Jean Paul Sartre (1905 1980

)

A IDADE DA RAZÃO
Os Caminhos Da Liberdade

Volume I

Tradução de Sérgio Milliet 5." Edição BERTRAND EDITORA VENDA NOVA 1996 ' Título original: Lês Chemins de Ia Liberte — L'Age de Raison © 1945, Éditions Gallimard Ilustração de capa: No boulevard, de Malevich Todos os direitos para a publicação desta obra em língua portuguesa excepto Brasil, reservados por Bertrand Editora, Lda. Fotocomposição e montagem: Grafitexto Impressão e acabamento: Gráfica Manuel Barbosa & Filhos, Lda. Depósito Legal n.° 101049/96 ISBN: 972 25 0996 9 Acabou se de imprimir se em Junho de 1996

A Wanda Kosakiewicz No meio da Rua Vercin getorix, o sujeito grandalhão agarrou Mathieu pelo braço. Um polícia passeava no passeio oposto. — Dê me alguma coisinha, patrão, estou com fome. Tinha os olhos muito unidos e os lábios grossos. E tresandava a álcool. — Não será sede o que tu tens? — indagou Mathieu. — Juro que não, meu velho — disse com dificuldade —, juro que não. Mathieu descobrira uma moeda de cinco francos no bolso: — No fundo não me interessa, perguntei por perguntar. E deu a moeda. — O que estás a fazer está certo — disse o tipo, apoiando se à parede —, quero desejar te uma coisa formidável. Mas o que é que te vou desejar? Reflectiram ambos. Mathieu atalhou: — O que quiseres. — Pois então vou desejar te felicidades — respondeu o outro. — É tudo. Riu triunfante. Mathieu viu o polícia aproximar se e receou que prendesse o tipo. — Bom — disse —, adeus. Quis afastar se, mas o homem alcançou-o. — A felicidade não basta — disse com uma voz entaramelada —, não basta... — Então! Que mais é que queres? — Quero dar te uma coisa. — E eu vou prender te por mendicidade — disse o polícia. Era muito jovem, muito rosado e esforçava se por se mostrar duro. — Há meia hora que estás aí a chatear os transeuntes — acrescentou sem convicção. — Não está a pedir esmola — disse Mathieu com vivacidade. — Estamos a conversar. O polícia encolheu os ombros e continuou o seu caminho. O tipo titubeava de modo inquietador; não parecia sequer ter visto o polícia. — Já sei o que é que te vou dar. Vou dar te um selo de Madrid. Tirou do bolso um rectângulo de cartão verde e entregou o a Mathieu. Este leu: «C. N. T. Diário Confederai. Exemplares 2. França. Comité Anarco Sindicalista, 41, Rua de Belleville, Paris 19.» Havia um selo ao lado do endereço. Também era verde e trazia o carimbo de Madrid. Mathieu estendeu a mão — Obrigado. — Cuidado! — disse o sujeito irritado. — E... de Madrid. Mathieu olhou o. O homem parecia comovido e fazia grandes esforços para exprimir o seu pensamento. Renunciou a isso e disse apenas: — Madrid! — Já sei. — Eu queria lá ir. Juro. Mas a coisa não se arranjou.

Tornara se sombrio. Murmurou «espera» e passou devagar o dedo sobre o selo. — Pronto. Podes levá lo. — Obrigado. Mathieu deu alguns passos, mas o sujeito chamou o. — Eh! — Que é? — disse Mathieu. O homem mostrava lhe a moeda de cinco francos. — Foi um tipo que me deu isso. Ofereço te um rum. — Hoje não. Mathieu afastou se com um vago remorso. Houvera uma época na sua vida em que deambulara pelas ruas, pêlos bares, com toda a gente; o primeiro que aparecesse podia convidá lo. Agora, tudo isso tinha acabado; esse género de aventura não dava nada... Era divertido. Tivera vontade de ir combater em Espanha. Mathieu apressou o passo, e pensou com alguma irritação: «Em todo o caso não tínhamos nada que dizer um ao outro.» Tirou do bolso o cartão verde: «Vem de Madrid, mas não tem o endereço dele. Deve lho ter dado alguém e apalpou o varias vezes antes de entregá lo, porque vinha de Madrid.» Lembrava se do rosto do homem e da sua expressão ao olhar para o selo: uma expressão estranha de paixão. Mathieu olhou o selo por sua vez, sem deixar de andar, depois repôs o pedaço de cartão no bolso. Um comboio apitou, e Mathieu pensou: «Estou velho.» Eram dez e vinte e cinco. Mathieu estava adiantado. Passou sem parar, sem querer voltar a cabeça diante da casinha azul. Mas ele espreitava a pelo canto do olho. Todas as janelas estavam escuras, com excepção da de Madame Duffet. Marcelle não tivera ainda tempo para abrir a porta de entrada; debruçada sobre a mãe, ajeitava, com gestos másculos, o leito de dossel. Mathieu, preocupado, pensava: «Quinhentos francos para darem até ao dia 29, isto é, trinta francos por dia, mais ou menos. Como é que me vou arranjar?» Deu meia volta e voltou para trás. Apagara se a luz no quarto de Madame Duffet. Pouco depois, a janela de Marcelle iluminou se. Mathieu atravessou a rua e seguiu, ao longo da mercearia, tomando cuidado para que as solas novas dos sapatos não rangessem. A porta estava entreaberta, empurrou a devagar, ela gemeu. «Quarta feira vou trazer a minha almotolia para olear os gonzos.» Entrou, fechou a porta e descalçou se no escuro. A escada rangia um bocado. Mathieu subiu com precauções, de sapatos na mão; tacteava cada degrau com os dedos do pé antes de dar um passo. «Que comédia!», pensou. Marcelle abriu a porta antes que ele alcançasse o patamar. Uma névoa rósea e que cheirava a lírio projectou se fora do quarto

e espalhou se pela escada. Ela tinha vestido uma camisola verde, transparente, através da qual Mathieu viu a curva suave e gorda das ancas. Entrou. Tinha sempre a sensação de entrar numa concha. Marcelle fechou a porta à chave. Mathieu dirigiu se ao grande armário metido na parede e guardou os sapatos; contemplou depois Marcelle e viu que havia qualquer coisa. — Que é que se passa? — perguntou em voz baixa. — Nada — respondeu Marcelle, igualmente em voz baixa. — E tu, meu velho? — Estou sem cheta. Fora isso, tudo bem. Beijou a no pescoço e na boca. O pescoço cheirava a âmbar, a boca cheirava a tabaco ordinário. Marcelle sentou se à beira da cama e pôs se a olhar as pernas enquanto Mathieu se despia. — Que é isto? — indagou Mathieu. Havia em cima da lareira uma fotografia que ele não conhecia. Aproximou se e viu uma jovem magra, penteada como um rapaz, e que ria com um ar ríspido e tímido. Envergava um casaco de homem e calçava sapatos de salto baixo. — Sou eu — disse Marcelle, sem erguer a cabeça. Mathieu voltou se. Marcelle levantara a camisola sobre as coxas gordas. Estava curvada e Mathieu adivinhava sob a camisola a fragilidade dos seios pesados. — Onde é que encontraste isto? — Num álbum. É do Verão de 28. Mathieu dobrou cuidadosamente o casaco e colocou o no armário ao lado dos sapatos. Perguntou: — Então agora andas a mexer nos álbuns da família? — Não, não sei, mas hoje tive vontade de encontrar coisas da minha vida, de ver como eu era antes de te conhecer. Trá-la cá. Mathieu pegou na fotografia e ela arrancou lha das mãos. Sentou se ao lado dela. Marcelle teve um arrepio e afastou se um pouco. Olhava a fotografia com um sorriso vago: — Como eu era engraçada — disse. A jovem mantinha se rígida, apoiada à grade de um jardim. Abria a boca e devia estar também a dizer: “É cômico”, com a mesma desenvoltura atarantada, a mesma ousadia sem firmeza. Só que era jovem e magra. Marcelle sacudiu a cabeça. — É de morrer a rir! Foi tirada no Luxemburgo por um estudante de Farmácia. Estás a ver o meu blusão? Comprei o nesse mesmo dia, porque íamos dar um grande passeio a Fontainebleau no domingo seguinte. Meu Deus!... Havia com certeza alguma coisa. Nunca os seus gestos tinham sido tão bruscos, a sua voz tão masculina. Estava sentada à beira da cama, mais do que nua, sem defesa, como um vaso enorme no fundo do quarto cor de rosa, e era penoso ouvir essa voz masculina enquanto um cheiro forte e sombrio se exalava dela. Mathieu agarrou a pêlos ombros, apertando a. — Tens saudades dessa época? Marcelle respondeu secamente: — Dessa época não, mas da vida que poderia ter tido.

Apanhei um táxi e voltei. indiferente: — E tu? Mathieu não tinha vontade de contar.» Abriu os lábios para interrogá la. de acotovelar pessoas. parece que não fazem isso. Ela dava lhe conselhos..» Quis beijar lhe a cara. Ela olhava a fotografia com um ar triste e tenso. Dizia muitas vezes: «Vivo por procuração. — Porquê? A voz de Marcelle voltara à firmeza habitual e o seu rosto assumira uma expressão de bom senso masculino. Mathieu pensou: «Não lhe dou nada. . — E viste? — Cinco minutos. Acrescentou: J E A N P AUL SARTRE — Ela anda desanimada. Jantei em casa de Jacques. Perguntou. Marcelle ergueu as sobrancelhas e olhou o.» Ele perguntou: — Que fizeste ontem? Saíste? Marcelle teve um gesto desanimado e vago.Tinha iniciado os seus estudos de Química. começou a chover. com voz séria e ligeiramente autoritária. — Senti necessidade de tomar ar. — Já lá vão dez anos. Quando saí de casa dela. mas ela afastou se sem violência com um risinho nervoso. em tfeauvais eu entendia me com o tesoureiro. que uma doença havia interrompido. Li um pouco. Disse: — Ontem fui ao colégio dar as minhas últimas aulas. — E hoje? — Hoje saí — disse ela melancólica. isto divertia me. Contava lhe minuciosamente tudo o que fazia. queria ver Andrée. sabes. estava cansada. Parecia um levantino gordo. Ele não gostava de lhe falar de Ivich. — Disseste me que ela estudava. — Não. leva uma vida horrível. as pessoas tinham umas caras ignóbeis. não? — Engordaste. mas a mãe interrompia me a cada instante por causa da loja.. Desci até à Rua da Gaite. chato como de costume. — Engordei. Mathieu pensou: «É verdade. mas viu Ihe os olhos e calou se. Ele murmurou: — Ela vai chumbar. Depois vi Ivich. e depois.» Quatro noites por semana vinha vê la. No entanto. Hoje de manhã passei na tesouraria para ver se podiam adiantar me alguma coisa. Ela encolheu os ombros e atirou a fotografia para cima da cama. é um mês de Junho esquisito. Mathieu pensou: «Parece que ela me detesta.

meu velho. não.B. pouco me importa que Ivich reprove. E tu acreditas que uma boneca com uma pele daquelas vai estragá la com tiros? Posso imaginá la caída numa cadeira. a minha até parece de marroquim. mesmo que passasse no P. — Em todo o caso — atalhou Mathieu —. tenho medo que lhe aconteça o mesmo desta vez. Mas nem só as palavras contam! Hesitou um instante e baixou a cabeça. não. Em suma. Gostava que ele lhe acariciasse as costas. É muito russo isso! Mas imaginar outra coisa. «Que é que eu tenho a ver com os celenterados?». desanimado.. isto é. Ela foi tão pouco feita para ser médica como eu. Mas se a coisa não correr bem desta vez. como os loucos. só de lhe passar o dedo por cima. E dizes que tens horror ao romanesco. Aquele tom de displicência protectora não seria uma mentira? Tudo o que podia exprimir por meio de palavras dizia o. exigia apenas uma coisa: que ele falasse de Ivich precisamente naquele tom. Mas de repente.C. Ela apoiou o braço no de Mathieu. De qualquer maneira. Mas sabes como ela é: tem visões.— Sim. meu velho. meu pobre velho. — Olha para isto. desmaiaria na primeira dissecação. o examinador estava satisfeito. Ele tinha a pele mais branca do que a dela. deve ficar horas inteiras diante de um livro sem fazer um movimento. de repente «viu se» diante de um tipo calvo a falar de celenterados. Marcelle indagou com voz firme: — Que espécie de disparate queres tu dizer exactamente? — Não sei — respondeu ele perturbado. Isso pareceu lhe ridículo. Um revólver é para as nossas peles de crocodilo. Ou que invente alguma coisa. Marcelle não ignorava nada da sua afeição por Ivich. ela vai fazer um disparate. A família não a deixará recomeçar. e não poria mais os pés na Faculdade. — Ah! conheço te muito bem. no próximo ano. Vais ver. Não ousas confessar. Parece que nunca lhe viste o corpo. pois não? Eu teria receio de ofendê la. aceitava mesmo que ele a amasse. Mathieu disse lhe: A — Ouve. — Não achas que tenho uma pele boa para fazer uma escumadeira? . Desatou a rir. com os cabelos sobre o rosto e fascinada diante de um minúsculo Browning. Marcelle libertou se e o seu rosto endureceu. pensou. principalmente junto dos rins e entre as omoplatas. mas tens medo que ela enfie uma bala no corpo. no caso de ter um azar. Em Outubro sabia bastante de Botânica. Mathieu não deixara de acariciar as costas de Marcelle e ela começou a pestanejar. Marcelle. à sua maneira. — Que rapariga estranha! — disse Marcelle pensativa. e o tipo não lhe arrancou nem mais uma palavra.

Queria oferecer me um copo. Era sempre assim com ela: como um nó. Ela calou se. A — Era um anarquista? — Não sei. Antigamente terias feito tudo para provocar esses encontros. estouraria. — Cala te. A tua vida está cheia de oportunidades perdidas. Este acabou por retirá la. — Quando tu me contas estas coisas. Vais acordar a velha. Ele disse: — Como estás nervosa! Ela não respondeu. J E A N P AUL SARTRE Continuava a rir. — E tu recusaste? — Recusei. com os bordos limpos e avermelhados. Mathieu pousou a mão na perna de Marcelle e acariciou a docemente. — Ora! Marcelle ergueu a cabeça e contemplou o relógio com um ar míope e divertido. Mathieu sentiu se ligado ao tipo por uma espécie de cumplicidade. Mathieu tapou lhe a boca com a mão. como mil arrepios tensos. — Podia ser divertido. o tempo de um olhar altivo e desesperado. foi até ao armário e tirou o cartão do bolso do casaco. Mathieu levantou se. — Chamas a isto uma oportunidade perdida? — Sim. Acrescentou: — Sabes. E só Deus sabe corno estas coisas se repetem ultimamente. porque era necessário exprimi la em voz baixa e sem gestos para não acordar Madame Duffet. Dentro em pouco não se poderia conter. Mathieu temia essas explosões silenciosas: a paixão naquele quarto concha era impossível. — E curioso — observou. Marcelle não se mexeu: olhava a mão de Mathieu. — Talvez tenha mudado um pouco — disse Mathieu. Não seria nada feio. — Porquê? — perguntou Marcelle com negligência. Não havia nada a fazer senão esperar. Marcelle pegou no cartão. Era simpático e eu dei lhe algum dinheiro. irrito me sempre. Gostava daquela carne amanteigada com os pêlos suaves sob as carícias.Imagino um buraquinho bem redondo por baixo do esquerdo. — Que é isso? — Foi um tipo que mo deu há pouco na rua. — Que é que achas? Envelheci? . com indiferença. isso tinha um grande valor para ele. — Que é que tu tens? — Nada — disse ela virando a cabeça. — Olha. — Olha para mim — disse. Viu momentaneamente as suas olheiras. concordando.

Era ainda contra ele próprio que se defendia. Há muito tempo que se diz isso. eles já se lhe tinham habituado. eu não tinha tempo. Tu és divertido.— Tens trinta e quatro anos — disse simplesmente Marcelle. vinha para cá. — Ouve — disse —. absolutamente nada e nem há motivo para tanta história. as palavras para ela não duravam mais do que uma estação). — Isto não é nada. Trinta e quatro anos. Compreendes. eram responsáveis por ela diante um do outro. — Que é que achas de tão interessante nisto. No Inverno anterior era «urgência». — Vamos lá — disse.. não tinha um ar terno. perturbado. — disse ele. Mas não deixa de ser sintomático. não creio que seja isso. meu velho. não tens razão em dar importância a essa história. Não reflecti assim tanto.. Ouve. — Sim. — É tão raro. Marcelle sorriu sem ternura...» Quis fazer um esforço para ser sincero. agora. A IDADE DA RAZÃO — Pois é — atalhou Mathieu —. essa lucidez. Um ronronar baixo e terno como quando ela lhe acariciava os cabelos dizendo lhe: «Meu pobre velho.. de bom humor e sem vontade de discutir... Mas Marcelle tinha desatado a rir.. Pensou: «Não é completamente verdade.. «Ela procura provocar me». — Que há. — Como tu tens medo do patético! E depois? Mesmo que te mostrasses um pouco patético com esse pobre diabo! Que mal é que havia? — E o que é que adiantava? — perguntou Mathieu. J E A N P AUL SARTRE Mathieu e Marcelle tinham combinado dizer sempre tudo um ao outro. quando se está bêbedo.. Foi antes por escrúpulo. tens um medo tão grande de te iludir a ti próprio que recusarias a mais bela aventura do mundo para não te arriscares a uma mentira. — Conheço te bem — disse. a tua famosa lucidez. Mathieu pensou em Ivich e teve um estremecimento desagradável. em suma. não andares alheio — disse Marcelle. era . Era a que eu queria evitar. — Bem. ando um pouco alheio. bem o sabes. é tudo patético. Sentia se tranquilo e algo estúpido. Antes de mais nada. Achava a injusta. Essa «lucidez» (detestava a palavra. pensou Mathieu. — Tens perfeitamente razão — disse Marcelle. Mathieu acrescentou com vivacidade: — Ele também devia estar alheio. Mathieu sobressaltou se: se ao menos ela não empregasse palavras tão rebarbativas. mas Marcelle tinha a adoptado havia algum tempo.» No entanto.

. Que é que tu queres que se faça? Estava irritado. Encarou Marcelle. — Se eu mentisse a mim mesmo — disse —. E depois havia aquela fotografia em cima da cama. Totalmente livre.. Marcelle pusera um ar sorridente e obstinado: — Sim.. No fundo. é o teu ideal: não ser nada. teria a impressão de te mentir também. Não é isso. a sua companheira. imaginas que não és o que estás a ver. de estranho. É o teu vício. tudo é claro e nítido em ti. Pensei nisso hoje. Escuta: eu.. Não parecia muito convencida. E não me venhas dizer que é por mim que razes isso. com inquietação: ainda não tinha chegado o momento de ela se decidir a falar. Mas raramente sentia nela aquela vontade deliberada de lhe ser desagradável. cheiras a roupa lavada. Tudo aquilo. de hesitante.. Quando olhas para ti próprio. — Pensas que estou a mentir? — Não. não é um fim. E tórrido. Mathieu estava desconcertado. Isso era me insuportável. a sua testemunha. . é um meio. julgar: é a tua atitude predilecta... — Se. sim — disse ela com indolência. e se Mathieu não concordava com ela. Só falta o contraste. que não és nada. Quando Mathieu se comprometera com Marcelle. é o teu vício. — Não é um vício — disse Mathieu. tu segues o teu caminho.. aos pensamentos frescos. — Isso de me conheceres não me interessa assim tanto — disse simplesmente. Nada de inútil. olhar. — Não pareces convencida! — Estou. um J E A N P AUL SARTRE pouco agressiva. eu gostaria de não dever nada senão a mim próprio. Ser livre. tinha lho explicado cem vezes. mantinha se em guarda. — Eu sei — atalhou Marcelle —.apenas o profundo sentido do seu amor. Oh!... isto é. — Não ser nada — repetiu lentamente Mathieu. imaginava que ele a queria dominar. é como se tivesses passado pela lavandaria. sombrios e tímidos que dantes se esgueiravam dentro dele com a vivacidade furtiva dos peixes.. Marcelle mostrava se muitas vezes bastante dura. ela era a sua lucidez. — Não. desconfiada. Sabes o que estou a pensar? Que te estás a esterilizar um pouco. É para te libertar de ti próprio. conselheira e juiz. se eu não tentasse viver por conta própria. existir parecer me ia absurdo. — É. gostas de te analisar. — Sim — disse Marcelle. Só podia amar Marcelle com inteira lucidez. renunciara definitivamente aos desejos de solidão.. — Sim. e ela sabia que era muito importante para ele.. sabe se lá! Mas não creio. sim..

Beijou a na boca. estás aborrecida? Ela ergueu para ele os olhos um pouco perturbados. vais dizer me o que é que se passa. — Marcelle! Ela não respondeu. — Pois eu não tenho toda essa necessidade de ser livre — disse. Mas percebeu que agora ela tinha os olhos abertos e parados. tinha uma expressão má. há alguma coisa que te . — Não se passa nada — respondeu. cansada. as olheiras azuladas e borbulhentas. ligeiramente envelhecida. com voz fraca. — Porque é que os outros não são assim. eu sou assim. — Passa se — disse ele com ternura —. — Marcelle.Mathieu pensou: «Ela irrita me quando se arma em esperta». pô las dobradas aos pés da cama e estendeu se ao lado dela. mas teve remorsos e disse suavemente: — Não é um vício. — Agora — disse com firmeza —. Mathieu olhou para a sua nuca inclinada e não se sentiu à vontade. com as mãos cruzadas sob a cabeça. tirou as calças e a camisa. Mathieu sentia prazer na ponta dos dedos.» Pôs lhe a mão no pescoço e apertou suavemente entre os dedos aquela carne untuosa. Deixou escorregar a mão ao longo das costas de Marcelle. Inclinou se sobre ela com uma espécie de mal estar. de repente. se não é um vício? — São assim. Ela escorregou devagar para trás e deitou se de costas sobre a cama. — Não. Mas havia muito tempo que já não se esquecia quando a possuía. tinha uma linda boca. levantou se. Pensou que nunca conseguiria pôr se no lugar de Marcelle: «A liberdade de que lhe falo é a liberdade de homem saudável. Ele sentou se à beira da cama. Apertou a nos braços: não que a desejasse naquele instante. Marcelle deixou cair a cabeça sobre o ombro de Mathieu e ele viu lhe de perto a pele morena. gostaria de esquecer se e esquecê la. viu lhe então as longas pestanas pretas. Exactamente na ponta dos dedos. A Marcelle deixara de rir. que contemplava o tecto. Pensou: «Como está a envelhecer!» E pensou que ele também estava velho. bem desenhada e severa. Mathieu ergueu se. dês J E A N P AUL SARTRE feita. envergonhado da sua nudez. aquele remorso absurdo que o perseguia quando estava com ela. mas não percebem que o são. Tinha um vinco duro e triste no canto dos lábios. Era sempre aquele remorso. Calaram se. e ela baixou as pálpebras. de olhos fechados. mas para ver aquele espírito teimoso e anguloso fundir se como um pedaço de gelo ao sol.

e isto vai aborrecer te. Tinha as mãos sobre as coxas e os braços pareciam asas de terracota. O ar estava doce. — Pois é — disse Marcelle. sem preparação. dois meses de atraso! — Merda! Pensava: «Ela devia ter mo dito há pelo menos três semanas.. Parecia espantada. Marcelle. Mathieu corou violentamente e apertou as pernas. — Pois então. — Dizes me essas coisas assim. não? — Está bem. não quero. aconteceu. e o seu olhar desceu mais ainda. por exemplo. Vamos reflectir. não é a ti que te compete. dir se ia que procurava não tossir. — Agora já sabes. conta. açucarado. a cintura. Tirou um cigarro da mesa de cabeceira. cheirava a rosas. Tinha voltado a cabeça para ele e contemplava o. Sabes que nunca perco a cabeça: mas. para o largar em seguida. Os lábios cerraram se sobre as últimas palavras: uma °ca húmida com reflexos violeta. — Tens a certeza? — Absoluta. Mas havia aquele rosto cinzento. um insecto vermelho . os ombros. E acrescentou com uma amarga ironia: — Isto agora é uma coisa de mulheres. — É a mulher que a liquidou no ano passado? Custou lhe seis meses de cama... — Quem ta deu? — Andrée. sentou se a uma certa distância de Mathieu. Olhou lhe o pescoço. Disse com súbita paixão: — Não é preciso que reflictas. Não dizemos tudo um ao outro? — Tu não podes fazer nada. — Aconteceu o quê? — Aconteceu! Mathieu fez uma careta. — Então queres ser pai? Ela afastou se. As mãos de Marcelle principiaram a tremer.» Tinha vontade de fazer alguma coisa com as mãos. — Vá lá. Ela já lá esteve. Tenho uma direcção. Tinha uma expressão dura mas não máscula. — Não podes fazer nada — repetiu Marcelle. Não. Ele acariciou lhe levemente os cabelos. encher o cachimbo. — Espera — disse Mathieu. mas o cachimbo estava no armário com o casaco. Que é que vamos fazer? — Desenvencilharmo nos disto. Mathieu observou que o rosto se lhe tornara cinzento.. aquele olhar parado.aborrece.

o relógio.. mas não o faria. «odeia me. desastrado e nu que fizera uma asneira e sorria gentilmente para se fazer perdoar. «Sente se humilhada». Bolas. como o mecanismo de uma caixinha de música. Mas ela não a podia esquecer: via as coxas brancas dele.. pensou Mathieu. sabes. sem conseguir arrancar se daquele mundo sinistro e agreste. Estou a dominar me desde esta manhã. um pouco curtas. Um tipo grande. Ela inclinou se sobre os seus ombros e fungou duas ou três vezes sem verter lágrimas. Marcelle não se mexera. Felizmente que pede pouco e eu tenho precisamente quatrocentos francos comigo. E. a cómoda.. Escuta.» E a lâmpada. de soluçar. 24. «Se fosse ela». já estava calma. Era um pesadelo grotesco. precisava de desabafar. — É um bom negócio.ocupado em devorar o rosto cinzento. aconteceu. O quarto parecia ter se esvaziado repentinamente do fumo róseo.» Ele tinha vontade de vomitar. o espelho com os reflexos de chumbo. Era tudo o que podia permitir se. — Garanto te que não me sinto orgulhoso. Ele sabia que ela tinha vontade de gritar. para a flor culpada. Mathieu pensou: «Eu é que lhe fiz isto. eram para a minha costureira.» Disse: — É exactamente o que me preocupa: o não levar muito. Dizem que é irrisório. como um noivo. aconteceu. a nudez satisfeita e peremptória. Dizes que vais da parte de Andrée? — Sim. Quando ergueu a cabeça. havia grandes vazios entre os objectos. É a primeira vez. Agarrou bruscamente Marcelle pela cintura e apertou a contra ele. insistindo na sua melodia. pensou Mathieu. que teima em tocar. mas ela espera. «teria vontade de bater em toda esta carne. — Acredito. sabes? — disse de repente Marcelle com uma voz sensata. querido. e tu é que pagas. Ela só leva quatrocentos francos. o armário entreaberto. com uma obstinação rígida. como . tudo adquiriu um aspecto de impiedosa engrenagem: fora posta em movimento e girava no vácuo das suas frágeis existências. continuava a olhar para o ventre de Mathieu. — Tinhas direito a fazê lo — observou Mathieu. Enfim. musculosas. que descansava delicadamente sobre as coxas com um ar de impertinente inocência. Naturalmente não te censuro nada. — Bem sei — disse Mathieu com amargura. Disse com uma voz decidida: — Desculpa. que porcaria! A asneira é minha. estou persuadida de que serei tão bem tratada por ela como por qualquer outra — afirmou —. quem é essa mulher? Onde é que ela mora? — Rua Morère. Parece que é uma mulher estranha. Sentia se desajeitado. Mathieu mexeu se.. com medo de acordar Madame Duffet. — Ainda bem.

— Tu és bom. — Eu vou lá — repetiu Mathieu. não? Acho que ela não regula muito bem. Entra se pelo pátio. .nessas famosas clínicas clandestinas onde cobram quatro mil francos. Além disso. porque se constipou. Mathieu sentiu se perturbado. Marcelle gemeu levemente. Amanhã vou ter com a Sara. Acariciou lhe a nuca. Era como uma mão morna. é aí. não vais. Ele acariciou lhe os seios. Mas as pálpebras crispavam se lhe. Mathieu beijou a. Marcelle. mas percebo que queres fazer qualquer coisa. Lembras te. ela deve conhecer alguém. não? Passou os lindos braços à volta do pescoço dele e acrescentou com um ar de resignação cómica: — Se perguntares à Sara. Digo lhe que vou da parte de Andrée. mas a mim dá me jeito por causa da minha mãe. por volta da meia noite. cercadas de intumescências febris. é de certeza um judeu. Marcelle suspirava. — Não podemos escolher — repetiu Mathieu. e ela abandonou se completamente. Marcelle olhou o admirada. Cantava lhe ao ouvido uma música gritante. querido. no princípio ela não queria filhos. estamos nervosos de mais. depois levantou se e enfiou as mãos nos cabelos. quase não dorme. De dia a mulher está na mercearia. querido. Obedeceu e deitou se. Eu desejava as tuas carícias. que tenho uma amiga que está atrapalhada. Marcelle parecia um pouco mais calma. vê se luz por baixo de uma porta. mas que não pode ir já. E súbita A mente ele pensou: «Está grávida. Mas acrescentou com mais amabilidade: — No fundo tens razão. — Estás doido? Ela põe te na rua. passiva e gulosa. Desculpa. — Eu vou lá. Se não me agradar. Dizem que só recebe de noite. Gostarias que te operassem em vez de mini. É engraçado. — Como queiras — disse com frieza. — E então? Aonde é que vou. J E A N P AUL SARTRE — Bem — disse Mathieu. Gostava das suas pontas gordas e duras. — Tira a tua camisa. de olhos cerrados. se não servir? — Podemos esperar dois dias. qualquer coisa. — Querido. Não quero que caias no açougue de urna velha tonta. hoje isto não vai. — Escuta. não sei muito bem o que é que vais fazer. mas estava apreensiva. não podemos escolher. vai pensar que és um tipo da Polícia.» Sentou se. Estamos nervosos de mais. — Quando é que vais? — Amanhã. — Mas porquê? Que é que lhe vais dizer? — Quero ver como é.

e encontrava pouco a pouco o calor e a inocência. Em oito dias tudo terá acabado. nem sequer esconder o ventre com as mãos. pudesse existir para outros A com aquela força. Algo se desprendeu nos seus olhos fixos. prometo.— O mal está feito.» Marcelle não se deixava convencer: ficara no quarto e pensava em Mathieu. se quiseres. Não me explico bem. «Uma única vez». a sua carne culpada sentia se resguardada. Vou ver a velha. pensava nele.. Não estava só. amanhã à noite. — J E A N P A U L. — Eu sei. Não tens nada que te recriminar. não. Mathieu levantou se. Se ao menos. à distância. — Bom. mas era instintivo. esqueceu se dentro de mim como um miúdo que faz chichi na cama.» Podia andar pelas ruas desertas. Marcelle não o abandonara. — É que sinto repugnância por mim mesma. ao mesmo tempo. murmurou com ódio. não temos mais nada a temer. — Sim. diante daquela pesada transparência. Telefona me amanhã para me dizeres o que há. ao menos? — És tola.. Sem se poder defender. querido. anonimamente. No patamar voltou se: Marcelle ficara sentada na cama. querida. mais incómoda do que um olhar. Sorria lhe. fazes me medo. Mathieu tinha enfiado a camisa e as calças. nu e sem defesa. Beijou Marcelle nos olhos. pensava: «O estupor fez me isto. Daniel estava bêbedo ou embrutecido. trespassado. — Não. que lhe rolaram à vontade nas órbitas: ela já não o contemplava e não tinha de lhe prestar contas dos seus olhares. SARTRE Abriu a porta sem ruído e esgueirou se para fora com os sapatos na mão. tenho a impressão de ser um monte de comida. E eu não te repugno. Parou. e Mathieu não a deixara: ele continuava no quarto cor de rosa. Escondida pela roupa escura e pela noite. não lhe escaparia. Depois de amanhã. E repetiu o a meia voz para convencer Marcelle: «Uma única vez em sete anos. enfiado até ao pescoço na sua roupa. como hei de fazer para não me esquecer?» Estava sozinho. Não era verdade. mas Mathieu teve a impressão de que ela lhe guardava rancor. A consciência de Marcelle ficara lá cheia de desgraças e de gritos. Só aconteceu uma vez em sete anos. Era intolerável ser julgado assim. — Querida — disse Mathieu com ternura —. Mas Jacques e Odette dormiam. «A almotolia! Vou trazê la amanhã. Ivich nunca pensava nos . recomeçava a desabrochar sob os tecidos. odiado em silêncio. — Não posso ver te amanhã à noite? Seria mais simples. — Não me queres mal? — A culpa não é tua.

ausentes. Boris talvez... Mas a consciência de Boris era apenas uma faísca difusa, não podia lutar contra a lucidez imóvel e sombria que fascinava Mathieu à distância. A noite amortalhara a maioria das consciências. Mathieu estava só com Marcelle dentro da noite. Um casal. Havia luz no Café Camus. O patrão empilhava as cadeiras; a servente fechava um dos lados da porta de madeira. Mathieu empurrou a outra porta e entrou. Tinha vontade de se mostrar. Simplesmente de se mostrar. Encostou se ao balcão. — Boa noite a todos. O patrão olhou o. Havia também um condutor que bebia Pernod, com o boné sobre os olhos. Eram consciências. Consciências afáveis e discretas. O condutor atirou o boné para trás, com um piparote, e olhou para Mathieu. A consciência de Marcelle abandonou a presa e diluiu se na noite. — Uma cerveja — pediu Mathieu. — Raramente aparece — disse o patrão. — Não é por falta de sede. — E verdade que temos sede. Parece que estamos no fim do Verão — disse o condutor. Calaram se. O patrão lavava os copos, o condutor assobiava baixinho, Mathieu sentia se contente porque eles olhavam no de vez em quando. Viu a sua cabeça no espelho: emergia, redonda e lívida, de um mar de prata. No Café Camus tinha se sempre a impressão de serem quatro horas da manhã, por causa da luz, uma névoa prateada que cansava os olhos, embranquecia os rostos, J E A N P A U L SARTRE as mãos, lavava os pensamentos. Bebeu. Reflectiu. «Ela está grávida. Incrível. Não parece verdade.» Parecia lhe, isso sim, chocante, grotesco como quando um velho e uma velha se beijam na boca: depois de sete anos, aquelas histórias não deviam acontecer. «Ela está grávida.» Tinha no ventre uma pequena maré translúcida que inchava docemente, que era corno um olho: «E desenvolve se no meio das porcarias que ela tem no ventre, e vive.» Viu um alfinete comprido avançando na penumbra. Um ruído mole e o olho estourou, furado; ficou apenas uma membrana opaca e seca. «Ela vai ver a velha, vai para o talho.» Sentia se venenoso. «Chega.» Mexeu se: eram pensamentos lívidos, pensamentos das quatro horas da manhã. — Boa noite. Pagou e saiu. «Que é que eu fiz?» Andava devagar, procurando lembrar se. «Dois meses...» Não se lembrava de nada, talvez fosse depois daquelas férias da Páscoa. Tomara Marcelle nos braços como de costume, com ternura sem dúvida, mais por ternura do que por desejo; e no entanto... «Um filho. Eu pensava dar lhe prazer e fiz lhe um filho. Não compreendi o que fazia. Agora vou

entregar quatrocentos francos a essa velha, e ela vai enfiar o instrumento entre as pernas de Marcelle, e raspar; a vida partirá como veio; e eu continuarei tão estúpido como dantes. Destruindo esta vida como a criei, não sabia o que fazia.» Riu secamente: «E os outros? Os que gravemente decidiram ser pais e se sentem genitores quando contemplam o ventre das suas mulheres... Compreenderão melhor do que eu? Fizeram no às cegas, ao acaso. O resto foi trabalho em câmara escura e em A gelatina, como a fotografia. Isto faz se sem eles.» Entrou no pátio e viu uma luz por baixo da porta. Era ali. Estava envergonhado. Mathieu bateu. — Quem é? — perguntou urna voz. — Gostaria de falar consigo. — Não é hora de vir a casa das pessoas. — Venho da parte de Andrée Besnier. A porta abriu se. Mathieu viu uma madeixa de cabelos amarelos e um nariz avantajado. — Que é que quer? Não venha como polícia porque não me apanha. Estou em ordem. Tenho o direito de deixar a luz acesa a noite inteira, se quiser. Se o senhor é inspector, mostre me o seu cartão. — Não sou da Polícia — disse Mathieu. — Tenho uma complicação e disseram me que podia procurá la. — Entre. Mathieu entrou. A velha vestia calças de homem e uma blusa com fecho éclair. Era muito magra, de olhos inexpressivos e duros. — Conhece Andrée Besnier? Encarava o com um ar furioso. — Sim — disse Mathieu. — Ela veio procurá la o ano passado, nas vésperas do Natal, porque estava atrapalhada. Ficou bastante doente e a senhora foi quatro vezes à casa dela para a tratar. — E depois? Mathieu olhava as mãos da velha. Eram mãos de homem, de estrangulador, ásperas, gretadas, de unhas curtas e pretas, com cicatrizes e cortes. Sobre a primeira falange do polegar esquerdo havia equimoses violáceas e uma crosta negra. Mathieu estremeceu ao pensar na carne tenra e morena de Marcelle. — Não venho por causa dela — explicou. — Venho por causa de uma das suas amigas. A velha riu secamente. — É a primeira vez que um homem tem o descaramento de se vir pavonear na minha frente! Eu não quero negócios com homens, compreende? O quarto estava sujo, em desordem. Havia caixotes em todos os cantos e palha no chão ladrilhado. Em cima de unia mesa, Mathieu viu uma garrafa de rum e um copo meio vazio.

— Vim porque a minha amiga mo pediu. Ela não pôde vir hoje e pediu me que me entendesse consigo. No fundo da sala via se uma porta entreaberta. Mathieu tinha quase a certeza de que havia alguém atrás dessa porta. A velha falou: — Essas pobres raparigas são muito tolas. Basta olhar para si para ver que é do género de tipo capaz de fazer um disparate, derrubar copos ou partir espelhos. E apesar disso elas confiam lhes o que têm de mais precioso. Afinal têm aquilo que merecem. Mathieu continuou correcto. — Gostaria de ver onde costuma operar. A velha deitou lhe um olhar de ódio e desconfiança. — Não faltava mais nada! Quem é que lhe diz que eu opero? Do que é que está a falar? No que é que se está a intrometer? Se a sua amiga me quiser ver, que venha. Com ela, só com ela é que me hei de entender! Ah!, queria ver, não? Ela também quis ver, antes de se pôr entre as suas patas? O senhor fez uma burrice. Pois bem, peça a A Deus para eu ser mais habilidosa, é tudo o que lhe posso dizer. Adeus. — Adeus, minha senhora — disse Mathieu. Saiu... Sentia se liberto de um peso. Dirigiu se vagarosamente para a Avenida de Orleães. Pela primeira vez desde que a deixara, podia pensar em Marcelle sem angústia, sem horror, com uma terna tristeza. «Amanhã vou a casa da Sara», pensou. II oris olhava para a toalha de quadrados vermelhos e pensava em Mathieu Dela rue. Pensava: «Um tipo às direitas.» A orquestra parara, a atmosfera estava azulada e as pessoas conversavam. Boris conhecia todos na salinha estreita; não era gente que vinha ali para se divertir: apareciam depois do trabalho, eram sérios e tinham fome. O negro que estava em frente de Lola era cantor no Paradise; os seis tipos com as miúdas eram músicos do Nénette. Certamente acontecera lhes qualquer coisa, uma inesperada felicidade, talvez um contrato para o Verão (na antevéspera tinham falado vagamente de uma boïte em Constantinopla), porque tinham encomendado champanhe e normalmente eram mais sóbrios. Boris também viu a loura que dançava vestida de marinheiro no Java. O magro, alto e de óculos, que fumava um charuto, era director de um cabaré da Rua Tholozé, que a Polícia tinha fechado. Dizia que o ia reabrir muito J E A N P AUL SARTRE em breve, pois tinha protecções na alta roda. Boris lamentava amargamente não ter lá ido, mas iria sem dúvida quando voltasse a abrir. O tipo estava com um pederasta que, de

longe, parecia agradável, um louro de rosto fino, que não era muito afectado e tinha um certo encanto. Boris não gostava dos pederastas porque andavam sempre atrás dele, mas Ivich apreciava os e dizia: «Esses, pelo menos, têm a coragem de não ser como toda a gente.» Boris tinha muita consideração pelas opiniões da irmã e fazia grandes esforços para suportar os tipos. O negro comia chucrute. Boris pensou: «Não gosto de chucrute.» Queria saber o nome do prato que tinham servido à dançarina do Java: um naco escuro que parecia bom. Havia uma mancha de vinho tinto na toalha. Uma bela mancha, dir se ia que a toalha era de cetim naquele lugar. Lola espalhara uma pitada de sal sobre a mancha, porque era cuidadosa. O sal estava cor de rosa. Não é verdade que o sal come as manchas. Tinha de dizer a Lola que o sal não come as manchas. Mas era preciso falar e Boris sentia que não podia falar. Lola estava ao seu lado, cansada e quente, e Boris não conseguiu dizer uma só palavra. Tinha a voz morta. «Eu seria assim se fosse mudo.» Era voluptuoso, a voz flutuava no fundo da garganta, suave como algodão, e não podia sair, estava morta. Boris pensou: «Gosto muito de Delarue.» E regozijou se com isso. Tinha tido muito mais prazer se não sentisse, de todo o seu lado esquerdo, das têmporas à cintura, que Lola o olhava. Era por certo um olhar apaixonado. Lola não sabia olhar de outro modo. Era um pouco incomodativo porque os olhares apaixonados pedem, como retribuições, gestos amáveis e sorrisos; e Boris não era capaz do menor movimento. Estava paralisado. Só que não tinha muita importância; não tinha obrigação de ter percebido o olhar de Lola; adivinhava o, mas isso era da sua conta. Assim como estava, com o cabelo caído sobre os olhos, não via nem um bocadinho de Lola e podia muito bem imaginar que ela olhava a sala e toda aquela gente. Não estava com sono, sentia se à vontade e satisfeito porque conhecia todos na sala. Viu a língua rósea do negro. Boris estimava aquele negro. Uma vez, o negro descalçou se, pegou numa caixa de fósforos com os dedos do pé, abriu a, tirou um fósforo e acendeu o, tudo com os pés. «Aquele tipo é formidável», pensou Boris com admiração, «toda a gente devia saber servir se dos pés como das mãos.» Doía lhe o seu lado esquerdo de tanto ser olhado. Sabia que se aproximava o momento em que Lola iria perguntar: «Em que estás a pensar?» Era absolutamente impossível atrasar a pergunta; não dependia dele; Lola havia de a fazer a hora certa, como uma fatalidade. Boris tinha a impressão de gozar um bocadinho de tempo infinitamente precioso. No fundo era agradável. Boris via a toalha, via o copo de Lola (Lola tinha ceado, nunca jantava antes do seu número de canto). Bebera Château Gruau,

tratava se bem, permitia se uma porção de pequenos caprichos porque andava desesperada com a velhice que a ameaçava. Sobrara um resto de vinho no copo, dir se ia sangue empoeirado. O jazz pôs se a tocar // the moon turns green e Boris perguntou a si próprio: «Saberei cantar esta música?» Seria agradável passear pela Rua Pigalle, ao luar, assobiando uma melodiazinha. Delarue tinha lhe dito: «Você assobia como um porco.» Boris riu se por dentro e pensou: «O estupor!» Transbordava de simpatia por Mathieu. Olhou de lado sem virar a cabeça e reparou nos olhos cansados de Lola por baixo de uma sumptuosa madeixa de cabelos ruivos. No fundo, suporta se sem grande esforço um olhar. Bastava habituar se àquele calor peculiar que vem queimar o rosto quando se sente que alguém nos observa de modo apaixonado. Boris entregava se docilmente aos olhares de Lola, o corpo, a nuca magra, o perfil diluído que ela tanto amava. Assim, por esse preço, podia abstrair se profundamente em si mesmo e ocupar se com os pensamentos miúdos e agradáveis que nasciam dentro dele. — Em que é que estás a pensar? — perguntou Lola. — Em nada. — Está se sempre a pensar em qualquer coisa. — Não pensava em nada. — Nem mesmo se gostas do que estão a tocar ou se gostarias de aprender a sapatear? — Sim, em coisas como essas. — Estás a ver? Porque é que não me dizes? Quero saber tudo o que pensas. — Essas coisas não se dizem. Não têm importância. — Não têm importância? Parece que só te deram uma língua para falar de filosofia com o teu professor. Ele olhou e sorriu: «Gosto dela porque é ruiva e parece velha.» — Que miúdo estranho — disse Lola. Boris piscou os olhos e pôs um ar suplicante. Não gostava que falassem dele; era tão complicado. Perdia se nessas divagações. Dir se ia que Lola estava colérica, mas era simplesmente porque o amava com paixão e se atormentava por causa dele. Havia momentos assim, em que era mais forte do que ela, em que se aborrecia sem motivo, se angustiava, contemplava Boris perdidamente, não sabia o que fazer dele e as mãos agitavam se lhe sozinhas. A princípio, Boris estranhara, mas aos poucos habituara se. Lola pousou a mão na cabeça de Boris. — Queria saber o que tens aí dentro — disse. — Faz me medo. — Porquê? Juro que é inocente — observou Boris a rir.

— Sim.» Gostava que as pessoas que tinham afeição por ele parecessem velhas. Tu dizes duas vezes criança em Lês Ecorcbés. e. . tinha a sensação de estar a ser indiscreta. aqueles lábios enormes de cantos caídos de que ele tinha gostado. — Estou aqui. sabes. pensou que ela estava acabada. mas não sei como explicar. Só por isso iria ouvir te. O seu rosto pálido estava desfigurado por uma generosidade triste. que tinha estragado a sua vida e ficara só. eu nada posso. — De quê? — És uma criança. Despenteou lhe os cabelos. cada um dos teus pensamentos é uma pequena fuga. penso que estás bem comigo. Lola suspirou e Boris pensou. — Não gosto que me vejam a testa. Ele pegou lhe na mão. Ele disse: — Divirto me quando dizes criança. — Não levantes a minha madeixa — disse Boris. Sarrunyan teve de mandá los calar. Tinham tanta vontade de me ouvir como de se enforcar. desde que o amava: «Não posso fazer nada por ela». produziram lhe o efeito de uma nudez húmida e febril no meio de uma máscara de gesso.. dava lhe uma certa segurança. — Tenho vergonha — disse Lola. que não se revelava a princípio porque todos tinham a pele curtida como couro. Lola olhava o bem de perto. Além disso. tão branca que não parecia ser verdadeira.. — Estás aí muito terno — disse Eola —. Lola perguntou timidamente: — Tu não te chateias comigo? — Nunca me chateio. muito simpática. acariciou a ligeiramente e largou a sobre a mesa. vem assim. Teve vontade de beijar o rosto atormentado de Lola. dava Ihe uma espécie de fragilidade terrível. resignado. pergunto a mim própria para onde fugiste. espontaneamente. É uma linda palavra na tua boca. Fiquei chateada. Havia muita gente esta noite? — Uma cambada vinda nem sei de onde. A voz era pesada e sombria como uma cortina de veludo vermelho. talvez. com satisfação: «É engraçado como ela parece velha. Avançava os lábios. não há ninguém. de repente. Agora preferia a pele de Lola. não diz a idade. mais só ainda. mas deve seguramente andar pêlos quarenta. naquele instante. Achava isso reconfortante. era precisamente o mesmo ar que tinha quando cantava Lês Écorchés. Desde que os sentira na boca. E que tagarelava sem parar. disse consigo mesmo. Achava a. Mesmo assim aplaudiram quando entrei.

sabem orientar se e o seu amor é consistente. não sabem como se hão de conduzir. Mathieu não era assim com Ivich. — Já sei. «Ela pensa que me aborrece». «tem vergonha de me amar porque é mais velha do que eu. — Se imaginasse que iria acabar assim. tinha a aprovação da própria consciência. sonhadora. O sorriso de Mathieu: naquela boca amarga que tanto agradava a Boris. mas é tão russo como eu. o novo. estou farta — disse Lola. têm a impressão de andar a brincar aos jantarzinhos. — Mas quando cantavas no music hall.» Era mais de acordo com a moral. — Mas tu — disse Lola — poderias dizer me se ele tem boa pronúncia. o tipo que canta depois de mim. São sabidas. Mas não hoje. Houve um silêncio. É delicado. Gente que aparece porque precisa de retribuir um convite e não pode receber em casa. Com as pessoas maduras. Prometeu a si próprio dizer lhe de uma vez para sempre que ela nunca o aborrecia. — Não era a mesma coisa. atrapalhamo los e quando surgimos medem nos dos pés à cabeça. E depois. Claro que entre homens não deve haver sentimentalismos. — Oh!. Boris recordou de repente o rosto de Mathieu num dia em que ele ajudara Ivich a vestir o casaco. Evidentemente. um tem de ser mais velho do que o outro.— É normal. noutro dia. — Desgosta me cantar para estes idiotas. Mathieu era indiferente e brutal. sentiu um aperto desagradável no coração. porque Mathieu não era uma simples mulher. falei com ele esta noite. seguram a cadeira da mulher enquanto ela se senta. — É engraçado que tu não saibas russo — concluiu Lola. Se os vis A sés chegar cheios de sorrisos. também vivias do canto. mas há muitas maneiras de mostrar que se gosta e Mathieu já poderia ter tido um gesto que revelasse a sua amizade. pensou Boris. tinha eu três meses. — Talvez ele tenha aprendido russo. sentia se justificado. Boris não poderia amar uma mulher da sua idade. Mas logo a cabeça de Boris se . Mathieu explicava lhe coisas. Naturalmente preferia a companhia de Mathieu. Quando Boris estava junto de Lola. aquele estranho sorriso envergonhado e terno. curvam se. hesitam. pensou Boris. e Lola apressou se a acrescentar: — Sabes. Um homem é mais interessante. não. nunca teria começado. Se ambos são jovens. Boris perguntava a si próprio se Mathieu lhe teria amizade. eu canto para viver. Acho isso muito natural. — Os meus pais saíram da Rússia em 17. «Ela é extraordinária». Boris — disse bruscamente Lola —.

mais três palavras e ela vai começar a tossir. eu não te disse que não podia suportá lo. parecia implorar. — Sim. tu estás aí. mas depois é preciso não o ver beber com aquela boca esquisita de pastor protestante. Enfim. querido. — Não poderias de vez em quando pensar também um pouco em mim? — Não preciso de pensar em ti. Não é bem assim. Para mim um tipo simpático é um amigo do género do Maurice. — Não? — indagou Boris surpreso. sabes muito bem o que é isso. — São mãos grosseiras de operário. que é culto. já te vi com Delarue. de que eu não desgosto. — Que é que têm as mãos? Eu gosto delas. mas ele não põe as pessoas à vontade porque não é carne nem é peixe.encheu de fumo e ele não pensou em mais nada. porque já me disseste que não podes suportá lo. — Para ti é. Não posso explicar. engana as pessoas. eu só quero compreender. — Estás contente de estar aqui ou de estar comigo? — E a mesma coisa. mas é que ele não é operário. mas incomoda me falar te dele. — Não é a mesma coisa. Diz me que ele parece inteligente. Lola teve um sorriso contrafeito. mas não é simpático. — Por isso mesmo. — Olha para mim. tonto. — Não. é impressão minha. está bem. Lola aproximou dele o seu belo rosto arruinado. Repara nas mãos dele. aborrecido. há qualquer coisa de duro e irónico. — Porque pensas em Delarue? Gostarias de estar com ele? — Estou contente de estar aqui. Não te faças parvo. como se acabasse de fazer força. — É o que dizes sempre. Tremem sempre ligeiramente. E um amigo notável. Quando o vejo agarrar no copo de uísque. Ela olhava o com ansiedade. Explica me. . Lola. — No que é que estás a pensar? — Em Delarue — disse Boris. não sabes onde é que te hás de meter quando ele aparece. um tipo assim agradável. Só não percebi o que é que viste nele de extraordinário.» — Acho o simpático — disse com prudência. Boris pensou: «Não é verdade. — Olha como ele se defende! Mas. não para mim. Aliás eu nunca me sinto contente quando estou contigo. Lola sorriu tristemente. — Ei lo a sonhar de novo — murmurou Lola. Quando eu estou contigo pouco me importa que seja aqui ou ali. porque é que gostas tanto dele? — Não sei. Não seria exactamente essa palavra que eu escolheria. não é contentamento.

mas não as duas ao mesmo tempo. Explicou: — Quando as pessoas não se preocupam em andar bem vestidas. por exemplo. que é o tipo que não gosta de nada simplesmente. Eu sei que é a profissão que exige isso. Isso divertiu o e ele ergueu um dedo para a fazer viver. não sabia parar quando começava. e Boris achava natural que cada uma delas o tentasse afastar das outras. «Que complicação». Quanto a deixar que uma mulher já madura lhe acariciasse a mão em público. Lola pegara lhe na mão e fazia a saltar entre as suas. não te incomodas quando se trata dele. Boris tinha a certeza de que ela se mortificava. Como ele foi bom professor. As pessoas que gostavam dele não eram obrigadas a gostar umas das outras. que nunca as achas muito elegantes. deve haver. por exemplo. Disse para si próprio que lhe seria mais fácil mostrar se terno com Lola se ela não insistisse naquelas expressões de humildade. que usa gravatas que o empregado do meu hotel não usaria. que és tão severo com a maneira como as pessoas se vestem. Pensou que estava com uma camisola azul de gola alta com o ponto grosso e ficou satisfeito. — Tu consegues. bem o percebo numa data de coisas. tu. não é? — Eu sei escolher o que me convém — disse Boris com modéstia. vê se logo que é culto. Boris olhou a mão que saltava e pensou: «Não parece minha. pensou Boris. O que é ridículo é querer dar nas vistas e não o conseguir. Mas sentia se tranquilo. se lhe observarmos os olhos. Lola respirou fundo. no metro. nem de dormir com uma mulher. pastor. uma linda camisola. e isso irrita me. Há muito que ele pensava estar predestinado a isso. um bruto ou uma pessoa distinta. devia gostar . pensou Boris com irritação. Mesmo quando estava só. Boris estava entorpecido e passivo. uma voz cortante de senhor que nunca se engana. não tem importância que não se seja elegante.acho o austero e. Lola disse de repente: — Não me chegaste a dizer porque o achavas tão «bem». — Compreendo te muito bem — continuou Lola conciliadora —. que anda sempre tão mal arranjado. professor. Compreendo que se possa ser uma coisa ou outra. mas no fundo. mas já não estou na escola. as pessoas olhavam no escandalizadas e as costureirinhas que saíam do trabalho riam se lhe na cara. deve reflectir sobre tudo. não o perturbava de forma alguma. não o vês com os meus olhos. é como a voz dele. O dedo roçou a palma de Lola e ela olhou o com gratidão. mas digo te francamente que me repugnava que um tipo assim me tocasse. não gostaria de sentir sobre mini essas mãos de lutador e ser trespassada pelo seu olhar glacial. «É isto que me intimida». parece uma filho. quando se ensina: eu tinha um professor que falava como ele. nem de beber. Ela era assim. Não sei se há mulheres a quem isso agrade.» Já não a sentia. estás influenciado. nem de comer.

não tinha sorte. mandaram no apanhá la e ele recusara se. quando Boris era pequeno. inesquecível: «Pois bem. estás a chatear me. Fazia tudo o que dependia dele. Mas dependia da maneira como se encarava a coisa: se se faz para se destruir. só estou presa a ti. ficava se colocado num dilema. de outro um certo temor religioso. — Eu não sou livre? — perguntou Lola. e ele achava isso estúpido. uma cabeça calva. como se a sua vida estivesse sempre em jogo. Não gostava de a ver quando ela tinha aquela expressão. — Isso não o impede de não se prender a nada. se davam um passo em falso e se se estendiam no chão. De idade. E depois armava se em heroína. tinha se a impressão de que se iam partir. Ela mortificava se. Era fiel a Lola. era uma questão de génio.» Boris vira um corpo alto curvar se com rigidez. também. É livre. Ele não se prende a coisa nenhuma. obstinadamente. telefonava lhe sempre. — Delarue tem paixões — disse. e Descartes também o dizia. Lágrimas de adulto eram uma catástrofe mística. eu é que vou apanhá la. Boris considerava os adultos como divindades volumosas e impotentes. qualquer coisa como o choro de Deus sobre a maldade do homem. e ambos tinham concordado que estava certo. Lola era urna vítima. provavelmente. E se as lágrimas lhes subiam aos olhos. Então o pai dissera lhe com uma atitude majestosa.disso. por desespero ou . os velhos eram amargos. Oh! — gemeu Boris —. Mas os olhos permaneciam febris e duros. Desde então. É demasiado difícil de explicar. — E tu achas bem não se prender a coisa nenhuma? Tu não te prendes a nada? — A nada. — Pois então eu também sou livre. Contemplava a: o ar estava azulado em volta dela e o rosto era de um cinza pálido. — Não é bem a mesma coisa. continuando a pensar em voz alta. deixara cair a colher. Uma vez. Era um sacrilégio intolerável e ele desatara a soluçar. Boris não respondeu. Lola pareceu infeliz e Boris voltou a cabeça. Boris conversara com Ivich. Ouvira um ranger de ossos. não sabia onde se enfiar. ia buscá la três vezes por semana à saída do Sumatra. — Nem um bocadinho a mim? — Ah! A ti sim. Quanto ao resto. e então dormia em casa dela. e era muito comovente. Tudo aquilo não a favorecia. como em Lola naquele momento. Sob outro ponto de vista. mas não podia fazer nada. Se se baixavam. — Diz lá porquê? J E A N P AUL SARTRE — Porque é um homem às direitas. Até certo ponto estava certo. naturalmente apreciava Lola por ser tão apaixonada. Mathieu explicava lhe que as pessoas deviam ter paixões. de um lado a vontade de rir.

o jazz tocava agora St. por princípio. Lola parecia ausente. Mas Lola fazia o com um certo abandono. Lola pesava nos seus braços. aposentação garantida. sozinha. — disse Lola sacudindo a cabeça. e Boris teve vontade de dançar. — Sempre a mesma mania de colocar Delarue acima dos outros.para afirmar a própria liberdade está certo. J E A N P AUL SARTRE Ele estava irritado. O pederasta levantara se e fora convidar a dançarina do Java. vivo no hotel. nem sequer sei se serei contratada no Verão. aliás ávido. Acrescentou: — Estás muito agarrada a mim. Boris pensou que ia vê lo de perto e ficou contente. Apertou a nos braços e respirou fortemente. Nem sequer estava intoxicada.» Depois não pensou mais nada por causa do perfume de Lola. porque é que não é a mesma coisa? — Tu és livre sem querer — explicou Boris. Dançaram. Fica com ela porque precisa de dormir com alguém. Passou se algum tempo. E penso que ele também se está nas tintas para a mulher. — É assim. — Tenho vontade de te matar quando ficas assim. Entusiasmara se nessa noite porque queria vencer Mathieu no seu próprio terreno. — Vamos dançar. vive como um funcionário. racionalmente. essa mulher que não sai de casa. Dançava A bem e tinha um perfume gostoso. Esta dançava admiravelmente bem. no outro dia. Ele nunca se deixaria prender assim. Como liberdade não há melhor! Eu só tenho os meus trapos. Pensou: «Ivich deveria aprender a sapatear. ele ou eu? Ele está sossegado. só merece elogios. — Está se nas tintas para a casa? Vive lá como viveria noutro lugar qualquer. Ela abriu os olhos e olhou o . A liberdade dele não se vê. E ainda por cima essa ligação de que me falaste. James Infirmary. — Fazes me rir — disse Lola secamente. bem instalado. Lola pouco se importava com a liberdade. no Sumatra. Ao passo que Mathieu é o voluntariamente. Então. Boris pensou que preferia dançar com Ivich. — Da Ivich? Magoas me. — Ah! — gritou Lola magoada —.. Lola riu com sarcasmo e a cabeça de Boris repentinamente encheu se de fumo.. E achas que ele não gosta da tua irmã? Bastava olhá lo. mas era pesada. — Não consigo compreender. tem ordenado fixo. Lola fechava os olhos e ele ouvia a sua curta respiração. pergunto: quem é mais livre. ele teve vontade de a fazer sofrer um pouco. Aqui entre nós. estou muito agarrada a ti? Estúpido. está dentro dele. — Não é a mesma coisa — repetiu Boris.

— Gostas de mim? — Gosto — disse Boris com uma careta.atentamente. — Desagrada te quando digo que te amo? — Não. Acho que essas coisas não se dizem. Pôs se a olhar para Lola e bruscamente disse lhe: — Lola. Mas quando um tipo fora realmente jovem ficava marcado para o resto da vida.. era a sua vez. «Já foi jovem». Mas há momentos em que é o teu amor que eu quero. mas sob os olhos de porcelana havia rugas. J E A N P AUL SARTRE Lola não respondeu. A maior parte das vezes. — Compreendo — disse Boris com seriedade. se tu próprio dizes que não te lembras disso senão quando eu to pergunto! Boris riu. — Mas. pensou. Ele teve vontade de gritar: «Aperta me com mais força. — É verdade. — Porque não me ocorre. por exemplo — porque nunca tinham tido adolescência. — Porque é que fazes essa cara? — Porque me perturbas. de longe. não tem sentido. Um rosto . baixara as pálpebras. meu tonto. Disse apenas: — Querido. se isso te apetece. Pararam e aplaudiram. podes dizê lo. e os cabelos. olha para mim. Depois. Boris viu com satisfação que o pederasta se aproximava deles dançando. — Porquê? Não é verdade então que gostas de mim? —É — Porque não dizes isso espontaneamente? É sempre preciso que eu to pergunte. Aguentava até aos vinte e cinco anos. Os olhos de Lola ficaram vermelhos. Boris contemplou com horror aquela velha criança sem barba. Sorria vagamente. faz me sentir que te amo!» Mas Lola não dizia nada. é tão raro perguntar te alguma coisa. mas não deves perguntar me se te amo. se assemelhavam a um halo dourado. Amo te. Mas quando o pôde examinar de perto. Havia tipos que pareciam feitos para ter trinta e cinco anos — Mathieu. era horrível.. estava sozinha agora. Conservava no rosto o verniz da juventude e envelhecera por baixo. basta me olhar e sentir que te amo. e o seu rosto fechara se sobre a sua felicidade. que. Tinha grandes olhos azuis de boneca e uma boca infantil. pisou os pés de Boris. mal lhe escondiam o crânio. desiludiu se: tinha pelo menos quarenta anos. — Querido. Pode ter se um grande sentimento por alguém e não ter vontade de dizer nada. e a música recomeçou. — Mas deverias esperar que isso acontecesse. fazes me dizer asneiras. bem como em torno da boca: as narinas eram finas como se estivessem agonizantes. Se não é espontâneo.

que Lola mandara ampliar.» No ano passado estava sossegado. porque assim eu poderia explicar te. «quando eu for uma ruína. E cada instante vivido usava um pouco mais a sua mocidade. sentir os próprios gestos secos e quebradiços como se fosse de madeira morta. Agora era sinistro. talvez.» Teve vontade de rasgar a fotografia. «Eu também. mas sentia se sinistro. — Estás sinistro — disse Lola —. viver devagar. . pensou Boris. pensou. presa com punaises. sim. Lola mostrou se inquieta. «Depois estoiro os miolos. Tirou a chave do cacifo e subiram em silêncio. Mas que é que eu fiz? Devias dizer. e cumprimentaram no. O quarto estava nu. Lola chamou o empregado e pagou. «Se ao menos pudesse poupar me.. — Vamos.. vá ter barriga. Lola morava num hotel da Rua Navarin. «Ela mata me. pois não? Não gostas de mim. A Rua Blanche estava cheia de tipos velhos e duros. nunca pensava nessas coisas. Que é que te fiz? — Não tenho nada.» Já não podia suportar aquela música e aquela gente. querido. ao ralenti. querido? Queres um comprimido? — Não. do Chat Botté. Boris já não pensava em nada. «Isto ficará». Boris. Lola agarrou lhe no queixo e levantou lhe a cabeça. «Tenho ainda cinco à minha frente». Pôs a capa de veludo sobre os ombros. As suas pernas pequeninas mexiam se sob o ventre rechonchudo. Encontraram o maestro Piranese. Aqui hei de parecer eternamente jovem. — Estás zangado. Era uma fotografia de passe. já está a passar. — Não estás doente. não.calmo e deserto. com dores de cabeça. Não deve ser irremediável. que é que se passa? J E A N P AUL SARTRE — Estou exausto. és tonta — protestou Boris molemente. Saíram. Boris sentiu se abandonado e o pensamento desagradável invadiu o de novo: «Não quero. Até aos vinte e cinco anos.» Olhou para Lola com ódio. Mas para isso era preciso que não me deitasse todas as noites às duas horas. talvez ganhasse alguns anos. A um canto uma mala coberta de etiquetas e na parede do fundo uma fotografia de Boris. Deve ser um mal entendido. sentia a cada passo a mocidade escorregar lhe entre os dedos.» Não se poder ver ao espelho. Por favor. Voltaram para a mesa. — Nada. não quero envelhecer. Não me queres mal. — Parece que me tens raiva.» — Que é que tens? — perguntou Lola. Disse: — Vamos para casa? — Vamos já.

enrolaram se no pescoço de Boris. Ela inclinou se para trás e ele estava fascinado por aquela cabeça pálida de lábios carnudos. Detestava que Lola entrasse enquanto se despia. porque não tinham forças para se afastar. Boris desenvencilhou se. As pernas de Lola puseram se a tremer e Boris perguntou a si próprio se não iriam estender se ali no tapete. Arquejava um pouco. Apertou Lola contra o peito e sentiu a doçura espessa dos seios. — Como tu me apertas — gemeu Lola. — Ah! — murmurou Lola. feliz. — Mas não se passa nada! Pôs os braços em volta do pescoço de Lola e beijou a na boca. «Preciso de falar com Delarue. uma cabeça de Medusa. Boris e Lola permaneceram de pé naquele mesmo lugar em que o desejo os apanhara. Houve um redemoinho na sua cabeça e ela esvaziou se rapidamente. a pele verdadeira resistiu por baixo.» Do outro lado da porta ela esperava o. Entrou e fechou a porta à chave. Pensou: «E engraçado.» E apertou a mais fortemente. pareceu lhe segurar a velhice nas mãos e que devia apertá la com toda a força até a abafar. envolvia a nos seus braços e protegia a contra a velhice. como aliás todas as ideias. Lola estremeceu. todo músculos. Tinha a mão na anca de Lola e sentia a carne através do vestido de seda. estava um pouco chocado.» Já não a odiava. brancos como os cabelos de uma velha. Pensou: «São os seus últimos dias de sol. — Dá me o pijama. ela cheirava bem. — Magoas me. Boris respirava o hálito perfumado e sentia de encontro aos lábios uma nudez húmida. não sabia exactamente no que pensava. Crispou levemente a mão e a seda deslizou lhe sob os dedos como uma pele fina. fria como uma luva de camurça. «Uma destas manhãs ela ir se á abaixo de repente. Quero te. Ele era agora apenas aquela mão sobre uma carne de seda.. Mas ele não . elástica. Vou despir me à casa de banho. Lola atirou a capa sobre a cama e os seus braços apareceram nus. Lola cobriu lhe o rosto de beijos. Estava completamente calmo. Dir se iam espinhos profundamente enterrados. O desejo aspirava lhe as ideias sombrias.» Tinha a cabeça pesada e no entanto vazia. minúsculos e duros. Depois teve uns momentos de sono e desvario: olhou os braços de Lola.diz me o que se passa.. Boris DADE DA RAZÃO via lhe as axilas raspadas e marcadas de pontinhos azulados. Estava perturbado. Lavou o rosto e os pés e divertiu se a pôr talco nas pernas. sentia se nela. acariciante e morta. de certeza que já estava nua. rígido e magro. Boris sentiu que desejava Lola e ficou satisfeito.

terrível e pesada. Boris deitou se perto de Lola e pôs se a acariciar lhe os ombros e os seios. agora. inteiramente nua. Vestiu o pijama. atraindo o a ela —. Lola pegou na mão de Boris e pô la sobre o tufo de pêlos ruivos. — Não — disse Boris. Beijaram se. junto das coxas de Lola. continuava a ver o rosto de Lola. «Em todo o caso». adoro te... Não adiantara apagar a luz. alguma coisa de inevi A tável. Boris sentiu se pesado e trágico. Os seios eram um pouco moles. Ia acontecer alguma coisa. Ela estendeu lhe os braços. que parecia ter conservado o vestido de seda. Ela parecia sofrer. — Espera — disse Boris. mas Boris gostava deles assim: eram seios de alguém que vivera. cheio de odores nus. quando o primeiro touro entrou na arena. Lola estava estendida na cama. Um corpo nu.J E A N P AUL SARTRE tinha pressa. com um triângulo de pêlos ruivos. e Boris era obrigado a recusar às vezes. vem. Tinha sempre umas exigências estranhas. pálido dentro do vermelho. era o que Lola não compreendia. Os lábios escuros. Depois levantou a docemente até aos ombros. Uma vez que começava. de gosto forte. Ia ser necessário. Boris aproximou se da cama e encarou a com um misto de perturbação e de desprazer. Era bela. deslizar até ao fundo de uma sensualidade pesada. — Não quero — murmurou Boris. Mas pareceu lhe repentinamente que o erguiam pelo pescoço como um . Não demorou muito a gemer e Boris pensou: «Pronto. Apagou a luz. pensou com irritação. Ele deixou durante algum tempo a mão pender. cerrando os dentes. inerte. Era um ritual. e espiava o através dos olhos semicerrados. Era uma Lola diferente. abriu a porta e entrou no quarto. — Tira o pijama — suplicou Lola. As mãos de Lola enfiaram se por baixo do casaco e começaram a acariciá lo devagar. O quarto ficou inteiramente vermelho. uma coisa terrível. vou perder a cabeça. os olhos eram duros. — Fazes me cócegas.» Uma onda pastosa subia lhe dos rins à nuca. — Vem — disse Lola. por causa do maldito anúncio luminoso. Mas não viu um só sobre o esmalte branco. mas antes era impossível não ter medo. como a morte sanguinolenta do touro. tão doce.» Penteou se cuidadosamente por cima da bacia para verificar se lhe estavam a cair os cabelos. pois sobre o prédio em frente tinham colocado um anúncio luminoso.. Vem. Daí a um bocado. «não vou perder a cabeça como das outras vezes. Todas as vezes Lola lhe pedia que tirasse o pijama e Boris recusava. exactamente como em Nimes. Boris riu. O corpo sobre a coberta azul era prateado como a barriga de um peixe. preguiçosa e temível. Ela tinha a pele doce. ia bem.

com um capacete de cortiça sobre os olhos. Ouviu Lola abrir a porta da casa de banho e pensou: «Quando romper com ela.» Sentiu se seco e puro. Ela abraçou o furiosamente. — Boris. pensou. será a mesma coisa com todas. ruídos de fonte. Boris ouviu o com prazer. Boris tentou imaginar que era um alucinado sedento. O quarto. Se não fosse assim gostarias de um tipo mais velho do que eu. Os alucinados sedentos do deserto ouviam ruídos semelhantes. Acariciou lhe os cabelos e houve um longo momento de silêncio. Estou nas tuas mãos. O ar era quente e denso. Não é bem repugnante. — Não sei — disse Lola. No entanto. É fisiológico. Estou sozinha! Boris acordou sobressaltado e encarou a situação com nitidez.» Lola arranjava se para dormir. A voz era estranha dentro da noite vermelha. Agitava os braços como se . Boris já começava a ver girarem as estrelas. sentimo nos dominados.» Ficou contente: «Hei de ser um monge quando deixar Lola. deitado sobre a areia. a luz vermelha. com a cabeça no travesseiro. erão. Eu sou demasiado jovem e não te posso impedir de estares só. não desejaria dormir com um tipo. O rosto de Mathieu surgiu de repente: «É engraçado». Boris ainda a ouviu dizer «Adoro te». mas tenho horror a perder a cabeça. Se penso na minha vida. Lola saltou para a cama e tomou o nos braços. Ela fê lo deslizar suavemente para o lado e saiu da cama. o barulho da água eram alucinações.coelho. É tudo o que sei. «prefiro os homens às mulheres. tenho vontade de me atirar à água. quando Lola se pôs a falar. — Se estás sozinha é porque gostas — afirmou com voz clara —.» Repetiu com asco: «Fisiológico. O ruído da água era agradável e inocente. que adianta escolher uma mulher. Não se sabe o que se faz. querido. meu amor. Não sejas cruel. serei casto. Estou sozinha. e depois. só te tenho a ti. Boris ficou aniquilado. ia encontrar se em pleno deserto. tenho de pensar em ti o dia inteiro. és tudo o que eu tenho. — Querido — disse Lola. — Amo te apaixonadamente. já não quero mais histórias. e abandonou se sobre o corpo de Lola e tudo girou num estremecimento vermelho e voluptuoso. nunca me faças mal. nunca me sinto tão feliz como quando estou ao lado de um homem. tens de me amar. É repugnante o amor. 111 v. é porque és orgulhosa. e adormeceu. não me faças mal. eu só penso em ti. Mathieu caminhava pelo meio da rua sob um céu de um azul límpido. Tenho a impressão de que me escolheste por causa disso.

Doía lhe a cabeça. O homenzinho voltou a sorrir amavelmente. mulheres arranjavam as casas. Que dia? Mathieu estava ligeiramente ofegante quando tocou. aborrecido: «Digo J E A N P AUL SARTRE isto cada vez que subo uma escada. um dia que iria arrastando até à noite. tinham muita coisa a dizer um ao outro. um enterro ao sol. um universo sadio. Uma direcção. O Verão dos outros. no estúdio. Ia ser preciso correr por todos os lados. — Quem é? — perguntou Sarah. Sarah morava no sexto andar e naturalmente o elevador não funcionava. Parou no patamar interno. Tinha sonhado que era um assassino e um resto do sonho ficara lhe nos olhos sob a luz ofuscante. Sarah levantou a cabeça e sorriu. de olhos claros. 16. «É Brunet». Não o via há seis meses. era um alemão emigrado. Um homenzinho calvo. mas não sentia prazer nenhum em encontrá lo ali. Mathieu subiu a pé. — Weysmuller — disse com firmeza. Vai ficar muito satisfeita.» Depois. pensou Mathieu contrariado. com uma toalha apertada em volta da cabeça. Mathieu empurrou a porta envidraçada e penetrou no estúdio de Gomez. Ou Jacques. via lhe a cabeça sob os cabelos ralos e espetados. Pensou: «Devia fazer ginástica. de trabalho manual. Para ele um dia sombrio ia começar.abrisse pesadas cortinas de ouro. De avental. chocando as peças com os olhos e lambendo os lábios grossos. de esforços pacientes. Dinheiro. O Verão. Fê lo entrar no vestíbulo e desapareceu a correr. Mathieu debruçou se no corrimão. já o vira várias vezes no Dome sorvendo deliciado o seu café com leite ou inclinado sobre o tabuleiro de xadrez. Ela está lá em baixo. havia uma amizade agonizante entre eles.. O homenzinho pôs se sério e bateu os calcanhares. abriu. uma vela ardia diante dela: uma cabeça ruiva de braquicéfalo. — Delarue — respondeu Mathieu sem ligar. ofuscado pela luz intensa que entrava pelas grandes janelas empoeiradas. Mathieu reconheceu o. de quimono amarelo. Rua Delambre. — Desejava falar com Sarah — disse Mathieu. de disci plina. Era ali. Para elas o dia também ia começar. — Entre.. Era um obstáculo. Sarah estava sentada no sofá. E Brunet trazia consigo o ar de fora. Mathieu fechou os olhos. estreito e obstinado de revoltas e violências. Tinha as orelhas roxas. . entre. sorridente. Não precisava de ouvir o vergonhoso segredinho de alcova que Mathieu ia confiar a Sarah. Sarah dar lhe ia a direcção. Daniel emprestaria o dinheiro. Por trás das portas fechadas.» Ouviu uns passos miúdos.

Agora era portanto propriedade sua. Brunet riu sem responder. No quadro. Não voltara. uma lâmina de cobre semigravada sobre a mesa. bom dia! — disse. Partira para matar outros homens. Para Sarah a vida humana era sagrada. Está em Barcelona. Perdoara lhe tudo. Mas aquilo não. com os dedos enfiados na cabeleira negra. Brunet era grande e sólido. meio à mostra através do quimono. Matara outros homens. as fugas. Mathieu recordou a bêbeda e magnífica. a maldade. Via de cima aquele rosto achatado e sem graça. Passara muito tempo no estúdio. — Sente se ao pé de mim — disse Sarah com avidez. Ia fazer lhe um favor. — Viva. O quadro e a gravura representavam a Senhora Stimson. Mathieu pensou no tipo da véspera e a garganta apertou se lhe. — E Gomez? — perguntou Mathieu. Gomez partira. Conta as suas proezas — respondeu Sarah com ironia. Pensou: «Ele procedia mal com Sarah. Mathieu sentou se. — Que é que o traz por cá? — perguntou Sarah. Mathieu sorriu também. ela estava nua. O rosto de Sarah corou de satisfação. minado pela bondade. A sala ficara no estado em que ele a deixou: uma tela inacabada no cavalete. não. Mathieu sentiu se satisfeito de ouvir aquela voz. no meio de frascos de ácidos. Depois descera sem chapéu nem sobretudo. — Viva — disse Mathieu. . como se fosse comprar cigarros ao Dome.— Bom dia. Não queria falar de Gomez. — Sempre o mesmo. — Preciso de lhe pedir uma coisa. com um rosto de camponês. e mais abaixo os seios pesados e moles. cantando com voz áspera nos braços de Gomez. Apesar de tudo. O pequenino Pablo brincava por baixo da mesa com cubos de cartão.» — Foi o ministro quem lhe abriu a porta? — pergunto Sarah alegremente. sabia o. Não parecia muito amável. velho traidor social — disse Brunet. — Pensei que tivesses morrido. Um dia soubera da queda de Irun no Paris Soir. — Sabe que ele foi promovido a coronel? Coronel. Apressou se em descer. Os olhos de Brunet brilharam. — Tudo o que quiser. — Teve notícias dele? J E A N P A U L SARTRE — Na semana passada. A partida para a Espanha. as traições. Sarah olhava os ternamente. E acrescentou encantada com o prazer que esperava dar: — Sabe quem está cá? Mathieu voltou se para Brunet e apertou lhe a mão.

pousando a mão no braço de Mathieu. — Vocês não têm provas — observou Sarah. Puseram no fora do hotel porque não podia pagar. a sério. mas é certo que não sacrificarei Weysmuller às intrigas do seu partido. — Venha em meu socorro. Parece que há uns seis meses rondava os corredores da Embaixada da Alemanha. — E exactamente o que eu dizia — afirmou Brunet. Sarah sacudiu violentamente a cabeça. chorosa. Agora morre de fome.— Que ministro? — indagou Mathieu espantado. É. Mas mesmo que se trate de meras suposições. — Você viu o. Sarah sorriu levemente. olhava Sarah com o seu ar de camponês e repetia: — E incrível. — Veio para cá com a mala. Lopez e Santi são quatro pensionistas. Não é preciso ser muito esperto para imaginar o que poderia lá fazer um judeu emigrado. J E A N P AUL SARTRE — Sarah — disse Brunet com ternura — . — O quê? Que é que é incrível? — Ah! — disse Sarah com vivacidade. não temos provas. — Não. — Ele quer que eu mande embora o meu ministro — disse Sarah. — Sarah exagera — disse tranquilamente Brunet. não tem para onde rir. é tão abstracto um partido. ele não estaria aqui.. — O ratinho de orelhas vermelhas é um ministro — disse Sarah com um orgulho ingénuo. — Isso não interessa a Mathieu — disse Brunet a Sarah com ar de descontentamento. Gorara e os seus olhos verdes humedeceram se. — E incrível — murmurou Brunet. — Mandar embora? — Diz que é um crime conservá lo aqui. como que a desculpar se. você faria com que Paris fosse pêlos ares para evitar um aborrecimento aos seus protegidos. . — Com Annia. Se tivéssemos. — Arranjou trabalho. meu caro Mathieu. — Porquê? Porquê? — exclamou Sarah com paixão.. — Annia vai se embora — disse Sarah. Mathieu sobressaltou se e voltou se para ele. — O meu ministro! — disse com indignação. A Mathieu contou pêlos dedos. Ela já não o escutava. — Não é bem assim. — E está claro que você o recolheu. Não. Voltou se para Mathieu e explicou contrariado: — Temos más informações acerca desse tipo. Sarah mostra se de uma imprudência louca. Sarah pôs se a rir. — Pertenceu ao governo socialista de Munique em 22. A indignação de Brunet era pesada e calma.

Brunet encolheu os ombros. Mathieu nada tinha a dizer. não deixaria de o consultar. horrível e triunfante. mas era uma afirmação. Em tempos. bem sabes que tais comunicações são confidenciais. dizia então Brunet. — Quem é que tem razão? Diga alguma coisa.» Mathieu não queria que Brunet o julgasse. «A amizade não suporta a crítica». Sarah — disse docemente. seria este o lugar indicado para instalar um tipo que tem reputação de espião? Mathieu não respondeu. — De qualquer maneira está liquidado. Era entorpecente e exasperante. Explicou: — Gomez manda nos por vezes comunicações. tinha a vida lenta. Não parecia ser um só homem. — E o mesmo — disse Mathieu. — Gosto muito de Mathieu e aprecio muito a inteligência dele. Brunet empregara a forma interrogativa. silenciosa e murmurante de uma multidão. Vem aqui. de um intelectual sujo. Brunet inclinou se para ela e tocou lhe no joelho. Posso realmente levar um homem ao suicídio por causa de uma simples suspeita? — acrescentou Sara com desespero.Mathieu. e ficará na mesma. Fazia nascer em Mathieu a cumplicidade que se esboça. — Voltará para a Embaixada da Alemanha e tentará vender se de uma vez. Mas este assunto é vulgar e insignificante e juro lhe que não preciso de conselhos. não se preocupava com a opinião de um burguês. por princípio. Portanto. — Escute. A calma do mar. — Vai atirar se ao Sena? — Vai agora! — disse Brunet. é tudo. Há muito que Brunet deixara de pedir conselhos de qualquer espécie a Mathieu. — Está a ouvir. e aqui nos encontramos. «E feita de confiança. Mas agora era nos camaradas do partido que pensava. — A sério? — perguntou. Levantou se. não lhe perguntava a sua opinião. que se sente perante os esmagados. Mathieu? — gritou Sarah com angústia. — Sim — disse com indiferença. Vai julgar me pelo que eu disser. Se se tratasse de interpretar um trecho de Espinosa ou Kant. . as vítimas de acidentes. — Mathieu. os indivíduos que exibem feridas desagradáveis. nenhum dos dois julgava o outro. Brunet não lhe perguntava nada. ele vai atirar se ao Sena. Diga me lá se ele é capaz de matar uma mosca! A calma de Brunet era grande. — Mathieu! — disse Sarah. fica como testemunha! Se expulsar Wey muller. ainda que seja de um professor de Filosofia. de um cão de guarda.» Talvez o dissesse ainda. «Ele vai ouvir me com uma cortesia gelada. Já formei a minha opinião.

A Sentia a mão de Brunet no ombro. Sim. Quem sou eu para lhe dar conselhos? Que fiz da minha vida? Brunet levantou se. pensou Mathieu. Mathieu sentia se nu sob estes olhares. parecia aliviada. Brunet voltou se para Mathieu. Queime tudo. Um desajeitado. Olhava o hesitante. — Vou acompanhá lo — disse Sarah. por acaso. «E eu? Vê se o aborto no meu rosto.. — Eu?. Pensava: «Não me está a julgar». Eu tenho chatices. estou inteiramente livre e espero te — disse Mathieu. e sentia se cheio de uma humilde gratidão. — Adeus. não será tão cedo. Mas se ele continuar aqui. Se morresses. Os olhos brilharam lhe. — Estás com uma cara! — disse gentilmente. Pareceu finalmente decidir se. Brunet parecia duro e nodoso. — Tenho de me ir embora — disse. «Nem tudo está perdido». Conservava o sorriso ingénuo e alegre.. olhava o atentamente com um olhar duro. até à vista. Brunet subia os degraus com uma elasticidade surpreendente.. Brunet ficou sério. «Quem sou eu para lhe dar conselhos?» Pestanejou. Mathieu seguiu os com o olhar. — Faça como quiser. uma coisa quente e modesta que se assemelhava à esperança. Brunet pôs lhe a mão no ombro. Deu alguns . — E não deixe nada por aí. mas não tinha qualquer ressentimento J E A N P A U L.. Não pertence ao partido. — E estúpido. Voltou se e dirigiu se para a escada. um tipo nu. em migalhas.. pensou. E sentiu uma coisa estremecer lhe dentro do peito.» Brunet falou: não era a voz que Mathieu esperava. — Não irei tão depressa — disse Mathieu a rir. — Estarás livre às duas horas? Tenho uns momentos livres. Passa se a vida a correr de um lado para o outro. Não lhe estendia a mão. Mas.«Evidentemente». Conversaremos um pouco como dantes. Aquele mesmo espanto implacável. e o que faz por nós já é considerável. Sarah. SARTRE contra Brunet. — Combinado — disse Sarah. — Prometo. não se tem tempo de ver os velhos amigos. pedir Ihe ei que vá a minha casa quando tiver notícias de Gomez. — Não — disse —. «Evidentemente. meu velho. — Que é que tens? Mathieu também se levantou. só o viria a saber um mês depois. poderei dar um pulo até à tua casa. Brunet sorriu amistosamente. como o olhar de Marcelle na véspera. — Como antigamente.» Sentia se magoado. Mas não é nada de importante..

sem saber porquê. pensou. «E pensa». Tinha a impressão de estar a ser devorado pêlos olhares da criança. Do que é que estará à espera para voltar a descer? Deu meia volta. Mathieu atirou bruscamente o buril sobre a mesa.. e Mathieu barrava lhe a passagem. aguardando o momento de saltar para o lado de cá do cenário. Encolheu os ombros: «Não vou matar ninguém. Repetia com espanto: «Impedir que nasça. um homenzinho que não andaria . disse para si Mathieu. — Sonhei que era uma pena. que pousara sobre a lâmina de cobre. Num quarto cor de rosa. Na verda de. Não havia muito tempo que o miúdo saíra de uma barriga. pequenino. era mais ou menos isso. A mosca assustada pôs se a voar em círculos e pousou finalmente sobre a chapa de cobre. e isso via se. A mosca esvoaçou à volta dele. Estava ali. todos os seus sentidos são bocas. mentiroso e sofredor. Era preciso agir depressa. olhou a criança e a mosca. Pablo continuava a olhá lo. dentro de outra barriga. ao sol.» Pablo pusera se a brincar novamente com os cubos.» O olhar de Pablo ainda não era humano e no entanto já era qualquer coisa mais do que a vida. conservava ainda um aveludado doentio de coisa vomitada. — Sabes o que é que eu sonhei? — perguntou Pablo. para se libertar das trevas e se tornar parecida com aquilo. entre dois sulcos que representavam um braço de mulher.. naquela sala. fazia grandes esforços para sair. pois a bolha continuava a inchar. Mathieu deu alguns passos em direcção à escada. pensou. — Diz lá. havia uma bolha que inchava.passos.. mas por detrás dos vagos humores que lhe enchiam as órbitas escondia se uma conscienciazinha J E A N P AUL SARTRE ávida. Vou impedir que nasça uma criança. com uma pele branca e grandes orelhas. Mathieu aproximou se da mesa e pegou num buril. Mathieu brincava com o buril. com aquela pequena ventosa pálida e mole que absorvia o mundo. Perguntou: — E o que é que fazias quando eras pena? — Nada. O pequeno Pablo olhava o gravemente. levantou voo. «Está quente». uma carne pensante que grita e sangra quando a matam. Mathieu estendeu a mão e tocou na mesa com o dedo. Havia um homenzinho meditabundo e dissimulado. Ela abriu a porta. A porta bateu por cima da sua cabeça. sinais e uni punhado de distintivos como os que se põem nos passaportes. Uma mosca. «Os miúdos».. Uma criança. indeciso.» Dir se ia que havia algures uma criança já formada. deteve se no limiar e sorriu a Brunet. Esquecera se de Mathieu. Dormia. Mathieu sentia se incomodado. Ouvia a voz de Sarah. Uma mosca é mais fácil de matar do que uma criança. «são vorazes.

nem na casca das árvores.. nem rosto algum. sanguinolenta. e olhos. não queremos a criança. nem o mar. Mathieu não pôde suportar aquela tristeza que nem sequer era uma censura. as censuras e tinha apenas um desejo: tranquilizá lo. não — respondeu Mathieu com vivacidade —. — Esperou muito tempo? Mathieu ergueu a cabeça e sentiu se aliviado.pelas ruas. mãos que não tocariam nunca na neve. mas acho o casamento.. Sarah sorriu lhe e desceu rapidamente a escada. Sarah pareceu desconcertada. encarar o futuro com confiança. compreendo. se se for a tempo. Eu não quero casar. Gomez disse mo — replicou com brutalidade. Sarah era casada. tinha casado com Gomez cinco anos antes. — Não. que parecia sair da salmoura e nunca ter nascido. Ela evitava julgá lo.. de raparigas doces e horríveis insectos. secamente: — Marcelle está grávida. de carnes velhas. vocês vão. — Então? Que é que se passa? — disse avidamente. ou negros como os de Marcelle. Há anos. Ela estava inclinada sobre o corrimão. — Sim. — Ah! Sim — disse ela —. . com um pé na calçada e outro na valeta. Não é por egoísmo. Ele ia sorrir. pôs de parte as suas reservas.. tente compreender me. Baixou a cabeça e conservou se silenciosa. Ele acrescentou a seguir: — E depois Marcelle não quer filhos. Ele desviou o olhar e disse. — Oh! Sarah parecia mais alegre do que aborrecida. Calou se. Os grandes olhos velados encaravam no fixamente. luminosa. Ela ergueu bruscamente os olhos e acrescentou com paixão: — Não é nada. ela seria a única a pôr luto por aquela morte minúscula e secreta. — Creio que isso lhe aconteceu há tempos. nem na carne das mulheres. como um balão. com insistência. apaixonada. — Não é nada. — Ela não gosta de crianças? — Não sente interesse por elas. sinistra. aborrecida. cheia de esperanças. e que nunca haviam de ver os céus glaucos de Inverno. que iriam rebentar com um alfinete. havia uma imagem do mundo. O quimono balançava em volta das pernas curtas... — Escute. Era uma adulta. uma imagem povoada de jardins e de casas. — Pronto — disse Sarah.. Perguntou com timidez: — E vocês. Sarah — disse Mathieu irritado —. pesada e disforme. um par de olhos verdes como os de Mathieu..

Quando os nazis tomaram o poder. recordou se dos olhos de Marcelle.. poderia pedir me de joelhos. — E. Depois disso houve o Anscbluss e ele veio ter a Paris com uma maleta. Mas de repente toda a bondade se lhe reflectiu no rosto e exclamou: — Sim. que voaria em círculo. Bem sabe. e a Gomez ainda menos do que aos outros.. — Não muito. com ele pode ficar sossegado. E quando ele queria qualquer coisa. perturbada. um russo. que eu não tornaria a fazer. como é que não pensei já nisso? Vou arranjar tudo. Mathieu reviu.— Sim — disse —. odeia Gomez? — perguntou lhe secamente. agora. — É justamente isso — disse Mathieu —.. então efectivamente. — E você. de desânimo.» Numa retrete. apertando lhe com força o braço —.. esse aborrecimento.. chocaria contra as paredes e não poderia escapar. A — Sim — disse Sarah (a fisionomia alterou se lhe). como deve estar acabrunhado.. mas agora bebe J E A N P AUL SARTRE e eu já não tenho confiança nele. você pode ajudar nos Quando teve. Mas desde há muito que enviara todo o seu dinheiro para Zurique. Agarrou lhe as mãos.. . É um especialista de abortos. nunca eu... — disse ela com um ar penoso — eu pensava no pequeno. eu quero dizer que não imagina o que vai exigir de Marcelle.. Houve um caso complicado há dois anos. não quero mandá los a esse russo. — Deram me um embrulho depois da operação e disseram me: «Deite isso na retrete. grandes olhos duros e cansados. — Conhece outro? — Ninguém — disse Sarah devagar. mas.. procurou alguém. naquele tempo. sabe se? — perguntou Mathieu encolerizado. se é assim. Olhou Mathieu. Tenho receio de que ela o fique a detestar depois. é verdade. Como um rato morto! Mathieu — disse ela. Não era capuz de odiar ninguém. é muito doloroso. — Em todo o caso — disse resoluta —. — Foi horrível! — Ah! — disse Mathieu com uma voz transtornada. Ele ainda opera.. Sarah teve um gesto de desconsolo. Desejaria poder ajudá los. Em Berlim tinha uma clientela enorme. tenho uma solução. uma pequena luz perdida. Não o viu cá em casa? Um ginecologista. Uma vida! Uma consciência a mais. Waldmann. mas foi um horror. não sabe o que vai fazer! — E quando se põe uma criança no mundo. — Meu pobre Mathieu. julgo eu. foi morar para Viena. — Não. era Gomez que queria.

o corpo. Não leva demasiado caro? — Em Berlim levava dois mil marcos. Ergueu para ele o rosto terno e desgracioso. Os belos seios morenos e arroxeados tinham caído. não tem tempo para dormir.— Acha que ele tratará do caso? — Naturalmente. de se tornar. transpirava a dormir. O roupão de Sarah abrira se sobre os enormes seios. Bulevar Saint Michel. «Verão!» O céu enchia a rua. Agarrou lhe os ombros e sacudiu a a sorrir. Espera por mim? DADE DA RAZÃO — Não. o alcatrão negro e mole. alimenta se e incha. Dorme sempre até ao meio dia. você é um anjo. Visto me e desço. Marcelle estava grávida. colou se à sola dos seus sapatos. mergulhado numa sombra densa. até logo. porque não hei de ir agora de manhã? Mora na Rua Blaise Desgoffes. Mathieu respirou um cheiro vivo.. dizia Daniel. por ternura e para não lhe ver o corpo. e os rostos deles flamejavam. A bolha inchava e o tempo passava. meu caro Mathieu.. muito contente. Já não era o mesmo Verão. — Devo estar no Dupont Latin. A bolha dentro do seu ventre não dormia. de poeira nova. cheio de pontos brancos. É preciso que eu arranje o dinheiro dentro de . Verão! Deu alguns passos. Será mais razoável. pequenas gotas nasciam nos bicos. Ela dorme. Poderei ficar lá e esperar pelo seu telefonema. eu tenho um encontro às dez e meia. cúmplice num acto que lhe inspirava horror. — Escute — disse Sarah —. que dava vontade de lhe fazer mal. os transeuntes flutuavam no céu. Vou vê lo hoje mesmo. Sarah. Irradiava satisfação. eu. — No Dupont Latin? Está bem. Aqui ninguém o conhece. — Bem — disse Mathieu. — Onde está por volta das onze horas? — perguntou ela. por generosidade. Havia naquele rosto uma humildade perturbadora. era um fantasma mineral. Mathieu abraçou a. gotas brancas e salgadas como lágrimas. é pertinho. vivamente: — Mas era um roubo. — Poderia telefonar lhe. Pestanejou e sorriu. «compreendo o sadismo. Vou propor lhe três mil francos. Perguntava a si próprio aonde iria buscar o dinheiro. de a humilhar. — Estou contente — disse Mathieu —.» Mathieu beijou a nas duas faces. quase voluptuosa. «Quando a vejo». Ela acabava de lhe sacrificar as suas repugnâncias mais profundas. entre dentes. Mathieu empalideceu. J E A N P AUL SARTRE Ela dormia. — Dez mil francos! Ela acrescentou. Pagava se pela reputação. — Até logo — disse Sarah —.

os pombos arrulhavam. Marcelle. Brunet vai sossegado pela rua. as Espanhas. existo. A liberdade é o seu jardim secreto A sua . Queria lá ir. O Luxemburgo. Juro.quarenta e oito horas. Trabalhei. anda dentro de uma cidade de vidro que em breve há de quebrar. é funcionário. tinha horror de si próprio. os pombos levantam voo. sempre novo. esse judeu há de esperar até ao fim do mês. como o mar. as mesmas há mais de cem anos. Paris.» «Estou velho. «Madrid. bebe. Daniel.» A relva tremia a seus pés. Um álibi? «Assim é que eles me vêem.» Mathieu parou de repente. os castelos no ar era. sou o meu próprio gosto. crianças. pedirei a Jacques. não faz política. eu também quis partir para a Espanha. O acompanhamento discreto e seráfico da verdadeira vida. «Neste momento. sente se forte. independência. sente se leve porque espera. saboreio. o quê? Urna pobre religião laica para uso próprio. Mas não pode ser. Brunet. O resto. Espera. Come.. Mas não consegui. lê L'Oeuvre e Lê Populaire e está em dificuldades financeiras. Uma estátua mostrava lhe as nádegas de pedra. vou pedir lho. porque ainda não chegou a hora de partir tudo. Marcelle grávida. tão normal. Havia as crianças que cornam desordenadamente. bastava para encher uma vida. «Afinal é coisa de uns quinze dias. o meu gosto. «Aonde é que irei pedir o dinheiro? Daniel não mo vai emprestar. Há trinta e quatro anos que eu me saboreio. e aquelas árvores todas. caminha bamboleando se ligeiramente. Estátuas. Está tudo acabado.» Pensou subitamente: «Estou a ficar velho. Jacques. E havia Sarah com o roupão amarelo. pássaros de pedra. Conseguirá Sarah convencer o judeu? Onde arranjar dinheiro? E o que estou a pensar. E.» Contemplava aquele jardim rotineiro. Existir é isso: beber se a si próprio sem ter sede. Ele via se a pensar. e estou velho. sinto o velho gosto do sangue e da água ferruginosa. pombos. Correrias. com precaução. tive o que queria: Marcelle.. o dinheiro. O homem que quer ser livre... Trinta e quatro anos. Mas eu? Eu? Marcelle está grávida. Mas quer ser livre. e a 29 recebo. Haverá realmente uma Espanha? Estou aqui. era a vida. Mesmo assim. à vontade sob este sol. Estirado em cima de uma cadeira. quente e branco. com o mesmo sol sobre as deusas de gesso. Tudo isso era tão natural. como qualquer outro. esperei. Não quero mais nada. há mais de cem anos percorrido pelas mesmas ondas de cores e ruídos. de dedos partidos. tão monótono. Sentou se numa cadeira de ferro. relâmpagos brancos. comprometido até ao pescoço na vida e não acreditando em nada. em último caso.» Lembrou se de repente de dois olhos muito juntos sob espessas sobrancelhas negras. como outros desejam uma colecção de selos. sempre o mesmo. no entanto. As crianças correm.

Tinha vinte . Estava deitado na areia em Arcachon. tivera a impressão de ser uma pequena exploração suspensa no ar. Mas esse vazio ainda tinha um gosto. Um tipo preguiçoso e frio. que era pesadíssimo. o dentista. que dissimuladamente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida. e atirou o ao chão. livre. evitando o pequeno movimento da deglutição que o lançaria na garganta. Olhava os cacos de porcelana. Algo acabava de acontecer àquele vaso de três mil anos guardado entre as paredes quinquagenárias. maravilhado. Era dia de disparates. sem origem. arquejante. Era um estúpido. na casa do tio Jules. e sentia se orgulhoso. e brincava a fazer que não existia. Ele obrigara o a comer areia. Tinha dezasseis anos. contemplava as grandes ondas do oceano. ergueu o vaso. Era preciso tentar não se engolir. mas era o que queria dizer e era uma aposta. Sobre a mesa havia revistas rasgadas e um belo vaso chinês. O tio dissera lhe que o vaso tinha três mil anos. sem família.pequena conivência para consigo próprio. sabia muito bem que a mosca não ia acender se. Estava em Pithiviers. feita de inércia e que justifica de vez em quando com elevadas reflexões. sozinho na sala de espera. Voltara lhe as costas e pusera se a revirar os olhos e a fungar em frente do espelho. Sentado à sombra dos pinheiros. verde e cinza. ou antes não disse coisa nenhuma. mas muito razoável no fundo. Disse a si próprio: «Hei de ser livre». na luminosidade do Verão. Tudo isso negligentemente: era uma comédia medíocre de vagabundo e não conseguia interessar se por si próprio. Aconteceu assim e logo a seguir sentiu se leve. voltou para junto da mesa. Tinha conseguido esvaziar completamente a cabeça. Apostara que toda a sua vida se pareceria com aquele momento excepcional. Era apavorante ser uma bolinha de miolo de pão neste velho mundo ressequido. Acabara de bater num jovem bordelês que lhe atirara pedras. Mathieu aproximou se do vaso com as mãos atrás das costas e contemplou o com inquietação. um pouco quimérico. De repente. uma promessa. sem peias. fora buscar a caixa à cozinha e esfregara nela a mosca para ver se acendia. Pensou: «Fui eu que fiz isto». diante de um vaso impassível de três mil anos. com as narinas cheias do odor da resina. algo totalmente irreverente que se assemelhava a uma manhã. Verificara que a cabeça se assemelhava a uma cabeça de fósforo. Não é isso que sou?» J E A N P AUL SARTRE Tinha sete anos. com asas como patas de papagaio. redonda. Vegetava num calor provinciano que cheirava a moscas e tinha apanhado uma a que arrancara as asas. uma apariçãozinha obstinada que rompera a crosta terrestre. sem conseguir distrair se. abrupta inexplicável. como quando se conserva sobre a língua um líquido demasiado frio. diáfano.

aos seus próprios olhos. As palavras mudavam com a idade e as modas intelectuais. Tinha agora — cada vez mais — longos momentos de exílio. Para compreender a aposta. a um prazer. Esperara através de mil e uma preocupações quotidianas. Mas através de tudo isso a sua única preocupação fora manter se disponível. Os últimos anos tinham sido uma vigília. sub repticiamente. um funcionário em dificuldades financeiras e que ia encontrar se com a irmã de um dos seus ex alunos. o advogado. aprender um ofício. Esperava. nem o irmão de Jacques Delarue. palavras irritantes de intelectual. se faz favor. viajara e ganhara a vida. abandonar os estudos. lia Espinosa no quarto. mas nessa idade não se tem plena consciência do que se faz. a decisão teria sido uma . mas era uma só e mesma aposta. não ter ainda nascido comple tamente. Sem motivos. — A bola. O que o retivera à beira destas rupturas violentas fora a ausência de motivos para fazê lo. Mathieu apanhou a bola e atirou a ao rapaz. Decerto que não estava num desses dias. Nunca pudera prender se definitivamente a um amor. Que aposta? Pôs a mão sobre os olhos cansados da luz. E. nem o amigo de Daniel e Brunet. cem vezes tornara a fazer a aposta. Um acto. nem o amante de Marcelle. com aquela ênfase filosófica que lhe era agora peculiar. devagar. a ele e a Brunet: «Hei de salvar me. precisava de estar nos seus dias melhores. Sim.e um anos. Levantou se. E durante esse tempo. Levantava se um funcionário. Para uma acção. ser o próprio começo.» Dez. sempre lhe parecera estar algures. Trinta e quatro anos. Vegetava naquele calor sufocante. Pensou: «Estará tudo acabado? Serei apenas um funcionário?» Esperara tanto tempo.» Tinha pensado partir para a Rússia. Já não sabia bem. Eu não queria ir na onda.» Eram palavras vazias e pomposas. Inutilmente repetia as frases que os exaltavam dantes: «Ser livre. Vai se na onda. Ser a causa de si próprio. sofria a velha e monótona sensação do quotidiano. «Com vinte e cinco é que eu me devia ter comprometido. poder dizer: sou porque quero. nunca fora realmente infeliz. os anos tinham chegado e tinham no envolvido. Naturalmente durante esse tempo andara atrás de mulheres. Mathieu não era um tipo que ensinava Filosofia a rapazes num liceu. cheios de bonecos de papelão. Como Brunet. um rapazinho corria atrás dela com a raqueta na mão. Um acto livre e reflectido que acarretaria o destino da sua vida e seria o início de uma nova existência. e era terça feira de Carnaval. Erguera os olhos e apostara de novo. Grandes carros multicores passavam na rua. Era unicamente aquela aposta. Uma bola de ténis rolou lhe aos pés.

M athieu olhou para o relógio. Um miúdo tentava apanhá lo com uma vara. nem Brunet. Agora estou vazio. — Eu sit down — respondeu o outro. esfu ziantes. Um dia. Mathieu ficaria a seu lado. Barquinhos à vela giravam no tanque. Esvaziei me.» Não gostava que ela se atrasasse. «Eu não sabia que era jovem. Estou liquidado. Ivich não o desculpava. nem Daniel. irritado. bons filmes.» Viu a nesse mesmo instante. chicoteados de quando em quando pelo repuxo. tinha sempre medo de que se deixasse morrer. Parou para olhar o carrossel náutico. pensou Mathieu.» Lembrou se sem grande prazer que ia acompanhar Ivich a urna exposição de Gauguin. Só depois é que dei conta. porque ele não era belo e era uma maneira de se desculpar.» Junto do repuxo. Ela tem razão. num desafio. por dentro. Continuara a esperar. esquecido. esquecia se de comer. Ivich cheirava a mocidade. Tinham as mãos bem tratadas. nunca ela estava tão só como diante da beleza. — Sit down — disse um. Pensou: «Já não espero. Boris também. disse um adeus rápido ao companheiro e atravessou a Rua dês Ecoles como uma sonâmbula. Ela esquecia se de tudo. belos objectos. Puxara os caracóis louros para a frente. os seus olhos apagaram se. — Olá. Todos riam. esterilizei me para ser apenas uma espera. Estava com a cara dos dias de festa. Hoje como das outras vezes olharia os quadros com um ar selvagem e maníaco. fugia de si mesma.asneira. Estudantes ou liceais. esquecer se ia de respirar. Ivich! — Bom dia — disse ela. esquecia se de dormir. «Dez e quarenta. e pronto. Mathieu levantou se. No entanto não desejava ser belo. Jovens machos rodeados de fêmeas e que pareciam insectos brilhantes e obstinados. a fisionomia dura e a carne tenra. É engraçada a mocidade. está atrasada. Gostava de lhe mostrar belos quadros. afundava se lentamente. Mas já não espero mais nada. Dois rapazes pararam junto dele. Pensou: «Não sei o que quero dela. Quando viu Mathieu. Ela erguia o rosto para ele e oferecia lhe um sorriso luminoso. feio. pensou Mathieu por fora. Mártires da J E A N P AUL SARTRE juventude. importuno. não sentem nada. esquecia se a cada momento. inclinava se. Falavam animadamente. Descia o bulevar ao lado de um rapaz alto de cabeleira crespa e óculos. um barquinho parecia perdido. «Só há chatos por aqui». Riram e sentaram se. No Inverno . e a franja descia lhe até aos olhos. mas eram excepções. olharam para uma das mesas com desdém.

Ivich sim. contrariado. Eu deixo o tomar decisões. estreito e puro. mas não o devia ouvir. Um rosto largo. A Ela sentou se. Gostava que lhe chamassem senhora. Ela fechara os olhos e passava levemente os dedos sobre as pálpebras. — Tenho a impressão de que ficam abertos sozinhos. — Tome um Pippermint — disse Mathieu —. — Gosto disso? — disse divertida. cheiro a éter.) Nunca mais beberei disso. sabia que Ivich era feia. não. — Aquela coisa verde e viscosa que bebi no outro dia? Oh!. — E para a senhora? — perguntou o empregado. Os jovens vizinhos de Mathieu voltaram se para a ver. Ele. — Então está bem. pálido. — Sim. você gosta disso. Mathieu fez um esforço e voltou se para Ivich. podia chamá la pelo nome ou tocar lhe no ombro. — É o sol. isso pega se na boca. Marcelle estava ali. indecisa. calma e taciturna. como a Lua entre duas nuvens. — Faz favor! — gritou Mathieu. — Menta verde. De vez em quando eu fecho os para que descansem. mas era inatingível com o seu porte frágil e os belos seios duros. No Verão doem me. Mathieu não sabia o que dizer. Sarah telefonaria. o sol persegue nos por toda a parte. (Estremeceu. infantil e sensual. Inútil. Estão vermelhos? — Não. não se referia a ela. Não estava pintada. porque a pintura lhe estragava a pele. só ele. Pensavam visivelmente: «Boa miúda. questões de dinheiro.o vento despenteava a. não quero. Ivich sorriu lhe. mas estava ali. Parecia pintada e envernizada como uma taitiana de Gauguin. Não o beberei. lembrei me do gosto. Não temos os mesmos gostos.» Hospital.» Mathieu contemplou a com ternura. Mas que é isso? — perguntou quando o empregado se afastou. via a. quero.» Mathieu ouviria do outro lado do fio J E A N P AUL SARTRE uma voz sombria: «Ele quer dez mil francos. é bonito. mas depois reflecti. deixe o trazer. pronto. E as pessoas . a que ela chamava «testa de calmuco». Calou se. cirurgia. — Não. que ela usava por cima do verdadeiro como uma máscara triangular. Reabriu os olhos. Ivich interessava se por tão pouca coisa! E ele não tinha vontade de falar. — Você disse que gostava — atalhou Mathieu. O empregado chamaria: «Senhor Delarue. Em dias como este não devíamos sair senão depois de escurecer. Não estou com sede. Não a via. Agora Mathieu via apenas um falso rosto. Não sabemos onde nos havemos de enfiar. nem um franco a menos. Dentro em pouco. descobria lhe as bochechas gordas e lívidas e a testa curta. Depois virou se para Mathieu.

. se me chamarem diga ao empregado que volto já. Quanto a olhar as pessoas de frente. Os olhos ardem me logo. vou à farmácia comprar um comprimido. . — Você é dissimulada — disse Mathieu. irritada. não posso. não era com má intenção. Tenho horror a que me toquem. com a palma da mão. teria medo. — Não é o que está a imaginar. — Não. Lançou lhe um olhar matreiro e rápido. E depois a empregada afeiçoou se a mim. — Olho para toda a gente assim. A — Ela gosta de mim porque sou loura. que tinha as mãos húmidas. Eu que tenho tanto medo de ficar calvo. Estava seca. Ivich sacudiu a cabeça. JEAN PAUL SARTRE — Ouça — disse Mathieu —. — É verdade que não liga a essas coisas. — Porquê? — perguntou Mathieu admirado. Protegem as raparigas de verdade. — Aborreceu a tê la feito sair tão cedo? — De qualquer maneira eu não podia ficar no quarto. Daqui a três meses vai detestar me.ficam com as mãos húmidas. — Acabe com isso! Não gosto que me imitem. sob qualquer pretexto. — murmurou ela num tom arrastado que fazia pensar nas suas faces lívidas. por baixo da mesa. Mathieu mal a ouvia. Era o outro. — Sim.. — Afinal as pessoas acabam por perceber que esconde a cara e baixa os olhos como uma santa de pau carunchoso. Sabia que ela não pensava o que dizia. Ela riu divertida e furiosa. — Com certeza não sabe o que é um «lar de estudantes». não. Mesmo que você fosse o tipo mais bonito deste mundo. — Gostaria que soubessem como você é? — acrescentou com certo desprezo. — Olha me por cima da testa. Julgava sempre que tivesse reparado num lugar mais ralo e não pudesse tirar de lá os olhos. Acrescentou. — Sim. Mathieu tocou com o dedo.. Há de dizer que eu sou dissimulada. mas sinto medo quando imita as minhas expressões! — Compreendo! — disse Mathieu a sorrir. acaricia me os cabelos. entra a todo o momento no meu quarto. ou então de lado: assim. É sempre a mesma coisa. — Bom. sobretudo em tempo de exames. Olhava Ivich sem se sentir perturbado. o rapaz encaracolado. num tom de voz diferente: — Eu gostava que não me doessem tanto os olhos. — Você perturbava me a princípio — disse Mathieu. Ivich encarou o com impaciência. à altura dos cabelos. Mas estou à espera de um telefonema.. achava se culpado e liberto ao mesmo tempo por lhe querer menos.

— Não, não vá — disse ela secamente. — Agradeço, mas não faria nada. É do sol. Calaram se. «Estou a ficar abstracto», pensou Mathieu com um prazer estranho. Um prazer crispado. Ivich alisava a saia com as palmas das mãos, erguendo ligeiramente os dedos como se fosse tocar piano. As mãos dela estavam sempre avermelhadas porque tinha má circulação. Geralmente levantava as e agitava as de vez em quando para as descongestionar. Não lhe serviam para pegar em nada, eram dois idolozinhos gastos nas extremidades dos braços; afloravam as coisas com pequenos gestos inacabados e pareciam menos destinados a segurar do que a modelar. Mathieu olhou as unhas de Ivich, longas e pontiagudas, excessivamente pintadas, quase chinesas. Bastava contemplar aqueles adornos frágeis e incómodos para compreender que Ivich não podia fazer coisa nenhuma com os seus dez dedos. Uma vez caíra lhe uma unha, ela guardara a numa caixinha e de vez em quando observava a com uma mistura de prazer e horror. Mathieu vira a. Conservara o verniz e assemelhava se a um besouro morto. «Que será que a preocupa? Nunca esteve tão irritante. Deve ser o exame. A não ser que se chateie de estar comigo. Afinal de contas eu sou adulto.» — Não começa assim, com certeza, quando se vai ficar cego — disse de repente Ivich com um ar neutro. — Com certeza que não — respondeu Mathieu, sorrindo. — Bem sabe o que lhe disse o médico em Laon: um bocadinho de conjuntivite. A Falava docemente, sorria docemente, sentia se embebido em doçura. Com Ivich era preciso sorrir sempre, fazer gestos suaves e lentos. «Como Daniel com os gatos.» — Doem me tanto os olhos — disse Ivich —, basta uma coisa de nada. (Hesitou.) É no interior dos olhos que me dói. Não é assim que começa aquela loucura de que me falava há dias? — Ah!, aquela história? Olhe, Ivich, da última vez era o coração, receava ter uma crise cardíaca. Que rapariga estranha, parece que tem necessidade de se atormentar. E de repente declara que é feita de cimento! É preciso escolher. A sua voz deixava um gosto a açúcar na boca. Ivich olhava para os pés, pensativa. — Deve estar qualquer coisa para me acontecer. — Já sei — disse Mathieu —, a sua linha da vida foi interrompida. Mas disse me que não acredita nisso. — Não, não acredito... Mas não posso imaginar o meu futuro. Há uma barreira. Calou se e Mathieu contemplou a em silêncio. Sem futuro... De repente sentiu um gosto desagradável na boca e percebeu que estava demasiado preso a Ivich. Era verdade que ela não tinha futuro. Ivich com trinta anos, Ivich com quarenta anos, não

fazia sentido. Pensou: «Ela não é eterna.» Quando Mathieu estava só ou quando falava com Daniel, com Marcelle, a vida estendia se diante dele, clara e monótona: algumas mulheres, algumas viagens, alguns livros. Um longo declive. Mathieu descia o lentamente, lentamente, às vezes ele próprio achava que não ia muito depressa. De repente, quando via Ivich parecia J E A N P AUL SARTRE lhe viver uma catástrofe. Ivich era um pequeno sofrimento voluptuoso e trágico, sem futuro. Ir se ia embora, ficaria louca, morreria de uma crise cardíaca ou então seria sequestrada pêlos pais em Laon. Mas Mathieu não poderia suportar a vida sem ela. Fez um gesto tímido com a mão; queria pegar no braço de Ivich acima do cotovelo e apertá lo com toda a forca. «Tenho horror a que me toquem.» A mão de Mathieu caiu. Disse muito depressa: — Tem uma linda blusa, Ivich. — É feia. — Inclinou a cabeça, empertigada, e sacudiu a blusa, constrangida. Acolhia as homenagens como se fossem ofensas, era como se fizessem dela uma imagem à machadada, grosseira e fascinante, a que tinha receio de se prender. Só podia pensar o que convinha a si própria. Pensava nisso sem palavras, era uma certeza terna, uma carícia. Mathieu olhou com humildade os ombros de Ivich, o pescoço alto e roliço. Ela dizia muitas vezes: «Sinto horror pelas pessoas que não sentem o corpo.» Mathieu sentia o dele, mas era como um embrulho embaraçoso. — Ainda quer ir ver os Gauguin? — Gauguin? Quais? Ah!, a exposição de que me falou? Bem, podemos lá ir. — Não parece ter muita vontade. — Tenho. — Se não tem vontade, Ivich, diga. — Mas tem você. — Bem sabe que já lá estive. Tenho vontade é de lha mostrar, se isso lhe agradar; mas se não lhe interessa, desisto. — Pois então preferia ir noutra ocasião. A — A exposição acaba amanhã — disse Mathieu, decepcionado. — Tanto pior — disse Ivich sem energia —, mas há de haver outra oportunidade. — Acrescentou com calor: — Essas coisas estão sempre a aparecer, não é verdade? — Ivich! — observou Mathieu com uma amabilidade forçada. — Essa é mesmo sua! Diga que não lhe apetece, mas bem sabe que tão cedo não haverá outra. — Pois bem — disse ela, gentilmente —, não quero ir hoje por causa do exame. É infernal que nos façam esperar tanto tempo pelo resultado. — Não é amanhã?

— Justamente. Acrescentou, roçando a manga de Mathieu com a ponta dos dedos: — Hoje não deve ligar ao que eu digo. Não estou normal. Dependo dos outros, é aviltante. Vejo continuamente a imagem de uma folha branca pregada numa parede cinzenta. Eles impõem nos este pensamento. Quando me levantei hoje de manhã, senti que já era amanhã. Hoje é um dia perdido, riscado. Roubaram me este dia e já não me restam muitos mais. Insistiu em voz baixa e rápida: — Falhei em Botânica. — Compreendo — disse Mathieu. Queria encontrar nas suas recordações uma angústia que lhe permitisse compreender a de Ivich. Talvez na véspera da formatura... Não, não era a mesma coisa. Ele vivia sem correr riscos, sossegadamente. Agora sentia se frágil, no meio de um mundo ameaçador, mas era através de Ivich. J E A N P AUL SARTRE — Se eu for aprovada — disse Ivich —, vou beber antes da oral. Mathieu não respondeu. — Só um bocadinho — repetiu Ivich. — Disse isso em Fevereiro, antes do exame, e foi lindo, com quatro cálices de rum ficou completamente bêbeda. — Aliás não ficarei aprovada — disse ela de maneira equívoca. — Está bem, mas se por acaso ficar? — Claro que não vou beber. Mathieu não insistiu. Tinha a certeza de que ela apareceria bêbeda à oral. «Eu é que não faria isso, era demasiado prudente.» Estava irritado com Ivich e desgostoso consigo próprio. O empregado trouxe o copo e encheu o até meio de menta verde. — Já trago a água e o gelo. — Obrigada — disse Ivich. Ela olhava para o copo, e Mathieu olhava a. Um desejo violento e imperioso invadira o: ser por um momento aquela consciência perdida e cheia de seu próprio odor, sentir por dentro aqueles braços compridos e finos, sentir, na junção, a pele do antebraço colar se como um lábio à pele do braço, sentir aquele corpo e todos os pequenos beijos que dava a si próprio sem cessar. «Ser Ivich sem deixar de ser eu.» Ivich tirou o balde das mãos do empregado e pôs um pequeno cubo de gelo no copo. — Não é para beber, mas fica mais bonito. Pestanejou e sorriu com um ar acriançado. — É bonito. Mathieu olhou o copo, irritado. Procurou observar a agitação espessa e desordenada do líquido, a brancura turva do gelo. Em vão. Para Ivich era uma pequena volúpia

viscosa e verde que a deixava toda melada até à ponta dos dedos. Para ele aquilo não era nada. Nada de nada. Um copo com menta. Podia, pensar o que Ivich sentia, mas ele nunca sentia nada. Para ela as coisas eram presenças abafantes e cúmplices, grandes redemoinhos que a penetravam na carne, mas Mathieu via as sempre de longe. Olhou a e suspirou. Estava atrasado, como de costume. Ivich já não contemplava o copo, parecia triste e puxava nervosamente um caracol dos seus cabelos. — Queria um cigarro. Mathieu tirou o maço de Gold Flake do bolso e estendeu lho. — Vou lhe dar lume. — Obrigada, prefiro acendê lo eu. Acendeu o cigarro e tirou algumas baforadas. Aproximou a mão da boca e divertiu se, com um ar maníaco, a fazer deslizar o fumo pelas palmas das mãos. Explicou, como para si mesma: — Queria que o fumo parecesse sair da minha mão. Seria engraçado uma mão com neblina... — Não é possível, o fumo passa demasiado depressa. — Eu sei, e isso enerva me, mas não posso parar. Sinto o meu sopro aquecer a mão, passa lhe pelo meio, dir se ia que a corta em duas. Teve um riso rápido e calou se. Continuava a soprar na mão, descontente e obstinada. Depois deitou fora o cigarro e sacudiu a cabeça. O perfume dos cabelos chegou às narinas de Mathieu. Era um cheiro a bolo com açúcar bauni Ihado, porque ela lavava os cabelos com gema de ovo. Mas esse perfume de pastelaria tinha um gosto voluptuoso. Mathieu pôs se a pensar em Sarah. — Em que é que está a pensar, Ivich? Ela ficou um instante de boca aberta, desconcertada, depois retomou o seu ar meditativo e o rosto contraiu se lhe. Mathieu sentia se cansado de a olhar. Doíam lhe os olhos. — Em que é que está a pensar? — repetiu. — Eu... (Ivich abanou a cabeça.) Está sempre a perguntar me isso. Nada de especial. Coisas que não se podem dizer, que não se transmitem. — Sabe se lá... Diga. — Bem, eu olhava para aquele homem que vem ali, por exemplo. Que quer que lhe diga? Que é gordo, que enxuga a testa com um lenço, que traz uma gravata... É estranho que você me obrigue a contar estas coisas — disse de repente, envergonhada e irritada —, não vale a pena dizê las. — Para mini, sim. Se eu pudesse desejar qualquer coisa, desejaria que fosse obrigada a pensar alto. Ivich sorriu sem querer — É um vício — disse —, a palavra não foi feita para isso. — E engraçado esse respeito selvagem pela palavra. Parece crer

que ela só foi feita para anunciar mortes, casamentos ou dizer missa. Aliás, você não olhava para ninguém, Ivich, olhava para a sua mão e a seguir olhou para o pé. E, além disso, sei no que estava a pensar. — Então porque é que pergunta? Não é preciso ser muito esperto para adivinhar. Pensava no exame. — Está com medo de reprovar, não é? — Naturalmente. Estou com medo. Ou melhor, não estou com medo. Sei que vou reprovar. Mathieu sentiu novamente um gosto de catástrofe na boca. «Se ela reprovar, nunca mais a verei.» E ela ia reprovar de certeza. Era evidente. — Não quero voltar para Laon — disse Ivich com desespero. — Se ficar reprovada, não me deixarão voltar. Disseram me que era a minha última oportunidade. Pôs se a mexer nos cabelos. — Se tivesse coragem — disse com hesitação. — Que faria? — perguntou Mathieu inquieto. — Qualquer coisa. Tudo menos voltar para lá. Não quero voltar, ficar lá a vida inteira. — Mas disse que seu pai talvez vendesse a serração daqui a um ou dois anos e que viriam todos para Paris. — Paciência! São todos assim — disse Ivich com um olhar furioso. — Queria ver se fosse consigo! Dois anos naquela cave, ter paciência durante dois anos! Não vê que são dois anos que me roubam? Tenho só uma vida — disse com raiva. — Ao ouvi lo falar, parece que se julga eterno. Um ano perdido, na sua opinião, substitui se bem. — As lágrimas vieram lhe aos olhos. — Não, não se substitui. É a minha mocidade que se escoará gota a gota. Quero viver já, não comecei ainda e não posso esperar. Já estou velha, tenho vinte e um anos. — Ivich, por favor, faz me medo. Tente ao menos uma vez dizer com clareza o resultado dos seus trabalhos práticos. Tão depressa parece satisfeita como desesperada. — Falhei em tudo — disse Ivich, sombria. — Pensei que em Física tivesse tido êxito. — Ah!, a Física — atalhou Ivich com ironia. — E em Química foi lamentável. Não consigo enfiar as fórmulas na cabeça. É tão cansativo! — Mas então porque é que escolheu isso? — O quê? — O P.C.B. — Queria sair de Laon — disse ela, obstinada. Mathieu fez um gesto de impotência. Calaram se. Uma mulher saiu do café e passou devagar diante deles. Era bela, com um nariz minúsculo num rosto liso, parecia procurar alguém. Ivich

Pensou: «Não sou bonito». — Que criatura soberba — disse em voz baixa e profunda. Quanto é que ele quer? — Ah!. — Ivich! Era nesses momentos que mais lhe queria. e sentiu se também sozinho.devia ter sentido logo o perfume. — Senhor Delarue? Primeira cabina.. é a Sarah? — Tudo corre bem — disse a voz nasalada de Sarah. mas quer quatro mil a pronto. — Sou eu — disse Mathieu. Sarah era muito bondosa. Mas Mathieu não tinha vontade de as olhar. lamento imenso. Mathieu não gostou daquela voz. Esta ficara quase feia. Olhava para Ivich. viam se lhe as pernas compridas. à transparência. tenho de arranjar o dinheiro. Mathieu sabia que ela não podia responder. mas não quis saber. — Mas é preciso andar depressa. quando aquele corpinho encantador e quase gentil era tomado por uma força dolorosa. — Bem. mas quando era prestável tornava se . através do tecido leve do vestido. Quer fazer a coisa depois de amanhã para a poder observar durante os primeiros dias. é Sarah Gomez. Ivich sorriu lhe com frieza. — Chamam o Senhor Delarue ao telefone — gritou o empregado.. Ela estava só. vou avisar Marcelle hoje mesmo. — Ivich — disse Mathieu. Insisti. Ergueu lentamente a cabeça. Dissera uma vez a Mathieu: «Tenho vontade de morder os narizes pequenos. Já não existia para ela. mas. — Ah! Fico muito satisfeito. É um estupor de um judeu — acrescentou. A mulher imobilizou se pestanejando ao sol. disse lhe que você estava atrapalhado. A mulher foi se embora. a porta da cabina não se fechava.» Mathieu inclinou se ligeiramente e viu a de perfil: a sua expressão era cruel. e Mathieu olhou a tristemente. Teria talvez trinta e cinco anos. melancólica. juro. Levantou se. só que a coisa me apanha desprevenido. — Desculpe. Ele parte domingo para os Estados Unidos. Ele entrou no café e desceu a escada. — Está. Mathieu pegou no telefone. e ele pensou que ela tinha vontade de morder. a rir. docemente. Ela não respondeu. Ivich seguiu a com o olhar e murmurou raivosamente: — Há momentos em que eu gostaria de ser homem. apertava as mãos com força. Teve um risinho seco. a sua fisionomia transformou se. quando a viu. por um amor ardente e perturbado A desfavorecido pela beleza.

sem surpresa. pensou Mathieu. — Uma mulher — disse Ivich —. — Deve ter ficado contente. — Esse não — disse Ivich —. neste táxi. — Bom. Sarah. — A dor de cabeça passou me — disse ela. era um pesadelo. é descapotável. parece um coche e é fechado. — Dentro de dois dias? Bem. Mathieu afastara um pouco o telefone. Levantaram se e Mathieu reparou que o copo de Ivich estava vazio. como uma irmã de caridade. — Uma ficha para o telefone — pediu. Mathieu saiu da cabina. e Ivich subiu. — Até logo à noite. poderíamos ir ver os Gauguin. meio fumados. — Esteve aqui alguém que ia nervoso. — Ainda bem — disse Mathieu. não — disse Mathieu ao motorista —. — Mande parar aquele — pediu Ivich —. silencioso. Obrigado. — Oh! Dei os ao motorista. Porque é que fez isso? — Não sei. antes do jantar? — Todo o dia. ecoar no auscultador. «Irei ter com Daniel ao meio dia. Ivich olhou o de lado através das suas longas pestanas. Está em casa à noite. Mathieu disse: — Uma vez achei cem francos num táxi. é um anjo. — Não. Sorriram e calaram se. — Porquê? Mathieu apontou os cigarros. para dar até ao fim do mês. — Se quiser — disse Mathieu. Estavam ambos aborrecidos. Sentia o coração amargurado.» Sentou se perto de Ivich e olhou a com ternura. O táxi parou. o vento na cara é incomodativo. «Uma vez que lhe vou falar». Faubourg Saint Honoré. Pôs vinte cêntimos na bandeja e subiu devagar a escada.. Mathieu viu entre os seus pés três cigarros de ponta dourada. Passarei por lá para tratar ainda de mais umas coisas. pensava: «Quatro mil francos». amavelmente.» — Galeria das Belas Artes. — Poderíamos. há vestígios de bâton. — Não. veja como é bonito. Mathieu ia para dizer: . O táxi atravessou a Praça St. não era consigo. — Pois eu tê los ia guardado. e ouvia o riso de Sarah. não vale a pena. «pedirei mais mil francos a Daniel. vou tratar disso. Tinha um sorriso confuso e provocante. Michel. Sentou se. Não valia a pena telefonar a Marcelle antes de resolver o assunto do dinheiro. junto de Ivich..brutal e activa. — Táxi — gritou.

Ivich continuou: — Não acho que valha a pena incomodarem se por causa de Lola. você não tem idade — disse Ivich —. Quer sempre ser perfeito. — Ela é gentil consigo. Voltara a cabeça e olhava os cabelos de Mathieu avançando a boca com ternura. hoje à noite. — É engraçado que não tenha reparado. os três. como está verde!» Mas não disse nada. canta bem. que eram um homem e uma mulher fechados num táxi. é muito teatral? — Teatral? — perguntou Mathieu. — Não pode fazer outra coisa. — Isso não quer dizer que ela não se sinta desesperada. o que me desagrada um bocado é Lola. Olhou a. Era como se eles tivessem imaginado. Desde que as pessoas o detestem. A — Pois é. esforça se logo por lhes descobrir qualidades. Às vezes tento imaginar como você era. ao mesmo tempo. parece me que foi sempre assim. erguendo as sobrancelhas. E assim que fazem as pessoas que envelhecem. e apressou se a acrescentar: — Tem razão. Mas não gosto dela. pensam no dinheiro e tratam se bem. e mais nada. É a sua moral. É bonita. «Não». — Naturalmente. dá profundos suspiros para que pensem que está desesperada e encomenda bons petiscos! Acrescentou com uma maldade dissimulada: — Sempre pensei que as pessoas desesperadas não se incomodavam com a morte.«Olhe o Sena. aborrecido. — Tinha caracóis — informou Mathieu. nunca se deveria envelhecer — disse Ivich.. . mas não consigo. — Oh!. fico sempre admirada quando a vejo fazer as contas das despesas e tentar economizar. quando estão desgostosas consigo próprias e com a vida. em criança. Ela não pode comigo. mas de vez em quando tinha uma expressão terna pelo prazer de sentir o rosto pesado e doce como um fruto. — Eu acho a simpática. tem a juventude de um mineral. Mathieu achou a inconveniente e irritante. Foi Ivich quem falou de repente: — Boris pensava que íamos ao Sumatra. Eu gostaria. não é nada agradável envelhecer. disse para si próprio. Ivich não era muito coqueta. secamente. — Nunca reparei nisso.. perturbado. Eu não a acho simpática. — Que é que isso tem? Fez se um silêncio. — Ficarei muito contente em ver Boris e de estar com vocês — disse —.

«Está a julgar me». pensou Mathieu. o único que não devia ter feito. Ivich não devia saber que tinha um ar terno. Ivich calava se. Desta vez. rígida. rígida e silenciosa. e entre eles havia o . e a sua raivosa alegria esvaiu se. Aquele dia de Verão abatia se nele como uma massa densa e quente. Depois estendera a mão e pegara na carne. à posição vertical. como uma mola. Ao levantar a cabeça.» Encolheu se. Através do vidro da frente via as árvores e uma bandeira tricolor na ponta de um mastro. que não se exprimia por gestos. «Pronto. Insistia. sentia vontade de se abandonar inteiramente. Ainda durante um segundo. olhara demoradamente uma fatia de carne fria que estava num prato sobre o balcão. E ele fizera um gesto. Pensou: «Um homem casado a conquistar uma rapariguinha num táxi». Mathieu olhava em frente. e Mathieu sentia um corpo quente junto do seu. Mathieu pensou: «Que é que eu fiz?» Cinco minutos antes aquele amor não existia. «Que pensará ela?» Estava a seu lado. Tinha deixado para trás Marcelle. aliás não o fizera propositadamente. olhava para o seu amor. e depois. estendeu o braço. mas um pouco mais pequeno. Não disse nada: ficou com uma expressão neutra. era livre.— Pois eu imagino o tal como é hoje. Parecia achar a coisa natural e também se devia ter sentido livre. e deixou se cair como se tivesse perdido o equilíbrio. Um gesto e aquele amor aparecera perante Mathieu como um objecto importuno e já vulgar. que parecia muito admirado. mas sentia um estranho nó na garganta e estava fora de si. Sarah. Um tipo bastante bem vestido. O dono gritou. mas não via as árvores. Mathieu quis falar. bruscamente. irritado. Desejara desaparecer. e o braço recaiu lhe inerte. Era amor. pareceu lhe que ficava suspenso no vácuo com uma intolerável impressão de liberdade. viu lhe os olhos. é irremediável. Para a castigar aflorou com os lábios uma boca fria e fechada. Estava calor. O corpo de Ivich voltou. como se fossem pombas. Um polícia fez sinal para parar e o táxi deteve se. Agora era amor. já não estava em parte alguma. Ivich ia pensar que ele a amava como às outras mulheres que tinha amado. sem nome. os intermináveis corredores de hospital por onde andava desde manhã. mas ficou dura. Inclinou se. Aproximara se de uma mercearia. fora espontâneo. Ivich continuava sem dizer nada. de rosto cinzento. Lembrou se do gesto de um tipo que vira uma vez na Rua J E A N P AUL SARTRE Mouffetard. havia entre ambos um sentimento raro e precioso. As arcadas do Louvre estendiam se pesadamente ao longo dos vidros. O táxi meteu se pela Rua de Rivoli. um polícia levou o tipo. agarrou Ivich pêlos ombros e puxou a para si. Ivich não resistiu.

para os seios. Sabia que não teria podido J E A N P AUL SARTRE suportar aquela expressão e que a coisa lhe parara na garganta. Havia uma repulsa no ar. «Se ele soubesse. e já velho. que o esperava à entrada. aceitava o já como uma fatalidade. de quem vai tomar um medicamento. Mathieu não a seguiu imediatamente. mas o calor era de meio dia. «o arcanjo!» Marcelle bocejou. o gesto desajeitado e terno. humilhado de antemão. sacudiu a cabeça. Viu de repente Marcelle estendida na cama. Contemplava com espanto aquele amor completamente novo.. que deixara a luminosidade nas pregas da cortina e jazia ali. aquele amor de homem casado. O táxi parou. Marcelle deitava se tarde e não conhecia nunca as manhãs. nua. parecia Ihe que a vida parara ao meio dia. quando Mathieu se deitara nu ao lado dela. e .. Pensou: «Meio dia. «Não pude. sem esperança. humilhante para ela.gesto. Olhar Ihe ei para as pernas. Desceu finalmente. um calor que viera de fora. não lhe pude dizer. pensou. como um vago perfume. soergueu se. Se ao menos ela pudesse esquecer. com um ar alegre e bem disposto. e o seu primeiro pensamento foi: «O arcanjo vem esta noite. mole. é tão puro. Deitou lhe um olhar furtivo e achou que ela tinha uma expressão dura. de olhos fechados. impalpável. e a noite da véspera continuava ainda ali. como me acharia repugnante. despreza me e pensa que sou como os outros. com os seus desejos simples e as suas condutas vulgares. pensou. inerte e sinistro como um destino.. Entraram na exposição sem trocar uma palavra. nunca a desejei». com a sua luz morta e rosada. e um dia. «Não é verdade». «Na melhor das hipóteses». pensou com desespero. pagou e juntou se a Ivich.» Mas não tinha vontade de deixar de a amar. Odiava Marcelle. que era um eterno meio dia.» Não era o que eu queria dela. Um calor enorme enchia o quarto. estagnado.» Gostava daquelas visitas misteriosas. «não a desejo. chuvoso. Acabava sempre assim. envergonhado e dissimulado. havemos de nos arranjar». olhava os tornozelos com um vago descontentamento.. como na véspera. «Bom.» O tecto estava cinzento como uma madrugada. Era apenas o amor. «alguma coisa deve ter acabado entre nós. e Mathieu é que o fizera nascer com inteira liberdade. à sua volta. Ivich abriu a porta e desceu. uma repulsa de meio dia. que caía largado sobre as coisas. «Está aborrecida.» Sentou se à beira da cama. mas agora pensava nelas sem prazer. Mas já sabia que ia desejá la. que tinha já a obstinação impalpável das coisas passadas.» Ele teria respondido. Mas já não conseguia lembrar se do que queria antes. «tenho horror a que me toquem».

e o mínimo gesto fá lo ia ruir como uma avalancha. enojava se facilmente consigo mesma. a sua expressão ingénua e convencida. «E tenho sorte. num equilíbrio instável. Olhou a baba que escorria devagar pelo buraco do lavatório.inútil! Lá fora era o dia dos vestidos claros. franzia lhe os lábios. como uma bola sobre a língua. e o dia começou. como uma clara de ovo ligeiramente batida. gotas de frio. Sorriu.» Deixou . Não sentia repugnância. Pensou primeiro na manteiga. sem ternura. Mathieu caminhava lá fora na poeira viva e alegre desse dia que se iniciara sem ela e já tinha um passado. parecia se mais com esperma.» Depois fez se um grande silêncio no seu cérebro. E de repente recordou o rosto de Mathieu. Vomitou uma água suja. Uma aguadilha saía lhe da boca. que adianta ser livre? «Não ajuda a viver. quando tivera diarreia. era como se sentisse um odor permanente. No último Inverno. uma sensação morna nas ancas e nas axilas. e logo uma repugnância por tudo. depois fico cansada. E a minha mãe conheceu mulheres que não podiam suportar o cheiro a fumo. não era mais repugnante do que a goma ruiva e odorífera dos rebentos das árvores. Disse a meia voz: «Tem graça!» Não sentia repugnância. Teve um sorriso amargo. No entanto. Acontecia. «Ele pensa em mim. «A sua liberdade.» Quando se acorda de manhã com má disposição e se sabe que se têm pela frente quinze horas para matar antes de se tornar a deitar. nas pontas dos pêlos negros. e um clarão de ódio atravessou a. pensou. dizem que há pessoas que vomitam durante o dia todo. Sentia se mole e vencida.» Levantou se bruscamente A e correu para o lavatório. Tinha vontade de vomitar. depois sentiu uma espécie de riso no fundo da garganta e inclinou se sobre o lavatório. não queria que Mathieu lhe tocasse. O dia ainda não tinha começado e já estava contra Marcelle. quando dizia: «Faz se um aborto.» Plumas delicadas e embebidas em aloés acariciavam lhe a garganta. Marcelle apoiou se no lavatótio e olhou para o líquido espumoso. a partir do segundo mês. mas aguento. maldosa. e teve de tossir para se livrar dela. não?». De manhã vomitou duas vezes. a liberdade. Já não pensava em nada. passou a mão pêlos cabelos e esperou. uma coisa talvez como o desabrochar da Primavera. «Não é isto que é repugnante. eu só vomito de manhã. Sentia se irritada porque imaginava uma robusta piedade passeando ao sol. mas dominava se. e murmurou: «Recordação de amor. uma piedade activa e desajeitada de homem saudável. e sentiu nojo. espumante. ainda ensonada: um capacete de aço na cabeça. um gosto de mata borrão na boca. deixando traços viscosos e brilhante como lesmas. Era a vida. não faltaria mais nada. parecia lhe que mastigava um pedaço de manteiga amarela e rançosa. anda a tratar de tudo».

que nem sequer é ainda um animal e que vão raspar com a ponta de um bisturi. continuaria a ler. Surpreendeu os seus olhos no espelho e voltou se bruscamente. durante algum tempo ainda. «E aqui. Hoje já não era a mesma carne. um pouco acima dos pêlos negros. não passa de um fibroma. Há sete anos — Mathieu tinha passado a noite com ela pela primeira vez —. Não podia .. e quando a amasse redobraria de precauções.. diante dos seios das mulheres que amamentavam: além do medo e do descontentamento. que olham para a barriga e que também pensam: «É aqui. como de costume. seria apenas uma recordação desagradável. Não era um animal. quatro noites por semana e tratá la ia. Disse: «Não quero odiá lo. e o seu corpo era apenas uma superfície feita para reflectir os jogos estéreis de luz e tremer sob as carícias como a água a ondular ao vento. Daniel viria também de vez em quando. com uma ingénua precipitação. afundar se nela como no seio de uma grande fadiga feliz. Iria a casa da velha. Não queria odiar Mathieu. tirou a camisa com gestos lentos. Mirou o ventre.» Mas o ódio não se esvaiu. Há outras. Pensou: «Tenho de me arranjar. neste momento. Iria a casa da velha. neste momento. Aquele corpo que desabrochava absurdamente era feito para a maternidade. E Daniel. «Sempre é verdade que me podem amar!» E contemplava a carne lisa e sedosa. Olhava para a barriga e descobria. Bastava imaginar que era um fibroma.correr um pouco de água para lavar a bacia. Aproximou se. Pensou: «Se fosse um animal. Aliás... a sofrer dos intestinos e Mathieu viria. em pequena.» Podia entregar se àquela languidez viva. Mas os homens tinham resolvido o contrário. uma espécie de esperança. a sua ampla bacia fecundada. quase um tecido. perante a abundância pacífica das banhas. Tornou a sentar se na cama. sempre dissemos que em caso de acidente. uma impressão semelhante à que sentia no Luxemburgo. J E A N P AUL SARTRE O espelho devolvia lhe uma imagem cercada de luzes violáceas. Está no seu direito.» Mas essas estão orgulhosas.» Não se sentia com coragem. ela aproximara se do espelho com o mesmo espanto hesitante. Não gostava do seu corpo.» Uma bolinha de sangue esforça se por viver. como uma jovem mãe. pousou docemente a mão na barriga. Nesta barriga. o arcanjo. E não se falaria mais nisso. toda a gente tem disso na vida. «Aborta se?» Desde a véspera que se sentia perseguida. Encolhem os ombros. Voltaria para o seu quarto cor de rosa. apertou devagar e pensou com certa ternura. deixar me iam sossegada. urna bolinha de sangue estúpida. com uma delicadeza terna. Não olhou para os ombros nem para os seios. levantaria as pernas e a velha far lhe ia uma raspa gem com um instrumento. Pensou: «É aqui.

tinham combinado de uma vez para sempre que diriam tudo um ao outro. Mas logo a seguir sobressaltou se. isso sim. «Porque é que só Daniel me sabe fazer falar? Se me tivesse ajudado um bocadinho.» Riu. Ah!. algo que lhe pertencesse de facto e que não fosse obrigada a repartir. pensou. Ele via a às escondidas. vai andar à procura de direcções. no espelho. infe . Mas no fundo tem a consciência tranquila.» Durante todo o dia da véspera tinha sentido um nó na garganta. «Ele estava inquieto quando saiu. Por outro lado. Dentro em breve ultrapassarei a idade do amor. a certeza de desejar um filho?» Via de longe. «Ele que fizesse como Daniel». «Se me puser a odiá lo.» Mas ela não podia falar. Gostaria de lhe ter dito: «E se o conservássemos?» Ah!. «Pois é..» Iria a casa dessa velha. uma massa sombria e curvada: era um corpo de sultana estéril.saber. «Como lhe poderia ter dito? Nunca me perguntou nada... Não faziam nada de mal.. como em Andrée. com um ar de cumplicidade imunda. E isso é melhor para ele do que arrastar se por aí com aquela fulana. o que mais receava era ter de o desprezar. principalmente. Tinha uma maneira especial de a interrogar. a culpa é minha. ao menos.» Julgou por momentos que se ia acalmar. Marcelle não achava desagradável ter um pouco da sua vida pessoal. à noite. Não quer que essa velha me faça mal. se ele tivesse hesitado um segundo. Estava apavorada. mas a cumplicidade criava entre J E A N P AUL SARTRE ambos um laço ténue e encantador.» Evidentemente. não conseguia.» Só Daniel sabia fazê la interessar se por si própria. Está aborrecido como alguém que partiu um vaso. dir mo á. Ele gostava de falar de si.. que me restará? Teria.» Mas não pôde deixar de passar docemente a mão pela barriga. devia saber que não posso falar de mim. é o que tenho de dizer a mim própria. pensava: «Se ela tiver algo.. que não gosto de mim o suficiente para isso. uma gravidez é tão sórdida como uma blenorragia. Deve ter prometido a si próprio encher me de amor. Daniel era tão misterioso.» É aqui que vive uma coisa. «Quando não se é casada. Às escondidas. agora que não tem aulas. Pensou: «É aqui.» Crispou as mãos no lençol. quando a olhava carinhosamente. e chamar lhe ia: «Minha gatinha». Não se atormentava. mas isso era cómodo. E a velha passar lhe ia as mãos pêlos cabelos. Por preguiça. tinham um segredo em comum. vai andar ocupa díssimo. «No entanto. tinha confiança nela. era quase uma brincadeira. nunca lhe disse nada. Estou com uma doença venérea. e Mathieu ignorava aquela intimidade. as suas delicadezas morais. Teria ao menos sobrevivido? «Estou podre. para ele. Quanto a Marcelle. Mas tem de andar depressa. ter lho ia dito! Mas ele dissera com o seu ar ingénuo: «Aborta se?» E ela não conseguira falar. de expor os seus pequenos casos de consciência.

com um queixo enorme.» Isso criara lhe uma responsabilidade suplementar e sentia se culpado. Demasiado livre. e uma arrogância triste de criança. tão inconfessáveis. Mathieu pensou: «O espírito francês. Via tudo o que era real. Mas Mathieu já não tinha vontade de os contemplar. «Os quadros não atraem». com a verdade. A seguir entrava se nos grandes salões desertos e mergulhava se numa luz académica que saía de um vitral. Na semana anterior. sentia se seco. uma expressão de inteligência fácil. as paredes.DADE DA RAZÃO liz como ela própria. Mesmo que fosse idiota.» Um banho de espírito francês. auto retrato: Gauguin muito pálido e penteado. — Isto é Gauguin — disse. tudo o que aquela luz clássica podia clarear. Paredes claras. Nem sequer via o quadro. Agora. Apesar disso arrastou Ivich e mostrou lhe. disforme. e Mathieu deitou lhe um olhar furtivo. as telas nas molduras. fazer uso do espírito crítico com moderação e firmeza. Havia muitas manchas nas paredes: os quadros. nos cabelos de Ivich. duas taitianas de joelhos na areia. Mathieu sentiu se acabrunhado por uma quantidade de responsabili dades cívicas. Ivich não respondeu. e Mathieu perguntava a si próprio o que pensava ela de tudo aquilo. por toda a parte. mas em vão. e o silêncio oficial dos salões. «apresentam se. um ramo de flores. Os quadros . aquela obscura afirmação eram tão solitários. um grupo de cavaleiros maoris l. Uma vida absurda e supérflua como a dela. que se sentiu repentinamente culpada e teve horror de si própria. Viu apenas os cabelos sem cor pelo falso brilho da luz. tapeçarias de veludo bege. Tinha de falar baixo. Não os quadros. um Cristo na cruz. Era uma pequena tela quadrada com uma etiqueta. Tentava interessar se pêlos quadros. o bom senso. Era aquele sol expurgado. o que dava logo o tom. J E A N P AUL SARTRE uma paisagem bretã com um calvário. Ivich não dizia nada. ao olhar aquele retrato pela primeira vez.. sem falar. era preciso escondê los de tanta gente. Pensou de repente com paixão: «Seria meu. Sou livre perante eles. de nunca se esquecer da mais francesa das virtudes. Era uma luz dourada que dava nos olhos e se fundia em tons de cinzento. não tocar nos objectos expostos. mas mãos de Mathieu. seria meu!» Mas aquele desejo secreto. as cores pastosas sobre as telas. Mathieu tinha o achado belo. VI v ia se por cima da porta o emblema da República e as bandeiras tricolores.. Mathieu estava sobressaltado com a realidade. transido pelo espírito da Terceira República. pensava irritado. Depende de mim que existam ou não.

Era uma competência. O corpo tinha se tornado num fruto grande e mole dos trópicos. Ivich deixou se cair na poltrona às gargalhadas. tche. Certamente a luz das exposições nacionais era a que lhes ia melhor. da R. Mathieu ouviu um soluçar estranho e voltou se. O homem e a mulher aproximaram se. — É verdade — disse com uma voz aflautada —. Mas estava só. Ivich teve de se pôr de lado porque impediam que fosse vista. fazia se passar por Cristo! E aquele anjo ali. A mulher pôs se a rir. «Ela já não está zangada». Ivich tivera um ataque de riso e olhava o com desespero mordendo os lábios. Tinha uns olhos redondos e cabelos brancos. esse anjo é literário como tudo! J E A N P AUL SARTRE — Não gosto de Gauguin quando pensa — disse o homem. Por trás dele havia presenças obscuras.tinham se apagado e parecia monstruoso que no fundo de todo aquele bom senso houvesse gente capaz de pintar. Gauguin. isto não é a sério. de expor nas telas objectos inexistentes. tinha ao seu lado um corpinho rancoroso. pensou Mathieu com alegria.) Mal entraram. Devia ser a força do hábito. com profundidade. demoníacas formas negras. Contemplava Gauguin com os seus olhos redondinhos. Da primeira vez que vira aquela carne obscena e terrível. Entrou um homem e uma mulher. A solidão e o orgulho tinham lhe devorado o rosto. Mathieu tinha se comovido. 1 Indígenas da Nova Zelândia. A mulher era do tipo gazela e devia ter uns quarenta anos. tche — murmurou meneando a cabeça. seco e elegante no seu fato distinto de flanela cinzenta diante do enorme corpo nu. nu até à cintura. O homem inclinou se para trás e olhou a tela com uma severidade depreciativa. uma grande imundície na parede. (N. — Também é dele. e Mathieu sentia vergonha de si próprio. Perdera a dignidade — aquela dignidade humana que Mathieu ainda conservava sem saber o que fazer dela —. atrás dele. — O verdadeiro Gauguin é o Gauguin que decora. mas mantinha o orgulho. Condecorada. Mathieu mostrou a Ivich uma grande e sombria mancha de bolor na parede do fundo. fixava neles o olhar duro e falso dos alucinados. Os cabelos caíam lhe para a . Agarrou lhe no braço e conduziu a até uma poltrona de couro no meio da sala. foram colocar se com desembaraço diante da tela. — Não gosto nada disto! Palavra de honra. num céu tempestuoso. O homem era alto e rosado. Era de mais. — Tche. Agora. mostraram se à vontade. havia urna relação visível entre o seu aspecto de juventude e a qualidade da luz.

Levantou se. — Se não fosse público — tentava retomar o tom de alegre familiaridade que lhe era habitual —. — É como se me picassem os olhos com alfinetes. Lá fora. deixa me. Gostaria de passear ao ar livre. Oh! — disse furiosa —. como havíamos de fazer para lá ir? — Não íamos — disse Ivich secamente. Mathieu seguiu a deitando uma olhadela de pesar para o grande quadro da parede à esquerda. Calaram se. Não tinham uma expressão completamente viva. Pareciam consultar se sobre a atitude que deviam tomar. pensou com angústia. — Isto não devia ser público — disse Ivich de repente. a rua ardia. — Ivich — murmurou. — Não tem nada de especial para fazer? — perguntou. — Como é que ele dizia? Não gosto de Gauguin quando pensa. — Quer ir se embora? — Preferia. sem querer.» E de repente foi invadido por uma certeza insuportável. — Não — disse melancólica —. Mathieu teve a impressão de atravessar uma fogueira. Duas mulheres caminhavam descalças num capim cor de rosa. Estes quadros fizeram me outra vez dor de cabeça. Deram alguns passos.cara. — Há outros quadros na sala — disse Mathieu timidamente. Ivich desviou as mãos e Mathieu viu lhe os olhos pálidos e franzidos. Mathieu pensou: «Continua aborrecida comigo. Há pessoas. E a mulherzinha. Desejaria ter lho mostrado. «Ela quer acabar com tudo.. Estão bem um para o outro! O homem e a mulher mantinham se impassíveis. A outra estendia o braço com uma tranquilidade profética. Uma delas tinha um capuz.. Parecia que tinham sido surpreendidas quando se metamorfoseavam em coisas. Ivich parou de rir. — Cuidado com o passeio — disse Mathieu. Deve estar à procura de uma frase cortês de despedida. Ivich titubeava ligeiramente e continuava a tapar os olhos. Atravessaram a rua em silêncio. — Refere se às exposições? — Refiro me. — Quando? . Era feiticeira. Mas eu não quero que ela me deixe». Não pensa noutra coisa. detesto o Verão. Quando a encontrar. agora já não é a mesma coisa. — É formidável — disse em voz alta. Ivich fez uma careta e levou a mão aos olhos.

e ela respondeu: «Que horror. Acabou por perguntar. «Ela fica. Era preciso falar. Apesar de tudo. Mas não volto para o Lar.. A — Gauguin? Não sei. Enquanto estivesse com ele.» Voltou se para ela. J E A N P A U L SARTRE — Visto que quer passear.» O que não provava que lhe tivesse perdoado. Mathieu encolheu os ombros. Os pintores eram homens como os outros. não me poderei defender. pensei. — Não nada. Parecia lhe que existiam desde sempre. — Sim. Um dia. Abandonava se com uma indolência mal humorada às situações mais desagradáveis e acabava por encontrar nelas uma espécie de descanso. — Aí está uma ideia que não me teria surgido — disse Mathieu com surpresa. — Naturalmente. Os quadros eram coisas. se se impusesse.. porque o futuro a apavorava.— Agora. Ivich não gostava de deixar os lugares e as pessoas. Perguntava se tinham sido simpáticos. desajeitadamente: — Apesar de tudo gostou de ver os quadros? Ivich encolheu os ombros. — Acha que ele era doido? — perguntou bruscamente Ivich. Mathieu teve vontade de limpar a testa. Se falasse continuamente. Mathieu perguntou lhe se gostava das telas de Toulouse Lautrec. e as palavras não lhe saíram. de qualquer coisa. ele era tão feio!» Mathieu sentiu se pessoalmente magoado. coisas belas e sensuais que se deviam possuir. graciosos. Mas Mathieu não encontrava nada para dizer. podia atrasar um pouco a eclosão dos pensamentos coléricos e desprezíveis que lhe iam nascer. mas viu lhe um olhar desvairado. tenho de lhe explicar. era belo — disse Ivich com convicção. . mas não se atreveu a fazê lo. Acrescentou com pesar: — Era belo. impedia a de pensar. ainda que os odiasse. Mathieu estava contente. se tinham tido amantes. vou ter com Boris. aborrecia se de ir comigo até casa do Daniel na Rua Montmartre? Podíamos separar nos à porta e deixava me pagar lhe o táxi para voltar ao Lar. imediatamente. — Se quiser. E havia também aquelas formas negras atrás dele que pareciam conspirar. Os estudantes da Sorbona. Ivich tinha uma maneira de falar dos mortos ilustres que o chocava um bocado: entre os grandes pintores e os quadros não estabelecia qualquer relação. não os apreciava e não os respeitava. Não é possível deixá la partir assim. É por causa do retraio que pergunta isso? — Por causa dos olhos. «Daqui a uma hora ficará livre e há de julgar me sem apelo.

Era apresentada na Corte. — Sim — disse Mathieu no mesmo tom —. Mathieu disse.» As mulheres também as podia achar belas. no colégio das raparigas nobres. — Tem um ar nobre — disse num tom neutro. Depois Ivich disse abruptamente com um ar estúpido e fechado: — Os Franceses não gostam do que é nobre. e sempre com aquela expressão estúpida. um burguês de nacionalidade francesa que não gostava da nobreza. compreendo isso muito bem. Ivich falava de bom grado do temperamento francês quando se encolerizava. passeava com Mathieu. — Foi — disse Mathieu com solicitude. carinhosamente: — Eu não queria dizer mal dele. Acrescentou. bem sabe que aprecio as pessoas que são orgulhosas. — Que foi. casava com um oficial da guarda. De fora. — Disse por dizer. O Sr. alto e belo. — Eu não o acho simpático. Ivich fez uma cara de desprezo e calou se. Ivich? — disse Mathieu com vivacidade. isso deve parecer tão exagerado! Mathieu não respondeu. O seu ar de orgulho dá lhe um olhar de peixe morto. Ivich teria sido educada em Moscovo. de olhar mortiço. — Porque é que disse naturalmente? — Porque tinha a certeza de que ia chamar a isso arrogância. Serguine A era agora proprietário de uma serração mecânica em Laon. de testa curta. Não aquele homem maduro que fizera quadros de que ela gostava. — Quer que lhe conte a história? — Parece me que a conheço: era casado. Mas não Gauguin. tinha filhos. Houve um longo silêncio. O pai de Ivich era nobre. não é . — Censura me porque não o acho simpático? — Não. Porque é a minha impressão. — Foi esse Gauguin que fugiu? — perguntou de repente Ivich. Sem a revolução de 1917. se é isso que quer dizer. uma certa arrogância. E até Mathieu a tinha achado encantadora uma vez em que ela olhara demoradamente um pupilo do orfanato acompanhado de duas religiosas e dissera com uma espécie de gravidade irrequieta: «Tenho a impressão de que me estou a tornar pederasta. Adquirira uma expressão de obstinação insípida.insignificantes e frescos como raparigas. Ivich podia os devorar com os olhos à vontade. mas pergunto a mim própria porque é que disse isso. Ivich estava em Paris. Ivich desatou a puxar um caracol dos seus cabelos. conciliadora: — Aliás. — Naturalmente — disse Ivich a rir.

antigamente. Estou a vê lo a fazer conferências para estudantes americanos numa universidade. Por higiene. de segunda classe. Um amador que esborrata telas ao domingo. — Acha que preciso de cabinas de luxo? — perguntou ele. — Então no que é que pensava? — Estava a pensar se também se podia falar em escritores de domingo? Escritores de domingo! Pequenos burgueses que escreviam anualmente uma novela. mas para Nova Iorque. em missão. Era o que chamamos um «pintor de domingo». Era saudável. de qualquer maneira. Esta história é ainda mais cómica porque veio a propósito de Gauguin. mas não com a expressão que Mathieu esperava. Não o fiz porque era absurdo. acho estranho vê la decidir sobre a minha possibilidade de partir. pensou. Quem sabe lá se um belo dia não partirei para o Taiti? Ivich voltou se para ele. Ivich pôs se a rir. está enganada. assustava se com a sua própria ousadia. — Pintor de domingo? — Sim. compreende porque se pintam paisagens no campo. J E A N P AUL SARTRE — Refere se a mim? — indagou a rir. — Não era nele que eu pensava. «morreria.» — Enfim — concluiu —. Gostaria de ir para a América! Ivich puxava os caracóis com violência. que foi precisamente um funcionário até aos quarenta anos. Ele sentiu dificuldade em engolir a saliva. — Bem viu que isso leva às maiores loucuras. Talvez por ser francês. — Porque não? Talvez não para o Taiti. Tinha um ar mau e amedrontado. A princípio era isso. e ela continuou: — Talvez me engane. mas não no convés de um navio de emigrantes. da mesma maneira que se pesca à linha. para realizarem o seu ideal na vida.isso? — É! Trabalhava num banco e ao domingo ia para o campo com o cavalete e uma caixa de tintas. — Isso surpreender me ia muito — disse com voz glacial. olhou o de frente.. Tive muitas vezes vontade disso. — Acha engraçado que ele tenha começado como um pintor de domingo? — perguntou Mathieu com inquietação. ou cinco ou seis poemas. Aliás. Mathieu olhou a em silêncio. — Sim — disse —.. Mathieu estremeceu. — Não — respondeu secamente Ivich —. respirando o ar puro.. com outros professores. «Gostaria de a ver num convés de um navio com os emigrantes». .. corando.

— Ivich! Vai dizer me o que é que está a magicar. Enrolava um caracol no dedo e puxava o como se o quisesse arrancar. era isso — disse Mathieu. — Para quê? — Para ver que não deve haver muitos funcionários daquela espécie. E sempre assim. — Ainda estamos a falar disso? — É estúpido. — Ah!. — Ah. — Não é verdade? — indagou Mathieu. — Aliás. visto que o disse. olhando para a ponta da sapatos: — Você já está instalado e não mudaria por nada deste mundo. . Olhou indefinidamente. recusa se a dar explicações. Apoiava se ora num pé ora noutro e evitava o olhar de Mathieu. Em todo o caso basta olhá lo na tela para. não vejo porque é que isso havia de ser uma qualidade — disse ele —. De repente disse: — Tanto se me dá que seja assim ou assado. Ivich sorriu com desprezo. Tinha ar de querer dizer qualquer coisa. Mathieu parou e olhou a. — Bem. — É.. tinha aceitado perdê la. — Quem é que lhe disse isso? — É uma impressão. Ivich parou também. Gauguin tinha perdido a dignidade humana. Foi uma palavra que me veio à cabeça. e Mathieu imaginava que ela ia falar. a impressão de que você já tem a vida organizada e com ideias sobre tudo. não sou um homem perdido. nada. Calou se. depois... — Não censuro ninguém — disse ela com indiferença. não! — disse Ivich.. com uma expressão ligeiramente desvairada. de má vontade. — Na grande tela do fundo? Estava muito doente naquela altura. De vez em quando abria a boca. — Estou a ver — disse. mas não dá um passo para as apanhar. É demasiado cómodo. — Claro.. Ivich recomeçou a puxar os cabelos.. e Mathieu sentiu pela segunda vez ciúme. ou então não estou a perceber o que quer dizer. J E A N P A U L SARTRE — O quê? — Nessa história de homem «perdido». Era exasperante. Faz censuras veladas e.. não se fala mais nisso. Mathieu lembrou se do rosto pesado e do queixo enorme. perdido. — Nada. Mas não saía nada. — Estou a falar do quadro em que ele é ainda jovem: parece capaz de tudo.Ivich desatou a rir ironicamente. Estende as mãos para as coisas quando julga que estão ao seu alcance... — Evidentemente! Se é isso que quer dizer. mas quero saber o que pensa exactamente sobre isso.. Acrescentou rapidamente. Ele parecia.

— Acha isso desprezível? — Pelo contrário — respondeu Ivich. Mas tenho horror — disse com uma violência repentina — que me imponham obrigações para com as coisas de que gosto.. os olhos brilhavam lhe.. Pensava que ela tinha razão. A — Ah! — disse Ivich triunfante. — Se quer dizer que não tenho caprichos.— Quem é que lhe disse isso? — repetiu Mathieu... não gostava disso — repetiu Mathieu. Não conseguia dizer outra coisa.. descobrindo o rosto largo e pálido. mas não acho bem.. — Ivich! — disse Mathieu... — Acho muito melhor assim. não há que recear imprevistos. com indulgência. — Julgo que não se quer arriscar. explicara lhe os .. Ivich. — Não — disse em voz baixa —. indignado. estabelecia um programa. tão metódico. a vida devia ser impossível. como qualquer outro. Mathieu estava aterrado. Acrescentou com uma expressão falsa: — Mas como me diz o contrário. estou Ihe muito grata. sou assim mesmo. Não gostava de ir a concertos e exposições? — Gostava. Olhava os lábios finos e moles de Ivich e perguntava a si próprio como os tinha podido beijar. Ela murmurou. Levantou a cabeça e alisou os cabelos para trás. — Era para si! — Eu sei — respondeu Ivich com delicadeza —. — Eu sei. como imagina. — Com efeito — atalhou Mathieu secamente. Mathieu pensou de repente em Marcelle e teve vergonha. sem que se percebesse a mais pequena ironia na sua voz: — Consigo sentimo nos em segurança. — Devia ter dito — continuou desolado. — Não compreendo. — A que propósito diz isso. tudo o que faz é.. Ivich? — A propósito de tudo — disse ela com ar vago. — Nunca a teria forçado... deve estar a pensar nalguma coisa de especial.. — Julgo — disse Ivich com lassidão. Levara a aos concertos. às exposições.. — Ah!. Com Gauguin. sem o olhar: — Todas as semanas chegava com a Semaine à Paris... Mathieu estava mais surpreendido do que chocado. Mathieu sentiu se empalidecer. — Como diz isso sem convicção! — Gostava realmente muito. que é demasiado inteligente para isso. Poderia tê los. — Não. Acrescentou...

pensou. — Não voltará a acontecer. Acrescentou: — Vou tentar mudar. nem sei como aconteceu. — Que me importam os quadros — disse Ivich sem o ouvir —. — Ivich! Peco lhe desculpa do que se passou esta manhã. e durante alguns instantes Mathieu acompanhou o. e Mathieu continuou com esforço: — Há também os museus.. Ela levou a mão à testa e apertou as fontes com os dedos. com o olhar. Mas vinha lhe outra do fundo da garganta. se não os posso ter.. E sentia o a meu lado. Ivich não respondeu. Você ia a essas exposições como se fosse à missa. Estavam inundados de luz e odiavam se. mal me podia conter de raiva e vontade de os levar. os concertos. Desculpe. Pensamos agradar às pessoas. Pensava em Gauguin. Imaginava que ia parar a cada palavra. Mas ao mesmo tempo. Falava por descargo de consciência. vn N u até à cintura. — Até logo — disse ela. «Sou repugnante». Foram os quadros. (Bateu o pé e olhou Mathieu com desespero. Todas as vezes. — Ainda é longe? — Um quarto de hora. E sempre a mesma coisa. Aliás. e Mathieu detestou a francamente. Agora. e durante todo aquele tempo ela odiava o. tinha pressa de ficar sozinho. Mas você nunca dizia nada. Depois uma porta bateu dentro dele. — Não se pode mudar — disse. aos arranques. Mathieu via se com os olhos de Ivich e sentia horror por si próprio. e pôs se a pensar em Marcelle. Mathieu chamou um táxi. — Quer ir se embora? (Mathieu estava quase aliviado.. Calaram se.quadros. tranquilo e reverente. Daniel barbeava se diante do espelho do . Ivich sacudiu a cabeça. — Até logo — disse Ivich sem o olhar. Mathieu pensou: «E o Sumatra? Deverei lá ir apesar de tudo?» Mas não tinha vontade de a tornar a ver. Sabia que a sua causa estava perdida. Ivich conservava a sua expressão dura. Mathieu sentiu de repente um nó na garganta.) — Acho que é melhor. O táxi afastou se. e nem sequer lhes podia tocar. Adoptara um tom de bom senso.) Já os confunde. Falava com repugnância. — Esta manhã? Nunca mais pensei nisso. baralham se me na cabeça. Uma cólera desesperada ardia lhe no rosto. trancou se. Se soubesse como lamento.. erguia lhe a língua e saía. Caminharam lado a lado. angustiado. Está cansada? — Muito. silenciosos.

com o coração aos saltos. ao meio dia. Doíam Ihe os olhos porque havia dormido muito mal e tinha uma espinha sob o lábio. à luz da lâmpada eléctrica. «Um rosto escalavrado não deixa de ser um rosto.» Foi como um leve roçar. Daniel apurou o ouvido: «Não. em plena puberdade. Todas as manhãs. Um rosto de arcanjo. Agora era assim. Inclinou se ligeiramente e com um golpe hábil de navalha decapitou a espinha. cada vez que bebia. de faces azuladas. sempre significa alguma coisa. A coisa já lá estava.» Tornou para o quarto e voltou a barbear se. A porta do quarto de dormir estava entreaberta para ouvir melhor. nem mesmo aproximá la para que acabasse mais depressa. disse em voz alta. Daniel saltou com a navalha na mão. fixo e redondo. e lançar lhe ia um olhar severo. quase imperceptível. tinha a certeza. paciência. Via no espelho o rosto moreno e nobre. tudo estará acabado. Era preciso vivê la. de maneira a não se cortar. Ficará chocada quando vir que tenho pêlos no peito. Para além disso. uma manchazinha vermelha com um ponto branco. ao voltar da escola. Tinha também aquelas olheiras roxas e pensou: «Estou a dar cabo de mim. Ao mesmo tempo escutava.» Aproximou se do espelho e . Devia ter se escondido na reentrância de um dos patamares e aguardava. colocava flores diante da porta de Daniel.» Marcelle alcunhara o de querido arcanjo» e agora tinha de suportar os olhares daquela femeazinha.» Apareceria. Ficaria um pequeno tufo de pêlos pretos. Não se podia tentar afastá la. Daniel descobriu no capacho a seus pés um ramo de cravos: «Fêmea imunda». mas o meio dia já estava no quarto. a criança tinha o pressentido e fugira.armário. eram os ruídos da rua. nu da cintura para cima. Só assim a conseguirei apanhar. Abriu bruscamente a porta da entrada. como um olho. no ruído leve da navalha. Pensou: «Ela gosta da minha cara.» Não era um simples projecto. «Tenho de ficar à espreita no vestíbulo uma manhã inteira. Daniel tinha medo dos arranhões. simplesmente. nada a não ser uma tarde vaga que se retorcia como um verme. «Hoje de manhã. irritado. Pensou com uma espécie de mal estar: «E isso que a excita. Tinham acabado de dar as dez horas. Dizia para si mesmo: «Desta vez não me escapa. Bastava ver aqueles olhos de peixe frito quando lhe dizia bom dia. Com um pontapé atirou os cravos escada abaixo.» Olhou a espinha vermelha e febril. Da cara e dos ombros. Tarde de mais.» Tomava cuidado ao passar com a navalha à volta da espi J E A N P AUL SARTRE nhã. Não seria má ideia desfigurar este rosto de que elas tanto gostavam. porque tem imaginação. sustendo a respiração. Era a filha da porteira. pensou Daniel. ainda me aborreceria mais depressa. «Imundas». Aquilo já durava há quinze dias.

Daniel gostava menos dela porque era comediante e servil. O relógio de Daniel marcava dez horas e vinte e cinco. pulou para o fogão a gás. Pareceu espantada. virou se de costas então. «Ah». gosto de ser belo. Entreabriu a porta da cozinha e assobiou. Não eram cães que deviam lá ter posto. tinham nos encurralado numa rua. fechado em sacos e abandonado numa ilha deserta. Tinha de perder um quilo. uma mesa. e . Gostava do seu quarto porque era impessoal e não o atraía.contemplou se sem prazer. depois olhou em volta. O vento do mar alto trazia por vezes os uivos deles aos ouvidos dos marinheiros. pensou ele. Beliscou as ancas. J E A N P A U L SARTRE dava lhe pequeninas patadas na manga. até ao meio dia. Viu o grande cesto de vime. estendeu as patas e ele fez lhe cócegas nas tetas escondidas sob o pêlo negro. aberto no meio do compartimento. sozinho no Johnny's. à noite. predestinada. espreguiçando se. Daniel ajoelhou se e. Era uma gata de telhado. eufórico. «Popeia» — chamou Daniel. «espera um pouco. «Cipião» apareceu primeiro. Era branco e ruivo. Coçava a cabeça contra o batente da porta. «Malvina» veio a seguir. mas encolheu se e depois resolveu ronronar. pôs se a acariciar lhe o focinho. Olhou duramente Daniel e bocejou com ferocidade. Quatro paredes nuas. «Cipião» ficou lá sem se mexer. Era hoje. um armário. com ternura. Daniel não tinha recordações. Sete uísques na véspera. e a manhã entrou no quarto. Daniel não gostava dos cães. Disse: «Aliás. Daniel tinha a encontrado no Luxemburgo.» Pegou Ihe pelas patas e pô la ao lado de «Cipião». Quando ela o viu. «Popeia» nunca vinha quando a chamavam. uma cama. Não se decidira a voltar para casa antes das três horas porque era terrível pôr a cabeça no travesseiro e deixar se afundar nas trevas imaginando que ia haver um amanhã. abafada. pôs se a ronronar e a fazer gracinhas. Daniel pegou lhe pelo pescoço e meteu o no cesto. Logo que percebeu que ele a estava a ver. Daniel roçou lhe o dedo pelo pescoço rechonchudo. assanhando se. Daniel deixou se flutuar no calor estagnante. uma manhã pesada. numa noite de Inverno. duas poltronas. «Espera um pouco». e desviou os olhos. com uma grande cicatriz no flanco direito. Depois abriu a janela. pouco antes do encerramento do jardim. — «Popeia». Daniel pensou nos cães de Constantinopla. de olhos semicerrados. ah!» Ela enrolava se de um lado para o outro com movimentos graciosos de cabeça. O gato.» Parecia cansado. escolheu com atenção a gravata: a verde às listas porque estava abatido. uma cadeira. disse com uma voz cantante de comediante. «ah. Enfiou uma camisa de seda creme e umas calças de flanela cinzenta. Durante um segundo. beatificado. Daniel teve de ir buscá la à cozinha. com uma barbinha. Comeram se uns aos outros. Dir se ia um quarto de hotel. A seguir.

é assim?» Agarrou a pela nuca e pêlos rins e enfiou a à força. «Ah!. e sorriu lhe sem a olhar. Hesitou. e ela voltou se raivosa e deu lhe uma unhada.trouxera a. «Gatos. uma dorzinha seca. Agarrou no novelo de fio e guardou o no bolso das calças. Daniel gostava dela. Tinha a impressão de que estava a pregar uma boa partida a alguém. Os outros dois tinham ficado um ao lado do outro. Na escada já se sentia indiferente e seco. Levantou se e olhou para o cesto com uma satisfação irónica.» Imaginava a sua posição humilhante e grotesca. A porteira estava à porta da rua e sorriu lhe. bom. depois. ronronando. Cómico e um bocado ridículo.» Riu se.» Nas costas da mão havia três arranhões e no seu íntimo havia também uma comichão estranha que ameaçava envenená lo. Sorriu e escolheu o casaco de tweed arroxeado que já não podia suportar desde Maio. Daniel contemplou os com um alívio maldoso: «Um bom guisado. como se fossem cócegas. teve uma espécie de enjoo. A gata teve um momento de estupor e Daniel aproveitou o para baixar a tampa e fechá la. como de costume: «É raro um gato olhar nos de frente. mordia muitas vezes «Malvina». Gostava de Daniel. o seu terror raivoso. Passou lhe o dedo no focinho e ela mordeu o com raiva e divertida ao mesmo tempo. mas passou lhe logo. Quando atravessou a porta de entrada. Mas para fazer «Popeia» entrar no cesto foi um castigo. Então beliscou lhe o pescoço e ela ergueu uma cabecinha obstinada. vou ter calor. porque ele era muito cerimonioso e bem educado! . mas não tinha o hábito de ceder facilmente aos próprios desejos e. «Presos. «Bom. «Uf!» A mão ardia lhe um pouco. pequenos mamíferos vaidosos e estúpidos e que morriam de medo — nada de extraordinário. mas olhou o bem de frente. simplesmente gatos. Tomou a nos braços e ela esticava a cabeça para trás. «É longe. Não ronronava («Popeia» nunca ronronava).» Mas sentiu que uma intolerável A IDADE DA RAZÃO angústia o invadia e teve de desviar o olhar. Teve de a empurrar pelo rabo. insípido. uma insipidez de carne crua. Dir se ia um canto de cigarras.» Pensava nas tetas rosadas de «Malvina». baixando as orelhas e curvando se toda. Parecia escandalizada.» Queria vestir o casaco de flanela. estúpidos. JEAN PAUL SARTRE apenas gatos. o vime gemeu sob as garras de «Popeia». corado e a suar com aquele fardo nos braços. seria cómico andar ao sol. Era voluntariosa e má. Pegou no cesto pela asa e pensou: «Como são pesados estes infelizes animais. «Era isto que eu gostava tanto de fazer!» Bastara lhe fechar os três ídolos dentro de um cesto de vime e tinham voltado a ser gatos apenas. minha rainha». bom. e Daniel pensou.

com uma garra de ferro a apertar lhe o crânio. Sereno. «não faltava mais nada. nadava na luz. — Que cesto tão grande! — São os meus gatos. tão tranquilo. pensei. estava tão exausta que adormeci sem apagar a luz. «Não vou desmaiar assim sem mais nem menos». minha senhora — respondeu Daniel respeitosamente. não há nada como uma manhã de bruma. Acrescentou. dir se ia um chimpanzé. com manchas esverdeadas de óleo por causa das fábricas de Vitry. tenho tempo. quando ia lá acima arrumar. tinha a impressão de se destacar de si mesmo. com uma espécie de prazer. Sentia se interiormente tão bom. Apaguei a logo a seguir. A um quilómetro dali. aquela horrível luz quente e aguda. faria melhor se vigiasse a filha.» Atravessou o portão. — Ah!. Daniel contemplou se a si próprio com nojo. Não via nada. fechado e no fundo havia uma pobre vítima que pedia clemência. O senhor deve estar muito aborrecido. Daniel sorriu. O veterinário acha que precisam de ar. por mais que fizesse. «Dr. Sorriu gravemente e deixou a. Não. Hyde.» A água do Sena era particularmente escura e suja naquele lugar. traiu se.» O 72 levá lo ia a Charenton. que isso não lhe parecia natural. — Estão doentes? Coitadinhos! — Não. «É estranho que se possa odiar a si mesmo como se fora outra pessoa!» Mas não era verdade. trate bem deles. «Ah!». só havia um Daniel. Daniel conhecia um sítio solitário ao pé do Sena. gravemente: — Sabe que os gatos podem ficar tuberculosos? — Tuberculosos? — disse a porteira. Era rígido. vou levá los para a casa da minha irmã em Meudon. de planar como um juiz abstracto acima de um formigar impuro. Fazia Ihe mal aos olhos. De repente viu a própria sombra grotesca e disforme. «Velha toupeira. Senhora Dupuy — disse Daniel. nada de táxi. Hyde até à paragem do 72. com a sombra da prisão de vime que lhe balançava no braço. e . não? — Mais ou menos. Devia tratá los mal na minha ausência: bem a proibi de lhes tocar. era muito alto. — Muito. Mas o seu apartamento vai ficar vazio. disse. — Veja lá — disse a porteira a rir —. e a luz ofuscou o. — Voltei tarde ontem à noite e vi luz por baixo da sua porta. — Receava que estivesse doente.— Levantou se muito cedo. mas a sombra permaneceu atarracada e disforme. Serei Mr. Sereno» (era o único inquilino que faltava entrar). corno tinha previsto. Eu já me tinha habituado a vê los. Quando se desprezava. assustada. Quando se bebe na véspera. Eram três horas mais ou menos. Pensou: «O homem é assim». tão bonitos. Jekyll e Mr. «aí está o Sr. Sr. Empertigou se. De repente ouvi a campainha.

Desceu do banco. Agora só havia na prisão um pavor maciço e indefinido. Mas não tinha vontade de levantar a tampa. l DADE DA RAZÃO e Daniel não poderia suportar isso.bruscamente aquilo apanhava o e sentia se mergulhar em si próprio. tanto lhe fazia. Eu não sou. O empregado limpava as mesas de madeira avermelhada em forma de tonel. pôs vinte francos na mesa e pegou no cesto. eu gosto de uísques bem doseados. sem fazer objecções. «Que fossem passear com aquela mania de catalogar os indivíduos. — Não — disse secamente Daniel. aquele tem sempre uma boa para contar. Rua Tailledouce. são demasiados familiares. como sempre. arranhavam se lá dentro. o gin fizz sabe a limonada purgativa. O cesto mexeu se sozinho no seu braço. viu no chão uma manchazinha vermelha. não sabia se lhe causava prazer ou mal estar. Aliás. Ao levantá lo. pensou. Devia estar magoado.» Tinha de fazer apenas um pequeno desvio e ficaria no Championnet. o bar estava vazio. e a cegueira recomeçava. Isto não me faz nada. Aquele terror que sentia tão próximo da mão. «Tanto melhor. «É sinistro ver com clareza». cheques sem cobertura. «Que é que nunca mais acaba?» Ouviu se um miado e um ruído de garras a raspar.» —. «Que estarão fazendo aqui dentro?». angustiado. «Ah!. iria até ao fim do mundo — até ao fim de si próprio.» — Um vodka com pimenta num balão — pediu. claras e leves como fumo. «Há no entanto qualquer coisa que os . Este dá boas gorjetas. «vou beber um copo. O barman assustou se. na frente.. a cem passos. não o suportaria. Aliás. Sangue. — São gatos — disse Daniel. Quando empurrou a porta. o terror transformar se ia em gatos. como guarda chuvas ou máquinas de costura... Bebeu o vodka e ficou um momento a sonhar. Pensava: «Isto nunca mais acaba. secamente. pensou. O silêncio repousante.» Mas eram pensamentos superficiais.. com um fogo de artifício na boca. A obscuridade era agradável. uma cegueira lúcida e húmida: os olhos ardiam lhe como fogo. — Vai com certeza querer um uísque bem doseado — afirmou o barman. Assim é que imaginava o Inferno: um olhar penetrante que atravessaria tudo. nunca se é nada. «Merda!». se abrisse. um gin fizz! O barman serviu o. Mas definem as pessoas num instante. «Que violenta dor de cabeça!» Pousou o cesto. No fim da rua havia um muro azul. Nunca mais porei os pés neste buraco. E se eu levantasse a tampa?» Mas Daniel já tinha saído. depois sentou se num banco do bar. pensou Daniel. e de repente apercebeu se de que via casas. Espalhava se em poeira ácida sobre a língua e acabava num gosto de aço.

A — Achas que sim? Escuta. — São seus? — indagou a menina.sossega: o meu cheiro. x — Comigo não serão maus. «A água do Sena vai enlouquecê los. A menina falou com uma voz convincente e encantadora. querida — disse Daniel em voz baixa e rapidamente —. estava farto. — Até ao fim da linha. vai encher o cesto e eles vão ferir se com as garras. — São. digna e rígida. os gatos. Quando se arma em trágico. O autocarro surgiu de repente. «Há piores. com uma vozinha clara. prisões de vime: prisões.» A água cor de café com leite com reflexos roxos. O cesto miou. deambularia sem cheiro. Mas a montra de uma tinturaria reflectiu lhe a imagem. — Porque é que os carrega num cesto? — Porque estão doentes — disse Daniel. uma menina. Via se chegar e era apenas um simples olhar.» Parou. Daniel fez sinal e subiu para a primeira classe. Daniel. Sem cheiro e sem sombra. Paciência. eu vou afogar estes gatos. nunca Daniel levava as coisas a sério. a suar. docemente. pensou Daniel. — Tchiu — disse a mãe —. . Daniel reparou que estava a alguns passos à frente do seu corpo.» Encolheu os ombros. insossa e lodosa. — São gatos — disse Daniel. Daniel já não teria aquele cheiro familiar. sacos de couro. deixa o senhor sossegado. Tonéis. E nunca.. nada mais do que um invisível arrancar de si próprio para o futuro. pôs o cesto no chão. é porque se leva tudo a sério.. sozinho entre os homens que não têm sentidos suficientemente apurados para essa percepção.» Daniel pensou: «Para eles sou um cheiro. estás a abusar. A água do Sena. coxeando ligeiramente por causa do peso que levava. pensou: «E um acto gratuito. perto do lampião e que se olhava e se via chegar. sem passado. ele próprio. Uma mulher sentou se diante dele. E sabes porquê? . e Daniel estremeceu como se tivesse sido surpreendido em flagrante delito de assassínio. Chatear se através do mal feito aos outros. Nunca se pode ser directamente atingido. A menina olhou para o cesto com curiosidade: «Mosquinha imunda». — Não posso mostrá los. encheu se de uma água lodosa e insossa. Foi invadido por um imenso nojo. Ao lado. Mais cheques sem cobertura. a doença tornou os maus. Não queria armar em trágico.» Dentro em breve. — Que é? — perguntou a menina. — Seis bilhetes — disse o cobrador. — Posso vê los? — Jeannine — disse a mãe —. Pensou novamente em Constantinopla: fechavam as mulheres J E A N P AUL SARTRE infiéis dentro de sacos com gatos hidrófobos e atiravam nos ao Bósforo. e a ilusão dissipou se.

Não é o meu rosto. — Estás a ver — disse a senhora. pensou. pensou em Marcelle. espantada.» Ninguém detestava o rosto de Daniel. Não é nada. nem ódio. O carro estava vazio. O cesto desatara a miar ininterruptamente e Daniel quase corria. Cada miado era uma gota. Vai ser preciso arranjar um olho de vidro para ela. — É aqui. Via desfilarem pêlos vidros as casas cinzentas. Carregava um balde furado de que a água se escapava gota a gota. Daniel olhou a tranquilamente. deitando um olhar indignado sobre Daniel. Seria cómodo de mais!» Daniel reviu os olhos dourados de «Popeia» e pensou muito depressa noutras coisas. para o cesto e foi esconder se nas saias da mãe. a menina voltou se e deitou um olhar de terror para o cesto. Olhou momentaneamente. quando descansavam? Aquela deixara se cair com todo o seu peso dentro de si mesma e fundia se. Talvez as mãos. nenhum movimento. que é nova e macia. satisfeito. — Vem. O autocarro partiu e mais adiante parou. com pêlos negros sobre as falanges. Tinha os olhos fixos em frente. Nada havia naquela cabeça que se assemelhasse a uma fuga desesperada diante de si. sabia que a mulher o estava a olhar. cheia de terror. o senhor estava a brincar. Daniel apressou o passo e voltou numa rua suja que conduzia ao Sena. Pô las sobre os joelhos: «Olhe! olhe!» Mas a mulher desistira. Daniel sobressaltou se. «Nem a minha roupa.» As mãos eram curtas e fortes. «Uma mãe indignada! Está à procura do que poderá odiar em mim. não queres pensar nos gatos? Pois bem. Formara se um grupo de operários em volta de uma carrocinha. as mulheres olharam no surpreendidas. Levantou se e desceu. querida. Descansava.Porque ainda hoje de manhã eles arranharam horrivelmente o rosto de uma linda menina como tu. e uma expressão animada veio pousar lhe no rosto. Daniel contemplou a com uma espécie de avidez. — Término — gritou o cobrador. que não falasses à toa. Como faziam essas pessoas assim. Somente a massa espessa do sono. Ah!. — Estás a ver! Bem te disse que estivesses sossegada. «Ela odeia me». é aqui — disse. dois dias antes. è preciso que penses. Antes de descer. ganhara dez mil francos na Bolsa. — Oh! — disse a menina. ligeiramente gordas. que me veio trazer flores. «É preciso não pensar nos gatos. nem curiosidade. De ambos os lados havia tonéis e entrepostos. Daniel mudava de mão e limpava o suor da testa. com um ar indefinido. como és irritante e demorada! Pegou na mão da filha e arrastou a. nem mesmo uma ligeira ondulação. Era uma praça movimentada e cheia de bares. Acordou de repente. Algumas pessoas passaram a rir diante de Daniel. devia vê la . O balde era pesado.

e Daniel. Era ali. Ouviu se um grande barulho lá dentro e a seguir os gatos deixaram de se ouvir. Daniel desdobrava se. amarrou uma das pontas do fio à asa do cesto. deu vários nós e tornou a pôr a pedra no chão. e com o canivete cortou um pedaço de fio.. sentia se fraco e teve de se apoiar ao barril. Os remoinhos propagar se iam por baixo da água até à isca. Vai pensar que é um peixe. Operários saíram de um entreposto. Mas era um orgulho impessoal. Ia aproximar se da água e dizer: «Adeus ao que mais amo no mundo. Os gatos miaram como se tivessem sido escaldados. entre um barril de alcatrão e um monte de paralelepípedos. Que estranha engrenagem! Daniel calculou que teria de pegar no cesto com a mão direita e na pedra com a esquerda. Largaria tudo ao mesmo tempo. sentou se no chão junto a uma argola de ferro.. pois Daniel já não era ninguém. disse. Mas não quer. Manchou o casaco de tweed e ficou a olhar a mancha escura. «Arcanjo!» Daniel riu de troça: desprezava profundamente Marcelle. um pescador recortado a preto na luz. Colocou o cesto no chão e deu lhe um violento pontapé.» Era preciso prolongar aquele momento extraordinário. Daniel pensou que estava com calor. lá longe. mas não quis tirá lo. O Sena estava amarelo sob o céu azul. Barcaças negras carregadas de tonéis estavam atracadas ao cais na outra margem. e Daniel sentiu que perdia a cabeça. Se Mathieu visse as coisas como são. amaldiçoou o pesado casaco. sob um céu de chumbo. «Ele é normal. deu com ele a gemer.». Eles não têm coragem de confessar que não se amam. duro e seco. Não quer perder se. Daniel estava sentado ao sol e doíam lhe as têmporas.nessa noite. Olhou para a água ondulosa e inchada de fluorescências opalinas.. Pensou com orgulho em Mathieu: «Eu é que sou livre». Desceu por uma escada de pedra até à beira do rio. De repente sentiu que estava sozinho. O cesto flutuaria talvez durante uns décimos de segundo e a seguir uma força brutal arrastá lo ia para o fundo. Daniel ficou um momento imóvel com um estranho estremecimento atrás das orelhas. Dentro dele qualquer coisa palpitava que pedia clemência. Às onze horas e vinte e nove levantou se. tem de se fazer aos bocados. J E A N P A U L SARTRE «Às onze e trinta. e Daniel recomeçou a andar. Quando não se tem coragem de se matar de uma só vez. teria de tomar uma resolução. era o seu dia. pensou com ironia.. pegou com a mão esquerda numa pedra.. Que era apenas . Riu e tirou o lenço para enxugar o suor da testa. à esquerda. Sem se levantar. Sentia se perdido numa nuvem vermelha. Os ponteiros do seu relógio marcavam onze e vinte e cinco.» Ergueu se levemente sobre as mãos e olhou em volta: à direita a margem estava deserta.. enrolou o resto na pedra. Depois tirou do bolso o novelo.

Sou eu. Pegou no canivete. «Não está». Não chegava sequer a desprezar se. pensou. mas não pude separar me deles. sim. O táxi parou. «Vem a boa hora o desgraçado. subindo a escada. coxeando. Um covarde. foi o que ele me respondeu. tinha demasiada vergonha para falar diante de si. «pois então vou deixar lhe um bilhete debaixo da porta.» Sentia se contente por odiar outra pessoa.» Ela olhou o cesto e exclamou: — Mas o senhor trouxe os de volta! — Que quer. aquele de ombros largos. Mathieu entrou no quarto de Daniel e sentou se numa poltrona. Espantava se por sentir em si um certo entusiasmo. 22 — disse Daniel. Encontrou Mathieu no patamar do terceiro. — Táxi — gritou. — Há justamente alguém que acaba de subir. Quando chegou ao último degrau atreveu se a dizer a si próprio as primeiras palavras: «Que seria aquela gota de sangue?» Mas não ousou abrir o cesto. — Não compreendi nada das histórias da porteira. Depois a vergonha voltou mais forte e começou a ver se: era intolerável. Disse lhe que o senhor não estava.um solitário. o silêncio. «Ganhar dinheiro. — Fui levar os meus gatos a passear — disse Daniel. pensou amargamente. voltando a cara. O imundo. — Olá! — disse Mathieu. constatou sem alegria que estava cheia de dinheiro. Um tipo que gostava dos seus gatos e que não os queria deitar à água. Pôs se a caminhar. «Sou eu. Daniel deu lhe uma olhadela e reparou que estava com uma cara terrosa. pensou. Era como se passasse. — Entra — disse. — Quer ter a bondade de pôr este cesto aí à frente? Deixou se embalar pelo movimento do táxi. «E Mathieu». Dentro dele continuava o deserto.» — De volta. Isto posso eu fazer.» Mas no fundo dele havia um estranho sorriso: porque tinha salvado «Popeia». Daniel pôs a chave na fechadura e empurrou a porta. «Nem de uma vez só nem aos poucos». Sereno? — disse a porteira. perto de alguém que o desprezasse. Um amigo seu. — Rua Montmar tre. quero pedir te um pequeno favor. «Parece estar em dificuldade». — Sobes comigo? — Sim. Subiram. — Já não esperava ver te. Quando tirou a carteira para pagar. Pegou no cesto e voltou a subir a escada. minha senhora — disse Daniel —. talvez seja condenável. Em silêncio: mesmo dentro dele havia silêncio. Tinha vontade de o ajudar. Tocou lhe de leve no ombro e retirou imediatamente a mão. baixou se e cortou o fio. Sr. Reconciliaste te com a tua irmã? . Disse me que foste levar os gatos à casa da tua irmã.

infecta facilmente. viu que Mathieu olhava sem ver. Tinha de tratar daquele animal. meu caro — disse Daniel com a sua melhor voz —. A gata debatia se fracamente. «Está ferida». depois passou a mão pela testa com um ar de velho. Sobre o focinho havia uma crosta escura e em torno da crosta os pêlos estavam duros e viscosos. «Cipião» saiu por sua vez. — Desculpa.» — «Malvina» foi ferida — explicou. — Sê bonita — dizia Daniel —. «Acha me ridículo». pensou Daniel. Pensava em abrir o fecho. pensando: «Vão saltar me em cima. Daniel pôs se a lavar o focinho de «Malvina». Mas. para o curativo. . o seu ar de equilíbrio. Se fosse um miúdo. ele é normal. Daniel pôs lhe o dedo debaixo do queixo e levantou lhe a cabeça. Foi buscar uma garrafa de arnica e um pacote de algodão ao armário. Riu. acharia natural. o seu optimismo.» Sentia se separado dele por um abismo.» E avançou o rosto de maneira a ficar inteiramente ao alcance dos gatos. conservava a sua dignidade. «porque me preocupo com uma gata. é só um momento. pensou Daniel. à casa da minha irmã.Qualquer coisa arrefeceu subitamente em Daniel. durante algum tempo. — Que foi? — perguntou Mathieu. — Foi certamente «Popeia». Um bom aborrecimento não lhe faria mal. «Popeia» fugiu do cesto assanhada e correu para a cozinha. Pensava que assim afastava terrivelmente Mathieu e que isso lhe dava alento. «Que diria se soubesse de onde venho?» Fixou sem simpatia os olhos sérios e penetrantes do amigo: «É normal. Dirigiu se com passos medidos até ao armário. Recebera uma unhada nas narinas e tinha o olho esquerdo fechado. bem sabes. porém já não sangrava. Jazia no fundo do cesto. Mathieu acompanhou o com o olhar. atentamente. uma inocente mentira — disse. Perderia. Sabia que Mathieu não insistiria. com um olhar duro. só um minuto. É insuportável. mas não parecia muito confiante. Tinha se levantado e olhava para a gata. Mathieu tinha o hábito irritante de tratar Daniel como um mitó mano e pretendia não indagar os motivos que induziam Daniel a mentir. sê boazinha. vamos. Não te estou a aborrecer muito? — acrescentou com um sorriso amável. sem dizer palavra. Abrir o cesto o mais depressa possível: «Que seria aquela gota de sangue?» Ajoelhou se. olhou em volta com uma expressão matreira e escondeu se debaixo da cama. Efectivamente olhou para o cesto com certa curiosidade e calou se. aniquilada. J E A N P A U L SARTRE — Ah! sim. «Mal vina» não se mexia. Pronto. quando levantou a cabeça. Desculpa. — Dás licença? Daniel só tinha um desejo.

amanhã estarás boa. dava sempre resultado nessas ocasiões. \ — Então? ^ A Daniel divertia se muito. — E para ti não é nada agradável. A gata cerrava os olhos. — Eu já não lhe tenho amor — disse Mathieu. Podes dizer o que quiseres. sabes? — «Popeia»? É uma peste — disse Mathieu distraído. — Sim — disse Daniel com solicitude.. evidentemente.Mathieu estremeceu. mas diverte se em pôr uma etiqueta como se eu fosse uma coisa. — Ora. — Para ela é uma diminuição terrível. . Perguntou: — Já lho disseste? — Não. não me faças esses olhos de veludo! «Olhos de veludo!» A superioridade de Mathieu era odiosa. E a coisa restringiu se a dois ou três soluços convulsivos. — Porquê evidentemente? Terás de lho dizer um dia. mas teve de lutar contra uma grande vontade de rir. isso mataria o amor. Mas a outra deu lhe uma bela unhada. — Grávida?! J E A N P AUL SARTRE A surpresa de Daniel foi curta.. Tinha agora pressa em ver Marcelle. — Não? Daniel estava profundamente surpreendido e divertido. Depois apressou se em voltar lhe as costas. mas é uma espécie de valquíria. ela deve inspirar te horror agora. Em mim.» Riu. com o pretexto de guardar a garrafa de arnica no armário. mas Daniel sabia que ela sofria. «Pensa que me conhece. Não me conhece nada. Deu lhe uma palmadinha no dorso. parecia em êxtase. pensou. Vais. «Não sei se terei coragem de lhe tocar na mão. — Não. Então era isso! É verdade: «Urina sangue todos os meses lunares e é fértil como uma raia ainda por cima!» Pensou com repugnância que ia vê la naquela noite. e enxugou cuidadosamente a cabeça de «Malvina». Daniel encarou o e observou sóbrio: — Compreendo.» — Estou muito chateado — disse Mathieu com uma expressão objectiva. mas logo desatou a rir. E bruscamente: — Marcelle está grávida. ora. Fala das minhas mentiras. Tinha medo de rir. sabes. dos meus olhos de veludo. «Há desporto esta noite». Não a viste muitas vezes. Uma valquíria fechada num quarto — acrescentou sem maldade. com cordialidade. — Pronto — disse levantando se —. não quero deixá la. Mathieu continuava a falar gravemente: — O pior é que isso a humilha. Pôs se a pensar na morte da mãe.

Empresta me cinco mil francos. — Mas é preciso que tu me ajudes — disse Mathieu. — Não quero que ela se aborreça. J E A N P AUL SARTRE — Eu dar te ei metade no fim do mês — disse Mathieu. porque não desejava convencer. tirar de dentro as cinco notas.. Bem sabes o que é a Bolsa.. — Cinco mil francos! — disse com voz desolada —. Não é culpa dela que eu já não a ame. Daniel sentou se na poltrona. inflexível. é simples. Mathieu parecia obstinado. escreverei um conto de dois em dois anos. — Que é que eu sacrifico? Irei ao liceu. — Bem — disse Mathieu aparentando bom humor —. ficou colérico: «Que vá à merda! Acha se profundo. — Que tem isso? — Pois se continuares muito tempo com esse jogo. meu caro. — A culpa é tua? — É. Pior para mim. isso chateia me muitíssimo.» Depois pensou nos gatos e sentiu se sem piedade.— Então nada. Só que é mais ou menos como uma amizade familiar. É exactamente o que faço! Acrescentou com uma amargura a que Daniel não estava habituado: — Sou um escritor de domingo. então não podes . imagina que lê em mim. — E a outra metade a 14 de Julho. mas não os tenho. acredita.. Bastava lhe abrir a carteira recheada. quando receber os meus vencimentos de Agosto e Setembro. Não pusera muita convicção na voz.» O que lhe parecia insuportável era aquele ar normal e sério que Mathieu nunca perdia. verei Marcelle. — E vais continuar a vê la às escondidas e a. — Pois. — Cinco mil francos — disse Daniel indeciso. Mas quando viu que Mathieu não o acreditava. mas não tenho dinheiro. Aliás.. Aliás. Mathieu fizera lhe muitas vezes favores antigamente. mesmo na aflição. — Disseste me há dias que ias fazer um bom negócio. — Preferes sacrificar te — disse Daniel com indiferença. Porque é que havia de ajudá lo? Que vá procurar os que são como ele. — Tenho uma direcção. Quando Mathieu armava em quaker. o bom negócio foi um malogro. em frente Mathieu. Daniel olhou o rosto terroso de Mathieu e pensou: «Este tipo está realmente aborrecido.. Houve um silêncio. acabarás por detestá la. odiava o.. estou cheio de dívidas. eu quero lhe bem e ficaria aborrecido se não a voltasse a ver.

— Tens uma necessidade urgente? — indagou. Por causa da sua inércia bonacheirona ou talvez do seu rosto. conciliador. que o tinha acalmado. — Que espécie de gente é essa? Empresta logo o dinheiro? — Não — disse Daniel com vivacidade. Soubera encontrar logo o tom optimista. ainda há as associações. Reflectiu um instante: — De qualquer maneira. disse me. A maior parte das vezes. — Um acto de liberdade? — Mathieu parecia não entender. Pôs se a acariciá la negligentemente. Daniel sentiu repentinamente um pequeno choque mole. — Nisso estás enganado. Mathieu absorvera se em pequenos cálculos miseráveis. Daniel gostava das situações falsas. Daniel inclinou se sobre «Malvina» e coçou lhe o crânio. aborrecido. estou quase contente de não ter dinheiro. sem olhar Mathieu —. A mão tremia lhe. dá se com usurários.» — Oh!. Também não tinha rancor.realmente? Daniel pensou: «É preciso que tenha muita necessidade para insistir assim. — Tens o teu irmão. Tu queres ser livre. Mas que importam afinal os juros. mas isso não lhe era desagradável. «Não me tem rancor». Sinto muito. quase alegre que enfurece os outros. Mathieu calou se.» — Realmente. A Mathieu mostrou se desanimado. — Não poderás dirigir te a um outro? — Gostaria de evitar falar com Jacques. «Na tua idade». Deitou fora a ponta da língua e pôs se a lamber devagar o lábio superior. e Daniel pensou. J E A N P AUL SARTRE — No fundo — disse. Daniel . — Exactamente neste caso é que não lhe posso pedir. — E verdade — disse Daniel um pouco decepcionado. porque me fazia um mau serviço. É preciso um inquérito. com solicitude. pensou com nojo. mas num caso destes ele vai certamente emprestar te — disse Daniel. é uma oportunidade para um acto de liberdade. Os animais e os homens não chegavam a odiá lo. aqueles que emprestam aos funcionários. Meteu na cabeça que não me devia emprestar mais nada. Meditava. — Demora cerca de quinze dias. Mathieu tinha corado. superficial. meu caro. se tens o dinheiro? Mathieu pareceu interessado. Era como se tivesse virado uma unha. Perturbava se com a perturbação de Mathieu. «deverias ser independente. — É verdade — afirmou Daniel. Portanto não há perigo. «Malvina» saltara lhe para os joelhos e instalava se a ronronar.

gordo. — Dão me vertigens. Diria: «Aqui está. não deve ser desagradável um tipo sentir se conformado. Daniel pôs «Malvina» no chão e levantou se também... isso não te tenta. pensou Daniel. Os pais dos alunos. casar com Marcelle. Sentimo nos outro. Mathieu encarou o. Nem sequer um momento ele deixou de ser ponderado. é possível que isso me mudasse muito. Benignos até. pensou Daniel. — Sobretudo neste momento. aborrecido. casado. — Estás doido? — perguntou Mathieu. bem tratado. cornudos.levantou a cabeça.» E sentiu a respiração entrecortada. membros das associações dos pais dos alunos.. — Não te incomodes — disse Mathieu —. realmente? Vejo te muito bem. «Ele prefere rir». eu cá me arranjarei. Mas passou lhe. Eu acho que não detestaria. Mathieu pôs se a rir. Estaria Daniel a troçar dele? Daniel sustentou o olhar com um ar de gravidade modesta. escrevo te. sem se comover. Dentro está à .. — Pareces bem tu — disse Mathieu. Fechou a porta. Levantou se. precisamente — continuou Daniel. deve ser muito divertido fazer. E a ti. Parecem calmos. se achar um meio. A — Têm também uma espécie de alegria — disse Daniel. mas isso fica lhe por fora. de perfeito acordo consigo mesmo.» Mas teve medo de se desprezar. — Mas eu prefiro pedir os cinco mil francos ao meu irmão. Quatro filhos. com um trocadilho sempre à disposição e olhos de celulóide. serias como eles. enterrado. — Lamento — disse hesitante —. mas que é preciso fazer para que me odeiem?» A carteira estava ali. meu caro. mas até à medula. Quando Daniel ouviu o passo de Mathieu na escada pensou: «É irreparável. — Tipos assim encontram se todos os dias. «Nem por isso». propositadamente. quis chatear te um bocado. — Sim. franzindo as sobrancelhas. e acrescentou: — No fundo. para me rir. — Bem. que me vêm procurar. «Está aborrecido. — Não me tentarás — disse Mathieu. Acompanhara Mathieu até à porta de entrada. Um sujeito casado. Bastava a Daniel pôr a mão no bolso. o contrário do que se quer. com o mesmo tom fútil —. com três filhos! Como isso deve acalmar! — Com efeito — disse Mathieu. «Ele sabe que tenho dinheiro e não me odeia. — Porquê? Uma simples palavra e mudas toda a tua vida. — Que outro? — disse Mathieu. — Queres que eu arranje três filhos pelo prazer de me sentir outro quando os levar ao Luxemburgo? Se eu fosse um tipo acabado. Isso não acontece todos os dias.

segundo andar.» Foi olhar o seu belo rosto no espelho e pensou: «Ainda valia uns mil se ele fosse obrigado a casar com Marcelle. Ninguém tinha rancor a Daniel. para além da censura e da indulgência. contente. tranquilizá la. tabelião. Thieu — disse. Não lhe tinha rancor. subiu no elevador. Mas sim a Jacques. «Assim. com a cabeça de lado e os olhos semicerrados: «Como? Mais dinheiro ainda!» Mathieu sentia arrepios. brutalmente. Mathieu viu a através da porta envidraçada da sala de estar. «Espero que Odette não esteja». Arranjou lhe um lugar ao lado dela. mas previna meu irmão de que irei vê lo ao escritório dentro de alguns minutos.» — O Sr. Odette ergueu o belo rosto ingrato e pintado. mas escapavam se. Lia. — Sim. Empurrou a porta.. Parou diante de um edifício atarracado da Rua Réaumur e leu. Era preciso confortá la. Mathieu lembrou se com ternura do pobre rosto atormentado da véspera. mas de uma beleza que parecia desaparecer com o olhar. Uma expressão divertida e sabida. Estava. como lhe acontecia sempre: Jacques Delarue.» Pensava com irritação na atitude que Jacques ia tomar. — Bom dia. — Jacques não vai fugir. e o rosto de Odette guardava o seu decepcionante mistério burguês. mas tenho de ver Jacques. cujo sentido se impunha logo. Atravessou a rua e pensou em Daniel. e ela pareceu lhe repentinamente de uma fragilidade pungente. — Gostaria de lhe fazer uma visita — disse —. Estava sentada num sofá. pensou. «Preciso de lhe telefonar. Mathieu tentara imensas vezes reter em conjunto aqueles traços escorregadios. . Jacques dizia de bom grado: «Odette é uma das poucas mulheres de Paris que tem tempo para ler.» vm E stava acordada há muito tempo.vontade. Sente se. dizer lhe que não iria lá em nenhuma das hipóteses. — É para mim a visita que veio fazer? — Para si? Ele contemplava com uma simpatia descontente aquela fronte alta e calma e aqueles olhos verdes.» Mas resolveu passar primeiro pela casa de Jacques. — Não tenha tanta pressa — disse Odette. Era bela sem dúvida. Tabelião! Entrou. alta e limpa até à insignificância. o conjunto desfazia se a todo o momento. quero dizer lhe bom dia. Devia estar preocupada. talvez possa ter uma boa notícia para lhe dar. Mathieu quer falar com a senhora? — perguntou Rosa. preciso de pedir lhe um favor.. elegante. Habituado a rostos como o de Lola. irritado.

Como sempre. a sua saúde é extraordinária. — Tem um vestido muito bonito — disse. — Brincos? Odette olhou o de um modo singular. Mathieu sentou se. Tinha qualquer coisa de vago. Prometeu ma. escute — disse Odette com um riso indignado —. — Acha vulgar? — indagou Mathieu. quase um vestido de rapariguinha. ultimamente. pensou. Sentia se agora bem disposto. — Um destes dias vou zangar me. como os móveis. a sorrir —. numa risada: — Você estaria por certo muito mais à vontade comigo se eu usasse brincos. o vestido. Gostava de Odette. tudo pertencia a Jacques. Todas as vezes que me vê.— Cuidado — acrescentou sorrindo. deixe o vestido sossegado. — Não. «Ela pertence a Jacques». Houve um silêncio. — E Jacques? — Muito trabalho. Isso encantou me. Odette? Pôs certo calor na voz para dissimular a vulgai idade da pergunta. Mas tornam o rosto indiscreto. Essa mulher discreta e pudica cheirava a posse.» Mas a inteligência de Odette era corno a sua beleza. Houve um silêncio e em seguida Mathieu voltou à voz quente e ligeiramente nasal que conservava para Odette. mas nunca sabia o que lhe devia dizer. Quase não o vejo. Contemplava com mal estar o braço moreno e fino que saía de um vestido muito simples. Gozava urna espécie de . — Oh!. Deixe isso e diga me antes o que fez esta semana. — Como vai. O braço. não deve ter a consciência tranquila. pensava: «Realmente não é nada parva. fala me dos meus vestidos. a secretária de mogno. Estava surpreendido. Mathieu sentiu bruscamente um profundo desprazer. — Pois é justamente a propósito desse vestido que quero falar. sem transição. — E acrescentou. — Porquê? Não creio — disse Mathieu vagamente. apertado na cintura por um cordão vermelho. — Muito bem. Sabe onde estive esta manhã? Em Saint Germain. o sofá. Tenho direito a uma visita pessoal. — Meu Deus. que é que será? — Estou a pensar se não deveria usar brincos quando o veste. Porém. No entanto não tinha vontade de sair. / A — Você é que prometeu receber me um destes dias. Mathieu riu. — Como é delicado — disse ela. o corpo por baixo do vestido. Mathieu já não sabia o que dizer. com o carro. para ver Françoise. Esquece se de mim.

Parece preocupado. Pegou na garrafa e encheu dois copos. — Senta te. — Como vais tu? Parecia muito mais jovem do que Mathieu. Mathieu levantou se. — É a última garrafa — disse —. Pestanejou . batendo à porta de Jacques. — Não. — Então. Sentia se em falta. pensou Mathieu irritado. Jacques sorria inocentemente. Pensava: «Bebo o uísque e vou me embora sem dizer nada. Digam o que quiserem. nunca se sabe. — Até logo. indagava. mas os olhos eram duros. toda a sua pessoa transparecia inocência. Jacques sabia muito bem o que ele queria e pensaria: «Não teve coragem de dar a facada. «Não me perdoará nada». Sentou se com um nó na garganta.» Jacques permanecia de pé. — Há alguma novidade? — indagou Jacques.» Mas já era tarde. «Faz de inocente». não se levante. não achas? Mathieu não respondeu. — Não quero insinuar coisa alguma — disse Mathieu. Pensou que ia pedir dinheiro a Jacques e sentiu um formigar na ponta dos dedos. embora fosse mais velho. Levantou se. meu velho — disse com entusiasmo. e avançou para Mathieu. O irmão arqueava as sobrancelhas com um ar de profunda surpresa. Vestia um magnífico fato desportivo de casimira inglesa. mas não comprarei outra antes do Outono. No entanto devia usar cinta. Voltarei para me despedir. Mathieu achava que ele estava a engordar na cintura. J E A N P AUL SARTRE Agora já não podia recuar. com um sorriso afável. atento e muito empertigado. / A — Bom dia. Vá ver Jacques. não imaginava isso. por que motivo o suspeitaria? Queres insinuar que é esse o único fim das tuas visitas? Sentou se. sabes que vim pedir te dinheiro. Mathieu. Odette — disse afectuosamente. «Sabe muito bem porque vim e está a fazer se desentendido.calma. — Não.» — Entra — disse Jacques. «Até que ponto será uma vítima?». Há vinte anos que se sentia em falta quando via o irmão ou pensava nele. sempre muito correcto. pensou Mathieu com raiva. Um uísque? — Vá lá — disse Mathieu. — Bom dia — disse Mathieu. que bons ventos te trazem? Mathieu fez um gesto de aborrecimento.» Disse rispidamente: — Não te iludes por certo. cruzou as pernas com certa moleza como para compensar a rigidez do busto. «Com este género de mulheres. um bom gin fizz é bem melhor com calor. Odette disse lhe gentilmente: — Não devo retê lo mais. Olhava sem doçura aquele rosto rosado e fresco de rapaz.

Não ia travar uma discussão de ideias. — Não quero criticar. meneando a cabeça como um conhecedor.. — Divertes me. Não quero dizer que sejas culpado. não ter princípios é ainda um princípio..» Mas olhou o rosto cheio do irmão. — Quatro mil — repetiu. não quero censurar a tua conduta. que cospes na família. é até uma felicidade poder ajudar te de vez em quando. Porque eu sou um horroroso burguês — acrescentou. — Sabes — afirmou Mathieu para dizer alguma coisa —. Que recuse depressa para que eu possa ir me embora!» Mas Jacques não se apressava. eu não tenho princípios. não leves a mal o que estou a dizer — atalhou diante de um gesto de Mathieu. sem dúvida. Tomou um ar de sincero interesse: — No fundo.e acrescentou apertando com força o corpo: — Mas preciso de quatro mil francos de hoje para amanhã. «ele vai dá las. pedir me um pequeno favor. . Thieu. interrogo me. aproveitas te do parentesco para me cravar. se não estivesse a falar com um filósofo. A Mas parece me que com as tuas ideias eu faria questão de não dever nada a um horroroso burguês. bem no fundo. Em teoria não há ninguém mais independente. Tu estás cheio de princípios. — Quatro mil — disse. rindo alegremente. Sabes. Era advogado. «Vai dizer não. porque afinal não virias ter comigo se eu não fosse teu irmão. Isso é muito bom.» Felizmente Jacques retomara a palavra. — Uma necessidade súbita? Porque enfim na semana passada quando vieste aqui. como um «filósofo». — Mas não crês que com um pouco de organização. mas não te submetes a eles. quando penso em ti. fico mais convencido ainda de que não se deve ser um homem de princípios. — Com efeito — disse Jacques secamente. mas afinal eu reflicto. Mas eu pergunto: que aconteceria se eu não existisse? Note se que. Para mini a culpa é dos teus princípios. — Um mínimo! — disse Jacques... «Agora». diria eu. Oh!. Estás acima das classes. Continuou sem deixar de rir: — E há pior: tu. Estendeu as pernas e olhou os sapatos com satisfação. Essas discussões acabavam sempre mal com Jacques.. Mathieu perdia imediatamente o sangue frio. isso não te aborrece um pouco? — Que posso fazer? — disse Mathieu. a sua fisionomia aberta mas obstinada e pensou inquieto: «Parece difícil. rindo igualmente. vê bem. Sim.. tinha tempo. divertes me e instruis me. pensou Mathieu. para mini. não se tratava disso. vejo tudo de cima.? É contrário às tuas ideias.

. se compreendo exactamente. —Já. — Sim — disse Jacques —. tinha a paixão dos ninhos de águia. e durante esse tempo o seu espírito procurava um ninho de águia de onde pudesse fixar um olhar agudo sobre a conduta dos outros.. — Já encontraste um médico? — indagou em tom neutro. — Sim..» — Marcelle está grávida — disse bruscamente. — Não — disse Mathieu. eu. Mathieu hesitava. Os dois irmãos não tinham por hábito exprimir assim com tanta vivacidade os seus sentimentos. mas não é nada disso. mas afinal podias ter desejado levar até ao fim as tuas experiências à margem da ordem estabelecida.. Fechou os olhos um instante. num tom ríspido. Houve um silêncio. — Foi um acidente. J E A N P AUL SARTRE Pensou rapidamente em Marcelle. Jacques pareceu interessar se. preciso do dinheiro. a saúde dessa mulher é delicada. . Naturalmente não te pergunto nada — acrescentou com uma expressão ligeiramente interrogativa. sim.— Efectivamente — disse Mathieu —. girava obstinada A mente à volta dele. Porquê. o que acontece é o seguinte: acabas de saber que a tua amiga está grávida. com olhos agressivos. evidentemente. afinal? Porquê aquela vergonha súbita? Olhou o irmão de frente. — Um médico seguro? Segundo o que me disseste. Não sabia ver senão de cima. — A esse ponto? É estranho. e Jacques perguntou. — Tomámos a decisão de fazê la abortar — disse Mathieu com brutalidade. Ele sabe que os paguei em Maio. Jacques recusava se a encarar honestamente o problema.. «Digo que é para os meus impostos? Não. — Tenho amigos que mo garantiram. — Vocês queriam um filho? Fingia não compreender... Sentiu que corava e encolheu os ombros.. — Também me admirava — disse Jacques —. abriu os e juntou" as mãos pelas pontas dos dedos. Jacques não pestanejou. mas nunca teria imaginado. lembrou se dela sinistra e nua no quarto cor de rosa e acrescentou num tom angustiado que o surpreendeu a si próprio: — Jacques. — E quando é o casamento? Mathieu corou de cólera. o primeiro impulso dele era elevar se acima do debate. muito à vontade. Habitualmente pedes dinheiro porque não sabes ou não queres organizar a tua vida. O que quer que se dissesse ou fizesse. isto foi ontem. Jacques encarou o com curiosidade e Mathieu mordeu os lábios. — Em suma — disse —. Como sempre.

— Enfim. — disse Jacques. Já é alguma coisa. irei ver um médico hábil e que não figura nas listas da Polícia. — Eis que te enfias na pele de um infanticida. Afundara se na poltrona e os olhos já não lhe brilhavam. «não me dará um franco. — E. mas não respeito a vida humana. Tens de arranjar o dinheiro. — Ah! Pensei. As rusgas estabelecem uma selecção. J E A N P AUL SARTRE Ergueu as mãos à altura dos olhos e encarou as com o ar preciso de quem vai tirar conclusões do que acaba de dizer. mas os grandes especialistas nunca são atingidos.. Disse com voz mole: — São muito severos neste momento na repressão ao aborto. o qual exige quatro mil francos. Mas Mathieu não se iludiu. pobres diabos são ervanários ou «fazedores de anjos». — Estou decidido.. Põem na cadeia uns pobres diabos sem protecção. — Compreendo. Não querendo nem casar nem manchar a sua reputação.Não queres casar por questões de princípios. Olhava Mathieu com uma serenidade divertida. — E porque precisas do dinheiro de hoje para amanhã? — O médico parte para a América dentro de oito dias. pensou Mathieu. — Venho pedir quatro mil francos. que liquidam uma mulher com os seus instrumentos sujos.» Teria de lhe dizer: «Se pagares não correrás nenhum risco.. Mathieu. tu é que deves saber.» Mas tais argumentos eram directos de mais para terem influência sobre . — Bom — disse Jacques. Estás a fazer confusão. Se recusares terei de mandar Marcelle a um charlatão e já não garanto nada. porque a Polícia os conhece a todos e pode de um momento para outro deitar lhes a mão. mas consideras te ligado a ela por obrigações tão estritas como as do casamento. Os teus amigos recomendaram te um médico de confiança. — Eu sei — disse Mathieu —. És pacifista por respeito à vida humana. Pela própria força das circunstâncias. e vais destruir uma vida. já irritado. Não é isso? — Exactamente! — disse Mathieu. Aliás eu sou pacifista. Não te fica bem a fantasia.. Sou da mesma opinião.. Jacques abaixara as mãos e pousara as nos joelhos. de vez em quando ficam severos. — atalhou Jacques — tens a certeza de que o aborto está de acordo com os teus princípios? — Porque não? — Não sei. — Queres dizer com isso que há uma injustiça. resolveste fazê la abortar nas melhores condições possíveis. A «Tem medo que me apanhem». Um advogado não tira conclusões assim tão depressa. Mas não desaprovo inteiramente os resultados.. — disse Mathieu.

que não tens dinheiro. Limpou a voz e perguntou por descargo de consciência: — Então não me ajudas? — Vê lá se me percebes — disse Jacques. . — Mentir a mini mesmo? Ora. — Escuta. Jacques pegou num cigarro e acendeu o. tu. e a sua velha cólera fraternal invadiu o. Jacques. Acabou. Mathieu disse simplesmente: — Um aborto não é um infanticídio. mas é a tua vida inteira que se constrói sobre uma mentira. Essa criança que vai nascer é o resultado lógico de uma situação em que te meteste voluntariamente e queres suprimi la porque não desejas arcar com as consequências dos teus actos. como não tenho contra outros crimes perfeitos. Não quero ajudar te a mentir a ti mesmo. «Vai fazer me um discurso». conheço te melhor do que pensas e agora estou assustado. Levantou se subitamente como se tivesse tomado uma decisão e pousou amistosamente a mão sobre o ombro do irmão. reflectiu. Mas para que falar em mentira? Não há mentira nenhuma. Acrescentou com seriedade: — Meu pobre Mathieu.. Mathieu ia poder sair. (estalou a língua como numa censura) isso não. é um assassínio «metafísico». vamos dizer que recusei. mas tu és burguês por gosto. Jacques retirou a mão. esclarece me acerca do que escondo a mim próprio. Queres que te diga a verdade? Não mentes a ti próprio neste mesmo instante. Mas que tu cometas um assassínio metafísico. fiz um casamento de conveniência. Inclinou a cabeça para trás e viu o rosto diminuído de Jacques. diz antes que não te queres meter num negócio de aborto. aparece me um.. — Um aborto não é um infanticídio. com clareza —. Aquela suave e decidida pressão sobre o ombro era lhe intolerável. suprimo o. Não quero um filho. — O que escondes — disse Jacques — é que és um burguês envergonhado. — Não faças cerimónia — disse Mathieu —. «eu não devia ter aceitado a discussão. eis tudo. Jacques recusava. — Sorria. de resto. seria falso. assim como tu és. tornou a sentar se. — Sim — disse com displicência. estás no teu direito e não te guardarei rancor. Eu voltei à burguesia depois de inúmeros erros. que já se levantara. que não aprovas isso. pensou Mathieu. Há muito que receava algo semelhante.. Mas vou propor te outra coisa. deu alguns passos. que encontrarás com facilidade o dinheiro. Mas seria realmente ajudar? Estou persuadido.Jacques. Mathieu.» — Mathieu — disse Jacques. Thieu — disse com calor —. — Não recuso ajudar te. não tenho objecções contra o assassínio metafísico..

. Mathieu — disse ele com força. sentes que tens obrigações para com ela. Tens todas as vantagens do casamento e aproveitas os princípios para recusar os inconvenientes. — Oh! — disse Jacques —. Ouvia se a pronunciar nitidamente cada palavra e achava se profundamente desagradável. — Imagino muito bem que para ti essa abstenção não deve ser um grande sacrifício. que estás sempre pronto a indignar te com uma injustiça. não tens nenhuma inquietação quanto ao futuro. — Para mim — disse —. arrogante. regrada. E isso dura há sete anos. Sentia um desejo combativo e maldoso de conhecer a opinião do irmão. DADE DA RAZÃO — Sim.por temperamento. deves sentar te à noite junto dela e contar longamente os acontecimentos do dia. pensou Mathieu. Tu estima la. ironicamente. estás casado. tens um apartamento agradável. pelo simples prazer de afirmar que estás de acordo com os teus princípios. Não tens outras aventuras. Porque tu estás casado. — Uma coisa sem importância. humilhas essa mulher há anos. — Primeira novidade — disse Mathieu. pois se alguém sofre não és tu. deve ter se embotado. uma vida de funcionário. Estou certo de que não procuras unicamente o prazer. — Evidentemente — disse Mathieu.» Devia sair e bater com a porta. e é o teu temperamento que te empurra para o casamento. Quatro vezes por semana vais tranquilamente encontrá la e passas a noite com ela. «é um desafio. se não as tivesse. — Pois bem. E gostas dessa vida calma. pedir conselhos nos momentos difíceis. recebes bons vencimentos em dia certo. podes dizer me em que difere isso do casamento? O facto de não morarem juntos? — A abstenção da coabitação — disse Mathieu. Na realidade. o orgulho impedia a de confessá lo. uma aparência de liberdade. encolhendo os ombros. «Nunca dissera tanto». Recusas regularizar a situação. porque o Estado te garante uma reforma. Mas Mathieu sabia que ficaria até ao fim. Se realmente subordinasses a tua vida às tuas ideias! Mas repito te. mas pretendes o contrário por causa das tuas teorias. por maior que tenha sido. Adquiriste hábitos com essa mulher. o que é muito fácil e cómodo. Sabes o que não compreendo? Tu. estás casado. — Marcelle partilha as minhas ideias acerca do casamento/— disse Mathieu. porque é que dizes que não deve ser um sacrifício para mim? — Porque com isso ganhas comodidade. não a queres abandonar.

Aliás. Tens ainda de atingir o fundo. filho e irmão de burgueses e vives como um burguês.. os teus cabelos já estão grisalhos — não tanto como os meus. meu caro Mathieu — disse com uma piedade reprimida. simplesmente. permitia lhe defender o partido da ordem em boa consciência. há um mal entendido entre nós. Só que eu liquidei os a todos e tu afasta los aos bocadinhos. É o que te perde.. «vai me falar da sua juventude. Não é certamente a tua opinião: condenas a sociedade capitalista e. Nunca votaste. já nada tens de rapazinho. Mas. Durante cinco anos imitara afincada mente as loucuras em voga. embora modesto. mas Jacques não deixou que o interrompesse. O que eu quero... Ele escrevera a Mathieu: «É preciso ter a coragem de fazer como toda a gente para não ser como ninguém. um lenço embebido em éter. pensou Mathieu. Acho que a princípio não eras muito menos pirata do que eu. na idade da razão. Desprezas a classe burguesa e. olha bem para mini.» E comprara um cartório.— Escuta — disse Mathieu —. és um burguês. pouco me importa ser ou não burguês. no entanto. a saúde moral. «Pronto». Aliás.. A tua vida não passa de um perpétuo compromisso entre o gosto da revolta e da anarquia.. talvez seja injusto. . Tiveste a sorte de evitar alguns maus passos. — Mas isso também o escondes. — Não censuro a tua juventude — disse. e as tuas tendências profundas que te empurram para a ordem. é uma idade moral. mas tens cuidado em não te comprometer. no entanto. a que cheguei antes de ti. herdámos ambos os instintos daquele pirata que foi nosso avô. Proclamas uma simpatia de princípio pêlos comunistas. Talvez não tenhas ainda a idade da razão. Odette trazia lhe seiscentos mil francos de dote. era a sua garantia. a rotina quase. Um belo dia acertara o passo. fora surrealista. o que é isso. Mathieu fez um gesto. — Pelo contrário. antes do amor. O resultado? Ficaste um velho estudante irresponsável. a boémia? Era muito divertido há cem anos. meu caro. no entanto. Mas também não lamento a minha. um punhado de desajustados sem perigo para ninguém e que perderam o comboio. agora. apenas. No fundo.» Jacques era muito orgulhoso da sua juventude. — Estás. queres parecer mais novo. tivera algumas aventuras lisonjeiras e chegara mesmo a respirar por vezes. és funcionário dessa sociedade. (acabou a frase entre os dentes) é conservar a minha liberdade. não te faz bem a vida boémia. é certo —. Tens 34 anos. — Eu imaginava — disse Jacques — que a liberdade consistia em olhar de frente as situações em que a pessoa se meteu voluntariamente e aceitar as responsabilida des.

A tua mulher será muito bem recebida aqui. — E.» Teve remorsos. Desceu a escada a correr. De qualquer maneira aquilo fornecia lhe uma saída digna. se voltares atrás. não te será difícil encontrar os quatro mil francos. «Terei um complexo de inferioridade em relação a meu irmão?» Não.. — Ora — disse Mathieu —. de olhar absorto. pensou Mathieu. «Será verdade. Por maior que fosse o seu sentimento de culpa. Mas Jacques não o escutava. «esqueci me de dizer adeus a Odette. «Mathieu inquieta me. Confio na tua escolha. cordialmente. de resto. estava com predisposição para o remorso. a idade da razão é a idade da resignação. — Como queiras — observou Jacques. que não o desonraria. Não quero dizer que estejas inteiramente errado. Ponho dez mil francos à tua disposição se casares com a tua amiga.» Ou talvez tivesse ido ver Odette. será quando sentir vontade de o fazer. Não me interessa. estás ou deverias estar — repetiu dis traidamente. Jacques levantou se igualmente. — Já reflecti — disse Mathieu. no entanto está na idade da razão. agora. O olhar tornou se lhe límpido e alegre e acrescentou: — Escuta. seria uma cabeçada estúpida para sair de uma complicação. com um sorriso triste e grave: «Este rapaz inquieta me..» Que diria ela? Desempenharia o papel de esposa reflectida ou limitar se ia a aprovar discretamente sem tirar o nariz de cima do livro? «Diabo! ». Não há pressa. . Não posso dizer te porquê. Mas não é sensato. pensou. «Eu quis casar me. mas se tiver de me casar um dia. a minha proposta mantém se de pé! Mathieu sorriu e saiu sem responder. — Adeus. mas não serve. Mathieu. Mathieu previra o golpe.» Marcelle rira se dele. Há cinco anos. «Terá ficado muito aborrecido?». uma vez. «Até que enfim! Até que enfim!» Não estava alegre. mas tinha vontade de cantar. acredita.. vou fazer uma proposta. Agora Jacques devia estar sentado à escrivaninha. será que mantenho Marcelle numa posição humilhante?» Lembrou se das violentas observações de Marcelle contra o casamento. não era isso. não preciso de o dizer... não tenho remorsos. — Agradeço. — Reflecte. e Odette sentir se á feliz em tratá la como amiga. sabes.Estás na idade J E A N P AUL SARTRE da razão. Aliás. Como te disse. Se recusares.. a minha mulher ignora por completo a tua vida íntima. — És realmente muito bom. — Adeus — disse Jacques. E acrescentou: — Quando apareces? — Venho almoçar no domingo — disse Mathieu. Jacques — disse levantando se.

Marcelle? Marcelle tinha o telefone no quarto. — Juro. . não vais! Peço emprestado. é húmido. Estava quase bêbeda. — Hum — murmurou Marcelle. Hei de arranjar. Recusa se a emprestar. — Ah! — disse Marcelle com indiferença. Indicado por Sarah. se visses! E depois. Alguém excelente. «Sim».. — Não. — Então? — A velha.. Entrou. está. incrédula. tenho a certeza de que estava cheio de «massa». bem sabes. Ah!. — Quanto? — repetiu Marcelle. — E tu estás bem? — Estou. — A quem? A Jacques? — Venho de lá.. é um animal.. é impossível. — Também se recusa. — Não estás lá muito. — E que é que vais fazer agora? — Não sei. — Então arranja — disse Marcelle num tom estranho. com vivacidade. — E acrescentou docemente: — Enfim. — Está. — Não te incomodes. Terei de ir. — Mas não lhe disseste que era. — Não. «Mas eu gosto deste tipo. — Quatro mil. E acrescentou: — Quanto? — Quatro mil. E as mãos. Sentia se angustiado ao pegar no telefone. Quando não me envergonho diante dele. é coisa que se consegue. quatro mil francos não é um absurdo. A cabina telefónica era num recanto sombrio. com uma dúvida na voz. pensou. A — Eu telefono. a família é como a varíola: tem se em criança e fica marcada para o resto da vida. e fede no apartamento dela. Temos quarenta e oito horas. — Estou angustiada. — Estou — disse Marcelle com a voz seca.. sinto vergonha por ele.Mathieu nunca deixara de pensar com razão perante Jacques. — És tu? — Sim. — Sempre te vejo amanhã à noite? — Sim. Que diabo. — Mas não é possível. — Arranja. o estupor! Vi o esta manhã. — Daniel. para isto? — perguntou Marcelle. pediu uma ficha. faz o que achares melhor.» Havia um bar na esquina da Rua Montorgueil. — Então? — Tenho alguém em vista.. — Sentiu que a voz lhe carecia de firmeza e acrescentou com força.

Felizmente não era verdade. Farei o que for preciso. Mas faço o que posso. A Rua Réaumur era de cobre sujo. Duas horas. Mas era mais triste ainda. Stokovski declara que não casará com Greta Garbo.» Ergueu a cabeça vagamente irritado. Marcelle. dinheiro. era papel gorduroso. Humilhá la ei? E se. Parou à beira do passeio. não se tem o direito de mudar de opinião sem mais nem menos. Deu o dinheiro e continuou. em itálico. Ignora se o número exacto de mortos e feridos. dizia.» Está magoada comigo. Oh! basta. ouvira a muitas vezes rir das amigas casadas quando estavam grávidas: «Vasos sagrados». Mathieu virou a página. e o calor torcia se e chiava no meio da rua como uma faísca eléctrica.» Quando se diz isso. Pensou em Brunet.querido. bastava pensar nisso um só instante e tudo tomava outro sentido. «Quarenta aviões sobrevoam durante uma hora o centro da cidade e deixam cair cento e cinquenta bombas. Hesitou e disse com esforço: — Amo te... triste e aveludado como tapioca. Se ela quisesse o filho? Então tudo ia por água abaixo. quero pensar noutra coisa. seria um abuso de confiança. não deixava de mentir a si próprio. que parecia denso e bem documentado: «Do nosso enviado especial.. — Levo os quatro mil francos amanhã à noite. dinheiro. Ivich.. se faz favor. e ele próprio se transformava da cabeça aos pés. «Estou angustiada. Sentia se nervoso e triste porque ia voltar a vê lo. A hora do dia em que o calor era mais sinistro. . Pegou num jornal ao acaso: Excelsior... quando Paris aguarda o seu Príncipe Encantado.» Citavam se cifras. basta! Estava cansado de girar em volta de toda aquela história. porque não o havia de ter dito? Nós nos dizemos tudo. de Madrid. Mathieu saiu da cabina. — Paris Midi. era um estúpido. Uma amizade morta. pelo amor de Deus. Todos os franceses. Novas informações sobre o caso Weidman. escrevera Gomez. mas não quero pensar nisso. Deu com um vendedor de jornais. Ivich. «Humilhada». Um discurso de Flandin em Bar le Duc. tirava simplesmente o gosto de viver enquanto era lido. Nem chegava a meter raiva. Já não lhe apetecia saber mais nada. Mathieu leu: «Bombardeio aéreo de Valência.. Marcelle cortou a ligação sem responder. Não havia. ouviu a voz seca de Marcelle. apertado. ela tê lo ia dito. Marcelle.. A visita do rei da Inglaterra. não podia ser verdade. E Marcelle é incapaz de um abuso de confiança.» Passou os olhos sobre o título e leu o terrível texto.. «rebentam de orgulho porque vão dar à luz. O Excelsior não era um jornal agressivo. Ao atravessar o café.. Mathieu sobressaltou se e pensou: «Todos os franceses são uns canalhas». A França ao abrigo atrás da Linha Maginot.

«Bandidos!» Cerrara os punhos. Era a cólera dos outros. Pronto!» O pensamento desceu lhe sobre uma rua escura. era um calor real. a cólera ficava de fora. para sofrer. entra agora até o fundo das casas. Já se contavam cinquenta mortos e trezentos feridos. Mathieu sentiu se vaga mente culpado. os Franceses são todos uns estupores. Pronto! As bombas caíram naquela rua.. é real. andava normalmente com a decência de um tipo que acompanha um enterro em Paris. Estive em Valência. contemplam o céu venenoso. Cinquenta mortos e trezentos feridos. Eu vi aquilo. o céu em fusão caiu em cima dela e o sol dardeja sobre os escombros. No entanto. Fechou o jornal e pôs se a ler na primeira página a reportagem do enviado especial. acocoraram se com ares de galinhas mortas junto dos verdadeiros cadáveres. Os vidros brilhavam. Passou o lenço pela fronte e pensou: «Não se pode sofrer pelo que se . mas a coisa não vinha. uma cólera desesperada. pequena que fosse. passeava de manhã. Mas não: sentia se vazio. os vidros partiram se. Se ao menos tivesse descoberto em si uma emoção qualquer. possuído por um fantasma de cólera. que ele lhe desse o próprio corpo. não em Valência. os automóveis deslizavam pela rua. havia mais porém. O seu pensamento fazia círculos em cima da cidade. esperava para viver.. esbateu se. via a. aquilo é real. Milhares de leitores teriam lido o jornal com ódio na garganta. sobre os monumentos cinzentos. a fachada de uma casa. mulheres estupefactas. já não há sombra na rua. a rua alargou se desmedidamente. Nem aviões nem defesa antiaérea. os automóveis passaram. e erguem a cabeça de quando em quando. consciente dos seus limites. sufocava numa sombra ardente. algures sob o mesmo sol. para rebentar. esmagada por enormes monumentos. em Paris. ele caminhava no meio de homenzinhos vestidos de claro. bem viva e modesta. ele sentia se vazio. vi a Fiesta em 34 e uma grande tourada com Ortega e El Estu diante. de franceses que não olhavam para o céu. destruíram no. havia seguramente cadáveres sob os escombros. andava a passos largos. podia tocar lhe. que não tinham medo do céu. uma tímida aurora de cólera. uma rua. o céu flamejava muito alto acima das cabeças. cerrando os punhos e murmurando: «Estupores. Mathieu estava com calor. bandidos!» Mathieu cerrou os punhos e murmurou: «Bandidos!» e sentiu se mais culpado ainda. Alguma coisa se dispunha a nascer. procurando uma igreja. À sua frente havia uma grande cólera. qualquer coisa de que pudesse dizer: «Eu vi aquilo. Só que era inerte. Pronto! Mas aquilo esvaziou se.uma vez. que significa isto exactamente? Um hospital cheio? Um grave acidente de comboio? Cinquenta mortos. mudas. não existe já.

Deve andar por aí. estou numa gaiola sem grades. — Acabo de tocar à sua porta — disse —. junto de um muro.. Gomez. Partiu. — Não absoluta. Destino.» Lá havia uma coisa formidável e trágica a pedir que se sofresse por ela. Mathieu olhou sem afeição as costas magras. Na escada. — Sim. Esse estava lá. sofrerá lá. o meu é um hospital com Marcelle grávida. Cada um no seu mundo. de carícias nos táxis. Boris entrou à frente de Mathieu e dirigiu se com uma familiaridade desenvolta para a secretária.. Eram duas horas e Brunet só chegaria dentro de meia hora. não estou lá. Boris espreitava o à porta do prédio. é evidente — disse Boris —. — Deixei a agora. . «Viu a». No meio da rua uma mulher gorda.. Mathieu olhou o hesitante. hoje à noite? Mathieu virou se e fingiu procurar as chaves no bolso. — Não sei se irei — disse. mas que importa? Ela é educada. separado de Espanha por. no meio de minhas presenças. — Suba comigo — disse. mas o que lhe posso dizer é que não abriu. Corpos estendidos sobre o passeio. Ivich que eu beijei esta manhã. Jacques atrás da secretária dizendo não. — Vamos tirar isso a limpo. — Viu Ivich? — perguntou Mathieu abrindo a porta. Há outros mundos.» Olhou a última página do A Excelsior: fotografia do enviado especial. «Não posso.. nojentas por serem tão verdadeiras. se der com um jornal e ler «Bombardeamento em Valência».quer. «Por que razão estou eu neste mundo de gritaria. Daniel troçando. Lola talvez prefira estar sozinha consigo. não encontro resistência. mas é pior. mas creio que não estava. estou em Paris. Sem cabeça. na cidade em ruínas. Não partiu. e o judeu a pedir quatro mil francos. As presenças reais. Boris disse na sua voz natural: — Então continua de pé o Sumatra... não terá de fazer esforços para sofrer. pensava. E o tipo de ontem. — Pensei. Subiram. neste mundo sem Espanha? Por que razão não tive vontade de lutar? Poderia escolher outro mundo? Sou ainda livre? Posso ir aonde quero. Ao ver Mathieu. E depois de maneira nenhuma ficaríamos sós. como eu. de saias repuxadas até às coxas. Mathieu dobrou o jornal e atirou o para a valeta. — Entre. por nada e no entanto esse outro mundo é intransponível. Era o seu ar de louco. Só que ele. tomou um ar afectado. de costas. Haverá Ivich. de instrumentos cirúrgicos. — Tem a certeza? — respondeu Mathieu no mesmo tom. Marcelle no quarto cor de rosa.

— Quem é? — indagou Brunet. Pareceu me preocupada com o exame. contrariado. — Ivich. isso não tem importância. Boris inclinou se com frieza e recuou até ao fundo do quarto. Está a perceber? Um mês num quarto em Montmartre. não lhe disse nada para esta noite? — perguntou Mathieu. — Gosto da sua rua — disse Boris —. — Os quatro? Ela falou nos quatro? — Pois então — disse Boris ingenuamente —. admirado.. — Então ela espera que eu vá? — Naturalmente — disse Boris. — Ora — disse Mathieu. não tem mesmo nenhuma. — Para esta noite? — Sim. um mês no Faubourg du Temple... um mês Rua Mouffetard.. as tuas poltronas corrompem. o famoso discípulo? Não o conheço. absolutamente nada. — Não — disse sorrindo —. Houve um silêncio. Não sei porque mora num apartamento. Mathieu colocara se. também há Lola. mas ao fim de algum tempo deve chatear. sólido e despreocupado perante o olhar rancoroso de Boris. — Eu tornei me numa espécie de . A Mathieu foi abrir. — Boris Serguine. irritado —. Procurei te mais de uma vez. Mathieu aproximou se e deu lhe uma palmada nas costas. — Porquê? — Não sei. — Bem — disse Brunet com indiferença.... velho traidor. Queria saber se ela ia. Brunet sentou se na cadeira..— Vem ou não vem? — perguntou Boris. Voltara se e olhava para Mathieu com um sorriso zombeteiro e terno. mas não consegui encontrar te. é preciso vir até aqui ao teu quarto para te encontrar. Isso aborrece te? — Não. — Disse me que seria divertido encontrarmo nos os quatro. Livre como você é. — Ah. — Olá! — disse Mathieu. — Senta te na poltrona — disse Mathieu. — Pois é — disse Boris. — É verdade — disse Brunet. Fazia um cigarro. — Detesta que o considerem meu discípulo. — Não é culpa minha. Estão a tocar — acrescentou. Era Brunet. deveria vender os móveis e viver no hotel. diante de Brunet. — Ela quer ir — afirmou Boris. — Pois venho. com os braços pendentes. Boris inclinara se sobre o parapeito da janela e olhava a rua. Acrescentou: — Então. — Vens adiantado. depois de um longo momento —.

— É verdade — disse Brunet. Continuou com simpatia: — E quando te vejo que me encontro melhor. — Os Croix de Feu não são muito dinâmicos. — Pensei muitas vezes que nos devíamos ver mais. — Catorze horas de curso por semana e uma viagem ao estrangeiro durante as férias. com amargura. parece me que fiquei depositado em tua casa. não é verdade? A alegria de Mathieu desapareceu.. ainda o vejo de vez em quando. — Os três? — Então? Tu. pesado e maciço. Imagina tu! — disse ele. que tens feito? Mathieu sentiu se embaraçado. — E esperas ainda vir a mudá lo? — Claro que não — respondeu Mathieu.caixeiro viajante. o quarto enchia se com a sua presença. É estranho — disse Brunet com ironia. com o fumo do cigarro. Daniel. Pensou: «Ele veio. Brunet deitou lhe um olhar rápido e penetrante.. Evitou olhar para Boris. Mathieu sorriu. inclinava a cabeça obstinadamente para a chama do fósforo. Creio que envelhecíamos menos depressa se nos pudéssemos encontrar de vez em quando os três juntos. — Daniel! Mas ainda existe esse camarada? Ainda o vês de vez em quando. atónito. Dão me tanto trabalho. — Nada — disse. Brunet olhou o com surpresa. irritado. — E então ataca lo. agradecido. — É caça para Doriot — disse Brunet. Fez se silêncio. — Porquê? — Sempre a mesma coisa. — E fora disso. Mathieu olhava as grandes mãos de camponês do amigo. com os seus gestos lentos. sim. — E teu irmão? Continua Croix de Feu? — Não — disse Mathieu. — É o que se diz. acabo de me aborrecer com ele — acrescentou Mathieu sem reflectir. Quando Brunet encontrava Portal ou Bourrelier devia dizer com aquele mesmo tom aborrecido: «Mathieu? É professor no Liceu Buffon.» Sentiu que a confiança e a alegria tentavam timidamente renascer lhe no coração. Na verdade não fazia nada. Brunet pousara as mãos sobre os joelhos.» — Ainda o vejo. sentado numa cadeira de Mathieu. que há dias em que eu próprio tenho dificuldade em me encontrar. A propósito. eu. não é? — Isso mesmo — confirmou Mathieu rindo. Peco lhe um favor e responde me com um sermão. . Estava ali.

— Tinha má cara? A — Sim. com tiques nas pálbebras e no canto dos lábios. — Ele está acostumado e depois estou contente por te ver a sós. — Na verdade. todo arrepiado.. duro: — Já percebi — disse. Brunet perguntou: — Talvez tenha ido longe de mais. ainda bem. afectuosamente: — Disse a mini mesmo: não quero que mo deitem abaixo. Brunet pigarreou: — Continua a estudar Filosofia. Vamos dar uma volta. Não te aborreces com isso? — Pelo contrário — disse Mathieu rindo. manti nha se no seu canto. eu sei — acrescentou vivamente. Demasiado amarela. — Despachaste o. Brunet sentara se a cavalo na cadeira e olhava igualmente Boris com um olhar pesado. inchada. — Então? — disse esfregando as mãos. pensei: preciso de falar com ele. Boris sorriu. — A licenciatura — atalhou Brunet com uma expressão absorta. fique.. meu caro. tinha o dia inteiro ocupado. Acrescentou. — Até logo à noite. Acrescentou bonacheirão: "^ J E A N P AUL SARTRE — Vai ficar a odiar me se eu lhe raptar Mathieu por uns momentos? Você tem a sorte de o ver diariamente e eu. Inclinou se ligeiramente. «Ele gostaria que Boris se fosse embora». com satisfação. Riram. — Fique. Mathieu fechou a porta e voltou se para Brunet. não é verdade? Estou lá às onze. Mathieu parou subitamente de rir.Calaram se um instante e Mathieu pensou tristemente: «Se ao menos Boris tivesse a boa ideia de se ir embora. Mathieu? Boris adiantou se. Estava ofendido. pensou Mathieu. ... sob o fogo conjugado dos olhares.» Mas não parecia sequer pensar nessa solução. Já foi muito amável da tua parte teres vindo. — Não dispões de muito tempo. talvez compreendesse. parecia um cão de caça doente. magoado. sou eu que me vou embora. Brunet observou com voz calma: — Eu estava com pressa porque tenho apenas um quarto de hora. — Um quarto de hora! Eu sei. jovem? Boris disse que sim com a cabeça. Mas hoje de manhã quando vi a tua cara. Boris não se mexia. — A licenciatura. Mathieu acompanhou o até à porta e perguntou com entusiasmo: — Até logo à noite. Pôs se então a olhar fixamente o rapaz. — Em que ponto é que está? — Termino agora a minha licenciatura — disse Boris com rapidez.

Então? Achas que eu tenho necessidade de entrar na luta. de tomar posição? — Sim — disse Brunet com força. porque queres que eu me torne comunista? Para meu bem ou para o bem do partido? — Para teu bem — respondeu Brunet. — És filho de burgueses. não pensei. dá se um jeito. Vou fazer te uma proposta: queres entrar para o partido? Se aceitares. — Não querias que eu te levasse para o partido de La Rocque? Fez se silêncio. Simples aborrecimentos de dinheiro. Pensava na Espanha.C. — Para o partido?. Mas para que te serve a liberdade. És livre.. Não sou sargento recrutador do P.. — Ando aborrecido. levo te comigo e em vinte minutos estará tudo terminado. Nunca ninguém fala de mim. Comunista? Brunet pôs se a rir. Mas desejava que me dissesses o que pensas exactamente. vivo cercado de miúdos que só se preocupam com eles próprios e me admiram por princípio. Mas tinhas. e isso de intelectuais temos até para vender. com um gesto vago. creio. Olhava Brunet com uma gratidão humilde e pensava: «Foi por isso que ele veio. — Para meu bem.Mathieu tossiu.. — disse Mathieu.. sim. tu tens necessidade do partido. era melhor se Brunet tivesse vindo pelo simples prazer de o ver. uma porção de encontros importantes e preocupou se em vir dar me o seu apoio moral. aliás. Não sentes que a tens? Mathieu sorriu tristemente. — Ora. — Se é apenas isso. as ideias. Agora já o conseguiste.E. — Brunet — perguntou suavemente Mathieu —.. Escuta — acrescentou subitamente —. não vamos complicar as coisas. — Não precisas de ficar desconfiado. Tem o dia inteiro tomado. senão para tomar uma posição? Levaste . — Tens essa necessidade.» Apesar de tudo. Brunet não parecia convencido. Sabes. a cara de um tipo que acaba de perceber que viveu de ideias que não dão nada. Mathieu estremeceu. As pálpebras dobravam se lhe em preguinhas e mostrava os dentes ofuscantes de brancura.. Tu representas apenas um pequeno capital de inteligência. às vezes.. tens de te libertar. essa proposta. — Tanto melhor — disse... não esperava essa tua.... — Seguiste o teu caminho — disse Brunet. não podes vir a nós assim sem mais nem menos. Dormi mal. — Escuta — disse Brunet —. Eu próprio tenho dificuldade em me encontrar. depois vejamos: o partido não precisa de ti. — É para meu bem — repetiu Mathieu. sem dúvida — insistiu. Como toda a gente. Mas tu. desconcertado. — Nunca imaginei que tivesse uma cabeça tão expressiva.

evidentemente. verdadeiras paixões. — O contrário seria inquietante. — Quem to impede de fazer? Ou imaginas que poderás viver a vida inteira entre parênteses? Mathieu olhou o hesitante. precocemente envelhecido. Bem sei que tudo me seria devolvido.» Brunet levantou se. fungava docemente. nada mais se me afigura inteiramente verdadeiro^ Brunet não respondeu. és um abstracto. carne. — Tudo aquilo que tocas parece real. Gostava imensamente dele. E Mathieu ali estava. não seria um sacrifício. Disse: — Renunciaste a tudo para ser livre. Tinha um rosto pesado. cortaste os laços burgueses e não te ligaste ao proletariado. — És bem real — disse Mathieu. que pensava por meio de curtas e severas verdades. — Pois faz como eu — disse. indeciso. — Não há outra — repetiu Brunet. surpreendido. Brunet. Um homem de músculos fortes e elásticos. da política. — Vives no ar. Assemelhava se a um prussiano. meu caro. um ausente. Não deve ser muito agradável todos os dias. És um corpo estranho. Mathieu sentia uma espécie de curiosidade inquieta nas narinas. Btunet sorriu distraído. renuncia à própria liberdade.. da psicologia. seguro de si. Meditava. sóbrio. E se escolher. Mas Brunet não tinha cheiro. gosto que digas tudo isso. desajeitado. Esperou um pouco e perguntou: . Desde que entraste no meu quarto ele parece verdadeiro e enoja me. Arescentou subitamente: — És um homem. — Meu caro aliciador de recrutas — disse —.trinta e cinco anos na limpeza. assediado por todas as vertigens do inumano. nem sempre é divertido. sangue. diante dele. — Um homem? — indagou Brunet. cor de tijolo. muito claras e compridas. Aproximou se de Brunet e abanou o pêlos ombros com força. acabei por perder o sentido da realidade. não há outra escolha. — Falas como um abade — disse Mathieu a rir. certo de perceber de repente um odor forte de animal. — A sério. um homem apenas. Seguia a sua ideia. Dá mais um passo. e o resultado dela é o vácuo. E tudo te será devolvido. de traços caídos. Escuta. Sempre que o via. pestanas ruivas. E pensava: «Eu não pareço um homem. um homem recto. minha cara puta velha. escolherei ficar com vocês. Que é que queres dizer com isso? — Nada a não ser que escolheste ser um homem. sabes? — continuou com um sorriso amigo. terreno refractário às angélicas tentações da arte. um homem inteiriço. flutuas. — Evidentemente. — Não — disse Mathieu —..

Tu és mobilizável. aliás. a granada alemã que lhe perfuraria as vísceras. as cores e formas com que se enchiam os seus olhos eram mais verdadeiras. e um belo dia uma granada faz explodir os teus sonhos. Sonhaste durante trinta e cinco anos. serás um herói irrisório e cairás sem ter compreendido nada.— Então? — Deixa me tomar fôlego — disse Mathieu. Na segunda quinzena de Setembro os Alemães invadem a Checoslováquia. era apenas um soldado. — Também não acredito — disse Brunet. Os Ingleses sabem disso. já nada a pode impedir de ser um destino. Escuta. voltando a si: A — E verdade que se compreendesses não haveria necessidade de pontos nos ii. — Não compreendo — disse Mathieu. nesse . em carne e osso. mais densas do que as que Mathieu podia ver. tudo lhe fora devolvido. Está de acordo consigo próprio e com o partido. — Sabes para onde me vão mandar? Para a frente da Linha Maginot. — Acrescentou com vivacidade: — Como a de todos os camaradas. A sua vida era um destino. terás os teus pequenos hábitos. serás o escravo da tua liberdade. Foi encostar se à janela. real. A idade.. — E tu? — perguntou Mathieu. contrariado. a época. Agora nada já pode tirar o sentido da minha vida. Amanhã serás demasiado velho. Brunet olhou o e observou rapidamente: — Vamos ter a guerra em Setembro. E talvez o mundo esteja também demasiado velho.» E ali estava ele. inclusive a liberdade. — Essas informações. arriscas te e rebentas como uma bolha. renunciara à liberdade. — Mas então não compreendes nada? — perguntou Brunet. ele escolhera a arma que lhe feriria as têmporas. a classe. Meditava. para dar cabo da saúde não há melhor. Foste um funcionário abstracto. — Estás a brincar? — Podes acreditar. Morres sem acordar. E tudo lhe fora devolvido. respira. — Então? — Não é a mesma coisa. Vamos admitir que partes nesse estado de espírito. Dir se ia que tinha medo de pecar por orgulho. Comprometera se. — disse Mathieu. «Disse bem. e no entanto.» Brunet tinha razão. Mathieu não respondeu.. irritado. a fim de que Schneider conserve os seus interesses nas fábricas Skoda. mas apressa te. E acrescentou a sorrir: — Não acredito que o marxismo preserve das balas. com um gosto real de fumo na boca. como eu. — Respira. «É mais livre do que eu. E um risco assumido. o Governo francês está prevenido. E acrescentou docemente.

Tudo se desmorona. a sua maneira de dizer sonhadora. espalhava se pela terra toda. dentro de um quarto de hora ponho o chapéu e vou passear no Luxemburgo. arriscas te a esperar muito. não abandonou o tom sereno. neste instante. — Eu sei.. Ah!. acreditar. pensou. as espingardas vão disparar sozinhas e vocês. Tens sorte de ter podido escolher. reivindicam o direito de ser convencidos. livre. — Vocês são todos iguais. Seria a salvação. — Recuso. Brunet encolheu os ombros. eu quero acreditar primeiro. Mais tarde. se ao menos pudesses ver com os meus olhos. os seus filhos. — Eu sei. há tipos que se matam nos arredores de Madrid. — Sorte de ser comunista? — Sim. «As tuas poltronas corrompem. meu caro. há judeus austríacos que agonizam nos campos de concentração. eram os seus irmãos e irmãs.mesmo momento. «Nesta hora. os mortos. Atiraram as bombas no mercado. escolher ser um A homem. desesperado.. Parecia estar a espiá lo.» Voltou se para Brunet e encarou o com amargura. Pensava: «Veio oferecer me o que tem de melhor!» Acrescentou: — Não é coisa definitiva. — Então? — disse Brunet. Põe te de joelhos e terás fé. Sim ou não. e no entanto era ele o bombardeado. — Não havia um só canhão de defesa antiaérea em toda a cidade. — Bombardearam Valência — disse subitamente. Não cerrou os punhos.. Talvez tenhas razão. Mas eu. vocês os intelectuais. «Sou um irresponsável». fresquinho. Pensas que eu estava convencido quando entrei para o partido? A convicção forma se. — Queres dizer que não vais ter essa sorte? Pronto. . — Já sei — atalhou Brunet. Mathieu foi sentar se na poltrona. Mathieu sorriu tristemente. compreenderias que não se pode perder tempo. sofrendo com os proletários de todos os países. lutando. — Mais tarde? Se estás à espera de uma revelação interior para escolher. Era preciso responder. serenos. há chineses nos escombros de Naquim e eu aqui. — Naturalmente — disse Brunet com impaciência.» Ergueu se com vivacidade e sentou se na ponta da mesa.. Brunet não despregava os olhos dele. — Essa é boa! Isso escolhe se. O rosto de Brunet endureceu se um pouco. — Tens sorte — disse Mathieu. agir. — Recusas? — Recuso — disse Mathieu. Entrar para o partido. dar um sentido à vida.

Brunet tomou o seu ar mais fechado. como o teu irmão se agarra ao dinheiro. Brunet? Diz lá. — Tens? Tanto melhor. Mathieu olhou o com desespero. agarras te a ele avidamente. — Eu também o espero. penso como tu que não se é homem enquanto não se encontra uma coisa pela qual se está disposto a morrer. mas não é o bastante. não precisas de justificar te. Há anos que sou livre para nada. Ninguém te acusa. Não é culpa minha. Brunet olhou o com curiosidade. J E A N P AUL SARTRE Fez se silêncio. E depois. — Muito bem! Finges lamentar o teu cepticismo. ou viria demasiado tarde. Revolto me. — E então? . Mas receio que não apareça tão cedo. «Se ele pudesse compreender me». parecia uma torre. neste momento. — Então? — indagou quase alegremente. Quando o atacam. como vocês. — Apesar de tudo. mas não te desfazes dele. De boa vontade trabalharia com vocês. Brunet parecia mais calmo. contra a mesma espécie de indivíduos. estás no teu direito. isso afastar me ia de mim próprio e tenho necessidade de me esquecer um pouco. contra as mesmas coisas. não posso comprometer me. Espero que essa oportunidade se apresente o mais depressa possível. mas como quer que seja. — Já pensei que nunca mais viria. Brunet levantara a cabeça. — Achas que pareço agarrar me a alguma coisa. não tenho razões suficientes para isso. — Não quero dizer. É teu conforto moral. Fez um esforço: convencer Brunet era o único meio que lhe restava para se convencer a si próprio. — Não tenho nada a defender. Desejo ardentemente trocá la por uma convicção. e daí? Brunet deu uma palmada de indignação na coxa.. pensou Mathieu. Reservas te para uma melhor oportunidade. não me orgulho da minha vida e não tenho um tostão. — Também já pensei nisso — disse Mathieu. estás a compreender me? — Não sei se te compreendo muito bem — disse Brunet —. o tempo passa.— E então? Sim. Mentia se dissesse que me sentia satisfeito em desfilar de punho erguido ao som da Internacional. A — Tens a certeza de que o desejas? — Tenho. Mathieu indagou docemente. Talvez não haja oportunidade. A minha liberdade? Pesa me. mais camponês.. — Estás a compreender me.

Não tenho nenhum direito sobre o seu tempo. Tu achas me uma sacana. A . — Mas não te quero mal — disse Brunet. Mathieu pensava: «Evidentemente. e tudo seria devolvido a Mathieu. sair assim. Ainda tens um minuto? Brunet olhou o relógio. a não ser que se seja sacana. Do teu focinho. — Também o desejaria — disse —. desolado. Teve pena de mim de manhã. Mathieu disse lhe: — Não podes imaginar o que me comoveu teres vindo oferecer me a tua ajuda.— Nesse caso serei um desgraçado. — E achas que não temos mais nada em comum? Brunet ergueu os ombros sem responder. — Pois é. só porque eu tinha má cara. preciso de ajuda. esta manhã. — Acho apenas que estás menos libertado da tua classe do que eu imaginava.. mas não tenho muito tempo. Brunet sorriu levemente. E depois há as recordações. Doido por se ir embora. — Não te considero um sacana — disse. Brunet brincava com o fecho da porta. — Não és obrigado a pensar como eu. — Não vais. a amizade de Brunet. poderíamos trabalhar juntos. sem querer: — Brunet. Brunet levantou se. mas decepcionei o. acham que se deve pensar como vocês. J E A N P AUL SARTRE Enquanto falava.. — disse. da tua voz. Tens razão. Era tentador como o sono. ainda te lembras? Foste tu o meu melhor amigo.. Desejaria ver te sempre e falar contigo.» Disse.» Brunet acrescentou sem o olhar: — Ainda gosto muito de ti. Voltamos a ser estranhos um para o outro. uma só. Calaram se. Mathieu endireitou se repentinamente. Não faz mal. Mas é do teu apoio pessoal que eu preciso. não do de Karl Marx. Calaram se. Com esses eu tenho um mundo em comum. Mas não tinha nada para lhe dizer. «Não pode sair pode sair assim. E tudo. Mas isso não modifica a coisa. Bastava uma palavra. é possível? Brunet desviou os olhos. razões de viver. Os meus únicos amigos agora são os camaradas do partido. — Porque teria vindo se não me lembrasse? Se tivesses aceitado. Brunet esperava delicadamente.. — Eu conheço vos bem. tenho de lhe falar». — Pois é. apesar de tudo estou contente por te ter visto.. Mathieu também se levantou. — Já estou atrasado.. — Não é verdade — disse Mathieu. Mathieu pensou: «Está com pressa.. — Não me deves querer mal — disse precipitadamente. mas não queres dizê lo porque julgas o caso perdido. das tuas mãos. aproximara se da porta. pensou Mathieu..

Pensava: «Eu não podia aceitar».— Não quero demorar te — disse. corruptora. Mathieu pensou: «Era o meu melhor amigo. Brunet abriu a porta. — Vem visitar me quando tiveres tempo. Jacques também. eternizava tudo aquilo em que tocava. prefiro tomar ar. já não olhará para as minhas cortinas. É o que posso dizer. manda me um recado. Agrada me sentir me desdenhoso e solitário.» O quarto era agora apenas uma mancha de luz verde que tremia quando passavam os carros. já não fumará aqui os seus cigarros. isso é indiscutível. «Será verdade que não sou um sacana?» A poltrona é verde. fixa. Daniel também. Sorriu para Mathieu e foi se embora. — Certamente — disse Mathieu. por cima ou por baixo. o quarto corruptor estava atrás dele. um entusiasmo amargo nascera no seu coração. a corda erguia a acima da cabeça como uma alça e chicoteava o solo sob os pés. tudo o que fazem pode ser explicado. Mathieu olhou a poltrona verde. julgar. igual. e apenas a cabeça lhe saía da água. Mas posso dizer também: tive medo. as cadeiras. a corda parece uma alça. é um sacana. Este pobre Mathieu está perdido. e teria medo que se construísse um mundo viável porque teria de dizer sim e fazer como os outros. na minha varanda e não queria que isso mudasse. como uma verdade eterna. Mas quem poderia conservar nesta luz a mesma parcela de entusiasmo? Era uma luz de fim de esperança. prefiro a minha cortina verde. Mas a realidade do quarto desaparecera com ele. e o quarto atrás dele era uma água tranquila. a corda erguia se eternamente acima da cabeça dela e eternamente fustigava o chão a seus . Que posso eu fazer contra todos? Tenho de decidir. Acha que sou um filho da puta.» Partiu. — Certamente — disse Brunet. mas decidir o quê?» Quando disse não. Mas em relação às pessoas. — E tu. fria. Por cima ou por baixo: quem havia de decidir? Brunet já decidiu. as cortinas verdes e pensou: «Já não se sentará nas minhas cadeiras. agrada me dizer não. pode se sempre discutir. pouco antes. como se desejar. Mathieu chegou se à janela e encostou se ao parapeito. «Recusei porque quero continuar livre. Uma tarde de Verão. porque já não teria motivos de indignação. sempre não. à tarde. se mudares de opinião. Agrada me indignar me contra o capitalismo. e ele mantinha a cabeça fora da água e olhava a rua pensando: «É verdade? É verdade que não podia aceitar?» Uma menina ao longe saltava à corda. e as ruas uma por uma tornavam se reais. a luz estava pousada na rua e nos telhados. Ia pelas ruas gingando um pouco como um marinheiro. Todos decidiram que sou um sacana. A menina saltava à corda eternamente. acreditava estar a ser sincero. mas não desejo que o suprimam.

E Mathieu contemplá la ia eternamente. Daniel olhara para o espelho do vestíbulo e pensara: «Vai recomeçar».» IX E ram seis horas. que olhavam as ruas desertas e eternas. Iria porque não tinha a menor vontade de deixar de o fazer. «O meu pesa papéis. De manhã. do mesmo destino vago e ameaçador. Nada mais lhe ficou senão um ruído surdo de avalancha. os meus móveis. Apropriando se do sorriso vago dos homens. Livre. ou sorriam no vazio com espanto. Era fácil esconder se ali. os gatos. às janelas. não passava de um saguão aberto. Ao sair do escritório. As mulheres pintadas que saíam das lojas deitavam lhe olhares provocantes e ele sentia o próprio corpo: «Putas».» Em cima da mesa havia um pesa papéis em forma de caranguejo. a visita de Mathieu. à noite. Para quê? Para quê?» Deixou cair o caranguejo sobre a mesa e declarou: «Sou um tipo lixado. Marcelle. e caminhava devagar. em Madrid e em Valência. Para quê saltar à corda? Para quê? Para quê? Para quê resolver ser livre? Sob aquela mesma luz. perdeu se. Não era muito cómodo esconder se. Era uma verdadeira multidão. Tinha medo de lhes respirar o cheiro. era inevitável. podia perfeitamente desejar uma ligeira compensação. Felizmente eram raras. pelo menos.» Isso queria dizer: «Vou dar uma volta pela quermesse».pés. «A minha poltrona. Nunca se perdia por muito tempo. tenho tempo de andar um bocado. «Vou chegar cedo de mais a casa de Marcelle. . e teve medo. Daniel seguiu a passo lento o desfile. pois Daniel já não era capaz de se iludir. Um pesado destino de multidão parecia esmagá lo. Entrou pela Rua Réaumur. desconfiado. A tarde esvaziava os edifícios comerciais. Liam os jornais ou limpavam com uma expressão de cansaço as lentes dos óculos. mas a luz seguiu o. a mulher cheira sempre. Voltara a encontrar se. embora não densa. havia homens. uma sala de espera de um tribunal. era agora uma praia de luz esquecida. Aliás. depois quatro horas de trabalho odioso. Mesmo na Rua Réaumur era muito notado. «Posso andar um pouco. e diziam: «Para quê? Para quê continuar a lutar?» Mathieu voltou se para dentro do quarto. o olhar de Daniel deslizava por entre aquelas falésias abertas até ao céu rosado e corrupto que elas fechavam no horizonte. Mathieu pegou lhe por cima como se estivesse vivo. Por mais que se lave. Não era uma rua para mulheres e os homens não se preocupavam J E A N P AUL SARTRE com ele. Isso permitia. para quê? Queria ir à quermesse? Pois iria. disse entre dentes. fugir à tentação de imaginar intimidades atrás das vidraças escuras das janelas.» Empertigou se novamente.

Não via nada. e diminuiu o passo. dar lhes corda. Quermesse. para partir em mil pedaços o pouco de dignidade que ainda lhe resta. senão é a náusea. de voz rouca. . Às vezes provocava asma. Quanto aos michés. ela só existia aparentemente.» Tinha a garganta seca. aí é que o inspector de finanças Durat descobrira a puta que o tinha matado. «Vou até à quermesse. E depois. agora Marcelle estava podre. viu a tabuleta. aturdidos. Deixava se doutrinar durante horas. ternos. não era mal nenhum: queria observar a táctica dos maricas no engate. de resto. e encarava os fixamente enquanto batiam as asas sob os olhares maldosos e escarnecedores dos jovens amantes. Um homem que se condena a si próprio tem sempre vontade de dar pancada para se liquidar de vez. enormes e leves como elefantes de borracha. dissimulados. flutuavam a baixa altura. Não cheirava a nada. vozes de mel. O quarto dela estava irrespirável. cor de gema de ovo. erguê los no ar. só tinha diante dele uma distância com obstáculos. humildes e de olhar ligeiramente alucinado. Daniel nunca atingia o fim da rua.Marcelle era um charco. brutais e canalhas.» Não precisava de se desculpar tanto. sim. A quermesse do Bulevar Sébastopol era célebre no género. dizia sempre sim. Mas é preciso mudar constan temente de imbecis. Daniel não suportava a humildade deles. verificou se os rostos lhe eram desconhecidos e entrou. Sentia desejo de lhes bater. sedosos. Daniel ficou subitamente apressado e esticou o passo: «Vamos rir. Habitualmente encostava se a uma coluna. A Rua Réaumur esvaiu se. as pessoas. puxar a corda e voltá los. quando lá entrava. a lembrança de uma luz espessa. mas tinha se sem DADE DA RAZÃO pré uma inquietação no fundo dos brônquios. essa luz ignóbil que flutuava entre os muros baixos como um cheiro a cave. e ele estragava lhes todo o prazer. Os michés tomavam no por protector de um dos meninos. que procuravam apenas ganhar dez francos e um jantar. Valia a pena divertir se um bocado com os imbecis. tinham sempre um ar de se confessar culpados. e as ideias amontoavam se Ihe na cabeça. havia uma mancha na frente dos seus olhos. eram vadios ocasionais. Mas nos verdadeiros pesadelos. estupefactos. calcinado pelo sol claro. que o repelia e atraía ao mesmo tempo. Os malandros que se distraíam diante dos caça níqueis à espera de freguês eram muito mais divertidos que os seus colegas de Montparnasse. como borboletas. dançam a cada sacudidela do fio com saltos desajeitados. Parecia um J E A N P AUL SARTRE pesadelo. era de morrer a rir. o ar seco queimava em volta dele. Mesmo em tempos normais não podia deixar de fungar. Entrou no Bulevar Sébastopol.

No fim de momentos. sete jogadores de pólo. Um senhor de monóculo aproximou se de um desses aparelhos. tinham começado a dar socos. As horas que passava na quermesse pareciam lhe ritmadas pelo martelar surdo das bielas. atraído sem dúvida pela lâmpada eléctrica e pela Kodak que descansavam atrás dos vidros sobre uma pilha de bombons. sonhava com ela às vezes e acordava sobressaltado. No fundo da sala havia três filas de kineramas e os títulos dos filmes destacavam se em letras negras: Jovem Casal. Banho de Sol. ao luar. por entre casas e campos. os distribuidores de chocolate e perfume. Daniel sufocava: era aquela poeira. o automóvel de lata que se tinha de empurrar sobre uma estrada de pano. Lançaram olhares maliciosos a Daniel e continuaram a bater com entusiasmo. Daniel mergulhou na luz amarela. contra a luz. Daniel conhecia os a todos: os jogadores de futebol. a intervalos regulares. além disso. lembrava lhe certa noite que passara doente a bordo do navio de Palermo. Para Daniel era uma luz de enjoo. feliz por voltar às trevas. vinte e duas figurinhas de madeira pintada espetadas em ganchos de ferro. Criadinhas Devassas. Na sala das máquinas. Depois afastou se e pareceu . a carabina eléctrica. Colocou um franco na ranhura e espreitou pelo binóculo. Viu a isca à esquerda. Eram quatro. arregaçado as mangas das camisas sobre os bracinhos magros e batiam alucinadamente sobre a almofada. aquele calor e. os cinco gatinhes pretos no tecto. Tinham tirado os casacos. Não era com certeza um canalha como os outros. manequim de dois metros de altura que trazia sobre o ventre uma almofada de couro e um mostrador. devia ter entrado por acaso — Daniel punha as mãos no fogo — e parecia absorto na contemplação de uma grua. À direita. Uns rapazes pobremente vestidos tinham se agrupado em volta do pugilista negro. e que se tinham de derrubar com cinco tiros de revólver. aliás parecia não os conhecer. deserta. Uma agulha marcava no mostrador a força dos murros. viu um rapaz alto e de rosto cinzento que vestia um fato amarrotado. uma camisa de dormir e alpercatas. pois a claridade do dia amontoava a no fundo da sala. havia uma bruma amarelada semelhante. aproximou se lentamente e meteu uma moeda de um franco na ranhura do aparelho.Era uma trincheira empoeirada com muros caiados de castanho de uma fealdade severa e cheiro de um depósito de mercadorias. um ruivo e dois morenos. Ao longo das paredes tinham posto umas caixas grosseiras sobre quatro pés: eram os jogos. Noite de Núpcias Interrompida. do outro lado da parede. Daniel franziu o sobrolho para mostrar lhes que se enganavam no endereço e virou lhes as costas. com uma pressa desajeitada. junto à caixa. um louro. que parecia mais triste ainda e mais cremosa que de costume.

Estava ligeiramente desvairado. Não devia imaginar por detrás daquele corpo magro e atraente. Mas um homem entrou. uma tez aveludada sob os cabelos brancos. Daniel compreendia muito bem que se podia ser tragado por um daqueles aparelhos. os mais românticos.» Não não devia. Aquele aparelho niquelado parecia satisfeito. um amor de si próprio profundo e aveludado. O senhor avançou com petulância. mas ainda assim contente por ter resistido. «Eis o homem». Daniel fazia votos para que ele ganhasse a lâmpada eléctrica. um belo nariz florentino e um olhar um pouco mais duro e míope do que o que seria necessário: o olhar de circunstância. pensou Daniel. Não aqui neste inferno.» Ia recomeçar o pesadelo.. nesta luz sinistra.perder se em meditações. aqueles cujo menor movimento revelava uma garridice inconsciente. mas sem grande entusiasmo. «não come desde ontem. «Ele gosta». J E A N P AUL SARTRE O guindaste girou sobre si mesmo com um ruído de engrenagem e estremecimentos senis.» Eram os mais atraentes. Os quatro vadios voltaram se ao mesmo tempo. O senhor olhou os com um olhar prudente. pensou. pensou Daniel. Daniel sentiu um arrepio familiar percorrer lhe a nuca. Daniel teve medo. recomeçar sempre. «Não hoje. deu um passo em frente. Devia ter uns cinquenta anos. bem barbeado. com aqueles murros junto da parede. e Daniel libertou se. O aparelho tremia todo. pensativo. estava cheio de vontade de pousar a mão no braço do rapaz — já sentia o contacto da fazenda áspera e usada — e dizer lhe: «Não jogue mais. do qual não se excluía uma certa severidade. Ia precisar de dias e dias para se libertar daquilo. com a garganta seca de vertigem e ódio. de liberdade e de esperança. procurou nos bolsos e descobriu outra moeda. depois recomeçaram a dar socos na barriga do negro. uma vida misteriosa de privações. «São as suas últimas moedas». Empertigou se. «gosta de se acariciar. coçando o nariz.. aquela tristeza infinita e familiar que ia tudo submergir. O rapaz. que tinham um aspecto avaro e estúpido de feijões. num gesto vivo. aquele tanta vitorioso junto da parede. Daniel compreendia todas as vertigens. O rapaz não pareceu decepcionado. aquela maré de tristeza resignada que subia nele. perder todo o dinheiro. «Deve usar cinta». jurei aguentar. pensou.» No entanto. exibindo o mesmo ar de inocência viciada. mas o buraco cuspiu de repente um punhado de bombons multicores. dobrando os joelhos. Fez girar as alavancas e examinou os . com aquele gosto a eternidade. todo preocupado com o seu próprio prazer. O guindaste pôs se a girar com movimentos prudentes e desdenhosos. e recomeçar. pensou que ia desatar a rir. resistir. o busto recto e as pernas flexíveis. pegou nas alavancas e pôs se a manobrá las com convicção.

Daniel viu o sorriso e sentiu um baque em pleno coração. O senhor petulante inclinou se sobre o jogo e passou o dedo frágil no corpo magro dos bonecos de madeira. Quer — explicar me? Eu não compreendo. «amassa se corno pão. aquelas simulações e mentiras horrorizaram no e ele teve uma grande vontade de fugir. tê lo ia visto. o rapaz de camisa de dormir tirara do bolso uma terceira moeda e recomeçava pela terceira vez a sua dança silenciosa em torno da grua. com modéstia. Acontece me entrar por acaso. sou bom fisionomista e você tem um rosto interessante. Um impulso sem consequências. um olhar de cão sob as sobrancelhas espessas. Ensine me. de o lavar e talvez perfumar. Encostou se comodamente à coluna e lançou sobre o senhor um olhar pesado. dando o primeiro passo. temeroso. — Sim. era uma isca deleitável para aqueles peixinhos todos. não é? Eu tento enviar uma bola para o buraco e você procura impedir. Sim. com os seus cabelos brancos e a sua roupa clara. O rapaz ao fim de um instante pareceu tomar uma decisão heróica: empunhou uma alavanca e fê la girar com rapidez. nas gordas bochechas camponesas.» O senhor era capaz de o levar para casa. — E o hábito — respondeu o rapaz. «Carne de mulher». lembrar me ia de si. mas nunca o encontrei. À direita. Parecia farejar. já o conhecia. O velho disse em voz de falsete: — É muito hábil! Como conseguiu? Ganha sempre. faz treinos? Vem sempre aqui. Quatro jogadores descreveram um semicírculo e pararam de cabeça para baixo. — Quer fazer uma partida comigo? — Eu.bonecos com uma atenção sorridente. é preciso mandá las para o buraco. Pusera o casaco sobre os ombros. pensou. — Ponha um franco e puxe. sem o vestir. A seguir acrescentou: — Precisam de ser dois: um de cada lado. após um rápido conciliábulo. como se ele próprio se divertisse com o capricho que o conduzia ali. sim. considerava sem dúvida que. Daniel reparou eno J E A N P AUL SARTRE jado nos quadris avantajados. mas cinzentas. sim. — Mas é preciso ser dois. sem dúvida? Eu não. «Filhos da puta». não é? — Isso mesmo — disse o rapaz. Com efeito. que uma ligeira barba sujava. e aproximou se do miché com as mãos nos bolsos. Não queria baixar se. — Sabe jogar? — perguntou o velho com uma voz doce. claro que quero. Inclinaram se ambos sobre as alavancas e inspeccionavam nas sem se olharem. O rapaz parara a poucos passos do velho e fingia examinar também o aparelho. murmurou. Jogaram. o lourinho destacou se do grupo. Mas foi apenas um instante. Esse pensamento enfureceu Daniel. As bolas saem. É da província? .

depois sairia por sua vez arrastando os pés. Por mais que Daniel prestasse atenção. O senhor parou de jogar e aproximou se do rapaz. — Pois jogamos daqui a pouco. em voz baixa. não tinha o menor interesse. pois. — Mas a partida não acabou — disse o rapaz. Daniel gozava de antemão a cena. Sr. ouvia apenas as palavras «rancho» e «bilhar». e o homem desviou os olhos. o velho pôs se a falar com doçura. O velho para juntar se a ele teve de dar uma volta sobre si mesmo. O velho não respondeu e lançou uma olhadela furtiva para o lado de Daniel. O rapaz consentiu com a cabeça. passaria por polícia de costu J E A N P AUL SARTRE mês. esfregou as mãos como um padre. O rapaz sorriu forçadamente. desconcertado. Fizera se gordo e grande. pareceu inquieto. Aquele sorriso enfureceu Daniel. Conhecia o ritual: parecia um adeus. e deparou com o olhar de Daniel. Daniel sobressaltou se. olhar vazio e deferente. Imaginava o velho de um lado para o outro no passeio. finalmente. mostro lhe a minha carteira de funcionário. daria um soco ou dois no ventre do negro. O rapaz não vira nada. Lalique — disse uma voz sumida. As suas mãos tremiam e a sua felicidade era perfeita se não sentisse a garganta seca com a sede. usava roupa nova. — Deve ser «massa»! — disse em voz alta. — Tinha te proibido de voltar aqui. fala! — Ando à procura do senhor há três dias — disse Bobby com a sua voz arrastada —. Este fez um ar de desprezo. o velho sairia à frente apressado. ingenuamente —. Ia segui lo. «Se pedir os meus documentos. Pensei: «Um destes . comprada feita. assentava o nome e o endereço do velho e pregava Ihe um tremendo susto. devorando com olhar de juiz o rosto delicado e gasto da presa. Daniel empregara o numa farmácia. Daniel sentia se reconfortado por uma cólera seca e deliciosa. sem o olhar. Prefiro conversar. aguardava que lhe dirigissem a palavra. Bobby inclinara a cabeça sobre o ombro e fazia como os meninos. Levantou a cabeça. com um sorriso inocente e astuto. se não vê mal nisso. — Vamos. Era Bobby. não sei a sua morada.A — Sou — disse o rapaz.» — Bom dia. Se houvesse oportunidade. vendo chegar de repente o rapaz acompanhado por Daniel. Olhava Daniel sem responder. O rapaz voltaria para os companheiros com indolência. — Que estás a fazer aqui? — perguntou com severidade. Fez se silêncio e. Voltou se bruscamente. De boca aberta. ainda tem cinco bolas. passando a língua sobre os lábios finos. Lalique era um nome de guerra que usava às vezes.

Daniel vem aqui. desatando a rir. — Desculpe — disse Bobby sem se apressar.. um dia Bobby tinha lhe agradado. Apesar da repugnância. Depois disse lhe adeus. e essa roupa não te serve. Ele inclinava a cabeça para trás e olhava o tecto com uma expressão de humilde volúpia através das pálpebras semicerradas.» — Que é que queres? — perguntou brutalmente. foi por isso que tomei a liberdade.» Atrevia se a julgar Daniel. respirava lhe os cabelos com um ar de bondade. — Estás feio — afirmou —. Mas isso dar lhe ia direitos para sempre? O velho pegava na mão do jovem amigo e conservava a paternalmente entre as suas. Em todo o caso. e ali ficaria para sempre. pensou Daniel com um estremecimento de raiva. que tresandas a brilhantina. Sim. — Compraste uma língua juntamente com a roupa? Os sarcasmos não atingiam Bobby. Daniel deitou uma olhadela furtiva para o velho e viu com despeito que este já não fazia cerimónia. «Vê me com este canalha e toma me por colega. «Pensam que todos o são. Inclinava se sobre o miúdo. onde a arranjaste? É horrível como a tua vulgaridade sobressai quando estás endomingado! Bobby pareceu não se incomodar.» Tinha horror a essa franco maçonaria de mictórios. Olhava Daniel arregalando os olhos gentilmente e continuava a sorrir. Daniel detestava aquela paciência inerte de pobre. — Como estava encostado à coluna e não parecia de modo algum apressado. mas o outro já tinha virado as costas. pensou Daniel com ódio. Bobby riu se. dar uma voltinha. — Que é que foi? — observou Daniel. «Agradou me porque se parecia com um gato». e que ainda continuaria mesmo que lhe rebentassem os lábios a soco. — Oh! Tu falas bem! — disse Daniel. — Estou com pressa.» «Um destes dias! Merda insolente. engordaste. preferia matar me a parecer me com esse tipo. a fazer previsões: «Imagina que me conhece e pode manobrar me. — Foi porque o senhor mostrou a língua ao velho maricas — . pois uma certa imagem de Daniel ali se achava incrustada. debaixo daquela fronte estreita. deitou um olhar de cumplicidade a Daniel e saiu a passos largos e dançantes.. Estou sujo. a não ser esmagá lo como uma lesma. aquele sorriso mole e tenaz de borracha. com uma palmadinha no rosto.dias o Sr. J E A N P AUL SARTRE Daniel mostrou lhe a língua. «Era de esperar». Daniel sentia se solidário com aquela mancha plácida e viva: era ele que assim vivia na consciência de Bobby.» E nada há a fazer contra isto. E vê se te afastas um bocado.

sei lá. pensou Daniel.» Pan! A sala estava deserta. «Não perdes pela demora». Invadido por uma suspeita perguntou: — E a farmácia? Já lá não estás? — Não tenho sorte — disse Bobby.» E não tinha um tostão. Daniel. «proíbo que ele entre na minha farmácia. é um tipo estuporado. Tinha medo da solidão. — Nem por isso deixaste de engordar. mas não queria deixá lo assim de repente.» DADE DA RAZÃO Que fazer. com nojo. O tipo louro saiu vagarosamente da quermesse. bom — disse Daniel. rindo muito alto. ir me embora. que nos viu juntos. — Eu é que saí — disse Bobby muito digno. essa mulher era uma puta. O estupor parece gostar de coisas — disse Bobby com pudor. — Disse: «Prefiro. que fazíamos coisas. mas lá fora não me pode dizer nada — repetiu Bobbv com agrado. — Que é que fizeste? Roubaste? — Foi a mulher do farmacêutico — respondeu Bobby. Então comecei a ver Ralph fora da farmácia para não ser apanhado. — Não gostava de mim. horrorizado. O rapaz em camisa de dormir já não estava lá. perguntou a patroa. — Na farmácia a senhora é quem manda. Mas o estagiário encontrou nos juntos. o ruído dos socos parara. «E um ladrão». «Que estou a fazer aqui?». Ao passar roçou ao de leve Daniel. atropelavam se. Sr. Bateram as sete horas. era só Bobby para aqui. E acrescentou em tom carinhoso: — É sempre o mesmo. Procurou com o olhar o dorso curvado e a nuca magra do rapaz em camisa de dormir. — Começou a hostilizar me porque eu via Ralph. queixoso. Daniel sentiu se cansado e vazio. — Então devemos abandonar os amigos. — No princípio. era uma loura gorda. só porque tivemos sorte? — atalhou Bobby com indignação. Os três companheiros seguiram no logo depois. que as pessoas se escandalizavam. Bobby para ali.» — «Minha senhora». «Ou não tornas a ver Ralph ou sais daqui. mas eu mandei o passear. «na farmácia a senhora é que manda. — Então puseram te na rua? — perguntou. A caixa levantou se. a sorrir. sempre brincalhão. — Vamos. fala — disse distraidamente. disse me ele. E então vomita tudo na farmácia. Daniel encarou o. mas lá fora não me pode dizer nada. «Que é que eu te disse?». Dirigiu se com passinhos curtos até um distribuidor de perfume e olhou se no espelho.disse Bobby. — Já te tinha dito para não te dares com Ralph. Daniel estremeceu. hem! Eles não me . quando entrei para a farmácia. — Bom. — Via o menos. dizia ela. disse eu.

Esfalfo me para arranjar um lugar e consegues ser J E A N P AUL SARTRE posto na rua ao fim de um mês. Lalique. Está enganado sobre o Ralph. — Vai te embora. Bobby afastou se. Lalique. Ralph e eu. hem. durmo de dia porque à noite ele recebe a puta. — Quanto queres? — repetiu Daniel. verás como ele não me deixa em apuros. Bobby pôs se a fazer trejeitos. não penses que acredito em metade do que me contaste. com voz humilde. toma cinquenta. — Estávamos com um projecto de trabalhar juntos. — Ainda hoje dizia a Ralph: se eu encontrar o Sr. Aliás. mas sentia as pernas moles.quiseram pagar o que me deviam. Sr. Depois deu meia volta e foi se embora. — disse Bobby com indiferença. ou com Ralph.. — Sim? E vieste pedir me dinheiro para as primeiras despesas? Guarda essas histórias para outros. Sr. Devolvia lho no fim do mês. Deu uma saída em falso e voltou atrás. Na Rua dês Ours. A — Vai te embora — disse Daniel com rudeza. E uma aventura séria. Durmo na casa de Ralph. carinhosamente. Lalique — disse Bobby. Quanto queres? — É um bom tipo. ele gosta muito de si. — Disse a mim próprio: vou ver se encontro o Sr. — És um idiota — disse Daniel.. — Se pudesse emprestar me. Não como desde anteontem. a recuar e sorrindo sempre. Sentia se acovardado. — Pode perguntar lhe. Bobby meteu o dinheiro no bolso sem falar e ficaram um diante do outro. mas não faz mal. no sétimo andar. Ver se não estou a dizer a verdade. — Já não me interessas. 6. — Obrigado. O corpo parecia lhe algodão. — Se quiser falar comigo. são dados. indecisos. Olhou Daniel. nós moramos aqui perto. pensou: «Tenho de me ir embora». — Queremos arranjar um comércio. Lalique. Ao lado da Kodak e da lâmpada eléctrica havia um . ele compreende me. E depois. — Deus me livre! Não estou disposto a ouvir as suas histórias. — Toma — disse Daniel —. Eu sou assim. E desaparece. emprestar. Mentes como um tira dentes. — Perguntar a quem? — À patroa. Daniel aproximou se do guindaste e olhou. não posso fazer nada por ti. Quanto? — Cem francos.

Em 1912. sensível às grandes . não tivera sequer a coragem de se satisfazer. Deixara se roçar pelo Mal. não em 1913. permitira tudo. a natureza toda. Qualquer coisa naquele céu. «Ser aquele tipo». o céu estava cheio de ouro. tinha ainda na vista aquela mancha amarela. porém não queria beber. aquecia se ao sol. estava invadido por ele da cabeça aos pés. Ralph. Gostaria que me tivesse seguido. Além disso. É verdade que renascia sempre. Um senhor disse à mulher: — Mas isso foi antes da guerra.» Mas o quê? Teria cuidado para não o esquecer. Agora carregava o Mal dentro dele como uma comichão infecciosa. eles sabiam que tinham razão. desgraçado! Morre de sede! «Afinal». Devia ter um coração reverencioso. um porteiro gordo e pálido. Tinha sido preferível deixar se esma J E A N P AUL SARTRE gar pelo prazer. Ao lado dele as pessoas tagarelavam em paz com a consciência. Voltou se bruscamente: «É capaz de me seguir para ver onde moro. pensou: «Eis o Bem. A paz de boa gente. dar lhe ia uma tremenda sova na rua!» Porém Bobby não aparecia. Porque será a vontade deles a boa.binóculo que não tinha visto antes. via as pessoas passarem e de quando em quando aprovava uma qualquer pessoa com um meneio de cabeça. O guindaste deixou cair os ponteiros sobre o monte de bombons. Daniel estava com uma sede infernal.. como sempre.» O porteiro estava sentado numa cadeira.. Daniel recolheu cinco ou seis na palma da mão e comeu os. de ombros caídos.. pensou.. com as mãos sobre o ventre como um Buda. E o céu. Daniel olhou os seus rostos: eram duros apesar de um aparente abandono. estava com eles. «não fiz nada que mereça castigo. que Deus. mas uma sombra suave e líquida subia da rua. menos a satisfação. tudo os aprovaria. Rua dês Ours. da gente honesta. Enfiou uma moeda no aparelho e rodou os manípulos ao acaso. Ganhara o dia e devia ter voltado para casa. com inveja. Eu ainda estava com Paul Lucas. naquela natureza. No limiar da entrada de um edifício. pensou Daniel. da gente de bem. morre. a luz. 6. se existia. os olhos amarelavam lhe tudo. pois esmagado daquela maneira também era mal. Se fosse possível esquecer aquela direcção. assim o tinha resolvido. dos homens de boa vontade. Daniel era um homem de má vontade. Daniel estremeceu: «Se pudesse esquecer aquela direcção. e não a minha?» Assim era. Daniel viu o de longe.» Mas fora pior. as árvores. as pessoas sorriam à carícia da sombra. O sol derramava um pouco de ouro nos grandes edifícios escuros. «A paz. naquela luz. Eles bem o sabiam. Bastaria um sinal para que esses homens se atirassem contra ele e o fizessem em pedaços.

fascinado pelas longas pestanas estúpidas. mas estava calmo e frio. e depois era delicioso encontrar se nos limites de Paris. Haveria. mas o último passo tinha sido muito maior do que os outros. biblioteca. precisando melhor a sua ideia.» Atravessou a rua. A luz contribuía muito para isso. Em sindicato.» Não podia falhar. Boris concordaria em participar de uma fita demonstrativa! «Ah!».» Deu os treze passos e parou justamente à beira do passeio. Já não sabia se tinha vontade de o matar ou de deslizar confortavelmente dentro daquela alma bem regrada. Cada novo aperfeiçoamento seria reproduzido. apenas. «Se chegar ao passeio em treze passos. Tudo se classificaria por categorias.forças naturais.» O processo assentava quase inteiramente na psicologia. tradições. até ter na cabeça apenas uma massa branca com um perfumezinho de sabão de barba. «Aliás. o roubo do mostruário pelo processo 1763. sentia se mergulhar no doce exílio religioso da noite e dos arrabaldes. pensou. à luz. era científico.. isto não tem a mínima importância. Daniel parou. por exemplo. de qualquer maneira o negócio está no papo. Ser lhe ia até muito útil. Com uma sede social. era uma musselina ruiva bem ajustada. eis o que faltava. «O que acontece». e Daniel esticou o passo. um pouco animado. ou «processo de Serguine». pensou com severidade. Era espantoso como as pessoas pareciam simpáticas na Avenida de Orleães. Não se iludia sobre os riscos. uma ética. fendera se como um esgrimista. Viu com prazer um bar cor de abóbora e verificou que estava no meio da Avenida de Orleães. como os prestidigita dores. «Isto dorme todas as noites». era de perguntar como ninguém tinha pensado naquilo antes. ao calor. dava lhe um ar de advogado. para as vielas sombrias de Saint Antoine. «Com a vida que levo. mas tinha de ser descoberto). Filmoteca também e fitas que decomporiam. pela malícia sentenciosa das bochechas cheias.» Deitou um olhar irritado sobre a pasta. à humidade. «Há muito tempo que deveriam ter se organizado. Embrutecer se até chegar àquele ponto. resta me a esperança de me tornar indulgente o mais depressa possível.. não gostava de carregar aquilo. em câmara lenta. também denominado ovo de Colombo (porque é simples como tudo. a teoria seria gravada em discos e traria o nome do inventor. Mas o mau humor depressa se esvaiu porque se lembrou de que não a trouxera por acaso. entre as sete e sete e meia da noite. ao frio. «e cursos gratuitos de psicologia do roubo. as ruas deslizavam sob os pés para o centro envelhecido e comercial da cidade. pensou. os movimentos mais difíceis. para o mercado. é indispensável. Os transeuntes parece que .» Uma associação para o conhecimento mútuo e a exploração dos processos técnicos. «é que os ladrões são uns estúpidos. O homem levantou a cabeça.

a multidão passa através de meu corpo. resolveu Boris. Era escrupu J E A N P AUL SARTRE losamente livre. Mas com janelas tão estreitas. E olham os mostruários com uma admiração inocente e inteiramente desinteressada. não era recomendável analisá la demasiado. pensou. como lagos artificiais. entusiasmado. considerando friamente as coisas. Que teria ido fazer aquele comunista a casa de Mathieu?». Mathieu não era tipo que se enganasse. não é triste. Pois. Certamente Mathieu não se enganara. com perplexidade. Boris compreendera imediatamente: é um dever fazer o que se quer. ser responsável apenas perante si próprio. pensou. «Talvez Mathieu tenha percebido que seguia um caminho errado e vá entrar para o partido. mas Mathieu tinha o desviado. se pudesse subir ao tecto da marquise do bar. dir se ia até que gostam disso. e eu penso em guardas municipais. pensou de repente Boris. Mas logo parou. Na Faculdade sentira se atraído pelo comunismo. veria os armários com espelho ao fundo dos quartos. Brunet então parecia um papa. nas grades douradas do Palais Royal. como se tivessem sido lambidas pelas chamas de um incêndio. essas fachadas lívidas e cheias de buraquinhos negros parecem manchas de tempestade num céu azul. Vejo as janelas. mas com a intenção de comprar. com excepção de Mathieu e Ivich.» E subitamente uma violenta e rápida borrasca desencadeou se lhe na cabeça. porque eram perfeitos. «Que estupor! Pôs me mesmo fora. Boris construíra a sua vida sobre esses alicerces. não. Quanto à liberdade. uma necessidade de ser mau. com um espanto divertido. pensar o que bem se entende. No Bulevar Saint Michel as pessoas olham também os mostruários. com esses era inútil. ensinando lhe o que era a liberdade.» Divertiu se durante um instante em enumerar as consequências incalculáveis de semelhante conversão. e perguntou a si próprio de onde vinham aqueles impulsos de tudo subverter que o assaltavam de vez em quando. Boris . Boris coçou a cabeça. analisar permanentemente o que se pensa dos outros. receoso. Não gostava dos comunistas. não se zangam quando são empurrados. «Hei de vir aqui todas as noites». não sei porquê. Em particular discutia sempre com todos. «E no próximo Verão hei de alugar um quarto numa dessas casas de três andares que parecem irmãs gémeas e fazem pensar na revolução de 48. devo ter um temperamento inquieto». eram sérios de mais. porque se deixava então de ser livre. seria demasiado grave agora que Boris se decidira. «Pôs me fora». no 14 de Julho.saíram de casa para estar juntos. como se arranjariam as mulheres para atirar colchões das camas sobre os soldados? Está tudo preto de fumo em volta das janelas. «No fundo.

Boris achava indecente um camarada da sua idade pensar por si. mas era afinal um trabalho sóbrio e elegante. às vezes. «Estupor». A noite ia cair. Perguntaria a Mathieu. dançaria. Boris tinha uma ideia. engasgava se. porém Mathieu era tenaz como um piolho. haveria aquele furto. Aquele dia. que desempenhara esse papel durante três . e enchia o de perguntas. repetiu Boris rindo. Sentia se de excelente humor e como que aveludado por dentro. Era um suplício. mas este percebia sempre. Tinha de ter cuidado. E depois a atmosfera cheirava a uma melancolia levíssima do dia envelhecido que agonizava devagar em volta dele. Mais tarde sim. Mathieu corava. os falsos espertos. estudantes de óculos que tinham sempre reservada uma teoria pessoal e acabavam por perder. mas não quis levar avante a investigação. Boris tinha horror ao ridículo. Boris sabia o por intermédio de Picard. exactamente entre o dia e a noite. fazia o possível para que Mathieu não percebesse.sentia se satisfeito e balançou alegremente a pasta. Empertigou se e apressou o passo. as teorias eram idiotas. gaguejava ligeiramente. Ficou confuso por momentos: quinhentos gramas! Mas percebeu que tinha a pasta na mão. e o pior é que Mathieu ainda por cima o descompunha. Subiu para a balança automática e pesou se para ver se não tinha engordado desde a véspera. sempre se tinha alegrado quando Mathieu se punha a pensar. Interrogou se também se era moral ter um temperamento inquieto. Demais. Boris tentava desviar a conversa. que o roçava com uma luz suave e perfumes cheios de saudades. mais uma pequenina etapa. aquele mar tropical que recuava deixando o sozinho sob o céu pálido. angulosas. mas por agora confiava em Mathieu. pensou. não têm jeito para nada e são detectives particulares. olhava para os pés. Cinquenta e sete quilos para um metro e setenta e três estava bem. por causa dos tipos que folheiam os livros. era uma etapa. Uma lâmpada vermelha acendeu. A Livraria Carbure tinha seis. Achou se simpático. ele ia ao Sumatra. e dizia lhe: «Você tem qualquer coisa na cabeça». veria Ivich. não queria perder e preferia calar se a passar por tolo: era menos humilhante. Já vira muito disso na Sorbona. «É completamente idiota. olhava os dedos. o mecanismo funcionou com um ruído sibilante e cuspiu um bilhete: cinquenta e sete quilos e meio. exactamente como se Boris se tivesse vangloriado de ser um génio. o estupor. veria Mathieu. Boris acabava por dizer tudo. E viu os prós e os contras. Desceu da balança e continuou a andar. raciocina como um cabo de vassoura». aquela obra prima. No entanto. E dali a pouco. Parou diante do espelho de uma bela farmácia vermelha e olhou a sua imagem com imparcialidade. de uma maneira ou de outra. «Sou modesto». Era o seu ofício. Aliás.

Ia abrir uma excepção aos seus princípios. que lhe lembrava a Idade Média. rapidamente. e. «Essa gente não sabe fazer as coisas. Por certo não sabia tudo.» Ele não improvisava. mas deixara o logo. às vezes as informações obtidas eram falseadas. a cinco é preciso que a escova esteja no meu bolso. eram então levados. oitenta improvisam. «Será meu. que se aproximam timidamente do mostruário. e extorquiam lhe cem francos com a ameaça de um processo. havia de os vingar.dias depois de ter reprovado em Geologia. possuiria aquela jóia. «Aquele thesaurus!». a tenaz de lareira e o ovo de passajar. poderei consultá lo a qualquer hora do dia ou da noite». O benefício do roubo era exclusivamente moral. «Ora». ao passo que agora era forçado a consultá lo de passagem nos mostruários. aquele tesouro indispensável. Sorriu. . «vou dormir a casa de Lola esta noite. levá lo ia para a biblioteca da Sorbona e de vez em quando.» Ficava com um nó na garganta e uma extraordinária impressão de lucidez e de força. pois gostava da palavra thesaurus. por exemplo. o interesse seria o móbil do roubo. murmurou. daria uma olhadela para se distrair. a bússola. o mais tardar. Mais valia roubar uma caixinha de pastilhas de alcaçuz sob o olhar do farmacêutico que uma carteira de cabedal de uma loja vazia. E depois havia um momento de inteira satisfação. pela primeira vez. para o fundo de um corredor. Não somente era J E A N P AUL SARTRE preciso espiar. disse aborrecido. pois não se podia considerar lucro as dezassete escovas de dentes que possuía. Até ali não tirara nenhum proveito material dos seus empreendimentos. a ele não o apanhavam. Tinha de cair lhes em cima de repente acusando os de terem tentado enfiar um livro no bolso. ao interromper o trabalho de revisão. O que lhe importava em cada caso era a dificuldade técnica. tivera de o fazer porque os pais lhe tinham cortado a mesada. em cem ladrões. os tipos de monóculo. enojado. como as páginas não estavam cortadas. mas ainda ficar de espreita para apanhar os ingénuos. um escritório sombrio. Ia colocá lo naquela mesma noite sobre a mesa de cabe ceira e na manhã seguinte o seu primeiro olhar seria para o livro.» Em todo o caso. como um inspector vulgar. Naturalmente os infelizes perdiam a cabeça. Fausto e os cintos de castidade do Museu de Cluny. era quando dizia: «Vou contar até cinco. era uma ascese. pois sempre considerara que quem trabalha com a cabeça deve ter um ofício manual também. um herbário. nem os vinte francos. para se manter em contacto com a realidade. Abelardo. mas o que sabia aprendera com método. Boris sentiu se «embriagado». Neste ponto estava de acordo com os antigos espartanos. Dentro de meia hora.

Boris deitou. com excepção de uma tinturaria escura com cortinas cor de sangue que pendiam lamentavelmente como cabeleiras escalpadas. como Lola. Contaria também a história a Lola para a chatear. Que podia invocar contra o roubo. um dia também me hás de roubar a mim. ele dizia que sim para a irritar. «Sim. chegaria ao milhar. havia na sua admiração algo provisório que fazia que ela fosse imensa. talvez duas. detestava a mania de Lola de ligar tudo a si própria. Aliás era um recanto sem carácter. com um vago mal estar.Decidiu se a aprender uma locução por dia. J E A N P AUL SARTRE O sangue subiu lhe ao rosto. depois sacudiu a cabeça e disse: «É estúpido!» Dentro de cinco anos. uma olhadela amável à tinturaria e depois mergulhou no silêncio louro e distinto da rua. é porque não tinha jeito. é fácil de mais. quem sabe. desde que fosse efectuado dentro da regra? Essa censura tácita de Mathieu preocupou o durante alguns instantes. Teria de mudar.» Naturalmente isso não tinha sentido. Ela dizia lhe: «Eras capaz de roubar a tua mãe. seria o seu próprio juiz. não estava ainda maduro.. Mathieu era uma etapa. e nos momentos em que Boris mais o admirava. Com as quinhentas ou seiscentas que já conhecia. Atravessou o Bulevar Raspail e entrou pela Rua Denfert Rochereau. Não era compreensível. ao passar.» E ele respondia: «Quem sabe. Mas Mathieu. Se ela própria não roubava. não contaria nada. Mas Mathieu não se mostrava muito à vontade nessas histórias de furtos.» Boris não tinha nenhuma vontade de que esse dia chegasse e achava que era perfeitamente feliz.» Não. Uma rua? Era apenas um buraco com casas de ambos os lados. «Nem sei se ainda nos veremos. ela compreenderia.. não podia entender certas subtilezas e depois era um bocado avarenta. A Ivich sim. Mathieu era tão perfeito quanto possível. mas Boris não tinha muito a certeza de que ele os aprovasse. o que se podia considerar muito bom. Não compreendia o que Mathieu podia censurar lhe. imaginou que caminhava sobre uma fina camada de asfalto e que talvez ela fosse ceder. A Rua Denfert Rochereau aborrecia o muito. talvez por causa dos castanheiros. mas não podia mudar ao mesmo . as de Mathieu parecer lhe iam ingénuas e antiquadas. Ria com indulgência quando Boris lhe falava. e tirou dessa verificação algum conforto. não se roubam os íntimos. em seis meses seriam trezentas e sessenta. mas era normal. mas não era desprovido de bom senso e sabia que isso era uma necessidade. Lola ficava doida com isso. ele vai ficar doido. sete anos. de deixar para trás uma multidão de coisas e de gente. pensou Boris. teria as suas ideias próprias. mas o metro passa aqui em baixo». «Tenho de contar isto a Mathieu. mas sem servilismo. se houver uma oportunidade.

Havia duas manchas de ferrugem na lâmina. Estes pensamentos aborreceram Boris e sentiu se satisfeito por chegar à Praça Edmond Rostand.°. in 4. sombrinhas verdes e vermelhas. entrar na loja. Tinha como princípio agir friamente. não era prudente chegar de rosto corado pela esperança. já não podia mudar. O livro ali estava. gemeu Boris. tudo triste. enorme. A Livraria Carbure achava se instalada na esquina da Rua Vaugirard com o Bulevar Saint Michel e tinha — o que auxiliava as intenções de Boris — uma entrada em cada rua. Era uma verdadeira navalha espanhola. parecia sangue. Queria dominar a sua impaciência. metodicamente. Impôs a si próprio a obrigação de permanecer imóvel diante da loja de um negociante de guarda chuvas e de cutelaria. elegante como um quarto crescente. lamentável. A navalha descansava aberta sobre uma prancheta de madeira envernizada. como recompensa se tiver bom êxito. «Vai ser preciso enfiar isto na pasta». guarda chuvas de cabos de marfim. parou. na maioria. Setecentas páginas. . Depois. alguns em forma de cabeça de buldogue. aproximou se da terceira mesa. «Uma navalha espanhola!». «Picard há de me ensinar a atirá la». Hei de comprá la daqui a pouco. tão grande que Boris ficou desanimado durante uns momentos. era perfeito de mais. carregando a sua presa. Era sempre agradável atravessá la por causa dos autocarros que se precipitavam sobre as pessoas como enormes perus e evitavam nos por um fio. comprar a navalha e fugir. «Que não tivessem tido a ideia de guardar o livro precisamente hoje!» Na esquina da Rua Monsieur le Prince e do Bulevar Saint Michel. Daqui a pouco. com o coração contraído de desejo. sucumbido.tempo que Boris. como um ladrão. na montra. Diante da livraria tinham colocado seis mesas cheias de livros. papel encorpado. murmurou. cabo de osso preto. de ocasião. Mas bastou lhe olhar o título dourado que luzia docemente para sentir voltar lhe a coragem. queria largar tudo. Dicionário Histórico e Etimológico da Linguagem Popular e do Calão desde o Século XIV até à Época Contemporânea. mola. a olhar os objectos uns após outros. tudo o que não fosse o brilho frio da lâmina deixou J E A N P AUL SARTRE de o interessar. com olhos de lobo. «Oh!». Boris contemplou a longamente e o mundo perdeu a cor à sua volta. Ia atingir um estado de resolução fria e sem alegria quando viu de repente uma coisa que o mergulhou de novo no júbilo. mas o sentido do dever dominou o. pensou. entre dois guarda chuvas. Boris verificou com uma olhadela onde se encontrava o senhor de bigodes ruivos que rondava amiúde por ali e que desconfiava ser um detective. de lâmina espessa e comprida. com um solavanco do corpo. e ainda por cima Boris pôs se a pensar nas pessoas idosas que compravam aqueles objectos. tremendo de prazer.

com admiração. Tocou na encadernação com a ponta dos dedos. Boris murmurou com uma voz engasgada. Pegou no volume com as duas mãos e ergueu o até aos olhos. e Boris . «mas agem cedo de mais. com sangue frio. Tinha um riso quente e agradável. para: ser levado a apreciar. mas fingindo se indiferente: J E A N P AUL SARTRE — É uma obra curiosa. Repetia. como que de propósito.. Boris largou a leitura e pôs se a rir sozinho. «Não é um livro. Boris vira o duas ou três vezes e achava o admirável. uma ousadia calculada que chocava um pouco Boris. Boris apreciava a elegância sóbria e despreocupada. Boris admirou lhe a desenvoltura. «Apanhado». pensou Boris. surpreendeu Boris a folhear o dicionário de calão. num gesto familiar e terno. por "ser invertido". Boris abriu o dicionário ao acaso. apesar de suave como manteiga fresca. — Bom dia — disse Sereno —. Era Daniel Sereno. Mas era evidente que Sereno considerava que tudo lhe era permitido. Exemplo: O cura era da coisa como um zangão. Atrás dele certamente o senhor de bigodes devia estar a espiá lo. Esta locução parece originária do Sudoeste da França. Era necessário iniciar a comédia. confessou que Sereno era perfeitamente elegante. naquela gravata amarela. um amigo de Mathieu. — Parei um pouco ao passar — respondeu de maneira embaraçada. Leu: «Ser de. que troçaria dele. Mas tinha um ar de sacana. Sereno desatou a rir. Uma mão pousou lhe sobre o ombro..«Histórico!» repetiu Boris com êxtase. Havia sem dúvida naquele fato de tweed quase cor de rosa. os que folheiam livros deixam nos sobre a mesa com receio dos detectives particulares. Devia ser ligeiramente míope. que está a ler? Parece fascinado. Sereno não respondeu. E depois. enlevado: «O cura era da coisa como um zangão.» Em seguida tornou se repentinamente sério e começou a contar: «Um! dois! três! quatro!». não podem provar coisa alguma. enquanto uma alegria austera e pura lhe fazia o coração pular.» Voltou se devagar. é um móvel. Locução usada comummente hoje em dia. pensou. mas era preciso desconfiar.. Na verdade mostrava se até amável de mais.. Sereno sorriu. folhear o volume..» As páginas seguintes não estavam cortadas. Mas o conjunto era inatacável. tomar uns ares de interessado que hesita e acaba por se deixar tentar. e isso iria ter por certo aos ouvidos de Mathieu. De costume. isso tinha. naquela camisa de linho. Por honestidade de espírito. Diz se também: "ser do homem". Traduza se: o cura apreciava a bagatela. Devia estar a preparar algum golpe sujo.. Não tinha o ar de sacana habitual. parecia mergulhado na leitura. Boris irritou se e resolveu observá lo severamente.

Era impudico. pensou que convinha falar o menos possível. Queria perguntar a Sereno o que entendia por «gestos cheios de ângulos». sob aquele olhar insistente. Estava a observá lo há um bom bocado e estava seduzido.. Sereno tinha uma voz de baixo muito agradável. Boris escutava atentamente. Sei quando um tipo é do homem — a expressão divertia o visivelmente —. os gestos têm uma moleza harmoniosa que não engana.achou o simpático porque abria inteiramente a boca quando se ria. Deve ser muito hábil. Sereno não parecia com vontade de se ir embora. Mas naquele instante o relógio da Sorbona soou. mas porque é que não se vai embora?» Aliás Mathieu prevenira o. Os seus gestos são vivos e precisos. Estava contente por ter um pretexto para romper o silêncio. Largou o livro sobre a mesa. Além disso. mas cheios de ângulos. «Se ele não se for embora imediatamente. e Boris parou. — Não core — disse Sereno (Boris sentiu se cor de sangue) — e saiba que um tal pensamento nem sequer me passou pelo espírito. quase de maníaco. — Ser do homem! — disse Sereno. — Sim — disse Boris. Tinha a impressão de que Sereno desconfiava daquele J E A N P AUL SARTRE . sentia nascer dentro de si uma estranha e descon certante doçura. Pensou: «Estou a ser estúpido. — Está a estudar Filosofia. Virou a cabeça e fez se um silêncio difícil. É sempre interessante ouvir alguém explicar como nos vê. — Sim. Disse: — Confesso que não percebo nada de filosofia. desesperado. — Ser do homem! É um achado de que me servirei oportunamente. creio eu — continuou Sereno. daquilo de que gostava. que se sentiu corar pela segunda vez. pensou Boris resignadamente. gelado. Você deve perceber. além disso. pensou Boris. — Um pouco — atalhou Boris. Detestava falar.. «Vai imaginar que sou um idiota». mas quando se olhava melhor. não. não estava apressado. descobria se neles qualquer coisa de duro. sacudir. Os olhos eram incomodativos. Serguine? — Eu. À primeira vista pareciam imbuídos de ternura.» A Livraria Carbure fechava às oito e meia. — Você é do homem. «Oito e um quarto». Sereno surgia sempre fora de propósito. — disse Boris sem fôlego. Ao passo que você. «Está a querer pregar me uma partida». E. o que fazia parte da sua natureza demoníaca. atabalhoadamente. mas não se atreveu. estou frito. pular para fazer com que aquela vertigem de doçura se dissipasse. — Imagino que gosta disso — continuou Sereno. tinha vontade de se agitar. pensou com angústia. estudo Filosofia — respondeu Boris. e manteve se atento.

não duvido.pudor e voluntariamente se mostrava indiscreto. — Não duvido. Creio que foi Delarue quem me fez perder o gosto pela filosofia. mas quando principiava a dá las. Sereno riu francamente. — Não estava a pensar em si. que ainda se arrastava em . em geral. mas revoltou se e disse. Pelo contrário. não sabia. Detestava aquele tal Hourtiguère. — Eu não sou discípulo dele — disse Boris. perfeitamente idiota. Na verdade acho que tem sorte. Boris. Deve ter ouvido A falar dele. Era verdade. Admirou Sereno por se mostrar tão gratuitamente sacana. mas gostaria de lhe ter dado um soco na cara. gostava muito daquilo. Só que somos velhos amigos e eu imagino que ele reserva as suas qualidades pedagógicas para os jovens. há dois anos era a grande paixão de Mathieu. aquele alto e louro que partiu há dois anos para a Indochina. a fim de repeti lo mais tarde a Mathieu. Não tinha ciúmes de Hourtiguère. Sereno sorriu e disse: — Vê se logo que não é um amor puramente cerebral. vira apenas uma fotografia que o mostrava como um rapagão infeliz vestido com calças de golfe. aplicando se como um recruta que escreve à pequena lá da terra e desenhava silhuetas no ar com a caneta. — Mathieu falou me dele — observou. Mathieu tomava às vezes um ar compenetrado quando Boris ia ter com ele ao Dome e dizia: «Tenho de escrever a Hourtiguère. mas com ódio. Pensava em Hourtiguère. Boris irritou se. sentia por ele uma piedade misturada de uma ligeira repulsa (aliás. secamente: — Mathieu explica muito bem. como toda a gente. e uma dissertação filosófica. Você não possui cara de discípulo. nada sabia dele. eu perdia o pé. Ele sabe de mais para mim. evidentemente. Boris sentiu se magoado com o tom irónico. — Porquê? — Não sei — disse Boris. Pedi lhe várias explicações. e suspeitou que Sereno queria levá lo a falar de Delarue. Mas a mini não souberam torná la agradável. e Boris mordeu os lábios com despeito. parecia me que nem já sequer compreendia a minha própria pergunta. e Sereno acrescentou com vivacidade: — Estou a brincar. Recruta os seus discípulos entre os próprios alunos. Até de Kant. No entanto. e a sua admiração por Sereno aumentou. Eu estudei. Boris punha se a trabalhar ao lado de Mathieu. que Mathieu conhecera antes de o conhecer a ele. Boris teve de reconhecer que o golpe atingia o alvo.» Depois ficava durante um bom momento a sonhar. por cima da folha branca. Sereno olhou o com uma expressão atenta e penetrante. estavam sempre juntos.

parecia encantado com a ideia. Apoiava se com ambas as mãos à mesa. — «Nosso» projecto. Era um tipo esquisito e admiravelmente belo. Gostaria de acompanhar Sereno até o Harcourt. dispõe de um minuto? Poderíamos tomar alguma coisa ali em frente e falaríamos do nosso projecto. que Mathieu fosse apenas uma etapa na sua vida — e isso já era bem penoso —. Sereno continuava a sorrir. — Muito bem — disse —. J E A N P AUL SARTRE — Lamento amiúde ser tão ignorante neste terreno — continuou. Boris mal o podia olhar de frente. — Os que estudaram Filosofia afiguram se me ter tirado dos estudos grande alegria.. absolutamente nada. e era divertido conversar com ele porque tinha de jogar com firmeza. Boris não respondeu. mas que levasse a sério as coisas. — Estou persuadido que sim. — Um iniciado. — Mas sim! — disse Sereno. vejamos. era uma permanente impressão de perigo. mas o sentimento do dever venceu o: — É que estou com pressa — disse num tom que a tristeza de não aceitar tornara cortante. a dar lições a Sereno. — Sou muito preguiçoso — disse Sereno. — Tinha de ter idade sobre mini. numa atitude indolente e cómoda. O rosto de Sereno mudou..» Admitia. Debateu se por momentos. foi o que me faltou. Um tipo assim como você. desconfiado. Boris não pôde deixar de se rir e confessou francamente: — Acho que não saberia fazê lo. se imaginasse que um dia ele pudesse vir a dizer a um jovem filósofo. Riu como que assaltado por uma ideia agradável.cima da mesa de Mathieu). Desculpe tê lo . não quero incomodá lo. se necessário. Mas tinha um olhar estranho. Preferia nunca mais ver Mathieu. Ficaria estrangulado de timidez. com aquela expressão compenetrada e melancólica: «Hoje tenho de escrever a Serguine. Devia ser uma armadilha. — Diga me. não seria divertido se eu tivesse algumas lições consigo? Boris olhou o. Pensou com uma resignação fria que deviam ser oito e vinte e cinco. que devia ser muito mais inteligente do que ele próprio e lhe faria por certo imensas perguntas embaraçosas. A Boris observava com angústia um caixeiro da livraria que começava a empilhar os livros. Mas por nada deste mundo desejara que Mathieu o tratasse mais tarde como tratava agora Hourtiguère. — Ora. — Você intimidar me ia. Não se via. Sereno parecia ter se instalado. Não um sábio. mas não podia aceitar ser ele próprio uma etapa na vida de Mathieu. Sereno encolheu os ombros.

Tenho a certeza — já o tinha pressentido na época de Hourtiguère —. vai passear esses modos de comunhão solene. menina. três. de boca aberta naturalmente. o pobre cordeiro! Mathieu faz de sultão na classe.. ser apenas esses passos. é afectado. Passos. olhos cor de avelã. cinco.» Parou tão bruscamente que uma senhora chocou com ele com um gritinho. «uma excelente lição. «Muito bem. pensou Boris. não sei e como o havia de saber. ele teria ido dizer tudo a Mathieu e ter se iam rido de mim. As palavras fugiam. Voltou se bruscamente e partiu: «Tê lo ia magoado?». «Ele falou lhe de mim! Era uma coisa in to le rá vel. um monge russo. quer um bombom. foi bom». Mathieu deve tê lo olhado por baixo. com bochechas já pesadas. felizes. uma beleza . leva o ao café e o desgraçado engole tudo.. atirou lhe o lenço. quatro. Imbecil. Uma avalancha de palavras que fugiam de todos os lados.. de fazer suar de raiva. A mãe proibiu me de falar com desconhecidos. palavras. quando lhe disse que não compreendia a filosofia. tenho a certeza de que ele os previne contra mim. Depois pensou que não podia perder nem mais um momento. Acompanhou com um olhar inquieto os largos ombros de Sereno. como hóstias. e enfiou as unhas na palma da mão. não sei. Alioscha. E aquele olhar que me deitou. Adeus. Aos cinco pegou ostensivamente no livro com a mão direita e dirigiu se para o interior da livraria. num café de Mont parnasse. sem memória e sem consequência. cumprimentos a Mathieu. tudo era preferível ao J E A N P AUL SARTRE silêncio. com ar profundo. um jovem monge. é de morrer a rir.detido tanto tempo. não sei. sem se esconder. — Um. Tinham no julgado. dois. não sei. ligeiramente arqueado. Ora. essas palavras. os cafés e teorias. desmontado. se tivesse podido existir naquele dia como nos outros dias. um rosto austero e atraente. já não se dava ao trabalho de ser delicado no fim. Ah! uma pequena cabeça nada mais. imaginá los ambos bem dispostos. pensou satisfeito.. e ele não tinha defesa. que subia o Bulevar Saint Michel. como se ele não fosse para os outros um corpo ligeiramente gordo. precioso como um burro carregado de relíquias. não desconfiava de nada. explicando o meu temperamento. Daniel fugia de um corpo frágil. um desses antros infectos que tresandam a roupa suja. estou contente por me ter mandado passear. e barata. se tivesse cometido a loucura de me interessar por ele. a mãe não deixa. constrangido. gosta de filosofia. arregalando os olhos e pondo a mão em concha no ouvido para nada perderem do maná divino. os passos soavam dentro da cabeça. de lhe falar com confiança. dissecado.» Daniel repetiu: «De morrer a rir». DADE DA RAZÃO como se fosse apenas uma transparência. não me tinha enganado.

se se pudesse viver entre cegos. eu existia naquela carne. negligentemente. estava fascinado. O vento caíra. sabe ver. Silêncio pesado e vazio.» E eu olhei a também fixamente. tirava tanta vaidade dessa vitória que durante um segundo esqueceu se de se dominar. raspar um por um. no meio daquela multidão atarefada. Felizmente a cólera irrompeu. que não faz perguntas a si próprio. somente os passos lhe ecoavam na cabeça.. com Ralph. a cólera hesitava. lavar. o desfile de palavras reiniciou se: odiava Mathieu. Bobby é um camarão. é um psicólogo. bem no fundo do silêncio havia o rosto de Serguine. Quando encontra alguém são duas pessoas para as quais eu existo. Ralphs e Bobbys. e depois nove. e disse: «Mathieu falou me tanto de si. se tornou silêncio.. Não devia ter deixado de falar. julga se Goethe. era o que lhe deixava. que ele se sentia espantado de existir. «Aí está um camarada que deve achar muito natural existir. não devia. se estendeu. devia ser o pesadelo de alguém. «E daquele pobre rapaz ele fará um macaco amestrado!» Caminhava em silêncio. E não vai privar se desse prazer. Mas Bobby sabe. Pensou: «Eu teria podido.oriental que fenecia. que fervor não seriam necessários para iluminá lo ligeiramente. olhava os transeuntes nos olhos. que paciência.» Era a última. Sorriu com satisfação. esta luz grega e bem doseada. Estendeu me a mão da primeira vez. senão prego te uma boa partida. eu raspei Marcelle até aos ossos. A solidão era tão total sob aquele céu. Ah! se ele morresse! Mas qual! Passeia livremente com a sua opinião a meu respeito dentro da cabeça e infecta todos os que se aproximam dele. e Mathieu roubara lha. cobriu tudo. ninguém. de alguém que acabaria por acordar. Mora no n. como uma chaga. acariciava o seu ódio: «Mas cuidado. Sereno.. Ele não é cego..» Endireitou a cabeça. tem o direito de falar de mim. este céu virtuoso foram feitos para ele.. não é uma consciência. apagar. Sereno isto. como uma rua deserta na madrugada. Mathieu não. e depois três. seria preciso correr por toda a parte. mas não contra mini. ele está em casa. Sereno. Ralph sabe.. J E A N P AUL SARTRE Doce rosto obscuro. por detrás daquela fronte obstinada.° 6 da Rua dês Ours. visto que me conhece há quinze anos e é o meu melhor amigo. vangloria se disso.» Uma nova onda de cólera . no fundo daqueles olhos. sentiu se reanimado por uma raiva alegre e a fuga recomeçou. olhando me muito. arranja discípulos se isso te diverte. nunca está só. Não. estava lá dentro. e talvez. rasgão que se ampliou aos poucos. acariciante como uma consciência limpa.. raspar.» Pensou: «A minha última possibilidade. Palavra de honra.. Sereno aquilo. produziu se um rasgão na trama das palavras. puta! Agora ela já não acredita numa só palavra do que ele diz de mim. o corretor Sereno. um sorriso cruel. Ah!. e depois cem.

E da raça de Abel. vou estragar lhe a vida». rude. eufórico. o anjo do lar. «Mathieu é um homem de bem.. seu espanto esmagador. seria um grande serviço que lhe prestaria.. alerta.. «Sou mau». calmo. Ela não ousaria dizer lho. resignado. sou um sacana. só lhe resta arranjar um filho. a velocidade agarra pela nuca. se enquanto ele percorria as lojas de ervanários. é intolerável e delicioso. pedir lhe ia amanhã mesmo que casasse com ela. «Mathieu. Havia qualquer coisa que tentava timidamente renascer. finalmente calmo. barreiras que se quebravam secamente como galhos mortos. fazer com que as coisas não lhe fossem tão fáceis. pensou Daniel. rola se sem travões.» Era tão vertiginoso aquele repouso lânguido de uma consciência pura. «Em suma».. «E se ela não quisesse. o desprezo do rapaz. voava. rutilante: «Mas. aguda.. a cair em si. uma vida inteira para se felicitar pela boa acção. «Ter ainda discípulos? Um chefe de família não encontra facilmente quem apanhar. com que Marcelle lhe dissera uma vez: «Quando uma mulher está perdida. o seu rosto franco de boa fé.» Recordava se da expressão.. transbordando de alegria. A maldade só se mantinha em equilíbrio a toda a velocidade. Depois disso que descanse sobre os louros. Era o rosto de Mathieu.. Mas se houvesse uma só possibilidade de ela desejar o filho. ela no fundo do seu quarto cor de rosa desejasse ardentemente ter um filho.. mas. A maldade era uma impressão extraordinária de velocidade. «Vai casar se?» E Mathieu resmungaria: «As vezes têm se certos deveres.. Pois então tem de casar com Marcelle. O pensamento saltou lhe à frente. «eu sou o anjo da guarda. aumenta a cada minuto. não podia parar. coitado.. um amigo comum para lhe dar coragem. de uma insondável consciência pura sob o céu indulgente e familiar. Não é mau. e de repente a ideia surgiu. à direita e à esquerda. não.» Mas os miúdos não compreendem este tipo de dever. soergueu o. tem a consciência do seu lado.» O Senhor e a Senhora Delarue. no entanto se houvesse um bom amigo. é jovem ainda. acabado.. como uma bicicleta. pensou. masculina. um arcanjo . destacava se de repente de si próprio e partia como uma flecha.» Seria divertido se ambos não fossem da mesma opinião a esse respeito..» Foi um arcanjo. derrubando os frágeis obstáculos surgidos no caminho. seca como um choque eléctrico.avolumou se. mas. mas a corrida continuou mais rápida ainda. já não pisava o chão. essa alegria que não parava.» E a cara de Serguine quando Mathieu lhe fosse participar o casamento. têm a honra de participar. e era embria gante essa alegria transpassada de temores. entregue à alegria de se sentir terrível. talvez eu pudesse ajudá lo a reflectir.

Duffet. Marcelle enlaçou a pela cintura e reteve a durante um segundo. Pelo contrário. Duffet. revolta. farejá la com circunspecção. desceu os dezassete degraus da escada e estava numa cave escarlate e rumorejante. Afastou a cortina verde. No limiar da porta. De vez em quando. e Daniel . E de repente aconteceu. e não de desespero. concedia a si próprio todas as licenças. um corpo alto e desajeitado. Duffet acariciou lhe os cabelos e afastou se. — Arcanjo — disse Mme. — Vou arranjar a cama daqui a um minuto — disse Marcelle. suicídio. como na missa. como a um incurável. como pela manhã quando ficamos de pé sem saber como nos levantámos. um arcanjo justiceiro que enveredou pela Rua Vercingetorix. não. 6. Tratava se de uma pequena miséria.» Sentia se livre como o ar. com voz profunda. imóveis e correctas. Leu «Sumatra» em letras de fogo. — Não. tranquila. filha ingrata. era preciso virá la e revirá la. Mathieu passeava nessa noite e pensava: «Sou um tipo lixado. por momentos. Quando saiu. Miguel e na mão esquerda um pacote de bombons para Mme. tinha na mão direita o gládio de fogo de S. Mas a ideia voltava depressa. tinha o coração ainda cheio de preguiça e de noite. com manchas violáceas. A grande mercearia da Rua Vercingetorix estava ainda aberta. u ma grande flor cor de malva subia para o céu. e o negro precipitou se ao seu encontro com o boné na mão. gracioso. pensou. não era absolutamente isso. «Nada mais tenho a fazer senão deixar me viver». estraga me com mimos. era até confortável! Mathieu tinha a impressão de que acabariam de lhe conceder todas as licenças. um rosto magro inclinado sobre um livro. — Bom. ficavam apenas as palavras. Diante dele havia pessoas de pé. No fundo da cave. — É demasiado gentil. e as palavras não eram desprovidas de certo encanto sombrio: «Um tipo lixado. era a noite. outras saídas extremas. havia muitos homens na sala. A carne era enrugada. um tango. entrou. Cheirava a homem. enternecida. as toalhas manchadas de um branco duvidoso.de ódio. gaúchos de camisa de seda tocavam em cima de um estrado. Mathieu hesitou. Fugiu com a vivacidade de uma rapariguinha.» Era uma ideia nova. Mme. — O meu maior prazer é que os aprecie — disse Daniel. modesta. Ainda me zango. Recordou. que pareciam esperar qualquer coisa: dançavam. «Rua dês Ours. mas a imagem desapareceu logo e foi Bobby quem voltou a aparecer. beijando Marcelle na testa. Deixo te com o teu arcanjo.» Imaginava lindos desastres. Não era isso. Duffet e beijou a. vou me embora — acrescentou. Inclinou se sobre a mão de Mme. Mathieu perdia a. Ouviu ruídos.

Daniel ergueu os olhos e percebeu lhe o olhar ansioso. É tão comovente quando por acaso se ocupa de si mesma. Olhe que não está com a minha mãe! Acrescentou: — Mas era uma bela rapariga. mas não se sentiu aliviado. Tivera a impressão de que ela nunca sairia. com rancor. tinha um vago receio de ficar a sós com Marcelle. Sabe muito bem que mudei. Marcelle era um odor espesso e triste. que sempre quis saber como eu era quando era jovem. Daniel pegou lhe. No entanto era magra. mas não mudou nada. Você tem um ar muito mais interessante! — Nunca se sabe quando você fala a sério — disse. — Nunca deixa de lisonjear! .. — Tenho uma coisa para lhe mostrar. — disse. estendendo lha. — Porque fez um gesto de rapariguinha para se olhar ao espelho. — Você. «A máscara da gravidez». — Diverte me sempre vê lo com a minha mãe. meu querido arcanjo. Marcelle riu se. parecia satisfeita de tê lo para ela sozinha. Ela levantou se. Mas via se que estava lisonjeada. e que se esvairia ao menor gesto. Empertigou se ligeiramente e deitou um olhar ao espelho. enrolada sobre a cama. Sentia sempre uma certa angústia ao encontrar se à beira dessas longas conversas cochichadas e ter de mergulhar nelas.. Era Marcelle com dezoito anos. A porta fechou se.acompanhou com um olhar frio a sua silhueta miúda. Olhava o com uma ternura de proprietária. Irritava o que ela se mostrasse tão contente. Marcelle corou e bateu os pés. pensou. Pigarreou. Havia naquela vaidade uma boa fé infantil e desarmada que contrasva com o seu rosto de mulher de trabalho.. Foi buscar uma fotografia que estava sobre a lareira. O gesto desajeitado e sem pudor irritou Daniel. é uma vergonha não poder deixar de seduzir os outros. Parecia uma marafona de boca mole e olhos duros. Virou se para ela e viu que lhe sorria. Você é irresistível. — Era encantadora — disse com prudência —. — Que é que a faz sorrir? — perguntou. amuada.. flutuando como um vestido demasiado largo. «Vou ter asma». E aquela mesma carne flácida. pensou Daniel. Ele sorriu. — Mudei. — Eu também vou perguntar porque se está rir — disse ela. — Tinha qualquer coisa de mole na boca. não é verdade? — Gosto mais de si agora — disse Daniel. sim. lisonjeiro.

Daniel divertia se muito.. Mas ficou novamente sério e Marcelle parou de rir. Ela devolveu lhe o olhar. é a terceira vez que ela lhe conta essa viagem. Fez um gesto com o pescoço. e Marcelle desatou a rir. isso irrita me. com um riso indignado. Ele avançara o busto e encarava a com uma expressão preocupada. Daniel. Um silêncio incómodo pesou sobre ambos. Pensou em Mathieu para se encorajar e ficou satisfeito de encontrar o seu ódio intacto. para ser franca.. Você parecia tão preocupada. eu não devia dizer lhe. sem muito entusiasmo: «Vamos. Ela inclinou se para trás. Mathieu era liso e seco como um osso. r A Daniel inclinou se um pouco mais e repetiu com uma expressão desolada. — Muito cansada! Observava a há pouco enquanto a sua mãe contava a viagem a Roma. «Pronto!» pensou ele. podia se detestar. Marcelle pestanejou. É do calor. — Estou um pouco tonta.. mas gosto de ouvi la contar. — Pronto — disse Marcelle. — A sua mãe diverte me — disse Daniel... Oh! Tinha me jurado que não dizia nada.Riram ambos. — O quê? O quê? Que é que há? — Não vai zangar se com Mathieu? Ela empalideceu. dificilmente sustentava o olhar de um homem. Olhou a com ar de censura e ela estremeceu ligeiramente sob aquele olhar.» Estava em boas condições para o momento oportuno. O quarto era uma fornalha. é tão importante e queria esconder me? Já não sou seu amigo? Marcelle fez um gesto.» Já não se tratava de . E escuta a sempre com o mesmo ar de interesse apaixonado.. — Marcelle! Olhe para mini. — Marcelle — observou —. — Marcelle. — Conheço as histórias dela. Não se podia odiar Marcelle. tão nervosa. — Ele. —— É SUJO. Marcelle interrompeu o. — Ouça. e Daniel pensou. Daniel sabia imitar muito bem quando queria. tem gestos que me encantam. — Parece cansada. «Ei la nua. mas tinha a cabeça agitada por pequenas sacudidelas rígidas. mas sentia se vazio e mole. não sei bem o que há na sua cabeça neste momento. Marcelle teve um riso desajeitado que lhe morreu imediatamente nos lábios. — E você que está estranho esta noite! Que é que tem? Ele não se apressou a responder.

que tresandava a carne. (Ficou embaraçada. — Tinha. — Ele disse lhe que eu recusei o empréstimo? — Disse que você não tinha dinheiro.. Tenho quinze mil francos. Havia agora um novo elo entre eles. — Talvez. — Posso perfeitamente. de que posso dispor sem preocupações. tristemente. — Está estranho. bruscamente. Ele riu jovialmente. tinha de procurar muito. — Quero dizer: deseja do fundo do coração que eu empreste o dinheiro? Marcelle ergueu a cabeça e olhou o surpreendida. — Horror? Eu? Marcelle. não é sujo. rígida. Sofria. estava na defensiva. perdera a máscara de dignidade sorridente. Um diz: Fazemos isto ou aquilo. — Tinha? — repetiu ela admirada. — Naturalmente. nós não nos consultamos. Daniel. Acabou por dizer: — Eu queria tanto tê lo afastado disto tudo! Calaram se. Está a magicar nalguma coisa. tem de nos emprestar. Marcelle não respondeu. você é que deve saber. antes de encontrar qualquer coisa que me leve a ter horror de si. Tomou fôlego e acrescentou: A — Marcelle. devo emprestá lo? — Mas. Deve . sei — atalhou Daniel. — Não — disse —. — Então. Baixara o rosto.. — Isso é uma grande vantagem para quem já tem opinião.) Não sei. — Deve ter horror de mim. sim. como um cordão umbilical. o outro é empurrado. não tem tempo para pensar. meu caro Daniel.. Pensei nela toda a tarde. Ela fez um gesto brusco de cotovelo e de antebraço que cortou o ar escaldante do quarto. Era apenas uma mulher grávida. Daniel estava com calor. passou a mão pela testa suada.. — Sei. bem sabe como somos. Houve um silêncio. O nariz afilado. Pelo menos antes de ter visto.arcanjos nem de fotografias antigas. — Telefonou me há uma hora — respondeu Marcelle. — Eu só queria saber se Mathieu a tinha consultado. — Você não compreende — insistiu Daniel. Isto é — disse ela com um leve sorriso —. sim — disse Marcelle —. — Viu Mathieu depois de ele me ter deixado? — perguntou Daniel. e o outro protesta se não está de acordo. — Eu sei como Mathieu aprecia as suas opiniões — disse. Marcelle amarfanhava o lençol e os seios palpitavam lhe. — Tinha. — Mas imagino muito bem a cena. Endireitara se e tornara se dura. mas não queria emprestá lo.

Escute. Mandar Ihe ia o dinheiro e tudo estaria acabado. muito desagradável. sou simplesmente um amigo. Eu sei quanto isto é penoso.. Virara a cabeça para o lado do lavatório e Daniel só lhe via o perfil.» — Marcelle — disse —. Daniel. E homem.. Isto é. Mas ela não dizia nada. Dir se ia que ia desconjuntar se. por favor. o seu melhor amigo. — Principalmente para si. — Eu sei — disse Daniel com amargura. «parece cheia de gratidão!» Como «Malvina». Daniel! «Pois não! Eu sou a pureza. não me faça desempenhar este papel ridículo. o corpo fincou se lhe à beira do leito. pensou. — Não falemos mais nisso. com um espanto desarmado. Você é tão diferente.. tenho a impressão de o ter perdido. Oh! Daniel. Voltou a cabeça para Daniel. voltara se para ele e parecia esperar.» Ela estremeceu de novo e apertou os braços sobre os seios. não terá sido um pouco precipitado tudo isso? Não deve saber você mesma o que quer? Inclinou se novamente para Marcelle. — Você pergunta me isso. pensou Daniel.. mas contemplava o sem rancor. — Um arcanjo assusta se facilmente. Mathieu receberá o dinheiro amanhã cedo. . — Não foi assim? Marcelle não o olhava. Mas já não sabia se o seu prazer vinha da humilhação que impunha a Marcelle ou de ser humilhado com ela. Marcelle tem realmente a certeza de que não quer a criança? Verificou se uma rápida derrota através do corpo de Marcelle. «Ela palpita». Nada tenho de arcanjo. imóvel e pesado.. tomou lhe a mão.» — Basta lhe dizer uma palavra. Quase desejava que ela dissesse que sim. não se recuse a falar. quando lhe batia. Tinha um olhar sombrio.. Disse para si mesmo: «Mais fácil do que pensava. Se tem a certeza do que quer. veio sentar se perto dela. — Mesmo que não lhe cause repugnância. Depois esse prenúncio de desconjuntamento parou. — Mais ou menos — disse. Daniel pensou: «Está desesperada. Era preciso ir até ao fim. E ele.ter se encolhido todo como faz nessas ocasiões e depois deve ter dito a engolir a saliva: «Então apelamos para os grandes meios?» Não deve ter hesitado e aliás não podia hesitar. — Não me atrevo a olhá lo — continuou. E tenho direito a ter uma opinião — acrescentou com firmeza — porque a posso ajudar. Daniel não a perdeu de vista. Depois corou violentamente... Marcelle. Mas.. estava vermelha. Daniel.. «Oh!». só você se interessa por mini! Ele levantou se.

» Mas naquele rosto ingrato os próprios reflexos da mocidade não eram comoventes. Essa criança talvez seja um desastre. preciso de ir arrumar a cama da minha mãe. pensou quando a porta se fechou. Aliás. E depois havia aquela mão suada. Limpou as mãos no lenço. sem falar. os outros já me dão muito que fazer. — disse Marcelle. aturdida.Uma mão mole e febril como uma confidência. Marcelle. Esforçou se por apertá la mais fortemente. «Não vale a pena odiá lo por bons motivos. A gaveta estava vazia. «Juro que ele há de casar se com ela. Daniel pensou na jovem estudante que vira na fotografia. Era o ritual. Largou lhe bruscamente a mão e afastou se um pouco. Daniel acedeu silenciosamente. Disse com voz alterada: — E se eu tivesse vontade de ter um filho? Que adiantava? Não posso dar me ao luxo de ter um filho sem casar e ele nunca se casará comigo. — Não sei o que se pode fazer — disse com voz seca. Havia às vezes cartas divertidas. ou intermináveis lamentações de Andrée. continuou com um riso seco.» Estava satisfeito de ficar só. «Ganhei.. — Reflicta — repetiu. bilhetes de Mathieu muito conjugais. como que para lhe espremer todo o sumo. depois achou melhor desatar a rir. . está cheia de vontade de parir. e Daniel voltou a sentar se na poltrona. é preciso que não venha a acusar me mais tarde por não ter reflectido. — Pois é. Dir se ia que de perto Marcelle tinha um cheiro. olhava para os joelhos.» Marcelle voltou com uma expressão de desespero. Com o olhar no vazio tinha um ar de boa fé que a rejuvenescia. — Marcelle. — Tem realmente a certeza? — Não sei — disse levantando se. — Veremos mais tarde. — Porque não? — perguntou. não chegava mesmo a ser um cheiro. Daniel ergueu as sobrancelhas. era imperceptível. Conservou a nas dele.. era antes como se fecundasse o ambiente em torno dela.. que não era feliz. mas talvez uma sorte. Sufocava.. «Já foi jovem.. — Porque não há de casar consigo? Marcelle encarou o. «Ganhei». ergueu se rapidamente e abriu a gaveta da mesa de cabe ceira.. Podia recuperar um pouco de ódio.. Marcelle parecia lutar contra as lágrimas. é lhe indiferente que se suprima a criança? Marcelle teve um gesto de cansaço. nem sequer a consultou.. — Que fazer? Daniel pensou: «Ganhei. — Pois é. Não vale a pena». foi ignóbil. Neste momento estou a pensar apenas em si.» Mas não sentiu nenhum prazer. — Desculpe.

Parecia ruminar. — Marcelle não respondeu.. carne gorda e nutrida. se eu tivesse um filho. — Mas. — Não é verdade que você quer a criança? Marcelle apoiou uma das mãos no travesseiro e pousou a outra sobre a coxa. nem um nem outro. é tudo.. libertou me. — Sei apenas uma coisa. De repente falou com paixão: — Ah!. Era grotesco e fascinante. era uma coisa subentendida entre nós. Pensou que Mathieu a desejara e sentiu uma leve chama J E A N P AUL SARTRE de satisfação. e dentro de um mês será mulher dele. quero. não podia dizer isto a ninguém no mundo. Daniel! Bem sabe como nós somos! — Eu não sei nada de nada — disse Daniel.. Marcelle disse. — Bem sei — disse Daniel com vivacidade. — Não.. Era o momento decisivo. nunca encarei a coisa por esse prisma. Carne inimiga. Estava ganho. com voz surda: — Daniel. Achar criminosos os seus desejos quando são naturais. — Sim. Eu digo em relação a Mathieu. A mão morena crispava se sobre a seda. cheguei a julgar que era um crime. É uma espécie de ruptura de contrato. Era muito difícil fazê la ver as coisas de frente. Disse com voz solitária. Se ele quiser. Era preciso enfiar lhe o nariz em cima e mante la assim. — Mas você quer a criança? Ela não respondeu. angustiada. Daniel calou se. não deixava que ele estragasse . que faça o que é necessário. Ergueu se um pouco e levou a ao ventre como se estivesse com dor de barriga. apertava o ventre. Que sentia por dentro aquela fêmea pesada e perturbada? Gostaria de ser ela.. — Um crime? Mas isso é perversão. Daniel repetiu com voz dura. — Não.. Eu não. Marcelle. senão dipersava se em todas as direcções. O casamento é uma servidão e não o queríamos. Era como se já se tivesse vingado um pouco. realmente era me totalmente indiferente não me chamar Mme. Marcelle. Olhou o. Delarue. Devia ser verdade. quem decidiu nunca se casar? — Sentiria horror de vê lo casar se contra a vontade.A — Mas. Foi você. — Não é um crime? Ele não pôde deixar de rir. — Tem de lhe falar com franqueza. — Não é uma resposta. como toda a gente. Não podia tirar os olhos daquele ventre. — Mas se fosse esse o único meio de conservar a criança? Marcelle pareceu perturbada. Acrescentou: — Era.

Daniel. Marcelle. Ele não respondeu. Ele pensou: «A sua última possibilidade». A emoção fizera com que tivesse deixado escapar aquela exclamação estúpida. Marcelle parecia estar numa das suas crises de clarividência cínica.. e assim esperaria durante anos. Defesa vã! Seria preciso não a ver. Era verdade. — Porquê? — Sinto me amarrada. Entre os trinta e quarenta anos joga se a última cartada. Mordeu os lábios e tomou uma atitude irónica. — Estraguei. isso não o atingiria. Responder? Protestar? Era preciso desconfiar. Marcelle levantou a cabeça. — Pois então fica como está! Você empresta o dinheiro e eu vou ao médico. como pensara de si mesmo pouco antes. — Estraguei. — E se eu próprio falasse a Mathieu? Uma enorme piedade lodosa tinha o invadido. desconfiado. Tem grande afeição por mim e talvez seja o que tenho de mais precioso na vida. Parou repentinamente e olhou a. A — Um filho — continuou Marcelle.a vida como eu. até ao fim. os braços pendiam lhe junto das ancas. Teria feito tudo para se libertar dela. sim. J E A N P A U L SARTRE — Falar com ele? Você? Mas. Dentro de alguns dias seria apenas um grande miséria. Esperava. Essa ideia gelou o. Ela curvara os ombros. — Porque é que não pensa? Você pensou. que a encontrei. Ela ia jogar e perder. eu é que preciso de si. — Não posso. era preciso evitar isso. Não sentia nenhuma simpatia por Marcelle e sentia um profundo nojo por si mesmo. Ele acariciou lhe a mão. Pegou lhe na mão sem falar e apertou a de um modo significativo. Ele não pensa nisso. Daniel.. Se eu morresse.. passiva e gasta. — Não pode fazer isso — exclamou bruscamente Daniel —. — É a Mathieu que você tem de dizer isso. A si também não. — Mas bem sabe que nunca virá. mas não precisa de mim. — Onde? Nunca saio. Mas ainda que fosse verdade. — Não sei. Não fiz nada e ninguém precisa de mim. — Mathieu não precisa de mim. sim. não pode. ia assim sem .. mas a piedade estava lá. — Não. irresistível. parecia pensar que ele era doido. tinha horror ao abandono. teria necessidade de mini. — Você não estragou a vida. ainda não. Espero que isso venha dele. — Um filho. é um absurdo! — Podia dizer lhe.

você nunca o fará e. acabará por odiá lo. ele nunca me perdoaria não lho ter dito eu própria. — Digo que a encontrei. — Não é possível! — Bom.mais nem menos contar lhe isto? — Não. Largou a.. mais húmido. Acrescentou com um ar conjugal: — E depois.. não faça isso. obstinada.» Marcelle teve um gesto de despeito. Olhe para mim! Tomou a pêlos ombros e os dedos afundaram se lhe numa manteiga morna. — Era preciso dizer lhe. — disse Marcelle. Marcelle passeava a ponta do dedo pelo tapete. mas não teve vontade de rir. Pensava: «Conta com isso. — Naturalmente — disse Daniel. Seja razoável. Daniel pensou: «Ela é formidável!». — Não quero. irritado —. — Tem de ser. não se meta nisto. Aquela obstinação tonta aborreceu o. — Não falo em si — disse. — Escute. Tudo isso como se viesse unicamente de mim.. Eu e Marcelle víamo nos de vez em quando e não te dizíamos nada. mas ele percebeu pela sua expressão rancorosa e abatida que ela ia ceder. Era bondade. viverá junto dele em silêncio. Sabe o que é que vamos fazer? Dizer lhe simplesmente a verdade. Daniel olhava para os ombros e para o pescoço dela com avidez. Marcelle não respondeu. Não se vai zangar. já lhe disse que o farei. — Pois digo lhe — atalhou Daniel. Digo lhe: «E preciso que perdoes um segredo. chamar lhe apenas a atenção. Estou furiosa com Mathieu. Marcelle pousou lhe a mão sobre o joelho. Nós dizemos sempre tudo um ao outro. Ela ainda repetiu: — Eu não quero. Não quero que falem de mim. ficarei aborrecido. seguia a sua ideia. Marcelle.. Ele é que tem de compreender. Vai irritar se . que você parecia atormentada e que não é assim tão simples como ele pensa. Mas eu conheço o. Estragará a sua vida com as suas próprias mãos.. — Não quero. — Se eu não falar com ele. sentia vontade de a partir. Violar aquela consciência. Porque é que não é possível? — Era obrigado a dizer lhe que nos vemos. ele não lhe devia ter contado. Mas Daniel era tenaz. atolar se com ela na humildade. Mas não era sadismo. Por nada deste mundo quero que pensem que estou a pedir alguma coisa. mais carnal.. sabe.. evidentemente. Era mais subtil. dizer lhe coisas vagas — disse —. Marcelle. — Daniel. — Se não me deixar fazê lo — disse zangado —. por favor.» — Daniel — suplicou Marcelle —.. Estava possuído de um desejo enorme e monstruoso.

para o abandono. Acrescentou. mas não quero pensar nisso. vai ficar muito satisfeito por ter qualquer coisa a censurar lhe. — Era o nosso segredo — disse com profunda tristeza. — É verdade. para a resignação. Marcelle passou a mão pêlos cabelos. — Apesar de tudo será uma experiência.. — Escute.» Ela fascinava o. por causa da criança. Daniel. bastava esperar. Ele foi demasiado A negligente. desde ontem. — Então.. E depois o telefonema de hoje foi lamentável. tentemos — disse num desafio. — Acredita que ele vai ficar indiferente? Que não se vai apressar com explicações? — Não sei. Ah!. — Ao sair daqui mando lhe um recado e marco um encontro para amanhã. O coração de Daniel pôs se a bater com violência. já não o estima? — Estimo.. — Uma experiência? — indagou Daniel. Tresandava a consciência suja. não tinha outra.. Dentro de momentos estaria completamente aberta. Quando fico ressentida com ele. ao desligar. Não se preocupou comigo. sem defesa. digo lhe que nos vemos há apenas alguns meses e muito raramente. De qualquer maneira.. — É preciso tentar. Ela ia ceder. O Bem e o Mal. Aquela chama que o devorava. Mas não tenho a mesma confiança com ele.um pouco. era a minha vida particular. como se sente culpado. se me perguntasse uma só vez que fosse: «Em que estás a pensar?» Calou se. e ia dizer lhe: «Faça como quiser. — E Mathieu que quer experimentar? — É. Ia escorregar. Aliás. Não lhe posso dizer o efeito que isso me causou! Se um dia deixasse de o estimar. já não sabia se era de maldade ou de bondade. abanou a cabeça. Teve. — Vou falar com ele — disse Daniel. é extremamente penoso. Havia aquela mulher e aquela comunhão repugnante e vertiginosa. tínhamos de lho dizer um dia.. mas a seguir. — Achou se na obrigação de dizer que me amava. Mas não parecia convencida.. Acrescentou secamente: — Tenho necessidade de o estimar. Ele foi. com ódio: — Só posso ter de meu o que escondo dele. . pró forma. tristemente. o Bem deles e o Mal dele era igual. a minha vida privada. arrastada pelo seu próprio peso. estou nas suas mãos. se ele tentasse fazer me falar amanhã.. tem razão. — Pois bem. Corou.

Seria violenta e dura. Pegou lhe na mão e beijou a longamente. — Daniel! — repetiu Marcelle. Olhava atentamente para Daniel. «Não vai demorar a sair». Levantou a caixa. como presas de um interminável destino. — Deseja uma mesa? Um belo rapaz inclinava se diante dele com ar de alcoviteiro. um olhar de depois do amor. assim engordas. Marcelle estava sentada à beira da cama. vou dormir. Daniel pensava na entrevista do dia seguinte. provavelmente. De repente levantou a cabeça e pareceu tomar uma decisão. Eram lúgubres. J E A N P AUL SARTRE Marcelle sorriu. Passará toda a vida inclinado sobre aquela mão perfumada e acariciar lhe á os cabelos. eram um só. pensou ele. — Made moiselle Lola está se a vestir. Duffet pareceu não as ouvir. — Querido Daniel. Mathieu perscrutou a sala com o olhar à procura de Boris e Ivich. Ele ergueu a cabeça e viu o olhar dela. arrancaria dele aquela piedade viscosa. — Daniel! — murmurou Marcelle. — E obrigada pêlos deliciosos bombons. — Se eu deixar. fingindo se vítima: — Que hei de fazer? — Bom. . Não a deixe ficar acordada até muito tarde. Bocejava por baixo do sorriso. conto consigo. Ele voltou se para Mme. dormes até ao meio dia. — Ouve. porém uns sopros ecoavam através dos lábios entreabertos. Daniel abriu os olhos. — Procuro alguém — disse Mathieu. e isso lavá lo ia. à altura dos olhos com um gesto ligeiramente ameaçador. mas os seus olhos tinham se avermelhado. Duffet. decorada com fitas. Ela abrira se. O jovem reconheceu o. que transbordava de gratidão sexual. Mme. Ergueu se e foi dar umas palmadinhas nos ombros de Marcelle. — Meu arcanjo — dizia Marcelle por cima da cabeça dele. é o senhor — disse cordialmente. — Dormes de mais. Ela sorria lhe com uma expressão maliciosa. Havia entre ambos qualquer coisa mais forte do que o amor. Duffet. ele entrara dentro dela. XI s oaram as dez horas. Os seus amigos estão no fundo à esquerda. sejam razoáveis — disse Mme. retendo a respiração. Era um olhar pesado e envolvente. — Ah!. querida — disse divertindo se a falar entre dentes. meus filhos. tossiu com dificuldade. Tinha asma. Fechou os olhos. Senão.Ficaram silenciosos. — Juro que sairei antes da meia noite — afirmou Daniel. dorme até ao meio dia. Disse alegremente: — Pois bem.

viu Boris e Ivich. muitos homens de idade que dançavam com ar de quem pede desculpa. porque já não podia suportar a solidão. Numa delas um homem e uma mulher falavam. Está cá gente hoje. Achava os romanescos. . apesar da simpatia dos maitres d'bôtel. «Pareciam dois mongezinhos. Inclinava se ao ouvido de Boris e segredava Ihe qualquer coisa. contemplava as lentas deslocações daquele comício silencioso. o ar de uma irmã mais velha e falava a Boris com uma condescendência maravilhada. — Conversa!» — disse simplesmente. «Que é que vim fazer aqui?». Os sons agudos do tango passavam por cima das cabeças deles. e no fundo dos seus corações alguma coisa mudaria. — Obrigado. nervosamente. As lâmpadas brancas acenderam se novamente. Depressa o veriam e oferecer lhe iam aquele rosto convencional que reservavam para os parentes. e nunca se esquecia disso. São um pouco barulhentos. Era a última réplica de um romance ou de uma peça de teatro. Ouviu o tango e o arrastar dos pés. Não se sentiu à vontade. Boris teve um riso curto. Ele estava agora perto de Ivich. os adultos. O rapaz desapareceu. Mathieu olhava Boris e Ivich. Em Montmartre. Tinha. um bocadinho. pensou Mathieu.» Era Ivich quem falava. Mathieu avançou pela sala por entre os ombros em fuga. o brilho de um colarinho. Na outra. Mathieu esperou. com gestos vivos. No entanto.vou acompanhá lo. Numa reentrância havia duas mesas. Holandeses. Mesmo com o irmão. aproximou se. Nunca. tinha a impressão de estar a espreitar pelo buraco da fechadura. Ivich não se entregava completa mente. «Como são jovens. — Bastante. mas ela não o via. O seu casaco brilhava nos cotovelos. oferecera ela a Mathieu um rosto assim. mas consomem bem. Eu encontro os facilmente sozinho. Havia uma crueldade inquieta e permanente na atmosfera. «Conversa!» Com essa palavra o diálogo terminava definitivamente. com uma austeridade cheia de graça. Não era possível abrir passagem entre as pessoas que dançavam. nunca se podia sentir à vontade. sem se olhar. desempenhava o papel de irmã mais velho. mulheres soberbas e maduras. mesmo nos momentos de maior abandono. Inclinavam se um para o outro muito ocupados. os músicos não pareciam tocar para eles.» Tinha vontade de dar meia volta e sair. Mathieu pousou a mão sobre a mesa. era incapaz de se divertir naquele ócio grave. as calças já não tinham vincos. uma cabeça de preto. Ombros nus. Mathieu sentiu se ligeiramente reconfortado. não dançava bem.

— Quer o meu lugar? — Não. Fez se barman porque foi prestidigitador. A verdadeira Ivich desaparecera. Ivich não o tinha recebido mal. é o cocktail da casa. mas já não tinha um ar admirado ou rancoroso. De qualquer maneira teria bebido essa porcaria. sentia se penetrado por um calor húmido. sem dar a sua opinião. — Foi por gentileza que o pediu? — Há três semanas que o barman me chateia para o experimentar. As pessoas murmuravam à sua volta. mas engana se. — E que é isso? — indagou Mathieu por espírito de justiça. já não havia ninguém no estrado dos músicos. Tinha um ar severo. — Isso ficava lhe caro — atalhou Boris —. eu tinha os! — Eu também — disse Boris —. e fumava um cigarro. Parecia achar natural a presença de Mathieu. — Então era melhor que tivesse sido malabarista. Sentou se. Acha que o ofício é o mesmo. Mathieu sentia se incomodado. — Como? Gosta disso agora? — E forte — respondeu ela. Boris apontou para a multidão com um gesto rápido. — Cem francos — disse Ivich —. A um barman. apontando para uma espuma branca no copo A de Boris. Não sabe fazer cocktails. — Boa noite. O jazz negro Hijito's Band ia substituí los. — Gostava de ser barman — disse Mathieu. — Um vodka — disse Ivich. de braços cruzados. não vale a pena.— Olá! — disse. — Aliás. — Olá! — respondeu Boris levantando se. mas é porque ele é barman. para quebrar ovos é preciso ter jeito. — Deve ser divertido. irritado. Estava de pé atrás do balcão. Boris olhava o com uma admiração jovial de surpresa. Mathieu deitou um olhar rápido a Ivich. mas pedi Ihe emprestados cem francos. deve pedir se dinheiro emprestado — explicou num tom de austeridade. pensou. — Suponho que é por causa do misturador — disse Mathieu. — E horrível — disse Boris —. Guarde o para Lola daqui a bocado. «E porquê a verdadeira?». Ela não sorriu. Mathieu olhou o barman. — Sim — disse Mathieu. Viu dois olhos pálidos e mortos. todo de branco. Mathieu — disse Ivich. — Que estão a beber? — indagou Mathieu. Ela inclinara se para trás. A sala estava deserta. havia de partir . Os gaúchos tinham terminado a série de tangos. — Tem gente! — observou com satisfação. gozava a condensação feliz que dá o sentimento de ser um homem entre os outros homens.

atentos e severos. e ele parecia aliviado. A mulher e o amigo deviam estar a dançar. J E A N P AUL SARTRE Mas sentiu de repente nojo da economia e daquele maço magro de notas que jazia no fundo da sua carteira. Olhou a lista. e Ivich olhava Boris. — Você também pode beber um bocadinho — disse para Ivich. pensou Mathieu tristemente. Virou a cabeça. pensando melhor. Mathieu estendeu as pernas e sorriu de prazer. — Não — respondeu ela. Boris olhava Mathieu. só lhe restavam quinhentos francos. — Estou contente por ir beber champanhe — disse Boris. Por toda a parte. Boris regozijou se. O Mumm custava trezentos francos. e continuavam ali a fumar cigarros e a beber misturas com gosto a aço. «Estou a mais». Sons de trompete. mas já não tinham sequer força para o fazer. «há sempre um que se escandaliza». mas dava lhe um grande prazer à flor da pele. Calaram se. Chamou o maítre d'hôtel. pensou Mathieu de mau humor. O maïtre d'hôtel apresentou lhe a lista dos champanhes: tinha de ter cuidado. de ouvidos tapados pela música. — Um uísque — disse Mathieu. Sentiu o apelo discreto de uma felicidade humilde e .tudo. rostos sorridentes e bem arranjados com olhos pisados. — Vocês são divertidos — disse Mathieu. não lhe passava pela cabeça descobrir neles uma melodia. O barman sonhava. Bem sabia que estava lixado. com ares desgraçados. isso não tinha importância e não era desagradável de todo. sozinho. — Não gosto e é preciso que me habitue. a contemplar de olhos vazios os farrapos do seu destino. Ivich mordeu os lábios. — Espere. diante dele. sozinho também diante de três capas e uma bolsa de mulher. Estavam ali. Mathieu sentiu se bruscamente solidário com aqueles tipos todos. no meio daqueles tipos igualmente lixados. — Sim. chegavam lhe às rajadas. Só que essas duas imagens não se conciliavam. Fez se silêncio. «Não se pode dizer nada». àquela mesa. à direita havia um camarada de monóculo. a sorrir. é preferível. mas afinal naquele dancing. Bocejou por trás da mão e os seus olhinhos pestanejaram com volúpia. Era um barulho apenas. — Bebem sempre coisas de que não gostam. outro mais longe. que fariam melhor se voltassem para casa. — Um Mumm cordon rouge. Prefiro champanhe. acidulados e gloriosos. Adorava que Mathieu lhe falasse naquele tom. cada um deles tinha construído uma imagem pessoal de Mathieu e exigiam ambos que ele lhe fosse fiel.

— Vodka bebe se de um trago — observou Boris. vai incendiar lhe a garganta.. Ficou assim um segundo. Ivich olhava inquieta e vagamente o líquido transparente que tinha ficado no copo. — Uf! — disse Ivich —. — Não. um pensamento de mosca ou de barata. nesse ponto você é um cabeçudo. O pescoço de Ivich inchou e ela pôs o copo na mesa com uma careta horrível. — Prefiro beber de um trago. eu é que estava bêbedo. . Mesmo bêbedo. — Engole — disse Boris. A senhora morena do lado. — Quero divertir me. com seriedade. Enquanto bebia agarrava se a qualquer coisa. Voltou se para Ivich. de encontrar na cabeça.» Tinha medo. — Você aguenta o álcool? — Ele? — Ele é formidável — disse Boris. irritada... disperso e flutuando como uma neblina de Verão. Voltou se vivamente para Mathieu. com aquele pequeno pântano de fogo no fundo da garganta.covarde: «Ser como eles. — Bebo. sempre é mais forte. Era como se enchesse uma garrafa. — Sim — disse Boris —. queima. sem ousar engolir. Ivich reflectiu um segundo. a falar de Kant. Ninguém respondeu. Era a primeira vez que o olhava. — Já o vi tomar sete uísques de uma vez. — Não faça isso — atalhou Mathieu —.» Teve medo e sobressaltou se. espere pelo champanhe.. deitou lhe um olhar de censura. Inclinou se para trás aproximando o copo dos lábios e deixou que lhe escorresse na boca todo o conteúdo. abandonando por instantes o seu devaneio. Mathieu sofria por ela. não beba. No fim. acabará mais depressa. mas não entrego o corpo inteiro à embriaguez. Tinha os olhos cheios de lágrimas. um rosto forte e exangue de olhos desertos. Apesar de rancorosa e distante. Mathieu não perdia a cabeça. era ainda o seu único apoio. — Bebe de um trago — disse Boris. A quê? Lembrou se de repente de Gauguin. — Sinto horror em embriagar me — explicou humildemente. — É melhor treinar com aguardente. pior que um asno. é fogo! — Eu comprei te uma garrafa para te treinares — disse Boris. Ivich pegou no copo. Era verdade. se se entregasse por momentos. — Faz de conta que é água. eu já não o ouvia. — Tenho de engolir isto — disse ela. Acrescentou com uma espécie de angústia: — Acho que agora vou poder divertir me. Pensou: «A minha dignidade humana.

alegremente. por favor. Mathieu viu a garrafa e pensou: «Trezentos e cinquenta francos. No fundo. não desdenhava tirar dela pequenas vantagens. Depois aquilo apagou se. trabalhou esta tarde? Ivich encolheu os ombros. — Passou o dia enrolada no sofá. que o contemplava com uma expressão estranha. trocar tudo até à medula. estava transparente até ao infinito e igualmente podre. — Então — perguntou ele —. — Isso é ridículo. É uma defesa. desejava agradar a Ivich. uma compensação. e partirei imediatamente. talvez soluçado.» O tipo que o tinha abordado na véspera. bem o sei. na Rua . essa maneira de subir pêlos próprios ombros. pensamentos sobre pensamentos. Todos os seus pensamentos estavam contaminados desde a origem.. aí está o champanhe — disse ela. pensamentos sobre pensamentos de pensamentos. porque é a última noite. quando se tratava de estupor. — Não quero que me falem mais nisso. Sinto me humilhada. não estava realmente indignado. — Ou então? — Nada. Ah!. antes o divertia. escancarado: pensamentos. Ou então.. raivosamente. Ivich devia ter gemido durante horas. Não era verdade. não era sincero. fico tenso.— Não sou cabeçudo.. Acrescentou com ironia. E necessário que pense sempre no que me acontece. como para si próprio: — Sou um vime pensante. também não era sincero.» Mas nada o ajudava. e encontrou se diante de Ivich. não falemos mais nisso. mas essa lucidez não lhe custava nada. o álcool inflamava lhe o rosto. Calou se. — Sim — disse com obstinação —. estava resplendente. não poderei ficar mais um dia sequer em Paris. servia se dela para fazer gentilezas às mulheres! «Estupor!» Mas parou. Era um truque. estou aqui para me divertir. Mathieu abriu se como uma chaga. Estou farta. J E A N P AUL SARTRE Boris acrescentou. Viu se por inteiro.. Pensou: «Já desci a isso?» Estava a ponto de se aproveitar da própria decadência. arrepiado. vou chumbar. Mas agora já não se percebia nada. sem se preocupar com o olhar furioso da irmã: — É esquisita! É capaz de morrer de frio em pleno Verão. com olhos do tamanho de um pires. não me deixo dominar. — Queria passar uma noite formidável — disse —. E esse juízo que emitia acerca da sua lucidez. Como para si próprio. orgulhosamente. Pintara de azul as pálpebras e de vermelho framboesa os lábios. imaginava salvar se da abjec ção pela «lucidez». «Será preciso mudar tudo. De repente.

mis dam lê mille Émile E havia aquela garrafa que girava cerimoniosamente na ponta dos dedos pálidos. se fosse servido bem quente. Mathieu continuava a olhar para a garrafa. O empregado serviu. A vizinha voltou a cabeça e mediu a de alto a baixo. a pensar no tipo da véspera. — Não — atalhou Ivich —. com alegria. Porém. Mathieu teve nojo da garrafa. J E A N P AUL SARTRE — Senhoras e senhores. fazia a rodar com competência. — Se quiserem — disse Mathieu. sem champanhe nem belas loucuras. eu bebo toda a garrafa.Vercingetorix. Ficara com a sua expressão maníaca e cruel. Aliás. Acrescentou: — Pode deitar se no balde do gelo quando o empregado não estiver a olhar. Um senhor pequeno. O riso de Ivich era estridente. e toda aquela gente que se cozinhava no próprio molho. leve como uma bola de sabão. calvo e redondinho. de smoking. Puseram se a rir os três. perplexa. A rapariga dançava. — Somos divertidos! — disse Boris. parecia pouco à vontade. e sorriu. Ivich contemplava o dela. — Estou a lembrar me de que eu também não gosto de champanhe. O empregado. — Conheço a — disse Boris. se ninguém quiser. e ainda por cima tinha fome. saltou para o estrado e sorriu ao microfone. eu quero beber. a cantar ao microfone: A // a. Mathieu virou se para Ivich. também estava lixado. Era pesada e negra. Mathieu pensou: «Cheirava a vinho tinto barato. no fundo. Mas nesse momento havia um rapaz muito digno sobre o estrado. Ela contemplava a rapariga nua com os grandes olhos arregalados. Estava nua. e os seus pés esticavam se na extremidade das . eu não gosto de champanhe. modestamente. a direcção do Sumatra tem o grande prazer de apresentar Miss Ellinor pela primeira vez em Paris! Miss Ellinor! — repetiu! Com os primeiros acordes da orquestra surgiu na sala uma mulher alta e loura. e sentia o coração magoado por uma verdadeira angústia. sem grandes preocupações. e Mathieu levou melancolicamente o copo aos lábios. sob a luz vermelha. rindo também. As lâmpadas brancas apagaram se. o corpo. uma depois da outra. lançava as pernas para a frente. ansiosa por agradar. é o mesmo. afectado e reverente. com um guardanapo em volta do gargalo. — Não era mau — observou Boris —.» Todo o dancing lhe pareceu um pequeno inferno. inclinado sobre o balde de gelo. Acenderam se novamente as vermelhas. — De que se está a rir? — perguntou Boris. e um rolar de tambores advertiu o público. parecia um grande pedaço de algodão.

Mathieu quis desejar aquela almofada na . Mathieu não respondeu. — Isso não os comove — observou Mathieu —. mas não teve forças para fazê lo. devorava com os olhos. «Pronto».pernas.. aperta as coxas. mordendo os lábios. O ruído das conversas cobria por momentos a música. com sentimentos dúbios. mas com arte. «Está só».. — Eles querem principalmente ver belas nádegas! — Sim. «esconde sob os cabelos um rosto arrasado. Na verdade havia uma fragilidade inquietante nos seus longos membros. quando pousava os pés no chão. com um sorriso. — Isso não quer dizer nada! É vergonhoso. quis levantar se e desaparecer. deslocando se de lado sobre os calcanhares. envenenou lhe a boca: «A fita toda desta manhã. Aproximou se do estrado e virou se de costas. «vai cair». a rapariga parecia lhe duplamente nua. pensou apenas: «E dizer que gosto dela pela sua pureza.. A unha do polegar.. as pernas estremeciam dos tornozelos até às coxas. Não se atrevia a olhá la. afinal a menina sagrada era como os outros: duplamente defendida pela sua graça e pêlos vestidos. goza. — E espantoso como tem as ancas duras — disse Boris. O público deleitava se com a sua própria indignação. como dedos. pensou. Bebeu um golo do cocktail e pôs se a brincar com os anéis. Mathieu percorreu a sala com o olhar e só viu rostos severos e justiceiros. pensou Mathieu.» Virou a cabeça e viu o punho crispado de Ivich sobre a mesa. carmesim e aguda. eles querem ser respeitados. provocando no ar tremores que deslizaram ao longo das omoplatas até à reentrância dos rins. Mathieu comovia se com a boa vontade desesperada dela: oferecia lhes as nádegas entreabertas.» A dançarina. de mãos nas ancas. Dir se ia que ela sentia a hostilidade e esperava enternecê los. — Têm Lola Montero — observou o tipo gordo. deve pensar se em escolher melhor os números. Apanharam na na rua. aquela pobre carne nua. — Como ela se cansa! — disse Boris. ergueu os braços e sacudiu os. Uma onda de rancor subiu aos lábios de Mathieu. Quando se cobra a bebida a trinta e cinco francos. porque era desajeitada. as pernas da dançarina escavaram o chão sob a impotência ridícula dos quadris. roçou pela mesa deles. num impulso de dedicação que constrangia a alma. Pensava em Ivich. apontava para a sala como uma flecha indicadora. mas lembrava se da expressão cruel. — Não sabe dançar — disse a vizinha de Ivich.» Essa ideia pareceu lhe insuportável. Durante uns momentos. em seguida endireitou se. — Ela vai cair! — disse Boris.

A rapariga desapareceu sorrindo e atirando beijos. — Mais uma razão para não aplaudir. — Já não a posso ver. o nome célebre: — Lola Montero! A sala estremeceu de cumplicidade e entusiasmo. Por cima do sorriso brilharam uns lindos olhos aquados. «Não estava perturbada». descomposto pela raiva e pela repugnância. para pregar uma partida a Ivich. só havia um espectáculo. Uma luz branca invadiu a sala e foi um acordar geral. e no fumo um monstro de quatro patas andava à roda.ponta de uma espinha medrosa. «O meu ser assim. Estava só. mas não tem cabeça. — Está quieto — disse Ivich. — Que nojo! — disse Ivich. Ninguém aplaudia e houve algumas risadas ofensivas. Boris. nada mais. sem comentários. através de um murmúrio de folhas. simplesmente. espantado. A música parou. é uma boa rapariga.» Era uma personagem de pesadelo aquele homem que saltitava no estrado e fazia gestos para pedir silêncio. e apesar disso deve ver se que é oco.. Rostos espantados vi raram se para o lado dele. a rapariga imobilizou se com o rosto voltado para o público. jantei com ela e com Lola. como essas lanternas pálidas que oscilam de noite nas pequenas estações. — Conheço a. — Bateu as palmas com força. para se distrair dos seus pensamentos. ao longe um fogo de bengala. A vizinha de Ivich acendeu um cigarro e teve um amuo terno para si própria. Boris encolheu os ombros. Ivich tremia. — Estupores! — disse Boris. Ivich. — Estão quentes. Mathieu voltou se. A rapariga acocorava se com as pernas ligeiramente abertas e balançava se para a frente e para trás. pensou. Todos se sentiam satisfeitos por se encontrarem de novo juntos após a sentença dada.. na ponta de um braço invisível. e Boris pareceu encantado. vai ser uma maravilha! . Viu um rosto triangular. dos cantos da boca. com um ar de gozar de antemão o espanto que ia provocar. Uma música de quermesse chegava lhe aos ouvidos.. — Aplaudir isto? — Ela fez o que pôde — disse Boris aplaudindo. às rajadas.. mas a cabeça encheu se lhe de guizos. era um pesadelo branco. ele quis sorrir lhe. Em volta dele. deve ter essa pertinência dos olhos. Mathieu não acordara. na sua maioria não pareciam habituados. com gratidão. os rostos abriam se em volta dele. «Que é que eu tenho?» Era como a manhã. com uma suficiência sorridente e mole. o corpo obsceno e a neblina vermelha deslizaram para fora do seu alcance. com a afectação de soltar no microfone. Mathieu estava algures. ouviram se aplausos.

Lola encostara se à porta. De longe, o seu rosto achatado e vincado parecia uma cabeça de leão. Os seus ombros, de uma brancura ondeada de reflexos verdes, eram uma folhagem de bétula numa noite de vento sob os faróis de um automóvel. — Como é bela! — disse Ivich. Adiantou se a passos largos e calmos, com um desespero desenvolto. Tinha mãos pequenas e encantos pesados de sultana, mas punha no andar uma generosidade de homem. J E A N P AUL SARTRE — Ela impõe se — disse Boris, com admiração. — Com ela ninguém se mete! Era verdade. As pessoas da primeira fila tinham recuado as cadeiras, não se atreviam sequer a olhar de perto aquele rosto célebre. Um bom rosto de tribuno, volumoso e público, marcado pesadamente por uma vaga sugestão da sua importância. A boca conhecia o seu ofício, estava habituada a abrir se amplamente, com os lábios salientes para vomitar o horror e o nojo e para que a voz fosse longe. Lola imobilizou se de repente. A vizinha de Ivich suspirou de escândalo e admiração. «Ela domina os», pensou Mathieu. Sentia se incomodado: no fundo, Lola era nobre e apaixonada; no entanto, o rosto mentia, representava a nobreza e a paixão. Ela sofria, Boris desesperava a, mas durante cinco minutos por dia aproveitava se do seu número de canto para sofrer espectacularmente. «E eu? Não estou também a sofrer espectacularmente, representando com acompanhamento musical o papel de um tipo lixado? No entanto», pensou, «é indiscutível que estou lixado». Em volta dele era a mesma coisa. Havia pessoas que não existiam, eram vapores, e outras que existiam demasiado. O barman, por exemplo. Pouco antes fumava um cigarro, vago e poético como um jasmineiro; agora acordara, era demasiado barman, sacudia o shaker, abria o, escorria a espuma amarela nos copos, com gestos de uma precisão supérflua. Representava o papel de barman. Mathieu pensou em Brunet: «Talvez não possa ser de outra maneira; talvez seja preciso escolher: não ser nada ou representar o que é. Mas é terrível ser se levado pela nossa própria natureza.» Lola, sem se apressar, percorria a sala com o olhar. A sua máscara dolorosa tornara se dura, congelara se, pare cia ter ficado esquecida sobre o rosto. Mas no fundo dos olhos, a única coisa viva, Mathieu teve a impressão de surpreender uma chama de curiosidade áspera e ameaçadora que não era fingida. Ela viu Boris e Ivich e tranquilizou se. Sorriu lhes cheia de doçura e anunciou, com um ar perdido: — Uma canção de marinheiro: Jobnny Palmer. — Gosto da voz dela — disse Ivich. — Parece veludo. — Parece.

Mathieu pensou: «Ainda Jobnny Palmer»\ A orquestra preludiou, e Lola ergueu os pesados braços. «Pronto, faz a cruz», viu a abrir sanguinolenta. Qui est cruel, jaloux, amer? Qui triche au jeu, sitôt qu'il perd? Mathieu já não ouviu, sentia se envergonhado diante daquela imagem de dor. Era apenas uma imagem, bem o sabia, mas mesmo assim... «Não sei sofrer, nunca sofro o suficiente.» O que havia de mais penoso no sofrimento era ser o de um fantasma, passava se o tempo a correr atrás dele, imaginava se sempre que se ia alcançá lo, que se ia atirar dentro dele e sofrer de verdade rangendo os dentes, mas no momento em que pensava atingi lo escapava se, não se encontrava mais nada a não ser um fogo de artifício de palavras e milhares de raciocínios desvairados em minuciosa efervescência. «Esta tagarelice na minha cabeça; daria tudo para me calar.» Olhou Boris com inveja. Aliás, naquela cabeça obstinada devia haver grandes silêncios. Qui est cruel, jaloux, amer? C'est Jobnny Palmer. «Minto.» A sua decadência, as suas lamentações eram mentiras, vácuo; atirava se para o vácuo, à superfície de si mesmo, fugir à pressão insustentável do mundo verdadeiro. Um mundo negro e terrível que tresandava a éter. Naquele mundo, Mathieu não estava lixado — era muito pior. Era um atrevido e um criminoso. Marcelle é que estava lixada, se ele não descobrisse os cinco mil francos até ao dia seguinte. «Lixada de verdade.» Sem lirismo. Tinha o filho ou ia arriscar a vida nas mãos de um charlatão. Naquele mundo o sofrimento não era um estado de alma, não havia necessidade de palavras para exprimi lo. Era uma expressão das coisas. «Casa com ela, falso boémio, casa com ela, meu caro, porque não hás de casar com ela?» «Aposto», pensou Mathieu horrorizado, «que ela vai morrer com isto.» Todos aplaudiram, e Lola dignou se sorrir. Inclinou se e disse: — Uma canção da «Ópera de Quat sous»: A Noiva do Pirata. «Não gosto dela nesta canção, Margo Lion era bem melhor. Mais misteriosa. Lola é uma racionalista, não tem mistério. E boa de mais. Ela odeia me, mas com um ódio grosseiro, volumoso, sadio, um ódio de homem de bem.» Ouvia distraidamente esses pensamentos leves que corriam como ratos num sótão. Por baixo havia um sono espesso e triste, um mundo espesso que esperava no silêncio. Mathieu cairia nele mais cedo ou mais tarde. Viu Marcelle, viu lhe a boca severa e os olhos muito abertos: «Casa com ela, falso boémio, casa com ela, estás na idade da razão, deves casar.» Un navire de baut bord Trent' canons au sabord Entrera dans lê port.

A IDADE DA RAZÃO x «Basta! Basta! Arranjarei o dinheiro, terei de o arranjar ou casarei com ela, pronto, não sou um ser abjecto, mas hoje, esta noite pelo menos, que me deixem em paz, quero esquecer. Marcelle não se esquece, está no quarto, deitada na cama, lembra se de tudo, vê me, ouve os rumores do seu corpo. E que importa? Usará o meu nome, terá a minha vida inteira, mas que me deixe esta noite só para mim.» Voltou se para Ivich, lançou se ao seu encontro, ela sorriu lhe, mas ele deu com o nariz numa muralha de vidro enquanto aplaudiam. — Mais uma! Mais uma! — gritavam. Lola não ligou aos pedidos; tinha outro número às duas horas de madrugada, poupava se. Saudou duas vezes e caminhou na direcção de Ivich. Algumas cabeças voltaram se para a mesa de Mathieu. Mathieu e Boris levantaram se. — Boa noite, querida Ivich. Como está? — Boa noite, Lola — disse Ivich, de uma maneira indolente. Lola acariciou o queixo de Boris, com delicadeza. — Boa noite, crápula. A sua voz calma e grave dava à palavra «crápula» um tom de dignidade. Dir se ia que a escolhera a dedo entre as palavras ridículas e patéticas das suas canções. — Boa noite, minha senhora — disse Mathieu. — Ah! — respondeu ela —, também está aqui! Levantaram se. Lola olhou para Boris. Parecia com pletamente à vontade. — Disseram me que patearam Ellinor? — Estávamos a falar disso. — Foi chorar ao meu camarim. Sarrunyan está furioso, é a terceira vez em oito dias. — E vai despedi la? — perguntou Boris, com ar inquieto. — Estava com vontade; ela não tem contrato. Eu disse lhe: se ela sair, eu saio também. — Que é que ele disse? — Disse que ficasse mais uma semana. Percorreu a sala com o olhar e afirmou em voz alta: — É um mau público, o desta noite. — Pois eu não diria o mesmo — observou Boris. A vizinha de Ivich, que devorava Lola imprudentemente com os olhos, estremeceu. Mathieu teve vontade de rir. Achava Lola muito simpática. — É porque tu não estás habituado — disse Lola. — Quando entrei, logo vi que acabavam de se portar como idiotas, pareciam aborrecidos. Se a rapariga perder o lugar, só lhe resta o trottoir. Ivich ergueu a cabeça bruscamente, parecia desvairada. — Que se prostitua — disse com violência —, tanto me faz, e isso convém lhe mais do que a dança.

Esforçava se por manter a cabeça direita e conservar abertos os olhos baços e rosados. Perdeu um pouco a segurança e acrescentou, conciliadora: — Naturalmente, compreendo que ela precise de ganhar a vida. Ninguém respondeu, e Mathieu sofreu por ela. Devia ser difícil manter a cabeça direita. Lola olhava a placidamente. Como se pensasse: «Menina rica.» Ivich teve um risinho. — Eu não preciso de dançar — disse, com um ar malicioso. Mas o riso apagou se e a cabeça caiu lhe. — Que é que ela tem? — disse Boris, tranquilamente. Lola contemplou a cabeça de Ivich, com curiosidade. Passado um bocado, estendeu a mão gorda, agarrou Ivich pêlos cabelos e levantou lhe a cabeça. Parecia uma enfermeira. — Que é que aconteceu? Bebeu de mais? Afastava, como uma cortina, os cachos louros de Ivich, pondo a nu as faces pálidas. Ivich entreabria os olhos amortecidos e deixava a cabeça indinar se para trás. «Vai vomitar», pensou Mathieu, sem se perturbar. Lola dava puxões nos cabelos de Ivich. — Abra os olhos, vamos, abra os olhos, olhe para mini. Os olhos de Ivich arregalaram se. Brilhavam de ódio. — Estou a olhar para si — disse com uma voz cortante. — Estou a olhar. — Ah! — observou Lola —, não está tão bêbeda como isso. Largou os cabelos de Ivich. Ivich levantou vivamente as mãos, arranjou os caracóis sobre o rosto, parecia modelar uma máscara, e na verdade o rosto triangular apareceu sob os dedos, mas em volta da boca e dos olhos ficou qualquer coisa de pastoso e gasto. Ficou um momento imóvel, com o ar intimidado dum sonâmbulo, enquanto a orquestra tocava um slow. — Vamos dançar — disse Lola. Boris levantou se e começaram a dançar. Mathieu seguiu os com os olhos, não tinha vontade de falar. — Essa mulher censura me — disse Ivich, sombria. — Lola? — Não, a minha vizinha. Ela censura me. Mathieu não respondeu. Ivich continuou. — Queria tanto divertir me esta noite... e afinal... Detesto ganhar champanhe! «Deve detestar me também porque a fiz beber!» Viu no entanto, com surpresa, que ela pegava na garrafa e enchia novamente a taça. — Que está a fazer? — Acho que não bebi o suficiente. Há um estado que precisamos de atingir, depois sentimo nos bem. Mathieu pensou que devia tê la impedido de beber, mas não se

mexeu. Ivich levou a taça aos lábios e fez novamente uma careta. — Como é mau! — disse pousando a taça. Boris e Lola passaram perto da mesa. Riam. — Como vai isso? — gritou Lola. — Agora muito bem — disse Ivich com um sorriso amável. Tomou de novo a taça e esvaziou a de um trago, sem despregar os olhos de Lola. Lola devolveu lhe o sorriso, e o par afastou se a dançar. Ivich parecia fascinada. — Ela aperta se contra ele — disse com uma voz quase imperceptível. — É... é ridículo. Tem uma cara de fera. «Está com ciúmes», pensou Mathieu, «mas de quem?» Estava semiembriagada, sorria com uma expressão maníaca, interessada em Boris e Lola, e não lhe dava a menor atenção, apenas lhe servia de pretexto para falar em voz alta. Os sorrisos, os gestos, todas as palavras que dizia, endereçava os a ela própria através dele. «Isto devia ser me insuportável», pensou Mathieu, «mas deixa me completamente indiferente.» — Vamos dançar! — disse bruscamente Ivich. Mathieu sobressaltou se. — Mas não gosta de dançar comigo. — Não faz mal, estou bêbeda. Levantou se cambaleando, quase a cair, e segurou se à mesa. Mathieu tomou a nos braços e arrastou a. Entraram num banho de vapor, a multidão fechou se sobre eles, sombria e perfumada. Durante um segundo, Mathieu sentiu se perdido, mas depressa ficou senhor de si, marcando o passo atrás de um negro. Estava só; logo aos primeiros acordes, Ivich levantara voo, já não a sentia. — Como é leve! Baixou os olhos e viu uma porção de pés! «Há quem dance pior do que eu», pensou. Segurava Ivich a certa distância e não a olhava. — Dança correctamente — disse ela —, mas vê se que não tem prazer nisso. — Dançar intimida me — disse Mathieu. Sorriu. — Você é que é espantosa. Há pouco, mal podia andar, e agora dança como uma profissional. — Posso dançar completamente bêbeda — disse Ivich. — Posso dançar a noite inteira, nunca me canso. — Gostava de ser assim. — Nunca o conseguirá. — Bem sei. Ivich olhava em volta, com nervosismo. — Já não vejo a fera. — Lola? À esquerda, atrás de si. — Vamos para lá.

Ivich dirigiu se para Lola. pensei que nunca dançasse. — Fiquemos aqui: já não há espaço. redondo. — São. e ninguém tinha vontade de falar. Ivich beliscou o cotovelo do irmão. Levantaram se. Pequeno Polegar. — Não sei guiar — respondeu Lola. guio como um homem. — Percebeste porque é que ela me chamou Pequeno Polegar? — Parece me que sim — disse Lola. com a cabeça inclinada para trás. Um pequenino céu local formara se por cima das suas cabeças. . Ivich não respondeu. — Venha — disse com voz rouca. Ivich tornara se quase pesada. mostrando os dentes: — Não tenha receio. — Dança admiravelmente — disse para Ivich. Boris murmurou ainda algumas palavras. — Eu guio. Ivich abraçou brutalmente Lola e empurrou a para o meio da sala. Lola já estava sentada. não fujas! Porque é que me chamas assim? Ivich não respondeu. e a mulher deitou lhe um olhar raivoso. — Eh! Ivich. J E A N P AUL SARTRE Lola fechava os olhos: as pálpebras eram duas manchas azuis sobre o rosto duro. O homem pediu desculpas. — Divirto me loucamente — disse Ivich. — Foi a sua irmã que quis. solitária e reivindicadora. fez Mathieu dar meia volta. IDADE DA RAZÃO — Forte como é. devia dedicar se de preferência à dança acrobática. perdido numa solidão angélica. de maneira a ficar ela própria de costas para Boris. Ivich emudecera. Mathieu via lhe apenas uma ponta da orelha entre dois caracóis. arrastava Mathieu. Ivich. Nem Boris nem Lola os tinham visto chegar. Quando chegaram muito perto. — São cómicas — disse Boris enchendo o cachimbo. nem sequer dançava. os negros apressavam se a pôr em ordem os instrumentos. As lâmpadas acenderam se de novo. O jazz calara se. mas o ruído dos aplausos abafou lhe a voz. Boris e Lola aproximaram se às voltas. seco e sufocante. — Você estava magnífico — disse Boris a Mathieu —. — Olá. Acrescentou maldosamente.Deram um encontrão num casal magricela. Fez se um silêncio difícil. de olhos fixos no irmão e em Lola. a fim de dar lugar à orquestra argentina. Às primeiras notas do tango. Boris sorria. Lola abrira os olhos. Boris arregalou os olhos. — E agora? — perguntou Mathieu. fixava em Lola um olhar pesado. Ivich e Mathieu voltaram para a mesa.

é uma mulher comprometida. — A loura cheia de pérolas? — São falsas. abriu o e colocou o perto do copo. . — Não é isso — disse Boris rindo. deslizando sobre um mar sombrio. era engraçada. Mathieu olhou de esguelha para a rapariga alta e bela. — Olhe — disse Boris. Mathieu pegou delicadamente no canivete e tentou abri lo.. Voltou a pegar no canivete. deu me uma cigarreira. sombrio: — Era de prata. que tinha um ar distante. ela está a olhar para nós. mandou o empregado levá la daqui fora. há de ver e vai ficar admirado. — Você está a ficar muito puritano. Esfregava as mãos. — Acredito. «e eu nunca tenho nada para lhe dizer». pode magoar se. Lola estava louca. com desprezo —. Viverei como um monge. — Que tal? — Assim. mas as prostitutas. queria a todo o instante convidar me para dançar. Cuidado. Tirou do bolso um enorme canivete de cabo de chifre e pousou o sobre a mesa. sou um casto. cuidado. incrustada de pedras. «Está contente porque está a meu lado». — Que vai fazer? — Nada — disse ele. — E que tem isso? — indagou Mathieu. terceira mesa — disse Boris. Mathieu contemplava a cabeça trágica de Lola ao longe. quando tiver rompido com Lola. as dançarinas. Não sabia que era tão alta. — Olhe para aquela mulher que acaba de chegar. — Hum! — disse Mathieu. Pousou o cachimbo e disse gravemente: — Aliás. Acrescentou. afinal são todas iguais. Ter uma é ter todas. não sou como você. — Assim não. principalmente. — Ela não tira os olhos de si. J E A N P AUL SARTRE Calaram se. tinha se drogado. — Há de ver. — É uma navalha espanhola — explicou — com travão de segurança. — Conheci a terça feira passada. Desviou o olhar e viu no rosto de Boris uma satisfação ingénua que o magoou. Parecia uma rapa riguinha. — Está a ver estas manchas escuras? O tipo que ma vendeu garantiu que eram manchas de sangue. surpreendido. À direita. — Não é isso. Além disso. as cantoras.Lola. assim. com remorsos.. pensou. — É uma arma de caide — disse.

— Já sei — uma vez Boris ferira as gengivas com a escova e cuspira sangue —. não. e pensa: «Dormi com esta mulher ontem à noite. já sei. furioso e divertido ao mesmo tempo —. Trinta e cinco anos e ares de querubim. — Não pode tomar partido. Dança no Alcazar. olha as fotografia e vê. Quer apostar? / — Não. Mme. já terei morrido há muito. Que lata! Pura vaidade. — Sim.. não acha? Olhe bem aquele focinho. — Com trinta e cinco — disse Boris secamente —. Você nunca pensou em acabar. — Agrada lhe dizer isso.. E então? — Não me incomodo com isso — disse Boris. Aposta todos os meses que vai acabar no \ mês seguinte e perde sempre. Boris reconheceu o. você há de ser assim aos trinta e cinco anos. — Quero confessar lhe tudo — disse com ar confuso. — É no peito que você me faz mal — explicou Boris.satisfeito. — Tem razão — disse. É bonito. trazem o nome no Vogue. cuidadosamente. sem se perturbar. Ia Comtesse de Rocamadour.. — Estou tuberculoso. pode esperar pêlos charutos e pelo navio. com os seis perdigueiros. cinco charutos de Havana e aquele navio dentro da garrafa que vimos na Rua de Seine. — Não acha uma injúria formidável: o senhor é um medíocre!? — Não é má. — E superior às suas forças — continuou Mathieu. Acho que deve ser divertido. — Cale se — disse Boris. Mathieu disse: — Isso não acaba tão depressa. — Ou então: o senhor é um zero! — Não. — Quem é o tipo que está com ela? — Um amigo. porquê? — Não sei. Acho que não se devem ultrapassar os trinta.. fica desvairado. Depois . devem ter uns modos! E depois é lisonjeiro. às vezes. isso não. — Você é odioso. está demasiado preso a Lola. quer roubar me Lola porque não gosta dela. um binóculo de corrida. Vou virar as costas. — Olhe. enfraqueceu a sua posição. — Mas na gostava de me tratar. Já me deve cem francos. — No dia l de Julho. — Ora. de repente. ela está a sorrir lhe agora — disse Mathieu. é um desgraçado. porque tem sempre razão. — Eu sei que não paga as suas dívidas de honra. — E você um medíocre! O rosto iluminou se lhe. de boa vontade. Imagine! Você compra o Vogue. Algumas. J E A N P AUL SARTRE Acendeu de novo o cachimbo. — Olha. — Eu queria ter uma mulher da alta sociedade.» Deve sentir se uma certa emoção.

— Eu gostava de ter dois anos a mais. «Que importa». talvez pudesse ter falta dele. J E A N P AUL SARTRE — Se eu quisesse o quê? — Nada. — Lá isso é verdade. estava realmente ali. Não o suporta. Se se tratasse de uma conta no banco. Boris assobiou com um ar entendido. Quer cem francos do barman? — Obrigado. Mathieu encarou o com uma simpatia escandalizada. Era ainda mais: uma justificação. no meio daquela gente toda. nem sequer teve tempo de depositá los no banco. — Nota se isso? — E de que maneira! — Dificuldades de dinheiro. — Não quero pedir a Lola. — Não digo isso de si. — Mas juro lhe que ela não sabe o que lhe há de fazer. — Se você quisesse. No fundo. — E o seu irmão? — Não quer. irritado. Olhou para Mathieu e acrescentou. embaraçado. mas olhava Mathieu com uma solicitude inquieta. talvez. No fundo de uma mala. naquela cadeira. Lola está cheia de dinheiro e não sabe o que lhe há de fazer. — Desculpe! O seu amigo Daniel não lhos empresta? — Não pode. desolado. — acrescentou. — Mas tem razão. depois dos trinta já se está morto. naquele dancing. já nada se vale. pensou Mathieu. — Se tivesse os seus vencimentos. porque ela não me suporta. Boris riu. De qualquer maneira.. Estão lá. — Merda — disse Boris. A — Bem sei — disse Mathieu. cheio de confusão. Boris corara. Depois dos trinta.tornamo nos uma ficha inútil. — Não quero pedir nada a Lola.» Só ele. comprar acções. . não tocou neles. jogar na Bolsa. não é tão estúpido como isso viver a mocidade a fundo até aos trinta e morrer.. eu preciso é de cinco mil. e ficar nessa idade o resto da vida. A juventude era para Boris uma qualidade perecível e gratuita de que era preciso tirar proveito cinicamente e uma virtude moral de que se devia mostrar digno. Mathieu estremeceu. Seria agradável. — Tem um ar muito chateado — disse Boris. — Você defende se mal — disse Boris com severidade. — Não está a perceber — disse Mathieu. Mas tem sete mil francos em casa há quatro meses. não precisava de pedir emprestado. Estava a pensar que é absurdo. «ele sabe ser novo.

pensou. — Vem dançar — disse. Virou se para Boris. e Mathieu pensou: «Ele vai pedir o dinheiro. Ivich sentou se ao lado dele. — Quer dançar? J E A N P AUL SARTRE — Não — respondeu Ivich —. é bela! — E o corpo! Como é comovente aquele rosto devastado e o corpo amadurecido. Cruzava e descruzava as pernas. A orquestra iniciara outro tango. É uma mulher horrível. s — Es um monstro. — Simpática? Ah!. Você está chateado por causa de cinco mil francos. Encheu a taça por . Sentia o tempo voar e tinha a impressão de que ela ia murchar nos meus braços. ela acabaria por saber. O canivete caiu. ia dizer lhe: «Peça o dinheiro a Lola». e o sangue subiu lhe às faces. não faça isso — disse Mathieu com vivacidade —. de ponta para baixo. — Vocês matam me. Boris levantou a arma e pousou a sobre a mesa. Boris abriu os dedos. distraidamente. Boris levantou se. Boris não respondeu. — Ela é formidável — disse com a sua voz enrou quecida. Boris ainda não tocara no assunto. Pegou no canivete com dois dedos e levantou o devagar à altura da fronte. tem nos à mão e não lhos quer pegar. A — Que é isso? — perguntou Lola. ser me ia desagradável que lhos pedisse. não. Mathieu acompanhava Boris e Lola com o olhar. — Sim. — Bem vi — disse Mathieu. «Sou ignóbil». para te fazer andar direita. Ivich e Lola voltaram aos seus lugares. A sério — insistiu —. E se os pedisse para mini? — Não. quero beber. apesar de tudo. uma fêmea. Acrescentou. nervosamente. e Lola sorria lhe. Mathieu sentia se perturbado. — Uma navalha espanhola — disse Boris —.— Está a ver! — Não deixa de ser estúpido. O rosto iluminou se lhe e acrescentou com um sorriso feliz: — Tu és gentil. com orgulho: — Eu intimidava a. — Ela é simpática — disse Mathieu. Boris olhou para Lola. enfiou se no chão e o cabo pôs se a vibrar. Parecia gracejar. entre dentes.» Estava envergonhadíssimo e covardemente aliviado. mas não conseguiu articular as palavras. sombrio. «fazer de cavalheiro à custa de Marcelle».

não parecia satisfeita. Foi inclinar se diante da loura grande. — Ficou aborrecido comigo? — indagou Boris. Ela não compreende! Uma mulher da idade dela. Porque recusou? DADE DA RAZÃO — Não sei — disse Boris. — Não faça asneiras — disse Mathieu. Parlamentaram um minuto e Ivich levou a para a sala. Lola mantinha se calma. erguendo os ombros. Vou acabar bem. — Não sei. avançava. Mathieu sentiu que corava. e já. que quer um tipo como eu. que ressurgiu com um ar fechado. Boris inclinou se para Ivich: — Faz me um favor. e é verdade que ele quer comprar uma garagem. querida. Boris tomou um ar sério. A loura era toda trejeitos. — Oh!. Lola não dizia nada. — Ela não quer? — indagou Mathieu. — Exigiu que eu não falasse.. Ora. «ele já está a falar». — Fez uma cara de poucos amigos e disse que precisava do dinheiro. porque a dança não deixa ficar embriagado e o álcool sustenta. convida a. falava sem olhar para Lola. a primeira vez que lhe peço alguma coisa. Uma semelhança perturbadora e desagradável. A música parou. pensou Mathieu. Lola e Ivich passaram perto de Mathieu. No momento em que começavam a dançar. — Ora — disse Boris com ar hostil —. estava irritado com Boris. provocante e mau. e Boris apareceu. Ela conhece o. Acrescentou. Ela corou ligeiramente e levantou se. isso é comigo. asperamente: — É fantástico como me divirto aqui. — Não deve ter acreditado. majestosa. — Não — disse Boris —. estou exausta. inconsciente. Mathieu pegou na navalha . Lola seguia o.metade e explicou: — É conveniente beber quando se dança. e os dançarinos abriam passagem para lhe demonstrar respeito. não. a expressão rancorosa e acovardada dava lhe um ar de semelhança com a irmã. Disse lhe o nome: Picard. A multidão dispersou. Estava pálido. Ivich levantou se sem mostrar espanto e atirou se ao encontro de Lola... — Tenha calma — advertiu Mathieu. mas há de pagar. ora — acrescentou com um furor espantado —. mas por baixo do sorriso estava atenta. Ivich recuava com os olhos virados para o céu. o que sei é que vai me pagar. «Pronto». não — disse Lola —. Os ombros de um negro gigantesco esconderam Ihe o rosto de Lola. — Seria parvo se me zangasse.. Bem sabe que o deixei pedir. tem de pagar! — Como é que lhe pôs o problema? — Disse que era para um amigo que quer comprar uma garagem.

Estava vazia. mas com segurança. como os objectos de toilette que não se emprestam. li. mas a vida manteve se firme. Eu sabia que cada um tinha a sua vida. a Torre Eiffel à esquerda. norte na frente. Cada um a sua. tão rigorosamente pessoais quanto uma escova de dentes ou uma lâmina. descontrai te. fiz amor. escapo. fora. a Rua da Gaite. «Todos têm vidas. vestido de preto. «Bocejei. Elas estendem se através dos muros do dancing. sou eu que me espero nas encruzilhadas. nua. ignorava a existência da minha. «Lentamente. tenho uma vida. ao sabor dos meus humores.» J E A N P AUL SARTRE «Uma vida. Todos. e mares tingidos de azul ou de preto. o meu apartamento. à minha espera. e Marcelle está lá dentro. . Enganava me. viverá na minha casa. num sentido. pensou. Sou eu essas esperas. espero que eu venha a rebentar de calor e a dizer: "Sim. No centro.» Olhava aqueles rostos avermelhados. agora acabou. a Mancha cor de café com leite. e depois outros países. só porque a desço sempre. o Panteão à direita. uma pequena espera obstinada que amadurecia. Aliás. a França sulcada de estradas de sentido único. bebeu o. a distâncias fixas do meu quarto.» Pousou a navalha na mesa. sul atrás. aquelas luas ruivas que deslizavam sobre coxins de nuvens. como respirar. na grande sala da mairie do XIV. Sobrava um pouco de champanhe na taça de Ivich. pela França. o Mediterrâneo azul. a Itália — a Espanha é branca porque não fui bater me por ela — e as cidades redondas. «Minha mulher. a Alemanha. Em minha casa.» Pensou: «Tudo está claro. entrecruzam se. Pensava em Marcelle: «Marcelle minha mulher». estava se marimbando. o mar do Norte preto. e alguma coisa se fechou dentro dele. o quarto de Marcelle. segreguei a minha concha. Hei de vê la todos os dias da minha vida. como engolir a própria saliva. Sentia o por todos os lados. espero a minha chegada.» Era natural. «Não te incomodes. estou enfiado lá dentro. sê natural. a Porta de Clignancourt em frente de mini e no meio a Rua Ver DADE DA RAZÃO cingetorix. não te irrites. com um colarinho duro.» Pensava: «Não fazendo nada. Eu sabia."» Sacudiu violentamente a cabeça. minha mulher.pela lâmina e pôs se a bater com o cabo na mesa. sou eu que me espero sentado numa poltrona vermelha. «Vai haver sangue». perfeitamente natural. aceito a como esposa. E em volta de Paris. cortam se e permanecem. das minhas preguiças. no futuro. a Avenida du Maine e Paris inteiro em volta de mini. entre as poltronas de couro verde. pegou na garrfa e inclinou a por cima do copo. sussurrando. para além de si próprio. E isso marcava! Cada um dos meus gestos suscitava. um buraquinho forrado de cetim cor de rosa. através das ruas de Paris. e eu no meio.

sem futuro: «Não tem concha. Para sempre. estava embriagada. Mi caballo murió. um pouco de ar quente apenas. da mairie do XVIII.» Dançava. o autocarro. perdida. de cabeça inclinada para trás. pensou.» «A minha vida. entre os meus livros. fico em casa. Mesmo se eu apanhasse o comboio.» Sorriu. a sua vida. minha querida liberdade. Aquela tinha um sentido vago e hesitante como as coisas naturais. Se fosse passear nas praças. agora. «Uma vida desdentada. guardava me para mais tarde — e acabo de perceber que já não tenho dentes. não me aproximo um centímetro sequer de Marráquexe ou de Tombuctu. uma consciência sem eu. aquele que não aprendeu inglês. «Minha querida Ivich. Toronto. não pensava em Mathieu. era um olhar. esse árabe estaria em Marráquexe. ainda estaria em casa. Nunca mordi. «Nunca será minha.» Envolvia o. esperava.Tombuctu. E aliás o que me restaria? Uma pequena massa viscosa que se arrastaria na poeira deixando atrás de si uma esteira brilhante. farto me de viagens: férias de universitário. Pairava lá em cima. o barco. Como se ele nunca tivesse existido. eu não.» Ergueu os olhos e viu Lola. de uma mairie à outra. uma insipidez tenaz. Que fazer? Quebrar a concha? É fácil de dizer. nunca entrará na minha concha. aonde ia casar com Marcelle no mês de Agosto ou Setembro de 1938. o professor. Era uma estranha coisa sem começo nem fim e que no entanto não era infinita. que não aderiu ao Partido Comunista. o seu marido. Kazan. tranquilo e pensativo como escolhi ser. ainda estaria no meu quarto. sentia uma dor humilde e refrescante. contemplou com ternura o corpinho rancoroso e frágil em que a sua liberdade se atolara. no meu quarto. o intelectual . No meu quarto para sempre. uma consciência pura. que não esteve na Espanha. à mairie do XIV. Vou me embora. Tinha um sorriso mau nos lábios. o pequeno burguês preso às suas comodidades. Nijni Novgorod. Para sempre o ex amante de Marcelle e. por onde ando levo a minha concha comigo. se fosse passar as férias a Marrocos e chegasse de repente a Marráquexe. Eu continuaria sentado no meu quarto. Ela dançava. vagueio. Absolutamente nada. Viu Ivich. mas olhava Ivich e parecia lhe que ouvia aquela melodia triste e rude pela primeira vez. Ando. passeio. A orquestra tocava um tango argentino que Mathieu conhecia bem. contemplava o falso boémio.» E de repente uma consciência. um cheiro de poeira e de violetas. «Levei uma vida desdentada». onde fora examinado pelo serviço de recruta J E A N P AUL SARTRE mento em Outubro de 1923. pôs se a sobrevoar o seu próprio corpo empoeirado. se agarrasse no ombro de um árabe para através dele tocar em Marráquexe. a três mil quilómetros do marroquino e do seu turbante. incríveis como marcos quilométricos. sem idade. I ercorria a com os olhos.

Falava lhe em voz baixa. A orquestra argentina deixava a sala. É uma puta. com negligência. — Nunca mais virá — disse com um sorriso divertido. sou eu que a convido. Já nem se julgava. Sarrunyan inclinara se obsequiosamente para a loura. a orquestra calou se. Depois. ruidosa de música. depois virou se bruscamente . e fez se um silêncio pesado.falhado. assobiando baixinho. de cabeça erguida. Disse a Mathieu. sobre o rosto de Ivich. dando às ancas do mesmo modo. Mathieu encontrou se a sós consigo mesmo. Lola sorriu lhe e atravessou a sala. eis tudo: «Um êxtase a mais. girava numa bolha giratória. que se abanava. Boris fixou em Lola um olhar de raiva e admiração. Sarrunyan aproximou se de Lola. os negros voltavam com os seus instrumentos. com afectação. era Mathieu. de se desesperar de verdade pêlos Espanhóis. Mathieu olhou em volta da sala e descobriu Lola junto dos músicos falando com Sarrunyan.. bem o merece. não parecia muito orgulhoso de si. A loura levantou se de repente. A consciência inchava. no fundo da sua vida. J E A N P AUL SARTRE — Vem — disse para o companheiro. Mathieu sobressaltou se. com um ar calmo e decidido. Mi caballo murió. Se aquilo pudesse durar. — Safa! — O quê? — A loura. nem sequer se aceitava. Este parecia admirado. O companheiro dela levantara se. Boris olhou para o sapato direito. efémera e desolada. não me vou embora. «não revolucionário revoltado». desvairada. de resolver qualquer coisa. Ele afastou se. Estava só. não pensei que fosse tão fácil. Os cantos da boca tremiam lhe.. Ivich voltou a sentar se perto de Mathieu. Uma consciência vermelha. era capaz de tudo. e depois?» Boris voltou ao seu lugar.» Mas não era solidária com ninguém. a loura deu Ihe o braço e saíram os dois. um lamento sombrio. olhava a nota com um ar de censura. — Não — disse Sarrunyan —. tinha um ar estranho. ela cansou se. — É de mais — gritou a loura —. A loura amarrotou uma nota de cem francos e atirou a para a mesa. sofredora. Mexeu dentro da carteira. não têm o direito. Quando se sentou. — Que é que ela fez? Boris franziu as sobrancelhas e estremeceu sem responder. inchava. Mas não podia durar. e todos olharam. seco e duro. Depois deitou um olhar matreiro para a grande loura. como um maïtre d'hotel que espera ordens. E ela pensava: «Este tipo está lixado. — Obrigada — respondeu Lola —. o sonhador abstracto rodeado por uma vida flácida.

J E A N P AUL SARTRE Mathieu disse com indiferença: — Picard precisava de dinheiro. Uma espécie de queixa rouca o fez estremecer. e ela tamborilava nervosamente na mesa. Mathieu não sabia que lhe havia de dizer. o rosto dela sulcou se de repente. sorria. — Ele sabe que nunca tenho um tostão. tinha os olhos cerrados. — Foi o que me disse. Passou algum tempo. — Sim. — Então? — Lola encolheu os ombros. Ela abriu os olhos. puros como uma melodia. «Já tem a sua conta». ou então que a boca se ia rasgar e largar um grito enorme. — Picard trabalha durante o dia todo em Argenteuil. Lola voltara. Virou a cabeça e ficou a olhar para os pés.» Ele estava só. — Acabo de recusar — disse Lola. pensou. deve ter passado pelo hotel de Boris. Não pensava em nada. com indiferença. Mathieu via duas grandes íris verdes com pupilas minúsculas. vacilante. sem deixar de sorrir. — Então não estava ao corrente — perguntou Lola. — Vem dançar. Mas quando se afastaram. casco para o ar como um velho navio. enquanto se levantavam. apenas um pouco menos impiedosos.para Ivich. Pensou: «Está na hora da droga. Pensei que fosse para si. — Que estranho! Dava a impressão de que ela ia soçobrar. — E não lhe disse nada? — Não vejo nada de extraordinário nisso. — Precisam de mim — respondeu Lola. Deve ter encontrado Picard mais tarde. — Não. Não o encontrou e depois deve tê lo visto no Bulevar . — Desculpe. Lola contemplou os calmamente. — Ele diz que é para Picard. Ivich e Boris dan DADE DA RAZÃO cavam. — Você faz o que quer nesta boite — disse. Precisava de cinco mil francos? Lola continuava a olhá lo. Mathieu viu a dar a volta à sala e desaparecer. Felizmente ela levantou se instantes depois. lá pelas três horas. Os olhos continuavam lhe inquietos. — Esta gente vem aqui por minha causa. Mathieu pôs se a rir. — Sabia que Boris precisava de cinco mil francos? — Não — disse ele. Mathieu sorriu lhe. incrédula. — Esteve em casa à tarde? — perguntou ela. — Não sabia.

— Acredita que se preocupa com elas? — Não. Tinha vontade de dizer: «O dinheiro era para mim. Não pensem que podem falar mal de mim diante dele sem que mo conte. por acaso. Basta ver a cara das idiotas que andam por aqui quando estamos juntos. Tinha vontade de rir. que tem apenas trezentos francos por mês de mesada? — Então. — Mas quem haveria de soprar? — Não sei. mas por baixo daquela cólera. com frieza. tremiam e voltavam a cair. Finalmente disse: . A — E então? — Quis ver se eu era agarrada. «Ela ficaria zangada com ele e ele transformar se ia em meu cúmplice. não vale a pena fazer cerimónia. Não tenho culpa. Inventou essa história de Picard. Não sabe resistir.. quer ficar com a consciência limpa.» Assim teria acabado imediatamente com aquilo. Hoje eu nem queria vir. Imagino que gosta de nós de maneira diferente e que fica irritado quando nos encontra ao mesmo tempo a um e outro. Mas não era possível por causa de Boris. — Pensa que Picard iria pedir cinco mil francos a Boris. Olhava Mathieu com uma insistência inquieta. Ou então faz me perguntas com ar de quem não sabe o que quer. Mas há também quem acredite fazer lhe bem dando lhe volta à cabeça. Fez se silêncio e depois perguntou repentinamente: — Como explica que haja sempre cenas quando vem aqui? — Não sei. — E possível.Saint Michel. exasperado. os cantos dos lábios levantaram se lhe bruscamente. — Quem é que lhe disse isso? — Admira se de que o saiba? — perguntou Lola. A não ser que alguém lhe tenha soprado a ideia. uma prova. não sei — disse Mathieu. — Sim. Mas eu sei aonde ele quer chegar. Aliás eu já o sinto só pela maneira de me olhar. — Ah! — disse Lola. Mathieu adivinhava uma grande perturbação. Não falta quem pense que já estou velha e que ele é um miúdo. De longe. Lola olhava diante de si com uma expressão sombria e tensa. admirado. triunfante. se é para mim que diz isso.. — Que ideia! — Ivich passa a vida a dizer lhe que eu sou sovina. Lola desviou o olhar e perguntou: — Não seria uma prova? — Uma prova? — repetiu Mathieu.» Lola tamborilava na mesa com as unhas escarlates. está enganada. — Ouça — disse Mathieu —. Lola encarou o ironicamente. — E um tipo leal.

e isso acontecerá por certo bem mais cedo do que espero. havia uma espécie de solidariedade. pensativamente — não é preciso que mo digam. sei que sou uma mulher velha. pensou Mathieu. — Nós não somos iguais — disse. Mas é por isso que posso ajudá lo. «Desabafa». Mathieu .. ele diz lhe tudo. Mathieu calava se. poderá largar me. Entretanto. Ela parecia escolher as palavras. — Porquê tão bem como eu? — Somos iguais. que dançavam. Lola exclamou. apesar da violência e da pureza. mas o que lhe digo é que esse miúdo é a minha última oportunidade.. — Pois bem. — continuou.. é feliz comigo quando não lhe metem coisas na cabeça. As suas relações com Boris não me interessam. bem vê que somos iguais. Quando se cansar de mim. Calou se. faça o que entender. com uma violência inquieta: — Devia saber que ele gosta de mim! Deve ter lho dito. Olhava Boris e Ivich. — Pensava — disse Lola com um ar firme. quem lhe diz que sou velha de mais para ele? Ele gosta de mim tal como sou. murmurou: A — Diz me isso a mim. Há coisas que lhe posso ensinar — acrescentou num desafio. — Acho que ele gosta de si. Depois disso. — E depois. eram cruéis sem o perceber. Entre ambos.— Ouça bem. Mas não quero que mo roubem. — Não quero que mo roubem..» Mas aquela semelhança desgostava o ligeiramente. — Eu sei. Lola volveu para ele os olhos pesados. Talvez o percebessem vagamente. e Mathieu compreendeu que não a convencia. Se me interessassem. J E A N P AUL SARTRE — Não pretendo roubá lo — disse ele. algo viscoso e voraz. Olhavam ambos Boris e Ivich.. Tenho a certeza de que não lhe faço mal. Lola detestava Mathieu e no entanto aquilo que lhe dizia agora nunca o tinha dito a ninguém... achava tudo muito certo.. Mathieu encolheu os ombros. apesar do ódio.. «É sem dúvida da droga. Boris e Ivich dançavam. e tinha vontade de dizer a Lola: «Não nos vamos zangar. Mas sei o tão bem como você. — Eu pensava: ele acha se com responsabilidade porque é professor. — Que quer dizer com isso? — Olhe para nós e olhe para eles. Lola teve um gesto de desprezo.. — Já passei por tudo e não tenho ilusões. Mathieu não respondeu logo. não pense nisso.» Mas a outra coisa. Viu no amor de Lola. e calaram se sem se reconciliar.

— Estou bêbeda — disse Ivich. No seu camarim. com abandono. dando voltas entre as paredes vermelhas. indignada. mas apoiou se à mesa e respirou fundo. Deviam ser duas horas. Mathieu não respondeu. Ela . Ivich. — Naturalmente! — Que é que tem? — disse Ivich. Ouviu Lola murmurar para si própria: «Se ao menos tivesse a certeza de que é para Picard. — Não podes falar aqui? — Não. ao dançar. uma sala gordurosa e forrada a veludo vermelho. Boris. será uma distracção. Está a censurar me.» Boris e Ivich voltaram. Lola tomou a droga. — Bom. o brilho negro do vestido no espelho e dois lindos braços brancos retorcendo se de desespero. Lola ameaçava e implorava: «Boris. Depois da primeira pitada. Mathieu calou se. quero falar contigo. Lola afastou se.» E Boris baixava a cabeça. Desculpe. amavelmente. — Está. Boris pareceu não se sentir à vontade. «Devem pensar que somos amantes». — Não — disse Lola —. Em seguida. — Veio me de repente. Não dançavam. receoso e obstinado. respiraria duas pitadas de pó branco. — Você está zangado porque estou bêbeda. tinha vergonha de transpirar diante de Ivich. pões me doida. Um vestido preto comprido. — Vem — disse a Boris —. pensou. e Boris acompanhou a de mau humor. — É verdade que estou bêbeda — disse. Vem ao meu camarim. — Voltamos já. já estou quase na hora de cantar. mas ele não se atrevia a enxugá la. espera que a orquestra toque. Aliás. — Porque se vão embora? — Vão conversar. — Não. Dançaremos. — Já percebi — disse ela. Mathieu pensou que ela ia cair. com a cabeça inclinada como para suster uma hemorragia nasal. — Não estou zangado. já disse. — Se tiver de ficar em Laon a vida inteira. A testa de Mathieu suava.estava sentado ao lado de Lola. — Penso que gostaria de me drogar. aliás você não está tão embriagada como isso! — Estou for mi da vel men te bêbeda — disse Ivich com satisfação. Lola levantou se com dificuldade. As pessoas começavam a sair. Ivich deixou se cair na cadeira. Lola passaria para trás do biombo e aí. é uma ideia fixa tomar outra. porque aquilo já não era para a sua idade. estou cansada.

» A mulher de preto compreendeu que falavam dela. sob aquelas luzes artificiais. — Quem? — Essa mulher de preto. tomou um ar majestoso.tinha dançado sem parar. o marido tinha acordado e olhava Ivich. — Que me importam os exames — disse Ivich. Não tenha medo. de olhos esbugalhados. peco lhe. com a minha mãe e o meu pai. a Sarah. teria dado tudo para não ter havido histórias. — Essa mulher despreza me. de Ivich. Quando eu ficar dez anos em Laon. É verdade. Hoje de noite enterro a minha vida de solteira. telefonar a Marcelle. — Eu não sou decente. Dissera de manhã: «Tenho horror às mãos húmidas. pensou Mathieu. — O quê? — Este momento. os olhos maus e vagos e pensou: «Não devia ter falado. Ivich.» Já não sabia que fazer das mãos. De vez em quando dizia com os seus botões que o Sol se ia levantar dentro em pouco e que teria de recomeçar as suas diligências. — Se chumbar. creio. Eu sou eterna. serei ainda mais decente do que você. Estava encostada à cadeira. porque é decente — murmurou Ivich dirigindo se ao canivete. e isso afigurava se lhe incrível. estou a divertir me. Sentia se preguiçoso e covarde. não tinha nenhum desejo. A mulher de preto olhava Ivich pelo canto do olho. Sentia se fraco e desanimado. — Está a falar comigo. ficarei satisfeita. Mathieu voltou a cabeça. estou bêbeda. vou chumbar. Gostaria de permanecer indefinidamente à mesa. Sorriu e afirmou com êxtase: — Brilha como um pequeno diamante. Percebeu a ruga rancorosa no rosto de Ivich. Ivich olhou o com uma expressão cortante. — Divirto me muito — disse ela. Estava naquele estado de exaltação que um incidente qualquer pode transformar em furor. ao meu lado. J E A N P AUL SARTRE — Então — disse Ivich —. está suspenso no vácuo como um diamante. você também é decente. — Cale se. apoiava obstinadamente a lâmina . com uma voz de bêbeda. não é verdade! — Acho que sim. Pegou no canivete de Boris pelo cabo. «Que chatice». Odeio a decência — gritou repente. E redondinho. viver do princípio ao fim um novo dia. Desde que chegou que não pára de me censurar. apoiou a lâmina contra o bordo da mesa e divertia se fazendo a curvar se. porém não transpirava. ficara pálida. — Que é que essa quer? — disse de repente. Mathieu olhou a. não pensava em nada.

sem se levantar. O sangue escorria. Estava quieta. venha depressa. para os ombros de Mathieu. pensou Mathieu.. Parecia louca. as suas mãos! Ivich troçava com um ar vago. que se enchiam de sangue. mas ela desenvencilhou se violentamente. — Nada. Mathieu olhou precipitadamente as mãos de Ivich. Gosto de ver o meu sangue. — O meu sangue. — Ivich — gritou Mathieu —. — É uma sensação muito agradável — disse Ivich. ergueu a cabeça. — Não compreendo como é possível portar se como essa rapariga — disse. dir se ia o vaivém de um formigueiro. — Acha que ela vai desmaiar? Mathieu estendeu a mão por cima da mesa. com um riso insultuoso: . A carne abrira se desde o polegar até o mindinho e o sangue gotejava devagar. Erguera a mão à altura do nariz e examinava a com expressão crítica. e uma pesada gota de sangue caiu sobre a toalha. Segurava o canivete com a mão direita e rasgava a palma esquerda aplicadamente. — Venha. — Um curativo? — Ivich riu. mais uma indecência para divertir a senhora. Ivich olhava para Mathieu com os olhos a brilharem de ódio. Ivich. e Ivich deixou o pegar no canivete.contra a mesa e forçava a a curvar se. contemplava os dedos magros de Ivich.. JEAN PAUL SARTRE Agarrou Ivich pêlos ombros. O marido olhou. e pensava na dor que ela sentia. sem opor resistência. Parecia espiar qualquer coisa. inquieto. — Que é que há? — perguntou Mathieu. Ivich ouvira com certeza. — Parece um pedaço de manteiga. Mathieu estava desvairado. — Você é doida! Vamos ao toilette fazer um curativo. — Atreve se a tocar em mini? Acrescentou. Quero ver como suporta o sangue. «o escândalo». — Hum? — Não é culpa dela — continuou a mulher —. — Basta — disse Mathieu. maníaco e contente ao mesmo tempo. receoso. maldosamente. com um ar estranho. Ivich tornara se pálida. culpados são os que a trazem aqui. — Está a compreender o alcance do que me está a dizer? Mathieu levantou se. A vizinha de Ivich deu um gritinho e pôs se a pestanejar. Eu. Quieta de mais. Fez se um silêncio pesado e em seguida a mulher de preto voltou se para o marido. peco lhe. «Pronto». mas não disse nada.

Um jogo para meninas nobres. — Ferimo nos com este canivete. acho isso encantador. Sentia se terno e maciço e tinha medo de desmaiar. e depois riu também. Ivich levantou se docilmente. estendeu a mão sobre a mesa e disse docemente: — Excessivo? Não. Quando o largou. há lá tudo quanto é necessário. Depois fixou Mathieu..— Devia ter imaginado que você acharia isto excessivo! Escandaliza se com o facto de que se possa brincar com o próprio sangue. À esquerda ouvia se um tumulto ameaçador. Ivich contemplou o. Era tão cómico que Mathieu deu uma gargalhada. tinha o rosto completamente mudado. tinha visto coisas piores. pensou. — Ah!. Atravessaram a sala atrás do empregado. Mathieu arrancou rapidamente o canivete do ferimento e doeu lhe muito. O tumulto ampliou se. — Meu Deus — exclamou a mulher do toilette —. Mathieu sentiu que empalidecia de raiva. — Qualquer pessoa pode fazê lo. com as mãos feridas levantadas. Era a opinião pública.. — Um acidente acontece tão depressa. compungida —. inquieta. o sangue que escorria em volta da lâmina. lamento. Disse docemente: — Porque fez isso? — E você? — perguntou Mathieu. «Sou um imbecil». como foi que fez isso? E o senhor? — Estávamos a brincar com uma faca.» Não podia deixar de se sentir satisfeito. Apontou Mathieu e Ivich. cerrando os dentes. Ivich. — Se quiserem ir ao toilette — propôs —. sem dizer nada. — Como isto me diverte! — disse Ivich. deseja alguma coisa? A mulher de preto apertava o lenço sobre os lábios. o canivete ficou enterrado na carne. — Oh! — disse ela —. secamente. tire! — Está a ver? — disse Mathieu. à vida. Era uma faca da casa? . a Daniel. Mathieu não lhe dava ouvidos. ah! — exclamou Ivich. era igualmente um desafio a Brunet. Ivich olhava a mão de Mathieu. Não era apenas para enfrentar Ivich que tinha feito o golpe. tire. Olhava Ivich. «Brunet tem razão em achar que sou uma criança velha. Desta vez. Sentou se de novo. imagino. — Aí está — observou a mulher. Mas havia nele uma satisfação obstinada e uma má vontade deliciosa. de pé. e o empregado acorreu: — Minha senhora. Enfiou o canivete de um golpe na palma da mão e não sentiu quase nada. Riu tão fortemente que a mão lhe tremeu. tanto. Duas gotas de sangue caíram no chão. com o cabo para o ar. O empregado não se impressionou.

alegre. vai arder. A embriaguez de Ivich parecia ter passado. vou tratar de tudo. — Ah! estava a estranhar. Ele sangrava. — Bem vê que nem tudo está perdido. — Bem sei. Ouviu se um ruído molhado. — Nunca imaginei que fosse fazer isso — disse Mathieu. respirou um cheiro de desinfectante. — Faz me doer — gemeu Ivich. — Um pouco de paciência. Mathieu e Ivich sorriam.. . A mulher movimentava se em volta de Ivich. Olhou o chão de ladrilhos brancos. — Não se inquiete. A — Há dias em que não é brincadeira. ligeiramente congestionada.— Não. — Parece me que pensava em mim. tive medo por causa dos olhos. hesitou um instante. — Não deve ser muito desagradável esta profissão — disse. e metade do corpo desapareceu lhe dentro dele. agulhas. gravemente. depois juntou a palma da mão esquerda à palma ferida de Mathieu. Mathieu viu um frasco de tintura de iodo.. depois «Homens». — Pois não — respondeu Ivich. gazes. Leu: «Senhoras». Abriu uma lata. é tintura de iodo. encantada! Ela contemplava o com uma expressão de ternura e selvajaria. tinha a impressão de que uma boca se abria na sua mão. J E A N P AUL SARTRE Abriu um armário. — A mistura dos sangues — explicou. — A minha mão também. — Há pouco? — Sim. Sentia se feliz. agora. Mathieu apertou lhe a mão sem falar e sentiu uma dor forte. — Está bem equipada — disse ele. Você estava sozinho. Mas queria saber em que pensava quando eu estava a dançar com Lola — disse Ivich a Mathieu. quando Boris convidou a loura. tesouras. examinado o ferimento de Ivich. Anteontem. — O diabo — disse Mathieu. e o coração dilatou se lhe. uma senhora atirou um copo à cara de um dos nossos clientes. Ela meneou a cabeça. Pronto! — Vai dizer me que sou indiscreta. — Dói. — A mulher do toilette saíra do armário. em letras douradas sobre as portas esmaltadas de cinzento creme. É profundo o corte — disse. — Aqui está tudo — disse ela. tirei lhe um pedaço de vidro da sobrancelha.

. Mathieu não achou nada para dizer. segurando os caracóis com a mão ferida. — Acho que gosto ainda mais dele do que do outro. sei lá.— Eu olhava o. Se pudesse conservar sempre essa expressão! — Não se pode pensar sempre em si próprio! Ivich riu. — Parece que corta bem — observou Boris. — Cuidado. vinguei me. que se penteava desajeitadamente diante do espelho.. E o meu rosto secreto. A mulher de preto e o marido tinham desaparecido. fixando um olhar de amador nas mãos deles. Parece que lhe tinha dito outra coisa antes. — Vai mal. olhava Ivich. sou horrivelmente feia. Boris esperava os à mesa. — Tinha lhe dito que o encontrara no Bulevar Saint Michel. — Que derrota — disse Mathieu. ia cantar. Boris tornou se sombrio. — E Lola? — perguntou Mathieu. — Obrigado. — Pronto — disse a mulher do toilette. No nosso ofício há muito trabalho delicado. Tinha um rosto irritado e triste. Mathieu sentiu um desejo áspero e desesperado. J E A N P AUL SARTRE — Amanhã vou pentear me assim. quase bonito. a senhora é hábil como uma enfermeira. — Oh! — disse —. A mulher corou de prazer. Mathieu reparou que ela tinha um buço cinzento. — Ai! — disse Boris. O dancing estava quase vazio. Acabou atirando os cabelos para trás. — Vocês magoaram se? — Foi o estupor do canivete — respondeu Ivich. de pé no meio do palco. Olhavam contentes para as mãos enfaixadas. — Não — atalhou Ivich rindo —. — O quê? — Disse que Picard fora a minha casa e que eu o tinha recebido no meu quarto. e o largo rosto apareceu inteiramente nu. vai arder. Pronto! Mathieu sentiu o ardor. Fiz uma asneira. Lola.. Na mesa estavam duas taças de champanhe meio vazias e uma dúzia de cigarros num maço aberto. — Você é linda — disse. é natural. você estava. mas não prestou atenção. — Eu creio que penso sempre em mim. — Dê me a sua mão — disse a mulher do toilette para Mathieu. Mathieu pôs dez francos no pires e saíram ambos. — Sim — respondeu Ivich —. — Está zangada? — Olhe para ela! Mathieu olhou. Inclinou a cabeça e calou se.

mas não pude mesmo juntar a importância de que necessitas. «ela disse: "Um pequeno diamante. já estou habituado.. fora da vida. A culpa foi minha. tinha a impressão de estar sentado lá fora. pensou. Calaram se. «Vai mudar de penteado». — Não tem de quê.» Mathieu acordou.— Desculpe — disse Mathieu. a poltrona verde. O sono. A vida parecia lhe fácil. e os caracóis . imperceptivelmente. Viu logo a mão enfaixada.» Ivich estava lá. Queres passar por minha casa ao meio dia? Desejaria conversar sobre Daniel»... Fora do dancing. Se fosse necessário. A porteira entregou lhe um sobrescrito amarelo. o dancing cheirava a madrugada.» Ela dissera ainda: «Estarei lá antes de si. mas saltar lhe ia por cima. Empurrou as persianas. J E A N P AUL SARTRE — Há uma carta para o senhor — disse a porteira. tinha o mesmo rosto mentiroso e triangular de sempre. Ele não quer largar o dinheiro. utensílios: passara a noite num quarto de hotel. A cama. não conseguirei dormir. num banco. a lâmpada. e deixá la ia atrás de si na pele inútil. Era de Daniel. a frescura.» A vida caíra lhe aos pés. num canto sombrio. o céu. e o calor era menor do que na véspera. mas o resto do corpo estava bem disposto. Saltou da cama. E depois isto passa. Esquecera se de Marcelle. a secretária. mas deve ter encontrado uma solução. escrevia Daniel. baixo e cinzento. Sorriu. a alvorada cinzenta tinham invadido a sala. «Eu também me levanto cedo. embaraçava lhe os tornozelos. pensava Mathieu. Abriu a torneira do lavatório e mergulhou a cabeça na água.. não pensava em nada. «Ela disse também: "Sou eterna. Acredita que lamento muito. a sua maldosa pureza. Uma verdadeira manhã."» Estava feliz."» Lola começou a cantar. Ivich contemplava com ternura a mão enfaixada. «Bom». já não eram seus cúmplices. parecia uma colcha pesada que o envolvia ainda. Marcelle! Mathieu sentiu um gosto amargo na boca. «Meu caro Mathieu». porém objectos anónimos de íerro e madeira. era preciso que fosse fácil! Sarah faria com que o médico esperasse alguns dias. Doía lhe. «No Dome às dez. mandaria o dinheiro para a América. — Ivich! — disse com ternura. pensou Mathieu. «vou vê lo. A rua estava deserta. O montículo de gaze branca em cima da cama era a sua mão esquerda.» Eram nove horas. «Um pequeno diamante». XII «N o Dome às dez horas. Ela ergueu os olhos para ele. «falei com conhecidos meus. Enfiou a roupa e desceu a escada a assobiar.

Sr. O Dome acordava.. com certeza que havia de encontrar qualquer coisa. Dê me um chá e duas maçãs. E. levantou a cabeça. Mathieu? — Bem. — De qualquer maneira.escondiam lhe metade das faces. Não pôde deixar de observar: — Não levantou os cabelos? . — Vê se ala sem saber. Retirou lentamente a dela e escondeu a debaixo da mesa. insuportável. Não mudara de penteado. Recomeçara a puxar os caracóis como uma maníaca. teremos muito tempo para pensar nisso. J E A N P AUL SARTRE Falava com uma expressão de convicção serena e bem humorada. — Sim. O empregado aproximou se. Ivich encolheu os ombros. era manhã. Conhecia Mathieu. Sentou se. é exaustivo. Uma mulher lavava o chão. pensou. Ele contemplou a sem falar. — Não parece muito alegre.. Ela percebeu que ele olhava para as mãos enfaixadas. mas não tinha a menor esperança. Tinha a tez amarelada da manhã. mas como me vão receber agora? Calou se. e Mathieu continuou com vivacidade: — Mesmo que chumbasse não estaria ainda perdida. — Como vai. É o exame? Ivich respondeu apenas com um gesto de desprezo. Vou lavar pratos. — Conseguiu dormir um pouco? — perguntou Mathieu tristemente. não se põe um anúncio nos jornais? — Ouça. de joelhos. — Dois meses em Laon — disse Ivich com raiva. ainda não chumbou. Disse: — Acha que me aceitariam numa loja como caixeira? — Nem pense nisso. Ivich.. Olhou as mesas vazias. teria lá ido passar as suas férias. São nove agora.. Por exemplo: poderia ir passar dois meses a casa. Houve um silêncio de que Mathieu se aproveitou para enterrar as recordações nocturnas. de todas as manhãs. E depois. Sinto as horas caírem sobre mim. Ivich. entretanto eu procurava. — E às duas horas. Sabia que se por acaso descobrisse um emprego ela se despediria ao fim de uma semana. — Nada. era insuportável. — Hei de fazer qualquer coisa para não ficar em Laon. Quinze horas ainda até à hora de dormir! Ivich pôs se a falar em voz baixa. Quando sentiu que o coração estava vazio. «Nada influi nela». mas poder se á experimentar. A noite parecia ter deslizado sobre ela. e Mathieu não disse mais nada. com um ar atormentado. — E manequim? — É pouco alta. Acrescentou com uma expressão preocupada e envelhecida: — Em casos como este.

Tinha a impressão de que a todo o instante lhe faziam perguntas exigindo respostas imediatas. Boris levantou dois dedos à altura da testa para fazer o gesto habitual de saudação. tomado de repentina e desagradável suspeita: — Disse lhe que viesse? — Não — respondeu Ivich. — Não parecia tão embriagada como isso. — Pareces Frankenstein. Agarrou o pelo braço e forçou o a sentar se ao lado de Ivich. estava lívido.— Bem vê que não — respondeu Ivich. mas as mãos dele começaram a tremer. secamente. contrariado. — Olá! — disse Mathieu. — Que é que tens? — perguntou Ivich. Repetiu energicamente como se desejasse intimidá lo: — Estava completamente embriagada.. Repetiu. Recuara um pouco como se tivesse medo de lhe tocar. porque passou a noite com Lola. Apoiou as mãos sobre a mesa e pôs se a balançar sem dizer nada. — O quê? Encarou Boris. «Como arranjar cinco mil francos antes da noite? Como fazer para trazer Ivich a Paris no ano próximo? Que atitude tomar para com Marcelle?» Não tinha tempo de voltar às interrogações que desde a véspera lhe enchiam o pensamento: «Quem sou? Que fiz da minha A vida?» Como voltasse a cabeça para afastar de si essa nova preocupação. Boris não respondeu. — Devia encontrá lo ao meio dia porque. — Suicidou se? — perguntou. Tinha os olhos muito abertos e fixos. Vinha em direcção a eles. ligeiramente irritado. — Ora — disse ela impaciente —. — Estava bêbeda. de olhos esbugalhados. E olhe o ar que tem! Boris vira os. porém não pôde ir até ao fim. Sorria sempre. Sorria. e de repente sentiu se invadido por um espanto escandalizado. Mathieu ficou alguns instantes sem compreender.. Mathieu não respondeu. que parecia procurá lo do lado de fora. — Prometeu me ontem — atalhou ele. maquinalmente: — Lola morreu! Ivich voltou se para o irmão. estupefacta. quando o prometeu. Perguntou. que tem isso? Vocês são impossíveis com as promessas. Nem se podia pensar em interrogá lo imediatamente. viu ao longe a silhueta hesitante de Boris. . — Lola morreu — disse Boris. — Boris! — disse. Olhava para a frente fixamente com uma expressão estúpida.

contará mais tarde. aliviado. um conhaque — disse Mathieu com naturalidade. nervosa. Não parecia dirigir se a eles. era uma atmosfera. puxando os caracóis. — O rapaz está com muita pressa. — Oh!.. Boris bebeu docilmente. no camarim. — Subimos para o quarto e ela tomou a droga.. com ar estúpido. — Então ela envenenou se? — Não sei. — Beba — disse para Boris. a mesa de mármore e o rosto nobre e maldoso de Ivich. segurou o pêlos cabelos e sacudiu lhe a cabeça. Os lábios dançavam lhe. e a morte estava entre eles. Não era um acontecimento. Mathieu sentia se mole e vazio. Só então começava a perceber os efeitos da noitada. Boris tornou a falar com voz surda. — Tens a certeza de que ela morreu? — Tomou a droga esta noite — explicou Boris. — Essa já devia ser a segunda vez — observou Mathieu. Já tomara antes.. — Querido! Sorriu lhe com ternura.— Responde! — repetiu Ivich. Mathieu deu lhe uma bofetada seca e silenciosa com a ponta dos dedos. anónima e sagrada. olhou o resmungando.. mas o lábio superior arreganhava se lhe de modo estranho sobre os dentes miúdos. tu estás aí. Boris parou de rir. Ivich encarava o fixamente. com irritação. — Ela suicidou se? Suicidou se? O sorriso de Boris abriu se. Eargou o cálice e murmurou como para si mesmo: — Não é nada divertido! A — Querido! — disse Ivich aproximando se dele. uma substância pastosa através da qual Mathieu via a chávena de chá. — E para o senhor? — perguntou o empregado. — Agora conta — disse Ivich. — Deixe — disse —. Calavam se os três. «Ela não está a ver bem».. O empregado afastou se e voltou com uma garrafa e um cálice. durante a discussão. se vocês. com dificuldade. de boca aberta. as tuas mãos estão quentes — suspirou Boris. — Parece me que ela tomou cocaína quando você estava a dançar . — As coisas não iam bem entre nós.. Boris começou a rir: — Se vocês. Aproximara se e contemplava Boris com ironia. de um modo inquietante. — Depressa. Não fale agora. pensou Mathieu. Mathieu olhava para Ivich com espanto. Ela acariciava ternamente a mão do irmão.

Chamou o empregado. pensando que por vezes a profissão tinha as suas vantagens. levantariam a camisola l A para verificar se havia ferimentos. — Tão urgente como o primeiro? — perguntou o empregado a sorrir. Apanhei um táxi e vim. — Sim. Vi lhe os olhos — murmurou com uma espécie de raiva —. ficou quieta e eu adormeci. Contemplariam o corpo sumptuoso com um misto de concupiscência e de interesse profissional.» Ela não o tirava. — Estás triste? — perguntou Ivich docemente. com voz monótona. — Não queria que me encontrassem no quarto dela. Parecia pedir uma informação. Parecia que odiava Lola por ter morrido. Esvaziou o copo e continuou: — Acordei cedo porque abafava. Nunca tomava tanto. — Pobre querido — disse Ivich. Saltei da cama. Perguntei: «Que é que tens?» Não respondeu. e eu não podia dormir. Ninguém me viu sair.com Ivich. Era o braço dela. porém sem demasiada compaixão. Boris enojava o vagamente.. vesti me — continuou Boris. Mathieu esforçava se por ter pena de Boris. Então empurrei o braço com toda a força e ela quase caiu no chão. Eu disse lhe: «Tira o braço. — olhou a e disse bruscamente: — Isto horroriza me. sirva depressa — observou Mathieu. — Vá. Mathieu pôs se a pensar no corpo de Lola. — Outro conhaque. Estava estendido na cama por cima de mim. Uns homens de chapéu de coco iam entrar no quarto. mas não conseguia. Disse: — Olha para mim! Estás triste? — Eu. estendido numa cama de um hotel. Os olhos estavam abertos. O seu novo rosto assemelhava se demasiado ao de Ivich. sufocas me. dobrariam as cobertas. — Agarrei nas minhas coisas. — A criada costuma acordá la a essa hora. — Daqui a duas horas — observou Ivich.. Deitámo nos sem falar. agarrei lhe o pulso e puxei a para a endireitar. Teve um arrepio. Boris desconcertava o ainda mais do que Ivich. Estava J E A N P AUL SARTRE gelado. secamente. — Então — disse Boris com lassidão — foram três vezes. Inclinara se sobre ele. Ela saltava na cama. não havia ninguém na porta. acho que a vão descobrir ao meio dia — disse Boris com um ar preocupado. Já nada lhe restava daquela graça e rígida. Pensei que íosse para fazer as pazes e peguei lhe no braço. nunca mais os esquecerei. De repente. . — Mora sozinha? — perguntou.

uma vez ou duas por curiosidade. — Também tomava cocaína? — perguntou. — Eu.. o pai! — atalhou Ivich. São dez e meia. pensou Mathieu. — Não quero lá voltar. Fez se silêncio e em seguida Mathieu percebeu que Boris o olhava de esguelha. porque Boris nunca lho tinha dito.. — Vai ficar danado! — E capaz de me chamar para Laon e de me enfiar num banco. lívidos e descompostos. — Estão a ver o sarilho! — Talvez não as encontrem — disse Mathieu. mas poderá ir até de autocarro. Não desejava que ele fosse preso por minha causa. Mas falo de um tipo da Boule Blanche. Boris falava normalmente em calão. «Cá está». uma pobre astúcia desarmada. — Como pudeste escrever essas coisas! Boris levantou a cabeça. Apanhe um táxi se quiser. com uma expressão de astúcia na boca. a quem comprei uma vez para Lola. Ela bate até que Lola lhe responda. — Que é que aconteceu? — perguntou inquieta. «São assim! É assim que eles são!» Ivich perdeu o seu ar vitorioso. — Cartas que lhe escreveu? ^ — Sim. — Fazes me companhia — disse Ivich com uma voz sinistra. — Pois bem. «Há qualquer coisa no ar». pensou Mathieu. — As minhas cartas! Que estúpido. abatido. — É a primeira coisa que encontrarão. J E A N P AUL SARTRE — Boris! És doido! — disse Ivich. irritado. Mathieu tinha a impressão de que ele representava. Estava ligeiramente ressentido. Encolhidos um ao lado do outro. — Sim.Tinha retomado os ares de irmã mais velha. — Oh!. Boris desviou o olhar. Mathieu contemplou os com piedade. Tem tempo de ir sossegadamente buscar as cartas. Bruscamente gritou: — C'os diabos! Ivich sobressaltou se. mas não tinha o hábito de praguejar. Boris deixava se acariciar. Perguntou: . — E que tem isso? — O médico! O médico vai saber que morreu intoxicada! — Você falava de drogas nas cartas? — Falava — respondeu Boris. Mathieu não compreendia. — Você disse que a criada vai acordá la ao meio dia? — perguntou. pareciam duas ovelhinhas. Na melhor das hipóteses serei chamado como testemunha. deixei as em casa dela. Acariciava os cabelos do irmão com uma expressão de piedade e triunfo.

Em volta dele havia as preocupações da véspera. Ivich continuava a olhá lo. Em cima da mala há outra maleta. Acrescentou mais baixo: — Estou de volta dentro de urna hora. — Qual é o número do quarto? — Vinte e um. — Há «massa» também. a chave está na bolsa de Lola sobre a mesa de cabeceira.. eternamente desclassificada. até o pagamento. A morte de Lola ficaria eternamente à margem do mundo. Vê se logo. — Esperem me aqui — disse Mathieu. É essa. iam reconstituir o seu mundo irrespirável e precioso. Disse repetidas vezes «uf!». as minhas estão amarradas com uma fita amarela. Notas*"" Notas. Ela caíra pesadamente dentro de uma pequenina alma medrosa e perturbava a. terceiro. é o negro do Kamtchatka. como uma censura. Mathieu deu alguns passos no Bulevar Montparnasse. Mathieu viu que Ivich o observava: A — Onde estão as cartas? — Numa mala preta. mora também no terceiro. «Morreu como um . Conheço o. gostava dela. o amor por Ivich. Há um molho de chaves e uma pequena chave chata. Demorou um bocado e acrescentou afectando indiferença. Pensava: «Não perde a cabeça o rapaz. a gravidez de Marcelle. — Bem — disse Mathieu —. Mas tanto se lhe dava. Falara em tom de comando. Mathieu assobiou baixinho. Só a essa pequenina alma cabia a responsabilidade esmagadora de pensar nela e de redimi la. Ivich e Boris iam agora J E A N P AUL SARTRE começar a cochichar. E acrescentou com um ar de admiração e imensa gratidão: — Você é um tipo de ouro. «Pobre Lola. sentia se contente por estar só. Mas sentia horror. é só empurrar.» Mas não lhe cabia a ele lamentá la. Aquela morte era maldita porque não recebera nenhuma sanção e não lhe competia sancioná la. passando a mão no rosto e esfregando as faces.— Isso é lhe realmente impossível? — Não posso.. diga que vai ver Bolívar. Boris parecia aliviado. Se Boris tivesse tido ao menos uma vaga tristeza. e no meio uma mancha negra: a morte. segundo quarto à esquerda. Levantou se. há uma porção de cartas. diante da janela. vou lá. o dinheiro. — Esperamos — disse Boris. prevê tudo.» — A maleta está fechada à chave? — Está. Atirou os cabelos para trás com a graça habitual e disse sorrindo levemente: — Se alguém lhe perguntar alguma coisa.

Era ele que tinham esperado vinte anos. como os corpos são feitos com o vácuo». acabava de sofrer a última metamorfose.. ainda agora. era dele. O seu passado sofria sem cessar os retoques do presente. e cada novo dia tinha novo futuro. como se. — Táxi! — gritou Mathieu. mais indestrutível do que um mineral e nada a podia impedir de ter sido. de repente. flutuava. «Uma vida». de brilhos sombrios. pensou Mathieu. com o futuro particular. desse homem cansado. ou se tornassem os primeiros sinais de um destino. ele tal qual era agora..cão!» Era um pensamento insuportável. de figuras e de perfumes mortos. «Não olharei. Pensava na própria vida. pensou com amarga vaidade. como um pequenino céu pessoal e bem redondo em cima deles. de futuro em futuro. Tudo nela estava em suspenso. Baixou a cabeça. — Na esquina da Rua Navarin com a Rua dês Martyrs — avisou. o dia em que dissera «Serei livre». «é feita com o futuro. flutuava à margem do mundo. cheia de gritos sem ecos e de esperanças ineficazes. Os dias mais recuados da sua infância. O futuro penetrara a até à medula. como se a mocidade subitamente já não tivesse valor.» Estava morta. Quando se sentou no carro. de que ia entrar no quarto dela. Tinham direitos sobre ele e através de todo aquele tempo decorrido mantinham as suas exigências e ele tinha amiúde remorsos esmagadores porque o seu presente negligente e céptico era o velho futuro dos dias do passado. Repetiu: «Dependem de mim. o dia em que dissera «Serei grande». cansado e amadurecido. A consciência dela aniquilara se. inesquecível e definitiva. que uma criança dura exigira a realização de suas esperanças. tivesse alcançado de si próprio perdão por já não ter a idade de Ivich. aquela vida deserta parara simplesmente. e repentinamente Mathieu inteirou se de que Lola morrera. ou melhor. em direcção a quê? . Depois os vidros escureceram. cada dia vivido destruía um pouco mais os velhos sonhos de grandeza. sentiu se mais calmo. dependia dele que os juramentos infantis permanecessem infantis para sempre. Experimentava mesmo um sentimento de tranquila superioridade. «Dependem de mini». Mathieu contemplava o desfile dos grandes edifícios tristes do Bulevar Raspail. de espera em espera.» Sentiu se sólido e mesmo até um pouco pesado. o táxi entrou no estreito gargalo da Rua du Bac. O seu futuro coagulara se. Abandonada pelo animal mole e sentimental que a habitara durante tanto tempo. ver os grandes olhos abertos e o corpo branco. Era melhor que o táxi não parasse em frente do hotel. e esse futuro era ele. apareciam lhe. entre parênteses. Mas não a vida. a vida de Mathieu deslizava docemente.

e que se abatia sobre si mesma. Lola não respondeu. negros do jazz deitavam se tarde e acordavam tarde. A chave estava na porta. «E se houver alguém lá dentro?» Escutou com atenção uns momentos e bateu. «ninguém saberia se estava realmente lixado ou se tinha ainda possibilidade de me salvar». O táxi parou. um dos seus . A morte desabara sobre todas essas esperas. Ainda ontem. não fora senão uma espera. Não havia tido de esperar. pensou. ouvia se apenas o tiquetaque do relógio. Em cima de uma porta envidraçada um rectângulo de esmalte: «Gerência. Tinha havido com certeza. uma menina de caracóis ruivos. esse grande amor de velha. dançarinos. as noites de amor que lhe tinham parecido mais eternas não passavam de esperas. Tinha um rosto extraordinariamente expressivo. Tudo dormia.» Mathieu deitou uma olhadela através do vidro. como a de Mathieu. no fundo do quarto. Mathieu ouviu o ruído da água a descer. os momentos mais cheios. porém indecifrável. Ninguém respondeu. pensou repentinamente Mathieu. um barulho líquido e uma espécie de assobio. Mathieu desceu. nunca ninguém saberia se Lola teria afinal sido amada por Boris. nem uma prece. parando as. — Espere — disse ao motorista. A freguesia habitual do hotel cantores. «E preciso que não suba depressa de mais». estava ansioso por ler a morte no rosto de Lola. Estava morta. mudas. já nada havia senão esperas de esperas. a olhar. Mathieu viu Lola. Lola estava morta. Os seios estavam descobertos. «Se eu morresse hoje». ficara em suspenso desde o primeiro dia. e também lá por volta de 1923 uma jovem cantora impaciente por se tornar um cartaz. O quarto estava escuro e conservava ainda um cheiro húmido de sono. — Lola — disse em voz baixa. por causa do qual tanto sofrera. como se fosse um sentimento humano. muito branca. No quarto andar um hóspede puxou o autoclismo. sem objectivo. A sala parecia vazia. e a vida dela. a questão não tinha sentido. Empurrou a porta e entrou. Mathieu perscrutou a penumbra. ainda ontem ela esperava viver e ser amada um dia por Boris. ele esperava o seu sentido do futuro. A cama ficava à direita. Não tinha havido nada que esperar. entrou no vestíbulo escuro e perfumado. Elas continuavam imóveis. Pensou em Lola. de cores confusas. mais pesados. num Verão passado. que jurara ser uma grande cantora. Atravessou a rua em diagonal. empurrou a porta do hotel.Em direcção a nada. obscuro e vacilante. absurdas. nada mais senão uma vida vazia. Ouvia as pancadas do coração e tinha as pernas a tremer. E o amor por Boris. nem uma carícia. Parou no patamar do terceiro e olhou em volta. não havia mais um gesto a fazer.

mergulhou as mãos na maleta e sentiu uns papéis amarfanharem se entre os dedos. pensou em Marcelle. A luz ofuscou o. inquieto. muitas notas. com cuidado. havia aquela mulher alta e branca. o outro estava debaixo das cobertas. com a mão no corrimão da escada. para fazer de trágico diante das rapariguinhas. Mathieu levou o pacote à luz. pôs a chave no bolso e saiu do quarto. Mathieu fechou a. pensou. sem olhar. e teve medo de verdade. hesitante. — Lola — repetiu Mathieu avançando para o leito. E não pude. «Estou pago». depois virou se.» Esforçava se por tremer de raiva. pensava: «Sou um fraco. Uma luz cinzenta filtrava se através da cortina. «Bastava um gesto para que não sofresse. Ergueu a tampa. «Não trouxe o dinheiro». virando a cabeça.» Depois enfiou o pacote no bolso. lembrou se. alucinada. Não podia arredar o olhar daquele busto orgulhoso. Levantou se. lutar contra . pegou rapidamente na bolsa que estava na mesa de cabeceira. com o olhar fixo nas notas. «posso dar a mim próprio uns bons golpes de canivete na mão. Introduziu a chave na fechadura. mas não se pode ter uma raiva verdadeira contra si próprio. caberia a ela mostrar se corajosa. «Saí do buraco. Os dedos abriram se e as notas caíram em rodopio dentro da maleta. limpou os joelhos com a mão direita. na ignóbil velha de mãos de assassina. sentia se pregado no sítio. espantado. Sou demasiado delicado. Pensou: «Saí do buraco». Notas de mil francos. rígido. Subitamente. Bom rapaz! Depois disso». estendia se sobre o leito. Permanecia imóvel. A esquerda segurava um maço de notas.belos braços. nunca poderia levar me a sério». Mathieu ajoelhou se diante da maleta. pensou olhando a mão faixada. — Bom — murmurou resignado. a presença irremediável estava ali. e observou as notas com perplexidade. tinha vontade de a tocar. cujos braços pareciam abrir se ainda e cujas unhas vermelhas pareciam ainda arranhar. escolhendo pelo tacto. No fim de instantes remexeu nervosamente nos papéis. o quarto estava cheio de uma presença imóvel. Mathieu pegou lhe e dirigiu se à janela.» Escutava atentamente. examinou a letra e murmurou: «Ei las. e ouvia o corpo silencioso de Lola. não havia outra solução. A chave chata estava ali. Eram notas. Sob um monte de recibos e de notas. Ficou durante alguns instantes à beira da cama. atrás dele. Atrás dele. para que evitasse essa coisa sórdida que ia marcá la. Lola escondera um pacote de cartas amarrado com uma fita amarela. como um J E A N P AUL SARTRE olhar. Ela iria ao consultório da velha. o corpo envenenado por um desejo ácido. Mas não podia arredar pé. sem querer.

— É Mathieu. Boris falava Ihe e não lhe respondia. — Uf! Houve novo silêncio. só sirvo para isso. — Onde está Boris? Que está a fazer aqui? — Você esteve doente — explicou Mathieu. — Precisa de alguma coisa? Quer que eu vá chamar um médico? — Não. enquanto ele ganharia coragem bebendo nos bares. Lola não parecia ouvir. — Que é que tive? J E A N P AUL SARTRE — Estava rígida. ela tirou uma caixinha de pó de arroz e olhou se no espelhinho. com os olhos pregados em Mathieu. esteja sossegado. e pareceu lhe que se afogava. não valho muito mais. precipitadamente. Casarei com ela. Deu alguns passos incertos e discerniu afinal o rosto pálido de Lola e os olhos arregalados que o contemplavam. sacudindo a cabeça. Houve um silêncio demorado. Ela não irá. Pousou a bolsa na cama com um suspiro de exaustão e acrescentou: — Aliás.» Pensou premindo com força a mão ferida sobre o corrimão: «Casarei com ela». Mas sei o que é. Ele teve medo. Subitamente. — Estou com dor de cabeça — disse ela. Era uma voz fraca. Em seguida. . Disse de olhos fechados: — Dê me a minha bolsa. Parecia fazer um esforço para voltar a si finalmente. pôs se a rir de modo desagradável. Lola perguntou: — Que horas são? — Um quarto para as onze. girou sobre os calcanhares e entrou de novo no quarto. Murmurou: «Não. Encostou a porta como da primeira vez e tentou acostumar os olhos à escuridão. pensou. — É verdade. Mathieu estendeu lhe a bolsa. de olhos arregalados. Ele está desvairado. Ela fechou os olhos. Mathieu sentiu um arrepio percorrer lhe o corpo da cabeça aos pés. Disse com esforço: — Ele pensou que eu tinha morrido? Mathieu não respondeu. «Estúpido». está na mesa de cabeceira. Ainda parecia morta. — Sente se mal? — Bastante. Então foi Boris quem o mandou? — Foi.a angústia e o medo. — Não foi isso? Pensou? — Teve medo — disse Mathieu. depois respirou fundo. — Quem está aí? — indagou Lola. os maxilares tremiam lhe. Puxou as cobertas até o queixo e ficou imóvel. não». com repugnância. pareço morta. evasivamente. Isto passará durante o dia. mas irritada. «Não. Mas logo se calou. Nem sequer tinha a certeza de poder roubar.

diga lhe que já não estou zangada. Disse com uma voz suplicante: — Promete que o manda vir? Zangámo nos ontem. quando. «tenho de lhe entregar a chave. tentou repetir alegremente. eu estava no Dome. Enfim. — Em resumo. — Que é? Ah! — disse.» — Olá — gritou o motorista —. e Mathieu pensou que fosse desmaiar.. Mas continuou secamente depois de um momento: — Diga lhe que se tranquilize. até logo. Mas que venha! Peco lhe que venha! Não posso suportar a ideia de que me julge morta. O pacote de cartas que enfiara no bolso interno da casaco pesava lhe fortemente sobre o peito. E o coração que fraqueja. desfez o laço e começou a ler. «Mesmo assim. Vou dizer lhe que venha. Pegou no pacote de cartas. que não se falará mais disso. «A cara J E A N P AUL SARTRE que ele vai fazer!». — Obrigada. Não estou em perigo. Eram frases curtas. Apanhei um táxi. A A cabeça de Lola recaiu no travesseiro. Diga lhe que venha já. — Lola! — Vá lá.. De vez em quando havia . Dirigiu se para a porta. erguendo se ligeiramente. «Fui esperto em não ter pegado no dinheiro.— Está lá em baixo? — perguntou Lola. Ficarei aqui até à noite. Fechou novamente os olhos. ele que se arranje para a pôr novamente na bolsa». Estou à espera dele. ele teve um pavor louco. E mandou o aqui para ver se eu estava bem morta. não precisa mesmo de nada? — Não.. que Boris enviara de Laon durante as férias da Páscoa. — Leve me ao Dome. reconhecendo o táxi.. Mathieu estava comovido. estou satisfeito de que não tenha morrido. — Então. pensou. São coisas que me acontecem às vezes. por aqui! Mathieu voltou se. Quis afugentar do pensamento a humilhante derrota. À noite já estarei boa. secas. coitado. pouco importava que a sua cobardia tivesse tido consequências favoráveis. o que importava era não ter tido a coragem de agarrar no dinheiro. — Não. admirado. Acrescentou: — Ainda não foi desta. — Bem — disse Mathieu —.» Mas não estava alegre. Um riso sufocante e penoso. Irei cantar. — Está bem. ele sabe. Saiu. Fugiu sem querer saber de mais nada. Nada de histórias. Pôs se a rir. Sentou se e o táxi arrancou. mas Lola chamou o. ele foi procurar me.

» Atou as de novo cuidadosamente e colocou o maço no bolso. pensou Mathieu. mas tão veladas que Mathieu se surpreendeu. não sabe é dizê lo. Discuti com meu pai. Ivich parecia ter recuperado o sangue frio. Conheci um antigo lutador que me vai ensinar o catch. Estava sentado de lado. Ivich falava lhe ao ouvido. «Que farsa». — Não foi muito difícil? — perguntou Boris. Prostrou se ainda mais. pensou Mathieu. — Nada difícil. a decepção sempre prevista e no entanto sempre nova e o esforço que devia fazer todas as vezes para dizer a si própria com alegria: «No fundo ele ama me. — Aí estão. em seguida breves relatórios das suas actividades.. — Tê lo ia apostado — disse. — Essa é boa! — Ela disse que aquilo lhe acontece às vezes quando toma cocaína.» Mathieu imaginou sem dificuldade em que estado de espírito Lola devia ter lido aquelas cartas. de olhos faiscantes. Calaram se. com animação. Estava ainda desmaiada quando as apanhei. pareceu a Mathieu que ele era o aliado natural de Lola. Este aproximou se e atirou o maço das cartas sobre a mesa. «Não imaginei que ele fosse prudente. J E A N P AUL SARTRE Boris não respondeu. parecia não compreender.» Quando o táxi parou. Boris. Boris levantou a cabeça. Ao entrar no Dome teve a impressão de que ia defender a memória de uma morta. narinas crispadas. . — Lola não morreu — repetiu estupidamente. Tinha os olhos vidrados. de ombros recurvos. — Então o que é que teve? — Simples desmaio — respondeu Mathieu. «já começava a habituar se. Boris bebeu um trago de conhaque e pousou o cálice na mesa. — Foi.» Pensou: «E apesar de tudo guardou as. dir se ia que estava esmagado. «Ora». Mas não podia pensar nela senão no passado.» As cartas começavam todas por: «Querida Lola». Boris ergueu os olhos para ele. Mas calou se ao ver Mathieu. boca aberta. «Nado. Fumei um Henry Clay até ao fim sem deixar cair a cinza. secamente. Parecia que Boris não fizera um movimento desde a saída de Mathieu. Boris pegou lhes e fê las desaparecer no bolso. Mathieu olhava o sem amizade. foi ela que lhe entregou as cartas? — Não. só que Lola não morreu.» Ivich olhava Mathieu.. Boris e Ivich custavam a engolir a notícia. Disse que você devia saber.alusões à cocaína.» Boris terminava sempre assim: «Amo te muito e beijo te. «Boris terá de se arranjar para as pôr na maleta sem que ela o perceba.

. a história de ontem acabou.. E isso — acrescentou com desgosto —. sombrio. tenho de lhe tocar. «Ela está a meter lhe coisas na cabeça». — Oh!. é uma desgraçada. — Ela quer que a vá ver imediatamente. se virou para ver. E arranje se para pôr as cartas no lugar sem que ela o veja. — Não! — disse com a voz tão alta que uma mulher. toda esta história é absurda. com uma intenção que Mathieu não compreendeu: — No lugar dele. exibia o seu rostinho irritado e sinistro. não pode exigir isso dele. . Não vá confundir tudo. mas se a tornar a ver. obstinado. — Apanhe um táxi. — disse Mathieu. Eu disse que Boris tinha tido medo e me viera chamar. tenha juízo. E acrescentou. com uma obstinação mole e invencível: — Não vou. — Para mim está morta. na mesa do passeio. — Devia ter ficado transtornada ao vê lo ao pé da cama! — Não muito. eu teria feito o mesmo. as histórias de ontem — atalhou Boris. — Está a ouvir? Ela sofre. — Se ele voltar. — Pelo menos tente vê la. — Mas.. — Não quero tornar a vê la — afirmou. — Pois não está — disse Mathieu. — Acho que Boris tem razão — disse Ivich. será por piedade — disse Ivich —. Enganou se. — Mas isso é estúpido. mesmo para ela. Boris não se mexeu. Mathieu lançou lhe um olhar de ódio. mas Boris safou se com uma sacudidela violenta. — Há coisas que você não sente — disse. Boris. eu pensei que estivesse morta — repetiu Boris como para se desculpar. não pode haver nada mais repugnante. vá vê la. isso não posso. com um encolher de ombros. Lembre se disso. Boris olhou o. — Não queria dizer lho. vejo a morta. Ele continuou mais baixo. Mathieu ficou estupefacto. Estendeu a mão para agarrar no braço de Boris. — Então? Boris olhou com uma expressão maldosa. Boris passou a mão pela testa. é tudo. — Ela inspira me horror! A — Porque pensou que estaria morta? Boris. espantado —. com vivacidade. e Boris aproveitou se. Mathieu estava farto. Ivich fez uma expressão impaciente. exasperado. — Mas não vê que ele a vai matar? Ivich meneou a cabeça. pensou.— Que disse ela? — indagou. — Não sei que fazer. ela prometeu não falar mais nisso.. curiosa. — Eu. Naturalmente disse lhe que viera apenas ver o que acontecera.

espere um bocado. . Afinal eu tenho rugas. Olhou com desânimo aquelas duas cabecinhas hostis. Boris vai.. via os esmaltes brandos dos toilettes..» Levantou se. Boris pareceu aliviado.. Estranha recordação de amor. — Preciso de ir a casa de Daniel — disse a Ivich. da doença. têm almas sinistras.. da velhice. — Então — disse —. tem de esperar. noutro toilette. Depois. amanhã. — Mande me um telegrama imediatamente. nunca se atreverá. Na véspera. juntinhos. pensou. como se só tivessem diante de si cinco ou seis anos. Agarram se à mocidade como um DADE DA RAZÃO l moribundo à vida. — Não se esqueça — disse Mathieu afastando se. Começo a crer que nós é que somos jovens. «Por mais frescos e limpos que sejam. Medo da morte. músculos retorcidos.. Sentia se cheio de rancor por Ivich. Quantas vezes vi Ivich massajar o rosto inquieto em frente de um espelho. — As duas cabinas estão ocupadas. éramos ridículos. só fazem projectos a curto prazo. vou eu telefonar. Ivich fala em suicidar se. sentia os lá em cima. uma pele de crocodilo. Pensou: «Ele não telefonará. a dizer se passou. Depois. mas estou tranquilo. Mas este dia que ela vai ficar à espera! Não gostava de estar no lugar dela!» — Quer dar me Trudaine 00 35? — pediu à telefonista gorda. mas reteve se. J E A N P AUL SARTRE — Está bem — atalhou hipocritamente —.» Mas continuava pouco à vontade. — Quando saberá o resultado? Às duas horas? — Sim. Queríamos parecer homens. até que essa recordação se apague. Mathieu quis dizer: «Pelo menos telefone a avisá la de que não pode ir». — Quer que o vá ver? — Obrigada. mas ainda tenho muitos anos para viver. «Pobre Lola! Amanhã sem dúvida Boris voltará ao Sumatra. — Está bem..Mathieu sentiu se impotente. Treme diante da possibilidade de ter rugas. «Eles têm medo da morte». — Adeus! — Adeus — responderam os dois ao mesmo tempo. Vivem a ruminar a sua mocidade... Mathieu desceu à cave do Dome e consultou a lista telefónica. porque têm medo. Prometa me que a vê amanhã ou depois de amanhã. não morrerão tão cedo. — E quando a voltarei a ver? — Não sei. mas pergunto se o único meio de salvar a mocidade não será esquecê la. Enquanto Mathieu esperava. por entre duas portas abertas.

Em vão. mas fascinantes apesar de tudo. não preciso de ter vontade para casar com ela. basta deixar me ir. com uma gravidade de pessoa adulta. de homem.» Sentia náuseas. Ela amedrontava o. autor dramático.» Fechou o anuário. Cerrou os punhos e pronunciou interiormente. vivo como se fosse casado. E subitamente pareceu lhe ver a sua liberdade. É para não ser da minha classe que escrevo J E A N P AUL SARTRE nas revistas de esquerda. eis a liberdade que me resta.» Puf!. com licença de Marcelle. cruel. palavras. — Esse telefonema vem ou não? — perguntou. A minha única liberdade.» Estava tão cansado de ser atirado de um lado para outro. uma opção infantil e vã. — Um momento — respondeu a telefonista. o sonho orgulhoso e sinistro de não ser nada. Ela ordenava lhe simplesmente que largasse Marcelle. hesitou. acabrunhado. Olhava. os tabus deles impediram me. É para não ser da minha idade que há um ano ando a brincar com esses dois miúdos. Essa inexplicável liberdade. Leu: «Holle becque.» Viu Mathieu. asperamente. Entrou. toda perfume. um vazio. os destroços da sua dignidade humana. «Não pude pegar no dinheiro. Sou casado. É para fugir da minha vida que sussurro por toda a parte. que quase se sentiu reconfortado. jovem e caprichosa como a graça. Encostou se obstinadamente à sua vontade demasiado humana. a estas palavras demasiado humanas: «Hei de casar com ela!» — É a sua vez — disse a telefonista. Em vão. de oscilar entre correntes contrárias. uma dessas que dizem com uma expressão de menina: «Vou fazer um chichizinho.sussurrantes e cúmplices. Estava fora de alcance.» Tinha aberto o anuário e folheava o distraidamente. fez se toda espírito. que atingia as aparências do crime. que me recuso a casar. viva e leve. de ser sempre outra coisa diferente do que sou. a minha liberdade é um mito — Brunet tinha razão — e a minha vida constrói se por debaixo deste mito com um rigor mecânico. «Não pude pegar no dinheiro!» Uma mulher descia a escada. Mathieu ergueu o docilmente. entrou flor na latrina. Foi um momento apenas. «Isso também é mentira. entreviu a apenas. . e foi este homem que beijou a pequena Ivich num táxi. Sou um burguês. continuou a andar com passos deslizantes. um adulto. — Na segunda cabina. — Obrigado. — Pegue no telefone. Nord 77 80. de burguês. Em vão. Sou um homem. E estava tão longe. Pensou: «Querer ser o que sou. — Alguém pediu Amsterdão. Querer casar com Marcelle. não pude pegar no dinheiro de Lola. Mathieu voltou se e deu alguns passos. de chefe de família: «Quero casar com Marcelle.

— Quem? — Mathieu. — Mas no fim do mês ele já estará longe. Era o número de Sarah. — Apesar de tudo.» Olhava para a escada. — Não. E Boris. você é formidável! XIII E lê é demasiado injusto — disse Boris. devia telefonar lhe. Pode transmiti lo mais tarde. não é Maurice. Não. — Senhor Maurice? — disse a voz. se isso não a aborrece.. O de Octave. — Esta gente não larga a «massa». É um velho avarento e atravessa uma crise de hipersionismo: detesta tudo o que não é judeu desde que foi expulso de Viena. — Não me aborrece absolutamente nada. aproveitar a ocasião.— Está? Trudaine 00 35? Um recado para a senhora Montero. Mathieu voltou. Não sou Hourtiguère. indeciso. dê me Ségur 25 64. — Pois é — respondeu Ivich. — Estou. sem entusiasmo. — Então? Arranjou? — Não — disse Mathieu. — Se imagina que prestou um serviço a Lola! Deu uma risadinha seca. Voltou a cabeça para a escada dos toilettes e pensou com severidade: «Foi longe de mais. — Como é orgulhoso — disse. — Obrigado. — Mandar lhe ei o dinheiro para a América. . — Mas será difícil. Sarah.. — Posso tentar — disse Sarah. e Boris sentiu um nó na garganta. — Bom dia — respondeu a voz rude de Sarah. É só isso. Ninguém o compreendia como a Ivich. Sarah. não se deve falar a ninguém como me falou. tente. É exactamente por isso que lhe queria pedir se não poderá dar um salto a casa desse tipo e solicitar lhe crédito até ao fim do mês.. B de Bernard. é Mathieu. acha que não sou moral. e Boris calou se satisfeito. Obrigado. não a incomode. saiu sem um olhar. Irei logo a seguir ao almoço. Houve um breve silêncio. olhava a mão enfaixada. — Está zangado — continuou Boris —.. esperava que Mathieu lhe sorrisse ao subir. mas isso passa lhe. É da parte do Senhor Boris. Tinha um ar neutro.» Olhou a telefonista. J E A N P AUL SARTRE — Sim — disse Ivich —. Ele não pode ir. Acaba de sair. Encolheu os ombros. Pensou. Ivich não respondeu. Saiu. Ele não pode ir. — Quer outra ligação? — Sim. coçando a cabeça: «Marcelle deve estar aflita.

não era Hourtiguère. Sentira mesmo por um momento que ia sofrer. eu estou me nas tintas para a moral! Boris sentiu se só.— Não gosto dele quando se torna moral. Boris percebeu a sem se zangar. quando penso agora em Lola. de resto. Toda a gente tinha sempre em vista o bem de Boris. Balançou se sobre o banco. Ela sorriu levemente. Depois. não! — Não quero que ela sofra. — Puf! — disse Ivich. Mas alguma coisa falhara. Ivich disse com doçura: — E é bem verdade que faz de ti o que quer. — Eu gosto — atalhou Boris. . entre ambos. — Pois então vai vê la — disse Ivich num tom cantante. continuo a vê la morta. Ele compreendeu que ela lhe preparava uma armadilha e respondeu vivamente: — Não vou. — Que ar obstinado! Boris não respondeu. — É a minha táctica com ele. mas esse bem variava segundo as pessoas. — Ah. tinha uma expressão tola e disse de modo cínico: — A moral. um desarranjo no motor. Gostava de se aproximar de Ivich. Que não passava de um estúpido e que tivera um choque terrível ao pensar que Lola morrera. Ivich disse. Parecia lhe sempre que não falavam do mesmo Mathieu. — Eu dou lhe a impressão disso — disse ele com serenidade. contanto que ele tivesse boa vontade. E não quero que Mathieu imagine que pode fazer de mim o que quiser. Por moralidade. Para o bem dele. Era uma sacanice. Acrescentou depois de certa reflexão: — Mas eu sou mais moral do que ele. Não me deixou explicar lhe. Boris não protestou por hábito.. Disse apenas: — Ele é injusto.. era preciso esperar que se normalizasse. conciliadora: — Há coisas que não se podem explicar. O de Ivich era mais enfadonho. — E estranho — disse —. A Ivich riu e Boris ficou chocado. Acrescentou por espírito de justiça: — Ela é que não deve achar nada disto engraçado. mas Mathieu ainda estava ali. Ivich tinha boas intenções. tenho a impressão de ser uma velha qualquer. Fizera então um esforço de domínio sobre si mesmo. e isto tinha o escandalizado. não o podia realmente suportar. queria que ele rompesse com Lola. mas pensava que se podia explicar tudo a Mathieu. Achava o sofrimento imoral e. Ruminava o que devia ter dito a Mathieu. Nesse ponto não ia ceder.

mas de vez em quando devia haver algumas excepções. Boris gostava muito do mês de Outubro. porque seria mais moral. — Ele enerva me. Não se sentia capaz de tanta força espiritual.. — Bem sei.» Ao mesmo tempo sentiu se livre: «Ela vive. eu consigo. — Muito. Levantaram se e saíram. bruscamente: — Vamos. Mexeu se um pouco no banco. O Bulevar Montparnasse estava delicioso sob aquela luz cinzenta. Ele perguntava a si próprio se seria realmente por causa do exame. Pensarei nisso mais tarde. mas não consigo. e ele sentiu raiva a Mathieu. — disse Boris. sim!? Ivich fez um ar intrigado e descontente. Perguntava a si próprio o que queria dizer Ivich.» . Houve um silêncio. Ergueu os olhos. Quando não vejo as pessoas. Ivich riu se. Parecia Outubro. e em seguida Ivich acrescentou. Andaram um bocado calados. Agora de manhã dava se ares de homem diante de mim. — É possível. Passado um instante. J E A N P AUL SARTRE x Boris admirou a irmã. Ivich mordeu os lábios. tu estás chateada. — Querido. mas não o deixou perceber. Desejava que fosse.. — Nem eu — disse Boris. pensas de mais. tenho outras preocupações na cabeça. Basta imaginares que morreu de verdade. Boris pensou que tinha feito melhor se se tivesse calado. Ele precisava de cinco mil francos. A — E verdade — disse Boris.Mas ela pusera lhe o dedo na ferida. — É estranho — disse —. Pensou: «No mês de Outubro passado ainda não conhecia Lola. — Seria muito cómodo. disse: — Terá levado o dinheiro? Seria bonito! — Que dinheiro? — O dinheiro de Lola. com impaciência. Boris sentiu uma ligeira e tenaz vontade de vomitar. confuso —. — Por causa do exame? Ivich encolheu os ombros e não respondeu. — Achas que ele vai ficar zangado muito tempo? — Não — disse Ivich. elas deixam de existir. e Ivich olhou o inquieta. Ivich agarrou Boris pelo braço. Já não posso suportar mais o Dome. — Ah. e calou se. — Pareces zangada com Mathieu. É certo que diziam tudo um ao outro. Ivich pareceu achar divertido. Deviam compreender se por meias palavras ou o encanto romper se ia. Boris acrescentou maliciosamente: — Também está zangado contigo.

os transeuntes tinham bom ar. — Não voltarei ao hotel. Boris esperou a cá fora Sentia se comovido e fraco como um convalescente e perguntava a si próprio o que poderia fazer para ter uma satisfação. não vale a pena pensar nisso. A escolha recaiu no Dicionário Histórico e Etimológico do Calão. mas deveres sérios. mas não insistiu. — Não queres romper com ela? — Não sei. — Eu faço a carta. Pensou: «Não é possível que Mathieu fique sentido muito tempo. e havia um raio zinho de sol que cariciava as montras da Closerie de Lilás. palerma. Não foi o rosto de um morto que recordou. como quando ele chegava atrasado ao encontro marcado. Mas como quer que fosse. estava dominada por uma cólera viva.» Mas ao mesmo J E A N P AUL SARTRE tempo sentiu dentro de si um sólido rancor contra aquela falsa morta que provocara todas aquelas catástrofes.» Até agora sabia que ela sofria. vou almoçar. — Sim. Não tinha para com ela essas obrigações incertas e temíveis que os mortos impõem. Ivich teve uma ideia. admirada. visto que ela não morreu. O dicionário estava A agora sobre a sua mesa de cabeceira. — Não saberia o que lhe havia de dizer. Entrou na Mercearia Demaria. desde que abandonara o cadáver na escuridão do quarto. mas esse sofrimento e essa angústia só se afiguravam irremediáveis e imutáveis como os sofrimentos e a angústia das pessoas que morrem desesperadas. — A Lola? Oh!. «É um móvel». pensou. — Vamos a ver — disse —. Era mais correcto. — Devias escrever lhe. Alegrou se. — Vai dormir em casa de Claude. ela é capaz de ir lá. — Estou com fome — disse Ivich —. que o esperava angustiada. era uma ressurreição. mas aquele rosto ainda jovem e carrancudo que lhe mostrara na véspera quando lhe gritara: «Mentira! Não viste Picard. Uma cólera que não era nem mais nem menos respeitável do que as outras. conhecia os quase todos de vista. — Mas a dizer o quê? Ivich olhou o. descansava de olhos abertos na cama. deveres de família. Sentia se feliz naquele bulevar. Mas era um erro.Pela primeira vez. talvez. apenas mais violenta. Ivich pareceu irritada. — Vou. Lola vivia. Boris pôde assim evocar sem horror a imagem de Lola. era assim. entre Ivich e Mathieu. Naquele momento tinha tanta vontade de perder Lola como de a ver. Boris tinha de se mover com habilidade. Não insistia nunca. não. sentia que ela vivia. .

entusiasmado, «foi um golpe de mestre». E como uma felicidade nunca vem sozinha, pensou no canivete espanhol, tirou o do bolso e abriu o. «Que sorte!» Comprara o na véspera e já tinha uma história, ferira duas pessoas que lhe eram queridas. «Corta que se farta», pensou. Uma mulher que passava, olhou o com insistência. Estava muito bem vestida. Voltou se para a ver de costas. Ela também se voltara e contemplaram se com simpatia. — Pronto — disse Ivich. Trazia duas maçãs canadenses. Esfregou uma delas no rabo, e quando a viu brilhante mordeu a, estendendo a outra a Boris. — Não — disse Boris —, não tenho fome. — Acrescentou: — Tu ofendes me. — Porquê? — Esfregar a maçã assim no rabo. — E para limpar — disse Ivich. — Olha aquela mulher que vai lá adiante. Dei lhe no goto. Ivich comia serenamente. — Mais uma? — disse com a boca cheia. — Aí não — disse. — Atrás de ti. Ivich voltou se para ver e arqueou as sobrancelhas, — É bela — disse simplesmente. — Viste o vestido? Ainda hei de ter uma mulher assim. Uma mulher da alta sociedade. Deve ser agradável. Ivich olhava a mulher que se afastava. Tinha uma maçã ern cada mão e parecia oferecer lhas. — Quando me cansar dela, passo ta — disse Boris, generosamente. J E A N P AUL SARTRE Ivich mordeu a maçã. — Isso é o que tu pensas! Pegou lhe no braço, e arrastou o, bruscamente. Do outro lado do Bulevar Montparnasse havia urna loja japonesa. Atravessaram e pararam diante da montra. — Olha as tacinhas — disse Ivich. — É para o saké — disse Boris. — Que é isso? — Aguardente de arroz. — Hei de vir comprá las. Para tomar chá. — São pequenas de mais. — Enchem se várias vezes. — Podias encher seis ao mesmo tempo! — Pois é — disse Ivich, contente. — Ponho seis tacinhas cheias diante de mim e beberei ora numa ora noutra. Recuou ligeiramente e disse com uma expressão apaixonada, de dentes cerrados: — Queria comprar tudo isto! Boris não apreciava o gosto da irmã por aquelas bugigangas.

Apesar disso, quis entrar na loja. Ivich não o deixou. — Hoje não. Vamos. Subiram a Rua Denfert Rochereau, e Ivich disse: — Era muito capaz de me vender a um velho para ter um quarto cheio daqueles bibelots! Mas um quarto cheio! — Não — disse Boris, com severidade. — Não podias. É um ofício que se aprende. Andavam devagar, era um momento de felicidade. Certamente, Ivich tinha se esquecido do exame, parecia alegre. Nesses momentos, Boris tinha a impressão de que eram uma só pessoa. No céu havia grandes pedaços de azul e nuvens brancas que turbilhonavam. A folhagem das árvores estava pesada com a chuva, havia um cheiro a fogo de lenha como na rua principal de uma aldeia. — Gosto deste tempo — disse Ivich, encetando a segunda maçã. — É húmido, mas não pegajoso. E não fere os olhos. Sinto me com forças para andar vinte quilómetros a pé. Boris verificou discretamente se não havia um café nas proximidades. Quando Ivich falava em fazer vinte quilómetros a pé, acontecia lhe fatalmente pedir para se sentar logo a seguir. Ela olhou para o Leão de Balfort e disse, extasiada: — Gosto deste leão. Parece um feiticeiro. — Hum. Respeitava os gostos da irmã, embora não partilhasse deles. Aliás, Mathieu já o dissera uma vez: «A sua irmã tem mau gosto, mas é melhor do que o melhor gosto.» «É um mau gosto profundo.» Nestas condições não havia que discutir. Pessoalmente, Boris era mais sensível à beleza clássica. — Vamos pelo Bulevar Arago? — Qual? — Aquele. — Vamos — disse Ivich. — Está brilhante... Andaram em silêncio. Boris observou que a irmã se tornava sombria, se enervava, e que de propósito caminhava a torcer os pés. «Vai começar a agonia», pensou, resignado. Ivich entrava em agonia cada vez que estava à espera do resultado de um exame. Ergueu os olhos e viu quatro jovens operários que vinham ao seu encontro e os encaravam a rir. Boris estava habituado a essas expansões e considerou as com simpatia. Ivich tinha a cabeça J E A N P AUL SARTRE baixa e parecia não os ter visto. Ao chegarem junto deles os rapazes separaram se. Dois passaram à esquerda de Boris e dois à direita de Ivich. — Faz se uma sanduíche? — propôs um deles. — Cara de peido! — disse Boris, gentilmente. Nesse momento,

Ivich pulou e deu um grito agudo, que abafou logo pondo a mão na boca. — Pareço me com uma cozinheira — disse vermelha de fusão. Os operários já iam longe. — Que foi? — Beliscou me — disse Ivich, com desagrado. O estupor! Acrescentou, com severidade: — Não devia ter gritado. — Qual deles? — disse Boris, indignado. Ivich reteve o. — Por favor, está quieto. São quatro. E depois já fui suficientemente ridícula. — Não é por ele te ter beliscado — explicou Boris. — Mas não posso suportar que façam isso quando estás comigo. Quando estás com Mathieu, ninguém te mexe. Tenho cara de quê? — É isso mesmo, querido — disse Ivich melancolicamente. — Eu também não te protejo. Não somos respeitáveis. Era verdade. Boris admirava se disso muitas vezes: quando olhava para o espelho, achava que tinha um ar intimidante. — Não somos respeitáveis — repetiu. Apertaram se um contra o outro e sentiram se órfãos. — Que é aquilo? — perguntou Ivich. A Apontava um muro comprido e escuro através do verde dos castanheiros. — E a Santé — disse Boris —, uma prisão. — Extraordinário — disse Ivich —, nunca vi nada mais sinistro. Há quem fuja de lá? — E raro. Li uma vez que um preso saltou por cima do muro. Agarrou se a uma pernada de um castanheiro e saltou. — Deve ser aquele. Se nos sentássemos no banco ao lado? Estou cansada. E talvez vejamos saltar outro prisioneiro. — Talvez — disse Boris sem convicção. — Acho que fazem isso de noite, compreendes? Atravessaram a rua e foram sentar se. O banco estava molhado. Ivich disse, contente: — Está fresco. Mas quase a seguir começou a agitar se e a puxar os caracóis. Boris teve de dar lhe uma pancada na mão para que não arrancasse os cabelos. — Segura na minha mão — disse Ivich —, está gelada. Era verdade. E Ivich estava lívida, parecia sofrer, todo o corpo lhe tremia. Boris achou a tão triste que tentou pensar em Lola, por simpatia. Ivich levantou bruscamente a cabeça: tinha um ar sombrio de resolução: — Tens os dados? — Tenho. Mathieu tinha oferecido a Ivich um poker de dados num saquinho de couro. Ivich tinha o dado a Boris e jogavam juntos muitas

vezes. — Vamos jogar — disse. Boris tirou os dados do saquinho. Ivich acrescentou: — Duas partidas e a negra se for preciso. Começa. Afastaram se um do outro. Boris sentou se a cavalo no banco e rolou os dados sobre o banco. Fez um poker de reis. — Só de uma vez — disse. — Odeio te. Franziu as sobrancelhas, e antes de agitar os dados soprou nos dedos a resmungar. Era uma conjura. «É a sério», pensou Boris, «está a jogar o resultado do exame». Ivich jogou e perdeu: trio de damas. — Segunda partida — disse a olhar para Boris com olhos faiscantes. Fez um trio de ases. — De uma só vez — disse. Boris jogou e viu que ia fazer um poker de ases, mas antes que os dados parassem estendeu a mão como para evitar que caíssem e virou dois com ponta do indicador e do anular. Apareceram dois reis. — Dois pares — disse com ar de despeito. — Ganhei a segunda — disse Ivich triunfante. — Vamos à negra. Boris não sabia se ela o vira fazer batota. Mas não tinha grande importância. Ivich só tinha em conta o resultado. Ganhou a negra com dois pares sem que ele precisasse de intervir. — Bem — disse ela simplesmente. — Queres jogar mais? — Não. Estava a jogar para saber se passaria. — Não sabia — disse Boris. — Então, passaste! Ivich encolheu os ombros. — Não acredito. Calaram se, ficaram ali lado a lado, de cabeça baixa. Boris não olhava para Ivich, mas sentia a tremer. — Estou com calor — disse ela. — Que horror: tenho as mãos húmidas e estou cheia de angústia. Na verdade, a sua mão direita, pouco antes gelada, estava agora a ferver. A mão esquerda, enfaixada, jazia inerte sobre o joelho. — Esta ligadura repugna me. Pareço um ferido de guerra, vou arrancá la. Boris não respondeu. Ouviu se um relógio ao longe. Ivich sobressaltou se. — Meio dia e meia hora? — perguntou, desvairada. — Uma e meia — disse Boris consultando o relógio. Olharam se e Boris disse: — Bem, agora tenho de lá ir.

Ivich apertou se contra ele, abraçando o. — Não vás, Boris, querido, não quero saber, volto para Laon hoje à noite... Não quero saber nada. — Estás a delirar — disse Boris com doçura. — Precisas de saber o que aconteceu para dizer lá em casa... Ivich deixou cair os braços. — Então vai. Mas volta o mais depressa possível. Espero aqui. — Aqui? Não preferes que façamos o caminho justos? Esperas num café do Quartier Eatin. — Não, não, espero aqui. — Como quiseres. E se chover? — Boris, por favor, não me tortures, vai depressa. Ficarei aqui, mesmo que chova, mesmo que a terra trema. Não me posso pôr de pé, não posso levantar um dedo. Boris levantou se e foi se embora a passos largos. Depois de atravessar a rua, voltou se. Viu Ivich de costas. Curvada no banco, com a cabeça enfiada entre os ombros, parecia uma pobre velha. «Apesar de tudo, é capaz de ter passado», pensou. Deu alguns passos e lembrou se de repente do rosto de Lola. Do verdadeiro rosto. Pensou: «Como é infeliz», e o coração pôs se lhe a bater violentamente. XIV D entro em pouco. Dentro em pouco. Começaria a busca infrutífera. Dentro em pouco, assombrado pêlos olhos rancorosos de Marcelle, pelo rosto matreiro de Ivich, pela máscara mortuária de Lola, tornaria a sentir um gosto de febre na boca, a angústia viria pesar lhe no estômago. Dentro em pouco. Afundou se na poltrona e acendeu o cachimbo. Estava solitário e calmo, entregava se à frescura sombria do bar. Havia aquele tonel envernizado que lhe servia de mesa, aquelas fotografias de artistas, aquelas boinas de marinheiros penduradas na parede, a rádio invisível que sussurrava como um repuxo, os dois senhores gordos e ricos ao fundo da sala, fumando charutos e bebendo vinho do Porto — últimos fregueses, homens de negócios; os outros tinham ido almoçar há muito tempo. Devia ser uma e meia, mas parecia manhã ainda, ° dia ali estava, estendido como um mar inofensivo. Mathieu diluía se nesse mar sem paixão, sem ondas, era um espiritual J E A N P AUL SARTRE negro apenas perceptível, um tumulto de vozes distintas, uma luz cor de ferrugem e o embalar de todas aquelas lindas mãos cirúrgicas que oscilavam com os seus charutos, como caravelas carregadas de especiarias. Aquele ínfimo fragmento de vida beata, bem sabia que lho emprestavam apenas, que seria preciso devolvê lo dentro em pouco, mas gozava o agora sem amargura. Aos tipos lixados, a vida ainda concedia inúmeros pequenos

Mas queres que te empreste duzentos francos? Tenho vergonha de oferecer tão pouco. Gostara muito de Brunet outrora. silencioso. secção século XX.. Pousou o copo vazio e pegou numa azeitona do pires. não vale a pena. — Recomendo te o Xerez — disse Daniel. se mo ofereces. Estimo o muito. Mas não agora. — Acho que desta vez tudo acabou entre nós. — Não precisas mesmo de nada? — Sim — informou Mathieu —. — Zangaram se? — Pior do que isso. Vamos dividi los. — Não — disse Mathieu —. Tinha acabado. Daniel pousou nele um olhar cheio de solicitude. Mathieu esticou as pernas e sorriu para si próprio. Daniel estava sentado à sua esquerda. não estava dentro da regra do jogo. DADE DA RAZÃO — Espero que a minha conversa esteja à altura do Xerez. solene. Mathieu olhou Daniel pelo canto do olho. Estou sem um tostão. Mathieu não pôde deixar de sorrir. mas se tivesse alguma autoridade. Mathieu provou o Xerez. — Ofereço. Insistiu: — Não faças cerimónia. — Muito obrigado.. Daniel voltou para ele os seus grandes olhos acariciantes. Daniel mentia. Daniel tinha . com a condição de que as gozem modestamente. Daniel manifestava um grande aborrecimento. já não se pode renová las por causa da guerra de Espanha. Mas as provisões estão a esgotar se. é o que há de melhor. cortês. — Não faria lá má figura. — Não te estás nas tintas para Brunet? — Bem sabes que nunca fui tão íntimo dele como tu. — Não — disse Mathieu. mandava o empalhar e colocar no Museu do Homem. — É — disse Daniel —. — E bom. Não se referia ainda à sua carta nem às razões que o tinham levado a convocar Mathieu. preciso de cinco mil francos. Tenho quatrocentos francos até acabar a semana. — Vou confessar te uma coisa. Mathieu podia contemplar à vontade o belo rosto de xeque árabe. Aquela felicidade simples e leve entrara no passado. Isso viria depressa. — Bem. Agora só desejo um Xerez e conversar contigo. é mesmo para esses tipos que ela reserva uma boa parte das suas graças efémeras. Era preciso recusar se a aceitar. Disse: — Sabes que vi Brunet ontem? — É verdade? — disse Daniel. Mathieu estava lhe grato pela discrição.prazeres. e isso também era um prazer para os olhos.

.. se não sai? Acrescentou. ela nunca sai. acabo de to dizer — observou Daniel. olhava para Marcelle com os seus grandes olhos doces e Marcelle sorria desajeitadamente. não podiam entender se. vagamente irritado. O relógio bateu duas vezes. Tremiam ligeiramente. estava aborrecido e veio me à ideia de ir a casa dela. uma voz de negro cantava baixinho Ther'is cradle in Caroline. mas Marcelle parecia ter simpatia por Daniel. Daniel estava sentado na poltrona. — Marcelle? Mathieu não estava surpreendido.. Mathieu perguntou: — Que ideia foi essa? Como é que isso aconteceu? A — Muito simplesmente. como se lhe fossem tirar uma fotografia. e Mathieu repetiu com espanto: «A coragem de Marcelle. sorridente. — Onde querias que a encontrasse. É tudo. Onde a encontraste? — Em casa dela. na atmosfera algodoada do quarto cor de rosa. Acolheu me muito amavelmente. Calou se um momento. — disse Daniel sorrindo. eles nada tinham em comum.. Houve um silêncio. era absurdo. J E A N P AUL SARTRE — Estou a pensar no efeito que isto vai fazer em ti — continuou Daniel hesitante. — Tens sorte — disse —.. baixando as pálpebras modestamente: — Devo dizer te que nos vemos de vez em quando. Não. sabes quem vi ontem à noite? — Quem viste ontem à noite? Como hei de saber? Vês tanta gente.» Não eram as qualidades que mais apreciava em Marcelle.. Mathieu sacudiu a cabeça.. — Em casa dela? Queres dizer que vais a casa dela? Daniel não respondeu.um ar nobre e compenetrado. Mathieu contemplava os cílios negros e compridos de Daniel. — repetiu sem compreender bem. — Mas onde? — Em casa dela. Sempre tive grande simpatia por Marcelle Duffet. Admiro muito a sua coragem e generosidade. Daí por diante continuámos a ver nos. Daniel continuou: — Um dia. — Pois bem. a sua generosidade. . — Vocês vêem se. — Marcelle Duffet. — Ficaria triste se te aborrecesses comigo. — Fala e depois saberás — disse Mathieu.» Mathieu voltou a cabeça e fixou o olhar no botão vermelho de uma boina de marinheiro. Daniel e Marcelle não se tinham encontrado muitas vezes. A nossa culpa está em não te termos dito nada. «Vemo nos de vez em quando.. Mathieu mergulhou no perfume espesso. — Diz lá — disse Mathieu.

— Não falemos mais nisso. Daniel ergueu os olhos e encarou Mathieu com uma expressão sombria. um tipo do género de Lúcifer. Mas não vou na onda. se reparares que nunca me permiti a menor brincadeira neste assunto das tuas relações com Marcelle. A Daniel parecia desconcertado. — Far me ás justiça. Viu que Daniel esperava a sua cólera. Por enquanto estou apenas tonto. Venha depressa. — Então. — Sim. Mas não compreendo uma só palavra do que me escreve.. — Já é bastante penoso acusar me diante de ti. — Pensei que te zangasses. não impede que isso seja uma graça. Leu: «Tinha razão como sempre. fúnebre e distinto como uma testemunha de duelo. Esperamos com impaciência a sua visita. Entregou uma carta a Mathieu.» Mathieu olhou para Daniel. admirando se por sua vez de não se sentir . E tu também vês a velha e tudo. Mas como exiges provas. sob palavra de honra. «Escreveu isto. — Olha — disse Daniel. Que seja sábado. É uma coisa muito séria. — Mathieu! — disse com uma voz muito profunda. querido Arcanjo. és muito divertido.. Seria normal. — Bom — disse tristemente. Mathieu releu a carta do princípio ao fim. Tirou do bolso uma carteira cheia de notas.. Era a letra de Marcelle. uma vez que não está livre amanhã. É tudo. continua.. depois desatou a rir. bem sei. querido Arcanjo. Um arcanjo decaído. Daniel pareceu ficar desanimado. perplexo. Eram de facto pervincas. — Arcanjo! Ela chama te arcanjo. — Ainda bem — disse. E talvez me zangue ainda. Marcelle. — Não me facilitas a tarefa — disse Daniel com um ar de censura. deveria zangar me.» Aquele estilo precioso e jovial nada tinha dela! Esfregou nariz. Mathieu voltou a cabeça e olhou o com indecisão. Trazia a data de 20 de Abril.— Vais à casa dela. Esvaziou o copo. A minha mãe disse que lhe vai dar uma descompostura por causa dos bombons. e ela escondeu me isso? Acrescentou serenamente: — É uma brincadeira. — Bem sei. é verdade? Daniel fez um sinal com a cabeça. Eu nunca teria encontrado essa expressão. — Não. Suspirou: — Preferia que acreditasses em mim. Mathieu viu o dinheiro e pensou: «Sacana!» Mas com preguiça. mantinha se direito.

O cachimbo apagou se lhe. Mas não tenho más intenções. Daniel não respondeu. como quando se descobre que nos enganamos redondamente. Leal? Rígida? Não devia ser assim tão rígida. Marcelle não espera de mini conversas muito elevadas. Daniel todo cerimonioso.irritado. não. Mathieu pensou: «Ele diverte se à custa deja. pensou com espanto. Não se sentia suficientemente abatido. mas isso descansa a. como vês.» E sentiu se humilhado por Marcelle. «Ela mentiu me». Era a primeira vez que Mathieu se sentia invadido por uma espécie de cólera. estou a tentar compreender. Acrescentou com uma ironia velada que agradou a Mathieu: — A princípio chamava me Lohengrin. Dantes. desajeitada. Era grave. Arcanjo. lembro me. de que falam vocês? — De tudo — disse Daniel friamente. e Marcelle diante dele rígida. não te aborreças... Então é verdade? Gostam de conversar? Mas. com os seus ares de Cagliostro e o sorriso africano.. — Terás alguns temas a propor nos? — Não te zangues — disse Mathieu conciliador.. quase me diverte.. — Foste tu que lhe disseste para se calar? — Fui. já não tem tanta importância. — E ela não pôs dificuldades? — Admirou se muito. Não devia achar gr ande mal nisso.» Fora Marcelle quem escrevera aquilo. Agora já a conheço há bastante tempo. teria havido qualquer coisa dentro dele que .» Ela pensa que gosto de me rodear de mistério. depois.. «Venha. «mente há seis meses». — Estás com ela muitas vezes? — Sem regularidade. Riu se. Não queria que fiscalizasses as nossas relações. — Evidentemente. de que é que conversam? Daniel sobressaltou se e os olhos brilharam lhe. — Mas que é que podem dizer. fora ela quem se espraiara naquelas gentilezas grosseiras. porém. esperamos a sua visita. Continuou: — Admira me muito que Marcelle me tenha escondido qualquer coisa. — Foste tu que pediste — repetiu Mathieu mais calmo. Estendeu a mão e pegou maquinalmente numa azeitona. duas vezes por mês mais ou menos. fixou se em Arcanjo. — Tudo isto é tão imprevisto. cheio de gentilezas maliciosas e nobres. e disse: «É um caso de consciência. leal. — Mas não recusou? — Não. — E incrível! Vocês são tão diferentes! Não conseguia afastar a imagem absurda. Um espanto intelectual sim.

Procurou um recanto na sombra.. Mathieu disse lhe: — Daniel. «Nós»! Ele dizia «nós». como sempre.sangraria. Mathieu olhou para Daniel. mas era divertido brincar aos conspiradores. Era o momento de o odiar. Daniel pareceu atemorizar se. mas ele não lhe queria mal.. Note se que ela te admira. — Talvez — disse Mathieu —. Ela sabia muito bem o que fazia. — E essa carta! «Nós esperamos a sua visita. Que queres — acrescentou —. mal definida. mas estava zangado sobretudo consigo mesmo. — Ela disse te isso? . — E o que pensavas. Tinha de a estimar. não exageres. Marcelle tinha se tornado culpada. — Não. totalitário? — Nunca o disse de uma maneira positiva. mas Daniel desarmava o. senão era lhe muito difícil. sempre tivemos a intenção de to dizer. nós adiávamos sempre... Não vás levar a sério uma infantilidade! — Censuravas me há pouco por não levar a sério as coisas. Poder se á dizer tudo? A Mathieu encolheu os ombros. mas creio que assim o pensa. — Ela acha me. — Uma Marcelle diferente. irritado. sem amizade. E depois acho que ter um segredo a devia divertir. Disse apenas. É qualquer coisa hesitante. Alguém que podia dizer «nós» a Mathieu ao falar de Marcelle. — Mas passas de um extremo ao outro — disse Daniel. Há outra coisa. admira essa maneira que tens de viver dentro de uma casa de vidro e dizer abertamente aquilo que se costuma conversar em segredo. já to disse — respondeu Daniel. porque é que ela fez isso? — Ora. com voz tépida: — Nós dizíamos tudo um ao outro. Porque o fez? — Imagino que não era muito agradável viver sempre à luz do teu esplendor. Esta história prova apenas que Marcelle é mais complicada do que imaginas. — Porque lho pedi..» Parece me que descubro uma Marcelle diferente. Mas isso cansa a. Continuou com uma expressão de compreensão afectuosa: — O que acontece é que confias demasiado nas tuas opiniões sobre os outros. és uma força. Não te falou das minhas visitas porque teve receio de que a forçasses a pôr um rótulo no sentimento que tinha por mim.. J E A N P AUL SARTRE Mathieu abanou a cabeça.» — Aliás — continuou Daniel —. mas há outra coisa. de que o desmontasses para devolvê lo em pedacinhos bem analisados. «Não devia perder a confiança nela naquele dia — naquele dia em que talvez fosse obrigado a sacrificar lhe a própria liberdade.

Mathieu apertou com força o copo nas mãos. não disse nada. disseste lhe que estavas ao corrente? — Não.. Cada vez que se tratava de compreender os sentimentos de Marcelle sentia se possuído por uma incomensurável preguiça. se houvesse qualquer coisa. Mathieu empertigou se: «Cuidado. Marcelle é orgulhosa de mais para falar. — Bem — disse Daniel representando —. — E a propósito do seu.» Mathieu encolheu os ombros. — Ah! — atalhou Mathieu —. — Es mesmo o demónio! Semeias segredos por toda a parte. por enquanto. do seu acidente — disse Daniel. Com Mathieu sei sempre. Mathieu não se enganou.. «Ora.. — Porque é que ela nunca me falou disso tudo? — Ela diz que tu nunca lhe perguntas nada.» Ivich dizia: «Consigo não há imprevistos. ela di la ia.» Sacudiu se e disse bruscamente: A — Porque me dizes isso hoje? — Tinha de to dizer um dia ou outro. — Oh! «Ontem ao telefone parecia temer que eu lhe contasse. Mas pensei que fosse bom para vocês os dois. Marcelle ignora que te falei e ainda ontem não estava resolvida a pôr te ao par da situação tão cedo. Ontem conspiravas com Marcelle contra mini e hoje pedes a minha cumplicidade contra ela! Que estranho traidor.» «Com Mathieu sei sempre.» Acrescentou: . é agora. mais normal que fosse ela a falar em primeiro lugar. Daniel sorriu. Aquele ar evasivo era propositado. — Por que razão hoje e porquê tu? Teria sido. Pareceu me que havia um mal entendido muito grave entre vocês. e à noite é ela quem fala.— Disse. Era verdade. Foi ela quem falou.. Disse mais: «O que me diverte em si é que nunca sei para onde vou. Naturalmente. — Não tenho nada de diabo. diz me tudo.. talvez me tenha enganado. Bom. Começara a entender. encolhera os ombros. Ficar te ei muito grato se não lhe disseres nada da nossa conversa. Mathieu riu sem querer. Quando por vezes acreditara discernir uma sombra nos olhos dela.» Daniel continuou: — Vou dizer toda a verdade. E era isso que eu intitulava a minha confiança nela! Estraguei tudo. Mathieu baixou a cabeça. Para espicaçar a curiosidade. Mais uma comédia.. O que me levou a falar foi a inquietação real que se apossou de mim ontem.

perguntas de mais. há dois ou três anos. pensou Mathieu. Daniel continuou com um ar aborrecido: . entre outras coisas. — Sim. — Então? Ela tem me raiva porque lhe arranjei um filho? — Não. acreditava se nisso. — Estivemos sempre de acordo sobre o que se faria em semelhante circunstância. e o empregado desligou a rádio. — Bom. Isso não pode ser assim tão simples. Sem te referires a mim. — Está bem. Um empregado trouxe lhes os chapéus. espantado. — Que é que eu fiz? — Não o sei dizer exactamente. O dia pesado e borrascoso. — Ela tem medo da operação? — perguntou. que já tem opinião sobre as coisas e não me dá tempo para formar a minha. A julgar pelo que vi ontem. com um nó na garganta. meu caro. Saíram com um cumprimento amistoso para o barman. Parecia tão acabrunhada. Havia qualquer coisa de podre na sua vida.. Não sabia exactamente o que ia acabar mal. e se não estou de acordo devo protestar.» Não garanto a exactidão das palavras. Ela falou me disso com rancor. não é isso. Tentarei falar lhe. Não. não lhe perguntaste nada. — Mas não tinha nenhuma decisão a tomar — atalhou Mathieu. congratulavam se sorridentes. Mas isso é uma vantagem para ele.— E então? — Então há qualquer coisa que não está certo.» Naquele momento. E quando encararam pela última vez essa eventualidade? — Não sei. A sua vida. é talvez a maneira como me contou as coisas. E por causa da tua atitude de ontem. — Tem vontade de se casar comigo? Daniel pôs se a rir. — Não sei — disse Daniel com um ar distante. «Em Setembro temos a guerra. como se tivesses tido escrúpulos. Marcelle. a paz insípida e sinistra.. mas procuraste saber a opinião dela anteontem? — Não. O que ela me disse foi. a Europa.. Era qualquer coisa mais vaga e mais ampla. E não acreditas que ela tenha mudado de opinião? No fundo da sala os senhores distintos levantaram se. «Isto vai acabar mal». por certo. — Não sei. evidentemente. Houve um silêncio. Eembrou se dos cabelos ruivos de Brunet. isto: «Ele é quem resolve sempre.. Devias falar lhe à noite. — Dois ou três anos. ela dir te ia tudo. — Que é que te leva a dizer isso? — perguntou Mathieu. três feltros e um chapéu de coco. naquele Verão. no bar deserto e escuro. Estava convencido de que pensava como eu. aquela história de aborto. — Nada de especial.

a humildade ainda mais doce. ser defendida. uma só vez as lágrimas. Aliás. Marcelle a masculina. defendeu me».— Enfim. Eu não estava lá. Marcelle a dura. sentado no café. a doce piedade de si. a mulher frágil. com os olhos secos e vazios: vão matá lo. obrigado! — Desejas me mal? — De maneira nenhuma. acariciou me. preferia mil vezes que me odiasse. ruminando: "A Marcelle contava me tudo. a voz grave subia como fumo para o tecto do café. Marcelle a razoável. ela está lá na sua cabeça. Uma vez. o tremor dos lábios. ela teria detestado Daniel se fosse possível detestá lo. Pronto. é intolerável. com o olhar fixo no chão como se alguma coisa se tivesse partido. querido Arcanjo!» Pensou: «Arcanjo» e os seus olhos encheram se de lágrimas. o Arcanjo emprestou à minha causa a sua voz soberba. de braços abertos como se tivesse deixado cair qualquer coisa. é tudo. pobre Mathieu. Meu Deus.. não devíamos. J E A N P AUL SARTRE Daniel riu com vontade. porquê resistir. mas ele está lá. e a carícia em sulco sinuoso no rosto. «eu não devia. perdoada. Uma mulher. com a mão sobre o auscultador. a voz sairá dali.. sobre as minhas nádegas. durante oito dias ela fora para ele Marcelle a decidida. a bela voz grave que faz sempre vibrar o auscultador do telefone. ele diz que sou um homem e agora a água. com o espanto a oprimir Ihe e esta vozinha na cabeça: «Marcelle dizia me sempre tudo!" Ela está lá. fraca e defendida no mundo dos homens e dos vivos por uma voz sombria e quente. lágrimas de abundância e fertilidade. foi o único a preocupar se comigo. Abriu a iboca mostrando os dentes brilhantes e o fundo da garganta. que irá ela dizer? Estou nua. lágrimas de verdadeira DADE DA RAZÃO mulher.». é tão . e a voz virá e dirá: já está. a conversa já se deu. Ele pensa.. de doce mulher defendida. os remorsos." Ah! Ele pensa nisso. a lágrima trémula dos olhos. e essa voz sairá toda vestida da placa branca. Eu avisei te. é mesmo o tipo de ser yiço que podes fazer: cai nos na cabeça como uma telha. não soube nada. dirá: "Marcelle dizia me tudo".. de joelhos. tenho vontade de abraçar Mathieu e de lhe pedir perdão. ao menos uma vez. a voz virá de lá. «Ele abraçou me. Sabe agora. mas foi generoso. ela esteve. tão bom. Durante oito dias ela olhara ao longe um ponto fixo. aquelas mãos de veludo sobre as minhas ancas. as palavras foram ditas e eu nada sei. Pobre Mathieu. amanhã serei dura e razoável. após oito dias tórridos. mas nós contávamos sempre tudo. pensava ela. tomou a minha causa a peito. meu Deus. doces lágrimas. neste momento. «Eu não devia. mas ela está. meu pobre querido. grávida. uma pobre mulher. — Bem sei. a chuva nos olhos.

— Está — disse ela —. Ah!. aceitarei tudo. «continuamos a mentir lhe. Ele sabe.» O telefone tocou sob os seus dedos. — Não — disse Marcelle. Daniel riu. espantado. não soube de nada. ah!. O coração batia lhe fortemente.bom!» Subitamente surgiu lhe uma ideia nítida.. — E você — insistia a voz terna — dormiu? — Eu? Mais ou menos. Era um belo riso de luxo. Marcelle sentiu se melhor. arquejante —. meu bom Mathieu. como reagiu ele? A — Foi tudo bem. querida Marcelle. — Efectivamente — Daniel parecia divertir se —. Crispou a mão sobre o auscultador. — Tudo? É verdade? — E verdade. — Bom dia — disse Marcelle. quem fala? J E A N P AUL SARTRE — É Marcelle. era insuportável e delicioso. chegará esta noite.. — Deixei a muito tarde ontem.. afinal. Mas espero que não tenha sabido. pensarei: ele sabe e como poderei suportar isso. «Esta noite. tranquilo e forte. pela primeira vez na vida fiz te sofrer. Tínhamos menosprezado Mathieu. . — Não tínhamos combinado isso? — Sim. ele saberá tudo. Não é verdade que o menosprezámos. A princípio não queria acreditar. — Ele deteve me às primeiras palavras — disse Daniel. o ácido correu Ihe nas veias. nós mentimos lhe». matarei a criança. e eu terei de fingir que ignoro que ele já o sabe. tenho vergonha. meu pobre Mathieu. — Correu tudo optimamente. Marcelle sentiu se invadida por amargos remorsos. é Daniel? — Sim — respondeu uma voz calma —. Madame Duffet deve ter ficado zangada. disse o exactamente nesses termos. — Deve ter lhe dito que dizíamos tudo um ao outro. sim.. — Dormiu hem? — A voz grave ecoava lhe no ventre. farei o que ele quiser. verei os seus olhos bons. tudo o que tu quiseres. minha querida Marcelle. pensou com desprezo. quando ele chegar. Melhor do que eu esperava. — Disse me que compreendia muito bem. mas a nossa sinceridade está envenenada.. dizemos lhe tudo. quando eu lhe puser os braços em volta do pescoço e o beijar. Estou um pouco enervada. que percebeu que havia qualquer coisa e que isso o atormentava todo o dia. — Não deve enervar se — disse ele. você disse que nos víamos? — Naturalmente — respondeu Daniel. — Bom dia. irei ver a velha.. Disse: — Não é verdade. — Você. Dormia a sono solto quando você saiu.

Marcelle. Promete ser delicioso.» Agora tudo está nas suas mãos. tinha perdido o tom harmonioso. — Oh! Daniel! Oh! Daniel! Tomou fôlego e acrescentou: — Você foi tão bom. — Amanhã. tenho ódio a mim próprio. e Daniel continuou: — Disse me que queria falar lhe hoje à noite. tenho tanta coisa a contar lhe e não posso falar sem lhe ver o rosto. Marcelle pôs o auscultador no descanso e passou o lenço pêlos olhos húmidos: «Arcanjo! Fugiu depressa para que eu não lhe agradecesse. Se vocês os dois estão com essas disposições. Houve um silêncio. depois fechou os olhos e enfiou a rosa na cabeleira escura: «Uma rosa nos meus cabelos.. e ria.» Abriu as pálpebras e olhou se no espelho.. Saiu cheio de remorsos. Pode ser amanhã? A voz pareceu lhe mais seca. Sobre a prateleira do lavatório havia três rosas vermelhas num copo. arranjou a cabeleira e sorriu para si própria cheia de confusão. Daniel. com o coração aberto.» Mas a voz voltara a ser grave e o telefone vibrava como um órgão. Com certeza que desejo muito vê la.. Marcelle seguiu a com o olhar. — Daniel! Mas o telefone tinha sido desligado. aça favor de esperar aqui — disse o homenzinho. Marcelle. crianças. não.» Aproximou se da janela e contemplou os transeuntes: mulheres. Ouviu novamente o riso profundo e sadio. Marcelle. tudo corre bem. tenho remorsos. quero vê lo o mais cedo possível. eu queria estar escondido no quarto para ver quando se encontrassem. Estou satisfeito por sua causa. — Está bem — disse Marcelle —. Marcelle pegou numa com hesitação.. seja desembaraçada hoje à noite. achas que ainda posso reparar o mal?» E tinha os olhos vermelhos. Ah!. sou um grande culpado. F. mas hei de arranjar tudo. — Acontece! Ele também.. Ele fará o que você quiser. — Até logo. — A sério. virou a timidamente entre os dedos. pareceu lhe que tinham um ar de felicidade.. querido Daniel.. Uma jovem senhora corria pelo meio da rua com o filho no braço. Riu de novo e Marcelle pensou com humilde gratidão: «Está a troçar de mim. — Oh! Daniel.— Daniel. . é mais fácil. telefone depressa. operários. Telefonarei.. interrompeu me logo às primeiras palavras e disse: «Pobre Marcelle. falava lhe arquejante. Ele não me deixou falar. foi. Oh! Daniel. Depois aproximou se do espelho e mirou se com espanto. Como ele gosta de si! — Oh! Daniel! — dizia Marcelle. «Espremer o abcesso.

Tinha os cabelos prateados. introduzira se entre os verdadeiros pobres e era o dinheiro deles que ia buscar. Esperamo los com impaciência. minha senhora. ele pegou lhes. — Já estive aqui — disse a mulher —. devolvendo os. até ao banco. — Senhor? — Delarue. Usava uma gravata verde escura. é para isso que estamos aqui. em que ela se sentou. Não era feia. A jovem mulher deitou uma olhadela hostil a Mathieu e pôs se a brincar com o fecho da bolsa.. Não era o mesmo dinheiro. O senhor apoiou os cotovelos na mesa e juntou as belas mãos brancas.. Tocaram. Está um bocado atrapalhada. encolhendo as pernas. vamos arranjar tudo. cuja severidade era discretamente aliviada por uma pérola. de bigode branco. A porta envidraçada abriu se e surgiu um senhor alto. O homenzinho olhava a com J E A N P AUL SARTRE cobiça. Baixou a cabeça e olhou o chão entre os pés. depois afastou se. — Sim. cuidadosamente penteados para trás. para ter mais luz e examinou os demoradamente: — Muito bem — disse. À esquerda via se uma luz fraca através de uma porta envidraçada. chegou à porta envidraçada. Contemplou a pensativo e sorridente durante uns instantes. os olhos azul claros projectavam se ligeiramente para fora do rosto. — Muito bem. Mathieu não estava à vontade. — Deseja recorrer aos nossos serviços? — perguntou paternalmente. um dinheiro cinzento e triste. — Desejo. e o homenzinho foi abrir. não. não é? A jovem mulher corou e o homenzinho esfregou as mãos: — Pois bem — disse —. Era uma sala escura que tresandava a couve. Acompanhou a. O senhor apontou lhe amavelmente uma poltrona de couro já gasto e sentaram se ambos. obsequioso. Viu as notas sedosas e perfumadas na maleta de Lola. com certeza. Mathieu acompanhou o ao escritório. desorganizam as finanças.Mathieu sentou se num banco. . O homenzinho falava lhe muito junto ao rosto. minha senhora. Ela tirou dois ou três papéis cuidadosamente dobrados. A Examinou o rosto de Mathieu. que cheirava a couve. é para um empréstimo. Uma mulher jovem entrou vestida com uma decência miserável. — Faz favor de se sentar. — É funcionária? — Eu. Dois filhos? Parece tão nova. Meu marido. mas tinha uma expressão dura e perseguida. vamos arranjar tudo. não é verdade? Mas quando chegam. Pôs se a procurar na bolsa.

Mathieu entregou lhe os documentos. J E A N P AUL SARTRE — Está bem. cartão de eleitor.» — Conhece as nossas condições? Emprestamos por seis meses.. os universitários são todos iguais. O senhor tirou da gaveta duas folhas impressas. passaporte. — Nascido em Paris. a morada. — Ah! — disse —. — Muito bem. aprende se a desconfiar. Mathieu escreveu. um pouco gorda. Tinha de indicar a idade. Vamos então às formalidades da praxe. Bem. Pensou: «Não imaginava que fosse tão fácil. — Muito bem. Mathieu estava agradavelmente surpreendido. examinou os distraidamente.. No Liceu Buffon. quem nos prova que os seus documentos não são falsos? (Sorriu tristemente.. é tudo por agora. 1905. pai e mãe franceses..) Quando se lida com dinheiro.. O senhor tomou os.. mas não temos o direito de ser confiantes. Era um formulário de pedido de empréstimo em duplicado. — Professor. porque temos despesas enormes e corremos sérios riscos. — Quer ter a bondade de preencher estes formulários? Assine em baixo. Note que neste caso particular não ponho em dúvida a sua palavra. Mas. Somos obrigados a exigir vinte cento de juros. Na entrega dos sete mil francos exigiremos um recibo selado. É um sentimento miserável. — Temos muito prazer em auxiliar os universitários. o estado civil. — Sou funcionário — disse Mathieu. necessitamos de quinze dias pelo menos para as informações! — Que informações? Já viu os meus documentos. está bem — atalhou Mathieu. — Muito bem — disse o senhor percorrendo as folhas. — Ah! Ah! — disse o senhor com interesse. O senhor considerou Mathieu com uma indulgência divertida. Em primeiro lugar vou pedir lhe um documento de identidade. caderneta militar. — Agora? Mas. — Na entrega do dinheiro? Não pode entregá lo agora? O senhor pareceu muito surpreendido. como as mãos. Um qualquer. O selo é por sua conta. de um modo geral. Todos idealistas.. E qual é o montante da soma de que vai precisar? — Seis mil francos — disse Mathieu.— Não ignora que os estatutos da nossa sociedade estabelecem um serviço de empréstimo destinado exclusivamente aos funcionários? A voz era bela e branca. concordo. Ele reflectiu um pduco e disse: — Ponhamos sete mil. É professor do liceu? — Sou. reconhecendo a dívida.. meu caro professor. possibilidade de adiamento. . Por isso faremos o nosso pequeno inquérito.

— Preciso do dinheiro para hoje à noite ou o mais tardar amanhã de manhã cedo é uma necessidade urgente. como são as administrações. — Foi uma decisão repentina. — Lamento — disse friamente o senhor. — Ao seu serviço — respondeu o senhor. Duvido muito que possa contar com o nosso auxílio antes de 5 de Julho. Mas agora Mathieu tinha sempre a impressão de estar enterrado. Cobramos os juros normais. Porém. — Pois é — disse o senhor amavelmente —. inclinando se. com um juro mais elevado? O senhor mostrou se escandalizado. Ergueu as belas mãos e disse: — Não somos usurários. senhor — disse Mathieu. — É impossível — disse Mathieu. devia ter vindo antes. — Devo rasgar os formulários que acaba de preencher? Mathieu pensou em Sarah: «Seguramente deve ter obtido um prazo. meu caro professor! A nossa sociedade tem o apoio moral do Ministério das Obras Públicas. Lá fora uma luminosidade vegetal tremia no ar cinzento. Rua Huyghens. Só tinha esperança em Sarah. Mordia a luva com um olhar desvairado. procederemos com a máxima discrição.. minha senhora — disse o homem por trás de Mathieu. JEANPAUL SARTRE — Até à vista. entre nós. Mathieu atravessou a sala com grandes passadas. há de encontrar um amigo que lhe adiante o dinheiro por quinze dias.. «Mais um desastre». o senhor sabe. pensou. — Obrigado. Não se poderia. . Mas nada receie. — E muito prazer.dirigindo nos directamente ao Ministério. A morada está certa — disse apontando para o formulário —. Não leu os nossos avisos? — Não — disse Mathieu levantando se. Ergueu se e acompanhou Mathieu até à porta.» — Não rasgue — disse —. E uma instituição por assim dizer oficial. — Queira entrar. angustiado. — Pois bem. Entrou num café e pediu ficha ao balcão. Estava no Bulevar Sébastopol. nos primeiros dias de Julho mandar lhe emos uma convocatória. vou ver se me arranjo até à data da entrega. estabelecidos de acordo com as despesas e os riscos e não nos podemos prestar a nenhuma transacção desse género! Acrescentou com severidade: — Se tinha pressa. A jovem mulher ainda estava ali. número 12? — Está.

os telefones. Mathieu pagou e pôs se a olhar pêlos vidros. Pensava em Marcelle com um rancor melancólico.» O autocarro parou com uma travagem brusca. Fez sinal a um autocarro. a velha. — Ah! Que chatice. está. «Os judeus entendem se sempre bem». maltratava o. pelo menos acaba. livre. a velha tossia. Posso falar com Sarah? — Saiu. tossia na Rua Montorgueil. Era livre. «Caso. Só lhe restava esperar. tossia na Rua Réaumur. A sua vida já não dependia dele. — Está. Enquanto marcava o número pensou: «Oxalá tenha conseguido.» Via surgirem um por um os pesados edifícios sombrios da Rua dos Saints Pères. fazia o virar à direita e à esquerda. — É Weysmuller. desesperado. É cara ou coroa. via a sua vida desfilar. tinha escolhido a sua perdição. é através de mim que há de acontecer. «E se o judeu não for nisso?» Mas esse pensamento não o chegou a arrancar do seu torpor. desamparado. A velha não tirava o nariz do lenço e tossia. oxalá tenha conseguido. Desligou e saiu. — Daqui é Mathieu Delarue. com liberdade de ser um animal ou uma máquina. a minha vida é apenas um destino. J E A N P AUL SARTRE . «O assunto vai ser resolvido. ao banco. Diga lhe apenas que telefonei. sacudia o. «Tanto faz. Não sabe quando volta? — Não. para tudo. Os vidros tremiam. Mathieu endireitou se e olhou angustiado as costas do motorista. tossia no Pont Neuf.— No fundo e à direita.» Ainda que se deixasse levar.» — Denfert Rochereau! — Três bilhetes — disse o cobrador. Sarah? — Está — disse uma voz. não caso: já não tenho nada com isso. Já não passava de um saco de carvão empilhado com outros sacos no fundo de um camião. Tossia na esquina da Rua dês Ours com o Bulevar Sébastopol. Pensava: «A minha vida já não me pertence. eu digo lhe hoje à noite que caso com ela. Mathieu. tudo era transportado pela enorme máquina. estava nas mãos de Sarah. as flores. pensou. subiu e sentou se junto de uma velha que tossia no lenço. era embalado pela rapidez da sua vida. O que quer que aconteça. mesmo que se deixasse transportar como um saco de carvão. Quer deixar algum recado? — Não.» O autocarro enorme e infantil transportava o. por cima das águas calmas e escuras. não é cara ou coroa. Pensou: «Não. os acontecimentos batiam de encontro aos vidros. O chapéu. Toda a sua liberdade acabava de retroceder sobre ele.» Era quase uma prece. as flores dançavam lhe no chapéu de palha.

«Reprovada.» Enfiou a carta no bolso.» — É um aluno meu que ficou reprovado nos exames. — Não sei se os tenho — disse a porteira. Mathieu chamou o: — Lar dos Estudantes. Mathieu pegou na carta. Rua Saint Jacques. que se há de fazer! Leu pela quarta vez a carta. rasgou o sobrescrito. esperavam sem um sinal. Ivich. só e livre. Ivich. Impressionava se com a grandiloquência inquietante. via continuamente uma maleta aberta.. Inconsciente. No mesmo instante os muros que o cercavam desmoronaram se e pareceu lhe que mudava de mundo. Saiu: «Onde estará ela?» Tinha a cabeça vazia e as mãos trémulas.. Só havia para ele Bem e Mal se os inventasse. «Devia ter roubado. — Imagine! Toda essa gente que estuda. casar.. — Madame Garinet. — Bem. condenado a decidir se sem apelo possível. de se arrastar durante anos com aquela cadeia aos pés. Obrigado. É claro como a água. Podia fazer o que quisesse.. de recusar. e. Um táxi parou. no fundo de um quarto escuro. notas perfumadas e sedosas. — Bem. sem auxílio nem desculpa. Há quatro horas que anda por aí pelas ruas de Paris. Em volta dele as coisas tinham se agrupado. .. sem a menor sugestão. 173. — Não. está prestes a fazer uma asneira. — Só tenho cem. é que o senhor ficou tão assustado. Mexeu na gaveta da mesa de costura. — Muito mais. condenado à liberdade para sempre. empreste me cinquenta francos — pediu à porteira. «Seis horas.de aceitar. Estava só no meio de um silêncio monstruoso. deve estar a fazer alguma asneira. Mathieu levantou se e desceu. desaparecer. Soube do resultado às duas horas. Enfiou pela Rua Froi devaux. Estava cansado e nervoso. inconsciente. de hesitar. «Reprovada. — Ah! E que estão cada vez mais difíceis. depressa.» — São más notícias? — perguntou a porteira.» — Que horas são? — Seis horas. Inconsciente. ninguém tinha o direito de aconselhá lo. segundo me disseram. admirada. Havia três palavras no meio da página. — Está bem — disse o motorista. Era como um remorso.» — Uma carta para o senhor — disse a porteira. na maleta. — Denfert Rochereau — gritou o cobrador. Que é que se lhes há de fazer? J A IDADE DA RAZÃO — Pois é. Uma letra grande e inclinada: «Reprovada. dá me depois o troco.. Ficam com diplomas.

— Desculpe — disse Mathieu. A No Capoulade viu um estudante chinês que a conhecia. Ivich não estava no Biarritz. à esquerda. — Ali. devia estar bêbeda. sentado num banco do bar.» Mathieu tirou a carta do bolso e examinou o sobrescrito. Se o encontrar. Mathieu subiu novamente para o automóvel.. O estudante tomava uma dose de vinho do Porto. estava na caixa. — Vou ver — respondeu. Passados instantes bateu no vidro.. indeciso. O táxi parou.. — A Menina Ivich Serguine está? A mulher olhou o. preciso de entrar em todos os cafés. — Hotel de Pologne. albino. não veio dormir. Reconheceu Mathieu e sorriu. nem no Palais du Café. desde o cais. — Está bem. — Aonde vamos? — perguntou o motorista. pode dar lhe o recado. Voltou logo. «Onde estaria? No cinema? Pouco provável. Nas ruas? Em todo o caso não tinha ainda deixado Paris. mas isso não queria dizer nada. pois teria passado antes pelo Lar para levar a bagagem. — E a irmã. quer que ele vá vê la imediatamente quando chegar. A Senhora Montero é que telefonou duas vezes para falar com o Senhor Boris. mas de repente percebeu: «Para me mandar aquilo. — Parece me que conhece a Serguine. nem no Harcourt. Mathieu desceu e tocou à campainha. Falava com dificuldade. uma rapariga loura. nem no Source. — A Menina Serguine não voltou desde esta manhã. gordo. Tinha sido enviada da agência da Rua Cujas. não veio. — Não voltou. na pior. — O Senhor Serguine está? O empregado.» — Ouça — disse —. Saltou e empurrou a porta. — Aconteceu lhe alguma desgraça? . Rua Sonimerard. ando à procura de alguém. E estou com quatro horas de atraso!» Estava dobrado para a frente e apoiava fortemente o pé sobre o tapete para acelerar. Mathieu olhou o. Saiu. Não a viu hoje? — Não — disse o chinês. nem no Biard.. com desconfiança. Tem algum recado para ela? J E A N P AUL SARTRE — Não.«Onde estará ela? Na melhor da hipóteses terá partido para Laon. Correu. vamos subir devagar o Bulevar Saint Michel. não passou por aqui? — A Menina Ivich? Não.

fica a dois passos. dançava. Estava com uma gente muito esquisita. — Bom dia.— Como diz? — Estou a perguntar ao senhor se lhe aconteceu alguma desgraça. — Pare! Pare! Saltou do táxi e correu para ela. o dancing é na cave. — Rua Monsieur le Prince. E uma casa de discos. enfiou as nos bolsos. Ao Tarantule. a amiga italiana de Ivich. As mãos tremiam lhe. Espere um momento. Devagar. O táxi deu a volta à Fonte Médicis. «Oxalá ainda lá esteja. sim. Nem sequer pensava em proteger Ivich. também me esqueci de lhe dizer adeus. voltando lhe as costas. — Na cave. — Viu Ivich? Renata tomou um ar digno. empurrou uma porta de couro e recebeu um golpe no estômago. — Quando? — Há uma hora mais ou menos. — Bom dia — disse. — Adeus. Mathieu desceu. Subiu para o táxi. eu aviso. a desgraçada? — Sei. Ivich estava ali. — Não sei — disse lhe Mathieu. Saía do Luxemburgo com uma pasta debaixo do braço. «E se ela tivesse tentado suicidar se? É muito capaz disso». sentia apenas uma necessidade dolorosa e violenta de a tornar a ver. — Obrigado. — Onde? J E A N P AUL SARTRE — No Luxemburgo. Sabe que ela reprovou.» . — Onde é isso? — Rua Monsieur le Prince. Viu Ivich? — Ivich? Vi. É aqui. Desça a escada. Mathieu voltou para o táxi. — O dancing? — perguntou. Mas afinal talvez estivesse simplesmente em Montparnasse.» — Pare. senão terei de correr todos os chás dançantes do Quartier Latin. depois voltou: — Desculpe. Encostou se à ombreira da porta e pensou: «Ela está aqui. sentiu um cheiro a mofo. Deu alguns passos. e Mathieu viu Renata. — Carrefour Vavin — disse. Para onde é que ela foi? — Queriam ir ao dancing. Entrou na casa de discos. creio. pensou com fúria.

Nas paredes tinham pregado papéis multicores que tinham forma de plantas exóticas e os quais já se estavam a despregar sob a acção da humidade. ameaçou. com o olhar parado. segurando a pela cintura. Era. sem uma sombra. enquanto ele lhe sussurrava ao ouvido. muito pálida. Ivich apoiava a cabeça no ombro do seu par e colava se a ele. pensativa: — Olé! Ivich deixou se cair numa cadeira entre a rapariga e um lourinho de barba. Mathieu reconheceu o. Ele dançava bem. — Desculpe — disse o de barbas com dignidade —. pesada e mole. Beijarei Irma. tinha um ar esquisito.Era uma sala vazia. Acendeu um cigarro e disse. vem. Mathieu sentiu se humilhado. nada de álibis! O de barbas levantou se atenciosamente para dar lugar ao dançarino moreno. aliás. «Fantástico». ao mesmo tempo empertigado e familiar. Estava de pé. Os cactos estavam inchados como bolhas. o único à vontade. Para aquele rapaz elegante. de olhos fechados. Ele respirava os cabelos de Ivich e de quando em quando beijava os. Estavam sós no meio da sala. escandalizados. Ria como uma louca. Mathieu viu umas quinze mesas espalhadas sob a luz morta. — Foge porque eu prometi beijá lo — disse a sorrir. Os estudantes rodearam na e fizeram lhe uma festa. Um gira discos invisível difundia um paso doble e essa música em conserva tornava a sala ainda mais nua. não — dizia agitando a mão diante do rosto —. Envolviam na à distância com gestos redondos e ternos. — E puxou a pelo braço. No fundo quatro rapazes e uma rapariga muito pintada batiam palmas e gritavam «Olé!» O tipo alto e moreno reconduziu Ivich à mesa deles. — Quer beijar me. autoritária. O belo moreno olhava a firamente com um leve sorriso. não prometeu. Os outros afastaram se. «reconhecem lhe o direito de se sentar ao lado dela». Uma luz coada saía dos lustres de papel oleoso. — Pois bem. Ivich? — disse a rapariga. Ivich não passava de . — Não. O belo moreno parecia achar a coisa muito natural. Ivich apontou o de barbas. — Quero. pensou Mathieu. não te beijarei. Ela afastava então a cabeça e ria. no Bulevar Saint Michel. Era o jovem moreno e alto que estava com Ivich na véspera. Esperava. A rapariga pintada mostrava se reservada. Alguém disse: «Ivich!» com uma voz docemente reprovadora. surpreendida e lisonjeada.

— Conservaste o teu — disse Ivich. — Isso é verdade — afirmou Ivich desgostosa —. — Olha.. A Ivich ergueu se subitamente e olhou Mathieu com um ar sombrio.. Tomou a pêlos ombros e conduziu a. Mathieu sacudiu se bruscamente e avançou para Ivich. — E verdade que és prudente. quisemos até impedi la. — Menos eu. Finalmente agarrara lhe no rosto entre as mãos e beijara a na boca. Mas ela ergueu a mão esquerda e apontou o. Tinha as pernas moles. Mathieu viu uma crosta avermelhada com pequenos pontos brancos de pus. já estava nua diante dele. menos eu. Ivich voltou se para ele e disse: — Menos este. que é um pulha. Ivich fizera mil trejeitos antes de beijar a rapariga. Mathieu colocou se diante da mesa. — Onde está ele? .uma presa. Não se debatera. — Ivich! Ela sacudiu os caracóis. Ivich — disse o dançarino —. — Cheiras a borracha — disse com asco. — Quero sentar me aqui. Os rapazes entreolharam se. — Ivich! Ela olhou o. ele adivinhava lhe os seios. Mas repeliu a violentamente.. — Leve me daqui. não a fizemos beber.. o cheiro da carne. — Venha — disse Mathieu docemente... Mathieu agarrou a pela cintura e empurrou a. contente. Percebera pela primeira vez que a desejava vergonhosamente através do desejo de outro. estou a achincalhar me. de boca aberta. — É um demónio. Ivich tornou se pesada. Ivich. — Quer voltar para casa? — propôs Mathieu. Na rua largou a. Ela pôs se a rir e levantou a saia acima do joelho. — Quero sentar me aqui. — Ela arrancou o contra a nossa vontade — desculpou se a rapariga. Ela pestanejou e olhou em volta. decepcionada. Olhava a com ar cúmplice. as coxas. — Quer ir para a casa de Boris? — Ele não está em casa. são uns verdadeiros pajens. melancólica. Ouviu atrás dele um ruído de consternação. — Eu peco lhe. Arrancara o curativo. — Sabe — disse o de barbas —. — Não — gritou Ivich. — Es tu — disse. ele despia a com um olhar sensual de amador. e ele ficou a duvidar que o tivesse reconhecido. No meio da escada.

tirou o cachimbo. Ela olhava o com uma expressão neutra. fui reprovada. — Vou mandar parar numa farmácia. Mathieu conduziu a devagar pela escada. estenda se e feche os olhos. Subiu com dificuldade para o automóvel e atirou se para cima da almofada. Ivich disse subitamente: — Como me encontrou? Mathieu inclinou se para enfiar a chave na fechadura. Ivich tornou a encostar se na almofada e Mathieu guardou o cachimbo. — Ivich! — Tudo. Mathieu viu as costas magras sacudidas pêlos vómitos. — Levo a para a minha casa — explicou. Só mais um andar.. Subiram em silêncio. — Não — disse violentamente.— Sei lá. tinha medo de que a porta se abrisse. Um cheiro azedo de vómito exalava da sua boca tão pura. sombria. E. 12. — Cada degrau é uma pancada — disse ela.. encheu o e fingiu estar absorto. — Chegámos — avisou. Levou a até ao táxi. Ivich não protestou. — Agora lembro me de tudo. Mathieu reflectiu. — Eu estava à sua procura e encontrei Renata. — Estou doente. Ivich resmungou . Você é que deve saber. — Poderá deitar se no sofá e eu farei um pouco de chá. Mathieu encostou se para trás. Andei com aquela gente imunda. No segundo patamar parou para tomar fôlego. Ivich gemeu um pouco. — Para onde quer ir? — Sei lá. Mathieu respirou apaixonadamente esse cheiro. — Rua Huyghens. — Mas a cabeça dói me. — Bem — disse. já que me trouxe de lá. — Está melhor? — Já não estou embriagada — disse Ivich. — Não se sente bem? Estava lívida. Estendeu o braço e segurou o trinco. chegaremos num instante. Mathieu desceu primeiro e deu lhe a mão para a ajudar. hostil. \ mas ela recusou e saltou com vivacidade para o passeio. dei um espectáculo. — Então. De repente ficou verde e pendurou se na janela. Ele pagou ao motorista apressadamente e voltou se para ela. Depois de um instante a tosse cessou. Ivich ergueu se com dificuldade. — Tenho vergonha — disse. — Venha.

dir se ia uma maldição pregada no horizonte. Mathieu pegou numa chaleira eléctrica e foi enchê la na torneira do lavatório. mas bem apertado talvez se arranjasse ainda uma gota. ela sorria. nem um matiz especial dos seus sentimentos.atrás dele: — Estava à espera que viesse. embrutecer se ia lá. Pô lo em cima de uma bandeja com duas chávenas e voltou ao quarto. — Mas você não sabe fazer chá. «Como é jovem». Deite se. pensou que amava Ivich e admirou se: não parecia amor. — Vou fazer chá — disse Mathieu —. Ivich deu alguns passos incertos e entrou no quarto. A água pôs se a chiar na chaleira. e Ivich abriu os olhos. Olhou as poltronas de couro verde e a mesa de trabalho. — É a sua casa? —É. E Mathieu não podia auxiliá la. precisava antes de auxílio. Mathieu puxou uma cadeira junto do sofá e sentou se sem ruído. Depois voltou e sentou se junto de Ivich. Dormia. Olhou em volta com um olhar morto. Viu as nos olhos de Ivich e teve vergonha. Ivich partiria para Laon. Endireitou os cabelos com a palma da mão e ergueu se . No armário descobriu metade um limão já seco. Era a primeira vez que a recebia no seu apartamento. — Quer chá? Ela não respondeu. Ivich fechou os olhos e pousou a cabeça na almofada. Pusera toda a sua esperança numa criança. passariam um Inverno ou dois e surgiria um tipo — um jovem — que a levaria consigo. Três pequenas rugas verticais sulcavam Ihe a fronte. «Eu casarei com Marcelle. Ivich atirou se para o sofá sem dizer uma palavra. Olhava com ternura o corpinho doente e maculado que permanecia tão nobre no sono. Ivich não respondeu. — Pus água a ferver — disse. quer? — Chá? — indagou Ivich. J E A N P AUL SARTRE — Quer chá? — Estou com frio. Ela roçou o ao passar e ele teve de apertá la nos braços. Sofria. A fronte estava lisa e pura. As três rugas tinham desaparecido. não podia auxiliar ninguém. — Aí está o sofá. uma promessa de desgraça. pensou. não era uma emoção específica. afastando se. — Entre — disse Mathieu. Mathieu foi buscar uma coberta e estendeu a sobre as pernas dela. perplexa.» Mathieu levantou se e foi devagarinho ver se a água estava a ferver. Era tão fraca e tão leve sobre o sofá.

do ano!. tanto pior. — Obrigada. — Então — disse —. encantada. se vier alguém. Pôs a água no bule e voltou a sentar se. — Como é suave. é como se o dia tivesse terminado. Não poderia fechar as cortinas? Acenderíamos a lâmpada pequena. Pensou com rancor: «Que espere. mas calmo. — Não era verdade. — Só tenho uma chaleira — respondeu Mathieu. — E o bule? — É verdade. chá de Ceilão! Enfim. Depois disse. Estou inteiramente livre.esfregando os olhos. Passou a ocupar se da chaleira. Mathieu olhava a cabeça baixa de Ivich e os seus ombros frágeis. você mesma? Ivich baixou a cabeça: — Tenho. Parecia lhe que ela o abandonava aos poucos. — Como queira. — Depois de uma ligeira pausa. — E noite — disse Ivich. Encostou se às almofadas do sofá. Mathieu levantou se.. tenho medo de voltar a ver o dia. vou fazer chá à moda russa. Telegrafou aos seus pais? — Não. entregando lhe o pacote de chá. é a sua última noite do ano? — Ah! — respondeu ela irónica —. porém mais animada. — Não — atalhou Ivich. Marcelle esperava o às onze horas. Calaram se. podemos sair. Estou contente aqui. acrescentou: — Quero J E A N P AUL SARTRE que seja noite quando sair. Não espero ninguém. Boris queria. Todos esses cafés giravam em torno de mim. Se estiver melhor. — Ir aonde? Não. Detesto as despedidas moles que se esticam corno borracha. — Oh!. — Ficará aqui quanto tempo quiser. — E preciso esperar um pouco — disse. deixaremos que toque. — Já o sabia. Estava ainda sombria. — Dê me o pacote do chá — disse —. . — Então tem de lhes comunicar. mas não deixei. Há um comboio ao meio dia. — Não gosto do seu apartamento. Mas preciso de um samovar. Mathieu ficou um momento sem falar. Houve um silêncio. E depois aquela gente toda! Um pesadelo! Aqui é feio. Foi buscar o bule à cozinha. — Detesto isso. Aliás. E depois estarei exausta. Acendeu a lâmpada da secretária. fechou as persianas e as cortinas pesadas. controlando a voz: — Eu acompanhá la ei à estação.» — Quando parte? — Amanhã.. não abriremos.

você vai partir amanhã. Ouça. e Mathieu acrescentou: — Terei algum dinheiro. — Não diga isso — atalhou Mathieu.— Ivich. Interrompeu se.. surpreendida e cansada. não deve. Voltou se para ela e murmurou sem a olhar: — Ouça. — Detesto! Mathieu levantou se para ir buscar o bule e as chávenas.. Eu arranjarei dinheiro. — Não.. Será pior. Ivich encolheu os ombros. mas um dia terei de ir. não sei como estou a olhar. — Não. Baixou os olhos e continuou: — Quero ir dormir. — Não quero. se me permitisse auxiliá la.. o que mereço. durante as férias eu farei economias. Isso não pode aborrecê la. aliás. aborrecida. — Não pensarão em castigar. sairei simplesmente da cabeça deles. Daqui até lá hei de me arranjar. Mathieu atreveu se a erguer os olhos para ela. será um empréstimo. não é absolutamente impossível.. — Pois bem. você viverá em Paris. A — Não os conhece. Não diga que não. de modo nenhum — disse Mathieu com calor —.. Você detesta Laon. é isso? Observou secamente: — Totalmente impossível. já lhe disse que sou incapaz de aprender um ofício. Ivich! — Ah!. Odette e Jacques convidam me sempre para passar o mês de Agosto em Juan les Pins e eu nunca aceitei.. isso divertir me á e eu farei economias. Ivich não parecia compreender. — Não me olhe assim. — Ivich. você há de voltar.. só sei que estou com dor de cabeça — disse Ivich. — Ah!. J E A N P AUL SARTRE — Não. — Mas não tem nada que arranjar. se quisesse. Não recuse sem saber. alarmado. mas dou lhe a minha palavra que voltará. Subitamente o sangue subiu lhe ao rosto.. você . É. Irei visitá la a Laon. Pois irei este ano.. \ — Há um novo exame em Novembro. — Não se deve resignar dessa maneira. Ivich. Tudo o que toca Laon fica sujo. sem pensar. Não sou capaz de aprender um ofício e prefiro passar o resto vida em Laon do que voltar a fazer esse exame. ouça. Mas não é possível que lhe estraguem a vida para a castigar por ter fracassado uma vez. mas não se sentia tranquilo. — Há de se arranjar? — indagou Ivich. os seus pais não podem. Vão desinteressar se de mim. Ivich afundara se no sofá e olhava por baixo com uma expressão má. Em fins de Outubro. se você. Como encontrar palavras que não a ferissem? — Não é o que queria dizer.

Mathieu perdeu a paciência. contanto que o tenha. Ivich não respondeu. um bocadinho da nuca entre os caracóis J E A N P AUL SARTRE e a gola da blusa.. — Não foi isto que disse? — Não quero que me dê dinheiro. e Mathieu acrescentou vivamente: — Ou então paga me Boris. A nuca era mais escura do que a pele do rosto. sem erguer a cabeça: — Não quero o seu dinheiro. Ivich alterou se: — Deixe me! Deixe me! Acrescentou em voz baixa e rouca: — Que suplício não ser rica! Em que situações abjectas uma pessoa se mete! — Não a compreendo — disse Mathieu. — Ah!. Darei lições. vai dizer me porque é que não aceita. Teve vontade de lhe pegar no queixo e erguer lhe a cabeça à força. corrigirei provas. mudando de tom todas às vezes. Mathieu permanecia em frente dela. porque é que não aceita? Ela murmurou finalmente. Pensava: «Ela vai aceitar. Mathieu via lhe apenas o alto da cabeça. então é porque sou um homem — disse com um riso nervoso. Ivich fez um gesto.» — Ivich. Pense na existência que terá em Laon. — E tem motivos para aceitar o deles? — Não quero que sejam generosos comigo. — Porque é que não aceita? Diga. . que orgulho é esse? Não tem o direito de desperdiçar a sua vida por uma questão de dignidade. — Ivich.há de reembolsar me quando ganhar a sua vida. Vai arrepender se de ter recusado. há de lamentá lo todos os dias. não é. aborrecido e infeliz. — Ivich. A Era possível vencer Ivich pelo cansaço. todas as horas. Você dizia: «Não me importa de onde venha. — Que é que está a dizer? Olhara o com um ódio frio. — Disse me no mês passado que o dinheiro era uma coisa aviltante com a qual as pessoas não se deviam preocupar. — Ivich! Ela continuava calada. responda. Com os meus pais não preciso de ser grata. Disse me mil vezes que os odiava. Porque não responde? Ivich continuava calada. Mathieu pôs se a andar de um lado para o outro.» Ivich encolheu os ombros. Enterrou o rosto nos cabelos. para isso era preciso espicaçá la com perguntas. com doçura. — Porquê? Não aceita o dos seus pais? — Não é a mesma coisa. não a largarei enquanto não aceitar.. — Efectivamente. — Não tenho motivos para aceitar o seu dinheiro.

Disse me que gostaria de estudar Filosofia. Ivich continuava com um ar aborrecido. — Não tenho pena de si. — Eu também — respondeu ela —.. Vamos toma lo. é por egoísmo que me ajudaria? — Puro egoísmo — disse Mathieu. Basta vivê lo.. Não se atreveu a olhá la. Mathieu respirou.. quer dizer que. Houve um silêncio.. — Oh!. Mathieu esforçou se por esconder a sua irritação. — Sinto o aqui. Nem sequer imagino. Depois.— É grosseiro.. sei que estarei lá amanhã à tarde.. — Então. — Tenho de lá ir — disse ela. Nunca pensei nisso. num tom estranho: — Quer.. porque quer dar me dinheiro? Mathieu hesitou e depois disse. Tenho que fazer a noite inteira.. — Eu hei de escrever lhe — disse Mathieu. — Vai descrever me a casa. Mas foi apenas um . Que importa. com a boca entreaberta.... o quarto. — Porque deseja fazer me bem? Nunca lhe fiz bem. se não são eles que pagam? Baixou a cabeça com um ar sombrio. — Mas se voltar. mas não sei o que lhe hei de dizer. Digo não. Ao passo que Laon. — O chá deve estar pronto. — Qualquer coisa. tenho vontade de a ver. pareceu acalmar se.. digo sim. secamente —. Levantou se. Mas tenho de fazer as malas. e Ivich perguntou. — disse ela — isso é uma utopia. — Não gostaria de falar nisso.. subitamente.. desviando o olhar: — Não posso suportar a ideia de não a voltar a ver. Estava escuro como café. é tudo. Mathieu pensou nas cartinhas secas de Boris a Lola. Que o dinheiro venha de um lado ou de outro. — Então.. e pouco me importa. há de morar onde quiser e fazer o que lhe agradar. Tocou na garganta com o dedo. Ela olhava o arqueando as sobrancelhas. Sempre fui insuportável para consigo e agora você tem pena de mini... Está tão longe. Encheu as chávenas.. — Nesse caso isso é consigo. Podem ou não acreditar... pois poderá tentar. — Que vai dizer aos seus pais? — perguntou para a comprometer ainda mais. Afinal tem razão. Quero poder imaginá la em Laon. «Pronto!» Mas não estava ainda sossegado. mas não chego a acreditar. Eu e Boris ajudá la emos. — Então? Pense nisto: pela primeira vez na sua vida seria totalmente livre. talvez — murmurou com indiferença.

— Talvez seja importante. O ministro disse me que me tinha telefonado e eu vim. Mathieu colocou se diante de Sarah e olhou a fixamente. é Ivich Serguine. Os olhos pareciam inundados de bondade. os cabelos despenteados e a sua expressão de bondade doentia. — Como está magrinha — disse Sarah.. não posso. arquejante. Era Sarah. Sarah empurrou o amavelmente e espreitou por cima do ombro de Mathieu. Olhou as mãos de Ivich.. — Bom dia — falou ela. Voltou se para Mathieu. cheirava a catástrofe. — Meu pobre Mathieu. Não encontrei Waldmann. Como passou? Ivich levantou se e fez uma espécie de reverência. — Quem está aí? — perguntou corn uma curiosidade sôfrega. Venha tomar uma chávena de chá. más notícias para si. Sarah.. Nem sequer pus o chapéu. — Não quer que eu lhe fale de regime. — Abrimos. Não disse nada. — Cheguei tarde. J E A N P AUL SARTRE as unhas vermelhas e bicudas. No horrível tailleur verde. não. — Não tocaram? — indagou ela. não é razoável. espantado. Só às seis horas é que lhe pus a vista em cima. Pensava: «Tem horror de parecer minha cúmplice. preciso de ir à Livraria Espanhola. — Lá está Mathieu a fazer me olhinhos feios — disse.. Mathieu dirigiu se para a porta. obrigado. — Ah!. — Aposto que não come bem. — Não. os pulsos magros e pensou: «Vou tornar a vê la. Parecia decepcionada. — Quem? — perguntou Mathieu para ganhar tempo. Mathieu olhou a.instante. — E muito boa. Ele recusa. Mathieu pôs um dedo sobre os lábios. Ivich era a única pessoa que Sarah não suportava. Sarah também. — Ainda não sei. Há vinte dias que está em Paris e já se meteu numa quantidade de negócios escuros. Ela olhou Mathieu com ternura. chegou um amigo de Gomez. Esperava que Ivich não tivesse ouvido. Disseram me: um amigo de Gomez. . sabe. Sarah riu. alegre: — Falaremos disso mais tarde. Mathieu estremeceu. querem ver me urgentemente. Vem de Madrid. Acabavam de tocar a campainha. E Mathieu acrescentou.» — Que chá esquisito! — disse Ivich.» Abriu a porta. rindo com os dentes estragados. — Bom dia — disse com vivacidade —. Vá abrir. — Já dissemos que não íamos abrir. aliás. estou com. — O que me fez correr. sim — disse Ivich com voz clara.

fizeram nos sofrer de mais. mas Sarah queria justificar se. — Não se fala mais nisso. Estava triste. vou casar me com Marcelle. meneando a cabeça: — Que vai fazer? — Não sei. — Não tenho quase nada a dizer.» E é verdade. Insisti o mais que pude. Martirizaram nos. Explicou a Ivich. e sai como um golpe de vento. As palavras saíam com dificuldade. Mas Sarah não via nada.— Hem? Ainda assim. dos campos de concentração. que pague. Sarah continuava: — Disse ainda: «Nunca mais lhes fio. — Meu caro Mathieu — disse Sarah. desconcertada. Então disse: «Não dou crédito. acho que vai acabar assim. Ele olhou a duramente e ela calou se.. ele perguntou me se ela era judia. — Esta mulher é um vendaval — disse a rir. É preciso que a pessoa em questão esteja lá amanhã com o dinheiro. — Não vale a pena — disse tristemente. Falou me dos judeus de Viena. — Não sei porque me está a dizer isso — observou ela com uma voz gelada. Mathieu teve forças para dizer: — Deseja sem dúvida falar me particularmente? Franziu as sobrancelhas repetidas vezes. A Fez se silêncio. de cabeça baixa: — Ela disse me anteontem que está grávida. Continuou. Mathieu encolheu os . mas sabia que ela o olhava. derruba tudo. — Está bem. — Não pensa em. — Bem — disse ela ao fim de um momento —. Disse que não. Telefone amanhã sem falta. — Não tenho nada com isso. comovida. Não se atrevia a olhar para Ivich. — Bem — disse Mathieu. há muitos médicos em Paris. adeus Sarah. Se quer que eu opere. supliquei. — Adeus.. Eu não podia acreditar. no quarto. Quando Sarah saiu. — Penso — disse Mathieu tristemente —. Nada. Mathieu voltou a andar de um lado para o outro. J E A N P AUL SARTRE — Fiz o possível. Calou se e fez se um silêncio pesado. minha senhora — disse Ivich. vou me embora. Mathieu sabia que ela não responderia.. Acentuou as últimas palavras. E viu acender se lhe nos olhos algo que se assemelhava a um clarão de consciência. Foi sentar se ao lado dela e disse sem a olhar: — Ivich. eu compreendo o. Ivich não respondeu.. — Entra. Aliás. Mathieu contemplava as pesadas cortinas verdes. Estava com frio. quero saber.» Mathieu ouviu o sofá ranger.

. até breve — disse Mathieu. — Aliás... Tenho de fazer as malas — gemeu.. Hesitou e continuou como se estivesse distraída: — Não sei porque está tão abatido. — Bem percebi — continuou Ivich. Segundo me disseram. — Vê la ei em Outubro? Saíra lhe sem querer.. não tenho nada com isso. — Não me preocupo muito com essas coisas.ombros. Já compreendi. pois bem.. — De qualquer maneira vou me embora... Ela pusera se diante dele. há muitos meios de. — Procurei por toda a parte. Sentia uma raiva desesperada subir dentro dele.. quando se atreveu a tocar me. Nem tem o suficiente sequer para o casamento. — Não tenho dinheiro — disse Mathieu. sem dúvida. Depois riu se. Nunca pensei em aceitar o seu dinheiro. — É sórdido — disse Ivich com uma voz neutra. foi para isso. J E A N P AUL SARTRE — Não faz mal — disse Ivich levantando se. Não tinha vontade que ela ficasse. Se casa é porque quer. — Largue me! Não me toque. — Está escuro? Mathieu foi à janela e levantou as cortinas. — Ainda não. — Em Outubro? — disse ela com um olhar faiscante.. — Em Outubro! Ah! Não. pensei: «São modos de homem casado. Ivich gritou e desenvencilhou se violentamente. — Pois é.. Acabou de tomar o chá e perguntou: — Que horas são? — Nove menos um quarto. Uma luz suja filtrou se através das persianas. — Não precisa de insistir. — Mas sabia que ela. — Era sua amante? — disse Ivich com arrogância. — Foi por isso que encarregou Boris de pedir cinco mil francos a Lola? — Eu não. — Desculpe. arquejante.» — Chega! — disse Mathieu com dureza.. mas está com um ar tão cómico. vermelha de ódio e com um sorriso . Mathieu largou a. Você é que sabe o que deve fazer. Ivich teve um estremecimento violento. — Ontem de manhã. — Ivich! — gritou Mathieu pegando lhe no braço. — Então. — Até breve.

Ele teve medo de si próprio. uma mulher imóvel esperava o cheia de esperança. para sempre! Muitos atiram se à água por muito menos. Dentro de uma hora entraria escondido naquele quarto cor de rosa e deixar se ia envolver por aquela doce esperança. J E A N P AUL SARTRE Uma rua comprida e direita: atrás dele um quarto verde. esbarrou no passeio e caiu no chão. Depois deu uma gargalhada. Caíra sobre as mãos. pesado e quente./ L contornou a multidão lírica: a doçura crepuscular não era para ele. Tu ne sais pás aimer.insolente. naquele homem grave que quase chorava porque dera uma queda. — Cretino! Mathieu atirou se para a frente a fim de evitar o automóvel. M. Olhava se sem vergonha. e murmurou seriamente. Diante dele um quarto cor de rosa.» Deixou de rir. não havia razão para rir. olhando espantado. As palmas das mãos ardiam lhe. como se estivessem com frio. com alguns arranhões. Dentro em pouco a renda luminosa da noite estender se ia sobre Paris. Durante um segundo ficou suspenso. Para toda a vida. uma conscienciazinha cheia de ódio repelia o com toda a força.. Uma multidão desocupada agrupara se nas mesas da esplanada. «só faltava mais isto». a lama sujara lhe a ligadura. pareciam felizes e juntavam se ali. Recordava as antigas esperanças e ria porque tinham dado naquilo. As pessoas esperavam a noite ouvindo música. tu ne sais pás Jamais. ardores de raiva na gar DADE DA RAZÃO . O Café dos Três Mosqueteiros brilhava com todas as suas luzes na noite ainda indecisa. com arrepios. montra por montra. * XVI TH ne sais pás aimer. Precipitou se para a saída empurrando a e bateu com a porta atrás de si. com uma curiosidade divertida. Tinha vontade de chorar. Ria de si mesmo. depois de uns momentos. da vida. diante daqueles primeiros fogos vermelhos. café por café. tu ne sais pás En vain je tends lês bras. fria. das suas miseráveis paixões. molhou o com saliva e esfregou as mãos com uma espécie de ternura. por aquela gratidão. jamais tu ne sauras. O corpo volta a marchar arrastando os pés. A esquerda doía lhe. por aquele amor. Olhou com gravidade as mãos sujas de lama. Tirou o lenço. de Marcelle. Um vazio. de Ivich. da ridícula queda. — Que chatice! Levantou se. e pensava: «Dizer que me levava a sério. A direita estava preta. «Só faltava mais isto».

Elas calam se. flores peludas balançam. Lá longe aquela porta fechada. uma folhinha e um pequeno espelho já manchado de ferrugem. Entre as flores. «Cara de assassino». Tirou da carteira uma chave. abaixando se ligeiramente. Havia outrora um futuro de homem que se interpunha entre elas e que elas reflectiam num leque de tentações diversas. no fundo da fenda. com autos.» O mundo reformou se. Ralph continuava a olhá lo. Mas já ninguém o habita. aquilo que ainda há pouco as enchia desapareceu. mas o molho desfez se. além dessa hora não havia nada. uma transparência desliza e se contempla com uma paixão gelada. Entre eles não havia nada a não ser um monte de obstáculos e distância. e Ralph baixou os olhos vivamente. para além dos edifícios e das ruas. entre a fotografia de Marlene Dietrich e a de Robert Taylor. No espelho. todos os miúdos cantos de cigarra se dissiparam no ar. caem do céu como enormes estalactites. havia uma porta fechada. e Daniel gozava aquele ódio que os unia. Voltou se. sentia se mal e sereno. aquilo purificava o. um ódio requentado. «E se Lola tiver ficado na cama?» Pôs a chave no bolso e pensou: «Que importa! Pego no dinheiro mesmo assim. «Um dia um tipo como este liquida me à traição. As coisas ficaram ali. todas as pequenas solicitações quotidianas. intactas.» Demorou se a dar o nó na gravata. No fim do mundo. quase apagado pela penumbra e a sujidade. «Está humilhado o macho. atrás dele. a morte infame que merecia. Posso ir a pé. Daniel aproximou se. entre blocos de gelo riscados por clarões. talvez de prazer.ganta e no estômago. barulhento e activo. viu o perfil magro e duro de Ralph e as suas mãos puseram se a tremer. Ao nível dos olhos. pessoas. O corpo vira à direita. odeia me. em paz consigo mesmo. montras.» Uma hora. Massas sombrias arrastam se a ranger. aqui esta chave chata. sobem do chão como absurdos meni res. que parecia ter vinte anos. Mathieu encontrou se no meio da Rua Départ. O futuro morreu. Tinha vontade de apertar aquele pescoço fino com a maça de adão saliente e de esfrangalhá lo entre os dedos. «Dentro de uma hora. o tempo de chegar até à porta e abri la. mergulha num gás luminoso a dançar no fundo de uma greta imunda. O quarto era um . «Irei buscá las. Não sabia que Daniel o podia ver. tinha pressa em acabar de se vestir. Mas não era o mesmo mundo nem exactamente o mesmo Mathieu. Eram os únicos objectos do mundo. Mathieu andava com um passo regular. Perto da janela que dava para o telhado. pensou Daniel com um arrepio. e começou a dar o nó na gravata.» J E A N P AUL SARTRE A lâmpada iluminava mal. As rugas esvaziaram se como por um buraco de esgoto. Ralph voltara a cabeça para o lado do espelho e olhava para Daniel com um estranho olhar.» O rosto avolumar se ia no espelho e seria o fim.

não é a mesma coisa.forno. Fez um movimento irritado para dar o laço no sapato do pé esquerdo. mas estou a ver. mas não teve coragem. antes da madrugada! Não se deitaria. No momento de vestir o casaco. Sr. Mas tinha horror àquela graça.. Lalique quem te aconselhou. não parecia muito franco. depois de um silêncio: — É mais cómodo. — Bom. Não é da minha conta — explicou Ralph. Ralph ergueu a cabeça: — Queria perguntar lhe. J E A N P AUL SARTRE — Eu disse lhe: faz o que quiseres. era muito mais penoso. — Se foi o Sr. e pronto! Mas bem sabia o que o esperava lá fora. Ele veio dizer me hoje de manhã que ia pedir desculpas. Dez horas ainda. pensou com imparcialidade. calçava os sapatos inclinando o busto. Lalique. agora. Daniel contemplava o dorso magro. Dentro de um minuto. estaria lá fora. Só lhe disse que era asneira tê la deixado. Quando se deitava depois. Sorriram ambos com desprezo. «Tem uma certa graça». os braços jovens e musculosos que saíam de uma camisa Lacoste de mangas curtas. Tinha os ombros e o peito inundados de suor. Daniel quis vestir o casaco. Sentado à beira da cama estreita. — Eu não quero coisa alguma — disse Daniel — e não lhe disse para pedir desculpas. hesitou. Ele é assim. — O teu quarto é terrivelmente quente! — E mesmo debaixo do telhado. Dentro do jarro havia uma toalha sujíssima. — Nós lavamo nos no lavatório do corredor — disse Ralph. foi o senhor quem aconselhou Bobby a voltar para a farmácia? — Aconselhou? Não.. acabam de soar. que era o senhor que queria. — Que horas são? — Nove. Daniel enxugou cuidadosamente as mãos. — Veja dentro do jarro. Mas há um a quem eu deitarei a mão quando o apanhar. — Não tens uma toalha? Tinha as mãos húmidas. — Não lhe vou dizer nada. e pensava apreensivo no peso do casaco que lhe ia colar a camisa de linho contra a carne húmida. Vocês não parecem muito amigos da água. com o joelho direito erguido. A Explicou. Precisa sempre de mentir. — O farmacêutico? . chateado. — Nunca houve água neste jarro.

Um camarada de trinta anos e com braços assim. Já não sabia onde estava. Tinha necessidade de fazer gestos vivos e bruscos. — Pergunte! Pergunte só! — disse Ralph. — Pode vir. Ralph entusiasmara se. Sorriu maldoso. Ele saiu: «Queres ensinar a viver a um pai de família?» Foi o que ele disse. não tens medo de ninguém. o pai de família. Ralph estava vermelho. — E tu? Vamos lá ver se tens força. Daniel olhava o. coberto de glória. Daniel não soube resistir ao desejo de o humilhar ainda mais. — Então — continuou Daniel —. mas achava humilhante que Ralph tivesse dominado um homem de trinta anos. Levantara se imitando as fases da luta. Que é que foste dizer de mim. hem? Não tens medo de ninguém. — Uf! Uma rasteira e estatelou se no chão. Apetecia lhe espancá lo. salto lhe em cima e bato lhe com a cabeça contra o passeio. que era uma fêmea. os olhos brilhavam lhe. — Vou chegar de mãos nos bolsos. Calou se.» — «Não disse nada. Mandei lhe uma! Um murro no olho para começar. naturalmente. — Eh!. — O estagiário? — Sim. as orelhas estavam vermelhas. — Não são os maiores que são os mais fortes — disse. sinistro e arrogante. — Ele? — Ralph riu maldosamente. Ralph riu também e aproximaram se um do outro. — E tu desfizeste o. Parecia um insecto.— Sim. O que foi dizer de Bobby e de mim! Bobby não tem vergonha. Pensava: «São todos iguais.» E zás no estômago. Comprazia se no seu ódio. Voltou se sobre os pés mostrando as nádegas duras. Voltar para aquela casa! Mas eu vou esperar o gajo à saída. E Corbin do matadouro. Esse estupor.» Todos menos Bobby. Havia uns a olhar. Ele sabe. «Vens cá para fora». Atiro o ao chão. com uma irritação irónica. Pôs se a rir. e um muito alto que eu já vi consigo. Pergunte só ao empregado do Oriental. pensou Daniel. O tipo novo. hem! Que é que foste contar? Ah!. não disse nada». hem! Acabarás por te espetar. «Estás me a conhecer? Estás? Então ouve. (E Daniel deu . Em cheio. Não acreditava muito naquelas histórias. e de passagem limpei Ihe o focinho com o cotovelo: assim. — Mijava sangue — continuou Ralph. Era Bobby. vai ver. era o que ele dizia. talvez seja ele que te liquide. Daniel sorriu com insolência. moldadas pelas calças azuis. «Eu mato o». com um arzinho de poucos amigos. — «Ah!. — A brincar aos heróis. disse eu. Queria me pôr fora. magoado. não disseste nada? Pois toma. Mas não o velho. Daniel sentiu se cheio de ódio. Depois todos falam em quebrar a cara a alguém.

Uma raiva louca invadiu Daniel. Daniel sentiu um gosto áspero e febril no fundo da boca. não ganhará. Ralph não parecia nada cansado. Ralph estava pregado na cama. pensava: Estou a ser ridículo. Ficaram assim uni bom momento. menino? Ralph sorriu imediatamente e disse com uma voz falsa: — O Sr. mas há a diferença de peso. . claro — disse ele com voz sibilante. Ralph abriu a boca espantado. Estava sem fôlego.» Empurrou Ralph com toda a força. mas Daniel enfiou lhe as mãos na cara e ele largou o. sorridentes e raivosos. — Bom — disse —. a camisa molhada de suor colou se lhe à pele. de pai de família. está a querer de verdade — disse Ralph num tom estranho. generoso. A — Quem ganhou? — perguntou Daniel ainda arquejante. contrafeitos. de cabeça. Ralph debateu se. e Daniel começou a arquejar. impotente. — Está mesmo com vontade? Atirou se subitamente sobre Daniel. tentou arranhá lo. — Questão de treino. Encontraram se novamente um diante do outro. menino. — Lutas bem — observou Daniel —. — Ah!. mas Daniel segurou lhe os pulsos e apertou lhe os braços sobre o travesseiro. — Vou mostrar to. Lutavam em silêncio. Juntaram se de novo e principiaram a girar no meio do quarto.» Baixou se de repente e pegou Ralph pêlos rins. Estava arquejante e humilhado. — Já fui forte — disse. Daniel agarrou o pela cintura. O coração batia lhe como se fosse estourar. — Consigo posso eu bem. satisfeito. Vestiu o casaco. mas Ralph resistiu. Daniel largou o e pôs se de pé. — Agora não tenho fôlego. «Tenho de acabar com isto ou então ele vence me. Adeus. — Quem ganhou. Daniel demasiado cansado para se levantar. Tentou rir. Lalique é forte.) Vamos lá ver se tens força. A brincar. Ralph era duro e flexível. Daniel contemplava o. Ralph conseguiu erguê lo. Ralph estava de pé. atirou o para a cama e caiu em cima dele. esmagado sob aquele peso de homem. Daniel tinha vontade de agarrar Ralph pelo pescoço e encher lhe a cara de socos. — Gentilmente. Tinha a impressão vaga de ser um tipo gordo e de bigode. arranjava o colarinho da camisa e não arquejava. Daniel desviou se e agarrou o pela nuca. vou me embora. mas os olhos faiscaram Ihe de raiva.Ihe um empurrão. Os músculos escorregavam nas mãos de Daniel. levantou o. Era belo. — O fôlego não é nada — disse. Os olhos de Ralph estavam cheios de ódio. Riram ambos. mas desviava os olhos de Daniel.

° — disse Mathieu tranquilamente.° parou um instante. Ao abrir a porta. Sr. A princípio estendia os braços para se proteger contra os possíveis obstáculos. — Escondi uma coisa para ti no quarto. com as pernas moles. Quarto 21. Parou. ele não saiu. Lalique. depois enfiou a chave na porta do 21 e abriu. Mathieu ajoelhou se diante da maleta e abriu a. desconfiada. «Antes de mais nada». Bolivar. Ao levantar se percebeu no fundo do quarto uma porta que não vira de manhã. Uma possibilidade sobre duas. Pegou em cinco. Caminhou sem se apressar até ao quadro das chaves. «vou lavar me dos pés à beça».. Mathieu voltou se.. — Bom. — Estava a ver se a chave estava lá. depois resolveu deixá la na fechadura da maleta. — Eh! Aonde vai? — perguntou uma voz áspera. Vi o senhor mexer no quadro das chaves — disse a mulher. e deixara a navalha aberta sobre a lareira. mas já se acos tumara à escuridão. A cama estava desarrumada e havia dois travesseiros ainda amassados pelo peso das cabeças. não queria roubar para ele. A mulher aproximou se do quadro. Era uma mulher alta e magra. Mathieu sorriu lhe. As notas que ele largara de manhã tinham caído sobre os maços de cartas. — Aonde vai? — repetiu ela. pensou: «Talvez liguem J E A N P AUL SARTRE só de noite.» Olhava de viés pelo vidro da porta do escritório e viu uma sombra. Uma escuridão avermelhada que cheirava a febre e a perfume. Mathieu pôs se a subir sem responder. Uma porta abriu se atrás dele: «Vão chamar me. Parecia importante e mostrava se inquieta. Mathieu riscou um fósforo e viu . Barbeara se pela manhã. Mathieu fez soar uma campainha surda. depois das nove. — Não está? — Não. Daniel desceu as escadas. Era o toilette.» — Vou ver o Sr. tinha previsto isso. um pensamento veio lhe repentinamente. — Não saiu. No patamar do 3. pensou. depois deu uma volta e dirigiu se para a escada.» Mas não teve medo. Como transpusesse o limiar da porta. O nome do negro era Bolivar. que hás de encontrá la. «Que vou fazer da chave?» Hesitou. — Não pode avisar na caixa? «Bolivar. antes de sair. Procura. A chave estava ali. — Pois é — disse aliviada. de lornhão. O quarto estava escuro. Mathieu pegou lhe rapidamente e enfiou a no bolso.— Boa noite. Havia alguém. Não notara isso de manhã. A porta fechou se. Sentia uma vaga vontade de vomitar. Abriu a. Fechou a porta à chave e avançou para a cama. no 3.

Quando se voltou. O corredor estava vazio. Saiu. Dá alguns passos no quarto. Só ele de pé. Passa o dedo pelo fio da navalha e sente na ponta do dedo um gosto ácido de corte. que o mais difícil ainda estava por fazer: pôr a chave no lugar. Não. a temperatura demasiado suave. Fez um movimento para voltar ao quarto. Mathieu deixou os passar. Pensava. nem mais nem menos. nada o impede. A minha mão é que tem de fazer tudo. depositou a chave e saiu ruidosamente. Tem muito medo agora. Morta a serpente. viu uma mulher com um soldado.» Os gatos arranham na cozinha. Tem de decidir sozinho. Nada o impede de resolver. A navalha não ajuda. a mão treme lhe. minha senhora. As ruas são azuis de mais. Está sozinho naquele cenário. a boca seca.. O cabo é preto. — Adeus. as cadeiras estão inertes. o pijama. Depois desceu. Morta a serpente. só ele vivo na luz demasiado azul. a lâmina branca. Sobe a escada a quatro e quatro. procura um socorro. A navalha está sobre a lareira. Agora apoia a mão na mesa. A minha mão fará tudo sozinha. Pouco se lhe dava ser surpreendido. mas ouviam se passos e risos. Pega lhe pelo cabo e contempla a. Tem medo. Dóceis. A mulher estava perto da porta de entrada e de costas voltadas para o quadro das chaves. — E no quarto andar — disse ela. «Nada me ajudará. Dois gatos passam lhe entre as pernas. é uma coisa inerte. Tudo está inerte e silencioso. o roupão. Boceja de angústia e tédio. o barril de pólvora está no fim. Enfiou a chave na fechadura e fechou a porta. depois largou o fósforo e voltou para o quarto. E o soldado respondeu: — É alto. Tinha vontade de rir. de pernas moles. Mais ainda de tédio que de angústia. A chama corre ao longo da mecha. Agora distinguia com nitidez os móveis. divertido. Mathieu desceu sem fazer barulho. Contemplou se até que a chama se extinguiu. A mulher virou se e ele cumprimentou a: J E A N P A U L SARTRE — Adeus. Havia gente a subir a escada. um sinal. ninguém. Teve um risinho mau e saiu. os vestidos de Lola. A mesa está inerte. A chama corre ao longo da mecha. Custa lhe a encontrar a fechadura.. Arrepia se. As coisas são servis. o fato cuidadosamente dispostos sobre as cadeiras. até logo — respondeu ela. Anda a passos largos. Sentia o olhar da mulher ferindo lhe as costas. pesa apenas como um insecto na mão. No primeiro andar parou e inclinou se sobre o corrimão. morre o veneno.surgir no espelho o seu rosto avermelhado pela chama. flutuam na luz móvel. Manejáveis. ela responde à pressão com uma pressão igual. .

A mão direita apossa se novamente da navalha. com a braguilha aberta e viscosa. A navalha obedecerá. inerte. olha para o céu. o soalho. carrega a fera no ventre. da nuca aos rins.. Olha para o soalho. Quero a. o braço. que nojo! Se tens assim tanta repugnância. A navalha. aberta. a minha mão é que deve fazer tudo. Morta a serpente. cega. Vai até à janela. Coloca o sobrescrito bem à vista sobre a mesa. de manhã. Sim ou não. anda. a navalha estará no chão. A temperatura é suave. toca na lâmina. Pega na carteira. Um corpo vivo e quente com um braço de pedra. Um enorme braço de estátua. o quarto está docemente iluminado. Com a mão esquerda. recta. A minha mão.. inerte. tem a noite toda. É preciso um gesto. Pode estender a mão e agarrá la. Está rígida na ponta do braço. como se encontra de pé. Tira cinco notas de mil francos. depois que o despertador toca. Salta para trás. A serpente ali está. o gesto de mictório. inerte. Aquela flor vermelha entre as pernas não está ali. Contempla fascinado a navalha. de um modo suficientemente nítido para que se realizassem por si. Tem a noite toda para isso. 12. Tem de se resolver. a navalha brilha docemente. Gira em torno da mesa sem despregar os olhos da navalha. Nada o impedirá de a agarrar. Tudo está inerte e tranquilo. desabotoar se com paciência. e a navalha na ponta. entre as pernas. Nada mudou. Mas é o gesto. Rua Huy ghens. Pega num sobrescrito. chamo a. Um gesto.. dura. A navalha está ali. Ainda tem tempo. não deseja nada. depois a lâmina. Tem medo da mão. Diz: «Vamos!» E um arrepio irónico percorre lhe as costas. Contempla o soalho. aquela poça vermelha no soalho não está ali. unido. Passa a navalha para a mão esquerda. . não há lugar para manchas.o seu acto não é senão uma ausência. A inércia da navalha contamina lhe a mão. Nunca será tarde de mais. ele sente a. É liso. Ficarei deitado no chão. se pudesse imaginar nitidamente aquela poça vermelha e aquele odor. Em vão. sem que precisasse de fazer o gesto! A dor aguento a. sobre a mesa. Levanta se. Nada. vermelha. gelado. Puxa as cortinas. acende a luz. Mas é pré J E A N P AUL SARTRE ciso fazer primeiramente o gesto obsceno. pesa lhe docemente na mão. «Vamos!» Se pudesse encontrar se mutilado. o gesto. ela chupa lhe o sangue. Com a mão esquerda. Um gato desvairado rola pela escada com ele. Anda de um lado para outro. e o presente cai com a primeira gota de sangue. A minha mão fará tudo. pequeno. inerte. A noite toda. abre a porta e lança se escada abaixo. Estende a mão. Sozinho consigo mesmo. examina a.. Escreve: Senhor Delarue. a navalha está ali. sem saber como se levantou. Já não se odeia. A navalha. põe o dinheiro dentro. flutua. Abre os dedos: a navalha cai em cima da mesa.

a navalha sobre a mesa.Daniel corria na rua. entre as pessoas da rua. No bar. a porta estava aberta e a navalha brilhava em cima da mesa. A luz loura espumava em volta dele.» Beberia o que fosse necessário. Correu até ao Rói Olaf. — Exactamente como gosta — disse. ser olhado por outras pessoas. a lâmpada acesa. — Beber mais! Atirou o copo com um safanão. e Daniel sentiu que se tornava um freguês rico. como comadres atarefadas. Lá em cima a porta tinha ficado aberta. Era preciso correr. — Não estou muito bem — explicou. o mais longe possível. com o barman. Não — disse bruscamente. — Obrigado. O empregado acorreu. Daniel estava só naquele bar tranquilo. — Sou um desastrado — disse Daniel. Sentou se ao fundo do café. mergulhar no ruído. Empurrou a porta sem fôlego. o empregado e o barman falavam norueguês. embebida num verniz grosso que se colava às mãos quando se lhe tocava. no qual flutuava um pouco de espuma. a madeira clara dos tabiques brilhava docemente. sorrindo. Nada o impedia de retroceder. Daniel inclinou se por cima da mesa. voltar a ser um homem entre os homens. Como sempre. — Não devo beber esta noite. nas luzes. — Trago lhe outro? — Traga. O empregado abanou a cabeça e foi se embora. Nada estava decidido. — É um aviso — acrescentou em tom de piada. E depois toda aquela agitação se acalmou. O líquido escorria lentamente sobre os ladrilhos. levá lo iam para casa. O quarto esperava o docilmente. bolhas apressadas subiam à superfície. com qualquer coisa de maníaco e que dava boas gorjetas. Dê me meia . O empregado baixara se para enxugar o chão e apanhar os cacos. O seu quarto esperava o. «Nunca mais poderei voltar. O barman e o empregado calaram se subitamente. Dir se ia cerveja morta. — Um uísque — pediu. Olhava amavelmente para Daniel. Esmagou se no pavimento. Os gatos erravam pela escada escura. A — Parece cansado — disse o empregado respeitosamente. nunca seria decidido. Daniel voltou à solidão. As pancadas violentas do coração repercutiam se nas pontas dos dedos e sentia um gosto de tinta na boca. Lá pelas quatro horas o empregado. Era um norueguês que falava francês sem sotaque. Daniel olhou o líquido amarelo e mole. deitando os pseudópodes em direcção aos pés de uma cadeira. arquejante. o uísque ferveu durante um segundo. invisíveis. Deitou um pouco de água Perrier no copo. fugir. um pouco febril. O empregado voltou com um copo meio e uma garrafa de Perrier.

a luz loura. é para si.. Isso. M athieu fechou a porta devagar. O empregado acorreu. Daniel bebeu.. Alegrava se sempre com a oportunidade de uma boa farsa... Há um meio. distraído. e quando subiu as escadas. Um juiz qualquer! Qualquer juiz. — Obrigado. — Tome. curvou se e desapertou os sapatos.. queria ter nojo de si. os tabiques de madeira.Perrier com limão. menos ele próprio.» Quando caminhava a passos largos pela rua. não aquele atroz desprezo sem força suficiente. — Chamou? — Sim — disse Daniel. tem de ceder. Sabia o quando pegara na navalha. Pegou no copo e apertou o com raiva. eu estraguei lhe a vida. Onze horas! Sobressaltou se. O empregado abriu a garrafa e encheu o copo. Pobre comediante! Só no fim conseguira amedrontar se. «Há um meio. que parecia sempre a ponto de se aniquilar e que nunca passava. eram palavras.» Pôs se a tremer: «Cederá. Se alguém soubesse. segurou os com a mão esquerda. Ela fala. O tempo não passava. «Mas nunca poderei. Pôs cem francos na mesa. Pensou: «Sabia! Sabia que não o faria.. acha que ele não se declara suficientemente depressa. Depois pôs o pé no primeiro degrau da escada. erguendo a ligeiramente sobre os gonzos para que não rangesse. obstinadamente. Ter lhe ia sido preciso. Não pode desprezar se nem esquecer. já sabia que não iria até ao fim.» Olhou o relógio.. Gostaria de estar morto.» Largou o copo. fugira. sim. Tinha falado alto. pensa que gostaria de estar morto. prefiro A castrar me. mas não. aquele fraco e moribundo desprezo. se pudesse sentir pesar sobre ele o desprezo de outrem. de olhos erguidos para uma neblina rósea que parecia .» Riu. O rapaz afastou se. não se iludira um só instante. pensa que pensa que gostaria de estar morto. abraça o. «Mathieu está em casa de Marcelle. O odor a gengibre. «Um meio famoso. onze horas.. Tirou os sapatos. endireitou se e pousou a mão direita sobre o corrimão.» Empertigou se e dirigiu se apressadamente para a porta. Estupor!» Houve um momento em que pensou que ia consegui lo. fui eu que fiz. «Estupor! Comediante covarde. Neste momento ela fala.. Gostaria de estar morto e existia. O peito roçava lhe os joelhos.. não havia melhor oportunidade. com olhar fixo. Daniel sentia se mais calmo. Um ambiente opaco formava se em volta dele. continuava a fazer se existir. aceitaria qualquer um. também. oito ainda por viver antes da manhã. Está de pé. Um meio de arranjar tudo.

— Olá — disse em voz baixa. Ele estava ali. — Olá. A atmosfera era pesada. — Não. pintara se cuidadosamente. . Ela pusera sombra azul nas pálpebras e tinha uma flor nos cabelos. Vestira o seu belo roupão branco de cordão dourado. Sentada na cama. Desenvencilhou se docemente. Viu lhe os seios formosos e passou lhe pela boca um gosto a açúcar. olá! Passou lhe o braço em volta do pescoço e beijou o. na fealdade magra de Ivich. Ela pegou lhe na mão e puxou o para a cama. — Dormiste bem? — Admiravelmente. Subiu lentamente na escuridão. Beijou o de novo e ele sentiu sobre os lábios o veludo rico daquela boca e aquela nudez glabra. e Mathieu sentia que o calor daquelas mãos lhe subia até às axilas. quente e esperta da língua. Mathieu pensou. Estava bela. Marcelle estava A nua por baixo do roupão. deslizando a língua por entre os lábios dele. de bombons e de amor. De um sono só. Estava estúpida. Já não se julgava. Mathieu fechou a porta e ficou imóvel. ali desabrochava. — Estás quente — disse ela. acariciando lhe a nuca. com coração triste. Empurrou a. Ela continuava a segurar a mão dele entre as suas e apertava a de vez em quando. Uma voz cheia de ternura suspirou atrás dele: — Querido! Voltou se subitamente e encostou se ao armário. tinha um ar solene e alegre. — Estás bem disposta — disse.. uma mulher contemplava o sorridente. Marcelle ergueu a mão até à fronte e mexeu os dedos. — No entanto.. de braços caídos. com a cabeça levemente inclinada. Olhava o de baixo para cima. inteiramente mergulhado naquele cheiro de doença. A porta do quarto estava entreaberta. muito bem mesmo. Marcelle inclinara a cabeça para trás e observava maliciosamente através das pálpebras semicerradas.suspensa nas trevas. tomado por uma insuportável doçura de existir que lhe apertava a garganta. era Marcelle. Ele sorriu também e foi guardar os sapatos no armário. evitando que os degraus estalassem. junto daquela mulher sorridente. ontem ao telefone não parecias muito bem. Todo o calor do dia se depositara no fundo daquele compartimento como uma borra. Ele sentou se. mexendo a ponta da língua entre os dentes com uma expressão animada e feliz. Mas hoje estou bem. — Senta te junto de mim. desajeitadamente.

— Comprou um canivete e desafiou me duvidando que eu mal tivesse coragem de o espetar na mão. — Cortei me. apressaste te em demonstrar o contrário. — No Sumatra? J E A N P AUL SARTRE «Rosto largo e lívido. e exclamou: — Que é que fizeste na mão? — Cortei me. Ele deslizou devagar a mão esquerda diante do estômago e enfiou a sorrateiramente no bolso das calças para tirar o tabaco. querido. esses miúdos fazem o que querem de ti. Virava lhe as costas. Isto vai infectar. Mathieu olhou aqudes braços nus que tantas vezes acariciara e os antigos desejos giraram lhe em volta do coração. Marcelle largou a mão direita de Mathieu e pegou lhe na outra. amanhã eu pentear me ei assim para si. Já me viste tão tolo? — Mas que foi que andaste a fazer? Espera. Mathieu sorriu sem responder. amanhã. e subitamente inclinou se e apoiou os lábios no ferimento num impulso de humildade. dei uma queda. Marcelle viu lhe a mão. — Estás bem comigo? — perguntou Marcelle. És completamente doido. . O ferimento era repugnante. virou a e examinou lhe a palma com um olhar clínico. Ela levantou se para ir buscar os apetrechos ao armário. Foi ontem à noite no Sumatra. cabelos de ouro. — Não pareces.— Como está calor aqui — disse. de passagem. erguera se nas pontas dos pés e levantava os braços para alcançar a prateleira de cima. «Que é que te aconteceu?». Devorava o com os olhos entreabertos. vou arranjar este penso. — Naturalmente. A mão de Mathieu repousava. inerte. Ela teve um riso indulgente e escandalizado. Ela não respondeu. que foi isto? — Caí. Ele puxou a para si e beijou lhe a orelha. como conseguiste cortar te deste modo? Estavas embriagado? — Não. Tem lama por cima. Olha para esta pobre «pata» devastada. com a sua crosta escura e mole. Marcelle levantou devagar aquela mão à altura do rosto e olhou a de perto. naturalmente. — E tu. entre as mãos dela. Desfez a ligadura e abanou a cabeça: — Que ferida tão feia. uma expressão de humildade e confiança.» — Uma fantasia do Boris — respondeu. — Mas o curativo está sujo. As mangas caíram. não podes andar assim. Marcelle voltou para ele alerta e lentamente. pensou Mathieu.

Marcelle tossiu. Ligou lhe rapidamente a mão com uma ligadura branca de gaze. apertando nos lábios o alfinete: — Ivich estava lá? — Quando me cortei? — Sim. — É bonito o Sumatra? Sabes o que eu queria? Que me levasses lá um dia. — Não pode ser antes do Outono — disse.. — Então iremos no Outono. uma vez. — Bem vês que não estás muito bem comigo — disse. — Então. um passeio. Marcelle pôs o alfinete na ligadura. Depois pegou no curativo sujo. cansa te — disse Mathieu. É tudo culpa minha. querida. Ele sentia contra a sua anca o calor daquele corpo tão conhecido. .. Será uma festa. há tanto tempo que não saio contigo. — Oh!. Divertiram se muito? — Mais ou menos. Embebera a esponja no álcool e pusera se a lavar lhe a mão. Lola vai para a África do Norte. — Não. Pôs a língua e lambeu docilmente a cobertura rósea. Disse. — E tinhas razão. — Agora precisas de descansar seriamente. Prometes? — Prometo. — Não.— Dá cá a pata. Estava nervosa. — Pronto.. deita o no lixo. «Uma saída!» Mathieu repetia esta palavra conjugal. Marcelle riu se. dançava com Lola. suspendeu o na ponta dos dedos e considerou o com uma falsa repugnância. Sobre o 'aço ficara um pouco de bâton. constrangida. Marcelle aplicou a na ferida. contrariado. Marcelle não era feliz nas suas expressões. — Que vou fazer desta porcaria? Quando saíres. Porquê? — Fui. — Eu? — Sim. — Mas isso aborrece te. depois virão as férias. J E A N P AUL SARTRE — Queres? — disse Marcelle.. Boris desafiou te? E tu retalhaste a mão? Que criança! E ele também se cortou? — Não. fui desagradável anteontem. — Pregou te uma boa partida! Ela segurava um alfinete de ama na boca e rasgava a gaze com as mãos. / — Lambe! A Marcelle apresentava lhe um penso.

Tirou a carteira do bolso e pousou a nos joelhos. — Pois é. três. Os olhos de Marcelle apagaram se. Mathieu esperou um instante. — Jacques? J E A N P AUL SARTRE — Não. tanto melhor.. Disse: — Pensei. Marcelle não respondeu. Envelhecera de repente. e não podia compreender aquda confiança inexplicável e espontânea. — Uma. abria o e fechava o nervosamente. Já to disse ao telefone. — Que é que devo olhar? — Isto. Ele quer que lhe paguem adiantado. quatro. duas. incrédula. — Olha — disse. Mordia o lábio inferior e olhava para as notas. Mathieu não aguentou mais. passaram pelas mãos dele. — Tanto melhor. Tirou as notas da carteira. Mathieu fez um gesto para colocar as notas em cima da mesa de cabeceira. Fez se silêncio. E que me deram trabalho a encontrar. fazendo as estalar triunfantemente. — Daniel? Ele encolheu os ombros. categórico: — Agora podes ir ao judeu. E gente da alta. — Nunca tive nada que te censurar. cinco mil. Mathieu acrescentou: — Deixo tos. Pegara noutro alfinete de ama do cestinho. em Viena. e como Marcelle não falasse. voltou se. Ela sabia muito bem que Daniel não lho tinha querido emprestar.. ontem. Penso que Sarah te levará à casa dele e és tu que vais pagar. de perdão. o estupor. gente rica. Ela erguera a cabeça e olhava as notas pestanejando. Mathieu interrompeu a. cinco — disse. ela esperava sem dúvida uma palavra de ternura. e Marcelle perguntou: — Onde arranjaste o dinheiro? — Adivinha. Parece que é uma competência. Ele não se atreveu a voltar se para ela. com o dinheiro A em cima dos joelhos. Fixou o olhar em Mathieu com uma expressão triste. imaginava bem de mais a expressão do seu rosto. Houve um longo silêncio. Marcelle esticou o pescoço e apoiou o queixo no ombro de Mathieu. Centenas de mulheres. — Então não sei — falou secamente. Não parecia compreender. — Quem? .— Não tens culpa — disse ela. Tinham conservado o perfume de Lola. Disse lentamente: — Cinco mil francos. mas ainda confiante. confiante.

— Sim. Mathieu enxugou a testa suada. — Porque te ris? — Rio me de mini própria — disse. As cartas estavam sobre a mesa. Fez se silêncio. estive com ele — disse Mathieu.. Tirara a flor dos cabelos e fazia a rodopiar nos dedos. Calaram se..— Ninguém me deu o dinheiro. era isso. O rosto tornara se lhe cinzento. sentado entre os dois. — Então. Parecia amedrontada com o que ia dizer. Marcelle voltou lentamente a cabeça para ele. Marcelle sorriu. tristemente: — Foi chato! — Sim. Não fui eu. irónica. era preciso ir até ao fim. — Roubaste! — disse lentamente Marcelle. foi chato! — concordou Marcelle com amargura. Ela reflectia. e Mathieu empurrou os com o pé. — Não me vais dizer que o roubaste. ele disse o que te tinha a dizer e ao deixá lo foste roubar os cinco mil francos a Lola. sem olhar para ele: — Que vontade tens de te ver livre da criança! — Tinha vontade principalmente de que não fosses à velha. Ele perguntou: — Censuras me por tê lo roubado? — Não me interessa. que é que há? — repetiu Mathieu. A boca exibia de novo aquele sulco duro e cínico. — Como soubeste? Foste tu que o mandaste? Tinham combinado tudo? — Não fales tão alto — pediu Marcelle —. mas as palavras não lhe saíam. Olharam se ambos. parecia espavorida e aliviada. Bem. Mathieu também se sentia aliviado. Roubei o a Lola. A O rosto emudecera. Continuava com a boca aberta como se tivesse vontade de falar. Estiveste com Daniel. Tinham a noite inteira à sua frente. tinha um ar admirado. Ela inclinara se para trás e crispara as mãos no lençol. Mathieu disse. mas ela retirou a e disse sem o olhar: — Já sei que estiveste com Daniel. mas sabia que ele te ia procurar. Ela teve um riso seco. Daniel estava ali. — Pois bem. . — Hei de contar to um dia. vais acordar a minha mãe. — É. — disse Mathieu — expliquemo nos francamente. que é que há? Marcelle fez um gesto brusco e os apetrechos de farmácia espalharam se pelo soalho. Murmurou: — Fui demasiado estúpida. — Roubei. Mathieu pegou lhe na mão. — Roubaste? Não é verdade. — Então. Observou. — Não há nada que explicar.

— Mas porquê. pouco te incomodavas com o que eu tinha na cabeça. não finjas que não percebes. mas não se atreveu. Daniel acabou de me comunicar que tu te encontravas com ele e não me dizias nada. O que eu quero já não é da tua conta.. Marcelle? Porque não conversas calmamente comigo? Uma hora apenas e tudo se acerta. Mas diz o que se passou anteontem. não devia ter pensado nisso. triste. sofria. — Foi o que te pareceu — disse ela rindo. — Pois bem. tudo se esclarece. isso não é da tua conta. Mathieu. caso com ela. — Oh!. e tu julgaste que eu queria casar. Ele insistiu: — Há circunstâncias atenuantes. Ele olhou a com espanto. tu recebes Daniel há meses. não adianta falar nisso. foi como das outras vezes. menos irritada. não é verdade? Ela tirou lhe a mão e ergueu se de um salto. não te obstines. Estava lívida.. Marcelle. E é o que pensas de mim. Seria muito melhor se pudéssemos ter novamente um pouco de confiança um no outro. — E que é que tinhas na cabeça? — Porque é que queres que eu diga? Sabe lo muito bem. pegando lhe na mão. . — Não. Pensou: «Acabou se.. era infeliz e má e bastava um gesto para a acalmar. — Foi Daniel quem te disse isso? — Não — respondeu Mathieu. Ela sacudiu a cabeça. Daniel disse me que tu tinhas censurado a minha atitude de anteontem. — Tens razão.. — É verdade — disse Mathieu.» Ela estava ali. que foi que se passou anteontem? — Anteontem? — Sim. A Ela parecia não ter ouvido. — Peço te — disse ele. — Foi o que te pareceu! Daniel disse te que eu estava aborrecida. — Peço te. Escuta. já não há tempo.» Era evidente. Mathieu teve vontade de apertá la nos braços. Ela continuou a não responder. — Calma — disse Mathieu —. Juro que tenho boa vontade. — Julgo que sei. obrigar te a casar comigo. Ele acrescentou docemente: — E um filho que tu queres? — Ah! — disse Marcelle —. depois de sete anos! As mãos também lhe tremiam agora. ainda há tempo. — Foi o que me pareceu. «Era preciso que eu fosse muito sacana para imaginar que escapava. Bem vês que há explicações necessárias. Ela hesitava. às escondidas. surpreendido.— Sim. Disse: — Queres que nos casemos. que saberei reconhecer os meus erros.

com um gesto seco. — Mas porquê? Porquê? — Porque já não te estimo o suficiente. mas imediatamente tapou a boca com a mão e fez lhe sinal para se calar: — A minha mãe — murmurou. que lhe pendiam da fronte. Casaria com ela. Ela disse: . mas ela repeliu o violentamente. Vai. se lhe dissesse que a amava. ou não respondo por mim. mas de outra maneira. mas mostrava se surpreendida e amedrontada com o que dissera. Mathieu não respondeu. — Vai — repetiu ela com voz surda. Durante muito tempo ficou a ouvir a frase. Mathieu avançou um passo. de olhos cerrados.. — Chega! — disse. Subitamente sorriu. não é? Ele pegou lhe na mão. desato a gritar. Se ele a abraçasse. Mathieu disse: — Marcelle. Era quase uma pergunta. Ele levantara se. já não sinto amor por ti. — Sim. como se se lembrasse de alguma coisa.. Marcelle riu altivamente. é preciso que tenhas deixado de me amar.. Escutaram. teriam a criança.. estupefacto. Continuou tristemente: — Para pensares de mini o que pensaste. — Já sei o que queria saber. Vai te embora. Pensou: «Está acabado... Sentia se ridículo e odioso. Preciso de explicar te. Disseste: «Amo te. Levantou umas madeixas de cabelos. — Mas eu tenho por ti toda a minha ternura! — disse. — Mas — atalhou. quero casar me contigo.— Eu não quero. — Não quero abandonar te. com uma alegria nervosa — não foi o que me disseste ontem ao telefone. — Ouve.» E ninguém te perguntou nada. — Eu não te desprezo — disse Mathieu. desesperado.. viveriam juntos o resto da vida. Pusera se a tremer. ansiosa. Ia dizer: «Amo te. — Vai.. Ele abriu o armário e tirou os sapatos.. Falara com segurança. vai. chamo a minha mãe. Já não havia nos seus olhos senão uma interrogação inquieta. A — Vai — disse ela —. eu quero te muito ainda.. — Se não saíres.. encharcados em suor. tudo poderia ainda salvar se.. e tu já não me amas. Ela retirou a mão.» Marcelle atirara se para trás com um gesto de triunfo... Não posso.» Hesitou e disse com voz clara: — E verdade. — Eu. Ela acrescentou como que esmagada: — Como deves desprezar me. quero. mas só ouviram o ruído longínquo dos automóveis. já não posso ver te.. Quero ficar junto de ti a vida inteira.. — Estás doida.

Gostaria de verificar que a amava mais do que tudo no mundo para que o seu acto tivesse uma justificação. — Acabo de romper com Marcelle. «Se ficar..— Pega no teu dinheiro. Mathieu escutou ainda e.» Despiria a roupa ao acaso. ele contemplava lhe a nuca morena e doce com uma grande ternura. escutando com a mão no fecho. talvez nem isso: «Vou deitar me. Ela pegou nas notas e atirou as à cara dele. nu. — Não parti — disse ela. soluçando. Mas não sentia nada. escorregadio. «Será por ela que fiz aquilo?» Ela baixara a cabeça. Mathieu ouvia o ruído forte e regular da sua própria respiração. Parou no patamar do segundo andar para tomar fôlego. Estava sentada no sofá. ela vai gritar.uitu direita. Mathieu encolheu os ombros. desvairada. abriu a porta e saiu.. As notas voaram através do quarto e caíram no tapete. Ivich devia ter fugido. incompreensível. com os sapatos na mão. — Não. Entrou e viu Ivich. O riso parou subitamente. Isso não. i en ensava: «Sou um sacana». e fez se de novo silêncio. a lâmpada estava acesa.. Marcelle? Era a mãe. parou um instante. perto da cama. Ele quis aproximar se. Ouviu de repente o riso de Marcelle. Roubara. e isso espantava o enormemente. de olhos fechados. mas ela abriu os olhos e atirou se para trás apontando a porta. . secamente. que estúpida. que estúpida. Quando chegou ao fim da escada. Ivich disse. com cortesia.. Ficaram silenciosos um momento. a não ser um ódio sem objectivo.. n. para nada. Mathieu não respondeu. Ela ria. de olhos abertos no escuro.. Subiu. as pernas estavam moles. e o seu acto estava atrás dele. abandonara Marcelle grávida. Não havia mais nada nele senão fadiga e espanto.» Parou um instante. Ivich fez um esforço e disse. calçou se. Na secretária. uma gargalhada profunda e sombria que se elevava como um repuxo e caía em cascata! Uma voz gritou: — Marcelle! Que foi. iria titubeando até à cama e deixar se ia cair. Ele voltou se. Mathieu não as apanhou. Olhava os cabelos de Ivich e pensava. eu que pensava. Dormira apenas seis horas em três dias. — Estou a ver — respondeu Mathieu. Não há razão. Olhava para Marcelle. como não ouvisse mais nada. A porta do apartamento ficara aberta. E dizia: — Ah!. virando a cabeça: — Fui odiosa. Mas sabia que ficaria acordado a noite toda. — Eu não devia ter me metido a dar a minha opinião.

A expressão irritou Mathieu.» — Você é belo — disse Ivich. Disse por escrúpulo: — Não a queria abandonar. inquieta. — Bem vejo que tem remorsos — disse Ivich. Foi ela que me mandou embora. Ivich não respondeu. Acabou por dizer: — Não sei o que pensa. Tudo isto é lamentável. Ele insistiu desviando os olhos: — Não foi bonito. no seu lugar. Sentou se perto de Ivich e pegou lhe na mão.. sorrindo. uma porta a abrir. Não disse nada. renascer aquele áspero amor dentro dele. não é lá muito glorioso. aliás. Pareceu lhe que abandonava Marcelle pela segunda vez. — Creio que também teria. — Compreendo — disse Ivich. — Se o soubesse! Ela levantou se bruscamente. Observou com uma voz neutra: — Deixou a. — Não. É um empréstimo. Mas desta vez era Mathieu que ela olhava... e Mathieu continuou: — Vou devolver lho. — Arranjou dinheiro? — Arranjei.. Ela olhou o. Ele atalhou.. censurar me ia agora». Pensava: «Não quero que me recompense. Ela insistiu: — E inacreditável como parece só. e o seu rosto tornou se duro e solitário como quando se voltava na rua para seguir.. não sei o que esperava. Roubei. Levou a mal. E o que quer dizer? A Lola. pensou. — Não. Ivich tinha uma expressão estúpida. Uma escada a subir. — Porque fez isso? Mathieu deu uma risada seca. acabrunhado. Subi ao quarto durante a ausência dela. uma mulher bela ou um belo rapaz. é impossível evitar da . Mathieu sentiu que corava. e Mathieu calou se angustiado. — Onde? Ele não respondeu. «se o tivesse feito. nervosa. — Sim. Ivich. com vivacidade: A — Sim. Roubei por desvario e agora tenho remorsos. sem dinheiro? Mathieu. Mathieu sentiu. Repetiu lentamente. Ela parecia não compreender. como Marcelle tinha feito pouco antes: — Roubou a Lola. olhava o apenas. sorriu: «Naturalmente». Ivich pestanejou. Ele teve vergonha.Ivich levantou a cabeça. com o olhar. Queria apenas dar lhe o dinheiro para não ser obrigado a casar. forçado. Consegui arranjar me.

Mathieu deixou cair o braço e murmurou com lassidão: — Não sei o que quero de si. Ela deixou.primeira vez.» Era uma expiação. Largou lhe o braço. Mathieu sentia a garganta seca. — Ivich! — disse docemente... puxou Ivich para si. Ivich. descobrindo o rosto e as orelhas. Ela olhou o surpreendida. Mathieu apertava com força a mãozinha áspera de unhas pontiagudas.» Estendeu o braço. — Eu. E acrescentou num tom cantante: — Parecia tão orgulhoso de ter tomado uma decisão. puxou os cabelos para trás. eu não sou. Ivich empertigou se. Mathieu pensou: «Quer tirar tudo de mim. até os meus remorsos. a sua cabeleira estava penteada e o rosto apresentava se nu. Só as mãos continuavam raivosas. vermelha de ódio. Está bem. Retirou a mão num gesto brusco. — Que imagine o quê? Ele sabia... — Não devo tocá la. Disse: — Engana se. procurando o olhar que ela desviava obstinadamente. mas ela baixou os e assumiu uma atitude triste e terna. Pensava: «Também desperdicei isto e no entanto estava quase A contente. Ele sentou se perto dela e agarrou lhe docemente o braço um pouco acima do cotovelo... Continuou. depois olhou a e a melodia cessou repentinamente. — Cale se. abatiam se sobre a cabeça e puxavam os cabelos. mas considerava aquela crise com indiferença. Ela não o retirou. não tem importância — disse. — Ivich. Pensava: «É uma vingança. borboleteavam em torno dela. pensei que viesse buscar a recompensa. Ela franziu as sobrancelhas e a sua cabeça agitava se com minúsculas sacudidelas. fiz mal.. Os seus olhos faiscaram. «Mas é uma criança!» E sentiu se inteiramente só. Ele devolveu lhe o sorriso e beijou a de leve. A cabeça de Ivich rolou no seu ombro.. não lhe tenho amor — disse Ivich. ela sorriu de lábios entreabertos. quando baixou as mãos.» . — Oh!. Ele ouvia dentro dele uma melodia viva e alegre cuja lembrança pensara ter perdido. Mathieu não respondeu. — Assim — disse. Ivich teve um sobressalto e desenvencilhou se rapidamente. Bastaram lhe alguns movimentos rápidos e. — Mas eu amo a. — Não quero que imagine.

Mathieu nem sequer se deu ao trabalho de fechar a porta. Tinha chorado. Mathieu foi abrir e viu na penumbra um rosto trágico. Era o mesmo rosto que lhe mostrara na véspera enquanto a mulher do toilette lhe ligava a mão. ameaçadora. tentando encontrar o olhar de Lola — só há no apartamento uma cozinha e uma casa de banho. ninguém verá. Mathieu ficou gelado. Não se mexeu. sentiu lhe renascer o desejo.. — Pois é. — Onde está então? IDADE DA RAZÃO .» Ivich empalidecera.. Ela empurrou o para entrar mais depressa. Mathieu colocou se entre ambas: — Não está aqui. Dir se ia uma máscara. — Não. — Diga me onde está Boris. Um toque primeiro. Estavam a tocar. aterrorizada. Quer entrar na cozinha? Fecharei a porta. — Onde está Boris? Ouvi a voz dele.. Ela olhou o com um ar de autoridade calma. Lola voltou para ele o rosto desfigurado. Porque havia de o amar? Não desejava mais nada senão permanecer um bom momento silenciosamente ao lado dela e que ela se fosse finalmente sem falar. num estremecimento: — É horrível pensar que há alguém atrás da porta. No entanto disse: — Voltará no próximo ano? — Voltarei. Fico. Ivich olhava a. Um desejo triste e resignado que não era desejo de nada. devia considerar que a honra estava salva. No entanto Lola não parecia dirigir se a ela — nem a ninguém — nem parecia vê la. — Ouvi a voz dele.. Ivich disse. — Acho que sim. — Além desse escritório — disse Mathieu. Quer. Ela sorriu lhe ternamente. J E A N P AUL SARTRE Interrompeu se. tivera com certeza a mesma ideia. Pegou lhe no braço. entrou no escritório atrás de Lola. Lola avançara para Ivich. depois muitos ininterruptamente. Era Lola. Agora batiam violentamente à porta. — É preciso abrir — sussurrou ela. Pensou: «Marcelle. era sem dúvida verdade. Olharam se. percebeu sob os dedos a carne fresca e disse: — Eu.Aliás. depois outro. Pode verificar se quiser. Olhou a hesitante.

— Boris também vai? — Não. com os olhos fixos no chão: — Ivich. então até para o ano que vem. dormir. tenho muito que lhe dizer. Preciso tanto de dormir. — Eu escrevo lhe. Dispunha se a sair. Ele olhava lhe para a bolsa. mas vou explicar lhe a história do roubo. no momento em que eu saía. Ivich — disse Matkieu tristemente. Era preciso mandar Ivich embora imediatamente. fazer as minhas malas. Ivich deu um grito de dor e ódio. Mathieu não se atrevia a olhar para Ivich. sim. — Ela é livre. Olhava a na expectativa de descobrir nos olhos dela um sinal de ternura. — Deixou Ivich às três horas — disse Mathieu. não me toque. apertando o pulso de Ivich. Vejo a ainda esta noite? Ivich estava alterada. Lola perguntou: — Vai partir? — Vai. Mathieu empurrou violentamente Lola. deixe a partir. posso dizer Ihes. Não quer que eu vá à estação? — Não. — Fique — disse Lola. — Quero ir para casa. Lola pôs se a rir como uma cega. — Bom. não gosto. Amanhã cedo. creio. — Pois se não sabem por onde andou. — Lola — disse Mathieu sem tirar os olhos da bolsa —. Abriu a minha porta. — Sim. Mathieu olhou para a bolsa e teve medo. Preciso de falar com Lola. mas só havia pânico. — Oh! Não! — disse.. arrombou uma maleta e roubou me cinco mil francos. — Vai dizer me onde está Boris? — Não.Conservara o vestido de seda preta e a maquilhagem de teatro.. Não sabemos por onde andou depois disso. — Que mulher horrível! — disse Ivich entre dentes. é melhor sair. . Mathieu pegou na mão de Ivich. Lola interceptou lhe a passagem. Apalpava o pulso com o indicador e o polegar. — Largue me. Não quero que me toquem. — Perdão! Quem me prova que não se vai juntar a Boris? — E se for? — disse Mathieu. — Vá dormir. mas disse Ihe docemente. que deu três passos para trás a resmungar. mas deixe a partir primeiro. Subiu ao meu quarto lá pelas sete horas. — Até ao próximo ano — disse ela. Ivich. Foi um dia muito duro. As mãos amarfanhavam uma bolsa pequena de veludo preto que parecia conter um objecto pesado e duro. Os grandes olhos escuros pareciam ter murchado.

sempre a olhar para a bolsa. e ele sentiu um aperto no coração. asperamente. mas de uma maneira monótona e parecia exprimir uma convicção absoluta. — A gerente viu o a ele. — Lola! — Ele deve ter pensado: «Está doida por mim. Lola.— Pois que vá — disse Lola. Ela deixou o subir porque eu tinha dado ordem.» Não me conhece! Não me conhece! Mathieu segurou a pelo braço e sacudiu a como um arbusto. apresentou realmente alguma queixa? — Apresentei. Perguntou: — A que horas voltou ao hotel? — Da primeira vez. Lola olhava o com indiferença. mas o ruído extinguiu se. a velha. Falava rapidamente. Ivich não respondeu. ainda vai dizer obrigada. irritada. logo que saí. . Já disseram mais de uma vez que podia ser mãe dele. — Então — disse ela. enquanto ela gritava a rir: — Não me conhece! — Cale se! Lola acalmou se e pela primeira vez pareceu vê lo. Lola desatou a rir. se fui eu? J E A N P AUL SARTRE — Ela viu o — disse Lola. Ah!. Devia estar a espiar me na rua. Mathieu avançou. Não a viu sair. — Fale. Ele teve de repetir: — Fui eu que roubei os cinco mil francos! — Ah!. Esperei o dia inteiro e havia dez minutos que eu descera. — Ele subiu às sete horas. — E se encontrar Boris. Que é que tem a dizer? — Fui eu que roubei. pensou Mathieu desanimado. — A queixa será retirada — disse Mathieu a meia voz. — Lola — perguntou Mathieu —. Voltou se para Mathieu com aquele olhar incomodativo que parecia não ver. — As notas ainda estavam na maleta. — Não nasci ontem. Ivich. Subiu. — Vamos à história. e Mathieu ouviu aliviado o ruído dos passos dela. ainda se vai sentir muito feliz por eu lhe roubar a "massa". — Adeus. — Ouça. não. foi você? Encolheu os ombros. — Como pode tê lo visto. escondendo se. às oito. diga lhe que me queixei. «Dir se ia que tem necessidade de acreditar naquilo». Lola deu um passo em frente e gritou: A — Diga lhe que se enganou! Que é ainda muito jovem para me levar.

Eu sei. diante da janela — repetiu Mathieu. continha as cartas. — Boris esteve aqui. Lola. Eu subi às dez horas e trouxe o. Mas é o mesmo. talvez quisesse vê la. Lola. Porque me arriscaria em apanhar seis meses se fosse Boris o ladrão? Ela fez um gesto. Os lábios de Lola tremiam e ela apertava convulsiva mente a bolsa. Lola oscilava como se estivesse a dormir em pé. as cartas. Eu sei que não olhou. — A gerente viu o subir. debaixo da outra mala. — Sei lá o que vocês fazem juntos! — É absurdo. — Você roubou me? — Sim. Às oito horas o dinheiro ainda lá estava. Lola empurrou o. — Bem sei. Mas você não olhou para a maleta. — Foi à meia noite. se quer apanhar seis meses em vez dele. — Pode ser. — Conte a história ao juiz. De quando em quando. — Olhou às oito horas? — Olhei. A — Pois foi — disse Lola.. A maleta estava diante da janela. Havia uma velha no escritório.— Já disse que Boris subiu às sete. você não está convencida. — Não está a ver o meu estado? Por quem me toma com essa história? — Estava debaixo de outra mala. cansada. que eu queria voltar a ler. você está a mentir. — Lola. pôs o seu belo vestido e foi para o Sumatra. obstinada. — Lola. Às oito horas eu estava com a chave e você não a podia ter aberto.. pode testemunhar. Peguei no dinheiro e deixei a chave na fechadura. não teria esperado pela meia noite para vir aqui. — Mais uma prova. Porque esconde que lhe roubaram as cartas?» Tinham se calado ambos. Não é verdade? Lola olhou o. Deitei me e pus a maleta ao meu lado. Ela riu se. ela viu me. continha. mas Mathieu segurou a. Às oito horas arranjou se. Senti me mal no Sumatra e voltei para casa. eu. — Olhei. Aliás. Juro que fui eu. se você tivesse descoberto o roubo às oito horas. mas você não olhou para a maleta. Quis passar. você só deu conta do roubo à meia noite. Mathieu pensou: «É verdade. Finalmente pareceu acordar. pensa que não sei? Vocês combinaram o que . — É tudo quanto tem a dizer me? Então vou me embora.

— Vitríolo ou revólver? — perguntou Mathieu a sorrir. — Já tinha entrado uma primeira vez e voltado a sair. Mathieu olhou para a bolsa no sofá. mas via naquele rosto uma secura desolada que lhe era insuportável. «É uma crise de nervos». Calou se e subitamente recomeçou. Já percebi. — Não se incomode que eu hei de apanhá lo. Mathieu arrancou a das mãos dela e atirou a para o sofá. pensou. — Boris poderia ter me . pensou Mathieu. Ela deixara de tremer. mas Lola desenvencilhou se e tentou abrir a bolsa. Lola começou a tremer completamente. Mathieu voltou a cabeça. — Subi ao seu quarto hoje de manhã — explicou calmamente. Tinha a impressão de viver um sonho sinistro e absurdo. Ela pareceu não o ter ouvido. — É inútil! Eu vi o entrar de manhã. A Mathieu sentiu a sua impotência. e Lola disse: — Basta. Quando lhe falei ainda não tinha chegado ao pé da cama. Não pude voltar a pôr a chave no lugar e foi isso que me deu a ideia de lá voltar esta noite. deixe me ir embora. precisava de pensar no dinheiro para manter acesa a sua cólera. sem que ele a tentasse impedir. — Que é que isso provaria? — disse ele. — Tirei a chave da sua bolsa. acabrunhado. Vamos. apanho o de outra maneira. «Deveria ter previsto isso». — Bruto! — disse Lola. o seu único recurso. Lola soltou um riso de troça. Quando acordou. — Bem sei. Mas era preciso convencer Lola. Pegou na bolsa novamente. — Pois então devolva me o dinheiro. o culpado só podia ser Boris. eu ia abrir a maleta. Mathieu não soube o que dizer. Lola também. — O dinheiro que lhe pediu era para mim. com uma calma ameaçadora: — Então foi você quem roubou? — Fui. não tinha medo do ódio. Acabou por dizer com um risinho seco: — Mas é que ele pediu me cinco mil francos ontem à noite! Foi por isso mesmo que nos zangámos. Era evidente. Era inútil falar das cartas. triunfante: — Devolva mo que retiro a queixa. Lola continuou. E foi também para si que ele roubou um livro à tarde? Vangloriava se disso quando dançava comigo.deviam dizer à velha. Mathieu não respondeu. Mathieu quis agarrá la pêlos ombros. Se enganar o juiz com a sua história. ela só pensava no dinheiro. encostara se à janela e olhava o com os olhos brilhantes de ódio impotente. e ele observou contrafeito: — Por causa das cartas.

— Imagine! — Ah! Minha senhora — disse Daniel com um ar de censura —.passado o dinheiro. . Lola olhava desconfiada para o sobrescrito. é preciso anotar sempre os números! A Mathieu teve uma inspiração. rasgou o e levou as notas ao nariz. Pensava: «É no Comissariado da Rua dês Martyres. depois pegou no sobrescrito. e ele escutou atrás da porta. Lola sorriu sem responder. Mathieu receava que Daniel se risse.» Mas. Lola reapareceu. faz favor de verificar. com compreensão. Pensou na bolsa e tentou um último esforço. — Afinal posso dizer para quem era: era para Made moiselle Duffet.» Mathieu perguntou: — Ela. — Acrescentou vivamente: — Não foi a Boris. e o seu coração deu um salto. Dirigiu se para a porta. uma amiga minha.. Digo lhe apenas: devolva me o dinheiro. Entrou com nobreza e inclinou se diante de Lola. sem que ele a impedisse. olhava para Lola. — Já não o tenho. Lola hesitou. minha senhora. — Dei o dinheiro. — Como prova que são os meus? — Não tomou nota dos números? — perguntou Daniel. Mas Daniel estava sério como um papa.» Era Daniel. Roubou me às dez horas e à meia noite já gastou tudo? Os meus cumprimentos. Daniel sossegou o com um gesto. Ouviu a gritar no patamar.. lembrara se do pesado perfume de Chipre que exalava da maleta. quando viu de costas aquela forma negra que se retirava com a rigidez cega de uma catástrofe. como uma louca. — Estão aqui cinco mil francos? — Estão. — A quem? J E A N P AUL SARTRE — Não posso dizer. — Aqui estão os cinco mil francos. — Vem aí alguém — disse.. teve medo. — Essa é boa. Lola abriu a porta e saiu. — Não lhe pergunto isso. Mathieu pensou ao mesmo tempo: «Foi Marcelle quem o mandou. — Cheire — disse. — Obrigou Boris a devolvê las? — perguntou ela. — Tudo corre bem. irei explicar me lá. Mathieu pensou: «É Boris..

Deixaram na sair sem dizer nada. Apertava a bolsa na mão esquerda e com a direita amarrotava as notas. que são cinco mil francos para si? Mathieu respondeu sem alegria. Vim a correr e ouvi o fim da conversa. Mathieu não se sentia à vontade sozinho com Daniel. mas são igualmente incapazes de se ir embora. De repente disse: — As cartas. porque não volta? — Não sei. — Mas porque teria feito isto — perguntou subitamente —. isso ainda é mais difícil para eles. apresente queixa contra mini. Mathieu endureceu se e . sem ódio. na sua frente. adeus. — Pelo que se vê. Parecia angustiada e estupefacta. Lola. a amiga de Boris Serguine. vivo. de braços caídos. Acrescentou docemente: — Não se pode esquecer de retirar a queixa.. apenas com um enorme espanto e uma espécie de curiosidade. Lola contemplou Mathieu.. Ou então. Continuava imóvel no meio da sala. Ali estava ele. Daniel parecia disposto a abusar da situação. se quiser. pelo que peço desculpa. Trouxe as esta manhã quando pensávamos que tivesse morrido. Ouviram a porta fechar se. Foi o que me deu a ideia de ir buscar o dinheiro. À porta. — Quem é esta velha senhora? — perguntou Daniel. vivia no fundo dos olhos de Daniel. — Vou me embora. — Acha que ele vai voltar? — Acho. Mostrava se cerimonioso. deve ser muito. Foi uma amiga de Mathieu que mas confiou. — Adeus. Lola. — Pois é — disse Lola —. e só Deus sabe que forma tomara naquela consciência caprichosa e falsa. Está transtornada. Mathieu deu um passo em frente. Lola voltou a cabeça e disse depressa: — Ainda não tinha apresentado queixa. Parecia lhe que o tinham colocado subitamente na presença do seu erro. mas ela já se tinha dominado. Parecia sofrer. Lola soluçou e apoiou se à ombreira da porta. — Já não as tenho. São incapazes de fazer a felicidade de alguém. não precisa de nada? — Não. — É Lola.— Não conheço ninguém com esse nome. — Parece. Lola estava imóvel. — Roubou me cinco mil francos! É estranho! Os olhos porém apagaram se lhe e as feições tornaram se duras. voltou se: — Se ele não fez nada. a fim de que as trouxesse. Saiu. insolente e fúnebre como nos seus piores dias.

«deve impedir que as mãos lhe tremam». — Vens da casa de Marcelle? — Venho.» Não conseguia convencer se totalmente.. como que através de um monóculo imaginário. eu sou. Deu uma gargalhada forçada. — Não me vais levar a sério. pensou Mathieu com raiva. Quero dizer que não acredito que ames Marcelle. «De Marcelle. Mathieu. Observava Mathieu com uma certa surpresa. — Daniel — disse ele —. Daniel estava lívido. pensou Mathieu..ergueu a cabeça. Sentou se sobre a secretária balançando um pé com desenvoltura.. cala te — atalhou secamente. DA D E DA RAZAO Daniel encolheu os ombros. — Não precisa? — Não. Escuta. eu sou. — Ficarias muito espantado se soubesses — disse lhe Daniel. bom. — Não era disso que te vinha falar. depois. Disse com calma: — Então tu amava la? — Porque não? «E de Marcelle que se trata». Falas ou não falas? — Pois bem. Erguera a sobrancelha esquerda e olhava para Mathieu com ironia. — Isto vai mal — disse ele. isso é uma história antiga. — Não se fala mais nisso. — Espera e verás.» — Se não queres dizer. — Não.. Mathieu acendeu um cigarro. Daniel disse. meu caro. não acredito. Daniel estava abatido. Não sei o que há por baixo disto tudo. — Estás com uma cara! — disse Daniel com um sorriso mau. subitamente. — Diz me ao menos se ela tem mais para. pensou Mathieu. terminou a frase: . Parou de novo e Mathieu. — Ia dizer te o mesmo — respondeu Mathieu. — Foi ela quem mandou o dinheiro? — Ela não precisa dele — disse Daniel evasivamente. «Diverte se». levantou se e passou a mão pela testa. J E A N P AUL SARTRE Mathieu pensou: «Era amante dele. «Se me quer impressionar».. impaciente. se te disser! — Bom. Ficaremos com a criança. Daniel olhou o como se se divertisse a intrigá lo. A cabeça soava lhe como Um sino. indolentemente: — Caso me com ela..

— Como quiseres — disse Mathieu. sorridente. é. com uma paragem no Falstaff. — Estás bêbedo — observou Mathieu enojado. — Vens de lá? — Sim. — Aos meus amores — disse. só tenho rum branco.. Mathieu sentiu que corava. — Pois bem — atalhou Daniel —. e Mathieu perguntou: — Como vai ela? — Querias que eu te dissesse que está satisfeitíssima? — perguntou Daniel ironicamente. — Estavas à espreita! Tanto melhor. É uma ideia — acrescentou —. como para desculpar Marcelle: — Ela estava desesperada. antes não. mas afinal vieste aqui. Disse. — Só? — Só. Bebi depois de sair de casa de Marcelle. — Ainda vais lá de vez em quando? — Ainda. Mathieu viu lhe um brilho de rancor nos olhos.. — Espera um pouco. como se Mathieu dissimulasse qualquer coisa. — Pois então fala — pediu Mathieu. E que é que me querias dizer? — Nada. pensava que encontraria maior dificuldade em convencê la. Não tens nada para beber? Uísque? — Não. Calaram se um instante. afinal. . — Estava à espera que saísses — disse Daniel. — Ouve — disse Mathieu secamente —. Daniel pegou na garrafa e encheu os copos.. — Sim... pensou. — Subi logo a seguir. À tua saúde — disse Mathieu. Mas atirou se à minha proposta como a miséria sobre o mundo. vamos beber um copo. — Não querias outra coisa... humilhado. é evidente que não tenho nenhum direito.. heni? Não.. — Poupa me a minha modéstia. — É da Rhumerie Martiniquaise? — É. «Fui ignóbil». meu caro. Não é o que queres dizer? Daniel arregalou os olhos e assobiou. Voltou com dois copos e a garrafa.. Não te aflijas. meu velho — disse Daniel com súbita cordialidade. Mathieu não pôde evitar um gesto de contrariedade. nem sequer terás essa desculpa. — Queria apenas participar te o casamento. A Daniel olhou o com um ar inquisidor.— Es amante de Marcelle. friamente. Assim Marcelle não ficou só. — Deves tê la visto logo depois de eu ter saído. bebi um pouco.. — Nada mal — disse Daniel com admiração.. só. Foi à cozinha e abriu o armário.

mas parecia possesso. — Vim para devolver o dinheiro e tranquilizar te. — Lamentas alguma coisa? Tens saudades? — Não. Se me tivesse dito.Daniel encolheu os ombros e pôs se a andar de um lado para outro. — Ela odeia me. Falou te de mim? — Muito pouco. Mathieu levantou se. boa noite — disse Daniel levantando se. Mathieu encheu os copos. pomos lhe o nome de Mathieu. — Nunca o verei. — Obrigado. — Põe te no lugar dela — disse Daniel. — Para os dois Não sei porquê. não foi por filantropia — disse Daniel. tu vais salvá la. Beberam. não te zangues.. não é verdade? Não chegava a ser uma interrogação. Falava serenamente. nada de especial. mas não compreendo. cerrando os punhos.. E não se decidia a sair. duramente. Talvez seja melhor que nasça. que é que vais fazer? — Nada. — Cala te! — Não te zangues — disse Daniel. Repetiu distraído: — Não te zangues.. — Era o filho. vieste ver a cara que eu . Daniel dominava se. disse como para si próprio: — Então era o filho que ela queria. o facto de ires casar com ela perturba me um pouco.. Não compreendi. obstinado. porque é que fizeste isso? — Com certeza. Já me pus. Num certo sentido. secamente. — Sabes — disse Mathieu —. — Essa pequena Serguine? — Não. Depois. mas não se sente muito infeliz. — E agora — perguntou Daniel —. acho isso sinistro. e ele acrescentou sem esperar resposta: — Acho que deveria estar contente. Mathieu não se atrevia a olhá lo. Mathieu cruzou as mãos e fixou os olhos no sapato. Não faz mal. Marcelle não tem nada a temer e tem confiança em mini. Daniel calava se. — Não te preocupes. Se for um menino. — Em suma — disse lhe Mathieu —. — É horrível este rum. — Hem?! — Bom. — Mas agora estás livre. Toda esta A história a abalou terrivelmente. Mathieu continuou. — Bem sei. Tudo correrá bem. dá me mais um copo. Daniel não respondeu. — Vais casar com ela — repetiu Mathieu. Eu queria suprimi lo.

. Era a ordem das coisas. Aliás é por . tudo aquilo lhe parecia tão natural. tão normal. Porque havia de ter nojo? — Oh! — disse Daniel —. pensou Mathieu. Talvez tenhas nojo de ti próprio. Perdera a expressão irónica. mas continuava a sorrir. — Então porque me vieste contar? — Eu. agora que há alguém que sabe. Não precisas de tomar atitudes diante de mim. Daniel afastara se e contemplava o com espanto e ódio. — Pois já viste. Mathieu não pôde suportar o sorriso e voltou a cabeça. — Hem? — disse Mathieu. Daniel troçou: — Isto espanta te? Modifica a ideia que tinhas dos invertidos? Mathieu ergueu vivamente a cabeça. de braços colados ao corpo. A tua própria consciência já te dá bastante trabalho. — Não. Olhava Daniel e pensava: «Ele é pederasta. — Bem sei — disse Daniel sorrindo com altivez. — Pois não.. — Efectivamente não tens nada com isso. Não sou tão sólido como isso. mas não se tornara mais agradável. — Não dizes nada? — continuou Daniel. IDADE DA R A Z A O Estava verde. eu também tenho de mim. Somos iguais. — Não te armes em cínico.faria depois dessa história toda.. não penses que és obrigado a mostrares te generoso! Mathieu não respondeu. Daniel era um pederasta. Daniel deu uns passos em direcção à porta e bruscamente voltou. Disse finalmente: — Podes ser o que bem entenderes... Daniel estava imóvel.» Mas não estava muito admirado.. parecia apertado na sua roupa. Achava que devia dizer qualquer coisa. — Em parte — disse Daniel com franqueza —. E. sem simpatia. — Tens razão. mas fazes bem em não dizer nada. — E. depois. a reacção que deve ter todo o homem são. irritavas me. eu queria ver o efeito que isso podia provocar num tipo como tu — disse Daniel coçando a garganta. — Isso enoja te. J E A N P AUL SARTRE — Mathieu — disse —. não tenho nada com isso. cortante. Mostravas te sempre tão sólido. sou um pederasta. «Que ideia aquela de se vir torturar aqui». mas mergulhava na mais completa indiferença. uma indiferença profunda e paralisante. É a reacção normal. É desagradável. há qualquer coisa disso. não é? — És pederasta? — repetiu lentamente Mathieu. não tenho nojo. falava com dificuldade. talvez eu consiga acreditar nisso. Ele era um estupor.

Marcelle! Estás a ouvir? Marcelle. — Ela julga que a amas? — Não creio. é Mathieu. Um rubor sombrio manchou lhe o rosto aflito. e Mathieu disse com obstinação: — Não quero que ela seja infeliz. está. Daniel contemplava o com ironia. — Estou — disse a voz de Marcelle. bem se sabe. E. Mathieu conservou um momento o telefone na mão. demais. Mathieu sentiu um remorso agudo. mas isso não me convém. — Não posso permitir que cases com Marcelle.. J E A N P AUL SARTRE Não respondiam. Daniel olhava sem ver.. — Marcelle. Daniel olhava sem falar. não podes? — perguntou. depois uma espécie de gemido e desligaram.. — Devias ser o último a dizê lo.. — E. Escuta. — Bem — disse. — Juro que não o será. Mathieu bebeu um gole de rum e tornou a sentar se na poltrona.. Ela propôs me viver ao seu lado. — Daniel! Se casas por casar. Daniel levantou se. E tem se sempre o benefício da confissão. — Estou. arrogante. — Mas. Fez se silêncio. — Tranquiliza te — observou como consolação. Eu queria. — Ah!. o que ela quer. O tom não o convencia. não parecia triunfante.. Deve ser mais fácil confessar se a um miserável. com um olhar fixo. vais estragar lhe a vida. quero casar contigo. Vou instalá la em minha casa. fornos idiotas há pouco. Acrescentou com uma ironia dolorosa: — Estou resolvido a cumprir os meus deveres conjugais até ao fim. Calaram se. Mathieu estremeceu. — Tu és astucioso — disse Daniel com uma vulgaridade que Mathieu não conhecia. Pegou no telefone e marcou o número de Marcelle. — Os pederastas deram sempre bons mandos. O sentimento virá com o tempo. Encheram os copos. — E que farás para o impedir? Mathieu não respondeu.isso mesmo que me contas essa história. — Se é assim. à maneira dos velhos. é o filho. Daniel sorriu. Houve um curto silêncio. porque te casas com Marcelle? — Uma coisa nada tem a ver com a outra. Ele perdeu a cabeça e gritou ao telefone. E depois não caso por casar. principalmente. ela sabe? — Não! — Porque é que casas? — Por amizade. . depois largou o devagar.

— Tenho vergonha de ser pederasta. Daniel bebeu. reagiria. o que tu és não me interessa. — Escuta — disse —. Daniel olhava o efectivamente e com tal ódio que o coração de Mathieu se apertou. e ergueu a cabeça precipitadamente. — Gostarias de me enfiar uma bala na pele? Daniel não respondeu. — Meu Deus! — disse. casas te para te martirizares! — E então? Isso é comigo.» Daniel continuou a sorrir: — Vamos esvaziar a garrafa? — Vamos. Mas desejo saber uma coisa. é um gosto como outro qualquer. exactamente porque não és pederasta. Para ela não terá importância nenhuma. Todos os invertidos têm vergonha. Mathieu baixou a cabeça. — Porque me olhas assim? — perguntou. Há alguém que sabe. J E A N P AUL SARTRE \ — Tu odeia la? — Não. Porque é que tens vergonha disso? Daniel teve um riso seco: — Eu esperava essa pergunta — disse. Mathieu não respondeu.» Mas dirás isso tudo. — Bem sabes. Acendeu um cigarro. Olhava para o chão entre os pés: «É um pederasta e vai casar com ela. Daniel acrescentou vivamente: — Isso não tem importância. — Compreendo. e Mathieu percebeu que estava com vontade de fumar. está na sua natureza. etc. Pensou: «Daniel está a olhar para mim». exigiria um lugar ao sol. — Daniel — disse —. sentia se perseguido. porque sou pederasta. — Sim — disse com um ar distraído e imparcial —. Mathieu pôs a cabeça entre as mãos. Beberam. Mesmo agora.DA D E DA RAZAO Mathieu corou violentamente e acrescentou: — Também gostas de mulheres? Daniel fungou. Mathieu foi invadido por uma ideia insuportável. «No teu lugar. depois de saber que vais casar com ela. Subitamente o silêncio tornou se pesado.. acho que te deves sentir bastante mal. disse: — Não muito. Já sei o que vais dizer. Disse: — Tenho ainda mais nojo de mim. etc. Mathieu pensou tristemente: «E a mini que ele odeia.» Abriu as mãos e raspou o sapato no chão. . e lágrimas de vergonha inundaram lhe os olhos.

das suas esperanças. Não. que parecia deslocado naquele rosto cor de azeitona que a barba crescida manchava de azul. Mathieu acendeu outro cigarro e. morreram de vergonha. serei assim?» E subitamente foi invadido pelo desejo de falar a Marcelle. — Sim. — Conheço me muito bem. — Hoje. não basta abandonar uma mulher para se ser livre. — No meu lugar? — repetiu Daniel sem mostrar grande surpresa. e o desejo transformou se numa espécie de angústia. Daniel olhou Mathieu com curiosidade.. «ele foi até ao fim desta vez». Estava só.. — Não — disse Mathieu —. Uma ideia repentina causou lhe um certo mal estar: «Ele é livre. — Dá me um cigarro. esta noite.. estão mortos.— Mas não seria melhor. Mas parecia mais calmo e olhava para Mathieu sem ódio. pensou Mathieu. de quatro.. bebeu o. dos seus receios. . Suspirou e qualquer coisa pareceu ceder no seu rosto. J E A N p AUL SARTRE Daniel encolheu os ombros. só a ela podia falar da sua vida. de tanto terem vergonha. — Nesta história ganhaste por todos os lados.. tinha um ar de espanto. Passou a mão pela fronte. Daniel inspirava lhe horror. — Fumar agora? — Um só. — Deves estar num estado horrível. Disse.. — Hoje de manhã parecias acreditar que sim. — Sim. quase infantil. — Falaremos disso no dia em que aceitares ser um sacana. Tinha o olhar parado e de vez em quando os lábios entreabriam se lhe. E explicou: — És livre. ou simplesmente se aceitam. Sorriu de um modo singular. r A IDADE DA RAZÃO Não havia nada a dizer. como ainda havia um resto de rum no copo. Daniel parecia reflectir. os pederastas que se vangloriam ou se exibem. surpreendi me — disse em voz baixa. — Já me assumi demasiado — continuou com doçura. num estado horrível.» E o horror que Daniel lhe inspirava misturou se com a inveja. Daniel pareceu irritado. «É verdade». Pensou: «Dentro de dois anos. apesar de tudo. Mas lembrou se de que nunca mais a veria. e eu não quero esse género de morte. Daniel continuava a sorrir com ar de boa fé. Mathieu disse subitamente: — Gostava de estar no teu lugar. assumir isso? — perguntou timidamente Mathieu.

— E então? — Não o fez. Sentia se fascinado por Daniel. Eu. Nada é claro. Adeus. Daniel sorriu sem responder. todo o resto. não vens? — Não. tudo o que faço.— Não sei. — Tiveste vontade de partir para Espanha? — Tive. Depois de um momento. — Não — disse Mathieu. Daniel atirou o cigarro fora e disse: — Eu queria ser seis meses mais velho. Não sei o que daria para cometer um acto irremediável. encontrei um tipo que queria alistar se nas milícias espanholas. e Mathieu acrescentou bruscamente: . agora já não pode voltar atrás. Ver nos emos em breve? — perguntou Mathieu. mas acho que lhe seria penoso saber que nos vemos. Mas a verdade é que abandonei Marcelle por nada.. deve parecer lhe estranho sentir atrás de si um acto desconhecido. faço o por nada. agitadas pela brisa nocturna. — Por nada — repetiu. — Adeus. — Hoje não tenho vontade de me embriagar. — Ofereço te um copo no Clarisse. Daniel levantou se. — Com remorsos a menos.. Calaram se. — Nada de sensacional — observou Daniel. dir se ia que me roubam as consequências dos meus actos. Fixava o olhar nas cortinas da janela. agora está lixado. Estava cansado. que já quase não compreende e que lhe vai transformar a vida. — Nesse caso. DADË RAZÃO — Porque é que me dizes isso? — Não sei. — O quê? Mathieu mostrou a secretária num gesto largo e vago. — Tudo isto. — Em toda esta história eu não fui senão recusa e negação. — Daqui a seis meses serei a mesma coisa que sou hoje. Não era muito claro. Pensava: «Será isto a liberdade? Ele agiu. Marcelle já não faz parte da minha vida. à noite. — Bem — disse Mathieu. Marcelle disse que não queria mudar nada na minha vida.. felicidades. — Acho que será difícil. — Eu não — disse Mathieu. Não queres ficar mais um bocado? — Preciso de beber. mas há o resto. secamente. Não sei o que faria se bebesse. tudo se passa como se eu pudesse sempre voltar atrás. — Então. mas não a suficiente..» Disse em voz alta: — Anteontem.

um céu que sabia a férias e bailes campestres. Na rua. a luz branca de um farol deslizou no céu. — Daniel baixou a cabeça sem responder. sentado no braço da poltrona.. «Ninguém entravou a minha liberdade. por nada. Por nada. a resignação. Mathieu viu Daniel desaparecer e pensou: «Fico só. Era uma noite agradável. Morais comprovadas já lhe ofereciam os seus serviços. tinha acabado com a sua juventude. não há dúvida. Estava formado. o estoicismo. um homem caminhava tranquilamente. — Não neste momento. O epicurismo desiludido. viam se as estrelas por cima dos telhados. Repetia a bocejar: — Não há dúvida. Dissera a si mesmo na véspera: «Se ao menos Marcelle não existisse!» Mas era uma mentira. mas não mais livre do que antes. Um ruído de música subia da Avenida do Maine. FIM DO PRIMEIRO VOLUME . Tirou o casaco. Tirou os sapatos e ficou imóvel.» Aquela vida tinha Ihe sido dada para nada. — Adeus — disse Mathieu.. O vento varrera as nuvens. Era um céu de festa na aldeia. a indulgência sorridente. ele não era nada e. tudo isso que permite apreciar. a seriedade de espírito. Era Daniel. Parou na esquina da Rua Huyghens com a Rua Froidevaux e olhou o céu. Encostou se no parapeito e bocejou longamente. Daniel aproximou se e pousou a mão no ombro dele num gesto desajeitado e envergonhado. com um sapato na mão. Mathieu chegou se à janela e levantou as cortinas. Respirou o e recordou aquele dia tumultuoso.» Só. já não mudaria. pôs se a desfazer o nó da gravata. Tinha acabado o seu dia. Daniel saiu. estou na idade da razão. O perfume de Ivich ainda flutuava ali. Pensou: «Muito barulho. Bocejou. — Adeus. — Mas amanhã.» Fechou a janela e voltou para o quarto. agradável e azul. no entanto. em baixo. como bom conhecedor. minuto a minuto. Sentia ainda no fundo da garganta o calor adocicado do rum. foi a minha vida que a bebeu.— Odeias me. demorou se em cima de uma chaminé e escorregou por trás dos telhados. uma vida falhada.

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