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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

ALEXANDRE SOARES CAVALCANTE


LUÍZA LOBATO
VICTOR ALCÂNTARA E SILVA

SEMINÁRIO DE ANTROPOLOGIA DA RELIGIÃO


Max Weber – A ética protestante e o espírito do capitalismo – Livro I (O
problema)
Seminário apresentado como
avaliação parcial da disciplina Antropologia
da Religião, ministrada pelo Prof. Dr.
Aderval Costa Filho.

BELO HORIZONTE
2010
Capítulo 01 – Confissão religiosa e estratificação social

As estatísticas da Alemanha revelam a predominância dos protestantes entre os


proprietários do capital e empresários, bem como das camadas superiores da mão-de-
obra tecnicamente qualificada. As razões disso são históricas e a pertença a uma
confissão religiosa não aparece como causa do fenômeno econômico, mas como sua
conseqüência.

• Qual a razão da predisposição das cidades ricas revolucionarem a igreja?


-Já no século XVI elas haviam se convertido ao protestantismo. Posição atual dos
protestantes nas funções econômicas é fruto de posse de capital, de educação
dispendiosa e/ou abastança herdada.
-Emancipação ante o tradicionalismo econômico pode ter propiciado o
questionamento da autoridade religiosa. Porém, a reforma aumentou a dominação
eclesiástica sobre a vida, afetando tanto esfera pública quanto doméstica.

• Como, então, as classes burguesas, economicamente emergentes, tomaram


partido do puritanismo?
Outros fatores além do patrimônio herdado atuam no “fenômeno”:
-Diferença quando ao tipo de educação superior dada aos filhos por pais católicos
e protestantes; católicos aderem mais à formação humanística e pouco se entregam aos
estudos técnicos e profissões comerciais e industriais, que formam a vida burguesa dos
negócios. Essa tendência não é explicada pela diferença patrimonial, mas é nela que se
deve buscar a explicação para o reduzido interesse dos católicos pela aquisição
capitalista. Pg. 32.
Católicos tendem a ser artesãos, ao passo que protestantes afluem para as
fábricas, e daí para os postos administrativos ou especializados. É a educação religiosa
que dirige a formação e escolhas profissionais. Pg. 33.
Os católicos não se enquadram na tendência de os dominados e minorias
buscarem atividade aquisitiva. Nem na Alemanha nem em toda sua história. Ao contrário,
os protestantes, em qualquer situação, dominados ou dominantes, sempre buscaram o
racionalismo econômico. A razão desse comportamento distinto deve ser buscada na
particularidade de cada confissão religiosa, não somente em fatores históricos e políticos.
Pg. 34.

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• Quais foram ou são os elementos dessa confissão que atuam na direção
profissional “burguesa”?

A simples distinção indicada entre ‘ascetismo’ e ‘materialismo’ não dá


conta do problema. Seriedade e forte interesse religioso na conduta da vida são
elementos também do protestantismo. Pg. 35.
O que deve ser abordado é exatamente a aliança entre estranhamento do

mundo, ascese e devoção eclesial com a participação na vida capitalista. Pg. 36.

Essa aliança se tornou marca distintiva de grupos, igrejas e seitas protestantes. Há


uma coincidência entre devoção que regula e permeia a vida e o senso de negócios
capitalista. Entre os quakers e os menomitas a riqueza é tão notória quanto o
estranhamento do mundo. Pg. 38.
O protestantismo era avesso a diversos traços da vida moderna. Não é na atitude
“materialista” que está o parentesco entre capitalismo e protestantismo, mas nos aspectos
religiosos mesmos.

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Capítulo 02 – O “espírito” do capitalismo

Que é esse espírito?


Individualidade histórica. “Complexo de conexões que se dão na realidade
histórica” e encadeado conceitualmente em um todo. Assim, o “espírito” não interessa em
sua peculiaridade, mas só historicamente. Sua definição só surge, então, no fim da
pesquisa, sendo um de seus principais resultados.
Pontos de vista diferentes sobre o fenômeno histórico geram traços “essenciais”
diferentes. A delimitação do objeto de análise não dever ser tomada como realidade
(“enfiar a realidade em conceitos genéricos). Para prosseguir a pesquisa, entretanto, é
necessária uma delimitação provisória desse “espírito”. Pg. 42.

-Máximas de Benjamin Franklin são máximas do “espírito do capitalismo”.


Kürnberger: Cansado da América: “Do gado se faz sebo, das pessoas,
dinheiro”. Pg. 45.

Americanos professam “filosofia da avareza” e formam o homem digno de crédito.


Franklin a expressa pelo dever do homem se interessar pelo aumento de suas posses
como um fim em si mesmo. Pode-se pensar na esfera do valor social: ética particular cuja
violação é um desatino. Há um ethos particular nessa conduta de vida eticamente
coroada. É isso que interessa ao estudo.
As advertências de Franklin são de cunho utilitário: honestidade é útil porque traz
crédito, assim como pontualidade, presteza, frugalidade são virtudes na medida em que
são úteis. Assim, bastaria somente a aparência. Franklin atribui a utilidade da virtude a
uma revelação de Deus. Não é simples “hipocrisia”. Pg. 46.
Inversão: “ser humano em função do ganho como finalidade de vida, não mais o
ganho em função do ser humano como meio destinado a satisfazer suas necessidades
materiais”. Além disso, há a característica de se ganhar mais e mais dinheiro sem poder
usufruir plenamente dele.
“Por que é preciso fazer das pessoas dinheiro”?

-Livro dos provérbios (22, 29): “vês um homem exímio em sua profissão? Digno ele
é de apresentar-se perante os reis”.

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Isso era o que o pai de Franklin, calvinista estrito, lhe repetia quando pequeno. Na
ordem econômica moderna, o ganho de dinheiro aparece como resultado (expressão) da
habilidade na profissão. E é a habilidade que fundamenta a moral de Franklin. Pg. 47.
A profissão pensada como dever, obrigação do indivíduo com o conteúdo de sua
atividade profissional, é característica da ética social capitalista. Para o indivíduo que
nasce em seus cosmos ela já aparece como fato, sendo importante na medida em que foi
determinante para a constituição desse “espírito” mas não tanto para o capitalismo atual.
O capitalismo atual seleciona seus sujeitos econômicos com base em modalidades
de conduta que tiveram de emergir. E isso se deu a partir de um modo de ver de um
grupo de pessoas. Pg. 48.
“Espírito do capitalismo” existe, muitas vezes, antes do desenvolvimento capitalista.
Weber inverte a lógica da superestrutura. Nas colônias do Norte dos EUA ele se
desenvolveu mais que nas do Sul, ainda que elas tenham sido criadas com fins mercantis.
As do norte foram fundadas por religiosos e pequenos burgueses. Pg. 49.
Para se desenvolver, o espírito teve que enfrentar outras disposições. Teria sido
visto como avareza na antiguidade ou Idade Média. Mas a avareza nunca foi
exclusividade sua e não é essa característica que o marca como fenômeno de massa. Pg.
50.
Avareza foi tolerada para fora do grupo, mas a irrupção do livre lucro no seio do
grupo mesmo era vista como eticamente lamentável (ou indiferente). Para se firmar, o
espírito precisou lutar contra o tradicionalismo, uma vez que o trabalho e a valorização
racional do capital não eram orientadores da conduta de vida. Pg. 51.

Que é o tradicionalismo?
“O ser humano não quer ‘por natureza’ ganhar dinheiro e sempre mais dinheiro,
mas simplesmente viver, viver do modo como está habituado a viver e ganhar o
necessário para tanto”. Pg. 53.
->O capitalismo, onde quer que se instale, e quanto mais “atrasada” é a mão-de-
obra, tem que enfrentar essa tendência. A idéia de produtividade pela intensidade não é
dada e muitas vezes o aumento de salário por produtividade leva a uma baixa desta, não
o contrário, pois é possível trabalhar menos para manter o antigo padrão.

O trabalho como vocação é fruto de extensa educação. Executar um trabalho como


fim em si mesmo não é “natural” e nem pode ser condicionado pelos salários.

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->mulheres alemãs: resistem às novas formas de trabalho em favor de seus
hábitos mesmo que eles representem mais trabalho e menos rendimento. Exceção são as
pietistas, cuja orientação religiosa inculca noções de domínio de si, poupança, dever do
trabalho, sobriedade. São características que elevam sua produtividade; assim superam a
rotina tradicional em conseqüência da educação religiosa nas novas condições
econômicas. Pg. 56.

Tradicionalismo: O homem não deseja naturalmente ganhar mais e mais dinheiro.


Onde quer que o capitalismo moderno tenha começado sua ação de aumentar a
produtividade do trabalho humano aumentando sua intensidade, tem encontrado a
teimosissima resistência desse traço trabalhador pré-capitalista.
-As oportunidades de superar o tradicionalismo são maiores por conta da formação
religiosa.
-Significado de tradicionalismo no caso do empresário atual:
Sombart: satisfação das necessidades (básicas) e
Aquisição (de lucro): princípios orientadores da historia econômica.
Satisfação das necessidades: tradicionalismo econômico. Considerando esse
conceito, algumas empresas indubitavelmente capitalistas podem ao mesmo tempo ter
um caráter tradicionalista.Certamente a forma capitalista de uma empresa e o espírito
pelo qual ela se guia estão geralmente em uma relação de adequação, sem ser
necessariamnete interdependente. Apesar disso, usamos provisoriamente a expressão do
espírito do capitalismo moderno para designar a atitude que busca o lucro racional
e sistematicamente, como exemplo de B Franklin.

-No início dos tempos modernos, o empreendedor capitalista estava nas camadas
emergentes dos pequenos industriais de classe média: novos ricos: burguesia.
-Grandes empresas só podem ser dirigidas sob o espírito do capitalismo, porém no
comércio varejista a revolução que está pondo um fim no tradicionalismo ainda está em
plena marcha.
-Exemplo de empresa têxtil tradicional: clientes de sempre, qualidade reconhecida,
poucas horas de trabalho por dia, ganho moderado (o suficiente para levar uma vida
respeitável e em tempos favoráveis, economizar um pouco). Bom relacionamento entre
competidores, amplo grau de concordância quanto ao funcionamento do negócio. Longas
visitas diárias a taverna com amigos: vida confortável e prazerosa.

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-A forma da organização era capitalista em todos seus aspectos, porém o espírito
era tradicionalista.
-Muitas vezes foi um jovem da família vindo da cidade que começou a mudança:
cuidado ao escolher funcionários, supervisão sobre o trabalho, cuidado com os cliente,
adequação as necessidades do cliente, preços baixos e alto giro.
-Aqueles que não seguiram o mesmo processo tiveram que sair do negócio. A vida
prazerosa se tornou uma amarga batalha em que as pessoas não estavam interessadas
em consumir, mas em ganhar. Quem não quis se adequar teve que baixar o padrão de
consumo.
-Não foi o dinheiro investido que fez isso, foi o espírito do capitalismo. Sua
entrada em cena não costuma ser pacífica, traz muita desconfiança, ódio e indignação
moral. É muito mais fácil não reconhecer que somente um caráter extraordinariamente
forte poderia salvar o empreendedor desse novo tipo de perda de seu autocontrole
temperado e do naufrágio moral e econômico. Os homens que fizeram tal mudança não
foram aventureiros, foram homens crescidos na dura escola da vida, calculando e
arriscando ao mesmo tempo, acima de tudo sóbrios e confiáveis, perspicazes e
completamente devotados aos seus negócios, com princípios e opiniões estritamente
burgueses.
- Somos levados a pensar que tais características pessoais nada tenham a ver com
religião. Parece que a relação entre elas é negativa.
- Se perguntarmos as pessoas a razão da sua atividade sem descanso, vão dizer
“para garantir uma vida confortável aos meus filhos e netos” ou que o trabalho tornou-se
parte necessária de suas vidas. Do ponto de vista da felicidade pessoal, parece por
demais irracional que o homem exista para seu negócio, quando deveria ser o contrário.
-O desejo de poder e reconhecimento pela riqueza desempenha seu papel. Porém,
o tipo ideal de empreendedor capitalista evita a ostentação e os gastos desnecessários, e
fica embaraçado com as manifestações externas de reconhecimento social que recebe.
Não tira de sua riqueza nada para si mesmo, a não ser o sentido irracional de ter
cumprido bem o seu trabalho.
-Mas é exatamente isso que parece ao homem pré-capitalista tão incompreensível
e misterioso, tão desprezível e sem valor. Que alguém possa fazer disso o único fim de
sua vida útil.
-Hoje em dia o interesse social e comercial dos homens tende a influenciar suas
opiniões e atitudes. Quem não adaptar seu modo de vida as condições do sucesso
capitalista será sobrepujado, ou pelo menos impedido de subir.

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-No nascimento do capitalismo, ele só pôde destruir as antigas formas de
regulamentação medievais se aliando ao crescente poder do Estado Moderno. O mesmo
se passou com as forcas religiosas. A idéia de ganhar dinheiro como um fim em si mesmo
sempre foi contrária ao sentimento ético de todas as épocas.
-Dentro da Igreja Católica, a atividade direcionada para a aquisição era somente
tolerada, apenas por causa das inalteráveis necessidades da vida nesse mundo.
-A doutrina dominante rejeitou o espírito capitalista. Capitalistas temiam não
merecer a salvação e frequentemente destinavam quantias generosas a caridade em
seus testamentos. Porque tal doutrina floresceu quando era considerada eticamente
injustificável e quando muito tolerada, na Florença dos séc, XIV e XV?
-Não faltaram tentativas de justificar eticamente o capitalismo: a alegria de dar
emprego para muitas pessoas, contribuir para o progresso econômico, satisfação.
-Desenvolvimento do capitalismo esta relacionado com o desenvolvimento do
racionalismo. Protestantismo= filosofia racionalista. Idéia falha, visão simplista. é possível
racionalizar a vida de diversas formas. Qual é a idéia irracional por trás do conceito
capitalista de vocação?

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Capítulo 03 – O conceito de vocação em Lutero. O objeto de pesquisa

• Visão luterana do trabalho


Nos momentos iniciais do capitulo, Max Weber faz uma análise da influência dos
pensamentos de Lutero para a construção semântica da palavra vocação.
Para Lutero, a idéia de vocação está relacionada a um chamado, uma missão dada
por Deus para a pessoa na Terra, e foi justamente essa concepção da expressão que
obteve sucesso na disseminação da mesma. Essa foi popularizada como uma
interpretação de dever a partir de uma dádiva divina, um presente. Inclusive, essa visão
foi construída a partir da tradução elaborada pelo mesmo a partir das escritas gregas da
bíblia, surgindo pela primeira vez no livro de Eclesiásticos1:

“Permanece firme na tua tarefa, ocupa-te bem dela e envelhece cumprindo


teus deveres.” (CNBB)
“Permanece firme em tua aliança com Deus; que isto seja sempre o
assunto de tuas conversas. E envelhece praticando os mandamentos.” (AVE
MARIA)
“Persevera na tua tarefa, faz dela a tua vida, e envelhece no cumprimento
do dever.” (BIBLIA SAGRADA)2

Assim, a valorização do trabalho como uma assertiva divina é de fato a idéia


inovadora de Lutero. Não que outras formas de valorização não existissem, mas esse
vínculo com as idéias religiosas é novo; o trabalho mundano do cotidiano passa a ter uma
significação religiosa.
Isso acaba por quebrar com a idéia católica de que o único meio de agradar a
Deus é suplantar a moralidade mundana através da ascese monástica (vida separada,
como os monges, por exemplo).
Para Lutero, viver segundo a vontade de Deus não é estar separado do mundo,
mas sim viver a vida mundana de forma sacralizada, agradando a Deus em todos os
momentos.

Segundo Weber, essas idéias de Lutero tiveram início em sua primeira década
rumo à Reforma Protestante. No entanto, a princípio ele está em consonância com os
1
O livro de Eclesiásticos não deve ser confundido com Eclesiastes. O primeiro só aparece em algumas versões da
bíblia, não aparecendo, por exemplo, nas bíblias protestantes de veia pentecostal.
2
Em traduções diferentes, aparecem expressões diferentes para o desígnio da idéia de um dever dado por Deus. Em
alemão, a palavra utilizada por Lutero é “besuf”. Na versão atual da bíblia em alemão, a expressão utilizada é deiner
pflicht, que significa algo em torno de dever relacionado ao trabalho.

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ideais medievais católicos (de que o trabalho está no plano do mundo, e se estabelece
como base para a fé na medida em que é base para viver nesse mundo, assim como
necessidades de comer e beber). No entanto, com o transcorrer do tempo, os
pensamentos vão divergindo à medida que Lutero relaciona a noção de vocação cada vez
mais à profissão, ao mundo laboral. Em certo aspecto, pode-se dizer que o trabalho vai
sacralizando-se na visão de Lutero.
Com isso, a vida monástica passa a ser encarada de uma maneira diferente: além
de não ter valor útil, ela é vista como uma forma de egoísmo com relação aos deveres no
mundo.

• Aproximação e distanciamento com relação ao Capitalismo


As idéias de vocação e de sacralização do trabalho parecem se aproximar das
idéias de Adam Smith. No entanto, Weber ressalta que Lutero pensa o trabalho
simplesmente pelo viés da relação religiosa: para ele, o trabalho é, em ultima instância,
uma forma de expressão do amor ao próximo.
No entanto, Weber comenta que esse pensamento não adquire muita
popularidade, por características que segundo ele são obvias (como o discurso de Adam
Smith, de que se trabalha para o outro). A assertiva passa a ser, então, voltada para o
ideal de obediência às ordens divinas. O trabalho passa a ser a única forma de agradar a
Deus. Sendo assim, toda profissão legal é valorosa em igual nível para Deus.

Saindo um pouco das explicações da visão de Lutero, Max Weber nos conduz
numa discussão sobre a significação dos feitos da Reforma, uma vez que, por mais que
esses feitos estejam bastante claros, sua significação é menos óbvia do que os casos de
outras religiões (como o calvinismo). Isso porque, principalmente, a Lutero não pode ser
atribuído algum grau de parentesco com o capitalismo (até mesmo hoje em dia, os
círculos eclesiásticos negam veementemente esse tipo de aproximação). Inclusive, seria
de sua desaprovação os tipos de privilégio que as empresas possuem no mercado,
podendo até mesmo ser comparado às tradições monásticas, criticadas por ele.
Além disso, as leituras e conceituações feitas por Lutero podem dar
desenvolvimento a diferentes tipos de configuração, não necessariamente o capitalismo
como se observou. De fato, Weber coloca que Lutero tinha uma postura voltada ao
tradicionalismo, na medida em que assumia posturas de pensar o mundo terreno como
algo tão passageiro, que não faz sentido buscar benção material além do que esteja ao

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alcance. Inclusive, essa busca excessiva por dinheiro e status quo poderia ser sintoma de
algum “mal estar” em relação à confissão religiosa.
Partindo desse paradigma, é observável que em consequência de suas
experiências e vivências (embora algumas muito pontuais), Lutero apresenta uma visão
de destino ao homem, sendo a situação terrena algo do propósito divino. Logo, não
devemos buscar mais do que seja de nossa condição.
Essa atribuição tão concreta não é nova. Na verdade, já fora pensada por místicos
alemães, como Johannes Tauler, por volta do ano 1300.

A edição impressa em Augsburg em 1508 foi lida e apreciada por Lutero.


Ele referia-se a sua teologia, similar a dos antigos, em carta a Spalatin em 1516.
Ele admirava o descrédito de Tauler às obras, sua defesa de uma completa
submissão à vontade de Deus e suas notas sobre os sofrimentos que atormentam
as almas devotas. Mas Lutero não aceitava o ensinamento místico de Tauler,
levando-o até a substituir termos adotados por Tauler, como, por exemplo,
trocando a expressão "centelha da alma" pela palavra "fé".
A seleção a seguir começa por textos que tratam do 'fundamento da alma'.
O 'fundamento', para Tauler, é a essência de nossa alma e é o lugar onde vamos
ter contato direto com a Divindade. Tauler difere de Eckhart ao conceder mais
espaço para a alma humana, mas enfatiza que neste nível profundo somos
guiados por uma fome insaciável por Deus e uma predisposição para recebê-lo.
Os textos enfatizam também que devemos abandonar o egoísmo e nossa vontade
própria se queremos nos unir a Deus, e Tauler dá a maior relevância ao papel de
Cristo neste processo. Como em Eckhart, a atitude que devemos aprender é
essencialmente a passividade, deixando Deus trabalhar em nós. Mais do que
todos os místicos de sua época Tauler reconhece que o trabalho de Deus em nós
pode ser uma forma de sofrimento (antecipando a 'Noite Escura da Alma' de São
João da Cruz). De fato, em geral Tauler acentua o imenso valor espiritual das
tribulações diárias, e como estas servem para distinguir a verdadeira da falsa
testemunha. Tauler demonstra uma grande compreensão de nossos períodos de
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fraqueza e falha. Baseado no livro The Rhineland Mystics de Oliver Davies

Portanto, pode-se dizer que em certo aspecto, a ética luterana acaba sendo um
retrocesso, em relação à autodisciplina ascética.

O que se pode tirar disso, segundo Weber, é que não podemos atribuir o
florescimento do capitalismo à posição luterana em relação à vocação profissional.

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http://www.sophia.bem-vindo.net/tiki-index.php?page=Johannes+Tauler

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Principalmente por conta do diálogo antagônico entre o luteranismo (e o catolicismo) e o
calvinismo.
Mesmo assim, todas as formas de religião em discussão não tinham em mente um
anseio por reformas sociais e culturais – na realidade, sua preocupação estava muito
mais centrada na salvação da alma. Os efeitos que se produziram vieram quase como por
acidente. Nas palavras de Weber:

Porque justamente o que nos cabe é tornar um pouco mais nítido o


impacto que os motivos religiosos, dentre os inúmeros motivos históricos
individuais, tiveram na trama do desenvolvimento da nossa cultura moderna
especificamente voltada para “este mundo” (p. 82 – Companhia das Letras, 2004)

Por fim, o que se pode apreender dessas discussões é que se torna necessário
entender que a Reforma não foi um movimento pela sobrevivência da igreja frente às
novas formas de produção e consumo, nem o capitalismo é fruto da Reforma. Em outras
palavras, a Reforma não é causa nem consequência strictu sensu.
Na verdade, tem-se que pensar em quais aspectos da Reforma contribuíram para a
expansão do capitalismo, e que aspectos da cultura podem ter origem na Reforma.
Inclusive, Weber termina seu texto indicando uma seqüência lógica que deveria ser
seguida: primeiro deve-se pensar em como o movimento religioso afetou (o modo e a
direção) no desenvolvimento da cultura material. Somente depois de bem fundamentada
essa sistematização é que devemos pensar em que medida os conteúdos culturais têm
sua gênese nos movimentos religiosos.

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