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Apontamentos de MUNDIVIDÊNCIA CRISTÃ

Apontamentos de MUNDIVIDÊNCIA CRISTÃ

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  • 1.1.Definição de Pessoa
  • 1.2. O ser humano, diferente do animal
  • 1.3.1.O ser humano na Igreja Antiga (Patrística)
  • 1.3.2.O ser humano na visão da Igreja da Idade Média
  • 1.3.3.O ser humano na visão da Igreja Contemporânea
  • 1.4. A originalidade do ser humano
  • 2.1. Liberdade no Antigo Testamento
  • 2.2. Novo Testamento
  • 2.3.Liberdade na Igreja Antiga
  • 3. A morte: experiência humana universal
  • 4. A Relação morte-vida
  • 5.1.A morte no Antigo Testamento
  • 5.2.A morte no Novo Testamento
  • 6.A morte na Visão da Igreja
  • 7.A morte na filosofia existencialista
  • 8. Os Antepassados e os Espíritos

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MUNDIVIDÊNCIA CRISTÃ

O. INTRODUÇÃO

A pessoa humana é um ser pensante. Devido a esta capacidade, ela consegue pensar e

reflectir criticamente o pensado. Por isso, ela iniciou uma caminhada reflexiva, no

sentido de conhecer o mundo, Deus e conhecer-se a si próprio. Quer dizer, ele tornou-

se sujeito e objecto da sua reflexão, de seu estudo. Desta reflexão, nasceram questões

muito relevantes e até enigmáticas como, por exemplo, o que é o ser humano? O que

é o mundo? O que é Deus?

As tentativas de respostas, dadas a estas questões, podem tomar a cor da cultura, da

religião, da corrente de pensamento e de ideologia, etc. Este trabalho é também uma

tentativa de dar resposta às mesmas questões.

Este trabalho está estruturado em cinco partes: a primeira e segunda partes iremos

discutir as perguntas sobre o ser humano (liberdade e transcendência), e sobre o

mundo: Concepções cosmogónicas. Na terceira encontraremos a relação o ser humano

- Deus, numa perspectiva cristã. Na quarta parte, a religião e ética: diferentes tipos de

ética. E, por fim, a quinta parte trataremos de como consultar e citar as fontes

principais desta cadeira.

A Mundividência (cosmovisão), em si, é o modo de o ser humano entender a pessoa

humana, o Mundo e Deus. E a expressão Mundividência Cristã (cosmovisão cristã) é a

compreensão das realidades, acima, pela Igreja. Seria sobretudo uma tentativa de

responder àquelas questões essenciais, que nascem do fundo do coração humano.

As questões acima englobam variadas formulações como, por exemplo, as que se

seguem: 1- Quem sou eu, enquanto pessoa humana? 3- Donde venho? 4- Para onde

vou? 5- Qual o sentido e o fim da dor? 6- Qual a distinção entre o bem e o mal? 7- O

que devo fazer? (Moral) 8- Qual a origem e a finalidade do sofrimento? 9- Qual o

caminho para chegar a verdadeira felicidade? 10- Que é a morte? 11- Qual o sentido, o

fim da vida? 12- Em que consiste, afinal, o mistério último e inefável que envolve a

nossa existência, do qual a pessoa humana tira a sua origem e para o qual ela se

encaminha? 13-Como o mal perpetua no mundo, se Deus é omnipotente?

Estas e outras questões semelhantes constituem enigmas da condição humana que,

hoje como ontem, preocupam profundamente os corações dos seres humanos. Esta

preocupação esteve também presente nos grandes pensadores, como os filósofos da

Antiguidade, da Idade Média, da Idade Moderna e da Idade Contemporânea, a saber:

Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Descartes, Kant, Hegel,

Marx e Heidegger. Estes pensadores tentaram responder àquelas questões mas,

infelizmente, nenhuma de suas respostas pudera satisfazê-los plenamente. Quer dizer

o ser humano continuou e continua sendo um mistério para si mesmo.

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Esta inquietação mostra que só o ser humano põe e impõe a si mesmo estas questões

porque manifestamente está votado a interrogar-se sobre si mesmo, sobre a natureza

e sobre o que o rodeia.

Vamos, desde já, ver como a Mundividência Cristã, em suas variadas perspectivas, por

exemplo, a tradicional africana, filosófica, islâmica e católica, tentar dar respostas

àquelas questões essenciais e, ao mesmo tempo, enigmáticas.

CAPÍTULO I: QUATRO PERSPECTIVAS (Tradicional Africana, Filosófica, Islâmica Cristã)

I.Perspectiva Tradicional Africana

Com a expressão Perspectiva Tradicional Africana, queremos abordar a visão a

tradicional africana sobre Deus, o ser humano e o Mundo, que é ao mesmo tempo dar

respostas às questões acima mencionadas, que preocupam profundamente o próprio

ser humano. Para esta parte do nosso trabalho, utilizaremos sobretudo o livro de

Altuna, (CULTURA TRADICIONAL BANTO, LUANDA, 1993). Tentaremos debruçar-nos

sobre a pessoa humana e sua constituição.

1.O ser humano

Para a perspectiva tradicional africana, o ser humano em Emakhuwa mutthu- é um

ser com corpo, coração, alma/espírito ou sopro vital, sangue, sombra. Conforme Pe

Raul Altuna, o ser humano é um ser com vida e inteligência, que ama. Por isso, o ser

humano entra em contacto com Deus (relação vertical) e com seus semelhantes

(relação horizontal).

A pessoa humana constitui o valor primordial da criação. Ele é inteligente e imortal. A

sua inteligência torna-o superior a todos os seres criados. Altuna, citando Zahan, diz

que de um extremo ao outro do continente africano, o negro afirma a sua convicção

da superioridade do ser humano em relação a tudo o que existe. O ser humano é a

realidade suprema e irredutível . O autor em citação continua dizendo que como valor

fundamental da criação, as outras realidades estão-lhe sujeitas e disponíveis para o

seu serviço.

O ser humano é o ponto de convergência activo, na criação, responsável mais

qualificado, o qual pode manejar as outras criaturas livremente, mas com

responsabilidade e respeito do Criador, das outras criaturas e de si mesmo, porque

imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 26-27).

O ser humano é força viva, a força suprema, a mais poderosa entre todos os seres

criados, porque ele domina os animais, plantas, minerais, e tem consciência da sua

existência e daquilo que faz. Ele é capaz disto pois é depositário de uma partícula do

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poder divino. Por isso, o ser humano ocupa o centro da pirâmide vital, o que significa

que a toda a criação está orientada para ele.

1.1.A constituição do ser humano

Para a perspectiva tradicional africana, o ser humano é constituído pelo corpo,

coração, sopro vital ou alma espiritual, sangue e sombra.

a) Corpo

Para a população bantu, o corpo, a parte material, é o suporte físico, a exteriorização

da riqueza interior do ser humano e o receptáculo das sensações. O corpo desaparece

após a morte. O corpo vive acompanhado de sombra, que é como que a sua irradiação

para o exterior, de maneira imperceptível para os sentidos. A sombra desaparece com

a morte, como o ser humano.

b)O sangue

Por sangue, entenda-se, aqui, aquele componente fluído do organismo de coloração

vermelha, com funções de oxigenação, nutrição, remoção de metabolismos e

transporte de hormónios para diversos tecidos. Em geral, para a população bantu, no

sangue assenta a vida, a alma espiritual, que sobrevive à morte e é o princípio vital e

de inteligência do ser humano.

c)O coração

Para a população bantu, o coração, enquanto o elemento motor central da circulação

do sangue, possui a função de perceber o sentido vital de tudo quanto existe e

harmoniza-o com a sua própria percepção. Constitui o órgão mais humano e o centro

unitário do ser humano. O coração é o centro vital de todo o sangue. Ele concede a

imagem cabal da qualidade da pessoa humana. Por isso, a ética do ser humano

africano baseia-se profundamente no seu coração. Neste sentido, a pessoa humana é

e vale por aquilo que vale o seu coração, isto é, a pessoa humana nunca é concebida

somente como matéria limitada à vida terrena, mas reconhece-se nela a presença

eficiente do elemento espiritual.

O elemento espiritual faz com que a vida humana esteja sempre posta em relação com

a vida do além. Este elemento espiritual, além de animar e mover o ser humano, é

eterno. Tudo isto é perceptível na vida tradicional africana. A população bantu define o

coração em dois sentidos.

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Sentido Positivo: o coração é o pensamento, memória, sentimento, sensação,

interioridade, sensibilidade, amor, apetite, paixão, pena, atenção, carácter, disposição,

pressentimento, tendência, intenção.

Sentido Negativo: o coração é entendido como melancolia (característica dominante

de qualquer coisa que inspira tristeza), ódio, depressão, intenção e tendência.

A vida afectiva, volitiva, intelectiva, a consciência, a interioridade, amabilidade brota

do coração. Este é a personalidade do ser humano. Ele representa a interioridade da

pessoa humana. Em síntese, coração - murima em macua - é a pessoa humana interior.

É, por esta razão, que se afirma, com frequência, que esta ou aquela pessoa tem ou

não bom coração. Em Emakhuwa: Mutth ola orera murima (esta pessoa tem bom

coração). Ou murim aya ala khuri sana (O coração desta pessoa não é bom); olá

mutthu òtakhala murima (esta pessoa tem coração mau).

Posto isto, fica explicado que o coração encerra toda a riqueza do ser humano. Este

coração diferencia-se do coração físico da pessoa humana.

Ligado a este ponto do coração, Altuna sustenta ainda que o delicado humanismo

bantu: hospitalidade, calor humano, solidariedade, agradecimento e cortesia revela o

refinamento do murima. Assim, o grande desejo, desta população, é possuir um

coração poderoso , magnânimo, sensível, pois ele define e valoriza o ser humano.

Analisar o coração é o mesmo que analisar a totalidade do ser humano, conclui o autor

em citação.

d)Alma espiritual

Entenda-se, aqui, por alma o princípio imaterial de vida. Partindo desta definição,

podemos sublinhar com Altuna que, para a população bantu, o coração é um princípio

essencial do ser humano, origem da inteligência, liberdade e personalidade humanas.

Por outro lado, esta população acredita numa alma, num princípio incorpóreo,

qualidade, essência, que faz do ser humano diferente do animal. Assim, o corpo é

movido pela alma, mediante o sopro vital. Da alma dependem as manifestações vitais,

sensações, sentidos, pensamentos, consciência, a ética.

i)A ética virada para a vida

Segundo o autor que estamos citando, a ética bantu tem origem na sua ontologia (ser)

e religião. A ética bantu é antropocêntrica porque o centro da pirâmide vital, a pessoa

humana, dá significado ético a todas as acções. Altuna considera a essência da moral

bantu como sendo uma moral da sociedade e do comportamento, razão pela qual,

pode ser denominada como uma ética dinâmica. Ele justifica sua afirmação,

apresentando duas razões:

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Primeiro, porque a ética africana define o que um indivíduo faz e não o que é.

Segundo, reciprocamente, um indivíduo é o que é, em virtude do que faz. O ser

humano por natureza nem é bom nem mau. Ele é aquilo que faz. O ser humano é bom

ou mau em função da sua conduta. O maior mal, a acção mais imoral é o atentado

contra a vida humana.

ii)Preceitos

Existe na ética tradicional bantu dois tipos de preceitos: Positivos e negativos.

Preceitos positivos: referem-se a fidelidade matrimonial e à palavra dada,

generosidade, hospitalidade, verdade, justiça, amor maternal, paternal e filial, ajuda

ao necessitado, e protecção ao fraco. Em resumo, o respeito pela vida humana e o

cuidado em preservá-la e rodeá-la dos meios mais eficazes apresenta-se como a

súmula dos preceitos.

Preceitos negativos: trata-se da proibição de homicídio, do roubo, sobretudo no

próprio grupo, de falso testemunho, desprezar os outros, a mentira, a calúnia,

maldição, o dano nos bens alheios, ferir o próximo, a avareza, a inveja, a ira e a

preguiça, a fornicação em certas idades e situações. É, ainda, proibido dizer palavras

obscenas, matar pessoas e fazer qualquer tipo de feitiçaria.

Na sua apreciação crítica, Altuna diz que a ética bantu é omissa e imperfeita porque,

na prática, ela limita-se ao âmbito da comunidade. Não consegue transcender os

limites da parentela e do grupo.

Mas este ser humano vive no Mundo e o próprio mundo o circunda e lhe provoca

inquietações no fundo de seu coração. Tais inquietações necessitam de respostas. Por

isso, o próximo passo será uma tentativa para responder a questão: O que é mundo?

2.O Mundo

Há uma variedade de mundos, com seus respectivos significados. Assim, para

evitarmos qualquer equívoco, iremos usar o termo mundo, neste nosso estudo, no

sentido de Universo, onde o ser humano nasce, vive e morre, como tentativa de dar

resposta à pergunta o que é o Mundo, para a perspectiva tradicional africana?

A concepção africana bantu do mundo e da vida é dinâmica conforme a qual o mundo

está constantemente em nascimento , a criação vai se fazendo sempre e sendo feita

pelo ser humano.

2.1.O Mundo, criação de Deus

Para a população bantu, o Mundo em Emakhuwa: olumwenku - é o Universo que o

circunda, composto por seres vivos e não vivos. Este mundo foi criado por um Espírito,

maior de todos, chamado Deus. Esses seres vivos: pessoas humanas (vivas e mortas

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viventes), animais e plantas; seres não vivos (pedras e minerais) têm em si uma força

vital, entre si se comunicam e, assim, resulta o equilíbrio do Universo.

Uma desordem moral ou ecológica provoca um desequilíbrio do mundo. Deste

desequilíbrio emergem consequências para a vida prática. Nestas situações, há que se

procurar curas, uma re-ligação, um reordenamento na interação e inter-relação dos

seres com a sua força vital. Para o efeito, são feitas as devidas cerimónias

propiciatórias. Tudo isto acontece porque, segundo Placides Tempels citado por Altuna

(CULTURA TRADICIONAL BANTO, 1993: 47) o mundo das coisas é como uma teia de

aranha na qual não é possível fazer vibrar um só fio sem destruir toda a malha. Neste

mundo, os seres sucedem-se incessantemente num ritmo de nascimento, morte, vida

e inter-acção. Mas na série destes seres, sobressai o centro da pirâmide, o ser

humano.

2.2. O ser humano, centro da pirâmide da criação.

O mundo visível está integrado por forças pessoais e impessoais. A força pessoal é o

ser humano, centro da pirâmide, por ser o único existente activo, inteligente, sensível

amante e capaz de aumentar a sua vida e de dominar as forças inferiores.

Para a população bantu, segundo Altuna, existem dois mundos: visível e invisível.

Mundo visível: este é composto por chefes de reinos, tribos, clã, família, especialistas

da magia, anciãos, a comunidade, a pessoa humana, animais, vegetais, fenómenos

naturais e astros.

Mundo invisível: este é também formado por Deus, Fonte da vida; fundador do

primeiro clã humano, fundadores de grupos primitivos, heróis civilizadores; espíritos

(génios); antepassados qualificados: chefes, caçadores, guerreiros, especialistas da

magia; antepassados da Comunidade.

Estes dois mundos não estão independentes, porque Deus marcou para todos os seres

a lei da inter-acção e interdependência do dinamismo vital, resultante da lei de

participação. Entre os seres existe uma misteriosa inter-acção de vida, que os sustenta.

Por consequência, no universo nada se move sem influir com seu movimento em

outros seres; nenhum ser criado existe independente dos demais; vive receptivo e

exposto a um aumento ou diminuição da sua vida. Só Deus não pode ser influenciado.

E é este Deus que vai ser objecto de discussão no número a seguir.

3.Deus, o Ser Supremo

A população bantu é religiosa, monoteísta radical, isto é, acredita num só Deus, o Ser

Supremo, o Criador de tudo quanto existe, visível e invisível.

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Para uma compreensão, podemos tomar um povo concreto, como exemplo, dentro

desta grande família bantu, para nosso estudo, do qual teremos a visão global de Deus.

Este povo se chama amakhuwa. Posto isto, pode-se perguntar: o que é Deus, para

amakhuwa? Como tentativa de responder a esta questão, usaremos sobretudo o livro

de Francisco M. Lerma (O POVO MACUA E A SUA CULTUR. Ministério da educação, IICT,

Lisboa, 1989.). E para clarificar o nosso estudo, falaremos de etimologia de Deus, de

Deus Criador, de sua existência, de seu culto e oração. Para isso, tomaremos, como

exemplo, o termo MULUKU, Deus em português.

3.1.Etimologia

Muluku é o nome de Deus, em Emakhuwa. Mas para efeitos de melhor compreensão,

é importante mostrar a etimologia da palavra Muluku. Assim:

MU: que está dentro, significa constância, força poderosa, interioridade.

LU: partícula com sentido de essência, particularidade, isto é, qualidade intrínseca.

KU: partícula derivada da palavra wuka, que significa reunir.

Unidas estas três partículas, componentes da palavra MULUKU, notamos que ela

indica aquela realidade onde o importante tem sua consistência (firmeza). Significa o

centro, a origem e unificador de tudo quanto existe.

Portanto, como se nota, Deus, para a população macua, é aquele que mantém o

mundo unido; é ele a união do mundo, o centro do universo, que conserva a ordem e o

dinamismo de todo o Cosmos. Se Ele é a origem do mundo, então é o seu criador.

3.2.Deus Criador (Muluku Mpattuxa )

A palavra Muluku ocorre com muita facilidade na conversa normal deste povo,

mediante exclamações comuns, provérbios, enigmas e contos. Nas orações principais

de sacrifícios tradicionais macuas, antes de se nomear os antepassados, invoca-se,

sempre Deus, com esta expressão ou outras semelhantes: Xontte Muluku (Por favor,

Deus ).

Muluku Mpattuxa (Deus Criador ).

Na cultura tradicional macua não há escola formal, onde se possa aprender noções

relativas a Deus. A escola é a própria consciência tradicional, que foi ditando ao ser

humano que Deus é o seu Criador. A escola é a própria vida, a escola é a própria

tradição cultural macua e africana, na qual o Ser Supremo faz sentir sua presença. O

enigma da própria vida e da existência ensinou e continua ensinando ao ser humano

que ele não pode ser origem de si mesmo. E a partir disto concluiu que existe um Ser

Supremo, do qual tira sua origem e a de outras criaturas.

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Assim para a população bantu, Deus é o Criador, o inicio da vida, a origem de todo o

processo vital. Sem Muluku, nada teria origem. Ele não só é a origem de tudo quanto

existe, mas também a garantia de continuidade da vida, de tudo quanto existe, visível

e invisível.

Esta verdade, Deus Criador, se encontra igualmente nos outros povos africanos. Por

isso, Paulo VI, em sua Carta Apostólica, Africae Terrarum, nr. 8, afirma que a ideia de

Deus, como causa primeira e última de todas as coisas, é o elemento comum

importantíssimo na vida da cultura tradicional africana.

Em resumo, o sentimento da existência e da presença de Deus, como ser pessoal e

misterioso, penetra toda a existência da pessoa humana africana, em geral, e a da

população macua, em particular.

3.3.Culto a Deus

Na visão de Altuna, a população bantu não rende a Deus um culto oficial, público e

institucionalizado. Na religião tradicional africana não há templos, altares, oferendas e

sacrifícios públicos, festas, sacerdócio; nem precisa de lugares, momentos fixos ou

tempos dedicados ao culto e adoração a Deus. Volta para Ele e adora - O sempre que

sente necessidade disso. Não é necessária liturgia oficial ou ritos prescritos pois, na

religião tradicional africana, cada pessoa humana pode ser, simultaneamente, fiel e

sacerdote do culto privado. Esta situação levanta uma pergunta: por que esta ausência

de culto oficial e público?

Para Altuna, há esta ausência porque a população bantu entende Deus como sendo

Imenso, Omnipotente, que enche tudo, e por isso está próximo do ser humano em

qualquer lugar e tempo. Assim, confinar a adoração a lugares e momentos, seria pô -

Lo em dúvida e limitá Lo.

3.3.1.Oração

Ainda conforme o autor em citação, Altuna, os bantu rezam porque têm consciência da

sua situação na pirâmide vital. A sua fé é uma opção pela vida. O facto de se sentir

submerso numa incessante acção vital com repercussões na vida privada e social, o

bantu deve agradecer, suplicar, reparar e atender às potências pessoais criadas e à

Potência incriada. Por isso, ele reza por e para a vida, valor supremo e fim último da

pessoa humana. Para a população bantu, segundo Altuna, a oração recria a harmonia

desejada, pois previne o perigo, consolida a vida, corrige a desordem, repara a ofensa

e intercede pelas necessidades.

Todos os lugares e qualquer tempo podem servir para oração, lugares de cultos e

momentos de fé activa. Nesta perspectiva, a oração aparece como o elemento

principal pelo qual a pessoa humana bantu crente comunica com o seu Deus.

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Mediante a oração, a população bantu percebe que é possível haver um diálogo entre

dois seres: o divino e o humano. Mas como é entendida a existência de Deus, entre a

população bantu?

3.4. Concepção bantu sobre a existência de Deus

Para a população bantu, o modo da existência de Deus é como o das pessoas

importantes da comunidade, que vivem próximas e afastadas, ao mesmo tempo.

Proximidade: As pessoas importantes vivem aparentemente afastadas da vida normal

das outras pessoas da comunidade. E, devido a essa importância, elas devem ser

deixadas tranquilas; devem ser respeitadas por causa do estatuto que ocupam. Porém,

apesar disso, elas têm conhecimento de tudo quanto se passa na comunidade, na

sociedade. Este conhecimento dos acontecimentos importantes faz com que elas

sejam próximas das pessoas da sua comunidade, da sua sociedade.

Nesta perspectiva, embora Deus pareça viver afastado da vida e da vivencia das

pessoas humanas tal como fazem as pessoas mais importantes da comunidade, ele

está próximo das pessoas e tem em mente tudo o que se passa com suas criaturas.

Afastamento: O alegado afastamento ou distanciamento de Deus é um modo de dar

relevo à sua transcendência, e não tem nada a ver com a aludida ociosidade , sua

absoluta separação da vida e interesses das pessoas humanas. E só assim fala ou

pensa, quem não conhece ou não entrou no coração da religiosidade deste povo.

Portanto, a consciência da proximidade, da presença de Deus na vida da população

bantu, é manifestada, por exemplo, entre os amakhuwa, mediante estas expressões

ou outras idênticas:

y Muluku erimu, onnikhunela elapo yothene. (Deus é como o céu, cobre toda a

terra).

y Muluku khanaliyala an awe. (Deus não se esquece de seus filhos e filhas).

As expressões, acima, mostram que Deus está presente na vida das pessoas humanas,

como causa primeira e última da sua existência, garantia da sua força ou união vital

entre os membros da comunidade, visível e invisível. Aquelas expressões mostram

ainda que a população bantu, em geral, e a macua, em particular, experimenta na sua

vida a necessidade absoluta de uma força super humana, que dê à própria vida e à

sociedade garantias de sua subsistência. Mas este Deus é uno e único. Por isso, falando

da existência de Deus entre a população bantu, Pe Altuna sustenta ser o monoteísmo

bantu uma realidade inquestionável e o mais iminente valor da Religião Tradicional

Africana (R.T.A.). Assim, a existência de Deus é tão certa, continua o autor acima, para

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a população bantu, que a pode levar à revelação primitiva, a confirmação da história

universal.

Chegados aqui, pensamos ter tentado dar resposta àquelas três questões, inicialmente

colocadas. Você, como nyungwe, sena, nyanja, ronga e outros grupos, que formam o

mosaico cultural moçambicano, agora pode também tentar responder àquelas três

questões essenciais, a partir da visão cultural do povo a que pertence. A sua reflexão é

bem - vinda, porque vai enriquecer-nos. Mas, desde já, lhe convidamos, para juntos

passarmos à perspectiva filosófica.

II.PERSPECTIVA FILOSÓFICA

Iremos tratar nesta perspectiva filosófica o que a Filosofia, enquanto Ciência humana,

afirma sobre a pessoa humana, o mundo e Deus. Iremos ainda com a mesma

expressão tentar dar resposta filosófica, embora não cabal, àquelas três questões

essenciais e enigmáticas.

Nesta perspectiva, vamos usar os termos ser humano, pessoa humana como

sinónimos. Teremos a oportunidade de discutir aquilo que faz de nós pessoas humanas

ou seja o que é que nos distingue, filosoficamente, dos outros seres que não são

pessoas humanas?

1.O ser humano

Com a pergunta acima, pretendemos saber o que é a humanidade do próprio ser

humano. Neste sentido, a pessoa humana aparece como sujeito e objecto da pesquisa

científico - filosófica. É o ser humano estudando o ser humano; o ser humano

estudando a si próprio. Esta capacidade de se fazer sujeito e objecto de estudo faz com

que o ser humano seja essencialmente diferente do animal irracional, porque só ele

faz questionamentos e se questiona a si mesmo.

Partindo disto, se denota que a noção de pessoa é a expressão do mais elevado

conceito que o ser humano tem de si próprio e nela se conjugam algumas notas

constitutivas (In Do Vivido ao Pensado Introdução à Filosofia 10ª. Ano; Porto Editora;

1995).

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