MUNDIVIDÊNCIA CRISTÃ O. INTRODUÇÃO A pessoa humana é um ser pensante.

Devido a esta capacidade, ela consegue pensar e reflectir criticamente o pensado. Por isso, ela iniciou uma caminhada reflexiva, no sentido de conhecer o mundo, Deus e conhecer -se a si próprio. Quer dizer, ele tornou se sujeito e objecto da sua reflexão, de seu estudo. Desta reflexão, nasceram questões muito relevantes e até enigmáticas como, por exemplo, o que é o ser humano? O que é o mundo? O que é Deus? As tentativas de respostas, dadas a estas questões, podem tomar a cor da cultura, da religião, da corrente de pensamento e de ideologia, etc. Este trabalho é também uma tentativa de dar resposta às mesmas questões. Este trabalho está estruturado em cinco partes: a primeira e segunda partes iremos discutir as perguntas sobre o ser humano (liberdade e transcendência), e sobre o mundo: Concepções cosmogónicas. Na terceira encontraremos a relação o ser humano - Deus, numa perspectiva cristã. Na quarta parte, a religião e ética: diferentes tipos de ética. E, por fim, a quinta parte trataremos de como consultar e citar as fontes principais desta cadeira. A Mundividência (cosmovisão), em si, é o modo de o ser humano entender a pessoa humana, o Mundo e Deus. E a expressão Mundividência Cristã (cosmovisão cristã) é a compreensão das realidades, acima, pela Igreja. Seria sobretudo uma tentativa de responder àquelas questões essenciais, que nascem do fundo do coração humano. As questões acima englobam variadas formulações como, por exemplo, as que se seguem: 1- Quem sou eu, enquanto pessoa humana? 3- Donde venho? 4- Para onde vou? 5- Qual o sentido e o fim da dor? 6- Qual a distinção entre o bem e o mal? 7 - O que devo fazer? (Moral) 8- Qual a origem e a finalidade do sofrimento? 9 - Qual o caminho para chegar a verdadeira felici dade? 10- Que é a morte? 11- Qual o sentido, o fim da vida? 12- Em que consiste, afinal, o mistério último e inefável que envolve a nossa existência, do qual a pessoa humana tira a sua origem e para o qual ela se encaminha? 13-Como o mal perpetua no mundo, se Deus é omnipotente? Estas e outras questões semelhantes constituem enigmas da condição humana que, hoje como ontem, preocupam profundamente os corações dos seres humanos. Esta preocupação esteve também presente nos grandes pensadores, como os filósofos da Antiguidade, da Idade Média, da Idade Moderna e da Idade Contemporânea, a saber: Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Descartes, Kant, Hegel, Marx e Heidegger. Estes pensadores tentaram responder àquelas questões mas, infelizmente, nenhuma de suas respostas pudera satisfazê-los plenamente. Quer dizer o ser humano continuou e continua sendo um mistério para si mesmo.
1

Esta inquietação mostra que só o ser humano põe e impõe a si mesmo estas questões porque manifestamente está votado a interrogar-se sobre si mesmo, sobre a natureza e sobre o que o rodeia. Vamos, desde já, ver como a Mundividência Cristã, em suas variadas perspectivas, por exemplo, a tradicional africana, filosófica, islâmica e católica, tentar dar respostas àquelas questões essenciais e, ao mesmo tempo, enigmáticas.

CAPÍTULO I: QUATRO PERSPECTIVAS (Tradicional Africana, Filosófica, Islâmica Cristã) I.Perspectiva Tradicional Africana Com a expressão Perspectiva Tradicional Africana, queremos abordar a visão a tradicional africana sobre Deus, o ser humano e o Mundo, que é ao mesmo tempo dar respostas às questões acima mencionadas, que preocupam profundamente o próprio ser humano. Para esta parte do nosso trabalho, utilizaremos sobretudo o livro de Altuna, (CULTURA TRADICIONAL BANTO, LUANDA, 1993). Tentaremos debruçar-nos sobre a pessoa humana e sua constituição. 1.O ser humano Para a perspectiva tradicional africana, o ser humano em Emakhuwa mutthu- é um ser com corpo, coração, alma/espírito ou sopro vital, sangue, sombra. Conforme Pe Raul Altuna, o ser humano é um ser com vida e inteligência, que ama. Por isso, o ser humano entra em contacto com Deus (relação vertical) e com seus semelhantes (relação horizontal). A pessoa humana constitui o valor primordial da criação. Ele é inteligente e imortal. A sua inteligência torna-o superior a todos os seres criados. Altuna, citando Zahan, diz que de um extremo ao outro do continente africano, o negro afirma a sua convicção da superioridade do ser humano em relação a tudo o que existe. O ser humano é a realidade suprema e irredutível . O autor em citação continua dizendo que como valor fundamental da criação, as outras realidades estão-lhe sujeitas e disponíveis para o seu serviço. O ser humano é o ponto de convergência activo, na criação, responsável mais qualificado, o qual pode manejar as outras criaturas livremente, mas com responsabilidade e respeito do Criador, das outras criaturas e de si mesmo, porque imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 26-27). O ser humano é força viva, a força suprema, a mais poderosa entre todos os seres criados, porque ele domina os animais, plantas, minerais, e tem consciência da sua existência e daquilo que faz. Ele é capaz disto pois é depositário de uma partícula do
2

poder divino. Por isso, o ser humano ocupa o centro da pirâmide vital, o que significa que a toda a criação está orientada para ele. 1.1.A constituição do ser humano Para a perspectiva tradicional africana, o ser humano é constituído pelo corpo, coração, sopro vital ou alma espiritual, sangue e sombra.

a) Corpo Para a população bantu, o corpo, a parte material, é o suporte físico, a exteriorização da riqueza interior do ser humano e o receptáculo das sensações. O co rpo desaparece após a morte. O corpo vive acompanhado de sombra, que é como que a sua irradiação para o exterior, de maneira imperceptível para os sentidos. A sombra desaparece com a morte, como o ser humano. b)O sangue Por sangue, entenda-se, aqui, aquele componente fluído do organismo de coloração vermelha, com funções de oxigenação, nutrição, remoção de metabolismos e transporte de hormónios para diversos tecidos. Em geral, para a população bantu, no sangue assenta a vida, a alma espiritual, que sobrevive à morte e é o princípio vital e de inteligência do ser humano. c)O coração Para a população bantu, o coração, enquanto o elemento motor central da circulação do sangue, possui a função de perceber o sentido vital de tudo quanto existe e harmoniza-o com a sua própria percepção. Constitui o órgão mais humano e o centro unitário do ser humano. O coração é o centro vital de todo o sangue. Ele concede a imagem cabal da qualidade da pessoa humana . Por isso, a ética do ser humano africano baseia-se profundamente no seu coração. Neste sentido, a pessoa humana é e vale por aquilo que vale o seu coração, isto é, a pessoa humana nunca é concebida somente como matéria limitada à vida terrena, mas reconhece-se nela a presença eficiente do elemento espiritual. O elemento espiritual faz com que a vida humana esteja sempre posta em relação com a vida do além. Este elemento espiritual, além de animar e mover o ser humano, é eterno. Tudo isto é perceptível na vida tradicional africana. A população bantu define o coração em dois sentidos.

3

a interioridade. esta populaçã o acredita numa alma. coração . Por outro lado. ódio. Analisar o coração é o mesmo que analisar a totalidade do ser humano. sentidos. Sentido Negativo: o coração é entendido como melancolia (característica dominante de qualquer coisa que inspira tristeza). por esta razão. intenção e tendência. Ou murim aya ala khuri sana (O coração desta pessoa não é bom). pensamentos. conclui o autor em citação. É. disposição. magnânimo. sensações. i)A ética virada para a vida Segundo o autor que estamos citando. A ética bantu é antropocêntrica porque o centro da pirâmide vital. agradecimento e cortesia revela o refinamento do murima. é possuir um coração poderoso . o coração é um princípio essencial do ser humano. Este coração diferencia-se do coração físico da pessoa humana. intenção. qualidade.Sentido Positivo: o coração é o pensamento. volitiva. sensibilidade. Ele representa a interioridade da pessoa humana.murima em macua . aqui. d)Alma espiritual Entenda-se. Assim. pena. que se afirma. Ligado a este ponto do coração. pressentimento. a pessoa humana. Da alma dependem as manifestações vitais. a consciência. por alma o princípio imaterial de vida. amabilidade brota do coração. memória. num princípio incorpóreo. fica explicado que o coração encerra toda a riqueza do ser humano. amor. mediante o sopro vital. para a população bantu. Partindo desta definição. interioridade. com frequência. consciência. intelectiva. Em síntese. calor humano. a ética bantu tem origem na sua ontologia (ser) e religião. solidariedade. desta população. sentimento. tendência. a ética. sensível. liberdade e personalidade humanas. atenção. Este é a personalidade do ser humano. Altuna sustenta ainda que o delicado humanismo bantu: hospitalidade. depressão. podemos sublinhar com Altuna que.é a pessoa humana interior. dá significado ético a todas as acções. o corpo é movido pela alma. o grande desejo. apresentando duas razões: 4 . que esta ou aquela pessoa tem ou não bom coração. pode ser denominada como uma ética dinâmica. olá mutthu òtakhala murima (esta pessoa tem coração mau). Posto isto. Assim. origem da inteligência. A vida afectiva. essência. Em Emakhuwa: Mutth ola orera murima (esta pessoa tem bom coração). Altuna considera a essência da moral bantu como sendo uma moral da sociedade e do comportamento. pois ele define e valoriza o ser humano. carácter. Ele justifica sua afirmação. paixão. sensação. apetite. razão pela qual. que faz do ser humano diferente do animal.

o respeito pela vida humana e o cuidado em preservá-la e rodeá-la dos meios mais eficazes apresenta-se como a súmula dos preceitos. a inveja. de falso testemunho. vive e morre. Em resumo. para evitarmos qualquer equívoco.1. o Mundo em Emakhuwa: olumwenku . iremos usar o termo mundo. a ira e a preguiça. Esses seres vivos: pessoas humanas (vivas e mortas 5 . a acção mais imoral é o atentado contra a vida humana. hospitalidade. no sentido de Universo. ainda. Na sua apreciação crítica. ajuda ao necessitado. como tentativa de dar resposta à pergunta o que é o Mundo. ela limita-se ao âmbito da comunidade. justiça.O Mundo Há uma variedade de mundos. Ele é aquilo que faz. O maior mal. generosidade.é o Universo que o circunda. Altuna diz que a ética bantu é omissa e imperfeita porque. reciprocamente.O Mundo. amor maternal. ferir o próximo. Por isso. Mas este ser humano vive no Mundo e o próprio mundo o circunda e lhe provoca inquietações no fundo de seu cor ação. Segundo. desprezar os outros. maldição. com seus respectivos significados. Este mundo foi criado por um Espírito. neste nosso estudo. Assim. onde o ser humano nasce.Primeiro. na prática. o dano nos bens alheios. verdade. a fornicação em certas idades e situações. Preceitos positivos: referem-se a fidelidade matrimonial e à palavra dada. ii)Preceitos Existe na ética tradicional bantu dois tipos de preceitos: Positivos e negativos. matar pessoas e fazer qualquer tipo de feitiçaria. a calúnia. a criação vai se fazendo sempre e sendo feita pelo ser humano. a avareza. composto por seres vivos e não vivos. O ser humano é bom ou mau em função da sua conduta. em virtude do que faz. Tais inquietações necessitam de respostas. do roubo. sobretudo no próprio grupo. para a perspectiva tradicional africana ? A concepção africana bantu do mundo e da vida é d inâmica conforme a qual o mundo está constantemente em nascimento . o próximo passo será uma tentativa para responder a questão: O que é mundo? 2. criação de Deus Para a população bantu. Preceitos negativos: trata-se da proibição de homicídio. a mentira. É. Não consegue transcender os limites da parentela e do grupo. O ser humano por natureza nem é bom nem mau. porque a ética africana define o que um indivíduo faz e não o que é. e protecção ao fraco. um indivíduo é o que é. proibido dizer palavras obscenas. paternal e filial. maior de todos. 2. chamado Deus.

Tudo isto acontece porque. morte. o Ser Supremo. resultante da lei de participação. 2. um reordenamento na interação e inter-relação dos seres com a sua força vital. o Ser Supremo A população bantu é religiosa. especialistas da magia. tribos. família. os seres sucedem-se incessantemente num ritmo de nascimento. Mundo visível: este é composto por chefes de reinos. segundo Placides Tempels citado por Altuna (CULTURA TRADICIONAL BANTO. caçadores. seres não vivos (pedras e minerais) têm em si uma força vital. Estes dois mundos não estão independentes. fundadores de grupos primitivos. inteligente. especialistas da magia. sobressai o centro da pir âmide. guerreiros. O ser humano. uma re-ligação. Entre os seres existe uma misteriosa inter-acção de vida. visível e invisível. monoteísta radical. nenhum ser criado existe independente dos demais. centro da pirâmide. a comunidade. Para a população bantu. Mas na série destes seres. porque Deus marcou para todos os seres a lei da inter-acção e interdependência do dinamismo vital. o ser humano. assim. 3. espíritos (génios). isto é. Uma desordem moral ou ecológica provoca um desequilíbrio do mundo. sensível amante e capaz de aumentar a sua vida e de dominar as forças inferiores. que os sustenta. heróis civilizadores. O mundo visível está integrado por forças pessoais e impessoais.2. fundador do primeiro clã humano. 1993: 47) o mundo das coi sas é como uma teia de aranha na qual não é possível fazer vibrar um só fio sem destruir toda a malha. por ser o único existente activo. antepassados qualificados: chefes. Deste desequilíbrio emergem consequências para a vida prática. vive receptivo e exposto a um aumento ou diminuição da sua vida. Por consequência. Fonte da vida. centro da pirâmide da criação. no universo nada se move sem influir com seu movimento em outros seres. há que se procurar curas. fenómenos naturais e astros. Mundo invisível: este é também formado por Deus. existem dois mundos: visível e invisível. Neste mundo. Só Deus não pode ser influenciado. animais e plantas. antepassados da Comunidade. E é este Deus que vai ser objecto de discussão no número a seguir. A força pessoal é o ser humano. Nestas situações. vegetais. 6 . a pessoa humana. entre si se comunicam e. anciãos. o Criador de tudo quanto existe. acredita num só Deus. animais. Para o efeito. clã.Deus. segundo Altuna.viventes). são feitas as devidas cerimónias propiciatórias. resulta o equilíbrio do Universo. vida e inter-acção.

qualidade intrínseca. Se Ele é a origem do mundo. significa constância.Deus Criador (Muluku Mpattuxa ) A palavra Muluku ocorre com muita facilidade na conversa normal deste povo. Nas orações principais de sacrifícios tradicionais macuas. é aquele que mantém o mundo unido. enigmas e contos.Para uma compreensão. para a população macua. invoca-se. Unidas estas três partículas. a escola é a própria tradição cultural macua e africana. A escola é a própria vida. falaremos de etimologia de Deus. Ministério da educação. pode-se perguntar: o que é Deus.). 3. com esta expressão ou outras semelhantes: Xontte Muluku (Por favor.Etimologia Muluku é o nome de Deus. 1989.1. é importante mostrar a etimologia da palavra Muluku. podemos tomar um povo concreto. como exemplo. o termo MULUKU. Assim: MU: que está dentro. é ele a união do mundo. Deus ). Deus em português. componentes da palavra MULUKU. tomaremos. Deus. de seu culto e oração. Lerma (O POVO MACUA E A SUA CULTUR. interioridade. 3. então é o seu criador. Portanto. dentro desta grande família bantu. Para isso. usaremos sobretudo o livro de Francisco M. do qual tira sua origem e a de outras criaturas. para nosso estudo. para amakhuwa? Como tentativa de responder a esta questão. Posto isto. Significa o centro. KU: partícula derivada da palavra wuka. de sua existência. na qual o Ser Supremo faz sentir sua presença. IICT. onde se possa aprender noções relativas a Deus. antes de se nomear os antepassados. em Emakhuwa. que conserva a ordem e o dinamismo de todo o Cosmos. E a partir disto concluiu que existe um Ser Supremo. particularidade. provérbios. a origem e unificador de tudo quanto existe. O enigma da própria vida e da existência ensinou e continua ensinando ao ser humano que ele não pode ser origem de si mesmo. que significa reunir. que foi ditando ao ser humano que Deus é o seu Criador. como se nota. Mas para efeitos de melhor compreensão. do qual teremos a visão global de Deus. de Deus Criador. Este povo se chama amakhuwa.2. E para clarificar o nosso estudo. o centro do universo. isto é. Na cultura tradicional macua não há escola formal. A escola é a própria consciência tradicional. como exemplo. Lisboa. sempre Deus. mediante exclamações comuns. 7 . força poderosa. LU: partícula com sentido de essência. Muluku Mpattuxa (Deus Criador ). notamos que ela indica aquela realidade onde o importante tem sua consistência (firmeza).

3. Sem Muluku. público e institucionalizado. na religião tradicional africana. Esta verdade. o inicio da vida. a oração aparece como o elemento principal pelo qual a pessoa humana bantu crente comunica com o seu Deus. a origem de todo o processo vital. os bantu rezam porque têm consciência da sua situação na pirâmide vital. Paulo VI. se encontra igualmente nos outros povos africanos.Assim para a população bantu. visível e invisível.O sempre que sente necessidade disso. Não é necessária liturgia oficial ou ritos prescritos pois. altares. afirma que a ideia de Deus. festas. como ser pessoal e misterioso. Esta situação levanta uma pergunta: por que esta ausência de culto oficial e público? Para Altuna. Ele não só é a origem de tudo quanto existe. oferendas e sacrifícios públicos. a população bantu não rende a Deus um culto oficial. em sua Carta Apostólica. e a da população macua. nr. 3. em particular. em geral. 8. sacerdócio. consolida a vida. é o elemento comum importantíssimo na vida da cultura tradicional africana. repara a ofensa e intercede pelas necessidades. Altuna. Nesta perspectiva. nem precisa de lugares.1. A sua fé é uma opção pela vida. valor supremo e fim último da pessoa humana. seria pô Lo em dúvida e limitá Lo. Para a população bantu. cada pessoa humana pode ser. Por isso. Volta para Ele e adora . Assim. mas também a garantia de continuidade da vida. o sentimento da existência e da presença de Deus. penetra toda a existência da pessoa humana africana. a oração recria a harmonia desejada. 8 . Omnipotente. Deus é o Criador. nada teria origem.3. fiel e sacerdote do culto privado. segundo Altuna. momentos fixos ou tempos dedicados ao culto e adoração a Deus. Na religião tradicional africana não há templos.Culto a Deus Na visão de Altuna. como causa primeira e última de todas as coisas. Todos os lugares e qualquer tempo podem servir para oração. Deus Criador. pois previne o perigo. que enche tudo.Oração Ainda conforme o autor em citação. o bantu deve agradecer. reparar e atender às potências pessoais criadas e à Potência incriada. Africae Terrarum. e por isso está próximo do ser humano em qualquer lugar e tempo. simultaneamente. Em resumo. de tudo quanto existe. O facto de se sentir submerso numa incessante acção vital com repercussões na vida privada e social. Por isso.3. há esta ausência porque a população bantu entende Deus como sendo Imenso. suplicar. corrige a desordem. confinar a adoração a lugares e momentos. ele reza por e para a vida. lugares de cultos e momentos de fé activa.

Porém. Pe Altuna sustenta ser o monoteísmo bantu uma realidade inquestionável e o mais iminente valor da Religião Tradicional Africana (R. visível e invisível. Este conhecimento dos acontecimentos importantes faz com que ela s sejam próximas das pessoas da sua comunidade. que dê à própria vida e à sociedade garantias de sua subsistência. Nesta perspectiva. experimenta na sua vida a necessidade absoluta de uma força super humana. mostram que Deus está presente na vida das pessoas humanas. a existência de Deus é tão certa. apesar disso. a consciência da proximidade. Mas como é entendida a existência de Deus. elas devem ser deixadas tranquilas.). continua o autor acima. em geral. onnikhunela elapo yothene. Aquelas expressões mostram ainda que a população bantu. Muluku khanaliyala an awe . Portanto. elas têm conhecimento de tudo quanto se passa na comunidade. quem não conhece ou não entrou no coração da religiosidade deste povo. e não tem nada a ver com a aludida ociosidade . devido a essa importância. em particular. da sua sociedade. Concepção bantu sobre a existência de Deus Para a população bantu. entre a população bantu? 3. falando da existência de Deus entre a população bantu. devem ser respeitadas por causa do estatuto que ocupam. (Deus é como o céu. ele está próximo das pessoas e tem em mente tudo o que se passa com suas criaturas. a população bantu percebe que é possível haver um diálogo entre dois seres: o divino e o humano. (Deus não se esquece de seus filhos e filhas). Por isso. As expressões. E só assim fala ou pensa. E. embora Deus pareça viver afastado da vida e da vivencia das pessoas humanas tal como fazem as pessoas mais importantes da comunidade. como causa primeira e última da sua existência. mediante estas expressões ou outras idênticas: y y Muluku erimu. Proximidade: As pessoas importantes vivem aparentemente afastadas da vida normal das outras pessoas da comunidade. acima. sua absoluta separação da vida e interesses das pessoas humanas. cobre toda a terra).Mediante a oração. Assim. que vivem próximas e afastadas. Mas este Deus é uno e único. entre os amakhuwa. por exemplo. é manifestada. ao mesmo tempo. e a macua. da presença de Deus na vida da população bantu. na sociedade. Afastamento: O alegado afastamento ou distanciamento de Deus é um modo de dar relevo à sua transcendência. o modo da e xistência de Deus é como o das pessoas importantes da comunidade. para 9 .A. garantia da sua força ou união vital entre os membros da comunidade.T.4.

vinda.Definição de Pessoa Há dentro da Filosofia várias definições do ser humano. Partindo disto. nyanja. pensamos ter tentado dar resposta àquelas três questões. 1995). o ser humano estudando a si próprio.O ser humano Com a pergunta acima. porque só ele faz questionamentos e se questiona a si mesmo.a população bantu. desde a Antiguidade a época moderna. A sua reflexão é bem . Neste sentido. Nesta perspectiva. a pessoa humana aparece como sujeito e objecto da pesquisa científico . vamos usar os termos ser humano. para juntos passarmos à perspectiva filosófica. razão pela qual poderemos encontrar. àquelas três questões essenciais e enigmáticas. mas partindo da questão: Quem sou eu? 10 . filosoficamente.filosófica. II. Chegados aqui. que a pode levar à revelação primitiva. Iremos ainda com a mesma expressão tentar dar resposta filosófica. Você. Mas. desde já. pretendemos saber o que é a humanidade do próprio ser humano. a partir da visão cultural do povo a que pertence. Porto Editora. várias definições. embora não cabal. pessoa humana como sinónimos. enquanto Ciência humana. o mundo e Deus. Ano. Teremos a oportunidade de discutir aquilo que faz de nós pessoas humanas ou seja o que é que nos distingue. inicialmente colocadas. Esta capacidade de se fazer sujeito e objecto de estudo faz com que o ser humano seja essencialmente diferente do animal irracional. ronga e outros grupos. lhe convidamos. 1. se denota que a noção de pessoa é a expressão do mais elevado conceito que o ser humano tem de si próprio e nela se conjugam algumas notas constitutivas (In Do Vivido ao Pensado Introdução à Filosofia 10ª. neste nosso estudo.1. dos outros seres que não são pessoas humanas? 1. como nyungwe. a confirmação da história universal. É o ser humano estudando o ser humano. o conceito de Pessoa deve ser abordado sob duas vertentes. que formam o mosaico cultural moçambicano.PERSPECTIVA FILOSÓFICA Iremos tratar nesta perspectiva filosófica o que a Filosofia. sena. agora pode também tentar responder àquelas três questões essenciais. afirma sobre a pessoa humana. para alguns pensadores da actualidade. Neste sentido. porque vai enriquecer-nos.

PISSARRA. coeso. uno. Social: esta direcção.480-524): Este entende Pessoa como uma substância individual de natureza racional . elaborando máximas práticas com vista à felicidade desta vida e de uma vida futura (cf. Há. já que tudo no universo do real. sem a dimensão espiritual e transcendental. Importa ressaltar que o Personalismo. e nesse aspecto. destaca na definição de Pessoa a relação desta com o (s) outro (s). Ética: esta direcção. e de natureza racional. ética e social. 1ª. tanto da vertente clássica como os da modernidade. Boécio (c. conforme Kant. Rumos da Filosofia. Esta racionalidade subentende na Pessoa uma dimensão espiritual. A natureza racional confere ao ser humano a capacidade de saber que sabe. ao Martin Buber. y Immanuel Kant (1724-1804): Este filósofo concebe ainda o ser humano como necessitado por ele ter necessidades. se completam.C. o qual toma consciência como a característica definitória da Pessoa. social e natural. 2004:442 . São Tomás de Aquino (1225-1272): Pessoa é um subsistente de natureza racional . Vertente moderna: nesta linha sobressaem Descartes (1596 -1650). nas suas direcções definitórias.): Pessoa é o sujeito de direitos e deveres. consciência de ter consciência. Classe: 2003: 38). 1993: 311). se reduz à matéria.Ed em Português. Kant (1724 -1804) e Martin Buber (1878 -1965). tem como o traço geral a sua insistência na realidade e no valor da pessoa e sua tentativa de interpretar a realidade e a afirmação da liberdade humana e do fundamento pessoal da realidade ( HISTÓRIA DA FILOSOFIA. ao mesmo tempo. Difere-se da clássica por esta ressaltar. incluindo o ser humano. edições Rumo. segundo Julián Marías. de modo particular. Karl Marx (1818-1883): Para este filósofo. sublinha a liberdade como o constitutivo da Pessoa. da Antiguidade e de Idade Média. 1ª ed. Mas é necessário sublinhar que os elementos. a pessoa humana é. algo comum: referência à individuo subsistente. a sua razão tem uma missão de se ocupar dos seus interesses. como Cícero. total.Vertente clássica: esta vai cingir-se a alguns filósofos. 11 .12ª. juntando-se ao Personalismo e. as características psicológica. citado por Ernesto Chambisse (A EMERGENCIA DO FILOSOFAR 11ª. nestes últimos dois filósofos (Boécio e Tomás). portanto meramente material.443). y y y Cícero (106-43 a. y y Psicológica: Esta direcção toma como referência Descartes. 10ª. enquanto pertence ao mundo sensível. Boécio e São Tomás. MÁRIO et alli. segundo o autor acima.

P.y y y A pessoa humana como um ser social: a sociedade é a união perfeita do ser humano com a natureza.nos que apenas o ser humano é o único ser que se indaga. mas não nos deu a conhecer o ser humano na sua totalidade . Eis então alguns elementos ou qualidades que tornam o ser humano diferente do animal irracional. que reflecte sobre suas sensações. A questão acima colocada indica . O ser humano. J. ideias e acções. à materialidade. p. Portanto. A essência da pessoa humana está em seu trabalho (homo faber). O ser humano é o criador de si mesmo. A pessoa humana como um ser natural: O ser humano é directamente um ser natural. Chegados a esta parte.Sartre e Karl Jaspers. podemos afirmar que. Importa sublinhar que Marx não se apercebe da dimensão transcendental da pessoa humana limitando-se apenas aos aspectos sensíveis. 1.Sartre: o estudo do ser humano trouxe-nos muitos conhecimentos. a verdadeira ressurreição da natureza. todas estas direcções definitórias acima referenciadas. um desapontamento neste termos. porque ele sofre. diferente do animal A diferença decisiva entre o animal e o ser humano está já na própria pergunta: O que é o ser humano? Por aquilo que sabemos e experienciamos. 12 . como. o ser humano fica reduzido a ser simplesmente natural. até este momento. que faz de si mesmo um problema. que procura conhecer a essência da sua própria natureza. dizendo que o ser humano é profundamente mais do que o que pode saber acerca de si mesmo (Opus cit. O espelho para ver quem é o ser humano é o seu trabalho. J. Karl Jaspers: na mesma linha. Tudo isto resulta do facto de esta pessoa humana ser pensante. (Opus cit. essência da pessoa humana: Esta é o produtor e o produto de seu trabalho. p. por exemplo. só o ser humano possui a capacidade de fazer questionamentos e o animal irracional não. expressaram seu pensamento. 315). O trabalho. alguns filósofos existencialistas. este autor manifesta o que poderíamos denominar de desilusão. resultante da evolução da natureza natural. depois de tanta investigação no sentido de conhecer o ser humano.P. levam-nos a concluir que o ser humano é essencialmente diferente do animal. condicionado e limitado como animais e plantas. 316). que se questiona.2. Aliados a estas tentativas de definir o ser humano.

Por esta razão. atesta: O ser humano parece um caniço. segundo o autor acima. reconhecendo a religiosidade como sendo o critério de distinção entre o ser humano e o animal. no século XIX.) CULTURA RELIGIOSA: O Sentimento religioso e sua expressão. a primeira definição referente a pessoa humana parece a de ser vivo dotado de raciocínio. transformando o meio ambiente em que vive. bom e belo. 1936: 139). Em conclusão. o mais fraco da natureza. Referimo-nos aqui à mão. mas é um caniço pensante.(org. ainda. ao mesmo tempo. para ela a vida não só significa estar aí mas também bem-estar. Insatisfação incessante: O ser humano não se satisfaz com o que existe a ser redor. Por outro. o ser humano fica esclarecido sobre sua grandeza e sua miséria. que mostra ao ser humano sua grandeza e sua fraqueza/miséria. considerado o pai do ateísmo. ele sairá mais nobre do que aquilo que o mata porque sabe que morre e sabe a vantagem que a água tem para ele . Partindo desta consciência. A mão que materializa as concepções da inteligência. Religiosidade: Feuerbach. que desentranha a inteligência em suas possibilidades latentes. que a pura inteligência. CENTRO DO MUNDO . Para viver e bem viver. Uma gota de água basta para matá-lo. dando-lhes uma realidade tangível e incontestável. conforme Cruz Malpique. Auto-consciência: Graças a razão. que experiencia o mundo e nele intervém através de sua acção. a pessoa humana precisa de trabalhar e adaptar o mundo que o circunda. só por si. citado por Urbano Zilles. para melhorar cada vez mais a sua vida. por raciocínio. engajar-se por metas que transcendem suas conveniências privadas e individuais. ao raciocínio. como sujeito. servindo-lhe de parteira. verdadeiro. Os animais não têm nenhuma religião (In GHELLER. citando Franz von Kutschera. a liberdade de decidir-se por aquilo que se reconhece como certo. a capacidade e disposição de o ser humano poder orientar-se no que objectivamente é certo. ignoraríamos se o ser humano era animal mais inteligente que os outros (O HOMEM. graças a auto-consciência. Ela precisa de trabalhar a terra. Por isso. bem-viver. o autor em citação que a razão é a possibilidade de seguir o certo. este ser humano é parte deste mundo. citado por Bruno Odélio Birck.Razão/raciocínio: conforme Urbano Zilles. Erinida G. talvez não tivesse feito surgir a civilização. o ser humano se entende. afirma que a religião baseiase na diferença essencial que existe entre o Homem e o animal. Produção de meios/instrumentos de trabalho : Esta capacidade de produzir meios de trabalho ou de subsistência mostra-nos. Mas mesmo assim. podemos dizer com Malpique que se não fora a mão. Auto-orientação: A razão permite ao ser humano orientar-se em valores objectivos. 2002:9). Isto mostra que não é possível eliminar no 13 . É surpreendent e ver Feuerbach. ele rompe os limites que o cercam. Blaise Pascal. aqui. por um lado. Entenda-se. Diz. Assim.

Ele contenta-se em viver com o objectivamente necessário para existir. o ser humano permanece ainda um enigma para si mesmo. ( ) Quer isto dizer que. faber. 910). Mas por que razão. aqui. o último ponto além do qual não existe parte alguma da coisa e aquém (parte de cá) do qual estão todas as partes dela (DICIONÁRIO DE FILOSOFIA. Falando desta diferença entre o ser humano e o animal. Apesar de a razão poder ser considerada como a primeira qualidade que define o ser humano e constituir um dos elementos qualificativos. ela não é absoluta. com instintos altamente especializados que lhe garantem a sobrevivência. como que a responder a esta questão. mas um viver com sentido. as quais se manifestam no seguinte: Ignorância: o primeiro limite é a nossa ignorância e a das outras pessoas. o autor acima diz ainda que. da história e do mundo (FILOSOFIA DA RELIGIÃO: 1991: 6). a ajustar-se ao que encontra ao seu redor. Incertezas inevitáveis: Convivemos com dúvidas e incertezas inevitáveis. 14 . ter a certeza de que vai ou não atingir. as formigas providenciam seu alimento e os macacos catam piolhos mas. diz o seguinte: o problema religioso toca o ser humano em sua raiz ontológico. Porta nto. 80 (oitenta) anos de vida. as abelhas se comunicam. Por isso. 2007:708). tem limites. religiosu e espiritual. a religião tem a ver com o sentido último da pessoa. apesar de avanços da Ciência e da Tecnologia. culturalis. em condições normais. que diferenciam o ser humano do animal. Neste sentido. Battista Mondin: o ser humano é homo somaticus: dimensão corpórea. por limite. Animal irracional: Este. nenhum deles reza ou realiza qualquer culto a Deus ( Opus cit p. o ser humano não vive sem religião? Urbano Zilles. 1. Quer dizer. ludens (lazer). As insuficiências próprias da razão que a natureza humana impõe ao próprio ser humano. percebemos a distância entre o que reconhecemos como certo e o que fazemos na nossa vida prática. socialis. o ser humano é homo vivens. loquens. um sentido fundamental para a existência do ser humano. conforme Abbagnano. ninguém sabe ou melhor.3. Por exemplo. por exemplo. E a verdadeira religião oferece ao ser humano uma razão última. Limites da razão humana (para o Curso Nocturno) Entenda-se. O nosso conhecimento sensível sempre é condicionado e limitado.ser humano aquela necessidade de buscar uma razão e esperança para viver. no dia após dia. ele não precisa de técnica. é difícil para uma pessoa humana. politico.

Devido a esta realidade. com Karl Jaspers. e que deve ser decifrado. onde se enquadra o ser humano como mistério. embora conheça sempre o Universo e. não está na autonomia absoluta e independência total. citado por Mário Pissarra (et alli). o mal físico e o sofrimento (expressão física). Na verdade. Santo Agostinho: Muito mais antes. E 15 . RUMOS: 1993: 316). o ser humano sente que o seu ser não está completamente sob a sua autoridade e seu controle.5. donde vem e para onde vai. não é necessário. É dentro desta definição. por sua natureza. Este drama humano se manifesta por algumas expressões como a finitude. ele é um ser que é. Diante desta vivência. procurando entrar dentro de si. de várias formas.4. temporalidade. ele vai procurando dar resposta a si mesmo. Ele se questiona constantemente sobre o que ele é. mas que podia não ser. o ser humano é um ser contingente e. Também João Paulo II reconhecendo o ser humano como mistério destacou o seguinte: Uma das fraquezas mais vistosas da moderna civilização é a incapacidade moderna das Ciências Humanas para darem resposta adequada ao mistério do ser humano . dificilmente o ser humano se compreende a si mesmo.1.5. a contingência. O ser humano: drama para si mesmo O ser humano vive sempre inquieto. Por isso. Expressão metafísica do drama humano a) Finitude O ser humano se sente finito. a fragi lidade (expressão metafísica). mortalidade. Neste sentido.1. Ed. O ser humano. o ser humano permanece o grande enigma para si mesmo. disse: O ser humano é magna quaestio (cf. este Santo. que não pode não ser. porém podia não acontecer (contingência). 10º Ano. um enigma Por enigma entenda-se. 4). 1. Confissões IV. na ânsia de compreender o grande problema em que se tinha colocado para si mesmo. algo que é descrito em termos obscuros. outra vez. com a sua inteligência. Por consequência. mas jamais encontra respostas definitivas e cabais. Como não é necessário. Para o ser humano o ser é algo que acontece. aqui. segundo o qual o Homem é fundamentalmente mais do que o que pode saber acerca de si próprio (RUMOS DA FILOSOFIA: Introdução à Filosofia. Por esta mesma razão. que é um Ser necessário: um ser que tem de ser. esta situação faz do ser humano cada vez mais inquieto e o obriga a entrar cada vez mais no seu drama. O ser humano sente que depende grandemente de um Outro. ambíguos. penetre o espaço cósmico e microcósmico. se pode dizer que o ser humano existe acidentalmente. 1. podemos concordar. E ser finito significa que. que não pode não existir. por isso.

a possibilidade de que algo acontece ou não. por exemplo. constatamos que o ser humano se rodeia de muitos cuidados. b) Contingência Por contingência se compreende. E o ser humano. um perpétuo risco de ser dissolvido no nada. Ver os aniversários das crianças e jovens: vir a ser. Estes dados são uma evidência da consciência. não escapa essa lei. a morte. Tudo o que é temporal é mortal. A contingência implica. Eis aqui o drama humano: o conflito entre o seu desejo profundo de transcender o tempo. uma doença. Expressão física do drama humano a) Temporalidade O ser humano é um ser no tempo e o seu existir é contemporizado. e a realidade de ver a sua vida inevitavelmente a ser devorada pelo tempo que não perdoa. o ser humano se corrompe e se fere física e moralmente. Por isso. b) Mortalidade A temporalidade está prenhe de mortalidade. o carácter do que é eventual. possibilidade de ser ferido no seu ser. sendo natural. 1. solidez e segurança. aos quais por natureza é devido. Porque é frágil. O ser humano é um quase-nada suspenso no abismo do nada. a opressão. um acidente. É igualmente um permanente vir-a-ser e um deixa-deser. ao mesmo tempo. eternizando-se. uma fragilidade radical do ser e uma inconsistência. a catástrofe são males.5. pela experiência vivencial. c) Fragilidade Fragilidade implica vulnerabilidade.somente a partir desse Outro é que o ser do ser humano tem firmeza ontológica. A título de exemplo. um acidente e ameaça são suficientes para o fazer tremer de medo. Implica ainda ser exposto a toda espécie de anti -ser. d) O sofrimento 16 . E ser -no-tempo é também ser-deixando-de-ser. aqui. na Filosofia clássica. é tudo o que constitui privação de bem. Viver no tempo é viver na certeza e na urgência da morte. c) O mal físico O mal. os aniversários adultos: contínuo deixar-de-ser. A guerra. é um mal.2. de que o ser humano tem essa inconsistência. essa fragilidade. Assim. a doença. em seres. que é também natural. a injustiça. colocando-o entre a vida e a morte.

na medida em que ele é interiorizado pela consciência humana. Assim. O desejo de conhecer o que o mundo é. sobressaiu a água. procurando responder à questão como surgiu o mundo. o ma l físico e o sofrimento. Anaximandro: para este. o ser humano. de coração . Vol. L. constatamos ainda que não conseguimos definir. aqui. HISTÓRIA DA FILOSOFIA. Opus cit. Battista. que para ele. 17 . temporalidade. é cosmos. é comum ao crente e ao não crente. levou alguns filósofos a que formulassem teorias ligadas à natureza. subjectiva. Por isso. 1981:17 -18).O sofrimento. CURSO DE FILOSOFIA. como conjunto de tudo quanto existe. fragilidade. Depois desta exposição. a seu modo. o princípio primeiro deve ser alguma coisa indeterminada (ápeiron). 1980: 11). E o que é o mundo? Pitagóricos: o mundo é uma ordem. por rarefacção. do fogo e ar. Destas três realidades. ligado mais ao mal físico. responder cabalmente aquela questão enigmática. um sofrimento pode ser causado ou por um desgosto. Por que água é o princípio (arqué) de todas as coisas? Tales responde dizendo: o alimento e as sementes dos animais e das plantas são húmidos. p. que após uma busca descomedida para entender o ser humano e não tendo satisfeito seu desejo. de finitude. sensitivo. de alma. de modo satisfatório. Todavia o seu sofrimento se difere do humano. Julián. Por exemplo. A única diferença é que o crente encara aquele drama com uma certa esperança. fruto da sua esperança no Além. é o princípio do qual se originam todas as coisas.O Mundo Por mundo entendemos. TEMAS DE FILOSOFIA. Mas pode também ser independente dele. como ele surgiu. pois ele se reduz ao sofrimento objectivo. o sofrimento moral pode resultar da dor física. 1. pela morte de alguém muito querido. mortalidade.16). Tales (624-562). como os abaixo mencionados. enquanto o sofrimento humano assume uma dimensão interior. É verdade que os animais também sofrem. possui sua expressão moral. inclusivamente a Terra onde vive o ser humano. Os Filósofos do Ocidente. de Mileto. 2004: 15-16). Este princípio é imortal e incorruptível (cf. afirma ter o mundo surgido da água. por condensação. Maria. podemos concordar com Nietzsche. embora seja visto. Mas o não crente mergulha-se no drama de modo desesperado. contingência. concluiu: O ser humano é o animal que não se define nunca (In GUERRA. a terra. muitas vezes. ou por uma profunda frustração ou opressão. 2. Este drama. o ar e o fogo (In MONDIN. Da água deriva. A terra flutua sobre a água (MARÍAS.

Diz ainda o autor acima que desde os seus primórdios. social e até filosófico. mostram uma intuição fundamental daquela cultura: os processos de mutação por que passa o mundo material se dão sobre uma unidade básica. moral. E é esta última filosofia. Aristóteles (384-322): o mundo é a constituição. o termo Deus é um símbolo que indivíduos. é denominado por um fluxo dissolvente permanente. 1983: 3285). ao longo da sua caminhada na história. E. tanto nos seus aspectos cosmológicos quanto humanos. para indicar e exprimir sua visão sobre aquilo que poderia denominar realidade última (cf. 2001: 727). Filosofia pagã Desde os primórdios da humanidade existiu. grupos e culturas usam de várias formas e com significações distintas. Esta preocupação nasce com a própria humanidade. A filosofia grega concluiu que Deus é o fundamento ontológico do existente e o princípio lógico para a sua inteligibilidade.Empiristas: o mundo é a circunferência do céu. unificante. Neste sentido. estrutura da totalidade. sejam eles religioso. esta visão é feita com base em vários sistemas. segundo o autor em citação. 3. muitas vezes. HARNACK. a terra e todos os fenómenos. agora. Quer isto dizer que Deus é o primeiro 18 . Vol 7. causa primeira e última de tudo quanto existe. Adolf von et alli. que abraça os astros. estável e atemporal . in ENCICLOPÉDIA MIRADOR INTERNACIONAL.Deus Cada povo vai construindo. a filosofia grega tentou responder às perguntas: a) Qual a explicação para a unidade do mundo sensível? b) Se o mundo. uma preocupação interior tremenda ligada ao desejo de conhecer o princípio primeiro. a que vamos nos ocupar. na pessoa humana. DICIONÁRIO DE FILOSOFIA. 3. Nicola. sua visão sobre Deus. que pode ser cristão ou pagão. O mundo é a ordem imutável do universo (In ABBAGNANO.1. político. como explicar que ele não se transforme em caos? c) Qual a realidade permanente que subjaz à impertinência de tudo o que ocorre no tempo ? Estas perguntas. originante.

uma reflexão filosófica concebida em união vital com a fé. actualidade completa porque nele não existe nenhuma potencialidade não realizada. id quo nihil majus cogitari potest (aquilo de que de maior nada pode ser pensado). Deus é a causa primeira do movimento. deseja-se sobretudo indicar : 1. cristãos e não cristãos. Por isso. Deus é o mistério que se revela no mistério da Trindade: Pai. não se pretende aludir a uma filosofia oficial da Igreja. Opus cit p.princípio (em grego arkhé) sobre o qual a existência e a explicação do mundo se assentam. ideia pura ou acto puro. sem ter sido causado por coisa nenhuma. sem o qual nada poderia existir . 76). directa ou indirecta. com aquela designação. A causa primeira. em si mesma. 3. Neste contexto. o ser que é sempre e plenamente aquilo que é .2. que não seriam alcançados sem a contribuição. já que a fé enquanto tal não é uma filosofia. Deus é forma pura. p. que tentavam desviar a fé verdadeira dos cristãos daquela época. para este autor. para este autor. não causada (incausada). para dar cobro às correntes ideológicas e religiosas. 3285-3287). Mas. E diz mais: o mais alto pensamento possível não pode existir apenas. Aristóteles diz ainda que Deus é pensamento. a essência ou a substância. legítima. a part ir daquilo que ficou conhecido por cinco vias da existência. é aquele que é. opus cit Vol 2. como segue abaixo: 1. Santo Agostinho: Deus é o inexplicável. Portanto. 222-223). há uma correspondência entre o pensamento e a realidade. A necessidade de responder à questão o que é Deus? também foi uma das preocupações dos filósofos cristãos. da fé cristã (FR. 2. Aristóteles: Para este filósofo. ele corresponde a um ser existente . O ser necessário. 19 . em cinco moldes. O primeiro motor imóvel. Filho e Espírito Santo (cf. Um modo cristão de filosofar. com a expressão filosofia cristã. Todos aqueles importantes avanços do pensamento filosófico . que move sem ser movido. Santo Tomás: Este pensador tenta dizer aquilo que Deus é. que tem a si mesmo como seu único objecto de conhecimento (cf. Em conclusão. Filosofia cristã João Paulo II considera a expressão filosofia cristã. 2. 3. mas toma atenção para que não se dê margem a equívocos. Santo Anselmo (1033-1109): Deus é o mais alto pensamento possível.

sendo. Sentido religioso: o mesmo termo Islam significa ainda submissão voluntária à vontade de Allah e obediência à sua Lei. (In. incorpóreo. p. é este o primeiro passo a ser feito no princípio de um novo campo de estudo: definir o significado do objecto em discussão. Na verdade. Muhammad Abdalati apresenta dois sentidos/significados: O original e religioso. imutável. podemos questionar ao Islam: O que é. criação de São Tomás. Deus e o mundo? III. logo no início. causa de todas as perfeições. nas perspectivas africana e filosófica. que Deus é a Fonte e o Garante de tudo quanto existe. o significado do objecto de estudo. y y Sentido original: O termo Islam deriva da raiz árabe Salama. Torna-se ainda mais importante quando se trata de um tema. Para mais aprofundamento.O significado do termo Islam Explicando o termo Islam.10940). 2004:184). Ele é o Artífice do mundo. que significa paz. pois só mediante a submissão voluntária à Vontade de Deus e obediência à sua Lei. podemos dizer. A partir do que acima dissemos. a relação existente entre estes dois sentidos original e religioso é forte e evidente. opus cit. inteligência e vontade (cf. infinito. O ser sumamente perfeito. Julián.PERSPECTIVA ISLÂMICA É sempre importante esclarecer.4. perfeito. trouxe-nos uma compreensão relativa a estas três realidades. o ser humano? 2. Posto este significado. Assim. Quanto à sua natureza. eterno. 5. submissão. essencialmente. HISTÓRIA DA FILOSOFIA. que pode ser considerado novo. o ser humano crente pode desfrutar da verdadeira paz e pureza duradoiras.O ser humano 20 . em forma resumida. MARÍAS. para os nele interessados. Deus e o mundo é. aconselhamos a leitura das cinco vias sobre a existência de Deus. O ser inteligente que ordena a natureza e a encaminha para seu fim. A discussão que acabámos de fazer sobre aquilo que o ser humano. E o que a perspectiva islâmica diz sobre aquelas três realidades: o ser humano. pureza. Vol 19. 1. o mesmo autor diz ainda que Deus é uno. para ele. obediência.

dos outros membros da família. E disse mais: É nesta unidade de origem e fins últimos como base da vida social no Islão. dotado de livre vontade. os direitos e obrigações dos pais filhos e vice-versa. Vida Pessoal: Trata-se da pureza. Acrescido a estas qualidades de criatura. e em permanente interacção: A natureza interna e externa. política e internacional.Natureza externa Esta é formada pela vida pessoal. à qualidade de vice-rei do seu Criador e o dire ito de exigir respeito e obediência a Deus. Muhammad. dos conhecidos e vizinhos está estreitamente relacionado com a vida familiar (cf. d igno e honrado. virtudes. de conhecimentos. O Islão em Foco. 1995: 176-187). vestuário. dieta alimentar equilibrada. finalidades e significados. Segundo o autor acima. a família é um grupo social humano. Portanto. cujos membros estão unidos por laços de consanguinidade e/ou relações conjugais. adornos.Responsabilidade: o ser humano é agente livre.esposa e vice-versa. O bom tratamento dos empregados. o ser humano seria totalmente incapaz de qualquer responsabilidade. ABDALATI. Vida social: A vida social do verdadeiro muçulmano baseia-se em princípios. 21 . que garantem a felicidade e prosperidade ao indivíduo e à sociedade no seu todo. p. que assentam as relações entre o indivíduo e a sociedade (cf. de qualquer pessoa humana. Esta dignidade é um direito natural do ser humano. a fim de cultivar a terra e enriquecer a vida. Mas a responsabilidade pelo pecado só é assumida pelo pecador. limpeza. Esta é a essência da sua humanidade e a base da sua responsabilidade diante de seu Criador. 2. em correlação extremamente íntima. opus cit.1. É o conhecimento que confere à pessoa humana. económica.Criatura: O ser humano é criado por Deus. liberdade.191). Estão inclusos na vida matrimonial os direitos e obrigações do marido . familiar. O conhecimento faz parte integrante da sua personalidade e do seu ser. o ser humano é também um conjunto de duas naturezas complementares. responsável. Vida Familiar: Para o Islam. social. cada pessoa humana é responsável pelas suas próprias acções. Dignidade e honra: O ser humano é um ser digno e honrado. A sua dignidade resulta do facto de ele ser penetrado pelo espírito do seu Criador. Relação Liberdade . o ser mais honrado da terra. para o Islam. Sem o livre arbítrio. divertimentos e passatempos. o Corão e as Tradições de profeta Muhammad sublinham a unidade da humanidade na natureza e na origem.

Dimensão espiritual: De acordo com Muhammad Abdalati. a soberania pertence a Deus e ao povo.91). 3. 8690). na sua estrutura. y A finalidade do Estado Islâmico é garantir a justiça. 4: 58.Deus (Allah) no Islam 22 . Assim. opus cit. para certas finalidades. após a qual tudo voltará para seu Criador. 5:20). Na verdade o mundo que nós habitamos foi cri ado por Deus.Vida económica: Esta baseia-se em alicerces sólidos e mandamentos divinos. Portanto. Dimensão intelectual: O autor em referência diz ainda que a natureza intelectual da pessoa humana é formada pela mente ou inteligência ou a capacidade de raciocinar (cf. probidade (honestidade). opus cit. cit. 5: 47-50). sem distinção. para impor a sua Lei e cumprir a sua vontade (Corão. As correntes históricas verificam-se conforme a sua vontade e seguem leis bem estabelecidas (cf. mas também considerase virtude.Natureza interna No Islam a vida interior é constituída pela dimensão espiritual e intelectual. 166-168). o Islam organiza a vida espiritual ou moral do ser humano de modo a fornecer-lhe plenamente o alimento espiritual necessário à piedade. em várias partes deste globo terrestre? 4. funcionamento e na sua finalidade. opus cit. y No Estado islâmico. p. que é a constituição que Deus escolheu para os seus verdadeiros servidores (Corão. No Islam a vida emana (origina-se) de Deus.O mundo no Islam Para esta religião. Este exerce-a por autorização d Ele. 1995: 165). Para apreciá-lo é preciso saber que ele assenta-se em princípios abaixo: y Cada acção individual do muçulmano deve inspirar-se e guiar-se pelo Corão. o ganhar a vida trabalhando honestamente não é só um dever. Mas o que o Islam afirma sobre Deus que vai anunciando. segurança e protecção a todos seus cidadãos. 2. o mundo é uma entidade em transformação. Ela é uma fase de transição. 67:. Vida política: O sistema político do Islam é único. a vida neste mundo não é finita nem é ela mesma uma finalidade (cf.2. à segurança e à paz (Op. criada pela vontade de Deus Criador e sustentada por Ele.

Ele ensina ao ser humano a ser boa pessoa. o Protector. o Consciente. c) Allah: é o Clemente. a) Deus é o Criador de tudo quanto existe. Ele é a Força Activa e o Poder Efectivo dentro da natureza. ( ). Senhor dos mundos (40: 61 -64). o Conhecedor. o Absoluto. 1. Terminamos de apresentar a visão islâmica sobre a pessoa humana. Senhor de todos os senhores. d) Allah é Excelso e Supremo. o verdadeiro Guia. o Apreciador. o Misericordioso. Corão. o Rico. o Benevolente. 59: 22-24.PERSPECTIVA CRISTÃ Desde o início. o Primeiro e o Último. na tentativa de responder àquelas três questões. Assim. o termo árabe Allah significa o Deus único. é Allah. Esta Força é a mais forte de todas as forças. Louvado seja Allah. Assim. o Senhor Justo e Supremo. o Glorioso. o Paciente. que a discussão relativa ao ser humano. o Islam. E o que a Igreja diz no que concerne às mesmas realidades? IV. estávamos discutindo as perspectivas. o autor em referência cita o Corão.O ser humano É importante explicar. o teu Senhor. o Redentor . Deus. filosófica e islâmica. sobre a pessoa humana. a Testemunha. desde já. 35: 15. Criador do Universo. A partir de agora. e os seus adeptos designados de muçulmanos. Allah é a Grande Força. Eterno. o Mundo e. e Rei de todos os reis. a afastar -se do mal.1. 57: 1-7. o Sábio. ajuda-o e ama quem O ama e perdoalhe os pecados. Vimos que aquelas perspectivas deram respostas. tradicional africana. deste nosso estudo. Quer isto dizer que devemos partir do Antigo Testamento ao Novo até a Igreja.Muhammad Abdalati sustenta ser o verdadeiro nome desta religião. ( ). Após esta comparação. que cria as mais encantadoras obras de arte e produz tudo para uma certa finalidade na vida. segundo sua visão e natureza. o Atento. 1. que sempre suscitam debate. e este Artista é o maior de todos os artistas. Corão. Ele responde às suas orações. para poderes repousares e o dia para veres. referente ao ser humano. o Generoso. o Capaz e Poderoso. vamos concentrar a nossa atenção na perspectiva cristã. o Vigilante. mas fica sempre ao pé de quem pensar n Ele com piedade. o Grande Artista. o Criador de todas as coisas. Ele é só Um. e nada se assemelha a Ele (cf. Ser que não gerou nem foi gerado. e a Paz (cf. portanto naquilo que a Igreja Católica afirma. Deus e mundo deve necessariamente obedecer ao desenvolvimento destes conceitos. 3: 31. o Criador. que diz: Allah fez a noite para ti. o Juiz. 112). o mundo e Deus. 65: 2-3). 11:6. b) Allah: é o Senhor Supremo do mundo inteiro. ao mundo e a Deus.O ser humano na Sagrada Escritura 23 . por fim. o Independente. este autor coloca a definição de Allah (Deus) nestes termos. Para sustentar sua ideia de Deus Criador.

18). É um ser criado com o qual Deus entra em diálogo de aliança. que constituem uma totalidade vital da complexidade da vida humana. que elaboram planos perversos (Prov 6. este morre e por consequência deixa de comunicar-se e de dialogar (Job 34. no ser interior. Por isso.Para a Bíblia. Portanto.  Por analogia : nefesh significa respiração (Jer. 2. o termo leb é traduzido em português por coração (cf.  A fonte da sabedoria humana (Sl 90. Este sopro faz dele um ser original no grupo dos seres vivos. Conforme o livro de Génesis. opus cit. 1987: 8-11). Sopro vital de Deus: Com o conceito de criação surge a noção de que o ser humano possui. Através da sua interioridade. 9). O coração  A fonte das disposições secretas que só Deus pode sondar (Sl 44. Deus entra em diálogo com o ser hum ano e faz com ele uma aliança/pacto (cf. Assim. no Antigo Testamento.16-17). 15. 95). O ser humanonefesh: O termo nefesh tem dois significados. uma interioridade habitada e dinamizada pelo Espírito de Deus.6). 24 . leb e basar (O HOMEM NOS PLANOS DE DEUS. 2. o ser humano passou a ser visto como um ser com capacidade de relações de aliança. Esta complexidade é expressa mediante uma série de palavras fundamentais. mas dependente de Deus. a medida do ser humano perfeito. a Bíblia distingue no ser humano dimensões diferentes.  Significado mais primitivo : nefesh significa as vias respiratórias. o «Senhor Deus formou/criou o ser humano do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro vital (ruah) e o ser humano tornou-se um ser vivo» (Gn. o ser humano é nefesh. Por isso. Trata-se da outra característica da vida interior humana. o humano é um ser que respira. A palavra leb designa o ser humano como interioridade de opção e decisão. Jer 17. Contudo. 12). 15-17). p. isto é. Quando Deus retira seu nefesh (sopro vital) do ser humano. o sopro vital de Deu s. 22. 10). a) Antigo Testamento Para Calmeiro Matias. Mas Deus detesta os corações. está centrado em Cristo. Só agrada a Deus o coração misericordioso e fraterno (Am 5. 21-25. a humanidade está centrado em Adão e. como são o ser humanonefesh. 14-15). indivisível (uno) e capaz de relações. o coração da pessoa humana é:  O espaço interior dos intuitos mais secretos ( Jz 16. Gn. no Novo. o ser humano é criatura de Deus. O ser humano-leb : Segundo Calmeiro Matias. 7). Os 6. Neste sentido o ser humano-nefesh é o humano vivo e animado pelo sopro vital.

em suma. 12. o interior renova-se diariamente (2Cor. como um processo de espiritualização. O ser humano-basar: O basar tem duas designações e dois significados. conforme diz São Paulo: Ainda que em nós se destrua o ser humano exterior. a palavra basar significa a totalidade da vida humana. 25 . 23s). o princípio relacional que conduz o ser humano à comunhão com Deus e com os outros (cf. 1 -3. mas Deus sonda e julga o coração perverso (Sl 7. o nascimento do ser humano novo supõe a morte do velho. porque ruah é.16). É pecador (Is. 29). São Paulo diz: Se alguém está em Cristo é uma nova criatura. na perspectiva de Calmeiro Matias. Gn 17. Lembre-se do que dissemos sobre o coração. na perspectiva tradicional africana. Sem a ruah o ser humano está morto. 5-7). Gn 17. dizer coração bom ou mau é dizer o ser humano bom ou mau (cf. que o anima (Jo 3. Mas após o Exílio. 19-20. imagem perfeita de Deus.13). p. Pela ruah o ser humano-basar fica interligado com toda a humanidade pelo mesmo Espírito. mas sempre em ligação/relação com os outros (Gn 2. animado pelo sopro vital de Deus ( Núm 16. 7-9. distorcido pelo pecado. medida do Homem perfeito: Apesar de perfeito. este ser humano está inacabado porque deve nascer todos os dias pelo princípio do Espírito. Assim. Não há pessoa humana boa ou má por natureza. Porém no Novo dá-se-lhes uma nova dinâmica. 20.17). o ser humano-basar é fragilidade.2. 16. 7. é o que podemos chamar de dialéctica paulina. O ser humano novo/interior: Falando do Homem novo. O ser humano pode tentar ocultar a maldade do seu coração. O Novo Testamento parte de um princípio: Cristo ressuscitado. foi vencido em Cristo. o ser humano exterior (Gn 2. 4. Jer 11. 21). b) Designa. o Filho perfeito de Deus e «o Primogénito de muitos irmãos (Rm 8.O ser humano na Novo Testamento Há neste Testamento uma continuidade das perspectivas antropológicas do Antigo. 2. porque a humanidade tem como centro Jesus Cristo e não o velho Adão. pois o ser humano velho. que vai nos transformando interiormente de acordo com Cristo. opus cit. Ligado a nefesh. o Novo Testamento concebe o ser humano em duas dimensões. N Ele inicia o Homem novo (2 Cor. Dt 28. 6-8). medida do Homem perfeito Cristo ressuscitado. 22. Ela faz-se má ou boa pelas atitudes e opções que faz no seu coração. do ser humano novo que está emergindo no nosso interior. fazendo-o conforme a Cristo. que o modela. 9-13. A acção modeladora do Espírito opera no ser humano interior. 1-13). a) Como designação antropológica. 31. O ser humano com mau coração é responsável por esse facto e infiel a Deus. 47). Portanto. basar significa o ser humano como um todo orgânico com a humanidade. Jz 18. com a natureza. Trata-se. 1.Portanto.22).

ex nihilo. O ser humano-basar: Transcendendo a compreensão da palavra basar. para fazer surgir coisas. por todas as paixões. é necessário que o ser humano esteja sempre ligado a Ele.O Homem novo/interior. temperança (Gal. adultério (Gal. O ser humano imagem e semelhança de Deus (Gn 1. Ele está dominado pela lei da violência. como a vara não pode dar fruto por si mesmo se não estiver na videira (Jo. invejas. Portanto. O Homem velho guia-se pela lei de idolatria. para que o próprio ser humano seja dignificado e Deus glorificado. da exploração das outras pessoas. a verdadeira pureza consiste não em abluções ritualistas. contendas.26 -30): Este Deus é criador. O espírito circula no interior da fraternidade humana. 1ss). 19). alegria. ele está necessariamente cumprindo um dever. Partindo disto. do predomínio. paciência. 3ss). quando o ser humano realiza qualquer trabalho dignificante. 22). tem como frutos. mas do nada. para isso.63). mas a do coração (Mt. também por ter sido confiado a tarefa de dominar a terra (Gn 1. da impureza. quer dizer Ele.56. que se tinha no Antigo Testamento. orgias/desordem. humanizar a terra. Por isso. O ser humano-leb (coração): O Novo Testamento apropriou-se do conceito leb (coração). ele passou a ser co-criador de Deus. 4. a qual meditava no seu coração o sentido dos acontecimentos ligados ao seu Filho ( Lc 2. 5. porque o Espírito é a dinâmica relacional. 4b-5). paz. mansidão. embriagues.60. com Jesus chega-se a sensibilidade de superioridade do espírito sobre o corpo.28) significando isto aperfeiçoar. discórdias. Mc. são espírito e vida» (Jo. pelo facto de ser i magem de Deus e. O ser humano velho/exterior: Este está corrompido. não precisa de material pré-existente. 5. 13. rixas. 11). a caridade. 16-21). conforme a vontade de Deus. Jesus afirma que «o espírito é que dá vida As palavras que vos disse. Mc 7. inimizades. erva com semente (Gn 1. Portanto. e entendeu ser no coração onde o ser humano recebe a Palavra de Deus (Mt. A sua palavra basta para surgirem as coisas: Que a terra produza verdura A terra produziu verdura. 1ss. da desonestidade. no Novo Testamento. benignidade. ciúmes. 3ss. está também patente na alusão à Maria. 15. dos malefícios. fide lidade. a lei do mais forte. que se deixa dinamizar e modelar pelo Espírito. 26 . Mas. homicídios. 15. chega-se a conclusão de que o ser humano. Mas esta superioridade não autoriza a depreciação do corpo humano. A centralidade do coração. 6. do mais esperto. bondade.

Calmeiro. opus cit. 1987: 73).). como abaixo veremos: Santo Irineu (c. 1. pelo facto de ser imagem e semelhança de Deus. do ser humano.  Que vê tudo e em todos os acontecimentos adversos como realização da vontade divina e. Enquanto animal. excepto Irineu.O ser humano na Igreja Antiga (Patrística) No geral. 27 . Só a alma é a imagem de Deus. e não apenas uma parte dele.3. 6. É fonte de pecado.  Quem pensa e age como que entregue ao destino e ao fatalismo. Neste sentido. por essa razão. 1. o nosso corpo é animal. O HOMEM NOS PLANOS DE DEUS. o ser humano:  Inactivo. Orígenes (c. V.Já que o ser humano. por si só. não é o ser humano. mas nunca o Homem. Idade Média e terminar nesta era contemporânea.250): Este vê o ser humano como um composto de uma alma preexistente e do corpo. 140-200): Este pensador. na sua dimensão material.1.  Que se conforma passivamente com as circunstâncias. ele é. Foi com muita pena que os autores que vieram posteriormente não tiveram a mesma sagacidade. quem renuncia a ser imagem e semelhança de Deus? Renuncia a ser imagem e semelhança de Deus. Para este pensador. por isso mesmo.  Que não trabalha seriamente para melhorar as condições da natureza. que deixa tudo como está. a mesma visão com relação ao ser humano todo. é importante sublinhar que ela deve baseia-se na Sagrada Escritura.O ser humano na visão da Igreja Quando se fala do ser humano na visão da Igreja. A seguir Irineu sentenceia: Se separamos a alma do corpo. Ora. sublinha a dignidade do corpo. (cf. A fundamentar esta sua visão positiva em relação ao ser humano. a fim de torná-la mais humana e ao serviço da própria pessoa humana. Mas é a partir deste corpo animal que vai nascer um corpo espiritual. o corpo não merece qualquer valori zação especial.3. apoiando-se no mistério da Incarnação de Cristo. Adversus Haereges. O Homem perfeito é mistura e a união da alma que recebeu o espírito do Pai e que foi misturado à carne modelada segundo a imagem de Deus. a alma e o espírito podem ser parte do ser humano. Patrística. seu co-criador. estaria proibido de lutar contra eles. 185-c. Irineu diz: o ser humano. como a alma também não (cf.1 in MATIAS. se torna imagem e semelhança de Deus. no nosso estado presente. a Igreja Antiga tinha uma visão negativa do corpo humano ou seja do Homem todo.

Por causa disto. físico e espiritual. O corpo é concebido como um perigo para a alma. Está aqui uma visão que subordina o corpo à alma. abandonado à natureza. Assim.160-225): Para este rigorista. é a forma do corpo. pois é um perigo para a castidade. convencido de estar a cumprir o celibato (cf.Orígenes tinha uma visão negativa do corpo humano. para ele o ser humano é este corpo e alma. como acontece nos animais. Portanto. 1987:75). da sexualidade. não se humaniza (O HOMEM NOS PLANOS DE DEUS.O ser humano na visão da Igreja da Idade Média São Tomás: Este recusa a visão negativa de Agostinho com relação ao corpo. opus cit.78-79). Ela. Assim o ser humano é uma unidade substancial. deve ser temida e disfarçada. apesar de revelar o acabamento da acção modeladora de Deus.  O corpo e a alma jamais se separaram. Na óptica de Calmeiro Matias.). (Os adereços da mulher. IV. diz Tomás. p. 2. pois não somos seduzidos pelas coisas que os pagãos (cf. Ibid.78). que pode ser causa de condenação eterna para a alma. a alma. o ser humano é um corpo animado por uma alma espiritual. p. 1. Santo Agostinho: Este destaca dois princípios autónomos: alma e corpo. A alma é o princípio informador do corpo. ele castrou-se. E diz mais: Todo o marido exige o tributo da castidade: se é cristão não exige da esposa a beleza. é essência do ser humano. A alma mora no corpo e orienta-o. utilizando-o como princípio autónomo. Para se evitar este perigo.3. que está fundamentada nos aspectos. Estamos outra vez diante de uma visão negativa com relação ao corpo humano. 6. Por isso traça seu posicionamento nestes termos:  O ser humano resulta de dois princípios diferentes: Os pais e Deus.2. In opus cit. Tertuliano não sabia que o bebé humano. A alma. mas esta possui funções independentes do corpo. 28 . Tertuliano defende o princípio de deixar o corpo com seu aspecto natural. Tertuliano (c. II. p. mas a acção deste depende sempre da alma (cf. opus cit. opus cit. a beleza corporal. o corpo deve ser castigado com jejuns e penitência (cf. In opus cit). 75). embora ela não seja uma realidade espiritual separada do corpo. mas dominado pelo pecado.

religião. 1936:13). criatura de Deus : O Concílio Vaticano II sustenta que. pela sua natureza corporal. em si. por fim. no Universo. da dignidade (GS 29). Como que a justificar sua posição. Mas pela sua interioridade. como seu centro e termo (GS 12). este autor diz mais: O ser humano é o universal padrão por onde tudo é auferido: o mal e o bem. que sonda os corações (1 Reis 16. de sexualidade para propagar a vida (GS 51). GS 14).3. Na visão da Igreja. vai também na mesma linha. o céu e a terra (Opus cit). e onde ela sob o olhar do mesmo Deus. responsabilidade no agir (DH 1). antes de tudo. a mesma pessoa humana transcende o universo das coisas. CENTRO DO MUNDO. E. filosofia. ele está dotado de natureza espiritual (GS 23). 29). apesar de errar. mas começando por reconhecer que essa pessoa humana é. o invisível e o visível. mediante o Concílio Vaticano II.1. onde Deus. os elementos do mundo material. idêntica no homem e na mulher (GS 29). liberdade. porque criado à imagem e semelhança de Deus (GS 12. tudo está condicionado ao interesse humano (O HOMEM. decide da própria sorte (cf. Cruz Malpique mostra o dever da literatura. a pessoa humana é o senhor e centro da criação. arte. Este autor coloca a pessoa humana no centro de tudo quanto existe. o amor e o ódio. criatura de Deus. Jer 17. este ser humano erra. Por isso. Embora dotado destas qualidades. Deus é o fundamento e 29 . Esta transcendência constitui o conhecimento profundo que ela ati nge quando reentra no seu interior. Constituição interna : Este ser humano está dotado de igualdade essencial. Também a visão da Igreja contemporânea.O ser humano na visão da Igreja Contemporânea Debruçando-se sobre a centralidade do ser humano. de consciência. que há-de desenvolver-se na família. ciência. Por essa razão. composto de corpo e alma. Portanto. Deus e o diabo.3. c riada sumamente por amor. razão. a pessoa humana por ser uno. Porém. O ser humano. o Concíli o Vaticano II sentenceia: Tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado em função do ser humano. sintetiza. 10) o espera.7. ele conserva sua dignidade pessoal (GS 28). ela deve considerar o seu corpo como bom e digno de respeito.

Estas transformações trazem igualmente efeitos negativos ao próprio ser humano. que tudo destrua. a partir dos quais podemos afirmar que o mundo não vai descarrilar. Mas apesar destas situações que ameaçam a vida humana e a das outras espécies. há ainda sinais de esperanças. por exemplo. milhares de pessoas humanas atormentada pela fome. Esperanças: O ser humano caminha esperançado. O ser humano busca incessantemente a Deus. étnicos. e lhe compete criar uma ordem política. poderio económico. Ele pode conhecer a Deus tanto pela fé como pela razão (DV 6). cultural. ideológicos. experiência de unidade e interdependência . mas com reflexos também na vida religiosa. como a ONU. embora sem um progresso espiritual propor cionado.protecção da dignidade humana. Ele é autor responsável da cultura ( GS 55).  Direitos Humanos: O ser humano estima a liberdade (DH 15. religiosos. a continuação ainda de. de possibilidades. que podem ser traduzidos em temores. sociais. com o perigo duma guerra de armas nucleares. o ser humano possui esperanças. agudos conflitos políticos. que sirva cada vez melhor e ajude pessoas a afirmarem e desenvolverem a própria dignidade ( GS 9). GS 17). económicos. analfabetismo. Podemos chamar esta situação de verdadeira transformação social. que se realiza e se 30 . mas de forma responsável. devido aos aspectos abaixo:  Poderio económico e interdependência : O aumento de abundância de riqueza. num mundo de profundas e rápidas transformações provocadas pela inteligência e actividade criadora do ser humano. resultante dos problemas que espera resolvê-los. actualmente. raciais. hoje. miséria.basta pensar em vários organismos nacionais e internacionais. o ser humano vive. União Europeia. SADCincremento de intercâmbio de ideias. empenho na procura de uma ordem temporal mais perfeita. económica. como.  Domínio sobre a natureza: Cresce continuamente a convicção de que o género humano deve aumentar cada vez mais o seu domínio sobre as coisas criadas. Temores e esperanças: Para a Igreja contemporânea. porque tem uma inquietação religiosa (GS 41). Apesar destes problemas. União Africana. social. os direitos e deveres (GS 26).

Portanto. à associação no trabalho (GS 68). não são tanto os bens do mundo que contam. a pessoa humana continua valendo não tanto pelos bens que tem. 2. porque ele é imagem e semelhança de Deus. A visão religiosa do mundo decorre da revelação e da fé. Em suma.eleva pelo trabalho e cultura (GS 57). que é boa e com sentido. mas busca seu significado existencial e seu papel para a nossa vida. propõe valores e normas de conduta e oferece respostas a questões existenciais. porque não há descrições objectivas nem explicações de fenómenos naturais. mas o bem da pessoa. Nada sabemos sobre o processo da criação. sobretudo em matéria religiosa. para a Igreja contemporânea.  Obrigações e direitos: Mas este ser humano tem também obrigações e direito de procurar a verdade. que é sobre a criação do mundo. elabora uma concepção total das coisas e do ser humano. de desenvolver a sua cultura. contudo. É dentro desta visão religiosa que assenta a narrativa do Génesis. de colaborar para o bem comum. à propriedade (GS 69). Todavia. O centro desta narrativa está a afirmação de que o mundo é obra de Deus. uma visão religiosa do mundo é sempre transcendente e aberta para algo maior. 31 . mas por aquilo que é. esta manifestada pelo sentimento de opressão e inquietação (GS 4). Ele é o centro da vida económica (GS 63). Apesar destas situações. de trabalhar. de participar na vida política.O Mundo na visão da Igreja Cada grande religião apresenta uma visão do mundo. de respeitar os direitos dos demais (DH 7). de votar com liberdade. A s imagens da narrativa. com direito ao matrimónio e à procriação (GS 26). o ser humano está agitado entre a esperança e a angústia. A fé não se propõe pesquisar o divino. revelam uma visão do mundo como uma ordem racional e uma atitude de responsabilidade por ela diante do mundo e de Deus. com direito ao trabalho (GS 67). o bem que é a própria pessoa . Ele deve buscar e abraçar a verdade.

significa que Ele é a origem de todas as coisas. GS 4).Deus na visão de Igreja Para a Igreja Deus é o princípio e fim de todas as coisas. criou o ser humano à sua imagem e semelhança. tais como. que Deus cria a partir do nada. É pensando no ser humano que Deus cria as coisas. Refere-se ainda ao mundo onde ocorre a história da humanidade. a partir das criaturas (cf. a fome. o Criador (Gn 1-5) Dizer que Deus é criador. religiosos. quando a Igreja fala do mundo refere-se à família humana e a todas as realidades no meio das quais o ser humano vive. assinalado pela sua criatividade (cf. a ideia de senhorio.27): Porque ele é um ser capaz de se relacionar amorosamente com os outros seres humanos em dinâmica de aliança.Portanto. Este Deus Criador. raciais. descansando no sétimo dia (Gn 2. sociais. conflitos políticos. Ele é imagem e semelhança de Deus. do qual derivam situações que afligem o ser humano. Este Deus pode ser conhecido através da luz da razão natural. É ainda caracterizado pelos desequilíbrios entre a procura de uma ordem temporal mais perfeita e a falta de progresso espiritual proporcionado. e para o ser humano. GS 2). a literatura. Este mundo foi criado por Deus.  Aliança matrimonial (Gn 2. a miséria. mediante o saber de diferentes vertentes como. Implica. mas no centro do projecto criador de Deus está o ser humano.2-3). GS 62). em Latim ex nihilo isto é.24): Porque ele é um ser capaz de se relacionar amorosamente com os outros seres humanos em dinâmica de aliança matrimonial. a história. pela incapacidade de se fazer um discernimento dos valores verdadeiramente permanentes e de os harmonizar com os recentemente descobertos (cf. Estamos diante de um Deus Criador. por exemplo. a)Deus. as ciências. Características (negativas) do mundo hodierno : Actualmente o mundo é caracterizado pelo dinamismo constante. sem matéria pré-existente. 3. a arte e teologia (cf. por duas razões:  Essência divina (Gn 1. aqui. Este Deus fez tudo em seis dias. b)Deus Libertador (Ex 3ss) 32 . Isso é possível graças à essência divina. o analfabetismo. além disso. Este deve aperfeiçoa-lo. étnicos e ideológicos. O termo principio significa. DV 1).

Jesus Cristo. g)Espírito Santo. Tratase do triduo pascal. Lc 1. sua Boa Nova (cf. Jesus é o Filho primogénito e unigénito de Deus. 33 . Com base nestas passagens e noutras semelhantes. Deus vai cumprir sua promessa.149) Deus não só promete a terra. O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. morte de cruz e no terceiro dia ser ressuscitado por Deus (cf. Deus connosco (Is 7. 30-36). 29-32. Na sua vida pública. pelo facto de Ele ter dito: Eu e o Pai somos Um (Jo 10. Jesus Cristo. bênção e uma terra. 3. É o ensinamento mais fundamental e essencial na hierarquia das verdades da fé. Por isso. 19). que dura mais ou menos três anos.10) É por amor das pessoas humanas que Deus envia seu Filho Unigénito. mas a sua realização exigirá um trabalho árduo por parte de Israel. E uma voz vinda do Céu dizia: Este é meu Filho muito amado.13-17).e habitou entre nós. sem a intervenção da força humana. Jo 18-20). anuncia a Palavra de Deus. para salvar essas pessoas. como também promete e cumpre sua promessa. A pr imeira fundamentação concernente a esta verdade aparece logo que Ele é baptizado por João Baptista: Uma vez baptizado. enviando seu Filho Unigénito.1-20). Trata-se da dimensão social. como fez com Israel. e a luz que os ilumina. e)Deus Salvador (cf Lc 2. Maria. Ele deve de passar pela Paixão. política e espiritual da libertação. A segunda fundamentação relativa à mesma verdade.10.1.16-17). Verdadeiro Deus e Verdadeiro homem (Jo. f)Jesus Cristo. económica. seu povo. Nesta discussão. Ele é Salvador. os judeus acusam-no de blasfemar. Jesus nasceu misteriosamente (cf. no qual pus o meu agrado (Mt. Jesus saiu da água e eis que rasgaram os céus e viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele. se encontra na discussão entre Jesus e os judeus. Contudo. da bênção (Gn 12ss) Este Deus promete a Abraão uma protecção. d)Emanuel. mas somente pela força do Espírito Santo. 2.30-36) Conforme a Bíblia. fica bem explicado que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. É o mistério do próprio Deus. Jo 3. 1Tm1. 26-56. que se encarnou tornou-se homem . seu povo.Este Deus liberta seu povo da escravidão material e de pecado. a Boa Nova da salvação. Jesus nasce de uma mulher concreta. Por isso. para salvar aquelas pessoas que acolherem e puserem em prática seu Evangelho. É fonte de todos os outros mistérios da fé. terceira pessoa da Santíssima Trindade Os cristãos são baptizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo (M t 28. C) Deus da Promessa. 2Tm 1.

3. o Espírito Santo estará junto dos discípulos e neles (Jo 14. só é Filho em relação ao Pai: «Ninguém conhece o Filho senão o Pai. 14. 26.2). Acabamos de falar do ser humano. na oração da Igreja e na saudação. a)O Pai revelado pelo Filho Em seu número 240s. 15. 13). segundo as quatro perspectivas. nem ninguém conhece o Pai senão o Filho. após seu regresso ao Pai (Jo. como pelo Filho em nome próprio.13. a fim de os ensinar e os guiar para a verdade total (Jo 16. Jesus anuncia o envio de um «outro Paráclito» «Defensor».2). 1Cor 12. pois Ele (Espírito Santo) é enviado aos Apóstolos e à Igreja. sobretudo mediante o Baptismo. podemos dizer com o mesmo Catecismo que a verdade revelada da Santíssima Trindade esteve. desde a origem. diz que antes da sua Páscoa. o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós (2Cor 13. tanto pelo Pai. em nome do Filho. e aquele a quem o Filho o queira revelar» (Mt 11. mas é Pai eternamente em relação ao seu Filho único. Em conclusão.1. mais tarde tendo falado pelos profetas (Is 11. 16. cuja tarefa teria sido encaminhar a comunidade para a salvação (DICIONÁRIO DE FILOSOFIA. na raiz da fé viva da Igreja. isto é. reciprocamente. o Espírito Santo. Assim. 2007:1013). CAPÍTULO II-CONCEPÇÕES EVOLUÇÃO? COSMOGÓNICAS (COSMOLOGIA): CRIAÇÃO OU 34 .17). a revelação é a manifestação da verdade ou da realidade suprema aos seres humanos . o Catecismo da Igreja Católica afirma que Jesus revelou que Deus é Pai num sentido inédito: não é apenas enquanto criador. é histórica a revelação que toda a religião positiva adopta como fundamento.27). b)O Pai e o Filho revelados pelo Espírito Santo O Catecismo. 4-6). para o autor em citação. Agindo desde a criação ( Gn 1. Este autor distingue duas formas de revelação: a histórica e natural. Sustenta ainda o mesmo Catecismo que a origem eterna do Espírito revela-se na sua missão temporal. na catequese. Ef 4.14). ainda em citação. o qual.A revelação de Deus como Trindade Conforme Nicola Abbagnano.26. do mundo e de Deus. presente na Bíblia Sagrada: A graça do Senhor Jesus Cristo. 4 -6. Ela consiste na iluminação com que foram agraciados alguns membros da comunidade. a sua expressão está presente na regra da fé baptismal. Mas como surgiram o ser humano e o mundo? Criados ou evoluídos? O capítulo da Cosmologia vai tentar dar respostas a estas questões.

porque fundadas na ciência. que é um ente composto e modificável (ABBAGNANO. conforme abaixo esboçamos. dizem ter ideias sobre a origem do mundo bem elaboradas. como os ocidentais. Nicola. 2. Do mesmo modo.É bom esclarecer. Segundo: Emanuel Kant. Uns povos. Como se sabe. Dicionário de Filosofia :2007:251).Conceito Há vários conceitos relativos a Cosmologia. Primeiro: Wolff e a filosofia alemã do século XVIII entendiam a Cosmologia como sendo a ciência do mundo e do universo em geral. considerados primitivos. tomados como exemplo. a partir da qual começa a se desenvolver. a Cosmologia também teve fases. que existem varias concepções cosmogónicas (cosmologias). tem suas cosmologias ancoradas na magia. no misticismo. alguns estudiosos admitem que ambos buscam o controlo do mundo natural. com sua interpretação baseada somente na visão religiosa do mundo. como há vários povos no mundo. Apesar de os dois grupos os cientistas e os considerados primitivos usarem métodos diferentes.Fases da Cosmologia 35 . cujas leis dependem de prova e de racionalidade. qualquer ciência deve necessariamente ter a fase inicial. Enquanto outros povos. desde já. 2007:251). conforme o autor em citação. mas neste nosso trabalho vamos nos concentrar somente em dois deles. a Cosmologia seria definida como só a parte da filosofia ou da ciência da natureza que tem por objecto a ideia do mundo e que procura determinar as características gerais do universo na sua totalidade (Opus cit. Quer isto dizer que cada povo possui sua visão relativa a origem do mundo e suas respectivas leis. Mas o que há-de ser Cosmologia? 1.

que acreditava existirem uma infinidade do mundo e da existência de mais mundos. finitista e qualitativa da natureza. tendo sido a primeira corrente filosófica a rejeitar a concepção geocêntrica. o modelo de universo estacionário é quase totalmente abandonado depois da descoberta de radiação de fundo. Terceira: Esta começa no fim da Idade Media. que fora prevista pelo modelo do BIG BANG. aqui. É caracterizada pelo abandono do mito e pela tentativa de encontrar uma explicação racional ou natural do mundo. Esta fase termina com a vitória da explicação mecanicista. E. acreditando que a Terra e todos os outros corpos celestes se movem em torno de um fogo central chamado Hestia. Até metade dos anos 1960.).  O uso de conceituais. como o uso de grandes telescópios. por explicação mecanicista se entende. Esta concepção se manteve na Idade Media. percebida no sentido restrito do movimento espacial. Tem três características: a consolidação dos pensamentos geocêntrico do mundo. como a teoria da relatividade de Einstein de que se inicia a dispor nessa época. Galileu Galilei ao afirmar que a Terra girava em torno do Sol. Quarta: Por fim. defendida mais tarde por Aristarco de Samos (século III a. Era o aparecimento da primeira doutrina heliocêntrica. aquela que utiliza exclusivamente o movimento dos corpos. E todo o pensamento contrário a esta prevalecente era susceptível a condenação por alguns membros da Igreja Católica. Estas mudanças resultam de dois factores de transformação:  O uso dos novos instrumentos ópticos. Segunda: Fase da astronomia clássica e da filosofia da natureza de Platão e Aristóteles. que começou na segunda década do século XX.O modelo do BIG BANG 36 . Esta fase é representada pela filosofia pré socrática. esta é a fase de grandes mudanças. 3.C. Aristóteles pensava que o mundo era necessariamente finito porque perfeito. como fruto de questionamento de Guilherme de Ockam à concepção clássica.Primeira: Esta se chama fase de transição do mito à especulação. suas ideias foram declaradas mais perigosas à fé cristã. Por isso.

resíduo da primeira explosão. mas de forma duvidosa. Na verdade. com base no modelo do Big Bang. devido aos termos. neste aceso debate? 37 . mediante laboratórios especializados. criação e evolução. a presença da chamada massa ausente. falamos do processo evolutivo. os cosmologistas e astrofísicos estão empenhados na identificação da sua natureza e localização.  Sustenta este autor que a maior parte dos cosmologistas concorda em estimar ao redor de 15 bilhões de anos. peculiar para a existência da vida. Alpher. conforme ainda este autor. vantagens em relação ao estudo:  Possibilita avaliar o momento em que ocorreu a primeira explosão (Big Bang) e a idade do universo. uma vez se calcula que o processo evolutivo que deu origem à vida consciente não pode dur ar menos de 10 bilhões de anos. Abbagnano diz que nestes últimos tempos. razão pela qual no passado. os chamados buracos negros . A terminar sua exposição. Mas quem tinha razão. 2007:253). sustenta o autor em citação. uns eram pela criação.Conforme Nicola Abbagnano. há uma relação. cuja constituição e desconhecida. defendiam a existência de uma radiação. dentro deste processo criativo? E o que se entende por criação? II. Abbagnano apresenta. Por que houve esta situação? Será que há uma incompatibilidade entre os dados da ciência e os da Sagrada Escritura. Eram posições inconciliáveis. Mas é preciso explicar que se supõe que existe evolução. outros pela evolução. Quando inicia a evolução. em 1940. correspondente a uma temperatura de alguns graus absolutos (DICIONARIO DE FILOSOFIA. os cientistas e teólogos se guerrearam bastante. Gamow e Herman tinham. permite observar. Na exposição acima. que deve ser anterior à evolução. Essa estimativa é. que não emitem nem reflecte luz de forma detectável em nenhuma região espectral. Criação ou Evolução? Entre estas duas realidades.  Permite ainda observar. quando existe algo.  Esta primeira explosão.

segundo o seu credo (Cf. 1. não é matéria científica. EX NIHILO. segundo o qual. Tudo o que existe é obra de suas mãos (Cf. relacionada com seu destino último. Portanto.Na tentativa de responder a estas questões. Tudo está orientado para o ser humano. uma categoria científica e de natureza ontológico p. que é uma realidade perceptível. o mesmo Zilles sublinha o seguinte:  A criação nos fala da origem absoluta das coisas e dos viventes. 38 . 1.1.202). do artista ou de Deus (DICIONARIO DE FILOSOFIA. 13 16). Criação e evolução se referem ao cosmo. A criação é um conceito mais vasto. A criação do nada.26. A noção da Criação entra no pensamento bíblico. com o qual Deus fez aliança. a que vamos discutir. 44. É justamente este ultimo sentido. O ser humano é o único interlocutor de Deus. de natureza metafísica e religiosa. 40. Is. 26. Os dois conceitos respondem a duas perguntas diferentes: a) O que é criação? b) E o que se entende por evolução? Mas. da luz às trevas) dos persas. tentando dar respostas às questões atrás colocadas. (PIERRE TEILHARD DE CHARDIN: Ciência e Fé. só depois do exílio. podemos recorrer a Urbano Zilles. Não existe outro Deus senão Yahwé. 2001:201-221). é um conceito bíblico. sem matéria preexistente. Dt. 5 9). Na visão de Abbagnano. é o ápice desta criação. Ela surge como oposição ao duplo princípio (oposição do bem ao mal. mas tendo como base a Bíblia. Os hebreus começaram por falar do Deus da Aliança. Mas o ser humano está no centro. A Palavra e a Ruah de Yahwé constituem as duas forças que dão origem a tudo. Ela é. indicando qualquer forma de causalidade produtiva do artífice. essa palavra tem sentido muito genérico. 24 28. cientifica (Opus cit. antes de tudo.Antigo Testamento Para Calmeiro Matias a fé na criação é uma aquisição teológica tardia na história bíblica.Criação. em todas as línguas. Deus como causa de tudo quanto existe. 48.  A evolução evoca o período entre esses dois termos. 2007:256).

Finalidade da Criação Calmeiro Matias. Act. de específico em relação aos outros seres vivos? O passo a seguir vai nos ajudar a responder a estas questões. Deus cria por amor e não por necessidade. Quer dizer. A originalidade do ser humano O autor acima diz que o processo bio evolutivo graças a vertente socio cultural possibilitou a concretização da humanidade.3. Cristo é o princípio da nova Criação (2C0r. Foi explicado acima de que o ser humano é o ápice da criação e é o único interlocutor de Deus. Por isso todo o Cosmo está vocacionado para a relação amorosa (O HOMEM NOS PLANOS DE DEUS: Antropologia Teológica . 17). Apoc.17). 1987:101 104). 1. 5a). 1Ped 4. Cristo Ressuscitado é o centro de toda a criação (Cf. 5. seguindo a perspectiva bíblica. Mas onde reside todo este privilégio. mas não são pessoas. porque o cão. Como o ser humano foi constituído cabaça da Criação. 4. em Cristo a criação atinge o seu ponto mais alto (Cf. assim também Cristo foi constituído cabeça da humanidade. Por esta razão.Novo Testamento Para o Novo Testamento. Em Cristo Deus renovou todas as coisas: «O que estava sentado no trono disse: Eu renovo todas as coisas» (Cf.19). Ilustrando a verdade acima. 2Cor. Esta situação nos mostra que ser pessoa não é apenas ter um esqueleto revestido de músculos. 1.2.4. Este revestimento não basta para o efeito. 21. 5. que coloca o ser humano acima de toda a criação? Será que há nele algo de original. Portanto o ser humano é pessoa porque tem uma interioridade com qualidade de reciprocidade relacional amorosa. apresenta duas finalidades da criação : exprimir a glória de Deus e seu amor. rato e o gato também o possuem.1.24 30. hipopótamo. elefante. mas não serve para explicar a complexidade dos 39 . Calmeiro Matias sublinha: O modelo da informática serve de facto para entender de algum modo a intercomunicação cerebral.

A evolução dinamiza a criação. Contudo.desta forma. mas cada um à sua medida. filosofia e religião.sentimentos arquivados e estruturados pelo sistema psíquico. Elas resultam da vontade criadora de Deus. entre a ciência e a fé. é necessário que exista algo já criado. segundo Urbano Zilles. Se ao longo da história da humanidade. na realidade nada prova que o ser humano tenha chegado ao termo da evolução de si mesmo (PIERRE TEILHARD DE CHARDIN: Ciência e Fé . o processo evolutivo. vamos nos ocupar da relação entre a razão e a fé. comungar com os demais e desabrochar em poesia (O HOMEM NOS PLANOS DE DEUS: Antropologia Teológica . é importante lembrarmos que. perdoar.criação ou evolução? . acolher. houve muita discussão sobre a criação e evolução. 40 . O cérebro criado pela informática não tem capacidade de contemplar. O Criador quis que todos os seres por Ele criados evoluíssem. a criação e evolução. na criação. O fundo da mente humana nos diz que Deus introduziu . 2001:203). o nada. persiste a pergunta ligada à relação entre estes dois termos. Mas neste nosso estudo. para haver evolução. toda a criação deve necessariamente evoluir pois. Mas também é importante lembrarmos que. tal discussão foi extensiva à relação entre a razão e a fé. Posto o problema . podemos dizer que já não há razão para continuar a existir tal dilema. a necessidade da evolução é inerente à própria criação. 1987:150 151). O vazio. pois aquela e evolução parecem dois conceitos complementares. não pode evoluir. E a pergunta pode ser esta: O que veio depois de quê? Para responder a esta questão. política e religião.

por causa de várias causas. harmonia. que possibilita ao próprio ser humano chegar mais longe que a razão no conhecimento da realidade. a Igreja é pela paz.Conceito A fé é:  Uma dimensão humana. porque ela é Mãe. nos nossos tempos. conscientem ente. na mesma barca. que está se agravando sempre mais. Para uma compreensão exaustiva e aprofundada desta matéria. Mas. 1. Por isso. Pelo contrário. de João Paulo II. o titulo relação entre a fé e a razão nos levar à pergunta: «a Ciência se opõe ao sentimento religioso. cuja deficiente formação religiosa desempenha um papel muito grande. aquelas pessoas que dizem que a Igreja não deve falar das ciências empíricas nem da política. essas pessoas descrentes podem. Partindo do que acima colocamos. o quê a fé tem a ver com a razão? As respostas à estas questões. 41 . Esta incredulidade é um fenómeno de ordem geral. está crescendo cada vez mais o número de pessoas descrentes. a ciência. Também se encontram. pensar que a razão. vamos tentando dar ao longo do debate desta questão fé e razão cuja origem é Deus. não tem nada a ver com a fé.CAPÍTULO III: RELAÇÃO ENTRE FÉ E RAZÃO Na actualidade. essas pessoas não dizem que os cientistas e políticos não devem igualmente falar nem usar aquilo que é da pertença da Igreja. reconciliação. aconselhamos a leitura da carta encíclica A fé e razão (fides et ratio). ou seja a razão é contrária à fé?» Ou ainda. razão pela qual acolhe e conserva todas as pessoas de boa vontade.

por exemplo. Entenda se. quando um homem e uma mulher se casam. não podia descobrir. assenta sobretudo no que concerne ao plano criador de Deus: a origem da vida.  Uma atitude interior da pessoa que acredita. uma virtude sobrenatural infundida por Ele. mesmas. Ligado ao que acima dissemos. o Catecismo da Igreja Católica (nº 153s) diz que a fé é:  Um dom de Deus. que não é contrária à liberdade nem a inteligência humana. do ser humano.  Um acto humano. Partindo disto. por virtude a disposição de praticar o bem e evitar o mal. e o sentido da existência humana» (O HOMEM NOS PLANOS DE DEUS. Esta dimensão que leva o ser humano ao conhecimento de realidades que a razão. Dicionário Critico de Teologia .Conteúdo da fé A fé é uma dimensão humana. que tem todo o direito de interrogar o conteúdo comunicado e aceite. Jean Yves.2. Não é contrária à dignidade humana acreditar no que outras pessoas nos dizem sobre si. A este respeito Calmeiro Matias diz: «O conteúdo da fé. do mundo. Neste sentido. 1987:110). Por consequência e conforme Calmeiro Matias os cristãos estão no mundo com a missão de realizar um serviço fundamental: conferir um sentido de 42 . a revelação de Deus serve para iluminar a razão humana. porque o ser humano não pode relacionar se com se seus semelhantes sem esta dimensão da fé. 1. 1. para assim constituírem uma comunhão de família (LACOSTE. aqui. 2004:718). no que diz respeito ao diálogo com as Ciências.1. Sem a fé a vida de relações tornava impossível. por si só. O conteúdo da fé é aquilo que nos é revelado e nos faz entrar na posse de dados que não podíamos possuir pela razão. como. e de suas intenções e confiar nas suas promessas.Função da fé Afirmamos acima que a fé é a dimensão que dá possibilidade ao ser humano chegar mais longe que a razão no campo do conhecimento da realidade. podemos dizer que a fé tem a função de escutar a razão e responder com novos sentidos às suas conquistas.

A título de exemplo podemos citar São Tomás de Aquino (1225 -1274). que usando a razão. segundo dissemos acima. 1987:112).  Procuram a realidade mediante a observação directa.  Analisam e relacionam os fenómenos observados e procuram inseri los num sistema coerente. tanto à fé como as Ciências.  A fé move-se ao nível do sentido do real observado pelas ciências  A fé sistematiza o seu discurso a partir da revelação  O objectivo da fé é descrever o seu sentido e plenitude do real . (Para aprofundar mais 43 . os crentes têm a missão de prestar atenção aos acontecimentos da história. a fim de que o Evangelho seja sempre actual e actuante.3. Mas esta distinção não significa oposição. confrontá los com a revelação de Deus e reformular constantemente esta fé. Acrescido isto. Diálogo entre Fé e Ciência A fé e a Ciência caminham em níveis distintos no seu relacionamento com o real. Enquanto as ciências:  Analisam os fenómenos naturais e a interacção existente entre eles. conforme vimos anteriormente. conforme segue: Ajuda das Ciências (razão) à fé/teologia:  A Teologia conseguiu um novo d iscurso e dinâmica referente à acção criadora de Deus. o seu diálogo trouxe bons frutos. da criação de hipóteses e da experimentação que as confirma ou nega. Embora a fé e as ciências caminhem em níveis diferentes. 1.plenitude aos acontecimentos e descobertas que o homem vai realizando (O HOMEM NOS PLANOS DE DEUS. criou as famosas cinco vias para demonstração da existência de Deus.

Também se costuma falar de que esta pessoa usa a razão. Neste sentido. 44 . apresentou/tem argumentos ou provas suficientes. São Paulo. Não se trata de modificar o conteúdo da fé na criação. se deve caminhar na fidelidade à fé. que é sua essência necessária ou substancia. razão como relação. HISTÓRIA DE FILOSOFIA. no sentido matemático.  Por fim.  Razão como argumento ou prova. está com a verdade. Mas. há quatro significados fundamentais da razão. E a fidelidade à fé exige um esforço permanente de reformulação. aconselhamos a leitura de Julian Marías. aquilo que faz que a coisa seja ela mesma. o que entendemos por razão? Conforme Nicola Abbagnano (DICIONÁRIO DE FILOSOFIA 2007:969-970). Para isto.  As conquistas cientificas proporcionaram a fé uma transformação profunda na área da criação. Estas afirmações mostram que há diferentes formas de razão. significando que alguém expôs suas razões. E reformular a fé significa. temos razão directa ou razão inversa. É preciso entender bem isto. segundo segue:  Razão enquanto referencial de orientação do ser humano em todos os campos em que seja possível. mas de proceder uma correcção na linguagem e nos conceitos tradicionais em que estes eram formulados. 2004 ). 2. um sentido que eles possam entender. para que a Palavra de Deus continue oferecendo aos seres humanos. ultrapassando o tecido cultural e linguística. portanto. com que se revestiu desde o passado.  As Ciências ajudam à fé a se reformular em linguagem nova.  Razão de ser de uma coisa. anunciar com uma nova linguagem o património permanente e dinâmico da revelação. na linha de Calmeiro Matias (O HOMEM NOS PLANOS DE DEUS: Antropologia Teológica .Razão É frequente ouvirmos que esta pessoa tem razão. 1987:112).estas vinco vias.

Na história da filosofia. por meio do qual podemos conjecturar. e pela palavra: em vez disso. na visão de Cícero citado por Nicola Abbagnano (2007:970) a única diferença que nos distingue do bruto. conforme colocámos acima. Se não vejamos: Heraclito e Parménides criticaram opiniões ou crenças desordenadas e falazes. que é fonte das crenças comuns e aos apetites que o ser humano tem em comum com os animais . a razão é:  A força que liberta dos preconceitos. a maioria vive como se cada um tivesse uma mente particular . discutir. No entanto.1. o que é razão? recorrendo o autor em referência. rebater. foi bastante discutida para ajudar as pessoas a fazerem leitura das coisas e dos acontecimentos.Conceito de razão Não é fácil conceituar a razão. que diz que a razão pertence ao ser humano e somente ao ser humano . Está aqui.  É a força que possibilita a libertação dos apetites que o ser humano tem em comum com os animais. do mito. permitindo estabelecer um critério comum para conduta do ser do humano em todos os campos. levar a termo e concluir. e só a razão é universal. argumentar. conforme o que se segue:  Heraclito: É preciso seguir o que é universal. podemos tentar dar resposta à questão. Mas. Aristóteles e Platão: Estes opõem a razão à sensibilidade.2. 45 . citado por Nicola Abbagnano (2007:971). comum a todos . Na mesma linha vai Leibniz. pois ela possui vários significados.  Parménides: Afasta o pensamento dessa via de investigação e não permitas que te levem para ela o costume de guiar-se por um olho que não vê. a razão. de forma racional. no sentido filosófico. segundo o qual. certamente em nome da razão. julga com razão . por um ouvido que ressoa. das opiniões enraizadas mas falsas e das aparências. submetendo-se a controle e mantendo-os na justa medida.

2. Encontramo-la na Bíblia. portanto. a escrita. assim como o justo ao justo.A relação entre a fé e a razão. mas apenas de conduzirmos nossos pensamentos por caminhos diferentes. 2.  A teologia fundamental deverá procurar justificar e explicitar a relação entre a fé e a reflexão filosófica (FR. a disparidade de nossas opiniões não provêm do facto de que uns são mais racionais que outras.15). dos sentidos. pelo seu próprio carácter de disciplina. É a força criadora do mundo humano: inventou a linguagem. Agora vamos ver o debate relativo a esta relação entre a fé e a razão. portanto também a virtude é igual à virtude porque a virtude outra coisa não é senão a recta razão . chama a atenção os cristãos para saberem dar as razões da sua fé (1Pd 3.1. René Descartes: A capacidade de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso recebe o nome de bom senso. 67 ). é o que de imortal existe no ser humano . Em jeito de explicar esta relação entre a fé e a razão. na sua particularidade. Santo Agostinho: A razão é o movimento da mente que pode distinguir e correlacionar tudo o que se pode aprender . João Paulo II recorre às funções da teologia fundamental e a fé:  Compete à teologia fundamental. na Patrística e na Idade Média. é. sem levar as mesmas coisas em consideração . fé e razão. A relação entre a fé e a razão é muito antiga.  Teologia fundamental deverá manifestar a compatibilidade intrínseca entre a fé e a sua exigência essencial de se explicitar através de uma razão capaz de dar com plena liberdade o seu consentimento. o principal é aplicá -lo bem . dar razão da fé. E disse mais: Razão é por igual em todos os seres humanos. A razão é igual à razão.Séneca: A razão é imutável e firme no seu juízo porque não é escrava. as artes. o cálculo. E sentenciou: Não basta ter o espírito são. mas senhora. A exposição acima procurou explicar o que cada conceito. 46 . as ciências. na sua primeira epístola. Relação fé e razão na Bíblia São Pedro.

a)Ordem natural é produto da razão humana e tem suas leis e métodos próprios. ao mesmo tempo. entenda-se. surge a necessidade de que a razão se fortifique na fé. sozinha. se harmonizam. Desta mútua colaboração nasce uma ciência tipicamente cristã. b)Ordem sobrenatural origina somente da revelação de Deus. decerto não pode existir sem ela. ele recorreu aquilo que ele chama de ordem natural e sobrenatural. colocando-se a seu serviço para esclarecer. Este santo. explicar. e esta pode trazer benefícios à fé. Idade Média A relação entre a fé e a razão encontrou uma formulação clássica. mas não opostas. E por revelação. Relação Fé e razão na Patrística Para Urbano Zilles. Para fundamentar seu posicionamento. porque a graça não destrói a natureza. Para ele. 2. dá-se a conhecer por eles. não poderia chegar. para São Tomás. a teologia. primeiro distinguiu as duas realidades e depois as reconciliou. reafirmou o ensinamento paulino (cf. para ele. em São Tomás de Aquino. aqui. Em suma. Santo Irineu de Lião (120-200) encontrou uma linha de pensamento que.2. e chamou a atenção devido à existência de verdades. busca uma plausibilidade racional para a fé. filosófico (Opus cit). 2. A fé saberá mostrar plenamente o caminho a uma razão em busca sincera da verdade. Deste modo a fé. e defender os mistérios da revelação. 19-20). Foi a partir desta visão que Urbano Zilles sustenta que as duas realidades são distintas. porque o Deus da Criação é o mesmo da Revelação. Rom 1. Para isso. o acto pelo qual Deus apresenta seus desígnios de salvação. sem identificar fé e razão e sem ainda subordinar uma à outra. consequentemente. apesar de não se basear na razão. mas a aperfeiçoa. em seu livro FÉ E RAZÃO NA DOUTRINA SOCIAL CATÓLICA. a ordem natural e a sobrenatural se complementam. pois a revelação pode orientar a razão. há uma colaboração mútua. João Paulo II recorre ao Concílio Vaticano I. que. dom de Deus. 47 . na Idade Média.3. que mediante a pessoa humana podem ser conhecer de modo natural e. nem contraditórias. para descobrir os horizontes aos quais. entre a fé e razão.

foram os primeiros a reconhecer à filosofia e às ciências a autonomia de que precisavam para se debruçar 48 . a criação do mundo a partir do nada. Quer isto dizer.2. como é o método próprio das ciências. que Deus cria tudo sem matéria pré-existente para o efeito. por sua vez. A tentativa de conhecer Deus racionalmente resulta desse acordo/compromisso. a razão é somente utilizada como auxiliar da fé. a razão no apogeu da sua indagação. dispensando a fé.4. desde que estas duas dimensões do ser humano sejam seguidas. b) Harmonia: Em sua Carta encíclica. Portanto. admite como necessário aquilo a fé apresenta (FR. a teologia tenta demonstrar a existência e a natureza de Deus. Servindo-se da razão.4. destacaram a autonomia à razão: Santo Alberto Magno e S. João Paulo II indicou os primeiros autores cristãos que. houve tentativa de acordo entre as exigências da razão e as imposições do dogma. para ele. 2º) Tentativa de acordo entre a fé e razão: Na história de relacionamento entre a fé e a razão. quando a razão procede com método puramente racional. este autor sublinha a inexistência de qualquer causa para conflito fé e razão. entendidas e usadas com humildade e sabedoria.1. ex nihilo. Momentos da relação fé e razão 1º) Subordinação da razão à fé: De Santo Agostinho a Guilherme de Ockham (1280/1290-1350) a história da filosofia cristã é a história de relações entre as duas razões. Fides et Ratio. Neste contexto. João Paulo II disse: a fé requer que o seu objecto seja compreendido com a ajuda da razão. 42). porque o critério supremo da verdade é o dogma. a revelação divina. é somente instrumento da afirmação da fé. Tomás. 2. nesta relação. embora admitindo uma ligação orgânica entre a filosofia e a teologia. A razão se subordina totalmente à fé. A razão.Algumas formas de relação fé e razão a) Neutralidade ou hostilidade. o logos humano e o logos divino. 3º) Ruptura entre a fé e razão: Trata-se de um momento dramático da história de relação entre a fé e a razão. A respeito desta ruptura.

Eles são de facto dirigidos. ainda mais. apontando o Idealismo. 49 . Nisto parece consistir o acto principal do drama da existência humana contemporânea. a partir da baixa Idade Média. passam a ser não tanto objecto de "alienação". num círculo consequente e indirecto dos seus efeitos. Os frutos desta multiforme actividade do homem. Ele aponta ainda as diversas formas de humanismo ateu. no plano político e social. João Paulo II ilustra esta situação. no sentido de que são simplesmente tirados àqueles que os produzem. em sistemas totalitários traumáticos para a humanidade (FR. a uma filosofia separada e absolutamente autónoma dos conteúdos da fé (FR. do Comunismo ateu.eficazmente sobre os respectivos campos de investigação . naturalmente não todos nem a maior parte. com grande rapidez e de modo muitas vezes imprevisível. 45). essa distinção legítima entre os dois conhecimentos transformou-se progressivamente em nefasta separação ( ) chegando-se. o homem vive mergulhado cada vez mais no medo. contra o homem. ou podem sê-lo. 286. ou seja. mas alguns e precisamente aqueles que encerram uma especial porção da sua genialidade e da sua iniciativa. pelo resultado do trabalho das suas mãos e. cujos representantes procuraram. Infelizmente. Desta situação resultaram. ao dizer: ³O homem de hoje parece estar sempre ameaçado por aquilo mesmo que produz. possam ser voltados de maneira radical contra si mesmo . de diversos modos. tais frutos voltam-se contra o próprio homem. na sua di ensão mais m ampla e universal. 15. dando base a projectos que desembocaram. diz ainda o autor em citação. elaboradas filosoficamente. Continuando sua dissertação. pelo menos parcialmente. num passado recente. Em sua primeira Carta encíclica Redemptor hominis (4 de Março de 1979). sistemas que se apresentaram. diz ele ainda. pelo resultado do trabalho da sua inteligência e das tendências da sua vontade. em estruturas dialécticas racionalmente compreensíveis. É o caso do Marxismo-Leninismo. de facto. como sobretudo. 46). que indicavam a fé como prejudicial e alienante para o desenvolvimento pleno do uso da razão. Assim. transformar a fé e os seus conteúdos. inclusive o mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo. o autor acima indicara algumas consequências desta separação entre a fé e a razão. Teme que os seus produtos. como novas religiões. no século passado.

pois: uma implica a outra. n'Ele se encerra a plenitude do mistério. uma razão que não tenha pela frente uma fé adulta não é estimulada a fixar o olhar sobre a novidade e radicalidade d ser o (FR. esta separação proporcionou. Em Deus reside a origem de tudo. Tomás. Da mesma maneira. 50 . e a glória dos reis é investigá-las» (25. Podemos concluir com João Paulo II. a fé goze de maior incidência. por um lado. à razão humana a afirmação da sua independência. Santo Alberto Magno e S. e nisto está a sua nobreza (FR. 18. 48). 8-9. em última análise. É ilusório pensar que. numa relação única. Além disso: a razão e a fé constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. 2). A fé. compete o dever de investigar a verdade com a razão. e cada qual tem o seu espaço próprio de realização. para que. pelo contrário. lembra. apela e adverte as pessoas nestes termos: A razão. e isto constitui a sua glória.Contudo. percorreu sendas marginais com o risco de perder de vista a sua meta final. possa chegar também à verdade plena sobre si próprio (cf. privada da razão. em seu respectivo mundo. mostrou a impossibilidade de demonstrar racionalmente o conteúdo da revelação. diante desta ruptura entre a fé e a razão. ao homem. e como que a concordarmos com aqueles dois autores. Ex 33. por outro. conhecendo-O e amando-O. 6362. Deus e o homem estão colocados. Aponta nesta direcção o livro dos Provérbios. 1 Jo 3. Sal 2726. cai no grave perigo de ser reduzida a um mito ou superstição. pôs em maior evidência o sentimento e a experiência. 2-3. Jo 14. 2). pelo contrário. 17). 8. tendo pela frente uma razão débil. de O conhecer a Ele. João Paulo II. segundo o qual não há motivo para concorrência entre a fé e a razão. correndo o risco de deixar de ser uma proposta universal. diante do dogma e. privada do contributo da Revelação. quando exclama: «A glória de Deus é encobrir as coisas. Foi Deus quem colocou no coração do Homem o desejo de conhecer a verdade e.

iremos primeiro reflectir sobre a liberdade a partir de seu conceito. Por isso. CAPÍTULO-IV: LIBERDADE E RESPONSABILIDADE DO SER HUMANO Há uma certa ligação entre a liberdade e a responsabilidade. é importante sublinhar que. O capítulo que se segue vai tratar destas questões: Liberdade e Responsabilidade do ser humano. os termos que compõem este capítulo e reflectirmos sobre eles. para facilitar a sua maior compreensão. Porém. razão pela qual os seres humanos. em separado. em geral. na Igreja Antiga.Acabámos de discutir o capítulo da relação entre a fé e a razão. desta maneira. conforme a visão de alguns autores e perspectivas. e depois em conjunto. primeiro. autores deste comportamento. a sua 51 . Estamos da liberdade. Mas para isso existem certas condições. pelo sucedido. na Sagrada Escritura. pensamos dispor. pois se uma pessoa pratica uma acção com liberdade. não podem estar isentos de responsabilidade. ela. deve necessariamente responder por seus actos. conforme veremos mais adiante. Mas é importante reconhecer que esta situação aconteceu dentro do uso da liberdade.

2001:111). por fim. João A. se nada me impede de fazer o que decidi. Liberdade no Antigo Testamento A liberdade aparece dependente da acção libertadora de Deus. 2. Liberdade na Bíblia O tema liberdade foi também reflectido por autores sagrados da Bíblia. tanto no Antigo Testamento como no Novo. E. 2000:236). económica. I. Konzen. Esta definição se expressão com o termo ter liberdade ou ser livre: Eu sou livre. faremos a discussão relativa à responsabilidade. 1. diz ser liberdade a possibilidade de realizar aquilo que se decide . E. Também podemos falar da liberdade como a autodeterminação.dimensão política e os seus limites. independentemente de qualquer constrangimento exterior (o ser humano livre é o contrário de um escravo) (DICIONÁRIO DE FILOSOFIA: dicionários temáticos. Em segundo lugar. Por seu turno. porque este conceito abarca várias dimensões da vida humana. entendida como ausência de condições e limites. liberdade. a liberdade como possibilidade ou escolha conforme a qual a liberdade é limitada e condicionada. se posso ou não fazer o que eu quiser. Liberdade Humana Falar da liberdade humana é difícil. religiosa.Conceito de liberdade G. à luz das ciências humanas. também ligada a autodeterminação. isto é. política. à luz das ciências humanas. por fim. entendida como libertação.1. 2. A título de exemplo. liberdade como necessidade. vamos conceituar este termo. podemos mencionar a liberdade moral. sem constrangimento por circunstâncias exteriores (ÉTICA TEOLÓGICA FUNDAMENTAL. Falando disto. a começar pelo seu conceito para terminar nos tipos de responsabilidade.Durozoi e A. Roussel definem a liberdade como estado do ser que apenas obedece à sua vontade. É neste contexto que a saída do Egipto é um acto de nascimento simbólico do povo de Israel. Thonissen Walfgang diz que o Êxodo o fornece a 52 . Por essa razão. tentaremos mostrar a ligação existente entre a liberdade e responsabilidade.

só Deus é absolutamente livre. A libertação é uma realidade histórica. podemos citar Irineu e Agostinho. Tratada apenas neste âmbito. a liberdade pode estar vazia de conteúdo real.Dimensão política da liberdade Para a realidade social. Este autor diz ainda que. em geral. está incluso na libertação o ainda não (O DEUS DOS OPRIMIDOS.2). embora o significado da libertação inclua a determinação histórica da liberdade neste mundo. nascida na luta pela liberdade. James H. A dimensão política da liberdade refere-se à liberdade exterior. que reflectiram sobre a liberdade. e a de Moçambique. Santo Agostinho: Só é livre quem está no poder da graça de Deus. Novo Testamento Também neste a liberdade aparece como acção libertadora de Deus. ligada à liberdade individual e colectiva. Rm 8. fez e ordenou todas as coisas.2. e sem significado. Santo Irineu: Para este. que te fez sair da terra do Egipto. e livremente e por sua própria iniciativa. teu Deus. 2). Portanto. económica e política de África. ela não está limitada àquilo que é possível na história. a liberdade paulina é baseada na gratuidade da salvação de Deus (cf.referência central à ideia bíblia da liberdade: Eu sou o Senhor. 3. Ele. 1985:168-173).Liberdade na Igreja Antiga Entre os pensadores da Igreja Antiga. por si mesmo. em particular. somente na dimensão teórica. em ligação à autoridade política e em relação às estruturas da 53 . 2. Por isso. pode ser insignificante tratar da liberdade humana.3. Cone defende que a libertação não seja separada da luta histórica pela liberdade neste mundo. da casa da escravidão (Ex 20. 2. Compreendida como bem salvífico universal.

com a própria actuação ao que foi dito (EDUCAR EM VALORES. II. no século XVIII. Por sua vez.RESPONSABILIDADE HUMANA Na visão de Ciriaco I. que é a lei natural inscrita no coração do ser humano. Mas. com significado político. porque as liberdades de cada pessoa humana situam-se no universo de liberdades de outras pessoas humanas. significa trazer à luz as suas fronteiras e seus condicionalismos. O mesmo autor diz ainda que. o sistema de comunicação. em expressões como governo responsável ou responsabilidade do governo indicativas do carácter do governo constitucional que age sob o controle dos cidadãos e em função desse controle (DICIONÁRIO DE FILOSOFIA. interessado na sua aplicação. Neste sentido.Limites da liberdade Falar de limites da liberdade humana. 2002:244). o sistema económico. Nicola Abbagnano. diz que o termo responsabilidade surgiu. 4. que significa responder. 2007:1009). a liberdade individual termina onde começa o direito dos outros.sociedade: a legislação. porque corresponde à natureza do ser humano. E essa liberdade é protegida por leis positivas e normas morais de consciência. concretamente em 1787. Por esta razão. em 54 . sem nenhuma aplicação a um campo específico. GS 16). a liberdade deve situar -se na convivência humana. corresponder. a liberdade não é ilimitada nem incondicional. a estratificação social. no campo político. em inglês e em francês. Estamos perante a apresentação da raiz da palavra responsabilidade. começam as de outra. Neste sentido. o regime político. que por sua vez origina de respondere. Moreno. Quer dizer. onde terminam as liberdades de uma pessoa humana. a palavra responsabilidade deriva do latim responsum. pela primeira vez. com as quais convive no contexto social. em todos os níveis de relações interpessoais. ser livre ou ter respeitadas as liberdades é um direito fundamental da pessoa. pela qual será julgado (cf.

Posto isto. dizendo: Suponhamos que ocorreu um assalto a um banco. portanto. com um exemplo prático. A um faltou o conhecimento e ao outro. responde por que deixou os assaltantes entrarem: Eu não sabia que eram assaltantes e assim se exime da responsabilidade. e conforme o Dicionário Universal de Língua Portuguesa . como tentaremos mostrar mais adiante. sem liberdade pessoal. é necessário que apelemos. Konzen ilustra esta definição. e um inquérito investiga responsabilidade. O guarda do banco. b)Actos humanos ou morais ou ainda responsáveis são os que são praticados com vontade decidida. da natureza ou actos praticados sob coação. de bocejar. ao lhe perguntarem por que abriu os cofres aos assaltantes. a noção de responsabilidade baseia-se na escolha e a noção da escolha é essencial ao conceito de liberdade limitada (idem). mas a partir do seu conceito. estes actos são praticados com consciência e liberdade. embora consciente do que estava fazendo. a)Actos do ser humano não são responsáveis. Este é sinal de que há uma certa ligação entre a liberdade e responsabilidade. podemos citar o acto de coçar -se. responde: Eles me obrigaram e também fica isento de responsabilidade. O caixa. Daqui resulta de que os actos humanos ou morais/responsáveis são aqueles praticados com consciência ou consentimento/advertência e decisão livre. o termo foi usado nas controvérsias sobre a liberdade . liberdade (ÉTICA TEOLÓGICA FUNDAMENTAL. consentimento ou advertência e decisão livre são dois elementos constitutivos da responsabilidade. à distinção clássica de actos do ser humano e actos humanos como abaixo apresentamos. porque são inconscientes. Quer dizer. João A. e na visão deste autor ora em citação.Filosofia. etc. A título de exemplo. 2001:107-108). 1. por sua vez. ao ser inquerido. primeiro. dormir. A consciência. a responsabilidade é uma obrigação de responder por certos actos próprios ou alheios 55 .Conceito de responsabilidade Para uma boa compreensão da temática responsabilidade. espontâneos.

essas leis positivas. mas também é caracterizado pela dimensão moral. que pela boca de dom Quixote. 2001:107-108). cita Cervantes. Neste sentido e segundo João A. as leis positivas não representam para a consciência. Konzen acto ou comportamento responsável é aquele que pode ser imputado (atribuído) a uma pessoa. Pode-se tratar de actos praticados ou negligenciados. Contudo. nem sempre representam adequadamente todos os segmentos da sociedade. omissos. embora institucionalmente legítimas.ou por alguma coisa que lhe foi confiada (1995:1240). quando responde com actos a certas obrigações assumidos (EDUCAR EM VALORES. 2002:244). Neste contexto. quando cita Platão. Indo mais além. segundo o qual cada pessoa é a causa da sua própria escolha . na visão de Ciriaco Izquierdo Moreno. O mesmo autor sublinha algo muito importante.Tipos de Responsabilidade Responsabilidade ética ou moral é a que caracteriza o uso da liberdade diante das normas éticas discernidas pela consciência. afirma que cada pessoa é filha de suas obras . Como o ser humano não só possui a dimensão física. estamos diante da responsabilidade pessoal e uma pessoa é responsável. por serem prescritas pela autoridade legislativa de uma sociedade. um dever moral. geralmente. Mas. Responsabilidade jurídica ou legal : Para Ciriaco Izquierdo Moreno . por quê assim acontece? Segundo este mesmo autor. pois elas estão sujeitas a formular leis para interesses particulares de grupos limitados da sociedade. não fazem o discernimento objectivo e imparcial. baseadas na autoridade legislativa. que é aspecto necessário para formular leis mais sábias e adequadas ao bem comum. implicam que o cidadão da respectiva 56 . ainda o mesmo autor. a prática desses actos mostram-nos que existem dois tipos de responsabilidade. e esta responde por ele e tem o dever de assumi-lo (ÉTICA TEOLÓGICA FUNDAMENTAL. as autoridades legislativas humanas. 2. Esta realidade resulta do facto de que os órgãos legislativos da sociedade humana.

liberdade e responsabilidade. É justamente este ser humano livre e responsável. consultar. Moreno. não hesitarão em atribui-lhe tais qualidades. os outros que. que deve. responda diante de seus órgãos governamentais pela forma como cumpre ou não livremente as leis. Umas são principais e outras secundárias. a cadeira de Mundividência Cristã tem muitas fontes. Estas duas dimensões. Liberdade e Responsabilidade. Todavia. a noção . manifestadas. são da pertença do ser humano e são. Para Ciriaco I. se necessário. 57 . Liberdade e responsabilidade são um binómio inseparável.entendida como ideia que temos de uma coisa da responsabilidade está ligada à escolha e à liberdade. Liberdade e responsabilidade formam um binómio inseparável. por ele e nele. 2002:244). III. mesmo morto. O capítulo a seguir vai tratar fundamentalmente da forma como se deve proceder a citação dessas fontes principais. como qualquer Cadeira. Responder aos próprios actos: aí enlaçam vontade e liberdade (EDUCAR EM VALORES. citar e fundamentar suas reflexões em alguns documentos. por enquanto. se existirem motivos para se falar dele como um ser livre e responsável. porque uma implica a outra. ficarem neste mundo.sociedade. Na verdade. assumindo as consequências do seu comportamento.

de forma convencional. capítulo. propomos como fontes principais desta Cadeira a Bíblia.7.: Surat 20:30. esta é feita desta forma: primeiro escreve-se a palavra surat. 16. 123 ou (nr 345). Este contém temas e estes estão enumerados. em primeiro lugar. 3 ou Lc 7. respectivamente. em geral. A sua citação é feita assim: Ex. este é separado do versículo. depois. primeiro. que em geral. o versículo. depois. vem em latim. Igreja no mundo actual. Concílio Vaticano II: Para consultar este documento concili ar. 2000. Um tema pode ser encontrado em vários números. Quanto à citação do Corão. são também citados em latim. vai-se.: LG. depois. primeiro. Esta enumeração indica lugares.: Gn 2. Ou Concílio Vaticano II. é escrito o nome do livro. Assim. Para efeitos de consulta. por fim. por dois pontos. Muitos documentos da Igreja estão. denominados em latim.: Catecismo da Igreja Católica . Lumen Gentium. Depois. ao índice analítico.Consulta e citação Bíblia: Este livro sagrado dos cristãos tem dois Testamentos. Catecismo da Igreja Católica de 1992. 58 . Gaudium et Spes). abreviado. onde se encontra o mesmo tema. 1. o nome do documento. por fim. procura-se primeiro o nome do livro. o versículo ou versículos. Quer dizer. Antigo e Novo.CAPÍTULO V: CONSULTA E CITAÇÃO DAS FONTES PRINCIPAIS DE MUNDIVIDÊNCIA CRISTÃ Neste momento. o capítulo e. vem o número do capítulo e. EX. e o Corão. Catecismo da Igreja Católica: Para efeitos de consulta. Documentos conciliares do Vaticano II (Dei Verbum. São Paulo. Lumen Gentium. Dei Verbum significa Revelação Divina. Constituição Dogmática Gaudium et Spes. 8. e Gaudium et Spes. Por isso. Corão: Para efeitos de consulta. procura-se. vai-se ao encontro do versículo. primeiro. deve-se procurar. em diferentes páginas. ou DV. EX. surat (capítulo) e. vai -se ao número. A sua citação é feita assim: Ex. a santa Igreja. em português.

trataremos do ser humano e a morte. é mortal.Talvez seja fundamental lembrar aos interessados que este ser humano. que consulta e cita alguns documentos. Por isso. para fundamentar suas reflexões. no capítulo seguinte. 59 .

Conceito de Morte O conceito da morte apela para várias ciências. 2.Cultural. depois da morte física. 1983: 786 -7888). as perguntas pertinentes sejam estas: Por quê a vida nasce com a morte? Como nos posicionar diante da morte? E como a morte é concebida em África? 1. que marcam o distanciamento irreversível entre o morto e os vivos. em todas as culturas há um conjunto de cerimónias e actos que acompanham a morte e o morto e que os vivos procurar seguir. como é o caso da Biologia e da Antropologia Sócio. podemos dizer que a morte é o desaparecimento físico e social de uma pessoa humana. Por esta razão. a nível dos sentidos. Ela tem causas. seguida de uma destruição imediata ou progressiva. Neste contexto. vêm o desaparecimento do corpo engolido pela terra. Na linha desta ciência e conforme a Enciclopédia Mirador (vol 14. que inicia antes da paragem biológica e se prolonga após o enterro e do desaparecimento de sinais sensíveis. A morte no pensamento africano Citando V. como a respiração e a circulação. A morte é também concebida como mutação ou transformação radical do modo de ser e de estar presente da pessoa. Quer isto dizer que a morte. Todavia. A Morte: Aspectos Pastorais: 2003:36). a cessação do relacionamento e comunicação directa. 60 .CAPÍTULO VI: O SER HUMANO E A MORTE A morte é uma experiencia humana inevitável e universal. a população africana sabe que a morte não aparece ao acaso. total ou parcial. Amaral Bernardo def ine a morte como ruptura e separação dos elementos constitutivos.lineau. real e concreta. enquanto os outros são promovidos a um destino (In Centro de Formação de Nazaré. de certos elementos. O autor em citação sustenta ainda que a morte não se limita ao momento em que param os sinais e funções biológicas. Talvez dentro deste tema. para a pessoa humana. é um processo longo.Thomas e R.

rodeada de filhos. fulminados por raios ou por doenças consideradas especiais. os que morrem fora da terra e da própria família. das trevas. frequentemente. geralmente não se tornam antepassados. vítima de suas práticas. considerada personificação do mal. b) Morte infeliz: considera-se também morte infeliz e desgraçada quando alguém morre sem deixar descendência. Ligado a isto. a morte pode ser classificada como boa e infeliz. C. 61 .2. durante a doença e depois da morte. quando ela se dá serenamente junto à família. violação das tradições etc. esta personagem. a) Morte boa e feliz: atribuem-se à morte estes adjectivos. maldades pessoais. As causas da morte A preocupação que rodeia ou move as pessoas. suspeita-se que seja espíritos malignos que trazem desgraça . actuando na calada da noite. São considerados como espíritos impuros esquecidos e não têm quem os venere e. Classificação da morte Para a população bantu. 2. Para isso. como lepra. consultando-se a pessoa de olhar penetrante (adivinho) revela quão é importante conhecer-se as causas da morte. inclusas nesta lista. suicídio. Por consequência a pessoa falecida será privada da imortalidade pessoal. Trata-se de actos praticados pela pessoa falecida. Estão.1. fulminando a vítima e permanecendo oculto. Será honrada com ritos e cerimónias fúnebres. neste contexto. os que morre m por enforcamento. filhas. é capaz de manipular mortiferamente a interação vital e perturbar o equilíbrio e a harmonia universal . Boucher (in OS ANTEPASSADOS E SUA VENERAÇÃO: Actas da segunda semana Teológica da Beira. realizadas fielmente conforme as tradições de seus antepassados. familiares e amigos. a morte entra em estado de impureza sagrada. devorados por animais. Neste tipo de morte. dívidas. porque ninguém ficará a lembrá-lo. jovens ou crianças. na própria aldeia.2. 1997:82) diz que os mortos que não tiveram descen dência sejam eles velhos. b) Ofensas. Ela torna-se. boa e feliz. Amaral Bernardo propõe duas causas: a) Feiticeiro: Para este autor.

Em poucas palavras. notamos que a morte é condição de todos os seres humanos. para partilhar e revelar o testamento da pessoa falecida. Mas. 4. A morte: experiência humana universal Partindo da experiencia humana. Constatamos que em todas as culturas. que se chama morte? O número seguinte vai tentar dar resposta à esta questão. depois da morte e da comunhão entre vivos e mortes. 62 .3. b) O cortejo fúnebre a caminho do cemitério. Jesus Zubiria propôs os seguintes passos: a) Lavagem ou embalsamento do corpo. a vida continua de geração após geração. d) Participação da maioria e) Sepultura conforme a vontade manifestada pela pessoa falecida. entendendo-se a morte como uma etapa integrada no processo dinâmico da vida. e a vida na outra vertente para onde ele vai. E o que a Bíblia diz a respeito do mesmo problema ou da realidade. f) O encontro entre parentes. Quanto às cerimónias. c) Paralisação de quase todas as actividades importantes do lugar onde a morte ocorreu. constatamos que existe a convicção da continuidade da vida. A morte é relacionada à vida: a vida neste lado. tentamos colocar o pensamento e a experiencia africana sobre a morte. anteriormente. aquela que o falecido gerou e que agora deixa atrás de si. se houver. há todo um conjunto de cerimónias e actos que acompanham a pessoa falecida e as pessoas vivas devem procurar seguir. apesar da morte. A Relação morte-vida Na nossa experiência.

5. fonte da vida: pois não me abandonas ao Sheol. a morte é o poder de pecado que faz. a morte é sentida como uma prova. a vida terrestre é um dom de Deus por excelência e viver idoso e cumulado de dias (Gn 35. uma uma interrupção absurda. Abraão expirou: morreu numa velhice.15). não deixas o teu fiel ver o fosso ( Sl 16. Muitos autores e de várias formas se debruçaram sobre ela. uma não-salvação. Tanto o Antigo como o Novo Testamento trataram deste tema de morte. O Novo Testamento vê em Cristo o vencedor definitivo da morte e dos poderes que a provocaram. Os salmos testemunham essa ameaça da morte má. a solidão. 5.A morte na visão bíblica A Sagrada Escritura não este alheia à realidade da morte. Neste sentido. 10).19. Viver muitos anos é sinal da bênção especial de Deus.1. 63 .29) é o sinal da bênção de Deus. a miséria. Mas a morte atinge o corpo e a alma. Sl 90. porque por um lado. um escândalo. mas mostraram de forma visível que ela não tem a última palavra na nossa vida. 8). um enigma.A morte no Novo Testamento Para Claude Geffré. desse término. o desemprego já são as primícias. a) A morte como término natural da morte Para o israelita. é escândalo a morte no meio dos dias . da qual a doença.7. Assim. idoso e cumulado de dias (Gn 25. no Antigo Testamento. 3. o único recurso que permite ao justo escapar da morte má é voltar-se para Deus. Portanto. a morte é como término natural da vida. Por outro. b) A morte como prova e maldição A morte subida é. de uma ou de outra maneira disseram existir a vida além da morte. Jó 34.3.5.A morte no Antigo Testamento Os dados bíblicos sobre a morte podem ser considerados ambíguos. o ser humano tirado do pó retorna ao pó (Gn 2.2.

único que partilha da ressurreição de Cristo (cf.A morte na filosofia existencialista A questão da morte mereceu igualmente um debate. a morte é uma consequência de pecado. Sartre: Para este filósofo. será um dia vencida. Deus o tinha destinado à imortalidade. todos os sonhos são destruídos.A morte na Visão da Igreja Orígenes e Cirilo de Alexandria: A morte foi também um tema. Apesar desta destruição. por parte de alguns filósofos existencialistas. o natural. Como fenómeno natural. Para estes. aqui. Concílio de Trento (1562 -1563): Esta reunião posicionou-se na mesma linha de Orígenes e Cirilo de Alexandria. à qual o ser humano teria sido subtraído se não tivesse pecado. desde os primórdios da sua existência. O ser humano exterior e velho (Rm 6. embora a 64 . 6. Todavia. a vida. Concílio Vaticano II: Para a Gaudium et Spes a fé cristã ensina que a morte corporal. Isto é condição para o ser humano ir ressuscitando constantemente. renascer como ser humano novo. que mereceu uma reflexão.6) tem de morrer paulatinamente às forças de corrupção e pecado. O ser humano interior é assumido. A. Camus reconhece que. Catecismo da Igreja Católica de 1992: Para este catecismo. pois deseja sempre e de forma ardente.Não há ressurreição sem a morte. plenificado em Deus. porque esta é uma fuga à realidade. Jo 3. 3-8). o ser humano está na vida como um condenado á morte. Alberto Camus: Este afirma que na morte. diz São João. o ser humano deve evitar o desespero que conduz ao suicídio. Trata-se. embora o ser humano possuísse uma natureza mortal. da morte física. a morte atinge somente o ser humano exterior. É fundamental ao ser humano . 7. na Igreja. Nesta reflexão sobressaem duas figuras: Orígenes (185-2509 e Cirilo de Alexandria (380 -444).

morte, a solidariedade com os pobres, os que sofrem e os oprimidos t em sentido por si. É fundamental uma frente comum contra a miséria e a morte violenta. Pensamos que o nosso debate sobre o ser human o e a morte seria incompleto, se não nos tivéssemos debruçássemos sobre os espíritos e os antepassados porque, para a população negro-africana e conforme Odilo Cougil, sabemos que nas nossas famílias

os Antepassados e as relações entre os vivos e eles ocupam um lugar de preeminência. Não há família sem Antepassados, não há acontecimentos importantes ou menos sem invocação dos Antepassados (in OS ANTEPASSADOS E SUA VENERAÇÃO: Actas da Segunda Semana Teológica da Beira , 1997:6). Todavia, venerar os antepassados, significando elogiá-los, não é nenhum mal, pois a própria Bíblia apresenta o reconhecimento pelos bons feitos, quando diz: Elogiemos os homens ilustres, nossos antepassados, em sua ordem de sucessão (Eclo 44, 1). Mas quem são os

Antepassados? E o que são os espíritos? Como distinguir os espíritos dos Antepassados? E, por fim, como diferenciar o espírito bom do mau? 8. Os Antepassados e os Espíritos Por antepassado se entende, aqui, segundo Ezequiel Gwembe, alguém que durante a sua existência entre vivos favoreceu a vida. Não só alguém que conservou bem a vida que recebeu, mas também a transmitiu de modo abundante (in OS ANTEPASSADOS E SUA VENERAÇÃO: Actas da Segunda Semana Teológica da Beira , 1997:140). 1. Condições para se ser antepassado 

Conservar a vida recebida.  Transmitir a vida em abundância.  Ter sido fermento de união e comunhão.  Ter morrido bem. Trata-se de morrer de morte natural, carregado de anos e
tendo deixado, atrás de si, uma descendência para o chorar. 

Ter transmitido, aos que ficam, o seu testamento, por exemplo, as dívidas
contraídas, os litígios ainda por resolver. Porque é preciso morrer bem, morrer em paz.

65

Mas, é importante sublinhar que os antepassados são apenas venerados. Portanto, esta prática de forma nenhuma implica que os antepassados são adorados. Só Deus é adorado e apenas a Ele. E venerar significa manter um grande respeito, enquanto adorar significa também prestar culto a Deus, amá-lO ao extremo. 2.Bons e maus espíritos Os espíritos são entidades sobrenaturais. Estes dividem-se em bons espíritos e maus espíritos. Espíritos bons: Na visão de Ezequiel Gwembe, a fé africana diz que há bons espíritos, que trazem boa sorte, na vida. Espíritos maus: Diz ainda o autor em citação que os maus espíritos causam somente desgraça. Em conclusão, podemos dizer que os antepassados e os espíritos são duas entidades espirituais que, sempre, interagem na vida do ser humano. Embora estas entidades espirituais interajam na vida do ser humano, eles não têm a última palavra na sua vida, porque foi criado à imagem de Deus. E foi criado para dominar a terra. E dominar a terra (Gn 1,28) significa aperfeiçoar, humanizar a terra, mediante a materialização da sua inteligência. E materialização da inteligência manifesta-se pelo trabalho físico ou intelectual, pelo uso da tecnociência ou seja da tecnologia, que será o tema da discussão do capítulo seguinte.

66

CAPÍTULO VII: TECNOLOGIA No livro de Génesis o autor sagrado afirma que, após criar o ser humano, Deus descansou (2, 1-2). Este descanso de Deus pode simbolizar sua confiança no ser humano. Neste contexto, pensamos que agora é a vez deste para trabalhar, administrar a terra. Agora Deus age, neste sentido, mediante sua obra, sobretudo, o ser humano. Por essa razão, Deus dotou-o de uma inteligência superior aos demais seres do nosso planeta. Nesta perspectiva, entre as realidades terrestres, adquire importância sempre a tecnociência ou seja a tecnologia, que é o objecto deste estudo. Mas o que se entende por tecnologia? Será que a Igreja tem palavra a dizer sobre esta matéria? As respostas a estas questões serão dadas ao longo de debate deste nosso tema. E estes termos, tecnociência e tecnologia, serão usados neste estudo como sinónimos. 1.Conceito Pode definir-se a tecnologia ou tecnociência como estudos especializados sobre os procedimentos, instrumentos e objectos de qualquer técnica, arte ou ofício, técnica moderna. É também tecnologia o conjunto de conhecimentos, processos de métodos empregados nos diversos ramos de indústrias. Partindo deste conceito denota-se que a tecnologia traz benefícios ou vantagens ao ser humano, que são reconhecidas pela Igreja, conforme o Compendio da Doutrina Social da Igreja, que diz: A Igreja aprecia tais vantagens que advêm e que podem advir ainda do estudo e das aplicações da biologia molecular, completada por outras disciplinas como a genética e a sua aplicação tecnológica na agricultura e na indústria (número 458). 2.Vantagens da Tecnologia ao ser humano Falar das vantagens da tecnologia, significa entrar no plano de Deus, que manifestou sua vontade no começo dos tempos, de que o ser humano devia dominar a terra e completar a obra da criação. Fazendo isto, ele irá, ao mesmo tempo, se aperfeiçoando

67

que captam imagens de vária ordem e natureza e as enviam para computadores. passam a saber o que está sucedendo em outros lugares. vale mais do que os bens externos. apresenta algumas vantagens da tecnologia. televisores e celulares. humanizantes. podemos citar o caso dos satélites. 68 . que mediante esses instrumentos. A tecnologia não tem somente vantagens. O ser humano vale mais por aquilo que é e não por aquilo que tem. em seu número 35. de forma responsável e bem. Essa verdade é captada por pessoas sábias e humildes. Gaudium et Spes. com acesso a estas tecnologias. mesmo muito distantes. que este desenvolvimento. porque notam que tudo o que o ser humano faz para conseguir mais justiça. E por quê assim? Porque tais progressos podem proporcionar a base material para a promoção humana. mas ela pode constituir um desafio ao ser humano. enquanto fruto da actividade humana. as pessoas. bem compreendido. mas por si sós são incapazes de realizá-lo. quando sua aplicação não segue critérios éticos. desenvolve as próprias faculdades. mais fraternidade. que se possam conseguir. diz ainda a mesma Constituição Pastoral.a si mesmo e. vale mais do que os progressos técnicos. como veremos a seguir. da sociedade e realização do próprio ser humano. A título de exemplo. possam estar ao par dos acontecimentos de outros lugares. Ligado a isto. de se consagrar ao serviço de suas irmãs e seus irmãos. sai de si e eleva-se sobre si mesmo. a)Transformação da natureza: trata-se da transformação das coisas. cumprindo igualmente a ordem de Cristo. o ser humano aprende muitas coisas. b) Desenvolvimento das faculdades humanas: Com a tecnologia. c) Intercomunicabilidade: A tecnologia permite que o ser humano. de um determinado lugar. uma organização mais humana das relações sociais. país ou continente. A Gaudium et Spes.

Desafios da Tecnologia ao ser humano Por desafio entenda-se. podemos falar da MOZAL. Exemplificando. ser ligado televisor ou DVD. Quase não há conversa. há uma tendência de a tecnologia favorecer ou determinar o isolamento e incomunicabilidade das pessoas. porque o que antes era feito por alguns trabalhadores. Poluição da água e do ar. Basta lembrar quantas pessoas está ficando sem emprego. afectivas e morais do ser humano. em muitas famílias. a. devido ao aumento das indústrias e da expansão indiscriminada dos centros urbanos. como a própria história nos tem proporcionado. podemos mencionar a destruição de alguns cemitérios. para a construção da fábrica das areias pesadas de Moma. quando chega alguém. aqui. exigindo a atenção internacional. Sujeição do trabalho humano às exigências da automação. Portanto. Por automação se entende. depois de uma pequena conversa. hoje é feito por computadores. todo um conjunto dos conhecimentos e técnicas de produção e aplicação dos sistemas de produção automática. e. não é verdade? 69 . com a multiplicação dos meios mecânicos de transporte e com a maior densidade demográfica. aqui. Esta situação é triste. c. robots. Exploração intensa de recursos naturais. d. aqueles problemas surgidos da má utilização da tecnologia. mas bem cientes que a exploração de recursos naturais envolve questões relacionadas com o clima. a qual tende a transformar o ser humano em acessório da máquina. a tendência é. Esta actuação do ser humano provoca o empobrecimento rápido e progressivo desses recursos. visita. esta exploração levanta problemas que ultrapassam as fronteiras de países e continentes. Destruição da paisagem natural e dos monumentos históricos e artísticos.3. A título de exemplo. Por exemplo. por resíduos industriais. acima dos limites de seu restabelecimento natural. Isolamento e incomunicabilidade: Incapacidade da tecnologia de atender às necessidades estéticas. É preciso estarmos cientes. Portanto. Os recursos energéticos nem todos são renováveis. b.

em 1945. por outro. por pessoas e governos sem espírito humanístico . privando-o de sua liberdade. Esta ilusão levanta uma pertinente questão: Será verdade que as ciências e a técnica podem resolver todos os problemas e enigmas do ser humano? Como pode. a ponto de algumas pessoas pensarem na feliz solução de todos os problemas e mistérios do ser humano. relações interpessoais e da privacidade. algumas reflexões. O perigo de idolatria: Há um risco de a tecnologia ser considerada como um deus. Perigo de terrorismo: Estas tecnologias aplicadas ao campo militar. o prazer e não os valores autênticos do espírito. sociabilidade. as quais aconselham que o uso da tecnologia deve seguir uns critérios. Quer dizer. São ainda acusadas de terem desumanizado o ser humano. por norte americanos. no processo da caminhada humana. Por isso. muitas vezes. o soberano da natureza. hostilidade. Possível ilusão: O triunfo da técnica tornou o ser humano. a habilidade e a facilidade com que este ser humano cria técnicas sempre novas e mais perfeitas provocou.f. que à memória nunca vistas. a ciência e a técnica são. Esta situação resulta do facto de que a única preocupação é o bem-estar. Basta nos lembrarmos das bombas atómicas lançadas. Alimentos transgénicos: O uso de novas biotecnologias para fins concernentes à agricultura. Estas situações suscitam. capaz de dominá-la. mais possibilidades de levá-lo a frente até a realização do paraíso terrestre. na mente humana. a tecnologia resolver o problema de uma pessoa ofendida. h. uma confiança sem limites. podem provocar catástrofe humanitária. acusadas severamente de terem causado a perda de muitos valores fundamentais do espírito humano. por exemplo. as quais dizimaram milhares e milhares de pessoas e destruíram cidades inteiras. sobre as cidades de Hiroxima e Nagasaki. o divertimento. entusiasmo/esperança e. g. nas actuais gerações. 70 . para que ela esqueça aquela ofensa? i. despertam por um lado. como abaixo sugerimos. como é o caso dos transgénicos ou seja alimentos geneticamente alterados.

mas que a ultrapassa num sentido absoluto. em vista das futuras gerações. que é dom de Deus através da natureza. aqui. recorre a tecnologia ou seja a tecnociência e a desenvolve. nem é idêntico a ela. em particular. Por isso. na Teologia. Portanto. a) Respeito pela dignidade humana: Este respeito inclui uma indispensável atitude de respeito para com as demais criaturas viventes. na conservação da obra da criação e seu destruidor. pesquisas. o que se deve fazer ou não (DICIONÁRIO DE FILOSOFIA.Tecnologia e a Transcendência Por transcendência se entende. e o tecnocientista. Para esta utilização. Por esta razão.4. propomos os seguintes critérios. o mundo 71 . 2007:259). a qualidade de superar ou de ir além da experiencia humana normal. É necessário ponderar muito bem as alterações que se produzem no conjunto do sistema. com todas as forças de sua inteligência. Ele usa material já existente. os semelhantes. o mundo e si mesmo. aqui. como a questão de sentido para a vida ou sentido da História. O mundo da tecnologia abre pequenas clareiras no mundo da vida. devem guiar-se na utilização de recursos naturais. e conforme Nicola Abbagnano. a transcendência ensina que Deus não está contido na criação. Critérios no uso da tecnologia Por critério se entende. Portanto. é preciso não exagerar a força do conhecimento tecnológico para a transformação do mundo. através d e manipulações genéticas. uma regra para decidir o que é verdadeiro ou falso. b) Não ao uso arbitrário da terra: A pesquisa científica e sua aplicação não devem usar a terra de forma arbitrária. mas administrá-la responsavelmente perante Deus. E. Neste contexto. o ser humano deve ser colaborador de Deus. O cientista não cria do nada o que usa em suas experiências. em geral. É justamente esta regra a que os seres humanos. Das tecnologias não devemos esperar soluções globais. A missão do ser humano não tiranizar a natureza. a tecnologia não prova nem nega a transcendência do ser humano nem a existência de Deus. 5.

até o exercício da medicina sofre. O ser humano luta contra tudo o que o limita: a fome. Se. Protesta quase tudo em nome do que ainda não é. mas o ser humano é. Para isso. apenas ela é uma actividade das mais importantes do ser humano. Santo Agostinho tinha razão ao dizer: Meu coração está inquieto. E atenção. um mistério. o ser humano é um eterno protestante. utopia. para explorarem seus semelhantes. Nele há dinamismos que impulsionam para além de si mesmo. De certo modo. Para terminar. que pretenderam eliminar esta dimensão. Onde 72 . Em vão sonhamos um mundo mais fraterno. Neste sentido. E as conquistas da tecnologia serão colocadas ao serviço da violência. se tornam ineficientes. este deve ser integrado no mundo da vida humana. ele procura amigos. que partilha seus limites. incluindo o tecnocientífico é limitado. da injustiça e de todo o tipo de mal dade. chama-se Deus. Nesta perspectiva. ele quer melhorar. é fundamental sublinhar que Deus é sentido da nossa vida. se não admitimos um Pai comum . O conhecimento humano. dando lugar para todo o tipo de totalitarismos e manipulações. o sofrimento e contra a morte. por exemplo. ainda hoje como ontem. isto é. um hospital não tiver recursos humanos qualificados e equipamentos adequados. a doença. insere-se numa comunidade para realizar-se. à luz da fé. viram gorados seus intentos. A tecnologia resolve alguns problemas. ignorância.da vida humana é irredutível ao mundo da ciência. os regimes políticos ou sistemas filosóficos. A tecnologia e a ciência são importantes e dignificam o ser humano. até repousar em Deus . Quer viver e viver bem. Elas são muito importantes que sem elas. Quando excluímos a dimensão transcendente da vida humana. O mistério envolve todo o nosso ser. um Deus para todos. quando os seres humanos negam a Deus como seu Criador. mutilamos a pessoa humana. O dinamismo impulsionador da transcendência. Por isso. O mistério só se aceit a ou se rejeita. porque quem faz a ciência e desenvolve técnicas é o ser humano. Por isso. Mas não são tudo. porque até o que já é bom. irão querer usurpar seu espaço. do terrorismo. muitas vezes. tende apropriar-se de bens materiais e do saber. O conhecimento científico não é absoluto. hoje até a caridade.

73 . Mas viver feliz. o capítulo que se segue vai tentar debater a questão do sofrimento e da felicidade. a felicidade. não significa necess ariamente estar isento de sofrimento. E é vivendo como irmãos e irmãs que se constrói a paz e. em irmãos e irmãs. por consequência.os homens e mulheres aceitam a Deus. Por isso. como sentido de sua vida. é possível viver-se em fraternidade.

30. a pesso a pode sofrer e sentir-se feliz. 44. O sofrimento no Antigo Testamento Em geral. como conseguir a felicidade? O prazer. procuraremos usar o livro de Calmeiro Matias (O HOMEM NOS PLANOS DE DEUS: Antropologia Teológica . passando por Mani que. o material e mau e o espiritual.28).CAPÍTULO VIII. rebanho e terra. Por isso. Quer dizer. Job 31. Sofrimento Desde Zaratustra. ao mesmo tempo? E o que é o sofrimento? Por fim. o sofrimento tem levantado muitas questões. como estas: Por quê estou sofrendo? Qual é a causa do meu sofrimento? Se Deus é Omnipotente. 1. sobretudo por parte de quem está sofrendo. por fim. o justo não sofre. o bem e o mal.44. sua imagem e semelhança esteja a sofrer? Qual o sentido do sofrimento? E. como permite que o ser humano. tem uma vida longa. 1. nos leva às estas perguntas: O que o sofrimento tem a ver com a felicidade. Existem perguntas. e bom. de tal modo. os dois conceitos sejam relacionados desta forma? Será que a pessoa humana pode estar sofrendo e dizer que está feliz? Quer dizer. o pecado é a causa do sofrimento. seja directa ou indirectamente. o Antigo Testamento associa o sofrimento ao pecado. acima. O SOFRIMENTO E A FELICIDADE O título. É este o prémio do justo. Os 5. à pessoa humana? As respostas a estas questões hão-de ser dadas. 74 . 11. o que é a felicidade e qual o caminho certo e verdadeiro para que uma pessoa possa adquirir verdadeira felicidade? Por outras palavras. podem ou não trazer a felicidade. muitos filhos. na medida em que iremos debatendo este tema: sofrimento e a felicidade.12.13.5. 1987). o que se entende por sofrimento? Na tentativa de dar resposta a estas questões. o pecado leva consigo castigo e sofrimento (Ez 18. Is 30. defendia a existência de dois mundos. que acredita em dois princípios eternamente opostos. até aos nossos dias. Portanto. também. a posse de bens materiais.

É uma tarefa dos enfermeiros. viver as situações de sofrimento com sentido é uma expressão enorme de amadurecimento humano.2). o cego de nascença não nasceu assim por ter pecado. A dor pode ser atenuada com medicação apropriada.2. Deus não é o autor do sofrimento. Por isso. Por essa razão. Na eternidade. 19 20). de humanização. razão pela qual Ezequiel diz que no futuro cada qual sofrerá pelos seus próprios pecados (Ez 18. 3. Alerta para o facto de algo não estar funcionando bem.Dor A dor. o sofrimento. mesmo que duas pessoas sejam amicíssimas. Outra coisa são as causas que provocam a dor.O sofrimento no Novo Testamento É pertinente sublinhar que. Quanto a este cego de nascença. pode ser partilhado. Pelo contrário é. serventes e médicos e todos os funcionários da saúde. 3. mas ele pode ser atenuado mediante o 75 . nestas situações. Para se evitar confusão.1. Portanto. Nem foi por causa do pecado de seus pais (Jo 9. porque o Espírito Santo vai-nos transformando de glória em glória. 3. sim. Atinge o ser humano de forma mais profunda que a dor. O sofrimento O sofrimento é um estado de ordem psíquica. E a possibilidade de dor representa uma perfeição extraordinária do organismo. o Novo Testamento vê o sofrimento como algo que pertence à fase da gestação histórica do ser humano. segundo a qual deve-se distinguir entre dor e sofrimento. é um factor fisiológico. Ela é sinal de al arme.O sofrimento e sentido da vida Há exigência tremenda. É impossível partilhar-se a dor. 2.Mas esta maneira de pensar. numa plenitude progressiva. para o Novo Testamento. que Deus revela sua glória. Contra estas deve-se necessariamente lutar. a glória de Deus reside na sua cura. foi paulatinamente sendo ultrapassada. geralmente. não há sofrimento. O sofrimento não pode ser vencido através de medicação.

actos reais e concretos. MEU IRMÃO. Mas todo o ser humano tem fome de felicidade. Essa humanização acontece como nascimento pessoal em convergência comunitária. conte comigo. seja com ou sem culpa. Portanto. sincero. e no contrário surgir uma pessoa feliz 76 . Quando faltam estas dimensões. Em conclusão. Pode -se ter bens materiais e não se ser feliz. desinteresse. Ela deve ser necessariamente construída. A felicidade Para Calmeiro Matias. não tanto porque estão com aquela doença. esta mesma pessoa que sofre e procura razões do seu sofrimento. e por consequência. E este. MINHA IRMÃ. É devido a esta falta que muitas pessoas infectadas e afectadas. estigmatizadas. o amor verdadeiro. esquecimento. a pessoa que sofre interroga-se sempre sobre o porquê do seu sofrimento. Elas sofrem. mas porque se sentem abandonadas. Essa confusão é uma perversão. na sua maioria. marginalizadas. o carinho. o amparo. esta palavra: CONTE COMIGO. Não são capazes de lhes dizer. podemos dizer com Calmeiro Matias. a felicidade não é uma coisa que se acha ou se perde. palavras. Segundo. Caminho da felicidade: A humanização é o caminho da felicidade. só encontra resposta para sua pergunta. E por quê desta necessidade de CONTE COMIGO? Primeiro. ignoramos esta dimensão humana. se é possível. Algumas pessoas confundem a fome de ser com o desejo de ter. que o sofrimento das outras pessoas reside. Não existe felicidade como coisa feita. deve ser realístico. o ser humano foi criado para a felici dade. na nossa indiferença. manifestado com gestos. 4. em relações. Infelizmente. só pode atingir a felicidade quem gasta a vida na tarefa de humanização. Quer dizer. com uma companhia amiga. das outras pessoas amigas. pelo HIV e SIDA. e no egoísmo. a pessoa que está sofrendo pode cair no desespero. Muitas pessoas quando as vêm meneiam a cabeça. concreto. Apesar do sofrimento. sofrem.calor . a felicidade não deve ser condicionada.

a pessoa precisa de ser aceite. nas quais o mais forte tenta esmagar o mais fraco. numa posição de sofrimento. Esta atitude vai nos possibilitar a evitar o jogo de interesses individuais ou de um grupo que domina as sociedades. Esta realidade não é mais que dar coisas. E para isso. a compreensão e a valorização de suas possibilidades e condicionamentos que possibilitam o ser humano para ser mais. É a aceitação. Esta situação coloca muitas vezes algumas pessoas. A pessoa para ser humanizada. E este tenta esmagar o mais forte para escapar à opressão.qualNão difícil assistir a confusões entre amar e trocar prendas. para atendermos nossos interesses e gostos. Se nó dizemos amar uma pessoa. apreciada e compreendida para se aceitar e sentir gosto pela sua realização. 77 . necessita de ser ela mesma. então aceitemo la como ela é. realizada. sem procurarmos modificá la nem instrumentá la.

78 .

79 .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful