PROGRAMA DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

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SERGIO CAVALIERI FILHO Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Professor da Universidade Estácio de Sá.

PROGRAMA DE SOCIOLOGIA JURÍDICA
11ª edição revista e atualizada

Rio de Janeiro 2007

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.................................................................................................. IX Capítulo I ................Direito e Anomia ..................................Importância do Estudo das Ciências Sociais e da Sociologia Jurídica em Especial .......................................................... 97 Capítulo XI ......................................................Fontes do Direito ................................... 127 Capítulo XII .........................................................Função Social do Direito ...............A Opinião Pública ........................................................................................................................................................................................ 149 Capítulo XIII ...............Razões Sociais das Garantias Constitucionais dos Magistrados ................SUMÁRIO Abreviaturas e Siglas Usadas ...........................................Aspectos Sócio-Jurídicos de Algumas Áreas do Sistema Jurídico Brasileiro ........................................................... 75 Capítulo IX ...................................... 11 Capítulo III ........................................................................ 57 Capítulo VII ........................ 211 Índice Sistemático ..........................Eficácia das Normas Jurídicas e seus Efeitos Sociais .............. 81 Capítulo X ....................................Fatores da Evolução do Direito ................ 1 Capítulo II ............................ 41 Capítulo VI ................................ 195 Bibliografia ..................Sistemas de Escolha dos Magistrados..........................................................................................................A Autonomia da Sociologia Jurídica como Ciência e suas Relações com Outras Ciências Sociais ..................................Conceito Sociológico do Direito ............................ 31 Capítulo V .....................................Gênese do Direito............................................................O Método da Sociologia Jurídica ..................................... 163 Capítulo XIV ........................................VII Apresentação ............................................ 175 Capítulo XV ....................................................Instrumentos Humanos de Realização da Ordem Jurídica ................................. 217 ................................................................................................................................. 69 Capítulo VIII ..........................Objeto da Sociologia Jurídica .............. 209 Índice Alfabético-Remissivo .............. 23 Capítulo IV .............................................................................................................. 185 Capítulo XVI .....................................

-Lei ed. ONU p. Rev. CDC CUT DAS DASP Dec. STF STM TRE TRT TSE artigo Código de Defesa do Consumidor Central Única dos Trabalhadores Divisão Anti-Seqüestro Departamento de Administração do Serviço Público Decreto Decreto-Lei edição Editora Escola de Magistratura do Rio de Janeiro Estados Unidos da América “International Center of Economic Penal Studies” Imposto sobre a Circulação de Mercadorias Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social Instituto Nacional de Previdência Social Imposto sobre Produtos Industrializados Instituto sobre Serviços Ordem dos Advogados do Brasil obra citada Organização das Nações Unidas página Pernambuco Professor Revista Supremo Tribunal Federal Superior Tribunal Militar Tribunal Regional Eleitoral Tribunais Regionais do Trabalho Tribunal Superior Eleitoral .ABREVIATURAS E SIGLAS USADAS art. Dec. Ed. cit. PE Prof. EMERJ EUA ICEPS ICM INAMPS INPS IPI ISS OAB ob.

entretanto. Era preciso atualizar este trabalho. tanto é assim que há norma expressa determinando ao juiz atender. “muita água correu debaixo das pontes do direito e inúmeros diplomas foram produzidos nas oficinas legislativas”.APRESENTAÇÃO Este trabalho foi escrito no início da década de 1980. norma e valor indissociavelmente. estando agora em sua 11ª edição. o que procurei fazer agora sob o novo título . valendo-me da feliz imagem de Antunes Varella. não obstante despretensiosa.Programa de Sociologia Jurídica. estará recompensado o esforço da sua revisão. ardorosamente defendida por Kelsen. já sofreu várias mudanças. o extraordinário Código de Defesa do Consumidor e o novo Código Civil. Talvez tenha alcançado a sua finalidade porquanto a obra. não mudou: continua sendo uma tentativa de transmitir aos estudantes uma visão sociológica do direito. De lá para cá. A idéia de que o direito é norma. na aplicação da lei. no exame diuturno da norma.no propósito de facilitar o estudo dessa cadeira integrante do currículo do Curso de Direito da Universidade Estácio de Sá. por sua vez. . nada mais do que a norma. O Jurídico se compõe de fato. Se de alguma forma este trabalho continuar contribuindo para a melhor preparação dos nossos operadores do direito. não estarão aptos a aplicá-lo de forma a realizar a sua função social. O seu objetivo. já que. perdese muitas vezes o sentido de sua finalidade social. inclusive uma nova Constituição que. há muito está ultrapassada. sob o título . todavia. foi várias vezes reeditada. aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum.Você Conhece Sociologia Jurídica? . de sorte que se os operadores do direito não tiverem essa visão tridimensional do direito.

a palavra direito indica o direito subjetivo de cada pessoa (física ou jurídica). Essas normas são de direito objetivo porque vivem e sobrevivem fora e independentes das pessoas. Costuma-se dizer que o Direito Objetivo é a norma de agir (norma agendi) e o direito subjetivo é a faculdade de agir (facultas agendi).Capítulo I GÊNESE DO DIREITO Escola Jusnaturalista ou do Direito Natural: a origem do jusnaturalismo. à saúde e assim por diante. regulamentos. 1] exigir uma atuação alheia. como o direito à vida. quando alguém diz que tem o direito a isso ou àquilo. a que conferem faculdades de agir. à liberdade. para que depois possamos compreender a sua razão de ser e a função que desempenha na sociedade. Escola Teológica: origem da Escola Teológica. à propriedade.) destinado a organizar a sociedade e disciplinar a conduta humana na convivência social. No segundo. ou seja. civis. à educação. porém. de fazer ou não fazer alguma coisa. Escola Sociológica do Direito: origem e concepção sociológica do direito. Antes. costumes) que preside à nossa vida em sociedade. Escola Marxista: origem e concepção do direito. estabelecer a sua fonte ou origem. É uma situação . por exemplo. Fala-se em direito para indicar o conjunto sistemático de normas (constitucionais. Escola Racionalista ou Contratual: a concepção do direito do ponto de vista racionalista. também chamado de Direito Positivo. Escola Histórica do Direito. penais. No primeiro caso temos o Direito Objetivo. administrativas etc. Essa faculdade corresponde a espaços de liberdade ou a poderes para atuar ou [p. é preciso dizer de que direito vamos tratar já que a palavra direito pode ser utilizada com significados diferentes. **** Nossa primeira tarefa consiste em conhecer a gênese do Direito. o conjunto de regras (leis. Mas também encontramos a palavra direito ligada ao direito de cada pessoa.

teólogos. Em nosso estudo vamos tratar do Direito Objetivo. Por essas razões entendemos necessário.1. . de modo a não permitir um entendimento uniforme até o Juízo Final. cuja origem estaria na Divindade. quando da criação. 1. Seria como um sopro ético com que a Divindade bafejou a sua criação. As principais características do direito natural seriam. antes de apresentarmos o enfoque da sociologia jurídica sobre a origem do Direito. a fim de traçar-lhe o caminho a seguir e ditar-lhe a conduta a ser mantida. eternos e imutáveis. ao trazer à existência a criatura. portanto. uniformes. ESCOLA JUSNATURALISTA OU DO DIREITO NATURAL Para os jusnaturalistas. Aristóteles. permanentes. Origem do Jusnaturalismo A concepção do direito natural surge com os filósofos gregos . A palavra Direito é normalmente escrita com letra maiúscula quando se refere ao Direito Objetivo. e com minúscula quando indica o direito subjetivo. imutáveis. filósofos. Sócrates. e base de todas as leis. De . como teremos oportunidade de assinalar.. plena e específica. 1. o mais entusiasta intérprete da filosofia grega entre os romanos. das regras que organizam a sociedade e disciplinam o comportamento social. que a expôs eloqüentemente em sua obra. vale dizer. a estabilidade e a imutabilidade. sociólogos etc. Platão etc.Heráclito. bom ou mau. fazer um sucinto apanhado sobre as várias teorias ou escolas existentes. que constituiriam o direito natural. eternos. Em suma. o direito é um conjunto de idéias ou princípios superiores. outorgados ao homem pela divindade. o criador teria inculcado em sua consciência um conjunto de princípios superiores. já que se trata de princípios imanentes ao próprio cosmos. ponto de referência para se saber o que é justo ou injusto.jurídica subjetiva de vantagem a que o direito objetivo confere proteção direta. esquecendo-se que pode ser ele enfocado através de pelo menos três aspectos diferentes. Como nasce o Direito? Em tomo dessa questão existiu e ainda existe a mais acirrada controvérsia entre juristas.e foi adotada em Roma por Cícero. A razão principal dessa controvérsia está no fato de cada qual procurar ver e conceituar o Direito pelo ângulo de visão de sua ciência. até chegarmos àquela que mais se ajusta ao conteúdo da nossa matéria.

Hamurabi. no entanto. que foram os intermediários entre a Divindade e o povo no que diz respeito ao recebimento das primeiras leis. e entregue a Moisés. foi escrito pelo próprio dedo de Jeová. Não é preciso procurar um Élio Sexto para comentar ou interpretar.1.. não é diferente hoje nem será amanhã.. mas sim. ESCOLA TEOLÓGICA A Escola Teológica em muito se assemelha à Jusnaturalista. 2.. mas sim diretamente. difusa em todos. ela será para todas as nações e para todos os tempos. em duas tábuas de pedra. Em quase todos os povos antigos encontramos líderes político-religiosos. ordenando-o. hoje.República: “Existe uma lei verdadei. a origem do direito não estaria ligada apenas indiretamente à Divindade. constante. se não ordena nem proíbe em vão aos bons. pois também concebe o direito como um conjunto de princípios eternos.[p. por isso que coloca em destaque a origem divina do direito e o seu caráter permanente e imutável. que. de origem quase legendária. amanhã. a saber: o direito divino. Sólon etc. No seu entender.. eterna. e que desvia do mal. Manu. lei única e eterna e imutável. 2. A concepção do direito se explana dentro do sistema filosófico de São Tomás de Aquino. ela não é diferente em Roma ou em Atenas. a própria Divindade teria se empenhado em elaborar as primeiras leis. mas escritas e outorgadas por Ele. já que as primeiras leis não teriam sido simplesmente inspiradas por Deus. que apela para o que devemos fazer. para o qual existiriam três categorias de direito. entregando-as ao homem para serem observadas. em todas as nações e para todos os tempos. semideuses. “ Esse trecho de Cícero sintetiza com precisão a concepção jusnaturalista. ontem. que ela proíbe. Em suma. sobre o Monte Sinai. segundo a narração bíblica. como Moisés. não muda por suas ordens nem por suas proibições os maus. permanentes e imutáveis. como por exemplo o decálogo que.. Origem da Escola Teológica A Escola Teológica coexistiu com a Jusnaturalista durante toda a antigüidade.. reta razão. conforme a natureza. entretanto. 2] ra. baseado nas Escrituras e nas . o estudo do direito voltou a ser abrangido pela religião e continuou a ser considerado manifestação da vontade divina. Com o aparecimento do Cristianismo.. É de instituição divina que não se possa propor ab-rogar essa lei e que não seja permitido derrogá-la.

Reunindo esses três tipos (lei divina. 3. 4] . São Tomás de Aquino tratou de explicar que a primeira.1. em conseqüência. ou órbitas jurídicas. 3] Concílios. publicada pela primeira vez em 1625). e o direito humano. O Direito positivo. os homens tiveram a idéia de viver juntos. alcançaria mudar. neste ponto. culminando com Jean Jacques Rousseau. como foi ilustrado por Daniel De Föe na conhecida história de Robinson Crusoé. Para sair do isolamento. O caráter permanente e imutável do direito decorreria do fato de ser a natureza racional do homem igual por toda a parte. autores de obras notáveis. a começar por H. do jusnaturalismo. A Concepção do Direito do Ponto de Vista Racionalista Para os racionalistas. lei natural e lei humana). No início o homem teria sido isolado. não mais seria a divindade. por provir de Deus. e a terceira. que em quase nada se diferencia do direito natural apregoado pelos gregos e romanos. a mais importante figura do liberalismo dessa época. não se distinguindo. autor da conhecida obra Contrato Social. é produto dos homens. seguido por Thomas Hobbes (autor de o Leviathan). Thomasius. John Locke. duas são as categorias de direito. o direito natural. por sua vez. Montesquieu (Espírito das Leis). em todos os tempos. Grotius (De Iure Belli ac Pacis. 3. por cujo intermédio aplicam-se os princípios da lei natural. o célebre “contrato social” que serve de título a um dos livros mais famosos de Rousseau. continuaria sendo um conjunto de princípios permanentes.imutável diante de qualquer vontade divina ou humana. A origem desse direito. divino ou terreno. decorreria do pacto social a que o homem fora levado a celebrar para viver em coletividade. As relações dos homens em sociedade seriam disciplinadas pelas regras do direito positivo. ESCOLA RACIONALISTA OU CONTRATUAL Na Escola Racionalista ou Contratual agrupamos vários filósofos. fundando a sociedade através de um pacto. [p. e da qual decorreriam princípios que. estáveis e imutáveis. nenhum poder.decisões dos Papas e de [p. entretanto. embora tenha como conteúdo a lei natural. Quanto ao direito natural. só existe no espírito divino. mas sim a natureza racional do homem . a saber: a do direito natural e a do Direito positivo. a segunda é existente entre os homens por intuição. Puffendorf.

ou era resultado de um acordo entre os homens. 4. essa escola rebelou-se contra a existência de um direito natural. Equivale isso a dizer que o Direito positivo deve respeitar os princípios fundamentais do direito natural por lhe serem superiores. Embora se tenha pensado que a linguagem fora criada por Deus. superior. como se vê. mas sim da consciência coletiva dos povos (Volks geist).de Deus para a própria razão do homem. impõe-se a imediata reformulação do Direito positivo a fim de ajustá-lo aos imutáveis princípios do direito natural. deslocou pela primeira vez a sua fonte . por força das necessidades e usos do povo. Também o Direito se constituíra naturalmente. A escola inicia as suas atividades em pleno apogeu do neo-humanismo. Em vez de indagar o que deveria ser o direito. não da divindade ou da razão. a filosofia demonstrava que sua gênese. permanente e imutável. ao passo que em outras o número de palavras é ainda reduzido por causa da estagnação da vida social. 5] .Entre o direito natural. visto que o primeiro é anterior. no final do século XVIII e começo do século XIX. haveria entretanto uma íntima e estreita relação. Esta escola. sujeito a transformações progressivas. decorrente. quando o direito era considerado pura criação da razão humana. o Direito era um produto histórico. formado gradativa e paulatinamente pelas tradições e costumes. aquele conjunto de princípios imutáveis decorrente da razão. a sombra e a realidade. Pela primeira vez. ao admitir que o direito natural tem origem na natureza racional do homem. este último considerado o seu fundador. Para ela. não podendo deles se afastar sem se tomar injusto e iníquo. Inúmeros vocábulos surgem em uma língua à medida que vão se tornando mais complexas as relações sociais. e serve de fundamento para o segundo. e o Direito positivo. A formação do Direito seria tão natural e espontânea como a origem da linguagem. decorrente das necessidades e usos do povo. [p. passou a pesquisar como se formava nas sociedades. o processo de sua formação foi gradativo e paulatino. ESCOLA HISTÓRICA DO DIREITO A Escola Histórica do Direito surgiu na Alemanha. tendo como principais protagonistas Gustavo Hugo e Frederico Charles de Savigny. tal como há entre o espírito e o corpo. Em ocorrendo tal afastamento. como a linguagem.

que incide sobre diferentes pessoas. Seduzido pelos ensinamentos de Hegel. cada povo em cada época teria o seu próprio direito. expressão natural de sua evolução histórica. aplicando uma regra a uma situação preexistente.1. entendia Savigny que. foi neles que se inspirou para formar suas idéias sobre o direito. “é conquista definitiva da Escola Histórica a noção do caráter social dos fenômenos jurídicos. fez seus estudos na Faculdade de Direito de Berlim.política. de seus usos. com uma fonte emanadora do preceito jurídico e um órgão capaz de impor o cumprimento de suas prescrições. regra essa única. nem pela razão. mas sim pela consciência nacional do povo. acima de tudo. mais economistas do que juristas. 5. nem revelado por Deus. Isso significa que o Direito apenas sanciona uma relação já existente. as relações econômicas que predominam em uma sociedade em certo momento histórico. pelo que se esforçou em demonstrar que o direito era um produto histórico. Fixa o Direito. o Direito pressupõe o Estado. Marx. 5. instrumento ideológico de dominação da burguesia sobre o proletariado. Origem e Concepção do Direito Para a teoria marxista. nem estabelecido arbitrariamente pela vontade dos homens. A grande preocupação da Escola Histórica. ainda que sejam em tudo desiguais. sujeito a permanente e natural evolução. A escola mostrou que os fundamentos do direito se encontram na vida social. com seus dois elementos essenciais: continuidade e transformação. Como assinala Hermes Lima (Introdução à Ciência do Direito.Karl Marx e Friedrich Engels . ESCOLA MARXISTA A teoria marxista surgiu em meados do século XIX. p. que também une intimamente o Direito ao Estado. sendo igualmente filósofo. entretanto. costumes e tradições de todas as épocas passadas. em vez de um direito geral e universal.dois grandes reformadores sociais. como se vê. [p. razão pela qual Marx o considerava a expressão do interesse da classe dominante.Seguindo essa linha de raciocínio. jurídica e economicamente organizada. com a diferença essencial de que o Estado para ele é uma instituição . Eram esses fundamentos que as teorias precedentes iam buscar na razão”. Surge somente quando há uma sociedade . foi afastar a concepção do direito natural. 276). enunciada por dois pensadores alemães . 6] Essa concepção do Direito deve muito a Regel.

por mais homogênea que tenha sido.eminentemente respeitável. desde que apareça a sociedade. mas. o Estado é instrumento de pressão. que constitua o cerne essencial e perene do direito. nem na razão ou na consciência coletiva. pôde viver sem normas de conduta. afirmar que todo Direito emana do Estado. Na síntese da teoria marxista. ESCOLA SOCIOLÓGICA DO DIREITO A Sociologia e o Direito durante muito tempo ignoraram-se mutuamente. 7] 6. em grande parte sentimental. Se aqui ou acolá o Estado divorciou-se de suas verdadeiras finalidades. sobretudo nas regiões industriais que Marx pôde conhecer. manifestando-se essencialmente através dos costumes. ao passo que para Marx. hostilizaram-se mesmo. muito antes da sociedade se organizar política e juridicamente. a divulgação da instrução. a proteção da saúde e da segurança públicas etc. quase divina. não existindo Direito sem Estado nem Estado sem Direito. Não é esta efetivamente a finalidade do Estado. é direito. o Direito tem origem. Qualquer observador é capaz de constatar que muito antes de existir o Estado. é explicada pelo espetáculo da miséria que grassava na época. que deve ser combatido por todos os meios e finalmente destruído. não em Deus. fazer críticas a qualquer das teorias examinadas. sendo errônea a idéia de que. aí fatalmente encontraremos o Direito (ubi societas. nem por isso deve-se eliminar a instituição. que tem por missão manter a ordem e a paz na sociedade. o Estado. e que não existe direito nas sociedades chamadas primitivas. Esse direito. Ao lado da manutenção da ordem estabelecida. mas no Estado. Não tem valor igualmente o pressuposto de que haja um substrato eterno. apresenta caracteres particulares. Em tempo algum uma sociedade. fazendo-a voltar aos seus reais objetivos. neste modesto trabalho. O encontro entre as duas ciências ocorreu paulatinamente a partir de . é verdade. já existiam regras disciplinadoras do relacionamento social. indiscutivelmente. [p. ibi jus). mesmo antes de existir o Estado. mas sim corrigi-la. Simplesmente porque existe moeda falsa não se deve acabar com a verdadeira. Embora não seja nosso propósito. por exemplo. assume uma infinidade de funções que visam o bem-estar público: a distribuição da justiça. e por isso devendo ser combatido e destruído. e pelo apoio que a classe dirigente concedia aos capitalistas beneficiários desse regime. sobretudo o Estado moderno. É falso. Tal posição. Não menos falsa e truncada é a afirmação de ser o Estado instrumento de pressão da classe dominante sobre a menos favorecida. a fim de facilitar desde logo a compreensão de questões que oportunamente serão abordadas. entendemos necessárias algumas considerações sobre a teoria marxista.

Obrigados a viver necessariamente ao lado uns dos outros. seu foco de convergência. A sociedade humana é.1882. merecem destaque Léon Duguit e Nordi Greco. quando foi publicada a obra de Herbert Spencer . o meio em que o Direito surge e se desenvolve. sentimentos e cultura. ao mesmo tempo. Costumes diferentes implicam fatos sociais diferentes. justamente. razão pela qual cada povo tem a sua história e seus fatos sociais. 8] Paulo Nader sintetiza com maestria essa visão sociológica: “Direito e sociedade são entidades congênitas e que se pressupõem. Origem e Concepção Sociológica do Direito Para a Escola Sociológica. o conjunto de normas que regulam a vida social. O Direito não tem existência em si próprio. entre os fundadores da Escola Sociológica. nos acontecimentos mais importantes para a vida social. complexo de pessoas e coisas. E o Direito não pode formar-se alheio a esses fatos por ser um fenômeno decorrente do próprio convívio do homem em sociedade. como Robinson Crusoé em sua ilha. pois a idéia do direito liga-se à idéia de conduta e de organização. Ele existe na sociedade. portanto. práticas e condutas que refletem os seus costumes. necessita de uma organização que. no entendimento de Émile Durkheim. A razão disso é bastante simples: sendo o homem um ser social. maneiras de agir. Esta organização pressupõe regras de comportamento que permitam a convivência social. provindo da consciência das relações entre os indivíduos. carecemos de regras de proceder. de pensar e de sentir. A sociedade. Existindo em função da sociedade. cuja história não passa de utopia. A sociedade. 6. valores. Passando por vários autores. o Direito deve ser estabelecido à sua imagem. . [p. é fonte criadora e área de ação do Direito. o Direito tem a sua origem nos fatos sociais.1. cuja elaboração é lenta e espontânea da vida social. discipline a atividade dos indivíduos. normas de disciplinamento da vida em coletividade. a quem coube o trabalho de fixar definitivamente as relações entre o direito e a sociologia.Principles of Sociology. que significam. Além de Durkheim. entendendo-se como tais os acontecimentos da vida em sociedade. O Direito é. Depois da Segunda Guerra Mundial verificou-se uma ligação mais ativa e fecunda entre sociólogos e juristas. coube-lhe o mérito de ter reconhecido e evidenciado a natureza eminentemente social do direito. culmina nos últimos anos do século XIX com Émile Durkheim. não pode viver isolado. onde há um capítulo dedicado às leis. Sem ser jurista. conforme as suas peculiaridades. orientando a vida coletiva. mas sim filósofo. tradições. A sua causa material está nas relações de vida. refletindo os fatos sociais.

pp. portanto. O Direito tem. As normas do Direito são regras de conduta para disciplinar o comportamento do indivíduo no grupo. oriunda da sociedade e para a sociedade. ibi jus onde está a sociedade está o Direito. filósofos e juristas. enquanto o Direito teve origem divina apenas os nobres. Almedina. com os fatos que nela ocorrem. 21a ed. uma relação dialética com a realidade social. Com efeito. a vinculação entre ambas é tal que um não pode existir sem o outro. Dignas de destaque as palavras do insigne Paulo Nader: “A sociedade sem o Direito não resistiria. jamais poderia germinar em sua consciência a idéia do direito.onde está o Direito está a sociedade -. nem na razão. a sua qualidade de ser social” (Lições Preliminares de Direito. não como tendo origem em Deus. A democratização do Direito pode ser apontada como uma das mais relevantes conseqüências da Escola Sociológica. 25). pois. nas inter-relações sociais. Enquanto teve por fundamento a razão. como o são os grupos onde se originam. p. Assevera o Mestre Miguel Reale: “O Direito não existe senão na sociedade e não pode ser concebido fora dela. a ele tinham acesso os sábios. as relações sociais. ibi societas . cit. 9] grande coluna que sustenta a sociedade.. Daí a veracidade de antigo brocado: ubi societas. o Direito representa o grande esforço para adaptar o necessidades de vida” (ob. considerar o Direito.exteriores ao indivíduo. Criado pelo homem. Mas a recíproca é também verdadeira: ubi jus.. Se o homem não vivesse em sociedade. teria o seu fim. Saraiva.. O Direito é para a Sociologia Jurídica uma ciência essencialmente social. Coimbra. pois. 2). O que caracteriza a Escola Sociológica é. O Direito é a [p. 1990. O Direito foi democratizado quando passou a ter origem na sociedade. o fato e o direito existem enquanto coexistem” (João Calvão da Silva. o que permitiu que se afirmasse: “Não existe o direito e o fato. Em suma. mais especificamente. Forense. 12a ed. segundo a forma exata de Sforza. Direito é realidade da vida social. sacerdotes e altas castas sociais a ele tinham acesso. 25/26). Não são regras imutáveis e quase sagradas. O acesso à Justiça passou a ser a sua . normas ditadas pelas próprias necessidades e conveniências sociais. 6/7). para corrigir a sua imperfeição. pois o mundo do direito é o das relações entre os homens. e nem ainda no Estado mas sim na sociedade. pp. p. Uma de suas características é asocialidade. não haveria o direito sem sociedade. mas sim variáveis c em constante mudança. Responsabilidade Civil do Produtor. e não da natureza física ou do mero psiquismo dos seres humanos. nem na consciência do povo. dotadas de um poder de coerção em virtude do qual se lhe impõem” (Introdução ao Estudo do Direito. seria anárquica.

como não poderia deixar de ser. razão pela qual serve-lhe de base doutrinária. A Escola Sociológica. o povo passou a ter consciência dos seus direitos como aspecto da cidadania. [p. 10] . é aquela que se concilia inteiramente com o conteúdo de nossa matéria.principal finalidade. o Direito ganhou as ruas. as praças e fez-se linguagem de todo o povo.

semeando o seu campo. uma peculiaridade da sociedade humana. que apanha na praia a concha preciosa trazida pelas ondas. Por conseguinte. trata-se de uma ciência essencialmente social. nem na razão. e como tal tem sua origem. tomando o vizinho proprietário da semente lançada e dos seus eventuais frutos. O banhista. O conflito de interesse e sua composição. critério da composição jurídica e suas características. conforme vimos no capítulo anterior. Função preventiva do direito.mas sim na própria sociedade. Como lembrou Ruggiero (Inst. pois dá origem a uma figura de acessão. deixa cair algumas sementes sobre o campo vizinho. adquirindo a propriedade duma res nullius. . Atividades de cooperação e de concorrência. Características da atividade de concorrência. nas inter-relações sociais. 11/12). realiza um ato de derelicto. vol. Critérios de composição de conflitos: composição voluntária. 7. um ato jurídico. não na Divindade. pratica uma ocupatio. a satio. embora ignore. pratica. participando das mais simples às mais complexas relações sociais.Capítulo II FUNÇÃO SOCIAL DO DIREITO A presença do direito na sociedade. A função social do Direito na atual ordem jurídica brasileira. de Direito Civil. um fato social. de como está entrosado com quase tudo que se passa na sociedade. tampouco no Estado . O fumante. I. abandonando uma coisa sua. É difícil praticarmos um ato que não tenha repercussão no mundo do direito. o camponês que. A PRESENÇA DO DIREITO NA SOCIEDADE Nem todos têm idéia de quanto o Direito se faz presente no meio social. nem na consciência coletiva dos povos. 11] cigarro ou charuto. que deita fora o resto do seu [p. critério autoritário. Função compositiva do direito. **** O Direito do ponto de vista sociológico é. pp.

cooperando assim cada qual na realização do interesse do outro. segundo as regras do direito. a transportadora se obriga a levá-los incólumes ao ponto de destino. Como se vê. Para bem compreendermos a função social do Direito. 7. o Metrô. quando milhares de pessoas tomam o trem. quer se trate de relações entre indivíduos. o Direito invade e domina a vida social desde as mais humildes às mais solenes manifestações. como a família e o Estado.Tenha ou não consciência disso. As primeiras caracterizam-se pela convergência de interesses. ou outro qualquer transporte público. e à medida que se empenha na realização dos seus interesses. quer se trate ainda de relações entre os próprios grupos. Por que o Direito se faz assim presente na sociedade? Qual é a sua função social? É o que procuramos responder neste capítulo. pelo restante de sua sobrevida. Envolvem fins ou objetivos comuns. não precisando usá-la para sua própria moradia ou instalação. Diariamente. podem ser reduzidas a dois tipos: atividades de cooperação e atividades de concorrência. quer entre o indivíduo e o grupo social. será a transportadora obrigada a indenizar os prejuízos. a dona de casa. um contrato de transporte. econômicas ou não. através do qual. 12] em adquiri-las. ônibus. mas todas elas. segundo a magistral lição de San Tiago Dantas. coopera na realização dos interesses dos outros. realiza um contrato de compra e venda. envolvendo danos emergentes e lucros cessantes. quando adquire uma simples caixa de fósforo no quiosque ou gêneros alimentícios no supermercado. Os interesses dos dois convergem para um ponto comum. E se por infelicidade ocorrer um acidente do qual resulte lesão ou morte para alguém. isto é. realizam. até inconscientemente. necessita delas. Graficamente podem ser ilustradas assim: >. Exemplo de atividade de cooperação é a do vendedor e a do comprador: o vendedor tem mercadorias para vender e o comprador tem interesse [p. entretanto.1. propõe-se a ceder seu uso a outrem. O mesmo se diga do indivíduo que tem um prédio e. de que o outro diretamente se aproveita. mediante o simples pagamento da passagem. tudo aquilo que a vítima efetivamente perder e aquilo que deixar de ganhar em razão do acidente. Atividades de Cooperação e de Concorrência As atividades humanas assumem formas múltiplas. as suas características e o que podem gerar. Um indivíduo desenvolve uma atividade qualquer. temos antes que analisar as atividades que o indivíduo desenvolve na sociedade. mediante o pagamento .

ainda que concorram entre si. uma concorrência. Há reciprocidade de interesses entre o locador e o locatário. O médico. sem a interferência ou colaboração do outro. cit. dão-nos um exemplo de atividade de concorrência: eles poderão explorar seu comércio indefinidamente sem entrar em choque. 13] após pagar o preço e receber a mercadoria. embora tenham objetivos idênticos. fins semelhantes. paralelas. já que não o possui. 23). A interação. Outro exemplo encontramos em dois proprietários de prédios vizinhos: cada um pode usar sua propriedade como quiser. Graficamente podem ser ilustradas assim: =. nunca se encontram. à medida que cada qual desenvolve sua atividade. Na atividade de cooperação. Nelas. de sorte que. propõe-se a pagar o aluguel pretendido pelo locador. por exemplo.. estabelecidos na mesma rua e no mesmo ramo de comércio.2. desenvolvem atividades independentes. para a consecução de seus objetivos. independentemente. em que as partes procuram obter o que almejam. A interação se manifesta direta e positiva. verifica o comprador que há algum defeito que impede ou prejudica seu uso. mas este se recusa a atendê-lo. um em relação ao outro. por sua vez. uma visando a exclusão da outra. necessitando de um prédio para morar. . e surge o conflito. Dois comerciantes. em que cada pessoa ou grupo procura reunir os melhores trunfos. 7.de aluguel. Outro indivíduo. coopera na realização do interesse do outro. Na competição há uma disputa. Uma das grandes características da sociedade moderna. dois indivíduos. ou para obter outra mercadoria em perfeito estado. [p. p. Nesse momento rompe-se o perfeito equilíbrio que deveria haver na atividade de cooperação. nesta espécie. O CONFLITO DE INTERESSE E A SUA COMPOSIÇÃO Tanto nas atividades de cooperação como nas de concorrência podem ocorrer conflitos de interesses. sob muitos aspectos. em posição de competidor ou concorrente. Procura então o vendedor para devolver o material e receber de volta o valor pago. A lição de Paulo Nader bem sintetiza o que dissemos até aqui: “Na cooperação as pessoas estão movidas por um mesmo objetivo e valor e por isso conjugam o seu esforço. positiva (ob. 8. se faz indiretamente e. Características da Atividade de Concorrência Há paralelismo nas atividades de concorrência. o advogado e outros profissionais liberais desenvolvem este tipo de atividade em relação aos seus clientes. esta forma revela atividades paralelas. que os colocam. São concorrentes. pois não convergem para um interesse comum. no sentido de que perseguem.

um no apartamento 201 e o outro no andar imediatamente superior. danifica os móveis. onde há uma infinidade de condomínios. a lavanderia do imóvel B não poderá funcionar. alugá-lo. muito constante nas grandes cidades. quando as partes vão além daquilo que lhes é lícito fazer no campo do seu próprio interesse. estaremos diante de um conflito de atividades de concorrência. Estará rompida a convergência de interesses existente no momento da celebração do contrato e. o caso de dois condôminos residentes no mesmo prédio. ou oferecer melhores produtos. enquanto não transpuserem os limites daquilo que lhes é lícito. e o proprietário do imóvel B aí se estabeleça com uma lavanderia. Lembram-se dos proprietários de prédios vizinhos? Vimos que cada um pode usar seu imóvel como melhor lhe parecer: residir nele. apesar de concorrentes. por último. Se o proprietário do imóvel A mantiver em funcionamento sua fábrica. Cada qual poderá também usar seu imóvel como bem lhe convier. instalar-se comercialmente etc. Um belo dia. Conflitos surgem igualmente nas atividades de concorrência. No momento porém em que o comerciante A resolver fazer uma concorrência indevida ou desleal ao comerciante B. entretanto. por exemplo. a despeito de insistentemente procurado pelo locador. no apartamento 301. Sobre o tema. o imóvel do andar superior começa a apresentar vazamento no imóvel inferior: umedece as paredes. O condômino prejudicado [p. e com isso ganhar a clientela do outro. é característico da atividade de concorrência. Paulo Nader pondera com propriedade: “O conflito se faz presente a partir do impasse quando os interesses em jogo não logram uma solução pelo diálogo e as partes recorrem à luta. a partir de então. 14] procura o proprietário do imóvel superior por várias vezes. prejudica o conforto dos que nele residem. ou buscam a mediação da justiça. Podemos defini-lo como . embora prometa resolver o problema. solicita-lhe uma providência. coloca-o a par da situação. Entre esses dois estabelecimentos comerciais. que a sua honestidade é questionável etc. estabelecidos na mesma rua com o mesmo gênero de comércio. recusa-se a pagar os aluguéis convencionados. Suponhamos por exemplo que o proprietário do imóvel A nele instale uma fábrica que solta fumaça e fuligem.. Consideremos. após firmar contrato de locação e alojar-se no imóvel. continuarão em harmonia. ambos situados num bairro industrial e exercendo atividades lícitas. surge um conflito. mas este. Este tipo de conflito.Pensemos agora no caso do inquilino que. ambos estarão em conflito. dizendo. moral ou física. Pode um deles até vender mais barato que o outro. na verdade nada faz. que seus produtos são de baixa qualidade. Aqueles dois comerciantes.

O Direito só irá disciplinar as formas de cooperação e competição onde houver relação potencialmente conflituosa. mais se sujeita a novas formas de conflito e o resultado é o que hoje se verifica. os que ocorrem na atividade de cooperação. por sua vez. que é uma das bases do progresso da sociedade. tanto quanto possível. segundo valores de convivência que a própria sociedade elege. entre pessoas ou grupos. Isto se faz mediante a exata definição do Direito. quanto mais se desenvolve.” Aduz que a função preventiva é exercida para “evitar desinteligências quanto aos direitos que cada parte julga ser portadora. cit..prevenir conflitos: evitar. Ao separar o lícito do ilícito. enfim. No conflito a interação é direta e negativa. repetidamente citado: “O Direito está em função da vida social. À medida que cada um respeitar o disciplinamento estabelecido pelo Direito. A sua finalidade é a de favorecer o amplo relacionamento entre as pessoas e os grupos sociais. O Direito existe muito mais para prevenir do que para corrigir. quebra o equilíbrio e a paz social. não conciliados pelas normas sociais. Por isso.” Conclui o prestigiado autor: “Os conflitos são fenômenos naturais à sociedade. 9. A sociedade não tolera o estado litigioso porque necessita de ordem. podendo-se até dizer que lhe são imanentes. [p. em que o maior desafio não é o de como viver e sim o da convivência” (ob. Muita gente acredita que o Direito tem um caráter essencialmente repressivo. cit. Todos os conflitos que podem surgir na vida social são redutíveis a um desses tipos: conflitos de cooperação. como alguém afirmou. equilíbrio em suas relações. O que determina a natureza do conflito é a natureza da atividade. muito mais para evitar que os conflitos ocorram do que para compô-los. FUNÇÃO PREVENTIVA DO DIREITO O conflito gera o litígio e este. que deve ter na clareza. algumas de suas qualidades” (ob. evitará entrar em conflito com outrem na sociedade.oposição de interesses. simplicidade e concisão de suas regras. e conflitos de concorrência.. p. . estabelecendo as limitações necessárias ao equilíbrio e à justiça nas relações. vendedor e comprador. os que se verificam na atividade de concorrência. Quanto mais complexa a sociedade. 25). o ordenamento jurídico toma possíveis os nexos de cooperação. para todos. O Direito previne conflitos através de um conveniente disciplinamento social. mas na realidade assim não é. e aí está a primeira e principal função social do Direito . 15] Esse é também o entendimento de Paulo Nader. 23). tudo faz para evitar ou prevenir o conflito. p. tranqüilidade. a colisão de interesses. estabelecendo regras de conduta na sociedade: direitos e deveres para locador e locatário.

mas o conflito. mas que promove. a intolerância. o menor e mais forte grupo social. que gera a amizade. vejam só. Quanto maior o relacionamento. pois poderia viver e fazer o que bem entendesse. é uma ciência social. Os litígios surgidos criam para o homem as necessidades de segurança e de justiça” (ob. Superar um conflito de interesses é aquilo que chamamos composição.. comportar-se. 25). E como ocorrem! Basta entrar numa Vara de Família para se ter consciência dos conflitos que estão ocorrendo no lar. há que solucioná-lo. Se o indivíduo vivesse só. um locatário que não quer pagar o aluguel e assim por diante. que vão reclamar soluções. Sem essas normas de conduta. visando atender uma necessidade social. a colaboração. os membros ligados por vínculos de afeição. alegrias e sofrimentos do homem. todas objetivando prevenir conflitos. E aí está a segunda grande função social do Direito: compor conflitos. Ela se faz por um amplo relacionamento humano. Pois bem: surgindo o conflito. quanto mais complexas as relações sociais. A sociedade reclama que as coisas sejam repostas num ponto de equilíbrio em que possam permanecer.. Suas normas são regras de conduta para disciplinar o comportamento do indivíduo na sociedade.O Direito. isolado. a discórdia. Até mesmo na família. maior também a necessidade de disciplina e organização. Aqui é um vendedor que recebe o preço mas não quer entregar a coisa. . como vemos mais uma vez. 16] amor. com inúmeras normas de direito disciplinando as relações dos cônjuges. filhos etc. é inevitável. e. acolá. maior será a possibilidade de conflito. possuindo idênticos instintos e necessidades. pais. de sangue. não necessitaria de regras de conduta. “Cenário de lutas. o [p. p. Vivendo em ambiente comum. cit. as desavenças. a sociedade não é simples aglomeração de pessoas. respeitar direitos e interesses dos outros. FUNÇÃO COMPOSITIVA DO DIREITO A observância das normas previne muitas ocorrências. Vivendo porém em grupo precisa limitar-se. estes acabam por ocorrer. é natural o aparecimento de conflitos sociais. os conflitos seriam tão freqüentes de modo a tomar impossível a vida em coletividade. igualmente. pondera Paulo Nader. portanto. lamentavelmente. porque nem todos na sociedade submetem-se à disciplina imposta pelo Direito. 10.

11.. 331). Esse é o sentido de toda composição. 2) Critério autoritário. São. e determinar qual o que deve prevalecer e qual o que deve ser reprimido. O Código de Processo Civil também estabelece uma audiência prévia de conciliação tanto no procedimento sumário (arts. reclama ao vendedor e este.099/95) prevê expressamente (arts. 3) Critério da composição jurídica. cit. O estudante. a rigor. Temos ainda a Lei de Arbitragem (Lei nº 9. A conciliação e a arbitragem não são. uma vez que sempre contarão com a interferência de um terceiro . as partes discutem entre si e o resolvem da melhor maneira possível. como já vimos. porque isso. 17] conciliadores. então. “O Direito apresenta solução de acordo com a natureza do caso. Surgindo o conflito. formas mistas que estimulam e valorizam a participação dos litigantes na composição do conflito. por mais que se procure preveni-lo. antes da causa ser submetida ao julgamento do juiz togado. 11. conduzi da via de regra por [p. da qual poderão valer-se todas as pessoas capazes de contratar para dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis.Em que consiste a composição de um conflito? Não consiste em fazer desaparecer o conflito. todavia.307/96). imediatamente. ob. O Critério da Composição Voluntária É aquele que se estabelece pelo mútuo acordo das partes. No Brasil. CRITÉRIOS DE COMPOSIÇÃO DE CONFLITOS 1) Critério da composição voluntária. volta à livraria. 277/278) como no ordinário (art. é impossível. substitui o livro defeituoso por outro perfeito.resolvido por meio da composição voluntária.1. formas puras de composição voluntária. determinar a restauração da situação anterior ou aplicar penalidades de diferentes tipos” (Paulo Nader.o conciliador ou o árbitro. Ao chegar em casa observa que lhe faltam algumas páginas. A mais moderna legislação processual no mundo todo tem estimulado a composição voluntária como forma de aliviar a sobrecarga do Judiciário. Houve um conflito de interesses . 25). 21 a 24) uma fase de conciliação. seja para definir o titular do direito. A maneira de solucionar o conflito é. Não se pode evitar o conflito. a Lei dos Juizados Especiais (Lei nº 9. entra numa livraria e compra um livro. quase sempre atentando para os próprios deveres e obrigações estatuídos pelas normas do direito. por exemplo. . colocar os dois interesses em antagonismo na balança. p.

no caso. alguns casos de composição tomaram-se famosos. dando uma metade para cada mulher. ambas reclamando-a como filho. do próprio senso de Justiça. menos perfeitas. quando estas atingem sua forma plenamente evoluída. . São pois características do critério jurídico . e aplicável a todos os casos que ocorrerem a [p. são imperfeitos e insuficientes para resolver conflitos de interesses que surgem nas sociedades humanas. Foi uma solução tirada por Salomão do seu foro íntimo e que. O chefe da família muitas vezes tem de resolver os conflitos de interesses que surgem entre os seus membros. cabe ao chefe do grupo . Estes dois critérios. Na sociedade de hoje o critério autoritário é ainda utilizado no meio familiar.a anterioridade. O Critério Autoritário Por esse critério. entretanto. Graças à anterioridade. Cacique. 18] partir de então.3. Todos por certo já ouvimos falar na justiça salomônica. a publicidade e a universalidade. Normalmente a autoridade lança mão do seu foro íntimo. saímos do domínio do puro autoritarismo e entramos no domínio do direito. Muito usado este critério nas sociedades antigas. O Rei Salomão mandou trazer uma espada com a qual. filhos. parentes. para desempenhar a tarefa de compor conflitos.aquela que imediatamente se opôs à idéia. iria cortar a criança ao meio.11. vivo. daquilo que a consciência lhe inspira.2. o poder de compor os conflitos de interesses que ocorrem entre os indivíduos que se encontram sob sua autoridade. fosse entregue à falsa mãe.. lançando mão de soluções que vai buscar em seu foro íntimo. preferindo que seu filho. O Critério da Composição Jurídica e suas Características A composição jurídica é sempre feita mediante um critério elaborado e enunciado anteriormente. Senhor etc. bem solucionou o conflito. 11.Rei. É aí que se apresenta o terceiro critério. A anterioridade é o traço característico e fundamental da composição jurídica. Deve ter sido elaborado antes para poder ser aplicado ao conflito que ocorrer depois. e implica em dizer que o critério aplicado preexiste ao conflito. justamente aquele que mais nos interessa.. empregados etc. Assim pôde constatar qual era a mãe verdadeira . disse. e na célebre fórmula usada pelo Rei para resolver um conflito entre duas mulheres que disputavam a mesma criança.

declarado pela autoridade que o elaborou. na atualidade é um fator decisivo para o avanço social. que acabam por ocorrer não obstante toda prevenção exercida pelo direito. revelado. Isto ele faz através do adequado disciplinamento das relações sociais. tem que ser realizada através de um critério anteriormente estabelecido e perfeitamente enunciado para conhecimento de todos. 59). [p. o bem comum. Por universalidade entende-se que o critério jurídico nunca pode ser cominado apenas para um determinado caso concreto. Quer isto dizer que todos os conflitos idênticos que surgirem após a elaboração e divulgação do critério deverão se compor pelo mesmo critério. mas sim para todos os casos que se apresentarem com a mesma tipologia. favorece o desenvolvimento da ciência. cit. prover o bem comum. a rigor. tomando-o conhecido. Modernamente a sua missão é muito mais ampla uma vez que lhe cabe. em última instância. pois isto implica a universalidade. cit. A Função Social do Direito na Atual Ordem Jurídica Brasileira Cumpre por último registrar que o Direito não desempenha apenas essas duas funções na sociedade. A segunda é a de compor conflitos. que na belíssima lição de Miguel Reale “não é a soma dos bens individuais.4. na composição jurídica. o progresso das comunicações. 27). 19] nem a média do bem de todos. uma posição harmônica do bem de cada um com o bem de todos” (ob.. 11. que atenda à universalidade dos casos que se apresentarem dentro do mesmo tipo. a elevação do nível cultural do povo. que o critério tenha sido elaborado antes do conflito. é necessário que se dê conhecimento do critério antes de sua aplicação. É preciso também que o critério tenha sido anunciado. Além de garantir o homem. que podem ocorrer tanto nas atividades de cooperação como nas de concorrência. Em suma. “O Direito. para que a composição seja jurídica. muito embora este último termo seja mais usado. p. promovendo ainda a formação de uma consciência nacional”(ob. p. destacamos as duas principais funções que o Direito realiza na sociedade. da produção das riquezas.O que se entende por publicidade? Não basta.. é a ordenação daquilo que cada homem pode realizar sem prejuízo do bem alheio. Alguns autores preferem falar em generalidade em lugar de universalidade. Concluindo. da tecnologia. Composição jurídica é somente aquela que obedece a um critério anteriormente elaborado e também previamente dado à publicidade. diz Paulo Nader. A primeira é a de prevenir conflitos. . e isto ele faz através do critério jurídico.

hoje.o Direito como instrumento para a construção de uma sociedade mais justa. XXII. O novo Código Civil. 182. é o instrumento de organização social para atingir essa finalidade. § 4°.100). em caso algum. prestigia esta questão a ponto do seu grande coordenador. 186). ao garantir o direito de propriedade. 20] ao bem comum. . Temos ali uma cláusula geral a ser observada em todo e qualquer contrato. dos mais simples aos mais complexos. Forense. No artigo 187 do novo Código Civil a função social do Direito é colocada como limite para o exercício de todo e qualquer direito. 2a ed. Valer-se do direito para colimar resultados contrários à sua instituição. Pode-se afirmar que a passagem do individualismo para o social é a característica essencial da evolução jurídica do nosso tempo. inaugurando um novo tempo no mundo negocial. San Tiago Dantas assinala: “Pode-se dizer que. e que altera substancialmente o conteúdo da atividade contratual. ressaltou que terá ela que cumprir a sua função social (arts. a solidariedade e a harmonia coletiva. por sua vez. mais do que um direito subjetivo. [p. Em outras palavras. III. pois não poderá. além do qual se toma abusivo. Assim como o Código Civil de Napoleão foi fruto do liberalismo do século XVIII. A Constituição de 1988. o jurista Miguel Reale. enfim. repita-se. quando presentes interesses metaindividuais ou interesse relativo à dignidade da pessoa humana” (enunciado n° 23). ser exercido contra a finalidade social que a lei teve em mira quando o reconheceu e protegeu. III. p. mas atenua ou reduz o alcance desse princípio. 5°. Exige dos contratantes uma postura mais humana. menos individualista.A atual ordem jurídica brasileira dá grande ênfase à função social do Direito. eis o abuso do direito” (Conflito de Vizinhança e sua Composição. igualitária e solidária . ter afirmado que a socialidade é uma das suas principais características.. Na jornada de Direito Civil promovida pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal foi proposta a seguinte interpretação para esse dispositivo: “A função social do novo Código Civil não elimina o princípio da autonomia contratual. o exercício de todo direito subjetivo está condicionado ao fim que a sociedade se propôs: a paz. porque o Direito. o que se concede ao indivíduo é uma proteção jurídica. contrata também com a sociedade. XXIII. 170. verdadeiro cinto de segurança. 422 ao dispor que a liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato. Quem contrata não mais contrata apenas com quem contrata. a visão social do Direito . A função social do Direito é consagrada no novo Código Civil no seu art.foi a grande motivação do novo Código Civil. ou pelo menos um direito subjetivo que não tem no arbítrio do titular a sua única medida. cuja trilha foi seguida pelo nosso Código de 1916. a ordem.

O que se evidencia. na posse ininterrupta e de boa-fé.Em conformidade com a Constituição. caso em que será fixada uma justa indenização ao proprietário. [p. como não poderia deixar de ser.. Também aqui a finalidade social opõe-se ao individualismo. 21] . Um imóvel rural só atende à sua finalidade social quando utilizado na produtividade compatível com sua potencialidade. de considerável número de pessoas.e não para a especulação imobiliária.228 do novo Código Civil submete o exercício do direito de propriedade à sua função social. seu estado normal de servir ao ser humano. comércio. em conjunto ou separadamente. 1. indústria . “O direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais”. por mais de cinco anos.228 do Código Civil: “O proprietário poderá ser privado da coisa se o imóvel reivindicado consistir em extensa área. Ao falar em finalidade social o diploma civil refere-se ao destino social da coisa. o § lº do art.moradia. é que a socialidade não se resume a uma disposição abstrata. podendo ser encontrado um eloqüente exemplo disto no parágrafo quarto deste mesmo artigo 1. e não quando destinado a latifúndio improdutivo. e estas nela houverem realizado. mas a um princípio que modernamente alimenta toda a nossa ordem jurídica. obras e serviços considerados pelo juiz de interesse social e econômico relevante”. com os exemplos citados.. O imóvel urbano também tem que ser utilizado em conformidade com a sua potencialidade .

a religião. que os “juristas ainda estão à procura de uma definição para o Direito”. Antes de tentar conceituar qualquer coisa. como já ficou assentado. como já vimos. é fato social que se manifesta como uma das realidades observáveis na sociedade. deve o estudante considerar todos os elementos dessa coisa. Kant teria afirmado. Conceituar. Origem das normas de conduta: a escola monista e a escola pluralista. a cultura. 23] 12. está ligado à idéia de organização e conduta. É o que procuraremos fazer com relação ao Direito. Essa tarefa se toma ainda mais arriscada quando se trata do Direito. É fenômeno social. como é sabido por todos. **** O Direito. Só assim poderá chegar perto da realidade na formulação do seu conceito. e então procurar fazer uma descrição de tudo isso. Características das normas de conduta: a obrigatoriedade e a sanção. NORMAS DE CONDUTA Se o Direito. então deve ser ele entendido como um conjunto de normas de conduta que disciplinam as relações sociais. lançando mão dos vários princípios expostos nos capítulos anteriores. Provisoriedade e mutabilidade das normas de direito. características. [pg.Capítulo III CONCEITO SOCIOLÓGICO DO DIREITO Normas de conduta. já no século XVII. finalidade etc. arriscando-se aquele que se empenha em realizá-la a formular um conceito parcial. Propomo-nos neste capítulo a explicitar a concepção do Direito como fato social. seus requisitos. formulando um conceito que se enquadre na visão sociológica do Direito. O . Conceito sociológico do direito.. assim como a linguagem. não é tarefa simples. que surge das inter-relações sociais e se destina a satisfazer necessidades sociais. tais como prevenir e compor conflitos.

Cuida. . por exemplo. se a observância das normas jurídicas fosse facultativa. como já assinalado. Não somente as relações que se travam entre o indivíduo e outro indivíduo são objeto do Direito. Por isso são chamadas normas universais ou genéricas. isto é. São também abstratas porque não se referem a casos concretos quando de sua elaboração. A Obrigatoriedade Em regra são normas obrigatórias. Portanto.1.encontramos a sua razão de ser. Claro está que. mas sim a casos hipoteticamente considerados. E nem poderia ser diferente. cabendo à moral a disciplina de suas relações intrínsecas. 13. 121 do Código Penal incrimina a ação de matar. não objetiva concretamente o caso de A matar B. o grupo versus o indivíduo e o grupo versus outro grupo. Como tem sido assinalado por muitos autores. de observância necessária.a sociedade e o indivíduo . mas também aquelas que se realizam entre o indivíduo versus o grupo. [pg. com a garantia de que as partes nele envolvidas serão tratadas da mesma maneira. Seria um tiro sem bala. é o Direito a única relação inteiramente determinada pela coexistência humana e que se exaure de homem para homem. o contrato celebrado entre A e B em determinado momento e em determinado lugar porque a individualidade dos comandos não é própria do Direito. aplicáveis a todas as relações abrangíveis pelo seu escopo. O caráter de generalidade das normas do Direito faz que este tenha em vista apenas o que na sociedade acontece com mais freqüência.mundo do Direito é o mundo das relações entre os homens. sob pena de o Direito não atingir os seus objetivos. 24] 13. Sabe-se previamente como será resolvido um determinado tipo de conflito se e quando ocorrer. CARACTERÍSTICAS DAS NORMAS DE CONDUTA Trata-se de normas de conduta que se destinam a todos. por exemplo. quando a norma do art. Não regula de forma direta. o Direito não se dirige a pessoas determinadas nem a relações consideradas individualmente. o prévio conhecimento do critério a ser aplicado na composição dos conflitos e assegura igualdade de tratamento às partes. Assim. mas sim qualquer hipótese de homicídio. pois na conjugação desses dois elementos . E isso permite. totalmente inócua se tomaria a disciplina por elas imposta. o Direito da disciplina das relações extrínsecas do homem. pois.

Como podem as pessoas inobservá-lo.[pg. embora à primeira vista possa parecer paradoxal.. entretanto. . tomamos logo consciência da sua obrigatoriedade pois temos então que responder pelas conseqüências. Só temos. tudo que é oposto à obrigação. É também por isso que se tem afirmado (Kant foi o primeiro) ser a Moral autônoma e o Direito heterônomo. Ocorre também que. da mesma forma que não sentimos certas imposições físicas. que. essas normas correspondem à nossa maneira de pensar e sentir. e vice-versa. na exata medida em que o Direito nos confere um beneficio. No momento em que transgredimos qualquer dessas normas. fruto da força ou da coação. tomou-se necessário estabelecer uma sanção. a rigor. na verdade. e não uma obrigação. Dizemos “eu tenho direito a isso ou àquilo” para indicar algo que nos favoreça. pois na realidade também ali essa autonomia move-se dentro de limites extremamente reduzidos. cit. entretanto. cria uma obrigação ou dever para outrem. que agem comandados pela vontade. 44). a noção do Direito está intimamente ligada à noção de obrigação. ou seja. Para o público em geral. em geral e por definição. talo nosso condicionamento social. 13. faculdade. Alguns autores. Não percebemos que o Direito é sobretudo obrigação porque estamos habituados a obedecer a suas normas. 25] lência” (ob. portanto. a tal ponto que não lhe sentimos quase o peso. para indicar que ela envolve a possibilidade jurídica de coação. visto ser posto por terceiros aquilo que juridicamente somos obrigados a cumprir. A Sanção O Direito dirige-se a seres dotados de liberdade. moral autêntica quando o indivíduo. vantagem ou poder. O ato moral implica a adesão do espírito ao conteúdo da regra. onde muitos autores acreditam reinar a “autonomia da vontade” a coisa não é bem assim. Não é possível conceber-se o ato moral forçado. preferem falar em coercibilidade da norma. Esquecemonos. por um movimento espiritual espontâneo realiza o ato enunciado pela norma. é a principal diferença entre a norma jurídica e a regra moral.A obrigação é.2. Até mesmo no campo do direito contratual. Então. como a gravidade. em lugar de obrigatoriedade. elemento fundamental do Direito. liberdade. Pondera o festejado Miguel Reale que “a moral é o mundo da conduta espontânea. do comportamento que encontra em si próprio a sua razão de existir. regalia. a palavra direito dá idéia de privilégio. Esta. p. Ninguém pode ser bom pela vio. A moral é incompatível com a força ou coação mesmo quando estas se manifestam juridicamente organizadas.

frutos da razão. . e pena já é o próprio castigo imposto. a sanção é cominada pelo legislador. Para uma minoria não basta a coação psicológica. que esta é uma questão discutida. logo no primeiro capítulo. entretanto. e a pena é fixada pelo juiz. faz com que a maioria se conduza dentro dos limites do Direito. em nosso entender. geradora do temor à pena. Essa coação psicológica. acabando por transgredir as normas. 26] 14. A autoridade pública aplica a pena. para todo aquele que descumprir uma norma de Direito. Sanção é a ameaça de castigo para o transgressor da norma. consistente em perda ou restrição de determinados bens. havendo aqueles que entendem serem as normas de origem divina. sanção é a pena abstratamente considerada. livrando a sociedade de sua conduta perniciosa. assim como na obrigação de reparar o dano causado. não há como tergiversar: as normas de Direito emanam do grupo social. É a chamada prevenção geral. [pg. Tal coação é por Vanni (Lezioni di Filosofia del Diritto) vista como força psíquica do direito. através da qual consegue o Direito evitar a ocorrência de inumeráveis conflitos. que se dirige à vontade. A obrigação não pode existir sem sanção. embora na prática os autores e a própria lei não a considerem. uma pequena diferença entre sanção e pena. Por isso alguns teóricos chegam a definir o Direito como um sistema de sanções.o meio mais eficaz encontrado pela sociedade para tomar a norma jurídica de observância necessária. no empenho de levá-la a respeitar o Direito. Sanção é a ameaça de punição para o transgressor da norma. ORIGEM DAS NORMAS DE CONDUTA Já vimos. É o remédio extremo usado contra uma minoria que não observa as normas. e pena é a sanção concretizada. a sanção exerce uma coação psicológica sobre os indivíduos. outros. as opiniões se dividem em duas escolas. Há. ao passo que a pena exerce uma coação física ou material. É a chamada prevenção especial. É o prometimento de um mal. da consciência coletiva ou do Estado. É a possibilidade de coação da qual a norma é acompanhada. Para esses destina-se a coação física ou material. exercendo constrangimento sobre a consciência. Para a sociologia jurídica. empregando o poder coercitivo de que dispõe para punir o responsável pelo ilícito. Sobre o grupo social que deve estabelecer as normas de Direito. na esperança de não ser punida.

Há aí uma atividade racional. catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa. sendo igualmente ensinada pelos puristas clássicos. orientada no sentido da formação do Direito. adquirem o alcance de verdadeiras regras jurídicas. bem sintetiza esta questão na lição que segue: “O Direito é necessário. em fase adiantada do progresso. esta escola entende que apenas um tipo de grupo social.o grupo político . A Escola Pluralista A escola pluralista que. o principal adepto da doutrina pluralista é G. intervêm na sua criação. 14. existe imprescindivelmente. ultrapassando o caráter de simples regulamentos. Mas. compreende sociólogos e filósofos. Houve e ainda há direitos supranacionais e infranacionais que não emanam da competência dos órgãos da sociedade global. sem considerar fronteiras entre Estados nem a nacionalidade dos interessados. sem dúvida. com freqüência criam Direito. A doutrina monista. está apto a criar normas de direito. além das que foram impostas pela autoridade política. mas não com relação à sociologia jurídica. muçulmano. e que ainda existem prescrições. como por exemplo o direito religioso de vários povos. nos termos que aos governantes se afiguram como os melhores para satisfazer as necessidades e exigências da vida. 29) cita como exemplo de direito supranacional as instituições consuetudinárias profissionais. Henri Levy Brühl (Sociologia do Direito. considera que todo agrupamento de certa consistência ou [pg. decretos-leis. ainda . pode ter sua razão de ser no que se refere à ciência do Direito. que se encontra mais próxima das teorias de Hegel. A Escola Monista Englobando quase todos os juristas.2. Os homens. através de leis.14. Gurvitch. que se difundiram em inúmeras regiões. p.o Estado devidamente organizado -. o direito canônico.1. muito divulgado na Idade Média e observado tão escrupulosamente quanto qualquer outra lei nacional. mesmo nas sociedades já política e juridicamente organizadas. além de alguns juristas. que a defendeu em diversos trabalhos. o nosso Governo. Inocêncio Galvão Telles. Segundo Henri Levy Brühl. A mais característica dessas instituições foi o direito mercantil (jus mercatorium). Um simples olhar sobre a vida social nos convence de que existiram prescrições jurídicas antes de a sociedade organizar-se em Estado. A nossa Assembléia Nacional. regulamentos. Não é uma criação arbitrária. Marx e Kelsen. judaico etc. 27] expressão pode outorgar-se normas de funcionamento que.

I. pensamentos etc. Evidentemente. quando esse mesmo grupo se modifica constantemente? . e vice-versa. entretanto. do adulto para o velho. como é sabido. E o grupo. O mesmo acontece com hábitos. embora muitas vezes nem se perceba a mudança. vol. permanecer imutável. costumes. que o considera produto social. PROVISORIEDADE E MUTABILIDADE DAS NORMAS DE DIREITO Os defensores do direito natural. p. que contestávamos na juventude exatamente aquilo que agora pensamos e fazemos. Como pode o Direito. moda etc. da criança para o adolescente. 28] queremos que os jovens de hoje se comportem como nós. 9ª ed. conforme já assinalamos. sofre constantes modificações. Foi assim que aconteceu noutros tempos sob a forma de costumes. afirmava: “Panta rei” . Tal concepção. com concepções e visões diferentes da vida. o outro lado do mundo toma conhecimento quase imediatamente. as mudanças nos grupos modernos são bem mais rápidas e constantes do que nos grupos primitivos. Daí a razão do eterno choque de gerações entre jovens e adultos. Se pudéssemos isolar um grupo por um período de dez ou vinte anos. um dos mais destacados. no fim desse tempo. Mal um fato ocorre aqui. do jovem para o adulto.. tanto os que o concebiam como tendo origem na Divindade como aqueles que o entendiam fruto da razão. Imaginemos agora o que se passa nos grupos modernos. não pode ter maior estabilidade que o grupo. não se ajusta ao ponto de vista sociológico. e isso mostra o caráter necessário do Direito (Introdução ao Estudo do Direito.tudo passa. Lisboa. Mudamos em nossa maneira de ser e [pg. 27). as crianças tornaram-se jovens. que o grupo social havia sofrido profundas modificações: os adultos envelheceram. tudo muda. estáveis e imutáveis. Já os filósofos gregos haviam chamado a atenção para essa permanente mutabilidade das coisas e do próprio homem. onde há uma constante troca de influências recíprocas possibilitada em razão dos modernos meios de transporte e comunicação. Se o Direito emana do grupo social. Assim é porque o próprio ser humano está em constante mudança: mudam os hábitos. mesmo assim haveríamos de constatar. sendo originário do grupo. consideravam o direito um conjunto de princípios permanentes. do adolescente para o jovem. os jovens tornaram-se adultos. o Direito necessariamente brotaria como floração espontânea da sociedade. Livraria Petrony.que não houvesse esta criação racional e um pouco artificial. Heráclito. 15. tudo está em constante transformação.

Mudando o grupo. CONCEITO SOCIOLÓGICO DO DIREITO Juntando todas as características até aqui examinadas. Trata-se de normas universais porque se destinam a todos. Aqui mesmo em nosso país profundas modificações foram feitas em nossa ordem jurídica para ajustá-la às novas realidades sociais decorrentes das transformações por que passamos nas últimas décadas. Tão incontestável é o caráter provisório do direito que alguns adeptos do direito natural conceberam uma noção que denominaram “direito natural de conteúdo variável”. mudam-se também as normas de Direito. como já ficou demonstrado. por sua vez. espera-se para breve um novo Código de Processo Penal e. empenha-se em compô-los. assinalou Levy (ob. por derradeiro. 33). pois o simples confronto com os diferentes sistemas jurídicos do passado ou dos países estrangeiros basta para dar idéia da prodigiosa diversidade das normas de direito aplicadas na superfície do globo. Destaca-se. prova de maneira clara que o Direito está sujeito a transformações contínuas. abstratas. quando não consegue impedir que ocorram. [pg. 16. em 2002 entrou em vigor um novo Código Civil em relação ao qual já se fala em mudanças. razão pela qual. podem surgir conflitos e que o Direito se propõe [pg. Tivemos uma nova Constituição em 1988 que. já sofreu mais de quatro dezenas de emendas. obrigatórias porque são de observância necessária. abstratas porque são elaboradas para casos hipoteticamente considerados. p. obrigatórias e mutáveis.. não tem o Direito caráter estável ou perpétuo. objetivando prevenir e compor conflitos. destinadas a disciplinar as relações externas do indivíduo. o Código de Processo Civil sofreu uma série de alterações e outras precisam ser feitas com urgência. mas sim essencialmente provisório. que em qualquer tipo de atividade realizada pelo indivíduo na sociedade. 29] primeiramente a preveni-los. para não nos alongarmos. A observação. formulamos o seguinte conceito de Direito: conjunto de normas de conduta. impostas pelo grupo e não somente pelo Estado. sujeito a constantes modificações. cit. seja de cooperação ou de concorrência. 30] . impostas pelo grupo social. do ponto de vista sociológico. coercitiva. universais. mutáveis porque sujeitas a constantes transformações.

tudo o que agir sobre a sociedade produzirá reflexo também sobre o Direito. Inicialmente pode-se dizer que. Fatores religiosos. políticos. é um produto de múltiplas influências sociais. Tal como a agulha magnética sob a ação de uma corrente elétrica.[pg. 31] ção (indústria. O sistema de propriedade. neste modesto trabalho. não sendo possível. a influência condicionante da sociedade sobre o Direito enquanto fato. 17. tomando-o um produto de processos sociais (vide capítulo VIII). um produto da sociedade. sendo o Direito uma decorrência das relações sociais. em nossa opinião. FATORES ECONÔMICOS A estrutura econômica de uma sociedade reflete-se diretamente no seu ordenamento jurídico. como vimos no capítulo anterior. Vamos apenas destacar aqueles que. há fatores que agem sobre o Direito. sujeitas a constantes modificações. porque se originam no grupo social. Observa-se aqui. mas sim. Fatores culturais: concepção de cultura. Não são regras permanentes e inalteráveis. . são os principais. fazendo-o oscilar. **** O Direito. da qual falava Siches.Capítulo IV FATORES DA EVOLUÇÃO DO DIREITO Fatores econômicos: influência do fator econômico sobre o Direito Romano e sobre o Direito Moderno. Fatores políticos. as formas de produ. em sua concepção sociológica. com muita nitidez. a saber: os fatores econômicos.e o grupo está em permanente transformação. examiná-las todos. Inúmeros são pois os fatores sociais que concorrem para a evolução do Direito. culturais e religiosos. Outros fatores sociais.

.). A organização social tem o seu ponto básico de articulação no modo pelo qual os homens produzem. da constituição econômica. eram os que mais convinham a agricultores. o resultado”. Engels. embora não se possa negar que. as relações entre empregados e patrões .agricultura etc. Para eles. sua estrutura econômica se transforma”. 17. p. como por exemplo K. os demais fenômenos culturais não passando de simples reflexos superestruturais das forças genéticas armazenadas pelas relações econômicas de produção. Ora. pp. afirma que “todo o desenvolvimento jurídico toma-se inexplicável se o isolam das forças econômicas. o fator econômico é o que exerce uma influência mais decisiva. entre as forças modeladoras do Direito. . os costumes desses camponeses. exclusivamente. a situação legal. assinala que “raças e nações as mais diferentes têm de sujeitar-se ao mesmo direito quando são iguais as relações econômicas nelas dominantes e que a nação sofre mutação radical do próprio direito quando. “que dedicou especial atenção às relações entre direito e economia”. Assim sendo.tudo isso se reflete na ordem jurídica. possuem e comerciam. podemos afirmar. a sociedade inicialmente compunha-se de camponeses que viviam da lavoura. 80 e segs.. sem possibilidade de erro. Marx e F. como observou Levy Brühl (ob. citado por Hermes Lima (Introdução à Ciência do Direito. Influência do Fator Econômico sobre o Direito Romano Em Roma. tinham que tirar da terra o seu sustento. influenciando-a. com o crescimento da população. Tão marcante é a influência da economia sobre o Direito que alguns autores chegam a se posicionar no sentido de conceber o Direito como reflexo. Achille Loria (ob. Seligman.). o fato econômico é a causa. 293).1. cit. Nesse sentido. cit. que o Direito vai se modificando à medida que vai se alterando a estrutura econômica da sociedade. 293). o fator econômico era a mola mestra da história. ainda que seguido de muito perto pelo político. na medida em que nos são acessíveis. p. criadores do materialismo histórico. Sem dúvida constitui exagero considerar o Direito reflexo exclusivo da constituição econômica. Caracterizavam-se por forte concentração de poderes nas mãos do pater famílias e rígida disciplina doméstica.

nem autonomia. Novos ramos do direito foram brotando no velho tronco do Direito Civil e aos poucos ganhando autonomia.” [pg. outro meio para libertar a mulher casada da autoridade do marido . o único dotado de capacidade jurídica. entraram em contato com outros povos. p. 244): “A própria instituição da escravidão. Influência do Fator Econômico sobre o Direito Moderno Algo idêntico ao ocorrido em Roma desenvolveu-se quando da criação da grande indústria e do maquinismo. Os demais membros [pg. Tal direito estava perfeitamente adequado a uma sociedade de pequenos agricultores. A burguesia ascendeu ao poder político. passando a ser submetida ao controle da sociedade global e não mais exclusivamente ao pater familias. Aí pelo III século antes de Cristo. Essa modificação na estrutura econômica imediatamente repercutiu no direito. indispensável no comércio. são transformações econômicas de repercussão imensa sobre o status pessoal em geral. A organização da família tomou-se menos rígida. Surgiu uma nova classe.a emancipação. no fim do século XVII. e operações foram inventadas para as quais o simples consentimento podia gerar obrigações. e sobre a condição jurídica do homem trabalhador em particular. 33] . econômico etc.2. sua substituição pelo servilismo durante o regime feudal e sua posterior superação pelo assalariado na moderna sociedade burguesa. Encontrou-se um meio para liberar o filho da tirânica autoridade do pai .Todos os membros do grupo doméstico estavam submetidos à autoridade do chefe.o casamento sine manu. dedicaram-se com grande intensidade à compra e venda de mercadorias. em decorrência do enfraquecimento correlativo dos proprietários de terras. os agricultores romanos tomaram-se comerciantes. tais como o direito comercial. o formalismo atenuou-se com a introdução da noção de boa-fé no direito. 17. industrial. 32] não tinham qualquer iniciativa. Aos poucos foram surgindo os grandes organismos econômicos. não importando idade ou situação social. os estrangeiros deixaram de ser tratados como inimigos e passaram a ser amigos. do trabalho. acarretando isso tudo um tremendo abalo na ordem jurídica. multiplicaram-se os sistemas de manumissão de escravos. Uniam-se todos em tomo do pater familias para a produção dos bens necessários à sobrevivência do grupo. enriquecida pela posse de capitais mobiliários. Lembra Machado Neto (Sociologia Jurídica. nacionais e multinacionais. Lançaram-se ao mar.

tanto na função e estrutura jurídicas. Ed. primeiro capítulo) e ainda hoje é a perspectiva da maioria dos juristas em face do Estado. embora ligada etimologicamente a polis (cidade). que mantém maior distância do econômico. como já o fazia Kelsen.. apresentarão peculiaridades. principalmente no que diz respeito aos crimes contra o patrimônio. FATORES POLÍTICOS A palavra política. aristocrático. modernamente é utilizada para designar a ciência e a arte de governar. longe de ser o responsável pela gênese do direito.a sua dinâmica. A própria organização da família. p. o direito comercial.a estática do Estado.Cumpre ainda assinalar que. como observou Nordi Greco (Sociologia Jurídica. abrangendo as relações entre o indivíduo e o Estado. é apenas um evento que exerce uma reação grave e imediata. do trabalho. É que os juristas enfocam o direito exclusivamente pelo ângulo da ciência jurídica. 310). Se bem examinarmos o conjunto de atribuições do Estado. veremos que é exatamente através da regulamentação jurídica que o Estado as exerce. [pg. ] . o Direito Constitucional . Por essa razão. direitos reais. as relações entre empregados e patrões etc. na estrutura jurídica atual. 1949. contratos. voltamos a enfatizar que do ângulo sociológico em que nos situamos há uma nítida distinção entre o Direito e o Estado. apresentam inegável repercussão econômica: o Direito Civil. Por isso já houve quem identificasse Estado e Direito (vide Teoria Marxista. Segundo o regime em que se vive. embora não se possa negar a proximidade em que se situam. 18. Sem entrar em polêmica. as relações dos Estados entre si. pelo seu aspecto normativo puro. Atalaya. A aparição do poder político. monárquico. não foge à regra. dependendo dos fatores políticos vigentes. como sobre o conteúdo do direito. a aquisição e o uso da propriedade. O próprio Direito Penal. tributário etc. na parte que se refere às obrigações. feudal ou democrático. este se realizando socialmente através daquele. razão pela qual sua teoria foi tão mal compreendida pelos sociólogos. a livre iniciativa comercial ou econômica. bem como o Direito Administrativo e o Direito Fiscal . falimentares e a ordem econômica. assumirão aspectos variantes. de maior ou menor rigidez. sucessões. o regime político de um país exerce influência direta sobre suas regras de Direito Público e até de Direito Privado. bem como as funções e atribuições do Estado.

Caracteriza-se por dupla ação: intelectual e de força. p. como lembrou Machado Neto (ob. 1946. pois a luta revolucionária exige um novo instrumental jurídico capaz de dar validade e eficácia às transformações que visa a operar no quadro social” (ob. 56). Mal concluída a tomada do poder pelo grupo revolucionário. das revoluções de 1930 e 1932. Se o movimento contraria o sistema de legalidade do Estado. cit. a Política e a Trabalhista. o grupo que destituiu os governantes e assume o poder deve iniciar o trabalho de reformulação social. “é um acontecimento político motivado pela insatisfação social quanto às instituições e regime vigentes. a terceira. refletindo as novas tendências políticas. sendo ainda certo que outras estão em andamento. A possibilidade de instauração de um novo Direito. que estabeleceu uma nova relação entre patrícios e plebeus. possui o poder de instituir uma nova ordem jurídica. A primeira resultou da revolução da independência. a quinta. p. de acordo com a filosofia preconizada. igualmente de grande repercussão social . Pressupõe idealismo. pois a revolução implica adesão social. cit. Tão logo chegou ao poder o Partido dos Trabalhadores. que se funda em novas concepções. Imbuído pelo chamado espírito revolucionário. Esse novo Direito. Assim foi na Grécia com a Legislação de Sólon. a segunda. no que diz respeito às nossas constituições de 1824. 35] do Estado Novo.. substituindo aquele que servia de sustentáculo normativo ao sistema social. assim no mundo contemporâneo. 161). A revolução. com o que se fecha o ciclo revolucionário. que significou a superação de uma questão social. surge um Direito novo. do advento do fascismo e [pg. da república. político e econômico contra o qual a revolução se lançou. traz no seu bojo a intenção de legitimar e justificar o poder. 1891.a reforma do Judiciário.. notadamente o Constitucional. 1934. A influência dos fatores políticos sobre o Direito toma-se mais patente no caso de revolução. decorrentes da vitória da revolução francesa. da redemocratização do país . e assim até mesmo no Brasil. É com essa mudança efetiva que a revolução se completa. o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva arregimentou forças políticas para realizar profundas reformas constitucionais. A legitimidade do Direito criado baseiase no apoio popular. anota Paulo Nader. 1967 e 1988. 1937. assim no mundo medieval com a Magna Carta (1215). a quarta. como as da Previdência e a Tributária que afetarão muitos milhões de brasileiros. é básica. assim foi em Roma com a Lei das XII Tábuas.O atual momento político brasileiro oferece eloqüente exemplo disto. em uma ideologia que se pretende implantar na organização social. com a Declaração dos Direitos do Homem e a Legislação Napoleônica.

destacamos as seguintes: 1) “O direito sofre.após a guerra que derrotou o fascismo no plano internacional. p. Da norma indiferenciada passa-se à centralização jurisdicional e daí à centralização legislativa. pela cultura. 36] . a ponto de podermos afirmar ser ele o aspecto cultural de um povo. da redemocratização do Estado Brasileiro. cit. exerceu influência decisiva. mas também nas suas instituições jurídicas. os fenícios pela navegação. notabilizou-se pela arte. constataremos imediatamente a necessária harmonia existente entre a ordem jurídica e os fatores de cultura.” 2) “Criam-se condições objetivas para o aparecimento gradativo da distinção entre direito público e privado: o primeiro como a regulamentação da conduta dos indivíduos naqueles pontos que mais de perto dizem respeito ao interesse coletivo ou estatal. FATORES CULTURAIS Se compararmos o direito de uma sociedade culturalmente desenvolvida com o de outra inculta.” 3) “Aparecimento das condições objetivas para o direito separar-se das normas sociais: o direito passa a ser a norma estatal por excelência. há influências recíprocas sobre o direito de cada um. quando esta é realizada diretamente pela sociedade e pelos diversos grupos sociais extra-estatais. que bem ajuda nessa tarefa de conceituar a cultura. a sexta. por exemplo.. mencionados por Machado Neto (ob. cit. pp. da revolução de 1964. a última. Roma pelo direito. os hebreus pela religião. O Que é Cultura? Há na mitologia grega um personagem. necessariamente. lembrado por Machado Neto (ob. A conquista da Grécia. sua tendência ou dom natural. Dentre as principais conseqüências da atuação dos fatores políticos. O direito evolui acompanhando a evolução cultural. sobre o direito. 305-306). em que o interesse dominante é o dos particulares. não apenas nas artes e na literatura romanas. a moral e as normas do trato vão aparecer como as formas específicas da socialização. Cada povo tem sua peculiaridade. 19. 156). como é sabido por todos. [pg.1. Pois o direito de cada um desses povos reflete o aspecto cultural em que mais se desenvolveram. e o segundo.” 19. e quando a cultura de um é colocada em contato com a de outro. o impacto de uma tendência centralizadora.. A Grécia.

transmitindo-se a outras gerações como autêntica herança social. em armas de defesa e ataque. o homem se tomaria um verdadeiro semideus. de criatura passaria a criador. está no fato de surgirem novos ramos do Direito à medida que se expande o mundo cultural do povo. FATORES RELIGIOSOS Nos povos antigos. Assim agira Zeus porque sabia que. 13).. espinhos. acorrentando-o ao Cáucaso. e de quaisquer outras aptidões do homem. a técnica. o direito. pois com base nos conhecimentos que adquiriu e desenvolveu. onde um abutre vinha periodicamente devorar-lhe o fígado. de regras morais. como ocorreu nas últimas décadas com a China. carapaças. Falamos hoje em Direito Espacial. um fenômeno cultural. ao passo que o isolamento retarda o progresso da cultura do povo. p. ficando ele nu e desamparado na natureza. levar ao infinito os seus conhecimentos. domesticar os animais. Com o seu desenvolvimento cultural conseguiu dominar as forças da natureza. criar a arte. jurídicas e de costumes. subtraiu um archote do carro flamejante de Zeus e deu-o de presente à humanidade. Nos tempos modernos. metais encontrados na natureza em máquinas e instrumentos agrícolas. a ciência. “cultura é o conjunto de conhecimentos. tudo aquilo em que colocasse as mãos. o direito não se diferenciava da religião. realidade somente possível graças ao progresso científico dos tempos modernos. Para o homem nada restou. Numa definição simplista. 20. Epimeteu conseguiu para os animais. o homem transformou pedra em machado. Foi então que Prometeu. crenças. artes. a música. enfim. capaz de transformar em utilidade. cit. pêlos abundantes. amigo dos homens.Quando da criação do mundo. tudo aquilo que lhes era necessário para a sobrevivência: dentes fortes e agudos. Na verdade assim foi. disciplinar a lavoura. das Telecomunicações etc. Na definição de Taylor. por ele adquiridas em sua condição de membro da sociedade”. Nuclear. Indignado com a ousadia de Prometeu. destreza invulgar etc. cultura é tudo aquilo que o homem acrescenta à natureza. a autoridade. chifres pontiagudos. o rei dos deuses submeteu-o a cruel castigo. força descomunal. A maior evidência de ser o Direito uma manifestação de cultura social. gerando a estagnação e a imobilidade. Cultura é isso. a filosofia. citado por Hermes Lima (ob. pele de animais em vestuário. o direito e a religião [pg. cascos resistentes. seus protegidos.. 37] emanavam da mesma . Praticamente se confundiam porque o poder. a religião. com pena do homem. a intercomunicação social é poderoso fator de formação e desenvolvimento cultural. São conhecimentos que vão se formando. de posse do fogo divino.

estado jurídico da mulher etc.o mundo profano do sagrado. Em alguns povos. como os egípcios. repletas de rituais. inacessível ao povo. conselheiros). a religião continuou exercendo largamente a sua influência. . ainda hoje estão profundamente impregnados de religião. As legislações eram. exercendo imensa influência sobre o povo. no que diz respeito a casamento. preceitos e proibições de ordem religiosa. com a consciência pessoal. o que correspondia à posse também da riqueza e dos privilégios. onde regras jurídicas e religiosas praticamente se confundem.. onde religião e direito não se confundem e a Igreja está separada do Estado. homens talhados para tal ofício pela natureza das ocupações que desempenhavam nas sociedades rudimentares. Tudo era conservado em segredo na mesma família. hebreus. ao passo que o direito trata do foro externo. sob o impacto de civilizações mais adiantadas. caldeus. Tinham a posse dos postos de comando (legisladores. a exemplo do que ocorre no Mundo Islâmico. código e livro sagrado. não deixam de receber a influência constante dos fatores religiosos. Quando o chefe político não era também o líder religioso. portanto. Os primeiros intérpretes do direito foram os sacerdotes. tal como entre os povos antigos. chefes militares. crime e pecado. e cercavam o direito de um formalismo terrível. de um modo geral que a religião se ocupa com o foro íntimo. Influência da Religião sobre o Direito Alguns sistemas jurídicos. lei e tabu. processo e ritual. divórcio. Como exemplo lembramos as transformações ocorridas no Direito romano. torna-se difícil distinguir legislador e profeta. Hoje. Na Idade Média. pode-se dizer. quando da formação do Direito canônico. 20. quando se defrontou com as idéias cristãs nos séculos III e IV de nossa era. e quase sempre estavam centralizados nas mãos da mesma pessoa. convertendo-o em ciência de iniciados. Os sacerdotes contavam com a crença popular que os considerava inspirados pelos deuses. Somente após um lento e prolongado processo de secularização.1. pena e purgação do pecado.divindade. filiação. o direito disciplina as relações sociais que se travam entre o homem e o homem. transmitindo-se de pai para filho o monopólio de conhecer o direito. mesmo os sistemas jurídicos leigos. este partilhava do poder. a religião se preocupa com as relações entre o homem e a divindade. ou entre o homem e o grupo. jurista e sacerdote. o direito foi se separando da religião . Entretanto.

culminando [pg. 38] com a criação de novas instituições. Nos dias atuais, os países onde predomina o protestantismo são bem mais liberais para com certos assuntos jurídicos do que aqueles onde predomina o catolicismo. O divórcio, por exemplo, foi aprovado no Brasil depois de longa e sistemática campanha contrária que a Igreja Católica lhe moveu. E até hoje não temos leis regulamentando o controle da natalidade em razão da acirrada oposição que setores conservadores religiosos lhe fazem.

20.2. Outros Fatores Sociais

Esses são os principais fatores sociais da evolução do Direito, mas como estes, muitos outros existem a exercer idêntica influência, pois, sendo o direito um fenômeno social, atuam sobre ele todos os fatores que atuam sobre a sociedade. O clima, o território, o número de habitantes, os recursos naturais, os grupos organizados, e a própria opinião pública despertada pela mídia a respeito de algum caso rumoroso, são outros tantos fatores da evolução do Direito. Serve-nos de bom exemplo o recente Estatuto do Desarmamento que, ao promulgá-lo, o Presidente Lula disse que essa nova lei “expressa a vontade unânime da sociedade”. Há, na realidade, a generalizada convicção de que a quantidade de armas em circulação, em poder da população, é causa direta dos altos índices de violência. Pelo menos a maioria dos homicídios não ocorreria se o agressor não estivesse armado, o que já não seria pouco. Em vinte anos (1979/1988) meio milhão de pessoas foram assassinadas no Brasil, segundo levantamento do Ministério da Justiça. Esse número de homicídios representa metade dos mortos nos oito anos de guerra Irã-Iraque, na década de 1980, e a sexta parte dos mortos na Guerra do Vietnã, um dos conflitos mais violentos do final do século XX. Entre os países que não enfrentam guerra civil, o Brasil detém o recorde de mortes por arma de fogo. Em termos absolutos, o estado mais violento é São Paulo, palco de 6.429 assassinatos entre janeiro e junho de 1999. Em seguida vem o Rio de Janeiro com 3.045 homicídios. Segundo o ex-ministro da Justiça Renan Calheiros, o Brasil é o campeão mundial em homicídios. Afirmou ele ainda que mais de 90% desses homicídios, em que criminosos e vítima não se conhecem, não são esclarecidos (O Globo, 18.07.2000). Entretanto, a aprovação da Lei do Desarmamento não foi nada fácil. O Presidente Fernando Henrique não conseguiu fazer andar o seu projeto de lei a respeito da matéria, mesmo depois de fazer do envio da mensagem ao Congresso uma festa pública e um compromisso. O Lobby contra o projeto, [pg. 39] organizado principalmente por fabricantes de armas e munição, foi mais forte. Para vencer essa resistência foi necessária uma grande

mobilização da opinião pública, para o que a mídia e as associações civis muito contribuíram, organizando e divulgando grandes manifestações em passeatas, no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. A batalha, entretanto, não está ganha. A lei precisa ser regulamentada, e os lobistas das armas certamente voltarão à luta para tentar influir nessa etapa. E a regulamentação pode decidir a sorte da legislação. Como disse Rubem César Fernandes, diretor do Viva Rio, “é fácil a lei não pegar: basta todo mundo achar que a batalha já está ganha”. Com efeito, daqui a menos de dois anos haverá um referendo popular que decidirá sobre a proibição ao comércio de armas no país. Se a opinião pública não continuar informada e motivada tudo poderá retomar à estaca zero. Concluímos este capítulo com as palavras do saudoso e sábio Oscar Tenório, “a vida das normas jurídicas não é eterna; elaboradas para as relações dos homens em sociedade, têm o seu destino condicionado ao substractum social que elas disciplinam e ordenam” (Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro, Borsoi, 1955, p. 64). As mudanças na sociedade mais cedo ou mais tarde refletem em mudanças na legislação em vigor ou em uma nova interpretação dada a normas anteriores. [pg. 40]

Capítulo V

FONTES DO DIREITO
Conceito de fonte e espécies: fontes materiais ou de produção; fontes formais ou de conhecimento. As fontes mais importantes do ponto de vista sociológico. O costume - conceito e elementos. Origem e expansão do costume. O papel do costume. Espécies de costume. A jurisprudência: o papel da jurisprudência em Roma e nas sociedades modernas; o papel da jurisprudência nas sociedades legalistas. Exemplos de jurisprudência transformada em lei. Relação entre a jurisprudência e o costume. A lei. Semelhança e distinção entre a lei e o costume. Sistema preferido - o costume ou a lei?

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O tema relacionado às fontes do Direito é normalmente abordado por todas as obras de Introdução à Ciência do Direito, decorrendo daí a indagação: por que também examiná-lo num compêndio de Sociologia Jurídica? É que a Sociologia Jurídica, como já vimos, enfoca o Direito por aspecto próprio, peculiar - o fato social, e disso decorrem pontos de vista especiais com relação às suas fontes. Teremos oportunidade de ver que as principais fontes do Direito para a Sociologia Jurídica não são as mesmas para a Ciência do Direito, que o enfoca pelo aspecto normativo. Ademais, o exame do tema proposto ajudará o estudante a ver com mais clareza as distinções entre a Sociologia Jurídica e a Ciência Jurídica. 21. CONCEITOS E ESPÉCIES A palavra fonte etimologicamente (fons, fontis) está ligada a fenômenos da natureza, indicando a origem ou nascimento de um curso de água. [pg. 41] Em direito a palavra liga-se também à idéia de origem, nascimento, mas pode ser empregada em duas acepções diferentes: histórica ou documentária e dogmática.

No sentido histórico ou documentário, consideram-se fontes todos os dados ou elementos de qualquer natureza que nos tragam alguma informação sobre o direito e as instituições jurídicas presentes ou passadas. Assim, por exemplo, serão consideradas fontes: manuscritos antigos, papiros, inscrições, monumentos, material arqueológico, desde que forneçam informações sobre o direito. No sentido dogmático, o que nos interessa no momento, a palavra fonte designa a origem, a procedência, o elemento gerador, a causa de algo - neste caso, o direito. Quando falamos em fonte do Direito, portanto, estamos nos referindo a tudo quanto concorra para a sua existência, seu aparecimento e formação. Costuma-se classificar as fontes do Direito em materiais e formais. As fontes materiais são assim chamadas porque, na realidade, materialmente falando, são as responsáveis pela elaboração do Direito. A palavra material vem de matéria, substância, essência, razão pela qual é usada para indicar aquelas fontes que verdadeiramente têm substância de fonte. Se lhe examinarmos o conteúdo, veremos que o Direito é aí elaborado. Por isso as fontes materiais são também chamadas fontes substanciais ou de produção. As fontes formais, por sua vez, são assim chamadas porque de fonte só têm a forma; nada, porém, de conteúdo. Aparentemente o Direito tem origem nas fontes formais, mas na realidade elas apenas o tomam conhecido. Por isso são também chamadas fontes de conhecimento. Se pudéssemos usar uma figura nada ortodoxa, diríamos que o Direito é produzido nas fontes materiais e embalado e distribuído pelas fontes formais. Para o sociólogo, portanto, ao contrário do jurista, as fontes formais não passam de meios de exteriorização, ou de conhecimento do Direito elaborado pelas fontes materiais, as únicas que realmente merecem a designação de fonte.

22. FONTES MATERIAIS OU DE PRODUÇÃO

As fontes materiais podem ser: imediata (que está mais próxima) e mediata (mais distante). Fonte material imediata são os órgãos legiferantes do Estado, ou seja, aqueles que, segundo a ordem constitucional, têm a função de legislar, tanto no Poder Legislativo como no Executivo. Fonte mate- [pg. 42] rial mediata ou remota é a sociedade, pois, conforme ficou demonstrado na primeira parte deste trabalho, o Direito emana do grupo social. De acordo com a lição de Paulo Nader, “o Direito não é um produto arbitrário da vontade do legislador, mas uma criação que se lastreia no querer social. É a sociedade, como centro de relações de vida, como sede de acontecimentos que envolvem o homem, quem fornece ao legislador os

AS FONTES MAIS IMPORTANTES DO PONTO DE VISTA SOCIOLÓGICO Se o Direito é um fato ou produto social do grupo como grupo. as coisas não são bem assim. uniformes e constantemente repetidos. a expressão autêntica da consciência jurídica social. a Economia.. viva. Tão logo a sociedade elabora uma determinada forma ou regra de conduta. Esta é a fonte primeira. pelos problemas que emergem na sociedade e que são condicionadas pelos chamados fatores do Direito. sendo a lei a mais importante fonte formal. a Geografia entre outros” (ob. A principal (e única para alguns) fonte material é o Estado. começando por aquela que merece a preferência da sociologia. sendo a primeira constituída pela lei e as outras pelos costumes e a jurisprudência. [pg.elementos necessários à formação das estruturas jurídicas. objetivo. Não vamos tratar neste trabalho das fontes materiais ou de produção. indicando um comportamento idêntico pelos membros da comunidade. As fontes formais ou de conhecimento também se dividem em imediata e mediata. que essa repetição seja constante. . enfoca o Direito pelo aspecto normativo. p. exterioriza-a através do costume. e a mediata (a sociedade) já foi estudada em Sociologia Geral. O COSTUME . claro que para o sociólogo a fonte material mais importante é a sociedade. cit. não bastando a repetição de atos diferentes. os órgãos legislativos. 43] O elemento externo. é representado por uma série de atos semelhantes. as fontes materiais são constituídas pelos fatos sociais. para haver costume. como vimos. Vamos pois nos ocupar apenas com as fontes formais. tomando-se conhecido. Significa isto dizer que.CONCEITO E ELEMENTOS Há dois elementos constitutivos nas normas do direito consuetudinário: o externo e o interno. 138). Já para o jurista que. é preciso uniformidade na série de atos. Como causa produtora do Direito. suprema. de natureza material. como a Moral. É a maneira pela qual o costume se exterioriza. Entre as fontes formais. sem a qual não haveria que falar em Direito. 24. 23. o próprio grupo humano. o costume merece a preferência da sociologia jurídica porque constitui a primeira e principal manifestação do Direito criado pela sociedade. porque a imediata (órgãos legislativos) é matéria do Direito Constitucional.

no convencimento íntimo de que a prática de tais atos representa uma necessidade coletiva. O elemento interno. Alguém no grupo se depara com um fato. Está formado o costume. é a conduta social reiterada de forma constante e uniforme. ou de comportamentos exemplares (Miguel Reale. e vai sendo transmitido por tradição oral. é um Direito sem paternidade. Em outras palavras. 44] para suprir suas necessidades. É principalmente sobre este segundo elemento que se funda a razão da obrigatoriedade do costume. Origem e Expansão do Costume Surge o costume de uma necessidade social. [pg. Vai sendo formado paulatinamente pela própria sociedade. que atende às conveniências sociais. isto é. de natureza psicológica. pois a coletividade só começa a ter um comportamento constante e uniforme quando intimamente convenci da de que esse comportamento é adequado às suas necessidades jurídicas. quase sempre em determinado meio sócio-profissional. Verifica-se assim que o costume é de formação livre. por estar convencida de que é a maneira correta.. e teremos: costume é a repetição constante e uniforme de determinados atos pelos membros de certa comunidade social. . 24. ou com uma relação social que ainda não se encontra suficientemente disciplinada.ininterrupta. espontânea. de acordo com as condições sociais do grupo no qual se formou. difusa. não sendo suficiente a repetição eventual. A maioria das idéias morrem no nascimento por não apresentarem qualquer inovação ou utilidade prática.1. cit. necessária. ob. É por isso que se diz que o Direito costumeiro é um Direito anônimo por excelência. 145). mas algumas pegam. praticada com regularidade e certa duração. com a consciência de que correspondem a uma necessidade jurídica. gradativa. que vai se consolidando em virtude das forças da imitação do hábito. Evolui no tempo e no espaço. ajustam-se e começam a se expandir. Imagina então um meio de resolvê-la: tem uma idéia e a coloca em prática. Com o correr do tempo a maioria do grupo passa a adotar aquela mesma forma de proceder. Trata-se de elemento subjetivo e consiste na consciência da obrigatoriedade da norma. praticada pela generalidade do grupo e não apenas por alguns dos seus membros. é a convicção jurídica de que a observância dessa prática corresponde a uma necessidade de direito. adquirindo um caráter eminentemente histórico. que a prática constante e uniforme seja também geral. Para elaborarmos agora o conceito de costume basta juntarmos os seus dois elementos. p. por ser de necessidade jurídica.

O mais comum. e desta forma vai criando o direito. bem como a Lei das XII Tábuas (apontadas como as primeiras leis escritas) são uma consolidação de usos e costumes dos povos da Babilônia e do Lácio. como do conhecimento geral. temos a tradição dos povos anglo-saxões .Já vimos que o costume manifesta-se exteriormente por atos. São negativas ou omissivas quando. São positivas quando. Mesmo depois do surgimento da legislação. toda a vida social estava alicerçada no costume. Ao lado desse sistema. “o costume é uma força produtora do Direito em todas as fases do . ineficazes. é de se reconhecer que nem sempre isso foi assim. Nas sociedades primitivas.common law. a sociedade vai paulatinamente deixando-as em desuso. doutrinadores e tratadistas. a sociedade vai elaborando outras normas de comportamento destinadas a substituí-las. 24. nos quais o Direito se revela prevalentemente pelos costumes e pelos precedentes. podem ser positivas e negativas ou omissivas. As nações latinas e germânicas adotam o sistema de tradição romana – civil law. escritores. que reside no fato de ser elaborado pelo próprio [pg. o costume não perdeu completamente sua força. é o costume manifestar-se das duas maneiras: à medida que vão caindo em desuso as normas ineficazes. Indiscutivelmente. O Papel do Costume Nas sociedades modernas. base legislativa. Embora o papel dos costumes nos países da civil law não tenha a relevância que tem nos países da common law. Continua sendo elemento que condiciona os conceitos de bom e de mau. Direito positivo escrito. estando as normas desatualizadas. determinando o que deve ser seguido e observado pelo grupo e distinguindo-o daquilo que deve ser evitado e não praticado. Essas manifestações. fundado no primado da Lei. Miguel Reale observa que o Código do Rei Hamurabi. entretanto. existem dois tipos de ordenamento jurídico. razão pela qual é acolhido pelos tribunais. que constituem seu elemento objetivo. um fato ainda não devidamente disciplinado. um procedimento destinado a supri-lo. a primeira regulamentação da vida social foi feita através dos costumes. 45] grupo. a sociedade cria uma regra. não mais atendendo às necessidades sociais. entretanto. desta forma destruindo o direito. ultrapassadas. em face de uma lacuna no ordenamento jurídico. Segundo o próprio Clóvis Beviláqua. que ainda não conheciam a lei. mesmo no sistema legalista.2.

Praeter legem é o costume que funciona como fonte supletiva. verde. 24. Exemplo dessa espécie de costume é a chamada praxe forense: muitos atos praticados diariamente no foro não são expressamente regulamentados. caindo em desuso. Muitas das leis trabalhistas tiveram nestes costumes sua fonte por excelência. foi um costume durante décadas na sociedade brasileira. bancários. 46] Contra legem é o costume que se opõe à lei. 126) determina ao juiz lançar mão dos costumes quando a norma for lacunosa ou omissa. embora ainda não convertidos em lei. com recomendação à lei para facilitar a sua conversão em casamento. que não abrangeu aquele fato oriundo das interrelações sociais. art. ou surgiu como complemento deste. desempenhando destacado papel nas relações econômicas. porque encontra respaldo na própria lei. Espécies de Costume Tendo em vista as relações do costume com a lei. Quer isto dizer que o legislador previu a possibilidade de haver questões não enquadradas efetivamente nos textos legais existentes. são praticados regularmente pela sociedade.. podemos distinguir três espécies: secundum legem. de acordo com a opinião dominante. [pg. A união estável. Neste caso. por último. Resulta da contradição existente entre a lei e as fontes reais do Direito. o costume deve ser observado e até exigido. Secundum legem é o costume que serviu de apoio ao ditame legislativo regular. antes de ser reconhecida pela Constituição. O cheque ouro. Outros costumes. introduz uma nova norma contrária às disposições legislativas. suprindo sua lacuna: está além da lei. eram usos e costumes comerciais. art. e Código de Processo Civil. bem como o cartão de crédito. modalidades de cheque especial. ou faz os preceitos legais vigentes não serem aplicados. No entender de alguns juristas (Serpa Lopes). quer para corrigi-lo. são exemplos apropriados daquilo que afirmamos. azul etc. dando-lhe interpretação mais conforme às necessidades sociais”. antes de serem formalizados pelo legislador. quer para completá-lo. Assinale-se. o que demonstra haver sempre lugar para o costume. Em nosso próprio Direito positivo há inúmeros institutos que.3. que a própria lei (Lei de Introdução ao Código Civil.desenvolvimento deste. . praeter legem e contra legem. realizam-se de acordo com costumes que servem de complemento à lei. o desuso é espécie do gênero costume contra legem. onde a lei nada dispôs. praxes forenses etc. 4°.

sem sombra de dúvida. há muito caiu em desuso. tipificam o crime de casa de prostituição. No Brasil os órgãos judiciários são numerosos: desde os juízes de primeira instância. está apenas assinando o atestado de óbito. ainda que um preceito legal caia em desuso. em todos os sistemas jurídicos. 229 do Código Penal. tanto das comarcas do interior como das capitais. dando ensejo a que os motéis proliferassem amplamente. sucessivas vezes. isto é. Por não corresponderem às necessidades recentes da sociedade. entretanto. Essas decisões reiteradas que emanam dos órgãos judiciários constituem a jurisprudência. que se apresenta contra a lei.Essa questão tem gerado sérias controvérsias. existem inúmeras normas não mais aplicadas. guardaram o mesmo entendimento. deva ser sumariamente repelido. tomando-a letra morta. Do ponto de vista sociológico. São socialmente aceitos. Quando o legislador vem a revogá-la por outra lei. Tais fatos. 25. É o fenômeno bem conhecido a que se deu o nome de extinção por desuso. caíram em desuso. Para o jurista. Podemos resumir a controvérsia dizendo que. do ponto de vista puramente jurídico. Tal norma. temos que admitir a prevalência do costume. tomando-se letra morta. Os costumes. Quer isso dizer que o costume só não revoga a lei no seu aspecto formal. o costume contra a lei não pode prevalecer simplesmente porque uma lei só pode ser revogada por outra. pelo art. fizeram desse artigo letra morta. 47] que em todas as oportunidades as decisões foram semelhantes. não pode produzir o efeito de fazer-se substituir por uma norma consuetudinária oposta. Tempos depois caso idêntico é submetido à decisão do Judiciário e. sendo certo [pg. mesmo contra a lei. porque não tem sido pacífica a interpretação de que o costume. mas a revoga de fato. recebe uma decisão. Só para exemplo disto lembramos o caso dos motéis que. previsto no art. caracterizam o crime de escrito ou espetáculo obsceno. Ninguém desconhece que. Coisa idêntica ocorre com os livros. e com inúmeros filmes exibidos em nossos cinemas. 234 e parágrafo único do Código Penal. entretanto. revistas e outros veículos de literatura pornográfica que pululam nas bancas. entretanto. Em lugar delas a sociedade consagrou outras normas de comportamento consuetudinário para atender às novas realidades. até os tribunais de segunda . A JURISPRUDÊNCIA Um caso é levado à apreciação do Judiciário onde. assim. após regular tramitação do processo.

. com o passar do tempo. destacando-se o Supremo Tribunal Federal.” O juiz. concedendo ações em casos não contemplados pelo ius civile ou decidindo ele próprio contra o sistema vigente. p.instância (Tribunais de Alçada. tiveram origem nessa jurisprudência pretoriana. construíram o jus civile. extremamente fecundo como fonte de direito. encaminhando as partes ao juiz. primeiro.1. absolve.. aplicava a regra do pretor. o que proporcionava ao pretor utilizar uma fórmula anteriormente elaborada para outro caso idêntico. o pretor ordenava ao juiz condenar ou absolver. elaborava uma fórmula escrita. no meado do século II a. espécie de magistrado e também em parte legislador. 148). aos poucos. e o jus gentium. e assim. o pretor. se não te parecer que deva pagar. Cabia ao juiz apreciar as provas e aplicar a regra jurídica ao caso em concreto. 123). p. cit. Nessa fórmula. Ebert Chamoun (Inst.. privativo dos romanos. condene Caio a pagar dez mil sestércios a Tício. [pg. por sua vez. após examinar as provas oferecidas pelas partes. que se convencionou chamar direito pretoriano. além de enumerar os elementos do processo. Era algo mais ou menos assim: “Porque Tício vendeu um escravo a Caio.. sem procurar saber se estava ou não provado. Miguel Reale afirma: “Foi através da atividade dos juízes e dos pretores que os romanos. 1962. foi se formando uma rica jurisprudência. quem tinha uma pretensão ia ao pretor. Exposto o problema. se fosse o caso de conceder ação. de Direito Romano. já que muitas vezes tinha que elaborar a regra jurídica a ser aplicada ao caso que lhe era apresentado. Inúmeros institutos jurídicos.C. Como se vê. de caráter mais amplo” (ob. Conhecido como processo per formulas. ainda hoje existentes. o pretor elaborava a fórmula ou regra jurídica apenas apreciando o fato em tese. 4a ed. teve início um novo processo que substituiu as Legis Actiones. segundo o magistério do Prof. Modernamente a palavra jurisprudência designa o conjunto de decisões anteriores proferidas por juízes ou tribunais sobre casos idênticos. de Justiça) e os Tribunais Superiores. 25. através da Lex Aebutia. Os casos se repetiam. Nesse período. conforme a sua convicção sobre os fatos. conforme entendesse procedente ou não a pretensão do requerente. foi utilizado durante o período clássico e originou-se da atividade do pretor. 48] Com a sua incontestável autoridade. Papel da Jurisprudência em Roma Em Roma.

não é [pg. já que todo Direito emana da lei. Mesmo admitindo uma perfeita adequação entre a realidade social e a lei. mas simples meio de interpretação. o que. O mesmo já não ocorre nas sociedades baseadas no direito consuetudinário. 49] verdade. O Papel da Jurisprudência nas Sociedades Modernas Nas sociedades legalistas a jurisprudência desempenha papel secundário. isto é. com o correr do tempo a norma vai se tomando desadequada. a jurisprudência é apenas um roteiro ao lado da lei. dos costumes ou princípios gerais do Direito. a função do juiz é somente aplicar a lei ao caso concreto. que não vai além de fixar um rumo. Nesses países a jurisprudência constitui fonte viva do Direito. Assim entendem porque não é função do juiz criar o Direito. Praticamente. 25. porque a norma que o juiz encontrou já estaria implicitamente contida no Direito positivo vigente e não daria origem a uma norma geral e obrigatória. o que é evidente na terminologia anglo-saxônica: diz-se judge made-law e a palavra justiça incorpora-se muitas vezes ao nome civil do juiz: “Mister Justice Smith. já que a lei é estática e a sociedade é dinâmica. consagrar uma orientação.” As fontes do Direito inglês são a Statute Law (direito legislado) e a Common Law (direito costumeiro). Nos sistemas codificados. ainda que já constitua súmula do Supremo Tribunal Federal. Mesmo nos casos de ter o juiz que lançar mão da analogia. entretanto. não tem em princípio a força de obrigar o juiz a acatá-la em suas decisões. sendo relevantíssimo o papel do juiz. donde a importância dos precedentes. a força obrigatória reduzida em sua rigidez. Para muitos juristas a jurisprudência nem seria fonte (formal) do Direito. Novas hipóteses vão surgindo em decorrência das . que o legislador tenha previsto todas as hipóteses e dado todas as respostas na lei. a Common Law é uma coleção de precedentes judiciários. do ponto de vista puramente jurídico. que têm força obrigatória.2. por não existir uma norma particular na legislação.3. por mais reiterada que seja a jurisprudência. Tal posição pressupõe. tem valor restrito. O Papel da Jurisprudência nas Sociedades Legalistas Já vimos que. Constantemente estão os juízes enfrentado hipóteses novas e decidindo casos não contidos no âmbito das normas existentes. mas tão-somente aplicar a lei ao caso concreto. Entre nós.25. como se sabe. que todas as hipóteses estejam nela previstas no momento de sua elaboração. entendem os juristas não haver criação do Direito pela jurisprudência. esta é definida nos julgamentos.

Os ingleses e americanos devem à essa colaboração legislativa da magistratura. exerce uma função de cooperador e modificador na obra legislativa. tenham se limitado a aplicar as leis existentes. a tal ponto que se fala normalmente na função pretoriana da jurisprudência. . do ponto de vista sociológico. Inúmeras outras hipóteses de omissões e obscuridade na lei obrigam o juiz a construir. Inúmeros são os casos em que os tribunais acabaram criando um Direito novo. Quer isto dizer que o próprio legislador previu a possibilidade de haver questões não enquadradas efetivamente nos textos legais existentes. a partir do advogado. pelo Código do Consumidor e pelo novo Código Civil. pela sua colaboração contínua. já que o juiz é obrigado a aplicar a norma que estabeleceria se fosse legislador. Desempenharam nesses casos. Nesse ponto. A jurisprudência. mutatis mutandis. num determinado momento que amanhã poderá não mais corresponder à realidade. um papel positivamente criador. a lei é a concepção estática do direito. Em outras palavras. com base no fato concreto. altera sensivelmente o Direito positivo.constantes transformações sociais. através de uma interpretação ora extensiva. não pode o juiz deixar de decidir alegando lacuna na lei: a própria lei (CPC. respeitado o ordenamento jurídico. necessário se faz invocar a autoridade do grande Rui Barbosa: “Ninguém ignora o papel da jurisprudência na evolução do Direito escrito. ajustando o Direito às novas realidades sociais. O juiz. elaborado por muitas inteligências. Os princípios constitucionais provocaram uma nova visão interpretativa. deram novo sentido e alcance à ordem jurídica. em relação à essência do Direito. 50] O papel criador da jurisprudência foi grandemente prestigiado pela Constituição de 1988. obra sua. ora restritiva. pois tomaram-se o filtro pelo qual passamos a reler toda a legislação infraconstitucional. boa parte dos princípios radicados na sua vida civil. A técnica das cláusulas gerais adotada pelos Códigos do Consumidor e Civil ampliaram consideravelmente os poderes do juiz. apenas na forma. art. que os infiltra. embora aparentemente. passando pelo juiz de 1º grau. os alui. os decompõe. dos costumes e princípios gerais do direito. exigindo o pronunciamento judicial. fixada nos textos. art. em muito comparável. até chegar às Cortes Superiores. Isso tudo leva a concluir que. à judge made-law. Por outro lado. formular decisões mais justas e efetivas na composição dos conflitos de interesse. 126 e Lei de Introdução ao Código Civil. Sobre a letra. na realidade social que está em constante mutação. ao papel do pretor em Roma. lançando mão da analogia. ao passo que a jurisprudência é o direito dinâmico. 4°) ordena-lhe formular uma regra jurídica para a hipótese e dar uma decisão. passa a autoridade dos arestos. a jurisprudência cria Direito mesmo nos sistemas legalistas.” [pg. dando-lhe condições de.

determinar previamente qual a norma de conduta que deveria ter sido observada naquele caso. como ensinava a escola exegética.Cláusulas gerais (das quais são exemplos os artigos 4º. aquilo que se diz ser o seu significado. apenas demarca uma moldura dentro da qual o juiz deverá encontrar a lei do caso concreto. assim criada para aquele caso concreto. como é a da teoria tridimensional do Direito. [pg. do alto da sua autoridade. 421. artigos 113. ela será considerada lícita. O juiz tem que formular a lei do caso concreto. dos princípios a serem preservados (por exemplo. IV do Código do Consumidor. que é uma norma particular. interpreta a norma legal situado numa estrutura de poder. que lhe confere competência para converter em sentença. com vistas à produção da solução adequada para o caso a ser resolvido. a regra jurídica disciplinadora do fato e que. p. 187. será então ilícita” (Revista EMERJ. Em função da regra que ele cria para aquela situação. 927 e parágrafo único. 422. “a boca da lei”. e 51. jurista de escol e um dos maiores juízes que passaram pelo Superior Tribunal de Justiça. no fundo. a sua interpretação. n° 24. no momento de fazer a sua aplicação. não há como negar à Jurisprudência a categoria de fonte do Direito. 169). estabelecem apenas uma moldura dentro da qual se desenham diferentes possibilidades interpretativas. Como se vê. 6. fria e automaticamente. o juiz deverá determinar o sentido da norma. 931 do Código Civil). Em aula magna proferida na Escola da Magistratura do Rio de Janeiro ..2003). fará então a avaliação da conduta em exame. reconhece à jurisprudência o papel de fonte do Direito. assim conceituou a cláusula geral: “A cláusula geral é uma norma que impõe ao juiz o dever de. na realidade. se em desacordo. O relato da norma. em suma. Numa compreensão concreta da experiência jurídica. visto como ao juiz é dado armar de obrigatoriedade aquilo que declara ser de direito no caso concreto. fins econômicos ou sociais). a sentença passará a ser lei entre as partes. o Ministro Ruy Rosado de Aguiar Junior. vol. É por isso que Miguel Reale. O magistrado. isto é. como já enfatizado. o papel do juiz moderno não é mais apenas o de aplicar a lei ao caso concreto. Na cláusula geral o juiz aplica a lei que encontra no Direito e não o direito que encontra na lei. uma vez transitada em julgado. 51] Esta é a lição do Mestre: “Se uma regra é. III. com base nos parâmetros estabelecidos na norma.EMERJ. Se essa conduta estiver de acordo com a norma de dever. boa-fé) e dos fins a serem realizados (por exemplo. 18. não tem sentido continuar a apresentar a Jurisprudência ou o costume como fontes acessórias ou secundárias” (ob. cit. o seu entendimento em lei. é aquele que elabora a lei do caso concreto. . p. À vista dos elementos do caso concreto.

4. impondo um regime de fome ao alimentando durante o curso do processo. “como um pensador adjunto do legislador. Por isso não mais se pode questionar que a lei não é a única fonte do Direito. Ed. revela-se oportuna a sábia observação de Mário Moacyr Porto: “A lei não esgota o direito assim como a partitura não esgota a música. Essa nunca foi e nem será a função do juiz. Assim também acontece com a lei por mais avançada que ela se apresente. cuja importância como fonte se toma cada vez maior. mais do que nunca. não cega como no passado. incutindo ação política nos atos decisórios. tem que respeitar a moldura jurídica estabelecida na lei. daquele que não se mantém neutro ideologicamente. deve obediência à lei. razão pela qual a jurisprudência passou a entender ser a pensão devida a partir da citação inicial.” Com efeito. muitas vezes indo além da própria disciplina positiva. preconizam a figura o juiz reformador. com o contexto de conflitos de necessidades humanas no qual o direito está inserido” (Manual de Sociologia Jurídica. p. A toda evidência. 52] 25. Deve atuar. Os precedentes são. ou seja. mas sim do político. Exemplos de Jurisprudência Transformada em Lei Durante muito tempo. acabou sendo encampado pelo legislador e transformado em . por corresponder a uma necessidade. Ao lado dela se posiciona a jurisprudência. Com a finalidade de se alcançar a justiça social. mas uma obediência inteligente. na feliz imagem de Ana Lúcia Sabadell.Hoje. a excelência da partitura e a genialidade do compositor ficarão prejudicados se não houver talento do intérprete. Tal entendimento tomou-se tão reiterado que. por exemplo. um manancial que consolida determinada orientação. indiscutivelmente. como de regra acontece com todas as decisões judiciais. esse papel criador do Direito desempenhado pela Jurisprudência não vai ao ponto de uma total independência dos ditames da lei. mas que se conscientiza do grau de injustiça que atinge economicamente camadas sociais e deve minorar a sorte dos pobres. Isso acarretava uma série de problemas sociais. para desafiar questão que somente pode ser decidida com critérios de hermenêutica que buscam formas de integração das lacunas. Revista dos Tribunais. ela não acompanhará a realidade social. Se não houver talento criador dos seus intérpretes (juízes e operadores do Direito). porque se preocupa com as condições do direito na realidade social. por mais genial que tenha sido o legislador. sejam de formulação. sejam de valoração. Temos aqui uma escola jurídica de corte sociológico. a pensão alimentícia só era devida após o trânsito em julgado da sentença. Muito embora possa e deva o juiz decidir com certa flexibilidade. como querem os defensores do chamado direito alternativo. [pg. 33).

terá que encontrar uma solução compatível com os [pg. mas em procurar a mais adequada às aspirações do meio que o cerca. Conclui-se daí que a decisão do juiz é baseada nos costumes. Vários dispositivos da atual lei das locações tiveram por fonte o entendimento jurisprudencial. ele tem seus pontos objetivos de referência. o costume não lhe dita explicitamente a decisão. ele se conduz em função de certos princípios gerais estabelecidos. Razão assiste ao saudoso mestre Hermes Lima ao afirmar: “Entretanto. contra o qual tem ação regressiva” -. não é elidida por culpa de terceiro. Relação entre a Jurisprudência e o Costume Sempre que o juiz é chamado a decidir um caso que não está claramente previsto em lei. foi transformada. não resta a menor dúvida que a jurisprudência exerce profunda influência no desenvolvimento do direito positivo. reconhecidos pela jurisprudência com base na sociedade de fato. Por isso costuma-se dizer que os juízes descobrem o direito. cit. reflete-se necessariamente na obra do magistrado. encontram as normas já existentes no seio da sociedade. que dispunha . ipsi verbis. A súmula 187 do Supremo Tribunal Federal. Sem dúvida. serve-lhe de substrato. Podemos afirmar que o direito é a lei aplicada mais o que ela recebeu do órgão Juiz ou Tribunal. desde que seu poder de aplicar inclui necessariamente o de interpretar. o de tomar a lei adequada à espécie sobre que vai decidir. Inúmeras outras inovações e progressos jurídicos poderiam ser mencionados. fazendo seu papel consistir. 25. conseqüentemente. porém o ajustamento da lei ao caso em questão está condicionado a uma estimativa de natureza pessoal e a uma apreciação.que a executou. hoje lhe garante inúmeros direitos graças aos avanços introduzidos pela jurisprudência.5. que lhe era tão desfavorável. 205-206). porém certamente construtora” (ob.. contar-se entre as fontes do direito.lei.“A responsabilidade contratual do transportador. Algo idêntico ocorreu com os direitos da companheira. A ambiência que cerca a espécie sub iudice. ambiência econômica. o que evidencia que a jurisprudência constitui uma atividade verdadeiramente construtora e pode. pelo acidente com o passageiro. 53] interesses ou conveniências sociais. que não chamarei de criadora. no artigo 735 do novo Código Civil. social e política. Certo. Tal como os . A sentença deverá refletir a opinião coletiva sobre o fato. desde que a posição do juiz não é a de um escravo ou de um autômato em face da lei. não em encontrar uma solução nova. mas exerce sobre ele uma pressão latente e irresistível. A lei. pp.

transforma para seus fins. o legislador. no Estado. Diferem entretanto em muitos aspectos: .é o fato social ou relação fática concreta a que a lei se reporta ou descreve e o conseqüente o efeito que a lei atribui à ocorrência fática. que nos transmite o conhecimento do núcleo jurídico que a anima . a lei é continente e o direito é conteúdo. p. é conferido o poder de ditar regras de direito (ob. o que evidencia não ser possível tomar o termo “legislativo” em sentido restrito. as normas a serem aplicadas em suas decisões. Se a lei é liame. se reconhece a função legislativa. Com efeito. a lei e o costume se assemelham. obriga a agir. 83). 26. decorrentes das necessidades sociais. tanto a lei como o costume são regras de conduta. Todo e qualquer órgão que dite norma genérica de conduta é legislativo em si. em fato jurídico (gerador) ou relação jurídica (Curso de Direito Tributário.diz Ruy Barbosa Nogueira . porque. Costuma-se dizer que a lei é o tegumento do direito. o fato ou relação fática. Daí a razão de ser a lei considerada a fonte formal imediata do direito. do próprio ambiente social. Ambos são. segundo a constituição política do Estado. portanto. expressão da vontade do grupo. 10ª ed. por sua vez. 26. A Lei. Semelhança e Distinção entre a Lei e o Costume Quanto ao conteúdo.. cit. mas também. qual o antecedente e o conseqüente? O antecedente . portanto. formas de exteriorização do direito. A LEI A palavra lei vem de ligar. Poderíamos dizer que lei é a regra social obrigatória emanada da autoridade a que. assim como os costu. diz que lei é toda norma jurídica oriunda dos órgãos da soberania. deve estar atento às mesmas necessidades. sem aplicação prática. porque este termo significa o poder de fazer lei em sentido formal.antigos pretores romanos. 54).[pg. a lei é a forma. ao elaborar a norma legal. Em suma. p.1. aos quais. Ruggiero. Saraiva. sob pena de fazer uma lei ineficaz. 54] mes têm origem nas necessidades sociais. A função legislativa entre nós é conferida especialmente ao Poder Legislativo. a sua forma escrita. quer dizer. Nisto. ligação ou vínculo. em sentido jurídico. devem ter sensibilidade jurídica para encontrar e extrair. em princípio.o direito. através da qual o direito se exterioriza e se toma conhecido. em certos casos.. ao Poder Executivo.

A lei se exterioriza por escrito e através de fórmulas rígidas. partidário do direito consuetudinário. Savigny. Para ele o costume. A lei. rei da Babilônia. Eis aí outra razão pela qual o costume é anterior à lei: somente depois do surgimento da escrita. O processo de elaboração da lei. votação. Já quanto à lei.C. onde teve origem um determinado costume. quando. 26. Esta só veio a surgir quando a sociedade chegou ao estágio de organizar-se política e juridicamente. 2) Quanto ao processo de elaboração: O costume. é formal. é de formação livre. criando o Estado. vai se formando paulatinamente. precisas. longe de ser mais flexível do que a lei.2. tomando-se mais difícil sua modificação. Por isso as mais antigas leis conhecidas são os textos mesopotâmicos do segundo milênio a. até chegar à publicação. 3) Quanto à forma: O costume se exterioriza através de condutas reiteradas e é transmitido em regra por via oral. ardoroso defensor da codificação. entre dois juristas de escol. toda a regulamentação da vida social foi feita através do costume. Em oposição se colocava Thibaut. além de se adaptar mais facilmente . Até então. tende a se incrustar. a codificação dificultaria a evolução natural do Direito. sabemos exatamente quando foi elaborada. emana diretamente da sociedade. passa de pai para filho pela tradição. Sistema Preferido . dos quais o mais famoso é o Código de Hamurabi. historicamente. sanção. entretanto. como já vimos. no começo do século XIX. o fundador [pg. emperrando o seu desenvolvimento e tomando-o desadequado à realidade social. é anterior à lei.C. Por isso o costume. sustentava que o costume devia prevalecer sobre a lei por ser a expressão direta e pura das aspirações da coletividade nacional. promulgação. quando entrou em vigor e quando foi revogada. preestabelecido. é que se tomou possível a elaboração das primeiras leis. à medida que determinada conduta vai sendo aceita e reiterada pelo grupo. e a lei de um órgão estatal. iniciando-se com um projeto. 55] da Escola Histórica. gradativa. O Decálogo hebraico (os dez mandamentos) é de alguns séculos mais tarde e as leis indianas de Manu datam do III século a..1) Quanto à origem: O costume. Nunca podemos saber com precisão quem. passando pela discussão. numa época relativamente recente da história humana.O Costume ou a Lei? Em torno dessa questão travou-se grande controvérsia na Alemanha. espontânea. No seu entender. também já vimos.

apresenta a grande vantagem de proporcionar um conhecimento mais rápido e oferecer maior segurança do que o costume. apenas alguns preferindo o direito consuetudinário. objeto de estudo da Ciência do Direito. Já ficou assentado que a lei é. A Sociologia Jurídica só se preocupa com a eficácia da lei. Dessa controvérsia resultou que a maioria dos Estados modernos vive sob o regime da codificação. [pg.às novas condições sociais (desde que o legislador esteja atento e disposto a isso). 56] . como veremos nos próximos capítulos. essencialmente.

a sociologia do direito se confundiria com a própria ciência do Direito. Não se confunde o objeto da Sociologia Jurídica com o de qualquer outra ciência que também se relacione com o direito. a sociologia jurídica seria parte integrante da Sociologia. integrante de uma superestrutura social. pelos instrumentos e métodos das ciências mais antigas. 222). e isso gerou controvérsias. como acontece com toda ciência nova. quando muito constituindo uma de suas especialidades. a ciência do direito e a filosofia do direito. Para outros. p. Relação da Sociologia Jurídica com os demais ramos do direito. pois tem objeto próprio. O ser e o dever ser. Entre os que pensam dessa última maneira podemos citar Edmond Jorion. A História do Direito. 1961. 57] a afirmar que a autonomia da Sociologia Jurídica é hoje reconhecida. para quem a Sociologia do Direito e a Ciência do Direito constituem uma só e mesma disciplina (De la Sociologie Juridique. limitamo-nos [pg. foi bastante controvertida. Muitos autores procuraram explicar. os prós e contras das várias posições. aquilo que se pretendia constituir em objetivo da nascente sociologia do direito. **** 27. fugindo aos objetivos deste modesto trabalho. por exemplo. AUTONOMIA CIENTÍFICA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA A questão da autonomia da Sociologia Jurídica. juristas em geral. Na opinião de muitos sociólogos. A finalidade da Sociologia . a vigência e o fundamento. Teoria tridimensional do direito: diferença entre a Sociologia Jurídica. método e leis. por isso que se preocupa apenas com o direito como um fato social concreto. A eficácia.Capítulo VI A AUTONOMIA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA COMO CIÊNCIA E SUAS RELAÇÕES COM OUTRAS CIÊNCIAS SOCIAIS Autonomia da Sociologia Jurídica. Sem nos estendermos sobre a controvérsia.

porém. Tais elementos ou fatores (fato. como defendem os normativistas.. 378). uma regra ou norma. valorativa. A originalidade desse grande jurista brasileiro está. Essas visões são parciais e não revelam toda a dimensão do fenômeno jurídico. sob forma de regulamentação da vida social. sempre e necessariamente.. Mais ainda. há. inclinando ou determinando a ação dos homens no sentido de atingir ou preservar certa finalidade ou objetivo. geográfico. p. que. que assim pode ser resumida: Onde quer que haja um fenômeno jurídico. . com as quais tem muito em comum. Este congrega aqueles componentes. Lições Preliminares de Direito. 65). É evidente. ob. na qual cada fator é explicado pelos demais e pela totalidade do processo” (Paulo Nader. normativa. A TEORIA TRIDIMENSIONAL DO DIREITO Quem elucidou essa questão melhor do que ninguém foi o genial Miguel Reale na sua teoria tridimensional do Direito. Saraiva. [pg. cit. como querem os sociólogos. mas coexistem numa unidade concreta. 12ª ed. como proclamam os idealistas. que representa a relação ou medida que integra um daqueles elementos ao outro. um fato subjacente (fato econômico. Título X. mas atuam como elos de um processo. Ed. valor e norma formam uma unidade fático-axiológica-normativa. que confere determinada significação a esse fato. embora se tratando de uma ciência autônoma. esses elementos ou fatores não só se exigem reciprocamente. 4ª ed. 28. p. e. Fato. um valor. como se vê. Juntos vão formar uma síntese integradora.Jurídica é estabelecer uma relação funcional entre a realidade social e as diferentes manifestações jurídicas. 1965. mantém a Sociologia Jurídica íntimas relações com todas as ciências sociais. demográfico. valor ou norma) não existem separados uns dos outros. de ordem técnica etc). uma espécie de santíssima trindade do Direito. de tal modo que a vida do Direito resulta da integração dinâmica e dialética dos três elementos que a integram (Filosofia do Direito. 58] Daí resulta que “o Direito não possui uma estrutura simplesmente factual. Cada um desses três fatores se refere aos demais e por isso só alcança sentido em conjunto.. principalmente com a Ciência do Direito e Filosofia do Direito. na maneira como descreve o relacionamento entre os três componentes do fenômeno jurídico. o fato ao valor. uma verdadeira trilogia. com objeto próprio e inconfundível. no tempo e no espaço. mas não em uma simples adição. fornecendo subsídios para suas transformações. quando formam uma implicação dinâmica. finalmente.

Na correta visão de Reale, o Direito forma-se da seguinte maneira: um valor podendo ser mais de um - incide sobre um prisma (área dos fatos sociais) e se refrata em um leque de normas possíveis, competindo ao poder estatal escolher apenas uma, capaz de alcançar os fins procurados. Um valor pode desdobrar-se em vários dever-ser, cabendo ao Estado a escolha, a decisão; toda lei é uma opção entre vários caminhos; o fato nunca será isolado, mas um conjunto de circunstâncias. Na concepção do autor dessa teoria tridimensional, o Direito é uma realidade fático-axiológico-normativa, que se revela como produto histórico-cultural, dirigido à realização do bem comum. Apesar de sua natureza dinâmica, o Direito possui um núcleo resistente, uma constante axiológica, invariável no curso da história. Pois bem, esses três fatores inseparáveis do Direito - fato, norma e valor - vão constituir o objeto de três ciências distintas, embora afins: a Sociologia Jurídica, a Ciência do Direito e a Filosofia do Direito. A Sociologia Jurídica tem por objeto, como já ficou dito, o direito fato, a Ciência do Direito se preocupa com a norma, e a Filosofia do Direito dedica-se ao direito em seu aspecto valor.

28.1. Diferença entre a Sociologia Jurídica e a Ciência do Direito

O fato é o acontecimento social referido pelo Direito objetivo. São as relações sociais, fatos interindividuais que envolvem interesses básicos para a sociedade e que por isso enquadram-se dentro dos assuntos regulados pela ordem jurídica. Implica isto dizer que a Sociologia Jurídica descreve a realidade social do direito sem levar em conta sua normatividade. Preocupa-se com a existência do direito como produto ou fenômeno social, decorrente das inter-relações sociais, e não como foi concebido ou equacionado pelo legislador. A sociologia deve apenas relatar e registrar o fato sem se envolver com valores, ideologias ou normas. É tarefa do sociólogo descrever os fatos. [pg. 59] A norma consiste no padrão de comportamento social a ser adotado em cada caso. “Ao disciplinar uma conduta, o ordenamento jurídico dá aos fatos da vida social um modelo, uma fórmula de vivência coletiva” (Paulo Nader, ob. cit., p. 378). E esse é o campo da ciência do Direito. Estuda o Direito pelo seu aspecto normativo, isto é, o conjunto de leis e regras escritas e emanadas do Estado. À ciência do Direito interessa o conhecimento das normas jurídicas, que enunciam, não o que sucedeu ou como sucedeu, mas o que deve acontecer, já que o objeto do saber jurídico é o Direito, e o Direito é a norma, nada mais que a norma (Kelsen). A norma pode ser definida como um juízo hipotético destinado a expressar que fazer ou não fazer algo deve acompanhar-se de uma medida de coação por parte do Estado.

28.2. Distinção entre a Sociologia Jurídica e a Filosofia do Direito

À Filosofia do Direito, que objetiva o estudo do direito no seu aspecto valor, cabe determinar sua formação e desenvolvimento em relação aos elementos infra-estruturais da sociedade, ressaltando a dependência de suas modificações. Preocupa-se com correntes filosóficas e ideológicas, que conceberam o direito desta ou daquela forma, e com a escala de valoração jurídica dos bens existentes na sociedade. Valor é o elemento moral do Direito, a sua essência ética. Toda a obra humana é impregnada de sentido ou valor, e assim também ocorre com a sociedade. Tem ela uma escala de valores ligada à idéia de poder, importância, qualidade, estima, utilidade e necessidade material ou moral, acerca de condutas, posições, entendimentos e coisas, escala essa que vai se formando e se modificando de acordo com correntes ideológicas - pensamentos, idéias, opiniões - existentes em determinado momento e em determinada sociedade. Toda norma enuncia algo que deve ser, em virtude de ter sido reconhecido um valor como razão determinante de um comportamento declarado obrigatório. O valor confere determinada significação ao fato, inclinando ou determinando a ação dos homens no sentido de atingir ou preservar certa finalidade ou objetivo. Houve tempo, por exemplo, que a liberdade foi o grande valor social que, por sua vez, deu causa ao liberalismo. O Direito brasileiro atual, principalmente a partir da Constituição de 1988, voltou a dar ênfase aos valores, o que tem conseguido alcançar por meio da consagração de princípios. Princípios são valores éticos, morais e sociais apreendidos pelo legislador e que, consagrados em um preceito, passam a ser instrumentos de interpretação de outros preceitos, enquanto [pg. 60] normas são regras de comportamento que estabelecem como deve ou não deve ser a conduta e as conseqüências que daí decorrem. Regras oferecem soluções enquanto que os princípios oferecem paradigmas, critérios para se encontrar a solução do caso concreto. Entre os superiores princípios (valores) consagrados na Constituição de 1988, merece especial destaque o da dignidade da pessoa humana, colocado como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1°, III). Temos hoje o que pode ser chamado de direito subjetivo constitucional à dignidade. Ao assim fazer, a Constituição colocou o Homem no vértice do ordenamento jurídico da Nação, fez dele a primeira e decisiva realidade, transformando os seus direitos no fio condutor de todos os ramos jurídicos, Isso é valor. E, ao inserir em seu texto normas que tutelam os valores humanos, a Constituição fez também estrutural transformação no conceito e valores dos direitos

individuais e sociais, o suficiente para permitir que a tutela desses direitos seja agora feita por aplicação direta de suas normas. No plano infraconstitucional, a legislação vem seguindo o mesmo caminho. O Código do Consumidor é uma lei principiológica, no qual foram consagrados os valores éticos e morais necessários à defesa do consumidor, entre os quais a boa-fé objetiva, princípio cardeal (arts. 4°, VIII; 51, IV), a transparência, a confiança, a informação, a segurança e outros. O novo Código Civil, como não poderia deixar de ser, pois foi coordenado pelo autor da teoria tridimensional do Direito, está todo comprometido com o resgate dos valores éticos, sociais e morais no Direito. A título de exemplificação, lembramos que a boa-fé é também o princípio cardeal desse novo Código, uma espécie de fio condutor de toda a sua estrutura. Não se trata, porém, da boa-fé meramente subjetiva - posição psicológica, intenção pura e destituída de má-fé, crença ou ignorância de uma pessoa -, porque isso a realidade demonstrou não ser suficiente nas relações sociais regidas pelo Direito, Dizem que o inferno está cheio de pessoas bem intencionadas. A boa-fé consagrada pelo novo Código como valor superior é a boa-fé objetiva ou normativa, assim entendida a conduta adequada, correta, leal, transparente, confiável e honesta que as pessoas devem empregar em todas as relações sociais. Três são as funções da boa-fé objetiva no novo Código Civil: a) fonte de deveres instrumentais dos contratos (art.422): quem contrata não contrata apenas o que contrata, contrata também lealdade, cooperação, transparência, informação etc. (tem-se dito que esse dispositivo é a porta de entrada da ética no nosso Direito); b) regra de interpretação dos negócios [pg. 61] jurídicos (art.113): todo e qualquer negócio jurídico deve ser interpretado pelo juiz de acordo com o princípio da boa-fé; c) limite ao exercício dos direitos subjetivos (art.187): nesta terceira hipótese a boa-fé representa o padrão ético de confiança e lealdade indispensável para a convivência social. As partes devem agir com lealdade e confiança recíprocas. Essa expectativa de um comportamento adequado por parte do outro é um comportamento indispensável na vida da relação. É um limite a ser respeitado no exercício de todo e qualquer direito subjetivo. Podemos afirmar que o Código do Consumidor e o novo Código Civil são uma reação ao liberalismo jurídico que predominou durante todo o século XX, principalmente em sua primeira metade, e que aos poucos afastou o Direito da ética, da moral, da eqüidade, dos valores transcendentais, tornando-o puro tecnicismo. Em suma, a Sociologia procura a existência; a Filosofia preocupa-se com a essência. “A Sociologia do Direito”, como observou Gurvitch, “dá ao jurista uma descrição objetiva da realidade social do direito, válida num dado meio social; a Filosofia do Direito lhe

dá um critério de valores jurídicos, que lhe ajuda em suas manifestações particulares para alcançar fins concretos” (Sociologia do Direito, p. 13). Embora cada uma funcione em seu setor específico, as duas ciências estão, entretanto, interligadas, pois o filósofo social necessita conhecer a realidade social que se faz presente nos trabalhos do sociólogo. “Quando se estuda Filosofia do Direito”, assinala Porto Carreiro (Introdução à Ciência do Direito, p. 78), “parte-se de uma base sociológica inafastável, cujo conhecimento é fornecido por aqueles que se dedicam ao estudo sociológico do Direito”.

29. A EFICÁCIA, A VIGÊNCIA E O FUNDAMENTO

As três dimensões pelas quais o Direito pode ser considerado (fato, norma e valor), segundo o próprio Miguel Reale (O Direito como Experiência, 1961, pp. 61 e 62), dão origem a três planos de problemas diferentes: o da eficácia, o da vigência e o do fundamento. A Sociologia Jurídica se preocupa com o primeiro - a eficácia; a Ciência do Direito, com o segundo - a vigência; e a Filosofia do Direito, com o terceiro - o fundamento.

29.1. A Eficácia

Ao afirmarmos que a Sociologia Jurídica preocupa-se com a eficácia do Direito, queremos enfatizar que constitui também objeto dessa discipli- [pg. 62] na saber se as normas jurídicas estão ou não adequadas às necessidades sociais. Quer dizer, primeiro a Sociologia Jurídica preocupa-se com os fatos sociais que repercutem na ordem jurídica, e com as relações que necessitam receber o disciplinamento do direito; uma vez elaborada a norma disciplinadora, empenha-se em saber se a referida norma atende ou não às necessidades sociais. Isso, como teremos oportunidade de ver, é da maior importância porque a norma, mesmo que no momento de sua elaboração esteja perfeitamente adequada à realidade social, com o correr do tempo pode se tomar ultrapassada, ineficaz, em razão da constante evolução social, tomando-se necessário reformulá-la.

29.2. A Vigência

A Ciência do Direito, por sua vez, preocupa-se não somente com a norma, como já vimos, mas também com a sua vigência. Enquanto a lei estiver em vigor, cabe ao jurista estudá-la, interpretá-la, comentá-la etc., ainda que se trate de lei já completamente

porém. mas no Brasil continua sendo objeto de acirrados debates. o casamento será assim etc. Discute-se a justificação dessa união. Muitas já conseguiram a posse e guarda de crianças e até adotá-las como filhos. ainda que completamente afastada da realidade social. por via de conseqüência. sentimental e doméstica como se fossem casais. decidindo que forma de Estado e de governo vai adotar . encontramos várias figuras típicas que ainda hoje são objeto de comentários dos autores (estão no Código). 149). queremos dizer que constituem igualmente objeto dessa disciplina os problemas relacionados com o ideal do direito. que [pg. teremos esta ou aquela estrutura política e social. por último. a natureza do que é jurídico.. sistemas de produção etc. religiosas.3. apesar de não mais terem aplicação social: por exemplo. o objeto da ciência do Direito. que a Filosofia do Direito preocupa-se também com os fundamentos do Direito. suas causas e seus princípios últimos. questão que ainda aguarda definição jurídica. O Fundamento Ao afirmarmos. federado. o crime de perigo de contágio venéreo (art. investigando ainda as ideologias ou correntes de pensamento que acabaram prevalecendo e servindo de fundamento aos principais institutos jurídicos. éticas. haverá campo apenas para a Sociologia Jurídica e para a Filosofia do Direito. finalmente. como outrora se discutiu o . partilhando a vida sexual. Enquanto o grupo social estiver se organizando. Ao estudarmos o Código Penal. Em alguns países o casamento de homossexuais já é permitido. 29. democrático. O fato social já existe: milhares de pessoas do mesmo sexo convivem sob o mesmo teto. 240) etc. Dependendo das correntes ideológicas ou filosóficas predominantes e dos fatos sociais existentes. a forma de governo é aquela. A norma só deixa de ser vigente depois de expressa ou tacitamente revogada por outra. redução à condição análoga à de escravo (art. -. Recapitulando: primeiro ocorre o fato social. parece-nos resultar claro que a Ciência do Direito só tem razão de ser após o surgimento da primeira norma na sociedade. adultério (art.unitário. republicano -.desatualizada e em desuso. Até lá é objeto da Ciência do Direito. No momento. familiares e sociais. depois valoriza-se o fato e. as suas conseqüências morais. surge a norma e. seu conteúdo ético a seu mundo axiológico. Serve como exemplo a união estável de homossexuais. em que ficar decidido: a forma de Estado é essa. Mas a norma legitimando essas situações não foi editada porque ainda está em debate o valor. 130). 63] organização social e política vai estabelecer situação da família. ele é normatizado. Do exposto.

atua na esfera da liberdade. 266. Quando o sociólogo do direito se refere ao seu objeto.. No mundo da natureza as coisas se passam mecanicamente. mas ao próprio direito vivo (ser). está se referindo. a dado antecedente. se chover.[pg. liga determinado conseqüente: se alguém causar dano a outrem. não às normas (dever ser). como ser moral.concubinato. O SER E O DEVER SER Desde Kelsen. 30. e assim por diante. 133). O direito de que aqui se vai tratar . isto é. No mundo do dever ser as coisas se passam segundo a vontade racional do homem. As ciências sociais pertencem ao mundo do dever ser. muitos autores procuram distinguir a Sociologia Jurídica da Ciência do Direito estabelecendo que a primeira é a ciência do ser e a segunda a do dever ser. a ética e o direito. a terra fica molhada. escolhendo os seus próprios caminhos. construindo bombas ou catedrais. em sua Teoria Pura do Direito. cit. de nada vale a vontade do homem na tentativa de modificá-las mediante a formulação de leis racionais. podemos estabelecer o seguinte quadro: DIREITO Sociologia Jurídica Ciência do Direito Filosofia do Direito Fato Norma Valor Eficácia Vigência Fundamento Ser Dever Ser Poder Ser . p.é o mesmo com que o sociólogo já se habituara a conviver muito antes que os juristas ou os jusfilósofos fizessem a extraordinária descoberta do direito como conduta em interferência intersubjetiva. tal como a moral. reconhecido como união estável pela Constituição de 1988. às condutas humanas em sociedade. cuja conversão em casamento a lei deve facilitar (art. A um antecedente liga-se indispensavelmente dado conseqüente: um corpo solto no espaço (antecedente) cai inexoravelmente (conseqüente). Nessa perspectiva.a física (o ser) e a moral (o dever ser).a conduta humana . escrevendo a sua história. O mundo do ser é o das leis naturais. isto é. É este que. da consciência e da razão. observou Machado Neto (ob. entidade familiar. Sintetizando tudo o que até aqui ficou dito. que decorrem da própria natureza. sujeito às leis naturais. a Sociologia Jurídica versará o mesmo objeto da ciência jurídica. 64] gico. apenas servindo-se de uma lógica diversa. está na realidade das coisas. O homem é o único ser que participa das duas esferas básicas do mundo . e assumindo a responsabilidade pelos seus atos. até nossos dias. § 30). Como ser bioló. fica obrigado a repará-lo.

já podemos compreender melhor os motivos da inconciliável controvérsia existente entre sociólogos. Entendemos que a principal distinção entre essas duas ciências está em que a Sociologia Jurídica preocupa-se por excelência com os fatos pre. fundamento. porque o presente inquestionavelmente influencia na visão dos fatos. filósofos e juristas. dever ser. nos influenciam de tal forma. há muito tempo. as três ciências ocupam-se do Direito. posições políticas. São os fatos presentes. Correntes filosóficas. com um aspecto diferente.apesar de ser considerada inócua tal distinção por alguns autores (Nelson Nogueira Saldanha. porém.a vida social: para ambas o direito aparece como um fato social. pp. de vigência. oriundo inquestionavelmente da sociedade. eficácia. A HISTÓRIA DO DIREITO De todas as ciências jurídicas. o direito. Historiar é narrar fatos notáveis ocorridos na vida dos povos tal como ocorreram. e a História do Direito com os fatos passados . Sociologia do Direito. e não os passados.[pg. mas no seu aspecto valor. Não se pode fazer história de fatos presentes. o que lhes confere objeto próprio e autonomia. todos têm razão. envolvimentos sociais etc. . poder ser. entretanto. possibilitando a elaboração de normas ajustadas a essa realidade e aferindo a eficácia das já existentes. com o máximo de fidelidade ao acontecido. Os primeiros falam do direito no seu aspecto fato. como à História em geral. É que as duas possuem praticamente o mesmo objeto material . a Sociologia Jurídica e a História do Direito são. À História do Direito. a essa altura. cada qual. como já vimos. interessam os fatos passados simplesmente por não ser possível fazer história de fatos presentes. os segundos falam do mesmo fenômeno. fazer a descrição da atual realidade social do direito. 1970. cada qual. em seu ângulo de visão. a fim de apurar a evolução sofrida pelo Direito. inegavelmente. por sua vez. a realidade atual. a ponto de. 31. aquelas que mantêm mais íntimas relações. oriundo da instituição estatal. Os fatos passados só interessam à Sociologia Jurídica eventualmente para efeito de comparação. ser. até inconscientemente. 37-38). que necessitam do disciplinamento jurídico. Todos estão certos. e os últimos falam do seu aspecto normativo. Cremos que. 65] sentes.Como se vê. Os fatos presentes são a principal preocupação da Sociologia Jurídica porque cabe-lhes.

mantém constante intercâmbio de sugestões e de subsídios com todas as disciplinas especiais que pesquisam o direito sob outros ângulos. a principal diferença entre Sociologia Jurídica e História do Direito está em que a primeira pretende apanhar do fenômeno social jurídico o que sejam suas características genéricas: as leis gerais e as figuras típicas do comportamento jurídico da sociedade. se a Sociologia Jurídica. fundamento sólido para suas induções. Penal. para fazer história. pois o historiador do direito se abebera dos ensinamentos da Sociologia Jurídica. Fiscal etc. 129).em vez de nos limitarmos a narrar. E o fato social. Trabalhista. Via de regra. pode-se concluir que. Isso já é interpretação. E. assim [pg. RELAÇÃO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA COM OS DEMAIS RAMOS DO DIREITO Se. pois pode ser que A estivesse socorrendo B. p. a narrar os fatos. entretanto. o direito fato. mas como nos parecem ter ocorrido. por um lado. 32. Alguém passa por uma rua e vê uma pessoa tirando uma faca que estava cravada nas costas de outra.. cit. De todo o exposto. ser fiel a eles o máximo possível. procurando enquadrá-la no sistema geral em que a história em si própria consiste. por outro lado. 66] como o sociólogo do Direito se aproveita do inesgotável manancial da história das instituições jurídicas. e isso só é possível alcançar após o decurso de algum tempo. se não quiser correr o risco de generalizar a partir de poucos exemplos empíricos. deixar que o tempo dispa os fatos de toda ideologia ou conotação interpretativa. passarmos também a interpretar. isto é. . . que as duas ciências se relacionam intimamente. como já vimos. Para Machado Neto (ob. E dessas inter-relações resultará para o estudante uma visão mais ampla. O historiador tem que narrar fatos. é um estudo específico e possui ângulo próprio para examinar seu objeto. como vai relatá-la? Que viu A esfaqueando B. Este é o fato. uma coisa é o fato e outra a sua interpretação. que lhe dá maior força de penetração no sistema global da história jurídica. Por isso é necessário. Sucessões. completa e abrangente do Direito. é o objeto por excelência da nossa disciplina. por outro está intimamente relacionada com todo o Direito .Família. por um lado.pela simples razão de ocorrerem na sociedade todos os fatos que repercutem nos mais variados ramos do Direito. a Sociologia Jurídica tem autonomia como ciência. A segunda (História do Direito) detém-se na consideração de cada fenômeno sócio-jurídico individual. momentos antes esfaqueado por C. como é sabido. não como ocorreram. Observa o autor.

de aviões. Efeitos do progresso científico no mundo social. outrora calmas e livres. A importância das ciências sociais. Matemática. o ar.Capítulo VII IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS E DA SOCIOLOGIA JURÍDICA EM ESPECIAL O desenvolvimento científico.uma para a família e outra para os aparelhos. O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO Na primeira metade do século XX as grandes potências mundiais deram grande importância ao estudo das ciências chamadas exatas.tanto das minúsculas bactérias. [p. As casas encheram-se de aparelhos eletrodomésticos. Disca o telefone e fala com alguém no outro lado do . se formos adquiri-los todos. Todas as atenções foram voltadas para as pesquisas no campo da Física. os mais poderosos e velozes. Importância da Sociologia Jurídica. de naves espaciais. satélites artificiais e até de objetos “nãoidentificados”. houve um progresso científico nunca dantes visto ou esperado! Inúmeros inventos e descobertas ocorreram. encheram-se de veículos dos mais variados tipos. Química. o mar encheu-se de navios das mais variadas procedências. As ruas. Como resultado. investindo-se fabulosas somas no desenvolvimento de arrojados projetos quase impossíveis. 69] O homem verdadeiramente adquiriu o dom da ubiqüidade. permitindo ao homem penetrar no mundo do invisível . pois pode estar em vários lugares quase ao mesmo tempo. Astronomia. em tão grande número e variedade que. precisaremos de duas casas . como dos gigantescos corpos celestes distantes milhões de anos luz. **** 33. bem como de submarinos e outros objetos destinados à navegação.

O aparecimento da prensa fez mais pela cultura ocidental do que simplesmente introduzir uma forma mais veloz de reproduzir um livro. Em conseqüência desse fantástico progresso científico. Até aquela época.com carruagens. O invento mudou a cultura ocidental para sempre. em comparação. toma café no Rio de Janeiro e janta em Nova Iorque. Mil e oitocentos anos depois. acessa qualquer informação. tudo se transformou em nossa sociedade. que morreu aí pelo ano de 1900. mas ainda em cima de um cavalo. O nosso D. A maioria das . compra o que quiser. Para termos idéia do progresso científico que houve em nossos dias e das transformações ocorridas. Antes de Gutenberg. vê o que pretender. teve condições de imprimir múltiplos exemplares. uma vez feito isso. literalmente. inventou o tipo móvel e apresentou a primeira prensa na Europa (a China e a Coréia já possuíam prensas). rara. na Alemanha. qual era o meio de transporte mais rápido? Continuava sendo o lombo de animal. entra na internet e. Já houve até um filme que explorou esse motivo. comanda operações de muitos milhões de dólares. ou até mesmo na Lua. ocorreu por volta de 1450. congelado. Dois mil anos depois. nos dias de Cristo. que em geral eram encarregados de copiar a Bíblia. acidentalmente. Isso demonstra que em quase quatro mil anos de história a humanidade nada progrediu no campo científico. Mas se um ancestral nosso. roupas compridas etc. 70] mente conseguiam fazer mais de uma por ano. em outro continente. Na Europa e nos demais países civilizados também o transporte era o mesmo. e descongelado em 1976 num mundo totalmente diferente. de grande impacto cultural sobre a sociedade. Os monges. uma impressora a laser de alta velocidade. quando Johann Gutenberg. voltasse à nossa sociedade. e assim por diante. todos os livros eram copiados à mão.000 anos antes de Cristo? O lombo de animal. Pedro I proclamou a independência.mundo. O único acontecimento isolado. liga a televisão e vê o que está se passando. Gutenberg levou dois anos para compor os tipos de sua primeira Bíblia. no qual viajava do Rio para São Paulo. não em cima de um tanque de guerra. a vida fora comunitária e praticamente imutável. qual era o meio de transporte mais rápido? Continuava o mesmo. apesar do transcurso das gerações. Não percebemos tanto o vulto das transformações porque ocorreram todas em nossos dias. Passaram a ser naturais. um ourives da cidade de Mainz. por volta de 1700. Era a história de um indivíduo. naquele instante. Para evitar-lhe problemas psíquicos.[p. mas. basta que atentemos para o seguinte: qual era o sistema de transporte mais rápido 2. seus descendentes tiveram que remontar em tomo dele o mundo em que viveu . e fomos a elas nos acostumando gradativamente. nos Estados Unidos. põe-se em contato com qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. A prensa de Gutenberg era. não acreditaria no que veria: pensaria que estava em um outro mundo.

Enquanto o homem se empenhava em conquistar a Lua. acarretando acidentes que matam e mutilam mais do que as guerras. em geral era quase impossível encontrar o caminho de volta. passou em pouco tempo a 60. não acompanharam o desenvolvimento científico e tecnológico.” E quando o trem andou. as ciências sociais ficaram esquecidas. Desse desequilíbrio resultou que o progresso científico. resultando disto um descompasso entre o progresso científico e a evolução social.” Ao chegarmos perto do século XX. Criou superpotências capazes de dominar e destruir as demais. perdia terreno em seu próprio grupo. A explosão demográfica.” E não parou mesmo. em parte porque. trouxe poluição atmosférica.sua razão de ser .pessoas só conhecia aquilo que fora visto com os próprios olhos ou ouvido em relatos de terceiros. As instituições sociais.[p. O mais impressionante de tudo é que a maioria dos inventos ocorreu de 50 anos para cá. Muito poucas aventuravam-se para além das fronteiras da aldeia. os homens voam a fantásticas velocidades. relegadas a segundo plano. dominando o espaço sideral. sonora. dizendo repetidas vezes: “Essa coisa não vai andar. porque de 6 km por hora. aumento da criminalidade. sem mapas confiáveis. um de meus autores favoritos: “Nesse mundo. perdendo de vista seu objetivo. Hoje. todas as experiências eram pessoais: os horizontes eram pequenos. O primeiro trem andava à velocidade de 6 km por hora: era um espanto para a época. como se sabe. em vez de resolver os problemas sociais . depois da Segunda Grande Guerra Mundial e da desintegração do átomo. e assim as rodas começaram a correr. a comunidade olhava para dentro. choques ideológicos. os inventos começaram a surgir: um descobriu a energia elétrica. deu origem a uma classe ex. outro a máquina a vapor. 71] tremamente privilegiada em detrimento das demais. a ponto de tomar impossível a vida em certos lugares. Um velho que se encontrava na estação.agravou-os ainda mais. Como diz James Burke. EFEITOS DO PROGRESSO CIENTÍFICO NO MUNDO SOCIAL Enquanto as ciências chamadas exatas eram estudadas e pesquisadas. agravou os problemas de trânsito. ao vê-lo. o velho se pôs a gritar: “Essa coisa não vai mais parar. porém. ainda mais desnorteado. já de muito ultrapassaram a barreira do som. O que existia no mundo exterior era uma questão de ouvir dizer. 120 km etc. que é o próprio homem. fluvial e até do mar. outro ainda o motor a explosão. 34. permitindo a formação de um clima propício a lutas de classes. por falta de uma ação . pôs-se a advertir os passageiros. gerando novos planos na desigualdade social.

sem a qual não haverá organização. que escreveu o conhecido livro Princípios de Sociologia Jurídica. com inúmeros tentáculos ou segmentos. 72] do conhecimento humano. abandono infantil. . que editou em 1950 a obra intitulada O Problema de uma Sociologia do Direito. A sociedade tem que caminhar para o autoconhecimento. de algum tempo para cá tomou-se obrigatório o estudo das ciências sociais em quase todos os cursos superiores. Concluiu-se também ser necessário planejar o desenvolvimento social. sério. pesquisá-las. sob pena de tomar-se impossível a vida em coletividade. desenvolvê-las. Provam isto os problemas sociais de violência. Carlos Campos. realizando-lhe os objetivos. confusa e turbulenta. A planificação da sociedade não é mais considerada incompatível com a democracia. 35. A IMPORTÂNCIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Houve o despertar da consciência para a importância das ciências sociais e a necessidade de estudá-las. inúmeras e extraordinárias obras foram escritas sobre o assunto. destinados a preparar especialistas em planejamento e organização social. editado pela primeira vez em 1922. só nesta harmonia traz beneficio à humanidade. e Orlando Gomes. A. visando o planejamento do próprio desenvolvimento. segurança.preventiva. já reinantes nos grandes centros socialmente mal organizados. vinculado ao desenvolvimento social. Por isso. como foi feito com as ciências exatas. Sociologia e Filosofia do Direito. destacamos: Euzébio de Queiroz Lima. L. progresso. mas a cegonha. nem apenas um sonho dos marxistas ou fascistas. Dentre os juristas e sociólogos que entre nós se têm dedicado ao assunto. empolgados pelos problemas decorrentes da aparente necessidade de controlar as massas. A Crise do Direito (1955). e A. a ponto de um ex-presidente norte-americano afirmar que a mais perigosa sombra que ameaça a humanidade atualmente não é a bomba atômica. Evaristo de Moraes Filho. pesquisas e projetos desenvolvidos. Mais recentemente: F. É hoje uma imposição da vida em coletividade. Tem que conhecer o que se passa em seu seio como temos que nos conhecer a nós mesmos. de Miranda Rosa lançou a notável Sociologia do Direito. Compreendeu-se tardiamente que o progresso científico deve ser integrado. criaram-se cursos universitários específicos nesse fascinante ramo [p. tomou-se um fato irreversível. Quando a sociedade cresce desordenadamente toma-se um polvo gigantesco. miséria. liberdade.

e a Sociologia do Direito de Remi Levy Briihl. Ao Juiz. necessariamente. o jurista toma contato. escoteiro. ou mesmo através da analogia. as relações que necessitam de melhor disciplinamento. em magistral tradução de Djacir Menezes. sem desrespeitar as leis da hermenêutica. não nos ateremos ao método . constituindo-se de fatos sociais. Orlando Gomes. Segundo Pugliatti.] trato. O outro é formado de um conjunto de normas. não podemos deixar de mencionar a Sociology of Law de Gurvitch. não sendo possível estudálo abstraindo-o da sociedade. os conflitos que se travam . 36. traduzido por Teruka Minamissawa. com a realidade social subjacente. o elemento material isolado toma cor neutra e o elemento formal.Machado Neto escreveu Sociologia Jurídica. A missão do jurista compreende a interpretação das leis que regem a sociedade. bem colocou esta questão quando disse: “A realidade jurídica constitui-se de dois elementos fundamentais: o material e o formal. Para interpretá-las. Eis por que. com o passar do tempo aquela acaba se tomando ultrapassada. caráter abs. visto que. enfatiza: “O direito é um fenômeno social. Dos autores estrangeiros com obras traduzidas para o português. Só por abstração se pode separar a forma do conteúdo. pois fornece-lhe os elementos necessários à elaboração das leis. 1946. fazer o Direito acompanhar as evoluções sociais. sem conhecer os fatos que estão ocorrendo no grupo. ora restritiva. em 1964. E essa interpretação não pode circunscrever-se à qualificação dos fatos jurídicos ou à fixação das condições de validade da conduta do indivíduo no exercício dos direitos deferidos ou no cumprimento das obrigações impostas. enfim . O primeiro é a matéria prima da experiência jurídica. um dos nossos grandes juristas. Com efeito. a Sociologia Jurídica possibilita aplicar o Direito de modo compatível com as necessidades sociais. conhecendo-as. sob o título Sociologia Jurídica. Por outro lado. através de uma interpretação ora extensiva. visto que. sendo a lei estática e a sociedade dinâmica. numa sociedade determinada.a realidade social.[p. mais adiante. Esses ajustes só alcançarão seus objetivos se o legislador estiver devidamente informado sobre aquilo que precisa mudar. obsoleta.” E. São inseparáveis.nenhum legislador tem condição de elaborar leis eficazes. do original Sociologie du Droit. é preciso com freqüência ajustar a lei às novas realidades sociais. no estudo do Direito Civil pátrio. IMPORTÂNCIA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA A Sociologia Jurídica é da maior importância em primeiro lugar para o Legislador. Não basta descrever os elementos formais da realidade jurídica composta das normas vigentes em determinado momento histórico. poderá.

que devem ser aplicadas independentemente de qualquer finalidade ou objetivo. os governantes e juízes serão capazes de dar aplicação mais precisa às normas de direito que houverem sido editadas. Para o advogado. mas também um fato.. 1971. pp. alcançando a necessária adequação entre os fins sociais e as normas jurídicas que se destinam a realizá-los. tomando-se ineficazes e obsoletas. Podemos concluir afirmando que. frias. o profissional do Direito. à qual as normas deverão se ajustar sob pena de perderem a finalidade. a Sociologia Jurídica proporciona uma visão mais ampla e real do fenômeno jurídico. se dermos a devida atenção à Sociologia Jurídica e progredirmos suficientemente em seu estudo. Os legisladores poderão cumprir melhor sua função prevendo as tendências da legislação. Forense. mas sim ao dos que consideram o direito um fenômeno social e entendem que a ciência jurídica não se esgota na elaboração de uma teoria geral ou na técnica de logicar através de silogismos próprios de uma sentença judicial (Introdução ao Direito Civil. 14 e 16). . como para o estudante. será possível evitar a improvisação em inúmeras questões administrativas e legislativas.preconizado pelos normativistas. 3a ed. a realidade social dinâmica em permanente evolução. Revela-lhes que o Direito não é somente um conjunto de normas estáticas.

o fim a que se propõe. Leis são aquelas regularidades. entretanto. porque disto depende uma boa compreensão quanto à razão prática dessa disciplina. Método é o caminho que se deve seguir para alcançar os objetivos de uma ciência. vimos que o seu objeto é o direito fato. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA No estudo de toda ciência é da maior importância precisar seu objeto. o processo a ser aplicado para realizar suas finalidades. 75] . [p. O pensamento de Georges Gurvitch. **** 37. O objeto da Sociologia Jurídica segundo Recaséns Siches. Vamos de ora em diante nos dedicar ao exame do objeto da Sociologia Jurídica. para então adotarmos o daquele que nos parece mais completo. O objeto da Sociologia Jurídica na concepção de Edmond Jorion. A posição de Renato Treves. Em suma. procuraremos precisar o que está contido no estudo do direito como fato. fenômenos que se repetem com freqüência no campo de uma ciência. Ao tratarmos da autonomia da Sociologia Jurídica. Por objeto entende-se o campo específico de atuação de uma ciência. razão pela qual procuraremos expor o entendimento dos principais. É preciso. examinando a sua divisão interna.Capítulo VIII OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA O entendimento de Émile Durkheim. o objetivo que visa alcançar. desde logo adiantar que em tomo desta questão não há perfeita concordância entre os autores. estabelecer seu método e conhecer suas leis. Vamos procurar agora explicitar esse objeto.

1950). No primeiro item teríamos o estudo das relações das formas de sociabilidade por interpenetração (massa. de afastamento ou mistas) com os fenômenos originários do direito interindividual. seria objeto da Sociologia Jurídica: a) investigar como as regras jurídicas se constituíram real e efetivamente. a religião. bem como o estudo dos planos de profundidade do direito. . pp. No segundo item Gurvitch se serve de sua classificação dos grupos para estudar as relações do direito com cada tipo de agrupamento social. em três itens: a) Sociologia Sistemática do Direito ou Microssociologia do Direito. Somente quando as normas estão ajustadas aos fatos é que poderão atender aos objetivos para os quais foram elaboradas. por um lado. por outro. a economia. [p. comunidade. bem como das necessidades que visam satisfazer. dos fatos sociais que as suscitam. comunhão) com os fenômenos geradores do direito social. incluindo uma Tipologia Jurídica dos Grupos Particulares e uma Tipologia Jurídica das Sociedades Totais. O ENTENDIMENTO DE ÉMILE DURKHEIM Para esse notável sociólogo francês.38. b) o modo como as normas jurídicas funcionam na sociedade (Leçons de Sociologie. e a base ecológica da sociedade. e das formas de sociabilidade por interdependência (relações de aproximação. se há ou não estrutura para isso etc. isto é. Paris. No segundo item procurar-se-ia saber dos resultados decorrentes da existência da norma. O PENSAMENTO DE GEORGES GURVITCH Segundo Gurvitch. a Sociologia Jurídica pode ser dividida. 39. um dos fundadores da escola sociológica do direito. a moral. de acordo com as diversas abordagens metódicas de seu objeto.. cit. No primeiro item estaria incluído o exame das causas que determinam o surgimento das regras jurídicas. 76] O último item trata das relações de interinfluência que se estabelecem entre o direito. b) Sociologia Diferencial do Direito. citado por Machado Neto. PUF. c) Sociologia Genética do Direito (ob. o conhecimento e a psicologia coletiva. 89-94). dando ênfase especial ao estudo da soberania e das relações das diversas ordens jurídicas com o direito estatal. se está ou não sendo aplicada.

encontra-se superado. data venia. estudos 41. O autor belga. 693). Poderíamos ilustrar o entendimento de Siches mediante o seguinte quadro: [p. no que. 211). 1965. d) Relação do Direito com outros fenômenos sociais (influência do Direito sobre a sociedade e vice-versa). O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA SEGUNDO RECASÉNS SICHES O destacado professor espanhol. propõe o seguinte quadro de tarefas para a Sociologia Jurídica: a) Observação e análise dos fatos. tendo por objeto o fenômeno jurídico. enquanto fato. Em síntese. classificação. O primeiro item proposto por Siches trata do direito como fenômeno condicionado pela sociedade. b) comparativos). um fenômeno condicionado e condicionante da sociedade. p. entretanto. ao mesmo tempo. 77] Sociedade A Direito B . O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA NA CONCEPÇÃO DE EDMOND JORION Para Jorion.40. O segundo item cuida da influência conformadora ou condicionante do Direito sobre a sociedade. a Sociologia do Direito e a Ciência do Direito constituem uma só e mesma disciplina. de seus próprios limites (De la Sociologie Juridique. p. c) Estudo da gênese das regras jurídicas e de sua evolução. Porto Alegre. radicado no México. Seu tratamento tipo lógico (reagrupamento. b) Exame dos efeitos que o Direito constituído causa na sociedade. o direito é. e) Definição pela Sociologia do Direito. representa o produto de processos sociais. sejam eles positivos. negativos ou de interferência com outros fatores (Tratado de Sociologia. atribui à Sociologia Jurídica duas séries de temas: a) Estudo de como o direito. como produto resultante de um complexo de fatores sociais. como já assinalamos.

pois deve mais à coletividade do que a si mesmo. um produto manipulado pela sociedade. resultado de longa evolução histórica. apesar de receber tanta influência condicionante do meio social. Escreve sobre um tema que reflete uma soma de conhecimentos adquiridos em livros. Mas. dos operários que manipularão as máquinas etc.No primeiro plano (linha A) figura a sociedade como fator condicionante do direito: é a sociedade que dá origem ao direito. Para escrever depende o autor de uma série de recursos materiais. Einstein e outros não passariam de um pajé ou cacique. do editor. no correr dos séculos. papel. não fosse o social. poderíamos dizer que ocorre algo semelhante ao que se passa entre a sociedade e o indivíduo. muitas outras pessoas terão que concorrer para a edição. surge . Ficaríamos alarmados se fôssemos pesquisar o que foi necessário. como tinta sintética. de formação lenta e paulatina. luz artificial etc. em verdade. na realidade. Tomemos o exemplo de quem escreve um livro. patrimônio da cultura universal assimilado graças a uma pluralidade de inventos sociais.. o Direito passa acondicionar o comportamento do grupo. fontes de trabalho e inventos de outrem. Não teríamos com quem falar. mudança cultural etc. jornais. sem dúvida o mais dominante é o sócio-cultural. haverá naquele livro? Começa que ele escreve em uma língua que não inventou. não podendo ser esquecidas as figuras da datilógrafa. Aí a obra sai publicada com o nome do seu autor na capa. O próprio Newton afirmou: “Se vi mais longe foi porque estive sustentado em ombros de gigantes. a maior dificuldade de quem vai para um país diferente é a língua. uma vez constituído em normas de conduta e disciplinamento. terá que aprender a língua falada no meio social para onde vai. Em que medida o livro é produzido pelo seu autor? Quanto do autor em si. o indivíduo exerce influência sobre o grupo. Newton. exclusivamente. Para ilustrar as relações existentes entre a sociedade e o Direito. entretanto. segundo o entendimento de Siches. é obra exclusiva do autor? Somos tão dependentes do social que nem poderíamos falar a língua que pretendêssemos. [p. Por isso. 78] O gênio não existiria. Se quiser se comunicar. Até o livro sair publicado. De todos os fatores que atuam sobre o indivíduo. se tivessem nascido em uma tribo indígena. Até costuma-se dizer que somos produto do meio porque. Todo progresso.” Por outro lado. professores etc. No segundo plano (linha B) figura o Direito constituído exercendo influência condicionadora sobre a sociedade: é inegável que. fazendo-o surgir das inter-relações sociais. para que ele pudesse estar escrevendo numa folha de papel e não em um papiro ou coisa semelhante. revistas. escola. portanto. dele dependemos grandemente para tudo. sendo.

é o Direito um produto social. que tem que disciplinar os novos fatos .evolução milenar que durará enquanto existir a sociedade. O impulso criador da mudança cultural e do progresso social é. entretanto. a máquina a vapor. economia etc. ficou evidenciada essa influência condicionadora da sociedade sobre o Direito. o que é bom. pois caso contrário seria a massificação. também condiciona. . f) necessidades e fins da vida humana que estejam pressionando em dado momento. por mais que condicione o indivíduo. e) fenômenos de organização espontânea.Os fatores constantes da realidade jurídica. Siches dá maior ênfase ao primeiro item da sua proposição temática. elaborado pela sociedade.Os dados (variáveis) da matéria social: a) realidade de uma série de relações sociais não reguladas juridicamente.dado que a plenitude do ordenamento jurídico não permite tais vazios . Algo semelhante. [p. que inventou o cálculo infinitesimal. o indivíduo. ocorre entre o Direito e a sociedade. não consegue a socialização integral de todos os indivíduos. o Direito passa a disciplinar as relações sociais. b) tendências e correntes que ainda não obtiveram expressão normativa. técnica.ainda não suficiente ou convenientemente reguladas. a lâmpada elétrica. No capítulo sobre os Fatores Sociais da Evolução do Direito. ou melhor . ao qual nos reportamos. a saber: I .na sociedade graças aos condutos da criação individual. todos resumíveis na questão da influência condicionadora da sociedade sobre o Direito. Certas zonas da personalidade não chegam a ser inteiramente socializadas. filosofia. e por sua vez no Direito norma. fazendo-o evoluir. ao mesmo tempo que o Direito é condicionado. 79] d) mútuas correlações empíricas entre o Direito e outros produtos da cultura (religião. Quando erigido em norma de conduta. Como fato. como já se disse.). condicionando condutas. Exercendo influência sobre o grupo. Não foi a sociedade. operando elas o milagre da inovação. mas sim o indivíduo. c) representações axiológicas das pessoas que integram o grupo. pois. II . subdividindo-o em uma série de novos temas. É que a sociedade. arte. Essa reciprocidade de influência produz constantes modificações no direito fato.

quando teremos oportunidade de ver que não adianta ter leis e não aplicá-las. são também mais abrangentes. 23-25). sustenta que eles se agrupam. além de mais compatíveis com o campo de atuação da Sociologia Jurídica. ao analisar os assuntos que têm constituído o objeto da Sociologia Jurídica. funciona como termômetro a indicar ao legislador as mudanças a serem feitas na lei e nas instituições sociais. entendemos ser Renato Treves o que melhor colocou o problema relacionado com o objeto da Sociologia Jurídica. 3) estudo da opinião do público a respeito do direito e das instituições jurídicas. em três tipos de indagações: 1) estudo da eficácia das normas jurídicas e dos efeitos sociais que tais normas produzem. É preciso uma estrutura adequada de pessoal e material para aplicar a lei. [p. o que evidencia a influência condicionadora do Direito sobre a sociedade. sob pena de a lei não atingir os seus objetivos sociais. e.42. que tipos de efeitos as normas podem produzir. razão pela qual vamos adotar essa classificação em nossos estudos daqui para frente. 80] . A POSIÇÃO DE RENATO TREVES O ilustre professor italiano. Os temas por ele propostos. praticamente. Trataremos também dos agentes do Direito na sociedade e sua função. o que são efeitos. principalmente. De todos os autores mencionados. se atendida. em sua obra La Sociologia del Diritto (pp. envolvem os temas propostos pelos demais autores. 2) estudo dos instrumentos humanos de realização da ordem jurídica e de suas instituições. quando a norma é eficaz e por quê. Veremos o que é eficácia. trataremos da opinião pública que. Por último.

Trata-se de conceitos que a todo momento se repetem no estudo do Direito: validade do ato. após examinarmos o pensamento de vários autores sobre o objeto da Sociologia Jurídica.Capítulo IX EFICÁCIA DAS NORMAS JURÍDICAS E SEUS EFEITOS SOCIAIS A noção de validade e de eficácia. examinar o primeiro item da classificação por ele sugeri da. o qual. 81] Um contrato. tomaremos como roteiro de ora em diante. Renato Treves. porque lhe falta um dos elementos. Efeitos negativos: pela ineficácia da lei. Nossa tarefa será. razão pela qual tomam-se imperativas algumas palavras a respeito. dissemos. embora esta seja pressuposto daquela. **** No capítulo anterior. efeito conservador da norma. entendemos necessário lembrar que eficácia não é sinônimo de validade. eficácia do contrato. procurando definir a eficácia e os efeitos das normas jurídicas. 43. destacamos o entendimento do Prof. efeito transformador da norma. efeito educativo da norma. pois. é válido? Não. da lei etc. . no qual uma das partes é incapaz. pela omissão da autoridade em aplicar a lei. Eficácia da lei. pela falta de estrutura adequada à aplicação da lei.. nos dá a chave para encontrarmos o conceito de validade. A NOÇÃO DE VALIDADE O que é necessário para que uma coisa seja válida? Esta pergunta. Efeitos da norma. Efeitos positivos da lei: de controle social. Inicialmente. estabelecer as causas da ineficácia das leis e os tipos de efeitos que elas podem produzir e por quê. [p. em nosso entender.

Vemos assim que válido é aquilo que é feito com todos os seus elementos essenciais. Lembremos agora que a receita do negócio jurídico está na lei . como sanção à inobservância dos requisitos essenciais impostos pela lei (Teoria Geral do Negócio Jurídico. com falta de um de seus elementos. sendo. ineficaz. que nasceu defeituoso. por força duradoura e irremovíve1. 1970).farinha. Faltando um deles. revestido de todos os seus elementos essenciais. Tomemos. para exemplo. ela será válida. Por elementos essenciais entendem-se aqueles requisitos que constituem a própria essência ou substância da coisa. Para que o ato ou negócio sejam válidos. o caso de uma dona-de-casa empenhada em fazer um prato especial. O ato nulo. terão que estar revestidos de todos os seus elementos essenciais. Se todos os seus elementos essenciais estiverem presentes.artigo 104 do Código Civil. não tem força para tal. é ela que estabelece os seus elementos essenciais. porque faltou um dos seus elementos essenciais. tem força para alcançar os seus objetivos. inválido. ovos. portanto. Faltando qualquer um desses. açúcar e as devidas proporções. é aquela falta de idoneidade para produzir. de o ato haver sido executado com a satisfação de todas as exigências legais. para Emílio Betti. ela jamais terá o prato desejado. A invalidade. nulo. pois. não alcançando os seus objetivos. os efeitos essenciais do tipo. devemos examinar seus elementos. Que é preciso para ela fazer esse prato especial? Que elementos deve utilizar? Ela vai à receita e lá encontra a discriminação dos elementos . vamos começar pelos efeitos. não produz efeitos. Pode-se. Quando queremos saber se uma coisa é válida ou não. Por isso é que se diz que “válido é aquilo que está revestido de todos os seus requisitos legais”. Por razões didáticas. invariavelmente. sem os quais ela não existiria. cujos conceitos não divergem do que já ficou assentado. Só o ato válido. 44. no aspecto sociológico. Coimbra. Com essas considerações preliminares. A NOÇÃO DE EFICÁCIA Eficácia é uma conseqüência da validade: é a força do ato para produzir os efeitos desejados. Pois coisa semelhante ocorre no mundo jurídico. são partes do todo. [p. concluir que a validade decorre. cremos já poder agora tratar especificamente da eficácia da norma jurídica e dos seus efeitos. 82] . manteiga. o negócio é inválido.

eficácia é a adequação entre a norma e as suas finalidades sociais. é a força do ato para produzir os seus efeitos. sob pena de nunca elaborar lei eficaz. por isso que neles estão incluídos todos os resultados produzidos pela norma. não tem condições de fazer leis.fornecer ao legislador os elementos necessários à elaboração dessa norma. só tem essa força quando está adequada às realidades sociais. abrangente. a sociedade condiciona o direito fato. é eficaz a norma que atinge os seus objetivos. pois sua própria existência já é um efeito. que não está a par do desenrolar dos fatos. Só aí ela penetra no mundo dos fatos e consegue dominá-los. Poderão ser muito boas para outro lugar qualquer que tenha servido de inspiração ao legislador. Cabe ao legislador ajustar o Direito Positivo a essa realidade social. que realiza as suas finalidades. A sociedade não espera pelo legislador. moldando-o à sua imagem e semelhança. EFEITOS DA NORMA São todos e quaisquer resultados produzidos pela norma. podemos então dizer que lei eficaz é aquela que tem força para realizar os efeitos sociais para os quais foi elaborada. Como dizia Siches. Deve ser a primeira preocupação do legislador . genérico. como teremos oportunidade de ver. como já vimos. nunca. EFICÁCIA DA LEI Se eficácia. para a sociedade à qual se destinam. vazias de propósito. por mais técnicas e eruditas que forem as leis que elaborar. entretanto. Por conseguinte. Toda norma produz efeitos. Os efeitos podem ser positivos ou negativos. dos reais problemas e conflitos que se travam na sociedade. Legislador que não tem conhecimento da realidade social. Nesse sentido é também a correta lição de Paulo Nader. não passando de um conjunto de estéreis formalidades. Se os fatos caminham normalmente à frente do . que atinge o alvo por que está ajustada ao fato. serão elas carentes de conteúdo. conclui-se que os efeitos envolvem um conceito amplo. decorrentes até mesmo de sua própria existência. Em outras palavras.elaborar uma norma adequada à realidade social e a primeira tarefa da Sociologia Jurídica . 46.45. porém. Uma lei. ajustada às necessidades do grupo. qualquer conseqüência. Pelo que ficou dito. “O legislador não pode ser mero espectador do panorama social. modificação ou alteração que a norma produza no mundo social.

quando eficaz. o estudo da influência condicionante do Direito constituído sobre a sociedade. 27). vimos que as suas principais finalidades são prevenir e compor conflitos.. aquele que mais se harmonize com os três fatores” (ob. Efeito é gênero. Se de um lado o Direito recebe grande influxo dos fatos sociais. conforme mencionado na parte anterior. É o efeito típico da norma. A norma. verifica-se ser a eficácia um dos efeitos da norma. entre vários modelos possíveis de lei. 47. Ele deve fazer das leis uma cópia dos costumes sociais. cit. são os resultados contrários aos interesses da sociedade. produz normalmente efeitos positivos. importantes modificações na sociedade. Efeitos positivos são os resultados compatíveis com os interesses sociais. 2) educativo. conforme os interesses a serem preserva. O Controle Social Quando tratamos da função social do Direito (no segundo capítulo). um efeito condizente com suas finalidades. Quando da elaboração da lei. 83] dos. natural e científico e a sua conduta será a de adotar.1. a contrario sensu. A norma eficaz só não produz efeitos positivos se concorrerem outros fatores. da qual falava Siches. O Volksgeist deve informar às leis.[p. em outras palavras. EFEITOS POSITIVOS DA LEI Já vimos que efeitos são todos e quaisquer resultados produzidos pela norma. Esses efeitos podem ser positivos ou negativos. 3) conservador. eficácia é espécie. Pelo exposto. mas o Direito contemporâneo não é simples repetidor de fórmulas sugeridas pela vida social. o legislador haverá de considerar os fatores histórico. Entre os efeitos positivos da norma destacaremos apenas quatro: 1) de controle social. igualmente. destas. e negativos. seu efeito principal ou real.Direito. com as devidas correções e complementações. a função preventiva é a . O estudo dos efeitos da lei é. como teremos oportunidade de ver. 4) transformador 47. provoca. Podemos até dizer que a eficácia é o principal efeito positivo da norma. p. o legislador deverá antecipar-se aos fatos. É uma certa qualidade do efeito produzido pela norma.

Quando a norma não é aplicada convenientemente. mesmo não querendo. fundo de garantia. mediante a ameaça de uma pena para o transgressor da norma. tem que ser divulgada. O próprio Estado. o controle é também exercido pela prevenção especial: a segregação do transgressor do meio social. não pode apoderar-se da propriedade de quem quiser. do grupo e das instituições.mais importante. que o bom comportamento até do cidadão mais exemplar deve muito à existência da polícia. Sabe que tem direito a férias. O Direito é muito mais preventivo do que repressivo. E ele sabe até mesmo onde e como reclamar os seus direitos. E ai de nós se assim não fosse! Como o Direito [p. 47. com toda a propriedade. maior estímulo no sentido de ajustar sua conduta às condições existenciais. aquela coação psicológica ou intimidação exerci da sobre todos. Qualquer trabalhador dos nossos dias. nem na Escola de Direito. É inconcebível uma sociedade na qual o comportamento social seja regulamentado apenas pelas sanções morais do elogio e da culpa. É que a lei. A Constituição de 1988 nos fornece outro exemplo eloqüente desse efeito educativo da lei. ou a aplicação de uma pena pecuniária. Dessa forma exerce o Direito sobre todos um condicionamento que resulta num controle do comportamento do indivíduo. para ter. publicada. Em segundo lugar. e assim. à medida que vai sendo conhecida pelo grupo. a sociedade global. vai se perdendo o controle da situação e a vida em sociedade vai se tomando impossível. a não ser através dos meios constitucionais etc. indenizatória. aviso prévio etc. vai também educando e esclarecendo a opinião pública. que certos assuntos tomam-se melhor conhecidos do grupo social depois de serem disciplinados pela lei. antes de se tomar obrigatória. 13° salário. conhece os seus direitos. Por quê? Onde aprendeu? Não foi com o patrão. 84] previne os conflitos? Estabelecendo regras de conduta. através de pesquisas e da própria experiência. tanto assim que não pode punir sem que alguém tenha praticado um fato típico.2. Bertrand Russel observou. de disciplinamento social. Exemplo disso encontramos no Direito Trabalhista. Conscientizou o cidadão dos seus . mesmo o ignorante ou analfabeto. da próxima vez que se sentir inclinado a transgredir a norma. Efeito Educativo da Norma Está mais que evidenciado. repouso remunerado. mas sim no próprio grupo. O controle social é exercido pelo Direito primeiramente pela prevenção geral. sofre o controle do Direito quanto à sua conduta. Isto faz com que muitos. ajustem o seu comportamento às prescrições legais para não sofrerem a sanção.

235-249) e na própria Constituição. foram propostas 252.348 reclamações. o estelionato. que podiam aprender com eles para melhorar seus produtos e serviços. defendeas. visam a tutela da vida. grandemente procurados. que é a instituição maior. mas. em face da nova postura dos consumidores. Trata-se de instituição basilar da sociedade. as que incriminam o furto. A norma tutela não somente bens. Há normas no Código Civil (um livro todo que só trata do direito de família). Prova disso são os Juizados Especiais. cerca-as. preservar esta instituição através dos séculos e a despeito de todas as influências perniciosas que conspiram contra ela. mas também instituições. a começar pela Constituição. destinadas a organizá-lo e conservá-lo. protegem o patrimônio. estabelecendo em tomo delas a proteção jurídica.3. 85% do atendimento dos bancos 24 horas são feitos eletronicamente.782 reclamações e julgadas 265. arts.direitos e do acesso à Justiça. Vejam o caso da família. necessita da proteção do Direito e por isso existem leis. Em 2003 foram ajuizadas 296. Quando o legislador entende que certas instituições são valiosas e indispensáveis à vida social. por sua vez. E o que se fez em relação a ela? Procurou-se protegê-la através de uma infinidade de normas. destinadas à proteção da família.389. no entender do ilustre . É a função educativa do Direito. Tomemos como exemplo o Direito Penal: todas as normas que incriminam o homicídio. ligase ao caráter estático que ele representa ao garantir a manutenção da ordem social existente. Efeito Conservador da Norma As normas jurídicas tutelam determinados bens da vida social. bem ou mal.729. no ano de 2002. mais do que isso. o infanticídio. que se transformam em jurídicos quando recebem a proteção do Direito. perceberam que teriam de atender melhor os seus clientes para não perdê-los. assinala o insigne André Franco Montoro. 85] pelo Código do Consumidor. o roubo. Assim tem conseguido a sociedade. e assim por diante. das quais foram julgadas 223. 47. o aborto. Hoje. no que foi coadjuvada [p. Estruturaram-se adequadamente e colocaram em operação o Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) por meio do qual conseguiram padronizar procedimentos. racionalizar atividades. essa é a característica essencial das normas jurídicas. Uma grande fornecedora de serviço de telefonia atende mais de 25 milhões de chamadas por mês. A função conservadora do Direito. conquistar a fidelidade dos clientes e construir uma imagem positiva da empresa. O próprio Estado. no Código Penal (dos crimes contra a família. Só no Estado do Rio de Janeiro. As empresas. Para muitos.

auxílio de doença. 86] verdade em países plenamente desenvolvidos. tem que se estruturar. imundas e nocivas. isso só é [p. os calabouços. assistência médico-hospitalar. Outro exemplo. não funciona a contento. vai operando sensíveis transformações em seu meio. Se o fim da pena era punir. foi necessário até a criação de um gigante nacional (INSS) para cuidar da aposentadoria e assistência médica dos trabalhadores. depois de velho e cansado. Exemplifiquemos este ponto com a situação do trabalhador antes das vigentes leis trabalhistas. indenização por acidente de trabalho etc. Nesse tempo. ambulatório. aposentadoria. em razão de necessidades sentidas. creche.4. escola. determina a realização de certas modificações. 47.[p. o efeito condicionante do Direito sobre a sociedade. No passado a pena era considerada um castigo ou punição: mal justo contra quem praticou mal injusto. p. direito a férias.. Rev. 23a ed. muitas delas com refeitório. ficava ao desamparo. Efeito Transformador da Norma É aqui que percebemos. o erro dessa posição é patente. estabilizados e organizados. Trabalhava a vida toda e. Eis aí o efeito transformador da lei. Reduzir o direito a uma força conservadora é perpetuar o subdesenvolvimento e o atraso (Introdução à Ciência do Direito. Há quem diga que a história da pena é pior que a do crime. e o resultado foi uma transformação social. melhor. as prisões fétidas. Nos países em desenvolvimento e transformações profundas. Muitas vezes. mais diretamente. Como não mais podia trabalhar. . Qual era a sua situação? A mais lamentável possível. indenização. Vêm daí as masmorras. aparelhar-se para cumprir a lei. fixa novos princípios a serem observados em determinadas questões. e assim. então o réu deveria ser mesmo colocado no pior lugar do mundo. Daí a importância do Direito como instrumento de transformações sociais. quanto piores as prisões.jurista. por ser grande demais. equipar-se. a norma estabelece novas diretrizes a serem seguidas. para dar cumprimento à lei. Isso teve que ser mudado: vieram as leis trabalhistas e previdenciárias. passando privações e causando problemas sociais graves. dos Tribunais. que. paulatinamente. vestiário. 87] ríveis que se possa imaginar. bem como as penas mais ter. era dispensado sem qualquer direito. E qual foi a conseqüência disso tudo? A sociedade teve que se estruturar. aparelhar-se. As fábricas e indústrias tiveram que oferecer melhores condições e ambiente de trabalho aos seus empregados. 595). estabelecendo. em favor do trabalhador. A sociedade então.

entretanto. contrários aos interesses sociais. que. gerando miséria. a saúde. mas corrigir. desequilíbrio social e abusos econômicos de toda ordem. com uma inflação astronômica corroendo o salário do trabalhador. Se. mediante normas que promovem a educação. pode ser o grande instrumento de uma política do desenvolvimento nacional. A estabilização da moeda. como as orçamentárias. e a participação eqüitativa de toda a população na renda nacional. comandam a execução de planos de desenvolvimento social. o bem estar. atribuindo-lhe uma função preventiva. adequados às novas exigências legais. na Administração Pública. nem no sentido de prevenir a sociedade contra a futura criminalidade. o melhor exemplo do efeito transformador do Direito vamos encontrar nas leis econômicas que implantaram o Plano Real. A reforma econômica desencadeou outras reformas: na previdência. EFEITOS NEGATIVOS DA NORMA Elaborada para produzir efeitos positivos. passou a comer mais e melhor. Não vamos mais punir. Então será preciso transformar nossas prisões em escolas e reformatórios. A economia do país estava à deriva. isso acontecer. em conseqüência. 88] 48. trouxe uma melhor distribuição de renda. [p. pode a norma. revoltado e despreparado para voltar à sociedade. É claro que . na ordem tributária. mas sim um meio de reeducação e ressocialização do réu. quando corretamente utilizado. Tomava o réu pior . não dava à sociedade nenhum instrumento de defesa contra esse indivíduo e seus futuros crimes. todas com amplo apoio da sociedade. fome. produzir efeitos negativos. A prisão passou a ser a melhor escola de crime. Por todos esses motivos. o que será preciso? Onde educar? Na prisão? Na masmorra? Como. Pior do que tudo. maior poder aquisitivo da população. o pensamento moderno a respeito dos fins da pena mudou. a cultura. Certas leis. A pena não é mais uma forma de castigo ou punição. em dadas circunstâncias. Para tanto. na privatização de estatais. efetivo controle dos preços. pois nada fazia no sentido da recuperação do criminoso. Procura-se hoje fazer da pena um instrumento de defesa social.mais perigoso. castigando impiedosamente? Não. e quando. gerando profundas alterações na realidade brasileira.Essa posição quanto à pena trouxe os piores resultados sociais possíveis. Sem dúvida. no monopólio estatal. Pelo menos já se fala hoje em reforma penitenciária. terá a norma exercido a sua influência transformadora. e em alguns estados já começam a surgir as primeiras transformações através de modernos estabelecimentos penais. que esperamos seja duradoura. Isso tudo evidencia que o Direito.

quando isso chega a acontecer é tempo de revogar a lei. isto é. como observa Siches: “A norma jurídica . levado pelo idealismo [p. retardam e impedem as reformas. a norma se incorpora à vida do grupo” (Sociologia do Direito. da qual foi Presidente o douto Senador Acyoli Filho. estendendo-se o desapreço a toda a legislação. 3) quando inexistir estrutura adequada à aplicação da lei. ou as tomam mofinas. o legislador. e sobrevivem apesar da lei. ou de outros fatores. Efeitos Negativos pela Ineficácia da Lei A eficácia da norma depende do reconhecimento. substituindo-a por outra mais adequada.” “Às vezes o legislador. Valem pela força que têm sobre os fatos e como são entendidas nessa aplicação.igualmente como as demais normas sociais . acabam superadas por estes e terminam por desmoralizar-se. 90] de pôr o País em dia com as conquistas da civilização. De outras feitas. Graças a esse reconhecimento. quer alterar velhos hábitos e dar-lhes nova disciplina. 2° vol. para ser lidas ou para ficar na história. da maior parte dos indivíduos que integram o grupo. o legislador não consegue vencer as poderosas forças do misoneísmo que seguram. através da lei. Ou. 48. 19-20). em constante conflito com os fatos. para que se converta em força efetivamente configuradora das condutas. podemos destacar três causas principais.” . no entanto. teimam em sobreviver.. pp. elaborado por uma Comissão Especial do Congresso Nacional. O trecho é o seguinte: “Não elaboramos leis para ser estampadas nos livros. antecipa instituições e prevê soluções que naufragam num meio hostil. uma adesão da comunidade.” “O nosso País já é afamado pela distância entre a realidade e a norma jurídica. 2) quando houver omissão da autoridade em aplicá-la. exige um reconhecimento.” “As leis. De um trecho da exposição de motivos do projeto de lei para a reforma do Poder Judiciário. Esse reconhecimento ou recusa. Os hábitos.para que seja cumprida. pode depender da legitimidade da autoridade que a estabeleceu. no entanto. acanhado e despreparado. Outras vezes. que gera a eficácia ou ineficácia da norma. do conteúdo da mesma. em 1977. As leis nascem para viver e só valem quando podem entrar no mundo dos fatos e ali governar. Lembramos três hipóteses em que a lei produz efeitos negativos: 1) quando for ineficaz.1. aceitação ou adesão da sociedade a essa norma. entretanto.

é a sua desatualização.[p. Assim. A maior parte de nossa legislação precisou ser reformulada exatamente por esta razão. econômicos ou religiosos em jogo. pois os fatos são dinâmicos. ou as tornam mofinas” (o grifo é nosso). retardam e impedem as reformas. a lei. Acyoli Filho põe isto em destaque no seguinte trecho: “Ou.A primeira causa da ineficácia da lei. correspondência com a realidade. o legislador. acanhado e despreparado” (o grifo é nosso). como se sabe. Por mais estranho que possa parecer. Só para ilustrar esse ponto. o passar do tempo toma a lei ineficaz. entretanto. vai se desatualizando. outras vezes por mero comodismo da autoridade que não levou a sério a aplicação da lei. Não consegue porque não há suporte social. levado pelo idealismo de pôr o País em dia com as conquistas da civilização. privilégios de grupos. Muitas leis que controlam as atividades das multinacionais. impedem que a lei seja aplicada ou mesmo elaborada. 90] tras vezes. vai sendo ultrapassada.. estendendo-se o desapreço a toda a legislação” (o grifo é nosso). A antecipação da lei à realidade social existente é a terceira causa de sua ineficácia. pode estar em perfeita adequação com a realidade social no momento de sua criação. em constante conflito com os fatos. Misoneísmo. não são aplicadas em razão dos interesses econômicos em jogo. Com o correr do tempo. entretanto. Cada legislador tem que elaborar a lei com base na realidade de sua sociedade. é aversão sistemática às inovações ou transformações do status quo. se bem elaborada. . antecipa instituições e prevê soluções que naufragam num meio hostil. costuma-se entre nós dizer que a lei não pegou. acabam superadas por estes e terminam por desmoralizar-se. razão pela qual a lei cai no vazio. costumes emperrados. Velhos hábitos. evoluem constantemente. O legislador vê algo que funciona muito bem em certo país mais adiantado e quer implantar no nosso. Às vezes porque há grandes interesses políticos. esses gigantescos organismos econômicos dos nossos dias. Com efeito. Interesses corporativistas emperraram a reforma da Previdência por muitos anos e ainda impedem a reforma Política. o legislador não consegue vencer as poderosas forças do misoneísmo que seguram. o que em nosso país constitui na realidade uma forte causa da ineficácia da lei. mas a lei é estática. A segunda causa é o misoneísmo e vem mencionado no seguinte trecho: “. frontalmente contrária à dissolução do vínculo matrimonial. que ele destacou ao dizer: “As leis. lembrada pelo Senador Acyoli Filho.. lembramos que o divórcio custou tanto a ser admitido pela nossa legislação em virtude das pressões da Igreja.

dirigindo sem serem molestados.Vemos. para acabar com a impunidade dos motoristas profissionais.2. é prevenir conflitos. havia uma grande expectativa de que ele haveria de por ordem em nosso trânsito caótico. Lei ineficaz. e por desídia. a transgressão sem punição vai estimulando novas transgressões. Anunciou também que só a partir de 10 de junho de 2004 (Resolução 151 CONTRAN) começará a ser aplicada em todo o país a chamada multa por não identificação do condutor. 91] por pardais. desatualizada. dado a severidade de suas normas e a gravidade das penas.2003) o DENATRAN anunciou ter decidido criar o Registro Nacional de Infrações de Trânsito que permitirá a cobrança das multas por infrações cometidas fora do Estado onde os veículos estão registrados. a autoridade nada faz . conseqüentemente. quando foi editado. vai se diluindo a sua função preventiva e. tiro sem bala. Exemplo eloqüente disso é o Código de Trânsito Brasileiro. principalmente . A conseqüência é que a lei se desmoraliza e estende o desapreço a todo o sistema. mas não produzirá efeitos positivos por omissão das autoridades. quando ajustada à realidade social e inteiramente adequada aos fatos. Mas se a lei é transgredi da.qual será o resultado? Vai se enfraquecendo aquela disciplina que a norma impõe a todos. A lei só tem força para “penetrar no mundo dos fatos e ali governar” quando é eficaz. controlar as relações sociais. Efeitos Negativos pela Omissão da Autoridade em Aplicar a Lei A função principal do Direito. As autoridades do trânsito ainda discutem se as multas registradas [p. quer por ter se tomado anacrônica. se é ou não obrigatório informar aos motoristas onde se encontram esses meios eletrônicos. Há milhares de motoristas infratores. com a pontuação várias vezes estourada. isto é. já vimos. quer por ser artificial. produz efeitos negativos porque não tem força para governar os fatos sociais. câmeras eletrônicas valem ou não. assim.12. portanto. 48. Em janeiro de 1997. entre as quais a perda da carteira. a sanção não é aplicada. Neste caso a lei pode até ser eficaz. Quem transgride a lei impunemente sente-se encorajado a transgredir novamente. o que realiza através do disciplinamento do comportamento mediante normas jurídicas armadas de sanção. se quando surge o comportamento de desvio nenhuma pena é imposta ao transgressor da norma. que fazer lei é algo diferente de fazer literatura ou história. incompetência ou irresponsabilidade da autoridade. e o seu exemplo serve de estímulo a outrem. Só agora (O Globo de 26. É fogo que não queima. fruto apenas do pensamento. acobertados pelas empresas para as quais trabalham. Depois de vários anos de vigência quase nada melhorou porque as multas e outras sanções aplicadas não foram executadas. superada pela realidade social.

poderemos ter leis boas e eficazes. então titular da Delegacia de Busca e Capturas (Polinter). lamentavelmente. os mandados de prisão não cumpridos chegavam a 200 mil.[p. falta material. Efeitos Negativos pela Falta de Estrutura Adequada à Aplicação da Lei Nesta terceira hipótese. Ainda assim. o delegado Álvaro Lins. o Código de Trânsito perdeu a sua força didática. Está ameaçado de cair em desuso se não forem resgatados com urgência a sua letra e o seu espírito. 23. por falta de pessoal e estrutura. o Juiz Camilo Ribeiro Ruliere. Em São Paulo. mas o problema continuou: o ICCE fechou o ano de 2003 com cerca de cem mil laudos atrasados. foi forçado a conceder liberdade provisória a quatro traficantes. principalmente no denominado poder paralelo. faltam instalações. a Justiça fica impedida de julgar em decorrência da falta de estrutura do organismo policial e de seus institutos de criminalística.07. uma média de 600 mandados por policial (O Globo. Os acusados foram soltos. e as boas intenções que motivaram a sua aprovação há mais de seis anos.2000). Falta pessoal. sobram 30 mil para uma equipe de 50 policiais. 48. Esse. A Polícia. Em resumo. pelo menos 60 mil já caducaram por prescrição.de ônibus urbanos. mas a norma não atingirá seus objetivos sociais por falta de estrutura para uma eficiente aplicação do direito. admitiu que.3. segundo estimativa do Professor Flávio Gomes. Em julho de 2000 o Ministério da Justiça estimou que havia cerca de 204 mil foragidos da Justiça brasileira e mais de 275 mil mandados de prisão não cumpridos no país. autoridades competentes e responsáveis. . Por isso é comum dizer-se que. dos 90 mil mandados de prisão expedidos no estado. Enquanto a criminalidade cresce assustadoramente. 92] cial. mas que já está se tornando comum na Justiça. No dia 22 de setembro de 2003. São cem mil inquéritos parados aguardando provas técnicas. Por falta de um laudo do Instituto Carlos Éboli (ICCE). falta tudo enfim. o Ministério Público e o próprio Judiciário não estão suficientemente aparelhados para aplicar a lei. Toma-se impossível aplicar a lei sem os recursos humanos e materiais necessários. é tê-las e não aplicá-las. depois de um começo promissor. No Rio. tomou uma decisão extrema. pior do que não ter leis. Quais serão as conseqüências dessa falta de estrutura? As mesmas anteriormente mencionadas: transgressão sem punição e estímulo à ilicitude. morte ou decisão judi. da 9ª Vara Criminal do Rio. Sequer reduziu a incidência de infrações graves como excesso de velocidade e embriaguez ao volante. equipamentos. continua sendo o nosso grande problema atual.

como nada constava sobre ele no INFOSEG (sistema nacional destinado a integrar todas as informações policiais e judiciais).2004. Se o inquérito chega ao juiz sem qualquer prova técnica ou testemunhal. embora criado em 1988 o INFOSEG pelo Ministério da Justiça. Mas. Apenas no dia 07. Santa Catarina e Rio Grande do Sul). a Secretaria de Segurança do Paraná alegou que ano passado (2003) decidiu limpar seu banco de dados do INFOSEG porque o sistema nacional apresentava falhas que prejudicariam sua utilização. o que acaba levando a sociedade a culpar o Judiciário. desta feita por ter sido reconhecido pelo amigo de uma outra criança assassinada quatro dias antes. Assassino confesso de 12 crianças no sul (Paraná. 93] que a qualidade das informações era ruim e o estado pretendia melhorá-la. O Presidente do Tribunal de Justiça do Rio. Outro exemplo lamentável dessa falta de estrutura foi noticiado pelo Globo de 08. foi liberado no mesmo dia. Segundo ele. 21. disse: “A polícia.01. Especialistas nessa área dizem que a falta de vontade política de governadores é um dos principais entraves para manter em funcionamento o INFOSEG.2003). parte das mortes poderia ter sido evitada. como pode o juiz condenar alguém? Depois dizem que a polícia prende e o juiz solta. Em nota. o coronel José Vicente da Silva condena a falta de iniciativa dos estados para abastecer o sistema nacional. pois o juiz não pode condenar sem provas. Isso não é verdade. fugiu da cadeia em União da Vitória. comentando a decisão do juiz Camilo. ou pelo menos do mandado de recaptura contra ele existente. Quase dois anos depois. Se no INFOSEG constasse a informação sobre a condenação anterior do criminoso. Moral da história. “enquanto os estados não se interessarem em alimentar e atualizar periodicamente o INFOSEG. muitas vezes. A Secretaria Nacional de Segurança Pública. pouco poderá ser feito por órgãos policiais ou judiciais que dependem dessas informações.01. apesar de existir mandado de recaptura contra ele expedido desde abril de 2002. no Paraná. iniciativa da maior importância e extremamente necessária no combate à criminal idade num país continental como o nosso e super populoso. por sua vez. Ex-secretário nacional de Segurança Pública. em novembro de 2003.2004 foi novamente preso.por carência de aparelhos e de material humano.12. não faz um trabalho de perícia eficiente. ainda hoje não funciona eficientemente por deplorável omissão das autoridades responsáveis pela segurança pública. foi detido no Rio Grande do Sul sob suspeita de assassinar outra criança.[p. nem manter ninguém preso” (O Globo. diz que em maio de 2003 o Governo do Paraná pediu para retirar seus dados do INFOSEG por. falta ainda responsabilidade funcional por parte do estados . depois de condenado a 27 anos de prisão. mas isso não foi feito. Desembargador Miguel Pachá.

confunde-se o projeto com a realização.2004). ex-secretário nacional de Segurança Pública. a solução para o problema deveria partir de iniciativas dos próprios administradores públicos estaduais. mas sim se as executam. apenas quatro bancos de dados integram o INFOSEG . E quando a lei é aprovada e nada faz acontecer. armas e ainda sobre foragidos da Justiça. e tudo acaba aí.2004). porque leis boas há em toda parte. repetimos. encarregada de fiscalizar e a Polícia Civil. Montesquieu tinha toda razão ao dizer: “Quando vou a determinado país. responsável [p.com informações de veículos roubados. diz ainda Khan. é tê-las e não aplicá-las. lamentavelmente. a intenção de resolver o problema com a solução em si. faz uma grande propaganda.” O Brasil. toma-se o dito pelo feito.lembrando que nos Estados Unidos o sistema nacional envolve 14 bancos de dados e a sede do órgão ocupa um edifício inteiro (O Globo. . é campeão em resolver problemas elaborando leis.2004). 09. já que apenas 4% dos casos no Rio de Janeiro e 12% em São Paulo são resolvidos. Segundo ele. os legisladores se reúnem e aprovam outra lei. prejudica a operação de todo o sistema. 94] pelas investigações. cria uma esquizofrenia institucional.” A falta de investimentos. Por meio de um prodigioso processo mental. atualmente. Túlio Khan. Luiz Eduardo Soares. não indago se aí há leis boas.para atuar na área de segurança pública. informa que. executá-las. critica também duramente a atuação das autoridades policiais no combate à criminal idade ao dizer que “as taxas de elucidação de homicídios mostram uma tendência à impunidade. há pessoas que cometem um crime grave num estado e depois respondem como réu primários em outro (estado) simplesmente porque estão usando nome falso ou porque ninguém consegue saber de seus antecedentes” (O Globo.01. Teve que usar uma sala da Polícia Rodoviária Federal” . todavia. “A equipe do INFOSEG não tinha nem sala no Ministério da Justiça. que foi responsável pelo INFOSEG durante os últimos meses do governo de Fernando Henrique Cardoso. Edita a lei. O Governo deveria tomar a iniciativa de fazer uma reforma nas polícias com o mesmo vigor empregado nas reformas da Previdência e Tributária” (O Globo. “Os Governos estaduais deveriam investir urgentemente na digitalização de informações do Detran e da Polícia Judiciária. organiza uma imensa demagogia. 09. pior do que não ter leis. Por isso. anuncia aos quatro cantos que o problema está resolvido.01. nada é feito no sentido de executá-la. Diz ainda que a divisão de tarefas entre a Polícia Militar. sem. em vez de se discutir o que fazer para dar-lhe execução.01. 08. o INFOSEG não consegue servir aos próprios estados. Sem essas e outras bases de dados nos estados. condutores irregulares.

A realidade. Para alguns setores da sociedade. Famílias sem renda e instrução têm o dobro de filhos da média brasileira de 2. é outra. reascende a discussão a respeito da reforma do Estatuto da Criança e do Adolescente. anunciou a criação do Ministério da Criança e acrescentou: “Gostaria de ver iniciativas como essa se estenderem para outras nações. que teve repercussão mundial. ao ser indagado sobre a questão da criança em nosso País. Se a família é tão importante para a educação das novas gerações. sem alimentação e sem educação. mas não tem cabimento pensar que a simples antecipação da maioridade penal resolverá o problema da criminalidade dos adolescentes. Por falta de recursos. o então Presidente da República. [p. os menores continuam abandonados na rua. o problema seria resolvido com a diminuição da maioridade penal de modo a permitir punição exemplar dos adolescentes criminosos. voltando às ruas com mais raiva de tudo e de todos e mais experientes em atos criminosos. Por melhor que seja. Ganha fôlego a antecipação da maioridade para 16 anos. bem diferente. de repercussão nacional (morte dos pais. com planejamento familiar e assim por diante. A situação talvez até piorou. É preciso definir um projeto amplo de aperfeiçoamento do ECA e das instituições que educam ou reeducam os adolescentes que lá chegam. em visita a Nova York. 95] A questão do ECA é item prioritário em qualquer equacionamento efetivo do problema da segurança pública.4. sendo prova disso a chacina da Candelária. assassinato de um casal de namorados no interior de São Paulo e outros). instituições adequadas e gente competente. Sempre que um adolescente pratica um crime bárbaro. o ECA não é irretocável.Foi exatamente isso que ocorreu quando entrou em vigor o Estatuto da Criança e do Adolescente: os políticos da época anunciaram por toda a imprensa que o problema do menor no Brasil estava resolvido. eles passam pouco tempo nas instituições de recuperação. por que não envolvê-los nessa tarefa? As estatísticas demonstram que o planejamento familiar poderia contribuir decisivamente para a redução da desigualdade. Nada aconteceu de positivo em relação ao menor depois da vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente dada a distância entre a lei e a sua execução. porém. São também necessárias ações sociais preventivas destinadas a preparar os jovens para uma paternidade ou maternidade responsável.” A simples edição de uma lei e a criação de uma entidade governamental foi tomada por uma solução. que lhes possibilite uma profissionalização. Afinal. A mulher de até um ano de escolaridade e renda . sem assistência. Uma mera fantasia burocrática virou remédio de tal eficácia que até se recomendaria sua exportação.

12.01. 1. 96] . porque a facilidade com que os criminosos têm acesso às armas é muito grande. decidirá sobre a proibição do comércio de armas no país.baixa. afirmou o Governador Geraldo Alkimim em entrevista ao jornal O Globo (04. é considerado uma boa lei pelos especialistas. O Estatuto do Desarmamento. a que mande cumprir todas as outras.2003). tem média de filhos de 4. a mulher tem. Se quando chegar a hora forem visíveis para a sociedade os efeitos positivos do estatuto. inclusive de pessoal. com onze ou mais anos de instrução. em média. Só em São Paulo é apreendida uma arma a cada quatro minutos. ele será um cabo eleitoral eficiente. daqui a menos de dois anos.12. o combate ao contrabando. Lamentavelmente. Só nos falta uma lei. Sem Índices eloqüentes de redução da violência gratuita das armas de fogo. Por enquanto só no papel. No passado. agora em vigor. “do que acontecer nessas e em outras frentes de luta dependerá o resultado do referendo que. mas elas não param de entrar. E concluiu: “É fundamental a polícia de fronteira.2004). o próprio estatuto corre o risco de acabar recolhido ao empoeirado depósito onde se empilham as leis que não pegaram no Brasil” (O Globo. Capistrano de Abreu denunciou-o com ironia dizendo que temos uma legislação quase perfeita. 30. [p.48 filho.” Como bem colocou o jornalista Luiz Garcia. na prática dependerá dos recursos que forem liberados às Polícias Federal e Estadual. entre as quais o combate ao tráfico de armas no país inteiro. esse irrealismo ilusório de nossa legislação escrita é bastante antigo e conhecido. para realizarem as tarefas que o estatuto lhes reserva.

Direito do consumidor: a responsabilidade objetiva do fornecedor de produtos e serviços. sob pena de se tomar ainda mais difícil a vida em coletividade.Capítulo X ASPECTOS SÓCIO-JURÍDICOS DE ALGUMAS ÁREAS DO SISTEMA JURÍDICO BRASILEIRO O sentido sociológico da Constituição: Constituição e democracia. soluções legais paliativas antes do divórcio. Direito do trabalho: interferência das forças sindicais no processo de formação do direito do trabalho. a situação da companheira e dos filhos ilegítimos. criminalidade de colarinho-branco. Veremos também que a ocorrência de novos fatos sociais. estão a exigir uma urgente solução do legislador. principalmente nos grandes centros. Direito financeiro e tributário. por isso que lhe fornece os elementos necessários . características da Constituição Brasileira de 1988. igualmente. Essa incursão pelos vários ramos do Direito proporcionará. a concepção social do contrato. Vamos agora examinar alguns aspectos sócio-jurídicos da nossa legislação. analisar os efeitos sociais produzidos por certas normas existentes (ou que já existiram) em várias áreas do nosso Direito. uma demonstração eloqüente da importância da Sociologia Jurídica [p. **** No capítulo anterior estudamos a eficácia e os efeitos das normas jurídicas e pudemos conhecer os principais efeitos positivos e negativos que elas produzem. Considerações gerais. a introdução do divórcio na legislação brasileira. Direito de família: divórcio. 97] para todo profissional do direito. quando teremos oportunidade de conhecer a longa e penosa evolução transcorrida até chegarmos a uma razoável disciplina jurídica de certos fatos sociais. União de pessoas do mesmo sexo. a macrodelinqüência. Direito penal: violência urbana e poder paralelo. não previstos em nossa legislação atual. a situação da companheira e dos filhos após a Constituição de 88. principalmente para o legislador.

Do ponto de vista sociológico. onde se encontram os princípios fundamentais da sua estrutura organizacional.sustenta Lassalle . p. ou ilegítima.aquele somatório de poderes gerador da folha de papel . O SENTIDO SOCIOLÓGICO DA CONSTITUIÇÃO Entende-se por Constituição a Lei corporificadora do Estado. é possível distinguir a Constituição formal.a folha de papel . cit.“não são problemas de direito. 117).). a verdadeira Constituição de um país somente tem por base os fatores reais e efetivos do poder que naquele país reagem. prevalecerá sempre a vontade daqueles que titularizam o poder. mas dos fatores reais de poder. Assim. autônomo [p. o efetivo exercício do poder. 98] (porque não subordinado a nenhum outro) e . em sua clássica obra . Embora se diga que o Poder Constituinte Originário é inicial (porque não há outro antes). É chamada de Carta Magna ou Lei Fundamental porque. ou distanciar-se dele.. mas do poder. 49. como bem colocou Ferdinand Lassalle. mas têm base na realidade. dessarte. e as constituições escritas não têm valor nem são duráveis a não ser que exprimam fielmente os fatores do poder que imperam na realidade social: eis aí os critérios fundamentais que devemos sempre lembrar” (ob. é a Constituição que cria ou constitui o Estado de Direito. econômicas. Vista pelo prisma sociológico. quando tal não ocorrer.para bem aplicar o Direito e melhor elaborar as leis. da Constituição escrita. o mais expressivo representante do sociologismo constitucional. a Constituição pode ser legítima e eficaz. quando a Constituição não é o somatório dos fatores reais de poder. Vamos começar pelo Direito Constitucional. tudo dependendo de representar ela o efetivo poder social (forças políticas.somente vale até o momento em que entre ela e a Constituição efetiva . É como um termômetro a indicar a temperatura dos fatos sociais. como o seu próprio nome diz. de modo a permitir a formulação de um correto diagnóstico e a apresentação de uma solução adequada.houver coincidência. que contém a estrutura jurídica da nossa sociedade. nada mais é que uma folha de papel.Constituição formal . pois a Constituição real e efetiva é o fato social que lhe dá alicerce. a folha de papel .Que é uma Constituição? Para ele. Este não deriva da folha de papel.e a Constituição real. ideológicas etc. Tais afirmações soam como heresia jurídica para os fetichistas da Constituição. “Os problemas constitucionais” .

pelo amadurecimento esperado. Suas normas dominam o processo político ou. mas conserva um caráter educativo e prospectivo. vivamente integrada na sociedade. econômicos e sociais”. p. Fatores ideológicos. 99] para ajustar os seus preceitos às novas realidades sociais e corrigir os equívocos ou exageros do constituinte de 1988. econômicos. religiosos. “No outro extremo está a Constituição semântica. 5ª ed. a dinâmica do processo político não se adapta às suas normas. Existe. é o encontro do povo de um certo país em dado momento histórico para reexaminar seus valores morais. além disso. Em tese uma Assembléia Nacional Constituinte pode tudo. Saraiva. Já houve quem afirmasse que a “a Constituição. Foi precisamente ao estudar a sintonia entre as normas constitucionais e a realidade do poder que Karl Loewenstein. a ser sanada com o passar do tempo. [p. nominal ou semântico. para o exclusivo benefício dos detentores do poder de fato. A Constituição normativa é aquela não apenas juridicamente válida. políticos. políticos.incondicionado (porque não tem limites à sua atividade). sem pressa. elaborou a sua celebrada classificação ontológica das Constituições. seja do país grande potência. diferenciando-as segundo seu caráter normativo. uma desarmonia entre os pressupostos sociais e econômicos existentes e a aspiração constitucional. Aqui. Se não houvesse nenhuma Constituição formal ou escrita. dissimula ou disfarça. é inegável que os constituintes estão comprometidos e limitados pelas forças sociais que os elegeram (fatores reais do poder). A maior prova de que a Constituição tem que se ajustar aos fatores reais de poder está em que periodicamente tem que ser revista ou emendada. inversamente. numa imagem retórica. o processo de poder se amolda às normas da Lei Maior. mas quando se reúne já traz compromissos indeclináveis e emanentes de suas origens sociais. mas esconde. A roupa não veste. a vida institucional não seria perceptivelmente diferente. os detentores do poder esperam pelo futuro. que dispõem do aparato coativo do Estado. . do país rico ou do país educado” (Interpretação e Aplicação da Constituição. mas que está. como vem acontecendo com a nossa Constituição em vigor. profissionais. Para usar uma expressão de todos os dias: a Constituição é a roupa que assenta bem e que realmente veste. nesse caso. subalterna formalização da situação do poder político existente. A roupa fica por certo tempo guardada no armário e será vestida quando o corpo nacional haja crescido. citado por Luis Roberto Barroso.. culturais e morais acabam por determinar a atuação dos constituintes. éticos. Confortavelmente. como no caso da Constituição normativa.” “Entre a Constituição normativa e a Constituição semântica situa-se a Constituição nominal. submetendo-se a elas. 252).

No Brasil. que mereceu do saudoso Senador Afonso Arinos. por exemplo. foram editadas no Brasil nada menos do que oito Constituições. onde a federação foi totalmente desconsiderada e neutralizada pelo poder central. quase todos os Estados declaram. ou motivado por falsas promessas . o comentário famoso de que sociologicamente. o Brasil é um Império. de forma a ensejar ao povo. Tal integração. a oportunidade de influir nas grandes tomadas de decisões. simples princípio nominal ou teórico. tivemos um regime autoritário. numa lastimável sucessão de percalços. relegando-se a plano secundário os poderes Legislativo e Judiciário. que a fonte do poder é o povo. Desde o século XIX. num melancólico estigma de instabilidade por falta de harmonia entre o instrumento formal e o real. entretanto.50. continham a expressiva fórmula de democracia indireta ou representativa: “Todo poder emana do povo e em seu nome é exercido. um dos pilares do Estado Democrático de Direito. exige mais que a fria participação do eleitor que comparece às umas apenas para cumprir um dever legal. Em 180 anos de independência e pouco mais de 100 anos de República. Isso está a indicar que a verdadeira democracia é muito mais que uma forma nominal de associação política. tanto a Constituição de 1967. no entanto.” Nesse período. de modificação do funcionamento do poder. Há de ser um processo [p. na maioria das vezes tal declaração não passa do papel. como aconteceu na América Latina nas últimas décadas do século passado. cortina de fumaça para esconder regimes autoritários. como a emenda de 1969. No entanto. Tomemos para exemplo disso a própria Democracia. apesar de professar a democracia em todas as suas Constituições. ou que todo o poder dele provém. verdadeiro titular do poder. executando a decisão e transformando a realidade. Tão marcante é ainda o caráter centralizador e autoritário da organização política e social brasileira. Está a indicar que a verdadeira democracia há de ser uma real tentativa de alteração do caráter autoritário e centralizador da sociedade. 100] integrado e evolutivo de constante participação do povo na atividade estatal decidindo. mais do que um mero ideal escrito no papel ou de simples texto constitucional sem qualquer correspondência com a consciência e a realidade social de cada povo. no texto de suas respectivas Constituições. CONSTITUIÇÃO E DEMOCRACIA A visão sociológica da Constituição defendida por Lassalle encontra abundante campo de comprovação em nosso país. sem qualquer participação do povo até mesmo na escolha dos seus governantes. solenemente. um dos nossos maiores constitucionalistas.

com relevantes inovações para o constitucionalismo brasileiro e até mundial. e não para esmagar a do seu semelhante. O voto. Características da Constituição Brasileira de 1988 A luta pela normalização democrática no Brasil e pela conquista do Estado de Direito Democrático. O Presidente José Sarney. porque a democracia é. nem às minorias em um Estado democrático. quando as multidões correram entusiásticas e ordeiras aos comícios em prol da eleição direta para Presidente da República.1. Frustrou-se. e esta. todavia. contudo. que se manteve contida por quase vinte anos. afasta-se dos seus compromissos democráticos. enviou ao Congresso Nacional a tão esperada emenda constitucional convocando a Assembléia Nacional Constituinte. porquanto só assim será possível impedir que a liberdade produza exatamente a sua negação. É preciso. que só poderia consubstanciar-se numa nova ordem constitucional que refizesse o pacto-social. razoavelmente avançado. que foi o instrumento mais autoritário da história brasileira. simultaneamente.[p. mas ainda o poder de ser livre. embora valioso. liberdade. interpretando o sentimento da Nação em busca do reequilíbrio da vida nacional. 101] sileiras. na célebre frase de Luis Blanc. essa grande esperança. não só pela rejeição da emenda constitucional da eleição direta. após prolongado trabalho e acirrados debates. por si só. o mais destacado representante das forças democráticas bra. não é somente o direito. especialmente. começou assim que se instalou o golpe de 1964 e. A liberdade.eleitoreiras. embora respaldado por milhões de votos. a maturação sobre os desdobramentos do processo político e o acesso às informações que embasarão a participação lícita no processo decisório. entretanto. realizar a justiça social. Daí por que a integração democrática impõe a consciência e a responsabilidade na escolha. não garante justiça. e salvaguarda ao indivíduo. sobretudo. neutralizar os desequilíbrios. um projeto e. perdendo a legitimidade inicial. como também pela morte de Tancredo Neves. empolgado pelo fascínio do poder. veiculadas pelos órgãos de informações que condicionam e manipulam a verdade. aprovou um texto moderno. após o AI-5. 50. um ideal. Não pode existir uma democracia por decreto. . A liberdade é consenti da ao homem em sociedade para desenvolver suas energias. cumprindo os compromissos democráticos assumidos por Tancredo. tomou as ruas a partir da eleição dos Governadores em 1982 e se intensificou no início de 1984. Não é raro que o governante. por sua vez. uma prática. fazer cessar as desigualdades. pois. Essa luta. através de um processo realmente democrático.

208. neles incluídos os dos trabalhadores. nos arts. justiça social. atendimento especializado aos portadores de deficiência. . 1°. I. fundamento da atividade estatal. § 1°). sem numerário para execução de suas tarefas constitucionais. padecem do mesmo mal: não passaram do papel. no dia-a-dia da vida do cidadão. Todas essas normas e muitas outras. objeto. diferentemente da Carta anterior que tratava desses direitos na sua parte final (art. sujeito. e Direitos Sociais. No respeitante à Organização Político-Administrativa e a Divisão dos Poderes. valorização do trabalho (art. É a “Constituição Cidadã”.[p. V). não só porque teve ampla participação em sua elaboração. função social da propriedade. 153). conferindo maior soma de competências legislativas e administrativas aos Estados e Municípios. na expressão do saudoso Ulysses Guimarães. Presidente da Assembléia Nacional Constituinte que a produziu. na ordem social. dandolhes ainda mais recursos tributários. que ressoam precisamente inócuas. atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade (art. (arts. 6° a 11° -. já que não há verdadeira autonomia. não só os individuais como também os coletivos. A dignidade da pessoa humana passou a ser princípio fundamental da Constituição (art. igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. valorização dos profissionais do ensino etc. 102] te (art. tais como. Não obstante tantos pontos positivos. 170 e incisos). nem política e nem administrativa. 5° e seus setenta e sete incisos. III e IV). I. fundamento e fim de toda a atividade pública. efetivamente. tanto assim que praticamente inicia-se a Constituição com a consagração desses direitos . 227. fez renascer a Federação. diferentemente da anterior que era centralizadora e autoritária.Direitos e Deveres Individuais e Coletivos no art. a Constituição de 88 tem inúmeros dispositivos que ainda não passaram da folha de papel. 205 e 206. ensino fundamental obrigatório e gratuito. inciso III). assumiu uma postura liberal. colocando em destaque o homem e seus direitos fundamentais. educação como direito de todos e dever do Estado. buscando resgatar o verdadeiro princípio federalista através de um sistema de repartição de competências entre o poder central e os poderes estaduais e municipais.As inovações se fizeram presentes. não são aplicadas. mas principalmente porque se volta decididamente para o cidadão e o social. existência digna. Praticamente. primeiramente. Pode-se concluir dizendo que a Constituição de 1988 afastou o federalismo nominal da ordem constitucional anterior. o que significa que o homem é o centro. assistência integral à saúde da criança e do adolescen. pleno emprego. pode-se dizer que a Constituição atual.

deixando íntegro. produzindo efeitos patrimoniais para os cônjuges. que dissolve apenas a sociedade conjugal. Entendia-se que o divórcio destruiria o casamento. amor. “célula mater” da sociedade. inúmeros problemas começaram a surgir no seio da família. DIREITO DE FAMÍLIA Em nenhuma outra área do direito houve tão grande evolução como no Direito de Família. inúmeros diplomas legislativos foram produzidos nas oficinas do direito.2. 51. sem dúvida alguma. servindo de instrumento de chantagem emocional. Depois. A Situação da Companheira e dos Filhos Ilegítimos Apesar de a Constituição vedar a dissolução do casamento. levando de roldão a família. que a . estável. Muitas vezes essa união ilegal. ou pelo menos não reconhecida pela lei. formando novo par. § 1°. 175. [p. da Emenda nº 1/69) que considerava o casamento indissolúvel. compreensão e calor humano. como veremos a seguir. objetivava a proteção do casamento e da família legítima. Em razão dessa norma não podia haver divórcio no Brasil. estariam resolvidos todos os problemas que conspiram contra o casamento. havia um casal cujos componentes não eram casados. dando ensejo ao desfazimento dos lares.51. dando origem a novas famílias. Foram tantas as modificações sociais ocorridas nas últimas décadas que não seria demais afirmar que temos hoje. Marido ia para um lado. em busca da necessária harmonia entre a realidade social e a lei. um novo Direito de Família. Em razão disso. em outras palavras. em todas as camadas sociais. o vínculo conjugal. Inicialmente a sociedade tolerava com reservas essas uniões: todo mundo sabia e comentava quando. os cônjuges separados ou desquitados se uniam de fato a outra pessoa. DIVÓRCIO Havia uma norma em nossa Constituição (art. oriundos das mais variadas causas. 51.1. tantos foram os casais de união de fato. 103] Com o correr do tempo. geralmente os mais prejudicados. Pensava-se. entretanto. mormente após a Constituição de 1988. que. somente o desquite. tomava-se uma união sólida. amizade. hoje chamado de separação judicial. ficando entre eles os filhos. com filhos. proibindo descasar. Tal norma. num determinado edifício. mulher para outro.

Em síntese. Há outras causas (sociais. entre os quais o desamparo econômico. Aqueles eram considerados filhos ilegítimos ou mesmo adulterinos. É preciso. como se fossem marido e mulher. assume novas . a situação da família no país onde não há divórcio seria muito melhor do que em outro onde há. plenamente integradas na sociedade. une-se tantas vezes quantas puder com outras mulheres. psicológicas. Havendo divórcio. impedia ainda a realização de outros casamentos verdadeiros. não é verdade. um homem. eram mantidas à margem da lei. para constatarmos que não estávamos em melhor situação. e os Estados Unidos. o responsável pela destruição do casamento. estendendo-lhes proteção legal. estas famílias “ilegais” eram mais úteis e recomendáveis que as primitivas. como se sabe. Se assim não fosse. para impedir a ruína do casamento. sem assumir qualquer obrigação alimentar ou de outra natureza econômica para com elas. O vínculo matrimonial era indissolúvel. As novas uniões passaram a ser normalmente admitidas pelos costumes. pois. Só prejudicava. afetivas. Basta fazer uma comparação entre o Brasil. o indivíduo que se casa outra vez. 104] Ficou também evidenciado que a proibição do divórcio só facilitava a irresponsabilidade e estimulava a pilantragem. e isto. mas não podiam. se não fosse”. que devem ser pesquisadas e combatidas se se quiser de fato manter o vínculo matrimonial indissolúvel. econômicas. proibir descasar. a norma constitucional que visava a proteção do casamento. pois o homem com o qual vive está sempre a dizer: “Sou casado. fechando os olhos para a realidade. ilegais. Não basta. Eram ilegítimas. mas continuavam a ser repelidas pela lei. como se fez em nosso País. gerando desigualdades. em si. dar nome à mulher e aos filhos. legítimas mas já destruídas pela separação. não podendo se divorciar. [p. com pais e filhos vivendo em harmonia e felicidade. Com efeito. culturais) profundas. Muita gente queria regularizar a situação. a lei repudiava famílias bem constituídas. repudiada pela lei. A nova realidade social em tomo da família e do casamento evidenciou que não era o divórcio. A mulher fica numa situação vexatória. bem constituídas do ponto de vista social. sem quaisquer reservas. A pretexto de proteger um vínculo matrimonial já de fato inexistente. nada pode exigir. antes do divórcio. a concubina. esta. Inúmeras famílias. conhecer e combater as verdadeiras causas do fracasso matrimonial. e “deitar em berço esplêndido”. Filhos e companheira não tinham qualquer direito ou amparo legal.sociedade passou a aceitá-los plenamente. Do ponto de vista social. após o primeiro casamento. além das obrigações já assumidas com a primeira família. além de não conseguir impedir-lhe a dissolução. ressentimentos e outros graves problemas sociais. nada posso fazer. repetimos.

de 27 de setembro de 1942. arruinados. prejudicava as famílias ilegítimas. para a qual o casamento é uma instituição divina. 105] genitor.737. a conclusão lógica era que a indissolubilidade do vínculo matrimonial não passava de mera ficção jurídica. Mas como qualquer remédio. simplesmente porque o casamento deles não está doente. de 21 de outubro de 1949. mas sim remédio. Se o nosso legislador atentasse para a realidade social.obrigações legais também com a segunda. porquanto só possibilitava reconhecimento de filho havido fora do matrimônio depois do desquite do [p. Não se referia ele às outras causas de terminação da sociedade conjugal. morte de um dos cônjuges ou anulação do casamento.-Lei n° 4. sem solução. isto é. Evidenciado igualmente ficou que o divórcio não é causa da ruína do casamento. Primeiramente. 30. Tal. como a morte de um dos cônjuges. Além de não proteger a família legítima. sagrada e impassível de ser desfeita pelo homem. Somente com a Lei na 883. não impedia o fracasso do casamento mas impedia a regularização das novas uniões. não ocorreu em virtude da pressão exerci da pela Igreja. 50 anos e que nunca pensaram em se divorciar.3. é que se tomou possível o reconhecimento de filhos havidos fora do matrimônio após a dissolução da sociedade conjugal por desquite. lícito não era promover o reconhecimento do filho havido extramatrimônio. entretanto. Mesmo nos países divorcistas. só por divorciar-se. . embora extinto o vínculo conjugal. não precisa de remédio. há milhares de casais unidos pelo casamento há 20. permitindo o reconhecimento dos filhos de desquitados havidos fora do matrimônio. Em face de tudo isso. dele só faz uso quem precisa. solução extrema para casamentos já desfeitos. precisando ser muito forte economicamente para chegar à terceira família. sem qualquer utilidade prática ou social. o que equivale dizer que até então tais filhos não podiam ser registrados em nome de seu verdadeiro pai. foi promulgado o Dec. mesmo que desquitado. ou mãe. O fato de existir o divórcio não quer dizer que todos vão se divorciar. Mas o aludido decreto-lei não satisfez. há muito teria introduzido o divórcio na legislação. quem está doente. Soluções Legais Paliativas antes do Divórcio Houve uma sucessão de leis permitindo o reconhecimento dos filhos ilegítimos em certas circunstâncias. panacéia. de modo que. 51. um dogma religioso.

a Lei de Registros Públicos (Lei na 6. em síntese. Mais recentemente.036/44).015. 226. e as peripécias sociais pelas quais passamos até que o dogma ou ficção fosse destruído pela Emenda Constitucional nº 9. tempo mais que suficiente para revelar se a separação é ou não definitiva.12. 51. de 31. 51. A Situação da Companheira e dos Filhos após a Constituição de 88 Após mais de meio século de lenta evolução da questão do divórcio. § 3°). a Lei na 6. alterando o § 1 ° do art.4.1973) permitiu o uso dos apelidos do amásio pela companheira. conhecida por Lei do Divórcio.485/45. foi cauteloso o legislador ao permitir o divórcio após prévia separação judicial por mais de três anos. 226.Lei na 7. Lei na 4. que.069/62). 175 da Constituição Federal. proibindo a designação de filiação legítima ou ilegítima. de 28 de junho de 1977. § 6°). bem como quaisquer outras designações discriminatórias relativas à filiação (art. 106] coragem para tanto. ora com base na sociedade de fato. . nos casos expressos em lei. Posteriormente. alimentos.” Como se vê. havidos ou não da relação do casamento. c) igualou para todos os efeitos (herança. os efeitos negativos produzidos pela norma constitucional que considerava indissolúvel o vínculo matrimonial. até que a própria lei passou a atribuir-lhe direito à pensão previdenciária (Dec. da companheira e dos filhos ilegítimos. de 26 de dezembro de 1977. Esses. § 6°). 226. determinando à lei facilitar a sua conversão em casamento (art. a jurisprudência fez verdadeiros malabarismos para reconhecer alguns direitos patrimoniais à concubina. A Introdução do Divórcio na Legislação Brasileira O divórcio tomou-se permitido através da Emenda Constitucional nº 9. b) reconheceu a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar. regulou os casos de dissolução da sociedade conjugal. ou depois de dois anos de comprovada separação de fato (art. a saber: a) reduziu o prazo do divórcio de três anos de prévia separação para apenas um. ora a título de indenização.515. passou a dispor: “O casamento poderá ser dissolvido. bem como à indenização por acidente de trabalho (Dec. reconhecimento) os direitos e qualificações dos filhos.Lei na 7. desde que haja prévia separação judicial por mais de três anos.Nesse ínterim. a Constituição de 88 encontrou uma base social para fazer as mudanças necessárias e o constituinte teve [p.5.

12. Sobreveio. 5°).723 a 1. 226 da Constituição Federal .” Salvo contrato escrito entre os companheiros.05.união estável . assegurando-lhe também o direito real [p. enquanto viver e não constituir nova união ou casamento. Conferiu-lhe também o direito de participar na sucessão do companheiro (herança) nas condições previstas nos seus arts. ao tratar da união estável nos seus artigos 1.1994. e prove a necessidade.596.278/96. pública e contínua. a Lei nº 8. conferindo inclusive ao Ministério Público legitimidade para propor a respectiva ação.724 praticamente repete o artigo 2° da Lei n° 9. até então designado de filho adulterino. 1°). de 29. Os bens móveis e imóveis adquiridos por ambos os conviventes. 7°) o direito a alimentos ao convivente que deles necessitar uma vez dissolvida a união estável. comunhão dos bens adquiridos depois da união. sustento e educação dos filhos. Por último. de um homem e uma mulher. em condomínio e em partes iguais. que diz: “Os filhos. 2° e 3°.12. finalmente.1996. ou dele tenha prole.560/92) que ampliou ainda mais as hipóteses de reconhecimento voluntário e de investigação de paternidade. pois aquela lei consolidou um longo trabalho doutrinário e jurisprudencial.971.278. havidos ou não da relação de casamento. em 29. na união estável aplica-se às relações patrimoniais. o filho havido fora do matrimônio. 1. no que andou bem.Importa dizer que. O novo Código Civil. vale dizer.278/96: “As relações pessoais entre os companheiros obedecerão aos deveres de lealdade.” Em relação à companheira. na constância da união estável e a título oneroso. salvo estipulação contrária em contrato escrito (art.725). desde que conviva há mais de cinco anos com o homem solteiro. respeito e assistência e de guarda. proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação. de 10. tem o direito subjetivo de ser reconhecido. estabe1ecida com o objetivo de constituição de família (art. ou por adoção. relativamente ao imóvel destinado à residência da família. não mais subsistindo as limitações anteriores. no que couber. manteve a mesma disciplina no seu artigo 1. O artigo 1.reconhecendo como entidade familiar a convivência duradoura. O novo Código Civil. separado judicialmente. concedeu-lhe direito a alimentos. a Lei nº 9. Mantém a lei (art. são considerados fruto do trabalho e da colaboração comum. o regime da comunhão parcial de bens (art. passando a pertencer a ambos. 107] de habilitação.727. após a Constituição de 88. a nova Lei de Investigação de Paternidade (Lei n° 8. terão os mesmos direitos e qualificações.1992. manteve a mesma disciplina da Lei n° 9. como não poderia deixar de ser. . divorciado ou viúvo. regulamentou o § 3° do art. voluntária ou coativamente.

108] sexual é família autônoma e distinta da união estável. pp. ausência de . 93/1 02). como o artigo 1.1998. mediante reiterado posicionamento jurisprudencial em seu prol.o grande número de ações que são distribuídas aos Juízos de Família pretendendo reconhecer ou dissolver uniões homossexuais. ainda não apreciado pelo Congresso Nacional. A Dinamarca.151/95). O que a Justiça tem admitido é a sociedade de fato para fins patrimoniais.6. a Suécia e a Noruega já dispõem de leis que regulamentam a união homossexual.02.51. No Recurso Especial n° l48. que pretende instituir a parceria civil. há vozes respeitáveis fulcradas no Estado Democrático de Direito e nos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana. DIREITO PENAL O Direito Penal é muito sensível às questões sociais. julgado em 10. Renovar. Sustentam não ser possível fechar os olhos para a realidade . razão pela qual o entendimento majoritário. Aduzem que a família homos. No entender do Professor Luiz Edson Fachin. favelização.897-MG. Em sentido contrário. de autoria da exDeputada Federal Marta Suplicy. são de clareza solar. a relação estável homossexual deverá seguir os caminhos já traçados pela entidade familiar estável. passará a ter reconhecimento jurídico” (Elementos Críticos do Direito de Família. do artigo 226 da Constituição. tanto na doutrina como na jurisprudência. União de Pessoas do Mesmo Sexo É indispensável a diversidade de sexo para a configuração da união estável? Essa é a questão que remanesce e que ainda é bastante polêmica. passando inicialmente pelo reconhecimento como sociedade de fato e. Reconhecem a união estável apenas entre homem e mulher. Tudo ou quase tudo acaba nele repercutindo: explosão demográfica. 52. No Brasil temos apenas um Projeto de Lei (nº 1. Tanto o § 3°. pobreza. o Superior Tribunal de Justiça decidiu que “os homossexuais constituem sociedade de fato a ensejar partilha do bem comum”. da igualdade e da sociedade com respeito ao pluralismo típico deste Estado de Direito. regular posse e guarda de crianças etc.723 do novo Código Civil. crise de moradia. com individualidade e identidade próprias.[p. só após. mas também os operadores do direito que militam nas Varas de Família. não reconhece na união de homossexuais a categoria de união estável. primeira iniciativa no sentido de sensibilizar nossos legisladores para o problema que afeta não só os que o vivenciam. entretanto. do qual foi relator o Ministro Ruy Rosado de Aguiar. a oxigenar o nosso sistema legislativo.

o renomado diretor diz ter construído uma casa com salas de ensaios. estúdios onde inúmeras montagens seriam ensaiadas e produzidas. no lugar de uma das amigas de sua filha. por exemplo. por mais de duas horas sob a mira de revólveres de três jovens drogados. apurou o seguinte: a) 81 % dos moradores afirmaram j á ter sofrido algum assalto ou tiveram alguém da família assaltado. Quais são as causas dessa violência. b) um em cada três revela se sentir inseguro ou muito inseguro dentro da própria casa. corrupção. em ônibus 35%. os resultados foram os seguintes: 38% aumentar o número de policiais.educação. A falta de segurança. 3% investir mais no social (O Globo. que atinge cidadãos. camarins. Acostumado à ficção. 36% melhorar o treinamento da polícia. escolas. hospitais e o comércio em geral.06. Em relato dramático ao Globo (04. nem dentro de um filme sem final feliz. Sobre o que precisa ser feito. que atinge qualquer família ou qualquer cidadão a qualquer momento de sua vida. 109] generalizado e sem precedentes. ficou. VIOLÊNCIA URBANA E PODER PARALELO A violência urbana. tendo que mudar os seus sonhos e de sua família por motivo de assaltos múltiplos. fraude e assim por diante. Mas agora era obrigado a dela sair violentado.. 8% investimento em educação.2004). ao persuadir os bandidos a tomá-lo como escudo. que efeitos produz? Pesquisa feita pelo IBOPE em junho de 2000 nos municípios do Grande Rio. ele se viu dirigindo uma cena da vida real. 6% criação de programas sociais. onde não precisaremos continuar fingindo que estamos dormindo. juntamente com a sua família e mais oito amigos. é fato público e notório. “Já não é mais possível viver nesta cidade exposta a essa vergonhosa violência. Renomado diretor de TV no Rio de Janeiro. 12% selecionar melhor os policiais.12. ao ter a sua casa assaltada no dia 29. a uma cidade que um dia será maravilhosa. moradias.2003 ao raiar do sol. 10% geração de empregos.” 53. quem a promove.2000). ao mesmo tempo em que berrava para a polícia parar de atirar. na realidade atingiu patamares vergonhosos e insuportáveis. c) 57% têm medo de assalto na rua. 9% mudar toda a polícia. 21% aumentar a remuneração dos policiais. Entrego essa casa a um sonho de futuro. ..01. 18. Nunca os assaltantes agiram com tanta ousadia e desenvoltura como na última década. gerando sentimento de insegurança [p. figura em primeiro lugar em todas as pesquisas.

o que não está acontecendo com o governo atual. O Governador de São Paulo. quadrilhas de traficantes de tóxicos e armas que. A falta de prioridade não é apenas do governo atual. treinamento. ledo engano. a ponto de levar um membro do Judiciário a declarar que ali o estado não existe. atingindo pobres e ricos. . Segundo. apenas confirmam o que todo mundo já sabia.2004).2002).01. ocuparam os espaços deixados e formaram verdadeiro poder paralelo. 04. o então Presidente da República aqui esteve e afirmou na abertura da IV Semana Nacional Antidrogas: [p. A entrevista do Governador de São Paulo merece apenas um reparo. anomia (ausência de leis). “tudo continuou como dantes no quartel de Abrantes”. E prioridade é recurso. conforme demonstrou a pesquisa do IBOPE. Após tão firme pronunciamento. senão é só boa intenção. trabalhadores e donas-de-casa. só agora tem sido admitido pelas nossas autoridades. E a organização é tão forte que a realidade demonstrou que alguns chefões continuam no comando mesmo depois de presos. declarou em entrevista: “A política de combate à violência no Brasil não dá resultados concretos porque falta ao governo federal tratar o assunto como prioridade. Há o arbítrio” (O Globo. porque ela não é promovida pelos pobres.06. já é degradação. Primeiro. No comando dela está o crime organizado. rajadas de metralhadoras em prédios públicos. quando o Estado não existe é preciso repor porque senão não há cidadania. uma situação como a atual nas favelas do Rio. após ter o Rio de Janeiro passado por queima de ônibus. 20. 110] “O Estado tem que recuperar os espaços eventualmente perdidos para o crime organizado. Isso que o povo sabe e denuncia há muitos anos. era de se esperar medidas governamentais fortes e emergenciais. interdição da Avenida Brasil e Linha Vermelha por bandidos. A grande contribuição que se poderia dar para resolver a insegurança nas cidades é disponibilizar recursos para a melhoria da área de tecnologia da polícia. Estados e Municípios) na seleção. desempregados. Em junho de 2002. a fome. mas sim a omissão do Estado (União. remuneração dos policiais e aumento dos seus efetivos. que hoje não funciona” (O Globo. muito menos pelos favelados. Geraldo Alkmin. a causa dessa violência urbana não é a miséria. O combate à violência urbana não depende de medidas sociais. a crise de insegurança é geral. mas. a pobreza.Os resultados dessa pesquisa não surpreendem. na ausência do estado. a falta de moradia ou de investimento na educação. mas também de vários anteriores e envolve também os governos estaduais e municipais. adultos e crianças.

na realidade assustadoras. que freqüentemente terminavam em abuso e violência. a polícia obtinha a colaboração do tráfico na preservação da paz no asfalto. promoveu atos de crueldade que chocavam as populações do . valeria mais. Faz pelo menos 25 anos . Essa divisão facilitava muito o cumprimento da cláusula fundamental . fazer um acordo com o tráfico de drogas e concentrar a atenção e as forças no combate à criminalidade comum. O tráfico não era tão inocente quanto o bicho. era uma contravenção que na verdade não fazia [p. para evitar deslealdades dentro dos grupos. semioficialmente. O tráfico cresceu e ganhou status de negócio. mas podia ter a sua nocividade limitada ao território do morro e à pequena parte da sociedade do asfalto que queria consumir drogas (e bem podia ter essa liberdade tolerada). era a loteria dos pobres. O acordo funcionou durante décadas.que predominou na polícia do Rio o pragmatismo dos “realistas”. recomendava sua legalização. prossegue o Senador em seu relato. Além disso. contribuições para entidades filantrópicas. 111] mal a ninguém. Houve até um governador que chegou a institucionalizar o “bicho”. delimitaram-se dois territórios de ação e população distintos: o “morro” do tráfico e do povão e o “asfalto” onde vive a população que merecia ser protegida pela polícia. pelas autoridades responsáveis e pela média da opinião da cidade. E o resultado foi considerado razoável. ligando-o a grupos de seqüestro e de assalto. Assim. guerras particulares de gangues pelo controle dos pontos de maior lucratividade e investimentos muito maiores em armamentos eficazes para sustentar essa guerra. E em ambos os casos havia uma racionalidade: o jogo do bicho não chegava a ser crime. que sempre participou dos resultados financeiros de uma atividade extremamente lucrativa. tanto que muita gente. conforme relato do Senador Roberto Saturnino Braga em artigo no Globo. suscitando disputas armadas.“nós não subimos lá e vocês não descem cá”. obtendo dele. com boas razões. O acordo evitava também incursões da polícia no morro. manchando a imagem do governo e tirando votos do eleitorado que era crescente no morro. em termos de resultados práticos. que só passou a se preocupar com a questão quando o cenário foi mudando de figura. Era um acerto informal semelhante ao que houve também com o jogo do bicho. onde o tráfico era rigoroso na contenção do crime. com o acordo. Com uma polícia de poucos recursos. mesmo contra a lei. de baixo efetivo e sem equipamento adequado. especialmente nas imediações do morro.Como surgiu esse poder paralelo e como atua? As suas raízes são sólidas e profundas. Por muitas vezes o tráfico promoveu ações no “asfalto” para arranjar dinheiro em momentos difíceis. exigiu um comando mais severo dos traficantes sobre a comunidade do “morro”.um quarto de século . Isso tudo ainda garantia bons rendimentos para a polícia.

Em 32 bairros do Rio os traficantes escolhem dia e hora para fechar escolas. revoltados com policiais do 16° BPM (Olaria). outros trezentos diretores de associações tiveram que abandonar as favelas para não serem mortos. fez constatações alarmantes. muito mais que o da polícia. na Penha. Conclui o Senador. Até o salvo-conduto para os ônibus circularem é dado pelo tráfico. sem recursos.223 lojas. e se constituiu um inimigo cujo enfrentamento era cada vez mais difícil e desgastante para a polícia. Em 13 de abril de 2003 O Globo publicou a relação das áreas mais afetadas pelo poder paralelo. Esse mapeamento já é conhecido da população há muitos anos.06. onde foi torturado e morto o jornalista Tim Lopes.01. Tal é a força desse poder paralelo que os moradores das favelas onde ele atua fazem manifestação contra a ação policial sempre que um traficante é morto. 02. mais de quatrocentos dirigentes de entidades se associaram a bandidos (O Globo.2002). por descumprir essa regra. 112] bir o morro ou penetrar em certas favelas sem autorização dos chefões do bando. 4. já quase completamente envolvida na participação dos lucros e cada vez mais ávida de ganhos naquele negócio que crescia incontrolavelmente. esse poder paralelo é mais forte do que admitem as autoridades policiais. Esta. Mas era tarde: o poderio do tráfico tinha aumentado muito além do imaginado. E produziu choques e episódios freqüentes de enfrentamento com a polícia. Ninguém pode su. acusados de matar dois traficantes (O Globo. 20. De acordo com o Instituto Fecomércio. o tráfico executou cerca de cem líderes comunitários.2004). até universidades. foi torturado e morto. O jornalista Tim Lopes. no período de outubro de 2000 a setembro de 2002. conforme anunciado pelo atual Secretário Nacional de Segurança (O Globo. estabelecimentos comerciais e industriais. Surgiu então na cidade o crescente grito de “basta!”. que criou suas áreas de exclusão. o envolvimento de líderes comunitários com traficantes passou a ser regra. Hoje. postos de saúde. bairros inteiros estão sendo esvaziados com a saída de indústrias e estabelecimentos comerciais por causa da violência e da degradação urbana. Entre 1992 e 2001.06. não sendo suficiente para enfrentá-lo a mera “criação de um Gabinete de Gestão Integrada do Sudeste e o mapeamento das quadrilhas que atuam nos morros”. da DERJ. o Rio perdeu. Ele . onde os pragmáticos continuavam dando as ordens na linha do acordo que se deteriorava. Seis ônibus foram incendiados pelos moradores da Favela Vila Cruzeiro. 20. que estuda a relação do tráfico com as comunidades. Levantamento feito pela Comissão Contra a Violência e a Impunidade da Assembléia Legislativa do Estado do Rio.“morro” e do “asfalto”.[p. perdia uma grande quantidade de homens e se desmoralizava numa guerra que não tinha respaldo efetivo e decidido da cúpula dirigente. Para o sociólogo Geraldo Tadeu.2002).

nem são ali industrializadas. Conclui-se do exposto que a violência urbana não é uma conseqüência da pobreza. 20. detentoras de poder político ou econômico. até mesmo do país. cestas básicas. com absoluta propriedade. estadual e municipal. O sociólogo justifica ainda a influência do tráfico nas comunidades. do Poder Público. que povoam nossas prisões horríveis e constituem a clientela do sistema. planejada e duradoura. Têm ainda um sistema de segurança complexo. Combater a violência urbana de forma pontual e isolada é o mesmo que tentar matar a árvore só arrancando as folhas. o Direito Penal tem sido um amargo privilégio dos pobres e desfavorecidos. dão dinheiro. por isso mesmo. Não é possível combatê-lo com medidas paleativas e demagógicas como as que estão sendo anunciadas. de sorte que sem uma ação integrada da União. armas não são fabricadas por favelados. pelo menos omissão. “vapores” e “soldados”. 113] nasceu e cresceu com a tolerância. encontramse acima da lei. muito menos da segurança que todos almejamos. O sociólogo defende. A estrutura geral de nosso direito punitivo.explica que com o tempo ocorreu um processo de subordinação dessas associações. com gerentes. Os traficantes ocuparam esses espaços. Eles têm um sistema previdenciário paralelo. mas o tráfico tem mais estrutura. alegando que o poder público limitou a sua presença nas favelas à repressão. É ação direta de um poder paralelo que [p. Estados e Municípios. não haverá reconquista dos espaços perdidos. Para Geraldo Tadeu. há igrejas.06. que o Estado adote ações estratégicas de médio e longo prazos (O Globo. a partir do crescimento exacerbado do tráfico como poder militar e econômico no âmbito dessas comunidades. Tudo vem de fora. como bem assentou o saudoso Professor Heleno Fragoso (relatório apresentado na Reunião da Comissão Internacional de Juristas da ONU). Nas favelas. É preciso disposição política das três esferas de poder federal. Drogas não nascem nos morros.2002). Ela se distingue da criminalidade convencional pelo fato de ser integrada por pessoas de alta classe e respeitabilidade. Têm também um sistema tributário paralelo e cobram impostos dos comerciantes. miséria ou falta de instrução. tão pouco decorre da falta de leis ou da atuação do Judiciário. que. em todos os . as comunidades não têm como reagir sem uma intervenção do Poder Público. É o grande poder paralelo. associações e ONGs. CRIMINALIDADE DE COLARINHO-BRANCO (WHITE COLLAR CRIME) Trata-se de uma categoria não convencional de crimes e criminosos. Entre nós. 54. nem por crianças desnutridas e sem escola.

realizam extenso projeto de pesquisa sobre a criminalidade de colarinho-branco na América Latina. b) o fato anti-social é praticado no exercício da atividade. c) produção industrial imprópria ou defeituosa. tornando puramente ilusória a igualdade proclamada nos documentos políticos. b) danos contra o patrimônio da coletividade. deixa inteiramente acima da lei os que têm poder econômico ou político. financeira ou política) da formação social. Os fatos anti-sociais que acarretam danos à vida ou à saúde da coletividade. atingindo em regra a coletividade. visto que. Mas o pior de tudo é que ficam impunes os seus autores. pode-se destacar que os fatos que constituem tal criminalidade apresentam as seguintes características: a) os autores pertencem.seus mecanismos de aplicação. c) danos contra o patrimônio estatal da coletividade. entre as quais o Instituto de Ciências Penais do Rio de Janeiro. podem ser aqui colocados: a) abusos praticados em relação à força de trabalho. 114] c) O dano causado pela ação é extenso e considerável. às elites dirigentes (econômica. segundo o mesmo Professor Fragoso. [p. Pela extensão dos resultados. que dela se livram com facilidade pela corrupção e pelo tráfico de influências. destacar os fatos que acarretam: a) danos contra a vida e a saúde da coletividade. O Centro Internacional de Criminologia Comparada da Universidade de Montreal. segundo o Professor Fragoso. ou o patrimônio de indeterminado número de pessoas. podemos. nada lhes acontecendo. Não sendo possível a enumeração exaustiva das ações anti-sociais que caracterizam os crimes de colarinho-branco. como já se disse. tais crimes são muito mais graves do que o furto e o roubo que punimos com tanta severidade. podemos considerar: . em Maracaibo (Venezuela). Em relação à força de trabalho. todavia. são capazes de abalar a própria estrutura econômica ou política do país. em conjunto com o Instituto de Criminologia da Universidade del Zulia. além de atingirem a coletividade. b) exploração predatória dos recursos naturais. Em razão dessas pesquisas. e outras instituições de pesquisa do continente americano.

A exploração desordenada conduz à destruição do ambiente vital (exaustão e erosão do solo. consoante constantes denúncias feitas ultimamente pela imprensa. projetos da indústria automobilística que desatendem. como através de outros produtos (e. 115] sive com o emprego de produtos químicos. contendo elementos químicos altamente nocivos à saúde etc. ou alternativamente. como propõe a ideologia dominante. que eliminam insetos e microorganismos necessários ao equilíbrio ecológico e intoxicam o consumidor. não só no que tange aos produtos alimentícios ou medicinais. seja pela exploração desordenada. e não o preço do progresso. Temos aqui a administração ruinosa de determinadas empresas. produtos alimentícios de primeira necessidade. A poluição.. criando desertos e provocando secas).1) a redução do trabalhador à condição subumana pelos salários incapazes de repor as energias consumidas no trabalho. como o pão. por imposições do mercado. lesados também freqüentemente no peso e quantidade de mercadorias comercializadas. constitui débito social ilegítimo do processo industrial. com efeitos negativos idênticos. 3) condições de insegurança ou de fadiga excessiva. e desflorestamento sistemático.g. pela imposição de ritmos excessivos de trabalho e tarefas monótonas e embrutecedoras (produzindo doenças ou lesões ocupacionais). a exigência da segurança). . produzindo quebras que afetam amplos segmentos da coletividade de investidores (além de outros setores das classes dominantes).. inclu. inclusive através da exploração de trabalhadores rurais (bóias-frias) empregados na lavoura na época das colheitas. medicamentos prejudiciais ao organismo. como acontece no Brasil. provocando injeções maciças de dinheiros públicos (créditos e financiamentos) ou encampações oficiais. bem como a propaganda fraudulenta que causa dano ao patrimônio de indeterminado número de consumidores. A exploração predatória dos recursos naturais apresenta-se através da destruição do ambiente vital produzido pelo trabalho milenar da natureza.[p. seja pela poluição. A produção industrial imprópria ou defeituosa atinge a vida ou a saúde da coletividade. causando mortes e acidentes. em qualquer de seus aspectos. Danos ao patrimônio da coletividade apresentam-se através de métodos irregulares e fraudulentos de enriquecimento. 2) exaurimento físico e mental do trabalhador. em especial as ligadas ao mercado financeiro. Temos ainda toda a sorte de fraudes e manipulações no mercado de ações.

fraudes com transferências bancárias. lavagem de dinheiro obtido ilicitamente. do uso abusivo de instrumentos da economia. esses delitos são praticados com o emprego da moderna tecnologia e decorrem. O estouro de vários bancos de alguns anos para cá. eliminando a concorrência de grupos nacionais e fazendo com que seja entregue a estrangeiros o controle de áreas essenciais da economia da nação. De difícil detecção. sequer dispomos de recursos técnicos para a sua rápida e eficiente apuração. alguns deles dirigidos por altas personalidades de nosso cenário político e econômico. A corrupção surge também na celebração de contratos públicos. falsificação de moeda e títulos da dívida pública. É certo que algumas práticas são diretamente lesivas a outros grupos dominantes. ligada à concessão de favores ou privilégios especiais. Danos ao patrimônio estatal da coletividade podemos identificar na evasão de impostos. como. basicamente. A MACRODELINQÜÊNCIA Essa expressão é modernamente utilizada para indicar o crime organizado. as manobras mais variadas que visam proporcionar a alta de preços de gêneros ou bens de consumo essenciais. Igualmente a corrupção administrativa de alto nível. que se pratica através de balanços fictícios e subfaturamento. o que faz crescer o sentimento de impunidade para os que não são pobres. mas seus efeitos atingem a coletividade também. podendo ser identificada pelas seguintes características: a) abuso de poder econômico e político. produzindo lesão incomparavelmente maior do que a representada pela criminalidade contra o patrimônio convencional. ou da própria integridade nacional. valendo-se com . fraude no mercado acionário e de câmbio. envolvendo a prática de ilícitos sofisticados em que a vítima é a coletividade (os danos são difusos). Poder-se-ia também mencionar aqui a ação predatória da economia nacional praticada através de empresas transnacionais.Finalmente. 55. viciando [p. a nossa legislação penal ainda é deficiente na configuração e punição dessa criminalidade chamada de colarinho-branco. lesivos por vezes aos interesses vitais e estratégicos da coletividade. Tem alguns pontos em comum com a criminalidade do colarinho branco. que abusam do poder econômico. Lamentavelmente. 116] concorrências e superfaturando os preços. bem ilustra este ponto. por exemplo. causando bilhões de prejuízo aos cofres públicos e particulares.

onde o dinheiro ilícito entra e sai com facilidade.constância do uso indevido de informações privilegiadas a título de consultoria. De uma coisa. de nada adiantará a repressão à criminalidade convencional. Outra dificuldade no combate da macrocriminalidade resulta do fato de conseguirem os criminosos adaptar-se rapidamente às constantes mudanças da economia. entretanto. da criminalidade comum. f) impunidade dos autores. Impõese assim a recomendação de ampla pesquisa. elevação da inflação. Os criminosos utilizam países de acordo com os seus interesses e as facilidades que neles encontram. o que não acontece com o legislador e as leis. pela falta de leis penais adequadas. condições de vida subumanas. por um lado em razão da sofisticação dos meios usados aliada a estrutura e. pois o Direito Penal e a atuação da polícia são limitados pelo princípio da territorialidade e da sobera. pois costuma apoiar-se em atividades legais que lhe dão cobertura tática para os negócios ilícitos. 117] nia dos Estados. de modo que pouco ainda sabemos a seu respeito. deverão abranger desde a completa reforma da estrutura política e econômica do país. onde as ações examinadas deveriam ser tipificadas como crimes sujeitos a graves penas. A transnacionalização é uma das maiores dificuldades no combate à macrocriminalidade. aumentos incontroláveis de preços. devemos nos conscientizar: enquanto tivermos crimes e criminosos acima da lei. Quando o legislador vai trabalhar em cima da realidade econômica. b) requer alta especialização profissional e completo domínio operacional dos meios tecnológicos para a sua execução. o combate ficará circunscrito aos sintomas. causas principais. Para elaborar leis eficazes nesta área da criminalidade.[p. em constante consonância com as mudanças dos mecanismos econômicos e para dificultar a identificação das operações ilícitas. Estão entre os países preferidos os chamados paraísos fiscais. e) mutabilidade na forma de operar-se. por outro. . com o estabelecimento de uma ordem social mais justa e democrática. devendo ser utilizadas as técnicas de pesquisa sociológica aperfeiçoadas pela experiência. ela já não mais se encontra no patamar que se pretendia regulamentar. Enquanto isso não acontecer. até a reformulação da legislação penal. c) reveste-se de uma aparência de legalidade absoluta. inclusive o estudo de casos. É a macrocriminalidade que provoca desníveis sociais. sem nunca chegar-se às causas. crises econômicas. por sua vez. d) condutas criminosas transnacionais. A estrutura política e econômica existente está de tal forma montada que oculta e protege essa criminalidade dourada. Quanto às medidas a serem adotadas. o legislador teria que ter profundo conhecimento da realidade econômica e estar permanentemente atento para prever as possíveis mutações de seus mecanismos.

que define os crimes contra a Ordem Tributária Econômica e as Relações de Consumo -. essas leis não têm alcançado os objetivos desejados.“A polícia tem um problema de formação. como já foi assinalado. a coisa complica”. previsto no art. a nossa polícia não está aparelhada e nem especializada para investigar tal tipo de criminalidade. na hora de entrar nos escritórios refrigerados do 18° andar da Avenida Rio Branco ou num gabinete atapetado na Avenida Paulista.12. por definição. Há no Código Penal. Estourar um ponto do jogo do bicho. CONSIDERAÇÕES GERAIS Inúmeros outros fatos.492.O crime do colarinho-branco. poderiam ser mencionados. Mas. portanto. por não mais serem aplicados. de 16. não só pelas penas extremamente brandas nelas previstas. Quando quiserem combater esse tipo de crime não haverá mais condições. mas. é o que ofende aquilo que a norma jurídica quer proteger. 56. Crime. de 27. o crime de perigo de contágio venéreo.Como assim? LUZ . a sonegação fiscal. para a sociedade. [p. que define os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e Lei nº 8. viola-se a norma que protege a sociedade como um todo.” VEJA . Um policial não está suficientemente aparelhado para entrar nos meandros de um crime cometido na especulação na bolsa de valores. então Chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro. alcançar essa turma. deveriam ser dele excluídos. a casa de prostituição na modalidade de manter lugar . que resguarda o bem comum. É um problema grave por esse ângulo e. pelo fato de serem crimes fora do alcance da polícia. os engravatados não são considerados marginais. merecedores de melhor disciplina penal. criam confusão e concorrem para a impunidade. respondeu: “LUZ .1990. vários artigos que. Os tipos penais abertos. lamentavelmente. a lavagem de dinheiro. Não tem o conhecimento básico para combater os crimes do colarinho-branco.É verdade que já temos uma legislação que pune os crimes econômicos . Assim. Em entrevista concedida à revista Veja.137. No caso dos crimes do colarinho-branco. também. há o fato de que. perseguir um integrante do Comando Vermelho.06.1986. que é a arrecadação do Estado. prender o Miltinho do Dendê são ações que não causam nenhum tipo de problema. 118] indagado sobre qual o crime que dará mais trabalho para a polícia brasileira. Não conseguimos. o Delegado Hélio Tavares Luz. Ademais. em novembro de 1995. 130.Lei n° 7. como também pela imprecisão dos seus tipos. por exemplo. Além disso. que permitem várias interpretações.

Por outro lado. 118119). como a sedução (art. o adultério. Assinale-se por último que novos fatos sociais necessitam ser tipificados como crimes. todos sabem disso. A escuta telefônica. É inadmissível que alguém fotografe uma pessoa famosa em sua intimidade e venda impunemente essa fotografia à imprensa para obter ganho fácil. objeto ou espetáculo obsceno. educação. 217) e o aborto (art.escrito.estradas. são algumas das questões a merecer pesquisa acurada da Sociologia Jurídica. saúde. 234 . DIREITO FINANCEIRO E TRIBUTÁRIO Os efeitos sociais das leis que disciplinam o regime das finanças públicas e privadas. art. vulgarmente chamada de grampo. há uma resistência permanente por parte dos contribuintes quanto a pagar efetivamente os tributos exigidos pelos órgãos legiferantes. que tantos efeitos negativos produz. chegou até o Palácio do Planalto.para fins de encontros libidinosos . como a violação da intimidade com instrumentos e aparelhos eletrônicos. há artigos cuja permanência no Código é discutível por várias razões sociais. ultraje público ao pudor na modalidade prevista no art. A. Entre nós.motéis. há uma grande distância entre a eficácia teórica e a real das leis fiscais em geral. Por razões que precisam ser estudadas. procurando os mais variados meios para fugir ao seu império. transportes. por seu turno. trata-se de uma norma amplamente transgredida. No . observa F. 57. 240. 119] explicar o seu uso nas praias? A proibição do jogo do bicho. nada há mais justo que cada um contribuir para as necessidades públicas proporcionalmente às suas rendas. Tomemos para exemplo o caso do imposto de renda. de Miranda Rosa (Sociologia do Direito. embora tipificado como crime. principalmente as repercussões que provocam na opinião pública. previsto no art. Embora todos estejam de acordo quanto à necessidade de pagar tributos como forma de custear os serviços públicos . 124). Este último já se encontra legalizado em vários países. bem como das leis tributárias em geral. 229. escudados na impunidade. existindo até mesmo clínicas especializadas em aborto. pp. Em tese. tal a ousadia dos seus praticantes. Existem ainda outras questões que estão a exigir estudo aprofundado e urgente definição do legislador: a maconha deve ser descriminada? Como [p. deve persistir? Até quando vamos manter os nossos presídios como escolas de marginais e de revoltados? Para fazer da pena um instrumento de reeducação e prevenção social é necessária uma radical reforma penitenciária.

como e por quê. industriais etc. ou de aplicação fácil desse tributo. em reuniões sociais. deixando quase à vontade os profissionais liberais. mas quanto aos tributos. Chegou-se mesmo a formar a idéia de que constitui virtude. dos economistas.. Esse descompasso. Neste caso. O esclarecimento da opinião pública a esse respeito. isto é.entanto. De todos é sabido.. pagar mais imposto de renda que um comerciante ou industrial bemsucedido. DIREITO DO TRABALHO O Direito do Trabalho oferece igualmente campo fértil à investigação sociológica porque trata-se de um novo ramo do direito onde. por exemplo. em todos os países em que foi instituído não há exemplo de aceitação mansa. constitui fato importante a re. se as causas da resistência pudessem ser levantadas e eliminadas. Outra causa pode ser a falta de confiança do público em geral na fiel aplicação dos tributos às finalidades a que se destinam. em nosso entender por falta de esclarecimento da opinião pública quanto ao que estava sendo feito.[p. ajudaria a quebrar a resistência e a angariar confiança. Chega-se por isso ao absurdo de um assalariado. comerciantes. arrecadar-se-ia mais com menos esforço. isso seria tremendamente desonroso. caberia à autoridade competente esclarecer a opinião pública quanto ao que foi feito com o dinheiro público . dos juristas e das autoridades em geral. cujo tributo é descontado em folha de pagamento. de rendimento médio. sonegar o imposto de renda. ou pelo menos habilidade. o que visam realizar. que em nosso País a maior incidência do imposto de renda ocorre sobre os assalariados. através de publicidade bem elaborada. Provavelmente. assistência etc. é algo perfeitamente tolerável pelos costumes e até enaltecedor. como já se disse. . as leis fiscais seriam recebidas de forma mais pacífica pela sociedade e os resultados seriam muito mais satisfatórios. Jamais confessariam que subtraíram um níquel de quem quer que seja. entre a eficácia pretendida com relação às leis tributárias e sua aplicação real. Freqüentemente. Vimos isto no Rio de Janeiro quando do lançamento da taxa do lixo pela Prefeitura Municipal: houve uma grita geral. esperteza. Pode acontecer também de não estar o público suficientemente esclarecido quanto às finalidades dos tributos. Sem dúvida.obras. 58. mais do que em qualquer outro. faz-se .e assim ganhar a confiança pública. pessoas respeitáveis vangloriam-se de terem conseguido burlar o imposto de renda em vultosas quantias. uma das causas da resistência ao pagamento do imposto de renda decorra da injustiça dos critérios utilizados em sua fixação. 120] clamar maior atenção dos sociólogos.

ainda que nova. em alguns países essa influência é exercida direta e ostensivamente sobre os órgãos produtores do direito. 121] feitas. simpático às posições assumidas pelos grupos de trabalhadores vinculados a tais organizações sindicais. tem sido alterada com freqüência. c) ação sobre a opinião pública. Tão notório é o condicionamento social sobre as leis trabalhistas. . b) ação sobre o Judiciário. Miranda Rosa (ob. às vezes até mesmo com certo exibicionismo para evidenciar a eficiência das organizações classistas e sindicais na defesa dos interesses de seus associados. Seu desenvolvimento tem sido rápido em virtude das constantes pressões exercidas pelos fatos sociais sobre as forças e grupos detentores do controle da economia. a saber: a) ação sobre os órgãos legislativos e executivos. tendente a criar ambiente social mais amplo. a influência sindical no processo de formação do Direito Trabalhista apresenta três facetas distintas. sempre na menor medida possível. 117). cit. como férias de trinta dias. gratificação natalina. capazes de condicionar um entendimento uniforme no sentido desejado. decorreram das pressões feitas pelos órgãos de classe. aos impulsos sociais das novas reivindicações de massa. procurando obter decisões da justiça favoráveis. Em outros.1. passo a passo. porém. reajustes salariais.. a despeito do regime político duro e austero lá existente. Por essa mesma razão a legislação trabalhista. cit. seja pelas características próprias do movimento sindical. O líder sindical chegou à Presidência daquele País. Foram concessões [p. 58. De acordo com o mesmo autor (ob. Interferência das Forças Sindicais no Processo de Formação do Direito do Trabalho Segundo o Prof.. p. p. é mais discreta a intervenção dos sindicatos na formulação das normas jurídicas do trabalho. Exemplo disto tivemos na década de 80 na Polônia. muito a contragosto. que podemos afirmar com segurança que todas as conquistas dos trabalhadores nesse ramo do direito. Em qualquer das hipóteses. seja pelas restrições que a organização política lhes impõe. aposentadoria. impressionante e inevitável. a influência que exercem os órgãos de classe é inegável. pelos patrões.notório o condicionamento direto que a realidade social exerce sobre a ordem jurídica. 116). acatadas. visando à edição de normas jurídicas convenientes aos interesses dos seus associados.

59. o CDC estabeleceu responsabilidade objetiva para o fornecedor de produtos ou serviços.CDC . necessária. ainda que rápida. DIREITO DO CONSUMIDOR Não estaria completo este capítulo sem uma referência. vestuário. Essa lei. serviços etc. Entendia-se que o fornecedor de produtos ou serviços limitava-se a fazer a . inciso XXXIII da Constituição Federal) -. no que tange ao segundo ponto. é questão a ser examinada através de investigação profunda da realidade social determinante. estabeleceu uma política nacional de consumo. o Código adotou a concepção social do contrato. Para termos uma idéia do campo de incidência do Código de Defesa do Consumidor . Até onde essa influência é útil. Entre as inúmeras inovações traz idas pelo CDC. 59. 5°. A Responsabilidade Objetiva do Fornecedor de Produtos ou Serviços Até o Código do Consumidor os riscos do consumo corriam por conta do consumidor.basta que se diga que somos hoje 170 milhões de consumidores no Brasil. Para atingir a sua finalidade no que diz respeito ao primeiro ponto. habitação. segurança. transportes. 122] O que foi dito nesta parte serve para demonstrar o que poderia e deveria ser feito em todos os ramos do Direito. para cumprir a sua vocação constitucional . que durante muitos anos esteve entre os países do segundo grupo. conforme foi possível constatar através dos movimentos grevistas no ABC Paulista. produtos. gerando diariamente outros tantos milhões de relações em todas as áreas do mercado de consumo: saúde. bem como na legislação ordinária. com relação a determinadas realidades sociais por ele ainda não adequadamente disciplinadas. Um líder sindical chegou à Presidência do País e está promovendo reformas constitucionais significativas. merecem destaque aquelas que procuram proteger o consumidor nos pontos em que é mais vulnerável: a sua integridade físico-psíquica e a sua integridade econômica.O Brasil. válida e legítima. alimentação. depois da abertura política vem se colocando no primeiro. [p. às profundas transformações introduzidas nas relações de consumo pelo Código de Defesa do Consumidor.promover a defesa do consumidor (art.1. uma disciplina jurídica única e uniforme para tutelar todos os direitos materiais e morais dos consumidores.

na aventura do consumo para indicar a situação daquele que se aventurava a consumir produto ou serviço. independentemente de culpa. atendendo antiga exigência social. até. assim. Uma vez manifestada. Tão forte é esse vínculo que se costuma dizer que o contrato é lei entre as partes. 59. colocando-se. Falava-se. já que não há igualdade real entre os homens na sociedade. O progresso industrial.2. o elemento nuclear do contrato é a autonomia da vontade. 12 e 14 do CDC. O indivíduo estaria. distribuir e comercializar produtos ou serviços. A Concepção Social do Contrato no Código do Consumidor Na sua visão clássica ou tradicional. o que só veio a ocorrer. 123] Hoje a responsabilidade do fornecedor é objetiva. no Código do Consumidor. O CDC. Funda-se a responsabilidade do fornecedor na teoria do risco do empreendimento (ou empresarial). A responsabilidade decorre do simples fato de dispor-se alguém a realizar atividade de produzir. entre as melhores e mais avançadas legislações do mundo. responde pelos danos que causar ao consumidor independentemente de culpa. A eficácia jurídica do contrato . consoante arts.a liberdade de um importava em opressão do outro. a autonomia da vontade deixa de ser o elemento nuclear do contrato.um forte. reconhecendo perfeita igualdade e absoluta liberdade entre as pessoas. [p. passando a ser substituída pelo interesse social. a vontade cria um vínculo entre os contratantes do qual nascem direitos e obrigações. científico e tecnológico veio demonstrar que o dogma da liberdade contratual não passava de uma ficção. e o outro fraco. vale dizer. para definir o conteúdo do contrato e ainda para escolher o parceiro contratual. sem oportunidade de escolha . de forma expressiva. sendo tributados aos riscos do ato de consumir todos os acidentes de consumo. poderoso. que pode ser assim resumida: todo aquele que se disponha a exercer alguma atividade no campo do fornecimento de bens e serviços tem o dever de responder pelos fatos e vícios resultantes do empreendimento.chamada “oferta inocente”. livre para contratar ou não contratar. Por essa nova concepção. nesse e em outros pontos. A liberdade de contratar é o reflexo da filosofia do Estado Liberal que exigia uma separação quase absoluta entre o Estado e a sociedade. deu uma guinada de cento e oitenta graus ao transferir os riscos do consumo do consumidor para o fornecedor. estocar. Em face do desequilíbrio econômico das partes . Nas últimas décadas tomou-se necessário substituir a concepção clássica do contrato por uma concepção social.

passamos a uma visão social. protege determinados interesses sociais e serve de instrumento limitador da autonomia da vontade. proíbem as práticas comerciais abusivas (art. fruto de um consciente e bem sucedido esforço do legislador para adequar a nossa legislação à realidade social no que diz respeito às relações de consumo. pode-se afirmar que o Código do Consumidor é a mais revolucionária lei do século XX. e principalmente. mas também vedando certas cláusulas. devem ser lembrados os Capítulos V e VI do CDC que vedam a publicidade enganosa e abusiva (arts. pois de uma visão liberal e individualista. impondo o conteúdo de outras.2.51-53). A autonomia da vontade só existe nas condições permitidas pela lei que. mas cogente. reportamo-nos ao que ficou dito no item 47. não tem mais mero papel interpretativo ou supletivo.não mais depende apenas da manifestação de vontade. não só controlando preços. 30-38). chegando ao ponto de obrigar a contratar em determinados casos. dos seus efeitos sociais e das condições econômicas e sociais das partes que dele participam. mas também. . 39) e consideram nulas de pleno direito as cláusulas abusivas (arts. Como exemplo dessa nova postura da lei em face do contrato de consumo. 124] concepção social do contrato. que valoriza as legítimas expectativas das pessoas nas relações de consumo. Quanto aos efeitos positivos que essa lei vem produzindo. O Estado passa a intervir na formação dos contratos de consumo. Concluindo. na [p. Tem sido proclamado que ele representa uma verdadeira mudança na ação protetora do Direito Civil Brasileiro.

compreender que. porque leis boas há em toda parte.Capítulo XI INSTRUMENTOS HUMANOS DE REALIZAÇÃO DA ORDEM JURÍDICA O Poder Legislativo: eleição dos legisladores. É preciso também gente especializada e em número suficiente para aplicar a lei. aumentando infinitamente as possibilidades de produção. tão importante quanto ter leis eficazes. portanto. Função do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal. é ter estrutura material e humana para aplicá-las. entretanto. caso contrário toda a ordem jurídica de uma sociedade pode ficar seriamente comprometida. Em certas atividades. bem como uma estrutura material adequada. o primeiro item da classificação proposta por Renato Treves para o objeto da Sociologia Jurídica . Estrutura do Judiciário brasileiro: a justiça estadual.estudo dos instrumentos humanos de realização da ordem jurídica e de suas instituições -. organização da justiça federal. Cabe aqui relembrar o que dizia Montesquieu: “Quando vou a determinado país. Causas da crise do Judiciário brasileiro. não indago se há leis boas. O papel desempenhado pela Justiça Eleitoral. mas se as executam. vamos agora nos dedicar ao exame do segundo item da classificação . Fácil é. é tê-las e não aplicá-las. o homem é insubstituível: entre elas as atividades de elaborar e de aplicar leis. 127] . nos capítulos anteriores.” Pior do que não ter leis. estrutura da justiça especial. A crise do Judiciário em nosso país. O Poder Judiciário. **** Após termos examinado. quando teremos oportunidade de ver que não basta existirem leis boas e eficazes. [p. repetimos. A máquina já substituiu o homem em inúmeras atividades.eficácia e efeitos -.

compondo os conflitos sociais. 718). 60. Por sua vez. são integradas por criaturas humanas. Se para o [p. inclusive os efeitos sociais positivos que toda norma tem por finalidade produzir. às quais a sociedade confere atribuições para elaborar e aplicar as leis. que tem por função prevalente elaborar as leis. administrar é aplicar a lei de oficio. Legislar é editar o direito positivo. e o Poder Judiciário. o pessoal técnico e especializado que nelas atua. a Câmara Municipal de Vereadores fica restrita aos limites do seu Município e às matérias de sua competência. Do bom funcionamento dessas instituições e da eficiência do pessoal que nelas atua dependerá a eficácia da ordem jurídica. o princípio da separação dos poderes. De acordo com Seabra Fagundes. nas sociedades democráticas. mantida e modificada. dois deles estão diretamente ligados à ordem jurídica: o Poder Legislativo.Por instrumentos humanos de realização da ordem jurídica devem ser entendidos aqueles órgãos ou instituições através dos quais a ordem jurídica de uma sociedade é declarada. a função legislativa liga-se ao fenômeno de criação do direito. Entre as funções públicas.Câmara de Vereadores de cada Município. O Poder Legislativo Federal. por maior razão é preciso que o . a saber: 1) Federal . 2) Estadual . cuja função principal é aplicar a lei ao caso concreto. elabora leis para todo o território brasileiro (leis federais). mesmo assim. sendo assim responsável pela declaração e modificação da ordem jurídica nacional.composto pela Câmara dos Deputados e Senado Federal (adotamos o sistema bicameral). com relação àquelas matérias que não são da competência privativa da União. a de legislar é sem dúvida a mais importante. através dos Deputados Federais e Senadores. p. porque dela emanarão leis a vigorar para todo o grupo social. que em conjunto formam o Congresso Nacional. 3) Municipal . O Poder Legislativo Estadual só elabora leis para o âmbito territorial de cada Estado e. 1979. assegurada. Desde que passou a prevalecer. é óbvio. ao passo que as funções administrativa e a judicial se prendem à sua realização. julgar é aplicar a lei contenciosamente (O Controle dos Atos Administrativos pelo Poder Judiciário.formado pela Assembléia Legislativa de cada Estado. 128] exercício das mais simples funções é necessário ter a pessoa certa no lugar certo. Tais instituições. PODER LEGISLATIVO O Poder Legislativo em nosso País divide-se em três esferas.

uma reforma parcial. Não. financiando sua milionária campanha e comprando adesões. a despeito de nada terem feito ao longo de muitos anos de vida pública. profunda. algumas . e não simplesmente pessoais.[p. ninguém mais desconhece que o processo de seleção dos membros do Legislativo está a exigir urgente aprimoramento. como tem sido feito às vésperas de cada nova eleição. Com efeito. Lamentavelmente. até distribuição de alimentos. verdadeira. De tão velhas e conhecidas. É preciso uma reforma de base. Para tanto seria indispensável inicialmente uma pesquisa detalhada da realidade atual. àqueles que foram escolhidos como seus mandatários ou legítimos representantes. já que a função legislativa é exercida por delegação do povo. de modo a tomar possível a escolha dos melhores. séria.legislador seja alguém preparado para o exercício dessa função e escolhido mediante criterioso processo seletivo. É notório. Eleição dos Legisladores Hoje não mais se admite qualquer discussão sobre as vantagens de qualquer outro processo seletivo dos legisladores que não seja o da votação popular. para a seguir serem elaboradas as reformas necessárias. as questões mais relevantes sobre este ponto consistem apenas em saber como evitar as distorções que têm ocorrido nas eleições diretas. como afirmou há algum tempo determinado político. a eleição direta não tem produzido os efeitos desejados. o poder econômico pesando em favor deste ou daquele candidato. por exemplo. a eleição conquistada em troca de facilidades. visto estar consagrado em todas as sociedades democráticas o sistema da eleição direta para tal fim. 129] das à realização dos interesses coletivos.1. Assim sendo. apresentadas as soluções mais adequa. E nem poderia ser diferente. Como estas. destinada exclusivamente a assegurar a vitória àqueles que já se encontram no poder. casuística. Fala-se muito na reforma política e ela é realmente necessária. em áreas de grande pobreza: a máquina eleitoral reelegendo os mesmos parlamentares a cada nova legislatura. entretanto. empreguismo e outros interesses econômicos. destinada a realmente aprimorar o sistema existente. mas sim pelas distorções que se verificam na sua execução. que ainda temos currais eleitorais no interior. muitas outras circunstâncias existem dificultando ou até mesmo impedindo que o processo seletivo dos legisladores proporcione um eficiente resultado. levantando-se as suas principais deficiências. a manipulação da opinião pública pelos órgãos de comunicação nas grandes cidades. o voto vinculado a pequenas vantagens materiais. não porque o brasileiro não saiba votar. 60.

para serem eleitos. Ele proporciona incentivos para comportamentos individuais e partidários.[p. passa a incentivá-Ia e dele se beneficiar tão logo chega ao poder! Outra questão relevante é a cooptação de parlamentares pelo Executivo para garantir a maioria parlamentar no Congresso. Carlos Pereira. Ou seja. os parlamentares. Até que ponto é justa e ética a troca-troca de partido? O parlamentar se elege por um partido e depois. vinculando a liberação de verbas e outros recursos de emendas orçamentárias individuais ao grau de fidelidade de cada parlamentar. não saíram do papel. de posição política diametralmente oposta ao daquele pelo qual se elegeu. Por outro. em busca de prestígio e favores políticos. 130] cução destas demandas. negociar com o Congresso punindo ou . até confessada. não há a mediação dos partidos políticos. apenas 28 deputados federais tiveram votação suficiente para se eleger sozinhos. por exemplo. cientista político e autor da tese . E a injustificável curiosidade dessa questão está em que o partido de oposição que condenava a troca-troca de partido com veemência.questões constam da pauta de todas as propostas de reforma política. exerce o mandato por outro. as regras eleitorais. mas que. Nas contas das últimas eleições. Por um lado. é o Governo o responsável pela exe. o que faz com que o exercício do mandato seja voltado para atendimento destas demandas.Quais as Condições para o Sucesso Presidencial na Área Legislativa? A Conexão Eleitoral Brasileira -. a existência no Palácio do Planalto. É correto o parlamentar se sentir dono do mandato se para eleger-se precisou de votos da legenda do partido pelo qual concorreu às eleições? E não são poucos os que necessitam do voto de legenda. Assim. Entretanto. ao mesmo tempo. “Por causa dessas regras eleitorais. com as quais estabelecem compromissos localistas. assim examina essa questão: “Prefiro interpretar as relações Executivo-Legislativo à luz dos incentivos institucionais das regras do sistema político brasileiro. o multipartidarismo e o federalismo agem descentralizando o sistema e incentivando comportamentos particulares. se aproximam em demasia de suas bases eleitorais. todos os outros estão na Câmara Federal graças à legenda. as regras internas do processo de decisão do Congresso e os poderes constitucionais de legislar e de distribuir recursos do presidente agem incentivando a centralização do sistema e o comportamento partidário. Ou seja. tanto nos Governos anteriores como no atual. de um sistema para acompanhar as votações do Governo no Congresso. Assim. a fidelidade partidária. bem como é ele que centraliza o processo decisório e a agenda do Congresso. lamentavelmente. normalmente integrante da base governista. Tomou-se pública e notória.

o partido não escolhe os candidatos que quer eleger.2000).[p. . o partido escolhe os candidatos que quer eleger e o eleitor vota no partido. somente voto na legenda. em que cada partido apresenta aos eleitores sua lista de candidatos. O desafio. que fragmenta a votação pelo estado inteiro. no qual demonstrou que a nossa Câmara dos Deputados é divi. Outro grupo seria o que ele chama de “a nossa variável nordestina do voto distrital”. As listas podem ser fechadas ou abertas. sendo que a outra metade (ou fração estipulada em lei) é escolhida pelo sistema proporcional que.” “Diante de um desenho institucional como este. também chamado de sistema de lista. é eleita por votação majoritária. vinculando o atendimento das demandas dos parlamentares aos seus comportamentos de voto.premiando parlamentares segundo seu desempenho é decisão do governo proveniente dos incentivos institucionais das regras do jogo. de forma a ver cumprida a sua agenda de governo. sendo que o eleitor tem a opção de votar no partido ou na pessoa do candidato de sua preferência. por sua vez. na há voto nominal. ou votação plurinominal. apresenta um número de candidatos fixado em lei. então. não é nada mais do que o instrumento achado para mitigar as fragilidades de um sistema partidário fraco na arena eleitoral e fortalecê-Io dentro do Congresso. a atitude do Executivo. mas dá ensejo ao afastamento das minorias e ao engrandecimento da figura dos caciques. E a atitude do Legislativo. 02. Entre as vantagens desse sistema estaria também a de evitar distorções da representação popular que hoje ocorrem. fortalece o partido. tem sido a única saída para a sobrevivência política dos parlamentares. No primeiro caso. fez um profundo estudo do nosso sistema político. Qual seria esse redesenho das instituições políticas? Que sistema permitiria eliminar os inconvenientes e distorções inevitáveis no atual sistema político? Essa é a questão. sistema utilizado com sucesso em alguns países. Nelson de Carvalho. pode ser de votação uninominal (cada partido indica seu candidato para escolha do eleitorado). No caso de lista aberta. Pelo voto distrital misto os Estados são divididos em regiões e somente uma parte dos candidatos. 131] dida igualmente entre três tipos de políticos: os do primeiro grupo seriam os distritais puros. que dominam a votação em determinada área. da Editora Revan. aprovados em convenção. conhecido tecnicamente como concentrados/dominantes. como aquela do voto de Roraima valer sete vezes mais do que o de São Paulo. é redesenhar as instituições políticas sem cair na vala comum do moralismo” (O Globo. Uma das soluções apontadas seria a adoção do voto distrital misto. que proporciona incentivos paradoxais simultâneos.08. cientista político e autor da obra E no Início Eram as Bases. de continuar jogando este jogo. geralmente a metade.

“são os que têm 40 prefeitos espalhados.que. “o sistema distrital uninominal incentiva o paroquialismo. adotam os chamados Distritos de Média Magnitude. em vez de adotar o voto distrital misto. Os distritos de média magnitude diluiriam a interferência direta do cacique local” . e dá uma visibilidade maior ao representante. não pode reivindicar créditos por benefícios. para priorizar os partidos políticos em detrimento do voto pessoal. que elegem de 5 a 8 deputados. voltado para temas.com motivação paroquial. seria o político das áreas metropolitanas. que vai pegando um votinho aqui outro ali e em várias áreas distintas”. Para Carvalho. e o primeiro recurso político deles é o encaminhamento das demandas das lideranças locais. e ao mesmo tempo contemplar o paroquialismo que já existe”. Após essas ponderáveis reflexões. como nos Estados Unidos. “dá-se uma justa medida às diversas áreas. para o candidato da área metropolitana. [p. que concentra sua votação em municípios muito grandes e. 132] Conclui Nelson de Carvalho: “Mesmo se fizermos voto distrital com lista fechada. onde os políticos locais não têm responsabilidade sobre as verbas. a maneira como ele vota na Câmara. e não apenas um. mas ele não tem definição sobre se o voto deve ser na lista ou diretamente no candidato. Com esse sistema. eliminando a possibilidade dessa compra da representação inorgânica. Segundo o estudo. que predominam no Nordeste.países que passaram por transições democráticas parecidas com a nossa . Portugal e Grécia . Dentro do estado. não acontece o fenômeno da sub-representação de áreas importantes como as metropolitanas. Ele também vê vantagem nesse tipo de voto proporcional com distritos maiores “porque enxuga o número de partidos”. o primeiro recurso eleitoral é a atuação legislativa. e acabariam com a adoção dos mega-distritos”. o interior do estado passa a atribuir justa representação a áreas que hoje viram colchas de retalho “atacadas por vários políticos que dispersam sua votação e não têm compromisso com nenhuma delas”. como não domina essa área. Os fragmentados/dominantes. os caciques vão continuar dominando os partidos. Já o político do distrital puro prioriza os recursos orçamentários. Esses são fruto de uma distorção do voto distrital à brasileira. Os países citados por Carvalho usam o sistema de lista. Nelson Carvalho propõe a adoção do sistema eleitoral utilizado na Espanha. Se cada um for maximizar o beneficio para o distrito. Com o distrital misto podemos ter aqui o pior dos dois mundos: dar à oligarquia partidária o domínio sobre a lista. O concentrado/não-dominante é o terceiro tipo. você projeta os interesses difusos da sociedade e provoca uma espiral de gastos.

133] O Presidente do Tribunal Regional Eleitoral no Rio de Janeiro. assumindo compromissos políticos com os mais variados e questionáveis seguimentos sociais. mesmo nos lugares longínquos e de difícil acesso. e conseguiram depositar o seu voto. 60. principalmente o eleitorado. os líderes dos maiores partidos se sentarem à mesa e concluírem que todos estão sendo prejudicados.A grande dificuldade em se aprovar uma reforma política está em que terá ela que ser votada pelos próprios parlamentares que trocam de partidos. mas a longo prazo só dá prejuízo. Ele pode ser candidato . de civismo e cidadania.2. sem fraude. cultos ou não. a organização do pleito e outras medidas administrativas adotadas fizeram da nossa última eleição um modelo para o mundo todo. “A legislação é quase risível. Foi um espetáculo democrático. sem impugnações. Se o candidato é derrotado. praticam o clientelismo. A reforma política só vai sair quando. nem como prestar contas dos gastos com a campanha. O Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio de Janeiro. um belo dia. No dia do pleito milhões de brasileiros. jovens e velhos. por exemplo. O Papel Desempenhado Pela Justiça Eleitoral Justiça seja feita à Justiça Eleitoral Brasileira. o candidato vai à luta buscar quem banque sua campanha. Prossegue a Justiça Eleitoral nessa importante tarefa promovendo recadastramento dos eleitores e reivindicando debate mais profundo sobre a legislação eleitoral. o que indicaria a existência de eleitores fantasmas. E assim sendo. não existe fidelidade partidária. não deve nada ao partido. [p. compareceram ordeiramente às urnas em todo o país. sem questionamentos. por aqueles que eventualmente serão por ela prejudicados. Promove também debate sobre o financiamento público da campanha eleitoral.2003) disse que a prestação de contas que o candidato faz dos gastos com a campanha eleitoral é uma palhaçada. a prestação não vale nada. A experiência demonstra que se não há financiamento público. enfim. Desembargador Marcus Faver. em entrevista ao jornal O Globo (26. não obstante as suas conhecidas deficiências. Obter novas adesões na base da aritmética pode ser importante momentaneamente. Uma vez eleito.12. votam motivados por favores políticos. A proporção estava acima de 70% da população. Dessa forma a Justiça Eleitoral Brasileira deu sua decisiva contribuição para o aprimoramento do sistema político vigente. O voto eletrônico. a informatização da apuração das eleições. Horas depois os resultados foram proclamados no Brasil todo. recadastrou os eleitores em 24 municípios nos quais constatou desproporção entre o número de eleitores e de habitantes.

caracteriza o direito de ação. por sua vez. cultos ou ignorantes. 345 do Código Penal. criava outros maiores. resolveu assumir essa função. A partir daí só o Estado passou a ter o poder de fazer justiça. Ainda hoje temos exemplos do que ocorre quando o particular resolve fazer justiça com as próprias mãos. de aplicar a lei ao caso concreto para compor os conflitos sociais. Essa função. . fracos ou poderosos). tornando-a exclusivamente sua . portanto. onde durante algumas décadas duas famílias se destruíram mutuamente. Era a justiça do olho por olho. gerando uma verdadeira reação em cadeia. A vítima. dente por dente. Chegou o dia em que a sociedade. servindo como ilustração o conhecido caso de uma cidade nordestina. sem imparcialidade. pelos meios que bem entendesse. prestada pelo particular interessado. tal forma de justiça. terá que ser exerci da em favor de todos os que dela necessitarem (ricos ou pobres. Um verdadeiro faz-de-conta esse negócio de prestação de contas que não tem sentido objetivo. Obviamente. Cabe ao particular tão-somente o direito de pedir justiça. o que faz aplicando a lei ao caso concreto. é distribuir justiça na sociedade. 134] flitos sociais. Hoje. podia infligir ao causador do dano mal idêntico ao produzido no ofendido. que se caracterizava mais como uma forma de vingança do que propriamente de justiça. no momento em que se tomar necessária (não alcançará os seus objetivos sociais se a ação da justiça vier tardiamente) e no lugar onde for necessária. PODER JUDICIÁRIO Houve tempo em que a justiça era privada e feita pelas próprias mãos. a obrigação do devedor.[p. pois caso contrário ficará a emenda pior do que o soneto. após a separação dos poderes. foi conferida ao Poder Judiciário. de invocar a prestação jurisdicional sempre que dela necessitar. compondo os con. ou seu vingador.novamente mesmo com as contas rejeitadas. e em face dos inconvenientes da justiça privada. o que. também não tem nenhum efeito. constituindo a chamada função jurisdicional. A função prevalente do Poder Judiciário. fazer justiça com as próprias mãos é uma forma de usurpação de função pública. caracterizando o crime previsto no art. Se as contas forem julgadas depois da diplomação (e não há tempo para que sejam julgadas antes). após organizar-se política e juridicamente. é necessário salientar.monopólio estatal. O credor podia exigir.” 61. longe de compor os conflitos sociais. Essa relevante função pública. e assim por diante.

já que isto constitui uma função exclusivamente pública. que se propõe prestar assistência médica e hospitalar a todos os seus associados. As filas aumentando cada vez mais nas portas dos ambulatórios. Coisa idêntica ocorrerá (e já está ocorrendo) com o Judiciário. espalhados por todo o território nacional.Com efeito. ESTRUTURA DO JUDICIÁRIO BRASILEIRO Em nosso País o Judiciário se divide em duas esferas: federal e estadual. veremos o que estamos cansados de ver. Tal como uma grande empresa prestadora de serviços. gente técnica e especializada. por sua vez. pessoal etc. o que será da sociedade? Os conflitos sociais continuarão ocorrendo porque existirão enquanto existir a sociedade.. o que toma em completo fracasso o objetivo a que se propõe a entidade. Faltando essa estrutura necessária. serventuários etc. postos. 135] 62. pessoas esperando às vezes meses para poderem ser consultadas. Para que o Judiciário possa exercer eficientemente a sua função . a saber: 1) Justiça Eleitoral . se assim podemos dizer. clínicas.que só trata das questões relacionadas com o direito eleitoral. dedicada à função jurisdicional. quando e onde for necessário . sede. mas quem tem o dever de exercê-la não o faz. e neles uma multidão de Juízes. subdivide-se em quatro áreas específicas. O Poder Judiciário Federal. Os interessados não poderão resolvê-los por suas próprias mãos. . Com o correr do tempo os conflitos se agravam e aumentam. postos de justiça. espalhados por todo o território nacional. tanto nas capitais como no interior. o Judiciário precisa de estrutura material e humana para desempenhar a sua tarefa. se lhe faltarem os instrumentos materiais e humanos necessários. sob pena de se avolumarem os processos nas prateleiras.. enfermeiros. Também ele terá que contar com instalações adequadas. funcionários. [p. se a Justiça se omitir ou retardar no exercício de sua função.é indispensável que esteja devidamente estruturado e aparelhado. gente técnica e especializada. e neles uma multidão de médicos. agências. que para realizar os seus objetivos necessita de instalações.fazer justiça a quem precisar. tal como as pessoas nas filas do INSS. tomando impossível a vida em coletividade e motivando o retomo à justiça privada. empenhada na realização desse objetivo. O que é preciso para que possa realizar isto? Uma infinidade de hospitais. tanto nas cidades como no interior. postos de saúde etc. Tomemos para exemplo do que estamos querendo enfatizar o caso do INAMPS.

aplicando a lei ao caso concreto. Assim. se um particular pretender exigir da União indenização por dano material ou moral decorrente de ato praticado pela administração federal. é a justiça de primeira instância que toma conhecimento e decide em primeiro lugar as causas que são levadas à apreciação do Judiciário.2) Justiça Trabalhista . advogados).).[p. Isso evidencia. tanto nas cidades do interior como na capital. Municípios e seus desmembramentos administrativos. para que possa estar ao alcance de todos. que a grande sobrecarga de trabalho repousa sobre o Judiciário Estadual.à qual competem todas as causas em que houver interesse da União ou de seus desmembramentos administrativos (autarquias e empresas públicas) como autora. 4) Justiça Federal . de modo a poder ela realizar. a primeira e a segunda instâncias no Judiciário de cada Estado. Estrutura da Justiça Estadual Há duas instâncias na Justiça Estadual: instância é hierarquia ou grau de jurisdição . 62. ré ou simples interessada. 3) Justiça Militar . por um só julgador. se a União resolver desapropriar um determinado imóvel. 136] ção até a sentença final. por exemplo.que é o poder de fazer justiça.cuja competência é julgar os crimes previstos no Código Penal Militar. Todas as demandas envolvendo conflitos de interesse entre particulares (questões de família.que cuida dos problemas envolvendo empregador e empregado. atuando em toda a formação do processo desde a primeira peti. sucessões. Temos. deverá também apresentar sua postulação perante a mesma justiça.1. testemunhas. serão da competência da justiça estadual. assim. enfim. Para não ser muito oneroso e difícil às partes o acesso a essa justiça. crimes etc. Cabe ao Código de Organização Judiciária de cada Estado estabelecer a organização da sua justiça de primeira instância. De regra. Por isso está em contato direto com as partes (autor. bem como as demandas em que há interesse dos próprios Estados. contratos. deverá propor a ação expropriatória perante uma das varas da Justiça Federal. da melhor . isto é. As decisões da primeira instância são prolatadas por Juiz singular. À Justiça Estadual compete o restante das questões que podem ser levadas a juízo. está ela organizada em todo o território do Estado. desde logo. réu.

de regra. e em cada Vara um juiz. econômica e socialmente. o que poderia acarretar um congestionamento de processos e sobrecarga do serviço nos Tribunais de Justiça. por isso que realizada através dos Tribunais de Justiça dos Estados. toma-se necessária a criação de novos juízos (uma ou mais varas). Alguns Estados. as suas finalidades. 4) é uma justiça colegiada. 2) não está em contato direto com as partes. podemos dizer que todo o território do Estado é dividido em várias áreas denominadas Comarcas. tal como ocorre com os Municípios. o escrivão. tantas quantas forem necessárias para atender à demanda dos novos conflitos sociais. que é o Juízo ou Vara. tendo a competência estabelecida pela lei. Em cada Foro temos pelo menos um órgão investido da função jurisdicional. 3) só existe nas capitais dos Estados. visto que as decisões são ali prolatadas por. [p. limitando-se à apreciação daquilo que já se encontra no processo. todavia. para evitar esse inconveniente. De modo geral pode-se . o processo é devolvido à Vara de origem. os Tribunais de Alçada são integrantes da Justiça de segunda instância. podendo-se. as atividades empresariais etc. congestionada e deficiente a prestação jurisdicional. Apreciado o recurso.forma possível. cujos membros são chamados Desembargadores. pelo menos. três julgadores. dizer que as suas principais características são as seguintes: 1) toma conhecimento das causas em segundo lugar. Cabe também a cada Estado organizar a sua Justiça de segunda instância. Em cada Comarca temos uma sede do Judiciário Estadual que vem a ser o Foro. pois trata-se. À medida que a Comarca vai se desenvolvendo política. demorada. cada Estado tem o seu Tribunal de Justiça.. muito embora nem sempre exista correspondência entre suas áreas geográficas. de uma atividade revisora. Tal como os Tribunais de Justiça. serventuários etc. possuem também outro Tribunal (ou Tribunais) chamado de Alçada. aumentando a sua população. Assim. e conseqüentemente aumentando o serviço da justiça. onde a sentença será executada. divididos em várias câmaras. como a primeira instância. sob pena de tornar-se lenta. em segundo grau. organizam-se à sua imagem e semelhança. para onde são encaminhados os processos sempre que houver recurso de qualquer decisão da primeira instância. 137] O número de desembargadores é muito menor que o de juizes de primeira instância. Em linhas gerais.

apenas para a turma recursal do próprio juizado. só se tomando obrigatória a sua participação se houver recursos. Outra peculiaridade dos Juizados Especiais é a desnecessidade de advogado nas causas cujo valor não exceda a vinte salários mínimos. Essa lei prevê a participação de conciliadores e Juízes leigos como auxiliares da justiça na fase da conciliação. Pernambuco) e em . como se vê. sediados nos principais Estados (São Paulo. criados pela Constituição de 1988 em substituição ao antigo Tribunal Federal de Recursos. O objetivo. atribuindo. orientado pelos critérios da oralidade. juizes. entretanto.dizer que julgam. evitando que elas se misturem e caiam na vala comum das demais causas. é aliviar a carga de recursos daqueles Tribunais. Esses Tribunais.09. e nas grandes cidades do interior.). em substituição aos Juizados de Pequenas Causas. as causas de menor relevância.1995. em segundo grau. Rio de Janeiro. de 26. O sucesso dessa idéia. através de processo sumaríssimo. Da sentença cabe recurso para uma turma recursal composta por três juizes togados. não cabe recurso nem para o Tribunal de Alçada. Vale dizer que. nem para o Tribunal de Justiça. deixando-os com mais tempo para apreciar os recursos de maior complexidade. depende da capacidade administrativa e econômica dos Estados para darem cumprimento à lei. simplicidade e celeridade. todavia. Temos ainda nos Estatutos os Juizados Especiais Cíveis e Criminais. cuja criação foi determinada pela Lei n° 9. a segunda é exerci da pelos Tribunais Regionais Federais.) e infrações penais de menor potencial ofensivo (contravenções penais e os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a um ano). das sentenças proferidas pelos juizados especiais. [p. reunidos na sede do juizado.099. 138] 62. ficando as demais para o Tribunal de Justiça. A primeira instância federal existe de regra nas capitais dos Estados. esses juizados julgam causas de menor complexidade (causas cujo valor não exceda a quarenta vezes o salário mínimo etc. pois necessitarão de estrutura material e humana para isso (instalações. serventuários etc. Organização da Justiça Federal Há também na Justiça Federal duas instâncias. Previstos para desafogar a justiça comum. em exercício no primeiro grau de jurisdição. com as mesmas características da Justiça Estadual. Os Juizados Especiais são uma feliz idéia no sentido de dar celeridade às causas de menor complexidade. exclusivamente ao Juiz Togado a competência para proferir a sentença caso não haja o acordo.2.

previstas na Constituição. um na capital de cada Estado. com sede na capital da República. poderá ser reexaminada pelo STJ.TSE. tornando mais célere a justiça. Há nessa justiça uma terceira instância. Quanto à Justiça Eleitoral. sobrepõe-se a todo o aparelho judicial. abaixo do qual se encontram todos os Tribunais Superiores.4. Esse Tribunal tem sede em Brasília. a quem compete zelar pela supremacia das leis federais e promover a uniformização da sua interpretação. A segunda instância é constituída pelos Tribunais Regionais do Trabalho . Qualquer decisão dos Tribunais Estaduais ou Fe. a sua primeira instância é dividida em zonas distribuídas por todo o Território Nacional. embora sendo um órgão federal. notadamente aquelas onde há maior concentração de trabalhadores. integrado por 15 ministros. A segunda instância.3. para onde vão os processos em hipóteses especiais. Nas cidades onde não há justiça trabalhista. o Tribunal Superior do Trabalho. Estrutura da Justiça Especial A primeira instância da Justiça Militar só existe nas cidades onde há grupamento militar. Em hipóteses especiais. da Aeronáutica e da Marinha. e a terceira instância é o Tribunal Superior Eleitoral. através do recurso especial. 62. A Justiça Trabalhista tem a sua primeira instância distribuída pelas principais cidades do Brasil. É o mais elevado Tribunal do Poder Judiciário no Brasil. com sede em Brasília. Trata-se de uma justiça cujas decisões são prolatadas por um colegiado. a cúpula do regime.STM. o órgão máximo da Justiça. 139] derais. e através . com sede em Brasília. Função do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal A Constituição de 1988. julgam os recursos oriundos da primeira instância da respectiva região. integrado por 27 ministros.Brasília. as causas envolvendo essa matéria são decididas pela Justiça Estadual. O Supremo Tribunal Federal. e é integrada pelas Auditorias do Exército. e os seus membros são chamados de Ministros. é constituída pelo Superior Tribunal Militar .[p. a segunda instância são os Tribunais Regionais Eleitorais .TREs. com o propósito de aliviar a sobrecarga do Supremo Tribunal Federal. criou o Superior Tribunal de Justiça. 62. geralmente nas capitais. os Tribunais de Justiça e de Alçada dos Estados e os Tribunais Regionais Federais e do Trabalho. como o próprio nome diz. em que houver violação de lei federal.TRTs.

A Crise no Judiciário em Nosso País Há mais de trinta anos ouvimos as mesmas críticas ao Judiciário: a justiça é lenta. com controle externo e outras inovações. em todos os seus níveis. os processos se prolongam por anos e anos a fio. 62. 140] No que diz respeito à lentidão da justiça. Tem ainda por função atuar como moderador dos demais poderes. quando o Congresso foi fechado pela última vez. é um mau pagador. ineficiente e cara. é forçoso reconhecer que não cabe ao Judiciário a culpa exclusiva. os membros do Judiciário culpam o Executivo e o Legislativo: as leis processuais são mal elaboradas. estão desatualizadas. O estado brasileiro. . Embora tenha plena consciência dos direitos dos aposentados. Em abril de 1977. o pretexto utilizado foi a reforma do Judiciário. burocrática. pensionistas. além de grande criador de conflitos. declarando a inconstitucionalidade das leis sempre que violarem princípios consagrados na Carta Magna. Em defesa. E. é o Supremo o guardião da Constituição Federal. federal ou especial). a prestação jurisdicional se toma inócua e causa graves prejuízos aos jurisdicionados. mesmo depois de condenada. A cada novo e mirabolante plano econômico baixado pelo governo. nunca passou do papel. seria conveniente lembrar que outras reformas do Judiciário já foram feitas sem qualquer resultado prático. [p. pode o Supremo reexaminar decisões de qualquer justiça (estadual. o fiel da balança. emperrada. Quanto ao segundo item. milhares e milhares de ações são detonadas na Justiça. Aquela reforma. Isso evidencia que a mera modificação de alguns pontos da Constituição não basta para resolver a crise do Judiciário. prevalecendo a sua decisão como palavra final e imutável.5. mutuários e contribuintes. e em alguns pontos tomou a justiça pior. Na realidade. recorre abusivamente. como a criação de senadores biônicos e outras aberrações constitucionais. obrigando os titulares desses direitos a buscá-los na justiça. demagógica. a Administração não os reconhece. o Executivo e o Legislativo pregam a urgente necessidade de uma reforma do Judiciário.do recurso extraordinário. Integrado por 11 ministros. há excesso de recursos processuais e falta de recursos financeiros. teve objetivos políticos. feita sob o mais rigoroso sigilo pelos donos da verdade da época. no que exerce uma função eminentemente política. Em que medida cabe ao Judiciário a culpa pela morosidade da justiça? Até que ponto a propalada reforma resolverá o problema do Judiciário? Essa é a questão nodal. Por sua vez. cada nova reforma implantada no país leva outros tantos milhares de pessoas ao Judiciário. foi puramente teórica. quase se eternizam.

Os precatórios expedidos até 10 de julho de cada ano deverão ser incluídos no orçamento do ano seguinte e pagos na ordem de apresentação. São Paulo e Rio de Janeiro não pagavam os precatórios desde 1996. vítimas de acidentes etc. principalmente na primeira instância. Mas não para aí a contribuição do estado brasileiro à morosidade da justiça. Em agosto de 2000. Como já salientado. A quem interessa a lentidão da justiça? [p. Mesmo depois de vencido em milhares de ações. . para que a justiça de primeira instância possa funcionar adequadamente. ele é também mau pagador. funcionais e estruturais. Vale dizer. Pior que tudo. a execução do estado tem que ser feita por meio de precatórios. Estados e Municípios em até dez anos.5 bilhões de reais. O primeiro devia aos credores judiciais (pensionistas. e o segundo 520 milhões. é necessário que em cada Comarca se criem tantas Varas ou Juízos quantos forem necessários para atender ao aumento do número de demandas decorrentes do desenvolvimento econômico. humanos e financeiros notoriamente deficientes. Causas da Crise do Judiciário Brasileiro Diagnóstico baseado na prática e na observação permite-nos adiantar que três são as principais causas da crise do Judiciário: operacionais. As causas operacionais estão relacionadas com a infra-estrutura necessária ao bom funcionamento da justiça . servidores. depois de esperar dois ou três anos pela sentença que lhe concede a justa devolução.recursos materiais. centenas de milhares de recursos repetitivos que abarrotam o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal. O calote dos precatórios é uma regra em quase todos os estados.Prova disso são as filas intermináveis de aposentados e pensionistas do INSS pleiteando a revisão dos seus minguados benefícios nos Juizados Especiais Federais (o que poderia e deveria ser resolvido na esfera administrativa). terá ainda que aguardar por mais dez anos o integral cumprimento dessa decisão. o Congresso Nacional aprovou a emenda constitucional nº 30 autorizando o parcelamento das dívidas judiciais da União. que nada mais são do que requisições de pagamento em dinheiro de débitos judiciais expedidas pelo Poder Judiciário ao Poder Executivo. milhões de ações em andamento na justiça com idêntica finalidade. o contribuinte que entre na Justiça para reclamar a devolução de um tributo que lhe foi cobrado indevidamente. não cumpre as decisões judiciais. Com efeito. Esse tempo de espera será fatalmente debitado à morosidade da justiça. 141] 63. em 13 de setembro de 2000. Como os bens públicos não podem ser penhorados para pagar a condenação.) cerca de 4. Só que os precatórios também não são pagos.

. a menos que estejamos dispostos a aparelhar o Judiciário para enfrentar essa realidade. Em países como a Itália e a França. treinar e avaliar periodicamente os serventuários. padronizar métodos e procedimentos. aguardando o cumprimento da determinação judicial. de população estável e de economia já desenvolvida. em pleno desenvolvimento econômico e ingressando na sociedade de consumo. mas uma verdadeira explosão judiciária deflagrada por essas três condições que dão hoje a fisionomia de nosso País e.000 habitantes. controlar a qualidade e a produtividade dos magistrados. O que acontecerá se não houver infra-estrutura para que todos os despachos do juiz sejam cumpridos com eficiência e rapidez? Nada. O processo ficará parado por meses e anos a fio. Isso. no Brasil temos. cada vez maior. na maioria dos Estados. não é o que ocorre em nações como a nossa. escrivães. Pelo ângulo operacional temos como certo que a maior necessidade do Judiciário não é a propalada reforma.000 habitantes. oficie-se. tome-se por termo etc. o crescimento do movimento forense é vegetativo. em cada um determinando uma série de providências ou diligências a serem cumpridas . Aí está. adotar métodos modernos e eficientes de gerenciamento e administração. enfim. prenda-se. Em cada Vara. é preciso ter instalações adequadas (cartório. serventuários. o que significa que havia mais de mil processos parados. Recordo-me de ter. se contarmos os cargos de juiz que estão vagos. É preciso investir em instalações de novos órgãos julgadores.) e gente para realizar o serviço da justiça (juiz. informatizar toda a justiça. a solução para a maioria dos problemas que emperraram a máquina judiciária em primeiro e segundo graus nos estados e na esfera federal. a distância se tornará cada vez maior entre a justiça e os seus objetivos sociais. das relações dentro da sociedade. promotores. de alto índice de crescimento demográfico. por sua vez. em virtude da omissão de um oficial de justiça ou de excesso de serviço. E não se consegue preencher os cargos vagos porque. melhor aproveitar os recursos humanos e materiais disponíveis. todavia. oficiais de justiça etc. certa feita. modernizar equipamentos. um juiz para cerca de 30. Enquanto na Alemanha tem-se um juiz para cerca de 4. salas de audiência. em nosso entender. aumentar o número de juízes. constatado encontrar-se em poder de um só oficial de justiça mais de mil mandados pendentes de cumprimento. cite-se. sob pena de o serviço ficar acumulado e os processos paralisados. gabinetes etc. 142] Aqui não há propriamente um crescimento forense. [p.intime-se. defensores. no sentido de que só acompanha a complexidade. com graves prejuízos para as partes.político e social do lugar. Diariamente um juiz despacha dezenas e até centenas de processos. mas sim gestão. só naquela vara.) em número suficiente. secretarias. o número de aprovados no concurso fica aquém das vagas em razão da deficiência do ensino jurídico.

em 2001 o número de processos recebidos subiu para 67. foram julgados 83. novo aumento .250 e foram julgados 65. enquanto na justiça fluminense essa distribuição é em tempo real e não há processos represados.389 (95.498 (100. Na justiça comum .958 (105. de sorte que o acompanhamento de todo e qualquer processo.91 %).varas criminais. no tempo médio de 203 dias. em 2003 o número de 419. no tempo médio de 172 dias entre a autuação e a sentença. 100. instalar centenas de novas varas e juizados especiais por todo o Estado.25%).492.551 e julgados 78.415 ações e julgadas 340. Criou um Fundo Especial destinado a cobrir as despesas operacionais e de investimentos do Judiciário. As causas funcionais dizem respeito ao deficiente sistema recursal brasileiro.721.700. No ano de 2002 entraram (tombados) 252. Essa reforma . pode ser feito pela internet de qualquer parte do país.em 2002 foram ajuizadas 346.715 (97.285 processos autuados no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro no ano de 2003 (recursos e processos originários). .A Justiça do Estado do Rio de Janeiro há alguns anos vem seguindo esse caminho e já obteve resultados surpreendentes. mediante administração séria e competente dos recursos assim obtidos.processos recebidos 74. como já registrado.498. como mostram os números que seguem. o que permitiu. e tiram a relevância da sentença ali prolatada.501 (87. os resultados são também surpreendentes. No ano de 2003 o número de ações distribuídas (tombadas) subiu para 296.348 ações nos juizados especiais civis. o Tribunal melhorou o seu desempenho.285 processos e julgados 83. Estes resultados são ainda mais expressivos quando se tem notícia de que nos Tribunais paulistas existem cerca de 500 mil processos espe. o que toma o tempo dos processos nos tribunais muito superior ao tempo de andamento em primeiro grau.25%. informatizar toda a justiça. cíveis. mas foram julgadas apenas 313.424 processos e julgados 46. em 2000 o número de processos aumentou para 57. Temos hoje praticamente quatro instâncias.76%). e destas foram julgadas 223.584.782 e foram julgadas 265.19%). Não obstante o expressivo aumento de recursos a cada ano. Dos 83. No primeiro grau os resultados da justiça fluminense são também satisfatórios. em curso na mais distante comarca ou no tribunal. num tempo médio de 143 dias entre a autuação e o julgamento. No que diz respeito à produtividade.163 (89. construir dezenas de novos foros e recuperar outros tantos. em 2002. de família etc. 143] rando há quatro ou mais anos distribuição. isto é.[p.66%). em 2003.914 e foram julgados 50. no primeiro e no segundo grau. Em 1999 foram recebidos 51. foram recebidos 83. cuja reforma é realmente imprescindível para viabilizar o funcionamento do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça.71 %).

em junho de 1997. deve incluir a súmula vinculante para as decisões dos Tribunais Superiores e a argüição de relevância. 88. 82. ademais. que.83%. muitas vezes agindo como improbus litigator. Pesquisa realizada no final de 1995 revela dados inquietantes: no período de outubro de 1988 a março de 1995.90%. que.88%. se a causa real do congestionamento do aparelho judiciário reside . o percentual de acórdãos repetitivos foi de 61. em grande parte.2000). inteiramente aplicáveis à União Federal e às suas autarquias (inclusive ao INSS). 68.54%. isso não é racional e não ocorreria se as súmulas tivessem efeito vinculante. ex-presidente do Supremo Tribunal Federal. em 1990. sentenças contraditórias entre juízes. enorme resistência à adoção da súmula vinculante ao argumento de que ela atentaria contra a liberdade de julgar do juiz. em 1991. Isso evitaria liminares. Há. virtualmente inviabiliza o Supremo Tribunal Federal e . “Devo observar.na atuação processual compulsiva do Poder Público. em 1989. extemada quando Presidente do Supremo Tribunal Federal (O Globo 29. em 1995. 71.90%. em 1992. na opinião do Ministro Carlos Mário Velloso. serviria de filtro para evitar que questões irrelevantes cheguem aos tribunais superiores. ainda na visão do ex-presidente do Supremo. como autorizado pela Lei Complementar n° 73/93.32% dos acórdãos proferidos pelo STF foram repetitivos. para impedir que enxurrada de ações banais continuem abarrotando os Tribunais. No ano de 1995. cumpre aplicar as disposições da Lei Complementar nº 73/93. opondo resistência estatal injustificada e arbitrária a pretensões legítimas deduzidas por cidadãos de boa-fé. em 1994. Para por um paradeiro às procrastinações do Poder Público. portanto. de outubro a dezembro. pelo excesso de litigiosidade recursal.41%. que: em 1988. [p. propõe a edição de súmulas administrativas vinculantes. o STF praticamente limitou-se a repetir decisões já proferidas.36. até o mês de março.processual. Em conferência proferida na abertura do Fórum Nacional de Debates do Poder Judiciário. o Ministro Celso de Mello.49. todavia. em 1993. A pesquisa revela.15%. sem prejuízo da adoção de outras soluções processuais. responsáveis. desnecessárias.40%. repetição interminável de ações em tomo de matérias já julgadas e recursos protelatórios. 50. ainda. hoje. pelo menos até o mês em que se limitou a pesquisa. A súmula vinculante obrigaria a justiça de primeiro grau a aplicar a jurisprudência do tribunal superior sobre determinadas questões. Ora.08.como efetivamente ocorre . por sua vez. 144] A argüição de relevância. sua Excelência assim colocou a questão.38. useiro e vezeiro em postergar o cumprimento de decisões judiciais. aos quais ficaria reservado o julgamento de matérias de alta indagação jurídica e de grande interesse social.

O disfarce caiu quando o deputado João Paulo Cunha. que também visitou Rainha na prisão.2003). Esse tipo de controle. aproveitaria as experiências bem sucedidas de outros lugares. admite que o Judiciário tem deficiências.03. tributário ou previdenciário. líder do Movimento dos Sem Terra (MST). ao próprio Estado Democrático de Direito. em matéria de caráter administrativo. como se apregoa com tanta veemência.1999). na solução dos problemas gerados pelo congestionamento do aparelho judiciário. 28. Presidente da Câmara dos Deputados. enfim.nepotismo. O deputado Luiz Eduardo Greenhalgh. órgão nacional de planejamento e controle do Judiciário. assessorado por técnicos de várias áreas. 13. na ocasião criticou duramente o juiz e disse que suas sentenças reforçam a necessidade de controle externo do Judiciário (O Globo. e assim por diante. permitindo. “Isso é absolutamente inadmissível. Sim. O Ministro Sepúlveda Pertence. [p. ao menos enquanto se pretender que vivamos num Estado de Direito Democrático” (O Globo. visitou na prisão José Rainha. à criação de um outro órgão para controlar o controlador. a aplicação desse instrumento legal certamente refletir-se-á. Ora. traçaria as políticas administrativa e financeira do Judiciário. desse modo. o que constitui um atentado ao princípio da autonomia dos poderes e. é controlar as decisões judiciais. . por via de conseqüência. em nada contribuirá para o aprimoramento do Judiciário. estaria a requerer a existência de órgão que lhe fosse superior.” Entre as causas estruturais podemos apontar a falta de um Conselho Nacional de Administração da Justiça. porque na medida em que o órgão controlador se desviasse de suas finalidades. porque o que se pretende com tal órgão. até mesmo na própria instância administrativa. dotado de estrutura leve.a União Federal e as suas autarquias não mais insistirão em teses jurídicas rejeitadas pelo STF ou pelo STJ. ex-presidente do STF. ad infinitum.09. defende uma reforma ampla. A criação de um órgão controlador do Poder Judiciário levaria. formularia alternativas administrativas.com sentenças judiciais. mas investigar sentença. desde logo. condenado por formação de quadrilha e invasão de propriedade. além de condenável.o Superior Tribunal de Justiça. que pretensões legitimamente manifestadas pela parte privada sejam atendidas. pois. talvez a curto prazo. viajando num jatinho da Força Aérea Brasileira (FAB). deplora iniciativas que pretendem misturar questões de administração . nas questões objeto da jurisprudência iterativa dos tribunais uma vez editada a súmula administrativa vinculante . por sentença do Juiz Teodoro Sampaio. Esse órgão. eficiente e com funcionamento permanente. seria um centro de debates destinado a pensar e repensar continuamente o Judiciário. controlaria o bom funcionamento da atividade judicial. de maneira positiva. obras irregulares e gastos . 145] Não estamos falando de um órgão de Controle Externo do Judiciário. não. disfarçadamente.

pela previsão dos meios para reclamá-los e pela estruturação do setor estatal que tome efetivas as reclamações. Em síntese. na medida em que sua debilidade e dependência não lhes permitem desempenhar eficazmente a função delimitadora que requer a consolidação do espaço democrático. e a busca de outros meios para se conseguir justiça. 147] . 21. de qualquer natureza. [p. feita pelas próprias mãos. sobre os conflitos que comprometem direitos e sobre suas soluções e meios de preservá-las. Quando o que lhe é cometido não seja bem definido. dos Tribunais. a realização tardia dos objetivos da justiça ou até mesmo a sua ineficiência. mas existe uma notória disparidade entre este nível teórico e aquele que trata das instituições destinadas a efetivar essas soluções. criar-se um órgão que. crise. [p. cit. Ed. Os direitos. Rev. Temos elaborado complexas teorias. 22. ainda menos definidos serão seus modelos estruturais. as estruturas judiciárias latino-americanas são inadequadas para assumirem as demandas de uma democracia moderna. acertos e desacertos.Como. quer dizer. pp. Na medida em que se amplia a distância entre a função latente ou real e as demandas sociais. O insigne jurista Eugênio Raul Zaffaroni. muitas vezes. um dos maiores nomes do Direito Penal na América Latina. a volta à justiça privada. Enquanto não forem feitas as reformas necessárias. freqüentemente de alto nível. se fundam no tripé integrados por sua consagração legislativa. portanto. 146] A relação entre a estrutura institucional e as funções (manifestas e latentes) é indissolúvel: a estrutura indicará a sua capacidade de desempenho das funções manifestas. a sua descaracterização institucional. sem ter prerrogativas do Judiciário. a estrutura otimizada de uma instituição será sempre a que a capacite para melhor desempenho do que a ela será cometido. 29 e 34). as deficiências infraestruturais do Judiciário fatalmente continuarão acarretando o retardamento dos julgamentos. e o grau de incapacidade para elas mesmas estará assinalando o cumprimento de funções latentes alijadas daquelas. aumenta o perigo para todo o sistema democrático” (ob. senão a desnecessidade do órgão controlador. provocando.. faz algumas colocações que merecem ser transcritas no encerramento deste capítulo: “Qualquer instituição deve cumprir determinadas funções e sua estrutura otimizada dependerá da clara atribuição prévia dessas funções. o desprestígio e a perda de confiança no Judiciário por parte da coletividade. a ele se sobreponha? De que natureza seria esse órgão? Ou será mais um poder da República? São pontos a refletir e que evidenciam. em notável trabalho sobre o Poder Judiciário.

Alcino Salazar: “A justiça vale o que valem os juízes. uma lei boa de nada serve. Acreditamos já ter ficado demonstrada a importância da função desempenhada pelo juiz: decidir as causas que são levadas à sua apreciação.Capítulo XII SISTEMAS DE ESCOLHA DOS MAGISTRADOS Sistema eletivo. há ainda duas questões importantes a serem abordadas. Julgar. 149] dei Magistrati. principalmente quando está em jogo a vida ou a liberdade de um ser humano. tanto no aspecto técnico como no moral. Além de conhecedor do direito. Sistema da nomeação. “Mais vale um juiz bom e prudente do que uma boa lei”. é quase uma função divina. Perfil da magistratura brasileira. para o exercício de uma função pública assim tão relevante. tomo I. Aprimoramento do nosso sistema. p. como tem sido dito. “Com um juiz mau e injusto. 65. até com um pouco de poesia. Nesta parte trataremos dos sistemas de escolha dos magistrados. e na próxima examinaremos as razões sociais das garantias constitucionais dos magistrados. citado pelo Prof. fazendo valer o direito aplicável ao caso.Instrumentos Humanos de Realização da Ordem Jurídica -. pois na magistratura. 1959.” . Evidentemente. dar a palavra final nos conflitos de interesse. o problema do pessoal condiciona os demais. deve o juiz ser detentor de um caráter impoluto e de uma personalidade ajustável à função. mais que em outras instituições. é preciso alguém altamente qualificado. porque ele a verga e a toma injusta a seu modo”. Sistema do concurso público. constante dos anais do Primo Congresso Internazionale [p. **** Dentro do tema examinado no capítulo anterior . Expressa ainda a relevância do tema o pensamento do Magistrado François Gorphe. O sistema utilizado no Brasil. Milão. diz o Código Geral da Suécia de 1734.

150] Nos Estados Unidos. em busca de orientação sobre critérios de seleção e formação de magistrados. porém antes e acima de tudo pela própria interpretação que o magistrado lhe imprimir (Rosah Russomano. 1970.Em verdade. já não o fazem mais e têm-se aproximado dos estados da União Européia. Lições de Direito Constitucional. elogiável ou iníqua. no exercício do soberano direito do voto. que escolhe os seus juízes. Democrático porque é o próprio povo. Surge então a questão: como escolher o magistrado? Qual o critério seletivo mais eficiente? Qualquer empresa de certo porte conhece a importância de se ter a pessoa certa no lugar certo e por isso gasta tempo e dinheiro na seleção e treinamento do seu pessoal. sob pena de se instituir o absurdo. 64. sobretudo da França e Portugal. recaindo a escolha sobre aqueles que mereceram a preferência popular. E não são mais todos os 50 estados da Federação a adotarem o sistema de eleições diretas. a Justiça Federal não adota o sistema eleitoral para escolha de seus juízes. [p. SISTEMA ELETIVO Dentre os vários sistemas existentes e adotados por diferentes países para a seleção dos seus magistrados. Se até mesmo para o exercício das funções mais simples é indispensável ter certas qualificações profissionais e morais. 302). Pelo sistema eletivo os magistrados são escolhidos através de votação direta. a independência e a dignidade da magistratura. tal como os membros do Legislativo. o da nomeação e o do concurso público. p. Os países da antiga cortina de ferro. Costuma-se apresentar como sua principal vantagem o fato de ser democrático. O sistema de eleição para a Magistratura está em pleno desuso no mundo inteiro. não tanto pelo seu conteúdo específico. tal como os seus govemantes e legisladores. o que seria a função de julgar exerci da por alguém que não conheça o direito ou que não tenha os inerentes requisitos morais? Daí a importância sociológica da questão ora em exame. produtiva ou prejudicial. já que de uma boa seleção dependerão grandemente a eficiência. Pouco oneroso porque as despesas com uma campanha eleitoral correm normalmente por conta do candidato ou do seu partido. rápido e pouco oneroso para os cofres públicos. que o adotavam. há três que procuraremos destacar: o da eleição. lá existem quatro tipos de escolhas de juízes estaduais: a) nomeação pelo chefe do Executivo com prévia aprovação no Legislativo. Rápido porque em um mesmo dia podem ser eleitos todos os juízes de um estado ou mesmo do país. Na verdade. a norma jurídica tomar-se-á boa ou má. b) nomeação pelo .

os melhores nem sempre estariam dispostos a enfrentar os percalços de uma campanha eleitoral. que são os que se conferem por eleições. é constantemente divulgado pela imprensa. ou teriam recursos para custeá-la. 151] econômico dos parlamentares para financiar suas onerosas campanhas eleitorais. É preciso lembrar que os juízes estaduais americanos não têm carreira: apontados ou eleitos para uma county (comarca). podendo ser reconduzidos ou reeleitos para o mesmo posto. ali ficam até o final de seu mandato (que é variável). SISTEMA DA NOMEAÇÃO Em alguns países os magistrados são escolhidos mediante livre nomeação do chefe do Executivo. Deve dar ganho de causa a quem tiver direito. independência. Isso no Judiciário seria o caos. do chefe de polícia e dos administradores locais” (Institutiones Politiques.chefe do Executivo entre nomes constantes de lista formada por comissão independente de alto nível. Max Weber também recorda o baixíssimo nível técnico desses juízes e o maior prestígio dos juízes federais. a lealdade ao partido é uma virtude. Em termos de Brasil. O juiz não pode procurar agradar a ninguém com suas decisões. e com isto desagrada muitas vezes os ricos e poderosos. perdendo a imparcialidade e a segurança necessárias ao julgador. Como bem argumenta Emílio Rabosa: “Nos postos de caráter político. Com efeito. 203). d) eleição popular. c) eleição indireta pelo Legislativo. referindo-se aos juízes eleitos. tomando-se impopular. Além disso. descomprometimento de toda a sorte. Mas se o juiz necessitar de votos para se eleger ou reeleger-se. Deve-se ainda levar em conta que a função de julgar é muito diferente da função política. 1980. sempre que tiver que decidir questões relevantes e de repercussão social. o que a toma totalmente desaconselhável. p. Duverger. é um vício degradante. ou encontrariam apoio particular à sua candidatura. Exige imparcialidade. acreditamos que a eleição dos magistrados apresentaria graves inconvenientes. Aponta-se como vantagem do sistema de nomeação o fato de ser rápido e . diz o seguinte: “No século XIX e no começo do XX os partidos americanos tomaram freqüentemente a forma de máquinas manipuladas por políticos desonestos que tratavam de assegurar a impunidade mediante a simultânea eleição do juiz. nem sempre se elegem os melhores.” O comprometimento [p. Paris. 65. Não há promoções ou remoções. conforme já assinalado quando tratamos da escolha dos membros do Legislativo. em razão das graves distorções que ocorrem na execução de uma eleição direta. sem falar nos compromissos que terá que assumir com pessoas e grupos para conseguir eleger-se. estará sujeito a todo tipo de pressões do seu eleitorado ou em nome dele. mas no cargo de juiz.

pouco oneroso, visto que em um só listão podem ser nomeados tantos juízes quantos forem necessários. Há, todavia, tantos inconvenientes nessa forma de seleção que, se adotada em nosso país, geraria o caos. De todos é sabido que, quando vigora o critério da livre escolha pelo Executivo, só conseguem ser nomeados aqueles que possuem pistolão, amizades, conhecimentos etc. Disso resulta ser esse sistema antidemocrático, posto que não dá idênticas oportunidades a todos, beneficiando sempre os mesmos afilhados e apadrinhados. Por essas mesmas razões nunca se consegue escolher os melhores, já que os epistolados são sempre aqueles que menos qualidades possuem, procurando vencer na vida sem fazer força. E ainda que assim não fosse, quer dizer, mesmo que o chefe do Executivo estivesse empenhado sinceramente em escolher os melhores, dificilmente conseguiria porque, não sabendo quem são os melhores, teria que se valer da indicação dos seus assessores. E é evidente que, por mais fraco, incapaz e desqualificado que seja o pretendente, quem o indica sempre o apresenta como o melhor elemento do mundo - o mais honesto, inteligente, capaz, induzindo a erro o nomeante. A tudo isso se sobrepõe o fato de tirar o sistema da nomeação, a independência do juiz com relação àquele que o nomeou ou influenciou para a nomeação. Deixa o magistrado numa situação de subserviência ou pelo menos no dever de reconhecimento, prejudicial à função de julgar. A sua nomeação custar-lhe-á bastante caro e ser-lhe-á cobrada com juros e correção monetária, devidamente lembrada sempre que necessário.

66. SISTEMA DO CONCURSO PÚBLICO

O ingresso na magistratura por este sistema se faz através de concurso público de provas e títulos, preenchendo-se as vagas existentes com aqueles que melhor forem classificados. [p. 152] Tem como desvantagem o fato de ser demorado e bastante oneroso: exige uma comissão de alto nível para realizar o concurso e muito tempo no processo de inscrição, exame da documentação de cada candidato, aplicação e correção das provas escritas e realização das provas orais. Entretanto, oferece vantagens que nenhum outro sistema apresenta, dentre os quais podemos destacar:

1) É um sistema democrático, pois oferece iguais oportunidades a todos. Desde que o candidato preencha os requisitos estabelecidos no regulamento do

concurso, poderá inscrever-se e concorrer a uma vaga, seja ou não conhecido, de família ilustre ou humilde. 2) Enseja a escolha dos melhores, tanto do ponto de vista técnico e intelectual, como do moral. Ao fazer a inscrição, deverá o candidato juntar documentos que provem o preenchimento dos requisitos estabelecidos no regulamento do concurso.

Além do mais, são solicitadas informações sobre o concorrente a pessoas conhecidas no mundo jurídico e aos próprios órgãos oficiais, só sendo deferida a inscrição depois desse exame preliminar. As provas escritas, elaboradas por examinadores de alto nível, especialistas em cada matéria, são corrigi das sem identificação, de modo a evitar qualquer protecionismo. Somente concorrem às provas orais aqueles que não forem eliminados nas escritas; os aprovados nas provas escritas e orais terão computados então os pontos obtidos nos títulos, sendo nomeados os melhores classificados no cômputo geral dos pontos obtidos nas provas e títulos. Como se vê, com esse longo e rigoroso processo seletivo, é mais provável que se consiga escolher os melhores. Em terceiro lugar, destacamos que o sistema do concurso público apresenta ainda a vantagem de assegurar ao magistrado a necessária independência para julgar. Não tendo a sua nomeação dependido do prestígio ou influência de quem quer que seja, mas sim da sua própria capacidade, inteligência e esforço, não deve favores a ninguém, podendo decidir os conflitos de interesse que lhe vierem às mãos com total imparcialidade. Ninguém tem nada a lhe cobrar, mas muito a admirar, respeitar e confiar, em face da cultura que revelou possuir ao ser aprovado em rigoroso concurso seletivo. O concurso público é o sistema utilizado nos principais países da Europa, ora como meio para ingressar na escola da magistratura, ora para ingresso direto na carreira. [p. 153] Em Portugal, a seleção dos magistrados é feita por concurso público no excelente Centro de Estudos Judiciários, onde os aprovados são preparados por 23 meses, antes de assumirem a função judicante. Na França, os candidatos a juiz ingressam por concurso na École Nationale de Ia Magistrature, e ali recebem formação inicial de dois anos e sete meses. Na Itália, os pretendentes à Magistratura fazem provas escritas e orais disputadíssimas e, depois, seguem um curso de tirocínio de no mínimo seis meses, em Frascatti.

Na Espanha, com a sua pioneira Escuela Judicial, os aspirantes a juiz têm de se submeter a um concurso público de dissertação oral, e, em seguida, fazem um curso de dois anos em Barcelona. N a Alemanha, também não há eleição para juiz, nem concurso público. As nomeações levam em conta os graus obtidos nos exames finais das faculdades de Direito. Na Austrália, os juízes são escolhidos e nomeados pelo governador geral (representante da rainha), assessorado na escolha pelo Conselho Federal, entre nomes de pessoas altamente qualificadas. Deixando a Europa e indo para o Oriente, veremos que no Japão os futuros magistrados têm de vencer um vestibular rigorosíssimo no Instituto Jurídico de Treinamento, onde estudam por dois anos, após os quais, se aprovados, serão nomeados. Na verdade, o que se vê pelo mundo afora é uma grande preocupação com a seleção dos juízes e, tendo em vista a peculiaridade da função judicante, não se recomenda o processo eleitoral, mas sim o concurso público, que é tão democrático quanto as eleições.

67. O SISTEMA UTILIZADO NO BRASIL

O ingresso na magistratura de primeira instância, por força de dispositivo constitucional, no Brasil faz-se através de concurso público de provas e títulos, o que revela termos adotado o melhor sistema seletivo. A escolha dos magistrados integrantes dos tribunais superiores, entretanto, isto é, os Ministros do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal Militar, do Tribunal Superior do Trabalho e do Superior Tribunal de Justiça, são nomeados pelo Presidente da República, depois de aprovada a escolha pelo Senado Federal. Temos assim um sistema misto, integrado por concurso público de provas e títulos para a seleção dos magistrados de primeira instância, e [p. 154] por nomeação pelo Chefe do Executivo para os ministros dos tribunais superiores. Nos Tribunais de Justiça dos Estados, bem como nos de Alçada, um quinto dos membros são também escolhidos por nomeação do Chefe do Executivo Estadual (Governador), mediante lista tríplice organizada pelo respectivo Tribunal de Justiça; metade das vagas decorrentes do quinto são para candidatos oriundos da OAB, isto é, advogados militantes, e a outra metade para membros do Ministério Público, cujos órgãos superiores encaminham ao Tribunal de Justiça uma lista sêxtupla para a elaboração da lista tríplice. O objetivo do quinto é enriquecer os Tribunais de Justiça e de Alçada com elementos de destacada cultura jurídica e elevada envergadura moral, militantes dos quadros

do Ministério Público ou da OAB, trazendo para os referidos tribunais uma mentalidade mais eclética, o que lamentavelmente nem sempre ocorre em face das influências políticas que se verificam no momento do preenchimento das vagas que ocorrem.

68. APRIMORAMENTO DO NOSSO SISTEMA

Embora o sistema do concurso público seja o mais recomendável, conforme já exposto, comporta alguns aprimoramentos para permitir a formação de um quadro de magistrados mais eficiente. O juiz, na pureza desse sistema, tão logo aprovado no concurso e nomeado, assume imediatamente as suas funções e começa a despachar e decidir em centenas de processos, sem nunca dantes ter feito isso, encontrando uma série de dificuldades, perplexidades, dúvidas etc. Todos que já passaram por essa experiência sabem do que falamos. A experiência é ainda mais dolorosa quando o juiz, começando a sua carreira numa comarca lá do interior, fica praticamente sozinho, isolado, sem ter a quem recorrer para uma troca de idéias. Isso evidencia que, para o ingresso na magistratura, não é bastante o concurso de provas e títulos, que apenas apanha a formação cultural do candidato; mas não pode penetrar mais e aferir-lhe o pendor, a vocação, o interesse, a capacidade específica para judicar. A função do juiz, por outro lado, envolve uma série de outras atividades, principalmente no interior, onde é a principal autoridade da comarca, para as quais não foi preparado. O juiz mantém relacionamento com autoridades políticas (prefeito, vereadores), policiais (delegado) e com povo em geral, necessitando em todos esses contatos ser necessariamente hábil para, [p. 155] sem enfraquecer sua autoridade e sem se deixar envolver, portar-se com gentileza, educação, polidez. Nada disso ele aprende em concurso ou nos livros de direito, razão pela qual entendemos que, após o concurso e a nomeação, deveria existir um estágio profissional de pelo menos quatro meses. O novo juiz, além de assistir a palestras sobre matérias ou questões relacionadas com os mais variados aspectos do exercício de sua profissão, começaria a exercer a judicatura como auxiliar, ao lado de outro juiz mais experiente na comarca da capital. Nos meses de estágio o juiz passaria pelas principais varas (cível, criminal, família, juizados especiais), de modo a adquirir uma certa experiência em todas as áreas do direito, para depois enfrentar a atividade sozinho em sua comarca. Melhor do que isso, em nosso entender, seria uma escola judicial instituciona1izada de âmbito nacional que estabeleceria diretrizes, programas, políticas de

ensino e orientações a serem executadas por todas as escolas de magistratura estaduais e federais, com o que se conseguiria uma certa uniformidade na formação inicial dos magistrados do país. Essa escola nacional deveria também programar cursos de aperfeiçoamento para os magistrados mais antigos, como condição para a promoção por merecimento, cursos esses que poderiam ser ministrados nas sedes das escolas locais, de modo a facilitar a freqüência e reduzir os seus custos. A crescente expansão da atividade humana, a par de sua constante sofisticação, muito exige do juiz, a cuja decisão nenhuma parcela do complexo social é subtraída. É imperioso, portanto, que o juiz se especialize, se adestre e se prepare. O aperfeiçoamento ressalta a posição da ciência jurídica moderna pela ampliação dos poderes jurisdicionais, pois a insaciável diversificação do fazer humano e seus requintes tomam inaprisionável por regras fixas e rígidas a atuação jurisdiciona1 necessária à devida composição do litígio. Se o Judiciário se toma essencial à convivência social, se o seu papel será cada vez mais importante neste século XXI, somente com juízes à altura dessa missão teremos o Judiciário que a sociedade espera e exige. Destarte, sobretudo quando os novos juízes são cada vez mais jovens no mundo do civil law, quando os sistemas jurídicos passam por profundas mudanças legis1ativas e uma nova mentalidade se reclama, toma-se imprescindível investir na seleção e no aprimoramento dos magistrados, criando-se boas escolas nos moldes das admiráveis e válidas experiências que o mundo civilizado vem presenciando. O Congresso que reuniu magistrados em Roma, em 1958, concluiu pela recomendação de que se realizem promoções para aperfeiçoar o tirocí- [p. 156] nio judiciário, incentivando a pesquisa e o estudo, selecionando aptidões, estimulando a especialização técnica constantemente. Necessário se faz assinalar que no Brasil, após a Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar nº 135, de 14.03.1979), timidamente começamos a dar os primeiros passos nesse sentido. Algumas das disposições (arts. 78, § 1°; 80, § 1°, 11; e 87, § 1°) estabelecem que a lei poderá exigir dos candidatos, para a inscrição no concurso de ingresso à carreira, título de habilitação em curso oficial de preparação para a magistratura, e condicionar a promoção por merecimento à freqüência, com aprovação, em curso ministrado por escola oficial de aperfeiçoamento de magistrados. Timidamente, como se vê, pois a disposição legal não passou de uma simples sugestão para ser aplicada se, quando e onde for possível, já que nenhum recurso material ou dotação orçamentária foi criado para tal fim. A Constituição de 88 contém disposição idêntica no seu art. 93, n, c.

Graças ao esforço pertinaz da Associação Brasileira dos Magistrados, criou-se a Escola Superior da Magistratura, que já tem prestado relevantes serviços à magistratura brasileira com a realização de vários cursos de aprimoramento jurídico, assistidos por juízes de quase todos os estados. Esperamos que a feliz iniciativa continue a receber a simpatia e o apoio de todas as autoridades e instituições relacionadas com o Judiciário, até transformar-se na Escola Nacional da Magistratura Brasileira, com cursos de preparação e de aperfeiçoamento de magistrados, funcionando de forma estável e permanente. Tudo por uma magistratura melhor e mais independente. Registre-se, por derradeiro, que muito se avançou neste ponto no âmbito dos Estados. A maioria já criou a sua Escola da Magistratura, em alguns Estados com organização modelar e folha de serviços relevantes. A Escola da Magistratura do Rio de Janeiro (EMERJ) mantém um curso de preparação para o concurso de ingresso na magistratura de alta qualidade teórica e prática, ministrado em cinco semestres (dois anos e meio), durante os quais o aluno pode também estagiar nos diversos órgão julgadores (vara cível, criminal, família, juizados especiais, câmaras do Tribunal de Justiça), fazendo minutas de despachos, decisões, sentenças e participando de audiências, sempre orientado por um magistrado. Aos novos juízes, tão logo nomeados, a EMERJ ministra um curso de iniciação de quatro meses, com palestras e debates pela manhã, ministrados por magistrados e professores experientes, sobre os mais variados aspectos teóricos e práticos da função judicante; à tarde exercem a judicatura como juízes auxiliares em varas cíveis, criminais, de família e juizados especiais, um mês em cada lugar, sempre orientados pelos juízes titulares das respectivas varas. Desse [p. 157] modo os novos juízes conseguem assimilar boa experiência antes de irem exercer a judicatura nas comarcas do interior. Prossegue a atuação da EMERJ no estágio de vitaliciamento, durante os vinte meses seguintes. Além de acompanhados e orientados por um Conselho de Vitaliciamento, os juízes vitaliciandos assistem na EMERJ pelo menos um seminário por mês, de oito horas, sobre temas variados, jurídicos ou não, escolhidos por uma comissão de magistrados. Por último, a EMERJ ministra cursos de aperfeiçoamento aos magistrados em atendimento a uma resolução do Órgão Especial do Tribunal de Justiça que os instituiu como requisito à promoção ou remoção por merecimento. Dessa forma a EMERJ vem efetivamente participando da formação e aprimoramento dos magistrados fluminenses, desde a preparação para o concurso até chegarem a desembargador.

68.1. Perfil da Magistratura Brasileira

Pesquisa realizada pela Associação do Magistrados Brasileiros (AMB/IUPERJ), intitulada “O Magistrado e o Poder Judiciário - auto-análise para melhor servir” - revela que o sistema de concurso público democratiza a magistratura, permitindo que todos tenham as mesmas oportunidades e a escolha dos melhores. Eis os resultados: 56,4% dos juízes brasileiros (mais da metade) são oriundos de famílias simples, cujos pais só tinham o primeiro grau completo; 63,4% não têm nem mesmo promotores ou defensores na família; 52,2% são filhos de servidores públicos e 12,8% de funcionários de empresas, sendo que 25,8% destes correspondem a funções de baixa remuneração. A participação da mulher vem crescendo. Em 1985 apenas 16,8% dos aprovados nos concursos eram mulheres, dez anos depois o percentual subiu para 28,7%. Atualmente, o número de mulheres já é igual e até superior ao dos homens, o que evidencia que o concurso afasta qualquer tendência discriminatória, oferecendo à mulher reais condições de igualdade com o homem. O Centro de Estudo e Pesquisa da EMERJ levantou o perfil da Magistrada Fluminense, por meio de pesquisa intitulada “Quem Somos”, recentemente concluída. Os resultados discrepam em parte daqueles que foram obtidos na pesquisa AMB/IUPERJ. As questões referentes à origem social demonstram que os magistrados fluminenses, em sua maioria (53%), são filhos de pais com formação de nível superior. Quantos às profissões pater- [p. 158] nas, preponderam os da área jurídica, tais como advogados, membros do Ministério Público, Defensoria, Procuradoria e Magistratura (18,2%). Verificou-se também significativa presença de outros familiares dos magistrados nas áreas jurídicas, principalmente advogados (49,9%). Conclui-se que os magistrados fluminenses são predominantemente originários de famílias de padrão cultural e econômico elevado, em razão do Estado do Rio de Janeiro ser economicamente desenvolvido e, conseqüentemente, com maiores possibilidades de educação e trabalho. Entretanto, não se pode desprezar o número de magistrados oriundos de famílias de pouca escolaridade (23,6%) e atividades profissionais exercidas em setores considerados de baixa renda (17,4%). A participação da mulher na magistratura fluminense é mais expressiva que no âmbito nacional; entre os juízes 46,1%, entre os desembargadores 14,3%, o que evidencia uma crescente feminilização, fato relevante do ponto de vista sócio-cultural e da análise da mudança social.

Uma das mais constantes críticas à magistratura é a juvenilização dos seus quadros. Alega-se que os juízes estão ingressando cada vez mais jovens na magistratura, sem a maturidade e experiência indispensáveis para o exercício do cargo. Há até projeto no sentido de exigir um tempo mínimo de cinco ou mais anos de formado em Direito para se permitir a participação em concurso para juiz. Não se nega que o juiz tem que ter maturidade e experiência para exercer a magistratura; o que se questiona, entretanto, é que essas qualidades sejam necessariamente atributos da idade ou do tempo de formado. Há velhos imaturos e formados há muitos anos sem experiência alguma. A questão da maturidade e da experiência pode ser superada com vantagem pelas Escolas da Magistratura por meio dos cursos de preparação e estágio de vitaliciamento, cursos de aperfeiçoamento e outras providências. Por outro lado, as pesquisas revelam que a tal juvenilização não é assim tão grande. Apenas 11,6% dos magistrados brasileiros têm até 30 anos de idade; 35,5% estão na faixa de 31 a 40 anos; 31,5% entre 41 e 50 anos; 17,1% entre 51 e 60 anos; 4,7% entre 61 e 70 anos (pesquisa AMB/ IUPERJ). No Estado do Rio de Janeiro os números não discrepam neste ponto. Até 30 anos, 13,4%; de 31 a 40 anos, 32,8%; de 41 a 50 anos, 18,8%; de 51 a 60 anos, 20,2%; de 61 a 70anos, 13,5%. Nos últimos 10 anos a média de idade dos juízes fluminenses que ingressaram na carreira foi de 31,6 anos. O ingresso de jovens na magistratura tem como vantagem permitir ao juiz dedicar quarenta ou mais anos de efetivo trabalho à Justiça. A pesquisa realizada pela EMERJ revelou que a magistratura é a classe de servidores [p. 159] públicos que trabalha mais tempo e se aposenta mais tarde. A idade média de aposentadoria dos juízes é de 60 anos (entre os desembargadores 69 anos). O tempo médio de serviço dos juízes na época da aposentadoria é 41 anos (entre os desembargadores 48 anos). Mais de 15% dos juízes têm tempo para se aposentar, mas continuam trabalhando normalmente; entre os desembargadores 89% têm tempo para se aposentar, sendo que dos desembargadores que integram o Órgão Especial (os vinte e cinco mais antigos) 100% já poderiam estar aposentados. Os dados acima sublinham com veemência a integral e longa dedicação da magistratura ao serviço ativo, e que não tem como projeto profissional a aposentadoria. Levando-se ainda em conta o número de juízes que têm curso de pós-graduação (52,7%), sendo 21,0% de mestrado, 5,7% de doutorado e 18,4% de especialização, conclui-se que a magistrada fluminense é também detentora de elevado padrão jurídico. Em pesquisa divulgada pelo O Globo em 19.08.2000, o juiz brasileiro foi apresentado como tendo perfil conservador. Em outra pesquisa (O Globo de 17.08.2003),

Está correta a magistratura quando privilegia a justiça social porque essa é a ideologia. culturais. a justiça social deve prevalecer numa sentença. Mas o juiz. inclusive a opinião pública.1%. a razoabilidade. da hereditariedade e da educação. coordenada pelo Instituto de Estudos Econômicos. os valores consagrados pela nova ordem jurídica brasileira: a eticidade. mais do que respeitar contratos. nem pode fazer uma revolução social com a caneta. o juiz brasileiro é liberal porque contraria os seus interesses. Esse perfil foi considerado pela pesquisa como prejudicial à economia porque deixa os investidores temerosos. Sociais e Políticos de São Paulo (IDESC). 83. seguida pelo Código do Consumidor e agora pelo novo Código Civil. sociais. não pode estar avançando a seu tempo. Não é apenas uma decorrência do conhecimento jurídico do magistrado. Cláusulas contratuais abusivas não podem prevalecer. entretanto. A mesma norma recebe tratamento diferenciado de juízes e tribunais porque a decisão judicial . 42. mas esse próprio pensamento é socializado.6%. consciente ou inconscientemente. meio ambiente. para o sociólogo esse mesmo juiz é conservador porque não adota integralmente os seus pontos de vista sobre a questão social. senão norma jurídica interpretada. a1ertava Carlos Maximi1iano. 46. é condicionado pelas relações sociais e exprime uma comunidade de propósitos”. “inclina-se num ou noutro sentido de acordo com o seu temperamento. O indivíduo. Para o investidor e os agentes da área econômica em geral. por mais preocupado que esteja com a justiça social. 54. na formação da decisão judicial. o juiz brasileiro foi apresentado como tendo perfil liberal. é prevalecer o equilíbrio. [p. a ponderação. Crê exprimir o que pensa. a partir da Constituição de 1988. à boa-fé e à equidade. Circunstâncias pessoais. O certo. entre os magistrados de São Paulo. as mais relevantes e necessárias: trabalhistas. 160] Veja-se que na pesquisa do IPEA as áreas em que os juízes defendem prioritariamente a questão social em detrimento dos contratos são. produto do meio. não mais admite o uso abusivo do direito de forma contrária aos seus fins sociais e econômicos. Entre os juízes com menos de 40 anos. influenciam. Rio de Janeiro. o índice é de 70%. realmente. É por isso que se diz não existir norma jurídica.agora realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). a socialidade e a efetividade. Quem tem razão? Ninguém.7% consideram que. previdência. Rio Grande do Sul e Distrito Federal. Extremamente complexo é o processo de formação de uma decisão judicial. O nosso Direito. ideológicas.6%. tudo dependendo do ângulo pelo qual os resultados são analisados. uma vez que 78% dos magistrados preferem basear suas decisões em questões ligadas à justiça social do que no respeito aos contratos.

ignorando a realidade social subjacente. crenças da pessoa humana investida do poder jurisdicional. porque justiça e liberdade estarão limitadas ao juízo de valor de um juiz ou tribunal. até que ponto está subju1gado ao ordenamento jurídico em função de suas concepções pessoais? Essa é a grande questão. o perfil do magistrado não deve ser avançado. força maior. mas também voz da sociedade. terá que ser um canal de comunicação entre a sociedade e o mundo jurídico. dignidade da pessoa humana. Se o juiz abandona esse cenário. está sob a influência condicionante de uma série de fatores subjetivos e objetivos que não podem ser evitados. Neste ponto reportamo-nos ao que ficou dito no item 35. RDR nº 15. encastelando-se no formalismo. como boa-fé. pondo-se a emitir juízos totalmente desvinculados da ordem jurídica que lhe incumbe preservar. 1999). Por isso utiliza. Deve consultar o seu sentimento ético com o cuidado de não se afastar demasiadamente dos sentimentos médios da sociedade em geral e da comunidade jurídica em particular.-dez. REsp. É nesse sentido que se diz ser o juiz um coautor com o legislador. . como vimos. órgão do Estado. emoções. Ao mesmo tempo em que procura interpretar a consciência social. conceitos jurídicos indeterminados e cláusulas gerais. E sendo uma decisão humana. pondera o Ministro Carlos Alberto Direito. vu1nerabi1idade. embora fundado na lei.983/91). E a independência do juiz está. “ela não está. livre e social” (“A Decisão Judicial”. Em conclusão. crenças. deve dar eficaz aplicação à lei. 161] Nessa tarefa. nem conservador. Se o juiz. sentimentos. set. o juiz não é livre para fazer prevalecer o seu sentimento particular de justiça a ponto de estrapolar a moldura da lei ou de modificar os seus parâmetros. portanto. uma vez que o próprio legislador reconhece a impossibilidade de tudo ser nela previsto. para deixar de dizer o direito” (Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira. como qualquer ser humano. na sua capacidade de julgar com esses elementos que participam da sua natureza racional. no domínio da ciência ou da técnica. Isso permite ao juiz exercer o seu poder criador do Direito sem se afastar das diretrizes estabe1ecidas pela ordem jurídica. Deve o juiz obediência à lei mesmo que ela seja injusta? Já ficou destacado que o nosso sistema jurídico. por inteiro. uma decisão humana. [p. mas sim suficientemente flexível para ajustar a lei às condições concretas da sociedade. razoabi1idade. a sociedade não terá mais nem justiça nem liberdade. criando a justa regra jurídica para cada caso. essencialmente. “Não pode a justiça dar respostas mortas a perguntas vivas.é. n° 4. A decisão judicial é. não é inflexível.3 in fine. portanto. uma decisão que está subordinada aos sentimentos. O homem existe porque ele é razão e emoções. exatamente. eqüidade.

e envolvendo petróleo. começou em 1971. O juiz. 163] Mas se Bodourian foi à falência. corrupção e pressões políticas que. cujos dirigentes se reuniam periodicamente para elevar preços. pequeno atacadista de óleo diesel para aquecimento domiciliar. e um de seus sócios seria preso mais tarde por tráfico de dólares falsos. A transferência de Ceccaldi. sob o título “O caso Ceccaldi”. simplesmente. Tão curiosos. na verdade. Bodourian não era nenhum paradigma de honestidade. foi à falência em Marselha. como constataria mais tarde uma comissão de . em sinal de solidariedade a Ceccaldi. O Ministério Público. Irredutibilidade de vencimentos. a Defensoria Pública e o advogado. Todas essas acusações. a culpa. publicou a seguinte reportagem: Ao folhear o Diário Oficial francês do último dia 9 de maio. quando um certo Roger Bodourian. Ceccaldi deveria assumir as funções de procurador público em Hazebrouck. o juiz Etienne Ceccaldi verificou. que acabava de ser transferido. consternado. montar manobras de dumping.Capítulo XIII RAZÕES SOCIAIS DAS GARANTIAS CONSTITUCIONAIS DOS MAGISTRADOS A vitaliciedade: objetivo. resolveu que não iria. Abandonando a ensolarada cidade mediterrânea de Marselha. E. de 16 de junho de 1976. que publicaram certos detalhes curiosos sobre os processos a cargo de Ceccaldi em Marselha. na semana passada. falsificar condições de concorrências públicas e outras falcatruas do gênero. A revista Veja. onde se encontrava como juiz substituto. seus cheques sem fundo assolavam regularmente a praça. vila de 18. segundo ele. de fato . como o Ministério da Justiça insistisse. 1. na primeira grande greve de juízes da história da França. O ensino jurídico. um domingo. o caso acabou chegando aos jornais.300 membros do Sindicato da Magistratura cruzaram os braços. [p.000 habitantes perdida nas brumas da Normandia. A inamovibilidade. no extremo oposto da França. teria sido das grandes companhias petrolíferas.

Para desgraça do Ministério. Gaston Deferre. assinou um protocolo com as companhias petrolíferas. O caso Ceccaldi coloca em destaque vários aspectos da função de julgar que merecem especial atenção. Transferido para Lyon. Ceccaldi seria efetivamente removido de Marselha. Mas ficaram por isso mesmo. mas poderia escolher a promoção [p. nada mais natural que um dia se visse transferido de Marselha para um outro lugar.que logo depois. graças à intervenção do prefeito socialista de Marselha. chamado a Paris para uma reunião de doze horas no Ministério da Justiça. E o caso foi justamente parar nas mãos de Ceccaldi. se extraviou. em que estas se comprometiam a mudar seus métodos para salvaguarda da livre concorrência. que acabou mandando prender dezenas de policiais . obviamente. por exemplo. inclusive Paris. o Ministro da Justiça. então Ministro das Finanças. continuando seu trabalho. com 39 anos. Bodourian tinha iniciado também um processo na Justiça marselhesa. Em qualquer hipótese. independentemente de quem esteja nos pólos da relação jurídica processual. voltaram às mãos do mesmo Ceccaldi. as forças que pressionaram por seu afastamento terão triunfado. os autos foram miraculosamente encontrados quatro meses depois.várias delas misteriosamente fotocopiadas e reproduzidas nos jornais das últimas semanas . Ao mesmo tempo. Nessas condições. Pior ainda. com o caso Bodourian. 164] que bem entendesse em qualquer lugar da França. apenas em 1973 o presidente Valery Giscard d'Estaing. eram absolutamente verídicas. Para começar. Logo no seu primeiro posto. sua atividade não seria mais tranqüila.para que esquecesse numa gaveta qualquer o processo contra as companhias petrolíferas.dos juízes. Se não aceitasse. foi obrigado a entregar a seus superiores o processo . parecia inclinado a tentar uma solução de compromisso.inquérito do Ministério das Finanças. mas impermeável a certas sutilezas da vida política. examinou com tanta diligência um processo de prostituição. Obrigado na semana passada a aceitar a inédita humilhação de uma greve inteiramente ilegal. porém. A justiça deve ser distribuída de forma imparcial. além de suas reclamações inúteis junto ao Ministério das Finanças. Ceccaldi ignorou as inúmeras sugestões diretas e indiretas de seus superiores hierárquicos . porém. condenou um influente político governista por fraude fiscal. restaria apenas o recurso definitivo de ameaçá-lo com alguma remota possessão francesa de além-mar. Ceccaldi não tardou a convocar para depor 43 dirigentes das maiores empresas petrolíferas internacionais acusadas de abuso de poder econômico. com quatro filhos. assegurando-se o . Jean Lecanuet.inclusive o delegado mais conhecido da cidade. O problema é que. Em Marselha. Casado. E em 1974. ele já se notabilizara naquela época como competente.

Visam. política ou economicamente poderoso. p. muito embora tenham elas que prevalecer sobre a decisão de qualquer outra autoridade. Nenhuma autoridade ou potentado poderá ter meios de intimidá-lo ou de nortear. Para que. mas sim para tomar efetiva e eficiente a função de julgar. Essas garantias. Isto quer dizer que em hipótese alguma o chefe do Executivo Federal. 165] Em sua aplicação na vida cotidiana. Esta independência. representa o alicerce sobre o qual se erige a independência jurídica do juiz. não são para favorecer o juiz. pelo seu conteúdo e pela sua finalidade. que permaneça intocável a qualquer coação. que se ache liberto de qualquer pressão. sem aparato material para fazer cumprir suas decisões.pleno exercício de qualquer direito a todo aquele que efetivamente o tiver. ele não se deve submeter a nenhuma autoridade. mesmo de longe e veladamente. que nem sempre os pratos da balança da justiça têm peso igual. de acordo com a ordem jurídica existente. se essa pressão puder ser feita sobre o julgador. consoante a qual. 1970. entretanto. no exercício de suas atribuições. Os demais poderes estatais não podem ter sequer a possibilidade de exercer uma atuação indevida na órbita em que o magistrado atua. acima de tudo. 69. ainda que seja o Presidente da República ou o Governador do Estado. consubstanciadas na vitaliciedade. a fortalecer a independência funcional do Poder Judiciário. o Judiciário é um poder desarmado. o juiz possa fazê-lo em sã consciência. “essas garantias traduzem a independência de ordem política que o juiz deve auferir. e sua independência como Poder. A VITALICIEDADE O juiz. ao interpretar e aplicar a lei. 304). privilégios ou regalias da magistratura como muitos pensam. vêm das garantias que a Constituição lhe confere. [p. Por outro lado. a sua conduta. em princípio. Evidente que. ou Estadual (Presidente da . Às vezes. na inamovibilidade e na irredutibilidade de vencimentos. indispensável é. salvo à força e ao prestígio da própria Lei” (Rosah Russomano. de um lado da demanda está alguém influente. capaz de forçar uma decisão favorável ainda que o direito lhe seja totalmente contrário. bem como a integridade do regime democrático. a seu turno. não se deve subordinar a nenhum poder. a justiça não passará de uma farsa e toda a ordem jurídica ficará comprometida. Lições de Direito Constitucional. Surge então a questão: Como propiciar ao Judiciário as condições necessárias para julgar com imparcialidade e dar às suas decisões a força indispensável para que sejam cumpridas? A força do Judiciário no Brasil. não pode perder o cargo a não ser por decisão judicial. Acontece. portanto.

A INAMOVIBILIDADE O juiz não pode ser removido compulsoriamente de sua sede de atividade (comarca e vara). [p. o magistrado pode perder o cargo em virtude do exercício de qualquer outra função. Se isso pudesse ocorrer com o Judiciário. muito embora possa fazer isso com relação a qualquer funcionário público. Ninguém poderá ameaçá-lo por ser correto e fiel no exercício da sua função. de percentagens ou custas nos processos de sua competência. neste último caso. por julgar com imparcialidade e honestidade. salvo um cargo de magistério superior. 95. 93. seja a sua decisão contra quem for. no fato de certas autoridades dos mais elevados escalões.arts. I e parágrafo único. e a Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar nº 35. voltaríamos aos tempos medievais e a justiça não funcionaria.República ou Governador) pode demitir um magistrado. submeterem-se a todas as ordens ou decisões dos seus superiores hierárquicos. desde que. item II. A Constituição de 88 dispõe no mesmo sentido . por mais absurdas ou arbitrárias que sejam. ainda assim por decisão de dois terços dos membros. de 14. Seguro está o juiz de que. recebimento. integrantes de outros poderes. . salvo por motivo de interesse público e pelo voto de dois terços dos membros do seu Tribunal.1. Tratando-se de juiz. e o exercício de atividade político-partidária. 166] A importância dessa garantia pode ser constatada. visto que passou a ser adquirida somente depois de dois anos de exercício da magistratura (estágio confirmatório) e as hipóteses de perda do cargo tornaram-se mais numerosas. de abril de 1977.1979). poderá decretar a perda do cargo. jamais virá a perder o cargo. a qualquer título. O Objetivo da Vitaliciedade A razão ou objetivo da vitaliciedade é dar ao magistrado a segurança e tranqüilidade necessárias para que possa julgar sem sofrer qualquer pressão quanto ao seu cargo. letras a e c da referida lei. somente o Tribunal a que o mesmo estiver vinculado. 69. por contraste. a demissão seja precedida de inquérito administrativo para apurar falta grave. Após a Emenda Constitucional n° 7. 70.03. ainda que estável. VIII. De acordo com o art. 26. a vitaliciedade ficou um pouco mais limitada. simplesmente para não perderem o chamado “cargo de confiança”.

ou premiar outro com a remoção para um lugar melhor como meio de obter uma decisão favorável. diferentemente de qualquer outro funcionário público. [p. se os vencimentos dos magistrados não forem corrigidos monetariamente nos mesmos índices inflacionários. e passa anos e anos até chegar às comarcas de entrância mais elevada ou à capital. a inamovibilidade destina-se a garantir o exercício da função de julgar. 71. cumpre assinalar que a inflação pode fazer da irredutibilidade uma garantia totalmente irrisória. às vezes maior que os próprios vencimentos e que já passou a integrar o seu orçamento. normalmente. bastará que não se corrija adequadamente os vencimentos dos juízes para que em poucos anos estejam com os salários aviltados. Tal como a vitaliciedade. salvo na hipótese de interesse público. sempre ocupando os melhores e mais elevados postos os que mais dispostos estivessem a fazer tudo o que o “patrão” ordenar (e não a lei). não pode ser transferido do lugar onde exerce as suas funções. começa a sua carreira nas pequenas e longínquas comarcas do interior. acabariam a segurança. A partir da Constituição de 88 os vencimentos do funcionalismo em geral passaram também a ser irredutíveis. com fatais seqüelas para a sociedade. O juiz. Num país inflacionário como o nosso até bem pouco tempo. como sói acontecer em outros segmentos da administração. Nem mesmo é obrigado a aceitar uma promoção que implique em sua transferência. entretanto. ou da capital para o interior. . Todos os que exercem “função gratificada” sabem perfeitamente a que um servidor público se sujeita para não perder a gratificação. a irredutibilidade tem por objetivo não sujeitá-los a qualquer tipo de pressão econômica. numa completa dependência econômica do Executivo. muito embora estejam sujeitos aos impostos gerais e extraordinários. uma das formas mais eficazes de tirar a segurança e independência de quem quer que seja. Se fosse possível pressioná-lo com uma transferência compulsória para que viesse a julgar dessa ou daquela forma. a tranqüilidade e a imparcialidade do magistrado. A justiça passaria a ser uma barganha de lugares.Significa dizer que o magistrado. A IRREDUTIBILIDADE DE VENCIMENTOS Os vencimentos dos magistrados não podem ser reduzidos. A remoção do juiz. Nesse particular. Às vezes a transferência de uma cidade para outra. esperamos que não volte a sê-lo. significa castigo tão violento quanto uma demissão. só pode ocorrer com o seu assentimento expressamente manifestado. 167] Com relação aos magistrados.

a independência da magistratura é necessária para o povo.” Por último. pois tem independência. inamovibilidade e irredutibilidade salarial. uma fachada nobre para ocultar do povo a realidade das discriminações e das injustiças. mais deletério: solapam a dignidade dos juízes. que precisa de juízes imparciais para harmonização pacífica e justa dos conflitos de direito. a firme e autorizada posição de um dos mais consagrados juristas da atualidade. ser reduzida a uma farsa. o Legislativo e Executivo. Resumindo todas as considerações atrás expendidas. tem sido tão necessário e urgente entender. sendo esta. agem de modo subreptício e. Agora. O regime militar. . em sua preciosa obra O Poder dos Juízes (Editora Saraiva. com a colaboração reprovável de altos tribunais. A rigor. em seu pleno sentido axiológico e funcional. facilmente. poderíamos concluir com as palavras do Ministro Carlos Mário Velloso: “O juiz brasileiro tem tudo para julgar do acordo com sua consciência. uma necessidade da liberdade individual. mas por falta de caráter” ( O Globo.2000). a independência da magistratura. tal como hoje. não hesitou em suspendê-la. entretanto. ainda que mantida a aparên. O professor Dalmo de Abreu Dalari. porém. Com isto. o Professor Fábio Konder Comparato. Não se pode perder de vista. paradoxalmente. pois caso contrário nada significará a irredutibilidade. o juiz que se verga a interesses o faz não por falta de garantias. por isso mesmo. por sua vez. que as garantias constitucionais dos magistrados destinam-se. 168] cia de aparelhamento constitucional. 23.Necessário se faz também. simplesmente por ser inócuo proibir reduzir o que já nasceu reduzido. No Brasil. mas perderá a autonomia e a proeminência arbitral.” A isto acrescentou o jurista Raymundo Faoro quando ainda presidente da OAB: “O maior risco à integridade do Judiciário será convertê-lo em organização burocrática. pode-se afirmar que os juízes têm obrigação de defender sua independência. da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo: “Raramente na vida política brasileira. só reforçou. que seus vencimentos sejam compatíveis com as elevadas funções que exerce e a pesada responsabilidade que sobre ele pesa. para que o juiz não sofra pressões econômicas. 1996) acentua: “Longe de ser um privilégio para os juízes. Ele conservará a peculiaridade. em última instância. com o indisfarçado intuito de transformá-los em dóceis instrumentos de proteção às políticas governamentais. condição indispensável à proteção dos direitos humanos e à integralidade do próprio regime democrático. como estorvo ao programa de supressão das liberdades individuais.08. para representar interesses que essa própria estrutura organizacional lhe infundirá.[p. a autoridade do Poder Judiciário na consciência dos cidadãos. pois sem esta a atividade jurisdicional pode. a assegurar a independência do Judiciário. em seu tempo de fastígio.

como instituição essencial à função jurisdicional do Estado. na forma do art. 72. do art. cuja estrutura administrativa tem servido de modelo para outros Estados. a forma de selecionar os seus membros. em processo judicial ou administrativo. O MINISTÉRIO PÚBLICO. o inciso LV. Sem dúvida. a Defensoria Pública do Rio . Com relação ao Ministério Público. mesmo que contra os poderosos e influentes. dos necessitados. LXXIV. o art.“Ninguém ignora que a independência da magistratura é uma das mais importantes garantias do sistema de proteção aos direitos humanos. o triste espetáculo de uma involução institucional na defesa da dignidade humana” (Artigo intitulado “Juízes Independentes ou Funcionários Subordinados?”). em todos os graus. A Defensoria Pública é outra instituição da maior relevância para a boa aplicação do direito. 5°. no inciso LXXIV desse mesmo artigo. com os meios e recursos a ela inerentes. para que sejam preparados. Seria um verdadeiro escárnio se o nosso País. 169] maior importância social estabelecer as suas prerrogativas ou garantias legais. para que possa atuar também com segurança e independência. da [p. merecendo real destaque o Ministério Público. razão pela qual limitamo-nos a dizer que todas as questões levantadas em tomo do Judiciário são também pertinentes aos demais instrumentos humanos que atuam na ordem jurídica e merecem idêntica atenção. a assistência judiciária está entre esses meios e recursos. exatamente no cinqüentenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem. a Constituição impõe ao Estado o dever de prestar assistência jurídica integral e gratuita aos que provarem insuficiência de recursos. incumbem a orientação jurídica e a defesa. a Defensoria Pública e o Advogado. Com efeito. sem os quais não se pode fazer uma boa e regular distribuição da justiça. o defensor dos seus direitos. O Estado do Rio de Janeiro foi o primeiro a organizar a Defensoria Pública. quando não atua como simples fiscal da lei. A DEFENSORIA PÚBLICA E O ADVOGADO Além dos magistrados. basta lembrar que a sua função é altamente social pois é o advogado da sociedade. razão pela qual. portanto. outros elementos humanos atuam na ordem jurídica. desse às novas gerações de brasileiros. A despeito da sua dificuldade orçamentária e da má vontade de alguns governos. Reveste-se. eficientes. 134 da mesma Constituição estipula que à Defensoria Pública. 5° da Constituição assegura o contraditório e a ampla defesa aos litigantes em geral. cuja existência tem base constitucional. com a supressão prática de um Judiciário independente. Por fim. O objeto deste singelo trabalho não comporta maiores considerações a respeito.

O ensino do direito em nosso país tem sido duramente criticado nas últimas décadas.08. 59% dos estudantes brasileiros não conseguem ler mais do que frases simples. assistência a crianças e adolescentes. Os estados também. Para ele. elas funcionam precariamente. com raras exceções. Ao concluir a 4ª série do ensino fundamental. seguem o mesmo exemplo: oito não criaram defensorias e. O ENSINO JURÍDICO Quanto ao advogado. E aí está outra grave causa da morosidade da justiça. é um paradoxo que a União tenha celebrado convenções internacionais com Holanda. Menos de 1% dos alunos das escolas públicas conseguiu tirar mais de 70 (O Globo. A defesa dos necessitados é uma tarefa que a União sempre se recusou a cumprir. Lamentavelmente. mas hoje penso diferente.vem prestando extraordinário serviço às comunidades carentes. ela não tem condições de defender nem os interesses dos cidadãos brasileiros mais necessitados (O Globo. não obstante os dispositivos constitucionais existentes. O último Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM). O Ministro Celso de Mello. [p. ex-presidente do Supremo Tribunal Federal. em outros. E o problema já vem do ensino fundamental. temos como certo que uma das questões de maior relevância diz respeito ao seu preparo profissional. Cerca de 70% dos processos da área criminal e 50% das varas de família são patrocinados pela Defensoria Pública.11. Dos 1. desde que a reforma não fique no papel.2000). sem o que o funcionamento do Judiciário seria impossível em certas áreas e lugares. Quando o assunto é . reprovou o ensino médio no país. população carcerária. 13. Pela deficiência de quadros. Já fiz parte desse grupo.2002). Bélgica e Argentina. o que será muito bom. lamenta o desinteresse do poder público pela Defensoria Pública. 74% tiveram notas abaixo de 40 numa escala de zero a cem. A Defensoria Pública não funciona melhor por falta de disposição política do Executivo e entraves burocráticos. a Defensoria Pública não passa de uma ficção em nível federal. 170] Fala-se no momento que a Defensoria Pública é um dos itens prioritários da reforma do Judiciário. 73. Tem ela ainda importante atuação na defesa dos direitos humanos e dos consumidores. é até apontado como o grande responsável pelo rebaixamento do nível profissional das carreiras jurídicas. A crise é muito mais profunda. vítimas de maus tratos.3 milhões de estudantes que fizeram o ENEM. 14. pelas quais se compromete a dar assistência jurídica gratuita aos cidadãos desses países por meio da Defensoria Pública. cujo resultado foi divulgado em novembro de 2002.

Entre os que tiveram resultado adequado à sua série. a maioria dos jovens brasileiros entre 15 e 16 [p. atrás do México e da Letônia. ficou em último lugar. 25.matemática. Esse baixo desempenho do nosso ensino fundamental e médio. 23. Em resumo. 60% dos alunos com avaliação adequada estão em escolas particulares e 98% daqueles com resultados muito críticos estudam em escolas públicas (O Globo. que analisou o nível de compreensão leitora (letramento) de alunos secundaristas de 32 países. Os fatores convergem para esse ponto comum. considerada uma das maiores autoridades do assunto na América Latina e Professora da Universidade de Minas Gerais. mas principalmente o magistério e as . Esse é o diagnóstico da educação brasileira apresentada pelo próprio Ministério da Educação (22.2003). Na visão da doutora em educação Magda Soares. Entre os estudantes de 4a série. onde as coisas acontecem. “A raiz do problema está na sala de aula. além de incentivar esses profissionais com o pagamento de salários dignos e justos” (Entrevista ao jornal A Tarde. Deve-se investir na formação dos educadores.pesquisa feita entre os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. O Brasil. Indagariam os leitores: mas o que o ensino fundamental e médio tem a ver com o ensino jurídico? Tem tudo a ver. como já salientado. 52% deles mal consegue decifrar uma operação simples de somar ou subtrair. também não se pode ministrar um curso superior de alto nível a quem não tem sólida formação educacional média e fundamental. O fracasso do ensino médio e fundamental em nosso país prejudica a formação de todas as profissões que exigem nível universitário. O Brasil ficou em último lugar no Pisa2000 . mas é incapaz de decodificar seus significados. Salvador.Programa Internacional de Avaliação de Estudantes . a formação deficiente dos professores é a principal causa desse vexame.04. É lá que os professores têm que desenvolver nos alunos as habilidades para compreender textos e utilizar conhecimentos adquiridos. O ensino superior é o acabamento de um processo educativo que começa no berço.2003). E assim como não se pode colocar telhado onde não há alicerce nem paredes. 98% dos que tiveram avaliações consideradas muito críticas estudam em escolas públicas.2003) com base em dados do Sistema de Avaliação do Ensino Básico desde 1995. No fim do ensino fundamental. promover constantemente cursos de atualização e reciclagem.04. O foco deve ser em cima dos responsáveis pela transmissão do conhecimento: os professores. principalmente nas escolas públicas. levou a outro resultado alarmante.4% dos alunos estão no nível adequado para a série. 171] anos é analfabeta funcional: sabe ler as palavras.05. 44% estavam em escolas privadas. Só 4.

Como não há vantagem alguma em se usar um método exclusivamente prático nem outro predominantemente teórico. Caio Tácito: “Numa sociedade estável é compreensível que os professores de Direito se limitem a preparar os alunos mediante estudos sistemáticos dos institutos e normas existentes. pois o direito. ainda que excelente. Com muita propriedade. precisam ter tirocínio e raciocínio. de modo a privilegiar mais íntimo entrelaçamento entre a teoria e a prática. compreender e usar aquilo que se lê.” . familiarizando o jurista com os pressupostos da norma jurídica e habilitando-o a solucionar e compor as controvérsias e os conflitos de interesses. Defensores e Advogados). E a leitura e a escrita. perde sentido o preparo.carreiras jurídicas (Magistrados. O curso de Direito não visa preparar o rábula. embora seja [p. porém. que tem produzido resultados satisfatórios. ao sair da faculdade. nem o jurista esotérico afastado da realidade: deve ser suficientemente teórico para insuflar no discente o conhecimento geral da ciência jurídica. a maioria cursou o fundamental e o médio em boas escolas particulares. Procuradores. acentuou o Prof. dotados de um sentido de permanência. 172] uma ciência teórica quanto ao modo de estudar e saber. Para suprir a deficiência muitos cursos de Direito incluíram em seus currículos o estudo do português jurídico (linguagem argumentativa que ensina a organizar o pensamento para. propriamente dito. No que diz respeito ao ensino do Direito. se instaura um processo mais ou menos constante de revisão legislativa. iniciativa da maior relevância. sempre que possível. dizer o que as coisas são). são desenvolvidas entre os 4 e 10 anos. Logo. de forma lógica e coerente. é eminentemente prático quanto ao fim. harmonizar o ensino teórico com o prático. Mais que as outras. senão único. e suficientemente prático para que o bacharel. Quando. Tanto é assim que. capacidade de ler. de tal forma que se transmita uma cultura jurídica suscetível de ser revogada por uma lei nova. segundo os técnicos em educação. O verdadeiro. entendemos ser necessária uma mudança metodológica. não se pode conseguir ótimos resultados se a formação do estudante no primeiro e segundo graus foi deficiente. cumpre pois. sendo muito difícil depois disso recuperar essa capacidade. no Direito consagrado. objetivo válido da preparação científica e profissional do advogado (entendida a expressão em sentido amplo e não apenas forense) é o do relacionamento entre a lei e a realidade social. Ministério Público. por melhor que seja o ensino jurídico. dos aprovados em concursos públicos. essas profissões dependem do completo domínio da língua. não se sinta perdido e incapaz de dar os primeiros passos na vida forense. exprimindo as alternativas de transformação da sociedade que o Direito disciplina.

preparar o estudante para resolver problemas.” Cremos que. rápida e equilibrada. o alvo da educação atual deve ser a conquista do raciocínio jurídico.Em suma. preparados para enfrentar até mesmo o imprevisível em face da rapidez com que as normas jurídicas tendem a se modificar. por sua clareza. que vem a propósito de tudo aquilo que até aqui se afirmou: “Dá um peixe a um homem e matarás a sua fome por um dia. . dando tratamento jurídico aos fenômenos sociais. mediante informações e conhecimentos. fixar princípios através do exame de casos atuais. Gabriel Lacerda. lembrado pelo Prof. ensina-o a pescar e o alimentarás para o resto da vida. o provérbio dispensa maiores comentários. mediante um ensino teórico e prático que os capacite efetivamente para o exercício da advocacia. e a justiça poderá ser distribuída de forma mais eficiente. Dessa forma poderemos ter advogados competentes. como vem fazendo o ensino jurídico tradicional. É preciso ensinar-lhes a pescar. e não simplesmente o domínio do direito positivo e da doutrina jurídica. Há um provérbio chinês. Não basta fornecer peixes aos alunos ou indicar-lhes o mar.

A. O sentimento coletivo de justiça. não existe uma opinião pública. assinalar que se trata de algo extremamente impreciso e mutável aquilo que se denomina opinião pública. A opinião pública sobre as instituições jurídicas. mas sim diversas correntes de opinião. CONCEPÇÃO DE OPINIÃO PÚBLICA De forma simples e sintética. É o juízo coletivo adotado e exteriorizado por um grupo. A rigor. 157). entretanto. Importância da opinião pública. Essas correntes de opinião. O poder da mídia na formação da opinião pública.. . coexistentes sem conflito ou contraditórias em graus diversos. **** Chegamos agora ao terceiro item da classificação proposta por Renato Treves para o objeto da Sociologia Jurídica: Estudo da Opinião Pública sobre o Direito e suas Instituições. Cumpre. p. apresentam certos traços gerais e algumas tendências uniformes. desde logo. compondo um universo de opiniões que se manifestam em determinado momento e lugar. 74. podemos afirmar que opinião pública é o pensamento predominante do grupo sobre uma determinada pessoa ou questão.Capítulo XIV A OPINIÃO PÚBLICA Concepção de opinião pública. como muito bem observou F. nem sua síntese. [p. A opinião pública sobre o direito e sua utilidade social. concorrentes ou divergentes. 175] Esse pensamento coletivo a que nos referimos não é a soma de todas as opiniões particulares. de Miranda Rosa em sua obra Sociologia do Direito (2ª ed. 1973. mas sim o resultado mais ou menos estabilizado dos processos sociais gerais. formando afirmações de natureza majoritária ou predominante.

quando em grupo. como o de amarrar um mendigo ao poste e matá-lo a pauladas. Na química. Tudo que atrás ficou exposto pode ser claramente constatado mediante simples comparação entre o comportamento individual e o coletivo. Os indivíduos formadores da sociedade não desaparecem. o oxigênio e o hidrogênio deixam de existir como substâncias isoladas a partir do momento da síntese. Embora a idéia de síntese não deixe de ser verdadeira. do revolucionário etc. da formulação de G. portanto.o Coletivo. Para Tarde.o Social. no comum das circunstâncias. 176] “fogo”. uma natureza de ordem psicológica. o coletivo. as parcelas e o resultado têm de ser da mesma natureza. daria um composto novo e diferente . do gênio. como soma. como . resultado mais ou menos estabilizado dos processos sociais gerais. Os elementos componentes seriam de natureza psicológica. que o coletivo não é a soma dos indivíduos nem é a síntese de todos: é um novo produto. pois. a sua síntese. um modo de ser adjetivo derivado da vida individual. o comportamento do indivíduo. não anula a vida individual. indagava. a realização da síntese anula e faz desaparecerem os elementos componentes. Se tirarmos os indivíduos da sociedade. já que só se pode somar quantidades homogêneas. como os elementos de que se compõe.Ocorre com a opinião pública algo semelhante ao que ocorre entre a sociedade e o indivíduo. toma-se falha quando levada a exageros. levando-o a fazer coisas de que jamais se imaginou capaz. ao propor a substituição da palavra Soma. e. mas o seu conjunto. para darem lugar à água. apenas formam uma realidade nova . pode mudar profundamente. imediatamente ocorrerá um tumulto tão grande e desesperado que acabará ferindo e matando mais gente atropelada e pisoteada do que queimada pelo próprio fogo. normalmente se empenhará em apagá-lo buscando auxílio de outras pessoas. que em muitos casos se conserva tão independente que pode assumir figuras variadas do anti-social. a sociedade não passa de mera soma de consciências individuais. À essa tese psicológica e nominalista se opunha Durkheim. Em razão de determinados processos sociais. como no caso do delinqüente. Ora. Mas se estiver em um teatro ou cinema e escutar alguém gritar [p. Tarde. Salvo hipóteses excepcionais de massificação coletiva. A multidão em tumulto é capaz de cometer os mais hediondos crimes. o que restará? Ele próprio responde: nada. Isso evidencia. uma nova realidade. por Síntese. Se alguém estiver sozinho em casa e observar que algo está pegando fogo. isso não ocorre na síntese social. Exemplo: na formação da água (H20). A sociedade seria. tomada de empréstimo à terminologia química.

pp. que se sensibiliza por algum motivo. é o grande formador da opinião pública. a mídia como um todo. coisa semelhante ocorre com a opinião pública: não é a soma nem a síntese da opinião de todos: é um novo produto. que vão se sedimentando e. Idéias. provoca uma espiral ascendente e de dimensões crescentes. vai se formando a opinião pública. comunicando-lhe e intensificando o processo de estimulação que se repete. sem dúvida. via de regra. 177] No que diz respeito aos instrumentos. nas palavras de Donald Pierson (Teoria e Pesquisa em Sociologia. Tal é a sua força que até é chamada de quarto poder. Conforme já assinalado. consciente ou inconscientemente. E Willems (Dicionário de Sociologia. e os poderes de natureza econômica e sociológica. 13ª ed. às influências dos demais. até então. assim. transformam-se em conversação quase que diária. O Poder tem várias formas: os poderes constitucionalmente instalados. condutas e informações são lançadas na coletividade. consciente ou inconscientemente. é um processo lento de sedimentação da vontade popular. Representa a tendência geral. ao determinar respostas também recíprocas.1. Trata-se em última instância de uma reciprocidade de estimulação que. começam os comentários no círculo primário (família. implica que cada um dos indivíduos em apreço responde. irrepreensível. O Poder da Mídia na Formação da Opinião Pública Como se forma a opinião pública? Quais os instrumentos eficazes para esse fim? A formação da opinião pública. exerceu e recebeu dos demais. A mídia é. um poder em sua concepção sociológica. um modo de ser decorrente da opinião de cada indivíduo e das influências que cada um. Globo. de qualquer tipo. que é uma forma de estimulação recíproca pela qual a reação de um indivíduo reproduz o estímulo que recebeu de outro indivíduo. 74. uma nova realidade. Legislativo e Judiciário. 223-224). 286) explica o mesmo fenômeno falando em reação circular. trabalho.aconteceu anos atrás em um subúrbio do Grande Rio. mas não é necessariamente a opinião de todos os membros nem a opinião de qualquer pessoa em particular. [p. É que o comportamento coletivo. escola etc. que se exercem pelo Executivo..). não só porque o . Porto Alegre. p. a imprensa escrita e falada. muito embora fossem todos os componentes do grupo pessoas pacatas e de comportamento. implica que o comportamento de cada indivíduo que dele participa não está inteiramente sob controle individual.

a opinião pública. é tratada de tal forma que já vem comentada. além daquele estritamente jornalístico. Poder que penetra nas casas. mas também que eles pensem como pensamos. tornando-se mercadoria.poderoso sistema de comunicação de massa possa eventualmente derrubar um mandatário político. pode-se dizer que o jornalismo brasileiro evoluiu nos últimos dez anos e muito contribuiu para a fiscalização da gestão pública. 5ª ed. também podemos levar as pessoas a fazer o que queremos. muitas vezes. No mínimo vem embalada da maneira que melhor atinja os interesses dos detentores do poder. Observa Ana Lúcia Sabadell que a mídia. até os mais longínquos pontos do país. ao desejo inato de conquistar aprovação e simpatia. A grande problemática é que a imprensa brasileira tem muitos outros interesses. que alcança palacetes e favelas. nos países de livre manifestação de . Entretanto. mas também e principalmente. pode-se fazer com que alguém faça o que deve ser feito. “dá particular destaque aos problemas e escândalos (exemplo: corrupção de juízes) e nunca noticia o cotidiano normal do sistema jurídico”. premiando. contribuindo decisivamente para que ela se torne cada vez mais transparente. no que se refere à Justiça e seu funcionamento. ricos e pobres. persuasiva. Punindo. “é a um tempo criadora e modificadora poderosa do comportamento social”. por meio de uma linguagem emocional. Rev. Baseada na importância que dão todos à crítica. Pois esse é o poder da mídia. 181). 178] 75. no seio das famílias. explícita ou implicitamente. A forma implícita é a mais grave porque o comentário acaba virando notícia. escreve com propriedade Carneiro Leão (Fundamentos da Sociologia. sem contestação. o que contribui para a formação de uma opinião estereotipada e sensacionalista (Manual de Sociologia Jurídica. Ed. Costuma-se dizer que existem três formas de poder efetivo: o poder de punir.. dos Tribunais. Há até quem fale em liberdade de empresa e não em liberdade de imprensa. 175). p. porque tem o poder de condicionar. podemos não somente fazer que os outros façam o que queremos. condicionando. E ainda convencidos de estarem pensando por si próprios. e isso faz com que a informação nem sempre seja fidedigna e confiável. Dessa maneira a notícia acaba. A mídia sempre esteve próxima do poder estatal e econômico. p. colorida. que é a tarefa própria do Poder Judiciário. cativante. o poder de premiar e o poder de condicionar. IMPORTÂNCIA DA OPINIÃO PÚBLICA “A opinião pública”. cultos e ignorantes. [p.

85). não se dá atenção à opinião pública no que diz respeito a tais questões. 179] No campo do Direito. vivem de olho nas pesquisas feitas sobre a preferência do eleitorado. lamentavelmente. como órgão de informação e formação de opinião pública. tanto as empresas como os políticos mantêm grupos cuja missão consiste em pesquisar e despertar a simpatia do povo para suas atividades. Por isso. O efeito maciço de uma tomada de posição feita por milhares ou milhões de pessoas. ou pelo menos não tê-Ia contra. Os programas de televisão vivem fazendo pesquisa de opinião pública para saberem como agradar o público e merecer a preferência de audiência. pode derrubar do poder quem lá se encontra e colocar outro. fruto de condicionamentos sociais.pensamento. tanto quanto possível aproximado da realidade e com previsões a respeito de suas tendências e da evolução provável. [p. 76. Davis (A Sociedade Humana. agindo em caráter particular. tem a opinião pública especial importância para a Sociologia Jurídica porque age como um verdadeiro termômetro. p. O SENTIMENTO COLETIVO DE JUSTIÇA Há em todo indivíduo. pode atingir enormes proporções. do justo e do injusto. É em razão disso que. para serem lembradas na hora em que se vai às compras. pode dar início à guerra ou levar à revolução. produtos ou empreendimentos. Dúvidas não temos em dizer que nossa legislação é hoje tão ineficaz. constitui elemento decisivo de interação social. é indispensável ao estudo de qualquer ciência social. revelando ao legislador e demais autoridades que atuam na ordem jurídica a temperatura social em tomo de questões sociais relevantes e indicando as mudanças que precisam ser feitas nas leis e nas instituições jurídicas. mesmo . As empresas vivem oferecendo seus produtos através das propagandas mais atraentes e sofisticadas possíveis. Isto tudo evidencia que o conhecimento da opinião pública. um sentimento acerca do certo e do errado. Os políticos. a primeira verificação da opinião pública que se impõe realizar é no que concerne ao sentimento coletivo de justiça. quando as eleições se aproximam. do bom e do mau. porque sabem que para chegar ou manter-se no poder precisam ter o apoio da opinião pública. pode fazer de um anônimo um herói ou do herói um vilão. porque no Brasil. e nossas instituições tão mal estruturadas e aparelhadas. De forma específica. A mudança de gosto público pode arruinar uma indústria ou enriquecer outra. Daí a grande força que possui a imprensa escrita e falada. como muito oportunamente lembrou K.

A correção dessas distorções. sem prévia consulta à opinião pública a respeito da matéria legislada. garantidoras da validez e eficácia das normas. ou a distância entre a desaprovação da norma jurídica acerca da con[p. abrange necessariamente o das normas existentes. é certo etc. produtoras de efeitos negativos. Tal conhecimento proporcionaria também ao legislador as condições adequadas para fazer as modificações necessárias na legislação vigente. bem como o afastamento de outras no futuro. no qual se baseia a sociedade para estabelecer seus padrões de comportamento . Freqüentemente fala-se em leis injustas. passado o impacto. poderiam ser conseguidas mediante o prévio conhecimento do sentimento coletivo de justiça. Leis injustas existem. Ao legislador especialmente importa conhecer o sentimento coletivo de justiça. A. 180] duta e a desaprovação que o consenso ético-social impõe à mesma forma de comportamento. Também abarca a maneira como a opinião do público se manifesta sobre o comportamento ilícito. as pessoas afirmam com veemência: isto é uma injustiça.sem nunca ter estudado direito ou tocado a mão em um compêndio de leis. Baseado nos resultados de diversas pesquisas feitas. Nem sempre fazer justiça consiste na simples aplicação da lei. imediata. exatamente porque foram elaboradas ao arrepio dos interesses sociais. adequadas aos interesses e conveniências sociais. muitas normas existentes tomaram-se vazias de conteúdo social. de Miranda Rosa. já que. isto é justo. principalmente no mundo econômico. Fala-se até em pena de morte. faz com que a opinião pública se incline no sentido de exigir uma justiça mais severa. para que possa elaborar leis justas. prisão perpétua e outras penas mais severas. porque afastadas do sentimento coletivo de justiça. de tempo para tempo e de lugar para lugar. sua adequação ou não ao que é tido como justo. perderam a razão de ser. conforme já demonstrado quando falamos dos efeitos negativos da lei. sobretudo na Europa. mas. a aprovação social das sanções que o Direito estabelece. é possível afirmar que o sentimento de justiça varia em suas manifestações. Assim como há um sentimento individual de justiça. Um crime grave. muito embora não estejam ainda suficientemente explicadas as relações motivadoras das diversas gradações ou formas em que esse sentimento se apresenta. frente a determinadas circunstâncias. com as variações do sentimento coletivo de justiça de tempo para tempo. repressiva.É aquilo que se tem chamado de consciência jurídica da população. O exame do sentimento de justiça. há também um sentimento coletivo. escreve F. uma vez que nem tudo que é legal é justo. cuja aplicação vem causando profundo desequilíbrio social. um escândalo financeiro ou político. . muda-se a opinião. ficando ineficazes.

Se for feita uma pesquisa sobre a importância dos tributos e a necessidade de sua arrecadação. Por que tem o Direito uma imagem tão distorcida da realidade? Conhecendo as causas que levaram a opinião pública a se formar de modo tão averso ao verdadeiro objetivo do Direito. sem a arrecadação dos tri. por exemplo. ou ainda sua correta aplicação como instrumento de ordem social.. mas em nível interindividual há descrédito subjacente na justiça. Todos compreendem que não é possível atender às despesas da administração pública com educação. Para muitos o Direito não passa de simples meio de se valerem os mais fortes da máquina estatal. Neste ponto. IPI. saúde. pois O Estado normalmente não gera recursos. embora seja o Direito considerado e aceito como forma mais eficaz de controle social em sua organização e aplicação. gaboleiam-se de terem conseguido escamotear milhões de imposto. diga-se de passagem. sofre questionamento da opinião pública quanto à sua eqüidade. para as normas que estabelecem a obrigação tributária. entretanto. apenas os administra em prol da coletividade. já é comum encontrarmos pessoas que. Na hora de pagar o tributo. ISS. relativo às condições de classe social. 181] butos. e que isso ocorre com grande freqüência. A sociedade global acredita no jurídico como algo indispensável à coesão e à sobrevivência grupal. a fim de se procurar modificar . O mesmo ocorre com o ICMS. Outros entendem que ele se presta a manobras que o desvirtuam completamente. Crêem os grupos que a justiça é fenômeno dependente. estradas etc. e um estudo minucioso das causas. uma pesquisa profunda da opinião pública em tomo do assunto por parte do fisco. ver-se-á que a maioria do grupo entende necessário o pagamento dos impostos para a consecução de objetivos sociais. contra os oprimidos de todos os tipos. existem posições conflitantes. embora normalmente honestas a ponto de não tirarem um centavo de ninguém. Com efeito. por exemplo. A OPINIÃO PÚBLICA SOBRE O DIREITO E SUA UTILIDADE SOCIAL Outro aspecto da opinião pública de interesse sócio-jurídico é aquele que diz respeito à conveniência ou utilidade social do Direito. ninguém gosta e procura esquivar-se. não seria possível eliminar algumas dessas causas e reconquistar a opinião pública? O que acima ficou dito é de fácil demonstração quando atentamos.[p. Em matéria de Imposto de Renda. Por que essa aversão generalizada ao pagamento dos tributos? Por que essa idéia já arraigada no sentido de não se considerar desonesto fraudar o fisco? Por que essa oposição ou resistência às normas tributárias? Caberia.77. ao nosso ver. conforme constatado através de pesquisas realizadas em vários países. segurança.

Do ponto de vista social. acredito que ninguém conteste a necessidade de tal taxa. o que sem dúvida facilitaria o trabalho de arrecadação e fiscalização. Talvez o povo não tenha confiança na Administração. objetivos. quando anos atrás a taxa começou a ser cobrada. eis que o lixo de uma grande cidade tem que ser recolhido diariamente e com eficiência. forçando-o a fraudar. 78. gente e material. Em nossa maneira de ver.as coisas para o futuro. critérios de fixação. sob pena de se tomar impossível a vida. Os inconvenientes de se deixar de contatar e esclarecer a opinião pública acerca de questões tributárias podem ser demonstrados com a chamada taxa do lixo. facilitando a arrecadação. sendo a taxa exatamente para tal fim. A OPINIÃO PÚBLICA SOBRE AS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS Aquilo que o público em geral pensa a respeito das instituições jurídicas é outro aspecto da opinião pública de interesse para a Sociologia Jurídica. necessidade. houve uma tremenda reação do público. o que seria evitado mediante amplo esclarecimento das obras realizadas. o que em muito prejudicou a arrecadação. [p. ensejando milhares de ações judiciais. podendo-se arrecadar mais com menos esforço. dos serviços executados etc. pois com base em tal . antes do lançamento da taxa do lixo. O fisco deveria engendrar meios de alcançar com suas malhas os de maior capacidade econômica. 182] Contudo. exigindo do contribuinte excessivo encargo tributário. É evidente que para a coleta desse lixo é necessária uma estrutura empresarial. muito além de sua capacidade. em que se procurasse dividir de forma mais equânime as obrigações tributárias de modo a não incidirem sempre sobre os mesmos. o que poderia ser evitado mediante um esforço de reconquista da confiança pública. como no caso do Imposto de Renda que sabidamente recai mais direta e pesadamente sobre os assalariados por sofrerem o desconto na fonte. isso tudo poderia ser evitado se. a opinião pública fosse esclarecida a respeito de suas causas. Talvez o povo não esteja suficientemente esclarecido sobre o destino dado pela Administração Pública ao dinheiro arrecadado através dos tributos. aliviando a sobrecarga dos assalariados. de pescar também o peixe grande do comércio e da indústria. Talvez as leis tributárias sejam mesmo extorsivas. bem como a realização de um serviço organizado e sistemático. o que poderia ser evitado mediante a reformulação do sistema tributário. não acredite que o dinheiro público esteja sendo honestamente empregado.

ou sua vulnerabilidade às influências dos mais bem atendidos na divisão da riqueza social. sob pena de se tomar a instituição totalmente irrecuperável. ineficaz. O resultado das pesquisas realizadas sobre o funcionamento do sistema judiciário não é nada animador. Há uma boa parcela da opinião pública que entende serem os tribunais ou os juizes influenciáveis pelos poderosos. sua docilidade diante do poder. tem uma imagem negativa de seus operadores. 183] . e. não confia na justiça. Se realmente estivermos empenhados em recuperar o Judiciário. não em segredo de justiça como se pretendeu fazer em 77/78. o sistema carcerário etc. ou passíveis de corrupção. do seu grau de incidência. ou confia muito pouco. portanto. o Ministério Público. mas sim com base em ampla pesquisa da opinião pública e mediante ampla contribuição de todos os segmentos sociais relacionados com o mundo jurídico. tudo é justiça: a polícia. de modo a alcançar seus objetivos sociais. a Defensoria Pública. sem credibilidade. Quando a opinião pública se forma no sentido de considerar uma determinada instituição deficiente.opinião é possível saber se as instituições estão ou não funcionando satisfatoriamente. Urge igualmente um estudo das causas. sob pena de uma desmoralização cada vez maior da instituição. das repercussões sociais que produz a opinião que predomina no que tange à imparcialidade dos órgãos judiciais. então é alto tempo de se procurar saber onde estão as causas dessas deficiências e de se realizarem as mudanças necessárias. parciais. assunto este da maior gravidade e a merecer uma especial atenção. então será necessário fazer-lhe as reformas necessárias. A população não possui bom conhecimento do sistema jurídico. acredita que só pobre vai para a cadeia. [p.

nas sociedades contemporâneas do tipo primitivo e nas sociedades desaparecidas. recursos. São os meios. ainda que de forma sucinta. 79. de que dispõe uma ciência para realizar seu objeto. CONCEITO DE MÉTODO Método é o meio mais racional e eficiente para se atingir um fim desejado. cujas regras foram enunciadas por Durkheim em celebrado estudo. Para tanto. O método utilizado pela Sociologia Jurídica. para não fugirmos aos objetivos deste singelo trabalho. genérico. dos processos e técnicas de trabalho empregados pela Sociologia Jurídica na investigação e realização do seu objeto. **** Após termos tratado do objeto da Sociologia Jurídica. toma-se necessário estabelecer. A interpretação. devidamente organizados e coordenados. instrumentos e atividades. desde logo. como já afirmamos. mas sim. É o conjunto [p. Convém esclarecer. no estudo de qualquer ciência é indispensável estabelecer o seu objeto e definir o seu método. vamos agora dedicar este capítulo ao exame do seu método. pois. A observação: nas sociedades contemporâneas do tipo moderno. nem do chamado “método sociológico”. abrangente. 185] dos meios ou processos dispostos convenientemente para . É o caminho utilizado para a realização de um objetivo. um conceito de método. A comparação.Capítulo XV O MÉTODO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA Conceito de método. que não vamos tratar aqui dos métodos que são adotados desde as formações doutrinárias e teóricas da Sociologia.

nas mesmas 24 horas do dia. [p. basta que se diga ser ele indispensável no desempenho de qualquer atividade que se propõe a alcançar algum objetivo. Os simples serviços domésticos realizados pela donade-casa. ou para comunicá-lo. O estudante que não tem método nos estudos (deixa para estudar somente na hora das provas) nunca será um bom estudante. pp. Por isso torna-se desnecessária qualquer discussão em torno do uso do termo “método”. pode até tirar boas notas. já está generalizado o uso do termo “método” para indicar os processos e as técnicas empregados na investigação social. levam muito a sério a questão relacionada com organização e métodos.alcançar um fim. o método jurídico. e outras quase nada conseguem. pode-se afirmar com segurança. podemos dizer que método é maneira eficiente de fazer as coisas. está justamente no fato de as primeiras serem pessoas metódicas. As empresas industriais e comerciais dos nossos dias. pois. Estuda para passar de ano. A razão pela qual algumas pessoas. Quanto à importância da utilização de um método. que não teria a Sociologia Jurídica condições de realizar os seus objetivos sem desenvolver as suas atividades de forma metódica. interpretação e comparação. reunião dos meios que se empregam nas ciências para achar a verdade. que já fazem parte das matérias estudadas no curso de Administração. acabam se revelando deficientes. 186] . Vê-se. Trocando isso tudo em miúdos. O MÉTODO UTILIZADO PELA SOCIOLOGIA JURÍDICA Segundo Levy Brühl (Sociologia do Direito. como têm feito alguns. não é muito diferente do utilizado nas ciências sociais em geral e pode ser resumido em três operações principais: observação. desde a mais simples à mais complexa. e especialmente para chegar a um conhecimento científico. suscitando debates por entenderem não ser próprio o vocábulo para descrever as operações intelectuais realizadas pelo investigador ainda na fase da observação propriamente dita. mas não para aprender. 97-114). propondo em lugar de “método” a palavra “processo”. 80. é modo racional de proceder. mas pouco aproveitamento tirará dos estudos. tomado o termo em seu sentido mais amplo. o método utilizado pelo jurista. conseguem fazer tanta coisa. para conseguirem realizar os seus objetivos. se não forem executados com método. Hoje.

80. cinema.. esporte. o estatístico etc. Nas sociedades contemporâneas de tipo moderno a observação é bastante fácil. conjectura uma solução provável. adotar uma postura de observador. a ponto de não se conseguir dominá-las completamente. onde os estudiosos do problema criaram uma verdadeira Sociologia Experimental baseada no survey (inquérito). como por exemplo o inquérito. política etc. coleta os dados. fundador da Escola de Ciência Social e do método monográfico. c) sociedades desaparecidas. a fim de conhecer a realidade social através de suas manifestações concretas. divórcios etc. como os processos. por exemplo. separações judiciais. 187] feiçoada nos Estados Unidos. saber quantos casamentos. Quem primeiro usou esse método cientificamente na Sociologia foi o francês Le Play. sujeitando-se a posteriori verificação. pois as fontes de informações são abundantes. Foi criado o Instituto da Opinião Pública. define o seu objeto. isenta de qualquer juízo de valor. leis etc. b) as coleções de jurisprudência. superabundantes mesmo. classificados e interpretados. Quem se propõe a realizar uma pesquisa. A Observação Consiste a observação na coleta de dados ou fatos sociais importantes para o estudo que se está realizando. pois todos esses atos ficaram devidamente registrados. Na tarefa de coletar dados importantes para o estudo que se pretende fazer. As mais importantes fontes nessas sociedades são as escritas. literatura. Deve.1. Pode a observação ser realizada em diferentes tipos de sociedades. c) os documentos de caráter técnico. cuja finalidade é lançar permanentes . Há survey para todos os fins: publicidade. Com base nesses documentos é possível. por meio das quais sabemos como as leis estão sendo aplicadas. registros cartorários etc.[p. Entendê-se por inquérito a pesquisa.. e que posteriormente deverão ser examinados. a saber: a) sociedades contemporâneas de tipo moderno. ciência. dentre as quais podemos destacar: a) os textos legislativos ou regulamentares. Consiste em ouvir pessoalmente os indivíduos componentes de determinado grupo que se deseja estudar. entretanto. ocorreram no Rio de Janeiro no ano passado. b) sociedades contemporâneas de tipo primitivo. ou processo de investigação feito muitas vezes por meio de questionário. Em nosso século a técnica do inquérito social foi altamente aper. como os códigos. pode o investigador lançar mão de vários métodos (tomada aqui a palavra em sentido estrito).

À quem perguntar é outra questão que deve merecer particular atenção. a fim de evitar perguntas confusas e ensejadoras de respostas dispersivas. entende-se por método estatístico o conjunto de processos que tem por objeto a observação. para tanto. devendo-se. Na formulação dos quesitos é preciso saber perguntar (como perguntar). para que os dados coletados sejam realmente representativos de toda a sociedade ou da fração dela que se está investigando. o que evidencia a importância da pesquisa para a Sociologia Jurídica.o raciocínio do entrevistado. pois caso contrário as conclusões finais serão um logro. realizadas por vários institutos e entidades respeitáveis. classificação formal e análise dos fenômenos coletivos ou de massa. dar muita atenção à carga semântica variável de certos vocábulos ou de expressões idiomáticas. com a formação. é indispensável uma formulação preliminar das hipóteses a investigar. Para apreciar o verdadeiro alcance de uma [p. O inquérito é geralmente realizado por uma equipe mais ou menos numerosa de pesquisadores e dirigido por um especialista mais experimentado. é preciso dispor de elementos numéricos exatos. em face da . pois há uma técnica minuciosa a ser aplicada. definição e delimitação do problema. e levantados periodicamente. Em outras palavras. 99) ao escrever: “Tendo em vista que as instituições jurídicas são coisas coletivas. p. para dela extrair as conclusões necessárias ao seu estudo. conclui-se que um dos principais instrumentos de trabalho a ser utilizado para conhecê-las é a estatística. Há mesmo quem afirme ser a estatística o meio oficial de se afirmar inverdades. 188] instituição e medi-Ia no tempo e no espaço. à realidade social. que lhe permite chegar aos fatos. por seu turno.” O emprego da estatística no campo sócio-jurídico tem sido criticado por alguns autores. tão exatos quanto possíveis. principalmente por falta de confiança nos dados fornecidos pelos órgãos oficiais. pois é o agrupamento metódico dos fatos sociais suscetíveis de avaliação quantitativa. Antes de iniciar a pesquisa. A estatística. Assim sendo. afastando perguntas capazes de induzir a resposta ou condicionar . aperfeiçoada nesta última década. Ao longo do nosso estudo fizemos referência a dezenas de pesquisas sobre muitos temas. É o seu método por excelência. A importância da utilização da estatística em questões sociológicas foi muito bem assinalada por Levy Brühl (Sociologia do Direito.inquéritos no seio da comunidade a fim de conhecer-lhe a opinião a respeito dos principais problemas do mundo atual e avaliar a evolução dessa opinião. bem como a indução das leis a que tais fenômenos globalmente obedeçam. é necessário estabelecer com clareza e precisão o seu objetivo (o que perguntar). enumera a freqüência dos fenômenos sociais. e outros detalhes.

a economia. a situação da família entre os nossos indígenas. ganhar sua confiança. não haverá outro meio de realizar tal pesquisa a não ser deslocando-se o pesquisador para esse meio para ali ver.. uma medida de grande urgência. a política. separações judiciais. Quem não reconhece o quanto seria útil saber o número de casamentos. verificar com grande evidência as profundas diferenças existentes entre o direito de uma e de outra sociedade. porque tudo ou quase tudo que nele se passa. Pode-se. não seria difícil e de alto custo o emprego da estatística no mundo jurídico.2. por exemplo.? Tais dados não permitiriam a adoção de uma série de medidas preventivas e repressivas? Sobre estes assuntos e muitos outros fatos jurídicos a documentação existe. pelo menos de mais relevante. esses dados são preciosos. reconhecimento de filhos naturais etc. sendo mesmo na maioria das vezes bastante acessível. 189] de uma sociedade da mesma época. conhecer seus hábitos e costumes. mesmo não tendo absoluta confiança nas cifras publicadas e ainda que se apontem erros voluntários ou involuntários que se deixaram escapar. quem não vê a importância de saber o número e o tipo de crimes que ocorrem nos diferentes meios. onde se verifica a sua maior incidência etc. Terá que se misturar com eles. divórcios. no plano científico. Mas não foi ainda coligida e muito menos consultada. O conhecimento do direito de uma sociedade do tipo primitivo adquire particular importância no momento em que é comparado com o direito [p. posto que contêm grande número de informações não encontradiças em outros lugares. à falta de escrita. Em tese. mas do tipo moderno. principalmente em questões econômicas. como a cultura. então. a observação é feita in locu. A Observação nas Sociedades Contemporâneas de Tipo Primitivo Nessas sociedades. razão pela qual o incremento da estatística jurídica é.. ouvir e observar. fica devidamente registrado. caso houvesse um trabalho sério e organizado de coleta dos dados. Se o propósito é conhecer.manipulação muitas vezes feita nos dados que lhe serviram de base. 80. que. assistir às suas festas e cerimônias. conforme já exposto na parte em que tratamos dos fatores sociais da evolução do direito. nas diferentes cidades. pois foram todos registrados. testamentos. estados ou regiões do país? Ou então. . a religião etc. Entendemos. por força de determinados fatores sociais. todavia. mediante a presença física do pesquisador. participar de sua vida diária. contemporânea.

[p. é a segunda operação do método da Sociologia Jurídica. como a dos egípcios. A INTERPRETAÇÃO A interpretação que. muito embora a aplicação de ambos no campo sociológico seja severamente criticada. Durkheim recomenda aos sociólogos o abandono desse conhecimento espúrio. Pode-se ainda lançar mão de informações indiretas. a observação está naturalmente circunscrita aos vestígios que essas sociedades deixaram. sobre as coisas nada sabemos antes da pesquisa cuja realização porventura empreendamos realizar. o que toma tremendamente penosa a tarefa do pesquisador. como o dedutivo. enfatiza Machado Neto (Sociologia Jurídica. 71). que parte do geral para o particular (o que vale para o geral há de valer para o particular). Tácito sobre os germanos. Possidônio sobre os trácios. Se sobre o social. como as que nos dá Heródoto sobre os persas. que segue caminho inverso. 190] dade. Não tendo . o direito primitivo apresenta traços particularmente interessantes e originais. caldeus. 81. hebreus etc. e o indutivo. isto é. Ter-se-á que recorrer aos documentos escritos. 80. Com que espírito deve o pesquisador interpretar os dados postos à sua disposição? A primeira regra e mais fundamental é considerar os fatos sociais como coisas.. consiste no exame e classificação dos fatos sociais coletados. que são as fornecidas por terceiros. monumentos. antes mesmo de iniciarmos a pesquisa. às sociedades que deixaram de existir. já nosso espírito está cheio de noções prévias (prenoções) sobre sua natureza e seu comportamento. A Observação nas Sociedades Desaparecidas No que se refere. finalmente. pergaminhos porventura existentes. a ponto de constituírem objeto de uma disciplina especial. Quer isso dizer que os fatos sociais devem ser considerados realidades diversas das idéias. a etnologia jurídica.Além disso. Em verdade. devendo o intérprete livrar-se das prenoções de que a vida social nos encharca o espírito com relação aos temas da socie.3. extraindo-se deles as primeiras conclusões. Nessa tarefa podem-se utilizar vários métodos. p. através de suas inúmeras descobertas. Nesse ponto a arqueologia tem contribuído grandemente para um melhor e maior conhecimento do direito de antigas civilizações. do particular para o geral. como vimos.

estabelece alguns princípios de interpretação que. como o fato individual ou o anedótico. Tratar os fatos sociais como coisas é. Somos levados a dar menor atenção ao aparecimento material de um fato ou idéia. diferença ou relação. o tempo do calendário. É uma espécie de ser vivo destinado a produzir seus efeitos dentro de um ambiente em constante evolução. por sua importância. e maior ao momento em que esse fato ou idéia começa a agir. mas sim o momento em que exercem sua influência. e que por isso mesmo evolui também incessantemente. uma vez que sobre as coisas não podemos ter prejulgamentos ou prenoções. não o momento em que se verificaram materialmente os fatos. aos olhos do jurista sociólogo. algo diferente de uma peça de arquivo. ou seja. 3) Tratando-se de documento escrito. como normas de conduta coletivas. Do ponto de vista sociológico o termo não . A COMPARAÇÃO Chegamos finalmente à última operação do método da Sociologia Jurídica . tal conhecimento somente pode ter sido fruto de prejulgamentos e prenoções. a relação cronológica entre um fato e outro da mesma natureza. Significa que deixará de lado a priori o que se revelar puramente descritivo. por sua vez. [p. 191] 82. como sói acontecer para o historiador.a comparação. e sua significação inicial tem tão pouca importância para o jurista quanto os diferentes sentidos que adquiriu no decorrer do tempo. portanto. 108 e 109). cuja significação e importância continuam ligadas às circunstâncias que envolveram sua origem. constantemente de sentido. mas sim o tempo social. a produzir seus efeitos sociais. o que merece ser tomado em consideração não é o tempo astronômico. que vulgarmente significa examinar simultaneamente duas ou mais coisas para lhes determinar semelhança. Em outros termos. A noção de autenticidade chega a suscitar-lhe um interesse muito restrito (Sociologia do Direito. a sua pureza ou o seu teor verídico. libertar o espírito desses prejulgamentos e dessas prenoções. merecem ser aqui destacados: 1) O jurista e sociólogo deve dirigir sua atenção exclusivamente para os fatos jurídicos tais como tentamos defini-los. pois. pp. Levy Brühl. Muda. Um texto jurídico é. 106.emanado da pesquisa. interessam mais ao jurista os efeitos sociais produzidos pelo escrito do que o sentido original do texto. 2) Interessa-lhe.

para indicar o cotejo ou confronto das conclusões parciais obtidas na fase da interpretação. No plano vertical ou temporal comparam-se resultados de observações feitas em uma mesma sociedade. tinha que ser precedida de ampla coleta de dados mediante pesquisa da opinião pública. ou mesmo entre diferentes países. sua eficiência ou ineficiência.conhecimento indispensável para se fazerem as reformas. temporal ou histórico. Juízes. do Império. audiência dos órgãos e instituições que atuam na ordem jurídica . podemos comparar a situação da família na atualidade com a da época da República. sendo utilizado. bem como o grau de aperfeiçoamento de instituições análogas de outras sociedades. mas todas contemporâneas. Uma reforma de tal magnitude e necessidade. e jamais conseguirá atingir os seus objetivos sociais. Assim. sul do Brasil. Somente através do emprego judicioso do método (ou métodos) que acabamos de delinear.Tribunais Federais. Estaduais. praticamente no escuro. espacial ou geográfico. O que ela tem de bom não é novo e o que ela tem de novo não é bom. mudanças e alterações necessárias. . suas funções sociais. da Colônia. Mudou para pior. as origens de algumas instituições atuais. a fim de se estabelecerem as relações. o que poderá aumentar a nossa experiência e levar ao aprimoramento das nossas instituições.[p. No plano horizontal ou espacial a comparação é feita entre os resultados obtidos nas observações efetuadas em diferentes sociedades. ou traços em comum entre elas. se estamos estudando os problemas relacionados com a família brasileira. e certas instituições antigas. mas em épocas diferentes. É ainda possível verificar. A comparação pode e deve ser feita em dois planos: o plano vertical. mediante comparação nos planos vertical e horizontal. Foi o que aconteceu com a chamada reforma do Poder Judiciário levada a efeito através da Emenda Constitucional nº 7/77 e da Lei Orgânica da Magistratura. leste. é possível notar as diferenças existentes entre as normas do direito dessas sociedades contemporâneas. no mais absolu. 192] to sigilo ou segredo de justiça. atuaram apenas dois ou três elementos que se julgavam donos da verdade. por exemplo. motivadas por fatores sociais e atuantes em cada região ou país. Fizeram a tal reforma sem ouvir ninguém. Antes disso. Através de tal comparação.foge desse sentido. e os resultados aí estão. para atingir os seus objetivos. mais abrangentes e definitivas. e o plano horizontal. semelhanças e diferenças entre elas existentes e chegar-se a outras conclusões. qualquer mudança ou reforma será feita empiricamente. é possível ter um conhecimento profundo das instituições jurídicas. como por exemplo no norte. e investigar as causas que os provocaram. bem como das normas ou institutos jurídicos existentes . portanto.

Fala-se muito. deveriam ser examinados. Ter-se-ia que observar como vem funcionando o Judiciário em cada Estado. mediante pesquisa metódica e científica dessa realidade.Ministério Público. em reforma eleitoral e agrária. Com base nessa realidade poder-se-ia fazer uma reforma eficiente. morosidade e emperramento. 193] . A menos que tais reformas sejam precedidas de um profundo conhecimento das aspirações do povo e da realidade brasileira. nada será mudado para melhor. nas capitais e no interior. Teremos outra reforma casuística. interpretados. e só então teríamos uma descrição da realidade social do nosso Poder Judiciário. motivada por interesses políticos e feita empiricamente. Ordem dos Advogados. o público em geral. [p. atualmente. Esses dados. comparados. através de técnicos especializados. quais as deficiências e dificuldades de cada lugar. classificados. eliminando as causas de suas deficiências.

[p. a saber: l) desorganização pessoal do tipo que resulta em um indivíduo desorientado ou fora da lei. ao encerrar este trabalho. caso o nosso programa comportasse. 83. Vem de a + nomos. ritualistas. por reputá-lo um tema da maior importância na atualidade e que guarda perfeita adequação com tudo aquilo que ficou exposto nas partes anteriores. Merton. Foi com esse entendimento que Durkheim usou a palavra pela primeira vez. Tipos de comportamento: conformistas. inexistência. anomia significa falta de lei ou ausência de norma de conduta. com reduzida vinculação à rigidez da estrutura social ou à natureza de suas normas. Etimologicamente. portanto. O pensamento de Émile Durkheim. segundo o qual o termo tem sido empregado com três significados diferentes. privação. 195] tedt. NOÇÃO DE ANOMIA A palavra tem origem grega. O pensamento de Robert K. donde a significa ausência. de evasão e rebelião. inovacionistas. Não sendo possível fazê-lo.Capítulo XVI DIREITO E ANOMIA Noção de anomia. Comportamentos de desvio. e nomos quer dizer lei. vamos nos limitar. . Causas do comportamento anômico. Depois dele diversos autores têm abordado o conceito com variações quanto ao seu exato entendimento. falta. conforme assinalado por Robert Biers. **** Muitos outros temas de relevância para a Sociologia Jurídica poderiam ser ainda abordados. Palavras finais. norma. a tecer algumas considerações sobre anomia. em seu famoso estudo sobre a divisão do trabalho social. num esforço para explicar certos fenômenos que ocorrem em sociedade.

bem elaboradas. Pode variar de intensidade . é necessário distinguir causa de fator. Entendemos. Assim sendo. é. adequadas aos interesses sociais. como anarquia é o contrário de governo. 3) ausência de norma. princípio. que sociologicamente a palavra pode ser usada em um quarto sentido. o fenômeno haverá de desaparecer. 84. que é a síntese. CAUSAS DO COMPORTAMENTO ANÔMICO (OU DE DESVIO) Em qualquer sociedade do mundo. É. em princípio não deveria ocorrer comportamento anômico. ou ainda. Merton. vamos encontrar comportamento de desvio. ou pelo menos guarda perfeita correlação com os três primeiros. o contrário de sociedade. conflito de normas. situação social que. pois. mas que por muitos são confundidas. [p. como um verdadeiro fenômeno universal. Eliminada a causa. não contém normas. vamos encontrar em algumas maior incidência de um tipo de desvio mas o fenômeno sempre existirá. existindo a respeito várias teorias. Mas não é o que ocorre.2) conflito de normas. motivo ou razão de ser.em uma sociedade vamos encontrar maior incidência de comportamento anômico que em outra. que pode ocorrer por ausência de lei. por mais eficientes que sejam as suas normas de conduta e bem estruturadas e aparelhadas as suas instituições jurídicas. Por causa entende-se aquilo que determina a existência de uma coisa: a circunstância sem a qual o fenômeno não existe. ou seja. todavia. eis que em qualquer das variações do significado de anomia está presente a idéia da falta ou do abandono das normas sociais de comportamento. em conseqüência. em seus casos limítrofes. . Muitos sociólogos têm se empenhado em encontrar as causas do comportamento anômico. 196] Antes de mais nada. Todos deveriam estar empenhados em manter um comportamento em harmonia com as normas de conduta social. o agente causador do fenômeno social. e se as instituições destinadas a manter a ordem jurídica são eficientes. sua origem. Por quê? Se as leis são boas. o que resulta em situações sociais que acarretam para o indivíduo dificuldades em seus esforços para se conformar às exigências contraditórias. pode-se afirmar que anomia indica desvio de comportamento (ou comportamento desviante). entre as quais vamos examinar a de Émile Durkheim e a de Robert K. coisas diferentes. e bem estruturadas. de sorte a não existir desvio. desorganização pessoal. entretanto.

igualmente. a idéia dessa obra comum. O PENSAMENTO DE DURKHEIM SOBRE A ANOMIA Em seu famoso livro . Mas não é causa de criminalidade. é um fator de criminalidade. Como já ficou dito. não mais sentindo a presença dos colaboradores que trabalham a seu lado na mesma obra. porquanto na mesma população carcerária encontramos 85% de pessoas analfabetas ou portadoras apenas de instrução primária. o indivíduo.Já o fator.Durkheim. 90% ou mais da população carcerária é constituída de pessoas provenientes das classes sociais mais humildes. porque. que como já assinalamos foi o primeiro a usar a palavra “anomia” numa tentativa de explicação de certos fenômenos sociais. isola-se em sua atividade especial. para poder atingir os seus fins. concorre para a sua maior ou menor incidência. Pode-se dizer. perdendo mesmo. sem cortar-lhe a raiz. um enfraquecimento do espírito de solidariedade do grupo global. por via de conseqüências. desde que a divisão do trabalho social supera um certo grau de desenvolvimento. concorre para o resultado. É tentar secar a árvore daninha arrancando-lhe simplesmente as folhas. e) o enfraquecimento desse espírito de solidariedade acarreta uma influência dissolvente e. porque há um número muito grande de pobres que não delinqüem. assim desenvolveu seu pensamento: a) a sociedade moderna. a miséria. por exemplo. Pode-se dizer. por sua vez. porque há milhões de analfabetos no Brasil que não enveredaram pelos caminhos do crime. portanto. motivando. preocupa-se o estudo da anomia com as causas. precisa organizar-se. mesmo porque de quase nada adianta combater os fatores sem eliminar as causas. e não simplesmente com os fatores que são inúmeros.A Divisão do Trabalho Social . b) a organização impõe divisão de trabalho ou tarefas. embora não dê causa ao fenômeno. debruçado sobre suas tarefas. que o analfabetismo. É a circunstância que. que a pobreza. c) a divisão de tarefas produz especialização. segundo as estatísticas. a partir de um certo ponto. d) a especialização ocasiona isolamento dentro do grupo. Mas não é certamente a causa de crime. Durkheim invocou palavras de Comte no sentido de que as separações das funções sociais tendem espontaneamente. a ignorância. inclusive de produção e sobrevivência. de qualquer forma. 85. ao lado de um desenvolvimento favorável do . o comportamento de desvio. [p. é outro fator de criminalidade. 197] Para o eminente sociólogo francês.

queixam-se da frieza. da falta de solidariedade e calor humano que lá sentiram.espírito de minúcia. como uma contingência social. O mesmo ocorre com a atividade humana. às vezes até com interesses antagônicos aos interesses do grupo global. profissionalmente falando. diminui-Ihes a extensão ou amplitude. para se poder competir no mercado de trabalho. e em cada ciência há inúmeras especialidades. tal divisão transforma-se numa fonte de desintegração ao provocar as especializações dos indivíduos. Com essa perda de visão da obra comum e do seu sentido. em visita ou a trabalho. Especialista. Não há mais lugar em nossos dias. é aquele que sabe cada vez mais de cada vez menos. não deixa de possuir certa razão. uma exigência. ao lado das inegáveis vantagens que a divisão do trabalho representa como recurso imposto pela própria complexidade crescente da vida social. que “toca sete instrumentos” etc. como disse alguém. Todos se preocupam com todos e estão prontos para se auxiliarem mutuamente.[p. e se junta a outros indivíduos de sua especialidade formando grupos menores. Até mesmo entre nós isso pode ser constatado. ou pelo menos a entravar seriamente o seu desenvolvimento. O indivíduo se isola dentro do grupo. embora criticado por alguns. Já numa grande cidade ninguém sabe de . Foi-se o tempo em que era possível saber de tudo. como os sábios da Grécia. É preciso. Há várias e diferentes profissões e em cada profissão inúmeras especializações. Numa cidadezinha do interior. Pessoas que vão do Brasil. 198] ses da Europa ou mesmo aos Estados Unidos. principalmente no que diz respeito às sociedades superdesenvolvidas e por isso mesmo superorganizadas. saber muito bem fazer determinada coisa. O pensamento durkheimiano. fazendo-o perder a visão global ou de conjunto da atividade social. comparando-se a vida do interior com a de uma grande cidade. A especialização. Isso é facilmente constatado nas sociedades superdesenvolvidas dos nossos dias. em face da vastidão do saber moderno. limita a visão social do indivíduo. espírito de solidariedade etc. a certos paí. Nessas sociedades é visível que. forçoso é reconhecer. e isso tomou-se uma necessidade. entretanto. Há calor humano. todo mundo conhece e sabe de todo mundo. a abafar o espírito de conjunto. para o indivíduo que é “pau para toda obra”. À medida que o indivíduo aprofunda os seus conhecimentos. Citou também Espinas. Hoje o saber humano é dividido em várias áreas ou ciências. ocorre também um enfraquecimento do sentimento de solidariedade grupal. cada vez mais. ao afirmar que divisão significa dispersão.

ou pode ser assaltada e massacrada por um marginal aos olhos de uma multidão. principalmente no que tange à criminalidade. acarretando. não nos dizem respeito: uma pessoa ferida num acidente pode ficar horas a fio sem receber socorro. O PENSAMENTO DE ROBERT K. por esta razão a tese foi contestada e preterida por muitos. O fenômeno não é novo e já foi até explorado por Charles Chaplin como tema do filme “Tempos Modernos”. portanto. assim. Os outros não nos interessam. verifica-se justamente entre os menos especializados ou mesmo sem nenhuma especialização. E o que é pior. a influência dissolvente da personalidade que sofre o operário que passa o dia todo apertando parafusos numa fábrica de automóveis. muito embora dezenas de pessoas passem ao seu lado em seus veículos sem se incomodarem. De um lado. na escola. Embora morando numa cidade de milhões de habitantes. Para atingir essas metas existem os meios. Merton sustentou que em toda sociedade existem metas culturais a serem alcançadas. aos quais aderem normas de comportamento. Merton. diária ou semanalmente nos relacionamos com um pequeno grupo. [p. normalmente das nossas relações de atividade no trabalho. que são os recursos institucionalizados pela sociedade. 86. não é verdade no que se refere às sociedades subdesenvolvidas. entendendo-se como tais os valores sócio-culturais que norteiam a vida dos indivíduos. onde se observa que o maior índice de desvio. sem que ninguém venha em seu socorro. que teve o mérito de estabelecer os fundamentos de uma teoria geral da anomia.ninguém. Ocorre. metas sócio-culturais. MERTON SOBRE A ANOMIA Em 1938 Robert K. fazemos até questão de não saber quem é. e de outro. onde se destacou entre outras coisas. Merton. que os meios existentes não são suficientes nem estão ao alcance de todos. transformando-se em parte da sua obra clássica Teoria e Estrutura Sociais. meios socialmente prescritos para atingi-los. sociólogo americano. escreveu um artigo famoso de apenas dez páginas. em face da tese de Robert K. e cada qual corre atrás dos seus próprios interesses. Se a tese de Durkheim apresenta muitos pontos verdadeiros no que diz respeito às sociedades superdesenvolvidas. Quer isso . O artigo foi posteriormente revisto e aumentado pelo autor. Somos capazes de morar muitos anos em um mesmo prédio sem saber quem é o condômino do lado ou de cima. entretanto. 199] Partindo de uma análise da sociedade americana. um desequilíbrio entre os meios e as metas. no lazer etc.

mesmo que contrários aos interesses sociais. 4) de evasão. qual seja. 5) de rebelião. Merton classificou os comportamentos socialmente relevantes em cinco tipos diferentes. prestígio. inova. enquanto todos são insistentemente estimulados a alcançar as metas sociais.dizer que. muito poucos podem alcançá-la em face da escassez dos meios institucionalizados. podendo-se dizer a respeito deles que são positivos (+) quanto aos meios e também (+) quanto às metas.1. buscaria outros meios. a saber: 1) conformista. inclusive pelos estudantes em geral. na realidade apenas alguns poucos conseguem por terem ao seu dispor os meios institucionalizados. Conformista é a conduta que busca atingir as metas sociais através dos meios institucionalizados. Mas quantos realmente têm condições para atingir essa meta? Apesar de erigida em objetivo da vida de todos. Disso resulta um desajustamento. no empenho de alcançar as metas que lhe foram sugeri das e não dispondo de meios para tal. Inovacionista é a conduta que está de acordo com as metas sociais. através de estudo regular. um descompasso entre os fins sugeridos a todos e insistentemente estimulados. que buscam adquirir cultura etc. respeitando assim as normas fixadas pela sociedade. nisto incluindo fortuna. buscando realizar as metas através de outros meios. É a conduta seguida pela grande maioria das pessoas na sociedade. Merton ilustra isso tomando como exemplo a meta mais importante da sociedade americana. 3) ritualista. percebendo que os meios são insuficientes e não estão ao seu alcance. Tipos de Comportamento Identificados por Merton Examinando o descompasso existente entre as aspirações culturalmente prescritas e o caminho socialmente estruturado para atingi-Ias. o sucesso na vida. concentrados nas mãos de pequena parcela da sociedade. 200] acordo com os meios e as metas sociais. o inovacionista está de acordo . mas. 2) inovacionista. poder. e os recursos oferecidos pela sociedade para alcançar aqueles objetivos. Os adeptos desse comportamento estão de [p. popularidade etc. Em outras palavras. 86. eis que o indivíduo. Esse desequilíbrio entre meios e metas ocasionaria o comportamento de desvio individual (ou em grupo).

o acendedor de lampião explicou: antigamente o meu mundo girava bem devagar. As normas de comportamento social são cumpridas pelos ritualistas a todo preço e em qualquer circunstância. Procuram vencer na vida sem fazer força. continua a aplicá-las ou a observá-las como se nada houvesse mudado na sociedade. o ritualista abdica das metas. entretanto. mas continuo a cumprir a minha tarefa. porque encontram nelas uma forma de realização pessoal. sendo. fazendo delas fins. momento em que o acendedor dizia “boa noite”. os valores sociais. e se apega às normas como se fossem sagradas. Quem já leu o Pequeno Príncipe. acendendo e apagando o lampião e dizendo “boa noite” e “bom dia”. ultrapassadas. Percebendo que as metas sociais são mui elevadas e os meios existentes insuficientes para atingi-Ios. E nessa rotina passava ele o tempo todo. negativo (-) neste ponto. 201] Essa é a perfeita imagem do ritualista. Comportamento de evasão é aquele que se caracteriza pelo fato de abandonar as metas e os meios sociais. [p. destituídas de qualquer valor ou utilidade social. mal eu acendo o lampião ao anoitecer. perde de vista os fins. É negativo (-) quanto às metas e negativo (-) quanto aos meios. embora se encontre esta numa outra era. pois as metas perdem a sua importância passando os meios para o primeiro plano. Quando perguntado pela razão dessa sua conduta. ele começou a girar mais rápido e cada vez mais rápido. ainda que não sejam socialmente aprovados. . É o caso de certas pessoas que se gabam de terem servido 30 ou mais anos na mesma repartição. mas está contra os meios. Pode-se representar o ritualista como sendo positivo (+) quanto aos meios. nada mudou por lá nem se registrou nenhum progresso funcional em sua vida. sendo positivo (+) quanto a elas. recorda-se por certo do acendedor de lampião encontrado em um daqueles pequenos mundos que percorreu: causou estranheza ao nosso personagem o fato de que. arcaicas.. mas. pois. mas negativo (-) quanto às metas.. E enquanto falava ia acendendo e apagando o lampião. nunca havendo se atrasado ou faltado ao serviço. E ainda que já estejam elas velhas. por outro lado. Os inovacionistas adotam a filosofia de que os fins justificam os meios. ainda que já estejam totalmente vazias de sentido. de forma que eu acendia o lampião ao anoitecer e o apagava ao amanhecer. Há aqui uma verdadeira inversão de valores. Ritualista é aquele que se conduz de forma justamente inversa ao inovacionista. mal o lampião era aceso. apegando-se aos meios com tal importância que os transforma em fins. quando era dito “bom dia”. tenho que apagá-lo porque amanheceu.com as metas sociais. Abandona as metas. Depois. imutáveis. repetindo sempre “boa noite” e “bom dia”. os objetivos. voltava a ser apagado. de modo que hoje. há mais de duzentos quilômetros por hora. significado ou interesse social.

Tal como na evasão. o quadro de classificação dos tipos de comportamento atrás descritos. foge da sociedade. graças ao intenso condicionamento social exercido sobre o indivíduo. Comportamentos de Desvio O primeiro comportamento. Exemplo típico desse comportamento é o dos hippies. o conformista.Percebendo que as metas sociais são muito elevadas e os meios escassos. é também positivo (+). propõe o estabelecimento de novas metas com a institucionalização de novos meios. é a derrubada dos meios e metas existentes. É o tipo modal de comportamento. Tipos de comportamento 1) conformista 2) inovacionista 3) ritualista 4) de evasão 5) de rebelião meios (+) (-) (+) (-) (-) (+) [p. Não pára. porém. ou dele retiram a adesão antes dada. em especial nos grupos familiar e profissional. em síntese. que consideram todos os valores sociais irrelevantes ou incapazes de realizar o bemestar humano. vivem no meio social mas a ele não aderem. Faremos. O propósito do comportamento de rebelião. mais abundantes e melhor distribuídos na sociedade. usando os próprios símbolos de positivo (+) e negativo (-) utilizados por Merton. aí a inconformidade do comportamento de rebelião. Ao mesmo tempo que se opõe às metas e aos meios sociais por julgá-las excessivamente elevados e insuficientes. o comportamento de rebelião também está contra as metas e os meios sociais. mais simples e ao alcance de todos. razão pela qual ao mesmo tempo que é negativo (-) quanto aos meios e metas. renunciando a tudo o que ela oferece ou determina. Objetiva. podendo ser caracterizado como sendo negativo (-) quanto aos meios e negativo (-) quanto às metas. 202] metas (+) (+) (-) (-) (-) (+) 86. uma nova estrutura social. bem como de novos meios. . uma vez que os seus adeptos buscam as metas culturalmente prescritas através dos meios institucionalizados para atingi-los e com respeito habitual às normas para isso fixadas pela sociedade. e o estabelecimento de novas metas.2. a seguir. Como acentuou Merton. portanto. os adeptos desse comportamento estão na sociedade mas não são dela. não é de desvio.

). não se limita a aperfeiçoar instrumentos ou instituições. 203] sa alguma. do desencanto e desestímulo decorrentes do desajuste entre os processos socialmente aprovados para alcançar as metas culturais. O ritualista se caracteriza como comportamento de desvio por apresentar abandono das metas sociais e inversão de valores quanto aos meios que são elevados ao primeiro plano. é assim a conduta observada. com a recusa de conformidade aos comportamentos socialmente estabelecidos. posto que. então. O indivíduo abandona e virtualmente rejeita os alvos estabelecidos pela sociedade em razão do fracasso efetivo ou em potencial. 105). Como bem observou Miranda Rosa (Sociologia do Direito. a atitude de que elas não valem a pena de coi. substituindo-os por outros de maneira total e revolucionária. p. os fins sociais perdem a sua importância.Já os outros quatro tipos de comportamentos são não-modais. Enfim. por julgá-los inatingíveis. pois o cumprimento dos ritos estabelecidos pelos processos institucionalizantes adquire a dimensão e a importância de valor sócio-cultural. contrários de algum modo aos padrões de metas culturais e de meios institucionalizados para atingi-los: portanto. mantendo velhas e arcaicas instituições ou disposições legislativas já sem nenhuma adequação às novas realidades sociais. um valor em si mesmo. ocorre no caso inconformismo quanto à manutenção dos alvos socialmente prescritos. Os adeptos desse tipo de comportamento são um peso-morto na sociedade. como vimos. Embora na aparência seja esse um comportamento conformista. Cumprir de qualquer maneira os regulamentos ou as ordens recebidas. quer substituição total de todos os instrumentos e instituições com o fim de realizar uma mudança . a conduta ritualista passa a ser. não merecem observância. do medo do insucesso. O ritualismo toma-se grandemente prejudicial à sociedade quando se trata do comportamento adotado pelos homens públicos do país (administradores. quanto às metas culturais. No comportamento de evasão também há desvio. pretende a derrubada de todos os meios e metas sociais. legisladores etc. comportamentos de desvio. sem indagar da sua adequação àqueles valores e àquelas metas. porque ocorre a rejeição das metas culturais e dos valores que as sustentam. que se recusam a fazer mudanças ou reformas sociais necessárias. porque ajustado aos tipos de conduta socialmente recomendados ou aprovados. Prevalece.[p. O comportamento de rebelião é o mais extremado de todos. considerados todos irrelevantes ou incapazes de realizar o bem-estar humano. despidos daquela motivação. e quanto aos comportamentos sociais aprovados.

completa na sociedade. Dessa maneira a conduta divergente quanto aos meios toma-se no pensamento mertoniano uma reação normal a uma situação social definida e determinada. a própria sociedade concorre para isso ao deixar de proporcionar. como bem observou Merton. Sem dúvida alguma. e assim continua sendo em nossos dias. mais eficientes para a realização dos objetivos sociais. De certa forma. com os movimentos dos sem terra. quando o desequilíbrio entre os meios e metas se toma muito grande e insustentável. assim foi na Rússia. núcleo da teoria de Merton. Há. . entretanto. O desequilíbrio entre metas e meios sociais. com a mesma generalidade com que estabelece as metas. a inobservância das regras de conduta social etc. Graças a esse espírito inovador temos hoje a luz elétrica. desde a juvenil até a mais grave criminalidade. 204] 87. Normalmente se manifesta nos momentos de grandes crises sociais. Referimo-nos àqueles casos de inovações que visam criar novos meios. As normas são abandonadas ou contornadas. porque ela tem causas múltiplas. num esforço do indivíduo para superar os obstáculos institucionais ou instrumentais. esgota o tema da anomia. razão pela qual deixamos a sua análise para o final. e atingir os alvos culturalmente estipulados por todo o sistema. verdadeira bola de neve social. por sua vez. Nesse desvio de comportamento estão retratadas todas as formas de delinqüência. promove uma reação em cadeia. assim foi em Cuba. os instrumentos prescritos ou admitidos para atingi-las. que acaba provocando comportamentos anômicos de diferentes gravidades. assim. em menor escala. bem como as faltas disciplinares. assim. cria. que deve ser ressaltado. um aspecto positivo no comportamento inovacionista. Isso evidencia que nem todo comportamento inovacionista é necessariamente contrário à ética existente no grupo social. sem teto e outros. Assim foi na França. permitindo-nos. o inovacionista é o comportamento de desvio de maior freqüência na sociedade. em nosso entender. o motor à explosão e milhões de outras invenções que tantos benefícios trouxeram à sociedade e nos permitiram chegar ao estágio atual de desenvolvimento científico. condições específicas para estimular o abandono ou a burla das normas socialmente fixadas para se atingir as metas culturalmente estabelecidas. fazer distinção entre conduta inovadora-criadora e conduta inovadora anti-social. [p. é sem dúvida a causa remota da anomia que. PALAVRAS FINAIS Nenhuma teoria.

significa que ele está à margem da sociedade. o Estado. não conseguiu se fazer presente nas áreas urbanas favelizadas. Essa é a realidade social. Os jovens. Pesquisa de Informações Básicas Municipais do IBGE. principalmente saneamento: 54. agressivos. 205] comportamento anômico. aos poucos inverteram-se os valores. crise na saúde. A renda média de chefes de família em favelas é cinco vezes menor que no asfalto. Os ícones desses adolescentes são marcas famosas. Esse processo de urbanização aconteceu de forma desordenada e acelerada. 28. como vimos quando tratamos da violência urbana (item 53).6 milhões de fluminenses vivem em favelas. cerca de 12% da população do estado (O Globo. o número de moradias em favelas cresceu 35%. E além disso. E o que isso gera? Crise habitacional. forma mais grave de [p. de 1999. Em relação à pesquisa anterior. estima-se que 1. crise de transporte. O poder paralelo que assim se instaurou passou a impor as suas próprias regras. siglas de facções e armas. segundo dados do Censo 2000 do IBGE (O Globo.181) e a média de quatro pessoas por habitação. feita em 2001 e concluída em novembro de 2003. seduzidos pelo tráfico. constatou que as favelas estão presentes em 48 dos 92 municípios fluminenses. Dos 2. praticamente em quatro décadas. cerca de 91% da população brasileira vive em cidades. como demonstrou o Censo de 2000.07. Sem o diploma do ensino básico. porque a oportunidade de ascensão social (meios e metas) está condicionada à educação. não se prepararam para receber tamanha massa humana. o jovem está fora do mercado formal. os líderes comunitários foram obrigados a obedecer ao poder paralelo para não serem mortos ou terem que se mudar. cerca de 700 mil (um quarto) abandonaram a escola antes de concluir o ensino fundamental. As cidades. perderam-se as referências.1% dos domicílios são semi-adequados ou inadequados. em especial as metrópoles. vivem brincando de polícia e ladrão. em boa parte (40%) nas capitais e suas periferias. permitindo o surgimento do crime organizado. São viciados. e o resultado foi a favelização de áreas urbanas.2004). Considerando-se o número de domicílios cadastrados em favelas no Estado do Rio (424. o que equivale a 52% deles. mudaram-se os paradigmas. armados.2002). Em busca de melhores condições de vida.6 milhões de jovens de 15 a 24 anos que vivem no Estado do Rio. Isto não quer dizer que ele vai virar bandido.Vejamos como isso ocorre. crise de desemprego. . Pior que tudo. na educação e assim por diante. 19. há enormes carências de infra-estrutura. vivem a ilusão de poder. gerando dúvidas na população quanto às normas a serem observadas (conflito de normas). O déficit habitacional no Brasil passa de seis milhões de moradias.01.

A inovação deve ser. promover ações afirmativas. não existe solução única e milagrosa. diminuir o desequilíbrio entre metas e meios sociais. A questão tem que ser enfrentada com medidas a curto. determinação política das autoridades são. na ordem econômica para melhorar a distribuição de rendas. enfim. Devem eles possuir um espírito inovador (e não ritualista) para realizar as reformas sociais necessárias nas leis. Numa favela de 30 mil pessoas. Mas não resolverão o problema. constatou que o número de jovens (menores de 18 anos) que trabalham para o tráfico pode chegar a sete mil. Atuação mais firme e organizada da polícia. ou seja. nas instituições. uma das principais qualidades dos homens públicos. ao alcance da maioria. Com o tempo revelar-se-ão paliativas. por isso. Quando isso não é feito. orientar o planejamento familiar. e não apenas arrancar as suas folhas. pois o desequilíbrio se torna tão grande que não se depara a socie. O delegado Carlos Henrique Machado. dentre outras. eliminar a exclusão social. assim. vivem do comércio de droga. mais cedo ou mais tarde acaba vindo a rebelião. recomendamos a leitura do Capítulo XI da notável Sociologia do Direito do Professor F. a não ser aquela de promover uma total reorganização.[p. médio e longo prazo. e. KatMartins . afirma que atualmente a prática nos morros é a intimidação: tortura. É preciso cortar o mal pela raiz. medidas imediatas a serem tomadas. reeditada sucessivas vezes pela Editora Zahar. pelo menos 10%. 206] dade com outra solução. É preciso promover as mudanças sociais necessárias nas instituições. tornar as metas mais acessíveis e os meios melhor distribuídos. estabelecendo novas metas e institucionalizando novos meios. para que os moradores tenham medo de denunciá-los. de Miranda Rosa. Se essa é a realidade social. três mil pessoas. A. então. obra pioneira no Brasil. nas leis.Levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social (IBISIS). Para maior profundidade do tema. que têm nas mãos o destino da sociedade. aprimorar a educação. reduzir as desigualdades. a reconquista dos espaços perdidos pelo Estado. esquartejamento e incineração de corpos fazem parte do terror que esses traficantes impõem nas favelas. da Delegacia de Homicídios. na distribuição da riqueza. o que fazer para modificá-la? A toda evidência.

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