PROGRAMA DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

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SERGIO CAVALIERI FILHO Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Professor da Universidade Estácio de Sá.

PROGRAMA DE SOCIOLOGIA JURÍDICA
11ª edição revista e atualizada

Rio de Janeiro 2007

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...........................................................................................................................Objeto da Sociologia Jurídica .........................................................................................Gênese do Direito.................... 97 Capítulo XI ...... 75 Capítulo IX ..... 185 Capítulo XVI ............... 211 Índice Sistemático ...Fontes do Direito ................................................................................................................................................................................... IX Capítulo I .......A Opinião Pública ................................................................ 217 ..........Conceito Sociológico do Direito ............................................................................. 175 Capítulo XV ...........................................Aspectos Sócio-Jurídicos de Algumas Áreas do Sistema Jurídico Brasileiro .................SUMÁRIO Abreviaturas e Siglas Usadas ........................................................ 69 Capítulo VIII .......................Eficácia das Normas Jurídicas e seus Efeitos Sociais ........................Importância do Estudo das Ciências Sociais e da Sociologia Jurídica em Especial ..VII Apresentação .............................................................Razões Sociais das Garantias Constitucionais dos Magistrados ......................................................... 23 Capítulo IV ................... 31 Capítulo V ............................................................................................................................................................. 127 Capítulo XII ..........................................O Método da Sociologia Jurídica .......................................... 149 Capítulo XIII ..................................................A Autonomia da Sociologia Jurídica como Ciência e suas Relações com Outras Ciências Sociais ................................................. 57 Capítulo VII .......................Fatores da Evolução do Direito .................................... 1 Capítulo II ....................................... 163 Capítulo XIV ............................... 11 Capítulo III ........ 81 Capítulo X .............................................................................Instrumentos Humanos de Realização da Ordem Jurídica ..................................................Direito e Anomia ...........................................................................................................................................................Função Social do Direito ............. 41 Capítulo VI ............................................................... 209 Índice Alfabético-Remissivo ...................Sistemas de Escolha dos Magistrados................................. 195 Bibliografia ..

Ed. STF STM TRE TRT TSE artigo Código de Defesa do Consumidor Central Única dos Trabalhadores Divisão Anti-Seqüestro Departamento de Administração do Serviço Público Decreto Decreto-Lei edição Editora Escola de Magistratura do Rio de Janeiro Estados Unidos da América “International Center of Economic Penal Studies” Imposto sobre a Circulação de Mercadorias Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social Instituto Nacional de Previdência Social Imposto sobre Produtos Industrializados Instituto sobre Serviços Ordem dos Advogados do Brasil obra citada Organização das Nações Unidas página Pernambuco Professor Revista Supremo Tribunal Federal Superior Tribunal Militar Tribunal Regional Eleitoral Tribunais Regionais do Trabalho Tribunal Superior Eleitoral . Rev. Dec.-Lei ed. ONU p. CDC CUT DAS DASP Dec.ABREVIATURAS E SIGLAS USADAS art. EMERJ EUA ICEPS ICM INAMPS INPS IPI ISS OAB ob. cit. PE Prof.

o extraordinário Código de Defesa do Consumidor e o novo Código Civil. O Jurídico se compõe de fato. nada mais do que a norma. “muita água correu debaixo das pontes do direito e inúmeros diplomas foram produzidos nas oficinas legislativas”. há muito está ultrapassada. De lá para cá.no propósito de facilitar o estudo dessa cadeira integrante do currículo do Curso de Direito da Universidade Estácio de Sá. Talvez tenha alcançado a sua finalidade porquanto a obra. tanto é assim que há norma expressa determinando ao juiz atender. foi várias vezes reeditada. todavia.Programa de Sociologia Jurídica. A idéia de que o direito é norma. sob o título . o que procurei fazer agora sob o novo título . aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum. perdese muitas vezes o sentido de sua finalidade social. já que. já sofreu várias mudanças. de sorte que se os operadores do direito não tiverem essa visão tridimensional do direito. Era preciso atualizar este trabalho. por sua vez. no exame diuturno da norma. inclusive uma nova Constituição que. ardorosamente defendida por Kelsen. valendo-me da feliz imagem de Antunes Varella.Você Conhece Sociologia Jurídica? . . estará recompensado o esforço da sua revisão.APRESENTAÇÃO Este trabalho foi escrito no início da década de 1980. na aplicação da lei. norma e valor indissociavelmente. entretanto. não obstante despretensiosa. estando agora em sua 11ª edição. não mudou: continua sendo uma tentativa de transmitir aos estudantes uma visão sociológica do direito. não estarão aptos a aplicá-lo de forma a realizar a sua função social. Se de alguma forma este trabalho continuar contribuindo para a melhor preparação dos nossos operadores do direito. O seu objetivo.

civis. Essas normas são de direito objetivo porque vivem e sobrevivem fora e independentes das pessoas. o conjunto de regras (leis. à propriedade. quando alguém diz que tem o direito a isso ou àquilo. penais. porém. de fazer ou não fazer alguma coisa. é preciso dizer de que direito vamos tratar já que a palavra direito pode ser utilizada com significados diferentes. também chamado de Direito Positivo. à saúde e assim por diante.Capítulo I GÊNESE DO DIREITO Escola Jusnaturalista ou do Direito Natural: a origem do jusnaturalismo. No segundo. Escola Histórica do Direito. É uma situação . Antes. Escola Racionalista ou Contratual: a concepção do direito do ponto de vista racionalista. ou seja. Fala-se em direito para indicar o conjunto sistemático de normas (constitucionais. Escola Teológica: origem da Escola Teológica. para que depois possamos compreender a sua razão de ser e a função que desempenha na sociedade.) destinado a organizar a sociedade e disciplinar a conduta humana na convivência social. **** Nossa primeira tarefa consiste em conhecer a gênese do Direito. a palavra direito indica o direito subjetivo de cada pessoa (física ou jurídica). à educação. No primeiro caso temos o Direito Objetivo. estabelecer a sua fonte ou origem. Essa faculdade corresponde a espaços de liberdade ou a poderes para atuar ou [p. regulamentos. 1] exigir uma atuação alheia. Escola Sociológica do Direito: origem e concepção sociológica do direito. Costuma-se dizer que o Direito Objetivo é a norma de agir (norma agendi) e o direito subjetivo é a faculdade de agir (facultas agendi). por exemplo. costumes) que preside à nossa vida em sociedade. como o direito à vida. Mas também encontramos a palavra direito ligada ao direito de cada pessoa. a que conferem faculdades de agir. Escola Marxista: origem e concepção do direito. à liberdade. administrativas etc.

ponto de referência para se saber o que é justo ou injusto. o direito é um conjunto de idéias ou princípios superiores. As principais características do direito natural seriam. o criador teria inculcado em sua consciência um conjunto de princípios superiores. e base de todas as leis. uniformes. quando da criação. fazer um sucinto apanhado sobre as várias teorias ou escolas existentes. 1. Em nosso estudo vamos tratar do Direito Objetivo. Por essas razões entendemos necessário. outorgados ao homem pela divindade. e com minúscula quando indica o direito subjetivo. eternos. que a expôs eloqüentemente em sua obra. filósofos. 1.e foi adotada em Roma por Cícero. A razão principal dessa controvérsia está no fato de cada qual procurar ver e conceituar o Direito pelo ângulo de visão de sua ciência. antes de apresentarmos o enfoque da sociologia jurídica sobre a origem do Direito. imutáveis. Como nasce o Direito? Em tomo dessa questão existiu e ainda existe a mais acirrada controvérsia entre juristas. cuja origem estaria na Divindade. até chegarmos àquela que mais se ajusta ao conteúdo da nossa matéria.jurídica subjetiva de vantagem a que o direito objetivo confere proteção direta. plena e específica. o mais entusiasta intérprete da filosofia grega entre os romanos. permanentes. Origem do Jusnaturalismo A concepção do direito natural surge com os filósofos gregos . vale dizer. das regras que organizam a sociedade e disciplinam o comportamento social. bom ou mau. ao trazer à existência a criatura. a fim de traçar-lhe o caminho a seguir e ditar-lhe a conduta a ser mantida. sociólogos etc. Aristóteles.Heráclito. De . Em suma. que constituiriam o direito natural. ESCOLA JUSNATURALISTA OU DO DIREITO NATURAL Para os jusnaturalistas. Sócrates. como teremos oportunidade de assinalar. esquecendo-se que pode ser ele enfocado através de pelo menos três aspectos diferentes. teólogos. A palavra Direito é normalmente escrita com letra maiúscula quando se refere ao Direito Objetivo. já que se trata de princípios imanentes ao próprio cosmos. .1. Seria como um sopro ético com que a Divindade bafejou a sua criação. de modo a não permitir um entendimento uniforme até o Juízo Final. Platão etc. eternos e imutáveis. a estabilidade e a imutabilidade.. portanto.

Sólon etc. lei única e eterna e imutável. entregando-as ao homem para serem observadas. a saber: o direito divino....1. Origem da Escola Teológica A Escola Teológica coexistiu com a Jusnaturalista durante toda a antigüidade. No seu entender. 2. “ Esse trecho de Cícero sintetiza com precisão a concepção jusnaturalista. Hamurabi. se não ordena nem proíbe em vão aos bons. o estudo do direito voltou a ser abrangido pela religião e continuou a ser considerado manifestação da vontade divina. 2] ra. mas sim diretamente. constante. foi escrito pelo próprio dedo de Jeová. 2. ela não é diferente em Roma ou em Atenas. não é diferente hoje nem será amanhã. mas sim. que apela para o que devemos fazer. mas escritas e outorgadas por Ele. a origem do direito não estaria ligada apenas indiretamente à Divindade. A concepção do direito se explana dentro do sistema filosófico de São Tomás de Aquino. semideuses. Com o aparecimento do Cristianismo.. ESCOLA TEOLÓGICA A Escola Teológica em muito se assemelha à Jusnaturalista. difusa em todos. em todas as nações e para todos os tempos. hoje. sobre o Monte Sinai.. segundo a narração bíblica. que.. pois também concebe o direito como um conjunto de princípios eternos. amanhã. Manu. a própria Divindade teria se empenhado em elaborar as primeiras leis. não muda por suas ordens nem por suas proibições os maus. permanentes e imutáveis. reta razão. e entregue a Moisés. no entanto. Em quase todos os povos antigos encontramos líderes político-religiosos. por isso que coloca em destaque a origem divina do direito e o seu caráter permanente e imutável. eterna. em duas tábuas de pedra. Não é preciso procurar um Élio Sexto para comentar ou interpretar. conforme a natureza. É de instituição divina que não se possa propor ab-rogar essa lei e que não seja permitido derrogá-la.. ontem. baseado nas Escrituras e nas . e que desvia do mal. já que as primeiras leis não teriam sido simplesmente inspiradas por Deus.República: “Existe uma lei verdadei. de origem quase legendária. para o qual existiriam três categorias de direito. ordenando-o.[p. que ela proíbe. como por exemplo o decálogo que. que foram os intermediários entre a Divindade e o povo no que diz respeito ao recebimento das primeiras leis. entretanto. ela será para todas as nações e para todos os tempos. Em suma. como Moisés.

autores de obras notáveis. Reunindo esses três tipos (lei divina. Puffendorf. por provir de Deus. a mais importante figura do liberalismo dessa época. 3] Concílios. só existe no espírito divino. 3.decisões dos Papas e de [p. ESCOLA RACIONALISTA OU CONTRATUAL Na Escola Racionalista ou Contratual agrupamos vários filósofos. do jusnaturalismo. lei natural e lei humana).1. No início o homem teria sido isolado. O Direito positivo. a começar por H. decorreria do pacto social a que o homem fora levado a celebrar para viver em coletividade. estáveis e imutáveis. por sua vez. os homens tiveram a idéia de viver juntos. o direito natural. divino ou terreno. que em quase nada se diferencia do direito natural apregoado pelos gregos e romanos. Para sair do isolamento. alcançaria mudar. é produto dos homens. em todos os tempos. John Locke.imutável diante de qualquer vontade divina ou humana. e da qual decorreriam princípios que. não mais seria a divindade. publicada pela primeira vez em 1625). e a terceira. 3. fundando a sociedade através de um pacto. Grotius (De Iure Belli ac Pacis. não se distinguindo. como foi ilustrado por Daniel De Föe na conhecida história de Robinson Crusoé. duas são as categorias de direito. continuaria sendo um conjunto de princípios permanentes. As relações dos homens em sociedade seriam disciplinadas pelas regras do direito positivo. A Concepção do Direito do Ponto de Vista Racionalista Para os racionalistas. entretanto. [p. e o direito humano. Montesquieu (Espírito das Leis). Thomasius. embora tenha como conteúdo a lei natural. mas sim a natureza racional do homem . neste ponto. ou órbitas jurídicas. O caráter permanente e imutável do direito decorreria do fato de ser a natureza racional do homem igual por toda a parte. nenhum poder. Quanto ao direito natural. a saber: a do direito natural e a do Direito positivo. a segunda é existente entre os homens por intuição. culminando com Jean Jacques Rousseau. 4] . A origem desse direito. autor da conhecida obra Contrato Social. seguido por Thomas Hobbes (autor de o Leviathan). em conseqüência. São Tomás de Aquino tratou de explicar que a primeira. por cujo intermédio aplicam-se os princípios da lei natural. o célebre “contrato social” que serve de título a um dos livros mais famosos de Rousseau.

como se vê. por força das necessidades e usos do povo. decorrente das necessidades e usos do povo. ESCOLA HISTÓRICA DO DIREITO A Escola Histórica do Direito surgiu na Alemanha. 4. quando o direito era considerado pura criação da razão humana. a filosofia demonstrava que sua gênese. impõe-se a imediata reformulação do Direito positivo a fim de ajustá-lo aos imutáveis princípios do direito natural. Esta escola. e serve de fundamento para o segundo. Pela primeira vez. o processo de sua formação foi gradativo e paulatino. ou era resultado de um acordo entre os homens. Embora se tenha pensado que a linguagem fora criada por Deus. ao admitir que o direito natural tem origem na natureza racional do homem. haveria entretanto uma íntima e estreita relação. superior.Entre o direito natural. como a linguagem. visto que o primeiro é anterior. o Direito era um produto histórico. deslocou pela primeira vez a sua fonte .de Deus para a própria razão do homem. Também o Direito se constituíra naturalmente. ao passo que em outras o número de palavras é ainda reduzido por causa da estagnação da vida social. Equivale isso a dizer que o Direito positivo deve respeitar os princípios fundamentais do direito natural por lhe serem superiores. Inúmeros vocábulos surgem em uma língua à medida que vão se tornando mais complexas as relações sociais. essa escola rebelou-se contra a existência de um direito natural. Em vez de indagar o que deveria ser o direito. este último considerado o seu fundador. passou a pesquisar como se formava nas sociedades. permanente e imutável. Em ocorrendo tal afastamento. formado gradativa e paulatinamente pelas tradições e costumes. sujeito a transformações progressivas. mas sim da consciência coletiva dos povos (Volks geist). tendo como principais protagonistas Gustavo Hugo e Frederico Charles de Savigny. A escola inicia as suas atividades em pleno apogeu do neo-humanismo. tal como há entre o espírito e o corpo. não podendo deles se afastar sem se tomar injusto e iníquo. a sombra e a realidade. decorrente. 5] . não da divindade ou da razão. Para ela. aquele conjunto de princípios imutáveis decorrente da razão. A formação do Direito seria tão natural e espontânea como a origem da linguagem. no final do século XVIII e começo do século XIX. e o Direito positivo. [p.

instrumento ideológico de dominação da burguesia sobre o proletariado. enunciada por dois pensadores alemães . 5. como se vê. regra essa única. em vez de um direito geral e universal. Fixa o Direito. 276). Seduzido pelos ensinamentos de Hegel. entendia Savigny que. nem revelado por Deus. ainda que sejam em tudo desiguais. 5. que também une intimamente o Direito ao Estado. nem estabelecido arbitrariamente pela vontade dos homens. A escola mostrou que os fundamentos do direito se encontram na vida social. mais economistas do que juristas. com seus dois elementos essenciais: continuidade e transformação. 6] Essa concepção do Direito deve muito a Regel. com a diferença essencial de que o Estado para ele é uma instituição . mas sim pela consciência nacional do povo. de seus usos. Eram esses fundamentos que as teorias precedentes iam buscar na razão”. jurídica e economicamente organizada. razão pela qual Marx o considerava a expressão do interesse da classe dominante.1. Isso significa que o Direito apenas sanciona uma relação já existente. ESCOLA MARXISTA A teoria marxista surgiu em meados do século XIX. foi neles que se inspirou para formar suas idéias sobre o direito. o Direito pressupõe o Estado. Surge somente quando há uma sociedade .Karl Marx e Friedrich Engels . sendo igualmente filósofo.dois grandes reformadores sociais. expressão natural de sua evolução histórica. que incide sobre diferentes pessoas. fez seus estudos na Faculdade de Direito de Berlim. p.política. Marx. pelo que se esforçou em demonstrar que o direito era um produto histórico.Seguindo essa linha de raciocínio. entretanto. Como assinala Hermes Lima (Introdução à Ciência do Direito. acima de tudo. sujeito a permanente e natural evolução. costumes e tradições de todas as épocas passadas. “é conquista definitiva da Escola Histórica a noção do caráter social dos fenômenos jurídicos. cada povo em cada época teria o seu próprio direito. nem pela razão. foi afastar a concepção do direito natural. A grande preocupação da Escola Histórica. aplicando uma regra a uma situação preexistente. com uma fonte emanadora do preceito jurídico e um órgão capaz de impor o cumprimento de suas prescrições. Origem e Concepção do Direito Para a teoria marxista. [p. as relações econômicas que predominam em uma sociedade em certo momento histórico.

mas. em grande parte sentimental. Se aqui ou acolá o Estado divorciou-se de suas verdadeiras finalidades. Não tem valor igualmente o pressuposto de que haja um substrato eterno. desde que apareça a sociedade. Ao lado da manutenção da ordem estabelecida. entendemos necessárias algumas considerações sobre a teoria marxista. apresenta caracteres particulares. já existiam regras disciplinadoras do relacionamento social. é direito. fazer críticas a qualquer das teorias examinadas. nem na razão ou na consciência coletiva. mesmo antes de existir o Estado. aí fatalmente encontraremos o Direito (ubi societas. hostilizaram-se mesmo. afirmar que todo Direito emana do Estado. sendo errônea a idéia de que. manifestando-se essencialmente através dos costumes. ao passo que para Marx. Embora não seja nosso propósito. mas sim corrigi-la. por mais homogênea que tenha sido. [p. ESCOLA SOCIOLÓGICA DO DIREITO A Sociologia e o Direito durante muito tempo ignoraram-se mutuamente. Qualquer observador é capaz de constatar que muito antes de existir o Estado. pôde viver sem normas de conduta. e pelo apoio que a classe dirigente concedia aos capitalistas beneficiários desse regime. é explicada pelo espetáculo da miséria que grassava na época. a proteção da saúde e da segurança públicas etc. Não menos falsa e truncada é a afirmação de ser o Estado instrumento de pressão da classe dominante sobre a menos favorecida. o Estado é instrumento de pressão. 7] 6.eminentemente respeitável. não existindo Direito sem Estado nem Estado sem Direito. que tem por missão manter a ordem e a paz na sociedade. muito antes da sociedade se organizar política e juridicamente. Simplesmente porque existe moeda falsa não se deve acabar com a verdadeira. nem por isso deve-se eliminar a instituição. assume uma infinidade de funções que visam o bem-estar público: a distribuição da justiça. ibi jus). É falso. neste modesto trabalho. fazendo-a voltar aos seus reais objetivos. Esse direito. a divulgação da instrução. o Direito tem origem. sobretudo o Estado moderno. Na síntese da teoria marxista. mas no Estado. é verdade. O encontro entre as duas ciências ocorreu paulatinamente a partir de . não em Deus. Em tempo algum uma sociedade. que deve ser combatido por todos os meios e finalmente destruído. e que não existe direito nas sociedades chamadas primitivas. indiscutivelmente. a fim de facilitar desde logo a compreensão de questões que oportunamente serão abordadas. Não é esta efetivamente a finalidade do Estado. quase divina. por exemplo. que constitua o cerne essencial e perene do direito. sobretudo nas regiões industriais que Marx pôde conhecer. Tal posição. e por isso devendo ser combatido e destruído. o Estado.

não pode viver isolado. maneiras de agir. mas sim filósofo. o Direito tem a sua origem nos fatos sociais.1. O Direito não tem existência em si próprio. entendendo-se como tais os acontecimentos da vida em sociedade. quando foi publicada a obra de Herbert Spencer . Esta organização pressupõe regras de comportamento que permitam a convivência social. conforme as suas peculiaridades. o Direito deve ser estabelecido à sua imagem. Depois da Segunda Guerra Mundial verificou-se uma ligação mais ativa e fecunda entre sociólogos e juristas. Passando por vários autores. A sociedade. ao mesmo tempo. normas de disciplinamento da vida em coletividade. justamente. Existindo em função da sociedade. A razão disso é bastante simples: sendo o homem um ser social. coube-lhe o mérito de ter reconhecido e evidenciado a natureza eminentemente social do direito. provindo da consciência das relações entre os indivíduos. culmina nos últimos anos do século XIX com Émile Durkheim. nos acontecimentos mais importantes para a vida social. Origem e Concepção Sociológica do Direito Para a Escola Sociológica. complexo de pessoas e coisas. E o Direito não pode formar-se alheio a esses fatos por ser um fenômeno decorrente do próprio convívio do homem em sociedade. Sem ser jurista.Principles of Sociology. de pensar e de sentir. o conjunto de normas que regulam a vida social. Além de Durkheim. portanto. discipline a atividade dos indivíduos. como Robinson Crusoé em sua ilha. o meio em que o Direito surge e se desenvolve. [p. A sociedade. . pois a idéia do direito liga-se à idéia de conduta e de organização. necessita de uma organização que. razão pela qual cada povo tem a sua história e seus fatos sociais. onde há um capítulo dedicado às leis. sentimentos e cultura. O Direito é. seu foco de convergência. 8] Paulo Nader sintetiza com maestria essa visão sociológica: “Direito e sociedade são entidades congênitas e que se pressupõem. cuja história não passa de utopia. tradições. A sociedade humana é. no entendimento de Émile Durkheim. que significam. Ele existe na sociedade. cuja elaboração é lenta e espontânea da vida social. a quem coube o trabalho de fixar definitivamente as relações entre o direito e a sociologia. refletindo os fatos sociais. 6. merecem destaque Léon Duguit e Nordi Greco. é fonte criadora e área de ação do Direito. orientando a vida coletiva. valores. Costumes diferentes implicam fatos sociais diferentes. práticas e condutas que refletem os seus costumes. Obrigados a viver necessariamente ao lado uns dos outros. entre os fundadores da Escola Sociológica.1882. A sua causa material está nas relações de vida. carecemos de regras de proceder.

6/7). Daí a veracidade de antigo brocado: ubi societas. o que permitiu que se afirmasse: “Não existe o direito e o fato. Criado pelo homem. ibi jus onde está a sociedade está o Direito. uma relação dialética com a realidade social. Dignas de destaque as palavras do insigne Paulo Nader: “A sociedade sem o Direito não resistiria. Uma de suas características é asocialidade. nas inter-relações sociais. O que caracteriza a Escola Sociológica é. Enquanto teve por fundamento a razão. cit. não haveria o direito sem sociedade.. pp. O acesso à Justiça passou a ser a sua . dotadas de um poder de coerção em virtude do qual se lhe impõem” (Introdução ao Estudo do Direito. Se o homem não vivesse em sociedade. seria anárquica.onde está o Direito está a sociedade -. Responsabilidade Civil do Produtor. o Direito representa o grande esforço para adaptar o necessidades de vida” (ob. O Direito foi democratizado quando passou a ter origem na sociedade. e não da natureza física ou do mero psiquismo dos seres humanos. pp. Em suma. normas ditadas pelas próprias necessidades e conveniências sociais. 21a ed. jamais poderia germinar em sua consciência a idéia do direito. como o são os grupos onde se originam. Mas a recíproca é também verdadeira: ubi jus. O Direito tem. 25). nem na razão. com os fatos que nela ocorrem. a vinculação entre ambas é tal que um não pode existir sem o outro. Assevera o Mestre Miguel Reale: “O Direito não existe senão na sociedade e não pode ser concebido fora dela. oriunda da sociedade e para a sociedade. nem na consciência do povo. mais especificamente. mas sim variáveis c em constante mudança. O Direito é para a Sociologia Jurídica uma ciência essencialmente social. teria o seu fim. Coimbra. Com efeito. segundo a forma exata de Sforza. Não são regras imutáveis e quase sagradas. considerar o Direito. 1990. p. 2).. O Direito é a [p. filósofos e juristas. as relações sociais. 12a ed. A democratização do Direito pode ser apontada como uma das mais relevantes conseqüências da Escola Sociológica. Saraiva. pois o mundo do direito é o das relações entre os homens. a sua qualidade de ser social” (Lições Preliminares de Direito. e nem ainda no Estado mas sim na sociedade. não como tendo origem em Deus. Forense. a ele tinham acesso os sábios. para corrigir a sua imperfeição.. 25/26). pois. 9] grande coluna que sustenta a sociedade. o fato e o direito existem enquanto coexistem” (João Calvão da Silva. sacerdotes e altas castas sociais a ele tinham acesso. pois. As normas do Direito são regras de conduta para disciplinar o comportamento do indivíduo no grupo. portanto. enquanto o Direito teve origem divina apenas os nobres. Almedina. Direito é realidade da vida social.exteriores ao indivíduo. ibi societas . p.

principal finalidade. é aquela que se concilia inteiramente com o conteúdo de nossa matéria. como não poderia deixar de ser. 10] . o Direito ganhou as ruas. [p. o povo passou a ter consciência dos seus direitos como aspecto da cidadania. A Escola Sociológica. as praças e fez-se linguagem de todo o povo. razão pela qual serve-lhe de base doutrinária.

Por conseguinte. conforme vimos no capítulo anterior. embora ignore. Critérios de composição de conflitos: composição voluntária. deixa cair algumas sementes sobre o campo vizinho. pp. e como tal tem sua origem. de como está entrosado com quase tudo que se passa na sociedade. 11/12). nas inter-relações sociais. Como lembrou Ruggiero (Inst. 11] cigarro ou charuto. . uma peculiaridade da sociedade humana. pratica. A função social do Direito na atual ordem jurídica brasileira. a satio. que deita fora o resto do seu [p. **** O Direito do ponto de vista sociológico é. realiza um ato de derelicto. nem na consciência coletiva dos povos. I. trata-se de uma ciência essencialmente social.mas sim na própria sociedade. de Direito Civil. tampouco no Estado . semeando o seu campo. vol. A PRESENÇA DO DIREITO NA SOCIEDADE Nem todos têm idéia de quanto o Direito se faz presente no meio social. nem na razão. É difícil praticarmos um ato que não tenha repercussão no mundo do direito.Capítulo II FUNÇÃO SOCIAL DO DIREITO A presença do direito na sociedade. que apanha na praia a concha preciosa trazida pelas ondas. um ato jurídico. um fato social. Função compositiva do direito. Função preventiva do direito. O conflito de interesse e sua composição. pois dá origem a uma figura de acessão. participando das mais simples às mais complexas relações sociais. critério autoritário. abandonando uma coisa sua. 7. o camponês que. pratica uma ocupatio. Características da atividade de concorrência. tomando o vizinho proprietário da semente lançada e dos seus eventuais frutos. critério da composição jurídica e suas características. não na Divindade. adquirindo a propriedade duma res nullius. Atividades de cooperação e de concorrência. O banhista. O fumante.

a dona de casa. Atividades de Cooperação e de Concorrência As atividades humanas assumem formas múltiplas. isto é. quando adquire uma simples caixa de fósforo no quiosque ou gêneros alimentícios no supermercado. o Direito invade e domina a vida social desde as mais humildes às mais solenes manifestações. quer se trate de relações entre indivíduos. Para bem compreendermos a função social do Direito. temos antes que analisar as atividades que o indivíduo desenvolve na sociedade. a transportadora se obriga a levá-los incólumes ao ponto de destino. mediante o pagamento . Por que o Direito se faz assim presente na sociedade? Qual é a sua função social? É o que procuramos responder neste capítulo. realiza um contrato de compra e venda. mas todas elas. ou outro qualquer transporte público. um contrato de transporte. Exemplo de atividade de cooperação é a do vendedor e a do comprador: o vendedor tem mercadorias para vender e o comprador tem interesse [p. econômicas ou não. quando milhares de pessoas tomam o trem.1. propõe-se a ceder seu uso a outrem. quer se trate ainda de relações entre os próprios grupos. o Metrô. E se por infelicidade ocorrer um acidente do qual resulte lesão ou morte para alguém. Diariamente. segundo as regras do direito. até inconscientemente. Como se vê. de que o outro diretamente se aproveita. Graficamente podem ser ilustradas assim: >. as suas características e o que podem gerar. como a família e o Estado. ônibus. será a transportadora obrigada a indenizar os prejuízos. envolvendo danos emergentes e lucros cessantes. não precisando usá-la para sua própria moradia ou instalação. podem ser reduzidas a dois tipos: atividades de cooperação e atividades de concorrência. Envolvem fins ou objetivos comuns. tudo aquilo que a vítima efetivamente perder e aquilo que deixar de ganhar em razão do acidente. O mesmo se diga do indivíduo que tem um prédio e. As primeiras caracterizam-se pela convergência de interesses. Um indivíduo desenvolve uma atividade qualquer. realizam. através do qual. pelo restante de sua sobrevida. 12] em adquiri-las. mediante o simples pagamento da passagem. 7. coopera na realização dos interesses dos outros. Os interesses dos dois convergem para um ponto comum. quer entre o indivíduo e o grupo social. necessita delas. e à medida que se empenha na realização dos seus interesses. cooperando assim cada qual na realização do interesse do outro. segundo a magistral lição de San Tiago Dantas. entretanto.Tenha ou não consciência disso.

. fins semelhantes.2. São concorrentes. sob muitos aspectos. Há reciprocidade de interesses entre o locador e o locatário. [p. estabelecidos na mesma rua e no mesmo ramo de comércio. independentemente. embora tenham objetivos idênticos. uma concorrência. necessitando de um prédio para morar. um em relação ao outro. Graficamente podem ser ilustradas assim: =. de sorte que. 7. uma visando a exclusão da outra. p. dão-nos um exemplo de atividade de concorrência: eles poderão explorar seu comércio indefinidamente sem entrar em choque. Outro indivíduo. esta forma revela atividades paralelas. no sentido de que perseguem. ou para obter outra mercadoria em perfeito estado. A lição de Paulo Nader bem sintetiza o que dissemos até aqui: “Na cooperação as pessoas estão movidas por um mesmo objetivo e valor e por isso conjugam o seu esforço. 23). verifica o comprador que há algum defeito que impede ou prejudica seu uso. à medida que cada qual desenvolve sua atividade. O CONFLITO DE INTERESSE E A SUA COMPOSIÇÃO Tanto nas atividades de cooperação como nas de concorrência podem ocorrer conflitos de interesses. 13] após pagar o preço e receber a mercadoria. que os colocam. Na competição há uma disputa. mas este se recusa a atendê-lo. já que não o possui. em que cada pessoa ou grupo procura reunir os melhores trunfos. Características da Atividade de Concorrência Há paralelismo nas atividades de concorrência. cit. Na atividade de cooperação. sem a interferência ou colaboração do outro.de aluguel. Procura então o vendedor para devolver o material e receber de volta o valor pago. dois indivíduos. pois não convergem para um interesse comum. coopera na realização do interesse do outro. nesta espécie. A interação. ainda que concorram entre si. em que as partes procuram obter o que almejam. O médico. 8. Outro exemplo encontramos em dois proprietários de prédios vizinhos: cada um pode usar sua propriedade como quiser. nunca se encontram. o advogado e outros profissionais liberais desenvolvem este tipo de atividade em relação aos seus clientes. Dois comerciantes. se faz indiretamente e. para a consecução de seus objetivos. Nesse momento rompe-se o perfeito equilíbrio que deveria haver na atividade de cooperação. por sua vez. propõe-se a pagar o aluguel pretendido pelo locador. em posição de competidor ou concorrente. Uma das grandes características da sociedade moderna. positiva (ob. e surge o conflito. Nelas. desenvolvem atividades independentes. paralelas. por exemplo. A interação se manifesta direta e positiva. .

Lembram-se dos proprietários de prédios vizinhos? Vimos que cada um pode usar seu imóvel como melhor lhe parecer: residir nele. por exemplo. Conflitos surgem igualmente nas atividades de concorrência. Sobre o tema. dizendo. danifica os móveis. muito constante nas grandes cidades. O condômino prejudicado [p. o imóvel do andar superior começa a apresentar vazamento no imóvel inferior: umedece as paredes. é característico da atividade de concorrência. após firmar contrato de locação e alojar-se no imóvel. e o proprietário do imóvel B aí se estabeleça com uma lavanderia. enquanto não transpuserem os limites daquilo que lhes é lícito. prejudica o conforto dos que nele residem. entretanto. instalar-se comercialmente etc. a despeito de insistentemente procurado pelo locador. continuarão em harmonia. estabelecidos na mesma rua com o mesmo gênero de comércio. que seus produtos são de baixa qualidade. o caso de dois condôminos residentes no mesmo prédio. um no apartamento 201 e o outro no andar imediatamente superior. ambos situados num bairro industrial e exercendo atividades lícitas. No momento porém em que o comerciante A resolver fazer uma concorrência indevida ou desleal ao comerciante B. moral ou física. e com isso ganhar a clientela do outro. surge um conflito. coloca-o a par da situação. Este tipo de conflito. 14] procura o proprietário do imóvel superior por várias vezes. solicita-lhe uma providência. ou oferecer melhores produtos. a partir de então. Estará rompida a convergência de interesses existente no momento da celebração do contrato e. quando as partes vão além daquilo que lhes é lícito fazer no campo do seu próprio interesse. alugá-lo. onde há uma infinidade de condomínios. estaremos diante de um conflito de atividades de concorrência. Suponhamos por exemplo que o proprietário do imóvel A nele instale uma fábrica que solta fumaça e fuligem. Aqueles dois comerciantes. Cada qual poderá também usar seu imóvel como bem lhe convier. mas este. ou buscam a mediação da justiça. que a sua honestidade é questionável etc. Se o proprietário do imóvel A mantiver em funcionamento sua fábrica. na verdade nada faz. apesar de concorrentes. no apartamento 301. recusa-se a pagar os aluguéis convencionados. Paulo Nader pondera com propriedade: “O conflito se faz presente a partir do impasse quando os interesses em jogo não logram uma solução pelo diálogo e as partes recorrem à luta. embora prometa resolver o problema. por último. ambos estarão em conflito. Podemos defini-lo como .. Pode um deles até vender mais barato que o outro. Consideremos. a lavanderia do imóvel B não poderá funcionar. Entre esses dois estabelecimentos comerciais.Pensemos agora no caso do inquilino que. Um belo dia.

quebra o equilíbrio e a paz social. [p.” Aduz que a função preventiva é exercida para “evitar desinteligências quanto aos direitos que cada parte julga ser portadora. os que ocorrem na atividade de cooperação. para todos. 25). que é uma das bases do progresso da sociedade. Todos os conflitos que podem surgir na vida social são redutíveis a um desses tipos: conflitos de cooperação. À medida que cada um respeitar o disciplinamento estabelecido pelo Direito. em que o maior desafio não é o de como viver e sim o da convivência” (ob. equilíbrio em suas relações. por sua vez. estabelecendo as limitações necessárias ao equilíbrio e à justiça nas relações. mas na realidade assim não é. No conflito a interação é direta e negativa. muito mais para evitar que os conflitos ocorram do que para compô-los. enfim. os que se verificam na atividade de concorrência. e aí está a primeira e principal função social do Direito . O Direito existe muito mais para prevenir do que para corrigir. O Direito só irá disciplinar as formas de cooperação e competição onde houver relação potencialmente conflituosa. O que determina a natureza do conflito é a natureza da atividade. cit. e conflitos de concorrência. FUNÇÃO PREVENTIVA DO DIREITO O conflito gera o litígio e este. cit. não conciliados pelas normas sociais. tanto quanto possível. quanto mais se desenvolve. que deve ter na clareza. A sua finalidade é a de favorecer o amplo relacionamento entre as pessoas e os grupos sociais. simplicidade e concisão de suas regras. estabelecendo regras de conduta na sociedade: direitos e deveres para locador e locatário. p. Ao separar o lícito do ilícito. . como alguém afirmou. algumas de suas qualidades” (ob. 15] Esse é também o entendimento de Paulo Nader. A sociedade não tolera o estado litigioso porque necessita de ordem. o ordenamento jurídico toma possíveis os nexos de cooperação.. tranqüilidade. Isto se faz mediante a exata definição do Direito. Muita gente acredita que o Direito tem um caráter essencialmente repressivo. entre pessoas ou grupos. podendo-se até dizer que lhe são imanentes. tudo faz para evitar ou prevenir o conflito. segundo valores de convivência que a própria sociedade elege. p. Por isso. mais se sujeita a novas formas de conflito e o resultado é o que hoje se verifica.oposição de interesses. a colisão de interesses.prevenir conflitos: evitar. vendedor e comprador. Quanto mais complexa a sociedade. evitará entrar em conflito com outrem na sociedade..” Conclui o prestigiado autor: “Os conflitos são fenômenos naturais à sociedade. 9. 23). repetidamente citado: “O Direito está em função da vida social. O Direito previne conflitos através de um conveniente disciplinamento social.

“Cenário de lutas. Superar um conflito de interesses é aquilo que chamamos composição. o [p. E aí está a segunda grande função social do Direito: compor conflitos. Os litígios surgidos criam para o homem as necessidades de segurança e de justiça” (ob. comportar-se. vejam só. a colaboração. é uma ciência social. cit. visando atender uma necessidade social. isolado. Ela se faz por um amplo relacionamento humano. filhos etc. Aqui é um vendedor que recebe o preço mas não quer entregar a coisa. Se o indivíduo vivesse só. porque nem todos na sociedade submetem-se à disciplina imposta pelo Direito. a sociedade não é simples aglomeração de pessoas. respeitar direitos e interesses dos outros. há que solucioná-lo. pondera Paulo Nader. lamentavelmente.. acolá. igualmente. E como ocorrem! Basta entrar numa Vara de Família para se ter consciência dos conflitos que estão ocorrendo no lar. pois poderia viver e fazer o que bem entendesse. Suas normas são regras de conduta para disciplinar o comportamento do indivíduo na sociedade. a intolerância.O Direito. e. os conflitos seriam tão freqüentes de modo a tomar impossível a vida em coletividade. que gera a amizade. como vemos mais uma vez. pais. . Pois bem: surgindo o conflito. estes acabam por ocorrer.. maior será a possibilidade de conflito. a discórdia. Quanto maior o relacionamento. todas objetivando prevenir conflitos. é inevitável. é natural o aparecimento de conflitos sociais. p. FUNÇÃO COMPOSITIVA DO DIREITO A observância das normas previne muitas ocorrências. Sem essas normas de conduta. 10. que vão reclamar soluções. Até mesmo na família. os membros ligados por vínculos de afeição. um locatário que não quer pagar o aluguel e assim por diante. não necessitaria de regras de conduta. alegrias e sofrimentos do homem. mas que promove. possuindo idênticos instintos e necessidades. Vivendo em ambiente comum. maior também a necessidade de disciplina e organização. portanto. Vivendo porém em grupo precisa limitar-se. quanto mais complexas as relações sociais. 16] amor. A sociedade reclama que as coisas sejam repostas num ponto de equilíbrio em que possam permanecer. com inúmeras normas de direito disciplinando as relações dos cônjuges. as desavenças. de sangue. mas o conflito. o menor e mais forte grupo social. 25).

ob. antes da causa ser submetida ao julgamento do juiz togado. porque isso. a rigor.Em que consiste a composição de um conflito? Não consiste em fazer desaparecer o conflito. como já vimos. Temos ainda a Lei de Arbitragem (Lei nº 9. “O Direito apresenta solução de acordo com a natureza do caso. formas mistas que estimulam e valorizam a participação dos litigantes na composição do conflito. colocar os dois interesses em antagonismo na balança. a Lei dos Juizados Especiais (Lei nº 9. O estudante. Houve um conflito de interesses . imediatamente. determinar a restauração da situação anterior ou aplicar penalidades de diferentes tipos” (Paulo Nader. A maneira de solucionar o conflito é. por mais que se procure preveni-lo. as partes discutem entre si e o resolvem da melhor maneira possível. São. reclama ao vendedor e este. No Brasil.o conciliador ou o árbitro. da qual poderão valer-se todas as pessoas capazes de contratar para dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis.099/95) prevê expressamente (arts. 17] conciliadores. Ao chegar em casa observa que lhe faltam algumas páginas. 11.307/96). Surgindo o conflito. 21 a 24) uma fase de conciliação. seja para definir o titular do direito. substitui o livro defeituoso por outro perfeito. cit.resolvido por meio da composição voluntária. é impossível. O Critério da Composição Voluntária É aquele que se estabelece pelo mútuo acordo das partes. quase sempre atentando para os próprios deveres e obrigações estatuídos pelas normas do direito. volta à livraria. Esse é o sentido de toda composição. uma vez que sempre contarão com a interferência de um terceiro . formas puras de composição voluntária. 2) Critério autoritário. 277/278) como no ordinário (art. e determinar qual o que deve prevalecer e qual o que deve ser reprimido. por exemplo. A conciliação e a arbitragem não são. todavia. O Código de Processo Civil também estabelece uma audiência prévia de conciliação tanto no procedimento sumário (arts. 11. entra numa livraria e compra um livro. 3) Critério da composição jurídica. A mais moderna legislação processual no mundo todo tem estimulado a composição voluntária como forma de aliviar a sobrecarga do Judiciário. p. CRITÉRIOS DE COMPOSIÇÃO DE CONFLITOS 1) Critério da composição voluntária. Não se pode evitar o conflito.. 25). então.1. 331). conduzi da via de regra por [p. .

e implica em dizer que o critério aplicado preexiste ao conflito. Estes dois critérios. do próprio senso de Justiça.11. no caso. lançando mão de soluções que vai buscar em seu foro íntimo. a publicidade e a universalidade. Muito usado este critério nas sociedades antigas. Assim pôde constatar qual era a mãe verdadeira . quando estas atingem sua forma plenamente evoluída. cabe ao chefe do grupo . Normalmente a autoridade lança mão do seu foro íntimo.a anterioridade. O Critério da Composição Jurídica e suas Características A composição jurídica é sempre feita mediante um critério elaborado e enunciado anteriormente. . daquilo que a consciência lhe inspira. ambas reclamando-a como filho. Foi uma solução tirada por Salomão do seu foro íntimo e que.. dando uma metade para cada mulher. menos perfeitas. São pois características do critério jurídico . são imperfeitos e insuficientes para resolver conflitos de interesses que surgem nas sociedades humanas.Rei. vivo. disse. 11. O chefe da família muitas vezes tem de resolver os conflitos de interesses que surgem entre os seus membros. É aí que se apresenta o terceiro critério. Senhor etc. O Rei Salomão mandou trazer uma espada com a qual. A anterioridade é o traço característico e fundamental da composição jurídica. filhos. Cacique. bem solucionou o conflito. iria cortar a criança ao meio. justamente aquele que mais nos interessa. entretanto. saímos do domínio do puro autoritarismo e entramos no domínio do direito. 18] partir de então. Na sociedade de hoje o critério autoritário é ainda utilizado no meio familiar. Deve ter sido elaborado antes para poder ser aplicado ao conflito que ocorrer depois.. para desempenhar a tarefa de compor conflitos. preferindo que seu filho. alguns casos de composição tomaram-se famosos.2. parentes. O Critério Autoritário Por esse critério. fosse entregue à falsa mãe. Graças à anterioridade. Todos por certo já ouvimos falar na justiça salomônica. e na célebre fórmula usada pelo Rei para resolver um conflito entre duas mulheres que disputavam a mesma criança. empregados etc. e aplicável a todos os casos que ocorrerem a [p.aquela que imediatamente se opôs à idéia.3. o poder de compor os conflitos de interesses que ocorrem entre os indivíduos que se encontram sob sua autoridade.

Composição jurídica é somente aquela que obedece a um critério anteriormente elaborado e também previamente dado à publicidade. da produção das riquezas. pois isto implica a universalidade. que acabam por ocorrer não obstante toda prevenção exercida pelo direito.4. Por universalidade entende-se que o critério jurídico nunca pode ser cominado apenas para um determinado caso concreto. que na belíssima lição de Miguel Reale “não é a soma dos bens individuais. Isto ele faz através do adequado disciplinamento das relações sociais. favorece o desenvolvimento da ciência. que podem ocorrer tanto nas atividades de cooperação como nas de concorrência.. p. . tem que ser realizada através de um critério anteriormente estabelecido e perfeitamente enunciado para conhecimento de todos. a rigor. em última instância. promovendo ainda a formação de uma consciência nacional”(ob. Concluindo. Alguns autores preferem falar em generalidade em lugar de universalidade. 27). cit. é necessário que se dê conhecimento do critério antes de sua aplicação. que o critério tenha sido elaborado antes do conflito. Em suma. 19] nem a média do bem de todos. declarado pela autoridade que o elaborou.O que se entende por publicidade? Não basta. para que a composição seja jurídica. na composição jurídica. 59).. tomando-o conhecido. A primeira é a de prevenir conflitos. destacamos as duas principais funções que o Direito realiza na sociedade. é a ordenação daquilo que cada homem pode realizar sem prejuízo do bem alheio. Além de garantir o homem. diz Paulo Nader. da tecnologia. “O Direito. uma posição harmônica do bem de cada um com o bem de todos” (ob. Quer isto dizer que todos os conflitos idênticos que surgirem após a elaboração e divulgação do critério deverão se compor pelo mesmo critério. na atualidade é um fator decisivo para o avanço social. que atenda à universalidade dos casos que se apresentarem dentro do mesmo tipo. a elevação do nível cultural do povo. A Função Social do Direito na Atual Ordem Jurídica Brasileira Cumpre por último registrar que o Direito não desempenha apenas essas duas funções na sociedade. cit. Modernamente a sua missão é muito mais ampla uma vez que lhe cabe. mas sim para todos os casos que se apresentarem com a mesma tipologia. revelado. prover o bem comum. É preciso também que o critério tenha sido anunciado. muito embora este último termo seja mais usado. 11. A segunda é a de compor conflitos. o progresso das comunicações. o bem comum. [p. e isto ele faz através do critério jurídico. p.

Na jornada de Direito Civil promovida pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal foi proposta a seguinte interpretação para esse dispositivo: “A função social do novo Código Civil não elimina o princípio da autonomia contratual. ou pelo menos um direito subjetivo que não tem no arbítrio do titular a sua única medida. Valer-se do direito para colimar resultados contrários à sua instituição. a solidariedade e a harmonia coletiva. enfim. Quem contrata não mais contrata apenas com quem contrata. o jurista Miguel Reale. No artigo 187 do novo Código Civil a função social do Direito é colocada como limite para o exercício de todo e qualquer direito. o exercício de todo direito subjetivo está condicionado ao fim que a sociedade se propôs: a paz. p. pois não poderá. III. inaugurando um novo tempo no mundo negocial. além do qual se toma abusivo. 2a ed. 422 ao dispor que a liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato. a ordem. 20] ao bem comum. igualitária e solidária . é o instrumento de organização social para atingir essa finalidade. a visão social do Direito . eis o abuso do direito” (Conflito de Vizinhança e sua Composição. hoje. 170. III. mais do que um direito subjetivo. 5°. Forense. menos individualista. 186). O novo Código Civil.A atual ordem jurídica brasileira dá grande ênfase à função social do Direito. dos mais simples aos mais complexos. porque o Direito. contrata também com a sociedade. cuja trilha foi seguida pelo nosso Código de 1916. em caso algum. ter afirmado que a socialidade é uma das suas principais características. Exige dos contratantes uma postura mais humana.o Direito como instrumento para a construção de uma sociedade mais justa. 182. o que se concede ao indivíduo é uma proteção jurídica. Pode-se afirmar que a passagem do individualismo para o social é a característica essencial da evolução jurídica do nosso tempo.foi a grande motivação do novo Código Civil. San Tiago Dantas assinala: “Pode-se dizer que. Em outras palavras. XXII. repita-se. e que altera substancialmente o conteúdo da atividade contratual. por sua vez. A função social do Direito é consagrada no novo Código Civil no seu art. Assim como o Código Civil de Napoleão foi fruto do liberalismo do século XVIII. ser exercido contra a finalidade social que a lei teve em mira quando o reconheceu e protegeu.. [p. A Constituição de 1988. . mas atenua ou reduz o alcance desse princípio. § 4°.100). verdadeiro cinto de segurança. prestigia esta questão a ponto do seu grande coordenador. XXIII. Temos ali uma cláusula geral a ser observada em todo e qualquer contrato. ressaltou que terá ela que cumprir a sua função social (arts. quando presentes interesses metaindividuais ou interesse relativo à dignidade da pessoa humana” (enunciado n° 23). ao garantir o direito de propriedade.

e estas nela houverem realizado. Um imóvel rural só atende à sua finalidade social quando utilizado na produtividade compatível com sua potencialidade. 1. 21] . podendo ser encontrado um eloqüente exemplo disto no parágrafo quarto deste mesmo artigo 1. caso em que será fixada uma justa indenização ao proprietário. por mais de cinco anos. [p. com os exemplos citados.e não para a especulação imobiliária.moradia. comércio.Em conformidade com a Constituição. indústria . e não quando destinado a latifúndio improdutivo. mas a um princípio que modernamente alimenta toda a nossa ordem jurídica.. em conjunto ou separadamente. como não poderia deixar de ser. seu estado normal de servir ao ser humano. na posse ininterrupta e de boa-fé.228 do novo Código Civil submete o exercício do direito de propriedade à sua função social. O que se evidencia. Ao falar em finalidade social o diploma civil refere-se ao destino social da coisa. o § lº do art. é que a socialidade não se resume a uma disposição abstrata. O imóvel urbano também tem que ser utilizado em conformidade com a sua potencialidade . Também aqui a finalidade social opõe-se ao individualismo. obras e serviços considerados pelo juiz de interesse social e econômico relevante”. de considerável número de pessoas.228 do Código Civil: “O proprietário poderá ser privado da coisa se o imóvel reivindicado consistir em extensa área. “O direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais”..

finalidade etc. que os “juristas ainda estão à procura de uma definição para o Direito”. é fato social que se manifesta como uma das realidades observáveis na sociedade. deve o estudante considerar todos os elementos dessa coisa. Provisoriedade e mutabilidade das normas de direito. Propomo-nos neste capítulo a explicitar a concepção do Direito como fato social. NORMAS DE CONDUTA Se o Direito. Kant teria afirmado. tais como prevenir e compor conflitos. Origem das normas de conduta: a escola monista e a escola pluralista. não é tarefa simples. 23] 12. a religião. Conceito sociológico do direito. como é sabido por todos. **** O Direito. como já vimos. está ligado à idéia de organização e conduta. Só assim poderá chegar perto da realidade na formulação do seu conceito.. que surge das inter-relações sociais e se destina a satisfazer necessidades sociais. características. É o que procuraremos fazer com relação ao Direito. a cultura. então deve ser ele entendido como um conjunto de normas de conduta que disciplinam as relações sociais. seus requisitos. e então procurar fazer uma descrição de tudo isso. assim como a linguagem. Essa tarefa se toma ainda mais arriscada quando se trata do Direito. formulando um conceito que se enquadre na visão sociológica do Direito. [pg. como já ficou assentado. É fenômeno social. Antes de tentar conceituar qualquer coisa. Conceituar. já no século XVII.Capítulo III CONCEITO SOCIOLÓGICO DO DIREITO Normas de conduta. O . arriscando-se aquele que se empenha em realizá-la a formular um conceito parcial. Características das normas de conduta: a obrigatoriedade e a sanção. lançando mão dos vários princípios expostos nos capítulos anteriores.

pois. Como tem sido assinalado por muitos autores. São também abstratas porque não se referem a casos concretos quando de sua elaboração. é o Direito a única relação inteiramente determinada pela coexistência humana e que se exaure de homem para homem. por exemplo. o grupo versus o indivíduo e o grupo versus outro grupo. isto é.a sociedade e o indivíduo . cabendo à moral a disciplina de suas relações intrínsecas. aplicáveis a todas as relações abrangíveis pelo seu escopo. O caráter de generalidade das normas do Direito faz que este tenha em vista apenas o que na sociedade acontece com mais freqüência. mas sim a casos hipoteticamente considerados.mundo do Direito é o mundo das relações entre os homens. totalmente inócua se tomaria a disciplina por elas imposta. como já assinalado. o Direito não se dirige a pessoas determinadas nem a relações consideradas individualmente. Não somente as relações que se travam entre o indivíduo e outro indivíduo são objeto do Direito. Seria um tiro sem bala. sob pena de o Direito não atingir os seus objetivos. E isso permite.1. [pg. 13. Não regula de forma direta. o prévio conhecimento do critério a ser aplicado na composição dos conflitos e assegura igualdade de tratamento às partes. o contrato celebrado entre A e B em determinado momento e em determinado lugar porque a individualidade dos comandos não é própria do Direito. mas também aquelas que se realizam entre o indivíduo versus o grupo. quando a norma do art. por exemplo. Portanto. o Direito da disciplina das relações extrínsecas do homem. se a observância das normas jurídicas fosse facultativa. não objetiva concretamente o caso de A matar B. com a garantia de que as partes nele envolvidas serão tratadas da mesma maneira. CARACTERÍSTICAS DAS NORMAS DE CONDUTA Trata-se de normas de conduta que se destinam a todos. . Assim. pois na conjugação desses dois elementos . Claro está que.encontramos a sua razão de ser. de observância necessária. 24] 13. mas sim qualquer hipótese de homicídio. 121 do Código Penal incrimina a ação de matar. Por isso são chamadas normas universais ou genéricas. Sabe-se previamente como será resolvido um determinado tipo de conflito se e quando ocorrer. A Obrigatoriedade Em regra são normas obrigatórias. Cuida. E nem poderia ser diferente.

A moral é incompatível com a força ou coação mesmo quando estas se manifestam juridicamente organizadas. entretanto. ou seja. a rigor. Dizemos “eu tenho direito a isso ou àquilo” para indicar algo que nos favoreça. em geral e por definição. Alguns autores. cit. faculdade. liberdade. Ocorre também que. portanto. p. Não é possível conceber-se o ato moral forçado.[pg. elemento fundamental do Direito. e vice-versa. a tal ponto que não lhe sentimos quase o peso. O ato moral implica a adesão do espírito ao conteúdo da regra. embora à primeira vista possa parecer paradoxal. por um movimento espiritual espontâneo realiza o ato enunciado pela norma. Esta. Ninguém pode ser bom pela vio. e não uma obrigação. que. onde muitos autores acreditam reinar a “autonomia da vontade” a coisa não é bem assim. talo nosso condicionamento social. 13. visto ser posto por terceiros aquilo que juridicamente somos obrigados a cumprir. a noção do Direito está intimamente ligada à noção de obrigação. vantagem ou poder. tomou-se necessário estabelecer uma sanção. cria uma obrigação ou dever para outrem. em lugar de obrigatoriedade. Esquecemonos. Para o público em geral. regalia. é a principal diferença entre a norma jurídica e a regra moral. Só temos. pois na realidade também ali essa autonomia move-se dentro de limites extremamente reduzidos. tudo que é oposto à obrigação. . que agem comandados pela vontade. da mesma forma que não sentimos certas imposições físicas.2. na verdade. a palavra direito dá idéia de privilégio. A Sanção O Direito dirige-se a seres dotados de liberdade. como a gravidade.. Pondera o festejado Miguel Reale que “a moral é o mundo da conduta espontânea. Até mesmo no campo do direito contratual. tomamos logo consciência da sua obrigatoriedade pois temos então que responder pelas conseqüências. Então. 44). preferem falar em coercibilidade da norma. entretanto.A obrigação é. do comportamento que encontra em si próprio a sua razão de existir. 25] lência” (ob. É também por isso que se tem afirmado (Kant foi o primeiro) ser a Moral autônoma e o Direito heterônomo. Não percebemos que o Direito é sobretudo obrigação porque estamos habituados a obedecer a suas normas. essas normas correspondem à nossa maneira de pensar e sentir. moral autêntica quando o indivíduo. Como podem as pessoas inobservá-lo. fruto da força ou da coação. para indicar que ela envolve a possibilidade jurídica de coação. na exata medida em que o Direito nos confere um beneficio. No momento em que transgredimos qualquer dessas normas.

uma pequena diferença entre sanção e pena. sanção é a pena abstratamente considerada. havendo aqueles que entendem serem as normas de origem divina. Tal coação é por Vanni (Lezioni di Filosofia del Diritto) vista como força psíquica do direito. entretanto. Para esses destina-se a coação física ou material. [pg. Sobre o grupo social que deve estabelecer as normas de Direito. Sanção é a ameaça de castigo para o transgressor da norma. ORIGEM DAS NORMAS DE CONDUTA Já vimos. assim como na obrigação de reparar o dano causado. e pena é a sanção concretizada. empregando o poder coercitivo de que dispõe para punir o responsável pelo ilícito. da consciência coletiva ou do Estado. em nosso entender. É a chamada prevenção geral. acabando por transgredir as normas.o meio mais eficaz encontrado pela sociedade para tomar a norma jurídica de observância necessária. para todo aquele que descumprir uma norma de Direito. É a possibilidade de coação da qual a norma é acompanhada. É a chamada prevenção especial. exercendo constrangimento sobre a consciência. logo no primeiro capítulo. que esta é uma questão discutida. Por isso alguns teóricos chegam a definir o Direito como um sistema de sanções. embora na prática os autores e a própria lei não a considerem. outros. frutos da razão. . consistente em perda ou restrição de determinados bens. Sanção é a ameaça de punição para o transgressor da norma. na esperança de não ser punida. a sanção é cominada pelo legislador. Para a sociologia jurídica. a sanção exerce uma coação psicológica sobre os indivíduos. É o prometimento de um mal. no empenho de levá-la a respeitar o Direito. A obrigação não pode existir sem sanção. as opiniões se dividem em duas escolas. 26] 14. geradora do temor à pena. livrando a sociedade de sua conduta perniciosa. através da qual consegue o Direito evitar a ocorrência de inumeráveis conflitos. Para uma minoria não basta a coação psicológica. Essa coação psicológica. que se dirige à vontade. É o remédio extremo usado contra uma minoria que não observa as normas. A autoridade pública aplica a pena. Há. faz com que a maioria se conduza dentro dos limites do Direito. ao passo que a pena exerce uma coação física ou material. e a pena é fixada pelo juiz. não há como tergiversar: as normas de Direito emanam do grupo social. e pena já é o próprio castigo imposto.

Gurvitch. sem considerar fronteiras entre Estados nem a nacionalidade dos interessados. regulamentos. A doutrina monista. o nosso Governo. como por exemplo o direito religioso de vários povos. e que ainda existem prescrições.o Estado devidamente organizado -. ultrapassando o caráter de simples regulamentos. sem dúvida.2. A Escola Pluralista A escola pluralista que. com freqüência criam Direito.o grupo político . esta escola entende que apenas um tipo de grupo social. 27] expressão pode outorgar-se normas de funcionamento que. orientada no sentido da formação do Direito. muçulmano. além das que foram impostas pela autoridade política. em fase adiantada do progresso. A mais característica dessas instituições foi o direito mercantil (jus mercatorium). que se encontra mais próxima das teorias de Hegel. Um simples olhar sobre a vida social nos convence de que existiram prescrições jurídicas antes de a sociedade organizar-se em Estado. Mas. o principal adepto da doutrina pluralista é G. sendo igualmente ensinada pelos puristas clássicos. mas não com relação à sociologia jurídica. existe imprescindivelmente. judaico etc. compreende sociólogos e filósofos. além de alguns juristas. Segundo Henri Levy Brühl. 14. catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa. A nossa Assembléia Nacional. adquirem o alcance de verdadeiras regras jurídicas. Inocêncio Galvão Telles. pode ter sua razão de ser no que se refere à ciência do Direito.14. Houve e ainda há direitos supranacionais e infranacionais que não emanam da competência dos órgãos da sociedade global. mesmo nas sociedades já política e juridicamente organizadas. Há aí uma atividade racional. bem sintetiza esta questão na lição que segue: “O Direito é necessário. p. ainda . Os homens. decretos-leis. o direito canônico. Henri Levy Brühl (Sociologia do Direito. através de leis. que a defendeu em diversos trabalhos. que se difundiram em inúmeras regiões. nos termos que aos governantes se afiguram como os melhores para satisfazer as necessidades e exigências da vida. A Escola Monista Englobando quase todos os juristas. Marx e Kelsen. muito divulgado na Idade Média e observado tão escrupulosamente quanto qualquer outra lei nacional.1. intervêm na sua criação. considera que todo agrupamento de certa consistência ou [pg. está apto a criar normas de direito. 29) cita como exemplo de direito supranacional as instituições consuetudinárias profissionais. Não é uma criação arbitrária.

permanecer imutável.. com concepções e visões diferentes da vida. Heráclito. no fim desse tempo. I. 9ª ed. Assim é porque o próprio ser humano está em constante mudança: mudam os hábitos. sofre constantes modificações. 28] queremos que os jovens de hoje se comportem como nós. Imaginemos agora o que se passa nos grupos modernos. PROVISORIEDADE E MUTABILIDADE DAS NORMAS DE DIREITO Os defensores do direito natural. Livraria Petrony. p. Tal concepção. o outro lado do mundo toma conhecimento quase imediatamente. não se ajusta ao ponto de vista sociológico. moda etc. tudo muda. as crianças tornaram-se jovens. pensamentos etc. entretanto. E o grupo. afirmava: “Panta rei” . Foi assim que aconteceu noutros tempos sob a forma de costumes. Mal um fato ocorre aqui. onde há uma constante troca de influências recíprocas possibilitada em razão dos modernos meios de transporte e comunicação. Daí a razão do eterno choque de gerações entre jovens e adultos. costumes. quando esse mesmo grupo se modifica constantemente? . que o grupo social havia sofrido profundas modificações: os adultos envelheceram. os jovens tornaram-se adultos. estáveis e imutáveis. Evidentemente. Se o Direito emana do grupo social. 27). conforme já assinalamos. e vice-versa.que não houvesse esta criação racional e um pouco artificial. o Direito necessariamente brotaria como floração espontânea da sociedade. não pode ter maior estabilidade que o grupo. mesmo assim haveríamos de constatar. vol. Mudamos em nossa maneira de ser e [pg. Se pudéssemos isolar um grupo por um período de dez ou vinte anos. Como pode o Direito. um dos mais destacados. tudo está em constante transformação. do adolescente para o jovem. como é sabido. da criança para o adolescente. Lisboa. e isso mostra o caráter necessário do Direito (Introdução ao Estudo do Direito. embora muitas vezes nem se perceba a mudança. Já os filósofos gregos haviam chamado a atenção para essa permanente mutabilidade das coisas e do próprio homem. que contestávamos na juventude exatamente aquilo que agora pensamos e fazemos. que o considera produto social. consideravam o direito um conjunto de princípios permanentes. O mesmo acontece com hábitos.tudo passa. tanto os que o concebiam como tendo origem na Divindade como aqueles que o entendiam fruto da razão. do adulto para o velho. 15. do jovem para o adulto. as mudanças nos grupos modernos são bem mais rápidas e constantes do que nos grupos primitivos. sendo originário do grupo.

30] . formulamos o seguinte conceito de Direito: conjunto de normas de conduta.. sujeito a constantes modificações. Aqui mesmo em nosso país profundas modificações foram feitas em nossa ordem jurídica para ajustá-la às novas realidades sociais decorrentes das transformações por que passamos nas últimas décadas. empenha-se em compô-los. cit. Tão incontestável é o caráter provisório do direito que alguns adeptos do direito natural conceberam uma noção que denominaram “direito natural de conteúdo variável”. Destaca-se. p.Mudando o grupo. assinalou Levy (ob. podem surgir conflitos e que o Direito se propõe [pg. objetivando prevenir e compor conflitos. o Código de Processo Civil sofreu uma série de alterações e outras precisam ser feitas com urgência. por sua vez. coercitiva. por derradeiro. universais. abstratas porque são elaboradas para casos hipoteticamente considerados. já sofreu mais de quatro dezenas de emendas. espera-se para breve um novo Código de Processo Penal e. quando não consegue impedir que ocorram. obrigatórias e mutáveis. pois o simples confronto com os diferentes sistemas jurídicos do passado ou dos países estrangeiros basta para dar idéia da prodigiosa diversidade das normas de direito aplicadas na superfície do globo. mutáveis porque sujeitas a constantes transformações. mudam-se também as normas de Direito. obrigatórias porque são de observância necessária. 16. A observação. destinadas a disciplinar as relações externas do indivíduo. 33). que em qualquer tipo de atividade realizada pelo indivíduo na sociedade. prova de maneira clara que o Direito está sujeito a transformações contínuas. não tem o Direito caráter estável ou perpétuo. CONCEITO SOCIOLÓGICO DO DIREITO Juntando todas as características até aqui examinadas. razão pela qual. 29] primeiramente a preveni-los. abstratas. Tivemos uma nova Constituição em 1988 que. mas sim essencialmente provisório. do ponto de vista sociológico. [pg. em 2002 entrou em vigor um novo Código Civil em relação ao qual já se fala em mudanças. para não nos alongarmos. impostas pelo grupo e não somente pelo Estado. Trata-se de normas universais porque se destinam a todos. como já ficou demonstrado. seja de cooperação ou de concorrência. impostas pelo grupo social.

sendo o Direito uma decorrência das relações sociais. é um produto de múltiplas influências sociais. não sendo possível. com muita nitidez. culturais e religiosos.Capítulo IV FATORES DA EVOLUÇÃO DO DIREITO Fatores econômicos: influência do fator econômico sobre o Direito Romano e sobre o Direito Moderno. da qual falava Siches. políticos. Inúmeros são pois os fatores sociais que concorrem para a evolução do Direito. **** O Direito. 17. as formas de produ. fazendo-o oscilar. um produto da sociedade. Observa-se aqui. a influência condicionante da sociedade sobre o Direito enquanto fato.[pg.e o grupo está em permanente transformação. Tal como a agulha magnética sob a ação de uma corrente elétrica. 31] ção (indústria. a saber: os fatores econômicos. Outros fatores sociais. Fatores políticos. Inicialmente pode-se dizer que. em nossa opinião. examiná-las todos. neste modesto trabalho. Fatores religiosos. em sua concepção sociológica. FATORES ECONÔMICOS A estrutura econômica de uma sociedade reflete-se diretamente no seu ordenamento jurídico. como vimos no capítulo anterior. mas sim. Não são regras permanentes e inalteráveis. Vamos apenas destacar aqueles que. tudo o que agir sobre a sociedade produzirá reflexo também sobre o Direito. O sistema de propriedade. porque se originam no grupo social. . Fatores culturais: concepção de cultura. sujeitas a constantes modificações. tomando-o um produto de processos sociais (vide capítulo VIII). há fatores que agem sobre o Direito. são os principais.

sua estrutura econômica se transforma”.). 80 e segs.). podemos afirmar. os costumes desses camponeses. 293). sem possibilidade de erro. . Achille Loria (ob. “que dedicou especial atenção às relações entre direito e economia”. Engels. cit. Ora. exclusivamente. com o crescimento da população. pp..tudo isso se reflete na ordem jurídica. que o Direito vai se modificando à medida que vai se alterando a estrutura econômica da sociedade. o resultado”. eram os que mais convinham a agricultores. Assim sendo. entre as forças modeladoras do Direito.. Nesse sentido. criadores do materialismo histórico. Influência do Fator Econômico sobre o Direito Romano Em Roma. cit. Para eles. como por exemplo K. o fator econômico é o que exerce uma influência mais decisiva. o fator econômico era a mola mestra da história. citado por Hermes Lima (Introdução à Ciência do Direito. tinham que tirar da terra o seu sustento. p. a sociedade inicialmente compunha-se de camponeses que viviam da lavoura. o fato econômico é a causa. influenciando-a. na medida em que nos são acessíveis.1. embora não se possa negar que. assinala que “raças e nações as mais diferentes têm de sujeitar-se ao mesmo direito quando são iguais as relações econômicas nelas dominantes e que a nação sofre mutação radical do próprio direito quando. Sem dúvida constitui exagero considerar o Direito reflexo exclusivo da constituição econômica. como observou Levy Brühl (ob. afirma que “todo o desenvolvimento jurídico toma-se inexplicável se o isolam das forças econômicas. A organização social tem o seu ponto básico de articulação no modo pelo qual os homens produzem.agricultura etc. Seligman. Caracterizavam-se por forte concentração de poderes nas mãos do pater famílias e rígida disciplina doméstica. p. possuem e comerciam. da constituição econômica. a situação legal. 17. as relações entre empregados e patrões . os demais fenômenos culturais não passando de simples reflexos superestruturais das forças genéticas armazenadas pelas relações econômicas de produção. 293). Marx e F. ainda que seguido de muito perto pelo político. Tão marcante é a influência da economia sobre o Direito que alguns autores chegam a se posicionar no sentido de conceber o Direito como reflexo.

Novos ramos do direito foram brotando no velho tronco do Direito Civil e aos poucos ganhando autonomia. Lembra Machado Neto (Sociologia Jurídica. no fim do século XVII. multiplicaram-se os sistemas de manumissão de escravos. 244): “A própria instituição da escravidão.Todos os membros do grupo doméstico estavam submetidos à autoridade do chefe. industrial. Uniam-se todos em tomo do pater familias para a produção dos bens necessários à sobrevivência do grupo. Aos poucos foram surgindo os grandes organismos econômicos. os agricultores romanos tomaram-se comerciantes. do trabalho. entraram em contato com outros povos. acarretando isso tudo um tremendo abalo na ordem jurídica. Surgiu uma nova classe. e sobre a condição jurídica do homem trabalhador em particular. Lançaram-se ao mar. outro meio para libertar a mulher casada da autoridade do marido . nem autonomia. tais como o direito comercial. A organização da família tomou-se menos rígida. nacionais e multinacionais. 33] . Encontrou-se um meio para liberar o filho da tirânica autoridade do pai . Os demais membros [pg.o casamento sine manu. em decorrência do enfraquecimento correlativo dos proprietários de terras. 32] não tinham qualquer iniciativa.2. Influência do Fator Econômico sobre o Direito Moderno Algo idêntico ao ocorrido em Roma desenvolveu-se quando da criação da grande indústria e do maquinismo. sua substituição pelo servilismo durante o regime feudal e sua posterior superação pelo assalariado na moderna sociedade burguesa.a emancipação. Essa modificação na estrutura econômica imediatamente repercutiu no direito. Tal direito estava perfeitamente adequado a uma sociedade de pequenos agricultores.” [pg. p. Aí pelo III século antes de Cristo. econômico etc. dedicaram-se com grande intensidade à compra e venda de mercadorias. são transformações econômicas de repercussão imensa sobre o status pessoal em geral. passando a ser submetida ao controle da sociedade global e não mais exclusivamente ao pater familias. os estrangeiros deixaram de ser tratados como inimigos e passaram a ser amigos. o único dotado de capacidade jurídica. o formalismo atenuou-se com a introdução da noção de boa-fé no direito. enriquecida pela posse de capitais mobiliários. indispensável no comércio. e operações foram inventadas para as quais o simples consentimento podia gerar obrigações. 17. A burguesia ascendeu ao poder político. não importando idade ou situação social.

apresentarão peculiaridades. não foge à regra. na estrutura jurídica atual. dependendo dos fatores políticos vigentes. longe de ser o responsável pela gênese do direito. Por isso já houve quem identificasse Estado e Direito (vide Teoria Marxista. voltamos a enfatizar que do ângulo sociológico em que nos situamos há uma nítida distinção entre o Direito e o Estado. tanto na função e estrutura jurídicas. Ed. p. bem como as funções e atribuições do Estado. abrangendo as relações entre o indivíduo e o Estado. tributário etc. O próprio Direito Penal. É que os juristas enfocam o direito exclusivamente pelo ângulo da ciência jurídica. é apenas um evento que exerce uma reação grave e imediata. principalmente no que diz respeito aos crimes contra o patrimônio. Sem entrar em polêmica. apresentam inegável repercussão econômica: o Direito Civil. este se realizando socialmente através daquele. como já o fazia Kelsen. veremos que é exatamente através da regulamentação jurídica que o Estado as exerce. razão pela qual sua teoria foi tão mal compreendida pelos sociólogos. do trabalho. assumirão aspectos variantes. pelo seu aspecto normativo puro. 1949. 18. modernamente é utilizada para designar a ciência e a arte de governar. como observou Nordi Greco (Sociologia Jurídica. Atalaya. monárquico. Segundo o regime em que se vive. que mantém maior distância do econômico. bem como o Direito Administrativo e o Direito Fiscal . as relações entre empregados e patrões etc. sucessões. na parte que se refere às obrigações.. falimentares e a ordem econômica. o regime político de um país exerce influência direta sobre suas regras de Direito Público e até de Direito Privado. ] . Por essa razão. o Direito Constitucional . direitos reais.Cumpre ainda assinalar que.a sua dinâmica. Se bem examinarmos o conjunto de atribuições do Estado. de maior ou menor rigidez. 310). o direito comercial. A aparição do poder político. primeiro capítulo) e ainda hoje é a perspectiva da maioria dos juristas em face do Estado. as relações dos Estados entre si. feudal ou democrático. FATORES POLÍTICOS A palavra política. como sobre o conteúdo do direito.a estática do Estado. a aquisição e o uso da propriedade. [pg. aristocrático. A própria organização da família. embora ligada etimologicamente a polis (cidade). contratos. a livre iniciativa comercial ou econômica. embora não se possa negar a proximidade em que se situam.

das revoluções de 1930 e 1932. pois a revolução implica adesão social. Imbuído pelo chamado espírito revolucionário. refletindo as novas tendências políticas. Mal concluída a tomada do poder pelo grupo revolucionário. É com essa mudança efetiva que a revolução se completa. o grupo que destituiu os governantes e assume o poder deve iniciar o trabalho de reformulação social.. 1891. e assim até mesmo no Brasil. 161). assim no mundo contemporâneo. Pressupõe idealismo. igualmente de grande repercussão social . que significou a superação de uma questão social. p. de acordo com a filosofia preconizada. 1937. como lembrou Machado Neto (ob. A influência dos fatores políticos sobre o Direito toma-se mais patente no caso de revolução. “é um acontecimento político motivado pela insatisfação social quanto às instituições e regime vigentes. a quarta. do advento do fascismo e [pg. A revolução.O atual momento político brasileiro oferece eloqüente exemplo disto. Se o movimento contraria o sistema de legalidade do Estado. cit. com a Declaração dos Direitos do Homem e a Legislação Napoleônica. surge um Direito novo. da república. com o que se fecha o ciclo revolucionário.a reforma do Judiciário. A possibilidade de instauração de um novo Direito. Caracteriza-se por dupla ação: intelectual e de força. possui o poder de instituir uma nova ordem jurídica.. a terceira. em uma ideologia que se pretende implantar na organização social. 35] do Estado Novo. da redemocratização do país . como as da Previdência e a Tributária que afetarão muitos milhões de brasileiros. assim foi em Roma com a Lei das XII Tábuas. A primeira resultou da revolução da independência. pois a luta revolucionária exige um novo instrumental jurídico capaz de dar validade e eficácia às transformações que visa a operar no quadro social” (ob. a quinta. o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva arregimentou forças políticas para realizar profundas reformas constitucionais. substituindo aquele que servia de sustentáculo normativo ao sistema social. sendo ainda certo que outras estão em andamento. A legitimidade do Direito criado baseiase no apoio popular. no que diz respeito às nossas constituições de 1824. que estabeleceu uma nova relação entre patrícios e plebeus. 1934. cit. Tão logo chegou ao poder o Partido dos Trabalhadores. político e econômico contra o qual a revolução se lançou. decorrentes da vitória da revolução francesa. notadamente o Constitucional. que se funda em novas concepções. 56). traz no seu bojo a intenção de legitimar e justificar o poder. a Política e a Trabalhista. 1967 e 1988. é básica. Assim foi na Grécia com a Legislação de Sólon. 1946. Esse novo Direito. p. anota Paulo Nader. assim no mundo medieval com a Magna Carta (1215). a segunda.

Pois o direito de cada um desses povos reflete o aspecto cultural em que mais se desenvolveram. mencionados por Machado Neto (ob. por exemplo. cit. sua tendência ou dom natural.” 19. como é sabido por todos.1. constataremos imediatamente a necessária harmonia existente entre a ordem jurídica e os fatores de cultura. os fenícios pela navegação. a sexta. pela cultura. pp.após a guerra que derrotou o fascismo no plano internacional. exerceu influência decisiva. A conquista da Grécia.” 2) “Criam-se condições objetivas para o aparecimento gradativo da distinção entre direito público e privado: o primeiro como a regulamentação da conduta dos indivíduos naqueles pontos que mais de perto dizem respeito ao interesse coletivo ou estatal. O direito evolui acompanhando a evolução cultural. necessariamente.” 3) “Aparecimento das condições objetivas para o direito separar-se das normas sociais: o direito passa a ser a norma estatal por excelência. quando esta é realizada diretamente pela sociedade e pelos diversos grupos sociais extra-estatais. 156). Roma pelo direito. sobre o direito. Da norma indiferenciada passa-se à centralização jurisdicional e daí à centralização legislativa. da redemocratização do Estado Brasileiro. os hebreus pela religião. a ponto de podermos afirmar ser ele o aspecto cultural de um povo. em que o interesse dominante é o dos particulares. mas também nas suas instituições jurídicas. Cada povo tem sua peculiaridade. 19. da revolução de 1964. lembrado por Machado Neto (ob. e o segundo. destacamos as seguintes: 1) “O direito sofre. [pg. há influências recíprocas sobre o direito de cada um. cit. FATORES CULTURAIS Se compararmos o direito de uma sociedade culturalmente desenvolvida com o de outra inculta.. A Grécia. a moral e as normas do trato vão aparecer como as formas específicas da socialização. Dentre as principais conseqüências da atuação dos fatores políticos. 305-306). 36] . notabilizou-se pela arte. que bem ajuda nessa tarefa de conceituar a cultura. o impacto de uma tendência centralizadora.. e quando a cultura de um é colocada em contato com a de outro. a última. p. não apenas nas artes e na literatura romanas. O Que é Cultura? Há na mitologia grega um personagem.

Nos tempos modernos. por ele adquiridas em sua condição de membro da sociedade”. criar a arte. subtraiu um archote do carro flamejante de Zeus e deu-o de presente à humanidade. o direito e a religião [pg. “cultura é o conjunto de conhecimentos. pele de animais em vestuário. jurídicas e de costumes. realidade somente possível graças ao progresso científico dos tempos modernos. Cultura é isso. Para o homem nada restou. a técnica. a ciência. citado por Hermes Lima (ob. pois com base nos conhecimentos que adquiriu e desenvolveu. das Telecomunicações etc. transmitindo-se a outras gerações como autêntica herança social. a autoridade.. Falamos hoje em Direito Espacial. como ocorreu nas últimas décadas com a China. tudo aquilo que lhes era necessário para a sobrevivência: dentes fortes e agudos. a intercomunicação social é poderoso fator de formação e desenvolvimento cultural. a filosofia. p. levar ao infinito os seus conhecimentos. cit. Indignado com a ousadia de Prometeu. ficando ele nu e desamparado na natureza. disciplinar a lavoura. 37] emanavam da mesma . acorrentando-o ao Cáucaso. pêlos abundantes. o direito. a música. onde um abutre vinha periodicamente devorar-lhe o fígado. com pena do homem. artes. São conhecimentos que vão se formando. enfim. 13). a religião.. um fenômeno cultural. o direito não se diferenciava da religião. amigo dos homens. força descomunal. espinhos. metais encontrados na natureza em máquinas e instrumentos agrícolas. domesticar os animais.Quando da criação do mundo. o homem transformou pedra em machado. de regras morais. cultura é tudo aquilo que o homem acrescenta à natureza. Nuclear. Na verdade assim foi. 20. Assim agira Zeus porque sabia que. capaz de transformar em utilidade. ao passo que o isolamento retarda o progresso da cultura do povo. Numa definição simplista. Foi então que Prometeu. de criatura passaria a criador. Com o seu desenvolvimento cultural conseguiu dominar as forças da natureza. em armas de defesa e ataque. tudo aquilo em que colocasse as mãos. está no fato de surgirem novos ramos do Direito à medida que se expande o mundo cultural do povo. chifres pontiagudos. o rei dos deuses submeteu-o a cruel castigo. FATORES RELIGIOSOS Nos povos antigos. A maior evidência de ser o Direito uma manifestação de cultura social. cascos resistentes. seus protegidos. o homem se tomaria um verdadeiro semideus. Na definição de Taylor. crenças. gerando a estagnação e a imobilidade. carapaças. e de quaisquer outras aptidões do homem. Praticamente se confundiam porque o poder. destreza invulgar etc. Epimeteu conseguiu para os animais. de posse do fogo divino.

ainda hoje estão profundamente impregnados de religião. ou entre o homem e o grupo. caldeus. a exemplo do que ocorre no Mundo Islâmico. mesmo os sistemas jurídicos leigos. jurista e sacerdote. repletas de rituais. estado jurídico da mulher etc. portanto. com a consciência pessoal. homens talhados para tal ofício pela natureza das ocupações que desempenhavam nas sociedades rudimentares. ao passo que o direito trata do foro externo. Hoje. 20. código e livro sagrado. inacessível ao povo. este partilhava do poder.1. Os sacerdotes contavam com a crença popular que os considerava inspirados pelos deuses. sob o impacto de civilizações mais adiantadas. processo e ritual. preceitos e proibições de ordem religiosa. . As legislações eram. hebreus. filiação. Influência da Religião sobre o Direito Alguns sistemas jurídicos. Em alguns povos. Os primeiros intérpretes do direito foram os sacerdotes. Quando o chefe político não era também o líder religioso. onde religião e direito não se confundem e a Igreja está separada do Estado. o direito disciplina as relações sociais que se travam entre o homem e o homem. Como exemplo lembramos as transformações ocorridas no Direito romano. o direito foi se separando da religião . exercendo imensa influência sobre o povo.divindade. lei e tabu. Na Idade Média. Entretanto. a religião continuou exercendo largamente a sua influência. conselheiros). e quase sempre estavam centralizados nas mãos da mesma pessoa. Somente após um lento e prolongado processo de secularização.. quando se defrontou com as idéias cristãs nos séculos III e IV de nossa era. no que diz respeito a casamento. Tinham a posse dos postos de comando (legisladores. pode-se dizer. tal como entre os povos antigos. de um modo geral que a religião se ocupa com o foro íntimo. transmitindo-se de pai para filho o monopólio de conhecer o direito. onde regras jurídicas e religiosas praticamente se confundem. crime e pecado. convertendo-o em ciência de iniciados. torna-se difícil distinguir legislador e profeta. como os egípcios. e cercavam o direito de um formalismo terrível. chefes militares. não deixam de receber a influência constante dos fatores religiosos. o que correspondia à posse também da riqueza e dos privilégios.o mundo profano do sagrado. divórcio. quando da formação do Direito canônico. Tudo era conservado em segredo na mesma família. a religião se preocupa com as relações entre o homem e a divindade. pena e purgação do pecado.

culminando [pg. 38] com a criação de novas instituições. Nos dias atuais, os países onde predomina o protestantismo são bem mais liberais para com certos assuntos jurídicos do que aqueles onde predomina o catolicismo. O divórcio, por exemplo, foi aprovado no Brasil depois de longa e sistemática campanha contrária que a Igreja Católica lhe moveu. E até hoje não temos leis regulamentando o controle da natalidade em razão da acirrada oposição que setores conservadores religiosos lhe fazem.

20.2. Outros Fatores Sociais

Esses são os principais fatores sociais da evolução do Direito, mas como estes, muitos outros existem a exercer idêntica influência, pois, sendo o direito um fenômeno social, atuam sobre ele todos os fatores que atuam sobre a sociedade. O clima, o território, o número de habitantes, os recursos naturais, os grupos organizados, e a própria opinião pública despertada pela mídia a respeito de algum caso rumoroso, são outros tantos fatores da evolução do Direito. Serve-nos de bom exemplo o recente Estatuto do Desarmamento que, ao promulgá-lo, o Presidente Lula disse que essa nova lei “expressa a vontade unânime da sociedade”. Há, na realidade, a generalizada convicção de que a quantidade de armas em circulação, em poder da população, é causa direta dos altos índices de violência. Pelo menos a maioria dos homicídios não ocorreria se o agressor não estivesse armado, o que já não seria pouco. Em vinte anos (1979/1988) meio milhão de pessoas foram assassinadas no Brasil, segundo levantamento do Ministério da Justiça. Esse número de homicídios representa metade dos mortos nos oito anos de guerra Irã-Iraque, na década de 1980, e a sexta parte dos mortos na Guerra do Vietnã, um dos conflitos mais violentos do final do século XX. Entre os países que não enfrentam guerra civil, o Brasil detém o recorde de mortes por arma de fogo. Em termos absolutos, o estado mais violento é São Paulo, palco de 6.429 assassinatos entre janeiro e junho de 1999. Em seguida vem o Rio de Janeiro com 3.045 homicídios. Segundo o ex-ministro da Justiça Renan Calheiros, o Brasil é o campeão mundial em homicídios. Afirmou ele ainda que mais de 90% desses homicídios, em que criminosos e vítima não se conhecem, não são esclarecidos (O Globo, 18.07.2000). Entretanto, a aprovação da Lei do Desarmamento não foi nada fácil. O Presidente Fernando Henrique não conseguiu fazer andar o seu projeto de lei a respeito da matéria, mesmo depois de fazer do envio da mensagem ao Congresso uma festa pública e um compromisso. O Lobby contra o projeto, [pg. 39] organizado principalmente por fabricantes de armas e munição, foi mais forte. Para vencer essa resistência foi necessária uma grande

mobilização da opinião pública, para o que a mídia e as associações civis muito contribuíram, organizando e divulgando grandes manifestações em passeatas, no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. A batalha, entretanto, não está ganha. A lei precisa ser regulamentada, e os lobistas das armas certamente voltarão à luta para tentar influir nessa etapa. E a regulamentação pode decidir a sorte da legislação. Como disse Rubem César Fernandes, diretor do Viva Rio, “é fácil a lei não pegar: basta todo mundo achar que a batalha já está ganha”. Com efeito, daqui a menos de dois anos haverá um referendo popular que decidirá sobre a proibição ao comércio de armas no país. Se a opinião pública não continuar informada e motivada tudo poderá retomar à estaca zero. Concluímos este capítulo com as palavras do saudoso e sábio Oscar Tenório, “a vida das normas jurídicas não é eterna; elaboradas para as relações dos homens em sociedade, têm o seu destino condicionado ao substractum social que elas disciplinam e ordenam” (Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro, Borsoi, 1955, p. 64). As mudanças na sociedade mais cedo ou mais tarde refletem em mudanças na legislação em vigor ou em uma nova interpretação dada a normas anteriores. [pg. 40]

Capítulo V

FONTES DO DIREITO
Conceito de fonte e espécies: fontes materiais ou de produção; fontes formais ou de conhecimento. As fontes mais importantes do ponto de vista sociológico. O costume - conceito e elementos. Origem e expansão do costume. O papel do costume. Espécies de costume. A jurisprudência: o papel da jurisprudência em Roma e nas sociedades modernas; o papel da jurisprudência nas sociedades legalistas. Exemplos de jurisprudência transformada em lei. Relação entre a jurisprudência e o costume. A lei. Semelhança e distinção entre a lei e o costume. Sistema preferido - o costume ou a lei?

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O tema relacionado às fontes do Direito é normalmente abordado por todas as obras de Introdução à Ciência do Direito, decorrendo daí a indagação: por que também examiná-lo num compêndio de Sociologia Jurídica? É que a Sociologia Jurídica, como já vimos, enfoca o Direito por aspecto próprio, peculiar - o fato social, e disso decorrem pontos de vista especiais com relação às suas fontes. Teremos oportunidade de ver que as principais fontes do Direito para a Sociologia Jurídica não são as mesmas para a Ciência do Direito, que o enfoca pelo aspecto normativo. Ademais, o exame do tema proposto ajudará o estudante a ver com mais clareza as distinções entre a Sociologia Jurídica e a Ciência Jurídica. 21. CONCEITOS E ESPÉCIES A palavra fonte etimologicamente (fons, fontis) está ligada a fenômenos da natureza, indicando a origem ou nascimento de um curso de água. [pg. 41] Em direito a palavra liga-se também à idéia de origem, nascimento, mas pode ser empregada em duas acepções diferentes: histórica ou documentária e dogmática.

No sentido histórico ou documentário, consideram-se fontes todos os dados ou elementos de qualquer natureza que nos tragam alguma informação sobre o direito e as instituições jurídicas presentes ou passadas. Assim, por exemplo, serão consideradas fontes: manuscritos antigos, papiros, inscrições, monumentos, material arqueológico, desde que forneçam informações sobre o direito. No sentido dogmático, o que nos interessa no momento, a palavra fonte designa a origem, a procedência, o elemento gerador, a causa de algo - neste caso, o direito. Quando falamos em fonte do Direito, portanto, estamos nos referindo a tudo quanto concorra para a sua existência, seu aparecimento e formação. Costuma-se classificar as fontes do Direito em materiais e formais. As fontes materiais são assim chamadas porque, na realidade, materialmente falando, são as responsáveis pela elaboração do Direito. A palavra material vem de matéria, substância, essência, razão pela qual é usada para indicar aquelas fontes que verdadeiramente têm substância de fonte. Se lhe examinarmos o conteúdo, veremos que o Direito é aí elaborado. Por isso as fontes materiais são também chamadas fontes substanciais ou de produção. As fontes formais, por sua vez, são assim chamadas porque de fonte só têm a forma; nada, porém, de conteúdo. Aparentemente o Direito tem origem nas fontes formais, mas na realidade elas apenas o tomam conhecido. Por isso são também chamadas fontes de conhecimento. Se pudéssemos usar uma figura nada ortodoxa, diríamos que o Direito é produzido nas fontes materiais e embalado e distribuído pelas fontes formais. Para o sociólogo, portanto, ao contrário do jurista, as fontes formais não passam de meios de exteriorização, ou de conhecimento do Direito elaborado pelas fontes materiais, as únicas que realmente merecem a designação de fonte.

22. FONTES MATERIAIS OU DE PRODUÇÃO

As fontes materiais podem ser: imediata (que está mais próxima) e mediata (mais distante). Fonte material imediata são os órgãos legiferantes do Estado, ou seja, aqueles que, segundo a ordem constitucional, têm a função de legislar, tanto no Poder Legislativo como no Executivo. Fonte mate- [pg. 42] rial mediata ou remota é a sociedade, pois, conforme ficou demonstrado na primeira parte deste trabalho, o Direito emana do grupo social. De acordo com a lição de Paulo Nader, “o Direito não é um produto arbitrário da vontade do legislador, mas uma criação que se lastreia no querer social. É a sociedade, como centro de relações de vida, como sede de acontecimentos que envolvem o homem, quem fornece ao legislador os

sendo a lei a mais importante fonte formal. suprema. enfoca o Direito pelo aspecto normativo. indicando um comportamento idêntico pelos membros da comunidade. [pg. cit. Significa isto dizer que. objetivo. pelos problemas que emergem na sociedade e que são condicionadas pelos chamados fatores do Direito. a Geografia entre outros” (ob.elementos necessários à formação das estruturas jurídicas. AS FONTES MAIS IMPORTANTES DO PONTO DE VISTA SOCIOLÓGICO Se o Direito é um fato ou produto social do grupo como grupo. porque a imediata (órgãos legislativos) é matéria do Direito Constitucional. tomando-se conhecido. o próprio grupo humano. exterioriza-a através do costume. uniformes e constantemente repetidos. A principal (e única para alguns) fonte material é o Estado. . é representado por uma série de atos semelhantes. p. é preciso uniformidade na série de atos. começando por aquela que merece a preferência da sociologia. 138). Entre as fontes formais. Como causa produtora do Direito. sendo a primeira constituída pela lei e as outras pelos costumes e a jurisprudência. Esta é a fonte primeira. e a mediata (a sociedade) já foi estudada em Sociologia Geral. a expressão autêntica da consciência jurídica social. não bastando a repetição de atos diferentes. 23. Tão logo a sociedade elabora uma determinada forma ou regra de conduta. As fontes formais ou de conhecimento também se dividem em imediata e mediata. as fontes materiais são constituídas pelos fatos sociais. de natureza material. viva. as coisas não são bem assim. sem a qual não haveria que falar em Direito. como a Moral. 24. É a maneira pela qual o costume se exterioriza. Já para o jurista que. como vimos. os órgãos legislativos. Vamos pois nos ocupar apenas com as fontes formais. claro que para o sociólogo a fonte material mais importante é a sociedade. a Economia. que essa repetição seja constante. o costume merece a preferência da sociologia jurídica porque constitui a primeira e principal manifestação do Direito criado pela sociedade. O COSTUME . para haver costume.CONCEITO E ELEMENTOS Há dois elementos constitutivos nas normas do direito consuetudinário: o externo e o interno. 43] O elemento externo.. Não vamos tratar neste trabalho das fontes materiais ou de produção.

. O elemento interno. e vai sendo transmitido por tradição oral. Trata-se de elemento subjetivo e consiste na consciência da obrigatoriedade da norma. praticada com regularidade e certa duração. Vai sendo formado paulatinamente pela própria sociedade. ajustam-se e começam a se expandir. Evolui no tempo e no espaço. é a conduta social reiterada de forma constante e uniforme. 44] para suprir suas necessidades. ou com uma relação social que ainda não se encontra suficientemente disciplinada. no convencimento íntimo de que a prática de tais atos representa uma necessidade coletiva. gradativa. 145). É por isso que se diz que o Direito costumeiro é um Direito anônimo por excelência. praticada pela generalidade do grupo e não apenas por alguns dos seus membros. que a prática constante e uniforme seja também geral. de natureza psicológica. é a convicção jurídica de que a observância dessa prática corresponde a uma necessidade de direito. ob. necessária. Verifica-se assim que o costume é de formação livre. pois a coletividade só começa a ter um comportamento constante e uniforme quando intimamente convenci da de que esse comportamento é adequado às suas necessidades jurídicas. que vai se consolidando em virtude das forças da imitação do hábito. Está formado o costume. Com o correr do tempo a maioria do grupo passa a adotar aquela mesma forma de proceder.ininterrupta. adquirindo um caráter eminentemente histórico. É principalmente sobre este segundo elemento que se funda a razão da obrigatoriedade do costume. 24. com a consciência de que correspondem a uma necessidade jurídica. Alguém no grupo se depara com um fato. Para elaborarmos agora o conceito de costume basta juntarmos os seus dois elementos.1. não sendo suficiente a repetição eventual. . mas algumas pegam. que atende às conveniências sociais. por ser de necessidade jurídica. quase sempre em determinado meio sócio-profissional. [pg. A maioria das idéias morrem no nascimento por não apresentarem qualquer inovação ou utilidade prática. de acordo com as condições sociais do grupo no qual se formou. isto é. Imagina então um meio de resolvê-la: tem uma idéia e a coloca em prática. Em outras palavras. cit. difusa. Origem e Expansão do Costume Surge o costume de uma necessidade social. e teremos: costume é a repetição constante e uniforme de determinados atos pelos membros de certa comunidade social. p. ou de comportamentos exemplares (Miguel Reale. por estar convencida de que é a maneira correta. é um Direito sem paternidade. espontânea.

é o costume manifestar-se das duas maneiras: à medida que vão caindo em desuso as normas ineficazes. toda a vida social estava alicerçada no costume. não mais atendendo às necessidades sociais. mesmo no sistema legalista. podem ser positivas e negativas ou omissivas. 24. nos quais o Direito se revela prevalentemente pelos costumes e pelos precedentes. ineficazes. a sociedade vai elaborando outras normas de comportamento destinadas a substituí-las. bem como a Lei das XII Tábuas (apontadas como as primeiras leis escritas) são uma consolidação de usos e costumes dos povos da Babilônia e do Lácio. Essas manifestações. base legislativa. Miguel Reale observa que o Código do Rei Hamurabi. em face de uma lacuna no ordenamento jurídico. O Papel do Costume Nas sociedades modernas.Já vimos que o costume manifesta-se exteriormente por atos. 45] grupo. entretanto. determinando o que deve ser seguido e observado pelo grupo e distinguindo-o daquilo que deve ser evitado e não praticado.common law. estando as normas desatualizadas. escritores. ultrapassadas. é de se reconhecer que nem sempre isso foi assim. “o costume é uma força produtora do Direito em todas as fases do . Indiscutivelmente. São positivas quando. Embora o papel dos costumes nos países da civil law não tenha a relevância que tem nos países da common law. Direito positivo escrito. Mesmo depois do surgimento da legislação. a primeira regulamentação da vida social foi feita através dos costumes. que ainda não conheciam a lei. Ao lado desse sistema. razão pela qual é acolhido pelos tribunais. Nas sociedades primitivas. As nações latinas e germânicas adotam o sistema de tradição romana – civil law. São negativas ou omissivas quando. a sociedade vai paulatinamente deixando-as em desuso. um procedimento destinado a supri-lo. o costume não perdeu completamente sua força. fundado no primado da Lei. e desta forma vai criando o direito. Continua sendo elemento que condiciona os conceitos de bom e de mau. que reside no fato de ser elaborado pelo próprio [pg. doutrinadores e tratadistas. um fato ainda não devidamente disciplinado. O mais comum.2. a sociedade cria uma regra. temos a tradição dos povos anglo-saxões . existem dois tipos de ordenamento jurídico. que constituem seu elemento objetivo. Segundo o próprio Clóvis Beviláqua. desta forma destruindo o direito. como do conhecimento geral. entretanto.

o desuso é espécie do gênero costume contra legem. dando-lhe interpretação mais conforme às necessidades sociais”. com recomendação à lei para facilitar a sua conversão em casamento. são exemplos apropriados daquilo que afirmamos. eram usos e costumes comerciais.. Praeter legem é o costume que funciona como fonte supletiva. 4°. caindo em desuso. por último. 126) determina ao juiz lançar mão dos costumes quando a norma for lacunosa ou omissa. embora ainda não convertidos em lei. azul etc. onde a lei nada dispôs. Neste caso. ou faz os preceitos legais vigentes não serem aplicados. art. bancários. de acordo com a opinião dominante. foi um costume durante décadas na sociedade brasileira. Muitas das leis trabalhistas tiveram nestes costumes sua fonte por excelência.3. praeter legem e contra legem. quer para completá-lo. modalidades de cheque especial. No entender de alguns juristas (Serpa Lopes). art. praxes forenses etc. [pg. 46] Contra legem é o costume que se opõe à lei. podemos distinguir três espécies: secundum legem. desempenhando destacado papel nas relações econômicas. Espécies de Costume Tendo em vista as relações do costume com a lei. Exemplo dessa espécie de costume é a chamada praxe forense: muitos atos praticados diariamente no foro não são expressamente regulamentados. e Código de Processo Civil. Quer isto dizer que o legislador previu a possibilidade de haver questões não enquadradas efetivamente nos textos legais existentes. ou surgiu como complemento deste. Assinale-se. que a própria lei (Lei de Introdução ao Código Civil. suprindo sua lacuna: está além da lei. Secundum legem é o costume que serviu de apoio ao ditame legislativo regular. bem como o cartão de crédito. verde. o que demonstra haver sempre lugar para o costume. realizam-se de acordo com costumes que servem de complemento à lei. o costume deve ser observado e até exigido. Em nosso próprio Direito positivo há inúmeros institutos que. 24. antes de ser reconhecida pela Constituição. antes de serem formalizados pelo legislador. são praticados regularmente pela sociedade. introduz uma nova norma contrária às disposições legislativas. quer para corrigi-lo. que não abrangeu aquele fato oriundo das interrelações sociais. Outros costumes. A união estável. O cheque ouro.desenvolvimento deste. . Resulta da contradição existente entre a lei e as fontes reais do Direito. porque encontra respaldo na própria lei.

Essas decisões reiteradas que emanam dos órgãos judiciários constituem a jurisprudência. ainda que um preceito legal caia em desuso. Os costumes. A JURISPRUDÊNCIA Um caso é levado à apreciação do Judiciário onde. deva ser sumariamente repelido. existem inúmeras normas não mais aplicadas. Quer isso dizer que o costume só não revoga a lei no seu aspecto formal. não pode produzir o efeito de fazer-se substituir por uma norma consuetudinária oposta. 229 do Código Penal.Essa questão tem gerado sérias controvérsias. São socialmente aceitos. sendo certo [pg. fizeram desse artigo letra morta. mesmo contra a lei. dando ensejo a que os motéis proliferassem amplamente. está apenas assinando o atestado de óbito. do ponto de vista puramente jurídico. entretanto. em todos os sistemas jurídicos. revistas e outros veículos de literatura pornográfica que pululam nas bancas. Quando o legislador vem a revogá-la por outra lei. porque não tem sido pacífica a interpretação de que o costume. Só para exemplo disto lembramos o caso dos motéis que. tipificam o crime de casa de prostituição. caracterizam o crime de escrito ou espetáculo obsceno. sucessivas vezes. temos que admitir a prevalência do costume. Para o jurista. mas a revoga de fato. Tempos depois caso idêntico é submetido à decisão do Judiciário e. até os tribunais de segunda . há muito caiu em desuso. No Brasil os órgãos judiciários são numerosos: desde os juízes de primeira instância. 234 e parágrafo único do Código Penal. isto é. tanto das comarcas do interior como das capitais. Tal norma. tomando-a letra morta. É o fenômeno bem conhecido a que se deu o nome de extinção por desuso. previsto no art. o costume contra a lei não pode prevalecer simplesmente porque uma lei só pode ser revogada por outra. que se apresenta contra a lei. caíram em desuso. 47] que em todas as oportunidades as decisões foram semelhantes. assim. 25. após regular tramitação do processo. tomando-se letra morta. Ninguém desconhece que. Tais fatos. Coisa idêntica ocorre com os livros. guardaram o mesmo entendimento. e com inúmeros filmes exibidos em nossos cinemas. pelo art. recebe uma decisão. Podemos resumir a controvérsia dizendo que. Do ponto de vista sociológico. Em lugar delas a sociedade consagrou outras normas de comportamento consuetudinário para atender às novas realidades. Por não corresponderem às necessidades recentes da sociedade. entretanto. sem sombra de dúvida. entretanto.

destacando-se o Supremo Tribunal Federal. de caráter mais amplo” (ob. o pretor elaborava a fórmula ou regra jurídica apenas apreciando o fato em tese. 4a ed. Miguel Reale afirma: “Foi através da atividade dos juízes e dos pretores que os romanos. Os casos se repetiam.instância (Tribunais de Alçada. Nesse período. quem tinha uma pretensão ia ao pretor. Nessa fórmula. . aos poucos. de Justiça) e os Tribunais Superiores. sem procurar saber se estava ou não provado. de Direito Romano.. privativo dos romanos. tiveram origem nessa jurisprudência pretoriana. Ebert Chamoun (Inst.” O juiz. já que muitas vezes tinha que elaborar a regra jurídica a ser aplicada ao caso que lhe era apresentado. Como se vê. se fosse o caso de conceder ação. o que proporcionava ao pretor utilizar uma fórmula anteriormente elaborada para outro caso idêntico. elaborava uma fórmula escrita. [pg. espécie de magistrado e também em parte legislador. o pretor ordenava ao juiz condenar ou absolver. Modernamente a palavra jurisprudência designa o conjunto de decisões anteriores proferidas por juízes ou tribunais sobre casos idênticos. p. conforme a sua convicção sobre os fatos. ainda hoje existentes. teve início um novo processo que substituiu as Legis Actiones. 48] Com a sua incontestável autoridade. após examinar as provas oferecidas pelas partes. se não te parecer que deva pagar. Exposto o problema. no meado do século II a. extremamente fecundo como fonte de direito. Conhecido como processo per formulas. 148). através da Lex Aebutia. que se convencionou chamar direito pretoriano.1. o pretor. 1962. segundo o magistério do Prof.. além de enumerar os elementos do processo. foi se formando uma rica jurisprudência. absolve.. foi utilizado durante o período clássico e originou-se da atividade do pretor. concedendo ações em casos não contemplados pelo ius civile ou decidindo ele próprio contra o sistema vigente. 25. com o passar do tempo. e assim. Inúmeros institutos jurídicos. Era algo mais ou menos assim: “Porque Tício vendeu um escravo a Caio. cit. Papel da Jurisprudência em Roma Em Roma. conforme entendesse procedente ou não a pretensão do requerente. por sua vez.C. e o jus gentium. aplicava a regra do pretor. condene Caio a pagar dez mil sestércios a Tício. construíram o jus civile. p. encaminhando as partes ao juiz. primeiro. 123). Cabia ao juiz apreciar as provas e aplicar a regra jurídica ao caso em concreto.

Mesmo nos casos de ter o juiz que lançar mão da analogia. não tem em princípio a força de obrigar o juiz a acatá-la em suas decisões. a força obrigatória reduzida em sua rigidez. por não existir uma norma particular na legislação. tem valor restrito. que o legislador tenha previsto todas as hipóteses e dado todas as respostas na lei. Nos sistemas codificados. isto é. a Common Law é uma coleção de precedentes judiciários. Nesses países a jurisprudência constitui fonte viva do Direito. porque a norma que o juiz encontrou já estaria implicitamente contida no Direito positivo vigente e não daria origem a uma norma geral e obrigatória. mas simples meio de interpretação. ainda que já constitua súmula do Supremo Tribunal Federal. a jurisprudência é apenas um roteiro ao lado da lei. entretanto.25. a função do juiz é somente aplicar a lei ao caso concreto. já que a lei é estática e a sociedade é dinâmica. não é [pg. que têm força obrigatória.2. dos costumes ou princípios gerais do Direito. por mais reiterada que seja a jurisprudência. Praticamente. sendo relevantíssimo o papel do juiz. Assim entendem porque não é função do juiz criar o Direito. 49] verdade. esta é definida nos julgamentos. consagrar uma orientação. O mesmo já não ocorre nas sociedades baseadas no direito consuetudinário. do ponto de vista puramente jurídico. Entre nós. Para muitos juristas a jurisprudência nem seria fonte (formal) do Direito. Tal posição pressupõe. o que.” As fontes do Direito inglês são a Statute Law (direito legislado) e a Common Law (direito costumeiro).3. Constantemente estão os juízes enfrentado hipóteses novas e decidindo casos não contidos no âmbito das normas existentes. que não vai além de fixar um rumo. como se sabe. donde a importância dos precedentes. 25. entendem os juristas não haver criação do Direito pela jurisprudência. o que é evidente na terminologia anglo-saxônica: diz-se judge made-law e a palavra justiça incorpora-se muitas vezes ao nome civil do juiz: “Mister Justice Smith. O Papel da Jurisprudência nas Sociedades Legalistas Já vimos que. que todas as hipóteses estejam nela previstas no momento de sua elaboração. com o correr do tempo a norma vai se tomando desadequada. já que todo Direito emana da lei. O Papel da Jurisprudência nas Sociedades Modernas Nas sociedades legalistas a jurisprudência desempenha papel secundário. Novas hipóteses vão surgindo em decorrência das . Mesmo admitindo uma perfeita adequação entre a realidade social e a lei. mas tão-somente aplicar a lei ao caso concreto.

elaborado por muitas inteligências. Sobre a letra. passa a autoridade dos arestos. através de uma interpretação ora extensiva. formular decisões mais justas e efetivas na composição dos conflitos de interesse. altera sensivelmente o Direito positivo. do ponto de vista sociológico. deram novo sentido e alcance à ordem jurídica. Quer isto dizer que o próprio legislador previu a possibilidade de haver questões não enquadradas efetivamente nos textos legais existentes. Isso tudo leva a concluir que. a tal ponto que se fala normalmente na função pretoriana da jurisprudência. fixada nos textos. ajustando o Direito às novas realidades sociais. Os princípios constitucionais provocaram uma nova visão interpretativa. os decompõe. boa parte dos princípios radicados na sua vida civil. pelo Código do Consumidor e pelo novo Código Civil. Inúmeros são os casos em que os tribunais acabaram criando um Direito novo.constantes transformações sociais. a partir do advogado. a jurisprudência cria Direito mesmo nos sistemas legalistas. a lei é a concepção estática do direito. à judge made-law. 4°) ordena-lhe formular uma regra jurídica para a hipótese e dar uma decisão. ao passo que a jurisprudência é o direito dinâmico. já que o juiz é obrigado a aplicar a norma que estabeleceria se fosse legislador. obra sua. art. exerce uma função de cooperador e modificador na obra legislativa. apenas na forma. que os infiltra. ora restritiva. dando-lhe condições de. em relação à essência do Direito. respeitado o ordenamento jurídico. com base no fato concreto. 50] O papel criador da jurisprudência foi grandemente prestigiado pela Constituição de 1988. Por outro lado. 126 e Lei de Introdução ao Código Civil. Inúmeras outras hipóteses de omissões e obscuridade na lei obrigam o juiz a construir. até chegar às Cortes Superiores. lançando mão da analogia. necessário se faz invocar a autoridade do grande Rui Barbosa: “Ninguém ignora o papel da jurisprudência na evolução do Direito escrito. passando pelo juiz de 1º grau. Em outras palavras. na realidade social que está em constante mutação. em muito comparável. mutatis mutandis. pela sua colaboração contínua. não pode o juiz deixar de decidir alegando lacuna na lei: a própria lei (CPC. Desempenharam nesses casos. os alui. Nesse ponto. num determinado momento que amanhã poderá não mais corresponder à realidade.” [pg. O juiz. um papel positivamente criador. tenham se limitado a aplicar as leis existentes. embora aparentemente. exigindo o pronunciamento judicial. art. A jurisprudência. ao papel do pretor em Roma. dos costumes e princípios gerais do direito. pois tomaram-se o filtro pelo qual passamos a reler toda a legislação infraconstitucional. Os ingleses e americanos devem à essa colaboração legislativa da magistratura. . A técnica das cláusulas gerais adotada pelos Códigos do Consumidor e Civil ampliaram consideravelmente os poderes do juiz.

p. fria e automaticamente. aquilo que se diz ser o seu significado. n° 24. que é uma norma particular. não tem sentido continuar a apresentar a Jurisprudência ou o costume como fontes acessórias ou secundárias” (ob. o juiz deverá determinar o sentido da norma. não há como negar à Jurisprudência a categoria de fonte do Direito. visto como ao juiz é dado armar de obrigatoriedade aquilo que declara ser de direito no caso concreto. jurista de escol e um dos maiores juízes que passaram pelo Superior Tribunal de Justiça. p. no momento de fazer a sua aplicação.. o papel do juiz moderno não é mais apenas o de aplicar a lei ao caso concreto. O magistrado. se em desacordo. III.EMERJ.Cláusulas gerais (das quais são exemplos os artigos 4º. vol. como já enfatizado. À vista dos elementos do caso concreto. [pg. como é a da teoria tridimensional do Direito. é aquele que elabora a lei do caso concreto. . O juiz tem que formular a lei do caso concreto. Numa compreensão concreta da experiência jurídica. 51] Esta é a lição do Mestre: “Se uma regra é. Se essa conduta estiver de acordo com a norma de dever. 421. 187. em suma. assim criada para aquele caso concreto. estabelecem apenas uma moldura dentro da qual se desenham diferentes possibilidades interpretativas. será então ilícita” (Revista EMERJ. Em aula magna proferida na Escola da Magistratura do Rio de Janeiro . do alto da sua autoridade. 169). ela será considerada lícita. O relato da norma. “a boca da lei”. determinar previamente qual a norma de conduta que deveria ter sido observada naquele caso. com vistas à produção da solução adequada para o caso a ser resolvido. IV do Código do Consumidor. uma vez transitada em julgado. apenas demarca uma moldura dentro da qual o juiz deverá encontrar a lei do caso concreto. como ensinava a escola exegética. o seu entendimento em lei. isto é. Em função da regra que ele cria para aquela situação. boa-fé) e dos fins a serem realizados (por exemplo. 18. a sentença passará a ser lei entre as partes. 931 do Código Civil). no fundo. artigos 113. É por isso que Miguel Reale. Como se vê. 927 e parágrafo único. Na cláusula geral o juiz aplica a lei que encontra no Direito e não o direito que encontra na lei. reconhece à jurisprudência o papel de fonte do Direito. e 51. com base nos parâmetros estabelecidos na norma. fins econômicos ou sociais). a regra jurídica disciplinadora do fato e que. fará então a avaliação da conduta em exame. o Ministro Ruy Rosado de Aguiar Junior. na realidade.2003). assim conceituou a cláusula geral: “A cláusula geral é uma norma que impõe ao juiz o dever de. 6. que lhe confere competência para converter em sentença. dos princípios a serem preservados (por exemplo. cit. 422. a sua interpretação. interpreta a norma legal situado numa estrutura de poder.

impondo um regime de fome ao alimentando durante o curso do processo. razão pela qual a jurisprudência passou a entender ser a pensão devida a partir da citação inicial. incutindo ação política nos atos decisórios. Por isso não mais se pode questionar que a lei não é a única fonte do Direito. indiscutivelmente. com o contexto de conflitos de necessidades humanas no qual o direito está inserido” (Manual de Sociologia Jurídica. Deve atuar. não cega como no passado. Temos aqui uma escola jurídica de corte sociológico. deve obediência à lei. Assim também acontece com a lei por mais avançada que ela se apresente. preconizam a figura o juiz reformador.4. como de regra acontece com todas as decisões judiciais. por exemplo. porque se preocupa com as condições do direito na realidade social.” Com efeito. a pensão alimentícia só era devida após o trânsito em julgado da sentença. daquele que não se mantém neutro ideologicamente. mais do que nunca. como querem os defensores do chamado direito alternativo. Tal entendimento tomou-se tão reiterado que. 52] 25. esse papel criador do Direito desempenhado pela Jurisprudência não vai ao ponto de uma total independência dos ditames da lei. ou seja. cuja importância como fonte se toma cada vez maior. Exemplos de Jurisprudência Transformada em Lei Durante muito tempo. Revista dos Tribunais. mas sim do político. p. por mais genial que tenha sido o legislador. sejam de formulação.Hoje. “como um pensador adjunto do legislador. Com a finalidade de se alcançar a justiça social. Ao lado dela se posiciona a jurisprudência. ela não acompanhará a realidade social. mas que se conscientiza do grau de injustiça que atinge economicamente camadas sociais e deve minorar a sorte dos pobres. Isso acarretava uma série de problemas sociais. sejam de valoração. Os precedentes são. um manancial que consolida determinada orientação. mas uma obediência inteligente. A toda evidência. 33). muitas vezes indo além da própria disciplina positiva. [pg. revela-se oportuna a sábia observação de Mário Moacyr Porto: “A lei não esgota o direito assim como a partitura não esgota a música. a excelência da partitura e a genialidade do compositor ficarão prejudicados se não houver talento do intérprete. tem que respeitar a moldura jurídica estabelecida na lei. acabou sendo encampado pelo legislador e transformado em . Ed. Se não houver talento criador dos seus intérpretes (juízes e operadores do Direito). para desafiar questão que somente pode ser decidida com critérios de hermenêutica que buscam formas de integração das lacunas. Essa nunca foi e nem será a função do juiz. Muito embora possa e deva o juiz decidir com certa flexibilidade. na feliz imagem de Ana Lúcia Sabadell. por corresponder a uma necessidade.

Relação entre a Jurisprudência e o Costume Sempre que o juiz é chamado a decidir um caso que não está claramente previsto em lei. no artigo 735 do novo Código Civil. 25. ele se conduz em função de certos princípios gerais estabelecidos. fazendo seu papel consistir. Razão assiste ao saudoso mestre Hermes Lima ao afirmar: “Entretanto. pelo acidente com o passageiro. contra o qual tem ação regressiva” -. A lei.que a executou. porém certamente construtora” (ob. encontram as normas já existentes no seio da sociedade. não é elidida por culpa de terceiro. Inúmeras outras inovações e progressos jurídicos poderiam ser mencionados. Podemos afirmar que o direito é a lei aplicada mais o que ela recebeu do órgão Juiz ou Tribunal. terá que encontrar uma solução compatível com os [pg. A sentença deverá refletir a opinião coletiva sobre o fato. mas em procurar a mais adequada às aspirações do meio que o cerca. o costume não lhe dita explicitamente a decisão. 205-206). ambiência econômica. Sem dúvida. que lhe era tão desfavorável.lei. contar-se entre as fontes do direito. o que evidencia que a jurisprudência constitui uma atividade verdadeiramente construtora e pode. 53] interesses ou conveniências sociais. Vários dispositivos da atual lei das locações tiveram por fonte o entendimento jurisprudencial. A súmula 187 do Supremo Tribunal Federal. hoje lhe garante inúmeros direitos graças aos avanços introduzidos pela jurisprudência. social e política.. cit. reconhecidos pela jurisprudência com base na sociedade de fato. não em encontrar uma solução nova. serve-lhe de substrato. mas exerce sobre ele uma pressão latente e irresistível. foi transformada. ipsi verbis. Tal como os . conseqüentemente. que dispunha . A ambiência que cerca a espécie sub iudice. Certo. Algo idêntico ocorreu com os direitos da companheira. porém o ajustamento da lei ao caso em questão está condicionado a uma estimativa de natureza pessoal e a uma apreciação. Por isso costuma-se dizer que os juízes descobrem o direito. não resta a menor dúvida que a jurisprudência exerce profunda influência no desenvolvimento do direito positivo.“A responsabilidade contratual do transportador. o de tomar a lei adequada à espécie sobre que vai decidir. que não chamarei de criadora. ele tem seus pontos objetivos de referência.5. reflete-se necessariamente na obra do magistrado. desde que a posição do juiz não é a de um escravo ou de um autômato em face da lei. Conclui-se daí que a decisão do juiz é baseada nos costumes. desde que seu poder de aplicar inclui necessariamente o de interpretar. pp.

quer dizer. que nos transmite o conhecimento do núcleo jurídico que a anima . em princípio. Em suma. ao elaborar a norma legal. o legislador. devem ter sensibilidade jurídica para encontrar e extrair. em sentido jurídico. p. decorrentes das necessidades sociais. a lei e o costume se assemelham. p. Com efeito. 10ª ed.antigos pretores romanos.1. Nisto.o direito. A LEI A palavra lei vem de ligar. Semelhança e Distinção entre a Lei e o Costume Quanto ao conteúdo. obriga a agir. deve estar atento às mesmas necessidades. assim como os costu. tanto a lei como o costume são regras de conduta. por sua vez. 26. a lei é a forma. Daí a razão de ser a lei considerada a fonte formal imediata do direito. segundo a constituição política do Estado. a lei é continente e o direito é conteúdo. 54] mes têm origem nas necessidades sociais. A função legislativa entre nós é conferida especialmente ao Poder Legislativo. cit. portanto. diz que lei é toda norma jurídica oriunda dos órgãos da soberania. em certos casos.[pg. porque este termo significa o poder de fazer lei em sentido formal. a sua forma escrita. Ruggiero. 26. ligação ou vínculo. se reconhece a função legislativa. mas também..é o fato social ou relação fática concreta a que a lei se reporta ou descreve e o conseqüente o efeito que a lei atribui à ocorrência fática. portanto. 83). sob pena de fazer uma lei ineficaz. Diferem entretanto em muitos aspectos: . Ambos são. expressão da vontade do grupo. transforma para seus fins. Poderíamos dizer que lei é a regra social obrigatória emanada da autoridade a que. Saraiva. em fato jurídico (gerador) ou relação jurídica (Curso de Direito Tributário. 54). A Lei. qual o antecedente e o conseqüente? O antecedente .. ao Poder Executivo. o fato ou relação fática. é conferido o poder de ditar regras de direito (ob. do próprio ambiente social. as normas a serem aplicadas em suas decisões. através da qual o direito se exterioriza e se toma conhecido. porque. aos quais. Costuma-se dizer que a lei é o tegumento do direito.diz Ruy Barbosa Nogueira . o que evidencia não ser possível tomar o termo “legislativo” em sentido restrito. Todo e qualquer órgão que dite norma genérica de conduta é legislativo em si. sem aplicação prática. no Estado. formas de exteriorização do direito. Se a lei é liame.

entre dois juristas de escol. partidário do direito consuetudinário. além de se adaptar mais facilmente . emana diretamente da sociedade. sustentava que o costume devia prevalecer sobre a lei por ser a expressão direta e pura das aspirações da coletividade nacional. Sistema Preferido . dos quais o mais famoso é o Código de Hamurabi. preestabelecido. no começo do século XIX.C. passando pela discussão. toda a regulamentação da vida social foi feita através do costume. rei da Babilônia. é anterior à lei. A lei. entretanto.1) Quanto à origem: O costume.2. No seu entender. 55] da Escola Histórica. 2) Quanto ao processo de elaboração: O costume. Por isso o costume. numa época relativamente recente da história humana. espontânea. o fundador [pg. gradativa. quando. até chegar à publicação. Nunca podemos saber com precisão quem. precisas. promulgação. Esta só veio a surgir quando a sociedade chegou ao estágio de organizar-se política e juridicamente. ardoroso defensor da codificação. O Decálogo hebraico (os dez mandamentos) é de alguns séculos mais tarde e as leis indianas de Manu datam do III século a. é que se tomou possível a elaboração das primeiras leis. vai se formando paulatinamente.. é formal. Para ele o costume. Em oposição se colocava Thibaut. 3) Quanto à forma: O costume se exterioriza através de condutas reiteradas e é transmitido em regra por via oral. tomando-se mais difícil sua modificação. à medida que determinada conduta vai sendo aceita e reiterada pelo grupo. historicamente. criando o Estado. tende a se incrustar. sanção. quando entrou em vigor e quando foi revogada. Por isso as mais antigas leis conhecidas são os textos mesopotâmicos do segundo milênio a. passa de pai para filho pela tradição. e a lei de um órgão estatal. também já vimos.C. O processo de elaboração da lei. Savigny. 26. votação. iniciando-se com um projeto. emperrando o seu desenvolvimento e tomando-o desadequado à realidade social. longe de ser mais flexível do que a lei. como já vimos. é de formação livre. Eis aí outra razão pela qual o costume é anterior à lei: somente depois do surgimento da escrita.O Costume ou a Lei? Em torno dessa questão travou-se grande controvérsia na Alemanha. A lei se exterioriza por escrito e através de fórmulas rígidas. onde teve origem um determinado costume. sabemos exatamente quando foi elaborada. Até então. Já quanto à lei. a codificação dificultaria a evolução natural do Direito.

como veremos nos próximos capítulos. [pg. Já ficou assentado que a lei é. objeto de estudo da Ciência do Direito. apenas alguns preferindo o direito consuetudinário. apresenta a grande vantagem de proporcionar um conhecimento mais rápido e oferecer maior segurança do que o costume. essencialmente. A Sociologia Jurídica só se preocupa com a eficácia da lei. Dessa controvérsia resultou que a maioria dos Estados modernos vive sob o regime da codificação.às novas condições sociais (desde que o legislador esteja atento e disposto a isso). 56] .

integrante de uma superestrutura social. O ser e o dever ser. Para outros. p. A finalidade da Sociologia . pelos instrumentos e métodos das ciências mais antigas. fugindo aos objetivos deste modesto trabalho. Na opinião de muitos sociólogos. limitamo-nos [pg. a vigência e o fundamento. os prós e contras das várias posições. pois tem objeto próprio. Relação da Sociologia Jurídica com os demais ramos do direito. Sem nos estendermos sobre a controvérsia. 57] a afirmar que a autonomia da Sociologia Jurídica é hoje reconhecida. **** 27. aquilo que se pretendia constituir em objetivo da nascente sociologia do direito. a sociologia jurídica seria parte integrante da Sociologia. por isso que se preocupa apenas com o direito como um fato social concreto. juristas em geral. 222). 1961. Não se confunde o objeto da Sociologia Jurídica com o de qualquer outra ciência que também se relacione com o direito. A História do Direito. e isso gerou controvérsias. Teoria tridimensional do direito: diferença entre a Sociologia Jurídica. como acontece com toda ciência nova. quando muito constituindo uma de suas especialidades. A eficácia. método e leis. a ciência do direito e a filosofia do direito.Capítulo VI A AUTONOMIA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA COMO CIÊNCIA E SUAS RELAÇÕES COM OUTRAS CIÊNCIAS SOCIAIS Autonomia da Sociologia Jurídica. Entre os que pensam dessa última maneira podemos citar Edmond Jorion. Muitos autores procuraram explicar. a sociologia do direito se confundiria com a própria ciência do Direito. foi bastante controvertida. AUTONOMIA CIENTÍFICA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA A questão da autonomia da Sociologia Jurídica. por exemplo. para quem a Sociologia do Direito e a Ciência do Direito constituem uma só e mesma disciplina (De la Sociologie Juridique.

como defendem os normativistas. com objeto próprio e inconfundível. cit. na qual cada fator é explicado pelos demais e pela totalidade do processo” (Paulo Nader. principalmente com a Ciência do Direito e Filosofia do Direito. . Essas visões são parciais e não revelam toda a dimensão do fenômeno jurídico. A originalidade desse grande jurista brasileiro está. de tal modo que a vida do Direito resulta da integração dinâmica e dialética dos três elementos que a integram (Filosofia do Direito. geográfico. demográfico. de ordem técnica etc). que. mas atuam como elos de um processo. com as quais tem muito em comum. Fato. como querem os sociólogos. e. normativa. 65). quando formam uma implicação dinâmica. Cada um desses três fatores se refere aos demais e por isso só alcança sentido em conjunto. É evidente. que confere determinada significação a esse fato. Saraiva. como proclamam os idealistas. no tempo e no espaço. [pg. 378). 12ª ed. uma regra ou norma.. 28. sempre e necessariamente. embora se tratando de uma ciência autônoma. p. A TEORIA TRIDIMENSIONAL DO DIREITO Quem elucidou essa questão melhor do que ninguém foi o genial Miguel Reale na sua teoria tridimensional do Direito. o fato ao valor. 4ª ed. 58] Daí resulta que “o Direito não possui uma estrutura simplesmente factual. na maneira como descreve o relacionamento entre os três componentes do fenômeno jurídico. Ed. uma verdadeira trilogia. um valor. sob forma de regulamentação da vida social. 1965. p.Jurídica é estabelecer uma relação funcional entre a realidade social e as diferentes manifestações jurídicas. Título X. finalmente. valor ou norma) não existem separados uns dos outros. esses elementos ou fatores não só se exigem reciprocamente.. que representa a relação ou medida que integra um daqueles elementos ao outro. que assim pode ser resumida: Onde quer que haja um fenômeno jurídico.. um fato subjacente (fato econômico. mas não em uma simples adição. mantém a Sociologia Jurídica íntimas relações com todas as ciências sociais. Tais elementos ou fatores (fato. Este congrega aqueles componentes. fornecendo subsídios para suas transformações. Mais ainda. como se vê. inclinando ou determinando a ação dos homens no sentido de atingir ou preservar certa finalidade ou objetivo. valor e norma formam uma unidade fático-axiológica-normativa. Juntos vão formar uma síntese integradora. valorativa. há. ob. porém. mas coexistem numa unidade concreta. uma espécie de santíssima trindade do Direito. Lições Preliminares de Direito.

Na correta visão de Reale, o Direito forma-se da seguinte maneira: um valor podendo ser mais de um - incide sobre um prisma (área dos fatos sociais) e se refrata em um leque de normas possíveis, competindo ao poder estatal escolher apenas uma, capaz de alcançar os fins procurados. Um valor pode desdobrar-se em vários dever-ser, cabendo ao Estado a escolha, a decisão; toda lei é uma opção entre vários caminhos; o fato nunca será isolado, mas um conjunto de circunstâncias. Na concepção do autor dessa teoria tridimensional, o Direito é uma realidade fático-axiológico-normativa, que se revela como produto histórico-cultural, dirigido à realização do bem comum. Apesar de sua natureza dinâmica, o Direito possui um núcleo resistente, uma constante axiológica, invariável no curso da história. Pois bem, esses três fatores inseparáveis do Direito - fato, norma e valor - vão constituir o objeto de três ciências distintas, embora afins: a Sociologia Jurídica, a Ciência do Direito e a Filosofia do Direito. A Sociologia Jurídica tem por objeto, como já ficou dito, o direito fato, a Ciência do Direito se preocupa com a norma, e a Filosofia do Direito dedica-se ao direito em seu aspecto valor.

28.1. Diferença entre a Sociologia Jurídica e a Ciência do Direito

O fato é o acontecimento social referido pelo Direito objetivo. São as relações sociais, fatos interindividuais que envolvem interesses básicos para a sociedade e que por isso enquadram-se dentro dos assuntos regulados pela ordem jurídica. Implica isto dizer que a Sociologia Jurídica descreve a realidade social do direito sem levar em conta sua normatividade. Preocupa-se com a existência do direito como produto ou fenômeno social, decorrente das inter-relações sociais, e não como foi concebido ou equacionado pelo legislador. A sociologia deve apenas relatar e registrar o fato sem se envolver com valores, ideologias ou normas. É tarefa do sociólogo descrever os fatos. [pg. 59] A norma consiste no padrão de comportamento social a ser adotado em cada caso. “Ao disciplinar uma conduta, o ordenamento jurídico dá aos fatos da vida social um modelo, uma fórmula de vivência coletiva” (Paulo Nader, ob. cit., p. 378). E esse é o campo da ciência do Direito. Estuda o Direito pelo seu aspecto normativo, isto é, o conjunto de leis e regras escritas e emanadas do Estado. À ciência do Direito interessa o conhecimento das normas jurídicas, que enunciam, não o que sucedeu ou como sucedeu, mas o que deve acontecer, já que o objeto do saber jurídico é o Direito, e o Direito é a norma, nada mais que a norma (Kelsen). A norma pode ser definida como um juízo hipotético destinado a expressar que fazer ou não fazer algo deve acompanhar-se de uma medida de coação por parte do Estado.

28.2. Distinção entre a Sociologia Jurídica e a Filosofia do Direito

À Filosofia do Direito, que objetiva o estudo do direito no seu aspecto valor, cabe determinar sua formação e desenvolvimento em relação aos elementos infra-estruturais da sociedade, ressaltando a dependência de suas modificações. Preocupa-se com correntes filosóficas e ideológicas, que conceberam o direito desta ou daquela forma, e com a escala de valoração jurídica dos bens existentes na sociedade. Valor é o elemento moral do Direito, a sua essência ética. Toda a obra humana é impregnada de sentido ou valor, e assim também ocorre com a sociedade. Tem ela uma escala de valores ligada à idéia de poder, importância, qualidade, estima, utilidade e necessidade material ou moral, acerca de condutas, posições, entendimentos e coisas, escala essa que vai se formando e se modificando de acordo com correntes ideológicas - pensamentos, idéias, opiniões - existentes em determinado momento e em determinada sociedade. Toda norma enuncia algo que deve ser, em virtude de ter sido reconhecido um valor como razão determinante de um comportamento declarado obrigatório. O valor confere determinada significação ao fato, inclinando ou determinando a ação dos homens no sentido de atingir ou preservar certa finalidade ou objetivo. Houve tempo, por exemplo, que a liberdade foi o grande valor social que, por sua vez, deu causa ao liberalismo. O Direito brasileiro atual, principalmente a partir da Constituição de 1988, voltou a dar ênfase aos valores, o que tem conseguido alcançar por meio da consagração de princípios. Princípios são valores éticos, morais e sociais apreendidos pelo legislador e que, consagrados em um preceito, passam a ser instrumentos de interpretação de outros preceitos, enquanto [pg. 60] normas são regras de comportamento que estabelecem como deve ou não deve ser a conduta e as conseqüências que daí decorrem. Regras oferecem soluções enquanto que os princípios oferecem paradigmas, critérios para se encontrar a solução do caso concreto. Entre os superiores princípios (valores) consagrados na Constituição de 1988, merece especial destaque o da dignidade da pessoa humana, colocado como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1°, III). Temos hoje o que pode ser chamado de direito subjetivo constitucional à dignidade. Ao assim fazer, a Constituição colocou o Homem no vértice do ordenamento jurídico da Nação, fez dele a primeira e decisiva realidade, transformando os seus direitos no fio condutor de todos os ramos jurídicos, Isso é valor. E, ao inserir em seu texto normas que tutelam os valores humanos, a Constituição fez também estrutural transformação no conceito e valores dos direitos

individuais e sociais, o suficiente para permitir que a tutela desses direitos seja agora feita por aplicação direta de suas normas. No plano infraconstitucional, a legislação vem seguindo o mesmo caminho. O Código do Consumidor é uma lei principiológica, no qual foram consagrados os valores éticos e morais necessários à defesa do consumidor, entre os quais a boa-fé objetiva, princípio cardeal (arts. 4°, VIII; 51, IV), a transparência, a confiança, a informação, a segurança e outros. O novo Código Civil, como não poderia deixar de ser, pois foi coordenado pelo autor da teoria tridimensional do Direito, está todo comprometido com o resgate dos valores éticos, sociais e morais no Direito. A título de exemplificação, lembramos que a boa-fé é também o princípio cardeal desse novo Código, uma espécie de fio condutor de toda a sua estrutura. Não se trata, porém, da boa-fé meramente subjetiva - posição psicológica, intenção pura e destituída de má-fé, crença ou ignorância de uma pessoa -, porque isso a realidade demonstrou não ser suficiente nas relações sociais regidas pelo Direito, Dizem que o inferno está cheio de pessoas bem intencionadas. A boa-fé consagrada pelo novo Código como valor superior é a boa-fé objetiva ou normativa, assim entendida a conduta adequada, correta, leal, transparente, confiável e honesta que as pessoas devem empregar em todas as relações sociais. Três são as funções da boa-fé objetiva no novo Código Civil: a) fonte de deveres instrumentais dos contratos (art.422): quem contrata não contrata apenas o que contrata, contrata também lealdade, cooperação, transparência, informação etc. (tem-se dito que esse dispositivo é a porta de entrada da ética no nosso Direito); b) regra de interpretação dos negócios [pg. 61] jurídicos (art.113): todo e qualquer negócio jurídico deve ser interpretado pelo juiz de acordo com o princípio da boa-fé; c) limite ao exercício dos direitos subjetivos (art.187): nesta terceira hipótese a boa-fé representa o padrão ético de confiança e lealdade indispensável para a convivência social. As partes devem agir com lealdade e confiança recíprocas. Essa expectativa de um comportamento adequado por parte do outro é um comportamento indispensável na vida da relação. É um limite a ser respeitado no exercício de todo e qualquer direito subjetivo. Podemos afirmar que o Código do Consumidor e o novo Código Civil são uma reação ao liberalismo jurídico que predominou durante todo o século XX, principalmente em sua primeira metade, e que aos poucos afastou o Direito da ética, da moral, da eqüidade, dos valores transcendentais, tornando-o puro tecnicismo. Em suma, a Sociologia procura a existência; a Filosofia preocupa-se com a essência. “A Sociologia do Direito”, como observou Gurvitch, “dá ao jurista uma descrição objetiva da realidade social do direito, válida num dado meio social; a Filosofia do Direito lhe

dá um critério de valores jurídicos, que lhe ajuda em suas manifestações particulares para alcançar fins concretos” (Sociologia do Direito, p. 13). Embora cada uma funcione em seu setor específico, as duas ciências estão, entretanto, interligadas, pois o filósofo social necessita conhecer a realidade social que se faz presente nos trabalhos do sociólogo. “Quando se estuda Filosofia do Direito”, assinala Porto Carreiro (Introdução à Ciência do Direito, p. 78), “parte-se de uma base sociológica inafastável, cujo conhecimento é fornecido por aqueles que se dedicam ao estudo sociológico do Direito”.

29. A EFICÁCIA, A VIGÊNCIA E O FUNDAMENTO

As três dimensões pelas quais o Direito pode ser considerado (fato, norma e valor), segundo o próprio Miguel Reale (O Direito como Experiência, 1961, pp. 61 e 62), dão origem a três planos de problemas diferentes: o da eficácia, o da vigência e o do fundamento. A Sociologia Jurídica se preocupa com o primeiro - a eficácia; a Ciência do Direito, com o segundo - a vigência; e a Filosofia do Direito, com o terceiro - o fundamento.

29.1. A Eficácia

Ao afirmarmos que a Sociologia Jurídica preocupa-se com a eficácia do Direito, queremos enfatizar que constitui também objeto dessa discipli- [pg. 62] na saber se as normas jurídicas estão ou não adequadas às necessidades sociais. Quer dizer, primeiro a Sociologia Jurídica preocupa-se com os fatos sociais que repercutem na ordem jurídica, e com as relações que necessitam receber o disciplinamento do direito; uma vez elaborada a norma disciplinadora, empenha-se em saber se a referida norma atende ou não às necessidades sociais. Isso, como teremos oportunidade de ver, é da maior importância porque a norma, mesmo que no momento de sua elaboração esteja perfeitamente adequada à realidade social, com o correr do tempo pode se tomar ultrapassada, ineficaz, em razão da constante evolução social, tomando-se necessário reformulá-la.

29.2. A Vigência

A Ciência do Direito, por sua vez, preocupa-se não somente com a norma, como já vimos, mas também com a sua vigência. Enquanto a lei estiver em vigor, cabe ao jurista estudá-la, interpretá-la, comentá-la etc., ainda que se trate de lei já completamente

o casamento será assim etc. queremos dizer que constituem igualmente objeto dessa disciplina os problemas relacionados com o ideal do direito. Do exposto. éticas. 63] organização social e política vai estabelecer situação da família. apesar de não mais terem aplicação social: por exemplo. por último. familiares e sociais. adultério (art. O fato social já existe: milhares de pessoas do mesmo sexo convivem sob o mesmo teto. Discute-se a justificação dessa união. A norma só deixa de ser vigente depois de expressa ou tacitamente revogada por outra. ele é normatizado. teremos esta ou aquela estrutura política e social. investigando ainda as ideologias ou correntes de pensamento que acabaram prevalecendo e servindo de fundamento aos principais institutos jurídicos. Enquanto o grupo social estiver se organizando.. mas no Brasil continua sendo objeto de acirrados debates. em que ficar decidido: a forma de Estado é essa. como outrora se discutiu o . sentimental e doméstica como se fossem casais.3. seu conteúdo ético a seu mundo axiológico. decidindo que forma de Estado e de governo vai adotar . Recapitulando: primeiro ocorre o fato social. republicano -. porém. religiosas. Em alguns países o casamento de homossexuais já é permitido. finalmente. partilhando a vida sexual. democrático. Muitas já conseguiram a posse e guarda de crianças e até adotá-las como filhos. encontramos várias figuras típicas que ainda hoje são objeto de comentários dos autores (estão no Código). haverá campo apenas para a Sociologia Jurídica e para a Filosofia do Direito. Mas a norma legitimando essas situações não foi editada porque ainda está em debate o valor. -. sistemas de produção etc. 29. ainda que completamente afastada da realidade social. a forma de governo é aquela. 149). 130). surge a norma e.desatualizada e em desuso. Ao estudarmos o Código Penal. Serve como exemplo a união estável de homossexuais. a natureza do que é jurídico. No momento. 240) etc. o objeto da ciência do Direito.unitário. que a Filosofia do Direito preocupa-se também com os fundamentos do Direito. questão que ainda aguarda definição jurídica. por via de conseqüência. Dependendo das correntes ideológicas ou filosóficas predominantes e dos fatos sociais existentes. Até lá é objeto da Ciência do Direito. redução à condição análoga à de escravo (art. O Fundamento Ao afirmarmos. as suas conseqüências morais. que [pg. parece-nos resultar claro que a Ciência do Direito só tem razão de ser após o surgimento da primeira norma na sociedade. federado. suas causas e seus princípios últimos. depois valoriza-se o fato e. o crime de perigo de contágio venéreo (art.

entidade familiar. a Sociologia Jurídica versará o mesmo objeto da ciência jurídica. § 30). a ética e o direito. sujeito às leis naturais. isto é.. Quando o sociólogo do direito se refere ao seu objeto. está se referindo. observou Machado Neto (ob. se chover. 30. construindo bombas ou catedrais. cuja conversão em casamento a lei deve facilitar (art. atua na esfera da liberdade. não às normas (dever ser). e assim por diante. reconhecido como união estável pela Constituição de 1988.concubinato. apenas servindo-se de uma lógica diversa. isto é. A um antecedente liga-se indispensavelmente dado conseqüente: um corpo solto no espaço (antecedente) cai inexoravelmente (conseqüente). às condutas humanas em sociedade. podemos estabelecer o seguinte quadro: DIREITO Sociologia Jurídica Ciência do Direito Filosofia do Direito Fato Norma Valor Eficácia Vigência Fundamento Ser Dever Ser Poder Ser . que decorrem da própria natureza. em sua Teoria Pura do Direito. da consciência e da razão. escolhendo os seus próprios caminhos. Nessa perspectiva. mas ao próprio direito vivo (ser). escrevendo a sua história. As ciências sociais pertencem ao mundo do dever ser. e assumindo a responsabilidade pelos seus atos. O homem é o único ser que participa das duas esferas básicas do mundo . 133). O SER E O DEVER SER Desde Kelsen.a física (o ser) e a moral (o dever ser). está na realidade das coisas. p. a terra fica molhada. até nossos dias. No mundo da natureza as coisas se passam mecanicamente. Sintetizando tudo o que até aqui ficou dito. É este que. muitos autores procuram distinguir a Sociologia Jurídica da Ciência do Direito estabelecendo que a primeira é a ciência do ser e a segunda a do dever ser. cit. liga determinado conseqüente: se alguém causar dano a outrem. 266.a conduta humana . como ser moral. a dado antecedente. O direito de que aqui se vai tratar .[pg. de nada vale a vontade do homem na tentativa de modificá-las mediante a formulação de leis racionais. 64] gico. No mundo do dever ser as coisas se passam segundo a vontade racional do homem. O mundo do ser é o das leis naturais. fica obrigado a repará-lo.é o mesmo com que o sociólogo já se habituara a conviver muito antes que os juristas ou os jusfilósofos fizessem a extraordinária descoberta do direito como conduta em interferência intersubjetiva. tal como a moral. Como ser bioló.

fazer a descrição da atual realidade social do direito. A HISTÓRIA DO DIREITO De todas as ciências jurídicas. a fim de apurar a evolução sofrida pelo Direito. possibilitando a elaboração de normas ajustadas a essa realidade e aferindo a eficácia das já existentes. os segundos falam do mesmo fenômeno. interessam os fatos passados simplesmente por não ser possível fazer história de fatos presentes. Os fatos passados só interessam à Sociologia Jurídica eventualmente para efeito de comparação. envolvimentos sociais etc. todos têm razão. fundamento. inegavelmente. São os fatos presentes. por sua vez.Como se vê. Os fatos presentes são a principal preocupação da Sociologia Jurídica porque cabe-lhes. Historiar é narrar fatos notáveis ocorridos na vida dos povos tal como ocorreram. e os últimos falam do seu aspecto normativo.apesar de ser considerada inócua tal distinção por alguns autores (Nelson Nogueira Saldanha. Sociologia do Direito. ser. 1970. há muito tempo. e a História do Direito com os fatos passados . com o máximo de fidelidade ao acontecido. como à História em geral. mas no seu aspecto valor. Cremos que.a vida social: para ambas o direito aparece como um fato social.[pg. . poder ser. e não os passados. dever ser. cada qual. de vigência. Correntes filosóficas. a ponto de. que necessitam do disciplinamento jurídico. a essa altura. a realidade atual. pp. oriundo da instituição estatal. em seu ângulo de visão. 65] sentes. como já vimos. Entendemos que a principal distinção entre essas duas ciências está em que a Sociologia Jurídica preocupa-se por excelência com os fatos pre. porém. o que lhes confere objeto próprio e autonomia. oriundo inquestionavelmente da sociedade. já podemos compreender melhor os motivos da inconciliável controvérsia existente entre sociólogos. a Sociologia Jurídica e a História do Direito são. 31. filósofos e juristas. É que as duas possuem praticamente o mesmo objeto material . cada qual. aquelas que mantêm mais íntimas relações. as três ciências ocupam-se do Direito. nos influenciam de tal forma. Os primeiros falam do direito no seu aspecto fato. até inconscientemente. 37-38). Não se pode fazer história de fatos presentes. À História do Direito. Todos estão certos. eficácia. com um aspecto diferente. porque o presente inquestionavelmente influencia na visão dos fatos. entretanto. posições políticas. o direito.

66] como o sociólogo do Direito se aproveita do inesgotável manancial da história das instituições jurídicas. Trabalhista. E dessas inter-relações resultará para o estudante uma visão mais ampla. . Para Machado Neto (ob. por um lado. é um estudo específico e possui ângulo próprio para examinar seu objeto. momentos antes esfaqueado por C. por outro está intimamente relacionada com todo o Direito . isto é. ser fiel a eles o máximo possível. Este é o fato. uma coisa é o fato e outra a sua interpretação. Via de regra. mas como nos parecem ter ocorrido. que lhe dá maior força de penetração no sistema global da história jurídica. RELAÇÃO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA COM OS DEMAIS RAMOS DO DIREITO Se. a Sociologia Jurídica tem autonomia como ciência. Sucessões. mantém constante intercâmbio de sugestões e de subsídios com todas as disciplinas especiais que pesquisam o direito sob outros ângulos. Alguém passa por uma rua e vê uma pessoa tirando uma faca que estava cravada nas costas de outra. a narrar os fatos. A segunda (História do Direito) detém-se na consideração de cada fenômeno sócio-jurídico individual. por um lado. Isso já é interpretação. 32. Por isso é necessário.em vez de nos limitarmos a narrar. 129). para fazer história.pela simples razão de ocorrerem na sociedade todos os fatos que repercutem nos mais variados ramos do Direito. fundamento sólido para suas induções. como é sabido. não como ocorreram.. p.Família. e isso só é possível alcançar após o decurso de algum tempo. deixar que o tempo dispa os fatos de toda ideologia ou conotação interpretativa. E. E o fato social. é o objeto por excelência da nossa disciplina. O historiador tem que narrar fatos. entretanto. se não quiser correr o risco de generalizar a partir de poucos exemplos empíricos. pois pode ser que A estivesse socorrendo B. que as duas ciências se relacionam intimamente. completa e abrangente do Direito. assim [pg. cit. procurando enquadrá-la no sistema geral em que a história em si própria consiste. como vai relatá-la? Que viu A esfaqueando B. o direito fato. como já vimos. por outro lado. Observa o autor. . se a Sociologia Jurídica. pois o historiador do direito se abebera dos ensinamentos da Sociologia Jurídica. De todo o exposto. Fiscal etc. a principal diferença entre Sociologia Jurídica e História do Direito está em que a primeira pretende apanhar do fenômeno social jurídico o que sejam suas características genéricas: as leis gerais e as figuras típicas do comportamento jurídico da sociedade. Penal. pode-se concluir que. passarmos também a interpretar.

precisaremos de duas casas . encheram-se de veículos dos mais variados tipos. de aviões.tanto das minúsculas bactérias. O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO Na primeira metade do século XX as grandes potências mundiais deram grande importância ao estudo das ciências chamadas exatas. o ar. o mar encheu-se de navios das mais variadas procedências. Matemática. satélites artificiais e até de objetos “nãoidentificados”. como dos gigantescos corpos celestes distantes milhões de anos luz. Disca o telefone e fala com alguém no outro lado do . Efeitos do progresso científico no mundo social. Astronomia. Todas as atenções foram voltadas para as pesquisas no campo da Física. Importância da Sociologia Jurídica. 69] O homem verdadeiramente adquiriu o dom da ubiqüidade. [p. houve um progresso científico nunca dantes visto ou esperado! Inúmeros inventos e descobertas ocorreram. de naves espaciais. outrora calmas e livres. em tão grande número e variedade que. permitindo ao homem penetrar no mundo do invisível . As casas encheram-se de aparelhos eletrodomésticos. pois pode estar em vários lugares quase ao mesmo tempo. Química. Como resultado. As ruas. se formos adquiri-los todos. **** 33. os mais poderosos e velozes.Capítulo VII IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS E DA SOCIOLOGIA JURÍDICA EM ESPECIAL O desenvolvimento científico. bem como de submarinos e outros objetos destinados à navegação. investindo-se fabulosas somas no desenvolvimento de arrojados projetos quase impossíveis. A importância das ciências sociais.uma para a família e outra para os aparelhos.

70] mente conseguiam fazer mais de uma por ano. Já houve até um filme que explorou esse motivo. Mil e oitocentos anos depois. nos dias de Cristo. que em geral eram encarregados de copiar a Bíblia. Gutenberg levou dois anos para compor os tipos de sua primeira Bíblia.mundo. literalmente. acidentalmente. roupas compridas etc. mas. O aparecimento da prensa fez mais pela cultura ocidental do que simplesmente introduzir uma forma mais veloz de reproduzir um livro. não acreditaria no que veria: pensaria que estava em um outro mundo. Pedro I proclamou a independência. Antes de Gutenberg. rara. congelado. no qual viajava do Rio para São Paulo. nos Estados Unidos. ou até mesmo na Lua. um ourives da cidade de Mainz. compra o que quiser. Na Europa e nos demais países civilizados também o transporte era o mesmo. todos os livros eram copiados à mão. comanda operações de muitos milhões de dólares. Até aquela época. acessa qualquer informação. e descongelado em 1976 num mundo totalmente diferente. liga a televisão e vê o que está se passando. a vida fora comunitária e praticamente imutável. teve condições de imprimir múltiplos exemplares. basta que atentemos para o seguinte: qual era o sistema de transporte mais rápido 2. por volta de 1700. qual era o meio de transporte mais rápido? Continuava o mesmo. não em cima de um tanque de guerra. mas ainda em cima de um cavalo. uma vez feito isso. tudo se transformou em nossa sociedade. Para termos idéia do progresso científico que houve em nossos dias e das transformações ocorridas. Passaram a ser naturais. apesar do transcurso das gerações. entra na internet e.000 anos antes de Cristo? O lombo de animal. que morreu aí pelo ano de 1900. O único acontecimento isolado. de grande impacto cultural sobre a sociedade. A prensa de Gutenberg era. inventou o tipo móvel e apresentou a primeira prensa na Europa (a China e a Coréia já possuíam prensas). Em conseqüência desse fantástico progresso científico. quando Johann Gutenberg. em outro continente. qual era o meio de transporte mais rápido? Continuava sendo o lombo de animal. ocorreu por volta de 1450. uma impressora a laser de alta velocidade.[p. em comparação. Isso demonstra que em quase quatro mil anos de história a humanidade nada progrediu no campo científico. O nosso D. Dois mil anos depois. Os monges. A maioria das . toma café no Rio de Janeiro e janta em Nova Iorque. Era a história de um indivíduo. voltasse à nossa sociedade.com carruagens. seus descendentes tiveram que remontar em tomo dele o mundo em que viveu . Mas se um ancestral nosso. vê o que pretender. na Alemanha. O invento mudou a cultura ocidental para sempre. Para evitar-lhe problemas psíquicos. e fomos a elas nos acostumando gradativamente. põe-se em contato com qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Não percebemos tanto o vulto das transformações porque ocorreram todas em nossos dias. naquele instante. e assim por diante.

fluvial e até do mar.” E não parou mesmo. os inventos começaram a surgir: um descobriu a energia elétrica. porque de 6 km por hora. trouxe poluição atmosférica.[p. EFEITOS DO PROGRESSO CIENTÍFICO NO MUNDO SOCIAL Enquanto as ciências chamadas exatas eram estudadas e pesquisadas. depois da Segunda Grande Guerra Mundial e da desintegração do átomo. já de muito ultrapassaram a barreira do som. por falta de uma ação . que é o próprio homem. Hoje. e assim as rodas começaram a correr. 34. Muito poucas aventuravam-se para além das fronteiras da aldeia. a ponto de tomar impossível a vida em certos lugares. perdia terreno em seu próprio grupo. todas as experiências eram pessoais: os horizontes eram pequenos. as ciências sociais ficaram esquecidas. porém. resultando disto um descompasso entre o progresso científico e a evolução social. Desse desequilíbrio resultou que o progresso científico. 120 km etc. a comunidade olhava para dentro. ao vê-lo. Criou superpotências capazes de dominar e destruir as demais. o velho se pôs a gritar: “Essa coisa não vai mais parar. Enquanto o homem se empenhava em conquistar a Lua. As instituições sociais. O mais impressionante de tudo é que a maioria dos inventos ocorreu de 50 anos para cá. ainda mais desnorteado. perdendo de vista seu objetivo. em parte porque.agravou-os ainda mais. acarretando acidentes que matam e mutilam mais do que as guerras. outro a máquina a vapor.sua razão de ser . em vez de resolver os problemas sociais . dizendo repetidas vezes: “Essa coisa não vai andar. os homens voam a fantásticas velocidades.” Ao chegarmos perto do século XX.” E quando o trem andou. choques ideológicos. passou em pouco tempo a 60. A explosão demográfica. relegadas a segundo plano. Como diz James Burke. 71] tremamente privilegiada em detrimento das demais. sonora. O primeiro trem andava à velocidade de 6 km por hora: era um espanto para a época. Um velho que se encontrava na estação. um de meus autores favoritos: “Nesse mundo. outro ainda o motor a explosão. agravou os problemas de trânsito.pessoas só conhecia aquilo que fora visto com os próprios olhos ou ouvido em relatos de terceiros. sem mapas confiáveis. permitindo a formação de um clima propício a lutas de classes. pôs-se a advertir os passageiros. não acompanharam o desenvolvimento científico e tecnológico. dominando o espaço sideral. deu origem a uma classe ex. O que existia no mundo exterior era uma questão de ouvir dizer. em geral era quase impossível encontrar o caminho de volta. aumento da criminalidade. gerando novos planos na desigualdade social. como se sabe.

Concluiu-se também ser necessário planejar o desenvolvimento social. inúmeras e extraordinárias obras foram escritas sobre o assunto. liberdade. tomou-se um fato irreversível. realizando-lhe os objetivos. criaram-se cursos universitários específicos nesse fascinante ramo [p. de Miranda Rosa lançou a notável Sociologia do Direito. Provam isto os problemas sociais de violência. já reinantes nos grandes centros socialmente mal organizados. sem a qual não haverá organização. Sociologia e Filosofia do Direito. segurança. Evaristo de Moraes Filho. pesquisas e projetos desenvolvidos. A. Compreendeu-se tardiamente que o progresso científico deve ser integrado. confusa e turbulenta. Mais recentemente: F. que escreveu o conhecido livro Princípios de Sociologia Jurídica.preventiva. visando o planejamento do próprio desenvolvimento. nem apenas um sonho dos marxistas ou fascistas. A IMPORTÂNCIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Houve o despertar da consciência para a importância das ciências sociais e a necessidade de estudá-las. desenvolvê-las. editado pela primeira vez em 1922. Dentre os juristas e sociólogos que entre nós se têm dedicado ao assunto. e Orlando Gomes. 35. 72] do conhecimento humano. . pesquisá-las. só nesta harmonia traz beneficio à humanidade. vinculado ao desenvolvimento social. A sociedade tem que caminhar para o autoconhecimento. É hoje uma imposição da vida em coletividade. miséria. A planificação da sociedade não é mais considerada incompatível com a democracia. progresso. sob pena de tomar-se impossível a vida em coletividade. a ponto de um ex-presidente norte-americano afirmar que a mais perigosa sombra que ameaça a humanidade atualmente não é a bomba atômica. sério. L. de algum tempo para cá tomou-se obrigatório o estudo das ciências sociais em quase todos os cursos superiores. com inúmeros tentáculos ou segmentos. A Crise do Direito (1955). Quando a sociedade cresce desordenadamente toma-se um polvo gigantesco. destacamos: Euzébio de Queiroz Lima. abandono infantil. destinados a preparar especialistas em planejamento e organização social. Carlos Campos. empolgados pelos problemas decorrentes da aparente necessidade de controlar as massas. Por isso. e A. Tem que conhecer o que se passa em seu seio como temos que nos conhecer a nós mesmos. que editou em 1950 a obra intitulada O Problema de uma Sociologia do Direito. mas a cegonha. como foi feito com as ciências exatas.

não sendo possível estudálo abstraindo-o da sociedade. caráter abs. um dos nossos grandes juristas. poderá. as relações que necessitam de melhor disciplinamento. com o passar do tempo aquela acaba se tomando ultrapassada. a Sociologia Jurídica possibilita aplicar o Direito de modo compatível com as necessidades sociais. ou mesmo através da analogia. enfim . Esses ajustes só alcançarão seus objetivos se o legislador estiver devidamente informado sobre aquilo que precisa mudar.” E.] trato. Ao Juiz. traduzido por Teruka Minamissawa. o jurista toma contato. sem conhecer os fatos que estão ocorrendo no grupo. O primeiro é a matéria prima da experiência jurídica. 1946. no estudo do Direito Civil pátrio. sem desrespeitar as leis da hermenêutica.a realidade social. escoteiro. do original Sociologie du Droit. constituindo-se de fatos sociais. visto que.Machado Neto escreveu Sociologia Jurídica. bem colocou esta questão quando disse: “A realidade jurídica constitui-se de dois elementos fundamentais: o material e o formal. 36. IMPORTÂNCIA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA A Sociologia Jurídica é da maior importância em primeiro lugar para o Legislador. Para interpretá-las. sob o título Sociologia Jurídica. São inseparáveis. A missão do jurista compreende a interpretação das leis que regem a sociedade. sendo a lei estática e a sociedade dinâmica. através de uma interpretação ora extensiva. em 1964.[p. o elemento material isolado toma cor neutra e o elemento formal. O outro é formado de um conjunto de normas. os conflitos que se travam . em magistral tradução de Djacir Menezes. fazer o Direito acompanhar as evoluções sociais. com a realidade social subjacente. enfatiza: “O direito é um fenômeno social. E essa interpretação não pode circunscrever-se à qualificação dos fatos jurídicos ou à fixação das condições de validade da conduta do indivíduo no exercício dos direitos deferidos ou no cumprimento das obrigações impostas. Segundo Pugliatti. Dos autores estrangeiros com obras traduzidas para o português. Só por abstração se pode separar a forma do conteúdo. Eis por que. e a Sociologia do Direito de Remi Levy Briihl. numa sociedade determinada. Orlando Gomes.nenhum legislador tem condição de elaborar leis eficazes. Por outro lado. necessariamente. obsoleta. visto que. não podemos deixar de mencionar a Sociology of Law de Gurvitch. não nos ateremos ao método . ora restritiva. conhecendo-as. Com efeito. mais adiante. é preciso com freqüência ajustar a lei às novas realidades sociais. pois fornece-lhe os elementos necessários à elaboração das leis. Não basta descrever os elementos formais da realidade jurídica composta das normas vigentes em determinado momento histórico.

será possível evitar a improvisação em inúmeras questões administrativas e legislativas. os governantes e juízes serão capazes de dar aplicação mais precisa às normas de direito que houverem sido editadas.. Forense. alcançando a necessária adequação entre os fins sociais e as normas jurídicas que se destinam a realizá-los. à qual as normas deverão se ajustar sob pena de perderem a finalidade. Os legisladores poderão cumprir melhor sua função prevendo as tendências da legislação. Podemos concluir afirmando que. pp. . como para o estudante.preconizado pelos normativistas. 1971. mas também um fato. 3a ed. a Sociologia Jurídica proporciona uma visão mais ampla e real do fenômeno jurídico. tomando-se ineficazes e obsoletas. se dermos a devida atenção à Sociologia Jurídica e progredirmos suficientemente em seu estudo. Revela-lhes que o Direito não é somente um conjunto de normas estáticas. 14 e 16). a realidade social dinâmica em permanente evolução. que devem ser aplicadas independentemente de qualquer finalidade ou objetivo. mas sim ao dos que consideram o direito um fenômeno social e entendem que a ciência jurídica não se esgota na elaboração de uma teoria geral ou na técnica de logicar através de silogismos próprios de uma sentença judicial (Introdução ao Direito Civil. Para o advogado. o profissional do Direito. frias.

Método é o caminho que se deve seguir para alcançar os objetivos de uma ciência. O objeto da Sociologia Jurídica segundo Recaséns Siches. desde logo adiantar que em tomo desta questão não há perfeita concordância entre os autores. Vamos procurar agora explicitar esse objeto. vimos que o seu objeto é o direito fato. Leis são aquelas regularidades. examinando a sua divisão interna. entretanto. Em suma. O objeto da Sociologia Jurídica na concepção de Edmond Jorion. 75] .Capítulo VIII OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA O entendimento de Émile Durkheim. **** 37. o objetivo que visa alcançar. porque disto depende uma boa compreensão quanto à razão prática dessa disciplina. O pensamento de Georges Gurvitch. É preciso. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA No estudo de toda ciência é da maior importância precisar seu objeto. o fim a que se propõe. Por objeto entende-se o campo específico de atuação de uma ciência. Vamos de ora em diante nos dedicar ao exame do objeto da Sociologia Jurídica. para então adotarmos o daquele que nos parece mais completo. razão pela qual procuraremos expor o entendimento dos principais. procuraremos precisar o que está contido no estudo do direito como fato. estabelecer seu método e conhecer suas leis. [p. Ao tratarmos da autonomia da Sociologia Jurídica. o processo a ser aplicado para realizar suas finalidades. A posição de Renato Treves. fenômenos que se repetem com freqüência no campo de uma ciência.

76] O último item trata das relações de interinfluência que se estabelecem entre o direito. comunidade. Somente quando as normas estão ajustadas aos fatos é que poderão atender aos objetivos para os quais foram elaboradas. 39. 89-94). em três itens: a) Sociologia Sistemática do Direito ou Microssociologia do Direito. incluindo uma Tipologia Jurídica dos Grupos Particulares e uma Tipologia Jurídica das Sociedades Totais. seria objeto da Sociologia Jurídica: a) investigar como as regras jurídicas se constituíram real e efetivamente. PUF. 1950). b) Sociologia Diferencial do Direito. se está ou não sendo aplicada. um dos fundadores da escola sociológica do direito. No primeiro item teríamos o estudo das relações das formas de sociabilidade por interpenetração (massa. de acordo com as diversas abordagens metódicas de seu objeto.38. . [p. e a base ecológica da sociedade. comunhão) com os fenômenos geradores do direito social.. por outro. bem como das necessidades que visam satisfazer. pp. Paris. o conhecimento e a psicologia coletiva. b) o modo como as normas jurídicas funcionam na sociedade (Leçons de Sociologie. a Sociologia Jurídica pode ser dividida. e das formas de sociabilidade por interdependência (relações de aproximação. por um lado. de afastamento ou mistas) com os fenômenos originários do direito interindividual. dando ênfase especial ao estudo da soberania e das relações das diversas ordens jurídicas com o direito estatal. a economia. citado por Machado Neto. a religião. c) Sociologia Genética do Direito (ob. O ENTENDIMENTO DE ÉMILE DURKHEIM Para esse notável sociólogo francês. isto é. bem como o estudo dos planos de profundidade do direito. a moral. dos fatos sociais que as suscitam. No segundo item Gurvitch se serve de sua classificação dos grupos para estudar as relações do direito com cada tipo de agrupamento social. O PENSAMENTO DE GEORGES GURVITCH Segundo Gurvitch. se há ou não estrutura para isso etc. No primeiro item estaria incluído o exame das causas que determinam o surgimento das regras jurídicas. cit. No segundo item procurar-se-ia saber dos resultados decorrentes da existência da norma.

tendo por objeto o fenômeno jurídico. radicado no México. c) Estudo da gênese das regras jurídicas e de sua evolução. O autor belga. atribui à Sociologia Jurídica duas séries de temas: a) Estudo de como o direito. 211). enquanto fato. encontra-se superado. propõe o seguinte quadro de tarefas para a Sociologia Jurídica: a) Observação e análise dos fatos. b) comparativos). entretanto. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA NA CONCEPÇÃO DE EDMOND JORION Para Jorion. Seu tratamento tipo lógico (reagrupamento. 77] Sociedade A Direito B . O primeiro item proposto por Siches trata do direito como fenômeno condicionado pela sociedade. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA SEGUNDO RECASÉNS SICHES O destacado professor espanhol. o direito é. como já assinalamos. sejam eles positivos. no que. classificação. O segundo item cuida da influência conformadora ou condicionante do Direito sobre a sociedade. representa o produto de processos sociais. estudos 41. p. data venia. p. ao mesmo tempo. Poderíamos ilustrar o entendimento de Siches mediante o seguinte quadro: [p. b) Exame dos efeitos que o Direito constituído causa na sociedade. Em síntese. negativos ou de interferência com outros fatores (Tratado de Sociologia. a Sociologia do Direito e a Ciência do Direito constituem uma só e mesma disciplina. 1965. 693). Porto Alegre.40. d) Relação do Direito com outros fenômenos sociais (influência do Direito sobre a sociedade e vice-versa). de seus próprios limites (De la Sociologie Juridique. como produto resultante de um complexo de fatores sociais. um fenômeno condicionado e condicionante da sociedade. e) Definição pela Sociologia do Direito.

um produto manipulado pela sociedade. apesar de receber tanta influência condicionante do meio social. fontes de trabalho e inventos de outrem.” Por outro lado. escola. No segundo plano (linha B) figura o Direito constituído exercendo influência condicionadora sobre a sociedade: é inegável que. dos operários que manipularão as máquinas etc. luz artificial etc. Ficaríamos alarmados se fôssemos pesquisar o que foi necessário. Por isso. no correr dos séculos. Em que medida o livro é produzido pelo seu autor? Quanto do autor em si. mudança cultural etc. [p. pois deve mais à coletividade do que a si mesmo. haverá naquele livro? Começa que ele escreve em uma língua que não inventou. exclusivamente. resultado de longa evolução histórica. terá que aprender a língua falada no meio social para onde vai. na realidade. de formação lenta e paulatina. Aí a obra sai publicada com o nome do seu autor na capa. o Direito passa acondicionar o comportamento do grupo. professores etc. entretanto. como tinta sintética. Se quiser se comunicar. Todo progresso. fazendo-o surgir das inter-relações sociais. Mas.. patrimônio da cultura universal assimilado graças a uma pluralidade de inventos sociais. Até o livro sair publicado. não podendo ser esquecidas as figuras da datilógrafa. em verdade. dele dependemos grandemente para tudo.No primeiro plano (linha A) figura a sociedade como fator condicionante do direito: é a sociedade que dá origem ao direito. poderíamos dizer que ocorre algo semelhante ao que se passa entre a sociedade e o indivíduo. Escreve sobre um tema que reflete uma soma de conhecimentos adquiridos em livros. revistas. segundo o entendimento de Siches. Newton. para que ele pudesse estar escrevendo numa folha de papel e não em um papiro ou coisa semelhante. Einstein e outros não passariam de um pajé ou cacique. surge . De todos os fatores que atuam sobre o indivíduo. Para escrever depende o autor de uma série de recursos materiais. muitas outras pessoas terão que concorrer para a edição. O próprio Newton afirmou: “Se vi mais longe foi porque estive sustentado em ombros de gigantes. não fosse o social. sendo. portanto. jornais. Para ilustrar as relações existentes entre a sociedade e o Direito. sem dúvida o mais dominante é o sócio-cultural. Até costuma-se dizer que somos produto do meio porque. se tivessem nascido em uma tribo indígena. é obra exclusiva do autor? Somos tão dependentes do social que nem poderíamos falar a língua que pretendêssemos. 78] O gênio não existiria. uma vez constituído em normas de conduta e disciplinamento. do editor. a maior dificuldade de quem vai para um país diferente é a língua. papel. o indivíduo exerce influência sobre o grupo. Não teríamos com quem falar. Tomemos o exemplo de quem escreve um livro.

ainda não suficiente ou convenientemente reguladas. e por sua vez no Direito norma. b) tendências e correntes que ainda não obtiveram expressão normativa. o Direito passa a disciplinar as relações sociais. subdividindo-o em uma série de novos temas. fazendo-o evoluir.dado que a plenitude do ordenamento jurídico não permite tais vazios . por mais que condicione o indivíduo. elaborado pela sociedade. filosofia. e) fenômenos de organização espontânea. a saber: I . que inventou o cálculo infinitesimal. a máquina a vapor. c) representações axiológicas das pessoas que integram o grupo. pois. ou melhor . ficou evidenciada essa influência condicionadora da sociedade sobre o Direito. não consegue a socialização integral de todos os indivíduos. mas sim o indivíduo. condicionando condutas. II . Essa reciprocidade de influência produz constantes modificações no direito fato. é o Direito um produto social. f) necessidades e fins da vida humana que estejam pressionando em dado momento. ao mesmo tempo que o Direito é condicionado. pois caso contrário seria a massificação. . arte. [p. Algo semelhante. Siches dá maior ênfase ao primeiro item da sua proposição temática.Os dados (variáveis) da matéria social: a) realidade de uma série de relações sociais não reguladas juridicamente. Exercendo influência sobre o grupo. a lâmpada elétrica.evolução milenar que durará enquanto existir a sociedade. o indivíduo. No capítulo sobre os Fatores Sociais da Evolução do Direito. Como fato.Os fatores constantes da realidade jurídica. ocorre entre o Direito e a sociedade. técnica.na sociedade graças aos condutos da criação individual. operando elas o milagre da inovação. Não foi a sociedade. É que a sociedade. todos resumíveis na questão da influência condicionadora da sociedade sobre o Direito. O impulso criador da mudança cultural e do progresso social é. Quando erigido em norma de conduta. Certas zonas da personalidade não chegam a ser inteiramente socializadas. entretanto. como já se disse. economia etc. também condiciona. que tem que disciplinar os novos fatos . o que é bom. ao qual nos reportamos. 79] d) mútuas correlações empíricas entre o Direito e outros produtos da cultura (religião.).

É preciso uma estrutura adequada de pessoal e material para aplicar a lei. ao analisar os assuntos que têm constituído o objeto da Sociologia Jurídica. que tipos de efeitos as normas podem produzir. sustenta que eles se agrupam. se atendida. funciona como termômetro a indicar ao legislador as mudanças a serem feitas na lei e nas instituições sociais. 2) estudo dos instrumentos humanos de realização da ordem jurídica e de suas instituições. além de mais compatíveis com o campo de atuação da Sociologia Jurídica. trataremos da opinião pública que. e. Os temas por ele propostos. principalmente. quando a norma é eficaz e por quê. Por último. praticamente. razão pela qual vamos adotar essa classificação em nossos estudos daqui para frente. entendemos ser Renato Treves o que melhor colocou o problema relacionado com o objeto da Sociologia Jurídica. envolvem os temas propostos pelos demais autores. em sua obra La Sociologia del Diritto (pp. o que evidencia a influência condicionadora do Direito sobre a sociedade. [p. 3) estudo da opinião do público a respeito do direito e das instituições jurídicas. 80] . são também mais abrangentes. sob pena de a lei não atingir os seus objetivos sociais. A POSIÇÃO DE RENATO TREVES O ilustre professor italiano. 23-25). De todos os autores mencionados. Veremos o que é eficácia.42. quando teremos oportunidade de ver que não adianta ter leis e não aplicá-las. o que são efeitos. em três tipos de indagações: 1) estudo da eficácia das normas jurídicas e dos efeitos sociais que tais normas produzem. Trataremos também dos agentes do Direito na sociedade e sua função.

Renato Treves. procurando definir a eficácia e os efeitos das normas jurídicas. efeito conservador da norma. entendemos necessário lembrar que eficácia não é sinônimo de validade. em nosso entender. efeito educativo da norma. 81] Um contrato. dissemos. da lei etc. [p. Trata-se de conceitos que a todo momento se repetem no estudo do Direito: validade do ato. 43. Efeitos positivos da lei: de controle social. examinar o primeiro item da classificação por ele sugeri da. o qual. Nossa tarefa será.. é válido? Não.Capítulo IX EFICÁCIA DAS NORMAS JURÍDICAS E SEUS EFEITOS SOCIAIS A noção de validade e de eficácia. pela falta de estrutura adequada à aplicação da lei. estabelecer as causas da ineficácia das leis e os tipos de efeitos que elas podem produzir e por quê. embora esta seja pressuposto daquela. Efeitos negativos: pela ineficácia da lei. Eficácia da lei. após examinarmos o pensamento de vários autores sobre o objeto da Sociologia Jurídica. Inicialmente. efeito transformador da norma. no qual uma das partes é incapaz. nos dá a chave para encontrarmos o conceito de validade. porque lhe falta um dos elementos. . A NOÇÃO DE VALIDADE O que é necessário para que uma coisa seja válida? Esta pergunta. **** No capítulo anterior. pois. razão pela qual tomam-se imperativas algumas palavras a respeito. Efeitos da norma. tomaremos como roteiro de ora em diante. eficácia do contrato. pela omissão da autoridade em aplicar a lei. destacamos o entendimento do Prof.

farinha. com falta de um de seus elementos. Pode-se. 82] . Por isso é que se diz que “válido é aquilo que está revestido de todos os seus requisitos legais”. açúcar e as devidas proporções. ovos. tem força para alcançar os seus objetivos. Faltando qualquer um desses. Quando queremos saber se uma coisa é válida ou não. manteiga. não alcançando os seus objetivos. o negócio é inválido. é ela que estabelece os seus elementos essenciais. concluir que a validade decorre. como sanção à inobservância dos requisitos essenciais impostos pela lei (Teoria Geral do Negócio Jurídico. devemos examinar seus elementos. invariavelmente. Se todos os seus elementos essenciais estiverem presentes. sendo. ela jamais terá o prato desejado. o caso de uma dona-de-casa empenhada em fazer um prato especial. Tomemos. nulo. 1970). no aspecto sociológico. portanto. são partes do todo. Que é preciso para ela fazer esse prato especial? Que elementos deve utilizar? Ela vai à receita e lá encontra a discriminação dos elementos . Com essas considerações preliminares. 44. ela será válida. O ato nulo. não tem força para tal. é aquela falta de idoneidade para produzir. para exemplo. não produz efeitos. para Emílio Betti. de o ato haver sido executado com a satisfação de todas as exigências legais. por força duradoura e irremovíve1. Lembremos agora que a receita do negócio jurídico está na lei . Pois coisa semelhante ocorre no mundo jurídico. terão que estar revestidos de todos os seus elementos essenciais. A NOÇÃO DE EFICÁCIA Eficácia é uma conseqüência da validade: é a força do ato para produzir os efeitos desejados. Por elementos essenciais entendem-se aqueles requisitos que constituem a própria essência ou substância da coisa. A invalidade. porque faltou um dos seus elementos essenciais. os efeitos essenciais do tipo. Coimbra. [p. pois.Vemos assim que válido é aquilo que é feito com todos os seus elementos essenciais. Faltando um deles. Por razões didáticas. que nasceu defeituoso. vamos começar pelos efeitos. cremos já poder agora tratar especificamente da eficácia da norma jurídica e dos seus efeitos. revestido de todos os seus elementos essenciais. ineficaz. cujos conceitos não divergem do que já ficou assentado. Só o ato válido.artigo 104 do Código Civil. sem os quais ela não existiria. inválido. Para que o ato ou negócio sejam válidos.

por mais técnicas e eruditas que forem as leis que elaborar. A sociedade não espera pelo legislador. dos reais problemas e conflitos que se travam na sociedade. a sociedade condiciona o direito fato. porém.45. só tem essa força quando está adequada às realidades sociais. podemos então dizer que lei eficaz é aquela que tem força para realizar os efeitos sociais para os quais foi elaborada. Deve ser a primeira preocupação do legislador . não tem condições de fazer leis. abrangente. Em outras palavras. que atinge o alvo por que está ajustada ao fato. sob pena de nunca elaborar lei eficaz. pois sua própria existência já é um efeito. vazias de propósito. conclui-se que os efeitos envolvem um conceito amplo. Os efeitos podem ser positivos ou negativos. Uma lei. Se os fatos caminham normalmente à frente do . Poderão ser muito boas para outro lugar qualquer que tenha servido de inspiração ao legislador. qualquer conseqüência. não passando de um conjunto de estéreis formalidades. modificação ou alteração que a norma produza no mundo social. Cabe ao legislador ajustar o Direito Positivo a essa realidade social. Pelo que ficou dito. “O legislador não pode ser mero espectador do panorama social. Como dizia Siches. nunca. eficácia é a adequação entre a norma e as suas finalidades sociais.fornecer ao legislador os elementos necessários à elaboração dessa norma. Só aí ela penetra no mundo dos fatos e consegue dominá-los. entretanto. 46. genérico. serão elas carentes de conteúdo. é eficaz a norma que atinge os seus objetivos. decorrentes até mesmo de sua própria existência. como teremos oportunidade de ver. Por conseguinte. Toda norma produz efeitos. Nesse sentido é também a correta lição de Paulo Nader. é a força do ato para produzir os seus efeitos. como já vimos. que não está a par do desenrolar dos fatos. EFICÁCIA DA LEI Se eficácia. EFEITOS DA NORMA São todos e quaisquer resultados produzidos pela norma.elaborar uma norma adequada à realidade social e a primeira tarefa da Sociologia Jurídica . para a sociedade à qual se destinam. moldando-o à sua imagem e semelhança. por isso que neles estão incluídos todos os resultados produzidos pela norma. ajustada às necessidades do grupo. Legislador que não tem conhecimento da realidade social. que realiza as suas finalidades.

provoca. entre vários modelos possíveis de lei. É uma certa qualidade do efeito produzido pela norma. produz normalmente efeitos positivos. 3) conservador. com as devidas correções e complementações. verifica-se ser a eficácia um dos efeitos da norma. Pelo exposto. Ele deve fazer das leis uma cópia dos costumes sociais.1. em outras palavras. cit. a contrario sensu. conforme os interesses a serem preserva. natural e científico e a sua conduta será a de adotar. É o efeito típico da norma. igualmente. Entre os efeitos positivos da norma destacaremos apenas quatro: 1) de controle social. aquele que mais se harmonize com os três fatores” (ob. eficácia é espécie. 27). são os resultados contrários aos interesses da sociedade. da qual falava Siches. Efeito é gênero. O Volksgeist deve informar às leis. seu efeito principal ou real. p. vimos que as suas principais finalidades são prevenir e compor conflitos. 4) transformador 47. como teremos oportunidade de ver. o legislador deverá antecipar-se aos fatos. a função preventiva é a . 83] dos. O Controle Social Quando tratamos da função social do Direito (no segundo capítulo). e negativos. O estudo dos efeitos da lei é. Efeitos positivos são os resultados compatíveis com os interesses sociais. Quando da elaboração da lei. 47. A norma. A norma eficaz só não produz efeitos positivos se concorrerem outros fatores. destas. importantes modificações na sociedade.. o estudo da influência condicionante do Direito constituído sobre a sociedade. conforme mencionado na parte anterior. quando eficaz. Se de um lado o Direito recebe grande influxo dos fatos sociais.Direito. o legislador haverá de considerar os fatores histórico. Podemos até dizer que a eficácia é o principal efeito positivo da norma. 2) educativo.[p. um efeito condizente com suas finalidades. Esses efeitos podem ser positivos ou negativos. EFEITOS POSITIVOS DA LEI Já vimos que efeitos são todos e quaisquer resultados produzidos pela norma. mas o Direito contemporâneo não é simples repetidor de fórmulas sugeridas pela vida social.

fundo de garantia. 47. que o bom comportamento até do cidadão mais exemplar deve muito à existência da polícia. Em segundo lugar. conhece os seus direitos. E ai de nós se assim não fosse! Como o Direito [p. indenizatória. O controle social é exercido pelo Direito primeiramente pela prevenção geral. Efeito Educativo da Norma Está mais que evidenciado. ajustem o seu comportamento às prescrições legais para não sofrerem a sanção. ou a aplicação de uma pena pecuniária. É que a lei. antes de se tomar obrigatória. Conscientizou o cidadão dos seus . Exemplo disso encontramos no Direito Trabalhista. à medida que vai sendo conhecida pelo grupo. tem que ser divulgada. Quando a norma não é aplicada convenientemente. Bertrand Russel observou. repouso remunerado. aviso prévio etc. sofre o controle do Direito quanto à sua conduta. mas sim no próprio grupo. O Direito é muito mais preventivo do que repressivo. vai também educando e esclarecendo a opinião pública. O próprio Estado. maior estímulo no sentido de ajustar sua conduta às condições existenciais. vai se perdendo o controle da situação e a vida em sociedade vai se tomando impossível. Isto faz com que muitos. o controle é também exercido pela prevenção especial: a segregação do transgressor do meio social. a não ser através dos meios constitucionais etc. 84] previne os conflitos? Estabelecendo regras de conduta. mediante a ameaça de uma pena para o transgressor da norma. aquela coação psicológica ou intimidação exerci da sobre todos. A Constituição de 1988 nos fornece outro exemplo eloqüente desse efeito educativo da lei. Qualquer trabalhador dos nossos dias. da próxima vez que se sentir inclinado a transgredir a norma. de disciplinamento social.mais importante. Sabe que tem direito a férias. a sociedade global. publicada. para ter. E ele sabe até mesmo onde e como reclamar os seus direitos. mesmo o ignorante ou analfabeto.2. que certos assuntos tomam-se melhor conhecidos do grupo social depois de serem disciplinados pela lei. através de pesquisas e da própria experiência. com toda a propriedade. Dessa forma exerce o Direito sobre todos um condicionamento que resulta num controle do comportamento do indivíduo. É inconcebível uma sociedade na qual o comportamento social seja regulamentado apenas pelas sanções morais do elogio e da culpa. 13° salário. do grupo e das instituições. nem na Escola de Direito. mesmo não querendo. não pode apoderar-se da propriedade de quem quiser. tanto assim que não pode punir sem que alguém tenha praticado um fato típico. e assim. Por quê? Onde aprendeu? Não foi com o patrão.

Vejam o caso da família. Estruturaram-se adequadamente e colocaram em operação o Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) por meio do qual conseguiram padronizar procedimentos. mais do que isso. o infanticídio. visam a tutela da vida. Para muitos. ligase ao caráter estático que ele representa ao garantir a manutenção da ordem social existente. estabelecendo em tomo delas a proteção jurídica.direitos e do acesso à Justiça. 47. Há normas no Código Civil (um livro todo que só trata do direito de família). cerca-as. Efeito Conservador da Norma As normas jurídicas tutelam determinados bens da vida social. por sua vez.729. das quais foram julgadas 223. que se transformam em jurídicos quando recebem a proteção do Direito. mas. no Código Penal (dos crimes contra a família. a começar pela Constituição. que é a instituição maior. racionalizar atividades. 85] pelo Código do Consumidor. que podiam aprender com eles para melhorar seus produtos e serviços. As empresas. Trata-se de instituição basilar da sociedade. defendeas. É a função educativa do Direito. Uma grande fornecedora de serviço de telefonia atende mais de 25 milhões de chamadas por mês. no entender do ilustre .348 reclamações. necessita da proteção do Direito e por isso existem leis. protegem o patrimônio. o aborto. Em 2003 foram ajuizadas 296. o estelionato. preservar esta instituição através dos séculos e a despeito de todas as influências perniciosas que conspiram contra ela. essa é a característica essencial das normas jurídicas. perceberam que teriam de atender melhor os seus clientes para não perdê-los. e assim por diante. em face da nova postura dos consumidores. no ano de 2002. 85% do atendimento dos bancos 24 horas são feitos eletronicamente. destinadas a organizá-lo e conservá-lo. foram propostas 252. Quando o legislador entende que certas instituições são valiosas e indispensáveis à vida social. A função conservadora do Direito. O próprio Estado. E o que se fez em relação a ela? Procurou-se protegê-la através de uma infinidade de normas. arts.389. assinala o insigne André Franco Montoro. o roubo. as que incriminam o furto. A norma tutela não somente bens. mas também instituições.3. Só no Estado do Rio de Janeiro. Assim tem conseguido a sociedade. 235-249) e na própria Constituição. grandemente procurados. conquistar a fidelidade dos clientes e construir uma imagem positiva da empresa. Prova disso são os Juizados Especiais. Tomemos como exemplo o Direito Penal: todas as normas que incriminam o homicídio. bem ou mal. no que foi coadjuvada [p.782 reclamações e julgadas 265. destinadas à proteção da família. Hoje.

Rev. a norma estabelece novas diretrizes a serem seguidas. muitas delas com refeitório. imundas e nocivas. estabelecendo. o efeito condicionante do Direito sobre a sociedade. aparelhar-se. aparelhar-se para cumprir a lei. Há quem diga que a história da pena é pior que a do crime. estabilizados e organizados. bem como as penas mais ter. tem que se estruturar.4. mais diretamente. p.. Qual era a sua situação? A mais lamentável possível. o erro dessa posição é patente.jurista. creche. escola. Exemplifiquemos este ponto com a situação do trabalhador antes das vigentes leis trabalhistas. Vêm daí as masmorras. E qual foi a conseqüência disso tudo? A sociedade teve que se estruturar. Como não mais podia trabalhar. aposentadoria. Se o fim da pena era punir. em favor do trabalhador. 23a ed. para dar cumprimento à lei. direito a férias. vestiário. paulatinamente. Muitas vezes. Eis aí o efeito transformador da lei. depois de velho e cansado. 87] ríveis que se possa imaginar. por ser grande demais. ambulatório. isso só é [p. Trabalhava a vida toda e. não funciona a contento. Reduzir o direito a uma força conservadora é perpetuar o subdesenvolvimento e o atraso (Introdução à Ciência do Direito. passando privações e causando problemas sociais graves. ficava ao desamparo. 86] verdade em países plenamente desenvolvidos. foi necessário até a criação de um gigante nacional (INSS) para cuidar da aposentadoria e assistência médica dos trabalhadores. quanto piores as prisões. assistência médico-hospitalar. as prisões fétidas. . Nos países em desenvolvimento e transformações profundas. em razão de necessidades sentidas. Isso teve que ser mudado: vieram as leis trabalhistas e previdenciárias. indenização por acidente de trabalho etc. 595). e o resultado foi uma transformação social. os calabouços. equipar-se.[p. fixa novos princípios a serem observados em determinadas questões. indenização. dos Tribunais. 47. Outro exemplo. e assim. Efeito Transformador da Norma É aqui que percebemos. A sociedade então. Nesse tempo. No passado a pena era considerada um castigo ou punição: mal justo contra quem praticou mal injusto. era dispensado sem qualquer direito. As fábricas e indústrias tiveram que oferecer melhores condições e ambiente de trabalho aos seus empregados. que. auxílio de doença. melhor. Daí a importância do Direito como instrumento de transformações sociais. vai operando sensíveis transformações em seu meio. determina a realização de certas modificações. então o réu deveria ser mesmo colocado no pior lugar do mundo.

A reforma econômica desencadeou outras reformas: na previdência. gerando miséria. a cultura. castigando impiedosamente? Não. o melhor exemplo do efeito transformador do Direito vamos encontrar nas leis econômicas que implantaram o Plano Real. na Administração Pública. A pena não é mais uma forma de castigo ou punição. em conseqüência. quando corretamente utilizado. 88] 48. pode ser o grande instrumento de uma política do desenvolvimento nacional. na ordem tributária. passou a comer mais e melhor. efetivo controle dos preços. produzir efeitos negativos. mediante normas que promovem a educação. Certas leis. no monopólio estatal. contrários aos interesses sociais. terá a norma exercido a sua influência transformadora. Sem dúvida. A economia do país estava à deriva. e em alguns estados já começam a surgir as primeiras transformações através de modernos estabelecimentos penais. EFEITOS NEGATIVOS DA NORMA Elaborada para produzir efeitos positivos. desequilíbrio social e abusos econômicos de toda ordem. fome. É claro que . nem no sentido de prevenir a sociedade contra a futura criminalidade. todas com amplo apoio da sociedade. não dava à sociedade nenhum instrumento de defesa contra esse indivíduo e seus futuros crimes. e a participação eqüitativa de toda a população na renda nacional. como as orçamentárias. comandam a execução de planos de desenvolvimento social. a saúde. maior poder aquisitivo da população. pode a norma. Por todos esses motivos. mas sim um meio de reeducação e ressocialização do réu. adequados às novas exigências legais. Para tanto. atribuindo-lhe uma função preventiva. gerando profundas alterações na realidade brasileira. que. Procura-se hoje fazer da pena um instrumento de defesa social. o que será preciso? Onde educar? Na prisão? Na masmorra? Como. Tomava o réu pior . mas corrigir. com uma inflação astronômica corroendo o salário do trabalhador. que esperamos seja duradoura. isso acontecer. e quando. em dadas circunstâncias. trouxe uma melhor distribuição de renda. revoltado e despreparado para voltar à sociedade. Pelo menos já se fala hoje em reforma penitenciária. entretanto. o bem estar. na privatização de estatais. Então será preciso transformar nossas prisões em escolas e reformatórios.mais perigoso. Se. o pensamento moderno a respeito dos fins da pena mudou. Isso tudo evidencia que o Direito. Pior do que tudo. Não vamos mais punir. [p. A estabilização da moeda.Essa posição quanto à pena trouxe os piores resultados sociais possíveis. pois nada fazia no sentido da recuperação do criminoso. A prisão passou a ser a melhor escola de crime.

através da lei. uma adesão da comunidade. Ou. O trecho é o seguinte: “Não elaboramos leis para ser estampadas nos livros. o legislador não consegue vencer as poderosas forças do misoneísmo que seguram. 3) quando inexistir estrutura adequada à aplicação da lei. De um trecho da exposição de motivos do projeto de lei para a reforma do Poder Judiciário. podemos destacar três causas principais.” “O nosso País já é afamado pela distância entre a realidade e a norma jurídica. entretanto.” . da qual foi Presidente o douto Senador Acyoli Filho. ou de outros fatores. ou as tomam mofinas.” “Às vezes o legislador. 90] de pôr o País em dia com as conquistas da civilização. no entanto. Valem pela força que têm sobre os fatos e como são entendidas nessa aplicação. As leis nascem para viver e só valem quando podem entrar no mundo dos fatos e ali governar.” “As leis.para que seja cumprida.quando isso chega a acontecer é tempo de revogar a lei. Efeitos Negativos pela Ineficácia da Lei A eficácia da norma depende do reconhecimento. retardam e impedem as reformas. elaborado por uma Comissão Especial do Congresso Nacional.igualmente como as demais normas sociais . 48. que gera a eficácia ou ineficácia da norma. levado pelo idealismo [p. teimam em sobreviver. substituindo-a por outra mais adequada. pode depender da legitimidade da autoridade que a estabeleceu. Esse reconhecimento ou recusa.1. o legislador.. acanhado e despreparado. aceitação ou adesão da sociedade a essa norma. no entanto. a norma se incorpora à vida do grupo” (Sociologia do Direito. 2° vol. quer alterar velhos hábitos e dar-lhes nova disciplina. Os hábitos. em constante conflito com os fatos. Graças a esse reconhecimento. para que se converta em força efetivamente configuradora das condutas. 19-20). 2) quando houver omissão da autoridade em aplicá-la. da maior parte dos indivíduos que integram o grupo. Lembramos três hipóteses em que a lei produz efeitos negativos: 1) quando for ineficaz. como observa Siches: “A norma jurídica . em 1977. antecipa instituições e prevê soluções que naufragam num meio hostil. acabam superadas por estes e terminam por desmoralizar-se. do conteúdo da mesma. De outras feitas. Outras vezes. e sobrevivem apesar da lei. estendendo-se o desapreço a toda a legislação. para ser lidas ou para ficar na história. pp. exige um reconhecimento. isto é.

é aversão sistemática às inovações ou transformações do status quo. que ele destacou ao dizer: “As leis. Muitas leis que controlam as atividades das multinacionais. A maior parte de nossa legislação precisou ser reformulada exatamente por esta razão. Velhos hábitos. Com o correr do tempo. o legislador não consegue vencer as poderosas forças do misoneísmo que seguram... retardam e impedem as reformas. impedem que a lei seja aplicada ou mesmo elaborada. O legislador vê algo que funciona muito bem em certo país mais adiantado e quer implantar no nosso. Assim. não são aplicadas em razão dos interesses econômicos em jogo. razão pela qual a lei cai no vazio. A segunda causa é o misoneísmo e vem mencionado no seguinte trecho: “. lembrada pelo Senador Acyoli Filho. Misoneísmo. se bem elaborada. . lembramos que o divórcio custou tanto a ser admitido pela nossa legislação em virtude das pressões da Igreja. acanhado e despreparado” (o grifo é nosso). Por mais estranho que possa parecer. costuma-se entre nós dizer que a lei não pegou. vai se desatualizando. frontalmente contrária à dissolução do vínculo matrimonial. o legislador. entretanto. Às vezes porque há grandes interesses políticos. pode estar em perfeita adequação com a realidade social no momento de sua criação. outras vezes por mero comodismo da autoridade que não levou a sério a aplicação da lei. costumes emperrados. vai sendo ultrapassada. antecipa instituições e prevê soluções que naufragam num meio hostil.[p. esses gigantescos organismos econômicos dos nossos dias. em constante conflito com os fatos. pois os fatos são dinâmicos. Só para ilustrar esse ponto. privilégios de grupos. como se sabe. acabam superadas por estes e terminam por desmoralizar-se. ou as tornam mofinas” (o grifo é nosso). Interesses corporativistas emperraram a reforma da Previdência por muitos anos e ainda impedem a reforma Política. o que em nosso país constitui na realidade uma forte causa da ineficácia da lei. a lei. Não consegue porque não há suporte social. evoluem constantemente. Acyoli Filho põe isto em destaque no seguinte trecho: “Ou.A primeira causa da ineficácia da lei. 90] tras vezes. é a sua desatualização. Com efeito. Cada legislador tem que elaborar a lei com base na realidade de sua sociedade. econômicos ou religiosos em jogo. A antecipação da lei à realidade social existente é a terceira causa de sua ineficácia. correspondência com a realidade. estendendo-se o desapreço a toda a legislação” (o grifo é nosso). levado pelo idealismo de pôr o País em dia com as conquistas da civilização. entretanto. mas a lei é estática. o passar do tempo toma a lei ineficaz.

quando ajustada à realidade social e inteiramente adequada aos fatos. desatualizada. dado a severidade de suas normas e a gravidade das penas. 48.12. assim. É fogo que não queima. para acabar com a impunidade dos motoristas profissionais.2. a transgressão sem punição vai estimulando novas transgressões. se é ou não obrigatório informar aos motoristas onde se encontram esses meios eletrônicos.2003) o DENATRAN anunciou ter decidido criar o Registro Nacional de Infrações de Trânsito que permitirá a cobrança das multas por infrações cometidas fora do Estado onde os veículos estão registrados. superada pela realidade social. entre as quais a perda da carteira. com a pontuação várias vezes estourada.Vemos. Há milhares de motoristas infratores. e por desídia. Quem transgride a lei impunemente sente-se encorajado a transgredir novamente. câmeras eletrônicas valem ou não. produz efeitos negativos porque não tem força para governar os fatos sociais. Exemplo eloqüente disso é o Código de Trânsito Brasileiro. isto é. mas não produzirá efeitos positivos por omissão das autoridades. quando foi editado. que fazer lei é algo diferente de fazer literatura ou história. portanto. o que realiza através do disciplinamento do comportamento mediante normas jurídicas armadas de sanção. Mas se a lei é transgredi da. quer por ser artificial. acobertados pelas empresas para as quais trabalham. havia uma grande expectativa de que ele haveria de por ordem em nosso trânsito caótico. Depois de vários anos de vigência quase nada melhorou porque as multas e outras sanções aplicadas não foram executadas. fruto apenas do pensamento. dirigindo sem serem molestados. conseqüentemente. A lei só tem força para “penetrar no mundo dos fatos e ali governar” quando é eficaz.qual será o resultado? Vai se enfraquecendo aquela disciplina que a norma impõe a todos. Neste caso a lei pode até ser eficaz. vai se diluindo a sua função preventiva e. Efeitos Negativos pela Omissão da Autoridade em Aplicar a Lei A função principal do Direito. 91] por pardais. principalmente . e o seu exemplo serve de estímulo a outrem. a sanção não é aplicada. Lei ineficaz. Só agora (O Globo de 26. Em janeiro de 1997. As autoridades do trânsito ainda discutem se as multas registradas [p. a autoridade nada faz . controlar as relações sociais. tiro sem bala. quer por ter se tomado anacrônica. incompetência ou irresponsabilidade da autoridade. já vimos. Anunciou também que só a partir de 10 de junho de 2004 (Resolução 151 CONTRAN) começará a ser aplicada em todo o país a chamada multa por não identificação do condutor. é prevenir conflitos. A conseqüência é que a lei se desmoraliza e estende o desapreço a todo o sistema. se quando surge o comportamento de desvio nenhuma pena é imposta ao transgressor da norma.

principalmente no denominado poder paralelo. No Rio. 48. . Por isso é comum dizer-se que. Efeitos Negativos pela Falta de Estrutura Adequada à Aplicação da Lei Nesta terceira hipótese. mas o problema continuou: o ICCE fechou o ano de 2003 com cerca de cem mil laudos atrasados.2000). Enquanto a criminalidade cresce assustadoramente. continua sendo o nosso grande problema atual. lamentavelmente. 23. falta tudo enfim. por falta de pessoal e estrutura.de ônibus urbanos. e as boas intenções que motivaram a sua aprovação há mais de seis anos. Toma-se impossível aplicar a lei sem os recursos humanos e materiais necessários. sobram 30 mil para uma equipe de 50 policiais. Esse. autoridades competentes e responsáveis.3. os mandados de prisão não cumpridos chegavam a 200 mil. poderemos ter leis boas e eficazes. foi forçado a conceder liberdade provisória a quatro traficantes. então titular da Delegacia de Busca e Capturas (Polinter). 92] cial. equipamentos.07. o delegado Álvaro Lins. o Juiz Camilo Ribeiro Ruliere. Por falta de um laudo do Instituto Carlos Éboli (ICCE). pior do que não ter leis. Em julho de 2000 o Ministério da Justiça estimou que havia cerca de 204 mil foragidos da Justiça brasileira e mais de 275 mil mandados de prisão não cumpridos no país. mas a norma não atingirá seus objetivos sociais por falta de estrutura para uma eficiente aplicação do direito. é tê-las e não aplicá-las. o Ministério Público e o próprio Judiciário não estão suficientemente aparelhados para aplicar a lei. A Polícia. Quais serão as conseqüências dessa falta de estrutura? As mesmas anteriormente mencionadas: transgressão sem punição e estímulo à ilicitude. uma média de 600 mandados por policial (O Globo. tomou uma decisão extrema. morte ou decisão judi. dos 90 mil mandados de prisão expedidos no estado. o Código de Trânsito perdeu a sua força didática. depois de um começo promissor. Os acusados foram soltos. falta material. faltam instalações. da 9ª Vara Criminal do Rio.[p. Sequer reduziu a incidência de infrações graves como excesso de velocidade e embriaguez ao volante. Ainda assim. segundo estimativa do Professor Flávio Gomes. mas que já está se tornando comum na Justiça. Falta pessoal. Em São Paulo. admitiu que. Está ameaçado de cair em desuso se não forem resgatados com urgência a sua letra e o seu espírito. Em resumo. No dia 22 de setembro de 2003. pelo menos 60 mil já caducaram por prescrição. a Justiça fica impedida de julgar em decorrência da falta de estrutura do organismo policial e de seus institutos de criminalística. São cem mil inquéritos parados aguardando provas técnicas.

Assassino confesso de 12 crianças no sul (Paraná. depois de condenado a 27 anos de prisão. Se o inquérito chega ao juiz sem qualquer prova técnica ou testemunhal. pouco poderá ser feito por órgãos policiais ou judiciais que dependem dessas informações. Quase dois anos depois. diz que em maio de 2003 o Governo do Paraná pediu para retirar seus dados do INFOSEG por. Especialistas nessa área dizem que a falta de vontade política de governadores é um dos principais entraves para manter em funcionamento o INFOSEG. 93] que a qualidade das informações era ruim e o estado pretendia melhorá-la. disse: “A polícia. 21. ainda hoje não funciona eficientemente por deplorável omissão das autoridades responsáveis pela segurança pública. desta feita por ter sido reconhecido pelo amigo de uma outra criança assassinada quatro dias antes. embora criado em 1988 o INFOSEG pelo Ministério da Justiça. Moral da história. foi detido no Rio Grande do Sul sob suspeita de assassinar outra criança. no Paraná. parte das mortes poderia ter sido evitada. foi liberado no mesmo dia. iniciativa da maior importância e extremamente necessária no combate à criminal idade num país continental como o nosso e super populoso. Desembargador Miguel Pachá. como pode o juiz condenar alguém? Depois dizem que a polícia prende e o juiz solta. Mas.por carência de aparelhos e de material humano. O Presidente do Tribunal de Justiça do Rio. Outro exemplo lamentável dessa falta de estrutura foi noticiado pelo Globo de 08. pois o juiz não pode condenar sem provas. apesar de existir mandado de recaptura contra ele expedido desde abril de 2002. Apenas no dia 07.12. falta ainda responsabilidade funcional por parte do estados . Isso não é verdade. muitas vezes. como nada constava sobre ele no INFOSEG (sistema nacional destinado a integrar todas as informações policiais e judiciais). Santa Catarina e Rio Grande do Sul). mas isso não foi feito.01. ou pelo menos do mandado de recaptura contra ele existente. não faz um trabalho de perícia eficiente. “enquanto os estados não se interessarem em alimentar e atualizar periodicamente o INFOSEG. a Secretaria de Segurança do Paraná alegou que ano passado (2003) decidiu limpar seu banco de dados do INFOSEG porque o sistema nacional apresentava falhas que prejudicariam sua utilização.2004. Ex-secretário nacional de Segurança Pública. fugiu da cadeia em União da Vitória.2003).2004 foi novamente preso. por sua vez. Em nota. Segundo ele. o que acaba levando a sociedade a culpar o Judiciário.01. Se no INFOSEG constasse a informação sobre a condenação anterior do criminoso. o coronel José Vicente da Silva condena a falta de iniciativa dos estados para abastecer o sistema nacional. nem manter ninguém preso” (O Globo. em novembro de 2003.[p. A Secretaria Nacional de Segurança Pública. comentando a decisão do juiz Camilo.

executá-las. apenas quatro bancos de dados integram o INFOSEG . Sem essas e outras bases de dados nos estados.2004). Por isso. Teve que usar uma sala da Polícia Rodoviária Federal” . E quando a lei é aprovada e nada faz acontecer. Túlio Khan. que foi responsável pelo INFOSEG durante os últimos meses do governo de Fernando Henrique Cardoso. não indago se aí há leis boas. responsável [p. nada é feito no sentido de executá-la.” O Brasil. todavia. a intenção de resolver o problema com a solução em si. organiza uma imensa demagogia. porque leis boas há em toda parte. 94] pelas investigações. cria uma esquizofrenia institucional.2004). Por meio de um prodigioso processo mental. confunde-se o projeto com a realização. os legisladores se reúnem e aprovam outra lei. . ex-secretário nacional de Segurança Pública. 09.01.01. anuncia aos quatro cantos que o problema está resolvido. já que apenas 4% dos casos no Rio de Janeiro e 12% em São Paulo são resolvidos. encarregada de fiscalizar e a Polícia Civil. Montesquieu tinha toda razão ao dizer: “Quando vou a determinado país. Segundo ele.2004). e tudo acaba aí. é tê-las e não aplicá-las.com informações de veículos roubados. repetimos. condutores irregulares. em vez de se discutir o que fazer para dar-lhe execução.para atuar na área de segurança pública. mas sim se as executam. Luiz Eduardo Soares. há pessoas que cometem um crime grave num estado e depois respondem como réu primários em outro (estado) simplesmente porque estão usando nome falso ou porque ninguém consegue saber de seus antecedentes” (O Globo. critica também duramente a atuação das autoridades policiais no combate à criminal idade ao dizer que “as taxas de elucidação de homicídios mostram uma tendência à impunidade. lamentavelmente. Diz ainda que a divisão de tarefas entre a Polícia Militar. 08. armas e ainda sobre foragidos da Justiça.lembrando que nos Estados Unidos o sistema nacional envolve 14 bancos de dados e a sede do órgão ocupa um edifício inteiro (O Globo. informa que. diz ainda Khan. O Governo deveria tomar a iniciativa de fazer uma reforma nas polícias com o mesmo vigor empregado nas reformas da Previdência e Tributária” (O Globo. faz uma grande propaganda. é campeão em resolver problemas elaborando leis. toma-se o dito pelo feito. “A equipe do INFOSEG não tinha nem sala no Ministério da Justiça. o INFOSEG não consegue servir aos próprios estados. prejudica a operação de todo o sistema. atualmente.” A falta de investimentos. Edita a lei. sem. pior do que não ter leis. 09. “Os Governos estaduais deveriam investir urgentemente na digitalização de informações do Detran e da Polícia Judiciária.01. a solução para o problema deveria partir de iniciativas dos próprios administradores públicos estaduais.

Sempre que um adolescente pratica um crime bárbaro. mas não tem cabimento pensar que a simples antecipação da maioridade penal resolverá o problema da criminalidade dos adolescentes. por que não envolvê-los nessa tarefa? As estatísticas demonstram que o planejamento familiar poderia contribuir decisivamente para a redução da desigualdade. A situação talvez até piorou. Famílias sem renda e instrução têm o dobro de filhos da média brasileira de 2.4.Foi exatamente isso que ocorreu quando entrou em vigor o Estatuto da Criança e do Adolescente: os políticos da época anunciaram por toda a imprensa que o problema do menor no Brasil estava resolvido. anunciou a criação do Ministério da Criança e acrescentou: “Gostaria de ver iniciativas como essa se estenderem para outras nações. assassinato de um casal de namorados no interior de São Paulo e outros). voltando às ruas com mais raiva de tudo e de todos e mais experientes em atos criminosos. é outra.” A simples edição de uma lei e a criação de uma entidade governamental foi tomada por uma solução. sem alimentação e sem educação. o problema seria resolvido com a diminuição da maioridade penal de modo a permitir punição exemplar dos adolescentes criminosos. ao ser indagado sobre a questão da criança em nosso País. bem diferente. Ganha fôlego a antecipação da maioridade para 16 anos. os menores continuam abandonados na rua. É preciso definir um projeto amplo de aperfeiçoamento do ECA e das instituições que educam ou reeducam os adolescentes que lá chegam. reascende a discussão a respeito da reforma do Estatuto da Criança e do Adolescente. o ECA não é irretocável. São também necessárias ações sociais preventivas destinadas a preparar os jovens para uma paternidade ou maternidade responsável. Nada aconteceu de positivo em relação ao menor depois da vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente dada a distância entre a lei e a sua execução. sendo prova disso a chacina da Candelária. [p. que teve repercussão mundial. porém. Se a família é tão importante para a educação das novas gerações. com planejamento familiar e assim por diante. A mulher de até um ano de escolaridade e renda . A realidade. eles passam pouco tempo nas instituições de recuperação. que lhes possibilite uma profissionalização. Por falta de recursos. sem assistência. o então Presidente da República. Uma mera fantasia burocrática virou remédio de tal eficácia que até se recomendaria sua exportação. Por melhor que seja. instituições adequadas e gente competente. de repercussão nacional (morte dos pais. Afinal. 95] A questão do ECA é item prioritário em qualquer equacionamento efetivo do problema da segurança pública. em visita a Nova York. Para alguns setores da sociedade.

12. a mulher tem.2004). Por enquanto só no papel. Se quando chegar a hora forem visíveis para a sociedade os efeitos positivos do estatuto. é considerado uma boa lei pelos especialistas. esse irrealismo ilusório de nossa legislação escrita é bastante antigo e conhecido. porque a facilidade com que os criminosos têm acesso às armas é muito grande. “do que acontecer nessas e em outras frentes de luta dependerá o resultado do referendo que.01. ele será um cabo eleitoral eficiente. Sem Índices eloqüentes de redução da violência gratuita das armas de fogo. o próprio estatuto corre o risco de acabar recolhido ao empoeirado depósito onde se empilham as leis que não pegaram no Brasil” (O Globo. em média. daqui a menos de dois anos. inclusive de pessoal.12. Só em São Paulo é apreendida uma arma a cada quatro minutos. Lamentavelmente. 96] .baixa. na prática dependerá dos recursos que forem liberados às Polícias Federal e Estadual. Capistrano de Abreu denunciou-o com ironia dizendo que temos uma legislação quase perfeita. decidirá sobre a proibição do comércio de armas no país. agora em vigor. O Estatuto do Desarmamento. No passado.48 filho. com onze ou mais anos de instrução. E concluiu: “É fundamental a polícia de fronteira. [p. mas elas não param de entrar. 1.” Como bem colocou o jornalista Luiz Garcia. para realizarem as tarefas que o estatuto lhes reserva. 30. entre as quais o combate ao tráfico de armas no país inteiro. afirmou o Governador Geraldo Alkimim em entrevista ao jornal O Globo (04. o combate ao contrabando. tem média de filhos de 4. Só nos falta uma lei. a que mande cumprir todas as outras.2003).

a macrodelinqüência. por isso que lhe fornece os elementos necessários . não previstos em nossa legislação atual. a introdução do divórcio na legislação brasileira. Direito financeiro e tributário.Capítulo X ASPECTOS SÓCIO-JURÍDICOS DE ALGUMAS ÁREAS DO SISTEMA JURÍDICO BRASILEIRO O sentido sociológico da Constituição: Constituição e democracia. criminalidade de colarinho-branco. União de pessoas do mesmo sexo. uma demonstração eloqüente da importância da Sociologia Jurídica [p. principalmente nos grandes centros. Direito de família: divórcio. Considerações gerais. analisar os efeitos sociais produzidos por certas normas existentes (ou que já existiram) em várias áreas do nosso Direito. sob pena de se tomar ainda mais difícil a vida em coletividade. 97] para todo profissional do direito. **** No capítulo anterior estudamos a eficácia e os efeitos das normas jurídicas e pudemos conhecer os principais efeitos positivos e negativos que elas produzem. quando teremos oportunidade de conhecer a longa e penosa evolução transcorrida até chegarmos a uma razoável disciplina jurídica de certos fatos sociais. características da Constituição Brasileira de 1988. Direito penal: violência urbana e poder paralelo. igualmente. soluções legais paliativas antes do divórcio. Vamos agora examinar alguns aspectos sócio-jurídicos da nossa legislação. Direito do consumidor: a responsabilidade objetiva do fornecedor de produtos e serviços. Veremos também que a ocorrência de novos fatos sociais. estão a exigir uma urgente solução do legislador. a situação da companheira e dos filhos após a Constituição de 88. Direito do trabalho: interferência das forças sindicais no processo de formação do direito do trabalho. a concepção social do contrato. a situação da companheira e dos filhos ilegítimos. Essa incursão pelos vários ramos do Direito proporcionará. principalmente para o legislador.

117). mas do poder. Vista pelo prisma sociológico. quando a Constituição não é o somatório dos fatores reais de poder. p. a Constituição pode ser legítima e eficaz. como o seu próprio nome diz. O SENTIDO SOCIOLÓGICO DA CONSTITUIÇÃO Entende-se por Constituição a Lei corporificadora do Estado. o mais expressivo representante do sociologismo constitucional. prevalecerá sempre a vontade daqueles que titularizam o poder.Que é uma Constituição? Para ele. mas têm base na realidade. da Constituição escrita.e a Constituição real. Este não deriva da folha de papel. como bem colocou Ferdinand Lassalle. Embora se diga que o Poder Constituinte Originário é inicial (porque não há outro antes). nada mais é que uma folha de papel. mas dos fatores reais de poder. “Os problemas constitucionais” . Do ponto de vista sociológico. tudo dependendo de representar ela o efetivo poder social (forças políticas. Tais afirmações soam como heresia jurídica para os fetichistas da Constituição. ou ilegítima.sustenta Lassalle . a verdadeira Constituição de um país somente tem por base os fatores reais e efetivos do poder que naquele país reagem.houver coincidência.a folha de papel .somente vale até o momento em que entre ela e a Constituição efetiva .para bem aplicar o Direito e melhor elaborar as leis.Constituição formal . é a Constituição que cria ou constitui o Estado de Direito. ideológicas etc. É chamada de Carta Magna ou Lei Fundamental porque.. em sua clássica obra . o efetivo exercício do poder. e as constituições escritas não têm valor nem são duráveis a não ser que exprimam fielmente os fatores do poder que imperam na realidade social: eis aí os critérios fundamentais que devemos sempre lembrar” (ob. Assim. ou distanciar-se dele. autônomo [p.).aquele somatório de poderes gerador da folha de papel . onde se encontram os princípios fundamentais da sua estrutura organizacional. a folha de papel . cit.“não são problemas de direito. dessarte. 49. é possível distinguir a Constituição formal. de modo a permitir a formulação de um correto diagnóstico e a apresentação de uma solução adequada. econômicas. Vamos começar pelo Direito Constitucional. que contém a estrutura jurídica da nossa sociedade. pois a Constituição real e efetiva é o fato social que lhe dá alicerce. É como um termômetro a indicar a temperatura dos fatos sociais. 98] (porque não subordinado a nenhum outro) e . quando tal não ocorrer.

Foi precisamente ao estudar a sintonia entre as normas constitucionais e a realidade do poder que Karl Loewenstein. subalterna formalização da situação do poder político existente. é o encontro do povo de um certo país em dado momento histórico para reexaminar seus valores morais. Confortavelmente. como no caso da Constituição normativa.. mas quando se reúne já traz compromissos indeclináveis e emanentes de suas origens sociais. a ser sanada com o passar do tempo. [p. A roupa fica por certo tempo guardada no armário e será vestida quando o corpo nacional haja crescido.” “Entre a Constituição normativa e a Constituição semântica situa-se a Constituição nominal. mas conserva um caráter educativo e prospectivo. citado por Luis Roberto Barroso. dissimula ou disfarça. Já houve quem afirmasse que a “a Constituição. diferenciando-as segundo seu caráter normativo. os detentores do poder esperam pelo futuro. p. .incondicionado (porque não tem limites à sua atividade). Para usar uma expressão de todos os dias: a Constituição é a roupa que assenta bem e que realmente veste. submetendo-se a elas. além disso. nesse caso. pelo amadurecimento esperado. a vida institucional não seria perceptivelmente diferente. elaborou a sua celebrada classificação ontológica das Constituições. 99] para ajustar os seus preceitos às novas realidades sociais e corrigir os equívocos ou exageros do constituinte de 1988. A maior prova de que a Constituição tem que se ajustar aos fatores reais de poder está em que periodicamente tem que ser revista ou emendada. profissionais. como vem acontecendo com a nossa Constituição em vigor. numa imagem retórica. uma desarmonia entre os pressupostos sociais e econômicos existentes e a aspiração constitucional. “No outro extremo está a Constituição semântica. Fatores ideológicos. políticos. seja do país grande potência. econômicos e sociais”. econômicos. sem pressa. mas que está. Suas normas dominam o processo político ou. A roupa não veste. 252). políticos. que dispõem do aparato coativo do Estado. é inegável que os constituintes estão comprometidos e limitados pelas forças sociais que os elegeram (fatores reais do poder). Saraiva. a dinâmica do processo político não se adapta às suas normas. Aqui. A Constituição normativa é aquela não apenas juridicamente válida. o processo de poder se amolda às normas da Lei Maior. inversamente. do país rico ou do país educado” (Interpretação e Aplicação da Constituição. religiosos. culturais e morais acabam por determinar a atuação dos constituintes. 5ª ed. Em tese uma Assembléia Nacional Constituinte pode tudo. Se não houvesse nenhuma Constituição formal ou escrita. para o exclusivo benefício dos detentores do poder de fato. nominal ou semântico. Existe. vivamente integrada na sociedade. éticos. mas esconde.

Tal integração. na maioria das vezes tal declaração não passa do papel. 100] integrado e evolutivo de constante participação do povo na atividade estatal decidindo. um dos nossos maiores constitucionalistas. quase todos os Estados declaram. Tomemos para exemplo disso a própria Democracia. no texto de suas respectivas Constituições. mais do que um mero ideal escrito no papel ou de simples texto constitucional sem qualquer correspondência com a consciência e a realidade social de cada povo. Desde o século XIX. numa lastimável sucessão de percalços. tivemos um regime autoritário. executando a decisão e transformando a realidade. que mereceu do saudoso Senador Afonso Arinos. a oportunidade de influir nas grandes tomadas de decisões. Isso está a indicar que a verdadeira democracia é muito mais que uma forma nominal de associação política. ou que todo o poder dele provém. CONSTITUIÇÃO E DEMOCRACIA A visão sociológica da Constituição defendida por Lassalle encontra abundante campo de comprovação em nosso país. de modificação do funcionamento do poder. Há de ser um processo [p. onde a federação foi totalmente desconsiderada e neutralizada pelo poder central. entretanto.50. sem qualquer participação do povo até mesmo na escolha dos seus governantes. exige mais que a fria participação do eleitor que comparece às umas apenas para cumprir um dever legal. um dos pilares do Estado Democrático de Direito. relegando-se a plano secundário os poderes Legislativo e Judiciário. Tão marcante é ainda o caráter centralizador e autoritário da organização política e social brasileira. continham a expressiva fórmula de democracia indireta ou representativa: “Todo poder emana do povo e em seu nome é exercido. verdadeiro titular do poder. Em 180 anos de independência e pouco mais de 100 anos de República. solenemente. ou motivado por falsas promessas . num melancólico estigma de instabilidade por falta de harmonia entre o instrumento formal e o real. No entanto. Está a indicar que a verdadeira democracia há de ser uma real tentativa de alteração do caráter autoritário e centralizador da sociedade. o comentário famoso de que sociologicamente. por exemplo. simples princípio nominal ou teórico. No Brasil. o Brasil é um Império. foram editadas no Brasil nada menos do que oito Constituições. que a fonte do poder é o povo. como aconteceu na América Latina nas últimas décadas do século passado. tanto a Constituição de 1967. como a emenda de 1969. apesar de professar a democracia em todas as suas Constituições.” Nesse período. de forma a ensejar ao povo. cortina de fumaça para esconder regimes autoritários. no entanto.

simultaneamente.1. Daí por que a integração democrática impõe a consciência e a responsabilidade na escolha. uma prática. A liberdade. começou assim que se instalou o golpe de 1964 e. veiculadas pelos órgãos de informações que condicionam e manipulam a verdade. a maturação sobre os desdobramentos do processo político e o acesso às informações que embasarão a participação lícita no processo decisório. Essa luta. entretanto. Não pode existir uma democracia por decreto. após prolongado trabalho e acirrados debates. O voto. especialmente. embora valioso. todavia. É preciso. embora respaldado por milhões de votos. quando as multidões correram entusiásticas e ordeiras aos comícios em prol da eleição direta para Presidente da República. após o AI-5. que se manteve contida por quase vinte anos. e não para esmagar a do seu semelhante. liberdade. como também pela morte de Tancredo Neves. 50. não garante justiça. o mais destacado representante das forças democráticas bra. na célebre frase de Luis Blanc. contudo. cumprindo os compromissos democráticos assumidos por Tancredo.[p. fazer cessar as desigualdades. não só pela rejeição da emenda constitucional da eleição direta. A liberdade é consenti da ao homem em sociedade para desenvolver suas energias. que só poderia consubstanciar-se numa nova ordem constitucional que refizesse o pacto-social. através de um processo realmente democrático. Frustrou-se. sobretudo. que foi o instrumento mais autoritário da história brasileira. razoavelmente avançado. por sua vez. Não é raro que o governante. tomou as ruas a partir da eleição dos Governadores em 1982 e se intensificou no início de 1984. Características da Constituição Brasileira de 1988 A luta pela normalização democrática no Brasil e pela conquista do Estado de Direito Democrático. O Presidente José Sarney. interpretando o sentimento da Nação em busca do reequilíbrio da vida nacional. empolgado pelo fascínio do poder. enviou ao Congresso Nacional a tão esperada emenda constitucional convocando a Assembléia Nacional Constituinte. . com relevantes inovações para o constitucionalismo brasileiro e até mundial. um projeto e. afasta-se dos seus compromissos democráticos. 101] sileiras. perdendo a legitimidade inicial. mas ainda o poder de ser livre. porquanto só assim será possível impedir que a liberdade produza exatamente a sua negação. realizar a justiça social. e esta.eleitoreiras. essa grande esperança. e salvaguarda ao indivíduo. não é somente o direito. pois. neutralizar os desequilíbrios. aprovou um texto moderno. nem às minorias em um Estado democrático. por si só. porque a democracia é. um ideal.

Direitos e Deveres Individuais e Coletivos no art. assistência integral à saúde da criança e do adolescen. na expressão do saudoso Ulysses Guimarães. 170 e incisos). pleno emprego. fez renascer a Federação. padecem do mesmo mal: não passaram do papel. 102] te (art. diferentemente da Carta anterior que tratava desses direitos na sua parte final (art. valorização dos profissionais do ensino etc. atendimento especializado aos portadores de deficiência. e Direitos Sociais. valorização do trabalho (art. efetivamente. 153). . (arts. não só porque teve ampla participação em sua elaboração. 208. É a “Constituição Cidadã”. nem política e nem administrativa. inciso III). primeiramente. existência digna. o que significa que o homem é o centro. No respeitante à Organização Político-Administrativa e a Divisão dos Poderes. atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade (art. 6° a 11° -. pode-se dizer que a Constituição atual. I. conferindo maior soma de competências legislativas e administrativas aos Estados e Municípios. tanto assim que praticamente inicia-se a Constituição com a consagração desses direitos . dandolhes ainda mais recursos tributários. não só os individuais como também os coletivos. A dignidade da pessoa humana passou a ser princípio fundamental da Constituição (art. fundamento da atividade estatal. igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. educação como direito de todos e dever do Estado. Não obstante tantos pontos positivos. 205 e 206. na ordem social. neles incluídos os dos trabalhadores. função social da propriedade. Todas essas normas e muitas outras. já que não há verdadeira autonomia. § 1°). sem numerário para execução de suas tarefas constitucionais. buscando resgatar o verdadeiro princípio federalista através de um sistema de repartição de competências entre o poder central e os poderes estaduais e municipais. que ressoam precisamente inócuas. justiça social. não são aplicadas. 227. nos arts. V). mas principalmente porque se volta decididamente para o cidadão e o social. Pode-se concluir dizendo que a Constituição de 1988 afastou o federalismo nominal da ordem constitucional anterior. sujeito. a Constituição de 88 tem inúmeros dispositivos que ainda não passaram da folha de papel. objeto. III e IV). tais como. Presidente da Assembléia Nacional Constituinte que a produziu. 1°. fundamento e fim de toda a atividade pública. colocando em destaque o homem e seus direitos fundamentais. assumiu uma postura liberal. Praticamente. I. no dia-a-dia da vida do cidadão. 5° e seus setenta e sete incisos.As inovações se fizeram presentes. diferentemente da anterior que era centralizadora e autoritária.[p. ensino fundamental obrigatório e gratuito.

103] Com o correr do tempo. 51. hoje chamado de separação judicial. o vínculo conjugal. Em razão dessa norma não podia haver divórcio no Brasil. sem dúvida alguma. dando origem a novas famílias. Muitas vezes essa união ilegal.51. ficando entre eles os filhos. 175. DIREITO DE FAMÍLIA Em nenhuma outra área do direito houve tão grande evolução como no Direito de Família. os cônjuges separados ou desquitados se uniam de fato a outra pessoa. um novo Direito de Família. formando novo par. DIVÓRCIO Havia uma norma em nossa Constituição (art. em busca da necessária harmonia entre a realidade social e a lei. como veremos a seguir. num determinado edifício. inúmeros problemas começaram a surgir no seio da família. servindo de instrumento de chantagem emocional. Foram tantas as modificações sociais ocorridas nas últimas décadas que não seria demais afirmar que temos hoje. tomava-se uma união sólida. entretanto. amor.1. havia um casal cujos componentes não eram casados. ou pelo menos não reconhecida pela lei. amizade. da Emenda nº 1/69) que considerava o casamento indissolúvel. que. tantos foram os casais de união de fato. deixando íntegro. que dissolve apenas a sociedade conjugal. estariam resolvidos todos os problemas que conspiram contra o casamento. § 1°. com filhos. que a .2. proibindo descasar. Inicialmente a sociedade tolerava com reservas essas uniões: todo mundo sabia e comentava quando. [p. Entendia-se que o divórcio destruiria o casamento. em todas as camadas sociais. Depois. dando ensejo ao desfazimento dos lares. estável. Pensava-se. 51. “célula mater” da sociedade. mormente após a Constituição de 1988. oriundos das mais variadas causas. produzindo efeitos patrimoniais para os cônjuges. A Situação da Companheira e dos Filhos Ilegítimos Apesar de a Constituição vedar a dissolução do casamento. objetivava a proteção do casamento e da família legítima. geralmente os mais prejudicados. mulher para outro. compreensão e calor humano. somente o desquite. em outras palavras. Em razão disso. Marido ia para um lado. inúmeros diplomas legislativos foram produzidos nas oficinas do direito. Tal norma. levando de roldão a família.

para constatarmos que não estávamos em melhor situação. Há outras causas (sociais. pois o homem com o qual vive está sempre a dizer: “Sou casado. sem quaisquer reservas. e “deitar em berço esplêndido”. estendendo-lhes proteção legal. além das obrigações já assumidas com a primeira família. afetivas. plenamente integradas na sociedade. O vínculo matrimonial era indissolúvel. Havendo divórcio. a situação da família no país onde não há divórcio seria muito melhor do que em outro onde há. com pais e filhos vivendo em harmonia e felicidade.sociedade passou a aceitá-los plenamente. esta. Muita gente queria regularizar a situação. ressentimentos e outros graves problemas sociais. estas famílias “ilegais” eram mais úteis e recomendáveis que as primitivas. gerando desigualdades. não é verdade. Com efeito. e os Estados Unidos. mas continuavam a ser repelidas pela lei. não podendo se divorciar. a concubina. após o primeiro casamento. impedia ainda a realização de outros casamentos verdadeiros. eram mantidas à margem da lei. A nova realidade social em tomo da família e do casamento evidenciou que não era o divórcio. e isto. legítimas mas já destruídas pela separação. repetimos. antes do divórcio. a lei repudiava famílias bem constituídas. As novas uniões passaram a ser normalmente admitidas pelos costumes. além de não conseguir impedir-lhe a dissolução. se não fosse”. proibir descasar. A pretexto de proteger um vínculo matrimonial já de fato inexistente. pois. econômicas. dar nome à mulher e aos filhos. Não basta. Basta fazer uma comparação entre o Brasil. a norma constitucional que visava a proteção do casamento. como se fez em nosso País. o indivíduo que se casa outra vez. repudiada pela lei. que devem ser pesquisadas e combatidas se se quiser de fato manter o vínculo matrimonial indissolúvel. um homem. para impedir a ruína do casamento. conhecer e combater as verdadeiras causas do fracasso matrimonial. entre os quais o desamparo econômico. 104] Ficou também evidenciado que a proibição do divórcio só facilitava a irresponsabilidade e estimulava a pilantragem. psicológicas. ilegais. Do ponto de vista social. nada posso fazer. em si. Só prejudicava. assume novas . Se assim não fosse. como se sabe. Aqueles eram considerados filhos ilegítimos ou mesmo adulterinos. Em síntese. Eram ilegítimas. bem constituídas do ponto de vista social. une-se tantas vezes quantas puder com outras mulheres. sem assumir qualquer obrigação alimentar ou de outra natureza econômica para com elas. A mulher fica numa situação vexatória. Inúmeras famílias. Filhos e companheira não tinham qualquer direito ou amparo legal. culturais) profundas. É preciso. como se fossem marido e mulher. o responsável pela destruição do casamento. fechando os olhos para a realidade. mas não podiam. nada pode exigir. [p.

mas sim remédio. Se o nosso legislador atentasse para a realidade social. lícito não era promover o reconhecimento do filho havido extramatrimônio. Mas o aludido decreto-lei não satisfez. foi promulgado o Dec. sagrada e impassível de ser desfeita pelo homem. para a qual o casamento é uma instituição divina. porquanto só possibilitava reconhecimento de filho havido fora do matrimônio depois do desquite do [p. a conclusão lógica era que a indissolubilidade do vínculo matrimonial não passava de mera ficção jurídica. arruinados. como a morte de um dos cônjuges. O fato de existir o divórcio não quer dizer que todos vão se divorciar. Em face de tudo isso. Primeiramente. precisando ser muito forte economicamente para chegar à terceira família. morte de um dos cônjuges ou anulação do casamento. permitindo o reconhecimento dos filhos de desquitados havidos fora do matrimônio. quem está doente. 51. de 27 de setembro de 1942. sem solução. não precisa de remédio. embora extinto o vínculo conjugal. 105] genitor.-Lei n° 4. Mas como qualquer remédio. não impedia o fracasso do casamento mas impedia a regularização das novas uniões.obrigações legais também com a segunda.3. 50 anos e que nunca pensaram em se divorciar. Tal. é que se tomou possível o reconhecimento de filhos havidos fora do matrimônio após a dissolução da sociedade conjugal por desquite. Além de não proteger a família legítima. . solução extrema para casamentos já desfeitos. Somente com a Lei na 883. prejudicava as famílias ilegítimas. entretanto. Evidenciado igualmente ficou que o divórcio não é causa da ruína do casamento. mesmo que desquitado. Mesmo nos países divorcistas. de 21 de outubro de 1949. ou mãe. Não se referia ele às outras causas de terminação da sociedade conjugal. Soluções Legais Paliativas antes do Divórcio Houve uma sucessão de leis permitindo o reconhecimento dos filhos ilegítimos em certas circunstâncias. há muito teria introduzido o divórcio na legislação. simplesmente porque o casamento deles não está doente. panacéia. o que equivale dizer que até então tais filhos não podiam ser registrados em nome de seu verdadeiro pai. sem qualquer utilidade prática ou social. um dogma religioso. dele só faz uso quem precisa. de modo que. isto é. não ocorreu em virtude da pressão exerci da pela Igreja. há milhares de casais unidos pelo casamento há 20. 30. só por divorciar-se.737.

175 da Constituição Federal.” Como se vê. e as peripécias sociais pelas quais passamos até que o dogma ou ficção fosse destruído pela Emenda Constitucional nº 9. conhecida por Lei do Divórcio.Lei na 7. 106] coragem para tanto.485/45. § 3°). desde que haja prévia separação judicial por mais de três anos. bem como à indenização por acidente de trabalho (Dec. tempo mais que suficiente para revelar se a separação é ou não definitiva. bem como quaisquer outras designações discriminatórias relativas à filiação (art.Nesse ínterim. 226. a Lei de Registros Públicos (Lei na 6. § 6°).015. de 28 de junho de 1977. alterando o § 1 ° do art.1973) permitiu o uso dos apelidos do amásio pela companheira. 226. Lei na 4. a Lei na 6. que. b) reconheceu a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar. ora a título de indenização. até que a própria lei passou a atribuir-lhe direito à pensão previdenciária (Dec. reconhecimento) os direitos e qualificações dos filhos. A Situação da Companheira e dos Filhos após a Constituição de 88 Após mais de meio século de lenta evolução da questão do divórcio. § 6°). os efeitos negativos produzidos pela norma constitucional que considerava indissolúvel o vínculo matrimonial. .036/44).Lei na 7. 226. a jurisprudência fez verdadeiros malabarismos para reconhecer alguns direitos patrimoniais à concubina. de 26 de dezembro de 1977. da companheira e dos filhos ilegítimos. a Constituição de 88 encontrou uma base social para fazer as mudanças necessárias e o constituinte teve [p. foi cauteloso o legislador ao permitir o divórcio após prévia separação judicial por mais de três anos. A Introdução do Divórcio na Legislação Brasileira O divórcio tomou-se permitido através da Emenda Constitucional nº 9. passou a dispor: “O casamento poderá ser dissolvido.069/62). c) igualou para todos os efeitos (herança. ora com base na sociedade de fato. determinando à lei facilitar a sua conversão em casamento (art. em síntese.515. Esses. ou depois de dois anos de comprovada separação de fato (art. Posteriormente.5. 51. havidos ou não da relação do casamento. 51. proibindo a designação de filiação legítima ou ilegítima. Mais recentemente.12. regulou os casos de dissolução da sociedade conjugal. alimentos.4. a saber: a) reduziu o prazo do divórcio de três anos de prévia separação para apenas um. nos casos expressos em lei. de 31.

Sobreveio. . salvo estipulação contrária em contrato escrito (art. 107] de habilitação. manteve a mesma disciplina da Lei n° 9. terão os mesmos direitos e qualificações. no que couber. O novo Código Civil.725). tem o direito subjetivo de ser reconhecido. após a Constituição de 88. havidos ou não da relação de casamento.1994.” Em relação à companheira.971. separado judicialmente. desde que conviva há mais de cinco anos com o homem solteiro. regulamentou o § 3° do art.278. proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação. 5°). finalmente. conferindo inclusive ao Ministério Público legitimidade para propor a respectiva ação. voluntária ou coativamente.278/96.1992. Os bens móveis e imóveis adquiridos por ambos os conviventes. pública e contínua.Importa dizer que.723 a 1.12. a Lei nº 8.727. em condomínio e em partes iguais. O novo Código Civil. O artigo 1. Por último. no que andou bem. e prove a necessidade.05. ao tratar da união estável nos seus artigos 1. Mantém a lei (art. enquanto viver e não constituir nova união ou casamento. sustento e educação dos filhos. em 29. que diz: “Os filhos. assegurando-lhe também o direito real [p. são considerados fruto do trabalho e da colaboração comum. a nova Lei de Investigação de Paternidade (Lei n° 8. 7°) o direito a alimentos ao convivente que deles necessitar uma vez dissolvida a união estável. manteve a mesma disciplina no seu artigo 1. não mais subsistindo as limitações anteriores.reconhecendo como entidade familiar a convivência duradoura.” Salvo contrato escrito entre os companheiros.596. de 10. relativamente ao imóvel destinado à residência da família.560/92) que ampliou ainda mais as hipóteses de reconhecimento voluntário e de investigação de paternidade. 226 da Constituição Federal . como não poderia deixar de ser. vale dizer.12. na constância da união estável e a título oneroso.união estável . de um homem e uma mulher. passando a pertencer a ambos. de 29.1996. 1°).278/96: “As relações pessoais entre os companheiros obedecerão aos deveres de lealdade. divorciado ou viúvo. ou por adoção. pois aquela lei consolidou um longo trabalho doutrinário e jurisprudencial. o regime da comunhão parcial de bens (art. 1. estabe1ecida com o objetivo de constituição de família (art. comunhão dos bens adquiridos depois da união. na união estável aplica-se às relações patrimoniais. o filho havido fora do matrimônio. 2° e 3°. respeito e assistência e de guarda. Conferiu-lhe também o direito de participar na sucessão do companheiro (herança) nas condições previstas nos seus arts. ou dele tenha prole. a Lei nº 9. até então designado de filho adulterino. concedeu-lhe direito a alimentos.724 praticamente repete o artigo 2° da Lei n° 9.

são de clareza solar. tanto na doutrina como na jurisprudência.o grande número de ações que são distribuídas aos Juízos de Família pretendendo reconhecer ou dissolver uniões homossexuais. DIREITO PENAL O Direito Penal é muito sensível às questões sociais. a oxigenar o nosso sistema legislativo. o Superior Tribunal de Justiça decidiu que “os homossexuais constituem sociedade de fato a ensejar partilha do bem comum”.02. No entender do Professor Luiz Edson Fachin. passará a ter reconhecimento jurídico” (Elementos Críticos do Direito de Família. passando inicialmente pelo reconhecimento como sociedade de fato e. da igualdade e da sociedade com respeito ao pluralismo típico deste Estado de Direito. No Recurso Especial n° l48. crise de moradia. com individualidade e identidade próprias.[p. União de Pessoas do Mesmo Sexo É indispensável a diversidade de sexo para a configuração da união estável? Essa é a questão que remanesce e que ainda é bastante polêmica. de autoria da exDeputada Federal Marta Suplicy. a relação estável homossexual deverá seguir os caminhos já traçados pela entidade familiar estável.723 do novo Código Civil. Tanto o § 3°. Em sentido contrário. ainda não apreciado pelo Congresso Nacional. Reconhecem a união estável apenas entre homem e mulher.151/95). pp. mas também os operadores do direito que militam nas Varas de Família. pobreza. entretanto. Sustentam não ser possível fechar os olhos para a realidade . não reconhece na união de homossexuais a categoria de união estável. a Suécia e a Noruega já dispõem de leis que regulamentam a união homossexual. 93/1 02). que pretende instituir a parceria civil. O que a Justiça tem admitido é a sociedade de fato para fins patrimoniais. do qual foi relator o Ministro Ruy Rosado de Aguiar. razão pela qual o entendimento majoritário. mediante reiterado posicionamento jurisprudencial em seu prol.897-MG. Tudo ou quase tudo acaba nele repercutindo: explosão demográfica. como o artigo 1. Renovar. só após. regular posse e guarda de crianças etc. No Brasil temos apenas um Projeto de Lei (nº 1. ausência de . há vozes respeitáveis fulcradas no Estado Democrático de Direito e nos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana.6. Aduzem que a família homos.51. primeira iniciativa no sentido de sensibilizar nossos legisladores para o problema que afeta não só os que o vivenciam. A Dinamarca.1998. do artigo 226 da Constituição. favelização. julgado em 10. 108] sexual é família autônoma e distinta da união estável. 52.

109] generalizado e sem precedentes. onde não precisaremos continuar fingindo que estamos dormindo. Renomado diretor de TV no Rio de Janeiro. 12% selecionar melhor os policiais.. ao mesmo tempo em que berrava para a polícia parar de atirar. o renomado diretor diz ter construído uma casa com salas de ensaios. por exemplo. que atinge qualquer família ou qualquer cidadão a qualquer momento de sua vida. 9% mudar toda a polícia. 6% criação de programas sociais. moradias. por mais de duas horas sob a mira de revólveres de três jovens drogados.06. Entrego essa casa a um sonho de futuro. estúdios onde inúmeras montagens seriam ensaiadas e produzidas.” 53. ele se viu dirigindo uma cena da vida real. 21% aumentar a remuneração dos policiais. 36% melhorar o treinamento da polícia. escolas. . “Já não é mais possível viver nesta cidade exposta a essa vergonhosa violência. hospitais e o comércio em geral. ao persuadir os bandidos a tomá-lo como escudo.12. Quais são as causas dessa violência. Mas agora era obrigado a dela sair violentado. no lugar de uma das amigas de sua filha. tendo que mudar os seus sonhos e de sua família por motivo de assaltos múltiplos. em ônibus 35%. A falta de segurança. VIOLÊNCIA URBANA E PODER PARALELO A violência urbana. c) 57% têm medo de assalto na rua. b) um em cada três revela se sentir inseguro ou muito inseguro dentro da própria casa. juntamente com a sua família e mais oito amigos. corrupção. a uma cidade que um dia será maravilhosa.2003 ao raiar do sol.. apurou o seguinte: a) 81 % dos moradores afirmaram j á ter sofrido algum assalto ou tiveram alguém da família assaltado.2000). é fato público e notório. Sobre o que precisa ser feito. que efeitos produz? Pesquisa feita pelo IBOPE em junho de 2000 nos municípios do Grande Rio. Em relato dramático ao Globo (04. os resultados foram os seguintes: 38% aumentar o número de policiais. 18. na realidade atingiu patamares vergonhosos e insuportáveis. que atinge cidadãos. figura em primeiro lugar em todas as pesquisas. 10% geração de empregos. Nunca os assaltantes agiram com tanta ousadia e desenvoltura como na última década. Acostumado à ficção.01.educação. ficou. 8% investimento em educação. quem a promove. fraude e assim por diante. ao ter a sua casa assaltada no dia 29. 3% investir mais no social (O Globo. nem dentro de um filme sem final feliz. camarins.2004). gerando sentimento de insegurança [p.

o então Presidente da República aqui esteve e afirmou na abertura da IV Semana Nacional Antidrogas: [p. A grande contribuição que se poderia dar para resolver a insegurança nas cidades é disponibilizar recursos para a melhoria da área de tecnologia da polícia.2004). apenas confirmam o que todo mundo já sabia. a crise de insegurança é geral. O Governador de São Paulo. era de se esperar medidas governamentais fortes e emergenciais. ocuparam os espaços deixados e formaram verdadeiro poder paralelo. a pobreza. adultos e crianças.01. quando o Estado não existe é preciso repor porque senão não há cidadania. E a organização é tão forte que a realidade demonstrou que alguns chefões continuam no comando mesmo depois de presos. . a fome. que hoje não funciona” (O Globo. a ponto de levar um membro do Judiciário a declarar que ali o estado não existe. rajadas de metralhadoras em prédios públicos. Após tão firme pronunciamento. trabalhadores e donas-de-casa. A entrevista do Governador de São Paulo merece apenas um reparo. remuneração dos policiais e aumento dos seus efetivos. só agora tem sido admitido pelas nossas autoridades. Em junho de 2002. treinamento. Segundo. Estados e Municípios) na seleção. Isso que o povo sabe e denuncia há muitos anos. No comando dela está o crime organizado.2002).06. 04. atingindo pobres e ricos. mas. o que não está acontecendo com o governo atual. mas sim a omissão do Estado (União. a falta de moradia ou de investimento na educação. 110] “O Estado tem que recuperar os espaços eventualmente perdidos para o crime organizado. após ter o Rio de Janeiro passado por queima de ônibus. muito menos pelos favelados. “tudo continuou como dantes no quartel de Abrantes”. senão é só boa intenção. quadrilhas de traficantes de tóxicos e armas que. na ausência do estado. ledo engano. interdição da Avenida Brasil e Linha Vermelha por bandidos. uma situação como a atual nas favelas do Rio. mas também de vários anteriores e envolve também os governos estaduais e municipais. já é degradação. Há o arbítrio” (O Globo. Geraldo Alkmin.Os resultados dessa pesquisa não surpreendem. desempregados. A falta de prioridade não é apenas do governo atual. porque ela não é promovida pelos pobres. O combate à violência urbana não depende de medidas sociais. a causa dessa violência urbana não é a miséria. anomia (ausência de leis). Primeiro. declarou em entrevista: “A política de combate à violência no Brasil não dá resultados concretos porque falta ao governo federal tratar o assunto como prioridade. E prioridade é recurso. 20. conforme demonstrou a pesquisa do IBOPE.

que só passou a se preocupar com a questão quando o cenário foi mudando de figura. para evitar deslealdades dentro dos grupos. especialmente nas imediações do morro. de baixo efetivo e sem equipamento adequado. em termos de resultados práticos. O acordo funcionou durante décadas. E em ambos os casos havia uma racionalidade: o jogo do bicho não chegava a ser crime. mesmo contra a lei. Houve até um governador que chegou a institucionalizar o “bicho”. conforme relato do Senador Roberto Saturnino Braga em artigo no Globo. Com uma polícia de poucos recursos. prossegue o Senador em seu relato. Assim. mas podia ter a sua nocividade limitada ao território do morro e à pequena parte da sociedade do asfalto que queria consumir drogas (e bem podia ter essa liberdade tolerada). suscitando disputas armadas. que sempre participou dos resultados financeiros de uma atividade extremamente lucrativa. exigiu um comando mais severo dos traficantes sobre a comunidade do “morro”. Era um acerto informal semelhante ao que houve também com o jogo do bicho. promoveu atos de crueldade que chocavam as populações do . pelas autoridades responsáveis e pela média da opinião da cidade. 111] mal a ninguém. onde o tráfico era rigoroso na contenção do crime. que freqüentemente terminavam em abuso e violência.“nós não subimos lá e vocês não descem cá”. recomendava sua legalização. Por muitas vezes o tráfico promoveu ações no “asfalto” para arranjar dinheiro em momentos difíceis. valeria mais. fazer um acordo com o tráfico de drogas e concentrar a atenção e as forças no combate à criminalidade comum. Além disso. com o acordo. Essa divisão facilitava muito o cumprimento da cláusula fundamental . manchando a imagem do governo e tirando votos do eleitorado que era crescente no morro. delimitaram-se dois territórios de ação e população distintos: o “morro” do tráfico e do povão e o “asfalto” onde vive a população que merecia ser protegida pela polícia. semioficialmente. Isso tudo ainda garantia bons rendimentos para a polícia.um quarto de século . E o resultado foi considerado razoável. guerras particulares de gangues pelo controle dos pontos de maior lucratividade e investimentos muito maiores em armamentos eficazes para sustentar essa guerra. era a loteria dos pobres. Faz pelo menos 25 anos .Como surgiu esse poder paralelo e como atua? As suas raízes são sólidas e profundas. com boas razões. a polícia obtinha a colaboração do tráfico na preservação da paz no asfalto. contribuições para entidades filantrópicas. O acordo evitava também incursões da polícia no morro. ligando-o a grupos de seqüestro e de assalto. obtendo dele. tanto que muita gente. era uma contravenção que na verdade não fazia [p. O tráfico cresceu e ganhou status de negócio. O tráfico não era tão inocente quanto o bicho. na realidade assustadoras.que predominou na polícia do Rio o pragmatismo dos “realistas”.

outros trezentos diretores de associações tiveram que abandonar as favelas para não serem mortos. 20. 20. 4. na Penha. Entre 1992 e 2001. O jornalista Tim Lopes. fez constatações alarmantes.“morro” e do “asfalto”. esse poder paralelo é mais forte do que admitem as autoridades policiais. revoltados com policiais do 16° BPM (Olaria). conforme anunciado pelo atual Secretário Nacional de Segurança (O Globo. que criou suas áreas de exclusão.01. já quase completamente envolvida na participação dos lucros e cada vez mais ávida de ganhos naquele negócio que crescia incontrolavelmente. da DERJ. mais de quatrocentos dirigentes de entidades se associaram a bandidos (O Globo. 02. Ele . E produziu choques e episódios freqüentes de enfrentamento com a polícia. Hoje. Para o sociólogo Geraldo Tadeu. 112] bir o morro ou penetrar em certas favelas sem autorização dos chefões do bando.[p. Conclui o Senador. sem recursos. Esta. e se constituiu um inimigo cujo enfrentamento era cada vez mais difícil e desgastante para a polícia. Tal é a força desse poder paralelo que os moradores das favelas onde ele atua fazem manifestação contra a ação policial sempre que um traficante é morto. onde foi torturado e morto o jornalista Tim Lopes.06. Até o salvo-conduto para os ônibus circularem é dado pelo tráfico.223 lojas.2002). Levantamento feito pela Comissão Contra a Violência e a Impunidade da Assembléia Legislativa do Estado do Rio. o Rio perdeu. não sendo suficiente para enfrentá-lo a mera “criação de um Gabinete de Gestão Integrada do Sudeste e o mapeamento das quadrilhas que atuam nos morros”.2002). até universidades. no período de outubro de 2000 a setembro de 2002. Surgiu então na cidade o crescente grito de “basta!”. acusados de matar dois traficantes (O Globo. o tráfico executou cerca de cem líderes comunitários.2004). De acordo com o Instituto Fecomércio. Ninguém pode su.06. Mas era tarde: o poderio do tráfico tinha aumentado muito além do imaginado. estabelecimentos comerciais e industriais. que estuda a relação do tráfico com as comunidades. Esse mapeamento já é conhecido da população há muitos anos. onde os pragmáticos continuavam dando as ordens na linha do acordo que se deteriorava. perdia uma grande quantidade de homens e se desmoralizava numa guerra que não tinha respaldo efetivo e decidido da cúpula dirigente. por descumprir essa regra. foi torturado e morto. bairros inteiros estão sendo esvaziados com a saída de indústrias e estabelecimentos comerciais por causa da violência e da degradação urbana. Em 13 de abril de 2003 O Globo publicou a relação das áreas mais afetadas pelo poder paralelo. Em 32 bairros do Rio os traficantes escolhem dia e hora para fechar escolas. Seis ônibus foram incendiados pelos moradores da Favela Vila Cruzeiro. o envolvimento de líderes comunitários com traficantes passou a ser regra. muito mais que o da polícia. postos de saúde.

Tudo vem de fora. como bem assentou o saudoso Professor Heleno Fragoso (relatório apresentado na Reunião da Comissão Internacional de Juristas da ONU). em todos os . Ela se distingue da criminalidade convencional pelo fato de ser integrada por pessoas de alta classe e respeitabilidade. Combater a violência urbana de forma pontual e isolada é o mesmo que tentar matar a árvore só arrancando as folhas. “vapores” e “soldados”. armas não são fabricadas por favelados. planejada e duradoura. nem são ali industrializadas. até mesmo do país. alegando que o poder público limitou a sua presença nas favelas à repressão. que povoam nossas prisões horríveis e constituem a clientela do sistema. estadual e municipal.06. CRIMINALIDADE DE COLARINHO-BRANCO (WHITE COLLAR CRIME) Trata-se de uma categoria não convencional de crimes e criminosos. detentoras de poder político ou econômico.explica que com o tempo ocorreu um processo de subordinação dessas associações. O sociólogo justifica ainda a influência do tráfico nas comunidades. Os traficantes ocuparam esses espaços. É preciso disposição política das três esferas de poder federal. as comunidades não têm como reagir sem uma intervenção do Poder Público. Entre nós. 54. que. O sociólogo defende. o Direito Penal tem sido um amargo privilégio dos pobres e desfavorecidos. nem por crianças desnutridas e sem escola. dão dinheiro. 113] nasceu e cresceu com a tolerância. tão pouco decorre da falta de leis ou da atuação do Judiciário. É ação direta de um poder paralelo que [p. Têm também um sistema tributário paralelo e cobram impostos dos comerciantes. Para Geraldo Tadeu. miséria ou falta de instrução. pelo menos omissão. associações e ONGs. muito menos da segurança que todos almejamos. de sorte que sem uma ação integrada da União. que o Estado adote ações estratégicas de médio e longo prazos (O Globo. Não é possível combatê-lo com medidas paleativas e demagógicas como as que estão sendo anunciadas. com gerentes. do Poder Público. há igrejas. Drogas não nascem nos morros. Conclui-se do exposto que a violência urbana não é uma conseqüência da pobreza. com absoluta propriedade. por isso mesmo. É o grande poder paralelo. Estados e Municípios. encontramse acima da lei. Eles têm um sistema previdenciário paralelo. A estrutura geral de nosso direito punitivo.2002). não haverá reconquista dos espaços perdidos. a partir do crescimento exacerbado do tráfico como poder militar e econômico no âmbito dessas comunidades. mas o tráfico tem mais estrutura. Têm ainda um sistema de segurança complexo. cestas básicas. Nas favelas. 20.

e outras instituições de pesquisa do continente americano. c) danos contra o patrimônio estatal da coletividade. Os fatos anti-sociais que acarretam danos à vida ou à saúde da coletividade. às elites dirigentes (econômica. nada lhes acontecendo. Não sendo possível a enumeração exaustiva das ações anti-sociais que caracterizam os crimes de colarinho-branco. podemos considerar: . c) produção industrial imprópria ou defeituosa. que dela se livram com facilidade pela corrupção e pelo tráfico de influências. Em razão dessas pesquisas.seus mecanismos de aplicação. deixa inteiramente acima da lei os que têm poder econômico ou político. pode-se destacar que os fatos que constituem tal criminalidade apresentam as seguintes características: a) os autores pertencem. são capazes de abalar a própria estrutura econômica ou política do país. ou o patrimônio de indeterminado número de pessoas. como já se disse. segundo o mesmo Professor Fragoso. realizam extenso projeto de pesquisa sobre a criminalidade de colarinho-branco na América Latina. Mas o pior de tudo é que ficam impunes os seus autores. b) o fato anti-social é praticado no exercício da atividade. segundo o Professor Fragoso. atingindo em regra a coletividade. podem ser aqui colocados: a) abusos praticados em relação à força de trabalho. Em relação à força de trabalho. b) exploração predatória dos recursos naturais. [p. todavia. entre as quais o Instituto de Ciências Penais do Rio de Janeiro. podemos. Pela extensão dos resultados. em conjunto com o Instituto de Criminologia da Universidade del Zulia. visto que. tornando puramente ilusória a igualdade proclamada nos documentos políticos. financeira ou política) da formação social. O Centro Internacional de Criminologia Comparada da Universidade de Montreal. tais crimes são muito mais graves do que o furto e o roubo que punimos com tanta severidade. além de atingirem a coletividade. 114] c) O dano causado pela ação é extenso e considerável. b) danos contra o patrimônio da coletividade. destacar os fatos que acarretam: a) danos contra a vida e a saúde da coletividade. em Maracaibo (Venezuela).

a exigência da segurança).. que eliminam insetos e microorganismos necessários ao equilíbrio ecológico e intoxicam o consumidor. produzindo quebras que afetam amplos segmentos da coletividade de investidores (além de outros setores das classes dominantes).. A poluição. como acontece no Brasil. como o pão. seja pela poluição. seja pela exploração desordenada. Temos aqui a administração ruinosa de determinadas empresas. 3) condições de insegurança ou de fadiga excessiva. como através de outros produtos (e. constitui débito social ilegítimo do processo industrial. medicamentos prejudiciais ao organismo. bem como a propaganda fraudulenta que causa dano ao patrimônio de indeterminado número de consumidores. A exploração predatória dos recursos naturais apresenta-se através da destruição do ambiente vital produzido pelo trabalho milenar da natureza. A exploração desordenada conduz à destruição do ambiente vital (exaustão e erosão do solo. ou alternativamente.[p. projetos da indústria automobilística que desatendem. . como propõe a ideologia dominante. contendo elementos químicos altamente nocivos à saúde etc. em especial as ligadas ao mercado financeiro. Temos ainda toda a sorte de fraudes e manipulações no mercado de ações. inclu. consoante constantes denúncias feitas ultimamente pela imprensa. e desflorestamento sistemático. 2) exaurimento físico e mental do trabalhador.g. com efeitos negativos idênticos. produtos alimentícios de primeira necessidade. e não o preço do progresso. criando desertos e provocando secas). em qualquer de seus aspectos. A produção industrial imprópria ou defeituosa atinge a vida ou a saúde da coletividade. 115] sive com o emprego de produtos químicos. provocando injeções maciças de dinheiros públicos (créditos e financiamentos) ou encampações oficiais. causando mortes e acidentes. por imposições do mercado. não só no que tange aos produtos alimentícios ou medicinais. pela imposição de ritmos excessivos de trabalho e tarefas monótonas e embrutecedoras (produzindo doenças ou lesões ocupacionais). inclusive através da exploração de trabalhadores rurais (bóias-frias) empregados na lavoura na época das colheitas. Danos ao patrimônio da coletividade apresentam-se através de métodos irregulares e fraudulentos de enriquecimento.1) a redução do trabalhador à condição subumana pelos salários incapazes de repor as energias consumidas no trabalho. lesados também freqüentemente no peso e quantidade de mercadorias comercializadas.

basicamente. fraude no mercado acionário e de câmbio. lavagem de dinheiro obtido ilicitamente. O estouro de vários bancos de alguns anos para cá. lesivos por vezes aos interesses vitais e estratégicos da coletividade. É certo que algumas práticas são diretamente lesivas a outros grupos dominantes. ou da própria integridade nacional. o que faz crescer o sentimento de impunidade para os que não são pobres. causando bilhões de prejuízo aos cofres públicos e particulares. Tem alguns pontos em comum com a criminalidade do colarinho branco. sequer dispomos de recursos técnicos para a sua rápida e eficiente apuração. bem ilustra este ponto.Finalmente. mas seus efeitos atingem a coletividade também. por exemplo. Igualmente a corrupção administrativa de alto nível. A MACRODELINQÜÊNCIA Essa expressão é modernamente utilizada para indicar o crime organizado. Danos ao patrimônio estatal da coletividade podemos identificar na evasão de impostos. podendo ser identificada pelas seguintes características: a) abuso de poder econômico e político. as manobras mais variadas que visam proporcionar a alta de preços de gêneros ou bens de consumo essenciais. De difícil detecção. eliminando a concorrência de grupos nacionais e fazendo com que seja entregue a estrangeiros o controle de áreas essenciais da economia da nação. falsificação de moeda e títulos da dívida pública. envolvendo a prática de ilícitos sofisticados em que a vítima é a coletividade (os danos são difusos). ligada à concessão de favores ou privilégios especiais. Lamentavelmente. fraudes com transferências bancárias. 116] concorrências e superfaturando os preços. esses delitos são praticados com o emprego da moderna tecnologia e decorrem. como. A corrupção surge também na celebração de contratos públicos. valendo-se com . do uso abusivo de instrumentos da economia. a nossa legislação penal ainda é deficiente na configuração e punição dessa criminalidade chamada de colarinho-branco. produzindo lesão incomparavelmente maior do que a representada pela criminalidade contra o patrimônio convencional. alguns deles dirigidos por altas personalidades de nosso cenário político e econômico. que abusam do poder econômico. 55. Poder-se-ia também mencionar aqui a ação predatória da economia nacional praticada através de empresas transnacionais. que se pratica através de balanços fictícios e subfaturamento. viciando [p.

e) mutabilidade na forma de operar-se. com o estabelecimento de uma ordem social mais justa e democrática. inclusive o estudo de casos. Outra dificuldade no combate da macrocriminalidade resulta do fato de conseguirem os criminosos adaptar-se rapidamente às constantes mudanças da economia. elevação da inflação. De uma coisa. de modo que pouco ainda sabemos a seu respeito. deverão abranger desde a completa reforma da estrutura política e econômica do país. causas principais. c) reveste-se de uma aparência de legalidade absoluta. o combate ficará circunscrito aos sintomas. onde as ações examinadas deveriam ser tipificadas como crimes sujeitos a graves penas.constância do uso indevido de informações privilegiadas a título de consultoria. devemos nos conscientizar: enquanto tivermos crimes e criminosos acima da lei. Os criminosos utilizam países de acordo com os seus interesses e as facilidades que neles encontram. devendo ser utilizadas as técnicas de pesquisa sociológica aperfeiçoadas pela experiência. onde o dinheiro ilícito entra e sai com facilidade. Estão entre os países preferidos os chamados paraísos fiscais. o que não acontece com o legislador e as leis. por sua vez. por outro. Para elaborar leis eficazes nesta área da criminalidade. entretanto. d) condutas criminosas transnacionais. de nada adiantará a repressão à criminalidade convencional. condições de vida subumanas. A transnacionalização é uma das maiores dificuldades no combate à macrocriminalidade. aumentos incontroláveis de preços. É a macrocriminalidade que provoca desníveis sociais. sem nunca chegar-se às causas. da criminalidade comum. crises econômicas. em constante consonância com as mudanças dos mecanismos econômicos e para dificultar a identificação das operações ilícitas. b) requer alta especialização profissional e completo domínio operacional dos meios tecnológicos para a sua execução. pela falta de leis penais adequadas. por um lado em razão da sofisticação dos meios usados aliada a estrutura e. A estrutura política e econômica existente está de tal forma montada que oculta e protege essa criminalidade dourada.[p. . o legislador teria que ter profundo conhecimento da realidade econômica e estar permanentemente atento para prever as possíveis mutações de seus mecanismos. Quanto às medidas a serem adotadas. pois costuma apoiar-se em atividades legais que lhe dão cobertura tática para os negócios ilícitos. Quando o legislador vai trabalhar em cima da realidade econômica. 117] nia dos Estados. Impõese assim a recomendação de ampla pesquisa. pois o Direito Penal e a atuação da polícia são limitados pelo princípio da territorialidade e da sobera. Enquanto isso não acontecer. f) impunidade dos autores. ela já não mais se encontra no patamar que se pretendia regulamentar. até a reformulação da legislação penal.

a coisa complica”. criam confusão e concorrem para a impunidade. a nossa polícia não está aparelhada e nem especializada para investigar tal tipo de criminalidade. que define os crimes contra a Ordem Tributária Econômica e as Relações de Consumo -. como também pela imprecisão dos seus tipos. Os tipos penais abertos. respondeu: “LUZ . Além disso. mas. então Chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Há no Código Penal. não só pelas penas extremamente brandas nelas previstas. 118] indagado sobre qual o crime que dará mais trabalho para a polícia brasileira. Ademais. para a sociedade. vários artigos que. previsto no art. na hora de entrar nos escritórios refrigerados do 18° andar da Avenida Rio Branco ou num gabinete atapetado na Avenida Paulista. Mas.O crime do colarinho-branco.12. Assim. CONSIDERAÇÕES GERAIS Inúmeros outros fatos.Lei n° 7.Como assim? LUZ . 56. É um problema grave por esse ângulo e.06. como já foi assinalado. a lavagem de dinheiro. 130. essas leis não têm alcançado os objetivos desejados. Em entrevista concedida à revista Veja. que é a arrecadação do Estado. No caso dos crimes do colarinho-branco.“A polícia tem um problema de formação.” VEJA . os engravatados não são considerados marginais. perseguir um integrante do Comando Vermelho.1990. de 27. Não conseguimos. o Delegado Hélio Tavares Luz.É verdade que já temos uma legislação que pune os crimes econômicos . a casa de prostituição na modalidade de manter lugar . também. pelo fato de serem crimes fora do alcance da polícia. poderiam ser mencionados. merecedores de melhor disciplina penal.492. a sonegação fiscal. o crime de perigo de contágio venéreo. em novembro de 1995. que permitem várias interpretações. prender o Miltinho do Dendê são ações que não causam nenhum tipo de problema. deveriam ser dele excluídos. que resguarda o bem comum. lamentavelmente. Estourar um ponto do jogo do bicho.137. há o fato de que. Um policial não está suficientemente aparelhado para entrar nos meandros de um crime cometido na especulação na bolsa de valores. de 16. portanto. por não mais serem aplicados. [p. é o que ofende aquilo que a norma jurídica quer proteger. Crime. viola-se a norma que protege a sociedade como um todo. que define os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e Lei nº 8. Não tem o conhecimento básico para combater os crimes do colarinho-branco. por exemplo. por definição. alcançar essa turma.1986. Quando quiserem combater esse tipo de crime não haverá mais condições.

229. escudados na impunidade. bem como das leis tributárias em geral. nada há mais justo que cada um contribuir para as necessidades públicas proporcionalmente às suas rendas. É inadmissível que alguém fotografe uma pessoa famosa em sua intimidade e venda impunemente essa fotografia à imprensa para obter ganho fácil. principalmente as repercussões que provocam na opinião pública. observa F. 124). trata-se de uma norma amplamente transgredida. Tomemos para exemplo o caso do imposto de renda.estradas. deve persistir? Até quando vamos manter os nossos presídios como escolas de marginais e de revoltados? Para fazer da pena um instrumento de reeducação e prevenção social é necessária uma radical reforma penitenciária. há uma grande distância entre a eficácia teórica e a real das leis fiscais em geral. Embora todos estejam de acordo quanto à necessidade de pagar tributos como forma de custear os serviços públicos . procurando os mais variados meios para fugir ao seu império. 57. que tantos efeitos negativos produz. educação. como a sedução (art. embora tipificado como crime.escrito. por seu turno. pp. existindo até mesmo clínicas especializadas em aborto. há artigos cuja permanência no Código é discutível por várias razões sociais. Assinale-se por último que novos fatos sociais necessitam ser tipificados como crimes. objeto ou espetáculo obsceno. Em tese. Entre nós. previsto no art. 118119). Por razões que precisam ser estudadas. todos sabem disso. vulgarmente chamada de grampo. Este último já se encontra legalizado em vários países.motéis. A. Por outro lado. saúde. de Miranda Rosa (Sociologia do Direito. 234 . 240. como a violação da intimidade com instrumentos e aparelhos eletrônicos. são algumas das questões a merecer pesquisa acurada da Sociologia Jurídica.para fins de encontros libidinosos . No . chegou até o Palácio do Planalto. art. ultraje público ao pudor na modalidade prevista no art. transportes. tal a ousadia dos seus praticantes. Existem ainda outras questões que estão a exigir estudo aprofundado e urgente definição do legislador: a maconha deve ser descriminada? Como [p. o adultério. 119] explicar o seu uso nas praias? A proibição do jogo do bicho. há uma resistência permanente por parte dos contribuintes quanto a pagar efetivamente os tributos exigidos pelos órgãos legiferantes. 217) e o aborto (art. A escuta telefônica. DIREITO FINANCEIRO E TRIBUTÁRIO Os efeitos sociais das leis que disciplinam o regime das finanças públicas e privadas.

120] clamar maior atenção dos sociólogos. deixando quase à vontade os profissionais liberais. caberia à autoridade competente esclarecer a opinião pública quanto ao que foi feito com o dinheiro público . isto é. 58. cujo tributo é descontado em folha de pagamento. em todos os países em que foi instituído não há exemplo de aceitação mansa. Outra causa pode ser a falta de confiança do público em geral na fiel aplicação dos tributos às finalidades a que se destinam. sonegar o imposto de renda. Jamais confessariam que subtraíram um níquel de quem quer que seja. esperteza. . se as causas da resistência pudessem ser levantadas e eliminadas. como e por quê.obras. é algo perfeitamente tolerável pelos costumes e até enaltecedor. comerciantes. mas quanto aos tributos. Chega-se por isso ao absurdo de um assalariado. mais do que em qualquer outro. as leis fiscais seriam recebidas de forma mais pacífica pela sociedade e os resultados seriam muito mais satisfatórios. Vimos isto no Rio de Janeiro quando do lançamento da taxa do lixo pela Prefeitura Municipal: houve uma grita geral. através de publicidade bem elaborada. Chegou-se mesmo a formar a idéia de que constitui virtude. Neste caso. O esclarecimento da opinião pública a esse respeito. Esse descompasso. Pode acontecer também de não estar o público suficientemente esclarecido quanto às finalidades dos tributos. em nosso entender por falta de esclarecimento da opinião pública quanto ao que estava sendo feito. como já se disse. Sem dúvida. entre a eficácia pretendida com relação às leis tributárias e sua aplicação real. ou pelo menos habilidade. De todos é sabido. faz-se . constitui fato importante a re.[p. por exemplo. ajudaria a quebrar a resistência e a angariar confiança. industriais etc. o que visam realizar. dos juristas e das autoridades em geral.. uma das causas da resistência ao pagamento do imposto de renda decorra da injustiça dos critérios utilizados em sua fixação. assistência etc. pessoas respeitáveis vangloriam-se de terem conseguido burlar o imposto de renda em vultosas quantias.. de rendimento médio. pagar mais imposto de renda que um comerciante ou industrial bemsucedido. isso seria tremendamente desonroso. DIREITO DO TRABALHO O Direito do Trabalho oferece igualmente campo fértil à investigação sociológica porque trata-se de um novo ramo do direito onde. arrecadar-se-ia mais com menos esforço. Provavelmente. ou de aplicação fácil desse tributo. dos economistas.entanto.e assim ganhar a confiança pública. em reuniões sociais. Freqüentemente. que em nosso País a maior incidência do imposto de renda ocorre sobre os assalariados.

passo a passo. capazes de condicionar um entendimento uniforme no sentido desejado. porém. tendente a criar ambiente social mais amplo. Seu desenvolvimento tem sido rápido em virtude das constantes pressões exercidas pelos fatos sociais sobre as forças e grupos detentores do controle da economia. ainda que nova.. a influência que exercem os órgãos de classe é inegável. Foram concessões [p. Tão notório é o condicionamento social sobre as leis trabalhistas. cit. simpático às posições assumidas pelos grupos de trabalhadores vinculados a tais organizações sindicais.. seja pelas restrições que a organização política lhes impõe. é mais discreta a intervenção dos sindicatos na formulação das normas jurídicas do trabalho. Miranda Rosa (ob. Por essa mesma razão a legislação trabalhista. a influência sindical no processo de formação do Direito Trabalhista apresenta três facetas distintas. procurando obter decisões da justiça favoráveis. 116). sempre na menor medida possível. p. O líder sindical chegou à Presidência daquele País. Interferência das Forças Sindicais no Processo de Formação do Direito do Trabalho Segundo o Prof. a saber: a) ação sobre os órgãos legislativos e executivos. Em outros. em alguns países essa influência é exercida direta e ostensivamente sobre os órgãos produtores do direito. Em qualquer das hipóteses. a despeito do regime político duro e austero lá existente. b) ação sobre o Judiciário. 58. . c) ação sobre a opinião pública.notório o condicionamento direto que a realidade social exerce sobre a ordem jurídica. p. acatadas. De acordo com o mesmo autor (ob. visando à edição de normas jurídicas convenientes aos interesses dos seus associados. pelos patrões. decorreram das pressões feitas pelos órgãos de classe. gratificação natalina. reajustes salariais. muito a contragosto. aos impulsos sociais das novas reivindicações de massa. impressionante e inevitável. cit. como férias de trinta dias. às vezes até mesmo com certo exibicionismo para evidenciar a eficiência das organizações classistas e sindicais na defesa dos interesses de seus associados. seja pelas características próprias do movimento sindical. 117). Exemplo disto tivemos na década de 80 na Polônia. aposentadoria. tem sido alterada com freqüência. 121] feitas.1. que podemos afirmar com segurança que todas as conquistas dos trabalhadores nesse ramo do direito.

o Código adotou a concepção social do contrato.basta que se diga que somos hoje 170 milhões de consumidores no Brasil. válida e legítima. produtos. vestuário. gerando diariamente outros tantos milhões de relações em todas as áreas do mercado de consumo: saúde. Um líder sindical chegou à Presidência do País e está promovendo reformas constitucionais significativas. DIREITO DO CONSUMIDOR Não estaria completo este capítulo sem uma referência. segurança. às profundas transformações introduzidas nas relações de consumo pelo Código de Defesa do Consumidor.promover a defesa do consumidor (art. Até onde essa influência é útil. 59. serviços etc.O Brasil. 5°. no que tange ao segundo ponto. A Responsabilidade Objetiva do Fornecedor de Produtos ou Serviços Até o Código do Consumidor os riscos do consumo corriam por conta do consumidor. ainda que rápida. habitação. para cumprir a sua vocação constitucional . 122] O que foi dito nesta parte serve para demonstrar o que poderia e deveria ser feito em todos os ramos do Direito. depois da abertura política vem se colocando no primeiro. Entre as inúmeras inovações traz idas pelo CDC.CDC . necessária. com relação a determinadas realidades sociais por ele ainda não adequadamente disciplinadas. Para atingir a sua finalidade no que diz respeito ao primeiro ponto. alimentação. merecem destaque aquelas que procuram proteger o consumidor nos pontos em que é mais vulnerável: a sua integridade físico-psíquica e a sua integridade econômica. uma disciplina jurídica única e uniforme para tutelar todos os direitos materiais e morais dos consumidores. inciso XXXIII da Constituição Federal) -. Entendia-se que o fornecedor de produtos ou serviços limitava-se a fazer a . estabeleceu uma política nacional de consumo. conforme foi possível constatar através dos movimentos grevistas no ABC Paulista. Para termos uma idéia do campo de incidência do Código de Defesa do Consumidor . 59. [p. que durante muitos anos esteve entre os países do segundo grupo. Essa lei.1. bem como na legislação ordinária. o CDC estabeleceu responsabilidade objetiva para o fornecedor de produtos ou serviços. transportes. é questão a ser examinada através de investigação profunda da realidade social determinante.

reconhecendo perfeita igualdade e absoluta liberdade entre as pessoas. 59. estocar. O progresso industrial. de forma expressiva. sendo tributados aos riscos do ato de consumir todos os acidentes de consumo. na aventura do consumo para indicar a situação daquele que se aventurava a consumir produto ou serviço. Uma vez manifestada. O indivíduo estaria. [p. O CDC. A responsabilidade decorre do simples fato de dispor-se alguém a realizar atividade de produzir. 12 e 14 do CDC. a autonomia da vontade deixa de ser o elemento nuclear do contrato. o elemento nuclear do contrato é a autonomia da vontade. deu uma guinada de cento e oitenta graus ao transferir os riscos do consumo do consumidor para o fornecedor. Em face do desequilíbrio econômico das partes . assim. passando a ser substituída pelo interesse social. entre as melhores e mais avançadas legislações do mundo.2. científico e tecnológico veio demonstrar que o dogma da liberdade contratual não passava de uma ficção. sem oportunidade de escolha . para definir o conteúdo do contrato e ainda para escolher o parceiro contratual. que pode ser assim resumida: todo aquele que se disponha a exercer alguma atividade no campo do fornecimento de bens e serviços tem o dever de responder pelos fatos e vícios resultantes do empreendimento. a vontade cria um vínculo entre os contratantes do qual nascem direitos e obrigações. livre para contratar ou não contratar. vale dizer. e o outro fraco. A liberdade de contratar é o reflexo da filosofia do Estado Liberal que exigia uma separação quase absoluta entre o Estado e a sociedade. Nas últimas décadas tomou-se necessário substituir a concepção clássica do contrato por uma concepção social. A eficácia jurídica do contrato . nesse e em outros pontos. até. responde pelos danos que causar ao consumidor independentemente de culpa. independentemente de culpa. Falava-se. Tão forte é esse vínculo que se costuma dizer que o contrato é lei entre as partes. consoante arts.chamada “oferta inocente”. atendendo antiga exigência social. 123] Hoje a responsabilidade do fornecedor é objetiva. já que não há igualdade real entre os homens na sociedade. A Concepção Social do Contrato no Código do Consumidor Na sua visão clássica ou tradicional.a liberdade de um importava em opressão do outro. Por essa nova concepção. o que só veio a ocorrer. Funda-se a responsabilidade do fornecedor na teoria do risco do empreendimento (ou empresarial). distribuir e comercializar produtos ou serviços. colocando-se. no Código do Consumidor.um forte. poderoso.

fruto de um consciente e bem sucedido esforço do legislador para adequar a nossa legislação à realidade social no que diz respeito às relações de consumo. mas também vedando certas cláusulas. e principalmente. mas também. não tem mais mero papel interpretativo ou supletivo. O Estado passa a intervir na formação dos contratos de consumo. 124] concepção social do contrato. não só controlando preços. protege determinados interesses sociais e serve de instrumento limitador da autonomia da vontade. que valoriza as legítimas expectativas das pessoas nas relações de consumo.não mais depende apenas da manifestação de vontade. 30-38). dos seus efeitos sociais e das condições econômicas e sociais das partes que dele participam. chegando ao ponto de obrigar a contratar em determinados casos. pois de uma visão liberal e individualista. mas cogente. . Tem sido proclamado que ele representa uma verdadeira mudança na ação protetora do Direito Civil Brasileiro. pode-se afirmar que o Código do Consumidor é a mais revolucionária lei do século XX. proíbem as práticas comerciais abusivas (art. A autonomia da vontade só existe nas condições permitidas pela lei que. Como exemplo dessa nova postura da lei em face do contrato de consumo. passamos a uma visão social.51-53).2. na [p. reportamo-nos ao que ficou dito no item 47. Quanto aos efeitos positivos que essa lei vem produzindo. impondo o conteúdo de outras. Concluindo. 39) e consideram nulas de pleno direito as cláusulas abusivas (arts. devem ser lembrados os Capítulos V e VI do CDC que vedam a publicidade enganosa e abusiva (arts.

repetimos. Cabe aqui relembrar o que dizia Montesquieu: “Quando vou a determinado país. entretanto. porque leis boas há em toda parte. [p. mas se as executam. Função do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal. vamos agora nos dedicar ao exame do segundo item da classificação . O papel desempenhado pela Justiça Eleitoral. **** Após termos examinado. Fácil é. é ter estrutura material e humana para aplicá-las. A crise do Judiciário em nosso país. quando teremos oportunidade de ver que não basta existirem leis boas e eficazes. 127] .estudo dos instrumentos humanos de realização da ordem jurídica e de suas instituições -.Capítulo XI INSTRUMENTOS HUMANOS DE REALIZAÇÃO DA ORDEM JURÍDICA O Poder Legislativo: eleição dos legisladores. compreender que. É preciso também gente especializada e em número suficiente para aplicar a lei. Estrutura do Judiciário brasileiro: a justiça estadual. é tê-las e não aplicá-las.” Pior do que não ter leis. organização da justiça federal.eficácia e efeitos -. estrutura da justiça especial. bem como uma estrutura material adequada. o primeiro item da classificação proposta por Renato Treves para o objeto da Sociologia Jurídica . tão importante quanto ter leis eficazes. Em certas atividades. portanto. aumentando infinitamente as possibilidades de produção. o homem é insubstituível: entre elas as atividades de elaborar e de aplicar leis. O Poder Judiciário. A máquina já substituiu o homem em inúmeras atividades. Causas da crise do Judiciário brasileiro. caso contrário toda a ordem jurídica de uma sociedade pode ficar seriamente comprometida. não indago se há leis boas. nos capítulos anteriores.

Tais instituições. através dos Deputados Federais e Senadores. são integradas por criaturas humanas. 718). dois deles estão diretamente ligados à ordem jurídica: o Poder Legislativo. Do bom funcionamento dessas instituições e da eficiência do pessoal que nelas atua dependerá a eficácia da ordem jurídica. que em conjunto formam o Congresso Nacional. De acordo com Seabra Fagundes.formado pela Assembléia Legislativa de cada Estado. é óbvio. Se para o [p. nas sociedades democráticas. às quais a sociedade confere atribuições para elaborar e aplicar as leis. O Poder Legislativo Federal. 3) Municipal . mesmo assim. com relação àquelas matérias que não são da competência privativa da União. Por sua vez. Desde que passou a prevalecer. que tem por função prevalente elaborar as leis. a função legislativa liga-se ao fenômeno de criação do direito. Legislar é editar o direito positivo. mantida e modificada. a Câmara Municipal de Vereadores fica restrita aos limites do seu Município e às matérias de sua competência.Câmara de Vereadores de cada Município. 128] exercício das mais simples funções é necessário ter a pessoa certa no lugar certo. a de legislar é sem dúvida a mais importante. 2) Estadual .Por instrumentos humanos de realização da ordem jurídica devem ser entendidos aqueles órgãos ou instituições através dos quais a ordem jurídica de uma sociedade é declarada. cuja função principal é aplicar a lei ao caso concreto. e o Poder Judiciário. a saber: 1) Federal . porque dela emanarão leis a vigorar para todo o grupo social. Entre as funções públicas. sendo assim responsável pela declaração e modificação da ordem jurídica nacional. inclusive os efeitos sociais positivos que toda norma tem por finalidade produzir. compondo os conflitos sociais. julgar é aplicar a lei contenciosamente (O Controle dos Atos Administrativos pelo Poder Judiciário. 60. o princípio da separação dos poderes. p. elabora leis para todo o território brasileiro (leis federais). ao passo que as funções administrativa e a judicial se prendem à sua realização. PODER LEGISLATIVO O Poder Legislativo em nosso País divide-se em três esferas. O Poder Legislativo Estadual só elabora leis para o âmbito territorial de cada Estado e. o pessoal técnico e especializado que nelas atua. por maior razão é preciso que o . assegurada. 1979. administrar é aplicar a lei de oficio.composto pela Câmara dos Deputados e Senado Federal (adotamos o sistema bicameral).

em áreas de grande pobreza: a máquina eleitoral reelegendo os mesmos parlamentares a cada nova legislatura. visto estar consagrado em todas as sociedades democráticas o sistema da eleição direta para tal fim. como tem sido feito às vésperas de cada nova eleição. o voto vinculado a pequenas vantagens materiais. Lamentavelmente. e não simplesmente pessoais. para a seguir serem elaboradas as reformas necessárias. até distribuição de alimentos. uma reforma parcial. 60. profunda. É notório. financiando sua milionária campanha e comprando adesões.[p. que ainda temos currais eleitorais no interior. as questões mais relevantes sobre este ponto consistem apenas em saber como evitar as distorções que têm ocorrido nas eleições diretas. já que a função legislativa é exercida por delegação do povo. apresentadas as soluções mais adequa. de modo a tomar possível a escolha dos melhores. destinada a realmente aprimorar o sistema existente. É preciso uma reforma de base.1. Não. Eleição dos Legisladores Hoje não mais se admite qualquer discussão sobre as vantagens de qualquer outro processo seletivo dos legisladores que não seja o da votação popular. a eleição direta não tem produzido os efeitos desejados. Para tanto seria indispensável inicialmente uma pesquisa detalhada da realidade atual. como afirmou há algum tempo determinado político. Assim sendo. o poder econômico pesando em favor deste ou daquele candidato. a eleição conquistada em troca de facilidades. séria. por exemplo. àqueles que foram escolhidos como seus mandatários ou legítimos representantes. ninguém mais desconhece que o processo de seleção dos membros do Legislativo está a exigir urgente aprimoramento. não porque o brasileiro não saiba votar. muitas outras circunstâncias existem dificultando ou até mesmo impedindo que o processo seletivo dos legisladores proporcione um eficiente resultado. casuística. levantando-se as suas principais deficiências. Como estas.legislador seja alguém preparado para o exercício dessa função e escolhido mediante criterioso processo seletivo. destinada exclusivamente a assegurar a vitória àqueles que já se encontram no poder. Fala-se muito na reforma política e ela é realmente necessária. empreguismo e outros interesses econômicos. verdadeira. algumas . mas sim pelas distorções que se verificam na sua execução. E nem poderia ser diferente. a despeito de nada terem feito ao longo de muitos anos de vida pública. a manipulação da opinião pública pelos órgãos de comunicação nas grandes cidades. entretanto. Com efeito. De tão velhas e conhecidas. 129] das à realização dos interesses coletivos.

Carlos Pereira. com as quais estabelecem compromissos localistas. as regras internas do processo de decisão do Congresso e os poderes constitucionais de legislar e de distribuir recursos do presidente agem incentivando a centralização do sistema e o comportamento partidário. até confessada. vinculando a liberação de verbas e outros recursos de emendas orçamentárias individuais ao grau de fidelidade de cada parlamentar. a fidelidade partidária. o que faz com que o exercício do mandato seja voltado para atendimento destas demandas. Por um lado. passa a incentivá-Ia e dele se beneficiar tão logo chega ao poder! Outra questão relevante é a cooptação de parlamentares pelo Executivo para garantir a maioria parlamentar no Congresso. 130] cução destas demandas. todos os outros estão na Câmara Federal graças à legenda. Tomou-se pública e notória. “Por causa dessas regras eleitorais. apenas 28 deputados federais tiveram votação suficiente para se eleger sozinhos. exerce o mandato por outro. não saíram do papel. Entretanto. de posição política diametralmente oposta ao daquele pelo qual se elegeu. Ou seja.Quais as Condições para o Sucesso Presidencial na Área Legislativa? A Conexão Eleitoral Brasileira -. E a injustificável curiosidade dessa questão está em que o partido de oposição que condenava a troca-troca de partido com veemência. em busca de prestígio e favores políticos. por exemplo. Ou seja. de um sistema para acompanhar as votações do Governo no Congresso. Nas contas das últimas eleições. assim examina essa questão: “Prefiro interpretar as relações Executivo-Legislativo à luz dos incentivos institucionais das regras do sistema político brasileiro. ao mesmo tempo. Assim.[p. o multipartidarismo e o federalismo agem descentralizando o sistema e incentivando comportamentos particulares. cientista político e autor da tese . Assim. mas que. normalmente integrante da base governista.questões constam da pauta de todas as propostas de reforma política. bem como é ele que centraliza o processo decisório e a agenda do Congresso. é o Governo o responsável pela exe. Até que ponto é justa e ética a troca-troca de partido? O parlamentar se elege por um partido e depois. para serem eleitos. tanto nos Governos anteriores como no atual. as regras eleitorais. não há a mediação dos partidos políticos. os parlamentares. É correto o parlamentar se sentir dono do mandato se para eleger-se precisou de votos da legenda do partido pelo qual concorreu às eleições? E não são poucos os que necessitam do voto de legenda. Ele proporciona incentivos para comportamentos individuais e partidários. negociar com o Congresso punindo ou . Por outro. lamentavelmente. se aproximam em demasia de suas bases eleitorais. a existência no Palácio do Planalto.

então. em que cada partido apresenta aos eleitores sua lista de candidatos. sendo que a outra metade (ou fração estipulada em lei) é escolhida pelo sistema proporcional que. pode ser de votação uninominal (cada partido indica seu candidato para escolha do eleitorado). E a atitude do Legislativo. ou votação plurinominal. conhecido tecnicamente como concentrados/dominantes.premiando parlamentares segundo seu desempenho é decisão do governo proveniente dos incentivos institucionais das regras do jogo. aprovados em convenção. da Editora Revan. é eleita por votação majoritária. sistema utilizado com sucesso em alguns países. o partido escolhe os candidatos que quer eleger e o eleitor vota no partido. Pelo voto distrital misto os Estados são divididos em regiões e somente uma parte dos candidatos. também chamado de sistema de lista. Qual seria esse redesenho das instituições políticas? Que sistema permitiria eliminar os inconvenientes e distorções inevitáveis no atual sistema político? Essa é a questão. não é nada mais do que o instrumento achado para mitigar as fragilidades de um sistema partidário fraco na arena eleitoral e fortalecê-Io dentro do Congresso. cientista político e autor da obra E no Início Eram as Bases. No primeiro caso. sendo que o eleitor tem a opção de votar no partido ou na pessoa do candidato de sua preferência. de continuar jogando este jogo.2000). na há voto nominal. No caso de lista aberta. geralmente a metade. Uma das soluções apontadas seria a adoção do voto distrital misto. por sua vez. no qual demonstrou que a nossa Câmara dos Deputados é divi. que fragmenta a votação pelo estado inteiro. de forma a ver cumprida a sua agenda de governo. a atitude do Executivo. somente voto na legenda. fez um profundo estudo do nosso sistema político.08. como aquela do voto de Roraima valer sete vezes mais do que o de São Paulo. . vinculando o atendimento das demandas dos parlamentares aos seus comportamentos de voto. Nelson de Carvalho. 02. Outro grupo seria o que ele chama de “a nossa variável nordestina do voto distrital”. fortalece o partido. As listas podem ser fechadas ou abertas.” “Diante de um desenho institucional como este. O desafio. tem sido a única saída para a sobrevivência política dos parlamentares. Entre as vantagens desse sistema estaria também a de evitar distorções da representação popular que hoje ocorrem. que dominam a votação em determinada área.[p. o partido não escolhe os candidatos que quer eleger. apresenta um número de candidatos fixado em lei. mas dá ensejo ao afastamento das minorias e ao engrandecimento da figura dos caciques. é redesenhar as instituições políticas sem cair na vala comum do moralismo” (O Globo. 131] dida igualmente entre três tipos de políticos: os do primeiro grupo seriam os distritais puros. que proporciona incentivos paradoxais simultâneos.

que vai pegando um votinho aqui outro ali e em várias áreas distintas”. e dá uma visibilidade maior ao representante. “o sistema distrital uninominal incentiva o paroquialismo.países que passaram por transições democráticas parecidas com a nossa . “são os que têm 40 prefeitos espalhados. para o candidato da área metropolitana. “dá-se uma justa medida às diversas áreas. o primeiro recurso eleitoral é a atuação legislativa. voltado para temas. não acontece o fenômeno da sub-representação de áreas importantes como as metropolitanas. a maneira como ele vota na Câmara. Para Carvalho. eliminando a possibilidade dessa compra da representação inorgânica. o interior do estado passa a atribuir justa representação a áreas que hoje viram colchas de retalho “atacadas por vários políticos que dispersam sua votação e não têm compromisso com nenhuma delas”. e não apenas um. Após essas ponderáveis reflexões. que elegem de 5 a 8 deputados. O concentrado/não-dominante é o terceiro tipo. Portugal e Grécia . Com esse sistema. Os países citados por Carvalho usam o sistema de lista. adotam os chamados Distritos de Média Magnitude.com motivação paroquial. Ele também vê vantagem nesse tipo de voto proporcional com distritos maiores “porque enxuga o número de partidos”. Se cada um for maximizar o beneficio para o distrito. 132] Conclui Nelson de Carvalho: “Mesmo se fizermos voto distrital com lista fechada.que. Os fragmentados/dominantes. seria o político das áreas metropolitanas. e ao mesmo tempo contemplar o paroquialismo que já existe”. Nelson Carvalho propõe a adoção do sistema eleitoral utilizado na Espanha. e o primeiro recurso político deles é o encaminhamento das demandas das lideranças locais. Os distritos de média magnitude diluiriam a interferência direta do cacique local” . que predominam no Nordeste. que concentra sua votação em municípios muito grandes e. e acabariam com a adoção dos mega-distritos”. os caciques vão continuar dominando os partidos. como nos Estados Unidos. em vez de adotar o voto distrital misto. onde os políticos locais não têm responsabilidade sobre as verbas. Segundo o estudo. mas ele não tem definição sobre se o voto deve ser na lista ou diretamente no candidato. não pode reivindicar créditos por benefícios. Dentro do estado. você projeta os interesses difusos da sociedade e provoca uma espiral de gastos. como não domina essa área. [p. Com o distrital misto podemos ter aqui o pior dos dois mundos: dar à oligarquia partidária o domínio sobre a lista. para priorizar os partidos políticos em detrimento do voto pessoal. Esses são fruto de uma distorção do voto distrital à brasileira. Já o político do distrital puro prioriza os recursos orçamentários.

“A legislação é quase risível. cultos ou não.A grande dificuldade em se aprovar uma reforma política está em que terá ela que ser votada pelos próprios parlamentares que trocam de partidos. E assim sendo. Uma vez eleito. a prestação não vale nada. recadastrou os eleitores em 24 municípios nos quais constatou desproporção entre o número de eleitores e de habitantes. sem questionamentos. não existe fidelidade partidária. sem fraude. não obstante as suas conhecidas deficiências.2. a organização do pleito e outras medidas administrativas adotadas fizeram da nossa última eleição um modelo para o mundo todo. o candidato vai à luta buscar quem banque sua campanha. nem como prestar contas dos gastos com a campanha. o que indicaria a existência de eleitores fantasmas. 60. principalmente o eleitorado. compareceram ordeiramente às urnas em todo o país. A proporção estava acima de 70% da população. O Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio de Janeiro. assumindo compromissos políticos com os mais variados e questionáveis seguimentos sociais. enfim. mesmo nos lugares longínquos e de difícil acesso. Foi um espetáculo democrático. Obter novas adesões na base da aritmética pode ser importante momentaneamente. e conseguiram depositar o seu voto. por exemplo. Se o candidato é derrotado. Horas depois os resultados foram proclamados no Brasil todo. O voto eletrônico. não deve nada ao partido.12. mas a longo prazo só dá prejuízo. No dia do pleito milhões de brasileiros.2003) disse que a prestação de contas que o candidato faz dos gastos com a campanha eleitoral é uma palhaçada. a informatização da apuração das eleições. por aqueles que eventualmente serão por ela prejudicados. [p. 133] O Presidente do Tribunal Regional Eleitoral no Rio de Janeiro. Dessa forma a Justiça Eleitoral Brasileira deu sua decisiva contribuição para o aprimoramento do sistema político vigente. votam motivados por favores políticos. os líderes dos maiores partidos se sentarem à mesa e concluírem que todos estão sendo prejudicados. Desembargador Marcus Faver. A reforma política só vai sair quando. Ele pode ser candidato . praticam o clientelismo. um belo dia. de civismo e cidadania. Prossegue a Justiça Eleitoral nessa importante tarefa promovendo recadastramento dos eleitores e reivindicando debate mais profundo sobre a legislação eleitoral. O Papel Desempenhado Pela Justiça Eleitoral Justiça seja feita à Justiça Eleitoral Brasileira. em entrevista ao jornal O Globo (26. sem impugnações. Promove também debate sobre o financiamento público da campanha eleitoral. jovens e velhos. A experiência demonstra que se não há financiamento público.

134] flitos sociais. Era a justiça do olho por olho. e assim por diante. também não tem nenhum efeito. Essa função. que se caracterizava mais como uma forma de vingança do que propriamente de justiça. terá que ser exerci da em favor de todos os que dela necessitarem (ricos ou pobres. de aplicar a lei ao caso concreto para compor os conflitos sociais. A vítima. de invocar a prestação jurisdicional sempre que dela necessitar.novamente mesmo com as contas rejeitadas. O credor podia exigir. por sua vez. gerando uma verdadeira reação em cadeia. após organizar-se política e juridicamente. Ainda hoje temos exemplos do que ocorre quando o particular resolve fazer justiça com as próprias mãos. Obviamente. o que faz aplicando a lei ao caso concreto. Chegou o dia em que a sociedade. podia infligir ao causador do dano mal idêntico ao produzido no ofendido. tal forma de justiça. Hoje. pois caso contrário ficará a emenda pior do que o soneto. caracteriza o direito de ação. portanto. . e em face dos inconvenientes da justiça privada. 345 do Código Penal.[p. A função prevalente do Poder Judiciário.” 61. é necessário salientar. Um verdadeiro faz-de-conta esse negócio de prestação de contas que não tem sentido objetivo. a obrigação do devedor. no momento em que se tomar necessária (não alcançará os seus objetivos sociais se a ação da justiça vier tardiamente) e no lugar onde for necessária. prestada pelo particular interessado. criava outros maiores. foi conferida ao Poder Judiciário. onde durante algumas décadas duas famílias se destruíram mutuamente. caracterizando o crime previsto no art. constituindo a chamada função jurisdicional. longe de compor os conflitos sociais. sem imparcialidade. fazer justiça com as próprias mãos é uma forma de usurpação de função pública. resolveu assumir essa função. após a separação dos poderes. PODER JUDICIÁRIO Houve tempo em que a justiça era privada e feita pelas próprias mãos. o que. compondo os con. pelos meios que bem entendesse. fracos ou poderosos). servindo como ilustração o conhecido caso de uma cidade nordestina. Essa relevante função pública. dente por dente. ou seu vingador.monopólio estatal. Se as contas forem julgadas depois da diplomação (e não há tempo para que sejam julgadas antes). é distribuir justiça na sociedade. cultos ou ignorantes. tornando-a exclusivamente sua . Cabe ao particular tão-somente o direito de pedir justiça. A partir daí só o Estado passou a ter o poder de fazer justiça.

Tomemos para exemplo do que estamos querendo enfatizar o caso do INAMPS. As filas aumentando cada vez mais nas portas dos ambulatórios.. funcionários. e neles uma multidão de Juízes. que se propõe prestar assistência médica e hospitalar a todos os seus associados.que só trata das questões relacionadas com o direito eleitoral. gente técnica e especializada. serventuários etc. . que para realizar os seus objetivos necessita de instalações. clínicas. 135] 62. veremos o que estamos cansados de ver. o Judiciário precisa de estrutura material e humana para desempenhar a sua tarefa.fazer justiça a quem precisar. O Poder Judiciário Federal. postos de justiça. gente técnica e especializada. a saber: 1) Justiça Eleitoral . tanto nas capitais como no interior. pessoal etc. se assim podemos dizer. dedicada à função jurisdicional. tomando impossível a vida em coletividade e motivando o retomo à justiça privada. [p. Com o correr do tempo os conflitos se agravam e aumentam. postos. sob pena de se avolumarem os processos nas prateleiras. postos de saúde etc. Coisa idêntica ocorrerá (e já está ocorrendo) com o Judiciário. o que será da sociedade? Os conflitos sociais continuarão ocorrendo porque existirão enquanto existir a sociedade. quando e onde for necessário . por sua vez. sede. Os interessados não poderão resolvê-los por suas próprias mãos. enfermeiros. Tal como uma grande empresa prestadora de serviços. se a Justiça se omitir ou retardar no exercício de sua função. empenhada na realização desse objetivo.Com efeito. O que é preciso para que possa realizar isto? Uma infinidade de hospitais. espalhados por todo o território nacional. e neles uma multidão de médicos.. já que isto constitui uma função exclusivamente pública. espalhados por todo o território nacional. agências.é indispensável que esteja devidamente estruturado e aparelhado. pessoas esperando às vezes meses para poderem ser consultadas. Faltando essa estrutura necessária. tanto nas cidades como no interior. se lhe faltarem os instrumentos materiais e humanos necessários. Também ele terá que contar com instalações adequadas. tal como as pessoas nas filas do INSS. ESTRUTURA DO JUDICIÁRIO BRASILEIRO Em nosso País o Judiciário se divide em duas esferas: federal e estadual. mas quem tem o dever de exercê-la não o faz. subdivide-se em quatro áreas específicas. Para que o Judiciário possa exercer eficientemente a sua função . o que toma em completo fracasso o objetivo a que se propõe a entidade.

por exemplo. deverá propor a ação expropriatória perante uma das varas da Justiça Federal. réu. deverá também apresentar sua postulação perante a mesma justiça. 62. da melhor . advogados). As decisões da primeira instância são prolatadas por Juiz singular. Por isso está em contato direto com as partes (autor. De regra. atuando em toda a formação do processo desde a primeira peti. 3) Justiça Militar . desde logo. 136] ção até a sentença final. ré ou simples interessada. de modo a poder ela realizar.que é o poder de fazer justiça. Temos. Para não ser muito oneroso e difícil às partes o acesso a essa justiça. testemunhas. bem como as demandas em que há interesse dos próprios Estados. Municípios e seus desmembramentos administrativos. enfim.[p. está ela organizada em todo o território do Estado. se a União resolver desapropriar um determinado imóvel.1. Estrutura da Justiça Estadual Há duas instâncias na Justiça Estadual: instância é hierarquia ou grau de jurisdição . À Justiça Estadual compete o restante das questões que podem ser levadas a juízo. assim. para que possa estar ao alcance de todos. contratos.que cuida dos problemas envolvendo empregador e empregado. se um particular pretender exigir da União indenização por dano material ou moral decorrente de ato praticado pela administração federal. crimes etc. isto é. 4) Justiça Federal .cuja competência é julgar os crimes previstos no Código Penal Militar. Todas as demandas envolvendo conflitos de interesse entre particulares (questões de família. a primeira e a segunda instâncias no Judiciário de cada Estado. sucessões. Cabe ao Código de Organização Judiciária de cada Estado estabelecer a organização da sua justiça de primeira instância. tanto nas cidades do interior como na capital.à qual competem todas as causas em que houver interesse da União ou de seus desmembramentos administrativos (autarquias e empresas públicas) como autora. Assim. serão da competência da justiça estadual. Isso evidencia. é a justiça de primeira instância que toma conhecimento e decide em primeiro lugar as causas que são levadas à apreciação do Judiciário. que a grande sobrecarga de trabalho repousa sobre o Judiciário Estadual.2) Justiça Trabalhista .). por um só julgador. aplicando a lei ao caso concreto.

o que poderia acarretar um congestionamento de processos e sobrecarga do serviço nos Tribunais de Justiça. podemos dizer que todo o território do Estado é dividido em várias áreas denominadas Comarcas. sob pena de tornar-se lenta. limitando-se à apreciação daquilo que já se encontra no processo. e em cada Vara um juiz. toma-se necessária a criação de novos juízos (uma ou mais varas). todavia. de regra. Em cada Foro temos pelo menos um órgão investido da função jurisdicional. Apreciado o recurso. congestionada e deficiente a prestação jurisdicional. cujos membros são chamados Desembargadores. demorada. pelo menos. e conseqüentemente aumentando o serviço da justiça. podendo-se. 2) não está em contato direto com as partes.forma possível. divididos em várias câmaras. em segundo grau. as suas finalidades. muito embora nem sempre exista correspondência entre suas áreas geográficas. que é o Juízo ou Vara. possuem também outro Tribunal (ou Tribunais) chamado de Alçada. três julgadores. aumentando a sua população. 4) é uma justiça colegiada. o processo é devolvido à Vara de origem. serventuários etc. organizam-se à sua imagem e semelhança. De modo geral pode-se . [p. para evitar esse inconveniente. por isso que realizada através dos Tribunais de Justiça dos Estados. pois trata-se. Tal como os Tribunais de Justiça. onde a sentença será executada. À medida que a Comarca vai se desenvolvendo política. o escrivão. tendo a competência estabelecida pela lei. Assim.. Cabe também a cada Estado organizar a sua Justiça de segunda instância. como a primeira instância. as atividades empresariais etc. os Tribunais de Alçada são integrantes da Justiça de segunda instância. tal como ocorre com os Municípios. tantas quantas forem necessárias para atender à demanda dos novos conflitos sociais. Em cada Comarca temos uma sede do Judiciário Estadual que vem a ser o Foro. de uma atividade revisora. 137] O número de desembargadores é muito menor que o de juizes de primeira instância. para onde são encaminhados os processos sempre que houver recurso de qualquer decisão da primeira instância. econômica e socialmente. Alguns Estados. visto que as decisões são ali prolatadas por. dizer que as suas principais características são as seguintes: 1) toma conhecimento das causas em segundo lugar. Em linhas gerais. 3) só existe nas capitais dos Estados. cada Estado tem o seu Tribunal de Justiça.

todavia. através de processo sumaríssimo. só se tomando obrigatória a sua participação se houver recursos. em substituição aos Juizados de Pequenas Causas. Essa lei prevê a participação de conciliadores e Juízes leigos como auxiliares da justiça na fase da conciliação.) e infrações penais de menor potencial ofensivo (contravenções penais e os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a um ano). sediados nos principais Estados (São Paulo. não cabe recurso nem para o Tribunal de Alçada. exclusivamente ao Juiz Togado a competência para proferir a sentença caso não haja o acordo. serventuários etc. pois necessitarão de estrutura material e humana para isso (instalações. Da sentença cabe recurso para uma turma recursal composta por três juizes togados. é aliviar a carga de recursos daqueles Tribunais. esses juizados julgam causas de menor complexidade (causas cujo valor não exceda a quarenta vezes o salário mínimo etc. evitando que elas se misturem e caiam na vala comum das demais causas. Pernambuco) e em . a segunda é exerci da pelos Tribunais Regionais Federais. das sentenças proferidas pelos juizados especiais.09. Organização da Justiça Federal Há também na Justiça Federal duas instâncias. nem para o Tribunal de Justiça. simplicidade e celeridade. deixando-os com mais tempo para apreciar os recursos de maior complexidade. entretanto. Temos ainda nos Estatutos os Juizados Especiais Cíveis e Criminais. apenas para a turma recursal do próprio juizado. Previstos para desafogar a justiça comum. de 26. Vale dizer que.).1995. Outra peculiaridade dos Juizados Especiais é a desnecessidade de advogado nas causas cujo valor não exceda a vinte salários mínimos. Esses Tribunais. as causas de menor relevância. juizes. reunidos na sede do juizado. cuja criação foi determinada pela Lei n° 9.099. Os Juizados Especiais são uma feliz idéia no sentido de dar celeridade às causas de menor complexidade. O sucesso dessa idéia.2. depende da capacidade administrativa e econômica dos Estados para darem cumprimento à lei. em segundo grau. e nas grandes cidades do interior. como se vê. ficando as demais para o Tribunal de Justiça.dizer que julgam. criados pela Constituição de 1988 em substituição ao antigo Tribunal Federal de Recursos. 138] 62. com as mesmas características da Justiça Estadual. orientado pelos critérios da oralidade. A primeira instância federal existe de regra nas capitais dos Estados. em exercício no primeiro grau de jurisdição. atribuindo. Rio de Janeiro. [p. O objetivo.

A segunda instância é constituída pelos Tribunais Regionais do Trabalho . é constituída pelo Superior Tribunal Militar . 62. A segunda instância. e através . notadamente aquelas onde há maior concentração de trabalhadores. Em hipóteses especiais.STM. integrado por 15 ministros. abaixo do qual se encontram todos os Tribunais Superiores. os Tribunais de Justiça e de Alçada dos Estados e os Tribunais Regionais Federais e do Trabalho. Trata-se de uma justiça cujas decisões são prolatadas por um colegiado. da Aeronáutica e da Marinha.TSE.4. as causas envolvendo essa matéria são decididas pela Justiça Estadual. Nas cidades onde não há justiça trabalhista. a cúpula do regime. sobrepõe-se a todo o aparelho judicial. É o mais elevado Tribunal do Poder Judiciário no Brasil. o Tribunal Superior do Trabalho. previstas na Constituição.TRTs.3. com sede em Brasília.Brasília. 62. a sua primeira instância é dividida em zonas distribuídas por todo o Território Nacional. com o propósito de aliviar a sobrecarga do Supremo Tribunal Federal. e os seus membros são chamados de Ministros. a quem compete zelar pela supremacia das leis federais e promover a uniformização da sua interpretação. Estrutura da Justiça Especial A primeira instância da Justiça Militar só existe nas cidades onde há grupamento militar. Esse Tribunal tem sede em Brasília. criou o Superior Tribunal de Justiça. com sede na capital da República. a segunda instância são os Tribunais Regionais Eleitorais . embora sendo um órgão federal. um na capital de cada Estado. Há nessa justiça uma terceira instância. como o próprio nome diz.[p. integrado por 27 ministros. julgam os recursos oriundos da primeira instância da respectiva região. com sede em Brasília. poderá ser reexaminada pelo STJ. e a terceira instância é o Tribunal Superior Eleitoral. e é integrada pelas Auditorias do Exército. em que houver violação de lei federal. Qualquer decisão dos Tribunais Estaduais ou Fe. geralmente nas capitais.TREs. O Supremo Tribunal Federal. 139] derais. A Justiça Trabalhista tem a sua primeira instância distribuída pelas principais cidades do Brasil. o órgão máximo da Justiça. Função do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal A Constituição de 1988. para onde vão os processos em hipóteses especiais. Quanto à Justiça Eleitoral. tornando mais célere a justiça. através do recurso especial.

cada nova reforma implantada no país leva outros tantos milhares de pessoas ao Judiciário. é um mau pagador. O estado brasileiro. é forçoso reconhecer que não cabe ao Judiciário a culpa exclusiva. seria conveniente lembrar que outras reformas do Judiciário já foram feitas sem qualquer resultado prático. nunca passou do papel. como a criação de senadores biônicos e outras aberrações constitucionais. prevalecendo a sua decisão como palavra final e imutável. obrigando os titulares desses direitos a buscá-los na justiça. além de grande criador de conflitos. federal ou especial).5. Em que medida cabe ao Judiciário a culpa pela morosidade da justiça? Até que ponto a propalada reforma resolverá o problema do Judiciário? Essa é a questão nodal. recorre abusivamente. Em defesa. Por sua vez. teve objetivos políticos. foi puramente teórica. demagógica. o Executivo e o Legislativo pregam a urgente necessidade de uma reforma do Judiciário. milhares e milhares de ações são detonadas na Justiça. [p. Integrado por 11 ministros. mesmo depois de condenada. Em abril de 1977. em todos os seus níveis. o fiel da balança. o pretexto utilizado foi a reforma do Judiciário. com controle externo e outras inovações. Quanto ao segundo item. feita sob o mais rigoroso sigilo pelos donos da verdade da época. mutuários e contribuintes. os processos se prolongam por anos e anos a fio. é o Supremo o guardião da Constituição Federal. 140] No que diz respeito à lentidão da justiça. Isso evidencia que a mera modificação de alguns pontos da Constituição não basta para resolver a crise do Judiciário. Na realidade. quase se eternizam. burocrática. declarando a inconstitucionalidade das leis sempre que violarem princípios consagrados na Carta Magna. A cada novo e mirabolante plano econômico baixado pelo governo. . 62. pensionistas. E. há excesso de recursos processuais e falta de recursos financeiros. emperrada. no que exerce uma função eminentemente política. e em alguns pontos tomou a justiça pior. pode o Supremo reexaminar decisões de qualquer justiça (estadual. A Crise no Judiciário em Nosso País Há mais de trinta anos ouvimos as mesmas críticas ao Judiciário: a justiça é lenta. Tem ainda por função atuar como moderador dos demais poderes. quando o Congresso foi fechado pela última vez. estão desatualizadas.do recurso extraordinário. a Administração não os reconhece. a prestação jurisdicional se toma inócua e causa graves prejuízos aos jurisdicionados. ineficiente e cara. Embora tenha plena consciência dos direitos dos aposentados. Aquela reforma. os membros do Judiciário culpam o Executivo e o Legislativo: as leis processuais são mal elaboradas.

que nada mais são do que requisições de pagamento em dinheiro de débitos judiciais expedidas pelo Poder Judiciário ao Poder Executivo. Em agosto de 2000. A quem interessa a lentidão da justiça? [p. Só que os precatórios também não são pagos. Estados e Municípios em até dez anos. terá ainda que aguardar por mais dez anos o integral cumprimento dessa decisão. Com efeito. milhões de ações em andamento na justiça com idêntica finalidade. vítimas de acidentes etc. é necessário que em cada Comarca se criem tantas Varas ou Juízos quantos forem necessários para atender ao aumento do número de demandas decorrentes do desenvolvimento econômico. o Congresso Nacional aprovou a emenda constitucional nº 30 autorizando o parcelamento das dívidas judiciais da União. centenas de milhares de recursos repetitivos que abarrotam o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal. Como já salientado. Esse tempo de espera será fatalmente debitado à morosidade da justiça. não cumpre as decisões judiciais. Vale dizer. principalmente na primeira instância. em 13 de setembro de 2000. depois de esperar dois ou três anos pela sentença que lhe concede a justa devolução. Como os bens públicos não podem ser penhorados para pagar a condenação. O calote dos precatórios é uma regra em quase todos os estados.Prova disso são as filas intermináveis de aposentados e pensionistas do INSS pleiteando a revisão dos seus minguados benefícios nos Juizados Especiais Federais (o que poderia e deveria ser resolvido na esfera administrativa). O primeiro devia aos credores judiciais (pensionistas. Os precatórios expedidos até 10 de julho de cada ano deverão ser incluídos no orçamento do ano seguinte e pagos na ordem de apresentação. funcionais e estruturais. Causas da Crise do Judiciário Brasileiro Diagnóstico baseado na prática e na observação permite-nos adiantar que três são as principais causas da crise do Judiciário: operacionais. As causas operacionais estão relacionadas com a infra-estrutura necessária ao bom funcionamento da justiça . . para que a justiça de primeira instância possa funcionar adequadamente. Mesmo depois de vencido em milhares de ações. a execução do estado tem que ser feita por meio de precatórios. São Paulo e Rio de Janeiro não pagavam os precatórios desde 1996. Mas não para aí a contribuição do estado brasileiro à morosidade da justiça. e o segundo 520 milhões.recursos materiais. humanos e financeiros notoriamente deficientes.) cerca de 4. o contribuinte que entre na Justiça para reclamar a devolução de um tributo que lhe foi cobrado indevidamente. ele é também mau pagador. 141] 63.5 bilhões de reais. Pior que tudo. servidores.

Isso. a solução para a maioria dos problemas que emperraram a máquina judiciária em primeiro e segundo graus nos estados e na esfera federal. é preciso ter instalações adequadas (cartório. de alto índice de crescimento demográfico. no Brasil temos. Em cada Vara. escrivães. das relações dentro da sociedade.000 habitantes. um juiz para cerca de 30. É preciso investir em instalações de novos órgãos julgadores. o que significa que havia mais de mil processos parados. em nosso entender. a distância se tornará cada vez maior entre a justiça e os seus objetivos sociais. se contarmos os cargos de juiz que estão vagos. em pleno desenvolvimento econômico e ingressando na sociedade de consumo. [p. O processo ficará parado por meses e anos a fio. secretarias. constatado encontrar-se em poder de um só oficial de justiça mais de mil mandados pendentes de cumprimento. não é o que ocorre em nações como a nossa. E não se consegue preencher os cargos vagos porque. treinar e avaliar periodicamente os serventuários. mas uma verdadeira explosão judiciária deflagrada por essas três condições que dão hoje a fisionomia de nosso País e. serventuários. cada vez maior. o crescimento do movimento forense é vegetativo. tome-se por termo etc. na maioria dos Estados. salas de audiência. no sentido de que só acompanha a complexidade.000 habitantes. gabinetes etc. só naquela vara. cite-se. Recordo-me de ter. a menos que estejamos dispostos a aparelhar o Judiciário para enfrentar essa realidade. em virtude da omissão de um oficial de justiça ou de excesso de serviço. padronizar métodos e procedimentos. o número de aprovados no concurso fica aquém das vagas em razão da deficiência do ensino jurídico. com graves prejuízos para as partes. enfim. adotar métodos modernos e eficientes de gerenciamento e administração.) em número suficiente. prenda-se. . em cada um determinando uma série de providências ou diligências a serem cumpridas . todavia. Aí está. O que acontecerá se não houver infra-estrutura para que todos os despachos do juiz sejam cumpridos com eficiência e rapidez? Nada. certa feita. 142] Aqui não há propriamente um crescimento forense. melhor aproveitar os recursos humanos e materiais disponíveis. aguardando o cumprimento da determinação judicial. promotores. por sua vez.) e gente para realizar o serviço da justiça (juiz. mas sim gestão. informatizar toda a justiça. Diariamente um juiz despacha dezenas e até centenas de processos. modernizar equipamentos. de população estável e de economia já desenvolvida. controlar a qualidade e a produtividade dos magistrados. Enquanto na Alemanha tem-se um juiz para cerca de 4. defensores. oficie-se.político e social do lugar.intime-se. Em países como a Itália e a França. Pelo ângulo operacional temos como certo que a maior necessidade do Judiciário não é a propalada reforma. sob pena de o serviço ficar acumulado e os processos paralisados. oficiais de justiça etc. aumentar o número de juízes.

o Tribunal melhorou o seu desempenho. No que diz respeito à produtividade.492. pode ser feito pela internet de qualquer parte do país.19%). e tiram a relevância da sentença ali prolatada. Criou um Fundo Especial destinado a cobrir as despesas operacionais e de investimentos do Judiciário. em 2003 o número de 419. em 2000 o número de processos aumentou para 57.285 processos e julgados 83.348 ações nos juizados especiais civis. enquanto na justiça fluminense essa distribuição é em tempo real e não há processos represados. Não obstante o expressivo aumento de recursos a cada ano.66%). foram recebidos 83. em 2003. As causas funcionais dizem respeito ao deficiente sistema recursal brasileiro.424 processos e julgados 46. 100. No primeiro grau os resultados da justiça fluminense são também satisfatórios.91 %). isto é.25%. como mostram os números que seguem.varas criminais. no tempo médio de 203 dias. Na justiça comum .250 e foram julgados 65.914 e foram julgados 50. como já registrado.389 (95.782 e foram julgadas 265.A Justiça do Estado do Rio de Janeiro há alguns anos vem seguindo esse caminho e já obteve resultados surpreendentes. no primeiro e no segundo grau.958 (105. no tempo médio de 172 dias entre a autuação e a sentença. Estes resultados são ainda mais expressivos quando se tem notícia de que nos Tribunais paulistas existem cerca de 500 mil processos espe. No ano de 2003 o número de ações distribuídas (tombadas) subiu para 296.285 processos autuados no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro no ano de 2003 (recursos e processos originários).551 e julgados 78.498. foram julgados 83.76%).721. em 2001 o número de processos recebidos subiu para 67.em 2002 foram ajuizadas 346. novo aumento . os resultados são também surpreendentes. Temos hoje praticamente quatro instâncias. de sorte que o acompanhamento de todo e qualquer processo. construir dezenas de novos foros e recuperar outros tantos. Em 1999 foram recebidos 51. num tempo médio de 143 dias entre a autuação e o julgamento. informatizar toda a justiça.415 ações e julgadas 340.501 (87.[p. instalar centenas de novas varas e juizados especiais por todo o Estado. o que permitiu. Essa reforma .715 (97. Dos 83.700. e destas foram julgadas 223. de família etc. mediante administração séria e competente dos recursos assim obtidos. o que toma o tempo dos processos nos tribunais muito superior ao tempo de andamento em primeiro grau. cíveis. cuja reforma é realmente imprescindível para viabilizar o funcionamento do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça. em curso na mais distante comarca ou no tribunal.71 %).processos recebidos 74. No ano de 2002 entraram (tombados) 252.584. mas foram julgadas apenas 313.25%). .163 (89.498 (100. 143] rando há quatro ou mais anos distribuição. em 2002.

todavia. de outubro a dezembro. enorme resistência à adoção da súmula vinculante ao argumento de que ela atentaria contra a liberdade de julgar do juiz. que: em 1988. em 1992. desnecessárias. portanto. cumpre aplicar as disposições da Lei Complementar nº 73/93. por sua vez. Em conferência proferida na abertura do Fórum Nacional de Debates do Poder Judiciário.32% dos acórdãos proferidos pelo STF foram repetitivos. pelo excesso de litigiosidade recursal. sentenças contraditórias entre juízes. serviria de filtro para evitar que questões irrelevantes cheguem aos tribunais superiores.08. em junho de 1997. “Devo observar.90%.2000). sem prejuízo da adoção de outras soluções processuais. No ano de 1995. 88. opondo resistência estatal injustificada e arbitrária a pretensões legítimas deduzidas por cidadãos de boa-fé.54%. A pesquisa revela. até o mês de março. useiro e vezeiro em postergar o cumprimento de decisões judiciais. se a causa real do congestionamento do aparelho judiciário reside . deve incluir a súmula vinculante para as decisões dos Tribunais Superiores e a argüição de relevância. muitas vezes agindo como improbus litigator. 144] A argüição de relevância. em grande parte. em 1993.90%. na opinião do Ministro Carlos Mário Velloso. aos quais ficaria reservado o julgamento de matérias de alta indagação jurídica e de grande interesse social. o percentual de acórdãos repetitivos foi de 61. responsáveis. repetição interminável de ações em tomo de matérias já julgadas e recursos protelatórios. que. 71.83%. [p. que.40%. 82. isso não é racional e não ocorreria se as súmulas tivessem efeito vinculante. A súmula vinculante obrigaria a justiça de primeiro grau a aplicar a jurisprudência do tribunal superior sobre determinadas questões. propõe a edição de súmulas administrativas vinculantes. hoje. 50. ainda na visão do ex-presidente do Supremo.88%.49.15%. o Ministro Celso de Mello. Há.como efetivamente ocorre . para impedir que enxurrada de ações banais continuem abarrotando os Tribunais. inteiramente aplicáveis à União Federal e às suas autarquias (inclusive ao INSS). ademais. Isso evitaria liminares.na atuação processual compulsiva do Poder Público. o STF praticamente limitou-se a repetir decisões já proferidas. ainda.38. 68. Pesquisa realizada no final de 1995 revela dados inquietantes: no período de outubro de 1988 a março de 1995. Para por um paradeiro às procrastinações do Poder Público. em 1995. virtualmente inviabiliza o Supremo Tribunal Federal e . em 1989. como autorizado pela Lei Complementar n° 73/93. em 1991. pelo menos até o mês em que se limitou a pesquisa. em 1990.processual. ex-presidente do Supremo Tribunal Federal. Ora. em 1994. extemada quando Presidente do Supremo Tribunal Federal (O Globo 29. sua Excelência assim colocou a questão.41%.36.

Ora. em matéria de caráter administrativo. porque o que se pretende com tal órgão. defende uma reforma ampla. a aplicação desse instrumento legal certamente refletir-se-á. A criação de um órgão controlador do Poder Judiciário levaria. estaria a requerer a existência de órgão que lhe fosse superior.nepotismo. Sim. Presidente da Câmara dos Deputados. eficiente e com funcionamento permanente. de maneira positiva. O deputado Luiz Eduardo Greenhalgh. 13. visitou na prisão José Rainha. como se apregoa com tanta veemência. na ocasião criticou duramente o juiz e disse que suas sentenças reforçam a necessidade de controle externo do Judiciário (O Globo.” Entre as causas estruturais podemos apontar a falta de um Conselho Nacional de Administração da Justiça.o Superior Tribunal de Justiça. deplora iniciativas que pretendem misturar questões de administração . mas investigar sentença. tributário ou previdenciário.com sentenças judiciais. O disfarce caiu quando o deputado João Paulo Cunha. que também visitou Rainha na prisão. além de condenável. que pretensões legitimamente manifestadas pela parte privada sejam atendidas. controlaria o bom funcionamento da atividade judicial. ao próprio Estado Democrático de Direito. e assim por diante. desde logo. . aproveitaria as experiências bem sucedidas de outros lugares. assessorado por técnicos de várias áreas. ex-presidente do STF. seria um centro de debates destinado a pensar e repensar continuamente o Judiciário. não. Esse órgão. órgão nacional de planejamento e controle do Judiciário. talvez a curto prazo.03. obras irregulares e gastos . “Isso é absolutamente inadmissível. dotado de estrutura leve.09. por sentença do Juiz Teodoro Sampaio. é controlar as decisões judiciais. enfim. ao menos enquanto se pretender que vivamos num Estado de Direito Democrático” (O Globo. 145] Não estamos falando de um órgão de Controle Externo do Judiciário.1999). nas questões objeto da jurisprudência iterativa dos tribunais uma vez editada a súmula administrativa vinculante . até mesmo na própria instância administrativa. permitindo. líder do Movimento dos Sem Terra (MST). disfarçadamente. pois.a União Federal e as suas autarquias não mais insistirão em teses jurídicas rejeitadas pelo STF ou pelo STJ. o que constitui um atentado ao princípio da autonomia dos poderes e. condenado por formação de quadrilha e invasão de propriedade. formularia alternativas administrativas.2003). Esse tipo de controle. desse modo. admite que o Judiciário tem deficiências. na solução dos problemas gerados pelo congestionamento do aparelho judiciário. à criação de um outro órgão para controlar o controlador. porque na medida em que o órgão controlador se desviasse de suas finalidades. traçaria as políticas administrativa e financeira do Judiciário. viajando num jatinho da Força Aérea Brasileira (FAB). por via de conseqüência. [p. 28. ad infinitum. em nada contribuirá para o aprimoramento do Judiciário. O Ministro Sepúlveda Pertence.

acertos e desacertos. cit. um dos maiores nomes do Direito Penal na América Latina. sobre os conflitos que comprometem direitos e sobre suas soluções e meios de preservá-las. as deficiências infraestruturais do Judiciário fatalmente continuarão acarretando o retardamento dos julgamentos. a ele se sobreponha? De que natureza seria esse órgão? Ou será mais um poder da República? São pontos a refletir e que evidenciam. portanto. 146] A relação entre a estrutura institucional e as funções (manifestas e latentes) é indissolúvel: a estrutura indicará a sua capacidade de desempenho das funções manifestas. a estrutura otimizada de uma instituição será sempre a que a capacite para melhor desempenho do que a ela será cometido. se fundam no tripé integrados por sua consagração legislativa. [p. feita pelas próprias mãos. faz algumas colocações que merecem ser transcritas no encerramento deste capítulo: “Qualquer instituição deve cumprir determinadas funções e sua estrutura otimizada dependerá da clara atribuição prévia dessas funções. pela previsão dos meios para reclamá-los e pela estruturação do setor estatal que tome efetivas as reclamações. [p. as estruturas judiciárias latino-americanas são inadequadas para assumirem as demandas de uma democracia moderna. Em síntese. quer dizer. a volta à justiça privada. Os direitos. senão a desnecessidade do órgão controlador. muitas vezes. aumenta o perigo para todo o sistema democrático” (ob. sem ter prerrogativas do Judiciário. e a busca de outros meios para se conseguir justiça. crise. freqüentemente de alto nível. Quando o que lhe é cometido não seja bem definido. ainda menos definidos serão seus modelos estruturais. provocando. o desprestígio e a perda de confiança no Judiciário por parte da coletividade. 147] . Enquanto não forem feitas as reformas necessárias. O insigne jurista Eugênio Raul Zaffaroni. dos Tribunais. 29 e 34). Ed.. pp. 21. a realização tardia dos objetivos da justiça ou até mesmo a sua ineficiência. Temos elaborado complexas teorias. na medida em que sua debilidade e dependência não lhes permitem desempenhar eficazmente a função delimitadora que requer a consolidação do espaço democrático. criar-se um órgão que. de qualquer natureza. Rev. mas existe uma notória disparidade entre este nível teórico e aquele que trata das instituições destinadas a efetivar essas soluções. em notável trabalho sobre o Poder Judiciário. e o grau de incapacidade para elas mesmas estará assinalando o cumprimento de funções latentes alijadas daquelas. a sua descaracterização institucional. 22. Na medida em que se amplia a distância entre a função latente ou real e as demandas sociais.Como.

149] dei Magistrati. O sistema utilizado no Brasil. o problema do pessoal condiciona os demais. Acreditamos já ter ficado demonstrada a importância da função desempenhada pelo juiz: decidir as causas que são levadas à sua apreciação.Instrumentos Humanos de Realização da Ordem Jurídica -. mais que em outras instituições. é quase uma função divina. Perfil da magistratura brasileira. deve o juiz ser detentor de um caráter impoluto e de uma personalidade ajustável à função. pois na magistratura. 65. fazendo valer o direito aplicável ao caso. é preciso alguém altamente qualificado. constante dos anais do Primo Congresso Internazionale [p. Nesta parte trataremos dos sistemas de escolha dos magistrados. Expressa ainda a relevância do tema o pensamento do Magistrado François Gorphe. Aprimoramento do nosso sistema. p. principalmente quando está em jogo a vida ou a liberdade de um ser humano. Evidentemente. tomo I. “Mais vale um juiz bom e prudente do que uma boa lei”. **** Dentro do tema examinado no capítulo anterior . Julgar. Milão.” .Capítulo XII SISTEMAS DE ESCOLHA DOS MAGISTRADOS Sistema eletivo. dar a palavra final nos conflitos de interesse. Alcino Salazar: “A justiça vale o que valem os juízes. como tem sido dito. Sistema da nomeação. tanto no aspecto técnico como no moral. Além de conhecedor do direito. e na próxima examinaremos as razões sociais das garantias constitucionais dos magistrados. citado pelo Prof. há ainda duas questões importantes a serem abordadas. diz o Código Geral da Suécia de 1734. para o exercício de uma função pública assim tão relevante. uma lei boa de nada serve. Sistema do concurso público. 1959. “Com um juiz mau e injusto. porque ele a verga e a toma injusta a seu modo”. até com um pouco de poesia.

Se até mesmo para o exercício das funções mais simples é indispensável ter certas qualificações profissionais e morais.Em verdade. Costuma-se apresentar como sua principal vantagem o fato de ser democrático. sob pena de se instituir o absurdo. E não são mais todos os 50 estados da Federação a adotarem o sistema de eleições diretas. SISTEMA ELETIVO Dentre os vários sistemas existentes e adotados por diferentes países para a seleção dos seus magistrados. 150] Nos Estados Unidos. já não o fazem mais e têm-se aproximado dos estados da União Européia. Lições de Direito Constitucional. o que seria a função de julgar exerci da por alguém que não conheça o direito ou que não tenha os inerentes requisitos morais? Daí a importância sociológica da questão ora em exame. em busca de orientação sobre critérios de seleção e formação de magistrados. o da nomeação e o do concurso público. sobretudo da França e Portugal. Pelo sistema eletivo os magistrados são escolhidos através de votação direta. não tanto pelo seu conteúdo específico. que o adotavam. a norma jurídica tomar-se-á boa ou má. 64. b) nomeação pelo . 1970. a Justiça Federal não adota o sistema eleitoral para escolha de seus juízes. [p. Os países da antiga cortina de ferro. recaindo a escolha sobre aqueles que mereceram a preferência popular. tal como os seus govemantes e legisladores. já que de uma boa seleção dependerão grandemente a eficiência. Rápido porque em um mesmo dia podem ser eleitos todos os juízes de um estado ou mesmo do país. Pouco oneroso porque as despesas com uma campanha eleitoral correm normalmente por conta do candidato ou do seu partido. tal como os membros do Legislativo. Surge então a questão: como escolher o magistrado? Qual o critério seletivo mais eficiente? Qualquer empresa de certo porte conhece a importância de se ter a pessoa certa no lugar certo e por isso gasta tempo e dinheiro na seleção e treinamento do seu pessoal. rápido e pouco oneroso para os cofres públicos. elogiável ou iníqua. porém antes e acima de tudo pela própria interpretação que o magistrado lhe imprimir (Rosah Russomano. Na verdade. O sistema de eleição para a Magistratura está em pleno desuso no mundo inteiro. no exercício do soberano direito do voto. que escolhe os seus juízes. 302). produtiva ou prejudicial. a independência e a dignidade da magistratura. lá existem quatro tipos de escolhas de juízes estaduais: a) nomeação pelo chefe do Executivo com prévia aprovação no Legislativo. p. Democrático porque é o próprio povo. há três que procuraremos destacar: o da eleição.

que são os que se conferem por eleições. nem sempre se elegem os melhores. ou teriam recursos para custeá-la. Aponta-se como vantagem do sistema de nomeação o fato de ser rápido e . descomprometimento de toda a sorte. tomando-se impopular. sempre que tiver que decidir questões relevantes e de repercussão social. a lealdade ao partido é uma virtude. 1980. e com isto desagrada muitas vezes os ricos e poderosos. Como bem argumenta Emílio Rabosa: “Nos postos de caráter político. referindo-se aos juízes eleitos. Não há promoções ou remoções. Em termos de Brasil. conforme já assinalado quando tratamos da escolha dos membros do Legislativo. Deve dar ganho de causa a quem tiver direito. 203). perdendo a imparcialidade e a segurança necessárias ao julgador. Deve-se ainda levar em conta que a função de julgar é muito diferente da função política. ou encontrariam apoio particular à sua candidatura. 151] econômico dos parlamentares para financiar suas onerosas campanhas eleitorais. podendo ser reconduzidos ou reeleitos para o mesmo posto. Duverger.” O comprometimento [p. É preciso lembrar que os juízes estaduais americanos não têm carreira: apontados ou eleitos para uma county (comarca). 65. Exige imparcialidade. acreditamos que a eleição dos magistrados apresentaria graves inconvenientes.chefe do Executivo entre nomes constantes de lista formada por comissão independente de alto nível. do chefe de polícia e dos administradores locais” (Institutiones Politiques. estará sujeito a todo tipo de pressões do seu eleitorado ou em nome dele. Mas se o juiz necessitar de votos para se eleger ou reeleger-se. p. Com efeito. ali ficam até o final de seu mandato (que é variável). c) eleição indireta pelo Legislativo. mas no cargo de juiz. é um vício degradante. Paris. sem falar nos compromissos que terá que assumir com pessoas e grupos para conseguir eleger-se. d) eleição popular. Max Weber também recorda o baixíssimo nível técnico desses juízes e o maior prestígio dos juízes federais. é constantemente divulgado pela imprensa. em razão das graves distorções que ocorrem na execução de uma eleição direta. os melhores nem sempre estariam dispostos a enfrentar os percalços de uma campanha eleitoral. diz o seguinte: “No século XIX e no começo do XX os partidos americanos tomaram freqüentemente a forma de máquinas manipuladas por políticos desonestos que tratavam de assegurar a impunidade mediante a simultânea eleição do juiz. O juiz não pode procurar agradar a ninguém com suas decisões. Isso no Judiciário seria o caos. independência. Além disso. o que a toma totalmente desaconselhável. SISTEMA DA NOMEAÇÃO Em alguns países os magistrados são escolhidos mediante livre nomeação do chefe do Executivo.

pouco oneroso, visto que em um só listão podem ser nomeados tantos juízes quantos forem necessários. Há, todavia, tantos inconvenientes nessa forma de seleção que, se adotada em nosso país, geraria o caos. De todos é sabido que, quando vigora o critério da livre escolha pelo Executivo, só conseguem ser nomeados aqueles que possuem pistolão, amizades, conhecimentos etc. Disso resulta ser esse sistema antidemocrático, posto que não dá idênticas oportunidades a todos, beneficiando sempre os mesmos afilhados e apadrinhados. Por essas mesmas razões nunca se consegue escolher os melhores, já que os epistolados são sempre aqueles que menos qualidades possuem, procurando vencer na vida sem fazer força. E ainda que assim não fosse, quer dizer, mesmo que o chefe do Executivo estivesse empenhado sinceramente em escolher os melhores, dificilmente conseguiria porque, não sabendo quem são os melhores, teria que se valer da indicação dos seus assessores. E é evidente que, por mais fraco, incapaz e desqualificado que seja o pretendente, quem o indica sempre o apresenta como o melhor elemento do mundo - o mais honesto, inteligente, capaz, induzindo a erro o nomeante. A tudo isso se sobrepõe o fato de tirar o sistema da nomeação, a independência do juiz com relação àquele que o nomeou ou influenciou para a nomeação. Deixa o magistrado numa situação de subserviência ou pelo menos no dever de reconhecimento, prejudicial à função de julgar. A sua nomeação custar-lhe-á bastante caro e ser-lhe-á cobrada com juros e correção monetária, devidamente lembrada sempre que necessário.

66. SISTEMA DO CONCURSO PÚBLICO

O ingresso na magistratura por este sistema se faz através de concurso público de provas e títulos, preenchendo-se as vagas existentes com aqueles que melhor forem classificados. [p. 152] Tem como desvantagem o fato de ser demorado e bastante oneroso: exige uma comissão de alto nível para realizar o concurso e muito tempo no processo de inscrição, exame da documentação de cada candidato, aplicação e correção das provas escritas e realização das provas orais. Entretanto, oferece vantagens que nenhum outro sistema apresenta, dentre os quais podemos destacar:

1) É um sistema democrático, pois oferece iguais oportunidades a todos. Desde que o candidato preencha os requisitos estabelecidos no regulamento do

concurso, poderá inscrever-se e concorrer a uma vaga, seja ou não conhecido, de família ilustre ou humilde. 2) Enseja a escolha dos melhores, tanto do ponto de vista técnico e intelectual, como do moral. Ao fazer a inscrição, deverá o candidato juntar documentos que provem o preenchimento dos requisitos estabelecidos no regulamento do concurso.

Além do mais, são solicitadas informações sobre o concorrente a pessoas conhecidas no mundo jurídico e aos próprios órgãos oficiais, só sendo deferida a inscrição depois desse exame preliminar. As provas escritas, elaboradas por examinadores de alto nível, especialistas em cada matéria, são corrigi das sem identificação, de modo a evitar qualquer protecionismo. Somente concorrem às provas orais aqueles que não forem eliminados nas escritas; os aprovados nas provas escritas e orais terão computados então os pontos obtidos nos títulos, sendo nomeados os melhores classificados no cômputo geral dos pontos obtidos nas provas e títulos. Como se vê, com esse longo e rigoroso processo seletivo, é mais provável que se consiga escolher os melhores. Em terceiro lugar, destacamos que o sistema do concurso público apresenta ainda a vantagem de assegurar ao magistrado a necessária independência para julgar. Não tendo a sua nomeação dependido do prestígio ou influência de quem quer que seja, mas sim da sua própria capacidade, inteligência e esforço, não deve favores a ninguém, podendo decidir os conflitos de interesse que lhe vierem às mãos com total imparcialidade. Ninguém tem nada a lhe cobrar, mas muito a admirar, respeitar e confiar, em face da cultura que revelou possuir ao ser aprovado em rigoroso concurso seletivo. O concurso público é o sistema utilizado nos principais países da Europa, ora como meio para ingressar na escola da magistratura, ora para ingresso direto na carreira. [p. 153] Em Portugal, a seleção dos magistrados é feita por concurso público no excelente Centro de Estudos Judiciários, onde os aprovados são preparados por 23 meses, antes de assumirem a função judicante. Na França, os candidatos a juiz ingressam por concurso na École Nationale de Ia Magistrature, e ali recebem formação inicial de dois anos e sete meses. Na Itália, os pretendentes à Magistratura fazem provas escritas e orais disputadíssimas e, depois, seguem um curso de tirocínio de no mínimo seis meses, em Frascatti.

Na Espanha, com a sua pioneira Escuela Judicial, os aspirantes a juiz têm de se submeter a um concurso público de dissertação oral, e, em seguida, fazem um curso de dois anos em Barcelona. N a Alemanha, também não há eleição para juiz, nem concurso público. As nomeações levam em conta os graus obtidos nos exames finais das faculdades de Direito. Na Austrália, os juízes são escolhidos e nomeados pelo governador geral (representante da rainha), assessorado na escolha pelo Conselho Federal, entre nomes de pessoas altamente qualificadas. Deixando a Europa e indo para o Oriente, veremos que no Japão os futuros magistrados têm de vencer um vestibular rigorosíssimo no Instituto Jurídico de Treinamento, onde estudam por dois anos, após os quais, se aprovados, serão nomeados. Na verdade, o que se vê pelo mundo afora é uma grande preocupação com a seleção dos juízes e, tendo em vista a peculiaridade da função judicante, não se recomenda o processo eleitoral, mas sim o concurso público, que é tão democrático quanto as eleições.

67. O SISTEMA UTILIZADO NO BRASIL

O ingresso na magistratura de primeira instância, por força de dispositivo constitucional, no Brasil faz-se através de concurso público de provas e títulos, o que revela termos adotado o melhor sistema seletivo. A escolha dos magistrados integrantes dos tribunais superiores, entretanto, isto é, os Ministros do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal Militar, do Tribunal Superior do Trabalho e do Superior Tribunal de Justiça, são nomeados pelo Presidente da República, depois de aprovada a escolha pelo Senado Federal. Temos assim um sistema misto, integrado por concurso público de provas e títulos para a seleção dos magistrados de primeira instância, e [p. 154] por nomeação pelo Chefe do Executivo para os ministros dos tribunais superiores. Nos Tribunais de Justiça dos Estados, bem como nos de Alçada, um quinto dos membros são também escolhidos por nomeação do Chefe do Executivo Estadual (Governador), mediante lista tríplice organizada pelo respectivo Tribunal de Justiça; metade das vagas decorrentes do quinto são para candidatos oriundos da OAB, isto é, advogados militantes, e a outra metade para membros do Ministério Público, cujos órgãos superiores encaminham ao Tribunal de Justiça uma lista sêxtupla para a elaboração da lista tríplice. O objetivo do quinto é enriquecer os Tribunais de Justiça e de Alçada com elementos de destacada cultura jurídica e elevada envergadura moral, militantes dos quadros

do Ministério Público ou da OAB, trazendo para os referidos tribunais uma mentalidade mais eclética, o que lamentavelmente nem sempre ocorre em face das influências políticas que se verificam no momento do preenchimento das vagas que ocorrem.

68. APRIMORAMENTO DO NOSSO SISTEMA

Embora o sistema do concurso público seja o mais recomendável, conforme já exposto, comporta alguns aprimoramentos para permitir a formação de um quadro de magistrados mais eficiente. O juiz, na pureza desse sistema, tão logo aprovado no concurso e nomeado, assume imediatamente as suas funções e começa a despachar e decidir em centenas de processos, sem nunca dantes ter feito isso, encontrando uma série de dificuldades, perplexidades, dúvidas etc. Todos que já passaram por essa experiência sabem do que falamos. A experiência é ainda mais dolorosa quando o juiz, começando a sua carreira numa comarca lá do interior, fica praticamente sozinho, isolado, sem ter a quem recorrer para uma troca de idéias. Isso evidencia que, para o ingresso na magistratura, não é bastante o concurso de provas e títulos, que apenas apanha a formação cultural do candidato; mas não pode penetrar mais e aferir-lhe o pendor, a vocação, o interesse, a capacidade específica para judicar. A função do juiz, por outro lado, envolve uma série de outras atividades, principalmente no interior, onde é a principal autoridade da comarca, para as quais não foi preparado. O juiz mantém relacionamento com autoridades políticas (prefeito, vereadores), policiais (delegado) e com povo em geral, necessitando em todos esses contatos ser necessariamente hábil para, [p. 155] sem enfraquecer sua autoridade e sem se deixar envolver, portar-se com gentileza, educação, polidez. Nada disso ele aprende em concurso ou nos livros de direito, razão pela qual entendemos que, após o concurso e a nomeação, deveria existir um estágio profissional de pelo menos quatro meses. O novo juiz, além de assistir a palestras sobre matérias ou questões relacionadas com os mais variados aspectos do exercício de sua profissão, começaria a exercer a judicatura como auxiliar, ao lado de outro juiz mais experiente na comarca da capital. Nos meses de estágio o juiz passaria pelas principais varas (cível, criminal, família, juizados especiais), de modo a adquirir uma certa experiência em todas as áreas do direito, para depois enfrentar a atividade sozinho em sua comarca. Melhor do que isso, em nosso entender, seria uma escola judicial instituciona1izada de âmbito nacional que estabeleceria diretrizes, programas, políticas de

ensino e orientações a serem executadas por todas as escolas de magistratura estaduais e federais, com o que se conseguiria uma certa uniformidade na formação inicial dos magistrados do país. Essa escola nacional deveria também programar cursos de aperfeiçoamento para os magistrados mais antigos, como condição para a promoção por merecimento, cursos esses que poderiam ser ministrados nas sedes das escolas locais, de modo a facilitar a freqüência e reduzir os seus custos. A crescente expansão da atividade humana, a par de sua constante sofisticação, muito exige do juiz, a cuja decisão nenhuma parcela do complexo social é subtraída. É imperioso, portanto, que o juiz se especialize, se adestre e se prepare. O aperfeiçoamento ressalta a posição da ciência jurídica moderna pela ampliação dos poderes jurisdicionais, pois a insaciável diversificação do fazer humano e seus requintes tomam inaprisionável por regras fixas e rígidas a atuação jurisdiciona1 necessária à devida composição do litígio. Se o Judiciário se toma essencial à convivência social, se o seu papel será cada vez mais importante neste século XXI, somente com juízes à altura dessa missão teremos o Judiciário que a sociedade espera e exige. Destarte, sobretudo quando os novos juízes são cada vez mais jovens no mundo do civil law, quando os sistemas jurídicos passam por profundas mudanças legis1ativas e uma nova mentalidade se reclama, toma-se imprescindível investir na seleção e no aprimoramento dos magistrados, criando-se boas escolas nos moldes das admiráveis e válidas experiências que o mundo civilizado vem presenciando. O Congresso que reuniu magistrados em Roma, em 1958, concluiu pela recomendação de que se realizem promoções para aperfeiçoar o tirocí- [p. 156] nio judiciário, incentivando a pesquisa e o estudo, selecionando aptidões, estimulando a especialização técnica constantemente. Necessário se faz assinalar que no Brasil, após a Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar nº 135, de 14.03.1979), timidamente começamos a dar os primeiros passos nesse sentido. Algumas das disposições (arts. 78, § 1°; 80, § 1°, 11; e 87, § 1°) estabelecem que a lei poderá exigir dos candidatos, para a inscrição no concurso de ingresso à carreira, título de habilitação em curso oficial de preparação para a magistratura, e condicionar a promoção por merecimento à freqüência, com aprovação, em curso ministrado por escola oficial de aperfeiçoamento de magistrados. Timidamente, como se vê, pois a disposição legal não passou de uma simples sugestão para ser aplicada se, quando e onde for possível, já que nenhum recurso material ou dotação orçamentária foi criado para tal fim. A Constituição de 88 contém disposição idêntica no seu art. 93, n, c.

Graças ao esforço pertinaz da Associação Brasileira dos Magistrados, criou-se a Escola Superior da Magistratura, que já tem prestado relevantes serviços à magistratura brasileira com a realização de vários cursos de aprimoramento jurídico, assistidos por juízes de quase todos os estados. Esperamos que a feliz iniciativa continue a receber a simpatia e o apoio de todas as autoridades e instituições relacionadas com o Judiciário, até transformar-se na Escola Nacional da Magistratura Brasileira, com cursos de preparação e de aperfeiçoamento de magistrados, funcionando de forma estável e permanente. Tudo por uma magistratura melhor e mais independente. Registre-se, por derradeiro, que muito se avançou neste ponto no âmbito dos Estados. A maioria já criou a sua Escola da Magistratura, em alguns Estados com organização modelar e folha de serviços relevantes. A Escola da Magistratura do Rio de Janeiro (EMERJ) mantém um curso de preparação para o concurso de ingresso na magistratura de alta qualidade teórica e prática, ministrado em cinco semestres (dois anos e meio), durante os quais o aluno pode também estagiar nos diversos órgão julgadores (vara cível, criminal, família, juizados especiais, câmaras do Tribunal de Justiça), fazendo minutas de despachos, decisões, sentenças e participando de audiências, sempre orientado por um magistrado. Aos novos juízes, tão logo nomeados, a EMERJ ministra um curso de iniciação de quatro meses, com palestras e debates pela manhã, ministrados por magistrados e professores experientes, sobre os mais variados aspectos teóricos e práticos da função judicante; à tarde exercem a judicatura como juízes auxiliares em varas cíveis, criminais, de família e juizados especiais, um mês em cada lugar, sempre orientados pelos juízes titulares das respectivas varas. Desse [p. 157] modo os novos juízes conseguem assimilar boa experiência antes de irem exercer a judicatura nas comarcas do interior. Prossegue a atuação da EMERJ no estágio de vitaliciamento, durante os vinte meses seguintes. Além de acompanhados e orientados por um Conselho de Vitaliciamento, os juízes vitaliciandos assistem na EMERJ pelo menos um seminário por mês, de oito horas, sobre temas variados, jurídicos ou não, escolhidos por uma comissão de magistrados. Por último, a EMERJ ministra cursos de aperfeiçoamento aos magistrados em atendimento a uma resolução do Órgão Especial do Tribunal de Justiça que os instituiu como requisito à promoção ou remoção por merecimento. Dessa forma a EMERJ vem efetivamente participando da formação e aprimoramento dos magistrados fluminenses, desde a preparação para o concurso até chegarem a desembargador.

68.1. Perfil da Magistratura Brasileira

Pesquisa realizada pela Associação do Magistrados Brasileiros (AMB/IUPERJ), intitulada “O Magistrado e o Poder Judiciário - auto-análise para melhor servir” - revela que o sistema de concurso público democratiza a magistratura, permitindo que todos tenham as mesmas oportunidades e a escolha dos melhores. Eis os resultados: 56,4% dos juízes brasileiros (mais da metade) são oriundos de famílias simples, cujos pais só tinham o primeiro grau completo; 63,4% não têm nem mesmo promotores ou defensores na família; 52,2% são filhos de servidores públicos e 12,8% de funcionários de empresas, sendo que 25,8% destes correspondem a funções de baixa remuneração. A participação da mulher vem crescendo. Em 1985 apenas 16,8% dos aprovados nos concursos eram mulheres, dez anos depois o percentual subiu para 28,7%. Atualmente, o número de mulheres já é igual e até superior ao dos homens, o que evidencia que o concurso afasta qualquer tendência discriminatória, oferecendo à mulher reais condições de igualdade com o homem. O Centro de Estudo e Pesquisa da EMERJ levantou o perfil da Magistrada Fluminense, por meio de pesquisa intitulada “Quem Somos”, recentemente concluída. Os resultados discrepam em parte daqueles que foram obtidos na pesquisa AMB/IUPERJ. As questões referentes à origem social demonstram que os magistrados fluminenses, em sua maioria (53%), são filhos de pais com formação de nível superior. Quantos às profissões pater- [p. 158] nas, preponderam os da área jurídica, tais como advogados, membros do Ministério Público, Defensoria, Procuradoria e Magistratura (18,2%). Verificou-se também significativa presença de outros familiares dos magistrados nas áreas jurídicas, principalmente advogados (49,9%). Conclui-se que os magistrados fluminenses são predominantemente originários de famílias de padrão cultural e econômico elevado, em razão do Estado do Rio de Janeiro ser economicamente desenvolvido e, conseqüentemente, com maiores possibilidades de educação e trabalho. Entretanto, não se pode desprezar o número de magistrados oriundos de famílias de pouca escolaridade (23,6%) e atividades profissionais exercidas em setores considerados de baixa renda (17,4%). A participação da mulher na magistratura fluminense é mais expressiva que no âmbito nacional; entre os juízes 46,1%, entre os desembargadores 14,3%, o que evidencia uma crescente feminilização, fato relevante do ponto de vista sócio-cultural e da análise da mudança social.

Uma das mais constantes críticas à magistratura é a juvenilização dos seus quadros. Alega-se que os juízes estão ingressando cada vez mais jovens na magistratura, sem a maturidade e experiência indispensáveis para o exercício do cargo. Há até projeto no sentido de exigir um tempo mínimo de cinco ou mais anos de formado em Direito para se permitir a participação em concurso para juiz. Não se nega que o juiz tem que ter maturidade e experiência para exercer a magistratura; o que se questiona, entretanto, é que essas qualidades sejam necessariamente atributos da idade ou do tempo de formado. Há velhos imaturos e formados há muitos anos sem experiência alguma. A questão da maturidade e da experiência pode ser superada com vantagem pelas Escolas da Magistratura por meio dos cursos de preparação e estágio de vitaliciamento, cursos de aperfeiçoamento e outras providências. Por outro lado, as pesquisas revelam que a tal juvenilização não é assim tão grande. Apenas 11,6% dos magistrados brasileiros têm até 30 anos de idade; 35,5% estão na faixa de 31 a 40 anos; 31,5% entre 41 e 50 anos; 17,1% entre 51 e 60 anos; 4,7% entre 61 e 70 anos (pesquisa AMB/ IUPERJ). No Estado do Rio de Janeiro os números não discrepam neste ponto. Até 30 anos, 13,4%; de 31 a 40 anos, 32,8%; de 41 a 50 anos, 18,8%; de 51 a 60 anos, 20,2%; de 61 a 70anos, 13,5%. Nos últimos 10 anos a média de idade dos juízes fluminenses que ingressaram na carreira foi de 31,6 anos. O ingresso de jovens na magistratura tem como vantagem permitir ao juiz dedicar quarenta ou mais anos de efetivo trabalho à Justiça. A pesquisa realizada pela EMERJ revelou que a magistratura é a classe de servidores [p. 159] públicos que trabalha mais tempo e se aposenta mais tarde. A idade média de aposentadoria dos juízes é de 60 anos (entre os desembargadores 69 anos). O tempo médio de serviço dos juízes na época da aposentadoria é 41 anos (entre os desembargadores 48 anos). Mais de 15% dos juízes têm tempo para se aposentar, mas continuam trabalhando normalmente; entre os desembargadores 89% têm tempo para se aposentar, sendo que dos desembargadores que integram o Órgão Especial (os vinte e cinco mais antigos) 100% já poderiam estar aposentados. Os dados acima sublinham com veemência a integral e longa dedicação da magistratura ao serviço ativo, e que não tem como projeto profissional a aposentadoria. Levando-se ainda em conta o número de juízes que têm curso de pós-graduação (52,7%), sendo 21,0% de mestrado, 5,7% de doutorado e 18,4% de especialização, conclui-se que a magistrada fluminense é também detentora de elevado padrão jurídico. Em pesquisa divulgada pelo O Globo em 19.08.2000, o juiz brasileiro foi apresentado como tendo perfil conservador. Em outra pesquisa (O Globo de 17.08.2003),

1%. consciente ou inconscientemente. a socialidade e a efetividade. O nosso Direito.6%. é prevalecer o equilíbrio. a1ertava Carlos Maximi1iano. Não é apenas uma decorrência do conhecimento jurídico do magistrado. da hereditariedade e da educação. coordenada pelo Instituto de Estudos Econômicos. 83. O indivíduo. é condicionado pelas relações sociais e exprime uma comunidade de propósitos”. [p. uma vez que 78% dos magistrados preferem basear suas decisões em questões ligadas à justiça social do que no respeito aos contratos. Rio de Janeiro. Quem tem razão? Ninguém. não mais admite o uso abusivo do direito de forma contrária aos seus fins sociais e econômicos. influenciam. entretanto. Cláusulas contratuais abusivas não podem prevalecer. a justiça social deve prevalecer numa sentença. entre os magistrados de São Paulo. os valores consagrados pela nova ordem jurídica brasileira: a eticidade.7% consideram que. Esse perfil foi considerado pela pesquisa como prejudicial à economia porque deixa os investidores temerosos. as mais relevantes e necessárias: trabalhistas. 46. Sociais e Políticos de São Paulo (IDESC). à boa-fé e à equidade. por mais preocupado que esteja com a justiça social. 54. Extremamente complexo é o processo de formação de uma decisão judicial. a razoabilidade. mais do que respeitar contratos. nem pode fazer uma revolução social com a caneta. realmente. 160] Veja-se que na pesquisa do IPEA as áreas em que os juízes defendem prioritariamente a questão social em detrimento dos contratos são. senão norma jurídica interpretada. seguida pelo Código do Consumidor e agora pelo novo Código Civil. Para o investidor e os agentes da área econômica em geral. É por isso que se diz não existir norma jurídica. “inclina-se num ou noutro sentido de acordo com o seu temperamento. na formação da decisão judicial. Rio Grande do Sul e Distrito Federal. não pode estar avançando a seu tempo. sociais. ideológicas. O certo. a ponderação. meio ambiente. inclusive a opinião pública. o índice é de 70%. o juiz brasileiro foi apresentado como tendo perfil liberal. tudo dependendo do ângulo pelo qual os resultados são analisados.agora realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). mas esse próprio pensamento é socializado. Circunstâncias pessoais. a partir da Constituição de 1988.6%. 42. o juiz brasileiro é liberal porque contraria os seus interesses. Está correta a magistratura quando privilegia a justiça social porque essa é a ideologia. para o sociólogo esse mesmo juiz é conservador porque não adota integralmente os seus pontos de vista sobre a questão social. previdência. Crê exprimir o que pensa. culturais. Mas o juiz. A mesma norma recebe tratamento diferenciado de juízes e tribunais porque a decisão judicial . Entre os juízes com menos de 40 anos. produto do meio.

porque justiça e liberdade estarão limitadas ao juízo de valor de um juiz ou tribunal. A decisão judicial é. Isso permite ao juiz exercer o seu poder criador do Direito sem se afastar das diretrizes estabe1ecidas pela ordem jurídica. 161] Nessa tarefa. encastelando-se no formalismo. O homem existe porque ele é razão e emoções. Por isso utiliza. na sua capacidade de julgar com esses elementos que participam da sua natureza racional. Neste ponto reportamo-nos ao que ficou dito no item 35. exatamente. [p. REsp. terá que ser um canal de comunicação entre a sociedade e o mundo jurídico. vu1nerabi1idade. dignidade da pessoa humana. Ao mesmo tempo em que procura interpretar a consciência social. criando a justa regra jurídica para cada caso. sentimentos. set. até que ponto está subju1gado ao ordenamento jurídico em função de suas concepções pessoais? Essa é a grande questão. o perfil do magistrado não deve ser avançado. portanto. eqüidade. mas sim suficientemente flexível para ajustar a lei às condições concretas da sociedade. “Não pode a justiça dar respostas mortas a perguntas vivas. pondo-se a emitir juízos totalmente desvinculados da ordem jurídica que lhe incumbe preservar. órgão do Estado. embora fundado na lei. crenças. crenças da pessoa humana investida do poder jurisdicional. . 1999). a sociedade não terá mais nem justiça nem liberdade. deve dar eficaz aplicação à lei. uma decisão que está subordinada aos sentimentos. livre e social” (“A Decisão Judicial”. ignorando a realidade social subjacente. como boa-fé. Deve o juiz obediência à lei mesmo que ela seja injusta? Já ficou destacado que o nosso sistema jurídico. não é inflexível. emoções. nem conservador.983/91). uma decisão humana. RDR nº 15. uma vez que o próprio legislador reconhece a impossibilidade de tudo ser nela previsto.3 in fine.-dez. por inteiro. no domínio da ciência ou da técnica. portanto. essencialmente. o juiz não é livre para fazer prevalecer o seu sentimento particular de justiça a ponto de estrapolar a moldura da lei ou de modificar os seus parâmetros. E sendo uma decisão humana. Em conclusão. mas também voz da sociedade. n° 4. Se o juiz abandona esse cenário. conceitos jurídicos indeterminados e cláusulas gerais. É nesse sentido que se diz ser o juiz um coautor com o legislador. força maior. pondera o Ministro Carlos Alberto Direito. está sob a influência condicionante de uma série de fatores subjetivos e objetivos que não podem ser evitados. Deve consultar o seu sentimento ético com o cuidado de não se afastar demasiadamente dos sentimentos médios da sociedade em geral e da comunidade jurídica em particular. como vimos. E a independência do juiz está. como qualquer ser humano. “ela não está. razoabi1idade.é. para deixar de dizer o direito” (Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira. Se o juiz.

começou em 1971. publicou a seguinte reportagem: Ao folhear o Diário Oficial francês do último dia 9 de maio. O juiz. O Ministério Público. que publicaram certos detalhes curiosos sobre os processos a cargo de Ceccaldi em Marselha. A revista Veja. pequeno atacadista de óleo diesel para aquecimento domiciliar. falsificar condições de concorrências públicas e outras falcatruas do gênero. e um de seus sócios seria preso mais tarde por tráfico de dólares falsos.e envolvendo petróleo. 1. Bodourian não era nenhum paradigma de honestidade. na verdade. a Defensoria Pública e o advogado. A inamovibilidade. 163] Mas se Bodourian foi à falência. Abandonando a ensolarada cidade mediterrânea de Marselha. A transferência de Ceccaldi. E.000 habitantes perdida nas brumas da Normandia. como constataria mais tarde uma comissão de . resolveu que não iria. foi à falência em Marselha. no extremo oposto da França.Capítulo XIII RAZÕES SOCIAIS DAS GARANTIAS CONSTITUCIONAIS DOS MAGISTRADOS A vitaliciedade: objetivo. [p. quando um certo Roger Bodourian. na primeira grande greve de juízes da história da França. seus cheques sem fundo assolavam regularmente a praça. em sinal de solidariedade a Ceccaldi. simplesmente. a culpa. cujos dirigentes se reuniam periodicamente para elevar preços. de 16 de junho de 1976. na semana passada. Todas essas acusações. Irredutibilidade de vencimentos. teria sido das grandes companhias petrolíferas. sob o título “O caso Ceccaldi”. o caso acabou chegando aos jornais. Ceccaldi deveria assumir as funções de procurador público em Hazebrouck. Tão curiosos. o juiz Etienne Ceccaldi verificou. montar manobras de dumping. segundo ele. consternado. de fato . como o Ministério da Justiça insistisse. um domingo. vila de 18.300 membros do Sindicato da Magistratura cruzaram os braços. O ensino jurídico. corrupção e pressões políticas que. onde se encontrava como juiz substituto. que acabava de ser transferido.

os autos foram miraculosamente encontrados quatro meses depois. continuando seu trabalho. graças à intervenção do prefeito socialista de Marselha. então Ministro das Finanças. se extraviou. Para desgraça do Ministério. 164] que bem entendesse em qualquer lugar da França. com 39 anos.que logo depois.várias delas misteriosamente fotocopiadas e reproduzidas nos jornais das últimas semanas . com quatro filhos. obviamente. Em qualquer hipótese. porém. em que estas se comprometiam a mudar seus métodos para salvaguarda da livre concorrência. com o caso Bodourian. Obrigado na semana passada a aceitar a inédita humilhação de uma greve inteiramente ilegal. examinou com tanta diligência um processo de prostituição. sua atividade não seria mais tranqüila. restaria apenas o recurso definitivo de ameaçá-lo com alguma remota possessão francesa de além-mar. eram absolutamente verídicas. Gaston Deferre. Bodourian tinha iniciado também um processo na Justiça marselhesa. A justiça deve ser distribuída de forma imparcial. parecia inclinado a tentar uma solução de compromisso. as forças que pressionaram por seu afastamento terão triunfado. que acabou mandando prender dezenas de policiais . assegurando-se o . E em 1974.para que esquecesse numa gaveta qualquer o processo contra as companhias petrolíferas. Para começar. O caso Ceccaldi coloca em destaque vários aspectos da função de julgar que merecem especial atenção. apenas em 1973 o presidente Valery Giscard d'Estaing. Transferido para Lyon.dos juízes. ele já se notabilizara naquela época como competente. O problema é que. independentemente de quem esteja nos pólos da relação jurídica processual. mas impermeável a certas sutilezas da vida política. chamado a Paris para uma reunião de doze horas no Ministério da Justiça. Jean Lecanuet. mas poderia escolher a promoção [p. Logo no seu primeiro posto. Ceccaldi seria efetivamente removido de Marselha. Ceccaldi não tardou a convocar para depor 43 dirigentes das maiores empresas petrolíferas internacionais acusadas de abuso de poder econômico. inclusive Paris. assinou um protocolo com as companhias petrolíferas.inquérito do Ministério das Finanças. Em Marselha. condenou um influente político governista por fraude fiscal. foi obrigado a entregar a seus superiores o processo . Nessas condições. voltaram às mãos do mesmo Ceccaldi. o Ministro da Justiça. Pior ainda. além de suas reclamações inúteis junto ao Ministério das Finanças. Se não aceitasse. Casado. nada mais natural que um dia se visse transferido de Marselha para um outro lugar. porém. Ceccaldi ignorou as inúmeras sugestões diretas e indiretas de seus superiores hierárquicos . Mas ficaram por isso mesmo. E o caso foi justamente parar nas mãos de Ceccaldi. Ao mesmo tempo. por exemplo.inclusive o delegado mais conhecido da cidade.

que se ache liberto de qualquer pressão. em princípio. capaz de forçar uma decisão favorável ainda que o direito lhe seja totalmente contrário. Às vezes. 304). Os demais poderes estatais não podem ter sequer a possibilidade de exercer uma atuação indevida na órbita em que o magistrado atua. o juiz possa fazê-lo em sã consciência. ao interpretar e aplicar a lei. se essa pressão puder ser feita sobre o julgador. Por outro lado. vêm das garantias que a Constituição lhe confere. consoante a qual. de acordo com a ordem jurídica existente.pleno exercício de qualquer direito a todo aquele que efetivamente o tiver. na inamovibilidade e na irredutibilidade de vencimentos. Essas garantias. não são para favorecer o juiz. bem como a integridade do regime democrático. ou Estadual (Presidente da . Nenhuma autoridade ou potentado poderá ter meios de intimidá-lo ou de nortear. política ou economicamente poderoso. o Judiciário é um poder desarmado. mesmo de longe e veladamente. entretanto. portanto. de um lado da demanda está alguém influente. A VITALICIEDADE O juiz. pelo seu conteúdo e pela sua finalidade. a seu turno. Acontece. “essas garantias traduzem a independência de ordem política que o juiz deve auferir. Evidente que. ele não se deve submeter a nenhuma autoridade. mas sim para tomar efetiva e eficiente a função de julgar. privilégios ou regalias da magistratura como muitos pensam. 1970. 165] Em sua aplicação na vida cotidiana. a justiça não passará de uma farsa e toda a ordem jurídica ficará comprometida. [p. e sua independência como Poder. muito embora tenham elas que prevalecer sobre a decisão de qualquer outra autoridade. acima de tudo. 69. Surge então a questão: Como propiciar ao Judiciário as condições necessárias para julgar com imparcialidade e dar às suas decisões a força indispensável para que sejam cumpridas? A força do Judiciário no Brasil. Isto quer dizer que em hipótese alguma o chefe do Executivo Federal. que permaneça intocável a qualquer coação. não se deve subordinar a nenhum poder. Visam. a fortalecer a independência funcional do Poder Judiciário. salvo à força e ao prestígio da própria Lei” (Rosah Russomano. Lições de Direito Constitucional. não pode perder o cargo a não ser por decisão judicial. Para que. p. a sua conduta. consubstanciadas na vitaliciedade. Esta independência. indispensável é. representa o alicerce sobre o qual se erige a independência jurídica do juiz. no exercício de suas atribuições. sem aparato material para fazer cumprir suas decisões. ainda que seja o Presidente da República ou o Governador do Estado. que nem sempre os pratos da balança da justiça têm peso igual.

de 14. letras a e c da referida lei. 95. jamais virá a perder o cargo. somente o Tribunal a que o mesmo estiver vinculado. VIII. Ninguém poderá ameaçá-lo por ser correto e fiel no exercício da sua função. A Constituição de 88 dispõe no mesmo sentido . I e parágrafo único. a qualquer título. ainda assim por decisão de dois terços dos membros.1979). 166] A importância dessa garantia pode ser constatada. muito embora possa fazer isso com relação a qualquer funcionário público. no fato de certas autoridades dos mais elevados escalões. Seguro está o juiz de que. 93.arts. simplesmente para não perderem o chamado “cargo de confiança”. visto que passou a ser adquirida somente depois de dois anos de exercício da magistratura (estágio confirmatório) e as hipóteses de perda do cargo tornaram-se mais numerosas. por julgar com imparcialidade e honestidade. salvo por motivo de interesse público e pelo voto de dois terços dos membros do seu Tribunal. . desde que. Após a Emenda Constitucional n° 7. 26. integrantes de outros poderes. a vitaliciedade ficou um pouco mais limitada.1. de percentagens ou custas nos processos de sua competência. seja a sua decisão contra quem for. e a Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar nº 35.República ou Governador) pode demitir um magistrado. De acordo com o art. recebimento. 70. por contraste. de abril de 1977. ainda que estável. neste último caso. salvo um cargo de magistério superior. Se isso pudesse ocorrer com o Judiciário. A INAMOVIBILIDADE O juiz não pode ser removido compulsoriamente de sua sede de atividade (comarca e vara). voltaríamos aos tempos medievais e a justiça não funcionaria. e o exercício de atividade político-partidária. O Objetivo da Vitaliciedade A razão ou objetivo da vitaliciedade é dar ao magistrado a segurança e tranqüilidade necessárias para que possa julgar sem sofrer qualquer pressão quanto ao seu cargo. submeterem-se a todas as ordens ou decisões dos seus superiores hierárquicos. a demissão seja precedida de inquérito administrativo para apurar falta grave. item II. 69. por mais absurdas ou arbitrárias que sejam. Tratando-se de juiz. [p. poderá decretar a perda do cargo.03. o magistrado pode perder o cargo em virtude do exercício de qualquer outra função.

Num país inflacionário como o nosso até bem pouco tempo. às vezes maior que os próprios vencimentos e que já passou a integrar o seu orçamento. A remoção do juiz. . ou da capital para o interior. O juiz. uma das formas mais eficazes de tirar a segurança e independência de quem quer que seja. entretanto. ou premiar outro com a remoção para um lugar melhor como meio de obter uma decisão favorável. A partir da Constituição de 88 os vencimentos do funcionalismo em geral passaram também a ser irredutíveis. a tranqüilidade e a imparcialidade do magistrado. muito embora estejam sujeitos aos impostos gerais e extraordinários. Nem mesmo é obrigado a aceitar uma promoção que implique em sua transferência. numa completa dependência econômica do Executivo. acabariam a segurança. A justiça passaria a ser uma barganha de lugares. não pode ser transferido do lugar onde exerce as suas funções. e passa anos e anos até chegar às comarcas de entrância mais elevada ou à capital. Se fosse possível pressioná-lo com uma transferência compulsória para que viesse a julgar dessa ou daquela forma. a inamovibilidade destina-se a garantir o exercício da função de julgar. Tal como a vitaliciedade. esperamos que não volte a sê-lo. A IRREDUTIBILIDADE DE VENCIMENTOS Os vencimentos dos magistrados não podem ser reduzidos. se os vencimentos dos magistrados não forem corrigidos monetariamente nos mesmos índices inflacionários. 71. significa castigo tão violento quanto uma demissão. Às vezes a transferência de uma cidade para outra. normalmente. a irredutibilidade tem por objetivo não sujeitá-los a qualquer tipo de pressão econômica. diferentemente de qualquer outro funcionário público. começa a sua carreira nas pequenas e longínquas comarcas do interior. [p. bastará que não se corrija adequadamente os vencimentos dos juízes para que em poucos anos estejam com os salários aviltados. cumpre assinalar que a inflação pode fazer da irredutibilidade uma garantia totalmente irrisória. Todos os que exercem “função gratificada” sabem perfeitamente a que um servidor público se sujeita para não perder a gratificação. Nesse particular. sempre ocupando os melhores e mais elevados postos os que mais dispostos estivessem a fazer tudo o que o “patrão” ordenar (e não a lei). com fatais seqüelas para a sociedade. como sói acontecer em outros segmentos da administração.Significa dizer que o magistrado. salvo na hipótese de interesse público. 167] Com relação aos magistrados. só pode ocorrer com o seu assentimento expressamente manifestado.

a independência da magistratura. como estorvo ao programa de supressão das liberdades individuais. a autoridade do Poder Judiciário na consciência dos cidadãos. com o indisfarçado intuito de transformá-los em dóceis instrumentos de proteção às políticas governamentais. 1996) acentua: “Longe de ser um privilégio para os juízes. em última instância.[p. mais deletério: solapam a dignidade dos juízes. 168] cia de aparelhamento constitucional. a assegurar a independência do Judiciário. facilmente. 23. que precisa de juízes imparciais para harmonização pacífica e justa dos conflitos de direito.2000). que as garantias constitucionais dos magistrados destinam-se. pode-se afirmar que os juízes têm obrigação de defender sua independência. pois sem esta a atividade jurisdicional pode. em seu tempo de fastígio. Ele conservará a peculiaridade. o Legislativo e Executivo. Agora. mas perderá a autonomia e a proeminência arbitral. ainda que mantida a aparên. poderíamos concluir com as palavras do Ministro Carlos Mário Velloso: “O juiz brasileiro tem tudo para julgar do acordo com sua consciência. tem sido tão necessário e urgente entender. inamovibilidade e irredutibilidade salarial. Resumindo todas as considerações atrás expendidas. a independência da magistratura é necessária para o povo. No Brasil. entretanto.” Por último. pois caso contrário nada significará a irredutibilidade. para que o juiz não sofra pressões econômicas. só reforçou. a firme e autorizada posição de um dos mais consagrados juristas da atualidade. em sua preciosa obra O Poder dos Juízes (Editora Saraiva. com a colaboração reprovável de altos tribunais. ser reduzida a uma farsa. . uma fachada nobre para ocultar do povo a realidade das discriminações e das injustiças. agem de modo subreptício e. o Professor Fábio Konder Comparato. da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo: “Raramente na vida política brasileira. pois tem independência. condição indispensável à proteção dos direitos humanos e à integralidade do próprio regime democrático. tal como hoje. simplesmente por ser inócuo proibir reduzir o que já nasceu reduzido. porém. Não se pode perder de vista. o juiz que se verga a interesses o faz não por falta de garantias. mas por falta de caráter” ( O Globo. O regime militar. A rigor. Com isto. sendo esta.08. por sua vez. uma necessidade da liberdade individual. em seu pleno sentido axiológico e funcional. por isso mesmo. não hesitou em suspendê-la. paradoxalmente. que seus vencimentos sejam compatíveis com as elevadas funções que exerce e a pesada responsabilidade que sobre ele pesa. O professor Dalmo de Abreu Dalari. para representar interesses que essa própria estrutura organizacional lhe infundirá.” A isto acrescentou o jurista Raymundo Faoro quando ainda presidente da OAB: “O maior risco à integridade do Judiciário será convertê-lo em organização burocrática.Necessário se faz também.

o defensor dos seus direitos. o triste espetáculo de uma involução institucional na defesa da dignidade humana” (Artigo intitulado “Juízes Independentes ou Funcionários Subordinados?”). razão pela qual limitamo-nos a dizer que todas as questões levantadas em tomo do Judiciário são também pertinentes aos demais instrumentos humanos que atuam na ordem jurídica e merecem idêntica atenção. cuja estrutura administrativa tem servido de modelo para outros Estados. 169] maior importância social estabelecer as suas prerrogativas ou garantias legais. sem os quais não se pode fazer uma boa e regular distribuição da justiça. no inciso LXXIV desse mesmo artigo. a Defensoria Pública do Rio . A despeito da sua dificuldade orçamentária e da má vontade de alguns governos. Com relação ao Ministério Público. 72. outros elementos humanos atuam na ordem jurídica. Com efeito. 5°. da [p. 134 da mesma Constituição estipula que à Defensoria Pública. com os meios e recursos a ela inerentes. Sem dúvida. em processo judicial ou administrativo. LXXIV. portanto. a forma de selecionar os seus membros. Seria um verdadeiro escárnio se o nosso País. dos necessitados. 5° da Constituição assegura o contraditório e a ampla defesa aos litigantes em geral. cuja existência tem base constitucional. A Defensoria Pública é outra instituição da maior relevância para a boa aplicação do direito. o inciso LV. O Estado do Rio de Janeiro foi o primeiro a organizar a Defensoria Pública. para que possa atuar também com segurança e independência. incumbem a orientação jurídica e a defesa. desse às novas gerações de brasileiros. razão pela qual. eficientes. quando não atua como simples fiscal da lei. do art. a assistência judiciária está entre esses meios e recursos. A DEFENSORIA PÚBLICA E O ADVOGADO Além dos magistrados. merecendo real destaque o Ministério Público. O objeto deste singelo trabalho não comporta maiores considerações a respeito. Por fim. na forma do art. como instituição essencial à função jurisdicional do Estado. para que sejam preparados. a Defensoria Pública e o Advogado. exatamente no cinqüentenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem. o art. basta lembrar que a sua função é altamente social pois é o advogado da sociedade.“Ninguém ignora que a independência da magistratura é uma das mais importantes garantias do sistema de proteção aos direitos humanos. Reveste-se. com a supressão prática de um Judiciário independente. em todos os graus. O MINISTÉRIO PÚBLICO. a Constituição impõe ao Estado o dever de prestar assistência jurídica integral e gratuita aos que provarem insuficiência de recursos. mesmo que contra os poderosos e influentes.

[p. o que será muito bom. Tem ela ainda importante atuação na defesa dos direitos humanos e dos consumidores. Para ele. 59% dos estudantes brasileiros não conseguem ler mais do que frases simples. população carcerária. ex-presidente do Supremo Tribunal Federal. Menos de 1% dos alunos das escolas públicas conseguiu tirar mais de 70 (O Globo. 74% tiveram notas abaixo de 40 numa escala de zero a cem.08. A crise é muito mais profunda. Ao concluir a 4ª série do ensino fundamental.11. em outros. A defesa dos necessitados é uma tarefa que a União sempre se recusou a cumprir. E aí está outra grave causa da morosidade da justiça. Lamentavelmente. é até apontado como o grande responsável pelo rebaixamento do nível profissional das carreiras jurídicas. Bélgica e Argentina. Dos 1. temos como certo que uma das questões de maior relevância diz respeito ao seu preparo profissional. é um paradoxo que a União tenha celebrado convenções internacionais com Holanda. vítimas de maus tratos. 14. 73. 13. com raras exceções.3 milhões de estudantes que fizeram o ENEM. a Defensoria Pública não passa de uma ficção em nível federal. A Defensoria Pública não funciona melhor por falta de disposição política do Executivo e entraves burocráticos. O último Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM). reprovou o ensino médio no país. cujo resultado foi divulgado em novembro de 2002. Já fiz parte desse grupo. lamenta o desinteresse do poder público pela Defensoria Pública. Os estados também. O ensino do direito em nosso país tem sido duramente criticado nas últimas décadas. assistência a crianças e adolescentes.2002). O ENSINO JURÍDICO Quanto ao advogado. mas hoje penso diferente. O Ministro Celso de Mello. E o problema já vem do ensino fundamental.vem prestando extraordinário serviço às comunidades carentes. ela não tem condições de defender nem os interesses dos cidadãos brasileiros mais necessitados (O Globo. não obstante os dispositivos constitucionais existentes. Cerca de 70% dos processos da área criminal e 50% das varas de família são patrocinados pela Defensoria Pública. Pela deficiência de quadros. sem o que o funcionamento do Judiciário seria impossível em certas áreas e lugares. seguem o mesmo exemplo: oito não criaram defensorias e. pelas quais se compromete a dar assistência jurídica gratuita aos cidadãos desses países por meio da Defensoria Pública. desde que a reforma não fique no papel. 170] Fala-se no momento que a Defensoria Pública é um dos itens prioritários da reforma do Judiciário. Quando o assunto é .2000). elas funcionam precariamente.

2003). Só 4. Salvador. O ensino superior é o acabamento de um processo educativo que começa no berço. levou a outro resultado alarmante. Em resumo. 52% deles mal consegue decifrar uma operação simples de somar ou subtrair. atrás do México e da Letônia. Os fatores convergem para esse ponto comum. principalmente nas escolas públicas. onde as coisas acontecem. Esse é o diagnóstico da educação brasileira apresentada pelo próprio Ministério da Educação (22.04.matemática. No fim do ensino fundamental. O Brasil ficou em último lugar no Pisa2000 . 23. além de incentivar esses profissionais com o pagamento de salários dignos e justos” (Entrevista ao jornal A Tarde. Na visão da doutora em educação Magda Soares. Esse baixo desempenho do nosso ensino fundamental e médio. 25. mas principalmente o magistério e as .05.4% dos alunos estão no nível adequado para a série. E assim como não se pode colocar telhado onde não há alicerce nem paredes. também não se pode ministrar um curso superior de alto nível a quem não tem sólida formação educacional média e fundamental. O fracasso do ensino médio e fundamental em nosso país prejudica a formação de todas as profissões que exigem nível universitário. 60% dos alunos com avaliação adequada estão em escolas particulares e 98% daqueles com resultados muito críticos estudam em escolas públicas (O Globo. Entre os que tiveram resultado adequado à sua série. Deve-se investir na formação dos educadores. 171] anos é analfabeta funcional: sabe ler as palavras. ficou em último lugar. que analisou o nível de compreensão leitora (letramento) de alunos secundaristas de 32 países. O foco deve ser em cima dos responsáveis pela transmissão do conhecimento: os professores. considerada uma das maiores autoridades do assunto na América Latina e Professora da Universidade de Minas Gerais. mas é incapaz de decodificar seus significados.04. Entre os estudantes de 4a série.2003) com base em dados do Sistema de Avaliação do Ensino Básico desde 1995. 44% estavam em escolas privadas. Indagariam os leitores: mas o que o ensino fundamental e médio tem a ver com o ensino jurídico? Tem tudo a ver. promover constantemente cursos de atualização e reciclagem. O Brasil. a formação deficiente dos professores é a principal causa desse vexame. 98% dos que tiveram avaliações consideradas muito críticas estudam em escolas públicas. É lá que os professores têm que desenvolver nos alunos as habilidades para compreender textos e utilizar conhecimentos adquiridos. a maioria dos jovens brasileiros entre 15 e 16 [p.2003).Programa Internacional de Avaliação de Estudantes . “A raiz do problema está na sala de aula. como já salientado.pesquisa feita entre os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

essas profissões dependem do completo domínio da língua. de forma lógica e coerente. O curso de Direito não visa preparar o rábula. dizer o que as coisas são). é eminentemente prático quanto ao fim. Para suprir a deficiência muitos cursos de Direito incluíram em seus currículos o estudo do português jurídico (linguagem argumentativa que ensina a organizar o pensamento para. Como não há vantagem alguma em se usar um método exclusivamente prático nem outro predominantemente teórico. são desenvolvidas entre os 4 e 10 anos. iniciativa da maior relevância. que tem produzido resultados satisfatórios. não se pode conseguir ótimos resultados se a formação do estudante no primeiro e segundo graus foi deficiente. Caio Tácito: “Numa sociedade estável é compreensível que os professores de Direito se limitem a preparar os alunos mediante estudos sistemáticos dos institutos e normas existentes. se instaura um processo mais ou menos constante de revisão legislativa. e suficientemente prático para que o bacharel. nem o jurista esotérico afastado da realidade: deve ser suficientemente teórico para insuflar no discente o conhecimento geral da ciência jurídica. segundo os técnicos em educação. cumpre pois. dos aprovados em concursos públicos. ao sair da faculdade. porém. E a leitura e a escrita. por melhor que seja o ensino jurídico. a maioria cursou o fundamental e o médio em boas escolas particulares. capacidade de ler.carreiras jurídicas (Magistrados. precisam ter tirocínio e raciocínio. No que diz respeito ao ensino do Direito. compreender e usar aquilo que se lê. familiarizando o jurista com os pressupostos da norma jurídica e habilitando-o a solucionar e compor as controvérsias e os conflitos de interesses. Ministério Público. Mais que as outras. objetivo válido da preparação científica e profissional do advogado (entendida a expressão em sentido amplo e não apenas forense) é o do relacionamento entre a lei e a realidade social. entendemos ser necessária uma mudança metodológica. Com muita propriedade. Logo. harmonizar o ensino teórico com o prático. propriamente dito. Defensores e Advogados).” . dotados de um sentido de permanência. não se sinta perdido e incapaz de dar os primeiros passos na vida forense. sempre que possível. perde sentido o preparo. exprimindo as alternativas de transformação da sociedade que o Direito disciplina. ainda que excelente. Quando. Tanto é assim que. pois o direito. no Direito consagrado. sendo muito difícil depois disso recuperar essa capacidade. acentuou o Prof. senão único. 172] uma ciência teórica quanto ao modo de estudar e saber. embora seja [p. de modo a privilegiar mais íntimo entrelaçamento entre a teoria e a prática. Procuradores. O verdadeiro. de tal forma que se transmita uma cultura jurídica suscetível de ser revogada por uma lei nova.

preparados para enfrentar até mesmo o imprevisível em face da rapidez com que as normas jurídicas tendem a se modificar. que vem a propósito de tudo aquilo que até aqui se afirmou: “Dá um peixe a um homem e matarás a sua fome por um dia. fixar princípios através do exame de casos atuais. e a justiça poderá ser distribuída de forma mais eficiente. mediante um ensino teórico e prático que os capacite efetivamente para o exercício da advocacia.” Cremos que. mediante informações e conhecimentos. como vem fazendo o ensino jurídico tradicional. lembrado pelo Prof. . por sua clareza. Há um provérbio chinês. e não simplesmente o domínio do direito positivo e da doutrina jurídica. Gabriel Lacerda. Não basta fornecer peixes aos alunos ou indicar-lhes o mar. o provérbio dispensa maiores comentários. É preciso ensinar-lhes a pescar. o alvo da educação atual deve ser a conquista do raciocínio jurídico. rápida e equilibrada. preparar o estudante para resolver problemas. dando tratamento jurídico aos fenômenos sociais. Dessa forma poderemos ter advogados competentes.Em suma. ensina-o a pescar e o alimentarás para o resto da vida.

É o juízo coletivo adotado e exteriorizado por um grupo. entretanto. coexistentes sem conflito ou contraditórias em graus diversos. de Miranda Rosa em sua obra Sociologia do Direito (2ª ed. A rigor. p. desde logo. A. . podemos afirmar que opinião pública é o pensamento predominante do grupo sobre uma determinada pessoa ou questão. O poder da mídia na formação da opinião pública. assinalar que se trata de algo extremamente impreciso e mutável aquilo que se denomina opinião pública. Cumpre. compondo um universo de opiniões que se manifestam em determinado momento e lugar. não existe uma opinião pública. mas sim o resultado mais ou menos estabilizado dos processos sociais gerais. como muito bem observou F. 74. [p. nem sua síntese. **** Chegamos agora ao terceiro item da classificação proposta por Renato Treves para o objeto da Sociologia Jurídica: Estudo da Opinião Pública sobre o Direito e suas Instituições. 1973. A opinião pública sobre as instituições jurídicas. concorrentes ou divergentes. mas sim diversas correntes de opinião. 157). Importância da opinião pública. 175] Esse pensamento coletivo a que nos referimos não é a soma de todas as opiniões particulares. A opinião pública sobre o direito e sua utilidade social. O sentimento coletivo de justiça. CONCEPÇÃO DE OPINIÃO PÚBLICA De forma simples e sintética.. formando afirmações de natureza majoritária ou predominante.Capítulo XIV A OPINIÃO PÚBLICA Concepção de opinião pública. apresentam certos traços gerais e algumas tendências uniformes. Essas correntes de opinião.

Na química. a sociedade não passa de mera soma de consciências individuais. apenas formam uma realidade nova . uma nova realidade. Mas se estiver em um teatro ou cinema e escutar alguém gritar [p. o que restará? Ele próprio responde: nada. não anula a vida individual. o comportamento do indivíduo.Ocorre com a opinião pública algo semelhante ao que ocorre entre a sociedade e o indivíduo. isso não ocorre na síntese social. Embora a idéia de síntese não deixe de ser verdadeira. que o coletivo não é a soma dos indivíduos nem é a síntese de todos: é um novo produto. Salvo hipóteses excepcionais de massificação coletiva. Tarde. toma-se falha quando levada a exageros. do revolucionário etc. as parcelas e o resultado têm de ser da mesma natureza. Os elementos componentes seriam de natureza psicológica. tomada de empréstimo à terminologia química. por Síntese. a sua síntese. Os indivíduos formadores da sociedade não desaparecem. daria um composto novo e diferente . imediatamente ocorrerá um tumulto tão grande e desesperado que acabará ferindo e matando mais gente atropelada e pisoteada do que queimada pelo próprio fogo. ao propor a substituição da palavra Soma. uma natureza de ordem psicológica. que em muitos casos se conserva tão independente que pode assumir figuras variadas do anti-social. da formulação de G. Exemplo: na formação da água (H20). resultado mais ou menos estabilizado dos processos sociais gerais. 176] “fogo”. um modo de ser adjetivo derivado da vida individual. do gênio. Tudo que atrás ficou exposto pode ser claramente constatado mediante simples comparação entre o comportamento individual e o coletivo. À essa tese psicológica e nominalista se opunha Durkheim. Em razão de determinados processos sociais. o oxigênio e o hidrogênio deixam de existir como substâncias isoladas a partir do momento da síntese. normalmente se empenhará em apagá-lo buscando auxílio de outras pessoas. para darem lugar à água.o Coletivo. no comum das circunstâncias. como . como no caso do delinqüente. Se alguém estiver sozinho em casa e observar que algo está pegando fogo. Ora. Se tirarmos os indivíduos da sociedade. pois. a realização da síntese anula e faz desaparecerem os elementos componentes. o coletivo. pode mudar profundamente. Para Tarde. A sociedade seria. quando em grupo. A multidão em tumulto é capaz de cometer os mais hediondos crimes. indagava. levando-o a fazer coisas de que jamais se imaginou capaz. mas o seu conjunto. Isso evidencia. portanto. como soma. já que só se pode somar quantidades homogêneas.o Social. como o de amarrar um mendigo ao poste e matá-lo a pauladas. e. como os elementos de que se compõe.

coisa semelhante ocorre com a opinião pública: não é a soma nem a síntese da opinião de todos: é um novo produto. assim. um modo de ser decorrente da opinião de cada indivíduo e das influências que cada um. 177] No que diz respeito aos instrumentos. A mídia é. sem dúvida. a imprensa escrita e falada. às influências dos demais. é o grande formador da opinião pública. irrepreensível. 286) explica o mesmo fenômeno falando em reação circular. E Willems (Dicionário de Sociologia. um poder em sua concepção sociológica. Tal é a sua força que até é chamada de quarto poder. comunicando-lhe e intensificando o processo de estimulação que se repete. 13ª ed. É que o comportamento coletivo. Conforme já assinalado. trabalho. implica que cada um dos indivíduos em apreço responde. que é uma forma de estimulação recíproca pela qual a reação de um indivíduo reproduz o estímulo que recebeu de outro indivíduo. p. começam os comentários no círculo primário (família. [p. mas não é necessariamente a opinião de todos os membros nem a opinião de qualquer pessoa em particular. condutas e informações são lançadas na coletividade. O Poder da Mídia na Formação da Opinião Pública Como se forma a opinião pública? Quais os instrumentos eficazes para esse fim? A formação da opinião pública. até então. vai se formando a opinião pública. Porto Alegre. uma nova realidade. Legislativo e Judiciário. que se exercem pelo Executivo.1. escola etc. que se sensibiliza por algum motivo. Representa a tendência geral. pp.). nas palavras de Donald Pierson (Teoria e Pesquisa em Sociologia. exerceu e recebeu dos demais. de qualquer tipo. 74. é um processo lento de sedimentação da vontade popular. provoca uma espiral ascendente e de dimensões crescentes. que vão se sedimentando e. Trata-se em última instância de uma reciprocidade de estimulação que. e os poderes de natureza econômica e sociológica. implica que o comportamento de cada indivíduo que dele participa não está inteiramente sob controle individual. O Poder tem várias formas: os poderes constitucionalmente instalados.. consciente ou inconscientemente. transformam-se em conversação quase que diária. 223-224). Idéias.aconteceu anos atrás em um subúrbio do Grande Rio. ao determinar respostas também recíprocas. a mídia como um todo. muito embora fossem todos os componentes do grupo pessoas pacatas e de comportamento. não só porque o . consciente ou inconscientemente. Globo. via de regra.

5ª ed. Poder que penetra nas casas. porque tem o poder de condicionar. muitas vezes. condicionando. pode-se dizer que o jornalismo brasileiro evoluiu nos últimos dez anos e muito contribuiu para a fiscalização da gestão pública. Rev. A forma implícita é a mais grave porque o comentário acaba virando notícia.poderoso sistema de comunicação de massa possa eventualmente derrubar um mandatário político. “é a um tempo criadora e modificadora poderosa do comportamento social”. pode-se fazer com que alguém faça o que deve ser feito. a opinião pública. Há até quem fale em liberdade de empresa e não em liberdade de imprensa. A mídia sempre esteve próxima do poder estatal e econômico. tornando-se mercadoria. o poder de premiar e o poder de condicionar. A grande problemática é que a imprensa brasileira tem muitos outros interesses. cultos e ignorantes. o que contribui para a formação de uma opinião estereotipada e sensacionalista (Manual de Sociologia Jurídica. 181). e isso faz com que a informação nem sempre seja fidedigna e confiável. mas também e principalmente. no seio das famílias. sem contestação. E ainda convencidos de estarem pensando por si próprios. “dá particular destaque aos problemas e escândalos (exemplo: corrupção de juízes) e nunca noticia o cotidiano normal do sistema jurídico”. Entretanto. explícita ou implicitamente. Observa Ana Lúcia Sabadell que a mídia. Baseada na importância que dão todos à crítica. Punindo. além daquele estritamente jornalístico. p. dos Tribunais. que é a tarefa própria do Poder Judiciário. ao desejo inato de conquistar aprovação e simpatia. é tratada de tal forma que já vem comentada. Dessa maneira a notícia acaba. Costuma-se dizer que existem três formas de poder efetivo: o poder de punir. também podemos levar as pessoas a fazer o que queremos. contribuindo decisivamente para que ela se torne cada vez mais transparente. no que se refere à Justiça e seu funcionamento.. escreve com propriedade Carneiro Leão (Fundamentos da Sociologia. cativante. IMPORTÂNCIA DA OPINIÃO PÚBLICA “A opinião pública”. nos países de livre manifestação de . Ed. premiando. [p. Pois esse é o poder da mídia. persuasiva. p. mas também que eles pensem como pensamos. colorida. 175). que alcança palacetes e favelas. No mínimo vem embalada da maneira que melhor atinja os interesses dos detentores do poder. até os mais longínquos pontos do país. por meio de uma linguagem emocional. podemos não somente fazer que os outros façam o que queremos. ricos e pobres. 178] 75.

produtos ou empreendimentos. De forma específica. pode derrubar do poder quem lá se encontra e colocar outro. 85). tanto as empresas como os políticos mantêm grupos cuja missão consiste em pesquisar e despertar a simpatia do povo para suas atividades. constitui elemento decisivo de interação social. É em razão disso que. um sentimento acerca do certo e do errado. 179] No campo do Direito. fruto de condicionamentos sociais. pode fazer de um anônimo um herói ou do herói um vilão. como órgão de informação e formação de opinião pública. As empresas vivem oferecendo seus produtos através das propagandas mais atraentes e sofisticadas possíveis. Os políticos. revelando ao legislador e demais autoridades que atuam na ordem jurídica a temperatura social em tomo de questões sociais relevantes e indicando as mudanças que precisam ser feitas nas leis e nas instituições jurídicas. e nossas instituições tão mal estruturadas e aparelhadas. O SENTIMENTO COLETIVO DE JUSTIÇA Há em todo indivíduo. Dúvidas não temos em dizer que nossa legislação é hoje tão ineficaz. pode atingir enormes proporções. Davis (A Sociedade Humana. p. agindo em caráter particular. quando as eleições se aproximam. O efeito maciço de uma tomada de posição feita por milhares ou milhões de pessoas. vivem de olho nas pesquisas feitas sobre a preferência do eleitorado. 76. tanto quanto possível aproximado da realidade e com previsões a respeito de suas tendências e da evolução provável. ou pelo menos não tê-Ia contra. não se dá atenção à opinião pública no que diz respeito a tais questões. do justo e do injusto. Por isso. como muito oportunamente lembrou K. Daí a grande força que possui a imprensa escrita e falada. mesmo . é indispensável ao estudo de qualquer ciência social. pode dar início à guerra ou levar à revolução. tem a opinião pública especial importância para a Sociologia Jurídica porque age como um verdadeiro termômetro. [p. porque no Brasil. do bom e do mau. porque sabem que para chegar ou manter-se no poder precisam ter o apoio da opinião pública.pensamento. Os programas de televisão vivem fazendo pesquisa de opinião pública para saberem como agradar o público e merecer a preferência de audiência. A mudança de gosto público pode arruinar uma indústria ou enriquecer outra. para serem lembradas na hora em que se vai às compras. a primeira verificação da opinião pública que se impõe realizar é no que concerne ao sentimento coletivo de justiça. Isto tudo evidencia que o conhecimento da opinião pública. lamentavelmente.

no qual se baseia a sociedade para estabelecer seus padrões de comportamento . já que. bem como o afastamento de outras no futuro.É aquilo que se tem chamado de consciência jurídica da população. A correção dessas distorções. com as variações do sentimento coletivo de justiça de tempo para tempo. perderam a razão de ser. Assim como há um sentimento individual de justiça.sem nunca ter estudado direito ou tocado a mão em um compêndio de leis. Freqüentemente fala-se em leis injustas. prisão perpétua e outras penas mais severas. de tempo para tempo e de lugar para lugar. muitas normas existentes tomaram-se vazias de conteúdo social. Fala-se até em pena de morte. imediata. de Miranda Rosa. escreve F. . muda-se a opinião. a aprovação social das sanções que o Direito estabelece. Leis injustas existem. sem prévia consulta à opinião pública a respeito da matéria legislada. Baseado nos resultados de diversas pesquisas feitas. muito embora não estejam ainda suficientemente explicadas as relações motivadoras das diversas gradações ou formas em que esse sentimento se apresenta. é certo etc. abrange necessariamente o das normas existentes. frente a determinadas circunstâncias. Tal conhecimento proporcionaria também ao legislador as condições adequadas para fazer as modificações necessárias na legislação vigente. garantidoras da validez e eficácia das normas. há também um sentimento coletivo. cuja aplicação vem causando profundo desequilíbrio social. principalmente no mundo econômico. repressiva. Um crime grave. as pessoas afirmam com veemência: isto é uma injustiça. exatamente porque foram elaboradas ao arrepio dos interesses sociais. produtoras de efeitos negativos. ficando ineficazes. mas. faz com que a opinião pública se incline no sentido de exigir uma justiça mais severa. Também abarca a maneira como a opinião do público se manifesta sobre o comportamento ilícito. isto é justo. porque afastadas do sentimento coletivo de justiça. poderiam ser conseguidas mediante o prévio conhecimento do sentimento coletivo de justiça. Ao legislador especialmente importa conhecer o sentimento coletivo de justiça. 180] duta e a desaprovação que o consenso ético-social impõe à mesma forma de comportamento. uma vez que nem tudo que é legal é justo. é possível afirmar que o sentimento de justiça varia em suas manifestações. sua adequação ou não ao que é tido como justo. conforme já demonstrado quando falamos dos efeitos negativos da lei. O exame do sentimento de justiça. para que possa elaborar leis justas. sobretudo na Europa. ou a distância entre a desaprovação da norma jurídica acerca da con[p. adequadas aos interesses e conveniências sociais. passado o impacto. A. um escândalo financeiro ou político. Nem sempre fazer justiça consiste na simples aplicação da lei.

O mesmo ocorre com o ICMS. ou ainda sua correta aplicação como instrumento de ordem social. já é comum encontrarmos pessoas que. saúde. diga-se de passagem. Neste ponto. IPI. entretanto. Se for feita uma pesquisa sobre a importância dos tributos e a necessidade de sua arrecadação.. Com efeito. contra os oprimidos de todos os tipos. por exemplo. Outros entendem que ele se presta a manobras que o desvirtuam completamente.[p. A OPINIÃO PÚBLICA SOBRE O DIREITO E SUA UTILIDADE SOCIAL Outro aspecto da opinião pública de interesse sócio-jurídico é aquele que diz respeito à conveniência ou utilidade social do Direito. 181] butos. Por que tem o Direito uma imagem tão distorcida da realidade? Conhecendo as causas que levaram a opinião pública a se formar de modo tão averso ao verdadeiro objetivo do Direito. a fim de se procurar modificar . existem posições conflitantes. uma pesquisa profunda da opinião pública em tomo do assunto por parte do fisco. Crêem os grupos que a justiça é fenômeno dependente. para as normas que estabelecem a obrigação tributária. ninguém gosta e procura esquivar-se. não seria possível eliminar algumas dessas causas e reconquistar a opinião pública? O que acima ficou dito é de fácil demonstração quando atentamos. segurança. pois O Estado normalmente não gera recursos. embora seja o Direito considerado e aceito como forma mais eficaz de controle social em sua organização e aplicação. Todos compreendem que não é possível atender às despesas da administração pública com educação. ISS. Em matéria de Imposto de Renda. sem a arrecadação dos tri. mas em nível interindividual há descrédito subjacente na justiça. apenas os administra em prol da coletividade. ao nosso ver. estradas etc. por exemplo. conforme constatado através de pesquisas realizadas em vários países. Na hora de pagar o tributo. A sociedade global acredita no jurídico como algo indispensável à coesão e à sobrevivência grupal. ver-se-á que a maioria do grupo entende necessário o pagamento dos impostos para a consecução de objetivos sociais. relativo às condições de classe social. e um estudo minucioso das causas. e que isso ocorre com grande freqüência.77. embora normalmente honestas a ponto de não tirarem um centavo de ninguém. gaboleiam-se de terem conseguido escamotear milhões de imposto. Por que essa aversão generalizada ao pagamento dos tributos? Por que essa idéia já arraigada no sentido de não se considerar desonesto fraudar o fisco? Por que essa oposição ou resistência às normas tributárias? Caberia. sofre questionamento da opinião pública quanto à sua eqüidade. Para muitos o Direito não passa de simples meio de se valerem os mais fortes da máquina estatal.

o que em muito prejudicou a arrecadação. É evidente que para a coleta desse lixo é necessária uma estrutura empresarial. Em nossa maneira de ver. como no caso do Imposto de Renda que sabidamente recai mais direta e pesadamente sobre os assalariados por sofrerem o desconto na fonte. quando anos atrás a taxa começou a ser cobrada. A OPINIÃO PÚBLICA SOBRE AS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS Aquilo que o público em geral pensa a respeito das instituições jurídicas é outro aspecto da opinião pública de interesse para a Sociologia Jurídica. pois com base em tal . O fisco deveria engendrar meios de alcançar com suas malhas os de maior capacidade econômica. de pescar também o peixe grande do comércio e da indústria. sendo a taxa exatamente para tal fim. critérios de fixação. eis que o lixo de uma grande cidade tem que ser recolhido diariamente e com eficiência. facilitando a arrecadação. o que sem dúvida facilitaria o trabalho de arrecadação e fiscalização. o que poderia ser evitado mediante um esforço de reconquista da confiança pública. ensejando milhares de ações judiciais.as coisas para o futuro. Talvez o povo não tenha confiança na Administração. não acredite que o dinheiro público esteja sendo honestamente empregado. muito além de sua capacidade. sob pena de se tomar impossível a vida. 182] Contudo. 78. Os inconvenientes de se deixar de contatar e esclarecer a opinião pública acerca de questões tributárias podem ser demonstrados com a chamada taxa do lixo. antes do lançamento da taxa do lixo. o que seria evitado mediante amplo esclarecimento das obras realizadas. [p. a opinião pública fosse esclarecida a respeito de suas causas. houve uma tremenda reação do público. forçando-o a fraudar. gente e material. exigindo do contribuinte excessivo encargo tributário. objetivos. dos serviços executados etc. acredito que ninguém conteste a necessidade de tal taxa. aliviando a sobrecarga dos assalariados. necessidade. Do ponto de vista social. bem como a realização de um serviço organizado e sistemático. Talvez o povo não esteja suficientemente esclarecido sobre o destino dado pela Administração Pública ao dinheiro arrecadado através dos tributos. em que se procurasse dividir de forma mais equânime as obrigações tributárias de modo a não incidirem sempre sobre os mesmos. o que poderia ser evitado mediante a reformulação do sistema tributário. podendo-se arrecadar mais com menos esforço. Talvez as leis tributárias sejam mesmo extorsivas. isso tudo poderia ser evitado se.

o Ministério Público. não confia na justiça. parciais. ou passíveis de corrupção. tem uma imagem negativa de seus operadores. Quando a opinião pública se forma no sentido de considerar uma determinada instituição deficiente. assunto este da maior gravidade e a merecer uma especial atenção. do seu grau de incidência. acredita que só pobre vai para a cadeia. sem credibilidade. não em segredo de justiça como se pretendeu fazer em 77/78. das repercussões sociais que produz a opinião que predomina no que tange à imparcialidade dos órgãos judiciais. O resultado das pesquisas realizadas sobre o funcionamento do sistema judiciário não é nada animador. o sistema carcerário etc. então será necessário fazer-lhe as reformas necessárias.opinião é possível saber se as instituições estão ou não funcionando satisfatoriamente. então é alto tempo de se procurar saber onde estão as causas dessas deficiências e de se realizarem as mudanças necessárias. Se realmente estivermos empenhados em recuperar o Judiciário. e. portanto. de modo a alcançar seus objetivos sociais. 183] . ou confia muito pouco. Há uma boa parcela da opinião pública que entende serem os tribunais ou os juizes influenciáveis pelos poderosos. sob pena de uma desmoralização cada vez maior da instituição. tudo é justiça: a polícia. sob pena de se tomar a instituição totalmente irrecuperável. A população não possui bom conhecimento do sistema jurídico. ou sua vulnerabilidade às influências dos mais bem atendidos na divisão da riqueza social. mas sim com base em ampla pesquisa da opinião pública e mediante ampla contribuição de todos os segmentos sociais relacionados com o mundo jurídico. ineficaz. [p. a Defensoria Pública. Urge igualmente um estudo das causas. sua docilidade diante do poder.

como já afirmamos. nem do chamado “método sociológico”. A observação: nas sociedades contemporâneas do tipo moderno. CONCEITO DE MÉTODO Método é o meio mais racional e eficiente para se atingir um fim desejado. A comparação. recursos. de que dispõe uma ciência para realizar seu objeto. toma-se necessário estabelecer. genérico. 79. no estudo de qualquer ciência é indispensável estabelecer o seu objeto e definir o seu método. pois. O método utilizado pela Sociologia Jurídica.Capítulo XV O MÉTODO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA Conceito de método. desde logo. que não vamos tratar aqui dos métodos que são adotados desde as formações doutrinárias e teóricas da Sociologia. dos processos e técnicas de trabalho empregados pela Sociologia Jurídica na investigação e realização do seu objeto. É o caminho utilizado para a realização de um objetivo. Convém esclarecer. **** Após termos tratado do objeto da Sociologia Jurídica. São os meios. abrangente. devidamente organizados e coordenados. 185] dos meios ou processos dispostos convenientemente para . A interpretação. Para tanto. para não fugirmos aos objetivos deste singelo trabalho. instrumentos e atividades. mas sim. ainda que de forma sucinta. vamos agora dedicar este capítulo ao exame do seu método. nas sociedades contemporâneas do tipo primitivo e nas sociedades desaparecidas. um conceito de método. É o conjunto [p. cujas regras foram enunciadas por Durkheim em celebrado estudo.

para conseguirem realizar os seus objetivos. 80. Vê-se. O MÉTODO UTILIZADO PELA SOCIOLOGIA JURÍDICA Segundo Levy Brühl (Sociologia do Direito. se não forem executados com método. desde a mais simples à mais complexa. Por isso torna-se desnecessária qualquer discussão em torno do uso do termo “método”. e especialmente para chegar a um conhecimento científico. mas não para aprender. As empresas industriais e comerciais dos nossos dias. mas pouco aproveitamento tirará dos estudos. Hoje. ou para comunicá-lo. pois. Os simples serviços domésticos realizados pela donade-casa. que não teria a Sociologia Jurídica condições de realizar os seus objetivos sem desenvolver as suas atividades de forma metódica. Trocando isso tudo em miúdos. levam muito a sério a questão relacionada com organização e métodos. propondo em lugar de “método” a palavra “processo”. basta que se diga ser ele indispensável no desempenho de qualquer atividade que se propõe a alcançar algum objetivo. tomado o termo em seu sentido mais amplo. [p. podemos dizer que método é maneira eficiente de fazer as coisas. 186] . interpretação e comparação. reunião dos meios que se empregam nas ciências para achar a verdade. acabam se revelando deficientes. nas mesmas 24 horas do dia. O estudante que não tem método nos estudos (deixa para estudar somente na hora das provas) nunca será um bom estudante. Estuda para passar de ano. pp. suscitando debates por entenderem não ser próprio o vocábulo para descrever as operações intelectuais realizadas pelo investigador ainda na fase da observação propriamente dita. e outras quase nada conseguem. Quanto à importância da utilização de um método. pode até tirar boas notas. que já fazem parte das matérias estudadas no curso de Administração. não é muito diferente do utilizado nas ciências sociais em geral e pode ser resumido em três operações principais: observação. conseguem fazer tanta coisa. já está generalizado o uso do termo “método” para indicar os processos e as técnicas empregados na investigação social. é modo racional de proceder. como têm feito alguns.alcançar um fim. 97-114). está justamente no fato de as primeiras serem pessoas metódicas. o método utilizado pelo jurista. o método jurídico. A razão pela qual algumas pessoas. pode-se afirmar com segurança.

define o seu objeto. onde os estudiosos do problema criaram uma verdadeira Sociologia Experimental baseada no survey (inquérito). ocorreram no Rio de Janeiro no ano passado. Deve.. Quem primeiro usou esse método cientificamente na Sociologia foi o francês Le Play. pois todos esses atos ficaram devidamente registrados. Há survey para todos os fins: publicidade. Foi criado o Instituto da Opinião Pública. a ponto de não se conseguir dominá-las completamente. Na tarefa de coletar dados importantes para o estudo que se pretende fazer.1. ciência. cinema. como por exemplo o inquérito. literatura. a saber: a) sociedades contemporâneas de tipo moderno. o estatístico etc. A Observação Consiste a observação na coleta de dados ou fatos sociais importantes para o estudo que se está realizando. c) sociedades desaparecidas. registros cartorários etc. separações judiciais. b) sociedades contemporâneas de tipo primitivo. a fim de conhecer a realidade social através de suas manifestações concretas. coleta os dados. Quem se propõe a realizar uma pesquisa. superabundantes mesmo. por meio das quais sabemos como as leis estão sendo aplicadas. As mais importantes fontes nessas sociedades são as escritas. conjectura uma solução provável. fundador da Escola de Ciência Social e do método monográfico. esporte. sujeitando-se a posteriori verificação. adotar uma postura de observador. por exemplo. dentre as quais podemos destacar: a) os textos legislativos ou regulamentares. Em nosso século a técnica do inquérito social foi altamente aper. divórcios etc. e que posteriormente deverão ser examinados. entretanto. pois as fontes de informações são abundantes. como os códigos. Entendê-se por inquérito a pesquisa. como os processos.80. c) os documentos de caráter técnico. Nas sociedades contemporâneas de tipo moderno a observação é bastante fácil. Com base nesses documentos é possível.[p. pode o investigador lançar mão de vários métodos (tomada aqui a palavra em sentido estrito).. ou processo de investigação feito muitas vezes por meio de questionário. Pode a observação ser realizada em diferentes tipos de sociedades. saber quantos casamentos. isenta de qualquer juízo de valor. Consiste em ouvir pessoalmente os indivíduos componentes de determinado grupo que se deseja estudar. classificados e interpretados. leis etc. cuja finalidade é lançar permanentes . b) as coleções de jurisprudência. política etc. 187] feiçoada nos Estados Unidos.

Na formulação dos quesitos é preciso saber perguntar (como perguntar). pois há uma técnica minuciosa a ser aplicada. para que os dados coletados sejam realmente representativos de toda a sociedade ou da fração dela que se está investigando. Assim sendo. dar muita atenção à carga semântica variável de certos vocábulos ou de expressões idiomáticas. por seu turno. definição e delimitação do problema. o que evidencia a importância da pesquisa para a Sociologia Jurídica. é preciso dispor de elementos numéricos exatos. principalmente por falta de confiança nos dados fornecidos pelos órgãos oficiais. é necessário estabelecer com clareza e precisão o seu objetivo (o que perguntar). é indispensável uma formulação preliminar das hipóteses a investigar. Em outras palavras. classificação formal e análise dos fenômenos coletivos ou de massa. pois caso contrário as conclusões finais serão um logro. a fim de evitar perguntas confusas e ensejadoras de respostas dispersivas. entende-se por método estatístico o conjunto de processos que tem por objeto a observação. bem como a indução das leis a que tais fenômenos globalmente obedeçam. A importância da utilização da estatística em questões sociológicas foi muito bem assinalada por Levy Brühl (Sociologia do Direito. que lhe permite chegar aos fatos. conclui-se que um dos principais instrumentos de trabalho a ser utilizado para conhecê-las é a estatística. enumera a freqüência dos fenômenos sociais. É o seu método por excelência. e levantados periodicamente. com a formação. p. afastando perguntas capazes de induzir a resposta ou condicionar .o raciocínio do entrevistado. Ao longo do nosso estudo fizemos referência a dezenas de pesquisas sobre muitos temas. Há mesmo quem afirme ser a estatística o meio oficial de se afirmar inverdades.” O emprego da estatística no campo sócio-jurídico tem sido criticado por alguns autores. aperfeiçoada nesta última década. À quem perguntar é outra questão que deve merecer particular atenção. realizadas por vários institutos e entidades respeitáveis. devendo-se. e outros detalhes. 188] instituição e medi-Ia no tempo e no espaço. para tanto. à realidade social.inquéritos no seio da comunidade a fim de conhecer-lhe a opinião a respeito dos principais problemas do mundo atual e avaliar a evolução dessa opinião. O inquérito é geralmente realizado por uma equipe mais ou menos numerosa de pesquisadores e dirigido por um especialista mais experimentado. 99) ao escrever: “Tendo em vista que as instituições jurídicas são coisas coletivas. pois é o agrupamento metódico dos fatos sociais suscetíveis de avaliação quantitativa. Para apreciar o verdadeiro alcance de uma [p. Antes de iniciar a pesquisa. tão exatos quanto possíveis. para dela extrair as conclusões necessárias ao seu estudo. em face da . A estatística.

Mas não foi ainda coligida e muito menos consultada. testamentos. mas do tipo moderno. mesmo não tendo absoluta confiança nas cifras publicadas e ainda que se apontem erros voluntários ou involuntários que se deixaram escapar. pelo menos de mais relevante. conhecer seus hábitos e costumes. por força de determinados fatores sociais. quem não vê a importância de saber o número e o tipo de crimes que ocorrem nos diferentes meios. pois foram todos registrados. então. não seria difícil e de alto custo o emprego da estatística no mundo jurídico. mediante a presença física do pesquisador.2. posto que contêm grande número de informações não encontradiças em outros lugares. principalmente em questões econômicas. O conhecimento do direito de uma sociedade do tipo primitivo adquire particular importância no momento em que é comparado com o direito [p. porque tudo ou quase tudo que nele se passa. Em tese. conforme já exposto na parte em que tratamos dos fatores sociais da evolução do direito. a observação é feita in locu. reconhecimento de filhos naturais etc. esses dados são preciosos. a economia. a política. à falta de escrita. não haverá outro meio de realizar tal pesquisa a não ser deslocando-se o pesquisador para esse meio para ali ver. caso houvesse um trabalho sério e organizado de coleta dos dados. no plano científico. . assistir às suas festas e cerimônias. 80. separações judiciais. ouvir e observar. por exemplo. contemporânea. ganhar sua confiança. Pode-se.? Tais dados não permitiriam a adoção de uma série de medidas preventivas e repressivas? Sobre estes assuntos e muitos outros fatos jurídicos a documentação existe.. A Observação nas Sociedades Contemporâneas de Tipo Primitivo Nessas sociedades.manipulação muitas vezes feita nos dados que lhe serviram de base. uma medida de grande urgência. fica devidamente registrado. Se o propósito é conhecer. todavia. como a cultura. nas diferentes cidades.. participar de sua vida diária. Quem não reconhece o quanto seria útil saber o número de casamentos. verificar com grande evidência as profundas diferenças existentes entre o direito de uma e de outra sociedade. sendo mesmo na maioria das vezes bastante acessível. a religião etc. onde se verifica a sua maior incidência etc. Terá que se misturar com eles. 189] de uma sociedade da mesma época. divórcios. Entendemos. estados ou regiões do país? Ou então. razão pela qual o incremento da estatística jurídica é. que. a situação da família entre os nossos indígenas.

que segue caminho inverso. 71). Nesse ponto a arqueologia tem contribuído grandemente para um melhor e maior conhecimento do direito de antigas civilizações. isto é. muito embora a aplicação de ambos no campo sociológico seja severamente criticada.3. A Observação nas Sociedades Desaparecidas No que se refere. devendo o intérprete livrar-se das prenoções de que a vida social nos encharca o espírito com relação aos temas da socie. a ponto de constituírem objeto de uma disciplina especial. Nessa tarefa podem-se utilizar vários métodos. Se sobre o social. a etnologia jurídica. que parte do geral para o particular (o que vale para o geral há de valer para o particular). que são as fornecidas por terceiros. antes mesmo de iniciarmos a pesquisa. às sociedades que deixaram de existir. monumentos. pergaminhos porventura existentes. enfatiza Machado Neto (Sociologia Jurídica.[p. 190] dade. Em verdade. consiste no exame e classificação dos fatos sociais coletados. Não tendo . Pode-se ainda lançar mão de informações indiretas. e o indutivo. como o dedutivo. caldeus. o que toma tremendamente penosa a tarefa do pesquisador. A INTERPRETAÇÃO A interpretação que. é a segunda operação do método da Sociologia Jurídica. sobre as coisas nada sabemos antes da pesquisa cuja realização porventura empreendamos realizar. hebreus etc. Possidônio sobre os trácios.. Com que espírito deve o pesquisador interpretar os dados postos à sua disposição? A primeira regra e mais fundamental é considerar os fatos sociais como coisas. Tácito sobre os germanos. já nosso espírito está cheio de noções prévias (prenoções) sobre sua natureza e seu comportamento. como a dos egípcios. Ter-se-á que recorrer aos documentos escritos. a observação está naturalmente circunscrita aos vestígios que essas sociedades deixaram. do particular para o geral. finalmente. Quer isso dizer que os fatos sociais devem ser considerados realidades diversas das idéias. extraindo-se deles as primeiras conclusões. Durkheim recomenda aos sociólogos o abandono desse conhecimento espúrio. como as que nos dá Heródoto sobre os persas. como vimos. através de suas inúmeras descobertas. 81. p. o direito primitivo apresenta traços particularmente interessantes e originais. 80.Além disso.

interessam mais ao jurista os efeitos sociais produzidos pelo escrito do que o sentido original do texto. e maior ao momento em que esse fato ou idéia começa a agir. e sua significação inicial tem tão pouca importância para o jurista quanto os diferentes sentidos que adquiriu no decorrer do tempo.emanado da pesquisa. É uma espécie de ser vivo destinado a produzir seus efeitos dentro de um ambiente em constante evolução. diferença ou relação. o tempo do calendário. pois. por sua vez. como sói acontecer para o historiador. ou seja. como normas de conduta coletivas. Em outros termos. a produzir seus efeitos sociais. o que merece ser tomado em consideração não é o tempo astronômico. tal conhecimento somente pode ter sido fruto de prejulgamentos e prenoções. A noção de autenticidade chega a suscitar-lhe um interesse muito restrito (Sociologia do Direito. Somos levados a dar menor atenção ao aparecimento material de um fato ou idéia. estabelece alguns princípios de interpretação que. libertar o espírito desses prejulgamentos e dessas prenoções. 2) Interessa-lhe. a relação cronológica entre um fato e outro da mesma natureza. 3) Tratando-se de documento escrito. Um texto jurídico é. uma vez que sobre as coisas não podemos ter prejulgamentos ou prenoções. [p. a sua pureza ou o seu teor verídico. que vulgarmente significa examinar simultaneamente duas ou mais coisas para lhes determinar semelhança. 108 e 109). Significa que deixará de lado a priori o que se revelar puramente descritivo. não o momento em que se verificaram materialmente os fatos. A COMPARAÇÃO Chegamos finalmente à última operação do método da Sociologia Jurídica . constantemente de sentido. 191] 82. mas sim o momento em que exercem sua influência. como o fato individual ou o anedótico. Levy Brühl. 106. pp. por sua importância. portanto. algo diferente de uma peça de arquivo. mas sim o tempo social. Muda. Tratar os fatos sociais como coisas é. cuja significação e importância continuam ligadas às circunstâncias que envolveram sua origem.a comparação. Do ponto de vista sociológico o termo não . aos olhos do jurista sociólogo. e que por isso mesmo evolui também incessantemente. merecem ser aqui destacados: 1) O jurista e sociólogo deve dirigir sua atenção exclusivamente para os fatos jurídicos tais como tentamos defini-los.

No plano horizontal ou espacial a comparação é feita entre os resultados obtidos nas observações efetuadas em diferentes sociedades. a fim de se estabelecerem as relações. sul do Brasil. bem como o grau de aperfeiçoamento de instituições análogas de outras sociedades. por exemplo. Foi o que aconteceu com a chamada reforma do Poder Judiciário levada a efeito através da Emenda Constitucional nº 7/77 e da Lei Orgânica da Magistratura. . bem como das normas ou institutos jurídicos existentes . mas em épocas diferentes. tinha que ser precedida de ampla coleta de dados mediante pesquisa da opinião pública. audiência dos órgãos e instituições que atuam na ordem jurídica . como por exemplo no norte. e investigar as causas que os provocaram. portanto. Juízes. Através de tal comparação. ou mesmo entre diferentes países.foge desse sentido. atuaram apenas dois ou três elementos que se julgavam donos da verdade.[p. O que ela tem de bom não é novo e o que ela tem de novo não é bom. temporal ou histórico. e o plano horizontal. o que poderá aumentar a nossa experiência e levar ao aprimoramento das nossas instituições. é possível ter um conhecimento profundo das instituições jurídicas. praticamente no escuro. sua eficiência ou ineficiência. A comparação pode e deve ser feita em dois planos: o plano vertical. motivadas por fatores sociais e atuantes em cada região ou país. É ainda possível verificar. Fizeram a tal reforma sem ouvir ninguém. Assim. para atingir os seus objetivos. leste. é possível notar as diferenças existentes entre as normas do direito dessas sociedades contemporâneas. do Império. No plano vertical ou temporal comparam-se resultados de observações feitas em uma mesma sociedade. e os resultados aí estão. suas funções sociais. mudanças e alterações necessárias. espacial ou geográfico. Somente através do emprego judicioso do método (ou métodos) que acabamos de delinear. as origens de algumas instituições atuais. mas todas contemporâneas. Uma reforma de tal magnitude e necessidade. ou traços em comum entre elas. Mudou para pior. no mais absolu. 192] to sigilo ou segredo de justiça. podemos comparar a situação da família na atualidade com a da época da República.Tribunais Federais. da Colônia. sendo utilizado. para indicar o cotejo ou confronto das conclusões parciais obtidas na fase da interpretação. qualquer mudança ou reforma será feita empiricamente. mediante comparação nos planos vertical e horizontal.conhecimento indispensável para se fazerem as reformas. Estaduais. e certas instituições antigas. semelhanças e diferenças entre elas existentes e chegar-se a outras conclusões. e jamais conseguirá atingir os seus objetivos sociais. se estamos estudando os problemas relacionados com a família brasileira. mais abrangentes e definitivas. Antes disso.

eliminando as causas de suas deficiências. Ordem dos Advogados. Teremos outra reforma casuística. A menos que tais reformas sejam precedidas de um profundo conhecimento das aspirações do povo e da realidade brasileira. Esses dados. quais as deficiências e dificuldades de cada lugar. comparados. mediante pesquisa metódica e científica dessa realidade. através de técnicos especializados. morosidade e emperramento. motivada por interesses políticos e feita empiricamente. nada será mudado para melhor. Ter-se-ia que observar como vem funcionando o Judiciário em cada Estado. o público em geral. deveriam ser examinados. 193] .Ministério Público. em reforma eleitoral e agrária. interpretados. nas capitais e no interior. atualmente. e só então teríamos uma descrição da realidade social do nosso Poder Judiciário. classificados. Fala-se muito. [p. Com base nessa realidade poder-se-ia fazer uma reforma eficiente.

Comportamentos de desvio. em seu famoso estudo sobre a divisão do trabalho social. NOÇÃO DE ANOMIA A palavra tem origem grega. segundo o qual o termo tem sido empregado com três significados diferentes. norma. Tipos de comportamento: conformistas. ritualistas. Depois dele diversos autores têm abordado o conceito com variações quanto ao seu exato entendimento. anomia significa falta de lei ou ausência de norma de conduta. com reduzida vinculação à rigidez da estrutura social ou à natureza de suas normas. Causas do comportamento anômico.[p. ao encerrar este trabalho. privação. Palavras finais. falta. a saber: l) desorganização pessoal do tipo que resulta em um indivíduo desorientado ou fora da lei. Etimologicamente. inexistência. donde a significa ausência. **** Muitos outros temas de relevância para a Sociologia Jurídica poderiam ser ainda abordados. por reputá-lo um tema da maior importância na atualidade e que guarda perfeita adequação com tudo aquilo que ficou exposto nas partes anteriores. O pensamento de Robert K. vamos nos limitar. a tecer algumas considerações sobre anomia. inovacionistas. 195] tedt. caso o nosso programa comportasse. Merton.Capítulo XVI DIREITO E ANOMIA Noção de anomia. e nomos quer dizer lei. conforme assinalado por Robert Biers. Não sendo possível fazê-lo. Foi com esse entendimento que Durkheim usou a palavra pela primeira vez. num esforço para explicar certos fenômenos que ocorrem em sociedade. O pensamento de Émile Durkheim. portanto. de evasão e rebelião. 83. Vem de a + nomos. .

bem elaboradas. Eliminada a causa. o fenômeno haverá de desaparecer. e se as instituições destinadas a manter a ordem jurídica são eficientes. de sorte a não existir desvio. o que resulta em situações sociais que acarretam para o indivíduo dificuldades em seus esforços para se conformar às exigências contraditórias. é. . existindo a respeito várias teorias. Merton. sua origem. entretanto. entre as quais vamos examinar a de Émile Durkheim e a de Robert K. desorganização pessoal. Muitos sociólogos têm se empenhado em encontrar as causas do comportamento anômico. ou ainda. conflito de normas. É. Todos deveriam estar empenhados em manter um comportamento em harmonia com as normas de conduta social. ou seja. pode-se afirmar que anomia indica desvio de comportamento (ou comportamento desviante). eis que em qualquer das variações do significado de anomia está presente a idéia da falta ou do abandono das normas sociais de comportamento. ou pelo menos guarda perfeita correlação com os três primeiros. em princípio não deveria ocorrer comportamento anômico. o agente causador do fenômeno social. Entendemos. em seus casos limítrofes. que sociologicamente a palavra pode ser usada em um quarto sentido. 3) ausência de norma. Assim sendo. pois. como um verdadeiro fenômeno universal. adequadas aos interesses sociais. 84. todavia. Por quê? Se as leis são boas.2) conflito de normas. Pode variar de intensidade . Mas não é o que ocorre. por mais eficientes que sejam as suas normas de conduta e bem estruturadas e aparelhadas as suas instituições jurídicas. é necessário distinguir causa de fator. [p. como anarquia é o contrário de governo. princípio. situação social que. vamos encontrar comportamento de desvio. que pode ocorrer por ausência de lei.em uma sociedade vamos encontrar maior incidência de comportamento anômico que em outra. vamos encontrar em algumas maior incidência de um tipo de desvio mas o fenômeno sempre existirá. coisas diferentes. Por causa entende-se aquilo que determina a existência de uma coisa: a circunstância sem a qual o fenômeno não existe. 196] Antes de mais nada. mas que por muitos são confundidas. e bem estruturadas. não contém normas. que é a síntese. motivo ou razão de ser. o contrário de sociedade. CAUSAS DO COMPORTAMENTO ANÔMICO (OU DE DESVIO) Em qualquer sociedade do mundo. em conseqüência.

que o analfabetismo. 197] Para o eminente sociólogo francês. a miséria.Durkheim. ao lado de um desenvolvimento favorável do . que como já assinalamos foi o primeiro a usar a palavra “anomia” numa tentativa de explicação de certos fenômenos sociais. 90% ou mais da população carcerária é constituída de pessoas provenientes das classes sociais mais humildes. portanto. e não simplesmente com os fatores que são inúmeros. Mas não é causa de criminalidade.A Divisão do Trabalho Social . a partir de um certo ponto. preocupa-se o estudo da anomia com as causas. inclusive de produção e sobrevivência. É tentar secar a árvore daninha arrancando-lhe simplesmente as folhas. o indivíduo. Pode-se dizer. Como já ficou dito. Pode-se dizer. O PENSAMENTO DE DURKHEIM SOBRE A ANOMIA Em seu famoso livro . b) a organização impõe divisão de trabalho ou tarefas. Mas não é certamente a causa de crime. a ignorância.Já o fator. motivando. concorre para o resultado. não mais sentindo a presença dos colaboradores que trabalham a seu lado na mesma obra. 85. [p. o comportamento de desvio. porque. sem cortar-lhe a raiz. precisa organizar-se. É a circunstância que. por via de conseqüências. c) a divisão de tarefas produz especialização. porque há milhões de analfabetos no Brasil que não enveredaram pelos caminhos do crime. desde que a divisão do trabalho social supera um certo grau de desenvolvimento. de qualquer forma. para poder atingir os seus fins. porquanto na mesma população carcerária encontramos 85% de pessoas analfabetas ou portadoras apenas de instrução primária. um enfraquecimento do espírito de solidariedade do grupo global. por exemplo. por sua vez. isola-se em sua atividade especial. debruçado sobre suas tarefas. d) a especialização ocasiona isolamento dentro do grupo. assim desenvolveu seu pensamento: a) a sociedade moderna. é outro fator de criminalidade. porque há um número muito grande de pobres que não delinqüem. que a pobreza. e) o enfraquecimento desse espírito de solidariedade acarreta uma influência dissolvente e. concorre para a sua maior ou menor incidência. mesmo porque de quase nada adianta combater os fatores sem eliminar as causas. igualmente. a idéia dessa obra comum. segundo as estatísticas. perdendo mesmo. embora não dê causa ao fenômeno. é um fator de criminalidade. Durkheim invocou palavras de Comte no sentido de que as separações das funções sociais tendem espontaneamente.

como disse alguém. É preciso. Isso é facilmente constatado nas sociedades superdesenvolvidas dos nossos dias. Já numa grande cidade ninguém sabe de . em visita ou a trabalho. comparando-se a vida do interior com a de uma grande cidade. ao afirmar que divisão significa dispersão. O pensamento durkheimiano. para o indivíduo que é “pau para toda obra”. e isso tomou-se uma necessidade. não deixa de possuir certa razão. embora criticado por alguns.espírito de minúcia. a abafar o espírito de conjunto. saber muito bem fazer determinada coisa. Especialista. em face da vastidão do saber moderno. Nessas sociedades é visível que. tal divisão transforma-se numa fonte de desintegração ao provocar as especializações dos indivíduos. para se poder competir no mercado de trabalho. a certos paí. fazendo-o perder a visão global ou de conjunto da atividade social. Não há mais lugar em nossos dias. espírito de solidariedade etc. da falta de solidariedade e calor humano que lá sentiram. como os sábios da Grécia. À medida que o indivíduo aprofunda os seus conhecimentos. ocorre também um enfraquecimento do sentimento de solidariedade grupal. O indivíduo se isola dentro do grupo. Há várias e diferentes profissões e em cada profissão inúmeras especializações. diminui-Ihes a extensão ou amplitude.[p. todo mundo conhece e sabe de todo mundo. é aquele que sabe cada vez mais de cada vez menos. Pessoas que vão do Brasil. cada vez mais. forçoso é reconhecer. Hoje o saber humano é dividido em várias áreas ou ciências. e em cada ciência há inúmeras especialidades. Com essa perda de visão da obra comum e do seu sentido. uma exigência. que “toca sete instrumentos” etc. e se junta a outros indivíduos de sua especialidade formando grupos menores. Foi-se o tempo em que era possível saber de tudo. 198] ses da Europa ou mesmo aos Estados Unidos. Há calor humano. Numa cidadezinha do interior. profissionalmente falando. como uma contingência social. Todos se preocupam com todos e estão prontos para se auxiliarem mutuamente. limita a visão social do indivíduo. às vezes até com interesses antagônicos aos interesses do grupo global. A especialização. ou pelo menos a entravar seriamente o seu desenvolvimento. O mesmo ocorre com a atividade humana. Até mesmo entre nós isso pode ser constatado. principalmente no que diz respeito às sociedades superdesenvolvidas e por isso mesmo superorganizadas. entretanto. ao lado das inegáveis vantagens que a divisão do trabalho representa como recurso imposto pela própria complexidade crescente da vida social. Citou também Espinas. queixam-se da frieza.

86. Quer isso . portanto. no lazer etc. verifica-se justamente entre os menos especializados ou mesmo sem nenhuma especialização. na escola. O artigo foi posteriormente revisto e aumentado pelo autor. Merton. E o que é pior. Os outros não nos interessam. Somos capazes de morar muitos anos em um mesmo prédio sem saber quem é o condômino do lado ou de cima. assim. não é verdade no que se refere às sociedades subdesenvolvidas. acarretando. Merton. escreveu um artigo famoso de apenas dez páginas. em face da tese de Robert K. que os meios existentes não são suficientes nem estão ao alcance de todos. não nos dizem respeito: uma pessoa ferida num acidente pode ficar horas a fio sem receber socorro. onde se destacou entre outras coisas. sociólogo americano. Ocorre. normalmente das nossas relações de atividade no trabalho. metas sócio-culturais. que são os recursos institucionalizados pela sociedade. a influência dissolvente da personalidade que sofre o operário que passa o dia todo apertando parafusos numa fábrica de automóveis. aos quais aderem normas de comportamento. entretanto. onde se observa que o maior índice de desvio. que teve o mérito de estabelecer os fundamentos de uma teoria geral da anomia. fazemos até questão de não saber quem é. ou pode ser assaltada e massacrada por um marginal aos olhos de uma multidão. por esta razão a tese foi contestada e preterida por muitos. O fenômeno não é novo e já foi até explorado por Charles Chaplin como tema do filme “Tempos Modernos”. De um lado. principalmente no que tange à criminalidade.ninguém. um desequilíbrio entre os meios e as metas. MERTON SOBRE A ANOMIA Em 1938 Robert K. e cada qual corre atrás dos seus próprios interesses. transformando-se em parte da sua obra clássica Teoria e Estrutura Sociais. muito embora dezenas de pessoas passem ao seu lado em seus veículos sem se incomodarem. e de outro. entendendo-se como tais os valores sócio-culturais que norteiam a vida dos indivíduos. Se a tese de Durkheim apresenta muitos pontos verdadeiros no que diz respeito às sociedades superdesenvolvidas. 199] Partindo de uma análise da sociedade americana. Merton sustentou que em toda sociedade existem metas culturais a serem alcançadas. [p. meios socialmente prescritos para atingi-los. Embora morando numa cidade de milhões de habitantes. Para atingir essas metas existem os meios. diária ou semanalmente nos relacionamos com um pequeno grupo. O PENSAMENTO DE ROBERT K. sem que ninguém venha em seu socorro.

o sucesso na vida. e os recursos oferecidos pela sociedade para alcançar aqueles objetivos. muito poucos podem alcançá-la em face da escassez dos meios institucionalizados. poder. É a conduta seguida pela grande maioria das pessoas na sociedade. concentrados nas mãos de pequena parcela da sociedade. inclusive pelos estudantes em geral. 200] acordo com os meios e as metas sociais. Inovacionista é a conduta que está de acordo com as metas sociais. percebendo que os meios são insuficientes e não estão ao seu alcance.dizer que. Em outras palavras. inova. 3) ritualista. popularidade etc. o inovacionista está de acordo . podendo-se dizer a respeito deles que são positivos (+) quanto aos meios e também (+) quanto às metas. prestígio. no empenho de alcançar as metas que lhe foram sugeri das e não dispondo de meios para tal. nisto incluindo fortuna. buscando realizar as metas através de outros meios. Merton ilustra isso tomando como exemplo a meta mais importante da sociedade americana. eis que o indivíduo. qual seja. 5) de rebelião. mesmo que contrários aos interesses sociais. 86. através de estudo regular. Mas quantos realmente têm condições para atingir essa meta? Apesar de erigida em objetivo da vida de todos. 4) de evasão. buscaria outros meios. que buscam adquirir cultura etc. respeitando assim as normas fixadas pela sociedade. mas. Tipos de Comportamento Identificados por Merton Examinando o descompasso existente entre as aspirações culturalmente prescritas e o caminho socialmente estruturado para atingi-Ias. a saber: 1) conformista. Os adeptos desse comportamento estão de [p. Disso resulta um desajustamento. Esse desequilíbrio entre meios e metas ocasionaria o comportamento de desvio individual (ou em grupo).1. enquanto todos são insistentemente estimulados a alcançar as metas sociais. um descompasso entre os fins sugeridos a todos e insistentemente estimulados. Merton classificou os comportamentos socialmente relevantes em cinco tipos diferentes. na realidade apenas alguns poucos conseguem por terem ao seu dispor os meios institucionalizados. 2) inovacionista. Conformista é a conduta que busca atingir as metas sociais através dos meios institucionalizados.

imutáveis. nada mudou por lá nem se registrou nenhum progresso funcional em sua vida. o ritualista abdica das metas. ele começou a girar mais rápido e cada vez mais rápido. pois as metas perdem a sua importância passando os meios para o primeiro plano. o acendedor de lampião explicou: antigamente o meu mundo girava bem devagar. há mais de duzentos quilômetros por hora.com as metas sociais. 201] Essa é a perfeita imagem do ritualista. Pode-se representar o ritualista como sendo positivo (+) quanto aos meios. Abandona as metas. continua a aplicá-las ou a observá-las como se nada houvesse mudado na sociedade.. entretanto. nunca havendo se atrasado ou faltado ao serviço. embora se encontre esta numa outra era. Quem já leu o Pequeno Príncipe. Percebendo que as metas sociais são mui elevadas e os meios existentes insuficientes para atingi-Ios. fazendo delas fins. e se apega às normas como se fossem sagradas. Há aqui uma verdadeira inversão de valores. E ainda que já estejam elas velhas. mas. ultrapassadas. Os inovacionistas adotam a filosofia de que os fins justificam os meios. perde de vista os fins. E enquanto falava ia acendendo e apagando o lampião. . mal o lampião era aceso. acendendo e apagando o lampião e dizendo “boa noite” e “bom dia”. Comportamento de evasão é aquele que se caracteriza pelo fato de abandonar as metas e os meios sociais. ainda que não sejam socialmente aprovados. os valores sociais. arcaicas. de forma que eu acendia o lampião ao anoitecer e o apagava ao amanhecer. destituídas de qualquer valor ou utilidade social. mas continuo a cumprir a minha tarefa. sendo positivo (+) quanto a elas. apegando-se aos meios com tal importância que os transforma em fins. É o caso de certas pessoas que se gabam de terem servido 30 ou mais anos na mesma repartição. Quando perguntado pela razão dessa sua conduta. mas está contra os meios. por outro lado.. de modo que hoje. tenho que apagá-lo porque amanheceu. E nessa rotina passava ele o tempo todo. voltava a ser apagado. negativo (-) neste ponto. momento em que o acendedor dizia “boa noite”. mal eu acendo o lampião ao anoitecer. Procuram vencer na vida sem fazer força. repetindo sempre “boa noite” e “bom dia”. É negativo (-) quanto às metas e negativo (-) quanto aos meios. sendo. pois. recorda-se por certo do acendedor de lampião encontrado em um daqueles pequenos mundos que percorreu: causou estranheza ao nosso personagem o fato de que. quando era dito “bom dia”. mas negativo (-) quanto às metas. Depois. ainda que já estejam totalmente vazias de sentido. [p. os objetivos. porque encontram nelas uma forma de realização pessoal. significado ou interesse social. Ritualista é aquele que se conduz de forma justamente inversa ao inovacionista. As normas de comportamento social são cumpridas pelos ritualistas a todo preço e em qualquer circunstância.

razão pela qual ao mesmo tempo que é negativo (-) quanto aos meios e metas. o conformista. Objetiva. a seguir. não é de desvio. mais simples e ao alcance de todos. vivem no meio social mas a ele não aderem. porém. Faremos. é a derrubada dos meios e metas existentes. o comportamento de rebelião também está contra as metas e os meios sociais. ou dele retiram a adesão antes dada. . os adeptos desse comportamento estão na sociedade mas não são dela. O propósito do comportamento de rebelião. que consideram todos os valores sociais irrelevantes ou incapazes de realizar o bemestar humano. Comportamentos de Desvio O primeiro comportamento. e o estabelecimento de novas metas. é também positivo (+). podendo ser caracterizado como sendo negativo (-) quanto aos meios e negativo (-) quanto às metas. 202] metas (+) (+) (-) (-) (-) (+) 86. Ao mesmo tempo que se opõe às metas e aos meios sociais por julgá-las excessivamente elevados e insuficientes. em especial nos grupos familiar e profissional. renunciando a tudo o que ela oferece ou determina. usando os próprios símbolos de positivo (+) e negativo (-) utilizados por Merton. Exemplo típico desse comportamento é o dos hippies. uma nova estrutura social. uma vez que os seus adeptos buscam as metas culturalmente prescritas através dos meios institucionalizados para atingi-los e com respeito habitual às normas para isso fixadas pela sociedade. Tipos de comportamento 1) conformista 2) inovacionista 3) ritualista 4) de evasão 5) de rebelião meios (+) (-) (+) (-) (-) (+) [p. propõe o estabelecimento de novas metas com a institucionalização de novos meios. É o tipo modal de comportamento. Tal como na evasão.Percebendo que as metas sociais são muito elevadas e os meios escassos. portanto. Como acentuou Merton. foge da sociedade. em síntese. graças ao intenso condicionamento social exercido sobre o indivíduo. mais abundantes e melhor distribuídos na sociedade. aí a inconformidade do comportamento de rebelião.2. o quadro de classificação dos tipos de comportamento atrás descritos. bem como de novos meios. Não pára.

mantendo velhas e arcaicas instituições ou disposições legislativas já sem nenhuma adequação às novas realidades sociais. p. despidos daquela motivação. considerados todos irrelevantes ou incapazes de realizar o bem-estar humano. então. substituindo-os por outros de maneira total e revolucionária. é assim a conduta observada. não se limita a aperfeiçoar instrumentos ou instituições. Como bem observou Miranda Rosa (Sociologia do Direito. porque ajustado aos tipos de conduta socialmente recomendados ou aprovados. 203] sa alguma. quanto às metas culturais. quer substituição total de todos os instrumentos e instituições com o fim de realizar uma mudança . No comportamento de evasão também há desvio.Já os outros quatro tipos de comportamentos são não-modais. pretende a derrubada de todos os meios e metas sociais. Cumprir de qualquer maneira os regulamentos ou as ordens recebidas. Enfim. ocorre no caso inconformismo quanto à manutenção dos alvos socialmente prescritos. do desencanto e desestímulo decorrentes do desajuste entre os processos socialmente aprovados para alcançar as metas culturais. os fins sociais perdem a sua importância. contrários de algum modo aos padrões de metas culturais e de meios institucionalizados para atingi-los: portanto. 105). do medo do insucesso. posto que. um valor em si mesmo. por julgá-los inatingíveis. não merecem observância. que se recusam a fazer mudanças ou reformas sociais necessárias. O ritualismo toma-se grandemente prejudicial à sociedade quando se trata do comportamento adotado pelos homens públicos do país (administradores. legisladores etc. Embora na aparência seja esse um comportamento conformista.[p. como vimos. comportamentos de desvio. Prevalece. e quanto aos comportamentos sociais aprovados. com a recusa de conformidade aos comportamentos socialmente estabelecidos. O ritualista se caracteriza como comportamento de desvio por apresentar abandono das metas sociais e inversão de valores quanto aos meios que são elevados ao primeiro plano.). O comportamento de rebelião é o mais extremado de todos. O indivíduo abandona e virtualmente rejeita os alvos estabelecidos pela sociedade em razão do fracasso efetivo ou em potencial. sem indagar da sua adequação àqueles valores e àquelas metas. a conduta ritualista passa a ser. a atitude de que elas não valem a pena de coi. porque ocorre a rejeição das metas culturais e dos valores que as sustentam. Os adeptos desse tipo de comportamento são um peso-morto na sociedade. pois o cumprimento dos ritos estabelecidos pelos processos institucionalizantes adquire a dimensão e a importância de valor sócio-cultural.

204] 87. Graças a esse espírito inovador temos hoje a luz elétrica. O desequilíbrio entre metas e meios sociais. PALAVRAS FINAIS Nenhuma teoria. Assim foi na França. razão pela qual deixamos a sua análise para o final. assim foi em Cuba. Sem dúvida alguma. cria. assim. núcleo da teoria de Merton. o inovacionista é o comportamento de desvio de maior freqüência na sociedade. Dessa maneira a conduta divergente quanto aos meios toma-se no pensamento mertoniano uma reação normal a uma situação social definida e determinada. a inobservância das regras de conduta social etc. Há. que deve ser ressaltado. [p. e atingir os alvos culturalmente estipulados por todo o sistema. como bem observou Merton. os instrumentos prescritos ou admitidos para atingi-las.completa na sociedade. As normas são abandonadas ou contornadas. e assim continua sendo em nossos dias. o motor à explosão e milhões de outras invenções que tantos benefícios trouxeram à sociedade e nos permitiram chegar ao estágio atual de desenvolvimento científico. num esforço do indivíduo para superar os obstáculos institucionais ou instrumentais. assim. entretanto. permitindo-nos. bem como as faltas disciplinares. é sem dúvida a causa remota da anomia que. com os movimentos dos sem terra. . com a mesma generalidade com que estabelece as metas. um aspecto positivo no comportamento inovacionista. sem teto e outros. esgota o tema da anomia. que acaba provocando comportamentos anômicos de diferentes gravidades. Nesse desvio de comportamento estão retratadas todas as formas de delinqüência. assim foi na Rússia. em menor escala. quando o desequilíbrio entre os meios e metas se toma muito grande e insustentável. porque ela tem causas múltiplas. Normalmente se manifesta nos momentos de grandes crises sociais. condições específicas para estimular o abandono ou a burla das normas socialmente fixadas para se atingir as metas culturalmente estabelecidas. verdadeira bola de neve social. em nosso entender. a própria sociedade concorre para isso ao deixar de proporcionar. desde a juvenil até a mais grave criminalidade. De certa forma. Referimo-nos àqueles casos de inovações que visam criar novos meios. por sua vez. Isso evidencia que nem todo comportamento inovacionista é necessariamente contrário à ética existente no grupo social. promove uma reação em cadeia. mais eficientes para a realização dos objetivos sociais. fazer distinção entre conduta inovadora-criadora e conduta inovadora anti-social.

mudaram-se os paradigmas.6 milhões de jovens de 15 a 24 anos que vivem no Estado do Rio.2002). 205] comportamento anômico. como vimos quando tratamos da violência urbana (item 53). aos poucos inverteram-se os valores. Em busca de melhores condições de vida. estima-se que 1. porque a oportunidade de ascensão social (meios e metas) está condicionada à educação. siglas de facções e armas. cerca de 12% da população do estado (O Globo. Sem o diploma do ensino básico. Essa é a realidade social. constatou que as favelas estão presentes em 48 dos 92 municípios fluminenses.6 milhões de fluminenses vivem em favelas. os líderes comunitários foram obrigados a obedecer ao poder paralelo para não serem mortos ou terem que se mudar. . significa que ele está à margem da sociedade. o que equivale a 52% deles. E além disso. São viciados. na educação e assim por diante. 19. vivem brincando de polícia e ladrão. em boa parte (40%) nas capitais e suas periferias. seduzidos pelo tráfico. crise de transporte.07. perderam-se as referências. cerca de 700 mil (um quarto) abandonaram a escola antes de concluir o ensino fundamental.181) e a média de quatro pessoas por habitação. feita em 2001 e concluída em novembro de 2003. Dos 2. Pior que tudo. Os ícones desses adolescentes são marcas famosas. forma mais grave de [p. o número de moradias em favelas cresceu 35%. o jovem está fora do mercado formal. segundo dados do Censo 2000 do IBGE (O Globo. cerca de 91% da população brasileira vive em cidades. Esse processo de urbanização aconteceu de forma desordenada e acelerada. 28.1% dos domicílios são semi-adequados ou inadequados. de 1999. O poder paralelo que assim se instaurou passou a impor as suas próprias regras. crise na saúde. o Estado. agressivos. em especial as metrópoles. principalmente saneamento: 54. praticamente em quatro décadas. As cidades. O déficit habitacional no Brasil passa de seis milhões de moradias.01. Isto não quer dizer que ele vai virar bandido. Considerando-se o número de domicílios cadastrados em favelas no Estado do Rio (424. gerando dúvidas na população quanto às normas a serem observadas (conflito de normas).Vejamos como isso ocorre. A renda média de chefes de família em favelas é cinco vezes menor que no asfalto. Pesquisa de Informações Básicas Municipais do IBGE. E o que isso gera? Crise habitacional. como demonstrou o Censo de 2000. vivem a ilusão de poder. permitindo o surgimento do crime organizado. armados. e o resultado foi a favelização de áreas urbanas.2004). há enormes carências de infra-estrutura. não conseguiu se fazer presente nas áreas urbanas favelizadas. crise de desemprego. Em relação à pesquisa anterior. Os jovens. não se prepararam para receber tamanha massa humana.

Com o tempo revelar-se-ão paliativas. a não ser aquela de promover uma total reorganização. não existe solução única e milagrosa. para que os moradores tenham medo de denunciá-los. determinação política das autoridades são. orientar o planejamento familiar. pois o desequilíbrio se torna tão grande que não se depara a socie. A questão tem que ser enfrentada com medidas a curto. A. Atuação mais firme e organizada da polícia. É preciso cortar o mal pela raiz. por isso. eliminar a exclusão social. três mil pessoas. A inovação deve ser. esquartejamento e incineração de corpos fazem parte do terror que esses traficantes impõem nas favelas. pelo menos 10%. O delegado Carlos Henrique Machado. de Miranda Rosa. e não apenas arrancar as suas folhas. nas leis. na ordem econômica para melhorar a distribuição de rendas. então. que têm nas mãos o destino da sociedade. afirma que atualmente a prática nos morros é a intimidação: tortura. constatou que o número de jovens (menores de 18 anos) que trabalham para o tráfico pode chegar a sete mil. reduzir as desigualdades. ou seja. Quando isso não é feito.[p. ao alcance da maioria. recomendamos a leitura do Capítulo XI da notável Sociologia do Direito do Professor F. assim.Levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social (IBISIS). da Delegacia de Homicídios. diminuir o desequilíbrio entre metas e meios sociais. na distribuição da riqueza. aprimorar a educação. dentre outras. KatMartins . enfim. Mas não resolverão o problema. reeditada sucessivas vezes pela Editora Zahar. É preciso promover as mudanças sociais necessárias nas instituições. médio e longo prazo. obra pioneira no Brasil. nas instituições. e. Numa favela de 30 mil pessoas. a reconquista dos espaços perdidos pelo Estado. Se essa é a realidade social. mais cedo ou mais tarde acaba vindo a rebelião. medidas imediatas a serem tomadas. vivem do comércio de droga. Devem eles possuir um espírito inovador (e não ritualista) para realizar as reformas sociais necessárias nas leis. uma das principais qualidades dos homens públicos. estabelecendo novas metas e institucionalizando novos meios. 206] dade com outra solução. tornar as metas mais acessíveis e os meios melhor distribuídos. o que fazer para modificá-la? A toda evidência. Para maior profundidade do tema. promover ações afirmativas.

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