PROGRAMA DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

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SERGIO CAVALIERI FILHO Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Professor da Universidade Estácio de Sá.

PROGRAMA DE SOCIOLOGIA JURÍDICA
11ª edição revista e atualizada

Rio de Janeiro 2007

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.................................Sistemas de Escolha dos Magistrados....... 175 Capítulo XV ....................................Razões Sociais das Garantias Constitucionais dos Magistrados ............................................Função Social do Direito ..................................... 75 Capítulo IX .....................Gênese do Direito..................................................................................................................................Instrumentos Humanos de Realização da Ordem Jurídica ....................Eficácia das Normas Jurídicas e seus Efeitos Sociais ....................... 209 Índice Alfabético-Remissivo ..........SUMÁRIO Abreviaturas e Siglas Usadas ................................... 185 Capítulo XVI ................... 81 Capítulo X ..............................................................................................................................................................................................................................A Autonomia da Sociologia Jurídica como Ciência e suas Relações com Outras Ciências Sociais ... 31 Capítulo V ....................................Aspectos Sócio-Jurídicos de Algumas Áreas do Sistema Jurídico Brasileiro ..... 149 Capítulo XIII .............................Importância do Estudo das Ciências Sociais e da Sociologia Jurídica em Especial ...................................................A Opinião Pública ...................... 1 Capítulo II .. 57 Capítulo VII ..........................VII Apresentação .. IX Capítulo I .......................................... 41 Capítulo VI .................... 97 Capítulo XI ......................Fontes do Direito ...................................................................... 163 Capítulo XIV .......... 217 ................................................................... 211 Índice Sistemático ...........................................................................................................................................................................................................................................................................................................Fatores da Evolução do Direito ............................. 127 Capítulo XII .................................................. 23 Capítulo IV ......................................................................Objeto da Sociologia Jurídica .........................O Método da Sociologia Jurídica ...................................... 11 Capítulo III .............Conceito Sociológico do Direito ........................................................ 69 Capítulo VIII ........... 195 Bibliografia .........................Direito e Anomia .................................................................................................................................

cit.-Lei ed. Dec.ABREVIATURAS E SIGLAS USADAS art. Rev. EMERJ EUA ICEPS ICM INAMPS INPS IPI ISS OAB ob. STF STM TRE TRT TSE artigo Código de Defesa do Consumidor Central Única dos Trabalhadores Divisão Anti-Seqüestro Departamento de Administração do Serviço Público Decreto Decreto-Lei edição Editora Escola de Magistratura do Rio de Janeiro Estados Unidos da América “International Center of Economic Penal Studies” Imposto sobre a Circulação de Mercadorias Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social Instituto Nacional de Previdência Social Imposto sobre Produtos Industrializados Instituto sobre Serviços Ordem dos Advogados do Brasil obra citada Organização das Nações Unidas página Pernambuco Professor Revista Supremo Tribunal Federal Superior Tribunal Militar Tribunal Regional Eleitoral Tribunais Regionais do Trabalho Tribunal Superior Eleitoral . PE Prof. CDC CUT DAS DASP Dec. Ed. ONU p.

sob o título . . valendo-me da feliz imagem de Antunes Varella. perdese muitas vezes o sentido de sua finalidade social.Programa de Sociologia Jurídica. o que procurei fazer agora sob o novo título . Era preciso atualizar este trabalho. nada mais do que a norma. na aplicação da lei. entretanto. inclusive uma nova Constituição que. não estarão aptos a aplicá-lo de forma a realizar a sua função social. há muito está ultrapassada. estará recompensado o esforço da sua revisão. foi várias vezes reeditada. Se de alguma forma este trabalho continuar contribuindo para a melhor preparação dos nossos operadores do direito. aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum. no exame diuturno da norma. estando agora em sua 11ª edição. não obstante despretensiosa. já que.no propósito de facilitar o estudo dessa cadeira integrante do currículo do Curso de Direito da Universidade Estácio de Sá. O Jurídico se compõe de fato. A idéia de que o direito é norma. o extraordinário Código de Defesa do Consumidor e o novo Código Civil. todavia. “muita água correu debaixo das pontes do direito e inúmeros diplomas foram produzidos nas oficinas legislativas”. ardorosamente defendida por Kelsen. não mudou: continua sendo uma tentativa de transmitir aos estudantes uma visão sociológica do direito. Talvez tenha alcançado a sua finalidade porquanto a obra. de sorte que se os operadores do direito não tiverem essa visão tridimensional do direito. De lá para cá.APRESENTAÇÃO Este trabalho foi escrito no início da década de 1980. O seu objetivo. tanto é assim que há norma expressa determinando ao juiz atender. já sofreu várias mudanças.Você Conhece Sociologia Jurídica? . por sua vez. norma e valor indissociavelmente.

à saúde e assim por diante. a que conferem faculdades de agir. Fala-se em direito para indicar o conjunto sistemático de normas (constitucionais. o conjunto de regras (leis. a palavra direito indica o direito subjetivo de cada pessoa (física ou jurídica). **** Nossa primeira tarefa consiste em conhecer a gênese do Direito. regulamentos. para que depois possamos compreender a sua razão de ser e a função que desempenha na sociedade. administrativas etc. é preciso dizer de que direito vamos tratar já que a palavra direito pode ser utilizada com significados diferentes. à liberdade. penais. Costuma-se dizer que o Direito Objetivo é a norma de agir (norma agendi) e o direito subjetivo é a faculdade de agir (facultas agendi). Escola Racionalista ou Contratual: a concepção do direito do ponto de vista racionalista. à educação. à propriedade. de fazer ou não fazer alguma coisa. Essa faculdade corresponde a espaços de liberdade ou a poderes para atuar ou [p. como o direito à vida. Escola Teológica: origem da Escola Teológica. estabelecer a sua fonte ou origem. porém. também chamado de Direito Positivo. No segundo. É uma situação . Antes. Mas também encontramos a palavra direito ligada ao direito de cada pessoa. 1] exigir uma atuação alheia. ou seja. civis. No primeiro caso temos o Direito Objetivo. quando alguém diz que tem o direito a isso ou àquilo.Capítulo I GÊNESE DO DIREITO Escola Jusnaturalista ou do Direito Natural: a origem do jusnaturalismo. Escola Marxista: origem e concepção do direito. costumes) que preside à nossa vida em sociedade. Essas normas são de direito objetivo porque vivem e sobrevivem fora e independentes das pessoas. Escola Histórica do Direito.) destinado a organizar a sociedade e disciplinar a conduta humana na convivência social. Escola Sociológica do Direito: origem e concepção sociológica do direito. por exemplo.

que constituiriam o direito natural. e base de todas as leis. ESCOLA JUSNATURALISTA OU DO DIREITO NATURAL Para os jusnaturalistas. antes de apresentarmos o enfoque da sociologia jurídica sobre a origem do Direito. eternos. de modo a não permitir um entendimento uniforme até o Juízo Final. vale dizer. Platão etc. Aristóteles. Em nosso estudo vamos tratar do Direito Objetivo. a estabilidade e a imutabilidade. o direito é um conjunto de idéias ou princípios superiores.e foi adotada em Roma por Cícero. 1. das regras que organizam a sociedade e disciplinam o comportamento social. Sócrates. . até chegarmos àquela que mais se ajusta ao conteúdo da nossa matéria. permanentes. a fim de traçar-lhe o caminho a seguir e ditar-lhe a conduta a ser mantida.Heráclito. como teremos oportunidade de assinalar.. bom ou mau. já que se trata de princípios imanentes ao próprio cosmos. As principais características do direito natural seriam. uniformes. De . portanto. imutáveis. ao trazer à existência a criatura. o criador teria inculcado em sua consciência um conjunto de princípios superiores. Em suma. sociólogos etc. eternos e imutáveis. cuja origem estaria na Divindade. o mais entusiasta intérprete da filosofia grega entre os romanos. Seria como um sopro ético com que a Divindade bafejou a sua criação. teólogos. Origem do Jusnaturalismo A concepção do direito natural surge com os filósofos gregos . esquecendo-se que pode ser ele enfocado através de pelo menos três aspectos diferentes.1. A palavra Direito é normalmente escrita com letra maiúscula quando se refere ao Direito Objetivo.jurídica subjetiva de vantagem a que o direito objetivo confere proteção direta. quando da criação. outorgados ao homem pela divindade. e com minúscula quando indica o direito subjetivo. plena e específica. ponto de referência para se saber o que é justo ou injusto. A razão principal dessa controvérsia está no fato de cada qual procurar ver e conceituar o Direito pelo ângulo de visão de sua ciência. que a expôs eloqüentemente em sua obra. filósofos. Por essas razões entendemos necessário. fazer um sucinto apanhado sobre as várias teorias ou escolas existentes. 1. Como nasce o Direito? Em tomo dessa questão existiu e ainda existe a mais acirrada controvérsia entre juristas.

Manu. e que desvia do mal. Com o aparecimento do Cristianismo. entretanto. já que as primeiras leis não teriam sido simplesmente inspiradas por Deus. segundo a narração bíblica. para o qual existiriam três categorias de direito. 2. permanentes e imutáveis. Hamurabi. em todas as nações e para todos os tempos. que apela para o que devemos fazer.. constante. Em suma. foi escrito pelo próprio dedo de Jeová. não é diferente hoje nem será amanhã. semideuses. Sólon etc. amanhã.[p. lei única e eterna e imutável. Não é preciso procurar um Élio Sexto para comentar ou interpretar. difusa em todos. a própria Divindade teria se empenhado em elaborar as primeiras leis. que. ESCOLA TEOLÓGICA A Escola Teológica em muito se assemelha à Jusnaturalista... como por exemplo o decálogo que. “ Esse trecho de Cícero sintetiza com precisão a concepção jusnaturalista. reta razão. conforme a natureza. mas sim. ela não é diferente em Roma ou em Atenas.República: “Existe uma lei verdadei. em duas tábuas de pedra. no entanto. mas escritas e outorgadas por Ele. o estudo do direito voltou a ser abrangido pela religião e continuou a ser considerado manifestação da vontade divina. de origem quase legendária. e entregue a Moisés. que foram os intermediários entre a Divindade e o povo no que diz respeito ao recebimento das primeiras leis. ontem. baseado nas Escrituras e nas . entregando-as ao homem para serem observadas. sobre o Monte Sinai. que ela proíbe. por isso que coloca em destaque a origem divina do direito e o seu caráter permanente e imutável. 2. se não ordena nem proíbe em vão aos bons. A concepção do direito se explana dentro do sistema filosófico de São Tomás de Aquino. 2] ra. como Moisés. No seu entender. eterna. pois também concebe o direito como um conjunto de princípios eternos.. não muda por suas ordens nem por suas proibições os maus. É de instituição divina que não se possa propor ab-rogar essa lei e que não seja permitido derrogá-la. ela será para todas as nações e para todos os tempos... Origem da Escola Teológica A Escola Teológica coexistiu com a Jusnaturalista durante toda a antigüidade.1. hoje. mas sim diretamente.. Em quase todos os povos antigos encontramos líderes político-religiosos. a saber: o direito divino. ordenando-o. a origem do direito não estaria ligada apenas indiretamente à Divindade.

[p. não mais seria a divindade. mas sim a natureza racional do homem .imutável diante de qualquer vontade divina ou humana. e da qual decorreriam princípios que. só existe no espírito divino. autor da conhecida obra Contrato Social.1. O caráter permanente e imutável do direito decorreria do fato de ser a natureza racional do homem igual por toda a parte. o célebre “contrato social” que serve de título a um dos livros mais famosos de Rousseau. a segunda é existente entre os homens por intuição. fundando a sociedade através de um pacto. por provir de Deus. em todos os tempos. publicada pela primeira vez em 1625). John Locke. e a terceira. Puffendorf. Grotius (De Iure Belli ac Pacis. embora tenha como conteúdo a lei natural. e o direito humano. duas são as categorias de direito. a mais importante figura do liberalismo dessa época. 3. lei natural e lei humana). As relações dos homens em sociedade seriam disciplinadas pelas regras do direito positivo. nenhum poder. estáveis e imutáveis. divino ou terreno. 3] Concílios. 3. ou órbitas jurídicas. O Direito positivo. a saber: a do direito natural e a do Direito positivo. não se distinguindo. alcançaria mudar. continuaria sendo um conjunto de princípios permanentes.decisões dos Papas e de [p. culminando com Jean Jacques Rousseau. como foi ilustrado por Daniel De Föe na conhecida história de Robinson Crusoé. A origem desse direito. por sua vez. Thomasius. do jusnaturalismo. os homens tiveram a idéia de viver juntos. entretanto. Para sair do isolamento. Reunindo esses três tipos (lei divina. ESCOLA RACIONALISTA OU CONTRATUAL Na Escola Racionalista ou Contratual agrupamos vários filósofos. o direito natural. Quanto ao direito natural. em conseqüência. 4] . seguido por Thomas Hobbes (autor de o Leviathan). decorreria do pacto social a que o homem fora levado a celebrar para viver em coletividade. é produto dos homens. São Tomás de Aquino tratou de explicar que a primeira. Montesquieu (Espírito das Leis). a começar por H. por cujo intermédio aplicam-se os princípios da lei natural. neste ponto. autores de obras notáveis. No início o homem teria sido isolado. que em quase nada se diferencia do direito natural apregoado pelos gregos e romanos. A Concepção do Direito do Ponto de Vista Racionalista Para os racionalistas.

deslocou pela primeira vez a sua fonte . por força das necessidades e usos do povo. como a linguagem. visto que o primeiro é anterior. Esta escola. Também o Direito se constituíra naturalmente. haveria entretanto uma íntima e estreita relação. decorrente das necessidades e usos do povo. A escola inicia as suas atividades em pleno apogeu do neo-humanismo. ao admitir que o direito natural tem origem na natureza racional do homem. quando o direito era considerado pura criação da razão humana. A formação do Direito seria tão natural e espontânea como a origem da linguagem. como se vê. 5] . a sombra e a realidade. permanente e imutável. Em vez de indagar o que deveria ser o direito. impõe-se a imediata reformulação do Direito positivo a fim de ajustá-lo aos imutáveis princípios do direito natural. o Direito era um produto histórico. [p.de Deus para a própria razão do homem. passou a pesquisar como se formava nas sociedades. Equivale isso a dizer que o Direito positivo deve respeitar os princípios fundamentais do direito natural por lhe serem superiores. não da divindade ou da razão. Para ela. e serve de fundamento para o segundo. Pela primeira vez. Embora se tenha pensado que a linguagem fora criada por Deus. essa escola rebelou-se contra a existência de um direito natural. sujeito a transformações progressivas. Inúmeros vocábulos surgem em uma língua à medida que vão se tornando mais complexas as relações sociais. o processo de sua formação foi gradativo e paulatino. mas sim da consciência coletiva dos povos (Volks geist). no final do século XVIII e começo do século XIX. aquele conjunto de princípios imutáveis decorrente da razão. formado gradativa e paulatinamente pelas tradições e costumes. superior. não podendo deles se afastar sem se tomar injusto e iníquo. decorrente. a filosofia demonstrava que sua gênese. e o Direito positivo. 4.Entre o direito natural. tal como há entre o espírito e o corpo. ESCOLA HISTÓRICA DO DIREITO A Escola Histórica do Direito surgiu na Alemanha. ou era resultado de um acordo entre os homens. tendo como principais protagonistas Gustavo Hugo e Frederico Charles de Savigny. Em ocorrendo tal afastamento. ao passo que em outras o número de palavras é ainda reduzido por causa da estagnação da vida social. este último considerado o seu fundador.

como se vê. 6] Essa concepção do Direito deve muito a Regel.1.política. jurídica e economicamente organizada. Isso significa que o Direito apenas sanciona uma relação já existente. com uma fonte emanadora do preceito jurídico e um órgão capaz de impor o cumprimento de suas prescrições. nem pela razão. sendo igualmente filósofo. sujeito a permanente e natural evolução. Como assinala Hermes Lima (Introdução à Ciência do Direito. nem estabelecido arbitrariamente pela vontade dos homens. foi afastar a concepção do direito natural. Fixa o Direito. Marx. p. em vez de um direito geral e universal.dois grandes reformadores sociais. expressão natural de sua evolução histórica. mas sim pela consciência nacional do povo. as relações econômicas que predominam em uma sociedade em certo momento histórico. que também une intimamente o Direito ao Estado. acima de tudo. ainda que sejam em tudo desiguais. enunciada por dois pensadores alemães . costumes e tradições de todas as épocas passadas. razão pela qual Marx o considerava a expressão do interesse da classe dominante. cada povo em cada época teria o seu próprio direito. Seduzido pelos ensinamentos de Hegel. “é conquista definitiva da Escola Histórica a noção do caráter social dos fenômenos jurídicos.Seguindo essa linha de raciocínio. pelo que se esforçou em demonstrar que o direito era um produto histórico. ESCOLA MARXISTA A teoria marxista surgiu em meados do século XIX. 5. o Direito pressupõe o Estado. que incide sobre diferentes pessoas. 276). mais economistas do que juristas. nem revelado por Deus. foi neles que se inspirou para formar suas idéias sobre o direito. Eram esses fundamentos que as teorias precedentes iam buscar na razão”. regra essa única. instrumento ideológico de dominação da burguesia sobre o proletariado. com seus dois elementos essenciais: continuidade e transformação.Karl Marx e Friedrich Engels . fez seus estudos na Faculdade de Direito de Berlim. entendia Savigny que. de seus usos. [p. Origem e Concepção do Direito Para a teoria marxista. Surge somente quando há uma sociedade . com a diferença essencial de que o Estado para ele é uma instituição . aplicando uma regra a uma situação preexistente. A grande preocupação da Escola Histórica. 5. A escola mostrou que os fundamentos do direito se encontram na vida social. entretanto.

sobretudo nas regiões industriais que Marx pôde conhecer. nem por isso deve-se eliminar a instituição. já existiam regras disciplinadoras do relacionamento social. a fim de facilitar desde logo a compreensão de questões que oportunamente serão abordadas. Ao lado da manutenção da ordem estabelecida. fazer críticas a qualquer das teorias examinadas. é direito. ESCOLA SOCIOLÓGICA DO DIREITO A Sociologia e o Direito durante muito tempo ignoraram-se mutuamente. O encontro entre as duas ciências ocorreu paulatinamente a partir de . Se aqui ou acolá o Estado divorciou-se de suas verdadeiras finalidades. mas sim corrigi-la. assume uma infinidade de funções que visam o bem-estar público: a distribuição da justiça. Simplesmente porque existe moeda falsa não se deve acabar com a verdadeira. É falso. Esse direito. em grande parte sentimental. que tem por missão manter a ordem e a paz na sociedade. pôde viver sem normas de conduta. Na síntese da teoria marxista. por exemplo. Em tempo algum uma sociedade. manifestando-se essencialmente através dos costumes. sendo errônea a idéia de que. o Direito tem origem. neste modesto trabalho. por mais homogênea que tenha sido. entendemos necessárias algumas considerações sobre a teoria marxista. Embora não seja nosso propósito. 7] 6. muito antes da sociedade se organizar política e juridicamente. e por isso devendo ser combatido e destruído. a divulgação da instrução. ibi jus). Tal posição. é verdade. e pelo apoio que a classe dirigente concedia aos capitalistas beneficiários desse regime. afirmar que todo Direito emana do Estado. mesmo antes de existir o Estado. desde que apareça a sociedade. que deve ser combatido por todos os meios e finalmente destruído. não existindo Direito sem Estado nem Estado sem Direito. mas. o Estado é instrumento de pressão. o Estado. e que não existe direito nas sociedades chamadas primitivas. apresenta caracteres particulares. [p. nem na razão ou na consciência coletiva. que constitua o cerne essencial e perene do direito. Não tem valor igualmente o pressuposto de que haja um substrato eterno. fazendo-a voltar aos seus reais objetivos. é explicada pelo espetáculo da miséria que grassava na época. sobretudo o Estado moderno. quase divina. a proteção da saúde e da segurança públicas etc. não em Deus. Não é esta efetivamente a finalidade do Estado. indiscutivelmente.eminentemente respeitável. Não menos falsa e truncada é a afirmação de ser o Estado instrumento de pressão da classe dominante sobre a menos favorecida. aí fatalmente encontraremos o Direito (ubi societas. hostilizaram-se mesmo. Qualquer observador é capaz de constatar que muito antes de existir o Estado. mas no Estado. ao passo que para Marx.

o conjunto de normas que regulam a vida social. o Direito deve ser estabelecido à sua imagem. A razão disso é bastante simples: sendo o homem um ser social. E o Direito não pode formar-se alheio a esses fatos por ser um fenômeno decorrente do próprio convívio do homem em sociedade. culmina nos últimos anos do século XIX com Émile Durkheim. práticas e condutas que refletem os seus costumes. de pensar e de sentir. discipline a atividade dos indivíduos. refletindo os fatos sociais. necessita de uma organização que. é fonte criadora e área de ação do Direito. 6.1882. Costumes diferentes implicam fatos sociais diferentes. . Obrigados a viver necessariamente ao lado uns dos outros. razão pela qual cada povo tem a sua história e seus fatos sociais. o Direito tem a sua origem nos fatos sociais. conforme as suas peculiaridades. Passando por vários autores. o meio em que o Direito surge e se desenvolve. Sem ser jurista. nos acontecimentos mais importantes para a vida social. cuja elaboração é lenta e espontânea da vida social. A sociedade humana é. normas de disciplinamento da vida em coletividade. [p. seu foco de convergência. quando foi publicada a obra de Herbert Spencer . como Robinson Crusoé em sua ilha. a quem coube o trabalho de fixar definitivamente as relações entre o direito e a sociologia. provindo da consciência das relações entre os indivíduos. no entendimento de Émile Durkheim. sentimentos e cultura. Depois da Segunda Guerra Mundial verificou-se uma ligação mais ativa e fecunda entre sociólogos e juristas. 8] Paulo Nader sintetiza com maestria essa visão sociológica: “Direito e sociedade são entidades congênitas e que se pressupõem. carecemos de regras de proceder. não pode viver isolado. entendendo-se como tais os acontecimentos da vida em sociedade. Origem e Concepção Sociológica do Direito Para a Escola Sociológica. Existindo em função da sociedade. coube-lhe o mérito de ter reconhecido e evidenciado a natureza eminentemente social do direito. Ele existe na sociedade. Além de Durkheim. valores. merecem destaque Léon Duguit e Nordi Greco. que significam. pois a idéia do direito liga-se à idéia de conduta e de organização.1. orientando a vida coletiva. portanto. onde há um capítulo dedicado às leis. mas sim filósofo. complexo de pessoas e coisas. A sociedade. justamente. maneiras de agir. Esta organização pressupõe regras de comportamento que permitam a convivência social. A sua causa material está nas relações de vida. ao mesmo tempo. O Direito não tem existência em si próprio. A sociedade. tradições.Principles of Sociology. cuja história não passa de utopia. entre os fundadores da Escola Sociológica. O Direito é.

e nem ainda no Estado mas sim na sociedade. o fato e o direito existem enquanto coexistem” (João Calvão da Silva. Daí a veracidade de antigo brocado: ubi societas. O acesso à Justiça passou a ser a sua . uma relação dialética com a realidade social. pois o mundo do direito é o das relações entre os homens. A democratização do Direito pode ser apontada como uma das mais relevantes conseqüências da Escola Sociológica. Dignas de destaque as palavras do insigne Paulo Nader: “A sociedade sem o Direito não resistiria. a vinculação entre ambas é tal que um não pode existir sem o outro. mais especificamente. pp. pois. segundo a forma exata de Sforza. enquanto o Direito teve origem divina apenas os nobres. considerar o Direito. p. o Direito representa o grande esforço para adaptar o necessidades de vida” (ob. Criado pelo homem. O Direito é para a Sociologia Jurídica uma ciência essencialmente social. Se o homem não vivesse em sociedade. a sua qualidade de ser social” (Lições Preliminares de Direito. O Direito foi democratizado quando passou a ter origem na sociedade. As normas do Direito são regras de conduta para disciplinar o comportamento do indivíduo no grupo. 9] grande coluna que sustenta a sociedade. pp. Direito é realidade da vida social. não como tendo origem em Deus. Mas a recíproca é também verdadeira: ubi jus. 1990. ibi jus onde está a sociedade está o Direito. 25/26). Não são regras imutáveis e quase sagradas. 12a ed. oriunda da sociedade e para a sociedade. Responsabilidade Civil do Produtor. com os fatos que nela ocorrem. 2). o que permitiu que se afirmasse: “Não existe o direito e o fato. seria anárquica. 21a ed. Forense.. dotadas de um poder de coerção em virtude do qual se lhe impõem” (Introdução ao Estudo do Direito. Almedina.exteriores ao indivíduo. e não da natureza física ou do mero psiquismo dos seres humanos. como o são os grupos onde se originam. não haveria o direito sem sociedade. a ele tinham acesso os sábios. sacerdotes e altas castas sociais a ele tinham acesso. ibi societas . nem na consciência do povo. 6/7). nem na razão. Em suma.. Com efeito. O Direito é a [p. Assevera o Mestre Miguel Reale: “O Direito não existe senão na sociedade e não pode ser concebido fora dela. Enquanto teve por fundamento a razão. as relações sociais. teria o seu fim. pois.onde está o Direito está a sociedade -. para corrigir a sua imperfeição.. normas ditadas pelas próprias necessidades e conveniências sociais. Coimbra. O Direito tem. Uma de suas características é asocialidade. jamais poderia germinar em sua consciência a idéia do direito. O que caracteriza a Escola Sociológica é. mas sim variáveis c em constante mudança. filósofos e juristas. p. Saraiva. nas inter-relações sociais. portanto. cit. 25).

10] . as praças e fez-se linguagem de todo o povo. razão pela qual serve-lhe de base doutrinária. como não poderia deixar de ser. o povo passou a ter consciência dos seus direitos como aspecto da cidadania. [p. o Direito ganhou as ruas. A Escola Sociológica.principal finalidade. é aquela que se concilia inteiramente com o conteúdo de nossa matéria.

O fumante. tomando o vizinho proprietário da semente lançada e dos seus eventuais frutos. adquirindo a propriedade duma res nullius. critério autoritário. Critérios de composição de conflitos: composição voluntária. critério da composição jurídica e suas características.mas sim na própria sociedade. Função preventiva do direito. de Direito Civil. embora ignore. O conflito de interesse e sua composição. pratica. a satio. **** O Direito do ponto de vista sociológico é. que apanha na praia a concha preciosa trazida pelas ondas. e como tal tem sua origem. . pp. nas inter-relações sociais. abandonando uma coisa sua. de como está entrosado com quase tudo que se passa na sociedade. 11/12). nem na consciência coletiva dos povos. o camponês que. I. Características da atividade de concorrência. um ato jurídico. conforme vimos no capítulo anterior. deixa cair algumas sementes sobre o campo vizinho. realiza um ato de derelicto. participando das mais simples às mais complexas relações sociais. Por conseguinte. Como lembrou Ruggiero (Inst. pratica uma ocupatio. O banhista. 7. semeando o seu campo. 11] cigarro ou charuto. tampouco no Estado . vol.Capítulo II FUNÇÃO SOCIAL DO DIREITO A presença do direito na sociedade. nem na razão. A função social do Direito na atual ordem jurídica brasileira. Atividades de cooperação e de concorrência. não na Divindade. pois dá origem a uma figura de acessão. É difícil praticarmos um ato que não tenha repercussão no mundo do direito. um fato social. Função compositiva do direito. A PRESENÇA DO DIREITO NA SOCIEDADE Nem todos têm idéia de quanto o Direito se faz presente no meio social. trata-se de uma ciência essencialmente social. que deita fora o resto do seu [p. uma peculiaridade da sociedade humana.

Tenha ou não consciência disso. mediante o simples pagamento da passagem. 12] em adquiri-las. quando milhares de pessoas tomam o trem. Como se vê. cooperando assim cada qual na realização do interesse do outro. podem ser reduzidas a dois tipos: atividades de cooperação e atividades de concorrência. ou outro qualquer transporte público. até inconscientemente. envolvendo danos emergentes e lucros cessantes. pelo restante de sua sobrevida. Para bem compreendermos a função social do Direito. Graficamente podem ser ilustradas assim: >. quer se trate de relações entre indivíduos. a dona de casa. O mesmo se diga do indivíduo que tem um prédio e. um contrato de transporte. necessita delas. mediante o pagamento . através do qual. E se por infelicidade ocorrer um acidente do qual resulte lesão ou morte para alguém. e à medida que se empenha na realização dos seus interesses. realizam. econômicas ou não. Um indivíduo desenvolve uma atividade qualquer. a transportadora se obriga a levá-los incólumes ao ponto de destino. o Direito invade e domina a vida social desde as mais humildes às mais solenes manifestações. Atividades de Cooperação e de Concorrência As atividades humanas assumem formas múltiplas. temos antes que analisar as atividades que o indivíduo desenvolve na sociedade. Exemplo de atividade de cooperação é a do vendedor e a do comprador: o vendedor tem mercadorias para vender e o comprador tem interesse [p. coopera na realização dos interesses dos outros. isto é. o Metrô. segundo a magistral lição de San Tiago Dantas. quando adquire uma simples caixa de fósforo no quiosque ou gêneros alimentícios no supermercado. as suas características e o que podem gerar. mas todas elas. tudo aquilo que a vítima efetivamente perder e aquilo que deixar de ganhar em razão do acidente. 7. Os interesses dos dois convergem para um ponto comum. quer se trate ainda de relações entre os próprios grupos. segundo as regras do direito. realiza um contrato de compra e venda. Por que o Direito se faz assim presente na sociedade? Qual é a sua função social? É o que procuramos responder neste capítulo. de que o outro diretamente se aproveita. não precisando usá-la para sua própria moradia ou instalação. entretanto. propõe-se a ceder seu uso a outrem. quer entre o indivíduo e o grupo social.1. como a família e o Estado. Envolvem fins ou objetivos comuns. Diariamente. será a transportadora obrigada a indenizar os prejuízos. ônibus. As primeiras caracterizam-se pela convergência de interesses.

A interação. São concorrentes. coopera na realização do interesse do outro. Outro indivíduo. por exemplo. . por sua vez. Nelas. paralelas. A lição de Paulo Nader bem sintetiza o que dissemos até aqui: “Na cooperação as pessoas estão movidas por um mesmo objetivo e valor e por isso conjugam o seu esforço. para a consecução de seus objetivos. uma visando a exclusão da outra. 23). estabelecidos na mesma rua e no mesmo ramo de comércio. ainda que concorram entre si. e surge o conflito. ou para obter outra mercadoria em perfeito estado. Na competição há uma disputa. independentemente.. dois indivíduos. Nesse momento rompe-se o perfeito equilíbrio que deveria haver na atividade de cooperação. sob muitos aspectos. nunca se encontram. em que cada pessoa ou grupo procura reunir os melhores trunfos. uma concorrência. mas este se recusa a atendê-lo. de sorte que. p. fins semelhantes. Na atividade de cooperação. 13] após pagar o preço e receber a mercadoria. o advogado e outros profissionais liberais desenvolvem este tipo de atividade em relação aos seus clientes. O CONFLITO DE INTERESSE E A SUA COMPOSIÇÃO Tanto nas atividades de cooperação como nas de concorrência podem ocorrer conflitos de interesses.2. que os colocam. à medida que cada qual desenvolve sua atividade. propõe-se a pagar o aluguel pretendido pelo locador. verifica o comprador que há algum defeito que impede ou prejudica seu uso. positiva (ob. Graficamente podem ser ilustradas assim: =. Características da Atividade de Concorrência Há paralelismo nas atividades de concorrência. em posição de competidor ou concorrente. Uma das grandes características da sociedade moderna. pois não convergem para um interesse comum. Procura então o vendedor para devolver o material e receber de volta o valor pago. embora tenham objetivos idênticos. Há reciprocidade de interesses entre o locador e o locatário. um em relação ao outro. no sentido de que perseguem. O médico. já que não o possui. nesta espécie. se faz indiretamente e. necessitando de um prédio para morar. 7.de aluguel. 8. sem a interferência ou colaboração do outro. esta forma revela atividades paralelas. dão-nos um exemplo de atividade de concorrência: eles poderão explorar seu comércio indefinidamente sem entrar em choque. [p. cit. A interação se manifesta direta e positiva. desenvolvem atividades independentes. Outro exemplo encontramos em dois proprietários de prédios vizinhos: cada um pode usar sua propriedade como quiser. em que as partes procuram obter o que almejam. Dois comerciantes.

e com isso ganhar a clientela do outro. Um belo dia. Lembram-se dos proprietários de prédios vizinhos? Vimos que cada um pode usar seu imóvel como melhor lhe parecer: residir nele. a partir de então. 14] procura o proprietário do imóvel superior por várias vezes. Suponhamos por exemplo que o proprietário do imóvel A nele instale uma fábrica que solta fumaça e fuligem. moral ou física. ou buscam a mediação da justiça. Consideremos. enquanto não transpuserem os limites daquilo que lhes é lícito. ou oferecer melhores produtos. Conflitos surgem igualmente nas atividades de concorrência. surge um conflito. recusa-se a pagar os aluguéis convencionados. Podemos defini-lo como . Entre esses dois estabelecimentos comerciais. na verdade nada faz. quando as partes vão além daquilo que lhes é lícito fazer no campo do seu próprio interesse. Estará rompida a convergência de interesses existente no momento da celebração do contrato e. apesar de concorrentes. instalar-se comercialmente etc. por último. Cada qual poderá também usar seu imóvel como bem lhe convier. Este tipo de conflito. No momento porém em que o comerciante A resolver fazer uma concorrência indevida ou desleal ao comerciante B. por exemplo. a lavanderia do imóvel B não poderá funcionar. e o proprietário do imóvel B aí se estabeleça com uma lavanderia. entretanto. que seus produtos são de baixa qualidade. Se o proprietário do imóvel A mantiver em funcionamento sua fábrica. o imóvel do andar superior começa a apresentar vazamento no imóvel inferior: umedece as paredes. embora prometa resolver o problema. O condômino prejudicado [p. continuarão em harmonia. ambos estarão em conflito. no apartamento 301. coloca-o a par da situação. onde há uma infinidade de condomínios. é característico da atividade de concorrência. Pode um deles até vender mais barato que o outro. solicita-lhe uma providência. estaremos diante de um conflito de atividades de concorrência. muito constante nas grandes cidades. ambos situados num bairro industrial e exercendo atividades lícitas. alugá-lo. que a sua honestidade é questionável etc. Aqueles dois comerciantes. dizendo. Paulo Nader pondera com propriedade: “O conflito se faz presente a partir do impasse quando os interesses em jogo não logram uma solução pelo diálogo e as partes recorrem à luta. estabelecidos na mesma rua com o mesmo gênero de comércio. o caso de dois condôminos residentes no mesmo prédio. mas este. prejudica o conforto dos que nele residem. um no apartamento 201 e o outro no andar imediatamente superior. Sobre o tema.Pensemos agora no caso do inquilino que. a despeito de insistentemente procurado pelo locador.. danifica os móveis. após firmar contrato de locação e alojar-se no imóvel.

que deve ter na clareza. cit. À medida que cada um respeitar o disciplinamento estabelecido pelo Direito. que é uma das bases do progresso da sociedade. No conflito a interação é direta e negativa. [p. enfim. em que o maior desafio não é o de como viver e sim o da convivência” (ob. entre pessoas ou grupos. O que determina a natureza do conflito é a natureza da atividade.prevenir conflitos: evitar. quanto mais se desenvolve. cit.” Conclui o prestigiado autor: “Os conflitos são fenômenos naturais à sociedade. 25). estabelecendo as limitações necessárias ao equilíbrio e à justiça nas relações. Ao separar o lícito do ilícito. os que ocorrem na atividade de cooperação. segundo valores de convivência que a própria sociedade elege. não conciliados pelas normas sociais. Todos os conflitos que podem surgir na vida social são redutíveis a um desses tipos: conflitos de cooperação. 15] Esse é também o entendimento de Paulo Nader. tanto quanto possível. e conflitos de concorrência. mas na realidade assim não é. podendo-se até dizer que lhe são imanentes. evitará entrar em conflito com outrem na sociedade. equilíbrio em suas relações. Quanto mais complexa a sociedade. os que se verificam na atividade de concorrência. simplicidade e concisão de suas regras. mais se sujeita a novas formas de conflito e o resultado é o que hoje se verifica. repetidamente citado: “O Direito está em função da vida social. algumas de suas qualidades” (ob. 9. tudo faz para evitar ou prevenir o conflito.oposição de interesses. muito mais para evitar que os conflitos ocorram do que para compô-los. a colisão de interesses. A sociedade não tolera o estado litigioso porque necessita de ordem. como alguém afirmou. FUNÇÃO PREVENTIVA DO DIREITO O conflito gera o litígio e este. Isto se faz mediante a exata definição do Direito. o ordenamento jurídico toma possíveis os nexos de cooperação. O Direito só irá disciplinar as formas de cooperação e competição onde houver relação potencialmente conflituosa. O Direito previne conflitos através de um conveniente disciplinamento social. . 23). vendedor e comprador. para todos. O Direito existe muito mais para prevenir do que para corrigir.. e aí está a primeira e principal função social do Direito . A sua finalidade é a de favorecer o amplo relacionamento entre as pessoas e os grupos sociais. Muita gente acredita que o Direito tem um caráter essencialmente repressivo. estabelecendo regras de conduta na sociedade: direitos e deveres para locador e locatário.. Por isso. quebra o equilíbrio e a paz social. por sua vez.” Aduz que a função preventiva é exercida para “evitar desinteligências quanto aos direitos que cada parte julga ser portadora. p. p. tranqüilidade.

que gera a amizade. 10. os membros ligados por vínculos de afeição. p. estes acabam por ocorrer. Superar um conflito de interesses é aquilo que chamamos composição.. mas o conflito. 25). pois poderia viver e fazer o que bem entendesse. há que solucioná-lo. Aqui é um vendedor que recebe o preço mas não quer entregar a coisa. Ela se faz por um amplo relacionamento humano. pondera Paulo Nader. Vivendo em ambiente comum. Vivendo porém em grupo precisa limitar-se. filhos etc. a intolerância.. A sociedade reclama que as coisas sejam repostas num ponto de equilíbrio em que possam permanecer. a discórdia. o [p. quanto mais complexas as relações sociais. que vão reclamar soluções. visando atender uma necessidade social. as desavenças. 16] amor. possuindo idênticos instintos e necessidades. alegrias e sofrimentos do homem. Se o indivíduo vivesse só. o menor e mais forte grupo social. Suas normas são regras de conduta para disciplinar o comportamento do indivíduo na sociedade. lamentavelmente. . maior será a possibilidade de conflito. E como ocorrem! Basta entrar numa Vara de Família para se ter consciência dos conflitos que estão ocorrendo no lar. como vemos mais uma vez. Sem essas normas de conduta. Pois bem: surgindo o conflito. cit. respeitar direitos e interesses dos outros. de sangue. maior também a necessidade de disciplina e organização. os conflitos seriam tão freqüentes de modo a tomar impossível a vida em coletividade. Os litígios surgidos criam para o homem as necessidades de segurança e de justiça” (ob. portanto. pais. vejam só. a sociedade não é simples aglomeração de pessoas. é natural o aparecimento de conflitos sociais. Até mesmo na família. com inúmeras normas de direito disciplinando as relações dos cônjuges. não necessitaria de regras de conduta. Quanto maior o relacionamento. um locatário que não quer pagar o aluguel e assim por diante. porque nem todos na sociedade submetem-se à disciplina imposta pelo Direito. mas que promove. isolado. “Cenário de lutas. é inevitável. acolá. comportar-se. é uma ciência social.O Direito. todas objetivando prevenir conflitos. E aí está a segunda grande função social do Direito: compor conflitos. igualmente. a colaboração. FUNÇÃO COMPOSITIVA DO DIREITO A observância das normas previne muitas ocorrências. e.

São. A mais moderna legislação processual no mundo todo tem estimulado a composição voluntária como forma de aliviar a sobrecarga do Judiciário. 331). antes da causa ser submetida ao julgamento do juiz togado. p. imediatamente. . cit. substitui o livro defeituoso por outro perfeito. Ao chegar em casa observa que lhe faltam algumas páginas. e determinar qual o que deve prevalecer e qual o que deve ser reprimido. CRITÉRIOS DE COMPOSIÇÃO DE CONFLITOS 1) Critério da composição voluntária.099/95) prevê expressamente (arts. as partes discutem entre si e o resolvem da melhor maneira possível. 25). 11. seja para definir o titular do direito. entra numa livraria e compra um livro.Em que consiste a composição de um conflito? Não consiste em fazer desaparecer o conflito. quase sempre atentando para os próprios deveres e obrigações estatuídos pelas normas do direito. formas mistas que estimulam e valorizam a participação dos litigantes na composição do conflito. A conciliação e a arbitragem não são. 17] conciliadores. A maneira de solucionar o conflito é. 21 a 24) uma fase de conciliação. 11.1. Houve um conflito de interesses . por exemplo. O Critério da Composição Voluntária É aquele que se estabelece pelo mútuo acordo das partes. Temos ainda a Lei de Arbitragem (Lei nº 9. como já vimos. determinar a restauração da situação anterior ou aplicar penalidades de diferentes tipos” (Paulo Nader.resolvido por meio da composição voluntária. No Brasil. da qual poderão valer-se todas as pessoas capazes de contratar para dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis. por mais que se procure preveni-lo. então. conduzi da via de regra por [p. O estudante.. Esse é o sentido de toda composição. porque isso. uma vez que sempre contarão com a interferência de um terceiro .307/96). ob. reclama ao vendedor e este. todavia.o conciliador ou o árbitro. a Lei dos Juizados Especiais (Lei nº 9. Surgindo o conflito. Não se pode evitar o conflito. é impossível. 2) Critério autoritário. 3) Critério da composição jurídica. colocar os dois interesses em antagonismo na balança. volta à livraria. a rigor. formas puras de composição voluntária. 277/278) como no ordinário (art. “O Direito apresenta solução de acordo com a natureza do caso. O Código de Processo Civil também estabelece uma audiência prévia de conciliação tanto no procedimento sumário (arts.

filhos. Senhor etc. Foi uma solução tirada por Salomão do seu foro íntimo e que. a publicidade e a universalidade. preferindo que seu filho. e aplicável a todos os casos que ocorrerem a [p.aquela que imediatamente se opôs à idéia. no caso. O Critério Autoritário Por esse critério.a anterioridade. É aí que se apresenta o terceiro critério. saímos do domínio do puro autoritarismo e entramos no domínio do direito. Graças à anterioridade. para desempenhar a tarefa de compor conflitos. São pois características do critério jurídico . vivo. . Muito usado este critério nas sociedades antigas. O Critério da Composição Jurídica e suas Características A composição jurídica é sempre feita mediante um critério elaborado e enunciado anteriormente. 11. quando estas atingem sua forma plenamente evoluída. e implica em dizer que o critério aplicado preexiste ao conflito. bem solucionou o conflito.11. Normalmente a autoridade lança mão do seu foro íntimo.. O Rei Salomão mandou trazer uma espada com a qual. 18] partir de então. disse. daquilo que a consciência lhe inspira. ambas reclamando-a como filho. iria cortar a criança ao meio. dando uma metade para cada mulher.Rei. Assim pôde constatar qual era a mãe verdadeira . parentes. o poder de compor os conflitos de interesses que ocorrem entre os indivíduos que se encontram sob sua autoridade.3. Cacique. Todos por certo já ouvimos falar na justiça salomônica. justamente aquele que mais nos interessa. alguns casos de composição tomaram-se famosos. fosse entregue à falsa mãe. menos perfeitas. Na sociedade de hoje o critério autoritário é ainda utilizado no meio familiar.. A anterioridade é o traço característico e fundamental da composição jurídica. cabe ao chefe do grupo . do próprio senso de Justiça. entretanto. O chefe da família muitas vezes tem de resolver os conflitos de interesses que surgem entre os seus membros.2. Deve ter sido elaborado antes para poder ser aplicado ao conflito que ocorrer depois. e na célebre fórmula usada pelo Rei para resolver um conflito entre duas mulheres que disputavam a mesma criança. lançando mão de soluções que vai buscar em seu foro íntimo. são imperfeitos e insuficientes para resolver conflitos de interesses que surgem nas sociedades humanas. Estes dois critérios. empregados etc.

Modernamente a sua missão é muito mais ampla uma vez que lhe cabe. destacamos as duas principais funções que o Direito realiza na sociedade. tem que ser realizada através de um critério anteriormente estabelecido e perfeitamente enunciado para conhecimento de todos. Quer isto dizer que todos os conflitos idênticos que surgirem após a elaboração e divulgação do critério deverão se compor pelo mesmo critério. Por universalidade entende-se que o critério jurídico nunca pode ser cominado apenas para um determinado caso concreto. e isto ele faz através do critério jurídico. Isto ele faz através do adequado disciplinamento das relações sociais. 27). o bem comum. favorece o desenvolvimento da ciência. Concluindo. na composição jurídica. que podem ocorrer tanto nas atividades de cooperação como nas de concorrência. na atualidade é um fator decisivo para o avanço social. p. [p. A Função Social do Direito na Atual Ordem Jurídica Brasileira Cumpre por último registrar que o Direito não desempenha apenas essas duas funções na sociedade. Além de garantir o homem. Composição jurídica é somente aquela que obedece a um critério anteriormente elaborado e também previamente dado à publicidade. A segunda é a de compor conflitos. muito embora este último termo seja mais usado. Alguns autores preferem falar em generalidade em lugar de universalidade. 59). cit. Em suma.O que se entende por publicidade? Não basta. mas sim para todos os casos que se apresentarem com a mesma tipologia. diz Paulo Nader.4. da tecnologia.. É preciso também que o critério tenha sido anunciado. o progresso das comunicações. cit. é necessário que se dê conhecimento do critério antes de sua aplicação. p.. em última instância. que acabam por ocorrer não obstante toda prevenção exercida pelo direito. a rigor. promovendo ainda a formação de uma consciência nacional”(ob. 19] nem a média do bem de todos. que na belíssima lição de Miguel Reale “não é a soma dos bens individuais. A primeira é a de prevenir conflitos. para que a composição seja jurídica. que atenda à universalidade dos casos que se apresentarem dentro do mesmo tipo. prover o bem comum. 11. da produção das riquezas. que o critério tenha sido elaborado antes do conflito. pois isto implica a universalidade. declarado pela autoridade que o elaborou. uma posição harmônica do bem de cada um com o bem de todos” (ob. a elevação do nível cultural do povo. tomando-o conhecido. revelado. . “O Direito. é a ordenação daquilo que cada homem pode realizar sem prejuízo do bem alheio.

dos mais simples aos mais complexos. por sua vez. o jurista Miguel Reale. San Tiago Dantas assinala: “Pode-se dizer que. Temos ali uma cláusula geral a ser observada em todo e qualquer contrato. 20] ao bem comum. XXII. Valer-se do direito para colimar resultados contrários à sua instituição. No artigo 187 do novo Código Civil a função social do Direito é colocada como limite para o exercício de todo e qualquer direito. ao garantir o direito de propriedade. pois não poderá. O novo Código Civil. [p. 5°. A função social do Direito é consagrada no novo Código Civil no seu art. porque o Direito. em caso algum. quando presentes interesses metaindividuais ou interesse relativo à dignidade da pessoa humana” (enunciado n° 23). Quem contrata não mais contrata apenas com quem contrata. Pode-se afirmar que a passagem do individualismo para o social é a característica essencial da evolução jurídica do nosso tempo. prestigia esta questão a ponto do seu grande coordenador.o Direito como instrumento para a construção de uma sociedade mais justa.A atual ordem jurídica brasileira dá grande ênfase à função social do Direito. mais do que um direito subjetivo. p. menos individualista. Em outras palavras. XXIII. ter afirmado que a socialidade é uma das suas principais características. 182. verdadeiro cinto de segurança. a visão social do Direito . ser exercido contra a finalidade social que a lei teve em mira quando o reconheceu e protegeu. ou pelo menos um direito subjetivo que não tem no arbítrio do titular a sua única medida. o que se concede ao indivíduo é uma proteção jurídica. 186). Assim como o Código Civil de Napoleão foi fruto do liberalismo do século XVIII. Na jornada de Direito Civil promovida pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal foi proposta a seguinte interpretação para esse dispositivo: “A função social do novo Código Civil não elimina o princípio da autonomia contratual. contrata também com a sociedade. inaugurando um novo tempo no mundo negocial. enfim.. 422 ao dispor que a liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato. a solidariedade e a harmonia coletiva. III. mas atenua ou reduz o alcance desse princípio. hoje. é o instrumento de organização social para atingir essa finalidade. . igualitária e solidária .foi a grande motivação do novo Código Civil. repita-se. ressaltou que terá ela que cumprir a sua função social (arts. além do qual se toma abusivo. § 4°. A Constituição de 1988. o exercício de todo direito subjetivo está condicionado ao fim que a sociedade se propôs: a paz. Forense. Exige dos contratantes uma postura mais humana. III. a ordem. cuja trilha foi seguida pelo nosso Código de 1916. 2a ed.100). e que altera substancialmente o conteúdo da atividade contratual. 170. eis o abuso do direito” (Conflito de Vizinhança e sua Composição.

21] . de considerável número de pessoas.228 do novo Código Civil submete o exercício do direito de propriedade à sua função social. caso em que será fixada uma justa indenização ao proprietário. o § lº do art.. Ao falar em finalidade social o diploma civil refere-se ao destino social da coisa. comércio. mas a um princípio que modernamente alimenta toda a nossa ordem jurídica. por mais de cinco anos. [p. e não quando destinado a latifúndio improdutivo. na posse ininterrupta e de boa-fé. “O direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais”. com os exemplos citados.e não para a especulação imobiliária. podendo ser encontrado um eloqüente exemplo disto no parágrafo quarto deste mesmo artigo 1. seu estado normal de servir ao ser humano. em conjunto ou separadamente.Em conformidade com a Constituição. O que se evidencia. como não poderia deixar de ser. O imóvel urbano também tem que ser utilizado em conformidade com a sua potencialidade . 1. indústria . é que a socialidade não se resume a uma disposição abstrata. obras e serviços considerados pelo juiz de interesse social e econômico relevante”. e estas nela houverem realizado.moradia. Um imóvel rural só atende à sua finalidade social quando utilizado na produtividade compatível com sua potencialidade.228 do Código Civil: “O proprietário poderá ser privado da coisa se o imóvel reivindicado consistir em extensa área. Também aqui a finalidade social opõe-se ao individualismo..

que os “juristas ainda estão à procura de uma definição para o Direito”. que surge das inter-relações sociais e se destina a satisfazer necessidades sociais. está ligado à idéia de organização e conduta. Origem das normas de conduta: a escola monista e a escola pluralista. características. como já vimos. **** O Direito. 23] 12. É fenômeno social. O . NORMAS DE CONDUTA Se o Direito. Essa tarefa se toma ainda mais arriscada quando se trata do Direito. Kant teria afirmado. deve o estudante considerar todos os elementos dessa coisa. então deve ser ele entendido como um conjunto de normas de conduta que disciplinam as relações sociais. Provisoriedade e mutabilidade das normas de direito.Capítulo III CONCEITO SOCIOLÓGICO DO DIREITO Normas de conduta. a religião. assim como a linguagem. Conceito sociológico do direito. Antes de tentar conceituar qualquer coisa. como é sabido por todos. não é tarefa simples.. e então procurar fazer uma descrição de tudo isso. Características das normas de conduta: a obrigatoriedade e a sanção. já no século XVII. [pg. é fato social que se manifesta como uma das realidades observáveis na sociedade. lançando mão dos vários princípios expostos nos capítulos anteriores. finalidade etc. como já ficou assentado. formulando um conceito que se enquadre na visão sociológica do Direito. É o que procuraremos fazer com relação ao Direito. arriscando-se aquele que se empenha em realizá-la a formular um conceito parcial. Só assim poderá chegar perto da realidade na formulação do seu conceito. Propomo-nos neste capítulo a explicitar a concepção do Direito como fato social. Conceituar. seus requisitos. a cultura. tais como prevenir e compor conflitos.

isto é. Seria um tiro sem bala. 121 do Código Penal incrimina a ação de matar. aplicáveis a todas as relações abrangíveis pelo seu escopo. é o Direito a única relação inteiramente determinada pela coexistência humana e que se exaure de homem para homem. E nem poderia ser diferente. pois na conjugação desses dois elementos . pois. se a observância das normas jurídicas fosse facultativa. Por isso são chamadas normas universais ou genéricas. [pg. Portanto. o Direito da disciplina das relações extrínsecas do homem.a sociedade e o indivíduo . 13. O caráter de generalidade das normas do Direito faz que este tenha em vista apenas o que na sociedade acontece com mais freqüência. mas sim a casos hipoteticamente considerados. A Obrigatoriedade Em regra são normas obrigatórias. o Direito não se dirige a pessoas determinadas nem a relações consideradas individualmente. Não regula de forma direta. o grupo versus o indivíduo e o grupo versus outro grupo. o contrato celebrado entre A e B em determinado momento e em determinado lugar porque a individualidade dos comandos não é própria do Direito.encontramos a sua razão de ser. como já assinalado.1. mas sim qualquer hipótese de homicídio.mundo do Direito é o mundo das relações entre os homens. . Não somente as relações que se travam entre o indivíduo e outro indivíduo são objeto do Direito. por exemplo. CARACTERÍSTICAS DAS NORMAS DE CONDUTA Trata-se de normas de conduta que se destinam a todos. Claro está que. de observância necessária. Assim. São também abstratas porque não se referem a casos concretos quando de sua elaboração. E isso permite. por exemplo. Como tem sido assinalado por muitos autores. o prévio conhecimento do critério a ser aplicado na composição dos conflitos e assegura igualdade de tratamento às partes. quando a norma do art. 24] 13. totalmente inócua se tomaria a disciplina por elas imposta. não objetiva concretamente o caso de A matar B. Cuida. Sabe-se previamente como será resolvido um determinado tipo de conflito se e quando ocorrer. sob pena de o Direito não atingir os seus objetivos. cabendo à moral a disciplina de suas relações intrínsecas. com a garantia de que as partes nele envolvidas serão tratadas da mesma maneira. mas também aquelas que se realizam entre o indivíduo versus o grupo.

p. elemento fundamental do Direito. Não percebemos que o Direito é sobretudo obrigação porque estamos habituados a obedecer a suas normas. da mesma forma que não sentimos certas imposições físicas. como a gravidade. 25] lência” (ob. A Sanção O Direito dirige-se a seres dotados de liberdade. Esta. embora à primeira vista possa parecer paradoxal. que. Só temos. essas normas correspondem à nossa maneira de pensar e sentir. tomamos logo consciência da sua obrigatoriedade pois temos então que responder pelas conseqüências. e não uma obrigação. É também por isso que se tem afirmado (Kant foi o primeiro) ser a Moral autônoma e o Direito heterônomo.[pg. O ato moral implica a adesão do espírito ao conteúdo da regra. portanto. liberdade. na exata medida em que o Direito nos confere um beneficio. em geral e por definição. Até mesmo no campo do direito contratual. e vice-versa. em lugar de obrigatoriedade. tomou-se necessário estabelecer uma sanção. a noção do Direito está intimamente ligada à noção de obrigação. fruto da força ou da coação.A obrigação é. 13. . Não é possível conceber-se o ato moral forçado. Alguns autores. Pondera o festejado Miguel Reale que “a moral é o mundo da conduta espontânea. pois na realidade também ali essa autonomia move-se dentro de limites extremamente reduzidos. entretanto. Esquecemonos. do comportamento que encontra em si próprio a sua razão de existir. que agem comandados pela vontade. para indicar que ela envolve a possibilidade jurídica de coação. a rigor. Para o público em geral. talo nosso condicionamento social. Ninguém pode ser bom pela vio. cit. entretanto. a palavra direito dá idéia de privilégio. Como podem as pessoas inobservá-lo. vantagem ou poder. faculdade. por um movimento espiritual espontâneo realiza o ato enunciado pela norma. tudo que é oposto à obrigação. na verdade.. a tal ponto que não lhe sentimos quase o peso. moral autêntica quando o indivíduo. Dizemos “eu tenho direito a isso ou àquilo” para indicar algo que nos favoreça. é a principal diferença entre a norma jurídica e a regra moral. preferem falar em coercibilidade da norma. cria uma obrigação ou dever para outrem.2. A moral é incompatível com a força ou coação mesmo quando estas se manifestam juridicamente organizadas. visto ser posto por terceiros aquilo que juridicamente somos obrigados a cumprir. Ocorre também que. ou seja. onde muitos autores acreditam reinar a “autonomia da vontade” a coisa não é bem assim. No momento em que transgredimos qualquer dessas normas. 44). Então. regalia.

para todo aquele que descumprir uma norma de Direito. e a pena é fixada pelo juiz. embora na prática os autores e a própria lei não a considerem. a sanção exerce uma coação psicológica sobre os indivíduos. e pena já é o próprio castigo imposto. no empenho de levá-la a respeitar o Direito. assim como na obrigação de reparar o dano causado. e pena é a sanção concretizada. É a chamada prevenção geral. que se dirige à vontade. [pg. Sanção é a ameaça de castigo para o transgressor da norma. É a chamada prevenção especial. Essa coação psicológica. não há como tergiversar: as normas de Direito emanam do grupo social. consistente em perda ou restrição de determinados bens.o meio mais eficaz encontrado pela sociedade para tomar a norma jurídica de observância necessária. as opiniões se dividem em duas escolas. empregando o poder coercitivo de que dispõe para punir o responsável pelo ilícito. livrando a sociedade de sua conduta perniciosa. Para esses destina-se a coação física ou material. em nosso entender. É a possibilidade de coação da qual a norma é acompanhada. ao passo que a pena exerce uma coação física ou material. A autoridade pública aplica a pena. a sanção é cominada pelo legislador. frutos da razão. . Para a sociologia jurídica. entretanto. 26] 14. É o remédio extremo usado contra uma minoria que não observa as normas. Sanção é a ameaça de punição para o transgressor da norma. Há. sanção é a pena abstratamente considerada. logo no primeiro capítulo. outros. através da qual consegue o Direito evitar a ocorrência de inumeráveis conflitos. exercendo constrangimento sobre a consciência. Por isso alguns teóricos chegam a definir o Direito como um sistema de sanções. na esperança de não ser punida. acabando por transgredir as normas. Sobre o grupo social que deve estabelecer as normas de Direito. que esta é uma questão discutida. faz com que a maioria se conduza dentro dos limites do Direito. Para uma minoria não basta a coação psicológica. ORIGEM DAS NORMAS DE CONDUTA Já vimos. A obrigação não pode existir sem sanção. Tal coação é por Vanni (Lezioni di Filosofia del Diritto) vista como força psíquica do direito. havendo aqueles que entendem serem as normas de origem divina. É o prometimento de um mal. geradora do temor à pena. uma pequena diferença entre sanção e pena. da consciência coletiva ou do Estado.

muçulmano.o Estado devidamente organizado -. sendo igualmente ensinada pelos puristas clássicos. 29) cita como exemplo de direito supranacional as instituições consuetudinárias profissionais. em fase adiantada do progresso. está apto a criar normas de direito. considera que todo agrupamento de certa consistência ou [pg. A doutrina monista. sem considerar fronteiras entre Estados nem a nacionalidade dos interessados. Não é uma criação arbitrária. ainda . Mas. que a defendeu em diversos trabalhos. além das que foram impostas pela autoridade política. Segundo Henri Levy Brühl. o principal adepto da doutrina pluralista é G. existe imprescindivelmente. o direito canônico. adquirem o alcance de verdadeiras regras jurídicas.2. Marx e Kelsen. A Escola Pluralista A escola pluralista que.o grupo político . pode ter sua razão de ser no que se refere à ciência do Direito.14. com freqüência criam Direito. muito divulgado na Idade Média e observado tão escrupulosamente quanto qualquer outra lei nacional. mesmo nas sociedades já política e juridicamente organizadas. orientada no sentido da formação do Direito. Houve e ainda há direitos supranacionais e infranacionais que não emanam da competência dos órgãos da sociedade global. intervêm na sua criação. além de alguns juristas. mas não com relação à sociologia jurídica. A nossa Assembléia Nacional. bem sintetiza esta questão na lição que segue: “O Direito é necessário. esta escola entende que apenas um tipo de grupo social. o nosso Governo. que se encontra mais próxima das teorias de Hegel.1. ultrapassando o caráter de simples regulamentos. 27] expressão pode outorgar-se normas de funcionamento que. A Escola Monista Englobando quase todos os juristas. Inocêncio Galvão Telles. sem dúvida. Gurvitch. Há aí uma atividade racional. p. e que ainda existem prescrições. compreende sociólogos e filósofos. regulamentos. Um simples olhar sobre a vida social nos convence de que existiram prescrições jurídicas antes de a sociedade organizar-se em Estado. através de leis. como por exemplo o direito religioso de vários povos. catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa. judaico etc. Henri Levy Brühl (Sociologia do Direito. que se difundiram em inúmeras regiões. nos termos que aos governantes se afiguram como os melhores para satisfazer as necessidades e exigências da vida. 14. decretos-leis. Os homens. A mais característica dessas instituições foi o direito mercantil (jus mercatorium).

Livraria Petrony. sofre constantes modificações. pensamentos etc. os jovens tornaram-se adultos. sendo originário do grupo.. Mudamos em nossa maneira de ser e [pg. Lisboa. 28] queremos que os jovens de hoje se comportem como nós. que o grupo social havia sofrido profundas modificações: os adultos envelheceram. e vice-versa. E o grupo. p. afirmava: “Panta rei” . Tal concepção. 15. embora muitas vezes nem se perceba a mudança. o Direito necessariamente brotaria como floração espontânea da sociedade. I. Foi assim que aconteceu noutros tempos sob a forma de costumes. como é sabido. estáveis e imutáveis. com concepções e visões diferentes da vida. consideravam o direito um conjunto de princípios permanentes. PROVISORIEDADE E MUTABILIDADE DAS NORMAS DE DIREITO Os defensores do direito natural. onde há uma constante troca de influências recíprocas possibilitada em razão dos modernos meios de transporte e comunicação. um dos mais destacados. as mudanças nos grupos modernos são bem mais rápidas e constantes do que nos grupos primitivos. Como pode o Direito. tudo está em constante transformação. Heráclito. permanecer imutável. tanto os que o concebiam como tendo origem na Divindade como aqueles que o entendiam fruto da razão.que não houvesse esta criação racional e um pouco artificial. Evidentemente. Imaginemos agora o que se passa nos grupos modernos. Mal um fato ocorre aqui. Assim é porque o próprio ser humano está em constante mudança: mudam os hábitos. Já os filósofos gregos haviam chamado a atenção para essa permanente mutabilidade das coisas e do próprio homem. e isso mostra o caráter necessário do Direito (Introdução ao Estudo do Direito. tudo muda. mesmo assim haveríamos de constatar. 9ª ed. 27). o outro lado do mundo toma conhecimento quase imediatamente. no fim desse tempo. as crianças tornaram-se jovens. vol. não pode ter maior estabilidade que o grupo. Daí a razão do eterno choque de gerações entre jovens e adultos. O mesmo acontece com hábitos. entretanto. do adolescente para o jovem. Se o Direito emana do grupo social.tudo passa. conforme já assinalamos. Se pudéssemos isolar um grupo por um período de dez ou vinte anos. do adulto para o velho. não se ajusta ao ponto de vista sociológico. que o considera produto social. costumes. do jovem para o adulto. que contestávamos na juventude exatamente aquilo que agora pensamos e fazemos. moda etc. quando esse mesmo grupo se modifica constantemente? . da criança para o adolescente.

A observação. por sua vez. obrigatórias porque são de observância necessária. 29] primeiramente a preveni-los. objetivando prevenir e compor conflitos. universais. impostas pelo grupo e não somente pelo Estado. mas sim essencialmente provisório. prova de maneira clara que o Direito está sujeito a transformações contínuas. não tem o Direito caráter estável ou perpétuo. empenha-se em compô-los. o Código de Processo Civil sofreu uma série de alterações e outras precisam ser feitas com urgência. assinalou Levy (ob. obrigatórias e mutáveis. coercitiva. que em qualquer tipo de atividade realizada pelo indivíduo na sociedade. impostas pelo grupo social. mutáveis porque sujeitas a constantes transformações. seja de cooperação ou de concorrência. para não nos alongarmos. já sofreu mais de quatro dezenas de emendas. podem surgir conflitos e que o Direito se propõe [pg. quando não consegue impedir que ocorram. em 2002 entrou em vigor um novo Código Civil em relação ao qual já se fala em mudanças. mudam-se também as normas de Direito. destinadas a disciplinar as relações externas do indivíduo. Tão incontestável é o caráter provisório do direito que alguns adeptos do direito natural conceberam uma noção que denominaram “direito natural de conteúdo variável”.Mudando o grupo. CONCEITO SOCIOLÓGICO DO DIREITO Juntando todas as características até aqui examinadas. 30] . [pg. abstratas porque são elaboradas para casos hipoteticamente considerados. Destaca-se. como já ficou demonstrado. Trata-se de normas universais porque se destinam a todos. razão pela qual. abstratas. 33).. p. pois o simples confronto com os diferentes sistemas jurídicos do passado ou dos países estrangeiros basta para dar idéia da prodigiosa diversidade das normas de direito aplicadas na superfície do globo. cit. 16. do ponto de vista sociológico. Aqui mesmo em nosso país profundas modificações foram feitas em nossa ordem jurídica para ajustá-la às novas realidades sociais decorrentes das transformações por que passamos nas últimas décadas. por derradeiro. sujeito a constantes modificações. Tivemos uma nova Constituição em 1988 que. formulamos o seguinte conceito de Direito: conjunto de normas de conduta. espera-se para breve um novo Código de Processo Penal e.

Não são regras permanentes e inalteráveis. fazendo-o oscilar.e o grupo está em permanente transformação. examiná-las todos. a saber: os fatores econômicos.[pg. porque se originam no grupo social. Fatores culturais: concepção de cultura. 17. Tal como a agulha magnética sob a ação de uma corrente elétrica. Inicialmente pode-se dizer que. há fatores que agem sobre o Direito. são os principais. tudo o que agir sobre a sociedade produzirá reflexo também sobre o Direito. mas sim. não sendo possível. 31] ção (indústria. com muita nitidez. as formas de produ. sujeitas a constantes modificações. a influência condicionante da sociedade sobre o Direito enquanto fato. culturais e religiosos. Inúmeros são pois os fatores sociais que concorrem para a evolução do Direito. Fatores religiosos. em nossa opinião. sendo o Direito uma decorrência das relações sociais. **** O Direito. Observa-se aqui. Outros fatores sociais. como vimos no capítulo anterior. tomando-o um produto de processos sociais (vide capítulo VIII). é um produto de múltiplas influências sociais. . um produto da sociedade. Fatores políticos.Capítulo IV FATORES DA EVOLUÇÃO DO DIREITO Fatores econômicos: influência do fator econômico sobre o Direito Romano e sobre o Direito Moderno. O sistema de propriedade. da qual falava Siches. políticos. em sua concepção sociológica. FATORES ECONÔMICOS A estrutura econômica de uma sociedade reflete-se diretamente no seu ordenamento jurídico. neste modesto trabalho. Vamos apenas destacar aqueles que.

. da constituição econômica. sua estrutura econômica se transforma”. Marx e F. p. entre as forças modeladoras do Direito. pp. A organização social tem o seu ponto básico de articulação no modo pelo qual os homens produzem. Assim sendo. na medida em que nos são acessíveis. podemos afirmar. Achille Loria (ob. criadores do materialismo histórico. sem possibilidade de erro. p.. Caracterizavam-se por forte concentração de poderes nas mãos do pater famílias e rígida disciplina doméstica. 80 e segs.tudo isso se reflete na ordem jurídica. cit. o fator econômico era a mola mestra da história. Seligman. as relações entre empregados e patrões . 293).. a situação legal. o fato econômico é a causa. que o Direito vai se modificando à medida que vai se alterando a estrutura econômica da sociedade. cit. embora não se possa negar que. tinham que tirar da terra o seu sustento. Sem dúvida constitui exagero considerar o Direito reflexo exclusivo da constituição econômica. os demais fenômenos culturais não passando de simples reflexos superestruturais das forças genéticas armazenadas pelas relações econômicas de produção. como por exemplo K. Engels. ainda que seguido de muito perto pelo político. Para eles.). o fator econômico é o que exerce uma influência mais decisiva. exclusivamente. citado por Hermes Lima (Introdução à Ciência do Direito. os costumes desses camponeses. eram os que mais convinham a agricultores. assinala que “raças e nações as mais diferentes têm de sujeitar-se ao mesmo direito quando são iguais as relações econômicas nelas dominantes e que a nação sofre mutação radical do próprio direito quando. 17. Ora.).agricultura etc. Tão marcante é a influência da economia sobre o Direito que alguns autores chegam a se posicionar no sentido de conceber o Direito como reflexo. influenciando-a.1. o resultado”. 293). possuem e comerciam. “que dedicou especial atenção às relações entre direito e economia”. com o crescimento da população. afirma que “todo o desenvolvimento jurídico toma-se inexplicável se o isolam das forças econômicas. Influência do Fator Econômico sobre o Direito Romano Em Roma. a sociedade inicialmente compunha-se de camponeses que viviam da lavoura. como observou Levy Brühl (ob. Nesse sentido.

Novos ramos do direito foram brotando no velho tronco do Direito Civil e aos poucos ganhando autonomia.o casamento sine manu. Essa modificação na estrutura econômica imediatamente repercutiu no direito. 17.” [pg. passando a ser submetida ao controle da sociedade global e não mais exclusivamente ao pater familias. Aos poucos foram surgindo os grandes organismos econômicos. Lembra Machado Neto (Sociologia Jurídica. 32] não tinham qualquer iniciativa. entraram em contato com outros povos. os estrangeiros deixaram de ser tratados como inimigos e passaram a ser amigos. do trabalho. Encontrou-se um meio para liberar o filho da tirânica autoridade do pai . outro meio para libertar a mulher casada da autoridade do marido . 33] . industrial.Todos os membros do grupo doméstico estavam submetidos à autoridade do chefe. econômico etc. nem autonomia. 244): “A própria instituição da escravidão.2. em decorrência do enfraquecimento correlativo dos proprietários de terras. o único dotado de capacidade jurídica. e operações foram inventadas para as quais o simples consentimento podia gerar obrigações. A organização da família tomou-se menos rígida. e sobre a condição jurídica do homem trabalhador em particular. Lançaram-se ao mar. os agricultores romanos tomaram-se comerciantes. sua substituição pelo servilismo durante o regime feudal e sua posterior superação pelo assalariado na moderna sociedade burguesa. o formalismo atenuou-se com a introdução da noção de boa-fé no direito. tais como o direito comercial.a emancipação. Uniam-se todos em tomo do pater familias para a produção dos bens necessários à sobrevivência do grupo. acarretando isso tudo um tremendo abalo na ordem jurídica. p. indispensável no comércio. multiplicaram-se os sistemas de manumissão de escravos. no fim do século XVII. enriquecida pela posse de capitais mobiliários. Aí pelo III século antes de Cristo. dedicaram-se com grande intensidade à compra e venda de mercadorias. nacionais e multinacionais. são transformações econômicas de repercussão imensa sobre o status pessoal em geral. A burguesia ascendeu ao poder político. Surgiu uma nova classe. Os demais membros [pg. Tal direito estava perfeitamente adequado a uma sociedade de pequenos agricultores. Influência do Fator Econômico sobre o Direito Moderno Algo idêntico ao ocorrido em Roma desenvolveu-se quando da criação da grande indústria e do maquinismo. não importando idade ou situação social.

voltamos a enfatizar que do ângulo sociológico em que nos situamos há uma nítida distinção entre o Direito e o Estado. o Direito Constitucional . contratos. embora não se possa negar a proximidade em que se situam. pelo seu aspecto normativo puro. tributário etc. Segundo o regime em que se vive. longe de ser o responsável pela gênese do direito. Se bem examinarmos o conjunto de atribuições do Estado. não foge à regra. como já o fazia Kelsen. de maior ou menor rigidez. 310). bem como as funções e atribuições do Estado. A aparição do poder político.a estática do Estado. Ed. A própria organização da família.Cumpre ainda assinalar que. Atalaya. sucessões. dependendo dos fatores políticos vigentes. O próprio Direito Penal. embora ligada etimologicamente a polis (cidade). feudal ou democrático. direitos reais. do trabalho.. bem como o Direito Administrativo e o Direito Fiscal . como sobre o conteúdo do direito. a aquisição e o uso da propriedade. na estrutura jurídica atual. assumirão aspectos variantes. principalmente no que diz respeito aos crimes contra o patrimônio. razão pela qual sua teoria foi tão mal compreendida pelos sociólogos. Sem entrar em polêmica. o direito comercial. abrangendo as relações entre o indivíduo e o Estado. primeiro capítulo) e ainda hoje é a perspectiva da maioria dos juristas em face do Estado. apresentarão peculiaridades. Por essa razão. Por isso já houve quem identificasse Estado e Direito (vide Teoria Marxista. modernamente é utilizada para designar a ciência e a arte de governar. a livre iniciativa comercial ou econômica. falimentares e a ordem econômica. na parte que se refere às obrigações. as relações entre empregados e patrões etc. 18.a sua dinâmica. veremos que é exatamente através da regulamentação jurídica que o Estado as exerce. aristocrático. FATORES POLÍTICOS A palavra política. apresentam inegável repercussão econômica: o Direito Civil. 1949. p. É que os juristas enfocam o direito exclusivamente pelo ângulo da ciência jurídica. o regime político de um país exerce influência direta sobre suas regras de Direito Público e até de Direito Privado. como observou Nordi Greco (Sociologia Jurídica. as relações dos Estados entre si. ] . monárquico. tanto na função e estrutura jurídicas. este se realizando socialmente através daquele. que mantém maior distância do econômico. [pg. é apenas um evento que exerce uma reação grave e imediata.

a quinta. de acordo com a filosofia preconizada. como as da Previdência e a Tributária que afetarão muitos milhões de brasileiros. substituindo aquele que servia de sustentáculo normativo ao sistema social. Assim foi na Grécia com a Legislação de Sólon. decorrentes da vitória da revolução francesa.. sendo ainda certo que outras estão em andamento. que se funda em novas concepções. com a Declaração dos Direitos do Homem e a Legislação Napoleônica. Se o movimento contraria o sistema de legalidade do Estado. igualmente de grande repercussão social . a quarta. da república. o grupo que destituiu os governantes e assume o poder deve iniciar o trabalho de reformulação social. 1937. assim no mundo contemporâneo. A influência dos fatores políticos sobre o Direito toma-se mais patente no caso de revolução. “é um acontecimento político motivado pela insatisfação social quanto às instituições e regime vigentes. no que diz respeito às nossas constituições de 1824. A revolução. A possibilidade de instauração de um novo Direito.O atual momento político brasileiro oferece eloqüente exemplo disto. político e econômico contra o qual a revolução se lançou. refletindo as novas tendências políticas. a segunda. das revoluções de 1930 e 1932. 56). e assim até mesmo no Brasil. é básica. Esse novo Direito.. traz no seu bojo a intenção de legitimar e justificar o poder. possui o poder de instituir uma nova ordem jurídica. anota Paulo Nader. Pressupõe idealismo. Mal concluída a tomada do poder pelo grupo revolucionário. pois a luta revolucionária exige um novo instrumental jurídico capaz de dar validade e eficácia às transformações que visa a operar no quadro social” (ob. do advento do fascismo e [pg. notadamente o Constitucional. 1934. a terceira. cit. que significou a superação de uma questão social. a Política e a Trabalhista. 1967 e 1988. que estabeleceu uma nova relação entre patrícios e plebeus. em uma ideologia que se pretende implantar na organização social. É com essa mudança efetiva que a revolução se completa. 161). 1946. p.a reforma do Judiciário. cit. como lembrou Machado Neto (ob. 35] do Estado Novo. Imbuído pelo chamado espírito revolucionário. assim foi em Roma com a Lei das XII Tábuas. A primeira resultou da revolução da independência. da redemocratização do país . o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva arregimentou forças políticas para realizar profundas reformas constitucionais. pois a revolução implica adesão social. assim no mundo medieval com a Magna Carta (1215). Caracteriza-se por dupla ação: intelectual e de força. p. A legitimidade do Direito criado baseiase no apoio popular. com o que se fecha o ciclo revolucionário. Tão logo chegou ao poder o Partido dos Trabalhadores. surge um Direito novo. 1891.

Roma pelo direito. não apenas nas artes e na literatura romanas. e quando a cultura de um é colocada em contato com a de outro. pp. cit. cit. que bem ajuda nessa tarefa de conceituar a cultura. 19. em que o interesse dominante é o dos particulares. notabilizou-se pela arte. destacamos as seguintes: 1) “O direito sofre. a sexta. p. e o segundo. 156). da revolução de 1964. a ponto de podermos afirmar ser ele o aspecto cultural de um povo. O Que é Cultura? Há na mitologia grega um personagem. sobre o direito. por exemplo. Dentre as principais conseqüências da atuação dos fatores políticos. 305-306). lembrado por Machado Neto (ob. Pois o direito de cada um desses povos reflete o aspecto cultural em que mais se desenvolveram. pela cultura.. constataremos imediatamente a necessária harmonia existente entre a ordem jurídica e os fatores de cultura.. os fenícios pela navegação. exerceu influência decisiva.” 3) “Aparecimento das condições objetivas para o direito separar-se das normas sociais: o direito passa a ser a norma estatal por excelência. mencionados por Machado Neto (ob. A Grécia. FATORES CULTURAIS Se compararmos o direito de uma sociedade culturalmente desenvolvida com o de outra inculta. A conquista da Grécia.” 19.após a guerra que derrotou o fascismo no plano internacional. 36] . como é sabido por todos. Da norma indiferenciada passa-se à centralização jurisdicional e daí à centralização legislativa. O direito evolui acompanhando a evolução cultural. [pg. Cada povo tem sua peculiaridade. a moral e as normas do trato vão aparecer como as formas específicas da socialização. necessariamente. a última. sua tendência ou dom natural. o impacto de uma tendência centralizadora. mas também nas suas instituições jurídicas.” 2) “Criam-se condições objetivas para o aparecimento gradativo da distinção entre direito público e privado: o primeiro como a regulamentação da conduta dos indivíduos naqueles pontos que mais de perto dizem respeito ao interesse coletivo ou estatal. os hebreus pela religião.1. quando esta é realizada diretamente pela sociedade e pelos diversos grupos sociais extra-estatais. há influências recíprocas sobre o direito de cada um. da redemocratização do Estado Brasileiro.

de regras morais. o direito não se diferenciava da religião. tudo aquilo em que colocasse as mãos. chifres pontiagudos. Indignado com a ousadia de Prometeu. jurídicas e de costumes. Nuclear. metais encontrados na natureza em máquinas e instrumentos agrícolas. espinhos. A maior evidência de ser o Direito uma manifestação de cultura social. acorrentando-o ao Cáucaso. com pena do homem. Na definição de Taylor. por ele adquiridas em sua condição de membro da sociedade”. subtraiu um archote do carro flamejante de Zeus e deu-o de presente à humanidade. força descomunal. FATORES RELIGIOSOS Nos povos antigos. Cultura é isso. a filosofia. o direito. cultura é tudo aquilo que o homem acrescenta à natureza. a música. Com o seu desenvolvimento cultural conseguiu dominar as forças da natureza. 37] emanavam da mesma . pêlos abundantes. um fenômeno cultural. pele de animais em vestuário. como ocorreu nas últimas décadas com a China. o rei dos deuses submeteu-o a cruel castigo. de criatura passaria a criador. cit. pois com base nos conhecimentos que adquiriu e desenvolveu. p. Praticamente se confundiam porque o poder. Foi então que Prometeu. Para o homem nada restou. ficando ele nu e desamparado na natureza. o direito e a religião [pg. tudo aquilo que lhes era necessário para a sobrevivência: dentes fortes e agudos. o homem transformou pedra em machado. 13).. a técnica. Assim agira Zeus porque sabia que. onde um abutre vinha periodicamente devorar-lhe o fígado. amigo dos homens. Nos tempos modernos. levar ao infinito os seus conhecimentos. das Telecomunicações etc. o homem se tomaria um verdadeiro semideus. está no fato de surgirem novos ramos do Direito à medida que se expande o mundo cultural do povo. domesticar os animais. de posse do fogo divino. e de quaisquer outras aptidões do homem. seus protegidos. enfim. artes. 20. criar a arte. em armas de defesa e ataque. ao passo que o isolamento retarda o progresso da cultura do povo. realidade somente possível graças ao progresso científico dos tempos modernos. a intercomunicação social é poderoso fator de formação e desenvolvimento cultural. a ciência. Epimeteu conseguiu para os animais. transmitindo-se a outras gerações como autêntica herança social.. carapaças. disciplinar a lavoura. capaz de transformar em utilidade. destreza invulgar etc. Numa definição simplista. cascos resistentes. gerando a estagnação e a imobilidade. “cultura é o conjunto de conhecimentos. a religião. citado por Hermes Lima (ob. Falamos hoje em Direito Espacial. a autoridade. São conhecimentos que vão se formando. Na verdade assim foi.Quando da criação do mundo. crenças.

convertendo-o em ciência de iniciados. e cercavam o direito de um formalismo terrível. o direito disciplina as relações sociais que se travam entre o homem e o homem. este partilhava do poder. 20. Como exemplo lembramos as transformações ocorridas no Direito romano. preceitos e proibições de ordem religiosa. Entretanto. sob o impacto de civilizações mais adiantadas.divindade. como os egípcios. caldeus. quando se defrontou com as idéias cristãs nos séculos III e IV de nossa era. onde religião e direito não se confundem e a Igreja está separada do Estado. As legislações eram. ainda hoje estão profundamente impregnados de religião. pena e purgação do pecado. filiação. estado jurídico da mulher etc. quando da formação do Direito canônico. no que diz respeito a casamento. crime e pecado. não deixam de receber a influência constante dos fatores religiosos. ou entre o homem e o grupo. mesmo os sistemas jurídicos leigos. transmitindo-se de pai para filho o monopólio de conhecer o direito. ao passo que o direito trata do foro externo. tal como entre os povos antigos. a religião continuou exercendo largamente a sua influência.1. o direito foi se separando da religião . lei e tabu. Somente após um lento e prolongado processo de secularização. Influência da Religião sobre o Direito Alguns sistemas jurídicos. Os primeiros intérpretes do direito foram os sacerdotes. Os sacerdotes contavam com a crença popular que os considerava inspirados pelos deuses. repletas de rituais. jurista e sacerdote. de um modo geral que a religião se ocupa com o foro íntimo. o que correspondia à posse também da riqueza e dos privilégios. com a consciência pessoal. Quando o chefe político não era também o líder religioso. hebreus. divórcio. Na Idade Média. e quase sempre estavam centralizados nas mãos da mesma pessoa. processo e ritual. Tinham a posse dos postos de comando (legisladores. portanto. chefes militares. conselheiros). a religião se preocupa com as relações entre o homem e a divindade. onde regras jurídicas e religiosas praticamente se confundem. inacessível ao povo. torna-se difícil distinguir legislador e profeta. Tudo era conservado em segredo na mesma família. pode-se dizer. a exemplo do que ocorre no Mundo Islâmico. . código e livro sagrado. Em alguns povos. exercendo imensa influência sobre o povo. homens talhados para tal ofício pela natureza das ocupações que desempenhavam nas sociedades rudimentares.. Hoje.o mundo profano do sagrado.

culminando [pg. 38] com a criação de novas instituições. Nos dias atuais, os países onde predomina o protestantismo são bem mais liberais para com certos assuntos jurídicos do que aqueles onde predomina o catolicismo. O divórcio, por exemplo, foi aprovado no Brasil depois de longa e sistemática campanha contrária que a Igreja Católica lhe moveu. E até hoje não temos leis regulamentando o controle da natalidade em razão da acirrada oposição que setores conservadores religiosos lhe fazem.

20.2. Outros Fatores Sociais

Esses são os principais fatores sociais da evolução do Direito, mas como estes, muitos outros existem a exercer idêntica influência, pois, sendo o direito um fenômeno social, atuam sobre ele todos os fatores que atuam sobre a sociedade. O clima, o território, o número de habitantes, os recursos naturais, os grupos organizados, e a própria opinião pública despertada pela mídia a respeito de algum caso rumoroso, são outros tantos fatores da evolução do Direito. Serve-nos de bom exemplo o recente Estatuto do Desarmamento que, ao promulgá-lo, o Presidente Lula disse que essa nova lei “expressa a vontade unânime da sociedade”. Há, na realidade, a generalizada convicção de que a quantidade de armas em circulação, em poder da população, é causa direta dos altos índices de violência. Pelo menos a maioria dos homicídios não ocorreria se o agressor não estivesse armado, o que já não seria pouco. Em vinte anos (1979/1988) meio milhão de pessoas foram assassinadas no Brasil, segundo levantamento do Ministério da Justiça. Esse número de homicídios representa metade dos mortos nos oito anos de guerra Irã-Iraque, na década de 1980, e a sexta parte dos mortos na Guerra do Vietnã, um dos conflitos mais violentos do final do século XX. Entre os países que não enfrentam guerra civil, o Brasil detém o recorde de mortes por arma de fogo. Em termos absolutos, o estado mais violento é São Paulo, palco de 6.429 assassinatos entre janeiro e junho de 1999. Em seguida vem o Rio de Janeiro com 3.045 homicídios. Segundo o ex-ministro da Justiça Renan Calheiros, o Brasil é o campeão mundial em homicídios. Afirmou ele ainda que mais de 90% desses homicídios, em que criminosos e vítima não se conhecem, não são esclarecidos (O Globo, 18.07.2000). Entretanto, a aprovação da Lei do Desarmamento não foi nada fácil. O Presidente Fernando Henrique não conseguiu fazer andar o seu projeto de lei a respeito da matéria, mesmo depois de fazer do envio da mensagem ao Congresso uma festa pública e um compromisso. O Lobby contra o projeto, [pg. 39] organizado principalmente por fabricantes de armas e munição, foi mais forte. Para vencer essa resistência foi necessária uma grande

mobilização da opinião pública, para o que a mídia e as associações civis muito contribuíram, organizando e divulgando grandes manifestações em passeatas, no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. A batalha, entretanto, não está ganha. A lei precisa ser regulamentada, e os lobistas das armas certamente voltarão à luta para tentar influir nessa etapa. E a regulamentação pode decidir a sorte da legislação. Como disse Rubem César Fernandes, diretor do Viva Rio, “é fácil a lei não pegar: basta todo mundo achar que a batalha já está ganha”. Com efeito, daqui a menos de dois anos haverá um referendo popular que decidirá sobre a proibição ao comércio de armas no país. Se a opinião pública não continuar informada e motivada tudo poderá retomar à estaca zero. Concluímos este capítulo com as palavras do saudoso e sábio Oscar Tenório, “a vida das normas jurídicas não é eterna; elaboradas para as relações dos homens em sociedade, têm o seu destino condicionado ao substractum social que elas disciplinam e ordenam” (Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro, Borsoi, 1955, p. 64). As mudanças na sociedade mais cedo ou mais tarde refletem em mudanças na legislação em vigor ou em uma nova interpretação dada a normas anteriores. [pg. 40]

Capítulo V

FONTES DO DIREITO
Conceito de fonte e espécies: fontes materiais ou de produção; fontes formais ou de conhecimento. As fontes mais importantes do ponto de vista sociológico. O costume - conceito e elementos. Origem e expansão do costume. O papel do costume. Espécies de costume. A jurisprudência: o papel da jurisprudência em Roma e nas sociedades modernas; o papel da jurisprudência nas sociedades legalistas. Exemplos de jurisprudência transformada em lei. Relação entre a jurisprudência e o costume. A lei. Semelhança e distinção entre a lei e o costume. Sistema preferido - o costume ou a lei?

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O tema relacionado às fontes do Direito é normalmente abordado por todas as obras de Introdução à Ciência do Direito, decorrendo daí a indagação: por que também examiná-lo num compêndio de Sociologia Jurídica? É que a Sociologia Jurídica, como já vimos, enfoca o Direito por aspecto próprio, peculiar - o fato social, e disso decorrem pontos de vista especiais com relação às suas fontes. Teremos oportunidade de ver que as principais fontes do Direito para a Sociologia Jurídica não são as mesmas para a Ciência do Direito, que o enfoca pelo aspecto normativo. Ademais, o exame do tema proposto ajudará o estudante a ver com mais clareza as distinções entre a Sociologia Jurídica e a Ciência Jurídica. 21. CONCEITOS E ESPÉCIES A palavra fonte etimologicamente (fons, fontis) está ligada a fenômenos da natureza, indicando a origem ou nascimento de um curso de água. [pg. 41] Em direito a palavra liga-se também à idéia de origem, nascimento, mas pode ser empregada em duas acepções diferentes: histórica ou documentária e dogmática.

No sentido histórico ou documentário, consideram-se fontes todos os dados ou elementos de qualquer natureza que nos tragam alguma informação sobre o direito e as instituições jurídicas presentes ou passadas. Assim, por exemplo, serão consideradas fontes: manuscritos antigos, papiros, inscrições, monumentos, material arqueológico, desde que forneçam informações sobre o direito. No sentido dogmático, o que nos interessa no momento, a palavra fonte designa a origem, a procedência, o elemento gerador, a causa de algo - neste caso, o direito. Quando falamos em fonte do Direito, portanto, estamos nos referindo a tudo quanto concorra para a sua existência, seu aparecimento e formação. Costuma-se classificar as fontes do Direito em materiais e formais. As fontes materiais são assim chamadas porque, na realidade, materialmente falando, são as responsáveis pela elaboração do Direito. A palavra material vem de matéria, substância, essência, razão pela qual é usada para indicar aquelas fontes que verdadeiramente têm substância de fonte. Se lhe examinarmos o conteúdo, veremos que o Direito é aí elaborado. Por isso as fontes materiais são também chamadas fontes substanciais ou de produção. As fontes formais, por sua vez, são assim chamadas porque de fonte só têm a forma; nada, porém, de conteúdo. Aparentemente o Direito tem origem nas fontes formais, mas na realidade elas apenas o tomam conhecido. Por isso são também chamadas fontes de conhecimento. Se pudéssemos usar uma figura nada ortodoxa, diríamos que o Direito é produzido nas fontes materiais e embalado e distribuído pelas fontes formais. Para o sociólogo, portanto, ao contrário do jurista, as fontes formais não passam de meios de exteriorização, ou de conhecimento do Direito elaborado pelas fontes materiais, as únicas que realmente merecem a designação de fonte.

22. FONTES MATERIAIS OU DE PRODUÇÃO

As fontes materiais podem ser: imediata (que está mais próxima) e mediata (mais distante). Fonte material imediata são os órgãos legiferantes do Estado, ou seja, aqueles que, segundo a ordem constitucional, têm a função de legislar, tanto no Poder Legislativo como no Executivo. Fonte mate- [pg. 42] rial mediata ou remota é a sociedade, pois, conforme ficou demonstrado na primeira parte deste trabalho, o Direito emana do grupo social. De acordo com a lição de Paulo Nader, “o Direito não é um produto arbitrário da vontade do legislador, mas uma criação que se lastreia no querer social. É a sociedade, como centro de relações de vida, como sede de acontecimentos que envolvem o homem, quem fornece ao legislador os

suprema. Não vamos tratar neste trabalho das fontes materiais ou de produção. Entre as fontes formais. 24. . como a Moral. 23. indicando um comportamento idêntico pelos membros da comunidade. sem a qual não haveria que falar em Direito. p. que essa repetição seja constante. sendo a lei a mais importante fonte formal. porque a imediata (órgãos legislativos) é matéria do Direito Constitucional. não bastando a repetição de atos diferentes. pelos problemas que emergem na sociedade e que são condicionadas pelos chamados fatores do Direito. e a mediata (a sociedade) já foi estudada em Sociologia Geral.. sendo a primeira constituída pela lei e as outras pelos costumes e a jurisprudência. os órgãos legislativos. a Economia. a Geografia entre outros” (ob. Já para o jurista que. começando por aquela que merece a preferência da sociologia. O COSTUME . É a maneira pela qual o costume se exterioriza. o próprio grupo humano. como vimos. de natureza material.CONCEITO E ELEMENTOS Há dois elementos constitutivos nas normas do direito consuetudinário: o externo e o interno. viva. As fontes formais ou de conhecimento também se dividem em imediata e mediata. A principal (e única para alguns) fonte material é o Estado. objetivo. enfoca o Direito pelo aspecto normativo. cit. a expressão autêntica da consciência jurídica social. Vamos pois nos ocupar apenas com as fontes formais. tomando-se conhecido. Significa isto dizer que. o costume merece a preferência da sociologia jurídica porque constitui a primeira e principal manifestação do Direito criado pela sociedade. uniformes e constantemente repetidos.elementos necessários à formação das estruturas jurídicas. AS FONTES MAIS IMPORTANTES DO PONTO DE VISTA SOCIOLÓGICO Se o Direito é um fato ou produto social do grupo como grupo. Tão logo a sociedade elabora uma determinada forma ou regra de conduta. 43] O elemento externo. as coisas não são bem assim. claro que para o sociólogo a fonte material mais importante é a sociedade. é preciso uniformidade na série de atos. Como causa produtora do Direito. exterioriza-a através do costume. 138). é representado por uma série de atos semelhantes. Esta é a fonte primeira. as fontes materiais são constituídas pelos fatos sociais. para haver costume. [pg.

24. não sendo suficiente a repetição eventual. cit. p. no convencimento íntimo de que a prática de tais atos representa uma necessidade coletiva.1. difusa. quase sempre em determinado meio sócio-profissional. que vai se consolidando em virtude das forças da imitação do hábito. praticada pela generalidade do grupo e não apenas por alguns dos seus membros. de acordo com as condições sociais do grupo no qual se formou. com a consciência de que correspondem a uma necessidade jurídica. que atende às conveniências sociais. é a conduta social reiterada de forma constante e uniforme. necessária.ininterrupta. O elemento interno. É principalmente sobre este segundo elemento que se funda a razão da obrigatoriedade do costume. 145). Vai sendo formado paulatinamente pela própria sociedade.. Em outras palavras. por ser de necessidade jurídica. ajustam-se e começam a se expandir. 44] para suprir suas necessidades. isto é. . Com o correr do tempo a maioria do grupo passa a adotar aquela mesma forma de proceder. adquirindo um caráter eminentemente histórico. e teremos: costume é a repetição constante e uniforme de determinados atos pelos membros de certa comunidade social. É por isso que se diz que o Direito costumeiro é um Direito anônimo por excelência. por estar convencida de que é a maneira correta. [pg. Trata-se de elemento subjetivo e consiste na consciência da obrigatoriedade da norma. pois a coletividade só começa a ter um comportamento constante e uniforme quando intimamente convenci da de que esse comportamento é adequado às suas necessidades jurídicas. espontânea. Origem e Expansão do Costume Surge o costume de uma necessidade social. que a prática constante e uniforme seja também geral. Para elaborarmos agora o conceito de costume basta juntarmos os seus dois elementos. praticada com regularidade e certa duração. ou com uma relação social que ainda não se encontra suficientemente disciplinada. Verifica-se assim que o costume é de formação livre. gradativa. ob. é um Direito sem paternidade. é a convicção jurídica de que a observância dessa prática corresponde a uma necessidade de direito. Está formado o costume. Evolui no tempo e no espaço. A maioria das idéias morrem no nascimento por não apresentarem qualquer inovação ou utilidade prática. mas algumas pegam. Alguém no grupo se depara com um fato. e vai sendo transmitido por tradição oral. ou de comportamentos exemplares (Miguel Reale. de natureza psicológica. Imagina então um meio de resolvê-la: tem uma idéia e a coloca em prática.

common law. bem como a Lei das XII Tábuas (apontadas como as primeiras leis escritas) são uma consolidação de usos e costumes dos povos da Babilônia e do Lácio. um procedimento destinado a supri-lo. O mais comum. Nas sociedades primitivas. escritores. O Papel do Costume Nas sociedades modernas. o costume não perdeu completamente sua força. em face de uma lacuna no ordenamento jurídico. a sociedade cria uma regra. podem ser positivas e negativas ou omissivas. Embora o papel dos costumes nos países da civil law não tenha a relevância que tem nos países da common law. como do conhecimento geral. entretanto. a primeira regulamentação da vida social foi feita através dos costumes. nos quais o Direito se revela prevalentemente pelos costumes e pelos precedentes. 45] grupo. Direito positivo escrito. um fato ainda não devidamente disciplinado. As nações latinas e germânicas adotam o sistema de tradição romana – civil law. ineficazes. 24. São negativas ou omissivas quando. ultrapassadas.Já vimos que o costume manifesta-se exteriormente por atos. toda a vida social estava alicerçada no costume. a sociedade vai paulatinamente deixando-as em desuso. desta forma destruindo o direito. São positivas quando. estando as normas desatualizadas.2. razão pela qual é acolhido pelos tribunais. e desta forma vai criando o direito. fundado no primado da Lei. Indiscutivelmente. determinando o que deve ser seguido e observado pelo grupo e distinguindo-o daquilo que deve ser evitado e não praticado. base legislativa. a sociedade vai elaborando outras normas de comportamento destinadas a substituí-las. Continua sendo elemento que condiciona os conceitos de bom e de mau. temos a tradição dos povos anglo-saxões . “o costume é uma força produtora do Direito em todas as fases do . Mesmo depois do surgimento da legislação. Segundo o próprio Clóvis Beviláqua. é de se reconhecer que nem sempre isso foi assim. que ainda não conheciam a lei. mesmo no sistema legalista. entretanto. é o costume manifestar-se das duas maneiras: à medida que vão caindo em desuso as normas ineficazes. Miguel Reale observa que o Código do Rei Hamurabi. que constituem seu elemento objetivo. que reside no fato de ser elaborado pelo próprio [pg. Ao lado desse sistema. existem dois tipos de ordenamento jurídico. não mais atendendo às necessidades sociais. doutrinadores e tratadistas. Essas manifestações.

Muitas das leis trabalhistas tiveram nestes costumes sua fonte por excelência. art. suprindo sua lacuna: está além da lei. praeter legem e contra legem. antes de serem formalizados pelo legislador. são praticados regularmente pela sociedade. 126) determina ao juiz lançar mão dos costumes quando a norma for lacunosa ou omissa.. com recomendação à lei para facilitar a sua conversão em casamento. No entender de alguns juristas (Serpa Lopes). o que demonstra haver sempre lugar para o costume. antes de ser reconhecida pela Constituição. [pg. ou faz os preceitos legais vigentes não serem aplicados. bem como o cartão de crédito. o costume deve ser observado e até exigido. de acordo com a opinião dominante. foi um costume durante décadas na sociedade brasileira. o desuso é espécie do gênero costume contra legem. Neste caso. Secundum legem é o costume que serviu de apoio ao ditame legislativo regular. A união estável. desempenhando destacado papel nas relações econômicas. 24. 4°. 46] Contra legem é o costume que se opõe à lei. realizam-se de acordo com costumes que servem de complemento à lei. azul etc. podemos distinguir três espécies: secundum legem. Praeter legem é o costume que funciona como fonte supletiva. modalidades de cheque especial. Outros costumes. Assinale-se. caindo em desuso. embora ainda não convertidos em lei. quer para corrigi-lo. eram usos e costumes comerciais. dando-lhe interpretação mais conforme às necessidades sociais”. Exemplo dessa espécie de costume é a chamada praxe forense: muitos atos praticados diariamente no foro não são expressamente regulamentados. praxes forenses etc. Resulta da contradição existente entre a lei e as fontes reais do Direito. Em nosso próprio Direito positivo há inúmeros institutos que. bancários. art. por último. onde a lei nada dispôs. introduz uma nova norma contrária às disposições legislativas. porque encontra respaldo na própria lei. são exemplos apropriados daquilo que afirmamos. que a própria lei (Lei de Introdução ao Código Civil. Espécies de Costume Tendo em vista as relações do costume com a lei. que não abrangeu aquele fato oriundo das interrelações sociais.3. O cheque ouro. Quer isto dizer que o legislador previu a possibilidade de haver questões não enquadradas efetivamente nos textos legais existentes. ou surgiu como complemento deste. e Código de Processo Civil. quer para completá-lo.desenvolvimento deste. verde. .

assim. porque não tem sido pacífica a interpretação de que o costume. Quer isso dizer que o costume só não revoga a lei no seu aspecto formal. ainda que um preceito legal caia em desuso. São socialmente aceitos. Por não corresponderem às necessidades recentes da sociedade. Podemos resumir a controvérsia dizendo que. tomando-se letra morta. Para o jurista. em todos os sistemas jurídicos. tipificam o crime de casa de prostituição. Tempos depois caso idêntico é submetido à decisão do Judiciário e. recebe uma decisão. temos que admitir a prevalência do costume. Quando o legislador vem a revogá-la por outra lei. tanto das comarcas do interior como das capitais. revistas e outros veículos de literatura pornográfica que pululam nas bancas. 234 e parágrafo único do Código Penal. até os tribunais de segunda . Coisa idêntica ocorre com os livros. que se apresenta contra a lei. É o fenômeno bem conhecido a que se deu o nome de extinção por desuso. sendo certo [pg. após regular tramitação do processo. mas a revoga de fato. guardaram o mesmo entendimento. entretanto. 47] que em todas as oportunidades as decisões foram semelhantes. deva ser sumariamente repelido. 229 do Código Penal. isto é. o costume contra a lei não pode prevalecer simplesmente porque uma lei só pode ser revogada por outra. entretanto. Tais fatos. Do ponto de vista sociológico. há muito caiu em desuso. do ponto de vista puramente jurídico.Essa questão tem gerado sérias controvérsias. dando ensejo a que os motéis proliferassem amplamente. e com inúmeros filmes exibidos em nossos cinemas. fizeram desse artigo letra morta. caíram em desuso. entretanto. existem inúmeras normas não mais aplicadas. sem sombra de dúvida. mesmo contra a lei. previsto no art. Em lugar delas a sociedade consagrou outras normas de comportamento consuetudinário para atender às novas realidades. No Brasil os órgãos judiciários são numerosos: desde os juízes de primeira instância. sucessivas vezes. 25. não pode produzir o efeito de fazer-se substituir por uma norma consuetudinária oposta. A JURISPRUDÊNCIA Um caso é levado à apreciação do Judiciário onde. Tal norma. Ninguém desconhece que. pelo art. caracterizam o crime de escrito ou espetáculo obsceno. Essas decisões reiteradas que emanam dos órgãos judiciários constituem a jurisprudência. Só para exemplo disto lembramos o caso dos motéis que. tomando-a letra morta. está apenas assinando o atestado de óbito. Os costumes.

privativo dos romanos.” O juiz. Miguel Reale afirma: “Foi através da atividade dos juízes e dos pretores que os romanos.. espécie de magistrado e também em parte legislador. o pretor elaborava a fórmula ou regra jurídica apenas apreciando o fato em tese. Inúmeros institutos jurídicos. o pretor. 123). 48] Com a sua incontestável autoridade. p. foi se formando uma rica jurisprudência.. de Justiça) e os Tribunais Superiores. destacando-se o Supremo Tribunal Federal.C. segundo o magistério do Prof. com o passar do tempo. e o jus gentium. ainda hoje existentes. conforme entendesse procedente ou não a pretensão do requerente. aplicava a regra do pretor. extremamente fecundo como fonte de direito. Era algo mais ou menos assim: “Porque Tício vendeu um escravo a Caio. que se convencionou chamar direito pretoriano. cit. . o pretor ordenava ao juiz condenar ou absolver. se fosse o caso de conceder ação. tiveram origem nessa jurisprudência pretoriana. Nesse período. Ebert Chamoun (Inst. através da Lex Aebutia. conforme a sua convicção sobre os fatos. p. de Direito Romano. quem tinha uma pretensão ia ao pretor. encaminhando as partes ao juiz. Modernamente a palavra jurisprudência designa o conjunto de decisões anteriores proferidas por juízes ou tribunais sobre casos idênticos.. condene Caio a pagar dez mil sestércios a Tício. Os casos se repetiam. 4a ed. concedendo ações em casos não contemplados pelo ius civile ou decidindo ele próprio contra o sistema vigente. Papel da Jurisprudência em Roma Em Roma. além de enumerar os elementos do processo. Exposto o problema. elaborava uma fórmula escrita. e assim. aos poucos. absolve. sem procurar saber se estava ou não provado. teve início um novo processo que substituiu as Legis Actiones. no meado do século II a. primeiro. após examinar as provas oferecidas pelas partes. Nessa fórmula. se não te parecer que deva pagar.1. 148). foi utilizado durante o período clássico e originou-se da atividade do pretor. o que proporcionava ao pretor utilizar uma fórmula anteriormente elaborada para outro caso idêntico. 25. por sua vez. Como se vê. já que muitas vezes tinha que elaborar a regra jurídica a ser aplicada ao caso que lhe era apresentado. Conhecido como processo per formulas.instância (Tribunais de Alçada. Cabia ao juiz apreciar as provas e aplicar a regra jurídica ao caso em concreto. 1962. [pg. de caráter mais amplo” (ob. construíram o jus civile.

O Papel da Jurisprudência nas Sociedades Modernas Nas sociedades legalistas a jurisprudência desempenha papel secundário. a Common Law é uma coleção de precedentes judiciários. O Papel da Jurisprudência nas Sociedades Legalistas Já vimos que.2. Mesmo nos casos de ter o juiz que lançar mão da analogia. tem valor restrito. consagrar uma orientação. a função do juiz é somente aplicar a lei ao caso concreto. Nos sistemas codificados. donde a importância dos precedentes. não tem em princípio a força de obrigar o juiz a acatá-la em suas decisões. Novas hipóteses vão surgindo em decorrência das . que o legislador tenha previsto todas as hipóteses e dado todas as respostas na lei. que não vai além de fixar um rumo. Nesses países a jurisprudência constitui fonte viva do Direito. ainda que já constitua súmula do Supremo Tribunal Federal. sendo relevantíssimo o papel do juiz. Assim entendem porque não é função do juiz criar o Direito. 49] verdade. Mesmo admitindo uma perfeita adequação entre a realidade social e a lei. 25. que têm força obrigatória. o que é evidente na terminologia anglo-saxônica: diz-se judge made-law e a palavra justiça incorpora-se muitas vezes ao nome civil do juiz: “Mister Justice Smith. como se sabe. isto é. porque a norma que o juiz encontrou já estaria implicitamente contida no Direito positivo vigente e não daria origem a uma norma geral e obrigatória. por não existir uma norma particular na legislação. já que a lei é estática e a sociedade é dinâmica. que todas as hipóteses estejam nela previstas no momento de sua elaboração. Tal posição pressupõe. não é [pg. a força obrigatória reduzida em sua rigidez. mas simples meio de interpretação. dos costumes ou princípios gerais do Direito. entendem os juristas não haver criação do Direito pela jurisprudência. Constantemente estão os juízes enfrentado hipóteses novas e decidindo casos não contidos no âmbito das normas existentes. a jurisprudência é apenas um roteiro ao lado da lei. com o correr do tempo a norma vai se tomando desadequada. Entre nós. Para muitos juristas a jurisprudência nem seria fonte (formal) do Direito.25. por mais reiterada que seja a jurisprudência. mas tão-somente aplicar a lei ao caso concreto. Praticamente. entretanto. do ponto de vista puramente jurídico.” As fontes do Direito inglês são a Statute Law (direito legislado) e a Common Law (direito costumeiro). O mesmo já não ocorre nas sociedades baseadas no direito consuetudinário. já que todo Direito emana da lei. esta é definida nos julgamentos. o que.3.

fixada nos textos. à judge made-law. pois tomaram-se o filtro pelo qual passamos a reler toda a legislação infraconstitucional. a lei é a concepção estática do direito. tenham se limitado a aplicar as leis existentes. dos costumes e princípios gerais do direito. boa parte dos princípios radicados na sua vida civil. através de uma interpretação ora extensiva. A técnica das cláusulas gerais adotada pelos Códigos do Consumidor e Civil ampliaram consideravelmente os poderes do juiz. ora restritiva. um papel positivamente criador. A jurisprudência. em relação à essência do Direito. ao passo que a jurisprudência é o direito dinâmico. Inúmeros são os casos em que os tribunais acabaram criando um Direito novo. num determinado momento que amanhã poderá não mais corresponder à realidade. Os princípios constitucionais provocaram uma nova visão interpretativa. os decompõe. com base no fato concreto. a jurisprudência cria Direito mesmo nos sistemas legalistas. necessário se faz invocar a autoridade do grande Rui Barbosa: “Ninguém ignora o papel da jurisprudência na evolução do Direito escrito. art. Nesse ponto. ao papel do pretor em Roma. embora aparentemente. lançando mão da analogia. em muito comparável. na realidade social que está em constante mutação. 126 e Lei de Introdução ao Código Civil. . exigindo o pronunciamento judicial. pela sua colaboração contínua. 4°) ordena-lhe formular uma regra jurídica para a hipótese e dar uma decisão. Por outro lado.” [pg. altera sensivelmente o Direito positivo. dando-lhe condições de. a tal ponto que se fala normalmente na função pretoriana da jurisprudência. obra sua. Em outras palavras. ajustando o Direito às novas realidades sociais.constantes transformações sociais. mutatis mutandis. Sobre a letra. Desempenharam nesses casos. passando pelo juiz de 1º grau. 50] O papel criador da jurisprudência foi grandemente prestigiado pela Constituição de 1988. os alui. até chegar às Cortes Superiores. Isso tudo leva a concluir que. deram novo sentido e alcance à ordem jurídica. pelo Código do Consumidor e pelo novo Código Civil. a partir do advogado. não pode o juiz deixar de decidir alegando lacuna na lei: a própria lei (CPC. apenas na forma. respeitado o ordenamento jurídico. do ponto de vista sociológico. O juiz. Os ingleses e americanos devem à essa colaboração legislativa da magistratura. art. Inúmeras outras hipóteses de omissões e obscuridade na lei obrigam o juiz a construir. elaborado por muitas inteligências. que os infiltra. passa a autoridade dos arestos. já que o juiz é obrigado a aplicar a norma que estabeleceria se fosse legislador. exerce uma função de cooperador e modificador na obra legislativa. formular decisões mais justas e efetivas na composição dos conflitos de interesse. Quer isto dizer que o próprio legislador previu a possibilidade de haver questões não enquadradas efetivamente nos textos legais existentes.

reconhece à jurisprudência o papel de fonte do Direito. interpreta a norma legal situado numa estrutura de poder. o papel do juiz moderno não é mais apenas o de aplicar a lei ao caso concreto. determinar previamente qual a norma de conduta que deveria ter sido observada naquele caso. e 51. vol. 51] Esta é a lição do Mestre: “Se uma regra é. visto como ao juiz é dado armar de obrigatoriedade aquilo que declara ser de direito no caso concreto. a sua interpretação.. Em função da regra que ele cria para aquela situação. a sentença passará a ser lei entre as partes. como é a da teoria tridimensional do Direito. do alto da sua autoridade. fins econômicos ou sociais). assim criada para aquele caso concreto. É por isso que Miguel Reale. se em desacordo. O magistrado. [pg. Como se vê. será então ilícita” (Revista EMERJ. À vista dos elementos do caso concreto. na realidade. 931 do Código Civil). aquilo que se diz ser o seu significado. 6. assim conceituou a cláusula geral: “A cláusula geral é uma norma que impõe ao juiz o dever de. III. Em aula magna proferida na Escola da Magistratura do Rio de Janeiro . que é uma norma particular. fará então a avaliação da conduta em exame. 187.2003). dos princípios a serem preservados (por exemplo. IV do Código do Consumidor. jurista de escol e um dos maiores juízes que passaram pelo Superior Tribunal de Justiça. 169). 927 e parágrafo único. isto é. que lhe confere competência para converter em sentença. 18. artigos 113. com vistas à produção da solução adequada para o caso a ser resolvido. no momento de fazer a sua aplicação. boa-fé) e dos fins a serem realizados (por exemplo. como já enfatizado. no fundo. 421. o seu entendimento em lei. O juiz tem que formular a lei do caso concreto. o juiz deverá determinar o sentido da norma. não tem sentido continuar a apresentar a Jurisprudência ou o costume como fontes acessórias ou secundárias” (ob. uma vez transitada em julgado. Se essa conduta estiver de acordo com a norma de dever. ela será considerada lícita. como ensinava a escola exegética. com base nos parâmetros estabelecidos na norma. fria e automaticamente. em suma. 422.EMERJ. o Ministro Ruy Rosado de Aguiar Junior. n° 24. p.Cláusulas gerais (das quais são exemplos os artigos 4º. apenas demarca uma moldura dentro da qual o juiz deverá encontrar a lei do caso concreto. Na cláusula geral o juiz aplica a lei que encontra no Direito e não o direito que encontra na lei. a regra jurídica disciplinadora do fato e que. cit. . não há como negar à Jurisprudência a categoria de fonte do Direito. O relato da norma. “a boca da lei”. p. Numa compreensão concreta da experiência jurídica. estabelecem apenas uma moldura dentro da qual se desenham diferentes possibilidades interpretativas. é aquele que elabora a lei do caso concreto.

33). impondo um regime de fome ao alimentando durante o curso do processo. tem que respeitar a moldura jurídica estabelecida na lei. Com a finalidade de se alcançar a justiça social. muitas vezes indo além da própria disciplina positiva. Ed. mas uma obediência inteligente.Hoje. como de regra acontece com todas as decisões judiciais. por exemplo. Muito embora possa e deva o juiz decidir com certa flexibilidade. acabou sendo encampado pelo legislador e transformado em . Isso acarretava uma série de problemas sociais. Essa nunca foi e nem será a função do juiz. ela não acompanhará a realidade social. incutindo ação política nos atos decisórios. cuja importância como fonte se toma cada vez maior. Assim também acontece com a lei por mais avançada que ela se apresente. Deve atuar. [pg. para desafiar questão que somente pode ser decidida com critérios de hermenêutica que buscam formas de integração das lacunas. 52] 25. um manancial que consolida determinada orientação. A toda evidência. Ao lado dela se posiciona a jurisprudência. porque se preocupa com as condições do direito na realidade social. preconizam a figura o juiz reformador. mas que se conscientiza do grau de injustiça que atinge economicamente camadas sociais e deve minorar a sorte dos pobres. não cega como no passado. por mais genial que tenha sido o legislador. indiscutivelmente. Tal entendimento tomou-se tão reiterado que. a excelência da partitura e a genialidade do compositor ficarão prejudicados se não houver talento do intérprete. Por isso não mais se pode questionar que a lei não é a única fonte do Direito.4. revela-se oportuna a sábia observação de Mário Moacyr Porto: “A lei não esgota o direito assim como a partitura não esgota a música. sejam de valoração. Revista dos Tribunais.” Com efeito. Exemplos de Jurisprudência Transformada em Lei Durante muito tempo. deve obediência à lei. Se não houver talento criador dos seus intérpretes (juízes e operadores do Direito). por corresponder a uma necessidade. mais do que nunca. esse papel criador do Direito desempenhado pela Jurisprudência não vai ao ponto de uma total independência dos ditames da lei. Temos aqui uma escola jurídica de corte sociológico. como querem os defensores do chamado direito alternativo. Os precedentes são. ou seja. razão pela qual a jurisprudência passou a entender ser a pensão devida a partir da citação inicial. mas sim do político. p. a pensão alimentícia só era devida após o trânsito em julgado da sentença. daquele que não se mantém neutro ideologicamente. sejam de formulação. na feliz imagem de Ana Lúcia Sabadell. “como um pensador adjunto do legislador. com o contexto de conflitos de necessidades humanas no qual o direito está inserido” (Manual de Sociologia Jurídica.

ele se conduz em função de certos princípios gerais estabelecidos.que a executou. contra o qual tem ação regressiva” -. não resta a menor dúvida que a jurisprudência exerce profunda influência no desenvolvimento do direito positivo. ipsi verbis. A súmula 187 do Supremo Tribunal Federal. serve-lhe de substrato. Podemos afirmar que o direito é a lei aplicada mais o que ela recebeu do órgão Juiz ou Tribunal. porém certamente construtora” (ob. no artigo 735 do novo Código Civil. Sem dúvida. Algo idêntico ocorreu com os direitos da companheira. encontram as normas já existentes no seio da sociedade. conseqüentemente. não em encontrar uma solução nova. ambiência econômica. que não chamarei de criadora. A lei. Por isso costuma-se dizer que os juízes descobrem o direito. desde que seu poder de aplicar inclui necessariamente o de interpretar. o de tomar a lei adequada à espécie sobre que vai decidir. o costume não lhe dita explicitamente a decisão. reflete-se necessariamente na obra do magistrado. Relação entre a Jurisprudência e o Costume Sempre que o juiz é chamado a decidir um caso que não está claramente previsto em lei.“A responsabilidade contratual do transportador.. Certo. A sentença deverá refletir a opinião coletiva sobre o fato. cit. foi transformada. Tal como os . não é elidida por culpa de terceiro. Conclui-se daí que a decisão do juiz é baseada nos costumes. hoje lhe garante inúmeros direitos graças aos avanços introduzidos pela jurisprudência. mas em procurar a mais adequada às aspirações do meio que o cerca.lei. 53] interesses ou conveniências sociais. que lhe era tão desfavorável. social e política. desde que a posição do juiz não é a de um escravo ou de um autômato em face da lei. Vários dispositivos da atual lei das locações tiveram por fonte o entendimento jurisprudencial. ele tem seus pontos objetivos de referência. que dispunha . A ambiência que cerca a espécie sub iudice. fazendo seu papel consistir.5. Inúmeras outras inovações e progressos jurídicos poderiam ser mencionados. contar-se entre as fontes do direito. 205-206). 25. pelo acidente com o passageiro. pp. Razão assiste ao saudoso mestre Hermes Lima ao afirmar: “Entretanto. porém o ajustamento da lei ao caso em questão está condicionado a uma estimativa de natureza pessoal e a uma apreciação. terá que encontrar uma solução compatível com os [pg. mas exerce sobre ele uma pressão latente e irresistível. reconhecidos pela jurisprudência com base na sociedade de fato. o que evidencia que a jurisprudência constitui uma atividade verdadeiramente construtora e pode.

. 26. é conferido o poder de ditar regras de direito (ob. p. em fato jurídico (gerador) ou relação jurídica (Curso de Direito Tributário. do próprio ambiente social.. Em suma. Ruggiero. mas também. A função legislativa entre nós é conferida especialmente ao Poder Legislativo. deve estar atento às mesmas necessidades. 10ª ed. a sua forma escrita. devem ter sensibilidade jurídica para encontrar e extrair. Se a lei é liame. assim como os costu. quer dizer. Ambos são. a lei é continente e o direito é conteúdo. cit. as normas a serem aplicadas em suas decisões. Daí a razão de ser a lei considerada a fonte formal imediata do direito. a lei e o costume se assemelham. decorrentes das necessidades sociais. 54] mes têm origem nas necessidades sociais. Todo e qualquer órgão que dite norma genérica de conduta é legislativo em si. em sentido jurídico. expressão da vontade do grupo. se reconhece a função legislativa. através da qual o direito se exterioriza e se toma conhecido. Saraiva. qual o antecedente e o conseqüente? O antecedente . Com efeito.o direito.diz Ruy Barbosa Nogueira . no Estado. A LEI A palavra lei vem de ligar. A Lei. 83). ao elaborar a norma legal. ao Poder Executivo. portanto. 54). Semelhança e Distinção entre a Lei e o Costume Quanto ao conteúdo. em certos casos.1.antigos pretores romanos. o que evidencia não ser possível tomar o termo “legislativo” em sentido restrito. aos quais. porque este termo significa o poder de fazer lei em sentido formal. que nos transmite o conhecimento do núcleo jurídico que a anima . Nisto. por sua vez. p. transforma para seus fins.[pg. Costuma-se dizer que a lei é o tegumento do direito. formas de exteriorização do direito. o fato ou relação fática. diz que lei é toda norma jurídica oriunda dos órgãos da soberania. porque. sem aplicação prática. tanto a lei como o costume são regras de conduta. o legislador. Diferem entretanto em muitos aspectos: .é o fato social ou relação fática concreta a que a lei se reporta ou descreve e o conseqüente o efeito que a lei atribui à ocorrência fática. ligação ou vínculo. a lei é a forma. portanto. obriga a agir. segundo a constituição política do Estado. sob pena de fazer uma lei ineficaz. Poderíamos dizer que lei é a regra social obrigatória emanada da autoridade a que. em princípio. 26.

sustentava que o costume devia prevalecer sobre a lei por ser a expressão direta e pura das aspirações da coletividade nacional. emana diretamente da sociedade. até chegar à publicação. como já vimos. 2) Quanto ao processo de elaboração: O costume. 26. partidário do direito consuetudinário.2. Até então. precisas.C. O Decálogo hebraico (os dez mandamentos) é de alguns séculos mais tarde e as leis indianas de Manu datam do III século a. votação. Savigny. 3) Quanto à forma: O costume se exterioriza através de condutas reiteradas e é transmitido em regra por via oral. Por isso as mais antigas leis conhecidas são os textos mesopotâmicos do segundo milênio a. o fundador [pg.. A lei se exterioriza por escrito e através de fórmulas rígidas.1) Quanto à origem: O costume. preestabelecido. tomando-se mais difícil sua modificação. 55] da Escola Histórica. O processo de elaboração da lei. sanção. criando o Estado. toda a regulamentação da vida social foi feita através do costume. no começo do século XIX. promulgação. espontânea. quando. longe de ser mais flexível do que a lei. onde teve origem um determinado costume. sabemos exatamente quando foi elaborada. quando entrou em vigor e quando foi revogada. iniciando-se com um projeto.O Costume ou a Lei? Em torno dessa questão travou-se grande controvérsia na Alemanha. é que se tomou possível a elaboração das primeiras leis. além de se adaptar mais facilmente . Em oposição se colocava Thibaut. Para ele o costume. passando pela discussão. dos quais o mais famoso é o Código de Hamurabi.C. também já vimos. entretanto. Esta só veio a surgir quando a sociedade chegou ao estágio de organizar-se política e juridicamente. é anterior à lei. vai se formando paulatinamente. gradativa. A lei. ardoroso defensor da codificação. Sistema Preferido . tende a se incrustar. numa época relativamente recente da história humana. é formal. entre dois juristas de escol. No seu entender. passa de pai para filho pela tradição. Eis aí outra razão pela qual o costume é anterior à lei: somente depois do surgimento da escrita. Por isso o costume. é de formação livre. a codificação dificultaria a evolução natural do Direito. Já quanto à lei. e a lei de um órgão estatal. historicamente. à medida que determinada conduta vai sendo aceita e reiterada pelo grupo. rei da Babilônia. Nunca podemos saber com precisão quem. emperrando o seu desenvolvimento e tomando-o desadequado à realidade social.

A Sociologia Jurídica só se preocupa com a eficácia da lei. como veremos nos próximos capítulos. Já ficou assentado que a lei é. apenas alguns preferindo o direito consuetudinário.às novas condições sociais (desde que o legislador esteja atento e disposto a isso). objeto de estudo da Ciência do Direito. apresenta a grande vantagem de proporcionar um conhecimento mais rápido e oferecer maior segurança do que o costume. [pg. essencialmente. 56] . Dessa controvérsia resultou que a maioria dos Estados modernos vive sob o regime da codificação.

A finalidade da Sociologia . Teoria tridimensional do direito: diferença entre a Sociologia Jurídica. integrante de uma superestrutura social. **** 27. a vigência e o fundamento. AUTONOMIA CIENTÍFICA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA A questão da autonomia da Sociologia Jurídica. os prós e contras das várias posições.Capítulo VI A AUTONOMIA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA COMO CIÊNCIA E SUAS RELAÇÕES COM OUTRAS CIÊNCIAS SOCIAIS Autonomia da Sociologia Jurídica. Não se confunde o objeto da Sociologia Jurídica com o de qualquer outra ciência que também se relacione com o direito. quando muito constituindo uma de suas especialidades. 222). a sociologia jurídica seria parte integrante da Sociologia. pelos instrumentos e métodos das ciências mais antigas. p. para quem a Sociologia do Direito e a Ciência do Direito constituem uma só e mesma disciplina (De la Sociologie Juridique. A História do Direito. Muitos autores procuraram explicar. Relação da Sociologia Jurídica com os demais ramos do direito. O ser e o dever ser. como acontece com toda ciência nova. pois tem objeto próprio. 57] a afirmar que a autonomia da Sociologia Jurídica é hoje reconhecida. e isso gerou controvérsias. juristas em geral. Na opinião de muitos sociólogos. por isso que se preocupa apenas com o direito como um fato social concreto. aquilo que se pretendia constituir em objetivo da nascente sociologia do direito. a ciência do direito e a filosofia do direito. 1961. foi bastante controvertida. a sociologia do direito se confundiria com a própria ciência do Direito. Sem nos estendermos sobre a controvérsia. fugindo aos objetivos deste modesto trabalho. Para outros. Entre os que pensam dessa última maneira podemos citar Edmond Jorion. método e leis. limitamo-nos [pg. por exemplo. A eficácia.

valorativa. 4ª ed. porém. 1965. mas atuam como elos de um processo. sob forma de regulamentação da vida social. como se vê. que assim pode ser resumida: Onde quer que haja um fenômeno jurídico. mantém a Sociologia Jurídica íntimas relações com todas as ciências sociais. uma regra ou norma. 28. de tal modo que a vida do Direito resulta da integração dinâmica e dialética dos três elementos que a integram (Filosofia do Direito. embora se tratando de uma ciência autônoma. como proclamam os idealistas. Saraiva. . valor e norma formam uma unidade fático-axiológica-normativa. como defendem os normativistas. mas coexistem numa unidade concreta. fornecendo subsídios para suas transformações. na qual cada fator é explicado pelos demais e pela totalidade do processo” (Paulo Nader. principalmente com a Ciência do Direito e Filosofia do Direito. como querem os sociólogos. geográfico. p. Lições Preliminares de Direito. esses elementos ou fatores não só se exigem reciprocamente. [pg. valor ou norma) não existem separados uns dos outros. e. com as quais tem muito em comum. Essas visões são parciais e não revelam toda a dimensão do fenômeno jurídico. sempre e necessariamente. na maneira como descreve o relacionamento entre os três componentes do fenômeno jurídico. no tempo e no espaço. uma verdadeira trilogia. Ed. uma espécie de santíssima trindade do Direito. cit. 65). um fato subjacente (fato econômico. 58] Daí resulta que “o Direito não possui uma estrutura simplesmente factual. Título X. Cada um desses três fatores se refere aos demais e por isso só alcança sentido em conjunto. há. que representa a relação ou medida que integra um daqueles elementos ao outro. Tais elementos ou fatores (fato. demográfico. quando formam uma implicação dinâmica. Juntos vão formar uma síntese integradora. de ordem técnica etc).. normativa. A TEORIA TRIDIMENSIONAL DO DIREITO Quem elucidou essa questão melhor do que ninguém foi o genial Miguel Reale na sua teoria tridimensional do Direito. finalmente. inclinando ou determinando a ação dos homens no sentido de atingir ou preservar certa finalidade ou objetivo. o fato ao valor. que. 378). com objeto próprio e inconfundível.. Fato. É evidente.. p.Jurídica é estabelecer uma relação funcional entre a realidade social e as diferentes manifestações jurídicas. A originalidade desse grande jurista brasileiro está. ob. que confere determinada significação a esse fato. um valor. mas não em uma simples adição. 12ª ed. Mais ainda. Este congrega aqueles componentes.

Na correta visão de Reale, o Direito forma-se da seguinte maneira: um valor podendo ser mais de um - incide sobre um prisma (área dos fatos sociais) e se refrata em um leque de normas possíveis, competindo ao poder estatal escolher apenas uma, capaz de alcançar os fins procurados. Um valor pode desdobrar-se em vários dever-ser, cabendo ao Estado a escolha, a decisão; toda lei é uma opção entre vários caminhos; o fato nunca será isolado, mas um conjunto de circunstâncias. Na concepção do autor dessa teoria tridimensional, o Direito é uma realidade fático-axiológico-normativa, que se revela como produto histórico-cultural, dirigido à realização do bem comum. Apesar de sua natureza dinâmica, o Direito possui um núcleo resistente, uma constante axiológica, invariável no curso da história. Pois bem, esses três fatores inseparáveis do Direito - fato, norma e valor - vão constituir o objeto de três ciências distintas, embora afins: a Sociologia Jurídica, a Ciência do Direito e a Filosofia do Direito. A Sociologia Jurídica tem por objeto, como já ficou dito, o direito fato, a Ciência do Direito se preocupa com a norma, e a Filosofia do Direito dedica-se ao direito em seu aspecto valor.

28.1. Diferença entre a Sociologia Jurídica e a Ciência do Direito

O fato é o acontecimento social referido pelo Direito objetivo. São as relações sociais, fatos interindividuais que envolvem interesses básicos para a sociedade e que por isso enquadram-se dentro dos assuntos regulados pela ordem jurídica. Implica isto dizer que a Sociologia Jurídica descreve a realidade social do direito sem levar em conta sua normatividade. Preocupa-se com a existência do direito como produto ou fenômeno social, decorrente das inter-relações sociais, e não como foi concebido ou equacionado pelo legislador. A sociologia deve apenas relatar e registrar o fato sem se envolver com valores, ideologias ou normas. É tarefa do sociólogo descrever os fatos. [pg. 59] A norma consiste no padrão de comportamento social a ser adotado em cada caso. “Ao disciplinar uma conduta, o ordenamento jurídico dá aos fatos da vida social um modelo, uma fórmula de vivência coletiva” (Paulo Nader, ob. cit., p. 378). E esse é o campo da ciência do Direito. Estuda o Direito pelo seu aspecto normativo, isto é, o conjunto de leis e regras escritas e emanadas do Estado. À ciência do Direito interessa o conhecimento das normas jurídicas, que enunciam, não o que sucedeu ou como sucedeu, mas o que deve acontecer, já que o objeto do saber jurídico é o Direito, e o Direito é a norma, nada mais que a norma (Kelsen). A norma pode ser definida como um juízo hipotético destinado a expressar que fazer ou não fazer algo deve acompanhar-se de uma medida de coação por parte do Estado.

28.2. Distinção entre a Sociologia Jurídica e a Filosofia do Direito

À Filosofia do Direito, que objetiva o estudo do direito no seu aspecto valor, cabe determinar sua formação e desenvolvimento em relação aos elementos infra-estruturais da sociedade, ressaltando a dependência de suas modificações. Preocupa-se com correntes filosóficas e ideológicas, que conceberam o direito desta ou daquela forma, e com a escala de valoração jurídica dos bens existentes na sociedade. Valor é o elemento moral do Direito, a sua essência ética. Toda a obra humana é impregnada de sentido ou valor, e assim também ocorre com a sociedade. Tem ela uma escala de valores ligada à idéia de poder, importância, qualidade, estima, utilidade e necessidade material ou moral, acerca de condutas, posições, entendimentos e coisas, escala essa que vai se formando e se modificando de acordo com correntes ideológicas - pensamentos, idéias, opiniões - existentes em determinado momento e em determinada sociedade. Toda norma enuncia algo que deve ser, em virtude de ter sido reconhecido um valor como razão determinante de um comportamento declarado obrigatório. O valor confere determinada significação ao fato, inclinando ou determinando a ação dos homens no sentido de atingir ou preservar certa finalidade ou objetivo. Houve tempo, por exemplo, que a liberdade foi o grande valor social que, por sua vez, deu causa ao liberalismo. O Direito brasileiro atual, principalmente a partir da Constituição de 1988, voltou a dar ênfase aos valores, o que tem conseguido alcançar por meio da consagração de princípios. Princípios são valores éticos, morais e sociais apreendidos pelo legislador e que, consagrados em um preceito, passam a ser instrumentos de interpretação de outros preceitos, enquanto [pg. 60] normas são regras de comportamento que estabelecem como deve ou não deve ser a conduta e as conseqüências que daí decorrem. Regras oferecem soluções enquanto que os princípios oferecem paradigmas, critérios para se encontrar a solução do caso concreto. Entre os superiores princípios (valores) consagrados na Constituição de 1988, merece especial destaque o da dignidade da pessoa humana, colocado como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1°, III). Temos hoje o que pode ser chamado de direito subjetivo constitucional à dignidade. Ao assim fazer, a Constituição colocou o Homem no vértice do ordenamento jurídico da Nação, fez dele a primeira e decisiva realidade, transformando os seus direitos no fio condutor de todos os ramos jurídicos, Isso é valor. E, ao inserir em seu texto normas que tutelam os valores humanos, a Constituição fez também estrutural transformação no conceito e valores dos direitos

individuais e sociais, o suficiente para permitir que a tutela desses direitos seja agora feita por aplicação direta de suas normas. No plano infraconstitucional, a legislação vem seguindo o mesmo caminho. O Código do Consumidor é uma lei principiológica, no qual foram consagrados os valores éticos e morais necessários à defesa do consumidor, entre os quais a boa-fé objetiva, princípio cardeal (arts. 4°, VIII; 51, IV), a transparência, a confiança, a informação, a segurança e outros. O novo Código Civil, como não poderia deixar de ser, pois foi coordenado pelo autor da teoria tridimensional do Direito, está todo comprometido com o resgate dos valores éticos, sociais e morais no Direito. A título de exemplificação, lembramos que a boa-fé é também o princípio cardeal desse novo Código, uma espécie de fio condutor de toda a sua estrutura. Não se trata, porém, da boa-fé meramente subjetiva - posição psicológica, intenção pura e destituída de má-fé, crença ou ignorância de uma pessoa -, porque isso a realidade demonstrou não ser suficiente nas relações sociais regidas pelo Direito, Dizem que o inferno está cheio de pessoas bem intencionadas. A boa-fé consagrada pelo novo Código como valor superior é a boa-fé objetiva ou normativa, assim entendida a conduta adequada, correta, leal, transparente, confiável e honesta que as pessoas devem empregar em todas as relações sociais. Três são as funções da boa-fé objetiva no novo Código Civil: a) fonte de deveres instrumentais dos contratos (art.422): quem contrata não contrata apenas o que contrata, contrata também lealdade, cooperação, transparência, informação etc. (tem-se dito que esse dispositivo é a porta de entrada da ética no nosso Direito); b) regra de interpretação dos negócios [pg. 61] jurídicos (art.113): todo e qualquer negócio jurídico deve ser interpretado pelo juiz de acordo com o princípio da boa-fé; c) limite ao exercício dos direitos subjetivos (art.187): nesta terceira hipótese a boa-fé representa o padrão ético de confiança e lealdade indispensável para a convivência social. As partes devem agir com lealdade e confiança recíprocas. Essa expectativa de um comportamento adequado por parte do outro é um comportamento indispensável na vida da relação. É um limite a ser respeitado no exercício de todo e qualquer direito subjetivo. Podemos afirmar que o Código do Consumidor e o novo Código Civil são uma reação ao liberalismo jurídico que predominou durante todo o século XX, principalmente em sua primeira metade, e que aos poucos afastou o Direito da ética, da moral, da eqüidade, dos valores transcendentais, tornando-o puro tecnicismo. Em suma, a Sociologia procura a existência; a Filosofia preocupa-se com a essência. “A Sociologia do Direito”, como observou Gurvitch, “dá ao jurista uma descrição objetiva da realidade social do direito, válida num dado meio social; a Filosofia do Direito lhe

dá um critério de valores jurídicos, que lhe ajuda em suas manifestações particulares para alcançar fins concretos” (Sociologia do Direito, p. 13). Embora cada uma funcione em seu setor específico, as duas ciências estão, entretanto, interligadas, pois o filósofo social necessita conhecer a realidade social que se faz presente nos trabalhos do sociólogo. “Quando se estuda Filosofia do Direito”, assinala Porto Carreiro (Introdução à Ciência do Direito, p. 78), “parte-se de uma base sociológica inafastável, cujo conhecimento é fornecido por aqueles que se dedicam ao estudo sociológico do Direito”.

29. A EFICÁCIA, A VIGÊNCIA E O FUNDAMENTO

As três dimensões pelas quais o Direito pode ser considerado (fato, norma e valor), segundo o próprio Miguel Reale (O Direito como Experiência, 1961, pp. 61 e 62), dão origem a três planos de problemas diferentes: o da eficácia, o da vigência e o do fundamento. A Sociologia Jurídica se preocupa com o primeiro - a eficácia; a Ciência do Direito, com o segundo - a vigência; e a Filosofia do Direito, com o terceiro - o fundamento.

29.1. A Eficácia

Ao afirmarmos que a Sociologia Jurídica preocupa-se com a eficácia do Direito, queremos enfatizar que constitui também objeto dessa discipli- [pg. 62] na saber se as normas jurídicas estão ou não adequadas às necessidades sociais. Quer dizer, primeiro a Sociologia Jurídica preocupa-se com os fatos sociais que repercutem na ordem jurídica, e com as relações que necessitam receber o disciplinamento do direito; uma vez elaborada a norma disciplinadora, empenha-se em saber se a referida norma atende ou não às necessidades sociais. Isso, como teremos oportunidade de ver, é da maior importância porque a norma, mesmo que no momento de sua elaboração esteja perfeitamente adequada à realidade social, com o correr do tempo pode se tomar ultrapassada, ineficaz, em razão da constante evolução social, tomando-se necessário reformulá-la.

29.2. A Vigência

A Ciência do Direito, por sua vez, preocupa-se não somente com a norma, como já vimos, mas também com a sua vigência. Enquanto a lei estiver em vigor, cabe ao jurista estudá-la, interpretá-la, comentá-la etc., ainda que se trate de lei já completamente

encontramos várias figuras típicas que ainda hoje são objeto de comentários dos autores (estão no Código). o objeto da ciência do Direito. Muitas já conseguiram a posse e guarda de crianças e até adotá-las como filhos. Dependendo das correntes ideológicas ou filosóficas predominantes e dos fatos sociais existentes. Serve como exemplo a união estável de homossexuais. ele é normatizado. sentimental e doméstica como se fossem casais. adultério (art. a natureza do que é jurídico. por via de conseqüência. a forma de governo é aquela. republicano -. em que ficar decidido: a forma de Estado é essa. que a Filosofia do Direito preocupa-se também com os fundamentos do Direito. as suas conseqüências morais.desatualizada e em desuso. 29. haverá campo apenas para a Sociologia Jurídica e para a Filosofia do Direito. 63] organização social e política vai estabelecer situação da família.3.unitário. éticas. o crime de perigo de contágio venéreo (art. parece-nos resultar claro que a Ciência do Direito só tem razão de ser após o surgimento da primeira norma na sociedade. Discute-se a justificação dessa união. finalmente. redução à condição análoga à de escravo (art. questão que ainda aguarda definição jurídica. porém. Mas a norma legitimando essas situações não foi editada porque ainda está em debate o valor. decidindo que forma de Estado e de governo vai adotar . apesar de não mais terem aplicação social: por exemplo. queremos dizer que constituem igualmente objeto dessa disciplina os problemas relacionados com o ideal do direito. investigando ainda as ideologias ou correntes de pensamento que acabaram prevalecendo e servindo de fundamento aos principais institutos jurídicos. teremos esta ou aquela estrutura política e social. depois valoriza-se o fato e. Em alguns países o casamento de homossexuais já é permitido. surge a norma e. sistemas de produção etc. democrático. federado. seu conteúdo ético a seu mundo axiológico. 240) etc. No momento. 130). 149). Ao estudarmos o Código Penal. A norma só deixa de ser vigente depois de expressa ou tacitamente revogada por outra. -. Enquanto o grupo social estiver se organizando. mas no Brasil continua sendo objeto de acirrados debates. O Fundamento Ao afirmarmos. O fato social já existe: milhares de pessoas do mesmo sexo convivem sob o mesmo teto. o casamento será assim etc. partilhando a vida sexual. Do exposto. ainda que completamente afastada da realidade social. que [pg. Até lá é objeto da Ciência do Direito. por último. Recapitulando: primeiro ocorre o fato social.. familiares e sociais. como outrora se discutiu o . religiosas. suas causas e seus princípios últimos.

está na realidade das coisas. em sua Teoria Pura do Direito. cit. a dado antecedente. fica obrigado a repará-lo. tal como a moral. A um antecedente liga-se indispensavelmente dado conseqüente: um corpo solto no espaço (antecedente) cai inexoravelmente (conseqüente). às condutas humanas em sociedade. até nossos dias. O homem é o único ser que participa das duas esferas básicas do mundo . que decorrem da própria natureza. não às normas (dever ser). a ética e o direito. podemos estabelecer o seguinte quadro: DIREITO Sociologia Jurídica Ciência do Direito Filosofia do Direito Fato Norma Valor Eficácia Vigência Fundamento Ser Dever Ser Poder Ser . p.é o mesmo com que o sociólogo já se habituara a conviver muito antes que os juristas ou os jusfilósofos fizessem a extraordinária descoberta do direito como conduta em interferência intersubjetiva. se chover. e assim por diante. liga determinado conseqüente: se alguém causar dano a outrem. Quando o sociólogo do direito se refere ao seu objeto. entidade familiar. § 30). Sintetizando tudo o que até aqui ficou dito. É este que. 64] gico. No mundo da natureza as coisas se passam mecanicamente. Nessa perspectiva. No mundo do dever ser as coisas se passam segundo a vontade racional do homem. 30.a conduta humana . muitos autores procuram distinguir a Sociologia Jurídica da Ciência do Direito estabelecendo que a primeira é a ciência do ser e a segunda a do dever ser. mas ao próprio direito vivo (ser). isto é. como ser moral. a Sociologia Jurídica versará o mesmo objeto da ciência jurídica. As ciências sociais pertencem ao mundo do dever ser.a física (o ser) e a moral (o dever ser). da consciência e da razão. cuja conversão em casamento a lei deve facilitar (art. O SER E O DEVER SER Desde Kelsen. sujeito às leis naturais.concubinato. 133). escolhendo os seus próprios caminhos. observou Machado Neto (ob. está se referindo. apenas servindo-se de uma lógica diversa. atua na esfera da liberdade. construindo bombas ou catedrais.[pg. a terra fica molhada. Como ser bioló. e assumindo a responsabilidade pelos seus atos.. isto é. de nada vale a vontade do homem na tentativa de modificá-las mediante a formulação de leis racionais. 266. escrevendo a sua história. O mundo do ser é o das leis naturais. reconhecido como união estável pela Constituição de 1988. O direito de que aqui se vai tratar .

Todos estão certos. filósofos e juristas. com um aspecto diferente. Os fatos presentes são a principal preocupação da Sociologia Jurídica porque cabe-lhes. até inconscientemente. com o máximo de fidelidade ao acontecido. que necessitam do disciplinamento jurídico. À História do Direito. o que lhes confere objeto próprio e autonomia. posições políticas. Os primeiros falam do direito no seu aspecto fato. e os últimos falam do seu aspecto normativo. todos têm razão. 1970. como à História em geral. os segundos falam do mesmo fenômeno. já podemos compreender melhor os motivos da inconciliável controvérsia existente entre sociólogos. 65] sentes.[pg. envolvimentos sociais etc. Correntes filosóficas. o direito. de vigência. São os fatos presentes. ser. Cremos que. Os fatos passados só interessam à Sociologia Jurídica eventualmente para efeito de comparação. 37-38). a essa altura. aquelas que mantêm mais íntimas relações. em seu ângulo de visão. a Sociologia Jurídica e a História do Direito são. cada qual. poder ser.Como se vê.a vida social: para ambas o direito aparece como um fato social. 31. . porque o presente inquestionavelmente influencia na visão dos fatos. porém. oriundo da instituição estatal. fundamento. dever ser. Historiar é narrar fatos notáveis ocorridos na vida dos povos tal como ocorreram. possibilitando a elaboração de normas ajustadas a essa realidade e aferindo a eficácia das já existentes. interessam os fatos passados simplesmente por não ser possível fazer história de fatos presentes. e não os passados. a ponto de. a fim de apurar a evolução sofrida pelo Direito.apesar de ser considerada inócua tal distinção por alguns autores (Nelson Nogueira Saldanha. mas no seu aspecto valor. pp. as três ciências ocupam-se do Direito. inegavelmente. cada qual. A HISTÓRIA DO DIREITO De todas as ciências jurídicas. oriundo inquestionavelmente da sociedade. eficácia. fazer a descrição da atual realidade social do direito. a realidade atual. Sociologia do Direito. Entendemos que a principal distinção entre essas duas ciências está em que a Sociologia Jurídica preocupa-se por excelência com os fatos pre. É que as duas possuem praticamente o mesmo objeto material . como já vimos. Não se pode fazer história de fatos presentes. há muito tempo. e a História do Direito com os fatos passados . nos influenciam de tal forma. por sua vez. entretanto.

não como ocorreram. por um lado. ser fiel a eles o máximo possível. a principal diferença entre Sociologia Jurídica e História do Direito está em que a primeira pretende apanhar do fenômeno social jurídico o que sejam suas características genéricas: as leis gerais e as figuras típicas do comportamento jurídico da sociedade. pois o historiador do direito se abebera dos ensinamentos da Sociologia Jurídica. Isso já é interpretação. fundamento sólido para suas induções. entretanto. momentos antes esfaqueado por C. como vai relatá-la? Que viu A esfaqueando B. se a Sociologia Jurídica. mas como nos parecem ter ocorrido. pode-se concluir que. mantém constante intercâmbio de sugestões e de subsídios com todas as disciplinas especiais que pesquisam o direito sob outros ângulos. p. e isso só é possível alcançar após o decurso de algum tempo.pela simples razão de ocorrerem na sociedade todos os fatos que repercutem nos mais variados ramos do Direito. assim [pg. . Para Machado Neto (ob. De todo o exposto. é o objeto por excelência da nossa disciplina. a narrar os fatos. para fazer história. Trabalhista. o direito fato. 32. isto é. a Sociologia Jurídica tem autonomia como ciência. 66] como o sociólogo do Direito se aproveita do inesgotável manancial da história das instituições jurídicas. uma coisa é o fato e outra a sua interpretação. . por outro está intimamente relacionada com todo o Direito . Penal. Este é o fato. Observa o autor. como já vimos. E o fato social.em vez de nos limitarmos a narrar. O historiador tem que narrar fatos. se não quiser correr o risco de generalizar a partir de poucos exemplos empíricos. completa e abrangente do Direito. Alguém passa por uma rua e vê uma pessoa tirando uma faca que estava cravada nas costas de outra.Família. Por isso é necessário. Via de regra. como é sabido. por outro lado. é um estudo específico e possui ângulo próprio para examinar seu objeto. pois pode ser que A estivesse socorrendo B. procurando enquadrá-la no sistema geral em que a história em si própria consiste. por um lado. que lhe dá maior força de penetração no sistema global da história jurídica. E dessas inter-relações resultará para o estudante uma visão mais ampla. passarmos também a interpretar. E.. cit. 129). A segunda (História do Direito) detém-se na consideração de cada fenômeno sócio-jurídico individual. Sucessões. Fiscal etc. RELAÇÃO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA COM OS DEMAIS RAMOS DO DIREITO Se. que as duas ciências se relacionam intimamente. deixar que o tempo dispa os fatos de toda ideologia ou conotação interpretativa.

uma para a família e outra para os aparelhos.tanto das minúsculas bactérias. como dos gigantescos corpos celestes distantes milhões de anos luz. em tão grande número e variedade que. permitindo ao homem penetrar no mundo do invisível . Disca o telefone e fala com alguém no outro lado do . O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO Na primeira metade do século XX as grandes potências mundiais deram grande importância ao estudo das ciências chamadas exatas. **** 33. investindo-se fabulosas somas no desenvolvimento de arrojados projetos quase impossíveis. de naves espaciais. outrora calmas e livres. houve um progresso científico nunca dantes visto ou esperado! Inúmeros inventos e descobertas ocorreram. Matemática. Química. Astronomia. Como resultado. os mais poderosos e velozes. Efeitos do progresso científico no mundo social. encheram-se de veículos dos mais variados tipos. se formos adquiri-los todos. Importância da Sociologia Jurídica. precisaremos de duas casas . Todas as atenções foram voltadas para as pesquisas no campo da Física. o mar encheu-se de navios das mais variadas procedências. As casas encheram-se de aparelhos eletrodomésticos. o ar. A importância das ciências sociais. de aviões. pois pode estar em vários lugares quase ao mesmo tempo. bem como de submarinos e outros objetos destinados à navegação. satélites artificiais e até de objetos “nãoidentificados”. As ruas. [p.Capítulo VII IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS E DA SOCIOLOGIA JURÍDICA EM ESPECIAL O desenvolvimento científico. 69] O homem verdadeiramente adquiriu o dom da ubiqüidade.

por volta de 1700. mas ainda em cima de um cavalo. qual era o meio de transporte mais rápido? Continuava o mesmo. qual era o meio de transporte mais rápido? Continuava sendo o lombo de animal. que morreu aí pelo ano de 1900. O invento mudou a cultura ocidental para sempre. Dois mil anos depois. comanda operações de muitos milhões de dólares. A prensa de Gutenberg era. apesar do transcurso das gerações. vê o que pretender. Antes de Gutenberg. Já houve até um filme que explorou esse motivo. nos Estados Unidos. roupas compridas etc. basta que atentemos para o seguinte: qual era o sistema de transporte mais rápido 2. O aparecimento da prensa fez mais pela cultura ocidental do que simplesmente introduzir uma forma mais veloz de reproduzir um livro. que em geral eram encarregados de copiar a Bíblia. O nosso D. Para termos idéia do progresso científico que houve em nossos dias e das transformações ocorridas.000 anos antes de Cristo? O lombo de animal. entra na internet e.[p. Não percebemos tanto o vulto das transformações porque ocorreram todas em nossos dias. Para evitar-lhe problemas psíquicos. rara. voltasse à nossa sociedade. e assim por diante. compra o que quiser. não acreditaria no que veria: pensaria que estava em um outro mundo. Era a história de um indivíduo. 70] mente conseguiam fazer mais de uma por ano. nos dias de Cristo. Mas se um ancestral nosso. Gutenberg levou dois anos para compor os tipos de sua primeira Bíblia. teve condições de imprimir múltiplos exemplares. tudo se transformou em nossa sociedade. não em cima de um tanque de guerra. todos os livros eram copiados à mão. naquele instante. acessa qualquer informação. põe-se em contato com qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Isso demonstra que em quase quatro mil anos de história a humanidade nada progrediu no campo científico. de grande impacto cultural sobre a sociedade. Passaram a ser naturais. um ourives da cidade de Mainz. Pedro I proclamou a independência. quando Johann Gutenberg. e descongelado em 1976 num mundo totalmente diferente. a vida fora comunitária e praticamente imutável. em outro continente. ou até mesmo na Lua. mas. acidentalmente. uma vez feito isso. Até aquela época. em comparação. seus descendentes tiveram que remontar em tomo dele o mundo em que viveu . congelado. A maioria das .com carruagens. uma impressora a laser de alta velocidade. liga a televisão e vê o que está se passando. e fomos a elas nos acostumando gradativamente. no qual viajava do Rio para São Paulo. ocorreu por volta de 1450. Os monges. Em conseqüência desse fantástico progresso científico. inventou o tipo móvel e apresentou a primeira prensa na Europa (a China e a Coréia já possuíam prensas). na Alemanha. O único acontecimento isolado. toma café no Rio de Janeiro e janta em Nova Iorque. Na Europa e nos demais países civilizados também o transporte era o mesmo.mundo. literalmente. Mil e oitocentos anos depois.

As instituições sociais. outro ainda o motor a explosão. sem mapas confiáveis. permitindo a formação de um clima propício a lutas de classes. em geral era quase impossível encontrar o caminho de volta. resultando disto um descompasso entre o progresso científico e a evolução social. já de muito ultrapassaram a barreira do som. por falta de uma ação . o velho se pôs a gritar: “Essa coisa não vai mais parar. sonora. choques ideológicos. perdendo de vista seu objetivo. 71] tremamente privilegiada em detrimento das demais. ainda mais desnorteado. dominando o espaço sideral.agravou-os ainda mais. em vez de resolver os problemas sociais . 120 km etc. Muito poucas aventuravam-se para além das fronteiras da aldeia. dizendo repetidas vezes: “Essa coisa não vai andar. deu origem a uma classe ex. em parte porque. que é o próprio homem. um de meus autores favoritos: “Nesse mundo. passou em pouco tempo a 60.” E quando o trem andou. porque de 6 km por hora. aumento da criminalidade. a ponto de tomar impossível a vida em certos lugares. todas as experiências eram pessoais: os horizontes eram pequenos. a comunidade olhava para dentro. acarretando acidentes que matam e mutilam mais do que as guerras.” E não parou mesmo. Como diz James Burke. ao vê-lo. como se sabe. não acompanharam o desenvolvimento científico e tecnológico. EFEITOS DO PROGRESSO CIENTÍFICO NO MUNDO SOCIAL Enquanto as ciências chamadas exatas eram estudadas e pesquisadas. relegadas a segundo plano. A explosão demográfica.pessoas só conhecia aquilo que fora visto com os próprios olhos ou ouvido em relatos de terceiros. trouxe poluição atmosférica. e assim as rodas começaram a correr. Enquanto o homem se empenhava em conquistar a Lua. O mais impressionante de tudo é que a maioria dos inventos ocorreu de 50 anos para cá. as ciências sociais ficaram esquecidas. Desse desequilíbrio resultou que o progresso científico.” Ao chegarmos perto do século XX. Um velho que se encontrava na estação. Criou superpotências capazes de dominar e destruir as demais. os inventos começaram a surgir: um descobriu a energia elétrica. gerando novos planos na desigualdade social.[p.sua razão de ser . agravou os problemas de trânsito. pôs-se a advertir os passageiros. Hoje. O primeiro trem andava à velocidade de 6 km por hora: era um espanto para a época. O que existia no mundo exterior era uma questão de ouvir dizer. porém. depois da Segunda Grande Guerra Mundial e da desintegração do átomo. os homens voam a fantásticas velocidades. perdia terreno em seu próprio grupo. outro a máquina a vapor. fluvial e até do mar. 34.

A sociedade tem que caminhar para o autoconhecimento. Concluiu-se também ser necessário planejar o desenvolvimento social. com inúmeros tentáculos ou segmentos. criaram-se cursos universitários específicos nesse fascinante ramo [p. L. . pesquisá-las. 35. a ponto de um ex-presidente norte-americano afirmar que a mais perigosa sombra que ameaça a humanidade atualmente não é a bomba atômica. realizando-lhe os objetivos. visando o planejamento do próprio desenvolvimento. nem apenas um sonho dos marxistas ou fascistas. abandono infantil. sério. Mais recentemente: F. pesquisas e projetos desenvolvidos. É hoje uma imposição da vida em coletividade. como foi feito com as ciências exatas. inúmeras e extraordinárias obras foram escritas sobre o assunto. sem a qual não haverá organização. e A. destinados a preparar especialistas em planejamento e organização social. Dentre os juristas e sociólogos que entre nós se têm dedicado ao assunto. mas a cegonha. destacamos: Euzébio de Queiroz Lima. segurança. desenvolvê-las. de algum tempo para cá tomou-se obrigatório o estudo das ciências sociais em quase todos os cursos superiores. Quando a sociedade cresce desordenadamente toma-se um polvo gigantesco. tomou-se um fato irreversível. e Orlando Gomes. empolgados pelos problemas decorrentes da aparente necessidade de controlar as massas. editado pela primeira vez em 1922. A Crise do Direito (1955). Evaristo de Moraes Filho. confusa e turbulenta. Tem que conhecer o que se passa em seu seio como temos que nos conhecer a nós mesmos. de Miranda Rosa lançou a notável Sociologia do Direito. Por isso. já reinantes nos grandes centros socialmente mal organizados. miséria. A planificação da sociedade não é mais considerada incompatível com a democracia. Provam isto os problemas sociais de violência. que editou em 1950 a obra intitulada O Problema de uma Sociologia do Direito. A IMPORTÂNCIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Houve o despertar da consciência para a importância das ciências sociais e a necessidade de estudá-las. A. vinculado ao desenvolvimento social. Sociologia e Filosofia do Direito. progresso. que escreveu o conhecido livro Princípios de Sociologia Jurídica. só nesta harmonia traz beneficio à humanidade. 72] do conhecimento humano. Carlos Campos.preventiva. Compreendeu-se tardiamente que o progresso científico deve ser integrado. sob pena de tomar-se impossível a vida em coletividade. liberdade.

pois fornece-lhe os elementos necessários à elaboração das leis. constituindo-se de fatos sociais. não podemos deixar de mencionar a Sociology of Law de Gurvitch. em magistral tradução de Djacir Menezes. e a Sociologia do Direito de Remi Levy Briihl. com a realidade social subjacente. as relações que necessitam de melhor disciplinamento. Segundo Pugliatti. não nos ateremos ao método .” E. IMPORTÂNCIA DA SOCIOLOGIA JURÍDICA A Sociologia Jurídica é da maior importância em primeiro lugar para o Legislador. ora restritiva. Orlando Gomes. A missão do jurista compreende a interpretação das leis que regem a sociedade. sem conhecer os fatos que estão ocorrendo no grupo. Só por abstração se pode separar a forma do conteúdo. Ao Juiz.nenhum legislador tem condição de elaborar leis eficazes.Machado Neto escreveu Sociologia Jurídica. a Sociologia Jurídica possibilita aplicar o Direito de modo compatível com as necessidades sociais. mais adiante. no estudo do Direito Civil pátrio. obsoleta. E essa interpretação não pode circunscrever-se à qualificação dos fatos jurídicos ou à fixação das condições de validade da conduta do indivíduo no exercício dos direitos deferidos ou no cumprimento das obrigações impostas. enfatiza: “O direito é um fenômeno social. 36. não sendo possível estudálo abstraindo-o da sociedade. visto que. Para interpretá-las. Com efeito. traduzido por Teruka Minamissawa. o elemento material isolado toma cor neutra e o elemento formal. o jurista toma contato.a realidade social. poderá. Dos autores estrangeiros com obras traduzidas para o português. bem colocou esta questão quando disse: “A realidade jurídica constitui-se de dois elementos fundamentais: o material e o formal. necessariamente. enfim . em 1964. através de uma interpretação ora extensiva. O primeiro é a matéria prima da experiência jurídica. numa sociedade determinada.] trato. caráter abs. visto que. São inseparáveis. conhecendo-as. os conflitos que se travam . 1946. Esses ajustes só alcançarão seus objetivos se o legislador estiver devidamente informado sobre aquilo que precisa mudar. um dos nossos grandes juristas. O outro é formado de um conjunto de normas. com o passar do tempo aquela acaba se tomando ultrapassada. Não basta descrever os elementos formais da realidade jurídica composta das normas vigentes em determinado momento histórico. sob o título Sociologia Jurídica. ou mesmo através da analogia. do original Sociologie du Droit. Eis por que. fazer o Direito acompanhar as evoluções sociais. escoteiro. sendo a lei estática e a sociedade dinâmica. é preciso com freqüência ajustar a lei às novas realidades sociais. Por outro lado. sem desrespeitar as leis da hermenêutica.[p.

Para o advogado. Os legisladores poderão cumprir melhor sua função prevendo as tendências da legislação. se dermos a devida atenção à Sociologia Jurídica e progredirmos suficientemente em seu estudo.. os governantes e juízes serão capazes de dar aplicação mais precisa às normas de direito que houverem sido editadas. Podemos concluir afirmando que. Revela-lhes que o Direito não é somente um conjunto de normas estáticas. como para o estudante. alcançando a necessária adequação entre os fins sociais e as normas jurídicas que se destinam a realizá-los. Forense. mas também um fato. 3a ed. a Sociologia Jurídica proporciona uma visão mais ampla e real do fenômeno jurídico. 1971. mas sim ao dos que consideram o direito um fenômeno social e entendem que a ciência jurídica não se esgota na elaboração de uma teoria geral ou na técnica de logicar através de silogismos próprios de uma sentença judicial (Introdução ao Direito Civil.preconizado pelos normativistas. frias. será possível evitar a improvisação em inúmeras questões administrativas e legislativas. tomando-se ineficazes e obsoletas. à qual as normas deverão se ajustar sob pena de perderem a finalidade. o profissional do Direito. pp. que devem ser aplicadas independentemente de qualquer finalidade ou objetivo. 14 e 16). . a realidade social dinâmica em permanente evolução.

para então adotarmos o daquele que nos parece mais completo. O pensamento de Georges Gurvitch. Método é o caminho que se deve seguir para alcançar os objetivos de uma ciência. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA No estudo de toda ciência é da maior importância precisar seu objeto. [p. Vamos procurar agora explicitar esse objeto. **** 37.Capítulo VIII OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA O entendimento de Émile Durkheim. Por objeto entende-se o campo específico de atuação de uma ciência. o processo a ser aplicado para realizar suas finalidades. Vamos de ora em diante nos dedicar ao exame do objeto da Sociologia Jurídica. É preciso. razão pela qual procuraremos expor o entendimento dos principais. desde logo adiantar que em tomo desta questão não há perfeita concordância entre os autores. o objetivo que visa alcançar. Ao tratarmos da autonomia da Sociologia Jurídica. porque disto depende uma boa compreensão quanto à razão prática dessa disciplina. procuraremos precisar o que está contido no estudo do direito como fato. o fim a que se propõe. examinando a sua divisão interna. estabelecer seu método e conhecer suas leis. Em suma. vimos que o seu objeto é o direito fato. entretanto. A posição de Renato Treves. O objeto da Sociologia Jurídica segundo Recaséns Siches. O objeto da Sociologia Jurídica na concepção de Edmond Jorion. 75] . Leis são aquelas regularidades. fenômenos que se repetem com freqüência no campo de uma ciência.

b) Sociologia Diferencial do Direito. a Sociologia Jurídica pode ser dividida. a moral. Somente quando as normas estão ajustadas aos fatos é que poderão atender aos objetivos para os quais foram elaboradas. se há ou não estrutura para isso etc. seria objeto da Sociologia Jurídica: a) investigar como as regras jurídicas se constituíram real e efetivamente. cit. No primeiro item teríamos o estudo das relações das formas de sociabilidade por interpenetração (massa. No segundo item procurar-se-ia saber dos resultados decorrentes da existência da norma. o conhecimento e a psicologia coletiva. por outro. e das formas de sociabilidade por interdependência (relações de aproximação. a religião. No primeiro item estaria incluído o exame das causas que determinam o surgimento das regras jurídicas. c) Sociologia Genética do Direito (ob. em três itens: a) Sociologia Sistemática do Direito ou Microssociologia do Direito. pp. bem como o estudo dos planos de profundidade do direito. PUF. comunhão) com os fenômenos geradores do direito social. dando ênfase especial ao estudo da soberania e das relações das diversas ordens jurídicas com o direito estatal. isto é. [p. de afastamento ou mistas) com os fenômenos originários do direito interindividual. comunidade. O ENTENDIMENTO DE ÉMILE DURKHEIM Para esse notável sociólogo francês. de acordo com as diversas abordagens metódicas de seu objeto.. 89-94). a economia. um dos fundadores da escola sociológica do direito. por um lado.38. citado por Machado Neto. bem como das necessidades que visam satisfazer. se está ou não sendo aplicada. . 1950). b) o modo como as normas jurídicas funcionam na sociedade (Leçons de Sociologie. dos fatos sociais que as suscitam. e a base ecológica da sociedade. 76] O último item trata das relações de interinfluência que se estabelecem entre o direito. incluindo uma Tipologia Jurídica dos Grupos Particulares e uma Tipologia Jurídica das Sociedades Totais. 39. O PENSAMENTO DE GEORGES GURVITCH Segundo Gurvitch. Paris. No segundo item Gurvitch se serve de sua classificação dos grupos para estudar as relações do direito com cada tipo de agrupamento social.

sejam eles positivos. Em síntese. estudos 41. O segundo item cuida da influência conformadora ou condicionante do Direito sobre a sociedade. o direito é. c) Estudo da gênese das regras jurídicas e de sua evolução. enquanto fato. b) Exame dos efeitos que o Direito constituído causa na sociedade. propõe o seguinte quadro de tarefas para a Sociologia Jurídica: a) Observação e análise dos fatos. a Sociologia do Direito e a Ciência do Direito constituem uma só e mesma disciplina. ao mesmo tempo. de seus próprios limites (De la Sociologie Juridique.40. classificação. como já assinalamos. data venia. atribui à Sociologia Jurídica duas séries de temas: a) Estudo de como o direito. encontra-se superado. no que. negativos ou de interferência com outros fatores (Tratado de Sociologia. O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA NA CONCEPÇÃO DE EDMOND JORION Para Jorion. O primeiro item proposto por Siches trata do direito como fenômeno condicionado pela sociedade. tendo por objeto o fenômeno jurídico. 1965. radicado no México. como produto resultante de um complexo de fatores sociais. entretanto. p. O autor belga. Porto Alegre. um fenômeno condicionado e condicionante da sociedade. Poderíamos ilustrar o entendimento de Siches mediante o seguinte quadro: [p. 693). O OBJETO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA SEGUNDO RECASÉNS SICHES O destacado professor espanhol. p. b) comparativos). representa o produto de processos sociais. Seu tratamento tipo lógico (reagrupamento. d) Relação do Direito com outros fenômenos sociais (influência do Direito sobre a sociedade e vice-versa). 211). e) Definição pela Sociologia do Direito. 77] Sociedade A Direito B .

surge . terá que aprender a língua falada no meio social para onde vai. segundo o entendimento de Siches. não fosse o social. Todo progresso. como tinta sintética. fazendo-o surgir das inter-relações sociais. 78] O gênio não existiria. haverá naquele livro? Começa que ele escreve em uma língua que não inventou. Ficaríamos alarmados se fôssemos pesquisar o que foi necessário. Mas. resultado de longa evolução histórica. luz artificial etc. Einstein e outros não passariam de um pajé ou cacique. [p. para que ele pudesse estar escrevendo numa folha de papel e não em um papiro ou coisa semelhante. dos operários que manipularão as máquinas etc. portanto. exclusivamente. sendo. de formação lenta e paulatina. revistas. um produto manipulado pela sociedade. no correr dos séculos. dele dependemos grandemente para tudo. Por isso. mudança cultural etc. não podendo ser esquecidas as figuras da datilógrafa. Até costuma-se dizer que somos produto do meio porque. poderíamos dizer que ocorre algo semelhante ao que se passa entre a sociedade e o indivíduo. Newton. O próprio Newton afirmou: “Se vi mais longe foi porque estive sustentado em ombros de gigantes. fontes de trabalho e inventos de outrem. muitas outras pessoas terão que concorrer para a edição. Se quiser se comunicar. patrimônio da cultura universal assimilado graças a uma pluralidade de inventos sociais. De todos os fatores que atuam sobre o indivíduo.” Por outro lado. entretanto. jornais. professores etc. papel. Não teríamos com quem falar.No primeiro plano (linha A) figura a sociedade como fator condicionante do direito: é a sociedade que dá origem ao direito. Tomemos o exemplo de quem escreve um livro. na realidade. o indivíduo exerce influência sobre o grupo. pois deve mais à coletividade do que a si mesmo. Para escrever depende o autor de uma série de recursos materiais. em verdade. Até o livro sair publicado. sem dúvida o mais dominante é o sócio-cultural. Para ilustrar as relações existentes entre a sociedade e o Direito. escola. o Direito passa acondicionar o comportamento do grupo. é obra exclusiva do autor? Somos tão dependentes do social que nem poderíamos falar a língua que pretendêssemos. Escreve sobre um tema que reflete uma soma de conhecimentos adquiridos em livros. se tivessem nascido em uma tribo indígena. do editor. a maior dificuldade de quem vai para um país diferente é a língua.. Em que medida o livro é produzido pelo seu autor? Quanto do autor em si. apesar de receber tanta influência condicionante do meio social. uma vez constituído em normas de conduta e disciplinamento. No segundo plano (linha B) figura o Direito constituído exercendo influência condicionadora sobre a sociedade: é inegável que. Aí a obra sai publicada com o nome do seu autor na capa.

ao qual nos reportamos. é o Direito um produto social. entretanto. ocorre entre o Direito e a sociedade. todos resumíveis na questão da influência condicionadora da sociedade sobre o Direito.na sociedade graças aos condutos da criação individual. Essa reciprocidade de influência produz constantes modificações no direito fato. o que é bom. também condiciona. . operando elas o milagre da inovação.Os dados (variáveis) da matéria social: a) realidade de uma série de relações sociais não reguladas juridicamente. técnica. Algo semelhante. b) tendências e correntes que ainda não obtiveram expressão normativa. ao mesmo tempo que o Direito é condicionado. e por sua vez no Direito norma. pois. economia etc.dado que a plenitude do ordenamento jurídico não permite tais vazios . condicionando condutas. não consegue a socialização integral de todos os indivíduos. o Direito passa a disciplinar as relações sociais. o indivíduo. subdividindo-o em uma série de novos temas. Exercendo influência sobre o grupo. e) fenômenos de organização espontânea.evolução milenar que durará enquanto existir a sociedade. que tem que disciplinar os novos fatos . É que a sociedade. arte. ficou evidenciada essa influência condicionadora da sociedade sobre o Direito. a máquina a vapor.Os fatores constantes da realidade jurídica. Não foi a sociedade. No capítulo sobre os Fatores Sociais da Evolução do Direito. por mais que condicione o indivíduo. c) representações axiológicas das pessoas que integram o grupo.ainda não suficiente ou convenientemente reguladas. Certas zonas da personalidade não chegam a ser inteiramente socializadas. ou melhor . elaborado pela sociedade. 79] d) mútuas correlações empíricas entre o Direito e outros produtos da cultura (religião. Quando erigido em norma de conduta. mas sim o indivíduo. pois caso contrário seria a massificação. fazendo-o evoluir. a lâmpada elétrica. Como fato. que inventou o cálculo infinitesimal. a saber: I . [p. f) necessidades e fins da vida humana que estejam pressionando em dado momento. O impulso criador da mudança cultural e do progresso social é. Siches dá maior ênfase ao primeiro item da sua proposição temática. como já se disse.). filosofia. II .

É preciso uma estrutura adequada de pessoal e material para aplicar a lei. trataremos da opinião pública que. o que são efeitos. funciona como termômetro a indicar ao legislador as mudanças a serem feitas na lei e nas instituições sociais. sob pena de a lei não atingir os seus objetivos sociais. De todos os autores mencionados. 3) estudo da opinião do público a respeito do direito e das instituições jurídicas. em sua obra La Sociologia del Diritto (pp. [p. são também mais abrangentes. Por último. ao analisar os assuntos que têm constituído o objeto da Sociologia Jurídica. A POSIÇÃO DE RENATO TREVES O ilustre professor italiano. além de mais compatíveis com o campo de atuação da Sociologia Jurídica. principalmente. quando teremos oportunidade de ver que não adianta ter leis e não aplicá-las. o que evidencia a influência condicionadora do Direito sobre a sociedade. Veremos o que é eficácia. Os temas por ele propostos. sustenta que eles se agrupam. envolvem os temas propostos pelos demais autores. e. em três tipos de indagações: 1) estudo da eficácia das normas jurídicas e dos efeitos sociais que tais normas produzem. razão pela qual vamos adotar essa classificação em nossos estudos daqui para frente. 80] . Trataremos também dos agentes do Direito na sociedade e sua função. 2) estudo dos instrumentos humanos de realização da ordem jurídica e de suas instituições. entendemos ser Renato Treves o que melhor colocou o problema relacionado com o objeto da Sociologia Jurídica. 23-25). quando a norma é eficaz e por quê. praticamente. se atendida.42. que tipos de efeitos as normas podem produzir.

Renato Treves. Eficácia da lei. 43. [p. entendemos necessário lembrar que eficácia não é sinônimo de validade. **** No capítulo anterior. procurando definir a eficácia e os efeitos das normas jurídicas. dissemos. o qual. nos dá a chave para encontrarmos o conceito de validade. Inicialmente.. 81] Um contrato. pela omissão da autoridade em aplicar a lei. . é válido? Não. destacamos o entendimento do Prof. examinar o primeiro item da classificação por ele sugeri da. tomaremos como roteiro de ora em diante.Capítulo IX EFICÁCIA DAS NORMAS JURÍDICAS E SEUS EFEITOS SOCIAIS A noção de validade e de eficácia. estabelecer as causas da ineficácia das leis e os tipos de efeitos que elas podem produzir e por quê. Trata-se de conceitos que a todo momento se repetem no estudo do Direito: validade do ato. após examinarmos o pensamento de vários autores sobre o objeto da Sociologia Jurídica. efeito conservador da norma. pois. em nosso entender. da lei etc. porque lhe falta um dos elementos. pela falta de estrutura adequada à aplicação da lei. Efeitos da norma. Nossa tarefa será. embora esta seja pressuposto daquela. no qual uma das partes é incapaz. Efeitos positivos da lei: de controle social. A NOÇÃO DE VALIDADE O que é necessário para que uma coisa seja válida? Esta pergunta. razão pela qual tomam-se imperativas algumas palavras a respeito. efeito educativo da norma. efeito transformador da norma. Efeitos negativos: pela ineficácia da lei. eficácia do contrato.

Se todos os seus elementos essenciais estiverem presentes. portanto. o negócio é inválido. devemos examinar seus elementos. invariavelmente. Para que o ato ou negócio sejam válidos. para Emílio Betti. Pois coisa semelhante ocorre no mundo jurídico. Por isso é que se diz que “válido é aquilo que está revestido de todos os seus requisitos legais”. Pode-se. ineficaz. sem os quais ela não existiria. nulo. manteiga. cujos conceitos não divergem do que já ficou assentado. Por elementos essenciais entendem-se aqueles requisitos que constituem a própria essência ou substância da coisa. não produz efeitos. cremos já poder agora tratar especificamente da eficácia da norma jurídica e dos seus efeitos. Faltando qualquer um desses. pois. Só o ato válido. 82] .Vemos assim que válido é aquilo que é feito com todos os seus elementos essenciais. A invalidade.farinha. [p. de o ato haver sido executado com a satisfação de todas as exigências legais. inválido. Tomemos. concluir que a validade decorre. porque faltou um dos seus elementos essenciais. por força duradoura e irremovíve1. para exemplo. ovos. são partes do todo. vamos começar pelos efeitos. terão que estar revestidos de todos os seus elementos essenciais. Com essas considerações preliminares. Coimbra. Quando queremos saber se uma coisa é válida ou não. como sanção à inobservância dos requisitos essenciais impostos pela lei (Teoria Geral do Negócio Jurídico. tem força para alcançar os seus objetivos. com falta de um de seus elementos. ela jamais terá o prato desejado. O ato nulo.artigo 104 do Código Civil. Por razões didáticas. no aspecto sociológico. Faltando um deles. que nasceu defeituoso. A NOÇÃO DE EFICÁCIA Eficácia é uma conseqüência da validade: é a força do ato para produzir os efeitos desejados. é aquela falta de idoneidade para produzir. Lembremos agora que a receita do negócio jurídico está na lei . sendo. é ela que estabelece os seus elementos essenciais. Que é preciso para ela fazer esse prato especial? Que elementos deve utilizar? Ela vai à receita e lá encontra a discriminação dos elementos . açúcar e as devidas proporções. não alcançando os seus objetivos. 1970). 44. ela será válida. revestido de todos os seus elementos essenciais. os efeitos essenciais do tipo. não tem força para tal. o caso de uma dona-de-casa empenhada em fazer um prato especial.

porém.fornecer ao legislador os elementos necessários à elaboração dessa norma. Deve ser a primeira preocupação do legislador . por isso que neles estão incluídos todos os resultados produzidos pela norma.elaborar uma norma adequada à realidade social e a primeira tarefa da Sociologia Jurídica . moldando-o à sua imagem e semelhança. pois sua própria existência já é um efeito. é eficaz a norma que atinge os seus objetivos. a sociedade condiciona o direito fato. Legislador que não tem conhecimento da realidade social. sob pena de nunca elaborar lei eficaz. por mais técnicas e eruditas que forem as leis que elaborar. só tem essa força quando está adequada às realidades sociais. que não está a par do desenrolar dos fatos. vazias de propósito. Como dizia Siches. conclui-se que os efeitos envolvem um conceito amplo.45. podemos então dizer que lei eficaz é aquela que tem força para realizar os efeitos sociais para os quais foi elaborada. que atinge o alvo por que está ajustada ao fato. como já vimos. para a sociedade à qual se destinam. dos reais problemas e conflitos que se travam na sociedade. serão elas carentes de conteúdo. Toda norma produz efeitos. “O legislador não pode ser mero espectador do panorama social. Pelo que ficou dito. EFICÁCIA DA LEI Se eficácia. ajustada às necessidades do grupo. Só aí ela penetra no mundo dos fatos e consegue dominá-los. é a força do ato para produzir os seus efeitos. decorrentes até mesmo de sua própria existência. que realiza as suas finalidades. abrangente. EFEITOS DA NORMA São todos e quaisquer resultados produzidos pela norma. A sociedade não espera pelo legislador. Em outras palavras. entretanto. 46. genérico. Uma lei. Se os fatos caminham normalmente à frente do . Nesse sentido é também a correta lição de Paulo Nader. como teremos oportunidade de ver. Poderão ser muito boas para outro lugar qualquer que tenha servido de inspiração ao legislador. modificação ou alteração que a norma produza no mundo social. Por conseguinte. Os efeitos podem ser positivos ou negativos. não tem condições de fazer leis. não passando de um conjunto de estéreis formalidades. qualquer conseqüência. eficácia é a adequação entre a norma e as suas finalidades sociais. nunca. Cabe ao legislador ajustar o Direito Positivo a essa realidade social.

verifica-se ser a eficácia um dos efeitos da norma. Ele deve fazer das leis uma cópia dos costumes sociais. quando eficaz. a contrario sensu. É uma certa qualidade do efeito produzido pela norma. O Controle Social Quando tratamos da função social do Direito (no segundo capítulo). e negativos. Pelo exposto.. entre vários modelos possíveis de lei. seu efeito principal ou real. 3) conservador. o legislador haverá de considerar os fatores histórico. produz normalmente efeitos positivos. eficácia é espécie. o legislador deverá antecipar-se aos fatos. com as devidas correções e complementações. natural e científico e a sua conduta será a de adotar. importantes modificações na sociedade. provoca. Efeitos positivos são os resultados compatíveis com os interesses sociais. Efeito é gênero. A norma. EFEITOS POSITIVOS DA LEI Já vimos que efeitos são todos e quaisquer resultados produzidos pela norma. a função preventiva é a . Esses efeitos podem ser positivos ou negativos. destas. Podemos até dizer que a eficácia é o principal efeito positivo da norma. conforme mencionado na parte anterior. 4) transformador 47. Entre os efeitos positivos da norma destacaremos apenas quatro: 1) de controle social. 2) educativo. O Volksgeist deve informar às leis. O estudo dos efeitos da lei é. p. aquele que mais se harmonize com os três fatores” (ob. um efeito condizente com suas finalidades. A norma eficaz só não produz efeitos positivos se concorrerem outros fatores. mas o Direito contemporâneo não é simples repetidor de fórmulas sugeridas pela vida social. são os resultados contrários aos interesses da sociedade. em outras palavras. conforme os interesses a serem preserva. vimos que as suas principais finalidades são prevenir e compor conflitos.Direito. Se de um lado o Direito recebe grande influxo dos fatos sociais. 27). É o efeito típico da norma. Quando da elaboração da lei.[p.1. o estudo da influência condicionante do Direito constituído sobre a sociedade. 83] dos. cit. 47. igualmente. como teremos oportunidade de ver. da qual falava Siches.

O Direito é muito mais preventivo do que repressivo. vai também educando e esclarecendo a opinião pública. É inconcebível uma sociedade na qual o comportamento social seja regulamentado apenas pelas sanções morais do elogio e da culpa. Quando a norma não é aplicada convenientemente. maior estímulo no sentido de ajustar sua conduta às condições existenciais. o controle é também exercido pela prevenção especial: a segregação do transgressor do meio social. 13° salário. através de pesquisas e da própria experiência. mas sim no próprio grupo. mesmo o ignorante ou analfabeto. de disciplinamento social. É que a lei. aviso prévio etc. da próxima vez que se sentir inclinado a transgredir a norma. Dessa forma exerce o Direito sobre todos um condicionamento que resulta num controle do comportamento do indivíduo. mesmo não querendo. nem na Escola de Direito. Em segundo lugar. ou a aplicação de uma pena pecuniária. Conscientizou o cidadão dos seus . antes de se tomar obrigatória. E ele sabe até mesmo onde e como reclamar os seus direitos. O controle social é exercido pelo Direito primeiramente pela prevenção geral. Isto faz com que muitos. O próprio Estado.2. 47.mais importante. Qualquer trabalhador dos nossos dias. com toda a propriedade. repouso remunerado. que o bom comportamento até do cidadão mais exemplar deve muito à existência da polícia. do grupo e das instituições. sofre o controle do Direito quanto à sua conduta. indenizatória. mediante a ameaça de uma pena para o transgressor da norma. ajustem o seu comportamento às prescrições legais para não sofrerem a sanção. Exemplo disso encontramos no Direito Trabalhista. Sabe que tem direito a férias. fundo de garantia. a sociedade global. Por quê? Onde aprendeu? Não foi com o patrão. conhece os seus direitos. tanto assim que não pode punir sem que alguém tenha praticado um fato típico. para ter. tem que ser divulgada. vai se perdendo o controle da situação e a vida em sociedade vai se tomando impossível. Bertrand Russel observou. publicada. não pode apoderar-se da propriedade de quem quiser. e assim. à medida que vai sendo conhecida pelo grupo. que certos assuntos tomam-se melhor conhecidos do grupo social depois de serem disciplinados pela lei. Efeito Educativo da Norma Está mais que evidenciado. a não ser através dos meios constitucionais etc. aquela coação psicológica ou intimidação exerci da sobre todos. 84] previne os conflitos? Estabelecendo regras de conduta. E ai de nós se assim não fosse! Como o Direito [p. A Constituição de 1988 nos fornece outro exemplo eloqüente desse efeito educativo da lei.

no Código Penal (dos crimes contra a família. 47. A função conservadora do Direito. racionalizar atividades.direitos e do acesso à Justiça. Em 2003 foram ajuizadas 296. Efeito Conservador da Norma As normas jurídicas tutelam determinados bens da vida social. essa é a característica essencial das normas jurídicas. no ano de 2002. foram propostas 252. necessita da proteção do Direito e por isso existem leis. perceberam que teriam de atender melhor os seus clientes para não perdê-los. Uma grande fornecedora de serviço de telefonia atende mais de 25 milhões de chamadas por mês. Hoje. cerca-as. o aborto. o roubo. e assim por diante. Estruturaram-se adequadamente e colocaram em operação o Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) por meio do qual conseguiram padronizar procedimentos. que é a instituição maior. das quais foram julgadas 223. As empresas. no entender do ilustre . protegem o patrimônio.782 reclamações e julgadas 265. A norma tutela não somente bens. É a função educativa do Direito. 85] pelo Código do Consumidor. bem ou mal.3. mas. defendeas. ligase ao caráter estático que ele representa ao garantir a manutenção da ordem social existente. o infanticídio. Há normas no Código Civil (um livro todo que só trata do direito de família). Prova disso são os Juizados Especiais. que se transformam em jurídicos quando recebem a proteção do Direito. destinadas à proteção da família. destinadas a organizá-lo e conservá-lo. estabelecendo em tomo delas a proteção jurídica. E o que se fez em relação a ela? Procurou-se protegê-la através de uma infinidade de normas. preservar esta instituição através dos séculos e a despeito de todas as influências perniciosas que conspiram contra ela.348 reclamações. as que incriminam o furto. que podiam aprender com eles para melhorar seus produtos e serviços. mais do que isso. mas também instituições. 85% do atendimento dos bancos 24 horas são feitos eletronicamente. Quando o legislador entende que certas instituições são valiosas e indispensáveis à vida social.389. Tomemos como exemplo o Direito Penal: todas as normas que incriminam o homicídio. Assim tem conseguido a sociedade. a começar pela Constituição. em face da nova postura dos consumidores. Só no Estado do Rio de Janeiro. o estelionato. O próprio Estado. no que foi coadjuvada [p.729. grandemente procurados. conquistar a fidelidade dos clientes e construir uma imagem positiva da empresa. visam a tutela da vida. Trata-se de instituição basilar da sociedade. assinala o insigne André Franco Montoro. Para muitos. por sua vez. Vejam o caso da família. arts. 235-249) e na própria Constituição.

os calabouços. 47. mais diretamente. assistência médico-hospitalar. Nos países em desenvolvimento e transformações profundas. estabelecendo. dos Tribunais. creche. vai operando sensíveis transformações em seu meio. Rev. Trabalhava a vida toda e. para dar cumprimento à lei. quanto piores as prisões. 86] verdade em países plenamente desenvolvidos. as prisões fétidas. 87] ríveis que se possa imaginar. em razão de necessidades sentidas. tem que se estruturar. 595). aparelhar-se para cumprir a lei. equipar-se. vestiário. depois de velho e cansado. indenização por acidente de trabalho etc. Vêm daí as masmorras. . Nesse tempo. e assim.jurista. imundas e nocivas. aposentadoria. por ser grande demais.[p. Exemplifiquemos este ponto com a situação do trabalhador antes das vigentes leis trabalhistas. As fábricas e indústrias tiveram que oferecer melhores condições e ambiente de trabalho aos seus empregados. A sociedade então. muitas delas com refeitório. aparelhar-se.. ambulatório. Qual era a sua situação? A mais lamentável possível.4. direito a férias. paulatinamente. foi necessário até a criação de um gigante nacional (INSS) para cuidar da aposentadoria e assistência médica dos trabalhadores. em favor do trabalhador. ficava ao desamparo. E qual foi a conseqüência disso tudo? A sociedade teve que se estruturar. que. o efeito condicionante do Direito sobre a sociedade. bem como as penas mais ter. era dispensado sem qualquer direito. 23a ed. passando privações e causando problemas sociais graves. No passado a pena era considerada um castigo ou punição: mal justo contra quem praticou mal injusto. auxílio de doença. Como não mais podia trabalhar. isso só é [p. Há quem diga que a história da pena é pior que a do crime. Daí a importância do Direito como instrumento de transformações sociais. Outro exemplo. determina a realização de certas modificações. escola. não funciona a contento. o erro dessa posição é patente. então o réu deveria ser mesmo colocado no pior lugar do mundo. a norma estabelece novas diretrizes a serem seguidas. e o resultado foi uma transformação social. Muitas vezes. estabilizados e organizados. fixa novos princípios a serem observados em determinadas questões. p. Eis aí o efeito transformador da lei. Efeito Transformador da Norma É aqui que percebemos. Reduzir o direito a uma força conservadora é perpetuar o subdesenvolvimento e o atraso (Introdução à Ciência do Direito. melhor. Isso teve que ser mudado: vieram as leis trabalhistas e previdenciárias. indenização. Se o fim da pena era punir.

Não vamos mais punir. A reforma econômica desencadeou outras reformas: na previdência. Pior do que tudo. e a participação eqüitativa de toda a população na renda nacional. A prisão passou a ser a melhor escola de crime. EFEITOS NEGATIVOS DA NORMA Elaborada para produzir efeitos positivos. em conseqüência. 88] 48. Procura-se hoje fazer da pena um instrumento de defesa social. adequados às novas exigências legais. Sem dúvida. castigando impiedosamente? Não. efetivo controle dos preços. pois nada fazia no sentido da recuperação do criminoso. [p. e quando. A estabilização da moeda. gerando miséria. pode ser o grande instrumento de uma política do desenvolvimento nacional. atribuindo-lhe uma função preventiva. Então será preciso transformar nossas prisões em escolas e reformatórios. que. quando corretamente utilizado. todas com amplo apoio da sociedade. que esperamos seja duradoura. Isso tudo evidencia que o Direito. trouxe uma melhor distribuição de renda.mais perigoso. desequilíbrio social e abusos econômicos de toda ordem. e em alguns estados já começam a surgir as primeiras transformações através de modernos estabelecimentos penais. maior poder aquisitivo da população. mas corrigir. Certas leis.Essa posição quanto à pena trouxe os piores resultados sociais possíveis. Tomava o réu pior . pode a norma. gerando profundas alterações na realidade brasileira. no monopólio estatal. Pelo menos já se fala hoje em reforma penitenciária. revoltado e despreparado para voltar à sociedade. produzir efeitos negativos. Por todos esses motivos. Para tanto. o bem estar. A economia do país estava à deriva. na privatização de estatais. a saúde. não dava à sociedade nenhum instrumento de defesa contra esse indivíduo e seus futuros crimes. o pensamento moderno a respeito dos fins da pena mudou. fome. nem no sentido de prevenir a sociedade contra a futura criminalidade. na ordem tributária. em dadas circunstâncias. o que será preciso? Onde educar? Na prisão? Na masmorra? Como. passou a comer mais e melhor. a cultura. É claro que . terá a norma exercido a sua influência transformadora. mediante normas que promovem a educação. A pena não é mais uma forma de castigo ou punição. contrários aos interesses sociais. como as orçamentárias. com uma inflação astronômica corroendo o salário do trabalhador. Se. mas sim um meio de reeducação e ressocialização do réu. o melhor exemplo do efeito transformador do Direito vamos encontrar nas leis econômicas que implantaram o Plano Real. isso acontecer. na Administração Pública. comandam a execução de planos de desenvolvimento social. entretanto.

Esse reconhecimento ou recusa.quando isso chega a acontecer é tempo de revogar a lei. 3) quando inexistir estrutura adequada à aplicação da lei. da maior parte dos indivíduos que integram o grupo. 48. uma adesão da comunidade. em constante conflito com os fatos. acanhado e despreparado.” . no entanto. do conteúdo da mesma. para que se converta em força efetivamente configuradora das condutas. que gera a eficácia ou ineficácia da norma. De outras feitas. como observa Siches: “A norma jurídica . 2) quando houver omissão da autoridade em aplicá-la. Efeitos Negativos pela Ineficácia da Lei A eficácia da norma depende do reconhecimento. estendendo-se o desapreço a toda a legislação. elaborado por uma Comissão Especial do Congresso Nacional. O trecho é o seguinte: “Não elaboramos leis para ser estampadas nos livros.” “O nosso País já é afamado pela distância entre a realidade e a norma jurídica. Lembramos três hipóteses em que a lei produz efeitos negativos: 1) quando for ineficaz. Outras vezes. no entanto. através da lei. Valem pela força que têm sobre os fatos e como são entendidas nessa aplicação.” “Às vezes o legislador. entretanto.” “As leis. teimam em sobreviver. 19-20). retardam e impedem as reformas. aceitação ou adesão da sociedade a essa norma. Os hábitos. e sobrevivem apesar da lei. da qual foi Presidente o douto Senador Acyoli Filho.1. acabam superadas por estes e terminam por desmoralizar-se. substituindo-a por outra mais adequada. para ser lidas ou para ficar na história..igualmente como as demais normas sociais . em 1977. antecipa instituições e prevê soluções que naufragam num meio hostil. Graças a esse reconhecimento. a norma se incorpora à vida do grupo” (Sociologia do Direito. o legislador. De um trecho da exposição de motivos do projeto de lei para a reforma do Poder Judiciário. ou as tomam mofinas. Ou. ou de outros fatores. o legislador não consegue vencer as poderosas forças do misoneísmo que seguram. 90] de pôr o País em dia com as conquistas da civilização. pode depender da legitimidade da autoridade que a estabeleceu. podemos destacar três causas principais. isto é. quer alterar velhos hábitos e dar-lhes nova disciplina. As leis nascem para viver e só valem quando podem entrar no mundo dos fatos e ali governar. 2° vol. levado pelo idealismo [p. pp.para que seja cumprida. exige um reconhecimento.

. a lei. mas a lei é estática. se bem elaborada. Com o correr do tempo. o legislador não consegue vencer as poderosas forças do misoneísmo que seguram. econômicos ou religiosos em jogo. Muitas leis que controlam as atividades das multinacionais.. O legislador vê algo que funciona muito bem em certo país mais adiantado e quer implantar no nosso. vai sendo ultrapassada. pois os fatos são dinâmicos. como se sabe. acabam superadas por estes e terminam por desmoralizar-se. entretanto. o que em nosso país constitui na realidade uma forte causa da ineficácia da lei. frontalmente contrária à dissolução do vínculo matrimonial.A primeira causa da ineficácia da lei. esses gigantescos organismos econômicos dos nossos dias. estendendo-se o desapreço a toda a legislação” (o grifo é nosso). Não consegue porque não há suporte social. acanhado e despreparado” (o grifo é nosso). em constante conflito com os fatos. vai se desatualizando. costuma-se entre nós dizer que a lei não pegou. o passar do tempo toma a lei ineficaz. A maior parte de nossa legislação precisou ser reformulada exatamente por esta razão. lembrada pelo Senador Acyoli Filho. Assim. que ele destacou ao dizer: “As leis. 90] tras vezes. Interesses corporativistas emperraram a reforma da Previdência por muitos anos e ainda impedem a reforma Política. Velhos hábitos. ou as tornam mofinas” (o grifo é nosso). é a sua desatualização. outras vezes por mero comodismo da autoridade que não levou a sério a aplicação da lei.. A segunda causa é o misoneísmo e vem mencionado no seguinte trecho: “. Misoneísmo. Com efeito. levado pelo idealismo de pôr o País em dia com as conquistas da civilização. não são aplicadas em razão dos interesses econômicos em jogo. Por mais estranho que possa parecer. o legislador. entretanto. retardam e impedem as reformas. privilégios de grupos. correspondência com a realidade. Às vezes porque há grandes interesses políticos. costumes emperrados. evoluem constantemente. antecipa instituições e prevê soluções que naufragam num meio hostil. lembramos que o divórcio custou tanto a ser admitido pela nossa legislação em virtude das pressões da Igreja. Acyoli Filho põe isto em destaque no seguinte trecho: “Ou.[p. pode estar em perfeita adequação com a realidade social no momento de sua criação. é aversão sistemática às inovações ou transformações do status quo. Só para ilustrar esse ponto. razão pela qual a lei cai no vazio. Cada legislador tem que elaborar a lei com base na realidade de sua sociedade. impedem que a lei seja aplicada ou mesmo elaborada. A antecipação da lei à realidade social existente é a terceira causa de sua ineficácia.

havia uma grande expectativa de que ele haveria de por ordem em nosso trânsito caótico. Exemplo eloqüente disso é o Código de Trânsito Brasileiro.qual será o resultado? Vai se enfraquecendo aquela disciplina que a norma impõe a todos. controlar as relações sociais. fruto apenas do pensamento. quando foi editado. o que realiza através do disciplinamento do comportamento mediante normas jurídicas armadas de sanção. a transgressão sem punição vai estimulando novas transgressões. É fogo que não queima. 91] por pardais. portanto. principalmente . e o seu exemplo serve de estímulo a outrem. superada pela realidade social. dado a severidade de suas normas e a gravidade das penas. tiro sem bala. Só agora (O Globo de 26. As autoridades do trânsito ainda discutem se as multas registradas [p. Em janeiro de 1997. já vimos. isto é.2. Neste caso a lei pode até ser eficaz. Anunciou também que só a partir de 10 de junho de 2004 (Resolução 151 CONTRAN) começará a ser aplicada em todo o país a chamada multa por não identificação do condutor. entre as quais a perda da carteira. dirigindo sem serem molestados. e por desídia. produz efeitos negativos porque não tem força para governar os fatos sociais. câmeras eletrônicas valem ou não. Depois de vários anos de vigência quase nada melhorou porque as multas e outras sanções aplicadas não foram executadas. Mas se a lei é transgredi da. incompetência ou irresponsabilidade da autoridade. Quem transgride a lei impunemente sente-se encorajado a transgredir novamente. mas não produzirá efeitos positivos por omissão das autoridades. se é ou não obrigatório informar aos motoristas onde se encontram esses meios eletrônicos. a autoridade nada faz .12. desatualizada. Lei ineficaz. A conseqüência é que a lei se desmoraliza e estende o desapreço a todo o sistema. Há milhares de motoristas infratores. quer por ter se tomado anacrônica. é prevenir conflitos.2003) o DENATRAN anunciou ter decidido criar o Registro Nacional de Infrações de Trânsito que permitirá a cobrança das multas por infrações cometidas fora do Estado onde os veículos estão registrados. se quando surge o comportamento de desvio nenhuma pena é imposta ao transgressor da norma. 48. Efeitos Negativos pela Omissão da Autoridade em Aplicar a Lei A função principal do Direito. assim.Vemos. conseqüentemente. quando ajustada à realidade social e inteiramente adequada aos fatos. que fazer lei é algo diferente de fazer literatura ou história. com a pontuação várias vezes estourada. A lei só tem força para “penetrar no mundo dos fatos e ali governar” quando é eficaz. a sanção não é aplicada. acobertados pelas empresas para as quais trabalham. para acabar com a impunidade dos motoristas profissionais. quer por ser artificial. vai se diluindo a sua função preventiva e.

pior do que não ter leis. . Por falta de um laudo do Instituto Carlos Éboli (ICCE). equipamentos. mas a norma não atingirá seus objetivos sociais por falta de estrutura para uma eficiente aplicação do direito. Em São Paulo. Efeitos Negativos pela Falta de Estrutura Adequada à Aplicação da Lei Nesta terceira hipótese. uma média de 600 mandados por policial (O Globo. São cem mil inquéritos parados aguardando provas técnicas. sobram 30 mil para uma equipe de 50 policiais.de ônibus urbanos. 23.[p. Falta pessoal. morte ou decisão judi. Em resumo. admitiu que. poderemos ter leis boas e eficazes. dos 90 mil mandados de prisão expedidos no estado. No Rio. o Código de Trânsito perdeu a sua força didática.07. os mandados de prisão não cumpridos chegavam a 200 mil. o delegado Álvaro Lins. por falta de pessoal e estrutura. Sequer reduziu a incidência de infrações graves como excesso de velocidade e embriaguez ao volante. foi forçado a conceder liberdade provisória a quatro traficantes. A Polícia. autoridades competentes e responsáveis. Por isso é comum dizer-se que. e as boas intenções que motivaram a sua aprovação há mais de seis anos. é tê-las e não aplicá-las. 48. Toma-se impossível aplicar a lei sem os recursos humanos e materiais necessários. mas que já está se tornando comum na Justiça. falta tudo enfim. falta material. 92] cial. a Justiça fica impedida de julgar em decorrência da falta de estrutura do organismo policial e de seus institutos de criminalística. Enquanto a criminalidade cresce assustadoramente. tomou uma decisão extrema. pelo menos 60 mil já caducaram por prescrição.3. Ainda assim. da 9ª Vara Criminal do Rio. o Ministério Público e o próprio Judiciário não estão suficientemente aparelhados para aplicar a lei. mas o problema continuou: o ICCE fechou o ano de 2003 com cerca de cem mil laudos atrasados. Está ameaçado de cair em desuso se não forem resgatados com urgência a sua letra e o seu espírito. continua sendo o nosso grande problema atual. Quais serão as conseqüências dessa falta de estrutura? As mesmas anteriormente mencionadas: transgressão sem punição e estímulo à ilicitude. faltam instalações. principalmente no denominado poder paralelo.2000). segundo estimativa do Professor Flávio Gomes. No dia 22 de setembro de 2003. Esse. então titular da Delegacia de Busca e Capturas (Polinter). lamentavelmente. depois de um começo promissor. o Juiz Camilo Ribeiro Ruliere. Os acusados foram soltos. Em julho de 2000 o Ministério da Justiça estimou que havia cerca de 204 mil foragidos da Justiça brasileira e mais de 275 mil mandados de prisão não cumpridos no país.

iniciativa da maior importância e extremamente necessária no combate à criminal idade num país continental como o nosso e super populoso. Isso não é verdade. o que acaba levando a sociedade a culpar o Judiciário.01. Apenas no dia 07. em novembro de 2003.por carência de aparelhos e de material humano. pois o juiz não pode condenar sem provas. não faz um trabalho de perícia eficiente. desta feita por ter sido reconhecido pelo amigo de uma outra criança assassinada quatro dias antes. falta ainda responsabilidade funcional por parte do estados . “enquanto os estados não se interessarem em alimentar e atualizar periodicamente o INFOSEG. como pode o juiz condenar alguém? Depois dizem que a polícia prende e o juiz solta. fugiu da cadeia em União da Vitória.01. Santa Catarina e Rio Grande do Sul). Quase dois anos depois. ainda hoje não funciona eficientemente por deplorável omissão das autoridades responsáveis pela segurança pública. Assassino confesso de 12 crianças no sul (Paraná. Segundo ele. ou pelo menos do mandado de recaptura contra ele existente. por sua vez. embora criado em 1988 o INFOSEG pelo Ministério da Justiça. Se o inquérito chega ao juiz sem qualquer prova técnica ou testemunhal. Mas.2004. apesar de existir mandado de recaptura contra ele expedido desde abril de 2002. no Paraná.2003). Em nota. parte das mortes poderia ter sido evitada. Especialistas nessa área dizem que a falta de vontade política de governadores é um dos principais entraves para manter em funcionamento o INFOSEG. disse: “A polícia. Moral da história. mas isso não foi feito. O Presidente do Tribunal de Justiça do Rio. pouco poderá ser feito por órgãos policiais ou judiciais que dependem dessas informações. muitas vezes. como nada constava sobre ele no INFOSEG (sistema nacional destinado a integrar todas as informações policiais e judiciais). foi liberado no mesmo dia. Se no INFOSEG constasse a informação sobre a condenação anterior do criminoso. A Secretaria Nacional de Segurança Pública. 93] que a qualidade das informações era ruim e o estado pretendia melhorá-la. o coronel José Vicente da Silva condena a falta de iniciativa dos estados para abastecer o sistema nacional. nem manter ninguém preso” (O Globo. a Secretaria de Segurança do Paraná alegou que ano passado (2003) decidiu limpar seu banco de dados do INFOSEG porque o sistema nacional apresentava falhas que prejudicariam sua utilização. Desembargador Miguel Pachá. Ex-secretário nacional de Segurança Pública. Outro exemplo lamentável dessa falta de estrutura foi noticiado pelo Globo de 08. comentando a decisão do juiz Camilo.12. 21. diz que em maio de 2003 o Governo do Paraná pediu para retirar seus dados do INFOSEG por.[p.2004 foi novamente preso. foi detido no Rio Grande do Sul sob suspeita de assassinar outra criança. depois de condenado a 27 anos de prisão.

ex-secretário nacional de Segurança Pública. 09. pior do que não ter leis. 09. Diz ainda que a divisão de tarefas entre a Polícia Militar. faz uma grande propaganda.” A falta de investimentos. Por isso. que foi responsável pelo INFOSEG durante os últimos meses do governo de Fernando Henrique Cardoso. mas sim se as executam. lamentavelmente. não indago se aí há leis boas.para atuar na área de segurança pública. já que apenas 4% dos casos no Rio de Janeiro e 12% em São Paulo são resolvidos. é tê-las e não aplicá-las. há pessoas que cometem um crime grave num estado e depois respondem como réu primários em outro (estado) simplesmente porque estão usando nome falso ou porque ninguém consegue saber de seus antecedentes” (O Globo. 94] pelas investigações. em vez de se discutir o que fazer para dar-lhe execução.01. confunde-se o projeto com a realização. Por meio de um prodigioso processo mental. Túlio Khan.com informações de veículos roubados. informa que.2004). critica também duramente a atuação das autoridades policiais no combate à criminal idade ao dizer que “as taxas de elucidação de homicídios mostram uma tendência à impunidade. Teve que usar uma sala da Polícia Rodoviária Federal” . E quando a lei é aprovada e nada faz acontecer. anuncia aos quatro cantos que o problema está resolvido.2004). executá-las. nada é feito no sentido de executá-la. “A equipe do INFOSEG não tinha nem sala no Ministério da Justiça. porque leis boas há em toda parte. “Os Governos estaduais deveriam investir urgentemente na digitalização de informações do Detran e da Polícia Judiciária. atualmente. Montesquieu tinha toda razão ao dizer: “Quando vou a determinado país. a intenção de resolver o problema com a solução em si. e tudo acaba aí.2004). encarregada de fiscalizar e a Polícia Civil. cria uma esquizofrenia institucional. .” O Brasil. a solução para o problema deveria partir de iniciativas dos próprios administradores públicos estaduais.lembrando que nos Estados Unidos o sistema nacional envolve 14 bancos de dados e a sede do órgão ocupa um edifício inteiro (O Globo. armas e ainda sobre foragidos da Justiça. 08.01. Sem essas e outras bases de dados nos estados. condutores irregulares. prejudica a operação de todo o sistema. organiza uma imensa demagogia. repetimos. diz ainda Khan. sem. todavia. Luiz Eduardo Soares. os legisladores se reúnem e aprovam outra lei. Segundo ele. responsável [p. o INFOSEG não consegue servir aos próprios estados. toma-se o dito pelo feito. Edita a lei. apenas quatro bancos de dados integram o INFOSEG . é campeão em resolver problemas elaborando leis.01. O Governo deveria tomar a iniciativa de fazer uma reforma nas polícias com o mesmo vigor empregado nas reformas da Previdência e Tributária” (O Globo.

por que não envolvê-los nessa tarefa? As estatísticas demonstram que o planejamento familiar poderia contribuir decisivamente para a redução da desigualdade. que teve repercussão mundial.4. voltando às ruas com mais raiva de tudo e de todos e mais experientes em atos criminosos. A realidade. sendo prova disso a chacina da Candelária. Para alguns setores da sociedade. de repercussão nacional (morte dos pais. Por falta de recursos. A situação talvez até piorou. em visita a Nova York. o ECA não é irretocável. Uma mera fantasia burocrática virou remédio de tal eficácia que até se recomendaria sua exportação. Sempre que um adolescente pratica um crime bárbaro. [p. É preciso definir um projeto amplo de aperfeiçoamento do ECA e das instituições que educam ou reeducam os adolescentes que lá chegam. A mulher de até um ano de escolaridade e renda . mas não tem cabimento pensar que a simples antecipação da maioridade penal resolverá o problema da criminalidade dos adolescentes. que lhes possibilite uma profissionalização. porém. assassinato de um casal de namorados no interior de São Paulo e outros). 95] A questão do ECA é item prioritário em qualquer equacionamento efetivo do problema da segurança pública.Foi exatamente isso que ocorreu quando entrou em vigor o Estatuto da Criança e do Adolescente: os políticos da época anunciaram por toda a imprensa que o problema do menor no Brasil estava resolvido. Afinal. reascende a discussão a respeito da reforma do Estatuto da Criança e do Adolescente. é outra. ao ser indagado sobre a questão da criança em nosso País. sem alimentação e sem educação. com planejamento familiar e assim por diante. Famílias sem renda e instrução têm o dobro de filhos da média brasileira de 2.” A simples edição de uma lei e a criação de uma entidade governamental foi tomada por uma solução. São também necessárias ações sociais preventivas destinadas a preparar os jovens para uma paternidade ou maternidade responsável. eles passam pouco tempo nas instituições de recuperação. Nada aconteceu de positivo em relação ao menor depois da vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente dada a distância entre a lei e a sua execução. os menores continuam abandonados na rua. o então Presidente da República. sem assistência. Ganha fôlego a antecipação da maioridade para 16 anos. bem diferente. Por melhor que seja. o problema seria resolvido com a diminuição da maioridade penal de modo a permitir punição exemplar dos adolescentes criminosos. instituições adequadas e gente competente. anunciou a criação do Ministério da Criança e acrescentou: “Gostaria de ver iniciativas como essa se estenderem para outras nações. Se a família é tão importante para a educação das novas gerações.

12. No passado. Só nos falta uma lei. mas elas não param de entrar. Se quando chegar a hora forem visíveis para a sociedade os efeitos positivos do estatuto. em média. a que mande cumprir todas as outras. Só em São Paulo é apreendida uma arma a cada quatro minutos. inclusive de pessoal.12.48 filho. ele será um cabo eleitoral eficiente.2003). 30. E concluiu: “É fundamental a polícia de fronteira. O Estatuto do Desarmamento. entre as quais o combate ao tráfico de armas no país inteiro. 1. Capistrano de Abreu denunciou-o com ironia dizendo que temos uma legislação quase perfeita. agora em vigor.2004). 96] . Por enquanto só no papel. Sem Índices eloqüentes de redução da violência gratuita das armas de fogo. daqui a menos de dois anos. esse irrealismo ilusório de nossa legislação escrita é bastante antigo e conhecido. para realizarem as tarefas que o estatuto lhes reserva.01. a mulher tem. o combate ao contrabando. [p. na prática dependerá dos recursos que forem liberados às Polícias Federal e Estadual.baixa. Lamentavelmente. o próprio estatuto corre o risco de acabar recolhido ao empoeirado depósito onde se empilham as leis que não pegaram no Brasil” (O Globo. “do que acontecer nessas e em outras frentes de luta dependerá o resultado do referendo que. tem média de filhos de 4.” Como bem colocou o jornalista Luiz Garcia. afirmou o Governador Geraldo Alkimim em entrevista ao jornal O Globo (04. é considerado uma boa lei pelos especialistas. decidirá sobre a proibição do comércio de armas no país. porque a facilidade com que os criminosos têm acesso às armas é muito grande. com onze ou mais anos de instrução.

Considerações gerais. Essa incursão pelos vários ramos do Direito proporcionará. quando teremos oportunidade de conhecer a longa e penosa evolução transcorrida até chegarmos a uma razoável disciplina jurídica de certos fatos sociais. a situação da companheira e dos filhos após a Constituição de 88. Direito do consumidor: a responsabilidade objetiva do fornecedor de produtos e serviços. características da Constituição Brasileira de 1988. a macrodelinqüência. Direito de família: divórcio. **** No capítulo anterior estudamos a eficácia e os efeitos das normas jurídicas e pudemos conhecer os principais efeitos positivos e negativos que elas produzem. Veremos também que a ocorrência de novos fatos sociais. criminalidade de colarinho-branco.Capítulo X ASPECTOS SÓCIO-JURÍDICOS DE ALGUMAS ÁREAS DO SISTEMA JURÍDICO BRASILEIRO O sentido sociológico da Constituição: Constituição e democracia. principalmente para o legislador. a introdução do divórcio na legislação brasileira. principalmente nos grandes centros. por isso que lhe fornece os elementos necessários . uma demonstração eloqüente da importância da Sociologia Jurídica [p. analisar os efeitos sociais produzidos por certas normas existentes (ou que já existiram) em várias áreas do nosso Direito. a situação da companheira e dos filhos ilegítimos. sob pena de se tomar ainda mais difícil a vida em coletividade. não previstos em nossa legislação atual. Direito do trabalho: interferência das forças sindicais no processo de formação do direito do trabalho. soluções legais paliativas antes do divórcio. igualmente. União de pessoas do mesmo sexo. Direito financeiro e tributário. estão a exigir uma urgente solução do legislador. Direito penal: violência urbana e poder paralelo. a concepção social do contrato. Vamos agora examinar alguns aspectos sócio-jurídicos da nossa legislação. 97] para todo profissional do direito.

e a Constituição real. quando a Constituição não é o somatório dos fatores reais de poder. econômicas.“não são problemas de direito. é possível distinguir a Constituição formal.a folha de papel . é a Constituição que cria ou constitui o Estado de Direito. Vista pelo prisma sociológico. É chamada de Carta Magna ou Lei Fundamental porque. a verdadeira Constituição de um país somente tem por base os fatores reais e efetivos do poder que naquele país reagem.houver coincidência. que contém a estrutura jurídica da nossa sociedade. mas do poder.. ou distanciar-se dele. prevalecerá sempre a vontade daqueles que titularizam o poder. “Os problemas constitucionais” .somente vale até o momento em que entre ela e a Constituição efetiva . de modo a permitir a formulação de um correto diagnóstico e a apresentação de uma solução adequada. Este não deriva da folha de papel. o efetivo exercício do poder. tudo dependendo de representar ela o efetivo poder social (forças políticas. 49. Do ponto de vista sociológico. 98] (porque não subordinado a nenhum outro) e . onde se encontram os princípios fundamentais da sua estrutura organizacional. mas dos fatores reais de poder. ideológicas etc.Que é uma Constituição? Para ele.para bem aplicar o Direito e melhor elaborar as leis. da Constituição escrita.sustenta Lassalle . como bem colocou Ferdinand Lassalle. em sua clássica obra . autônomo [p. dessarte. 117). Tais afirmações soam como heresia jurídica para os fetichistas da Constituição. Embora se diga que o Poder Constituinte Originário é inicial (porque não há outro antes). Vamos começar pelo Direito Constitucional. a folha de papel . como o seu próprio nome diz.aquele somatório de poderes gerador da folha de papel . e as constituições escritas não têm valor nem são duráveis a não ser que exprimam fielmente os fatores do poder que imperam na realidade social: eis aí os critérios fundamentais que devemos sempre lembrar” (ob. É como um termômetro a indicar a temperatura dos fatos sociais. mas têm base na realidade. o mais expressivo representante do sociologismo constitucional. quando tal não ocorrer. O SENTIDO SOCIOLÓGICO DA CONSTITUIÇÃO Entende-se por Constituição a Lei corporificadora do Estado.).Constituição formal . p. pois a Constituição real e efetiva é o fato social que lhe dá alicerce. ou ilegítima. Assim. nada mais é que uma folha de papel. a Constituição pode ser legítima e eficaz. cit.

5ª ed. os detentores do poder esperam pelo futuro. o processo de poder se amolda às normas da Lei Maior. A maior prova de que a Constituição tem que se ajustar aos fatores reais de poder está em que periodicamente tem que ser revista ou emendada. seja do país grande potência. Suas normas dominam o processo político ou. 252). submetendo-se a elas. Saraiva. profissionais. [p. mas esconde. diferenciando-as segundo seu caráter normativo. é inegável que os constituintes estão comprometidos e limitados pelas forças sociais que os elegeram (fatores reais do poder). uma desarmonia entre os pressupostos sociais e econômicos existentes e a aspiração constitucional. . dissimula ou disfarça. políticos. a ser sanada com o passar do tempo. sem pressa. pelo amadurecimento esperado. p. nesse caso. numa imagem retórica. Em tese uma Assembléia Nacional Constituinte pode tudo. elaborou a sua celebrada classificação ontológica das Constituições. como vem acontecendo com a nossa Constituição em vigor. nominal ou semântico. religiosos. mas que está. além disso. Confortavelmente. citado por Luis Roberto Barroso. éticos. Foi precisamente ao estudar a sintonia entre as normas constitucionais e a realidade do poder que Karl Loewenstein. inversamente. como no caso da Constituição normativa. Existe. culturais e morais acabam por determinar a atuação dos constituintes. A roupa não veste. Fatores ideológicos. é o encontro do povo de um certo país em dado momento histórico para reexaminar seus valores morais.. Para usar uma expressão de todos os dias: a Constituição é a roupa que assenta bem e que realmente veste. Já houve quem afirmasse que a “a Constituição. Aqui. políticos. subalterna formalização da situação do poder político existente. mas conserva um caráter educativo e prospectivo.incondicionado (porque não tem limites à sua atividade). mas quando se reúne já traz compromissos indeclináveis e emanentes de suas origens sociais.” “Entre a Constituição normativa e a Constituição semântica situa-se a Constituição nominal. que dispõem do aparato coativo do Estado. a vida institucional não seria perceptivelmente diferente. A roupa fica por certo tempo guardada no armário e será vestida quando o corpo nacional haja crescido. 99] para ajustar os seus preceitos às novas realidades sociais e corrigir os equívocos ou exageros do constituinte de 1988. econômicos e sociais”. Se não houvesse nenhuma Constituição formal ou escrita. do país rico ou do país educado” (Interpretação e Aplicação da Constituição. para o exclusivo benefício dos detentores do poder de fato. “No outro extremo está a Constituição semântica. a dinâmica do processo político não se adapta às suas normas. vivamente integrada na sociedade. econômicos. A Constituição normativa é aquela não apenas juridicamente válida.

tivemos um regime autoritário. que mereceu do saudoso Senador Afonso Arinos. Tão marcante é ainda o caráter centralizador e autoritário da organização política e social brasileira. solenemente. no entanto. entretanto. Isso está a indicar que a verdadeira democracia é muito mais que uma forma nominal de associação política. executando a decisão e transformando a realidade. cortina de fumaça para esconder regimes autoritários. exige mais que a fria participação do eleitor que comparece às umas apenas para cumprir um dever legal. sem qualquer participação do povo até mesmo na escolha dos seus governantes. onde a federação foi totalmente desconsiderada e neutralizada pelo poder central. Tomemos para exemplo disso a própria Democracia. foram editadas no Brasil nada menos do que oito Constituições. 100] integrado e evolutivo de constante participação do povo na atividade estatal decidindo. tanto a Constituição de 1967. o Brasil é um Império. No entanto. ou que todo o poder dele provém. Há de ser um processo [p. de forma a ensejar ao povo. como a emenda de 1969. que a fonte do poder é o povo.50. a oportunidade de influir nas grandes tomadas de decisões. simples princípio nominal ou teórico. continham a expressiva fórmula de democracia indireta ou representativa: “Todo poder emana do povo e em seu nome é exercido. Está a indicar que a verdadeira democracia há de ser uma real tentativa de alteração do caráter autoritário e centralizador da sociedade. relegando-se a plano secundário os poderes Legislativo e Judiciário. quase todos os Estados declaram. num melancólico estigma de instabilidade por falta de harmonia entre o instrumento formal e o real. por exemplo.” Nesse período. como aconteceu na América Latina nas últimas décadas do século passado. Tal integração. No Brasil. um dos pilares do Estado Democrático de Direito. CONSTITUIÇÃO E DEMOCRACIA A visão sociológica da Constituição defendida por Lassalle encontra abundante campo de comprovação em nosso país. no texto de suas respectivas Constituições. Em 180 anos de independência e pouco mais de 100 anos de República. de modificação do funcionamento do poder. um dos nossos maiores constitucionalistas. o comentário famoso de que sociologicamente. apesar de professar a democracia em todas as suas Constituições. na maioria das vezes tal declaração não passa do papel. Desde o século XIX. ou motivado por falsas promessas . numa lastimável sucessão de percalços. verdadeiro titular do poder. mais do que um mero ideal escrito no papel ou de simples texto constitucional sem qualquer correspondência com a consciência e a realidade social de cada povo.

razoavelmente avançado. enviou ao Congresso Nacional a tão esperada emenda constitucional convocando a Assembléia Nacional Constituinte. cumprindo os compromissos democráticos assumidos por Tancredo. e não para esmagar a do seu semelhante. e salvaguarda ao indivíduo. Não pode existir uma democracia por decreto.[p. liberdade. A liberdade. mas ainda o poder de ser livre.1. nem às minorias em um Estado democrático. especialmente. veiculadas pelos órgãos de informações que condicionam e manipulam a verdade.eleitoreiras. não só pela rejeição da emenda constitucional da eleição direta. interpretando o sentimento da Nação em busca do reequilíbrio da vida nacional. entretanto. neutralizar os desequilíbrios. como também pela morte de Tancredo Neves. Não é raro que o governante. começou assim que se instalou o golpe de 1964 e. O voto. afasta-se dos seus compromissos democráticos. Características da Constituição Brasileira de 1988 A luta pela normalização democrática no Brasil e pela conquista do Estado de Direito Democrático. empolgado pelo fascínio do poder. embora respaldado por milhões de votos. embora valioso. fazer cessar as desigualdades. um projeto e. quando as multidões correram entusiásticas e ordeiras aos comícios em prol da eleição direta para Presidente da República. O Presidente José Sarney. porquanto só assim será possível impedir que a liberdade produza exatamente a sua negação. porque a democracia é. e esta. sobretudo. após o AI-5. com relevantes inovações para o constitucionalismo brasileiro e até mundial. tomou as ruas a partir da eleição dos Governadores em 1982 e se intensificou no início de 1984. 50. que foi o instrumento mais autoritário da história brasileira. Essa luta. por si só. não é somente o direito. o mais destacado representante das forças democráticas bra. após prolongado trabalho e acirrados debates. A liberdade é consenti da ao homem em sociedade para desenvolver suas energias. simultaneamente. pois. essa grande esperança. Frustrou-se. contudo. É preciso. perdendo a legitimidade inicial. por sua vez. na célebre frase de Luis Blanc. a maturação sobre os desdobramentos do processo político e o acesso às informações que embasarão a participação lícita no processo decisório. que só poderia consubstanciar-se numa nova ordem constitucional que refizesse o pacto-social. 101] sileiras. todavia. um ideal. que se manteve contida por quase vinte anos. realizar a justiça social. uma prática. . aprovou um texto moderno. não garante justiça. Daí por que a integração democrática impõe a consciência e a responsabilidade na escolha. através de um processo realmente democrático.

I. que ressoam precisamente inócuas. assumiu uma postura liberal. sem numerário para execução de suas tarefas constitucionais. tanto assim que praticamente inicia-se a Constituição com a consagração desses direitos . I. objeto. fundamento e fim de toda a atividade pública. primeiramente. mas principalmente porque se volta decididamente para o cidadão e o social. diferentemente da anterior que era centralizadora e autoritária. não só porque teve ampla participação em sua elaboração. ensino fundamental obrigatório e gratuito. conferindo maior soma de competências legislativas e administrativas aos Estados e Municípios. buscando resgatar o verdadeiro princípio federalista através de um sistema de repartição de competências entre o poder central e os poderes estaduais e municipais. no dia-a-dia da vida do cidadão. 6° a 11° -. neles incluídos os dos trabalhadores. 205 e 206. assistência integral à saúde da criança e do adolescen. pleno emprego. 5° e seus setenta e sete incisos. padecem do mesmo mal: não passaram do papel. fundamento da atividade estatal.As inovações se fizeram presentes. nos arts. efetivamente. educação como direito de todos e dever do Estado. sujeito. § 1°).Direitos e Deveres Individuais e Coletivos no art. É a “Constituição Cidadã”. função social da propriedade. atendimento especializado aos portadores de deficiência. . nem política e nem administrativa. No respeitante à Organização Político-Administrativa e a Divisão dos Poderes. dandolhes ainda mais recursos tributários. a Constituição de 88 tem inúmeros dispositivos que ainda não passaram da folha de papel. valorização dos profissionais do ensino etc. 170 e incisos). Todas essas normas e muitas outras. (arts. não são aplicadas. Não obstante tantos pontos positivos. colocando em destaque o homem e seus direitos fundamentais. o que significa que o homem é o centro. na ordem social. existência digna. igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. e Direitos Sociais. pode-se dizer que a Constituição atual. 227. fez renascer a Federação. inciso III). A dignidade da pessoa humana passou a ser princípio fundamental da Constituição (art. na expressão do saudoso Ulysses Guimarães. Praticamente.[p. já que não há verdadeira autonomia. 208. V). 102] te (art. tais como. não só os individuais como também os coletivos. justiça social. 1°. Pode-se concluir dizendo que a Constituição de 1988 afastou o federalismo nominal da ordem constitucional anterior. valorização do trabalho (art. 153). Presidente da Assembléia Nacional Constituinte que a produziu. atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade (art. diferentemente da Carta anterior que tratava desses direitos na sua parte final (art. III e IV).

Pensava-se. entretanto. Tal norma. sem dúvida alguma.1. estável. tantos foram os casais de união de fato. [p. DIVÓRCIO Havia uma norma em nossa Constituição (art. em outras palavras. servindo de instrumento de chantagem emocional. havia um casal cujos componentes não eram casados. inúmeros problemas começaram a surgir no seio da família. inúmeros diplomas legislativos foram produzidos nas oficinas do direito. num determinado edifício. 51. hoje chamado de separação judicial. em todas as camadas sociais. dando ensejo ao desfazimento dos lares. proibindo descasar. da Emenda nº 1/69) que considerava o casamento indissolúvel. deixando íntegro. mulher para outro. oriundos das mais variadas causas. produzindo efeitos patrimoniais para os cônjuges. ou pelo menos não reconhecida pela lei. que. somente o desquite. tomava-se uma união sólida. geralmente os mais prejudicados. Em razão disso. que dissolve apenas a sociedade conjugal. Em razão dessa norma não podia haver divórcio no Brasil. Inicialmente a sociedade tolerava com reservas essas uniões: todo mundo sabia e comentava quando. “célula mater” da sociedade.2. dando origem a novas famílias. 175. Muitas vezes essa união ilegal. Depois. Foram tantas as modificações sociais ocorridas nas últimas décadas que não seria demais afirmar que temos hoje. DIREITO DE FAMÍLIA Em nenhuma outra área do direito houve tão grande evolução como no Direito de Família. Entendia-se que o divórcio destruiria o casamento. objetivava a proteção do casamento e da família legítima. o vínculo conjugal. amor. mormente após a Constituição de 1988. 51. como veremos a seguir. 103] Com o correr do tempo. que a . amizade. formando novo par. estariam resolvidos todos os problemas que conspiram contra o casamento. ficando entre eles os filhos. Marido ia para um lado. A Situação da Companheira e dos Filhos Ilegítimos Apesar de a Constituição vedar a dissolução do casamento. § 1°. os cônjuges separados ou desquitados se uniam de fato a outra pessoa. levando de roldão a família. um novo Direito de Família. com filhos. compreensão e calor humano. em busca da necessária harmonia entre a realidade social e a lei.51.

como se fossem marido e mulher. Muita gente queria regularizar a situação. A nova realidade social em tomo da família e do casamento evidenciou que não era o divórcio. psicológicas. como se fez em nosso País. sem assumir qualquer obrigação alimentar ou de outra natureza econômica para com elas. o indivíduo que se casa outra vez. a norma constitucional que visava a proteção do casamento. 104] Ficou também evidenciado que a proibição do divórcio só facilitava a irresponsabilidade e estimulava a pilantragem. eram mantidas à margem da lei. Não basta. antes do divórcio. Se assim não fosse. A mulher fica numa situação vexatória. econômicas. legítimas mas já destruídas pela separação. a situação da família no país onde não há divórcio seria muito melhor do que em outro onde há. não podendo se divorciar. impedia ainda a realização de outros casamentos verdadeiros. afetivas. proibir descasar. plenamente integradas na sociedade. ressentimentos e outros graves problemas sociais. conhecer e combater as verdadeiras causas do fracasso matrimonial. assume novas . bem constituídas do ponto de vista social. Filhos e companheira não tinham qualquer direito ou amparo legal. estas famílias “ilegais” eram mais úteis e recomendáveis que as primitivas. e isto. Com efeito. pois. ilegais. É preciso. culturais) profundas. além de não conseguir impedir-lhe a dissolução. o responsável pela destruição do casamento. não é verdade. se não fosse”. A pretexto de proteger um vínculo matrimonial já de fato inexistente. gerando desigualdades. Há outras causas (sociais. mas continuavam a ser repelidas pela lei. une-se tantas vezes quantas puder com outras mulheres. nada posso fazer. mas não podiam. Só prejudicava. Aqueles eram considerados filhos ilegítimos ou mesmo adulterinos. um homem. Basta fazer uma comparação entre o Brasil. [p. Eram ilegítimas. para impedir a ruína do casamento. fechando os olhos para a realidade. que devem ser pesquisadas e combatidas se se quiser de fato manter o vínculo matrimonial indissolúvel. com pais e filhos vivendo em harmonia e felicidade. estendendo-lhes proteção legal. repudiada pela lei. para constatarmos que não estávamos em melhor situação. Do ponto de vista social. esta. a lei repudiava famílias bem constituídas. pois o homem com o qual vive está sempre a dizer: “Sou casado. repetimos. entre os quais o desamparo econômico. dar nome à mulher e aos filhos. e os Estados Unidos. além das obrigações já assumidas com a primeira família.sociedade passou a aceitá-los plenamente. a concubina. Havendo divórcio. nada pode exigir. sem quaisquer reservas. Inúmeras famílias. como se sabe. O vínculo matrimonial era indissolúvel. e “deitar em berço esplêndido”. As novas uniões passaram a ser normalmente admitidas pelos costumes. Em síntese. após o primeiro casamento. em si.

simplesmente porque o casamento deles não está doente. entretanto. não ocorreu em virtude da pressão exerci da pela Igreja.obrigações legais também com a segunda. solução extrema para casamentos já desfeitos. há milhares de casais unidos pelo casamento há 20. de 21 de outubro de 1949. 51. precisando ser muito forte economicamente para chegar à terceira família.737. foi promulgado o Dec. porquanto só possibilitava reconhecimento de filho havido fora do matrimônio depois do desquite do [p. para a qual o casamento é uma instituição divina. de modo que. Se o nosso legislador atentasse para a realidade social. só por divorciar-se. é que se tomou possível o reconhecimento de filhos havidos fora do matrimônio após a dissolução da sociedade conjugal por desquite. . não precisa de remédio. Não se referia ele às outras causas de terminação da sociedade conjugal. mesmo que desquitado.3. não impedia o fracasso do casamento mas impedia a regularização das novas uniões. um dogma religioso. arruinados. panacéia. o que equivale dizer que até então tais filhos não podiam ser registrados em nome de seu verdadeiro pai. sem qualquer utilidade prática ou social. embora extinto o vínculo conjugal. Mas como qualquer remédio. isto é. Além de não proteger a família legítima. morte de um dos cônjuges ou anulação do casamento. lícito não era promover o reconhecimento do filho havido extramatrimônio. dele só faz uso quem precisa. Tal. ou mãe. sagrada e impassível de ser desfeita pelo homem. 30. 50 anos e que nunca pensaram em se divorciar. Primeiramente. Em face de tudo isso. 105] genitor. quem está doente. permitindo o reconhecimento dos filhos de desquitados havidos fora do matrimônio. Soluções Legais Paliativas antes do Divórcio Houve uma sucessão de leis permitindo o reconhecimento dos filhos ilegítimos em certas circunstâncias. a conclusão lógica era que a indissolubilidade do vínculo matrimonial não passava de mera ficção jurídica. de 27 de setembro de 1942. Somente com a Lei na 883. como a morte de um dos cônjuges. O fato de existir o divórcio não quer dizer que todos vão se divorciar.-Lei n° 4. Evidenciado igualmente ficou que o divórcio não é causa da ruína do casamento. Mesmo nos países divorcistas. há muito teria introduzido o divórcio na legislação. sem solução. prejudicava as famílias ilegítimas. mas sim remédio. Mas o aludido decreto-lei não satisfez.

A Situação da Companheira e dos Filhos após a Constituição de 88 Após mais de meio século de lenta evolução da questão do divórcio. alimentos. de 26 de dezembro de 1977. regulou os casos de dissolução da sociedade conjugal. desde que haja prévia separação judicial por mais de três anos. bem como à indenização por acidente de trabalho (Dec. 51. de 31. 175 da Constituição Federal. Lei na 4. havidos ou não da relação do casamento.485/45. que. em síntese. de 28 de junho de 1977. ora com base na sociedade de fato.069/62). a Lei na 6. .12. reconhecimento) os direitos e qualificações dos filhos.515. foi cauteloso o legislador ao permitir o divórcio após prévia separação judicial por mais de três anos. ou depois de dois anos de comprovada separação de fato (art. 106] coragem para tanto. § 3°). 226. nos casos expressos em lei. Mais recentemente.015. a Constituição de 88 encontrou uma base social para fazer as mudanças necessárias e o constituinte teve [p.036/44). proibindo a designação de filiação legítima ou ilegítima.5. e as peripécias sociais pelas quais passamos até que o dogma ou ficção fosse destruído pela Emenda Constitucional nº 9. alterando o § 1 ° do art. § 6°). da companheira e dos filhos ilegítimos. § 6°). Esses. 51.Lei na 7. bem como quaisquer outras designações discriminatórias relativas à filiação (art. conhecida por Lei do Divórcio. os efeitos negativos produzidos pela norma constitucional que considerava indissolúvel o vínculo matrimonial. passou a dispor: “O casamento poderá ser dissolvido. Posteriormente. a saber: a) reduziu o prazo do divórcio de três anos de prévia separação para apenas um.Nesse ínterim.” Como se vê. a Lei de Registros Públicos (Lei na 6. b) reconheceu a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar. 226. ora a título de indenização. tempo mais que suficiente para revelar se a separação é ou não definitiva.Lei na 7. a jurisprudência fez verdadeiros malabarismos para reconhecer alguns direitos patrimoniais à concubina. A Introdução do Divórcio na Legislação Brasileira O divórcio tomou-se permitido através da Emenda Constitucional nº 9. determinando à lei facilitar a sua conversão em casamento (art. c) igualou para todos os efeitos (herança.1973) permitiu o uso dos apelidos do amásio pela companheira. 226. até que a própria lei passou a atribuir-lhe direito à pensão previdenciária (Dec.4.

2° e 3°.1994. havidos ou não da relação de casamento. até então designado de filho adulterino.278. 107] de habilitação. no que couber. vale dizer. regulamentou o § 3° do art.971. manteve a mesma disciplina no seu artigo 1. que diz: “Os filhos. concedeu-lhe direito a alimentos.278/96.560/92) que ampliou ainda mais as hipóteses de reconhecimento voluntário e de investigação de paternidade. na união estável aplica-se às relações patrimoniais. enquanto viver e não constituir nova união ou casamento.12.” Em relação à companheira.1992. a Lei nº 8.727. 226 da Constituição Federal . em condomínio e em partes iguais.725).724 praticamente repete o artigo 2° da Lei n° 9. respeito e assistência e de guarda. separado judicialmente. de um homem e uma mulher. manteve a mesma disciplina da Lei n° 9. Os bens móveis e imóveis adquiridos por ambos os conviventes. a nova Lei de Investigação de Paternidade (Lei n° 8. de 10.” Salvo contrato escrito entre os companheiros.12. estabe1ecida com o objetivo de constituição de família (art. assegurando-lhe também o direito real [p. em 29. ou por adoção. de 29. na constância da união estável e a título oneroso. sustento e educação dos filhos. voluntária ou coativamente. no que andou bem. Conferiu-lhe também o direito de participar na sucessão do companheiro (herança) nas condições previstas nos seus arts. são considerados fruto do trabalho e da colaboração comum. 7°) o direito a alimentos ao convivente que deles necessitar uma vez dissolvida a união estável. 1°). O novo Código Civil. 1. pois aquela lei consolidou um longo trabalho doutrinário e jurisprudencial. Por último. a Lei nº 9. comunhão dos bens adquiridos depois da união. divorciado ou viúvo. O artigo 1. finalmente. Sobreveio.05. ou dele tenha prole.596. o filho havido fora do matrimônio. passando a pertencer a ambos. terão os mesmos direitos e qualificações. desde que conviva há mais de cinco anos com o homem solteiro.união estável . relativamente ao imóvel destinado à residência da família. Mantém a lei (art. após a Constituição de 88. salvo estipulação contrária em contrato escrito (art. tem o direito subjetivo de ser reconhecido. e prove a necessidade. 5°).Importa dizer que.reconhecendo como entidade familiar a convivência duradoura. pública e contínua. O novo Código Civil. .278/96: “As relações pessoais entre os companheiros obedecerão aos deveres de lealdade. ao tratar da união estável nos seus artigos 1.1996. não mais subsistindo as limitações anteriores. o regime da comunhão parcial de bens (art. como não poderia deixar de ser. proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação.723 a 1. conferindo inclusive ao Ministério Público legitimidade para propor a respectiva ação.

só após. Reconhecem a união estável apenas entre homem e mulher. passará a ter reconhecimento jurídico” (Elementos Críticos do Direito de Família. tanto na doutrina como na jurisprudência. Aduzem que a família homos. entretanto. crise de moradia.1998. a Suécia e a Noruega já dispõem de leis que regulamentam a união homossexual. Em sentido contrário. 52. Renovar. 93/1 02). No entender do Professor Luiz Edson Fachin. pp. O que a Justiça tem admitido é a sociedade de fato para fins patrimoniais. primeira iniciativa no sentido de sensibilizar nossos legisladores para o problema que afeta não só os que o vivenciam. com individualidade e identidade próprias. razão pela qual o entendimento majoritário. mas também os operadores do direito que militam nas Varas de Família. Tanto o § 3°. Tudo ou quase tudo acaba nele repercutindo: explosão demográfica. mediante reiterado posicionamento jurisprudencial em seu prol. pobreza.723 do novo Código Civil. União de Pessoas do Mesmo Sexo É indispensável a diversidade de sexo para a configuração da união estável? Essa é a questão que remanesce e que ainda é bastante polêmica.897-MG. de autoria da exDeputada Federal Marta Suplicy.151/95). o Superior Tribunal de Justiça decidiu que “os homossexuais constituem sociedade de fato a ensejar partilha do bem comum”. favelização. No Recurso Especial n° l48. regular posse e guarda de crianças etc.51. da igualdade e da sociedade com respeito ao pluralismo típico deste Estado de Direito.6. julgado em 10. do qual foi relator o Ministro Ruy Rosado de Aguiar. A Dinamarca. ausência de . No Brasil temos apenas um Projeto de Lei (nº 1. como o artigo 1. são de clareza solar. do artigo 226 da Constituição. a oxigenar o nosso sistema legislativo. Sustentam não ser possível fechar os olhos para a realidade .o grande número de ações que são distribuídas aos Juízos de Família pretendendo reconhecer ou dissolver uniões homossexuais. passando inicialmente pelo reconhecimento como sociedade de fato e. há vozes respeitáveis fulcradas no Estado Democrático de Direito e nos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana. a relação estável homossexual deverá seguir os caminhos já traçados pela entidade familiar estável.02. 108] sexual é família autônoma e distinta da união estável. DIREITO PENAL O Direito Penal é muito sensível às questões sociais. ainda não apreciado pelo Congresso Nacional. que pretende instituir a parceria civil. não reconhece na união de homossexuais a categoria de união estável.[p.

corrupção. camarins. 21% aumentar a remuneração dos policiais. hospitais e o comércio em geral. figura em primeiro lugar em todas as pesquisas. . moradias. os resultados foram os seguintes: 38% aumentar o número de policiais. onde não precisaremos continuar fingindo que estamos dormindo. VIOLÊNCIA URBANA E PODER PARALELO A violência urbana. b) um em cada três revela se sentir inseguro ou muito inseguro dentro da própria casa. 9% mudar toda a polícia.01.2000). fraude e assim por diante. Acostumado à ficção. 6% criação de programas sociais. “Já não é mais possível viver nesta cidade exposta a essa vergonhosa violência.educação. ao mesmo tempo em que berrava para a polícia parar de atirar. é fato público e notório. ficou. 10% geração de empregos. escolas. c) 57% têm medo de assalto na rua. por mais de duas horas sob a mira de revólveres de três jovens drogados. 3% investir mais no social (O Globo. que atinge cidadãos. Nunca os assaltantes agiram com tanta ousadia e desenvoltura como na última década. na realidade atingiu patamares vergonhosos e insuportáveis. 12% selecionar melhor os policiais. 109] generalizado e sem precedentes.. Entrego essa casa a um sonho de futuro.06.. Renomado diretor de TV no Rio de Janeiro. A falta de segurança. que atinge qualquer família ou qualquer cidadão a qualquer momento de sua vida. Quais são as causas dessa violência. ao persuadir os bandidos a tomá-lo como escudo. ao ter a sua casa assaltada no dia 29. 18.” 53. tendo que mudar os seus sonhos e de sua família por motivo de assaltos múltiplos. 36% melhorar o treinamento da polícia. Sobre o que precisa ser feito. Mas agora era obrigado a dela sair violentado. no lugar de uma das amigas de sua filha.2003 ao raiar do sol. em ônibus 35%. o renomado diretor diz ter construído uma casa com salas de ensaios. que efeitos produz? Pesquisa feita pelo IBOPE em junho de 2000 nos municípios do Grande Rio. gerando sentimento de insegurança [p. quem a promove. apurou o seguinte: a) 81 % dos moradores afirmaram j á ter sofrido algum assalto ou tiveram alguém da família assaltado. ele se viu dirigindo uma cena da vida real. 8% investimento em educação. Em relato dramático ao Globo (04. a uma cidade que um dia será maravilhosa.12. estúdios onde inúmeras montagens seriam ensaiadas e produzidas. nem dentro de um filme sem final feliz. por exemplo.2004). juntamente com a sua família e mais oito amigos.

adultos e crianças. só agora tem sido admitido pelas nossas autoridades. o que não está acontecendo com o governo atual. ocuparam os espaços deixados e formaram verdadeiro poder paralelo. O Governador de São Paulo. Segundo. 20.01. a causa dessa violência urbana não é a miséria. trabalhadores e donas-de-casa. desempregados. interdição da Avenida Brasil e Linha Vermelha por bandidos. a falta de moradia ou de investimento na educação. a pobreza. que hoje não funciona” (O Globo. . Após tão firme pronunciamento. após ter o Rio de Janeiro passado por queima de ônibus. E prioridade é recurso. conforme demonstrou a pesquisa do IBOPE.Os resultados dessa pesquisa não surpreendem. Em junho de 2002. atingindo pobres e ricos.2002). apenas confirmam o que todo mundo já sabia. quadrilhas de traficantes de tóxicos e armas que. era de se esperar medidas governamentais fortes e emergenciais. a fome. senão é só boa intenção. porque ela não é promovida pelos pobres. a crise de insegurança é geral. mas. anomia (ausência de leis). O combate à violência urbana não depende de medidas sociais. A entrevista do Governador de São Paulo merece apenas um reparo. Isso que o povo sabe e denuncia há muitos anos. remuneração dos policiais e aumento dos seus efetivos. na ausência do estado. já é degradação. Geraldo Alkmin. muito menos pelos favelados. treinamento.06. 110] “O Estado tem que recuperar os espaços eventualmente perdidos para o crime organizado. uma situação como a atual nas favelas do Rio. “tudo continuou como dantes no quartel de Abrantes”. rajadas de metralhadoras em prédios públicos. Há o arbítrio” (O Globo. mas sim a omissão do Estado (União. a ponto de levar um membro do Judiciário a declarar que ali o estado não existe. mas também de vários anteriores e envolve também os governos estaduais e municipais. o então Presidente da República aqui esteve e afirmou na abertura da IV Semana Nacional Antidrogas: [p. A falta de prioridade não é apenas do governo atual. ledo engano. declarou em entrevista: “A política de combate à violência no Brasil não dá resultados concretos porque falta ao governo federal tratar o assunto como prioridade. 04. No comando dela está o crime organizado. A grande contribuição que se poderia dar para resolver a insegurança nas cidades é disponibilizar recursos para a melhoria da área de tecnologia da polícia.2004). quando o Estado não existe é preciso repor porque senão não há cidadania. Estados e Municípios) na seleção. Primeiro. E a organização é tão forte que a realidade demonstrou que alguns chefões continuam no comando mesmo depois de presos.

era uma contravenção que na verdade não fazia [p. com o acordo. Faz pelo menos 25 anos . O acordo evitava também incursões da polícia no morro. com boas razões. Por muitas vezes o tráfico promoveu ações no “asfalto” para arranjar dinheiro em momentos difíceis. obtendo dele. Com uma polícia de poucos recursos. fazer um acordo com o tráfico de drogas e concentrar a atenção e as forças no combate à criminalidade comum. Além disso. de baixo efetivo e sem equipamento adequado.um quarto de século . que freqüentemente terminavam em abuso e violência.que predominou na polícia do Rio o pragmatismo dos “realistas”. a polícia obtinha a colaboração do tráfico na preservação da paz no asfalto. delimitaram-se dois territórios de ação e população distintos: o “morro” do tráfico e do povão e o “asfalto” onde vive a população que merecia ser protegida pela polícia. O tráfico cresceu e ganhou status de negócio. que só passou a se preocupar com a questão quando o cenário foi mudando de figura. guerras particulares de gangues pelo controle dos pontos de maior lucratividade e investimentos muito maiores em armamentos eficazes para sustentar essa guerra. tanto que muita gente. manchando a imagem do governo e tirando votos do eleitorado que era crescente no morro. era a loteria dos pobres. exigiu um comando mais severo dos traficantes sobre a comunidade do “morro”. O acordo funcionou durante décadas. mas podia ter a sua nocividade limitada ao território do morro e à pequena parte da sociedade do asfalto que queria consumir drogas (e bem podia ter essa liberdade tolerada). que sempre participou dos resultados financeiros de uma atividade extremamente lucrativa. Houve até um governador que chegou a institucionalizar o “bicho”. prossegue o Senador em seu relato. promoveu atos de crueldade que chocavam as populações do . Essa divisão facilitava muito o cumprimento da cláusula fundamental . em termos de resultados práticos. na realidade assustadoras. suscitando disputas armadas. pelas autoridades responsáveis e pela média da opinião da cidade. 111] mal a ninguém.Como surgiu esse poder paralelo e como atua? As suas raízes são sólidas e profundas. semioficialmente. especialmente nas imediações do morro. Era um acerto informal semelhante ao que houve também com o jogo do bicho. conforme relato do Senador Roberto Saturnino Braga em artigo no Globo. Assim. Isso tudo ainda garantia bons rendimentos para a polícia. valeria mais. E em ambos os casos havia uma racionalidade: o jogo do bicho não chegava a ser crime. recomendava sua legalização. para evitar deslealdades dentro dos grupos. O tráfico não era tão inocente quanto o bicho. contribuições para entidades filantrópicas. onde o tráfico era rigoroso na contenção do crime. E o resultado foi considerado razoável. mesmo contra a lei. ligando-o a grupos de seqüestro e de assalto.“nós não subimos lá e vocês não descem cá”.

02. na Penha. que criou suas áreas de exclusão.2002).2002). 112] bir o morro ou penetrar em certas favelas sem autorização dos chefões do bando. Até o salvo-conduto para os ônibus circularem é dado pelo tráfico. Em 32 bairros do Rio os traficantes escolhem dia e hora para fechar escolas. da DERJ. 20. E produziu choques e episódios freqüentes de enfrentamento com a polícia. o tráfico executou cerca de cem líderes comunitários. mais de quatrocentos dirigentes de entidades se associaram a bandidos (O Globo. Tal é a força desse poder paralelo que os moradores das favelas onde ele atua fazem manifestação contra a ação policial sempre que um traficante é morto. acusados de matar dois traficantes (O Globo. Para o sociólogo Geraldo Tadeu. Em 13 de abril de 2003 O Globo publicou a relação das áreas mais afetadas pelo poder paralelo. já quase completamente envolvida na participação dos lucros e cada vez mais ávida de ganhos naquele negócio que crescia incontrolavelmente. no período de outubro de 2000 a setembro de 2002. fez constatações alarmantes.06. Ninguém pode su. Conclui o Senador. postos de saúde. Ele . não sendo suficiente para enfrentá-lo a mera “criação de um Gabinete de Gestão Integrada do Sudeste e o mapeamento das quadrilhas que atuam nos morros”. Esta.06.223 lojas. muito mais que o da polícia. sem recursos. Seis ônibus foram incendiados pelos moradores da Favela Vila Cruzeiro. conforme anunciado pelo atual Secretário Nacional de Segurança (O Globo. até universidades.2004). Mas era tarde: o poderio do tráfico tinha aumentado muito além do imaginado.01. o envolvimento de líderes comunitários com traficantes passou a ser regra. esse poder paralelo é mais forte do que admitem as autoridades policiais. O jornalista Tim Lopes. revoltados com policiais do 16° BPM (Olaria). Hoje. 20.[p. foi torturado e morto. De acordo com o Instituto Fecomércio. por descumprir essa regra. Levantamento feito pela Comissão Contra a Violência e a Impunidade da Assembléia Legislativa do Estado do Rio. o Rio perdeu. e se constituiu um inimigo cujo enfrentamento era cada vez mais difícil e desgastante para a polícia. outros trezentos diretores de associações tiveram que abandonar as favelas para não serem mortos. onde os pragmáticos continuavam dando as ordens na linha do acordo que se deteriorava.“morro” e do “asfalto”. bairros inteiros estão sendo esvaziados com a saída de indústrias e estabelecimentos comerciais por causa da violência e da degradação urbana. que estuda a relação do tráfico com as comunidades. perdia uma grande quantidade de homens e se desmoralizava numa guerra que não tinha respaldo efetivo e decidido da cúpula dirigente. Esse mapeamento já é conhecido da população há muitos anos. onde foi torturado e morto o jornalista Tim Lopes. Surgiu então na cidade o crescente grito de “basta!”. 4. estabelecimentos comerciais e industriais. Entre 1992 e 2001.

planejada e duradoura.2002). É ação direta de um poder paralelo que [p. como bem assentou o saudoso Professor Heleno Fragoso (relatório apresentado na Reunião da Comissão Internacional de Juristas da ONU). O sociólogo justifica ainda a influência do tráfico nas comunidades. associações e ONGs. Conclui-se do exposto que a violência urbana não é uma conseqüência da pobreza. Não é possível combatê-lo com medidas paleativas e demagógicas como as que estão sendo anunciadas.06. há igrejas. Ela se distingue da criminalidade convencional pelo fato de ser integrada por pessoas de alta classe e respeitabilidade. por isso mesmo. Nas favelas. armas não são fabricadas por favelados. Eles têm um sistema previdenciário paralelo. Estados e Municípios. Para Geraldo Tadeu. muito menos da segurança que todos almejamos. tão pouco decorre da falta de leis ou da atuação do Judiciário. 113] nasceu e cresceu com a tolerância. detentoras de poder político ou econômico. Combater a violência urbana de forma pontual e isolada é o mesmo que tentar matar a árvore só arrancando as folhas. nem são ali industrializadas. de sorte que sem uma ação integrada da União. que povoam nossas prisões horríveis e constituem a clientela do sistema. encontramse acima da lei. dão dinheiro. estadual e municipal. as comunidades não têm como reagir sem uma intervenção do Poder Público. Os traficantes ocuparam esses espaços.explica que com o tempo ocorreu um processo de subordinação dessas associações. O sociólogo defende. CRIMINALIDADE DE COLARINHO-BRANCO (WHITE COLLAR CRIME) Trata-se de uma categoria não convencional de crimes e criminosos. miséria ou falta de instrução. 20. o Direito Penal tem sido um amargo privilégio dos pobres e desfavorecidos. em todos os . com absoluta propriedade. com gerentes. Têm ainda um sistema de segurança complexo. mas o tráfico tem mais estrutura. até mesmo do país. Drogas não nascem nos morros. 54. alegando que o poder público limitou a sua presença nas favelas à repressão. cestas básicas. do Poder Público. pelo menos omissão. Entre nós. A estrutura geral de nosso direito punitivo. É preciso disposição política das três esferas de poder federal. É o grande poder paralelo. a partir do crescimento exacerbado do tráfico como poder militar e econômico no âmbito dessas comunidades. nem por crianças desnutridas e sem escola. não haverá reconquista dos espaços perdidos. que. “vapores” e “soldados”. Têm também um sistema tributário paralelo e cobram impostos dos comerciantes. que o Estado adote ações estratégicas de médio e longo prazos (O Globo. Tudo vem de fora.

O Centro Internacional de Criminologia Comparada da Universidade de Montreal. podemos considerar: . financeira ou política) da formação social. em conjunto com o Instituto de Criminologia da Universidade del Zulia. Pela extensão dos resultados. destacar os fatos que acarretam: a) danos contra a vida e a saúde da coletividade. Os fatos anti-sociais que acarretam danos à vida ou à saúde da coletividade. segundo o mesmo Professor Fragoso. deixa inteiramente acima da lei os que têm poder econômico ou político. podemos. tornando puramente ilusória a igualdade proclamada nos documentos políticos. Em relação à força de trabalho.seus mecanismos de aplicação. c) produção industrial imprópria ou defeituosa. entre as quais o Instituto de Ciências Penais do Rio de Janeiro. Não sendo possível a enumeração exaustiva das ações anti-sociais que caracterizam os crimes de colarinho-branco. Mas o pior de tudo é que ficam impunes os seus autores. c) danos contra o patrimônio estatal da coletividade. e outras instituições de pesquisa do continente americano. como já se disse. que dela se livram com facilidade pela corrupção e pelo tráfico de influências. são capazes de abalar a própria estrutura econômica ou política do país. [p. visto que. segundo o Professor Fragoso. b) exploração predatória dos recursos naturais. além de atingirem a coletividade. tais crimes são muito mais graves do que o furto e o roubo que punimos com tanta severidade. b) o fato anti-social é praticado no exercício da atividade. 114] c) O dano causado pela ação é extenso e considerável. ou o patrimônio de indeterminado número de pessoas. podem ser aqui colocados: a) abusos praticados em relação à força de trabalho. nada lhes acontecendo. Em razão dessas pesquisas. atingindo em regra a coletividade. às elites dirigentes (econômica. todavia. pode-se destacar que os fatos que constituem tal criminalidade apresentam as seguintes características: a) os autores pertencem. realizam extenso projeto de pesquisa sobre a criminalidade de colarinho-branco na América Latina. em Maracaibo (Venezuela). b) danos contra o patrimônio da coletividade.

como o pão. constitui débito social ilegítimo do processo industrial.g. e não o preço do progresso. como através de outros produtos (e. Temos aqui a administração ruinosa de determinadas empresas. em qualquer de seus aspectos. em especial as ligadas ao mercado financeiro. A exploração predatória dos recursos naturais apresenta-se através da destruição do ambiente vital produzido pelo trabalho milenar da natureza. lesados também freqüentemente no peso e quantidade de mercadorias comercializadas. A poluição. seja pela poluição. consoante constantes denúncias feitas ultimamente pela imprensa. produtos alimentícios de primeira necessidade. e desflorestamento sistemático. Danos ao patrimônio da coletividade apresentam-se através de métodos irregulares e fraudulentos de enriquecimento.. produzindo quebras que afetam amplos segmentos da coletividade de investidores (além de outros setores das classes dominantes). seja pela exploração desordenada. como propõe a ideologia dominante. por imposições do mercado. como acontece no Brasil. contendo elementos químicos altamente nocivos à saúde etc. com efeitos negativos idênticos.1) a redução do trabalhador à condição subumana pelos salários incapazes de repor as energias consumidas no trabalho.. medicamentos prejudiciais ao organismo. causando mortes e acidentes. Temos ainda toda a sorte de fraudes e manipulações no mercado de ações. a exigência da segurança). . pela imposição de ritmos excessivos de trabalho e tarefas monótonas e embrutecedoras (produzindo doenças ou lesões ocupacionais). 115] sive com o emprego de produtos químicos. bem como a propaganda fraudulenta que causa dano ao patrimônio de indeterminado número de consumidores. 3) condições de insegurança ou de fadiga excessiva. criando desertos e provocando secas). 2) exaurimento físico e mental do trabalhador. inclusive através da exploração de trabalhadores rurais (bóias-frias) empregados na lavoura na época das colheitas.[p. que eliminam insetos e microorganismos necessários ao equilíbrio ecológico e intoxicam o consumidor. inclu. A exploração desordenada conduz à destruição do ambiente vital (exaustão e erosão do solo. não só no que tange aos produtos alimentícios ou medicinais. ou alternativamente. projetos da indústria automobilística que desatendem. provocando injeções maciças de dinheiros públicos (créditos e financiamentos) ou encampações oficiais. A produção industrial imprópria ou defeituosa atinge a vida ou a saúde da coletividade.

A MACRODELINQÜÊNCIA Essa expressão é modernamente utilizada para indicar o crime organizado. por exemplo. do uso abusivo de instrumentos da economia. basicamente. o que faz crescer o sentimento de impunidade para os que não são pobres. eliminando a concorrência de grupos nacionais e fazendo com que seja entregue a estrangeiros o controle de áreas essenciais da economia da nação. Igualmente a corrupção administrativa de alto nível. Lamentavelmente. causando bilhões de prejuízo aos cofres públicos e particulares. falsificação de moeda e títulos da dívida pública. bem ilustra este ponto. 116] concorrências e superfaturando os preços. envolvendo a prática de ilícitos sofisticados em que a vítima é a coletividade (os danos são difusos). É certo que algumas práticas são diretamente lesivas a outros grupos dominantes. lavagem de dinheiro obtido ilicitamente. esses delitos são praticados com o emprego da moderna tecnologia e decorrem. as manobras mais variadas que visam proporcionar a alta de preços de gêneros ou bens de consumo essenciais. como. fraude no mercado acionário e de câmbio. produzindo lesão incomparavelmente maior do que a representada pela criminalidade contra o patrimônio convencional. ligada à concessão de favores ou privilégios especiais. que abusam do poder econômico. A corrupção surge também na celebração de contratos públicos. fraudes com transferências bancárias. que se pratica através de balanços fictícios e subfaturamento. 55. a nossa legislação penal ainda é deficiente na configuração e punição dessa criminalidade chamada de colarinho-branco.Finalmente. O estouro de vários bancos de alguns anos para cá. ou da própria integridade nacional. viciando [p. sequer dispomos de recursos técnicos para a sua rápida e eficiente apuração. alguns deles dirigidos por altas personalidades de nosso cenário político e econômico. De difícil detecção. podendo ser identificada pelas seguintes características: a) abuso de poder econômico e político. valendo-se com . lesivos por vezes aos interesses vitais e estratégicos da coletividade. Tem alguns pontos em comum com a criminalidade do colarinho branco. mas seus efeitos atingem a coletividade também. Poder-se-ia também mencionar aqui a ação predatória da economia nacional praticada através de empresas transnacionais. Danos ao patrimônio estatal da coletividade podemos identificar na evasão de impostos.

Outra dificuldade no combate da macrocriminalidade resulta do fato de conseguirem os criminosos adaptar-se rapidamente às constantes mudanças da economia. c) reveste-se de uma aparência de legalidade absoluta.constância do uso indevido de informações privilegiadas a título de consultoria. onde o dinheiro ilícito entra e sai com facilidade. Quanto às medidas a serem adotadas. de nada adiantará a repressão à criminalidade convencional. . ela já não mais se encontra no patamar que se pretendia regulamentar. b) requer alta especialização profissional e completo domínio operacional dos meios tecnológicos para a sua execução. em constante consonância com as mudanças dos mecanismos econômicos e para dificultar a identificação das operações ilícitas. o combate ficará circunscrito aos sintomas. Impõese assim a recomendação de ampla pesquisa. causas principais. elevação da inflação. o legislador teria que ter profundo conhecimento da realidade econômica e estar permanentemente atento para prever as possíveis mutações de seus mecanismos. inclusive o estudo de casos. A estrutura política e econômica existente está de tal forma montada que oculta e protege essa criminalidade dourada. aumentos incontroláveis de preços. De uma coisa. o que não acontece com o legislador e as leis. até a reformulação da legislação penal. com o estabelecimento de uma ordem social mais justa e democrática. Quando o legislador vai trabalhar em cima da realidade econômica. pela falta de leis penais adequadas. A transnacionalização é uma das maiores dificuldades no combate à macrocriminalidade. devendo ser utilizadas as técnicas de pesquisa sociológica aperfeiçoadas pela experiência. crises econômicas. Para elaborar leis eficazes nesta área da criminalidade. condições de vida subumanas. É a macrocriminalidade que provoca desníveis sociais. entretanto. Os criminosos utilizam países de acordo com os seus interesses e as facilidades que neles encontram. sem nunca chegar-se às causas. 117] nia dos Estados. da criminalidade comum. por um lado em razão da sofisticação dos meios usados aliada a estrutura e. e) mutabilidade na forma de operar-se. devemos nos conscientizar: enquanto tivermos crimes e criminosos acima da lei. d) condutas criminosas transnacionais. f) impunidade dos autores. por sua vez. por outro. pois costuma apoiar-se em atividades legais que lhe dão cobertura tática para os negócios ilícitos.[p. Estão entre os países preferidos os chamados paraísos fiscais. onde as ações examinadas deveriam ser tipificadas como crimes sujeitos a graves penas. deverão abranger desde a completa reforma da estrutura política e econômica do país. pois o Direito Penal e a atuação da polícia são limitados pelo princípio da territorialidade e da sobera. de modo que pouco ainda sabemos a seu respeito. Enquanto isso não acontecer.

Quando quiserem combater esse tipo de crime não haverá mais condições. o crime de perigo de contágio venéreo. Em entrevista concedida à revista Veja. também.O crime do colarinho-branco. 130. mas.492. No caso dos crimes do colarinho-branco. essas leis não têm alcançado os objetivos desejados. por definição. vários artigos que.“A polícia tem um problema de formação.1986.É verdade que já temos uma legislação que pune os crimes econômicos . a coisa complica”. por exemplo. merecedores de melhor disciplina penal. poderiam ser mencionados. lamentavelmente. Assim. Estourar um ponto do jogo do bicho.1990. 118] indagado sobre qual o crime que dará mais trabalho para a polícia brasileira.06. há o fato de que. a casa de prostituição na modalidade de manter lugar . por não mais serem aplicados. Crime. CONSIDERAÇÕES GERAIS Inúmeros outros fatos.Lei n° 7. que define os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e Lei nº 8. alcançar essa turma. de 16. como já foi assinalado.137. não só pelas penas extremamente brandas nelas previstas. como também pela imprecisão dos seus tipos.” VEJA . Mas. Um policial não está suficientemente aparelhado para entrar nos meandros de um crime cometido na especulação na bolsa de valores. que resguarda o bem comum. Os tipos penais abertos. em novembro de 1995. Além disso.12. previsto no art. para a sociedade. perseguir um integrante do Comando Vermelho. os engravatados não são considerados marginais. é o que ofende aquilo que a norma jurídica quer proteger.Como assim? LUZ . que é a arrecadação do Estado. a nossa polícia não está aparelhada e nem especializada para investigar tal tipo de criminalidade. 56. que define os crimes contra a Ordem Tributária Econômica e as Relações de Consumo -. deveriam ser dele excluídos. a sonegação fiscal. que permitem várias interpretações. o Delegado Hélio Tavares Luz. pelo fato de serem crimes fora do alcance da polícia. portanto. a lavagem de dinheiro. de 27. É um problema grave por esse ângulo e. criam confusão e concorrem para a impunidade. então Chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro. [p. Não conseguimos. na hora de entrar nos escritórios refrigerados do 18° andar da Avenida Rio Branco ou num gabinete atapetado na Avenida Paulista. prender o Miltinho do Dendê são ações que não causam nenhum tipo de problema. Não tem o conhecimento básico para combater os crimes do colarinho-branco. Ademais. respondeu: “LUZ . viola-se a norma que protege a sociedade como um todo. Há no Código Penal.

há uma resistência permanente por parte dos contribuintes quanto a pagar efetivamente os tributos exigidos pelos órgãos legiferantes. No . A. Entre nós. escudados na impunidade. Existem ainda outras questões que estão a exigir estudo aprofundado e urgente definição do legislador: a maconha deve ser descriminada? Como [p. Assinale-se por último que novos fatos sociais necessitam ser tipificados como crimes. trata-se de uma norma amplamente transgredida. observa F. chegou até o Palácio do Planalto. existindo até mesmo clínicas especializadas em aborto. pp. Tomemos para exemplo o caso do imposto de renda. ultraje público ao pudor na modalidade prevista no art. É inadmissível que alguém fotografe uma pessoa famosa em sua intimidade e venda impunemente essa fotografia à imprensa para obter ganho fácil. o adultério. previsto no art. deve persistir? Até quando vamos manter os nossos presídios como escolas de marginais e de revoltados? Para fazer da pena um instrumento de reeducação e prevenção social é necessária uma radical reforma penitenciária. que tantos efeitos negativos produz. de Miranda Rosa (Sociologia do Direito. Por razões que precisam ser estudadas. embora tipificado como crime. 229. todos sabem disso. há artigos cuja permanência no Código é discutível por várias razões sociais. 118119). transportes. A escuta telefônica. vulgarmente chamada de grampo. como a violação da intimidade com instrumentos e aparelhos eletrônicos. bem como das leis tributárias em geral. 217) e o aborto (art. saúde. há uma grande distância entre a eficácia teórica e a real das leis fiscais em geral. principalmente as repercussões que provocam na opinião pública. educação. DIREITO FINANCEIRO E TRIBUTÁRIO Os efeitos sociais das leis que disciplinam o regime das finanças públicas e privadas. 57. Embora todos estejam de acordo quanto à necessidade de pagar tributos como forma de custear os serviços públicos . como a sedução (art. procurando os mais variados meios para fugir ao seu império. Este último já se encontra legalizado em vários países.motéis. Em tese.para fins de encontros libidinosos . 124). art. tal a ousadia dos seus praticantes. objeto ou espetáculo obsceno. por seu turno. nada há mais justo que cada um contribuir para as necessidades públicas proporcionalmente às suas rendas. 234 .estradas.escrito. 119] explicar o seu uso nas praias? A proibição do jogo do bicho. são algumas das questões a merecer pesquisa acurada da Sociologia Jurídica. Por outro lado. 240.

através de publicidade bem elaborada. Provavelmente. dos economistas. o que visam realizar. pessoas respeitáveis vangloriam-se de terem conseguido burlar o imposto de renda em vultosas quantias. . assistência etc. Neste caso. Jamais confessariam que subtraíram um níquel de quem quer que seja. industriais etc. ou de aplicação fácil desse tributo. Pode acontecer também de não estar o público suficientemente esclarecido quanto às finalidades dos tributos. caberia à autoridade competente esclarecer a opinião pública quanto ao que foi feito com o dinheiro público . pagar mais imposto de renda que um comerciante ou industrial bemsucedido.e assim ganhar a confiança pública. deixando quase à vontade os profissionais liberais. cujo tributo é descontado em folha de pagamento. comerciantes. se as causas da resistência pudessem ser levantadas e eliminadas.[p. esperteza. sonegar o imposto de renda. O esclarecimento da opinião pública a esse respeito. ou pelo menos habilidade. 58. que em nosso País a maior incidência do imposto de renda ocorre sobre os assalariados. de rendimento médio. por exemplo. DIREITO DO TRABALHO O Direito do Trabalho oferece igualmente campo fértil à investigação sociológica porque trata-se de um novo ramo do direito onde. Outra causa pode ser a falta de confiança do público em geral na fiel aplicação dos tributos às finalidades a que se destinam. Sem dúvida. é algo perfeitamente tolerável pelos costumes e até enaltecedor. mas quanto aos tributos. De todos é sabido. arrecadar-se-ia mais com menos esforço. 120] clamar maior atenção dos sociólogos. Chega-se por isso ao absurdo de um assalariado.entanto. entre a eficácia pretendida com relação às leis tributárias e sua aplicação real. isso seria tremendamente desonroso.. dos juristas e das autoridades em geral. como e por quê. as leis fiscais seriam recebidas de forma mais pacífica pela sociedade e os resultados seriam muito mais satisfatórios. em todos os países em que foi instituído não há exemplo de aceitação mansa. ajudaria a quebrar a resistência e a angariar confiança. em nosso entender por falta de esclarecimento da opinião pública quanto ao que estava sendo feito.. Chegou-se mesmo a formar a idéia de que constitui virtude. como já se disse. constitui fato importante a re. mais do que em qualquer outro. faz-se . Freqüentemente. Vimos isto no Rio de Janeiro quando do lançamento da taxa do lixo pela Prefeitura Municipal: houve uma grita geral. isto é. Esse descompasso. uma das causas da resistência ao pagamento do imposto de renda decorra da injustiça dos critérios utilizados em sua fixação.obras. em reuniões sociais.

porém. capazes de condicionar um entendimento uniforme no sentido desejado. b) ação sobre o Judiciário. a saber: a) ação sobre os órgãos legislativos e executivos. Exemplo disto tivemos na década de 80 na Polônia. 58. que podemos afirmar com segurança que todas as conquistas dos trabalhadores nesse ramo do direito. reajustes salariais. Tão notório é o condicionamento social sobre as leis trabalhistas.1. em alguns países essa influência é exercida direta e ostensivamente sobre os órgãos produtores do direito. visando à edição de normas jurídicas convenientes aos interesses dos seus associados. impressionante e inevitável. 117). De acordo com o mesmo autor (ob. Miranda Rosa (ob. a influência sindical no processo de formação do Direito Trabalhista apresenta três facetas distintas. p. passo a passo. O líder sindical chegou à Presidência daquele País. Foram concessões [p. seja pelas restrições que a organização política lhes impõe. procurando obter decisões da justiça favoráveis. como férias de trinta dias.. tendente a criar ambiente social mais amplo. cit. p. . gratificação natalina. Em outros. 121] feitas. é mais discreta a intervenção dos sindicatos na formulação das normas jurídicas do trabalho.notório o condicionamento direto que a realidade social exerce sobre a ordem jurídica. Seu desenvolvimento tem sido rápido em virtude das constantes pressões exercidas pelos fatos sociais sobre as forças e grupos detentores do controle da economia. às vezes até mesmo com certo exibicionismo para evidenciar a eficiência das organizações classistas e sindicais na defesa dos interesses de seus associados. c) ação sobre a opinião pública. ainda que nova. sempre na menor medida possível. cit. muito a contragosto. aposentadoria. Por essa mesma razão a legislação trabalhista. a despeito do regime político duro e austero lá existente. Em qualquer das hipóteses. Interferência das Forças Sindicais no Processo de Formação do Direito do Trabalho Segundo o Prof. simpático às posições assumidas pelos grupos de trabalhadores vinculados a tais organizações sindicais. pelos patrões.. aos impulsos sociais das novas reivindicações de massa. acatadas. 116). tem sido alterada com freqüência. seja pelas características próprias do movimento sindical. a influência que exercem os órgãos de classe é inegável. decorreram das pressões feitas pelos órgãos de classe.

Entendia-se que o fornecedor de produtos ou serviços limitava-se a fazer a . 5°. Um líder sindical chegou à Presidência do País e está promovendo reformas constitucionais significativas. o CDC estabeleceu responsabilidade objetiva para o fornecedor de produtos ou serviços. estabeleceu uma política nacional de consumo. às profundas transformações introduzidas nas relações de consumo pelo Código de Defesa do Consumidor. 59. que durante muitos anos esteve entre os países do segundo grupo. habitação. 122] O que foi dito nesta parte serve para demonstrar o que poderia e deveria ser feito em todos os ramos do Direito. [p. uma disciplina jurídica única e uniforme para tutelar todos os direitos materiais e morais dos consumidores. vestuário. transportes. Até onde essa influência é útil. DIREITO DO CONSUMIDOR Não estaria completo este capítulo sem uma referência. é questão a ser examinada através de investigação profunda da realidade social determinante. depois da abertura política vem se colocando no primeiro. o Código adotou a concepção social do contrato. segurança. Essa lei. alimentação. bem como na legislação ordinária. inciso XXXIII da Constituição Federal) -.basta que se diga que somos hoje 170 milhões de consumidores no Brasil.O Brasil. Entre as inúmeras inovações traz idas pelo CDC. no que tange ao segundo ponto. gerando diariamente outros tantos milhões de relações em todas as áreas do mercado de consumo: saúde.CDC . merecem destaque aquelas que procuram proteger o consumidor nos pontos em que é mais vulnerável: a sua integridade físico-psíquica e a sua integridade econômica. ainda que rápida. Para atingir a sua finalidade no que diz respeito ao primeiro ponto. Para termos uma idéia do campo de incidência do Código de Defesa do Consumidor . conforme foi possível constatar através dos movimentos grevistas no ABC Paulista.1. A Responsabilidade Objetiva do Fornecedor de Produtos ou Serviços Até o Código do Consumidor os riscos do consumo corriam por conta do consumidor. 59. com relação a determinadas realidades sociais por ele ainda não adequadamente disciplinadas. para cumprir a sua vocação constitucional . necessária. válida e legítima.promover a defesa do consumidor (art. produtos. serviços etc.

Falava-se. Tão forte é esse vínculo que se costuma dizer que o contrato é lei entre as partes. A responsabilidade decorre do simples fato de dispor-se alguém a realizar atividade de produzir. de forma expressiva. atendendo antiga exigência social. que pode ser assim resumida: todo aquele que se disponha a exercer alguma atividade no campo do fornecimento de bens e serviços tem o dever de responder pelos fatos e vícios resultantes do empreendimento. passando a ser substituída pelo interesse social. para definir o conteúdo do contrato e ainda para escolher o parceiro contratual. já que não há igualdade real entre os homens na sociedade. Em face do desequilíbrio econômico das partes . 12 e 14 do CDC.a liberdade de um importava em opressão do outro. A liberdade de contratar é o reflexo da filosofia do Estado Liberal que exigia uma separação quase absoluta entre o Estado e a sociedade. distribuir e comercializar produtos ou serviços. estocar. Por essa nova concepção. Funda-se a responsabilidade do fornecedor na teoria do risco do empreendimento (ou empresarial). poderoso. vale dizer. e o outro fraco. o elemento nuclear do contrato é a autonomia da vontade. [p. responde pelos danos que causar ao consumidor independentemente de culpa. até. 59. científico e tecnológico veio demonstrar que o dogma da liberdade contratual não passava de uma ficção. o que só veio a ocorrer. independentemente de culpa.um forte. assim. entre as melhores e mais avançadas legislações do mundo. O progresso industrial. A Concepção Social do Contrato no Código do Consumidor Na sua visão clássica ou tradicional.2. colocando-se. a autonomia da vontade deixa de ser o elemento nuclear do contrato. sendo tributados aos riscos do ato de consumir todos os acidentes de consumo.chamada “oferta inocente”. A eficácia jurídica do contrato . Nas últimas décadas tomou-se necessário substituir a concepção clássica do contrato por uma concepção social. na aventura do consumo para indicar a situação daquele que se aventurava a consumir produto ou serviço. sem oportunidade de escolha . 123] Hoje a responsabilidade do fornecedor é objetiva. consoante arts. nesse e em outros pontos. O indivíduo estaria. Uma vez manifestada. reconhecendo perfeita igualdade e absoluta liberdade entre as pessoas. livre para contratar ou não contratar. no Código do Consumidor. O CDC. a vontade cria um vínculo entre os contratantes do qual nascem direitos e obrigações. deu uma guinada de cento e oitenta graus ao transferir os riscos do consumo do consumidor para o fornecedor.

não mais depende apenas da manifestação de vontade. O Estado passa a intervir na formação dos contratos de consumo. chegando ao ponto de obrigar a contratar em determinados casos. passamos a uma visão social. . pois de uma visão liberal e individualista. não só controlando preços. mas também. fruto de um consciente e bem sucedido esforço do legislador para adequar a nossa legislação à realidade social no que diz respeito às relações de consumo. dos seus efeitos sociais e das condições econômicas e sociais das partes que dele participam.2. que valoriza as legítimas expectativas das pessoas nas relações de consumo. Tem sido proclamado que ele representa uma verdadeira mudança na ação protetora do Direito Civil Brasileiro. 39) e consideram nulas de pleno direito as cláusulas abusivas (arts. na [p. reportamo-nos ao que ficou dito no item 47. Concluindo. devem ser lembrados os Capítulos V e VI do CDC que vedam a publicidade enganosa e abusiva (arts. proíbem as práticas comerciais abusivas (art.51-53). mas cogente. 124] concepção social do contrato. impondo o conteúdo de outras. pode-se afirmar que o Código do Consumidor é a mais revolucionária lei do século XX. Como exemplo dessa nova postura da lei em face do contrato de consumo. protege determinados interesses sociais e serve de instrumento limitador da autonomia da vontade. e principalmente. 30-38). mas também vedando certas cláusulas. Quanto aos efeitos positivos que essa lei vem produzindo. A autonomia da vontade só existe nas condições permitidas pela lei que. não tem mais mero papel interpretativo ou supletivo.

Capítulo XI INSTRUMENTOS HUMANOS DE REALIZAÇÃO DA ORDEM JURÍDICA O Poder Legislativo: eleição dos legisladores. Causas da crise do Judiciário brasileiro. [p. Estrutura do Judiciário brasileiro: a justiça estadual. vamos agora nos dedicar ao exame do segundo item da classificação . bem como uma estrutura material adequada. quando teremos oportunidade de ver que não basta existirem leis boas e eficazes.eficácia e efeitos -.” Pior do que não ter leis. 127] . é tê-las e não aplicá-las. entretanto. compreender que. Em certas atividades. mas se as executam.estudo dos instrumentos humanos de realização da ordem jurídica e de suas instituições -. estrutura da justiça especial. Função do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal. repetimos. aumentando infinitamente as possibilidades de produção. o primeiro item da classificação proposta por Renato Treves para o objeto da Sociologia Jurídica . A máquina já substituiu o homem em inúmeras atividades. Cabe aqui relembrar o que dizia Montesquieu: “Quando vou a determinado país. nos capítulos anteriores. tão importante quanto ter leis eficazes. O Poder Judiciário. O papel desempenhado pela Justiça Eleitoral. o homem é insubstituível: entre elas as atividades de elaborar e de aplicar leis. não indago se há leis boas. A crise do Judiciário em nosso país. **** Após termos examinado. portanto. Fácil é. organização da justiça federal. caso contrário toda a ordem jurídica de uma sociedade pode ficar seriamente comprometida. porque leis boas há em toda parte. é ter estrutura material e humana para aplicá-las. É preciso também gente especializada e em número suficiente para aplicar a lei.

a de legislar é sem dúvida a mais importante. 60. por maior razão é preciso que o . o princípio da separação dos poderes. ao passo que as funções administrativa e a judicial se prendem à sua realização. julgar é aplicar a lei contenciosamente (O Controle dos Atos Administrativos pelo Poder Judiciário. e o Poder Judiciário.composto pela Câmara dos Deputados e Senado Federal (adotamos o sistema bicameral). que tem por função prevalente elaborar as leis.formado pela Assembléia Legislativa de cada Estado. 2) Estadual . Por sua vez. com relação àquelas matérias que não são da competência privativa da União. Tais instituições. compondo os conflitos sociais. De acordo com Seabra Fagundes. p. O Poder Legislativo Federal.Por instrumentos humanos de realização da ordem jurídica devem ser entendidos aqueles órgãos ou instituições através dos quais a ordem jurídica de uma sociedade é declarada. mantida e modificada. Entre as funções públicas. 3) Municipal . dois deles estão diretamente ligados à ordem jurídica: o Poder Legislativo. às quais a sociedade confere atribuições para elaborar e aplicar as leis. a Câmara Municipal de Vereadores fica restrita aos limites do seu Município e às matérias de sua competência. porque dela emanarão leis a vigorar para todo o grupo social. 718). a função legislativa liga-se ao fenômeno de criação do direito. que em conjunto formam o Congresso Nacional. Do bom funcionamento dessas instituições e da eficiência do pessoal que nelas atua dependerá a eficácia da ordem jurídica. nas sociedades democráticas.Câmara de Vereadores de cada Município. O Poder Legislativo Estadual só elabora leis para o âmbito territorial de cada Estado e. sendo assim responsável pela declaração e modificação da ordem jurídica nacional. elabora leis para todo o território brasileiro (leis federais). mesmo assim. 1979. Legislar é editar o direito positivo. 128] exercício das mais simples funções é necessário ter a pessoa certa no lugar certo. através dos Deputados Federais e Senadores. Desde que passou a prevalecer. PODER LEGISLATIVO O Poder Legislativo em nosso País divide-se em três esferas. administrar é aplicar a lei de oficio. cuja função principal é aplicar a lei ao caso concreto. é óbvio. inclusive os efeitos sociais positivos que toda norma tem por finalidade produzir. Se para o [p. são integradas por criaturas humanas. o pessoal técnico e especializado que nelas atua. a saber: 1) Federal . assegurada.

destinada a realmente aprimorar o sistema existente. já que a função legislativa é exercida por delegação do povo. não porque o brasileiro não saiba votar. como afirmou há algum tempo determinado político. Eleição dos Legisladores Hoje não mais se admite qualquer discussão sobre as vantagens de qualquer outro processo seletivo dos legisladores que não seja o da votação popular. Não. àqueles que foram escolhidos como seus mandatários ou legítimos representantes.1. o voto vinculado a pequenas vantagens materiais. Para tanto seria indispensável inicialmente uma pesquisa detalhada da realidade atual. mas sim pelas distorções que se verificam na sua execução. financiando sua milionária campanha e comprando adesões. por exemplo. em áreas de grande pobreza: a máquina eleitoral reelegendo os mesmos parlamentares a cada nova legislatura. ninguém mais desconhece que o processo de seleção dos membros do Legislativo está a exigir urgente aprimoramento. E nem poderia ser diferente. 129] das à realização dos interesses coletivos. que ainda temos currais eleitorais no interior. Assim sendo. 60.legislador seja alguém preparado para o exercício dessa função e escolhido mediante criterioso processo seletivo. até distribuição de alimentos. e não simplesmente pessoais. como tem sido feito às vésperas de cada nova eleição. a eleição conquistada em troca de facilidades. Como estas. É notório. para a seguir serem elaboradas as reformas necessárias. empreguismo e outros interesses econômicos.[p. a manipulação da opinião pública pelos órgãos de comunicação nas grandes cidades. levantando-se as suas principais deficiências. a despeito de nada terem feito ao longo de muitos anos de vida pública. casuística. apresentadas as soluções mais adequa. o poder econômico pesando em favor deste ou daquele candidato. a eleição direta não tem produzido os efeitos desejados. visto estar consagrado em todas as sociedades democráticas o sistema da eleição direta para tal fim. entretanto. de modo a tomar possível a escolha dos melhores. uma reforma parcial. séria. Fala-se muito na reforma política e ela é realmente necessária. verdadeira. Lamentavelmente. De tão velhas e conhecidas. destinada exclusivamente a assegurar a vitória àqueles que já se encontram no poder. Com efeito. algumas . as questões mais relevantes sobre este ponto consistem apenas em saber como evitar as distorções que têm ocorrido nas eleições diretas. É preciso uma reforma de base. profunda. muitas outras circunstâncias existem dificultando ou até mesmo impedindo que o processo seletivo dos legisladores proporcione um eficiente resultado.

de um sistema para acompanhar as votações do Governo no Congresso. é o Governo o responsável pela exe. Até que ponto é justa e ética a troca-troca de partido? O parlamentar se elege por um partido e depois. todos os outros estão na Câmara Federal graças à legenda. lamentavelmente. negociar com o Congresso punindo ou . vinculando a liberação de verbas e outros recursos de emendas orçamentárias individuais ao grau de fidelidade de cada parlamentar. “Por causa dessas regras eleitorais. o que faz com que o exercício do mandato seja voltado para atendimento destas demandas.[p. Entretanto. não saíram do papel. Ou seja. Por outro. em busca de prestígio e favores políticos. Por um lado.questões constam da pauta de todas as propostas de reforma política. Ele proporciona incentivos para comportamentos individuais e partidários. as regras eleitorais. com as quais estabelecem compromissos localistas. a fidelidade partidária. ao mesmo tempo. os parlamentares. normalmente integrante da base governista. por exemplo. Assim. a existência no Palácio do Planalto. tanto nos Governos anteriores como no atual. 130] cução destas demandas. se aproximam em demasia de suas bases eleitorais. É correto o parlamentar se sentir dono do mandato se para eleger-se precisou de votos da legenda do partido pelo qual concorreu às eleições? E não são poucos os que necessitam do voto de legenda. bem como é ele que centraliza o processo decisório e a agenda do Congresso. Tomou-se pública e notória. as regras internas do processo de decisão do Congresso e os poderes constitucionais de legislar e de distribuir recursos do presidente agem incentivando a centralização do sistema e o comportamento partidário. passa a incentivá-Ia e dele se beneficiar tão logo chega ao poder! Outra questão relevante é a cooptação de parlamentares pelo Executivo para garantir a maioria parlamentar no Congresso. Ou seja. E a injustificável curiosidade dessa questão está em que o partido de oposição que condenava a troca-troca de partido com veemência. cientista político e autor da tese . para serem eleitos. Assim.Quais as Condições para o Sucesso Presidencial na Área Legislativa? A Conexão Eleitoral Brasileira -. não há a mediação dos partidos políticos. até confessada. exerce o mandato por outro. Carlos Pereira. apenas 28 deputados federais tiveram votação suficiente para se eleger sozinhos. mas que. o multipartidarismo e o federalismo agem descentralizando o sistema e incentivando comportamentos particulares. Nas contas das últimas eleições. assim examina essa questão: “Prefiro interpretar as relações Executivo-Legislativo à luz dos incentivos institucionais das regras do sistema político brasileiro. de posição política diametralmente oposta ao daquele pelo qual se elegeu.

apresenta um número de candidatos fixado em lei. Qual seria esse redesenho das instituições políticas? Que sistema permitiria eliminar os inconvenientes e distorções inevitáveis no atual sistema político? Essa é a questão. geralmente a metade. No caso de lista aberta. de forma a ver cumprida a sua agenda de governo. de continuar jogando este jogo. o partido não escolhe os candidatos que quer eleger. ou votação plurinominal. que fragmenta a votação pelo estado inteiro. então. a atitude do Executivo.” “Diante de um desenho institucional como este. da Editora Revan. por sua vez. fez um profundo estudo do nosso sistema político.2000). no qual demonstrou que a nossa Câmara dos Deputados é divi. Pelo voto distrital misto os Estados são divididos em regiões e somente uma parte dos candidatos.premiando parlamentares segundo seu desempenho é decisão do governo proveniente dos incentivos institucionais das regras do jogo. cientista político e autor da obra E no Início Eram as Bases.[p. fortalece o partido. também chamado de sistema de lista. Outro grupo seria o que ele chama de “a nossa variável nordestina do voto distrital”. 131] dida igualmente entre três tipos de políticos: os do primeiro grupo seriam os distritais puros. não é nada mais do que o instrumento achado para mitigar as fragilidades de um sistema partidário fraco na arena eleitoral e fortalecê-Io dentro do Congresso. Entre as vantagens desse sistema estaria também a de evitar distorções da representação popular que hoje ocorrem. é redesenhar as instituições políticas sem cair na vala comum do moralismo” (O Globo. como aquela do voto de Roraima valer sete vezes mais do que o de São Paulo. O desafio. E a atitude do Legislativo. somente voto na legenda. pode ser de votação uninominal (cada partido indica seu candidato para escolha do eleitorado). .08. que proporciona incentivos paradoxais simultâneos. conhecido tecnicamente como concentrados/dominantes. na há voto nominal. tem sido a única saída para a sobrevivência política dos parlamentares. aprovados em convenção. Nelson de Carvalho. 02. sistema utilizado com sucesso em alguns países. As listas podem ser fechadas ou abertas. que dominam a votação em determinada área. sendo que o eleitor tem a opção de votar no partido ou na pessoa do candidato de sua preferência. Uma das soluções apontadas seria a adoção do voto distrital misto. o partido escolhe os candidatos que quer eleger e o eleitor vota no partido. em que cada partido apresenta aos eleitores sua lista de candidatos. vinculando o atendimento das demandas dos parlamentares aos seus comportamentos de voto. No primeiro caso. sendo que a outra metade (ou fração estipulada em lei) é escolhida pelo sistema proporcional que. é eleita por votação majoritária. mas dá ensejo ao afastamento das minorias e ao engrandecimento da figura dos caciques.

132] Conclui Nelson de Carvalho: “Mesmo se fizermos voto distrital com lista fechada. “dá-se uma justa medida às diversas áreas. e acabariam com a adoção dos mega-distritos”. Nelson Carvalho propõe a adoção do sistema eleitoral utilizado na Espanha. os caciques vão continuar dominando os partidos. o interior do estado passa a atribuir justa representação a áreas que hoje viram colchas de retalho “atacadas por vários políticos que dispersam sua votação e não têm compromisso com nenhuma delas”. Com o distrital misto podemos ter aqui o pior dos dois mundos: dar à oligarquia partidária o domínio sobre a lista. que elegem de 5 a 8 deputados. e o primeiro recurso político deles é o encaminhamento das demandas das lideranças locais. Dentro do estado. Para Carvalho. adotam os chamados Distritos de Média Magnitude. “são os que têm 40 prefeitos espalhados. eliminando a possibilidade dessa compra da representação inorgânica. mas ele não tem definição sobre se o voto deve ser na lista ou diretamente no candidato. Ele também vê vantagem nesse tipo de voto proporcional com distritos maiores “porque enxuga o número de partidos”. Já o político do distrital puro prioriza os recursos orçamentários. Os fragmentados/dominantes. a maneira como ele vota na Câmara. e ao mesmo tempo contemplar o paroquialismo que já existe”. Se cada um for maximizar o beneficio para o distrito. O concentrado/não-dominante é o terceiro tipo. voltado para temas. não acontece o fenômeno da sub-representação de áreas importantes como as metropolitanas. Segundo o estudo. que predominam no Nordeste. você projeta os interesses difusos da sociedade e provoca uma espiral de gastos. “o sistema distrital uninominal incentiva o paroquialismo. Portugal e Grécia . Os distritos de média magnitude diluiriam a interferência direta do cacique local” .países que passaram por transições democráticas parecidas com a nossa . e dá uma visibilidade maior ao representante. Com esse sistema. Esses são fruto de uma distorção do voto distrital à brasileira. Os países citados por Carvalho usam o sistema de lista. para priorizar os partidos políticos em detrimento do voto pessoal. seria o político das áreas metropolitanas. onde os políticos locais não têm responsabilidade sobre as verbas. e não apenas um. [p. o primeiro recurso eleitoral é a atuação legislativa. como não domina essa área. Após essas ponderáveis reflexões. para o candidato da área metropolitana.que. como nos Estados Unidos. que vai pegando um votinho aqui outro ali e em várias áreas distintas”. não pode reivindicar créditos por benefícios. que concentra sua votação em municípios muito grandes e.com motivação paroquial. em vez de adotar o voto distrital misto.

2003) disse que a prestação de contas que o candidato faz dos gastos com a campanha eleitoral é uma palhaçada. compareceram ordeiramente às urnas em todo o país. o que indicaria a existência de eleitores fantasmas. praticam o clientelismo. não deve nada ao partido. Obter novas adesões na base da aritmética pode ser importante momentaneamente.A grande dificuldade em se aprovar uma reforma política está em que terá ela que ser votada pelos próprios parlamentares que trocam de partidos. Prossegue a Justiça Eleitoral nessa importante tarefa promovendo recadastramento dos eleitores e reivindicando debate mais profundo sobre a legislação eleitoral. a informatização da apuração das eleições. um belo dia. Horas depois os resultados foram proclamados no Brasil todo. Dessa forma a Justiça Eleitoral Brasileira deu sua decisiva contribuição para o aprimoramento do sistema político vigente. cultos ou não. por exemplo. nem como prestar contas dos gastos com a campanha. Desembargador Marcus Faver. recadastrou os eleitores em 24 municípios nos quais constatou desproporção entre o número de eleitores e de habitantes. O voto eletrônico. [p. A experiência demonstra que se não há financiamento público. de civismo e cidadania. a organização do pleito e outras medidas administrativas adotadas fizeram da nossa última eleição um modelo para o mundo todo. 60. mas a longo prazo só dá prejuízo. Uma vez eleito.12. Ele pode ser candidato . Promove também debate sobre o financiamento público da campanha eleitoral. O Papel Desempenhado Pela Justiça Eleitoral Justiça seja feita à Justiça Eleitoral Brasileira. No dia do pleito milhões de brasileiros. e conseguiram depositar o seu voto. O Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio de Janeiro. sem fraude. mesmo nos lugares longínquos e de difícil acesso. a prestação não vale nada.2. jovens e velhos. por aqueles que eventualmente serão por ela prejudicados. “A legislação é quase risível. E assim sendo. Se o candidato é derrotado. sem questionamentos. 133] O Presidente do Tribunal Regional Eleitoral no Rio de Janeiro. assumindo compromissos políticos com os mais variados e questionáveis seguimentos sociais. principalmente o eleitorado. Foi um espetáculo democrático. não existe fidelidade partidária. não obstante as suas conhecidas deficiências. sem impugnações. A reforma política só vai sair quando. enfim. votam motivados por favores políticos. o candidato vai à luta buscar quem banque sua campanha. em entrevista ao jornal O Globo (26. os líderes dos maiores partidos se sentarem à mesa e concluírem que todos estão sendo prejudicados. A proporção estava acima de 70% da população.

a obrigação do devedor. 134] flitos sociais. . caracterizando o crime previsto no art. ou seu vingador. Obviamente. constituindo a chamada função jurisdicional. A partir daí só o Estado passou a ter o poder de fazer justiça. onde durante algumas décadas duas famílias se destruíram mutuamente. Chegou o dia em que a sociedade. também não tem nenhum efeito. tornando-a exclusivamente sua . Essa função. terá que ser exerci da em favor de todos os que dela necessitarem (ricos ou pobres. caracteriza o direito de ação. A função prevalente do Poder Judiciário. podia infligir ao causador do dano mal idêntico ao produzido no ofendido. pelos meios que bem entendesse.novamente mesmo com as contas rejeitadas. compondo os con.monopólio estatal. fracos ou poderosos). A vítima. o que faz aplicando a lei ao caso concreto. sem imparcialidade. pois caso contrário ficará a emenda pior do que o soneto. Cabe ao particular tão-somente o direito de pedir justiça. de invocar a prestação jurisdicional sempre que dela necessitar. PODER JUDICIÁRIO Houve tempo em que a justiça era privada e feita pelas próprias mãos. que se caracterizava mais como uma forma de vingança do que propriamente de justiça. cultos ou ignorantes. resolveu assumir essa função. de aplicar a lei ao caso concreto para compor os conflitos sociais. após a separação dos poderes. fazer justiça com as próprias mãos é uma forma de usurpação de função pública. o que. prestada pelo particular interessado. Ainda hoje temos exemplos do que ocorre quando o particular resolve fazer justiça com as próprias mãos. criava outros maiores. foi conferida ao Poder Judiciário. após organizar-se política e juridicamente. longe de compor os conflitos sociais.[p. portanto. 345 do Código Penal. servindo como ilustração o conhecido caso de uma cidade nordestina. gerando uma verdadeira reação em cadeia. e em face dos inconvenientes da justiça privada. Hoje. Era a justiça do olho por olho. dente por dente. e assim por diante. é necessário salientar. Essa relevante função pública. O credor podia exigir. Se as contas forem julgadas depois da diplomação (e não há tempo para que sejam julgadas antes). por sua vez.” 61. tal forma de justiça. Um verdadeiro faz-de-conta esse negócio de prestação de contas que não tem sentido objetivo. é distribuir justiça na sociedade. no momento em que se tomar necessária (não alcançará os seus objetivos sociais se a ação da justiça vier tardiamente) e no lugar onde for necessária.

que só trata das questões relacionadas com o direito eleitoral. e neles uma multidão de médicos. espalhados por todo o território nacional. dedicada à função jurisdicional. Faltando essa estrutura necessária. Tomemos para exemplo do que estamos querendo enfatizar o caso do INAMPS. postos de saúde etc. tanto nas capitais como no interior. tomando impossível a vida em coletividade e motivando o retomo à justiça privada. já que isto constitui uma função exclusivamente pública. se assim podemos dizer. o Judiciário precisa de estrutura material e humana para desempenhar a sua tarefa. Tal como uma grande empresa prestadora de serviços. O que é preciso para que possa realizar isto? Uma infinidade de hospitais. tal como as pessoas nas filas do INSS. quando e onde for necessário . se a Justiça se omitir ou retardar no exercício de sua função.Com efeito. subdivide-se em quatro áreas específicas. serventuários etc. tanto nas cidades como no interior. sede. As filas aumentando cada vez mais nas portas dos ambulatórios. se lhe faltarem os instrumentos materiais e humanos necessários. clínicas.é indispensável que esteja devidamente estruturado e aparelhado. postos de justiça. enfermeiros. Com o correr do tempo os conflitos se agravam e aumentam. O Poder Judiciário Federal. que se propõe prestar assistência médica e hospitalar a todos os seus associados. ESTRUTURA DO JUDICIÁRIO BRASILEIRO Em nosso País o Judiciário se divide em duas esferas: federal e estadual. Os interessados não poderão resolvê-los por suas próprias mãos. . Coisa idêntica ocorrerá (e já está ocorrendo) com o Judiciário. postos. a saber: 1) Justiça Eleitoral . pessoas esperando às vezes meses para poderem ser consultadas. empenhada na realização desse objetivo. [p. que para realizar os seus objetivos necessita de instalações. espalhados por todo o território nacional. gente técnica e especializada. veremos o que estamos cansados de ver.fazer justiça a quem precisar. o que será da sociedade? Os conflitos sociais continuarão ocorrendo porque existirão enquanto existir a sociedade. por sua vez. 135] 62. agências. Também ele terá que contar com instalações adequadas. mas quem tem o dever de exercê-la não o faz. sob pena de se avolumarem os processos nas prateleiras. gente técnica e especializada. funcionários... e neles uma multidão de Juízes. o que toma em completo fracasso o objetivo a que se propõe a entidade. pessoal etc. Para que o Judiciário possa exercer eficientemente a sua função .

cuja competência é julgar os crimes previstos no Código Penal Militar. a primeira e a segunda instâncias no Judiciário de cada Estado. 136] ção até a sentença final. deverá propor a ação expropriatória perante uma das varas da Justiça Federal. À Justiça Estadual compete o restante das questões que podem ser levadas a juízo. Assim. Isso evidencia. da melhor . atuando em toda a formação do processo desde a primeira peti. Todas as demandas envolvendo conflitos de interesse entre particulares (questões de família. ré ou simples interessada. 4) Justiça Federal . está ela organizada em todo o território do Estado. Cabe ao Código de Organização Judiciária de cada Estado estabelecer a organização da sua justiça de primeira instância. Para não ser muito oneroso e difícil às partes o acesso a essa justiça. isto é. aplicando a lei ao caso concreto. que a grande sobrecarga de trabalho repousa sobre o Judiciário Estadual. por um só julgador. tanto nas cidades do interior como na capital.[p. advogados). se um particular pretender exigir da União indenização por dano material ou moral decorrente de ato praticado pela administração federal. para que possa estar ao alcance de todos. sucessões.que cuida dos problemas envolvendo empregador e empregado. 62. Municípios e seus desmembramentos administrativos. por exemplo.à qual competem todas as causas em que houver interesse da União ou de seus desmembramentos administrativos (autarquias e empresas públicas) como autora.que é o poder de fazer justiça. serão da competência da justiça estadual. se a União resolver desapropriar um determinado imóvel. deverá também apresentar sua postulação perante a mesma justiça. 3) Justiça Militar . enfim. As decisões da primeira instância são prolatadas por Juiz singular. réu. testemunhas. Temos. desde logo. assim. crimes etc. é a justiça de primeira instância que toma conhecimento e decide em primeiro lugar as causas que são levadas à apreciação do Judiciário. de modo a poder ela realizar. contratos. Estrutura da Justiça Estadual Há duas instâncias na Justiça Estadual: instância é hierarquia ou grau de jurisdição .). De regra.1.2) Justiça Trabalhista . Por isso está em contato direto com as partes (autor. bem como as demandas em que há interesse dos próprios Estados.

o que poderia acarretar um congestionamento de processos e sobrecarga do serviço nos Tribunais de Justiça. pois trata-se. por isso que realizada através dos Tribunais de Justiça dos Estados. Em linhas gerais. tantas quantas forem necessárias para atender à demanda dos novos conflitos sociais. Tal como os Tribunais de Justiça. e conseqüentemente aumentando o serviço da justiça. demorada. divididos em várias câmaras. em segundo grau. 137] O número de desembargadores é muito menor que o de juizes de primeira instância. dizer que as suas principais características são as seguintes: 1) toma conhecimento das causas em segundo lugar. para onde são encaminhados os processos sempre que houver recurso de qualquer decisão da primeira instância. de regra.forma possível. as atividades empresariais etc. Alguns Estados. Assim. limitando-se à apreciação daquilo que já se encontra no processo. 2) não está em contato direto com as partes. congestionada e deficiente a prestação jurisdicional. onde a sentença será executada. três julgadores.. cujos membros são chamados Desembargadores. aumentando a sua população. tendo a competência estabelecida pela lei. Em cada Foro temos pelo menos um órgão investido da função jurisdicional. que é o Juízo ou Vara. podemos dizer que todo o território do Estado é dividido em várias áreas denominadas Comarcas. os Tribunais de Alçada são integrantes da Justiça de segunda instância. visto que as decisões são ali prolatadas por. podendo-se. as suas finalidades. o processo é devolvido à Vara de origem. tal como ocorre com os Municípios. e em cada Vara um juiz. para evitar esse inconveniente. muito embora nem sempre exista correspondência entre suas áreas geográficas. 3) só existe nas capitais dos Estados. o escrivão. 4) é uma justiça colegiada. sob pena de tornar-se lenta. pelo menos. Cabe também a cada Estado organizar a sua Justiça de segunda instância. [p. serventuários etc. possuem também outro Tribunal (ou Tribunais) chamado de Alçada. de uma atividade revisora. Apreciado o recurso. De modo geral pode-se . Em cada Comarca temos uma sede do Judiciário Estadual que vem a ser o Foro. como a primeira instância. cada Estado tem o seu Tribunal de Justiça. econômica e socialmente. À medida que a Comarca vai se desenvolvendo política. organizam-se à sua imagem e semelhança. toma-se necessária a criação de novos juízos (uma ou mais varas). todavia.

em substituição aos Juizados de Pequenas Causas. ficando as demais para o Tribunal de Justiça.099. e nas grandes cidades do interior. serventuários etc. Previstos para desafogar a justiça comum.1995. com as mesmas características da Justiça Estadual. orientado pelos critérios da oralidade. como se vê. deixando-os com mais tempo para apreciar os recursos de maior complexidade. 138] 62. a segunda é exerci da pelos Tribunais Regionais Federais. apenas para a turma recursal do próprio juizado. Essa lei prevê a participação de conciliadores e Juízes leigos como auxiliares da justiça na fase da conciliação. Rio de Janeiro. atribuindo. as causas de menor relevância. só se tomando obrigatória a sua participação se houver recursos. em segundo grau. Vale dizer que. exclusivamente ao Juiz Togado a competência para proferir a sentença caso não haja o acordo. O sucesso dessa idéia. sediados nos principais Estados (São Paulo. de 26.) e infrações penais de menor potencial ofensivo (contravenções penais e os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a um ano). é aliviar a carga de recursos daqueles Tribunais.09. [p. Organização da Justiça Federal Há também na Justiça Federal duas instâncias. pois necessitarão de estrutura material e humana para isso (instalações.). não cabe recurso nem para o Tribunal de Alçada. através de processo sumaríssimo. em exercício no primeiro grau de jurisdição. Outra peculiaridade dos Juizados Especiais é a desnecessidade de advogado nas causas cujo valor não exceda a vinte salários mínimos. todavia. juizes. depende da capacidade administrativa e econômica dos Estados para darem cumprimento à lei. cuja criação foi determinada pela Lei n° 9. entretanto. A primeira instância federal existe de regra nas capitais dos Estados. evitando que elas se misturem e caiam na vala comum das demais causas. O objetivo.dizer que julgam. nem para o Tribunal de Justiça. Da sentença cabe recurso para uma turma recursal composta por três juizes togados. das sentenças proferidas pelos juizados especiais.2. reunidos na sede do juizado. Pernambuco) e em . Esses Tribunais. criados pela Constituição de 1988 em substituição ao antigo Tribunal Federal de Recursos. esses juizados julgam causas de menor complexidade (causas cujo valor não exceda a quarenta vezes o salário mínimo etc. Os Juizados Especiais são uma feliz idéia no sentido de dar celeridade às causas de menor complexidade. Temos ainda nos Estatutos os Juizados Especiais Cíveis e Criminais. simplicidade e celeridade.

O Supremo Tribunal Federal. criou o Superior Tribunal de Justiça. sobrepõe-se a todo o aparelho judicial. integrado por 15 ministros. é constituída pelo Superior Tribunal Militar . Há nessa justiça uma terceira instância. integrado por 27 ministros. as causas envolvendo essa matéria são decididas pela Justiça Estadual. e é integrada pelas Auditorias do Exército. a segunda instância são os Tribunais Regionais Eleitorais . e os seus membros são chamados de Ministros. Estrutura da Justiça Especial A primeira instância da Justiça Militar só existe nas cidades onde há grupamento militar. o órgão máximo da Justiça. com o propósito de aliviar a sobrecarga do Supremo Tribunal Federal. e através . com sede em Brasília.TRTs.3.TSE. Qualquer decisão dos Tribunais Estaduais ou Fe. 139] derais. Quanto à Justiça Eleitoral. Em hipóteses especiais. através do recurso especial. Esse Tribunal tem sede em Brasília. a quem compete zelar pela supremacia das leis federais e promover a uniformização da sua interpretação. 62. embora sendo um órgão federal. a sua primeira instância é dividida em zonas distribuídas por todo o Território Nacional. 62. A segunda instância é constituída pelos Tribunais Regionais do Trabalho .[p. a cúpula do regime. o Tribunal Superior do Trabalho. É o mais elevado Tribunal do Poder Judiciário no Brasil.4. em que houver violação de lei federal. poderá ser reexaminada pelo STJ.TREs. previstas na Constituição. os Tribunais de Justiça e de Alçada dos Estados e os Tribunais Regionais Federais e do Trabalho. como o próprio nome diz. julgam os recursos oriundos da primeira instância da respectiva região. A Justiça Trabalhista tem a sua primeira instância distribuída pelas principais cidades do Brasil. com sede em Brasília. abaixo do qual se encontram todos os Tribunais Superiores.Brasília.STM. para onde vão os processos em hipóteses especiais. A segunda instância. e a terceira instância é o Tribunal Superior Eleitoral. tornando mais célere a justiça. da Aeronáutica e da Marinha. com sede na capital da República. geralmente nas capitais. Função do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal A Constituição de 1988. notadamente aquelas onde há maior concentração de trabalhadores. Nas cidades onde não há justiça trabalhista. um na capital de cada Estado. Trata-se de uma justiça cujas decisões são prolatadas por um colegiado.

Embora tenha plena consciência dos direitos dos aposentados. federal ou especial). quase se eternizam. foi puramente teórica. . milhares e milhares de ações são detonadas na Justiça. ineficiente e cara. recorre abusivamente.do recurso extraordinário. A cada novo e mirabolante plano econômico baixado pelo governo. E. é forçoso reconhecer que não cabe ao Judiciário a culpa exclusiva. é o Supremo o guardião da Constituição Federal. a Administração não os reconhece. Isso evidencia que a mera modificação de alguns pontos da Constituição não basta para resolver a crise do Judiciário. Em defesa.5. feita sob o mais rigoroso sigilo pelos donos da verdade da época. burocrática. há excesso de recursos processuais e falta de recursos financeiros. além de grande criador de conflitos. pode o Supremo reexaminar decisões de qualquer justiça (estadual. os membros do Judiciário culpam o Executivo e o Legislativo: as leis processuais são mal elaboradas. seria conveniente lembrar que outras reformas do Judiciário já foram feitas sem qualquer resultado prático. emperrada. a prestação jurisdicional se toma inócua e causa graves prejuízos aos jurisdicionados. e em alguns pontos tomou a justiça pior. Aquela reforma. Em que medida cabe ao Judiciário a culpa pela morosidade da justiça? Até que ponto a propalada reforma resolverá o problema do Judiciário? Essa é a questão nodal. declarando a inconstitucionalidade das leis sempre que violarem princípios consagrados na Carta Magna. no que exerce uma função eminentemente política. Na realidade. Em abril de 1977. 62. o fiel da balança. com controle externo e outras inovações. o pretexto utilizado foi a reforma do Judiciário. [p. O estado brasileiro. é um mau pagador. A Crise no Judiciário em Nosso País Há mais de trinta anos ouvimos as mesmas críticas ao Judiciário: a justiça é lenta. em todos os seus níveis. teve objetivos políticos. como a criação de senadores biônicos e outras aberrações constitucionais. nunca passou do papel. cada nova reforma implantada no país leva outros tantos milhares de pessoas ao Judiciário. Por sua vez. estão desatualizadas. Integrado por 11 ministros. Quanto ao segundo item. mesmo depois de condenada. pensionistas. 140] No que diz respeito à lentidão da justiça. obrigando os titulares desses direitos a buscá-los na justiça. prevalecendo a sua decisão como palavra final e imutável. Tem ainda por função atuar como moderador dos demais poderes. mutuários e contribuintes. demagógica. os processos se prolongam por anos e anos a fio. quando o Congresso foi fechado pela última vez. o Executivo e o Legislativo pregam a urgente necessidade de uma reforma do Judiciário.

humanos e financeiros notoriamente deficientes. Só que os precatórios também não são pagos. para que a justiça de primeira instância possa funcionar adequadamente. O primeiro devia aos credores judiciais (pensionistas. Estados e Municípios em até dez anos. Pior que tudo. Esse tempo de espera será fatalmente debitado à morosidade da justiça. não cumpre as decisões judiciais. . ele é também mau pagador. Como os bens públicos não podem ser penhorados para pagar a condenação. é necessário que em cada Comarca se criem tantas Varas ou Juízos quantos forem necessários para atender ao aumento do número de demandas decorrentes do desenvolvimento econômico. Mesmo depois de vencido em milhares de ações. Vale dizer. Os precatórios expedidos até 10 de julho de cada ano deverão ser incluídos no orçamento do ano seguinte e pagos na ordem de apresentação.5 bilhões de reais. A quem interessa a lentidão da justiça? [p.Prova disso são as filas intermináveis de aposentados e pensionistas do INSS pleiteando a revisão dos seus minguados benefícios nos Juizados Especiais Federais (o que poderia e deveria ser resolvido na esfera administrativa). centenas de milhares de recursos repetitivos que abarrotam o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal. principalmente na primeira instância. As causas operacionais estão relacionadas com a infra-estrutura necessária ao bom funcionamento da justiça . depois de esperar dois ou três anos pela sentença que lhe concede a justa devolução. Mas não para aí a contribuição do estado brasileiro à morosidade da justiça. que nada mais são do que requisições de pagamento em dinheiro de débitos judiciais expedidas pelo Poder Judiciário ao Poder Executivo. a execução do estado tem que ser feita por meio de precatórios. terá ainda que aguardar por mais dez anos o integral cumprimento dessa decisão. São Paulo e Rio de Janeiro não pagavam os precatórios desde 1996. Causas da Crise do Judiciário Brasileiro Diagnóstico baseado na prática e na observação permite-nos adiantar que três são as principais causas da crise do Judiciário: operacionais. O calote dos precatórios é uma regra em quase todos os estados. funcionais e estruturais.) cerca de 4. servidores. vítimas de acidentes etc. o Congresso Nacional aprovou a emenda constitucional nº 30 autorizando o parcelamento das dívidas judiciais da União. em 13 de setembro de 2000. Em agosto de 2000. 141] 63. milhões de ações em andamento na justiça com idêntica finalidade. Como já salientado. o contribuinte que entre na Justiça para reclamar a devolução de um tributo que lhe foi cobrado indevidamente. e o segundo 520 milhões. Com efeito.recursos materiais.

defensores. Recordo-me de ter. mas uma verdadeira explosão judiciária deflagrada por essas três condições que dão hoje a fisionomia de nosso País e. salas de audiência. se contarmos os cargos de juiz que estão vagos. no Brasil temos. de alto índice de crescimento demográfico. informatizar toda a justiça. O que acontecerá se não houver infra-estrutura para que todos os despachos do juiz sejam cumpridos com eficiência e rapidez? Nada. Diariamente um juiz despacha dezenas e até centenas de processos. o que significa que havia mais de mil processos parados.000 habitantes. certa feita. constatado encontrar-se em poder de um só oficial de justiça mais de mil mandados pendentes de cumprimento. o crescimento do movimento forense é vegetativo. não é o que ocorre em nações como a nossa. a solução para a maioria dos problemas que emperraram a máquina judiciária em primeiro e segundo graus nos estados e na esfera federal. promotores.político e social do lugar. é preciso ter instalações adequadas (cartório. 142] Aqui não há propriamente um crescimento forense. em nosso entender. só naquela vara.intime-se. . E não se consegue preencher os cargos vagos porque. escrivães. aguardando o cumprimento da determinação judicial. Em países como a Itália e a França. enfim. no sentido de que só acompanha a complexidade. cada vez maior. tome-se por termo etc. padronizar métodos e procedimentos. melhor aproveitar os recursos humanos e materiais disponíveis. sob pena de o serviço ficar acumulado e os processos paralisados. a distância se tornará cada vez maior entre a justiça e os seus objetivos sociais. um juiz para cerca de 30. É preciso investir em instalações de novos órgãos julgadores. Pelo ângulo operacional temos como certo que a maior necessidade do Judiciário não é a propalada reforma. aumentar o número de juízes. cite-se. em pleno desenvolvimento econômico e ingressando na sociedade de consumo. oficie-se. em virtude da omissão de um oficial de justiça ou de excesso de serviço. por sua vez. todavia. a menos que estejamos dispostos a aparelhar o Judiciário para enfrentar essa realidade. em cada um determinando uma série de providências ou diligências a serem cumpridas . o número de aprovados no concurso fica aquém das vagas em razão da deficiência do ensino jurídico. serventuários. das relações dentro da sociedade. na maioria dos Estados. Aí está. treinar e avaliar periodicamente os serventuários. O processo ficará parado por meses e anos a fio. secretarias. mas sim gestão. gabinetes etc.000 habitantes. Enquanto na Alemanha tem-se um juiz para cerca de 4. modernizar equipamentos. Em cada Vara. oficiais de justiça etc. controlar a qualidade e a produtividade dos magistrados.) em número suficiente. com graves prejuízos para as partes. adotar métodos modernos e eficientes de gerenciamento e administração. prenda-se. Isso. [p. de população estável e de economia já desenvolvida.) e gente para realizar o serviço da justiça (juiz.

No primeiro grau os resultados da justiça fluminense são também satisfatórios.700. As causas funcionais dizem respeito ao deficiente sistema recursal brasileiro.498 (100.[p.66%).25%). Na justiça comum .processos recebidos 74. . Dos 83.492. os resultados são também surpreendentes. no tempo médio de 172 dias entre a autuação e a sentença. o Tribunal melhorou o seu desempenho.em 2002 foram ajuizadas 346. foram julgados 83. de sorte que o acompanhamento de todo e qualquer processo. num tempo médio de 143 dias entre a autuação e o julgamento. No que diz respeito à produtividade.389 (95.76%). como mostram os números que seguem. mediante administração séria e competente dos recursos assim obtidos.varas criminais. mas foram julgadas apenas 313. Essa reforma . de família etc.415 ações e julgadas 340. foram recebidos 83. isto é. Estes resultados são ainda mais expressivos quando se tem notícia de que nos Tribunais paulistas existem cerca de 500 mil processos espe.424 processos e julgados 46. em 2003. e destas foram julgadas 223. Temos hoje praticamente quatro instâncias. Não obstante o expressivo aumento de recursos a cada ano.19%). o que permitiu. cuja reforma é realmente imprescindível para viabilizar o funcionamento do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça. pode ser feito pela internet de qualquer parte do país. no primeiro e no segundo grau. novo aumento .501 (87.285 processos autuados no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro no ano de 2003 (recursos e processos originários). em 2001 o número de processos recebidos subiu para 67. em 2003 o número de 419.551 e julgados 78. o que toma o tempo dos processos nos tribunais muito superior ao tempo de andamento em primeiro grau.285 processos e julgados 83. 143] rando há quatro ou mais anos distribuição.498. em curso na mais distante comarca ou no tribunal. Em 1999 foram recebidos 51. No ano de 2002 entraram (tombados) 252. No ano de 2003 o número de ações distribuídas (tombadas) subiu para 296. em 2000 o número de processos aumentou para 57. informatizar toda a justiça.914 e foram julgados 50.A Justiça do Estado do Rio de Janeiro há alguns anos vem seguindo esse caminho e já obteve resultados surpreendentes.25%. construir dezenas de novos foros e recuperar outros tantos. enquanto na justiça fluminense essa distribuição é em tempo real e não há processos represados.721.348 ações nos juizados especiais civis. Criou um Fundo Especial destinado a cobrir as despesas operacionais e de investimentos do Judiciário. instalar centenas de novas varas e juizados especiais por todo o Estado. e tiram a relevância da sentença ali prolatada.250 e foram julgados 65.163 (89. como já registrado.958 (105. em 2002.715 (97. 100.91 %).782 e foram julgadas 265.71 %). cíveis.584. no tempo médio de 203 dias.

na atuação processual compulsiva do Poder Público. A súmula vinculante obrigaria a justiça de primeiro grau a aplicar a jurisprudência do tribunal superior sobre determinadas questões. No ano de 1995. de outubro a dezembro.40%.08. em 1992. que. inteiramente aplicáveis à União Federal e às suas autarquias (inclusive ao INSS). sentenças contraditórias entre juízes.32% dos acórdãos proferidos pelo STF foram repetitivos. repetição interminável de ações em tomo de matérias já julgadas e recursos protelatórios. ainda na visão do ex-presidente do Supremo.41%. 82. ainda. em 1994. responsáveis.36. para impedir que enxurrada de ações banais continuem abarrotando os Tribunais. que: em 1988. em junho de 1997. extemada quando Presidente do Supremo Tribunal Federal (O Globo 29. serviria de filtro para evitar que questões irrelevantes cheguem aos tribunais superiores. Há. hoje. em 1989. como autorizado pela Lei Complementar n° 73/93. portanto. por sua vez. em 1991. ademais. em grande parte. Ora.90%. virtualmente inviabiliza o Supremo Tribunal Federal e . o Ministro Celso de Mello. Para por um paradeiro às procrastinações do Poder Público. o STF praticamente limitou-se a repetir decisões já proferidas. 144] A argüição de relevância.49. cumpre aplicar as disposições da Lei Complementar nº 73/93.38.83%. opondo resistência estatal injustificada e arbitrária a pretensões legítimas deduzidas por cidadãos de boa-fé.90%. 50. 68. “Devo observar. em 1990. em 1995. pelo menos até o mês em que se limitou a pesquisa.2000). em 1993. aos quais ficaria reservado o julgamento de matérias de alta indagação jurídica e de grande interesse social. 88. o percentual de acórdãos repetitivos foi de 61.54%. desnecessárias. Isso evitaria liminares. muitas vezes agindo como improbus litigator. na opinião do Ministro Carlos Mário Velloso. até o mês de março.processual. propõe a edição de súmulas administrativas vinculantes. pelo excesso de litigiosidade recursal. useiro e vezeiro em postergar o cumprimento de decisões judiciais. se a causa real do congestionamento do aparelho judiciário reside . todavia. sem prejuízo da adoção de outras soluções processuais. Em conferência proferida na abertura do Fórum Nacional de Debates do Poder Judiciário. sua Excelência assim colocou a questão. 71. [p. isso não é racional e não ocorreria se as súmulas tivessem efeito vinculante. ex-presidente do Supremo Tribunal Federal.88%. A pesquisa revela.15%.como efetivamente ocorre . enorme resistência à adoção da súmula vinculante ao argumento de que ela atentaria contra a liberdade de julgar do juiz. Pesquisa realizada no final de 1995 revela dados inquietantes: no período de outubro de 1988 a março de 1995. que. deve incluir a súmula vinculante para as decisões dos Tribunais Superiores e a argüição de relevância.

09. desde logo. permitindo.03. ad infinitum. por sentença do Juiz Teodoro Sampaio. 145] Não estamos falando de um órgão de Controle Externo do Judiciário. disfarçadamente. viajando num jatinho da Força Aérea Brasileira (FAB). 13. dotado de estrutura leve. 28. líder do Movimento dos Sem Terra (MST). Sim. até mesmo na própria instância administrativa. em matéria de caráter administrativo. não. “Isso é absolutamente inadmissível. tributário ou previdenciário. condenado por formação de quadrilha e invasão de propriedade. desse modo. na solução dos problemas gerados pelo congestionamento do aparelho judiciário. e assim por diante. órgão nacional de planejamento e controle do Judiciário. seria um centro de debates destinado a pensar e repensar continuamente o Judiciário. eficiente e com funcionamento permanente. a aplicação desse instrumento legal certamente refletir-se-á. mas investigar sentença. aproveitaria as experiências bem sucedidas de outros lugares. obras irregulares e gastos . talvez a curto prazo.nepotismo.com sentenças judiciais.o Superior Tribunal de Justiça. que pretensões legitimamente manifestadas pela parte privada sejam atendidas. O Ministro Sepúlveda Pertence. pois.1999). assessorado por técnicos de várias áreas. na ocasião criticou duramente o juiz e disse que suas sentenças reforçam a necessidade de controle externo do Judiciário (O Globo. deplora iniciativas que pretendem misturar questões de administração . visitou na prisão José Rainha. porque na medida em que o órgão controlador se desviasse de suas finalidades. [p. nas questões objeto da jurisprudência iterativa dos tribunais uma vez editada a súmula administrativa vinculante . ex-presidente do STF. defende uma reforma ampla. além de condenável.2003).a União Federal e as suas autarquias não mais insistirão em teses jurídicas rejeitadas pelo STF ou pelo STJ. o que constitui um atentado ao princípio da autonomia dos poderes e. . é controlar as decisões judiciais. enfim. que também visitou Rainha na prisão. A criação de um órgão controlador do Poder Judiciário levaria. traçaria as políticas administrativa e financeira do Judiciário. O disfarce caiu quando o deputado João Paulo Cunha. por via de conseqüência. porque o que se pretende com tal órgão. Ora.” Entre as causas estruturais podemos apontar a falta de um Conselho Nacional de Administração da Justiça. à criação de um outro órgão para controlar o controlador. como se apregoa com tanta veemência. estaria a requerer a existência de órgão que lhe fosse superior. controlaria o bom funcionamento da atividade judicial. Presidente da Câmara dos Deputados. formularia alternativas administrativas. ao próprio Estado Democrático de Direito. em nada contribuirá para o aprimoramento do Judiciário. ao menos enquanto se pretender que vivamos num Estado de Direito Democrático” (O Globo. O deputado Luiz Eduardo Greenhalgh. de maneira positiva. Esse órgão. admite que o Judiciário tem deficiências. Esse tipo de controle.

Enquanto não forem feitas as reformas necessárias. Os direitos. aumenta o perigo para todo o sistema democrático” (ob. se fundam no tripé integrados por sua consagração legislativa. criar-se um órgão que. provocando. Ed. mas existe uma notória disparidade entre este nível teórico e aquele que trata das instituições destinadas a efetivar essas soluções. senão a desnecessidade do órgão controlador.. portanto. a realização tardia dos objetivos da justiça ou até mesmo a sua ineficiência. pp. 146] A relação entre a estrutura institucional e as funções (manifestas e latentes) é indissolúvel: a estrutura indicará a sua capacidade de desempenho das funções manifestas. pela previsão dos meios para reclamá-los e pela estruturação do setor estatal que tome efetivas as reclamações. O insigne jurista Eugênio Raul Zaffaroni. cit. acertos e desacertos. 29 e 34). a ele se sobreponha? De que natureza seria esse órgão? Ou será mais um poder da República? São pontos a refletir e que evidenciam. e a busca de outros meios para se conseguir justiça. na medida em que sua debilidade e dependência não lhes permitem desempenhar eficazmente a função delimitadora que requer a consolidação do espaço democrático. as deficiências infraestruturais do Judiciário fatalmente continuarão acarretando o retardamento dos julgamentos. sobre os conflitos que comprometem direitos e sobre suas soluções e meios de preservá-las. Rev. em notável trabalho sobre o Poder Judiciário. a estrutura otimizada de uma instituição será sempre a que a capacite para melhor desempenho do que a ela será cometido. faz algumas colocações que merecem ser transcritas no encerramento deste capítulo: “Qualquer instituição deve cumprir determinadas funções e sua estrutura otimizada dependerá da clara atribuição prévia dessas funções. 21. e o grau de incapacidade para elas mesmas estará assinalando o cumprimento de funções latentes alijadas daquelas. freqüentemente de alto nível. a sua descaracterização institucional. 22. sem ter prerrogativas do Judiciário. [p. o desprestígio e a perda de confiança no Judiciário por parte da coletividade. Em síntese. as estruturas judiciárias latino-americanas são inadequadas para assumirem as demandas de uma democracia moderna. Temos elaborado complexas teorias. ainda menos definidos serão seus modelos estruturais. feita pelas próprias mãos. dos Tribunais. 147] . crise. a volta à justiça privada. Quando o que lhe é cometido não seja bem definido. [p. Na medida em que se amplia a distância entre a função latente ou real e as demandas sociais. quer dizer. de qualquer natureza. muitas vezes.Como. um dos maiores nomes do Direito Penal na América Latina.

Acreditamos já ter ficado demonstrada a importância da função desempenhada pelo juiz: decidir as causas que são levadas à sua apreciação. Julgar. pois na magistratura. porque ele a verga e a toma injusta a seu modo”.Capítulo XII SISTEMAS DE ESCOLHA DOS MAGISTRADOS Sistema eletivo. deve o juiz ser detentor de um caráter impoluto e de uma personalidade ajustável à função. mais que em outras instituições. 149] dei Magistrati. Aprimoramento do nosso sistema. para o exercício de uma função pública assim tão relevante. O sistema utilizado no Brasil. é preciso alguém altamente qualificado. e na próxima examinaremos as razões sociais das garantias constitucionais dos magistrados. p. Expressa ainda a relevância do tema o pensamento do Magistrado François Gorphe. tanto no aspecto técnico como no moral. “Com um juiz mau e injusto. Nesta parte trataremos dos sistemas de escolha dos magistrados. como tem sido dito. principalmente quando está em jogo a vida ou a liberdade de um ser humano. Evidentemente. Milão. constante dos anais do Primo Congresso Internazionale [p. Além de conhecedor do direito. 1959. o problema do pessoal condiciona os demais. uma lei boa de nada serve. é quase uma função divina. **** Dentro do tema examinado no capítulo anterior . até com um pouco de poesia. “Mais vale um juiz bom e prudente do que uma boa lei”. 65. tomo I. fazendo valer o direito aplicável ao caso. citado pelo Prof. Sistema do concurso público. diz o Código Geral da Suécia de 1734. Alcino Salazar: “A justiça vale o que valem os juízes. Perfil da magistratura brasileira.Instrumentos Humanos de Realização da Ordem Jurídica -.” . há ainda duas questões importantes a serem abordadas. dar a palavra final nos conflitos de interesse. Sistema da nomeação.

a norma jurídica tomar-se-á boa ou má. Surge então a questão: como escolher o magistrado? Qual o critério seletivo mais eficiente? Qualquer empresa de certo porte conhece a importância de se ter a pessoa certa no lugar certo e por isso gasta tempo e dinheiro na seleção e treinamento do seu pessoal. sobretudo da França e Portugal. o da nomeação e o do concurso público. a independência e a dignidade da magistratura. que escolhe os seus juízes. já não o fazem mais e têm-se aproximado dos estados da União Européia. Os países da antiga cortina de ferro. já que de uma boa seleção dependerão grandemente a eficiência. Rápido porque em um mesmo dia podem ser eleitos todos os juízes de um estado ou mesmo do país. rápido e pouco oneroso para os cofres públicos. que o adotavam. elogiável ou iníqua. 302). 150] Nos Estados Unidos. p. o que seria a função de julgar exerci da por alguém que não conheça o direito ou que não tenha os inerentes requisitos morais? Daí a importância sociológica da questão ora em exame. a Justiça Federal não adota o sistema eleitoral para escolha de seus juízes. Se até mesmo para o exercício das funções mais simples é indispensável ter certas qualificações profissionais e morais. Democrático porque é o próprio povo. lá existem quatro tipos de escolhas de juízes estaduais: a) nomeação pelo chefe do Executivo com prévia aprovação no Legislativo. em busca de orientação sobre critérios de seleção e formação de magistrados. Costuma-se apresentar como sua principal vantagem o fato de ser democrático. b) nomeação pelo . há três que procuraremos destacar: o da eleição. Pouco oneroso porque as despesas com uma campanha eleitoral correm normalmente por conta do candidato ou do seu partido. recaindo a escolha sobre aqueles que mereceram a preferência popular. tal como os membros do Legislativo. Na verdade. no exercício do soberano direito do voto. SISTEMA ELETIVO Dentre os vários sistemas existentes e adotados por diferentes países para a seleção dos seus magistrados. sob pena de se instituir o absurdo. 1970. Pelo sistema eletivo os magistrados são escolhidos através de votação direta.Em verdade. tal como os seus govemantes e legisladores. Lições de Direito Constitucional. E não são mais todos os 50 estados da Federação a adotarem o sistema de eleições diretas. 64. não tanto pelo seu conteúdo específico. O sistema de eleição para a Magistratura está em pleno desuso no mundo inteiro. porém antes e acima de tudo pela própria interpretação que o magistrado lhe imprimir (Rosah Russomano. produtiva ou prejudicial. [p.

ou encontrariam apoio particular à sua candidatura. a lealdade ao partido é uma virtude. Em termos de Brasil. é constantemente divulgado pela imprensa. referindo-se aos juízes eleitos. podendo ser reconduzidos ou reeleitos para o mesmo posto. Paris. d) eleição popular. SISTEMA DA NOMEAÇÃO Em alguns países os magistrados são escolhidos mediante livre nomeação do chefe do Executivo. e com isto desagrada muitas vezes os ricos e poderosos. o que a toma totalmente desaconselhável. mas no cargo de juiz. é um vício degradante. Com efeito. em razão das graves distorções que ocorrem na execução de uma eleição direta. ou teriam recursos para custeá-la. 1980. tomando-se impopular. c) eleição indireta pelo Legislativo. nem sempre se elegem os melhores. ali ficam até o final de seu mandato (que é variável). sem falar nos compromissos que terá que assumir com pessoas e grupos para conseguir eleger-se. sempre que tiver que decidir questões relevantes e de repercussão social. estará sujeito a todo tipo de pressões do seu eleitorado ou em nome dele. Deve dar ganho de causa a quem tiver direito. Não há promoções ou remoções. p. do chefe de polícia e dos administradores locais” (Institutiones Politiques. acreditamos que a eleição dos magistrados apresentaria graves inconvenientes. Max Weber também recorda o baixíssimo nível técnico desses juízes e o maior prestígio dos juízes federais. diz o seguinte: “No século XIX e no começo do XX os partidos americanos tomaram freqüentemente a forma de máquinas manipuladas por políticos desonestos que tratavam de assegurar a impunidade mediante a simultânea eleição do juiz.chefe do Executivo entre nomes constantes de lista formada por comissão independente de alto nível. Duverger. Mas se o juiz necessitar de votos para se eleger ou reeleger-se. Aponta-se como vantagem do sistema de nomeação o fato de ser rápido e . que são os que se conferem por eleições. É preciso lembrar que os juízes estaduais americanos não têm carreira: apontados ou eleitos para uma county (comarca). Além disso. Isso no Judiciário seria o caos. conforme já assinalado quando tratamos da escolha dos membros do Legislativo. 65. O juiz não pode procurar agradar a ninguém com suas decisões. descomprometimento de toda a sorte. Deve-se ainda levar em conta que a função de julgar é muito diferente da função política. 203).” O comprometimento [p. independência. Como bem argumenta Emílio Rabosa: “Nos postos de caráter político. os melhores nem sempre estariam dispostos a enfrentar os percalços de uma campanha eleitoral. Exige imparcialidade. 151] econômico dos parlamentares para financiar suas onerosas campanhas eleitorais. perdendo a imparcialidade e a segurança necessárias ao julgador.

pouco oneroso, visto que em um só listão podem ser nomeados tantos juízes quantos forem necessários. Há, todavia, tantos inconvenientes nessa forma de seleção que, se adotada em nosso país, geraria o caos. De todos é sabido que, quando vigora o critério da livre escolha pelo Executivo, só conseguem ser nomeados aqueles que possuem pistolão, amizades, conhecimentos etc. Disso resulta ser esse sistema antidemocrático, posto que não dá idênticas oportunidades a todos, beneficiando sempre os mesmos afilhados e apadrinhados. Por essas mesmas razões nunca se consegue escolher os melhores, já que os epistolados são sempre aqueles que menos qualidades possuem, procurando vencer na vida sem fazer força. E ainda que assim não fosse, quer dizer, mesmo que o chefe do Executivo estivesse empenhado sinceramente em escolher os melhores, dificilmente conseguiria porque, não sabendo quem são os melhores, teria que se valer da indicação dos seus assessores. E é evidente que, por mais fraco, incapaz e desqualificado que seja o pretendente, quem o indica sempre o apresenta como o melhor elemento do mundo - o mais honesto, inteligente, capaz, induzindo a erro o nomeante. A tudo isso se sobrepõe o fato de tirar o sistema da nomeação, a independência do juiz com relação àquele que o nomeou ou influenciou para a nomeação. Deixa o magistrado numa situação de subserviência ou pelo menos no dever de reconhecimento, prejudicial à função de julgar. A sua nomeação custar-lhe-á bastante caro e ser-lhe-á cobrada com juros e correção monetária, devidamente lembrada sempre que necessário.

66. SISTEMA DO CONCURSO PÚBLICO

O ingresso na magistratura por este sistema se faz através de concurso público de provas e títulos, preenchendo-se as vagas existentes com aqueles que melhor forem classificados. [p. 152] Tem como desvantagem o fato de ser demorado e bastante oneroso: exige uma comissão de alto nível para realizar o concurso e muito tempo no processo de inscrição, exame da documentação de cada candidato, aplicação e correção das provas escritas e realização das provas orais. Entretanto, oferece vantagens que nenhum outro sistema apresenta, dentre os quais podemos destacar:

1) É um sistema democrático, pois oferece iguais oportunidades a todos. Desde que o candidato preencha os requisitos estabelecidos no regulamento do

concurso, poderá inscrever-se e concorrer a uma vaga, seja ou não conhecido, de família ilustre ou humilde. 2) Enseja a escolha dos melhores, tanto do ponto de vista técnico e intelectual, como do moral. Ao fazer a inscrição, deverá o candidato juntar documentos que provem o preenchimento dos requisitos estabelecidos no regulamento do concurso.

Além do mais, são solicitadas informações sobre o concorrente a pessoas conhecidas no mundo jurídico e aos próprios órgãos oficiais, só sendo deferida a inscrição depois desse exame preliminar. As provas escritas, elaboradas por examinadores de alto nível, especialistas em cada matéria, são corrigi das sem identificação, de modo a evitar qualquer protecionismo. Somente concorrem às provas orais aqueles que não forem eliminados nas escritas; os aprovados nas provas escritas e orais terão computados então os pontos obtidos nos títulos, sendo nomeados os melhores classificados no cômputo geral dos pontos obtidos nas provas e títulos. Como se vê, com esse longo e rigoroso processo seletivo, é mais provável que se consiga escolher os melhores. Em terceiro lugar, destacamos que o sistema do concurso público apresenta ainda a vantagem de assegurar ao magistrado a necessária independência para julgar. Não tendo a sua nomeação dependido do prestígio ou influência de quem quer que seja, mas sim da sua própria capacidade, inteligência e esforço, não deve favores a ninguém, podendo decidir os conflitos de interesse que lhe vierem às mãos com total imparcialidade. Ninguém tem nada a lhe cobrar, mas muito a admirar, respeitar e confiar, em face da cultura que revelou possuir ao ser aprovado em rigoroso concurso seletivo. O concurso público é o sistema utilizado nos principais países da Europa, ora como meio para ingressar na escola da magistratura, ora para ingresso direto na carreira. [p. 153] Em Portugal, a seleção dos magistrados é feita por concurso público no excelente Centro de Estudos Judiciários, onde os aprovados são preparados por 23 meses, antes de assumirem a função judicante. Na França, os candidatos a juiz ingressam por concurso na École Nationale de Ia Magistrature, e ali recebem formação inicial de dois anos e sete meses. Na Itália, os pretendentes à Magistratura fazem provas escritas e orais disputadíssimas e, depois, seguem um curso de tirocínio de no mínimo seis meses, em Frascatti.

Na Espanha, com a sua pioneira Escuela Judicial, os aspirantes a juiz têm de se submeter a um concurso público de dissertação oral, e, em seguida, fazem um curso de dois anos em Barcelona. N a Alemanha, também não há eleição para juiz, nem concurso público. As nomeações levam em conta os graus obtidos nos exames finais das faculdades de Direito. Na Austrália, os juízes são escolhidos e nomeados pelo governador geral (representante da rainha), assessorado na escolha pelo Conselho Federal, entre nomes de pessoas altamente qualificadas. Deixando a Europa e indo para o Oriente, veremos que no Japão os futuros magistrados têm de vencer um vestibular rigorosíssimo no Instituto Jurídico de Treinamento, onde estudam por dois anos, após os quais, se aprovados, serão nomeados. Na verdade, o que se vê pelo mundo afora é uma grande preocupação com a seleção dos juízes e, tendo em vista a peculiaridade da função judicante, não se recomenda o processo eleitoral, mas sim o concurso público, que é tão democrático quanto as eleições.

67. O SISTEMA UTILIZADO NO BRASIL

O ingresso na magistratura de primeira instância, por força de dispositivo constitucional, no Brasil faz-se através de concurso público de provas e títulos, o que revela termos adotado o melhor sistema seletivo. A escolha dos magistrados integrantes dos tribunais superiores, entretanto, isto é, os Ministros do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal Militar, do Tribunal Superior do Trabalho e do Superior Tribunal de Justiça, são nomeados pelo Presidente da República, depois de aprovada a escolha pelo Senado Federal. Temos assim um sistema misto, integrado por concurso público de provas e títulos para a seleção dos magistrados de primeira instância, e [p. 154] por nomeação pelo Chefe do Executivo para os ministros dos tribunais superiores. Nos Tribunais de Justiça dos Estados, bem como nos de Alçada, um quinto dos membros são também escolhidos por nomeação do Chefe do Executivo Estadual (Governador), mediante lista tríplice organizada pelo respectivo Tribunal de Justiça; metade das vagas decorrentes do quinto são para candidatos oriundos da OAB, isto é, advogados militantes, e a outra metade para membros do Ministério Público, cujos órgãos superiores encaminham ao Tribunal de Justiça uma lista sêxtupla para a elaboração da lista tríplice. O objetivo do quinto é enriquecer os Tribunais de Justiça e de Alçada com elementos de destacada cultura jurídica e elevada envergadura moral, militantes dos quadros

do Ministério Público ou da OAB, trazendo para os referidos tribunais uma mentalidade mais eclética, o que lamentavelmente nem sempre ocorre em face das influências políticas que se verificam no momento do preenchimento das vagas que ocorrem.

68. APRIMORAMENTO DO NOSSO SISTEMA

Embora o sistema do concurso público seja o mais recomendável, conforme já exposto, comporta alguns aprimoramentos para permitir a formação de um quadro de magistrados mais eficiente. O juiz, na pureza desse sistema, tão logo aprovado no concurso e nomeado, assume imediatamente as suas funções e começa a despachar e decidir em centenas de processos, sem nunca dantes ter feito isso, encontrando uma série de dificuldades, perplexidades, dúvidas etc. Todos que já passaram por essa experiência sabem do que falamos. A experiência é ainda mais dolorosa quando o juiz, começando a sua carreira numa comarca lá do interior, fica praticamente sozinho, isolado, sem ter a quem recorrer para uma troca de idéias. Isso evidencia que, para o ingresso na magistratura, não é bastante o concurso de provas e títulos, que apenas apanha a formação cultural do candidato; mas não pode penetrar mais e aferir-lhe o pendor, a vocação, o interesse, a capacidade específica para judicar. A função do juiz, por outro lado, envolve uma série de outras atividades, principalmente no interior, onde é a principal autoridade da comarca, para as quais não foi preparado. O juiz mantém relacionamento com autoridades políticas (prefeito, vereadores), policiais (delegado) e com povo em geral, necessitando em todos esses contatos ser necessariamente hábil para, [p. 155] sem enfraquecer sua autoridade e sem se deixar envolver, portar-se com gentileza, educação, polidez. Nada disso ele aprende em concurso ou nos livros de direito, razão pela qual entendemos que, após o concurso e a nomeação, deveria existir um estágio profissional de pelo menos quatro meses. O novo juiz, além de assistir a palestras sobre matérias ou questões relacionadas com os mais variados aspectos do exercício de sua profissão, começaria a exercer a judicatura como auxiliar, ao lado de outro juiz mais experiente na comarca da capital. Nos meses de estágio o juiz passaria pelas principais varas (cível, criminal, família, juizados especiais), de modo a adquirir uma certa experiência em todas as áreas do direito, para depois enfrentar a atividade sozinho em sua comarca. Melhor do que isso, em nosso entender, seria uma escola judicial instituciona1izada de âmbito nacional que estabeleceria diretrizes, programas, políticas de

ensino e orientações a serem executadas por todas as escolas de magistratura estaduais e federais, com o que se conseguiria uma certa uniformidade na formação inicial dos magistrados do país. Essa escola nacional deveria também programar cursos de aperfeiçoamento para os magistrados mais antigos, como condição para a promoção por merecimento, cursos esses que poderiam ser ministrados nas sedes das escolas locais, de modo a facilitar a freqüência e reduzir os seus custos. A crescente expansão da atividade humana, a par de sua constante sofisticação, muito exige do juiz, a cuja decisão nenhuma parcela do complexo social é subtraída. É imperioso, portanto, que o juiz se especialize, se adestre e se prepare. O aperfeiçoamento ressalta a posição da ciência jurídica moderna pela ampliação dos poderes jurisdicionais, pois a insaciável diversificação do fazer humano e seus requintes tomam inaprisionável por regras fixas e rígidas a atuação jurisdiciona1 necessária à devida composição do litígio. Se o Judiciário se toma essencial à convivência social, se o seu papel será cada vez mais importante neste século XXI, somente com juízes à altura dessa missão teremos o Judiciário que a sociedade espera e exige. Destarte, sobretudo quando os novos juízes são cada vez mais jovens no mundo do civil law, quando os sistemas jurídicos passam por profundas mudanças legis1ativas e uma nova mentalidade se reclama, toma-se imprescindível investir na seleção e no aprimoramento dos magistrados, criando-se boas escolas nos moldes das admiráveis e válidas experiências que o mundo civilizado vem presenciando. O Congresso que reuniu magistrados em Roma, em 1958, concluiu pela recomendação de que se realizem promoções para aperfeiçoar o tirocí- [p. 156] nio judiciário, incentivando a pesquisa e o estudo, selecionando aptidões, estimulando a especialização técnica constantemente. Necessário se faz assinalar que no Brasil, após a Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar nº 135, de 14.03.1979), timidamente começamos a dar os primeiros passos nesse sentido. Algumas das disposições (arts. 78, § 1°; 80, § 1°, 11; e 87, § 1°) estabelecem que a lei poderá exigir dos candidatos, para a inscrição no concurso de ingresso à carreira, título de habilitação em curso oficial de preparação para a magistratura, e condicionar a promoção por merecimento à freqüência, com aprovação, em curso ministrado por escola oficial de aperfeiçoamento de magistrados. Timidamente, como se vê, pois a disposição legal não passou de uma simples sugestão para ser aplicada se, quando e onde for possível, já que nenhum recurso material ou dotação orçamentária foi criado para tal fim. A Constituição de 88 contém disposição idêntica no seu art. 93, n, c.

Graças ao esforço pertinaz da Associação Brasileira dos Magistrados, criou-se a Escola Superior da Magistratura, que já tem prestado relevantes serviços à magistratura brasileira com a realização de vários cursos de aprimoramento jurídico, assistidos por juízes de quase todos os estados. Esperamos que a feliz iniciativa continue a receber a simpatia e o apoio de todas as autoridades e instituições relacionadas com o Judiciário, até transformar-se na Escola Nacional da Magistratura Brasileira, com cursos de preparação e de aperfeiçoamento de magistrados, funcionando de forma estável e permanente. Tudo por uma magistratura melhor e mais independente. Registre-se, por derradeiro, que muito se avançou neste ponto no âmbito dos Estados. A maioria já criou a sua Escola da Magistratura, em alguns Estados com organização modelar e folha de serviços relevantes. A Escola da Magistratura do Rio de Janeiro (EMERJ) mantém um curso de preparação para o concurso de ingresso na magistratura de alta qualidade teórica e prática, ministrado em cinco semestres (dois anos e meio), durante os quais o aluno pode também estagiar nos diversos órgão julgadores (vara cível, criminal, família, juizados especiais, câmaras do Tribunal de Justiça), fazendo minutas de despachos, decisões, sentenças e participando de audiências, sempre orientado por um magistrado. Aos novos juízes, tão logo nomeados, a EMERJ ministra um curso de iniciação de quatro meses, com palestras e debates pela manhã, ministrados por magistrados e professores experientes, sobre os mais variados aspectos teóricos e práticos da função judicante; à tarde exercem a judicatura como juízes auxiliares em varas cíveis, criminais, de família e juizados especiais, um mês em cada lugar, sempre orientados pelos juízes titulares das respectivas varas. Desse [p. 157] modo os novos juízes conseguem assimilar boa experiência antes de irem exercer a judicatura nas comarcas do interior. Prossegue a atuação da EMERJ no estágio de vitaliciamento, durante os vinte meses seguintes. Além de acompanhados e orientados por um Conselho de Vitaliciamento, os juízes vitaliciandos assistem na EMERJ pelo menos um seminário por mês, de oito horas, sobre temas variados, jurídicos ou não, escolhidos por uma comissão de magistrados. Por último, a EMERJ ministra cursos de aperfeiçoamento aos magistrados em atendimento a uma resolução do Órgão Especial do Tribunal de Justiça que os instituiu como requisito à promoção ou remoção por merecimento. Dessa forma a EMERJ vem efetivamente participando da formação e aprimoramento dos magistrados fluminenses, desde a preparação para o concurso até chegarem a desembargador.

68.1. Perfil da Magistratura Brasileira

Pesquisa realizada pela Associação do Magistrados Brasileiros (AMB/IUPERJ), intitulada “O Magistrado e o Poder Judiciário - auto-análise para melhor servir” - revela que o sistema de concurso público democratiza a magistratura, permitindo que todos tenham as mesmas oportunidades e a escolha dos melhores. Eis os resultados: 56,4% dos juízes brasileiros (mais da metade) são oriundos de famílias simples, cujos pais só tinham o primeiro grau completo; 63,4% não têm nem mesmo promotores ou defensores na família; 52,2% são filhos de servidores públicos e 12,8% de funcionários de empresas, sendo que 25,8% destes correspondem a funções de baixa remuneração. A participação da mulher vem crescendo. Em 1985 apenas 16,8% dos aprovados nos concursos eram mulheres, dez anos depois o percentual subiu para 28,7%. Atualmente, o número de mulheres já é igual e até superior ao dos homens, o que evidencia que o concurso afasta qualquer tendência discriminatória, oferecendo à mulher reais condições de igualdade com o homem. O Centro de Estudo e Pesquisa da EMERJ levantou o perfil da Magistrada Fluminense, por meio de pesquisa intitulada “Quem Somos”, recentemente concluída. Os resultados discrepam em parte daqueles que foram obtidos na pesquisa AMB/IUPERJ. As questões referentes à origem social demonstram que os magistrados fluminenses, em sua maioria (53%), são filhos de pais com formação de nível superior. Quantos às profissões pater- [p. 158] nas, preponderam os da área jurídica, tais como advogados, membros do Ministério Público, Defensoria, Procuradoria e Magistratura (18,2%). Verificou-se também significativa presença de outros familiares dos magistrados nas áreas jurídicas, principalmente advogados (49,9%). Conclui-se que os magistrados fluminenses são predominantemente originários de famílias de padrão cultural e econômico elevado, em razão do Estado do Rio de Janeiro ser economicamente desenvolvido e, conseqüentemente, com maiores possibilidades de educação e trabalho. Entretanto, não se pode desprezar o número de magistrados oriundos de famílias de pouca escolaridade (23,6%) e atividades profissionais exercidas em setores considerados de baixa renda (17,4%). A participação da mulher na magistratura fluminense é mais expressiva que no âmbito nacional; entre os juízes 46,1%, entre os desembargadores 14,3%, o que evidencia uma crescente feminilização, fato relevante do ponto de vista sócio-cultural e da análise da mudança social.

Uma das mais constantes críticas à magistratura é a juvenilização dos seus quadros. Alega-se que os juízes estão ingressando cada vez mais jovens na magistratura, sem a maturidade e experiência indispensáveis para o exercício do cargo. Há até projeto no sentido de exigir um tempo mínimo de cinco ou mais anos de formado em Direito para se permitir a participação em concurso para juiz. Não se nega que o juiz tem que ter maturidade e experiência para exercer a magistratura; o que se questiona, entretanto, é que essas qualidades sejam necessariamente atributos da idade ou do tempo de formado. Há velhos imaturos e formados há muitos anos sem experiência alguma. A questão da maturidade e da experiência pode ser superada com vantagem pelas Escolas da Magistratura por meio dos cursos de preparação e estágio de vitaliciamento, cursos de aperfeiçoamento e outras providências. Por outro lado, as pesquisas revelam que a tal juvenilização não é assim tão grande. Apenas 11,6% dos magistrados brasileiros têm até 30 anos de idade; 35,5% estão na faixa de 31 a 40 anos; 31,5% entre 41 e 50 anos; 17,1% entre 51 e 60 anos; 4,7% entre 61 e 70 anos (pesquisa AMB/ IUPERJ). No Estado do Rio de Janeiro os números não discrepam neste ponto. Até 30 anos, 13,4%; de 31 a 40 anos, 32,8%; de 41 a 50 anos, 18,8%; de 51 a 60 anos, 20,2%; de 61 a 70anos, 13,5%. Nos últimos 10 anos a média de idade dos juízes fluminenses que ingressaram na carreira foi de 31,6 anos. O ingresso de jovens na magistratura tem como vantagem permitir ao juiz dedicar quarenta ou mais anos de efetivo trabalho à Justiça. A pesquisa realizada pela EMERJ revelou que a magistratura é a classe de servidores [p. 159] públicos que trabalha mais tempo e se aposenta mais tarde. A idade média de aposentadoria dos juízes é de 60 anos (entre os desembargadores 69 anos). O tempo médio de serviço dos juízes na época da aposentadoria é 41 anos (entre os desembargadores 48 anos). Mais de 15% dos juízes têm tempo para se aposentar, mas continuam trabalhando normalmente; entre os desembargadores 89% têm tempo para se aposentar, sendo que dos desembargadores que integram o Órgão Especial (os vinte e cinco mais antigos) 100% já poderiam estar aposentados. Os dados acima sublinham com veemência a integral e longa dedicação da magistratura ao serviço ativo, e que não tem como projeto profissional a aposentadoria. Levando-se ainda em conta o número de juízes que têm curso de pós-graduação (52,7%), sendo 21,0% de mestrado, 5,7% de doutorado e 18,4% de especialização, conclui-se que a magistrada fluminense é também detentora de elevado padrão jurídico. Em pesquisa divulgada pelo O Globo em 19.08.2000, o juiz brasileiro foi apresentado como tendo perfil conservador. Em outra pesquisa (O Globo de 17.08.2003),

culturais.6%. a razoabilidade. Cláusulas contratuais abusivas não podem prevalecer. na formação da decisão judicial. nem pode fazer uma revolução social com a caneta.agora realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). influenciam. A mesma norma recebe tratamento diferenciado de juízes e tribunais porque a decisão judicial . Sociais e Políticos de São Paulo (IDESC). a ponderação. O certo. entretanto. mais do que respeitar contratos. Extremamente complexo é o processo de formação de uma decisão judicial. 160] Veja-se que na pesquisa do IPEA as áreas em que os juízes defendem prioritariamente a questão social em detrimento dos contratos são. a1ertava Carlos Maximi1iano. senão norma jurídica interpretada. Circunstâncias pessoais. a partir da Constituição de 1988. a socialidade e a efetividade. produto do meio. Esse perfil foi considerado pela pesquisa como prejudicial à economia porque deixa os investidores temerosos. “inclina-se num ou noutro sentido de acordo com o seu temperamento. uma vez que 78% dos magistrados preferem basear suas decisões em questões ligadas à justiça social do que no respeito aos contratos. mas esse próprio pensamento é socializado. por mais preocupado que esteja com a justiça social. sociais. 83. tudo dependendo do ângulo pelo qual os resultados são analisados. os valores consagrados pela nova ordem jurídica brasileira: a eticidade. É por isso que se diz não existir norma jurídica.7% consideram que. realmente. 46. não mais admite o uso abusivo do direito de forma contrária aos seus fins sociais e econômicos. não pode estar avançando a seu tempo. Rio Grande do Sul e Distrito Federal. inclusive a opinião pública. Crê exprimir o que pensa. a justiça social deve prevalecer numa sentença. coordenada pelo Instituto de Estudos Econômicos. Mas o juiz. 54. ideológicas. o juiz brasileiro foi apresentado como tendo perfil liberal. o índice é de 70%. O indivíduo. à boa-fé e à equidade. previdência. [p. da hereditariedade e da educação. Quem tem razão? Ninguém. consciente ou inconscientemente. O nosso Direito. entre os magistrados de São Paulo. para o sociólogo esse mesmo juiz é conservador porque não adota integralmente os seus pontos de vista sobre a questão social.6%. Entre os juízes com menos de 40 anos.1%. as mais relevantes e necessárias: trabalhistas. seguida pelo Código do Consumidor e agora pelo novo Código Civil. 42. o juiz brasileiro é liberal porque contraria os seus interesses. é condicionado pelas relações sociais e exprime uma comunidade de propósitos”. Para o investidor e os agentes da área econômica em geral. é prevalecer o equilíbrio. Está correta a magistratura quando privilegia a justiça social porque essa é a ideologia. Não é apenas uma decorrência do conhecimento jurídico do magistrado. meio ambiente. Rio de Janeiro.

pondo-se a emitir juízos totalmente desvinculados da ordem jurídica que lhe incumbe preservar.3 in fine. como qualquer ser humano. até que ponto está subju1gado ao ordenamento jurídico em função de suas concepções pessoais? Essa é a grande questão. Isso permite ao juiz exercer o seu poder criador do Direito sem se afastar das diretrizes estabe1ecidas pela ordem jurídica. Se o juiz. por inteiro. nem conservador. pondera o Ministro Carlos Alberto Direito. mas sim suficientemente flexível para ajustar a lei às condições concretas da sociedade. “Não pode a justiça dar respostas mortas a perguntas vivas. livre e social” (“A Decisão Judicial”. . a sociedade não terá mais nem justiça nem liberdade. Deve consultar o seu sentimento ético com o cuidado de não se afastar demasiadamente dos sentimentos médios da sociedade em geral e da comunidade jurídica em particular. uma decisão humana. Deve o juiz obediência à lei mesmo que ela seja injusta? Já ficou destacado que o nosso sistema jurídico. na sua capacidade de julgar com esses elementos que participam da sua natureza racional. encastelando-se no formalismo. Neste ponto reportamo-nos ao que ficou dito no item 35. E sendo uma decisão humana. A decisão judicial é. emoções. crenças da pessoa humana investida do poder jurisdicional. 1999). está sob a influência condicionante de uma série de fatores subjetivos e objetivos que não podem ser evitados. deve dar eficaz aplicação à lei. o juiz não é livre para fazer prevalecer o seu sentimento particular de justiça a ponto de estrapolar a moldura da lei ou de modificar os seus parâmetros. sentimentos. REsp.-dez. porque justiça e liberdade estarão limitadas ao juízo de valor de um juiz ou tribunal. portanto. no domínio da ciência ou da técnica. razoabi1idade. mas também voz da sociedade. Em conclusão. n° 4. criando a justa regra jurídica para cada caso. RDR nº 15. embora fundado na lei. crenças. “ela não está. [p. força maior. eqüidade. set. para deixar de dizer o direito” (Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira. Se o juiz abandona esse cenário. 161] Nessa tarefa. como vimos. É nesse sentido que se diz ser o juiz um coautor com o legislador. como boa-fé. Por isso utiliza. uma decisão que está subordinada aos sentimentos. O homem existe porque ele é razão e emoções. E a independência do juiz está. não é inflexível.é. Ao mesmo tempo em que procura interpretar a consciência social. terá que ser um canal de comunicação entre a sociedade e o mundo jurídico. uma vez que o próprio legislador reconhece a impossibilidade de tudo ser nela previsto. ignorando a realidade social subjacente. órgão do Estado.983/91). conceitos jurídicos indeterminados e cláusulas gerais. vu1nerabi1idade. dignidade da pessoa humana. essencialmente. exatamente. portanto. o perfil do magistrado não deve ser avançado.

de fato . teria sido das grandes companhias petrolíferas. E. [p. a Defensoria Pública e o advogado. 163] Mas se Bodourian foi à falência. O ensino jurídico. no extremo oposto da França. de 16 de junho de 1976.Capítulo XIII RAZÕES SOCIAIS DAS GARANTIAS CONSTITUCIONAIS DOS MAGISTRADOS A vitaliciedade: objetivo. como o Ministério da Justiça insistisse. simplesmente. seus cheques sem fundo assolavam regularmente a praça. em sinal de solidariedade a Ceccaldi. onde se encontrava como juiz substituto. um domingo. e um de seus sócios seria preso mais tarde por tráfico de dólares falsos. Bodourian não era nenhum paradigma de honestidade. A inamovibilidade. A transferência de Ceccaldi. pequeno atacadista de óleo diesel para aquecimento domiciliar. O juiz. Abandonando a ensolarada cidade mediterrânea de Marselha. publicou a seguinte reportagem: Ao folhear o Diário Oficial francês do último dia 9 de maio.e envolvendo petróleo. Ceccaldi deveria assumir as funções de procurador público em Hazebrouck. A revista Veja. consternado. na primeira grande greve de juízes da história da França. 1. na semana passada. foi à falência em Marselha. Irredutibilidade de vencimentos. quando um certo Roger Bodourian. na verdade. corrupção e pressões políticas que. O Ministério Público. o caso acabou chegando aos jornais. vila de 18. Todas essas acusações. que acabava de ser transferido. como constataria mais tarde uma comissão de . que publicaram certos detalhes curiosos sobre os processos a cargo de Ceccaldi em Marselha. resolveu que não iria.000 habitantes perdida nas brumas da Normandia. o juiz Etienne Ceccaldi verificou. cujos dirigentes se reuniam periodicamente para elevar preços.300 membros do Sindicato da Magistratura cruzaram os braços. a culpa. Tão curiosos. começou em 1971. montar manobras de dumping. segundo ele. falsificar condições de concorrências públicas e outras falcatruas do gênero. sob o título “O caso Ceccaldi”.

Para desgraça do Ministério. graças à intervenção do prefeito socialista de Marselha. Em qualquer hipótese. Mas ficaram por isso mesmo. Bodourian tinha iniciado também um processo na Justiça marselhesa. Ceccaldi não tardou a convocar para depor 43 dirigentes das maiores empresas petrolíferas internacionais acusadas de abuso de poder econômico. E o caso foi justamente parar nas mãos de Ceccaldi. Em Marselha. E em 1974. Ao mesmo tempo. o Ministro da Justiça. Jean Lecanuet. com o caso Bodourian. inclusive Paris. 164] que bem entendesse em qualquer lugar da França. foi obrigado a entregar a seus superiores o processo . ele já se notabilizara naquela época como competente. A justiça deve ser distribuída de forma imparcial. com 39 anos. Obrigado na semana passada a aceitar a inédita humilhação de uma greve inteiramente ilegal. Nessas condições. mas impermeável a certas sutilezas da vida política. assegurando-se o . além de suas reclamações inúteis junto ao Ministério das Finanças. Logo no seu primeiro posto. voltaram às mãos do mesmo Ceccaldi. por exemplo. mas poderia escolher a promoção [p. examinou com tanta diligência um processo de prostituição.para que esquecesse numa gaveta qualquer o processo contra as companhias petrolíferas. Ceccaldi ignorou as inúmeras sugestões diretas e indiretas de seus superiores hierárquicos . chamado a Paris para uma reunião de doze horas no Ministério da Justiça. apenas em 1973 o presidente Valery Giscard d'Estaing. Para começar. parecia inclinado a tentar uma solução de compromisso. então Ministro das Finanças. Casado. Se não aceitasse. Transferido para Lyon. independentemente de quem esteja nos pólos da relação jurídica processual. obviamente. as forças que pressionaram por seu afastamento terão triunfado. Gaston Deferre. Ceccaldi seria efetivamente removido de Marselha. restaria apenas o recurso definitivo de ameaçá-lo com alguma remota possessão francesa de além-mar. porém. que acabou mandando prender dezenas de policiais .inclusive o delegado mais conhecido da cidade. sua atividade não seria mais tranqüila. em que estas se comprometiam a mudar seus métodos para salvaguarda da livre concorrência. O problema é que. eram absolutamente verídicas. condenou um influente político governista por fraude fiscal. O caso Ceccaldi coloca em destaque vários aspectos da função de julgar que merecem especial atenção. nada mais natural que um dia se visse transferido de Marselha para um outro lugar.várias delas misteriosamente fotocopiadas e reproduzidas nos jornais das últimas semanas .que logo depois. os autos foram miraculosamente encontrados quatro meses depois. continuando seu trabalho. Pior ainda. com quatro filhos. assinou um protocolo com as companhias petrolíferas.inquérito do Ministério das Finanças. se extraviou.dos juízes. porém.

consoante a qual. 69. não se deve subordinar a nenhum poder. indispensável é. acima de tudo. não pode perder o cargo a não ser por decisão judicial. p. [p. em princípio. e sua independência como Poder. 165] Em sua aplicação na vida cotidiana. ao interpretar e aplicar a lei. ou Estadual (Presidente da . política ou economicamente poderoso. Isto quer dizer que em hipótese alguma o chefe do Executivo Federal. de acordo com a ordem jurídica existente. não são para favorecer o juiz. a fortalecer a independência funcional do Poder Judiciário. Por outro lado. 304). a sua conduta. Visam. consubstanciadas na vitaliciedade. bem como a integridade do regime democrático. a seu turno. sem aparato material para fazer cumprir suas decisões. portanto. mesmo de longe e veladamente. privilégios ou regalias da magistratura como muitos pensam. representa o alicerce sobre o qual se erige a independência jurídica do juiz. de um lado da demanda está alguém influente. que permaneça intocável a qualquer coação. que nem sempre os pratos da balança da justiça têm peso igual. se essa pressão puder ser feita sobre o julgador. A VITALICIEDADE O juiz. 1970. o Judiciário é um poder desarmado. Para que. Evidente que. ainda que seja o Presidente da República ou o Governador do Estado. Nenhuma autoridade ou potentado poderá ter meios de intimidá-lo ou de nortear. o juiz possa fazê-lo em sã consciência. capaz de forçar uma decisão favorável ainda que o direito lhe seja totalmente contrário.pleno exercício de qualquer direito a todo aquele que efetivamente o tiver. a justiça não passará de uma farsa e toda a ordem jurídica ficará comprometida. Às vezes. Essas garantias. muito embora tenham elas que prevalecer sobre a decisão de qualquer outra autoridade. Surge então a questão: Como propiciar ao Judiciário as condições necessárias para julgar com imparcialidade e dar às suas decisões a força indispensável para que sejam cumpridas? A força do Judiciário no Brasil. Lições de Direito Constitucional. na inamovibilidade e na irredutibilidade de vencimentos. Acontece. entretanto. pelo seu conteúdo e pela sua finalidade. Esta independência. no exercício de suas atribuições. mas sim para tomar efetiva e eficiente a função de julgar. ele não se deve submeter a nenhuma autoridade. Os demais poderes estatais não podem ter sequer a possibilidade de exercer uma atuação indevida na órbita em que o magistrado atua. vêm das garantias que a Constituição lhe confere. salvo à força e ao prestígio da própria Lei” (Rosah Russomano. que se ache liberto de qualquer pressão. “essas garantias traduzem a independência de ordem política que o juiz deve auferir.

A INAMOVIBILIDADE O juiz não pode ser removido compulsoriamente de sua sede de atividade (comarca e vara). desde que. [p.1. por contraste. Se isso pudesse ocorrer com o Judiciário. e a Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar nº 35. a qualquer título. Ninguém poderá ameaçá-lo por ser correto e fiel no exercício da sua função. no fato de certas autoridades dos mais elevados escalões. por mais absurdas ou arbitrárias que sejam. salvo por motivo de interesse público e pelo voto de dois terços dos membros do seu Tribunal.03. 93. somente o Tribunal a que o mesmo estiver vinculado. 166] A importância dessa garantia pode ser constatada. de 14. visto que passou a ser adquirida somente depois de dois anos de exercício da magistratura (estágio confirmatório) e as hipóteses de perda do cargo tornaram-se mais numerosas. salvo um cargo de magistério superior. . e o exercício de atividade político-partidária. voltaríamos aos tempos medievais e a justiça não funcionaria. 69. seja a sua decisão contra quem for. De acordo com o art. O Objetivo da Vitaliciedade A razão ou objetivo da vitaliciedade é dar ao magistrado a segurança e tranqüilidade necessárias para que possa julgar sem sofrer qualquer pressão quanto ao seu cargo. a vitaliciedade ficou um pouco mais limitada. Tratando-se de juiz. Seguro está o juiz de que. letras a e c da referida lei. Após a Emenda Constitucional n° 7. o magistrado pode perder o cargo em virtude do exercício de qualquer outra função. 70. I e parágrafo único. poderá decretar a perda do cargo. VIII. recebimento. ainda assim por decisão de dois terços dos membros. a demissão seja precedida de inquérito administrativo para apurar falta grave.República ou Governador) pode demitir um magistrado.arts. item II. integrantes de outros poderes. 26. 95. neste último caso. jamais virá a perder o cargo. muito embora possa fazer isso com relação a qualquer funcionário público. de abril de 1977. de percentagens ou custas nos processos de sua competência. A Constituição de 88 dispõe no mesmo sentido . simplesmente para não perderem o chamado “cargo de confiança”. submeterem-se a todas as ordens ou decisões dos seus superiores hierárquicos. ainda que estável. por julgar com imparcialidade e honestidade.1979).

Nem mesmo é obrigado a aceitar uma promoção que implique em sua transferência. A remoção do juiz. às vezes maior que os próprios vencimentos e que já passou a integrar o seu orçamento. como sói acontecer em outros segmentos da administração. e passa anos e anos até chegar às comarcas de entrância mais elevada ou à capital. não pode ser transferido do lugar onde exerce as suas funções. O juiz. se os vencimentos dos magistrados não forem corrigidos monetariamente nos mesmos índices inflacionários. Tal como a vitaliciedade. esperamos que não volte a sê-lo. sempre ocupando os melhores e mais elevados postos os que mais dispostos estivessem a fazer tudo o que o “patrão” ordenar (e não a lei). bastará que não se corrija adequadamente os vencimentos dos juízes para que em poucos anos estejam com os salários aviltados. A partir da Constituição de 88 os vencimentos do funcionalismo em geral passaram também a ser irredutíveis. uma das formas mais eficazes de tirar a segurança e independência de quem quer que seja. significa castigo tão violento quanto uma demissão. Às vezes a transferência de uma cidade para outra. Se fosse possível pressioná-lo com uma transferência compulsória para que viesse a julgar dessa ou daquela forma. 167] Com relação aos magistrados. a inamovibilidade destina-se a garantir o exercício da função de julgar. entretanto. numa completa dependência econômica do Executivo. começa a sua carreira nas pequenas e longínquas comarcas do interior. com fatais seqüelas para a sociedade. só pode ocorrer com o seu assentimento expressamente manifestado. acabariam a segurança. 71. A justiça passaria a ser uma barganha de lugares.Significa dizer que o magistrado. muito embora estejam sujeitos aos impostos gerais e extraordinários. ou da capital para o interior. A IRREDUTIBILIDADE DE VENCIMENTOS Os vencimentos dos magistrados não podem ser reduzidos. Num país inflacionário como o nosso até bem pouco tempo. cumpre assinalar que a inflação pode fazer da irredutibilidade uma garantia totalmente irrisória. diferentemente de qualquer outro funcionário público. [p. normalmente. a irredutibilidade tem por objetivo não sujeitá-los a qualquer tipo de pressão econômica. a tranqüilidade e a imparcialidade do magistrado. salvo na hipótese de interesse público. Todos os que exercem “função gratificada” sabem perfeitamente a que um servidor público se sujeita para não perder a gratificação. ou premiar outro com a remoção para um lugar melhor como meio de obter uma decisão favorável. Nesse particular. .

o juiz que se verga a interesses o faz não por falta de garantias. em seu tempo de fastígio. da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo: “Raramente na vida política brasileira. a independência da magistratura é necessária para o povo. a independência da magistratura. sendo esta. . simplesmente por ser inócuo proibir reduzir o que já nasceu reduzido. Ele conservará a peculiaridade. uma necessidade da liberdade individual. que seus vencimentos sejam compatíveis com as elevadas funções que exerce e a pesada responsabilidade que sobre ele pesa. que precisa de juízes imparciais para harmonização pacífica e justa dos conflitos de direito. Com isto. tem sido tão necessário e urgente entender. condição indispensável à proteção dos direitos humanos e à integralidade do próprio regime democrático. em sua preciosa obra O Poder dos Juízes (Editora Saraiva. mas perderá a autonomia e a proeminência arbitral. por isso mesmo. que as garantias constitucionais dos magistrados destinam-se. Não se pode perder de vista. No Brasil. 23.08. em última instância. não hesitou em suspendê-la.2000). só reforçou. pode-se afirmar que os juízes têm obrigação de defender sua independência. Resumindo todas as considerações atrás expendidas. com o indisfarçado intuito de transformá-los em dóceis instrumentos de proteção às políticas governamentais. A rigor. como estorvo ao programa de supressão das liberdades individuais. agem de modo subreptício e. porém. 1996) acentua: “Longe de ser um privilégio para os juízes. mais deletério: solapam a dignidade dos juízes. o Legislativo e Executivo. pois sem esta a atividade jurisdicional pode. pois caso contrário nada significará a irredutibilidade. a autoridade do Poder Judiciário na consciência dos cidadãos. ainda que mantida a aparên.[p. O professor Dalmo de Abreu Dalari. inamovibilidade e irredutibilidade salarial. ser reduzida a uma farsa.” A isto acrescentou o jurista Raymundo Faoro quando ainda presidente da OAB: “O maior risco à integridade do Judiciário será convertê-lo em organização burocrática. mas por falta de caráter” ( O Globo.Necessário se faz também. 168] cia de aparelhamento constitucional. para que o juiz não sofra pressões econômicas. O regime militar. o Professor Fábio Konder Comparato. facilmente. entretanto. por sua vez. Agora.” Por último. com a colaboração reprovável de altos tribunais. pois tem independência. a firme e autorizada posição de um dos mais consagrados juristas da atualidade. poderíamos concluir com as palavras do Ministro Carlos Mário Velloso: “O juiz brasileiro tem tudo para julgar do acordo com sua consciência. uma fachada nobre para ocultar do povo a realidade das discriminações e das injustiças. tal como hoje. a assegurar a independência do Judiciário. paradoxalmente. para representar interesses que essa própria estrutura organizacional lhe infundirá. em seu pleno sentido axiológico e funcional.

outros elementos humanos atuam na ordem jurídica. eficientes. Seria um verdadeiro escárnio se o nosso País. sem os quais não se pode fazer uma boa e regular distribuição da justiça. A Defensoria Pública é outra instituição da maior relevância para a boa aplicação do direito. no inciso LXXIV desse mesmo artigo. a forma de selecionar os seus membros. o defensor dos seus direitos. desse às novas gerações de brasileiros. 169] maior importância social estabelecer as suas prerrogativas ou garantias legais. Por fim. na forma do art. merecendo real destaque o Ministério Público. O objeto deste singelo trabalho não comporta maiores considerações a respeito. 5°. o art. em processo judicial ou administrativo. incumbem a orientação jurídica e a defesa. mesmo que contra os poderosos e influentes. O MINISTÉRIO PÚBLICO. portanto. Sem dúvida. com a supressão prática de um Judiciário independente. como instituição essencial à função jurisdicional do Estado. o triste espetáculo de uma involução institucional na defesa da dignidade humana” (Artigo intitulado “Juízes Independentes ou Funcionários Subordinados?”). Com efeito. LXXIV. a Defensoria Pública e o Advogado. O Estado do Rio de Janeiro foi o primeiro a organizar a Defensoria Pública. em todos os graus. a Constituição impõe ao Estado o dever de prestar assistência jurídica integral e gratuita aos que provarem insuficiência de recursos. razão pela qual. do art. Reveste-se. da [p. a assistência judiciária está entre esses meios e recursos. cuja existência tem base constitucional. 5° da Constituição assegura o contraditório e a ampla defesa aos litigantes em geral. 72. basta lembrar que a sua função é altamente social pois é o advogado da sociedade. dos necessitados. a Defensoria Pública do Rio . A DEFENSORIA PÚBLICA E O ADVOGADO Além dos magistrados. cuja estrutura administrativa tem servido de modelo para outros Estados. para que possa atuar também com segurança e independência.“Ninguém ignora que a independência da magistratura é uma das mais importantes garantias do sistema de proteção aos direitos humanos. o inciso LV. com os meios e recursos a ela inerentes. razão pela qual limitamo-nos a dizer que todas as questões levantadas em tomo do Judiciário são também pertinentes aos demais instrumentos humanos que atuam na ordem jurídica e merecem idêntica atenção. Com relação ao Ministério Público. quando não atua como simples fiscal da lei. 134 da mesma Constituição estipula que à Defensoria Pública. para que sejam preparados. A despeito da sua dificuldade orçamentária e da má vontade de alguns governos. exatamente no cinqüentenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

E o problema já vem do ensino fundamental. Quando o assunto é .2000). é um paradoxo que a União tenha celebrado convenções internacionais com Holanda. ela não tem condições de defender nem os interesses dos cidadãos brasileiros mais necessitados (O Globo. sem o que o funcionamento do Judiciário seria impossível em certas áreas e lugares. desde que a reforma não fique no papel. Dos 1. 74% tiveram notas abaixo de 40 numa escala de zero a cem. seguem o mesmo exemplo: oito não criaram defensorias e. A defesa dos necessitados é uma tarefa que a União sempre se recusou a cumprir. A Defensoria Pública não funciona melhor por falta de disposição política do Executivo e entraves burocráticos. Já fiz parte desse grupo. Lamentavelmente. elas funcionam precariamente. 14. O ENSINO JURÍDICO Quanto ao advogado.08. A crise é muito mais profunda. assistência a crianças e adolescentes. Bélgica e Argentina. 59% dos estudantes brasileiros não conseguem ler mais do que frases simples. é até apontado como o grande responsável pelo rebaixamento do nível profissional das carreiras jurídicas. com raras exceções. Cerca de 70% dos processos da área criminal e 50% das varas de família são patrocinados pela Defensoria Pública. Ao concluir a 4ª série do ensino fundamental. população carcerária. O último Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM).vem prestando extraordinário serviço às comunidades carentes. Tem ela ainda importante atuação na defesa dos direitos humanos e dos consumidores. mas hoje penso diferente. temos como certo que uma das questões de maior relevância diz respeito ao seu preparo profissional. Menos de 1% dos alunos das escolas públicas conseguiu tirar mais de 70 (O Globo. [p. em outros. 73. 170] Fala-se no momento que a Defensoria Pública é um dos itens prioritários da reforma do Judiciário. Pela deficiência de quadros. O ensino do direito em nosso país tem sido duramente criticado nas últimas décadas. ex-presidente do Supremo Tribunal Federal. cujo resultado foi divulgado em novembro de 2002. pelas quais se compromete a dar assistência jurídica gratuita aos cidadãos desses países por meio da Defensoria Pública. lamenta o desinteresse do poder público pela Defensoria Pública. a Defensoria Pública não passa de uma ficção em nível federal.3 milhões de estudantes que fizeram o ENEM. vítimas de maus tratos. não obstante os dispositivos constitucionais existentes. reprovou o ensino médio no país. Para ele.2002). O Ministro Celso de Mello. 13. o que será muito bom. Os estados também.11. E aí está outra grave causa da morosidade da justiça.

04. 171] anos é analfabeta funcional: sabe ler as palavras. onde as coisas acontecem.2003) com base em dados do Sistema de Avaliação do Ensino Básico desde 1995. atrás do México e da Letônia. ficou em último lugar. Salvador.pesquisa feita entre os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. a formação deficiente dos professores é a principal causa desse vexame. considerada uma das maiores autoridades do assunto na América Latina e Professora da Universidade de Minas Gerais. também não se pode ministrar um curso superior de alto nível a quem não tem sólida formação educacional média e fundamental. Entre os que tiveram resultado adequado à sua série. Esse é o diagnóstico da educação brasileira apresentada pelo próprio Ministério da Educação (22.05. principalmente nas escolas públicas. mas principalmente o magistério e as . Em resumo. O fracasso do ensino médio e fundamental em nosso país prejudica a formação de todas as profissões que exigem nível universitário. O Brasil ficou em último lugar no Pisa2000 . mas é incapaz de decodificar seus significados. Indagariam os leitores: mas o que o ensino fundamental e médio tem a ver com o ensino jurídico? Tem tudo a ver. 25. Entre os estudantes de 4a série. O foco deve ser em cima dos responsáveis pela transmissão do conhecimento: os professores.2003). Na visão da doutora em educação Magda Soares.2003).4% dos alunos estão no nível adequado para a série. O ensino superior é o acabamento de um processo educativo que começa no berço. No fim do ensino fundamental. “A raiz do problema está na sala de aula. como já salientado. 98% dos que tiveram avaliações consideradas muito críticas estudam em escolas públicas. Só 4.Programa Internacional de Avaliação de Estudantes . que analisou o nível de compreensão leitora (letramento) de alunos secundaristas de 32 países. além de incentivar esses profissionais com o pagamento de salários dignos e justos” (Entrevista ao jornal A Tarde. É lá que os professores têm que desenvolver nos alunos as habilidades para compreender textos e utilizar conhecimentos adquiridos.04. levou a outro resultado alarmante. E assim como não se pode colocar telhado onde não há alicerce nem paredes. 60% dos alunos com avaliação adequada estão em escolas particulares e 98% daqueles com resultados muito críticos estudam em escolas públicas (O Globo. 52% deles mal consegue decifrar uma operação simples de somar ou subtrair. 23. Deve-se investir na formação dos educadores. Esse baixo desempenho do nosso ensino fundamental e médio. O Brasil. 44% estavam em escolas privadas.matemática. promover constantemente cursos de atualização e reciclagem. a maioria dos jovens brasileiros entre 15 e 16 [p. Os fatores convergem para esse ponto comum.

carreiras jurídicas (Magistrados. pois o direito. dos aprovados em concursos públicos. senão único. Mais que as outras. embora seja [p. não se sinta perdido e incapaz de dar os primeiros passos na vida forense. Tanto é assim que. Como não há vantagem alguma em se usar um método exclusivamente prático nem outro predominantemente teórico. segundo os técnicos em educação. Defensores e Advogados). são desenvolvidas entre os 4 e 10 anos. por melhor que seja o ensino jurídico. que tem produzido resultados satisfatórios. O curso de Direito não visa preparar o rábula. se instaura um processo mais ou menos constante de revisão legislativa. de modo a privilegiar mais íntimo entrelaçamento entre a teoria e a prática. Quando. ao sair da faculdade. é eminentemente prático quanto ao fim. Procuradores. ainda que excelente. entendemos ser necessária uma mudança metodológica. nem o jurista esotérico afastado da realidade: deve ser suficientemente teórico para insuflar no discente o conhecimento geral da ciência jurídica. de tal forma que se transmita uma cultura jurídica suscetível de ser revogada por uma lei nova. iniciativa da maior relevância. a maioria cursou o fundamental e o médio em boas escolas particulares. precisam ter tirocínio e raciocínio. dotados de um sentido de permanência. no Direito consagrado. E a leitura e a escrita. cumpre pois.” . compreender e usar aquilo que se lê. essas profissões dependem do completo domínio da língua. dizer o que as coisas são). No que diz respeito ao ensino do Direito. 172] uma ciência teórica quanto ao modo de estudar e saber. Ministério Público. Logo. objetivo válido da preparação científica e profissional do advogado (entendida a expressão em sentido amplo e não apenas forense) é o do relacionamento entre a lei e a realidade social. acentuou o Prof. sempre que possível. perde sentido o preparo. não se pode conseguir ótimos resultados se a formação do estudante no primeiro e segundo graus foi deficiente. O verdadeiro. Caio Tácito: “Numa sociedade estável é compreensível que os professores de Direito se limitem a preparar os alunos mediante estudos sistemáticos dos institutos e normas existentes. sendo muito difícil depois disso recuperar essa capacidade. Para suprir a deficiência muitos cursos de Direito incluíram em seus currículos o estudo do português jurídico (linguagem argumentativa que ensina a organizar o pensamento para. capacidade de ler. familiarizando o jurista com os pressupostos da norma jurídica e habilitando-o a solucionar e compor as controvérsias e os conflitos de interesses. Com muita propriedade. e suficientemente prático para que o bacharel. exprimindo as alternativas de transformação da sociedade que o Direito disciplina. propriamente dito. de forma lógica e coerente. porém. harmonizar o ensino teórico com o prático.

” Cremos que. É preciso ensinar-lhes a pescar. fixar princípios através do exame de casos atuais. rápida e equilibrada. que vem a propósito de tudo aquilo que até aqui se afirmou: “Dá um peixe a um homem e matarás a sua fome por um dia. como vem fazendo o ensino jurídico tradicional.Em suma. mediante informações e conhecimentos. dando tratamento jurídico aos fenômenos sociais. preparados para enfrentar até mesmo o imprevisível em face da rapidez com que as normas jurídicas tendem a se modificar. por sua clareza. e não simplesmente o domínio do direito positivo e da doutrina jurídica. lembrado pelo Prof. Dessa forma poderemos ter advogados competentes. e a justiça poderá ser distribuída de forma mais eficiente. . Gabriel Lacerda. preparar o estudante para resolver problemas. mediante um ensino teórico e prático que os capacite efetivamente para o exercício da advocacia. o provérbio dispensa maiores comentários. o alvo da educação atual deve ser a conquista do raciocínio jurídico. Há um provérbio chinês. Não basta fornecer peixes aos alunos ou indicar-lhes o mar. ensina-o a pescar e o alimentarás para o resto da vida.

desde logo. 1973. 74. A. formando afirmações de natureza majoritária ou predominante. podemos afirmar que opinião pública é o pensamento predominante do grupo sobre uma determinada pessoa ou questão. apresentam certos traços gerais e algumas tendências uniformes. não existe uma opinião pública.. A opinião pública sobre o direito e sua utilidade social. O sentimento coletivo de justiça. de Miranda Rosa em sua obra Sociologia do Direito (2ª ed. como muito bem observou F. Essas correntes de opinião. concorrentes ou divergentes. O poder da mídia na formação da opinião pública. Importância da opinião pública.Capítulo XIV A OPINIÃO PÚBLICA Concepção de opinião pública. p. mas sim o resultado mais ou menos estabilizado dos processos sociais gerais. [p. A opinião pública sobre as instituições jurídicas. coexistentes sem conflito ou contraditórias em graus diversos. assinalar que se trata de algo extremamente impreciso e mutável aquilo que se denomina opinião pública. A rigor. nem sua síntese. Cumpre. **** Chegamos agora ao terceiro item da classificação proposta por Renato Treves para o objeto da Sociologia Jurídica: Estudo da Opinião Pública sobre o Direito e suas Instituições. entretanto. CONCEPÇÃO DE OPINIÃO PÚBLICA De forma simples e sintética. É o juízo coletivo adotado e exteriorizado por um grupo. . 157). mas sim diversas correntes de opinião. 175] Esse pensamento coletivo a que nos referimos não é a soma de todas as opiniões particulares. compondo um universo de opiniões que se manifestam em determinado momento e lugar.

o coletivo. por Síntese. uma natureza de ordem psicológica. da formulação de G. já que só se pode somar quantidades homogêneas. Exemplo: na formação da água (H20). quando em grupo. Mas se estiver em um teatro ou cinema e escutar alguém gritar [p. o oxigênio e o hidrogênio deixam de existir como substâncias isoladas a partir do momento da síntese. indagava. Se alguém estiver sozinho em casa e observar que algo está pegando fogo. isso não ocorre na síntese social. Em razão de determinados processos sociais. as parcelas e o resultado têm de ser da mesma natureza. Os elementos componentes seriam de natureza psicológica. Ora. Isso evidencia. A sociedade seria. o comportamento do indivíduo. mas o seu conjunto. daria um composto novo e diferente . apenas formam uma realidade nova . ao propor a substituição da palavra Soma. como soma. e. portanto. tomada de empréstimo à terminologia química. do revolucionário etc. não anula a vida individual. que o coletivo não é a soma dos indivíduos nem é a síntese de todos: é um novo produto. a realização da síntese anula e faz desaparecerem os elementos componentes. resultado mais ou menos estabilizado dos processos sociais gerais. Tarde. Tudo que atrás ficou exposto pode ser claramente constatado mediante simples comparação entre o comportamento individual e o coletivo. À essa tese psicológica e nominalista se opunha Durkheim. que em muitos casos se conserva tão independente que pode assumir figuras variadas do anti-social. como . Se tirarmos os indivíduos da sociedade. Os indivíduos formadores da sociedade não desaparecem. a sua síntese. Para Tarde. toma-se falha quando levada a exageros. como os elementos de que se compõe. do gênio.Ocorre com a opinião pública algo semelhante ao que ocorre entre a sociedade e o indivíduo.o Coletivo. o que restará? Ele próprio responde: nada. Embora a idéia de síntese não deixe de ser verdadeira. imediatamente ocorrerá um tumulto tão grande e desesperado que acabará ferindo e matando mais gente atropelada e pisoteada do que queimada pelo próprio fogo.o Social. levando-o a fazer coisas de que jamais se imaginou capaz. no comum das circunstâncias. uma nova realidade. pois. Salvo hipóteses excepcionais de massificação coletiva. para darem lugar à água. a sociedade não passa de mera soma de consciências individuais. como o de amarrar um mendigo ao poste e matá-lo a pauladas. 176] “fogo”. Na química. normalmente se empenhará em apagá-lo buscando auxílio de outras pessoas. pode mudar profundamente. como no caso do delinqüente. A multidão em tumulto é capaz de cometer os mais hediondos crimes. um modo de ser adjetivo derivado da vida individual.

até então. que se exercem pelo Executivo. vai se formando a opinião pública. trabalho. e os poderes de natureza econômica e sociológica. coisa semelhante ocorre com a opinião pública: não é a soma nem a síntese da opinião de todos: é um novo produto. uma nova realidade. 286) explica o mesmo fenômeno falando em reação circular. consciente ou inconscientemente. via de regra. às influências dos demais. provoca uma espiral ascendente e de dimensões crescentes. Conforme já assinalado. 74. Representa a tendência geral. 13ª ed. ao determinar respostas também recíprocas. [p.1. não só porque o . assim. 223-224). de qualquer tipo. O Poder da Mídia na Formação da Opinião Pública Como se forma a opinião pública? Quais os instrumentos eficazes para esse fim? A formação da opinião pública. comunicando-lhe e intensificando o processo de estimulação que se repete.. a mídia como um todo. é o grande formador da opinião pública.aconteceu anos atrás em um subúrbio do Grande Rio. exerceu e recebeu dos demais. muito embora fossem todos os componentes do grupo pessoas pacatas e de comportamento. é um processo lento de sedimentação da vontade popular. transformam-se em conversação quase que diária. p. que se sensibiliza por algum motivo. Porto Alegre. Idéias. pp.). um poder em sua concepção sociológica. sem dúvida. implica que cada um dos indivíduos em apreço responde. Legislativo e Judiciário. 177] No que diz respeito aos instrumentos. Trata-se em última instância de uma reciprocidade de estimulação que. É que o comportamento coletivo. consciente ou inconscientemente. a imprensa escrita e falada. Tal é a sua força que até é chamada de quarto poder. O Poder tem várias formas: os poderes constitucionalmente instalados. implica que o comportamento de cada indivíduo que dele participa não está inteiramente sob controle individual. condutas e informações são lançadas na coletividade. irrepreensível. E Willems (Dicionário de Sociologia. escola etc. um modo de ser decorrente da opinião de cada indivíduo e das influências que cada um. A mídia é. mas não é necessariamente a opinião de todos os membros nem a opinião de qualquer pessoa em particular. que vão se sedimentando e. Globo. nas palavras de Donald Pierson (Teoria e Pesquisa em Sociologia. que é uma forma de estimulação recíproca pela qual a reação de um indivíduo reproduz o estímulo que recebeu de outro indivíduo. começam os comentários no círculo primário (família.

até os mais longínquos pontos do país. “é a um tempo criadora e modificadora poderosa do comportamento social”. pode-se dizer que o jornalismo brasileiro evoluiu nos últimos dez anos e muito contribuiu para a fiscalização da gestão pública. podemos não somente fazer que os outros façam o que queremos. dos Tribunais. e isso faz com que a informação nem sempre seja fidedigna e confiável. Costuma-se dizer que existem três formas de poder efetivo: o poder de punir. escreve com propriedade Carneiro Leão (Fundamentos da Sociologia. Rev. [p. A forma implícita é a mais grave porque o comentário acaba virando notícia. p. porque tem o poder de condicionar. cultos e ignorantes. explícita ou implicitamente. persuasiva. Ed. Baseada na importância que dão todos à crítica. Poder que penetra nas casas. No mínimo vem embalada da maneira que melhor atinja os interesses dos detentores do poder. ao desejo inato de conquistar aprovação e simpatia. ricos e pobres. Observa Ana Lúcia Sabadell que a mídia. sem contestação. muitas vezes. é tratada de tal forma que já vem comentada. Pois esse é o poder da mídia. além daquele estritamente jornalístico. premiando. A mídia sempre esteve próxima do poder estatal e econômico. 5ª ed. E ainda convencidos de estarem pensando por si próprios. no que se refere à Justiça e seu funcionamento. no seio das famílias. IMPORTÂNCIA DA OPINIÃO PÚBLICA “A opinião pública”. Entretanto. 178] 75. 181). contribuindo decisivamente para que ela se torne cada vez mais transparente. a opinião pública. tornando-se mercadoria. pode-se fazer com que alguém faça o que deve ser feito. condicionando. Dessa maneira a notícia acaba. Há até quem fale em liberdade de empresa e não em liberdade de imprensa. colorida. nos países de livre manifestação de .poderoso sistema de comunicação de massa possa eventualmente derrubar um mandatário político. o poder de premiar e o poder de condicionar. também podemos levar as pessoas a fazer o que queremos. o que contribui para a formação de uma opinião estereotipada e sensacionalista (Manual de Sociologia Jurídica. 175). por meio de uma linguagem emocional. mas também que eles pensem como pensamos. cativante. Punindo.. mas também e principalmente. p. que alcança palacetes e favelas. que é a tarefa própria do Poder Judiciário. A grande problemática é que a imprensa brasileira tem muitos outros interesses. “dá particular destaque aos problemas e escândalos (exemplo: corrupção de juízes) e nunca noticia o cotidiano normal do sistema jurídico”.

porque no Brasil. não se dá atenção à opinião pública no que diz respeito a tais questões. p. do justo e do injusto. constitui elemento decisivo de interação social. De forma específica. revelando ao legislador e demais autoridades que atuam na ordem jurídica a temperatura social em tomo de questões sociais relevantes e indicando as mudanças que precisam ser feitas nas leis e nas instituições jurídicas. como órgão de informação e formação de opinião pública. As empresas vivem oferecendo seus produtos através das propagandas mais atraentes e sofisticadas possíveis. pode derrubar do poder quem lá se encontra e colocar outro.pensamento. vivem de olho nas pesquisas feitas sobre a preferência do eleitorado. Por isso. fruto de condicionamentos sociais. e nossas instituições tão mal estruturadas e aparelhadas. pode atingir enormes proporções. mesmo . [p. lamentavelmente. porque sabem que para chegar ou manter-se no poder precisam ter o apoio da opinião pública. agindo em caráter particular. pode fazer de um anônimo um herói ou do herói um vilão. Os políticos. 179] No campo do Direito. ou pelo menos não tê-Ia contra. para serem lembradas na hora em que se vai às compras. A mudança de gosto público pode arruinar uma indústria ou enriquecer outra. como muito oportunamente lembrou K. 85). Davis (A Sociedade Humana. quando as eleições se aproximam. Dúvidas não temos em dizer que nossa legislação é hoje tão ineficaz. Isto tudo evidencia que o conhecimento da opinião pública. É em razão disso que. O efeito maciço de uma tomada de posição feita por milhares ou milhões de pessoas. 76. um sentimento acerca do certo e do errado. produtos ou empreendimentos. tem a opinião pública especial importância para a Sociologia Jurídica porque age como um verdadeiro termômetro. O SENTIMENTO COLETIVO DE JUSTIÇA Há em todo indivíduo. tanto quanto possível aproximado da realidade e com previsões a respeito de suas tendências e da evolução provável. é indispensável ao estudo de qualquer ciência social. pode dar início à guerra ou levar à revolução. a primeira verificação da opinião pública que se impõe realizar é no que concerne ao sentimento coletivo de justiça. Os programas de televisão vivem fazendo pesquisa de opinião pública para saberem como agradar o público e merecer a preferência de audiência. do bom e do mau. tanto as empresas como os políticos mantêm grupos cuja missão consiste em pesquisar e despertar a simpatia do povo para suas atividades. Daí a grande força que possui a imprensa escrita e falada.

sem prévia consulta à opinião pública a respeito da matéria legislada. muda-se a opinião.sem nunca ter estudado direito ou tocado a mão em um compêndio de leis. Ao legislador especialmente importa conhecer o sentimento coletivo de justiça. já que. no qual se baseia a sociedade para estabelecer seus padrões de comportamento . abrange necessariamente o das normas existentes. garantidoras da validez e eficácia das normas. 180] duta e a desaprovação que o consenso ético-social impõe à mesma forma de comportamento. passado o impacto. sobretudo na Europa. Também abarca a maneira como a opinião do público se manifesta sobre o comportamento ilícito. escreve F. imediata. Tal conhecimento proporcionaria também ao legislador as condições adequadas para fazer as modificações necessárias na legislação vigente. muitas normas existentes tomaram-se vazias de conteúdo social. cuja aplicação vem causando profundo desequilíbrio social. ficando ineficazes. um escândalo financeiro ou político. repressiva. mas. principalmente no mundo econômico. muito embora não estejam ainda suficientemente explicadas as relações motivadoras das diversas gradações ou formas em que esse sentimento se apresenta. Fala-se até em pena de morte. Um crime grave. bem como o afastamento de outras no futuro. há também um sentimento coletivo. frente a determinadas circunstâncias. A correção dessas distorções. ou a distância entre a desaprovação da norma jurídica acerca da con[p. sua adequação ou não ao que é tido como justo. é certo etc. Leis injustas existem. adequadas aos interesses e conveniências sociais. a aprovação social das sanções que o Direito estabelece. isto é justo. Assim como há um sentimento individual de justiça. perderam a razão de ser. produtoras de efeitos negativos. exatamente porque foram elaboradas ao arrepio dos interesses sociais. .É aquilo que se tem chamado de consciência jurídica da população. O exame do sentimento de justiça. Baseado nos resultados de diversas pesquisas feitas. poderiam ser conseguidas mediante o prévio conhecimento do sentimento coletivo de justiça. faz com que a opinião pública se incline no sentido de exigir uma justiça mais severa. Nem sempre fazer justiça consiste na simples aplicação da lei. uma vez que nem tudo que é legal é justo. Freqüentemente fala-se em leis injustas. com as variações do sentimento coletivo de justiça de tempo para tempo. de Miranda Rosa. de tempo para tempo e de lugar para lugar. prisão perpétua e outras penas mais severas. conforme já demonstrado quando falamos dos efeitos negativos da lei. as pessoas afirmam com veemência: isto é uma injustiça. A. para que possa elaborar leis justas. é possível afirmar que o sentimento de justiça varia em suas manifestações. porque afastadas do sentimento coletivo de justiça.

181] butos. A OPINIÃO PÚBLICA SOBRE O DIREITO E SUA UTILIDADE SOCIAL Outro aspecto da opinião pública de interesse sócio-jurídico é aquele que diz respeito à conveniência ou utilidade social do Direito. Na hora de pagar o tributo. diga-se de passagem. ou ainda sua correta aplicação como instrumento de ordem social. Por que tem o Direito uma imagem tão distorcida da realidade? Conhecendo as causas que levaram a opinião pública a se formar de modo tão averso ao verdadeiro objetivo do Direito. O mesmo ocorre com o ICMS. relativo às condições de classe social. Com efeito. embora seja o Direito considerado e aceito como forma mais eficaz de controle social em sua organização e aplicação. sem a arrecadação dos tri. ISS. Por que essa aversão generalizada ao pagamento dos tributos? Por que essa idéia já arraigada no sentido de não se considerar desonesto fraudar o fisco? Por que essa oposição ou resistência às normas tributárias? Caberia. A sociedade global acredita no jurídico como algo indispensável à coesão e à sobrevivência grupal. apenas os administra em prol da coletividade. por exemplo. por exemplo. contra os oprimidos de todos os tipos. e que isso ocorre com grande freqüência. não seria possível eliminar algumas dessas causas e reconquistar a opinião pública? O que acima ficou dito é de fácil demonstração quando atentamos. já é comum encontrarmos pessoas que. pois O Estado normalmente não gera recursos. Crêem os grupos que a justiça é fenômeno dependente. saúde. segurança.. ninguém gosta e procura esquivar-se. conforme constatado através de pesquisas realizadas em vários países. Se for feita uma pesquisa sobre a importância dos tributos e a necessidade de sua arrecadação. mas em nível interindividual há descrédito subjacente na justiça. a fim de se procurar modificar . para as normas que estabelecem a obrigação tributária. estradas etc. existem posições conflitantes. ver-se-á que a maioria do grupo entende necessário o pagamento dos impostos para a consecução de objetivos sociais. sofre questionamento da opinião pública quanto à sua eqüidade.[p. Neste ponto.77. Em matéria de Imposto de Renda. entretanto. ao nosso ver. gaboleiam-se de terem conseguido escamotear milhões de imposto. e um estudo minucioso das causas. uma pesquisa profunda da opinião pública em tomo do assunto por parte do fisco. Outros entendem que ele se presta a manobras que o desvirtuam completamente. IPI. embora normalmente honestas a ponto de não tirarem um centavo de ninguém. Todos compreendem que não é possível atender às despesas da administração pública com educação. Para muitos o Direito não passa de simples meio de se valerem os mais fortes da máquina estatal.

muito além de sua capacidade. Do ponto de vista social. o que sem dúvida facilitaria o trabalho de arrecadação e fiscalização. não acredite que o dinheiro público esteja sendo honestamente empregado. em que se procurasse dividir de forma mais equânime as obrigações tributárias de modo a não incidirem sempre sobre os mesmos. Talvez as leis tributárias sejam mesmo extorsivas. de pescar também o peixe grande do comércio e da indústria. houve uma tremenda reação do público. facilitando a arrecadação. dos serviços executados etc. forçando-o a fraudar. podendo-se arrecadar mais com menos esforço. O fisco deveria engendrar meios de alcançar com suas malhas os de maior capacidade econômica. o que poderia ser evitado mediante a reformulação do sistema tributário. isso tudo poderia ser evitado se. Em nossa maneira de ver. exigindo do contribuinte excessivo encargo tributário. sendo a taxa exatamente para tal fim. aliviando a sobrecarga dos assalariados. 78. [p. o que em muito prejudicou a arrecadação. ensejando milhares de ações judiciais. gente e material.as coisas para o futuro. critérios de fixação. bem como a realização de um serviço organizado e sistemático. Os inconvenientes de se deixar de contatar e esclarecer a opinião pública acerca de questões tributárias podem ser demonstrados com a chamada taxa do lixo. Talvez o povo não tenha confiança na Administração. objetivos. A OPINIÃO PÚBLICA SOBRE AS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS Aquilo que o público em geral pensa a respeito das instituições jurídicas é outro aspecto da opinião pública de interesse para a Sociologia Jurídica. eis que o lixo de uma grande cidade tem que ser recolhido diariamente e com eficiência. É evidente que para a coleta desse lixo é necessária uma estrutura empresarial. necessidade. acredito que ninguém conteste a necessidade de tal taxa. pois com base em tal . o que poderia ser evitado mediante um esforço de reconquista da confiança pública. como no caso do Imposto de Renda que sabidamente recai mais direta e pesadamente sobre os assalariados por sofrerem o desconto na fonte. antes do lançamento da taxa do lixo. quando anos atrás a taxa começou a ser cobrada. a opinião pública fosse esclarecida a respeito de suas causas. Talvez o povo não esteja suficientemente esclarecido sobre o destino dado pela Administração Pública ao dinheiro arrecadado através dos tributos. o que seria evitado mediante amplo esclarecimento das obras realizadas. sob pena de se tomar impossível a vida. 182] Contudo.

ou sua vulnerabilidade às influências dos mais bem atendidos na divisão da riqueza social. ineficaz. não confia na justiça. ou passíveis de corrupção. Quando a opinião pública se forma no sentido de considerar uma determinada instituição deficiente. de modo a alcançar seus objetivos sociais. tem uma imagem negativa de seus operadores. 183] . A população não possui bom conhecimento do sistema jurídico. do seu grau de incidência. e. acredita que só pobre vai para a cadeia. sua docilidade diante do poder. assunto este da maior gravidade e a merecer uma especial atenção. tudo é justiça: a polícia. ou confia muito pouco. das repercussões sociais que produz a opinião que predomina no que tange à imparcialidade dos órgãos judiciais. sem credibilidade. parciais. não em segredo de justiça como se pretendeu fazer em 77/78. então é alto tempo de se procurar saber onde estão as causas dessas deficiências e de se realizarem as mudanças necessárias. Se realmente estivermos empenhados em recuperar o Judiciário. sob pena de se tomar a instituição totalmente irrecuperável. o sistema carcerário etc.opinião é possível saber se as instituições estão ou não funcionando satisfatoriamente. Urge igualmente um estudo das causas. [p. portanto. sob pena de uma desmoralização cada vez maior da instituição. Há uma boa parcela da opinião pública que entende serem os tribunais ou os juizes influenciáveis pelos poderosos. mas sim com base em ampla pesquisa da opinião pública e mediante ampla contribuição de todos os segmentos sociais relacionados com o mundo jurídico. então será necessário fazer-lhe as reformas necessárias. o Ministério Público. O resultado das pesquisas realizadas sobre o funcionamento do sistema judiciário não é nada animador. a Defensoria Pública.

genérico. dos processos e técnicas de trabalho empregados pela Sociologia Jurídica na investigação e realização do seu objeto. que não vamos tratar aqui dos métodos que são adotados desde as formações doutrinárias e teóricas da Sociologia. O método utilizado pela Sociologia Jurídica. Para tanto. de que dispõe uma ciência para realizar seu objeto. nem do chamado “método sociológico”. vamos agora dedicar este capítulo ao exame do seu método. devidamente organizados e coordenados. É o caminho utilizado para a realização de um objetivo. nas sociedades contemporâneas do tipo primitivo e nas sociedades desaparecidas. recursos. Convém esclarecer. ainda que de forma sucinta. 185] dos meios ou processos dispostos convenientemente para .Capítulo XV O MÉTODO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA Conceito de método. mas sim. desde logo. A comparação. A observação: nas sociedades contemporâneas do tipo moderno. **** Após termos tratado do objeto da Sociologia Jurídica. um conceito de método. A interpretação. toma-se necessário estabelecer. 79. no estudo de qualquer ciência é indispensável estabelecer o seu objeto e definir o seu método. instrumentos e atividades. É o conjunto [p. CONCEITO DE MÉTODO Método é o meio mais racional e eficiente para se atingir um fim desejado. para não fugirmos aos objetivos deste singelo trabalho. como já afirmamos. abrangente. São os meios. pois. cujas regras foram enunciadas por Durkheim em celebrado estudo.

pois. para conseguirem realizar os seus objetivos. e outras quase nada conseguem. Trocando isso tudo em miúdos. como têm feito alguns. pode-se afirmar com segurança. 97-114). que já fazem parte das matérias estudadas no curso de Administração. pp. basta que se diga ser ele indispensável no desempenho de qualquer atividade que se propõe a alcançar algum objetivo.alcançar um fim. acabam se revelando deficientes. O estudante que não tem método nos estudos (deixa para estudar somente na hora das provas) nunca será um bom estudante. e especialmente para chegar a um conhecimento científico. já está generalizado o uso do termo “método” para indicar os processos e as técnicas empregados na investigação social. Por isso torna-se desnecessária qualquer discussão em torno do uso do termo “método”. propondo em lugar de “método” a palavra “processo”. A razão pela qual algumas pessoas. que não teria a Sociologia Jurídica condições de realizar os seus objetivos sem desenvolver as suas atividades de forma metódica. conseguem fazer tanta coisa. suscitando debates por entenderem não ser próprio o vocábulo para descrever as operações intelectuais realizadas pelo investigador ainda na fase da observação propriamente dita. podemos dizer que método é maneira eficiente de fazer as coisas. reunião dos meios que se empregam nas ciências para achar a verdade. mas pouco aproveitamento tirará dos estudos. é modo racional de proceder. 80. pode até tirar boas notas. Hoje. As empresas industriais e comerciais dos nossos dias. levam muito a sério a questão relacionada com organização e métodos. desde a mais simples à mais complexa. o método utilizado pelo jurista. o método jurídico. mas não para aprender. ou para comunicá-lo. O MÉTODO UTILIZADO PELA SOCIOLOGIA JURÍDICA Segundo Levy Brühl (Sociologia do Direito. Estuda para passar de ano. tomado o termo em seu sentido mais amplo. Vê-se. [p. se não forem executados com método. 186] . não é muito diferente do utilizado nas ciências sociais em geral e pode ser resumido em três operações principais: observação. Quanto à importância da utilização de um método. Os simples serviços domésticos realizados pela donade-casa. nas mesmas 24 horas do dia. está justamente no fato de as primeiras serem pessoas metódicas. interpretação e comparação.

Quem se propõe a realizar uma pesquisa. Em nosso século a técnica do inquérito social foi altamente aper. pode o investigador lançar mão de vários métodos (tomada aqui a palavra em sentido estrito). c) os documentos de caráter técnico. cinema. a saber: a) sociedades contemporâneas de tipo moderno. pois as fontes de informações são abundantes.80. define o seu objeto. e que posteriormente deverão ser examinados. Nas sociedades contemporâneas de tipo moderno a observação é bastante fácil. onde os estudiosos do problema criaram uma verdadeira Sociologia Experimental baseada no survey (inquérito). 187] feiçoada nos Estados Unidos.1. b) sociedades contemporâneas de tipo primitivo.[p. cuja finalidade é lançar permanentes . por meio das quais sabemos como as leis estão sendo aplicadas. o estatístico etc. a ponto de não se conseguir dominá-las completamente. conjectura uma solução provável. separações judiciais. como por exemplo o inquérito. superabundantes mesmo. ocorreram no Rio de Janeiro no ano passado. entretanto. adotar uma postura de observador.. Consiste em ouvir pessoalmente os indivíduos componentes de determinado grupo que se deseja estudar. como os códigos. ou processo de investigação feito muitas vezes por meio de questionário. dentre as quais podemos destacar: a) os textos legislativos ou regulamentares. sujeitando-se a posteriori verificação. esporte. por exemplo. Na tarefa de coletar dados importantes para o estudo que se pretende fazer. ciência. coleta os dados. como os processos. Quem primeiro usou esse método cientificamente na Sociologia foi o francês Le Play. Pode a observação ser realizada em diferentes tipos de sociedades. política etc. Há survey para todos os fins: publicidade. As mais importantes fontes nessas sociedades são as escritas. leis etc. Foi criado o Instituto da Opinião Pública. a fim de conhecer a realidade social através de suas manifestações concretas. classificados e interpretados. b) as coleções de jurisprudência. pois todos esses atos ficaram devidamente registrados. fundador da Escola de Ciência Social e do método monográfico.. isenta de qualquer juízo de valor. c) sociedades desaparecidas. registros cartorários etc. Deve. saber quantos casamentos. divórcios etc. literatura. A Observação Consiste a observação na coleta de dados ou fatos sociais importantes para o estudo que se está realizando. Com base nesses documentos é possível. Entendê-se por inquérito a pesquisa.

em face da . pois é o agrupamento metódico dos fatos sociais suscetíveis de avaliação quantitativa. É o seu método por excelência. Assim sendo. devendo-se. e outros detalhes. à realidade social. aperfeiçoada nesta última década. Em outras palavras. bem como a indução das leis a que tais fenômenos globalmente obedeçam. conclui-se que um dos principais instrumentos de trabalho a ser utilizado para conhecê-las é a estatística.o raciocínio do entrevistado. Na formulação dos quesitos é preciso saber perguntar (como perguntar). realizadas por vários institutos e entidades respeitáveis. e levantados periodicamente. para que os dados coletados sejam realmente representativos de toda a sociedade ou da fração dela que se está investigando. Ao longo do nosso estudo fizemos referência a dezenas de pesquisas sobre muitos temas. pois há uma técnica minuciosa a ser aplicada. A importância da utilização da estatística em questões sociológicas foi muito bem assinalada por Levy Brühl (Sociologia do Direito. é preciso dispor de elementos numéricos exatos. A estatística. a fim de evitar perguntas confusas e ensejadoras de respostas dispersivas. com a formação. Antes de iniciar a pesquisa. para tanto. 99) ao escrever: “Tendo em vista que as instituições jurídicas são coisas coletivas. pois caso contrário as conclusões finais serão um logro. para dela extrair as conclusões necessárias ao seu estudo. é necessário estabelecer com clareza e precisão o seu objetivo (o que perguntar). 188] instituição e medi-Ia no tempo e no espaço.” O emprego da estatística no campo sócio-jurídico tem sido criticado por alguns autores.inquéritos no seio da comunidade a fim de conhecer-lhe a opinião a respeito dos principais problemas do mundo atual e avaliar a evolução dessa opinião. tão exatos quanto possíveis. Há mesmo quem afirme ser a estatística o meio oficial de se afirmar inverdades. principalmente por falta de confiança nos dados fornecidos pelos órgãos oficiais. afastando perguntas capazes de induzir a resposta ou condicionar . definição e delimitação do problema. classificação formal e análise dos fenômenos coletivos ou de massa. por seu turno. que lhe permite chegar aos fatos. O inquérito é geralmente realizado por uma equipe mais ou menos numerosa de pesquisadores e dirigido por um especialista mais experimentado. entende-se por método estatístico o conjunto de processos que tem por objeto a observação. enumera a freqüência dos fenômenos sociais. é indispensável uma formulação preliminar das hipóteses a investigar. À quem perguntar é outra questão que deve merecer particular atenção. o que evidencia a importância da pesquisa para a Sociologia Jurídica. dar muita atenção à carga semântica variável de certos vocábulos ou de expressões idiomáticas. Para apreciar o verdadeiro alcance de uma [p. p.

189] de uma sociedade da mesma época. razão pela qual o incremento da estatística jurídica é. a situação da família entre os nossos indígenas. onde se verifica a sua maior incidência etc. conhecer seus hábitos e costumes. sendo mesmo na maioria das vezes bastante acessível. mesmo não tendo absoluta confiança nas cifras publicadas e ainda que se apontem erros voluntários ou involuntários que se deixaram escapar. todavia. Mas não foi ainda coligida e muito menos consultada. a economia. Pode-se. mediante a presença física do pesquisador. a observação é feita in locu. separações judiciais. pois foram todos registrados.. conforme já exposto na parte em que tratamos dos fatores sociais da evolução do direito. por exemplo. assistir às suas festas e cerimônias. reconhecimento de filhos naturais etc. verificar com grande evidência as profundas diferenças existentes entre o direito de uma e de outra sociedade. divórcios. esses dados são preciosos. no plano científico. O conhecimento do direito de uma sociedade do tipo primitivo adquire particular importância no momento em que é comparado com o direito [p. testamentos. porque tudo ou quase tudo que nele se passa. . 80. por força de determinados fatores sociais. Terá que se misturar com eles. caso houvesse um trabalho sério e organizado de coleta dos dados. nas diferentes cidades. posto que contêm grande número de informações não encontradiças em outros lugares. participar de sua vida diária. Entendemos. mas do tipo moderno. Quem não reconhece o quanto seria útil saber o número de casamentos. como a cultura. Em tese. uma medida de grande urgência. Se o propósito é conhecer. A Observação nas Sociedades Contemporâneas de Tipo Primitivo Nessas sociedades. contemporânea. fica devidamente registrado. à falta de escrita.manipulação muitas vezes feita nos dados que lhe serviram de base. que. então. não haverá outro meio de realizar tal pesquisa a não ser deslocando-se o pesquisador para esse meio para ali ver. principalmente em questões econômicas. ganhar sua confiança. ouvir e observar. a religião etc. não seria difícil e de alto custo o emprego da estatística no mundo jurídico.. a política.2. estados ou regiões do país? Ou então.? Tais dados não permitiriam a adoção de uma série de medidas preventivas e repressivas? Sobre estes assuntos e muitos outros fatos jurídicos a documentação existe. pelo menos de mais relevante. quem não vê a importância de saber o número e o tipo de crimes que ocorrem nos diferentes meios.

Nessa tarefa podem-se utilizar vários métodos.3. a ponto de constituírem objeto de uma disciplina especial. Não tendo . isto é. Ter-se-á que recorrer aos documentos escritos. como o dedutivo.[p. que segue caminho inverso. Possidônio sobre os trácios. Tácito sobre os germanos. 81. consiste no exame e classificação dos fatos sociais coletados. do particular para o geral. Nesse ponto a arqueologia tem contribuído grandemente para um melhor e maior conhecimento do direito de antigas civilizações. hebreus etc. como a dos egípcios. 190] dade. já nosso espírito está cheio de noções prévias (prenoções) sobre sua natureza e seu comportamento.. 80. pergaminhos porventura existentes. A INTERPRETAÇÃO A interpretação que. p. extraindo-se deles as primeiras conclusões. o direito primitivo apresenta traços particularmente interessantes e originais. que parte do geral para o particular (o que vale para o geral há de valer para o particular). através de suas inúmeras descobertas. como as que nos dá Heródoto sobre os persas. muito embora a aplicação de ambos no campo sociológico seja severamente criticada. como vimos. Com que espírito deve o pesquisador interpretar os dados postos à sua disposição? A primeira regra e mais fundamental é considerar os fatos sociais como coisas. antes mesmo de iniciarmos a pesquisa. monumentos. sobre as coisas nada sabemos antes da pesquisa cuja realização porventura empreendamos realizar. às sociedades que deixaram de existir. devendo o intérprete livrar-se das prenoções de que a vida social nos encharca o espírito com relação aos temas da socie. e o indutivo. o que toma tremendamente penosa a tarefa do pesquisador. Em verdade. 71). a observação está naturalmente circunscrita aos vestígios que essas sociedades deixaram. é a segunda operação do método da Sociologia Jurídica.Além disso. Se sobre o social. a etnologia jurídica. que são as fornecidas por terceiros. finalmente. Pode-se ainda lançar mão de informações indiretas. caldeus. A Observação nas Sociedades Desaparecidas No que se refere. Quer isso dizer que os fatos sociais devem ser considerados realidades diversas das idéias. enfatiza Machado Neto (Sociologia Jurídica. Durkheim recomenda aos sociólogos o abandono desse conhecimento espúrio.

mas sim o tempo social. portanto.a comparação. pois. É uma espécie de ser vivo destinado a produzir seus efeitos dentro de um ambiente em constante evolução. Significa que deixará de lado a priori o que se revelar puramente descritivo. como normas de conduta coletivas. pp. por sua importância. cuja significação e importância continuam ligadas às circunstâncias que envolveram sua origem. A COMPARAÇÃO Chegamos finalmente à última operação do método da Sociologia Jurídica . Somos levados a dar menor atenção ao aparecimento material de um fato ou idéia. 2) Interessa-lhe. a relação cronológica entre um fato e outro da mesma natureza. e maior ao momento em que esse fato ou idéia começa a agir. por sua vez. A noção de autenticidade chega a suscitar-lhe um interesse muito restrito (Sociologia do Direito. e sua significação inicial tem tão pouca importância para o jurista quanto os diferentes sentidos que adquiriu no decorrer do tempo. 191] 82. uma vez que sobre as coisas não podemos ter prejulgamentos ou prenoções. mas sim o momento em que exercem sua influência. 108 e 109). Em outros termos. 3) Tratando-se de documento escrito. constantemente de sentido. que vulgarmente significa examinar simultaneamente duas ou mais coisas para lhes determinar semelhança. diferença ou relação. a produzir seus efeitos sociais. [p. o que merece ser tomado em consideração não é o tempo astronômico. tal conhecimento somente pode ter sido fruto de prejulgamentos e prenoções. 106. o tempo do calendário. a sua pureza ou o seu teor verídico. Um texto jurídico é. aos olhos do jurista sociólogo. como sói acontecer para o historiador. algo diferente de uma peça de arquivo. ou seja. Tratar os fatos sociais como coisas é. merecem ser aqui destacados: 1) O jurista e sociólogo deve dirigir sua atenção exclusivamente para os fatos jurídicos tais como tentamos defini-los. não o momento em que se verificaram materialmente os fatos. como o fato individual ou o anedótico. Levy Brühl. e que por isso mesmo evolui também incessantemente. estabelece alguns princípios de interpretação que. libertar o espírito desses prejulgamentos e dessas prenoções. Do ponto de vista sociológico o termo não . Muda.emanado da pesquisa. interessam mais ao jurista os efeitos sociais produzidos pelo escrito do que o sentido original do texto.

portanto.foge desse sentido. leste. Uma reforma de tal magnitude e necessidade. da Colônia. qualquer mudança ou reforma será feita empiricamente.Tribunais Federais. Foi o que aconteceu com a chamada reforma do Poder Judiciário levada a efeito através da Emenda Constitucional nº 7/77 e da Lei Orgânica da Magistratura. e o plano horizontal. bem como das normas ou institutos jurídicos existentes . O que ela tem de bom não é novo e o que ela tem de novo não é bom. as origens de algumas instituições atuais. ou mesmo entre diferentes países. sul do Brasil. tinha que ser precedida de ampla coleta de dados mediante pesquisa da opinião pública. Antes disso. no mais absolu. É ainda possível verificar. para atingir os seus objetivos. Juízes. . Mudou para pior. atuaram apenas dois ou três elementos que se julgavam donos da verdade. do Império. semelhanças e diferenças entre elas existentes e chegar-se a outras conclusões. sendo utilizado. temporal ou histórico. Somente através do emprego judicioso do método (ou métodos) que acabamos de delinear.conhecimento indispensável para se fazerem as reformas. 192] to sigilo ou segredo de justiça. por exemplo. bem como o grau de aperfeiçoamento de instituições análogas de outras sociedades. sua eficiência ou ineficiência. mais abrangentes e definitivas. e investigar as causas que os provocaram. audiência dos órgãos e instituições que atuam na ordem jurídica . No plano horizontal ou espacial a comparação é feita entre os resultados obtidos nas observações efetuadas em diferentes sociedades. suas funções sociais. o que poderá aumentar a nossa experiência e levar ao aprimoramento das nossas instituições. No plano vertical ou temporal comparam-se resultados de observações feitas em uma mesma sociedade. espacial ou geográfico. Assim. podemos comparar a situação da família na atualidade com a da época da República. A comparação pode e deve ser feita em dois planos: o plano vertical. mas em épocas diferentes. mediante comparação nos planos vertical e horizontal. e certas instituições antigas. Fizeram a tal reforma sem ouvir ninguém. mas todas contemporâneas. ou traços em comum entre elas. e jamais conseguirá atingir os seus objetivos sociais. mudanças e alterações necessárias. Estaduais. é possível notar as diferenças existentes entre as normas do direito dessas sociedades contemporâneas. motivadas por fatores sociais e atuantes em cada região ou país. para indicar o cotejo ou confronto das conclusões parciais obtidas na fase da interpretação.[p. a fim de se estabelecerem as relações. é possível ter um conhecimento profundo das instituições jurídicas. como por exemplo no norte. praticamente no escuro. Através de tal comparação. se estamos estudando os problemas relacionados com a família brasileira. e os resultados aí estão.

[p. eliminando as causas de suas deficiências. nada será mudado para melhor. Ordem dos Advogados. classificados. em reforma eleitoral e agrária. morosidade e emperramento. atualmente. Teremos outra reforma casuística. e só então teríamos uma descrição da realidade social do nosso Poder Judiciário. interpretados. através de técnicos especializados. comparados. 193] . Ter-se-ia que observar como vem funcionando o Judiciário em cada Estado. mediante pesquisa metódica e científica dessa realidade. Com base nessa realidade poder-se-ia fazer uma reforma eficiente. quais as deficiências e dificuldades de cada lugar. A menos que tais reformas sejam precedidas de um profundo conhecimento das aspirações do povo e da realidade brasileira. motivada por interesses políticos e feita empiricamente. deveriam ser examinados.Ministério Público. Fala-se muito. Esses dados. nas capitais e no interior. o público em geral.

Merton. . Comportamentos de desvio. por reputá-lo um tema da maior importância na atualidade e que guarda perfeita adequação com tudo aquilo que ficou exposto nas partes anteriores.[p. ritualistas. Não sendo possível fazê-lo. com reduzida vinculação à rigidez da estrutura social ou à natureza de suas normas. 195] tedt. Causas do comportamento anômico. ao encerrar este trabalho. conforme assinalado por Robert Biers. de evasão e rebelião. e nomos quer dizer lei. segundo o qual o termo tem sido empregado com três significados diferentes. em seu famoso estudo sobre a divisão do trabalho social. Etimologicamente. a tecer algumas considerações sobre anomia. NOÇÃO DE ANOMIA A palavra tem origem grega. a saber: l) desorganização pessoal do tipo que resulta em um indivíduo desorientado ou fora da lei. falta. caso o nosso programa comportasse. Palavras finais. inovacionistas. Depois dele diversos autores têm abordado o conceito com variações quanto ao seu exato entendimento. O pensamento de Émile Durkheim. O pensamento de Robert K. norma. Foi com esse entendimento que Durkheim usou a palavra pela primeira vez. portanto. inexistência. 83. **** Muitos outros temas de relevância para a Sociologia Jurídica poderiam ser ainda abordados. num esforço para explicar certos fenômenos que ocorrem em sociedade. donde a significa ausência. privação. vamos nos limitar. Tipos de comportamento: conformistas. Vem de a + nomos. anomia significa falta de lei ou ausência de norma de conduta.Capítulo XVI DIREITO E ANOMIA Noção de anomia.

entre as quais vamos examinar a de Émile Durkheim e a de Robert K. de sorte a não existir desvio. entretanto. que sociologicamente a palavra pode ser usada em um quarto sentido. o agente causador do fenômeno social. é necessário distinguir causa de fator. vamos encontrar em algumas maior incidência de um tipo de desvio mas o fenômeno sempre existirá. em seus casos limítrofes. que é a síntese. situação social que. em princípio não deveria ocorrer comportamento anômico. desorganização pessoal. motivo ou razão de ser. conflito de normas. princípio. CAUSAS DO COMPORTAMENTO ANÔMICO (OU DE DESVIO) Em qualquer sociedade do mundo. 84. Assim sendo. ou seja. Entendemos. existindo a respeito várias teorias. o que resulta em situações sociais que acarretam para o indivíduo dificuldades em seus esforços para se conformar às exigências contraditórias. coisas diferentes. [p. Por quê? Se as leis são boas. em conseqüência. não contém normas. eis que em qualquer das variações do significado de anomia está presente a idéia da falta ou do abandono das normas sociais de comportamento. como anarquia é o contrário de governo. o fenômeno haverá de desaparecer. Pode variar de intensidade .em uma sociedade vamos encontrar maior incidência de comportamento anômico que em outra. e se as instituições destinadas a manter a ordem jurídica são eficientes. Merton. sua origem. adequadas aos interesses sociais. todavia. que pode ocorrer por ausência de lei. o contrário de sociedade. Por causa entende-se aquilo que determina a existência de uma coisa: a circunstância sem a qual o fenômeno não existe. vamos encontrar comportamento de desvio. pois. é. Muitos sociólogos têm se empenhado em encontrar as causas do comportamento anômico. e bem estruturadas. mas que por muitos são confundidas. pode-se afirmar que anomia indica desvio de comportamento (ou comportamento desviante). 196] Antes de mais nada. bem elaboradas. Eliminada a causa. como um verdadeiro fenômeno universal. ou ainda. 3) ausência de norma. Todos deveriam estar empenhados em manter um comportamento em harmonia com as normas de conduta social.2) conflito de normas. Mas não é o que ocorre. É. por mais eficientes que sejam as suas normas de conduta e bem estruturadas e aparelhadas as suas instituições jurídicas. ou pelo menos guarda perfeita correlação com os três primeiros. .

embora não dê causa ao fenômeno. Pode-se dizer. concorre para o resultado. c) a divisão de tarefas produz especialização. Mas não é causa de criminalidade. motivando. para poder atingir os seus fins. perdendo mesmo. a miséria. [p. assim desenvolveu seu pensamento: a) a sociedade moderna.A Divisão do Trabalho Social .Durkheim. porque há milhões de analfabetos no Brasil que não enveredaram pelos caminhos do crime. por via de conseqüências. O PENSAMENTO DE DURKHEIM SOBRE A ANOMIA Em seu famoso livro . segundo as estatísticas. Durkheim invocou palavras de Comte no sentido de que as separações das funções sociais tendem espontaneamente. e) o enfraquecimento desse espírito de solidariedade acarreta uma influência dissolvente e. porque. igualmente. inclusive de produção e sobrevivência. por sua vez. não mais sentindo a presença dos colaboradores que trabalham a seu lado na mesma obra. desde que a divisão do trabalho social supera um certo grau de desenvolvimento. e não simplesmente com os fatores que são inúmeros. que a pobreza. É tentar secar a árvore daninha arrancando-lhe simplesmente as folhas. preocupa-se o estudo da anomia com as causas. é outro fator de criminalidade. Como já ficou dito. que como já assinalamos foi o primeiro a usar a palavra “anomia” numa tentativa de explicação de certos fenômenos sociais. o comportamento de desvio. sem cortar-lhe a raiz. o indivíduo. 85. que o analfabetismo. d) a especialização ocasiona isolamento dentro do grupo. a ignorância. é um fator de criminalidade. mesmo porque de quase nada adianta combater os fatores sem eliminar as causas. É a circunstância que. isola-se em sua atividade especial. a partir de um certo ponto. ao lado de um desenvolvimento favorável do . b) a organização impõe divisão de trabalho ou tarefas. por exemplo. um enfraquecimento do espírito de solidariedade do grupo global. porque há um número muito grande de pobres que não delinqüem. a idéia dessa obra comum. precisa organizar-se.Já o fator. concorre para a sua maior ou menor incidência. Mas não é certamente a causa de crime. 197] Para o eminente sociólogo francês. Pode-se dizer. porquanto na mesma população carcerária encontramos 85% de pessoas analfabetas ou portadoras apenas de instrução primária. debruçado sobre suas tarefas. 90% ou mais da população carcerária é constituída de pessoas provenientes das classes sociais mais humildes. portanto. de qualquer forma.

espírito de minúcia. O mesmo ocorre com a atividade humana. como disse alguém. e se junta a outros indivíduos de sua especialidade formando grupos menores. e isso tomou-se uma necessidade. não deixa de possuir certa razão. Isso é facilmente constatado nas sociedades superdesenvolvidas dos nossos dias. é aquele que sabe cada vez mais de cada vez menos. À medida que o indivíduo aprofunda os seus conhecimentos. e em cada ciência há inúmeras especialidades. forçoso é reconhecer. embora criticado por alguns. saber muito bem fazer determinada coisa. Especialista. a certos paí. uma exigência. como os sábios da Grécia. principalmente no que diz respeito às sociedades superdesenvolvidas e por isso mesmo superorganizadas. cada vez mais. Foi-se o tempo em que era possível saber de tudo. Pessoas que vão do Brasil. profissionalmente falando. queixam-se da frieza. em face da vastidão do saber moderno. Até mesmo entre nós isso pode ser constatado. a abafar o espírito de conjunto. tal divisão transforma-se numa fonte de desintegração ao provocar as especializações dos indivíduos. Todos se preocupam com todos e estão prontos para se auxiliarem mutuamente. ao afirmar que divisão significa dispersão. ao lado das inegáveis vantagens que a divisão do trabalho representa como recurso imposto pela própria complexidade crescente da vida social. limita a visão social do indivíduo. para o indivíduo que é “pau para toda obra”. como uma contingência social. Não há mais lugar em nossos dias.[p. Com essa perda de visão da obra comum e do seu sentido. em visita ou a trabalho. ocorre também um enfraquecimento do sentimento de solidariedade grupal. É preciso. Hoje o saber humano é dividido em várias áreas ou ciências. todo mundo conhece e sabe de todo mundo. fazendo-o perder a visão global ou de conjunto da atividade social. entretanto. que “toca sete instrumentos” etc. A especialização. Citou também Espinas. da falta de solidariedade e calor humano que lá sentiram. ou pelo menos a entravar seriamente o seu desenvolvimento. Há calor humano. comparando-se a vida do interior com a de uma grande cidade. espírito de solidariedade etc. O pensamento durkheimiano. 198] ses da Europa ou mesmo aos Estados Unidos. Nessas sociedades é visível que. às vezes até com interesses antagônicos aos interesses do grupo global. O indivíduo se isola dentro do grupo. para se poder competir no mercado de trabalho. Há várias e diferentes profissões e em cada profissão inúmeras especializações. Numa cidadezinha do interior. Já numa grande cidade ninguém sabe de . diminui-Ihes a extensão ou amplitude.

diária ou semanalmente nos relacionamos com um pequeno grupo. que os meios existentes não são suficientes nem estão ao alcance de todos. no lazer etc. Os outros não nos interessam. portanto. por esta razão a tese foi contestada e preterida por muitos. e de outro. E o que é pior. metas sócio-culturais. Embora morando numa cidade de milhões de habitantes. principalmente no que tange à criminalidade. a influência dissolvente da personalidade que sofre o operário que passa o dia todo apertando parafusos numa fábrica de automóveis. O artigo foi posteriormente revisto e aumentado pelo autor. Merton sustentou que em toda sociedade existem metas culturais a serem alcançadas. O fenômeno não é novo e já foi até explorado por Charles Chaplin como tema do filme “Tempos Modernos”. ou pode ser assaltada e massacrada por um marginal aos olhos de uma multidão. sociólogo americano. entendendo-se como tais os valores sócio-culturais que norteiam a vida dos indivíduos. Se a tese de Durkheim apresenta muitos pontos verdadeiros no que diz respeito às sociedades superdesenvolvidas. muito embora dezenas de pessoas passem ao seu lado em seus veículos sem se incomodarem. e cada qual corre atrás dos seus próprios interesses. [p. assim. Para atingir essas metas existem os meios. entretanto. Quer isso . um desequilíbrio entre os meios e as metas. sem que ninguém venha em seu socorro. não é verdade no que se refere às sociedades subdesenvolvidas. Somos capazes de morar muitos anos em um mesmo prédio sem saber quem é o condômino do lado ou de cima. De um lado.ninguém. em face da tese de Robert K. escreveu um artigo famoso de apenas dez páginas. aos quais aderem normas de comportamento. que teve o mérito de estabelecer os fundamentos de uma teoria geral da anomia. não nos dizem respeito: uma pessoa ferida num acidente pode ficar horas a fio sem receber socorro. acarretando. Merton. onde se destacou entre outras coisas. O PENSAMENTO DE ROBERT K. verifica-se justamente entre os menos especializados ou mesmo sem nenhuma especialização. Merton. fazemos até questão de não saber quem é. Ocorre. onde se observa que o maior índice de desvio. MERTON SOBRE A ANOMIA Em 1938 Robert K. na escola. transformando-se em parte da sua obra clássica Teoria e Estrutura Sociais. 86. meios socialmente prescritos para atingi-los. que são os recursos institucionalizados pela sociedade. normalmente das nossas relações de atividade no trabalho. 199] Partindo de uma análise da sociedade americana.

concentrados nas mãos de pequena parcela da sociedade. no empenho de alcançar as metas que lhe foram sugeri das e não dispondo de meios para tal. prestígio. Tipos de Comportamento Identificados por Merton Examinando o descompasso existente entre as aspirações culturalmente prescritas e o caminho socialmente estruturado para atingi-Ias. Disso resulta um desajustamento. 2) inovacionista. poder.1. Conformista é a conduta que busca atingir as metas sociais através dos meios institucionalizados. Merton classificou os comportamentos socialmente relevantes em cinco tipos diferentes. um descompasso entre os fins sugeridos a todos e insistentemente estimulados. 4) de evasão. É a conduta seguida pela grande maioria das pessoas na sociedade. Merton ilustra isso tomando como exemplo a meta mais importante da sociedade americana. Esse desequilíbrio entre meios e metas ocasionaria o comportamento de desvio individual (ou em grupo). podendo-se dizer a respeito deles que são positivos (+) quanto aos meios e também (+) quanto às metas. Mas quantos realmente têm condições para atingir essa meta? Apesar de erigida em objetivo da vida de todos. 200] acordo com os meios e as metas sociais. Inovacionista é a conduta que está de acordo com as metas sociais.dizer que. inclusive pelos estudantes em geral. mesmo que contrários aos interesses sociais. inova. o inovacionista está de acordo . a saber: 1) conformista. mas. qual seja. na realidade apenas alguns poucos conseguem por terem ao seu dispor os meios institucionalizados. enquanto todos são insistentemente estimulados a alcançar as metas sociais. através de estudo regular. percebendo que os meios são insuficientes e não estão ao seu alcance. nisto incluindo fortuna. 86. Os adeptos desse comportamento estão de [p. 5) de rebelião. e os recursos oferecidos pela sociedade para alcançar aqueles objetivos. respeitando assim as normas fixadas pela sociedade. popularidade etc. Em outras palavras. que buscam adquirir cultura etc. buscaria outros meios. buscando realizar as metas através de outros meios. o sucesso na vida. 3) ritualista. muito poucos podem alcançá-la em face da escassez dos meios institucionalizados. eis que o indivíduo.

porque encontram nelas uma forma de realização pessoal. de forma que eu acendia o lampião ao anoitecer e o apagava ao amanhecer. [p. sendo positivo (+) quanto a elas. quando era dito “bom dia”. Há aqui uma verdadeira inversão de valores.. ele começou a girar mais rápido e cada vez mais rápido. Comportamento de evasão é aquele que se caracteriza pelo fato de abandonar as metas e os meios sociais. perde de vista os fins. mal eu acendo o lampião ao anoitecer. Os inovacionistas adotam a filosofia de que os fins justificam os meios. voltava a ser apagado. recorda-se por certo do acendedor de lampião encontrado em um daqueles pequenos mundos que percorreu: causou estranheza ao nosso personagem o fato de que. apegando-se aos meios com tal importância que os transforma em fins. embora se encontre esta numa outra era. repetindo sempre “boa noite” e “bom dia”. As normas de comportamento social são cumpridas pelos ritualistas a todo preço e em qualquer circunstância. entretanto. os valores sociais. . ainda que já estejam totalmente vazias de sentido. nada mudou por lá nem se registrou nenhum progresso funcional em sua vida. fazendo delas fins. há mais de duzentos quilômetros por hora. E nessa rotina passava ele o tempo todo. É o caso de certas pessoas que se gabam de terem servido 30 ou mais anos na mesma repartição. 201] Essa é a perfeita imagem do ritualista. E enquanto falava ia acendendo e apagando o lampião. nunca havendo se atrasado ou faltado ao serviço. Percebendo que as metas sociais são mui elevadas e os meios existentes insuficientes para atingi-Ios. Depois. sendo. mas está contra os meios. Pode-se representar o ritualista como sendo positivo (+) quanto aos meios. Ritualista é aquele que se conduz de forma justamente inversa ao inovacionista. Quando perguntado pela razão dessa sua conduta. mas negativo (-) quanto às metas. mas continuo a cumprir a minha tarefa. negativo (-) neste ponto. por outro lado. significado ou interesse social. de modo que hoje.com as metas sociais. ultrapassadas. o ritualista abdica das metas. pois. É negativo (-) quanto às metas e negativo (-) quanto aos meios. os objetivos. mal o lampião era aceso. acendendo e apagando o lampião e dizendo “boa noite” e “bom dia”. Quem já leu o Pequeno Príncipe. tenho que apagá-lo porque amanheceu.. imutáveis. Procuram vencer na vida sem fazer força. pois as metas perdem a sua importância passando os meios para o primeiro plano. e se apega às normas como se fossem sagradas. destituídas de qualquer valor ou utilidade social. arcaicas. E ainda que já estejam elas velhas. momento em que o acendedor dizia “boa noite”. continua a aplicá-las ou a observá-las como se nada houvesse mudado na sociedade. o acendedor de lampião explicou: antigamente o meu mundo girava bem devagar. Abandona as metas. mas. ainda que não sejam socialmente aprovados.

Tipos de comportamento 1) conformista 2) inovacionista 3) ritualista 4) de evasão 5) de rebelião meios (+) (-) (+) (-) (-) (+) [p. uma vez que os seus adeptos buscam as metas culturalmente prescritas através dos meios institucionalizados para atingi-los e com respeito habitual às normas para isso fixadas pela sociedade. os adeptos desse comportamento estão na sociedade mas não são dela. É o tipo modal de comportamento. renunciando a tudo o que ela oferece ou determina. Faremos. bem como de novos meios. . podendo ser caracterizado como sendo negativo (-) quanto aos meios e negativo (-) quanto às metas. razão pela qual ao mesmo tempo que é negativo (-) quanto aos meios e metas. em especial nos grupos familiar e profissional. e o estabelecimento de novas metas. o comportamento de rebelião também está contra as metas e os meios sociais. o quadro de classificação dos tipos de comportamento atrás descritos. é a derrubada dos meios e metas existentes. 202] metas (+) (+) (-) (-) (-) (+) 86. o conformista. a seguir. Comportamentos de Desvio O primeiro comportamento. aí a inconformidade do comportamento de rebelião. Ao mesmo tempo que se opõe às metas e aos meios sociais por julgá-las excessivamente elevados e insuficientes. que consideram todos os valores sociais irrelevantes ou incapazes de realizar o bemestar humano.Percebendo que as metas sociais são muito elevadas e os meios escassos. uma nova estrutura social. Exemplo típico desse comportamento é o dos hippies. Como acentuou Merton. graças ao intenso condicionamento social exercido sobre o indivíduo.2. mais abundantes e melhor distribuídos na sociedade. porém. Tal como na evasão. propõe o estabelecimento de novas metas com a institucionalização de novos meios. vivem no meio social mas a ele não aderem. usando os próprios símbolos de positivo (+) e negativo (-) utilizados por Merton. é também positivo (+). ou dele retiram a adesão antes dada. Não pára. portanto. não é de desvio. O propósito do comportamento de rebelião. mais simples e ao alcance de todos. Objetiva. foge da sociedade. em síntese.

um valor em si mesmo. os fins sociais perdem a sua importância. é assim a conduta observada. como vimos. comportamentos de desvio.Já os outros quatro tipos de comportamentos são não-modais. do medo do insucesso. legisladores etc. pois o cumprimento dos ritos estabelecidos pelos processos institucionalizantes adquire a dimensão e a importância de valor sócio-cultural. posto que. com a recusa de conformidade aos comportamentos socialmente estabelecidos. 203] sa alguma. O comportamento de rebelião é o mais extremado de todos. não merecem observância. despidos daquela motivação. Cumprir de qualquer maneira os regulamentos ou as ordens recebidas. ocorre no caso inconformismo quanto à manutenção dos alvos socialmente prescritos. a atitude de que elas não valem a pena de coi. não se limita a aperfeiçoar instrumentos ou instituições. No comportamento de evasão também há desvio. que se recusam a fazer mudanças ou reformas sociais necessárias. Enfim. p. do desencanto e desestímulo decorrentes do desajuste entre os processos socialmente aprovados para alcançar as metas culturais. pretende a derrubada de todos os meios e metas sociais. quanto às metas culturais. então. O ritualismo toma-se grandemente prejudicial à sociedade quando se trata do comportamento adotado pelos homens públicos do país (administradores.).[p. contrários de algum modo aos padrões de metas culturais e de meios institucionalizados para atingi-los: portanto. O ritualista se caracteriza como comportamento de desvio por apresentar abandono das metas sociais e inversão de valores quanto aos meios que são elevados ao primeiro plano. Embora na aparência seja esse um comportamento conformista. por julgá-los inatingíveis. mantendo velhas e arcaicas instituições ou disposições legislativas já sem nenhuma adequação às novas realidades sociais. porque ocorre a rejeição das metas culturais e dos valores que as sustentam. Os adeptos desse tipo de comportamento são um peso-morto na sociedade. e quanto aos comportamentos sociais aprovados. quer substituição total de todos os instrumentos e instituições com o fim de realizar uma mudança . Prevalece. considerados todos irrelevantes ou incapazes de realizar o bem-estar humano. 105). substituindo-os por outros de maneira total e revolucionária. sem indagar da sua adequação àqueles valores e àquelas metas. a conduta ritualista passa a ser. O indivíduo abandona e virtualmente rejeita os alvos estabelecidos pela sociedade em razão do fracasso efetivo ou em potencial. porque ajustado aos tipos de conduta socialmente recomendados ou aprovados. Como bem observou Miranda Rosa (Sociologia do Direito.

Assim foi na França. por sua vez. Dessa maneira a conduta divergente quanto aos meios toma-se no pensamento mertoniano uma reação normal a uma situação social definida e determinada. em nosso entender. e atingir os alvos culturalmente estipulados por todo o sistema. como bem observou Merton. . As normas são abandonadas ou contornadas. assim. De certa forma. fazer distinção entre conduta inovadora-criadora e conduta inovadora anti-social. desde a juvenil até a mais grave criminalidade. esgota o tema da anomia. com a mesma generalidade com que estabelece as metas. mais eficientes para a realização dos objetivos sociais. [p. cria. quando o desequilíbrio entre os meios e metas se toma muito grande e insustentável. O desequilíbrio entre metas e meios sociais. bem como as faltas disciplinares. a própria sociedade concorre para isso ao deixar de proporcionar. condições específicas para estimular o abandono ou a burla das normas socialmente fixadas para se atingir as metas culturalmente estabelecidas. verdadeira bola de neve social. 204] 87. sem teto e outros. é sem dúvida a causa remota da anomia que. Referimo-nos àqueles casos de inovações que visam criar novos meios.completa na sociedade. Normalmente se manifesta nos momentos de grandes crises sociais. permitindo-nos. Há. com os movimentos dos sem terra. entretanto. o motor à explosão e milhões de outras invenções que tantos benefícios trouxeram à sociedade e nos permitiram chegar ao estágio atual de desenvolvimento científico. Graças a esse espírito inovador temos hoje a luz elétrica. núcleo da teoria de Merton. os instrumentos prescritos ou admitidos para atingi-las. que deve ser ressaltado. porque ela tem causas múltiplas. que acaba provocando comportamentos anômicos de diferentes gravidades. Sem dúvida alguma. promove uma reação em cadeia. assim foi na Rússia. um aspecto positivo no comportamento inovacionista. PALAVRAS FINAIS Nenhuma teoria. a inobservância das regras de conduta social etc. assim. e assim continua sendo em nossos dias. Nesse desvio de comportamento estão retratadas todas as formas de delinqüência. razão pela qual deixamos a sua análise para o final. o inovacionista é o comportamento de desvio de maior freqüência na sociedade. em menor escala. assim foi em Cuba. Isso evidencia que nem todo comportamento inovacionista é necessariamente contrário à ética existente no grupo social. num esforço do indivíduo para superar os obstáculos institucionais ou instrumentais.

19. como vimos quando tratamos da violência urbana (item 53). Os jovens. como demonstrou o Censo de 2000. forma mais grave de [p. armados. crise de desemprego. Considerando-se o número de domicílios cadastrados em favelas no Estado do Rio (424.01. Dos 2.2002).07. 28. gerando dúvidas na população quanto às normas a serem observadas (conflito de normas). siglas de facções e armas. Esse processo de urbanização aconteceu de forma desordenada e acelerada. constatou que as favelas estão presentes em 48 dos 92 municípios fluminenses. O poder paralelo que assim se instaurou passou a impor as suas próprias regras. E o que isso gera? Crise habitacional. significa que ele está à margem da sociedade.Vejamos como isso ocorre.6 milhões de fluminenses vivem em favelas. em especial as metrópoles. Essa é a realidade social. Pesquisa de Informações Básicas Municipais do IBGE.6 milhões de jovens de 15 a 24 anos que vivem no Estado do Rio. cerca de 91% da população brasileira vive em cidades. E além disso. perderam-se as referências. de 1999.2004). cerca de 700 mil (um quarto) abandonaram a escola antes de concluir o ensino fundamental.1% dos domicílios são semi-adequados ou inadequados. praticamente em quatro décadas. há enormes carências de infra-estrutura. Em relação à pesquisa anterior. feita em 2001 e concluída em novembro de 2003. segundo dados do Censo 2000 do IBGE (O Globo. O déficit habitacional no Brasil passa de seis milhões de moradias. vivem brincando de polícia e ladrão. o Estado. Sem o diploma do ensino básico. não se prepararam para receber tamanha massa humana. agressivos. A renda média de chefes de família em favelas é cinco vezes menor que no asfalto. Em busca de melhores condições de vida. . estima-se que 1. Os ícones desses adolescentes são marcas famosas. cerca de 12% da população do estado (O Globo. São viciados. crise de transporte.181) e a média de quatro pessoas por habitação. o número de moradias em favelas cresceu 35%. e o resultado foi a favelização de áreas urbanas. Pior que tudo. não conseguiu se fazer presente nas áreas urbanas favelizadas. em boa parte (40%) nas capitais e suas periferias. 205] comportamento anômico. seduzidos pelo tráfico. mudaram-se os paradigmas. crise na saúde. aos poucos inverteram-se os valores. permitindo o surgimento do crime organizado. vivem a ilusão de poder. na educação e assim por diante. o jovem está fora do mercado formal. As cidades. Isto não quer dizer que ele vai virar bandido. porque a oportunidade de ascensão social (meios e metas) está condicionada à educação. principalmente saneamento: 54. o que equivale a 52% deles. os líderes comunitários foram obrigados a obedecer ao poder paralelo para não serem mortos ou terem que se mudar.

dentre outras. o que fazer para modificá-la? A toda evidência. e. Com o tempo revelar-se-ão paliativas. reduzir as desigualdades. constatou que o número de jovens (menores de 18 anos) que trabalham para o tráfico pode chegar a sete mil. medidas imediatas a serem tomadas. assim. 206] dade com outra solução. de Miranda Rosa. A.[p. a não ser aquela de promover uma total reorganização. mais cedo ou mais tarde acaba vindo a rebelião. É preciso cortar o mal pela raiz. Numa favela de 30 mil pessoas. pois o desequilíbrio se torna tão grande que não se depara a socie. uma das principais qualidades dos homens públicos. Devem eles possuir um espírito inovador (e não ritualista) para realizar as reformas sociais necessárias nas leis. determinação política das autoridades são. na distribuição da riqueza. na ordem econômica para melhorar a distribuição de rendas. diminuir o desequilíbrio entre metas e meios sociais. reeditada sucessivas vezes pela Editora Zahar. É preciso promover as mudanças sociais necessárias nas instituições. Para maior profundidade do tema. A questão tem que ser enfrentada com medidas a curto. pelo menos 10%. médio e longo prazo. obra pioneira no Brasil. estabelecendo novas metas e institucionalizando novos meios. da Delegacia de Homicídios. três mil pessoas. a reconquista dos espaços perdidos pelo Estado.Levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social (IBISIS). e não apenas arrancar as suas folhas. para que os moradores tenham medo de denunciá-los. orientar o planejamento familiar. esquartejamento e incineração de corpos fazem parte do terror que esses traficantes impõem nas favelas. ao alcance da maioria. que têm nas mãos o destino da sociedade. Se essa é a realidade social. não existe solução única e milagrosa. Mas não resolverão o problema. aprimorar a educação. ou seja. O delegado Carlos Henrique Machado. enfim. promover ações afirmativas. recomendamos a leitura do Capítulo XI da notável Sociologia do Direito do Professor F. nas instituições. A inovação deve ser. vivem do comércio de droga. eliminar a exclusão social. nas leis. tornar as metas mais acessíveis e os meios melhor distribuídos. Quando isso não é feito. então. afirma que atualmente a prática nos morros é a intimidação: tortura. KatMartins . por isso. Atuação mais firme e organizada da polícia.

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