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EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA E SUSTENTABILIDADE AMAZÔNICA: DESAFIOS

PÓS-MODERNOS
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Robson Santos da Silva (UFAM)

Resumo

As novas tecnologias da informação deram grande impulso à educação, po-


tencializando, particularmente, a Educação a Distância (EaD). No entanto, se novos
princípios e ações pedagógicas adequados não acompanharem essa evolução, cor-
re-se o risco de que a EaD fracasse em sua proposta devido ao predomínio do téc-
nico sobre os demais fatores, reproduzindo assim os erros dos ideais Modernos e
Pós-Modernos. Dessa forma, o artigo realiza algumas considerações importantes no
que se refere a necessidade de uma concepção de EaD que seja capaz de prever
que a mesma só poderá alcançar sucesso se for capaz de colocar a face social da
educação acima dos interesses políticos e econômicos que a influenciam. Para tan-
to, todas as metodologias a serem utilizadas, particularmente as que se assentam
nas novas tecnologias da informação e da comunicação, para poderem ser conside-
radas corretamente estruturadas, devem se referenciar em currículos bem elabora-
dos e concepções pedagógicas fundamentadas na necessidade e na realidade so-
cial do educando.

Palavras-chave: Educação a Distância, Pós-modernismo, Tecnologia.

Introdução

O Século XX foi marcado por intensas mudanças no comportamento, formas


de pensar e de agir da espécie humana. A dinâmica das alterações que ocorreram
ao longo dos últimos cento e cinqüenta conturbados anos levaram a espécie huma-
na a experimentar momentos que se revezaram entre uma intensa euforia e um
mórbido pessimismo, pois, pela primeira vez na História, o homem demonstrava si-
nais de que parte de seu destino estaria em suas próprias mãos.
Os mais visionários imaginavam a possibilidade de um presente e de um fu-
turo prósperos, onde as máquinas seriam uma das maiores aliadas do homem em
sua eterna busca da felicidade. Por outro lado, a possibilidade da espécie humana
se auto-destruir colocou em pauta discussões profundas sobre que destino os Sécu-
los XX e XXI reservariam para os humanos e para o planeta Terra.

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Mestrando em Educação
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Diversos fatores colaboraram para que as mudanças ocorressem, mas ne-


nhum deles foi tão significativo quanto aos provocados pelo desenvolvimento das
ciências. As alterações levaram alguns a acreditarem que o pensamento social era
regido por leis e propriedades semelhantes às observadas nas ciências, particular-
mente, nas exatas e físicas. No entanto, a história mostra que isso não é possível.
Conforme demonstrado por K. Marx, o pensamento e as relações sociais não são
lineares, mas sim dialéticos.
É nesta profusão de concepções e visões sobre a sociedade e mundo que,
paulatinamente, a Modernidade foi configurando. Surgida no final da Idade Media,
teve seus alicerces construídos sobre o terreno fértil das idéias dos iluministas do
Século XVIII. Num embate entre aquilo que se considera eterno e imutável e a rup-
tura, a Modernidade é a designação genérica de todas as mudanças intelectuais,
sociais e políticas que marcaram o mundo após o iluminismo.
Conforme HARVEY (1996, p. 22), “se a vida moderna está de fato tão
permeada pelo sentido do fugido, do efêmero, do fragmentário e do continente, há
algumas profundas conseqüências”. Essa afirmação do autor expõe um dos pontos
sensíveis das tendências modernas, ou seja, a precariedade no trato dos fatos histó-
ricos, na preservação da idéia de totalidade da vida em sociedade. Esse rompimen-
to trouxe ao cotidiano e às práticas sociais alguns elementos que podem convergir
em sérios problemas para a humanidade. O seu ponto de partida reside na crença
moderna de que a ciência pode ser desenvolvida de forma objetiva e alheia aos
princípios da moralidade, sendo assim capaz de, a partir de um acúmulo contínuo
de conhecimentos gerar a emancipação e enriquecimento da vida humana.
É exatamente na observância da impossibilidade dessa concepção que a
modernidade começa a perder espaço para um novo movimento o qual, na verdade,
nada mais é do que o seu desdobramento. Assim, a chamada Pós-modernidade
nasce envolta a período conturbado onde a maior certeza reside exatamente no fato
de que chegou a era das incertezas. Sua estrutura básica passou a tomar forma no
início do Século XX, mostrando-se definitivamente a partir da década de 60. De a-
cordo com Kumar (1997, p. 118), “em contraste com a crença no progresso e na
razão da era moderna, a era pós-moderna caracterizava-se pelas crenças na irra-
cionalidade, indeterminação e anarquia”.
A colocação de Kumar traz à tona uma questão interessante: Estaria a so-
ciedade vivendo uma nova etapa da sociedade humana, ou seja, um período poste-
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rior à pós-modernidade ou apenas uma continuidade desta? As dúvidas são inúme-


ras, pois é difícil se ter uma concepção histórica se os fatos ainda estão sendo vivi-
dos. Sociedade da Informação, Sociedade do Conhecimento são as nomenclaturas
que tentam traduzir o período pelo qual passa a humanidade contemporânea. No
entanto, apesar de todas as tentativas de se traduzir essa realidade, as indagações
se multiplicam a cada dia.
A evolução do conhecimento humano avança em escala exponencial fa-
zendo com que o homem tenha uma maior sensação de poder controlar seu destino
e tudo que o cerca. No entanto, mais uma vez, as conseqüências dessas ações,
apesar de todos os inegáveis benefícios, continuam deixando um preocupante ras-
tro de efeitos colaterais. Seja como for, um fato não se pode negar: apesar de todo
o conhecimento que a humanidade vem acumulando, os problemas continuam se
agravando. A disparidade na diferença de oportunidades e de aquisição de conhe-
cimento aumentam, polarizando a humanidade. A ciência e as técnicas por ela des-
cobertas evoluíram; o homem também mostra sinais de evolução. No entanto, a ve-
locidade na mudança da conduta humana está muito aquém do ritmo da destruição
provocada pelas mesmas técnicas que deveriam ser usadas apenas para o bem
comum. A ciência, cujo nascimento advém da tentativa de libertação e melhoria da
condição de vida, passou a ser regulada por objetivos fundamentados no consumo
desenfreado e indiscriminado pregado pelos novos paradigmas da economia mun-
dial. Segundo Freitas (2004, p. 24),

A conformação fluida e global dos atuais processos econô-


micos e políticos tendem a imprimir e a reforçar à ciência um caráter
reducionista e utilitarista com a natureza política dos problemas sub-
sumindo os problemas de natureza científica. Os projetos científicos
e tecnológicos mundiais, em forma contínua, rearticulam-se com as
redes econômicas reforçando e ampliando a privatização e a “dolari-
zação” do planeta.

Frente a tantas questões, a Amazônia surge como um baluarte romantiza-


do e ainda pouco conhecido. Para alguns, existe uma real preocupação com o meio
ambiente; para uma maioria, os discursos encobrem os reais interesses econômicos
na região mais rica do planeta. Num turbilhão tão intenso de mudanças, em que até
mesma a noção de soberania passa a ser relativisada, qual o papel da educação na
manutenção e preservação da Amazônia brasileira? Que contribuições a Educação
a Distância (EAD) poderia fornecer para que a Amazônia brasileira continue sendo
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território do Brasil partindo-se de uma aplicação adequada do conceito de sustenta-


bilidade, ou seja, da capacidade de uma geração prover sua subsistência sem com-
prometer a mesma capacidade para as gerações futuras? Seria possível, conforme
dito por Freitas (2004), superar os planejamentos políticos da educação baseados
na competitividade rumo à busca do equilíbrio e da humanização? Como viabilizar
uma EAD que possibilite um conhecimento útil não apenas para uma colocação do
indivíduo no mercado de trabalho, mas principalmente na sociedade e enquanto ha-
bitante de um planeta chamado Terra?
Os pontos enumerados podem não resumir a complexidade de fatores que
compõem os desafios da Amazônia ou das políticas a serem traçadas e implemen-
tadas para a EAD no Brasil. No entanto, certamente, são o ponto de partida para a
busca de soluções concretas numa sociedade que tenta vencer os problemas do
pós-moderno rumo aos reais benefícios oferecidos pelo do conhecimento conside-
rando-se este revertido de características democratizantes.

Avanços e desafios para a EAD no Brasil

Atualmente, a EAD encontra-se em plena expansão no Brasil. A Lei de Dire-


trizes e Bases de 20 de dezembro de 1996 a legitima e vem sendo constantemente
regulamentada e incrementada por meio de Portarias e Decretos. A mais recente
dessas complementações foi o Decreto Nº 5.622, de 19 de dezembro de 2005, que
trouxe, dentre outras inúmeras modificações, o conceito de EAD que, no entendi-
mento do Governo Federal,

[...] é uma modalidade educacional na qual a mediação didático-


pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a
utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com
estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em
lugares ou tempos diversos.

Por sua vez, a Portaria n° 4.059, de 10 de dezembro de 2004, abre espaço


para que as instituições de ensino superior ofereçam disciplinas na modalidade não
presencial. Evidentemente, essa nova perspectiva abre infinitas possibilidades para
a expansão da educação. Mas, como realizar essas ações com credibilidade e pre-
ocupação realmente condizente com as peculiaridades da formação humana?
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As respostas a tantas indagações permeiam toda a sociedade, afinal, con-


forme ratificado por Fazenda (1993), é preciso entender que o conhecimento não se
restringe à sala de aula, mas ultrapassa os limites do saber escolar e se fortalece na
medida em que ganha a amplitude da vida social.
Em meio às mudanças, não são raros os casos em que as propostas para a
educação permanecem apenas no âmbito do planejamento. Os empecilhos político-
econômicos normalmente são apontados como os grandes vilões, mas, e os educa-
dores? Estão preparados para tantos desafios? Infelizmente, por medo, inexperiên-
cia ou formação deficiente, alguns profissionais acabam se tornando o epicentro de
muitos fracassos. Dúvidas frente às mudanças, desconhecimento de cunho peda-
gógico e tecnológico acabam afetando os processos que tentam viabilizar mudan-
ças.
Observa-se que falta a alguns educadores recuperarem o entendimento de
que a sua prática depende da atitude que resolverem tomar frente ao conhecimento,
despindo-se de toda a postura positivista que o tem caracterizado as últimas déca-
das, superando o parcelamento do saber para buscar a objetividade necessária à
compreensão global da realidade.
O educador que trabalha com a EAD deve estar atento para esse quadro
considerando, pelo menos, dois aspectos básicos: primeiro, a necessidade indiscu-
tível de sua existência e, segundo, a constante dinâmica resultante da necessidade
de atualização de conhecimentos a fim de evitar que permaneça inerte frente à imo-
bilização causada pelo Tecnicismo, ou seja, pelo abuso do que é técnico.
Segundo autores como BELLONI (2001), para ser considerado um profis-
sional capaz e preparado para enfrentar os atuais desafios da EAD, é preciso que
sejam desenvolvidas algumas condições fundamentais, como, por exemplo: empati-
a, senso de realidade, mentalidade científica, iniciativa, criatividade, autocontrole,
interesse pela educação, maturidade emocional, entusiasmo e uma sólida cultura
geral e profissional.
Da mesma forma que na modalidade presencial, a EAD não ocorre inde-
pendentemente da realidade ou de forma neutra, ou seja, é fruto do sistema social,
econômico e político, estando intimamente relacionado a todos os determinantes
que configuram a realidade brasileira ou por eles condicionada. Sendo assim, é evi-
dente que é preciso saber unir esta noção à responsabilidade, requisitos, condições
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pessoais e técnicas de sua função, capaz de pôr em prática ações holísticas e inter-
disciplinares.

Concepção curricular para a EAD

A definição da UNESCO faz constar que: “currículo são todas as experiên-


cias, atividades, matérias, métodos de ensino e outros meios empregados pelo pro-
fessor ou considerados por ele, no sentido de alcançar os fins da educação”. Se-
gundo LIBÂNEO (2002, p.52),

O conhecimento é social. Sua criação e distribuição são par-


tes das atividades de criação de grupos particulares de pessoas. Es-
se mesmo grupo fornece os instrumentos para que o conhecimento
produzido seja distribuído através de canais socialmente criados, a-
dotados e utilizados em contextos sociais particulares.

Partindo-se desses pressupostos, é possível afirmar-se que, uma vez pro-


duzido, o conhecimento tem de circular. Isso pode parecer senso comum, mas é
freqüentemente ignorado em relação ao currículo escolar cujos idealizadores insis-
tem em ignorar que sua produção é apenas o início do processo de circulação, fa-
zendo com que o conhecimento levado para os currículos escolares seja perigosa-
mente moldado, gerando conseqüências sociais complexas. O currículo produz efei-
tos sociais não de forma casual, mas através de sua própria natureza. Segundo
LEVY (1999, p.27)
Se um currículo é organizado como a apropriação individual
de porções do conhecimento abstrato, hierarquicamente organizado,
medido por uma avaliação individual competitiva, então aquele currí-
culo produzirá, de forma garantida, divisões educacionais, de acordo
com características de classe social.

Conforme já fora ressaltado, a EAD não é algo milagroso que solucionará


todos os problemas da educação, mas certamente trata-se de um importante fator
para a busca de soluções. E, nesse contexto, currículos que tenham como principal
preocupação o aluno, centro de todo o processo, permitirão um avanço cada vez
mais sólido.
A EAD via Internet é um exemplo disto. Segundo pesquisas, os usuários
deste meio de comunicação são pessoas informadas e que não aceitam a morosi-
dade e a falta de realidade de grande parte dos currículos acadêmicos, exigindo as-
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sim que os profissionais que desejem educar via web revejam constantemente sua
prática e os conteúdos ministrados.
Uma das vantagens da Internet reside na possibilidade de se organizar os
alunos em turmas, tal como no ensino presencial, e isto certamente tem reflexos
positivos sobre a motivação do estudante. Na verdade, assim como a educação a
distância convencional exigiu o desenvolvimento de uma pedagogia específica, a
educação on-line exige o desenvolvimento de um modelo pedagógico específico.
É a construção desta realidade que os currículos devem e podem viabili-
zar. O grande destaque fica por conta de que, ao mesmo tempo em que a EAD se
modifica, ela obriga a uma alteração nos currículos e, é através desse ciclo infindá-
vel, que a realidade se processa e evolui.
Ainda há muito a se criar, experimentar e corrigir neste campo desafiador
de constituição de uma nova pedagogia capaz de atender a tantas novas necessi-
dades. Mas, hoje, há razoável consenso em torno do fato de que esta pedagogia
deve estar atenta ao fato de que, cada vez mais, exigem-se profissionais e cidadãos
capazes de trabalhar em grupo, interagindo em equipes reais ou virtuais.
Mais do que o sujeito "autônomo", "auto-didata", a sociedade hoje requer
um sujeito que saiba contribuir para o aprendizado do grupo de pessoas do qual ele
faz parte, quer ensinando, quer mobilizando, respondendo ou perguntando. É a inte-
ligência coletiva do grupo que se deseja pôr em funcionamento, a combinação de
competências distribuídas entre seus integrantes, mais do que a genialidade de um
só.
Isso, infelizmente, ainda não é viabilizado pelos currículos e formas como
hoje se apresentam, mas a EAD possui todos os requisitos para forçar essa evolu-
ção. Para Freire, “como tudo o que, na efêmera existência humana, acontece, a
proposta educativa também passa obrigatoriamente por duas fases distintas e deci-
sivas: por um lado proposta e construção, por outro crise e decomposição” (1993,
p.51).

Novas tecnologias, antigas possibilidades

Segundo pesquisa recente sobre a indústria editorial brasileira, as estatísti-


cas das vendas de livros de papel exibiram uma queda de 30% nos últimos três a-
nos. O número de títulos e exemplares produzidos caiu devido a crises econômicas,
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à disparidade em relação ao dólar e à falta de criatividade para venda. O faturamen-


to também caiu, por causa dos preços mais acessíveis dos livros. O Brasil ainda
amarga o número de dois livros lidos ao ano, por habitante, desde os 10 anos de
idade. Mas esta é uma média não muito confiável, pois inclui os livros didáticos e os
livros de leitura obrigatória para a escola. Desprezando-se esses dois e conside-
rando-se só os livros escolhidos pelo próprio leitor, tem-se o preocupante resultado
de menos de um livro lido por ano.
Alguns defendem a idéia de o fato resulta da ausência da prática da leitura
por parte dos pais, não repassando esse hábito a seus filhos; outros defendem que
as pessoas deste final de milênio preferem atitudes mais passivas, que não dêem
tanto trabalho ao intelecto. O fato é que se lê pouco. O livro, independentemente de
seu formato, mídia ou característica, é apenas um instrumento. É inútil desperdiçar
forças lutando contra o desenvolvimento de novas tecnologias, quando a prioridade
deveria ser tornar o livro mais acessível e atraente, ainda que em sua versão digital.
O educador, que lida com a EAD e seus especificidades metodológicas,
tem que estar atento para não parar no tempo. O impresso é importante, mas não
se sabe ao certo o quanto ele ainda o será no futuro. As projeções futuras não mos-
tram o predomínio de qualquer meio, mas sim a certeza de que eles conviverão lado
a lado por muito tempo ainda.
Como outros fatores inerentes à natureza humana, o uso da tecnologia em
educação pode resultar em algo extremamente positivo ou negativo. Aos educado-
res, e famílias, cabe o dever de zelar para que o melhor aconteça. Sendo assim,
não se pode permitir que a tecnologia afaste as pessoas. Ao contrário, deve-se lutar
para que a Internet, a realidade virtual, as videoconferências on-line coloque mais
humanidade em cada pessoa. A cumplicidade, o fator afetivo autor–leitor sempre
existirão desde que aquele saiba que a razão de seu trabalho são os leitores.
Já tendo incorporado três gerações tecnológicas, ou seja, o impresso, a te-
levisão e os meios eletrônicos, a EAD vem se concretizando através de mais uma
nova possibilidade. Trata-se do e-learning, ou aprendizagem eletrônica, cuja princi-
pal característica é a possibilidade de disponibilizar na Internet todo o conteúdo que
um aluno necessita saber sobre determinado assunto através de ferramentas sín-
cronas ou assíncronas de comunicação.
Seu uso começou a ser construído durante os anos 80 e 90 e marcaram o
início efetivo do uso dos computadores pessoais não apenas como um importante
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instrumento de trabalho, mas, principalmente, como um poderoso meio de comuni-


cação. Aliados à Internet, essas máquinas foram as grandes responsáveis pelo pro-
cesso revolucionário experimentado pela educação desde então, particularmente no
que se refere à modalidade a distância (EAD). Isso se deve ao fato de que, depois
de mais de um século de existência, a então conhecida por educação por corres-
pondência, tendo em vista a metodologia utilizada, pudesse realmente passar por
um aprimoramento significativo, tornando-se o que hoje se conceitua EAD.
Atualmente, no Brasil, existem organizações que já utilizam o e-learning de
forma efetiva, cabendo destacar que a grande maioria dos usuários são empresas
privadas, ou seja, uma grande parcela do governo, das universidades e das escolas
ainda não atentaram para esta nova fase da EAD. Os estudos ainda revelam que,
dentre os usuários, 31% estão na região Sudeste, a região Sul responde por 20%, o
Nordeste por 18%, o Centro-Oeste por 17% e o Norte por 13%. Sendo que, em 51%
desses projetos, menos de 100 pessoas são atendidas mensalmente.
É evidente que, como em qualquer empreendimento, o e-learning apresenta
condições especiais para que possa ter sucesso. As desvantagens existem, mas
muitas delas decorrem basicamente de dois fatores: a falta de acesso tecnológico
de uma grande parcela da população e principalmente a não existência de uma cul-
tura de uso efetivo da Internet como ferramenta para a aprendizagem. Quanto às
vantagens, essas passam principalmente pela capacidade de alcançar um grande
numero de pessoas sem abrir mão da personalização e da redução de custos, parti-
cularmente após a implantação do sistema.
Segundo a Organização das Nações Unidas, a relação entre educação e sus-
tentabilidade se assenta no fato de que

A educação para a sustentabilidade deve permitir que a ação


educativa se converta em uma experiência vital, alegre, lúdica, atra-
tiva, criadora de sentidos e significados, que estimule a criatividade
e permita redirecionar a energia e a rebeldia da juventude para exe-
cução de projetos de atividades comprometidas com a construção
de uma sociedade mais justa, mais tolerante, mais eqüitativa, mais
solidária, mais democrática e mais participativa e na qual seja pos-
sível a vida com qualidade e dignidade.

Dessa forma, pode-se verificar que, qualquer iniciativa em EAD deverá, no


mínimo, observar a pertinência dessas observações.
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Conclusão

Para que se possa vencer os desafios metodológicos impostos à Educação


a Distância, vencendo os arraigados paradigmas fomentados pelas tendências mo-
dernas e pós-modernas, é preciso que se pense em uma prática interdisciplinar e,
como diz Lévy (1999), fomentadora de uma inteligência coletiva. Assim, é preciso
que se reconheça que o fato de relegar a educação e a escola a um segundo plano
faz com elas pareçam estar fora da realidade apresentada pelo cotidiano, não per-
mitindo que se perceba que a interdisplinaridade existe na própria vida e que, esse
inter-relacionamento, deseje-se ou não, acaba por influenciá-la.
A primeira pergunta que se deve fazer ao se propor uma EAD fundamenta-
da numa estrutura interdisciplinar é: o que se deseja alcançar com esta prática? É
evidente que, a partir desta pergunta, muitas outras surgiriam: O que ensinar?Quais
os conteúdos a serem trabalhos? Que metodologia se deve empregar? Como utilizar
os meios disponíveis? A essas perguntas, cabem respostas que somente a união, a
cooperação e a vontade política são capazes de responderem.
O ensino, sob o ponto de vista atual, tornou-se uma barreira incapaz de
permitir que o aluno consiga atingir de modo pleno a sua verdadeira identidade. Im-
pedido de estabelecer uma visão holística, ele se torna incapaz de entender o ver-
dadeiro objetivo da relação ensino-aprendizagem.
O silêncio imposto nas salas de aula não permite a manifestação da história
individual que cada aluno traz consigo. A linguagem e o universo trabalhados e pro-
postos não são aqueles que o aluno espera. As suas práticas sociais não são leva-
das em conta. O indivíduo apresenta-se não como um produtor, mas um simples
reprodutor de histórias alheias. Falta-lhes assim a oportunidade de discutir, de refle-
tir, de se conscientizarem da necessidade da busca de seu desenvolvimento indivi-
dual e coletivo.
A realidade vivida hoje no Brasil reflete, com bastante transparência, o grave
problema que atinge a população mundial. Devido a inúmeros fatores políticos e
sociais, a educação, até os dias atuais, passa por sérias crises que vão desde a e-
ducação fundamental até o nível universitário. O ensino oferecido apresenta-se inse-
rido num contexto extremamente seletivo. As opções disponíveis fazem parte de um
contexto compartimentalizado e fruto de uma ação baseada nos padrões da doutri-
na tecnicista. Ao aluno resta toda a culpa dos erros; aos políticos, pesquisadores e
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educadores cabem os poucos méritos e nunca a responsabilidade sobre os insu-


cessos, o abandono e a repetência.
Aos profissionais de EAD não cabem soluções milagrosas, capazes de sal-
var todo o processo educacional, mas, certamente, de seu trabalho será possível
erguer grande parte dos alicerces que ajudarão a sustentar a prática interdisciplinar
que traduzem em si a idéia de que, segundo FAZENDA (1993, p.32)

O pensar e o agir interdisciplinar se apoiam no princípio de


que nenhuma fonte de conhecimento é, em si mesma, completa e de
que, pelo diálogo com outras formas de conhecimento, de maneira a
se interpenetrarem, surgem novos desdobramentos na compreensão
da realidade e sua representação.

É preciso um trabalho sério, capaz de ratificar o fato de que o aluno deve


deixar de ser visto como mero receptor de informações ou assimilador de conteúdos
a serem reproduzidos em testes ou exercícios. Além disso, a EAD requer uma reali-
dade em que alunos e professores passam a ser companheiros de comunidade de
aprendizagem. O novo professor, apoiando-se em novas propostas curriculares, de-
ve ser capaz de exercer a plenitude da liderança, sendo um “animador" no sentido
mais literal da palavra, de despertar a "alma".
Para o aluno, o primeiro grande desafio a ser vencido é o de aprender a ser
um aluno a distância. Isto não é a mesma coisa que ser um aluno convencional e
também não se confunde com o aprendizado operacional de novas tecnologias. Ser
um aluno a distância é mais do que aprender a utilizar a Internet ou usar o correio
eletrônico, pois passa pela necessidade de se perceber como parte de uma comu-
nidade de aprendizagem colaborativa, desempenhando o novo papel a ele reserva-
do num mundo globalizado e em interação instantânea. O segundo ponto a observar
é quanto à ação docente.
Não se trata apenas de ensinar as pessoas “mexerem” com computador,
navegar na web ou usar o e-mail. Assim como aprender a usar quadro-negro e giz
não faz de ninguém um professor convencional, aprender a usar computador, perifé-
ricos e software não faz de ninguém um professor ou aluno. Para se estar nos novos
rumos da educação é preciso ser, antes de mais nada, convertido a uma nova pe-
dagogia, a uma nova e revolucionária noção de currículos. Não é apenas mais um
novo meio no qual se deve aprender a se movimentar, mas é uma nova proposta
pedagógica cujas necessidades são prementes.
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Se assim for considerada e tratada, a educação, em sua própria constituição


epistemológica, já permitirá fluir e difundir as bases do pensamento sustentável de
que a sociedade brasileira necessita. Que os acertos sejam agregados, mas que os
erros da pós-modernidade cedam lugar à Era do Conhecimento efetivamente.

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