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ANÁLISE, HISTORIOGRAFIA, RECONSTITUIÇÃO –


experiências de investigação no âmbito da música
contemporânea

I - Apresentação
Ao estudar a música de uma hipotética “Geração de Darmstadt Portuguesa”, ou seja, de
uma série de compositores do séc. XX que estiveram ou foram influenciados pelos
famosos cursos de Darmstadt, iniciados logo após a II Guerra Mundial, compreendi que
estava a procurar várias coisas:

• desde logo, tentava descortinar as idiossincrasias musicais de uma época


próxima em termos históricos, cruzando programas, críticas, programas de
instituições, textos políticos e culturais, biografias, entrevistas a protagonistas,
memórias de pessoas próximas dessa época, mesmo experiências por mim
vividas; desde logo assumi alguma proximidade, não só temporal como física,
com os protagonistas.

• estava ainda a procurar o ‘porquê’ da música escrita por esses compositores – os


caminhos e as opções tomadas em termos estéticos e técnicos, as motivações
para as escolhas nas suas carreiras, as suas opções ao longo da sua vida, o
cruzamento entre a análise das biografias propostas e a realidade que os rodeava.

• procurava, ainda, entender as obras específicas, nas suas particularidades, na


relação com outras do mesmo compositor ou dos seus contemporâneos.

• procurava, finalmente, caminhos para a interpretação das obras: uma


interpretação que fosse não somente um texto escrito mas também ‘música’
(tocada, performada, se me permitem o neologismo) e que reflectisse o que
tinha encontrado e aprendido na investigação e ainda as minhas escolhas.

Encontrei múltiplos documentos, observações, hipóteses e deduções interessantes sobre


a música em Portugal entre os anos 40 (quando estes compositores nasceram ou
atingiram a adolescência) e 80 (data que me impus, algo artificialmente). “Descobri”
um compositor contemporâneo – vivo e de boa saúde - mas esquecido em Portugal;
2
descobri obras musicais esquecidas, facetas de personalidades da vida musical actual
menos conhecidas.

II – O Contexto
No âmbito da história da música contemporânea, gostaria de mostrar algumas questões:
ao contrário do que imaginava, a vida musical portuguesa – mais lisboeta - nos anos 60
é caracterizada por uma forte presença da música contemporânea, uma discussão
constante sobre os seus problemas, a par de algum desinteresse nos Conservatórios e
afins.

Logo nos anos 1958/59 e 60 do séc. XX aparecem nomes de muita relevância.

Em 1958, Álvaro Cassuto com uma bolsa de estudo em Berlim, escreveu então uma
recensão a um livro de Rufer denominado A composição com 12 sons (Die Komposition
mit Zwölf Tönen)1 tornando-se então no arauto português do dodecafonismo em
conferências e artigos de notável profundidade em termos estéticos e técnicos. Em 1959
escreve a sua Sonatina per pianoforte (numa mistura de dodecafonismo e harmonia
neo-clássica) e a Sinfonia Breve n. 1 (também dodecafónica).

Também em 1959, Jorge Peixinho, um jovem de 19/20 anos, foi para Roma estudar na
Academia Santa Cecília. Nesse Verão compôs as Cinco pequenas peças para Piano:
cinco peças atonais usando diversas técnicas de origem dodecafónica, aproximando-se
quer do expressionismo do princípio do séc.XX, quer mesmo de técnicas pianísticas de
vanguarda. No ano seguinte (1960) Peixinho já iria contactar grandes mestres da
vanguarda europeia (Boulez, Stockhausen e Luigi Nono), ter obras suas tocadas em
Veneza (Políptico) e frequentar cursos de música electroacústica no estúdios de
Bilthoven na Holanda.2

Em 1961 sucederam-se as conferências sobre novas músicas, de Jolly Braga Santos, de


Messiaen  sobre ornitologia  de Nuno Barreiros sobre música contemporânea.

1
Cf. Arte Musical, (1958- n.3).
2
Actualmente conhecido por Instituto de Som do Real Conservatório de Haia .
3
E em 21 e 22 de Novembro de 1961 deu-se um acontecimento marcante: a visita de
Stockhausen a Portugal e dois concertos com este compositor e o pianista (arauto dos
serialistas nos anos 50) David Tudor. Tudor tocou obras de Morton Feldman, Bussoti,
Hidalgo, Ichiyanagé e John Cage, num recital com palavras introdutórias de Jorge
Peixinho. Stockhausen deu um concerto no dia seguinte com obras instrumentais e
electroacústicas: obras de Caskel (compositor/percussionista também presente) e
Stockhausen (Klavierstücke VII e VIII, Refrain, Kontakte).

Estes concertos foram precedidos (a 20 de Novembro) por uma conferência de


Armando Santiago e Gil Miranda (este último hoje musicólogo e professor radicado nos
EUA). Ambos os concertos estiveram esgotados e tiveram reacções diversas e extremas
por parte do público. Entre este público encontrava-se um jovem activista de esquerda
da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, melómano, também estudante de
música e compositor potencial, com o nome de Emmanuel Nunes (n.1941). Segundo o
próprio Emmanuel Nunes, este concerto foi determinante para a sua carreira futura.3 A
visita de Stockhausen deu ainda lugar a um programa de televisão com entrevista,
programa produzido pelo compositor e, então, funcionário da R.T.P. Filipe de Sousa, e
entrevista traduzida por Álvaro Cassuto.4

Em 1962 aparecem, novamente, diferentes cursos dedicados à música contemporânea


(Louis Saguer, Peixinho, Cassuto) e concertos com nomes famosos da cena europeia
contemporânea como o flautista Gazzelloni. Armando Santiago aparece-nos novamente,
agora como compositor da música para o filme D. Roberto, realizado por um nome
também emergente na arte portuguesa: Ernesto de Sousa, artista de vanguarda,
jornalista, historiador e professor de arte, fotógrafo, poeta, realizador de cinema.

1963 é o ano do reconhecimento internacional de Jorge Peixinho através da execução da


sua obra Domino para flauta e percussão (Gazzelloni – flauta, Haedler e Caskel -
percussão) nos Cursos de Darmstadt. Lá estiveram ainda os compositores Filipe Pires e
Emmanuel Nunes e ainda a harpista Clotilde Rosa, futuramente também compositora.

3
Cf. Nunes, Emmanuel (1998): p. 13.
4
Segundo relato pessoal de Filipe de Sousa.
4
De Janeiro a Abril de 1964 houve mais uma série de conferências sobre música
moderna, desta vez organizadas pela Associação de Estudantes da Fac. de Direito de
Lisboa – e em especial por um jovem estudante de direito de nome Mário Vieira de
Carvalho.

E ainda várias outras: de João de Freitas Branco, do teórico da modernidade


Stuckenschmidt, no Goethe Institute, do compositor Espanhol Ramon Barce — membro
do grupo vanguardista Zaj. E ainda os cursos de música contemporânea e concertos na
SNBA organizados pela Academia dos Amadores de Música5 com os compositores
Mariétain e Jorge Peixinho.

A influência de Jorge Peixinho em Portugal foi sendo cada vez mais importante e
notada.

Entre outras actividades organizou um concerto em Novembro de 1964 onde


apresentou, entre outras, uma primeira obra de Emmanuel Nunes (a obra Conjuntos I).
É interessante que esta apresentação de Conjuntos I permitiu a Emmanuel Nunes obter
uma bolsa de Estudo da Fundação Gulbenkian; a obra foi mais tarde retirada do
catálogo.

Álvaro Cassuto, neste caso no papel de crítico musical do Diário de Notícias 7/11/1964,
relatou um grande alvoroço à volta deste concerto de Jorge Peixinho e propõe, no seu
texto, um efectiva educação musical para as gerações mais novas. E nesse sentido a
Juventude Musical Portuguesa organizou um debate em Dezembro, moderado por João
de Freitas Branco, onde basicamente foram discutidas as ideias de John Cage.

Sabemos que Armando Santiago acabou os estudos que vinha fazendo em Roma com o
Diploma da Academia de Santa Cecília; e Emmanuel Nunes foi novamente aos cursos
de Darmstadt e, depois, para Paris, já com a bolsa de estudo.

1964 parece ser um ano chave nestes tão profícuos anos 60.

Mas salientemos ainda o início de 1965. A 7 de Janeiro, um grupo de artistas


portugueses produziu um “Concerto e audição pictórica” na Galeria Divulgação. Trata-

5
Organizado pela Academia de Amadores de Música.
5
se do primeiro happening em Portugal relatado por E. M. de Melo e Castro6. Os artistas
eram Melo e Castro, António Aragão, Salette Tavares (estes três ligados à poesia
experimental), Manuel Baptista (artista plástico), Clotilde Rosa (harpista), Mário Falcão
(também harpista), e Jorge Peixinho. O programa é interessante:
Cartridge Music — John Cage7
No intervalo I executar-se-á como música de fundo
O Funerão do Aragal — António Aragão
Peça 59 (música negativa) — E. M. de Melo e Castro (estreia mundial)
A Porta Preta — Jorge Peixinho
Zzzzzzz.................Rrrrrrr!...
(esta obra não será dada ao público por provocar sono)
Suite for Toy Piano —John Cage
Electrovagidos — Jorge Peixinho
"Sonata ao Lu...Ar Livre"
(esta peça não será apresentada cá porque não há ar livre)
No intervalo II
Foco e Ruído
Concerto a Metro (Marcha Militar)
Balophonia
Com a participação do Espírito Humano
Bidotrafico

Extra-program (se houver bises):


Aria à Critica — Salette Tavares (performer and author)
A oredem do programa sera alterada pelas seguintes razões (im)previsíveis:
____
____
____
Interpretes: António Aragão, Clotilde Rosa, E. M. de Melo e Castro, Jorge Peixinho,
Manuel Baptista, Mário Falcão, Salette Tavares.

6
Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro. Cf. Melo e Castro (1977): página 59.
7
Obra tocada em primeira audição em Colónia, em 1960, por John Cage, Cornelius Cardew, Hans G
Helms, Nam June Paik, Benjamin Patterson, William Pearson, Kurt Schwertsik, David Tudor.
6
E. M. de Melo e Castro conta que Jorge Peixinho tocou violino com um extintor e
bebeu champanhe de um bidet; Salette Tavares cantou a ária ao cri-cri-cri-tico, António
Aragão cantou de dentro de um caixão, e Melo e Castro dirigiu uma spotlight de 1000
Watts para o público.

Com o mesmo tipo de provocação, o grupo Zaj8 organizou a 27 de Fevereiro, em


Lisboa, uma exposição do artista Millares e um concerto com obras de Hidalgo,
Marchetti e Barce.

Parece, de facto, que os anos de 1964 e 1964 constituíram um ponto alto no que respeita
à apresentação de música contemporânea em Portugal em particular em Lisboa.
Apareceram novos compositores (Constança Capdeville e Emmanuel Nunes), houve,
como nos anos anteriores, muitos cursos, conferências e debates sobre música
contemporânea, compositores como Peixinho e Filipe Pires apareceram com novas
obras, Armando Santiago regressou ao país, muita obras de música contemporânea
foram ouvidas em concertos. Em síntese, só nos últimos 3 meses de 1964 ouviram-se
novas obras de E. Nunes, Peixinho, Filipe Pires assim como outras de compositores
estrangeiros (Schönberg, Dutilleux, John Cage, H. Holliger, Varèse). No início de 1965
apareceram os primeiros happenings em Portugal.

Tal movimento no âmbito da música contemporânea só foi, talvez, recuperado nos anos
90, ou acumulado em poucas semanas nas defuntas Jornadas de Música Contemporânea
da Gulbenkian.

III – Um encontro
Nesta investigação foi, desde logo, interessante, o aparecimento de um nome que, para
muitos, era completamente desconhecido. Ao procurar referências sobre Armando
Santiago, encontrei alguns dados até 1968; ao contactar portugueses seus colegas nesses
tempos, deparei-me com meias respostas, mesmo com a informação que <<era um
amador que tinha emigrado>>. Soube, através de um colega meu canadiano que este

8
A Spanish group of contemporary artists of different disciplines, connected with J. Cage, D. Tudor, neo-
Dadaist and Surrealist groups and artists. Some of the participants in Zaj performances (exhibitions,
recitals, "concert-parties", "events", etc.) were John Cage, David Tudor, Walter Marchetti, Ramon Barce,
Juan Hidalgo, Tomás Marco, Alejandro Reino, Manolo Millares, José Cortés, Manuel Cortés, Eugenio
Vicente, etc.
7
compositor era bastante reconhecido no Canadá como professor de composição,
ignorando-se que era de origem portuguesa ... pensavam que seria, talvez, de origem
chilena ...

Armando Santiago nasceu em Lisboa em 1932 e naturalizou-se, mais tarde, canadiano.


É compositor, maestro e professor. Para além do Conservatório de Lisboa, estudou
direcção de orquestra com Hans Münch e Franco Ferrara, música concreta com Pierre
Shaeffert na ORTF de Paris, e composição com Boris Porena e Goffredo Petrassi na
Academia de Santa Cecília em Roma, tal como Jorge Peixinho. Depois de trabalhar para
a Fundação Calouste Gulbenkian (entre 1960 e 68) emigrou para o Canadá onde se
tornou famoso professor de composição e director do Conservatório da cidade de
Quebeque, onde continua a viver e a compôr. A sua obra é muito influenciada pelo
serialismo e pós-serialismo, mas continua, em grande parte, desconhecida entre nós
(bastante conhecida no Canadá).

IV – Um equívoco?
Os documentos e as memórias mostram-nos o carácter radical, de afrontamento do
público mais conservador, do pianista e compositor Jorge Peixinho. Jorge Peixinho fez
caretas ao público (algumas eram parte da própria partitura, outras uma afronta ao
conservadorismo), tocou o que nenhum outro tinha coragem de tocar, fez-se performer
com a vanguarda artística dos anos 60, não hesitou a atacar os mais conservadores e até
os neo-clássicos. Defendeu consistentemente uma arte de intervenção, mesmo de
choque, que pusesse o público a pensar, a interrogar-se sobre o sentido da própria arte e
da sociedade.

Jorge Peixinho, no entanto, era um compositor romântico: romântico no sentido mais


pueril do termo. E tal é evidente no seu estudo um “Mémoire d’une présence absente”.
Trata-se, na verdade, de uma obra dedicada a Christine Rasson – uma paixão sua na
altura – que tinha deixado em Itália e que, ao chegar a Portugal, o enlevou em saudades.

Esta obra de 1969 contrapõe texturas de diferente ordem: modais, seriais (ou para-
seriais, nas palavras do compositor) e tonais. Usa a repetição exaustiva de um pequeno
excerto, usa improvisação, clusters e mesmo uma clara citação do acorde de Tristão de
8
Wagner: e, desta forma, é quase uma espécie de manifesto onde o compositor nos
declara:

• a sua não filiação nas maneiras mais estritas de composição da época (um não
rotundo ao serialismo mais estrito),

• o facto de não abdicar nem da tradição harmónica e melódica do modalismo


nem das infra-estruturas mais vanguardistas (as séries),

• a aceitação da ideia de repetição, sugerindo-nos as experiências minimalistas


americanas (aparecidas nesses anos 60),

• o reconhecimento da tradição (em Wagner),

• o seu reconhecimento numa música que, afinal, pode ser expressão das emoções
do próprio compositor, tal como o título, a história e a própria obra nos sugerem.

V – Outro equívoco
A obra pianística de Jorge Peixinho não tem, em geral, atitudes teatrais, não procura
nitidamente o confronto com o público, é até um pouco conservadora, ao contrário da
atitude de Jorge Peixinho enquanto pianista e performer. Embora em algumas se toque
dentro do piano, noutras se utilize objectos ou mesmo a voz simultaneamente com o
teclado, Jorge Peixinho procura, simplesmente, sonoridades que vão ao encontro das
suas necessidades expressivas, usando o instrumento em todas as suas potencialidades.

São sintomáticas as obras Estudo IV – para uma corda só – e Music Box, para piano e
caixinhas de música. Estas obras encontravam-se, assim como outras, fora de catálogo,
dadas como incompletas, e foram reconstruídas mercê do trabalho aturado com os
manuscritos. A segunda obra - Music Box - é completamente tonal, tocada
simultaneamente com 3 caixas de música (mecânicas) que são abertas e fechadas em
alturas determinadas pelo compositor: a música tonal do piano sobrepõe-se às melodias
também tonais (mas em diferentes tonalidades) das caixas de música.

Estudo IV é uma obra extraordinária pois, completamente fora de comum na obra de


Peixinho, usa canções populares portuguesas. Usa-as entremeadas com sons diversos
9
subtraídos ao interior do piano, utilizando, quase exclusivamente, um bordão FÁ#. As
melodias populares são tocadas no teclado e em pizzicato.

Mas esta peça, algo telúrica e enigmática, finaliza com “gaitas”, tal com Peixinho
escreve na partitura: a minha proposta é que, neste final, o intérprete se vire para o
público e sopre em gaitas de feira, bem desafinadas e provocatórias: uma espécie de
Verfremdung Brechtiana (distanciamento e estranhamento – Entfremdung e
Verfremdung) que, eventualmente, nos acorda da nostalgia rural e das sonoridades
encantatórias do piano.

E, assim, retornamos aos princípios abrangentes da música de Jorge Peixinho:


reconhecendo-se na modernidade, assume todo o presente e todo o passado, todas as
tradições, visando-as num processo de composição fortemente expressivo e fortemente
crítico – em termos estéticos, sociais e técnicos.
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ANÁLISE, HISTORIOGRAFIA, RECONSTITUIÇÃO – EXPERIÊNCIAS DE


INVESTIGAÇÃO NO ÂMBITO DA MÚSICA CONTEMPORÂNEA ............................ 1

I - APRESENTAÇÃO ................................................................................................................ 1

II – O CONTEXTO .................................................................................................................. 2

III – UM ENCONTRO .............................................................................................................. 6

IV – UM EQUÍVOCO? ............................................................................................................. 7

V – OUTRO EQUÍVOCO .......................................................................................................... 8

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