Anotações da Ética – demonstrada à maneira dos geômetras SPINOZA, Baruch de. Ética: demonstrada à maneira dos geômetras. Col.

A obraprima de cada autor – série ouro. SP: Editora Martin Claret, 2003. Além de seguir pelo índice seguinte, você pode utilizar a ferramenta de busca, desde que esteja lendo o texto em formato virtual: Ctrl+F. Índice remissivo
A
APÊNDICE DA PARTE I · Uma análise antropológica do antropocentrismo · 5, 6 As três afecções primitivas · O desejo e as paixões de alegria e tristeza · 13

C
Conceitos · Cidade · 21 Erro e privação (de existência) · 8 Flutuação da alma · 15 Generalização de afecções · 13 Imagem · 8 Imaginação · 8 O que se deduz clara e distintamente · 24 Razão · 20 Transcendental e a priori (conceito) · 9 Vontade, apetite e desejo · 12 Corpo e Alma · Uma conjunção - corpo pensante · 7

D
Diagramas · Diagrama 1 · afecção · 16 Diagrama 2 · Perfeição ou imperfeição e bem ou mal · 19

E
Epistemologia · As três categorias e os três gêneros de conhecimento · 10 O papel da Razão · 20 Ética · A coisa mais útil ao homem é o próprio homem e apenas em conjunto podem melhor conservar o seu ser (em conjunto) · 20 A virtude é o útil e, como o útil é a conservação do ser do homem, é a sua própria essência · 20 O bem e o mal em relação à potência de ação · 19 O estado natural · 21 O homem livre é o homem sobre o ditame da Razão · 22

O
Ontologia · A alma não tem duração · 25

duração está no espaço-tempo da percepção · 25 força das paixões superar a potência humana · 21 idéia que nasce da razão é universalmente válida · 22 imaginação também pode limitar a potência · 18 metáfora dos corpos · A Natureza é um indivíduo · 7 A potência da alma pode governas os afetos · 16 A teoria das paixões (determinantes) · 12 Corpo e Alma · Uma conjunção - corpo pensante · 7 Corpo e alma e o dualismo · 12 Deus como a categoria U · 4 Deus é causa de todas as coisas e de si mesmo · 5 F = PE-PS · 24 Idéias claras e distintas · 18 Liberdade e Necessidade em referência ao ser humano · 16 Nada é dado de contingente no mundo · 5 Não há finalidade em Deus · 18 Natureza Naturante e Natureza Naturada · 5 O desejo como conjunto que contém esforços, impulsões, apetites e volições · 17 O homem autônomo não é mais livre que o homem na cidade · 23 O homem como vário e inconstante · 20 O homem não é autônomo, se submetido à força das paixões · 18 O homem não existe necessariamente · 7 O que pode a alma sobre as afecções (5 pontos) · 24 O ser humano é uma parte da Natureza e a sua potência é superada pela das coisas · 23 O único remédio às paixões é o conhecimento · 24 Os dois princípios essenciais do ser · 15 Paixões = {desejo, alegria, tristeza} · 18 Pensamento e paixão · o pensamento pode se tornar paixão · 19 Perfeição e modelo · 18 Presença e imaginação · 8 Razão · a verdadeira potência do homem · 21 Resumo das paixões · 17 Ser e realidade · 4 ser no mundo · 11 Só uma paixão mais forte pode reprimir outra paixão · 19 Um par de opostos na presença · 13 Volição e entendimento · 11 A idéia de corpo · o corpo como necessário ao conhecimento ontológico · 8 A tendência das coisas em si · 12 Os conceitos universais · o problema da diferença · 10

A A A A A

P
Partes · Parte II · 6 Parte III · 11 Parte IV · 18 Parte V · 23 Pedagogia de Spinoza · 8 Presença e imaginação · as afecções do corpo como mediação da representação ou imagem e a idéia de si · 9

T

corpo pensante · 7 O tempo como imaginado · 11 .Teoria do conhecimento · A imaginação não se pauta no verdadeiro · 19 A vida racional se define pela inteligência · 23 Conhecimento e alteridade · única possibilidade · 23 Corpo e Alma · Uma conjunção .

são substância.. “[.] um homem é causa da existência. que é eterna e infinita. i.. cada um dos quais exprime certa essência eterna e infinita [.] nem o entendimento nem a vontade pertencem à natureza de Deus” (p.. “[. Para Spinoza. mas devem diferir a respeito da existência” (p. o que implica dizer que elas são divisíveis. uma posição realista. x ∈ A.] se não pode ser dada nenhuma razão ou causa que impeça a existência de Deus ou a suprima. que é a natureza divina – sua causa. isto é.. p. Esta proposição pode ser escrita na fórmula a seguir: ∀x. na discussão das categorias..] os mesmos atributos de Deus que explicam a essência eterna de Deus [. Proposição XV. Há uma diferença de grau entre o entendimento e a vontade humana e o entendimento e a vontade divina. podem convir inteiramente quanto à essência. sendo que x é um elemento qualquer e A é Deus. 74)..] não existe na natureza senão uma substância única e [..] tudo o que uma substância tem de perfeição não se devem a nenhuma causa exterior. aquilo mesmo que constitui a essência de Deus constitui também a sua existência. 81. existe em Deus.. 90). e assim a essência e a existência são uma só e mesma coisa” (p... “[. mas.] absolutamente infinita” (p. porque essa essência é uma verdade eterna.e.. Neste caso. “[. . ao mesmo tempo. 93).. um modo de pensar: ele não tem realidade (Cf.. “Tudo o que existe. “[.] como ente que constituído por uma infinidade de atributos.. mas não da essência de outro homem. 78)... o conjunto no qual tudo é. mas a diferença é tão grande que não se pode utilizar o mesmo nome entre ambos. “[. 95). 75). 96). “A existência de Deus e sua essência sua uma só coisa” (Proposição XX.. ser e realidade são uma e mesma coisa. e sem Deus nada pode existir nem ser concebido” (p. ao mesmo tempo. em conseqüência. não se poderá absolutamente evitar a conclusão de que ele existe necessariamente” (p. Nota da Explicação da Definição VIII). grifo meu). Spinoza tem.Parte I: De Deus O tempo é um modus cogitandi. Spinoza dirá que as partes são diferentes em modo e não em realidade. sua existência eterna. O Deus pertence o entendimento supremo e a vontade livre..] explicam. visto que os modos só podem ser concebidos devido a uma substância. porquanto a sua existência tem de resultar exclusivamente da natureza que lhe é própria. a qual dela não é mais do que a própria essência” (p.] um ser absolutamente infinito deve ser necessariamente definido [....

Spinoza diz que a vontade absoluta é própria à essência de Deus. No Escólio da Proposição XIX (p. Eis aí o determinismo de Spinoza em termos claros.Deus é causa de si e de todas as coisas: de sua essência e existência (cf. Proposição XXXII). já que esse é infinito. No apêndice da Parte I(p. 100-1. E. ou [. 106). Proposição XXXI). quer seja finito quer infinito.] Deus considerado como causa livre. ou melhor. o amor. “A vontade não pode ser chamada “causa livre”. Proposição XXV).. 105). modos pelos quais os atributos de Deus são expressos de maneira certa e determinada” (p. o que segue a ordem (perfeita) das coisas e sua determinação dada por Deus e. no Escólio II da mesma proposição. “As coisas particulares nada mais são do que afecções dos atributos de Deus. mas por sua infinita potência. “Nada é dado de contingente na natureza. 117). na qual Spinoza se esforça para demonstrar a .] de todos os modos dos atributos de Deus. Spinoza distinguirá dois modos de coisas: 1) as infinitas imediatas (Deus é causa próxima) e 2) as infinitas mediatas. que “Deus não existe anteriormente a seus decretos e não pode existir sem eles” (p. devem ser referidos à Natureza Naturada. mas nela tudo é determinado pela necessidade da natureza divina a existir e agir de modo certo” (Proposição XXIX. embora nada exista fora do modo e da substância de Deus. Há uma infinidade de coisas causadas por outras. Spinoza diz que todas as coisas são predeterminadas por Deus não pela liberdade da vontade. Natureza Naturante é a coisa em si mesma (existente e concebida em si): “aqueles atributos da substância que exprimem uma essência eterna e infinita. Por Natureza Naturada entendo tudo aquilo que se segue da necessidade da natureza de Deus [. etc. na próxima proposição. ela deve ter “uma causa pela qual seja determinada a existir e a produzir algum efeito” (p. 101. 107. 106). aquilo que se segue por necessidade da natureza de Deus). ou seja. Em seguida. As coisas finitas só podem ser determinadas por Deus a produzir outro finito. mas essa coisa não pode ser conseqüência de Deus. “O entendimento em ato.. Spinoza distinguirá Natureza Naturante (aquilo que existe por si e é concebido por si) de Natureza Naturada (os atributos de Deus. Isto lembra do ser e do ente. logo. o desejo. 108. p. 113).. como também a vontade. Neste apêndice há uma análise antropológica interessante. em seguida.. à medida que são considerados como coisas que existem em Deus e não podem existir e nem ser concebidas sem Deus” (p. e não à Natureza Naturante” (p. os grifos são meus). mas somente “causa necessária”” (p. pp. em seguida.. 109). ambos devem coexistir.

não podendo. estaria saciando uma privação. 1 Para Spinoza. que consiste na substituição do modo de ser das coisas pelo seu modo de ser na imaginação do homem – naquilo que lhe convém. 126) – este parágrafo me fez pensar no conceito de fantasia. em especial a p. sendo que estas últimas só existem por alguma razão. agir a um fim é saciar uma privação. naturalmente. está pautado na tese de que as coisas só são em relação a outras coisas. 135). que se “enraízam em suas mentes” (cf. ou. 131). 122). p. visto que sabem de seus desejos e volições de buscar algo (comportamento teleológico). preconceitos e superstições. visto que a “vontade de Deus”. o que seria incoerente com sua perfeição. por conseguinte. especialmente o último parágrafo da p. como diz Spinoza. uma existência determinada. “A ordem e a conexão das idéias são as mesmas que a ordem e a conexão das coisas” (Proposição XVII. 118): como. em si e por si: Ele é substância. segundo ele. 125): ele diz que isto é uma inversão. e as catástrofes mundanas. Conclusões: Deus existe. mas não buscam as causas dessas volições. e criando. a liberdade. além de refutar a visão antropocêntrica do Universo. que são. Deus é coisa pensante” (Proposição I. é o “asilo da ignorância” (p. mas. por conseguinte. por exemplo. em outras palavras. se Deus agisse assim. por ser saudável. tudo que provém dos sentidos. Em seguida Spinoza diz que “os homens julgam as coisas segundo a disposição do seu cérebro [que ele admite. que lhes dá essência e. assim. com as causas finais deles e das coisas dispostas no mundo1. incluindo. Parte II: Da natureza e da origem da alma “O pensamento é um atributo de Deus. o culto aos deuses. com vista a um proveito egoísta (cultuo meu Deus para que as finalidades das coisas por Ele criadas atendam aos meus desejos cegos). Refuta-se assim a contingência e afirma-se que tudo que há no Mundo é necessário. variar de homem a homem] e as imaginam mais que as conhecem” (p. E tudo o que é privado (cessa de existir) o é pela vontade livre de Deus. Tudo existe em Deus. necessariamente. “ficções humanas”. garante existência. por seu decreto. já que tem uma causa. p. nisto. assim. O raciocínio de Spinoza.preocupação dos homens não com as causas primeiras de seus comportamentos. aqui. Nesta passagem. que são interpretadas como a cólera dos deuses. Deus e as coisas existem necessariamente. Spinoza elimina a vontade de Deus de qualquer circunstância que valide o acaso ou mesmo um fim: é tudo programado. . da psicanálise. 123 e a p. segundo Spinoza. num interesse pragmático. anteriormente. cf. tornar-se indeterminadas por si mesmas. As coisas são modos determinados pelos atributos de Deus. incluindo a imanência da moral na ordem das coisas (para esta refutação.

contrariando a indivisibilidade da substância. no Escólio de seus lemas sobre os corpos. o que me faz lembrar. existir vários homens.] o entendimento de Deus e as coisas entendidas por ele são uma só coisa” (Escólio da Proposição VII. “pertence à essência de uma coisa aquilo sem o que ela não pode existir nem ser concebida. um corpo já pensante. Spinoza. que vai além do dualismo cartesiano. que podem variar em si mesmos. Mas. superando o dualismo cartesiano. 144) As três primeiras pertencem à proposição XII e a última. Segundo a proposição X (p. mas por necessidade. a saber: de criar e destruir por vontade.. embora pense que este corpo assumido na proposição se trate de um corpo a posteriori e não a priori. porque “a alma humana é parte do entendimento infinito de Deus” (idem). O que quero comentar é que. 141). 144). do conceito de fantasia (psicanálise). Spinoza diz que “o homem consiste em alma e corpo e que o corpo humano existe conforme o sentimento que temos dele” (p. fica-nos fácil interpretar que “tudo o que acontece no corpo humano. 152). à XIII. a alma humana deve percebê-lo” (p. também. Com o que foi dito. para nossa surpresa. Deus não pertence à sua essência” (p. Mas não a idéia de uma coisa não existente” (p. ou seja. p.. E é o que veremos no Escólio da mesma.Spinoza (já no Escólio da Proposição III) alerta para o caráter divergente de Deus e homem. visto que ela é indivisível e que podem. 2) “o que constitui primeiramente o ser atual da alma humana é a idéia de uma coisa singular existente em ato” (idem) 3) “dizemos então que a alma humana percebe uma coisa parcial ou inadequadamente” (idem). Spinoza concebe a existência como precedente à essência e o corpo constitui a alma. entretanto. 136). em que Spinoza remete a uma conjunção de corpo e alma. 142). deixa-me perplexo. faz uma comparação da natureza geral com um indivíduo: ambos são formados por corpos infinitamente variados. 139). nem mesmo seu poder figura como o nosso. novamente. pois. “um modo da extensão e a idéia desse modo são uma e a mesma coisa. Vou anotar quatro proposições (não necessariamente enumeradas separadamente por Spinoza) interessantes: 1) “o que constitui o elemento primeiro de uma alma humana é. o Corolário da Proposição XIII. uma idéia. o homem não existe necessariamente: a forma do homem não é constituída pelo ser da substância. visto que podem ser conhecidos . é por isso que as coisas singulares não podem existir nem ser concebidas sem Deus e. mas sem prejudicar a forma do indivíduo total. de certo modo. 4) “o objeto de nossa alma é o corpo existente e nada mais” (p. mas expressa de duas maneiras [. mas.

162-3.como uma mesma coisa. na verdade. pode-se. mas pertence à primeira parte do ensaio). a idéia do corpo exterior. mas a alma. e só assim (vide Proposição XVII). na imaginação (que é o mesmo que o conhecimento). talvez. não existe o erro. que seja afetada pela presença do corpo de A. Contudo. a não ser a contigüidade de presença – i. Assim. imagina. 165. 158. de afetar o corpo. grifo meu). 156. de um lado. Escólio da Proposição XVII). as idéias dos corpos exteriores indicam.] próprio corpo do que a natureza dos corpos exteriores” (idem. O interessante deste exemplo é que. com efeito. E preste atenção nas primeiras linhas da demonstração da Proposição XIX: “A alma humana. Com efeito. Corolário I da Proposição XVI). a idéia da alma (idéia-da-alma) também deve estar na alma. Existe um exemplo interessante na p. ademais. A. sim. 155. No mais (proposição XXI e escólio). além do seu próprio. segundo Spinoza (cf. Para-si (a idéia de si e da coisa) e Para-si-Em-si (a idéia da 2 A idéia do corpo como necessário ao conhecimento ontológico parece ser refutada. Escólio). 157) apresenta-nos uma teoria da contigüidade. 163. contudo. estes corpos podem ser considerados quando não estiverem presentes.. o corpo pode considerar um corpo exterior como presente (existente em ato): quando o corpo sofrer uma afecção por conta do corpo exterior. pode perceber um grande número de outros corpos. que me lembrou o exemplo de Sartre (vide O ser e o nada – não me lembro da página. visto que presença é existência em ato).. que é tida através da afecção do próprio corpo sentida pela alma. Disto tudo. relacionar os conceitos de Spinoza com os hegelianos: Em-si (a coisa). depois. que. não é adequada – é faltante. o que implica imaginação (cf. isto é. e.e. é a idéia mesma ou o conhecimento do corpo humano (Proposição XIII) que está em Deus” (p. visto que ele é composto por vários indivíduos que podem ser afetados por maneiras diversas (p. 153. pudéssemos trocar esta última asserção para “está no mundo” ou “é no mundo” e. p. Proposições XXV-VI) –. 165. teríamos uma idéia mais ou menos clara da idéia de pessoa ou idéia de si (pelas afecções do próprio corpo). e. utilizando-se do exemplo duma palavra falada (sonora) com a coisa que representa. Assim. não têm nada em comum. enquanto ela mesma exista. ademais. assim como a alma está no corpo (tendo-o como objeto). visto que apenas só se tem a idéia corpo exterior pela idéia do próprio corpo. uma pessoa. mas a privação “de uma idéia que exclui a existência dessas coisas que ela imagina como lhe estando presentes [e que não mais existem efetivamente]” (p. caso o corpo já tenha sido afetado por sua presença uma vez2. talvez. contudo. inclusive o é também a idéia do próprio corpo. tem a idéia da afecção de seu próprio corpo e não da natureza do corpo de A. mas Corolário II).. em sua pedagogia. “mais o estado do [. outra pessoa. o que se presenta de acordo com as afecções do corpo de quem percebe recebe o nome de “imagem” – é a representação da presença das coisas exteriores ao corpo que as percebe. nas afecções causadas no corpo pelas coisas exteriores. assim. B. por outro lado. Spinoza (cf. pode ter a idéia da essência de seu corpo. p. . Proposição XXVII). i. por Spinoza. Proposição XXIX): tem-se apenas “um conhecimento confuso e mutilado” (p. quando diz que o fracasso está associado ao pensar as coisas com base em imagens.. que é a alma. e da própria alma (p. que podem não refletir a figura das coisas. podendo A estar presente para B mesmo no momento em que ele já não esteja mais presente (não mais exista.e. p.

as imagens começam a confundir-se. é capaz apenas de formar. ademais. no Escólio da Proposição XL (“Todas as idéias que resultam.. coisa. Podemos fazer uma analogia. e imagine distintamente apenas aquilo em que todos convêm.. a dizer a verdade. pela qual o corpo foi afetado mais fortemente. etc. ao mesmo escólio] essas noções não são formadas por . a saber. sob o atributo de ser. mas ignoram a causa de suas ações. 172). à medida que afetam o corpo. De causas semelhantes se originaram também essas noções que se denominam “universais”.. cavalo. se reduzem a que esses termos signifiquem idéias confusas no mais alto grau. com efeito.. nem as pequenas diferenças singulares (tais como a cor. 173). Spinoza nos dirá sobre a percepção da duração do corpo e das coisas. no corpo humano.. Spinoza demonstrará. que o corpo é capaz de formar ao mesmo tempo em si mesmo. também. sendo limitado. tais como ser. o pensamento” (p.. e os compreenderá de certa maneira sob um mesmo atributo. mas o bastante para que a alma não possa imaginar.. que é sempre inadequada. das idéias que nela são adequadas. e se o número de imagens distintas. sem distinção alguma. Porque. na alma. a saber. ao desenvolvimento psico-topológico humano. e é por isto que se sabe o que sabe (por ter a idéia da idéia). algo. Em seguida.alma). não completamente. e é esta. resumidamente: das afecções corporais estrutura-se o próprio ego e sua idéia e da idéia do ego. tendo-o sido pelos seres singulares. diz ele: “[. de homens em tão grande número que o seu poder de imaginação se acha ultrapassado.] se esse número é excedido. o tamanho de cada um). Escólio da mesma) com o engano que os homens comentem ao acharem-se livres. isto será deixado para outro tratado. etc. Proposição XXXV. Pois bem. distintamente. que a alma exprime pelo nome de “homem” e que afirma de uma infinidade de seres singulares. “a idéia da alma e a própria alma são uma só coisa. isto é.] [isto está no parágrafo seguinte. imagens. seguindo. que é concebida sob um só atributo. como dizemos. a saber. ainda. pois. Ademais. todas se confundirão inteiramente entre si [. de coisa. 169. 159)... o superego. é em muito excedido. avisa-nos. Isso pode também provir do fato de que as imagens não são sempre igualmente vivas [. em si mesmo. certo número de imagens ao mesmo tempo [. ao mesmo tempo.] Todas. porque se formam. Segundo ele. isto já foi visto acima). Esses termos originam-se do fato de que o corpo humano. Com efeito. daí que as coisas particulares sejam corruptíveis e contingentes – devido à sua possibilidade de corrupção –. no sentido kantiano (lembrando-se que Kant é ulterior a Spinoza). nem o número determinado dos seres singulares. exemplificando (Cf.. a única acepção de contingente. p. diz-nos que “a falsidade é a privação de conhecimento que envolve as idéias inadequadas” (p. as “noções chamadas “comuns”. as quais são os princípios do nosso raciocínio” (p. também são adequadas”.] acrescentarei algumas palavras sobre as causas de que provieram os termos chamados “transcendentais”. como homem. ela não pode imaginar o número determinado dos seres singulares [. o que acontece por acharem que conhecer suas ações é o suficiente. sendo Deus a essência da alma humana. mas pertence. estes são os a priori.] logo que as imagens se confundem inteiramente no corpo. comum a todos. por exemplo. cão.. é essa qualidade. a alma também imaginará confusamente todos os corpos.

e 3) das noções comuns e idéias comuns das propriedades das coisas (universais). portanto. 177. que é o “conhecimento do primeiro gênero. em relação À coisa pela qual o corpo foi afetado mais vezes. e 3) a “ciência intuitiva”. de algo. 174). o conhecimento verdadeiro é aquele no qual se conhece a idéia adequada da coisa (p. Spinoza ainda nos alerta para que essas noções (os universais) variam de cognoscente a cognoscente. também. Spinoza diferencia três tipos de conhecimento. e se o número de imagens. como o conceito de “homem”. E três gêneros de conhecimento: 1) que se refere aos dois primeiros tipos de conhecimento (acima). . o conhecimento do primeiro é causa da falsidade e os do segundo e terceiro. assim. 175-6). se essas imagens confundirem-se no corpo. e que a alma imagina ou lembra mais facilmente [. Contudo. que é truncada e confusa para o entendimento). 173-5). pela qual se imagina coisas e têm-se idéias semelhantes). nos quais a imaginação se vê impotente para imaginar seu número determinado e suas diferenças: isto. pois. E. certo número de imagens ao mesmo tempo [. quanto aos gêneros. formadas segundo a disposição do corpo de cada pessoa.] e assim para os outros objetos. Spinoza diz que é muito mais fácil a alma conhecer algo que resguarde mais propriedades em comum com o seu corpo. de tal modo. que o corpo é capaz de formar ao mesmo tempo em si mesmo. Escólio da Proposição XL). imagens gerais das coisas. dos universais. por conseguinte a essência das coisas. cada um formará. então também as imagens dos corpos na alma serão confundidas. 2) dos sinais (recordação de coisas por signos. da verdade: ele “é necessariamente verdadeiro” (p. se esse número é excedido. em si mesmo. Proposição XLIII). compreendidos sob um mesmo atributo – de ser.. Proposição XLI). etc. isto é.]. a idéia de que existe algo a priori na alma.. Outros casos são. No Escólio II (p. doravante. “é capaz apenas de formar. Dizendo-nos. p. entre presença (atualidade) e não-presença (desatualidade) da coisa. sendo. todas se confundirão inteiramente entre si” (pp. opinião ou imaginação”. com efeito. é devido àquelas qualidades gerais e comuns aos corpos (idem). (cf. 176. 173-4. cada alma imagina ou lembra diferentemente: as imagens gerais das coisas são. dando-nos. Não é pois de admirar que entre os filósofos que quiseram explicar as coisas naturais unicamente pelas imagens das coisas se tenham originado tantas controvérsias” (p. que alcança o conhecimento adequado e. Entre idéia verdadeira e idéia falsa a diferença está na mesma proporção que entre ser e não-ser. Por conseguinte. 2) “razão e conhecimento do segundo gênero”. as imagens começam a confundir-se.. de coisa. excluindo-se a não-presença da imaginação apenas quando houver causas para tal. que o corpo é limitado e. a saber: 1) da experiência vaga (apreensão dos corpos pelos sentidos.todos da mesma maneira. segundo a disposição de seu corpo. pois cada corpo é afetado de maneiras diversas e. é em muito excedido.. por conseguinte. elas variam em cada um. Sendo que. distintamente.

envolvendo. 182). 3 A idéia de tempo. 178-80)3.e. que lhes é comum. tudo o que é está no Mundo (algo como o ser-aí de Heidegger). enquanto o segundo. relacionando-se à presença das coisas percebidas contiguamente (p. já que as idéias são modificações do corpo pelas coisas exteriores. isto é. . i. assim como o são os corpos (as coisas). que se dá na alma e que a idéia envolve não como idéia (referindo-se ao pensar) (p. E. envolve uma afirmação ou uma negação” (p. o que é bem demonstrado na proposição XLVI (p. por ser um modo determinado do pensar e querer. 181). no sistema filosófico de Spinoza. Posso forçar uma dedução aqui: o tempo não é no Mundo.. na página 191. a seguir. dá-se por contigüidade. que explica as volições singulares. 187) e visto que imagens e palavras não envolve qualquer conceito do pensamento. Proposição XLVIII). diz-nos. visto que. A vontade. sejam elas quais forem. também. mas é tão-só na imaginação. Parte III: Da origem e da natureza das paixões Olhe este maravilhoso conselho do autor: “o caminho reto para conhecer a Natureza das coisas. i. e acompanhando a percepção de uma coisa e. isto é. percebe-se o tempo e o não-tempo (a essência eterna e infinita). ao se perceber uma coisa. sendo que um pouco antes nos diz que elas “são em toda parte e sempre as mesmas” (p. Deus e o Mundo são um só. depende da existência das coisas mesmas. ficções ou seres (da razão) metafísicos abstraídos dos seres particulares. É interessante notar. também que o tempo é imaginado. Spinoza nos dirá que “a vontade e o entendimento são uma só e a mesma coisa” (p. por conseguinte. não pode ser causa livre e nem ter uma vontade livre. A alma humana.. Conclusões: A idéia de qualquer coisa X exprime diretamente a essência do corpo do sujeito cognoscente do que a essência da própria coisa. sempre por meio de leis e regras universais da Natureza”. para Spinoza. à medida que é idéia. do Mundo. que Spinoza diferencia ser da razão de ente real: o primeiro corresponde às noções gerais.e. às particulares. a essência eterna e infinita de Deus (do Mundo). diz-nos que a vontade é o ser geral (uma idéia). é a faculdade de afirmar e de negar. 186. a posteriori na percepção humana. Em seguida. para Spinoza.. Corolário da Proposição XLIX). segundo Spinoza (p. 184.. deve ser também um único e mesmo: isto é. Olhe que interessante a demonstração da Proposição XLV: “A idéia de uma coisa singular existente em ato envolve necessariamente tanto a essência como a existência da própria coisa [. 185): as volições são volições particulares de querer ou de não querer. visto que “uma idéia. As faculdades absolutas são. embora ele seja imaginado. mas não absolutas.ademais. mas apenas movimentos corporais.] E as coisas singulares não podem ser concebidas sem Deus” (p. por conseguinte. portanto. 196).

ao contrário. por isto. este último é a essência do homem. 200) e.. e não há coisa que possam menos governar que os seus apetites [. a decisão da alma (volição) decorre necessariamente..] o decreto. são naturais.. a essência da alma nada mais é que a idéia de um corpo existente em ato” (p. tal qual a alma. . A alma contém em sua essência tanto idéias adequadas quanto inadequadas e esforça-se indefinidamente por perseverar no seu ser. inclusive. E observe-se o que segue: “O que constitui. “julgamos que uma coisa é boa porque tendemos para ela.. as ações da alma. diz-se. paixão ou. ao dizer que só um modo do pensamento pode ser causa do pensar na alma e só um corpo ou modo da extensão pode ser causa de um modo de ser (movimento ou repouso) do corpo. Spinoza chama a isto. Spinoza nos diz que as paixões relacionam-se com a alma no momento em que ela envolve uma negação (objeto mutilado). quando tem uma idéia inadequada. por uma idéia adequada. No escólio da prop. de vontade e.] os decretos da alma não são nada mais que os próprios apetites e variam conseqüentemente segundo a disposição variável do corpo [. assim. sua alma é ativa. em primeiro lugar.. as paixões. à medida que o homem tem uma idéia adequada. Em si. em certas coisas. que. 199) parece aceitar um tipo de dualismo. 208). passiva. que segue sua conservação (a tendência humana). deve-se explicá-las pelas leis da natureza. uma causa adequada. consciência disto. tendo. A segunda proposição (p. porque a queremos e desejamos” (idem). 2023).. no corolário. 198) diz que. o apetite da alma e a determinação do corpo são por natureza coisas simultâneas [. assim. mas. as coisas têm apenas a tendência para perseverar no seu ser: o que as destrói (suprime) são as causas exteriores. uma causa parcial. mas em seguida. referem-se a coisas singulares. E observe só as seguintes orações: “nada está menos no poder dos homens do que medir a sua linguagem. ora sob o da extensão” (p. 204) e o que resulta da alma é. assim. tendência esta que é dada (atual) na essência das coisas. de apetite (libido).A primeira proposição (p. II (p. por uma idéia inadequada. se referenciar-se à alma. Nestas passagens e nas seguintes. se à alma e ao corpo. E “o desejo é o apetite consciente de si mesmo” (p. Spinoza demonstrará a determinação da alma por dois lances: a imaginação e a recordação. sabemos que “a alma e o corpo são uma só e mesma coisa concebida ora sob o atributo do pensamento.] nada podemos fazer por decreto da alma de que antes não tenhamos a recordação” (pp. Isto pode ser cruzado com os conceitos de pulsão pulsional do ego e pulsão sexual. 204).

e. “o qual está para a afecção como a dúvida para a imaginação [. de outro. sendo que as de prazer e dor se referem a partes. que lhe temos. nascida da imagem de uma coisa futura ou passada. pro conseguinte. ainda que ela não exista [. de cujo resultado se duvida). o medo (do mesmo modo que a esperança. Spinoza diz que uma idéia contrária à existência do corpo (podemos pensar na pulsão de morte?) não pode ser dada à alma e é. manter-se existindo).e. isto é. se lhes tira a dúvida. de “dor” ou “melancolia”. seu afastamento e destruição.. No escólio da prop. p. sendo que aquilo que se refere ao futuro é um objeto duvidoso de caráter inconstante. 217-9. 220). mas sem ser causa eficiente. A alma se esforça por buscar ou imaginar a coisa amada (p. do mesmo modo.. portanto: o desejo e as paixões de alegria e tristeza. ao a alma ser afetada pela sua imagem. Algumas semelhanças (traços) de coisas com objetos antes causa de afecções podem resultar. e desespero.. X (p. XI (p. contrária ao corpo mesmo. 213). Ademais. As três afecções primitivas são. que se tornam segurança. E. No escólio da XV (p. enquanto “o homem é afetado pela imagem de uma coisa. são chamadas de “prazer” (titillatio) ou “hilariedade” e as segundas. podendo ser as duas afecções como causa eficiente ou uma delas como acidente. senão de grau” (p. mas com tristeza). ao ser imaginada. A partir daqui o autor fará análises das relações objetais. que se referem à presença (existência) de algo exterior: de um lado. É recomendável que o leitor leia pelo menos o que estiver em negrito. se algo amado cessa de existir. haver em sua essência uma idéia contrária à existência deste próprio corpo (anote-se que isto é válido se. a conservação da presença (existir no mundo) e. e somente se. quando afetadas. por outro lado. ao todo. 215). i..] e não a imagina como passada ou futura senão à medida que a imagem dela está unida à imagem do tempo passado ou futuro” (p. No escólio da prop. É interessante. i. chama-se “flutuação da alma” (Animu fluctuatio).e. As primeiras. Assim. XIX-XX). com dada freqüência de repetição. que poderá resultá-lo (prop. alegrar-se-á (a pessoa) (pp. considerá-la-á como presente. visto que todo objeto que favorece a potência de agir do corpo é mais fortemente imaginado pela alma. o que quer dizer que a responsividade pode. 211). a tendência essencial do corpo é conservar-se. 214).. 208). E. Disto. entristecer-se-á. 219). se algo odiado cessa de existir. XVIII). Spinoza distingue o amor que se tem àquele que faz bem ao nosso objeto amado e o ódio. se quiser saltar esta parte. No escólio da prop. mas maçante. de outro. 216. objetos semelhantes podem causar afecções semelhantes. XXII (p. e as ouras duas. aumentar a menores exposições de magnitudes estimulares. em ódio ou alegria. XVI.Na prop. propor. quando um objeto pode ser causa de afecções múltiplas e contrárias. portanto. nos diz que afecções podem ser generalizadas.] e não há diferença entre a flutuação da alma e a dúvida. não pode. 209). XIII (p. Spinoza deduz a esperança (alegria inconstante. se referidas ao corpo e à alma. se faz mal ao mesmo . de um lado. Spinoza diferencia paixões de alegria e de tristeza. é a relação do objeto primeiro e a afecção originada dele com um traço objetal a posteriori.. prop. Spinoza admite um par de opostos: amor e ódio. visto que a alma tem sua gênese na idéia do corpo.

alegre a coisa odiada (tem-se ódio dele e inveja da coisa odiada). chamando-os. por prejudicar sua potência de agir. 222. visto que não pode excluir a existência de tal delírio com a imaginação. ter-se-á amor por ele etc. o que demonstra uma tendência à alegria. . que passará. chegando a um delírio. que. As opiniões para com o outro. Na demonstração da prop. há certa medida de tristeza caso se imagine na coisa semelhante a si uma afecção de tristeza. e Spinoza define. envolvendo nossa natureza e a da coisa exterior. “contentamento consigo mesmo” e “arrependimento” acompanham idéias de uma causa interior (p. i.. que se replica do corpo exterior ao nosso. 225-6). escólio da prop. diz Spinoza. mas projetado no outro. a qual se dá como presente. Disto. e isto desde que não sintamos. Spinoza diz que. 226). e a respeito da qual não experimentamos afecção de nenhuma espécie. “é uma alegria originada de ter o homem uma opinião mais favorável de si mesmo do que seria justo” (p. o que dá no mesmo) dê alegria. com prejuízos a si). visto que as imagens são afecções de nosso próprio corpo. que sejam mais vantajosas do que seria justo. prop. Para lembrar: Imaginar é considerar algo como existente em ato (presente). 225). 227). tendemos a fazer a coisa que proporcione alegria existir: “nós a desejamos e para ela tendemos” (pp. por isto. de livrar o outro de sua miséria – o que Spinoza chama de”vontade de fazer o bem”.) e o mesmo vale caso haja um terceiro. respectivamente. A emulação é um desejo originado em nós. “louvor” (alegria ao imaginar a unção de outrem por seu esforço) e “censura” (tristeza devido à aversão pela ação de outrem) (p. assim. pelo fato de a capacidade de a alma pensar a capacidade do corpo agir serem páreas. mas também à que se nos assemelha (pode-se cruzar isto com o narcisismo). a “exaltação” (alegria) e “desprezo” (ódio). E a inveja não é senão isto: sentir o contrário de seu semelhante (comprazer-se com tristeza etc. experimentamos. em seguida. ou caso ele lhe faça mal (à coisa odiada). devido à empatia. assim. uma afecção semelhante”. de certo modo. 228). portanto. são. pode-se ter uma idéia do que perpassa uma vida em comunidade: o que é imaginado como bom aos homens (comunidade) ser-me-á também bom. E na proposição XXIX (p. nada a seu respeito. “Glória” e “vergonha” são retrações das afecções de. XXV) e esforça-se por imaginar tudo que lhes (a si e ao objeto. um evento no qual o homem torna-se como objeto de amor (cf. 223) resume o que poderíamos chamar de “empatia”: “Quando imaginamos que uma coisa semelhante a nós. de “favor” e “indignação”/ mas não só À coisa que amamos. O “orgulho”.e. por isso mesmo. XXVI). Contudo.objeto. experimenta alguma afecção de nenhuma espécie. que são as afecções destes “de fora”. Ademais. a semelhança dos dois corpos explicará a generalização da afecção. a priori. mas em geral. etc. respectivamente. alegria e tristeza advindas de outrem (do outro) – após a projeção para objetos externos e com sua resposta. “civilidade” ou “humanitas” (o mesmo que ambição. e o mesmo vale para a alegria. segue-se a “benevolência: “um desejo nascido da comiseração” (p.. experimenta alguma afecção. “ambição” (agradar a outrem por abstenção). A proposição XVIII (p. a causar as mesmas afecções de sua percepção primeira. por exemplo. XXVIII.

os homens estão prontos a ter comiseração para com aqueles que são infelizes. XXXII. quanto mais um homem vê-se afetado pela alegria. idem). 237. Kant buscará. o que frustra o desejo” (p. o que fica evidente a seguir: “aquele que. há falta e tristeza – eu o “desejo frustrado”. 239. Novamente. qualquer que seja ele. todos acabam por odiar-se reciprocamente. XLII).. Escólio L). maior será seu desejo de conservá-la (p.. que se resume no Imperativo Categórico. demonstração da prop. 2) Afastamento da tristeza. além de este ser um julgamento pessoal. Escólio da prop. ao contrário. “[. 229) chama-nos a atenção para o desejo que todos têm de que o outro ame aquilo que ama e odeio aquilo que odeia. Spinoza tem uma visão pessimista. é a conjunção do amor pela coisa amada com a inveja de outro que se lhe aproxime. afetando-o de diversas maneiras em função . no escólio da prop. e. O ciúme. e a invejar aqueles que são felizes”. O temor é uma resignação à satisfação. e. 240. Flutuação da alma (embora já tenha sido definido atrás): amor e ódio por um objeto ao mesmo tempo. 232). principalmente. p. isto é. fê-lo pelo desejo que tinha de ser. por amor. mais o homem desejará afastá-la de si. um modo do homem “evitar um mal que julga futuro por um mal menor” (p. no latim. ele próprio. ulteriormente. XLI). XXXIX): o ser do bem e do mal é a posteriori em relação a um desejo. quanto maior ela for. em sua íntima face. parece também não crer no altruísmo. Spinoza vem a destruir a metafísica do bem e do mal: “Por bem. que pode ser reforçada com este trecho: “parece que os homens são muito mais inclinados à vingança do que a retribuir os benefícios” (p. A Proposição LI é interessante. A proposição XXXVI e seu corolário são fabulosos. Os dois princípios essenciais do ser são: 1) Tendência à conservação (do ser). segundo Spinoza (p. a qual se deseja por completo. 233-4). Se a tristeza diminui a potência de agir do homem. sem conteúdo propriamente dito. XXXI (p. principalmente. 234-5. ou. o que satisfaz o desejo. diz-nos: “em virtude da disposição da sua natureza. desiclerium (p. além disso. XXXVII). por conseguinte. com uma esperança de glória (Proposição XXXIV)” (p. assim.O escólio da prop. a forma do bem supremo. logo. que é uma proposição formal. 247. Escólio da prop. 236. prop. amado. E. que é a priori: “Faças a teu semelhante aquilo que queres que ele faça a ti”. visto que demonstra o caráter peculiar do corpo humano e dos objetos que se lhe presentam.e. na repetição o objeto de amor faz-se um elemento da cena. entendo aqui todo gênero de alegria e tudo o que. fez bem a alguém.. pois demonstram uma condição de generalização do amor que se tem pelo objeto à toda cena do deleite e. Por mal entendo todo gênero de tristeza e. Ademais. i. o desejo de que todos vivam de acordo com o seu entendimento.] somos dispostos a crer facilmente no que esperamos e dificilmente no que tememos” (p. a ela conduz e. 230).

portanto. pois. Lembrar que “o desejo é o apetite consciente de si mesmo” (p. p. de cada paixão deve ser necessariamente explicada por sorte que se exprima a natureza do objeto pelo qual somos afetados” (p. o que integra o tempo. ainda mais reforçado pela educação dos pais: o homem tende a mentir a potência de agir de seus semelhantes para seu benefício. 4 5 Isto é. cada afecção. 248). O desejo é um conceito5 que depende necessariamente da constituição (corporal) do sujeito. além da essência do corpo do sujeito cognoscente. 208).: “os homens podem diferir tanto pelo julgamento quanto pela afeição” (p. fá-lo ter paixões mais vivas por si mesmo (sentimento de si) e pelos que lhe são semelhantes (p. A crença do ser humano como livre desprende-o das coisas4 e. Corpo do sujeito Corpo exterior Afecção (afetação) Podemos chamar o objeto (corpo exterior) de A. varia quanto maior for o número de afecções. tristeza. etc. assim. refiro-me a um termo (lingüístico) e não a uma idéia. 254.ex. etc.. envolve também a natureza do próprio objeto. Lembrar que o conceito de indivíduo se refere à menor parte do cosmo social. . que pode variar (Pedro e Paulo. mas que é ou pode ser afetado por afecções advindas do exterior e.do tempo e do corpo. Demonstração LVI). No escólio (p.. são nestes casos que a potência da alma governa os afetos – uma potência que pode “governar e reprimir as paixões” (p. 255). desfaz seu elo necessário. Spinoza diz que o desejo relaciona-se a um objeto e disto resultam afecções. B.). “A natureza. Assim. assim. por conseguinte. mas ódio em Paulo hoje e o inverso amanhã etc. em função da distribuição dos seus corpos no mundo. 247). 257). ao posicionamento de alguém frente a algo que é ou pode ser conhecido (o objeto). de objetos. e que independe do conceito de sujeito: este último se relaciona à gnosiologia e. portanto indivisível. Spinoza diz que o homem está naturalmente inclinado à inveja e ao engrandecimento de si mesmo. etc. Termo – quando menciono conceito. um objeto pode gerar amor para Pedro. e as afecções de alegria. de sua natureza.

no mesmo. LVIII (p. a coisa desejada pode ser adiada e o desejo ocupar-se de outro objeto (p. por conseguinte.] o apetite é a essência mesma do homem enquanto determinado a fazer as coisas que servem para sua conservação [. na demonstração da def. diz que não há na alma ativa afecção de tristeza. os quais variam segundo a disposição variável de um mesmo homem. 264. pois. 270). 6 Lembrar que apetite em latim escreve-se libido. e que.. Lembrando-se que privação é cessação existencial. def. XXVII (p. como mostram as definições que delas demos” (p. “portanto. Escólio LIX). A segurança brota da esperança e o desespero. e que a “alegria e a tristeza são. “Entendo. VI).]” (idem). pela palavra “desejo” todos os esforços.. visto que a alma. 1ª definição das paixões). etc. diz que o desejo também se pode referi-lo enquanto tal. conhece clara e distintamente. 262). I). e se opõem entre de tal forma que o homem é impelido em diversos sentidos e não sabe para onde voltar-se” (p. 260. E. “o contentamento que existe no amante por causa da presença da coisa amada. 260. esses elementos podem ser contrários entre si.] coisa é não duvidar de uma coisa. não é determinado a fazê-lo. imagina-o necessariamente e se dispõe por essa imaginação de tal sorte que não pode realmente fazer o que imagina não poder. Ou seja. impulsões. enquanto imagina que não pode isso u aquilo.. apenas. 266. Spinoza. palidez.. afetam tão-só o corpo. . pois é aquela que diminui a potência de agir. apetites e volições dos homens}. que esforço por perseverar-se no seu ser é o mesmo que apetite 6 e desejo. há desejo e alegria.. contentamento pelo qual é fortificada ou pelo menos favorecida a alegria do amante” (p. diz que algumas paixões. da modificação do corpo. à alegria ou à tristeza.. a alegria e a tristeza são o próprio desejo ou o apetite [. 258). que é próprio da natureza de cada um (proposição anterior) . paixões pelas quais a potência de cada um ou seu esforço por perseverar no seu ser é acrescido ou diminuído.. Pois. dá grande importância à educação e aos fatores sociais nos sentimentos de alegria e tristeza. esse se conserva idêntico a si mesmo” (p.] tenha ou não consciência do seu apetite. impulsões. que “o desejo é a própria natureza ou essência de cada um” (idem). e outra é ter a certeza dela” (p. soluços. Na Prop. def. “uma [. O “desejo é o apetite com consciência de si mesmo [.. assim. A essência do amor é a alegria causada por uma coisa exterior e sua propriedade. 250. assim. em que Spinoza adentra no caráter ativo (de agente) do homem. do temor (idem). favorecido ou reprimido” (idem). Prop. diz-nos que o desejo pode opor-se pela saciação da coisa gozada e. LVII). apetites e volições dos homens. então. mas não a alma.Deve-se lembrar que todas “as paixões se reduzem ao desejo. Doravante. def. como tremor. na próxima. desejo = {esforços. XV). Ademais. “uma privação nada é” (p.. 261. “tudo o que o homem imagina que não pode. portanto.

por conseqüência. 283-4) – um modelo que já está socialmente concebido. Ou seja. esse Ser eterno e infinito a que chamamos “Deus” ou “Natureza” age com a mesma necessidade que existe [. alegria. nele mesmo. previamente intencionada ou planejada.. a imaginação limita. Causa final é desejo.. Lembrar que ter uma idéia clara e distinta resulta na atividade da alma e que uma que seja confusa e obscura. ele não age. também. segundo a necessidade da Natureza. portanto. o homem propôs a classificar as coisas da Natureza como perfeitas ou imperfeitas. paixões = {desejo. mas pode não ser o modelo dos planos do artífice. 284). Parte IV Da servidão humana ou da força das paixões “submetido às paixões. 283). 285.. para Spinoza. Imperfeito Bem Mal . antropologicamente (isto é. essa afecção dificilmente pode ser dominada. sempre que o homem é possuído por um desejo. como o são o bem e o mal. Tudo o que está na coisa lhe é necessário. Ou seja. Com efeito. Perfeição. mas dependente da fortuna” (p. que surgem da comparação entre as coisas7. etc. presa da ambição”. a “ambição é um desejo pelo qual são alimentadas e fortificadas todas as afecções. Não existindo nenhum fim. antropologicamente. 7 Perfeito Como se disse atrás. “estima-se o valor das idéias e a potência atual do pensamento segundo o valor do objeto” (p. Assim. “a Natureza não age com um fim. da alegria ou da tristeza. na sua passividade. que corrobore com essa intenção: é algo que está de acordo com o modelo (pp. pois. a partir do próprio homem). 277). não são mais que essas três que costumam chamar por diversos nomes por causa das relações segundo as quais são consideradas e das suas denominações extrínsecas” (p. uma coisa.e. a potência . do artista. que todas nascem do desejo.. 280). ou antes. tristeza} e x ∈ paixões → ∀x. nada pode faltar no ente. é. 279).e conseqüentemente é-lhe impossível” (p. pelas definições das paixões explicadas. Segundo a definição XLIV (p. etc. que é humano. é a conclusão – o acabamento – de uma obra. Spinoza diz. ao mesmo tempo. aliás.] a razão ou coisa por que Deus ou a Natureza age ou existe é uma e sempre a mesma. i. com base em si como modelo. Perfeição e imperfeição são modos de pensar. o homem não é autônomo. que os homens são conscientes de suas ações e desejos. “É claro. mas ignoram as causas. 271). também por nenhum” (p. x ∈ (desejo ˅ alegria ˅ tristeza). na p.

pois. 303). isto porque não é pelo verdadeiro que se exclui uma imaginação. nada há nele de positivo. pela força das paixões. e [. a conservação do ser. de caráter . . As paixões podem sobrepujar em potência qualquer desejo que brote do conhecimento do bom e do mau. 299). por isso mesmo. mas por causa de outras mais fortes. “o princípio da virtude é o próprio esforço [do homem] para conservar o [seu] ser próprio. “Somos passivos à medida que somos parte da Natureza.. por conseguinte. o homem está disposto à ordem da Natureza e. nada tem de positivo que possa ser suprimido pela presença do verdadeiro. Prop. que excluem a presença do que lhe era anterior (pp. 290. à medida que é verdadeiro. geralmente seguimos o pior. que não se pode conceber por si sem as outras partes” (p. O erro está no conhecimento e não na afecção e. bom ou mão. mas apenas privação de algo que exclua a idéia falsa. o conhecimento verdadeiro. submetido às paixões (pp. 303). prop. podemos extrair outra fórmula: perfeição = realidade. p. devemos desejar” (p. e mesmo que um conhecimento venha a ser verdadeiro. por conseguinte.Vê-se que a perfeição ou imperfeição é uma questão de grau – quantitativa – e a de bem ou mal. aumenta o diminui a potência do agir. Spinoza diz que. Segundo Spinoza (Prop. VII) – ambas são corporais. VII. 294). a coisa como antes. “Há. II). 293. apesar de conhecermos o bom e aprová-lo. pela afecção. e assim (Proposição I). Segundo a Proposição IV. Perfeição é a essência do homem. 298-90).. etc. respectivamente. qualitativa. 291-2). a imaginação não deixará de imaginar. Só uma paixão mais forte pode reprimir outra paixão (p. maior ou menor que antes (definição geral das paixões). “A paixão é a idéia pela qual a alma afirma a força da existência de seu corpo. mas causadas externamente. reprimir afecção alguma” (Prop. Em seguida.] a felicidade consiste em poder o homem conservar o seu ser” (p. da conscientização. p. XIV.. conseqüentemente. o que nos demonstra a impotência do conhecimento. do homem: são a idéia de alegria ou tristeza advindas de afecções de alegria ou tristeza. não pode. Por outro lado. é bom ou mau aquilo que. fora de nós muitas coisas que nos são úteis e que. um conhecimento (bom ou mau) pode vir a se tornar paixão para reprimir outra. assim.

Logo. pois. de certa maneira. Uma coisa má é repelida pela potência do homem e. p. 306. Lembrar: Razão é a alma à medida que conhece clara e distintamente (Escólio II. “as coisas que concordam entre si em uma negação apenas. por favorecer a perseveração do ser e aumentar a sua potência de agir: é assim que ela é chamada boa.. “O esforço por se conservar é o primeiro e único fundamento da virtude” (p. XXIII. p.] impossível” (p. “A virtude é a própria potência humana que se define pela essência do homem (Definição VIII). uma só alma e um só corpo.. 307).] os homens. a maior utilidade do homem ao homem se cabe àquele guiado pela Razão.. a impotência consiste só em o homem se deixar conduzir passivamente .] o que concorda com a natureza de todo homem” (p. 305. fazem necessariamente o que é necessariamente bom para a natureza humana. eu digo. 308). E veja o que nos diz Spinoza a respeito de algo contrário à conservação do ser do homem: “que o homem se esforce pela necessidade de sua natureza por não existir. não lhe deve ser comum. naquilo que elas não têm. demonstração da prop. “A diferença entre a virtude verdadeira e a impotência percebe-se facilmente então: a verdadeira virtude não é outra coisa que viver só sob a direção da Razão.. por conseguinte. Prop. 305. não concordam na realidade em nada” (Escólio da Prop. Conhecimento. Parte II). Isto me lembra a filosofia heraclitiana. Isto implica em a essência humana ser boa. isto é. e conseqüentemente para todo homem [. como o é a nossa natureza. XVIII) . Spinoza admite o homem (um homem) como vário e inconstante (p. é em virtude da razão que a ele se tende (vide prop... XXVI. a essência é um nada até que seja afetada. (Proposição VII. que se conserva e age pelo que lhe é útil. Prop. e que todos se esforcem em conjunto por conservar seu ser. corolário da prop. XXXII. Daqui podemos entender a virtude como o uso útil da realidade e por útil. e. aquilo que conserve o seu ser. “[. 313). por conseguinte. 313). etc. só enquanto sob a direção da Razão. Além disso. ou por mudar de forma. é ter idéias claras e. por conseguinte. escólio da precedente). XL. XXII). isto é.. para Spinoza. 319-20). mas contrária. 315. ser ativo (vide Prop. podem ser diferentes por natureza [. Na próxima prop. e.] refiro à religião todos os deveres e ações de que somos causa enquanto temos a idéia de Deus ou enquanto conhecemos Deus.. não podem desejar coisa mais valiosa para a conservação do seu ser do que convirem todos em tudo. principalmente por ser a essência duma coisa. como visto no apêndice da Parte I.. a outrem. “Enquanto os homens são dominados pelas paixões. é [. XX). portanto.] e contrários uns aos outros [. XXXV). com o que é bom ocorre o contrário. Chamo “moralidade” ao desejo de fazer o bem que tira sua origem do fato de que vivemos dirigidos pela Razão” (pp. Parte III). existe mais útil ao homem do que o homem..“Nada. e que todos em conjunto procurem a utilidade comum a todos” (idem.. de maneira que as almas e os corpos de todos componham. p. Escólio da Prop. Mas ela é boa. os homens. a qual se define apenas pelo seu esforço pelo qual o homem se esforça por perseverar no seu ser” (p.

a Razão é a verdadeira potência do homem. no seguinte trecho: “Vemos. p. justo e injusto. E diz que “no estado natural . pecado e obediência organizam-se de acordo com os prescritos da cidade: aquilo que é mau e aquilo que é bom. uma vez que proviam à utilidade comum. 334-5). Cidade: sociedade humana mantida por leis e pelo poder de manter a si mesma. de perversão (quase sinônimo de “prazer sem medidas ou barreiras”). pois. e. visto que impede o corpo de ser afetado de diversas outras maneiras. pecado e mérito. ativo.pelas coisas externas a em ser determinado por elas a fazer o que pede a constituição do mundo exterior. 328). e não à de alguns. não há. o que lhes seria útil (p. 320). definindo. assim. também. 320). etc. Prop. L). 327-8). i. e. props. razão para que se admire de que os profetas tenham recomendado tanto a humildade. com efeito. menores em potência (Escólio I da Prop. esforça-se por não ter comiseração por outrem (pp. a ambição. Uma paixão como o amor. 321. enfim. a despeito de não ser presente esse último. por conseguinte. pois. 322-3. o direito de o cidadão gozá-lo. visto que lhe são diferentes em essência e estes últimos são. a obstinação de objeto ou psicose. homens possuídos por um único objeto de tal modo que.. Ademais. não é obrigado por nenhuma lei obedecer a ninguém senão a si mesmo” (idem). visto que apenas uma paixão mais forte do que outra pode reprimi-la (idem). inclusive. LII (p. assim. sob a direção da . A força das paixões supera a potência ou a virtude humana. E. e. portanto. ser levados a viver. e não segundo a razão. Logo. o arrependimento e o respeito. também. Segundo a Prop. pode vir a exacerbar-se (o prazer) e. E que “na verdade a avareza. e não o que pede a sua própria natureza” (p. 326-7. os que estão sujeitos a essas paixões podem. que são decretadas pela cidade (o modo como Spinoza chama a sociedade mantida por leis e pelo poder de manter a si mesma) para que todos obedeçam. são espécies de delírio. muito mais facilmente do que os outros. não há nada que seja bom ou mau. Escólio II da mesma). nada há de justo ou injusto. que é boa. supõem eles tê-lo diante de si. segundo o seu engenho. Para Spinoza.. bem e mal são convenções. não tendo outra regra senão o seu interesse e. a lubricidade. cada um consulta apenas a sua própria utilidade e. XLIII-IV). enfim. brotará também um maior desejo (pp. ser má. o contentamento íntimo brota da Razão. dizemos que ele delira ou que é louco” (pp. o homem tem maiores direitos sobre os animais. decreta o que é bom e o que é mau. nesse estado natural. por conseguinte. O homem movido pelo ditame da Razão. conquanto não sejam enumeradas entre as doenças” (p. sua virtude. fazendo os ohmens agirem uns contra os outros. como em Freud.e. no estado natural não há propriedade e. assim. ou não. Talvez possamos chamar a isto. com efeito. Veja o seguinte trecho: “O povo é terrível quando sem temor. A sociedade é instituída por meio de leis e regras comuns de vida pautadas na ameaça. quando isso acontece a um home que não está dormindo. E. são noções extrínsecas – não são atributos que expliquem a natureza da alma. XXXVII.

de si. Spinoza concebe o homem que vive sob o ditame da Razão como “livre”. idem).. L. por outro lado. seria de nenhuma utilidade se os homens pudessem ser conduzidos pela Razão” (p. aqui. Assim. conservação do ser. 350. e o que vive aos moldes das paixões é concebido como “seno”.Razão. ao mando das paixões. ser conduzidos só pela Razão. Lembrar da Prop. p. ele tem a potência para se tornar livre (a Razão é a verdadeira potência do homem). Visto que a Razão e a virtude visam o útil (ou são ele enquanto visada). que é uma paixão. poderíamos dizer que o sentimento de grandeza e o de inferioridade são. O homem não nasce livre (p. 344). 347). Assim. obedecendo apenas a si mesmo (autônomo). Este desejo é a essência mesma do homem. Uma idéia concebida pela alma por meio do ditame da Razão não distingue tempo. 343. e não do mal.. LXIII. Parte III. 336). A expressão “desejos libidinosos” aparece no Escólio da Proposição LXXI (p. pp. podemos dizer que o homem não nasce livre. p. pois. ao contrário. Proposição LXVIII). Lembremo-nos que o homem não é autônomo e que são raros os homens que vivem sob o ditame da Razão. afastamentos do si-mesmo.] do que praticar essas ações que decorrem da necessidade de nossa natureza considerada por si só” (Dem. I desta parte (IV): que o homem sob o ditame das paixões não é autônomo. ser livres e gozar a vida dos bem-aventurados” (Escólio da Prop. . afastando-se colateralmente do mal. devido à falsificação ou distorção da realidade do outro e. é afetada da mesma maneira por todos (um imperativo categórico?). nasce governado pelas paixões. Assim. LIV. isto é. 341-2). que o determina a agir. p. “O desejo que nasce da Razão não pode ter excesso” (Proposição LXI. 338). p. 337. Aqueles que ignoram o si-mesmo (Razão) “são os mais sujeitos às paixões” (Corolário da anterior. e nasce do conhecimento do bem. 342). LVI). Vida. A alegria que não é em excesso não é uma afecção e caracteriza o desejo da Razão (Corolário Prop. A Razão opõe-se. 354. da potência real da pessoa. p. “quem age sob a direção da Razão deve saber necessariamente que age sob a direção da Razão” (Proposição XLIII. também não nasce sobre o mando da Razão. mas que. “Agir segundo a Razão não é nada mais [. por conseguinte. Da Prop. o desejo que da Razão brota tende para o bem. utilidade e potência de ação parecem ser sinônimos. “todo desejo que nasce de uma afecção. “a todas as ações pelas quais somos determinados por uma paixão passiva podemos. referindo-se a desejos sexuais. independentemente dela” (idem. sem ela. na verdade. Prop. p.

pois. “[. por mais fraca que seja. a Razão ou potência da alma pode. de adquirir um poder absoluto sobre as suas paixões” (p. O cap. é incapaz. à sociedade inteira e diz respeito somente ao interesse comum” (p. No V.. a não ser quando ele mencione o contrário.. Lembrar sempre que a conotação de Spinoza de bem e mal diverge do senso comum. E . Descartes diz que “nenhuma alma. A educação é ressaltada no cap. Spinoza diz que o conhecimento (acepção que ele dá. contentar-se-á plenamente a se esforçar por perseverar nesse contentamento” (p. 357). XXXII). do que na solidão onde só obedece a si próprio” (p. 355). de que a nossa potência não ia até ao ponto de evitá-los. Se conhecemos isso clara e distintamente. todavia. onde vive segundo o decreto comum. reprimi-las ou governá-las. distingue ação reta (desejo que parte da natureza humana) e paixões (desejos que partem de causas exteriores). pois.Observe que a Proposição LXXIII não afirma a autonomia do homem livre: “O homem que é dirigido pela Razão é mais livre na cidade. No III. e se tivermos presente a idéia de que somos parte da Natureza inteira. cap. 371). a cuja ordem obedecemos. i. diz que “a beatitude do homem não é outra coisa senão o próprio contentamento interior. em certa medida. cap. para levá-lo à perfeição. a melhor parte de nós. 363. No XIII. Parte V Da potência do entendimento ou da liberdade humana Embora o homem não tenha poder absoluto sobre suas paixões. p.] o cuidado pelos pobres incumbe. No capítulo I do Apêndice da Parte IV (p. Spinoza ataca a repressão do ânimo (p. essa parte de nós que se define como inteligência. Suportaremos. 367. a viver sob o ditame da Razão. e quem quer que seja conduzido pela Razão deseja para os outros o que deseja para si mesmo” (Escólio da última. antes de mais nada. “o ódio deve ser vencido pelo amor. isto é. aquilo que se refere à religião e à moralidade” (p. que a vida racional (da alma) define-se pela inteligência. com uma boa direção.e. trocando as acepções. como Spinoza demonstrará. 358). “Para alcançar o amor entre os homens é necessário. que nasce do conhecimento intuitivo de Deus” (p. VIII demonstra a funcionalidade de suas acepções. 350). sendo que as primeiras referem-se à alma enquanto composta de idéias claras e as segundas. com equanimidade. não temos. No II.. E esta fecha o apêndice da Parte IV: “a potência humana é extremamente limitada e infinitamente superada pela das coisas exteriores. cap. IX. os acontecimentos contrários aos reclamos da consideração do nosso interesse se formos conscientes de ter cumprido a nossa função. 360-1). No XXVI (p. ressaltando o amor e a alegria. 364). de mutiladas. o poder absoluto de acomodar a nosso uso as coisas exteriores. XVII). 361. Spinoza diz que se deve aconselhar um homem mencionando o que há nele de bom. XV). positiva) da Natureza só é possível com e pela alteridade.

amar a Deus: em máximo grau. principalmente as dos escolásticos.. Ademais. V-VI). 387). no homem. mas de modo algum se esforçará por contemplar os vícios dos homens.Spinoza o critica por sua obscuridade. nem por imprecar contra eles. No escólio XXIII. Spinoza enumera o que pode a alma sobre as afecções: Conhecimento das afecções. Ela separa do pensamento a causa externa. A alma pode ordenar e concatenar as afecções em si. 381. etc.] elas coisas de que alguém não possa ter a posse completa” (p. portanto. apesar dele mesmo (Descartes) ter dito conceber apenas coisas claras e distintas e criticado proposições obscuras. que interessante: “Deve-se notar [. contudo. 375). 376). E olhe este trecho. nem por gozar da falsa aparência de liberdade” (p. devem-se tê-las em seu bem. Spinoza diz que. assim. A passividade e a atividade do homem são a mesma coisa (vide Escólio IV). livres (props. Na “multidão de causas pelas quais são favorecidas as afecções que se referem às propriedades comuns das coisas ou a Deus” (idem). . E o único amor. é o amor para Deus. idem). o que difere uma da outra não é senão o tipo de idéia: clara e distinta ou obtusa e obscura. Ninguém.. que é imaginada confusamente. referem-se os desejos às primeiras como virtudes e Às segundas como paixões (p. por conhecer as virtudes e suas causas e por encher o ânimo daquela felicidade que nasce do conhecimento verdadeiro das afecções. para se agir sempre de acordo com uma paixão de alegria (p. por conseguinte. 382. o critica por não ter conseguido explicitar nenhuma causa singular da união entre mente e corpo. e.] que os desgostos e os infortúnios nascem principalmente de um amor excessivo por uma coisa sujeita a muitas variações e que não podemos possuir inteiramente. 12345- A “força de qualquer afecção se define pela potência de uma causa exterior comparada à nossa” (p. imaculado e brando. visto que. Deve-se conhecer a si mesmo e suas paixões clara e distintamente e. isto é.. “Portanto. PE é a potência de uma causa exterior e PS é a potência do ser afetado. Ademais. há algo de imortal: a alma.. esforçar-se-á tanto quanto pode. com efeito. para maior potência sua. Ao se ordenar as coisas no pensamento. não pode lembrar duma existência anterior ao corpo (se é que há).. a alma deve conhecer clara e distintamente as coisas como necessárias e. onde F é a força de qualquer afecção. 388). Portanto. quem cuida de governar as suas paixões e seus apetites unicamente pelo amor da liberdade. Escólio X). o único remédio às paixões é o conhecimento (p. Lembrar: as coisas conhecidas clara e distintamente são ou propriedades comuns das coisas (universais) ou o que delas se deduz. que. é atormentado ou preocupado a não ser por causa da coisa amada [. 388). No “tempo em que as afecções superam aquelas que se referem às coisas de que temos uma idéia confusa ou mutilada” (p. F = PE-PS.

por experiência. a parte eterna da alma é o entendimento. Spinoza diz também que sabemos. 391). por ser ativo (vide corolário XL) e a imaginação perece. absolutamente. é este o perfil do sábio. que somos eternos. que nasce o que Spinoza chamou de o “amor intelectual por Deus”. Refrear aas paixões brota da felicidade (prop. aqueles que crêem a moralidade ser um fardo por contrariar as paixões são ignorantes. que “a alma ela própria é eterna”. a religião e o conhecimento de Deus. 395). Spinoza termina favorecendo a moralidade. . na proposição XXXI (p. de modo algum. não há vestígio de tal existência e que a eternidade não tem. sem tempo nem espaço. As coisas são percebidas com uma espécie de eternidade quando são concebidas em Deus e como parte de sua natureza divina: a duração está no espaço-tempo da percepção (Escólio XXIX). é dele. A alma concebe a essência do corpo com uma espécie de eternidade. que atuam sobre as paixões. XLII. 406). do terceiro gênero. portanto pertence apenas ao intelecto. Dirá. p. Spinoza não é. claro e o em Deus) o último provindo do segundo. defensor do anarquismo. Se Deus e Natureza são uma e só coisa e sendo dos três gêneros de conhecimento (obtuso. não se pode dizer que a alma dure.no corpo. O terceiro gênero de conhecimento (o intuitivo) parece ser puro e abstrato. “Portanto. Portanto. então parece haver algo de metafísico nessa eternidade e terceiro gênero de conhecimento: algo como o conhecimento puro. Mas. e só então tem a potência de determinar temporalmente a existência das coisas e de concebê-las na sua duração” (p. Para ele. relação com o tempo. Para Spinoza. e a sua existência não se pode definir por um tempo determinado senão à medida que esta envolve a existência atual do corpo.

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