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Compreendendo a História da Saúde Pública

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Saúde Pública, História, Enfermagem, SUS, Sistema Único de Saúde, Brasil
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Redalyc

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Red de Revistas Científicas de América Latina, el Caribe, España y Portugal

Silveira Miranzi, Mário Alfredo; Chagas de Assis, Dnieber; Resende, Deisy Vivian de; Hemiko Iwamoto, Helena Compreendendo a história da saúde pública de 1870-1990 Saúde Coletiva, vol. 41, núm. 7, 2010, pp. 157-162 Editorial Bolina Brasil
Disponible en: http://redalyc.uaemex.mx/src/inicio/ArtPdfRed.jsp?iCve=84213511007

Saúde Coletiva ISSN (Versión impresa): 1806-3365 editorial@saudecoletiva.com.br Editorial Bolina Brasil

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história, política, trabalho e saúde
Miranzi MAS, Assis DC, Resende DV, Iwamoto HH. Compreendendo a história da saúde pública de 1870-1990

Compreendendo a história da saúde pública de 1870-1990
Este trabalho apresenta a história paradigmática e a instalação da saúde pública no Brasil desde o período colonial até o ano de 1990. Descritores: Medicina social, Saúde pública, História da saúde. This work presents of the paradigmatic history and the deployment of public health in Brazil from the colonial period until the year 1990. Descriptors: Social medicine, Public health, History of health. Este trabajo presenta la historia paradigmática y la instalación de la salud publica en Brasil desde el período colonial hasta el año de 1990. Descriptores: Medicina social, Salud pública, Historia de la salud.

Mário Alfredo Silveira Miranzi Dnieber Chagas de Assis Deisy Vivian de Resende

Dentista. Doutor em Saúde Coletiva pela UNICAMP. Docente da UFTM. Enfermeiro. Especialista em Enfermagem do Trabalho. Mestrando em Atenção à Saúde da UFTM. Biomédica. Mestre em Medicina Tropical e Infectologia. Doutoranda em Medicina Tropical e Infectologia da UFTM.

Helena Hemiko Iwamoto

Enfermeira. Especialista em Enfermagem MédicoCirúrgica. Mestre em Enfermagem. Doutora em Enfermagem. Docente do Mestrado em Atenção à Saúde da UFTM.

do tempo. De suas inter-relações, originou-se a Saúde Pública1. Com as doenças introduzidas no país pelo colonizador no século XVII, a imagem do Brasil na Europa se tornou diferente dos tempos de Pedro Álvares Cabral, e os europeus passaram a temer os ares e o clima da Colônia2,3. A guerra, o isolamento e a doença colocavam em perigo o projeto de colonização e exploração econômica das terras brasileiras. Eram raros os médicos que aceitavam transferirse para o Brasil, desestimulados pelos baixos salários e amedrontados com os perigos que enfrentariam4. Moraes5 relata a ausência da questão saúde na bibliografia histórica brasileira no que diz respeito às condições de vida e trabalho e aspectos institucionais, o que se pode pensar numa negligência em considerar e analisar este tema. Carvalho & Lima6 salientam que uma forma de se aproximar dos dilemas presentes na produção do conhecimento em ciências sociais, e da história quando a referência é à saúde coletiva, é verificar qual o significado que os trabalhos produzidos atribuem à reconstrução histórica. A proposta deste trabalho é contribuir para a reflexão sobre a história da saúde pública no Brasil, resgatando os fatos relevantes para o desenvolvimento da saúde. RETROSPECTIVA HISTÓRICA A fase do Império Em 1808, a vinda da corte portuguesa para o Brasil determinou mudanças na administração pública colonial, inclusive na área da saúde. Como sede provisória do império lusitano e principal porto do país, a cidade do Rio de Janeiro se tornou o centro das ações sanitárias. Com elas, Dom João VI procurou oferecer nova imagem de uma região que os europeus definiram como território da barbárie e escravidão3. Para um atendimento mais constante e organizado das questões sanitárias era necessário criar rapidamente centros de formação de médicos. Assim, por ordem real, foram fundadas as academias médico-cirúrgicas do Rio de Janeiro (1813) e da Bahia (1815), logo transformadas nas primeiras escolas de medicina do país.

Recebido: 12/10/2009 Aprovado: 30/04/2010 INTRODUÇÃO s problemas que afetaram a saúde estiveram relacionados com a necessidade das pessoas viverem em comunidades. A aglomeração desordenada, o ambiente de moradia, educação, trabalho e lazer afloraram como consequências ambientais de convivência, facilmente percebidas, na forma de poluição ambiental, atmosférica, hídrica, desmatamentos e estratificação da sociedade. O controle de doenças infecciosas transmissíveis, o saneamento, a assistência médica e o alívio da incapacidade e do desamparo, são problemas cuja intensidade só variou ao longo

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por vários pacientes10. Desta forma, a fase Na era do Iluminismo e das Revoluções (1750 a 1830), as cidades do século XVIII imperial da história brasileira se encerrou “A AGLOMERAÇÃO eram sujas, fétidas e insalubres7. O saneasem que o Estado solucionasse os probleDESORDENADA, O mas de saúde da coletividade. mento urbano era precário, as ruas estavam No final do século XVIII, como consesujas, as águas de esgoto e refúgios doméstiAMBIENTE DE MORADIA, quência do impacto do industrialismo na cos eram arremessadas pelas portas e janelas. A EDUCAÇÃO, O TRABALHO Inglaterra, começaram a emergir as epiAnimais eram abatidos em locais públicos, li8 demias entre os trabalhadores das novas xos e entulhos acumulavam-se sobre as ruas . E O LAZER AFLORARAM fábricas. As consequências da revolução Na segunda metade do século XVIII, o COMO CONSEQUÊNCIAS industrial afetaram diretamente a saúde modelo de saúde predominante foi o de e o bem-estar dos trabalhadores, que se política médica aos problemas de saúde. AMBIENTAIS DE CONVIVÊNCIA encontravam cada vez mais em situação A aplicação deste modelo aos problemas FACILMENTE PERCEBIDAS caótica. Havia uma relação inversa entre de saúde foram amplamente utilizados peNA FORMA DE POLUIÇÃO expansão industrial e melhoria das condilos estados germânicos. A sujeira foi vista ções de vida e saúde, ou seja, enquanto como principal fonte de infecção, desta AMBIENTAL, ATMOSFÉRICA, ocorria o crescimento industrial, decresforma, acreditava-se que ambientes limpos HÍDRICA, DESMATAMENTOS cia a qualidade de vida e as condições de seria a maior fonte de prevenção9. saúde da população1. A fragilidade das medidas sanitárias leE ESTRATIFICAÇÃO DA vava a população a lutar por conta própria No início do século XIX, o movimento SOCIEDADE” contra as doenças. Em casos mais graves, de reforma sanitária começou a se deos doentes ricos buscavam assistência mésenvolver principalmente na Inglaterra, dica na Europa ou nas clínicas particuladevido à ocorrência da Revolução Indusres. As famílias evitavam internar seus parentes em hospitais trial. O Estado começa a intervir na saúde, mas o intuito era públicos, em virtude da falta de higiene e da divisão de leitos o de preservar a força de trabalho responsável pelo desenvolvimento e crescimento do país 1.

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nado à Secretaria do Estado do Interior, e era composto de O Industrialismo e o Movimento Sanitário (1830 a 1875): conum conselho de Saúde Pública, responsável pela emissão de cepções e conceitos durante a revolução pasteuriana, higiene pareceres acerca da higiene e salubridade e de uma diretoria e saúde pública de higiene, responsável pelo cumprimento das normas saniNo final do século XVIII e início do século XIX, a medicina tárias. Era de competência da diretoria o estudo das questões social é considerada herdeira do iluminismo instrumental, de saúde pública, o saneamento das localidades e das habitacomo a ciência que pode ser colocada em favor do estabelecições e a adoção de meios para prevenir, combater e atenuar mento da ordem social. A concepção de higiene que surge na as moléstias transmissíveis, endêmicas e epidêmicas. França no final do século XVIII norteia a medicina socioamEm 1890, os laboratórios denominados de Farmácia do Esbiental e focaliza a doença enquanto patologia social. tado iniciaram seu funcionamento com o objetivo de fornecer Com o advento da urbanização e industrialização, surge um medicamentos e aviar receitas para as enfermarias das insticenário social baseado na ideia Maquiana, na qual o meio amtuições públicas e ambulâncias que atenbiente influenciava os seres vivos. A condiam o interior nos surtos epidêmicos13. cepção vigente era influenciada pelo meio ambiente da Europa e o surgimento de uma No ano de 1894, o primeiro Código Saninova classe social: o proletariado. Tanto o tário do Estado de São Paulo foi promulgado, “NO FINAL DO SÉCULO XVIII, ambiente social “moradia – saneamento”, com 520 artigos, reunindo as normas de hicomo o cultural e o natural “clima, solo, atgiene e saúde pública. Em épocas de epideCOMO CONSEQUÊNCIA DO mosfera” interessavam ao higienista que era mias, a presença do fiscal, do desinfetador IMPACTO DO INDUSTRIALISMO capaz de recolher e cruzar as variáveis ame do inspetor sanitário tornava-se visível, e bientais tentando esclarecer as causas das o exercício de política sanitária era rigoroso. NA INGLATERRA, COMEÇARAM doenças coletivas. Entre 1890 e 1900, o Rio de Janeiro e as A EMERGIR AS EPIDEMIAS A atuação médica, porém, enfrentaria principais cidades brasileiras continuaram ENTRE OS TRABALHADORES o choque entre as ideias tradicionais, que a sofrer por varíola, febre amarela, peste atribuíam as epidemias aos ares corrombubônica, febre tifóide e cólera, que maDAS NOVAS FÁBRICAS. pidos e as teorias da medicina moderna taram milhares de pessoas. Diante dessa AS CONSEQUÊNCIAS DA – baseadas no conceito da bacteriologia situação, os médicos higienistas recebee da fisiologia desenvolvidas na Europa ram incentivos do governo federal e pasREVOLUÇÃO INDUSTRIAL e que tinham em Louis Pasteur e Clausaram a ocupar cargos importantes na adAFETARAM DIRETAMENTE A de Bernard seus principais divulgadores. ministração pública. Em troca, assumiram No final da década de 1860 e início da o compromisso de estabelecer estratégias SAÚDE E O BEM ESTAR DOS década de 1870, Pasteur cria a conceppara o saneamento das áreas indicadas TRABALHADORES, QUE SE ção de que as doenças são contagiosas e pelos políticos. causadas por germes 11. Além da revoluENCONTRAVAM CADA VEZ A República Velha (1889 – 1930) ção pasteuriana, iniciava-se o campo da MAIS EM SITUAÇÃO CAÓTICA” Na primeira década do século XX, apesar medicina tropical, que estudava o mecada alta mortalidade, não existiam hospinismo das doenças tropicais e introduzia tais públicos, e sim entidades filantrópicas o conceito de vetores. mantidas por contribuições e auxílios goNo Brasil, teve início um campo de covernamentais. Tais entidades eram mantidas com o trabalho vonhecimento voltado para o estudo e prevenção das doenças luntário, e correspondiam a um depósito de doentes que eram e para o desenvolvimento de formas de atuação nos surtos isolados da sociedade com o objetivo de não contagiá-la14. epidêmicos. Até 1930, a indústria de medicamentos se limitava à maniO Brasil a partir de 1884: imigrantes para a lavoura pulação de substâncias naturais de origem animal ou vegetal. Quando, em 1884, a Assembleia da Província de São Paulo As instituições de saúde pública eram classificadas em funaprovou a concessão de passagens gratuitas aos imigrantes ção das concepções de origem das doenças, de modo que se que se destinassem à agricultura, o Estado deparou-se com podia afirmar que o Serviço Geral de Desinfecção ligava-se uma nova dimensão que fugia da tradicional política econôà concepção miasmática e o Instituto Bacteriológico à conmica. Em 1886, foi criada a Sociedade Promotora de Imigracepção microbiana15. ção (SPI), cujo objetivo era introduzir uma proporção elevada O Instituto Bacteriológico, em 1903, constituía a linha de de imigrantes para a lavoura e em menor proporção para oufrente do Serviço Sanitário e pesquisava como destruir os tras profissões. Em janeiro de 1889, a febre amarela eclodiu mosquitos em águas paradas, realizando experiências com em Santos. Em 1898, Vital Brasil debela uma epidemia de vapores de enxofre, fumaça em pó de pireto e emulsão de difteria. Os imigrantes eram amontoados em hospedarias. Encreolina e querosene. A partir de 1904, o instituto começou tretanto, para atrair imigrantes, era preciso sanear as cidades a sofrer com a falta de verbas. Embora houvesse um cresciespecialmente a de Santos, o principal foco de epidemias12. mento concomitante da economia brasileira, este período foi marcado pelas crises socioeconômica e sanitária, porque a Com a proclamação da República, a federalização e a aufebre amarela, entre outras epidemias, ameaçava a economia tonomia, as questões de saúde pública, passaram a fazer paragroexportadora brasileira e prejudicavam principalmente a te das atribuições dos Estados. O Serviço Sanitário, criado pela Lei número 43 de 18 de junho de 1892, ficou subordi-

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este era visto como uma forma de interferência na privacidade exportação de café. Os navios estrangeiros se recusavam a e individualidade, além de não propor mudanças estruturais atracar nos portos brasileiros, o que reduzia a imigração de na sociedade3. mão-de-obra. Para reverter à situação, o governo criou medidas que garantissem a saúde da população trabalhadora atraAo mesmo tempo, surgia o paradigma da medicina clínica, vés de campanhas sanitárias de caráter autoritário14. cujo discurso era individualista e privatista, exigindo outro espaço para se desenvolver: o hospital. Enquanto os currícuEm 1908, a Estrada de Ferro – a Noroeste, pediu auxílio ao los privilegiavam a área preventiva, o mercado de trabalho Instituto de Manguinhos para debelar a epidemia de malávalorizava a área hospitalar para onde os profissionais de saúria que dizimava os operários. Em 1916 e 1917, houve uma de foram, paulatinamente, direcionados. ocorrência de malária a ponto de desequilibrar o estado sanitário em São Paulo. O governo distribuiu quinino e assumiu a A Saúde Pública na Era Vargas (1930 – 1945) responsabilidade de sanear fazendas, vilas e cidades atacadas A partir da década de 1930, o Estado recebe fortes pressões pela malária. por parte de intelectuais e militares para a criação de serviços A década de 1920 se encarregou de consolidar as mudanem saúde pública, e, em 1931, é criado o Ministério de Eduças na economia, sociedade e cultura, com a criação do siscação e Saúde Pública9. Considerado o marco da medicina tema de saúde pública. A diretoria geral de Saúde Pública, organizada pelo médico sanitarista Osvaldo Cruz, resolve o previdenciária no Brasil, é criado em 1930 os Institutos de problema sanitário, implementando, progressivamente, instiAposentadoria e Pensões (IAPs), os quais, diferentemente das tuições públicas de higiene e saúde16. antigas Caixas, são organizadas por categorias profissionais, não mais por empresas. As campanhas de saúde pública eram organizadas de tal Durante a era Vargas houve diminuição de mortes por enforma que se assemelhavam a campanhas militares, dividindo fermidades epidêmicas, porém cresceram as doenças de masas cidades em distritos, encarcerando os doentes portadores sa, estabelecendo-se assim um quadro marcado por doenças de doenças contagiosas e obrigando, pela força, o emprego endêmicas, entre elas, a esquistossomose, doença de Chagas, de práticas sanitaristas. Esta situação levou à Revolta da Vacituberculose e a hanseníase. na, no Rio de Janeiro14. Na década de 1940, o papel do profissional como educaNos anos 1920, a cidade explodia em termos econômidor é retomado com a criação dos cencos e consolidava o desenvolvimento intros de saúde, nos quais a atenção era dustrial. No período de 1925 a 1929, a organizada em programas, sendo que a tuberculose foi responsável por mais de educação sanitária, a base da ação e o mil óbitos por ano, o que significa que o “A PARTIR DE 1904, O poder coercitivo foram substituídos pela número de óbitos por tuberculose dobrou INSTITUTO COMEÇOU A persuasão. Assim, origina-se a tendência em relação ao período de 1910-1924. A contemporânea da organização no cammaior incidência dessa moléstia ligava-se SOFRER COM A FALTA po da saúde sob a forma de programas de às precárias condições de habitação da DE VERBAS. EMBORA atenção individual, por exemplo os Propopulação na cidade de São Paulo. gramas de Atenção Integral à Saúde da Mehry10 se detém a analisar o período HOUVESSE UM CRESCIMENTO Criança e da Mulher. de 1920 a 1948 e procura fazer uma leiCONCOMITANTE DA A ação do Estado no setor saúde se ditura das políticas governamentais como vide claramente em dois ramos: de um modelos técnicos assistenciais que se ECONOMIA BRASILEIRA, lado a saúde pública, de caráter prevenconstituem em projetos de forças sociais; ESTE PERÍODO FOI MARCADO tivo e conduzido através de campanhas; procuram-se também os vínculos que esde outro, a assistência médica, de caráter ses modelos estabelecem não só com as PELAS CRISES SOCIOcurativo, conduzida através da ação da correntes tecnológicas de pensamento do ECONÔMICA E SANITÁRIA, previdência social. campo das ações sanitárias, mas também PORQUE A FEBRE AMARELA, com as questões políticas mais amplas, A crise do regime populista, a democraticolocadas em seu campo específico - areENTRE OUTRAS EPIDEMIAS, zação e a saúde (1945 – 1964) na decisória particular - às quais definem AMEAÇAVA A ECONOMIA Em outubro de 1945, acontece a deposio significado social das referidas ações. ção de Vargas e, no ano seguinte, a elaSurge a necessidade da formação de AGROEXPORTADORA boração de uma Constituição democrática profissionais cujos currículos, segundo BRASILEIRA E PREJUDICAVAM, de inspiração liberal. Os movimentos soGermano17 priorizassem as disciplinas vinciais exigiam que os governantes cumprisculadas à saúde pública. Entretanto, a inPRINCIPALMENTE, A sem as promessas de melhorar as conditenção inicial de formar profissionais que EXPORTAÇÃO DE CAFÉ” ções de vida, saúde e de trabalho. assumissem o papel de educadores em Desde que assumiu o governo, em saúde não se concretizou por uma série 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra de fatores. Entre eles, destaca-se a forma estabeleceu como prioridade a organicomo o profissional foi inserido na sociezação racional dos serviços públicos. Em maio de 1953, dade brasileira, “de cima para baixo”, causando estranheza à já no segundo período presidencial de Vargas, foi criado o população e consequente rejeição do trabalho educativo, pois Ministério da Saúde, que contava com verbas irrisórias no

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decorrer da década de 1950, confirmando o descaso das au- do país e de suas comunidades; compreende as áreas: de educação e saúde, alimentação e nutrição, água potável e saneamento toridades com a saúde da população. Nos anos 1960, com o Milagre Brasileiro, o entendimento da básico, assistência materno-infantil, com inclusão da planificação saúde como assistência médica especializada, sofisticada, frag- familiar; imunização, prevenção e luta contra enfermidades endêmentada e que privilegia a internação hospitalar, favorece as in- micas, o tratamento das enfermidades e traumatismos, e a dispodústrias farmacêuticas e de equipamento médico-hospitalares. A nibilidade de medicamentos essenciais; inclui a participação no centralização e a concentração do poder institucional aliou cam- desenvolvimento nacional e comunitário, em particular o agropanhismo e curativismo numa estratégia de medicalização social3. pecuário, a alimentação, a indústria, a educação, a habitação, as Pressionada pelas leis, a Previdência assumiu a prestação obras públicas, as comunicações, organização, funcionamento e de assistência médico-hospitalares aos trabalhadores à custa controle da atenção primária à saúde. Na verdade, o texto da Declaração de Alma-Ata18, ao amdo rebaixamento da qualidade dos serviços o que coloca o país em posição de doente. pliar a visão do cuidado da saúde em sua dimensão setorial e O efeito do golpe militar (1964) sobre o Ministério da Saú- de envolvimento da população, supera o campo de ação dos de foi à redução das verbas, aumentadas no início da década responsáveis pela atenção convencional dos serviços de saúde. de1960, que continuaram decrescendo até o final da ditadura. Apesar da pregação oficial de que a saúde constituía um fator A saúde nas décadas de 1980 e 1990 de produtividade, desenvolvimento e investimento econômi- As décadas de 1980 e 1990 caracterizam-se pela organização co, o Ministério da Saúde privilegiava a de trabalhadores e entidades dos setores saúde como elemento individual e não da saúde e educação. A VIII e IX Confecomo fenômeno coletivo. rências Nacionais de Saúde propuseram “O SUS, QUE APRESENTA Em 1970, o resultado da falta de invesa adoção de modelos assistenciais conditimento no setor público foi o aumento de zentes com a realidade socioeconômicoPRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS enfermidades como a dengue, meningite cultural, com ações que visualizem a pesDE UNIVERSALIDADE, e a malária. soa de forma integral, ultrapassa o modelo INTEGRIDADE E ACESSO preventivo-curativo pelo enfoque holístiO Estado e a previdência social: década co e a participação da população na orIGUALITÁRIO A TODOS OS de 1970 ganização e gestão do sistema de saúde13. NÍVEIS DE COMPLEXIDADE DO Estabelece-se, na esfera pública, o InstiA estratégia de Atenção Primária (Almatuto Nacional de Previdência Nacional Ata) com o enfoque multissetorial, o envolSISTEMA, DEVERIA GARANTIR (INPS) que deveria tratar dos doentes invimento comunitário e os componentes de A QUALIDADE DA ATENÇÃO dividualmente, enquanto o Ministério da tecnologia apropriada reforçaram a promoSaúde elaborava e executava programas ção na direção da saúde ambiental. Com POR EQUIPES PROFISSIONAIS sanitários destinados à população durante esta motivação, foi planejada a Primeira QUALIFICADOS E COM as epidemias. O INPS firmou convênios Conferência Internacional sobre Promocom 2.300 dos 2.800 hospitais instalados ção da Saúde, realizada em Ottawa, em CONDIÇÕES DE TRABALHO no Brasil, utilizando o setor privado para novembro de 1986, em colaboração com ADEQUADOS” atender os trabalhadores. a Organização Mundial de Saúde e a AsOs baixos preços pagos pelos serviços sociação Canadense de Saúde Pública que médicos-hospitalares e a demora na transevidencia a inter-relação existente entre ferência das verbas do INPS para as entidades determinaram atenção primária, promoção da saúde e cidades saudáveis18. a fragilidade do sistema para atendimento à população. Enquanto o governo reduzia ou atrasava os recursos, hospitais CONSIDERAÇÕES FINAIS e clínicas aumentavam as fraudes para receber o que tinham A descentralização da saúde na década de 1990, segue-se ao direito, e muito mais. desmonte dos programas sociais federais iniciados em 1989, e é Na década de 1970, surgem os primeiros cursos de pós-gra- assumida uma face neoliberal, condizente com a política e a ideduação em enfermagem. Em meio à crise do modelo curativis- ologia dominantes, contrária ao preconizado pela Constituição ta-privatista, as políticas de cuidado primário à saúde estimula- de 1988. Tem sido um processo atabalhoado, marcado por um riam o autocuidado e a autonomia das comunidades. contexto de ajuste recessivo das contas públicas, repassando de Em 1974, foi criado o Ministério da Previdência e Assistên- forma acelerada encargos e responsabilidades aos municípios. Os cia Social, que incorporou o INPS e livrou-o das imposições estados têm sido praticamente ignorados nessa descentralização/ do Ministério do Trabalho, renovando assim, a promessa de municipalização enquanto agentes responsáveis pela implemengarantir saúde aos segurados. tação de políticas regionais, limitam-se ao papel de repassadores A Declaração de Alma-Ata18 confirma: a promoção e proteção de recursos. Trata-se de uma municipalização a qualquer preço, da saúde da população são indispensáveis para o desenvolvimento distinta da proposta pelo Sistema Unificado e Descentralizado de econômico e social sustentado e contribui para melhorar a quali- Saúde (SUDS) nos anos de 1980 e consagrada na Constituição de dade de vida; a população tem o direito e o dever de participar in- 1988, que previa a autonomia das unidades federadas, baseada dividual e coletivamente na planificação e na ampliação das ações em esquema de financiamento e repasse de recursos. É preciso de saúde; a atenção primária à saúde é reflexo e consequência das olhar para o processo de municipalização no Sistema Único de condições econômicas e características socioculturais e políticas

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Saúde (SUS), face ao contexto restritivo do ajuste e diante das propostas de reforma do Estado dirigidas à privatização e à focalização dos serviços públicos19. O SUS, que apresenta princípios constitucionais de universalidade, integridade e acesso igualitário a todos os níveis de complexidade do sistema, deveria garantir a qualidade da atenção por equipes profissionais qualificadas e com condições de trabalho adequado.

Nunes2, fundamentando-se na interdisciplinaridade como possibilitadora da construção de um conhecimento ampliado da saúde coletiva, no plano concreto dos conteúdos a serem transmitidos, determina a necessidade atual de pensar o geral e o específico. Ou seja, não se deve perder o núcleo que a legitima e distingue como social/coletivo, mas se deve-se estar atento à formação de determinadas áreas de concentração.

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Normas para publicação saúdecoletiva
A revista Saúde Coletiva tem por objetivo ser um veículo de divulgação de assuntos de Saúde Coletiva e áreas afins, buscando expansão do conhecimento. Assim, recebe artigos de pesquisa, dialogados (debates), de atualização, de relatos de experiência, de revisão, de reflexão, de estudos de caso e ensaios em Saúde Coletiva. Abaixo as normas para publicação:
01 Deve vir acompanhado de solicitação e autorização para publicação assinadas por todos os autores. 02 Não ter sido publicado em nenhuma outra publicação ou revista nacional. 03 Ter, no máximo, 26.000 toques por artigo incluindo resumo (português, inglês e espanhol) com até 700 toques, ilustrações, diagramas, gráficos, esquemas, referências bibliográficas e anexos, com espaço entrelinhas de 1,5, margem superior de 3 cm, margem inferior de 2 cm, margens laterais de 2 cm e letra tamanho 12. Os originais deverão ser encaminhados em CDROM, no programa Word for Windows e uma via impressa. 04 Caberá à redação julgar o excesso de ilustrações, suprimindo as redundantes. A ela caberá também a adaptação dos títulos e subtítulos dos trabalhos, bem como o copidesque do texto, com a finalidade de uniformizar a produção editorial. 05 As referências deverão estar de acordo com os requisitos uniformes para manuscritos apresentados à revistas médicas elaborado pelo Comitê Internacional de Editores de Revistas Médicas (Estilo Vancouver Sistema Numérico de Entrada). 06 Evitar siglas e abreviaturas. Caso necessário, deverão ser precedidas, na primeira vez, do nome por extenso. Solicitamos destacar frases ou descritores. 07 Conter, no fim, o endereço completo do(s) autor(es) e telefone(s), e-mail e, no rodapé, a função que exerce(m), a instituição a que pertence(m), títulos e formação profissional. 08 Não será permi ti da a inclu são no texto de nomes comerciais de quaisquer pro du tos. Quando neces sá rio, citar ape nas a denomina ção química ou a desig na ção cien tí fi ca. 09 O Conselho Científico pode efe tuar even tuais corre ções que jul gar neces sárias, sem, no entan to, alte rar o con teú do do artigo. 10 O original do artigo não aceito para publica ção será devolvi do ao autor indi ca do, acom panha do de jus ti fi ca ti va do Conselho Científico. 11 O con teú do dos arti gos é de exclu siva responsa bilidade do(s) autor(es). Os traba lhos publi ca dos terão seus direitos autorais resguardados por Editorial Bolina Brasil e só poderão ser reproduzi dos com autorização desta. 12 Os tra balhos deve rão pre ser var a con fi dencialida de, respeitar os princí pios éti cos e tra zer a acei ta ção do Comitê de Ética em Pesquisa (Resolução CNS – 196/96) quando for pesquisa. 13 Os trabalhos, bem como qualquer cor respondência, deverão ser envia dos para a revista: Saúde Coletiva – A/C CON SELHO CIENTÍFICO, Al. Pucuruí, 51/59 - Bl.B - 1º andar - Cj.1030 - Tamboré - Barueri - SP CEP: 06460-100 - E-mail: editorial@saudecoletiva.com.br.

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Saúde Coletiva 2010;07 (41):157-162

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