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Escola caviar

Henrique Raposo (www.expresso.pt)


0:00 Sexta feira, 24 de Setembro de 2010
Acompanhar a atual ministra da Educação é o mesmo que entrar numa montanha
russa emocional. Isabel Alçada consegue provocar risadas intermináveis e iras
homéricas. Esta terça-feira, por exemplo, foi mesmo o 'carrossel Alçada'. Ao
almoço, engasguei-me a rir enquanto ouvia a nossa ministra numa cerimónia
engomadinha: o tom afetado que Isabel Alçada colocava na palavra "carráiras" era
delirante. Entre as gargalhadas, comecei a pensar em algumas perguntas
ululantes: então ninguém faz uma rábula com esta ministra? Ou será que o tom
afetado só tem graça quando o alvo da paródia é uma filha de um capitalista
anafado, uma beata católica ou uma simples senhora da 'direita social'? Se Alçada
fosse uma ministra do CDS, já teríamos por aí um pagode com as "carráiras"?
Ao jantar, a risada deu lugar ao ranger de dentes. Uma amiga mostrou-me um
vídeo onde podemos ver a dr.ª Alçada a revelar um enjoativo paternalismo em
relação aos alunos do ensino público e, pior, em relação aos pais e professores. Se
colocassem um crucifixo atrás da ministra, aquele vídeo seria um peça vintage do
Estado Novo. Enquanto consumia a minha neura, comecei a imaginar outro vídeo.
Nesse vídeo redentor, alguém tinha a coragem de perguntar o seguinte à senhora
ministra: caríssima, onde é que colocou os seus filhos e/ou netos a estudar? Na
escola pública que tanto defende ou no Liceu Francês? E, depois, esta pergunta
seria estendida ao primeiro-ministro: V. Exa. tem os seus filhos na idílica escola
pública ou num pérfido colégio privado?
Meus amigos, o problema, obviamente, não está na colocação das crianças e dos
adolescentes nos liceus franceses desta vida. O problema está, isso sim, na
hipocrisia da esquerda caviar. De manhã, os nossos progressistas metem os seus
filhotes no colégio privado (ou naqueles liceus públicos que, misteriosamente, estão
sempre nas mãos da "gente de bem"), e, depois, à tarde, defendem a escola
pública e cantam loas ao eduquês. Pior: estes progressistas-de-limusina atacam
aqueles que querem dar aos mais pobres a possibilidade de colocaram os seus
filhos nos colégios privados (ou naqueles liceus públicos que, não sei porquê, são
sempre monopolizados pelos bem-nascidos). Na retórica, esta esquerda continua a
defender o ensino ultracentralizado e dominado pelo facilitismo, mas, na prática,
reconhece as virtudes de um ensino descentralizado e sem contacto com o
ministério do eduquês. No seu dia-a-dia doméstico, a esquerda caviar coloca os
seus filhos nos colégios onde o rigor do 'antigamente' ainda existe, mas, no seu
dia-a-dia político, utiliza a escola pública para extirpar o 'antigamente' dos hábitos
dos mais pobres. Ou seja, as crias progressistas são educadas à moda antiga, mas
os filhos do povão são ensinados de forma progressista. Bravo. Os resultados desta
hipocrisia estão aí: Portugal é uma sociedade estática, aristocrática, sem
mobilidade social. Por outras palavras, a esquerda caviar esticou a sociedade
salazarista até ao interior desta sociedade - nominalmente - democrática.
Meus amigos, esta esquerda é a principal inimiga dos filhos dos mais pobres.
Dezenas de amigos meus 'perderam-se', porque a escola das doutoras Alçadas lhes
destruiu o futuro logo à nascença. Mas, claro, não se pode falar disto. Porque o
burro sou eu. Porque o 'fascista' sou eu. Porque o 'neoliberal' sou eu.
henrique.raposo79

Texto publicado na edição do Expresso de 18 de Setembro de 2010