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Freud o Estranho

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O ‘ESTRANHO’ (1919

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NOTA DO EDITOR INGLÊS DAS UNHEIMLICHE (a)EDIÇÕES ALEMÃS: 1919 Imago, 5 (5-6), 297-324. 1922 S.K.S.N., 5, 229-73. 1924 G.S ., 10, 369-408. 1924 Dichtung und Kunst, 99-138. 1947 G.W ., 12, 229-68. (b)TRADUÇÃO INGLESA: ‘The “Uncanny”’ 1925 C.P., 4, 368-407. (Trad. de Alix Strachey.) A presente tradução inglesa é versão consideravelmente modificada da publicada em 1925. Este artigo, publicado no outono de 1919, é mencionado por Freud numa carta a Ferenczi de 12 de maio do mesmo ano, na qual diz que desenterrou um velho texto de uma gaveta e o está reescrevendo. Não se sabe quando foi originalmente escrito e o quanto mudou, embora a nota citada de Totem e Tabu , na pág. 300, adiante, mostre que o tema já estava presente em sua mente em 1913. As passagens ligadas a ‘compulsão à repetição’ (ver em [1] e segs.) devem, de qualquer maneira, fazer parte da revisão. Esses trechos incluem um resumo de boa parte do conteúdo de Além do Princípio de Prazer (1920g) e falam deste como ‘já concluído’. A mesma carta a Ferenczi, de 12 de maio de 1919, anunciava que um rascunho desse último trabalho estava terminado, ainda que, de fato, o livro só tivesse sido publicado um ano mais tarde. Mais detalhes serão encontrados na Nota do Editor Inglês a Além do Princípio de Prazer, Edição Standard Brasileira, Vol. XVIII, pág. 13, IMAGO Editora, 1976. A primeira seção do presente artigo, com a sua extensa citação de um dicionário alemão, apresenta especiais dificuldades para o tradutor. Espera-se que os leitores não se deixem desencorajar por esse obstáculo preliminar, pois o artigo está cheio de material importante e interessante e vai muito além dos tópicos simplesmente lingüísticos.

O ESTRANHO I Só raramente um psicanalista se sente impelido a pesquisar o tema da estética, mesmo quando por estética se entende não simplesmente a teoria da beleza, mas a teoria das qualidades do sentir. O analista opera em outras camadas da vida mental e pouco tem a ver com os impulsos emocionais dominados, os quais, inibidos em seus objetivos e dependentes de uma hoste de fatores simultâneos, fornecem habitualmente o material para o estudo da estética. Mas acontece ocasionalmente que ele tem de interessar-se por algum ramo particular daquele assunto; e esse ramo geralmente revela-se um campo bastante remoto, negligenciado na literatura especializada da estética. O tema do ‘estranho’ é um ramo desse tipo. Relaciona-se indubitavelmente com o que é assustador — com o que provoca medo e horror; certamente, também, a palavra nem sempre é usada num sentido claramente definível, de modo que tende a coincidir com aquilo que desperta o medo em geral. Ainda assim, podemos esperar que esteja presente um núcleo especial de sensibilidade que justificou o uso de um termo conceitual peculiar. Fica-se curioso para saber que núcleo comum é esse que nos permite distinguir como ‘estranhas’ determinadas coisas que estão dentro do campo do que é amedrontador. Nada em absoluto encontra-se a respeito deste assunto em extensos tratados de estética, que em geral preferem preocupar-se com o que é belo, atraente e sublime — isto é, com sentimentos de natureza positiva — e com as circunstâncias e os objetivos que os trazem à tona, mais do que com os sentimentos opostos, de repulsa e aflição. Conheço apenas uma tentativa na literatura médico-psicológica, um artigo fértil, mas não exaustivo, de Jentsch (1906). Mas devo confessar que não fiz um exame muito completo da literatura relacionada com esta minha modesta contribuição, particularmente da literatura estrangeira, por razões que, como pode ser facilmente adivinhado, estão nos tempos em que vivemos; de forma que meu artigo é apresentado ao leitor sem qualquer pretensão de prioridade. Em seu estudo do ‘estranho’, Jentsch destaca com muita razão o obstáculo apresentado pelo fato de que as pessoas variam muito na sua sensibilidade a essa categoria de sentimento. De fato, o próprio autor da presente contribuição deve declarar-se culpado de particular obtusidade na matéria, onde a extrema delicadeza de percepção seria mais adequada. Há muito tempo que não experimenta ou sabe de algo

Naturalmente. não precisamos. Só podemos dizer que aquilo que é novo pode tornar-se facilmente assustador e estranho. Na exposição que farei. talvez apenas porque nós próprios falamos uma língua que é estrangeira. a relação não pode ser invertida. Ele atribui o fator essencial na origem do sentimento de estranheza à incerteza intelectual. Podemos descobrir que significado veio a ligar-se à palavra ‘estranho’ no decorrer da sua história. Em primeiro lugar. menos prontamente terá a impressão de algo estranho em relação aos objetos e eventos nesse ambiente. despertando em si a possibilidade de experimentá-lo. e há muito familiar. Todavia. no seu ambiente. Algo tem de ser acrescentado ao que é novo e não familiar. tais dificuldades fazem-se sentir poderosamente em muitos outros ramos da estética. tentaremos operar para além da equação ‘estranho’ = ‘não familiar’. temos a impressão de que muitas línguas não têm palavra para essa . Mas os dicionários que consultamos nada de novo nos dizem. contudo. Não é difícil verificar que essa definição está incompleta e. ‘heimisch‘ [‘nativo’] — o oposto do que é familiar. De um modo geral. Acrescente-se também que minha investigação começou realmente ao coligir uma série de casos individuais. e inferir. contudo. algumas novidades são assustadoras. é o que mostrarei no que se segue. A palavra alemã ‘unheimlich’ é obviamente o oposto de ‘heimlich’ [‘doméstica’]. seguirei o curso inverso. Quanto mais orientada a pessoa está. mas de modo algum todas elas. e só foi confirmada mais tarde por um exame do uso lingüístico. que ambos os rumos conduzem ao mesmo resultado: o estranho é aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido. desanimar de encontrar exemplos nos quais a qualidade em questão será reconhecida sem hesitações pela maioria das pessoas. e somos tentados a concluir que aquilo que é ‘estranho’ é assustador precisamente porque não é conhecido e familiar. em que circunstâncias o familiar pode tornar-se estranho e assustador. abrem-se-nos dois rumos. coisas. Jentsch não foi além dessa relação do estranho com o novo e não familiar. e deve começar por transpor-se para esse estado de sensibilidade. então. Direi. De fato. impressões sensórias. portanto. voltar-nos-emos para outras línguas. a natureza desconhecida do estranho a partir de tudo o que esses exemplos têm em comum. nem tudo o que é novo e não familiar é assustador. de maneira que o estranho seria sempre algo que não se sabe como abordar. ou podemos reunir todas aquelas propriedades de pessoas. Como isso é possível. experiências e situações que despertam em nós o sentimento de estranheza. de velho. De início. por causa disso. de imediato.que lhe tenha dado uma impressão estranha. para torná-lo estranho.

estrangeiro). ESPANHOL: (Tollhausen. ou considerado como pertencente (cf. Flügel e Muret-Sanders). tornam-se bastante heimlich.’ ‘Não obstante. de Daniel Sanders. familiar): Die Heimlichen. 25. Em oposição a selvagem.particular nuança do que é assustador. uncanny. 2 Sam. Heimlich. gloomy. adj. subst. o desfrutar de um contentamento tranqüilo etc. encontra-se sob a palavra ‘heimlich’. a seguinte entrada. 1. ‘Animais selvagens… que são educados para serem heimlich e acostumados ao homem. capaz de fazer companhia ao homem. Inquiétant. onde estranhos estão abatendo os seus bosques?’ ‘Ela não se sentia muito heimlich com ele. Der heimliche Rat (Gen. Georges. 1898). Também heimelich. estranho. íntimo. Um lugar estranho: locus suspectus. Wisd. FRANCÊS: (Sachs-Villatte). 1889). — Assim também: ‘(O cordeiro) é tão heimlich e come da minha mão. heimelig. (a) (Obsoleto) pertencente à casa ou à família. familiar. 1 Chron. 729).’ ‘Se essas jovens criaturas são criadas desde os primeiros dias entre os homens. No Wortebuch der Deutschen Sprache (1860. siniestro. Gostaria de expressar a minha gratidão ao Dr. ghastly.’ ‘Ao longo de uma alta.’ (c) Íntimo. INGLÊS: (dos dicionários de Lucas. sombreada vereda…. junto a . mal à son aise. heimlich. 23. Destaquei com itálicos uma ou duas passagens.g. 4).. Heimlichkeiten): I. viii. Sospechoso. dismal. amistosas’ etc. ‘Animais que não são selvagens nem heimlich‘ etc. despertando uma sensação de repouso agradável e de segurança. amigavelmente confortável. (of a man) a repulsive fellow. (of a house) haunted.. xxiii. ξενος (isto é. Uncomfortable. ao alemão. portanto. latim familiaris.E. numa estranha hora da noite: intempesta nocte. como a de alguém entre as quatro paredes da sua casa. xli. Em árabe e hebreu ‘estranho’ significa o mesmo que ‘demoníaco’. Deutschlateinisches Worterbuch. os membros do lar. hoje mais habitualmente Geheimer Rat [Conselheiro Privado]. uneasy. de mal agüero. ‘horrível’. a cegonha é um belo heimelich pássaro. GREGO: (Léxicos de Rost e de Schenkl). Heimlichkeit (pl. pertencente à casa. As línguas italiana e portuguesa parecem contentar-se com palavras que descreveríamos como circunlocuções. Theodor Reik pelos seguintes excertos: LATIM: (K. lugubre. que reproduzimos integralmente aqui. amistoso etc. doméstico. e. (b) De animais: domesticado. lúgubre. 45. Voltemos. não estranho. ‘Ainda é heimlich para você o seu país. xii. Bellows. sinistre.

’ ‘Não conseguia encontrar prontamente outro lugar tão íntimo e heimlich como este. II.’ ‘Não se sentia absolutamente heimlich quanto a isso. tão aconchegante e heimlich. de modo a evitar que este sentido perfeitamente bom do vocábulo se torne obsoleto.’ ‘Estava tão heimelig na casa.’ ‘Tranqüilo.’ ‘A corneta do sentinela soa tão heimelig da torre.’ ‘Uma dona de casa cuidadosa. oculto da vista. quando estava em casa. tão encantador. tão sombreadamente-heimlich. parecia-lhe agora muito mais heimlich. isto é. também em relação ao tempo (clima).’ ‘A cabana onde antes repousara tantas vezes entre os seus. tão maravilhosamente heim’lig.’ ‘Aquele que vem de longe… certamente não vive muito heimelig (heimatlich [em casa]. de coração.’ ‘A sala cálida e a tarde heimelig. tão heimelig.’ ‘Destruir a Heimlichkeit do lar. Não se pode passar por ali sem ter sempre a sensação de que a água vai brotar de novo. freundnachbarlich [de modo amistoso. e a sua voz convida com tanta hospitalidade. particularmente. em particular Unheimlich [ver adiante].’ ‘Nós o visualizamos tão confortável.’ ‘Você vai dormir ali. sonhadores e embaladores-heimlich‘ Cf. tão feliz.’ ‘O homem que até recentemente fora tão estranho a ele. Cf:‘“Os Zecks [nome de família] são todos ‘heimlich’. de modo que os outros não consigam saber. tão macio e cálido. ‘Em nenhum outro lugar estaria tão heimelig como estou aqui. através de uma fácil confusão com II [ver adiante]. Escondido.” (no sentido II) “’Heimlich’? O que você entende por ‘heimlich’?” “Bem. disposto. que sabe como fazer uma agradável Heimlichkeit (Häuslichkeit [domesticidade]) com os mais escassos meios. (d) Particularmente na Silésia: alegre.’ ‘Os proprietários de terra protestantes não se sentem … heimlich entre os seus subordinados católicos.’ ‘Pouco a pouco sentiram-se à vontade e heimelig entre si.’ ‘Amável Heimeligkeit. em boa vizinhança]) entre as pessoas. vocês chamam ‘heimlich’.’ — Esta forma de palavra merece tornar-se geral.‘. Bem. cercada por estreitas paredes. e só a quietude vespertina espreita a tua cela.… são como uma fonte enterrada ou um açude seco. com freqüência como trissílabo: ‘Como uma tarde parecia outra vez heimelich a Ivo. tão isolado. que é tão pequeno.” “Oh. por . sonegado aos outros.’ ‘Quando tudo fica calmo e heimlich.’ ‘Em tranqüila Heimlichkeit. nenhum outro lugar mais adequado para o repouso deles.’ — Também [em compostos] ‘O lugar era tão sereno. encantador e heimlich. e tão grande o Senhor — isto é que é verdadeiramente heimelig. Entre os autores suíços da Suábia. Fazer alguma coisa heimlich. o que faz você pensar que há algo secreto e suspeitoso acerca dessa família?”’ (Gutzkow).’ ‘Quando um homem sente.um sussurrante. sentimental e balbuciante riacho silvestre. nós chamamos a isso ‘unheimlich’.’ ‘Os fluxos e influxos da corrente.

reuniões e encontros heimlich. ‘Aprendido em estranhas Heimlichkeiten’ (artes mágicas). que fazem o fecho de Heimlichkeiten‘ (isto é.’ — Descobrir.‘ ‘A mão da compreensão pode anular sozinha o feitiço impotente de Heimlichkeiten (de ouro escondido).’ ‘Agora estou começando a ter um sentimento unheimlich. começam as maquinações heimlich. Também. sobrenatural. ‘Onde a divulgação pública tem que parar.’ ‘Um efeito santo.’ ‘Esses jovens pálidos são unheimlich e estão tramando Deus sabe que desordem. suspirar ou lastimar-se heimlich.’ ‘A arte heimlich‘(mágica). Note-se particularmente o negativo ‘un‘: misterioso. ver acima. que desperta horrível temor: ‘Parecendo-lhe bastante unheimlich e fantástico.’ ‘Você ainda tem que aprender o que é mais heimlich segredado para mim. O que mais nos interessa nesse longo excerto é descobrir que entre os seus diferentes matizes de significado a palavra ‘heimlich‘ exibe um que é idêntico ao seu oposto. aberto.’ ‘Já sentira desde há muito uma sensação hunheimlic e até mesmo horrível.’) Em geral. Para compostos. heimlich. como se houvesse algo a esconder.’ ‘Ele tinha telescópios acromáticos construídos heimlich e secretamente.’ ‘“Unheimlich” é o nome de tudo que deveria ter permanecido… secreto e oculto mas veio à luz‘ (Schelling). ‘Unheimlich e imóvel como uma imagem de pedra. (Cf. heimlich enganoso e malicioso para com os cruéis senhores… como franco. 27). vocês o chamam “heimlich”. ‘Na minha época estudamos Heimlichkeiten. o lacre). simpático e solícito para com um amigo na desgraça. somos lembrados .’ — ‘Tão reticente.’ ‘As horas unheimlich e temíveis da noite.’ ‘A liberdade é o lema sussurrado de conspiradores heimlich e o grito de batalha de revolucionários declarados.‘ ‘Se não lho dão aberta e escrupulosamente. cercá-lo de uma certa Unheimlichkeit. ‘tramar Hiemlichkeiten por trás de minhas costas’. ‘A câmara heimlich‘ (privada) (2 Reis x. a citação de Gutzkow: ‘Nós os chamamos ‘unheimlich”.’ — Unheimlich poucas vezes é usado como oposto ao significado II (acima).’ ‘Diga. ‘unheimlich‘. Assim.’ ‘Uma névoa unheimlich chamada nevoeiro da colina. pecado heimlich. trair as Heimlichkeiten de alguém. revelar. ‘a cadeira heimlich‘. onde é o lugar de encobrimento… em que lugar de oculta Heimlichkeit?’ ‘Abelhas. caso de amor. ele pode apanhá-lo heimlich e inescrupulosamente. Ic. — ‘Encobrir o divino. lugares heimlich (que as boas maneiras nos obrigam a esconder) (1 Sam.trás das costas de alguém.’ ‘Daqui por diante. o lacre). ‘Aprendido em estranhas Heimlichkeiten‘ (isto é. olhar com prazer heimlich a derrota de alguém.’ ‘Minhas brincadeiras heimlich. v. amor.‘ …’Sente um horror unheimlich‘. ‘Lançar ao poço ou Heimlichkeiten‘. desejo que não mais haja nada heimlich entre nós. — ‘Conduzidos os cavalos heimlich adiante de Laomedon. o que é heimlich vem a ser unheimlich. roubar heimlich. comportar-se heimlich. 6).

45. heimelîh. 5. 876. franco. como se diz do conhecimento — místico. sem serem contraditórias. 878. xxvii. Parte 2. conforme aprendemos.) (P. figuratus. ‘Unheimlich’ é habitualmente usado. algo escondido. amistoso. amigável.’ (Schiller. pudenda… ‘os homens que não morreram foram feridos nas suas partes heimlich. o adjetivo. o que está oculto e se mantém fora da vista.) Em sentido ligeiramente diferente: ‘Sinto-me heimlich bem. mysticus. apenas como o contrário do primeiro significado de ‘heimlich‘. íntimo.‘ (1 Samuel v.) ‘Na margem esquerda do lago jaz uma campina heimlich na floresta. (Gen. são chamados conselheiros heimlich. Algumas dúvidas que. e não do segundo. 4. de acordo com o uso moderno.) … As partes heimlich do corpo humano. ainda assim são muito diferentes: por um lado significa o que é familiar e agradável e. liberto do medo. adj. assim raramente usada no discurso moderno… Heimlich é usado em conjunção com um verbo que expressa o ato de ocultar: ‘No segredo do seu tabernáculo ele esconder-me-á heimlich. para o qual certamente não estávamos preparados. foi substituído por geheim [secreto]… ‘Faraó chamou o nome de José “ele. a quem os segredos são revelados”’ (conselheiro heimlich). vernaculus.) 6. e adv. occultus. surgiram. heimlîch. percebemos que Schelling diz algo que dá um novo esclarecimento ao conceito do Unheimlich.Da idéia de ‘familiar’.’… [3] (b) Heimlich também se diz de um lugar livre da influência de fantasmas… familiar. I. (P. unheimlich é tudo o que deveria ter permanecido secreto e oculto mas veio à luz.‘ (Ps. Sanders nada nos diz acerca de uma possível conexão genética entre esses dois significados de‘heimlich’. inconsciente… Heimlich tem também o significado daquilo que é obscuro. 874. MAA.)… Licença poética. secreto. mas pertence a dois conjuntos de idéias que. inacessível ao conhecimento… ‘Você não vê? .) Heimlich num sentido diferente. que têm que ser mantidos em segredo. divinus.de que a palavra ‘heimlich‘ não deixa de ser ambígua. (1877. Segundo Schelling. xli. 4. por outro. Wilhelm Tell. 873 e segs. 12. (P. em questões de Estado. pertencente à casa’. Por outro lado. alegórico: um significado heimlich.)… (c) Funcionários que dão importantes conselhos. 875: β•) Familiar. occultus. (P.) Lemos: Heimlich. Heimlich.4. 878. e essa idéia expande-se de muitos modos… (P. desenvolve-se outra idéia de algo afastado dos olhos de estranhos. desse modo. como afastado do conhecimento. são afastadas se consul-tamos o dicionário de Grimm.

’ (Schiller. Isto. tomá-lo-emos como ponto de partida para as nossas próprias investigações. de um modo ou de outro. a primeira condição essencial à obviamente selecionar um exemplo adequado para começar. unheimlich. eventos e situações que conseguem despertar em nós um sentimento de estranheza. operando por trás da aparência comum de atividade mental. essas sugestões tornar-se-ão inteligíveis a nós. 298.T. porque no que se segue ele nos lembra um escritor que. se um objeto sem vida não pode ser na verdade animado’. cada esquina para ele é heimlich e cheia de terrores.) Dessa forma. Tenhamos em mente essa descoberta. A estes acrescenta o estranho efeito dos acessos epiléticos e das manifestações de insanidade. heimlich é uma palavra cujo significado se desenvolve na direção da ambivalência. Hoffmann empregou repetidas vezes. Cena 2. impressões. Jentsch tomou como ótimo exemplo ‘dúvidas quanto a saber se um ser aparentemente animado está realmente vivo. Sem aceitar inteiramente esse ponto de vista do autor. Wallensteins Lager. dissiparia rapidamente o peculiar efeito emocional da coisa. mais do que qualquer outro.’ (Klinger. até que finalmente coincide com o seu oposto. teve êxito na criação de efeitos estranhos. Theater. bonecos e autômatos engenhosamente construídos. que se expressa no último parágrafo. de forma particularmente poderosa e definida. e ele refere-se. do modo inverso. desenvolve-se mais ainda. Unheimlich é. Assim: ‘Às vezes sinto-me como um homem que caminha pela noite e acredita em fantasmas. à impressão causada por figuras de cera. eles temem a face heimlich do Duque de Friedland. de modo que ‘heimlich’. Escreve Jentsch: ‘Ao contar uma história. esse . II Quando passamos a rever as coisas.A noção de algo oculto e perigoso. ou. um dos recursos mais bem-sucedidos para criar facilmente efeitos de estranheza é deixar o leitor na incerteza de que uma determinada figura na história é um ser humano ou um autômato. pessoas. de maneira que não possa ser levado a penetrar no assunto e esclarecê-lo imediatamente.A. 3. com êxito. como afirmamos. e fazê-lo de tal modo que a sua atenção não se concentre diretamente nessa incerteza.Eles não confiam em nós.) 9. a esse respeito. embora não possamos ainda compreendê-la corretamente. Se continuarmos a examinar exemplos individuais de estranheza. uma subespécie de heimlich. lado a lado com a definição de Schelling do Unheimlich. porque excitam no espectador a impressão de processos automáticos e mecânicos. E.

pelo contrário. a sua mãe na verdade negava que tal pessoa existisse. algo que lhe dá o nome e que é sempre reintroduzido nos momentos críticos: é o tema do ‘Homem da Areia’. Reconheceu o visitante como sendo o advogado Copélio. e eles os usam para mordiscar os olhos dos meninos e das meninas desobedientes. que é em todos os aspectos um ser humano. e ele agora identificava esse Copélio com o temido Homem da Areia. seja de alguma forma o único elemento. de Hoffmann. Esse conto fantástico principia com as recordações de infância do estudante Nataniel. e. Nataniel não deixaria de ouvir os pesados passos de um visitante. de modo que estes saltam sangrando da cabeça. A despeito da sua felicidade presente. e uma noite. podia dar-lhe uma informação mais precisa: ‘É um homem perverso que chega quando as crianças não vão para a cama. O tema principal da história é. a boneca que aparece no primeiro ato da ópera de Offenbach. refere-se principalmente à história de ‘O Homem da Areia’. que arranca os olhos das crianças.’ Essa observação. em Nachtstücke. indubitavelmente correta. uma pessoa repulsiva que amedrontava as crianças quando. Quando indagada acerca do Homem da Areia. prevenindo-as de que ‘o Homem da Areia estava chegando’. No que diz respeito ao resto da cena. ou de fato o mais importante. e joga punhados de areia nos olhos delas. a babá. Em certas noites. para alimentar os seus filhos.’ Embora o pequeno Nataniel fosse sensível e tivesse idade bastante para não dar crédito à figura do Homem da Areia com tais horríveis atributos. aparecia para jantar.artifício psicológico nas suas narrativas fantásticas. ou uma . com o qual o pai estaria ocupado toda a noite. Mas não posso achar — e espero que a maioria dos leitores da história concorde comigo — que o tema da boneca Olímpia. ele escondeu-se no escritório do pai. exceto como figura de linguagem. a que se deva atribuir a inigualável atmosfera de estranheza evocada pela história. Hoffmann já nos deixa em dúvida se o que estamos testemunhando é o primeiro delírio do apavorado menino. Eles estão acomodados lá em cima. Contos de Hoffmann. no ninho. porém. Determinou-se a descobrir que aparência tinha o Homem da Areia. algo diferente. quando o Homem da Areia era outra vez esperado. ocasionalmente. Nem essa atmosfera é elevada pelo fato de que o próprio autor trata o episódio de Olímpia com um leve toque de sátira e o usa para ridicularizar a idealização que a jovem faz da sua amante. ainda assim o medo fixou-se no seu coração. Ele coloca então os olhos num saco e os leva para a meia-lua. que contém o original de Olímpia. não pode banir as lembranças ligadas à morte misteriosa e apavorante do seu amado pai. por certo. sua mãe costumava mandar as crianças cedo para a cama. e seus bicos são curvos como bicos de coruja.

O advogado Copélio desaparece do lugar sem deixar qualquer vestígio atrás de si. esquece a moça talentosa e sensível de quem está noivo. mas o pai lhe implora que solte o menino e salva-lhe os olhos. boneca de pau! Linda boneca de pau. Copélio apanha-o e está prestes a lançar brasas tiradas do fogo em seus olhos. tirados das chamas. Os punhados de areia que deveriam ser jogados aos olhos da criança. jogando estes depois no braseiro. o ‘pai’ de Olímpia. e compra um pequeno telescópio de Coppola. ótimos olhos!’ O terror do estudante atenua-se quando descobre que os olhos oferecidos são apenas inofensivos óculos. e tenta estrangulá-lo. que na cidade universitária. por fim. na história. o pai é morto no escritório por uma explosão. Depois disso. ‘Apressa-te! Apressa-te! anel de fogo!’ grita ele. Com a ajuda do instrumento ele observa a casa em frente. Spalanzani. Logo se apaixona por ela tão violentamente que. O pai e o convidado estão trabalhando num braseiro incandescente. dizendo que Coppola os havia roubado do estudante. Olímpia. O oculista leva embora a boneca de madeira. e uma longa enfermidade põe fim à sua experiência.’ Cai então sobre o professor. sem os olhos. e ali espia a bela mas estranhamente silenciosa e imóvel filha de Spalanzani. na fantasia do menino. a recordação da morte do pai mistura-se a essa nova experiência. estar recuperado. e o mecânico. o rapaz cai em profundo desfalecimento. no seu delírio. Aqueles que optam pela interpretação racionalista do Homem da Areia não deixam de reconhecer. se oferece para vender-lhe barômetros. Mas Olímpia é um autômato. gira —. No decorrer de uma outra visita do Homem da Areia. o Homem da Areia. Nataniel parece. anel de fogo — Hurrah! Apressa-te. um ano depois. um italiano chamado Giuseppe Coppola. Pretende casar-se com a sua noiva. a persistente influência da história contada pela babá. Nataniel sucumbe a um novo ataque de loucura e. Quando Nataniel recusa. e trai-se ao soltar um alto grito. Reanimando-se de uma longa e grave enfermidade. crê ter reconhecido esse fantasma de horror da sua infância num oculista itinerante. apanha no chão os olhos sangrentos de Olímpia e os arremessa ao peito de Nataniel. O pequeno intrometido ouve Copélio invocar: ‘Aqui os olhos! Aqui os olhos!’. o homem prossegue: ‘Não quer barômetros? Não quer barômetros? Tenho também ótimos olhos. como sendo reais. e em ambos os casos destinam-se a fazer com que os seus olhos pulem para fora. do professor Spalanzani.sucessão de acontecimentos que devem ser considerados. Nataniel. por sua causa. com a . O estudante surpreende os dois Mestres discutindo quanto ao seu trabalho manual. ‘Gira. agora um estudante. transformam-se em pedaços de carvão em brasa. cujo mecanismo foi feito por Spalanzani e cujos olhos foram colocados por Coppola.

É verdade que o escritor cria uma espécie de incerteza em nós. portanto. O irmão da moça. destaca-se a figura do advogado Copélio. isto é. em Macbeth e.qual se reconciliou. acho eu. e que o ponto de vista de Jentsch. lança-se por sobre o parapeito. Esse breve sumário não deixa dúvidas. Essa incerteza. de estranheza. deixando em baixo o irmão dela. fazer-nos olhar através dos óculos ou do telescópio do demoníaco oculista — talvez. boneca de pau!’. nada tem a ver com o efeito. Um dia estavam ele e ela passeando pelo mercado da cidade. que reconhecidamente se aplica à boneca Olímpia. de sua própria criação. tenta jogar a garota da torre. de uma incerteza intelectual. de que o sentimento de algo estranho está ligado diretamente à figura do Homem da Areia. Entre as pessoas que começaram a se juntar em baixo. Do alto. Enquanto as pessoas que observam a cena se preparam para subir e dominar o louco. que caminhava com eles. porém. na verdade. Ele tem. é algo irrelevante em relação a esse outro exemplo. pelo tempo em que nos colocamos nas suas mãos. a atenção de Clara é atraída para um curioso objeto que se move ao longo da rua. também. vista através do telescópio. se nos está conduzindo pelo mundo real ou por um mundo puramente fantástico. em sentido diferente. o Homem da Areia. . ele vai descer por si próprio. demônios e fantasmas. anel de fogo!’ — e nós sabemos a origem das palavras. levado pelos gritos desta. Lá em cima. não nos deixando saber. sobre o qual a alta torre da prefeitura lança a sua enorme sombra. com um grito selvagem de ‘Sim! Ótimos olhos — ótimos olhos!’. sem dúvida propositalmente. Seu corpo jaz nas pedras da rua com o crânio despedaçado. a princípio. na torre. Por sugestão da moça. devemo-nos curvar à sua decisão e considerar o cenário como sendo real. o louco corre em círculos berrando ‘Gira. o oculista. e percebemos que pretende. salva-a e apressa-se em descer com ela em segurança.’ Subitamente Nataniel fica imóvel. à idéia de ter os olhos roubados. avista Copélio e. Copélio ri e diz: ‘Esperem um pouco. A incerteza quanto a um objeto ser vivo ou inanimado. A conclusão da história deixa bastante claro que Coppola. que voltou de repente. enquanto o Homem da Areia desaparece na multidão. e se escolhe como palco da sua ação um mundo povoado de espíritos. o direito de fazer ambas as coisas. mais chocante. desaparece no decorrer da história de Hoffmann. Podemos supor que foi a sua aproximação. o próprio autor em pessoa tenha feito observações atentas através de tal instrumento. sobem à torre. Gritando ‘Gira. é realmente o advogado Copélio e também. como Shakespeare em Hamlet. que lançou Nataniel ao seu acesso de loucura. de certo. em A Tempestade e Sonho de uma Noite de Verão. Nataniel observa essa coisa através do telescópio de Coppola e cai num novo ataque de loucura.

seu melhor amigo. Todas as demais dúvidas são afastadas quando sabemos. O estudo dos sonhos. do que um justificável medo de natureza racional. de uma questão de incerteza intelectual: sabemos agora que não devemos estar observando o produto da imaginação de um louco. intenso colorido à idéia de perder outros órgãos. ele destrói o segundo objeto do seu amor. no entanto. antes de mais nada. Esse ponto de vista. A teoria da incerteza intelectual é. e nenhum outro dano físico é mais temido por esses adultos do que um ferimento nos olhos. eu não recomendaria a qualquer oponente da concepção psicanalítica que escolhesse particularmente essa história do Homem da Areia. também. com a superioridade das mentes racionais. para apoiar o argumento de que a ansiedade em relação aos olhos nada tem a ver com o complexo de castração. porém. por trás da qual nós. estamos aptos a detectar a sensata verdade.Não se trata aqui. assim. que se verifica existir nos sonhos. a dizer que estimamos uma coisa como a menina dos olhos. colocou Hoffmann essa ansiedade em relação tão íntima com a morte do pai? E por que o Homem da Areia aparece sempre como um perturbador do amor? Ele separa o infeliz Nataniel da sua noiva e do irmão desta. pela análise de pacientes neuróticos. não considera adequadamente a relação substitutiva entre o olho e o órgão masculino. incapaz de explicar aquela impressão. das fantasias e dos mitos ensinou-nos que a ansiedade em relação aos próprios olhos. que o medo de ferir ou perder os olhos é um dos mais terríveis temores das crianças. O autocegamento do criminoso mítico. nem outro segredo mais profundo. era simplesmente uma forma atenuada do castigo da castração — o único castigo que era adequado a ele pela lex tallionis. e que é essa emoção que dá. Podemos tentar. podemos ir mais além e dizer que o próprio medo da castração não contém outro significado. Ademais. e leva-o ao suicídio no momento em . a linda boneca. negar que os temores em relação aos olhos derivem do medo da castração. e argumentar que é muito natural que um órgão tão preciso como o olho deva ser guardado por um medo proporcional. portanto. Na verdade. Olímpia. mitos e fantasias. então. Estamos acostumados. é muitas vezes um substituto do temor de ser castrado. Édipo. Sabemos. ainda assim. com fundamento racionalista. nem dissipa a impressão de que a ameaça de ser castrado excita de modo especial uma emoção particularmente violenta e obscura. Muitos adultos conservam uma apreensão nesse aspecto. dos detalhes do seu ‘complexo de castração’ e compreendemos a enorme importância desse complexo na vida mental de tais pacientes. o medo de ficar cego. esse conhecimento não diminui em nada a impressão de estranheza. Por que razão. e. pela experiência psicanalítica.

talvez seja apenas uma complicação. mas de que cai num estado de completa estupefação. Jentsch acredita que se cria uma condição particularmente favorável para despertar sentimentos de estranheza. Lembremo-nos de que. A fonte de sentimentos de estranheza não seria. um medo infantil. a idéia de uma ‘boneca viva’ não provoca absolutamente o medo. nos primeiros folguedos. Ora. porém. extremamente concentrada. e gostam particularmente de tratar as suas bonecas como pessoas vivas. Parece haver aqui uma contradição. a referir o estranho efeito do Homem da Areia à ansiedade pertencente ao complexo de castração da infância. também aqui. mas. quando existe uma incerteza intelectual quanto a um objeto ter ou não vida. De fato. De modo que. Curiosamente. na medida em que negamos toda ligação entre os medos relacionados com os olhos e com a castração. não é difícil descobrir um fator da infância. porém. dos quais se origina a ação. Hoffmann é o mestre incomparável do estranho na literatura. que até então lhe haviam sido ocultados. uma vez atingida a idéia de que podemos tornar um fator infantil como este responsável por sentimentos de estranheza. portanto. de modo algum as crianças distinguem nitidamente objetos vivos de objetos inanimados. mas tornam-se inteligíveis tão logo substituímos o Homem da Areia pelo pai temido. esclarecido. somo encorajados a verificar se podemos aplicá-la a outros exemplos do estranho. de cujas mãos é esperada a castração. por fim. certamente as bonecas são intimamente ligadas com a vida infantil. nesse caso. Contudo. de uma boneca que parece ter vida. mesmo aos oito anos de idade. .que recuperou a sua Clara e está prestes a unir-se venturosamente a ela. mas é uma história por demais obscura e intrincada para que nos aventuremos a um sumário da mesma. elementos como estes e muitos outros parecem arbitrários e sem sentido. portanto. tenho ouvido ocasionalmente uma paciente declarar que. com o resultado de que não fica. Já mais para o final do livro é que o leitor fica a saber dos fatos. Sua novela Die Elixire des Teufels [O Elixir do Diabo] contém toda uma série de temas a que se é tentado a atribuir o efeito estranho da narrativa. seria um desejo ou até mesmo simplesmente uma crença infantil. Na história. ainda estava convencida de que as suas bonecas certamente ganhariam vida se ela as olhasse de uma determinada forma. antes. encontramos o outro tema destacado por Jentsch.Arriscar-nos-emos. e quando um objeto inanimado se torna excessivamente parecido com um objeto animado. O autor acumulou excessivo material da mesma espécie. ainda que a história do Homem da Areia aborde o despertar de um medo da primitiva infância. podem até desejá-lo. que nos pode ser útil mais tarde. as crianças não temem que as suas bonecas adquiram vida. Na história do Homem da Areia.

provavelmente. Em outras palavras. Ele penetrou nas ligações que o ‘duplo’ tem com reflexos em espelhos. transforma-se em estranho anunciador da morte. E. ou substitui o seu próprio eu (self) por um estranho. Originalmente. através das diversas gerações que se sucedem. dos mesmos crimes. há uma duplicação. O tema do ‘duplo’ foi abordado de forma muito completa por Otto Rank (1914). mas lança também um raio de luz sobre a surpreendente evolução da idéia. no entanto. sentimento e experiência em comum com o outro. o ‘duplo’ era uma segurança contra a destruição do ego. brotaram do solo do amor-próprio ilimitado. que consegue resistir ao resto do ego. que tem a função de observar e de criticar o eu (self) e de exercer uma censura dentro da mente. ou até dos mesmos nomes. uma atividade especial. temos personagens que devem ser considerados idênticos porque parecem semelhantes. e. de tal forma que fica em dúvida sobre quem é o seu eu (self). com os espíritos guardiões. com a crença na alma e com o medo da morte.Em conseqüência disso. que aparece em todas as formas e em todos os graus de desenvolvimento. a compreensão da história como um todo sofre. a alma ‘imortal’ foi o primeiro ‘duplo’ do corpo. quando essa etapa está superada. No caso patológico de delírios de observação. A idéia do ‘duplo’ não desaparece necessariamente ao passar o narcisismo primário. com sombras. do narcisismo primário que domina a mente da criança e do homem primitivo. ainda que não a impressão que provoca. ou características. lentamente. e da qual tomamos conhecimento como nossa ‘consciência’. O mesmo desejo levou os antigos egípcios a desenvolverem a arte de fazer imagens do morto em materiais duradouros. Essa relação é acentuada por processos mentais que saltam de um para outro desses personagens — pelo que chamaríamos telepatia —. Entretanto. há o retorno constante da mesma coisa — a repetição dos mesmos aspectos. ou vicissitudes. de modo que um possui conhecimento. Essa invenção do duplicar como defesa contra a extinção tem sua contraparte na linguagem dos sonhos. essa . pois pode receber novo significado dos estádios posteriores do desenvolvimento do ego. finalmente. Forma-se ali. Assim. Devemo-nos contentar em escolher aqueles temas de estranheza que se destacam mais. como afirma Rank. uma ‘enérgica negação do poder da morte’. Todos esses temas dizem respeito ao fenômeno do ‘duplo’. iguais. ao mesmo tempo em que verificamos se também podem ser facilmente atribuídos a causas infantis. que gosta de representar a castração pela duplicação ou multiplicação de um símbolo genital. divisão e intercâmbio do eu (self). Ou é marcada pelo fato de que o sujeito identifica-se com outra pessoa. Depois de haver sido uma garantia da imortalidade. o ‘duplo’ inverte seu aspecto. Tais idéias.

evoca a sensação de desamparo experimentada em alguns estados oníricos. e o nosso conhecimento dos processos mentais patológicos permite-nos acrescentar que nada. O fator da repetição da mesma coisa não apelará. Não é. para a autocrítica. Daquilo que tenho observado. talvez. como algo estranho a si mesmo. exploradas por Hoffmann. uma regressão a um período em que o ego não se distinguira ainda nitidamente do mundo externo e de outras pessoas. não cumpridos mas possíveis. porém. Em certa tarde quente de verão. tal como após o colapso da religião. Há também todos os futuros. apenas esse último material. que pode tratar o resto do ego como um objeto — isto é. nesse material mais superficial. os deuses se transformam em demônios. caminhava eu pelas ruas desertas de uma cidade provinciana na Itália. embora não seja fácil isolar e determinar exatamente a sua participação nisso. quando me encontrei num quarteirão sobre cujo caráter não . que pode ser incorporado à idéia de um duplo. que. por fantasia.atividade mental torna-se isolada. provoca indubitavelmente uma sensação estranha. [Cf. São elas um retorno a determinadas fases na elevação do sentimento de autoconsideração. podia ser levado em conta na ânsia de defesa que levou o ego a projetar para fora aquele material. Freud. atos que nutrem em nós a ilusão da Vontade Livre. dissociada do ego e discernível ao olho do terapeuta. temos que admitir que nada disso nos ajuda a compreender a sensação extraordinariamente intensa de algo estranho que permeia a concepção. O ‘duplo’ converteu-se num objeto de terror. um estádio em que o ‘duplo’ tinha um aspecto mais amistoso.] Após haver assim considerado a motivação manifesta da figura de um ‘duplo’. além do mais. ofensivo como é para a crítica do ego. sujeito a determinadas condições e combinado a determinadas circunstâncias. As outras formas de perturbação do ego. 1901b. para todos como fonte de uma sensação estranha. a que gostamos ainda de nos apegar. O fato de que existe uma atividade dessa natureza. há todos os esforços do ego que circunstâncias externas adversas aniquilaram e todos os nossos atos de vontade suprimidos. há muito superado — incidentalmente. Acredito que esses fatores são em parte responsáveis pela impressão de estranheza. o fato de que o homem é capaz de auto-observação — torna possível investir a velha idéia de ‘duplo’ de um novo significado e atribuir-lhe uma série de coisas — sobretudo aquelas coisas que. podem ser facilmente avaliadas pelos mesmos parâmetros do tema do ‘duplo’. esse fenômeno. Quando tudo está dito e feito. a qualidade de estranheza só pode advir do fato de o ‘duplo’ ser uma criação que data de um estádio mental muito primitivo. Capítulo XII (B). contudo. parecem pertencer ao antigo narcisismo superado dos primeiros anos.

um que contém os mesmos algarismos. com a mesma peça de mobiliário — conquanto seja verdade que Mark Twain conseguiu. sem quaisquer outras viagens de descoberta. cada qual independente em si. por muitas e muitas vezes. vez após vez. por meio de outro détour. onde a minha presença começava agora a despertar atenção. de dois . apenas para chegar. de outra forma. dela diferem radicalmente em outros aspectos. alguém perde o caminho numa floresta da montanha. digamos. Sentimos que isso é estranho. resultam também na mesma sensação de desamparo e de estranheza. entende-lo-á talvez como uma indicação do período de vida a ele designado. de uma atmosfera estranha. depois de haver vagado algum tempo sem perguntar o meu caminho. por exemplo. e apressei-me a deixar a estreita rua na esquina seguinte. com extravagante exagero. em caso contrário. Mas. ocorrem próximos: se nos deparamos com o número 62 diversas vezes no mesmo dia.poderia ficar em dúvida por muito tempo. procurando a porta ou o interruptor de luz. quartos de hotel. 62. quando. Agora. e esbarrar. cada tentativa para encontrar o caminho marcado ou familiar pode levar a pessoa de volta. não damos importância ao fato quando entregamos um sobretudo e recebemos do guarda-roupa um tíquete com o número. e alegrei-me bastante por encontrar-me de volta à piazza que deixara pouco antes. e num espaço de poucos dias recebe duas cartas. e que nos impõe a idéia de algo fatídico e inescapável. ficará tentado a atribuir um significado secreto a essa ocorrência obstinada de um número. Ou suponha-se alguém empenhado em ler as obras do famoso fisiólogo Hering. ou se começamos a perceber que tudo o que tem número — endereços. ou. as quais. Assim. é fácil verificar que também é apenas esse fator de repetição involuntária que cerca o que. ou quando descobrimos que a nossa cabine num navio tem esse número. E. por exemplo. Se tomamos outro tipo de coisas. encontrei-me subitamente de volta à mesma rua. a não ser que o indivíduo seja totalmente impermeável ao engodo da superstição. à mesma rua pela terceira vez. seria bastante inocente. Mas a impressão é alterada se dois eventos. porém. no entanto. compartimentos em trens — tem invariavelmente o mesmo. Afastei-me apressadamente uma vez mais. Naturalmente. a um único e mesmo ponto. surpreendido talvez por um nevoeiro. teríamos apenas falado de ‘sorte’. transformar essa última situação em algo irresistivelmente cômico. Outras situações. Ou a pessoa pode vagar numa sala escura e desconhecida. em todo caso. que pode ser identificado por algum marco particular. sobreveio-me uma sensação que só posso descrever como estranha. Só se viam mulheres pintadas nas janelas das pequenas casas. quando. que têm em comum com a minha aventura um retorno involuntário da mesma situação.

é tempo de deixarmos esses aspectos do problema. privando-as assim do seu estranho efeito. de que também o homem feliz tem que temer a inveja dos deuses. embora esse leitor de fisiologia jamais tenha tido contato com qualquer pessoa chamada Hering. na mente inconsciente. também. são difíceis de julgar. Na história de ‘O Anel de Polícrates’. Voltar-nos-emos. porque vê que cada desejo do seu amigo é imediatamente satisfeito. mas numa relação diferente. No caso clínico de um neurótico obsessivo. de atribuir a sua melhora não às propriedades terapêuticas da água. mas disseram-lhe que já estava ocupado por um senhor de idade. Teve o bom senso. pediu o mesmo quarto. na esperança de que uma análise destes decida se nossa hipótese é válida. é uma questão que posso tocar apenas tangencialmente nestas páginas. por uma parte do rumo tomado pelas análises de pacientes neuróticos. Não vou arriscar-me a decidir se ele foi ou não bem-sucedido. que ficava exatamente ao lado do de uma enfermeira muito obsequiosa. Pois é possível reconhecer. o seu significado está dissimulado em linguagem mitológica. no entanto.diferentes países. Todas essas considerações preparam-nos para a descoberta de que o que quer que nos lembre esta íntima ‘compulsão à repetição’ é percebido como estranho. no entanto. O anfitrião tornou-se ‘estranho’ para ele. já concluído no qual o problema foi colocado em detalhes. mas à situação do seu quarto. Não há muito tempo um inventivo cientista (Kammerer. para um outro exemplo. A sua própria explicação. e procurarmos alguns exemplos inegáveis do estranho. Agora. a predominância de uma ‘compulsão à repetição’. em todo caso. 1919) tentou reduzir as coincidências dessa espécie a determinadas leis. portanto. e devo referir ao leitor um outro trabalho. descrevi como o paciente ficou certa vez num estabelecimento para tratamento hidropático e muito se beneficiou disso. em cenário menos grandioso. O meu paciente considerou o fato . Assim. emprestando a determinados aspectos da mente o seu caráter demoníaco. Polícrates. uma compulsão que é responsável. cada qual de uma pessoa chamada Hering. o rei do Egito afasta-se horrorizado do seu anfitrião. procedente dos impulsos instintuais e provavelmente inerente à própria natureza dos instintos — uma compulsão poderosa o bastante para prevalecer sobre o princípio de prazer. e ainda muito claramente expressa nos impulsos das crianças pequenas.’ Duas semanas depois o velho realmente teve um derrame. parece-nos obscura. que. na sua segunda visita ao estabelecimento. ao que ele deu vazão ao seu aborrecimento com as palavras: ‘Quero que ele caia morto por causa disso. O modo com que exatamente podemos atribuir à psicologia infantil o estranho efeito de semelhantes ocorrências. cada cuidado seu prontamente anulado por um amável destino.

pela supervalorização narcísica. o que é temido é uma intenção secreta de fazer mal.uma experiência ‘estranha’. de poderes mágicos cuidadosamente graduados. as outras pessoas estão prontas a acreditar que a sua inveja se eleva a um grau de intensidade maior do que o habitual. Seligmann (1910-11). então. pela crença na onipotência dos pensamentos e a técnica de magia baseada nessa crença. ou ‘mana‘. tem medo da inveja de outras pessoas. O fato é que não teve dificuldades para exibir coincidências dessa espécie. de seus próprios processos mentais. Jamais se surpreendem quando invariavelmente se chocam com alguém em quem justamente acabam de pensar. conseguiram relatar experiências análogas. Caracterizava-se esta pela idéia de que o mundo era povoado por espíritos dos seres humanos. estarão certos de receber uma carta desse fulano na manhã seguinte. E agora encontramo-nos em terreno familiar. Esse últimos exemplos do ‘estranho’ devem ser referidos ao princípio que denominei ‘onipotência de pensamento’. bem como por todas as outras criações. não apenas ele. muito embora não seja posto em palavras. no irrestrito narcisismo desse estádio de desenvolvimento. dizendo que têm ‘pressentimentos’ que ‘geralmente’ se tornam realidade. empenhou-se em desviar as proibições manifestas da realidade. do sujeito. tomando o nome de uma expressão usada por um dos meus pacientes. e particularmente atributos não atraentes. Têm o hábito de referir-se a esse estado de coisas da maneira mais modesta. e quando um homem se destaca devido a atributos visíveis. que foi exaustivamente estudado por um oculista de Hamburgo. Um sentimento como este trai-se por um olhar. talvez pela primeira vez em muito tempo. e determinados sinais são interpretados como se aquela intenção tivesse o poder necessário às suas ordens. Uma das mais estranhas e difundidas formas de superstição é o medo do mau-olhado. Assim. pela atribuição. Parece jamais ter havido qualquer dúvida quanto à origem desse medo. ou se tivesse sido capaz de apresentar inumeráveis coincidências semelhantes. A nossa análise de exemplos do estranho reconduziu-nos à antiga concepção animista do universo. e que essa intensidade a converterá em ação efetiva. na medida em que projeta nelas a inveja que teria sentido em seu lugar. Se dizem certo dia ‘Há muito tempo que não tenho notícias de fulano’. mas. É como se cada um de . mas também todos os neuróticos obsessivos que observei. a várias pessoas e coisas externas. Quem quer que possua algo que seja a um só tempo valioso e frágil. A impressão de estranheza teria sido ainda mais forte se menos tempo houvesse passado entre as duas palavras e o infeliz evento. e raramente ocorrerá um acidente ou uma morte sem que isto lhes tenha passado pela cabeça pouco antes. com a ajuda das quais o homem.

Essa referência ao fator da repressão permite-nos. e na qual formas rejeitadas tenham sido tão completamente preservadas sob escasso disfarce. podíamos ter começado nossa investigação com esse exemplo. contêm a essência deste breve estudo. Dificilmente existe outra questão. entre os exemplos de coisas assustadoras. originalmente assustador ou se trazia algum outro afeto. Como vimos [ver em [1]]. Resta-nos apenas comprovar a nossa nova hipótese em mais um ou dois exemplos do estranho. a natureza secreta do estranho. em que as nossas idéias e sentimentos tenham mudado tão pouco desde os primórdios dos tempos. Em primeiro lugar. que são ainda capazes de se manifestar. ademais. em si. qualquer que seja a sua espécie. na verdade. e que tudo aquilo que agora nos surpreende como ‘estranho’ satisfaz a condição de tocar aqueles resíduos de atividade mental animista dentro de nós e dar-lhes expressão. familiar’)] para o seu oposto. algumas línguas em uso atualmente só podem traduzir a expressão alemã ‘uma casa unheimlich‘ por ‘uma casa assombrada‘. talvez o mais impressionante de todos. e deve ser indiferente a questão de saber se o que é estranho era. porque o estranho nesse exemplo está por demais miscigenado ao que é puramente horrível. das Unheimliche (ver em [1]). em seu mais alto grau. e que somente se alienou desta através do processo da repressão. no entanto. se reprimido. como a nossa relação com a morte.nós houvesse atravessado uma fase de desenvolvimento individual correspondente a esse estádio animista dos homens primitivos. como se ninguém houvesse passado por essa fase sem preservar certos resíduos e traços dela. então. transforma-se. Essa categoria de coisas assustadoras construiria então o estranho.Neste ponto vou expor duas considerações que. se é essa. mas abstivemo-nos de o fazer. pode-se compreender por que o uso lingüístico estendeu das Heimliche [‘homely’ (‘doméstico. ao retorno dos mortos e a espíritos e fantasmas. em relação à morte e aos cadáveres. em ansiedade. e é em parte encoberto por ele. porém algo que é familiar e há muito estabelecido na mente. A biologia não conseguiu ainda . compreender a definição de Schelling [ver em [1]] do estranho como algo que deveria ter permanecido oculto mas veio à luz. De fato. deve haver uma categoria em que o elemento que amedronta pode mostrar-se ser algo reprimido que retorna. penso eu. Duas coisas contam para o nosso conservadorismo: a força da nossa reação emocional original à morte e a insuficiência do nosso conhecimento científico a respeito dela. Muitas pessoas experimentam a sensação. de algo estranho. se a teoria psicanalítica está certa ao sustentar que todo afeto pertencente a um impulso emocional. Em segundo lugar. pois esse estranho não é nada novo ou alheio.

nos estratos mais elevados da mente. antes. A repressão. da vida. especialmente perto do final da vida. que já foi uma atitude altamente ambígua e ambivalente. a onipotência dos pensamentos. e o nosso inconsciente tem tão pouco uso hoje. cessaram oficialmente de acreditar que os mortos podem tornar-se visíveis como espíritos. também está presente. Nas nossas grandes cidades. Considerando a nossa inalterada atitude em relação à morte. como sempre teve. Um bom exemplo disso é o ‘Gettatore’. os governos civis ainda acreditam que não podem manter a ordem moral entre os vivos. a repetição involuntária e o complexo de castração compreendem praticamente todos os fatores que transformam algo assustador em algo estranho. As religiões continuam a discutir a importância do fato inegável da morte individual e a postular uma vida após a morte. e tornaram tais aparições dependentes de condições improváveis e remotas. que é a condição necessária de um sentimento primitivo que retorna em forma de algo estranho. anunciam-se conferências que tentam dizer-nos como entrar em contato com as almas mais capazes e penetrantes mentes entre os nossos homens de ciência chegaram à conclusão. perguntar o que aconteceu à repressão. de que um contato dessa espécie não é impossível. reduzida a um sentimento unilateral de piedade. poderíamos. É verdade que a afirmação ‘Todos os homens são mortais’ é mostrada nos manuais de lógica como exemplo de uma proposição geral. Mas não é tudo. Todas as pessoas supostamente educadas. porém. Uma vez que quase todos nós ainda pensamos como selvagens acerca desse tópico. Também podemos falar de uma pessoa viva como estranha. devemos sentir que suas intenções de nos prejudicar serão levadas a cabo com o auxílio de poderes especiais. a atitude de homem para com a morte. a atitude emocional dessas pessoas para com os seus mortos. mas ainda assim talvez evitável. mas nenhum ser humano realmente a compreende. e o fazemos quando lhe atribuímos intenções maldosas. aquela estranha figura de superstição romântica . a magia e a bruxaria.responder se a morte é o destino inevitável de todo ser vivo ou se é apenas um evento regular. para a idéia da sua própria mortalidade. É muito provável que o nosso medo ainda implique na velha crença de que o morto torna-se inimigo do seu sobrevivente e procura levá-lo para partilhar com ele a sua nova existência. se não sustentam a perspectiva de uma vida melhor no futuro como recompensa pela existência mundana. ademais. além disso. Agora temos apenas algumas observações a acrescentar — pois o animismo. não é motivo para surpresa o fato de que o primitivo medo da morte é ainda tão intenso dentro de nós e está sempre pronto a vir à superfície por qualquer provocação. foi.

Na verdade. transformou em personagem simpática no seu Josef Montfort. ou quando um símbolo assume as plenas funções da coisa que simboliza. além do mais. em que ouvi essa opinião expressa pela mãe da paciente. O efeito estranho da epilepsia e da loucura tem a mesma origem. após haver tido êxito — embora não muito rapidamente — na cura de uma moça que fora inválida por muitos anos. particularmente quando. por essa mesma razão. pés que dançam por si próprios. como num conto fantástico de Hauff. com absoluta coerência. todas essas doenças à influência de demônios e. É esse fator que contribui não pouco para o estranho efeito ligado às práticas mágicas. tornou-se assim estranha para muitas pessoas. mão cortada pelo pulso. com sentimento poético intuitivo e profunda compreensão psicanalítica. Nele. Membros arrancados. como no livro de Schaeffer que mencionei acima — todas essas coisas têm algo peculiarmente estranho a respeito delas. capazes de atividade independente. que se preocupa em revelar essas forças ocultas. como no último exemplo. uma cabeça decepada. muito depois da sua recuperação. como quando algo que até então considerávamos imaginário surge diante de nós na realidade. mas ao mesmo tempo está vagamente consciente dessas forças em remotas regiões do seu próprio ser. estritamente falando. Como já sabemos. é a superenfatização da . Houve um caso. Ainda assim. A Idade Média atribuía.Vielleicht sogar der Teufel bin . a psicanálise nos ensinou que essa fantasia assustadora é apenas uma transformação de outra fantasia que originalmente nada tinha em absoluto de aterrorizador. a fantasia da existência intra-uterina. a idéia de ser enterrado vivo por engano é a coisa mais estranha de todas. não ficaria surpreso em ouvir que a psicanálise. mostram-se. essa espécie de estranheza origina-se da sua proximidade ao complexo de castração. mas penso que merece destaque especial. nisso.que Schaeffer. tenha sido incluído no que já foi dito acerca do animismo e dos modos de ação do aparato mental que foram superados. e assim por diante. A piedosa Grethen tinha a intuição de que Mefistófeles possuía poderes secretos dessa natureza que o tornaram tão estranho para ela. O leigo vê nelas a ação de forças previamente insuspeitadas em seus semelhantes. Há mais um ponto de aplicação geral que gostaria de acrescentar. mas caracterizava-se por uma certa lascívia — quero dizer. Refiro-me a que um estranho efeito se apresenta quando se extingue a distinção entre imaginação e realidade. Mas a questão desses poderes secretos leva-nos outra vez de volta ao reino do animismo. embora. Para algumas pessoas. o elemento infantil. que também domina a mente dos neuróticos. Sie fühlt dass ich ganz sicher ein Genie. a sua psicologia era quase correta.

e que tudo aquilo que é estranho satisfaz essa condição. Há um gracejo que diz ‘O amor é a saudade de casa’. e. enquanto ainda está sonhando: ‘este lugar é-me familiar. é a entrada para o antigo Heim [lar] de todos os seres humanos. porém. não nos permite resolver o problema do estranho. Era uma história bastante ingênua. Pode ser verdade que o estranho [unheimlich] seja algo que é secretamente familiar [heimlich-heimisch]. se não se baseia em mera coincidência. também. para quase cada exemplo aduzido .” Nesse caso. Porque a nossa proposta é claramente não conversível. Nem tudo o que preenche essa condição — nem tudo o que evoca desejos reprimidos e modos superados de pensamento. no entanto. vou relatar um outro. eles tropeçam em algo no escuro. com entalhes de crocodilos na sua superfície. III No decorrer desta exposição. li uma história sobre um jovem casal que se muda para uma casa mobiliada onde há uma mesa de forma curiosa. para o lugar onde cada um de nós viveu certa vez. entre outras matérias algo redundantes. e sempre que um homem sonha com um lugar ou um país e diz para si mesmo. tirado da experiência psicanalítica. ou que os monstros de madeira adquirem vida no escuro. dá-se a entender que a presença da mesa faz com que crocodilos fantasmas assombrem a casa. no princípio. A escolha do material. Esse lugar unheimlich. que foi submetido à repressão e depois voltou.realidade psíquica em comparação com a realidade material — um aspecto estreitamente ligado à crença na onipotência dos pensamentos. No meio do isolamento do período de guerra. mas o estranho efeito que produzia era notável. o unheimlich é o que uma vez foi heimisch. Acontece com freqüência que os neuróticos do sexo masculino declaram que sentem haver algo estranho no órgão genital feminino. fornece uma bela confirmação da nossa teoria do estranho. familiar. Para encerrar esta coletânea de exemplos. Nem esconderemos o fato de que. que pertencem à pré-história do indivíduo e da raça — é por causa disso estranho. estive aqui antes’. com essa base. que certamente não está completa. parece-lhes verem uma forma vaga deslizando sobre as escadas — para resumir. ou alguma coisa no gênero. podemos interpretar o lugar como sendo os genitais da sua mãe ou o seu corpo. No fim da tarde um odor intolerável e bastante específico começa a impregnar a casa. e teremos agora oportunidade de reuni-las e de expô-las. caiu em minhas mãos um número da revista inglesa Strand Magazine. o leitor terá sentido algumas dúvidas surgirem em sua mente. o prefixo ‘un‘ [‘in-’] é o sinal da repressão.

por outro lado. e podemos atribuir esse efeito ao complexo de castração. Uma vez mais. a quem a princesa tenta segurar pela mão. Tudo isso é surpreendente. os utensílios domésticos. A história da mão decepada no conto de Hauff [ver em [1]] certamente tem um estranho efeito. como no Novo Testamento. Quem teria a ousadia de dizer que é estranho. as nossas próprias histórias de fadas estão abarrotadas de exemplos de realizações instantâneas de desejos. por exemplo. deixa-lhe em lugar da sua própria. E lá ela fica. serve outros propósitos. bastante diferentes. e poderíamos multiplicar os exemplos desse tipo. Contrariado pela sofreguidão da mulher. não obstante. Ou. mas de modo algum estranho. traz à tona sentimentos de forma alguma relacionadas com o estranho. Na história de ‘Os Três Desejos’. contudo. Os contos de fadas adotam muito francamente o ponto de vista animista da onipotência dos pensamentos de desejos. numa outra categoria de casos. a maioria dos leitores provavelmente concordará comigo em julgar que nenhum traço de estranheza é provocado pela história de Heródoto do tesouro de Rhampsinitus. e assim por diante. muito comuns em histórias de fadas. E. Ficamos sabendo que há estranheza no mais alto grau quando um objeto inanimado — um quadro ou uma boneca — adquire vida. quando Branca de Neve abre os olhos uma vez mais? E a ressurreição dos mortos em relatos de milagres. Já deparamos com um exemplo [ver em [1]] no qual é empregado para evocar o sentimento do cômico. contudo. a mobília e os soldados de chumbo são vivos e. pode-se encontrar outro que a contradiz.em apoio da nossa hipótese. A morte aparente e a reanimação dos mortos têm sido representadas como temas dos mais estranhos. e mesmo assim não consigo imaginar qualquer história de fadas genuína que tenha em si algo de estranho. ainda assim. que não produzem qualquer efeito estranho ou assustador. na qual o chefe dos ladrões. da . o marido deseja que a salsicha se lhe pendure no nariz. Então. ainda assim. e num instante a salsicha surge num prato diante dela. nas histórias de Hans Christian Andersen. funciona como um meio de ênfase. pendendo do nariz da mulher. também o tema que alcança um efeito indubitavelmente estranho. nada poderia estar mais longe do estranho. a mão decepada do irmão dele. a repetição involuntária da mesma coisa. Também as coisas desse gênero são. a pronta realização dos desejos do Polícrates [ver em [1]] afeta-nos indubitavelmente da mesma maneira que afetou o rei do Egito. uma vez mais: qual é a origem do efeito estranho do silêncio. a mulher é tentada pelo apetitoso aroma de uma salsicha a desejar possuir também uma. E dificilmente consideraríamos estranho o fato de que a bela estátua de Pigmalião adquire vida. amedrontador.

seria abrir a porta a dúvidas acerca de qual seja exatamente o valor da nossa argumentação geral. e as antigas existem ainda dentro de nós. e pode-se atribuir. aqui. esses mesmos fatores são os que determinam mais freqüentemente a expressão de medo [em vez de estranheza]? E. que se ajusta perfeitamente à nossa tentativa de solução. e estávamos convictos de que realmente aconteciam. Aquilo que é experimentado como estranho está muito mais simplesmente condicionado. portanto. estaremos justificados ao ignorar inteiramente a incerteza intelectual como um fator. à pronta realização de desejos. Nós — ou os nossos primitivos antepassados — acreditamos um dia que essas possibilidades eram realidades.] É evidente. da literatura imaginativa. prontas para se apoderarem de qualquer confirmação. de que o estranho provém de algo familiar que foi reprimido. é verdade que se pode matar uma pessoa com o mero desejo da sua morte!’ ou . apesar de que. sentimos a sensação do estranho. além daqueles que estabelecemos até aqui. no caso das crianças. porém. sem exceção. Poderíamos dizer que esses resultados preliminares satisfizeram o interesse psicanalítico pelo problema do estranho. e que aquilo que resta pede provavelmente uma investigação estética. Mas. Descobrimos um ponto que nos pode ajudar a resolver essas incertezas: quase todos os exemplos que contradizem a nossa hipótese são tomados ao domínio da ficção. tendo admitido a sua importância em relação à morte? [ver em [1] e [2].escuridão e da solidão? Esses fatores não assinalam o papel desempenhado pelo perigo na gênese daquilo que é estranho. Tomemos o estranho ligado à onipotência de pensamentos. a sensação de estranheza. afinal de contas. A condição sob a qual se origina. Descobriremos. Tão logo acontece realmente em nossas vidas algo que parece confirmar as velhas e rejeitadas crenças. afinal de contas. devemos fazer uma certa diferenciação. que determinam a criação de sensações estranhas. mas compreende muito menos exemplos. Isto. Isto sugere que devemos distinguir entre o estranho que realmente experimentamos e o que simplesmente visualizamos ou sobre o qual lemos. Hoje em dia não mais acreditamos nelas. superamos esses modos de pensamento. importante e psicologicamente significativa. também aqui. mas não nos sentimos muito seguros de nossas novas crenças. no nosso material. é inequívoca. a qual melhor se elucida se nos voltamos a exemplos adequados. a algo familiar que foi reprimido. é como se estivéssemos raciocinando mais ou menos assim: ‘Então. que devemos estar preparados para admitir existirem outros elementos. a maléficos poderes secretos e ao retorno dos mortos. acho eu.

as mais ilusórias visões e os mais suspeitos ruídos — nada disso o desconcertará ou despertará a espécie de medo que pode ser descrita como ‘um medo de algo estranho’. de crenças animistas será insensível a esse tipo de sentimento estranho. Quando o estranho se origina de complexos infantis. De forma inversa.. uma questão da realidade material dos fenômenos. baseiam-se neles. finalmente. Implica numa repressão real de algum conteúdo de pensamento e num retorno desse conteúdo reprimido. num caso. no outro. a questão da realidade material não surge. e assim por diante. qualquer um que se tenha livrado. O estranho que provém da experiência real pertence quase sempre ao primeiro grupo [o grupo descrito no parágrafo anterior]. ou quando as crenças primitivas que foram superadas parecem outra vez confirmar-se. Acima de . de modo completo. em histórias e criações fictícias. do complexo de castração. No entanto. o que fora reprimido é um determinado conteúdo ideativo.‘Então os mortos continuavam mesmo a viver e aparecem no palco de suas antigas atividades!’. porém. tal como é descrito na literatura. As mais notáveis coincidências de desejo e realização. Esta última frase. e. afirmar-se assim: uma experiência estranha ocorre quando os complexos infantis que haviam sido reprimidos revivem uma vez mais por meio de alguma impressão. não nos surpreenderemos muito ao descobrir que a distinção é muitas vezes nebulosa. estende o termo ‘repressão’ para além do seu legítimo significado. A coisa toda é simplesmente uma questão de ‘teste de realidade’. então. não devemos deixar que nossa predileção por soluções planas e exposição lúcida nos cegue diante do fato de que essas duas categorias de experiência estranha nem sempre são nitidamente distinguíveis. o seu lugar é tomado pela realidade psíquica. Seria mais correto levar em conta uma distinção psicológica que pode ser detectada aqui. O estranho. a mais misteriosa repetição de experiências similares em determinado lugar ou em determinada data. Finalmente. mas as experiências que provocam esse tipo de sentimento estranho não ocorrem com muita freqüência na vida real. merece na verdade uma exposição em separado. Poderíamos dizer que. não num cessar da crença na realidade de tal conteúdo. a sua realidade (material). a distinção entre os dois é teoricamente muito importante. das fantasias de estar no útero etc. Quando consideramos que as crenças primitivas relacionam-se da forma mais íntima com os complexos infantis e. na verdade. e dizer que as crenças animistas das pessoas civilizadas estão num estado de haver sido (em maior ou menor medida) superadas [preferentemente a reprimidas]. A situação é diferente quando o estranho provém de complexos infantis reprimidos. A nossa conclusão podia.

tudo. os espíritos e os fantasmas como se a existência deles tivesse a . algo que não pode ser encontrado na vida real. A realização de desejos. todos os elementos tão comuns em histórias de fadas. muito daquilo que não é estranho em ficção sê-lo-ia se acontecesse na vida real. do que na vida real. O escritor criativo pode também escolher um cenário que. mas não são mais estranhas realmente do que o mundo jovial dos deuses de Homero. e o sistema animista de crenças é francamente adotado. a não ser que haja um conflito de julgamento quanto a saber que coisas que foram ‘superadas’ e são consideradas incríveis não possam. ou afastar-se delas o quanto quiser. a onipotência de pensamentos. no domínio da ficção. em segundo lugar. muitas dentre as coisas que não são estranhas o seriam se acontecessem na vida real. e. podem ser bastante obscuras e terríveis. de Shakespeare. que existem muito mais meios de criar efeitos estranhos na ficção. entre muitas outras. essas figuras perdem qualquer estranheza que possam possuir. pois contém a totalidade deste último e algo mais além disso. Na medida em que permanecem dentro do seu cenário de realidade poética. As almas no Inferno de Dante. pois o reino da fantasia depende. O resultado algo paradoxal é que em primeiro lugar. não podem aqui exercer uma influência estranha. pois. Assim. verificamos que as histórias de fadas. que nos proporcionaram a maioria das contradições em relação à nossa hipótese do estranho. ainda assim difere do mundo real por admitir seres espirituais superiores. tais como espíritos demoníacos ou fantasmas dos mortos. Macbeth ou no Júlio César. é um ramo muito mais fértil do que o estranho na vida real. O escritor imaginativo tem. ou as aparições sobrenaturais no Hamlet. de modo que este possa ou coincidir com as realidades que nos são familiares. O contraste entre o que foi reprimido e o que foi superado não pode ser transposto para o estranho em ficção sem modificações profundas. sobre os quais falaremos depois. Adaptamos nosso julgamento à realidade imaginária que nos é imposta pelo escritor. afinal de contas. há outros fatores contribuintes. No caso dessas histórias. esse sentimento não pode despertar. os poderes secretos. Nos contos de fadas. por exemplo. do fato de que o seu conteúdo não se submete ao teste de realidade. ser possíveis. confirmam a primeira parte da nossa proposta — de que. embora menos imaginário do que os dos contos de fada. e esse problema é eliminado desde o início pelos postulados do mundo dos contos de fadas. resumidamente. Nós aceitamos as suas regras em qualquer dos casos. como aprendemos. para seu efeito. e consideramos as almas. a liberdade de poder escolher o seu mundo de representação. a animação de objetos inanimados. o mundo da realidade é deixado de lado desde o princípio.

o tem na sua história. Conservamos um sentimento de insatisfação. muito além do que poderia acontecer na realidade.mesma validade que a nossa própria existência tem na realidade material. quando se lhe dá. e tudo o que teria um efeito estranho. na medida em que o cenário seja de realidade material. o escritor tem mais um meio que pode utilizar para evitar a nossa recalcitrância e. no final. de Schnitzler. adotamos uma invariável atitude passiva em relação à experiência real e submetendo-nos à influência do nosso ambiente psíquico. Falando de um modo geral. e o autor já alcançou o seu objetivo. na realidade. a superstição que ostensivamente superamos. A situação altera-se tão logo o escritor pretenda mover-se no mundo da realidade comum. por muito tempo. porém. mas também na ficção. a categoria que provém de complexos reprimidos é mais resistente e permanece tão poderosa na ficção como na experiência real. todas essas complicações relacionam-se apenas com aquela categoria do estranho que provém de formas de pensamento que foram superadas. que o seu êxito não é genuíno. melhorar as suas chances de êxito. Estritamente falando. qualquer informação definida sobre o problema. No entanto. Mas o ficcionista tem um poder . De um modo geral. e outras histórias semelhantes. contudo. O estranho que pertence à primeira categoria — a que procede de formas de pensamento que foram superadas — conserva o seu caráter não apenas na experiência. porém. é tarde demais. ao mesmo tempo. que flertam com o sobrenatural. até o fim. Ao fazê-lo. uma espécie de rancor contra o engodo assim obtido. ou muito raramente. porém. ele aceita também todas as condições que operam para produzir sentimentos estranhos na vida real. astuta e engenhosamente. um cenário artificial e arbitrário na ficção. num certo sentido. fazendo emergir eventos que nunca. ele nos ilude quando promete dar-nos a pura verdade e. ou pode evitar. acontecem de fato. Notei isto particularmente após a leitura de Die Weissagung [A Profecia]. Reagimos às suas invenções como teríamos reagido diante de experiências reais. Deixamos claramente de esgotar as possibilidades de licença poética e os privilégios desfrutados pelos ficcionistas para evocar ou para excluir um sentimento estranho. pode perder aquele caráter. Também nesse caso evitamos qualquer vestígio do estranho. submetendo-se a uma exceção [ver em [1]]. Nesse caso. quanto à natureza exata das pressuposições em que se baseia o mundo sobre o qual escreve. trai. encontramos confirmação da segunda parte da nossa proposta — de que a ficção oferece mais oportunidades para criar sensações estranhas do que aquelas que são possíveis na vida real. ele pode até aumentar o seu efeito e multiplicá-lo. excede essa verdade. Pode manter-nos às escuras. Nesse caso. quando percebemos o truque. Deve-se acrescentar.

mas nós não temos tal sensação. pela tentação de explicar determinados exemplos que contradizem a nossa teoria das causas do estranho. Por conseguinte. Derivamos para entrar nesse campo de pesquisa.peculiarmente diretivo sobre nós. A questão parece ter crescido em importância. A princesa pode muito bem ter tido uma sensação estranha. meio involuntariamente. represá-la numa direção e fazê-la fluir em outra. de modo que aquilo que deve ser estranho para ele tem sobre nós um efeito irresistivelmente cômico. convencido de que é um assassino. Ele grita com desespero ‘Mas eu matei apenas um homem. Já perguntamos [ver em [1]] por que é que a mão decepada na história do tesouro de Rhampsinitus não tem o estranho efeito que a mão cortada tem na história de Hauff. agora que reconhecemos que a categoria de estranho oriunda de complexos reprimidos é a mais resistente das duas. portanto. Por que esta assombrosa multiplicação?’ Sabemos o que aconteceu antes dessa cena e não partilhamos do seu erro. sem dúvida. fazendo ironias a respeito do fantasma e permitindo que se tomem liberdades com ele. do que nos sentimentos da princesa. há muito que vem sendo levado em consideração pelos que estudam estética. é utilizado outro meio para evitar qualquer impressão estranha na cena em que o fugitivo. Na história de Heródoto. e obtém com freqüência uma grande variedade de efeitos a partir do mesmo material. No que diz respeito aos fatores do silêncio. os nossos pensamentos estão muito mais concentrados na astúcia superior do chefe dos ladrões. da solidão e da escuridão [ver em [1] e [2]]. ele consegue guiar a corrente das nossas emoções. na verdade provavelmente caiu desmaiada. por meio do estado de espírito em que nos pode colocar. as sensações estranhas — são inteiramente eliminados. perde todo o poder de pelo menos despertar em nós sentimentos repulsivos tão logo o autor começa a divertir-se. os sentimentos de medo — incluindo. Nada disso é verdade e. Nós compreendemos isso. podemos tão-somente dizer que são realmente elementos que participam da formação da ansiedade infantil. vemos o quanto os efeitos emocionais podem ser independentes do verdadeiro assunto no mundo da ficção. Até mesmo um fantasma ‘real’. como O Fantasma de Canterville de Oscar Wilde. e não no lugar dela. pois nos colocamos no lugar do ladrão. e é por essa razão que ignoramos quaisquer oportunidades que encontremos nelas para desenvolver tais sentimentos. Nas histórias de fadas. Assim. . levanta um alçapão atrás do outro. A resposta é fácil. voltaremos agora a examinar alguns desses exemplos. Na farsa de Nestroy intitulada Der Zerrissene [O Homem Dilacerado]. e de cada vez vê o que julga ser o fantasma da sua vítima erguendo-se do alçapão.

elementos dos quais a maioria dos seres humanos jamais se libertou inteiramente. Em outro trabalho. . esse problema foi discutido do ponto de vista psicanalítico.

— Auch: Der Platz war so still. a.. heimelicher (s. 11. s. 146. Geheuer): Ist dir’s h. 1. DE DANIEL SANDERS Heimlich. schwzr. behaglicher Ruhe u. Es war ihr nicht allu h. etc. Stumpf 608a etc. In stiller H—keit. 5. 249. lat. Mos. 2. habe ich nicht leicht ein Platzchen gefunden. Heimlicher — (b) von Thieren zahm. 1. wo die Fremden deine Walder roden? Alexis H. W[ieland]. In dem Haus ist mirs’ so heimelige gewesen. das Wohlgefühl stiller Befriedigung etc. 4. Es war ihm garnicht h. 45. d 1. wild. 12. 144.. auch Heimelich. Kerner 540. sich den Menschen traulich anschliessend. D. Einer sorglichen Hausfrau. 9. träumend und wiegenlied-h. 1. so artig. traulich anheimelnd. so schatten-h. 92. so einsam. die mit dem Wenigsten ein vergnügliche H—keit (Häuslichkeit) zu schaffen versteht. Die H—keit der Heimath zerstoren. Desto h—er kam ihm jetzt der ihm erst kurz noch so fremde Mann vor. Still und lieb und h. G[oethe]. 188. 8. 14.-en): 1. s.. Die warme Stube. bei ihm. 1. Sch. Wir dachten es uns so bequem. 417. oft dreisilbig: Wie ‘heimelich’ war es dann Ivo Abends wieder. Hauslich 1 etc. 23. 39. vertraut: Die Heimlichen. und gewohnsam um die Leute aufzeucht. der heimelige Nachmittag. noch im Lande. 1. — (c) traut. Sam. Wenns h. wofür jetzt: Geheimer (s. — Vgl. Holty. Wilde Thier …so man sie h. -Namentl. 320 etc. Kohl. als sie sich/zum Ruhen einen Platz nur wünschen möchten.) zum Haus. Eppendorf. Ir. zahm. — So noch: So h. 1 Chr. traut und traulich. 14. Der heimiliche Rath. Auerbach. familiaris. z. Linck. unter ihren katholischen Unterthanen. Die protestantischen Besitzer fühlen sich… nicht h. werden sie ganz h. Weish. So vertraulich und h. (a) (veralt. 289. Haller. Scherr Pilg. Forster B. zur Familie gehorig oder: wie dazu gehorig betrachtet. Un-h. Gotthelf. 41. Sch. die weder wild noch heimlich sind. Die ab. (-keit. 307. 127. Hartmann Unst. 4. die Hausgenossen. dabei 27. langs dem rieselnden rauschenden und platschernden Waldbach. wird und leise/die Abendstille nur an deiner Zelle lauscht. freundlich etc. als er zu Hause lag.APÊNDICE . nicht fremd. . 170. zum Hause gehorig. Gervinus Lit. Ggstz.. 25.) Rath üblich ist. vgl. Ein schoner... Körner. c) Vogel bleibt der Storch immerhin. heimelig. 375. 1. 88. sichern Schutzes. namentl. anheimelnd etc. its’s (das Lamm) und frisst aus meiner Hand. 1. 23. bei schwäb.EXCERTO DO Worterbuch der Deutschen Sprache. 170. B.: Thier. Tiedge 2. f. 3.und zuströmenden Fluthwellen. 172. etc. umzielt von engen Schranken. wis das umschlossne. so gemüthlich und h. Brentano Wehm. Schl. So diese Thierle von Jugend bei den Menschen erzogen. 92. wohnliche Haus erregend (vgl. vertraut. 1. Schriftst. Auf einem hohen h-en Schattenpfade…. 15.

297. freundnachbarlich) mit den Leuten. 15.148. 6. Math./im tiefen Boden/bin ich gegründet. schles. Ich habe Wurzeln/die sind gar h.?… — ‘Nun…es kommt mir mit ihnen vor. davon schleichen. das laute Feldgeschrei der öffentlich Umwälzenden. 1. wie mit einem zugegrabenen Brunnen oder einem ausgetrockneten Teich. Freiheit ist die leise Parole h. Meine h—e Tücke . weinen. 3. Burmeister gB 2. Du sollst mein h. 249. — (d) (s. 240. 75. theilnehmend und dienstwillig gegen den leidenden Freund. 2. 1. Wo die öffentliche Ventilation aufhören muss.. ohne dass es Einem immer ist. W[ieland]. Zinkgräf 1. wie Hiob 11. in der Bibel. Ew. Die h—e Kunst (der Zauberei). Sam. 224. 109. h. wie wenig er ist. Kor. Kön. es doch zumal in der älteren Sprache. um das gute Wort vor dem Veralten wegen nahe liegender Verwechslung mit 2 zu bewahren. auch vom Wetter. Weish. Die Hütte. Sich h. 325. 27. heiter. frei. es ihnen verbergen will. 6. 86. 2. 161 b etc. Reithard 20. auch: Der h—e Stuhl. so dass man Andre nicht davon oder darum wissen lassen. Wirken. 327. als könnte da wieder einmal W asser zum Vorscheinkommen. H—e Zusammenkünfte. 2. 35 etc. 2. 256 etc.: fröhlich. 3. vgl. Wurde man nach und nach recht gemüthlich und heimelig mit einander. H. Man kann nicht darüber gehen. Worin finden Sie denn. 5. 222. Rollenhagen Fr. und so auch H—keit statt Geheimnis. H. B.. In Graben.. G[oethe]. Mit h—er Schadenfreude zusehen. 1.. U. wie gross der Herr ist. nicht ganz heimelig (heimatlich. 2. (hinter Jemandes Rücken) Etwas thun. Sie nennen’s. Chamisso 4. 22..?… Was verstehen sie unter h. 49. Verabredungen. dass diese Familie etwas Verstecktes und Unzuverlässiges hat? etc. 135. 13. 4. Heiligstes noch wissen. Verschworener. 83 etc.’ Wir nennen das un-h. treiben. wo/er sonst so heimelig. h. so froh/ …im Kreis der Seinen oft gesessen. Liebe. 61. Es schaläft sich da so lind und warm/so wundrheim’lig ein. Die trauliche Heimeligkeit. Gutzkow R. Da klingt das Horn des Wächters so heimelig vom Thurm/ da ladet seine Stimme so gastlich.. 2. als ob man etwas zu verbergen hätte. Pestalozzi 4. c) namentl. 157. 56. Das h—e Gemach (Abtritt). 8. 7 etc. nicht immer genau geschieden wird: H. 147. 5. Adelung und Weinhold. fängt die h—e Machination an. 2. Das ist das wahre Heimelig. Br. Was von ferne herkommt… lebt gw. 23 etc. Sünde: H—e Orte (die der Wohlstand zu verhüllen gebietet). hinterlistig und boshaft gegen grausame Herren… wie offen. — Führte h. Heimelicher wird es mir wohl nirgends werden als hier. 10. — Diese Weise verdiente allgemein zu werden.: ‘Die Zecks sind alle h. 2. von weichem erst nhd. 380. wenn der Mensch so von Herzen fühlt. seufzen. (2)’ ‘H. H—e Liebschaft. thun. — Ebenso versteckt. Forster. in H-keiten werfen. verborgen gehalten. z. Geheim (2). vgl. vor Laomedon/die Stuten vor B[ürger]. 15. s. versteckt. Ein heilig.

wo du sie…verbirgst. mit einer gewissen U-keit zu umgeben 658. Alexis. und gewissenlos ergreifen. Haarauch geheissen. verrathen.. bange Stunden. Verm. 299. so mag er es h. die ihr knetet/der H—keitn Schloss (Wachs zum Siegeln). 375.(vgl. was im Geheimnis. Tieck. Un-h. offenbaren. 1c. M. 30. ja graulich zu Muthe. und das Gepuschele unter der Hand. 6. Novalis. un-h. 2. so auch nam. Reis.. 649 etc. Zu meiner Zeit/befliss man sich der H—keit. s. 289: Der H—keit (des verborgnen Golds) unmächtigen Bann/kann nur die Hand der Einsicht lösen. gespenstisch erschien. 4. 33. H-keiten hinter meinem Rücken zu brauen.: Un-: unbehagliches. 238. Diese blassen Jungen sind un-h. Zsstzg. Un-h. banges Grauen erregend: Der schier ihm un-h. — Unüblich als Ggstz. 2. Immermann M. 1. Cymb. 1.. 369 b. Nun fängts mir an. Erfahren in seltnen H—keiten (Zauberkünsten). 344. Den u—en Nebel. Heimtücke). Die H—keit. Chamisso 3.. und brauen Gott weiss was Schlimmes. von (2). /Sag’an. Sch[iller]. Liess h. Von nun an. — Jemandes H—keiten entdecken. G[oethe]. sei nichts H—es/mehr unter uns. Der Nacht un-h. Geheimnis L[essing]. 10. Empfängt er es nicht offenbar und gewissenhaft. 39. 1. in welches Ortes verschwiegener H. 51. wie es Campe ohne Beleg anführt. 6. 3. Mir war schon lang’ un-h. Laube. im Verborgnen…bleiben sollte und hervorgetretenist. 2.… Empfindet ein u—es Grauen. Heine.. Schelling. 3. der Ggstz. nenntman Alles. Hagedorn 3. 495 b. Band. Immermann. will nich. 168. zu werden. 119. H. und starr wie ein Steingild. 69. und geheimnisvoll achromatische Fernröhre zusammensetzen. 148. — Das Göttliche zu verhüllen. 3. 2. Schlegel Sh. vgl. 3.` . Ihr Bienen. Sch[iller]. 92. 1. 102 etc. etc. 330. 10: 291 ff. 242.

17 . eerie. sinistro. esp. & North Eng. ‘sinistro’ — embora nele de forma mais atenuada do que. estrambótico. nefasto. alguns detalhes foram omitidos.]O Novo Michaelis (12ª ed. mysterious or unfamiliar. 238. ser excessivamente vasto. 3. por ser talvez o único capaz de combinar as conotações da área semântica de ‘fantástico’. No repertório de adjetivos que se apresentam em português. no texto acima. (Ver em [1]). justamente referido na nota da tradutora inglesa. esquisito. por ‘estranho. Pág. decerto. ‘misterioso’. Vol. incomum’. por vago. 17 [Na tradução que se segue. literalmente ‘unhomely’ (‘o que não é doméstico. misterioso. excepcional. Vol. ao passo que o Webster’s New World Dictionary of the American Language (1970) registra: ‘1. 2. e o Dicionário Mirador da Línguas Portuguesa e Inglesa (1972). O termo inglês não é. in such a way as to frighten or make uneasy. weird. 237. do T.] Nota 3. reimprimimos no apêndice todo o excerto do dicionário de Sanders. perigoso’. à exceção de alguns erros de impressão de pouca importância.bras. acute. Pág. preternaturally strange. o que não é simples. Apesar da justa ressalva. Vol. ainda que se lhe possa objetar. preferimo-lo a qualquer um dos outros.) a) dangerous b) severe’. apenas terminada. nestes -. 2. indefinido ou impreciso que se tenha tornado o seu limite de aplicação na língua. Vol. as to seem preternatural (uncanny shrewdness). traduzida em todo este artigo pelo inglês ‘uncanny’. 17 [Uma alusão à Primeira Guerra Mundial. Vol. 1972) traduz o adjetivo uncanny por ‘1. rude’).com as da área assinalada pelo inglês “unhomely”. (Scot. que foram corrigidos. Pág. Pág. (N. 17 [Nota de rodapé acrescentada em 1924:] Ver a continuação dessa linha de pensamento em ‘A Dissolução do Complexo de Édipo’ (1924d). um equivalente exato do alemão. Dial. sinistro. 4.Nota 1. 17 [A palavra alemã. principalmente os referentes às fontes das citações. Pág. é ‘unheimlich‘. so remarkable. misterioso. individudualmente.. fantástico. Como referência. Nota 5. 243. optamos por ‘estranho’.) Nota 2.] Nota 4. estranho. exatamente como é dado em alemão no artigo original de Freud. caseiro. 240. 3. 204. etc.

castrá-lo —.] Nota 9. o tratamento imaginativo que Hoffmann deu ao seu material não produziu uma confusão tão grande dos seus elementos. o pai ‘bom’. que não possamos reconstruir a sua disposição original. (continua…) Nota 10. na época de estudante. imprimiu-se aqui o nome ‘Schleiermacher’. relacionando-o com as operações químicas que causaram a morte do pai.] Nota 6. e Copélio é responsabilizado por ela. Pág. O professor é. 249. 17 Na verdade. Edição Grisebach. Pág.[Segundo o Oxford English Dictionary. 17 [Apenas na versão original do artigo (1919). Rank assinalou a associação do nome com ‘coppella‘ = ‘cadinho’. o outro. intercede pela sua visão A parte do complexo que é mais intensamente reprimida. Cohen. M. 1952. Pág. 245. ‘aconchegado’). ‘cômodo’. as figuras do pai e de Copélio representam os dois opostos em que a imagem paterna é dividida pela sua ambivalência. o desejo de morte contra o pai ‘mau’ encontra expressão na morte do pai ‘bom’. [Uma tradução de ‘O Homem da Areia’ está incluída em Eight Tales of Hoffmann. em si. agora criaram conjuntamente a boneca Olímpia. ao que parece erradamente. 17 Sämtliche Werke. Pan Books. de Hoffmann. Esse par de pais é representado mais tarde. que pode significar não apenas ‘cosy‘ (‘confortável’. 17 . Vol. traduzidos para o inglês por J. Vol. ‘cavidade orbital’. pelo professor Spalanzani e o oculista Coppola. Vol. [Excetuando a primeira edição (1919). Tal como antes costumavam trabalhar juntos no braseiro secreto. Pág. o professor é até mesmo chamado de pai de Olímpia. Vol. 248. 3. e também com ‘coppo’ = ‘órbita’. 251.] Nota 7. e Coppola é reconhecido como idêntico ao advogado Copélio. Londres. 244. 17 A Sra. Pág. Vol. Na história da infância de Nataniel. à última ocorrência do nome Copélio na página anterior. mas também ‘dotado de poderes mágicos ou ocultos’. enquanto um ameaça cegá-lo — isto é. evidentemente por engano. um membro da série paterna.] Nota 8. uma ambigüidade similar está ligada ao inglês ‘canny‘. essa nota estava ligada.

] Nota 12.] Nota 13. e não na antítese. estritamente falando. Edição Standard Brasileira. Pág. e que nada é senão a atividade confusa de um maldito coletor de impostos — fiscal de consumo — funcionário superior da alfândega. estão pensando é nessa divisão (na esfera da psicologia do ego) entre a instância crítica e o resto do ego. embora irrelevante. ano em que o presente artigo foi publicado pela primeira vez. T. págs. cuja consciência está temporariamente perturbada. 1972. Freud coloca uma frase similar entre aspas: ‘perpétua recorrência da mesma coisa’. A Interpretação de Sonhos. Vol. assinada com as iniciais ‘S.[Sob a rubrica ‘Varia’ em um dos números da Internationale Zeischrift für Psychoanalyse de 1919 (5. pode talvez ser desculpada. XVIII.F. entre o ego e o que é inconsciente e reprimido. 252. pág. 17 [Creio que quando os poetas se queixam de que duas almas habitam o peito humano. Vol. 35-6. anulada pela circunstância de que o principal. dessa particular função mental que chamamos consciência. É verdade que a distinção entre essas duas antíteses é. Pág. 380. é o que deriva do reprimido. No Capítulo III de Além do Princípio de Prazer (1920g). Vol. sempre que quaisquer produtos tentam sair: ‘HiHi’ As exportações estão proibidas… os produtos devem ficar aqui… aqui. 210. Hoffmann sobre a Fundação da Consciência’ e prossegue: ‘Em Die Elixire des Teufels (Parte II. neste país. descoberta pela psicanálise. que instalou o seu infame gabinete no nosso andar de cima e que exclama. e em breve desenvolveria a discussão do problema. V.g. 17 [Essa frase parece ser um eco de Nietzsche (e. 1976. Pág. 17 [Cf. em certa medida. com as seguintes palavras: “E o que consegue você dela? Quero dizer. com o ‘ideal do . A sua inserção aqui. entre as coisas que são rejeitadas pela critica do ego.…’”’] Nota 11. na edição de Hesse) — uma novela rica em magistrais descrições de estados mentais patológicos — Schönfeld conforta o herói. A. Edição Standard Brasileira. A nota é encabeçada por ‘E. 308). IMAGO Editora. da última parte de Also Sprach Zarathustra). 253. aparece. — [Freud já expusera extensamente essa instância crítica na Seção III do seu artigo sobre narcisismo (1914c). e quando os psicólogos populares falam em divisão (splitting) do ego das pessoas. 252.’. uma pequena nota que parece razoável atribuir a Freud. Vol. IMAGO Editora. pág. Vol.

Vol. Pág. ‘the evil eye’) em alemão é ‘der böse Blick’. Vol. 1. Pág. 17 [O paciente obsessivo referido logo acima — o ‘Rat Man’ (1909d). 10.] Nota 22. que já havia matado o rival. Vol. Vol. Nota 21. 17 [O poema de Schiller baseado em Heródoto. 17 [‘Mau-olhado’ (ingl. 10. num artigo publicado cinco anos antes (1914g). literalmente ‘o mau olhar’. Nota 15. respectivamente. 254. Londres. de Ewers. Standard Ed. Nota 16. que serve de ponto de partida ao estudo de Rank sobre o ‘duplo’. Vol. 255. Pág..] Nota 20. 17 [Mark Twain. 253. Pág. 17 Em Der Student von Prag. Pág. o herói prometeu à sua amada não matar o antagonista num duelo. ele encontra o seu ‘duplo’.] Nota 17. 17 Notes upon a Case of Obsessional Neurosis’ (1909) [Standard Ed. Die Götter im Exil.] .] Nota 14. A ‘compulsão à repetição’ já fora descrita por Freud como um fenômeno clínico. Mas a caminho do local combinado para o duelo. Vol. Vol.] Nota 19. Vol. Pág. As várias manifestações da ‘compulsão à repetição’ enumeradas aqui são ampliadas nos Capítulos II e III daquele trabalho. Vol. 233 e seg. Pág. A Tramp Abroad . 256. Pág.ego’ e o ‘superego’.] Nota 18. Pág. 256. 17 Heine. em 1918. 255. no Capítulo XI de Psicologia de Grupo e no Capítulo III de O Ego e o Id (1923b). 1880. 17 [O próprio Freud atingira a idade de 62 anos um ano antes.. 107. 257. 257. 17 [Publicado um ano depois como Além do Princípio de Prazer (1920g). 255. 234].

259. 127 e segs.Nota 23. ou ‘aquele que atira’ (o mau-olhado). em Além do Princípio de Prazer (1920g). IMAGO Editora. 260. Ver Edição Standard Brasileira. IMAGO Editora.] Nota 24. 260. 17 [Esse problema figura. Vol. Vol. Vol.(Trad. Parte I (Cena 16). Pág. de forma destacada. Pág. obra na qual Freud estava empenhado quando escreveu o presente artigo. 17 [Ela sente que decerto agora eu sou um gênio. Vol. para o inglês de Bayard Taylor). 17 Cf. o meu livro Totem e Tabu (1912-13). 261. a atitude do indivíduo em relação à morte na segunda parte do seu artigo ‘Reflexões para os Tempos de Guerra e Morte’ (1915 b). pág. Fausto. Pág. 17 [Die Geschichte von der abgehauenen Hand (‘A História da Mão Decepada’). Ensaio III. XIII. 17 [Freud discutira.] Nota 29. Vol. 63 e segs. 87-8. Magia e a Onipotência de Pensamentos’. IMAGO Editora. Vol. em maior extensão. Vol. já abandonamos tais crenças.’ [Edição Standard Brasileira. 1974]. — A novela de Schaeffer foi publicada em 1918. onde se encontra a seguinte nota de rodapé: ‘Parece que atribuímos uma qualidade “estranha” a impressões que procuram confirmar a onipotência de pensamentos e a modalidade animista de pensar em geral. 17 [Cf.] Nota 26. 259. Pág.] Nota 25. depois de termos atingido um estádio no qual. Pág. Pág. pág. XVIII. págs. Vol. 1976. pág.] Nota 28.] Nota 30. Nota 27.] . XIII. 260. Vol. 109. 17 [Ver a Seção VIII da análise de Freud do ‘Homem dos Lobos’ (1918b). Vol. 258. Totem e Tabu [Edição Standard Brasileira. 17 [Literalmente ‘lançador’ (de má sorte). 261. Pág. Pág. em nosso juízo. ‘Animismo.Talvez na verdade o próprio demônioGoethe. Vol. 1974.

1972.Nota 31. 17 Porquanto o efeito estranho de um ‘duplo’ pertence também a esse mesmo grupo. em vez de ficarmos assustados com os nossos ‘duplos’. de roupão e boné de viagem. IMAGO Editora. para espanto meu. fez girar a porta do toalete anexo. 265. 1972.] . Vol. tanto Mach como eu simplesmente deixamos de reconhecê-los como tais. 17 [Ver o artigo de Freud sobre ‘A Negativa’ (1925 h). que o desagrado que provocaram em nós fosse um vestígio da reação arcaica que sente o ‘duplo’ como algo estranho? Nota 34. 269. Edição Standard Brasileira. quando um solavanco do trem. mais violento do que o habitual. V. Na segunda vez. Vol. 262.. Na primeira ocasião. formou uma opinião muito desfavorável sobre o suposto estranho que entrava no ônibus e pensou: ‘Que professorzinho miserável é esse homem que está entrando’ — Posso contar uma aventura semelhante. 17 [Ver a exposição do problema do medo infantil ao escuro na Seção V do terceiro dos Três Ensaios de Freud (1905d). que ficava entre os dois compartimentos. espontânea e inesperadamente. Levantando-me com a intenção de fazer-lhe ver o equívoco. 17 [Cf. Não é possível. não se espantou nem um pouco ao perceber que o rosto diante dele era o seu próprio rosto. VII. Ernst Mach relatou duas observações dessas em sua Analyse der Empfindungen (1900. Vol. Portanto. entretanto. é interessante observar qual é o efeito de defrontar-se com a própria imagem. IMAGO Editora. Vol. Recordo-me ainda que antipatizei totalmente com a sua aparência. Estava eu sentado sozinho no meu compartimento no carro-leito.] Nota 33. 3). 262. A Interpretação de Sonhos (1900a). Edição Standard Brasileira. Vol. houvesse tomado a direção errada e entrado no meu compartimento por engano. Pág. 426. e um senhor de idade. Pág. pág. 231 n. entrou. Pág. que o intruso não era senão o meu próprio reflexo no espelho da porta aberta. Pág. Vol. compreendi imediatamente.] Nota 32. pág. Presumi que ao deixar o toalete.

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