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FREI LUÍS DE SOUSA

de Almeida Garrett
Personagens e sua caracterização
Manuel de Sousa Coutinho
  

Nobre, cavaleiro de Malta Clique para editar os estilos


Segundo nível
- No acto I, assume uma atitude condizente
● Terceiro nível
com um espírito clássico, deixando ● Quarto nível
transparecer uma serenidade e um equilíbrio ● Quinto nível
próprios de uma razão que domina os
sentimentos e que se manifesta num discurso
expositivo e numa linguagem cuidada e
erudita:
- revela-se patriota, corajoso e decidido não
sente ciúmes pelo passado de Madalena;

- No acto III, evidencia uma postura


acentuadamente romântica: a dor, após a
chegada do Romeiro, parece ofuscar-lhe a
razão, tal é a forma como exterioriza os seus
sentimentos, fazendo-o de uma forma um
tanto violenta, descontrolada e, por vezes, até
contraditória (a razão leva-o a desejar a morte
da filha e o amor impele-o a contrariar a razão
e a suplicar desesperadamente pela sua vida);

- Pode-se, pois, concluir que esta


personagem, do ponto de vista psicológico,
evolui de uma personalidade de tipo clássico
(actos I e II) para uma personalidade de tipo
romântico (acto III).
D. Madalena de Vilhena
* Uma mulher bem nascida, da família e
sangue dos Vilhenas, os sentimentos
dominam a razão:

- «Não é uma figura típica da época clássica,


em que vive, em oposição ao que acontece
com Manuel de Sousa. Toda a ordem abstracta
de valores encontra nela uma ressonância
pouco profunda, todo o idealismo generoso se
empobrece dentro dos limites de um seu
conceito prático, objectivo, pessoal de
felicidade imediata, toda a espécie de
transcendência choca, numa zona muito
íntima da sua personalidade, com uma
aspiração vitalista de realização humana e
terrena.» - Luís Amaro de Oliveira, Frei Luís de
Sousa, de Almeida Garrett, Realização
Didáctica;

- O sentimento do amor à Pátria é


praticamente inexistente: considera a atitude
dos governadores espanhóis como uma
ofensa pessoal;

- Para ela, é inaceitável que o sentimento do


amor de Deus possa conduzir ao sacrifício do
amor humano, não compreendendo, nem
aceitando a atitude da condessa de Vimioso
que abandonou o casamento para entrar em
votos: isto explica que, até ao limite, tente
dissuadir o marido da tomada do hábito, só se
resignando quando tem a certeza de que ele já
foi;
D. Madalena de Vilhena
- Apesar de se não duvidar do seu amor de mãe, é nela mais forte o
amor de mulher, ao contrário do que acontece com Manuel de Sousa
Coutinho, que se mostra muito mais preocupado com a filha do que
com a mulher;

- A consciência da sua condição social mantém a sua dignidade, mas


tal não impediu de ter amado Manuel de Sousa ainda em vida de D.
João de Portugal e de ter casado com aquele sem a prova material
da morte deste.

* Supersticiosa;

- Nota de curiosidade: Madalena, que, desde o primeiro instante,


vive aterrorizada com o «fantasma» do seu primeiro marido, no
momento em que o tem, fisicamente, diante de si, e apesar das
inúmeras coincidências, é incapaz de o reconhecer! Penso que as
modificações físicas que entretanto se operaram na pessoa não
justificam, por si só, tal falha.
Maria
* Uma personagem idealizada:

- a ingenuidade, a pureza, a meiguice, o abandono, Clique para editar os estilos


etc., próprios duma alma infantil, e a inteligência,
a experiência, a cultura, a intuição, características Segundo nível
de um espírito adulto, confluem numa
personagem pouco real, só entendida à luz do ● Terceiro nível
desvelo que Garrett votava a sua filha Maria
Adelaide e à condição social que, para a mesma,
● Quarto nível
resultara da morte prematura da mãe; ● Quinto nível

- protótipo da mulher-anjo, tão do agrado dos


românticos, Maria é demasiado angélica para ser
verdadeira;

- a sua dimensão psicológica resulta, por isso,


contraditória, ao revelar comportamentos,
simultaneamente, de criança e de adulto;

* Alguns traços caracterizadores de Maria:


- ternura
- culto sebastianista
- dom de sibila (dom da profecia)
- cultura
- coragem, ingenuidade e pureza
- tuberculosa
Telmo Pais - Personagem
Central?Clique para editar os estilo
Convém analisar o terceiro elemento que Garrett recebeu do teatro clássico: o
conflito psicológico suscitado pelos dilemas perante os quais são colocadas as
personagens.
Segundo nível
● Terceiro nível
Este terceiro elemento realiza-se particularmente na figura de Telmo Pais, que ● Quarto nível
Garrett interpretou pessoalmente na representação particular da peça.
● Quinto nível

Telmo Pais tem de escolher entre Maria, que ele criou, e D. João, que ele
também criou e a quem deve, além disso, fidelidade de escudeiro.
Mas o que faz deste caso uma novidade na história do teatro é que Telmo
Pais, na realidade, não tem de escolher, ele está de antemão decidido. A
perplexidade perante o dilema é apenas a forma exterior com que Garrett
revestiu uma coisa bem diferente daquilo que o teatro clássico conhecia.

Telmo Pais, amo e criado de D. João de Portugal, era o seu maior amigo, e
nenhuma criatura sofreu tanto como ele o seu desaparecimento; opôs-se
quanto pôde a que a sua viúva casasse segunda vez e não lhe pôde perdoar a
infidelidade para com o amo, cuja morte se recusou sempre a aceitar. O resto dos
seus dias é consagrado ao culto do desaparecido, a quem levanta no seu coração
um altar. E lentamente os dias vão passando, a imagem de D. João vai-se-lhe
entranhando na alma, tornando-se com o tempo talvez mais rígida, mais nítida,
mais adorada. O tempo só fazia aumentar a adoração. Mas deste casamento
abominado nascera uma criança. Quis o destino que Telmo também fosse o amo
dela, e o seu coração cresceu com este novo amor. Mas pode Telmo continuar a
não acreditar na morte de seu amo? Porque se ele é vivo e voltar, que será feito
da sua menina? Órfã e desgraçada é o que ela será, segundo a moral da época.
Durante muito tempo Telmo não chega a ter consciência clara desta contradição.
Telmo Pais - Personagem
Central?
No momento culminante, o pobre Telmo Pais descobre que no fundo da alma
desejava que D. João tivesse continuado morto. O seu reaparecimento transtorna-
lhe a sua verdadeira vida. E Garrett leva o drama desta personagem às suas
consequências últimas, porque é ele - a mandado de D. João, é verdade, mas com
uma satisfação secreta e cheia de remorsos -, é ele quem vai à última hora espalhar
que o Romeiro é um impostor. É ele, afinal, e isto é que é terrível, quem vai matar
definitivamente seu amo, ele, o único que lhe não tinha acreditado na morte e que
fizera votos pelo seu regresso, o único que pode testemunhar a sua vida.

Se esta interpretação é verdadeira, Garrett põe mediante esta personagem um


problema, que é novo, na história do teatro. Telmo Pais tem uma personalidade
fictícia, convencional, e, por baixo desta, uma personalidade autêntica.

A personalidade fictícia, construída, feita da nossa vida passada, coerente, é


aquela que nós próprios nos atribuímos e aquela com que figuramos nos actos
correntes da vida. Mas a outra personalidade, secreta, que nós próprios às vezes
não conhecemos, é a que vem à superfície nos momentos de crise e ante o nosso
próprio espanto. Telmo quer ser coerente com o seu passado; a imagem em que ele
próprio se construiu foi a do escudeiro fiel: com essa máscara o vêem os outros e
se vê ele próprio a si. e um dia esta imagem é quebrada como uma capa de gelo, e
a onda da vida jorra. [...]»
D. João de Portugal
* Casado com D. Madalena, mas desaparecido na
Batalha de Alcácer Quibir, revela-se como:
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- Uma existência abstracta (uma espécie de fantasma Segundo nível
omnipresente) até à cena XII do acto II, inclusive,●
permanecendo em cena através dos receios evocativos
Terceiro nível
de Madalena, da crença de Telmo em relação ao seu ● Quarto nível
regresso e do sebastianismo de Maria (se D. Sebastião ● Quinto nível
pode regressar, o mesmo pode acontecer em relação a
D. João de Portugal);

- Uma existência concreta a partir da cena XIII do acto II:

- regressa a Portugal ao fim de 21 anos, depois de ter


passado 20 em cativeiro, em África e na Ásia, surgindo
na figura do Romeiro (mesmo assim, a sua identidade
só é revelada no final do acto II);

- procura interferir voluntariamente na acção dramática,


tentando impedir, com a cumplicidade de Telmo, a
entrada em hábito de Madalena e de Manuel de Sousa;

- acaba por assistir à morte de Maria e à tomada de


hábito dos ex-cônjuges.