Lembrança de Morrer

Quando em meu peito rebentar-se a fibra, Que o espírito enlaça à dor vivente, Não derramem por mim nenhuma lágrima Em pálpebra demente. E nem desfolhem na matéria impura A flor do vale que adormece ao vento: Não quero que uma nota de alegria Se cale por meu triste passamento. Eu deixo a vida como deixa o tédio Do deserto, o poento caminheiro, Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro; Como o desterro de minh alma errante, Onde fogo insensato a consumia: Só levo uma saudade é desses tempos Que amorosa ilusão embelecia. Só levo uma saudade é dessas sombras Que eu sentia velar nas noites minhas De ti, ó minha mãe, pobre coitada, Que por minha tristeza te definhas! De meu pai de meus únicos amigos, Pouco - bem poucos e que não zombavam

Poema da segunda geração romântica, conhecida tb como Ultraromantismo. O tema é a morte, a desilusão com a vida. A morte aqui é vista como escapismo, ou seja, o eu lírico não aceita a realidade e encontra na idéia da morte, refúgio para seus conflitos interiores. Ele é tão indignado com a vida que afirma "deixá - la como quem deixa o tédio." Aponta os sentimentos que seriam sentidos pelos parentes que para ele são seus únicos amigos. É latente o pessimismo do eu lírico no poema, isso nada mais é do que uma das características do Ultraromantismo.

tendo feito a analise passo a passo.estrofe o poeta diz que se morresse amanhã sua irmã lhe fecharia os olhos. após Muitas pesquisas e interpretações de seus poemas. E interessante ressaltar que cada estrofe e terminada com o verso Se eu Morresse Amanhã. foi possível chegarmos a essa conclusão.e última estrofe ele reclama da dor da vida que o devora a ânsia da glória dolorida.. das contradições e uma analise interpretativa de cada poema feita estrofe por estrofe. E que os dois poemas que analisamos Lembrança de Morrer e Se eu Morresse Amanhã. Na 4ª. apresentam esses traços. veja que nessa estrofe o poeta iniciou e terminou com o verso se eu morresse amanhã. foi feito também uma analise dos aspectos fúnebres. Podendo ser encarado como uma probabilidade já que o verbo esta no futuro. O Texto do Antônio Cândido foi útil para nos apoiar na nossa tese já que a poesia de Álvares de Azevedo apresenta traços fúnebres e macabros.estrofe ele lamenta o Sol.. e na 2ª. mas tudo isso acabaria se eu ele morresse amanha. mais que ele não veria tudo isso se ele morresse amanha. Porém ao chegarmos a tal conclusão nos surge uma pergunta será que o poeta queria que suas poesias tivessem esses traços ou apenas escrevia para se lamentar da vida angustia que levava . Minha mãe de saudades morreria Se eu morresse amanhã! Quanta glória pressinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que manhã! Eu perdera chorando essas coroas Se eu morresse amanhã! Que sol! que céu azul! que doce n'alva Acorda a natureza mais louçã! Não me batera tanto amor no peito Se eu morresse amanhã! Mas essa dor da vida que devora A ânsia de glória. da estrutura de cada um dos poemas. sua mãe morreria de saudades se ele morresse amanhã. o dolorido afã. viria ao menos Fechar meus olhos minha triste irmã. além de termos comprovando a existência de aspectos pessoais da vida do autor com os dois poemas analisados. . Na 3ª. o Céu e a Natureza que são bonitos. nada aconteceria . que também da titulo ao poema. essa repetição no final de cada estrofe nos deixa claro que tudo só seria possível se ele morresse e se ele não morresse nada se realizaria. Nos chegamos á conclusão que realmente os traços macabros existem na poesia de Álvares de Azevedo. A dor no peito emudecera ao menos Se eu morresse amanhã! Na 1ª. Essas e outras perguntas só poderão ser respondidas.Se eu morresse amanhã Se eu morresse amanhã.estrofe ele lamenta que seu futuro seria cheio de gloria e que o tempo que viria seria perdido se ele morresse amanha .

saudoso e em pranto.dois quartetos e dois tercetos . E conversamos toda a noite. muita vez desperto E abro as janelas. Inda as procuro pelo céu deserto. pois são rimas entre palavras de diferentes classes gramaticais. E. sendo então versos decassílabos. enquanto A via láctea. quando estão contigo?" E eu vos direi: "Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas.. para ouvi-Ias.Ora (direis) Ouvir Estrelas! (Via Láctea) "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso!" E eu vos direi. Cintila. Esquemas de rimas: A-B-A-B / B-A-BA / C-D-C / E-D-E Padrão de forma: Soneto .Apresenta uma métrica fixa com 10 sílabas poéticas. no en/tan/to. Direis agora: "Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem." Análise do Poema O Poema contêm 14 versos e quatro estrofes. no entanto. como um pátio aberto. Não apresenta refrão. Que. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Rimas do poema: Certo/desperto entanto/ espanto enquanto/ pranto aberto/ deserto amigo/contigo sentido/ ouvido entendê-las/ estrelas São rimas ricas. Exemplo:Per/des/te o/ sen/so!" E eu /vos/ di/rei/. ao vir do sol. pálido de espanto..

vias as ondas cheias De uma palpitação de proas e de mastros. .Que. Os seus olhos. à flor dos cachopos cantar. Reboavas ao tropel dos índios e das feras! Já lá fora. em bandeira.. Entre os uivos do mar e o silêncio dos astros. Fernão Dias Pais Leme entrou pelo sertão. como a baixéis. E tu. O primeiro pegão. no alvorecer da vida. em sede requeimada. Bailando ao furacão. . Vissem. Das abras e da foz dos tumultuosos rios. rodando aos ventos maus. de entre os véus das neblinas. ao duro vento opondo as largas velas. mais audaz. A quantas. borbulhando. . Pelo deserto imenso e líquido. quando a terra. buscando esmeraldas e prata.. da ourela azul das enseadas. Engrossava a invasão. do litoral. Como a enchente bravia. quase à entrada Do outono. onde as águas repousadas Vêm. à vista Dos nautas fulgurava o teu verde sorriso. Ah! quem te vira assim. Outras vinham. Que sobre as terras. quebrava! E lá iam. palmo a palmo. erguendo a ponta do teu manto.. Das angras verdes. abrir-se o Paraíso! Mais numerosa. mal compreendendo o anseio Do mundo por nascer que trazias no seio. Bruta Pátria. De longe. entre as selvas dormida. os penhascos Feriam-nas em vão. Como a sombra recua ante a invasão do sol. vinham as caravelas. enchiam-se de pranto: Era como se. quanta vez. de dia em dia.. cadáveres de naus. abre o lençol Da água devastadora.os brancos avançavam: E os teus filhos de bronze ante eles recuavam. Tomadas de pavor. no berço. de rojo nas areias. aos beijos do sol. dando contra os baixios. Despojos da ambição. à beira d'água. no alvor da espumarada brava. Vias o Oceano arfar. Quando. ao findar das chuvas. À frente dos peões filhos da rude mata. As pirogas dos teus fugiam pelo mar. Bebera longamente as águas da estação. na febre heróica da conquista! E quando.O Caçador de Esmeraldas Foi em março. No virginal pudor das primitivas eras. ó Pátria. roíam-lhes os cascos.

Que vêm. E. é a jornada ao país da Loucura! Quantas bandeiras já.Já nas faldas da serra apinhavam-se aldeias.Aí. em cuja horrível espessura Só corria a anta leve e uivava a onça feroz: Além da áspera brenha. Dos rios. o luar beija à noite uma ossada. Mordendo os alcantis. Onde. rompendo as lianas e os cipós. na ânsia de enriquecer! Em cada tremedal. Nos matagais. em cada escarpa. lutando braço a braço Com a inclemência do céu e a dureza da sorte? . Entre os nateiros jaz a serra misteriosa. Levantava-se a cruz sobre as alvas areias. pela mesma aventura Levadas. em tropel.. além das sossegadas águas Das lagoas. Que importa o desamparo em meio do deserto. Quando a bandeira entrou pelo teu seio. ao brando mover dos leques das juçaras. Soprara a destruição. quando Fernão Dias Pais Leme invadiu o sertão! [editar] II Para o norte inclinando a lombada brumosa. E águas crespas. E essa vida sem lar. no seio nutriz da natureza bruta.. roncando pelas fráguas. onde as tribos errantes À sombra maternal das árvores gigantes Acampavam. Resguardava o pudor teu verde coração! Ah! quem te vira assim. como um vento de morte. dormindo entre aningais floridos. a uivar de fome. as onças remexer. Verde sonho!. acachoando em quedas e bramidos. não ia ecoar o estrupido da luta. e esse vaguear incerto De terror em terror. Alastravam no céu léguas de rama escura. abatendo as caiçaras. entre as selvas sonhando. umedecem-lhe os flancos Em cujos socavões dormem as esmeraldas. por detrás das broncas serranias. galgando abismos e barrancos Atulhados de prata. . A azul Vupabuçu beija-lhe as verdes faldas. Mas além. Na cerrada região das florestas sombrias. em cada Brenha rude. Vivera e progredira a tua gente forte. Desterrando os pajés. Cujos troncos.

Iam ficando atrás. tapando o espaço. E uma pupila má chispava em cada furna. Onde vinham ruir com fragor as cascatas. E quantos deles. ao temporal. rondando o labirinto Em que às tontas errava a bandeira nas matas. Espiando-a no pendor dos boqueirões profundos. de fio em fio destramando O mistério. A grande serra.. As pedras de Cortez. em vão. as leziras funestas. Ao granizo. Dentro. E os machados. Cada folha pisada exalava um queixume. Viscosas e oscilando. Verde e faiscante como uma grande esmeralda? Avante! e os aguaçais seguiam-se às florestas. à chuva. que escondes no regaço! E sete anos. a companha Buscava no horizonte o perfil da montanha.. nus. Vinham os lamarões. no abandono..Serra bruta! dar-lhe-ás.Marcha horrenda! derrota implacável e calma. estrangulando na alma Toda a recordação do que ficava atrás! A cada volta. Vinham acometer os temporais. a Morte. foi o bandeirante audaz. à invernada. como um bando de fantasmas. Cuja muralha. . de passo em passo penetrando O verde arcano. o rude acampamento: As barracas.. entrelaçando as grenhas Em negros paredões. . Em cuja face. Contra esse adarve bruto em vão rodavam no ar. E um mundo de reptis silvava no negrume. Incansável no ardil. nos chapadões. Sem uma hora de amor. sem a poder dobrar. Depois. no derradeiro sono. antes de dar-lhe a morte. Cercando-a com o crescer dos rios iracundos. levantavam-se as brenhas. aos roncos. voando em frangalhos ao vento. mie das esmeraldas raras. úmidas colgaduras Pendiam de cipós na escuridão noturna. Quando apareceria enfim. sequiosos. vergando a espalda. Aqui. Erravam dia e noite as febres e os miasmas. no frio horror das balseiras escuras. Desenhada no céu entre as neblinas claras. afiando o olhar faminto. Sem chegar ao sopé da colina fatal! Que importava? Ao clarear da manhã. De água paralisada e decomposta ao sol. de sol a sol mordendo os troncos.

.contendo os sertanejos rudes. . No esto da aluvão estremecendo os ares.. paludes. o áspero morro. ao sol posto. . Longe..Numa ronda letal sobre o podre lençol. transpondo As ribas.. trôpego e envelhecido.. Feras. . rebramando.. febres. Agora. enfim. com o seu tesouro! Com que amor. subtil. as feras carniceiras Uivam nas lapas.. as aves agoireiras. Oh! esse último olhar ao firmamento! A vida Em surtos de paixão e febre repartida. Pálido. É a guerra! São os índios! Retumba o eco da bruta serra Ao tropel. E desenraizando os troncos seculares.. E o estridor da batalha reboa. E a febre! O Vencedor não passará dali! Na terra que venceu há de cair vencido: E a febre: é a morte! E o Herói. Toda. e sem forças. e olha o céu. e de estrondo em estrondo Inchando em macaréus o seio destruidor. a transbordar de pedras verdes! . os caminhos fragosos. devorando as estrelas! Esse olhar. [editar] III Fernão Dias Pais Leme agoniza. contra o peito. Desce a noite. Um lamento Chora longo. Depois. Piam perto. . Trasmonta fulvo o sol. À agonia do herói e à agonia da tarde. entre os troncos nodosos Passa um plúmeo cocar. a sacola de couro Aperta... E a natureza assiste.. E indo torvos rolar nos vales com fragor. Pára. o sertanejo Estorce-se no crebro e derradeiro arquejo.. os ribeirões. E ei-lo de volta. Um frio livor se lhe espalha no rosto. Roto. Na mesma solidão e na mesma hora triste. nas levadas. como uma ave que voa. O céu arde.. a rolar na longa voz do vento.volta. Mas num desvio da mata. reptis. como um véu. na sombra.. cai junto do Guaicuí. Leve. no palor da luz.. Uma frecha... que sai como um beijo da pupila. num só olhar. de quando em quando.Fernão Dias Pais Leme agoniza. silva e zarguncha. Sete anos!. Dominando o furor da amotinada escolta.. Sete anos! combatendo índios.. Mugem soturnamente as águas. Silvam as cobras. uma tarde.

e nunca mais. E o delírio começa. Sem ter quem te conceda a extrema-unção de um beijo! E foi para morrer de cansaço e de fome. sozinho. Adeus! O Sertanista ousado agoniza. sem luz.. astros da noite! Adeus. Sem ter quem. . frescas ramagens Que a aurora desmanchava em perfumes selvagens! Ninhos cantando no ar! suspensos gineceus Ressoantes de amor! outonos benfeitores! Nuvens e aves. e escarva o chio: Sangra as unhas. treme no ar. por sete anos. A mio. sem amigo. que a febre agita.Que as implora. Agonizas. nunca mais há de vê-las! Ei-las todas. Nunca assim se espalhou. E na alma da mulher que te estendia os braços . E a voz do noitibó soava como um agouro. descamba aflita. Nunca com tanto amor sobre o sertão deserto Pairou tremulamente o Cruzeiro do Sul! Noites de outrora!... e sonda a terra. .. no encalço De uma nuvem falaz. de um sonho malfazejo! Enganou-te a ambição! mais pobre que um mendigo. Que morre. Agarra o saco. E com a roupa de couro em farrapos... Via lenta subir do fundo do horizonte A clara procissão dessas bandeiras de ouro! Adeus. Empasta-lhe o suor a barba em desalinho..o Bandeirante Jaz por terra. Tanta constelação pela planície azul! Nunca Vênus assim fulgiu! Nunca tão perto. . do cabeço de um monte. à feição de um tronco derribado. e apalpa-o. ululante. sem amor. Crispa os dedos. feras e flores! Fernão Dias Pais Leme espera a morte. enchendo o céu. Ah! mísero demente! o teu tesouro é falso! Tu caminhaste em vão. revolve as raízes. Entre os troncos da brenha hirsuta.Que tantos corações calcaste sob os passos. sobe. e contra o peito o aperta. resplandecendo tanto. Enquanto a bandeira dormia Exausta. adeus! adeus. Ergue-se. e áspero o vento em derredor zunia. Te dê uma oração e um punhado de cal. Com a garganta afogada em uivos. murmurando em lágrimas teu nome.. que bebe a sua luz tranqüila.. deitado. acerta. Como para o enterrar dentro do coração. de canto a canto.Quantas vezes Fernão.

todo verde. a morte! e ei-lo. e escuta A voz.No cômoro de terra. Em esmeraldas flui a água verde do rio. .. . um dano ilumina-lhe a face: E essa face cavada e magra... e luta. As tuas povoações se estenderão fulgindo! Quando do acampamento o bando peregrino Saia... em que teu pé poisara. e em lodo desmanchadas. . Que importa? dorme em paz. . E flores verdes no ar brandamente se movem.Sem piedade lançaste um veneno mortal! E ei-la. que na solidão só ele escuta. [editar] IV Adoça-se-lhe o olhar. E é uma ressurreição! O corpo se levanta: Nos olhos. nessa marcha perdida. ao sabor do destino.. agora. que o teu labor é findo! Nos campos. as esmeraldas chovem.. e afia o ouvido. o fim! A palidez aumenta. Fernão Dias Pais Leme estira os braços no ar. Chispam verdes fuzis riscando o céu sombrio. Como se a asa ideal de um arcanjo a roçasse. e clara A luz de uma clareira espancava o arredor. esse pouco de pó Contra a destruição se aferra à vida. já sem luz. ao norte e ao sul. no pendor das montanhas fragosas. na boca aflante. Verdes. Os colmados de palha aprumavam-se. embalançam-se as ramas. Desfeitas como um sonho.fulgura. Nesse louco vagar. os astros no alto abrem-se em verdes chamas. na verde mata. num fulgor indeciso: Leve. e brilha. . a vida exsurge e canta! E esse destroço humano. Fernão Dias se esvai. que a tortura Da fome e as privações maceraram.só: "Morre! morrem-te às mãos as pedras desejadas. Verdes. antemanhã. e cresce. Como um grande colar de esmeraldas gloriosas. E treme. E do céu. de jazida melhor. numa síncope lenta. Em busca. Como para abraçar a natureza inteira.E adelgaça-se o véu das sombras. Mas.. O luar Abre no horror da noite uma verde clareira. esvoaça-lhe um sorriso.

aos beijos do amor. E morre. uma nova conquista! E enquanto ias. E sereno. . Teu pé. Olavo Bilac narra como Fernão Fernão Dias Pais entra os sertões. e nessas condições eventualmente combatido por aqueles que dão prevalência ao lirismo do poeta. como o sol. Fernão Dias Pais Leme os olhos cerra. com Fernão Dias segurando em febre falsas esmeraldas. fala da Serra Misteriosa e da Lagoa Vupabuçu. e imagina afinal a sua morte. como o de um deus. a luz dos astros. na qual os indíos recuavam ante a penetra\. subjugando o olvido. em bandeira. Violador de sertões. Tu cantarás na voz dos sinos. crescerem as famílias. buscando prata e esmeraldas. Conquistador! Viverás quando. através das idades. com ordem de rimas AABCCB. Como um choro de prata algente o luar escorre. composto de 46 sextilhas de alexandrinos c1ássicos. de seus trabalhos e sacrificios. por exemplo. diz dos sete anos de marcha do Bandeirante. e faria jus as celebrações e a gratidão futura da pátria. Nesse poemeto. mas abrira estradas e plantara povoados.. 0 poemeto tern base hist6rica. aos ares Subires. Dorme de novo tudo. fecundava o deserto! Morre! tu viverás nas estradas que abriste! Teu nome rolará no largo choro triste Da água do Guaicuí. sobrarem as colheitas. No clamor do trabalho e nos hinos da paz! E. descreve a terra. feliz. e. Quando. No esto da multidão.Tu foste. Morre. nas charruas. no maternal regaço Da terra. nutrindo uma árvore.. feito em seiva o sangue. Agora. uma fonte de vida: Cada passada tua era um caminho aberto! Cada pouso mudado. povoada a terra em que te deitas. aos beijos do sol. cantares Numa ramada verde entre um ninho e uma flor! Morre! germinarão as sagradas sementes Das gotas de suor. Quando. plantador de cidades. a deslizar pelo arvoredo mudo. como surge na Via-Láctea. sob a paz estrelada do espaço. Dentro do coração da Pátria viverás!" Cala-se a estranha voz. das lágrimas ardentes! Hão de frutificar as fomes e as vigílias! E um dia.ao dos brancos. sonhando o teu sonho egoísta. < br/> O Caçador de Esmeraldas tem sido tornado como o padrão da nota épica de Bilac. no tumultuar das ruas.

havia outras correntes de pensamento. mas que era renegado pelos padrões tradicionais de escrita: o verso livre. Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a. fazer poesia não significa apenas escrever versos. um dos mais clássicos tipos de poema.. Nele pusera o coração doentio Em rubras flores de um sutil lavrado. com sua visão de poeta.. . de um perfumado Contador sobre o mármor luzidio. É lançar idéias. divididos normalmente em quatro estrofes: dois quartetos (estrofe com quatro versos) e dois tercetos (com três versos). Sentia um não sei quê com aquele chim De olhos cortados à feição de amêndoa Esse poema foi escrito por Alberto de Oliveira (1857-1937).Para começarmos a pensar sobre poesia. Mas. É pensar. Na tinta ardente. podemos tomar como exemplo o soneto. Por meio desse recurso. É sentir. a que pertencia Alberto de Oliveira. é o maior exemplo disso. Mas no mesmo contexto do Parnasianismo (final do século XIX). o poema em prosa e a fragmentação do verso se tornaram possíveis. de um velho mandarim Também lá estava a singular figura. Ele transmite seu amor através dos ramos vermelhos. um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e que foi aclamado. trazidas por artistas que desejavam expressar-se de outra forma que não a clássica. Ele é composto por 14 versos. Vejamos um exemplo clássico: Vaso Chinês Estranho mimo aquele vaso! Vi-o Casualmente. como o Príncipe dos Poetas Brasileiros. que ele captou por seu amor. de um calor sombrio. É arriscar. as classificações poéticas privilegiam as questões estruturais do texto. Poesia não se define. Mas o que vem a ser poesia? Será que poetar é escrever um texto que tenha forma de poema? Desde a Antiguidade. talvez por contraste à desventura. Quem o sabe?. As experimentações e inovações da linguagem. lê e identifica a magia e o amor com um vaso chinês. o verso deixou de estar ligado somente à poética clássica e passou a ser muito mais livre. O período parnasiano. Entre um leque e o começo de um bordado. uma vez. como sangra seu coração apaixonado. em 1924. É se colocar no texto. Nos dias de hoje. dando pouca importância ao seu conteúdo.. chegando a possuir vida própria. como a poesia concreta veio a pregar posteriormente. No Modernismo e no decorrer do século XX. alteraram em muito as técnicas de produção do texto poético.. Fino artista chinês. enamorado. É estar pronto para o debate. A utilização de uma linguagem mais livre e menos objetiva levou os poetas a usarem um recurso que existia há muito tempo. É se mostrar e não permanecer em silêncio quando o mundo precisa ser denunciado.

ora repleta ora esvaziada. Uma poesia sobre coisas inanimadas. Depois.Vaso Grego: Esta. A taça amiga aos dedos seus tinia Toda de roxas pétalas colmada. Era o poeta de Teos que a suspendia Então e. a impassibilidade e correção técnica. a frieza e a insipidez de uma poesia hoje ilegível. Tinha como características principais da sua poesia a objetividade. Mas o lavor da taça admira. a excessiva preocupação formal.. qual se de antiga lira Fosse a encantada música das cordas. trabalhada De divas mãos. Vinda do Olimpo. sintaxe rebuscada e a fuga ao sentimental e ao piegas. Já de os deuses servir como cansada.. portanto. Na poesia de Alberto de Oliveira. canora e doce. Qual se essa a voz de Anacreonte fosse. e. Manipulava os procedimentos técnicos de sua esc com precisão. Em Vaso grego . encontramos poemas que reproduzem mecanicamente a natureza e objetos descritivos. ola mas essa técnica ressalta ainda mais a pobreza temática. do ouvido aproximando-a. Ignota voz. de áureos relevos.Foi de todos os parnasianos o que mais permaneceu atado aos mais rigorosos padrões do movimento. um dia. a um novo deus servia. Toca-a. brilhante copa. às bordas Finas há de lhe ouvir. .

Fundas vermelhidões de velhas chagas Em sangue... luminosamente. vibrações. De Virgens e de Santas vaporosas.. Formas claras. Do Sonho as mais azuis diafaneidades Que fuljam./ através de sinônimos ou de palavras que remetem a essa cor. Os mais estranhos estremecimento. Que brilhe a correção dos alabastros Sonoramente. escorrendo em rios. que se dilui no vago... Desde os primeiros versos o autor expressa sua fixação pelo branco ³Ó Formas alvas. Visões. de neves. todas as castidades Da alma do Verso. trêmulas. brancas. triunfamentos acres. de neves.Antífona: Ó Formas alvas. salmos e cânticos serenos. Formas do Amor. aéreos. tantálicos. abertas. soluçantes... Brilhos errantes. Harmonias da Cor e do Perfume. essência... que na Estrofe se levantem E as emoções... delicadezas. brancas. apenas na 1ª estrofe) . de neblinas!. graça De carnes de mulher.. Formas claras De luares. é a maior expressão de sinestesia.. Dormência de volúpicos venenos Sutis e suaves.. radiantes... edênicos. doentios. no abstrato. Cristais diluídos de clarões álacres... Com a chama ideal de todos os mistérios.. Inefáveis.. Flores negras do tédio e flores vagas De amores vãos. Poema composto para servir de introdução ao livro Broquéis.. de neblinas!. Surdinas de órgãos flébeis.. Incensos dos turíbulos das aras. mádidas frescuras E dolências de lírios e de rosas... fluidas. (num total de nove. Ó Formas vagas. Horas do Ocaso. Indefiníveis músicas supremas. extremas. Infinitos espíritos dispersos. constelarmente puras. ânsias. transformando-se em síntese do Simbolismo.. Forças originais.. Fecundai o Mistério destes versos..../ De luares. alentos Fulvas vitórias. pelos versos cantem Que o pólen de ouro dos mais finos astros Fecunde e inflame a rima clara e ardente. Réquiem do sol que a Dor da Luz resume. cristalinas. Desejos... Todo esse eflúvio que por ondas passa Do Éter nas róseas e áureas correntezas. mórbidos..

cristalinas´.ao amarelo: ³pólen de ouro´. Em ³Dormência de volúpticos venenos´.. representado pela palavra Morte.Em todo o poema estão presentes as maiúsculas alegorizantes: Ó Formas. ³brancas´. no poema. luminosamente´ em e que os dois advérbios exprimem magnificamente a dupla procura da música e da cor..ao azul: ³Éter´(espaço celeste). envolve todo o poema como nos versos ³Que brilhe a correção dos alabastros / Sonoramente.. as palavras surgem revelando um cromatismo poético que nos remetem: ... ³neblinas´. ³vermelhidões´..... ³puras´. percebe-se ainda nitidamente o subjetivismo como uma angústia represada que de forma mística. ³Do Sonhos as mais azuis diafaneidades..´ Assim a linguagem de cunho simbolista está presente em todo o texto: a sugestão: ³Ó Formas vagas. ³lírios´. ³áureas correntezas´. ³neves´. ³luares´. quase religiosa conclama a uma nova ordem de realização poética: ³Ó Formas alvas... característica típica do Simbolismo. ³Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume´. ³do sol´ . ³virgens´. Do Éter.. ³Fulvas´. Ó Formas vagas. ³azuis diafaneidades´ .. fluidas. A gradação que se segue após o pronome indefinido no verso: ³Tudo! vivo e nervoso e quente e forte´ é reforçada pela palavra ³turbilhões´ que explode entre o limite do mundo material e do sono..... ³alabastros´. ³cristalinas´. ³Sutis e suaves. ³chagas em sangue´ . ³claras´. Fecundai (tu) o Ministério destes versos.´ ± ou de cunho religioso: ³De Virgens e Santas vaporosa.ao branco: ³alvas´. De Virgens. ³aras´ .... Livro da fase inicial. A Sinestesia.´o emprego da aliteração produz efeitos musicais que se incorporam à sugestão que o som sibilante do fonema /ç/ evoca em todo o primeiro quarteto e.. Harmonias da Cor e do Perfume...ao vermelho: ³Horas do Ocaso´.. quiméricos do Sonhos. Horas do Ocaso... ³Harmonias da Cor e do Perfume´ ampliam esse universo com a presença do cheiro. a grande ³estrela´ desse estilo. repetido ao longo do poema. Como se fossem pincéis espalhando cores e matizes diversos. por inúmeras vezes.

.. Sua alma subiu ao céu. à janela da torre... na 5ª e última estrofe."). Quanto ao aspecto gráfico-formal. subir/descer. Na primeira estrofe. estava/estava. Poema de 5 estrofes com 4 versos cada. um complemento que exprime oposição: céu/mar. Viu uma lua no céu. Seu corpo desceu ao mar. Destes. ou se referem à alma que voou para o céu? Esse "resumo" exposto é apenas uma interpretação. A repetição serve para acentuar idéias contrastantes. Na 3ª estrofe. já delirando ("no desvario seu") ela começa a cantar. um verbo.. e nem necessariamente negativa: aproximando "loucura" e "sonho" .. Quando lido e relido atentamente. Pôs-se na torre a sonhar.. outras possibilidades se apresentam. a oposição céu/mar é constante nas 5 estrofes. sempre nos versos 3 e 4 . não agressiva. a imagem torna-se ambígua: as "asas" dadas por Deus são seus braços. A 'loucura' é assim vista de forma poética. como se estivesse entre duas escolhas... encontramos. queria/queria. com rimas alternadas... do comum da vid a. No sonho em que se perdeu. queria/queria. um verbo que se repete: viu/viu. na 4ª. Queria a lua do mar. E. As asas que Deus lhe deu Ruflaram de par em par. no desvario seu. perto/longe. a personagem-título enlouquece e se suicida. nas primeiras 4 estrofes. a loucura ("sonho") leva-a a debruçar-se mais para fora da janela ("Banhou-se toda em luar") e ter desejos conflitantes . Estava longe do mar. Numa leitura possível.a lua do céu e a lua do mar. viu a lua a espelhar-se no mar ("Viu uma lua no céu.. Na torre pôs-se a cantar.. E como um anjo pendeu As asas para voar. Viu outra lua no mar.Ismália Alphonsus de Guimaraens Quando Ismália enlouqueceu. Queria subir ao céu.. Queria a lua do céu.... Viu outra lua no mar") . . ou mesmo acordados. A "loucura" de Ismália é também comparada a um sonho: "No sonho em que se perdeu". é sugerido que Ismália estendeu os braços para 'voar' (". o poeta pode estar sugerindo que a loucura é um estado fora do ordinário. como um anjo pendeu/ As asas. o poema narra o enlouquecimento de Ismália que. Na segunda estrofe. Queria descer ao mar. subiu/desceu. Estava perto do céu. Banhou-se toda em luar. quando imaginamos alguma coisa ou situação. como é o estado do sonho.... Sonhamos dormindo. já que em cada um desses versos está presente um substantivo...

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