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Escritor, formou-se em “Comunicacéo Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeifo e graduou-se amestre pela Universidade de Brasil wraduacao em taformatica. Foi . Tem pés- professor na Faculdade ‘ologica Batista de Brasilia e presidente do iretério regional da Sociedade biblica do Brasil. & consultor legislativo no senado ‘Federal, presbiterona ‘greja Presbiteriana do ‘Pianalto e presidente Miso Social evangélica — Comunicarte. A ETICA QUE BROTA DO AMOR Rubem Amorese 7 Bawa nos preocuparmos com o crescimento de nossos filhos. Em particular, com sua maturidade espiritual e ética. Aqueles que nao tém filhos, oram pelos jovens da igreja. Ou ent&o pelos novatos, cha- mados “neéfitos”. A propésito, hoje em dia ha mui- tos filhos orando, da mesma forma, por seus pais, € dizendo: “O, Senhor, quando € que meu pai [ou ‘mi- tha mée’] vai tomar juizo?” Faz sentido. Com a faci- véem, lidade no processo de separagées, pais e mae: de uma hora para outra, livres, leves e soltos no mun- do, prontos para uma nova experiéncia: a de um tipo de liberdade que nao existia em sua juventude. A par- tir dai, passam a se comportar como adolescentes. Assim, sinto-me tentado a propor que os trate- mos todos por “filhos”. Afinal, tenham vinte ou cin- qiienta anos de idade, sua caminhada para a maturi- dade obedece aos mesmos principios. Também faria refletir sobre a esta proposta porque nos intere: relacao filho-pai de ums forma que abranja todas as idades. As inquietagdes dos pais sao sempre as mesma: quando poderei largar meu filo no mundo e descan- sar, sabendo que ele esté preparado para tomar as 131 A ESPIRITUALIDADE E A ETICA CRISTA proprias decisdes? Quando saberei que sua formagio moral est4 completa € que ele, além de ser eapaz de discernir o certo do errado, j4 tem a estruturs psicolgica, espiritual ¢ ética que Lhe permite escolher o certo e renunciar as tentagdes do engano? Essas perguntas angustiantes surgem quando os filhos comecam a ter os: proprios programas, as proprias amizades ¢ ja nao querem ser tutelados. E hora de tomar as préprias decis6es, muitas das quais Ihes podem trazer conseqiiéncias para o resto da vida. Estardo prontos para isso? Nesse momento, nosso pensamento se interioriza, e nos perguntamos: estamos nés, seus pais, prontos para tomar as decisées que esperamos de Jes? Ou estamos jogando sobre seus ombros um fardo que nés mesmos n& podemos carregar? E quando comecamos a puxar pela meméria para le brar quando foi que nos vimos maduros para enfrentar a vida sozinhos. Neste momento descobrimos, muitas vez aterrorizados, que nao sal mos responder com seguranca a essas questoes. Nesse'caso, talvez. as ref Koes deste texto possam nos ser titeis. Basta assumirmos 0 papel de fill sabendo que sempre teremos um Pai desejoso de nos ver espiritualmen amadurecidos. Na pratica, as insegurangas dos pais s o tantas que néo querem que filhos decidam nada sozinhos. Sub a desculpa de nao ser pais ausent invadem a vida deles para participar, ajudar, tutelar, vigiar, aconselhar, mandar. Entao, percebemos que esses verbos todos apontam para um de medo: 0 de que os filhos crescam apenas no corpo € no intelecto, que se tornem espiritual e eticamente raquiticos. FREIOS DO CORACAO Pretensao das pretens6es seria tentar equacionar definitivamente essas qué tes ¢ fornecer uma receita ou f6rmula que resolvesse o problema. M talvez seja possivel contribuir fazendo o mapeamento das nascentes da &% ca crista. De onde ela vem? Como nascem os freios do corag’o? De ot vem a sabedoria que leva um jovem a nao colar na prova, nao experiment 0 baseado, nao ir para a cama com a namorada — coisas que quase todos seus colegas fazem? De onde vem a forca para dizer “nao” num mundo “sim, eu mereco”? 12 A ETICA QUE BROTA DO AMOR ‘Vamos as Escrituras, e la encontramos uma familia composta por um pai s filhos. Uma profunda parabola de Jesus, versando sobre relaciona- tos, matéria-prima de todo seu ensino. Talvez 14 encontremos 0 mate- rio para trazer luz ao tema. Os pots iRMAOS =xame do comportamento dos dois filhos da parabola do filho prédigo, se mostraram diferentes sada por Jesus em Lucas 15, nos revela que forma de agir, mas tinham muito em comum em suas matrizes compor- motivagdes. Chegamos a convicedo de que Jesus nos senta dois filhos prédigos: 0 que saiu de casa ¢ 0 que ficou. Nos dois ss, percebe-se uma profunda e dolorida ruptura com o pai, cujas causas ntais, em Suz sio apresentadas na parabola — talvez compreensiveis apenas ao fico original de Jesus —, a motivar atitudes bastante distintas. No contexto, Jesus dé uma resposta triplice a seus detratores (fariseus € sbas), que o censuram por receber pecadores e comer com eles. Defen- ma atitude inesperada para seus interlocutores ao bater trés vezes na da alegria da restauragao por meio das parabolas da ovelha, da dracma e Venha filhos perdidos. Nos trés casos, a moral da historia é a mesm: slegrar comigo, porque achei o que estava perdido.” Tal debate de idéias se inicia em torno do que € certo e errado no com- mento do Filho de Deus. Os fariseus nao podiam admitir que Jesus sse com pecadores, pois, para eles, sentar-se A mesa com aquele tipo gente apontava para o grande banquete messidnico de Isafas, para qual impuros nao seriam convidados. A seus olhos, partilhar_ a mesa com las pessoas impuras também tornava Jesus impuro. ‘O Mestre reage ¢ apresenta outro Angulo da questao: o sacrificio miseri- oso de quem deseja salvar. E vai além; associa os insensfveis fariseus Alho mais velho, aquele que esconde as magoas ¢ fica em casa. Possivel- te Lio problematico quanto o mais mogo. No entanto, muito mais difi- de restaurar, pois mantém sua ira sob a superficie de aparente obediéncia a condenar 0 compor- 133 A ESPIRITUALIDADE E A ETICA CRISTA Essa parabola, envolvida em seu contexto, como tantas outras traz a luz um debate sobre 0 comportamento esperado para determinada situagao; @ “errado” é 0 comportamento nao aprovado, nao sancionado socialmente. Trata-se, portanto, de uma discussao sobre ética. Estaria Jesus sendo ético ao comer com a esc6ria de sua sociedade? Jesus se defende, contando a parabola e apresentando outra questo: estaria 0 irmao mais velho adotan- do um comportamento ético? Parece que 0 tinico ponto pacifico de toda essa disputa foi a avaliagao negativa do filho que abandonou o paie foi viver dissolutamente. E a paré- bola-resposta se torna mais agressiva ainda quando se nota que este filho € 0 tinico personagem que recebe uma festa em sua homenagem. Uma festa oferecida pelo Pai. Para enriquecer 0 tema, Jesus mostra que sentimentos e experiéncias muito semelhantes produziram comportamentos tao diferentes entre os dois: filhos daquele senhor. Queriam os fariseus que fossem avaliados apenas os comportamentos, endo as motivagoes. A esta altura, Jesus reage, mostran- doque.. , eles procuravam justificar sua insensibilidade De fato, Jesus nao perdia oportunidades de apresentar seu Pai como & com is: Deus dos motivos, das dos coragées, Basta lembrar os momentos em que falava: “Ouvistes 0 que foi dito; eu, porém, vos digo.” Em cada: eus ético, para quem o compo 0 importante quanto a fonte dessas Aguas.” Em alguns momentos, 0 coragao sera mais importante que as proprias exemple, ele queria dizer: “Meu Pai é um tamento correto é acées, Eo que se aprende com o personagem principal da parabola: o irmae. mais velho. Sim, este filho, e ndo o moco voluntarioso e desastrado. O que’ fica em casa, um vulcdo adormecido, um bolo queimado coberto de glacé este é a figura do fariseu que murmurava. Jesus traz para a discussio sobre: ética fil Los elementos subjetivos que hao de causar profundas dificuld des aos legalistas fariseus. ETICA E ETHOS Talvez se} Obvio assinalar que toda essa discussao sobre comportament s6 tem sentido porque estamos em sociedade. Nao tivessem os filhos pi 134 A ETICA QUE BROTA DO AMOR sum pai € um irm4o, nao fossem uma familia, a discussao perderia seu ido. Talvez pudéssemos, com muito interesse cientifico, estudar o com- mento de uma pessoa abandonada em uma ilha deserta. Por exemplo, poderia levar para aquela situacao condicionantes do passado que a assem mais ou menos capaz de sobreviver. Poderfamos até exami- suas atitudes mentais, como perseveranga, disciplina, autocontrole, entagao espacial e tantas outras habilidades que a tornassem mais ou os capaz de enfrentar os desafios de uma situacéo tao extrema. No nto, no estariamos falando de ética. E possivel imaginar que certos comportamentos € atos desse néufrago gindrio pudessem ser clasificados como certos ou errados. Comporta- tos errados poderiam Ihe valer a morte em uma situagao radical, que im, nao estarfamos falando de ética. 0 perdoa erros. Mas, ainda ivo € simples: a ética pressupée relacionamento com outras pessoas. b ito a uma arte, uma habilidade: a capacidade de vi mt onetras Por serem livres, as pessoas comportam-se de forma voluntaria e nao amada, diferentemente dos animais, fazendo escolhas todo tempo. causa de uma grande deficiéncia instintiva, se comparados com os ani- sirracionais, seu comportamento é quase todo aprendido. Chama-se a0 cesso de habilitac&o para a vida entre os humanos “socializacéo”. Com tempo, 0 aprendizado por meio de repetigdes produz os hAbitos adequa- 4 sobrevivéncia, manutengio e, em particular, ao convivio social. Es ma sociedade julgara o comportamento do individuo, determinando se s habitos s4o bons ou maus. Ele aprender a duras penas sobre o que € ito ou rejeitado. 7 Por esse mecanismo, a sociedade inculca nas pessoas um conjunto de tumes de bem-viver, de natureza nao formal (entre os “costumes for- is”, citarfamos as leis e os contratos). Costumes, em latim, € mores. De eres vem moralis (moral). Moralis 6 a palavra que Cicero usou para tradu- a palavra grega éthicds. Etica e moral sio gémeas. A ética se preocupa m 0 aspecto moral do ato humano e de toda a atividade humana: o bem omal, o honesto e 0 desonesto, 0 justo e 0 injusto, o virtuoso e 0 vicioso, 135 A ESPIRITUALIDADE E A ETICA CRISTA As escolhas que as pessoas fazem diante das situacées sociais da » redundardo ou nao em um bem-viver. Esse bem-viver refere-se, em pai lar, ao trato com as pessoas, pois € nessa dimensao relacional que a v alguém pode se transformar em céu ou inferno. As escolhas, que se re tem nos atos, tém como ingredientes importantes a liberdade, 0 conl mento e a responsabilidade. Sem liberdade de escolha nao se pode falar ética. A origem da palavra “ética”, no entanto, tem mais uma variagao. deriva de dois termos gregos de significados e prontincias muito semell tes. Ethos significa habito ou costume — como j4 vimos, apontando, malmente, para o comportamento exterior. Ethos, por outro lado, signifi © lugar ou patria onde habitualmente se vivia. Pode ser entendida, n acep 0, como o carater habitual de ser ou a forma de pensar de uma soa, Assim, 0 ético poderia traduzir-se por modo ou forma de vida, no tido mais profundo da palavra, compreendendo as disposigdes da pessoa vida: seu cardter, suas atitudes, seus costumes e a moral Portanto, ainda que a ética se concentre, na primeira definicéo da vra, na observacdo dos atos humanos exteriores, na segunda definigéo, diz respeito a como compreender e organizar a conduta, tanto na vida vada quanto na publica. Neste nivel de profundidade, j4 estamos fal de alma e de coracéo. Usando uma linguagem moderna, dirfamos que, ao apresentar suas nplista_¢ suj ava aos atos exteriores, abordas 1a. Nao importam_os motiyos, importa o.coracao, nao importam as circunstancias; importa, sim, s rébolas, Jesus estava “problematizando” a abordagem sin cial da ética farisaica: aquela q esta conveniente a uma cultu nao fez, se_agiu certo ou errado. Q que nao se enquadra nesses mol diziam, éimpureza. REFERENCIAIS ETICOS A partir deste ponto, uma diivida comeca a incomodar: jue tais c orta os morais, por mais livres, informados, resj veis ¢ aprovados que sejam, soos melhores? Apenas porque nossa 136 A ETICA QUE BROTA DO AMOR 0s aprova? Apenas porque os escribas e fariseus os ensinam? E se essa jade, eventualmente, nos propuser comportamentos que nao percebe fonte de mal-viver? Quem julgaré a validade ou a propriedade dos mes que ela nos apresenta? E quando a escolha ética recair sobre um dilema hierarquico de valores? exemplo, que dizer da pritica de aborto para criangas sem cérebro e que -agam a vida da mae? Uns dizem que a vida da crianga est acima dessa ses: outros, que nao ha vida possivel para essa crianga. e que ha o ser moral de salvar a mae, intervindo antes que seja tarde. E agora? Onde 4a regra clara? Que dizer dos costumes sociais ensinados pelas parabolas modernas, as Jas, a respeito do amor livre e da pritica sexual sem restrigdes? Que das campanhas governamentais de apoio e reconhecimento dos “di- 20s dos homossexuais” — campanhas que nao somente protegem direitos civis, como também transformam seu comportamento pdblico modos aprovados e normais de ser e viver? Que dizer, ainda, do uso de verbas puiblicas (dinheiro de todos os cida- para distribuir milhées de camisinhas em festas populares como car- iis, micaretas, bailes funk e outras festas populares? Nao est4 o Governo, representar 0 “pensamento da sociedade”, legitimando a promiscuidade I? Sera ético.“ficar” com cinco pessoas em uma mesma festa? E ser for inado entre cinco casais considerados “liberados” que farao a troca de Sages “numa boa”, ¢ todos aceitarem tal conduta? Neste caso, seria anti- ? Imoral? Que fazer com essas suigestes de comportamento aprova- difundidas através de todos os meios de comunicagao? Simplesmente -los por considera-los éticos, modernos? A resposta para todo esse questionamento é: precisamos julgar os costu- aprovados, como fa: to pode advir de fontes Este julga- internas ou externas a essa mesma sociedade. mnamente, surgem os criticos, os transviados e os intelectuais, revoltan- se e denunciando as falhas. Um fenémeno emblemitico foi a grande centracéo de Woodstock, nos Estados Unidos, em 1969, onde a ju- tude “paz e amor” denunciava, com seu slogan “faca amor, nao faga ra”, a hipocrisia da sociedade americana do pés-guerra. Com seu com: 137 A ESPIRITUALIDADE E A ETICA CRISTA portamento escandaloso, permeado de sexo e drogas, os hippies contest vam 0 sistema moral de seus pais. Denunciavam sua ética podre nos nese cios, na vida social, na vida em familia e no Governo. O tempo mostrou, no entanto, que esses jovens nao eram tao diferentes dos pais. A revolugao sexual seguiu seu curso, com a invencao da piluls anticoncepcional e de outros meios contraceptivos. As mulheres assumiram novo papel na sociedade. Uma nova onda de liberdade dos costumes su= giu. Mas é ai que cabe a pergunta: hoje avangos ou retrocessos? Percebemos que a vive melhor? Como avaliar os fontes internas nem sempre sao suficientes. Surge a necessidade de padrées externos, menos manipula yeis.Referenciais e Para nos ajudar com esse angulo de visdo, temos a filosofia ¢ a religiao. fontes mais ou menos perenes, que nao mudam com as diferencas culturais. com os modismos sociais ou com interesses politicos. Ao principios que se Itado, & aplicam a qualquer relacionamento humano e oferecem, como res felicidade, o bem-viver. Vale salientar, inclusive, que essas fontes nao prec sam ser complicadas nem académicas. Podem ser, também, populares Um exemplo de sabedoria popular do bem-viver sao os provérbios, Eles encerram grande do se de religiao e percepeao filoséfica. Quando ouvimes nossos pais dizerem que “o tolo come o que gosta, mas 0 sébio come o que precisa”, aprendemos sobre sabedoria popular. Muitos desses provérbios trazem contetido ético. Por exemplo, quando o ditado popular afirma que “falar € ouro, calar € prata”, est nos ensinando sobre relacionamento, so bre bem-viver. Outros, ainda, encerram ética concentrada: “Mais vale 0 cre dito na praca do que o dinheiro na carteira”; ou: “A verdade amarga cura; mentira doce mata.” Interessa-nos, entretanto, olhar para a religiao crista como grande referencial ético, manancial de principios pelos quais julgaremos o ensina- mento rabinico de nosso tempo e escolheremos, com seguranga, o caminhe para o bem-viver. AS RAZOES PARA A ETICA Quando pensamos na parabola dos filhos prédigos, com a qual Jesus de fendeu a ética que sustentava seu comportamento messianico, ficamos 138 A ETICA QUE BROTA DO AMOR erigados com o comportamento tao diferente dos irmaos. No entanto, percebemos que eles agiram a partir de uma matriz comum, revelando rela- ges adoccidas com o pai Surge, neste momento, uma questo: 0 desejo de liberdade do irmao mais moco nao estaria, de alguma forma, relacionado 4 obediéncia servil do mais velho? Afinal, trata-se de situagdo de ruptura que veio tona de for- mas bem diferentes, mas resultantes de um mesmo problema relacional chamado “pecado”. No siléncio solitario de sua vida, no adaecimenta das relagGes, havia dois irmaos ressentidos com o pai e entre si. Um deles, de personalidade mais expansiva e voluntariosa, abre a ferida e vai-se embora. Foi chamado pela cristandade “filho prédigo”, ou o filho gastador, perdulé- io. O outro, talvez menos corajoso, prefere ficar. Jesus, porém, tem 0 cui- dado de mostrar que ele nao é melhor que seu irmao. Ao saber da festa que é oferecida aquele que, derrotado, volta para casa, recusa-se a participar, censurando publicamente 0 comportamento misericordioso do pai Por ser o filho “bom”, na avaliacdo externa da ética farisaica, nao nos perguntamos as causas de seus problemas com o pai. Nem sequer nos da- mos conta de que o filho mais velho nutria ressentimentos ¢ amarguras, até que ele mesmo o revela na magistral construgio de Jesus. Sempre foi obe- siente, mas tinha problemas para gozar das liberdades de um filho; jamais =atara um novilho para comer com seus amigos, disse, carregado de amar- ura rancor. Imaginava, talvez invejosamente, os prazeres com que seu Smio dissipava os bens que sustentariam a velhice do Pai. Quaisquer que fossem os motivos da obediéncia do filho mais velho, seu comportamento seria aprovado pelos fariseus. Jesus sabia disso, Pode- 2 ser uma obediéncia covarde, de quem desejava, no secretq do coracao, ‘zer 0 que 0 mais mogo estava fazendo, mas sem coragem. Seu comporta- mento aprovado poderia estar calcado no medo de ser censurado pelo pai; so medo de errar; no medo de ser pego em falta; no medo da vergonha de ser desmascarado ao se omportar coerenlemente com sua inveja, com sua magoa. Omedo caracteriza uma da‘ mais arraigadas e profundas razées da ética. orna as pessoas melhores, mais aptas para o bem- 139 A ESPIRITUALIDADE £ A ETICA CRISTA viver. Na verdade, suas dificuldades e pecados estao 14 dentro, produzindo necessidades e desejos destrutivos. O comportamento ético, nésses casos € como 0 verniz sobre a madeira de cupim. PODER OU AMOR © medo é um dos subprodutos do poder. Os dois pélos entre os quais a shoo poder € 0 amor, Os dois se apresentam como fontes do comportamento dito “correto”. Pelo poder, cilam as z6es (os motivos) d podemos domesticar os filhos ou os subordinados. Tendo 0 poder de punir, a sociedade direciona 0 comportamento de seus cidadios, reprimindo 0 que entenda ser anti-social, anti-ético. Da mesma forma, eventualmente premia comportamentos considerados “aprovados”. E assim que aprende= mos, em nossos lares, na escola ¢ na vida, a agir de forma a evitar as puni- Oes ou a merecer recompensas. C —edeva —privilegiar os incentivos ao comportamento “aprovado” tica, a principal ferra- Aa pI menta desse exercicio de poder € o medo. Vale notar, no entanto, que o uso do poder nao garante mudangas nas razées da ética. Nao muda 0 coracao, mas somente 0 comportamento exte- rior, Para o fariscu, scria 0 suficiente. Talvez seja assim para muitos de nés, pais ou pastores preocupados com o desenvolvimento ético de nossos fi- Ihos. No entanto, essa abordagem tem tudo para criar uma geracao de filhos prédigos. Gente que, assim que se torna dona do préprio nariz, cai no mun- do. Ou entio, faz pior: fica, mas seu coragio é um vulcdo em atividade. S6 aparece a fumaca, e nunca se sabe quando entrar4 em erupgao para destruir tudo que o cerca. Qcorre que a étic vida em que 0 import que provém do poder gera um tipo de construgao de inte é ndo ser flagrado, nio s -punido. O medo que gera 0 ato virtuoso é 0 da punic&o (que pode variar da censura verbal & pena de morte). Portanto, conseguindo evitar 0 “efeito das causas” (a manifesta- G40 exterior de um coragdo egocéntrico), O resultado dessa postura varia muito. E tao variado quanto comum. O mentiroso se justifica mais que 0 normal. O ladrao doa dinheiro para cre- ches e fundos beneficentes para ser aplaudido por seu desapego. O invejoso 140 A ETICA QUE BROTA DO AMOR elogia exageradamente seus competidores, parecendo gostar deles. O violento brinca com criangas ou animais, de modo a nao transparecer sua personalidade letal. O covarde conta hist6rias pitorescas de riscos e peri- g0s, nas quais surge, modestamente, como personagem principal. O fraco vive colocando a culpa nos outros por seus erros ou falhas. E assim por diante. Qutra forma comum de abordar o problema do “efeito das _causas” € pela via do amor F aqui caracteristicas tinicas, <0, 0 cristianismo é berco de uma ética do cristianismo em uma de suas nao encontradas em outras reli gides. Em sua revela- diferente. Uma ética com razées intimas c genuinas. Isso porque seus caminhos de espiritualidade propoem raz6es internas para as rentincias doloridas — ainda que salutares — que as escolhas éticas envolvem. JA nao estamos falando de um poder externo e ameacador, seja na forma de um Deus que tudo vé e pune o pecado, seja na forma da desaprovacao da prépria sociedade, A proposta crista questiona a ética do poder e do medo, que traz, interiormente, o vicio de tentar burlar a vigilancia ou cons- tuir des ulpas. Etica que, junto com a educagdo que proporciona, gera as distorgées de cardter que sempre buscam mecanismos de poder que permi- tam a impunidade, ao invés de buscar retidao. Em muitos casos, inventam escapes por meio de desculpas, de alegacdo de minoridade, de deficiéncias fisicas ou mentais. Esse tipo de personalidade resolve suas culpas com auto- indulgéncias, autocomiseragio, migoa permissivas, uma espécie de sindro- me do coitadinho e tantos outros artificios quantos possa conceber 0 enganoso coragao humano, Jesus nos propde um novo paradigma, Nao elimina de todo a logica do poder. Isso porque nao elimina um Deus moral, um “Pai que esté nos céus” € nao pode ser manipulado (por nossos poderes), € também nao descarta as conseqiiéncias de nossos atos. Ao contrario, com as muitas mengdes a shoro ¢ ranger de dentes, 2 aprovacao dos servos fi ceifa Se plantou, fala-se do salario do pecado, pago inteiramente na cruz, Sim, o cristianismo no subestima as questdes éticas e suas conseqiién- cias. No entanto, 0 eixo muda radicalmente. Nele é apontado um caminho 141 A ESPIRITUALIDADE A ETICA CRISTA “sobremodo excelente”, um caminho do coragdo, um caminho da alma. Ja no se enfatizam as punicdes, mas o chamado para a festa. J4 nao se fala de um Deus que “visita a maldade dos pais nos filhos”, mas de um Pai que diz ao filho mais velho: “Participe, incorpore-se, alegre-se conosco nesta festa da restauracio.” Nessa dimensio relacional, 0 medo se transforma em te- mor. Um temor que da origem a sabedo a. A BTICA DO AMOR © poder isola. Mesmo 0 poder politico, essa competéncia para manipular (no bom e no mau sentidos) o comportamento das pessoas. Ainda quando exercido de forma legitima, por governantes democraticamente eleitos ou seja_por isso io intimo do poder) sio mo- mentos solitdrios. Ninguém pode tomar uma decisao por outra pessoa por- pela policia, 0 poder separa seu detentor dos demais. Talve que se d Z que momentos de decisdo (exerci que se trata de uma operagao interna. Estamos de volta a ética. Ninguém pode ser ético por outra pessoa, pos- to que a ética se opera intimamente, por meio de uma agao continua de olve renunciar, Nao se pode escolher tudo, pois nao seria escolha. A rentincia é inevilavel. Ao chegar numa encruzilha- tomada de decisées. Decidir envo da, nao se pode resolver seguir pelos dois caminhos. A escolha de virar & direita implica renunciar ao caminho da esquerda. Assim, a ética cobra sew prego: o preco da rentincia e da solidao. Precisamos fazer a escolha intima sozinhos. Talvez a tinica forma de exercer solitari nente esse por solidao) seja.a decisao de amar. Nesse momento, ainda que permanecamos momentaneamente isolados pelo re obter, como compensagio, a intimidade (0 contrario de carter intimo da escolha e magoados pela dor especifica da rentincia, © resultado imediatamente subseqiiente é a proximidade, a intimidade, ainda que de natureza nao fisica, apenas espiritual. Tah cobra que decidamos _seja_por causa do alto prego que trocar a dor da rentincia pelas dores das conseqiiéncias de mais longo prazo da escolha insensata. Essas conseqiiéncias serao 0 mal-viver em sociedade, oanti-ethos. Por exemplo, se decido que certo modo de agir me ¢ licito (todo 142 A ETICA QUE BROTA DO AMOR mundo faz), mas n4o me convém, pago o prego imediato, tanto da solidao. da decisio quanto da dor implicita na rentincia. Entretanto, se escolho que, embora inconveniente, desejo agir assim, o prego a pagar é inevitavel, mas eventualmente s6 se apresentara como conta a pagar, de forma diluida e com. mais prazo. E possivel que eu nunca perceba que estou pagando, hoje, 0 preco de escolhas éticas passadas, pois fica tudo na fumaga da vida. So- mente a sabedoria consegue ver essas coisas. A ETICA DO SANTUARIO De uma coisa nao se pode escapar: as contas de nossas decisées serao cobra- das pela propria vida. A renéincia, enquanto opcao ética, normalmente é um prego muito mais baixo, ma: da a pri suas contas éticas a vista. E é aqui, diante dessa imensa montanha intima a a vista, A opco pelo prazer imediato € cobra- zo, mas com juros, Sabio é aquele que retine as condigdes de pagar escalar, que somos socorridos pelo Espfrito Santo. E aqui que Jesus nos convida a entrar em nosso quarto, para a adoracdo intima, onde toda nossa vida se metaboliza e produz a energia necessdria Agora, 0 centro da questéo do poder manifesta-se como o poder que emana do proprio Deus. Entro em meu quarto e dedico-me a uma conversa intima a trés: Deus, minha alma ¢ eu mesmo. Trago as escolhas intimas ¢ solitarias sobre as quais preciso decidir, apés julgar o melhor caminho. Con- verso, também, sobre os precos a pagar e a dor das rendincias Nesse espaco de intimidade em que pais, maes, dirigentes, tutores ou qualquer outra autoridade é barrada na porta, direi a minha alma: “Por que ests abatida? Por que te turbas dentro em mim?” E tentarei ouvir suas raz6es € respostas. Direi, entdo, a ela: “Espera em Deus, pois ainda 0 louvarei”, € the discorrerei sobre Deus, sua majestade, sua fidelidade, sua miseric6rdia © seu amor, em vista do problema a resolver. Voltando-me para Deus, apre- sento-lhe essa minha alma atribulada e toda a minha ansiedade, e lhe digo: “Senhor, n4o ando 4 procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim; pelo contrério, fiz calar e sossegar a minha alma; quero- @ quieta como uma crianga nos bracos de sua mae.” E ouvirei do Senhor suas raz6es e respostas. Este € 0 berco, 0 nascedouro da ética crista. 143 A ESPIRITUALIDADE E A ETICA CRISTA Averdadeira adoracao se compée de pelo menos trés experiéncias bési- cas: a expressdo, a oferta e a transformacéo. Embora ela possa acontecer liturgi- camente, seu lugar por exceléncia é 0 ambiente reservado, 0 quarto, mesmo que este seja uma metafora para o momento de intimidade e reco- [himento contemplativos de Deus. “Entrar no quarto” é tudo com que sem- pre sonharam aqueles que oram pela maturidade ética de seus filhos. Vale uma explicagao. Assim como as decisées éticas sio sempre solitarias e sacrificiais, posto que sao intimas, e ninguém pode tomé-las por outrem, assim também nin- guém pode “entrar no quarto” por seu filho ou por seu pai. E um lugar para onde se vai com as préprias pernas, ¢ de onde se sai com 0 proprio coracao. contros primérios da vida, Nao me refiro apenas & vida espiritual porque estou falando de toda a vida. E no quarto que 0 ne6fito encontrara “seu Pai que vé em secreto”. E ali que ele aprender4, finalmente, a se relacionar com Deus em uma dimensio nao mediada por seus tutores. E ali crianca deixa de ser crianca (tenha a idade etéria que tiver) ¢ forma em cristao responsavel. Ali, ele aprende a se relacionar com Deus 0 mais intima e diretamente possivel para um mortal eu-tu. E a dimenséo em que acontece o fendmeno Abba Pai: o filho do Altissimo, por meio do seu Espirito Santo, fazendo morada no coragao hu- mano, conforme sua promessa. s também Diante de um Deus que tudo sabe, tudo vé, tudo pode, ma que tudo espera, tudo sofre, tudo suporta; diante de um Pai que bate & > de cultivar nova amiza- porta e nunca arromba, misericordioso e desejos maior ¢ passa a discernir a propria vida ¢ os de; diante dele, a crianga se fa caminhos a trilhar. © Mais que isso, é no quarto da adoragao que as trés experiéncias mencio- nadas fornecem ao cristo as forgas para pagar 0 preco da solidao e da rentincia. No recéndito, ele express sua vida com a linguagem de que é capaz, trazcndo-a toda a prescnga de scu Pai, Ea “bendita hora de oragao” Em seguida, adoragao genufna se encaminha, pelo poder do Espirito, para a experiéncia da oferta. Pelo mesmo poder se derrama em contrigao, ar- rependimento e confissao, evoluindo para novos propésitos ou votos. E 144 A ETICA QUE BROTA DO AMOR © “sacrificio vivo, santo e agradavel a Deus”, que 0 colocara em condigées ‘de experimentar a boa, agradavel ¢ perfeita vontade de Deus. Essas duas jas produzem uma terceira, a da transformagéo, mediante a qual 0 istio_saira de seu quarto pronto para viver a vida que o espera — da sivel, pois essa é.a-vontade de Deus, c.essa éa sua MaruripaDE ESPIRITUAL E ETICA mo saber que nosso filho agora tomara decisées mais éticas que antes? ¢ mudancas nos permitem descansar para entregé-lo a vida, sabendo, lusive, que sua experiéncia vital ndo sera uma réplica de nossas virtudes falhas? A resposta é que agora ele vive uma experiencia pessoal e inti- de amor com Deus. Lancando fora 0 medo, ja nao se a partir da légica poder que ele organizar4 todo seu agir, mas por amor. Eis o que faltava aos irmaos prédigos: amor. Seu comportamento era Sdo por condicionantes extern tuavam z s, como 0 medo. Forcas que s re OS atos exteriores, mas no sobre as fontes de sua ética. Pobres filhos gos! Vale chamar a atencdo para o fato de que Jesus iguala esses dois 4os. De forma diferente, eles expressam uma mesma compreensio de s relacdes. E elas se resumiam as exterioridades do poder. Esses pensamentos nos dao conta de que agora temos um critério para iar a maturidade espiritual, aplicavel a qualquer pessoa (mas que s6 ¢ medir a nossa). Descubramos qual € 0 “motor” de nossa ética: 0 po- ou 0 amor. Pelo poder, seremos fariseus, preocupados com comporta- tos socialmente aprovados. Pelo amor, seremos filhos, desejosos de ra vontade do Pai e, com is o, agradé-lo. A maturidade espiritual chega momento em que a “crianca” entra no quarto.em secreto, ¢ de ld sai ilitado a pagar, A ar, a vista, as faturas de suas escolhas intimas ¢ solitarias, 9 pronto para crescer e dar muitos frutos. Agora, a cami- da “perfeita varonilidade”, ele subira os degraus da santificagao, ponti- los de idas e vindas ao quarto secreto da adoragao pessoal. Das poderosas riéncias intimas ali vividas, ele tiraré forgas para dizer, ele mesmo — jé mais por medo, nem por desejo de aprovagao de seu pai ou sua mae, 4s A ESPIRITUALIDADE E A ETICA CRISTA mas por amor Aquele a quem conta todos os segredos ¢ oferta todas as devogées, em forma de sacrificio vivo, santo ¢ agradavel: “Todas as coi- sas me sao licitas, mas nem todas me convém; todas as coisas me sao licitas, mas no me deixarei dominar por nenhuma delas” (Co 6:12), Sim ele tera aprendido a dizer “nao” a si mesmo. ‘Tera forcas para fazé-l igir? Sabemos que ao, Muitas lagrimas ainda hao de ser derramadas naquele quarto. Mas serio benditas, porque serao sempre que a situagdo 0 e: lagrimas suas,.¢ nao de seus pais ou pastores no altar de Deus — onde melhor, no mundo? s constituem cente desir rio renee o rio 9 do santuario. > Conds ecu transforma ana em santuario, a vida que de dele emana se transforma em sacerd gela que pares, tem o sclo da genuinidade E Rice guarto-santubsls que fluem os rios do pastorado, do presbiterata” do diaconato, do ministério de louvor e adoracio, entre tantos outros. Ainda ousando, pode-se afirmar que nao ha ministério legitimo e genut! no que nao venha dali, Qualquer acao ministerial que nao se tenha origina do no quarto é, no minimo, deficiente, pois apenas nesse lugar de intimida, com Deus se apreendem e recebem as habilitagées carisméticas para 0 , para a abnegacdo, para o amor sacrificial, enfim, para o sacerdécio re do cristao. A adoragao genuina e secreta se revela, entao, a experiéncia prima geradora e dinamizadora de tudo isso. Conforma-nos a imagem do Fill para que ele seja o Primogénito entre muitos irmaos. O quarto da adoras €o0 bergo da ética crista. Muito mais que fonte de bem-viver, é fonte de vi eterna. Bem-aventurados os que atinam com sua porta. 146