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A Crise de Software

Os constantes problemas da indústria de software para entregar produtos dentro dos prazos e 
sem estourar os orçamentos deram origem à crise de software e exigiram a formação de uma nova 
disciplina.

Por Hugo Vidal Teixeira
M.Sc. Engenharia de Software

Logo que o desenvolvimento de software começou a caminhar com o advento das linguagens 
estruturadas e modulares, uma situação tornou­se clara diante de todos: a indústria de software 
estava falhando repetidamente na entrega de resultados dentro dos prazos, quase sempre estourando 
os orçamentos e apresentando um grau de qualidade duvidoso ou insatisfatório.
Em um relatório de 1969 [Naur,1969], esse problema já havia sido reconhecido. Conforme 
foi observado, cerca de 50 a 80% dos projetos nunca foram concluídos ou estavam tão longe de seus 
objetivos que foram considerados fracassados. Dos sistemas que foram finalizados, 90% haviam 
terminado 150 a 400% acima do orçamento e dos prazos predeterminados [Wallnau,2002].
Os   problemas   que   originaram   essa   crise   tinham   relacionamento   direto   com   a   forma   de 
trabalho   das   equipes.   Eram   problemas   que   não   se   limitavam   a   "sistemas   que   não   funcionam 
corretamente",   mas   envolviam   também   dúvidas   sobre   como   desenvolver   e   manter   um   volume 
crescente   de   software  e   ainda   estar   preparado   para   as   futuras   demandas.   Essencialmente,   eram 
sintomas   provenientes   do   pouco   entendimento   dos   requisitos   por   parte   dos   desenvolvedores, 
somados às técnicas e medidas pobres aplicadas sobre o processo e o produto, além dos poucos 
critérios de qualidade estabelecidos até então [Pressman, 2004].
A palavra crise já tem sido discutida por não descrever exatamente o problema em questão. 
Uma   definição   mais   precisa   talvez   seja   aflição   crônica,   pelas   características   de   continuidade   e 
intermitência dos sintomas [Pressman, 2004].
Todos   esses   fatores   exigiram   respostas   e   métodos   que   foram   sendo   aprimorados   e 
documentados,   dando   início   à   área   de  Engenharia   de   Software.   A   busca   por   eficiência   e 
competência revelou oportunidades, desafios e perigos que guiaram as tecnologias e apontaram 
novos rumos para as pesquisas. 

A Crise de Software e a Idade Média
Para compreender melhor as origens da Crise de Software, podemos fazer uma comparação 
muito interessante com a história das outras indústrias. Por exemplo, antes da revolução industrial, 
os sapatos eram feitos de forma muito individual. Nesses tempos mais remotos, os sapateiros faziam 
cada par de sapatos de forma única para cada cliente, desde a obtenção da matéria prima até o 
produto final.
As semelhanças com a indústria de software começam logo aí. Primeiro, porque as técnicas 
de   desenvolvimento   de   software   ainda   não   estão   totalmente   maduras   e   consolidadas.   Afinal,   a 
variedade   de   técnicas   que   surgiram   nas   últimas   décadas   é   enorme,   abrangendo   idéias   como 
programação estruturada, RAD (Rapid Application Development), orientação a objetos, distribuição 
de processamento, etc.
 segundo lugar, existe uma tendência muito forte em desenvolver software sem aproveitar o 
material produzido no passado. E para piorar, além de entregá­lo quase sempre mal documentado, a 
maior   parte   do   conhecimento   envolvido   na   sua   construção   permanece   apenas   na   cabeça   dos 
desenvolvedores, o que deixa a situação muito parecida com a do sapateiro do exemplo.

Referências
[Naur 1969] P. Naur e B. Randall. Software Engineering: A Report on a Conference Sponsored by 
the NATO Science Committee. The Scientific Affairs Committee, NATO. Bruxelas. 1969.
[Wallnau 2002] Kurt Wallnau, Scott Hissam, e Robert Seacord. Building Systems from Commercial 
Components. SEI Series in Software Engineering. Addison­Wesley 2002.
[Pressman   2004]   Roger   Pressman.   Software   Engineering   ­   A   Practitioner's   Approach.   6ê   ed. 
Software Engineering Series. McGraw Hill 2004.
[Endres 2003] Albert Endres e Dieter Rombach. A Handbook of Software and Systems Engineering 
­ Empirical Observations, Laws and Theories. Addison­Wesley 2003.