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UMA BREVE HISTÓRIA DA LINGUAGEM
Introdução à origem das línguas

Steven Roger Fischer

UMA BREVE HISTÓRIA DA LINGUAGEM
Introdução à origem das línguas
Tradução Flávia Coimbra

A History of Language by Steven Roger Fischer was first published by Reaktion Books, London, UK, 1999 Copyright © Steven Roger Fischer, 1999 Copyright © 2009 by Novo Século Editora

PRODUÇÃO EDITORIAL Equipe Novo Século PROJETO GRÁFICO E COMPOSIÇÃO Claudio Braghini Jr. CAPA Genildo Santana PREPARAÇÃO DE TEXTO Josias Aparecido de Andrade REVISÃO Salete Brentan Patrícia Murari

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Fischer, Steven Roger Uma breve história da linguagem / Steven Roger Fischer, tradução Flávia Coimbra.— Osasco, SP: Novo Século Editora, 2009.

Título original: A history of language 1. Linguagem e língua 2. Linguística histórica 3. Mudanças linguísticas — Aspectos sociais 4. Sociolinguística.

09-01046 Índices para catálogo sistemático: 1. História da linguagem 417.7 2. Linguagem: História 417.7

CDD-417.7

2009
IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À NOVO SÉCULO EDITORA Rua Aurora Soares Barbosa, 405 — 2o andar CEP 06023-010 — Osasco — SP Tel. (11) 3699-7107 — Fax (11) 3699-7323 www.novoseculo.com.br arendimenro@novoseculo.com.br

Sumário

Capa – Orelha — Contracapa Prefácio ............................................................................................................. 7 1 — Comunicação animal e 'linguagem' ........................................................ 11 2 — Primatas falantes ..................................................................................... 43 3 — Primeiras famílias ................................................................................... 75 4 — Linguagem escrita ................................................................................ 107 5 — Linhagens............................................................................................. 141 6 — Em direção a uma ciência da linguagem ............................................. 175 7 — Sociedade e linguagem ........................................................................ 219 8 — Indicativo futuro .................................................................................. 261 Notas ............................................................................................................ 285

Nesse sentido. que talvez esteja familiarizado apenas de modo geral com línguas estrangeiras e o estudo da linguagem. Ele não exige conhecimento prévio de uma terminologia linguística especial nem de métodos linguísticos particulares. para o aprendizado profissional da linguística. Não é necessária nenhuma experiência anterior em linguística para sua leitura. Ela vai além das restrições humanas. para 7 . Como uma história da linguagem em geral. sua intenção é preparar o leitor.Prefácio Este livro é uma introdução à história da linguagem. Ao tratar o tema em seu sentido mais amplo. esta visão difere em muito das histórias tradicionais da linguística — que consistem em descrições formais da mudança linguística em línguas humanas conhecidas ou reconstituídas. o presente volume é uma leitura preliminar útil antes do início de um curso introdutório de linguística numa universidade.

emitiu a primeira palavra. Esta história introdutória também se inicia com macroquestões para chegar até as microquestões: das linguagens de todos os animais até aquelas específicas aos primatas. se tornarão evidentes no decorrer desta introdução à história da linguagem. obviamente. com suas vinte e quatro diferentes definições. A linguagem não 'começou'. As muitas facetas do que o ser humano quer dizer com essa palavra amorfa que é a 'linguagem'. E outro alguém a entendeu . No presente. Mas seu conteúdo é historicamente inválido. A linguagem. em toda a sua miríade de formas. como sabemos hoje. que tenha usado algum meio para transmitir informação a outros animais. É uma história do único e do lugar-comum. em que a 'linguagem' não é mais privilégio exclusivo do Homo sapiens. em algum lugar. usou algum tipo de 'linguagem'. aparece numa forma em 8 . O primeiro capítulo começa com a Natureza e o passado. no momento em que a espécie humana começa a colonizar o Sistema Solar.incluir a linguagem dos animais. Hoje. apresentando a capacidade mais fascinante do mundo natural: a linguagem. um conceito essencialmente antropomórfico. evoluiu durante centenas de milhões de anos. além de várias outras conotações em contextos específicos. Seria absurdo declarar que 'alguém. tal discurso pode ser especialmente sedutor. acredita-se que qualquer ser vivo. uma faculdade universal. Apenas no final dessa lenta evolução a 'linguaguem'. das linguagens do Homo sapiens em geral às macrofamílias das línguas humanas. em qualquer época. A atual definição formal de 'linguagem' também está passando por mudanças semânticas. o último termina com a Tecnologia e o futuro. Ela é. e de famílias de línguas específicas ao uso da língua na nossa nova sociedade global e o futuro possível do inglês. É uma exposição curta e concisa do significado histórico da 'linguagem' em termos globais.

que usa equipamentos de monitoração sensíveis para registrar a comunicação do mundo natural que havia passado despercebida até então. Para o aprofundamento de controvérsias teóricas específicas — a origem das 'palavras'. os hominídeos se tornaram seres falantes. cetáceos e primatas. Tempos atrás. Este livro não aborda aspectos teóricos específicos da evolução linguística. o surgimento da sintaxe e assim por diante — há textos relevantes citados nas Referências e na Bibliografia. conduzidos desde a década de 1960. infelizmente. Ainda existem formas primevas de linguagem em todo o mundo e que apenas agora estão sendo reconhecidas. dentro de uma visão global. como foi revelado particularmente em experimentos inovadores feitos com aves. 9 . A evolução da capacidade do cérebro em processar referências vocais específicas é um campo igualmente fascinante que.que seres humanos modernos conseguem identificá-la como tal e entendê-la melhor. Não há respostas definitivas para as principais questões relativas à linguagem humana: o que é a 'linguagem'? Como a 'linguagem' se relaciona a outras habilidades intelectuais? De que modo a linguagem humana se diferencia da comunicação entre não hominídeos? Um dos objetivos de uma história da linguagem é descobrir maneiras de responder essas e outras perguntas semelhantes. O tema é mencionado. mas apenas como parte de uma história da linguagem em geral. Uma história da linguagem precisa incluir a linguagem não-humana. principalmente como resultado da tecnologia moderna. está além da esfera de ação dessa introdução a uma história da linguagem. O tema principal deste livro consiste na história do surgimento da linguagem humana e sua subsequente evolução.

Jeremy Black sugeriu que eu escrevesse este livro. Terry Crowley. Arthur Groos. Raimo Antilla. que desempenharam papéis importantes. Theo Vennemann. na minha carreira linguística e filológica. ciência da linguística e/ou filologia influenciou. John Charlot e Jack Ward. Ross Clark. Andrew Pawley. a minha esposa. por mostrar a todos nós como se deve escrever sobre a linguagem. gostaria de expressar minha gratidão particularmente a Eli Sobel (T). Seu profundo conhecimento sobre línguas. Terrence Wilbur. cada uma de sua própria maneira. Thomas Bartel (T). Albert Schutz. Hughes. Acima de tudo. que foi meu pilar e minha vela. formou e afiou meu conhecimento e crenças linguísticas e filológicas nos últimos trinta anos. Também agradeço Michael Leaman da Reaktion Books. Noam Chomsky. G. Bruce Biggs. Ray Harlow. E também um agradecimento muito especial a Jean Aitchison. Steven Roger Fischer Ilha de Waiheke. Taki. que gentilmente discutiu comigo as especificidades do projeto e forneceu vários comentários e sugestões construtivas. Margaret Orbell. Também devo agradecimentos especiais a muitas pessoas especiais. A. Nova Zelândia Janeiro de 1999 10 . H. e sou extremamente grato a ele pela ideia e por seu inigualável apoio. Malcom Ross. Dos muitos que merecem menção. Stephen Schwartz.

1 Comunicação animal e 'linguagem' Os primeiros organismos terrestres desenvolveram mecanismos primitivos de troca capazes de transmitir informações sobre espécie. 11 . Os milhões de anos da necessidade contínua de se entrar em contato com outra criatura da mesma espécie para fins reprodutivos exigiram métodos de comunicação ainda mais complexos. Cada tipo de linguagem usada na natureza difere entre si. Desse processo evolutivo nasceu a 'linguagem' em seu sentido mais amplo. distinguida por definições cada vez mais elaboradas do conceito de 'linguagem'. mais se descobre sobre a habilidade comunicativa de cada espécie. Essa transmissão ocorria através do que então consistia o meio mais sofisticado da natureza: a comunicação química. Quanto mais profundamente se investiga. gênero e intenção.

ondas oceânicas. Porém. golfinhos e musaranhos. assobios. rãs.000 hertz (ondas por segundo).1 Embora uma 'história da linguagem' no início do século XXI ainda 12 . Em seu sentido mais universal. a maioria das outras criaturas parece se comunicar tanto abaixo quanto acima dos limites considerados 'normais' pelos humanos. Essa definição permite que o conceito de linguagem englobe expressões faciais. morcegos. linguagem de programação (ou de computadores). linguagem significa 'meio de troca de informações'. como. baleias-azuis. os sons emitidos por baleias-fin. vulcões. por exemplo.Em sua definição mais simples. gestos. terremotos e tempo ruim. O ultrassom ocorre acima dos 18. sinais de mão. elefantes. A definição reconhece as várias trocas de informação bioacústicas (emissões de sons de formas de vida) que ocorrem em frequências que escapam à audição humana. Porém. Aves. A definição também abarca a 'linguagem' química das formigas e a dança das abelhas (hoje sabemos que ambos os insetos também usam simultaneamente outros meios de expressão comunicativa). a linguagem é muito mais do que a comunicação vocal. e assim por diante. O infrassom compreende emissões abaixo de 30 hertz. frequências normalmente usadas por insetos (os habitantes mais numerosos do planeta). Estudos mais recentes sobre comunicação animal tendem a se concentrar na descrição das espécies. crocodilianos. cujos limites são traçados apenas pelos seres humanos. sapos e cães vocalizam dentro desse intervalo.000 hertz. a linguagem é o nexo do mundo animado. Por exemplo. posturas. escrita. um humano comum de 15 anos de idade só consegue ouvir cerca de dez oitavas dentro da frequência e amplitude da conversação normal — que fica entre 30 e 18. ligando a comunicação animal a processos essencialmente biológicos ou especificamente sociais. linguagem matemática.

composta por pulsos rapidamente repetidos que se sobrepõem. A bioacústica vem concentrando sua atenção também nos peixes. muito parecido ao som produzido pelo didgeridoo2 australiano — se origina de um par de músculos presos à bexiga natatória. ela carrega a sugestão de que possa evoluir de modo a abarcar muitas formas de linguagem desconhecidas até então. durante a corte. A comunicação vocal em sua forma mais primitiva é. Quando a fêmea chega. traças machos e fêmeas se comunicam por meio dos feromônios (secreções excretadas por glândulas específicas). cuja própria existência era desconhecida à ciência até a segunda metade do século XX. A comunicação vocal de muitos anfíbios. O barulho — um zumbido alto e ressonante. particularmente durante a desova. toda a sequência do comportamento das 13 . evidentemente usados para a comunicação. chegando às manchetes internacionais. uma comunidade flutuante na Califórnia. e a segunda. especialmente rãs. surpreendentemente demonstrada pelo 'zumbido' do peixe mamangá do litoral oeste dos EUA.seja implicitamente uma 'história da linguagem humana'. uma vez que. e continua se movimentando por mais de uma hora. Muitos deles usam o ultrassom. cuja primeira parte consiste numa série de pulsos parcialmente sobrepostos. por exemplo. produzindo uma onda constante semelhante a um 'tom'. muitos peixes emitem um 'som complexo' representativo. Várias ordens de insetos também possuem órgãos que produzem sons. o 'zumbido' prontamente acaba. Por exemplo. cujos 'zumbidos' noturnos eram desconhecidos para a ciência até perturbarem. O mamangá macho emite 'zumbidos' para atrair fêmeas que desovem em seus ninhos. recentemente. foi pesquisada intensivamente nos últimos anos — embora ainda não se encontre qualquer referência a uma 'linguagem das rãs'. que se contrai e vibra contra a parede do estômago.

a linguagem foi reduzida a seu mínimo. Porém. Essas mensagens químicas altamente específicas. cetáceos e grandes primatas. elefantes. é possível que a habilidade linguística das formigas seja mais complexa do que a ciência atualmente admite. Cada formiga consegue transmitir pelo menos 50 mensagens diferentes usando a linguagem corporal e os feromônios. Elas ocupam quase todos os locais habitáveis do planeta e excedem em trilhões o número de seres humanos. FORMIGAS (FORMICIDAE) Há entre 12. Alguns a chamam de idioma primevo da Terra. cavalos. Excreções da glândula esternal são usadas para chamar as formigas operárias que estiverem por perto. aparentemente oferecem um pacote econômico que contém as informações necessárias que uma formiga precisa trocar com suas companheiras para a sobrevivência da colônia. A divisão do trabalho das 14 . aves. Aqui. Suas glândulas mandibulares secretam odores de alerta. Nenhuma está sozinha.000 espécies de formigas no mundo. Porém.traças durante a corte também envolve a produção do ultrassom. Esta descoberta recente exigiu que o comportamento das traças durante a corte fosse reconsiderado. quando se ouve sobre comunicação ou 'linguagem' animal. normalmente se pensa na linguagem das formigas. Todas se comunicam de alguma maneira. basicamente a uma 'linguagem dos feromônios'. combinadas com a linguagem corporal. e que fosse colocada uma maior ênfase na interação entre os vários modos de expressão comunicativa. e assim por diante. abelhas. cada uma de suas colônias compreende um milhão de indivíduos ou mais.000 e 14. seu aparelho digestivo termina numa glândula retal que libera um cheiro que marca sua trilha.

Pesquisas recentes também revelaram que as abelhas forrageadoras da espécie Trigona minima dançam apenas a céu aberto. Como o grupo decide qual folha levar? Como são alcançadas a organização e a coordenação em massa? Isso deve envolver uma troca de informação mais elaborada do que a identificada até então. a qualidade (quantidade de voltas de 180 graus realizadas na 'dança') e a localização (traçando uma figura em forma de oito para comunicar a distância e a direção) da comida que encontrou além da colmeia. Porém.3 ABELHAS-EUROPEIAS (Apis mellifera) Na primeira metade do século vinte. pesquisas bioacústicas muito recentes revelaram que as formigas também usam a estridulação. as seguidoras apenas assistem. as forrageadoras das espécies que dançam dentro das colmeias vibram as asas para 15 . Por meio de uma 'dança'. a abelha forrageadora informa às seguidoras o tipo (por meio de amostras oferecidas). Além disso. os entomologistas desconfiam de que talvez as formigas se comuniquem por meio de uma altamente complexa combinação de feromônios. No passado. linguagem corporal e emissão de sons há centenas de milhões de anos.formigas não pode ser totalmente explicada pelo modelo de comunicação presente. chocando o mundo ao demonstrar que mesmo 'insetos insignificantes' eram capazes de trocar informações complexas sobre coisas distantes no tempo e no espaço. sua produção de som e ultrassom ainda é pouco entendida e os contextos precisos de seu uso ainda são desconhecidos. acima das colmeias. a dança da abelha-europeia foi frequentemente citada como um exemplo clássico do uso da 'verdadeira linguagem' no reino animal. hoje. Em qualquer evento. o zoólogo austríaco Karl von Frisch revelou que as abelhas-europeias usam a 'dança' para se comunicar.

especialmente o papagaio cinzento e o papagaio da Amazônia (papagaio-de-nuca-amarela. papagaio-diadema e papagaio-verdadeiro). após acompanhar várias figuras em oito.4 Os pássaros apresentam grandes diferenças individuais nas inclinações e habilidades vocais. sabe-se que na natureza. Essa combinação de meios de expressão — linguagem corporal. nunca se calam. A arara-piranga e a arara-vermelha também vocalizam bem. os grandes papagaios estejam entre os 'linguistas' mais fenomenais do reino animal. Logo depois. é difícil ensiná-las. mas suas vocalizações são normalmente roucas e altas. Talvez. Cacatuas são boas 'falantes' de voz suave.5 16 . uma 'voz' que as seguidoras. Desde a Antiguidade. porém. a maioria das seguidoras não consegue encontrar a comida. alguns pássaros aprendem suas músicas em contextos diferentes. papagaio-campeiro. outros. Pesquisas de campo recentes confirmam o fato. troca de comida e 'voz' — constitui a 'linguagem' das abelhas-europeias. ao que parece. PÁSSAROS (AVES) Há muito tempo ornitólogos entusiasmados vibram com o vasto repertório de sons da carriça. um fato que sugere que os pássaros agregam significados diferentes a suas vocalizações.produzir correntes de ar. assim como ocorre com as araras. as seguidoras pedem amostras da comida pressionando seus corpos para baixo e emitindo uma vibração repentina no tórax. Se um desses meios é omitido. sentida pelas pernas da dançarina. mesmo entre as espécies mais loquazes. Experimentos com 'abelhas-robôs' mostraram que tanto a dança quanto a mensagem acústica são essenciais para o estabelecimento de uma comunicação correta entre as abelhas-europeias. monitoram de perto com suas antenas — indicando que as abelhas conseguem 'ouvir'. Alguns não dizem nada.

totalmente treinado. pareciam usar entre eles vocalizações naturais 'significativas' de diversas maneiras. em particular.6 Em junho de 1977. os treinadores de Alex ensinaram a ele uma variedade de tarefas linguísticas. exigem uma inteligência complexa. 'De que é feito?' Há uma longa pausa e ele finalmente responde: 'Madeira'. água. Em 12 anos. 'Eu quero X'. rolha. usando novas técnicas e resultados de pesquisas sobre o aprendizado social humano. Por exemplo. segundo a crença comum. um pesquisador segura no alto uma chave de metal roxa e uma chave maior de plástico verde. era chamado apenas metaforicamente de 'linguagem' dos pássaros. 'Venha cá'. Ele fazia um uso funcional de 'não'. Os resultados do experimento são impressionantes. Ele conseguia nomear sete cores. como combinar quantidades de objetos. numa variedade de modos conceituais. e assim por diante). mas sim entende seu significado e consegue expressar uma resposta de teor semântico similar. foi demonstrado que o papagaio-cinzento era perfeitamente capaz de aprender tarefas não vocais. um palito de sorvete de madeira é levantado. descrever várias formas e contar objetos até seis. 'Qual é o maior?' 'Chave verde'. Alex conseguia nomear 40 objetos diferentes (banana. Alex responde: 'Dois'. Então. Pesquisas posteriores observaram que os papagaios. Segundo todos os indícios. quantos?' Quinze segundos depois. não 'repete' o discurso humano.Já na década de 1940. com uma precisão estatística notável. Alex. e 'Quero ir para Y'. Ele pergunta: Alex. durante séculos. No 17 . que. Irene Pepperberg começou a ensinar um papagaio-cinzento de 13 meses de idade chamado 'Alex' a se comunicar com ela em inglês. Os últimos vinte e cinco anos do século XX testemunharam uma grande ruptura no nosso entendimento do que. vocalizações certamente aprendidas com outros membros do bando.

Pepperberg descobriu que Alex estava combinando todas aquelas etiquetas vocais para identificar. O que Alex mostrou aos seres humanos é que talvez os pássaros também possam usar a linguagem de maneira criativa e. os dinossauros. pedir. grandes vertebrados que amamentam seus filhotes com 18 . Uma ligação foi feita a partir desse fato. também usavam algum tipo de linguagem. nos pássaros. Porém. ele não conseguia 'falar' com seus treinadores da mesma maneira que papagaios falam uns com os outros. a 80%. Quando suas habilidades eram testadas. o fato implicaria que seus longínquos ancestrais. portanto. ou ao que gostaria de fazer no dia seguinte. A comunicação acústica também é muito usada por todos os mamíferos.7 Havia limites. incluindo alguns que diferiam dos exemplares de seu treinamento regular. a precisão de Alex chegava. em média. recusar.fim. Será que se a ciência acabar por concluir que os pássaros têm e usam algum tipo de 'linguagem' elaborada. semelhante aos humanos. o controle do canto é feito pelo lado esquerdo do cérebro. Diferente de grandes primatas. gorilas. categorizar e quantificar mais de 100 objetos diferentes. Alex também não conseguia se referir ao que havia feito no dia anterior. talvez de um modo semelhante? A implicação parece evidente. cuja fala também é controlada no lado esquerdo do cérebro. Recentes testes neuroanalíticos revelaram que. também possam raciocinar com um nível de complexidade comparável ao dos grandes primatas (orangotangos. chimpanzés e bonobos) e cetáceos (baleias e golfinhos). Embora Alex fosse evidentemente capaz de se comunicar com seres humanos num nível aparentemente elevado. a comunidade científica ainda não a estudou.

além dos contextos sociais dos mamíferos serem extremamente complexos e variados. o estudo de sonares não consiste em comunicação. como o acasalamento ou estudo de sonares (ecolocalização8). como morcegos. assim como capacidades de aprendizado e expressões individuais ('idioletos'). possuem biomecanismos elaborados que podem ser capazes de promover sofisticadas trocas de informação entre membros de uma espécie. apenas os estudos mais recentes conseguiram satisfazer quase todas as exigências normalmente feitas a experimentos científicos. a linguagem parece uma característica primitiva de toda essa classe de vertebrados. Na verdade. os estudos com morcegos se concentram no sonar de frequência constante e de frequência modulada com o qual esses pequenos mamíferos se 19 . permitindo a coesão social e a adaptação. uma vez que seu ambiente é limitado por leis físicas bem conhecidas e essas emissões de sons são mais uniformes e fáceis de monitorar do que as atividades sociais. Ao ajudar na sobrevivência dos mamíferos. Os intricados sons produzidos pelos mamíferos tornam seu estudo tão difícil quanto o estudo dos sons dos não mamíferos. baleias e golfinhos. Particularmente. assim como ocorre com os pássaros que vivem na natureza.leite excretado peias glândulas mamárias. Os estudos bioacústicos mais sofisticados feitos com mamíferos foram concluídos em ambientes com um contexto altamente específico. A maioria das pesquisas sobre a comunicação dos mamíferos feitas até então se concentra em sua bioacústica: a medição e análise das emissões de som de formas de vidas. permitindo comparações simples de dados. parece haver muitas variantes regionais ('dialetos') no 'discurso' dos mamíferos. É difícil associar sons específicos e/ou padrões de sons com atividades particulares e/ou trocas entre a mesma espécie. Ele prova que vários mamíferos. Aumentando ainda mais a dificuldade. Porém.

CAVALOS (Equus caballus. Sua comunicação é simplesmente diferente da nossa. cuja causa reside na falta de familiaridade ou na restrição do termo 'linguagem' aos seres humanos. orientação. Porém. emissões ultrassônicas compreendem seu componente mais importante. Os estudos de bioacústica em mamíferos também tratam da vocalização de camundongos. Escritores esotéricos chegaram a ligar esses sistemas de comunicação com formas de 'supercomunicação' sobrenaturais e até extraterrestres. não há dúvidas de que esses mamíferos se comuniquem de alguma forma. contato visual e 20 . FAMÍLIA EQUIDAE) Há muito tempo é sabido que os cavalos usam alguma forma sofisticada de linguagem corporal (gestos. nesse caso. poucos escreveram sobre uma 'linguagem dos morcegos' ou uma 'linguagem dos camundongos'. Embora isso seja absurdo. o acúmulo de indícios da segunda metade do século XX leva enfaticamente à conclusão de que só os hominídeos (espécie humana e ancestrais próximos) desenvolveram formas mais sofisticadas de comunicação natural e artificial na história natural do planeta. pois a complicada comunicação bioacústica ocorre tanto com morcegos quanto com ratos. baleias e golfinhos receberam uma enorme quantidade de atenção popular nos últimos anos. Até muito recentemente. e ainda não são compreendidos. os chamados sociais dos morcegos são emitidos em frequências mais baixas. elefantes. Na verdade. Essa é uma deficiência. a espécie humana simplesmente não percebeu o fato. Não há indícios científicos que sugiram que a comunicação entre mamíferos não humanos é de qualquer forma 'superior' — ou seja. contextualmente mais elaborada — à linguagem humana. Por outro lado. as 'linguagens' de cavalos. Mesmo assim.orientam e caçam através da ecolocalização.

Nos últimos anos. as vocalizações não desempenham um papel nessas interações. ainda é um fato.evitação). como selar e montar.9 Cada uma dessas vocalizações parece representar um diferente modo de expressão comunicativa. Porém. barridos e ladros. uma forma de 'linguagem' fica evidente aqui. reduzindo o ‘breaking time’ de cavalos de muitos dias para dezenas de minutos. Normalmente. pois há uma troca de informações específicas entre humanos e cavalos e humanos e cervos. ELEFANTES (ELEPHANTIDAE) Nas últimas duas décadas do século vinte. Porém. bufos. mesmo a longa distância. para se comunicarem uns com os outros. Elefantes usam vários tipos de vocalizações: roncos. Há muito se suspeita de que os elefantes se comunicam constantemente para reforçar os laços sociais que sustentam a sobrevivência de uma manada. rosnados. se essa comunicação pode ser considerada uma 'linguagem'. Os resultados são notáveis. 21 . os cavalos quase sempre combinam linguagem corporal e vocalização. treinadores humanos desenvolveram novas técnicas baseadas na observação dessa 'língua' equina para manipular o comportamento dos cavalos para propósitos humanos. no sentido de transmitir informações significativas entre a espécie. a investigação científica acerca de 'linguagens' de cavalos e cervos está apenas no início. Não pode haver muitas dúvidas de que se alcançou assim alguma forma de comunicação entre humanos e equinos desconhecida até então. entre eles. Contudo. em geral. rugidos. como regra. Realizações semelhantes com cervos (família Cervidae) seguiram técnicas quase idênticas. embora o processo tenha sido mais lento e sutil. desconhecido. pesquisadores usaram métodos e técnicas científicas modernas na questão da comunicação dos elefantes. com vocalizações específicas.

implicando muitos tipos diferentes de mensagens. quem está presente no grupo e assim por diante. As fêmeas também reagem a eventos distantes. emitidas entre 14 e 35 hertz. um pesquisador jocosamente concluiu que isso ocorre porque os machos 22 . Frequências tão baixas são pouco barradas por obstáculos ao passar por matagais e florestas. O 'concerto' pode durar meia hora. quando amamentar. Durante o cio. podem ser classificados como uma 'canção de acasalamento': ela começa com roncos lentos e profundos. como preservam a mesma forma. com cronômetros. seus chamados parecem indicar até onde a manada pode ir. sem dúvida. As vocalizações da fêmea são ricas e variadas. O ronco é. Parece que. entre várias outras utilidades. a mais significativa de todas as vocalizações dos elefantes. os roncos são audíveis aos seres humanos como um deep organ bass. Namíbia e Quênia sugerem que os elefantes (provavelmente de maneira única entre os mamíferos) usam os roncos infrassonoros abaixo do limite normalmente audível para se comunicarem de algum modo com outros elefantes distantes de si. sentido como um 'tinido' subcutâneo. Machos adultos vocalizam muito menos. que gradualmente crescem em força e aumentam o tom. Pesquisas no Zimbábue. os roncos permitem que elefantes machos e fêmeas se encontrem para a reprodução (machos e fêmeas adultos vivem longe uns dos outros e não contam com migrações previsíveis nem temporada de acasalamento fixa). acima de 30 hertz. provaram a ocorrência de comunicação infrassonora entre elefantes fêmeas e machos separados por uma distância de quatro quilômetros. e depois baixam até o silêncio. Sensores remotos. Às vezes.dentro dos quais os variados sons representam subunidades importantes. uma fêmea emite uma sequência única de chamados com infrassons que.

Embora separadas por quilômetros de florestas. e não apenas sinais reprodutivos. evidentemente usando roncos infrassonoros para manter contato umas com as outras. mesmo entre populações esparsas. As pesquisas atuais sobre a acústica dos cetáceos se concentram em chamados sociais e sinais de ecolocalização. reagem agudamente a tal 'comunicação química'.estão ocupados demais ouvindo as fêmeas tagarelas. Além dos pássaros e dos hominídeos. Machos em estado de frenesi sexual em busca de uma parceira. É claro que a comunicação dos elefantes como uma forma de 'linguagem' incluiria os roncos que permitem variados tipos de mensagens. frequentemente de natureza militar secreta (estudos com sonares). que incluem baleias. que podem ter apenas dois dias de cio a cada quatro anos. como sugerem alguns pesquisadores. BALEIAS (CETACEA) Por uma ampla variedade de motivos. os cetáceos parecem ser as únicas outras criaturas terrestres que contam com trocas vocais facilmente audíveis. a maioria das pesquisas internacionais sobre a acústica dos mamíferos envolve os cetáceos: mamíferos aquáticos. O olfato é sempre usado com a audição. por meio da análise de 23 . golfinhos. foi sugerido que esses 'chamados de pânico' são emitidos para pedir ajuda a uma manada distante. espontâneas e complexas. Alguns dos mais fortes infrassons de elefantes já registrados documentaram roncos que claramente assinalam pânico. na maior parte marinhos. é evidente que os feromônios desempenham um papel significativo na reprodução dos elefantes. Essa rede também pode permitir a manutenção de uma elaborada sociedade hierárquica. botos e animais similares. manadas individuais conseguem ajustar continuamente sua busca por alimento numa sincronia quase perfeita.

registros de sons na água. detectados por conjuntos de hidrofones ligados a estações de trabalho com processadores de sinais digitais. Os cliques são simplesmente sons do sistema de ecolocalização. o método falha na hora de mostrar os contextos sociais dos cetáceos. além disso. que dependem do seu gênero. cada cardume demonstra versões únicas desses chamados em pulso em comum. uma vez que eles podem ser ouvidos por outras orcas a oito quilômetros de distância. para isso. Porém. cuja coleta de dados é extremamente difícil. Por esse motivo. Porém. que não são compartilhados com outros cardumes. provavelmente servem para rastrear membros do cardume que não estão à vista. Cada cardume compartilha um número de sequências de pulsos com outros cardumes da região. então. São essas 24 . na segunda metade do século XX. junto a um 'grito parecido com uma dobradiça enferrujada'. frequentemente. seria necessário um monitoramento de vídeo em tempo real. cada um deles possui um ou dois chamados em pulso distintos. Há muitos tipos de 'linguagens' de baleias. Chamados em pulso. As vocalizações das baleias podem alcançar 256.10 Pesquisas sobre as orcas feitas desde a década de 1970 revelam que suas vocalizações compreendem cliques. Em particular no caso das baleias. ser analisados em laboratório para dados comparativos. os seres humanos só ficaram a par do verdadeiro intervalo de comunicação vocal entre as baleias após o desenvolvimento de dispositivos eletrônicos sensíveis. cujos resultados deveriam. Os assobios são ouvidos entre orcas que estão descansando ou socializando e parecem estar envolvidos em brincadeiras e atividades sexuais. assobios e gritos curtos e agudos chamados de 'chamados em pulso'.000 hertz — uma frequência doze vezes mais aguda que o ouvido humano consegue detectar.

as orcas mantêm dialetos individuais sem mudanças intencionais por períodos muito longos. Assim essas canções não teriam uma função comunicativa. as baleias-fin são conhecidas por emitirem intensos chamados infrassônicos. um dos cetáceos mais vocais. 25 . Alguns especialistas acreditam que as baleias-azuis 'cantam' para apontar com precisão sua localização no oceano. compreendem algum tipo de comunicação. Normalmente infrassônicas. Como foi medido pela marinha norte-americana no litoral da América do Sul. Também não se sabe se os gemidos. Cardumes individuais de orcas podem ser facilmente identificados por seu dialeto único. mas ainda não se sabe se eles servem para sua comunicação. grunhidos e sons parecidos com o da corneta e do barrido do elefante feitos pela baleia-franca. o fato de as canções serem audíveis em distâncias tão gigantescas parece contradizer essa hipótese. a nota seguinte ocorre em exatos 256 segundos. Diferentemente das baleias-jubarte. ilhas e montanhas submersas. Entre os mais poderosos sons uniformes emitidos por qualquer forma de vida terrestre está o chamado produzido pela baleia-azul. repetidas em intervalos de 128 segundos. Durante a maior parte do ano. cronometrando o reflexo de suas emissões em bancos de areia dos continentes. as canções da baleia-azul compreendem notas perfeitamente harmonizadas. Hoje. Porém.diferenças que parecem isolar um 'dialeto' local. repetindo apenas cinco dessas notas harmonizadas em diferentes combinações. Se há alguma pausa. sua 'canção' de 188 decibéis — um nível de barulho comparável a um cruzeiro navegando em velocidade normal — pode ser detectada a centenas de quilômetros de distância. possivelmente pela vida inteira. a baleia-azul canta continuamente durante oito dias.

ser associados a comportamentos específicos. Mas são as canções da jubarte que mais se aproximam do nosso conceito de 'linguagem' verdadeira. ao longo do tempo. e no ano seguinte colocará outra canção em seu lugar.Hoje. muito semelhante a formas de mudança da linguagem humana: novos elementos são compostos. Cada uma delas canta a mesma 'canção'. quando gravadas e artificialmente aceleradas em mais de 14 vezes. A canção parece estar 'evoluindo' e cada jubarte participa da evolução da canção. Elas exibem uma grande variedade de vocalizações: lamentos. ou seja. Como os humanos. trios e até coros de dezenas de jubartes. as jubartes modificam intencionalmente seu próprio ritual de vocalizações com o tempo. É significativo que as canções de dois anos consecutivos sejam mais parecidas do que duas canções separadas por um intervalo de vários anos. mantidos. nós sabemos que as baleias-jubarte — assim como os primatas. que são simplesmente regionais. As jubartes evidentemente usam uma 'linguagem' especial que deve verdadeiramente ser uma das características mais fascinantes da natureza. as canções se pareciam notavelmente com o canto de um pássaro. um processo que parece ser constante e intencional. Isso é muito diferente do 'dialeto' das aves. Há solos. de modo semelhante. rugidos e urros que podem. sequências regulares de sons repetidos emitidos para o acasalamento. talvez as únicas outras compositoras na natureza — transmitem. e depois aperfeiçoados. As canções apresentavam uma ampla variedade de tons e duravam entre seis e 30 minutos. Durante mais de vinte anos. duetos. E a canção muda diacronicamente. Foi descoberto que entre as vocalizações havia 'longas canções de amor' — ou seja. embora não em uníssono. as canções das jubartes das bermudas foram investigadas. às vezes. grunhidos. sugerindo um significado social. 26 . chiados. Um grupo regional de jubartes cantará a mesma 'canção' durante um ano. 'canções' para centenas de quilômetros pelo oceano.

As partes 27 . talvez todos os cetáceos) herdam um conjunto de leis de vocalização. A canção mantém os temas numa determinada ordem. as leis de composição das jubartes parecem ser universais. de modo a conectar o início e o final de frases consecutivas. no Havaí. como as jubartes não cantam nas áreas de alimentação durante o verão e como as canções são complexas demais. Sugere-se que. e depois gradualmente alterada durante a temporada de acasalamento. as frases novas são ajustadas. Os temas que restam são sempre cantados numa sequência previsível. Cada frase contém entre dois e cinco sons. as jubartes omitem um ou mais temas. com várias frases idênticas ou que mudavam lentamente. elas simplesmente esqueçam a canção entre uma estação e outra e arquitetem uma nova versão. ambas apresentaram uma mudança diacrônica e demonstraram a mesma estrutura (não conteúdo) na canção. suas canções compartilham 'regras linguísticas' essenciais. num período de quatro anos. Assim. seja no Pacífico. baseadas numa lembrança parcial. às vezes. Por exemplo. seja no Atlântico. cada canção compreende cerca de seis temas. Embora as jubartes das Bermudas e do Havaí não tenham contato. Isso sugere que as jubartes (na verdade. baseada em performances anteriores. mas. Ainda assim. e. dentro das quais cada geração pode improvisar. às vezes. foi descoberto que em todos os anos os grupos cantavam canções diferentes. As jubartes sempre cantam as novas frases num andamento mais rápido do que as frases antigas. e se provou equivocada: quando as jubartes voltaram. a canção antiga foi cantada.Quando as jubartes do Havaí foram comparadas às jubartes das Bermudas. A hipótese foi testada nos mares da Ilha de Maui. Não se sabe se essas supostas leis de vocalização são transmitidas geneticamente ou transmitidas pelo aprendizado.

quando as baleias estão socializando perto da superfície do mar. ambos os significados são desconhecidos. os especialistas concordam que. embora sua natureza específica ainda precise ser entendida. Há um coda de cinco cliques que frequentemente inicia as conversações. pode-se falar em termos de verdadeiros 'dialetos' regionais. Os codas do cachalote são quase sempre ouvidos no meio do dia. podem representar (pelo menos para rastreadores humanos) uma marca de 'dialeto'. Como as canções das jubartes são diferentes. e. Porém. nesse caso. Por exemplo. repetido a cada sete segundos. exibida pela jubarte. Também há um coda de sete cliques que normalmente segue um coda de oito cliques. portanto. Vários outros cliques (não codas) usados pelos cachalotes podem agir 28 . uns para os outros.do meio são simplesmente omitidas. Os machos se anunciam com um som metálico chamado de 'grande clique'. embora a forma da canção seja similar tanto no Atlântico como no Pacífico. os cachalotes de Galápagos emitem 23 codas distintos durante interlúdios sociais. como as abreviações usadas por seres humanos ('cê' por Você'). Infelizmente. esses codas ainda não foram decifrados. sabe-se que eles variam de oceano para oceano. Esse processo também é parecido com o modo como a linguagem evolui em comunidades humanas. como um 'oi'. parecido com o som do 'bater de uma porta de cela de cadeia'. talvez o som seja usado para atrair fêmeas ou intimidar rivais. O fato também indica fortemente que na canção da jubarte pode se encontrar uma forma de 'linguagem' que mais se aproxima das expectativas humanas. ou seja. Foi sugerido que os codas permitem que os cachalotes se identifiquem individualmente. Os celebrados codas — distintos padrões de cliques — do grande e tímido cachalote parecem ser diferentes para cada indivíduo. eles não parecem constituir o mesmo tipo de 'linguagem' compartilhada.

quando visto em retrospecto — não foi satisfeito. era permitir que seres humanos e golfinhos.como um sonar de ecolocalização e. raramente transmitia mais de 12 palavras codificadas em inglês. Tentativas semelhantes posteriores. o neurofisiologista e psicanalista norte-americano John C. para atordoar a presa com o som. que assobia para se comunicar e faz cliques para ecolocalização simultaneamente. que também vocaliza frequentemente. idealizado por Lilly. Os golfinhos não possuem ouvidos externos. como dizem alguns. Os golfinhos produzem os cliques forçando as cavidades nasais contra as beiradas ósseas do crânio. trocassem vocalizações ajustadas a uma 'audição confortável'. e depois. Seu desejo antropocêntrico — talvez ingênuo. começou a ensiná-los a 'falar inglês'. ensinamentos. através de um código de 64 sons. como as feitas em Marineland. também produziram resultados insatisfatórios.11 O objetivo do Projeto Janus. o som é recebido através de uma estreita 'janela no osso maxilar inferior. GOLFINHOS (DELPHINIDAE) O termo golfinho geralmente inclui os botos. seguindo o modelo de experimentos contemporâneos para ensinar uma língua artificial para primatas. convergindo-os através do tecido adiposo em sua testa. A comunicação entre humanos e golfinhos. na Flórida. histórias'. como é observado há milhares de anos no caso do golfinho-riscado. 29 . Lilly. convencido de que os golfinhos já possuíam uma elaborada linguagem natural. Lilly esperava rápidas comunicações entre humanos e golfinhos: 'Quero descobrir se eles têm sagas. uma subespécie. quase sempre vinculada à combinação de códigos simples. Na década de 1960. cada um em seu respectivo ambiente.

num forte contraste com o entusiasmo otimista de mais de uma geração passada. os grandes primatas (orangotangos. e acima de tudo. havia pelo menos três vezes mais gêneros de macacos do que hoje. Mas ainda temos de compreender a 'linguagem' dos cetáceos nessas elaboradas vocalizações. os golfinhos e as jubartes parecem viver numa sociedade ricamente vocal. Como vimos. Eles se comunicam uns com os outros de alguma maneira. Como escreveu o primatologista John Mitani: 'Você não consegue olhar de perto um grande primata sem sentir algo muito especial'. Por tudo isso. que deve significar algo parecido com 'socorro!'. Nós não compreendemos realmente o modo como os cetáceos transmitem informações. o último dos hominídeos. É o extremo da vaidade: percebemos nós mesmos. chimpanzés e bonobos). No caso dos primatas. e os seres humanos. Outros sinais isolados e específicos de golfinhos devem significar alguma coisa como: 'Sou o Flipper'. na forma como os entendemos. Cerca de dezessete milhões de anos atrás. 30 . parecido com o de um pássaro. sustenta que a 'linguagem' do golfinho na natureza (em oposição à comunicação artificial entre humanos e golfinhos) esteja talvez mais próxima aos gemidos. a acústica dos cetáceos indica 'dialetos' discerníveis. Apesar disso. Seus descendentes são os pequenos primatas ou gibões.É evidente que o repertório vocal dos golfinhos inclui mensagens emocionais de alguma espécie. e mesmo evoluções de estrutura marcadas. esperadas numa troca de informações baseadas no conhecimento. que sobe e desce. Especialistas isolaram um grito. risadinhas e suspiros humanos do que geralmente se espera de uma 'linguagem' verdadeira. durante o período mioceno. o terreno é mais familiar. a opinião científica atual. com os cetáceos falharam até o momento. as tentativas dos humanos em estabelecer 'diálogos'. gorilas.

principalmente devido a seu conceito antropocêntrico. As experiências com a linguagem em orangotangos aumentaram nos últimos anos. O talento individual parece apresentar uma diferenciação mais ampla. GORILAS (Gorilla gorilla) Uma tolerância temporária a seres humanos na sociedade dos gorilas da montanha pode ser alcançada por meio de gestos (fingindo comer folhas). e chegou até mesmo a reproduzir esses sons. provavelmente. como demonstrou Dian Fossey no Centro de Pesquisa Karisoke de Ruanda. Dois orangotangos aprenderam vinte sinais da Linguagem de Sinais Norte-Americana em menos de um ano. independentemente da espécie. Ela fez um estudo básico das vocalizações dos gorilas na natureza. Elas produziram resultados de compreensão e produção linguísticas ainda mais surpreendentes. uma taxa semelhante à capacidade de aprendizado das outras espécies. desde a década de 1960. até seu assassinato em 1985. Suas lições foram preparadas no modelo de experimentos contemporâneos com gorilas e chimpanzés nos EUA. para orangotangos em Bornéu. postura (de lado. grunhidos de busca por alimentos) — tudo simultaneamente. numa tentativa 31 . olhos desviados) e vocalizações (sons que imitam o ato de comer. a linguagem de sinais foi ensinada para grandes primatas em seu próprio lar pela primeira vez. O experimento indicou que as habilidades de 'linguagem' de todos os grandes primatas é.Todos os grandes primatas parecem exibir habilidades linguísticas que chegam perto daquilo que entendemos por verdadeira 'linguagem'. quase a mesma. ORANGOTANGOS (Pongo pygmaeus) No final da década de 1970.

Koko tentou até falar. fêmea de 13 meses chamada Koko em julho de 1972. os experimentos de linguagem com a chimpanzé fêmea Washoe haviam inspirado Francine Patterson a tentar ensinar uma adaptação da Linguagem de Sinais Norte-Americana. muito pouco abaixo da média das crianças humanas. Provavelmente. Ao imitar os humanos. título que mantém até hoje. os gorilas na natureza já são 'preparados' para algum tipo de linguagem. Patterson perguntou por quê. fica entre 85 e 95. é o abrigo lógico contra chuva. Koko respondeu: 'Dentes'. Quando Koko viu um cavalo com um freio na boca. O QI de Koko. uma vez. Pela primeira vez na história.de 'falar a língua dos gorilas'. testado por meio do exame Stanford-Binet. Em 6 anos. o mundo aclamava Koko como a 'primeira gorila a alcançar proficiência' em conversar por sinais.12 Atualmente. Tal capacidade linguística também prova a existência de uma faculdade cerebral para a linguagem em grandes primatas — ou seja. Hoje. a linguagem dos 'surdos-mudos' dos Estados Unidos. que os permite usar a linguagem de sinais em laboratório. O experimento se tornou o mais longo estudo em andamento sobre a linguagem dos primatas. ela também tem um vocabulário passivo com outros 500 sinais. seu vocabulário total é semelhante ao de uma criança humana de menos de 5 anos de idade. Koko apresenta um vocabulário ativo de mais de 500 sinais. Ao mesmo tempo. para um gorila. o QI de Koko seja um pouco mais alto. uma árvore. foi estabelecida uma confiança entre gorilas e seres humanos na natureza — por meio da 'linguagem' deles e não da nossa. a uma gorila ocidental das terras baixas. ela tentou telefonar 32 . vários de seus 'erros' cometidos no teste antropocêntrico foram computados incorretamente: por exemplo. fez sinais para 'cavalo triste'. As proezas de Koko são tanto divertidas quanto sérias. Porém. ou Ameslan. e não uma casa.

Koko e Michael apertavam uma tecla e a palavra escolhida era pronunciada em voz alta nas caixas de som. em particular. Koko começou a mastigar um giz de cera vermelho. achando que a pessoa que havia ligado estava morrendo). Reconhecendo o deslocamento — a habilidade inata de se referir a eventos distantes no tempo e no espaço do ato presente da comunicação — como uma característica principal da linguagem humana. Essa anedota contém uma revelação mais profunda: o uso da linguagem por um 33 . se juntou ao treinamento de Koko.(aterrorizado. como se fosse um batom. assim como descrever um estado emocional passado. o operador rastreou a chamada. primeiro no lábio superior. de 23 quilos. Patterson disse a Koko que um novo bebê estava chegando. Em dois anos. mas também com humor ou fazendo gracinhas. os gorilas Koko e Michael 'conversavam' entre si usando a Ameslan. Em 1976.13 Patterson foi mais além. Quando Koko viu Michael. respondeu por meio dos sinais: 'Errado. usadas principalmente para evitar a culpa. um gorila ocidental das terras baixas. Koko. está?' Koko respondeu por meio de sinais: 'Lábio'. Um teclado especial foi projetado para operar com um sintetizador de voz. e começou a passar o giz. Por meio da linguagem de sinais e do teclado. Por exemplo. Patterson perguntou: 'Você não está comendo o giz de cera. e depois no lábio inferior. apresenta toda a gama de emoções. 'Será que os animais usam símbolos para se referir a eventos passados ou futuros?'. ela ousou perguntar. Velho'. ela testou se Koko estava na verdade classificando eventos simultâneos ou se os recriava linguisticamente usando o deslocamento. macho de três anos e meio chamado Michael.14 O deslocamento também foi demonstrado pelas mentiras que Koko contava. Logo foi descoberto que Koko conseguia conversar prontamente sobre um incidente passado. humor e inteligência de uma criança humana.

no início do século XXI os primatologistas hoje consideram os gorilas pares intelectuais dos chimpanzés. permitindo uma sintaxe primitiva. tal uso era uma prerrogativa exclusivamente humana. Koko e seu companheiro Michael usam regularmente centenas de gestos da Ameslan. eles também incluem pronomes. Ele apresenta os números e as letras comuns do alfabeto. preposições e modificadores. Ao contrário das estimativas depreciativas dos naturalistas sobre a inteligência dos gorilas na metade do século XX. uma mão fica livre para fazer sinais. Ela digita e 'fala' simultaneamente. Koko entende que eles representam 'palavras' para objetos. CHIMPANZÉS (Pan troglodytes) O ano de 1967 foi um marco para a comunicação entre humanos e primatas. Koko usa os sinais mais deliberada e cuidadosamente. emoções e ações. quando a chimpanzé Washoe proferiu a sentença 'quero doce' na linguagem de Sinais Norte-Americana. O projeto em andamento continua revolucionando nossa compreensão da comunicação animal e da 'linguagem'.não humano para distorcer a percepção da realidade do ouvinte.15 Mesmo hoje. 27 anos após o início do experimento. Koko ainda usa ativamente seu teclado auditivo de 46 teclas. Mas há diferenças significativas entre gorilas e chimpanzés. Pacientemente. Ela também usa os sinais com mais frequência e se dirige a uma gama muito maior de atividades. Koko digita com o dedo indicador. em grande parte devido aos resultados da pesquisa de Patterson. O período 34 . Ale os experimentos de Patterson com Koko. Em comparação com seus primos chimpanzés. mas cada tecla também está pintada com um padrão geométrico simples e arbitrário em dez cores diferentes.

e dois anos mais tarde. concluíram com unanimidade que Washoe e outros grandes primatas não possuíam uma linguagem como nós conhecemos. Seus resultados foram impressionantes. gritos agudos. em produzir um discurso articulado. e inspiraram Francine Patterson a usar a Ameslan com a gorila Koko. que a dificuldade dos chimpanzés em adquirir a linguagem está em sua incapacidade de controlar os lábios e a língua — ou seja.entre as décadas de 1960 e 1980 foi a grande era dos experimentos em comunicação entre humanos e chimpanzés.17 Se no início da década de 1970 os linguistas. em Atlanta. Lana 'digitou' declarações racionais e intencionais num teclado arbitrariamente codificado. Washoe aprendeu 34 sinais da Ameslan nos primeiros 22 meses de treinamento. já havia adquirido um total de 132 sinais. Além disso. quando também instigaram Duane Rumbaugh a colocar a chimpanzé Lana em frente a um computador no Centro Regional de Pesquisa de Primatas de Yerkes. que ela usava de uma maneira semelhante à usada por crianças humanas nos primeiros estágios de aprendizado da fala. principalmente devido aos resultados dos experimentos de Patterson com os gorilas Koko e Michael. Allen e Beatrix Gardner. Os Gardners foram os primeiros a usar a linguagem dos sinais com os primatas. em 1970. usavam símbolos de plástico ou palavras faladas e haviam gerado apenas um vocabulário extremamente pequeno. no final da década de 1970. Em contraste.16 Ficou evidente para os treinadores de Washoe. permitindo apenas as vocalizações mais simples através da laringe: grunhidos. Experimentos anteriores. com base apenas nas pesquisas feitas com chimpanzés. choramingos e assim por diante. levados a cabo durante anos com as chimpanzés Viki e Sarah. a faringe dos grandes primatas impede o som aspirado dos humanos. eles ou se retrataram totalmente ou modificaram 35 . na Geórgia: eventualmente.

sons circunstanciais e sutis. pareciam ser dotados de alguma forma de 'capacidade de linguagem'. se é que há uma influência. já estavam presentes. uma característica do cérebro considerada essencial para a linguagem humana — a assimetria do planum temporale localizado bem acima do ouvido — foi descoberta também no cérebro do chimpanzé. enquanto outros. Koko pode ter sido superinterpretada a partir de pré-concepções humanas. Muito recentemente. O papel exato dessa assimetria na recepção e/ou produção de linguagem ainda precisa ser determinado. Experimentos de comunicação entre humanos e primatas feitos entre as décadas de 1960 e 1980. Porém. Outros chimpanzés podem ter respondido a sugestões corporais. ainda não se sabe como isso pode influenciar na capacidade de linguagem dos chimpanzés. uma questão ainda permanece: a comunicação entre humanos e primatas prova que os grandes primatas são capazes de usar a linguagem de modo semelhante aos humanos? Talvez Washoe estivesse sinalizando associações vagas esperando uma recompensa. usaram linguagens simbólicas inventadas. alguns deles de maneira notável. e ainda mais características consideradas humanas com os 36 . o que provou que seus caminhos neurais para a linguagem. O pessimismo recaiu sobre todo o campo e os fundos de pesquisa foram extremamente reduzidos. nos quais alguns primatas aprenderam a linguagem de sinais. Os grandes primatas aprenderam sim a trocar informações com seus treinadores humanos. porém. de alguma forma não específica. Mas tudo mudou com o bonobo Kanzi. BONOBOS (Part paniscus) Dividimos 99% da nossa constituição genética com os chimpanzés. e não a uma linguagem real.significativamente sua avaliação: os grandes primatas. admitiu a maioria dos linguistas. demonstram que não há uma diferença real se são usados gestos ou símbolos.

Raramente um primata chegou tão perto de produzir um léxico e uma sintaxe que seres humanos conseguem identificar e entender prontamente. Hoje.18 O bonobo Kanzi foi ensinado a se comunicar com os seres humanos por meio de um 'lexigrama. Será que essa 'linguagem natural' dos bonobos na natureza pode indicar os caminhos neurais que permitem que os bonobos usem a linguagem de uma maneira talvez mais familiar para os seres humanos? Experimentos recentes feitos pela norte-americana Sue Savage-Rumbaugh. Kanzi foi até o culpado. há pelo menos vinte gestos e chamados que demonstram a vontade de copular. Por exemplo. aos quais ele responde usando o lexigrama. o lexigrama também consegue ativar eletronicamente uma resposta vocal para Kanzi.chimpanzés pigmeus. os bonobos. Ela pediu para Kanzi recuperá-las. postura. Na natureza. 'murmurou' alguma coisa em seu 37 . não apenas confirmaram o fato. no sentido de que suas respostas são motivadas em vez de condicionadas: Kanzi é 'estimulado' a usar símbolos de maneira espontânea e criativa para se comunicar com humanos e outros prima-tas. expressões faciais.19 Exemplificando. aclamada pela comunidade científica. orientação) combinada com vocalizações simultâneas. mas também revelaram uma dimensão até então ignorada da capacidade linguística dos grandes primatas. Kanzi parece estar no limiar do uso da 'linguagem' do modo que os seres humanos compreendem o conceito. Após muitos anos nesse ambiente de treinamento artificial. os bonobos foram observados se comunicando individualmente e de maneira constante uns com os outros por meio da linguagem corporal (gestos. Kanzi também aprendeu a entender perguntas. um dos chimpanzés do centro de pesquisa havia roubado as chaves de Savage-Rumbaugh. um teclado com símbolos que representam conjuntos de palavras ou ações. declarações e comandos de voz em inglês. Kanzi é diferente de um 'primata treinado'.

para a satisfação da maioria dos especialistas. na verdade. talvez interpretando uma linguagem onde há. Kanzi também demonstra reconhecer vozes humanas no telefone. hoje em dia. embora suas respostas a mensagens vocais sejam necessariamente eletrônicas ou simbólicas. Os acertos de Kanzi foram superiores aos de crianças de 2 anos de idade. Atualmente. que primatas podem compreender e usar a linguagem espontaneamente do mesmo modo que uma criança: por meio da audição e relação das palavras faladas a objetos. 660 solicitações inéditas. e consegue sinalizar respostas apropriadas a essas mensagens telefônicas. símbolos e ações que elas representam. Num teste recente. Os chimpanzés estão aprendendo a usar o lexigrama de Kanzi de maneira semelhante. Kanzi parece ser capaz de responder e produzir linguagem de maneira espontânea com a mesma proporção inata de uma criança de dois anos e meio. do tipo 'coloque a maçã no chapéu'. uma 38 . Savage-Rumbaugh provou.ouvido. crianças humanas com dificuldades de aprendizado estão usando e se beneficiando de uma versão adaptada do lexigrama do bonobo. Ele aparenta compartilhar uma comunicação vocal parecida com a dos humanos com seus treinadores. Kanzi está usando o lexigrama com 256 símbolos geométricos. e voltou com as chaves.20 Haverá uma 'linguagem' verdadeiramente não humana? Ou estaremos nós apenas 'concedendo' a linguagem a não humanos. foram feitas para Kanzi e para crianças. Se a capacidade linguística de um ser humano de dois anos de idade é chamada de 'linguagem'. então o bonobo Kanzi está 'falando' conosco. Um resultado curioso do experimento é que.

21 Porém. os animais estão falando para nós. de uma maneira significativa.22 Contudo. que aceita que os animais usem sim 'algum tipo de linguagem' na 39 . na segunda metade do século. nós não o entenderíamos'. por uma crença exagerada na equidade intrínseca dos animais. A comunicação dos grandes primatas na natureza é significativamente diferente da comunicação entre humanos e primatas em laboratório: o primeiro compreende uma rica combinação de linguagem corporal e vocalizações. o resultado dos experimentos com humanos e animais é uma comunicação espontânea e criativa — ou seja.não linguagem? Como escreveu o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein: 'Se um leão pudesse falar. Através de caminhos neurais preexistentes. a comunicação entre humanos e animais não forneceu quase nenhuma informação sobre o que os animais comunicam uns aos outros em seu ambiente natural. A ignorância e a arrogância humana em relação à maioria das espécies de animais até o meio do século XX foi substituída. e conosco. Os humanos podem ensinar papagaios cinzentos e bonobos a se comunicar de modo humano. uma grande quantidade de testes controlados demonstrou. porém o conteúdo das informações trocadas ainda é desconhecido. a troca vocal ou por meio de sinais de informações com significado. enquanto o segundo ocorre era um ambiente humano artificial que estimula os primatas a responderem por meio de símbolos humanos ou palavras. Essa dialética irracional encontrou. que embora o meio seja artificial e treinado. É possível que primatas transmitam mensagens complexas. um equilíbrio mais racional. atualmente. mas papagaios cinzentos e bonobos não estão ensinando seres humanos a se comunicarem de maneira não humana. talvez além de qualquer dúvida. postulando inclusive intelectos proporcionados.

Para esses animais. Talvez. Em 1992. Quando planejamos várias maneiras de extrair linguagem dos animais. Outros primatas ensinaram voluntariamente a membros de sua espécie. Certamente. se aproximar do de crianças muito pequenas. o estudo da comunicação e 'linguagem' animal nos permite especular de maneira mais inteligente sobre a evolução da linguagem humana. uma vez adquirida. deforma espontânea e criativa. precisa-se aceitar que a questão da inteligência comparativa de não humanos pode simplesmente não valer a pena. e que o limite (definido por humanos) da inteligência de tal comunicação entre humanos e animais pode. a apreciação seja inata. necessariamente. A maioria das pesquisas de 40 . Por outro lado. mesmo sem estímulos. não é coincidência o fato de os animais que aparentam ter uma 'linguagem' mais próxima àquela como concebemos — embora a vocalização tenha sido alcançada apenas eletronicamente — serem também os geneticamente mais próximos de nós. modos de comunicação aprendidos com os humanos. antropocêntrico. O próprio conceito humano do que constitui a linguagem é. com humanos e não humanos por meios artificiais e/ou não naturais. incluindo os filhotes. é reconhecida como um elemento essencial de interação social. A linguagem que os não humanos aprendem e usam ativamente não é irrelevante nem efêmera para esses animais. que eles são capazes de ser treinados para se comunicar. estamos procurando a linguagem humana. Bruno continuava usando o Ameslan. No início da década de 1970. a linguagem artificial. geralmente as limitamos a artifícios humanos. o projeto foi encerrado e Bruno foi levado para um laboratório médico.23 Mais importante. o chimpanzé Bruno aprendeu o Ameslan. Não estamos buscando linguagem em animais.natureza. em 1982. inspirando os técnicos do laboratório a aprender a linguagem de sinais para se comunicar com ele. às vezes.

O que diferencia os humanos? Não podemos mais ser identificados como a espécie que constrói ferramentas. que realmente importa para a sobrevivência e prosperidade na natureza. a linguagem pode ser entendida como o meio pelo qual se transmitem pensamentos complexos por símbolos arbitrários — expressões vocais gramaticais ou sua expressão gráfica — numa sintaxe significativa. Talvez seja melhor considerar os animais similares a administradores — assessores. centrado no humano. uma reconsideração dessa antiga pressuposição. Concluindo com sua definição mais estrita. também em laboratório. e não o que ele diz. Talvez os humanos sejam animais que simplesmente desenvolveram uma 'comunicação mais elaborada' que rendeu benefícios sem precedentes para seus inovadores. Embora a humanidade tenha até então assumido que essa definição é preenchida apenas pelo Homo sapiens. mesmo as mais objetivas. Sob esse aspecto. as revelações dos experimentos feitos com humanos e animais forçaram. por meio de uma variedade de meios comunicativos. recebem a mesma consideração que expressões vocais e habilidades no teclado. é admirável que pesquisadores como Patterson e Savage-Rumbaugh também considerem o conteúdo semântico de olhadelas. cria um meio artificial. a linguagem na forma de comunicação 41 . posturas e orientações como 'modos comunicativos' que. Essa interação entre administradores e assessores poderia então explicar a evolução da comunicação animal em geral: é o que o comportamento comunicativo conquista. que tem pouca relação com as linguagens naturais. que tentam. o grupo e a espécie. fazer com que outras criaturas obedeçam de modo a beneficiar o indivíduo. Nesse processo evolucionário cada vez mais elaborado.'linguagem' entre humanos e animais. gestos. Parece que não temos mais a patente da linguagem. pelo menos.

vocal não apenas como a base de toda a interação social. 42 . mas também como veículo de pensamentos sofisticados — pelo menos em termos comparativos — parece ter surgido naturalmente em uma única família. a dos hominídeos.

O cérebro do humano moderno é duas ou três vezes mais volumoso do que qualquer outro primata existente no planeta.2 Primatas falantes Nossos ancestrais primatas evidentemente possuíam os exatos caminhos neurais necessários para variados modos de expressão comunicativa de maneira a alcançar uma transmissão de informação adequada. Porém. eles também eram incapazes de controlar a expiração. os lábios e a língua dos grandes primatas careciam de controle coordenado. ele confere maior capacidade de usar e posteriormente elaborar a linguagem falada e raciocinar com ela. A história da linguagem humana é também uma história do cérebro humano e suas habilidades cognitivas. as duas caminham lado a lado. É uma história antiga. 43 . sua 'fala provavelmente não seria em nada semelhante no modo como a entendemos hoje. Mesmo se esses grandes primatas fossem fisicamente aptos a falar.

chimpanzé ou bonobo moderno. Forçado pelas mudanças do clima na Terra a se adaptar para sobreviver. um Australopithecus africanus de três milhões de anos atrás. provavelmente como resultado de dietas diferenciadas.Entre sete e cinco milhões de anos atrás. sua capacidade cerebral aumentou proporcionalmente ao seu peso corporal. Nenhum grande primata jamais exibiu a coerção social necessária para caçar nas savanas (embora os chimpanzés se juntem em bandos para caçar macacos na floresta).1 Dois principais gêneros de hominídeos se distinguiram: o gênero Australopithecus e o gênero Homo. o hominídeo Australopithecine — presente no Grande Vale do Rift. áridas e abertas savanas.2 A linguagem vocal humana parece ter surgido pela primeira vez com o gênero Homo. os hominídeos se separaram das outras espécies de primatas primitivos. Hoje em dia. devido à dieta altamente calórica. a 44 . foi na savana africana que o Australopithecine se desenvolveu. com períodos de caça mais longos e cobrindo distâncias maiores. Segundo alguns especialistas. por exemplo. permitindo maiores possibilidades de coleta de comida e a caça com duas mãos livres.1 milhões de anos — se tornou mais carnívoro que seus primos primatas e desenvolveu o bipedalismo (capacidade de andar sobre duas pernas) com uma postura ereta. ainda assim. teria demonstrado uma capacidade linguística similar à de um gorila. As florestas africanas continuaram a se retrair. na África. na África há. Ao dominar o bipedalismo. os australopithecines se tornaram grandes primatas andantes. como será explicado a seguir. e esses robustos Australopithecines se ajustaram física e mentalmente às novas. eles desenvolveram uma maior cooperação entre pequenos bandos. Porém. pelo menos 4. mas a maioria dos especialistas concorda em afirmar que eles não eram grandes primatas falantes.

o pasto cobriu extensões maiores. isso permitiu que agrupamentos cada vez maiores e mais complexos de habilis se desenvolvessem. pertence à espécie Homo habilis. com 2.maioria dos especialistas assume que uma espécie do gênero Australopithecus — ou os africanus do sul da África. Por sua vez. conseguindo excedentes ocasionais de comida. 45 . exigindo sociedades mais elaboradas e favorecendo maior propagação entre os membros com habilidades mentais superiores. as florestas tropicais encolheram. O habilis não fabricava armas.6 milhão de anos atrás. Com um cérebro significativamente maior. essencial para a produção da fala e da linguagem de sinais. uma região do cérebro. Porém. como martelos de pedra.4 milhões de anos. (Porém. o habilis fabricou ferramentas de pedra simples. O habilis surgiu quando o clima da África mudou novamente: ele ficou mais seco e frio. ele comia restos de presas de carnívoros mais fortes e velozes. Com uma capacidade cerebral de 400 cc a 500 cc.) O mais antigo espécime Homo já identificado. o habilis prosperou até cerca de 1. o Homo habilis possuía outros atributos inexistentes no Australopithecus e necessários à sobrevivência nesse novo ambiente — membros modernos. é igualmente possível que o Homo seja um gênero não relacionado a ele. em termos evolucionários. Apenas no crânio do Homo habilis foi encontrada pela primeira vez a saliência da área de Broca. os Australopithecines eram evidentemente inaptos. cerca de 2. para se adaptar a essas mudanças ambientais. O cérebro maior do habilis permitiu que bandos maiores sobrevivessem. com capacidade entre 600 cc a 750 cc.5 milhões de anos atrás.3 O habilis poderia possuir os caminhos neurais para uma linguagem muito rudimentar. mais longos — e assim. ou os afarensis do leste da África — originou uma linhagem que eventualmente evoluiu para 0 nosso gênero Homo. O habilis também foi a primeira criatura a controlar o fogo.

ignorados na busca pelas origens da linguagem humana. Os atributos físicos necessários para a produção do discurso vocal foram. que é o arranjo sistemático de sons vocais significativos. parecem ter evoluído bem rapidamente entre 1. Parece que há 1. que ocorre após o primeiro ano de vida (a laringe dos grandes prima-tas não desce). indicando que sua laringe ainda não havia evoluído para a dos humanos adultos modernos. Mesmo se os caminhos neurais que permitem a fala estivessem presentes.6 milhão de anos. a fala humana não devia ser fisicamente possível naquela época. o Homo ergaster. ainda preservava o pequeno buraco na vértebra da caixa torácica através do qual passa a medula espinhal. Além disso. sua laringe ou caixa vocal ainda era parecida com a das crianças humanas. que são anatomicamente incapazes de articular a maior parte dos sons humanos até a descida da laringe na garganta. capazes apenas de padrões de fala curta e lenta e não modulada. necessários à fala articulada humana. os órgãos físicos necessários a ela não estavam. desse modo. Os atributos físicos. geralmente. É dessa última data que provém o mais antigo fóssil de hominídeo que indica um uso possível do discurso vocal.Porém. Um buraco tão pequeno torna as expirações necessárias à fala incontroláveis: há muito pouco tecido nervoso.6 milhão e 400 mil anos atrás. A ciência só começou a investigar essa questão a sério nas últimas duas décadas do século XX. O crânio do antigo Homo habilis mostra apenas uma leve flexão na sua base. Os nervos dessa região controlam os músculos da caixa torácica usados especificamente na expiração. uma espécie de hominídeo que sucedeu o habilis. idêntico ao pequeno buraco que hoje também é encontrado em primatas não humanos. Essa 46 . As duas espécies mais antigas do Homo eram. e não uma fala articulada.

HOMO ERECTUS A ciência moderna reconhece atualmente pelo menos três espécies essenciais do gênero Homo: habilis. Essa espécie de hominídeo pode ter evoluído na África cerca de dois milhões de anos atrás. molar e fêmur de um humano na ilha de Java. que permitiu a migração dos grupos. primeiro chamado de 'homem de Java'. a descoberta dos fósseis do topo do crânio.000 anos atrás. Do pescoço para baixo. mais alto. O erectus era mais magro. Um modelo atualmente preferido coloca o Homo erectus como o primeiro hominídeo a deixar a África. datado de 700. provou que um hominídeo. Na década de 1890. e que tenham realizado o feito apenas porque haviam elaborado. seguindo animais selvagens maiores e deixando para trás uma trilha de machados minuciosamente manufaturados. O surgimento do erectus assinalou um grande avanço na evolução dos hominídeos. Assim. habitava o que na época era o sudeste do subcontinente asiático de Sunda.possibilidade surgiu com uma espécie de hominídeo totalmente nova: o Homo erectus. É possível que apenas duas espécies humanas tenham vivido além da África: o erectus e o sapiens. mais rápido e mais esperto que todos os outros hominídeos antes dele. seguindo manadas pelos pastos africanos durante uma expansão interglacial. por meio de uma fala rudimentar. quase totalmente carnívora. tornando-se. o erectus ostentava um corpo forte. ele lembrava com precisão os humanos modernos. na Indonésia. um alto grau de organização social. erectus e sapiens. Descobertas posteriores permitiram a identificação de uma nova espécie: o Homo erectus. aos poucos. nesta ordem evolucionária. sua cabeça apresentava sulcos 47 .

protuberantes na área da sobrancelha. (Ou então seu ancestral Homo emigrou antes dele. e sua testa se projetava para atrás. Alguns especialistas acreditam que a energia extra fornecida por sua dieta predominantemente carnívora produziu um cérebro maior: 800 cc a 1. provavelmente devido à ausência de fala e inteligência. o limite imaginário que separa Sunda da ilha de Lombok e divide a fauna da Ásia e da Austrália. antes da elevação do oceano — cerca de dois milhões de anos atrás. O cérebro maior permitiu que o erectus inventasse de uma maneira sem precedentes na natureza até então. quase ao mesmo tempo de seu surgimento como espécie. O erectus fabricou o primeiro machado de mão (o mais antigo sítio arqueológico de machados de mão do mundo fica em Konso-Gardula. Com armas versáteis e bons suprimentos de carne. Na verdade. na Etiópia. ferramentas de pedra e restos dietéticos descobertos em 1997 na ilha Flores ao leste de Lombok — do outro lado da 48 . Provavelmente também usava ossos e madeira.000 cc (Homo sapiens: 1. o erectus se tornou evidentemente o primeiro hominídeo globalmente adaptado. emigrando depois para Java. a linha de Wallace representava um divisor de águas que delineava as diferentes capacidades e alcance do Homo erectus e do Homo sapiens} Porém. conseguido cruzar a linha de Wallace. Até 1997. e data entre 1. até então. Aparentemente. o erectus emigrou da África bem cedo. A conexão com Java é essencial. e evoluiu para erectus em outro lugar. no antigo subcontinente de Sunda. e de volta para a África. acreditava-se que o erectus nunca havia.) Parece que o erectus já estava instalado em Java — ou seja. como propõe uma outra teoria.37 milhão de anos).400 cc).100 cc a 1. Ele matava a presa com lascas e tijolos feitos de pedras.7 e 1.

datados entre 900.000 anos atrás. (Mais de uma década antes. A implementação social de um planejamento complexo demanda um alto grau de cooperação social. Parece apropriado concluir a partir das evidências da ilha Flores que já há quase um milhão de anos. Isto já está bem além do 'primeiro passo' da humanidade em direção a um pensamento simbólico. como pode ser testemunhado em suas múltiplas conquistas através do globo. mesmo nas épocas de níveis marítimos mais baixos. Porém. acontecerá isso e aquilo'. Mas expressões vocais longas e complexas eram anatomicamente impossíveis.000 anos atrás.5 49 . um paleontólogo holandês sugeriu que os humanos haviam causado ali a extinção dos stegodons pigmeus cerca de 900. A admissão deriva do reconhecimento da capacidade de organização do erectus.000 e 800. O buraco na vértebra mais baixa através da qual passa a medula espinhal ainda era pequeno demais para que ele pudesse controlar a expiração. talvez uma sintaxe condicional estivesse realmente se desenvolvendo.) Planejamentos complexos exigem processos mentais complexos. Isto implica o uso de uma linguagem que permita uma sintaxe condicional (frase significativa e sentença sequencial): 'se fizermos isto. Apenas recentemente os especialistas cogitaram a ideia de que o erectus poderia ter sido capaz da linguagem vocal.linha de Wallace -. parecem demonstrar que o erectus era inteligente e socialmente bem organizado o suficiente para construir balsas de bambu e cruzar o estreito de dezessete quilômetros que separa Sunda de sua vizinha oriental. Expressões vocais curtas e significativas eram possíveis. é improvável que a linguagem do erectus tenha sido a fala como a conhecemos. o Homo erectus era capaz de expressar tal forma de proposição condicional em sua fala.

datado de talvez 1. O peso cumulativo desses indícios 50 . provavelmente de erectus. foi encontrado em 1991. Dez mil ferramentas de pedra.Aparentemente o Homo erectus povoou todo o Velho Mundo (ilustração I). e aparecem quase anualmente nos registros arqueológicos. A fabricação de ferramentas não exige linguagem. No início de 1996. uma grande parte do topo do crânio de um (provisoriamente identificado) erectus que havia sido encontrado a 80 quilômetros a sudeste de Roma.6 milhão de anos (o dado é contestado por vários cientistas ocidentais). e seu cérebro é significativamente maior que o do erectus clássico. recentemente descobertos em Ubeidiya em Israel.000 anos. incluindo muitos machados de mão. O maxilar inferior de um erectus. Até a década de 1990. foi montado e descobriu-se que ele datava de mais de 800. perto do Mar da Galileia foram datados de 1. e o dobro de ferramentas de pedra. acreditava-se que os humanos não haviam entrado na Europa antes de 500 mil anos atrás. indícios da presença do erectus no local datam de um tempo muito anterior a esse. datando de pelo menos 800. embora a travessia do estreito de Gibraltar como uma 'migração de grupo' — do mesmo modo que o cruzamento da linha de Wallace na Indonésia — a exija.000 anos. foram descobertos cerca de 100 fósseis. A semelhança desses fósseis com os fragmentos do erectus encontrado na Argélia na década de 1950 sugere que o erectus efetuou travessias marítimas semelhantes do litoral do norte da África até a Sicília e à Itália continental mais ou menos na mesma época. perto de Ceprano.4 milhão de anos atrás. ele não tem a crista que percorre o centro do crânio. É claro que isso estabelece uma relação imediata cora a história da linguagem humana na Europa. no norte da Espanha. Porém. Em duas temporadas recentes no sítio arqueológico de Gran Dolina. na Serra de Atapuerca. na República da Geórgia.

era uma caça cooperativa. Porém. pelo menos. madeira e pedras. por um curto período. Mais recentemente. pelo menos. como auroques e cavalos.6 Esses primeiros europeus parecem surpreendentemente sofisticados quando comparados aos primeiros hominídeos. perto de Schöeningen. os humanos primitivos estavam caçando animais grandes e perigosos. Outro sítio.000 anos. Em 1995.atualmente sugere que o Homo erectus deve ter entrado na Europa por vários pontos — sudoeste.000 anos. sul e leste — mais de um milhão de anos atrás. perto de Jena. foram encontradas cinco longas lanças com 400. incluindo o de esmagar e espalhar restos humanos. a fala é essencial. Embora seu descobridor veja nesses talhos símbolos gráficos primitivos. a leste de Magdeburgo. Para planejar. nem todos os paleontólogos concordam. Bilzingsleben. numa escala bem acima do modo como os chimpanzés caçam macacos na floresta. como os antigos erectus africanos. coordenar e emboscar a presa dessa maneira. parece ter sido um povoado permanente de erectus. com lanças de madeira numa elaborada orquestração. há. Não era o mesmo que comer restos. O sítio arqueológico de Boxgrove no sudeste da Inglaterra demonstra isso. 500 mil anos. O sítio forneceu a maior coleção de artefatos feitos com ossos do mundo que indicam uma presença anterior de oficinas para a fabricação de artefatos de ossos. entre milhares de ossos de cavalos abatidos e muitos restos de fogueiras. há. uma vez que o 51 . com 'casas' de 3 a 4 metros de largura e uma grande área pavimentada que deve ter servido para rituais de grupo. 412. Vários ossos de Bilzingsleben parecem exibir incisões intencionais. outros sustentam que qualquer intencionalidade humana seria improvável. revelando linhas cortadas em intervalos regulares. a Alemanha revelou a sofisticação da sociedade dos erectus na Europa central há quase 500 mil anos.

1 Alcance cronológico do Homo erectus (o mapa apresenta os litorais modernos). .

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Homo sapiens primitivos ou uma nova espécie de Homo. Cerca de 350. a qual. nessa época. sua transmissão para outras espécies só poderia 54 . indicando uma maior liberdade genética do que se estimava até então. Uma teoria recente propõe que a fala articulada humana possivelmente evoluiu primeiro no ríspido norte europeu e só depois foi transmitida para outras espécies de Homo em outros locais. ir embora ou perecer. mas sua altura era similar à nossa. a Europa abrigava muitas espécies diferentes de hominídeos. Porém. Para sobreviver na Europa durante as Eras Glaciais. O clima ríspido da Europa forçava uma dieta quase exclusivamente carnívora. Os humanos tornaram-se escassos. Um crânio possuía um cérebro tão grande quanto o de um humano moderno. tornava urgente planejamentos. por sua vez. se a linguagem é geneticamente determinada. As características faciais desses humanos primitivos lembravam os primeiros Neandertais (veja mais à frente). Restos de pelos menos 32 humanos de 300.000 anos atrás foram descobertos em 1993 na Serra de Atapuerca. o norte da Europa foi tragado pelas geleiras.pensamento simbólico é geralmente aceito como uma característica da mente humana moderna. As diferenças entre os fósseis também sugerem uma diversidade 'racial' significativa entre as populações de erectus. migrantes de latitudes meridionais mais quentes tiveram de desenvolver redes sociais mais complexas. coordenações e organizações ainda mais complexas: as sociedades de hominídeos primitivos europeus chegaram a designar pequenos grupos de caçadores que se separavam do grupo principal durante longos períodos. Não se sabe se essa população era composta de Homo heidelbergensis tardios.000 anos atrás. Como resultado de migrações sucessivas. devido às enormes dificuldades apresentadas pela caça naquele clima. e migraram para o sul atrás de climas mais quentes.

000 anos atrás seja verdade. uma forma de fala articulada foi aparentemente se desenvolvendo pela primeira vez.000 anos atrás. e para a Ásia. Talvez o erectus tenha coexistido com o recém-surgido sapiens. onde substituíram os Neandertais.000 e 100. O Homo erectus 'deixou' de existir? Recentemente. isso faz essa teoria parecer improvável. Com a espécie erectus. talvez originada há 900. na Indonésia. É possível que os humanos já estivessem usando nomes para identificar indivíduos. declarar.ocorrer por meio de acasalamentos híbridos.7 Ou seja. onde substituíram os mais antigos Homo erectus. uma versão modificada da teoria da 'Saída da África para a substituição do Homo erectus e o aparecimento do Homo sapiens nessa região.000 anos atrás. que o crânio dos erectus simplesmente evoluiu por conta própria para um crânio parecido com o dos humanos modernos — ou como resultado de acasalamento híbrido com a chegada do sapiens menos de 50. Porém. uma coleção de fósseis de erectus no sítio arqueológico de Ngandong. Caso o suposto uso da linguagem articulada em Sunda. como fez recentemente um neurocientista.000 anos atrás (embora a característica que defina uma 'espécie' seja a incapacidade de se acasalar com outra). as descobertas mais recentes de fósseis ainda parecem apoiar. ele similarmente contradiz a sugestão.000 anos atrás. Alguns especialistas acreditam que isso pode ser explicado ou como uma evolução convergente — ou seja. e depois se expandiu para o Oriente Médio e a Europa. que um primitivo ritual de casamento plantou 55 . Os crânios de Ngandong exibem abóbadas mais altas que os mais primitivos crânios de erectus de Java ou da China. Sob esse aspecto. o sapiens moderno surgiu na África entre 150. que permitiria a travessia da linha de Wallace 900. pelo menos. foi redatada para menos de 50. possivelmente permitindo planejamentos e organizações complexas.000 anos. 30.

o simbolismo na mente do hominídeo. Ela é um processo dinâmico. aceita-se que a linguagem vocal humana não deriva diretamente de alguma característica pré-humana. não apontam para o uso humano da linguagem. uma ligação entre um objeto físico e uma palavra falada ou sinalizada como 'banana' ou 'teclado' — não é simbólica. não constitui uma 'palavra embrionária. Geralmente. tais quais as usadas nos experimentos de comunicação entre humanos e animais. na realidade. foi um processo demorado de evolução anatômica conduzido e alimentado por uma série de fatores externos. Isso ocorre porque a linguagem vocal humana evoluiu como uma função distinta e autônoma com os órgãos de fala e cérebro humanos. A linguagem vocal humana também não lembra nenhuma forma conhecida de comunicação animal na natureza: o alerta 'fogo!' dos grandes primatas e outros animais. simbólico — não associativo — e totalmente antropocêntrico. por exemplo. mas simplesmente associativa. A linguagem vocal humana é diferente. Que esse processo já houvesse sido iniciado especificamente pelo erectus. Assim. e foi a única fonte da linguagem humana. Quais fundamentos linguísticos o Homo erectus poderia ter desenvolvido há quase um milhão de anos? Deve-se lamentar a improbabilidade de que os processos cerebrais dos primeiros hominídeos possam ser restaurados. E a associação indexical — ou seja. as vocalizações ou sinais que reproduzem essas associações. 56 . é ignorar a complexidade e a antiguidade do desenvolvimento da fala humana que. talvez seja ainda mais insinuado pelas capacidades físicas e neurais de fala que eles dividiam com os posteriores neanderthalensis (Neandertais) e sapiens (humanos modernos) e a relativa sofisticação de suas sociedades baseadas na fala: uma sofisticação que aponta para ou uma evolução convergente ou uma origem comum.

significando o conjunto de unidades individuais de comunicação) deve ser compartilhada por todas as criaturas. A classe básica do 'léxico' (entendido aqui em seu sentido mais amplo. A linguagem da criança humana carece de sintaxe. ocorrendo. Provavelmente. um léxico vocal básico foi incorporando uma morfologia simples: por exemplo.Porém. a dança das abelhas e a linguagem vocálica dos hominídeos. A gramática foi surgindo a partir de sons até então indistinguíveis. a evolução da capacidade cerebral resultante da dieta. seu léxico também não pode ser definido em termos de outras palavras. das migrações e/ou das mudanças climáticas. no caso das formigas. Esses universais poderiam estar presentes nos primeiros estágios do desenvolvimento da linguagem dos hominídeos. (Essa 57 . (O contra-argumento de que as danças das abelhas certamente têm algum tipo de sintaxe começaria o problema. uma palavra central como 'caça poderia agora se tornar 'caçado' para expressar o passado. No centro da história do surgimento da linguagem vocal humana estão duas questões fundamentais: como apareceram as 'palavras' e como a 'sintaxe' surgiu?8 Talvez essas duas questões possam ser mais bem respondidas por meio de uma investigação dos universais linguísticos.) Cerca de um milhão de anos atrás mudanças significativas nas vocalizações dos hominídeos primitivos foram. e manifestada por meio de diferentes modos de expressão: os feromônios. da mesma forma que todos os não humanos carecem de sintaxe em seus vários modos de comunicação. Porém. pode-se observar que o léxico vocal da linguagem de uma criança humana não se combina em estruturas mais longas. a implicação de que o cérebro humano só poderia ter evoluído em conjunção com a fala é improvável. evidentemente. talvez como mais uma consequência. coreografia não substitui articulação.

Pode-se deduzir os universais pré-sapiens nos tipos de universais encontrados nos sapiens de hoje. está a percepção de que [p t k] são 'normalmente' os pontos de articulação básicos para pausas (consoantes que encerram uma obstrução total das vias respiratórias) e que outras pausas geralmente não são incluídas à língua a não ser que [p t k] já estejam presentes. Os universais não implicativos não exigem condições prévias. Ele está convencido de que se. ou sistema de sons. então pode-se 'esperar' que preto e branco já estejam presentes nelas. por exemplo. talvez. Entre os universais tendenciais. digamos.) Uma fonologia. o reconhecimento de que todos os sistemas linguísticos contêm pelo menos três vogais e que preto e branco devem estar presentes entre o conjunto de cores. mas também podem ser absolutos ou tendenciais: isso é observado no aparente universal de que todas as línguas humanas contêm pelo menos três vogais. ter aparecido. O linguista norte-americano Noam Chomsky propôs que crianças possuem uma 'predisposição inata para selecionar certos princípios formais de construção de frases em línguas naturais e não em outras. fosse construída uma língua artificial que violasse vários desses princípios.é uma analogia meramente ilustrativa. Universais implicativos só são verdadeiros quando existem certas condições: por exemplo. se vermelho é uma cor em determinada língua. Foi nessa época que os primeiros universais linguísticos específicos poderiam. então essa língua simplesmente não poderia ser aprendida ou adquirida com a 58 . estão. permitiu distinções fonéticas (som falado) que se tornaram distinções fonêmicas (a menor unidade de som): uma palavra como 'cão' poderia agora ser distinguida de uma palavra como 'mão'. Entre os vários universais absolutos. mais sofisticada talvez decorrente de um melhor controle verbal. Aparentemente há quatro tipos básicos de universais linguísticos.

embora as cores sejam separadamente codificadas como 'amarelo/azul'. para um léxico linguístico ou palavras constituintes. O universal preto/branco mencionado acima não é verdadeiramente um 'universal de cores'. (Estudos recentes mostraram que mesmo o Homo neanderthalensis era anatomicamente incapaz de produzir especificamente essas três vogais do Homo sapiens. do Homo sapiens). Também deve-se incluir a informação de que as línguas que possuem apenas três vogais apresentam apenas o [i] (pronunciado i). [a] (a) e [u] (u). mas meramente um produto do processo perceptivo do cérebro humano que pode registrar o brilho em termos de 'negritude' e 'brancura'. e assim por diante. Também há vários problemas graves com o conceito 'inato'. Porém. Do mesmo modo. Vamos passar da sintaxe.) Pode-se perguntar 'por quê?'.'facilidade e eficiência' que uma criança normal demonstra ao aprender uma língua natural. Vogais adicionais 59 .9 Mais significativamente. também é formalmente inadequado simplesmente declarar que há um mínimo de três vogais em todas as línguas humanas modernas (ou seja. a hipótese de Chomsky não está sujeita à verificação empírica direta. o conceito parece exigir uma aceitação passiva de uma qualidade indefinível e inexplicável — 'inatismo' — em vez de identificar características linguísticas universais derivadas do processo dinâmico do pensamento relacionadas à capacidade de percepção. demanda social e processamento de informações. A resposta seria que essas três vogais fornecem a máxima projeção acústica. para o estabelecimento das seis cores focais do arco-íris as quais todos os grupos linguísticos parecem responder de variadas maneiras. cognição. da construção das sentenças. para ampliar a discussão sobre os universais (embora deva-se notar que a posição de Chomsky diz respeito apenas à sintaxe). 'vermelho/verde.

a de Homero. Talvez o Homo erectus já estivesse elaborando.serão posicionadas uniformemente entre essas três voga is básicas de acordo com o papel dinâmico da separação de vogais. se conotativos. por exemplo.10 (Marcação significando qualificação por meio da identificação de características distintas. os significados são os únicos universais linguísticos humanos óbvios: todos os seres humanos precisam abrir a boca para falar. todas as línguas humanas possuem um verbo (ação ou modo) e um 60 . Um outro exemplo. o cérebro humano registra uma unidade específica antes de um grupo (conjunto). O que mentalmente se pertence é então unido sintaticamente. formas semelhantes de processar a linguagem que contivessem os essenciais linguísticos humanos. As sintaxes artificiais. uma marcação simples vem antes de uma marcação menos simples. Ou seja. esse universal sintático também é encontrado na maioria das línguas. todas as línguas parecem compelidas a colocar adjetivos ('grande') próximos aos substantivos ('caverna') que eles modificam. Virgílio e Bãshõ) simplesmente compreendem felizes exceções expressadas em modos de fala altamente marcados ou menos frequentes. Por exemplo. ligado ao processo cognitivo do cérebro humano. Uma sensação cerebral de 'pertencimento' opera na linguagem humana de modo a limitar a distância entre itens que se 'pertencem'. Apesar de limitados. e um grupo antes de um tipo de grupo. seria o reconhecimento de que em todas as línguas o singular ocorre mais frequentemente que o plural. A partir daí pode-se generalizar a dinâmica universal de que. durante centenas de anos. e o plural mais frequentemente que o dual.) Existirão universais sintáticos que podem ter sido elaborados numa época tão distante pelo Homo erectus? Na verdade parece existir um grande número de universais sintáticos. arcaicas e/ou quase sempre forçadas da poesia (como. em todas as línguas.

é o que parece ('caverna grande' permanece unida mentalmente e sintaticamente). todos os especialistas concordam que nos hominídeos o controle da linguagem e o controle das mãos estão intimamente ligados a funções cerebrais.complemento (sujeito ou coisa). Todas as línguas humanas têm imperativo. que parecem facilitar o processo cerebral que sustenta a capacidade linguística. Uma questão adicional em relação a uma elaboração gradual da fala articulada do Homo erectus seria em que grau a função comunicativa da linguagem poderia influenciar a própria forma da linguagem. negativo e interrogativo. Os inatistas acreditam que os universais de linguagem são características inerentes num modelo linguístico autônomo herdado pela nossa espécie. Porém. 61 . mas dentro de específicas restrições herdadas. por exemplo. Os gestos estão tão integrados à fala humana. mas para permitir que o falante pense. Desde uma época muito distante. que a palavra ('colmeia') encontra-se em oposição à frase ('para a colmeia'). Os funcionalistas falam em coerções interlinguísticas — ou universais — explicadas primeiramente pelos processos linguísticos e a pressão imposta por eles. parece que uma frase significativa e sentença sequencial encontram-se em oposição à formação sistemática de palavras. afirmativo. Os gestos não estão presentes apenas para informar expectadores e ouvintes. a linguagem dos gestos talvez tenha contribuído. e oposições semelhantes ulteriores. Um exame do debate entre inatistas e funcionalistas demonstra que talvez uma postura conciliadora de que tanto as coerções sintáticas autônomas quanto a complexidade processual desempenham papéis fundamentais e complementares na produção da linguagem. Muito mais importante para as pesquisas atuais são as dinâmicas linguísticas universais: em todas as línguas.11 A função comunicativa da linguagem influencia dinamicamente a forma da linguagem ('colmeia' versus 'para a colmeia').

HOMO NEANDERTHALENSIS (NEANDERTAL) As características distintas dos Neandertais começaram a aparecer no Pleistoceno Médio. mas sim Neandertais atarracados e troncudos. Cerca de 180. os Pré-Neandertais.12 Os Neandertais são anatomicamente bem diferentes dos Homo sapiens tardios. para o desenvolvimento da linguagem vocal humana. muitos. eram altos e magros. eles não eram mais os altos e magros Pré-Neandertais. embora ambos tenham provavelmente se originado do mesmo ancestral. entre 300. embora não todos. Os Neandertais mais antigos. outra parede de gelo desceu a Europa. desde então. Seus fósseis foram encontrados pela primeira vez na década de 1850. numa pedreira perto de Dusseldorf. plantas e répteis e caçadores de grandes caças. Quando o gelo lentamente se retraiu. Pré-Neandertais migraram para o sul e sudeste até o Oriente Médio. e preservavam muitas características dos erectus anteriores.000 anos atrás. Porém. do mesmo modo como hoje 62 . muitos grupos repovoaram a Europa. Os dentes desgastados de seus fósseis provam que eles rasgavam o couro com os dentes da frente para fabricar roupas quentes. na Alemanha. Provavelmente. numa região que apresentava períodos ocasionais do clima quente subtropical. os Neandertais matavam pela estratégia e cooperação. é evidente que os Neandertais jamais se juntaram em grupos superiores a poucas dezenas. Coletores de mariscos.de uma maneira ainda não muito clara.000 e 230. com membros curtos e fortes — uma adaptação anatômica que retém o calor contra o clima ríspido e gelado da Europa da Era do Gelo.000 anos atrás. Vivendo em bandos independentes de cerca de 30 membros. e não por meio de armas superiores. restos de Neandertais surgem desde Gibraltar até o Iraque.

fazem os limites. idêntico ao dos humanos modernos. Suas ferramentas.000 anos atrás. A 'linguagem de bebê' dos humanos primitivos estava sendo substituída — primeiramente no caso do Homo erectus.13 Eles enterravam os mortos. foi recentemente proposto que a língua dos Neandertais era tão hábil quanto a língua dos Homo sapiens tardios. A maioria dos especialistas concorda que os Neandertais usavam uma linguagem rudimentar. usada para gerenciar sua adicional massa corporal. sentenças mais complexas possivelmente permitiam processos mentais humanos mais complexos. cuidavam dos incapacitados. A partir da descoberta de um osso hioide (que fica na parte de trás da língua e dá apoio à laringe) de Neandertal. Eles eram especialistas em pedras de fogo. e depois de maneira mais complexa no caso do Homo neanderthalensis — por 63 . essa capacidade extra era. Parece que os Neandertais sempre preferiram os músculos ao cérebro. foi descoberto que a largura do canal hipoglosso (que leva os nervos que controlam a língua através da base do crânio) dos Neandertais está dentro dos limites de variação dos humanos modernos. indicando uma fala fluente e frequente.14 Mais recentemente. nem todos os especialistas concordam. datado de 60. nada mais poderia explicar sua complexa manufatura de ferramentas c o alto nível de suas sociedades. possivelmente. uma tecnologia altamente sofisticada. eram o ideal de um artesão. intacto.15 O rápido aumento do cérebro humano aparentemente ocorreu lado a lado com processos mentais cada vez mais sofisticados facilitados por uma linguagem humana mais complexa. Porém. parecida com a nossa própria língua. mais de 300. Embora o cérebro do Neandertal fosse maior do que o dos humanos modernos.000 anos. adoravam ornamentos pessoais. frequentemente raspadores de couro. Pode-se considerar que naquela época.

calor. Um cérebro humano exige palavras que apontem para outras palavras. e a fala articulada permitia que o cérebro aumentasse ainda mais. Essa nova ordem superior de palavras — de modo algum associadas com o exterior. A linguagem humana moderna nasce através da sintaxe. sexo — objetificando mentalmente as conquistas de um dia. mas que falta às 'linguagens' não humanas na natureza: regras que governem o modo como palavras e elementos de frases e sentenças são conectados de modo a produzir sentido. Para alcançar essa objetificação. São as sentenças complexas que fundamentam a dinâmica do pensamento multifacetado. analisando e qualificando-as de maneira a se preparar para fazer melhor no dia seguinte. esses dois hominídeos já conseguiam transcender as necessidades imediatas da vida cotidiana — comida. sons autônomos relacionados a objetos da vida real. talvez já numa era primitiva. Essa sintaxe humana — que só pôde evoluir quando os humanos já possuíam tanto os caminhos neurais para processar esse nível de linguagem quanto o aparato 64 . o cérebro humano exige mais que palavras referenciais. genitais. fogo. Para isso. como auroques. Os hominídeos primitivos. para criar um pensamento produtivo.um meio que estava evoluindo rapidamente junto ao seu aparato funcional: o cérebro maior permitia a fala articulada. palavras herdadas. poderia ter elaborado toda uma classe de palavras especiais como 'para' e 'que'. Aparentemente. a linguagem humana. 'porque' e 'por quê?'. O pensamento e o sistema linguístico precisam se tornar autorreferenciais. para formar sentenças complexas. talvez como resultado de uma mutação ao acaso que gerou uma reorganização cerebral. algo que se tornou tão absolutamente essencial à humanidade. o mundo objetivo — poderia então ter ligado o léxico de ordem inferior. ou seja. tornaram a sintaxe o centro de sua linguagem vocal única.

é apenas uma entre as muitas teorias.000 a 300. Ele evoluiu durante muitas centenas de milhares de anos. o ser humano falou. O processo só se completaria totalmente quando surgiram os seres humanos anatomicamente modernos. até que apareça uma melhor. Entre 100. não se pode falar de uma linguagem humana articulada.000 anos. onde também há indícios de Homo sapiens primitivos de pelo menos 90.000 anos atrás. outra parede de gelo invadiu a Europa. como nós. A maioria das teorias sobre a origem e o desenvolvimento da linguagem deriva de investigações paleoantropológicas. Após o final da elaboração da sintaxe.000 anos.respiratório para controlar a aspiração. (uma vez que esse processo era evidentemente compartilhado por erectus primitivos da Ásia e da Europa). Ela provavelmente chegou ao 'fim' apenas há cerca de 400. A teoria do papel da sintaxe — talvez o âmago da fala articulada moderna — na história da linguagem humana merece uma consideração séria. Porém. Novamente.000 e 80. e raciocinou. Esse não foi um processo repentino. quando o primeiro Homo neanderthalensis surgiu na Europa. cerca de 150. ela parece oferecer a melhor explicação linguística para o fenômeno observado. Nessa época as atividades sociais. defendida por Noam Chomsky por mais de 40 anos. enterros e práticas de caça dos 65 . atualmente.000 anos mais tarde. Antes da sintaxe. construída sobre a fundação de uma linguagem gestual — evidentemente teve 'início' há quase um milhão de anos entre os Homo erectus ou possivelmente há mais de um milhão de anos. paleoanatômicas e neuroanalíticas. os Neandertais teriam migrado para o sul e sudeste em direção ao Oriente Médio. começando com o Homo erectus e culminando (e ainda evoluindo) com o Homo sapiens. que geralmente ignoram as prerrogativas mais imediatas da ciência linguística. A teoria da importância da sintaxe na história da linguagem humana.

Neandertais eram indistinguíveis das práticas dos sapiens. Na verdade, há a possibilidade de que neanderthalensis e sapiens primitivos tenham interagido de forma direta; talvez eles tenham, inclusive, se reproduzido hibridamente. É óbvio que isso teria influenciado suas respectivas linguagens, resultando num tipo de bilingualismo (habilidade de falar duas línguas) entre as espécies, trocas lexicais (palavras) isoladas e talvez contaminação fonológica (sistema sonoro), levando a mudanças sistemáticas limitadas. Mas, devido a populações tão esparsas, esse contato nunca teria sido tão produtivo quanto os contatos entre uma mesma espécie através do uso da sua própria língua territorial. A indistinção entre as culturas dos neanderthalensis e dos sapiens continuou até 50.000 anos atrás, quando novas tecnologias surgiram subitamente entre os sapiens — armas, projéteis e lâminas mais afiadas para o corte. Parece que alguns grupos de sapiens deram algum tipo de 'salto' evolucionário que permitiu que eles, e não os neanderthalensis, evoluíssem em humanos modernos. Nessa época o sapiens 'Cro-Magnon' começou a se estabelecer na Europa, com suas fogueiras mais elaboradas, abrigos mais eficientes e roupas especialmente fabricadas. Em cerca de 20.000 anos todos os Neandertais já estavam extintos, talvez vítimas de invasões e competições por comida com o Homo sapiens.16

HOMO SAPIENS
Antigamente acreditava-se que os Homo sapiens arcaicos haviam sido os primeiros hominídeos a emigrar da África. Mas apenas as pesquisas das últimas duas décadas provaram, sem sombra de dúvida, que durante um período de cerca de 100.000 anos os sapiens substituíram os Neandertais na Europa e no Oriente Médio e o erectus no
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Extremo Oriente, duas espécies de hominídeos proeminentes que há muito habitavam essas regiões. Formas arcaicas dos sapiens já evoluíam havia 500.000 anos: hominídeos de constituição forte com rostos mais largos, queixos menores e sobrancelhas protuberantes. Uma nova era glacial, ocorrida há 186.000 anos, criou condições áridas na África e possivelmente forçou várias espécies humanas que viviam ali, incluindo os sapiens, a sobreviver em grupos menores e mais isolados. Há 150.000 anos, humanos anatomicamente modernos, que possuíam todas as características necessárias para a fala como conhecemos hoje, estavam surgindo tanto na África quanto no Oriente Médio, onde provavelmente ocorreram os primeiros contatos com grupos de Neandertais. Cerca de 120.000 anos atrás, a parede de gelo que cobria a Europa se retraiu, mais uma vez criando condições favoráveis, e surgiram os Homo sapiens modernos, idênticos a nós. Os mais antigos fragmentos de ossos de sapiens modernos datam dessa época; eles são encontrados no sul da África e na Etiópia e apresentam características da humanidade moderna: testas altas e lisas — com as elevações das sobrancelhas pouco visíveis — e maxilares salientes. Em nenhum outro lugar apareceram fósseis de sapiens tão antigos e claramente modernos. Muitos especialistas acreditam que o Homo sapiens se originou na África. A chamada teoria da 'Saída da África' aponta para indícios de DNA mitocondrial — o material genético que apenas as fêmeas podem transmitir — que indicam que os humanos modernos viveram mais tempo na África do que em qualquer outro lugar.17 Além disso, a teoria reconhece que os fósseis mais antigos de esqueletos com características de sapiens modernos provêm igualmente da África. Porém, há uma outra opinião chamada teoria 'multirregional', que sustenta que humanos modernos evoluíram de predecessores Homo erectus em várias regiões: os australianos nativos, por exemplo, preservariam
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características específicas de erectus.18 Os que endossam essa última teoria acreditam que houve uma constante troca de genes entre as populações primitivas. Eles desconsideram o indício do DNA mitocondrial da teoria da 'Saída da África', por não enxergarem a importância do papel do macho nas excursões, trocas e acasalamentos no milênio. Porém, as últimas comparações de DNA mitocondrial distribucionais com o cromossomo masculino Y revelaram que a taxa de migração das mulheres na história parece ser oito vezes maior que a dos homens. Ambas as teorias influenciam nosso entendimento das línguas dos primeiros humanos. Se a teoria da 'Saída da África' estiver correta, então todas as famílias linguísticas presentes no planeta teriam se originado das relativamente recentes línguas africanas. Porém, se a teoria 'multirregional' estiver correta, essas famílias linguísticas seriam muito mais antigas e abrigariam uma complexidade de desenvolvimento de um milhão de anos ou mais. Também há uma teoria conciliatória: que algumas áreas, como a Europa Ocidental, apresentaram uma substituição total ou quase total, de Neandertais nativos pelos sapiens, enquanto outros lugares, como o Extremo Oriente, parecem indicar que pode ter havido algum fluxo genético entre espécies de hominídeos primitivos. Talvez essa teoria conciliatória deva ser considerada na investigação das macrofamílias de línguas, por exemplo (veja ilustração 2). Análises genéticas recentes deixam poucas dúvidas de que, pelo menos, a maioria dos europeus descende dos primeiros humanos caçadores-coletores que migraram do Oriente Médio para a Europa no início do período paleolítico superior, cerca de 50.000 anos atrás. Desde então, na Europa, a hereditariedade genética permaneceu regularmente constante.19 No sítio arqueológico da foz do rio Klasies, na África do Sul, há uma caverna que abrigou Homo sapiens entre 120.000 e 60.000 anos
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atrás. Esses humanos modernos podiam abater búfalos gigantes com lanças. Suas atividades domésticas eram complexas. Seus desenhos de 'giz de cera' vermelho-ocre podem indicar o uso da cor de maneira simbólica. A gama e procedência de suas ferramentas indicam que ferramentas particulares foram manufaturadas especificamente para a troca com tribos vizinhas. Esses sapiens primitivos praticavam a arte e a música e enterravam ritualmente seus mortos com presentes. Essa era uma pequena sociedade humana elaborada vivendo num assentamento permanente. Eles tinham um conhecimento da natureza e da caça tão rico e complexo quanto o nosso conhecimento da sociedade moderna e da tecnologia. Eles teriam usado a linguagem tanto quanto nós a usamos hoje. Entre 40.000 e 35.000 anos atrás, grupos de sapiens já haviam chegado no norte da Austrália, onde deixaram decorações ou símbolos em paredes de abrigos de pedras. Enquanto, no Velho Mundo, o sapiens substituía e/ou absorvia os erectus e neanderthalensis, eles experimentavam simultaneamente uma 'explosão cultural' que se iniciou mais ou menos nessa época e continuou até 11.000 anos atrás: artefatos manufaturados que exibiam eles mesmos, animais, símbolos e até mesmo a passagem do tempo (calendários lunares) em osso, marfim, pedra e madeira; pinturas, gravuras ou molduras em paredes de cavernas, pedras lisas, ossos redondos e rochas grandes, numa variedade de cenas ou representações de tirar o fôlego (Lascaux, Caverna Chauvet); a invenção de novas ferramentas como cabos e punhos; e a fabricação de flautas, tambores e instrumentos de corda. Nesse momento, a fala articulada — e o raciocínio simbólico que ela permitia — estava certamente sendo usada de todos os modos que conhecemos, e os hominídeos não eram mais apenas os 'primatas falantes', mas sim os 'primatas simbólicos'. O que importava agora era o cérebro e não os músculos.
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Australopithecus (4,1 milhões de anos atrás)

gestos, vocalizações (grunhidos, gritos agudos, suspiros etc.)

Homo habilis (2,4 milhões de anos atrás)

gestos, vocalizações (grunhidos, gritos agudos, suspiros etc.)

Homo erectus (2 milhões de anos atrás) cerca de 1 milhão de anos atrás

talvez expressões vocais curtas, incluindo proposições condicionais

(Do erectus evidentemente houve 2 principais divergências:) 1. Homo neanderthalensis (300.000 a 30.000 anos atrás) processos mentais complexos são possivelmente possibilitados por sentenças complexas, permitindo sociedades baseadas na fala; mas [i], [a] e [u] não podem ser pronunciados por essa espécie.

2. Homo sapiens (300.000 anos atrás)

processos mentais complexos são possibilitados por sentenças complexas, permitindo sociedades baseadas na fala

humanos modernos todas as características físicas (150.000 anos atrás) necessárias para a fala como a conhecemos hoje estão presentes há cerca de 150.000 anos.

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A humanidade colocou cabos e punhos na própria natureza.

Nunca houve uma ursprache, uma 'língua primeva'. Mesmo assim, a capacidade para algum tipo de linguagem já estava presente entre os hominídeos mais primitivos. Os humanos evoluíram a partir de criaturas sem linguagem, e por esse motivo, áreas do cérebro com outras funções, como a de gesticular, assumiram a nova tarefa da fala. (Deve-se notar que os centros cerebrais usados nas vocalizações dos chimpanzés não são os mesmos usados pelos humanos.) A linguagem foi sobreposta e elaborada em cima desses sistemas cerebrais mais primitivos e, além disso, parece parasitá-los. A linguagem vocal humana evoluiu simultaneamente com o cérebro humano e o desenvolvimento dos órgãos da fala, durante centenas de milhares de anos. Enquanto o cérebro humano aumentava sua capacidade, a fala se tornou mais articulada e a dependência da química e dos sinais do corpo diminuiu. Em troca, isso exigiu a evolução de órgãos de fala especializados que demandavam uma maior capacidade cerebral para se adaptar à complexidade da sociedade engendrada por ele. Causa e efeito funcionaram em ambas as direções. Cada função alimentava a outra num sistema fechado, dinâmico e sinérgico. O pensamento primitivo e as vocalizações evoluíram progressivamente para o pensamento sofisticado e a fala articulada, na mesma razão, na fila evolucionária. A linguagem humana moderna parece continuar evoluindo dessa maneira com a química primordial e a linguagem de sinais virtualmente reduzidos à percepção subliminar. O sistema social fundamental de todos os hominídeos, incluindo nós mesmos, pode ser um sistema social primata, mas os humanos elaboraram de maneira única a linguagem vocal, e a partir daí, uma
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já estivessem sendo usados pelo Homo erectus.000 anos atrás. acidentes geológicos e clima. finalmente. Talvez. guerra e dominação causaram mudanças linguísticas para populações cada vez maiores. que devem ter durado milhares de anos. Contatos frequentes com vizinhos e outras populações por intermédio do comércio.20 Talvez tenha sido esse processo repetitivo de longos períodos de equilíbrio 72 . Rituais e estratagemas de caça elaborados. há 500. o pensamento simbólico e com ele o início da fala articulada com uma sintaxe mais complexa e os primeiros universais de linguagem. cujos avanços tecnológicos e novas formas de transporte criaram suas próprias dinâmicas. Durante períodos de equilíbrio linguístico. sempre houve um fluxo e refluxo de populações humanas. se não significativamente mais cedo. como cruzar os mares. Há quase um milhão de anos. algo que nenhum grupo de grandes primatas conseguiria fazer.cultura baseada quase exclusivamente nela. vítimas e beneficiários de guerras e doenças.000 anos. exogamia. tendo talvez desenvolvido vocalizações mais sofisticadas. Milhares de línguas e famílias linguísticas surgiram e desapareceram sem deixar traços. Os erectus tardios. instalaram-se em vilas mais permanentes com uma tecnologia que germinava. Esses períodos então acabaram subitamente. No longo processo de evolução da fala articulada. atingido pelo Homo sapiens cerca de 35. Essa capacidade foi herdada e/ou mais tarde evoluída — embora de maneiras significativamente diferentes — pelos Homo neanderthalensis e os Homo sapiens. com o Homo erectus. a fala humana primitiva já permitia alguma forma de planejamento e organização sociais para a realização de vastos projetos cooperativos. linguagens prototípicas teriam se formado pela convergência de várias línguas diferentes. criando famílias e línguas com árvores genealógicas. migração. O pensamento humano moderno e o uso da linguagem como conhecemos hoje foi.

expressões. dialetos próximos evoluíram durante séculos. já possuía milhares de línguas diferentes. o clima esquentou novamente. resultando em outras populações que tiveram a língua nativa substituída pela da minoria intrusa. a única espécie de hominídeo que sobreviveu à evolução. Há cerca de 14. Novas famílias de línguas. histórias e diferentes pronúncias. com seus vizinhos imediatos a distâncias de talvez 40 a 60 quilômetros. que criou as famílias de línguas que geraram as línguas que falamos hoje. virtualmente irreconhecíveis. Membros de grupos comercializavam e se casavam com esses vizinhos. mas também palavras. ganância ou sede de viagens. geraram famílias de línguas ainda maiores quando seus falantes as espalhavam ou dominavam outras áreas. grupos individuais de Homo sapiens já governavam territórios autônomos com raios de 30 a 40 quilômetros. muitos humanos modernos já cultivavam trigo selvagem.000 anos. surgiram com a difusão regional e ajustes internos. por meio da migração ou por algum outro motivo. Mediante longas separações. como resultado de mudanças climáticas. no Oriente Médio. cerca de 2. Línguas diferentes se fundiram em línguas híbridas com alterações de léxico e sintaxe e mudanças fonológicas e produziram outras línguas dominantes e influentes. e desde o Alasca até a Terra do Fogo. o Homo sapiens. Nessa época. produzidas por outras famílias linguísticas ou por línguas convergentes.000 anos atrás. E essas. pontuados por mudanças abruptas. Quando a fala totalmente articulada já havia sido conquistada. Isso aumentou as chuvas e levou embora a última geleira de 73 . agrupadas em centenas de famílias linguísticas desde as ilhas Orkney na Escócia até a Tasmânia. tornando-se línguas autônomas.linguístico. aveia e cevada usando foices feitas de ossos presos a lâminas de pedra. Pouco depois. trocando bens e filhas.

em seis 'centros de origem'. Os humanos modernos. ovelhas e cabras pela primeira vez. Os oceanos do planeta subiram dramaticamente. um híbrido fértil do trigo selvagem com o pasto natural. A linguagem humana estava agora ligada à terra. separando povos antigos para sempre. que produziam excedentes. 74 . e eram reconhecidas em terras estrangeiras como a 'língua de uma determinada área geográfica. As línguas regionais se tornaram mais influentes. cujas sementes se espalhavam naturalmente com o vento. o cultivo evoluiu da horticultura para a agricultura e se tornou o principal meio de subsistência para muitas (embora não todas) populações humanas.volta para a região polar. seguiu-se uma revolução biológica. formando o trigo de pão (Triticum dicoccum) com 28 cromossomos. tanto do Velho quanto do Novo Mundo. o clima quente produziu um grão mutante. A partir daí. Apareceram as primeiras cidades de tijolos de barro. Talvez mais significativamente. Durante milhares de anos. A complexidade social aumentou. Os humanos permaneceram instalados durante gerações num único lugar. prosperavam e cresciam cada vez mais. poderiam agora semear e colher num único lugar. Eles começaram a domesticar o trigo e a cevada. e estabeleceram grupos rurais permanentes.

E mesmo assim. o termo 'primeiras' constitui uma metáfora. para descobrir as primeiras famílias de línguas. antes do fim da última Era Glacial. Mas hoje em dia avalia-se que essa e outras declarações semelhantes acerca de parentescos com línguas antigas ao redor do mundo desafiam tanto a ciência quanto o senso comum. A verdadeira história das línguas é muito mais complexa do que se acreditava até então. um renomado linguista norte-americano propôs que o sânscrito. e não pelo mais largo.3 Primeiras famílias Apenas uma geração atrás. Deve-se começar a busca pelo lado mais estreito do funil. 75 .000 anos.1 Acreditava-se que o indício para o suposto parentesco estava nas mudanças sonoras concordantes em itens de vocabulário 'relacionados'. estava geneticamente relacionado ao aztec (nahuatl clássico). que seriam derivados de uma mesma língua-mãe antiga. a antiga língua clássica dos hindus. falada há mais de 10. a língua do grande império dos nativos do México.

por palavra.2 A linguística histórica já desenvolveu algumas técnicas de 'reconstrução' das línguas (em vez de simplesmente deduzir a história das línguas). A aplicação dessas técnicas permitiu a distinção entre elementos apropriados e os elementos herdados. 76 . Ou seja. não atribuíveis a mudanças ou apropriações. corpori e corpore dependendo da sua função na sentença. e a identificação de características compartilhadas advindas de uma fonte ancestral comum. Apenas a genética compartilhada justifica uma 'árvore genealógica. e as línguas fusionais também são conhecidas como línguas inflexionais. em que muitos morfemas podem ser encontrados numa palavra. eventualmente.3 Esse processo. também pode aparecer como corporis. apenas um morfema — a menor unidade dotada de significado da língua. em forma e significado. que usa variadas terminações: corpus. difusão areai e semelhanças tipológicas ao acaso. Por exemplo. Línguas isoladas são aquelas que tendem a ter. demonstrado por meio de correspondências sistemáticas. que significa 'corpo' em latim. Este é o caso do latim. a comprovação da idade de características. que dividem um ancestral comum. Uma classificação tipológica associa línguas baseando-se em características distintivas que podem ser categorizadas em tipos definidos de fenômenos linguísticos.As famílias são grupos de línguas geneticamente relacionadas. O número e a qualidade das características relacionadas variam de acordo com o tempo que se passou desde a divergência do ancestral comum. uma língua pode ser isolada. permite uma 'classificação' da língua ou de toda uma família linguística baseada nas similaridades e diferenças entre palavras e elementos gramaticais. Porém. uma língua pode ser fusional. Há três motivos para a similaridade linguística: genética compartilhada. Há dois tipos de classificação linguística: tipológica e genética (ou genealógica). Isso é chamado 'inflexão'. mas as ligações entre eles são incertas. que é uma língua de raiz. como 'um' ou 'lá'. como o mandarim.

o inglês apresenta o mesmo potencial. na qual uma palavra pode conter muitos morfemas individuais que podem tanto ser livres (que se mantêm sozinhos. e não no vocabulário. O turco é uma língua aglutinante em que. a classificação genética. geram descendentes — sob condições favoráveis — e depois. que tem relevância. Infelizmente. A geografia permitiu que a língua egípcia se tornasse um exemplo do fenômeno. Outras línguas expandem — ou seja. e seus descendentes são meramente diacrônicos (temporais). é a semelhança relacionai. devido a circunstâncias geográficas ou tecnológicas únicas. classificações tipológicas como essa não conseguem fornecer informações históricas diretas. Línguas relacionadas são comparadas quanto às inter-relações de subgrupos e línguas dentro de uma família. e não a substancial. produzindo uma 'família linguística. Desse modo. não geram línguas descendentes. sob condições desfavoráveis. Algumas línguas. Uma classificação genética se empenha em conectar as línguas através de suas origens e relações. se retraem. devido à comunicação global via tecnologia moderna. tanto a palavra base quanto as palavras adicionadas a ela se mantêm distintas. mas a população de seus falantes aumenta de tal maneira. consegue fornecer informações históricas diretas. dentro das línguas românicas ou as línguas românicas e germânicas dentro da família de línguas indo-europeias. como por exemplo. entre as línguas. por exemplo. 77 . particularmente quando é baseada nas formas e paradigmas gramaticais. como em todas as línguas aglutinantes. Foi o que aconteceu com a família de línguas célticas.Um terceiro tipo de língua é a aglutinante. Na classificação tipológica. como o francês e o italiano. ela é a abordagem mais produtiva para se entender a história mais recente da linguagem humana. 'banco') ou ligados (que não se mantêm sozinhos. como '-ário' em 'bancário'). Por isso. que a família compreenda uma única língua. assim todas as ligações entre os morfemas são facilmente identificáveis.

muito poucos parâmetros de controle e muitos fenômenos contraditórios. o românico e o polinésio oriental — a qualificação 'favorável' é relativa.Embora seja comum que. largamente obscurecido por uma grande distância temporal. que. A segunda emigração foi 78 . Não há justificativa para propor que esse fenômeno observado seja uma regra geral para medir o tempo das famílias linguísticas. Um estudo inovador recente se concentrou na análise de características mais amplas de grupos linguísticos. mas sim tentam entender a complexidade da multidão de línguas que já existiram. desde a emigração da África. mais de 100. até invasões relativamente recentes teriam. talvez. Um padrão de linguagem antigo sobrevive em cada um dos continentes do planeta.000 anos.000 anos atrás. sob circunstâncias favoráveis. os paleolinguistas não buscam mais descobrir uma quimérica 'primeira língua. caso se procurasse as fontes primordiais das línguas do planeta.000 anos — como. Na verdade. Por esse e outros motivos.4 Nele. em vez de na evolução de línguas individuais. ocorreu com o germânico ocidental. por exemplo. as distribuições e frequências estatísticas de determinadas características de uma amostra de 174 línguas foram identificadas dentro de continentes inteiros. não é axiomático que uma grande família com cerca de 100 descendentes (como a indo-europeia) tenha cerca de 6. elas poderiam redundar nas pequenas línguas isoladas vestigiais (línguas únicas e inclassificáveis. figurado entre as línguas mais amplamente faladas de suas regiões. O estudo concluiu que parece ter havido uma dispersão em três estágios do Homo sapiens. uma língua possa gerar de oito a quinzes línguas descendentes que sobrevivam num período de 2. Há muitas incertezas envolvidas. Nenhuma característica linguística sobreviveu à emigração original (se for aceito que houve uma 'única emigração original'). Ou seja.000 anos ou que uma superfamília com mil ou mais descendentes (a suposta 'nigero-congolesa' ou a austronésia) tenha 10. como o basco) nas periferias das superfamílias atuais.

000. A história primitiva de outras famílias linguísticas como a austronésia e a suposta nigero-congolesa. em que se 'recria' algo que pode nunca ter existido na realidade. as semelhanças que poderiam ter sido obtidas entre línguas e famílias de línguas próximas foram completamente obliteradas pela mudança constante.000 anos atrás. basicamente destruíram a diversidade linguística humana. com a temperatura mais quente e o nível dos oceanos mais elevado. na era pós-glacial.5 Protolínguas. É o período mais antigo em que se pode especular sobre afiliações linguísticas.000 anos. precisam ser recuperadas por meio da reconstrução linguística. Porém. Os paleolinguistas dominam um conhecimento impressionante sobre as línguas indo-europeias.000 anos.a do Homo sapiens em direção às Américas. 79 . como a proto-sino-tibetana. australiano. mais tarde. simplesmente estenda o modelo teórico das 'árvores genealógicas' da história da linguagem em árvores com níveis maiores. papua) também entraram na região da Austrália. Tentativas isoladas de agricultura primitiva logo aumentaram exponencialmente esse quadro. devido a documentos escritos de um período relativamente recente. iniciando um longo período de mudança social e linguística (ver ilustração 3). independentemente da orientação da família.000 e 30. mesmo sobre famílias linguísticas mais recentes. chinesas e semíticas. Muito pouco é verdadeiramente conhecido. criando relações que podem nunca ter existido. provavelmente não têm mais de 10. No final da última Era Glacial. criando maiores unidades de poder político e econômico que. É de se lamentar que a maioria dos estudos sobre as protofamílias (ou macrofamílias). A era das 'primeiras famílias'. Finalmente. populações humanas — de aproximadamente dez milhões na época — espalharam-se mais uma vez. emergiram grandes sociedades complexas. num longo período de 100. entre 60. um meio relativamente impreciso e artificial. foi nessa época que as línguas de Sahul (tasmaniano. mas com certeza têm mais de 6.

ANO 1000 Ocorrem mais mudanças internas e migrações. com o tempo. mudando. com mais mudanças internas e migrações. 80 . resulta numa grande família linguística potórica. ao longo e por entre as montanhas. ANO 2000 Um aumento populacional. todos seus pês para efes e deixando de pronunciar os erres finais: os migrantes passam a chamar a si mesmos de 'Foto'.ANO 0 Um pequeno grupo de falantes do potórico migra para o outro lado do rio. 3 Como podem emergir famílias linguísticas (com o exemplo de um povo imaginário chamado Poror'). que inclui subfamílias.

6 Desde então. 'nigero-congolesa' é simplesmente remota e nebulosa demais para ser aceita como uma família linguística comprovada.000 anos atrás. se. Com exceção de duas. Qualquer uma dessas grandes famílias linguísticas — 'nigero-congolesa. cada uma. apareceram na África do Sul. alguma delas houver existido como entidade real. apresentando espécies de Homo sapiens em evolução por quase meio milhão de anos. caso contrário. A história humana da África é tão antiga. compreende mais de mil línguas autônomas.7 Identificada por alguns como uma das 'superfamílias' linguísticas do mundo. afirma-se que a suposta família 'nigero-congolesa'. A denominação presente. cujas onze subfamílias contêm.LÍNGUAS AFRICANAS Apenas após a Segunda Guerra Mundial os linguistas puderam tentar fazer a primeira classificação completa das línguas africanas nativas. em primeiro lugar. a família khoisan. nilo-saariana e khoisan — pode muito bem ter sido uma protolíngua autônoma 10. entre duas e 96 línguas individuais. que pode-se esperar que quase todas as suas antigas famílias linguísticas tenham aparecido e desaparecido sem deixar rastros. um agrupamento estatístico de características comuns. todas as 35 línguas da terceira família não relacionada. elas meramente refletem a convergência ou união de características linguísticas difusas. Apenas uma 81 . regularmente divididas entre duas grandes subfamílias que talvez mereçam mais a designação de 'superfamílias' (se é que existe algo assim): atlântico-congolesa e volta-congolesa. seguiram-se avanços substanciais. Não relacionada à nomeada família 'nigero-congolesa' está a família africana nilo-saariana.

o bete. Até o momento. antes das grandes migrações do final da última Era Glacial. sendo que cada uma delas também pode compreender a relíquia de uma língua que já foi uma família maior. chuchítica (47). foram identificadas 317 línguas afro-asiáticas. em comparação às outras famílias que são bem menores. tchádica (192). em Togo. LÍNGUAS AFRO ASIÁTICAS As exuberantes e férteis regiões do norte da África de 10. Há muitas línguas africanas não classificadas. ocupou as regiões do norte central da África. muitos milhares de anos atrás. omótica da Etiópia (28) e semítica (73) (ver ilustração 4). hoje coberto em grande parte pelo deserto. O surpreendente número de línguas tchádicas. egípcia (1). o imeraguen.000 anos atrás — muito antes de sua relativamente recente desertificação — sugerem um excedente populacional.pequena porcentagem de todas as línguas africanas da história ainda existe. na Nigéria. na Mauritânia e cerca de dezesseis outras. 82 . fonte de muitas línguas antigas. divididas em seis famílias linguísticas diferentes: bérbere (29 línguas). aponta para a origem dessa importante e muito antiga superfamília que. tais como o anlo. e essas são descendentes apenas das línguas mais recentes.

devido a circunstâncias geográficas únicas.500 anos atrás) e família semítica ocidental. talvez cerca de 8.4 As famílias de línguas afro-asiáticas. Uma das línguas afro-asiáticas mais conhecidas. é uma 'família linguística cujos registros escritos datam de 5. a família linguística semítica possivelmente divergiu da proto-afro-asiática bem nos primórdios.000 anos atrás. ela não gerou múltiplas línguas sincrônicas (contemporâneas). mas apenas diacrônicas (temporais). que eventualmente 83 . Logo no início. Como a língua egípcia. preservada por inscrições cuneiformes de quase 4. ele se diferenciou em família semítica oriental (representada apenas pela língua acádia dos babilônios.400 anos atrás. a egípcia. O semítico foi fonte de muitas das mais importantes línguas da história.

talvez 30. tem uma das paisagens linguísticas mais complexas do planeta. cujos nomes para cidades e profissões foram tomados pelos sumérios. mais tarde substituído ou absorvido pelo Homo sapiens hoje presente.se desenvolveu em aramaico-cananita (fenício.8 Durante muitos milhares de anos.100 anos. suplantou uma língua do Oriente Médio ainda mais antiga. como a África. em sua expansão dinâmica em direção ao Oriente quase 5. Argumentos recentes que defendem uma hipotética 'superfamília suméria. uralo-altaica e húngara' não convencem a maioria dos linguistas. Algumas delas cruzaram a ponte de terra do Estreito de Bering. Ela parece ter sido introduzida à força no território de um povo mais civilizado. a língua suméria aparentemente não está relacionada a nenhuma outra. O ramo semítico-oriental da família Afro-Asiática. o Levante e o Egeu. como os povos do Planalto Líbio e os de Putaya. Teorias recentes que ligam as línguas semíticas às indo-europeias numa época muito primitiva não encontraram uma aceitação geral entre os linguistas. perto da antiga Creta.000 anos.000 anos) e se tornaram as 84 . LÍNGUAS ASIÁTICAS A Ásia. Falada há mais de 6. onde primitivas espécies de Homo podem estar evoluindo há dois milhões de anos. Como várias grandes famílias linguísticas têm a Ásia como fonte máxima ou imediata. a língua suméria. as línguas bérberes dominaram a maior parte do litoral mediterrânico sul. primeiro o Homo erectus. enriquecendo sociedades fortes e influentes ligadas ao antigo Egito. na baixa Mesopotâmia (hoje sudeste do Iraque) e escrita há 5. hebraico) e árabe-etiópica. pode-se assumir que várias famílias linguísticas asiáticas já exerciam sua influência durante a última Era Glacial.000 anos atrás.000 anos atrás (alguns dizem 60.

onde o cultivo do arroz gerou uma explosão populacional sem precedentes na história. Hoje. A língua proto-sino-tibetana gerou uma das mais importantes famílias linguísticas da história da humanidade. a proto-sino-tibetana se diferenciou em três grandes subfamílias: chinesa. caucásicas e paleo-asiáticas. Milhares de anos depois. A subfamília yenisei-ostyak inclui línguas atualmente faladas no norte da Sibéria.500 anos atrás.) O chinês arcaico foi um meio para a escrita já há 3.000 anos. elas são conhecidas como famílias de línguas sino-tibetanas. A antiga subfamília tibeto-birmanesa eventualmente se diferenciou em duas sub-subfamílias de línguas do Tibete e da Birmânia. talvez apenas dois ou três mil anos após a última glaciação. miao-yao. com muitos dialetos principais. baseado na fala de Pequim. altaicas. Cerca de 5. o chinês mandarim (com quatro dialetos principais).primeiras línguas das Américas. Hoje. yenisei-ostyak e tibeto-birmanesa. austro-asiáticas (em sua maioria mon-khmer) e austronésia (veja mais adiante). a domesticação do arroz por falantes do pré-chinês no delta do Yang-Tsé permitiu a elaboração de culturas que eventualmente geraram quatro grandes — e talvez antigamente relacionadas — famílias do sudeste asiático: tai-kadai.9 (A proeminência do mandarim não reflete uma situação antiga.000 anos atrás (as datas são incertas) essas línguas 85 . Cerca de 8. A subfamília chinesa consiste hoje em nove línguas mutuamente ininteligíveis. descendentes dessas mesmas línguas migraram para todos os cantos da Ásia e além. quando a temperatura do planeta esquentou.000 anos. o antigo lar de toda subfamília sino-tibetana. urálicas. mas é o resultado da migração de falantes do chinês para o delta do Yang-Tsé há menos de 5. é a primeira língua mais falada por pessoas do que qualquer outra língua do planeta. Há muito tempo. sua língua principal.

000 anos atrás. foi classificada recentemente.) Ainda mais especulativa que a classificação altaica é a teoria de que as línguas fino-úgricas são. se diferenciou em duas famílias: fínico (que deu origem às famílias linguísticas balto-fínica. As línguas samoiedas do extremo leste da Sibéria.12 Hoje as muitas línguas descendentes da família urálica possuem poucos falantes. tendo como primeira base critérios tipológicos e não genéticos. foram as primeiras a se diferenciar da família urálica.10 A família altaica. eles se diferenciaram em duas principais famílias linguísticas: samoieda e fino-úgrica.se espalharam pelo sudeste asiático para serem empregadas pelas muitas comunidades étnicas diversificadas desde o norte da Tailândia até as ilhas de Hainan e Taiwan. ou pouco antes. com exceção do finlandês (quatro milhões) e do húngaro (treze milhões). consideradas resultado de difusões regionais e não heranças compartilhadas. 86 . talvez 5. de alguma maneira. O chão é mais sólido no caso dos falantes do proto-urálico. as línguas túrquicas). eles ocupavam o nordeste europeu. A classificação permanece especulativa. mongólicas e tungúsicas são. Uma língua relacionada comum cerca de 4. Todas as semelhanças entre as línguas túrquicas. Cerca de 6.11 Logo no início. As línguas túrquicas surgiram na Ásia central apenas 4. (Diversas línguas túrquicas são faladas ainda hoje no sul da Sibéria. mansi e khanty). relacionadas geneticamente ao altaico. que consiste das línguas mongólicas e manchu-tungúsicas (ou seja. lapônica. Elas talvez derivem diretamente de uma língua paleoasiática da Sibéria ou de um ancestral comum da família linguística paleoasiática.000 anos atrás. permiana e ugriana) e úgrico (húngaro. o fino-úgrico. volga-fínica.000 anos atrás. possivelmente uma família da Lapônia. geralmente.000 anos atrás. e sua protofamília é às vezes chamada de 'uralo-altaicá'.

Embora alguns linguistas tenham tentado ligar as línguas paleoasiáticas às do Novo Mundo. Hoje. suas declarações carecem de indícios convincentes. A língua nativa do Japão.000 anos. das quais o georgiano é a única amplamente falada (cinco milhões de falantes). no norte do Japão). caucásica do noroeste.A Ásia ocidental possui cerca de 40 línguas caucásicas das Montanhas do Cáucaso. chamada ainu. que ela não pode ser ligada a nenhuma outra língua conhecida nem a nenhuma família linguística reconstituída. cujas oito subfamílias ocuparam o que tenha. Tanto o japonês quanto o coreano obviamente surgiram no continente asiático numa época extremamente antiga. no sul do Japão. sido o lar original dos falantes da língua protocaucásica. ligada à altamente especulativa família 'uralo-altaicá'. há poucas dúvidas de que ela tenha existido como grupo linguístico autônomo por. poucos milhares de anos atrás engoliu o ainu (marginalizando o ainu à Ilha de Hokkaido. e com o coreano. Num período bem primitivo. 6. às vezes. e na grande família caucásica do nordeste. A família linguística paleoasiática (ou hiperbórea) do leste siberiano é pouco compreendida. O japonês compartilha uma ancestral comum com as línguas luchuan (oquinawana) das ilhas Ryukyu. Porém. O japonês é uma língua totalmente diferente que. porém a ligação carece de indícios convincentes. é. 87 . talvez. a família caucásica se diferenciou em três grandes subfamílias: caucásica meridional. e suas vastas planícies confinadas evidentemente compartilham uma grande ancianidade (ou seja. possivelmente como resultado da primeira 'migração de povos' pós-glacial. essas línguas são relativamente pouco faladas. pelo menos. é uma língua isolada cuja origem é tão antiga. talvez 10. não apresentam substituições).000 anos atrás.

14 Tal convolução linguística implica poucas possibilidades de que uma classificação formal das línguas americanas lance uma luz sobre os primeiros povoados da região. foram rejeitadas como inconsistentes: apenas a conexão entre as línguas esquimó-aleútes e as línguas luoravetlan no extremo oriente da Sibéria. 88 .000 anos. para isso. não vai além de 10. Muitas hipóteses sobre a relação entre as línguas do Novo Mundo e as línguas de outras partes do globo foram apresentadas. com exceção de uma dessas 'afiliações'. Devido à falta de documentos escritos de milênios anteriores. Se isso for verdade. talvez. Aceitar sua chegada no Novo Mundo numa época tão primitiva poderia explicar uma paisagem linguística que evidentemente rivaliza com a complexidade africana. Na verdade. Isso permite uma desapontadora classificação rasa que. Porém todas. através das pontes de terra noroestes. criando uma população de línguas relacionadas e não relacionadas diacrônica e sincronicamente complexa.13 Antes de procurar relações externas. asiática e europeia. no melhor dos casos. refletindo uma subsequente migração 'recente'.000 anos atrás só surgiu na última década.LÍNGUAS AMERICANAS A aceitação científica cautelosa da possibilidade da presença do Homo sapiens nas Américas cerca de 30. há a tentação de se aceitar a existência de múltiplos extratos (camadas linguísticas) que evoluíram juntos durante dezenas de milhares de anos. deve-se recorrer a outras disciplinas. deve-se levar em conta que algumas das 150 famílias linguísticas americanas podem inclusive não ter relações umas com as outras. parece merecer uma precavida consideração. as informações sobre essa região que a linguística histórica pode providenciar são necessariamente advindas da reconstituição das línguas americanas sobreviventes. hoje acredita-se que devem ter havido múltiplas migrações para a América.

duas línguas isoladas). sete línguas isoladas). macroalgonquinas (duas famílias. hocana (dez famílias. nenhuma língua isolada). que deve ter existido como língua autônoma mais de 4. todas as grandes famílias identificadas parecem não ter nenhuma relação umas com as outras. A família otomangueana é uma das maiores famílias linguísticas da Mesoamérica. provavelmente como resultado de um período longo demais (no qual as atuais técnicas linguísticas não conseguem penetrar) e/ou múltiplos povoamentos (ou seja. duas línguas isoladas).15 Na verdade. inclui a pequena família huastecana e a imensa família iucatã-core. com diversas subfamílias e subsubfamílias. penutiana (nove famílias. A situação é semelhante na Mesoamérica (América Central). que não possuem afiliação evidente com nenhuma das grandes famílias listadas. Entre as famílias mais importantes estão a otomangueana e maia. uma 'classificação consensual' concluída em 1964 aceitava sete grandes famílias linguísticas que podem ser derivadas de línguas comuns faladas entre grupos autônomos no fim da última Era Glacial: ártico-paleossiberiana americana (com duas famílias linguísticas). na-dene (uma família. Também há um surpreendente número de famílias linguísticas (como a salish) e línguas isoladas (keres).No caso das línguas da América do Norte. macrosiouana (três famílias. famílias linguísticas não relacionadas que chegaram ao Novo Mundo uma após a outra). onde foram identificadas muitas famílias autônomas e línguas isoladas.000 anos atrás. A família maia. A análise comparativa (reconstituição de uma protolíngua por meio da comparação de línguas descendentes) não conseguiu encontrar indícios de que essas línguas norte-americanas sejam descendentes de uma ancestral comum. sete línguas isoladas). sete línguas isoladas) e asteca-tanoana (duas famílias. Também há 39 . com oito subfamílias.

a linhagem na-dene do noroeste da América do Norte parece ter apenas 9. Atualmente. pelo menos. 20.500 anos). talvez. dentro dos quais.000 anos (para contrastar. A entrada de populações humanas na América do Sul foi condensada de maneira semelhante nos últimos anos. geralmente — embora não universalmente — aceita-se que o sítio arqueológico de Monte Verde no sul do Chile tenha 12.500 anos.mais de 100 línguas extintas e não classificadas on dialetos na Mesoamérica. antes da elevação do nível do mar. porém. e de outro modo desconhecidas. guaikuru. pano. arawak (a maior família linguística do Novo Mundo. gê. tucano. que data de. dezenas de milhares de anos. Uma análise de DNA mitocondrial sugere que uma linhagem ameríndia de 30.16 Toda a América do Sul apresenta atualmente uma paisagem linguística muito antiga e complicada. com possíveis incursões múltiplas do noroeste (Panamá) e nordeste (Caribe).000 anos atrás. mencionadas apenas em fontes históricas. a América do Sul apresenta um dos mais difíceis desafios linguísticos do planeta. tronco tupi e carib. É evidente que essas datas estão bem além das possibilidades de reconstituição de qualquer técnica linguística moderna. tacanan. Entre eles estão o chibcha (a 'ponte linguística' entre a Mesoamérica e a América do Sul). Hoje. quéchua.000 anos. Os arqueólogos também dataram vilas em todo o litoral pacífico da América do Sul em. com cerca de 65 línguas autônomas). e um sítio arqueológico no interior do Brasil indica uma ocupação de 50. ambas as datas são controversas. 90 . Foram propostos setenta e cinco ramos ou superfamílias para a América do Sul. alguns também ocorrem em regiões da Mesoamérica e do Caribe.

Na época da chegada europeia. Embora indícios recentes sugiram a possibilidade da presença humana em Sahul entre 60. Uma recente análise linguística sugeriu que todas as línguas de Sahul compreendem um único estrato e que a colonização subsequente estabeleceu uma segunda camada. a Austrália e a Nova Guiné formavam o antigo continente de Sahul. a maioria dos especialistas ainda concorda que as provas da presença humana não tenham mais que 35. considerados de alguma maneira 'racialmente diferentes' dos australianos nativos.000 e 40. o pressuposto ponto de entrada. a extrema antiguidade da presença humana em Sahul faz com que qualquer característica remanescente de um povoamento inicial seja altamente improvável. a reconstituição histórica limita a linguística a. as características reconhecidas devem datar de muito após a intromissão do sapiens. ocupavam a ilha da Tasmânia ao sul do litoral leste da Austrália.000 tasmanianos. usando as modernas línguas sobreviventes.LÍNGUAS OH SAHUL (TASMANIANO.000 e 50. Talvez os falantes tasmanianos sejam descendentes de 91 . no final do século dezoito. cerca de 5. a Tasmânia. A história da linguagem da área precisa ser remontada por meio de uma abordagem indutiva. alguns milhares de anos antes da era presente.000 a 8. AUSTRALIANO E PAPUA) Antes da elevação dos níveis do oceano no final da última glaciação. Novamente.000 anos atrás.17 Porém. no melhor dos casos. cujas características residuais podem ser encontradas nas línguas do noroeste.18 Duas línguas tasmanianas autônomas existiram: o tasmaniano do norte e o tasmaniano do sul. Nenhuma delas parece relacionada a qualquer língua do continente australiano nem a qualquer família linguística que tenha sido reconstituída.000 anos.

000 anos atrás. 12. Desde então. pontuado apenas periodicamente. uma vez que faltam necessárias características que as distingam. Porém. infelizmente dificulta uma abordagem comparativa para uma classificação. que tenha sido levada à periferia do continente e ficado presa ali quando. apenas cerca de vinte dessas línguas ainda são aprendidas por crianças australianas. no norte da Austrália. havia cerca de 260 línguas distintas próprias da Austrália e das ilhas do estreito de Torres. por mudanças súbitas causadas por fatores externos (migração. Essas línguas também podem ter experimentado um período notavelmente longo de equilíbrio linguístico. o que.uma população muito antiga de Sahul. Na verdade. Parece que a homogeneidade incomum das línguas australianas pode ser atribuída ao isolamento virtual do continente desde o fim da última Era Glacial. dificulta uma reconstituição rígida. foi o perfil australiano incomum que primeiro inspirou o modelo de 'equilíbrio pontuado' da linguística histórica. a baixa qualidade do material linguístico tasmaniano disponível para os linguistas. fazendo com que as diferentes línguas daquela área 92 . separando a Tasmânia da Austrália. esse modelo recente propõe que longos períodos de equilíbrio social no passado experimentaram a difusão de características linguísticas numa determinada área. as línguas australianas apresentam uma uniformidade notável. Diferente das línguas americanas. mais de 100 foram extintas e atualmente. invasão. criticalidade auto-organizada). totalmente antedatado da morte de seu último falante em 1877. mudança social e assim por diante) ou internos (pressões sistêmicas.20 Com o termo emprestado da biologia evolucionária. outras 100 estão em vias de desaparecimento. particularmente em seu sistema fonêmico (sons significantes). asiáticas e africanas nativas.19 Na época da intromissão britânica na Austrália em 1788. o estreito de Bass se encheu.

esse estado de equilíbrio alongado seria 'pontuado' ou perturbado por uma mudança súbita. As atuais línguas australianas não se dividem confortavelmente em 'árvores genealógicas'. com mudanças e convergências advindas de difusões regionais ocasionais e ajustes internos. mas representa uma coincidência superficial de características artificialmente consolidadas por técnicas linguísticas modernas. as línguas sapiens mais primitivas da área se espalharam por todo o continente e foram faladas por.convergissem numa língua prototípica comum (ver ilustração 5). causada por um ou mais fatores externos ou internos mencionados acima. assim como suas línguas. que interagiu de algum modo desconhecido em Sunda e/ou noroeste de Sahul. baseado apenas em 'árvores genealógicas' e. dezenas de milhares de anos. as 29 subfamílias de uma grande família australiana são fonologicamente (fonologia é a ciência dos sons da fala e seus sistemas) menos diferenciadas que apenas duas subfamílias e uma grande família americana. Então. É principalmente esse fato que torna urgente a identificação de um protoaustraliano primitivo.000 anos atrás. como ocorre em outras línguas.21 Por exemplo. alguma coisa que se aproximou de um suposto protoaustraliano pode ter gradualmente emergido das línguas agregadas faladas pelo Homo sapiens. mais tarde. Porém. criando uma 'árvore genealógica' de línguas. Isso poderia então aumentar o número de povos e dividi-los. Há quem argumente que o protoaustraliano nunca existiu como língua real. novamente. Embora muitos linguistas assumam a existência de uma língua primitiva protoaustraliana. tal protolíngua nunca foi satisfatoriamente estabelecida por uma aplicação formal do método comparativo (provavelmente devido à fraqueza do próprio método. ocasionalmente. que esteja 93 . Assim. também em mudanças pontuadas). cerca de 35. talvez.

Este último. os linguistas sugerem o termo 'língua aparentada'. Ou pode ter sido a única língua da Austrália. derivadas em último caso do protoaustraliano.23 Mas. não foi encontrada nenhuma correspondência sistemática fonológica nem morfológica confiável. dentro de uma área geográfica confinada. com mais de 1. há o que talvez sejam vestígios de uma ou mais línguas anteriores.extremamente distante no tempo.24 Embora se possa esperar ligações genéticas com as línguas australianas. a Nova Guiné. a densidade dos cognatos (palavras relacionadas pela origem) é tão baixa quanto a obtida entre línguas totalmente diferentes. Tais cadeias dialetais são impressionantemente longas.000 anos sem intervenções estrangeiras significativas até 1788.22 Por esse motivo. se realmente existiu como língua real. As línguas australianas também apresentam estruturas muito semelhantes. pode ter sido uma forma de língua migrante que se impôs sobre uma ou mais línguas anteriores de maneira tão completa. ou o protoaustraliano. cerca de 8. Porém. mais de 700 (além de outras 200 línguas austronésias). em todos os seus dialetos (mesmo com apenas 45% de vocabulário compartilhado entre dialetos que estão nas pontas). elas podem ser convergências recentes. Ao contrário da crença 94 . quase idênticas. abriga o mais rico tesouro de línguas. Isolada de Sahul desde o preenchimento do estreito de Torres.500 quilômetros. Apenas em vocabulários regionais australianos. que pode ter passado por uma evolução cíclica num período de 35. novamente. mas considerando todos os dialetos da língua. a segunda maior ilha do mundo.000 anos atrás. Muitos falantes de qualquer língua australiana conseguem entender os dialetos de seus vizinhos próximos. que essa(s) língua(s) anterior(es) não é(são) mais reconhecida(s) hoje. ainda é virtualmente impossível provar que essa característica particular deriva de uma língua ancestral comum.

anterior. '-da' e Y. e partes de Bougainville e outras ilhas Salomão até o arquipélago de Santa Cruz. ANO 1000 Aconteceram mudanças naturais internas. diferentes línguas podem convergir em uma protolíngua pela difusão. Pantar.ANO 0 Três diferentes línguas vizinhas apresentam palavras diferentes para 'humanidade.000 falantes. regiões da Nova Bretanha e da Nova Irlanda. não austronésia) da Nova Guiné parecem ser faladas por comunidades relativamente populosas. com os sufixos nominais variantes V. ANO 2000 A supremacia política da língua dominante causou mais mudanças e cópias. muitas das línguas papua (ou seja. apenas com diferenças dialetais menores na nova protolíngua. norte de Halmaera nas Molucas. partes do Timor). O papua é falado em quase toda a Nova Guiné (com exceção de alguns litorais). leste da Indonésia (Alor. devido à comunicação contínua entre as três línguas.25 Após as línguas austronésias. Das supostas 741 línguas papua identificadas 95 . às vezes superiores a 100. as línguas papuas compreendem a segunda maior divisão linguística do Pacífico e do sudeste asiático. com ocorrência de cópia. resultando em compartilhamento sistêmico. 5 Durante um período de equilíbrio.

no sul do Pacífico — que comporta o maior número de línguas. Porém. LÍNGUAS AUSTRONÉSIAS A elevação do nível dos oceanos no fim da última glaciação também gerou. talvez agricultores de arroz do delta do Yang-Tsé.27 Falada atualmente por cerca de 270 milhões de pessoas. Indícios dessa afirmação são encontrados nas reconstruções tonais e monossilábicas do protoaustronésio. indiretamente. embora poucas pesquisas linguísticas histórico-comparativas tenham sido feitas. Micronésia e Polinésia. Muito do trabalho comparativo sobre o papua foi baseado na análise estatística de palavras. 2 % (25 línguas da Malásia. outros pesquisadores identificaram apenas cerca de 60 pequenas famílias linguísticas. Indonésia e Brunei) do total de línguas austronésias atuais são faladas por 87% dos falantes de línguas desta família. no Oceano Indico. Surpreendentemente. aproximadamente 1.28 96 . cerca de 30% de todas as línguas do mundo. É possível que os falantes da pré-protoaustronésia.000 anos atrás. até a Ilha de Páscoa. duvidoso. cujas afiliações genéticas precisas não são claras. Na verdade.200. falada cerca de 8. 'papua' é usado muito frequentemente para designar todas as línguas não austronésias da área. e é. a assim chamada trans-nova guineense. a família austronésia inclui quase todas as línguas da Indonésia. de modo geral. a relativamente recente superfamília linguística austronésia — que atualmente se estende desde Madagascar. 507 supostamente pertencem a uma 'superfamília' linguística. que parecem lembrar muitas das línguas e famílias linguísticas da China e do sudeste asiático. pertencessem a um subgrupo de uma família linguística sino-tibetana.na década de 1980.26 Esse seria um agrupamento de um nível mais alto (mais antigo) que incluiria cerca de 80% de todos os falantes papua.

000 a 1. que levou os falantes de austronésio para o interior montanhoso. quando os falantes do indo-europeu entraram pela primeira vez pelo noroeste mais de 3. 4. cujas origens estão obscurecidas pela passagem do tempo. é a quarta maior do mundo e inclui 24 grandes subfamílias. lutavam pela supremacia.Deslocados por intrusos falantes de sino-tibetano do norte. por falantes do protodravídico. É geralmente aceito que a família dravídica — sem nenhum cognato identificável entre as línguas do mundo — foi a família linguística nativa mais amplamente distribuída da Índia. A superfamília dravídica. na Ásia e na América do Sul.) A cultura altamente avançada do Vale do Indo. extremamente populosas na Índia são indo-europeias. a língua dravídica bahui ainda é falada atualmente — as principais línguas dravídicas estão hoje localizadas no sul da Índia (télugo. por exemplo. apenas 1 % da população de Taiwan.000 a. kanarese e malaiala). Taiwan permaneceu exclusivamente habitada por falantes de austronésio até a invasão chinesa no século 17 d. hoje. LÍNGUAS INDIANAS A primitiva convolução linguística do subcontinente indiano lembra o que ocorreu na África. muitas grandes famílias linguísticas. por exemplo.000 anos atrás. Por outro lado. (As línguas indo-iranianas. restam apenas 200.C.29 Assim.000 falantes de austronésio. Já nos primórdios. hoje falada por cerca de 175 milhões de pessoas. 97 . é possível que os falantes do protoaustronésio tenham chegado à Ilha de Taiwan vindos do sudeste. cerca de 6.000 anos atrás. tâmil.000 anos atrás.000 a 5.30 Embora algumas poucas línguas dravídicas tenham sobrevivido no norte da Índia — Baluchistão oriental (centro do Paquistão).C. pode muito bem ter sido elaborada. arqueólogos identificaram uma continuidade notável na antiga cultura hindu que vai de 8.

primeiro pelos dravidianos. do gótico e do itálico. (Linguistas mais antigos deduziram uma ligação por meio do antigo liguriano às línguas caucásicas da Ásia Ocidental. mon-khmer e annam-muong da Índia oriental pertencem à família austro-asiática que entrou no território indiano pelo sudeste asiático muito tempo atrás.A classificação das outras línguas nativas da Índia é difícil. não tem nenhum cognato identificável. onde várias espécies humanas prosperaram por centenas de milhares de anos. pelos celtas falantes de gaulês. os lígures do sul da França e oeste dos Alpes. podem ter sido celtas primitivos). do noroeste da Índia. Quase todas essas famílias desapareceram sem deixar rastros. por exemplo. Nomeados em relatos romanos de 2.) 98 . porém. LÍNGUAS EUROPEIAS Evidentemente também existiram muitas famílias linguísticas na Europa. Expulsos para a periferia geográfica dos Pirineus. embora seu vocabulário seja permeado por palavras emprestadas do celta. como os pictos ou cruithne na Escócia (que. Uns poucos nomes pré-indo-europeus (acredita-se) sobreviveram em escritos primitivos. Elas podem muito bem representar relíquias de famílias muito grandes que foram marginalizadas durante muitos milhares de anos. Semelhante ao basco na Europa.000 anos atrás. Os últimos exigem um lugar especial na pré-história da Europa. a língua burushaski. depois pelos indo-europeus. aparentemente relacionado com os aquitanos do sudoeste da Gália da era romana. os bascos falavam uma língua — o basco — não relacionada com nenhuma língua viva conhecida. os etruscos da Itália e os bascos do norte da Espanha e sudoeste da França. As populosas famílias linguísticas munda. os bascos representam geneticamente um tipo paleolítico que evidentemente já foi mais espalhado pela Europa Ocidental.

Quase três milênios atrás. uma vez que seu perfil genético se difundiu gradualmente na região de Garona (antiga Aquitânia). a proposta parece forçada. é uma língua indo-europeia da subfamília germânica e subsubfamília germânica ocidental. ou evoluíram linguisticamente. os territórios dos falantes do basco foram invadidos pelos celtas que falavam o gaulês.) Geralmente se assume que guerreiros montados da Europa Oriental conquistaram toda a Europa e substituíram as línguas nativas pelo seu próprio protoindo-europeu. das Américas à Nova Zelândia. ou sua língua.000 anos atrás. pelo menos no que diz respeito à língua (a questão genética permanece aberta. por exemplo.31 Segundo a nova teoria. cerca de um 99 . Os bascos parecem geneticamente mais distintos dos vizinhos espanhóis do que dos franceses.000 anos atrás. 10. Os dez principais dialetos bascos são atualmente falados por cerca de 700. vindos do Oriente Médio — não como guerreiros. neste caso. a maioria dos especialistas aceita que os falantes do basco ocuparam. esses novos migrantes entraram gradualmente na Europa. Essa interpretação foi posta em questão na década de 1980. uma língua indo-europeia atualmente extinta. como se verá a seguir). Os bascos. 50. (O inglês.000 pessoas. Embora alguns pesquisadores tenham proposto que os bascos e sua língua possam ser descendentes diretos dos Homo sapiens colonizadores originais da Europa. em sua maioria no norte da Espanha. célticas.Hoje. O indo-europeu é uma superfamília linguística — a mais bem-sucedida da história — que inclui quase todas as línguas faladas atualmente na Europa e suas vastas ex-colônias. a região basca antes do primeiro contato com línguas indo-europeias. mas sim como agricultores que plantavam e colhiam. pela teoria que diz que os indo-europeus chegaram na Europa no fim da última Era Glacial. podem muito bem ter precedido os primeiros intrusos célticos por poucos milhares de anos.

000 anos atrás. cerca de 5. e depois suprimiu todas as línguas locais enquanto a agricultura substituía lentamente a caça e a coleta. também não há indícios linguísticos que apontem que os indo-europeus introduziram a agricultura na Europa numa época tão antiga — isso pode ter sido alcançado por um povo pré-indo-europeu. vindos não do Oriente Médio. a possibilidade de que o indo-europeu e o urálico tenham uma língua ancestral comum.000 anos atrás. falada no extremo oriente da Europa cerca de 7.33 Se essas afinidades são substanciais (uma comparação formal ainda está pendente). Os linguistas rejeitam uma substituição gradual da língua. ou mesmo novas línguas. cerca de 10. ou representem a convergência heterogênea de duas ou mais línguas diferentes. mas os residentes europeus não foram expulsos por outros povos. cerca de 3500 a. porém contíguas. tanto geneticistas quanto linguistas puseram em questão essa teoria. há. absorvendo as populações que caçavam e coletavam.quilômetro por ano. tenham sido introduzidas por povos do Oriente Médio. com a chegada dos indo-europeus da cultura de cerâmica linear muitos anos mais tarde.500 anos 100 . mas da Europa Oriental. Isso explicaria evidentes e extremamente antigas afinidades com as línguas fino-úgricas e o samoiedas da família urálica.32 A ciência da linguística histórica argumenta que o lar original dos indo-europeus era o centro geográfico da área a partir da qual sua língua se expandiu — a Europa Oriental. por sua vez. Os geneticistas apontaram que o perfil genético humano na Europa não teve alterações significativas nos últimos 50. Porém. então. Sua linguagem 'superior' primeiro dominou. O povo da cultura de cerâmica linear.000 anos: talvez técnicas agrícolas.C. talvez os primeiros indo-europeus a entrar na Europa Central.

que é apenas uma das mais de 100 línguas descendentes do indo-europeu. gerou línguas descendentes.34 Só o inglês. Então. sobre substratos variados e dinâmicos ou línguas subjacentes.500 anos. o indo-europeu se diferenciou. armênia e indo-iraniana). com exceção do território basco e da região norte da Escandinávia e do Báltico. 101 . Linguisticamente. balto-eslava. O perfil genético das línguas europeias modernas revela que as línguas dos minoritários invasores indo-europeus foram bem-sucedidas em quase todos os lugares. até então detentor do recorde linguístico. cada língua indoeuropeia individual evoluiu em seu próprio solo: ela não era uma 'invasora'. mas sim. às vezes difícil de entender. nativa. Documentada em registros escritos em quase 4. pode atualmente contar com mais falantes de primeira e segunda línguas do que o mandarim chinês. o grego moderno. românica. teria substituído aqueles agrupamentos muito antigos e dispersos de povos celto-itálicos. as línguas europeias nativas conhecidas atualmente surgiram apenas como resultado de muitas forças. substituindo as línguas nativas dos moradores majoritários.atrás. o itálico e o germânico emergiram anteriormente. que perseveraram nos milênios subsequentes. germânica. Então. Consequência de um mecanismo histórico. albanesa. o indo-europeu compreende hoje uma das famílias linguísticas mais prósperas do planeta (ver ilustração 6). distribuídas em oito subfamílias modernas (céltica. um processo que produziu a extremamente rica e culturalmente significativa superfamília linguística que o indo-europeu se tornou nos últimos 5. grega.000 desses anos. germânicos e talvez balto-eslavos. o francês e o inglês surgiram do mesmo modo que o protogrego. evoluindo a partir de conjuntos tribais mais antigos por meio de uma miríade de processos específicos da língua. ou seja.

.6 Árvore genealógica das línguas Indo-europeias (resumida).

Protoindo-europeu .

O indo-europeu também compreende a família linguística mais estudada do planeta e.000 ou menos para protolínguas específicas. e a maior parte de suas especulações. menos se consegue reconstituir uma língua autêntica. como a protoindo-europeia.000 anos atrás. A paleolinguística é limitada a um grande corpus de itens compartilhados que devem.37 Esse ponto temporal fica cerca de 10. o fim da última Era Glacial. principalmente por intermédio do sânscrito. Até então. 104 . isso é muito recente. 'Não é nem sensato nem prudente procurar uma árvore genealógica ou árvores genealógicas'. Em relação à antiguidade do ser humano. como origem da ciência linguística moderna.36 Reconstituições além de um certo ponto temporal se dissolvem em especulações vãs para a necessidade de dados comparativos concretos. foi um grande ponto de virada na história da humanidade.35 Quanto mais para trás vai a pesquisa linguística.Na segunda metade do século vinte. nos séculos dezoito e dezenove. mas apenas cerca de 6. Contudo. 10. o inglês se tornou a língua dominante da comunicação global e o mais próximo que a humanidade já chegou de uma linguagem mundial. bolsões isolados de sociedades primitivas só haviam interagido ocasionalmente. então. permitir comparações léxicas (palavras) e fonológicas (sistemas sonoros significativos) entre línguas. Foi uma era de grande diversidade linguística. Quando esse corpus fica pequeno demais — como ocorre num longo período de separação física entre tribos relacionadas — as correspondências sonoras sistemáticas entre as línguas simplesmente desaparecem. serviu. Isso acontece porque o método comparativo de reconstituição linguística não permite o mesmo tipo de Viagem no tempo' que outras ciências.000 anos atrás para uma amplitude muito grande de protofamílias linguísticas.

Esse isolamento natural engendrou um grande número de pequenos agrupamentos linguísticos autônomos, cujo estado normal era, talvez, de equilíbrio e mudanças modestas e graduais, quase sempre por meio da difusão regional. O enorme aumento populacional humano que se seguiu após a última glaciação, talvez de um modo paradoxal, reduziu a diversidade linguística da humanidade, porque na época, o aumento da população estabeleceu não apenas famílias linguísticas maiores, mas também casos de uma única língua (como o mandarim chinês) com um número de falantes sem precedentes. O aumento do poder econômico e político na sociedade humana, como regra, gera unidades linguísticas homogêneas cada vez maiores, que então suprimem as menores. Esse sistema sinergístico cresce exponencialmente até que, no fim, apenas um número muito limitado de línguas e famílias linguísticas sobrevive. Essa é a situação linguística do mundo atual, com um número de línguas que diminui rapidamente, apesar do excesso populacional. Talvez também por esse mesmo motivo, é essencial que nós compreendamos a abundante paisagem linguística de 10.000 anos atrás, provavelmente o limite absoluto da reconstituição linguística: foi este o funil pelo qual os ancestrais de todas as línguas sobreviventes atravessaram. Análises genéticas recentes revelaram que, através dos séculos e milênios, geralmente as línguas, e não os povos, são substituídas. Ou seja, novas línguas são prontamente absorvidas por populações relativamente estáveis. Desse modo, por exemplo, os pré-celtas das Ilhas Britânicas e Irlanda adotaram as línguas dos celtas minoritários, quando esses indo-europeus entraram em seu território. Seus descendentes, muitos séculos depois, de maneira semelhante, adotaram a
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língua dos minoritários germânicos ocidentais ('anglo-saxões') que invadiram suas terras, embora o perfil genético dos moradores insulares tenha permanecido relativamente o mesmo. Esse é um fenômeno que ocorreu inumeráveis vezes em todo o mundo. Em toda a história, as sociedades humanas usaram novas línguas como capas. As metamorfoses linguísticas sempre passaram despercebidas — até a escrita.

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Linguagem escrita

'Um escriba, cuja mão se iguala à boca é um escriba de verdade', escreveu, em argila, um sumério anônimo, cerca de 4.000 anos atrás, e com a frase, ele capturou a essência da escrita.1 A escrita não 'evoluiu' gradualmente a partir de desenhos mudos. Ela começou imediatamente como a expressão gráfica da própria fala humana, e assim permaneceu. Mesmo o mais antigo hieróglifo egípcio de cerca de 3400 a.C, que imortalizou um chacal, teria evocado imediatamente na mente de seu leitor a palavra egípcia para 'chacal'. Não houve uma pessoa que 'inventou' a escrita. Ela surgiu pela primeira vez numa ampla faixa que vai do Egito até o Vale do Indo, aparentemente como resultado da melhora de um antigo sistema de contagem e classificação. Um negociante ou funcionário melhorou esse sistema descrevendo pictoricamente o bem que estava sendo
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contado, medido ou pesado, para diminuir as ambiguidades. Embora todos os glifos (abreviação para hieróglifo) primitivos compreendessem figuras simples, mesmo os mais rudimentares representavam um significado fonético ou sonoro tirado diretamente da língua. O modelo mais básico de linguagem escrita compreende três classes gerais, com muitas variantes transicionais e combinações (escritas mistas):2 — Uma escrita logográfica permite que um glifo represente um único morfema (a menor unidade linguística significativa, como 'mão') ou uma palavra inteira ('chacal', como no primitivo hieróglifo egípcio). — Uma escrita silábico, compreende glifos que têm significados apenas silábicos-fonéticos (por exemplo, ko-no-so para 'Konossos', nos escritos egeus da Era do Bronze). — Uma escrita alfabética permite que glifos, chamados 'letras', representem vogais e consoantes individuais (a, b, c, como no alfabeto latino). Com o tempo, a maioria dos escritos históricos reflete uma mudança de classe, em que a semântica anterior, ou sentido, é gradualmente substituída pelo conteúdo fonético ou sonoro: desse modo, os sistemas logográficos tendem a se tornar sistemas silábicos. Em contraste, o sistema alfabético permanece único: uma vez desenvolvida — iniciada no Levante e terminado na Grécia — a escrita alfabética foi subsequentemente adotada por centenas de línguas. Hoje, o sistema de escrita alfabético é o único usado para representar graficamente línguas anteriormente sem escrita. É possível que a ideia da escrita tenha surgido uma única vez na história humana, e depois imitada por muitas sociedades. Até bem
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recentemente, a maioria dos pesquisadores acreditava que esse surgimento havia ocorrido somente no sul da Mesopotâmia (hoje, sudeste do Iraque).3 Porém, novos indícios arqueológicos tornam urgente a consideração de que a escrita primitiva se desenvolveu num território mais amplo, que se estende do Egito até o vale do Indo. Através da 'difusão estimulada — a transmissão de uma ideia ou costume de um povo a outro — a ideia da utilidade de mecanismos de escrita, onde quer que tenha sido sua origem, inspirou seus vizinhos a criar seus próprios sistemas de escrita de maneira semelhante, embora gráfica e foneticamente únicos.4 Em algumas culturas, a linguagem escrita alcançou a veneração, como no caso dos hebreus de Canaã, os antigos germânicos e habitantes da Ilha de Páscoa. Nesses casos, a arte gráfica da escrita, e não necessariamente a mensagem transmitida, se tornou algo à parte da existência cotidiana, uma comunicação transcendental a ser praticada apenas por escribas ou sacerdotes. Na história, o próprio ato de escrever foi frequentemente considerado um processo mágico. Um darwinista considerado um dos fundadores da antropologia moderna proclamou que a evolução da sociedade da 'barbárie' à 'civilização' foi possível primeiro e antes de tudo pela capacidade de ler a linguagem escrita.5 Pode-se ir além, como acredita-se atualmente, considerando a escrita como o principal lubrificante da sociedade: a escrita não permitiu o desenvolvimento social, mas facilitou em muito a mudança social. Também pode-se optar em evitar a identificação de 'estágios' no uso da escrita. As três classes de escrita — logográfica, silábica e alfabética (e seus usos transicionais e mistos) — são, cada uma delas, maximizadas por uma língua, uma sociedade e uma era particulares. Sistemas de escrita são ajustados com a mudança das línguas através do tempo, ou então um sistema de escrita vizinho é tomado
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emprestado e radicalmente alterado para se encaixar numa língua diferente. As três classes não são graus qualitativos nem estágios de um modelo de evolução da escrita; são simplesmente diferentes formas de escrever, às vezes, usadas para acomodar novas e diferentes necessidades.6 As línguas podem 'evoluir', ou seja, se desenvolver de maneira livre da intervenção intencional humana, mas os sistemas de escrita são modificados propositalmente por agentes humanos para alcançar determinados objetivos específicos. O objetivo mais comum é uma melhor reprodução gráfica da língua falada do escritor. Com o passar dos séculos e milênios, pequenas modificações constantes num sistema de escrita resultam numa enorme diferença na aparência e uso de um manuscrito.7 Mesmo mais de 2.000 anos depois, o atual alfabeto latino, descendente dos mais antigos hieróglifos egípcios, ainda está experimentando, simultaneamente em muitas línguas diferentes, a adição de um novo sistema de sinais externos — ou, devido a novas tecnologias, a expansão semântica de sinais antigos — como %, ¥, ™, ©, e mais recentemente, @ e // com a internet. Nas sociedades em que a capacidade de ler e escrever é limitada a poucas pessoas selecionadas, parece que a escrita tem poucos efeitos sobre a língua falada.8 Mas em sociedades em que essa capacidade é difundida, o impacto da escrita é profundo. A escrita preserva a língua falada, nivela, padroniza, determina, enriquece e gera muitos outros processos orientados pela língua com implicações sociais de amplo alcance. A sociedade humana como conhecemos não pode existir sem a escrita. A aquisição da capacidade de ler e escrever se tornou, no mundo moderno, a segunda capacidade mais importante, perdendo apenas para a aquisição da própria língua. A inspirada elaboração da escrita a tornou, em pouco mais de 5.000 anos, quase tão indispensável à humanidade quanto as línguas que ela transmite.
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apenas três principais tradições guiaram efetivamente o curso da linguagem escrita: a do Egito e Suméria.)9 Merecem um exame mais detalhado os escritos que deram voz às mais primitivas culturas do planeta. e engendraram famílias inteiras de escritas e aqueles que hoje dominam o mundo. que adotaram nomes de cidades e profissões e o sistema de contagem dos moradores locais. implicando um empréstimo cultural para a obtenção de prestígio e poder. na Mesopotâmia. a 'terra entre os rios' Tigre e Eufrates. Após a incursão dos sumérios na área.Traços de sistemas de escrita apareceram e desapareceram na história. a escrita serviu às prerrogativas dos sacerdotes e propagandistas. e a da Mesoamérica. Surpreendentemente. Tanto eles quanto as dezenas que estão atualmente em uso em todo o mundo não devem nos retardar nesta história da linguagem. a da China. Placas de argila datadas de 8.10 Nos povoamentos agrícolas mais primitivos da região. aqui chamada de escrita afro-asiática. estampadas com estiletes de junco estavam sendo desenvolvidas para incluir mais informações sobre contagem de jarras de azeite e vinho e unidades de terra. ou escrita asiática. recomenda-se alguns excelentes trabalhos. Quando os sumérios projetaram 'envelopes' de bolas ocas feitas de argila para colocar essas placas 111 . Em todas as outras partes do mundo. Apenas nas terras do Egito até o Vale do Indo a escrita surgiu a partir de uma necessidade mundana: contabilidade. podem ter sido as primeiras precursoras da escrita fonética. feitas de argila. ESCRITA AFRO-ASIÁTICA Talvez os povos afro-asiáticos tenham sido os únicos na história a elaborar uma escrita sem inspiração externa.C.000 a. (Ao leitor curioso. quantidades de grãos e número de animais foram computados por meio de formas. como pratos e cones. novas formas e mesmo marcas.

os intermediários do poder do Alto Egito tinham um 112 . reduzindo as figuras a morfemas e sinais puramente fonéticos para melhor reproduzir a língua egípcia. outras placas. como sempre. Com a nova escrita logográfica. nasceu um sistema de escrita logográfica. com suas óbvias vantagens econômicas. os governantes do Alto Egito estavam consolidando gradualmente sua base de poder. sofisticaram esse processo. e a escrita que usa pictogramas é chamada de escrita pictográfica. O centro de qualquer administração é. com o uso de figuras-símbolos identificáveis para representar sons falados: via-se um objeto reconhecível e simplesmente pronunciava-se seu nome em voz alta. Os egípcios. o controle da informação. Durante o período pré-dinástico Gerzean. revelaram que os egípcios do local usavam uma escrita logográfica ou hieroglífica mais refinada já em 3400 a. Era a escrita como atualmente a conhecemos. os marcadores contábeis do interior dos envelopes se tornaram supérfluos. Descobertas recentes em Abidos. por sua vez. ou um método semelhante de contagem. que podia capturar e sustentar a lei real e permitia uma contabilidade controlada. e 'lidas' como um rótulo. antes da união das províncias locais.de contagem. que mantinham um comércio ativo com os sumérios. Em tempo. o mais antigo 'centro de poder' do Alto Egito. reproduzindo o conteúdo dos envelopes foram estampadas em sua superfície exterior. adotaram bem cedo este.C. ou Naqada II. Parece que os egípcios e os harappeanos do Vale do Indo. criando uma administração central mais eficiente para cumprir seus ousados planos de unificação do Alto e do Baixo Egito num único reino. uma vez que a impressão exterior já comunicava o bem e a quantidade. Tal símbolo é chamado de pictograma. No fim. totalmente capaz de transmitir sentenças gramaticais da língua falada.

uma única escrita.13 A escrita hieroglífica consistia. Cerca de 26 glifos representavam apenas 113 . ações. os egípcios não designavam o som das vogais. Todas as três são. consiste de um homem sentado com uma mão na boca. mas apenas cerca de 500 deles eram usados regularmente. de cerca de 2. originalmente. que normalmente eram escritas com tinta em papiros. e o da 'lótus' ssn. (Normalmente. que significa 'comer'. A mais importante são os hieróglifos (uma posterior denominação grega errada para o termo 'entalhe sagrado') de uso principalmente monumental ou ritualístico. que significa '10. Eles também podem ser usados homofonicamente.000'. a hierática e a bem mais tardia escrita demótica.12 Porém. bem mais do que qualquer um dos nossos alfabetos modernos conseguiria se encaixar. A nova escrita também se encaixava perfeitamente bem à estrutura particular da língua afro-asiática do Egito — na verdade. só o das consoantes. essencialmente.veículo para avançar o processo de centralização política. as três escritas só se diferenciam na aparência externa. ou mesmo abstrações. mais do que qualquer outro sistema de escrita da história da humanidade. também era usada para representar db. com uma palavra servindo para significar outra de som parecido: a palavra db que significa 'dedo'. Esses glifos consistiam da reprodução gráfica do objeto nomeado: o glifo de uma 'mão' era pronunciado drt. Os glifos podem ser objetos.) Outros hieróglifos são apenas sugestivos: por exemplo.11 Há três formas de escrita egípcia antiga. wnm. As duas escritas cursivas (a escrita cursiva flui livremente com caracteres unidos). Isso também pode explicar por que o sistema de escrita logográfica dos egípcios sobreviveu quase sem mudanças em sua base por mais de 36 séculos.500 glifos. É possível que a escrita hieroglífica do Egito tenha surgido como resultado imediato da dinâmica social que levou à unificação do Alto e do Baixo Egito.

C. produzindo um sistema de escrita misto com várias centenas de logogramas. Uma única barra embaixo de um glifo significava que ele era um logograma. para facilitar a escrita da contabilidade do governo central. ao mesmo tempo e do mesmo modo 114 . mas escrevia-se apenas pr para ambos. duas barras abaixo significavam dois do objeto retratado. outros 84 representavam duas consoantes. couro e óstraco (fragmentos inscritos em cerâmica). na época.C. Porém. e três significavam que havia três ou mais (ver ilustração 7). eles talvez tenham inspirado os silabários protoalfabéticos (conjuntos de símbolos que representam sílabas) do Levante. eles nunca se desenvolveram num alfabeto. Isso permitiu que uma escrita cursiva — mais tarde chamada de hierática — se desenvolvesse no final da Segunda Dinastia.uma consoante. 24 outros eram sílabas (silabogramas). dizia-se par para 'casa' ou 'sair'. cerca de 2600 a. Apenas dessa forma poder-se-ia escrever coisas que iam além de objetos específicos e facilmente determináveis.15 Os hieróglifos egípcios eram mais frequentemente escritos com tinta em papiro. Embora na época tenham surgido 26 glifos específicos para consoantes. silabogramas e determinativos. que. e em última análise. no segundo milênio a. os escribas usaram para palavras que não tinham qualquer relação com 'casa' nem 'sair'. Por exemplo.400 anos atrás. mais tarde.14 Cerca de 100 glifos determinativos-impronunciados que 'determinavam' ou identificavam a classe à qual o respectivo glifo pertencia — seguiam-se após os glifos fonéticos (sonoros). Os hieróglifos egípcios parecem ter assumido suas formas padronizadas e significados sonoros muito antes da Primeira Dinastia. As características pictóricas dos escritos iniciais haviam sido estilizadas até se tornarem irreconhecíveis. quase sempre anexando determinativos para identificar qual palavra específica ela significava. cerca de 5. nosso próprio alfabeto.

junto ao o alfabeto cóptico. Cerca de 3100 a. em inglês a palavra betray seria representada por uma abelha ‘bee’ e uma bandeja ‘tray’ . ela contava fortemente com expressões abreviadas e era usada em todas as transações administrativas e comerciais.17 O sumério é uma língua monossilábica com muitos homônimos. a escrita cursiva foi desenvolvida separadamente. dependendo do propósito da escrita cursiva: oficial. Com a introdução do cristianismo no terceiro século d. novamente. palavras com o mesmo som e diferentes significados. Surgiram diferentes caracteres.C. a escrita alfabética grega.C.C. talvez através de uma inspiração de seus parceiros comerciais egípcios. os sumérios já haviam substituído seus rótulos externos por simples tabletes impressos que usavam marcas logográficas indicando unidades. talvez emprestando uma ideia dos egípcios: eles arquitetaram glifos puramente fonéticos para ajudar na identificação dos logogramas. profano ou religioso. no sétimo século a. o princípio rebus foi usado inúmeras vezes em todo o 115 . as três escritas egípcias foram substituídas por uma escrita descendente dos hieróglifos muito posterior. os homônimos cesta e sexta. era usada uma forma cotidiana de escrita cursiva. novamente do mesmo modo que faziam os egípcios. Os sumérios encontraram uma maneira de evitar a confusão.que a escrita cuneiforme dos sumérios no Oriente Médio. chamada demótica. pessoal. Embora os liieróglifos tenham sido preservados pela lei e pela tradição. ou seja. como em português. Esses glifos fonéticos foram particularizados. Isso cria ambiguidades para a escrita logográfica. o que permitiu mudanças contínuas. usando o princípio rebus (no qual as figuras representam partes da palavra): por exemplo. que.16 Na Vigésima Quinta Dinastia. passou a ser usada para escrever a língua egípcia. em que um glifo representa um morfema ou uma palavra inteira. medidas e pesos. (Desde então.

Os dois olhos significam 'isto mesmo'. 'Que você ilumine'. abra seus olhos' Os sons s e hd são sugeridos pelo gancho e o bastão de cabo longo.'Ilumine sua face. enquanto os dois sinais em diagonal apontam para a dualidade dos olhos. Os dois determinativos seguintes são uma porta de lado (então também está 'aberta') e um antebraço agarrando uma vara (sugerindo 'esforço'). mundo. Portanto. significando 'você'. que significa 'ilumine'. os nomes de todos os deuses e deusas sumérios 116 . a imagem da deusa Isis invoca sua bênção ao deus da terra. O rosto é a 'face' e o som hr. significando 'você'. O sol repete esse significado funcionando como um determinativo. os sumérios passaram a usar determinativos. A vareta diz ao leitor: 'o que se lê aqui é o objeto que se vê'. Novamente a cesta é um sufixo masculino. mais uma vez. do mesmo modo que os egípcios. significando 'ele'. a escrita fonética se mostrou insuficiente. 7 Como funcionam os hieróglifos egípcios: no sarcófago do rei Amenhotep II. A lebre é wn e também a palavra para 'aberto'. Geb. Novamente a serpente com chifres significa 'ele' (relacionando-se com os dois olhos acima). A cesta é um sufixo masculino. como há homônimos demais na língua suméria.) Porém. produzindo shd. Por exemplo. 'dele' ou 'seu'. reproduzindo a palavra irty. Então. lido como um n. Ele pertence aos quatro sinais anteriores e produz a leitura 'que você abra'. Isto também é apoiado para o sinal ondulado. A serpente com chifres é o sufixo masculino -f.

depois do desenvolvimento do método egípcio. Só então ela se tornou uma escrita verdadeiramente útil. capaz de expressar qualquer coisa na língua suméria.18 Os glifos não eram mais objetos reconhecíveis que evocariam imediatamente uma palavra da língua suméria. Começando cerca de 2600 a. foi criado um corpus ativo de cerca de 600 glifos.C. os semitas orientais acádios invadiram seu território e começaram a assimilar a cultura suméria não semítica e. Os acádios também liam os mesmos glifos na língua acádia. (Foram os acádios que deram o nome 'Suméria' para a região. capaz de ser usada também por falantes de outras línguas. 117 .19 Com ela os acádios desenvolveram sua gloriosa cultura babilônica. Em 2500 a. sua língua sobreviveu nas leituras dos escritos cuneiformes sumérios feitos pelos acádios.C. uma técnica de escrita muito sofisticada que rivalizava com os hieróglifos egípcios em sua simples eficiência havia se desenvolvido na Suméria: os sumérios usavam um estilete com uma ponta arredondada triangular que podia ser facilmente manuseado para formar impressões cuneiformes em argila mole numa rápida sucessão. o mais antigo documento literário do planeta foi impresso em argila.) Embora os sumérios já houvessem sido totalmente absorvidos pelos acádios cerca de 1800 a. mas sim formas padronizadas e abstratas feitas com impressões sucessivas com o estilete.eram acompanhados com um asterisco * quando escritos. Nos 500 anos seguintes.C. Isso aumentou em muito a capacidade do sistema em formar palavras individuais. e com eles. assimilaram também a escrita cuneiforme suméria. O sistema de escrita sumério só conseguiria reproduzir elementos gramaticais graficamente após desenvolver significados silábicos dos logogramas. cerca de 2400 a. Não era mais apenas a língua suméria que podia ser lida na escrita cuneiforme.C.

Harappa. cerca de 1600 a.C. fazendo alterações e adições para melhor reproduzir suas diferentes fonologias. nos séculos seguintes vários vizinhos adotaram a escrita cuneiforme suméria-acádia em suas próprias línguas. Mesmo o poderoso Egito usava a escrita cuneiforme em suas correspondências diplomáticas com os vizinhos do nordeste. no norte. Grandes bibliotecas de escritos cuneiformes foram acumuladas por poderosos governantes semitas e hititas: Assurbanipal.C.20 Devido ao poderoso império babilônico dos acádios. no sul. da Assíria (669-633 a.000 tabletes de argila com inscrições. onde hoje fica o leste do Paquistão. Nos primeiros séculos d.C.C. Uma ramificação anterior da escrita logográfica suméria pode ser a ainda indecifrada escrita da civilização do Vale do Indo. e Mohenjo-daro. o uso da escrita cuneiforme se restringiu à Babilônia. Em 1400 a.600 anos atrás. seus escribas adicionaram um novo significado hitita aos já presentes significados sumérios e acádios para cada glifo.21 Quando os hititas indo-europeus adotaram a escrita cuneiforme. que chegou a portar quase 25. depois parou. o hábil uso hitita de determinativos reduziu em grande parte qualquer ambiguidade potencial.C. ser lido de três maneiras diferentes. teoricamente. A expansão cuneiforme diminuiu. onde continuou sendo usada em escolas de astronomia até 50 d. com duas cidades densamente populosas com ruas pavimentadas e sistema de água. Ambas influenciavam uma região maior do 118 . surgiu a primeira sociedade urbana do Vale do Indo. a escrita cuneiforme era a escrita internacional da diplomacia e do comércio. Porém. cada glifo cuneiforme hitita poderia. Cerca de 4. Assim.conferindo duas leituras diferentes para cada glifo. quando a escrita cuneiforme finalmente sucumbiu à muito mais influente escrita consonantal semítica.) possuía uma biblioteca de escritos cuneiformes em Nineveh.

pessoas fantasiadas.C. Uma protoforma dessa escrita. por motivos desconhecidos. com 22 sílabas. bestas míticas. presume-se que eles expressem algum tipo de escrita logográfica. e sim nos cerca de cinco glifos que normalmente os acompanham. como sua fonte. síria.22 O povo do Vale do Indo desenvolveu um tipo único de escrita em tabletes de cobre esculpidos e selos de esteatita (pedra-sabão). baseada no princípio acrofônico ou da consoante inicial. Como o número de glifos é grande demais para uma escrita alfabética ou silábica.23 Embora tenha sido proposto que a escrita reproduz uma antiga língua dravídica. que por sua vez gerou o devanágari — a escrita usada para o sânscrito entre muitas outras línguas modernas da Índia — assim como várias outras escritas do sul da Ásia. O sistema hieroglífico egípcio.C. que também incluía 24 sílabas. Características de selos harappianos foram encontradas em cidades mesopotâmicas dentro de contextos arqueológicos que datam de 2500 a. aparece em fragmentos de cerâmica de Harappa.C. pode ter gerado a primitiva escrita semítica ocidental.que o Antigo Egito. aparentemente datada de 3500 a. porém muitos deles são obscuros e não padronizados. Vários milhares de tais selos foram encontrados no próprio Vale do Indo. Todas essas escritas permaneceram silábicas. aramaica e pahlavi.26 Ele também inspirou o brahmi índico. objetos normalmente quadrados ou retangulares com intricadas figuras esculpidas representando animais. A civilização do Vale do Indo entrou em declínio cerca de 1900 a.24 não há nenhum indício concreto que aponte para isso. talvez identificando um dono pelo nome. 119 .25 O silabário semítico ocidental gerou então as escritas arábica. e assim por diante. O número total de glifos autônomos na relação dos milhares de selos ilustrados do Vale do Indo é de cerca de 400. Porém. manchu. mongol. a escrita não está nesses desenhos.

nas Ilhas Egeias e no continente grego. Os 120 . baseados no princípio rebus e usando uma forma muito primitiva da língua grega.No início do segundo milênio a. evidentemente através de Chipre. Os gregos haviam ocupado a área da Grécia moderna no terceiro milênio a.C.C. Os mais de 4. estava a famosa escrita hieroglífica de Creta (com variantes) e suas simplificações estilizadas linear A e linear B.28 Esse protoalfabeto. A ilha de Chipre.C. (A tradicional teoria de que os pré-gregos da região haviam elaborado a primeira escrita egeia de modo independente parece insustentável. na periferia da Grécia. seus elaborados glifos e significados fonéticos eram totalmente egeus em forma e som.C. com o domínio da região. manteve uma arcaica escrita silábica reservada para uso especial até o segundo século a. onde fica hoje a área da moderna Israel — datam do século dezesseis a. também vindo do Levante. foi escrito 200 anos depois junto ao o alfabeto cuneiforme que serviu simultaneamente em Ugarit (moderna Rãs Shamrah. Os escritos silábicos gregos foram evidentemente abandonados nos últimos séculos do segundo milênio a. com seu sistema integrado de economias e diplomacia internacional. usado em Canaã como pictogramas.C. e então.) Entre as várias escritas silábicas usadas por muitos séculos pelos minoicos e micênicos de Creta. também inspirou as várias escritas silábicas dos gregos indo-europeus.000 fragmentos que sobreviveram constituem a mais antiga literatura europeia. haviam iniciado um relacionamento comercial com os muito mais ricos cananitas do Levante. a escrita silábica semítica ocidental da cosmopolita cultura cananita.27 Indícios da escrita alfabética mais antiga do mundo — que adorna as jarras de Gezer. Os gregos emprestaram do Levante apenas a ideia da escrita silábica. vários séculos depois. na Síria) e outras importantes cidades do Levante. com a introdução do eminentemente mais conveniente protoalfabeto.

eles logo descobriram que embora ele representasse eficientemente as línguas semíticas.C. é suficiente reconhecer que uma escrita silábica era mais conveniente que a escrita logográfica dos egípcios. 121 . sucumbiu ao alfabeto consonantal que havia se desenvolvido através do alfabeto pictográfico de Canaã da Idade do Bronze. neste caso.escribas ugaríticos haviam mantido o material de escrita e a técnica da escrita cuneiforme primitiva. A escrita alfabética grega permaneceu. em que as vogais são componentes gramaticais e produtores de sentido importantes.29 Os gregos. Essa 'alguma coisa' produziu o mais importante desenvolvimento da escrita desde seu surgimento em si: os gregos introduziram vogais no alfabeto consonantal levantino. Cerca de 1300 a. a não ser em sua aparência externa: há quase 3. durou apenas até 1200 a. a falta de vogais causava muitas ambiguidades no caso de uma língua indo-europeia. completando toda uma nova classe e escrita. ainda parceiros comerciais regulares.C. (Línguas semíticas priorizam consoantes antes de vogais na formação de palavras.) Esse novo silabário levantino. e. desde essa época. junto ao alfabeto cuneiforme. entre outros motivos não linguísticos para não usar a escrita egípcia. quando. como o grego. um protoalfabeto que foi usado de várias formas por centros comerciais no final da Idade do Bronze. essencialmente a mesma. desse modo. os escribas fenícios de Biblos elaboraram um silabário altamente simplificado usando glifos derivados do princípio acrofônico ou 'da consoante inicial'. também adotaram esse novo alfabeto consonantal. Eles perceberam que alguma coisa deveria ser feita para criar um alfabeto conveniente tanto para o escritor quanto para o leitor de grego. Os fenícios semitas não acharam que a representação das vogais era necessária em seu silabário. Porém.000 anos. mas haviam inventado seus glifos e significados próprios.

nenhum sistema de escrita conseguiu nada mais eminentemente útil para a maioria — embora não todas — das línguas do mundo. o mesmo método que usamos hoje. um fonema desconhecido em grego — os gregos usaram apenas o a do glifo. f (phi. cujo pictograma original reproduzia um 'boi' — onde a consoante inicial ' representa a parada glotal semítica (como ã-hã em português). talvez tiradas de significados cipriotas mais antigos. Em nenhum outro lugar do planeta a invenção independente de um alfabeto vocálico e consonantal se repetiu. criando com isso um sinal para uma vogai pura. No final desse processo os engenhosos escribas gregos estavam de posse de um pequeno e prático alfabeto de letras com consoantes e vogais individuais. sem a parada glotal. até conseguirem sinais para todas as vogais puras necessárias na representação da língua grega: a (a). Tudo o que eles tinham de fazer para escrever sua língua era combinar consoantes e vogais em sequências que formassem palavras inteiras. Assim. Do glifo consonantal semítico hebraico ‘aleph. Eles também emprestaram outra consoante inicial (o yodh semítico para ι) e inventaram duas novas 'letras' (glifos num alfabeto).30 122 . Primeiro. o η foi emprestado do glifo semítico heth para distinguir o ε longo do ε curto. Os quatro sons gregos especiais υ (upsilon). Talvez mais significativamente. uma palavra composta das duas primeiras letras gregas aλΦa e βετa. para uma reprodução ainda mais fiel da língua grega como ela era falada. ε (é) ι (i) e ο (ó). De maneira semelhante Ω foi pensado — um o com a parte de baixo aberta — para distinguir o o longo do o curto.A conquista grega foi tremendamente simples e impressionantemente eficiente (ver ilustração 8). os gregos montaram seu novo 'alfabeto'. χ (chi) e ψ (psi) também foram todos elevados à categoria de letras individuais.

mas não a língua). quando as tribos germânicas mais ao norte se converteram ao cristianismo e adotaram o alfabeto latino. baseada nas letras maiúsculas e adotada na Rússia (a escrita russa atual. Ele consistia de 24 sinais. em três séries de oito. por exemplo. europeus pré-alfabetizados ou tomaram emprestada a ideia da escrita grega ou adotaram o alfabeto grego. ou em ambas as direções ao mesmo tempo.C. um a cinco pontos. Ao encontrar o alfabeto grego. Os etruscos do primeiro milênio a. sua escrita. As primitivas tribos germânicas.C. chamada ogham. os povos eslavos usaram o alfabeto grego de Constantinopla para construir duas escritas eslavas: a cirílica. usavam letras gregas para escrever sua própria língua. ao encontrar a escrita alfabética. do primeiro século d. que poderia ir da esquerda para a direita. o irlandês e o galês primitivos. com ou sem mudanças.C. o uso das runas cessou completamente. produzindo cinco sinais para vogais e quinze para consoantes. O texto germânico mais antigo. Atualmente. De modo semelhante. No século quatro d. Só no século dez. Ela consistia de linhas ou pontos precisos que se interseccionavam. A introdução do cristianismo viu a escrita ogham também sucumbir ao alfabeto latino. ou uma a cinco linhas. talvez derivada das letras minúsculas dos gregos por Santo Cirilo. e subsequentemente em muitas outras línguas eslavas e mesmo não eslavas. foi escrito em runas. simplesmente emprestaram a ideia da escrita para elaborar seu sistema único de runas.Todas as escritas da Europa ocidental e oriental derivam do alfabeto grego. incluindo a deste livro. ainda não decifrada (a escrita é conhecida. desenvolveram sua própria escrita. permite que se leia em etrusco. usada por centenas de milhões de pessoas). usados para inscrições curtas. 123 . e a Glagolítica. mas não que se entenda. mais frequentemente em enterros.

124 .Fenício Grego Arcaico Grego Clássico Latim 8 O desenvolvimento dos alfabetos grego e latino.

Mas o alfabeto atual é muito pouco diferente do usado pelos romanos 2. remodelaram o alfabeto latino dos missionários europeus para criar. Houve desdobramentos fascinantes dessa venerável tradição. e o J sofreu uma inovação para se distinguir da função consonantal da letra I. a mais importante adaptação do alfabeto grego foi feita pelos romanos que.C. cerca de 1820. Mesmo hoje.C. o líder dos cherokees. uma escrita especial silábica capaz de 125 . o alfabeto latino se tornou o sistema de escrita mais importante do planeta. quando a necessidade de uma base de escrita clara e clássica foi sentida pelos instruídos conselheiros de Carlos Magno. se depararam com a escrita grega em solo italiano por intermédio dos vizinhos etruscos.apóstolo dos Eslavos. O subsequente poder militar e econômico romano viu o latim escrito ser usado em todo o mundo ocidental. Sequoyah. Mais notavelmente. De longe. eles sonorizaram o C. falantes de woleai das Ilhas Carolinas. Entre 1905 e 1909. As modificações finais no alfabeto foram terminadas cerca de 800 d. (Um romano antigo teria poucas dificuldades para pronunciar de modo aproximado os sons deste livro.000 anos atrás. no sul do Pacífico.) No terceiro milênio d. modificou a forma do alfabeto latino para criar 85 sinais silábicos — não alfabéticos — especiais para reproduzir a fonologia cherokee. A letra V foi dobrada para se criar o W para o som [w]. a escrita cherokee de Sequoyah pode ser lida em publicações religiosas e jornais cherokees. Os romanos mudaram muito pouco o original grego.C. que atualmente sobrevive apenas na liturgia católica romana croata. que em latim tem o som de [k] e o escreviam como G. o U foi inventado para se distinguir a vogai [u] da consoante V. também em línguas de origem não latina como as célticas e germânicas. Na América do Norte. cerca de 600 a. de maneira semelhante.

uma vez que lá nunca se desenvolveram estados elaborados que exigissem contabilidade. a escrita era desnecessária nas antigas sociedades do Pacífico. Então. incluindo longas recitações genealógicas. expressar sua língua. no centro de Camarões. Duas outras expansões nativas do alfabeto latino são a escrita silábica vai. de 1834.Al Manu ma’u Manu mau Pássaro todos +B ika ika peixe >C ra’ã ra’ã sol (Te) manu mau[falo: ki’ai ki roto ki} (te) ika: (ka pu te) ra’ã Todos os pássaros copularam com o peixe: então originaram o sol. de Duala Bukere no oeste da África. uma das escritas mais intrigantes do mundo foi 126 . a partir de 1900. decretada pelo rei Nshoya. e a escrita bamum. 9 Lendo a escrita rongorongo da Ilha de Páscoa. Na verdade. Com exceção dos escritos macáçar-buginese de Celebe e dos escritos bisaya das Filipinas — descendentes de sistemas de escrita vindos da Índia — o Pacífico permaneceu sem escrita até o final do século dezoito. e a literatura oral e a memória prodigiosa satisfaziam as exigências dessas sociedades.

no extremo leste do sul do Pacífico. Como regra. numa área mais ampla. A escrita não se tornou repentinamente 'necessária' na Ilha de Páscoa primitiva. Isso permitiu uma escrita mais rápida e eficiente. muito raramente. A maioria. deidades. a escrita relacionada com a figura também poderia ser usada por mais falantes. em colunas que iam da direita para a esquerda. conexões e componentes. plantas. Assim. com uma representação simples e padronizada de objetos em ossos. a escrita chinesa se originou no segundo milênio a. linearidade e direção da esquerda para a direita de visitantes espanhóis em 1770. peixes. cujos nomes deveriam ser pronunciados em voz alta. seda. resultando numa escrita solta mista com glifos principais. com seus grandes navios.elaborada na isolada Ilha de Páscoa.31 Emprestando a ideia da escrita. o líder e seus sacerdotes. ESCRITA ASIÁTICA Talvez inspirada pelas escritas ocidentais. Com o tempo. da escrita dos visitantes estrangeiros. com cerca de 120 logogramas básicos — pássaros. foi explorado para restabelecer a autoridade decadente da classe dominante da ilha. escrevia-se de cima para baixo. ou 'força sócio-espiritual'. sem o uso da língua) como conexões. fusões. O mana. como: 'Todos os pássaros copularam [com o] peixe: [então originaram o] sol' (ver ilustração 9). varas de bambu. tabletes de madeira e. as representações passaram a ser cada vez mais estilizadas. 127 . espingardas e canhões.C. os polinésios nativos da Ilha de Páscoa escreveram seus famosos rongorongos. das 25 inscrições rongorongo preservadas estão em madeira. embora não todas. e parecem compreender produções simples no 'estilo telegrama Al + B > C. figuras geométricas e assim por diante — que aceitam vários semasiogramas (glifos que indicam diretamente ideias.

C.C. Desde então.32 Dois glifos primitivos ou wen (originalmente pictogramas). apenas pequenas alterações formais. o sol nascendo por trás e uma árvore.C. como 'árvore' e 'sol'. ela se desenvolveu no esteticamente mais agradável 'Estilo regular'. que já estavam totalmente desenvolvidas no final do segundo milênio a. Na segunda metade do primeiro milênio a. o 'Estilo do Pequeno Selo' prevaleceu. com o declínio do uso do estilete de madeira e o aumento do uso da escova de cabelo. 'Brilho' é 'sol' e 'lua' escritos juntos. No século quatro d.500 glifos. Devido às numerosas mudanças fonológicas na língua chinesa no último milênio. um dos cerca de 625 determinativos (sons identificadores) era normalmente ligado à 'fonética' para mostrar qual objeto estava sendo designado com determinado som fonético. Com a unificação do primeiro império com Xin Shi Huang Di. no terceiro século a. Eles poderiam também ser usados foneticamente para fornecer um som que não precisava mais ser ligado a um objeto físico definido. e resultou no 'Estilo dos Escribas. usado em impressões e correspondências oficiais. 'Amor' é a combinação de 'fêmea' e 'criança'. Para o uso diário surgiram cursivas menos precisas e mais abreviadas.C.C. criam um novo glifo derivado ou dze — 'leste'. Os wen e os dze compreendiam originalmente cerca de 2. não ocorreu nenhuma mudança fundamental na escrita.A engenhosidade da escrita chinesa está nas possibilidades combinatórias. A maior delas ocorreu em cerca 200 a. que necessitava de uma nova técnica. os significados originais de muitos glifos chineses 128 . a escrita da Chancelaria Imperial de Xin. Outros glifos são mais simbólicos: 'acima e 'abaixo' são linhas horizontais com respectivas linhas perpendiculares acima ou abaixo (ver ilustração 10). cujo estágio mais jovem é o 'Estilo do Grande Selo'. A forma mais antiga de escrita chinesa conhecida é a 'Antiga Escrita'.

a escrita chinesa é altamente fonética (relacionada aos sons) com fortes componentes semânticos (sentido). facilitando a memorização. hoje. se 'sanguessuga-ma’. A maioria dos glifos chineses atuais consiste de um elemento identificador e um fonético. 'ágata-ma'. e assim por diante). rabugenta-ma' ou peso-ma'. que é perfeitamente adaptável às línguas tonais. FOGO. assegurou sua sobrevivência de modo 129 . não são mais transparentes. apenas cerca de 4. sem modificações no final das palavras) que ela reproduz.000 glifos individuais. Embora possam ter existido cerca de 50. 'tábua-ma'. monossilábicas e inflexivas (ou seja. quando se vê o glifo chinês ma. devido ao glifo determinativo que está normalmente ligado ao glifo 'fonético'. o significado total de um glifo é facilmente reconhecível. Apesar disso. A simplicidade inata do sistema de escrita chinês. tanto semântica quanto foneticamente. imediatamente se sabe qual das palavras está lendo. ÁGUA. Desse modo.000 são comumente empregados. Como todas as escritas logográficas.10 Escrita chinesa. logogramas que usam 214 determinativos (MADEIRA.

essa escrita é lida por bem mais de um bilhão de pessoas. mas com diferentes significados. os escribas japoneses selecionaram várias dezenas de glifos chineses apenas para seus próprios sons e os reduziram graficamente a partículas essenciais. i.000 anos atrás. A escrita chinesa não se encaixava muito bem na língua japonesa polissilábica (e não monossilábica. Ao substituir o povo ainu. Hoje. foi desenvolvida já no século oito ou nove e normalmente fornece finais gramaticais de palavras ligadas às raízes chinesas 130 . u. Por esse motivo.virtualmente não modificado por mais de 3.C.em dia. que era diferente demais do chinês cuja escrita havia sido feita para transmitir. produzindo um grande número de homônimos (palavras que se pronunciam do mesmo modo. Nos primeiros séculos. originário do Japão. ki. nos primeiros séculos d. ambas sino-japonesas e japonesas nativas. e. Entre os vários povos asiáticos que adotaram o sistema de escrita chinês.000 anos. Um glifo chinês ou kanji chegou a ter várias pronúncias diferentes. mais de 1.33 Assim. casa significando lar e casa do verbo casar). os eruditos japoneses aprenderam a escrita chinesa no continente. como a língua chinesa) e flexiva (com mudanças no final de palavras que mostram diferenças gramaticais). talvez os japoneses tenham introduzido as mudanças mais fascinantes. para fornecer cinco vogais (a. e mais tarde a introduziram na corte japonesa com o intuito de escrever textos políticos e religiosos japoneses. cada qual com 48 glifos. como em português. o) e 41 sílabas consoantes-vogais (ka. e sem escrita própria. A mais importante das duas. A cultura japonesa logo foi permeada pelas palavras monossilábicas chinesas. ku e assim por diante). a hiragana. trabalhoso e confuso. eles confeccionaram um silabário com 46 glifos dos quais emergiram eventualmente duas escritas kana silábicas japonesas. ler japonês na escrita chinesa foi um processo lento.

na escrita em minúscula. katakana. quando os glifos ido coreanos foram elaborados para fornecer terminações coreanas nativas em textos escritos em chinês. ESCRITA MESOAMERICANA Poucos povos americanos nativos usaram a escrita. mas depois tomou um rumo totalmente diferente. em que a escrita seria. Atualmente. Alguns estudiosos defendem uma origem nativa. dois ou mesmo três pronúncias e significados em japonês. depois com 25 letras. onomatopaicas (que imitam o som de seu significado).C. A segunda.34 Sua origem é desconhecida.. Porém. fornece marcadores sintáticos ou de sentenças sequenciais. Ao contrário do japonês. e é principalmente usada para escrever foneticamente palavras estrangeiras. a escrita hangul é considerada a mais simples do mundo.kanji (as raízes são quase sempre escritas com glifos chineses). explica kanjis obscuros para ajudar o leitor. Por esse motivo. e frequentemente. obedecendo às regras soltas do uso padrão em domínios restritos. um kanji terá um significado e uma pronúncia originais em chinês assim como um. entre outras. a escrita chinesa foi usada com exclusividade até 692 d. primeiro com 28. A Coreia começou seguindo o mesmo caminho. todas as três escritas japonesas — o kanji logográfico. quando os coreanos se depararam com o alfabeto ocidental. como uma versão simplificada do hiragana. Na Coreia. em muito semelhantes às sílabas hiragana usadas no Japão. um 'reflexo 131 . talvez o japonês seja o sistema de escrita mais complicado do mundo. no século quinze. foi desenvolvida por volta do século doze. lembrando a mesoamérica em sua complexidade. talvez. Frequentemente. e apenas na Mesoamérica. criaram um alfabeto coreano chamado hangul. e os silabários hiragana e katakana — são usadas simultaneamente num texto escrito em japonês.

a escrita como 'reflexo natural' da civilização parece não ter ocorrido em nenhum outro lugar do planeta.000 anos depois. entre os povos afro-asiáticos — e depois levada dali para outras partes do globo. (Essa é a chamada 'teoria monogenética' da escrita e que. os glifos numéricos foram associados com o calendário. um dos mais complexos e socialmente difundidos já projetados em qualquer lugar do mundo.) No caso dos vários escritos mesoamericanos. implicando uma tradição única. Ocasionalmente. pelos poderosos olmecas do sul do México na primeira metade do primeiro milênio a.000 anos atrás. os escribas olmecas de Oxaca e partes de Chiapas e Veracruz esculpiam intrincados hieróglifos em pedra.C.natural' do alto grau de civilização da região. durante a primeira metade do primeiro milênio a.35 Restam poucos fragmentos desta escrita. As inscrições olmecas podem ter inspirado a melhor escrita documentada epiolmeca da mesma região (150 a.C. Porém. segundo o peso cumulativo dos indícios atualmente disponíveis. 132 .C. se desenvolveu com os incríveis maias durante o primeiro milênio d. A ideia de uma arte gráfica reproduzindo a fala humana parece ter surgido uma única vez na história — mais de 5. No sul do México. portanto. Os escritos menores dos mistecas e astecas da mesma região parecem compreender simples desenvolvimentos posteriores da rica tradição escrita maia.000 anos atrás. provavelmente registrando nomes de governantes e suas conquistas — temas predominantes nas inscrições mesoamericanas até a chegada dos europeus mais de 2.C. talvez com inspiração exterior. mas em 600 a. e depois acabou cerca de 1. Integrantes de toda escrita mesoamericana e. surgiu um sistema hieroglífico olmeca único (1200 a 500 a. eles vinham acompanhados de números.C). pode-se estar lidando com uma única e muito longa tradição que se originou. talvez melhor explique a origem das escritas no mundo.C.

C). ou de um desenvolvimento de escrita nativa extremamente longo. a escrita epiolmeca está. tanto logográfica (representando um morfema ou o nome inteiro de um objeto) quanto silábica (representando a primeira sílaba do nome do objeto representado. relacionada à escrita maia.a 450 d. ideias ou sons (dos nomes dos objetos). e os glifos representavam objetos. Mais de 150 glifos maias representam sílabas. os maias escreveram com tinta e escovas de cabelo (como os chineses do século três a. Todas as escritas mesoamericanas eram logográficas.37 Blocos de glifos individuais combinam dois 133 . como som e deter mi nativo.36 Também havia um silabário de significados puramente fonéticos usados num sistema misto com outros glifos. quase todas do tipo consoante-vogal. ou do empréstimo de um sistema de escrita estrangeiro que já havia se desenvolvido por um longo período. em que um glifo compreende vários significados. talvez. A inferência é. O sistema de escrita mais sofisticado e melhor conhecido da Mesoamérica. e também polifonia. com ambas compartilhando a mesma fonte. a linhagem dos escritos mesoamericanos permanece obscura.C. medidas com estuque. Em seus códices ou livros manuscritos.) em páginas de casca de árvore batidas (como o papel chinês do século dois d. Porém.C). a ser pronunciada separadamente). a escrita maia. anterior ao primeiro milênio a. muitos desses glifos representam nomes reais usados apenas uma única vez. Por sua vez. homofonia. em que o mesmo som é usado por vários glifos diferentes. contém cerca de 800 glifos no total. em pares.C. apenas entre 200 e 300 desses glifos eram usados regularmente. Isso significa que um glifo também pode possuir funções duais. registrando os glifos em colunas verticais de cima para baixo (como na escrita chinesa) e da esquerda para a direita. A escrita exibe polivalência. em que um glifo tem vários sons. Porém.

C). um 'escudo'.38 As cerâmicas também eram decoradas com glifos. como se encontra em vários escritos em diversas partes do mundo. apenas quatro códices maias milagrosamente sobreviveram. dever-se-ia. Devido à destruição total da literatura maia que se seguiu à invasão espanhola no século dezesseis. nomes e eventos numa colorida esteia maia (postes de pedra com inscrições) . A escrita teria um efeito profundo e imediato na população e língua locais. com os glifos para 'soberano' escritos acima e ligados à direita aos glifos silábicos pa-ca-la para se 'soletrar' o nome (como na 'fonética' chinesa). similarmente cheios de inscrições e cores brilhantes. identificando potes de chocolate. Durante o período clássico maia (250 a 900 d. de pic134 . Como o norte-americano Michael Coe. proclamar a preeminência e justificar impostos. Também havia milhares de códices escritos em grossas cascas de árvore nas bibliotecas reais dos maias. mas também grandes monumentos públicos. ou seja. Por exemplo. O ramo egípcio-semítico da escrita afro-asiática experimentou a maior adaptação de todos os sistemas de escrita do mundo. desenhar um pacal. produções pós-clássicas que compreendiam tabelas rituais e astronômicas. especialista nos maias lamentou: 'Nem mesmo o incêndio da biblioteca de Alexandria destruiu tão completamente a herança de uma civilização'. proclamavam as vidas e genealogias gloriosas dos poderosos governantes maias — dificilmente 'história factual' no sentido moderno. os maias homens e mulheres medianos conseguiriam provavelmente ler datas. vasos funerários e outros objetos.ou mais glifos (como na escrita chinesa). mas sim uma ferramenta propagandística para preservar a liderança. entre outras possibilidades. Não apenas as esteias. para escrever o nome do governante maia Pacal.

elas só experimentaram uma maior 'sofisticação' ou complexidade linguística nas escritas silábicas de seus descendentes. Mas com o tempo. Sobre essa base adequada. em que o nome do objeto desenhado servia para estimular uma pronúncia. As maiores mudanças em sistemas de escrita parecem ocorrer quando falantes de outras línguas emprestam e adaptam sistemas que não se encaixam nelas. por exemplo. sempre são encontradas soluções silábicas. Em toda a história. cada língua encontrou e/ou se adaptou à escrita que melhor se encaixa em sua fonologia. os glifos silábicos foram transformados em símbolos consonantais que 135 . Entre os falantes semitas ocidentais do Levante. como. ideias ou sons (do nome dos objetos). quando a escrita logográfica falha em reproduzir a língua em evolução.togramas para logogramas e de silabogramas para as letras do alfabeto — dependendo de quem precisava do que. no qual glifos representam objetos. um sistema logográfico. e quando isso ocorre. Originalmente. como no caso do kana japonês. A necessidade da escrita alfabética nunca foi sentida por essas línguas. a escrita engenhosa começou com pictogramas. na adição posterior de glifos silábicos no Egito. eventualmente nasceu para reproduzir a fala humana de maneira mais fiel e eficiente. Elas podem surgir internamente. quando a escrita logográfica é emprestada de uma língua não relacionada. As escritas não 'evoluem': elas são propositalmente modificadas por agentes humanos para melhorar a qualidade da reprodução da fala (som) e transmissão semântica (sentido). mas devido às exigências de suas línguas. o persa antigo e o japonês. A história da escrita cuneiforme suméria e da escrita logográfica chinesa progrediu de maneira semelhante. e também externamente. segundo as demandas de suas respectivas eras e línguas. os escritos logográficos pareceram gerar novas necessidades.

o desenho de um objeto aciona a memória de uma expressão vocal. Na segunda classe. Hoje. qualquer língua que ainda precise de uma escrita é automaticamente transposta para a escrita alfabética. a escrita alfabética. a chamada 'escrita' pictográfica. particularmente nos séculos dezenove e vinte da nossa era. a figura é uma letra que já não é mais relacionada a qualquer objeto. mas sim reproduz apenas um ou dois tipos de som. ou uma consoante. mas apenas ela — não o objeto retratado — transmite a mensagem. embora não todas. a escrita silábica. O que equivale a dizer que: não há escrita que possa transmitir toda a gama de pensamentos humanos que não seja fonética. senão milhares de línguas. Esse foi. essa expressão vocal é reduzida apenas à sua primeira sílaba e sua posição dentro de um silabário de sons definido e limitado. assim.39 A reconstituição linguística interna (trabalhar com uma única língua para recuperar formas antigas) e a reconstrução linguística comparativa (comparar duas ou mais línguas relacionadas para alcançar o mesmo objetivo) produzem hipóteses 136 . as línguas). Na última classe. Também é por meio da escrita que se pode acompanhar melhor a história de uma língua. a arte gráfica permanece inextricavelmente à fala humana. então. A forma de comunicação escrita mais eficiente já projetada (para a maioria. o catalisador da maior contribuição grega para a cultura mundial: um alfabeto puro com sinais tanto para vogais quanto para consoantes. Na pré-escrita. ou uma vogai. o alfabeto grego foi adotado e imitado em todo o mundo por centenas. a figura novamente aciona a memória de uma expressão vocal. ela é depois lida sequencialmente em combinação com outros sons reproduzidos de maneira semelhante. Em todas as classes.melhor reproduzem as línguas semíticas da área que são orientadas pelas consoantes. Na primeira classe de escrita real. a escrita logográfica.

000 anos atrás. origens históricas e as dinâmicas de mudanças relativamente recentes: neste caso. Habitualmente.41 A capacidade de ler e escrever sempre causou um profundo impacto na língua falada. isso pode ser avaliado a partir da leitura de cartas antigas.precisas. palavras emprestadas e nomes de lugares e documentos antigos frequentemente preservam línguas que. para ser. Assim como não existe algo como uma 'língua primeva'. não seriam certificadas. Cada escrita preenche adequadamente as funções para as quais é designada em determinado período. Quando se encontra características 'primitivas' numa escrita. apontando características vestigiais. líderes de suas sociedades. de outro modo. como o rhaetiano e o gaulês em relatos em grego e latim da Europa primitiva de mais de 2.40 Mesmo grafias modernas. revelando paisagens linguísticas pré-históricas que de outro modo estariam perdidas para sempre. imitados por outros membros da sociedade. também não há um 'escrita primeva'. De maneira semelhante. Desde seu início. normalmente. eventualmente. a fala 'impressa também é um modelo de fala. documentos antigos — escritos — mostram esses estágios. há um julgamento feito numa perspectiva temporal. ainda preservado no cognato alemão para ‘light’. como ‘light’ em inglês. Isso permite que o linguista não apenas vislumbre formas antigas de uma língua. podem ser cápsulas do tempo. a perda de um antigo som indo-europeu. Isso conferiu à escrita uma influência excepcional na sociedade — maior do que a maioria das pessoas percebe — particularmente nas 137 . Porém. mas também avalie os tipos exatos de mudanças que podem ocorrer nas línguas durante séculos e milênios. não há 'escrita passiva': a escrita afeta a fala tanto quanto a fala afeta a escrita. Mais ainda. mas sem provas sobre estágios anteriores da língua. eles padronizam sua fala a partir da língua escrita formal. Licht. Falantes educados e alfabetizados são.

extensão (inglês britânico cot/ cart). articulação (Van Dyck/vanned Ike) e tom (eee!/duh. em particular. não representar nenhum som. e não uma reprodução exata da fala humana. Porém. ocorre frequentemente em escritas silábicas e alfabéticas. was. falha em reproduzir suas supra-segmentais — que são: entoação (Yes?/Yes!). Escritores de língua inglesa tentam corrigir o problema com pontuação não sistemática. de outro modo. padronização e preservação de formas e usos que. O acento. a dúvida ou incerteza no significado. como em bean. Quase todos são uma aproximação. por exemplo. A ambiguidade. O inglês. ou seja. nascida da indistinção ou obscuridade. ou devido a um arcaísmo da língua. que cultuam a palavra escrita. beau e beauty.sociedades alfabetizadas modernas. que não é marcado em língua inglesa. desapareceriam com o desgaste natural. acento (désert/desért). o Talmude. mas é necessário admitir que uma reprodução precisa do inglês falado não pode ser escrita com o alfabeto inglês. Quando lemos desert. substituindo a língua falada. A fala escrita diminui a velocidade de mudanças linguísticas através da nivelação. all e hat. No inglês.. a letra a pode representar seis sons diferentes (dependendo do dialeto). A leitura da literatura passada enriquece qualquer vocabulário vivo.) — devido ao uso de uma escrita alfabética inadequada. pode definir formas artísticas (peças de Shakespeare e o teatro No do Japão). o Alcorão). pode constituir o meio de tecnologias inteiras (linguagens de programação). são imperfeitos e convencionais. O discurso escrito também pode determinar o uso da língua falada por séculos (a Bíblia King James. espaço entre palavras e letras maiúsculas entre outros expedientes. pa. independentemente de quão reverenciados ou inovadores sejam. todos os sistemas de escrita. queremos dizer 'deserto' ou 'abandonar'? Será attribute 'uma 138 . date. de 1611. como em: an..

Mesmo imperfeita. representar todas as expressões fonêmicas — a menor unidade de som significativo da língua. de maneira muito parecida com o modo como o pensamento primitivo estava ligado às vocalizações dos primeiros hominídeos. Porém. a escrita logográfica como a chinesa e a japonesa ainda continuam sendo praticadas por uma porção significativa da humanidade. cria palavras totalmente novas e dá voz ao futuro eletrônico da humanidade. o alfabeto inglês simplesmente não funciona. A fala também responde dinamicamente à escrita. que a considera eminentemente preferível para suas respectivas línguas. com ele. 139 . a escrita é atualmente uma expressão indispensável da fala viva. com muitas ambiguidades e enormes diferenças de pronúncia entre dialetos diferentes e línguas diferentes. mas também eles são muito trabalhosos para uso popular. por outro lado. talvez. Só o contexto pode revelar o sentido e. mas por meio das linguagens de programação de computadores. A escrita logográfica chinesa. As escritas alfabéticas populares em uso no mundo constituem aproximações convenientes. uma escrita alfabética deveria. Idealmente. apenas os símbolos especiais da linguística conseguem reproduzir pronúncias com exatidão. que usam o mesmo alfabeto escrito. No início do século XXI. com sua combinação de determinativos (que identifica a classe da palavra) e fonética (o som da palavra). e isso continua fazendo com que a humanidade mude e avance com uma mágica multidimensional. não apresenta esse problema. Tanto a fala quanto a escrita existem num relacionamento sinergístico. Mas a eficiência demonstrável de uma simples escrita alfabética assegurou sua adoção na maior parte do planeta. inextricavelmente ligados um ao outro. o acento necessário. a mão não mais apenas 'se iguala à boca'.característica inerente' ou 'designar'? Aqui.

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se igualam em regularidade às protolínguas reconstituídas. germânicas. itálicas e chinesas. atualmente. Apenas línguas artificiais modernas. as protolínguas reconstituídas são regulares e homogêneas demais para serem reais. a maioria das línguas do mundo não tem uma árvore genealógica escrita. como as línguas célticas. permitiram que as reconstituições comparativas atingissem um nível em que se pode. mostrando o quão longe da realidade está a reconstituição.5 Linhagens Como as línguas bantas na África e as polinésias no Pacífico. Elas precisam revelar suas histórias por meio da reconstituição comparativa. entender de onde elas vieram e como e quando elas se diferenciaram de outras línguas relacionadas. mesmo sem registros escritos da maioria das línguas. como o esperanto. 141 . Técnicas linguísticas modernas baseadas em línguas com uma longa história escrita. Porém.

uma vez que povos de todo o mundo cederam com muito mais boa vontade suas línguas do que suas vidas. Línguas extintas são sempre tão vítimas quanto aqueles que as falaram. os séculos futuros não desfrutarão da imensa diversidade linguística que o planeta conheceu no passado. Durante 50. Toda a prosperidade. dialetos e línguas infrutíferas e perigosas são abandonadas. decadência e mudança de uma língua é resultado tanto do tempo quanto do fortalecimento ou do enfraquecimento de uma sociedade. o inglês e o espanhol.000 anos. o perfil genético dos europeus quase não mudou. e um pequeno e deprimente número de outras línguas. Dialetos e línguas prestigiadas ou dominantes são adotadas. a região onde uma língua mãe foi falada — é normalmente. Centenas de línguas menores estão sendo substituídas pelo bahasa indonésio. o mandarim chinês. Embora todas as línguas sofram mutações. mas não sempre.A reconstituição linguística sempre produz uma aproximação apenas parcial. as línguas de sociedades fortes prosperam. continua acontecendo hoje e guiará o curso de todas as línguas futuras até que reste apenas uma única língua dominante no planeta. enquanto as línguas de sociedades fracas perecem. Certamente. Isso aconteceu em toda a história. ou seja. talvez ainda mais. enquanto ondas após ondas de novas línguas passaram por eles. 142 . Parece possível fazer algumas generalizações em relação ao modo como as línguas se relacionam e mudam com o tempo em todas as épocas e partes do globo:1 — A terra natal de uma família linguística — ou seja. nunca uma 'língua' natural completa. A história das línguas humanas é a história das mudanças linguísticas. são substituídas por uma língua estrangeira.

é efetuada por falantes de todas as línguas do mundo muito mais rapidamente do que qualquer outro tipo de mudança linguística. — Uma grande diversidade linguística entre línguas-irmãs normalmente. — Uma pequena diversidade entre línguas-irmãs normalmente. ou atualmente são faladas. é comum encontrar uma maior diversidade linguística perto da terra natal e uma menor diversidade linguística em sua periferia. ou mudança sistemática no som. uma área linguística onde duas ou mais línguas separadas se combinaram. Há quatro tipos básicos de mudança linguística: A mudança fonológica. É por isso que as palavras hus e mus no inglês de Chaucer são. — Línguas irmãs apresentam inovações compartilhadas de uma língua-mãe e esta mãe ou protolíngua pode ser. mas nem sempre. mas nem sempre. 600 anos depois. 'house' e 'mouse' (hus e mus do alto-alemão médio também são hoje Haus e Maus em alemão moderno).uma região da área onde as línguas descendentes foram. — As mais antigas diferenciações numa língua mãe normalmente. Por esse motivo. 143 . mas nem sempre. na verdade. implica um desenvolvimento comum mais curto longe da língua-mãe. ocorrem perto de sua terra natal. implica um maior período de separação da língua-mãe. — Um relacionamento histórico entre as línguas é estabelecido quando se identifica semelhanças sistemáticas grandes demais para serem atribuídas ao acaso.

ter revertido há várias centenas de anos para 'martial court' ou General Attorney'. Por exemplo. 144 . Cada um desses processos é o resultado da combinação de operações linguísticas bem conhecidas — assimilação. nivelamento. e que talvez logo se torne extinta. as quais o sistema sintático inglês — sob pressão de seu substrato germânio — deveria. Shakespeare usou 'goeth' e 'didst' em contextos que hoje usaríamos 'goes' e 'did'. Por exemplo. a palavra cniht em inglês arcaico era muito comum para 'menino' ou 'jovem'. analogia.A mudança morfológica é uma mudança sistemática na forma das palavras. A mudança sintática reordena sistematicamente as palavras em frases ou períodos. síncope (corte de uma letra ou sílaba do meio). com o k ainda pronunciado. expansão. responsável por serviços militares para o rei'. dissimilação. significava 'servo militar do rei'. O leitor interessado pode desejar consultar os livros de história linguística para obter detalhes de tais operações (ver bibliografia). e mais tarde 'arrendatário feudal. empréstimo. As expressões inglesas 'court martial' e Attorney-General'2 são expressões medievais fossilizadas emprestadas do francês normando. e ocorre com muito menos frequência que a mudança fonológica. metátese (transposição de um som ou letra). redução e muitos outros. mas na época do inglês médio. A mudança semântica altera o significado comum de uma palavra. de outro modo. uma palavra que hoje tem um domínio extremamente limitado. 'knight' (já não se pronuncia mais o k) é 'uma pessoa criada para uma posição social nobre por um rei ou rainha ou qualquer outra pessoa qualificada'. lenição (uma suavização da articulação). kniht. Hoje. 400 anos atrás. excrescência (adição de um som ou letra). Todos esses processos e operações ocorreram nas seguintes linhagens representativas. apócope (corte do último som ou sílaba).

o latim dos romanos já havia substituído o gaulês da França e norte da Itália. com suas mudanças subsequentes ficou ceathair 145 . (O gaulês permaneceu na Bretanha por mais um ou dois séculos.LÍNGUAS CÉLTICAS Os celtas estavam entre os primeiros indo-europeus a migrar da terra natal no leste para a Europa ao oeste. Cerca de 2. Os falantes do gaulês do leste da Gália foram. Os q-celtas ou povo goidélico (irlandeses. eventualmente.5 Nos últimos séculos a. o Rhine e o Rhône.500 anos atrás. elas são classificadas em dois grupos. No quarto século a.. ocupando a Península Ibérica e as ilhas Britânicas. até ser substituído por um retorno migratório céltico do sudoeste inglês. onde hoje fica a Turquia. 'quatro' em protoindo-europeu. antes ocupadas pelos etruscos e logo tomaram Roma. eles já haviam chegado a Ankara.C. maneses e escoceses falantes de gaélico) preservaram o /kw/. os celtas habitavam amplas regiões da Europa central e ocidental já havia muito tempo. os celtas se mudaram novamente.) A língua celtibérica da Espanha e o gálata da Ásia Menor sucumbiram de maneira semelhante ao poder de Roma. cerca de 5. Um século depois. nesta época. dominados pelos falantes germanos nos primeiros séculos d.600 anos atrás. é por isso que kwetuores. eles invadiram as regiões do norte da Itália.C.4 e por nomes de cidades como Viena e Paris. de rios como o Danúbio. três línguas célticas dominavam o continente europeu e a Ásia Menor.3 Com relações muito antigas com os povos itálicos. Sua presença é certificada por nomes de lugares como a Boêmia.C.6 Apenas as línguas célticas das Ilhas Britânicas sobreviveram (ver ilustração II). Hoje. São Paulo se referiu a eles como os 'Gálatas'. de acordo com a interpretação do fonema protoindo-europeu /kw/.

assimilando os nativos pictos. quando o inglês substituiu quase todos os dialetos irlandeses. a língua dos colonizadores irlandeses também evoluiu. as pressões econômica. o dialeto do sudoeste irlandês de Munster foi selecionado para servir como nova língua nacional em lugar do inglês 'estrangeiro'. kiare em manes e ceithir em gaélico escocês. A língua irlandesa gerou vários dialetos principais do período do irlandês antigo (700-950 d. provavelmente os primeiros celtas a chegar às ilhas Britânicas cerca de 600 a. até o momento. Com o estabelecimento da República da Irlanda. peswar em córnico e pevar em bretão. Na Escócia.C. em solo picto. particularmente nos séculos dezessete e dezoito. (950-1400). em geral em desvantagem econômica.C). 146 . Os p-celtas ou povo britônico (galeses. o irlandês é falado como primeira língua por poucos milhares de habitantes. e mais tarde ficou conhecida como gaélico escocês. Porém.em irlandês. o 'quatro' é pedwar em galês. no século vinte. Hoje. No quinto século d. nenhum deles se desenvolveu em línguas descendentes no período do irlandês médio. principalmente por motivos econômicos. Os falantes originais de gaélico (goidélico) foram os irlandeses. córnicos e bretões falantes de britônico) mudaram o /kw/ para /p/. noroeste e algumas ilhas da Irlanda. que atualmente encorajam seus filhos a falar o inglês como primeira língua. A subsequente supressão do irlandês pelo inglês continuou no período do irlandês moderno (1400 até o presente).C. cujo suposto 'último falante nativo' morreu em 1974. histórica e social frustraram seu sucesso. sua língua eventualmente se tornou o autônomo manês. Em Man. talvez devido à conquista inglesa normanda. do extremo oeste. e assim. colonizadores irlandeses falantes de gaélico navegaram para o leste e se estabeleceram na Ilha de Man e na Escócia.

que uma 'língua galo-britônica' é reconhecida como a língua franca dos celtas da França e Bretanha até a época da invasão romana. particularmente no quinto século d.C. Durante mais de dois séculos. quando os falantes de latim e alemão entraram na região. Porém. As tribos germânicas intrusas. sua língua permaneceu tão semelhante ao gaulês continental. os britônicos escaparam das invasões 147 .11 Alcance das línguas célticas hoje. Devon e Cornualha. Os celtas britônicos se seguiram aos irlandeses nas ilhas Britânicas nos primeiros séculos a.C. Gales. empurraram os britônicos para a periferia da Bretanha: o sul da Escócia.

Mesmo assim. e o inglês se tornou a língua das cortes e cargos públicos de Gales. porém o galés prevaleceu. para a Bretanha.920 pessoas. foi o avanço do inglês que dividiu os falantes britônicos: o cúmbrico foi falado no sul da Escócia e no noroeste da Inglaterra. e o córnico no sudoeste da Bretanha. A língua que J. introduzindo palavras gaélicas desde o século sete até o final do período do galés primitivo (cerca de 850). na França. Durante a era do galés médio (1100 a 1500).R. A ocupação romana introduziu muitas palavras latinas. Atualmente. resultando na introdução de muitas palavras emprestadas do francês. Mais tarde. os bretões.saxônicas migrando de volta para o continente. jovens bretões demonstraram um interesse renovado em aprender sua língua ancestral. que incorporava Gales à Inglaterra — o uso do galés diminuiu. seus descendentes. ou seja. os colonizadores irlandeses invadiram o território galés. Apenas no período do galés moderno (1500 até o presente) — e principalmente devido ao Ato de União de Henrique VIII. ele sobreviveu. A influência do inglês aumentou no período do galês antigo (850 a 1100). mas poucos falam o bretão. o galês em Gales.7% da população de Gales com mais de três anos de idade. que deu origem à palavra inglesa 'welsh'. os nobres franceses normandos da Inglaterra conquistaram Gales. Recentemente. A língua céltica com o maior número de falantes ativos é o galês. Acima de tudo.8 Os britônicos galeses e cúmbricos hoje se referem a si mesmos como 148 . 18.7 O Galês sobreviveu com grande dificuldade. Tolkien acreditava ser a 'mais antiga língua dos homens da Bretanha' era falada em 1991 por 510. ao sul. Os anglo-saxões chamavam todos os falantes dessas línguas de wealas ou 'não germanos'. são cerca de meio milhão. que não é reconhecida como língua oficial pelo governo francês.R.

149 . Dinâmicas sociopolíticas e a redescoberta do sentimento do orgulho entre os celtas causaram um novo ressurgimento do interesse no irlandês. e permitiram que o número de seus falantes crescesse. o uso da língua córnica diminuiu num ritmo constante até sua extinção no século dezenove. Os galeses de hoje são cymry (pronuncia-se CÚM-RÍ) e sua língua cymraeg (CUM-RÁ-EG). Itália). Na Cornualha. desde então. do occitano (Espanha. França. Como o manês. ressuscitaram o manês. O cúmbrico sobreviveu sofrendo uma crescente pressão até a queda do reino de Strathclyde.combrogi. e depois devido à consolidação nacional (Inglaterra. a mais importante e amplamente distribuída família linguística 2. o galês. E os falantes de línguas não oficiais de seus respectivos países superam o número de vinte milhões de pessoas. Itália). confinada ao oeste da França e às periferias das ilhas Britânicas. hoje — primeiro devido aos romanos e germanos. temia-se que as línguas célticas desaparecessem ao mesmo tempo. França) — constitui uma das menores famílias indo-europeias. e que eles conquistassem uma maior autonomia política na nova Europa unificada. A família céltica. o gaélico escocês. as línguas célticas estão entre aquelas línguas 'não estatais' à mercê das línguas metropolitanas dominantes. do romani (presente na maioria dos países europeus) e de muitas outras línguas de comunidades europeias. França. do galego (Espanha). em cerca de 1018. Com exceção do dialeto oficial de Munster na Irlanda. 'companheiros do campo'.300 anos atrás. o reino céltico foi vencido pela Inglaterra em cerca de 878. o córnico e o bretão. Até bem recentemente. atualmente o córnico está sendo ressuscitado artificialmente. sofrendo o mesmo destino do catalão (Espanha. assinalando um novo sentido de identidade étnica.

e as colônias gregas independentes do sul. em sua maioria dos últimos dois séculos a. o protoindo-europeu kwi (s).10 Como os p-celtas. pompe em umbro. entre outros — sucumbiram muito cedo ao latim dominante de Roma. e o protoindo-europeu penkwe que significa 'cinco' se tornou. ela sobrevive em cerca de 200 inscrições. o umbro e o volsco (e seus dialetos menores). Os dialetos osco-umbros da Itália central — sabino. talvez datadas do primeiro século a. todos os falantes de osco-umbro substituíram o indo-europeu /kw/ pelo /p/. as tribos messápicas dos ilirianos originários do outro lado do Adriático. a língua picena do sul do centro do litoral leste italiano parece ter sido intimamente relacionada à família osco-umbra. 150 .C. os textos não-latinos mais significativos da Itália antiga: sete inscrições em bronze. falavam uma língua itálica pertencente a uma das três subfamílias: picena. se não antes. assim. que contêm regras sobre presságios. o osco foi a língua mais forte e amplamente distribuída da subfamília.LÍNGUAS ITÁLICAS No primeiro milênio a. Preservando muitas vogais protoindo-europeias sem mudanças. penitências. após mudanças subsequentes. a maioria da península com exceção dos etruscos e rhaetianos não indo-europeus do norte e noroeste. O osco-umbro (sabeliano) incluía o osco.C. marsiano. O umbro é conhecido principalmente pelas famosas Tabulas Iguvinas. Os volscos do sudeste do Lácio — Itália central.C.C. que significa 'quem?' se tornou pis em osco. Seus falantes foram derrotados por Roma em 268 a. na fronteira com o mar Tirreno — falavam uma língua autônoma intimamente relacionada com o umbro. aequiano. no segundo milênio a.C. hernicano. oferendas e preces. embora também compartilhe características com as línguas venetas e balcânicas. osco-umbra e latina? Ao se diferenciar.

entre o rio Pó e a Aquileia. As línguas latinas falisco e latim estão. talvez estimulado pelo contato com a população pré-indo-europeia.C. Ela foi destruída pelos romanos cerca de 241 a. latim antigo. 100 a. idade de prata. quando Roma chegou ao poder e subsequentemente suprimiu todas as outras línguas itálicas da península.C.C.C. latim arcaico. que desde o século dezoito a. 240 a 100 a. então. O falisco era a língua da antiga tribo itálica cuja capital era Falerii (a moderna Cività Castellana ao norte de Roma). 14 d.C. um vestígio da primeira incursão itálica na península. 151 . o latim era simplesmente o dialeto local da vila de Roma. A história do latim segue os seguintes estágios de desenvolvimento: latim pré-literário até 240 a.C.C.C. latim clássico (a literatura latina preservada). 200 a 600 d. latim médio. mas com o passar do tempo ele se tornou uma das grandes línguas da história. particularmente ao latim. O latim surgiu no Lácio no primeiro milênio a." Sua língua sobrevive em cerca de 300 inscrições.C.Com uma história primitiva obscura. extinguindo o falisco antes das línguas osco-umbras. provavelmente.12 No início. exibindo uma fonologia indo-europeia arcaica e um vocabulário muito modificado. 600 ao século quatorze d. A literatura começou seriamente apenas cerca de 240 a. a maioria de Esta e Làgole di Calázio no Vêneto atual. O vêneto pode representar. a língua veneta era falada pelos vênetos do litoral adriático.C.C. desde então. no terceiro milênio a. a 14 d.C a cerca de 120 d. o que deu força e enriqueceu o império romano em expansão. esteve sob influência etrusca.C. 120 a 200 d. e. o latim moderno. entre as mais antigas línguas faladas na península. latim vulgar da antiguidade tardia.C. Muitas características sugerem a afiliação do vêneto às várias línguas itálicas.

O latim clássico era a fala cotidiana de Júlio César. do sul da Bélgica. Negligenciado por muitas décadas. o latim clássico está hoje passando por um ressurgimento dinâmico como segunda língua ou língua adicional na Europa e na América do Norte. o crioulo haitiano e o judeu-espanhol.C. no século doze. Logo 'petrificada' como meio escrito da administração e da cultura do império em expansão. e o romeno no século dezesseis. o italiano no século dez. a inteligibilidade entre os falantes atuais das línguas itálicas é muito maior do que entre os falantes de línguas germânicas. franceses e italianos levaram as línguas itálicas para outras partes da África. muito mais tarde colonizadores espanhóis.13 Cada uma de suas línguas descendentes foi falada em suas protoformas durante muitos séculos até serem finalmente registradas em documentos: francês no século nove.14 Todas as línguas românicas. o reto-românico (romanche. As línguas românicas menores incluem o valão. O latim vulgar falado continuou a evoluir em substratos estrangeiros em todo o império romano. Ele sobreviveu ao século dezoito como a principal língua erudita e ao século vinte como a língua da liturgia católica romana. o provençal no sul da França. as três línguas ibero-românicas espanhol. portugueses. o latim eventualmente se tornou o meio escrito e falado da Igreja cristã e de toda educação ocidental. Embora a população falante do latim vulgar no noroeste africano houvesse sido dominada pelos falantes de árabe cerca de 700 d. com exceção do romeno. e para lugares ainda muito mais 152 . Por esse e outros motivos. a língua dos judeus expulsos da Espanha que hoje sofre de risco iminente de extinção. um século depois. o recentemente extinto dálmata. ladino) dos vales suíços. sofreram influência contínua do latim clássico. Augusto c Virgílio. o sardo. português e catalão. criando a família linguística românica.

na península Ibérica. atualmente as línguas itálicas são as segundas em distribuição geográfica. perdendo apenas para as línguas germânicas (inglês). O espanhol conservou muitas características do latim vulgar perdidas em outras línguas românicas.) Os estágios de desenvolvimento do francês são francês antigo (842 a 1350). o francês é uma das grandes línguas culturais do mundo. francês médio (1350 a 1605) e francês moderno (1605 até o presente). O espanhol moderno (1450 até o presente) foi dominado pelo dialeto castelhano. os 153 . Em épocas mais recentes. e o u latino como o u alto como o francês tu. em latim. mesmo de línguas e literaturas não indo-europeias.15 Desde o século doze.17 O espanhol antigo (1100 a 1450) está atualmente preservado na fala dos poucos falantes remanescentes do judeu-espanhol (do mesmo modo que o iídiche preserva parcialmente o alto-alemão médio). como as Américas. sua rica literatura afetou o rumo de muitas outras. se tornou it (desse modo. que estabeleceu os padrões da língua escrita. Porém. com os francos dominando a maior parte do norte da Gália. conservando várias pronúncias célticas: ct como cht (como no escocês Loch). se tornou fait em francês). onde elas prosperaram. A influência germânica afetou muito a fonologia do latim vulgar falado ali. sua língua adquiriu muitas palavras árabes. Por esse motivo. a Ásia e o Pacífico ocidental. ocorreu a invasão de novas tribos germânicas.16 O espanhol surgiu do latim vulgar falado em solo céltico. (O sul da Gália não sofreu esse processo. O francês surgiu do latim vulgar em solo gaulês.distantes. a palavra factum. devido à longa ocupação muçulmana na Espanha (713 a 1492). que mais tarde. Assim que a latinização da Gália foi consumada sob a tutela romano-germânica. ou castelhano. seu latim vulgar se desenvolveu na autônoma língua provençal.

Hoje. médio e moderno. assim. Hoje. a segunda língua mais amplamente distribuída do mundo.C. Por esse motivo. o espanhol é. a história do italiano não é categorizada em períodos antigo. ou a língua toscana in bocca romana. toscana (com os dialetos corsos) e romana Umbra. O longo período de desunião política italiana também promoveu um desenvolvimento dialetal separado que levou. ele não experimentou os vários substratos ou invasões que tanto alteraram outras línguas românicas. a literaturas dialetais locais de grande força: a italiana central e do sul (com o siciliano). depois do inglês. ao românico oriental. como no caso do alemão. Arezzo) e de Roma constituem o padrão nacional. os dialetos italianos das principais cidades da Toscana (Florença.18 O italiano é uma forma evoluída do latim vulgar falado no solo original dos povos itálicos. Única entre as línguas românicas — e fato realmente raro no mundo — é a fonologia quase sem modificações do italiano no decorrer de vários séculos: qualquer italiano educado dos dias de hoje consegue ler facilmente seus poetas medievais sem treinamento especial. Siena. um povo indo-europeu que havia seguido os celtas para fora da Europa oriental ocupava o local onde hoje 154 . LÍNGUAS GERMÂNICAS No terceiro milênio a.dialetos da América Hispânica emprestaram muitas palavras americanas nativas.19 Devido a seu caráter nativo. o italiano conservou o maior número de características originais do latim — ou seja. Inovações gramaticais específicas como a formação do plural (finais —i/-e/-a) diferenciam o italiano das línguas românicas ocidentais (-s/-es). encontrados na maioria das línguas europeias. o italiano está formalmente alinhado com o romeno. e a alta italiana ou o grupo de dialetos galo-italianos.

do bispo visigodo Wulfila (311 — 83 d. a Dinamarca e o norte e nordeste da Alemanha. os falantes do germânico ocidental. Nos primeiros séculos d.20 Além dos relatos antigos gregos e romanos. ao sul do Danúbio e ao leste do Rhine. Durante o primeiro milênio a. identificadas por sua interpretação de sons específicos do protoindo-europeu: os falantes do germânico setentrional (godo-nórdico) haviam mudado esses sons. a Península Balcânica. Era o povo germânico.fica a Suécia. Mil anos depois. que confundem as tribos germânicas com os celtas. sua língua era acima de tudo caracterizada por uma reinterpretação sistemática radical das consoantes indo-europeias (o Primeiro Desmembramento do Som) e por outras inovações específicas. Nessa época. os falantes do germânico setentrional do leste. que sobreviveu num manuscrito ostrogótico transcrito em letras gregas mais de um século após a morte do bispo. O documento gótico mais significativo continua sendo a tradução da Bíblia. e a Ásia Menor. escandinavos. o Mar Negro. crescendo cada vez mais em número. tribos germânicas isoladas migraram para o leste para Weichsel.C. os falantes do germânico ocidental os preservaram. começaram a expulsar os celtas vizinhos em direção ao sul e ao oeste. balto-germanos.C). mais conhecidos como 'godos'. a Gália.C. a Itália. datado do início da Era Cristã. Como preserva muitas formas linguísticas germânicas mais antigas. Nessa época. expulsando ou absorvendo os celtas nativos. germanos do Mar do Norte. germanos do Elba e germanos ocidentais viviam em pequenas comunidades diferenciadas. repetiam o que os falantes do celta haviam feito séculos antes: migrando para a Espanha (até mesmo para a África). havia duas tribos germânicas principais. o gótico tem uma utilidade con155 . o indício linguístico mais antigo de uma presença germânica até então é a curta inscrição do casco Negau encontrado na Estíria (sudoeste da Áustria).

Entre outras línguas germânicas setentrionais cujos falantes faziam a história da Europa ocidental dos primeiros séculos d. a língua nórdica antiga já havia se diferenciado em nórdico oriental (que compreendeu mais tarde o sueco. o gepídico.C. O 'Segundo' Desmembramento do Som do alto-alemão dividiu as tribos germânicas ocidentais em dois grupos distintos: os falantes do alto-alemão do interior e os falantes do baixo-alemão no norte e noroeste da área costeira. estavam o burgundo. o vândalo.C. entre outras.22 O nórdico antigo surtiu um grande impacto no inglês antigo do final do primeiro milênio d. que sucumbiram no primeiro milênio d. o dinamarquês e o gútnico) e o nórdico ocidental (norueguês. falado ao longo do Mar Negro. uma característica que foi perdida mais tarde. O gótico da Crimeia. A Escandinávia preservou a unidade linguística por muito mais tempo que qualquer outra comunidade germânica. feroês e irlandês) na metade do primeiro milênio d. o irlandês antigo enriqueceu a literatura mundial com suas canções Eddas. hoje suas línguas podem ser mais consideradas como dialetos da língua escandinava do que línguas separadas. o rugiano e o Scirano.21 A língua nórdica antiga original dos germânicos setentrionais está preservada em inscrições rúnicas encontradas em quase todas as regiões da Escandinávia. escribas medievais usavam o alfabeto latino para registrar uma variedade de 156 . Pouco depois. sagas.C. sobreviveu até o século dezesseis.C. poemas e histórias dos escaldos ou bardos. a intercomunicação ativa dos séculos seguintes impediu que os dois grupos perdessem a inteligibilidade mútua.siderável em comparações histórico-linguísticas. Provavelmente.23 Já nos séculos sete e oito d.C. algumas datando do século quatro d. Por esse motivo. para o latim vulgar local.C. porém. As inscrições exibem uma língua arcaica que retém as vogais de sílabas átonas (horna para 'horn').

está sendo substituída pelo inglês. do norte. A fonologia do alemão medieval ainda pode ser ouvida hoje em algumas regiões dos Alpes. Predominava o frâncico renano da corte de Carlos Magno. unindo-se aos alto-alemães descendentes das tropas romano-germânicas de Roma. sob o novo regime nativo. ele é falado até hoje. No século dezesseis. 157 . o alemão era a língua principal da ciência e da cultura. onde se falava dois dialetos principais: o alemânico no oeste e o bávaro no leste. dramaturgos e romancistas alemães ainda são proeminentes na literatura mundial. Uma língua do baixo-alemão. Uma relíquia do dialeto alemão medieval. valão e alemão). No século cinco d. ao tirolês meridional. uma das três línguas oficiais da Bélgica (flamengo. de seu dialeto alemão central emergiu o alto-alemão moderno.coisas em alto-alemão médio. muitas comunidades de baixo-alemães que viviam ao longo do Mar do Norte — anglos. O alemão é rico em dialetos. os reformadores da Igreja. Os poetas. No século dezenove. sobrevive nos Países Baixos com o holandês. saxões e jutos da Dinamarca — migraram para o leste e o sul da Britânia. a ex-língua colonial da África do Sul. principalmente em Nova Iorque e Israel. nos vales alpinos do extremo norte da Itália. hoje. foi preservada durante muitos séculos por uma comunidade especial. usavam o novo peso político da Alemanha central para difundir suas publicações. que. na Idade Média. desde o plattdeutsch. o iídiche. a influência política se transferiu para a alta Alemanha. o baixo-frâncico medieval. hoje a língua padrão da Alemanha. seu dialeto meridional é o flamengo. O holandês foi levado para a África do Sul no século dezessete. o africâner. e se desenvolveu numa língua autônoma.24 O alto-alemão se tornou uma das grandes línguas culturais do planeta. Mais tarde. liderados por Martinho Lutero.C.

o inglês médio (1100 a 1500) era composto por quatro dialetos principais altamente influenciados pelo francês e o latim: o meridional. o inglês só perde para o mandarim chinês. Chaucer escreveu seus Contos de Canterbury no dialeto londrino que fazia fronteira tanto com o inglês meridional quanto com o centro-oriental. Com o advento do Inglês Padrão Internacional. da Nova Zelândia e de várias regiões do Pacífico ocorreu nos séculos dezoito e dezenove. no território meridional central (Sussex a Middlesex). centro-oriental e setentrional. o poema anglo Beowulf. a do inglês crescia. uma verdadeira língua mundial foi quase alcançada pela primeira vez. a língua inglesa seguiu o exemplo do holandês e foi levada para a América do Norte.C. o Caribe. foi provavelmente composto no norte da Inglaterra pouco antes de 750 d. Quase substituído pelo francês após a invasão normanda de 1066. A colonização da Austrália. ao norte (Essez a Nortúmbria). dominaria o mundo: o inglês.C. no sul (Kent e Surrey).) compreendia três dialetos principais. a principal língua de falantes bilíngues do planeta. a maior e mais antiga saga dos povos germânicos. O inglês antigo (700-1100 d. um dia. o saxão. as Índias Orientais. com muitas variantes e influências estrangeiras: o kentish. Com seu início no século dezessete. Devido à centralização política. O crescimento internacional do inglês não tem paralelos na história mundial. centro-ocidental. partes da África e para a Índia. e o anglo. Em número de falantes nativos. O saxão antigo foi escrito pela primeira vez em solo inglês no século sete. o dialeto londrino acabou se tornando a língua padrão da Bretanha.Sua fusão linguística criou uma nova língua que.25 A maior parte das semelhanças que as línguas germânicas um dia possuíram foi substituída pelo grande número de idiossincrasias 158 . Essa expansão global resultou na criação de um Inglês Padrão Internacional. Enquanto a influência do holandês diminuía.

a estrutura sentenciai emaranhada do alemão (com o verbo quase sempre no final da sentença). como língua franca. a sufixação dos artigos definidos do escandinavo (a palavra islandesa bók significa 'livro'. xhosa e zulu. O vocabulário itálico do inglês e a perda de inflexão (terminações de palavras que marcam características gramaticais. No século dezenove. mas bókin significa 'o livro') além de muitas outras inovações. imprecisamente agrupadas sob o nome banto ('povo'). muitos séculos atrás. Quatro das principais línguas 'nigero-congolesas' são bantas: ruanda. as línguas bantas cobrem uma imensa área geográfica. desde do baixo rio Cross no oeste até o sul da Somália no leste. Originalmente limitadas à região da baía de Benin antes de 1000 d. A diversidade das línguas germânicas é a antítese da homogeneidade itálica. apenas no último milênio as línguas bantas alcançaram a enorme distribuição vista hoje — embora no século dezessete.C. Descendente do ramo benue-congolês da suposta superfamília linguística 'nigero-congolesa'. emprestou um grande número de palavras do vocabulário árabe para ser usado. macua. 159 . LÍNGUAS BANTAS A família linguística africana banta compreende hoje cerca de 550 línguas — um número gigantesco quando comparado com a família indo-europeia. com a gramática banta. que tem pouco mais de 100. Além disso. o alto grau de semelhança linguística entre as línguas bantas revela uma proximidade de longa data. O suaíli é o idioma banto do litoral leste da África e de Zanzibar que.26 Quase todos os povos da África central. como em 'whom').extremas que surgiram nas línguas sobreviventes. o holandês houvesse alcançado o Cabo da Boa Esperança antes do banto. falam línguas relacionadas.

negociantes de escravos árabes usavam o suaíli como língua comercial em lugares interioranos tão distantes quanto o Congo. Porém. e que um léxico. que a substituição de palavras ocorre numa taxa constante. empréstimos frequentes entre as línguas bantas relacionadas (ou seja. pode. em distintas épocas. ou lista de palavras. Lá.29 A léxico-estatística sustenta que o vocabulário central sempre se comporta de maneira diferente do periférico.28 Um estudo recente usou o método da léxicoestatística — a comparação de 100 (ou 200) itens de palavras básicas ou culturalmente neutras entre línguas relacionadas — para construir um perfil geral e altamente especulativo da 'árvore genealógica' banta. Desde então. O estudo diz que as línguas bantas ocidentais se desenvolveram ao leste do rio Cross no oeste de Camarões. se seguiu a reconstituição da fonologia (sistema de sons significativos) e morfologia (formação sistemática de palavras) bantas. difusão areai e convergência) tornaram a descrição da árvore genealógica banta extremamente difícil. O banto ocidental divergiu numa sucessão de línguas descendentes. 160 . seria supostamente no vale Benue da atual Nigéria. segundo esse estudo.27 As línguas bantas foram reconhecidas como pertencentes a uma única família mais de um século atrás. o banto se dividiu entre banto ocidental e banto oriental. as línguas bantas ocidentais se expandiram gradualmente por toda a África central. cerca de 5. Começando em cerca de 1560 a. talvez com os portadores de novas técnicas de agricultura. um processo bem diferente da fragmentação geral das línguas germânicas. fornecer informações sobre relacionamentos genéticos.000 anos atrás. do 'corpo principal' (um termo relativo) dos falantes do banto ocidental.C. em que cada uma se diferenciou. A origem da família banta. sozinho.

certas inovações têm de vir antes de outras.Segundo essa interpretação.30 A essa árvore genealógica. Cerca de 170 d.C. incluindo as línguas congolesas e gabão-congolesas. que reconhece que. A fórmula deveria permitir que qualquer porcentagem léxicoestatística dada (calculada pela 161 . os primeiros a 'divergir' foram os falantes de nen-yambassa.C. como em todas as mudanças linguísticas. o 'corpo principal' dos falantes do banto ocidental se dividiu em dois e estabeleceu duas famílias separadas: o banto sul-ocidental e savana. Depois deles. as línguas buansoan se diferenciaram. Sua fórmula é baseada na observação de línguas com uma longa história escrita. A expansão inicial do banto ocidental cessou quando o grupo linguístico meridional maniema se diferenciou da língua vizinha savana cerca de 330 d. Cerca de dois séculos depois. seguidos pelos bioko.C.C. na falta de uma língua escrita. os aka-mbati. tornando-se o grupo mais oriental do subgrupo. substituindo muitas das línguas nativas que encontraram no caminho. Em cerca de 1120 a. foi a vez dos myene-tsogo.C. Isto se chama glotocronologia. foram anexadas mais estimativas estatísticas que estudam o vocabulário para determinar o relacionamento entre línguas em particular e seu desenvolvimento através do tempo. as línguas do norte do Zaire. e depois as línguas buan se dividiram internamente cerca de um século e meio depois. e é um método linguístico tão especulativo quanto a léxicoestatística. com base na reconstituição comparativa léxico-estatística. Apenas no segundo milênio d. as línguas bantas se expandiram rapidamente para as extremidades leste e sul da África. se diferenciaram das línguas do sudoeste e se dispersaram. Cerca de 580 a. as línguas biran divergiram do buan. Essa árvore genealógica das línguas bantas ocidentais foi proposta recentemente. em que todo o vocabulário básico muda ou é substituído numa taxa constante.

Mais de um milênio depois. Consequentemente. as mudanças podem ocorrer através de difusão. eventualmente. com uma construção sintática e/ou partículas especiais que mostram as relações gramaticais. como propõe uma nova teoria. Durante tais períodos.comparação de palavras básicas selecionadas entre línguas semelhantes) fosse expressa em termos de um número de anos específico. os falantes de banto ocidental ocupavam a maior parte do oeste da África central. 162 . que leva à criação das assim chamadas 'árvores genealógicas'. Isso pode ocorrer. segundo os proponentes da glotocronologia. as línguas bantas iniciaram suas grandes migrações que. as levaram ao extremo sul do continente africano no final do século dezessete. Porém.31 Seus membros são línguas isolantes — ou seja. LÍNGUAS CHINESAS O chinês ou sinítico é a subfamília mais oriental e importante da grande família linguística sino-tibetana. sua 'palavra é geralmente um morfema (a menor unidade significativa de uma língua). embora não possam fornecer dados absolutos. Apenas comparações fonológicas (baseadas no sistema de sons de uma língua) que forneçam cronologias relativas para desenvolvimentos linguísticos relacionados sustentam uma validade incontestável neste campo de pesquisa. porque as línguas também passam por longos períodos de equilíbrio. ajustes internos da língua ou convergência linguística. todos os dados glotocronológicos para o banto continuam como especulação subjetiva. pode-se dizer com uma certeza razoável que. no início da Era Cristã. as taxas de substituição de vocabulário não são constantes. Apesar disso. Esses períodos podem ser seguidos por uma 'pontuação' ou perturbação súbita.

Além da descendente sinítica. germânicas e itálicas. Sua terra natal foi a Planície do rio Amarelo. o mandarim chinês. que se tornaram isolantes apenas recentemente. Provavelmente. o chinês era falado numa área muito mais restrita do que no presente. mas não sua gramática. O chinês antigo era falado antes do século seis d. a conquista das etnias vizinhas impôs a língua chinesa nos territórios onde ela é atualmente falada — de modo semelhante ao latim no ocidente. O mandarim antigo foi ouvido desde o século dez até o século quatorze (início da Dinastia Ming). Com os séculos. o mandarim médio do século quatorze ao dezenove e o mandarim moderno do início do século dezenove até o presente.000 anos atrás. textos divinatórios em conchas e ossos foram escritos numa linguagem obviamente relacionada com aquela que foi mais copiosamente documentada na sucessora Dinastia Chou.C. Quem eles encontraram ali — aqueles cuja língua ajudou a criar o que veio a se tornar o chinês — permanece desconhecido. Durante a Dinastia Chou (1050 a 220 a. ser falada como primeira língua por um número maior de pessoas do que qualquer outro idioma do planeta. poder ter sido emprestada desses primeiros habitantes.C). menos de 5. os primeiros falantes de sino-tibetano entraram no Vale do rio Amarelo e se instalaram permanentemente. Parece que uma grande parte do vocabulário chinês.Diferente das línguas célticas. o chinês é uma das poucas línguas (ou famílias linguísticas) contemporâneas cuja história está documentada por meio da escrita numa tradição contínua que remonta à metade do segundo milênio a. Não há 163 . Nessa época. O chinês médio designa a língua falada entre os séculos seis e dez. Mas seus domínios se expandiram para as periferias já no primeiro milênio a. o chinês preservou essa característica em todos os estágios de sua história. durante a Dinastia Shang (cerca de 1700 a 1100 a.C.C).C.

e a lacuna entre as duas 164 . Porém. no final da Dinastia Han (206 a.C). uma vez que o elemento fonético (som) não é claro. não alfabética) da língua chinesa. a língua falada não seguia mais a escrita. foram preservadas pela introdução ou expansão de diferentes tons nas palavras. O processo de reconstituição vem sendo auxiliado por antigos dicionários de rima chineses. ou então que contava com quatorze vogais. da mesma forma que o latim clássico. a língua escrita chinesa.dúvidas de que a língua da Dinastia Chou gerou todos os estágios posteriores do chinês. a 220 d. (Agrupamentos consonantais sobrevivem em terminações de palavras em algumas poucas línguas chinesas. até mesmo a reconstituição da pronúncia dos logogramas do chinês médio é difícil. um outro método de marcar função ou sentido.) Também foi sugerido que o sistema de vogais do chinês antigo continha apenas duas vogais.C. Além disso. o que é improvável. que podem ajudar a reconstruir terminações de palavras e pela comparação de empréstimos das línguas coreana e japonesa para a identificação dos inícios das palavras. provavelmente não diferia muito da fala educada comum. Com o tempo. mas sua natureza precisa ainda é desconhecida.C. Os especialistas ainda estão em processo de reconstrução do chinês antigo. Devido ao sistema de escrita logográfica (ou seja. eles foram reduzidos a consoantes únicas. Durante a Dinastia Chou. é evidente que o chinês primitivo era uma língua flexiva — ou seja. a função sintática era mostrada por meio da mudança das palavras — e que as distinções efetuadas pelas inflexões. incluindo as línguas chinesas faladas atualmente. A reconstituição linguística histórica demonstrou que antes do século dois a. o chinês antigo usava agrupamentos consonantais no início de uma palavra. uma vez que essas inflexões foram perdidas. como resultado os morfemas das línguas chinesas são palavras monossilábicas.

O processo deixou como resíduo muitos homófonos. quase 1. permanece.ou mesmo polissilábica (com duas ou mais sílabas). um forte senso de unidade linguística 165 . ou palavras que possuem o mesmo som. (Por outro lado. Essa redução no número de fonemas em todas as línguas chinesas tornou inevitável a formação de novas composições de palavras. mesmo numa época muito primitiva. Sempre houve dialetos regionais em chinês. O chinês médio era muito diferente do chinês antigo. Por esse motivo a 'palavra' chinesa atual não é mais monossilábica (com uma sílaba). Mas eles não se desenvolveram em línguas separadas até o final do primeiro milênio a.se alargou nos séculos seguintes. Nessa época. contudo.C. e a língua de Pequim contém hoje o menor número de fonemas. o sistema tonai do chinês médio já contava com quatro tons para registros altos e quatro tons para registros baixos. como no caso do latim no Ocidente. as oito principais línguas chinesas constituem uma família de línguas mutuamente ininteligíveis. ou quase o mesmo. ou seja. falado no norte. significado).) Entre o chinês médio e o chinês moderno ocorreu uma grande redução no número de fonemas — sendo um fonema o menor som significativo de uma língua que distingue uma palavra (ou parte de uma palavra) de outra — como os dois fonemas que distinguem mão de pão. mas di. a escrita chinesa não refletia as línguas vernáculas que emergiam. Embora o chinês antigo possa ser hoje tão diferente do mandarim chinês contemporâneo de Pequim quanto o latim clássico é do francês de Paris. reconhece ao todo apenas quatro tons para as palavras. os agrupamentos consonantais haviam desaparecido totalmente. Além disso. como ainda ocorre nas línguas do sul da China. o mandarim de Pequim atual. com vários dialetos principais cada. Hoje. Novamente.000 anos antes do surgimento das línguas românicas a partir do latim vulgar. principalmente de conjuntos de sinônimos (palavras com o mesmo.

Uma fala comum. Isso é o resultado de três fatores: um texto logográfico que não reflete línguas diferentes ou mudanças diacrônicas. a língua escrita chinesa é uma continuação direta da língua padrão vernacular literária do chinês médio. que serve como base para a maioria dos dicionários ocidentais. Porém. Usado em todo o norte da China e além. O mandarim chinês do norte sustenta três dialetos principais: mandarim setentrional (bacia do rio Amarelo e Manchúria). usando palavras com várias sílabas. e até mesmo à aglutinação — a formação de palavras derivadas ou compostas pela união de constituintes com um significado. cerca de dois terços dos falantes chineses. sendo que todas as três mantiveram suas capitais na área geral de Pequim. ou seja. Jin (1115 a 1234 d. 166 . Durante a maior parte da história da China houve uma língua padrão.C.C). O chinês moderno hoje tende ao polissilabismo. e a unidade política do povo chinês. O dialeto mandarim setentrional da capital Pequim é a base para o Chinês Comum Vernacular.entre todos os falantes do chinês. uma língua escrita baseada num dialeto padrão que previne a competição entre outros dialetos. ou língua franca. Hoje. compreendendo tanto a língua falada quanto a escrita. mandarim do sudeste e mandarim do sudoeste.) e Yuan (1271 a 1368 d. o mandarim é falado por aproximadamente um bilhão de pessoas. introduzido no início do século vinte. Nos dias de hoje. era necessária para o comércio. quase sem paralelos na história. a burocracia e a consolidação política por um rígido governo central. o mandarim chinês surgiu da língua franca usada nas dinastias estrangeiras Liao (916 a 1125 d.C). na língua falada — não escrita — o significado original verbal ou pronominal (relativo aos pronomes) de muitas das partículas gramaticais usadas para esclarecer as relações sintáticas numa sentença foi enfraquecido no chinês moderno ao papel de afixos gramaticais ou palavras de ligação.

em Macau e também em Hong Kong. Em Shanxi e no sudoeste de Hebei podem ser ouvidos os dialetos gan. Os dialetos yueb ou cantonenses do sul são ouvidos principalmente em Guangdong. considerável durante a maior parte do século vinte e um. coreanos. Durante muitos séculos. cujos dialetos são falados principalmente entre Fujian e Guangxi. O hakka é uma língua bem distribuída. é falado na região de Hunan. Devido a numerosas migrações recentes — talvez de pequeno alcance quando comparadas às migrações dos falantes de inglês e espanhol — o chinês pode ser ouvido na maioria das grandes cidades de todo o mundo. Mesmo hoje. Os idiomas wu são falados no delta do Yang-Tsé. também conhecido como hunan. esses três povos continuam a usar raízes chinesas para criar novas palavras em seus vocabulários. Fujian e as ilhas de Hainan e Taiwan. A influência da família linguística chinesa permanecerá. Os dialetos min pei são encontrados no noroeste de Fujian. geralmente em Zhejiang. japoneses e vietnamitas usaram o chinês literário como seu meio cotidiano de expressão escrita.000 anos atrás. sem sombra de dúvida. Por este e outros motivos. por um 167 . Os dialetos min nan são falados no sudeste. Jiangsu e Zhejian. no sul de Guangxi. a superfamília linguística austronésia gerou uma família proto-oceânica que incluía. incluindo Xangai e outras partes de Anhui. sua mãe. o chinês pode muito bem ser chamado de 'latim da Ásia Oriental'. LÍNGUAS POLINÉSIAS A Polinésia também sustenta uma árvore genealógica respeitável.32 Cerca de 6. O hsiang.As sete principais línguas chinesas do sul atuais são geralmente mais conservadoras em suas fonologias e sistemas tonais do que os dialetos do norte. no centro-sul da China.

C. e t para k. no centro-leste do crescente Fiji-Tonga-Samoa.500 anos. permitindo uma quase inteligibilidade em toda a Polinésia. O notável conservadorismo e a homogeneidade das línguas polinésias também são. como hulahula) e um número muito limitado de partículas que mostram funções gramaticais. eventualmente se tornaram protofijianas no Ocidente. e protopolinésia. do Arquipélago de Bismarck. devido ao grande número de línguas semelhantes que compartilham um vocabulário quase idêntico. reduplicação frequente (duplicação de palavras. da Micronésia e de Rotuma e a línguas orientais protopacíficas centrais. A última compreendia as línguas ocidentais das Novas Hébridas norte e central. e por outro lado. As vogais. provavelmente. a família linguística proto-oceânica oriental. a família polinésia não contém nenhum membro cuja inclusão seja controversa. ng para n ou '. das ilhas Salomão. a parada glotal. que são quase de natureza dialetal.lado as línguas austronésias da Nova Guiné. os limites entre língua e dialeto são frequentemente pouco claros. Diferente da maioria das outras famílias linguísticas. com exceção de substituições 168 . as mudanças que ocorreram nas línguas polinésias são geralmente mudanças consonantais em um estágio. num grau talvez nunca visto no planeta. o resultado de um comércio ativo contínuo entre a maioria dos grupos insulares até poucas centenas de anos atrás. o vocabulário e a gramática polinésia permaneceram extraordinariamente estáveis nos últimos 3. como de k para '. As línguas polinésias estão entre as mais conservadoras do mundo. vocabulário monossilábico e dissilábico simples. Pode-se atribuir esse fato ao extremo reducionismo (simplificação) já presente no protopolinésio — poucas consoantes. Porém. cerca de 1500 a. da Nova Caledônia e de outras ilhas do Pacífico Ocidental. Assim. que.

Foi nas ilhas Marquesas norte-ocidentais. Por exemplo. que uma nova língua evoluiu — a protopolinésia oriental.500 anos atrás se desenvolveu dentro de seu novo isolamento. eventualmente se tornando a 169 . a protolíngua se dividiu em duas famílias: a prototongíca (que eventualmente gerou as línguas tonganesa e niueana) e a família linguística protopolinésia nuclear. com contatos apenas esporádicos com a terra natal. durante muitos séculos.C.000 anos atrás. uma cultura e língua únicas que milênios depois. cerca de 3. desde as Ilhas Salomão no Pacífico Ocidental até a Ilha de Páscoa no sul do extremo Pacífico Oriental. Após a diferenciação de sua língua-irmã. o protopolinésio experimentou um longo período de desenvolvimento isolado. e com transações comerciais apenas isoladas com a terra natal. facilmente identificáveis.fonológicas menores. Em Tonga.33 Em toda a história da Polinésia. que provavelmente se originou no povoado de Samoa. em rapanui (Ilha de Páscoa) é hare. A continuidade linguística da população estabelecida estava assegurada. em taitiano é fare. a causa comum da diferenciação linguística continuou a ser a remoção de falantes de uma ilha ou arquipélago para outro. 'casa' em samoano é fale. onde foram bem-sucedidos no estabelecimento de um povoado permanente. descendentes de uma única comunidade original que. Cerca de 2. a língua ancestral também continuou a se desenvolver. porque os pequenos números de subsequentes visitantes não imporiam sua língua sobre a população de uma grande ilha. em maori é whare e em havaiano é hale. em Samoa. os falantes de protopolinésio nuclear migraram para as Ilhas Marquesas norte-ocidentais. no segundo milênio a. Há cerca de 36 línguas polinésias faladas atualmente. o protofijiano. provavelmente em Tonga. os ocidentais chamaram de 'Polinésia. do grego poli para 'muitos' e nesos para 'ilha. Enquanto isso.

Cerca de 700 d. o niuafo'o. até se tornarem línguas separadas no século dezoito. no século quatro d. as Ilhas Kermadec e as Ilhas Cook. ou comunidades de falantes de polinésio a oeste do 'Triângulo Polinésio' formado por Nova Zelândia-Havaí-Ilha de Páscoa.34 No início do primeiro milênio d. Mangareva e Ilhas Pitcairn. ela gerou a língua samoana. ao mesmo tempo que a língua protopolinésia central oriental evoluía ali. As Ilhas Marquesas sul-orientais foram subsequentemente colonizadas. um grupo de marquesanos tenha se dirigido para o Havaí. sua língua se tornou o havaiano. particularmente no primeiro milênio d. línguas como o tokelauano.protosamoica-discrepante. o tuvaluano. o pukapukano e cerca de outras quinze línguas. assim como as línguas individuais faladas por grupos que saíram para colonizar outras ilhas. Como essas últimas divergiram do samoano em diferentes épocas.C. e quase todas as ilhas habitáveis do Pacífico já haviam sido colonizadas. onde muitos séculos depois. sua língua evoluiu para a atual língua rapanui. as Ilhas Austrais. onde sua língua estabeleceu seu próprio subgrupo — taítico — que se espalhou para o arquipélago de Tuamotu. algumas delas pertencentes aos subgrupos especiais dos assim chamados 'discrepantes'. talvez através das Ilhas Tuamotu. Com o tempo. o uveano oriental. um grupo de falantes de maori das Ilhas Cook trouxe sua língua taítica para a Nova Zelândia. o marquesano norte-ocidental e o marquesano sul-oriental diferiam cada vez mais em suas fonologias e vocabulário. outro grupo de marquesanos foi para o Taiti. Talvez. Cerca de um século mais tarde.C. O mesmo processo havia ocorrido em todos os outros lugares onde havia falantes 170 . o futunano oriental. Quando as grandes migrações polinésias chegaram ao fim.C. tornaram-se em suas ilhas isoladas. cerca de 1000 d.C. os falantes de protopolinésio das Ilhas Marquesas norte-ocidentais migraram para a Ilha de Páscoa.C.

samoana. particularmente na Polinésia Francesa. histórias místicas. embora na maioria dos casos — como em Tuamotu. No século dezenove. A rica literatura oral da Polinésia — músicas dançadas. tikopiana entre muitas outras) além daquelas cujas línguas já foram faladas por muitos e estão sendo revividas pelo povo com apoio governamental (havaiana. nivelamento linguístico. Ilhas Austrais e Mangareva) e espanhol (Ilha de Páscoa). Vigorosas línguas polinésias caracterizam populações grandes (tonganesa. devido a pandemias calamitosas e tráfico de escravos e a concomitante destruição cultural. pequenas e isoladas (kapingamarangi. mesmo que sua diferença seja maior do que a diferença entre o dinamarquês e o sueco. perda dialetal e contaminação linguística e substituições: inglês (Havaí. Samoa. a maioria dos moradores da Polinésia já perdeu ou está perdendo sua língua ancestral para um idioma metropolitano ocidental. Apenas a monárquica Tonga e algumas longínquas ilhas menores foram poupadas do furioso ataque. 171 . Nova Zelândia. cantos sagrados.do polinésio oriental. ilhas Cook e Nova Zelândia — essas línguas diferenciadas sejam chamadas de 'dialetos'. Tuamotu. Hoje. genealogias. entre muitos outras — foi quase toda perdida no século dezenove. seu rongorongo foi uma elaboração inspirada por europeus no final do século dezoito. Só a Ilha de Páscoa possui uma escrita nativa. ou está sendo substituída pela língua franca taitiana. Ilhas Cook). Apenas uma pequena fração dessa literatura foi escrita por estudiosos ocidentais e poucos insulares que receberam educação ocidental. a invasão europeia e americana no Pacífico causou a perda de mais de 96% da população. taitiana). francês (Taiti. assim como nas Ilhas Austrais ao sul do Taiti. porém. maori). Ilhas Marquesas.

Por sua diversidade e fragmentação. chinesa e polinésia — exibem a rica diversidade e a universalidade das mudanças linguísticas. hoje. germânica. talvez resultante de um rígido conformismo social e centralização política durante muitos milênios. corre o risco de sucumbir a línguas metropolitanas mais fortes. no milênio passado. a linhagem germânica exibe um desenvolvimento exatamente oposto ao da itálica. Por exemplo. família própria. A linhagem chinesa é caracterizada principalmente por sua uniformidade e consistência. Com uma única língua descendente. itálica. eventualmente vem se aproximando do status de língua mundial. a protolíngua usava terminações em palavras para mostrar sua função sintática. talvez a mais conservadora. altamente alterado pela linhagem itálica. Grandes tendências se tornam evidentes no decorrer dos milênios. porém homogênea. A linhagem banta produziu muitas línguas descendentes de poucas divisões na África centro-ocidental.Estas linhagens representativas — céltica. e depois. ou seja. que permitiu que ela dominasse a maior parte do leste e do sul da África. banta. E a linhagem polinésia. o latim. mas as línguas descendentes abandonam essas terminações e usam em vez delas partículas e preposições que 172 . que se expandiu a ponto de se tornar a família linguística mais amplamente distribuída da Pré-história embora fosse. o inglês. ao mesmo tempo. uma expansão sem paralelos. cujas fonologias e vocabulários continuam a lucrar com sua língua-mãe milênios depois. as línguas românicas. A itálica mostra como uma pequena língua descendente. A linhagem céltica mostra como uma família linguística importante e amplamente distribuída pode ser reduzida a uma relativa insignificância em apenas poucos séculos. pode gerar uma enorme. experimentou. muitas dessas línguas compartilham a transição de um tipo de língua fusional (sintecismo) para um tipo isolante (analiticismo).

O que também ocorre raramente é a mudança sintática. mantendo o acento da palavra latina paroxítona marcellus. Menos frequente. As comunidades isoladas da pré-história presumidamente 173 . elas tendem a descrever um círculo tipológico similar. A mudança fonológica é o mais frequente tipo de mudança linguística. aglutinativos e isolantes e marcação no núcleo verbal (mudanças no verbo). o egípcio evoluiu de fusional para aglutinante. é a mudança morfológica. A mudança semântica também ocorre numa taxa relativamente rápida. O acento.35 Pode ser detectada uma hierarquia das mudanças. Em cerca de 3. quanto maior a população humana.designam essas funções. e voltou a ser fusional. nos elementos dependentes do verbo (mudanças no sujeito/objeto) e ordem sintática rígida em frases e sentenças sequenciais. um paroxítono histórico. na realidade. a mudança sistemática na formação das palavras e também mudanças nas formas gramaticais. Portanto. Por exemplo. ou sílaba tônica. Paradoxalmente. alternando períodos fusionais. Uma das mudanças mais raras de todas é a sílaba tônica das palavras. os linguistas podem iluminar um grande número de origens e relações linguísticas. Outra tendência se torna evidente com o passar do tempo. dentro da qual alguns elementos linguísticos mudam mais rapidamente que outros. a mudança sistemática da ordem das palavras numa frase ou sentença. especialmente paradigmas (como em latim puer. tende a ser mais uma característica arcaica que ajuda os linguistas a alinhar línguas descendentes a uma língua-mãe. tem seu acento tônico na última sílaba. o oxítono francês moderno é. mesmo após ter se tornado uma língua isolada e. puerum e assim por diante). Enquanto as línguas mudam. Quase toda mudança linguística é cíclica. menor o número de línguas. puero. perdido a terminação — us.000 anos. Marcel em francês. pieri. ou palavras emprestadas à sua origem estrangeira. Ao reconhecer tais relíquias.

174 . Particularmente.000 anos' ou 'a língua inglesa de 1. a corrida para as cidades do início do século dezenove.500 anos' não poderiam estar mais longe da verdade.desfrutavam de uma enorme diversidade linguística. hoje por volta dos seis bilhões. com a centralização política. Os idiomas nacionais atuais. Um último ponto para concluir esse exame das linhagens linguísticas. exigiam uma língua nacional padronizada. gerou nações que. O aumento populacional ocorrido desde o início da urbanização significou a redução dessa diversidade linguística. que criou a terceira grande onda populacional da história (ainda em andamento). Expressões populares como 'a língua tâmil de 5. as assim chamadas línguas metropolitanas. pode-se esperar que muitas das menores línguas do mundo desapareçam durante esse período. estão hoje eliminando centenas de línguas menores em todo o mundo. resultante da Revolução Industrial. Enquanto a estimativa é de que a população do planeta. Nenhuma língua do planeta é 'mais antiga' que outra: todas as línguas naturais — ou seja nem revividas nem inventadas — atualmente faladas têm exatamente a mesma idade. dobre nos próximos 50 anos.

pronome. numa tradição contínua e mutuamente enriquecedora. uma crença ainda presente hoje em dia em muitas culturas não relacionadas umas com outras. advérbio. adjetivo.C. objeto 175 . O estudo sério e organizado da língua teve início na Índia e na Grécia no primeiro milênio a. escreveu o ilustre linguista norte-americano Leonard Bloomfield no início do século vinte. até os dias atuais. Traduções latinas de termos gramaticais gregos — substantivo. Muito antes da língua escrita. povos antigos divinizaram a fala humana como um dom especial de um deus. transitivo. caso.1 O passo percorre milênios. artigo. e continua sendo feito. declinação. verbo. intransitivo. sujeito. inflexão. gênero.6 Em direção a uma ciência da linguagem 'A ciência linguística é um passo na autorrealizaçáo do homem. tempo.

de onde ela veio e para onde ela vai.entre muitos outros — são usados ainda hoje para descrever a língua na maioria das culturas ocidentais.C. numa tentativa de preservar 176 . Foram eles que lançaram as bases iniciais para a ciência linguística moderna que finalmente emergiu no século dezenove. há uma continuidade de seu desenvolvimento desde os primórdios da Grécia antiga até os dias de hoje. exibia os métodos e princípios do conhecimento sistematizado — do que qualquer estudo europeu do mesmo tipo. A linguística grega foi levada para Roma. suas inflexões. os eruditos sânscritos se sobressaíram na teoria fonética (som) e fonológica (sistema de sons significativos) e em aspectos da análise gramatical. Os últimos gramáticos latinos de Roma. cada geração desfrutou e lucrou com o conhecimento gerado pelo trabalho de perspicazes antecedentes (ver ilustração 12). a história da linguística europeia consegue corporificar uma história da linguística em geral. Na época seu trabalho era muito mais científico — ou seja. uma vez que cada estudioso que escreveu seriamente sobre a linguagem nos últimos dois mil anos e meio contribuiu para o conhecimento sobre o que é a linguagem. ÍNDIA Os estudos linguísticos mais antigos conhecidos do planeta foram feitos na Índia entre 800 e 150 a. Na Índia antiga. não se deve subestimar a influência de linguistas não europeus. Apesar disso. cujo trabalho foi reinterpretado pelos gramáticos renascentistas. que estudaram as classes de palavras latinas. funções e relações sintáticas. Há um fluxo constante de linguistas europeus desde as primeiras especulações gregas sobre o assunto. inspiraram os eruditos medievais. Por esse motivo. Em contraste. Mas pouco se sabe sobre a origem e o início do desenvolvimento da linguística da Índia antiga.

feitos até o século dezoito. os linguistas hindus basearam seus estudos no fenômeno observado da mudança da língua através do tempo. superam qualquer realização ocidental na área. embora a tradição linguística indiana preceda e supere a europeia. O primeiro grande trabalho de linguística indiano foram os Astadhyayi ou 'Oito Livros'. o primeiro trabalho científico em língua indo-europeia escrito ou transmitido oralmente entre 600 e 300 a. incluindo tratados profundos sobre fonologia e semântica. a primorosa culminação de um desenvolvimento teórico longo embora não registrado. semântica. Seus estudos semânticos também enxergavam os significados das palavras como criações observacionais. Comparado com a investigação literária e a especulação filosófica.3 Os escritos indianos sobre a língua podem ser agrupados sob os mesmos tópicos gerais encontrados na cultura ocidental. da gramática sânscrita.4 Os primeiros linguistas hindus assumiram a visão notavelmente moderna de que sentenças inteiras poderiam compreender unidades linguísticas autônomas (os linguistas ocidentais. os eruditos hindus mantiveram uma continuidade dos estudos linguísticos até o presente. Embora sem preocupações históricas. A fonética indiana e vários tópicos gramaticais. os primeiros linguistas indianos chegaram à conclusão irrevogável de que a relação linguística entre a forma e o sentido se deve mais a uma convenção arbitrária (costumes da sociedade) do que a uma mimesis natural (cópia dos sons da natureza).C.2 Como no Ocidente. a tradição indiana parecia totalmente amadurecida. pois já debatia com profundidade teorias linguísticas. Diferente da antiga linguística grega. fonética. escritos por Panini. fonologia e gramática descritiva. que se concentraram durante muito tempo na palavra' como a 177 . assim como heranças.a literatura oral indiana do muito anterior período védico.

Assim. aplicadas de modo rigoroso em sutras ou 'encadeamentos' aforísticos. era sphota. a expressão vocal era oposição ao sistema herdado de características. inexprimível. que desenvolveram a teoria da relação dhvani-sphota. chegaram a essa conclusão pela primeira vez no século vinte). Na fonética. a descrição fonética e a gramática do sânscrito são quase totalmente presumidas. As regras da formação das palavras. procurando estabelecer todas as regras de modo mais econômico e priorizado possível: um comentador notou que poupar metade do comprimento de uma vogai curta ao postular uma regra gramatical tinha 'a mesma importância que o nascimento de um filho'. com processos precisos de articulação (o ato ou modo de dar expressão vocal). é evidente que os estudiosos indianos intuíram totalmente os princípios da fonêmica — dos quais se aproximam partes da teoria sphota — que os estudiosos ocidentais só conseguiram descrever adequadamente no século vinte (veja a seguir). embora o trabalho falhe em compreender totalmente o que hoje se entende por 'gramática'. já em 150 a. a substância linguística permanente. o dhvani provinha do sphota assim como 'se tira água de uma nascente'. A 178 . especialmente pelos Astadhyayi de Panini. Os estudiosos da Índia antiga parecem ter sido obcecados pela gramática. A antiga questão da linguagem versus substância — ou seja. por outro lado. categorias e regras — já havia sido antecipada pelos primeiros estudiosos sânscritos da Índia.C. Talvez os linguistas hindus sejam mais conhecidos por sua análise gramatical do sânscrito. A expressão vocal era dhvani. divisões consonantais e vogais e síntese segmentai. A partir disso. têm precedência.partícula primária da língua. os linguistas hindus haviam ordenado a descrição fonética em estruturas fonológicas.

contribuiu para a criação dos estudos comparativos e históricos europeus sobre a linguagem.5 O mais antigo registro de estudo linguístico na Grécia data do início da era clássica. mas. o historiador Heródoto escreveu: 'toda a comunidade grega. mesmo assim. ou 'gramático'.300 anos depois. Em particular. no início do primeiro milênio a. estudavam e escreviam sobre a língua como uma ferramenta para melhorar habilidades oratórias. Os gregos não estavam interessados na fala dos bárbaroi ou 'falantes estrangeiros'. como hoje são as línguas escandinavas. Na verdade.C. com um sangue e uma língua'. A habilidade de ler e escrever as letras (grámmata) do alfabeto grego era chamada de téchne grammatike e aquele que a dominava era um grammatikós. cerca de 2.) recebeu mais tarde os créditos como 'primeiro investigador das potencialidades da gramática'. que ajudaram a criar a ciência linguística moderna.6 O estudo das letras era uma parte integrante da philosophía ou 'esforço intelectual'.'gramática' de Panini não apenas fundou a linguística indiana. mas também. uma unidade subjacente era agudamente sentida por todos os falantes. talvez a maior conquista cultural grega. tenha sido a elaboração de uma escrita alfabética (veja Capítulo 4).C. Mas os dialetos gregos os fascinavam. (No início do século cinco a. Seu diálogo Crátilo compreendia um debate sobre a origem da língua e as relações 179 . senão antes. a ciência linguística tem seus pilares em solo grego.C. embora não todos.C. GRÉCIA Porém. no século cinco a.) A maioria desses dialetos. uma vez que o grego antigo era altamente diferenciado. foi reduzida com a escrita.C. no século cinco a. os retóricos como Górgias da Sicília. Platão (427?-347 a.

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12 Breve panorama do desenvolvimento da Linguística. .

Trabalhos feitos pelos estoicos no segundo século a. Por sua causa.entre palavras e seus significados: ele mostra que os naturalistas acreditavam que as palavras eram onomatopaicas (com o som sugerindo seu significado) e simbólicas em seus sons. Os gregos se destacaram na gramática e seu estudo influenciou a trajetória da linguística ocidental por mais de 2. investigaram os aspectos individuais da língua pela primeira vez na cultura ocidental. uma vez que os nomes não aparecem naturalmente'. que qualquer mudança linguística é uma mera convenção. 182 . escreveu ecleticamente sobre a língua.C.000 anos.) Aristóteles havia sustentado que a analogia era o fator dominante na morfologia grega. no primeiro século a.8 (Enquanto cruzava os Alpes. Com a mimesis (imitação da natureza) versus a convenção (sociedade) na origem da língua — com os estoicos favorecendo a mimesis e Aristóteles a convenção — também havia uma dicotomia no pensamento sobre se a anomalia (irregularidade) ou a analogia (regularidade) seria o principal tema da língua.C). ou seja. numa campanha militar.C. tal era a sua popularidade. desenvolvendo sua própria opinião sobre o assunto: A língua é convenção. Julio César ocupou seu tempo refletindo sobre a controvérsia entre a anomalia e a analogia na linguística clássica. gramática e etimologia (história da palavra). ou formação sistemática de palavras. Os estoicos foram os primeiros a dividir os estudos da língua em fonética. Seu entendimento sobre a linguagem era inequívoco: 'Fala é a representação das experiências da mente'.7 Aristóteles (384-322 a. o maior intelecto da Antiguidade. hoje os linguistas modernos entendem que uma descrição moderada da morfologia grega está na identificação e regularização de analogias formais. mas os convencionalistas sustentavam que as palavras eram arbitrariamente mutáveis.

e foi dessa maneira que ferramentas tão notavelmente úteis como 'substantivo' e 'verbo' entraram em circulação. particularmente por intermédio dos escritos de Platão e Aristóteles.Após os estoicos. e com a produção dos melhores textos do trabalho de Homero. 'empacada' apenas no 'nível da palavra'. A fonologia também estava focada na pronúncia das letras do alfabeto. o entendimento da fonética permaneceu subjetivo e poeticamente interpretativo e não chegou nem perto da adequação descritiva dos linguistas hindus. Porém. amat 'ele/ela ama'. amas 'tu amas'. Porém. a linguística grega. a descrição gramatical grega assumiu o modelo palavra-e-paradigma tão familiar a gerações de estudantes latinos: amo 'eu amo'. mas eles eram alfabeticamente orientados. criaram uma nomenclatura linguística para descrever características e processos linguísticos observáveis pela primeira vez em língua europeia. e assim por diante. a análise gramatical dos gregos antigos tinha um alto padrão e seu sistema e nomenclatura se tornaram exemplares. Baseada principalmente no grego clássico da região de Atenas. fazendo com que o estudo da língua grega continuasse sendo principalmente uma descrição da língua escrita — e não a falada. então. junto à criação de acentos gráficos para reproduzir com precisão o grego falado na escrita. o estudo linguístico grego se concentrou principalmente com a pronúncia correta e o estilo literário.) Na Grécia. os gregos. 183 . (A verdadeira relação entre letras e sons não foi considerada até os tempos modernos. Mas a morfologia clássica não era um substituto para uma teoria do morfema (a menor unidade significativa de uma língua). presumindo uma relação inválida entre as letras de um texto e os sons distintos da língua falada. Uns poucos estudos fonéticos foram escritos. não conseguiu avançar e chegar ao estágio de discernimento que a Índia havia alcançado séculos antes.

C. com poucas exceções notáveis como a investigação semântica dos casos gregos (levada para a Europa renascentista.C. com a tomada 184 . Os estudos linguísticos gregos na Constantinopla medieval. Nesse estudo. omitindo apenas a sintaxe (ordem da frase ou sentença). Apolônio prefigurou as muito posteriores distinções sintáticas de sujeito e objeto.9 Na época. cuja posterior influência nos gramáticos latinos foi gigantesca. em sua maioria. 1260-1310). Apolônio Díscolo. comentários literários de textos antigos e careciam da profundidade intelectual dos escritores helênicos. cuja língua latina se tornou o veículo de perpetuação da teoria gramática grega. e conceitos de regência e subordinação. A brevidade. precisão e simplicidade de Thrax. no segundo século d. e descobriu que a gramática está na relação entre esses dois conceitos e sua relação com outras classes de palavras. consistiam então no principal domínio da gramática. fornece o que foi durante treze séculos considerado o texto definitivo sobre a linguagem. OS ROMANOS Durante o terceiro e o segundo séculos a. Ironicamente. ela influenciou a teoria do caso) de Máximo Planude (c. compreendiam. do início do primeiro século d. compilou a primeira teoria completa da sintaxe grega. a Téchne Grammatike de Dionísio Thrax.A mais antiga descrição explícita da língua grega.C. a dinâmica da cultura grega já havia passado havia muito tempo para os romanos. a Grécia cedeu gradualmente à supremacia romana. Na Alexandria egípcia. Ele basicamente construiu sua descrição sintática sobre dois pilares: o substantivo e o verbo. assim como sua exagerada exposição das regularidades linguísticas.

C. a debater a linguística. rivaliza com o melhor da Grécia. sob administração grega.completa do mundo helênico no primeiro século d. A literatura grega compreendia o modelo erudito romano.) foi o primeiro crítico latino. mas o latim capitulou ao grego. vários séculos depois. Embora os germânicos e os celtas do oeste do império romano houvessem sido forçados a se submeter a administrações de língua latina. Seu De Língua Latina. morfologia e sintaxe. a língua grega não se submeteu ao latim. onde considerações diacrônicas e sincrônicas são. dividido em etimologia. com funcionários gregos. o império oriental.10 O prolífico intelectual Varro (116-27 a. uma dicotomia ideológica que. mas também fornece considerações originais. continuou firmemente falando o grego. infelizmente intercambiáveis. cultura grega e ideais gregos.C. levou à divisão do império. Embora a ignorância da Antiguidade em relação à linguística histórica também seja pronunciada aqui. embora os romanos tenham certamente compilado trabalhos anteriores. um processo favorecido em parte pela relativa similaridade entre as duas línguas indo-europeias. com originalmente 25 volumes — apenas os livros de cinco a dez e alguns fragmentos de outros volumes sobreviveram — discute longamente a controvérsia anomalia-analogia na linguística. a linguística romana era a extensão da linguística grega. O trabalho de Varro. Não havia uma separação intelectual clara entre a teoria linguística grega e a romana. Como em outras esferas artísticas e intelectuais. com tratamento perspicaz e copiosos exemplos em latim. não sendo uma mera imitação dos mentores gregos. mil anos depois. e a língua grega era a língua da própria cultura. cujos escritos sobreviveram. assim como viria a ser a própria língua latina na idade média europeia. 185 . mas sim uma continuação da mesma dinâmica com parâmetros filosóficos idênticos. sobre a natureza e os primeiros estágios da língua latina.

que discutiram o tópico apenas superficialmente. Varro foi. Varro estava obviamente fascinado pelo amplo alcance gramatical das palavras baseadas numa simples raiz comum: lego eu escolho. o linguista mais original de Roma. ler'. lector 'leitor'. Ele se destacou entre outros escritores romanos. legens 'lendo. Varro foi inovador para a sua era. desapareceu o interesse pela controvérsia anomalia-analogia. a palavra 'derivação'. Se suas ideias não derivaram de um autor anterior cuja obra tenha se perdido. verbos (flexão de tempo). uma solução conciliatória que reconhece ambas na formação das palavras da língua e seus sentidos associados. a palavra 'derivamos' de 'derivar'). uma variação artificial e mais restrita. Particípios juntavam elementos (eles compartilhavam a sintaxe dos dois anteriores) e os advérbios davam apoio a todos eles. que. acreditando ser a última uma variação natural. apresenta argumentos pró e contra a anomalia e a analogia. Varro não simplesmente reconheceu o caso e o tempo verbal como as principais categorias latinas e gregas e estabeleceu as quatro classes — de acordo com sua flexão — de substantivos (flexão de caso). mas a primeira. Ele distinguiu a formação derivada (por exemplo. particípios (caso e tempo) e advérbios (nem caso nem tempo): ele caracterizou as funções específicas de cada um deles. Um notável sucessor foi Quintiliano no primeiro século d.C. Substantivos davam nome às coisas. concentrados em assuntos literários. Diferente dos gregos. sem dúvida. Sua classificação morfológica das palavras latinas também foi altamente original. de 'derivar') da flexionada (por exemplo. alguém que está lendo'. Após Varro. em seus doze livros do Institutio Oratoria. ao discutir variações na forma da palavra a partir de uma raiz única.Varro. Verbos faziam afirmações. e lecte 'primorosamente'. repetia a afirmação de Thrax que a gramática consistia 186 . ou seguiram cegamente a Téchne de Thrax.

num nível primeiro da língua e. 187 . em Constantinopla. que Prisciano chamou de 'maior autoridade em gramática'. Até o século seis d. Prisciano alcançou a descrição mais abrangente do latim clássico.C. O estudioso alexandrino Dídimo. O modelo do trabalho de Prisciano foi o palavra-e-paradigma grego. por exemplo. Só no final do período latino foi formalizada uma gramática latina. O objetivo de Prisciano era claro: traçar uma linguística latina sobre a matriz grega. Em seu tomo de mil páginas. Prisciano via domus. e apenas superficialmente examinava o sistema de caso latino. escrito cerca de 500 d. O Institutiones foi a gramática mais copiada nos escritórios de conventos medievais.numa ferramenta indispensável para uma educação liberal. era um fonema (aqui contrastando com o t. já havia 'demonstrado' que todas as características da gramática grega também poderiam ser encontradas na gramática latina.C. análise e aplicação das nomenclaturas e categorias gregas à língua latina. a linguística romana constituiu da adoção.C. em latim tomus significa 'cortar. em particular a Téchne de Thrax e os trabalhos de Apolônio Díscolo. que serviu como base de toda a educação ocidental que se seguiu. picar'). como toda a Antiguidade ocidental. por exemplo.11 O trabalho principal dos últimos gramáticos latinos foi o Institutiones Gramaticae. que escreveu na segunda metade do primeiro século a. ignorando as dinâmicas evolutivas da língua falada. de Prisciano. e nenhum significado era ligado a nenhum elemento abaixo do nível da palavra derivada. que serve como base para o ensino da língua latina até o presente. permaneceu sem saber que tanto dom-quanto — us eram morfemas (menores unidades significativas) e que d. que significa 'casa. Prisciano refletiu a retrospecção de Constantinopla e a Categorização baseada no grego da língua já arcaica da literatura clássica. Ele lançou as bases para os linguistas da Idade Média. Ou seja.

A demanda do ensino do árabe em todo o extenso domínio do Islã exigiu o estabelecimento.C. Sibawaih de Basra. norte da África e Espanha engendrou um grande número de estudos linguísticos significativos durante a Idade Média.13 Contudo. Depois. que não admite tradução.C. de modo muito semelhante aos naturalistas da linguística grega clássica. Algumas escolas do Alcorão realçaram a origem natural e multiforme do árabe como a representação da natureza e generalizaram esse conceito para incluir nele todas as línguas. desde o século sete d. O persa não árabe.O MUNDO ÁRABE A sofisticação cultural do Islã no Oriente Próximo. que escreveu no século oito d. nas quais Aristóteles influenciou diretamente o reconhecimento árabe da arbitrariedade convencional e regularidade sistemática da língua.12 Alguns autores desses trabalhos eram na verdade judeus espanhóis. de centenas de escolas de árabe. durante muitos séculos. Partindo de uma base sólida e estudos linguísticos anteriores. mesmo entre muçulmanos que não falam árabe. consolidou todas as instruções linguísticas árabes em seu tratado gramatical Al kitab (O Livro). tem sido visto como a palavra de Deus mediada pelo profeta Maomé em língua árabe. Sibawaih definiu o árabe clássico como 188 . então. como as de Basra. no sul do Iraque. como Ibn Barun. que. e evitou a adoção indiscriminada dos protótipos gregos característica dos gramáticos latinos. escrita e pronúncia árabes. elaboraram as regras da leitura. Porém. a maioria era feita por muçulmanos que centravam sua pesquisa no Alcorão que. o mundo árabe desenvolveu uma abordagem única da linguagem. que compilou um tratado comparativo entre o árabe e o hebraico. houve outras escolas.

finais e tonais potenciais do chinês fossem ressaltadas. Essa análise fonológica pseudoprosódica (ou seja. talvez graças à influência de monges budistas. entre outras características. 189 .14 Em 489 d. Os linguistas árabes nunca mais atingiram tal proeminência linguística. a preocupação chinesa com a análise linguística se concentrou numa reprodução mais fiel da palavra falada através de glifos sílabo-fonéticos. CHINA Embora o primeiro dicionário de língua chinesa tenha sido compilado entre 1100-900 a. Al kitab é. permitindo que todas as características mediais. familiarizados com a escrita alfabética. Outras análises fonológicas no século onze chegaram por meio das tabelas de rimas chinesas que colocavam as sílabas iniciais em colunas verticais e as sílabas finais em fileiras horizontais. mesmo que elas não ocorressem na língua falada devido às restrições fonotáticas ('toque-do-som') naturais. relacionada à prosódia. como componentes de sílabas faladas.C. guarnecida com uma terminologia precisa. os tons chineses foram identificados pela primeira vez de um modo sistemático. superior a tudo o que gregos e romanos conseguiram alcançar. pode levantar suspeitas acerca de uma inspiração indiana. A influência dos linguistas sânscritos é evidente na ordenação precisa das sílabas iniciais das tabelas de rimas de acordo com a articulação. ou ao estudo sistemático da versificação) condizente com o modo como o chinês era escrito permaneceu sendo a base da investigação linguística chinesa em toda a Idade Média até a Idade Moderna. Com certeza. Sua descrição fonética e anatômica da produção do som.ele é conhecido hoje.C. em sua precisão descritiva. embora não seja necessariamente o caso.

acima de tudo. um dos principais tópicos da linguística chinesa é a questão da transliteração mais eficiente da escrita chinesa para o alfabeto ocidental. da índia já no primeiro milênio a. Desde o final do século dezenove. Prisciano e Donato.15 Das 'Sete Artes Liberais' que compreendiam essa educação. A IDADE MÉDIA LATINA A investigação linguística durante a Idade Média Latina — um nome conveniente e talvez historicamente equivocado. Nos estudos gramaticais latinos. durante a Idade Média.Se os estudiosos chineses inicialmente houvessem tratado da literatura clássica do chinês médio. ela permaneceu pedagógica. as duas principais autoridades. estudar a língua significava estudar a gramática do latim clássico. Dignos de nota são os escritos do dialetólogo Pan-lei. o próprio fundamento de uma educação adequada. A linguística chinesa nunca atingiu o nível de investigação erudita tanto do Ocidente quanto. Todas as Sete Artes Liberais eram. Como o latim falado e escrito havia sobrevivido à queda romana como a língua erudita em todos os países ocidentais independentemente da língua local.C. subordinadas à teologia. na Europa — é caracterizada principalmente pela sua orientação: baseada na Igreja. particularmente no início da Idade Média. é claro. a gramática latina foi considerada a mais importante das sete.C. ele teria sido mais tarde ligado ao mandarim de Pequim e outras línguas chinesas. Na verdade. não menos que três — gramática. eram meramente regurgitadas com mudanças 190 . dialética (lógica) e retórica — envolviam diretamente o estudo da língua latina. que viajou pela China no século dezessete. para o período entre 600 e 1500 d. descrevendo as muitas línguas e dialetos que encontrou.

iniciando uma tradição que prosperou durante muitos séculos na Irlanda. redigiam etimologias e compilavam léxicos. também apareceram bem cedo. o 'Primeiro Gramático' identificou os princípios subjacentes da fonêmica. permaneceu ignorado até o século vinte. com o surgimento das primeiras universidades na Europa. e o Primeiro Tratado de Gramática escrito por um extraordinário irlandês desconhecido no século doze. chamado de o 'Primeiro Gramático'. um manual de latim de cerca de 1200. na Espanha. Mesmo assim. o sistema interno de sons significativos de uma língua. a arquitetura gótica e a literatura cortesã. os irlandeses estiveram entre os primeiros a aplicar os princípios da gramática latina à língua vernácula local. Porém. Ao defender uma reforma na ortografia que melhor reproduzisse a língua islandesa na escrita.insignificantes. escritos por muitos autores entre 1200 e 1350 que. compartilhavam a 191 .16 Embora a cópia da Bíblia e o ensino do latim dominassem os monastérios. tentativas de gramáticas e livros de conversação latinos independentes. vários deles se destacaram: Doctrinale. o irlandês incluiu uma rara análise fonética e fonológica. Em particular. os estudos linguísticos ainda pertenciam à doutrina pedagógica.17 Durante o período da filosofia escolástica que começou em cerca de 1100. o mais notável foi Isidoro de Sevilha. que compreende o melhor que a Idade Média tinha a oferecer. tratados intitulados De Modus Significandi (Nos Modos do Significado). monges com inclinação linguística também comentavam ou glosavam. e não a inovação. de Alexandre de Villedieu. Seu trabalho. A tradição. como as feitas por Bede e Alcuin na Nortúmbria no século oito. Neste último. que no início do século sete escreveu a Etymologiae. linguística floresceu na Idade Média com 'gramáticas especulativas'. Na verdade. a ‘Britannica’ da Idade Média. gramáticas galesas e irlandesas. geralmente.

escreveu que: A gramática é. O sistema sintático dos Modistae.mesma postura teórica e concepção linguística. mas o filósofo que. alcançou uma transparência muito maior na função específica das classes de palavras. e varia nelas apenas acidentalmente'. autor de uma das primeiras gramáticas especulativas. (Desde então.18 Esses 'Modistae' integraram as descrições da gramática latina de Prisciano e Donato na filosofia escolástica.) A semântica foi particularmente usada numa tentativa de definir a diferença entre o significatio (significado) de uma palavra e sua suppositio (substituição relacionai). e aqui eles criaram uma elaborada terminologia para explicar um sistema integral e coerente de gramática filosófica. uma e a mesma em todas as línguas.] descobre a gramática'.) Os Modistae declararam que a simples descrição do latim não era mais sufi ciente. Isso envolvia níveis estruturais mais profundos do que as flexões das palavras de Prisciano. teóricos linguistas vêm buscando uma 'gramática universal'. se desviando significativamente de Prisciano para fornecer uma dimensão explanatória para a análise meramente descritiva do latim feita por ele. os Modistae 192 . [. A filosofia havia sido ligada à gramática: 'Não é o gramático. Desse clima teórico surgiu a noção de uma 'gramática universal' que serviria para todas as línguas. Em sua teoria da linguagem. Os Modistae também conseguiram uma teoria abrangente e coerente da estrutura das sentenças e sua análise sintática. permitindo uma definição mais adequada dessas. em sua essência. eram necessárias uma teoria mais profunda e uma melhor justificativa para elementos e categorias do latim.. Mas o principal interesse dos Modistae era a própria gramática. O inglês Roger Bacon (1214?-94). (A escolástica é a escola de pensamento que incorpora a filosofia aristotélica na teologia católica. cuidadosamente considerando a natureza específica das coisas. por exemplo..

não permitindo mais que o grego e o latim dominassem o estudo linguístico. ATÉ O SÉCULO DEZENOVE Escritores clássicos recolheram dados e descreveram o grego e o latim. Porém. A pronúncia e a ortografia se tornaram mais padronizadas com as emergentes literaturas nacionais. reflexão e comunicação do mesmo modo em todas as línguas — uma teoria que desabou quando as línguas não indo-europeias se tornaram conhecidas. Nessa época também apareceram gramáticos de outras línguas: italiano e espanhol. ilustrava para os linguistas europeus a diferença radical do sistema de classe de palavras com substantivos e verbos declináveis e partículas indeclináveis. no Renascimento. A Bíblia foi traduzida para línguas vernáculas e a relação entre o hebraico original e o grego foi comparada com elas. o hebraico se tornou um importante objeto de investigação. por sua importância para o Cristianismo. A própria língua se tornou objeto de investigação. polonês e eslavo eclesiástico. no século dezesseis. do alemão Johannes Reuchlin. as 'gramáticas especulativas' dos Modistae representam uma ponte entre a Antiguidade e a Idade Moderna. É claro que um pouco de árabe e hebraico foi estudado na Idade Média. particularmente o hebraico. Embora ainda estivessem muito longe da gramática formal atual. francês.acreditavam que a mente humana executava processos de abstração. Foram impressos os primeiros dicionários. Mas após a Idade Média. Os Modistae medievais especularam sobre o uso do latim. no século quinze. os eruditos europeus estudaram as línguas não europeias e leram os trabalhos de linguistas não europeus. O De rudimentis hebraicis. de 1506. As novas gramáticas de línguas vernáculas se concentravam na ortografia para alcançar o máximo de compreensão entre povos ainda 193 .

Convenientemente. Rapidamente avaliou-se o quão enormemente as línguas diferiam do grego e do latim. As línguas clássicas agora eram reverenciadas como modelos antigos. mas sim línguas autônomas que se diferenciavam de modos sistematicamente descritíveis. do guarani brasileiro (1639) e muitas outras línguas. espanhol e português. catalão. latim e francês e teorizou sobre a gramática em Scholae Grammaticae. As línguas vernáculas estavam se libertando do latim ao mesmo tempo e sendo estudadas por seu próprio mérito. mas as línguas modernas à observação. O próprio Ramée introduziu as novas letras latinas j e v para representar a pronúncia exata da semivogal. o latim já havia sido cultuado e também objetivamente descrito. incluindo o chinês. um processo longo que em alguns países europeus só terminou no século dezenove. escreveu gramáticas de grego. 1515-72). e a maior 194 . Divergindo da orientação precedente. Particularmente entre as relacionadas línguas românicas: italiano. Ramée declarou que as línguas antigas deviam aderir ao emprego clássico. não ideais clássicos. também começaram a ser impressas. provençal. Gramáticas do quéchua peruano (1560). mas não mais ideais vivos. como línguas separadas cujas gramáticas eram igualmente dignas de consideração para os estudiosos. Desse modo. cuja Dialectique foi o primeiro livro filosófico em língua francesa ('Tudo que Aristóteles disse está errado'). ficou claro que elas não eram simples corrupções do latim clássico. Um precursor do estruturalismo moderno. A impressão aumentou a alfabetização. distintas das pronúncias vocálicas latinas do i e do u. francês. As línguas vernáculas começaram a substituir o latim medieval como a língua da educação. o francês Pierre Ramée (c. do basco (1587).não unidos em nações. as descrições e classificações gramaticais de Ramée realçam as formas observadas das palavras.

195 . ambos acreditavam que a base do raciocínio filosófico estava na matemática e na ciência newtoniana. Os empiristas. e a Royal Society. similar apenas à revolução tecnológica do século vinte.19 Do século dezesseis ao dezoito. os racionalistas não acreditavam na percepção dos sentidos. a ciência linguística transcendeu das questões puramente orientadas pela linguagem para se tornar ela própria uma ferramenta no debate filosófico entre empiristas e racionalistas. de William Holder abordava o diagnóstico articulatório da distinção vocal e não vocal em consoantes — ou seja. na França. em 1635. Foi daí que surgiram as primeiras reivindicações sérias por uma nova e inventada 'língua universal' como um meio internacional de aprendizado e comércio. mas. na Inglaterra. que frequentemente consistiam em fóruns e mesmo 'cães de guarda da pesquisa e questões linguísticas. naquilo que a razão humana aduzia. Todos os estudos linguísticos da época foram influenciados pelo debate empirista-racionalista. Embora a maioria dos linguistas ingleses ainda forçasse a língua dentro da camisa-de-força das classes de palavras latinas de Prisciano. rejeitando a escolástica medieval. Foram formadas sociedades eruditas como a Academie Française. em 1662. Um resultado da linguística empírica inglesa foi a primeira descrição sistemática da fonética inglesa e o início de uma análise formal de uma gramática inglesa livre da imposição latina de Prisciano. Porém. realçavam o fato observado. havia exceções que ousavam descartar a tradição em favor da observação direta do uso real do inglês: Elements of Speech (1669).alfabetização significou uma explosão de conhecimento geral e consciência. Nasceu a escola de fonética inglesa que basicamente fundou o estudo da fonética e fonologia do inglês. talvez mais tradicionalmente. b/p. cada grupo enxergando a linguagem de um modo diferente.

abstrações e complexidades gramaticais haveriam se desenvolvido a partir de inícios 'tonais' muito simples. um dependendo do outro. g/k e assim por diante — melhor do que qualquer outro estudioso ocidental antes dele. De seu lado. Eles tentaram alcançar esse objetivo. não um modelo latino ou ideal. No século dezoito a especulação linguística se voltou para a origem e o desenvolvimento da língua de uma maneira mais filosófica. Os filósofos franceses Condillac e Rousseau acreditavam que a origem da língua estava na imitação da natureza por meio de gestos e gritos. acreditando que tal postulado realmente existisse. no hebraico e em línguas europeias contemporâneas. Os gramáticos de Port Royal empreenderam a escrita de uma gramática geral baseada no grego. por meio de uma reinterpretação semântica radical das nove classes de palavras clássicas. Herder acreditava que primeiro o sentido da audição promovia a língua.d/t. cuja influência continuou no século dezoito. como. no latim. Devido à desconfiança institucional do classicismo pagão das escolas Port Royal. enxergando advérbios estruturalmente como apenas frases preposicionais abreviadas. mas como uma teoria da gramática geral expressa em idioma vernáculo. em particular deviam sua inspiração às escolas Port Royal francesas de 1637 a 1661. por exemplo. mais tarde. e 196 . o movimento racionalista produziu gramáticas filosóficas que. entre outras coisas. O objetivo dos gramáticos de Port Royal era revelar a unidade subjacente de todas as gramáticas em comunicar o pensamento humano. O alemão Johann Gottfried Herder argumentou que a linguagem humana crescia por meio de sucessivos estágios de desenvolvimento e maturidade junto ao pensamento humano. esses gramáticos racionalistas prolongaram as gramáticas escolásticas da Idade Média propondo uma 'gramática universal'.

como resultado de um influxo de novos dados.) Isso não é uma 'arrogância linguística'. para a Royal Asiatic Society em Calcutá. leu um artigo. como Herder reconhecia as idiossincrasias das línguas individuais. que identificava o 197 . ao latim e ao hebraico. ou seja. O inglês James Harris. hoje em dia lendário. Perto do final do século dezoito. quando Sir Willian Jones. (Hoje. O marco foi o ano de 1786. que. cada uma é igualmente suficiente em todas as suas necessidades imediatas.os outros sentidos contribuíam depois para desenvolver um Vocabulário simples' quando a língua amadurecia. sabe-se que nenhuma língua viva é mais 'primitiva' que outra. A descoberta de antigos textos sânscritos e a rica tradição linguística sânscrita revolucionaram e transformaram o estudo ocidental. afirmando que as 'línguas' primitivas contemporâneas revelam características humanas de 'uma língua original'. intitulado Of the Origin and Progress of language (1773-92) também se voltava para o desenvolvimento histórico. como muitos afirmaram. na véspera das grandes descobertas ao longo do desenvolvimento na direção de uma verdadeira ciência da linguagem. colocando a sociedade humana como um pré-requisito para a criação linguística. discípulo da filosofia aristotélica. É a investigação linguística. com comparações tipológicas de línguas desconhecidas até então. O tratado de seis volumes do Lorde Monboddo (James Burnett) de Edimburgo. os linguistas adotaram uma aproximação mais histórica e menos teórica e filosófica do estudo da língua. como a escassez de vocabulário abstrato e organização gramatical. que segundo Harris subjaziam todas as gramáticas desde o início da fala humana. em relação ao grego. desenvolveu uma teoria linguística baseada era dois 'princípios' universais: substantivos e verbos. um juiz inglês de 42 anos de idade da Companhia das Índias Orientais.

e o desenvolvimento de um vocabulário científico e ferramentas para alcançar este objetivo. O conceito em si não era novo. e que existia uma língua ancestral. O século dezenove é a era da linguística comparativa e histórica — ou seja. mas também revelou a tradição linguística sânscrita de mais de 2. da medicina.500 anos de idade para os estudiosos ocidentais. A investigação histórica das línguas indo-europeias dominou o século dezenove e estabeleceu os padrões para a investigação de todas as outras famílias linguísticas. Esse era o domínio principalmente dos estudiosos de língua alemã que desempenharam um papel de vanguarda na fundação de uma nova ciência linguística por meio do espelhamento de contribuições contemporâneas das ciências naturais. célticas e persas antigas. góticas. latinas. da astronomia. O estudo de Jones não apenas inaugurou o campo da linguística histórica. da busca de similaridades e diferença entre as línguas e suas relações históricas uma com as outras. mas Jones foi o primeiro a introduzir duas noções novas: que as línguas poderiam estar relacionadas historicamente — 'desenvolvidas a partir de uma fonte comum'.relacionamento genético do sânscrito com as línguas gregas. como ele afirmou — em vez de ser produtos umas das outras (ou seja. da matemática. Império Austro-Húngaro e Suíça. O SÉCULO DEZENOVE No início do século dezenove começou a surgir uma verdadeira ciência linguística. 198 . o que os linguistas chamam hoje de protolíngua. da história. do sânscrito para o grego para o latim). entre outras disciplinas dos Principados alemães. da física. O resultado da combinação das tradições sânscritas e ocidentais estabeleceu a ciência linguística moderna na primeira metade do século dezenove.

que incluía 200 línguas. eram compiladas listas de palavras. No início do século quatorze. normalmente incluindo o Pai-Nosso e o levantamento linguístico efetuado. o 'Primeiro Gramático' irlandês havia notado semelhanças na forma das palavras inglesas e islandesas. e mesmo. Schlegel cunhou o termo vergleichende Grammatik ou 199 . Escritos históricos semelhantes sobre a língua continuaram a aparecer até. Muitos estudiosos como o alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716). Em 1808 Friedrich Schlegel publicou um tratado sobre o sânscrito no qual apontava a urgência do estudo das 'estruturas internas' (morfologia ou formação sistemática de palavras) das línguas com o intuito de descobrir semelhanças genéticas. Krus em 1787 forneceu. J. O auge do frenesi da coleta de dados foi o Linguarum Totius Orbis Vocabularia Comparativa (São Petersburgo 1786-9) em quatro volumes. a primeira discussão científica da linguística comparativa e histórica numa estrutura moderna — ou seja. Nesse trabalho embrionário. Toda a diferenciação linguística provinha da destruição da Torre de Babel. O exame do primeiro volume da compilação feita pelo alemão C. para fornecer uma maior fonte de informação para que generalizações linguísticas pudessem ser fundamentadas. o hebraico havia sido a primeira língua do planeta. Porém. do alemão Peter Simon Pallas. Particularmente no século dezoito. haviam apontado a necessidade da preparação de gramáticas e dicionários das línguas do mundo.Já no século doze. no século dezenove. não clássica e não bíblica. o italiano Dante Alighieri havia descrito as diferenças entre línguas e dialetos como resultado da passagem do tempo e da dispersão geográfica de falantes de uma única língua (protolíngua). como descrito em Gênesis 11. em seu De Vulgari Eloquentia. possivelmente. para Dante. o dom dado por Deus a Adão no Éden. sem que ninguém ousasse questionar o relato bíblico.

publicou em seu primeiro estudo. que estudava sânscrito desde 1812. Em sua Deutsche Grammatik (Gramática Alemã) de 1822. (O próprio Grimm não via aqui uma lei linguística. Formulado e ilustrado por Rask quatro anos antes. gregas. uma comparação das formas verbais sânscritas. criando uma nova ciência nesse processo.) Outros estudiosos produziram trabalhos semelhantes. que eventualmente promoveram o conhecimento do indo-europeu e de outras famílias linguísticas. apenas uma 'mudança sonora' que era uma 'tendência geral'. de modo que as regras das mudanças das letras seja descoberta ao se passar de uma para outra. quatro anos depois. Grimm. identificando a substituição de classes consonantais de três locais articulatórios em língua alemã e três tipos de diferenças em relação à fonologia de outras línguas que não apresentavam as mesmas mudanças. que conhecia do trabalho de Rask. Dois intelectuais iniciaram o estudo comparativo e histórico da família linguística indo-europeia: o dinamarquês Rasmus Rask (1787-1832) e o alemão Jacob Grimm (1785-1863. ela fornecia a primeira e mais importante das chamadas 'leis sonoras'. Franz Bopp (1791-1867). Em 1818 ele reconheceu: 'Se entre duas línguas é encontrada uma concordância nas formas de palavras indispensáveis. latinas e alemãs. Rask foi o primeiro a comparar sistematicamente a forma das palavras de várias línguas indo-europeias e estabelecer um padrão de relações etimológicas. então.'gramática comparativa' para abarcar tanto a linguística comparativa quanto a histórica. com a intenção de traçar o desenvolvimento 200 . um dos irmãos Grimm). descreveu aquela que viria a se chamar 'Lei de Grimm'. há uma relação básica entre essas línguas'.

exerceu uma enorme influência. Bopp é considerado hoje o pai do estudo histórico-comparativo das línguas indo-europeias e o verdadeiro fundador da ciência linguística moderna. e cada palavra de uma língua pressupõe a totalidade de sua língua dentro de uma estrutura semântica e gramatical. ele também investigou as correspondências sonoras entre as línguas individuais. declarava von Humboldt.da inflexão (terminações sistemáticas de palavras que mostram função sintática). algumas específicas da língua em questão. e não fenômenos externos como alegavam os filósofos gregos e latinos. mas em todo um Weltansichten — atitudes e entendimento do mundo. As diferenças entre as línguas não estão meramente nos sons. segundo a innere Sprachform — a estrutura interna da linguagem — que impões padrões e regras. Cada língua do planeta é uma criação individual daqueles que a falam. que cria as palavras e a gramática. mas outras comuns a toda a humanidade (universais de linguagem). incluindo o lituano. escritor. publicada entre 1833 e 1852. Seguindo os passos de Rask. o armênio. o albanês e as línguas eslavas e célticas. Von Humboldt foi o maior teórico linguista do século dezenove. É a mente humana. historiador e um dos primeiros estadistas da Prússia. Em sua principal contribuição na área. particularmente nos linguistas germano-americanos do início do século vinte e linguistas europeus 201 . a Vergleichende Grammatik. Cada língua é reflexo das línguas passadas. Ele publicou vários trabalhos sobre a linguagem durante a vida. enfatizando sua teoria de que a linguagem é uma habilidade inerente de toda a humanidade. Bopp cumpriu seu intento para todas as formas flexionadas. Um dos pensadores mais originais do século dezenove foi Wilhelm von Humboldt (1767-1835). como membros da família linguística indo-europeia.

e assim por diante. A ciência linguística nos últimos vinte e cinco anos do século dezenove foi caracterizada pelos inicialmente controversos Junggrammatiker. depois. o innere Sprachform de von Humboldt fornece uma teoria linguística universal com uma estrutura que explica como diferentes comunidades étnicas.da metade do século vinte. ele as rastreou até sua língua-mãe. a polinésia e a semítica) — o modelo da árvore genealógica se mostrou uma das mais importantes ferramentas teóricas da história da linguística. aglutinante (turco) e flexionai (sânscrito). e muito poucas famílias linguísticas caberem dentro desse modelo (como a indo-europeia. baseado em características compartilhadas. ou partidários da doutrina neogramática. o indo-europeu. por meio da linguagem. Ela também acomodava extremamente bem a abordagem darwiniana que dominava as ciências naturais no final do século dezenove. o eslávico. e tentou então remontar ou 'reconstituir'. No início do século vinte e um. Schleicher agrupou as línguas descendentes que sobreviveram e as dividiu em subfamílias como o germânico. Talvez a contribuição mais imediata de von Humboldt para a teoria linguística seja sua divisão em tipos de línguas em isolante (chinês). August Schleicher (1821-68) introduziu uma abordagem biológica para o estudo da língua em sua reconstituição e descrição gramatical da língua protoindo-europeia. o celto-itálico. baseada na 'palavra' como a unidade gramatical dominante. Originária 202 . Mais conhecido por sua Stammbaumtheorie ou 'modelo da árvore genealógica'. Apesar de sua fraqueza — línguas reais não se 'dividem' nem formam 'galhos' uma de outras. Outras personalidades rapidamente alargaram a ciência linguística. podem viver em diferentes realidades mentais e adotar diferentes sistemas de pensamento.

Meyer-Lubke. Meillet. Wright. especialmente dos dialetólogos que descobriram grandes irregularidades nas línguas em níveis de uso local e não generalizado. O principal dialetólogo francês. Paul. O trabalho dos neogramáticos transformou a investigação linguística numa disciplina científica cujos métodos eram tão exatos quanto os que germinavam nas ciências naturais. como os de von Humboldt. Sapir e Bloomfield — desenvolveram. Os neogramáticos triunfaram sobre as teorias concorrentes e uma longa lista de proeminentes linguistas — Delbruck. não foram bem-vindos nesta nova 'mecanização' da linguagem. Muitos trabalhos valiosos sobre a concepção estrutural da linguagem. então. a nova teoria propunha que. Essa postura havia sido forçada pelo reconhecimento da ordem por trás dos conjuntos de correspondências formais entre as línguas indo-europeias. aquele mesmo som. Se não havia uma regularidade nas mudanças sonoras.de Leipzig. e não poderia haver uma verdadeira ciência linguística. sob a tutela de Hermann Osthoff (1847-1909) e Friedrich Karl Brugmann (1849-1919). Tules Gilliéron (1854-1926) chegou a declarar 203 . na Alemanha. do mesmo modo que os processos mecânicos. Boas. Também houve muitas críticas justificáveis aos neogramáticos. sempre se desenvolveria da mesma forma. então a variação ocorreria ao acaso. ou foram treinados nos princípios e métodos da neogramática. Especulações sobre a linguagem foram descartadas para dar lugar à aplicação de apenas dados ou leis que governavam os dados. no mesmo ambiente. todas as mudanças sonoras ocorressem sob leis que não permitiam exceções dentro do mesmo dialeto. Toda a ciência linguística histórico-comparativa parecia estar baseada na aceitação da regularidade das mudanças sonoras nas línguas humanas com o passar do tempo. afirmavam os adeptos da neogramática.

é perfeitamente verdadeiro. mas sim a estrutural e sincrônica. cada um com seus princípios e métodos próprios. Mas cada palavra pertence a um sistema maior. a gramática tradicional. em que langue compreende o principal objeto da investigação linguística. normalmente com a exclusão de dados históricos e comparativos. o que. A linguística do século vinte constituiu principalmente na modificação da doutrina neogramática.que: 'cada palavra tem sua própria história'. Ele também distinguia a langue (uma competência linguística do falante) da parole (a própria expressão vocal do falante). não em sua suspensão. portanto histórico) e sincrônico (concentrado em determinada época. cujas conferências de Genebra mudaram o rumo da linguística do século vinte. por um lado. portanto descritivo). 204 . O SÉCULO VINTE Os linguistas do século vinte introduziram a expansão dos princípios e métodos da neogramática com a inclusão de línguas não indo-europeias e a reação à doutrina neogramática por aqueles que não praticavam a linguística histórico-comparativa (diacrônica).20 Saussure definia a distinção entre o estudo diacrônico (temporal. o século dezoito a linguística filosófica e o século dezenove a linguística histórica. até o meio do século vinte prevaleceu a linguística descritiva — o estudo da estrutura de uma língua numa época particular. a cultura sânscrita e a adoção dos princípios e métodos de outras disciplinas. O início do século vinte deu continuidade às três grandes investidas do século dezenove. Se a Idade Média enfatizou a linguística pedagógica. A maior personalidade linguística do início do século foi o suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913). e era nesse sistema que os neogramáticos se concentravam.

O efeito mais imediato de Saussure foi na fonologia. ou com uma característica diferente em pelo menos um outro fonema da língua investigada. em 1877. Nas décadas de 1920 e 1930. O inglês Henry Sweet (1845-1912) já havia. e o trataram como uma unidade fonológica complexa. descoberto. Eles acreditavam que cada fonema compreendia um determinado número de características distintas individuais.E Saussure demonstrou que a langue precisava ser abordada sincronicamente dentro de um sistema de elementos lexicais. ele declarou. o conceito de fonema. se tornou parte do cânone mundial. por meio da distinção evidente das contrastantes palavras inglesas bin/pin. no final da Primeira Guerra Mundial. aos constituintes internamente relacionados da língua. o 'Círculo Linguístico de Praga' desenvolveu ainda mais a teoria do fonema. mas cada característica distinta também contrastava com sua ausência.22 Eles consideravam o fonema pertencente à langue. gramaticais e fonológicos. todos operando em relação uns com os outros: a langue é como um enxadrista num tabuleiro de xadrez.21 A nomeação exata do fenômeno de um fonema apareceu em 1884. embora ainda não definido. num trabalho publicado pelo polonês Baudouin de Courtnay. Essa abordagem estrutural da linguagem assinalou o nascimento da 'linguística estruturalista'. Sistemas fonológicos inteiros podiam. e a própria palavra. cuja soma o caracterizava como um elemento linguístico autônomo. que havia distinguido um simples fone (som arbitrário) de um fonema (som significativo). Sua abordagem estrutural coincidia com os pensamentos mais recentes sobre a fonética — o estudo e a classificação sistemática dos sons produzidos pela expressão vocal. então. Apenas quando as anotações das conferências de Saussure alcançaram reconhecimento internacional. 205 . o conceito de fonema.

Devido ao trabalho do 'Círculo Linguístico de Praga' o fonema assumiu um papel principal na teoria linguística e hoje está implícito na descrição e análise de qualquer língua do planeta. o galês p/b. ff/f. os Estados Unidos da década de 1920 também começaram a se sobressair na linguística descritiva. no qual usou as técnicas da linguística descritiva em línguas 206 . t/d. não foneticamente). Foi observado que esses contrastes se contraíam. Tanto Boas quanto Sapir eram produtos de sua era e de sua bagagem alemã. Mas a América. duração. onde de maneira única a antropologia compreendia uma parte fundamental da linguística. ll/l e c/g (aqui escritos alfabeticamente. e as teorias linguísticas de von Humboldt ressoavam em seus escritos.23 Essa foi uma conquista de três linguistas radicados na América do Norte: os alemães Franz Boas (1858-1942) e Edward Sapir (1884-1939) e o norte-americano nascido em Chicago Leonard Bloomfield (1887-1949). 1938). revela um contraste fonêmico não vocal/ vocal. e eventualmente acabariam dominando a ciência linguística no meio do século vinte. expandiam ou mesmo desapareciam em diferentes posições na palavra. tom e articulação — os chamados 'suprassegmentais' — mostravam características distintas que fornecem um significado além dos segmentos consoante-vogais comuns. e Boas editou e coescreveu o Handbook of American-Indian Languages (1911. por exemplo. th/dd. Desse modo. também os afetou. onde vários outros fonemas os afetavam. Embora a Europa continuasse a produzir um grande número de estudos sincrônicos embrionários. As línguas nativas dos EUA e do Canadá caíram sob o escrutínio científico nessa época. Foi descoberto que mesmo acento.ser classificados de acordo com seus inventários de características contrastantes em seus fonemas constituintes. ou como resultado de determinado número de fenômenos.

refletindo o interesse científico de sua era. Aqui. Seguindo os modelos alemães. aglutinante. a linguística de Bloomfield estava altamente condicionada pelo positivismo da psicologia behaviorista americana. Gerações de linguistas de campo se baseariam na estudada combinação de teoria e técnica de Boas ao abordar pela primeira vez uma língua ainda não descrita. ao contrário da confiança de seus contemporâneos na semântica e na psicologia. flexionai. enxergando o trabalho como uma variedade de esforços humanos. Sapir. e assim por diante) — e acreditava que uma tipologia válida poderia ser alcançada pela determinação de características gramaticais e morfológicas gerais de uma ampla variedade de línguas. abordou a língua de uma perspectiva ampla. permeando todos os aspectos do discurso. que havia sido aluno de Boas. mas também o principal livro universitário sobre a matéria. influenciando o rumo da própria disciplina. se tornou não só a melhor descrição introdutória da linguística durante duas décadas.26 A 'era bloomfieldiana' viu a maioria dos linguistas americanos concentrar seus estudos na análise formal por meio de operações e conceitos objetivamente descritos. O Language (1921) de Sapir continua sendo a melhor introdução geral a uma classificação tipológica.24 Rigorosamente metodológico e baseado na análise formal. o fonema e o morfema tomaram o 207 . publicada pela primeira vez em 1933 nos EUA.25 Sua Language. Ele estava particularmente interessado na tipologia das línguas — a análise das línguas baseada em tipos (como isolante.que nunca haviam sido descritas em termos científicos formais. Boas redirecionou o rumo da antropologia americanista durante o período da profissionalização da ciência nos EUA.

com a estrutura sentenciai 'diagramada' em termos de análise constituinte imediata.500 anos anteriores. a fonologia. Dessa 208 . cursos de linguística e teorias linguísticas. a lexicografia. usando em sua maioria línguas da Mesoamérica e da América do Sul. O modelo afirmado era o da distribuição. mas sim como cadeias de constituintes colaterais. a linguística histórica. ou 'traço' estrutural — a posição numa sentença dentro da qual uma determinada classe de itens gramaticais pode se encaixar'. sociais e psicológicos da linguagem. ou outros campos. a ciência linguística começou a se fragmentar em vários subcampos autônomos. a semiótica (estudo de sinais e símbolos e sua relação com o significado). identificando o tagmema como a unidade gramatical fundamental. A segunda metade do século vinte experimentou um aumento exponencial no número de linguistas. Pike e seus colegas fundamentaram uma análise constitutiva imediata. como faziam os linguistas bloomfieldianos.centro do palco. os morfemas foram ligados em 'árvores' que ilustravam construções de tamanho e complexidade ascendentes. O interesse da linguística também se expandiu e incluiu esferas maiores de aspectos etnológicos. Um movimento necessário pela complexidade apresentada por cada aspecto do estudo da linguagem. a dialetologia. seja a sintaxe. para criar o sistema de análise tagmêmico. foi escrito muito mais sobre a linguagem nesses 50 anos do que nos 1. a fonética. As sentenças poderiam ser assim mais precisamente analisadas não como sucessões de constituintes imediatos. a semântica. Após a Segunda Guerra Mundial. Significativamente. com uma menor atenção à sintaxe e à morfologia. O norte-americano Kenneth L.

Os estudos linguísticos soviéticos foram 209 . R. que após a Segunda Guerra Mundial. Firth. Palavras e frases componentes de uma expressão vocal assumem sentido apenas em relação às suas várias funções nos contextos situacionais de uso real. originalmente do 'Círculo Linguístico de Praga'. Uma dinâmica completamente nova também revelou a direção que a ciência linguística provavelmente tomará. definidos em termos de distribuição de energia em frequências variáveis em suas ondas sonoras. a fonologia se torna a ligação entre a gramática e a expressão vocal (fonética). Aqui.28 A análise de características distintas na transmissão real da fala foi melhorada por Roman Jakobson. nas décadas de 1940 e 1950. foi alcançado um número significativo de avanços substanciais na investigação linguística.montanha de material. Toda forma linguística compreende conjuntos de abstrações em três níveis diferentes: lexical. e assim por diante). concentrado na fonologia. fez avanços com sua teoria da 'análise prosódica'. com elementos e categorias relacionados uns com os outros em cada um dos três níveis em estruturas sintáticas e sistemas paradigmáticos. pelo menos no novo século. difusão/compactação. analisou acusticamente características fonêmicas da perspectiva do ouvinte para desconstruir os fonemas das línguas do planeta em combinações de doze contrastes binários (agudeza/gravidade. O sistema fonológico de uma língua poderia então ser analisado na matriz de oposições das características. J. Esses se referem a características e ocorrências reais de aplicação fônica. gramatical e fonológico.27 Na Grã-Bretanha.29 A revolução russa assinalou a ruptura da área com a tradição linguística ocidental. que alguns chamam de teoria da linguagem contextual.

adotaram os princípios e métodos da linguística ocidental. ou mudanças. automaticamente. e. os linguistas russos. para manter esses contrastes necessários. Marr (1864-1934). que ele combinou com a tipologia do século dezenove como um indicador dos 'estágios' da evolução da língua. que havia inventado suas próprias teorias da história da linguística. e assim as línguas mudam constantemente por si próprias. desde então. Os contrastes precisam ser mantidos para se alcançar uma comunicação significativa. Isso cria um desequilíbrio permanente que produz ajustes. Em 1950. nas décadas de 1950 e 1960 havia alcançado. independentemente da intervenção consciente humana. 210 . em particular. as causas também foram investigadas. enxergando as mudanças históricas e linguísticas como o 'Primeiro Desmembramento do Som' germânico como a mudança num sistema — não em sons autônomos — permitindo uma explicação de tal mudança para representar a manutenção das oposições fonológicas durante alternâncias sucessivas nas articulações dos falantes. se sobressaindo na lexicografia (os princípios e práticas da confecção de dicionários) que. Vários linguistas das décadas de 1940 e 1950 reinterpretaram a ideia neogramática das leis sonoras e as modificaram para incorporar a teoria fonêmica. Josef Stálin ordenou a rejeição total da teoria marrista. Descobriu-se que uma das causas mais significativas estava dentro do próprio sistema fonológico das línguas. Todas as línguas tendem para a simetria em todos os níveis.excentricamente controlados por Nikolai Y. Marr rejeitava até a teoria indo-europeia e adotava o antigo conceito do gesto como origem da língua. Agora. como ela ficou conhecida. na ciência linguística. o mesmo status da fonologia e da gramática. e não apenas os efeitos. mas o aparelho vocal humano é anatomicamente assimétrico.

30 Uma ruptura significativa com a tradição linguística ocorreu em 1957. Modificada em seus princípios e métodos teóricos com o passar dos anos por muitos linguistas. a gramática estratificacional tornou evidente os vários tipos de relações estruturais que podem ser encontrados. Lamb postulava quatro estratos dentro da estrutura da língua para a análise sintática: semêmica (a menor unidade de sentido). Essas regras se enquadram em três conjuntos: regras de estruturas frasais (descritas como 'árvores'. uma que 'projete' um ou mais conjuntos dados de sentenças até o maior. Com uma rejeição consciente da análise distribucional de Bloomfield. uma gramática gerativa transformacional tenta descrever a competência linguística de um falante nativo. hierarquicamente ordenadas como sintagma nominal/sintagma verbal. lexêmica.31 Uma gramática gerativa é. 211 . que apresentou o conceito de uma 'gramática gerativa transformacional'.Em outra esfera investigativa. morfêmica e fonêmica. principalmente nos EUA.32 Uma gramática gerativa. precisa especificar precisamente as regras gramaticais e suas condições operacionais. o ano em que surgiu o Estruturas Sintáticas do norte-americano Noam Chomsky. a 'gramática estratificacional' do norte-americano Sidney M. como entendida por Chomsky. um processo que caracteriza a criatividade da linguagem humana. basicamente. talvez infinito. conjunto de sentenças que formam a língua que está sendo descrita. sendo cada nível hierarquicamente ligado a outro. compondo as descrições linguísticas como regras para 'gerar' um número infinito de sentenças gramaticais. então artigo/nome e verbo/sintagma nominal. ou seja. também precisa ser explícita. assim como os muitos modos como uma estrutura em um nível de análise pode se relacionar com outra estrutura num nível diferente.

e um componente morfofonêmico. como o próprio Chomsky reconheceu. e continuam seguindo. em vez de descrever as regras de uma língua. de 'a' direção para 'uma' direção para os estudos linguísticos futuros. Mas a gramática gerativa transformacional vai além. Seus precursores teóricos são encontrados entre os gramáticos latinos. fornecendo uma estrutura para gerar uma competência linguística infinita. o modelo projetado por Bloomfield. transformações específicas dessas regras (reordenação. a gramática gerativa transformacional continuará sendo o modelo teórico linguístico mais importante da segunda metade do século vinte. a psicologia e a filosofia não devem mais se manter como disciplinas separadas. que apontavam para certas técnicas transformacionais.33 A gramática gerativa transformacional virou a linguística descritiva Bloomfieldiana de cabeça para baixo. projetando regras que demonstram e realçam a própria natureza criativa da língua. Os descritivistas se opõem aos formalistas (principalmente os 212 . que geralmente aderem à Teoria Linguística Básica — conceitos de trabalho fundamentais para descrever a língua e mudanças linguísticas. Embora a passagem do tempo tenha relativizado o lugar de Chomsky na história da linguística. Sapir e Boas. von Humboldt e os gramáticos de Port Royal. e reconhecer propriedades linguísticas gerais. São os descritivistas. entre outros. Chomsky também acredita que a linguística.e assim por diante). cujas regras convertem o resultado dos primeiros dois conjuntos em sons reais (expressão vocal) ou simbolização dos sons (língua escrita). supressão e assim por diante) que afetam a 'estrutura profunda' para produzir uma 'estrutura superficial'. adição. mas sim compreender um sistema unitário de pensamento humano que deve ser entendido como um todo maior.34 Os linguistas tradicionais ainda seguiam.

do pioneiro professor de Chomsky. Mas os formalistas também estão dando uma grande contribuição nessa área. Os descritivistas podem reclamar do 'mal-estar do formalismo' e identificar a ausência de boas gramáticas descritivas da maioria das línguas do planeta. Zellig Harris. especialmente na área associada da linguística computacional (ver a seguir). uma vez que nunca poderá existir uma teoria total da linguagem: eles alegam que para os formalistas a 'análise' consiste em 'encaixar a língua em suas estruturas axiomáticas'.35 Os formalistas ignoram todo esse debate. mas em universais linguísticos mais profundos. Surgiram direções totalmente novas. que chamou a transformação entre duas ou mais sentenças reais em 213 . baseada não numa língua natural conhecida.36 A gramática gerativa transformacional é a principal afirmação teórica da linguagem da segunda metade do século vinte. outras competindo com a gramática gerativa transformacional. A análise do discurso. ao mesmo tempo que a Teoria Linguística Básica é formalizada como um contrastante campo de linguística aplicada com uma sólida base teórica. Surgiram muitas novas teorias formalistas. algumas aumentando. que tentam criar um novo modelo de linguagem. como se declaram. Que a gramática gerativa transformacional também pode ser utilmente aplicada na linguística histórica. é demonstrado desde a década de 1960 por um número considerável de linguistas históricos importantes. uma vez que para eles não há debate. da década de 1950. teoricamente aplicáveis a todas as línguas. partidários das 'teorias não básicas'.chomskyanos). Os descritivistas são inflexíveis em afirmar que não pode haver acordo com os formalistas. sendo toda a questão irrelevante. explicando certos fenômenos fonológicos que os linguistas tradicionais não conseguiram explicar adequadamente até o momento.

o campo de traduções automáticas se tornou uma disciplina altamente sofisticada e comercialmente lucrativa. e assim por diante. Ela faz uso do conceito de 'quadros' de linguagem para interpretar um texto colocando-o num contexto definidor. e 'mas'. os linguistas podem construir e testar modelos computacionais de várias teorias e. de 'marcas do discurso' como 'e'. Nessa área. como a linguagem humana é processada. Por meio de métodos e ferramentas da ciência da computação e disciplinas relacionadas. 'é'. portanto conseguir pistas a partir 214 . como elogiar para submeter. que dividem o discurso em segmentos e mostram relações no discurso que estão além das meras definições dos dicionários. quando os computadores foram usados pela primeira vez para gerar traduções automáticas do russo para o inglês. para entender melhor. com vários e diversificados sistemas em uso. por analogia com computadores.textos de uma 'relação de conversão'. de 'assalto de turno' ou 'mudança de turno' numa conversação para identificar sistemas de se perceber conclusões na fala ou assinalar a atenção do ouvinte. em contraste com as linguagens de programação como Java. também conhecida como processamento de linguagem natural.37 (Desde então. psicologicamente. C++. A linguística computacional. teve seu início em 1946. já se mostrou uni meio eficaz de estender a análise descritiva textual para além das fronteiras da sentença. a linguística computacional usa os computadores para estudar línguas naturais. insinuar ou tomar posse indiretamente. e da 'análise do ato do discurso' que investiga o que a expressão vocal alcança. os linguistas unem a linguística e os recursos da ciência da computação para permitir que os computadores sejam usados tecnologicamente como um auxílio na análise e processamento de línguas naturais e. Fortran.) Essencialmente. um aspecto importante do entendimento intercultural. 'ah'.

um dos maiores desafios da linguística computacional. Os estudos linguísticos desfrutam de uma longa e rica tradição.de algoritmos aplicados (regras de procedimento para resolver um problema computacional recorrente). centros de pesquisa e empresas privadas de todo o mundo dedicadas a seu estudo e fornecimento de serviços. a fonologia computacional. lineares). seminários. Outros aspectos são a criação. como a lexicografia computacional. a administração e a apresentação de textos usando o computador. Os eruditos sânscritos da Índia fizeram descobertas impressionantemente profundas sobre a natureza da linguagem ainda na primeira 215 . para sistemas de ditados empresariais e assim por diante — são campos aplicados da linguística computacional com gigantescos mercados comerciais. extração de informação de textos e síntese e reconhecimento do discurso. é. línguas controladas e programação com restrições lógicas. atualmente. O entendimento e geração do discurso — para deficientes. eliminando a necessidade de textos padronizados (ou seja. removendo o agente humano para minimizar os custos e maximizar a eficiência. A linguística computacional é hoje um importante campo de pesquisa. se tornando o ramo da ciência linguística mais dinâmico e lucrativo dos dias de hoje. A disciplina está crescendo exponencialmente. para sistemas de informações baseados na telefonia. A linguística computacional aplicada se concentra na tradução automática. A apresentação de informações textuais em hipertexto. com institutos. estruturas de dados e linguagens de programação. Há muitos subcampos na linguística computacional.

começando com o fonema e concluindo com linguagens geradas por computadores. a linguística computacional em particular 216 . cerca de 5. décadas atrás os linguistas identificaram que os maoris.000 a 6. a mídia mundial comemorava a 'descoberta' do mesmo fato pelos geneticistas. Talvez de maneira mais espetacular. Num caso semelhante. A ciência linguística contribui em muito para guardar o conhecimento humano. assim como os polinésios. fundou a ciência linguística. Em 1998. porque podem demonstrar que os polimorfismos Y (mutações extremamente raras em machos) tão abundantes na Ásia também prevalecem nas populações finlandesas.metade do primeiro milênio a. As 'gramáticas especulativas' medievais combinavam as declinações de Prisciano com a filosofia aristotélica. haviam se originado na Ásia.000 anos. mesmo a dos 'bárbaros' por mais de 2. as comparações linguísticas de várias décadas atrás estabeleceram que o finlandês é uma língua urálica do norte da Ásia. criando pilares gramaticais que deram suporte a muitas estruturas. descobrindo o hebraico e outras línguas. e o século dezenove forneceu as respostas. O século vinte foi rico em novas teorias linguísticas animadoras e inovações. Só agora outras disciplinas podem apenas confirmar o que a linguística histórica já havia descoberto muito antes. A Renascença. percebeu que o grego e o latim não explicavam todos os fenômenos linguísticos observados. Os antigos gregos C romanos ordenaram e categorizaram de maneira ordenada suas próprias línguas. em particular em Taiwan.C. O século dezoito compilou léxicos e propôs questões sobre a origem da língua.000 anos atrás. abrindo uma janela para todo um novo universo de possibilidades linguísticas. Por exemplo. atualmente os geneticistas vêm apresentando sua 'descoberta' de que os finlandeses são asiáticos. sem fazer nenhuma menção à anterior contribuição da ciência linguística. da Nova Zelândia. e no processo.

A ciência da linguagem. hoje totalmente desabrochada e com sua própria e única dinâmica. interesses e prioridades sociais que afetam o rumo dos estudos da linguagem.está aparentemente oferecendo às vistas de todos um mundo totalmente novo de descobertas por meio das linguagens de programação. de maneira que pouco se pode compreender. irá. como as línguas que ela investiga. 217 . A linguística continua evoluindo. mas também devido às fluidas mudanças. Isso não ocorre apenas devido a novas descobertas. sem dúvida. o 'passo na autorrealização do homem. continuar a realçar o entendimento e a valorização da linguagem da humanidade em evolução e seu aparentemente infinito potencial por muitos séculos ainda por vir.

7 Sociedade e linguagem

'Colocarei meu nome onde são escritos os nomes dos homens famosos', vangloriou-se o rei sumério Gilgamesh, cerca de 4.000 anos atrás, assinalando um dos principais usos da linguagem na sociedade: demarcar um lugar na sociedade. As grandes e pequenas questões da sociedade sempre são refletidas no uso linguístico. Os antigos egípcios já avaliavam que 'a palavra é o pai do pensamento', reconhecendo que a linguagem é tanto a fundação quanto o material de construção da casa social. A arquitetura final da sociedade e as subsequentes remodelações também são medidas a partir e por meio da linguagem. A língua dá voz à ação humana, de maneiras complexas e sutis.1 Níveis de interação social múltiplos, desde relações internacionais até relacionamentos íntimos, nascem, são permitidos e enriquecidos por meio da língua.
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A língua não apenas assinala de onde viemos, o que advogamos e a quem pertencemos, mas também opera tática e estrategicamente para investir nossa franquia individual, étnica e de gênero; para autorizar nossa peregrinação através da ordem social; e para mostrar aos outros o que queremos e como pretendemos alcançar o que queremos.2 Por intermédio da história as pessoas julgam umas as outras — ou seja, consciente ou inconscientemente avaliam seu lugar na sociedade humana — baseadas somente em sua língua étnica, seu dialeto regional, e em sua própria escolha pessoal de palavras individuais. O veredicto linguístico vem sendo definitivo e modelador de toda a história humana.3

A LÍNGUA MUDA
Todas as línguas vivas experimentam mudanças constantes.4 A mudança linguística é mais aparente na escrita, o que pode ser percebido, por exemplo, quando se lê Shakespeare. Menos aparente é a mudança que está efetivamente ocorrendo, ou 'mudança em processo'. Apenas uma palavra aqui ou uma vogai ali da fala de um avô ou avó parecerá um pouco 'estranha'. Inversamente, as gerações mais antigas acham a fala dos mais jovens 'inapropriada'. O domínio social da divisão do infinitivo5 se tornou um tópico tão importante na Grã-Bretanha no final do século dezenove — para mencionar um caso lento de mudança linguística — que preocupou os mais altos escalões: 'Este é o tipo de inglês que eu não usaria!', gracejou Sir Winston Churchill numa nota à margem de um documento oficial, talvez intuindo que, um século depois, o Dicionário Inglês Oxford iria ao menos 'tolerar' a construção... que o inglês usa há séculos com um eminente sucesso.
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Os registros hierárquicos do uso da língua — sacro, real, profissional, oficial, militar, civil, familiar e íntimo — competem uns com os outros e com a fala usada por gerações precedentes e sucessoras em todas as línguas do mundo. Mesmo assim, a comunicação resiste e a língua continua a prosperar. As causas das mudanças linguísticas são tão variadas e intrincadas quanto a vida pessoal de cada falante: contato estrangeiro, bilingualismo, substratos, língua escrita, e o próprio sistema fonológico que sempre busca a simetria, entre outras causas.6 Nos últimos 200 anos uma das grandes causas de mudanças foi a urbanização sem precedentes. Em 1790, apenas um em cada vinte norte-americanos vivia em cidades; em 1990, apenas um em cada 40 vivia numa fazenda. Agora, o Terceiro Mundo está experimentando uma revolução urbana semelhante, erradicando não apenas línguas, mas famílias linguísticas inteiras. A inversão dos padrões tradicionais de povoamento humano provocou inumeráveis revoluções linguísticas, uma 'pontuação' que causa inovações, nivelamento de dialetos e mesmo substituição da língua. Em contraste, durante um alongado período de equilíbrio que pode durar milhares de anos, a difusão areai pode muito bem ser um fator principal de mudança linguística. A tecnologia recente introduziu uma dimensão totalmente nova à dinâmica da mudança linguística: telefone, rádio, cinema e televisão. Pela primeira vez na história da humanidade estamos ouvindo sem 'ver', de modo que um elemento tão primitivo do discurso—o gesto — está ausente na comunicação não visual, embora ao falar ao telefone, os italianos ainda gesticulem, os japoneses ainda se curvem e todos nós sorrimos e franzimos as sobrancelhas, como se nosso interlocutor estivesse presente, tão ligado está o gesto à fala. Acreditava-se em tudo que saía da máquina, disse o ator, diretor e
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escritor norte-americano Orson Welles, sobre o rádio na década de 1930. Ao mesmo tempo, na Alemanha, a amplamente distribuída Volksempfänger ou 'Receptora do Povo', transmitia pronunciamentos propagandísticos em alto alemão de Berlim por todo o Terceiro Reich, estabelecendo efetivamente a pronúncia de um governo central entre uma grande população de falantes dialetais, algo que nunca havia acontecido antes. Em todo o mundo, o efeito do rádio na língua falada foi gigantesco, iniciando um nivelamento linguístico que reverberou três gerações depois. Após a Segunda Guerra Mundial, a televisão se impôs ainda mais dramaticamente: o aumento do nivelamento dialetal, a contaminação e a superimposição têm sido, desde então, documentadas entre grandes populações de expectadores. Neste momento, a televisão é talvez a única grande causa do nivelamento dialetal universal. No caso do inglês, a predominância dos estúdios de Hollywood na programação televisiva internacional das últimas duas décadas do século vinte assegurou o aumento do uso do Inglês Padrão Americano numa taxa cada vez mais rápida nos países onde a transmissão dessa programação é feita sem 'dublagem' (reprodução da fala dos atores em língua estrangeira). Na década de 1970, a Nova Zelândia, por exemplo, desconhecia os preenchedores discursivos norte-americanos — 'like', 'sorta', 'kinda', 'ya know' 'and stuff'7 — mas, no meio da década de 1990, quando por motivos econômicos a programação norte-americana havia substituído quase toda a programação britânica e neozelandesa, essas expressões, geralmente adolescentes, estavam poluindo a fala da Nova Zelândia, assim como ocorreu nos EUA e no Canadá. O fenômeno também está ocorrendo em outros países de fala inglesa, e está efetivamente reinterpretando o Inglês Padrão
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Internacional, que atualmente está se tornando um idioma híbrido britânico-amcricano. Introduções léxicas imediatas, particularmente de gírias, são testemunhadas em todo o mundo como resultado de um programa favorito ou transmissão de notícias. A transmissão de uma programação de língua metropolitana a uma comunidade pequena de falantes minoritários pode ser socialmente devastadora: a televisão chilena na pequena Ilha de Páscoa, por exemplo, resultou em pais que falam com seus filhos na tradicional língua polinésia rapanui e filhos que respondem apenas em espanhol, um fenômeno que ocorre de maneira semelhante em todo o mundo. Reflexo de uma sociedade que muda rapidamente, a expansão e substituição do vocabulário é um processo quase diário em todos os países modernos. Neste caso, não entram as vinte palavras para 'neve' em inuit, as 40 palavras para 'verde' em gaélico irlandês, nem as 226 palavras para 'dinheiro' em inglês, que podem ser um fenômeno ambiental ou psicolinguístico. O que mais preocupa os sociolinguistas são palavras que aparecem, desaparecem ou têm seu significado alterado devido ao crescimento tecnológico, recolocação, maturação ou sofrimento de uma sociedade. A migração para novos territórios com objetos e topografias até então desconhecidos e a invenção de novas tecnologias como o computador são motores sociolinguísticos comumente observados, que causam mudanças linguísticas. Cerca de 4.500 anos atrás, os primeiros gregos encontraram os habitantes pré-gregos do Egeu e aprenderam com eles o que era plínthos 'tijolo, telha', mégaron 'espécie de sala', símblos 'colmeia abobadada', kypárissos/kypárittos 'cipreste' e mesmo thálassa/thálatta 'mar', coisas que eles não conheciam nem haviam visto antes. Logo elas se tornaram palavras gregas. Quando os celtas britônicos aprenderam as palavras romanas strata 'rua, ecclesia 'igreja'
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'guerra' hoje evoca a repugnância geral. Emprestar novas palavras e expandir o domínio das palavras antigas são processos linguísticos que enriqueceram a sociedade humana desde o surgimento da fala articulada. está atualmente passando por uma reinterpretação semântica. 'Nigger'8 para negro é tabu.e fenestra 'janela'. que tornaram esses termos não apenas sem sentido. devido à introdução de computadores pessoais: 'download'. e muitas outras palavras que não existiam 30 anos atrás são usadas cotidianamente. 'cohabitation'. do inglês estão 'fairy'. 'modem'. evidenciando a mudança do papel da mulher na sociedade. 'internet'. 'spinster' e 'unwed mother'. Outras palavras que sumiram totalmente. por exemplo.000 anos atrás. à luz da crescente percepção e sensitividade do ser humano no início do terceiro milênio: 'animal'. de 'besta' para 'criatura amiga'. Uma expansão lexical maciça acabou de ocorrer em muitas línguas do mundo. o que explica por que os galeses dizem stryd. uma palavra talvez mais emocionalmente carregada que o pior palavrão da língua inglesa. 'Divorcèe'. Muitos termos genéricos antigos — palavras que relacionavam ou caracterizavam todo um grupo ou uma classe — também estão sendo Semanticamente reconsiderados. significando o mesmo que 'nigger'. 'database'. Antes uma palavra honrada. Tais mudanças revelam muito sobre a evolução da condição humana. que algumas vezes reflete o progresso agonizantemente lento de uma sociedade em direção à maturação. 'concubine'9 e outras vítimas da revolução sexual das décadas de 1960 e 1970. emprestaram esses conceitos desconhecidos.10 praticamente desapareceram desde a década de 1970. cerca de 2. 'online'. eglwys e ffenest atualmente. 'spread-sheet'. 224 . mas ofensivos. ou em certos contextos. a palavra keffir está sendo atualmente expurgada dos vocabulários da África do Sul. As sociedades também alteram léxicos devido à recolocação. por exemplo. 'queer'.

a última metade do século vinte. essas palavras estão 'se dissolvendo na falta de sentido'. 'honra'. Talvez de modo mais alarmante. estão se tornando conceitos indistintos uma vez que a sociedade inverte e falha em manter condições e crenças reverenciadas até então. que desaparecem quase imediatamente. 'mãe' e 'incesto' permanecem intocados. que experimentou uma difícil reelaboração do tecido social que ainda não terminou. 'sócio comercial' ou 'companheiro de equipe' está atualmente expandindo seu domínio semântico para substituir relacionamentos tão antigos quanto 'marido'. com suas dezenas de sinônimos populares que aparecem e desaparecem: 225 .11 A palavra 'parceiro'. se não impossível. é a palavra 'excellent'. para dar sabor à fala do mesmo modo que o tomilho dá sabor à sopa. que até recentemente significava apenas 'amigo'. em inglês. O mais velho se transforma. 'casamento'. a inovação sem motivo algum a não ser a novidade da própria inovação. (Porém. Todas as mudanças citadas acima ocorreram durante a vida do autor. especialmente entre os jovens. cada vez mais se torna necessário abandonar usos antigos e redefinir conceitos veneráveis. 'esposa' e 'noiva/noivo'. 'Música'. Palavras padrões perfeitamente boas são regularmente substituídas ou suplementadas apenas pelo tempero adicional. que convida a uma suplementação regular. 'literatura'. 'família'. 'arte' e 'teatro' estão perdendo suas definições tradicionais devido a mudanças daquilo que abarcam. A maioria são palavras passageiras. e até mesmo 'Deus'.Os sociolinguistas também notam mudanças negativas.) Pode ser vista uma reinvenção da sociedade nessas substituições. 'filho/a'. ou seja. 'pai' está em processo de reavaliação. Para muitos é uma tarefa difícil. Um exemplo particularmente vulnerável Semanticamente. Mudanças menores refletem a inclinação da humanidade pela mudança-pela-mudança.

Dryden e Pope usaram gírias em seus trabalhos como uma parte integrante de suas manifestações artísticas. 'cuteness' significando 'beleza é uma derivação recente desta última redefinição. com seu conceito idealizado de uma 'língua apropriada'. 'absolute' (Shakespeare).'awsome' (década de 1990). A gíria representa o uso de um vocabulário informal não padronizado — tanto na forma de palavras quanto de expressões — para manipular criativamente a fala por uma variedade de motivos.14 Do século dezoito ao final do século vinte. Na língua inglesa. sagaz' e então. a palavra 'acute'13 em inglês se tornou a gíria 'cute' significando 'esperto. comercial e multiétnico da língua pelos EUA. uma vez que em ambas as línguas a gíria está restrita a camadas 'mais baixas' precisamente definidas. 'groovy' (década de 1960). bonito'.12 Outras palavras entram no vocabulário como uma moda passageira e permanecem: no século dezoito. 'hep' (década de 1940).15 Num contraste sóbrio. A gíria se tornou aceitável. nos EUA. Shakespeare. apenas no século dezoito a gíria recebeu uma conotação negativa: Chaucer. em relação ao uso da gíria. a gíria se tornou algo a ser evitado. inclusive nos registros sociais mais altos.16 Para citar um caso extremo. 'ful faire' (Chaucer). se tornou 'atraente. enquanto os falantes de inglês se esforçavam na direção de um uso prescritivo da língua. 226 . particularmente entre os falantes norte-americanos: um assessor de imprensa da Casa Branca referindo-se ao lançamento de um satélite como 'muito legal' exemplifica o uso rápido. inovador. usar uma gíria numa oração no Taiti antigo seria motivo para levar um golpe na cabeça. reflexo do movimento da educação em geral. por exemplo. não tolerariam a gíria nos registros sociais mais altos. Hoje. os falantes de inglês estão mais parecidos com os da época de Shakespeare. alemães e franceses. afiado.

um dialeto da Ática na região de Atenas. essa língua se tornava a 'interlíngua'. Basicamente. influenciado por outros dialetos. No entanto. Uma das principais interlínguas dos povos célticos nos primeiros séculos a. particularmente o Jônico. esforçando-se para ressuscitar uma língua literária Ática 'pura.LÍNGUAS COMUNS. Tal interlíngua. normalmente em rotas de comércio. o koiné mudou sua fonologia.C. mostraram antipatia por essa língua vulgar 'inferior'. quando o koiné dominava o Mediterrâneo. 227 .C. Ele também se tornou a língua grega padrão usada na literatura.C). Uma das primeiras interlínguas documentadas foi o koiné diálektos ou 'dialeto comum' da era helênica (323-27 a. como no Novo Testamento. estudiosos. ou koiné.C. sintaxe e léxico e se espalhou rapidamente por intermédio do comércio e da colonização. é um dialeto simplificado com o qual os falantes de dois ou mais dialetos bem diferentes se comunicam uns com os outros. línguas comuns têm se desenvolvido dessa forma. como é chamada. morfologia. era. Características comuns de suas línguas são retidas e as características não compartilhadas são ignoradas. o koiné continuou a dominar os portos e centros comerciais da maior fonte mediterrânea nos primeiros séculos d. Em toda a história. A partir da metade do primeiro século a. especialmente nos escritos de estrangeiros helenizados. Se uma língua dominante fosse falada na região de tais rotas. CONTATO E CONSTRUÍDAS Pode-se imaginar que desde as primeiras tribos de Homo erectus houve um esforço para o estabelecimento de algum tipo de língua comum para facilitar o entendimento mútuo e promover o comércio.

foi usada em regiões no interior do continente. na Zâmbia. uma língua pidgin pode surgir quando falantes de várias línguas diferentes convergem por longos períodos. a língua comum falada pelos falantes do gaulês do continente e os falantes do britônico da Bretanha. adotado por muitas línguas para designar qualquer interlíngua. mas há exceções. pouco se sabe sobre esse presumido idioma comum. Língua Geral é a língua portuguesa. seguindo o rio Congo. O processo de pidginização é comumente associado com línguas coloniais. O termo língua franca. como o português. Diferente de uma língua que evolui naturalmente e deriva de uma protolíngua. baseado no suaíli. o latim vulgar. com gramática banta e um vocabulário em grande parte árabe. Língua franca era como árabes medievais chamavam a língua dos povos românicos com os quais tiveram contato. 228 . e no século dezenove. de origem veneziana e genovesa. vem sendo. do Vietnam. o francês e o inglês. sua gramática é extremamente simplificada e.17 Normalmente.talvez. antes da ocupação romana. em particular as interlínguas tupi da Bacia Amazônica e o guarani. assim como koiné. seu vocabulário provém de uma língua dominante. além de muitas outras. baseada no zulu. baseado no francês. desde então. na maioria. embora não em todos os casos. com uma própria e rica literatura. o espanhol. o galo-britônico. na África do Sul. regularizada. Uma língua pidgin é geralmente usada apenas como segunda língua. se tornou a língua franca das rotas comerciais do leste africano. mas é muito menor que este. Porém. O suaíli ainda representa uma das principais interlínguas do mundo. Exemplos de línguas pidgin são o fanagolo. o tay boi. no Paraguai e sul do Brasil. dominava o Levante e servia como interlíngua entre os povos semíticos e os residentes europeus. Em particular. o settla. O suaíli.

o unserdeutsch. Devido ao tráfico de escravos africanos. se os trabalhadores homens falantes de pidgin forem impedidos de voltar para casa. Assim. o nubi. consistindo em línguas com entre 80 e 90% de inglês. As três são hoje 'línguas novas e distintas. a língua pidgin se torna a primeira língua. o Kituba. assim como o haitiano. gramática e léxico próprios'. e as mulheres forem levadas com eles. é chamada de língua crioula. Talvez seja necessária uma redefinição do crioulo. com fonologia. entre muitos outros. Há uma zona cinzenta entre as línguas pidgin e crioulas. por exemplo. baseado no alemão de Papua-Nova Guiné.18 Quando uma língua pidgin substitui as línguas nativas. com uma mistura de vocabulários locais. um grande número de línguas crioulas surgiu exatamente dessa maneira nas muitas ilhas do Caribe. três formas de uma nova língua surgiram no século dezenove. uma e mesma língua pode servir a qualquer um dos grupos de falantes. Uma língua crioula pode surgir de uma língua pidgin. A língua pidgin que eles trouxeram de volta se tornou o tok pisin em Papua. pode haver o estabelecimento de famílias de origem linguística mista. baseado no árabe de Uganda. das Ilhas Salomão. baseado no francês do Haiti. de Vanuatu (ex-Novas Hébridas) e de Papua-Nova Guiné para cortar cana-de-açúcar na Austrália e em Samoa. como relíquias do novo crioulo. baseado no congo do Zaire. ocupadas por aqueles que falam uma mesma língua que não é nem pidgin nem crioula — ou seja. quando trabalhadores da Melanésia foram transportados por donos de plantações falantes do inglês. e que ele seja visto como uma língua de contato rasa cuja língua pidgin subjacente ainda não tenha uma linguística 229 . e apenas fragmentos das línguas-mães permanecem.Como exemplo de uma língua pidgin baseada no inglês. pijin nas Ilhas Salomão e Bislama em Vanuatu.

Historicamente. na Europa. pode elaborar sua própria língua inventada.sólida elaborada. projeta ou adota um pidgin. isso tem se dado pela incorporação das características mais compartilhadas das palavras das línguas ocidentais. já no século dezessete. É claro que essa fundamentação histórica na família indo-europeia — apenas uma entre as muitas famílias linguísticas do mundo — não faz jus à pretensão à 'universalidade'. ela tenta reduzir uma ou mais línguas naturais conhecidas a uma gramática e vocabulário comuns e simplificados. em particular das línguas indo-europeias. criada pelo pastor Schleyer do sudoeste alemão em 1870. uma construção como esta era desnecessária. uma 'língua humana construída'. A língua construída mais bem-sucedida foi o esperanto. projetada pelo oftalmologista de Varsóvia Ludwig Zamenhof 230 . Em séculos mais antigos. apesar de construída artificialmente. feita para servir a todas as nações de maneira neutra. A recente Hipótese da Linguagem Bioprogramada alega que características gramaticais específicas tendem a se mostrar neste processo de crioulização. Descartes e Leibniz teoricamente propuseram a criação de um sistema simbólico perfeito para a transmissão do conhecimento científico. A primeira língua construída experimentada foi o volapuque. Uma geração de pessoas que cresce falando apenas esse pidgin 'inacabado' como primeira língua parece gravitar na direção de regras estabilizadoras que sugerem universais de linguagem. Porém. nem cresce falando uma língua crioula.19 Se uma pessoa não usa a interlíngua. idealmente fácil de ser aprendida. porém. uma vez que todos os europeus instruídos falavam latim como segunda língua. Uma língua humana construída é frequentemente chamada de 'naturalística' porque. Uma língua artificialmente criada. sua gramática complicada e vocabulário irregular tornavam difícil seu aprendizado.

cujo vocabulário era baseado nas línguas europeias ocidentais. K. que foi aclamado como um grande avanço na construção de uma língua naturalista e surtiu um grande impacto nas tentativas subsequentes. Ogden em 1930 e do interglossa de L. foi retrabalhado e endossado por um comitê científico em Paris. como a ocidental. do alemão E. Em 1907. mas o objetivo não é mais o uso real. Hogben em 1943. Seguiram-se novas investigações. cerca de 100 diferentes línguas construídas já haviam sido propostas. ou variações na terminação das palavras) do latim chamada interlíngua. que hoje conta com cerca de um milhão de falantes. chamado ido. tanto do ponto de vista teórico-linguístico quanto do prático. um esperanto naturalisticamente reformado. Em 1951. como os movimentos totalmente independentes do Basic English de C. causando uma rixa com os defensores do esperanto e dividindo o movimento pela língua artificial. Influenciados pelo esperanto. o matemático italiano Giuseppe Peano ofereceu uma versão simplificada (sem flexões. desenvolvido pelo francês L. vários membros da Academia Volapuque se reorganizaram e publicaram em 1902 uma nova tentativa: o idioma neutral. Na mesma época. A maioria das línguas construídas tem base indo-europeia e sofre da ausência de uma 'universalidade linguística' (qualquer que seja 231 .em 1887. Ainda hoje há um interesse ativo pelas línguas humanas construídas. com a criação de novas línguas com o auxílio de computadores pessoais. A experiência real do esperanto e as inovações teóricas do ido levaram a novas sugestões. de Beaufront. von Wahl em 1922 e o novial do dinamarquês Otto Jespersen em 1928. O campo é historicamente fascinante. com o patrocínio da International Auxiliary Language Association em Nova Iorque. Em 1918. foi publicado um dicionário interlíngua-inglês.

uma vez que a maioria das grandes línguas metropolitanas já não identifica mais uma única nação. Na verdade. A ideia original por trás das línguas humanas construídas era evitar a identificação nacional numa era de nações emergentes e competição pela colonização. a televisão e a internet. Assim. principalmente por causa da língua — basta pensar na Bélgica. a língua inglesa — devido a circunstâncias históricas. foi pela identificação com outros falantes do mesmo idioma que surgiu a ideia de uma 'nação'. Essa necessidade já não existe mais. que constantemente remodelam dialetos não prestigiados. normalmente porque os falantes desse dialeto são os mais ricos e poderosos. que ensinam como a língua 'deveria' ser falada 'acolhem pronúncias' de dialetos prestigiados. o bombardeamento dos linguisticamente poderosos pode ocupar todo o planeta. no Canadá. Na verdade. Ou seja. as línguas mundiais estão surgindo naturalmente pela primeira vez na história. Uma língua nacional também compreende de modo inerente a noção de um 'dialeto superior' dentro dela. Nações multiétnicas e multilíngues mais recentes frequentemente balançam.esse conceito). não por si própria — atualmente conta com mais falantes de segunda língua que qualquer outro idioma do planeta.20 LÍNGUAS NACIONAIS E ÉTNICAS Em toda a história as pessoas se identificam mais intimamente com a própria língua e aqueles que a falam. com o rádio. Hoje. Além disso. como um novo chapéu. no País Basco e outras sociedades similarmente conturbadas. 232 . as gramáticas prescritivas. particularmente o mandarim chinês. uma questão de moda. o espanhol e o inglês. Línguas vivas exercem muito mais influência sobre o mundo. e os números continuam crescendo. enquanto aqueles que não o falam são os mais pobres e desamparados. é simplesmente artificial tentar ser natural.

estejam eles na Inglaterra ou na Nova Zelândia. Porém. Dialetos 'superiores' são apenas uma quimera. entre outros — com as influências de contato (como a influência do francês sobre o inglês por quase 1. mas também demonstra uma 'terrível falta de bom gosto'. Porém. 'redes sociais abertas' versus 'redes sociais fechadas' e assim por diante. eles sentem que isso não apenas 'diminui o padrão'. classe social 'mais alta versus 'mais baixa. tais protestos não têm sentido na grande saga das línguas vivas. onde se invoca os pares 'poder' versus 'solidariedade. como revelam hoje os estudos de línguas africanas menores. uma pronúncia facilmente reconhecível da língua inglesa que passou muito tempo levada em alta conta. 'de classe' social. normalmente se segue o 'modelo vernacular padrão'. uma vez que os próprios dialetos especiais mudam e/ou perdem aquilo que os tornava especiais. Hoje. étnicos. a recente 'modernização' da British Broadcasting Corporation (BBC) basicamente eliminou o que havia sido chamado de 'inglês da BBC.21 Na sociolinguística urbana.000 anos) contribuem para o amálgama linguístico que caracteriza todas as línguas naturais do planeta. nas comunidades menores que caracterizaram a maioria da história humana. uma consciência 233 . É verdade que alguns grupos étnicos em sociedades multiétnicas mostram um maior regionalismo do que outros. sentem-se alarmados ao ouvir transmissões da BBC naquilo que registram como uma 'pronúncia da classe mais baixa'. étnico-sociais (negro 'de classe alta' com branco 'de classe baixa' e vice-versa).Num processo contrastante. nobres. ouvintes mais velhos. essas polaridades são evidentemente irrelevantes: a variação linguística é melhor conceitualizada e ordenada segundo as normas locais e ancestrais da fala. Todos os dialetos de uma nação — geográficos. prestigiados.

mas todos os dialetos de uma língua. Um dialeto prestigiado pode impressionar superficialmente. Mas a fala de todos os grupos de uma nação molda continuamente a língua e a modifica diariamente. Por dezenas de milênios. a fala estrangeira é uma ameaça. encontros com falantes de outras línguas na mesma época levaram a conflitos cada vez maiores. contrastando com as comunidades africanas). teve uma gigantesca influência na fala dos euro-americanos nos últimos anos. A fala dos negros norte-americanos. 234 . Pois durante a maioria da história humana. que americanos de origem africana. especialmente entre os jovens. do mesmo modo que cada tempero adicionado a uma sopa muda e enriquece seu sabor. Inversamente. dos filmes e da televisão. como um todo dinâmico. com certeza. E são esses constituintes expressivos numa orquestração dinâmica que permitem que uma língua viva prospere. fronteiras baseadas na ausência de uma língua comum. Isso é insignificante.e lealdade a uni domínio distinto com uma população homogênea. Isso definiu ainda mais as fronteiras entre vizinhanças. a expressam. que tendem mais a um comportamento étnico e linguístico universal (regionalmente independentes. primeiro em cidades-estado. principalmente por intermédio da música. essa consanguinidade engendrou uma convicção de que falas semelhantes se compreendem. o sangue era a língua. juntos. depois em Principados e então em nações. Já foi mencionado como. Devido a pequenas populações humanas. aqueles que falam como você normalmente estão relacionados com você.C. Enquanto as comunidades de falantes das mesmas línguas se uniram. no início do quinto século a. o historiador Heródoto descreveu 'toda a comunidade grega como um só sangue e uma só língua. por exemplo. Norte-americanos de origem europeia são muito mais regionalistas (ligados à área).

como a violenta desintegração da ex-União Soviética segue principalmente fronteiras linguísticas. formando-as ou incitando a guerra.22 Na maioria dos países multilíngues. Uma leviandade semelhante foi instituída pelos falantes russos da União Soviética. as culturas multilíngues experimentam um atrito constante. Em meio a tudo isso. aumentando a discordância interna. unindo e dividindo comunidades. e como as muitas guerras africanas são travadas quase exclusivamente entre tribos de línguas diferentes. os movimentos de libertação nacionais após 235 . O inglês médio não foi poluído nem destruído pelo francês normando após 1066. Nos EUA. adicionando uma pressão artificial de cima para baixo. A criação do estado-nação em épocas recentes aumentou esse atrito. Um enriquecimento semelhante — por intermédio do espanhol no inglês — pode agora ser desfrutado pelos norte-americanos. Desde a articulação da fala. ele foi extraordinariamente enriquecido. A ideia do 'isolamento linguístico' falha em contar com a força motora das línguas humanas. que muitos norte-americanos clamam por uma emenda 'pelo inglês' na constituição norte-americana — uma proposta legislativa que torne o inglês a língua 'oficial' dos EUA. a recente incursão de milhões de falantes de espanhol vindos de nações meridionais elevou tanto as sensibilidades. a avaliação da humanidade do papel das línguas nacionais na sociedade variou. o poder de absorver e relacionar de maneira a incentivar a cooperação e assegurar a sobrevivência humana. Tais tópicos discutem o status das línguas nacionais e vernaculares como indicadores efetivos da harmonia social em nações que estão em evolução. mais de 900 anos depois.Pode sr notar com tristeza como a divisão entre os falantes do inglês e do francês no Canadá ameaça a unidade nacional.

'hep'. um emblema étnico facilmente identificável. mas também entraram em uso internacional: 'dig'. a gíria 'cool' pode talvez derivar da palavra 236 . ao mesmo tempo.C. como o espanhol chicano. muitos itens lexicais africanos ocidentais não apenas sobreviveram.C. 'cat'. povos minoritários em todas as eras. Além disso. o reconhecimento da igualdade das línguas e dialetos minoritários na maioria dos ocidentais. O inglês negro vernacular que eles desenvolveram para se comunicar foi colocado inconfortavelmente acima de um substrato africano herdado.23 Porém.C. quase sempre escondidos em homônimos ingleses. embora não seja necessariamente o caso: tais características podem muito bem ter se originado entre as comunidades escravas em solo americano no século dezessete. Ele ainda está lá. A história afro-americana é notável. 'boogie-woogie'. que perturbou os putayas e os líbios na Creta minoica em 1600 a. Desde essa época. os gregos no Egito em 200 a. 'jazz'. 'jive'. presume-se que elas derivam das línguas africanas ocidentais. Essa é uma preocupação antiga. Em geral. Em particular. os africanos foram proibidos tanto de falar as línguas africanas ocidentais quanto o inglês instruído. o impacto social das línguas foi estudado com profundidade: a necessidade de se identificar com uma comunidade linguística definida dentro do conceito de 'terra natal' é hoje reconhecida como um dos requisitos mais básicos da sociedade. e os romanos e alemães na Bretanha em 200 d.24 Suplementando a palavra germânica homônima. Levados à força para a América. a fonologia afro-americana tem um excesso de características não encontradas na fonologia euro-americana. e muitos outros. — na verdade.a Segunda Guerra Mundial forçaram novamente a discussão sobre as línguas oficiais após a independência das colônias. o inglês afro-americano e afro-britânico. a questão dos direitos das minorias causou.

gays e lésbicas a alcançar a igualdade social por meio da língua. para suprimir a ex-língua colonial. Para aqueles cuja doutrinação social e escolaridade antedataram o movimento. um 'cool cat' teria sido. Num contraste dramático. por exemplo. E em 1998. GÊNERO E LÍNGUA Desde a década de 1960. excelente'. jovens de todo o mundo vêm usando o afro-americano 'cool' como um termo representativo para 'excelente' — tornando 'cool' o adjetivo mais amplamente emprestado em todo o mundo atualmente. foi necessária uma 237 . consequentemente. em particular para verificar se o uso da língua ajuda a reforçar e perpetuar a desigualdade sexual. a minoria turca residente na Bulgária há séculos foi recentemente proibida não apenas de usar sua língua turca. o governo da Argélia aprovou uma lei que torna o uso de qualquer língua que não seja o árabe uma ofensa. uma 'pessoa admirável'. o francês. De uma posição inicial de perseguição. nos últimos vinte anos. devido aos movimentos pelos direitos civis que se iniciaram na década de 1950. que fala língua conhecida mais antiga do país. o movimento pela libertação da mulher estimulou os linguistas a estudar as diferenças de gênero na língua.africana ocidental kul que significa 'admirável. mas também seus nomes turcos. o inglês negro vernacular conseguiu uma posição influente no inglês padrão internacional. Porém.25 O movimento causou inclusive uma 'neutralização' parcial da língua inglesa — a remoção das tradicionais 'marcas de gênero' — para ajudar mulheres. foi às ruas protestar. Os dois exemplos descrevem um destino muito comum de línguas minoritárias. milhares de pessoas fugiram para a vizinha Turquia. a minoria argelina Bérbere.

a sentença galesa Rydw i yn chwarae ei biano 'eu estou tocando o piano dele' contrasta com Rydw i yn chwarae ei phiano 'eu estou tocando o piano dela' apenas com uma mutação consonantal que opera na palavra piano que é guiada pelo gênero. mas o feminino gwaith é 'tempo'. facilitada por uma concomitante explosão da comunicação de massa. Em alemão. classes nominais) também carregam distinções semânticas essenciais. o plural feminino belles contrasta com o plural masculino beaux. os adjetivos precisam concordar tanto em gênero quanto em número com o substantivo: em lês soeurs sont belles 'as irmãs são bonitas' e lês frères sont beaux 'os irmãos são bonitos'. No francês. o masculino gwaith é 'trabalho'. Em muitas línguas. por exemplo. No alemão.revisão constante do inglês (alado e escrito. Isso promoveu uma reavaliação consciente de todo falante ou escritor instruído de língua inglesa de seu vocabulário para evitar qualquer palavra que 238 . Em muitas línguas. as diferenças de gênero (ou seja. O que realmente ocorreu com a língua inglesa nos últimos 25 anos foi uma 'limpeza de gênero' sem precedentes. Por exemplo. a faixa'. onde die Frau 'a mulher' se torna o dativo (objeto indireto) singular der Frau 'à mulher'. uma igualdade parcial de gênero. o masculino der Band significa 'o volume (de um livro)' e o neutro das Band 'o cordão. a corda. uma vez que a distinção de gênero (particularmente classes nominais diferenciadas) está na base gramatical. a flexão de gênero é um marcador indispensável da função gramatical: das Kind gehört der Frau 'a criança pertence à mulher'. tal neutralização é simplesmente impossível. talvez o inglês esteja numa posição eminente para alcançar. pelo menos linguisticamente. assim como de atitudes de conceitos herdados. que como o francês usa apenas dois gêneros. No galês. Na falta de regras e distinções específicas de gênero.

Defensores das mulheres. acreditando ser a palavra 'human' uma derivada de 'man'. Palavras antigas como 'forefathers'. para se juntar ao vasto número de arcaísmos que inflam o léxico histórico.pudesse afetar negativamente os direitos não só tias mulheres.26 Às vezes. o político inglês Thomas Massey lutou contra os catolicismos na língua inglesa e propôs à Câmara dos Comuns que o termo Christmas deveria ser trocado por 'Christtide'. talvez nem tanto por 'humano' ser. 'ancestrais'. uma palavra proveniente do latim himanus.30 A maioria das categorias ocupacionais foi neutralizada em língua inglesa.27 tentaram.28 Felizmente.) Porém. ela foi efetivamente substituída em todos os lugares por 'chairperson'. neste livro. Esse não é apenas o destino da língua. de reintroduzir a palavra 'chairman'. substituí-la por 'huperson'. que não tem relação com a palavra germânica mann/mannon 'homem. por exemplo. No século dezenove. étnica ou nacionalista (ver mais adiante).31 por exemplo.. normalmente de natureza religiosa. (Os humoristas indagaram na época se as 'mulheres liberais' também gostariam de mudar Manhattan para 'Personhattan'. o debate chega a ser absurdo. quando garantido. para evitar uma 239 . 'paternidade' e 'doméstico' — talvez também desapareçam do vocabulário inglês ativo.. na verdade. ser humano'. 'fatherhood' e 'manservant' — que significam.29 Apesar da tentativa do primeiro-ministro da Austrália. em 1998. o autor conscientemente substituiu cada 'mankind' pelo politicamente correto 'humankind'. 'stewards' e 'stewardesses' são hoje chamados de 'flight attendants'. mas também de gays e lésbicas. particularmente aquelas que expressam claramente uma masculinidade desnecessária. Por exemplo. é seu dever. mas sim porque a palavra faz parte do vocabulário central da língua. O passado vivenciou aventuras semelhantes. outras palavras realmente sumiram do vocabulário inglês ativo. a tentativa falhou.

latinos e árabes não fosse tanto 'entender' a língua (no sentido científico moderno) quanto prescrevê-la — ou seja. da língua. definir e petrificar sua forma 'mais pura na língua escrita. O mito de uma língua antiga e pura de antecessores mais sábios sempre pareceu subjacente a essa atividade. ou seja. os puristas linguísticos queriam o retorno a uma forma intuitivamente 'mais pura' de sua língua. gregos. baseando o ideal particularmente nos reverenciados textos de Dante e Boccaccio. no século dezessete. Talvez o principal motivo dos primeiros gramáticos sânscritos. um equilíbrio racional entre os dois extremos foi. quando o primeiro-ministro Benjamin Disraeli perguntou se ele também estaria pronto para mudar seu nome para 'tom-tide tidey'. mais antigo. na Itália. Apenas no século dezoito. a maré de palavras subsequentemente geradas provocou. A Accademia prosperou durante dois séculos e inspirou sociedades semelhantes em toda a Europa. Em Florença. alcançado. sendo a mais antiga e respeitada a Fruchtbringende Gesellschaft 240 . Quando os estudiosos da Renascença introduziram uma profusão de empréstimos gregos e latinos em todas as línguas europeias para criar um novo vocabulário filosófico e científico.32 Mas. 'purificações linguísticas' que procurou se livrar de todos os elementos estrangeiros percebidos na língua e prescrever um uso 'apropriado'. A Alemanha contava com várias. PURIFICAÇÃO LINGUÍSTICA Em vez de alterar a língua herdada para efetivar uma mudança social.referência à massa católica. a questão foi encerrada. finalmente. vários estudiosos e poetas se reuniram em 1582 para fundar a Accademia della Crusca com a intenção de expulsar todas as palavras estrangeiras da língua nacional e elevar as características do italiano sentidas como nacionais.

porém. que. aid/help. mas conferir a cada uma delas uma diferente nuance ou valor social (que também sofreram vários deslocamentos e substituições).(1617-80) em Weimar. a germânica e a itálica. e também do latim. disciplinando aqueles que 'remendavam os buracos com retalhos de outras línguas. no século dezoito tentou escrever o primeiro dicionário 'completo' de inglês. parley/speak. o historiador Ralph Holinshed pôde declarar: 'Não há uma língua falada em nossa época que tenha possibilitado tão grande variedade de palavras e número de expressões quanto o inglês'. a França estabeleceu a Academie Française em 1635. emprestando aqui do francês. eles querem transformar a nossa língua inglesa numa mistura ou miscelânea de todas as outras línguas'. Centenas de palavras emprestadas do francês competiam com palavras inglesas nativas: rock/stone. ali do italiano. velocity/speed. o tipógrafo Willian Caxton havia protestado contra 'Termos curiosos que não podiam ser entendidos por pessoas comuns'. basicamente tornando o inglês um produto de duas famílias linguísticas diferentes. com a nossa língua: então. a Inglaterra já reclamava havia muito tempo da impureza da língua. cease/stop. No final do século quinze. que até hoje permanece sendo a instituição prescritiva de supervisão da língua mais respeitada da França. Em 1577. depart/leave. Isso enriqueceu a língua inglesa de modo que poucas línguas do planeta experimentaram. principalmente para tentar superar a França. De maneira semelhante. stomach/belly. realm/kingdom. declarou que seu objetivo 241 . agora. e muito pior. Até então. Samuel Johnson. A Royal Society inglesa foi fundada em 1662. a qual pertenciam todos os poetas alemães importantes do século dezessete. sem pesar como essas línguas vão combinar entre si. Outros criticaram o empréstimo sem restrições.33 A solução inglesa: manter ambas.

das 1. é claro. são esponjas. Essa qualidade é uma dádiva em sua maravilhosa criatividade. Johnson. Em particular no inglês. sendo as restantes 45% provenientes do francês. palavras alemãs ou relacionadas ao alemão em inglês foram anglicizadas: 'pastor alemão' se tornou 'alsaciano'. em toda a história.) Porém. socialista'. De maneira semelhante. Na Primeira Guerra Mundial. uma vez que não existe algo como uma 'língua pura. por exemplo. As línguas humanas não são pedras. após a Segunda Guerra Mundial. semelhante a uma miragem. Quando a Indonésia se tornou independente da Holanda.era 'redefinir nossa língua a uma pureza gramatical e limpá-la dos barbarismos coloquiais'. devido à aberração ariana das décadas de 1930 e 1940. Battenberg' se tornou 'Mountbatten'. mas ele não é tão pronunciado quanto seu vocabulário. das 10.000 palavras mais frequentes do inglês. estava desde o início condenado ao fracasso. Ao mesmo tempo. Mesmo assim.000 palavras utilizadas com mais frequência. para criar um 'vocabulário puro. purificações linguísticas ocorreram de tempos em tempos. particularmente as judias. assim como em sua adaptabilidade e viabilidade. 83% derivam do inglês antigo. o novo governo substituiu o holandês pelo bahasa indonésio — até então apenas uma das línguas locais — como a 242 . os nazistas tentaram purificar a língua alemã de todas as influências estrangeiras.7% do latim e o restante de várias outras línguas menores.8% foram herdadas do germânico. apenas 31. 12% do francês e 2% do latim. (O inglês também apresenta um superestrato francês em sua gramática e fonologia. e assim por diante. O erro dos puristas linguísticos sempre foi a não percepção de que o empréstimo é uma das grandes forças de uma língua. 16. a Rússia purificava a língua russa de todas as palavras capitalistas em toda a União Soviética.

Um exemplo. não é necessária. o que torna a Islândia um país particularmente vulnerável a influências estrangeiras. da corte. devido à campanha pelos direitos dos nativos da Nova Zelândia. Um conselho de língua e literatura foi estabelecido para criar uma nova terminologia e traduzir os materiais holandeses para o bahasa indonésio usando essa terminologia. Devido à pequena população islandesa. de cerca de 270. nem frequentemente aplicada.000 pessoas. No entanto. em grande parte nórdicos (mas também irlandeses). resultando numa rápida redução da rica diversidade linguística da Indonésia. planejado. Toda educação na Indonésia vem sendo. em grande maioria tecnológico' que entre na língua. a Islândia é outro país que pratica a purificação linguística. Como essa é uma ação preconceituosa para 'proteger' o maori do inglês. mas apenas um em cada vinte maoris fala ativamente a língua maori.língua do governo. um idioma polinésio (todos os maoris falam inglês fluentemente). Os maoris da Nova Zelândia são cerca de 11 % da população. O irlandês é a língua germânica da maioria dos descendentes de colonizadores. que se instalaram na Islândia a partir de 874 d. um conselho linguístico especial se encontra regularmente para 'islandizar' qualquer novo termo. O plano não pode ser comparado a medidas tomadas em outras partes do mundo para preservar um língua nacional majoritária. como sjónvarp para 243 . Isso significava um bahasa indonésio totalmente 'puro'. um conselho linguístico semelhante ao da Indonésia foi estabelecido para criar um novo vocabulário maori incluindo itens da cultura e tecnologia ocidentais desconhecido em maori. desde então. transmitida por essa nova língua artificial.C. sancionado e implementado pelo governo central. inspirada pelos movimentos a favor dos direitos civis dos negros nos EUA. e devido a um forte orgulho étnico. da mídia e da instrução.

No passado. com consequências terríveis para a liberdade pessoal de seus membros que ficam assim privados do direito de alcançar um consentimento democrático. a palavra impressa representa normalmente um compromisso linguístico diferenciado do uso da fala. Após a invasão romana.'televisão' (literalmente Visão a distância'). e os escribas se tornaram escritores e editores que escolhiam cuidadosamente o usus scribendi que não colocasse em perigo a precisa impressão aos olhos do príncipe ou bispo local. com o advento dos primeiros jornais no final do século dezesseis. Nos EUA. os celtas londrinos tinham o cuidado em evitar qualquer latinismo que pudesse insultar o domini novi. Enquanto os monges medievais exerciam a castidade da fala.34 Os antigos atenienses tiveram de usar os lógoi que rebaixaram os espartanos e defenderam os valores atenienses. PROPAGANDA E LÍNGUA Uma sociedade também ofusca. tinha de ser especificamente cautelosa com seu vocabulário ao relatar e criticar. A palavra impressa também leva frequentemente ao erro. Com a imprensa surgiu uma censura mais rigorosa. governos que praticaram esse mau uso por períodos prolongados invariavelmente pereceram. Por esse motivo. mente e engana por intermédio da língua. os vikings que os assassinaram escolheram o tal que exaltava sua coragem entre seus guerreiros. na primeira metade do século dezenove. Uma pessoa é prejudicada se não fala a língua daqueles que estão no poder. O 'politicamente correto' é primeiro e principalmente linguístico. Tal mau uso da língua é sintoma de uma sociedade doente. O trabalho do conselho vem ajudando na sobrevivência da língua islandesa. A mídia em particular. o 'Manifest 244 .

aumento do buraco da camada de ozônio. A antifaschistische Schutzmauer ou 'forte antifascista' da Alemanha Oriental era. Numa entrevista à rádio de Joanesburgo em 1998. que a mídia manipula a língua para comunicar a desinformação e uma realidade composta a favor de uma minoria privilegiada — pode causar. na verdade. um entrevistador branco usou a expressão 'vocês. 'bandidos' e assim por diante.35 Pode-se lembrar com horror da sanitarização linguística. na nossa era de comunicação global. a África do Sul está num período em que os jornais brancos se classificam como 'pós-apartheid'. mas os jornais negros como 'pós-libertação'. alguns acreditam que o 'consentimento de produção' — ou seja. enquanto seu entrevistado respondeu com um 'vocês.) Convoluções linguísticas semelhantes são frequentemente empregadas no mais alto nível para mascarar os excessos corporativos multinacionais: poluição radioativa. na humanidade em geral e em toda a natureza. uma inversão irônica de antigas ofensas linguísticas na região. ou caso se opusessem ao Bloco Oriental de 'rebeldes capitalistas'. Um século depois. A Endlösung ou 'Solução Final' de Adolf Hitler encobria o assassinato em 245 . emissões excessivas de dióxido de carbono. Mesmo após a Guerra Fria. os movimentos anticoloniais após a Segunda Guerra Mundial quase sempre foram chamados. brancos'. uma prisão que mantinha milhões de pessoas encarceradas. A propaganda trabalha de modo sutil. danos graves em sistemas democráticos.Destiny' foi uma provocação jornalística que promovia a matança de americanos nativos e a posse de suas terras. Quando esse mascaramento ocorre somente para o lucro de empresas. (Hoje. de 'grupos de guerrilha' ou 'insurgentes comunistas'. 'fascistas'. afro-americanos'. a retórica propagandística persiste. bioinvasão. desmatamento de florestas tropicais. caso lutassem contra a Aliança Ocidental.

os soldados reduzem o inimigo a um coletivo de não entidades para se convencerem de que suas vítimas em potencial são diferentes de seres humanos comuns e. 'Krauts'. pois permite que o ser humano cometa atos inumanos. os persas eram apenas bárbaroi ou 'bárbaros'. 'Jerries'. Para os gregos antigos. seu uso é indecoroso para políticos íntegros. durante a Guerra do Vietnã. 'Johnny Rebs'. o pentágono ainda chamava bombas de 'dispositivos liberados verticalmente feitos para atingir pessoas'. na Primeira Guerra Mundial. respondeu o coronel. Num fenômeno semelhante. ou novamente 'yankees'. assassináveis. as expressões 'levar alguém para fora' e 'higienizar' substituíram 'morte' e 'assassinato'.massa dos judeus europeus. em Londres. Na Guerra da Independência Norte-Americana. Na verdade. os oficiais são ensinados a encorajar tais usos da língua. Às vezes. após uma batalha: 'Qual a contagem de PDC?' Churchill perguntou: 'O que é PDC?' 'Pessoal danificado em combate'. irritou-se Churchill. o primeiro-ministro britânico Winston Churchill ouviu um coronel norte-americano perguntar. 'Nunca mais diga essa expressão detestável na minha frente'. Nos EUA. os 'fuzzy-wuzzies'. a língua afetada da burocracia também é endêmica em todas as nações que possuem es246 . após a Guerra Fria. na Segunda Guerra Mundial os 'Heinies'. durante a Segunda Guerra Mundial. portanto. Mortes humanas viram 'contagens de corpos'. e no Vietnã. os 'Hunos'. no Sudão. na Guerra Civil Americana. Muitos acreditam que a sanitarização linguística é necessária. 'Fritz' ou 'Japas'. ou se estava com os 'redcoats' ou com os 'yankees'. Mesmo no final do século vinte. No quartel do general Eisenhower. refira-se a eles como 'soldados feridos'. simplesmente 'Charley'. Debochando da razão e dos sentimentos. 'Se você estiver falando sobre as tropas britânicas.

'caretaker' (Inglaterra) ou 'janitor' (Escócia. nunca houve um movimento popular com uma influência tão forte quanto a Campanha pelo Inglês Compreensível. que desafiam o senso comum. à ambiguidade e ao ofuscamento. Hoje o abuso é comum. do engodo linguístico implícito. degrada quase todas as inscrições monumentais egípcias e maias antigas. os diretores do movimento reclamam do oficialês. Um exemplo de reescrita em inglês compreensível: Ambientes de ensino e alta qualidade são uma pré-condição necessária para a facilitação e intensificação do processo de aprendizado' se torna: 'Crianças precisam de boas escolas para aprender bem'. Para conter tais abusos linguísticos.36 De modo mais sinistro. com repercussões internacionais. Em inglês. dando lugar a expressões mais ambíguas que escondem realidades desagradáveis ou politicamente incorretas. foi lançada uma Campanha pelo Inglês Compreensível em 1979. e algumas vezes esse é o objetivo do autor. em seu sentido mais amplo. ou seja. Contrários ao mau estilo. Alguns textos são frequentemente escritos de maneira tão confusa.crita. do legalês e das 'letras miúdas'. 247 . O trabalho da campanha 'transformou a linguagem e a forma da informação transmitida ao público no Reino Unido'. conceitos perfeitamente compreensíveis desaparecem cada vez mais. O 'oficialês'. O editor da Oxford Companion to the English Language escreveu recentemente: 'Em toda a história da língua [inglesa]. uma vez que elas comunicam em alto grau mensagens estilisticamente do e sobre o autoengrandecimento do poder central. para persuadir as organizações a se comunicar com o público numa linguagem direta. Canadá e EUA) se tornaram hoje 'sanitary engineer'. inumeráveis títulos ocupacionais receberam recentemente novas denominações quase incompreensíveis: 'undertaker' ou 'mortician' se tornou 'diretor funerário' e então bereavement care expert.

LÍNGUA DE SINAIS Todas as línguas vivas do mundo combinam gestos com a fala. Mas uma 'língua de sinais' per se também consegue se sustentar sozinha como um sistema organizado de símbolos criados naturalmente. 'parar'. indicando que alguma forma de 'sinal' sempre fez parte da comunicação humana. surgiu um sistema de sinais gerais feitos com lanternas que significavam 'liberar freios'. mecanicamente ou eletronicamente para transmitir mensagens a longas distâncias. cornetas. Com o telégrafo surgiram códigos linguísticos elaborados que também podiam ser usados por outros 248 . conchas. Os norte-americanos nativos frequentemente transmitiam sinais especiais por entre extensos vales pelo uso de nuvens de fumaça. tambores. flechas. Com o surgimento das ferrovias no século dezenove. Códigos em bandeiras são usados por navios mercantes e marinhas há milênios. entre muitos outros meios. Os chineses empregavam rojões coloridos em código e pólvora. Seres humanos sempre transmitiram mensagens a distância através de uma forma de língua de sinais: fumaça. e de gestos feitos com as mãos e/ou pantomimas no lugar da língua falada entre pessoas com uma língua comum ou entre indivíduos fisicamente incapazes de falar e/ou ouvir. Os romanos usavam trompetes e estandartes para sinalizar uma batalha. 'voltar' e assim por diante. A semiótica é a teoria filosófica dos símbolos e sinais que lida particularmente com sua função nas línguas naturais e construídas artificialmente. como uma espécie de Código Morse primitivo. Alguns acreditam que foram os sinais primitivos que desencadearam o desenvolvimento da língua vocal nos primeiros seres humanos.37 Os gregos antigos faziam sinais para navios refletindo o sol em escudos de bronze polidos. trompetes.

Com bem mais de 100 línguas individuais sendo transmitidas — do catalão ao chinês e do mongol ao maia — a 249 . Dentro das nações individuais. por tochas. entre outros meios. os Sinais das Planícies ainda são usados hoje em dia para lendas. buzinas. ou. é um manual de linguagem elaborado que consegue expressar objetos naturais. Ela foi projetada na América do Norte após a introdução de cavalos pelos espanhóis vindos do sul das Grandes Planícies. por exemplo. se a distância for curta. Para os deficientes auditivos que conhecem a língua de sinais. tambores.meios de sinalização física: o Código Morse. permitindo a comunicação sem a quebra de votos de silêncio. à noite. ela é a primeira língua. rituais e contação de histórias. o Código Morse também pode ser transmitido por meio de assobios. preces. compartilhada por falantes de grupos linguísticos mutuamente ininteligíveis. A língua de sinais dos índios das planícies não é uma língua de sinais para deficientes auditivos e permanece apenas como segunda língua. A língua de sinais dos índios das planícies norte-americanas. mas também com os europeus. os Sinais das Planícies permitiam a troca de informações sobre comércio. emoções e sensações por meio de uma sintaxe sofisticada que beira a gramática. A língua falada também é transmitida por meio de gestos preestabelecidos. Permitindo conversações detalhadas. é usado por bandeiras de mão. e o cerco de armas francês ao leste. A língua de sinais monástica é usada dentro de monastérios europeus desde a Idade Média como segunda língua. caça e informações sociais não apenas com outras nações americanas nativas. conceitos. uma vez que todos os americanos nativos são agora fluentes em inglês. lanternas ou outras fontes de luz. eles não são mais usados entre as nações. projeção de raios de sol. Não há falantes de uma 'língua-mãe' da língua de sinais monástica.

língua de sinais para deficientes auditivos é o maior grupo de língua de sinais atualmente usado no mundo. Na verdade. LÍNGUAS AMEAÇADAS E EXTINÇÃO DE LÍNGUAS As línguas morrem mais frequentemente do que os povos que as falam. que em 1770 fundou em Paris a primeira escola para surdos e deficientes mentais. especialistas em deficientes auditivos norte-americanos elaboraram dois tipos de linguagens gestuais manuais. e não genética. A língua de sinais dos deficientes auditivos não é uma língua separada. e o segundo de sinais sistemáticos. foi elaborado um alfabeto expresso por duas mãos. a língua de sinais diz respeito principalmente à cultura dos deficientes auditivos. em geral. Ao copiar a língua de sinais dos índios das planícies e o exemplo francês. a história humana da Europa dos últimos 50. assinala objetos e conceitos com base na língua falada. Ela também é usada para a comunicação com animais (ver Capítulo 1). atualmente.000 anos abarca uma esmagadora substituição linguística. Mais tarde. com um número significativo de pesquisas e outras atividades no campo que. 250 . mas. que. que sinaliza palavras ou letras do alfabeto individuais. conta com dezenas de milhões de praticantes. cujo método é atualmente usado pela maioria dos deficientes auditivos. das quais derivam a maioria das línguas de sinais para deficientes auditivos do mundo: o primeiro de sinais naturais. Na verdade. A Abbé de l'Épée. A maioria das pessoas que se comunica por sinais no mundo hoje usa a Língua de Sinais Americana. o alfabeto de uma língua natural codificado por meio de sinais manuais. projetou um alfabeto especial expresso com uma mão para seus estudantes. como no caso do sistema dos povos das planícies. com base na língua escrita.

os vênedos ou sorábios. um dos maiores desafios culturais da humanidade. A maior parte dos celtas britônicos da Bretanha aceitou o latim dos seus ocupantes minoritários de maneira semelhante. provavelmente apenas cerca de 4. e esse número diminui rapidamente. Não é necessário ser uma minoria para perder uma língua: a maioria das línguas majoritárias da Europa foi substituída por uma minoria de línguas indo-europeias no decorrer de várias ondas de invasões do leste.38 Línguas sempre desapareceram. após 800 anos de contato próximo. culturais. mesmo assim. por motivos econômicos.Embora os livros citem cerca de 5. deslizamento. O polábio. Desse modo. entre outros. Embora em épocas mais antigas assassinatos. foi finalmente assimilado pela língua e a cultura alemã cerca de 1750 d. guerra. ou seja. o próprio gaulês cedeu ao latim de Roma.000 ainda são faladas atualmente. depois. a extinção de uma língua como resultado de uma catástrofe — seca. doenças e exílios fossem causas mais frequentes de perda da língua. terremoto.39 Ao contrário da opinião geral. e depois finalmente adotaram o germânico dos ocupantes minoritários que se seguiram. os pré-indo-europeus da Aquitânia se renderam ao gaulês dos celtas. é muito mais frequentemente 'voluntária'. tsunami e inundação — é extremamente rara. religiosos. A integração social e a dissolução étnica nunca foram tão pronunciadas na história humana. e. eslavos ocidentais 251 . 'relutantemente desejada'. políticos. erupção de vulcões.C. na história humana mais recente. apresentando enormes problemas científicos e humanistas.000 dessas línguas continuaram sendo faladas no início do século vinte e um. atualmente. a língua eslava dos eslavos ocidentais que ocupavam a região entre os rios Elba e Oder.000 línguas existentes. O risco de extinção das línguas é. essa perda. Estima-se que talvez menos de 1. que é quase sempre uma substituição da língua.

As crianças eventualmente acabam se tornando monolíngues no novo idioma. Ou seja. Quando ocorre o contato com uma força estrangeira 'superior'. e quase sempre a nova língua não consegue preencher o vácuo resultante. pais e mães de todo o mundo aconselham seus filhos a se encaixarem. Mas entre populações menores. desejando sua segurança e progresso.do alto e médio rio Spree. cantos. a sudeste de Berlim. encorajando ou tolerando o bilingualismo. ela 252 . Toda sociedade antiga desaba. conseguiram manter sua língua e cultura eslava até os dias de hoje. Após 500 anos de colonização. Apesar dos ganhos imediatos produzidos pela substituição da língua. São normalmente eles que substituem sua língua por outra. aqueles que abrem mão voluntariamente de seu idioma invariavelmente sentem a perda da identidade étnica. Em grandes populações de falantes. como o Inglês Padrão Internacional ou o espanhol para se comunicar cora os outros. também está finalmente se rendendo ao espanhol. de 'algo de valor'. a solução funciona eminentemente. A pequena Ilha de Páscoa. Uma alternativa à substituição da língua é o bilingualismo permanente. que atualmente já não é mais o último refúgio do planeta. Ela também causa a perda de histórias orais. tendo como consequência gerações perdidas em busca de uma nova identidade. mitos. assim como das tradições. religiões e vocabulário técnico. como resultado de uma série de circunstâncias fortuitas. quase toda a América Latina fala hoje o espanhol. costumes e comportamento prescrito. uma derrota causada pelo poder colonial ou metropolitano (com concomitantes sentimentos de inferioridade) e traição penosa a seus ancestrais sagrados. o povo continua falando sua língua nativa entre eles ao mesmo tempo em que também usa ativamente uma língua metropolitana. trocando seu patrimônio polinésio por renda financeira.

Mas elas não podem ser salvas. Qualquer outro meio significa uma aniquilação certa. Há muito mais linguistas estrangeiros entusiasmados em salvar línguas ameaçadas do que dentro das comunidades que as falam.000 pessoas ou menos. cada cultura muda para se adaptar e sobreviver. com o intuito de evitar um mundo culturalmente esvaziado. é evolução social.40 Porém.quase invariavelmente acarreta a substituição pela língua metropolitana. isso não é perda. só conseguem ser preservadas por meio do total isolamento. do mesmo modo. como. impuseram os modos 'prescritivos'. mais comumente. desde o início do século dezenove. aquelas faladas por cerca de 20. Uma vez mortas. Todos os dialetos regionais de línguas ouvidas em transmissões midiáticas estão se rendendo ao dialeto prestigiado que os centros governamentais ou corporativos escolheram para serem representados pela mídia (normalmente o dialeto da própria classe governante). Não apenas as línguas estão sendo perdidas numa velocidade sem precedentes. A maioria das tentativas de salvar línguas ameaçadas falhou. numa grande uniformidade da fala. as línguas ameaçadas precisam ser documentadas em descrições formais. dependentes das circunstâncias. Para propósitos científicos. Frequentemente ouve-se que 253 . Além disso. Às vezes argumenta-se que manter a variedade linguística é tão essencial para a humanidade quanto manter a diversidade da flora e da fauna. sem demora e com todos os recursos disponíveis. ou seja. Não há um Lázaro entre as línguas. Os dialetos também estão desaparecendo. Línguas verdadeiramente minoritárias. Isso resultou. as línguas também não podem ser 'ressuscitadas'. É um nivelamento da variedade linguística comparável ao desmatamento das florestas tropicais. a instrução também é tradicionalmente transmitida na língua prestigiada de uma nação e no dialeto prestigiado desta língua.

O hebraico é um 'renascimento' moderno. Porém, o hebraico nunca chegou a morrer. Sempre considerada a língua prestigiada por seus falantes, por motivos religiosos e étnicos, o hebraico foi a língua escrita e cantada dos serviços religiosos judaicos, então, era constantemente ouvida e falada. Eventualmente, devido à necessidade política da fundação de um estado judeu em 1948, o hebraico foi elevado de segunda língua ritual para primeira língua ativa. Tentativas de renascimentos linguísticos modernos, como no caso do manês e do córnico, invariavelmente permanecem como uma distração de pequenos grupos interessados, sem repercussões linguísticas de larga escala: as línguas metropolitanas que as substituíram permanecem como primeira língua. A maioria dos linguistas aceita que a extinção em massa de línguas humanas já é uma conclusão inevitável, o preço que a humanidade paga pela nova sociedade global.

HUMOR VERBAL
Dos muitos tipos de humor — pantomímico, gestual, situacional, musical, ilustrativo, gráfico, simbólico, e assim por diante — o humor verbal é de longe o mais comum, e constitui igualmente um elemento essencial da sociedade humana. Todas as sociedades usam o humor verbal. Ele implica brincar com a língua em múltiplos níveis, do ridículo ao sublime, apelando para o lúdico ou o absurdamente incongruente. Frequentemente com uma interação desses níveis ao mesmo tempo, a manipulação linguística une opostos de uma maneira súbita ou inesperada, para produzir, pelo menos inicialmente, a surpresa e o deleite.41 Pode-se assumir que formas mais sofisticadas de humor verbal, como a sátira, a ironia e a paródia sempre existiram. Porém, uma parte extraordinariamente grande do humor antigo que sobreviveu parece
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ter uma natureza sexual, uma forma de humor verbal evidentemente universal. Isso não significa que as sociedades mais primitivas eram mais promíscuas. Pelo contrário, indica o oposto. O humor verbal revela o que normalmente é suprimido numa sociedade e como as sociedades mais antigas mantinham um decoro rígido com comunidades pequenas e próximas, e, frequentemente regras quase sufocantes de fala e conduta, histórias picantes e mesmo obscenas eram mais bem-vindas por sua condição de 'enema social'.42 O humor está em revelar aquilo que é oculto e mencionar o que não é mencionado — o choque da justaposição súbita produz o riso imediato. A crítica social mordaz que só podia ser feita quando ocultada pelo humor também era apreciada. No antigo Egito, o 'país que possuía tantas maravilhas', nas palavras de Heródoto, o humor sem dúvida temperava a dieta diária. 'Os ouvidos de um menino estão em seu traseiro, explicou um antigo escriba, 'pois ele ouve melhor quando apanha!' Um amante do Nilo escreveu sobre sua amada (numa tradução livre): 'Se eu a beijo e seus lábios estão abertos, fico bêbado sem cerveja!' O mais antigo humor verbal europeu conhecido é a história homérica em que Odisseu diz ao ciclope Polifemo que seu nome é 'ninguém'. Quando os outros ciclopes ouvem os gritos de dor de Polifemo e correm para ajudá-lo, perguntam o que o está machucando, Polifemo responde: 'Ninguém!', e eles vão embora. O poeta romano Marcial escreveu como Pompeia foi destruída pela erupção do Monte Vesúvio em 79 d.C: 'Mesmo para os deuses, isto é ir longe demais'. Entre as pichações encontradas em Pompeia está uma que diz: 'Você acha que eu me importaria se você morresse amanhã?' Um marido romano escreveu à sua esposa, que havia comprado cremes caros: 'Você está estocada em centenas de potinhos...
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seu rosto não dorme com você!' E no século dezoito, os descendentes dos romanos disseram sobre a coleta do Grande Tour: 'Se o Coliseu fosse portátil, os ingleses o teriam levado embora!' A Idade Média foi um período particularmente rico para o humor, um fato frequentemente esquecido pelos estudiosos. Um fragmento da última página das 'Cambridge Songs', copiado em cerca de 1050 d.C. preserva a lírica latina, cantada por uma mulher à sua amante (um dos gêneros literários preferidos da época): Venha para mim, meu querido amor — com ah! e oh! Me visite, e você experimentará delícias — com ah! e oh! e ah! e oh! Estou morrendo de desejo — com ah! e oh! Como anseio pelo fogo de Vênus — com ah! e oh! e ah! e oh!... Se você vier e trouxer sua chave — com ah! e oh! Como será fácil entrar — com ah! e oh! e ah! e oh! Numa canção espanhola de al-Andaluz (Andaluzia) do início do século doze, uma jovem canta a seu amante: 'Eu lhe darei tanto amor — mas apenas se você dobrar meus tornozelos acima dos meus brincos!' Guilherme IX da Aquitânia (1071-1127), o primeiro poeta lírico secular da França que conhecemos pelo nome, uma das personalidades mais interessantes da Idade Média, duque de Poitou e Aquitânia e avô de Eleanor da Aquitânia, que se tornou depois a rainha da Inglaterra, cantou para seu grupo de companhos (cavaleiros e soldados) sobre suas 'duas esplêndidas éguas que [eu] posso montar'. Mas elas não se suportam; se ele apenas conseguisse domá-las, teria 'uma melhor montaria do que qualquer outro homem. Então, ele pede a seu
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público que 'resolva minha difícil situação: nunca uma escolha causou tanta confusão. Não sei quem manter agora — Agnes, ou Ermensent!' (nomeando duas damas nobres de sua corte). O mais antigo canto polinésio reconstituído da Ilha de Páscoa, composto em cerca de 1800 d.C, termina com a fala de um adolescente escarnecendo das meninas adolescentes:

Por que a devoção à música? — para ficar dentro do buraco. Dentro do buraco onde? — [nas] ti folhas onde são deitadas Quando [uma vez que] não houver chuva, contorcendo, preenchendo. Armem um briga, jovens mulheres, temendo que a flor seja domada, ha!

O humor verbal foi exaltado como uma raridade até ou antes de William Shakespeare, quando, em sua peça a Tragédia do Rei Lear, de 1606, ele permitiu que o Bobo da Corte revelasse o mais profundo objetivo do humor: trazer à tona as mais feias verdades da vida. Quando Lear protesta: 'Você me chamou de bobo, menino?' o Bobo da Corte responde: 'Já abandonaste todos os outros títulos; mas este é de nascimento'. Mais tarde. 'Quem está aí que pode dizer quem eu sou?' chora Lear. A sombra de Lear', responde o Bobo. E então: 'Se o cérebro de um homem estivesse em seu calcanhar', diz o Bobo, 'ele não correria o risco de ter frieiras?' Ah, menino', diz Lear. 'Então, eu peço, seja feliz; teu espírito não andará de chinelos'. Ao que Lear ri ingenuamente: 'Ha, ha, ha!'
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Perto do final trágico de Lear, o Bobo aconselha Kent: 'Soltes a roda quando ela começar a rolar morro abaixo, para não quebrar o pescoço seguindo-a; mas quando a roda grande subir o morro, deixe que ela te arraste. Quando um homem sábio lhe der um conselho melhor, devolva com o meu: quisera eu que apenas os velhos o seguissem, bobo que sou'. Pela primeira vez na história humana, o papel supremo da língua na transmissão, formação e retratação de todos os fenômenos sociais é considerado, e essa consideração começou a ser aplicada a amplos problemas sociais, educacionais e políticos. Essa é a tarefa da sociolinguística que, por meio do estudo do uso da linguagem na sociedade, une teoria, descrição e prática. A principal preocupação da sociolinguística é a mudança na língua que marca os pontos de atrito da atividade humana; assinala a morte de crenças e o surgimento de conceitos; define os limites do tolerável; revela as maquinações dos que estão no poder; e, talvez, o mais importante, registra a evolução da consciência e sensibilidade humanas reveladas pela língua. O uso de línguas comuns e construídas artificialmente demonstra uma necessidade fundamental das sociedades humanas de se comunicar de maneira igualitária. Em toda história, as sociedades se identificam mais com outras de fala semelhante; por causa disso, surgiram nações com um único idioma. Minorias étnicas dentro dessas nações também se empenham em expressar sua contribuição única por meio da língua. A independência colonial em regiões multiétnicas revelou a importância da língua no estabelecimento de um sentido de nacionalidade. Na geração passada, a reinvenção do papel da mulher na sociedade assistiu uma 'purificação de gênero' na língua inglesa. A purificação
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linguística ocorre na história humana quando a sociedade muda de maneira proeminente, quando há um número demasiado de empréstimos estrangeiros, ou quando um regime declara uma agenda nacionalista. A propaganda e o politicamente correto são fenômenos sociais que sempre contaminaram as línguas; na verdade, ambos tornaram possíveis os atos mais hediondos da humanidade. Mas bem-vindos, no entanto, são os movimentos que 'limpam' e 'simplificam' as ofuscações linguísticas e engodos da burocracia. A língua de sinais é em suas várias formas a demonstração da necessidade que a sociedade tem de se comunicar quando a língua vocal falha fisicamente, um fenômeno biológico ao qual muitas sociedades recorrem por meio de uma linguagem sistematizada de gestos. As mais de 100 línguas de sinais para deficientes auditivos do mundo testemunham a maravilhosa plasticidade e utilidade dessa forma de linguagem. Ura fenômeno social ligado à língua humana é a morte da língua. Dezenas de milhares de línguas desapareceram desde que a primeira fala humana surgiu. Ao contrário da crença comum, a maioria simplesmente evoluiu numa nova língua, ou foi voluntariamente substituída por uma língua intrusa porque se esperava conseguir com isso algum benefício. Todo contato linguístico é enriquecedor. Essas manifestações ocorreram com os triunfos e tragédias da vida, sempre contando com o humor verbal, a arte linguística que permite que a humanidade zombe da adversidade e ria em face da aflição enquanto examina as profundidades da vida. Dessas e de muitas outras fascinantes maneiras, a língua é a maior medida da sociedade humana. Mais do que qualquer outra faculdade, é a língua que nos diz quem somos, o que queremos dizer e para onde vamos.

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Pode-se também desejar considerar as atividades governamentais e estrategistas corporativas — principalmente em língua inglesa — que estão ardentemente expandindo seus campos de atividades no presente. Porém. migrações de massa. insurreições civis. o aumento súbito da influência de nações. novidades sociais. aumentando a probabilidade de que sua língua (inglesa) prevaleça sobre as línguas de não estrategistas nas décadas futuras. o exame das mudanças linguísticas passadas e o reconhecimento das tendências linguísticas atuais podem fornecer cenários linguísticos possíveis. uma vez que tantos fatores não linguísticos remodelam constantemente a língua de uma sociedade: mudanças econômicas. pelo menos para um futuro próximo.8 Indicativo futuro Como serão as línguas do planeta no futuro? Não se pode prever com precisão um futuro linguístico. entre muitos outros fenômenos. novas tecnologias. 261 .

estão elaborando extensões inovadoras da fala humana. e quanto maiores elas forem.. esta parece ser uma característica global permanente. uma dimensão linguística tradicional foi alterada para sempre. permitindo um novo meio de linguagem que se comunica artificialmente consigo mesmo. que. como no passado. privilegiará as maiores nações e corporações. criará uma nova ordem mundial cuja natureza e qualidade ainda são em grande parte desconhecidas. o inglês — logo definirá o lugar de casa pessoa no planeta. Mas que. e além. 262 . Ela está reinventando o significado da própria palavra 'língua'. o atlas linguístico não faz mais sentido. separando aqueles que têm dos que não têm. cultural e econômico entre as nações ocidentais e o resto do mundo se encontram num processo de transformação sem precedentes. a língua esteve relacionada com o território geográfico — a terra. menos línguas existirão. em última análise. um novo mundo sem fronteiras. talvez..O simples esboço de analogias com as mudanças e dinâmicas linguísticas passadas não apresenta uma validade qualificativa. Hoje. A proficiência na única língua corporativa do planeta — talvez. Embora as línguas sobreviventes do planeta continuem a mudar de modos familiares. Não é simplesmente a mudança e perda (substituição). que atualmente descreve a história linguística. A língua significa principalmente tecnologia e riqueza. Em toda a história. Agora. como as linguagens de programação (de computadores). onde a única direção é para cima ou para baixo. provavelmente. Todas as relações tradicionais de poder político. mas também a expansão do domínio da língua a um grau sem precedentes na sociedade humana. Novas tecnologias.

Alguns entendem a linguagem de programação como uma notação que expressa formalmente algoritmos (uma regra de procedimento para a solução de qualquer problema computacional) de modo que eles podem ser entendidos tanto por humanos quanto por computadores. propriedades e métodos para fornecer mais prontamente soluções para problemas particulares. uma convenção para descrições escritas que podem ser avaliadas. Para outros. com exceção.LINGUAGENS DE PROGRAMAÇÃO Os computadores facilitam a manipulação da descrição de valores. talvez. bancos de dados e outras atividades computadorizadas. da escrita. sistemas operacionais. E outros a vêem simplesmente como uma sequência de instruções para uma máquina. porque é um 'meio de troca de informação'.1 Uma linguagem de programação também pode ser usada para pesquisa linguística. A ferramenta específica que permite os processos de programação é uma linguagem de programação. entre outros.2 Para alguns. O resultado de um processo de programação é um programa para processamento de texto. a linguagem de programação é simplesmente uma ferramenta para ajudar o programador. como compilador de pesquisa e no ensino. e assim o principal objetivo de uma linguagem de programação é se comunicar com 263 . é um sistema notável de descrever a computação de maneira que tanto máquinas e humanos conseguem ler. O propósito de toda linguagem é a comunicação. Ela é uma linguagem. sim. Muitas definições contrastantes tentam capturar sucintamente a essência de uma linguagem de programação. com seus muitos tipos e formas de reprodução das línguas naturais. Mas é totalmente diferente de todas as formas de linguagem anteriormente conhecidas da humanidade.

acima de tudo. a pessoa tem de estar apta a ler e entender a descrição da solução. problemas e instruções em sua própria língua. uma grande variedade de modelos de linguagem ou abordagem de solução de problemas. é um mecanismo para descrever a computação e soluções de problemas. atualmente. os modos de abordagem da computação de modo a solucionar um problema específico).máquinas de mentalidade literal. a linguagem de programação. um computador precisa ser apto a traduzir dados. Entre as mais importantes (e as seguintes são apenas uma pequena seleção de todas as abordagens atualmente existentes) estão:6 264 . Há. a filosofia ou paradigma inerente ao programa (ou seja.5 A teoria da linguagem de programação de computadores normalmente reconhece três aspectos principais de uma linguagem de programação: Sintaxe: a linguagem de programação determina os símbolos e suas combinações permitidas ('legais'). ser lida pela máquina. Semântica: são os significados que os programadores designam para as construções da linguagem de programação. cada linguagem de programação tem características únicas e específicas. com certas exceções. Modelo de linguagem: este é o domínio. E uma linguagem de programação também precisa ser lida por seres humanos.3 Em sua essência. ou seja. ou seja. Como uma língua natural humana. Ela precisa. Isso determina sua adequabilidade a uma tarefa computacional dada. em estruturas de dados e direção e programas.4 Cada linguagem de programação revela diferentes perspectivas e características da descrição e do projeto de algoritmos.

Ada. Java. Uma linguagem paralela ou concorrente consiste em programas que são coleções de processos que se comunicam ou cooperam mutuamente. Ela consiste de programas que são coleções de afirmações de uma lógica específica. condicionais e curvas que governam os comandos. ML. Uma linguagem funcional aplica funções (matemáticas) a um conjunto inicial de dados. Várias linguagens lógicas e funcionais estão incluídas nesta categoria. Mercury e Equational. normalmente lógica predicada. C e Assembly Code. normalmente tarefas. os programas são sequências de comandos básicos. Modula-2 e C*. eles usam estruturas associadas de controle como sequências. Por exemplo. Uma linguagem orientada para o objeto tem programas que são coleções de objetos que se comunicam.Uma linguagem imperativa aplica um algoritmo a um conjunto inicial de dados. C++. 265 . Eiffel. Fortran. Uma linguagem lógica sequência passos dedutivos garantindo que a solução fique dentro de uma relação específica ao conjunto inicial de dados. Haskell. Pascal. Linguagens lógicas equacionais são OBJ. Aqui. Por exemplo. Por exemplo. FP e Gofer. Uma linguagem declarativa contém programas que são simplesmente coleções de fatos. como no caso da linguagem Prolog. Simula e Smalltalk-80. Por exemplo.

associadas com as línguas naturais humanas — elas se 'bifurcam' umas das outras. Ele vai imitar os processos do cérebro humano e sua rede de comunicação. em Dallas. recentemente desenvolveram um interruptor neural eletrônico para um sistema nervoso artificial. também isso parece estar evoluindo. os computadores já se 'comunicam' entre si. está transcendendo rapidamente o domínio humano para se tornar também a 266 . A 'linguagem'. Em último caso. até a 'fala' entre robôs e humanos e entre robôs e outros robôs e sistemas computacionais deve se tornar possível. em outras palavras. nem vocais (até o momento) e prescindirem de território geográfico.As linguagens de script adotam muitos dos modelos anteriores. Mas as principais diferenças das linguagens de programação são o fato de elas não serem biológicas. as linguagens de programação começam a se assemelhar com os tradicionais modelos de 'famílias linguísticas normalmente. criam novas 'famílias' de linguagens de programação. em seu sentido mais amplo. através de uma ampla gama de linguagens de programação. de modo muito parecido à comunicação entre humanos e animais. mas desta vez a comunicação é induzida pelo humano sem necessariamente ser guiada por ele. Elas são um processo interno ao sistema do teclado que só existe no cyberespaço. Ao adotar um ou mais entre os modelos acima. Porém. se não totalmente. ou entre outras abordagens. mas são normalmente utilizadas como pacotes de suporte maiores. Em todo o mundo. permitindo a criação de um robô autônomo que possa receber informações através de vários sensores e tomar decisões independentes. Pesquisadores da Raytheon Systems e da Universidade do Texas.

em contraste. mas uma ferramenta eficaz. empresas e indivíduos. no Canadá.8 Um estudo conduzido em 1989-90 com estudantes do ensino médio na Finlândia. um meio para o fim: um melhor aprendizado da língua. e depois nas Alemanhas ocidental e oriental. A internet é. No presente. nos EUA. na Grã-Bretanha. esse uso promove e preserva de uma maneira até então sem precedentes. fazendo uso de um estilo linguístico causai que inclui coloquialismos e fala elíptica.9 Toda a comunicação não verbal (gestual) é substituída on-line por visualizações textuais. governos.7 Beneficiando escolas. sendo a mais popular delas o latim clássico. no Japão e na Islândia. A internet não consegue substituir a interação linguística face a face. não apenas línguas vivas. na Suécia.origem de sistemas eletrônicos artificiais. não um fim. ela é melhor estruturada e hierarquicamente organizada. E-MAIL E NEWSGROUP Um dos recursos mais amplamente usados da internet é o ensino e o aprendizado de línguas. portanto. O estudo indica que o uso linguístico do e-mail (e consequentemente do newsgroup) parece ocupar uma posição especial entre a língua falada e escrita. A escrita off-line. Professores de línguas de todo o mundo descobriram que um aprendizado eficiente de um idioma é alcançado por meio da aplicação de recursos linguísticos da internet em planos de aulas pessoais. na Áustria. não se pode saber para onde esse desenvolvimento nos levará.10 267 . mostrou que a comunicação online via e-mail se assemelha com a comunicação oral. uma grande economia de expressões. ou seja. mas também as línguas extintas. exibe muito mais coesão textual e linguística. INTERNET.

o inglês prevalece (alguns diriam 'domina'). também se perdem expressões faciais. que se referem a um nível de comunicação mais primitivo. a internet não é regulamentada. Alguns alegam que o inglês domina a internet devido ao 'imperialismo' econômico e político dos países de língua inglesa. não se usa os sentidos da visão e da audição. Uma língua construída pode ser escolhida por um corpo regulador 268 . o inglês é o idioma mais popular como segunda língua do mundo. Sinais subliminares. articulação. postura. Mas qualquer outra língua pode vir a substituir o inglês na internet no futuro. também não conseguem ser transmitidos com a nova mídia eletrônica. como através de videomensagens enviadas por e-mail. uma vez que. Com a perda da visão e da audição. suprassegmentais (duração. velocidade da fala. tom). o inglês prevalece na internet porque ela é a criação de países que falam o inglês e porque. No momento.Todas as situações linguísticas naturais envolvem 'espectadores-ouvintes'. embora não menos importante.11 Deve-se esperar que nunca haja uma língua 'oficial' para a internet. acento. e muitas outras características integrantes da comunicação humana. O fato de a internet ter evoluído dentro de um meio que conta principalmente com a língua inglesa foi uma circunstância histórica. evidentemente também perdemos uma boa parte do que atualmente significa ser humano. e não arquitetada. a menos que eles sejam eletronicamente permitidos. O inglês não tem tal status 'oficial'. No presente. exercem uma censura rigorosa na internet. como o cheiro. Porém. apenas alguns poucos países. no início do século vinte e um. o Inglês Padrão Internacional é a língua universal da internet. apenas a língua ou línguas que seus usuários desejem e precisem. como a China. Com o ganho óbvio. cora as comunicações via e-mail e newsgroup. distinções de altura/suavidade. Porém. em grande parte. gestos.

Com esse cenário. v-mail (videomensagens). clicar (usar o 'mouse' para acessar um site). a experimentação de tais desenvolvimentos humanos reais. Porém. A tradução automática computadorizada pode tornar supérflua toda a questão da predominância de uma língua natural. browser (um software projetado para o usuário.como uma alternativa (embora pareça improvável). o dispositivo que conecta o computador a uma linha telefônica e permite a comunicação entre computadores) e muitos outros. cada vez mais pessoas escolhem o inglês como segunda língua ou língua adicional. Em todo o mundo. a internet transcenderia então a necessidade da predominância de qualquer língua natural. as pessoas retêm sua língua nativa como primeira língua para uma esfera de interação menor e mais imediata. Quando possível. além da jurisdição do cyberespaço da internet. A maioria das nações modernas está 269 . hipertexto (qualquer texto que tenha 'links' para outro documento). o e-mail e os newsgroups também estão por si mesmos afetando ativamente os vocabulários do planeta. deve-se reconhecer que o bilingualismo é uma tendência mundial. modem (de modulador. Parece que a própria internet permanecerá. inclusive do inglês. O Inglês Padrão Internacional adicionou um grande número de itens lexicais a seu vocabulário (ou expandiu o significado de palavras mais antigas) que eram desconhecidas uma geração atrás: bit (dígito binário). gopher (um método de fazer menus do material disponível na internet). A internet. e-mail (mensagens que as pessoas mandam umas às outras via computador). demodulador. pelo menos no futuro próximo. cyberespaço (a gama de recursos de informações disponíveis na rede de computadores). fazendo com que a escolha recaia apenas em qual linguagem de programação usar. usado para examinar os recursos da internet).

No presente. a linguagem do teclado. A vida humana nesses países está se centrando. se afastando da fala vocal e visual mais imediata. ou seja. Um tipo diferente de linguagem está surgindo a partir dessa superfície de contato artificial: uma 'língua escrita oral'. bolsistas universitários. Isso é especificamente verdade no caso de estudantes. funcionários de escritórios. Em poucos anos. Hoje. em vez da língua falada. cujas qualidades faladas precisas eram desconhecidas. O FUTURO DA LÍNGUA Antes de Thomas Edison inventar o fonógrafo em 1877. os sistemas de reconhecimento por meio de voz permitirão que uma pessoa fale diretamente com um computador e consiga uma resposta vocal. entre muitos outros usuários de computadores. eram encontrados nos escritórios dos conventos. pesquisadores. editores. Traduções simultâneas também poderão ser feitas da mesma maneira. pode-se aproximar de um consenso — apesar da geral 270 . Não há dúvidas de que também ela vai mudar com a evolução da nova tecnologia. os computadores enriquecerão quase todos os lares do mundo desenvolvido. escritores. Na Idade Média. podiam revelar estágios anteriores da língua. que compreendiam uma porcentagem muito pequena da população medieval. um número cada vez maior de pessoas passa cada vez mais horas por dia usando a escrita. sem tradução para a língua local. pode-se avaliar a rapidez com que a língua muda. Analisando textos escritos. Logo. apenas os escribas. ao ouvir aquelas vozes arranhadas de mais de um século atrás. a textos eletrônicos e redes de contatos internacionais. ouvindo as mudanças recentes e seguindo as amplas tendências linguísticas. apenas anciãos e antigos textos escritos. programadores. jornalistas.emprestando esses termos de língua inglesa diretamente. e se restringindo.

devido à mídia moderna. se afastando da condição fusional anterior em busca de uma estrutura cada vez mais isolante. Entre as poucas línguas que sobreviverão aos próximos dois séculos. As maiores mudanças. tabu.'imprevisibilidade' da mudança linguística — sobre a direção que as línguas faladas no mundo seguirão num futuro próximo. talvez. morfológicos. Isso ocorre porque. dentro dos parâmetros fonológicos. sem dúvida. varanda). Se em séculos anteriores os empréstimos levavam anos para serem aceitos em uma língua e se espalharem para outras línguas (chocolate. mas não exclusivamente. em vários estágios de suas próprias evoluções linguísticas. todos estarão falando o inglês como primeira ou segunda língua. Isso significa que o mandarim chinês. a homogeneização e nivelamento dos poucos dialetos e línguas que sobreviverem. ou mesmo dias: fatwa 'lei 271 . tendendo mais fortemente ao polissilabismo (usando palavras com várias sílabas) e formando palavras derivadas ou compostas pela união de constituintes de significado próprio. são. sem dúvida. pelo menos linguística. café. os destinos de línguas e famílias linguísticas inteiras. tabaco. se tornará ainda mais isolante e mais aglutinante em sua estrutura. sintáticos. Ao mesmo tempo. por fim. o léxico das línguas do planeta continuará a ser preenchido com empréstimos comuns. Todos os linguistas concordam que as mudanças linguísticas naturais que ocorrerão permanecerão em grande parte. por causa do rádio. e então. os próximos dois séculos testemunharão uma substituição linguística sem precedentes. As línguas indo-europeias. a maior preocupação dos linguistas. por outro lado. por exemplo. lexicais e semânticos conhecidos. quando a sociedade global se tornar uma realidade. da televisão e agora da Internet tais empréstimos podem se tornar parte do vocabulário nativo em semanas. continuarão. a evolução tipológica cíclica continuará em vigor.

sendo substituído pelo discurso 272 . por exemplo. embora a maioria das línguas metropolitanas de origem indo-europeia tenha expandido o domínio da forma informal desde a Segunda Guerra Mundial. Ou seja. occitanos. o tempo verbal do discurso relatado (ou seja. as línguas indo-europeias menores geralmente resistem a essa tendência. Porém.. Ou seja. Scud 'tipo de míssil guiado'.. para nomear alguns exemplos recentes. e assim por diante — o pronome informal se infiltrará cada vez mais no domínio formal. entre outros). vênedos. aiatolá 'líder religioso'. glasnost 'transparência política'. Há inumeráveis exemplos de tendências identificáveis ocorrendo nas línguas do planeta. o contraste de evidencialidade testemunha ocular/testemunha não ocular). as crianças desses países.' ('Ele disse que estava.. o francês tu e vous. a repercutir no futuro. refletindo uma mudança fundamental de atitude em relação aos pais e aos mais velhos em geral. elas estarão usando os pronomes informais. sem dúvida. o espanhol tu e usted.religiosa'. Em alemão. As transformações sociais que ocorrem simultaneamente em muitos países também estão deixando suas marcas. especialmente entre falantes bilíngues (como galeses. cujos efeitos continuarão. causando mudanças linguísticas fascinantes. catalães. galegos. por exemplo. ao se dirigirem aos pais com as formas formais usadas desde tempos imemoriais. er sei. na forma de 'Er sagte. Talvez seja um esforço consciente dos falantes de línguas menores para se afastar das influências metropolitanas 'invasoras'. um adolescente galês ainda dirá à sua mãe 'Peidiwch â phoeni!' ('Não se preocupe') usando a gramática formal — e não a informal que será ouvida no mesmo contexto em alemão ('Mach' Dir Keine Sorgen!') ou francês ('Ne t'inquiète pas!')..') está se tornando supérfluo na fala moderna. Nas línguas indo-europeias que ainda preservam a distinção entre pronomes formais e informais — o alemão du e Sie.

uma das mudanças mais evidentes é a perda gradual da terminação f. O conectivo taitiano ‘e 'e' foi introduzido (não havia nenhum conectivo na língua rapanui). ta’u 'ano' é hoje matahiti entre muitos outros exemplos. incluindo o sistema numérico rapanui que hoje é quase totalmente taitiano. Porém. cruel. Durante mais de 100 anos. O léxico alemão também compreende muitos empréstimos do inglês moderno: der Computer. como no inglês ('weil er ist alt')... que provavelmente será substituída pelo espanhol chileno nos próximos vinte anos. que abarca uma ação ou estado que começou no passado e continua em vigor. significativas 'mudanças em processo'.’a. a parada glotal taitiana vem substituindo o k na língua. ra’a’sum 'dia' foi substituído por mahana. O galês exibe.. também esses empréstimos taitianos logo cairão vítimas do espanhol chileno na ilha. alterando radicalmente a sintaxe do alemão durante o processo. perverso'. Esse novo uso pode se generalizado no futuro para incluir conjunções semelhantes. 'porque'..' A sintaxe da conjunção weil. Não há dúvida de que o alemão absorverá centenas de introduções semelhantes nos próximos anos. foi recentemente substituído pelo ko. Na língua rapanui da Ilha de Páscoa. tref [pronuncia-se TREIVE] para 273 . assim como o espanhol pero 'mas'. Muito do léxico rapanui mais antigo foi substituído pelo taitiano. ‘a. er ist. die Jeans.declarativo neutro: 'Er sagte. de modo semelhante. o tempo verbal/marcador de aspecto verbal ku. der Supermarket. der Soft Drink. um processo que hoje está se tornando feroz: o rapanui ki 'falar' é hoje o taitiano parau. Em sua fonologia. produzindo duplos historicamente identificáveis: kino/’ino 'mau. que sempre colocava o verbo no final da oração subordinada ('weil er alt ist') hoje permite que o verbo siga imediatamente o sujeito.. embora a forma ainda não seja considerada de uso padrão por falantes mais formais e idosos..

e assim por diante. 11 un deg un. Embora possa passar despercebido. muitos falantes galeses hoje favorecem mais a mutação sibilante (com seu domínio de uso mais amplo) do que o gramaticalmente 'mais apropriado' e menos geralmente. 16 un ar bymtheg. O inglês está na vanguarda das mudanças linguísticas internacionais. 30 deg ar hugain e assim por diante. Após o yn significando 'em'. E embora a maioria das línguas do planeta enfrente uma extinção iminente.'cidade' hoje se tornou simplesmente ter [TREI]. 20 ugain. mudarão o som do inglês do futuro. mais familiarizado do que com as línguas acima citadas. o t entre vogais e no final das palavras está sendo substituído por uma 274 . talvez. o inglês exibe tendências características. seguindo a onda da nova linguagem tecnológica. o inglês também está passando por rápidas mudanças em vários níveis diferentes: fonológico. morfológico. para nomear alguns exemplos. os exemplos seguintes mostraram as tendências futuras do inglês. Assim. o inglês continua ganhando milhares de novos falantes por dia. 30 tri deg. Logo todas as terminações em f deverão desaparecer do galês. 20 dau ddeg. substituiu — particularmente entre os falantes mais jovens — os tradicionais números: 11 un ar ddeg. Em sua fonologia. 15 un deg pump. Como o inglês é atualmente a língua mais popular do mundo (e também a língua em que este livro foi escrito). 12 un deg dau. por exemplo. 12 deuddeg. O novo sistema numérico decimal galés substituiu o antigo sistema numérico celta apenas na última geração. sintático. Na verdade. lexical e semântico. 16 un deg chwech. yn Gaerdydd 'in Cardiff hoje é ouvido mais frequentemente que o tradicional yngh Nghaerdydd. No inglês britânico. a mutação nasal. que sem dúvida. com a qual a maioria dos leitores estará. o inglês está se tornando algo totalmente novo: uma língua natural mundial. 15 pymtheg. tanto regionalmente quanto internacionalmente. assim.

o ambiente vocálico do t fez com que ele fosse pronunciado): Get the ledduce that’s a liddle bidder. 'My daughter was sitting'. boating e boding. particularmente nas terras médias: Ge’ the le’uce tha’s a li’o bi’a ('Get the lettuce that's a little bitter'). A enorme influência do inglês americano no presente sugere que essa inovação fonológica possa se espalhar em pouco tempo para além da América do Norte. a inovação norte-americana parece ter se tornado produtiva. parece improvável que a inovação Cockney mencionada antes experimente uma difusão internacional. Em 1998. a distinção é feita pelo ouvinte apenas a partir do contexto.parada glotal (') em dialetos bem além da região de Cockney (Londres) onde a inovação ocorreu pela primeira vez. Isso reflete uma forma da fala norte-americana relativamente nova e cada vez mais distribuída. vem sendo cada vez mais substituído pelo d (ou seja. como foi identificado pelo linguista David Rosewarne em 1984 — pode derivar dos filmes e programas de televisão concentrados em Londres e ter se espalhado principalmente por meio de falantes jovens imitando a forma antes censurada.) Como uma demonstração de sua força linguística. No inglês americano. não há mais uma distinção falada entre Writer e rider. por muitas décadas. whitest e eidest e assim por diante. que se tornou um dialeto preferido. portanto. A maior 'mudança em processo' do inglês americano revela uma inovação semelhante. Nele. o t entre vogais. Nela. está causando uma outra mudança. matter e madder. um derivado da forma My daughder was siddin’ experimentou o enfraquecimento do d entre 275 . (Em contraste. Ou seja. uma jovem mulher branca falante de inglês americano do meio oeste diria My dar was sin — num Inglês Padrão Internacional talvez mais compreensível. A recente e súbita difusão da inovação antiga — na variedade de uma fala regional modificada chamada inglês do estuário.

uma qualificação adjetiva anteriormente limitada pode hoje também servir como um substantivo genérico: um 'historical' é um 'historical novel'. das quais o inglês moderno deriva. assim. os adjetivos ingleses servem como substantivos. afetaram os falantes britânicos). Apenas o tempo poderá dizer. por exemplo. Os adjetivos também estão perdendo espaço para os substantivos. Esse sentido elíptico ou absoluto tem uma história antiga tanto na família germânica quanto na família itálica. especialmente entre falantes norte-americanos (que.vogais até seu total desaparecimento. 'in the past'. 'profligate' é 'profligate person' 'the blind' significa 'blind people. Assim. Os adjetivos estão assumindo um papel cada vez mais substantivado na sintaxe inglesa. um 'botanical' e 'herbal drug ou medicine'. mantendo as terminações que marcam os adjetivos. e 'a white' significa 'a white person'. novamente. pode-se imaginar que no futuro mais adjetivos assumirão funções substantivas até então inimagináveis: 'a reasonable' significando 'an acceptal proposal'. ou 'a timely' para 'a recent news item'. Ou seja. por exemplo. os substantivos fazem eles mesmos 276 . e assim por diante. deixando apenas dar para 'filha' e sin para 'sitting'. a mudança pode se mostrar uma pronúncia alternativa de vida curta. como 'at present'. por sua vez. seu uso experimentou uma expansão súbita recente. em que o substantivo 'time' está subentendido. Enquanto a maioria dos falantes britânicos falaria 'a Californian wine' e 'a Texan rancher'. Por muitos séculos. 'Professional' significa 'professional person'. os falantes norte-americanos diriam hoje: 'a California wine' e 'a Texas rancher'. Pode ser que essa tendência marque um desenvolvimento em longo prazo do d intervocálico e das terminações — ing no inglês americano. Alguns desses usos chegam a datar do francês antigo. Como tais usos parecem continuar aumentando. e in future'. Porém.

o papel dos adjetivos no inglês norte-americano. Se essa tendência se tornar universal.) E 'natural' recebeu recentemente uma conotação positiva. muito frequentemente de maneiras que não são percebidas pelo público geral. A palavra 'chemical' parece hoje significar 'composto químico Sinteticamente manufaturado'. o modo como a palavra é usada na frase que frequentemente aparece em propagandas: "This product is 100 per cent chemical free'. nada no mundo é 'chemical free'. (Quando na verdade. embora 'natural hair shampoo' e 'natural washing powder' passem pelo escrutínio público sem censuras. por exemplo. ambos escritos com hífen. desde então não se pode imaginar a expressão perfeitamente correta em inglês 'natural bubonic plague'. as construções 'the Britain royal family' ou 'an Australia kangaroo' sejam possíveis. dificilmente teria passado pelo exame de um editor. tornando uma frase pospositiva um adjetivo prepositivo. 277 . então no futuro se pode esperar que as construções 'on-time trains' e 'with-a-grudge colleagues' sejam possíveis. invertendo a sintaxe herdada: o que costumava ser 'children at risk' e 'patients at risk' é agora 'at-risk children' e at-risk patients'. De maneira semelhante. Hoje. Essa tendência sintática é particularmente feroz no presente. então pode-se esperar que daqui a uma ou duas décadas. uma redução da sintaxe inglesa que. a 'sintaxe popular' da língua inglesa também está mudando. apenas uma década atrás. Uma inovação semelhante foi usada por um importante jornal britânico que publicou recentemente 'a biophysicist-turned-expert on technology and society at Oxford'. a maioria dos escritores norte-americanos não faz qualquer distinção entre 'linguistic change' e 'language change'. Nem mesmo as frases preposicionadas são poupadas de tais reinterpretações.

Embora formas dialetais do inglês como sommat 'somcthing'. Pode-se imaginar que a gíria. novamente. uma norma estatística que não existe em lugar algum e que não possui um corpo oficial que determine sua natureza e regulamente seu uso. O Inglês Padrão Internacional surgiu por intermédio da comunicação global. Porém. apresentará nas décadas futuras um uso cada vez mais frequente de palavras e expressões da língua espanhola do que de qualquer outra língua estrangeira. também está sofrendo uma pressão cada vez mais forte do espanhol. xhosas. anyroad 'anyway'. a gíria internacional — principalmente de origem norte-americana — continuará a se difundir rapidamente. assim como o léxico inglês em geral. amalgamando-se rapidamente ao amorfo Inglês Padrão Internacional — que é. na realidade. o inglês internacional continua perdendo a maioria de suas características dialetais. De maneira semelhante. pelo nivelamento midiático. originada principalmente a partir de filmes hollywoodianos (usando principalmente os dialetos californianos e nova-iorquinos). tswanas. as variedades locais do inglês continuarão a suplementar seus vocabulários com recursos nativos: o inglês australiano emprestará mais palavras e expressões australianas nativas. o inglês sul-africano. permitindo uma compreensão imediata do rádio. Todos esses desenvolvimentos devem ser saudados como enriquecimentos da língua inglesa. sothos. contribuindo para a destilação de um novo Inglês Padrão Internacional. o inglês da Nova Zelândia. mais palavras e expressões maoris. e assim por diante. essa gíria internacional. aught/ought 'anything' e naught/nought 'nothing' tendam a ser substituídas por seus sinônimos. da televisão e da 278 . mais palavras e expressões zulus. que serão entendidos universalmente em uma ou duas gerações. Contudo. da televisão e da música popular que dominam o mercado de entretenimento mundial.

O inglês britânico. e continuará mudando e evoluindo. como um processo linguístico normal produziria. Neste livro. que muitos consideraram 'vulgar' num primeiro momento. em vez de se tornarem línguas descendentes. não projetado (embora isso logo possa mudar). Agora.internet seja em Nova Déli. o inglês padrão americano e todas as outras formas de inglês no mundo inteiro estão contribuindo para o amálgama linguístico que é o Inglês Padrão Internacional. frequentemente se mencionou o inglês como uma 'língua mundial'. O surgimento dessa conquista tecnológica coincidiu com e parcialmente foi o resultado do surgimento do inglês como a mais popular segunda língua ou língua adicional do mundo. a maioria dos britânicos nunca havia ouvido a fala norte-americana. os dois dialetos. A maioria dos norte-americanos também nunca havia ouvido um inglês apropriado. o enorme crescimento econômico dos países de língua inglesa e os recentes acontecimentos políticos. uma língua emergente. especialmente a nasalização norte-americana. devido à nova tecnologia. Há um bom motivo para isso. A ascensão do inglês no século vinte ocorreu ao mesmo tempo que a influência de forças antigas. apenas três gerações depois. Este último desenvolvimento é proveniente de uma combinação de fatores: a internacionalização do inglês além da Grã-Bretanha com o estabelecimento de colônias de língua inglesa em todo o mundo. eles estão evoluindo um em direção ao outro. estão cada vez mais próximos. Pela primeira vez na história humana. diminuiu rapidamente. o desfecho de duas guerras mundiais no século vinte. em particular a francesa e a alemã. de uma forma desigual no presente. a comunicação global é uma realidade diária. Tóquio ou São Petersburgo. apenas o 279 . Antes do rádio e dos filmes. Ele é ainda o produto de circunstâncias históricas. Na verdade.12 Entre as línguas do mundo.

talvez. mas também na África do Sul. Julgando a partir do crescimento do uso da internet. No início do século vinte e um. junto à sua língua de sinais. Depois disso. o aprendizado do inglês se tornou uma questão econômica: os trabalhos mais bem pagos do mundo exigem a fluência no inglês.14 O futuro econômico e político do mundo está ligado a uma base tecnológica que fala inglês e é definida pelo inglês. a população mundial está sendo 'forçada' a adotar e prosperar. Escandinávia.espanhol apresenta atualmente uma dinâmica semelhante à do inglês. os chineses estão atualmente aprendendo a falar inglês. No caso do mandarim chinês. Desse modo. Holanda. 280 . ou ignorar o inglês e fracassar. O inglês é atualmente falado como primeira língua (idioma nativo). nas Ilhas Cook. Poucos falantes do inglês estão aprendendo o chinês. EUA e Nova Zelândia. não apenas na Grã-Bretanha. O futuro do inglês como língua mundial está nas mãos dos dois últimos grupos. mas num grau muito menor. e exclusivamente por falantes de outras línguas. entre muitos outros. determine o perfil linguístico do planeta.13 Oitenta por cento de todos os dados da internet estão em língua inglesa. se não por mais tempo. É uma tendência que. Porém. segunda língua (ou língua adicional) nos países que falam o inglês. só esse fato poderia assegurar a posição do inglês como a língua mais popular do mundo no século vinte e um. por exemplo. Singapura e algumas outras regiões do mundo já podem representar a situação linguística que logo prevalecerá em toda parte: populações adultas bilíngues que falam a língua local (metropolitana) tão bem quanto o inglês. o idioma mais falado como primeira língua do mundo. pelo menos nos próximos dois séculos. na Índia. talvez no final do século vinte e quatro. em Fiji. pode ser que o inglês seja a única língua sobrevivente do planeta.

Mas. No presente. a sociedade humana é inconcebível sem a língua. 281 . Itália. apesar da tendência atual que torna tal situação impossível. Nesse caso. devido à comunicação interplanetária regular. considerando apenas os números. países de língua alemã. a compreensão mútua entre falantes do inglês marciano e do inglês terrestre será facilmente mantida. entre outros) podem muito bem conseguir preservar sua língua como vestígios locais por várias centenas de anos. essa nova forma de inglês permanecerá dialetal e não se tornará uma língua separada. colonizadores presumidamente falantes do Inglês Padrão Internacional em Marte. França.15 Na verdade. poderá eventualmente surgir um inglês interplanetário. E como o latim. assim. sociedades ricas e menores (como Japão. substituindo o Inglês Padrão Internacional. principalmente por motivos religiosos. por muitos séculos. afirmou recentemente o linguista australiano Robert Dixon. espanhol e inglês. por exemplo. É ela que define nossas vidas. apenas três línguas (e suas respectivas línguas de sinais) sobreviverão aos próximos 300 anos: mandarim chinês. por razões culturais. Diacronicamente. o árabe e o hebraico certamente continuarão sendo falados e sinalizados. no final do século vinte e um inovações linguísticas não conhecidas no inglês da Terra. 'A língua é o mais precioso recurso humano'. E depois? Quando a humanidade colonizar o sistema solar uma nova forma de — talvez — inglês pode vir a ser falada num futuro nem tão distante.a história mostrou que tais previsões globais são normalmente inválidas. O alemão ou o japonês podem muito bem se tornar a língua dominante do planeta daqui a 200 anos. Pode-se imaginar que os descendentes multiétnicos. surgirá um dialeto diferente. um inglês marciano que será imediatamente identificável por aqueles que não o falam. Contudo. apresentem.

Como o próprio rio na história. mas ela não será a linguagem como nós a conhecemos hoje. todas as línguas do planeta. ganharemos. muitos temem. Mas como tudo que foi colocado até agora demonstrou. de modo que surjam processos de mudanças e usos linguísticos até então sem precedentes. sempre haverá a linguagem. ao mesmo tempo. sempre mudando. Uma língua mundial pode trazer benefícios. mas talvez a um preço alto demais. com exceção de um pequeno número vestigial. Logo. a perda das línguas locais inicialmente levará. morrendo. um novo entendimento comum do nosso lugar no Universo. Perderemos a maioria da diversidade cultural do planeta. sempre se transformando.proclama nossa existência. Porém. como o computador pessoal podem mudar a dinâmica da própria mudança. Qualquer que seja 282 . substituindo. Além disso. a um maior sentimento de alienação. formula nossos pensamentos. enquanto a humanidade sobreviver. mas. e não de fraternidade universal. rejuvenescendo. Embora seja possível identificar características comuns entre as mudanças no decorrer de milênios. propaganda e controle sem precedentes. a língua está num fluxo constante. desaparecerão. a língua não é permanente. com uma língua única. inovações. uma das características mais voláteis da sociedade humana. deixando apenas uma língua para toda a humanidade (com sua língua de sinais). e sem dúvida continuará permanecendo. um novo senso de pertencimento. Desse modo. talvez mais convincentemente que qualquer outra coisa. estável e fixa. crescendo. com concomitantes benefícios em todos os aspectos da atividade humana. e permite tudo o que somos e temos. com uma única língua. Com essa perda. uma possibilidade de manipulação política. pela perda da identidade étnica. uma nova ordem mundial. a língua permanece. a nova sociedade global atingirá simultaneamente um grau de comunicação até então inimaginável.

e das criações comunicativas da Natureza. gestos. escrita. 'dança'. fala. Pois a linguagem — em toda a sua miríade de formas: comunicação química.. como ocorreu no último milhão de anos. 283 . linguagem de programação — é o próprio nexo da Natureza.o futuro linguístico do planeta. ultrassom. infrassom. a língua continuará evoluindo com a humanidade.. desde que os primitivos hominídeos começaram a se comunicar oralmente.

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Estudos recentes têm comprovado que qualquer ser vivo. Uma Breve História da Linguagem é uma obra interessante e muito abrangente. e é hoje diretor do Instituto de Línguas e Literatura Polinésias. e hoje. Vive atualmente na Nova Zelândia. . nossos ancestrais foram capazes de transmitir seus conhecimentos às gerações futuras. conhecemos diversos modos de linguagem. remontando os passos do surgimento de uma das mais importantes conquistas do ser humano: a linguagem. Com ela. sempre foi capaz de se comunicar com outro animal. códigos. Steven Roger Fischer nasceu nos Estados Unidos e foi Doutor pela Universidade da Califórnia na década de 1970. espanhol e alemão.O autor Steven Roger nos conduz a uma fascinante viagem ao mundo pré-histórico. por meio de sinais. mas uma faculdade inerente a todos os seres. Fala fluentemente francês. gestos. podemos afirmar que a linguagem não é um privilégio somente do Homem. em qualquer época. imagens etc. por mais limitado que fosse esta comunicação. seja ela verbal ou não verbal. e deste modo.

com o avanço da tecnologia. ele discute questões difíceis que conduzem diretamente aos aspectos fundamentais e particulares da natureza humana e suas conquistas. Uma viagem rara ao mundo da Lingüística. Uma pesquisa informativa altamente estimulante... partes dele quase não registrado." . Do começo ao fim. " O intrigante e ambicioso estudo de Steven Fischer explora um vasto terreno. até chegarmos ao seu estágio atual. Ela é uma das mais importantes ferra- mentas que o ser humano conquistou ao longo dos tempos. e está total¬ mente relacionada à evolução de todas as criaturas tanto quanto o seu modo de se relacionar.NOAM CHOMSKY "Um livro agradável e inesperadamente acessível. a qual o possibilita se desenvolver e aprender sobre si próprio e o mundo que o cerca. e termos uma prévia de como poderá vir a ser no futuro.A linguagem surgiu nos primórdios de nossa existência. como ele relata." . outras. Veremos como a linguagem humana evoluiu e as modificações nela ocorridas ao longo cia história. examinadas profundamente ao longo de muitos anos — e. por muitos séculos.T H E ECONOMIST .