que proíbe a
veiculação, a exposição e a venda de cartões postais da cidade com fotos de
mulheres de biquíni.”

Como diria o velho e bom Haroldo Barbosa, roteirista do “Balança mas não
cai”, entre outros planetas humorísticos: “Ri, macaco, ri!” No que ele mesmo
completaria, ligeiro: “O macaco está certo!”

Era só o que faltava por estas plagas. A autora do projeto é a deputada Alice
Tamborindeguy, tucana de pedigree. Fala, dona Alice: “A exposição de uma
imagem feminina de forma apelativa, totalmente dissociada de qualquer
campanha planejada, que só tem servido à degradação da imagem do nosso
Estado e do nosso país, contribui para que façamos parte da lista de países
que exploram o turismo sexual”.

Ainda causou lá fora, na balança comercial, um prejuízo do cão ao latifúndio


dorsal dos tristes trópicos, sempre lastreado em moedas da mais finíssima
mestiçagem: “Ao colocar nos cartões postais recortes de figuras femininas em
trajes sumaríssimos, geralmente de costas, essas pessoas prestam um
desserviço ao nosso país".

Ora, se o sexo pago não for com meninas menores, que mal faz? Quer acabar
com a mais antiga das profissões? A Embratur passou séculos vendendo só
bundas lá fora, agora querem acabar com as bundas por decreto, na
canetada,como se todas as popuzadas virassem fêmeas-tábuas de
uma rubrica para outra?

O cinema só vendeu bundas, Jorge Amado só vendeu bundas, o samba _fecha


na prosxxxhaska!_, idem ibidem, o funk, vixi, cada gostosa, cada cachorra,
coisa mais linda, é ela que passa, no livre balanço a caminho do morro, a
caminho do mar...

Como diria o bom velhinho Ricúpero, ex-ministro da Fazenda, lembra?,


naquela entrevista da Globo que vazou o off pela parabólica: “O que é ruim a
gente esconde, o que é bom... a gente mostra!”.

Ora, ora, ora, a bunda continua sendo a nossa pièce de resistence, que mal
faz? É a bunda que inclusive encobre a guerra, quer dizer, a chacina
premeditada do Estado contra a favelândia, que resiste como pode, apesar das
rosinhas, apesar dos cesares.

Ora, ora, se ja venderam até o subsolo pátrio, as jazidas, a vale, por que não a
bunda como nosso último tesouro de sierra madre, nosso patrimônio natural de
fato e de direito? É, velho e bom Monteiro Lobato: sobrou apenas a bunda e a
Petrobrás. Tu ficas com o petróleo, tá combinado? É, podiscrê, em matéria de
bunda sou nacionalista, pego em armas, faço uma nova batalha de Itararé!

Ora, ora, ora, dona Alice e seus políticos chatos, arautos da moralidade no país
do bundalelê, deixem pelo menos as bundas das moças em paz; nossa eterna
vanguarda sempre será, dialéticas à parte, nosso glorioso derrière!
DA NOVA VERSAO DO MANUAL DE CIVILIDADE PARA AS MOÇAS NA
ESCOLA*

Não diga: "É a maior puta da terra."


Diga: "É a melhor menina do mundo."

Não diga: "Ela deixa-se enrabar por todos aqueles que a masturbam."
Diga: "Ela flerta um pouco."

Não diga: "Ela é uma lésbica raivosa."


Diga: "Ela não flerta de jeito nehum."

Não diga: "Eu a vi ser fodida pelos dois buracos."


Diga: "É uma eclética."

Não diga: "Ele dá três sem tirar da buceta."


Diga: "Ele tem o caráter muito firme."

Não diga: "Ele gozou em minha garganta e eu na dele."


Diga: "Trocamos algumas impressões."

Não diga: "Seu pau é demasiado grosso para minha boca."


Diga: "Sinto-me bem pequena quando converso com ele."

Não diga: "Ele fode muito bem as menininhas, mas não sabe enrabá-las."
Diga:" É um simplório."

Não diga: “Cadê o gel lubrificante”.


Diga: “Com o carinho de sempre”.

Não diga: “Você é o homem da minha vida”.


Diga: “Você me conforta bem lá dentro”.

Não diga: “Não sei viver mais sem você”.


Diga: “Adoro a sua pica dura”.

Não diga: “Vou chupar o seu pau”.


Diga: “derrama o mingau dos deuses”.

[levemente sampleado de pierre louÿs, o texto faz parte do "catecismo de


devoções, intimidades & pornografias", no prelo da Editora do Bispo
www.editoradobispo.com.br]
AH,FUDEU!

Da agonia da phoda, dos pés que não batem direito lá embaixo, do pau e da
buceta que parecem dois inimigos clássicos, dos membros inferiores e
superiores desajeitados, dos corações que batem mas não tocam de ouvido,
das almas que podem até se entenderem lá nas nuvens, dos corpos que
tilintam fogo mas não interagem, da dramaturgia da cama como fim de um
grande e interessantíssimo prefácio.

VÊ QUE GRAÇA: A CULPA, DE NOVO, É DA CACHAÇA

Sobrou para a danada. O alcaide da província de São Paulo de


Piratininga, Joseph Sierra, anunciou neste Phynados: bares, botequins e pés-
sujos dos phodidos da zona sul _leia-se além dos jardins Ângelas e quetais_
da cidade terão que cerrar as portas e grades às 22h.
Os promotores do Ministério Público, que apreciam o bouquet de um
“bom vinho”, e as volantes policiais, que apreciam o bouquet de uma veia de
sangue de um phodido pobre e preto mesmo, completam o pacto pela lei seca
imposta ao misererê-nobis.
O sermão das Otoridades é o de sempre: pobre bêbado só faz merda.
Pobre bruaco mata. Caim, aliás, reza a moral deles, só mandou Abel dessa
para uma melhor porque tinha ingerido umas cangibrinas bíblicas.
Botar a culpa na danada é práxis da elite-elíptica desde a Revolta da
Cachaça, no Rio das antigas, quando taxaram a água-que-passarinho-não-
bebe para mandar mais patacas para a Corte. A reconstrução da Lisboa pós-
terremoto deve muito à nossas moendas, pois. [Opa, quero o troco, a
recompensa em absynthum, faz favoire].
Até o inverossímil e tonto Larry Rohter, correspondente na aldeia Tupy
do New York Times, culpou a danada pelo governo PTecostal de Lula, ora, ora,
ora.
Sempre sobrou e sobrará para a danada. Ou desculpas popularescas
do gênero, ora, nós é que bebemos vosmecês que perdem as estribeiras. Ah,
elitezinha maldita da gota!!!

CONTRA AS FRAUDES GASTRONÔMICAS

Pela cozinha punk. Três acordes: arroz, feijão e bife.


Instintos básicos, básicos instintos, como num show clássico.
Senhores mestres cucas, senhores(as) chéfs metidos(as), por favor,
devolvam meu arroz com feijão, tenho pressa, posso?
Devolvam meu arroz com feijão e fiquem com os seus molhos cítricos,
tâmaras, figos, berinjelas, lichias...
Arroz, feijão... no máximo um bife por cima, a mistura possível.
Pela gastronomia punk, três acordes, na pressão.
Projeto Orígenes Lessa: o feijão e o sonho. Deu gorgulho na utopia mas
o apetite está são e salvo.
Arroz, feijão e aquele ovinho estrelado, quente, derretendo, que nossas
mães tão bem colocavam por cima de tudo, como um cobertor sobre as nossas
pernas _hoje bem maiores e abestalhadas, correndo para o nada.
Chega de nouvelle cuisine, chega de gororoba pós-tudo, esse fetiche da
classe média por qualquer fraude de grife.
Esses molhinhos, vôte! Qualquer canto que a gente chega, nego vem
com nove-horas, até nos piores botecos já temos molhinho de fruta sobre
nosso pobre bife.
Por favor, devolvam o meu pé-sujo.
Devolvam o meu bife ileso, minha chuleta, minha costela, meu torresmo.
Pela cozinha três acordes.
Pela cozinha “faça você mesmo”.
Pelo livre arbítrio da larica.
E viva o “arroz-de-puta”, o prato feito a partir das sobras completas da
geladeira.
De sofisticado, apenas a buchada de bode, que de tão nobre está mais
para a alta costura, estilo John Galliano, do que para a arte dos pratos. Nesse
item do cardápio, a linha que tece o bucho, que por sua vez veste os miúdos, é
pura classe, manto de Penélope.
Arroz.
Feijão.
Bife.
No máximo um ovo por cima.
A harmonia estrelada, materna ou da moça que ainda acredita nos
dotes. Aceita tíquete?
Chega de molhinhos enganosos. Cozinha é feito mulher: ou já vem
molhadinha por desejo ou nos aplica um belo orgasmo fingido!

O CINEMA, CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS

Aos poucos o Nordeste-coitadinho-cordial-folclórico-e-lesado vai


ganhando uma nova feição no cinema. Quem talha tal obra, qual xilo
na aroeira, é a geração pós-kinema do sertanejo-corisquiano nascido
sob o baptismo de Glauber Pedro de Andrade Rocha, Vitória da
Conquista, Bahia, primeiro filho de Adamastor Bráulio Silva Rocha e
Lúcia Mendes de Andrade Rocha. Ponto.
O filme universalíssimo "Cinema, Aspirinas e Urubus", do
pernambucano Marcelo Gomes, em cartaz a partir desta sexta (11 na
folhinha), é uma lindeza neste sentido de assassinar, pelas mãos
sangrentas da sensibilidade, a imagem do Nordeste-oxente-bichim.

Mas a lindeza do filme de Gomes está longe de acabar na


esquina deste parágrafo.

Na companhia da nova fita de Beto Brant, “Crime Delicado”, que


será motivo de futura prosopopéia neste papiro, os urubus assassinam
também, Antonios das Mortes que são, uma certa histeria típica do tal
do cinema nacional. Falo daquela agonia danada pra narrar o estado
das coisas.

O filme de Gomes é simples como dois homens em uma boléia


de caminhão. Um brasileiro dos sertões (o ator João Miguel, foda!), um
alemão dos estrangeiros cujo batismo também esqueço. E um ceuzão
nublado de destinos e aves elípticas _ os urubus aqui são os pássaros
de Hitchcock que não careceram arruaçar, preferiram a botuca, a
espreita, a tocaia da morte-morrida-antes-dos-trinta.

“DIRIGIDO POR MIM, GUIADO POR WALTER BENJAMIN”,


poderia dizer o diretor, se metido fosse, na pegada da filosofia do
pára-choque que roadmoveia-se entre o que se imagina de comum
entre o semi-árido e Frankfurt. Ah, o que há de comum nas diferenças
também é simples: o que está guardado dentro do peito dos homens,
tanto os que viajam como os que se trancam.

PAVLOV, LOVE LOVE

sou teu cão e me babo

quando balanças

...o rabo!!!
DE COMO SE TORNAR UM CHATO EM 10 LIÇÕES _SEM MESTRE

I – Pare de beber ou de se drogar. O ex-viciado é um chato-mor por


excelência, só perde para o ex-gay _a propósito, três coisas que nunca
veremos sobre a terra: ex-gay, enterro de anão e cabeça de bacalhau;

II – passe a ser um apreciador dos “bons vinhos”, daquele tipo,


afetadinho que cheira a rolha e sente o bouquet... E para acompanhar o “bom
vinho” escute uma “MPB de qualidade!” ou um "bom jazz!". Se quiser acender
um bom charuto, fique à vontade, lhe cai muito bien.

III – tenha um filho e saia por ai a pregar que se trata de um gênio


precoce;

IV – faça um curso, qualquer um que seja, na Casa do Saber;

V – adote o Politicamente Correto, de modo a não suportar sequer


alguns mitos em torno dos anões _como a história de que têm mesmo órgãos
ajumentados, totalmente fora de sintonia com a natureza verticalmente
prejudicada;

VI – paute a sua conversa de salão pela capa das revistas semanais;

VII - compre um táxi e encha o saco dos passageiros com a sua histeria
fascista;

VIII – cite o Jabor;

IX – compre uma galocha;

X – faça listas como esta, faça listas como o Nick Hornby (“Alta
Fidelidade”), faça listas de qualquer naipe.

UMA CRIATURA DE FÉ ROGA AOS CÉUS

São Paulo é uma generosa Babilônia por vários motivos. Mas agora há pouco,
agorinha mesmo, 17h10 desta sexta, 18, os céus da cidade se superaram:
bastou eu pensar em tomar um drinque... para que uma tempestade desabasse
com todas as pedras de gelo no meu copo longo. Foi só abrir a janela e pronto.
É, como me sopra o Grouxo, todos nós precisamos crer n´alguma coisa. Eu
creio que vou tomar um uísque.
DORMINDO COM OS TIPOS INIMIGOS -CATALOGANDO OS MACHOS II

HOMEM-HORTINHA _ Aquele mancebo que, ao receber as moças


elegantemente para um jantar, usa o manjericão cultivado na própria hortinha
que mantém no quintal ou na área de serviço. Cultivar o próprio manjericão não
é exatamente o defeito do rapaz. O problema é que ele passa duas horas a
discorrer sobre o cultivo da hortinha, os cuidados, o zelo, uma chatice só, para
não dizer outra coisa. Uma amiga, coitada, conheceu um destes exemplares
que cultivava até a própria minhoca usado como “fator adubante” da própria
hortinha. Corra, Lola, corra, corra mesmo, corra enquanto é tempo!

HOMEM-DO-PREDINHO-ANTIGO_ Aquele sujeito que ou é gay ou é


um metrossexual enrustido. E o pior não é habitar um predinho antigo. O que
mais dói é quando ele pronuncia, como toda a afetação desse mundo, que
mora num “predinho antigo, charmoso”. Você entra lá, leitora do meu coração,
e avista logo umas revistas chiques estrangeiras espalhadas pela sala, tipo
“ID”, “Wallpaper” e quetais. O cara entende de iluminação indireta, tem cada
abajur que só vendo. É um tipo sobretudo do Sudeste, mas também já começa
a se espalhar pelo Sul e Nordeste. Fuja Lola, fuja.

HOMEM-ÔMEGA 3 – Trata-se do camarada-saúde, preocupado em


combater os radicais livres e encher o saco da humanidade com as suas
receitas, dietas e bulas. Adora um salmãozinho, que ele pronuncia “salmon”,
claro, como os mais frescos exemplares da raça. Jamais vai enfrentar um bom
chambaril pernambucano ou barreado paranaense. Buchada de bode que é
bom, vixe, passa longe. Até se benze, assustado, diante de um belo cozido de
domingo. Adora um frango. Noooossa! Voa Lola e não se fala mais disso.

HOMEM-ONG – O sujeito onegê é o que há. Todo politicamente correto,


benza-te Deus. Adora um abaixo-assinado, uma passeata, e está sempre
morto de decepcionado com o governo, qualquer governo. Sim, ele acredita na
humanidade, na responsabilidade social, no terceiro setor, na arte como
redenção dos pobres... Se você reparar, leitora do meu coração, ele quase
levita, de tão puro, de tão bom. Dá um “ninja” nele e some, Lola, some que é
roubada-mor.

HOMEM-CHORINHO – Ele odeia tudo que é do estrangeiro, mesmo


que seja um velho e bom rock´n´roll do Lou Reed ou do Elvis _tanto o rei como
o Costello. Mas é capaz de passar horas, dias, quinzenas, como se estivesse
numa festa igual à do filme “Anjo Exterminador” (de Buñuel), só ouvindo uma
“MPB de qualidade” ou “zum de besouro ímã” do gênero. Finja que vai no
banheiro, Lola, e dê área.
CATALOGANDO OS MACHOS -UTILIDADE PÚBLICA PARA FÊMEAS

Tudo bem, bravas fêmeas, os homens são todos iguais, já sabemos.


Alguns, no entanto, são bem mais perigosos que os outros. Em mais um
serviço de utilidade pública, este cronista de costumes expõe aqui sua vitrine
de carapuças. Um mostruário que vai além, muito além, do apenas moderno,
como diria minha mucama branca que ganhei de um velho e bom
gilbertofreyriano arrependido. Eis alguns tipos, noves fora a categoria
metrossexual (já devidamente tratada neste papiro) que merecem cuidados
especiais:

HOMEM-BOUQUET – aquele macho que entende de vinhos finos, abre


a garrafa, cheira a rolha, balança na taça, sente o “bouquet” da bebida... O
tipinho não perde um programa do Renato Machado no GNT, entra em sites
franceses do gênero, reúne os amigos para aporrinhá-los com o tal “bouquet”...
Mais uma advertência: o mesmo elemento costuma apreciar também o que ele
chama de “um bom jazz”, uma “música de qualidade”... Corra, Lola, corra de
criaturas desse naipe.

DA INVEJA DO CHUVEIRINHO QUE TOCA O CÉU DAS MOÇAS*

Ah se pudéssemos, durante o sagrado ato da devoção oral, usar a língua como


jatinhos de água que morrem mansamente sobre o clitóris! Pingos que
descaem com precisão depois de tocar nos céus das negas.
Ah insuperável chuveirinho, desgraçado chuveirinho, amansa-moça, amansa-
moça da porra. Nuvens ponta-cabeça que valem por uma penca de homens,
mesmo os melhores, mesmo os devotos, mesmo os chegados. Que inveja de
pênis que nada!, a inveja da humanidade é desse pequeno chuveiro que faz
misérias, cócegas n´alma etc, zolhinhos fechados etc etc etc.

*do “Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias”, disponível a partir


do dia 25 deste onzembro que avança. Lançamento que desvirgina e põe no
mundo a Editora do Bispo www.editoradobispo.com.br , a mais novinha da
praça.

DA SÉRIE HISTÓRICA

Amor e tecnologia, um falso abraço. No princípio era apenas o bina, e


matou o velho mistério do telefonema mudo e anônimo. Ofegante, a criatura,
apaixonada, ligava só para ouvir a voz do obscuro objeto de desejo do outro
lado da ilha. Ou mandava uma música do Rei, de preferência a mais romântica:
“Vou cavalgar por toda noite, numa estrada colorida...”
É, o telefonema dos desencorajados do amor, esse clássico das
antigas, está praticamente enterrado.
Depois, chegou a telefonia móvel. Uma revolução na crônica de
costumes. O fim de muitas desculpas canalhas. Tipo aquele homem que
tomava um chá de sumiço e voltava, batom até na alma, com os álibis mais
inverossímeis desse planeta.
Outra alvissareira função do celular é fugir dos mal-assombros sentimentais.
Você quer ir numa festa e sabe que aquele infeliz pode estar lá, serelepe, nos
braços de uma “vagabunda” qualquer. Uma ligação e pronto, o amigo dá o
serviço completo das assombrações. Pena que o mesmo aparelho também
sirva para matar as surpresas, o friozinho na barriga, aquela coisa toda,
lembra?

MIOJO DO AMOR E DO SEXO

em dez minutos, pronto, um épico amoroso, dama das camélias, conde


de monte cristo, o ventou levou. fulaninho acabou de se conectar e já parte
para os finalmentes, mó intimidade com a criatura, em segundos sodomia,
cunilingus, 69, golden shower, vilge. e o melhor: você ainda economiza a
camisinha e o k&y.
tudo aquilo que demorava dias, meses, com as missivas ou flertes da
vida real, bares, rondas, vanzollinices, sinucas, sangue, manchetes, encontros
& desencontros, restaurante japonês...
é o amor nos tempos do MSN, o messenger.
amores expressos, instantâneos, miojo sentimental, emoções baratas,
3,5 minutos, ferveu, fodeu, tragou o king size do pós-coito, vai um(a) e vem
oito!
você nem carece pegar na mão, já vai direto pra cama, pra detrás da
moita mais platônica. não carece nem cantar paulinho da viola, olá como vai,
quanto tempo, muito menos “boys don´cry”, é que andei levando a vida...
e não é coisa apenas desses moços, pobres moços. minha amiga k., por
exemplo, 55, madame bovary dos tempos digitais, tem quatro amantes “fixos”
virtuais, além do marido de carne, osso e ronco, como ela mesma diz. “vou
deixar um deles, pois não tem comparecido a contento”, solta a blague. todos
jovens, quase donzelos, meu deus.
antes bastava ficar de olho na chegada do carteiro, o bravo homem de
amarelo, com o seu embornal de cobranças, boas novas ou lágrimas... mas
sem nostalgia, faz favoire, que o tempo é hoje e bom tempo nécaras.
<Continua...> Amanhã, parte II desta série doravante denominada Sex
and the Technology

RERUM NOVARUM

Meninos eu vi: a gostosa da Sabrina Sato, pari passu numa coreografia


dorsal, num lançamento de livro. É, estava lá Marcelino Freire, que não me
deixa mentir. Essa tal literatura tá ficando mesmo pop e deliciosamente
siliconada. Foi na autografagem a 26 mãos da coletânea do “Blônicas” , o
apanhado + inéditas das croniquetas do blog de mesmo batismo. Já já a moça
vai discutir Villa-Matas com o Terron na curva de fórmica do balcão da Merça, a
nossa ABLB,a academia brasileira das letras bêbadas. Traz uma Germana,
França, pendura mais essa, Markinhos!
& OUTRAS MODINHAS:

Um show imperdível, um disco extraordinário: Cidadão Instigado – e o


método túfo de experiências. Catatau Zappa dos Anjos e os urubus que só
pensam em te comer. Qui habet aures audiendi, audiat.

&&&
Um disco, um livro: "O potencial erótico de minha mulher", dum
francesinho da safra XXI, David Foenkinos. Ou seja vivimus vivamus. Outro
putathoryum de responsa: Anti-Justine, de Restif de La Bretonne, combatendo
o bom-combate com o velho marquês mais safo.
&&&
TPL é phoda: tensão pré-lançamento de livro. Prefiro lançamento de
anões. Tomara que a Sabrina e a Bruna Surfistinha apareçam. Breve aqui o
serviço completo. Ars longa, vita brevis. E carpe diem, seus hedonistas de uma
figa!

DE COMO O CATECISMO DE VOSSA SANTIDADE O PAPA BENTO XVI VÊ


O MUNDO NO SÉCULO XXI

Luxúria - desejo desordenado do prazer sexual, quando buscado por si


mesmo, isolado das finalidades de procriação e da união (tópico nº 2351 do
Catecismo da Igreja Católica).
Masturbação - excitação voluntária dos órgãos genitais a fim de conseguir um
prazer sexual. Ato intrínseco e gravemente desordenado (nº 2352).
Fornicação - união carnal fora do casamento entre um homem e uma mulher
livres. É gravemente contaria à dignidade das pessoas e da sexualidade
humana, naturalmente ordenada para o bem dos esposos, bem como para a
geração e a educação dos filhos (nº 2353).
Pornografia - retirar os atos sexuais, reais ou simulados, da intimidade dos
parceiros para exibi-los a terceiros de maneira deliberada. Atenta gravemente
contra a dignidade daquele que a pratica (nº 2354).
Prostituição - viola a castidade à qual a pessoa comprometeu no seu batismo
e mancha, seu corpo, templo do Espírito Santo. É um flagelo social. (nº 2355).
Homossexualidade - sua origem psíquica continua amplamente inexplicada.
Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações
graves (Gn 19,1´29 ; Rom 1,24´27; 1 Cor 6,10; 1 Tm 1,10), a tradição sempre
declarou que os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados.
São contrários a lei natural. Em caso algum podem ser aprovados´(nº 2357).
DA AUTOFLAGELAÇÃO DOS RESSACADOS

os relhos de couro de vaca com lâminas nas pontas.


a surrar-me,
como os penitentes de Barbalha, sertões dos Tristes Trópicos, semi-
árido d´alma, sede do mundo todo que nem um rio essa sede mata, tudo que
vem da cabeceira o sol a língua passa, nada desse sol escapa, ele, o rio, odeia
a memória das nossas noites brancas.

Reparem só que título phoda: EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS


SEUS LINDOS LÁBIOS. Livro de amor e porrada do amigo Marçal
Aquino. Tem uma mulher lá com os olhos cheios de antiguidade e abismos.
Depois conto mais aqui. E o lançamento é hoje, segundona sem lei, 21, na
Livraria da Vila, fradique 915, das 19h por diante. O pos-scriptum dionisíaco
será, pra variar, na mercearia são pedro , a antiacademia brasileira dos
escribas mais-ou-menos-trôpegos.

A ARTE DA SURUBA-LOUNGE*
Nada daquela ignorância dos anos 70. Nada de penetrar no ambiente e
fazer um estrago,mesmo sem ser convidado. A suruba-lounge é coisa
requintada, um luxo da era das pastilhas,da camisinha e do chill-out. A suruba-
lounge não é um bacanal óbvio e programado. Não guarda também nenhuma
semelhança com o enfado e o gozo óbvio do swing “profissa” das casas do
ramo.
No novo gênero, tudo começa com beijos e pegações na pista, fim de
festa. Beijo a três, por exemplo, é um excelente começo. E não se tira a roupa
abruptamente, como na suruba convencional. Chupa-se um peitinho aqui, uma
gazela faz um dengo oral acolá. Beija-se uma moiçola enquanto outra comete o
esporte de Onan... Tudo muito relax, tudo muito natural... Essa é a práxis.
Vem cá, Xico, mas alguém pode chegar as vias de fato para valer? Sem
a menor dúvida, ora ora. Não há proibições. O que não pode haver é a
obrigatoriedade chata. E se tiver a presença do cantor e compositor Junio
Barreto, o João Gilberto da suruba-lounge, tudo fica ainda mais decente. O
safo é uma espécie de diretor de arte do gênero. Testemunhei uma cena que
cairia muito bem no cinema, tanto na perversão dos sentidos de um Polanski
quanto no olho de Lynch: JB apagou todas as luzes da casa e enfeitou cada
bucetinha com um canudinho fosforescente e colorido. Avistava-se apenas as
bucetinhas-vagalumes. Lindas, meu Deus. Depois sorvê-las, como quem
chupa, devoto e faminto, uma manga no escuro.
DASPU E MCBODE X DASLU E MCDONALD´S

A Daslu ficou puta com a Daspu, vê se pode?. Agora quer cassar na Justiça o
batismo-fulerage da grife carioca. Deu no sítio Nomínimo, meninos eu li. Daspu
é das putas mesmo, marca de roupa de batalha das meninas da cidade do Rio,
moças de fino trato da Vila Mimosa e mangues ali, alhures, mademoiselles de
verdade. Que moral tem a Daslu, metida em contrabando e sonegação para
além da sugestiva rima que faz jus? Ô, luluzetes, fofis queridas, deixem o
trotoir das meninas em paz, que liberalismo fajuto é esse, que sacanagem?

O caso me lembrou a saga implicante do McDonald´s com o McBode, boteco


do Recife que servia finas iguarias caprinas com cervejas geladíssimas.
Testemunha ocular da história, fiz uma reportagem mostrando a resistência da
aldeia bodejante, que acabou sifu como os gauleses de hoje... E proibida de
usar a marca bagaceira. Só restou então ao tio dono do McBode, importunado
pelos felas do Império e da Justiça cabocla, mudar de nome o estabelecimento.
Donde se lia McBode leia-se agora simplesmente Deu Bode!

EU QUERIA SER BILL MURRAY

Eu queria ser Bill Murray. Em Flores Partidas, assim


mesmo, broken flowers, do Jim Jarmusch. Indo em busca do filho que
talvez não tenha tido. Bill Murray parado. Não diga que silêncio; diga
“não ouço nada”. Bill Murray on the road, no sossego, na moral e na
elipse. A máquina de escrever cor de rosa, a motocicleta cor de rosa,
flor de obsessão, rosa. Bill Murray d.Juan em fim de feira _a festa
acabou, José, para onde?_ e a carta anônima, o vizinho Sherlock com
ácido, a busca do rebento que não teve, teve?, não importa. Eu queria
ser Bill Murray diante daquele gato, nem carecia a Sharon Stone, o
gato feito à imagem e semelhança de Bill Murray, felino metafísico da
porra. Ali, dizendo, o gato: “Você veio aqui, velho Bill, com segundas
intenções, não, não sou teu filho, hombre”. Eu queria ser Bill Murray
naqueles sonhos, a reprise. A lolita na vitrine, Lola, bundinha
americana, mas safada, é o que vale. Bill Murray vaga pela América, ô,
mas num me venha com essa de metáfora da América, apenas uma
história sem final, como todo enredo de busca, como a própria cara de
Bill Murray, procura. Eu queria ser Bill Murray emparedado na quarta
parede, sem foco, boiando nos teus lindos olhos de cigana oblíqua. E
basta.
NO QUE CONCERNE AO ORGASMO FINGIDO E DO SEU BELO TEATRO*

O fingimento do gozo também pode ser uma prova de amor, como o amor
vadio das putas;
antes o fingimento do que a ausência da dramaturgia amorosa de fato;
tem um quê de distanciamento brechtiano no orgasmo fingido;
tem até mesmo um gozo que deveras sente;
tem mais de verossímil no fingido do que em muitos ditos verdadeiros;
a favor das que fingem com decência;
melhor que fingir a velha dor de cabeça;
contra a verossimilhança exagerada dos orgasmos com caras & bocas;
a favor do agrado do teatro, puro teatro, como na canção almodovariana de La
Lupe.

*do Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias, que será lançado


hoje, 29/11, das 19h a meia noite, rua dr. Melo Alves, 278, jardins, SP. todos na
festa! + infos aqui www.editoradobispo.com.br

COM VOCÊS, O COPANSEXUAL

E o Orélio de machos continua. Dicionário de homens perdidos e


achados. Repare, Lola, nesse tipo inesquecível:

O Copansexual

Muito melhor, claro, que o metro e o übersexual. Trata-se do


predador que habita um dos maiores e mais charmosos prédios de São
Paulo, o Copan, obra do longevo comuna e tarado Oscar Niemeyer,
que conhecemos de Pirâmides outras.
E é justamente nessas curvas dos jardins suspensos e
babilônicos que começa a abordagem. O Copansexual ataca. Fala em
Niemayer e já se arma, as curvas, ah, as curvas, e desce a mão
levemente nas suas coxas, uma leve falta de escrúpulos, mas nada
agressivo, só um trocadilho anatômico, pronto.
Conta logo duas ou três lendas sobre o prédio, fala sério! Dos
moradores, ah, moro no mesmo ap que morou o Bressane _ah, por
que não lembra também do Patrício Bisso?!_, aperta o 25º, 17º, sei lá,
e sobe.
Subiu, fodeu, São Paulo aos seus pés, pânico em SP, cadê
você, canta, que nunca mais apareceu aqui, pra me fazer feliz, pra me
fazer sorrir. Tira onda com as nuvens, que passam na janela, escutam
Odair e Tom Waits, e falam qualquer coisa, qualquer coisa àquela
altura _”cala a boca e me fode”,diz ela_ serve.
VESTIDAS PARA MATAR

Alvíssaras, meus camaradas, os vestidos voltaram com tudo. Não que


tivessem sumido da história, das ruas, das festas, das firmas... Mas andavam
em baixa, suplantados pela praticidade das Evas futuras e suas calças, suas
saias austeras e seus tailleurs, essas peças apolíneas que batem a carteira de
Vênus, roubam a alma de Eros...
Tudo fica estranho quando as passarelas começam a entender um
pouco os homens héteros. Mas não deixa de ser um ótimo sinal dos tempos.
Talvez a moda esteja pagando por todos os pecados anteriores.
Redime-se lindamente do quanto enfeiou as belas mulheres.
Homem que é homem, seja de Paris, Nova York ou do sertão dos
Cariris, como o meu avô João Patriolino, vai à Maison ou à feira do seu
município, e traz uma bela peça ou um corte de tecido de presente para a
amada. Até mesmo o Fabiano, que mal tinha um centavo no bolso,
personagem de Graciliano, voltava da cidade com um corte estampado para a
sua mulherzinha magra, uma fêmea só o couro e osso e a sombra.
Vestido deixa mais faceiras as gazelas, dá mais graça às botterinhas,
ressalta a beleza das afilhadas de Balzac...
Se for uma peça que deixa à mostra as saboneteiras, as marcas das
quedas da infância nos joelhos... meu Deus!
Ora, você nem carece ser a mais bela por completo, isso é utopia e
ditadura publicitária, você carece ter uma linda parte pelo todo, como aquela
metonímia que aprendemos no colégio.
Uma linda omoplata, um pescoço, ombrinhos, pés, calcanhares mais
lindos, batatas de pernas invejáveis, belos braços...
Aí ficará ainda mais linda de vestido, ao contrário das calças e outras
tantas armaduras que escondem o que nos enlouquece, o melhor dos nossos
mundos.
Esconder, achando que pode ser vantajoso depois, é besteira. O charme
é mostrar-se, ter a coragem, mesmo com o que você supõe ser uns quilinhos a
mais. Na balança das nossas retinas e trenas, isso pode ter importância de
menos, quase nada, alguns gramas de preconceitos na cabeça de homens que
nem valem a pena.

DO CATECISMO DE PORNODEVOÇÕES

tudo é lindo na mulher amada, melhor ainda os cheiros fortes, fedores e


sujeirinhas da mulher amada, o suorzinho das axilas da mulher amada, quase
uma bucetinha a mais as axilas da mulher amada, meu deus, lá está a danada,
sob o solzão veranico se derrete a mulher amada, gosto de apreciar a
merdinha bem esculpida da mulher amada, tão minha e tão íntima, saló, saló, o
suorzinho de todas as juntas e dobradiças, ali debaixo do joelho, eu quero, e
quando a perna dobra, o salzinho sobre ozolhos quando a gente beija, o
pescocinho suado, lindamente grudento, por favor, amigos do comércio, não
vendam desodorantes à mulher amada, não vendam arcondicionados, não
refresquem a costela amada, tudo é perfume francês na mulher amada, o mijo
é licorzinho dos deuses, sob o céu que nos protege, golden shower que traz
bonança, sustança, chega meu rosto sertões-vereda refloresce, os pássaros
cantam na caixa torácica, derrama, derrama, derrama, amor da porra a descer
pela perna esquerda, da mulher amada, lambuzamentos que encobrem as
feridas doutrora, tudo lindo a escorrer, farejo todos os cheiros da danada, o
olho do cuzinho, velho bataille, é lirismo só, rapaz, exala o sentido da vida e
mais um pouco, resume o mundo, guarda os segredos dela inteira, mulher é
metonímia, cada partezinha uma giganta [d´àpres baudelaire], ali, sim, no
cuzinho, again, está o silêncio mais lindo da mulher amada, donde tudo é lindo,
tudo é sorte, tudo delírio, o cuzinho em flor da mulher amada, coxas, o pezinho
sujo nas havaianas, poeira das ruas, marcas, cerimônia do lava-pés da mulher
amada, lambendo os dedinhos, descoberta dos segredos dos seus passos,
direito de ir e vir entre seus rins, como na canção, assim assim como na vida,
agora o cheiro da foda por toda a casa, a atrair os pássaros lá de fora, que
encontram os pássaros da caixa torácica, que, como a capa da música do Rei,
assistem a tudo e não dizem nada, tudo é lindo e belamente dramático na foda,
mecânica da carne que se enrosca, o pau come até a alma, paudurescência ad
infinitum, o amor é mesmo o viagra do espírito.

O BODE QUE O BODE DEU

A pedidos calorosos dos leitores e chegados, mais informações sobre o caso


McBode X McDonald´s. Trecho de reportagem que fiz, para o site NoMinimo,
no ano passado:

A peleja do império McDonald‟s contra o nanico McBode. Parece título de


cordel sobre a resistência de uma aldeia gaulesa perdida nos cafundós do
Nordeste. Ou uma dessas fábulas antiglobalização para ninar ativistas sem
rumo. Parece. Mas é tudo verdade, It´s All True, como diria Orson Wells.
Tramita da 11ª Vara Cível da Justiça, no Recife, uma ação da cadeia fast food
norte-americana para proibir definitivamente o uso do prefixo Mc, uma ironia de
mercado provocada por um bar e restaurante da cidade.

Em nome da McDonald‟s Corporation, uma liminar – decisão provisória –


concedida pelo juiz Agenor Ferreira de Lima Filho já obrigou o dono do
estabelecimento pernambucano a retirar a quixotesca placa McBode da
parede. A ação prossegue e ainda não tem julgamento marcado. A rede da
terra de George W. Bush pede, além da proibição do uso do nome ou qualquer
brincadeira semelhante, uma indenização (valor ainda não estipulado) pelos
prejuízos.

Só restou ao proprietário do bar, enquanto aguarda a decisão final da Justiça,


alertar os fregueses com outra placa irônica: a casa passou a se chamar Deu
Bode. O caso está nas mãos também do Instituto Nacional de Propriedade
Industrial(INPI), no Rio. “A Justiça concedeu a liminar sem levar em conta este
órgão, a quem cabe julgar problemas dessa natureza”, queixa-se Hélio César
Dantas Arruda, um dos donos do McBode, situado na Tamarineira, bairro de
classe média do Recife. “Até parece que estamos atrapalhando os negócios do
império americano no Brasil.”
O episódio cai bem no balaio do folclore antiglobalização, mas no Nordeste tem
servido mesmo é como símbolo do triunfo do bode na economia e nos
costumes da região. Pouco consumido nas grandes cidades até meados dos
anos 90, o caprino saiu dos grotões para virar hambúrguer nas lanchonetes e
conquistou até o público “mauricinho” com petiscos e pratos finos de
restaurantes das capitais nordestinas.

UM FEIRANTE NA VIDA DE UMA MULHER

Nada melhor que uma mulher que acabou de chegar da feira.


Sacola na mão, fome de viver, sorriso de princesa.
Os vendedores de frutas, peixes e verduras são mestres na arte de
reconhecer talentos e animar as moças com os seus adjetivos. Adjetivos às
pencas, elogios às dúzias, mimos, dizeres, samba exaltação, graças.
Meia hora de uma mulher na feira vale mais do que um mês de análise,
do que a onda de orientalismos tantos do mercado, do que a yoga, do que o
mestre japonês das agulhas, do que uma banheira de sais, do que um dia na
Oscar Freire...
Nem mesmo quando as mulheres estão acompanhadas, os feirantes
dão sossego. Esperam você, jovem mancebo, se distanciar um pouco, dois,
três passos, e tome gracejos e flertes à baciada.
''Olha a manga, gostosa!'', bradam, administrando com malícia a vírgula
e o duplo sentido na ponta da língua.
“Ovo e uva boa!”, arriscam para as elegantes damas de preto.
“Essa é modelo!”, capricham para as gazelas saltitantes. “Gisele!”
''Se eu fosse um peixe, eu seria um namorado!”.
É a boa guerra dos mascates. Eles vão no ponto, exatos como
neurocirurgiões do desejo. Sabem de longe, por exemplo, quando uma mulher
tem alguma encrenca com a idade. Em um segundo, sapecam um tratamento
carinhoso: ''Pra mulher nova, bonita e carinhosa, eu não vendo... eu me dou
todinho!” E mais: “Só vendo pra menores de 18 acompanhada pelos pais”.
Em dias de chuva, mandam ver de acordo com o meteorologista: ''Essa
é enxuta até debaixo d'água'', alardeiam.
Um bom feirante reduz até os efeitos de uma TPM, de uma dívida nunca
paga, de uma culpa que corrói o juízo, de um regime ainda sem resultados
_elas ainda não sabem que uma polegada a mais, uma a menos, pouco
importa para quem tem gosto de fato por mulher.
Nada como incentivar o caminho da feira mais próxima da sua casa para
as mulheres.
No Ceasa, então, os adjetivos saem a grosso e a varejo, na bacia ou
nos caixotes.
Os feirantes não mentem jamais. Eles sabem, mais do que ninguém,
que em toda mulher, seja quem for, existe um traço ou um aspecto de beleza.
Afinal de contas, mulher é metonímia, parte pelo todo, você passa a
apreciá-la por uma boca, um pé, uma orelha, uma mão, uma omoplata, um belo
ilíaco ressaltado, uma saboneteira, uma marca sulcada de vacina, um corte no
joelhinho esquerdo, uma cicatriz de artes de infância, uma bela bunda faceira,
uma falsa magra, um umbiguinho do mundo, aquele tom cinza dos cotovelos
da espera...
Na passarela dos feirantes, a insegurança feminina, mesmo naqueles
dias em que o cabelo acorda brigando com as leis do cosmo, dissolve-se em
segundos, num suspiro, na velocidade de um pastel, na ligeireza de um caldo-
de-cana.

*do meu best-seller-mor, meu harry potter, meu livro "modos de macho &
modinhas de fêmea" [ed.record]

O MACHO-JK [DA SÉRIE ENQUADRANDO UZOMI]

Antes que a gente encha o saco com a avalanche jotakazzística que


vem por ai...
Minissérie-xarope na emissora do dotô roberto, novela na tv do bispo,
um zilhão de pautas de jornais e revistas, cada vez mais dependentes crônicos
da tevê... outrora o samba era outro ziriguidum, saravá senhores pauteiros de
sofá.
Antes que a gente vomite o peixe vivo fora d´água fria... antes que a
gente saiba que o presidente bossa-nova não foi essa coca-cola toda que se
arrota por ai...
Antes que eu cuspa fora o caroço da azeitona nostálgica que dança no
céu da boca conforme o rock´n´roll...
Antes de qualquer bico ou babado, ei-lo:
Com vocês o macho-JK, aquele que vive 50 anos de boemia em cinco
de realizações e vômitos em canteiros de obras públicas por ai. 50 anos 5, sem
tirar a barriga da fórmica do pé-sujo.
Eis o seu grande plano de metas.
Em vez de grande rombo e déficit no tesouro, como nos anos 50 do
bossanovista, apenas estragos no fígado e memoráveis ressacas, épicas,
emendadas uma na outra, por favor, não risquem fósforos agora!
Que desenvolvimentista que nada, o macho-JK é contra o crescimento
do país: crescimento é construção, construção é barulho, crescimento é bate-
estaca de prédio, crescimento atrapalha o sono do boêmio naquelas manhãs
em que ele amanhece barata...
A política econômica da era do autêntico macho-JK é simples, nada
heterodoxa: combina recessão com menos tributos sobre o álcool, sob pena de
nova Revolta da Cachaça.
Nem desenvolvimentista, muito menos nacionalista. O macho-JK está
mais para Elvis (Presley e Costello) do que para Tom Jobim e João Gilberto.
AQUELES SEGUNDOS QUE NÃO A VEJO, IMAGINE AS HORAS

Do cinema lindo & phoda de existir e de como uma mulher pode encantar nos
detalhes de nós dois. Quando ela pede pra gente virar os olhos ou fechá-los
bem fechados. Só enquanto troca a calcinha, mesmo com toda intimidade
desse mundo, às vezes intimidade de anos. Só enquanto troca o sutiã, biquíni,
parte de cima, ajeita a parte de baixo, areia do doce balanço da beira dos
mares, só enquanto tira uma toalha do banho, viagem de fim de ano, só
enquanto está lindamente menstruada e quer guardar-se, embora saiba que
atravessamos com amor e gosto todo o seu mar vermelho e ainda mais mares
ela abrisse a cada mês. “Feche os olhos”, diz. “Vira o rosto”, safadeza-se, diva
sob seguras telhas. Só para manter o suspense do cinesmascope debaixo do
mesmo teto. “Pronto, pode olhar”. Ai ela ressurge mais linda ainda, cabelinhos
molhados, com aqueles cremes todos da Lancôme ou com simples sabonetes
Dove ou aqueles de nove em cada dez estrelas de Hollyood, Lux, deluxe, oxi,
eu morro nesses lapsos de tempo, elipses do desejo, frações de segundo que
são eternas de olhos fechados para quem meus olhos na terra, que há de
comê-los inté os aros dos óculos, mais abriram e justificaram seu brilho
castanho, claro, mesmo em dias de torpor e existência lusco-fusco doendo
como nos olhos-de-faca, aço laminado, do assassino d´O Estrangeiro.

FODA-ME, SE FOR CAPAZ

um buraco vazio sem nome tinha-se instalado na parte posterior do meu


cérebro. Ih, plagiando Antonin Artaud, de novo, rapaz, nas suas cartas sobre a
necessidade do ópio?!.

Eu me reprimo do assalto às aspas alheias, e sigo. Mas como eu ia dizendo,


um buraco... Havia dormido cedo, depois de duas décadas de porre, e com
uma tremenda monogamia pendurada como um suicida na minha ponte de
safena... além de uma certa repulsa ao sexo, sabe?.

“daqui a um minuto começa a sua entrevista”, diz a moça do rádio. Entrevista?


“sobre o livro novo”. Ah, tá, mas eu tô quase sem voz, como o Frank Sinatra no
perfil do gay talese. A diferença são os bluezóios e a conta no fim do mês.

Um buraco dominical, no espelho me vi Bill Murray, de novo, mas agora em


“encontros & desencontros”, o de Sophia Coppola, a anti-Pollyana, moça; me vi
sozinho como a porra que me trouxe ao mundo onde se chega e se vai
sozinho, noves fora alguns nacos de amores, meia dúzia de foguetes de falsa
glória e alguma metaphysica de estylo, droga barata, compreende?.

Já sei, vai beber que passa, melhor morrer de vodka do que de tédio, lembro o
velho mantra de um certo Vladimir Maiakovsky, acaba logo com esse domingo
como um miserável acaba com um prato pelas beiradas, de macarrão com
frango, pf de domingo, vai, chuta latas, me sopra o amigo Paulo Castro, sigo,
levo o meu buraco para as ruas, os rádios fanhosos dos porteiros besouram o
tédio nas oiça... na construção, os pedreiros matam a saudade com cachaça e
Odair, “cadê você, que nunca mais apareceu aqui, que não voltou pra me fazer
sorrir, e nem ligou... ``

não tem modos, não passa. o jeito é subir de escada cuidadosamente até o
meu próprio cérebro, assim o faço, destampo o hemisfério dos adjetivos, o
esquerdo, e nada, ainda o mesmo buraco sem conserto; agora o direito, o dos
substantivos, opa, localizo o buraco, a cratera vazia que nem um ópio ou mil
horas de análise preenche, o buraco que tem nome e sobrenome, cep,
endereço completo, ao oriente do oriente do oriente, aponta a bússola das
minhas perdições e dos meus defeitos de fábrica, sinto o cheiro das flores da
casa, bebo, me entrego, eu bebo sim, eu amo sim, eu vou vivendo, foda-me, se
for capaz, só uma vez mais!

TROFÉU SAIDEIRA PARTE I/ A BEBEDEIRA CONTINUA

Retrospectiva de um amnésico, lacuna inc., brilho de uma mente cabrobronha.


Ou como premiar os amigos que valem por mil fígados:

Refrega literária internacional do ano: nosso amigo Picanha, emérito em


francês, corrigindo Pedro Juan Gutierrez, em encontro na Mercearia São
Pedro, Rodésia, 34, Sampablo de Piratininga.

Sapato do ano: o Vallentino do amigo Efrain Medina Reyes, que pisou nos
astros e cuspes de bêbados distraídos na mesma freguesia arriba citada. Para
os desavisados, o cabrón cometeu, entre outros volumes de classe, “Técnicas
de Masturbação entre Batman & Robin” (ed. Planeta).

Brechossexual do ano: Ronaldo Bressane, escriba

Copansexual e macho-Odair-José do ano: Bruno Torturra Nogueira

A gostosa do ano: votação ainda indefinida, disputa muito apertada

Literatura de puta do ano: Bruna Surfistinha

Puta literatura inédita do ano: o primeiro capítulo do romance “A Solidão do


Astronauta” (provisório), de Joca Reiners Terron.

Escriba mais quente do ano: Andréa Del Fuego e o seu “Nego Tudo” , da
fodíssima editora Fina Flor.

Maria-teclado do ano: votação ainda indefinida, disputa muito apertada


.
Programa de TV do ano: Saideira, concebido e dirigido por Marcelino Freire,
com apresentação deste que vos bafeja. O primeiro talk-show com 50º graus
de teor alcoólico. “Esse programa só pode passar na tv de Amsterdam; e as 4
da madrugada”, disse o escriba Sergio Sant´anna, presa gloriosa da gravação
inaugural.
Gulliver da literatura do ano: o pregoeiro Marcelino Freire andou mais que má
notícia, espalhou a boa-nova e experimentou o dom da ubiqüidade, sempre na
luxuosa companhia do inimitável Chocottone.

Broxada do ano: o júri está tendo um trabalho duro para definir o vencedor.

MARIA-GASOLINA, MARIA-TECLADO... CATALOGANDO MARIAS -PARTE


I

No futebol tem a maria-chuteira, aquela que persegue, desde os tempos


de Didi Folha-Seca, o apolíneo praticante do ludopédio. No mundo inteiro tem a
maria-gasolina, o cheiro do combustível é a mensagem. No pagode tem a
rapariga oxigenada em flor, maria-chave-de-cadeia, belo belo que te quero...
Assim na baixa como na dita alta costura, as Marias vão com as outras
desde priscas eras. Groupie é groupie em qualquer canto, os ídolos também
não são diferentes.
Senão vejamos os exemplos que irão atacar, arrastão iluminista das
artes e espetáculos, neste verão:

Maria-teclado – discutíamos eu e a minha amiga Melina Anthis, grega de


alma perra, que batismo teria a groupie dos escritores em voga, a maria-
chuteira das letras... Maria-Gutenberg? Maria-Remington? Maria-Burroughs?
Maria-capa-dura? Maria-lombada? Maria-prelo? Maria-prensa? Ou
simplesmente word-mary?
Sabe aquela doce criatura que ataca os mancebos na bienal, na festa
de Paraty, na Primavera dos Livros, nas tertúlias celebrativas da livraria/sebo
Dantes (Rio) ou nos lançamentos encachaçados da Mercearia São Pedro
(SP)? Trata-se da Maria-teclado. Eis o batismo de fogo para lá de honesto,
amplo, irrestrito, democrático.
E atenção rádio-patrulha: o gênero masculino existe e se chama,
ululemos na maré do óbvio, zé-teclado.

Maria-picape – Ou Maria-Bolacha, uma vez que adora vinis. Trata-se da


perseguidora de DJs da hora e da vez. As indies são as mais sutis.

Maria-baixo-orçamento _ As cristãs que apreciam o cinema alternativo


ou marginal de todas as eras.

Maria-Barretão – As moças de qualquer credo que rezam pela cartilha


das majors, da Globo Filmes e quetais. Importante: fazem coro, vão com as
outras, contra qualquer regulamentação.

[Mais Marias na próxima edição, amanha no pós-ressaca deste Samsa


que vos habla]
UM CERTO LIRISMO COWBOY PARA ACALMAR OS NERVOS

agora te miro, minha sophia loren, zolhinhos boiando,


nuvens fiéis, que enganam os homens, algodão doce, que cá de baixo,
tenta entendê-las,
como se retinas e desenhassem,
quase e sempre, o próprio drama

[das sobrancelhas]

das mulheres.

vida: tudo é goteira.


te miro boiando sobre o drink cowboy, no molhado de nós, sob luz
fulêra,

[da fluorescente amarela,]

mas agora me escapas, pela cortina,


estampadinha, meu deus,
que só meus zolhos. que só meus zolhos estourados como gomos de
ácidos das antigas.

cortina vagaba de hotelzinho de beira de estrada. lua minguante pelo


buraco da janela, vírgulazinha de lua sobre o conhaque
bem antes de virar ponto e vírgula final na refração da sarjeta pós-
domecq.

os caminhões no asfalto abafam nossos possíveis sins


foda-se a elipse.
cadê sam sheppard,
que iria cruzar contigo
esse paraíso?

vejo ao longe
mario bortolotto,
que nos traz, como sempre penso, o que sobrou de deus,
um sorriso bacana,
do que inventamos como deus
e algo dito assim, numa voz de neblina, goela de tom waits, mas com
segunda voz de nick cave:
porra, vocês tão parecendo terra de cemitério, só querem comer gente!
Vamo beber, daqui a pouco é alvorada lá na Roosevelt.
CESTA BÁSICA DA ALCOVA*

vinhos baratos, para que a embriaguez não tenha preço, bouquet ou safra;
&
lubrificantes, até que se ganhe a suprema intimidade do coito;
&
uma bíblia sagrada, para rezar os cânticos [e esperar por Crumb, que
prepara a sua versão no livro próximo]... e eventualmente fumar maconha nas
suas páginas;
&
músculos ou cubos de guloash e pimenta para um bom e revigorante
caldo;
&
chá de boldo para a proteção dos fígados, embora o gozo por si já nos
garanta a imunidade dos corpos;
&
leite de cabra para banhá-la inteira;
&
boas cortinas para que o sol não se vingue contra o leito nem aponte
virtudes como defeitos.

<*do "Catecismo de Devoções, Intimidades et Pornografias. Saber mais


e ajudar o autor a comer o seu caviar com vodka russa, é só clicar aqui, ó
www.editoradobispo.com.br

SÃO PAULO VAZIA, CIDADE DOS SONHOS

Sim, já foi simbora todo mundo.


Noite vazia, meu velho Walter Hugo Khouri, bravo Antonioni da Móoca!
A Babilônia está às moscas. As gostosas foram à praia. As gigantes
crumbianas ascenderam às suas galáxias, com loas, cânticos & cânticos, uma
graça. Sem problema, guardo todas nas minhas retinas e tento punhetas
amnésicas.
Restamos eu, os porteiros, meia dúzia de putas e proxenetas da
Augusta.
Até as baratas foram a uma festa na foz do rio Pinheiros, residência do
dr. G.Samsa, ouço o barulho do engarrafamento nos esgotos.
Os amigos do alheio também desceram a serra para praticar seus
crimes de bagatela. O único defeito desses larápios é necessitar sempre seguir
o fluxo dos otários.
Os mendigos, os ninjas e o lumpem-do-lumpem-do-lumpem estão
fodendo livremente debaixo das marquises.
Avisto daqui um velho apodrecendo na viagem ao redor do seu quarto.
Se pelo menos os filhos deixassem de presente uns barbitúricos!
O negão na esquina do Ibotirama está encachaçado e com um banzo
blues d´além África.
Sim, os paulistas estão na autopista rumo às filas dos balneários.
Como é bom São Paulo sem esse povo todo. Ando mais tranqüilo do
que nas alamedas sob os pés de benjamins do Crato.
Ah se eu pudesse erguer um muralha da China e que aqui não entrasse
mais a estupidez carbônica desses autos. Os carros são mesmo a maior prova
da imbecilidade da raça.
Você sabia que a velocidade média da cidade, em tempos normais, é a
mesma das charretes e cabriolés do século XIX? Sim, algo em torno dos seus
14, 15 km por hora.
Bebo uma na laje do prédio. A Babilônia vazia é o maior barato.

MODINHAS DE FÊMEA -A ROUPA DO REVEILLON

Com que roupa eu vou espocar a Sidra Cereser que você me convidou?
Espocar a sibilina de um aninho-mais-ou-meno que passou.
Elas estão descontroladas.
Elas não falam de outra coisa.
Nas mesas de bares, nas filas, nas ruas e nos lares.
Mesmo quando estão caladas, o pensamento é único. Dar para ler nos
explícitos balõezinhos que se formam sobre os seus cocorutos.
Você ali, caro mancebo, falando sozinho e ela só na base do “ran-ram”...
Tá noutra galáxia.
Não, não se trata de outro urso no pedaço não. Sossega, Carlos, fica
tranqüilo, o amor é assim merrrrmo.
Ela só pensa naquilo. Só pensa no drama.
Não se concentra nem mais na hora do sexo, sexo?. Seu orgasmo está
pendurado nas araras das lojas e magazines, eita porra!
Ficam até envergonhadas de nos expor o drama.
Aí sussurram no ouvido da amiga do lado o problema maior da
humanidade a essa altura do ano.
Seu garçom faça o favor.
Mais uma enquanto elas sussurram peruísmos e coqueterias.
Com que roupa eu vou?
Seja em Copacabana ou em Tacaimbó, em Nova York, Solidão ou
Saudade do Iguaçu.
Seja um Kenzo, um Sommer, uma Capetto, um Hercovictch (sic, vixi!) ou
um simples estampadinho, daqueles de subir no telhado, como o lindo rabo de
Sônia Braga na novela Gabriela. Seja um baratinho, chita social clube,feito com
um corte dos tabuleiros das Casas Pernambucanas.
Esse ano não vou de branco nem a pau, diz uma afilhada de Balzac.
Chega de calcinha temática, graceja uma amiga, a boyzinha Arminda.
Donde calcinha temática vem a ser a calcinha nas cores branca, amarelo-ouro
e encarnado. Tenho dito.
Paz, dinheiro e paixão, respectivamente. Tá falado.
Elas estão descontroladas.
Eu te vejo passar nas vitrines e sumir por ai...
E nada de escolher. Danou-se. O Natal já era... “Não vi nada que
preste”, zanga-se ali.
“Disgusting”, diz a fofa acolá. Danações. Fashion os olhos e sinta!
Blasé, a outra fina diz que não liga a mínima para isso. Até ser flagrada
pondo abaixo todo a Oscar Freire, a rua da peruagem-mor de São Paulo.
"É a sua cara", diz a vendedora que carece de óleo de peroba.
Daslu ou Daspu?
Pergunto, só por onda, lembrando o sururu entre as bacanudas do
magazine sonegalesco de SP e a grife-gréia das meninas do mangue carioca.
Elas estão descontroladas.
“Se eu me arretar eu vou é de Eva!”, atiça outra costela amiga.
Sorte tem Maria do Carmo, aquele rapaz que comprei de segunda mão
do Tarso de Castro. Vai de Dascu mesmo, seguindo a lição de Adão
Iturrusgarai.
Falô, falei.
Vamos salvá-las. Aos provadores com as moças, rapazes!

CULUS BEBEDORUM DOMINUS NON HABET

Sim, a retrospectiva de um amnésico, lacuna inc., brilho de uma mente


cachaceira & cabrobronha. Aos amigos, os loiros:

Garçom do ano: França (em nome do coletivo classe da Mercearia S.Pedro) e


Ailton, sempre, do Filial. Isso em SP. No Rio, todos os Chicos (Bracarense e
Braseiro), Paiva, sempre (Jobi).

Dono-de-bar-e-garçom-ao-mesmo-tempo do ano: Seu Evaldo, do Bode da


Encruzilhada, Recife.

Livro de bêbado do ano: “Manual de Sobrevivência nos butiquins mais


vagabundos” (ed. Senac/Rio), de Moacyr Luz, com ilustras de Jaguar.
Confesso que bebi de uma talagada só.

Nobel de Medicina do ano: meu fígado, revela o doctor Callegari, é como um


órgão de um evangélico.

Boteco revelação do ano: Ibotirama, mais conhecido como E bote lama! Esq do
lar doce lar: Augusta com Fernando de Albuquerque, Consolación, SP.

Broxada do ano: o júri está tendo um trabalho duro (resultado em breve)

Puteiros do ano: Casa da Carmem, POA, e Apple´s, Brasília (categoria luxo);


Vira-Virô, Augusta/SP, e Flor da Noite, na Rio/Bahia, altura de Vitória da
Conquista (categoria “eu vou tirar você desse lugar”).

Quase-mulher do ano: Marcinha, travesti da Roosevelt.

Banda do ano: Cidadão Instigado, avec Catatau Zappa no comando. [Natércia


Puentes informa: show em Quixadá, terra de ETs, foi uma coisa de cinema)
Show campeão em mulheres lindas & gostosas por centímetro quadrado:
Junior Barreto, no Grazie a Dio

Cantora linda e gostosa mais desejada pelos meus amigos do ano: Céu, amém

O livro do ano que ainda não foi escrito: “Mulheres que quase comi”. De um
amigo cujo batismo me foge, ele também, por dívidas e promissórias.

O filme do ano são dois: O Cinema, urubus & aspirinas, de Marcelo Gomes;
Flores Partidas ,by JimJ. E os três do próximo ano já estão escolhidos , pois
este homem-ponta, homem-baga que vos fala participa de todos: Crime
Delicado (Beto Brant), Árido Movie (Lirioboy) e o Cheiro do Ralo (Heitor
Dhalia).

Punheta do ano: por minha própria mulher, vide perversão, obras completas do
marquês.

Frase do ano até 2.222, pelo menos: “O sonho de um homem é uma puta com
um dente de ouro”
<="" amÉm.="" mesmo="" mim="" a="" ser="" nÃo="" ninguem="" desejo=""
que="" roubada="" loucura="" essa="" livro="" no="" bukowski,="">