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3 RNA interferente (iRNA)

Parece a história de um rei destronado pelos seus súbditos. Eficazes e zelosos, os


RNA estiveram na sombra de sua majestade, o DNA.
“Monges copistas” intracelulares, os ácidos ribonucleicos encarregados de trans-
mitir a palavra eram intermediários entre o DNA e as proteínas. Mas, num espaço de
cerca de uma dúzia de anos, uma verdadeira revolução aconteceu no palácio, colo-
cando o DNA, considerado vedeta, em segundo plano.
Os RNA interferentes (iRNA) tomaram uma posição dianteira na cena. Eles reve-
lam-se poderosas excelências, sendo capazes de reduzir os genes ao silêncio.

O RNA interferente está presente em todos os organismos evoluídos desde os


nemátodes aos seres humanos. Foi posto pela primeira vez em evidência em 1990.
Considera-se que este ácido nucleico está no cruzamento de caminhos: tem a compo-
sição do RNA mensageiro e a forma em cadeia dupla da molécula de DNA.

mRNA
Destruição
do mRNA

iRNA

SIRC
(complexo
proteico)

Se bem que a sua descoberta seja recente, tudo decorre muito rápido neste domí-
nio, estando actualmente grande parte dos sectores da biologia a dedicar-lhe aten-
ção. Admite-se que emergiram há cerca de um milhar de milhão de anos, tendo per-
mitido aos organismos multicelulares defenderem-se dos vírus. Eles eram capazes
de referenciar muito depressa as cadeias de RNA estranho, reduzindo-as ao silêncio
antes que elas se multiplicassem e que os vírus colonizassem o organismo. Muito
poderosos para ficarem confinados somente nesta tarefa, os RNA interferentes tam-
bém inactivam os próprios genes indesejáveis do organismo, que possam ter surgido
por mutação. Nada de mais fácil para eles: um iRNA pode interceptar um mRNA de
um gene mutante antes de ele ser traduzido e originar uma proteína imprópria, tal
como faz com o RNA viral. Em certas patologias como o cancro, sabe-se que são sin-
tetizadas proteínas patogénicas. A este nível, os iRNA podem desempenhar um papel
de superanticorpos capazes de bloquear essas sínteses.
Science et Avenir, Novembro 2003