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48_AM~Calvinismo_e_Pol%EDtica.html Aceso em: 03/04/2008

Calvinismo e Política
Alderi Souza de Matos
Estudiosos de diferentes matizes têm reconhecido a decidida contribuição prestada pelo
movimento calvinista ao aperfeiçoamento das instituições políticas do mundo ocidental.
As noções reformadas sobre a ordem política foram inicialmente articuladas por João
Calvino e posteriormente aprofundadas em alguns pontos e modificadas em outros pelos
seus sucessores.
Calvino expôs as suas idéias sobre o estado no último dos oitenta capítulos de sua obra
magna, a Instituição da Religião Cristã. Por causa de sua reflexão firmemente apoiada
nas Escrituras, o reformador tinha um elevado conceito acerca do estado e dos
governantes civis. O apóstolo Paulo havia ensinado que as autoridades são "ministros de
Deus" e foram por ele instituídas com vistas ao bem comum, merecendo assim a
obediência dos cidadãos (Epístola aos Romanos, cap. 13). Calvino, seguindo a mesma
linha de raciocínio, acentuou que a carreira pública era uma das mais nobres funções a
que um cristão podia aspirar e deixou claro que os cidadãos tinham o dever de obedecer
as leis e honrar os seus magistrados. Os governantes, por sua vez, tinham solenes e
graves responsabilidades diante de Deus em relação às pessoas entregues aos seus
cuidados.
Ao escrever sobre o assunto, Calvino estava em parte reagindo contra os anabatistas,
que desprezavam as instituições políticas e o exercício de cargos públicos como algo
indigno de um cristão, e contra os diferentes grupos de anarquistas e revolucionários da
época. Como a maior parte dos protestantes do século XVI, ele era favorável a uma
estreita associação entre a igreja e o estado, cada qual respeitando a esfera de atuação do
outro. A alegação de que Calvino teria sido o ditador de Genebra é injustificada. Na
realidade, ele nunca exerceu nenhum cargo político naquela cidade e durante grande
parte da sua estadia ali teve um relacionamento difícil com os magistrados civis, sempre
desejosos de interferir nos negócios da igreja.
Se o pensamento político de Calvino é essencialmente conservador, dois fatores levaram
os calvinistas a adotarem teorias mais democráticas: as perseguições sofridas na França,
Inglaterra e Escócia, e o exemplo de Genebra, com o seu governo republicano. O direito
de oposição aos tiranos, admitido apenas excepcionalmente por Calvino, foi defendido
de modo explícito pelo francês Philippe Duplessis-Mornay, pelo escocês George
Buchanan e pelo autor anônimo de Vindiciae Contra Tyrannos, obra popular entre os
huguenotes franceses do século XVII. Nas Ilhas Britânicas, o presbiterianismo, com sua
ênfase no governo eclesiástico por presbíteros livremente eleitos pela comunidade,
atraiu a ira de vários monarcas que não queriam abrir mão do "direito" de nomear os
bispos e assim mais facilmente controlar a igreja.
No entanto, a nova cosmovisão religiosa dos reformados e as práticas dela decorrentes
foram ainda mais fundamentais para as suas concepções políticas progressistas. A
teologia protestante e calvinista valorizou o indivíduo, colocado em uma relação pessoal
com Deus e libertado da dependência eclesiástica. Na igreja, ele era convocado a
colaborar com seus concidadãos na tarefa de governo e administração, a exercer o seu
direito de voto com um forte senso de responsabilidade e a fazer a sua parte quando
convocado para o serviço público, sendo ainda educado para exercer o direito de
supervisão e até mesmo de crítica dos governantes. Além disso, a valorização do
trabalho, as oportunidades de mobilidade social, o direito à livre iniciativa e o pleno
acesso à educação, todos esses característicos do protestantismo calvinista, também
foram fatores decisivos para o desenvolvimento da democracia no Ocidente.
Os reformados entendem que Deus é o senhor de toda a vida e, portanto, todas as áreas
da atividade humana são importantes para o cristão, inclusive a esfera política. Assim
sendo, deve-se evitar toda e qualquer dicotomia entre o "sagrado" e o "secular" ou
"profano." Essa convicção tem levado muitos calvinistas a se envolveram com a
atividade pública, entendida como um importante serviço prestado a Deus e à
coletividade. Dois exemplos notáveis são Woodrow Wilson, presidente da Universidade
de Princeton, presidente dos Estados Unidos (1913-1921) e ganhador do Prêmio Nobel
da Paz, e Abraham Kuyper, teólogo e líder político holandês, fundador da Universidade
Livre de Amsterdã e primeiro-ministro da Holanda de 1901 a 1905. Embora a separação
entre a igreja e o estado seja necessária para a democracia, os reformados entendem que
não deve haver um divórcio entre suas convicções ético-religiosas e sua atuação na vida
pública.

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