Você está na página 1de 2

Linhas de Leitura

Anjo És
1. O poema começa com a afirmação do sujeito poético de que
Anjo és tu, que esse poder o tu é um anjo, já que uma mulher jamais teve «esse
Jamais o teve mulher, poder» sobre ele;
2. Ao longo da 1ª estrofe, o sujeito poético esclarece em que
Jamais o há-de ter em mim. consiste esse poder:
Anjo és, que me domina o no facto do ser do tu dominar o seu ser
5 Teu ser o meu ser sem fim; indefinidamente;
Minha razão insolente o no facto da sua razão «insolente» se inclinar ao
capricho do tu;
Ao teu capricho se inclina, o no facto da sua alma, «forte, ardente», que não
E minha alma forte, ardente, respeita nenhum jugo, andar humilde e
Que nenhum jugo respeita, cobardemente sujeita ao poder do tu;
10 Covardemente sujeita 3. Perante a constatação da irracionalidade de tais factos, o
Anda humilde a teu poder. sujeito poético conclui que o tu só pode ser um anjo;
4. Mas que espécie de anjo será, pergunta no início da 2ª
Anjo és tu, não és mulher. estrofe, tudo levando a crer que não se trata de um anjo
divino:
Anjo és. Mas que anjo és tu? o possui uma «fronte anuviada»;
o não possui a «coroa nevada das alvas rosas do
Em tua fronte anuviada
céu»;
15 Não vejo a c'roa nevada o em seu seio, não vê «ondear o véu com que o
Das alvas rosas do céu. sôfrego pudor vela os mistérios d'amor»;
Em teu seio ardente e nu o os seus olhos têm a cor negra, a cor da «noite sem
Não vejo ondear o véu estrela»;
Com que o sôfrego pudor o sua chama, embora vivaz e bela, não tem luz;
5. Em face disso, pergunta se é um anjo de Deus ou do Diabo;
20 Vela os mistérios d'amor.
6. Apesar de assistirmos, uma vez mais, à presença do tu,
Teus olhos têm negra a cor, como, aliás, já nos habituou Garrett, esta presença
Cor de noite sem estrela; manifesta-se numa mudez absoluta que tortura o sujeito
A chama é vivaz e é bela, poético: «Não respondes - e em teus braços / Com
frenéticos abraços / Me tens apertado, estreito!...»;
Mas luz não têm. - Que anjo és tu?
25 Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste 7. O sujeito poético insiste no seu interrogatório condenatório:
«Isto que me cai no peito / Que foi?... Lágrima?»
De Jeová ou Belzebu? o Não pode ser lágrima, porque o que ele sentiu
escaldou-o: «Queima, abrasa, ulcera»;
Não respondes - e em teus braços 8. Afirmando que o ardor que o devora é já o fogo eterno dos
Com frenéticos abraços condenados que o tu trouxe de lá (alusão ao inferno), o
sujeito poético interroga-se sobre os mistérios em que se
30 Me tens apertado, estreito!... esconde o fatal e estranho ser deste anjo maldito,
Isto que me cai no peito demoníaco;
Que foi?... - Lágrima? - Escaldou-me... 9. Termina, questionando, uma vez mais, se o tu é anjo ou é
Queima, abrasa, ulcera... Dou-me, mulher;
Dou-me a ti, anjo maldito, 10. A resposta está contida em apenas duas palavras dos dois
últimos versos: fatal e mulher, isto é, a mulher fatal;
35 Que este ardor que me devora
É já fogo de precito, 11. Note-se que, ao contrário do que acontece em O Anjo Caído,
em que o tu é nitidamente a vítima do eu (tirano caçador),
Fogo eterno, que em má hora em Anjo És, é o eu que é vítima do tu (esta oposição não se
Trouxeste de lá... De donde? verifica pela primeira vez: em Este inferno de amar - como
Em que mistérios se esconde eu amo!, o eu apresenta-se como vítima, mas em Gozo e
Dor e em Não te amo - quero-te, a vítima é o tu);
40 Teu fatal, estranho ser!
12. Algumas figuras de estilo: anáfora (vv 1/4); adjectivação
Anjo és tu ou és mulher? (insolente, forte, ardente, humilde, anuviada, nevada, alvas,
ardente, nu, sôfrego, negra, vivaz, bela, frenéticos,
Topo apertado, estreito, maldito, eterno, fatal, estranho);
personificação (hipálage) (vv 6/7; 8/11); metáfora (vv
7, 23, 26, 35, 36); pergunta de retórica (vv 13, 24/27, 32,
38, 41); anadiplose (vv 21/22); eufemismo (v 27);
gradação crescente (v 33);
13. Algumas características românticas: o tom confessional
do poema; uma certa teatralidade; o tema da mulher fatal; a
superlativação dos poderes da mulher; a alusão ao inferno e
ao diabo.