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Apostila Filosofia

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  • ESTUDOS PRELIMINARES PARA UMA FILOSOFIA DO DIREITO
  • Introdução
  • 1 - Considerações sobre a importância da Filosofia para o curso de Direito
  • 2 - Metodologia adotada para a disciplina
  • Parte I – O surgimento da Filosofia
  • 1 - O conceito de Filosofia
  • 2 - Origem e Surgimento da Filosofia na Grécia Antiga
  • 3 - A pólis grega e a consciência jurídica
  • 4 - Os Filósofos pré-socráticos 9
  • 5 - A idéia de justiça no período pré-socrático
  • 6 - Democracia ateniense
  • 7 - A Sofística e Sócrates
  • 8 - Sócrates (469-399 a.C.)
  • Parte II - A justiça na concepção de Platão (428 – 347 a.C.)27
  • 1 - Introdução
  • 3 - Relação entre alma e cidade: o governo da razão
  • 3 - Organização Política da Cidade
  • 4 - A idéia de Justiça
  • 5 - O projeto platônico: uma utopia?
  • Parte III - A justiça na concepção de Aristóteles (384-322 a.C.)
  • 1 - Introdução
  • 2 - A política, a ética e a justiça
  • Parte IV - A Filosofia no período medieval: Agostinho e Tomás de Aquino
  • 1 - O Mundo Medieval
  • 2 - Aurélio de Agostinho
  • 3 - Tomás de Aquino
  • 3.1 - Fé e Razão
  • 3.2 - Justiça e Sinderesis
  • Parte V - O Jusnaturalismo
  • 1 - O jusnaturalismo no pensamento antigo e medieval
  • 2 - Jusnaturalismo no pensamento renascentista e moderno
  • 3 - Características do jusnaturalismo moderno
  • 4 - As teorias do contrato e o direito natural
  • 5 - O conceito de jusnaturalismo segundo Guido Fassò
  • 6 - Proposta para uma distinção entre direito natural e direito positivo
  • 7 - Critérios de distinção entre direito natural e direito positivo
  • 8 - Hobbes, Locke e Rousseau
  • 8.1 - Thomas Hobbes (1588-1679) 87
  • 8.2 - John Locke (1632-1704)
  • 8.2.1 - Noção de direitos civis dentro da Constituição de 1988
  • 8.2.2 - Jusnaturalismo e a doutrina política de John Locke
  • 8.2.3 – Poder Legislativo e as leis como premissas de segurança política
  • 9 - Jean-Jaques Rousseau (1712-1778)
  • Parte VI – A filosofia prática de Immanuel Kant (1724-1804)
  • 1- Introdução
  • 2 - O conceito de liberdade no pensamento de Kant
  • 3 - A ética e o imperativo categórico
  • 4 - As leis da liberdade: as leis morais e as leis jurídicas
  • 5 - A liberdade interna e externa
  • 6 - A lei jurídica e a sociedade civil
  • 7 - A doutrina do Direito
  • Parte VII - O positivismo jurídico
  • 1 - A origem do termo positivismo
  • 2 - As escolas Jurídicas
  • 2.1 - A Escola Histórica ou Romântica
  • 2.3 - O Código de Napoleão: Cambacérès e Portalis
  • 2.4 - A Escola de Exegese
  • 3 - O surgimento do positivismo jurídico
  • Parte VIII - O pensamento de Hans Kelsen (1881-1973)
  • 1 – Introdução
  • 2 - Princípio metodológico fundamental
  • 3 - Norma jurídica e proposição jurídica
  • 4 - Estrutura da norma jurídica
  • 5 - Validade e eficácia
  • 6 - Causalidade e imputação
  • 7 - Direito e Justiça
  • Parte IX - A teoria tridimensional do direito: Miguel Reale (1910 -)
  • 2 - A tridimensionalidade da lei
  • REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Clara Maria Cavalcante Brum de Oliveira Wellington Trotta

ESTUDOS PRELIMINARES

PARA UMA

FILOSOFIA

DO

DIREITO

Rio de Janeiro 2006

Clara Maria Cavalcante Brum de Oliveira
Bacharel em Comunicação Social pela FACHA. Bacharel em Filosofia pela UERJ. Especialista e Mestre em Filosofia (Ética e Filosofia Política) pela UERJ Bacharel em Direito pela UNESA. Advogada e Professora de Filosofia Geral e Jurídica e Ética Geral Jurídica na Universidade Estácio de Sá

Wellington Trotta
Bacharel em Direito pela Universidade Gama Filho Bacharel em Filosofia pela UERJ. Mestre em Ciência Política (Política e Epistemologia) pela UFRJ Advogado e Professor de Filosofia Geral e Jurídica e Ética Geral Jurídica na Universidade Estácio de Sá

ESTUDOS PRELIMINARES

PARA UMA

FILOSOFIA

DO

DIREITO

Rio de Janeiro 2006

2

Sumário Pá Introdução................................................................................... .......................................... I. O surgimento da Filosofia.......................................................................... II. III. IV. V. ................. A justiça na concepção de Platão (428 – 347 a.C.).................................................... A justiça na concepção de Aristóteles (384-322 29 38 48 62 g. 5 5

a.C.)................................................ A Filosofia no período medieval: Agostinho e Tomás de Aquino............................... O Jusnaturalismo....................................................................... ................................. A filosofia prática de Immanuel Kant (17241804)...................................................... O positivismo jurídico................................................................................... ............... O pensamento de Hans Kelsen (18811973)............................................................. A teoria tridimensional do direito: Miguel Reale (1910

VI. VII.

79 93

IX. X.

10 3 10 9 11 3

-)............................................ Referências Bibliográficas.............................................................................. ....................

3

ressaltamos que se destina tão somente para uso interno. Assim.1.B. Clara Maria C. de Oliveira Wellington Trotta 4 . elaborado e atualizado para o semestre 2006. o texto foi adaptado exclusivamente para as aulas de Filosofia Geral e Jurídica.Prezado (a) aluno (a): Este material. A obra completa encontra-se depositada no Ministério da Cultura/Fundação da Biblioteca Nacional. constitui parte integrante do trabalho Estudos preliminares para uma filosofia do direito que elaboramos em nossos estudos de filosofia jurídicopolítica. sendo vedada a sua utilização sem autorização expressa dos autores. Nesse sentido.

insisto em apontar que a história do pensamento filosófico. A grande maioria dos alunos não tem contato com a Filosofia durante o ensino fundamental ou médio. Muitos alunos indagam: por que estudar Filosofia? Qual a utilidade da Filosofia para o saber jurídico? Nem sempre as respostas que formulamos são convincentes para esclarecer sobre a importância desse saber. geralmente ministrada em apenas um semestre nos primeiros períodos da faculdade. 1989. um novo estádio em tudo o que se refere à vida dos homens na comunidade. “A Grécia representa. religiosas e políticas dos povos anteriores. não é disciplina jurídica. em face dos grandes povos do Oriente. Werner W. um progresso fundamental. p. Miguel. São Paulo: Martins Fontes.1 É preciso ressaltar que a Filosofia oferece uma abordagem singular para tratar dos problemas fundamentais da esfera jurídica que focalizam em particular a eterna “insociável–sociabilidade humana”. Nesse sentido. 4.Introdução 1 . que é a realidade jurídica”. Poucos se interessam por essa disciplina. mas é a própria Filosofia enquanto voltada para uma ordem de realidade. Paidéia: a formação do homem grego.Considerações sobre a importância da Filosofia para o curso de Direito “Filosofia do Direito esclareça-se desde logo. o que torna nossa tarefa ainda mais árdua. p. (Reale. 9) Inúmeras vezes percebemos que a falta de interesse pela leitura contribui também para certo desinteresse pelo estudo de Filosofia. a história daquilo a que podemos com plena consciência chamar cultura só começa com os gregos”. Todavia muitos profissionais do Direito descobrem a Filosofia em meio aos seus estudos de pós-graduação e experimentam certa ansiedade em tentar suprir essa falta em sua formação intelectual. que se inicia Jaeger. Filosofia do Direito. Nos dizeres de Werner Jaeger. Esta se fundamenta em princípios completamente novos. estudar Filosofia significa estudar os fundamentos da nossa própria cultura. Ademais. [grifo nosso] 1 5 . Por mais elevadas que julguemos as realizações artísticas.

isto é.uma atitude diante da vida. Podemos então investigar como esse sistema de valores interfere em nossa visão de mundo. A Filosofia significa a formação de uma atitude . Um exercício sem medo.com o povo grego em torno do séc. Significa abolir a pressa e o imediatismo.. em um olhar cuidadoso diante das obviedades. In: Col. É bom conhecê-los e seus costumes. como soem proceder aos que nada viram”. muitas vezes desatento.39. compreender lucidamente que viveram em outras épocas. Estudar Filosofia significa estabelecer um diálogo com homens de notório saber. Assim.2 Não posso deixar de mencionar as célebres palavras de Descartes na obra Discurso do Método: “a leitura de todos os bons livros é qual uma conversação com as pessoas mais qualificadas dos séculos passados. R. Os Pensadores.. na qual eles nos revelam tão-somente os melhores de seus pensamentos. crenças e atitudes que refletem o grupo social em que se deu nossa socialização primária. Intencionalmente se cuidou de apresentar um estudo propedêutico que pudesse oferecer uma exposição clara e indispensável. Ingressar nos estudos filosóficos significa fundamentalmente assumir a árdua tarefa do autoconhecimento que implica transformar o seu próprio olhar. 1973. pelo uso próprio e autônomo da razão. configura o nosso ponto de partida. DESCARTES. p. Mas gostaria de esclarecer preliminarmente que o estudo tem objetivo modesto. e até uma conversação premeditada. (. Discurso do Método. 2 6 . a fim de que julguemos os nossos mais sãmente e não pensemos que tudo quanto é contra os nossos modos é ridículo e contrário à razão. Ensina a formular perguntas. pois assim podemos avaliar mais os nossos. A Filosofia ensina a pensar. constitui as bases de nossa própria cultura. VII a. o grupo social em que fomos criados.) É bom saber algo dos costumes de diversos povos. ou seja. São Paulo: Abril Cultural. capaz de configurar um apoio útil para posteriores estudos de Filosofia do Direito. filosofar é algo que só se pode aprender pelo exercício. o início do pensamento racional. Como disse Kant em suas lições de Lógica. ao lermos um texto filosófico colocamos em ação todo o nosso sistema de valores. que foram seus autores.C.

Tratados que versam sobre leis. juris naturalis scientia ou Naturrecht als Philosophie des positiven rechts. O ponto de partida está na noção geral da Filosofia como um saber teórico e universal que fundamenta toda a cultura ocidental .3 Direito natural como filosofia do Direito positivo (Naturrecht als Philosophie des positiven rechts – 1797) de Gustav Hugo. uma res publica. Não podemos esquecer que todo pensador está fadado a ser de seu século a seu contentamento ou pesar. as informações apresentadas fundamentam-se em textos clássicos e comentadores consagrados pela tradição filosófica. procura-se mostrar que os problemas filosófico-jurídicos são tão antigos quanto as inquietações conscientes dos homens sobre o problema da convivência humana e se desvelam nas concepções fundamentais acerca do Direito e do próprio Estado. dar certa objetividade que não comprometa a verdadeira complexidade da matéria. Muitas vezes este estudo assume nomenclaturas diferenciadas como. podemos afirmar que uma Filosofia do Direito se inicia com os tratados sobre sociedade política: seja uma pólis. civitas ou um Estado. O estudo foi essencialmente motivado pelo desejo de compreender melhor a relação direito-sociedade a partir do devir histórico. por exemplo. buscando não esquecer que os filósofos foram/são homens e que. Assim. em particular. Fundamentação do Direito Natural ou elementos Filosóficos do ideal do Direito (Grunlage des Naturrechts oder philosophie Grundriss des Ideals des rechts – 1803) e Bosquejo do Sistema de Filosofia do Direito (Abriss des Systems der rechtsphilosophie – 1828) de Karl Christian Friedrich Krause. a partir das realidades que serviam como pano de fundo.Estudaremos em cada época autores e doutrinas que julgamos essenciais para o estudo jurídico. aquela que estuda a idéia de justiça. portanto estavam/estão sujeitos às influências de sua origem. Historicamente. Assim. justiça. ao expor. Assim. Acredito não ter incorrido em erro grave.nossa herança grega. direito natural e que assinalam o caminho do pensamento filosófico. Importa ressaltar que a história apresentada focaliza um dos ramos da Filosofia. Elementos de Direito natural e de Ciência Política (Grundlinien der Philosophie des Rrechts oder 3 7 . desvelou-se imperativo observar os diferentes problemas que a nossa cultura formulou ao longo dos tempos com suas respostas e terminologias acerca do que consideravam relevantes. educação e época histórica. Procurou-se.

Naturrecht und Staatswissenschaft im Grundrisse – 1821) de Hegel. 8 . Nesse sentido. 2 . pertencendo à história humana. o Direito. participa do seu desenrolar gradual e do seu reencontro consigo mesmo. O que importa nesse caminhar é a indispensável tarefa crítica que a Filosofia nos oferece. Enfim. Algumas vezes apontando caminhos que não se devem mais seguir. Cada um deve procurar sua interpretação. mas elaborar o seu próprio texto sobre o que foi lido. Por isso. buscando não copiar o texto. sem a qual cairíamos inevitavelmente num dogmatismo feroz ou num ceticismo tedioso. torna-se fundamental pontos a serem tratados a leitura prévia dos em cada aula. porque a própria tentativa de impugná-la significa a essência do filosofar.Metodologia adotada para a disciplina O aprimoramento contínuo oferecido pela Filosofia é importante ferramenta para o desenvolvimento das habilidades necessárias ao advogado. Nosso objetivo é ampliar a conscientização sobre o assunto e fornecer as condições de possibilidade para uma reflexão filosófica sobre o direito.A abordagem filosófica nos permite então vislumbrar que a transformação das sociedades não implica a superação pura e simples do passado. apresentando certas tendências. mas antes ressalta que esse passado existe e persiste no presente. revelando a lógica imanente de certos pontos de vista ou atitudes intelectuais. Não podemos negar a importância da Filosofia. indicamos outras leituras interessantes e vídeos para que o estudante possa ampliar seus conhecimentos. validando algumas soluções. Recomenda-se que o aluno procure elaborar um pequeno resumo dos pontos mais relevantes. condicionando o focar dos problemas.

O olhar filosófico se afasta das crenças. cultura. prejuízos. não se reduz à Arte. desejo. busca compreender as idéias ou significados gerais: realidade. antes. mas se vê diante de uma reflexão crítica sobre os conteúdos. mas se configura como possível interpretação. não é tampouco Religião. contradição e mudança. mundo. mas pode ser entendida como reflexão crítica sobre os procedimentos e conceitos científicos. artísticos e culturais. comportamento. políticos. preconceitos. A Filosofia está na história. vontade. toma distância para interrogar e não aceitar as coisas passivamente. e sim interpretação do sentido dos acontecimentos enquanto inseridos no tempo e no espaço e a compreensão do que seja o próprio tempo. repetição. pois se trata de um saber que é cronologicamente anterior ao surgimento da própria ciência. experiência. a consciência em suas várias modalidades: imaginação. Podemos então definir Filosofia como a fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e práticas. a Filosofia não se confunde com Ciência. reflexão. história. “como é” e “por que é” – momentos que constituem o 9 . forma e o conteúdo dos valores éticos. conflito. sentimentos. natureza. também não pode ser considerada Sociologia ou Psicologia. Filosofia não é História. a Filosofia não se limita à esfera Política. a natureza e as formas do poder. mas reflexão crítica sobre os fundamentos dessas ciências humanas de suma importância. O seu olhar observa com cuidado as transformações históricas. semelhança.O conceito de Filosofia Observando a advertência de Marilena Chauí. por fim. memória. na obra Convite à Filosofia. para indagar “o que é”. um saber do homem situado.Parte I – O surgimento da Filosofia 1 . linguagem. inteligência. porém reflexão crítica sobre as origens e formas das crenças religiosas. pois é produto cultural do homem. paixões. subjetividade. A Filosofia busca desvelar as interpretações e limites de cada época. Trata-se de um saber que se preocupa com as origens. A Filosofia diz “não” ao senso comum. compreensão e reflexão sobre a origem. diferença. objetividade. formas. causas. percepção. significações da obra de arte e do trabalho artístico.

Será possível perceber que as transformações no modo de conhecer ampliaram os campos de investigação do filósofo. Na verdade a Filosofia segue uma lógica de enunciados precisos e rigorosos. Os períodos foram classificados pela tradição da seguinte forma: Antigüidade Clássica ou Filosofia Antiga. saber). O que teria fundamentado esse novo saber? Por que na Grécia em torno do séc. Assim. portanto.. Filosofia Medieval. ao nível do senso comum. Pessanha. 2 . “o que é vontade?”. Filosofia Moderna e Filosofia Contemporânea. fragmentado. surgiu uma nova mentalidade diante do real? Quais os fatores que se entrecruzaram e propiciaram esse fenômeno em uma cultura tão antiga? Sabe-se que na Grécia do séc. “o que é um valor?”. a Filosofia enquanto saber exige fundamentação racional do que é enunciado e pensado e deve formar um conjunto coerente de idéias racionalmente demonstráveis. “como nos tornamos livres?”. “o que é a razão?”.pensamento crítico. Sua reflexão é radical. porquanto investiga a raiz. VII ou VI a. opera com conceitos ou idéias obtidos por procedimentos de demonstração e prova. A Filosofia é um pensamento sistemático. O seu conhecimento se realiza por reflexão que se configura no momento em que o pensamento volta-se para si mesmo a fim de indagar como é possível o próprio pensamento. Pitágoras de Samos denominou-se “Filo-sophos” (amante do saber) e não de “sophos” (sábio). VI a C. Podemos estudar a Filosofia sob o aspecto temático ou exprimem e manifestam os podemos compreendê-la a partir de seu devir histórico. 10 . a história da Filosofia a partir de períodos que problemas e as questões que. na fundamentação ou justificação do trabalho científico ao indagar “o que é o homem?”. os homens colocaram para si mesmos e para o mundo.Origem e Surgimento da Filosofia na Grécia Antiga Como nos lembra o saudoso professor José Américo M.C. a origem de tudo o que existe. opondo-se ao termo grego “polimathéia” que significa saber comum. buscar as razões que conduziram o homem grego a fazer filosofia permanece ainda como um problema aberto.4 4 O que a A palavra Filosofia formou-se da junção de “Filos-filia” (amigo) com “sophia”(sabedoria. O valor da Filosofia encontra-se. o que significa dizer que não é mera opinião. ou seja. em cada época. desconexo.

A Filosofia começa quando algo desperta a nossa admiração. nascimento a partir da concepção sexual e do parto. Cosmo quer dizer mundo ordenado. Nesse sentido. a narrativa sobre a origem do mundo é denominada como uma genealogia que pode ser cosmologia ou teogonia. A Filosofia é vista como uma cosmologia. narrar. nomear. portanto. ganhava uma aura de divindade. O seu surgimento marca uma indagação que não aceita respostas mitológicas ou mágicas. a saber: mytheyo que significa contar. uma explicação racional sobre a origem do mundo e sobre as causas das transformações das coisas. Os gregos acreditavam que ele fora escolhido pelos deuses e que se tornara o transmissor de suas mensagens. uma crença na autoridade do narrador. Será teogonia quando a narrativa tratar da origem dos deuses. as narrativas míticas foram reformuladas ou transformadas numa explicação que não admite fabulações. Será cosmologia quando trata do nascimento e da organização do mundo. pois gonia vem do verbo gennao e do substantivo genos assumindo. há uma relação de confiabilidade que repousa sobre a pessoa do narrador. O narrador é chamado de poetarapsodo. coisas divinas. espanta-nos e exige uma explicação sobre a origem do mundo. ou seja. mas sim um raciocínio lógico. organizado. Para o pensamento grego. racional e coerente. portanto inquestionável e incontestável. mito significa um discurso ou narrativa que é considerada verdadeira para seus ouvintes. anunciar. contar. A autoridade dessa nova explicação não decorre de uma pessoa física. Teogonia é composta de gonia e theos que significa em grego: seres divinos. contradições. o mito. como no caso dos poetas-rapsodos. ou melhor. designar.tradição afirma é que a Filosofia foi um fenômeno específico do povo grego e teve continuidade com os povos dominados por ele. falar alguma coisa para outros e do verbo mytheo que significa conversar. deuses. a idéia de geração. A palavra proferida pelo poeta-rapsodo. dos povos e dos fenômenos da natureza sem recorrer aos mitos. Nesse sentido. respostas fazedoras de mitos. mas decorre do poder da razão. A palavra mito do grego mythos deriva de dois verbos. 11 .

Surgiu no momento de estabilização da sociedade grega. A explicação filosófica.A pólis grega e a consciência jurídica Antes do advento da Pólis. mas da transmissão de uma cultura por várias gerações e da memória de um povo. nos desvela em suas narrativas o entrecruzamento de história. construíram uma aristocrática que paulatinamente se a própria invenção da transformou no que denominamos civilização grega. a invenção do calendário. séculos sociedade marcadamente após as guerras troianas. portanto. que é apenas uma explicação de homens que buscavam saber. Os dórios oriundos do norte. 3 .). por isso o relato mítico não resulta necessariamente da invenção individual. mitos e deuses. A Filosofia é. que segundo pesquisadores exprimem traços da cultura dórica. autor dos famosos poemas que narram as guerras troianas (1260 a 1250 a. Não há consenso sobre a origem da Filosofia na Grécia antiga. um fenômeno cultural grego. 12 . oralidade e tradição são os componentes indispensáveis à sua sobrevivência. um progressivo enriquecimento do comércio e invenção da moeda. lenda. Odisseu). com o desenvolvimento da atividade comercial. Homero. se desenvolveu paulatinamente e permaneceu por muito tempo concomitante às explicações mitológicas que povoavam o imaginário do mundo antigo. expansão marítima que propiciou o surgimento de uma classe mercantil politicamente forte. Memória.C. Essa mitologia e seus mitos sobrevivem enquanto se mantiveram vivos na vida cotidiana. o que ressalta a sua dignidade e importância. a Grécia já apresentava uma vida social intensa. política e da ética. as aventuras de Aquiles e Ulisses (nome grego.Não podemos negar que a mitologia grega está intrinsecamente ligada à história da civilização grega. Todavia o que se observa freqüentemente é que não se configurou nesses povos o que ocorreu na Grécia: o processo de laicização do saber. ficção. com a consolidação das cidades-estados (pólis). porque muitos estudiosos entendem que os povos do oriente já sistematizavam doutrinas filosóficas antes dos filósofos gregos. Um dos poetas mais importantes.

Lentamente se formou uma nova organização social e política que segundo ensina Jean-Pierre Vernant destacou a supremacia da razão. 5 13 . enfim o próprio desenvolvimento do discurso. Em sua obra denominada Teogonia descreve a criação do mundo. São Paulo: Martins Fontes. com a invenção da moeda cunhada. as discussões políticas. festivais. na esfera pública. no centro de todas as considerações históricas”.73. Como nos ensina Jaeger. costumes. Além de Homero.C. o pensamento de Hesíodo foi igualmente importante. a pólis configurou um novo momento para os gregos. a região vivenciou um renascimento das relações comerciais que resultou na ruína das antigas linhagens tribais e no surgimento de pequenas cidades de agricultores e artesãos. A pólis valorizou o humano. O que se configurou nesta etapa e a revolução política que ensejou o desenvolvimento do pensamento humano. a força do melhor argumento.Este poeta foi considerado o pai da cultura grega por ter sido a sua obra fundamental para a manutenção das tradições. porquanto marca uma nova fase da cultura grega. 5 O termo pólis propiciou o aparecimento de palavras como político e política e. a palavra. Werner W. O discurso tornou-se condição fundamental para a participação nos assuntos públicos. por isso. Assim. ritos e etc. p. a idéia de justiça. Por ocasião do séc. 1989. Com a palavra pólis surgiu também o direito de cada cidadão de emitir. a persuasão. Paidéia: a formação do homem grego. Cada pólis tinha suas próprias leis de cidadania. conseqüentemente. o discurso e a razão ganharam grande relevo nessa nova organização social. VIII a. do discurso. cunhagem de moedas. Pólis do plural póleis é uma palavra grega que expressa a idéia de cidades-estados autogovernadas do mundo grego. Em Os trabalhos e Os Dias narra o mito das cinco idades da humanidade.. Jaeger. deixaram de ser privilégio da aristocracia grega. o seu pensamento para possível debate. dos deuses e a organização do Olimpo. a discussão. uma nova forma de convivência humana: “A polis é o centro principal a partir do qual se organiza historicamente o período mais importante da evolução grega. Situa-se. a elaboração das leis. Assim.

ao qual todos os cidadãos sem exceção estão submetidos. surgiu um novo espírito centrado na vida pública. São Paulo: Martins Fontes. tal como são obrigados a respeitar a fronteira entre o próprio e o alheio”. Esta última seria o símbolo da grandeza cavaleiresca dos primitivos reis e nobres homéricos. Observa-se que a pólis introduz uma verdadeira revolução: “O ideal antigo e livre da Arete6 heróica dos heróis homéricos converte-se em rigoroso dever para com o Estado. porque aquele que cumpre a lei e se regula por ela. significava que os nobres dos tempos patriarcais julgavam de acordo com a lei procedente de Zeus. do séc. é através dele. Em Homero temos o direito como Themis que etimologicamente significa lei. Werner W. gerou facilmente o abuso político da magistratura e levou o povo a exigir leis escritas”. Paidéia: a formação do homem grego. o aumento da oposição entre os nobres e os cidadãos livres. A literatura que testemunha a idéia de justiça como fundamento da sociedade humana estende-se desde os tempos primitivos da epopéia. Zeus ofertava aos reis o cetro e themis. Segundo a narrativa homérica. que a palavra direito.O interesse pela justiça se desenvolveu na vida comunitária da pólis grega e assumiu um grande valor que se afigurou com a mesma intensidade que a força exercida pelo portanto. se converte no lema da luta entre as classes. Não temos fonte sobre a história da codificação do direito grego.94. Paidéia: a formação do homem grego. Na prática. 8 A reclamação universal pela justiça já figura claramente em Hesíodo e. Jaeger. VIII até o séc. um novo locus no pensamento grego. 91. 1989. p. dike. virtude. ou seja. cumpre o seu dever.C. 8 Jaeger. 6 7 14 . Contudo. p. sem leis escritas. 7 Com a mudança das formas de vida.) – excelência. ideal cavaleiresco dos primeiros estágios da cultura grega aristocrática. aretai (pl. Werner W. 1989. São Paulo: Martins Fontes. Jaeger narra que nos tempos homéricos “toda manifestação do direito ficou sem discussão na mão dos nobres que administravam a justiça segundo a tradição. areté. mas sabe-se ao menos que ao ser escrito assumia o caráter de universalidade. A idéia do homem justo assume. VI a. a qual deve ter surgido em conseqüência do enriquecimento dos cidadãos alheios à nobreza.

portanto que o ar seria o princípio de todas as coisas. a arché. São Paulo: Cultrix. Seria. o elemento invisível. Denominou de ápeiron. 9 15 . Anaximadro e Anaxímenes. Sabe-se que o berço da Filosofia teria sido a pólis de Mileto. segundo conta a tradição. Nesta cidade temos três pensadores présocráticos de grande importância: Tales. imponderável e. 4 .Os Filósofos pré-socráticos 9 Já compreendemos que o que consideramos por Grécia Antiga não constituiu um Estado no sentido moderno do termo. litoral ocidental da Ásia menor. portanto a busca pelo princípio originário. termo grego que significa o indeterminado. ou substancial de todas as coisas. existente em todos os seres. Tales de Mileto foi considerado o primeiro filósofo e sabe-se que era estudioso de astronomia e.As normas que constituíam as leis de Zeus fundamentavam-se no direito consuetudinário e no próprio saber do homem daquela época. observável. Este pensador apresentou grande desempenho em geometria e demonstrou que todos os ângulos inscritos no meio círculo são retos e que originário era a água. Tais pensadores buscavam a matéria-prima. Ademais concluiu que o princípio somente a água permanece a mesma a despeito de todas as transformações.C. chegou a prever um eclipse total do sol ocorrida em 28 de maio de 585 a. denominados filósofos da Physis. mas o conjunto de várias cidades autônomas entre si denominadas pólis. 1997. no entanto. estaria fora do alcance dos sentidos. Para um maior aprofundamento sugiro a obra de BORNHEIM. Esses primeiros filósofos. Anaximandro de Mileto acreditava que o princípio primordial transcendia os limites do observável e que. o infinito a massa geradora de todos os seres. Anaxímenes fosse realmente de Mileto algo admitia que a origem de todas as coisas mas não o concebia como indeterminado. Concluiu. inalcançável aos sentidos. tinham como objetivo construir uma explicação racional e sistemática do universo. Meu intento nesta parte foi o de mencionar os pré-socráticos mais conhecidos. G. (org) Os Filósofos Pré-socráticos. portanto. porque a soma dos ângulos internos de um triângulo é igual a 180º. situada na Jônia.

não desvela a verdade. e se tornou o representante do pensamento dialético. o rigor moral etc. Para Parmênides o ser é e o não ser não é. Acreditava que a luta dos contrários seria o princípio de todas as coisas e por meio dessa luta o mundo se modifica e evolui. Seu fragmento mais conhecido menciona que um homem não pode banhar-se . no plano lógico.). a essência de todas as coisas residia nos números que representavam a ordem e a harmonia. Suas contribuições foram numerosas. dentre elas: o teorema de Pitágoras. Heráclito de Éfeso foi considerado um dos mais importantes filósofos pré-socráticos. discípulo de Parmênides. Nesta região fundou uma escola filosófica preocupada com questões políticas e religiosas. compreendemos a essência da realidade. Para ele. buscou argumentos capazes de legitimar as afirmações de seu mestre e fortaleceu a idéia de que a noção de movimento era contraditória. Em seu modo de ver.C. Parmênides afirmou que: o ser é. região conhecida pelo nome Magna Grécia. da essência. a diferença entre os seres repousava sobre os números. Acreditava que o fogo era duas vezes nas águas do mesmo rio. O mais célebre foi o denominado “Aquiles” que revela o complexo estudo dos 16 a arché. a via a ser buscada pela filosofia. par e ímpar. A arché teria uma estrutura matemática unidade etc. impulsionado pela luta de forças contrárias. em inesgotável transformação. Sabe-se que floresceu pelo ano 500 a. multiplicidade. e a ao cabo.Pitágoras de Samos viveu na ilha de Samos e posteriormente deslocou-se para Crotona. Zenão de Eléia (488-430 a. mas em função do movimento ou vir-a-ser da realidade denota apenas uma aparência enganosa. único. Acreditou que o mundo é o lugar das aparências. Sua escola filosófica foi denominada de mobilista. da doxa. localizada no sul da Itália. o mundo da ilusão e que somente pela razão. ao fim que configuraria a origem do finito e infinito. Parmênides de Eléia (510-470 a.) foi um grande opositor de Heráclito. a crença na imortalidade da alma e na reencarnação.C. imóvel e ilimitado. Essa era a ótica da razão. Por outro lado. Heráclito concebeu o mundo como dinâmico. Acreditava que o ser era eterno.C. a ótica da aparência. o não ser não é. pois para ele a vida era fluxo constante.

de outro o ódio responsável pela desagregação ou separação das coisas. o seguinte argumento: “isto é verdade se tivermos em conta a primitiva concepção helênica do mundo e da vida em sua totalidade. ou seja. Outros estudiosos do pensamento grego revisaram essa tese e concluíram que certa reflexão acerca do mundo dos homens teria precedido a reflexão sobre o mundo físico.) tentou conciliar as idéias de Parmênides com o pensamento de Heráclito. conciliar a idéia de essência imutável obtida pela razão com a idéia de movimento. tempo e infinito. os pré-socráticos inauguraram o pensamento filosófico quando iniciaram um estudo racional sobre o homem. a preocupação dos primeiros filósofos teria sido com o universo. porque o mais rápido terá que primeiro alcançar o ponto de onde partiu o mais lento que. a água e o ar. a saber: de um lado.C. o vir-aser. Jaeger e R. nesse sentido.A idéia de justiça no período pré-socrático Para estudiosos como W. concebem os problemas cósmicos como problemas humanos. o que traz consigo a personificação dos elementos e das forças naturais e a 17 . por sua vez. ou seja. Mondolfo. captado pelos sentidos. a terra. 5 .conceitos de movimento. espaço. este herói não conseguiria alcançá-la em face da vantagem que a tartaruga obteve por ocasião da largada. Para entendermos melhor esse paradoxo de Zenão é preciso compreender o exemplo que nos forneceu e que resumidamente é o seguinte: em uma determinada corrida. Empédocles de Agrigento (490-430 a. continuaria se movendo. Neste argumento Zenão nega o movimento da seguinte maneira: afirma que o mais lento em uma corrida jamais será alcançado pelo mais rápido. incluindo as teogonias míticas. Efectivamente. Tais elementos seriam misturados de modos diversos a partir de dois princípios universais. se a tartaruga (mais lenta) saísse à frente de Aquiles (herói). personificando a idéia de força de atração ou harmonização das coisas. a vida e a Natureza. o mais lento sair bem à frente. se e somente se. o amor. Acreditou que o elemento primordial era constituído por quatro elementos: o fogo. Truyol y Serra apresenta. fundadas num politeísmo antropomórfico. estas. ou seja.

idéias semelhantes seriam usadas mais tarde por Parmênides de Eléia e Empédocles de Agrigento nos poemas que cada qual escreveu. Protegida por seus deuses baseava-se em normas tradicionais de fundamento religioso. Ele afirma a existência de uma justiça cósmica de caráter imanente que preside a geração e a dissolução dos seres particulares. por exemplo. 87. 11 Este seria uma grande pólis. A justiça aparece no seu poema como um SERRA. o que justifica a necessidade de buscar um elemento primordial que permanecesse sempre o mesmo. p. a mudança. themistes. pp. Para este autor. regulamentações que paulatinamente constituíram o nomos. a pólis. Portugal: Instituto de Novas Profissões. São categorias cuja origem é social: a noção de lei. Podemos entender por nomos a idéia de ordem da pólis. ambos intitulados Acerca da Natureza. A.apreensão das suas relações segundo a natureza das relações entre os homens”. O cuidado com os valores culturais de cada pólis garantia uma convivência pacífica. T. ou seja. O homem desta época vivia em uma comunidade autárquica e sagrada que configurava o microcosmo. uma grande comunidade sujeita a uma lei ordenadora. 85-86. 10 A filosofia do mundo natural precisou trabalhar com categorias nascidas da experiência da vida humana. ou seja. 10 18 . de uma forma ou de outra expressa na literatura disponível à época. Truyol y Serra aponta que Anaximandro teria transposto ou deslocado a idéia de justiça da pólis para o universo. Cada cidade apresentava independência jurídico-política. História da Filosofia do Direito e do Estado. Parmênides teria personificado a Justiça nas deusas Themis e Dike entre o dia e a noite e entre a verdade e a opinião. a mitologia. A imagem da comunidade foi útil para a representação da Natureza. 1985. O enigma que perturbava o espírito dos pensadores pré-socráticos era o movimento. Esse sentido seria alargado diante das novas necessidades que a vida comunitária exigiria. Não fica difícil perceber que a idéia de justiça significava garantir essa convivência harmônica a partir de uma repressão a tudo que pudesse comprometer a ordem estabelecida. as regras morais e os preceitos jurídicos indistintamente misturados. 11 Esta idéia estaria presente no único fragmento existente da obra Sobre a Natureza.

o amor e o ódio enquanto forças originais fazem e desfazem as coisas. a multiplicação de um número ímpar (3) por ele mesmo alcançaria o número 9. conceberam os números como essência das coisas e expressão de harmonia e regularidade no sentido específico de totalidade ordenada. o logos. Os pitagóricos formularam uma definição de justiça como “aquilo que alguém sofre por algo” – a justiça como uma relação aritmética de igualdade entre dois termos. Deste modo. porque a multiplicação de um número par (2) por ele mesmo daria 4. 19 . Sabe-se que Pitágoras e Heráclito apresentaram considerações mais explícitas sobre a vida social. Essa harmonia. Empédocles usa a idéia de justiça para tentar uma explicação do universo. Todos os homens participam dessa ordem. a justiça é luta. Cresce o interesse pela vida humana e individual e a Filosofia se configura na possibilidade de uma purificação interior. Heráclito de Éfeso associa justiça e ordem universal. Como concebeu a realidade em perpétuo devir. Por analogia o logos estaria oferecendo ao homem a norma para a ação correta.não é. assume o sentido de uma correlação de condutas. Esta unidade realizada pelo logos manifesta-se no fogo. embora nem todos a revelem em sua conduta. A justiça nessa concepção funda-se na ordem natural presidida pelo número. Todavia esse perpétuo fluir é presidido por uma lei eterna e universal. Heráclito evoca as Erínias. a lei estende-se sem alteração. Com Pitágoras ganha relevo a preocupação ética e religiosa. personagens da mitologia que eram servidoras de Dike. Simbolizavam a justiça nos números 4 e 9. Este logos seria o responsável pela harmonia invisível entre os opostos. afirmou ainda que o devir nasce dos contrastes e que este surge da luta. forçavam o Sol a voltar à órbita se acaso se afastassem. que segundo a narrativa mítica. Os pitagóricos foram os primeiros a organizar uma teoria da justiça no interior de sua doutrina dos números. Esta igualdade aparece como elemento essencial da justiça. Pitágoras antecipa também a relação entre Filosofia e política.princípio estático que assegura a imutabilidade do ser que ele afirma com vigor: o ser é e o não ser . Essa lei única e divina alimenta a 12 12 Trata-se de uma das fontes do idealismo ético de Platão. transposta para a esfera humana.

A.C. História da Filosofia do Direito e do Estado. 13 20 . Ao apresentar esse conflito. Sófocles conduz-nos. a ordem equilibrada. superou o sentido de autoridade expresso nos poemas homéricos enquanto sentido da justiça. legislador e poeta. conferindo o seu sentido de sagrado e justificando qualquer sacrifício em seu nome. p. 1985. Esse predomínio da concepção de Hesíodo aconteceu por ocasião de profundas transformações políticas e sociais nos séc. Este conflito constitui o núcleo dramático da tragédia Antígona. que conduziu às codificações e destacou a figura de Sólon. VII e VI a. Agamémnon). T. fundada na justiça. um jusnaturalismo cosmológico de cunho panteísta. Sólon fustigou a hybris como a máxima negação da ordem. Resgatar o equilíbrio entre o crime e o castigo é função da pólis. Importa perceber que a moralidade.lei humana. A negação da lei deve ser resolvida com uma sanção conforme o princípio que conhecemos pelo nome de talião: “quem praticou a violência sofrerá violência” (Ésquilo. portanto. No âmbito literário. Sófocles acrescenta um problema novo: o do antagonismo entre as leis humanas e as leis divinas. Sólon. de SERRA. Sabe-se que a idéia de igualdade na reciprocidade. apresentada na narrativa hesiódica. A idéia de retribuição está fundada na mais antiga tradição e configura uma legalidade cósmica que para os homens assumia o caráter de férreo destino. fundamenta-se numa lei natural. o que configuraria o que ele entendeu por eunomia. 13 Essa filosofia natural pré-socrática conferiu validade à concepção helênica de justo percebida em Hesíodo e Homero.89. A cidade deve ser comum a todos e todos devem se interessar por sua conservação. Sólon observou a necessidade de homogeneidade social que excluiria as desigualdades excessivas. tanto para os pitagóricos quanto para Heráclito. Na fase présocrática houve. foram os os poetas trágicos como Ésquilo e Sófocles herdeiros dessa concepção de justiça pré-socrática. Portugal: Instituto de Novas Profissões. A lei representa o equilíbrio e a hybris a desmedida. ou seja. anunciou em suas Elegias o conceito de eunomia.

os elementos últimos da realidade. a não universalidade das leis entre as pólis. Sabemos que Demócrito professou um materialismo mecanicista que considerava os átomos. sua meta era a eutimia que significava um estado de alma sereno e alegre. de tranqüilidade e equilíbrio. porque acreditava que tais coisas perturbavam o espírito. todavia reconheça e enfatize o caráter sagrado das leis não escritas. ou filósofos da physis. ou seja. na preeminência da alma sobre os sentidos. por sua vez. nesse sentido. móveis no vazio. A importância de mencioná-lo separado dos demais é que ele inaugura o que denominamos de período sistemático da filosofia helênica que. à filosofia jurídica da sofística. combatia o casamento e a paternidade. A tradição atribui a Leucipo a inspiração deste pensamento que a rigor despoja o universo de qualquer concepção divina. pois compreendia que a prosperidade do indivíduo está vinculada à vida na pólis. Como Sócrates. Daí preocupar-se com questões sobre o bom governo e sobre normas. Demócrito inclina- Chamo a atenção para um ponto interessante: a figura do coro na tragédia Antígona desvela certo vestígio da antropologia sofística que exalta o homem e suas obras. 14 21 . 14 Heródoto de Halicarnasso transpôs para o âmbito da história a concepção de justiça oferecida pela tradição. Este pensador nos conduz à problemática da sofística. longe da desmedida. O seu individualismo se refletia na esfera da família e.) foi o último dos pré-socráticos.C. ou seja. concebia a felicidade na moderação. Trata-se de uma concepção religiosa de justiça em que os deuses ansiosos por justiça procuram manter os homens longe da demasia e dos excessos do orgulho. a relatividade dos costumes. Um estudo através dos fragmentos deste pensador nos permite perceber que sua ética apresenta um desenvolvimento independente de sua filosofia natural. Esse pensador considerado o “pai da história” apresenta um novo problema: a diversidade das convicções e instituições humanas. Demócrito de Abdera (460-370 a. Essa concepção não se estendia ao âmbito político. Sua ética apresenta o que podemos denominar de hedonismo esclarecido. culminará no pensamento de Platão e Aristóteles.certo modo. embora apresente a advertência que a obra humana também poderá gerar um grande mal. Segundo Aristóteles.

entendase aqui Clístenes. V e poderia significar o povo como um todo. Podemos afirmar que os ideais democráticos não eram aceitos por todos. ou o próprio povo de Atenas na ekklesía. todavia acredita-se em certa aparição indireta ou virtual. ou melhor. aproximadamente em 420 a. literalmente krátos significa poder soberano do demos. A teoria democrática tal como se configurou em Atenas viu-se diante da tarefa de 22 . Demokratía é considerada uma palavra ambígua no universo ateniense. na tragédia A suplicante. registrada em Ésquilo. a partir de um equivalente poético: demou kratousa kheir. As fontes fidedignas não revelam quem inventou a palavra demokatía ou quando começou a ser efetivamente utilizada. como o governo das pessoas comuns que estabelecem uma ditadura da maioria sobre os melhores cidadãos. Tradicionalmente. A palavra demokratía somente aparece em Histórias de Heródoto e na Constituição de Atenas de Xenofonte.C. ou seja. sabe-se que esteve presente pelo menos por dois séculos de existência (508 a 322) no mundo grego ateniense. Muitos dos seus opositores defendiam um retorno ao sentido de democracia de Sólon. Demokratía poderia ser vista como o governo do povo como um todo ou. outros pretendiam uma volta à forma oferecida por Clístenes e alguns defendiam ferozmente uma oligarquia. comentamos que Clístenes desenvolveu um sistema de democracia. igualdade perante a lei. 6 .se para uma aristocracia vinculada ao conceito de sabedoria: em seu modo de ver os melhores deveriam governar. a maioria pobre do corpo dos cidadãos. ou ainda uma denominação dada a pequenas áreas dentro da pólis (espécie de divisão em bairros ou comunidades). havia inúmeros adversários. grego. para um opositor.Democracia ateniense A democracia ateniense não foi obra de um único homem. que significa “a mão soberana do demos”. Demos tinha acepções diversas na Atenas do séc. o conjunto dos cidadãos adultos do sexo masculino. em 508-7. mas observa-se que a palavra democracia foi inventada tardiamente. entendido como isonomia. Demokatía poderia significar também constituição.

sobretudo em face das críticas Aristóteles na obra Política. Uma introdução à cultura clássica ateniense. Peter (org) O mundo de Atenas. todos os problemas de Estado eram observados primeiramente pelos cinqüenta prutáneis que viviam em constante vigilância. A palavra ekklesia significa literalmente: “um grupo que é chamado” e que se reunia em uma colina chamada Pnix a sudoeste da agorá que era o centro cívico de Atenas. 15 23 . Péricles: estadista e general. Se constatado a relevância do problema os prutáneis convocavam uma reunião plenária da boulé dos 500 e. A primeira reunião era denominada de ekklesia soberana (Kúria). na década de 320 a ekklesia realizava quatro reuniões fixas em cada um dos meses que constituíam os dez meses civis. Os cidadãos de mais de dezoito anos que estivessem inscritos nos registros do seu demo (comunidade) poderiam integrar a ekklesia. elaboradas por O período mais conhecido ou famoso da demokratía ateniense é o da segunda metade do século V.uma reconstrução. O assunto principal era a política externa. se necessário. incentivador da democracia e do imperialismo ateniense. todavia as fontes disponíveis que tratam do tema remontam ao século IV. A democracia descrita por Aristóteles na obra Constituição de Atenas (Athenaion Politeía) não é. a democracia de Péricles15. portanto. órgão encarregado da tomada de decisões da democracia direta ateniense. as decisões eram tomadas e executadas diretamente pelos cidadãos de Atenas. Tal função foi posteriormente delegada a um órgão menor de legisladores (nomothétai). pronunciavam maldições contra traidores e. São Paulo: Martins Fontes. o que compromete seu estudo.C. Duas instituições eram fundamentais para configurar a imediatez dos procedimentos políticos de Atenas: a ekklesia (Assembléia) e a boulé (conselho dos 500) com seu subcomitê de prutáneis (presidentes). por volta de 403 a. 1997. em seguida iniciavam as oferendas de purificação. JONES. Este órgão não só deliberava sobre as políticas a serem seguidas. Cada participante era inicialmente verificado. visto que esse sistema aperfeiçoou-se ao longo do tempo. A democracia ateniense difere da nossa democracia representativa. convocar-se-ía a ekklesia. como também legislava. De acordo com os relatos de Aristóteles. Segundo especialistas. a partir de então.

Essa habilidade imperiosa para o cidadão ateniense proporcionou um grande desenvolvimento da educação sofística.começavam as sessões. 16 24 . Os cidadãos que falam à tribuna eram denominados de rhetores. onde aquele que expressava com maior clareza suas idéias. Foi JONES. p. no séc. Alguns desses oradores foram também denominados de demagogós que significa literalmente. A ekklesia exigia qualidades especiais em seus oradores que lançavam mão da persuasão para obter êxito em relação aos seus interesses. ou melhor. “o condutor do demos“ thesmothétai.210. Uma introdução à cultura clássica ateniense. os políticos. Por razões não difíceis de compreender. São Paulo: Martins Fontes. Os rhetores falavam na ekklesia na qualidade de líderes de pequenos grupos de políticos ou pessoas com idéias parecidas (não confundir com o que chamamos hodiernamente de partidos políticos). 1997. Nesse sentido. IV introduziram uma espécie de pagamento para compensar o comparecimento que implicava perda de horas de trabalho. entre 400 e 330 a Pnix sofreu reformas para acomodar um número cada vez crescente de cidadãos alcançando o quorum de 13 mil participantes. Outro fator importante a ser destacado é que na prática nem todos os cidadãos participavam da ekklesia ou poderiam subir à tribuna. freqüentemente tornava-se o porta-voz. Em Atenas. mas que pelo menos 5 mil efetivamente participavam da ekklesia. ou seja. Sabe-se que uma reunião ordinária durava menos do que um dia. Eram agrupamentos informais. Tanto o local não comportava um grande número de cidadãos como muitos não se sentiam atraídos pelo debate ou ainda viviam desmotivados pela longa distância que teriam que percorrer dos demos até a Pnix. democracia ateniense implicava A condução da justiça em Atenas era responsabilidade dos A também uma grande participação do cidadão nos tribunais. na antiga Grécia não havia a separação dos poderes. oradores ou ainda politeuómenoi. Peter (org) O mundo de Atenas. 16 . seis funcionários. Acreditam alguns historiadores que a população de cidadãos de Atenas flutuava em torno de 20 ou 50 mil pessoas.

como também. Os dikastai eram pagos por cada dia de sessão. graphé paranómom18. O homicídio. era considerado como díke por prejudicar o papel da família. configuraria um caso público para quem quisesse salvaguardar a democracia. pagamento que fora introduzido por Péricles. Observa-se ainda a inexistência de um órgão que funcionasse como a promotoria pública ou uma força policial específica. intimação por escrito. por exemplo. Jones. O surgimento de um tribunal popular como recurso contra as decisões das autoridades se deu com Sólon em 594. 17 Podese presumir que o cidadão que comparecia para ser “jurado” era o mesmo que tinha o hábito de comparecer às ekklesias. mais tarde no séc. denominado de Eliaia. eram escolhidos dentre os que se ofereciam para tal. O procedimento específico desses órgãos ficava a cargo da iniciativa particular. Se um orador na ekklesia apresentasse uma proposta inconstitucional. todos os tribunais do júri passaram a figurar como Eliaia. Rumores de subversão e problemas de desafeto político também possibilitariam uma graphé. Observa Peter V. embora houvesse a distinção entre casos públicos e casos particulares. ao orador Cf. Tais tribunais eram constituídos por jurados em um número que poderia variar entre 201 a 2. Cf. Sabe-se que o júri era escolhido de acordo com a necessidade a partir de uma lista anual de 6 mil jurados e. mas como primeira instância. Nos casos públicos a iniciativa ficava a cargo de quem quisesse emitir uma intimação. graphé. Muitas vezes a ekklesia funcionava como tribunal. nesse sentido. ressaltou que o cidadão de uma democracia não só participava da boulé e ekklesia. IV. mas “jurados” que eram ao mesmo tempo juízes. não só como fase recursal.501 membros e. Neste último somente a parte ofendida poderia mover a ação que por sua vez era denominada de díke. na obra supramencionada que o termo “jurado” é um termo inapropriado para designar os dikastai. O primeiro uso da graphé paranómom foi verificado em 415. Também foi utilizada na competição pelo sucesso político. As vespas (422) de Aristófanes que constitui uma sátira sobre os tribunais. pois não havia juízes no sentido moderno. também foram chamados de dikastéria. Uma vez emitida a intimação. momento em que houve rumores de subversão.Aristóteles em sua obra Política que participava nos tribunais. 17 18 25 . Após 462-61. A graphé paranómom substituiu o ostracismo que foi abandonado por volta de 416.

1997. a queixa era registrada por escrito e ambas as partes depositavam um sinal referente as custas que o perdedor pagava por inteiro após o julgamento. esta ficaria suspensa até o julgamento e. em certo sentido. Na obra Apologia de Sócrates que narra a versão platônica sobre o julgamento de Sócrates condenado à morte em 399. Uma introdução à cultura clássica ateniense. Não havia advogados. 26 não submetê-lo a qualquer tortura. As testemunhas embora fundamentais não eram ouvidas pelas duas partes e os jurados reagiam conforme suas emoções e preconceitos morais. as partes poderiam invocar a arbitragem a qualquer tempo em um processo civil. o réu comunicado perante testemunhas deveria apresentar-se ao árkhon. O testemunho de escravos somente poderia ser aceito se obtido sob tortura. o princípio da responsabilidade democrática alcançando a todos. procedia-se a uma intimação. Segundo os historiadores. conselho judiciário em dia estabelecido.com proposta de lei inconstitucional. a intimação era feita verbalmente. Em Atenas. O conselho judiciário fixava um dia JONES. Na verdade. Peter (org) O mundo de Atenas. Se viável. o povo como jurado julgava o próprio povo na ekklesia o que desvela. sendo considerado culpado. A parte ofendida se dirigia à agorá e verificava se as leis que lá estavam expostas apoiavam seus interesses e qual o procedimento adequado à sua causa. p. IV havia o recurso da arbitragem. porque eram considerados objetos sem alma. Ambas as partes concordavam com a participação de árbitros particulares e se comprometiam a aceitar as decisões. Inicialmente. Os jurados votavam imediatamente após a fala dos querelantes. Sabe-se que no séc. 224. o que contribuiu como argumento válido para a limitação de testemunhos considerados pouco . coisas. Na data prevista tal conselho decidia sobre a possibilidade ou não do processo. percebemos as peculiaridades do tribunal ateniense. pagaria uma multa e seu projeto seria imediatamente cancelado. sem regras para apresentação de provas e sem juiz. Se tal método não fosse eficaz. sem fazer uso de recintos reservados ou de conselhos de juiz. São Paulo: Martins Fontes. os querelantes falavam em causa própria. o escravo era tido como um bem familiar valioso para o senhor que preferia confiáveis.

que sofreu a perda parcial dos direitos civis por se envolver na profanação dos Mistérios de Elêusis.231-2. a história. sobretudo nos casos considerados particularmente graves e era até mesmo dirigida aos descendentes. o de Andócides.. a retórica. 1997. embora a cidade não possuísse uma burocracia. a ética. 19 Cf. nesse sentido. participar nos tribunais. a perda dos direitos civis era de caráter perpétuo. São Paulo: Martins Fontes. escultura e arquitetura).C.para a audiência e determinava que uma cópia da queixa fosse exposta publicamente na agorá. Segundo Aristóteles. propriedades ou o exílio. Atenas contava com setecentos funcionários. A recusa repetida a fazer um acerto ou acordo poderia ensejar mais processos e até mesmo a perda dos direitos civis (atímia). entrar nos templos e na agorá. Peter (org) O mundo de Atenas. A sua envolve a matemática. o que ressalta o sentido democrático na oportunidade de ocupar cargos públicos por turnos. Os julgamentos em uma graphé e as sentenças de morte proferidas eram atribuições de funcionários da cidade. Uma introdução à cultura clássica ateniense. a política. tal sentença foi revogada por ocasião de uma anistia geral extraordinária concedida em 403. integrar a boulé. pp. 19 Enfim. o homem na condição de átimos poderia ser morto ou roubado sem ter A atimía não acarretava a perda das direito à reparação legal. a lógica e as artes (poesia. o querelante vencedor poderia apossar-se de suas propriedades no valor referente à quantia imposta. Segundo seus relatos. A situação de atimía equivalia a estar fora da lei e. Atenas tinha um grande número de funcionários com mandatos anuais. antes. porém equiparava-se à morte no sentido político. Peter V. importância Atenas foi a pólis grega que mais contribuiu intelectualmente para o desenvolvimento das ciências e artes. na segunda metade do séc. No caso de uma dike a aplicação da sentença era função do ofendido. no sentido moderno do termo. 27 . em 415 a. a privação absoluta dos direitos civis: falar na ekklesia. a lingüística. Jones nos relata um caso curioso. V. JONES. Se o condenado se recusasse a pagar a quantia estipulada. Em geral.

Estes senhores cultivaram a retórica. convencional. Ressaltaram arbítrio dos homens que a contraposição entre o natural e o convencional.A Sofística e Sócrates O século V vivenciou um esplêndido apogeu cultural na cidade de Atenas. 28 .Seus pensadores desenvolveram teorias que permaneceram válidas durante milhares de anos e algumas perduram até hoje. pois a tendência à retórica baseava-se em certo racionalismo e um espírito crítico que calcava aos pés a tradição helênica. Mas o que fizeram tais homens? Os sofistas freqüentemente criticavam o fundamento que conferia validade às leis e costumes da tradição. Muitos estudiosos denominaram esta fase como o Iluminismo grego. Atacavam o aspecto sagrado da tradição helênica. o estabelece o que é justo ou injusto. Esta cidadeestado experimentou um verdadeiro entrecruzamento de pensamentos filosóficos que contribuiu para a passagem do período cosmológico para a fase antropológica. conferindo maior importância à argumentação . é o costume. 7 . além de não constituir uma unidade sistemática. certo ou errado. O único estudo da sofística repousa na existência de alguns fragmentos ou fontes indiretas. vinculado à vontade dos homens. Todas as informações que temos dos sofistas foram obtidas através dos diálogos de Platão. ou seja. Foi nesse contexto que surgiram os sofistas. seu inimigo declarado. considerada a capital intelectual do mundo helênico. A lei e os costumes assumiam um caráter essencialmente humano. A sofística se tornara uma exigência da própria democracia ateniense: formar cidadãos capazes de brilhar nas assembléias. Tais homens causaram receio e escândalo que se refletiram nas comédias de Aristófanes e nos diálogos de Platão. Eles observavam a diversidade cultural de sua época e percebiam a mudança na esfera das instituições. Nos diálogos de Platão os sofistas figuram como os interlocutores de Sócrates.a arte de convencer por meio do discurso em detrimento da busca pela Verdade. resta-nos a máxima prudência possível ao tentar compreendê-los. Nesse sentido.

Assim como nos pensadores jônicos, o ponto de partida dos sofistas foi o movimento e a procura de uma realidade única capaz de permanecer idêntica a si mesma. Nesse sentido, surgiu com os sofistas a dicotomia natureza (physis) e lei (nomos) ou convenção. A moralidade passa a estar desligada da ordem natural e o interesse pela conveniência assume o status de pilares da vida social. Trasímaco da Calcedônia que figura como personagem na República, livro I, afirmava que a origem do nomos estaria no interesse, interesse do mais forte. Cada governo promulga leis que lhe são favoráveis. O justo é o que interessa ao governo estabelecido. (Trasímaco pretende descrever aquilo que de fato acontecia) Cálicles, personagem do diálogo Górgias de Platão, concebe o nomos como estabelecido em benefício da massa dos fracos como um limite ao excesso de superioridade dos mais fortes. Cálicles confundia os mais fortes com os melhores. Em seu modo de ver, a injustiça consistiria em alguém se destacar dos demais. Há na sua doutrina uma clara oposição entre um estado de natureza e o estado civil, regido por um direito positivo que limita a liberdade natural. O seu conceito de natureza se reduz aos instintos irracionais primitivos e espontâneos no homem. A oposição entre natureza e convenção criou as condições de possibilidades para uma crítica das instituições positivas. Nesse sentido, atacaram os privilégios de cidadania e de classe, a escravidão, a subordinação da mulher ao marido20 e a discriminação entre gregos e bárbaros. Sabe-se que um sofista chamado Antifonte, escrevera a obra Sobre a Verdade da qual restou apenas um fragmento, afirmava a igualdade natural de todos os homens, asseverando que as leis estabelecidas pelos homens eram leis contrárias à natureza que, na verdade, deveriam conduzir a um igualitarismo democrático. Em outro tratado atribuído a Antifonte, Sobre a Concórdia, os fragmentos que se conservaram afirmavam a obediência às leis fundamentadas em um egoísmo enraizado numa educação criadora de hábitos socialmente aceitos.
Os defensores de certo feminismo foram ridicularizados por Aristófanes na obra O congresso das mulheres.
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Crítias, parente de Platão e que fora membro do governo tirânico dos Trinta em Atenas, atribuiu a uma argúcia a origem da obediência às leis e a crença nos deuses. No seu modo de ver como um crime só pode ser punido se a infração for conhecida, o homem teria inventado um ser divino que tudo vê, conhecedor das infrações mais ocultas. Outro sofista importante foi Protágoras de Abdera que, ao lado de Górgias de Leontini, figura como um dos mais antigos representantes da sofística. Sabe-se que Protágoras fora amigo de Péricles e que recebera deste a tarefa de elaborar a redação das leis da colônia ateniense de Turioi, no Sul da Itália, por volta de 444 ou 443 a.C. Observa-se também que Platão tratou-o de forma diferenciada. No mito platônico, Protágoras fundamenta a coesão social nas virtudes do pudor e da justiça, ofertadas aos homens por Zeus. Como os homens viviam em incessantes lutas, Zeus concedeu o dom que iria permitir a edificação das cidades. Esse mito retrata o problema do desenvolvimento das aptidões sociais a partir de uma dura e lenta aquisição do gênero humano prevalecendo sobre as tendências egoístas. Para Protágoras quem não possuir as duas virtudes mencionadas deveria ser eliminado da sociedade, justificando desse modo a supressão dos insociáveis mediante uma teoria da pena como função intimidatória em nome da defesa social. Há a crença numa virtude social média que o esforço pedagógico seria capaz de aperfeiçoar – certo otimismo antropológico. Neste sofista encontramos um relativismo ético que converte em regra desejável a utilidade social. Protágoras transforma o nomos em conseqüência de um acordo de todos os membros da sociedade. O justo será o conveniente em cada caso, desvelando assim, certo pragmatismo. Protágoras configurou também o momento de um relativismo gnosiológico expresso em sua mais famosa frase: “o homem é a medida de todas as coisas: das que são enquanto são; das que não são, enquanto não são”. A sofística contribuiu para a reflexão filosófica na medida em que estimulou os debates sobre os valores partilhados e introduziu novas à formulação de estudiosos do
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idéias. O racionalismo que marca suas considerações críticas inspirou projetos de reformas institucionais que conduziram constituições supostamente perfeitas. Para alguns

helenismo, esse teria sido o momento do surgimento de um gênero literário que para outros só aconteceria muito mais tarde: a utopia. As duas primeiras utopias seriam as de Hipodamo de Mileto e de Fáleas da Calcedônia que foram analisadas por Aristóteles no livro II da Política. A diversidade nas instituições que inspirara os sofistas contribuiu para o surgimento de várias formas de governo. A pólis era a maneira comum de organização, mas o regime variava conforme os indivíduos ou grupos que detinham o poder. Os gregos denominaram de tiranos, os homens que alcançavam o poder de forma irregular, a palavra não tinha o sentido pejorativo que atribuímos. O mundo grego vivenciou a monarquia, o surgimento de uma classe média com a passagem de uma economia natural para uma de cunho mercantil, oligarquias, tiranias e democracia direta que desembocou em demagogia. Heródoto, no livro III, de sua obra História, oferece-nos uma ficção em que há uma séria discussão sobre as diversas formas políticas de governo. Heródoto as observa e as classifica de acordo com o exercício do poder: monarquia, o poder supremo pertence a um indivíduo; oligarquia, o poder pertence a um grupo reduzido de homens que receberam uma educação específica; isonomia, que pertence ao conjunto dos cidadãos, o demos. Esta classificação será sistematicamente observada por Platão, no diálogo O Político e, em Aristóteles, na obra Política. Na época que estamos a considerar dois nomes são importantes para o debate sobre as formas de governo: Isócrates e Demóstenes. Ambos trataram de um problema fundamental à Democracia: a chefia nesse regime democrático. Combateram a demagogia e a corrupção dos tribunais populares. A despeito dos vícios desse regime Demóstenes o considerava o único legítimo. Já Isócrates21 propôs uma reforma que significaria a substituição de uma democracia direta por uma indireta e, nesse sentido, os melhores estariam encarregados da gestão dos negócios públicos. Foi este pensador que distinguiu o sentido de justiça de “dar a cada um o que merece” do sentido “dar a todos o mesmo sem discriminação”. Mais tarde na obra Panegírio de Atenas (380 a.C.)
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Na obra Areopagítico(354 a.C.) e Panatenaico(340 a.C.) 31

C. isso se deu de tal forma que muitas vezes uma linha tênue separa o homem lendário do histórico. não se preocupa com grandes discursos. Ciropédia e Econômico. são: Apologia de Sócrates. a simplicidade na exposição e. observa a necessidade de substituir a obediência cega ao nomos por uma explicação racional convincente. Críton. Foram considerados como socráticos porque os diálogos posteriores apresentam mais acentuadamente a personalidade de Platão. introduz os temas mediante o uso de perguntas e respostas que vão pouco a pouco rodeando o objeto. Eutífron. descobrindo seus diferentes aspectos até desnudar a superficialidade e imprecisão de certas opiniões ou juízos proferidos pelo senso comum acerca de tal objeto – Xenofonte(ca. assim como os sofistas. Sócrates nada escreveu. tornou-se o ponto de partida de várias correntes doutrinárias. 8 . antes. contemporâneo e opositor mais importante dos sofistas. 22 32 .430-354 a. Sua existência nos foi transmitida por Platão ao colocá-lo como personagem principal em vários de seus diálogos. porém prioriza a clareza nos conceitos. Pode-se acreditar que Isócrates tenha pressentido a possibilidade da caducidade da pólis grega em face da era dos grandes impérios do período helenístico e romano. Sócrates. O que se deve advertir é que se torna recomendável comparar a figura de Sócrates traçada por Platão e a apresentada por Xenofonte22. Difere dos sofistas quanto ao método.) Este pensador.ressaltou a problemática da política externa e apresentou a idéia de uma confederação pan-helênica que pusesse fim a atomização política da Grécia. Protágoras. Na verdade. mas enquanto personagem platônico expressou o pensamento de seu discípulo e supostamente o seu próprio de forma que não fica claro a diferença entre o pensamento de um e o do outro. ou seja. Sócrates se tornou a figura mais significativa da Filosofia Antiga e.) – suas obras foram conservadas na íntegra: Hierão. orienta sua investigação para os problemas humanos. Os diálogos platônicos considerados pela tradição como “diálogos socráticos”. República de Atenas.C.Sócrates (469-399 a. além das referências feitas por Aristóteles. Górgias e o livro I da República. República dos Lecedemônios.

porque a verdade nasce no interior desse diálogo. a temperança e a justiça são condições indispensáveis para a maior felicidade humana. Esta legitimidade essencial não é destruída por erros acidentais. se por uma fatalidade a cometeu. o homem pratica o mal por ignorância do bem. Sócrates personifica. É a pólis que torna possível a vida do cidadão. Sócrates ensinava que as leis eram necessárias e correspondiam a uma exigência da natureza humana. Quero dizer com isso que para Sócrates a moral se reduziu ao conhecimento do bem. Podemos dizer que o seu método o conduziu a um intelectualismo ético. portanto. No âmbito da filosofia político-jurídica. Isto implica dizer que a obediência às leis é um dever sem excusas. cujo espírito prefere demonstrar uma ignorância confessa a apresentar um falso saber. A esse respeito cito Truyol y Serra: “Sócrates vê na cidade uma realidade ética. O próprio Sócrates alega que. pois acreditava que todos poderiam conhecer a verdade se interrogassem a si mesmos e comparassem seus juízos com os dos demais. No seu modo de ver. Também se opusera a um acordo ilegal feito em assembléia popular. Seu método enfatiza a necessidade de definições rigorosamente formuladas. nesse sentido. Sócrates se opõe à tese sofística da moral do mais forte e do relativismo. no interior de uma ética comprometida com o aperfeiçoamento da alma humana. a pena figuraria como um remédio para o homem. fundamentada na ordem divina das coisas. o diálogo Críton.23 Faz-se mister ressaltar que essa postura de Sócrates não torna lícitas considerações de que ele teria sido um positivista que tenha separado o Direito da Justiça. ensinando em seu lugar o princípio segundo qual é mais digno sofrer a injustiça do que cometê-la e. Nesse sentido. portanto a figura do homem insubornável.método maiêutico. o papel de tornar possível essa perfeição. ofereceu resistência passiva a uma ordem injusta. 33 . sob o governo dos Trinta Tiranos. O conhecimento se torna uma virtude e. logo há um acordo tácito pelo qual o cidadão deve a sua obediência. Mas essa desobediência não pode ir ao extremo de pôr em perigo os alicerces da 23 Cf. é preferível aceitar a sanção correspondente. em certa ocasião. A Filosofia assume.

pois não compreendia como uma multidão poderia conduzir corretamente os negócios públicos com a devida competência.C. 111. Outro fator importante é a sua oposição ao regime democrático de Atenas. sem os quais é inconcebível uma vida humana digna de tal nome”. Estas leis estariam nas consciências humanas fundamentando sobretudo as leis positivas. Peter (org) O mundo de Atenas. O nome cínico se deve ao fato de que Antístenes ensina junto ao Cinosarges. Resumidamente podemos dizer que a escola cínica é tradicionalmente atribuída a Antístenes (ca. foi condenado à morte.ordem social. Uma introdução à cultura clássica ateniense. das que podemos chamar de “socráticas” por aproximarem-se de Sócrates no focar dos problemas por este tratado. Todavia não ignorava os conflitos que na realidade aconteciam entre ambas. São Paulo: Martins Fontes.C.24 Ademais. daí a palavra cínicos para os seguidores desta escola.) como primeiro cínico. Nos diálogos Apologia de Sócrates e Fédon conhecemos um pouco dessa morte trágica e podemos perceber Sócrates como um verdadeiro homem virtuoso que não fugiu à morte. A virtude é convertida na JONES. Pórtico do Cão. que acreditava na imortalidade da alma e na justiça divina. 24 34 . seu pensamento tornou-se o ponto de partida de várias escolas. Sócrates concebia a existência de leis não escritas advindas da vontade reta da Divindade. O seu imperativo ético impelia-o à prática do bem. 25 Os cirenaicos foram assim chamados por ser o seu fundador oriundo da cidade de Cirene.323 a. Foi exatamente sua crítica ao regime democrático em conjunto a um método que denunciava a superficialidade intelectual de alguns homens o que concitou inimigos poderosos. 445-365 a. a jamais retribuir uma injustiça com outra injustiça. destaco os Cínicos e os chamados socráticos menores ou Cirenaicos25.) outros revelam o nome de Diógenes de Sínope (flc. A escola cínica operou uma aproximação do pensamento de Sócrates e dos sofistas. 1997. sobretudo de Górgias. O cinismo exagerou o aspecto ascético da personalidade de Sócrates. Sócrates foi acusado de introduzir novos deuses e de corromper a juventude. Como já pude mencionar. ou seja. p. visto que Antístenes foi discípulo de Górgias antes de seguir Sócrates.

moderação entendida esta como verdadeira negação de necessidades. Os cirenaicos identificaram o bem com o prazer. Desaconselhavam o casamento em face do amor livre. Postula-se a indiferença em relação aos bens externos. O conceito central dos cínicos era a auto-suficiência do sábio e a partir desta concepção formularam críticas às instituições e valores sociais. Pregaram uma desvalorização da cultura e. Conforma-se com o mundo. Os socráticos menores ou Cirenaicos partem de um ponto de vista aparentemente oposto ao dos cínicos. ou seja. Comentam os estudiosos que esta doutrina veio a cair num pessimismo motivado pela experiência deprimente da fugacidade do prazer. o desapego do significado da pólis em face de uma concepção cosmopolita. afasta-se. sobretudo de uma participação política e social. o prazer é fugaz. Negou-se a vida quando esta não poderia oferecer o mínimo de prazer.C. O seu ideal seria um estado de natureza sem convencionalismos. Sabe-se que o seu fundador. Um pacifismo radical no interior de um cosmopolitismo igualitário.). O sábio cirenaico afasta-se de tudo o que não oferece prazer. 35 . Aristipo (435-355 a. portanto eram avessos à propriedade. sem intenções de reformas nas instituições. apresentando como saída possível o suicídio. Na ética cirenaica abre-se o caminho para o postulado de uma autosuficiência. antes de se vincular a Sócrates fora discípulo de Protágoras. compreendendo este como satisfação de um desejo. glorificando o bom-selvagem26. configurando um verdadeiro conformismo. Compreenderam que a forma monárquica seria a mais 26 As idéias do cinismo nos fazem lembrar as proferidas por Rousseau sobre o bom-selvagem. logo surge a necessidade psicológica da sua repetição que causa com o tempo um amortecimento progressivo. Em seu modo de ver a virtude é uma faculdade de gozar e a sabedoria significa saber procurar o prazer. à família. A diferença entre os sábios e os ignorantes repousa sobre a capacidade de autodomínio e desapego aos bens materiais. Percebe-se um vínculo com Sócrates também distante. Construíram um jusnaturalismo fundado na moral da renúncia. Compreendiam natureza como o locus de uma espontaneidade sem esforço. hegesias. ao nomos etc. à cidade. hedone.

Eles professavam um moral e jurídico que mais tarde será adotado por Epicuro. O apogeu dessas duas doutrinas que contribuíram para formação do estoicismo e do epicurismo marca a decadência da pólis grega como forma suprema de vida. 36 . não há outro direito que o direito fruto da vontade humana. mas positivo. afirmaram que nada é positivismo posterior justo por natureza e. O extremo individualismo que surge opera certo desligamento da felicidade em relação à comunidade e em relação à tradicional concepção do homem como bom cidadão. nesse sentido. Não conceberam a dicotomia natureza/ norma.desejável visto não exigir participação do súdito na vida pública.

119.C. a possibilidade do conhecimento enquanto realidade. tanto do sentido de política como dos valores e Este texto foi elaborado em conjunto pelos professores Wellington Trotta e Clara Maria C. Por sua vez. o mundo sensível e o mundo inteligível como objetos de conhecimento. as escolas socráticas limitaram-se a destacar unilateralmente aspectos. Platão tornouse discípulo de Sócrates. (A República. Brum de Oliveira. apesar de tudo.)27 “Mas. ao afirmar a existência de uma ordem moral objetiva de validade absoluta.. viria a caber a Platão”. A academia de Platão durou cerca de um milênio. Ocorre o contrário com aquela cujos dirigentes são mais ávidos de poder”. Para Platão a Filosofia adquire a função de crítica dos fundamentos da cultura. de Platão) 1 .Introdução Platão nasceu em 427 ou 428 a. Nos dizeres de Truyol y Serra: “Sócrates ultrapassou o relativismo e o individualismo dos sofistas. em cujo pórtico figurava: “Não passe destes portões quem não tiver estudado geometria”. nos arredores de Atenas. 28 Nesse sentido Platão fornece a primeira formulação clássica da Filosofia. 27 37 .A justiça na concepção de Platão (428 – 347 a. até o momento em que Justiniano a dissolveu em 529 d. não deixou.C. A obra desse filósofo é uma longa reflexão sobre a decadência dos costumes atenienses. 28 P. Fundou sua Academia em 387 a. foi discípulo de Crátilo que por sua vez foi seguidor de Heráclito e. livro VII. ocasionalmente antinômicos do seu ensino.C. a verificação se o conhecimento passa pelos sentidos ou pela razão.C. a verdade é que é mais bem governada a polis em que aqueles que devem deter o poder são os menos ansiosos de poder. posteriormente. a problemática do conhecimento. um sistema. A tarefa de desdobrar em vasta síntese o que em Sócrates era apenas gérmen. Para isso tem por preocupação o método na relação direta se é possível o conhecimento.Parte II . que desenvolvesse os seus postulados. isto é. Filho de uma família da aristocracia ateniense que se dedicava à política.

enriquecido com símbolos para ajudar na compreensão dos objetos. comprazendo-se no símbolo e na fábula” (Truyol y Serra. isso a partir da aplicação do método socrático (maiêutica). portanto. para Platão. sendo assim. através da dialética (da discussão). eternas. imutáveis. ou seja. E partindo desse princípio Platão concebeu o mundo em uma realidade dualista: de um lado. o de levar seu interlocutor. fonte de sua dialética. Platão apela para o mito como recurso. a dar luz às idéias. contexto histórico que condenou seu mestre Sócrates à morte. cuja função seria denunciar a fragilidade e a ausência de fundamentos das opiniões dos homens. Platão em suas reflexões analisa as estruturas múltiplas de sua cidade e suas respectivas interferências na vida dos homens. qual a função do mito no pensamento platônico? “O eros filosófico de Platão voa jubilosamente nas asas do mito. imediato e incompleto. a natureza essencial das coisas. uma vez que a tradição mitológica mantém-se como referência cultural importante. Tratase de um discurso indireto. 120). De outro lado. No processo de buscar a essência pelo método da discussão. o mundo material visível com objetos particulares. Tal análise é realizada por meio do diálogo. uma vez que aprender é recordar as formas puras contempladas pela alma quando livre do corpo. Por isso afirma-se que o pensamento platônico é essencialmente político. em que o conhecimento é superficial. Mundo este que denominou de mundo das sombras. A essência possui existência prévia aos objetos. descobrimos a 38 .ideais (modelo). coisas e idéias complexas. ou seja. Quando pretendemos conhecer algo. O papel do filósofo seria. perfeitas. Percebe-se então que Platão abraça o problema socrático da superação do cepticismo gnosiológico (impossibilidade do conhecimento) dos sofistas. imperfeitos. inteligíveis. A partir desse princípio. isso considerando a tradição em que ele se situa e a crise política de seu tempo. trata-se de uma forma permanente na qual persiste às mudanças. perecíveis. Nesse mundo inteligível encontramos as idéias (formas puras) das coisas. O mito exerce função importante em seus diálogos. concebeu o que chamou de mundo inteligível ou mundo das idéias com realidades abstratas. E. mutáveis. a essência é a-histórica. concretos.

A realidade política de Atenas marcada pelas particularidades. o que nos revela a sua Carta VII. O seu programa visava instaurar uma política fundamentada no saber. coroa-se a idéia do Bem. o Político (Politikós) e As Leis (Nomoi) são diálogos que nos oferecem a medida da importância da filosofia políticojurídica no pensamento de Platão. estabelecendo o que deve ser aceito por todos. o abandono do mundo sensível e a busca do mundo das idéias” (A República. É isso que significa a universalidade da razão. porque essa hierarquia ontológica existe também na esfera axiológica conseqüentemente. O tema da justiça. A prática filosófica envolve assim. o Bem. VI e VII). O fim supremo do homem é realizar. É por isso que os sentidos não oferecem a possibilidade do conhecimento verdadeiro e sim aparências enganosas. A República (Politeia). Importa subordinar os sentidos à razão. o quanto possível. Portanto. da melhor forma de vida em comunidade. a mera opinião para um reexame crítico. por injustiças e corrupções. em certo sentido. o fez desistir de ingressar na vida pública. Esta famosa epístola descreve o processo da vocação político–filosófica de Platão e sua desilusão com a vida pública. independente de origem. vencendo os sentidos por intermédio de uma vida virtuosa fundada no autêntico saber. Cap. Em contrapartida as coisas singulares que existem no mundo são sombras das idéias que configuram formas primordiais ou arquétipos eternos. Platão compreendeu a corrupção como um dos fenômenos de sua época e acreditou que a Filosofia poderia resgatar a ordem e a justiça nas relações sociais. O ponto de partida é o senso comum. classe ou função. A esse respeito o próprio Platão comenta que: “A Filosofia corresponderia a um método para se atingir o ideal em todas as áreas pela superação do senso comum. 1993: 30). as idéias (formas puras) constituem a verdadeira realidade e na sua hierarquia.essência imutável deste algo que está sendo investigado (Manfredo. constitui o eixo em torno do qual gira a sua especulação filosófica. apenas doxa. Essa relação hierárquica influenciará seu pensamento político e diretamente suas construções éticas. visto que os homens públicos são dominados pelos interesses particulares. Seu projeto configurava uma concepção pedagógica da 39 .

As duas dimensões da parte irracional da alma devem se submeter à parte racional através da virtude da temperança ou moderação.Relação entre alma e cidade: o governo da razão Na República. Para Platão sua carência propicia a degeneração dos regimes políticos. nesse contexto. o fundamento da polis. ou seja. como ordem do cosmos. Nessa perspectiva Platão é o primeiro pensador a defender o caráter público da educação. Com tais virtudes surge a virtude da justiça que estabelece o equilíbrio de cada uma das faculdades em seu âmbito próprio e função específica. 3 . e outra irracional que. Estabelecendo uma analogia da alma com a cidade. Platão concebe a alma como tripartite. A relevância da educação no pensamento de Platão é outra marca de seu pensamento. 40 . Para ele uma sociedade deveria ser edificada a partir de laços integrativos. a mesma se divide em uma parte racional. pois de fato suas implicações logicamente que obrigam a criação de uma identidade cultural. Já a parte da concupiscência está relacionada ao sentido das necessidades elementares. isto é. na concepção grega um quanto de harmonia. ao seu turno se subdivide em irascível (impulsos e afetos) e concupiscente (necessidades elementares). Platão apresenta o que podemos chamar de concepção organicista de sociedade. livro IV. portanto política no sentido de unidade comunitária. Como o sentido da educação é comunitário e a política visa por meio daquela estabelecer laços integrativos no interior da polis. a razão é a medida de tudo que possa ser perceptível pela inteligência e. Partindo dessa premissa temos que compreender o paralelo que estabeleceu entre a tripartição da alma e a sua teoria da polis. capaz de estabelecer o que convém a cada um.comunidade. A obra a República contempla a idéia de uma comunidade alternativa àquelas existentes. A parte irascível corresponde à fortaleza e coragem que permitem seguir os imperativos da razão. entregando ao poder público comunitário a responsabilidade de sua execução. Para tanto destaca a importância da educação. a justiça afigura-se como a virtude suprema do cidadão. A obediência às leis configura. A parte racional é regida pela sabedoria ou prudência.

Nesse modo de ver. buscando o sentido de universalidade pela superação da individualidade absoluta. As classes dos guerreiros e dos artífices aceitam o domínio dos governantes pela ação da temperança ou moderação. o que significa dizer que as classes se subordinariam ao bem comum da cidade. a segunda dos guerreiros que defenderiam a polis interna e externamente. O ponto fundamental repousa sobre as aptidões pessoais dos membros da polis. O seu pensamento político inspirou-se no postulado segundo o qual a parte se subordina ao todo. Ademais. cultivando a fortaleza. em 41 . Platão em seu projeto político-pedagógico suprime a instituição família e a propriedade privada para as duas classes superiores dos magistrados e dos guerreiros a fim de afastar interesses particulares que pudessem conduzir à corrupção. Somente as duas classes superiores teriam participação na vida pública. A aristocracia de Platão é uma aristocracia do espírito – o saber legitima o poder. A primeira seria a dos magistrados ou governantes. Platão opera uma inversão na concepção individualista da sofística quanto à relatividade das coisas. Assim como na alma. desenvolvidas pela cidade através do processo educacional orgânico-administrado. enquanto que o complexo dos artífices estaria limitado à vida na esfera privada. Faz-se mister ressaltar que as classes da República não se baseiam em uma ordem hereditária. não seria necessário o direito positivo. agricultores e aqueles que constituiriam a base econômica da cidade. pois os magistrados deveriam decidir. Há uma divisão de trabalho que permite coordenar as diversas aptidões visando o bem comum. comerciantes. a terceira e última dos artesãos (artífices). o indivíduo se situa no plano coletivo e não em uma autonomia absoluta perante a polis. Esta existe para tornar possível a vida humana. Na cidade platônica. guiados pela sabedoria. Platão equiparava a mulher ao varão observando uma educação idêntica para ambos os sexos. a justiça apresenta-se primordialmente para garantia do funcionamento do todo e da manutenção da hierarquia baseada nas tarefas específicas de cada classe. Destarte o horizonte do indivíduo seria o horizonte do cidadão.A Cidade constaria de três classes diferenciadas por suas funções próprias. governada pelo sentido da filosofia.

a dinâmica política. Dessa forma. Há uma clara mudança de perspectiva em Platão mais velho. Todas as restantes são formas corruptas que não permitem a realização da justiça. O Político e As leis. em que Platão. Esta forma poderia conduzir a uma oligarquia que liga o poder à fortuna. pois no seu entender seria a causa de toda a discórdia civil. somente uma assume o caráter de justa e legítima: a aristocracia do espírito ou governo dos sábios. admite a necessidade de fixar princípios de governo em leis positivas. No Político apresenta dois critérios de formas de governo: o número dos que participam do governo e a legalidade ou ilegalidade dos mesmos. a aristocracia e a democracia. As formas corruptas 42 . As legais são a monarquia ou realeza. Entretanto. ou seja. Na República descreve cinco formas. mais velho. apresenta a necessidade de uma legalidade. o governo da multidão. Em O Político. uma na República. livros VIII e IX e outra no Político. Reconhece a importância da família e da propriedade privada. a democracia. o que a justiça exigiria segundo as circunstâncias. Encontramos três formas legais e três ilegais de governo. o enriquecimento de poucos e a extrema pobreza de muitos poderá gerar a democracia. Todavia. A cidade descrita na obra As Leis se afigura como uma teocracia em que os magistrados assumem a dignidade de intérpretes da vontade divina. 3 . Os seus excessos provocariam a reação dos mais decididos e com seu derrube encerra-se o ciclo constitucional. consciente da imperfeição dos homens. capaz de instaurar uma tirania que desvelaria um caráter violento e desenfreado. caracterizado pela ambição do espírito belicoso. Se os guerreiros tomarem o poder teremos uma timocracia ou timarquia que significa governo da honra. que acaba por ser aproveitada por algum indivíduo ambicioso e audacioso. desrespeitando hierarquias naturais e legítimas. evitando-se o excesso de riqueza e pobreza. desemboca na desordem. Esse pensamento não perdura nos diálogos considerados tardios.Organização Política da Cidade Platão nos oferece duas classificações distintas das formas de governo. que aspira a igualdade absoluta.cada caso particular. desiludido com as experiências na Sicília.

“só conhece a justiça àquele que é justo”. Ao relacionar o célebre livro VII.são: a tirania. Nesse sentido encontramos a ligação entre as duas perspectivas do conceito de justiça em Platão: justiça como idéia (forma pura) e justiça como virtude. ou seja. Nas Leis. a oligarquia e a democracia (demagogia). As leis são justas porque são editadas por quem pratica a virtude da justiça e a conhece em sua estrutura para além do plano das aparências. Esta concepção assimilada por Aristóteles influenciará seu pensamento político. Platão apresenta o conceito de justiça comprometido com a idéia de virtude do cidadão ou do filósofo. Segundo Joaquim Carlos Salgado. que narra a Alegoria da Caverna em conjunto com sua teoria da reminiscência. ou seja. na qual a família e o indivíduo formavam um todo harmônico. O sentido de ordem política ideal é o de justiça que correlaciona intrinsecamente lei e justiça. Platão apresenta duas perspectivas de sua concepção de justiça na obra a República. compreende-se com maior clareza o que o fundador da Academia assinala na Carta VII. ao mesmo tempo. isto é.A idéia de Justiça A idéia socrática de que a Cidade (o poder político). 1995. Na verdade. O 29 SALGADO. 4 . numa imagem divina. isto é. Joaquim Carlos. pp. Platão confere maior rigor sistemático às teorias de Heródoto e Eurípides. Nas primeiras obras. A Idéia de Justiça em Kant. Platão enfatiza o agir justo na medida em que considera o outro como portador dos mesmos direitos para a superação da ótica egoísta. 43 . pelo conhecimento da alma e não dos sentidos. permanece na obra A República e se torna o fundamento da idéia de justiça como virtude. 24-29. da República. uma mistura de monarquia e democracia que se apresenta como a única capaz de assegurar a paz social. Belo Horizonte: UFMG. 29 o pensamento platônico sobre a justiça é o ponto de partida para uma reflexão sobre a idéia de justiça como igualdade. a saber: a justiça como idéia e a justiça como virtude ou prática individual. só conhece a justiça àquele que a compreende na perspectiva divina. que significa a observância permanente da lei e. Seu fundamento na liberdade e na igualdade. como idéia da razão. acrescenta um novo termo: uma forma mista de governo.

O seu conceito de justiça assume também o caráter de universalidade enquanto se vincula à idéia de harmonia do cosmos. que fazer a justiça é melhor que recebê-la. SALGADO. e a justiça como virtude norteada e determinada pela lei. 30 31 PLATÃO. dividido em planos. o que lhe é adequado. livro I. 332c. segundo as aptidões de cada um de seus participantes. pode desempenhar no Estado”. p. Platão enfatiza através de seu personagem. por força dessas mesmas aptidões. 30 que afirmava a idéia de justiça como dar a cada um o que lhe é devido. Embora no Críton. Sócrates. a concepção de justiça se apresente como a conformidade das ações com a lei. 1995. a essência da idéia de justiça platônica não se limita somente a esse entendimento. na sua concepção. Na República. Ou dizendo de outro modo. 433ª 44 . No dizer de Salgado: “Dar a cada um o que lhe pertence. A República. de modo semelhante ao que ocorre com a alma humana. Platão amplia essa idéia para além da simples relação entre particulares e a relaciona diretamente com a estrutura de sua cidade. explicita-se na estrutura do Estado Platônico. Seu fundamento na liberdade e na igualdade. Platão elabora duas vertentes do conceito de justiça: a justiça como idéia norteadora do direito e da lei. dedicação ao bom funcionamento da vida coletiva a partir das aptidões naturais de cada um.31 Platão concebe a justiça como uma preocupação política que repousa na idéia de igualdade. Sendo assim. Na República. Platão expressa a difusa idéia de justiça em um conceito preciso a partir do entendimento do poeta Simônides. Joaquim Carlos. e sofrer a injustiça é melhor que praticá-la. 433a. O que é devido a cada um. A Idéia de Justiça em Kant. 27 e Platão. correlacionando atos justos com alma sadia. segundo suas aptidões. A justiça é um compromisso do cidadão com a Cidade. A República. 433e. exprime que o melhor modo de viver é o viver praticando a justiça.outro nos desvela uma dimensão exterior e o comprometimento do homem com a sua polis. na medida em que garante a cada um o que lhe é devido. Tanto na República quanto no Górgias. A justiça é uma virtude que fundamenta e fortifica a alma. a idéia de justiça e a concepção da justiça como hábito de cumprir o direito. o que lhe pertence por natureza é o posto que corresponde às suas aptidões e a função que cada um. Belo Horizonte: UFMG. uma igualdade geométrica.

As almas dos justos falavam em felicidade e alegria.O projeto platônico: uma utopia? Sabemos que Aristóteles. após expiarem todo o mal que praticaram e vivenciar as dores do arrependimento. havia dois buracos correspondentes no Céu. volta à vida e narra o que viu no mundo alémtúmulo. Na República. depois de morto. na Ásia Menor. mas foi escolhido para levar uma mensagem aos mortais. eram encaminhadas ao trono das Parcas: Láquesis. Muitas praticavam os mesmos erros. Subitamente. algumas eram sensatas outras tolas. viajou até uma terra estranha onde o solo era rasgado por dois grandes abismos. Por cima. da Política. Er. Este é o sentido retributivo da justiça em Platão. Vejamos. Observou que as almas dos injustos passavam por uma longa experiência vivenciando dez vezes mais todo o mal que causaram. que conduzia ao mundo subterrâneo. para renascer em novas vidas. Cada alma poderia escolher a vida que desejava. As almas vindas dos subterrâneos. de modo que perdessem todas as recordações da vida passada. A justiça para Platão não é deste mundo. 5 . no livro II. recompensas de uma vida virtuosa. jaz na pira funerária dez dias após sua morte. bebiam a água do rio do esquecimento. Todas. os injustos entravam pelo abismo da esquerda. natural da Panfília. Disse que.Por fim Platão desenvolve um conceito de justiça retributiva e transcendente. O mito narra a história de um guerreiro chamado Er que vivencia a experiência da justiça como recompensa no além-túmulo. Entre os abismos estavam sentados os juízes que julgavam todas as almas e as marcavam com um sinal: os justos entravam pelo abismo da direito. livro X encontra-se o mito de Er que consagra o sentido de justiça retributiva e transcendente. mas se configura como a recompensa para aquele que escolhe a vida moral e conforme ao direito. após suas escolhas. apresenta uma reflexão crítica que considera a República e As Leis como projetos de cidade perfeita e as relaciona com as supostas utopias de Hipodamo de 45 . bravo soldado que morreu em combate. Átropo e Cloto para receberem novas vidas como mortais. Er não foi autorizado a entrar em qualquer dos buracos. para o Céu.

a pretensão de Platão era descrever uma comunidade possível na perspectiva de novos valores comandados pela retificação dialética da educação. Nos séculos XVII e XVIII houve grande influência na Inglaterra. longe deste mundo nada simples. ajuda-nos a vislumbrar uma possibilidade meio que perdida: a reconstrução de uma nova estrutura social a partir de uma reestruturação do homem para essa nova sociedade. O idealismo político de Platão exerceu grande influência na posteridade. tendo por 46 . e dentro dos limites da imaginação. com Henry More (1614-1687). Platão. no séc. A sua doutrina determinou a orientação do pensamento medieval até a recepção do aristotelismo por Alberto Magno e Tomás de Aquino. Através dos discípulos de Plotino. através de Cosme de Médices e dirigida por Marsílio Ficino (1433-99). através de seu olhar idealista. Plotino tentou fundar uma cidade segundo o modelo da República com a ajuda do Imperador Galeno.Mileto e de Fáleas da Calcedônia. temos que ressaltar que a intenção de Platão não era edificar um mundo social irreal. utópico. XIX. Embora Platão esteja distante de nossa realidade. Mesmo não nos parecendo próximo. dos valores e dos hábitos constituídos por uma visão utilitarista dos interesses imediatos. mais tarde parcialmente ofuscada pelo predomínio do utilitarismo e do evolucionismo no séc. A influência platônica no Renascimento propiciou a abertura de várias Academias a começar por Florença (1459). complexo por mecanismos até em certa medida desnecessários. o platonismo alcançou os Padres da Igreja Grega. pode-se ler Platão dentro da dimensão crítica dos costumes. Considerar a República uma utopia dependerá do conceito mais ou menos amplo que se tenha das idéias contidas ao longo de suas linhas. permanecendo ainda através da corrente franciscana da Escolástica. Entretanto. projeto este que ficou inacabado por ocasião do falecimento do monarca. notadamente na Escola de Cambridge. mas construir uma crítica aos fundamentos de sua cultura Como essa mesma cultura se estruturava. XIII. Santo Agostinho incorporou o platonismo (teoria das idéias) na concepção cristã do mundo. Houve clara influência sobre a obra Utopia de Tomas More (1478-1535) e sobre o conjunto do pensamento de Campanella (1568-1639).

se se pretende que eles consistam em governar. e tornar-se-ia então evidente que o verdadeiro chefe não nasceu para velar pela sua conveniência. que sejam constrangidos e castigados. uma vez que não as estimam.fundamento o ideal de justiça para além das aparências e do sentido mesquinho que por ora corrói o tecido da vida coletiva. nem de ladrões. a que houvesse competições para não governar. e castigam os transgressores. e então vão para o poder. nem das honrarias. mas pela dos seus súbditos. Efectivamente.“Certamente que cada governo estabelece as leis de acordo com a sua conveniência: a democracia. Ora o maior dos castigos é ser governado por quem é pior do que nós. ao afirmar que há um só modelo de justiça em todos os Estados . a monarquia. que os bons ocupam as magistraturas. monárquicas. se houvesse um Estado de homens de bem. não como quem vai tomar conta de qualquer benefício. os homens de bem não querem governar nem por causa das riquezas. 47 . sem aguardar a necessidade de tal passo. É com receio disso. Trasímaco -.” (p. exigindo abertamente o salário do seu cargo. como agora as há para alcançar o poder.o que convém aos poderes constituídos. Uma vez promulgadas essas leis. meu excelente amigo. mas como quem vai para uma necessidade. para quem pensar corretamente. para quem possam relegá-lo. Ora estes é que detêm a força. Aqui tens. Portanto. (pp. que a justiça é a mesma em toda parte: a conveniência do mais forte. aquilo que eu quero dizer. e os outros. fazem saber que é justo para os governos aquilo que lhe convém. nem mesmos iguais. porquanto não querem ser apodados de mercenários. se não quisermos governar nós mesmos. quando governam. De tal maneira que todo aquele que fosse sensato preferiria receber benefícios de outrem a ter o trabalho de ajudar ele os outros. de modo algum concordo com Trasímaco. nem para com ele gozar. em que a justiça seja a conveniência do mais forte. pois. tirando vantagens da sua posição. Mas esse ponto havemos de o examinar de novo”. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian: 1993. Tão-pouco querem governar por causa das honrarias.38-39) 32 32 Platão. da mesma maneira. leis democráticas. a título de que violaram a lei e cometeram uma injustiça. sem ter pessoas melhores do que eles. 24). De onde resulta. me parece. Força é. por conseguinte. arriscar-nos-íamos. A República. Sócrates – “Por este motivo. de onde vem que se arrisca a ser considerado uma vergonha ir voluntariamente para o poder.

casou-se duas vezes e dedicouse à família..Parte III . Em 342 a.Introdução Aristóteles foi o patriarca das Ciências Naturais. Dessa enorme produção ‘Se a meu pai devo a existência a meu preceptor devo a arte de me saber conduzir. Aristóteles escreveu em torno de 400 trabalhos sobre os seguintes temas: educação. Desenvolveu estudos sobre as leis da argumentação e da lógica. que pôs fim à relação entre ambos. em Pela capital da Macedônia. Este grande pensador nasceu em Estagira.. recinto fechado. Por volta de 335 a. o Grande.C. derivado da palavra peripatos que significa um claustro34 que rodeava o liceu. mar da Trácia. In: Col. Os Pensadores. Alexandre financiou suas pesquisas sobre a flora e a fauna no Mediterrâneo. Se governo com alguma glória. política e pensamentos.C. daí seus discípulos serem chamados de peripatéticos. pois Alexandre sonhava com a unificação dos gregos. Por outro lado. ou seja. 33 48 . ética. ou seja. a pedido de Alexandre. Após a morte de Platão em 347 a. Durante esse período estudou política e os assuntos de governo. observações científicas. Ensinava passeando à sombra das árvores do liceu. Narra a tradição que foi o assassinato de Calístenes. discorreu sobre História da Filosofia e psicologia. Seu pai Nicômaco foi médico da corte de Amintas II. pelo Rei Filipe da Macedônia. Por essa ocasião já possuía grande saber e era conhecido por justamente apresentar o que hoje denominamos de conhecimento enciclopédico. sobrinho de Aristóteles.A justiça na concepção de Aristóteles (384-322 a. fundou o seu liceu no bosque sagrado de Apolo – nordeste de Atenas. Embora esse pensador tenha sido tutor de Alexandre. Aos 17 anos ingressou na Academia de Platão (este já sexagenário) em Atenas. colônia grega da Cálcida.C. 34 Casa religiosa com clausura. foi nomeado tutor de Alexandre 33. surgiram divergências políticas que se tornaram cada vez maiores entre o discípulo e o mestre.C. a ele [Aristóteles] sou devedor”. uma fusão cultural.) “Os verdadeiros prazeres do homem são as ações conforme a virtude” (Aristóteles) 1 . Aristóteles defendia a estrutura da pólis tradicional.

35 49 .) e Filopon (séc. enfeita igrejas. Aquele que constrói navios mercantes.).C. Neleu e. IV d. às mãos de Andrônico de Rodes que os catalogou e os editou. Aristóteles demonstrou um realismo moderado e um espírito analítico apegado aos fatos.C. Podemos considerar sua Metafísica como uma obra que desvela uma história da filosofia. as coisas individuais e perecíveis deixam de ser meras “sombras ilusórias”. IV d. quando analisa as teorias anteriores acerca da convivência humana. Quando faleceu. os herdeiros de Neleu descobriram e venderam ao armador35 de livros Apelicon de Teos.C. enterraram os escritos em um subterrâneo.). Aristóteles rejeitou o dualismo platônico. posteriormente. os escritos passaram às mãos do tirano de Sila e.C. em nosso espírito que abstrai das coisas em estado de individualidade. seus escritos e sua biblioteca passaram às mãos do discípulo Teofrastos e. de procedência social distinta. Aristóteles iniciou o que entendemos por estudo dos problemas filosóficos através do exame crítico das opiniões de seus antecessores. Houve uma grande independência doutrinal em relação a Platão. III d.sobreviveram apenas 50 ou 49 obras. aos herdeiros de Neleu. que temendo o ataque dos príncipes tiranos de Pérgamo. posteriormente. Quando morreram perderam-se os manuscritos de Aristóteles. por conseguinte. etc.C. ornamenta livros.C. em Cálcis. Platão havia separado as essências36 dos objetos. Por ocasião da tomada de Atenas pelos romanos. ou seja..C. Aristóteles compreendia que as essências só existiam em uma inteligência. sem mencionar a tradição familiar e a primeira formação. ao aluno deste. forma – mundo inteligível. os neoplatônicos: Porfírio (séc. Essa abordagem aparece também na Política. que os publicou com inúmeros erros. 36 Essência. Efetivamente eram homens de temperamentos diferentes.). em 86 a. Temístio (séc. Simplício (séc. IV d. na Ilha de Eubeia. Antes do ano 100 a. salões de festas. O mundo platônico é uma ficção. II d. Os primeiros comentadores das obras de Aristóteles foram: Alexandre de Afrodisías (séc.). pela dificuldade em explicá-lo e apresentou uma concepção diferente da realidade. no entendimento humano sobre as coisas.

que por sua vez. formulou sua teoria teleológica segundo a qual todas as coisas existem para um fim e todas as coisas alcançam a perfeição na medida em que cumprem esse fim. em seguida à experiência (capacidade de estabelecer relações entre os dados sensoriais). alcançando por fim o nível da teoria/ciência que chamou de episteme (conhecimento de conceitos e princípios). Aristóteles não define o direito a partir da idéia de justiça. que denota com maior precisão a sua filosofia: a ciência dos primeiros princípios e das primeiras causas. Aristóteles apresentou uma divisão do conhecimento. Metafísica: palavra de origem grega. reflexão e experiência e que se configurava no conceito de justiça. Aristóteles apresenta a Lógica ou analytika como um saber instrumental. Esta não foi usada por ele e sim a expressão Filosofia Primeira. o entendimento humano é capaz de descobrir a idéia oculta no objeto sensível. conhecimento teórico que por sua vez se divide em: física. que estuda o mundo natural e estudos matemáticos. a filosofia primeira ou metafísica37 estuda o ser primeiro ou causa primeira. que trata da quantidade e do número. Esse conhecimento estaria subdividido em: conhecimento prático (praxis) e nesse campo encontramos os estudos sobre ética e política. O conhecimento tem seu início com a experiência. nesse sentido. a realidade sensível é também inteligível e. mas define a justiça em função do Direito. Entendeu o conhecimento como processo cumulativo partindo da sensação (prazer/sentidos) em direção à memória (retenção dos dados).Aristóteles foi o fundador da física experimental. a ciência que estuda os fenômenos do mundo físico. os tratados de lógica em seu conjunto. à arte/técnica (regras – capacidade de ensinar). ou seja. Esta idéia resume-se no princípio de que o todo é anterior às partes. Para esse filósofo. 37 50 . conhecimento produtivo (poiesis). torna-se objeto da justiça e é somente possível no interior de uma pólis. usada para nomear o conjunto de textos de Aristóteles. Substituiu o idealismo de Platão por um empirismo que buscava seu ideal numa concepção de felicidade alcançável pela ação. o que desvela a importância do método. Ao contrário de Platão. denominou Organon. Dentro dessa concepção da inteligibilidade da realidade sensível. estudo da estética. por meio da abstração. Assim.

A política. a saber: livros I. O estilo de Aristóteles se desvela em suas próprias palavras a esse respeito. V e VI. A obra está dividida em três partes. uma ciência prática que busca o conhecimento como meio para a ação e que se divide em ética e política. O seu objetivo nesta obra era descobrir a maneira de viver que conduz à felicidade humana. 39 Pólis ou cidade-estado: nova forma de convivência centrada na ágora (praça pública) para o debate sobre interesses comuns. estuda a natureza das constituições existentes e dos princípios para seu bom funcionamento. livros IV. O objeto de pesquisa da Política38 era o estudo das constituições das pólis39. a política é a ciência da felicidade humana. no livro II. onde trata da teoria do Estado em geral e da classificação das várias espécies de constituições. livros VII e VIII. ou seja. são as virtudes. onde examina a política ideal. O bem é a plenitude e todo ser tende para esta plenitude. O meio para consegui-la são os hábitos ou disposições do homem graças aos quais saberá realizar as suas obras. a felicidade. descoberto em 1891. A virtude consiste no meio entre a falta e o excesso. pois cada objeto particular é compreensível em função do todo que o pressupõe. 2 . descobrir a forma de governo e as instituições sociais capazes de assegurar aquela maneira de viver. Surge a figura do cidadão. consiste em disposições resultantes do esforço do homem para submeter os seus atos à razão e aos fins supremos da sua natureza. A felicidade em seu modo de ver significa certa maneira de viver específica do homem.no sentido lógico e metafísico. Esse finalismo refletirá em sua concepção ética e política. §4 -5: “o método de quem estuda filosoficamente Acrescenta-se a esta obra a República dos Atenienses ou Constituição de Atenas. animal social por natureza. aquele que fazendo uso público de sua razão. Para Aristóteles. a ética e a justiça. resultado do meio em que vive e destinado a desenvolver suas potencialidades na vida em sociedade. que tratam da política prática. cap. 38 51 . V. delibera conjuntamente aos seus pares os destinos da cidade. ou seja. O homem ao longo da vida encontra uma hierarquia de bens até alcançar o bem supremo que coincide com o seu fim último. II e III.

Grande Moral e Tratado das virtudes e dos vícios). De um modo geral. 43 Diánoia: entendimento. 52 . 40 funciona como elo entre a esfera jurídica e a esfera política. Uma ação pode ser A Ética a Nicômaco ou Nicomaquéia foi assim chamada por ter sido. A sua ética compreende duas categorias de virtudes. a magnificência 42. o valor da opinião dos homens mais velhos e o indispensável valor da experiência da vida e dos costumes da cidade para a elaboração de qualquer Filosofia. a doçura. em Aristóteles (Ética a Nicômaco. filho de Aristóteles. Em Aristóteles é usada como um termo geral para atividade intelectual. É exatamente o ethos aristotélico que ordem política pressupõem o ethos. esplendor. característica. 40 A sua teoria ética foi elaborada sobre a base das estruturas morais vigentes na comunidade grega do séc.132. V a. suntuosidade.qualquer matéria. a generosidade. 1139a) é mais moral do que intelectual. Noético (gr) relativo ao pensamento. modo de vida habitual. Aristóteles escreveu a Ética a Nicômaco na fase em que vivia em Atenas. Significa caráter. 792e). Ética a Eudemo. a saber: as virtudes morais. Aristóteles aprofunda os ensinamentos de seu mestre Platão (República) na obra Ética a Nicômaco. Sabe-se que esta obra refere-se ao segundo curso que ministrou e que fora redigido entre 334 e 333 a. 42 Grandiosidade. uso. Truyol y Serra. um resumo posterior. noetikos – inteligente. uma refundição da anterior. Diferente de Platão.C. consiste em não negligenciar ou omitir qualquer detalhe”. p. podemos dizer que a sua teoria apresenta o procedimento do homem prudente como válido. Por isso. Como exemplo de virtudes morais temos: a coragem. o ético em Aristóteles é entendido a partir do ethos41 (do costume) da maneira concreta de viver vigente na sociedade. provavelmente editada por Nicômaco. organizando-a em 10 capítulos subdivididos em pequenas partes. a inteligência e a verdade. por ter sido editada ou redigida pelo seu discípulo deste nome. fundamentadas na vontade e as virtudes intelectuais. o mais importante tratado de moral dentre os quatro que escreveu sobre moral (Ética a Nicômaco. Ética a Eudemo.C. a amizade e a justiça. o fim último foi afirmado no plano terrestre. baseadas na razão. A ordem jurídica e a As virtudes intelectuais ou dianoéticas43 são: a sabedoria. a temperança. 41 Ethos do grego costume. Em Platão é o resultado do hábito (Leis. Aristóteles humanizou o fim último. ou seja. e não apenas seu aspecto prático. Aquilo que é característico e predominante nas atitudes e sentimentos dos indivíduos que pertencem a uma comunidade e que marca suas realizações ou manifestações culturais. A Grande Ética ou Ética Maior.

a saúde. Em sentido lato. O homem deve desenvolver suas aptidões para alcançar o seu fim (télos). no sentido estrito de pleno desenvolvimento das disposições naturais. porque enfatiza a busca pelo bem viver e pela felicidade. Estes devem se submeter a outrem. a justiça44 configura o exercício de todas as virtudes. a virtude e o prazer (recompensa natural da vida virtuosa). O conceito de eudemonia vincula-se ao conceito de justiça apresentado por Platão na obra A República. Este pensador enfatiza que o cultivo da inteligência é o bem supremo. Na verdade. Nesse sentido. Em sentido estrito. 53 . encontra-se como uma virtude ética que implica o princípio da igualdade. a verdade é o objetivo da ação intelectual. assim como. Aristóteles também 44 Cf. a saber: a sabedoria.considerada como justa quando realiza o equilíbrio das virtudes morais e quando alcança as virtudes intelectuais. O ponto central torna-se o conceito de atividade. Aristóteles inicia sua ética a partir da realidade social de sua época. O objetivo da ação moral é a justiça. observando-se a instância da alteridade. Sob o ponto de vista econômico. Platão e Aristóteles concebiam a escravidão como instituição natural que se justificava pela suposta incapacidade de certos homens para se autogovernar. Aristóteles diz que o escravo é um instrumento indispensável na produção dos bens. são bens interiores à alma. escravos e trabalhadores manuais. Eudemonia e télos estão intrinsecamente ligados formando a base da ética do pensamento de Aristóteles. Sua ética é denominada de ética das virtudes ou ética eudemônica. livro V da Ética a Nicômaco. O homem deve buscar esse aperfeiçoamento para com isso alcançar a felicidade. uma ética imanente da felicidade terrestre. mas que exclui crianças. a posse de bens (inclui-se aqui o escravo). uma moral que atinge a elite. felizes e materialmente privilegiados. para homens sábios. Importa observar que a teoria moral de Aristóteles é aristocrática. o summum bonum. sua perfeição. Este pensador considera ainda como importantes: a amizade. três bens constituem a felicidade para Aristóteles. atividade no sentido de que o homem deve realizar ao máximo suas disposições ou aptidões. a sorte e os dons.

compreende a noção de justiça como uma virtude45 que precisa ser praticada constantemente46 e não pode ser tomada como aquisição contínua.47 A justiça é um exercício político. No livro II-6, da Ética a Nicômaco, Aristóteles apresenta o sentido do conceito de virtude como hábito, ou seja, algo construído, algo que temos em potencial. A natureza oferece as condições de possibilidades para que o homem possa desenvolver suas aptidões conforme sua essência racional. A justiça enquanto um valor ético se desvela em nossos atos. “Toda virtude e toda técnica nascem e se desenvolvem pelo exercício”.48 Observa-se que a prática da virtude não se confunde com um mero saber técnico, não basta a conformidade, exige-se a consciência do ato virtuoso. O homem considerado justo deve agir por força de sua vontade racional. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles enumera três condições para que um ato seja virtuoso: 1. O homem deve ter consciência da justiça de seu ato; 2. A vontade deve agir motivada pela própria ação; 3. Deve-se agir com inabalável certeza da justeza do ato. As virtudes são disposições ou hábitos adquiridos ao longo da vida e se fundamentam na idéia de que o homem deve deficiência. Para Aristóteles, a justiça é uma virtude que só pode ser praticada em relação ao outro e de modo consciente. O objeto da justiça é realizar a felicidade na pólis, o seu oposto, a injustiça, poderá ocorrer por falta ou por excesso. Aristóteles distingue duas classes de justiça: a universal e a particular. A justiça universal, total ou integral significa a justiça em sentido amplo que pode ser definida como conformidade ao nomos (norma jurídica, costume, convenção social, tradição). Esta norma constituinte do nomos é dirigida a todos. A ação deve corresponder a um tipo de justo que é o justo legal. “Aquele que contraria as leis contraria a
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sempre realizar o melhor de si. A virtude será uma

espécie de meio termo, de termo médio entre os extremos: o excesso e a

Disposições constantes do espírito, as quais por esforço de vontade inclinam à prática do bem. Cf. livro II-4, 1105b, Ética a Nicômaco. 47 Ressalta-se que a conceituação da justiça como uma virtude não implica o caráter de uma idéia ontologicamente transcendente como acontece em Platão. 48 SALGADO, Joaquim Carlos. A Idéia de Justiça em Kant. Seu fundamento na liberdade e na igualdade. Belo Horizonte: UFMG, 1995, p.33. 54

todos que são por elas protegidos e beneficiados; aquele que as acata, serve a todos que por elas são protegidos ou beneficiados”.49 O membro da pólis se relaciona com todos os demais, ainda que virtualmente, e compartilha com todos os efeitos de sua atitude ou omissão. A justiça universal ressalta a importância da legalidade como um dos aspectos que fundamenta a coesão social. A comunidade existe virtualmente na pessoa de cada membro. O homem virtuoso é aquele que ninguém). A justiça particular significa em sentido estrito o hábito de realizar a igualdade. Este tipo de justiça refere-se ao outro no sentido de uma relação direta entre partes, típica da experiência citadina. Percebemos que este tipo de justiça vincula-se com a justiça universal, pois o transgressor da justiça particular nomos. O justo particular apresenta-se em duas formas distintas: o justo particular distributivo que desvela a justiça distributiva e o justo particular corretivo que apresenta a justiça corretiva. A idéia de justiça distributiva surge no sentido de igualdade na devida proporção. Essa modalidade de justiça regula as ações da sociedade política com seus membros e tem por objeto a justa distribuição dos bens públicos: honras, riquezas, encargos sociais e obrigações. Essa distribuição também se fundamenta na igualdade que não se confunde com uma igualdade matemática e rígida, mas geométrica ou proporcional que observa o dever de dar a cada um o que lhe é devido; observa os dotes naturais do cidadão, sua dignidade, o nível de suas funções, sua formação e posição na hierarquia organizacional da pólis.50 O princípio de igualdade que figura neste tipo de justiça exige uma desigualdade de tratamento, pois sendo diferentes segundo o mérito, os benefícios a serem atribuídos também devem ser diferentes. A outra modalidade de justiça particular é a justiça corretiva ou sinalagmática, que se divide em comutativa e judicial. Trata-se de um tipo
49 50

desvela em seu modo

de agir a observância do princípio neminem laedere (Não prejudique a

se compromete também diante do

BITTAR, Eduardo. Curso de filosofia do direito. São Paulo: Atlas, 2001, p.91. PEGORARO, Olinto. Ética é justiça. Petrópolis, Vozes, 1995, pp.32- 33 55

de

justiça que regula as relações entre cidadãos e utiliza o critério do

justo meio aritmético ou igualdade matemática (se devo x, pagarei x). Observa-se que este tipo não focaliza em primeiro plano as pessoas, mas sim as coisas. Medem-se os benefícios ou prejuízos que as pessoas podem experimentar, ou seja, as coisas e os atos no seu valor efetivo. Nos casos de ações que geram constrangimento para uma das partes, caberá ao juiz restabelecer a igualdade rompida através de uma sentença. Quando há a vontade dos interessados como elemento principal, chama-se justo comutativo (sinalagma)51 e, quando por decisão do juiz a vontade de um deles é contrariada, como o caso dos crimes, chama-se justo judicial ou justo reparativo. Neste último caso o sujeito de uma injustiça é sancionado a reparar o dano provocado indevidamente a outrem.52 Podemos perceber que o princípio de igualdade que figura em seu pensamento recorda as especulações pitagóricas acerca da justiça. Já percebemos que Aristóteles atribui à palavra justiça diversos sentidos que demonstram a possibilidade de classificá-la de diferentes modos. Menciona a idéia de justiça política, quando se refere à comunidade, ou seja, a justiça que organiza a vida comunitária e que, em particular, deve observar o processo deliberativo social (o cidadão). Aristóteles fala em justo doméstico quando observa a esfera da família, ou seja, a justiça para com a mulher, o filho e os escravos – regras
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necessárias à organização do lar.

O justo político abrange duas outras formas de justiça: o justo natural e o justo legal. O justo natural significa o que será sempre o mesmo em toda parte, independe da vontade humana, ou melhor, para existir não precisa de qualquer decisão ou ato de positividade. O justo legal, que em princípio poderia ser cumprido de maneiras diferentes, passa a ser obrigatório por ser assumido pelo nomos vigente em uma pólis.54 Este tipo de justo decorre do ato legislativo e configura-se no
Bilateral. Aqui percebemos que a idéia que fundamenta a responsabilidade civil já estava presente na experiência da pólis grega. 53 Os diversos modos de falar de justiça podem ser observados em: Grande Moral, 1194 b,1193b, Retórica,1373; Política, 1279a, 1301b. 54 Decretos, sentenças, as decisões do poder administrativo, caracterizam-se por circunstancialidade ou especialidade.
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coloca-se como legislador. A teoria do ato e potência nos ajuda a compreender . a Natureza não é um princípio estático. lei e igualdade. Os conflitos entre preceitos jurídicos legais e preceitos jurídicos naturais não invalidavam a ordem jurídica da pólis grega. e opera 57 no termo deste desenvolvimento. Temos que observar que o justo legal encontra sua origem no justo natural. um animal político é chamado a viver na pólis por força de sua própria essência. Trata-se de um movimento perene que permeia todos os seres. mas dinâmico. um princípio geral pode acarretar uma lei específica. Em seu modo de ver a Natureza experimenta o movimento. a injúria etc. pode ser positivado em norma que prevê uma punição para atos como o homicídio. A eventual tensão entre a generalidade abstrata da lei e a singularidade concreta dos casos reais era mediada pela eqüidade (epieikéia). exceto em um sistema corrompido. Para Aristóteles. ou seja. não eram concebidos por Aristóteles. Há uma lei natural ou direito natural que desvela a natureza da comunidade política. ou seja. O ponto de partida é o princípio da naturalidade da sociedade política. em atenção à justiça natural. A natureza de uma coisa revela-se como Aristóteles concebeu a relação homem e pólis. O princípio neminem laedere que significa que não devemos prejudicar as pessoas. A justiça natural sofre as transformações típicas da racionalidade.conjunto de disposições vigentes na pólis. o julgador. um preceito da justiça natural. Nesse sentido. atualização do ser (a doutrina do ato e potência). Esta relação se esclarece quando percebemos que caminhamos do geral para o particular. A eqüidade é a forma corretiva da justiça legal quando esta engendra certa injustiça pela própria generalidade de seus preceitos normativos. Tanto o justo natural quanto o justo legal constituem a ordem normativa da cidade. é o que em cada ser está latente como potência e se desenvolve em conformidade com o fim. A cidade-estado é uma realidade natural e nesse âmbito há uma relação entre razão. O justo natural é constituído por noções e princípios comuns que encontram fundamento na própria natureza racional do homem. o homem. Podemos compreender a mutabilidade da justiça natural a partir da concepção aristotélica de physis.

pois teria validade geral. O grego reverenciava o nomos (a lei ou costume) porque era fundamental para a existência da própria pólis como comunidade éticapolítica. 1995. Para Aristóteles. 40-41. o nomos. 56 Há no homem um impulso social que se desvela primeiramente na família. mas que fundamenta seus juízos Se o objetivo da atividade humana é a vida na pólis. independente da opinião dos homens.todos são iguais. na medida em que pode ser compreendido como um critério de ajuizamento da igualdade ditada pela SALGADO. o nomos é razão porque realiza a igualdade jurídica formal. Nesse sentido. A cidade é por sua natureza uma unidade na diversidade. No Direito da pólis há elementos naturais e permanentes e também convencionais e mutáveis. O termo eqüitativo desvela o sentido de que o justo ultrapassa a simples dimensão da lei escrita. Capítulo 1. historicamente a pólis é a ultima fase de um processo ascendente de sociabilidade. 56 Cf. vai além da razão de ser da lei escrita e se liga diretamente ao sentido de lei natural. A lei comum seria uma lei natural ou original. “a ordem é a lei e o governo da lei é preferível ao de qualquer cidadão. Aristóteles define o homem équo como aquele que não é rigoroso nos princípios da moral. Joaquim Carlos. o julgador assumindo a postura do legislador torna-se um homem preocupado com a correção ética da justiça. 55 58 . A Idéia de Justiça em Kant. Todavia. Belo Horizonte: UFMG. quando esta se configura como a pior solução. Seu fundamento na liberdade e na igualdade. ou seja. A razão é comum a todos os homens . Política. embora não imutável porque até a própria natureza é mutável. em seguida na aldeia até alcançar a estrutura equivalente a uma pólis grega. A lei escrita ou não escrita. porque a lei é a razão sem apetites”. surge da experiência citadina e.a adaptação da lei ao caso concreto. dirá Aristóteles na Política. 55 na aplicação da justiça. pp. esta deve ser anterior ao indivíduo. é intrinsecamente superior a qualquer decisão individual por mais sábia que seja. A conformidade com a lei apresenta a relação que o sentido de justiça particular mantém com a idéia de eqüidade. portanto. Por ser o nomos a razão desprovida de paixão deve ser a suprema autoridade da sociedade política. um homem équo.

Joaquim Carlos. SALGADO. a A dimensão do ser racional 59 de justiça são: seja. O bem comum é o fim ou o bem principal da pólis. ou a conformidade com a lei. não corresponder à justiça. As circunstâncias particulares exigem a aplicação da eqüidade para dirimir um caso concreto. São Paulo: Abril Cultural. O pressuposto fundamental do pensamento de Aristóteles acerca da justiça é a idéia de que o homem é um ser destinado naturalmente à vida em comunidade – a sociabilidade como um imperativo da natureza humana. A Idéia de Justiça em Kant. O homem injusto é aquele que age com injustiça. O objetivo é realizar a felicidade na pólis num plano mais alto. 37. buscando uma igualdade entre as partes. A justiça no entendimento de Aristóteles se afigura em como fazer um bem para o outro. a conformidade com a lei e o bem comum. O équo 57 é aquele que busca a igualdade no momento concreto da relação da justiça. Ética a Nicômaco. apresenta o caráter de definição da idéia de justiça. sobretudo quando a lei. 1995. busca uma felicidade no âmbito da comunidade. ou o bem comum de modo geral. Observo que a razão significa para Aristóteles uma forma superior da natureza humana. p.1130a. Col. 59 ARISTÓTELES. na medida em que essa prática se destina à realização do seu elemento fundamental: a igualdade. 57 58 59 . pois a justiça é uma virtude que só pode ser praticada em relação ao outro de modo consciente. Reto. A noção de alteridade é fundamental ao seu conceito de justiça. A justiça seria o bem supremo no âmbito da política. aplicada mecanicamente. na medida em que procura o benefício da comunidade. 1134b.razão conforme à lei natural. pp. ou 58 Os elementos que compõem o conceito o outro. justo. alteridade observada enquanto é fundamental para realização da justiça. a igualdade. Belo Horizonte: UFMG. só se realiza voluntariamente ou conscientemente. aristotélico outro. Seu fundamento na liberdade e na igualdade. Os pensadores. embora seja um conceito já pensado pelos pitagóricos. A eqüidade surge para corrigir os lapsos da lei convencional. Enfim. O ato de justiça exige a mediação da vontade. o sentido de igualdade que aparece em Aristóteles. a consciência do ato (vontade). embora não queira receber o ato injusto de outrem. 1979.

Salgado observa que na pólis o justo não está separado do direito positivo em geral. ato voluntário significa aquele “cuja origem se acha no agente que conhece todas as circunstâncias da ação”. 1135ª 60 . ou da norma costumeira ou ainda do padrão de comportamento partilhado na comunidade. Na Ética a Nicômaco. Observa que o princípio de autoridade em cada um dos regimes repousa sobre a situação econômica: a oligarquia. A teoria das formas de governo em Aristóteles segue a clássica organização apresentada por Platão no Político. No Renascimento. Com Tomás de Aquino houve uma adaptação prévia do aristotelismo ao Cristianismo. aristocracia. sobretudo pela Escola de Toledo. O aristotelismo alcançou o ocidente através dos árabes e judeus. Cada pólis necessita de um governo que corresponda ao seu caráter e necessidades próprias.Segundo Aristóteles. uma virtude superior. como disse anteriormente. democracia radical. E apresentou um ponto de vista técnico-político preocupado com a conservação do poder e com a ética. Vinculou-se 60 61 Idem ibidem. p. e três impuras: tirania. oligarquia e democracia radical que equivale à demagogia. p. na Escolástica. a ação que depende do agente e que este realiza conscientemente. 1110ª Idem ibidem. até ser estudado diretamente e predominar a partir do séc. Aristóteles também distinguiu as atividades do governo em deliberativas ou legislativas. tirania. uma maioria pobre. 60 Somente o homem é capaz de possuir uma faculdade da vontade apta a discernir o menciona: “Chamo voluntário. na riqueza de uma minoria. XIII. na monarquia e aristocracia. fundamentou doutrinas opostas à Escolástica e muitas vezes incompatíveis com o Cristianismo. sem ignorar a pessoa que a ação afeta os meios empregados e o fim da ação”. três formas puras: monarquia. que deve fazer ou não. isto é. O fato é que Aristóteles usa um critério econômico para distinguir tais formas. 61 A moralidade do ato fundamenta-se no critério da premeditação ou escolha deliberada. na fraude e violência. ou seja. Aristóteles também compreende que o melhor governo seria um governo misto. em traduções latinas indiretas. democracia moderada ou política. executiva e judicial.

tem sido visto em boa parte com olhos 61 . No que se refere à sua filosofia prática até hoje o mundo aristotélicos.de novo ao Cristianismo através da neo-escolástica católica dos séculos XVI e XVII e com a escolástica protestante.

. Deus não é só o Senhor dos Hebreus. Surge uma nova absoluta dependência de tudo e todos para com Deus. ressalta um só destino para o gênero humano. 62 . A novidade da perspectiva religiosa cristã propiciou o que alguns compreendem como filosofia cristã. nesse sentido.) não cuideis da carne com demasiados desejos”. um pensamento que se desenvolve nos limites das verdades estabelecidas pela fé. Isso fica mais claro quando comparamos o sábio estóico com o santo cristão: o sábio estóico se orgulha de se assemelhar à divindade.A Filosofia no período medieval: Agostinho e Tomás de Aquino “(.O Mundo Medieval O cristianismo nasceu em um mundo helenizado impregnado de elementos religiosos orientais. A concepção grega do homem integrado na Natureza ou na pólis cede lugar à interioridade do sujeito. O sentimento da grandeza de Deus. o santo cristão. Na idade média há uma nova relação entre Deus e criatura. conjugando em um só o poder e o amor. é transposto para o cristão e contribui para fortalecer o sentido da humildade como virtude. Não podemos perder de vista como os povos primitivos e depois os gregos concebiam a concepção acerca da criação que engendra uma divindade. O homem vive o drama da queda e da redenção como fatos históricos.Parte IV . A criação do homem “a imagem e semelhança de Deus” lhe confere certo esplendor: possui uma dignidade intrínseca. mas o Pai. A idéia de filiação divina fortalece a solidariedade essencial para a comunidade que passa a se afigurar como uma pessoa moral que participa de uma história universal e. na busca de fundamentos racionais.. Paulo de Tarso 1 . O mundo torna-se o lugar da experiência que permitirá a superação espiritual para a salvação. próprio do judaísmo. A novidade que a perspectiva cristã oferece é radical em sua concepção de Deus. que não é um ser autônomo e sim criatura nada pode sem a graça divina. ou seja.

A Patrística tem seu lugar nos séculos II –VI e a Escolástica. pertence à Antigüidade. destacaram as virtudes teologais (fé. na boa ou má sorte. é o período compreendido entre a queda do Império Romano do Ocidente (476)62 e a tomada de Constantinopla63. Na sua fase inicial o pensamento cristão desenvolve-se paralelamente ao pensamento pagão da última fase. A vitória de Maomé II contra Constantino XII (1453). O cristianismo promoveu uma modificação nos valores éticos: operaram a transcendência do fim último. O período que se dá entre essas duas épocas se define por uma silenciosa afirmação social e política da cristandade medieval e sua cultura. O medievalista Alain de Libera ensina em sua obra A 62 63 Deposição do imperador Rômulo Augústulo. sendo ele perfeito. Nesse sentido. onde Deus se torna o valor supremo. Esta felicidade está expressa no sentido de posse ou visão intuitiva de Deus. Durante seis séculos firmou seus passos com êxito crescente até ser reconhecido oficialmente no Império Romano. Na sabedoria hebraica ou da salvação. independente e livre. esperança e caridade) que passam a ofuscar as virtudes morais. mas da fé que o homem alcança a felicidade. Surge o Deus pessoal criador do mundo. o cristianismo pelas suas origens e suas primeiras lutas. A sabedoria grega apresentava um interesse direcionado para o mundo. do XII ao XIV. E. A transfiguração da felicidade em bem-aventurança. do vir-a-ser. do comportamento humano. o que significa dizer que não é através da razão. o seu paganismo lançava raízes no pensamento mágico. nas inspirações superiores. Este conflito marcou o fim do período antigo e o esforço da Idade Média em articular a sabedoria divina com a sabedoria humana. Compreendemos que o mundo antigo nos oferecia o espetáculo da competição entre duas sabedorias: a grega e a hebraica. por fim. A razão grega partia da realidade tangível e visível. A idade Média foi considerada a época intermediária entre a Antigüidade e os tempos modernos. A razão grega acreditava no destino. na adivinhação etc. Dentro deste período antigo e depois medieval do cristianismo a tradição estabelece os seguintes limites: o pensamento patrístico e o escolástico. Deus é quem concebe a sabedoria ao homem.Segundo Truyol y Serra. 63 .

. Na verdade.) Portanto. a Idade Média configurou o nascimento. impõem esquecimentos. em geral. esse gesto não é isento de conseqüências. e o mau gosto arabesco estragou as escolas.. Uma idéia aceita na visão de Alain de Libera é a de que a Idade Média viu a teologia cristã tomar definitivamente o lugar da filosofia grega. é nessa época que o poder político cristão decide erradicar a filosofia pagã. que eram praticamente os únicos objetos dos filósofos de então”. Este autor entendeu que o ocidente cristão foi filosoficamente estéril e só despertou do seu longo sono a partir Mencionou que das influências do oriente muçulmano para o ocidente muçulmano e depois para o ocidente cristão. “O século de Justiniano é. o impulso e apogeu de uma cultura. para alguns.. os problemas. Para outros pensadores árabe-muçulmanos. a grega.) O espaço histórico em que se situa Justiniano não é medieval nem tardo-antigo: o tempo em que sua ação se inscreve é o da romanidade. repartem segundo suas perspectivas. os franceses trouxeram os livros de Aristóteles comentados pelos árabes. avaliam. interesses. podam. portanto. os campos de investigação. (. como a arquitetura e as demais artes haviam sido corrompidas pelo gosto gótico. do ponto de vista do cristianismo ocidental. conquista de um só grupo os cristãos ocidentais. pois fixa os objetos. o 64 . Justiniano é um romano. Em seu Tratado da Opinião (1735). a história da filosofia medieval é constituída por várias fases: a latina. Ora. uma filosofia tirada de Avicena e de outros comentadores africanos. O período da Idade Média é. É um imperador romano que se esforça por acabar com a filosofia como instituição e realidade social. tradições.Filosofia Medieval (1998) que a história da filosofia medieval é escrita. (. o marquês Gilbert-Charles Le Grende de Saint-Aubin retrata a filosofia medieval de modo nada lisonjeiro: “Após a tomada de Constantinopla. a árabe-muçulmana e uma judaica. imprimem suas diretrizes e direções. para nós. Introduziu-se. então. E que. Sutilezas vãs e bárbaras tomaram o lugar da antiga filosofia. e apoderaram-se da lógica e da metafísica. um período crucial: é o século da reconquista. da reconstrução da unidade do Império de Constantino. da suprema afirmação da romanidade bizantina..

nem a filosofia está morta. Agostinho pregou uma aproximação entre o pensamento platônico e o pensamento cristão. p. É preciso lembrar que este pensador conheceu a filosofia de Platão através dos filósofos neoplatônicos de Alexandria e de traduções latinas. Tentou-se munir a fé com argumentos racionais. nessa época. na cidade de Tagaste. a Igreja de Roma foi erigida em centro da cristandade o que engendrou inúmeras disputas sobre divergências na interpretação da mensagem de Jesus. Ao contrário. Compreendeu essa decadência como a mão de Deus castigando os homens da cidade terrena e anunciando o triunfo do cristianismo.conflito entre o helenismo e o cristianismo não termina com o suposto exílio dos filósofos64 na Pérsia. considerado “o pai da filosofia cristã”. 280 – 337) permitindo a liberdade de culto aos cristãos e reconhecendo a competência da autoridade episcopal nos processos civis. aos 72 anos de idade. segundo relata em suas Confissões. Com o edito de Milão. 64 65 Simplício e Damáscio. mas também como resultado de juízos racionais. 2 . Aurélio de Agostinho nasceu no Norte da África.14-5. Foi nesse contexto que surgiu a Filosofia Patrística com a missão de apresentar uma única versão do Evangelho. momento da descoberta do pensamento de Aristóteles. Dentre os inúmeros padres da Igreja. 65 O cristianismo triunfa a partir de Constantino (c. não só como revelação divina. Na prática o cristianismo já possuía estrutura organizada denominada Igreja (ekklesia). Hortensius.Aurélio de Agostinho A influência da filosofia cristã de Agostinho perdurou até o século XIII. a leitura de um determinado diálogo de Cícero. O confronto de opiniões fortaleceu a Igreja católica (em grego Igreja universal). Agostinho vivenciou os últimos anos do Império Romano. 65 . província romana e faleceu como bispo de Hipona em 430. Este pensador tornou-se mestre em retórica e. destacou-se Santo Agostinho. que vai durar até o final da Idade Média”. inicia-se um movimento de deslocamento ou de translação da ciência: a translatio studiorum.

Mais tarde interessou-se pelo sermão de Santo Ambrósio. Contra os Acadêmicos. no séc. estudou os filósofos neoplatônicos em particular Plotino e em 386 converteu-se ao cristianismo.413. Agostinho rejeitou a doutrina platônica da anamnese. todavia desenvolveu uma teoria da interioridade e iluminação. inatista. A sua filosofia foi elaborada a partir de uma aproximação entre neoplatonismo de Plotino e Porfírio com os ensinamentos de São Paulo e o evangelho de São João. há um conhecimento prévio. Agostinho apresentou teoria conhecimento na mesma direção da filosofia platônica. Essa interioridade permite acessar a Verdade. Agostinho aderiu ao maniqueísmo. III. bispo de Milão. Sua contribuição para o desenvolvimento de uma filosofia cristã se deve à sua formulação relacionando teologia e filosofia. Na obra Cidade de Deus (c.que exprime um verdadeiro elogio à filosofia. sua teoria do conhecimento com ênfase na subjetividade e uma teoria da história expressa na obra Cidade de Deus. independente da experiência que permite o processo do conhecer. Para Agostinho a filosofia antiga consistia do em uma preparação da alma uma para a do contemplação da verdade revelada. Quando assumiu a diocese de Hipona redigiu Sobre a doutrina cristã. que apresentava uma visão dualista do mundo: o bem versus o mal. ou seja. religião de origem Persa. Essa noção de interioridade se configura como um prenúncio do conceito de subjetividade que surge no período moderno (In interiore homine habitat veritas). A mente humana que é mutável e falível possui a centelha divina que é o seu intelecto – imagem e semelhança a Deus. Contra os Maniqueus e as Confissões. 66 . Na escola de Alexandria. Escreveu os diálogos De magistro. Sobre a trindade e Cidade de Deus. o platonismo era interpretado como uma antecipação do cristianismo. o despertou para os estudos filosóficos. fundada por Mani.427) nosso autor interpreta a história da humanidade desde o gênesis até o juízo final e a redenção. Dessa concepção surgiu uma forte desvalorização mundo. Com este pensamento Agostinho explica o ponto de partida do conhecimento humano.

Mas como o homem que é mutável e falível acessa a Verdade? Para Agostinho. e outro conhecimento necessário. Há um saber prévio existindo de modo infuso que cria as condições de possibilidade para o 67 em que o seu pensar o difere da . Agostinho utilizou a metáfora platônica da alegoria da caverna ou mito da caverna e apresentou o conhecimento verdadeiro como aquele que previamente foi iluminado pela luz divina. Esta está presente nas Sagradas Escrituras. Nesta obra Agostinho apresenta a felicidade como a motivação do pensar filosófico e formula a tese segundo a qual o homem não tem razão para filosofar. a percepção sensível. enfatizou que a alma possui funções importantes dentre as quais a de permitir o conhecimento verdadeiro. por conseguinte. A filosofia. a essência do ser humano . portanto.Assim. Agostinho assimilou essa transcendência hierárquica da alma sobre o corpo e. No diálogo Alcebíades. Este sentido de história deveria incutir na mente humana que a história é aquela que exprime o triunfo da Cidade Divina. Agostinho afirmou que o erro está em querer que as sensações possam expressar uma verdade ao sujeito. Com esta idéia na Cidade de Deus. sem início e sem fim. formula a noção de história. apresentando um fio condutor. o Papa acima dos Reis e nobres feudais. exceto para atingir a felicidade. Agostinho representa o momento da cristianização da Europa Ocidental e ressalta a supremacia do poder espiritual sobre o poder temporal. Agostinho antecipou a reflexão do cogito cartesiano. rompendo com a concepção grega de uma visão cíclica. Ocorre que esta idéia já estava presente em Platão e chegou a Agostinho através de Plotino. imutável e eterno.o homem como ser pensante materialidade do corpo. daí resulta a necessidade da fé como um novo ânimo para viver. nesse sentido. temos dois tipos diferentes de conhecimento: um limitado aos sentidos. pois aquele que não é não pode ser enganado” – apresentou a primeira certeza. Platão define o homem como uma alma que serve ao corpo. Assim. excluindo-se. No que se refere à sua teoria do conhecimento. Quando formulou a seguinte frase: “eu me engano. ou seja. passa a ser vista como indagação humana à procura da beatitude. eu sou. somente através de algo que transcende a própria alma humana: Deus.

O homem é réprobo miserável condenado à danação eterna e só recuperável mediante a graça divina. Esta última é a mais importante porque é o centro da personalidade humana: é livre e nela reside também a essência do pecado que é a transgressão da Lei Divina criada por Deus. A queda do homem decorre do seu livre-arbítrio e. a justiça consistirá à moda aristotélica da justiça distributiva. criador do Céu e da Terra. O homem é criatura privilegiada porquanto feito à semelhança de Deus. onde figura a idéia de dar a cada um o que é seu. o mal é o não-ser. Todavia essa igualdade não esgota a idéia de justiça. a observância da lei de Deus. Agostinho assimilou a concepção estóica da existência de uma lei natural universal dividida em Lex aeterna. na verdade precisa dele. Essa especificidade se desvela nas faculdades da Alma: a memória. a salvação depende de Deus. não existe como um princípio poderoso a reger o mundo. está no horizonte desse princípio ou fórmula. a inteligência e a vontade. Se todos são iguais. depois. pois o homem deve dar-Lhe amor incondicionado. Agostinho quis dizer que a cada um será dado segundo o seu mérito. O que temos que perceber é que Agostinho está afirmando a tese segundo a qual todo conhecimento verdadeiro é resultado de um processo de iluminação divina. a lei natural e. 66 Falar de uma Filosofia jurídica implícita no pensamento de Agostinho nos lembra a influência que Cícero exerceu em seu pensamento. A percepção de um conteúdo na alma decorre da irradiação divina. todos os homens são filhos de Deus e. Nesta nova concepção. Para Agostinho. lex naturalis e lex humana. Assim a suma justiça é a 66 Calvino (1509-1564) levou as teses agostinianas às últimas conseqüências. Nos dizeres de Joaquim Salgado. a privação do bem. Deus é um Ser transcendente que daria fundamento à Verdade. portanto iguais. ou seja.conhecimento humano. Com Agostinho. a lei humana. Importa perceber que Deus não substitui o intelecto humano. portanto. O próprio Deus. 68 . o sentido de igualdade perante a lei se configura no próprio princípio de justiça que preside o ato de criação. surge uma nova concepção de justiça: a justiça divina. Há que se falar também na graça como um tipo de justiça em sua doutrina da iluminação.

que por sua vez é ditado pela vontade de Deus. a justiça perfeita. é a submissão absoluta a Deus. Esta sua concepção legitimou a servidão. Na ordem natural. 67 A finalidade última do homem é Deus e. A lei eterna liga a criatura a Deus e a justiça se configura na submissão à vontade divina. 67 Salgado. desprezando a carne e valorizando a alma. como igualdade de todos. 69 . A justiça. Essa nova religião buscava no campo dos filósofos gregos os conteúdos para uma filosofia cristã. Nesse sentido afirma Joaquim Salgado: “Dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César é um princípio que fundamenta a doutrina da diferença entre o inteligível e o sensível. A Patrística de Agostinho foi marcadamente um período em que predominou o Novo Testamento como doutrina constituída por regras morais e pela crença na salvação através do sacrifício de Cristo. Como os homens não são perfeitos e se tornam pecadores. mas uma religião que servia de contestação da ordem imperial vigente (os romanos). a cidade que não observa esta ordem pratica a injustiça. pois a servidão nasce do pecado e serve ao propósito de expiação dos males praticados. P. com a natureza e com o sobrenatural. A igualdade dos homens entre si é posta por santo Agostinho como absoluta. A justiça está no reconhecimento do homem como imagem de Deus. a nova fé não apresentava fundamentação filosófica. Combater esse mal é um dever sem piedade. Segundo José Américo M. Esta dignidade é o que confere o equilíbrio. para que a justiça perfeita se opere na cidade. No que se refere à Lei humana. a lei natural prescreve a harmonia do homem com ele mesmo. só acontece na cidade de Deus. mas somente na esfera da cidade de Deus”. Agostinho justifica o castigo infligido aos maus. Agostinho enfatizou que esta deve ter como fonte de referência a Lei natural. O homem tornado escravo não deve subverter a ordem social. nesse sentido.58. a cidade de Deus e a cidade dos homens em Santo Agostinho. Pessanha. Assim. portanto consiste em dar a cada um o que é seu.adequação do agir humano com a vontade divina. Joaquim.

também. o Mênon e o Fédon traduzidos por Henrique Aristipo da Catânia. 3 . as únicas obras de Platão acessíveis eram o fragmento do Timeu traduzido por Calcídio.Tomás de Aquino O século XIII foi denominado de “século de São Tomás” e da “escolástica”. Crítias. O período entre 1200 e 1300 é marcado pelo surgimento de duas ordens mendicantes: os dominicanos ou “irmãos pregadores” de Domingo de Gusmão. Apologia de Sócrates e Banquete. Clemente de Alexandria e Orígenes. portanto o problema da relação entre razão e fé. pensaram que Aristóteles compusera 70 . a criação das universidades. podemos dizer junto com Libera que nunca existiu o aristotelismo em estado puro e que Tomás de Aquino realizou uma certa desplatonização do pensamento aristotélico. fora conhecida antes. XIII. No início do séc. Termina com as traduções de Platão e Plotino realizadas por Marsílio Ficino. Segundo Libera: “Os medievais. XII o que gerou conseqüências para a história do aristotelismo medieval. O ingresso do pensamento de Aristóteles foi preparado pelo pensamento dos peripatéticos árabes. A obra de Aristóteles só foi conhecida em parte por volta do séc. em geral. Nesse sentido. pois a verdadeira difusão do pensamento de Platão ocorreu no séc. Tal fato ressalta que os tradutores de Toledo interessavam-se mais pela filosofia árabemuçulmana e judaica do que pelo corpus aristotelicum. sumas de teologia e a assimilação da filosofia natural peripatética. sexta. novas traduções de Aristóteles e de Averróis. Temos. Além de Agostinho destacaram-se São Justino. XIII. sétima e oitava cruzadas. Tais textos não tiveram grande repercussão no séc. O problema central da Patrística foi. Górgias.Predominaram nesta fase escritos que apresentavam o cristianismo em sintonia com as verdades racionais. seu comentador. XV com a tradução da República pelo emigrado bizantino Manuel Crisóloras. entre o que se sabe pela convicção interior e o que se demonstra racionalmente. o apogeu das formas literárias criadas no final do séc. pois a obra de Avicena. prosseguindo com Leonardo Bruni que traduz o Fédon. XII: comentários de sentenças. os franciscanos ou “irmãos menores” de Francisco de Assis (João Bernardone). Este momento é o período da quinta.

o séc. de Aquino. Para compreender o lugar exato de Aristóteles no pensamento medieval latinófono é preciso ter em mente os três fatos elementares: 1. Estagirita fundamentado em recortes do texto e na sua recomposição por divisões e subdivisões impôs idéia do apresentavam um plano perfeitamente ordenado. aos livros naturais e às sumas extraídas dessa. começa aproximadamente 700 anos após a queda do Império romano do Ocidente. As proibições se dirigiam à Metafísica. pelo contrário. o conhecimento de Aristóteles pelos latinos é fenômeno tardio. Com Averróis e Tomás lógicas. quando. um aristotelismo neoplatonizante. incorporados pela tradição interpretativa. 71 .orgânica e completamente suas obras. Em 1230. Aristóteles é lido sem restrição – Aristóteles não seria mais corrigido. Inocêncio IV estende a proibição até a Universidade de Toulouse. pois entendia que a fé não teria mérito quando a razão humana estivesse a emprestar seus recursos. reduzida ao estritamente necessário se relacionou com a teologia da época. XIV. XII em particular corresponde aos anos sombrios de uma verdadeira ditadura intelectual de Aristóteles. é um fenômeno ambíguo. na verdade. Somente na Universidade de Toulouse. Ledo engano. levando em conta os numerosos apócrifos. 68 P. sendo esta restrição reeditada em 1263. a querela do aristotelismo é transposta para o interior da faculdade de Teologia. Eles não imaginaram a gênese interior do corpus nem as condições concretas de sua composição. o papa Gregório IX previne os teólogos contra as novidades profanas. levando em conta a redescoberta do texto aristotélico pelos comentários ou pelas leituras do peripatetismo árabe. Ademais. é um fenômeno supradeterminado. a própria categoria “aristotelismo” é desconhecida na Idade Média e o avanço de Aristóteles foi institucionalmente combatido desde o final do séc.68 Para a maioria dos historiadores da filosofia medieval. Acreditava-se que a Lógica era neutra. XII até a segunda metade do século XIII e intelectualmente trazido à cena a partir da segunda metade do séc. 2. Somente a Lógica de Aristóteles. a o método que do as grande obras comentário. 3. 359. a composição nada tinha de intrinsecamente ligado”.

70 Oblato: leigo que se oferece para o serviço monástico. Do século XI ao século XIII. Essa existência pode ser à maneira platônica ou à moda aristotélica. no caso de subsistirem. Por volta de 1239 retorna a casa dos pais antes de ingressar na Universidade de Nápoles. 72 . neste período desenvolveuse grande estudo da linguagem para depois examinar a realidade das coisas. seu pai foi conde de Aquino. História da Filosofia. Os nominalistas compreendiam que os universais eram termos que designam idéias gerais. p. Os realistas sustentam que há uma existência efetiva dos universais. pura abstração que o intelecto faz. formando parte dos mesmos” Apud. A palavra rosa subsiste à morte da própria flor – qual seria a relação entre o nome e a coisa? Linguagem e realidade? Diante de tais indagações os medievais tomaram duas direções: o nominalismo e o realismo. o problema que apaixonou a Idade Média e que orientou a reflexão filosófica foi o problema dos universais. as obras de Aristóteles começam a ser divulgadas por intermédio dos árabes que continuavam instalados em Espanha. Tomás de Aquino nasceu em 1225. O papado não teve poder para impedir a difusão do aristotelismo através de Averróis. no interior das Universidades. meras palavras sem existência real. levantado a propósito da obra Isagoge de Porfírio69. Veja-se a Rosa como símbolo de perfeição. discípulo de Plotino.107. A partir do séc. O aristotelismo será conhecido através dos comentários dos árabes. A indagação era: qual a relação entre as palavras e as coisas? O célebre romancista Umberto Eco escreveu a obra O nome da rosa para colocar essa questão medieval dos universais. fundada por Frederico II. nem. Por tanto. ingressa como noviço na ordem dos Irmãos Disse Porfírio: “enunciar se os gêneros e as espécies existem por si mesmos ou na sua pura inteligência. 69 Em 1244. nem se existem separados dos objetos sensíveis ou nestes objetos. A preocupação da Escolástica com as palavras resulta da investigação da Bíblia como portadora de verdades. se são corpóreos ou incorpóreos. Importa perceber a diferença entre o sentido literal e o saber simbólico. XII.todavia tornando-se letra morta. Aos cinco anos foi oferecido como oblato70 à abadia beneditina de Monte Cassino permanecendo até quatorze anos. Fato que constituía ameaça para o acordo entre a reflexão filosófica e a fé cristã.

Por ocasião de sua ida à Paris em companhia do mestre geral da ordem. Nenhuma verdade certa do ponto de vista da razão pode ser contrária à fé. Em 1269. o papa Gregório X o envia para a Universidade de Nápoles. Robert Kildwarby. Todavia. Em 1277. Elabora seus comentários sobre as obras de Aristóteles a partir da tradução de Guilherme de Moeberke. o título de mestre. ou seja. Começa Paris com 27 anos. o tomismo foi condenado simultaneamente pelo bispo de Paris. Sua doutrina encontra inimigos entre os franciscanos e dominicanos. um centro de estudos teológicos. Em 1259 é chamado à Itália por Alexandre e torna-se o teólogo da cúria pontifícia. Nenhuma verdade de fé pode 73 a lecionar na Universidade de . os franciscanos. conservadores. Em 1256 obtém de seu protetor. confiante no poder da razão relacionado à autoridade da fé. o papa João XXII encerra o processo de canonização de Tomás em 1323 e afirma que seus escritos são milagres. para organizar um studium generale. o papa Alexandre IV. encontra a universidade de Paris dividida por lutas doutrinais. Libertado por suas irmãs em 1245 foi para Universidade de Paris em busca do mestre Alberto Magno que empreendia a reforma dos estudos teológicos. sob escolta. Estava convencido da unicidade da Verdade. por conseqüência. Por ocasião de uma viagem com o objetivo de assistir o concílio de Lyon. Regressa a Paris em 1252 e obtém o título de bacharel bíblico e sentenciário. De um lado. Aquino estava firmemente agarrado ao princípio da não-contradição. agostinianos.pregadores e renuncia ao abadado do Monte Cassino. morre de uma doença (1274) aos 49 anos. Em 1272. do aristotelismo. o averroísmo latino que negava a individualidade da alma humana e professava que o universo era tirado de Deus por necessidade e. Tomás escreve obras a pedido do papado com vistas a observar o Novo Testamento e o pensamento grego. seus irmãos o levam para a casa de sua família. inimigos de todas as novidades e. De 1248 a 1252 viveu em Colônia sob a orientação de Alberto Magno. encarregado de comentar o livro das sentenças de Pedro Lombardo. de outro. Etienne Tempier e pelo primaz de Inglaterra. contra os projetos de sua família.

a criação do mundo ou o mistério de um Deus em três pessoas. No entanto. mas para explicitar o conteúdo desses artigos e captar a ordem dos argumentos pelos quais se passa de um para outro. mas também porque é o mesmo Deus que é visado pela razão e pela fé.1 . a fé não está ligada a uma pesquisa da razão natural para demonstrar aquilo em que se acredita. Não há um Deus para a fé e outro para a razão: só a afirmação de Deus pela fé difere da afirmação de Deus pela razão. não para provar este ou aquele artigo de fé. não é um impulso cego da sensibilidade. Pela adesão total que ela exige dum ser dotado de razão e vontade. embora existam duas vias para atingir. por exemplo. A sua originalidade reside no equilíbrio interior que realiza entre a supremacia da teologia e a autonomia da filosofia. Com a expressão Fides quaerens intellectus de Santo Anselmo se define no trabalho da teologia: a fé em busca da inteligência.negar uma verdade natural. e a teologia revela tanto melhor o caráter sobrenatural da fé quanto mais respeitar a luz natural da razão. suscita por si própria a pesquisa teológica. mas é o próprio 74 . não somente para dar um mínimo de sentido intelectual à palavra Deus. a fé ultrapassa a razão.Fé e Razão Para Tomás de Aquino. Seu tomismo não é uma simples justaposição da filosofia e da teologia. transcende o objeto próprio da razão. Mas estabelece uma relação que mostra a filosofia servindo tanto melhor à teologia quanto mais rigorosamente filosófica ela for. objeto adequado da fé. A verdade é só uma. Não existe fé para um ser privado de razão. A necessidade duma inclusão não do conhecimento a natural de no uma conhecimento sobrenatural significa necessidade anterioridade histórica do conhecimento filosófico de Deus relativamente ao ato de fé. e menos ainda um sacrificium intellectus. Para Tomás. mas. Deus. O conhecimento da fé pressupõe e pré-exige a validade do conhecimento natural de Deus. 3. tal como não há conhecimento sobrenatural sem a possibilidade dum conhecimento natural. a fé significa obediência e confiança na Palavra de Deus. O teólogo apela para a razão natural.

Filosofia constitui simplesmente a pré-compreensão ou o preâmbulo necessário à inteligibilidade das verdades reveladas. elas vivem uma da outra e realizam-se numa promoção mútua e nessa relação recíproca. o teólogo encara-as na sua relação com Deus. uma distinção sem separação e uma união sem confusão. no entanto. O teólogo aprecia as causas primeiras. E segundo E. uma vez que Deus se conhece primeiramente a si mesmo e vê em si próprio todo o resto. Não cabe à Filosofia procurar para a teologia essa evidência do seu objeto que a tornaria uma ciência perfeita mesmo para nós. Gilson. Mas Tomás acredita que para um mesmo objeto poderá haver fé e saber. nem a razão é anexada pela fé. De fato. Nem a fé está subordinada à razão. Tomás de Aquino seguiu as trilhas de Aristóteles. a reflexão filosófica é essencialmente obra da razão. a grandeza filosófica de Tomás de Aquino muitas vezes é esquecida ao denominá-la de “filosofia aristotélicotomista”. devido à sua maior semelhança com a Ciência Divina. todavia sob perspectivas diferentes. graças à revelação. Há uma inclusão do conhecimento natural no conhecimento sobrenatural. mas 75 . A especulação teológica depende diretamente da fé. mas diretamente de Deus. Na visão de Édouard Hugon. ao mesmo tempo. no Tomismo. e no mesmo indivíduo. Nesse sentido. encontram-se a si mesmas. A priori é impossível saber e crer uma mesma coisa sob o mesmo ponto de vista. não recebe os seus princípios da filosofia. o filósofo aprecia as causas segundas. O Tomismo caracteriza-se na crença inabalável no acordo entre a verdade terrestre evidenciada pela razão e a verdade de fé recebida pela revelação.Deus o objeto real – objectum ut res – da fé e da razão. O mérito do Tomismo é manter assim. O filósofo considera as criaturas em si mesmas. a Teologia é mais perfeita que a filosofia. é conseqüência necessária das exigências da razão e não simples desejo. o acordo da Filosofia com a Teologia. entre a fé e a razão. e. Para Tomás somos feitos de tal modo que o nosso intelecto deve partir dos conhecimentos obtidos através da luz natural da razão para ser encaminhado para os conhecimentos que ultrapassam a razão e formam o objeto da teologia. A teologia que é iluminada pela luz natural da fé. O que é objeto da fé não é da ciência.

levando às últimas conseqüências aquilo que Aristóteles esboçara. O ser é a própria natureza de Deus. Nessa trajetória partia das percepções mais primitivas até alcançar a certeza do Ser Supremo: das mudanças. temporalidade da matéria-prima. Deus une todas as perfeições na infinitude de um ser que vem de si mesmo e que desconhece mudanças e sucessão. Deus é o ser de ato puro destituído de 71 HUGON. seu realismo é a filosofia do ser e da verdade. apreendidas pelos sentidos. conceituadas pela inteligência. verdade que seria a correspondência da mente com as coisas. sabemos através de uma operação lógica que Deus é e o conhecemos por meio de uma analogia. Somente em Deus o ser atinge a sua suprema perfeição. O ponto fundamental de sua filosofia é o realismo. I. ou dizendo de outro modo. Porto Alegre: EDIPUCRS. “O critério supremo do tomismo é a verdade imparcialmente aceita”. “Se o Tomismo admite entes de razão. para que melhor se atinja a realidade existencial das coisas. do próprio ser.reformulou-os de tal modo que arquitetou uma nova filosofia. A noção de ser é o fundamento primeiro das coisas e a última determinação da perfeição das mesmas. em primeiro lugar o objeto e depois o sujeito. das perfeições e da ordem harmoniosa das coisas. p. Deus seria a explicação de todas as coisas. os seres de razão nada mais são que idéias formuladas pela razão. da contingência. 76 .71 Diz-nos Tomás de Aquino: “O estudo da filosofia não é para se saber o que os homens pensaram. as coisas. cuja realidade objetiva está tão somente na inteligência.14. Os Princípios da Filosofia de Tomás de Aquino: as vinte e quatro teses fundamentais. Tomás de Aquino buscou as razões principais das coisas existentes. depois a mente. Édouard. A noção do ser é a primeira que afeta nossa inteligência e perpassa todos os nossos conhecimentos. O seu tomismo origina-se da percepção sensível do mundo para dela tirar no âmbito da inteligência um conjunto conseqüente e harmonioso de teses. da causalidade existente entre elas. O seu ponto de partida é a realidade das coisas e não das idéias imaginadas. dirigindo-se às explicações últimas das mesmas. 1998. Em primeiro lugar. por conseguinte. ou seja. Introduziu na filosofia peripatética os conceitos de Deus como criador das coisas. mas para que se manifeste a verdade” (De Coelo et Mundo.22).

Surge a idéia do dever e da obrigação que exige submissão à papel novo: a responsabilidade individual. mas sim Idem ibidem. ou seja. Segundo Eduardo Bittar: “Todo conjunto de experiências sinderéticas.Justiça e Sinderesis O cristianismo opera um deslocamento no sentido da liberdade. ou seja. A liberdade afigura-se como livre-arbítrio. justos e injustos). A atividade ética consiste no que denominamos de atividade da razão prática. de conceitos (. porque enfatiza o fim último do obrar ético na noção de Bem Comum. Enquanto para os antigos a liberdade era um conceito essencialmente político. capacidade racional de discernir o bem do mal para alcançar o fim último. Na verdade Tomás de Aquino compreendeu o mal como privação do bem ou estado de ignorância do verdadeiro Bem.) que permitem a decisão por hábitos (bons e maus. Na visão aquiniana o mal só encontra sentido enquanto “bem aparente” e isto significa dizer que decorre de um equívoco que pensa o mal como se fosse o bem. Partindo dessa experiência podemos cunhar os principais conceitos acerca do que é bom ou mal.. Nesse sentido. ou seja. é capaz de formar um grupo de princípios. percebemos a despolitização da liberdade e a sua moralização junto à concepção de culpa originária. passa a figurar para os medievais somente no interior de cada ser humano e se articula com a idéia de vontade dividida entre bem e mal. A noção de responsabilidade assume um 77 . Livro VII: o agir ético como um agir pendular entre o vício e a virtude. A concepção ética de Tomás de Aquino é teleológica. 3.14. Isto quer dizer que os hábitos não são inatos. de experiências hauridas pela prática da ação.73 A sinderese atua para desvelar o bem. p. A sua filosofia denominou a razão prática de sinderese ou sinderesis que poderá ser entendida como um conjunto de conhecimentos conquistados a partir da experiência habitual. aquilo que a todos agrada (bonum est quod omnia eppetunt). justo ou injusto. Ver. Ética a Nicômaco.2 .qualquer imperfeição ou potência – a perfeita posse e simultânea de todas as perfeições: é o ser eterno (Boécio) ”. 72 73 72 a vontade divina..

Essa experiência formará a lei natural que apresentará as seguintes características: 1. Summa Contra Gentiles. Encontramos ecos do pensamento aristotélico que concebia a justiça como uma virtude e o conceito romano de justiça como vontade perene de dar a cada um o que é seu. como já se disse fazer o bem e evitar o mal (bonum faciendum et male vitandum). Uma lei rudimentar. Liv. Em outras palavras. XXVIII. A justiça é uma virtude. 232. actum justitiae pracedit quo aliquid alicuius suum efficitur. A lei positivada é importante no sentido de que conduz o homem ao caminho virtuoso do Bem Comum e torna a convivência social pacífica. 3. ou seja. 2. assim dirigida em sua finalidade. 2002. sicut in rebus humanis patet. Justiça é um hábito que se desvela nas atitudes ou comportamentos dos homens. ou seja. O princípio da razão prática.75 A igualdade que figura nesta definição de justiça é uma igualdade entre pessoas. A ética exige o sentido de justiça no âmbito das relações entre homens. será. Uma lei racional. Uma lei insuficiente e incompleta. ou seja. B. cap. Tomás de Aquino afirma expressamente que justiça é dar a cada um o que é seu: Cum iustitiae actus sit reddere unicuique quod suum est. para a qual representa uma diretriz. Tomás de Aquino apresenta o seu conceito de justiça a partir do seu conceito de ethos. 74 78 . p. no sentido de que exige o complemento de uma lei positiva. pois é fruto da experiência racional ou sinderética. o meio entre excesso e carência. do temor de sua onipresença e da vontade de orientar-se de acordo com a palavra que salva. 2. é essa a base das operações da razão prática. São Paulo: Saraiva. Eduardo C. II. segundo uma razão geométrica. originária que somente poderá ser considerada como princípio norteador.”74 Nesse modo de ver. T.conquistados a partir da experiência. o homem deverá guiar-se por princípios extraídos da experiência sinderética. Curso de ética jurídica: ética geral e profissional. podemos afirmar que BITTAR. o bem que se pratica é fruto da fé e do conhecimento da divindade. Bittar observa que na visão aquiniana é da interioridade virtuosa que o homem retira o necessário para a elaboração da conduta externa. 75 Aquino.

Surge o Deus pessoal criador do mundo. Este conflito marcou o fim do período antigo e o esforço da Idade Média em articular a sabedoria divina com a sabedoria humana. A razão grega acreditava no destino. independente e livre. Deus é quem concebe a sabedoria ao homem. 2. 3. as virtudes teologais (fé. Esta felicidade está expressa no sentido de posse ou visão intuitiva de Deus. na adivinhação etc. Estudamos que o mundo antigo nos oferecia o espetáculo da competição entre duas sabedorias: a grega e a hebraica. A razão grega partia da realidade tangível e visível. o seu paganismo lançava raízes no pensamento mágico. Na sabedoria hebraica ou da salvação. do comportamento humano. O cristianismo promoveu uma modificação dos valores éticos: 1. na boa ou má sorte. esperança e caridade) se colocam acima das virtudes morais. 79 . Nesse sentido. do vir-a-ser. mas da fé que o homem alcança a felicidade. onde Deus se torna o valor supremo. A sabedoria grega apresentava um interesse direcionado para mundo. o que significa dizer que não é através da razão. sendo ele perfeito. nas inspirações superiores.Aquino quer dizer que a Lei divina (lex aeterna) possui uma supremacia que a coloca em uma instância superior em relação à lei natural e positiva. a transcendência do fim último. a transfiguração da felicidade em bem-aventurança.

ou seja. São Paulo: Nova Cultural. O jusnaturalismo presente no pensamento de Platão e Aristóteles. governador do universo. 80 . Na obra De Republica.Parte V . imutável e eterna. Essa idéia acabou por reduzir o direito natural ao mero instinto. Ulpiano que chegou a definir o direito natural como aquilo que a natureza havia ensinado a todos os seres animados. Os padres da igreja ao acolherem as idéias de Cícero. duas versões do direito natural: a versão naturalista de Ulpiano e a versão racionalista de Cícero. em versão racionalista. por exemplo. que não muda com os países e com os tempos e que o homem não pode violar sem renegar a sua própria natureza humana.O jusnaturalismo no pensamento antigo e medieval As primeiras manifestações do jusnaturalismo aconteceram na Grécia. portanto. racional e imanente. exerceu grande influência no pensamento cristão dos primeiros séculos. Foi Tomás de Aquino que compreendeu a lei natural como aquela fração da ordem imposta pela mente de Deus. 1988. Temos. Essa concepção apresentada em Roma por Cícero. posteriormente retomado pelos estóicos. Os juristas romanos também buscaram no estoicismo a idéia de um direito natural como. 76 “Epicuro”. oposta à de Cícero. In: Coleção Os Pensadores. compreendia a Natureza como se fosse governada por uma lei universal. Esta concepção que se configura em uma versão naturalista. conforme à razão. A idade Média se identificava com a doutrina de um suposto direito natural revelado por Deus a Moisés e com o Evangelho (Graciniano – séc. foi adotada por muitos escritores medievais.O Jusnaturalismo 1 . posto que incluía também como seres animados os seres irracionais. se viram diante de uma grande tarefa: conciliar esse direito natural com a idéia de lei revelada. Há a afirmação de um conceito de “justo por natureza” que se contrapõe ao “justo por lei” que fora enfatizado pelos sofistas que já entendiam a expressão “justo por natureza” de formas distintas e com conseqüências políticas também diversas. O mundo grego antigo desenvolveu um jusnaturalismo cosmológico. Cícero76 defendeu a existência de uma lei verdadeira. os motivados apenas por instinto. XII).

Somente com o advento do positivismo jurídico é que o direito natural é excluído da categoria do direito. no Velho Testamento e no Evangelho. O direito natural é percebido como aquele contido na lei mosaica. para um retorno à Antigüidade clássica. pois constituiu a base do jusnaturalismo católico. na época clássica. baseando-se no princípio de que o direito particular prevalece sobre o direito geral – “lex specialis derogat generali”. posto pela sociedade civil. A doutrina tomista foi considerada por muitos comentadores como uma retomada do pensamento estóico-ciceroniano da lei verdadeira enquanto racional. Tomás de Aquino foi severamente criticado por seus coetâneos. inúmeros agrupamentos sociais cada qual dispondo seu próprio ordenamento jurídico. O objetivo perseguido por esses intelectuais era abandonar as idéias medievais. mas tão somente era considerado como um direito comum. Enfim. o direito natural não era concebido como superior ao direito positivo. A esse respeito ressalta Norberto Bobbio que se trata de uma distinção de grau e não de qualificação. pois tanto um como outro se configuram como direito na mesma acepção do termo. 2 . Desta concepção derivou a idéia jusnaturalista do direito natural como superior ao direito positivo. Por outro lado. 77 Conforme exprime Sófocles na tragédia grega sob o nome de Antígona.que se acha presente na razão humana – uma norma racional. O direito positivo como um direito especial ou particular de uma dada civitas. uma vez que adquirira o status de norma fundada na própria vontade de Deus – como a lei escrita por Deus no coração dos homens. ou seja. o termo Renascimento significa um movimento intelectual que se iniciou por volta do final do século XV. Nesse contexto. O seu jusnaturalismo foi de grande importância.Jusnaturalismo no pensamento renascentista e moderno Segundo os estudiosos. mas hoje é considerado o filósofo medieval mais importante do catolicismo. 77 Não podemos olvidar que a sociedade medieval era marcadamente uma sociedade pluralista. o direito positivo assumira o caráter de fenômeno social. o direito natural passara a ocupar status privilegiado. 81 . No sentido amplo.

Os pensadores florentinos que valorizavam a política e defendiam os ideais republicanos das cidades italianas contra o império romano-germânico. Cervantes. A inquisição foi reativada no Concílio de Trento (1545-63) 82 . aumentando a tensão entre os imperadores e o papado (liberdade política versus autoridade eclesiástica). a valorização da razão e da liberdade. das técnicas e das artes. Bocaccio. o homem como microcosmo e o conhecimento da Natureza através da magia natural (alquimia e astrologia). Dante. Galileu Galilei. ou seja. Essa fase marcou também o momento inicial de uma filosofia do direito e do Estado explícita como resultado do homem em seu novo papel de criador no mundo social. da política. Michelangelo. Maquiavel. A concepção do homem como artífice de seu próprio destino através do conhecimento. O pensamento platônico. Kepler e tantos outros. 2. No âmbito religioso. a Terra não era mais o centro do universo. a “Reforma” que tem sido considerada responsável pelo surgimento do protestantismo no séc. o estudo da cultura greco-romana. a saber: 1. Durante essa fase muitos precursores da ciência sofreram nos Tribunais da Inquisição. Este é o século de Shakespeare. na qual a observação assume papel fundamental. 78 XVI fortaleceu o individualismo intelectual e estético desse humanismo crescente. Leonardo Da Vinci. Camões. devastada por inúmeras dissensões e uma esplêndida florescência do humanismo. 3. Observa-se. portanto. afinal. Três concepções predominaram no período do Renascimento. 78 Foi um momento em que o homem perdeu suas certezas e verdades. que nesta fase ressurge um interesse pela pesquisa natural. o céu não era finito e o homem deixava de ser criatura miserável. órgão da Igreja encarregado de descobrir e julgar os hereges.Renascimento configura um momento de tensão entre duas autoridades: a do Papa e a das monarquias. a partir de uma nova ótica. a partir do neoplatonismo e a descoberta do hermetismo que compreendiam a Natureza como um grande ser vivo. Os reformadores protestantes voltaram as costas à Giordano Bruno ( 1548-1600) foi condenado à morte por apresentar a teoria heliocêntrica de Nicolau Copérnico ( 1473-1543) e a infinitude do universo. a exaltação do homem. Surgem cientistas e filósofos que revisitaram as questões medievais. Erasmo de Rotterdam. Trata-se de uma época de grande crise da consciência européia. Tomas Morus.

características liberais. uma cultura laica e antiteológica.5 Do renascimento a Kant. sob o aspecto terminológico.lo stato. Alguns autores entenderam que a origem do jusnaturalismo moderno estaria na doutrina de Hugo Grócio (1583-1645). Como ressalta Truyol importantes desta etapa y Serra79. Na verdade o direito 79 80 81 Truyol y Serra. um retorno ao pensamento agostiniano. a época do Iluminismo.tradição medieval. Este é o momento de crise. pretendendo com isso reatar a Antigüidade cristã. XVII características laicas80 e no campo político. p. o pensamento de Grócio teria fortalecido o caminho para esse pensamento laicizado no âmbito da moral e da política. Do direito da guerra e da paz 83 . momento do surgimento de uma nova cultura. Hugo Grócio afirmou que o direito natural é ditado pela razão. e se deve à grande disputa entre as alas extremas do voluntarismo calvinista e o pensamento tomista de influência estóica-ciceroniana. um alterou o advento do Estado soberano. Não eclesiásticas ou leigas. a criação da Imprensa. enunciada na obra De iure belli ac pacis. independente de qualquer interferência divina. Este autor sustentou que o direito natural é imutável e independente de Deus como legislador supremo. designando a idéia de coisa pública. as viagens de exploração ultramarina pondo o Ocidente em contato com outros povos. Grócio diferenciou direito natural e direito positivo da seguinte maneira: “O direito natural é um ditame da justa razão destinado a mostrar que um ato é moralmente torpe ou moralmente necessário segundo seja ou não conforme à própria natureza racional do homem”. Esta sua idéia anuncia o modo de ver da época que estaria por vir. fortaleceram a oposição à Escolástica medieval. dentre os acontecimentos mais do pensamento humano. crise que caracteriza a transição da Cristandade medieval para o Estado moderno. a tentativa de enfraquecer o papado. o surgimento da palavra Estado . Na profundamente o cenário europeu: verdade vários acontecimentos contribuíram para essa mudança: o combate ao pluralismo feudal. e. o descobrimento da América.81 de 1625. a expansão da economia no sentido de um capitalismo. Segundo alguns comentadores. O que importa perceber é que. O jusnaturalismo moderno assumiu no séc. num plano mais vasto.

a existência de direito naturais inatos. Tomásius e Rousseau foram o pensamento racionalista de Hugo Grócio forneceu as condições de possibilidades para considerados representantes dessa escola. o advento da Escola Clássica do Direito Natural. temos a obra Dois tratados sobre o governo. a crença num suposto estado de natureza. de John Locke. Tais idéias no seu conjunto contribuíram para o processo de laicização do direito. e eterno. Rio de Janeiro: Forense. Além de Hugo Grócio. pois fundamentaram teoricamente o que entendemos por direito internacional daquela época que. escritos em 1680 e publicados em 1690 que já observava limitações ao poder real. A conseqüência mais relevante do seu pensamento foi a idéia de adequar a lei positiva e a Constituição a esse direito natural e legitimar a possibilidade de resistência e desobediência civil em caso de conflito. Locke. A obra de Grócio difundiu com grande sucesso a idéia de um direito natural. cuja fonte repousa exclusivamente na validade da sua conformidade com a razão humana. Puffendorf.Características do jusnaturalismo moderno A diferença marcante entre o jusnaturalismo antigo-medieval e o jusnaturalismo moderno repousa sobre o fato de que o primeiro vincula-se à idéia de que tal direito constituiria uma teoria do direito natural como norma objetiva. XVII foram de grande importância. 2003. apresentava-se sob o nome: Do direito natural e das gentes. ao largo do pensamento do holandês Hugo Grócio. Na Inglaterra. 3 . A Escola Clássica do Direito Natural apresentou e defendeu algumas idéias. a saber: a valorização da natureza humana como fonte do direito natural. como também conduziram ao sentido de um direito natural imutável. O jusnaturalismo de Grócio e o jusnaturalismo do séc. a saber: a recta ratio e a appetitus societatis (desejo de uma sociedade tranqüila e ordenada). a idéia de um contrato originário como origem da sociedade.possui uma dupla origem. 84 . universal Hobbes. Paulo. Segundo Paulo Nader82. o segundo momento do jusnaturalismo configura o momento de uma teoria dos direitos subjetivos. Spinoza. por sua vez. Bobbio observa que entre 82 NADER. Filosofia do direito.

Locke. os direitos inatos. Kant. sobretudo em Rousseau e Kant. Por conta deste traço essencial.o direito natural da Antigüidade clássica. Faz-se mister ressaltar que. mas continuidade. estado de natureza e contrato social. este contrato se desdobraria em dois momentos: o pacto de união e o pacto de sujeição. As doutrinas jusnaturalistas modernas consideraram a sociedade como efeito de um contrato entre os indivíduos. o jusnaturalismo do séc. Nesse sentido. o da norma. Os indivíduos abandonam o estado de natureza (diversamente entendido. A legitimidade do Estado é assegurada por um pacto entre cidadãos e um soberano. Pufendorf. A tradição constitucionalista inglesa inspirou-se na doutrina do direito natural. Esse modo de ver modifica também a figura do Estado que passa a não ser mais visto como instituição necessária por natureza. visando salvaguardar os direitos naturais. ou mera idéia reguladora capaz de explicar racionalmente a realidade histórico-política da formação do Estado. Wollf. O jusnaturalismo moderno enfatiza o aspecto subjetivo do direito natural. isto é. a teoria do contrato afigurou-se como uma historieta de ficção. Rousseau. conquanto diversamente entendidos pelos vários expoentes do jusnaturalismo moderno (Grócio. do período medieval e do período moderno não há rupturas. como também na Declaração da Independência dos Estados Unidos da América (1776). Vattel. Cumberland. Isto quer dizer que se acham presentes em todas as doutrinas legítimas dessa corrente de pensamento político. XVII e XVIII fundamentou doutrinas políticas de tendência individualista e liberal. Fichte) são conceitos característicos desta corrente de pensamento. Milton. que afirmaram a existência de direitos do homem inalienáveis. mas sim como obra voluntária dos indivíduos. ressaltando peremptoriamente a necessidade do respeito e reconhecimento desses direitos por parte da autoridade política. Direitos inatos. mas sempre carente de organização política) e fazem surgir o Estado politicamente organizado e dotado de autoridade para garantir os direitos naturais. a Declaração dos Direitos do 85 . deixando de lado o aspecto objetivo.

representa uma escola que floresceu na Europa entre os começos do séc. Locke (1632-1704). Hobbes (1588-1679). a saber: 1 . Em sentido restrito. o jusnaturalismo com sua teoria de um direito absoluto e universalmente válido. seria capaz de oferecer as bases doutrinais para uma reforma racional da legislação.Homem e Cidadão (1789) configurou um dos primeiros atos da Revolução Francesa que proclamou a liberdade. Desta forma. Tais autores apresentaram o uso comum de uma mesma sintaxe ou estrutura conceitual para racionalizar a força e alicerçar o poder no consenso.As teorias do contrato e o direito natural Por contratualismo entendemos teorias diversas com problemas e soluções também diversas. o contratualismo compreende aquelas teorias políticas que vêem a origem da sociedade e o fundamento do poder político na figura jurídica do contrato. enquanto ditado pela razão. S. 4 . T. podemos compreender dois níveis distintos. ou seja. J. Sentiu-se em certo momento uma forte necessidade de reforma legislativa. que teve os seguintes expoentes: J. 2 . Althusius (1557-1638).-J. Nesta concepção o fundamento da obrigação política repousa consenso expresso ou tácito que legitima uma autoridade que os represente e encarne (contratualismo clássico). XVII e fins do séc. acordo que assinalaria o fim do estado natural e o início do estado social e político. 86 .O estado de natureza como mera hipótese lógica a fim de ressaltar a idéia racional ou jurídica do Estado. XVIII.Os que sustentavam a passagem do estado de natureza ao de sociedade como um fato histórico realmente ocorrido para dar conta do problema antropológico da origem do homem civilizado. Pufendorf (1632-1694). a fraternidade e a igualdade. Em sentido amplo. Rousseau (17121778). assim. Spinoza (1632-1677). um acordo tácito ou expresso entre a maioria dos indivíduos. Kant (1724-1804). I. J. J. Outro efeito importante do jusnaturalismo moderno foi a reformulação da legislação positiva para torná-la adequada às novas exigências.

a idéia do direito como a única fonte de racionalização das relações sociais. ele prevaleceria. uma forma de convivência onde existiam apenas relações intersubjetivas entre os homens. 5 . aquele estabelecido pelo Estado e cuja validade não dependeria de valores éticos.Encontramos. a de lei natural em sentido estrito e conatural a todos os seres animados. Este direito natural teria validade em si. os jusnaturalistas admitiam a existência de um suposto estado de natureza.O conceito de jusnaturalismo segundo Guido Fassò O jusnaturalismo é uma doutrina que afirma a tese segundo a qual existe e pode ser conhecido um direito natural. O jusnaturalismo é uma doutrina oposta ao positivismo jurídico que enfatiza a existência de um só direito. seria anterior e superior ao direito positivo e. assim. colocando como base de toda juridicidade o pacta sunt servanda. Todas essas versões partem do pressuposto que o direito natural é constituído de normas logicamente anteriores e eticamente superiores às do Estado. caracterizando-se por possuir um direito natural. sem um poder político organizado. que a encontra dentro de si. a necessidade de legitimar o Estado. Na história da filosofia jurídico-política surgiram três versões do jusnaturalismo: a de lei estabelecida por vontade da divindade e por esta divindade levada aos homens. específica do homem. ou seja. Enfim. Qualquer atividade política que se oponha às normas do direito natural será considerada ilegítima. um sistema de normas de conduta diversa do sistema constituído pelas normas fixadas pelo Estado. animal racional. ou seja. as leis criadas pelo soberano que tenderiam a substituir o direito consuetudinário. construir um sistema jurídico que evidencie a autonomia dos sujeitos desse contrato. Este seria o momento anterior à formação da sociedade política. em caso de conflito. a de lei ditada pela razão. Três fatores explicam essa idéia: a influência da escola do direito natural com a qual o contratualismo está relacionado. 87 .

No direito romano a dicotomia direito natural e direito positivo pode ser vista a partir da distinção entre jus naturale (inclui-se aqui o jus gentium) e jus civile. podem ser cumpridas indiferentemente de um modo ou de outro. do Livro V. na obra O positivismo jurídico. 83 88 . mas se imposta por lei. O primeiro critério baseia-se na antítese universalidade/particularidade: o direito natural é universal. O segundo critério repousa sobre a diferença entre imutabilidade e mutabilidade: o direito natural é imutável. o direito natural possui eficácia em toda parte e prescreve ações cujo valor não exige ajuizamentos. Nesta obra o direito positivo é denominado de direito legal. devem observar o seu modo prescrito em lei. são ações consideradas boas em si mesmas.6 . o direito natural se define pelos termos “justiça” e “direito”. que seria o correlato ao nosso direito positivo. a clássica distinção entre direito natural e direito positivo já se encontra claramente exposta no cap. O direito positivo tem eficácia apenas nas comunidades políticas em que é posto. Segundo Bobbio. o direito positivo é mutável (Paulo).Critérios de distinção entre direito natural e direito positivo Norberto Bobbio enumera seis critérios para distinguir direito natural e direito positivo.Proposta para uma distinção entre direito natural e direito positivo Segundo ensina Norberto Bobbio. o direito positivo é aquele que estabelece ações que. à razão natural e o segundo tipo corresponderia às estatuições do povo. pois este filósofo entendia que o direito natural poderia mudar no tempo.83 Observa-se que este critério não pode ser atribuído a Aristóteles. da Ética a Nicômaco de Aristóteles. antes de serem reguladas. o primeiro tipo de direito corresponderia à natureza. VII. sua bondade é objetiva. o direito positivo particular (Aristóteles). 2. a saber: 1. O direito natural seria aquele que a natureza ensina aos homens e o direito positivo aquele organizado por um determinado povo em uma determinada época. Para Aristóteles. 7 .

”84 De um modo geral. 5. o direito positivo é conhecido através de uma declaração de vontade. Paulo. 85 REALE. 6. Filosofia do direito. É preciso não perder de vista a importância do direito natural para a reflexão jurídica e que este direito não pode ser considerado como mera filosofia do direito positivo. mas está presente em todas as dimensões da juridicidade. Este critério refere-se ao modo pelo qual o direito é conhecido por seus destinatários: o direito natural é conhecido pela razão. 86 Falarei do realismo jurídico e do positivismo na apostila “O positivismo Jurídico”. 2003. O último critério refere-se à valoração das ações: o direito natural estabelece o que é bom. podemos observar. Se o conjunto de princípios é alcançado pela reflexão. o comportamento observado pelo direito positivo depende da sua tipificação para ser justo ou injusto. Sugiro a leitura do capítulo XIII – “A doutrina do Direito Natural”. Não há dúvida de que o jusnaturalismo configura uma doutrina muito antiga que relacionou direito e justiça. pois deve influenciar na aplicação do Direito aos casos concretos. Este critério concerne ao objeto de cada direito: o comportamento regulado pelo direito natural poderá ser considerado bom ou mau por si mesmo. no poder 4. pois a sua missão não lhe impõe o sacrifício da neutralidade axiológica. o juiz deve possuir o pendor para a reflexão. a esfera do realismo jurídico e a positivismo jurídico.3. O terceiro e mais importante critério refere-se à do povo (Grócio).907. o direito positivo o que é útil. de acordo com o pensamento de Giovanni Reale85.163. 84 esfera do 89 . 154-172. p. Rio de Janeiro: Forense. Como a tarefa do Direito Natural não se limita na orientação ao legislador. pp. é de reconhecer que não podem as duas ordens se apresentar como departamentos alheios entre si. o direito positivo. História da Filosofia: Do romantismo até nossos dias. Giovanni. p. Nos dizeres de Paulo Nader: “Se no Direito natural se destaca a atuação do filósofo e no Direito Positivo. A formação do Direito Positivo e sua aplicação exigem a atuação do jurista prático e a presença do teórico. 1991. a sua conversão em Direito Positivo. exige o jurista prático. a figura do jurista. fonte do direito: o direito natural funda-se no poder da razão. que os estudos de Filosofia do Direito ao longo de nossa história baseavam-se em três esferas distintas entre si86: a esfera do jusnaturalismo. sem se esgotar. São Paulo: Paulus. O pensamento jusnaturalista NADER. identificado este com o jurisfilósofo.

que constitui o núcleo da justiça . independentes de credo. a lei não apenas é direito injusto. Quando estudamos o direito natural. Os direitos naturais não configuram a base fundamental para a vida em sociedade? O Direito pode estar desvinculado dessa dimensão? Apesar dos esforços de muitos filósofos e juristas ou de juristas-filósofos. falta-lhe validade (. já que existem princípios jurídicos fundamentais mais fortes do que toda normatividade jurídica. Onde a justiça não é sequer perseguida e onde a igualdade.. temos uma grande e árdua tarefa: a de refletir sobre essas questões. São princípios e não normas. quando submetidos à mutação. os anseios da doutrina jusnaturalista estão presentes na própria experiência vivida. não estamos afastados da nossa realidade concreta. justa. Pode haver leis tão injustas e danosas socialmente que é preciso rejeitar-lhes seu caráter jurídico (. Todos nós. a igualdade. porque temos como pano de fundo . Desejamos direitos naturais como a liberdade. O direito natural não se reduz ao 90 o direito a um ambiente ecologicamente equilibrado.. ou seja.. mas imersos no pensamento dos seres humanos comuns ou medianos. Lutamos por direitos humanos e os pressupostos jusnaturalistas. não se confundem com os desdobramentos posteriores. o respeito à diferença e à paz. mas em geral também carece de juridicidade”. temos interesse por uma vida digna. portanto. Princípios que são a-históricos e. ao mesmo tempo em que se desvela como seu maior desafio. O maior problema da doutrina jusnaturalista está em compreender a seguinte questão: o que é a justiça? Seria possível encontrar critérios que nos permita estabelecer definitivamente o que é o justo? Essa pergunta constitui o pano de fundo do pensamento jusnaturalista. porque o valor justiça é indispensável. Nesse sentido. Podemos entender por direito natural os princípios que norteiam as fontes geradoras da norma jurídica e que também atuam efetivamente em sua aplicação.).. é conscientemente negada pelas normas do direito positivo. a tal ponto que uma lei que os contradiga carece de validade. concedendo arbitrariamente ou rejeitando os direitos do homem -.) Oos juristas também devem encontrar a coragem para rejeitar-lhe o caráter jurídico.de Gustav Radbruch (1878-1949) expresso na obra Filosofia do Direito (1932) apresenta claramente essa relação entre validade e justiça: “Quando uma lei nega conscientemente a vontade de justiça – por exemplo.

embora sendo fruto do pacto firmado por todos. mas a natureza humana.sentido de um direito costumeiro.Hobbes. condição de eficácia dos pactos firmados. do estado de guerra permanente de todos contra todos ao Estado enquanto centro ordenador da vida em sociedade. isto é. capaz de promover a paz. Os homens passam a viver sob a “espada pública” da lei. não faz parte do pacto. não estabelece nenhuma relação de bilateralidade com este ou aquele membro da sociedade. sua 87 O item 8 é de autoria de Wellington Trotta 91 .unidade necessária ao interesse do bem comum. Temos. celebra-se o pacto maior quando todos põem suas vontades particulares ao serviço do bem maior. mas um direito costumeiro possui elementos do direito natural. à vontade do soberano que não é outra senão o interesse pelo bem comum. na certeza de que o mesmo é assegurado pela paz. não resulta do mundo da vida. somente possível em razão do poder coercitivo do Estado. não é figura contratante. O direito natural é a própria expressão da natureza humana. portanto. 8. Destaca-se que esse soberano. uma vez cedido e transferido o domínio que cada um tem sobre si mesmo em favor do Estado .Thomas Hobbes (1588-1679) 87 No entendimento de Thomas Hobbes (1588-1679). normas de direito positivo com raiz costumeira e normas de direito positivo com fundamento no direito natural. Nesse momento. O seu lugar ontológico não é a cultura. o poder soberano é instituído no momento em que uma multidão de homens passa do estado de natureza ao Estado político. 8 . na verdade. O direito natural.1 . O poder soberano no sistema hobbesiano é aquele exercido por um homem ou por uma assembléia de homens. se confunde com os próprios princípios gerais do direito que estão na base da elaboração das normas e na sua aplicação ao caso concreto. a segurança e o bem estar de todos os súditos.juiz capaz de impor uma só vontade . Locke e Rousseau.

exerce o poder no firme propósito de manter a paz e possibilitar as condições necessárias ao quotidiano da vida. é o retorno ao estado de natureza. os limites do soberano. designou seu representante para exercer autoridade necessária e eficiente ao interesse da unidade dos homens. Em nome dessa obediência e da representatividade. instala-se a insegurança. sair de casa sem nenhum medo de saque. em troca oferecendo toda obediência possível. caso assim não proceda. a guerra de todos contra todos em ato e potência. Aquela multidão de homens quando instituiu o Estado. sendo portanto livre no exercício do poder. Sua ação é sempre justa. desenvolver a indústria e o comércio. o soberano não pode promover injustiças e insegurança no plano interno e no plano externo. garantindo justiça e paz. é apenas instrumento de coesão das forças existentes. visto que numa sociedade fundada na lei. a garantia dos interesses firmados.ação fundamenta-se no preceito erga omnis. Seu poder não é um fim em si mesmo. Tais meios são absolutos. este mesmo Estado detém os meios necessários ao fim perseguido. Sendo o Estado conditio sine qua non à preservação da paz e da justiça. O soberano deve ser forte para impor sua autoridade. ter propriedade. Os membros dessa sociedade podem trabalhar. o receio da punição leva o respeito à lei por parte dos súditos. pois o soberano em suas determinações o tem como força instrumental na execução da justiça. o poder soberano. no respeito aos contratos válidos. os limites da soberania exercida por um só corpo político absoluto estão relacionados ao exercício de sua função. expandir riquezas e dormir tranqüilamente. Entretanto. não há nenhuma divisão de poder. O soberano representa a soberania do Estado e guarda zelosamente a sociedade constituída. pois isso é a perfeita expressão de justiça. ou seja. a beligerância propriamente dita e sua permanente pré-disposição: a insegurança total. todo e qualquer contrato válido deve ser cumprido. o firme e violento contra-ataque do seu exército é a medida da segurança territorial de toda e qualquer invasão externa. a fragmentação. tanto no plano interno quanto no externo. sua finalidade consiste na esperança de todos celebrando e respeitando contratos. utilizar as estradas em segurança. Finalizando. Tanto o bem 92 . O soberano é o supremo mandatário.

N terceiro e último tópico. o que seria o retorno à barbárie. manter sua existência.John Locke (1632-1704) A proposta do presente seminário é analisar os conteúdos daquilo que comumente entendemos por direitos civis e em que medida o pensamento lockiano é suficiente para responder as exigências das novas relações políticas existentes em nossos dias. Quando esse fim não é alcançado e os súditos passam a viver sob o estado de insegurança. destaco o sentido de legalidade tanto como premissa fundamental para o pensamento de Locke. Se de fato isso ocorre ou não na ordem material. O primeiro tópico trabalho a noção de direitos civis a partir da Carta de 1988 sem travar nenhuma discussão doutrinária. este é o legítimo representante daquele.do povo quanto o bem do soberano são inseparáveis. 93 .2 . 8. só lhes resta o uso da razão. como vítimas de injustiças. o fim de todo Estado: justiça e segurança. Toma-se John Locke (16321704) por fundamento em razão de uma tese muito simples: ao se debruçar sobre a Constituição brasileira de 1988. No segundo tópico faço uma pequena resenha do pensamento político de Locke. logo se percebe os valores da livre iniciativa. Destarte dividiu-se o presente texto em três tópicos e uma conclusão. garantir sua vida da melhor maneira possível. como uma realidade construída enquanto algo necessária ao bom termo da sociedade. instituído para fazer valer o bem comum. não encontram no soberano o poder de solução (podendo ser até o soberano agente de injustiças e insegurança). situando-o na tradição filosófica como um pensador preocupado com a ordem legal nas relações de sociedade. constitui um problema a ser devidamente estudo. da propriedade e da divisão dos poderes políticos com o propósito de organizar um governo civil capaz de atinar para as expectativas dos indivíduos. do trabalho.

8. No entanto. Isso porque a propriedade no nosso sistema político assume a possibilidade do homem se manifestar não somente como igual.1 . pois.Noção de direitos civis dentro da Constituição de 1988 Primeiramente é preciso entender o significado de direitos civis e com isso verificar o grau de responsabilidade que a constituição de 1988 impôs ao Estado brasileiro na consecução de seu fim. A propriedade corrobora o nível do indivíduo na sociedade. A satisfação do indivíduo implica no equilíbrio da sociedade que é pensada como um corpo representado na perspectiva dos seus componentes. Esses são os elementos que informam os direitos civis na constituição brasileira de 1988.Jusnaturalismo e a doutrina política de John Locke Partindo. Tomemos como ponto de partida o significado de direito natural para depois situar seu pensamento. para isso é preciso que analisemos o pensamento desse filósofo inglês.2 . Para pensar os direitos civis (aqueles individuais e coletivos) face à exclusão social que atormenta a vida brasileira. A propriedade pronuncia o real sentido de cidadania porque sou cidadão quando disponho de mim mesmo como ser capaz de produzir.2. à segurança. porque implica o nível de liberdade do indivíduo e o sentir-se cidadão de fato. focalizou-se o item propriedade como problema central. no seu art. portanto os direitos civis assumem a dimensão de necessidade social.2. 8. Entende-se que tais direitos são essenciais não só ao plano do indivíduo como também ao plano coletivo. à igualdade e à propriedade nos termos estabelecidos pela lei. 5º. Por direitos civis pode-se entender todos os direitos concernentes ao homem no tocante à vida. pode-se pensar com Locke que o corpo político tem por fim a administração dos conflitos dos homens em sociedade no tocante ao respeito do direito de propriedade. Pode-se dizer que a propriedade assume um caráter imprescindível nas relações político-sociais. mas também como necessariamente responsável pelo corpo social. O cientista político italiano Guido Fassò assevera que: 94 . à liberdade. de tal premissa.

Tais direitos não seriam uma construção dos Estados ou das legislações. A tese jusnaturalista moderna compreende que o direito natural expressa uma relação de princípios compreendidos pela razão. 88 Em contrapartida há especificidades dentro do pensamento jusnaturalista. que por sua vez determina a forma de organização coletiva visando um modo de produção de bens à vida material. é anterior e superior ao direito positivo e. ou seja. à propriedade e ao bem estar dos homens. E ele que deve prevalecer” . podemos perguntar ao velho Locke o que levou o homem a deixar o estado de natureza. ou se quisermos como Locke. para fundar uma sociedade civil. 95 . todos pelo trabalho. É nesse contexto que surge a figura de John Locke como um verdadeiro filho do século XVII. logo a propriedade assume o status de categoria político-epistemológica. que para o filósofo inglês pode ser sintetizada em vida (bem estar). Norberto (org. prosperidade diretamente relacionada ao sentido de propriedade. a começar pela distinção entre junaturalismo antigo e jusnaturalismo moderno. aparentemente. Enquanto este constitui uma teoria dos direitos subjetivos. em caso de conflito. 88 Bobbio.) Dicionário de ciência política. descoberta pela razão. O jusnaturalismo de Locke pressupõe uma ordem universal a partir de um Deus que criou os homens para o propósito segundo o qual. todo homem tem direito ao fruto do seu trabalho. situação de relativa paz. aquele se assenta na tese de que o direito natural deveria representar um sistema de normas objetivas. que é justamente a capacidade de compreensão existente nos homens. Nesse contexto. já que esta toma daquela a irrestrita liberdade e não apresenta. Enquanto epistemológica promove a compreensão da propriedade como chave dos movimentos políticos. Nesse aspecto. posses e liberdade. cravadas no cotidiano legal da sociedade. Para Locke.“Jusnaturalismo é uma doutrina segundo a qual existe e pode ser conhecido um ‘direito natural’. a pudessem está construir sua prosperidade. Brasíkia: UnB. 2000: 655. nenhuma diferença qualitativa no que diz respeito à felicidade. um sistema de normas de conduta intersubjetiva diverso do sistema constituído pelas normas fixadas pelo Estado (direito positivo). Este direito natural tem validade em si. mas um ditame da justa razão que mostraria aos homens os limites daquilo que convém.

imparcial e que governe seu julgamento sob a égide da lei. com certeza. elaborada pela 96 . é preciso que haja uma lei definidora para julgar corretamente cada caso apresentado ao conselho. Em Locke não há como separar felicidade de liberdade. A sociedade civil não tem outro fim senão defender tal valor. Locke não concebe uma sociedade civil vivendo sob o arbítrio de um poder absoluto. o imperioso é a vontade particular. Locke aponta a lei como guardiã dessa vontade expressa pela racionalidade. tal necessidade existencial. Nesse ponto. riqueza sem esforço permanente. lato sensu. contrária aos interesses de todos.Locke. justiça de bem estar comum. ratificar tal princípio. As garantias devem ser iguais para todos no corpo político. responderia que vivendo sob a sociedade civil o homem terá mais segurança para desfrutar daquilo que ele concebe. pela legalidade. capaz de resolver tudo pela onisciência. pois ameaça à propriedade e o resultado do seu trabalho. Isso porque pelo direito natural somos todos iguais. Seu julgamento sempre será parcial e voltado para si mesmo. uma espécie de ação por reflexo. É a lei e não mais o absolutismo o parâmetro da vida em comunidade. tal princípio. a ordenação precisa dessa mesma conduta. como propriedade: vida. e que precisam contratar os meios pelos quais essas concessões serão respeitadas. e a sociedade civil apenas deve. No sistema absoluto. uma renúncia coletiva capaz de estabelecer padrões possíveis de conduta. Em torno de tais perspectivas funda-se uma sociedade que será absorvida por uma organização política capaz de promover a justiça sob o primado da lei. observa-se imediatamente a razão como instrumento dessas vontades particulares consentidas. onde o poder total está em sua volta para inteira satisfação. É preciso a constituição de um juiz permanente. por isso a lei será o novo referencial. É na propriedade que os homens dimensionam suas possibilidades e constroem a felicidade por meio do trabalho. trabalho de propriedade. liberdade e posse. O poder para Locke é sempre uma relação entre os homens. afirma Locke: “Ninguém pode na sociedade civil isentar-se das leis que a regem”. O poder absoluto não visa o bem comum. conhecido. gênese do bem estar social. Sendo a sociedade civil uma construção pelo consentimento.

O Poder Legislativo só é o ordenador da sociedade porque tem representação popular e sua destinação é elaborar leis justas e precisas ao bem comum. Esse poder supremo é a representação da sociedade. símbolo da sociedade civil. Se a lei obedece ao critério da razão. O Poder Executivo é aquele que executará as leis. sua ação positiva visa toda comunidade. cujos membros não podem pertencer a outro poder. e que sua ação não seja mais que a chancela política de seus interesses. poder permanente na administração dos negócios públicos escolhidos pelo Legislativo. bem como na execução da justiça entendida como bem estar comum. Os exercícios dos poderes Executivo e Federativo podem ser realizados pelos mesmos membros. sua função é relativa aos negócios estrangeiros. comandada pelo princípio da legalidade que se constrói no parlamento. Atua no âmbito comunal. o Estado. distintos do Legislativo. O Legislativo sendo expressão da vontade da sociedade. que a sociedade sob um poder político. O Estado não existe para satisfazer um grupo de pessoas. e o fórum dessa discussão é o Legislativo. por isso é supremo e a ele são submetidos os poderes executivo e federativo. O Poder Federativo é uma extensão do executivo. justamente associada aos interesses dos homens que deixaram as incertezas do estado de natureza para 97 . o garante da justiça. Outra característica do Legislativo é que sua atuação não é permanente. seu surgimento só pode ser construído pela discussão. do bem estar comum. chamado por Locke de poder supremo. quanto à paz. nos problemas intra-sociedade.mesma sociedade civil por meio de representação parlamentar. somente existe para promover a paz na possibilidade da segurança permitir o gozo e o uso da propriedade. orgânico. sua extensão visa a permitir que a sociedade seja a verdadeira fonte de poder. Nele está a esperança da preservação da sociedade que se constituiu para tirar o melhor proveito possível da propriedade. quanto à guerra. O Poder Legislativo não passa de representação popular. Locke deixa claro em seu Segundo Tratado Sobre O Governo Civil. A sociedade é um corpo político. não pode transferir sua competência a outro poder. sua finalidade é elaborar leis. uma vez elaboradas extinguese a legislatura e seus membros voltam a ser súditos.

forçosamente podemos pensar que o filósofo inglês trouxe algo de diferente. nesse sentido cabe ao Legislativo o papel de edificá-las na proteção da vida. o poder legislativo institui normas para comandar a sociedade. e sendo assim. sem distinção devem ser contemplados no seu direito ao uso. tem a função de estabelecer normas necessárias à existência da sociedade como um corpo político. e assim não acontecendo. Locke está pensando naqueles homens proprietários de terra. Se o Poder 98 . 8.3 – Poder Legislativo e as leis como premissas de segurança política Ao iniciar o capítulo XI do Segundo Tratado. Locke enfatiza que o objetivo pelo qual o homem ingressa na sociedade civil consiste em construir normas para garantir a propriedade e. posse de bens e liberdade. portanto não levando em consideração aqueles que não possuem alguma propriedade. Ao construir sua tese de que o homem abandona o estado de natureza e contrata com outros homens a sociedade civil para a preservação da propriedade. portanto. o Estado declarando guerra à sociedade em razão de sua insubordinação. que sendo a propriedade um direito natural. e os homens iguais. Na formulação política lockiana. isto é.2. inclusive os que não possuem a si mesmos. supor que todos aqueles que formam uma sociedade devem ter direitos resguardados por ela. o dissolverá para constituir um outro Legislativo para um novo governo. seus atos não podem contrariar tal princípio. por fim estabelecer funções de poder distintas para que não haja arbitrariedade por parte dos poderes constituídos. o papel do Poder Legislativo é de ordem primordial. Para Locke. mesmo não atentando para tal princípio. o Executivo para aplicá-las. gozo e disponibilidade. por fim.viverem sob uma ordem legal. por relação. todos. Locke afirma que o corpo político está subordinado à sociedade. daquilo que constituiu pelo trabalho. Nesse sentido. o Poder Legislativo assume o status de poder supremo dentro de uma sociedade que pretende como governo a própria legalidade. Todavia. podese. ao que o nosso autor chama de propriedade. enseja o direito à resistência e.

caberá ao povo destitui-lo e formar um outro que atenda ao pacto firmado como fim último. mas uma condição natural. JJ. em seus atos. Claro que essa legalidade pode se tornar algo conservador para aqueles que estão fora do círculo dos proprietários que por sua vez organizam a sociedade. tais poderes públicos somente existem em função do soberano que é o povo. Ou o Estado exerce o seu papel na contemplação dos seus fins. não pode se furtar do dever de contemplar os seus membros em suas múltiplas expectativas. 99 . Mas o que importa é destacar a legalidade submetida ao povo. O dado da exclusão social é sem sombra de dúvida o fato de não possuir propriedade. algo intrínseco à própria condição humana. ou pelo menos não possuir a si mesmo como tal. Caso ocorra. Assim JJ Rousseau (17121778) inicia a famosa obra. de administrar os limites das ações humanas em sociedade.Legislativo agir de forma diversa de sua destinação. É a liberdade a única e possível condição legítima de organização social. s/d: 28. com uma observação pertinente: a liberdade não é algo relacionado à convenção ou mesmo uma prerrogativa legal. ou se todos os poderes. Os homens acordam entre si os limites de suas ações para que esse limite seja administrado pela sociedade na pessoa do poder público. não respeitarem o povo. O Contrato Social. ou pode se destituído de suas funções para que um outro modelo leve em conta os homens como realmente iguais. RJ: Edições de Ouro. onde repousa toda autoridade subordinada à 89 Rousseau. Para Locke. visto ser a liberdade uma necessidade pré-social. 9 . caberá ao próprio povo apelar para os céus no sentido de desobediência civil. isto posto leva ao raciocínio que o Estado em sua função precípua. que é o verdadeiro soberano.Jean-Jaques Rousseau (1712-1778) “O homem nasce livre e por toda a parte encontra-se a ferro”. logo seria absurdo um governo ou mesmo um Estado que fuja de suas funções essenciais. o Legislativo submetido ao povo e a administração submetida a esse mesmo povo. O contrato social. existencial. A legalidade é o espírito do sistema político lockiano.89 acorrentado por cadeia de elos convencionados.

emanada do soberano. “sendo. se não mudasse de modo de vida. sustentada por convenção e interesses mesquinhos. porém. 100 . em que o povo se assume como ser livre sustentado pela igualdade. a escravidão como antítese é a plena renúncia dessa humanidade. a força e a liberdade de cada indivíduo os instrumentos primordiais de sua conservação” (Rousseau. procurando manter-se tão livre quanto livre fora no estado de natureza. Sendo assim Rousseau dimensiona a liberdade como valor absoluto. mas a materialização do soberano. unidos pelo mesmo objetivo. instância deliberativa do corpo político. Os homens trocaram sua liberdade irrestrita pela liberdade civil. o estágio primitivo já não podia subsistir. O pacto social visa a conservar a liberdade garantindo a posse e sua transformação em propriedade pelo trabalho.vontade de uma idéia coletiva. Rousseau concebe vontade geral como expressão de um desejo de todos. em que todos. supõe que ocorreu nas condições em que os homens tinham pela frente obstáculos prejudiciais à sua conservação e limite de forças que cada um dispunha. cada um obedeça a si mesmo. A 90 Idem: 120. pela cultura do cultivo e da produção. como também não se organiza para proteger e gozar a propriedade por mais amplo que seja o seu conceito. “Qual é o fim da associação política? A conservação e a prosperidade de seus membros. Tal passagem. A sociedade civil não se estrutura para livrar-se do medo permanente do homo homini lupus. vontade comum. a do estado de natureza ao estado de sociedade. s/d: 35). a suprema fonte de poder da sociedade. ora garantida pela vontade geral. A liberdade é a própria qualidade humana. pereceria. Essa mesma vontade geral não é uma soma de vontades particulares. Nesse sentido todos os cidadãos são iguais. e o gênero humano. Foi para garantir a liberdade e os bens que o homem superou as inconveniências do estado de natureza e instituiu o que chamamos de sociedade civil. E qual é o meio melhor de que se conservam e progridem? Seu número e população” 90 O contrato social tem como fim buscar uma associação que guarde a pessoa e os seus bens. positivamente sob forma de lei.

O limite do poder soberano está adstrito ao contrato social naquilo que se convencionam naquilo que ficou firmado como interesse público. o soberano não admite em seu seio homens desiguais. é o soberano a legitimação da ordem social onde se dará sob forma de assembléia. que em Rousseau não existe a possibilidade do poder legislativo existir fora do soberano. todos os súditos são obrigados ao poder soberano. ou seja. representando interesses particulares. visto que o soberano embora permanente enquanto garante da vontade geral se dá em assembléia. meio que fixa. Rousseau entende que não se pode representar vontades. nem sequer o contrato social” (45). estabelece todos os direitos e deveres dos cidadãos. administrar as leis promulgadas. sua instituição obedece aos princípios da liberdade e da igualdade. Não podemos esquecer que Rousseau desconsiderava importante qualquer mediação parlamentar. É o interesse público o norte do poder soberano em suas deliberações. aquele que irá executar. que só existe enquanto possibilidade jurídica graças à legitimação desta por parte do soberano. na lei como força da vontade geral. pois se assim não fosse a soberania não seria uma emanação de poder e sim de lutas individuais. O poder soberano exerce a função de ordenar a vida social. não podemos confundir o soberano com as instâncias administrativas do poder. e no governo que se estabelece a relação do todo com o todo. O soberano só pode ser o povo no seu momento de deliberação legislativa. O poder executivo “é um corpo intermediário estabelecido entre os súditos e o soberano”. fonte da vontade geral. do soberano com o Estado. inclusive sobre a propriedade. de exposição da vontade geral. encarregado da manutenção das liberdades civil e política. poder absoluto sobre seus membros. Gostaríamos de ressaltar. O povo não pode prescindir do seu direito-dever de participar da vida 101 . mas o poder soberano não é obrigado aos súditos: “não há nem pode haver qualquer espécie de lei fundamental obrigatória para o corpo do povo.igualdade é uma condição de semelhança na sociedade civil. ao finalizar o presente texto. corpo político da sociedade civil. O poder soberano pela sua própria natureza é quem institui o poder executivo. O pacto social dá ao poder soberano.

a imensidão dos Estados. a ação do interesse particular. as conquistas. s/d: 131). é colocar sob perigo e mesmo arruinando toda organização estatal constituída. comissários do povo. É importante ressaltar que os deputados são 102 .política do seu Estado. nula é toda lei que não leva sua chancela. “A diminuição do amor à pátria. os abusos do governo fizeram com que se imaginassem o recurso dos deputados ou representantes do povo nas assembléias da nação” (Rousseau. O povo é quem ratifica a lei. abrir mão desta condição é arruinar todo o corpo político.

Introdução Immanuel Kant nasceu em 1724.) 1.. Estudou no Collegium Fridericianum. de forma totalmente desinteressada em relação a qualquer possibilidade de fama ou riqueza. 103 . Mais tarde em 1770 passou no concurso para professor ordinário com a dissertação De mundi sensibilis atque intelligibilis forma et principiis. Por volta de 1778 chegou a receber um convite por parte do barão von Zedlitz para assumir uma cátedra em Halle. Sua mãe o educou segundo os princípios do pietismo91. Nosso autor se concentrava em sua pesquisa filosófica. nascido na Igreja Luterana alemã no séc.) mas a cada um é permitido buscar a sua felicidade pela via que lhe parecer boa. e que pode coexistir com a liberdade de cada um. dirigido pelo pastor pietista F.Parte VI – A filosofia prática de Immanuel Kant (1724-1804) “Ninguém pode me constranger a ser feliz à sua maneira (. Sobre a expressão corrente: isto pode ser correto na teoria. I. Entre 1740 e 1747 estudou na universidade de sua cidade freqüentando os cursos de ciência e filosofia. Nesse período precisou trabalhar como preceptor. A. Schultz. foi sua indeclinável aversão por qualquer forma de carreirismo. mas nada vale na prática (1793). o que lhe renderia 91 qualquer forma de Movimento de intensificação da fé. Em 1755 obteve o título de doutor e conseguiu lecionar na Universidade de Königsberg como livre-docente. Kant recusava adulação em relação a protetores poderosos. segundo uma lei universal possível. XVII.. em uma cidade da Prússia Oriental denominada Königsberg.” (KANT. Uma das características mais marcantes do caráter moral de Kant além de metódico e sistemático.A233-4. Naquela época o professor na categoria de livre-docente recebia somente um valor correspondente ao número de horas de ensino e ao número de alunos que freqüentavam o curso. Nasceu numa modesta e numerosa família de artesãos. Durante os anos de 1747 e 1754 viveu momento de grandes dificuldades. ao direito de outrem) aspirarem a um fim semelhante. contanto que não cause dano à liberdade de os outros (isto é. corrente radical do protestantismo prussiano. mas apesar das condições desfavoráveis estudou muito se atualizando.

um pagamento pelo menos três vezes maior do que o de Königsberg. Kant recusou tal oferta e com ela outra referente a um cargo público vinculado à mencionada cátedra. Em 1781 nasceu sua primeira crítica denominada de Crítica da Razão Pura, posteriormente em 1788, a Crítica da Razão Prática e, em 1790, a Crítica da Faculdade de Julgar. Cumpre dizer que este autor situou-se dentro da atmosfera intelectual que caracterizou o iluminismo alemão. O seu criticismo estabeleceu limites à razão humana quando afirmou que só podemos conhecer aquilo que nós mesmos criamos. O seu pensamento deve ser estudado como uma nova forma de filosofar que nasceu no interior das mudanças estruturais que tipificaram a própria modernidade:
“A nossa época é a época da crítica, à qual tudo tem que se submeter. A religião, pela sua santidade e a legislação, pela sua majestade, querem igualmente subtrair-se a ela. Mas então suscitam contra elas justificadas suspeitas e não podem aspirar ao sincero respeito, que a razão só concede a quem pode sustentar o seu livre e público exame.”92

Essa nova maneira

de filosofar reivindica

como pressuposto

fundamental a liberdade, uma liberdade de fazer uso público da razão em todas as questões sem a direção de outrem. Esse uso público da razão significava para Kant a liberdade para pensar enquanto intelectual e a possibilidade de expressar suas idéias ao público leitor.93 Após a morte de Frederico, o Grande, monarca esclarecido, em 1786, seu sucessor, Frederico Guilherme II, desenvolveu uma política antiiluminista. Kant recebeu uma advertência desse novo monarca que havia intensificado a tutela e a censura, por ter publicado a obra A religião nos limites da simples razão (1793). Kant acabou por silenciar suas críticas diante da advertência proferida pelo Gabinete Imperial. Após argumentar em favor do uso público da razão, prometeu obedecer, o que para alguns configurou momento de grande triunfo para os inimigos de uma filosofia crítica e inovadora.

92 93

Crítica da Razão Pura (1781-1787). Lisboa: Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, AXI. "Resposta à pergunta: que é Esclarecimento?” (1783) In: Textos Seletos. Edição bilíngüe. Petrópolis: Editora Vozes, 1974.

104

O

criticismo transcendental sofreu uma interpretação de cunho

idealista, especialmente no pensamento de Fichte, a despeito de sua resistência e desprezo a essa interpretação. Nos seus últimos anos tornouse quase cego, perdeu a memória e a lucidez intelectual, sobrevindo sua morte em fevereiro de 1804. 2 - O conceito de liberdade no pensamento de Kant Para Kant, o homem está submetido às leis da natureza (determinismo) e, ao mesmo tempo, às leis da liberdade. O homem é capaz de perceber que ele próprio é a causa dos fenômenos que existem no mundo, ou seja, compreende que a razão humana é livre e determinante e, portanto, o homem possui uma liberdade que o difere dos animais. Kant denominou essa especificidade do homem de liberdade transcendental. É justamente no âmbito da vontade94 ou razão95 prática que posso perceber essa liberdade no seu uso prático, ou seja, a liberdade prática ou independência da vontade pode ser demonstrada quando a razão nos fornece a “regra de conduta”96, quando entra em jogo o que devemos ou não fazer. É exatamente nessa experiência interior, exclusivamente pessoal, que conhecemos a idéia de liberdade transcendental como um tipo de causalidade da razão capaz de determinar a vontade, a agir com ou sem as influências de impulsos sensíveis (interesses). O que Kant entendeu pela esfera da prática? Kant concebeu a liberdade transcendental, ou seja, o homem é dotado de livre-arbítrio e, portanto, tudo o que se relaciona com essa dimensão do livre-arbítrio “é chamado prático”.97 Resulta dessa afirmação que devo entender por prático o que diz respeito à moral e ao direito. Então, a liberdade prática, que significa liberdade da vontade, é uma variante da liberdade transcendental. Deve-se observar, portanto, que este autor se filiou a uma
94

Faculdade de representar mentalmente um ato que pode ou não ser praticado em obediência a um impulso ou a motivos ditados pela razão. 95 Faculdade que tem o ser humano de avaliar, julgar, ponderar idéias universais; raciocínio, juízo. 96 Crítica da Razão Pura (1781-1787). Lisboa: Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, A803 / B831.

Crítica da Razão Pura (1781-1787). Lisboa: Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, A802 / B830.
97

105

tradição filosófica que estabeleceu a separação entre uma faculdade superior (a razão) e uma faculdade sensitiva (as inclinações). Nesse sentido, a independência da vontade de motivos empíricos está estritamente relacionada com a fundamentação da moralidade kantiana. Porque a moralidade implica o conceito de autonomia, que é conseqüência da existência de uma vontade livre de motivos sensíveis ou direções estranhas. Kant precisou de uma liberdade transcendental relacionada com a dimensão racional do homem para construir a sua teoria moral. Seu argumento se baseia na idéia de que sempre que nos pensamos como livres reconhecemos a consciência da possibilidade de autonomia. Se como ser racional o homem é dotado de uma vontade livre capaz da elevada função de permitir a moralidade, seria contraditório que este mesmo homem permanecesse sob tutelas. E, assim, associada à idéia de liberdade está a idéia da autonomia, que, por um lado, é entendida como liberdade em relação a direções estranhas e, por outro, como a liberdade da faculdade da vontade capaz de autolegislar. 3 - A ética e o imperativo categórico Immanuel Kant surgiu no contexto do Esclarecimento ou Iluminismo com sua famosa teoria moral que ressaltava o ser racional como absolutamente responsável por sua conduta. Nesse sentido, consagrou uma ética das normas contra as éticas finalistas. Destacou que a busca pelo bem não poderia fazer parte da moralidade, mas o cumprimento da lei pela lei98, enfatizando, com isso, que a ética significa a obediência à lei moral, lei esta que está em mim e que se identifica com a minha consciência. Sua teoria moral apresenta, portanto, três características fundamentais: o aspecto cognitivista, ou seja, a crença na possibilidade de decidir as questões prático-morais com base em razões, o que implica dizer que os juízos morais são passíveis de serem fundamentados; o sentido formalista, pois elabora um princípio moral (imperativo categórico) limitado às questões referentes à justiça e não ao “bem viver”; e, por fim,

98

Crítica da Razão Prática (1788). Lisboa, Edições 70, 1994, A111-115. 106

a lei moral em Kant não precisa do aspecto volitivo no sentido do “eu quero” para existir. 1995. ela existe até mesmo contrariando o “eu quero”. Com isso. Rio de Janeiro: Forense Universitária. mas condicionados pelo fim particular que se almeja. 100 Crítica da Faculdade do Juízo (1793). In: Revista Portuguesa de Filosofia. tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro. 544. A. que não aceitaria ser guiado por outrem. p. mas entraria na perspectiva de todos os outros. válidos universalmente.” Tal princípio funcionaria como um teste a ser realizado pela boas. Esse imperativo formulado por Kant configurou um exercício típico do pensar esclarecido (iluminismo). independente de qualquer inclinação pessoal. pois superei meus próprios obstáculos quando agi por dever. os da prudência condicionam-se ao desejo e ao caráter do ser que age. J. Kant afastou o sentido do “eu quero” em favor do “eu devo”. 1988. Vol. os da moralidade. XLIV. sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio. p. Uma 99 nossa própria consciência a fim de identificar se as intenções que fundamentam uma determinada ação são moralmente interrogação estruturada numa indispensável compreensão das BRITO. princípios práticos objetivos que são válidos para todos os seres racionais – não decorrem de nenhum fim subjetivo. Os princípios podem ser técnicos se valem para todos os seres racionais. O formalismo moral de Kant refere-se à idéia de que a vontade racional deverá ser orientada por princípios a priori. Assim. 159 107 .o caráter universalista. O princípio moral vale universal e incondicionalmente. uma vez que os juízos morais devem erguer uma pretensão de validade universal. O seu princípio moral denominado imperativo categórico foi formulado pela primeira vez na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785). Ao contrário. empírico. Em uma de suas formulações determina: “Age de tal maneira que trates a humanidade.99 A ação adquire um valor moral. na medida em que abstrairia da sensibilidade e buscaria “um ponto de vista universal”100. “Observações críticas à Crítica da Razão Prática”. isso implica a capacidade do ser humano de agir segundo princípios ou determinar-se segundo a razão.

por reconhecê-la como válida. As leis éticas. 4 . no segundo. a validade de uma máxima subjetiva somente poderia ser reconhecida pela razão como moralmente correta se apresentasse uma obrigação moral que qualquer um pudesse desejá-la. mas em particular a idéia do dever como impulso. A legislação jurídica diz respeito às ações sob o ponto de vista externo. além das leis da natureza. e um elemento subjetivo. as da liberdade denominadas de leis jurídicas e leis morais. que liga a representação da lei ao fundamento de determinação do arbítrio para realização de tal ação. a liberdade apresenta-se tanto no exercício externo quanto interno do arbítrio. 108 . que significa a representação da lei como necessária à ação e que portanto converte a ação em dever. Na terceira parte da introdução geral. destacando a mera conformidade com o que prescreve a lei. o dever como impulso. no caso da legislação jurídica temos o sentido de liberdade como exercício do arbítrio e no caso da legislação ética. Encontramos nesse ponto o problema inicial da filosofia do direito: a distinção entre as duas esferas. ao contrário. vinculam-se às determinações das ações e revelam a moralidade.As leis da liberdade: as leis morais e as leis jurídicas Como nos mostra este filósofo.exigências antecipada. Para entendermos melhor essa idéia temos que considerar que toda legislação – como diz Kant – possui dois elementos constitutivos. o que efetivamente distingue as duas legislações não é tão somente o fato de uma legislação ser interna e a outra externa. Nesse sentido. o que configura o sentido de legalidade. a saber: o elemento objetivo. o homem vivencia a tensão entre os impulsos e a razão e encontra. temos o que Kant denominou de conhecimento teórico da possibilidade da regra prática e. Kant concentra seus esforços na clássica distinção entre a legislação moral e a jurídica. No primeiro momento. de reciprocidade numa comunidade ética idealmente Esse imperativo categórico ou princípio moral serviria ao propósito de fornecer as condições de possibilidade para o desenvolvimento de um certo discernimento moral. Nesse sentido. Assim.

Isso implica dizer que todos os deveres são também deveres éticos. vemos facilmente que estes motivos. Editorial Tecnos. No que diz respeito à esta última. Mas justamente por isso. pois não exigem a idéia de um dever interior. simplesmente por serem deveres. dentre estas. La Metafísica de las Costumbres (1797). Madrid: Editorial Tecnos.“A legislação que erige uma ação como dever. 225. todo dever é considerado dever de 101 102 103 104 La Metafísica de las Costumbres (1797). que não compreende esta última condição na lei e que admite também um motivo diferente da idéia do próprio dever é jurídica. por ser mais ampla. ao mesmo tempo como impulso. pertencem à ética. e o dever. 1994. das últimas porque tem que ser uma legislação que obrigue. Disto se infere que todos os deveres. teremos a legalidade se houver uma simples conformidade externa com a lei. de uma legislação externa. Op. 219. ou seja. Idem ibidem. 1994. porém não excluindo as externas.102 relacionada ao dever em Assim. senão que afeta a tudo o que é dever em geral. cuja determinação não pode transpor de modo algum em uma legislação externa. é ética. há deveres éticos diretos (moralidade) e deveres éticos indiretos (legalidade).. quando “a máxima da ação [coincidir] com a lei”104 Há também deveres interiores que não são éticos e deveres exteriores que não são jurídicos. Aquela. pelo contrário. não um chamado atraente”. desde que sejam deveres. pp. porque a legislação ética inclui também em sua lei o impulso interno da ação (a idéia do dever). embora admita como impulsos em sua legislação deveres que desprendem de outra legislação. envolve também a legislação jurídica. pp. cit. o que justifica a afirmação de Kant a respeito da legislação ética como geral: “A legislação ética converte também em deveres ações internas. Faz-se mister ressaltar com certa cautela que é preciso não esquecer que a legislação ética. diferentes da idéia do dever. têm que extrair-se de fundamentos patológicos da determinação do arbítrio. 218-9. Madrid. mas nem por isso sua legislação está sempre contida na ética”. 109 . ou seja. “a coincidência de uma ação com a lei do dever”103 e a moralidade quando o dever afigurar-se como impulso da ação. pp. a legislação ética não pode ser externa (ainda que de uma vontade divina). das inclinações e aversões e.101 A implicação mais imediata desta distinção é o fato de que os deveres característicos da legislação jurídica são externos.

para esclarecer e justificar o seu conceito de direito. A Filosofia de Immanuel Kant.578 apud Rohden. R.106 As normas jurídicas e éticas derivam da razão e não da natureza.194. mas limitada pela mesma liberdade presente nas outras pessoas. Hildesheim. Kant relaciona o atributo de interno e externo ao conceito de liberdade.105 Os atributos de interno e externo apenas sinalizam para a forma de adesão. um outro critério de distinção que se baseia no sentido de liberdade interna e liberdade externa. R. R. p. ou seja. R. o segundo tipo de liberdade. 110 . o 105 106 107 TERRA. A partir desta concepção podemos dizer que o direito identifica-se com a idéia de autonomia. A esfera da ética vincula-se à liberdade interna e a esfera jurídica à liberdade externa. Derivam da vontade humana legisladora. liberdade ética e liberdade jurídica. 1986. Brasília: Unb. V. 5 . daí o sentido de limitação recíproca. 79 GALEFFI. O primeiro tipo de liberdade refere-se à faculdade de agir segundo leis que a nossa própria razão nos fornece. pois se constitui no conceito limite capaz de conferir sentido e direção à conduta humana na esfera da vida em sociedade. observando ou não o animus com o qual é cumprida uma ação. 1964. p. A Política tensa: idéia e realidade na Filosofia da História de Kant. O conceito de liberdade vincula-se necessariamente à idéia de uma sociedade. 1995. 125. leis que ordenam na medida em que somos livres. O conceito de direito coincide com o conceito de autonomia no sentido de que “A legislação própria da razão prática é a liberdade em sentido positivo. pois não podemos esperar que todos tenham motivação ética para o cumprimento das leis. p. menoridade e os mais variados tipos de desrespeitos para com certas regras de convivência mútua.107 Esta relação entre direito e autonomia exclui qualquer possibilidade de violência. São Paulo: Iluminuras. portanto.A liberdade interna e externa Depois de apreciar essa distinção entre legislação interna e externa. autonomia”. ou dizendo de um modo mais breve. EISLER. Kant Lexikon. a jurídica. Surge. As leis morais e jurídicas são leis da liberdade. Então.virtude. A liberdade torna-se o ponto chave entre as duas esferas. remete-nos à faculdade de agir no mundo exterior. p.

pp. entende que as leis positivas encontram seu fundamento nas leis naturais. 111 . Tal relação exige a presença de dois seres humanos para a limitação recíproca da própria liberdade externa. pp. La Metafísica de las Costumbres (1797). Para Kant. Podemos pensar a liberdade interna atuando nos dois momentos. 1994. no âmbito da ética e na esfera jurídica. Na relação entre liberdade e dever não podemos relacionar estritamente a liberdade interna com os deveres que Kant denomina de deveres para consigo próprio e a liberdade externa com deveres para com o próximo. as leis obrigatórias podem ser de dois tipos. como um legítimo representante do dizer que o direito se pensamento jusnaturalista. As leis externas positivas são aquelas cuja obrigação depende necessariamente de uma legislação externa efetiva. reforça a idéia do seu imperativo categórico no sentido de que prescreve a todos a necessidade de se pôr no papel de um suposto legislador para observar a possibilidade de universalização das máximas do agir. “Por conseguinte – afirma Kant -. ou seja.109 108 109 La Metafísica de las Costumbres (1797). 224. No âmbito da ética. somos responsáveis por todas as nossas ações primeiramente diante de nossa própria consciência e depois. na esfera do direito. Na verdade. somos responsáveis frente à coletividade. a saber: as naturais e as positivas. Madrid: Editorial Tecnos. deves considerar tuas ações primeiro desde o teu princípio subjetivo: todavia podes reconhecer se esse princípio pode ser também objetivamente válido”. Kant. em alguns casos. 108 Neste momento. a lei natural fundamenta a autoridade do legislador. somos responsáveis frente a nós mesmos.âmbito da moralidade diz respeito à liberdade interna e o âmbito da legalidade à liberdade externa. o que equivale fundamenta na moral. ainda que não haja nenhuma legislação jurídica a seu respeito. ou seja. confere a faculdade de poder obrigar outrem mediante seu arbítrio. No âmbito da legislação externa. diante do olhar dos outros. Madrid: Editorial Tecnos. 225. 1994. embora a relação jurídica tenha como característica fundamental a intersubjetividade. As leis externas naturais são aquelas cuja obrigação é reconhecida a priori pela razão.

1992. 226. O arbítrio determinado diretamente pela razão pura é o livre-arbítrio. pois entende que as leis procedem da vontade e as máximas do arbítrio.Esse exercício nos permite conhecer nosso arbítrio e consequentemente nossa liberdade. Madrid: Editorial Tecnos. In: I. 1994. 1994. Porto Alegre: Editora Universidade UFRGS/ Instituto Goethe – ICBA. “se o homem é capaz de determinarse por uma razão independente. ou. 237. da qual derivam os conceitos e leis tanto morais como jurídicas”. Madrid: Editorial Tecnos. 1995. pertencente a todo homem em virtude de sua humanidade”112 no sentido de independência do arbítrio de Apresentou na Fundamentação: “a liberdade tem de pressupor-se como propriedade da vontade de todos os seres racionais”113. o que implica dizer que o homem é livre por ser racional. nem não livre. daí que seja também absolutamente necessária e não seja ela mesma suscetível de coerção alguma. na medida em que pode coexistir com a liberdade de todo outro segundo uma lei universal. que no homem é livre.128 112 La Metafísica de las Costumbres (1797). O conceito de igualdade decorre desta idéia de liberdade como direito inato. 112 . senão imediatamente à legislação concernente às máximas das ações (portanto. pp. p. “Razão Prática e Direito” In: Racionalidade e Ação. pois fundamentou seu argumento no fato de que a vontade se refere tão somente à lei. somente podemos denominar livre o arbítrio”. São Paulo: Abril Cultural. Kant. Por conseguinte. não pode chamar-se nem livre. ele é sob este aspecto livre do determinismo natural e tem uma vontade própria. à razão prática mesma). Os Pensadores. como diz Rohden. 1974 e Lisboa: Edições 70. pois 110 111 La Metafísica de las Costumbres (1797). Col.111 Embora Kant afirme a existência de direitos inatos em À Paz Perpétua. portanto exige liberdade: “a vontade que não se refere senão à lei. porque não se refere às ações. o arbítrio liga-se às ações e. BA99.110 Kant estabeleceu a relação entre liberdade e arbítrio quando estabeleceu a possibilidade da liberdade ser percebida no sentido de autodeterminação pela razão. na Metafísica dos Costumes ressalta que só há um único direito inato. 113 Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785). é o único direito originário. que é a liberdade outrem: “A liberdade (independência do arbítrio necessitante de todo outro). pp. ROHDEN. V.

Unb. R. Trata-se de uma razão prática-jurídica e não pragmática. pp. 237-8 GALLEFFI. A igualdade 114 inata é: “a independência que consiste em não ser obrigado por outros senão àquilo a que também reciprocamente podemos obrigar-lhes” homem íntegro e o conteúdo Na verdade. 1986. pois o que seria a propriedade nos primórdios da sociedade senão o reconhecimento de uma posse arbitrária? O conceito de posse em Kant funda-se sobre a inata posse comum da superfície da Terra e sobre a vontade universal. ou seja. O direito é uma exigência da razão que apresenta aos homens um procedimento para solucionar conflitos. Nesse sentido. 6 . Kant entende que só podemos nos considerar possuidores de algo quando há o reconhecimento dessa posse de forma não diretamente relacionada com a detenção física.115 Essa circunstância nos leva a pensar que Kant nega a origem do direito como derivado da propriedade. 1994. Madrid. Editorial Tecnos. a qualidade do homem como sui iuris. 113 . a igualdade. Este conceito torna-se um conceito limite que direciona a conduta dos indivíduos para uma vida em sociedade. mas surge do acordo entre indivíduos autônomos para justamente assegurar a realização da liberdade. A Filosofia de Immanuel Kant.A lei jurídica e a sociedade civil Para Kant. direcionada a interesses particulares independentes de qualquer moralidade. ser da formulação do imperativo categórico acima mencionado já se encontram no princípio da liberdade originária como elementos constitutivos dela. embora seja concebido como estado 114 115 La Metafísica de las Costumbres (1797). É a razão que nos impulsiona a abandonar o estado de natureza. a lei jurídica não é algo inato.todos são igualmente independentes. A racionalidade permite o reconhecimento recíproco e a unificação das vontades e. Brasília. nesse sentido. Kant justificou o ingresso no estado de direito a partir do conceito de racionalidade. sublinho mais uma vez que não é a experiência da violência como pensava Hobbes. O direito consiste em limitar as ações: a minha liberdade de me apoderar das coisas encontra seu limite na liberdade do outro em agir da mesma forma. mas um princípio da razão.

Madrid: Editorial Tecnos. Kant compreendia o direito natural como não estatutário e. a justiça pertence a ele. nesse sentido. Bobbio. Na sua idéia do homem como cidadão do mundo ou cidadania mundial. N. 116 Isto posto. 117 Kant partiu em defesa desse modelo de Estado. condenou o Estado eudemológico que pretendia tomar para si a tarefa de tornar seus súditos felizes. não permitir qualquer privilégio ou interesse especial protegido. com a doutrina do contrato e do direito natural. Brasília. Edição bilíngüe. já que a verdadeira função do Estado não se confunde com essa tarefa. A legislação civil deve realizar o direito natural que serve de fundamento racional à legislação positiva. o Estado para Kant deve reconhecer em cada um a habilidade de ser seu próprio senhor e.50. Por felicidade entenda-se o pleno desenvolvimento de todas as suas disposições. 1974. Bobbio. presente no texto “Idéia de uma História universal sob La Metafísica de las Costumbres (1797). 118 Ele acreditava que havia uma tendência natural da história humana para uma ordem jurídica universal. compreendendo o típico egoísmo humano. um ordenamento jurídico cosmopolita. Ednub. pelo menos controlar os abusos. o Estado pode e deve usar a coerção mediante leis para senão eliminar. portanto. mas de oportunidade. pp. Direito e Estado no Pensamento de Emanuel Kant. mas deve ser tão somente salvaguardar a liberdade que permita a cada um buscar a sua própria felicidade. 297-8. portanto cognoscível pela razão de todo homem e. 1994. 1992. A igualdade formal. Nesse sentido.de direito privado. A 482-3 116 117 114 . Petrópolis: Editora Vozes. Kant demonstrou uma grande aversão por um Estado do tipo paternalista que mantinha os súditos na condição de uma menoridade perpétua. cuja meta seria assegurar a liberdade de cada um com base em uma lei universal racional e. em favor de um estado de direito. é uma conseqüência necessária do único direito inato: a liberdade. onde não há uma razão privada. p. portanto. 118 "Resposta à pergunta: que é Esclarecimento?” (1783) In: Textos Seletos. o Estado assume a figura de associação voluntária com vistas a defender alguns interesses. mas um interesse comum e um tribunal capaz de assegurar e reconhecer os direitos de todos. Segundo N. que não é igualdade de posses.

implica uma espécie nova de direito público em geral. Kant entende que o conceito de direito diz respeito a uma relação externa entre pessoas cujas ações implicam-se mutuamente. e nessa relação recíproca não interessa muito saber o fim a que se propõem. Kant formula pela primeira vez na obra em foco o seu conceito de direito como “o conjunto das condições. Assim. 1994. trata-se de conciliar a liberdade de um com a liberdade do outro. 230. Uma lei universal do direito que determina que devo agir externamente de forma tal que preciso sempre respeitar a liberdade do arbítrio do outro nada mais é do 119 La Metafísica de las Costumbres (1797). 7 . que constituem o que se chama direito positivo.119 O princípio universal do direito expressa a necessidade de coexistência dos arbítrios segundo uma lei universal. Editorial Tecnos. do direito público interno do Estado Civil e do direito público externo da ordem internacional. Dessa idéia. pp. Além da doutrina do direito e da encontramos a Ciência do Direito. em última análise.A doutrina do Direito Kant define a doutrina do direito como um conjunto de leis que se apresentam como leis externas ou exteriores. por meio das quais o arbítrio de um pode estar de acordo com o arbítrio de um outro segundo uma lei universal da liberdade”. a liberdade em sociedade. Não se trata de uma relação entre um arbítrio e um desejo. mas sim a forma da relação. que corresponde ao conhecimento sistemático da doutrina do direito natural (Ius naturae). isto é. Kant inferiu duas máximas já mencionadas: o dever de hospitalidade e o direito de visita. 115 . Trata-se de uma relação jurídica particular que encontra de um lado o Estado e de outro um cidadão de um diferente Estado. cujo interessado é o jurisperito (Iurisperitus). Madrid. Para compreendermos o direito como idéia da justiça é preciso abandonar o campo empírico e dirigir-se à razão pura. estudo denominado pelo nome técnico de jurisprudência jurisprudência (Iurisprudentia). mas entre arbítrios. aquele que conhece as leis externas em sua aplicação aos casos que se apresentam na experiência. distinto do direito privado que existia no Estado de Natureza.o ponto de vista Cosmopolita” e que reaparece no opúsculo A Paz Perpétua e na Metafísica dos Costumes como Ius Cosmopoliticum.

e se fique limitado a regular a relação entre arbítrios. 1990.II. pp. Mas inspirado em C. pode parecer contraditório relacionar o direito com a liberdade mediada pela coerção. pois está diretamente ligado a esse sentido de obrigar alguém a agir de uma forma e não de outra. D. Quando usamos a expressão coerção legal limitamos esse sentido para um tipo específico de controle baseado em leis positivas. A coerção garantias de que tal fato aconteça em que as leis positivas se vinculam e que podemos denominar de “coerção recíproca universal implica que se desista de procurar convencer os outros do que é ou não justo. isto é. Assim. e REALI. ou seja. Thomasius122. está relacionado à coerção. por meio da coerção. 116 . Thomasius. sem nenhum componente ético ou intencional”. pois o direito não concerne aos objetos particulares. 1994. segundo uma lei universal”. São Paulo: Paulus. Idem. Tudo aquilo que é injusto é um impedimento para a liberdade enquanto esta está submetida a leis universais e a coerção é um obstáculo 120 121 122 La Metafísica de las Costumbres (1797). G.que uma obrigação que me determina a razão: “age exteriormente de maneira que o uso livre do teu arbítrio possa estar de acordo com a liberdade de qualquer outro. O termo coerção pode ser entendido como a possibilidade de regular as relações humanas a partir de leis externamente válidas. e ANTISERI. N. é um direito intersubjetivo. História da Filosofia. ibidem. Editorial Tecnos. explica como funciona tal coerção capaz de salvaguardar a liberdade. e concorda com o mesmo. aparentemente mais do que a moral. 231. V. lembrando que: “A resistência que é oposta àquilo que impede um efeito serve como auxiliar para este efeito. O direito. o terceiro não se preocupa com a matéria do arbítrio. há a possibilidade de conseguir provocar no outro certa conduta. Kant postula uma relação intrínseca entre direito e coerção. Num estágio pré-positivo.120 É preciso levar em conta os três elementos constitutivos do seu conceito de direito: o primeiro diz respeito apenas às relações externas. o segundo estabelece a relação entre arbítrios.121 À primeira vista. A origem da concepção coercitiva é atribuída a C. Cf. mas tão somente com a forma. 817. mas sem efetivamente. pois a intersubjetividade pode ocasionar lesões nos outros. p. BOBBIO. Madrid.

Este modo de agir se afigura como uma forma deturpada de liberdade no sentido da capacidade do homem como ser racional. a criação de um espaço público sem constrangimento injusto. cf. Esse vínculo da liberdade com a lei foi herdado por Kant do pensamento de Rousseau. p. desde que o não impeça a força ou a lei”( Institutas. se a autodeterminação é algo indisponível e envolve necessariamente um espaço público. nesse sentido. Espírito das Leis. J. São Paulo: Martins Fontes. 1995. é indispensável ao direito. a coexistência pública dos homens. está de acordo com a própria liberdade. fica excluída qualquer possibilidade de uma liberdade irrestrita ou irracional porque iria contradizer essa relação que fundamenta a moral e o direito e que ademais confere status privilegiado ao homem em relação à natureza. Cap. ainda Montesquieu.ou uma resistência à liberdade. a definição Romana: “Liberdade é a faculdade natural de fazer o que se quer. Cf ainda Aristóteles: “Livre é o homem que tem a si mesmo como fim e não o outro”( Metafísica. 231. ou seja. é justo”. I. V e XI. ou seja. segundo leis universais. Se a razão implica liberdade. quando comenta a semelhança com a “lei da igualdade da ação e reação” 125. 117 . Madrid: Editorial Tecnos. 892b) e “o que não é senhor de si mesmo é capaz de desejar. exercer a liberdade a qualquer custo ou o mal praticado por alguém fere a liberdade de outrem. enquanto serve para impedir um obstáculo posto à liberdade. então a coerção oposta a tal uso. A liberdade exterior compatibilizada com a liberdade dos demais é a forma universalizada da possibilidade de convivência humana. 1111b). 1994. Madrid: Editorial Tecnos. 124 Com isso. ROUSSEAU. Belo Horizonte: UFMG. 232. mas não de agir por livre escolha”( Ética à Nicômaco. Cf.123 Esta passagem indica que há certo uso da liberdade que se configura como obstáculo a um outro tipo de liberdade regrada e que a coerção. pp. O acordo entre liberdade e coerção já havia sido apontado no texto “Sobre a expressão corrente: isto pode ser correto na teoria. Quando um certo uso da própria liberdade é um impedimento para a liberdade segundo leis universais (ou seja. J. 3. La Metafísica de las Costumbres (1797). SALGADO. III. que entendia a liberdade como a obediência à lei que o homem prescreve a si mesmo. 126 123 124 O conceito de liberdade é comum à doutrina do direito (relacionada à 125 126 La Metafísica de las Costumbres (1797).J. A idéia de Justiça em Kant: seu fundamento na liberdade e na igualdade. 226-8.2). p. 1994. é injusto). 1996. mas nada vale na prática” (1793) quando afirma que a lei da coerção recíproca corresponde à liberdade de cada um sob o princípio da liberdade universal e na Metafísica dos Costumes. Do Contrato Social.

1992. Kant estava vinculado a essa concepção liberal. e o princípio formal de sua possibilidade considerado segundo a idéia de uma vontade universalmente legisladora.311. e à doutrina da virtude (relacionada à condição formal da liberdade interna). A justiça consiste no respeito à vontade universal. Madrid: Editorial Tecnos. p. quando definiu o direito como o conjunto das condições por meio das quais o arbítrio de um pode estar de acordo com o arbítrio de um outro segundo uma lei universal. jurídico-política em termos de compreensão 128 Para alguns autores. a liberdade. ou seja. uma vez que falar em direitos exige a existência de um “a priori originário”. com o sentido de estado civil somente é pensável a partir do conceito de autonomia. 127 A relação da Constituição que consiste na vontade unificada. a Crítica da 127 128 La Metafísica de las Costumbres (1797). p.73-4. o que justifica a sua definição do direito estar formulada a partir do conceito de liberdade.época de Kant. Assim surge o direito público da necessidade de coexistência inevitável. Brasília: Ednub. Podemos até argumentar que ele formulou uma teoria da justiça como liberdade e que muito pode ter influenciado na elaboração dos fundamentos teóricos do Estado Liberal. Kant teria inserido a temática filosóficodas condições transcendentais da experiência jurídica. pois apresentou campos de cultura diferentes. N. Direito e Estado no Pensamento de Emanuel Kant. Nesse sentido. 118 . Kant pode ser estudado como o filósofo do iluminismo. Podemos dizer que os fundamentos passam históricos do por pensamento uma fase jurídico histórica contemporâneo necessariamente importante: o pensamento liberal do século XVIII . “aquela relação dos homens entre si que contém as condições sob as quais unicamente cada um torna-se partícipe de seu direito. A ética e o direito Ao pensarmos o direito pensamos também a liberdade na idéia do arbítrio de todos unificados no conceito de vontade universal legisladora. a partir de um ordenamento instituído mediante a publicidade de suas leis para que todos possam usufruir de seus direitos: a Constituição. chama-se justiça pública. O sentido de justiça liga-se ao sentido de um estado jurídico.condição formal da liberdade externa) afirmam a relação da liberdade com a lei. Bobbio. 1994.

mas também como transformação da nossa autocompreensão (racionalidade. Ademais apontou noções como dignidade da pessoa humana. A legislação jurídica não está adstrita somente ao âmbito da coerção. mas também pode relacionar-se com o sentido de cumprimento do dever por puro respeito à lei. igualdade. como a personificação do princípio da justiça. na medida em que está intimamente vinculado à ética. contrato social como princípio regulativo. uma vez que não é possível pensar o direito sem necessariamente estar ligado à figura do Estado e ambos encontram sua fundamentação e legitimação na autonomia. dignidade da pessoa humana inspiram o direito. portanto inspiram-se em valores morais comuns às duas esferas. o direito pode ser entendido não apenas como imposição externa. reciprocidade. pessoa moral e cidadão submetido às leis.razão pura. direitos naturais como princípios morais. portanto. Por conseguinte. personalidade e autonomia). como uma exigência da razão. animado por um procedimento diferente do procedimento ético. O direito é. no âmbito prático e a Crítica do juízo no âmbito da arte. Estado de Direito. no Âmbito teórico. ética e direito se dirigem à conduta humana e. Kant compreendeu a relação do direito com a moral a partir de uma intuição política e histórica da origem do Estado. autonomia moral. o direito também exige um reconhecimento moral capaz de justificar a sua necessidade de limitação recíproca da liberdade. mas ambos habitam o mesmo terreno. etc. Habermas chamou (sob a ótica de sua teoria 119 . a relação que estabeleceu entre indivíduo. liberdade. É possível que a preocupação de Kant com a fundamentação do cumprimento do direito como um dever moral se relacione com o fato de que o desenvolvimento humano e moral não acontecem senão por meio da interação social. conferindo sentido às normas jurídicas. é preciso considerar que para uma sociedade livremente associada. sem dúvida. Em particular. reputando indispensável a conquista da razão e da liberdade. o que J. O Estado se revela. Princípios éticos universais como a justiça. Ademais. a Crítica da razão prática.

Stammler. o mundo dos valores. Vol. Kelsen e Radbruch. ligada às ciências sociais e jurídicas e a Escola de Baden. p. o que desvela a preferência pelo pensamento de Kant expresso na Crítica da Razão Pura. HABERMAS. 129 120 . A fundação científico-positiva do Direito ensejou uma filosofia do direito inspirada no criticismo de Kant. ou seja. a saber: a Escola de Marburgo. De tais escolas surgiram os mais importantes intérpretes neokantianos de uma filosofia voltada para a experiência jurídica como Renouvier. 49-53. I. Del Vecchio. uma valorizando a Crítica da Razão Pura. ligada à filosofia dos valores. outra se fundamentando na Crítica da Razão Prática.da ação) de “duplo aspecto da validade do direito. J. Direito e democracia: entre a facticidade e validade. Da filosofia kantiana surgiram duas correntes distintas. 1997. A Escola de Baden focalizou em especial os conceitos de valor e cultura. 129 onde a legalidade pode ser obtida por meio da coação ou por consciência da necessidade de Essa relação entre ética e direito ultrapassa os limites da simples garantia dos direitos individuais e alcança também a importância de legitimar as leis jurídicas fundamentando-as na idéia de um sujeito racional autônomo na qualidade de co-legislador e no sentido da idéia de vontade geral. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. a partir do qual se esboçara a passagem de uma análise do direito natural para o estudo da filosofia do direito. o mundo do dever ser.” obediência à lei. E autores contemporâneos com suas éticas de inspiração kantiana como Jürgem Habermas e John Rawls. A Escola de Marburgo compreendeu o predomínio do problema lógico sobre o problema ético.

17. São Paulo: Revista dos Tribunais. cada qual caracterizando sua época e sua cultura jurídica. De um modo geral. portanto.As escolas Jurídicas Segundo ensina Ana Lúcia Sabadell130 podemos compreender a expressão “escola jurídica” como um grupo de autores que compartilham uma determinada visão sobre a função do direito.Parte VII . ou seja. se ligam mais a Condorcet do que a Comte. 2 . cada escola jurídica oferece respostas a três indagações: o que é o direito. segundo como designação de doutrinas que se ligam à de Comte ou que tem por tese comum a idéia de que só o conhecimento dos fatos é fecundo. 121 . escolas que se inspiraram em outras dando continuidade às suas concepções. ou seja. que o modelo da certeza é fornecido pelas ciências experimentais. Discurso sobre o espírito positivo (1844). Ana Lúcia. renunciando a todo e qualquer conhecimento a priori. segundo as próprias declarações deste. Várias escolas jurídicas surgiram ao longo dos anos. Encontramos. mestre de Comte e que o sentido de conjunto de idéias ou tendências intelectuais que atribui à constituição e ao progresso da ciência positiva uma importância preponderante para o progresso. refere-se primeiramente à doutrina de August Comte (1793-1857) exposta nas obras Curso de filosofia positiva (1830-1842). 2000. podemos classificar as escolas em dois grandes grupos: as escolas moralistas e as positivistas.A origem do termo positivismo Sabemos que o termo positivismo. Manual de sociologia jurídica. p. Nesse sentido. As escolas moralistas são aquelas que valorizam o direito natural e se caracterizam 130 Sabadell.O positivismo jurídico 1 . como funciona o direito e como deveria ser configurado esse direito. suas regras. Na visão de alguns especialistas o termo positivismo foi utilizado pela primeira vez na escola de Saint-Simon. inúmeras escolas rivais e outras que apresentam pontos de continuidade entre si. validade e conteúdos. em seu sentido estrito. Catecismo positivo (1852) e Sistema de política positiva (1852-1854).

Segundo estudiosos. em particular no pensamento de Friedrich Karl Von Savigny (1779-1861). Adam Muller e Gustav Hugo (1765-1844) que só considerava o direito positivo como objeto da ciência. a expressão da necessidade de dar ao direito positivo uma existência exterior cognoscível. comparando-o ao fenômeno da linguagem. 131 contudo. o historicismo foi um movimento filosófico-cultural contra a razão iluminista e que no âmbito jurídico pretendia a dessacralização do direito natural. Assim. comportamento social. Para este filósofo-jurista Ressaltamos aqui uma que direito e linguagem apresentam um início anônimo e visam atender tendências e interesses múltiplos de um povo. a força viva dos costumes. A função legislativa seria. temos pela primeira vez uma refutação filosófica do direito natural. a lei abstrata e racional. a primeira preparou o segundo através de sua crítica radical do direito natural”. no campo filosófico-jurídico o historicismo se configurou na Escola Histórica do Direito. recebeu influência de vários autores como: Edmundo Burke (1729-1797). pois temia o perigo de leis destituídas de eficácia. Trata-se do espírito do povo (Volksgeist) que produz o direito positivo. Para Savigny. p. Na verdade. Justus Moser (1720-1794). O positivismo Jurídico. advertência de Norberto Bobbio: “Note-se bem escola histórica e positivismo jurídico não são a mesma coisa. portanto.1 . considerado um dos precursores do historicismo político-jurídico. Savigny respirou a atmosfera romântica dos alemães de Heidelberg. As escolas positivistas são aquelas que entendem o direito como um sistema de normas que regulam o 2. 45 122 . o “espírito do povo”.por um pensamento jusnaturalista. Savigny invocou contra a lei escrita. N. ou seja. 131 Bobbio.A Escola Histórica ou Romântica A escola Histórica ou romântica representou uma tendência importante no quadro anti-racionalista da primeira metade do século XIX. Joseph De Maistre (1754-1821). o direito vive na consciência popular porque é do povo que ele nasce. reclamando uma visão mais concreta e social do Direito.

onde objeta a codificação. a saber: a intenção de substituir um olhar generalizante e abstrato da história humana por uma visão que considera o homem em sua individualidade. 1995. XIX. por exemplo. ambas se posicionaram criticamente em relação ao próprio juspositivismo. que representaram a realização política do princípio da onipotência do legislador”. a escola sociológica e a escola realista que no final do séc. ao contrário. segundo o qual (De Maistre). “O fato histórico que constitui a causa imediata do positivismo jurídico deve. mas de certas correntes jusfilosóficas como. Assim. a Escola Histórica do direito não foi precursora do positivismo jurídico. XVIII e o início do séc. 123 . Valorização da individualidade/diversidade histórica – pretende-se a superação do entendimento dos jusnaturalistas. Sistema de Direito Romano Atual (1840). Foi neste momento que houve uma certa identificação com o positivismo jurídico – o direito como expressão de uma autoridade legitimada para legislar. o historicismo focaliza o seu caráter individual.132 Sabemos que as codificações foram incentivadas pelo pensamento iluminista que congregou a idéia de um sistema de normas racionalmente elaboradas com a exigência de um código imposto pelo Estado. XIX. Bobbio enumera cinco características da Escola em apreço: 1. Ao observarmos as características da Escola Histórica temos que ressaltar um traço fundamental. São Paulo: Ícone. Conforme ensina Norberto Bobbio. além da obra que marcou o grande florescer do Direito romano na Alemanha. é possível falar em Homem com caracteres sempre iguais e imutáveis 132 O Positivismo Jurídico: lições de filosofia do direito. ser investigado nas grandes codificações ocorridas entre o fim do séc.Sua obra fundamental foi Da Vocação de nosso Tempo para a Legislação e a Jurisprudência (1814). p54. Enquanto os racionalistas consideravam o homem como integrante de uma humanidade abstrata.

5.a mola mestra da história não é a razão.2 . Nesse sentido. Valorização da descrença no progresso iluminista – há certo pessimismo antropológico porque não acredita nos magníficos destinos e progressos da humanidade (Burke). 2. 4.A polêmica entre Thibaut e Savigny sobre a codificação na Alemanha 124 . Com o passar dos anos. 2. portanto de ser um Historicismo de conteúdo social e passava a configurar um historicismo meramente lógico-dogmático. 3. pois o direito passa a ser visto como um produto da história. o direito espontâneo. a saber: 1. O costume é um direito que nasce diretamente do povo. as origens. Os iluministas desprezavam o passado e zombavam da ingenuidade e ignorância dos antigos (Justus Moser) 5. Valorização das normas consuetudinárias que expressam verdadeiramente uma tradição. 3. ou seja. Idealização do passado – valorizam o passado.2. mas o elemento passional e emotivo do homem. instituições e costumes da sociedade – esta idéia foi difundida por Herder e Burke que valorizavam os costumes formados através de um desenvolvimento lento e secular. a Escola Histórica passou a dar preferência à história dos textos legais. Os perigos da cristalização do direito numa única coletânea jurídica – perigo da codificação do direito germânico. A escola histórica do direito realizou estudos jurídicos a partir desse novo modo de pensar o homem e sua história. no sentido de ir buscar os antecedentes dogmáticos para conhecer melhor uma regra. Valorização do sentido irracional na história/há impulsos e paixões . Reviver o antigo direito germânico mais adequado ao povo alemão. 4. Valorização da tradição. O direito nasce do sentimento de justiça e não do cálculo racional. após a morte de Savigny. os seus seguidores limitaram-se a fazer a interpretação histórica. O Historicismo deixava. Bobbio observa que Savigny apresentou traços importantes no interior desse pensamento. A impossibilidade de um direito único e igual em todos os tempos e lugares.

Este código adotara princípios estranhos a um povo que vivia em situação semifeudal. palavras de Horácio. baseada em privilégios. famoso jurista alemão fez uma apreciação anônima do texto conservador de seu coetâneo. Antes de Thibaut. Thibaut 133 Apud. difundindo o Código de Napoleão. ensaio Sobre a Para ele o direito necessidade de um direito civil geral para Alemanha (1814). Ocorre que grande polêmica surgiu por ocasião em que os exércitos da França revolucionária ocuparam uma parte da Alemanha. As diversidades locais expressam o arbítrio dos vários príncipes. em parte irracionais e perniciosos. O positivismo jurídico. Thibaut (1772-1840). Afirmou que: “Os alemães estão a muitos séculos paralisados. como convite à coragem intelectual. Bobbio. portanto. que figura no posição da chamada escola filosófica do direito. logo o direito germano não é natural. Esta situação gerou a oposição de vários conservadores alemães. separados uns dos outros por causa de um labirinto de costumes heterogêneos. mas fruto dos interesses. Na verdade assumiu uma posição moderada.Já compreendemos que os iluministas realizaram uma crítica demolidora do direito consuetudinário enquanto herança do século das trevas e um verdadeiro obstáculo aos princípios de uma nova civilização que valoriza a razão e codificação. tornadas célebres no Iluminismo como grito de batalha.”133 a autoridade do Estado. p. obscuro e primitivo. dentre eles: Rehberg que elaborou um artigo em defesa da tradição prussiana. exprimiu a germânico é insuficiente. oprimidos. 125 . N. Configura-se. entre história e razão para a construção de um sistema de direito positivo. Immanuel Kant utilizou esse mote no texto “Resposta à pergunta: que é Iluminismo?” (1784). A inspiração iluminista de Thibaut pode ser expressa na citação do lema sapere aude. uma estreita relação entre o movimento do iluminismo e o processo de O pensamento de Thibaut. Justamente agora se apresenta uma ocasião inesperadamente favorável para a reforma do direito civil como não se apresentava e talvez não se apresente mais em mil anos. de conciliação. onde a codificação prussiana de 1797 conservava a distinção da população em castas.58.

Não era extremista e 126 .O Código de Napoleão: Cambacérès e Portalis O Código de Napoleão entrou em vigor em 1804 ocasionando uma profunda mudança no pensamento jurídico moderno.3 . Os juristas da Revolução se propuseram a eliminar a multiplicidade de normas jurídicas pelo desenvolvimento histórico e instaurar no seu lugar um direito fundado na Natureza e adaptado às exigências universais humanas. Como fato histórico fundamental destacamos a Revolução Francesa.reafirma a necessidade de uma legislação geral cujas vantagens são para os Juízes e a unificação da Alemanha. O processo de codificação das normas francesas encontra sua origem na cultura racionalista que predominou no interior do pensamento iluminista. Para este pensador a codificação paralisa o desenvolvimento do direito. jurista e político prudente que participou da Convenção que decidiu a morte do Rei Luiz XVI. porquanto serviu de base para várias codificações um verdadeiro corpo de posteriores e também porque configurou sistematicamente organizadas e normas expressamente elaboradas. O fato é que a sociedade francesa encontrava-se fragmentada e na concepção racionalista as velhas leis deveriam ser substituídas por um direito simples e unitário. Os iluministas estavam convencidos de que existia um verdadeiro direito. dentre elas as de Savigny que afirmou a artificialidade das legislações. Nesse sentido. por isso propunha o renascimento e o desenvolvimento do direito popular. Segundo Bobbio. Em seus escritos ressalta a falta de maturidade do povo alemão para o processo de codificação. o novo código se distanciou progressivamente da inspiração originária se reaproximando da tradição jurídica francesa do direito romano comum. Suas idéias provocaram recensões. Savigny fundamenta seus argumentos em Bacon quando este autor afirma que para um povo proceder à instauração de um novo sistema jurídico é preciso que o nível civil e cultural seja superior. O protagonista desta primeira fase de codificação foi Cambacérès (1753-1824). Mas a Alemanha de Savigny encontrava-se em crise. 2. momento em que a idéia de codificar o direito adquiriu consistência política.

a expressão orgânica e sintética da tradição francesa do direito comum. 18 Brumário. a integração da lei e buscar no interior do próprio sistema legislativo resolver o silêncio da lei. da obscuridade ou da insuficiência da lei. O projeto do Código Civil foi obra de uma comissão criada por Napoleão. Na verdade este autor evocou a definição ciceroniana do direito natural. poderá ser processado como culpável de justiça denegada”. o de 1793. O juiz deve usar a interpretação. perseguido por Robespierre e posteriormente protegido no governo de Napoleão. O problemático art. do Código dispõe: “O juiz que se recusar a julgar sob o pretexto do silêncio. O projeto definitivo do novo código abandonou decididamente a concepção jusnaturalista. Em um dos seus projetos já equiparava filhos naturais aos legítimos.chegou a se opor a Robespierre. Com o golpe de Estado operado por Napoleão. O papel mais importante foi realizado por Portalis (1746-1807). Os projetos inspirados nas idéias do jusnaturalismo racionalista representavam a Revolução quando esta queria fazer tábula rasa de todo o passado. na realidade. liberal moderado. Neste caso. proposição radicalmente nova. foi este último que apresentou características mais técnicas e uma notável atenuação das idéias jusnaturalistas que influenciou na elaboração de um projeto definitivo do Código Civil Francês. Durante a Convenção este jurista apresentou três projetos para um novo código de clara inspiração jusnaturalista. Mas as intenções da comissão napoleônica pretendia elaborar uma síntese do passado que não deveria excluir os costumes e o direito comum romano. Dos três projetos. o dogma da onipotência 127 . Elaborou severa crítica contra os excessos da revolução e representou em certo sentido o início do movimento de Restauração. a possibilidade do divórcio e da comunidade patrimonial. a adoção do princípio da onipotência do legislador – um dos dogmas fundamentais do positivismo jurídico. 1794 e 1796. O código de Napoleão representou. crítico do pensamento kantiano. Na verdade foram os primeiros intérpretes que e no consideraram o novo código uma ruptura com o passado entendimento de Bobbio. 4o. foi nomeado segundo-cônsul e depois arquichanceler. fundada em princípios como igualdade dos cônjuges.

do legislador impõe ao juiz a necessidade de encontrar resposta para todos os problemas. 3. os mais jurisprudência. pela qual os juízes se abstinham de decidir e devolviam os atos ao poder legislativo para obter disposições a propósito. Os intérpretes compreenderam que este artigo a necessidade de buscar na própria lei a solução. visavam como Para costume. Para essa escola o direito está feito. Foi essa visão consagrada pelos intérpretes que se configurou na escola dos primeiros intérpretes do Código de Napoleão. Esta escola foi acusada de fetichismo da lei por considerar o novo código uma ruptura com o direito precedente. A possível terceira causa é a tripartição dos poderes. 4o. doutrina Podemos enumerar algumas causas para o seu caminhos simples para resolver conflitos. que limita o juiz na sua esfera de afigurando-se através 128 . 2. a saber: 1. sem recorrer operadores 2. Além do art. A intenção dos legisladores do novo Código era evitar a possibilidade de uma prática judiciária.A Escola de Exegese A outra escola importante é a Escola de Exegese que em sentido amplo significava a interpretação passiva dos Códigos. Com o surgimento dos códigos emergiu também a necessidade de interpretar a letra da lei. gerando um outro dogma. estes. ideológico da estrutura apenas do Estado da moderno. a do outras direito fontes etc. o art 9o. portanto o estudo do direito deve ser substituído pelo estudo dos códigos. advento..4 . a escola de exegese. fundamento competência. A crença na vontade do legislador expressa de modo seguro e completo e a necessidade de limitarse aos ditames dessa autoridade legislativa. indicava os critérios com base nos quais pode o juiz decidir na hipótese do silêncio ou qualquer incerteza. o da completude do ordenamento jurídico.

XIX. A escola exegética configurou um procedimento específico de análise comentando artigo por artigo do Código Napoleônico. o seu declínio. O respeito pelo princípio de autoridade: os primeiros comentadores do código gozaram de grande prestígio e influenciaram inúmeros juristas posteriores. constitutivas de direito e instauradoras de faculdades e obrigações. 2. Interpretação da lei fundada no legislador: se a lei é manifestação da vontade do Estado. A história da influência dessa escola pode ser dividida em três fases: de 1804 a 1830. As características fundamentais dessa escola são: 1. O princípio da certeza do direito. Concepção rigidamente estatal do direito: as normas jurídicas legítimas são aquelas impostas pelo Estado.seguinte metáfora: “a boca através da qual fala a lei”. que são normas gerais escritas emanadas pelo Estado. excluindo-se assim as concepções das teorias gerais do direito e as concepções jusnaturalistas. 4. As pressões políticas que foram operadas pelo regime napoleônico em favor do ensino acadêmico centrado somente no direito positivo. de 1880 até o fim do séc. 3. o seu início. considerado período do seu apogeu. um processo lógico. de 1830 a 1880. sendo o Direito um sistema de conceitos bem articulados e coerentes. não apresentando senão lacunas aparentes. A tese fundamental da Escola é a de que o Direito por excelência é o revelado pelas leis. Desvalorização da importância e significado do direito natural para o jurista. busca-se na vontade do legislador a correta interpretação da lei nos casos de obscuridades e lacunas. 5. a idéia de que o direito fornece um critério seguro de conduta que permite antecipar os resultados – uma regra certa. O verdadeiro jurista deve partir 129 . 4. O culto ao texto da lei: o operador do direito deve seguir rigorosamente o que está escrito. ou seja. 5.

134 130 . Estudam-se as regras vigentes. A juris-prudentia estaria situada entre o logos (razão) e o ethos (prática). na Alemanha. cuja finalidade era realizar o justo. Significa dizer que existe uma ratio iuris específica. em particular o termo Phrônesis fundamental para a ação honesta. No sentido romano. prudência do direito. Todavia. o direito natural passa a Dogmática jurídica – ciência empírica do direito positivo. Objeto: norma imposta pelo legislador. Qualquer mudança na lei deveria seguir o processo legislativo. leal e justa. o que nos remete a Aristóteles em sua classificação das virtudes. Essa concepção (normativista e conceitual do Direito) compreendia que a lei deveria ser atingida em seu espírito e. na obra O positivismo jurídico. conjunto das ciências do Direito que busca o conhecimento do Direito Público e Privado (Radbruch). 135 É preciso entender o que significa jurisprudência. ou seja. Na verdade. No campo filosófico-jurídico. Os romanos não eram tão voltados para ratio scripta. Os romanos não atribuíram a característica de ciência. 3 . O exemplo clássico dessa crítica foi a reflexão anti-racionalista elaborada pelo historicismo do séc. ou seja. eram os princípios que constituíam o melhor de sua preocupação. onde este autor concebe o direito natural como um conjunto de considerações filosóficas sobre o próprio direito positivo. se confundia com a própria Filosofia. entre o fim do século XVIII e o começo do séc.do Direito Positivo.O surgimento do positivismo jurídico Norberto Bobbio aponta. 2. disciplina jurídica no sentido geral (Austin). XIX encontrando em Karl Friedrich von Savigny seu maior expoente. que propiciou o desenvolvimento de certo desencantamento em relação ao direito natural. sem procurar respostas fora das leis. temos jurisprudência como: 1. No sentido moderno. convém ressaltar. alguns acontecimentos que foram importantes para o surgimento do positivismo jurídico. a corrente historicista se configurou a partir da denominada escola histórica do direito. 3. XIX. que a interpretação se limitava a um trabalho rigorosamente declaratório. porquanto formularam críticas ao direito natural. como objeto do jurista. jurisprudência significava o conhecimento das coisas divinas e humanas. escritas e sua sistematização. ou seja. prática dos tribunais (Capitant). uma interpretação conceitual de regras do Direito. ao contrário da corrente do jusnaturalismo que considerava a humanidade abstratamente. mas a de juris-prudentia. O historicismo compreendia o homem na sua individualidade. a obra que antecipa o pensamento da escola histórica foi a obra de Gustavo Hugo sob o título Tratado do direito natural como filosofia do direito positivo de 1798. Surge assim a idéia de uma Dogmática Jurídica134 conceitual ou uma Jurisprudência135 conceitual.

como o individualismo econômico a concebia. cada região possuía seu sistema de regras. na liberdade e na segurança das relações jurídicas. restou à Revolução Francesa de 1789. Observa-se que este direito positivo significa aquele direito que existe ou pode existir em qualquer Estado. Diante desta obra comprometida pela força dos interesses. para se obter respostas convenientes a todas as lides e demandas. Segundo Miguel Reale. antes da Revolução Francesa. além do Direito natural. de 1804. na proteção da propriedade privada. na França. Representou um corpo harmônico e lógico de preceitos. O juiz através de um trabalho de exegese poderá sempre encontrar uma solução para cada caso. Compreende-se. canônico e a opinião dos doutores. portanto o grande entusiasmo que provocou o Código Civil Napoleônico. ou seja. Não admitiam lacunas. na obra Filosofia do Direito. levar a cabo a tarefa de materializar seus ideais. Essa visão de mundo propiciou o surgimento da Escola de Exegese. bastaria o trabalho de interpretação. dentre eles a igualdade jurídica. Com a promulgação deste código fortaleceu-se a convicção de que a sua tarefa fundamental deveria consistir em interpretar os textos de maneira autêntica. o Direito estava dividido em sistemas particulares. O surgimento dessa nova postura consistia na defesa intransigente do indivíduo e de suas iniciativas. Dois princípios se tornaram concretos: a igualdade perante a lei e a lei geral para todos. Percebiam-se abusos legislativa multifacetada e empírica e fraudes. reunindo em seu seio os maiores civilistas da Europa. capaz de atender a todas as hipóteses ocorrentes na vida. O positivismo jurídico apresenta o Direito como avalorativo. uma vez que esgota e esvazia a tradição jusnaturalista. como expressão da razão. Enfatiza a separação entre juízos de fato (o direito tal qual é) e juízos de valor (o 131 . Com essa obra este autor opera a passagem do jusnaturalismo (lato sensu) para o pensamento juspositivista. pelos preceitos do direito Romano. de maneira que tudo já estivesse de certo modo ordenado no sistema legislativo. contribuindo assim para o surgimento de um novo modo de considerar o direito.ser uma filosofia do direito positivo. Tratava-se de um sistema jurídico complexo constituído pelos usos e costumes.

O positivismo jurídico compreende o direito como um fato e não um valor. ou seja. Segundo N. o positivismo entende o Direito como Ciência. De acordo com os ensinamentos de Norberto Bobbio. O positivismo jurídico sustenta a idéia da obediência absoluta à lei. A validade da norma jurídica decorre da sua origem em um ordenamento jurídico. A justiça decorre da sua validade. 7. O direito não recebe o qualificativo de bom ou mau. Deste modo de ver surge uma teoria da validade do direito denominada formalismo jurídico. Nesse sentido. São Paulo: Ícone. não formulando juízos de valor. Bobbio podemos observar sete problemas fundamentais nessa doutrina: 1.direito como deveria ser). situação esta que propicia o aparecimento de uma teoria chamada teoria da coatividade do direito. A teoria da legislação como fonte do direito. O positivismo jurídico compreende a norma como um comando (teoria da norma jurídica). Nesse sentido. 135. 2. pois foi apresentado pelo jusnaturalista Christian Tomasius. implicando em uma teoria imperativista do direito. A teoria do ordenamento jurídico considera o conjunto de normas jurídicas vigentes numa sociedade e implica uma teoria da coerência e da completude deste ordenamento jurídico. naturais e sociais”.136 Estamos no âmbito da avaloratividade do direito enquanto ciência. o termo direito se afigura como avalorativo ou não valorativo. 6. 4. O positivismo sustenta a teoria da interpretação mecanicista que consiste em enfatizar o aspecto declarativo em detrimento de uma análise criativa ou produtiva. p. 3. cuja validade do direito repousa na sua estrutura formal. pois pretende um conhecimento objetivo da realidade. Este é um 136 O Positivismo Jurídico: lições de filosofia do direito. O direito é definido em função do conceito de coação. 132 . Observa o autor supracitado que este caráter do direito não é exclusividade do juspositivismo. 1995. Na relação entre lei e costume admite-se apenas o costume secundum legem e eventualmente o praeter legem. A ciência deve excluir de sua esfera juízos de valor. na separação entre juízos de fato e juízos de valor. 5. Isto significa dizer que o jurista deve estudar o direito do mesmo modo como o cientista estuda a realidade natural. “O positivismo jurídico nasce do esforço de transformar o estudo do direito numa verdadeira e adequada ciência que tivesse as mesmas características das ciências físico-matemáticas.

a filosofia do direito pode ser definida como o estudo ou investigação acerca do direito a partir de certo ponto de vista valorativo. 133 . juspositivista estuda o direito real sem se vincular com um suposto direito ideal. Com a distinção entre juízos de valor e juízos de fato. Desta dicotomia podemos observar duas possibilidades para definir o direito. enquanto que o filósofo do direito considera imprescindível investigar o fundamento e a justificação do direito. determinada norma será válida se pertencer a um ordenamento jurídico e. Para o juspositivista há uma redução da concepção valorativa na concepção validativa. segundo satisfaça ou não um certo requisito deontológico) restringem arbitrariamente a área dos fenômenos sociais que empírica e factualmente são direitos”. Bobbio que expressa a crítica que os juspositivistas fazem aos filósofos do direito: “Os positivistas jurídicos não aceitam as definições filosóficas porque estas (introduzindo uma qualificação valorativa que distingue o direito em verdadeiro e aparente. para fins didáticos. uma vez que uma norma jurídica é válida quando faz parte de um ordenamento jurídico real. há uma separação entre ciência do direito e filosofia do direito. O valor de uma norma jurídica indica a qualidade de tal norma conforme sua relação com um suposto direito ideal. efetivamente existe em uma determinada sociedade. justa (legítima). a saber: a definição científica e a definição filosófica. portanto.traço fundamental na separação entre o mundo antigo e o moderno: o homem moderno renuncia a uma visão metafísica da realidade. O positivismo estuda o direito tal qual é e não como deveria ser. ou seja. pois define o direito tal como deve ser para plenitude de determinado valor. que o conceito de valor não se confunde com o de validade. Uma definição científica tem como característica o fato de ser avalorativa define o direito como ele é. Segundo Bobbio. uma definição filosófica pode ser considerada ideológica. ou seja. Observa-se. Com efeito. Encontramos aqui uma dois critérios independentes entre si. ou seja. O juspositivista estuda o direito independente de juízos de valor. ou valorativa ou deontológica. há uma passagem na obra de N. Uma norma jurídica será justa quando corresponder a esse direito ideal.

137 A justiça. As definições juspositivistas Kelsen. o direito é definido como uma exemplo. ou o bem comum. as definições de Hobbes. são definições neutras. Como 137 Cf. ou ainda a liberdade individual são valores que o direito deve realizar. ou ainda o bem comum. a definição do direito em Kant 134 . As mais tradicionais definem o direito como um ordenamento jurídico necessário para alcançar a justiça. definem o direito relacionado a um fim (telos). ou seja.As definições valorativas apresentam uma estrutura teleológica. Austin e simples técnica.

O pensamento de Hans Kelsen (1881-1973) “O anseio por justiça é o eterno anseio do homem por felicidade. XIX. reflexo dos debates metodológicos que ocuparam os intelectuais do séc. filósofos da ciência. portanto. Wittgenstein e Freud. a ética e a religião do âmbito científico. Uma das teses do Círculo de Viena era afastar o conhecimento metafísico. A universidade de Viena se mantivera sob a influência católica e. na verdade. ficou imune à corrente do idealismo. Foi. Kelsen vivenciava uma época marcada pelo 135 . pensadores antimetafísicos. Olga Neurath. Otto Neurath. Foi iniciador do que se denomina de lógica jurídica e autor intelectual da Constituição republicana austríaca. filósofo. Kelsen freqüentou o conhecido Círculo de Viena que reunia intelectuais como Carnap. sociólogo e juiz (entre 1921-1930) da Corte Constitucional da Áustria. XX. O círculo de Viena era constituído por um grupo de jovens doutores em Filosofia da ciência que organizavam colóquios semanais. Carnap e tantos outros. Kelsen foi influenciado pela filosofia do Círculo de Viena que era. do empirismo e do utilitarismo. procura essa felicidade dentro da sociedade” Kelsen 1 – Introdução Este pensador foi jurista de notável valor. Não podendo encontrá-la como indivíduo isolado. Félix Kaufmann. Os filósofos de do Círculo de Viena eram Universidade Viena.Parte VIII . Sua obra mais importante foi Teoria Pura do Direito (1934). A cidade de Viena era propícia ao surgimento do neopositivismo porque nesta região se desenvolveu durante a segunda metade do séc. Sua obra foi de extrema importância para o pensamento jurídico do séc. o liberalismo com seu patrimônio de idéias originadas do Iluminismo. portanto. um grupo de pensadores que contribuíram para o surgimento do neopositivismo professores da vienense. XIX. dentre eles destacamos: Hans Hahn. a mentalidade escolástica que preparou a abordagem lógica das questões filosóficas. O objetivo da obra seria discutir e propor os princípios e métodos da teoria jurídica. Exilou-se nos Estados Unidos por ocasião do advento do nazismo e lecionou na Universidade de Berkeley.

desvinculado de qualquer ideologia. o direito deveria ser visto como norma e não como fato social ou valor transcendente. portanto. Com esse objetivo. todavia não tenha sido essa a sua intenção. Sem dúvida. As normas morais e religiosas fundam sua obrigatoriedade na consciência pessoal. segundo o qual o método e o objeto específicos da ciência jurídica deveriam ter o enfoque normativo. o que resultou na acusação de reduzir o direito à norma. Outros compreendiam a ciência jurídica como esfera autônoma. Introdução à ciência do direito. pp. as prescrições são prescrições de dever ser. São Paulo. Nesse sentido. Há que se falar também na tentativa de uma volta aos parâmetros do direito natural. conferem ao comportamento humano um sentido prescritivo e. alguns entendiam a metodologia correta como aquela que aproxima o direito e as demais ciências humanas. ou seja. Nesse entrecruzamento de correntes. trata-se de um comando. Franco. despir o direito de caracteres humanos). o pensamento de Kelsen se comprometia com a busca de um método e objeto próprios. isto quer dizer que. Kelsen propôs o princípio da pureza. normas são prescrições de dever-ser que 138 Isto posto podemos focalizar o conceito de norma em Kelsen. oferece o seguinte exemplo: existe a categoria de ser e a do dever ser. Para este autor. O que podemos entender por norma senão uma regra de conduta que poderá ser moral. produto da vontade humana que proíbe. 293320. livre de qualquer juízo valorativo. Kelsen procurou um conhecimento objetivo. abandonar a dimensão social e valorativa (para alguns. o ato de levantar o braço em uma palestra poderá Sugiro a leitura do capítulo 10 – “conceito de lei e norma jurídica” na obra MONTORO. 1997. ou seja. capazes de superar as confusões metodológicas e dar mais autonomia científica ao jurista. religiosa e jurídica. Essa proposta causou polêmica. o direito é um fenômeno complexo. Tércio Sampaio Ferraz Jr. obriga ou permite determinado comportamento. 138 136 . as jurídicas são protegidas por uma eventual força coercitiva externa. Revista dos Tribunais. mas no seu modo de ver deveria ser observado autonomamente pelo jurista sob pena de incorrer em debates infindáveis.positivismo jurídico nas suas diversas tendências e pelos teóricos da livre interpretação do direito. Esse momento colocava em relevo a própria autonomia do direito enquanto ciência jurídica.

for estabelecida em conformidade com as prescrições contidas na norma fundamental. 2 . .Princípio metodológico fundamental Tal princípio significa a condição primeira para que a doutrina do direito se torne ciência. compreendendo a necessidade do direito se afigurar como uma esfera autônoma em relação à moral e a política. o Estado deixaria de existir no sentido jurídico. O conhecimento para ser científico deve ser neutro em relação aos valores. será válida e legítima desde que decorra de uma norma fundamental legítima. e somente se.ter dois sentidos. Esses são os limites apresentados pelo princípio metodológico fundamental. Sem essa ordem normativa. valorativamente neutra. A validade de uma norma está ligada a normas superiores que culminam numa norma fundamental. Kelsen compreende a ciência jurídica como uma ciência pura de normas e as investiga no seu encadeamento hierárquico. Kelsen foi grande defensor da neutralidade científica aplicada à ciência jurídica. Kelsen também elaborou uma teoria da norma fundamental onde a norma somente será considerada jurídica e legítima se. posta por um poder eficaz). pois não é da competência da doutrina jurídica discutir acerca dos valores buscados pelo direito e sim ressaltar uma preocupação eminentemente jurídico-científica. O objeto da ciência do direito é a norma posta por o que o princípio metodológico 137 autoridade competente. um descritivo onde interessa apenas observar que alguém levantou o braço e um sentido prescritivo onde levantar o braço deve ser entendido como voto a favor de uma proposta. Para Kelsen. O cientista do direito deve abster-se de valores estranhos ao objeto da ciência jurídica. Isto implica dizer que o Estado se configura num conjunto de normas estabelecidas prescrevendo uma sanção para determinados comportamentos. essa existência chama-se validade. Disto decorre que todo o ordenamento jurídico vale e é legítimo em função dessa norma fundamental (constituição. Direito e Estado se confundem. Nesse sentido. Essa norma adquire existência independente de seu autor. Ainda que haja uma norma injusta.

se alguém não paga uma dívida. uma proposição jurídica que é um juízo hipotético ou condicional. Kelsen pretendia acentuar ainda mais a diferença entre a atividade de aplicação do direito e a desenvolvida pelo cientista jurídico. deve efetivar-se um ato de coação. 3 . deve ser-lhe aplicada uma pena. as seguintes: se alguém comete um crime. morais ou políticos interferentes na produção da norma e também os valores prestigiados em sua edição. 2. mas busca uma pluralidade de significações cientificamente pertinentes e fixa esse limite. deve ser internado num estabelecimento adequado. As normas jurídicas recebem o qualificativo de válidas ou inválidas e as proposições podem ser consideradas como verdadeiras ou falsas. sempre na forma estabelecida pela ordem jurídica. “Proposições jurídicas são. A norma jurídica prescreve a sanção que se deve aplicar no caso de ações ilícitas – tem caráter prescritivo. culturais. Procurando uma fórmula geral. Conseqüente: decorre a efetuação de um ato de coerção. resulta do ato de conhecimento. Como diz Kelsen na obra Teoria Pura do Direito.Norma jurídica e proposição jurídica A distinção entre norma jurídica e proposição jurídica é considerada uma das mais importantes para a teoria kelseana. Percebemos que a proposição liga dois elementos. É esta a forma fundamental da proposição jurídica”. a saber: 1. pela mesma ordem jurídica estabelecida. resulta do ato de vontade. Ou 138 . econômicos. A utilização do princípio metodológico fundamental implica uma hermenêutica jurídica que se abstém da idéia de um único sentido correto para a norma jurídica. deve proceder-se a uma execução forçada de seu patrimônio. por exemplo. afirma que uma determinada conduta típica implica em certa sanção – tem caráter descritivo. Antecedente: dados determinados pressupostos. Podemos dizer que as proposições jurídicas são reflexões. se alguém é atacado de doença contagiosa. juízos sobre as normas jurídicas. temos: sob determinados pressupostos fixados pela ordem jurídica.fundamental exige é a exclusão do âmbito de interesse do jurídico os fatores especificamente sociais. Com essa distinção entre norma jurídica e proposição jurídica.

O primeiro tipo aplica-se para a generalidade dos casos e o segundo em situações específicas. fundamentos e sistemas da moral.140 O fato de Kelsen ter reduzido as normas jurídicas a uma estrutura de proibição gerou algumas objeções: a primeira delas relativa às normas que não proíbem. uma lei poderá ser válida ou não conforme a sua existência no mundo jurídico e uma proposição acerca de uma lei poderá ser ou não verdadeira. ou seja. a saber: ou temos uma ligação deôntica entre uma ação/omissão e uma sanção. Nesse sentido. em relação às normas permissivas. São Paulo: Max Limonad. Kelsen se mantém nos limites da primeira alternativa: a estrutura da norma jurídica é descrita pela proposição jurídica como a ligação deôntica entre a referência a certo comportamento e a sanção correspondente. 139 139 . do grego déontos. com relação às normas revogatórias e conceituais. assim. têm a estrutura de uma proibição. Dessa estrutura básica podemos inferir duas possibilidades de conexão. 1999. Fábio U. Ligam uma determinada previsão com atos de coação: se fulano cometeu homicídio deverá ser punido com reclusão de seis a vinte anos. por descreverem a conduta tida por ilícita como antecedente e a punição como conseqüente”. A primeira refere-se ao fato de que existe a possibilidade de interdefinir. As proposições jurídicas se referem a enunciados deontológicos139.dizendo de outro modo. enunciados que prescrevem alguma conduta através do verbo dever ser. mas que obrigam determinados atos ou omissões. estudos dos princípios. 140 Coelho. ou entre diversas condutas humanas com diversos atos coativos na qualidade de sanção. tratado dos deveres. em terceiro lugar. Coelho que “As normas jurídicas. poderá ocorrer que um jurista qualquer tenha formulado um juízo equivocado acerca da tal lei – sua proposição será falsa. uma vez que qualquer proibição pode ser Deontologia.Estrutura da norma jurídica Sabemos que o direito se distingue de outras ordens sociais por meio do uso da coação prescrita em suas normas. p. a segunda. afirma Fábio U. 36. 4 . Para entender Kelsen. ou relacionar intrinsecamente as normas proibitivas e obrigatórias. O argumento de Kelsen se baseia em duas observações.

O argumento usado em favor das normas permissivas baseia-se na possibilidade de distinguir a permissão em negativa (o que não é proibido é permitido) e positiva (dependente das normas proibitórias). Kelsen denominou tais normas não autônomas de secundárias e as sancionadoras de primárias. do CP: “Não há crime quando o agente pratica o fato: I .. II. mas na permissão positiva a manifestação de uma proibição à qual se liga. 5 . Coelho menciona as hipóteses de exclusão de ilicitude previstas no art. 140 . nesse ponto. a de que validade e eficácia se identifiquem. Para entender Kelsen. Tais hipóteses configuram o sentido de normas permissivas positivas (a atitude em si poderia configurar um ilícito penal). 23. 141 Coelho. normas não autônomas precisam de normas sancionadoras. mas encontram em outras normas proibitivas o complemento para seu sentido no mundo jurídico. Como exemplo desse tipo de normas permissivas positivas. p. II – em legítima defesa. a partir da dicotomia entre a norma singularmente considerada e a ordem positiva como um todo. Nesse caso.Validade e eficácia A validade da norma jurídica para Kelsen vincula-se inicialmente à sua relação com a norma fundamental. São Paulo: Max Limonad. 41. Fábio U. encontramos na permissão negativa a inexistência de proibição. III – em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito”. nosso autor rejeita duas idéias: a de que a validade não depende da eficácia. ainda que o respectivo comando não se compatibilize com disposição contida em normas de hierarquia superior”. Proibir certa conduta equivale a obrigar a omissão da mesma conduta. sobretudo no que concerne ao problema da manifestação de vontade de uma autoridade competente: “A norma jurídica é válida se emanada de autoridade com competência para editá-la.em estado de necessidade.traduzida por uma obrigatoriedade e vice-versa. 1999. inc. como também. Fábio U. Para Kelsen certas normas não possuem autonomia.141 Como um legítimo representante do pensamento jurídico-positivista. Kelsen relaciona validade e eficácia. A validade exige também a eficácia da norma jurídica e.

isto é.Causalidade e imputação O objeto da ciência jurídica compreende as normas e. São três os pressupostos que condicionam a validade da norma jurídica. com base na norma hipotética fundamental. entre dois fatos como. a saber: 1. os cientistas do direito operam de forma diferente dos cientistas sociais. 6 . 3. se a legislação de um país vigora. A reivindicação do representante do tráfico organizado e a do agente fiscal diferem fundamentalmente por não ter a primeira validade jurídica. O direito pertence a uma ciência normativa que não visa O mínimo de eficácia que A eficácia desconsidera a inobservância episódica ou temporária. mas exige a prova de seu acontecimento. a eficácia se revela como condição de validade em ambas as instâncias e nesse sentido qualquer norma jurídica totalmente ineficaz é inválida.Qual seria a posição de Kelsen? Observando as duas instâncias: a da norma singularmente considerada e a da ordem positiva. o inverso é possível. este autor sustenta que as normas deixam de ser válidas se perderem a eficácia. Validade e eficácia não são termos sinônimos. ainda que alguns dos seus artigos sejam totalmente ineficazes e conseqüentemente inválidos. 2. a segunda reivindicação é válida. mas relações de imputação. A competência da autoridade que a editou. porque o direito instituído pelo Estado se revela eficaz e torna legítima tal situação. na medida em que não se sustenta em norma hipotética alguma. nesse sentido. a norma singularmente considerada perde eficácia se houver ineficácia global da ordem jurídica. ou seja. Segundo Kelsen. Isto quer dizer que. mas guardam forte relação entre si. pois não estabelecem relações de causalidade. por exemplo. um homicídio e a punição correspondente há uma ligação de outra ordem e esta ligação é a imputação. A sanção referente ao homicídio não foi causada pela conduta em si mesma. Todavia. global da ordem jurídica. A validade da ordem jurídica não depende da eficácia de todas as normas que a constituem. A eficácia necessária à vigência da ordem jurídica é medida em termos globais. 141 .

ou seja. uma cadeia de sucessões. a causalidade independe dessa interferência. não há uma cadeia de sucessões. A multiplicidade de valores sobre o justo reafirma a possibilidade de o direito positivo se chocar pelo menos com algum sentido de justiça. o direito positivo desvinculase de questões de justiça.Direito e Justiça Para Kelsen. a causalidade implica em infinitude. por exemplo. Causalidade significa uma relação necessária e universal entre dois termos no caso das ciências naturais. Imputar significa atribuir coisa desonrosa ou criminosa a uma pessoa. a sociologia que vincula por causalidade a taxa de desemprego e o índice de Duas distinções são relevantes entre causalidade e imputação. pois estes estão preocupados com as normas jurídicas. A imputação não deriva de nenhum outro conseqüente imputado. claramente definidos na proposição jurídica. a justiça possui valor inconstante. relativo. creditar algo que não seja evidente ou decorra analiticamente. saber: 1. Como doutrinas morais não fazem parte do conhecimento dos juristas. 2. Há o ponto inicial e o terminal. dissolúvel e mutável. A imputação depende da vontade humana. Trata-se de um julgamento de valor que possui caráter subjetivo. a violência. 7 . 142 . mas tão somente examinar as normas e estruturar seus enunciados a partir do princípio da imputação. ou uma ligação de causa e efeito também utilizada pelas ciências sociais como.prescrever condutas.

uma posição tridimensionalista.3. Foi professor de latim. aos 31 anos. já está a meio caminho andado da compreensão do direito em termos de experiência concreta . São Paulo. Novíssima história da filosofia. cada um deles isolado em seu domínio. porém. Miguel Teoria Tridimensional do Direito. valor e norma). Reale ressaltou a insuficiência daqueles que defendiam “um verdadeiro dualismo ou uma justaposição de perspectivas. p. legislação fiscal. até mesmo quando o estudioso se REALE. num sentido estático. 1989. axiológico e prescritivo do Direito. sem que a tarefa de um repercutisse. CRETELLA JUNIOR. Em seu modo de ver: “Quem assume. segundo a qual o estudo do fenômeno jurídico somente será possível a partir de um estudo integral.A teoria tridimensional do direito: Miguel Reale (1910 -). p. sua vida foi marcada por intensa participação nos movimentos estudantis e políticos de sua época. Miguel Reale tentou uma “síntese entre o sujeito ético do kantismo e o espírito histórico do hegelianismo”. Rio de Janeiro: Forense Universitária. na tarefa do outro ” 142 Segundo exprime Cretella Júnior. ocupou a cátedra outrora ocupada por João Arruda. com a apresentação da tese Fundamentos do Direito. Saraiva. José. de maneira direta e permanente. 143 Reale formulou uma teoria tridimensional do direito com caráter três termos (fato.. fato e valor. porém para percorrer um caminho devo partir de determinado ponto e ser guiado por certa direção: o ponto de partida da norma é o fato. 142 143 143 . direito comercial. apresentou sua concepção culturalista do Direito. 1994. Com esta obra. “A norma jurídica é a indicação de um caminho. ou seja. pois. como se houvesse um direito para o jurista e um outro para o filósofo. (Miguel Reale) 1 . o aspecto fático. Bacharel em Direito desde 1934. ou seja. português.Parte IX .Introdução Miguel Reale ocupa lugar de destaque no pensamento filosóficojurídico brasileiro. Em 1941. de modo dialético relacionando diferente das diversas teorias tridimensionais que correlacionaram norma. rumo a determinado valor”. psicologia. uma apreciação panorâmica e completa dos elementos do Direito em detrimento de uma postura unilateral baseada apenas no fato jurídico.288. escreveu inúmeros artigos e livros.

a culturologia jurídica que estuda o Direito como cultura. Esta última posição é a da teoria tridimensional do direito sustentada vigorosamente por Miguel Reale. divide-se em três partes. não se contentando apenas com o estudo dogmático do direito. na qual o direito se considera em seus três elementos indispensáveis: fato. ou o direito em sua estrutura ôntica e em sua estrutura racional. 11. já está revelando salutar repúdio a quaisquer imagens parciais ou setorizadas. Nesse sentido o jurista precisa interpretar o problema da justiça. por isso a Filosofia do Direito. com o reconhecimento da insuficiência das perspectivas resultantes da consideração isolada do que há de fático. a ontognoseologia jurídica que indaga as estruturas objetivas e como são pensadas em conceitos. do sociólogo e do jurista. como esforço humano de conquista e preservação daquilo que se concebeu como válido. de axiológico ou ideal. Nesse sentido. o direito não é um objeto natural. Para os culturalistas. embora consciente de que cada uma destas matérias tem seus métodos próprios. p.contenta com a articulação final dos pontos de vista do filósofo. ideal ou simplesmente valorativo. Miguel Teoria Tridimensional do Direito. a palavra Direito assumiu sentidos diferentes conforme interesses e preferências que em cada momento 144 REALE. o mundo das normas faz parte de uma área maior que é o mundo da cultura humana em geral. no campo das ciências sociais encontramos palavras que apresentam uma multiplicidade de acepções ao longo do devir histórico. da legitimidade da obediência às leis. observando sua natureza e implicações.A tridimensionalidade da lei Segundo Miguel Reale. a epistemologia jurídica que estuda os objetos das diversas ciências jurídicas. São Paulo: Saraiva. ou de normativo na vida do direito”. a saber: seja. social e histórica. 144 . 2 . a deontologia jurídica que indaga o fundamento da ordem jurídica e a razão da obrigatoriedade das normas de Direito. a partir de estudos sociológicos e filosóficos. 144 Segundo Reale. no seu entender. a ciência jurídica encontra problemas de natureza axiológica. 1994. mas um objeto cultural que supera o dualismo de ser e dever ser. valor e norma.

podemos ainda observá-lo como norma ordenadora da conduta. São Paulo: Saraiva. No dizer de Reale. objeto de investigação da Sociologia e da Etnologia do Direito e da Filosofia do Direito na parte denominada Culturologia Jurídica. como medida de concreção do valioso no plano da conduta social: e. finalmente. como intuição primordial. o elemento fato. também podemos estudar o Direito como fato social e histórico. que hoje se nos apresenta como algo intuitivo e evidente. Miguel. estudado pela Filosofia do Direito na parte denominada de deontologia Jurídica. coincidindo a análise histórica com a da realidade jurídica fenomenologicamente observada”. podemos pensar no exemplo oferecido por Severo Hryniewicz: “tomemos um exemplo do Direito Penal: a prática de um homicídio. como condição da conduta. através de um estudo sumário da experiência das estimativas históricas. Podemos observar o Direito enquanto valor. objeto de estudo da Ciência do Direito ou Jurisprudência e da Filosofia do Direito na esfera da Epistemologia. Se não houvesse na base uma categoria axiológica – o valor vida – não teriam sentido tanto a elaboração de uma norma que visa à preservação do valor 145 REALE. como os significados da palavra Direito se delinearam segundo três elementos fundamentais: o elemento valor.compensar . 145 .histórico recebeu certo destaque. 1998. por fim. A importância do Direito Romano se afigura na ciência que denominavam de jurisprudência (senso prudente de medida) que focalizava o Direito como norma. portanto. Inicialmente o homem vivenciava o direito como um fato.o desrespeito ao valor. . o elemento norma. “Eis aí. 509. Filosofia do Direito. fato e valor. E. de algum modo. Temos primeiro um fato – fulano matou sicrano. base empírica da ligação intersubjetiva. No fato está implícito o atentado contra um valor ético fundamental – o valor da vida. depois essa idéia cedeu lugar para a intuição do direito como sentimento do justo e conseqüentemente ao sentido de obrigação jurídica. Para entendermos melhor essa relação entre norma. p.145 Miguel Reale observa que encontraremos os três elementos onde quer que se encontre a experiência jurídica e é nesse modo de ver que podemos falar em triplo enfoque do Direito. temos uma norma jurídica – artigo 121 do CP – que prevê uma sanção para.

vida, quanto todos os procedimentos posteriores ao fato no âmbito penal”.146 Reale afirma que a teoria tridimensional é fruto da verificação objetiva da consistência fático-axiológica-normativa de qualquer porção ou momento da experiência jurídica. É formada de consciência de todas as implicações do direito – a essência triádica do direito. Uma análise rigorosa desta teoria implica formular algumas questões: como se garante a unidade a partir desses três fatores? Como se correlacionam? Como se distinguem? Para Reale, fato, valor e norma estão sempre correlacionados não importa o ponto de vista: se filosófico, sociológico ou jurídico. Tal correlação possui natureza dialética, uma mútua implicação entre esses elementos – entre fato e valor que implica em um momento normativo. Segundo exprime nosso autor, o direito “não é puro fato, nem pura norma, mas é o fato social na forma que lhe dá uma norma racionalmente promulgada por uma autoridade competente”. A novidade da teoria de Reale está na utilização do conceito de dialética, retirado do sentido do termo alemão lebenswelt, que significa mundo da vida presente na obra Crise das Ciências do filósofo alemão Edmundo Husserl (1859-1938) que desenvolveu um pensamento crítico do positivismo (em sua pretensão de objetivismo e verdade científica). Para Husserl, toda consciência é intencional, ou seja, não há consciência separada do mundo, não há objeto em si, afastado da consciência que o percebe. Isto significa dizer que não há fatos com objetividade pretendida, pois o mundo que percebo é o mundo para mim. A crise da ciência se desvela na sua tentativa de redução da razão à racionalidade científica. Na verdade, a ciência não tem nada a nos dizer sobre nossa liberdade. A mera ciência do fato exclui o homem de sua análise. Assim, Reale insere o conceito de dialética na relação entre fato, valor e norma, a partir do sentido de mundo da vida (lebenswelt) que expressa o complexo de noções, opiniões, regras, valores e etc, ou seja, uma vida cultural que está em constante acontecer, o lugar de nossas originárias formações de sentido. O direito está, portanto,
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inserido na

HRYNIEWICZ, Severo. Para Filosofar hoje. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 1999, p.135. 146

fervilhante experiência do mundo da vida. E essa tridimensionalidade não se limita à esfera jurídica. A função da Filosofia para Reale está na tarefa de libertar a história da fetichização da ciência e da técnica – da clausura para desvelar a verdadeira humanidade. O mundo da vida é o mundo da criatividade intencional da subjetividade. Reale entende que a norma jurídica é muito mais do que simples proposição lógica de natureza ideal: é antes uma realidade cultural e não mero instrumento técnico de medida no plano ético da conduta; a sua elaboração não é mera expressão do arbítrio do poder e nem resulta da tensão fático-axiológica, mas um processo onde o poder é condicionado por um complexo de fatos e valores. A experiência jurídica é a experiência histórica cultural, na qual o valor atua como um dos fatores constitutivos dessa realidade (função ôntica) e, concomitante, como prisma de compreensão da realidade por ele constituída (função gnoseológica) e como razão determinante da conduta (função deontológica) – tripla função do valor revela a historicidade do homem e a experiência histórica do direito. Reale difere de Kelsen, pois este jurista separou as três esferas na tentativa de desacreditar a sociologia jurídica e a filosofia jurídica e preservar a Teoria pura do direito. Queria desacreditar a jurisprudência sociológica ou a teoria da justiça como campos apropriados de indagação de natureza jurídica. Kelsen formulou, segundo Reale, uma tridimensionalidade metodológica negativa, só a ciência do direito possui caráter jurídico. Na verdade o direito acontece no seio da vida humana. Trata-se de um processo existencial do indivíduo e da coletividade imersos no mundo da vida.

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