Jean Paul Sartre (1905 1980

)

A IDADE DA RAZÃO
Os Caminhos Da Liberdade

Volume I

Tradução de Sérgio Milliet 5." Edição BERTRAND EDITORA VENDA NOVA 1996 ' Título original: Lês Chemins de Ia Liberte — L'Age de Raison © 1945, Éditions Gallimard Ilustração de capa: No boulevard, de Malevich Todos os direitos para a publicação desta obra em língua portuguesa excepto Brasil, reservados por Bertrand Editora, Lda. Fotocomposição e montagem: Grafitexto Impressão e acabamento: Gráfica Manuel Barbosa & Filhos, Lda. Depósito Legal n.° 101049/96 ISBN: 972 25 0996 9 Acabou se de imprimir se em Junho de 1996

A Wanda Kosakiewicz No meio da Rua Vercin getorix, o sujeito grandalhão agarrou Mathieu pelo braço. Um polícia passeava no passeio oposto. — Dê me alguma coisinha, patrão, estou com fome. Tinha os olhos muito unidos e os lábios grossos. E tresandava a álcool. — Não será sede o que tu tens? — indagou Mathieu. — Juro que não, meu velho — disse com dificuldade —, juro que não. Mathieu descobrira uma moeda de cinco francos no bolso: — No fundo não me interessa, perguntei por perguntar. E deu a moeda. — O que estás a fazer está certo — disse o tipo, apoiando se à parede —, quero desejar te uma coisa formidável. Mas o que é que te vou desejar? Reflectiram ambos. Mathieu atalhou: — O que quiseres. — Pois então vou desejar te felicidades — respondeu o outro. — É tudo. Riu triunfante. Mathieu viu o polícia aproximar se e receou que prendesse o tipo. — Bom — disse —, adeus. Quis afastar se, mas o homem alcançou-o. — A felicidade não basta — disse com uma voz entaramelada —, não basta... — Então! Que mais é que queres? — Quero dar te uma coisa. — E eu vou prender te por mendicidade — disse o polícia. Era muito jovem, muito rosado e esforçava se por se mostrar duro. — Há meia hora que estás aí a chatear os transeuntes — acrescentou sem convicção. — Não está a pedir esmola — disse Mathieu com vivacidade. — Estamos a conversar. O polícia encolheu os ombros e continuou o seu caminho. O tipo titubeava de modo inquietador; não parecia sequer ter visto o polícia. — Já sei o que é que te vou dar. Vou dar te um selo de Madrid. Tirou do bolso um rectângulo de cartão verde e entregou o a Mathieu. Este leu: «C. N. T. Diário Confederai. Exemplares 2. França. Comité Anarco Sindicalista, 41, Rua de Belleville, Paris 19.» Havia um selo ao lado do endereço. Também era verde e trazia o carimbo de Madrid. Mathieu estendeu a mão — Obrigado. — Cuidado! — disse o sujeito irritado. — E... de Madrid. Mathieu olhou o. O homem parecia comovido e fazia grandes esforços para exprimir o seu pensamento. Renunciou a isso e disse apenas: — Madrid! — Já sei. — Eu queria lá ir. Juro. Mas a coisa não se arranjou.

Tornara se sombrio. Murmurou «espera» e passou devagar o dedo sobre o selo. — Pronto. Podes levá lo. — Obrigado. Mathieu deu alguns passos, mas o sujeito chamou o. — Eh! — Que é? — disse Mathieu. O homem mostrava lhe a moeda de cinco francos. — Foi um tipo que me deu isso. Ofereço te um rum. — Hoje não. Mathieu afastou se com um vago remorso. Houvera uma época na sua vida em que deambulara pelas ruas, pêlos bares, com toda a gente; o primeiro que aparecesse podia convidá lo. Agora, tudo isso tinha acabado; esse género de aventura não dava nada... Era divertido. Tivera vontade de ir combater em Espanha. Mathieu apressou o passo, e pensou com alguma irritação: «Em todo o caso não tínhamos nada que dizer um ao outro.» Tirou do bolso o cartão verde: «Vem de Madrid, mas não tem o endereço dele. Deve lho ter dado alguém e apalpou o varias vezes antes de entregá lo, porque vinha de Madrid.» Lembrava se do rosto do homem e da sua expressão ao olhar para o selo: uma expressão estranha de paixão. Mathieu olhou o selo por sua vez, sem deixar de andar, depois repôs o pedaço de cartão no bolso. Um comboio apitou, e Mathieu pensou: «Estou velho.» Eram dez e vinte e cinco. Mathieu estava adiantado. Passou sem parar, sem querer voltar a cabeça diante da casinha azul. Mas ele espreitava a pelo canto do olho. Todas as janelas estavam escuras, com excepção da de Madame Duffet. Marcelle não tivera ainda tempo para abrir a porta de entrada; debruçada sobre a mãe, ajeitava, com gestos másculos, o leito de dossel. Mathieu, preocupado, pensava: «Quinhentos francos para darem até ao dia 29, isto é, trinta francos por dia, mais ou menos. Como é que me vou arranjar?» Deu meia volta e voltou para trás. Apagara se a luz no quarto de Madame Duffet. Pouco depois, a janela de Marcelle iluminou se. Mathieu atravessou a rua e seguiu, ao longo da mercearia, tomando cuidado para que as solas novas dos sapatos não rangessem. A porta estava entreaberta, empurrou a devagar, ela gemeu. «Quarta feira vou trazer a minha almotolia para olear os gonzos.» Entrou, fechou a porta e descalçou se no escuro. A escada rangia um bocado. Mathieu subiu com precauções, de sapatos na mão; tacteava cada degrau com os dedos do pé antes de dar um passo. «Que comédia!», pensou. Marcelle abriu a porta antes que ele alcançasse o patamar. Uma névoa rósea e que cheirava a lírio projectou se fora do quarto

e espalhou se pela escada. Ela tinha vestido uma camisola verde, transparente, através da qual Mathieu viu a curva suave e gorda das ancas. Entrou. Tinha sempre a sensação de entrar numa concha. Marcelle fechou a porta à chave. Mathieu dirigiu se ao grande armário metido na parede e guardou os sapatos; contemplou depois Marcelle e viu que havia qualquer coisa. — Que é que se passa? — perguntou em voz baixa. — Nada — respondeu Marcelle, igualmente em voz baixa. — E tu, meu velho? — Estou sem cheta. Fora isso, tudo bem. Beijou a no pescoço e na boca. O pescoço cheirava a âmbar, a boca cheirava a tabaco ordinário. Marcelle sentou se à beira da cama e pôs se a olhar as pernas enquanto Mathieu se despia. — Que é isto? — indagou Mathieu. Havia em cima da lareira uma fotografia que ele não conhecia. Aproximou se e viu uma jovem magra, penteada como um rapaz, e que ria com um ar ríspido e tímido. Envergava um casaco de homem e calçava sapatos de salto baixo. — Sou eu — disse Marcelle, sem erguer a cabeça. Mathieu voltou se. Marcelle levantara a camisola sobre as coxas gordas. Estava curvada e Mathieu adivinhava sob a camisola a fragilidade dos seios pesados. — Onde é que encontraste isto? — Num álbum. É do Verão de 28. Mathieu dobrou cuidadosamente o casaco e colocou o no armário ao lado dos sapatos. Perguntou: — Então agora andas a mexer nos álbuns da família? — Não, não sei, mas hoje tive vontade de encontrar coisas da minha vida, de ver como eu era antes de te conhecer. Trá-la cá. Mathieu pegou na fotografia e ela arrancou lha das mãos. Sentou se ao lado dela. Marcelle teve um arrepio e afastou se um pouco. Olhava a fotografia com um sorriso vago: — Como eu era engraçada — disse. A jovem mantinha se rígida, apoiada à grade de um jardim. Abria a boca e devia estar também a dizer: “É cômico”, com a mesma desenvoltura atarantada, a mesma ousadia sem firmeza. Só que era jovem e magra. Marcelle sacudiu a cabeça. — É de morrer a rir! Foi tirada no Luxemburgo por um estudante de Farmácia. Estás a ver o meu blusão? Comprei o nesse mesmo dia, porque íamos dar um grande passeio a Fontainebleau no domingo seguinte. Meu Deus!... Havia com certeza alguma coisa. Nunca os seus gestos tinham sido tão bruscos, a sua voz tão masculina. Estava sentada à beira da cama, mais do que nua, sem defesa, como um vaso enorme no fundo do quarto cor de rosa, e era penoso ouvir essa voz masculina enquanto um cheiro forte e sombrio se exalava dela. Mathieu agarrou a pêlos ombros, apertando a. — Tens saudades dessa época? Marcelle respondeu secamente: — Dessa época não, mas da vida que poderia ter tido.

No entanto. Disse: — Ontem fui ao colégio dar as minhas últimas aulas. Ela olhava a fotografia com um ar triste e tenso. estava cansada. Parecia um levantino gordo. sabes. indiferente: — E tu? Mathieu não tinha vontade de contar. — E hoje? — Hoje saí — disse ela melancólica. não? — Engordaste. mas viu Ihe os olhos e calou se. Ela encolheu os ombros e atirou a fotografia para cima da cama. Mathieu pensou: «Não lhe dou nada. Mathieu pensou: «É verdade. — Engordei. — Já lá vão dez anos. Hoje de manhã passei na tesouraria para ver se podiam adiantar me alguma coisa.» Quatro noites por semana vinha vê la. — Porquê? A voz de Marcelle voltara à firmeza habitual e o seu rosto assumira uma expressão de bom senso masculino. Acrescentou: J E A N P AUL SARTRE — Ela anda desanimada. Li um pouco. Jantei em casa de Jacques. mas ela afastou se sem violência com um risinho nervoso.. — E viste? — Cinco minutos. é um mês de Junho esquisito. Ele murmurou: — Ela vai chumbar.» Abriu os lábios para interrogá la. Depois vi Ivich. em tfeauvais eu entendia me com o tesoureiro. . e depois. que uma doença havia interrompido. com voz séria e ligeiramente autoritária. começou a chover. parece que não fazem isso. Ele não gostava de lhe falar de Ivich. de acotovelar pessoas. queria ver Andrée. Apanhei um táxi e voltei.» Ele perguntou: — Que fizeste ontem? Saíste? Marcelle teve um gesto desanimado e vago. isto divertia me. Marcelle ergueu as sobrancelhas e olhou o. leva uma vida horrível. — Não. chato como de costume. Ela dava lhe conselhos. — Disseste me que ela estudava. Contava lhe minuciosamente tudo o que fazia.» Quis beijar lhe a cara. Mathieu pensou: «Parece que ela me detesta.. as pessoas tinham umas caras ignóbeis. Perguntou. Quando saí de casa dela. Dizia muitas vezes: «Vivo por procuração. mas a mãe interrompia me a cada instante por causa da loja.Tinha iniciado os seus estudos de Química. Desci até à Rua da Gaite. — Senti necessidade de tomar ar.

E tu acreditas que uma boneca com uma pele daquelas vai estragá la com tiros? Posso imaginá la caída numa cadeira. Mas sabes como ela é: tem visões. deve ficar horas inteiras diante de um livro sem fazer um movimento. Ela apoiou o braço no de Mathieu.— Sim. tenho medo que lhe aconteça o mesmo desta vez. Gostava que ele lhe acariciasse as costas.. Vais ver. «Que é que eu tenho a ver com os celenterados?». — Em todo o caso — atalhou Mathieu —. como os loucos. e o tipo não lhe arrancou nem mais uma palavra. Marcelle. Marcelle não ignorava nada da sua afeição por Ivich. Não ousas confessar. Mathieu não deixara de acariciar as costas de Marcelle e ela começou a pestanejar. pouco me importa que Ivich reprove. principalmente junto dos rins e entre as omoplatas. Aquele tom de displicência protectora não seria uma mentira? Tudo o que podia exprimir por meio de palavras dizia o. a minha até parece de marroquim. Mas se a coisa não correr bem desta vez. — Ah! conheço te muito bem. mas tens medo que ela enfie uma bala no corpo. Ele tinha a pele mais branca do que a dela.C. desanimado. É muito russo isso! Mas imaginar outra coisa. — Que rapariga estranha! — disse Marcelle pensativa. no caso de ter um azar. não. Ou que invente alguma coisa. isto é. meu velho. — Olha para isto. meu pobre velho. Um revólver é para as nossas peles de crocodilo. desmaiaria na primeira dissecação. pensou. Ela foi tão pouco feita para ser médica como eu. com os cabelos sobre o rosto e fascinada diante de um minúsculo Browning. e não poria mais os pés na Faculdade. o examinador estava satisfeito. Marcelle libertou se e o seu rosto endureceu. Isso pareceu lhe ridículo. A família não a deixará recomeçar. à sua maneira. Desatou a rir. De qualquer maneira. Parece que nunca lhe viste o corpo. ela vai fazer um disparate. não. meu velho. Em Outubro sabia bastante de Botânica.B. Marcelle indagou com voz firme: — Que espécie de disparate queres tu dizer exactamente? — Não sei — respondeu ele perturbado. Em suma. exigia apenas uma coisa: que ele falasse de Ivich precisamente naquele tom. mesmo que passasse no P. Mas de repente. Mathieu disse lhe: A — Ouve. aceitava mesmo que ele a amasse. E dizes que tens horror ao romanesco. Mas nem só as palavras contam! Hesitou um instante e baixou a cabeça. só de lhe passar o dedo por cima. no próximo ano. de repente «viu se» diante de um tipo calvo a falar de celenterados. — Não achas que tenho uma pele boa para fazer uma escumadeira? . pois não? Eu teria receio de ofendê la.

A — Era um anarquista? — Não sei. Marcelle não se mexeu: olhava a mão de Mathieu. — Podia ser divertido. Dentro em pouco não se poderia conter. com indiferença. J E A N P AUL SARTRE Continuava a rir. Ele disse: — Como estás nervosa! Ela não respondeu. Mathieu tapou lhe a boca com a mão. — E tu recusaste? — Recusei. — Olha para mim — disse. irrito me sempre.Imagino um buraquinho bem redondo por baixo do esquerdo. isso tinha um grande valor para ele. Era simpático e eu dei lhe algum dinheiro. — Ora! Marcelle ergueu a cabeça e contemplou o relógio com um ar míope e divertido. Não havia nada a fazer senão esperar. o tempo de um olhar altivo e desesperado. E só Deus sabe corno estas coisas se repetem ultimamente. A tua vida está cheia de oportunidades perdidas. — Olha. estouraria. Mathieu temia essas explosões silenciosas: a paixão naquele quarto concha era impossível. Ela calou se. Marcelle pegou no cartão. Vais acordar a velha. Mathieu pousou a mão na perna de Marcelle e acariciou a docemente. Viu momentaneamente as suas olheiras. com os bordos limpos e avermelhados. Queria oferecer me um copo. — Quando tu me contas estas coisas. — Cala te. — Chamas a isto uma oportunidade perdida? — Sim. concordando. — Porquê? — perguntou Marcelle com negligência. Acrescentou: — Sabes. — Que é que achas? Envelheci? . — Que é que tu tens? — Nada — disse ela virando a cabeça. Era sempre assim com ela: como um nó. — E curioso — observou. Gostava daquela carne amanteigada com os pêlos suaves sob as carícias. — Talvez tenha mudado um pouco — disse Mathieu. Mathieu levantou se. Não seria nada feio. foi até ao armário e tirou o cartão do bolso do casaco. — Que é isso? — Foi um tipo que mo deu há pouco na rua. porque era necessário exprimi la em voz baixa e sem gestos para não acordar Madame Duffet. Este acabou por retirá la. Antigamente terias feito tudo para provocar esses encontros. Mathieu sentiu se ligado ao tipo por uma espécie de cumplicidade. como mil arrepios tensos.

quando se está bêbedo.» No entanto. Não reflecti assim tanto. Um ronronar baixo e terno como quando ela lhe acariciava os cabelos dizendo lhe: «Meu pobre velho. não creio que seja isso. — Que é que achas de tão interessante nisto. eles já se lhe tinham habituado. Trinta e quatro anos.. — Isto não é nada. Ouve.» Quis fazer um esforço para ser sincero. tens um medo tão grande de te iludir a ti próprio que recusarias a mais bela aventura do mundo para não te arriscares a uma mentira. pensou Mathieu.. mas Marcelle tinha a adoptado havia algum tempo. «Ela procura provocar me». Há muito tempo que se diz isso. J E A N P AUL SARTRE Mathieu e Marcelle tinham combinado dizer sempre tudo um ao outro. ando um pouco alheio. — Conheço te bem — disse. Compreendes. absolutamente nada e nem há motivo para tanta história. essa lucidez.. meu velho. — Sim.. eram responsáveis por ela diante um do outro. era . No Inverno anterior era «urgência». não andares alheio — disse Marcelle. a tua famosa lucidez. Mathieu acrescentou com vivacidade: — Ele também devia estar alheio. Sentia se tranquilo e algo estúpido.. Mathieu sobressaltou se: se ao menos ela não empregasse palavras tão rebarbativas... não tinha um ar terno.. — Que há. Antes de mais nada. A IDADE DA RAZÃO — Pois é — atalhou Mathieu —. Mas Marcelle tinha desatado a rir. é tudo patético. Essa «lucidez» (detestava a palavra. — disse ele. — Vamos lá — disse. Mas não deixa de ser sintomático. Achava a injusta. eu não tinha tempo. Tu és divertido. as palavras para ela não duravam mais do que uma estação).. perturbado. agora. Era a que eu queria evitar. de bom humor e sem vontade de discutir.— Tens trinta e quatro anos — disse simplesmente Marcelle. bem o sabes. — Ouve — disse —. — É tão raro. Era ainda contra ele próprio que se defendia.. Mathieu pensou em Ivich e teve um estremecimento desagradável. — Como tu tens medo do patético! E depois? Mesmo que te mostrasses um pouco patético com esse pobre diabo! Que mal é que havia? — E o que é que adiantava? — perguntou Mathieu. vinha para cá. Pensou: «Não é completamente verdade. — Tens perfeitamente razão — disse Marcelle. Marcelle sorriu sem ternura. — Bem. em suma. não tens razão em dar importância a essa história. Foi antes por escrúpulo.

É para te libertar de ti próprio. sim — disse ela com indolência.. — Se eu mentisse a mim mesmo — disse —.. Quando Mathieu se comprometera com Marcelle. eu gostaria de não dever nada senão a mim próprio.. teria a impressão de te mentir também. e se Mathieu não concordava com ela. Sabes o que estou a pensar? Que te estás a esterilizar um pouco. Ser livre.apenas o profundo sentido do seu amor. — Não ser nada — repetiu lentamente Mathieu. E não me venhas dizer que é por mim que razes isso. Só podia amar Marcelle com inteira lucidez. No fundo. a sua testemunha. gostas de te analisar. existir parecer me ia absurdo.. desconfiada. a sua companheira. Escuta: eu. Tudo aquilo. Encarou Marcelle. Isso era me insuportável. — Não pareces convencida! — Estou. Pensei nisso hoje. Não parecia muito convencida. — Isso de me conheceres não me interessa assim tanto — disse simplesmente. julgar: é a tua atitude predilecta. Marcelle pusera um ar sorridente e obstinado: — Sim. conselheira e juiz. é o teu ideal: não ser nada. que não és nada. — Sim — disse Marcelle. E tórrido. Oh!. cheiras a roupa lavada. — Sim. — Eu sei — atalhou Marcelle —. tu segues o teu caminho. não é um fim. Mathieu estava desconcertado. sabe se lá! Mas não creio. é como se tivesses passado pela lavandaria. imaginas que não és o que estás a ver. Não é isso. aos pensamentos frescos. sombrios e tímidos que dantes se esgueiravam dentro dele com a vivacidade furtiva dos peixes. sim. ela era a sua lucidez. isto é. é o teu vício. tudo é claro e nítido em ti. imaginava que ele a queria dominar. Só falta o contraste. um J E A N P AUL SARTRE pouco agressiva. e ela sabia que era muito importante para ele. — É... Mas raramente sentia nela aquela vontade deliberada de lhe ser desagradável. É o teu vício. Nada de inútil. mantinha se em guarda. Que é que tu queres que se faça? Estava irritado. Totalmente livre. E depois havia aquela fotografia em cima da cama. — Não é um vício — disse Mathieu. — Se. olhar.. é um meio. — Pensas que estou a mentir? — Não.. se eu não tentasse viver por conta própria. ... Marcelle mostrava se muitas vezes bastante dura. renunciara definitivamente aos desejos de solidão.. Quando olhas para ti próprio. tinha lho explicado cem vezes.. — Não. com inquietação: ainda não tinha chegado o momento de ela se decidir a falar... de estranho. de hesitante.

com voz fraca. Mathieu sentia prazer na ponta dos dedos. se não é um vício? — São assim. de repente. Calaram se. cansada. envergonhado da sua nudez. Pensou que nunca conseguiria pôr se no lugar de Marcelle: «A liberdade de que lhe falo é a liberdade de homem saudável. levantou se. — Não se passa nada — respondeu. pô las dobradas aos pés da cama e estendeu se ao lado dela. Pensou: «Como está a envelhecer!» E pensou que ele também estava velho. — Porque é que os outros não são assim. mas não percebem que o são. aquele remorso absurdo que o perseguia quando estava com ela. viu lhe então as longas pestanas pretas. mas para ver aquele espírito teimoso e anguloso fundir se como um pedaço de gelo ao sol. com as mãos cruzadas sob a cabeça. Inclinou se sobre ela com uma espécie de mal estar. — Passa se — disse ele com ternura —. A Marcelle deixara de rir. — Pois eu não tenho toda essa necessidade de ser livre — disse. Ele sentou se à beira da cama. Mathieu olhou para a sua nuca inclinada e não se sentiu à vontade. Apertou a nos braços: não que a desejasse naquele instante. que contemplava o tecto. mas teve remorsos e disse suavemente: — Não é um vício. as olheiras azuladas e borbulhentas. dês J E A N P AUL SARTRE feita.Mathieu pensou: «Ela irrita me quando se arma em esperta». Mathieu ergueu se. vais dizer me o que é que se passa. tirou as calças e a camisa. Exactamente na ponta dos dedos. e ela baixou as pálpebras. estás aborrecida? Ela ergueu para ele os olhos um pouco perturbados. Ela escorregou devagar para trás e deitou se de costas sobre a cama. Beijou a na boca. há alguma coisa que te . Tinha um vinco duro e triste no canto dos lábios. — Agora — disse com firmeza —.» Pôs lhe a mão no pescoço e apertou suavemente entre os dedos aquela carne untuosa. Mas havia muito tempo que já não se esquecia quando a possuía. ligeiramente envelhecida. — Marcelle! Ela não respondeu. bem desenhada e severa. tinha uma expressão má. — Não. gostaria de esquecer se e esquecê la. eu sou assim. de olhos fechados. Mas percebeu que agora ela tinha os olhos abertos e parados. Era sempre aquele remorso. Marcelle deixou cair a cabeça sobre o ombro de Mathieu e ele viu lhe de perto a pele morena. tinha uma linda boca. — Marcelle. Deixou escorregar a mão ao longo das costas de Marcelle.

. não é a ti que te compete. Sabes que nunca perco a cabeça: mas. Tinha voltado a cabeça para ele e contemplava o. e isto vai aborrecer te. aconteceu. encher o cachimbo. Mathieu corou violentamente e apertou as pernas. não quero. Marcelle.» Tinha vontade de fazer alguma coisa com as mãos. para o largar em seguida. Não. açucarado. Mathieu observou que o rosto se lhe tornara cinzento. dir se ia que procurava não tossir. e o seu olhar desceu mais ainda. Olhou lhe o pescoço. Tirou um cigarro da mesa de cabeceira. Vamos reflectir. — Dizes me essas coisas assim. — Aconteceu o quê? — Aconteceu! Mathieu fez uma careta. sem preparação. — Vá lá. Tinha uma expressão dura mas não máscula. mas o cachimbo estava no armário com o casaco. Ele acariciou lhe levemente os cabelos. um insecto vermelho . os ombros. dois meses de atraso! — Merda! Pensava: «Ela devia ter mo dito há pelo menos três semanas. — Então queres ser pai? Ela afastou se. Mas havia aquele rosto cinzento. Parecia espantada. Tinha as mãos sobre as coxas e os braços pareciam asas de terracota. a cintura. — Tens a certeza? — Absoluta. cheirava a rosas. aquele olhar parado..aborrece. As mãos de Marcelle principiaram a tremer. Não dizemos tudo um ao outro? — Tu não podes fazer nada. O ar estava doce. sentou se a uma certa distância de Mathieu. — Pois então. Disse com súbita paixão: — Não é preciso que reflictas. Que é que vamos fazer? — Desenvencilharmo nos disto.. Ela já lá esteve. — Não podes fazer nada — repetiu Marcelle. — Quem ta deu? — Andrée. — Espera — disse Mathieu. Tenho uma direcção. E acrescentou com uma amarga ironia: — Isto agora é uma coisa de mulheres.. — Agora já sabes. conta. não? — Está bem. por exemplo. — Pois é — disse Marcelle. — É a mulher que a liquidou no ano passado? Custou lhe seis meses de cama. Os lábios cerraram se sobre as últimas palavras: uma °ca húmida com reflexos violeta.

Dizem que é irrisório. Mathieu pensou: «Eu é que lhe fiz isto. que porcaria! A asneira é minha. a nudez satisfeita e peremptória. — Ainda bem... para a flor culpada. O quarto parecia ter se esvaziado repentinamente do fumo róseo. — Acredito. o relógio. sabes? — disse de repente Marcelle com uma voz sensata.» E a lâmpada. — É um bom negócio.ocupado em devorar o rosto cinzento. Enfim. — Tinhas direito a fazê lo — observou Mathieu. que descansava delicadamente sobre as coxas com um ar de impertinente inocência. Escuta. — Bem sei — disse Mathieu com amargura. Naturalmente não te censuro nada.» Disse: — É exactamente o que me preocupa: o não levar muito. É a primeira vez. Era um pesadelo grotesco. já estava calma. sem conseguir arrancar se daquele mundo sinistro e agreste. Mathieu mexeu se. Ela só leva quatrocentos francos. «Sente se humilhada». estou persuadida de que serei tão bem tratada por ela como por qualquer outra — afirmou —. musculosas. — Garanto te que não me sinto orgulhoso. pensou Mathieu.» Ele tinha vontade de vomitar. que teima em tocar. Felizmente que pede pouco e eu tenho precisamente quatrocentos francos comigo. querido. Era tudo o que podia permitir se. como . tudo adquiriu um aspecto de impiedosa engrenagem: fora posta em movimento e girava no vácuo das suas frágeis existências. de soluçar. o armário entreaberto. Ele sabia que ela tinha vontade de gritar. com uma obstinação rígida. sabes. e tu é que pagas. precisava de desabafar. Disse com uma voz decidida: — Desculpa. mas ela espera. «Se fosse ela». Agarrou bruscamente Marcelle pela cintura e apertou a contra ele. Quando ergueu a cabeça. o espelho com os reflexos de chumbo. 24. Dizes que vais da parte de Andrée? — Sim. Estou a dominar me desde esta manhã. «teria vontade de bater em toda esta carne.. insistindo na sua melodia. Mas ela não a podia esquecer: via as coxas brancas dele. eram para a minha costureira.. Ela inclinou se sobre os seus ombros e fungou duas ou três vezes sem verter lágrimas. pensou Mathieu. quem é essa mulher? Onde é que ela mora? — Rua Morère. desastrado e nu que fizera uma asneira e sorria gentilmente para se fazer perdoar. continuava a olhar para o ventre de Mathieu. como o mecanismo de uma caixinha de música. a cómoda. Bolas. E. Parece que é uma mulher estranha. com medo de acordar Madame Duffet. Sentia se desajeitado. Marcelle não se mexera. como um noivo. aconteceu. «odeia me. um pouco curtas. havia grandes vazios entre os objectos. aconteceu. Um tipo grande. mas não o faria.

Estamos nervosos de mais. se não servir? — Podemos esperar dois dias. Amanhã vou ter com a Sara. quase não dorme. Entra se pelo pátio. que tenho uma amiga que está atrapalhada. — Tu és bom. Gostarias que te operassem em vez de mini. e ela abandonou se completamente. De dia a mulher está na mercearia. mas estava apreensiva. Marcelle parecia um pouco mais calma. por volta da meia noite. querido. . porque se constipou. qualquer coisa. Era como uma mão morna. — Como queiras — disse com frieza. — Estás doido? Ela põe te na rua. passiva e gulosa. mas que não pode ir já. Mas acrescentou com mais amabilidade: — No fundo tens razão. não vais. Cantava lhe ao ouvido uma música gritante. estamos nervosos de mais. Eu desejava as tuas carícias. E súbita A mente ele pensou: «Está grávida. é de certeza um judeu. de olhos cerrados. — Tira a tua camisa. ela deve conhecer alguém. Marcelle olhou o admirada. não? Passou os lindos braços à volta do pescoço dele e acrescentou com um ar de resignação cómica: — Se perguntares à Sara. — Escuta. Lembras te. Mathieu sentiu se perturbado. Marcelle. querido. cercadas de intumescências febris. — Quando é que vais? — Amanhã. Desculpa. — Eu vou lá. vai pensar que és um tipo da Polícia. — Mas porquê? Que é que lhe vais dizer? — Quero ver como é. Ele acariciou lhe os seios. mas a mim dá me jeito por causa da minha mãe. Obedeceu e deitou se. Gostava das suas pontas gordas e duras. — Eu vou lá — repetiu Mathieu. Digo lhe que vou da parte de Andrée. não? Acho que ela não regula muito bem. — E então? Aonde é que vou. Além disso. J E A N P AUL SARTRE — Bem — disse Mathieu. Mathieu beijou a. Mas as pálpebras crispavam se lhe. Dizem que só recebe de noite. hoje isto não vai. É engraçado. Marcelle suspirava. no princípio ela não queria filhos. Se não me agradar. depois levantou se e enfiou as mãos nos cabelos. não podemos escolher. vê se luz por baixo de uma porta. — Querido. mas percebo que queres fazer qualquer coisa. não sei muito bem o que é que vais fazer. Marcelle gemeu levemente. Acariciou lhe a nuca. Não quero que caias no açougue de urna velha tonta. é aí.nessas famosas clínicas clandestinas onde cobram quatro mil francos.» Sentou se. — Não podemos escolher — repetiu Mathieu.

anonimamente. — J E A N P A U L. — Não. murmurou com ódio. Ivich nunca pensava nos . enfiado até ao pescoço na sua roupa. Era intolerável ser julgado assim. não lhe escaparia. E repetiu o a meia voz para convencer Marcelle: «Uma única vez em sete anos. Mathieu levantou se. pensava: «O estupor fez me isto. trespassado.. Não era verdade. mais incómoda do que um olhar. e encontrava pouco a pouco o calor e a inocência. a sua carne culpada sentia se resguardada. pensava nele. amanhã à noite.» Marcelle não se deixava convencer: ficara no quarto e pensava em Mathieu. nem sequer esconder o ventre com as mãos. odiado em silêncio. tenho a impressão de ser um monte de comida. Daniel estava bêbedo ou embrutecido. — Não me queres mal? — A culpa não é tua. — É que sinto repugnância por mim mesma.— O mal está feito. nu e sem defesa. A consciência de Marcelle ficara lá cheia de desgraças e de gritos. E eu não te repugno. como hei de fazer para não me esquecer?» Estava sozinho. Só aconteceu uma vez em sete anos. Não tens nada que te recriminar. prometo. esqueceu se dentro de mim como um miúdo que faz chichi na cama. «A almotolia! Vou trazê la amanhã. pudesse existir para outros A com aquela força.» Podia andar pelas ruas desertas. Se ao menos. diante daquela pesada transparência. Parou. — Não posso ver te amanhã à noite? Seria mais simples. — Bom. No patamar voltou se: Marcelle ficara sentada na cama. Escondida pela roupa escura e pela noite. Em oito dias tudo terá acabado. querida. querido. Sem se poder defender. — Eu sei. — Sim. — Querida — disse Mathieu com ternura —. Vou ver a velha. que lhe rolaram à vontade nas órbitas: ela já não o contemplava e não tinha de lhe prestar contas dos seus olhares. Beijou Marcelle nos olhos. Depois de amanhã. mas era instintivo. Mathieu tinha enfiado a camisa e as calças. ao menos? — És tola. Marcelle não o abandonara. SARTRE Abriu a porta sem ruído e esgueirou se para fora com os sapatos na mão. Algo se desprendeu nos seus olhos fixos. Sorria lhe. recomeçava a desabrochar sob os tecidos.. não. Não me explico bem. se quiseres. Mas Jacques e Odette dormiam. fazes me medo. não temos mais nada a temer. ao mesmo tempo. mas Mathieu teve a impressão de que ela lhe guardava rancor. Telefona me amanhã para me dizeres o que há. Não estava só. à distância. «Uma única vez». e Mathieu não a deixara: ele continuava no quarto cor de rosa.

ausentes. Boris talvez... Mas a consciência de Boris era apenas uma faísca difusa, não podia lutar contra a lucidez imóvel e sombria que fascinava Mathieu à distância. A noite amortalhara a maioria das consciências. Mathieu estava só com Marcelle dentro da noite. Um casal. Havia luz no Café Camus. O patrão empilhava as cadeiras; a servente fechava um dos lados da porta de madeira. Mathieu empurrou a outra porta e entrou. Tinha vontade de se mostrar. Simplesmente de se mostrar. Encostou se ao balcão. — Boa noite a todos. O patrão olhou o. Havia também um condutor que bebia Pernod, com o boné sobre os olhos. Eram consciências. Consciências afáveis e discretas. O condutor atirou o boné para trás, com um piparote, e olhou para Mathieu. A consciência de Marcelle abandonou a presa e diluiu se na noite. — Uma cerveja — pediu Mathieu. — Raramente aparece — disse o patrão. — Não é por falta de sede. — E verdade que temos sede. Parece que estamos no fim do Verão — disse o condutor. Calaram se. O patrão lavava os copos, o condutor assobiava baixinho, Mathieu sentia se contente porque eles olhavam no de vez em quando. Viu a sua cabeça no espelho: emergia, redonda e lívida, de um mar de prata. No Café Camus tinha se sempre a impressão de serem quatro horas da manhã, por causa da luz, uma névoa prateada que cansava os olhos, embranquecia os rostos, J E A N P A U L SARTRE as mãos, lavava os pensamentos. Bebeu. Reflectiu. «Ela está grávida. Incrível. Não parece verdade.» Parecia lhe, isso sim, chocante, grotesco como quando um velho e uma velha se beijam na boca: depois de sete anos, aquelas histórias não deviam acontecer. «Ela está grávida.» Tinha no ventre uma pequena maré translúcida que inchava docemente, que era corno um olho: «E desenvolve se no meio das porcarias que ela tem no ventre, e vive.» Viu um alfinete comprido avançando na penumbra. Um ruído mole e o olho estourou, furado; ficou apenas uma membrana opaca e seca. «Ela vai ver a velha, vai para o talho.» Sentia se venenoso. «Chega.» Mexeu se: eram pensamentos lívidos, pensamentos das quatro horas da manhã. — Boa noite. Pagou e saiu. «Que é que eu fiz?» Andava devagar, procurando lembrar se. «Dois meses...» Não se lembrava de nada, talvez fosse depois daquelas férias da Páscoa. Tomara Marcelle nos braços como de costume, com ternura sem dúvida, mais por ternura do que por desejo; e no entanto... «Um filho. Eu pensava dar lhe prazer e fiz lhe um filho. Não compreendi o que fazia. Agora vou

entregar quatrocentos francos a essa velha, e ela vai enfiar o instrumento entre as pernas de Marcelle, e raspar; a vida partirá como veio; e eu continuarei tão estúpido como dantes. Destruindo esta vida como a criei, não sabia o que fazia.» Riu secamente: «E os outros? Os que gravemente decidiram ser pais e se sentem genitores quando contemplam o ventre das suas mulheres... Compreenderão melhor do que eu? Fizeram no às cegas, ao acaso. O resto foi trabalho em câmara escura e em A gelatina, como a fotografia. Isto faz se sem eles.» Entrou no pátio e viu uma luz por baixo da porta. Era ali. Estava envergonhado. Mathieu bateu. — Quem é? — perguntou urna voz. — Gostaria de falar consigo. — Não é hora de vir a casa das pessoas. — Venho da parte de Andrée Besnier. A porta abriu se. Mathieu viu uma madeixa de cabelos amarelos e um nariz avantajado. — Que é que quer? Não venha como polícia porque não me apanha. Estou em ordem. Tenho o direito de deixar a luz acesa a noite inteira, se quiser. Se o senhor é inspector, mostre me o seu cartão. — Não sou da Polícia — disse Mathieu. — Tenho uma complicação e disseram me que podia procurá la. — Entre. Mathieu entrou. A velha vestia calças de homem e uma blusa com fecho éclair. Era muito magra, de olhos inexpressivos e duros. — Conhece Andrée Besnier? Encarava o com um ar furioso. — Sim — disse Mathieu. — Ela veio procurá la o ano passado, nas vésperas do Natal, porque estava atrapalhada. Ficou bastante doente e a senhora foi quatro vezes à casa dela para a tratar. — E depois? Mathieu olhava as mãos da velha. Eram mãos de homem, de estrangulador, ásperas, gretadas, de unhas curtas e pretas, com cicatrizes e cortes. Sobre a primeira falange do polegar esquerdo havia equimoses violáceas e uma crosta negra. Mathieu estremeceu ao pensar na carne tenra e morena de Marcelle. — Não venho por causa dela — explicou. — Venho por causa de uma das suas amigas. A velha riu secamente. — É a primeira vez que um homem tem o descaramento de se vir pavonear na minha frente! Eu não quero negócios com homens, compreende? O quarto estava sujo, em desordem. Havia caixotes em todos os cantos e palha no chão ladrilhado. Em cima de unia mesa, Mathieu viu uma garrafa de rum e um copo meio vazio.

— Vim porque a minha amiga mo pediu. Ela não pôde vir hoje e pediu me que me entendesse consigo. No fundo da sala via se uma porta entreaberta. Mathieu tinha quase a certeza de que havia alguém atrás dessa porta. A velha falou: — Essas pobres raparigas são muito tolas. Basta olhar para si para ver que é do género de tipo capaz de fazer um disparate, derrubar copos ou partir espelhos. E apesar disso elas confiam lhes o que têm de mais precioso. Afinal têm aquilo que merecem. Mathieu continuou correcto. — Gostaria de ver onde costuma operar. A velha deitou lhe um olhar de ódio e desconfiança. — Não faltava mais nada! Quem é que lhe diz que eu opero? Do que é que está a falar? No que é que se está a intrometer? Se a sua amiga me quiser ver, que venha. Com ela, só com ela é que me hei de entender! Ah!, queria ver, não? Ela também quis ver, antes de se pôr entre as suas patas? O senhor fez uma burrice. Pois bem, peça a A Deus para eu ser mais habilidosa, é tudo o que lhe posso dizer. Adeus. — Adeus, minha senhora — disse Mathieu. Saiu... Sentia se liberto de um peso. Dirigiu se vagarosamente para a Avenida de Orleães. Pela primeira vez desde que a deixara, podia pensar em Marcelle sem angústia, sem horror, com uma terna tristeza. «Amanhã vou a casa da Sara», pensou. II oris olhava para a toalha de quadrados vermelhos e pensava em Mathieu Dela rue. Pensava: «Um tipo às direitas.» A orquestra parara, a atmosfera estava azulada e as pessoas conversavam. Boris conhecia todos na salinha estreita; não era gente que vinha ali para se divertir: apareciam depois do trabalho, eram sérios e tinham fome. O negro que estava em frente de Lola era cantor no Paradise; os seis tipos com as miúdas eram músicos do Nénette. Certamente acontecera lhes qualquer coisa, uma inesperada felicidade, talvez um contrato para o Verão (na antevéspera tinham falado vagamente de uma boïte em Constantinopla), porque tinham encomendado champanhe e normalmente eram mais sóbrios. Boris também viu a loura que dançava vestida de marinheiro no Java. O magro, alto e de óculos, que fumava um charuto, era director de um cabaré da Rua Tholozé, que a Polícia tinha fechado. Dizia que o ia reabrir muito J E A N P AUL SARTRE em breve, pois tinha protecções na alta roda. Boris lamentava amargamente não ter lá ido, mas iria sem dúvida quando voltasse a abrir. O tipo estava com um pederasta que, de

longe, parecia agradável, um louro de rosto fino, que não era muito afectado e tinha um certo encanto. Boris não gostava dos pederastas porque andavam sempre atrás dele, mas Ivich apreciava os e dizia: «Esses, pelo menos, têm a coragem de não ser como toda a gente.» Boris tinha muita consideração pelas opiniões da irmã e fazia grandes esforços para suportar os tipos. O negro comia chucrute. Boris pensou: «Não gosto de chucrute.» Queria saber o nome do prato que tinham servido à dançarina do Java: um naco escuro que parecia bom. Havia uma mancha de vinho tinto na toalha. Uma bela mancha, dir se ia que a toalha era de cetim naquele lugar. Lola espalhara uma pitada de sal sobre a mancha, porque era cuidadosa. O sal estava cor de rosa. Não é verdade que o sal come as manchas. Tinha de dizer a Lola que o sal não come as manchas. Mas era preciso falar e Boris sentia que não podia falar. Lola estava ao seu lado, cansada e quente, e Boris não conseguiu dizer uma só palavra. Tinha a voz morta. «Eu seria assim se fosse mudo.» Era voluptuoso, a voz flutuava no fundo da garganta, suave como algodão, e não podia sair, estava morta. Boris pensou: «Gosto muito de Delarue.» E regozijou se com isso. Tinha tido muito mais prazer se não sentisse, de todo o seu lado esquerdo, das têmporas à cintura, que Lola o olhava. Era por certo um olhar apaixonado. Lola não sabia olhar de outro modo. Era um pouco incomodativo porque os olhares apaixonados pedem, como retribuições, gestos amáveis e sorrisos; e Boris não era capaz do menor movimento. Estava paralisado. Só que não tinha muita importância; não tinha obrigação de ter percebido o olhar de Lola; adivinhava o, mas isso era da sua conta. Assim como estava, com o cabelo caído sobre os olhos, não via nem um bocadinho de Lola e podia muito bem imaginar que ela olhava a sala e toda aquela gente. Não estava com sono, sentia se à vontade e satisfeito porque conhecia todos na sala. Viu a língua rósea do negro. Boris estimava aquele negro. Uma vez, o negro descalçou se, pegou numa caixa de fósforos com os dedos do pé, abriu a, tirou um fósforo e acendeu o, tudo com os pés. «Aquele tipo é formidável», pensou Boris com admiração, «toda a gente devia saber servir se dos pés como das mãos.» Doía lhe o seu lado esquerdo de tanto ser olhado. Sabia que se aproximava o momento em que Lola iria perguntar: «Em que estás a pensar?» Era absolutamente impossível atrasar a pergunta; não dependia dele; Lola havia de a fazer a hora certa, como uma fatalidade. Boris tinha a impressão de gozar um bocadinho de tempo infinitamente precioso. No fundo era agradável. Boris via a toalha, via o copo de Lola (Lola tinha ceado, nunca jantava antes do seu número de canto). Bebera Château Gruau,

tratava se bem, permitia se uma porção de pequenos caprichos porque andava desesperada com a velhice que a ameaçava. Sobrara um resto de vinho no copo, dir se ia sangue empoeirado. O jazz pôs se a tocar // the moon turns green e Boris perguntou a si próprio: «Saberei cantar esta música?» Seria agradável passear pela Rua Pigalle, ao luar, assobiando uma melodiazinha. Delarue tinha lhe dito: «Você assobia como um porco.» Boris riu se por dentro e pensou: «O estupor!» Transbordava de simpatia por Mathieu. Olhou de lado sem virar a cabeça e reparou nos olhos cansados de Lola por baixo de uma sumptuosa madeixa de cabelos ruivos. No fundo, suporta se sem grande esforço um olhar. Bastava habituar se àquele calor peculiar que vem queimar o rosto quando se sente que alguém nos observa de modo apaixonado. Boris entregava se docilmente aos olhares de Lola, o corpo, a nuca magra, o perfil diluído que ela tanto amava. Assim, por esse preço, podia abstrair se profundamente em si mesmo e ocupar se com os pensamentos miúdos e agradáveis que nasciam dentro dele. — Em que é que estás a pensar? — perguntou Lola. — Em nada. — Está se sempre a pensar em qualquer coisa. — Não pensava em nada. — Nem mesmo se gostas do que estão a tocar ou se gostarias de aprender a sapatear? — Sim, em coisas como essas. — Estás a ver? Porque é que não me dizes? Quero saber tudo o que pensas. — Essas coisas não se dizem. Não têm importância. — Não têm importância? Parece que só te deram uma língua para falar de filosofia com o teu professor. Ele olhou e sorriu: «Gosto dela porque é ruiva e parece velha.» — Que miúdo estranho — disse Lola. Boris piscou os olhos e pôs um ar suplicante. Não gostava que falassem dele; era tão complicado. Perdia se nessas divagações. Dir se ia que Lola estava colérica, mas era simplesmente porque o amava com paixão e se atormentava por causa dele. Havia momentos assim, em que era mais forte do que ela, em que se aborrecia sem motivo, se angustiava, contemplava Boris perdidamente, não sabia o que fazer dele e as mãos agitavam se lhe sozinhas. A princípio, Boris estranhara, mas aos poucos habituara se. Lola pousou a mão na cabeça de Boris. — Queria saber o que tens aí dentro — disse. — Faz me medo. — Porquê? Juro que é inocente — observou Boris a rir.

Tinham tanta vontade de me ouvir como de se enforcar. de repente. Desde que os sentira na boca. aqueles lábios enormes de cantos caídos de que ele tinha gostado.» Gostava que as pessoas que tinham afeição por ele parecessem velhas. O seu rosto pálido estava desfigurado por uma generosidade triste. tinha a sensação de estar a ser indiscreta. Agora preferia a pele de Lola. E que tagarelava sem parar. acariciou a ligeiramente e largou a sobre a mesa. Havia muita gente esta noite? — Uma cambada vinda nem sei de onde. Despenteou lhe os cabelos. Além disso. mas não sei como explicar. pensou que ela estava acabada.. Mesmo assim aplaudiram quando entrei. Sarrunyan teve de mandá los calar. mas deve seguramente andar pêlos quarenta. eu nada posso. — Estás aí muito terno — disse Eola —. — Estou aqui. Tu dizes duas vezes criança em Lês Ecorcbés.. Fiquei chateada. era precisamente o mesmo ar que tinha quando cantava Lês Écorchés. dava lhe uma certa segurança. talvez. — De quê? — És uma criança. — Não levantes a minha madeixa — disse Boris. dava Ihe uma espécie de fragilidade terrível. É uma linda palavra na tua boca. Ele disse: — Divirto me quando dizes criança. — Não gosto que me vejam a testa. que não se revelava a princípio porque todos tinham a pele curtida como couro. Lola olhava o bem de perto. sabes. naquele instante. Lola suspirou e Boris pensou. mais só ainda. pergunto a mim própria para onde fugiste. e.— Sim. Só por isso iria ouvir te. que tinha estragado a sua vida e ficara só. A voz era pesada e sombria como uma cortina de veludo vermelho. não diz a idade. Achava isso reconfortante. não há ninguém. . Lola perguntou timidamente: — Tu não te chateias comigo? — Nunca me chateio. penso que estás bem comigo. Achava a. tão branca que não parecia ser verdadeira. Avançava os lábios. resignado. Teve vontade de beijar o rosto atormentado de Lola. produziram lhe o efeito de uma nudez húmida e febril no meio de uma máscara de gesso. cada um dos teus pensamentos é uma pequena fuga. com satisfação: «É engraçado como ela parece velha. disse consigo mesmo. — Tenho vergonha — disse Lola. vem assim. Ele pegou lhe na mão. desde que o amava: «Não posso fazer nada por ela». espontaneamente. muito simpática.

eu canto para viver. seguram a cadeira da mulher enquanto ela se senta. Mathieu explicava lhe coisas. não sabem como se hão de conduzir. Um homem é mais interessante. Mas não hoje. estou farta — disse Lola. um tem de ser mais velho do que o outro. Mathieu não era assim com Ivich. — Talvez ele tenha aprendido russo. têm a impressão de andar a brincar aos jantarzinhos. Se os vis A sés chegar cheios de sorrisos. tinha a aprovação da própria consciência. — Oh!. E depois. Houve um silêncio. Claro que entre homens não deve haver sentimentalismos. noutro dia. Boris — disse bruscamente Lola —. — Já sei. pensou Boris. falei com ele esta noite. «Ela é extraordinária». porque Mathieu não era uma simples mulher. O sorriso de Mathieu: naquela boca amarga que tanto agradava a Boris. Boris perguntava a si próprio se Mathieu lhe teria amizade. curvam se. aquele estranho sorriso envergonhado e terno. Naturalmente preferia a companhia de Mathieu. É delicado. Se ambos são jovens. também vivias do canto. «tem vergonha de me amar porque é mais velha do que eu. não.» Era mais de acordo com a moral. — É engraçado que tu não saibas russo — concluiu Lola. mas há muitas maneiras de mostrar que se gosta e Mathieu já poderia ter tido um gesto que revelasse a sua amizade. — Mas tu — disse Lola — poderias dizer me se ele tem boa pronúncia. — Se imaginasse que iria acabar assim. atrapalhamo los e quando surgimos medem nos dos pés à cabeça. Prometeu a si próprio dizer lhe de uma vez para sempre que ela nunca o aborrecia. Quando Boris estava junto de Lola. — Mas quando cantavas no music hall. — Os meus pais saíram da Rússia em 17. tinha eu três meses. sentia se justificado. hesitam. Com as pessoas maduras. — Desgosta me cantar para estes idiotas. — Não era a mesma coisa. o novo. Mathieu era indiferente e brutal. São sabidas. «Ela pensa que me aborrece». sonhadora.— É normal. e Lola apressou se a acrescentar: — Sabes. Acho isso muito natural. nunca teria começado. pensou Boris. o tipo que canta depois de mim. Evidentemente. Mas logo a cabeça de Boris se . Boris recordou de repente o rosto de Mathieu num dia em que ele ajudara Ivich a vestir o casaco. Boris não poderia amar uma mulher da sua idade. sentiu um aperto desagradável no coração. Gente que aparece porque precisa de retribuir um convite e não pode receber em casa. mas é tão russo como eu. sabem orientar se e o seu amor é consistente.

— Olha para mim. Tremem sempre ligeiramente. engana as pessoas.encheu de fumo e ele não pensou em mais nada. — No que é que estás a pensar? — Em Delarue — disse Boris. Não te faças parvo. — Não é a mesma coisa. — Para ti é. há qualquer coisa de duro e irónico. Lola. Lola aproximou dele o seu belo rosto arruinado. — Por isso mesmo. eu não te disse que não podia suportá lo. — Porque pensas em Delarue? Gostarias de estar com ele? — Estou contente de estar aqui. mas não é simpático. . Explica me. não sabes onde é que te hás de meter quando ele aparece. Só não percebi o que é que viste nele de extraordinário. Não posso explicar. que é culto. não é contentamento. sabes muito bem o que é isso. como se acabasse de fazer força. tu estás aí. porque já me disseste que não podes suportá lo. mais três palavras e ela vai começar a tossir. — Ei lo a sonhar de novo — murmurou Lola. está bem. mas depois é preciso não o ver beber com aquela boca esquisita de pastor protestante. Não é bem assim. aborrecido. — São mãos grosseiras de operário. — Estás contente de estar aqui ou de estar comigo? — E a mesma coisa. mas ele não põe as pessoas à vontade porque não é carne nem é peixe. E um amigo notável. tonto. parecia implorar. Diz me que ele parece inteligente. mas incomoda me falar te dele. de que eu não desgosto.» — Acho o simpático — disse com prudência. já te vi com Delarue. Lola sorriu tristemente. não para mim. — Não. querido. Para mim um tipo simpático é um amigo do género do Maurice. Quando o vejo agarrar no copo de uísque. porque é que gostas tanto dele? — Não sei. é impressão minha. Aliás eu nunca me sinto contente quando estou contigo. Boris pensou: «Não é verdade. mas é que ele não é operário. eu só quero compreender. — É o que dizes sempre. um tipo assim agradável. — Que é que têm as mãos? Eu gosto delas. Quando eu estou contigo pouco me importa que seja aqui ou ali. Enfim. Repara nas mãos dele. — Sim. — Não? — indagou Boris surpreso. Lola teve um sorriso contrafeito. Ela olhava o com ansiedade. — Não poderias de vez em quando pensar também um pouco em mim? — Não preciso de pensar em ti. Não seria exactamente essa palavra que eu escolheria. — Olha como ele se defende! Mas.

Mesmo quando estava só. Mas sentia se tranquilo. — Compreendo te muito bem — continuou Lola conciliadora —. Não sei se há mulheres a quem isso agrade. mas digo te francamente que me repugnava que um tipo assim me tocasse. que anda sempre tão mal arranjado. por exemplo. Boris olhou a mão que saltava e pensou: «Não parece minha. O dedo roçou a palma de Lola e ela olhou o com gratidão. se lhe observarmos os olhos. quando se ensina: eu tinha um professor que falava como ele. pensou Boris. um bruto ou uma pessoa distinta. professor. que és tão severo com a maneira como as pessoas se vestem. nem de beber. Pensou que estava com uma camisola azul de gola alta com o ponto grosso e ficou satisfeito. Boris tinha a certeza de que ela se mortificava. Como ele foi bom professor. que é o tipo que não gosta de nada simplesmente. O que é ridículo é querer dar nas vistas e não o conseguir. nem de dormir com uma mulher. é como a voz dele.» Já não a sentia. pensou Boris com irritação. Explicou: — Quando as pessoas não se preocupam em andar bem vestidas. «É isto que me intimida». Compreendo que se possa ser uma coisa ou outra. não tem importância que não se seja elegante. que nunca as achas muito elegantes. não sabia parar quando começava. Lola disse de repente: — Não me chegaste a dizer porque o achavas tão «bem». Eu sei que é a profissão que exige isso. devia gostar . Isso divertiu o e ele ergueu um dedo para a fazer viver. Há muito que ele pensava estar predestinado a isso. no metro. não o perturbava de forma alguma. — Tu consegues.acho o austero e. não o vês com os meus olhos. nem de comer. deve reflectir sobre tudo. Ela era assim. tu. não te incomodas quando se trata dele. uma voz cortante de senhor que nunca se engana. deve haver. não gostaria de sentir sobre mini essas mãos de lutador e ser trespassada pelo seu olhar glacial. mas no fundo. que usa gravatas que o empregado do meu hotel não usaria. vê se logo que é culto. não é? — Eu sei escolher o que me convém — disse Boris com modéstia. uma linda camisola. Disse para si próprio que lhe seria mais fácil mostrar se terno com Lola se ela não insistisse naquelas expressões de humildade. por exemplo. Quanto a deixar que uma mulher já madura lhe acariciasse a mão em público. Lola pegara lhe na mão e fazia a saltar entre as suas. parece uma filho. as pessoas olhavam no escandalizadas e as costureirinhas que saíam do trabalho riam se lhe na cara. «Que complicação». pastor. mas não as duas ao mesmo tempo. mas já não estou na escola. As pessoas que gostavam dele não eram obrigadas a gostar umas das outras. e Boris achava natural que cada uma delas o tentasse afastar das outras. Boris estava entorpecido e passivo. estás influenciado. e isso irrita me. Lola respirou fundo. bem o percebo numa data de coisas.

também. — Nem um bocadinho a mim? — Ah! A ti sim. deixara cair a colher. Não gostava de a ver quando ela tinha aquela expressão. Desde então. não sabia onde se enfiar. continuando a pensar em voz alta. Ele não se prende a coisa nenhuma. quando Boris era pequeno. de outro um certo temor religioso. uma cabeça calva. Quanto ao resto. Lágrimas de adulto eram uma catástrofe mística. É demasiado difícil de explicar. — Delarue tem paixões — disse. E depois armava se em heroína. Sob outro ponto de vista. — Diz lá porquê? J E A N P AUL SARTRE — Porque é um homem às direitas. obstinadamente. Tudo aquilo não a favorecia. e ambos tinham concordado que estava certo. Mathieu explicava lhe que as pessoas deviam ter paixões. Oh! — gemeu Boris —. inesquecível: «Pois bem. — Eu não sou livre? — perguntou Lola.» Boris vira um corpo alto curvar se com rigidez. Ela mortificava se. Se se baixavam. Boris não respondeu. E se as lágrimas lhes subiam aos olhos. qualquer coisa como o choro de Deus sobre a maldade do homem. Lola era urna vítima. e então dormia em casa dela. Boris conversara com Ivich. não tinha sorte. — Isso não o impede de não se prender a nada. Mas os olhos permaneciam febris e duros. como em Lola naquele momento. e era muito comovente.disso. Então o pai dissera lhe com uma atitude majestosa. estás a chatear me. Uma vez. Mas dependia da maneira como se encarava a coisa: se se faz para se destruir. Era um sacrilégio intolerável e ele desatara a soluçar. era uma questão de génio. — Não é bem a mesma coisa. os velhos eram amargos. Fazia tudo o que dependia dele. de um lado a vontade de rir. tinha se a impressão de que se iam partir. eu é que vou apanhá la. Lola pareceu infeliz e Boris voltou a cabeça. se davam um passo em falso e se se estendiam no chão. Era fiel a Lola. provavelmente. mas não podia fazer nada. Boris considerava os adultos como divindades volumosas e impotentes. ficava se colocado num dilema. e Descartes também o dizia. como se a sua vida estivesse sempre em jogo. naturalmente apreciava Lola por ser tão apaixonada. e ele achava isso estúpido. — Pois então eu também sou livre. por desespero ou . Ouvira um ranger de ossos. só estou presa a ti. ia buscá la três vezes por semana à saída do Sumatra. mandaram no apanhá la e ele recusara se. De idade. — E tu achas bem não se prender a coisa nenhuma? Tu não te prendes a nada? — A nada. É livre. Até certo ponto estava certo. Contemplava a: o ar estava azulado em volta dela e o rosto era de um cinza pálido. telefonava lhe sempre.

essa mulher que não sai de casa. A liberdade dele não se vê. Boris pensou que preferia dançar com Ivich. Esta dançava admiravelmente bem. Boris pensou que ia vê lo de perto e ficou contente. — Sempre a mesma mania de colocar Delarue acima dos outros. bem instalado. sozinha. Pensou: «Ivich deveria aprender a sapatear. J E A N P AUL SARTRE Ele estava irritado. Passou se algum tempo. Lola pesava nos seus braços. Mas Lola fazia o com um certo abandono.para afirmar a própria liberdade está certo. ele teve vontade de a fazer sofrer um pouco. Lola pouco se importava com a liberdade. James Infirmary. Ela abriu os olhos e olhou o . — Fazes me rir — disse Lola secamente. mas era pesada. racionalmente. Entusiasmara se nessa noite porque queria vencer Mathieu no seu próprio terreno. nem sequer sei se serei contratada no Verão. pergunto: quem é mais livre. porque é que não é a mesma coisa? — Tu és livre sem querer — explicou Boris. o jazz tocava agora St. — Não é a mesma coisa — repetiu Boris. — disse Lola sacudindo a cabeça. — Vamos dançar. O pederasta levantara se e fora convidar a dançarina do Java. Então. Aqui entre nós. E penso que ele também se está nas tintas para a mulher. — Ah! — gritou Lola magoada —. por princípio.» Depois não pensou mais nada por causa do perfume de Lola. aliás ávido. Lola riu com sarcasmo e a cabeça de Boris repentinamente encheu se de fumo. Dançaram. Fica com ela porque precisa de dormir com alguém. Apertou a nos braços e respirou fortemente. no Sumatra. ele ou eu? Ele está sossegado. E ainda por cima essa ligação de que me falaste. — Não consigo compreender. vive como um funcionário. — Está se nas tintas para a casa? Vive lá como viveria noutro lugar qualquer. tem ordenado fixo.. — É assim. Ao passo que Mathieu é o voluntariamente. no outro dia.. Acrescentou: — Estás muito agarrada a mim. Lola parecia ausente. só merece elogios. vivo no hotel. — Tenho vontade de te matar quando ficas assim. e Boris teve vontade de dançar. está dentro dele. Dançava A bem e tinha um perfume gostoso. Nem sequer estava intoxicada. Ele nunca se deixaria prender assim. — Da Ivich? Magoas me. Como liberdade não há melhor! Eu só tenho os meus trapos. estou muito agarrada a ti? Estúpido. aposentação garantida. E achas que ele não gosta da tua irmã? Bastava olhá lo. Lola fechava os olhos e ele ouvia a sua curta respiração.

fazes me dizer asneiras. mas não deves perguntar me se te amo. Depois. pensou. Boris viu com satisfação que o pederasta se aproximava deles dançando.. — Porquê? Não é verdade então que gostas de mim? —É — Porque não dizes isso espontaneamente? É sempre preciso que eu to pergunte. — Porque é que fazes essa cara? — Porque me perturbas. Havia tipos que pareciam feitos para ter trinta e cinco anos — Mathieu. — Porque não me ocorre. Sorria vagamente. é tão raro perguntar te alguma coisa. baixara as pálpebras. e a música recomeçou. Os olhos de Lola ficaram vermelhos. Ele teve vontade de gritar: «Aperta me com mais força. Tinha grandes olhos azuis de boneca e uma boca infantil. era a sua vez. era horrível. A maior parte das vezes. mas sob os olhos de porcelana havia rugas. Amo te.. meu tonto. se assemelhavam a um halo dourado. bem como em torno da boca: as narinas eram finas como se estivessem agonizantes. se isso te apetece. Um rosto . — Compreendo — disse Boris com seriedade. estava sozinha agora. Se não é espontâneo. Acho que essas coisas não se dizem. de longe. Pararam e aplaudiram. e os cabelos. — Mas. — Querido. se tu próprio dizes que não te lembras disso senão quando eu to pergunto! Boris riu. podes dizê lo. mal lhe escondiam o crânio. — Gostas de mim? — Gosto — disse Boris com uma careta. basta me olhar e sentir que te amo. — É verdade. e o seu rosto fechara se sobre a sua felicidade. J E A N P AUL SARTRE Lola não respondeu. Pôs se a olhar para Lola e bruscamente disse lhe: — Lola. «Já foi jovem». faz me sentir que te amo!» Mas Lola não dizia nada. Mas quando um tipo fora realmente jovem ficava marcado para o resto da vida. que. Boris contemplou com horror aquela velha criança sem barba. pisou os pés de Boris.atentamente. não tem sentido. Conservava no rosto o verniz da juventude e envelhecera por baixo. desiludiu se: tinha pelo menos quarenta anos. — Mas deverias esperar que isso acontecesse. Disse apenas: — Querido. Mas quando o pôde examinar de perto. olha para mim. por exemplo — porque nunca tinham tido adolescência. Aguentava até aos vinte e cinco anos. — Desagrada te quando digo que te amo? — Não. Mas há momentos em que é o teu amor que eu quero. Pode ter se um grande sentimento por alguém e não ter vontade de dizer nada.

Até aos vinte e cinco anos. nunca pensava nessas coisas. «quando eu for uma ruína. Lola agarrou lhe no queixo e levantou lhe a cabeça. és tonta — protestou Boris molemente. Lola morava num hotel da Rua Navarin. sim. As suas pernas pequeninas mexiam se sob o ventre rechonchudo. Mas que é que eu fiz? Devias dizer.. Deve ser um mal entendido. Boris já não pensava em nada. pois não? Não gostas de mim. pensou Boris. A um canto uma mala coberta de etiquetas e na parede do fundo uma fotografia de Boris. . — Vamos. «Eu também. Aqui hei de parecer eternamente jovem. mas sentia se sinistro. não.» No ano passado estava sossegado. O quarto estava nu. Lola chamou o empregado e pagou. Disse: — Vamos para casa? — Vamos já. pensou. Não deve ser irremediável. Encontraram o maestro Piranese. Era uma fotografia de passe. Boris sentiu se abandonado e o pensamento desagradável invadiu o de novo: «Não quero. — Parece que me tens raiva.» — Que é que tens? — perguntou Lola.» Olhou para Lola com ódio. — Estás sinistro — disse Lola —. Agora era sinistro.» Não se poder ver ao espelho. talvez. — Nada. Por favor. sentia a cada passo a mocidade escorregar lhe entre os dedos.. «Isto ficará». Boris. já está a passar. não quero envelhecer. e cumprimentaram no.» Já não podia suportar aquela música e aquela gente. «Ela mata me. Lola mostrou se inquieta. viver devagar. A Rua Blanche estava cheia de tipos velhos e duros. Não me queres mal. Saíram. Que é que te fiz? — Não tenho nada.calmo e deserto. vá ter barriga. sentir os próprios gestos secos e quebradiços como se fosse de madeira morta. com dores de cabeça. ao ralenti. que Lola mandara ampliar. talvez ganhasse alguns anos. E cada instante vivido usava um pouco mais a sua mocidade. Mas para isso era preciso que não me deitasse todas as noites às duas horas. — Não estás doente. «Depois estoiro os miolos. Voltaram para a mesa. Pôs a capa de veludo sobre os ombros. «Se ao menos pudesse poupar me. porque assim eu poderia explicar te. do Chat Botté. querido. que é que se passa? J E A N P AUL SARTRE — Estou exausto.» Teve vontade de rasgar a fotografia. querido? Queres um comprimido? — Não. presa com punaises. Tirou a chave do cacifo e subiram em silêncio. «Tenho ainda cinco à minha frente». — Estás zangado.

» Do outro lado da porta ela esperava o. Tinha a mão na anca de Lola e sentia a carne através do vestido de seda. Lola estremeceu. de certeza que já estava nua. pareceu lhe segurar a velhice nas mãos e que devia apertá la com toda a força até a abafar. enrolaram se no pescoço de Boris. Ela inclinou se para trás e ele estava fascinado por aquela cabeça pálida de lábios carnudos. — Ah! — murmurou Lola. sentia se nela. Mas ele não .. Crispou levemente a mão e a seda deslizou lhe sob os dedos como uma pele fina. Lola cobriu lhe o rosto de beijos. elástica. Vou despir me à casa de banho. Lola atirou a capa sobre a cama e os seus braços apareceram nus. como aliás todas as ideias. Estava completamente calmo. não sabia exactamente no que pensava. Pensou: «E engraçado. feliz. Dir se iam espinhos profundamente enterrados. a pele verdadeira resistiu por baixo. Lavou o rosto e os pés e divertiu se a pôr talco nas pernas. porque não tinham forças para se afastar. — Dá me o pijama. Estava perturbado. ela cheirava bem. Boris e Lola permaneceram de pé naquele mesmo lugar em que o desejo os apanhara. — Mas não se passa nada! Pôs os braços em volta do pescoço de Lola e beijou a na boca. fria como uma luva de camurça. uma cabeça de Medusa. Boris desenvencilhou se.» Já não a odiava. Ele era agora apenas aquela mão sobre uma carne de seda. Quero te.diz me o que se passa. Boris DADE DA RAZÃO via lhe as axilas raspadas e marcadas de pontinhos azulados. Houve um redemoinho na sua cabeça e ela esvaziou se rapidamente.. — Magoas me. O desejo aspirava lhe as ideias sombrias. Entrou e fechou a porta à chave. envolvia a nos seus braços e protegia a contra a velhice. Boris respirava o hálito perfumado e sentia de encontro aos lábios uma nudez húmida. acariciante e morta. — Como tu me apertas — gemeu Lola. Apertou Lola contra o peito e sentiu a doçura espessa dos seios. Pensou: «São os seus últimos dias de sol.» Tinha a cabeça pesada e no entanto vazia. «Uma destas manhãs ela ir se á abaixo de repente. As pernas de Lola puseram se a tremer e Boris perguntou a si próprio se não iriam estender se ali no tapete. Arquejava um pouco. rígido e magro. «Preciso de falar com Delarue. brancos como os cabelos de uma velha. Boris sentiu que desejava Lola e ficou satisfeito.» E apertou a mais fortemente. minúsculos e duros. estava um pouco chocado. todo músculos. Detestava que Lola entrasse enquanto se despia. Depois teve uns momentos de sono e desvario: olhou os braços de Lola.

ia bem. Mas não viu um só sobre o esmalte branco. de gosto forte. cheio de odores nus.» Uma onda pastosa subia lhe dos rins à nuca. «Em todo o caso». e Boris era obrigado a recusar às vezes. pois sobre o prédio em frente tinham colocado um anúncio luminoso. — Espera — disse Boris. agora. — Não quero — murmurou Boris. Apagou a luz. Era um ritual. Era bela. que parecia ter conservado o vestido de seda.» Penteou se cuidadosamente por cima da bacia para verificar se lhe estavam a cair os cabelos. deslizar até ao fundo de uma sensualidade pesada. inerte. Ele deixou durante algum tempo a mão pender. Ia acontecer alguma coisa. alguma coisa de inevi A tável.. vem. era o que Lola não compreendia. Um corpo nu. — Vem — disse Lola. As mãos de Lola enfiaram se por baixo do casaco e começaram a acariciá lo devagar. Todas as vezes Lola lhe pedia que tirasse o pijama e Boris recusava. preguiçosa e temível. Os lábios escuros. Daí a um bocado. Beijaram se. Boris deitou se perto de Lola e pôs se a acariciar lhe os ombros e os seios. Ela tinha a pele doce. — Tira o pijama — suplicou Lola. Mas pareceu lhe repentinamente que o erguiam pelo pescoço como um . cerrando os dentes. Não demorou muito a gemer e Boris pensou: «Pronto. Lola pegou na mão de Boris e pô la sobre o tufo de pêlos ruivos. continuava a ver o rosto de Lola. com um triângulo de pêlos ruivos. Tinha sempre umas exigências estranhas. inteiramente nua. — Não — disse Boris. quando o primeiro touro entrou na arena. mas antes era impossível não ter medo. Vem. pensou com irritação. O quarto ficou inteiramente vermelho. atraindo o a ela —. Ela parecia sofrer. por causa do maldito anúncio luminoso. Boris riu. Ia ser necessário.. Era uma Lola diferente. terrível e pesada. — Fazes me cócegas. Lola estava estendida na cama. tão doce..J E A N P AUL SARTRE tinha pressa. Depois levantou a docemente até aos ombros. O corpo sobre a coberta azul era prateado como a barriga de um peixe. adoro te. mas Boris gostava deles assim: eram seios de alguém que vivera. uma coisa terrível. Não adiantara apagar a luz. exactamente como em Nimes. Uma vez que começava. «não vou perder a cabeça como das outras vezes. Boris sentiu se pesado e trágico. Ela estendeu lhe os braços. junto das coxas de Lola. pálido dentro do vermelho. Vestiu o pijama. Boris aproximou se da cama e encarou a com um misto de perturbação e de desprazer. Os seios eram um pouco moles. vou perder a cabeça. e espiava o através dos olhos semicerrados. abriu a porta e entrou no quarto. os olhos eram duros. como a morte sanguinolenta do touro.

e adormeceu. Estou sozinha. tenho vontade de me atirar à água. mas tenho horror a perder a cabeça. não me faças mal.» Lola arranjava se para dormir. Se não fosse assim gostarias de um tipo mais velho do que eu. a luz vermelha. A voz era estranha dentro da noite vermelha. erão. Boris ouviu o com prazer. Tenho a impressão de que me escolheste por causa disso. deitado sobre a areia. Os alucinados sedentos do deserto ouviam ruídos semelhantes. tenho de pensar em ti o dia inteiro. ruídos de fonte. É tudo o que sei. Não é bem repugnante. — Amo te apaixonadamente. ia encontrar se em pleno deserto. já não quero mais histórias.coelho. Boris ficou aniquilado. és tudo o que eu tenho. Boris ainda a ouviu dizer «Adoro te». O quarto. só te tenho a ti. — Não sei — disse Lola. Eu sou demasiado jovem e não te posso impedir de estares só. é porque és orgulhosa. Ela abraçou o furiosamente. pensou. — Boris. meu amor. tens de me amar. que adianta escolher uma mulher. Se penso na minha vida. sentimo nos dominados. nunca me faças mal. serei casto. Mathieu caminhava pelo meio da rua sob um céu de um azul límpido. eu só penso em ti. — Se estás sozinha é porque gostas — afirmou com voz clara —. No entanto. O rosto de Mathieu surgiu de repente: «É engraçado».» Repetiu com asco: «Fisiológico. Estou sozinha! Boris acordou sobressaltado e encarou a situação com nitidez. Ouviu Lola abrir a porta da casa de banho e pensou: «Quando romper com ela. e depois. Estou nas tuas mãos. com a cabeça no travesseiro. com um capacete de cortiça sobre os olhos. Lola saltou para a cama e tomou o nos braços. Não se sabe o que se faz. e abandonou se sobre o corpo de Lola e tudo girou num estremecimento vermelho e voluptuoso. Não sejas cruel. o barulho da água eram alucinações. quando Lola se pôs a falar. não desejaria dormir com um tipo. Agitava os braços como se . É repugnante o amor. Ela fê lo deslizar suavemente para o lado e saiu da cama. — Querido — disse Lola. Acariciou lhe os cabelos e houve um longo momento de silêncio. Boris tentou imaginar que era um alucinado sedento. É fisiológico. querido. Boris já começava a ver girarem as estrelas. 111 v. O ruído da água era agradável e inocente.» Ficou contente: «Hei de ser um monge quando deixar Lola. será a mesma coisa com todas.» Sentiu se seco e puro. nunca me sinto tão feliz como quando estou ao lado de um homem. O ar era quente e denso. «prefiro os homens às mulheres.

Era um obstáculo. Não o via há seis meses. um dia que iria arrastando até à noite. — Entre. sorridente. de trabalho manual. Mathieu debruçou se no corrimão. E Brunet trazia consigo o ar de fora. havia uma amizade agonizante entre eles. Fê lo entrar no vestíbulo e desapareceu a correr. no estúdio. — Delarue — respondeu Mathieu sem ligar. aborrecido: «Digo J E A N P AUL SARTRE isto cada vez que subo uma escada.» Ouviu uns passos miúdos.. mulheres arranjavam as casas. . de esforços pacientes. — Desejava falar com Sarah — disse Mathieu. Por trás das portas fechadas. Que dia? Mathieu estava ligeiramente ofegante quando tocou. via lhe a cabeça sob os cabelos ralos e espetados. Mathieu reconheceu o. Doía lhe a cabeça. de olhos claros. ofuscado pela luz intensa que entrava pelas grandes janelas empoeiradas. «É Brunet». Vai ficar muito satisfeita. — Quem é? — perguntou Sarah. Mathieu empurrou a porta envidraçada e penetrou no estúdio de Gomez.abrisse pesadas cortinas de ouro. Uma direcção. entre. — Weysmuller — disse com firmeza. Rua Delambre. 16. Sarah dar lhe ia a direcção. Ela está lá em baixo. O Verão. chocando as peças com os olhos e lambendo os lábios grossos. mas não sentia prazer nenhum em encontrá lo ali. Mathieu fechou os olhos. Ou Jacques. O homenzinho pôs se sério e bateu os calcanhares. tinham muita coisa a dizer um ao outro. Era ali. Um homenzinho calvo.» Depois. Sarah levantou a cabeça e sorriu. O homenzinho voltou a sorrir amavelmente. estreito e obstinado de revoltas e violências. um universo sadio. Para elas o dia também ia começar. Tinha sonhado que era um assassino e um resto do sonho ficara lhe nos olhos sob a luz ofuscante. abriu. Daniel emprestaria o dinheiro. pensou Mathieu contrariado. era um alemão emigrado. já o vira várias vezes no Dome sorvendo deliciado o seu café com leite ou inclinado sobre o tabuleiro de xadrez. Pensou: «Devia fazer ginástica. De avental. Parou no patamar interno. de quimono amarelo. Não precisava de ouvir o vergonhoso segredinho de alcova que Mathieu ia confiar a Sarah. Tinha as orelhas roxas. de disci plina.. uma vela ardia diante dela: uma cabeça ruiva de braquicéfalo. Dinheiro. com uma toalha apertada em volta da cabeça. um enterro ao sol. Mathieu subiu a pé. O Verão dos outros. Sarah estava sentada no sofá. Ia ser preciso correr por todos os lados. Para ele um dia sombrio ia começar. Sarah morava no sexto andar e naturalmente o elevador não funcionava.

Brunet era grande e sólido. — Sabe que ele foi promovido a coronel? Coronel. Mas aquilo não. as fugas. Perdoara lhe tudo. Apressou se em descer. A partida para a Espanha. Partira para matar outros homens. Pensou: «Ele procedia mal com Sarah. Os olhos de Brunet brilharam. sabia o. Mathieu recordou a bêbeda e magnífica. No quadro. O quadro e a gravura representavam a Senhora Stimson. ela estava nua. Depois descera sem chapéu nem sobretudo. como se fosse comprar cigarros ao Dome. a maldade. Não voltara. meio à mostra através do quimono. — Sempre o mesmo. Para Sarah a vida humana era sagrada. no meio de frascos de ácidos. Não queria falar de Gomez. — Viva. Agora era portanto propriedade sua. velho traidor social — disse Brunet. Mathieu sentiu se satisfeito de ouvir aquela voz. com os dedos enfiados na cabeleira negra. Matara outros homens. — Tudo o que quiser. com um rosto de camponês. Sarah olhava os ternamente. cantando com voz áspera nos braços de Gomez.» — Foi o ministro quem lhe abriu a porta? — pergunto Sarah alegremente. bom dia! — disse. Mathieu pensou no tipo da véspera e a garganta apertou se lhe. — Pensei que tivesses morrido. — Viva — disse Mathieu. Via de cima aquele rosto achatado e sem graça. . e mais abaixo os seios pesados e moles. Um dia soubera da queda de Irun no Paris Soir. Passara muito tempo no estúdio. Mathieu sorriu também. O rosto de Sarah corou de satisfação. Está em Barcelona. as traições. não. Mathieu sentou se. uma lâmina de cobre semigravada sobre a mesa. Ia fazer lhe um favor. — E Gomez? — perguntou Mathieu. — Sente se ao pé de mim — disse Sarah com avidez. Gomez partira.— Bom dia. A sala ficara no estado em que ele a deixou: uma tela inacabada no cavalete. — Teve notícias dele? J E A N P A U L SARTRE — Na semana passada. Apesar de tudo. E acrescentou encantada com o prazer que esperava dar: — Sabe quem está cá? Mathieu voltou se para Brunet e apertou lhe a mão. — Preciso de lhe pedir uma coisa. O pequenino Pablo brincava por baixo da mesa com cubos de cartão. — Que é que o traz por cá? — perguntou Sarah. Brunet riu sem responder. Conta as suas proezas — respondeu Sarah com ironia. Não parecia muito amável. minado pela bondade.

— E está claro que você o recolheu. — O ratinho de orelhas vermelhas é um ministro — disse Sarah com um orgulho ingénuo. é tão abstracto um partido. J E A N P AUL SARTRE — Sarah — disse Brunet com ternura — . A indignação de Brunet era pesada e calma. É. Puseram no fora do hotel porque não podia pagar. — E incrível — murmurou Brunet. — Ele quer que eu mande embora o meu ministro — disse Sarah. — Pertenceu ao governo socialista de Munique em 22. Sarah sacudiu violentamente a cabeça. — Não. . Não é preciso ser muito esperto para imaginar o que poderia lá fazer um judeu emigrado. Voltou se para Mathieu e explicou contrariado: — Temos más informações acerca desse tipo. — Com Annia. não tem para onde rir.— Que ministro? — indagou Mathieu espantado. — O meu ministro! — disse com indignação. — Vocês não têm provas — observou Sarah. — Não é bem assim. — Você viu o. não temos provas. Sarah sorriu levemente.. Agora morre de fome. — Venha em meu socorro. pousando a mão no braço de Mathieu. como que a desculpar se. Gorara e os seus olhos verdes humedeceram se. Mathieu sobressaltou se e voltou se para ele. — Veio para cá com a mala. — E exactamente o que eu dizia — afirmou Brunet. ele não estaria aqui. Ela já não o escutava. — Sarah exagera — disse tranquilamente Brunet. Não. — Arranjou trabalho. você faria com que Paris fosse pêlos ares para evitar um aborrecimento aos seus protegidos. Sarah pôs se a rir. meu caro Mathieu.. — Isso não interessa a Mathieu — disse Brunet a Sarah com ar de descontentamento. — O quê? Que é que é incrível? — Ah! — disse Sarah com vivacidade. — Annia vai se embora — disse Sarah. Parece que há uns seis meses rondava os corredores da Embaixada da Alemanha. Sarah mostra se de uma imprudência louca. — Mandar embora? — Diz que é um crime conservá lo aqui. Mas mesmo que se trate de meras suposições. Se tivéssemos. — Porquê? Porquê? — exclamou Sarah com paixão. Lopez e Santi são quatro pensionistas. chorosa. A Mathieu contou pêlos dedos. mas é certo que não sacrificarei Weysmuller às intrigas do seu partido. olhava Sarah com o seu ar de camponês e repetia: — E incrível. a sério.

é tudo. horrível e triunfante. de um intelectual sujo. Brunet empregara a forma interrogativa. Levantou se. Sarah — disse docemente. — Mathieu! — disse Sarah. Se se tratasse de interpretar um trecho de Espinosa ou Kant. não lhe perguntava a sua opinião. — Mathieu. Diga me lá se ele é capaz de matar uma mosca! A calma de Brunet era grande. Explicou: — Gomez manda nos por vezes comunicações. e aqui nos encontramos. e ficará na mesma. — De qualquer maneira está liquidado. fica como testemunha! Se expulsar Wey muller. seria este o lugar indicado para instalar um tipo que tem reputação de espião? Mathieu não respondeu. Mas agora era nos camaradas do partido que pensava. Brunet inclinou se para ela e tocou lhe no joelho. — Escute. Brunet encolheu os ombros. Fazia nascer em Mathieu a cumplicidade que se esboça. — Sim — disse com indiferença. os indivíduos que exibem feridas desagradáveis. não se preocupava com a opinião de um burguês. Não parecia ser um só homem. Mathieu nada tinha a dizer. «A amizade não suporta a crítica». Já formei a minha opinião.» Mathieu não queria que Brunet o julgasse. Em tempos. de um cão de guarda. dizia então Brunet. silenciosa e murmurante de uma multidão. ainda que seja de um professor de Filosofia. Há muito que Brunet deixara de pedir conselhos de qualquer espécie a Mathieu. não deixaria de o consultar. Era entorpecente e exasperante. bem sabes que tais comunicações são confidenciais. nenhum dos dois julgava o outro. mas era uma afirmação. — Está a ouvir. tinha a vida lenta. por princípio. — Gosto muito de Mathieu e aprecio muito a inteligência dele. — Voltará para a Embaixada da Alemanha e tentará vender se de uma vez.Mathieu. «E feita de confiança. A calma do mar. ele vai atirar se ao Sena. — Vai atirar se ao Sena? — Vai agora! — disse Brunet. Vai julgar me pelo que eu disser. Brunet não lhe perguntava nada.» Talvez o dissesse ainda. Mas este assunto é vulgar e insignificante e juro lhe que não preciso de conselhos. — Quem é que tem razão? Diga alguma coisa. Mathieu? — gritou Sarah com angústia. Portanto. que se sente perante os esmagados. — E o mesmo — disse Mathieu. Vem aqui. «Ele vai ouvir me com uma cortesia gelada. Posso realmente levar um homem ao suicídio por causa de uma simples suspeita? — acrescentou Sara com desespero. — A sério? — perguntou. . as vítimas de acidentes.

Pensava: «Não me está a julgar». — Faça como quiser. Não pertence ao partido. Brunet ficou sério. Mas se ele continuar aqui. «Evidentemente. — Tenho de me ir embora — disse. Aquele mesmo espanto implacável. Queime tudo. não será tão cedo. parecia aliviada. poderei dar um pulo até à tua casa. pensou. e o que faz por nós já é considerável. só o viria a saber um mês depois. Voltou se e dirigiu se para a escada.. Eu tenho chatices. — Não irei tão depressa — disse Mathieu a rir.» Sentia se magoado. não se tem tempo de ver os velhos amigos. Mathieu seguiu os com o olhar. e sentia se cheio de uma humilde gratidão. por acaso. Deu alguns . — Vou acompanhá lo — disse Sarah. estou inteiramente livre e espero te — disse Mathieu. uma coisa quente e modesta que se assemelhava à esperança. Se morresses. A Sentia a mão de Brunet no ombro. — Como antigamente. Olhava o hesitante. Sarah. olhava o atentamente com um olhar duro. «Nem tudo está perdido». Não lhe estendia a mão. «Quem sou eu para lhe dar conselhos?» Pestanejou.«Evidentemente». — Que é que tens? Mathieu também se levantou. meu velho. Brunet parecia duro e nodoso. em migalhas. E sentiu uma coisa estremecer lhe dentro do peito.» Brunet falou: não era a voz que Mathieu esperava.. Mathieu sentia se nu sob estes olhares.. — E não deixe nada por aí. Brunet pôs lhe a mão no ombro. mas não tinha qualquer ressentimento J E A N P A U L. SARTRE contra Brunet. Quem sou eu para lhe dar conselhos? Que fiz da minha vida? Brunet levantou se. Brunet subia os degraus com uma elasticidade surpreendente. — Adeus. Pareceu finalmente decidir se. um tipo nu. Os olhos brilharam lhe. «E eu? Vê se o aborto no meu rosto. — Combinado — disse Sarah. Conversaremos um pouco como dantes. — Estás com uma cara! — disse gentilmente. Um desajeitado.. — Eu?. — Não — disse —. pedir Ihe ei que vá a minha casa quando tiver notícias de Gomez. Passa se a vida a correr de um lado para o outro. como o olhar de Marcelle na véspera. — Prometo. Sim. — E estúpido. Mas não é nada de importante. Conservava o sorriso ingénuo e alegre. Mas. Brunet voltou se para Mathieu. Brunet sorriu amistosamente.. — Estarás livre às duas horas? Tenho uns momentos livres. até à vista. pensou Mathieu..

uma carne pensante que grita e sangra quando a matam. — Sonhei que era uma pena. dentro de outra barriga. aguardando o momento de saltar para o lado de cá do cenário. pequenino. Era preciso agir depressa. Pablo continuava a olhá lo. Mathieu estendeu a mão e tocou na mesa com o dedo. com aquela pequena ventosa pálida e mole que absorvia o mundo. Mathieu deu alguns passos em direcção à escada. Encolheu os ombros: «Não vou matar ninguém. sinais e uni punhado de distintivos como os que se põem nos passaportes. Mathieu sentia se incomodado. Uma mosca é mais fácil de matar do que uma criança. Repetia com espanto: «Impedir que nasça. Ela abriu a porta. todos os seus sentidos são bocas.. que pousara sobre a lâmina de cobre. conservava ainda um aveludado doentio de coisa vomitada. Tinha a impressão de estar a ser devorado pêlos olhares da criança. Uma mosca. A porta bateu por cima da sua cabeça. «são vorazes. A mosca esvoaçou à volta dele. «Os miúdos». e Mathieu barrava lhe a passagem. Vou impedir que nasça uma criança.. com uma pele branca e grandes orelhas. «Está quente».passos. Na verda de. entre dois sulcos que representavam um braço de mulher. pensou. A mosca assustada pôs se a voar em círculos e pousou finalmente sobre a chapa de cobre.. para se libertar das trevas e se tornar parecida com aquilo. era mais ou menos isso. sem saber porquê. Uma criança. pois a bolha continuava a inchar. levantou voo. O pequeno Pablo olhava o gravemente. Do que é que estará à espera para voltar a descer? Deu meia volta. Dormia. Esquecera se de Mathieu. olhou a criança e a mosca. Estava ali.» Dir se ia que havia algures uma criança já formada. Mathieu atirou bruscamente o buril sobre a mesa. Havia um homenzinho meditabundo e dissimulado. Mathieu aproximou se da mesa e pegou num buril. um homenzinho que não andaria . Não havia muito tempo que o miúdo saíra de uma barriga. pensou. deteve se no limiar e sorriu a Brunet. Mathieu brincava com o buril. indeciso. ao sol. havia uma bolha que inchava. Perguntou: — E o que é que fazias quando eras pena? — Nada.» O olhar de Pablo ainda não era humano e no entanto já era qualquer coisa mais do que a vida. Ouvia a voz de Sarah. — Diz lá. Num quarto cor de rosa. disse para si Mathieu.. fazia grandes esforços para sair. e isso via se. «E pensa». mas por detrás dos vagos humores que lhe enchiam as órbitas escondia se uma conscienciazinha J E A N P AUL SARTRE ávida.» Pablo pusera se a brincar novamente com os cubos. naquela sala. — Sabes o que é que eu sonhei? — perguntou Pablo. mentiroso e sofredor.

ela seria a única a pôr luto por aquela morte minúscula e secreta. de carnes velhas. que parecia sair da salmoura e nunca ter nascido. — Não é nada. compreendo. secamente: — Marcelle está grávida. Ela estava inclinada sobre o corrimão. Gomez disse mo — replicou com brutalidade. com insistência. Ele acrescentou a seguir: — E depois Marcelle não quer filhos. luminosa. se se for a tempo. Ele desviou o olhar e disse. de raparigas doces e horríveis insectos. — Ah! Sim — disse ela —. e olhos.. mas acho o casamento. Não é por egoísmo. cheia de esperanças.. — Sim. vocês vão. pesada e disforme. ou negros como os de Marcelle. nem na casca das árvores. — Não. encarar o futuro com confiança. Mathieu não pôde suportar aquela tristeza que nem sequer era uma censura. pôs de parte as suas reservas. Ele ia sorrir. as censuras e tinha apenas um desejo: tranquilizá lo. — Escute. tinha casado com Gomez cinco anos antes. Sarah sorriu lhe e desceu rapidamente a escada. O quimono balançava em volta das pernas curtas. — Creio que isso lhe aconteceu há tempos. nem rosto algum. sinistra. não — respondeu Mathieu com vivacidade —. Eu não quero casar. apaixonada. e que nunca haviam de ver os céus glaucos de Inverno. Ela ergueu bruscamente os olhos e acrescentou com paixão: — Não é nada. uma imagem povoada de jardins e de casas.. aborrecida. com um pé na calçada e outro na valeta. — Ela não gosta de crianças? — Não sente interesse por elas. Há anos. nem o mar. Ela evitava julgá lo. não queremos a criança. Os grandes olhos velados encaravam no fixamente. — Pronto — disse Sarah.. Baixou a cabeça e conservou se silenciosa...pelas ruas. — Esperou muito tempo? Mathieu ergueu a cabeça e sentiu se aliviado. Era uma adulta. mãos que não tocariam nunca na neve. Sarah pareceu desconcertada. que iriam rebentar com um alfinete. havia uma imagem do mundo. Perguntou com timidez: — E vocês. tente compreender me. Sarah era casada. . nem na carne das mulheres.. como um balão. Sarah — disse Mathieu irritado —. — Então? Que é que se passa? — disse avidamente. Calou se. sanguinolenta. um par de olhos verdes como os de Mathieu. — Oh! Sarah parecia mais alegre do que aborrecida..

tenho uma solução. é muito doloroso. Olhou Mathieu.. ... Mas desde há muito que enviara todo o seu dinheiro para Zurique. Agarrou lhe as mãos. — Meu pobre Mathieu.. mas foi um horror. apertando lhe com força o braço —. Desejaria poder ajudá los. de desânimo.— Sim — disse —. esse aborrecimento. odeia Gomez? — perguntou lhe secamente. Em Berlim tinha uma clientela enorme. poderia pedir me de joelhos.. — E.. era Gomez que queria. com ele pode ficar sossegado. E quando ele queria qualquer coisa. é verdade. Mas de repente toda a bondade se lhe reflectiu no rosto e exclamou: — Sim... naquele tempo. nunca eu. grandes olhos duros e cansados. Não era capuz de odiar ninguém. julgo eu. eu quero dizer que não imagina o que vai exigir de Marcelle. então efectivamente. e a Gomez ainda menos do que aos outros. — Conhece outro? — Ninguém — disse Sarah devagar. É um especialista de abortos. — É justamente isso — disse Mathieu —. mas. Tenho receio de que ela o fique a detestar depois. procurou alguém. — Deram me um embrulho depois da operação e disseram me: «Deite isso na retrete. — E você. — Não muito. Não o viu cá em casa? Um ginecologista. chocaria contra as paredes e não poderia escapar. Quando os nazis tomaram o poder. — Foi horrível! — Ah! — disse Mathieu com uma voz transtornada. — Em todo o caso — disse resoluta —. — Não. como é que não pensei já nisso? Vou arranjar tudo. sabe se? — perguntou Mathieu encolerizado. perturbada. — disse ela com um ar penoso — eu pensava no pequeno. Bem sabe.. foi morar para Viena. um russo. Uma vida! Uma consciência a mais. mas agora bebe J E A N P AUL SARTRE e eu já não tenho confiança nele. Houve um caso complicado há dois anos.» Numa retrete. Ele ainda opera. Como um rato morto! Mathieu — disse ela. Waldmann. que voaria em círculo. uma pequena luz perdida. recordou se dos olhos de Marcelle. se é assim.. como deve estar acabrunhado. você pode ajudar nos Quando teve. que eu não tornaria a fazer. agora. Depois disso houve o Anscbluss e ele veio ter a Paris com uma maleta. Mathieu reviu. A — Sim — disse Sarah (a fisionomia alterou se lhe).. Sarah teve um gesto de desconsolo. não quero mandá los a esse russo. não sabe o que vai fazer! — E quando se põe uma criança no mundo..

Mathieu respirou um cheiro vivo. alimenta se e incha. de a humilhar.» Mathieu beijou a nas duas faces. Ergueu para ele o rosto terno e desgracioso. Será mais razoável. J E A N P AUL SARTRE Ela dormia. pequenas gotas nasciam nos bicos.. — Poderia telefonar lhe. colou se à sola dos seus sapatos. A bolha inchava e o tempo passava. mergulhado numa sombra densa. O roupão de Sarah abrira se sobre os enormes seios. é pertinho. cúmplice num acto que lhe inspirava horror. — No Dupont Latin? Está bem. meu caro Mathieu. Verão! Deu alguns passos. Perguntava a si próprio aonde iria buscar o dinheiro.. Pestanejou e sorriu. Ela dorme. porque não hei de ir agora de manhã? Mora na Rua Blaise Desgoffes. Poderei ficar lá e esperar pelo seu telefonema. Vou vê lo hoje mesmo. Ela acabava de lhe sacrificar as suas repugnâncias mais profundas. você é um anjo. Aqui ninguém o conhece. muito contente. É preciso que eu arranje o dinheiro dentro de . — Onde está por volta das onze horas? — perguntou ela. «compreendo o sadismo. Irradiava satisfação. era um fantasma mineral. eu tenho um encontro às dez e meia. — Devo estar no Dupont Latin. até logo. Sarah. de se tornar. Marcelle estava grávida. que dava vontade de lhe fazer mal. Bulevar Saint Michel. gotas brancas e salgadas como lágrimas. Não leva demasiado caro? — Em Berlim levava dois mil marcos. Vou propor lhe três mil francos. Visto me e desço. Mathieu abraçou a. transpirava a dormir. eu. — Até logo — disse Sarah —. Havia naquele rosto uma humildade perturbadora. quase voluptuosa. vivamente: — Mas era um roubo. «Quando a vejo». e os rostos deles flamejavam. Os belos seios morenos e arroxeados tinham caído. não tem tempo para dormir. A bolha dentro do seu ventre não dormia. — Estou contente — disse Mathieu —. cheio de pontos brancos. — Dez mil francos! Ela acrescentou. Pagava se pela reputação. por ternura e para não lhe ver o corpo. Espera por mim? DADE DA RAZÃO — Não.— Acha que ele tratará do caso? — Naturalmente. — Escute — disse Sarah —. entre dentes. Dorme sempre até ao meio dia. Mathieu empalideceu. — Bem — disse Mathieu. de poeira nova. os transeuntes flutuavam no céu. dizia Daniel. Já não era o mesmo Verão. o alcatrão negro e mole. Agarrou lhe os ombros e sacudiu a a sorrir. o corpo. «Verão!» O céu enchia a rua. por generosidade.

Brunet.» Contemplava aquele jardim rotineiro. quente e branco. anda dentro de uma cidade de vidro que em breve há de quebrar. As crianças correm. A liberdade é o seu jardim secreto A sua .. Um álibi? «Assim é que eles me vêem.» Mathieu parou de repente. Estirado em cima de uma cadeira. Juro. Está tudo acabado. pombos.. «Aonde é que irei pedir o dinheiro? Daniel não mo vai emprestar. tive o que queria: Marcelle. e aquelas árvores todas. Daniel. pássaros de pedra. Havia as crianças que cornam desordenadamente. Uma estátua mostrava lhe as nádegas de pedra. O Luxemburgo. as mesmas há mais de cem anos. Ele via se a pensar. Marcelle. como outros desejam uma colecção de selos. independência. Há trinta e quatro anos que eu me saboreio. pedirei a Jacques. os pombos arrulhavam. Come. há mais de cem anos percorrido pelas mesmas ondas de cores e ruídos. em último caso. de dedos partidos. Correrias. Brunet vai sossegado pela rua.» A relva tremia a seus pés. «Neste momento. como o mar. os pombos levantam voo. é funcionário. e a 29 recebo. Marcelle grávida. eu também quis partir para a Espanha. crianças.» Pensou subitamente: «Estou a ficar velho. Estátuas. sinto o velho gosto do sangue e da água ferruginosa. o quê? Urna pobre religião laica para uso próprio. sempre o mesmo. sempre novo. Mas quer ser livre. Haverá realmente uma Espanha? Estou aqui. existo. os castelos no ar era. à vontade sob este sol. esse judeu há de esperar até ao fim do mês. tão monótono. com o mesmo sol sobre as deusas de gesso. Trinta e quatro anos. Mas eu? Eu? Marcelle está grávida.. sente se leve porque espera. como qualquer outro. Mesmo assim. E. bebe. O homem que quer ser livre. Jacques. Não quero mais nada. saboreio. Paris. Mas não pode ser. O acompanhamento discreto e seráfico da verdadeira vida. tão normal. relâmpagos brancos.» Lembrou se de repente de dois olhos muito juntos sob espessas sobrancelhas negras. vou pedir lho.. Conseguirá Sarah convencer o judeu? Onde arranjar dinheiro? E o que estou a pensar. sente se forte. Queria lá ir. o meu gosto. no entanto. Tudo isso era tão natural. O resto. esperei. lê L'Oeuvre e Lê Populaire e está em dificuldades financeiras. Sentou se numa cadeira de ferro. «Afinal é coisa de uns quinze dias. Trabalhei. tinha horror de si próprio. sou o meu próprio gosto.» «Estou velho. porque ainda não chegou a hora de partir tudo.quarenta e oito horas. não faz política. bastava para encher uma vida. E havia Sarah com o roupão amarelo. com precaução. era a vida. e estou velho. Espera. «Madrid. Mas não consegui. as Espanhas. Existir é isso: beber se a si próprio sem ter sede. caminha bamboleando se ligeiramente. o dinheiro. comprometido até ao pescoço na vida e não acreditando em nada.

Não é isso que sou?» J E A N P AUL SARTRE Tinha sete anos. uma apariçãozinha obstinada que rompera a crosta terrestre. Olhava os cacos de porcelana. contemplava as grandes ondas do oceano. e atirou o ao chão. fora buscar a caixa à cozinha e esfregara nela a mosca para ver se acendia. voltou para junto da mesa. Tinha dezasseis anos. Apostara que toda a sua vida se pareceria com aquele momento excepcional. Ele obrigara o a comer areia. e sentia se orgulhoso. com asas como patas de papagaio. Disse a si próprio: «Hei de ser livre». Aconteceu assim e logo a seguir sentiu se leve. uma promessa. na casa do tio Jules. Mas esse vazio ainda tinha um gosto. Mathieu aproximou se do vaso com as mãos atrás das costas e contemplou o com inquietação. De repente. que dissimuladamente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida. diáfano. Tudo isso negligentemente: era uma comédia medíocre de vagabundo e não conseguia interessar se por si próprio. O tio dissera lhe que o vaso tinha três mil anos. o dentista. e brincava a fazer que não existia. Tinha conseguido esvaziar completamente a cabeça. Estava deitado na areia em Arcachon. livre. mas muito razoável no fundo. Era dia de disparates. sozinho na sala de espera. Era apavorante ser uma bolinha de miolo de pão neste velho mundo ressequido. que era pesadíssimo. feita de inércia e que justifica de vez em quando com elevadas reflexões. Era um estúpido. na luminosidade do Verão.pequena conivência para consigo próprio. algo totalmente irreverente que se assemelhava a uma manhã. tivera a impressão de ser uma pequena exploração suspensa no ar. sem origem. sabia muito bem que a mosca não ia acender se. Sentado à sombra dos pinheiros. diante de um vaso impassível de três mil anos. verde e cinza. Acabara de bater num jovem bordelês que lhe atirara pedras. Vegetava num calor provinciano que cheirava a moscas e tinha apanhado uma a que arrancara as asas. Sobre a mesa havia revistas rasgadas e um belo vaso chinês. ou antes não disse coisa nenhuma. sem família. sem peias. Um tipo preguiçoso e frio. Pensou: «Fui eu que fiz isto». ergueu o vaso. Tinha vinte . Algo acabava de acontecer àquele vaso de três mil anos guardado entre as paredes quinquagenárias. redonda. abrupta inexplicável. maravilhado. Verificara que a cabeça se assemelhava a uma cabeça de fósforo. como quando se conserva sobre a língua um líquido demasiado frio. sem conseguir distrair se. evitando o pequeno movimento da deglutição que o lançaria na garganta. Voltara lhe as costas e pusera se a revirar os olhos e a fungar em frente do espelho. Era preciso tentar não se engolir. com as narinas cheias do odor da resina. arquejante. um pouco quimérico. Estava em Pithiviers. mas era o que queria dizer e era uma aposta.

Vai se na onda. Pensou: «Estará tudo acabado? Serei apenas um funcionário?» Esperara tanto tempo. lia Espinosa no quarto. Como Brunet. cem vezes tornara a fazer a aposta. Ser a causa de si próprio. Um acto. O que o retivera à beira destas rupturas violentas fora a ausência de motivos para fazê lo. Uma bola de ténis rolou lhe aos pés. — A bola. Que aposta? Pôs a mão sobre os olhos cansados da luz. ser o próprio começo. um funcionário em dificuldades financeiras e que ia encontrar se com a irmã de um dos seus ex alunos. Para uma acção. aos seus próprios olhos. nem o irmão de Jacques Delarue. Era unicamente aquela aposta. Levantou se. poder dizer: sou porque quero. Naturalmente durante esse tempo andara atrás de mulheres. Grandes carros multicores passavam na rua. Nunca pudera prender se definitivamente a um amor. nem o amigo de Daniel e Brunet. Trinta e quatro anos. Os últimos anos tinham sido uma vigília. precisava de estar nos seus dias melhores. Levantava se um funcionário. nunca fora realmente infeliz. sub repticiamente. um rapazinho corria atrás dela com a raqueta na mão. Para compreender a aposta. abandonar os estudos. os anos tinham chegado e tinham no envolvido. E durante esse tempo. Vegetava naquele calor sufocante. Erguera os olhos e apostara de novo. a ele e a Brunet: «Hei de salvar me. palavras irritantes de intelectual. e era terça feira de Carnaval. não ter ainda nascido comple tamente. Tinha agora — cada vez mais — longos momentos de exílio. Um acto livre e reflectido que acarretaria o destino da sua vida e seria o início de uma nova existência. Esperava.e um anos. mas nessa idade não se tem plena consciência do que se faz. E. a um prazer. cheios de bonecos de papelão. Inutilmente repetia as frases que os exaltavam dantes: «Ser livre.» Dez. mas era uma só e mesma aposta. Mas através de tudo isso a sua única preocupação fora manter se disponível. Eu não queria ir na onda. Decerto que não estava num desses dias. Mathieu apanhou a bola e atirou a ao rapaz. As palavras mudavam com a idade e as modas intelectuais. com aquela ênfase filosófica que lhe era agora peculiar. sofria a velha e monótona sensação do quotidiano. Sem motivos. Já não sabia bem.» Tinha pensado partir para a Rússia. o advogado. se faz favor. devagar. viajara e ganhara a vida. sempre lhe parecera estar algures. Sim. Mathieu não era um tipo que ensinava Filosofia a rapazes num liceu. «Com vinte e cinco é que eu me devia ter comprometido.» Eram palavras vazias e pomposas. aprender um ofício. Esperara através de mil e uma preocupações quotidianas. a decisão teria sido uma . nem o amante de Marcelle.

chicoteados de quando em quando pelo repuxo. Ivich não o desculpava. Pensou: «Já não espero. Quando viu Mathieu. Riram e sentaram se. olharam para uma das mesas com desdém. No entanto não desejava ser belo. Pensou: «Não sei o que quero dela. num desafio. Só depois é que dei conta. nunca ela estava tão só como diante da beleza. esterilizei me para ser apenas uma espera. Esvaziei me. «Eu não sabia que era jovem. Ivich! — Bom dia — disse ela. os seus olhos apagaram se. Ela esquecia se de tudo. Mathieu levantou se. «Dez e quarenta. disse um adeus rápido ao companheiro e atravessou a Rua dês Ecoles como uma sonâmbula. Estou liquidado. esquecer se ia de respirar. um barquinho parecia perdido. belos objectos. e pronto. Estava com a cara dos dias de festa. e a franja descia lhe até aos olhos. — Sit down — disse um. «Só há chatos por aqui». inclinava se. Agora estou vazio. importuno. esquecia se de dormir. esquecido. Falavam animadamente.asneira. fugia de si mesma.» Não gostava que ela se atrasasse. Jovens machos rodeados de fêmeas e que pareciam insectos brilhantes e obstinados. tinha sempre medo de que se deixasse morrer. Hoje como das outras vezes olharia os quadros com um ar selvagem e maníaco. M athieu olhou para o relógio.» Lembrou se sem grande prazer que ia acompanhar Ivich a urna exposição de Gauguin. porque ele não era belo e era uma maneira de se desculpar. nem Brunet. Estudantes ou liceais. Continuara a esperar. Dois rapazes pararam junto dele. Tinham as mãos bem tratadas. nem Daniel. Boris também. esquecia se de comer. Ivich cheirava a mocidade. está atrasada. Todos riam. a fisionomia dura e a carne tenra. mas eram excepções. Barquinhos à vela giravam no tanque. pensou Mathieu. No Inverno . irritado. esfu ziantes. Mathieu ficaria a seu lado. não sentem nada.» Junto do repuxo. bons filmes. Descia o bulevar ao lado de um rapaz alto de cabeleira crespa e óculos. É engraçada a mocidade. Puxara os caracóis louros para a frente. Mas já não espero mais nada. Ela tem razão. feio. esquecia se a cada momento. — Eu sit down — respondeu o outro. por dentro. Um miúdo tentava apanhá lo com uma vara. pensou Mathieu por fora. Mártires da J E A N P AUL SARTRE juventude. Um dia.» Viu a nesse mesmo instante. Gostava de lhe mostrar belos quadros. Parou para olhar o carrossel náutico. Ela erguia o rosto para ele e oferecia lhe um sorriso luminoso. — Olá. afundava se lentamente.

» Mathieu ouviria do outro lado do fio J E A N P AUL SARTRE uma voz sombria: «Ele quer dez mil francos. Inútil. deixe o trazer. pronto. — E para a senhora? — perguntou o empregado. Ivich interessava se por tão pouca coisa! E ele não tinha vontade de falar.» Hospital. — Gosto disso? — disse divertida. cirurgia. isso pega se na boca. contrariado. não quero. Não sabemos onde nos havemos de enfiar. não. questões de dinheiro. sabia que Ivich era feia. — Sim. O empregado chamaria: «Senhor Delarue. Estão vermelhos? — Não. Não estou com sede. podia chamá la pelo nome ou tocar lhe no ombro. Mathieu fez um esforço e voltou se para Ivich. cheiro a éter. infantil e sensual. descobria lhe as bochechas gordas e lívidas e a testa curta. que ela usava por cima do verdadeiro como uma máscara triangular. Dentro em pouco. mas não o devia ouvir. Ela fechara os olhos e passava levemente os dedos sobre as pálpebras. não se referia a ela. nem um franco a menos. Os jovens vizinhos de Mathieu voltaram se para a ver. Ele. Não temos os mesmos gostos. Ivich sim. você gosta disso. calma e taciturna. Sarah telefonaria. Eu deixo o tomar decisões. — Menta verde. Não o beberei. Parecia pintada e envernizada como uma taitiana de Gauguin. — Aquela coisa verde e viscosa que bebi no outro dia? Oh!. — Não. Gostava que lhe chamassem senhora. No Verão doem me. porque a pintura lhe estragava a pele. Não estava pintada. Agora Mathieu via apenas um falso rosto. (Estremeceu. — Tome um Pippermint — disse Mathieu —. lembrei me do gosto. — Então está bem. Mathieu não sabia o que dizer. Não a via. Em dias como este não devíamos sair senão depois de escurecer.) Nunca mais beberei disso. Um rosto largo. Calou se.» Mathieu contemplou a com ternura. como a Lua entre duas nuvens. mas era inatingível com o seu porte frágil e os belos seios duros. A Ela sentou se. — Faz favor! — gritou Mathieu. Pensavam visivelmente: «Boa miúda. pálido. Ivich sorriu lhe. indecisa. Reabriu os olhos.o vento despenteava a. quero. Mas que é isso? — perguntou quando o empregado se afastou. só ele. o sol persegue nos por toda a parte. estreito e puro. Depois virou se para Mathieu. via a. mas estava ali. — Tenho a impressão de que ficam abertos sozinhos. E as pessoas . De vez em quando eu fecho os para que descansem. a que ela chamava «testa de calmuco». — É o sol. — Você disse que gostava — atalhou Mathieu. Marcelle estava ali. mas depois reflecti. é bonito.

o rapaz encaracolado. — Você perturbava me a princípio — disse Mathieu.. JEAN PAUL SARTRE — Ouça — disse Mathieu —. não era com má intenção. Julgava sempre que tivesse reparado num lugar mais ralo e não pudesse tirar de lá os olhos. É sempre a mesma coisa. — É verdade que não liga a essas coisas. não. acaricia me os cabelos. achava se culpado e liberto ao mesmo tempo por lhe querer menos. — Não é o que está a imaginar. Mas estou à espera de um telefonema. . que tinha as mãos húmidas. — Porquê? — perguntou Mathieu admirado. Era o outro. — Com certeza não sabe o que é um «lar de estudantes». vou à farmácia comprar um comprimido. mas sinto medo quando imita as minhas expressões! — Compreendo! — disse Mathieu a sorrir. — Bom. — Afinal as pessoas acabam por perceber que esconde a cara e baixa os olhos como uma santa de pau carunchoso. A — Ela gosta de mim porque sou loura. Ela riu divertida e furiosa.. por baixo da mesa. — Sim. — Você é dissimulada — disse Mathieu.. à altura dos cabelos. E depois a empregada afeiçoou se a mim. Olhava Ivich sem se sentir perturbado. sob qualquer pretexto. Protegem as raparigas de verdade. Ivich encarou o com impaciência. se me chamarem diga ao empregado que volto já. teria medo.ficam com as mãos húmidas. Lançou lhe um olhar matreiro e rápido. irritada. Mathieu tocou com o dedo. Acrescentou. — murmurou ela num tom arrastado que fazia pensar nas suas faces lívidas. — Gostaria que soubessem como você é? — acrescentou com certo desprezo. ou então de lado: assim. — Olha me por cima da testa. entra a todo o momento no meu quarto. Tenho horror a que me toquem. — Não. Os olhos ardem me logo. Estava seca. Ivich sacudiu a cabeça. Mesmo que você fosse o tipo mais bonito deste mundo. — Acabe com isso! Não gosto que me imitem. — Sim. num tom de voz diferente: — Eu gostava que não me doessem tanto os olhos. — Aborreceu a tê la feito sair tão cedo? — De qualquer maneira eu não podia ficar no quarto. Daqui a três meses vai detestar me. Eu que tenho tanto medo de ficar calvo. Sabia que ela não pensava o que dizia. — Olho para toda a gente assim.. Há de dizer que eu sou dissimulada. com a palma da mão. Quanto a olhar as pessoas de frente. não posso. sobretudo em tempo de exames. Mathieu mal a ouvia.

— Não, não vá — disse ela secamente. — Agradeço, mas não faria nada. É do sol. Calaram se. «Estou a ficar abstracto», pensou Mathieu com um prazer estranho. Um prazer crispado. Ivich alisava a saia com as palmas das mãos, erguendo ligeiramente os dedos como se fosse tocar piano. As mãos dela estavam sempre avermelhadas porque tinha má circulação. Geralmente levantava as e agitava as de vez em quando para as descongestionar. Não lhe serviam para pegar em nada, eram dois idolozinhos gastos nas extremidades dos braços; afloravam as coisas com pequenos gestos inacabados e pareciam menos destinados a segurar do que a modelar. Mathieu olhou as unhas de Ivich, longas e pontiagudas, excessivamente pintadas, quase chinesas. Bastava contemplar aqueles adornos frágeis e incómodos para compreender que Ivich não podia fazer coisa nenhuma com os seus dez dedos. Uma vez caíra lhe uma unha, ela guardara a numa caixinha e de vez em quando observava a com uma mistura de prazer e horror. Mathieu vira a. Conservara o verniz e assemelhava se a um besouro morto. «Que será que a preocupa? Nunca esteve tão irritante. Deve ser o exame. A não ser que se chateie de estar comigo. Afinal de contas eu sou adulto.» — Não começa assim, com certeza, quando se vai ficar cego — disse de repente Ivich com um ar neutro. — Com certeza que não — respondeu Mathieu, sorrindo. — Bem sabe o que lhe disse o médico em Laon: um bocadinho de conjuntivite. A Falava docemente, sorria docemente, sentia se embebido em doçura. Com Ivich era preciso sorrir sempre, fazer gestos suaves e lentos. «Como Daniel com os gatos.» — Doem me tanto os olhos — disse Ivich —, basta uma coisa de nada. (Hesitou.) É no interior dos olhos que me dói. Não é assim que começa aquela loucura de que me falava há dias? — Ah!, aquela história? Olhe, Ivich, da última vez era o coração, receava ter uma crise cardíaca. Que rapariga estranha, parece que tem necessidade de se atormentar. E de repente declara que é feita de cimento! É preciso escolher. A sua voz deixava um gosto a açúcar na boca. Ivich olhava para os pés, pensativa. — Deve estar qualquer coisa para me acontecer. — Já sei — disse Mathieu —, a sua linha da vida foi interrompida. Mas disse me que não acredita nisso. — Não, não acredito... Mas não posso imaginar o meu futuro. Há uma barreira. Calou se e Mathieu contemplou a em silêncio. Sem futuro... De repente sentiu um gosto desagradável na boca e percebeu que estava demasiado preso a Ivich. Era verdade que ela não tinha futuro. Ivich com trinta anos, Ivich com quarenta anos, não

fazia sentido. Pensou: «Ela não é eterna.» Quando Mathieu estava só ou quando falava com Daniel, com Marcelle, a vida estendia se diante dele, clara e monótona: algumas mulheres, algumas viagens, alguns livros. Um longo declive. Mathieu descia o lentamente, lentamente, às vezes ele próprio achava que não ia muito depressa. De repente, quando via Ivich parecia J E A N P AUL SARTRE lhe viver uma catástrofe. Ivich era um pequeno sofrimento voluptuoso e trágico, sem futuro. Ir se ia embora, ficaria louca, morreria de uma crise cardíaca ou então seria sequestrada pêlos pais em Laon. Mas Mathieu não poderia suportar a vida sem ela. Fez um gesto tímido com a mão; queria pegar no braço de Ivich acima do cotovelo e apertá lo com toda a forca. «Tenho horror a que me toquem.» A mão de Mathieu caiu. Disse muito depressa: — Tem uma linda blusa, Ivich. — É feia. — Inclinou a cabeça, empertigada, e sacudiu a blusa, constrangida. Acolhia as homenagens como se fossem ofensas, era como se fizessem dela uma imagem à machadada, grosseira e fascinante, a que tinha receio de se prender. Só podia pensar o que convinha a si própria. Pensava nisso sem palavras, era uma certeza terna, uma carícia. Mathieu olhou com humildade os ombros de Ivich, o pescoço alto e roliço. Ela dizia muitas vezes: «Sinto horror pelas pessoas que não sentem o corpo.» Mathieu sentia o dele, mas era como um embrulho embaraçoso. — Ainda quer ir ver os Gauguin? — Gauguin? Quais? Ah!, a exposição de que me falou? Bem, podemos lá ir. — Não parece ter muita vontade. — Tenho. — Se não tem vontade, Ivich, diga. — Mas tem você. — Bem sabe que já lá estive. Tenho vontade é de lha mostrar, se isso lhe agradar; mas se não lhe interessa, desisto. — Pois então preferia ir noutra ocasião. A — A exposição acaba amanhã — disse Mathieu, decepcionado. — Tanto pior — disse Ivich sem energia —, mas há de haver outra oportunidade. — Acrescentou com calor: — Essas coisas estão sempre a aparecer, não é verdade? — Ivich! — observou Mathieu com uma amabilidade forçada. — Essa é mesmo sua! Diga que não lhe apetece, mas bem sabe que tão cedo não haverá outra. — Pois bem — disse ela, gentilmente —, não quero ir hoje por causa do exame. É infernal que nos façam esperar tanto tempo pelo resultado. — Não é amanhã?

— Justamente. Acrescentou, roçando a manga de Mathieu com a ponta dos dedos: — Hoje não deve ligar ao que eu digo. Não estou normal. Dependo dos outros, é aviltante. Vejo continuamente a imagem de uma folha branca pregada numa parede cinzenta. Eles impõem nos este pensamento. Quando me levantei hoje de manhã, senti que já era amanhã. Hoje é um dia perdido, riscado. Roubaram me este dia e já não me restam muitos mais. Insistiu em voz baixa e rápida: — Falhei em Botânica. — Compreendo — disse Mathieu. Queria encontrar nas suas recordações uma angústia que lhe permitisse compreender a de Ivich. Talvez na véspera da formatura... Não, não era a mesma coisa. Ele vivia sem correr riscos, sossegadamente. Agora sentia se frágil, no meio de um mundo ameaçador, mas era através de Ivich. J E A N P AUL SARTRE — Se eu for aprovada — disse Ivich —, vou beber antes da oral. Mathieu não respondeu. — Só um bocadinho — repetiu Ivich. — Disse isso em Fevereiro, antes do exame, e foi lindo, com quatro cálices de rum ficou completamente bêbeda. — Aliás não ficarei aprovada — disse ela de maneira equívoca. — Está bem, mas se por acaso ficar? — Claro que não vou beber. Mathieu não insistiu. Tinha a certeza de que ela apareceria bêbeda à oral. «Eu é que não faria isso, era demasiado prudente.» Estava irritado com Ivich e desgostoso consigo próprio. O empregado trouxe o copo e encheu o até meio de menta verde. — Já trago a água e o gelo. — Obrigada — disse Ivich. Ela olhava para o copo, e Mathieu olhava a. Um desejo violento e imperioso invadira o: ser por um momento aquela consciência perdida e cheia de seu próprio odor, sentir por dentro aqueles braços compridos e finos, sentir, na junção, a pele do antebraço colar se como um lábio à pele do braço, sentir aquele corpo e todos os pequenos beijos que dava a si próprio sem cessar. «Ser Ivich sem deixar de ser eu.» Ivich tirou o balde das mãos do empregado e pôs um pequeno cubo de gelo no copo. — Não é para beber, mas fica mais bonito. Pestanejou e sorriu com um ar acriançado. — É bonito. Mathieu olhou o copo, irritado. Procurou observar a agitação espessa e desordenada do líquido, a brancura turva do gelo. Em vão. Para Ivich era uma pequena volúpia

viscosa e verde que a deixava toda melada até à ponta dos dedos. Para ele aquilo não era nada. Nada de nada. Um copo com menta. Podia, pensar o que Ivich sentia, mas ele nunca sentia nada. Para ela as coisas eram presenças abafantes e cúmplices, grandes redemoinhos que a penetravam na carne, mas Mathieu via as sempre de longe. Olhou a e suspirou. Estava atrasado, como de costume. Ivich já não contemplava o copo, parecia triste e puxava nervosamente um caracol dos seus cabelos. — Queria um cigarro. Mathieu tirou o maço de Gold Flake do bolso e estendeu lho. — Vou lhe dar lume. — Obrigada, prefiro acendê lo eu. Acendeu o cigarro e tirou algumas baforadas. Aproximou a mão da boca e divertiu se, com um ar maníaco, a fazer deslizar o fumo pelas palmas das mãos. Explicou, como para si mesma: — Queria que o fumo parecesse sair da minha mão. Seria engraçado uma mão com neblina... — Não é possível, o fumo passa demasiado depressa. — Eu sei, e isso enerva me, mas não posso parar. Sinto o meu sopro aquecer a mão, passa lhe pelo meio, dir se ia que a corta em duas. Teve um riso rápido e calou se. Continuava a soprar na mão, descontente e obstinada. Depois deitou fora o cigarro e sacudiu a cabeça. O perfume dos cabelos chegou às narinas de Mathieu. Era um cheiro a bolo com açúcar bauni Ihado, porque ela lavava os cabelos com gema de ovo. Mas esse perfume de pastelaria tinha um gosto voluptuoso. Mathieu pôs se a pensar em Sarah. — Em que é que está a pensar, Ivich? Ela ficou um instante de boca aberta, desconcertada, depois retomou o seu ar meditativo e o rosto contraiu se lhe. Mathieu sentia se cansado de a olhar. Doíam lhe os olhos. — Em que é que está a pensar? — repetiu. — Eu... (Ivich abanou a cabeça.) Está sempre a perguntar me isso. Nada de especial. Coisas que não se podem dizer, que não se transmitem. — Sabe se lá... Diga. — Bem, eu olhava para aquele homem que vem ali, por exemplo. Que quer que lhe diga? Que é gordo, que enxuga a testa com um lenço, que traz uma gravata... É estranho que você me obrigue a contar estas coisas — disse de repente, envergonhada e irritada —, não vale a pena dizê las. — Para mini, sim. Se eu pudesse desejar qualquer coisa, desejaria que fosse obrigada a pensar alto. Ivich sorriu sem querer — É um vício — disse —, a palavra não foi feita para isso. — E engraçado esse respeito selvagem pela palavra. Parece crer

que ela só foi feita para anunciar mortes, casamentos ou dizer missa. Aliás, você não olhava para ninguém, Ivich, olhava para a sua mão e a seguir olhou para o pé. E, além disso, sei no que estava a pensar. — Então porque é que pergunta? Não é preciso ser muito esperto para adivinhar. Pensava no exame. — Está com medo de reprovar, não é? — Naturalmente. Estou com medo. Ou melhor, não estou com medo. Sei que vou reprovar. Mathieu sentiu novamente um gosto de catástrofe na boca. «Se ela reprovar, nunca mais a verei.» E ela ia reprovar de certeza. Era evidente. — Não quero voltar para Laon — disse Ivich com desespero. — Se ficar reprovada, não me deixarão voltar. Disseram me que era a minha última oportunidade. Pôs se a mexer nos cabelos. — Se tivesse coragem — disse com hesitação. — Que faria? — perguntou Mathieu inquieto. — Qualquer coisa. Tudo menos voltar para lá. Não quero voltar, ficar lá a vida inteira. — Mas disse que seu pai talvez vendesse a serração daqui a um ou dois anos e que viriam todos para Paris. — Paciência! São todos assim — disse Ivich com um olhar furioso. — Queria ver se fosse consigo! Dois anos naquela cave, ter paciência durante dois anos! Não vê que são dois anos que me roubam? Tenho só uma vida — disse com raiva. — Ao ouvi lo falar, parece que se julga eterno. Um ano perdido, na sua opinião, substitui se bem. — As lágrimas vieram lhe aos olhos. — Não, não se substitui. É a minha mocidade que se escoará gota a gota. Quero viver já, não comecei ainda e não posso esperar. Já estou velha, tenho vinte e um anos. — Ivich, por favor, faz me medo. Tente ao menos uma vez dizer com clareza o resultado dos seus trabalhos práticos. Tão depressa parece satisfeita como desesperada. — Falhei em tudo — disse Ivich, sombria. — Pensei que em Física tivesse tido êxito. — Ah!, a Física — atalhou Ivich com ironia. — E em Química foi lamentável. Não consigo enfiar as fórmulas na cabeça. É tão cansativo! — Mas então porque é que escolheu isso? — O quê? — O P.C.B. — Queria sair de Laon — disse ela, obstinada. Mathieu fez um gesto de impotência. Calaram se. Uma mulher saiu do café e passou devagar diante deles. Era bela, com um nariz minúsculo num rosto liso, parecia procurar alguém. Ivich

Insisti. — Senhor Delarue? Primeira cabina. Ela não respondeu. a sua fisionomia transformou se. — Mas é preciso andar depressa. Ivich seguiu a com o olhar e murmurou raivosamente: — Há momentos em que eu gostaria de ser homem. melancólica. a rir.» Mathieu inclinou se ligeiramente e viu a de perfil: a sua expressão era cruel. Olhava para Ivich. é Sarah Gomez. apertava as mãos com força. Teve um risinho seco. tenho de arranjar o dinheiro. juro. — Ivich — disse Mathieu. Ivich sorriu lhe com frieza. e sentiu se também sozinho. Mas Mathieu não tinha vontade de as olhar. disse lhe que você estava atrapalhado. só que a coisa me apanha desprevenido. vou avisar Marcelle hoje mesmo. mas quer quatro mil a pronto. — Ah! Fico muito satisfeito. quando a viu. Dissera uma vez a Mathieu: «Tenho vontade de morder os narizes pequenos. lamento imenso. — Que criatura soberba — disse em voz baixa e profunda. Ela estava só. mas não quis saber. por um amor ardente e perturbado A desfavorecido pela beleza. Já não existia para ela. através do tecido leve do vestido. Quanto é que ele quer? — Ah!. A mulher foi se embora. e ele pensou que ela tinha vontade de morder. Ergueu lentamente a cabeça. Levantou se. É um estupor de um judeu — acrescentou. — Chamam o Senhor Delarue ao telefone — gritou o empregado. — Está.. quando aquele corpinho encantador e quase gentil era tomado por uma força dolorosa. — Desculpe. Teria talvez trinta e cinco anos. mas. Mathieu pegou no telefone. viam se lhe as pernas compridas. Mathieu sabia que ela não podia responder. — Bem. mas quando era prestável tornava se . é a Sarah? — Tudo corre bem — disse a voz nasalada de Sarah. Quer fazer a coisa depois de amanhã para a poder observar durante os primeiros dias.devia ter sentido logo o perfume. — Sou eu — disse Mathieu. Mathieu não gostou daquela voz. Esta ficara quase feia. a porta da cabina não se fechava. Ele parte domingo para os Estados Unidos. Ele entrou no café e desceu a escada. Sarah era muito bondosa. docemente. à transparência. Pensou: «Não sou bonito». — Ivich! Era nesses momentos que mais lhe queria. A mulher imobilizou se pestanejando ao sol.. e Mathieu olhou a tristemente.

há vestígios de bâton. — Pois eu tê los ia guardado.. — Dentro de dois dias? Bem. — Uma mulher — disse Ivich —. Mathieu viu entre os seus pés três cigarros de ponta dourada. como uma irmã de caridade. — Ainda bem — disse Mathieu. e Ivich subiu. «Uma vez que lhe vou falar». veja como é bonito. neste táxi. «Irei ter com Daniel ao meio dia. — Esse não — disse Ivich —. — Uma ficha para o telefone — pediu.» Sentou se perto de Ivich e olhou a com ternura. — Oh! Dei os ao motorista. meio fumados. Mathieu saiu da cabina. era um pesadelo. Levantaram se e Mathieu reparou que o copo de Ivich estava vazio. — Mande parar aquele — pediu Ivich —. — Esteve aqui alguém que ia nervoso. Sorriram e calaram se. amavelmente. Sarah. é descapotável. Mathieu disse: — Uma vez achei cem francos num táxi. — Até logo à noite. é um anjo. sem surpresa. não vale a pena. junto de Ivich. Michel. Obrigado. silencioso. — Não. — Táxi — gritou. Está em casa à noite. não era consigo. — Poderíamos. — Deve ter ficado contente. — Se quiser — disse Mathieu. — Bom.» — Galeria das Belas Artes. ecoar no auscultador. Estavam ambos aborrecidos. e ouvia o riso de Sarah. Mathieu ia para dizer: . antes do jantar? — Todo o dia. Pôs vinte cêntimos na bandeja e subiu devagar a escada. para dar até ao fim do mês. vou tratar disso. «pedirei mais mil francos a Daniel. — A dor de cabeça passou me — disse ela. Não valia a pena telefonar a Marcelle antes de resolver o assunto do dinheiro. Ivich olhou o de lado através das suas longas pestanas. o vento na cara é incomodativo. Faubourg Saint Honoré. Sentia o coração amargurado. O táxi atravessou a Praça St. Porque é que fez isso? — Não sei. poderíamos ir ver os Gauguin. pensou Mathieu. — Porquê? Mathieu apontou os cigarros. — Não. O táxi parou. Mathieu afastara um pouco o telefone. Sentou se. não — disse Mathieu ao motorista —. Tinha um sorriso confuso e provocante. parece um coche e é fechado. Passarei por lá para tratar ainda de mais umas coisas.brutal e activa.. pensava: «Quatro mil francos».

os três. e apressou se a acrescentar: — Tem razão. — É engraçado que não tenha reparado. mas de vez em quando tinha uma expressão terna pelo prazer de sentir o rosto pesado e doce como um fruto. Eu gostaria. — Ela é gentil consigo. Era como se eles tivessem imaginado. E assim que fazem as pessoas que envelhecem. «Não». mas não consigo. esforça se logo por lhes descobrir qualidades. Foi Ivich quem falou de repente: — Boris pensava que íamos ao Sumatra. — Eu acho a simpática. em criança. disse para si próprio. Desde que as pessoas o detestem. Olhou a. . nunca se deveria envelhecer — disse Ivich. Eu não a acho simpática. fico sempre admirada quando a vejo fazer as contas das despesas e tentar economizar. não é nada agradável envelhecer. — Oh!. — Não pode fazer outra coisa.. — Ficarei muito contente em ver Boris e de estar com vocês — disse —. canta bem. o que me desagrada um bocado é Lola. — Isso não quer dizer que ela não se sinta desesperada. Ivich não era muito coqueta. — Naturalmente. aborrecido. — Tinha caracóis — informou Mathieu. pensam no dinheiro e tratam se bem. Voltara a cabeça e olhava os cabelos de Mathieu avançando a boca com ternura. parece me que foi sempre assim. quando estão desgostosas consigo próprias e com a vida. você não tem idade — disse Ivich —. erguendo as sobrancelhas. perturbado.. Às vezes tento imaginar como você era. hoje à noite. que eram um homem e uma mulher fechados num táxi. — Que é que isso tem? Fez se um silêncio. e mais nada. A — Pois é. Ela não pode comigo. É a sua moral. ao mesmo tempo. Mas não gosto dela. dá profundos suspiros para que pensem que está desesperada e encomenda bons petiscos! Acrescentou com uma maldade dissimulada: — Sempre pensei que as pessoas desesperadas não se incomodavam com a morte. É bonita. Mathieu achou a inconveniente e irritante. tem a juventude de um mineral. — Nunca reparei nisso. como está verde!» Mas não disse nada. é muito teatral? — Teatral? — perguntou Mathieu. Ivich continuou: — Não acho que valha a pena incomodarem se por causa de Lola. secamente.«Olhe o Sena. Quer sempre ser perfeito.

fora espontâneo. que parecia muito admirado. e a sua raivosa alegria esvaiu se. «Que pensará ela?» Estava a seu lado. mas não via as árvores. Um tipo bastante bem vestido. Ivich continuava sem dizer nada. Lembrou se do gesto de um tipo que vira uma vez na Rua J E A N P AUL SARTRE Mouffetard. Pensou: «Um homem casado a conquistar uma rapariguinha num táxi». Tinha deixado para trás Marcelle. os intermináveis corredores de hospital por onde andava desde manhã. pareceu lhe que ficava suspenso no vácuo com uma intolerável impressão de liberdade. mas ficou dura. Era amor. Desta vez. Agora era amor. que não se exprimia por gestos. Inclinou se. Aproximara se de uma mercearia. como uma mola. As arcadas do Louvre estendiam se pesadamente ao longo dos vidros. Para a castigar aflorou com os lábios uma boca fria e fechada. O táxi meteu se pela Rua de Rivoli. Parecia achar a coisa natural e também se devia ter sentido livre. Ivich calava se. O corpo de Ivich voltou. irritado. e deixou se cair como se tivesse perdido o equilíbrio. e depois. viu lhe os olhos. Aquele dia de Verão abatia se nele como uma massa densa e quente. olhava para o seu amor. Ivich ia pensar que ele a amava como às outras mulheres que tinha amado. E ele fizera um gesto. mas um pouco mais pequeno. bruscamente. O dono gritou. Estava calor. sem nome. Depois estendera a mão e pegara na carne. pensou Mathieu. já não estava em parte alguma. Através do vidro da frente via as árvores e uma bandeira tricolor na ponta de um mastro. de rosto cinzento. agarrou Ivich pêlos ombros e puxou a para si.— Pois eu imagino o tal como é hoje. um polícia levou o tipo. Ainda durante um segundo. o único que não devia ter feito. como se fossem pombas. e o braço recaiu lhe inerte. era livre. Um polícia fez sinal para parar e o táxi deteve se. à posição vertical. havia entre ambos um sentimento raro e precioso. Mathieu quis falar. Ivich não resistiu. Insistia. rígida. rígida e silenciosa. olhara demoradamente uma fatia de carne fria que estava num prato sobre o balcão. «Pronto.» Encolheu se. Ao levantar a cabeça. «Está a julgar me». Um gesto e aquele amor aparecera perante Mathieu como um objecto importuno e já vulgar. Mathieu olhava em frente. é irremediável. aliás não o fizera propositadamente. estendeu o braço. sentia vontade de se abandonar inteiramente. e entre eles havia o . Não disse nada: ficou com uma expressão neutra. Desejara desaparecer. Sarah. mas sentia um estranho nó na garganta e estava fora de si. Mathieu pensou: «Que é que eu fiz?» Cinco minutos antes aquele amor não existia. Ivich não devia saber que tinha um ar terno. e Mathieu sentia um corpo quente junto do seu.

que deixara a luminosidade nas pregas da cortina e jazia ali. quando Mathieu se deitara nu ao lado dela. «o arcanjo!» Marcelle bocejou. Viu de repente Marcelle estendida na cama. Sabia que não teria podido J E A N P AUL SARTRE suportar aquela expressão e que a coisa lhe parara na garganta. «Na melhor das hipóteses». pagou e juntou se a Ivich. havemos de nos arranjar». como um vago perfume. estagnado. olhava os tornozelos com um vago descontentamento.. não lhe pude dizer. sacudiu a cabeça. aquele amor de homem casado. de olhos fechados. nunca a desejei». pensou com desespero.. e um dia. «Está aborrecida. Mas já sabia que ia desejá la. e o seu primeiro pensamento foi: «O arcanjo vem esta noite. despreza me e pensa que sou como os outros. aceitava o já como uma fatalidade. «Bom. Mas já não conseguia lembrar se do que queria antes. como na véspera.» O tecto estava cinzento como uma madrugada. Deitou lhe um olhar furtivo e achou que ela tinha uma expressão dura. impalpável. Se ao menos ela pudesse esquecer. Pensou: «Meio dia. mas o calor era de meio dia. pensou. é tão puro. como me acharia repugnante. chuvoso. e . que era um eterno meio dia. mole.. parecia Ihe que a vida parara ao meio dia. humilhante para ela. Olhar Ihe ei para as pernas. inerte e sinistro como um destino. «Não é verdade». e Mathieu é que o fizera nascer com inteira liberdade. com os seus desejos simples e as suas condutas vulgares. para os seios. Acabava sempre assim.» Mas não tinha vontade de deixar de a amar. de quem vai tomar um medicamento.. Contemplava com espanto aquele amor completamente novo. nua. Odiava Marcelle. envergonhado e dissimulado.» Ele teria respondido. à sua volta. «não a desejo. que o esperava à entrada. humilhado de antemão. que tinha já a obstinação impalpável das coisas passadas. com a sua luz morta e rosada. Marcelle deitava se tarde e não conhecia nunca as manhãs.» Sentou se à beira da cama.» Gostava daquelas visitas misteriosas. pensou. uma repulsa de meio dia.gesto. Entraram na exposição sem trocar uma palavra. Ivich abriu a porta e desceu. Um calor enorme enchia o quarto.» Não era o que eu queria dela. o gesto desajeitado e terno. e já velho. com um ar alegre e bem disposto. Era apenas o amor. sem esperança. «tenho horror a que me toquem». «Não pude. Mathieu não a seguiu imediatamente. que caía largado sobre as coisas. e a noite da véspera continuava ainda ali. Desceu finalmente. «Se ele soubesse. O táxi parou. soergueu se. mas agora pensava nelas sem prazer. Havia uma repulsa no ar. um calor que viera de fora. «alguma coisa deve ter acabado entre nós.

Era a vida. quando tivera diarreia. depois fico cansada.» Levantou se bruscamente A e correu para o lavatório. De manhã vomitou duas vezes. passou a mão pêlos cabelos e esperou. parecia lhe que mastigava um pedaço de manteiga amarela e rançosa. não?». Sorriu. não queria que Mathieu lhe tocasse. e teve de tossir para se livrar dela. Sentia se irritada porque imaginava uma robusta piedade passeando ao sol. mas aguento. enojava se facilmente consigo mesma. e logo uma repugnância por tudo. Olhou a baba que escorria devagar pelo buraco do lavatório.inútil! Lá fora era o dia dos vestidos claros. espumante. Já não pensava em nada. e o mínimo gesto fá lo ia ruir como uma avalancha. gotas de frio. pensou. Marcelle apoiou se no lavatótio e olhou para o líquido espumoso. Uma aguadilha saía lhe da boca. um gosto de mata borrão na boca. uma piedade activa e desajeitada de homem saudável. «Não é isto que é repugnante. Teve um sorriso amargo. anda a tratar de tudo».» Quando se acorda de manhã com má disposição e se sabe que se têm pela frente quinze horas para matar antes de se tornar a deitar. sem ternura. Tinha vontade de vomitar. nas pontas dos pêlos negros. e murmurou: «Recordação de amor. quando dizia: «Faz se um aborto. «A sua liberdade. mas dominava se. e um clarão de ódio atravessou a. E de repente recordou o rosto de Mathieu. depois sentiu uma espécie de riso no fundo da garganta e inclinou se sobre o lavatório. uma coisa talvez como o desabrochar da Primavera. e sentiu nojo. «E tenho sorte. E a minha mãe conheceu mulheres que não podiam suportar o cheiro a fumo. deixando traços viscosos e brilhante como lesmas. não faltaria mais nada. ainda ensonada: um capacete de aço na cabeça.» Depois fez se um grande silêncio no seu cérebro.» Deixou . num equilíbrio instável. eu só vomito de manhã. Disse a meia voz: «Tem graça!» Não sentia repugnância. não era mais repugnante do que a goma ruiva e odorífera dos rebentos das árvores. O dia ainda não tinha começado e já estava contra Marcelle. a partir do segundo mês. e o dia começou. franzia lhe os lábios. que adianta ser livre? «Não ajuda a viver. Acontecia. Mathieu caminhava lá fora na poeira viva e alegre desse dia que se iniciara sem ela e já tinha um passado. parecia se mais com esperma. era como se sentisse um odor permanente. Pensou primeiro na manteiga. como uma clara de ovo ligeiramente batida. a liberdade.» Plumas delicadas e embebidas em aloés acariciavam lhe a garganta. Sentia se mole e vencida. No entanto. dizem que há pessoas que vomitam durante o dia todo. maldosa. No último Inverno. como uma bola sobre a língua. Não sentia repugnância. Vomitou uma água suja. uma sensação morna nas ancas e nas axilas. «Ele pensa em mim. a sua expressão ingénua e convencida.

pousou docemente a mão na barriga.» Mas essas estão orgulhosas. J E A N P AUL SARTRE O espelho devolvia lhe uma imagem cercada de luzes violáceas. Voltaria para o seu quarto cor de rosa. Daniel viria também de vez em quando. Bastava imaginar que era um fibroma. não passa de um fibroma. toda a gente tem disso na vida. deixar me iam sossegada. diante dos seios das mulheres que amamentavam: além do medo e do descontentamento. «Sempre é verdade que me podem amar!» E contemplava a carne lisa e sedosa. Tornou a sentar se na cama. Não podia . «Aborta se?» Desde a véspera que se sentia perseguida. neste momento. Hoje já não era a mesma carne. e quando a amasse redobraria de precauções. e o seu corpo era apenas uma superfície feita para reflectir os jogos estéreis de luz e tremer sob as carícias como a água a ondular ao vento. urna bolinha de sangue estúpida. levantaria as pernas e a velha far lhe ia uma raspa gem com um instrumento. seria apenas uma recordação desagradável. com uma delicadeza terna. E não se falaria mais nisso. Aliás. tirou a camisa com gestos lentos. neste momento. Pensou: «Tenho de me arranjar. Nesta barriga. Olhava para a barriga e descobria. quase um tecido. Aquele corpo que desabrochava absurdamente era feito para a maternidade. como de costume. E Daniel. Disse: «Não quero odiá lo. que olham para a barriga e que também pensam: «É aqui. em pequena. como uma jovem mãe.. quatro noites por semana e tratá la ia. Iria a casa da velha.correr um pouco de água para lavar a bacia. Não queria odiar Mathieu. Há outras.» Não se sentia com coragem.. Surpreendeu os seus olhos no espelho e voltou se bruscamente. com uma ingénua precipitação. ela aproximara se do espelho com o mesmo espanto hesitante. a sofrer dos intestinos e Mathieu viria. afundar se nela como no seio de uma grande fadiga feliz. Não gostava do seu corpo. uma espécie de esperança.» Mas o ódio não se esvaiu. sempre dissemos que em caso de acidente. que nem sequer é ainda um animal e que vão raspar com a ponta de um bisturi. Não era um animal. apertou devagar e pensou com certa ternura. Está no seu direito. Aproximou se. Há sete anos — Mathieu tinha passado a noite com ela pela primeira vez —. perante a abundância pacífica das banhas..» Uma bolinha de sangue esforça se por viver. uma impressão semelhante à que sentia no Luxemburgo.. Não olhou para os ombros nem para os seios. Iria a casa da velha. Mirou o ventre. continuaria a ler. a sua ampla bacia fecundada. «E aqui.» Podia entregar se àquela languidez viva. o arcanjo. Pensou: «Se fosse um animal. Encolhem os ombros. durante algum tempo ainda. um pouco acima dos pêlos negros. Pensou: «É aqui. Mas os homens tinham resolvido o contrário.

pensou.. «Ele estava inquieto quando saiu. dir mo á. a culpa é minha. com um ar de cumplicidade imunda. Estava apavorada. mas a cumplicidade criava entre J E A N P AUL SARTRE ambos um laço ténue e encantador. que não gosto de mim o suficiente para isso. vai andar ocupa díssimo. principalmente. devia saber que não posso falar de mim. E isso é melhor para ele do que arrastar se por aí com aquela fulana. Ah!. Pensou: «É aqui. «Pois é. Mas no fundo tem a consciência tranquila. de expor os seus pequenos casos de consciência.» Julgou por momentos que se ia acalmar. Não faziam nada de mal. Estou com uma doença venérea. Quanto a Marcelle.saber. mas isso era cómodo. agora que não tem aulas.. «Como lhe poderia ter dito? Nunca me perguntou nada.. Mas tem de andar depressa. era quase uma brincadeira. tinham um segredo em comum. Por outro lado. Não se atormentava.. tinham combinado de uma vez para sempre que diriam tudo um ao outro. se ele tivesse hesitado um segundo. que me restará? Teria.» Durante todo o dia da véspera tinha sentido um nó na garganta. «Se me puser a odiá lo. não conseguia. isso sim. quando a olhava carinhosamente.» Mas não pôde deixar de passar docemente a mão pela barriga.» Mas ela não podia falar.» Crispou as mãos no lençol. «Porque é que só Daniel me sabe fazer falar? Se me tivesse ajudado um bocadinho. Deve ter prometido a si próprio encher me de amor. Dentro em breve ultrapassarei a idade do amor. e Mathieu ignorava aquela intimidade. infe . uma gravidez é tão sórdida como uma blenorragia. Daniel era tão misterioso. Teria ao menos sobrevivido? «Estou podre. E a velha passar lhe ia as mãos pêlos cabelos. Por preguiça. vai andar à procura de direcções. ao menos. «No entanto. a certeza de desejar um filho?» Via de longe. Às escondidas. no espelho. Está aborrecido como alguém que partiu um vaso.. pensava: «Se ela tiver algo.» Riu. «Quando não se é casada. as suas delicadezas morais.. tinha confiança nela.» É aqui que vive uma coisa. algo que lhe pertencesse de facto e que não fosse obrigada a repartir.» Iria a casa dessa velha. e chamar lhe ia: «Minha gatinha». Gostaria de lhe ter dito: «E se o conservássemos?» Ah!. Marcelle não achava desagradável ter um pouco da sua vida pessoal.» Só Daniel sabia fazê la interessar se por si própria. é o que tenho de dizer a mim própria. à noite. nunca lhe disse nada. uma massa sombria e curvada: era um corpo de sultana estéril. Ele via a às escondidas. ter lho ia dito! Mas ele dissera com o seu ar ingénuo: «Aborta se?» E ela não conseguira falar. Mas logo a seguir sobressaltou se. o que mais receava era ter de o desprezar. como em Andrée. Ele gostava de falar de si. Não quer que essa velha me faça mal.» Evidentemente. para ele. Tinha uma maneira especial de a interrogar. «Ele que fizesse como Daniel».

duas taitianas de joelhos na areia. Não os quadros. e Mathieu deitou lhe um olhar furtivo. Viu apenas os cabelos sem cor pelo falso brilho da luz. «Os quadros não atraem». um Cristo na cruz. Mathieu sentiu se acabrunhado por uma quantidade de responsabili dades cívicas. Tinha de falar baixo. tapeçarias de veludo bege. «apresentam se.. Depende de mim que existam ou não. Demasiado livre. tudo o que aquela luz clássica podia clarear. Ivich não dizia nada. sem falar. o bom senso. o que dava logo o tom. Mathieu pensou: «O espírito francês. — Isto é Gauguin — disse. mas em vão. VI v ia se por cima da porta o emblema da República e as bandeiras tricolores. com um queixo enorme. Era uma pequena tela quadrada com uma etiqueta. seria meu!» Mas aquele desejo secreto. um grupo de cavaleiros maoris l. ao olhar aquele retrato pela primeira vez. não tocar nos objectos expostos. Mas Mathieu já não tinha vontade de os contemplar. as cores pastosas sobre as telas. Apesar disso arrastou Ivich e mostrou lhe. Mesmo que fosse idiota. Agora. as paredes. Paredes claras. era preciso escondê los de tanta gente. A seguir entrava se nos grandes salões desertos e mergulhava se numa luz académica que saía de um vitral. Sou livre perante eles. as telas nas molduras. e o silêncio oficial dos salões. uma expressão de inteligência fácil. de nunca se esquecer da mais francesa das virtudes. Era aquele sol expurgado. sentia se seco..DADE DA RAZÃO liz como ela própria. Havia muitas manchas nas paredes: os quadros. pensava irritado. Os quadros . Na semana anterior.» Isso criara lhe uma responsabilidade suplementar e sentia se culpado. um ramo de flores. nos cabelos de Ivich. tão inconfessáveis. que se sentiu repentinamente culpada e teve horror de si própria. e Mathieu perguntava a si próprio o que pensava ela de tudo aquilo. Tentava interessar se pêlos quadros. Mathieu estava sobressaltado com a realidade. fazer uso do espírito crítico com moderação e firmeza. transido pelo espírito da Terceira República. aquela obscura afirmação eram tão solitários. Ivich não respondeu. auto retrato: Gauguin muito pálido e penteado. disforme. Nem sequer via o quadro. mas mãos de Mathieu. Mathieu tinha o achado belo. J E A N P AUL SARTRE uma paisagem bretã com um calvário. com a verdade.» Um banho de espírito francês. Era uma luz dourada que dava nos olhos e se fundia em tons de cinzento. e uma arrogância triste de criança. Uma vida absurda e supérflua como a dela. Pensou de repente com paixão: «Seria meu. por toda a parte. Via tudo o que era real.

Ivich teve de se pôr de lado porque impediam que fosse vista. A solidão e o orgulho tinham lhe devorado o rosto. pensou Mathieu com alegria. tinha ao seu lado um corpinho rancoroso. fazia se passar por Cristo! E aquele anjo ali. isto não é a sério. Mathieu ouviu um soluçar estranho e voltou se. A mulher era do tipo gazela e devia ter uns quarenta anos. tche. O homem inclinou se para trás e olhou a tela com uma severidade depreciativa.) Mal entraram. Ivich deixou se cair na poltrona às gargalhadas. esse anjo é literário como tudo! J E A N P AUL SARTRE — Não gosto de Gauguin quando pensa — disse o homem. e Mathieu sentia vergonha de si próprio. O homem e a mulher aproximaram se. seco e elegante no seu fato distinto de flanela cinzenta diante do enorme corpo nu. Era de mais. Contemplava Gauguin com os seus olhos redondinhos. havia urna relação visível entre o seu aspecto de juventude e a qualidade da luz. Por trás dele havia presenças obscuras. — É verdade — disse com uma voz aflautada —. Era uma competência. Agora. Da primeira vez que vira aquela carne obscena e terrível.tinham se apagado e parecia monstruoso que no fundo de todo aquele bom senso houvesse gente capaz de pintar. mostraram se à vontade. — O verdadeiro Gauguin é o Gauguin que decora. Ivich tivera um ataque de riso e olhava o com desespero mordendo os lábios. fixava neles o olhar duro e falso dos alucinados. Tinha uns olhos redondos e cabelos brancos. Os cabelos caíam lhe para a . O homem era alto e rosado. (N. Agarrou lhe no braço e conduziu a até uma poltrona de couro no meio da sala. nu até à cintura. Gauguin. Perdera a dignidade — aquela dignidade humana que Mathieu ainda conservava sem saber o que fazer dela —. uma grande imundície na parede. Devia ser a força do hábito. atrás dele. Mas estava só. de expor nas telas objectos inexistentes. «Ela já não está zangada». 1 Indígenas da Nova Zelândia. Certamente a luz das exposições nacionais era a que lhes ia melhor. da R. O corpo tinha se tornado num fruto grande e mole dos trópicos. num céu tempestuoso. mas mantinha o orgulho. — Tche. foram colocar se com desembaraço diante da tela. — Não gosto nada disto! Palavra de honra. Condecorada. — Também é dele. demoníacas formas negras. A mulher pôs se a rir. tche — murmurou meneando a cabeça. com profundidade. Mathieu tinha se comovido. Mathieu mostrou a Ivich uma grande e sombria mancha de bolor na parede do fundo. Entrou um homem e uma mulher.

— Isto não devia ser público — disse Ivich de repente. Desejaria ter lho mostrado. — Quer ir se embora? — Preferia. Uma delas tinha um capuz. Deve estar à procura de uma frase cortês de despedida. a rua ardia. E a mulherzinha. Pareciam consultar se sobre a atitude que deviam tomar. Ivich parou de rir. detesto o Verão. Ivich fez uma careta e levou a mão aos olhos.. — Como é que ele dizia? Não gosto de Gauguin quando pensa. pensou com angústia. Mathieu seguiu a deitando uma olhadela de pesar para o grande quadro da parede à esquerda.cara. como havíamos de fazer para lá ir? — Não íamos — disse Ivich secamente. deixa me. — Se não fosse público — tentava retomar o tom de alegre familiaridade que lhe era habitual —. — É como se me picassem os olhos com alfinetes. Oh! — disse furiosa —. Mas eu não quero que ela me deixe». Atravessaram a rua em silêncio. Gostaria de passear ao ar livre. Deram alguns passos. Lá fora. — Quando? . — Há outros quadros na sala — disse Mathieu timidamente. Mathieu pensou: «Continua aborrecida comigo. Era feiticeira.» E de repente foi invadido por uma certeza insuportável. — Não tem nada de especial para fazer? — perguntou. — Ivich — murmurou. sem querer. — É formidável — disse em voz alta. Mathieu teve a impressão de atravessar uma fogueira. Há pessoas. Estão bem um para o outro! O homem e a mulher mantinham se impassíveis. Estes quadros fizeram me outra vez dor de cabeça. «Ela quer acabar com tudo. Levantou se.. — Não — disse melancólica —. Parecia que tinham sido surpreendidas quando se metamorfoseavam em coisas. agora já não é a mesma coisa. Quando a encontrar. Não pensa noutra coisa. — Cuidado com o passeio — disse Mathieu. Ivich titubeava ligeiramente e continuava a tapar os olhos. Não tinham uma expressão completamente viva. Calaram se. Duas mulheres caminhavam descalças num capim cor de rosa. A outra estendia o braço com uma tranquilidade profética. Ivich desviou as mãos e Mathieu viu lhe os olhos pálidos e franzidos. — Refere se às exposições? — Refiro me.

» O que não provava que lhe tivesse perdoado. era belo — disse Ivich com convicção. — Não nada. Mathieu perguntou lhe se gostava das telas de Toulouse Lautrec. coisas belas e sensuais que se deviam possuir. Mathieu estava contente. — Naturalmente.. — Sim. não os apreciava e não os respeitava. — Se quiser. Ivich tinha uma maneira de falar dos mortos ilustres que o chocava um bocado: entre os grandes pintores e os quadros não estabelecia qualquer relação. impedia a de pensar. mas não se atreveu a fazê lo. não me poderei defender. Acabou por perguntar. Abandonava se com uma indolência mal humorada às situações mais desagradáveis e acabava por encontrar nelas uma espécie de descanso. Mathieu encolheu os ombros. Os pintores eram homens como os outros. graciosos. aborrecia se de ir comigo até casa do Daniel na Rua Montmartre? Podíamos separar nos à porta e deixava me pagar lhe o táxi para voltar ao Lar. Perguntava se tinham sido simpáticos. Um dia. e ela respondeu: «Que horror. ainda que os odiasse. Acrescentou com pesar: — Era belo. «Daqui a uma hora ficará livre e há de julgar me sem apelo. . É por causa do retraio que pergunta isso? — Por causa dos olhos. se se impusesse. ele era tão feio!» Mathieu sentiu se pessoalmente magoado. Enquanto estivesse com ele. Mas Mathieu não encontrava nada para dizer. se tinham tido amantes. imediatamente. E havia também aquelas formas negras atrás dele que pareciam conspirar. Se falasse continuamente. Mas não volto para o Lar. A — Gauguin? Não sei. de qualquer coisa. — Aí está uma ideia que não me teria surgido — disse Mathieu com surpresa. vou ter com Boris. — Acha que ele era doido? — perguntou bruscamente Ivich. desajeitadamente: — Apesar de tudo gostou de ver os quadros? Ivich encolheu os ombros. e as palavras não lhe saíram.» Voltou se para ela. Os estudantes da Sorbona. porque o futuro a apavorava. Parecia lhe que existiam desde sempre. pensei.. Não é possível deixá la partir assim. J E A N P A U L SARTRE — Visto que quer passear. «Ela fica. tenho de lhe explicar. Os quadros eram coisas. Ivich não gostava de deixar os lugares e as pessoas. Apesar de tudo. Mathieu teve vontade de limpar a testa. Era preciso falar. mas viu lhe um olhar desvairado. podia atrasar um pouco a eclosão dos pensamentos coléricos e desprezíveis que lhe iam nascer.— Agora.

um burguês de nacionalidade francesa que não gostava da nobreza. — Foi — disse Mathieu com solicitude. Ivich falava de bom grado do temperamento francês quando se encolerizava.insignificantes e frescos como raparigas. tinha filhos. alto e belo. — Censura me porque não o acho simpático? — Não. Acrescentou. não é . Mas não Gauguin. de olhar mortiço. — Sim — disse Mathieu no mesmo tom —. Ivich podia os devorar com os olhos à vontade. bem sabe que aprecio as pessoas que são orgulhosas. casava com um oficial da guarda. passeava com Mathieu. Era apresentada na Corte. mas pergunto a mim própria porque é que disse isso. — Disse por dizer. Depois Ivich disse abruptamente com um ar estúpido e fechado: — Os Franceses não gostam do que é nobre. Serguine A era agora proprietário de uma serração mecânica em Laon. Ivich estava em Paris. O Sr. compreendo isso muito bem. no colégio das raparigas nobres. — Porque é que disse naturalmente? — Porque tinha a certeza de que ia chamar a isso arrogância. carinhosamente: — Eu não queria dizer mal dele. — Naturalmente — disse Ivich a rir. Adquirira uma expressão de obstinação insípida. — Quer que lhe conte a história? — Parece me que a conheço: era casado. O pai de Ivich era nobre. Ivich teria sido educada em Moscovo. De fora. se é isso que quer dizer. Ivich? — disse Mathieu com vivacidade.» As mulheres também as podia achar belas. E até Mathieu a tinha achado encantadora uma vez em que ela olhara demoradamente um pupilo do orfanato acompanhado de duas religiosas e dissera com uma espécie de gravidade irrequieta: «Tenho a impressão de que me estou a tornar pederasta. Não aquele homem maduro que fizera quadros de que ela gostava. de testa curta. Ivich desatou a puxar um caracol dos seus cabelos. e sempre com aquela expressão estúpida. — Foi esse Gauguin que fugiu? — perguntou de repente Ivich. isso deve parecer tão exagerado! Mathieu não respondeu. uma certa arrogância. — Eu não o acho simpático. — Tem um ar nobre — disse num tom neutro. conciliadora: — Aliás. O seu ar de orgulho dá lhe um olhar de peixe morto. Houve um longo silêncio. Mathieu disse. Ivich fez uma cara de desprezo e calou se. Porque é a minha impressão. Sem a revolução de 1917. — Que foi.

mas não com a expressão que Mathieu esperava. corando. Era o que chamamos um «pintor de domingo». Por higiene. Tinha um ar mau e amedrontado. da mesma maneira que se pesca à linha. Tive muitas vezes vontade disso. — Bem viu que isso leva às maiores loucuras. olhou o de frente. — Pintor de domingo? — Sim.» — Enfim — concluiu —. antigamente. para realizarem o seu ideal na vida. Aliás. Mathieu olhou a em silêncio. — Então no que é que pensava? — Estava a pensar se também se podia falar em escritores de domingo? Escritores de domingo! Pequenos burgueses que escreviam anualmente uma novela. Um amador que esborrata telas ao domingo. Ivich pôs se a rir. — Acha engraçado que ele tenha começado como um pintor de domingo? — perguntou Mathieu com inquietação. assustava se com a sua própria ousadia. de qualquer maneira. e ela continuou: — Talvez me engane. — Não era nele que eu pensava.. Talvez por ser francês. mas para Nova Iorque. acho estranho vê la decidir sobre a minha possibilidade de partir. — Porque não? Talvez não para o Taiti. — Acha que preciso de cabinas de luxo? — perguntou ele. Não o fiz porque era absurdo. respirando o ar puro. «morreria. Quem sabe lá se um belo dia não partirei para o Taiti? Ivich voltou se para ele. que foi precisamente um funcionário até aos quarenta anos. — Isso surpreender me ia muito — disse com voz glacial. «Gostaria de a ver num convés de um navio com os emigrantes».isso? — É! Trabalhava num banco e ao domingo ia para o campo com o cavalete e uma caixa de tintas.. pensou. Gostaria de ir para a América! Ivich puxava os caracóis com violência. ou cinco ou seis poemas. . mas não no convés de um navio de emigrantes. Esta história é ainda mais cómica porque veio a propósito de Gauguin. — Não — respondeu secamente Ivich —.. em missão. está enganada. J E A N P AUL SARTRE — Refere se a mim? — indagou a rir. — Sim — disse —. de segunda classe. compreende porque se pintam paisagens no campo. com outros professores.. Ele sentiu dificuldade em engolir a saliva. Era saudável. Mathieu estremeceu. A princípio era isso. Estou a vê lo a fazer conferências para estudantes americanos numa universidade.

. — Estou a ver — disse. — Nada. — Para quê? — Para ver que não deve haver muitos funcionários daquela espécie. não! — disse Ivich. Ele parecia. — Ah.. de má vontade. Mathieu lembrou se do rosto pesado e do queixo enorme. e Mathieu sentiu pela segunda vez ciúme. J E A N P A U L SARTRE — O quê? — Nessa história de homem «perdido». — Aliás. De repente disse: — Tanto se me dá que seja assim ou assado. Gauguin tinha perdido a dignidade humana. De vez em quando abria a boca. — Ivich! Vai dizer me o que é que está a magicar. perdido. não vejo porque é que isso havia de ser uma qualidade — disse ele —. Ivich parou também. Tinha ar de querer dizer qualquer coisa. Estende as mãos para as coisas quando julga que estão ao seu alcance. era isso — disse Mathieu. — Na grande tela do fundo? Estava muito doente naquela altura. mas não dá um passo para as apanhar. Apoiava se ora num pé ora noutro e evitava o olhar de Mathieu. nada. não sou um homem perdido. visto que o disse. — É...Ivich desatou a rir ironicamente. Mathieu parou e olhou a. E sempre assim.. — Estou a falar do quadro em que ele é ainda jovem: parece capaz de tudo. Ivich recomeçou a puxar os cabelos. Calou se. mas quero saber o que pensa exactamente sobre isso. e Mathieu imaginava que ela ia falar. Enrolava um caracol no dedo e puxava o como se o quisesse arrancar. Olhou indefinidamente.. tinha aceitado perdê la.. Era exasperante. depois. Faz censuras veladas e. ou então não estou a perceber o que quer dizer. com uma expressão ligeiramente desvairada. Foi uma palavra que me veio à cabeça. — Não censuro ninguém — disse ela com indiferença. olhando para a ponta da sapatos: — Você já está instalado e não mudaria por nada deste mundo.. É demasiado cómodo. Mas não saía nada. Em todo o caso basta olhá lo na tela para. Ivich sorriu com desprezo. — Ainda estamos a falar disso? — É estúpido.. — Claro. — Não é verdade? — indagou Mathieu. — Evidentemente! Se é isso que quer dizer. não se fala mais nisso. Acrescentou rapidamente. . recusa se a dar explicações.. — Ah!. — Bem. a impressão de que você já tem a vida organizada e com ideias sobre tudo. — Quem é que lhe disse isso? — É uma impressão.

— Devia ter dito — continuou desolado. — Nunca a teria forçado. deve estar a pensar nalguma coisa de especial. Não gostava de ir a concertos e exposições? — Gostava... — Acho muito melhor assim. — Ivich! — disse Mathieu.. Poderia tê los. os olhos brilhavam lhe. tudo o que faz é. — Julgo — disse Ivich com lassidão. Ivich? — A propósito de tudo — disse ela com ar vago.. Acrescentou com uma expressão falsa: — Mas como me diz o contrário. — Se quer dizer que não tenho caprichos. — Julgo que não se quer arriscar. como imagina. que é demasiado inteligente para isso.. — Ah!.. Acrescentou. — Era para si! — Eu sei — respondeu Ivich com delicadeza —.— Quem é que lhe disse isso? — repetiu Mathieu. — Eu sei. Levara a aos concertos. Mas tenho horror — disse com uma violência repentina — que me imponham obrigações para com as coisas de que gosto. — Não — disse em voz baixa —. — Não compreendo. com indulgência... Mathieu estava mais surpreendido do que chocado. estou Ihe muito grata. — Não.... Levantou a cabeça e alisou os cabelos para trás. A — Ah! — disse Ivich triunfante. tão metódico.. Não conseguia dizer outra coisa. como qualquer outro. Ela murmurou. Olhava os lábios finos e moles de Ivich e perguntava a si próprio como os tinha podido beijar. Ivich. a vida devia ser impossível. sem o olhar: — Todas as semanas chegava com a Semaine à Paris. não gostava disso — repetiu Mathieu. às exposições. não há que recear imprevistos.. Pensava que ela tinha razão. indignado. Mathieu pensou de repente em Marcelle e teve vergonha.. Mathieu sentiu se empalidecer. Mathieu estava aterrado.. mas não acho bem.. — A que propósito diz isso.. sou assim mesmo. estabelecia um programa. explicara lhe os . Com Gauguin. sem que se percebesse a mais pequena ironia na sua voz: — Consigo sentimo nos em segurança. — Como diz isso sem convicção! — Gostava realmente muito. — Acha isso desprezível? — Pelo contrário — respondeu Ivich. — Com efeito — atalhou Mathieu secamente. descobrindo o rosto largo e pálido..

baralham se me na cabeça. O táxi afastou se. «Sou repugnante». Estavam inundados de luz e odiavam se. Mas vinha lhe outra do fundo da garganta.) — Acho que é melhor.. trancou se. Pensava em Gauguin. Você ia a essas exposições como se fosse à missa. Desculpe. Calaram se. Foram os quadros. mal me podia conter de raiva e vontade de os levar. se não os posso ter. Sabia que a sua causa estava perdida. Imaginava que ia parar a cada palavra. vn N u até à cintura. — Esta manhã? Nunca mais pensei nisso.. e pôs se a pensar em Marcelle. e Mathieu detestou a francamente. Mathieu sentiu de repente um nó na garganta. — Que me importam os quadros — disse Ivich sem o ouvir —. Acrescentou: — Vou tentar mudar. Agora. Se soubesse como lamento. Ivich não respondeu. e Mathieu continuou com esforço: — Há também os museus. E sempre a mesma coisa. silenciosos. Está cansada? — Muito. Daniel barbeava se diante do espelho do . (Bateu o pé e olhou Mathieu com desespero. Falava por descargo de consciência. tranquilo e reverente. nem sei como aconteceu. Depois uma porta bateu dentro dele. Falava com repugnância. Mas ao mesmo tempo. Todas as vezes. Caminharam lado a lado. Ivich conservava a sua expressão dura. Aliás.) Já os confunde. — Ivich! Peco lhe desculpa do que se passou esta manhã. os concertos. — Ainda é longe? — Um quarto de hora. Mathieu via se com os olhos de Ivich e sentia horror por si próprio. tinha pressa de ficar sozinho. pensou. Uma cólera desesperada ardia lhe no rosto. com o olhar.. Mathieu pensou: «E o Sumatra? Deverei lá ir apesar de tudo?» Mas não tinha vontade de a tornar a ver. — Até logo — disse ela. — Até logo — disse Ivich sem o olhar. Ela levou a mão à testa e apertou as fontes com os dedos. Pensamos agradar às pessoas. e durante alguns instantes Mathieu acompanhou o.quadros. erguia lhe a língua e saía. — Quer ir se embora? (Mathieu estava quase aliviado. — Não voltará a acontecer. e nem sequer lhes podia tocar. — Não se pode mudar — disse. Ivich sacudiu a cabeça. aos arranques. Mathieu chamou um táxi. E sentia o a meu lado. angustiado. e durante todo aquele tempo ela odiava o. Adoptara um tom de bom senso.. Mas você nunca dizia nada.

Só assim a conseguirei apanhar. fixo e redondo. Daniel saltou com a navalha na mão. mas o meio dia já estava no quarto. eram os ruídos da rua. Agora era assim. Ficaria um pequeno tufo de pêlos pretos. com o coração aos saltos. tudo estará acabado. Com um pontapé atirou os cravos escada abaixo. Bastava ver aqueles olhos de peixe frito quando lhe dizia bom dia. Para além disso. como um olho. de faces azuladas.» Não era um simples projecto. tinha a certeza. Todas as manhãs. Ficará chocada quando vir que tenho pêlos no peito. Era a filha da porteira. paciência. Aquilo já durava há quinze dias. «Hoje de manhã. Não se podia tentar afastá la.armário. Dizia para si mesmo: «Desta vez não me escapa. colocava flores diante da porta de Daniel. quase imperceptível. no ruído leve da navalha. de maneira a não se cortar. nem mesmo aproximá la para que acabasse mais depressa.» Marcelle alcunhara o de querido arcanjo» e agora tinha de suportar os olhares daquela femeazinha. e lançar lhe ia um olhar severo. a criança tinha o pressentido e fugira. à luz da lâmpada eléctrica. «Um rosto escalavrado não deixa de ser um rosto. Ao mesmo tempo escutava. A porta do quarto de dormir estava entreaberta para ouvir melhor. nada a não ser uma tarde vaga que se retorcia como um verme. Abriu bruscamente a porta da entrada. Tinha também aquelas olheiras roxas e pensou: «Estou a dar cabo de mim. Era preciso vivê la. Da cara e dos ombros.» Olhou a espinha vermelha e febril. porque tem imaginação. disse em voz alta.» Tomava cuidado ao passar com a navalha à volta da espi J E A N P AUL SARTRE nhã. cada vez que bebia.» Foi como um leve roçar. Via no espelho o rosto moreno e nobre. Daniel descobriu no capacho a seus pés um ramo de cravos: «Fêmea imunda». Doíam Ihe os olhos porque havia dormido muito mal e tinha uma espinha sob o lábio. Tarde de mais.» Tornou para o quarto e voltou a barbear se. nu da cintura para cima. irritado. Devia ter se escondido na reentrância de um dos patamares e aguardava. sustendo a respiração. ainda me aborreceria mais depressa. em plena puberdade.» Aproximou se do espelho e . pensou Daniel. sempre significa alguma coisa. «Imundas». Inclinou se ligeiramente e com um golpe hábil de navalha decapitou a espinha. ao voltar da escola. Pensou com uma espécie de mal estar: «E isso que a excita. simplesmente. Um rosto de arcanjo. Tinham acabado de dar as dez horas. Não seria má ideia desfigurar este rosto de que elas tanto gostavam. uma manchazinha vermelha com um ponto branco. Daniel apurou o ouvido: «Não. A coisa já lá estava.» Apareceria. Daniel tinha medo dos arranhões. ao meio dia. «Tenho de ficar à espreita no vestíbulo uma manhã inteira. Pensou: «Ela gosta da minha cara.

ah!» Ela enrolava se de um lado para o outro com movimentos graciosos de cabeça.» Parecia cansado. O gato. com uma grande cicatriz no flanco direito. pensou ele. Viu o grande cesto de vime. Disse: «Aliás. A seguir.» Pegou Ihe pelas patas e pô la ao lado de «Cipião». aberto no meio do compartimento. Enfiou uma camisa de seda creme e umas calças de flanela cinzenta. tinham nos encurralado numa rua. Entreabriu a porta da cozinha e assobiou. Daniel deixou se flutuar no calor estagnante. «Popeia» — chamou Daniel. Daniel teve de ir buscá la à cozinha. Comeram se uns aos outros. com ternura. «Popeia» nunca vinha quando a chamavam. Era uma gata de telhado. uma manhã pesada. e . «Malvina» veio a seguir. com uma barbinha. um armário. escolheu com atenção a gravata: a verde às listas porque estava abatido. predestinada. Daniel roçou lhe o dedo pelo pescoço rechonchudo. Pareceu espantada. pouco antes do encerramento do jardim. disse com uma voz cantante de comediante. gosto de ser belo. Quatro paredes nuas. Não eram cães que deviam lá ter posto. uma cama. e desviou os olhos. Coçava a cabeça contra o batente da porta. assanhando se. numa noite de Inverno. à noite. O vento do mar alto trazia por vezes os uivos deles aos ouvidos dos marinheiros. espreguiçando se. «Espera um pouco». duas poltronas. Durante um segundo. Daniel ajoelhou se e. Daniel não gostava dos cães. depois olhou em volta.contemplou se sem prazer. e a manhã entrou no quarto. pôs se a acariciar lhe o focinho. Gostava do seu quarto porque era impessoal e não o atraía. Era branco e ruivo. «espera um pouco. Logo que percebeu que ele a estava a ver. «Cipião» ficou lá sem se mexer. pôs se a ronronar e a fazer gracinhas. abafada. uma cadeira. Beliscou as ancas. eufórico. Olhou duramente Daniel e bocejou com ferocidade. Depois abriu a janela. sozinho no Johnny's. Não se decidira a voltar para casa antes das três horas porque era terrível pôr a cabeça no travesseiro e deixar se afundar nas trevas imaginando que ia haver um amanhã. Sete uísques na véspera. estendeu as patas e ele fez lhe cócegas nas tetas escondidas sob o pêlo negro. Quando ela o viu. mas encolheu se e depois resolveu ronronar. beatificado. até ao meio dia. — «Popeia». Tinha de perder um quilo. pulou para o fogão a gás. uma mesa. Daniel tinha a encontrado no Luxemburgo. Daniel pensou nos cães de Constantinopla. «ah. O relógio de Daniel marcava dez horas e vinte e cinco. Daniel não tinha recordações. Era hoje. «Ah». J E A N P A U L SARTRE dava lhe pequeninas patadas na manga. fechado em sacos e abandonado numa ilha deserta. de olhos semicerrados. Dir se ia um quarto de hotel. virou se de costas então. «Cipião» apareceu primeiro. Daniel gostava menos dela porque era comediante e servil. Daniel pegou lhe pelo pescoço e meteu o no cesto.

simplesmente gatos. Hesitou. como de costume: «É raro um gato olhar nos de frente. Pegou no cesto pela asa e pensou: «Como são pesados estes infelizes animais. vou ter calor. Tinha a impressão de que estava a pregar uma boa partida a alguém. Cómico e um bocado ridículo. «Bom. Agarrou no novelo de fio e guardou o no bolso das calças. mas não tinha o hábito de ceder facilmente aos próprios desejos e. «É longe. uma insipidez de carne crua. baixando as orelhas e curvando se toda.» Imaginava a sua posição humilhante e grotesca. pequenos mamíferos vaidosos e estúpidos e que morriam de medo — nada de extraordinário. e sorriu lhe sem a olhar. Era voluntariosa e má. Teve de a empurrar pelo rabo. mas passou lhe logo.» Queria vestir o casaco de flanela. Daniel gostava dela. «Ah!. seria cómico andar ao sol. «Gatos. Gostava de Daniel. e ela voltou se raivosa e deu lhe uma unhada. Dir se ia um canto de cigarras.» Nas costas da mão havia três arranhões e no seu íntimo havia também uma comichão estranha que ameaçava envenená lo. bom. ronronando. Não ronronava («Popeia» nunca ronronava). como se fossem cócegas. o vime gemeu sob as garras de «Popeia». JEAN PAUL SARTRE apenas gatos. «Presos. bom. o seu terror raivoso. Parecia escandalizada.» Riu se. «Uf!» A mão ardia lhe um pouco. uma dorzinha seca. mordia muitas vezes «Malvina». Mas para fazer «Popeia» entrar no cesto foi um castigo.trouxera a.» Mas sentiu que uma intolerável A IDADE DA RAZÃO angústia o invadia e teve de desviar o olhar. mas olhou o bem de frente. minha rainha». depois. Os outros dois tinham ficado um ao lado do outro. «Era isto que eu gostava tanto de fazer!» Bastara lhe fechar os três ídolos dentro de um cesto de vime e tinham voltado a ser gatos apenas. A gata teve um momento de estupor e Daniel aproveitou o para baixar a tampa e fechá la. Tomou a nos braços e ela esticava a cabeça para trás. porque ele era muito cerimonioso e bem educado! . insípido. estúpidos. Passou lhe o dedo no focinho e ela mordeu o com raiva e divertida ao mesmo tempo. Sorriu e escolheu o casaco de tweed arroxeado que já não podia suportar desde Maio.» Pensava nas tetas rosadas de «Malvina». e Daniel pensou. Levantou se e olhou para o cesto com uma satisfação irónica. teve uma espécie de enjoo. Na escada já se sentia indiferente e seco. A porteira estava à porta da rua e sorriu lhe. Daniel contemplou os com um alívio maldoso: «Um bom guisado. corado e a suar com aquele fardo nos braços. Quando atravessou a porta de entrada. é assim?» Agarrou a pela nuca e pêlos rins e enfiou a à força. Então beliscou lhe o pescoço e ela ergueu uma cabecinha obstinada.

Sereno. com uma garra de ferro a apertar lhe o crânio. pensei. Devia tratá los mal na minha ausência: bem a proibi de lhes tocar. Acrescentou.» A água do Sena era particularmente escura e suja naquele lugar. Senhora Dupuy — disse Daniel. aquela horrível luz quente e aguda. nadava na luz.» O 72 levá lo ia a Charenton. «Velha toupeira. Eram três horas mais ou menos. «não faltava mais nada. «aí está o Sr. «É estranho que se possa odiar a si mesmo como se fora outra pessoa!» Mas não era verdade. trate bem deles. fechado e no fundo havia uma pobre vítima que pedia clemência. não? — Mais ou menos. — Veja lá — disse a porteira a rir —. tinha a impressão de se destacar de si mesmo. Mas o seu apartamento vai ficar vazio. que isso não lhe parecia natural. nada de táxi. — Estão doentes? Coitadinhos! — Não. era muito alto. por mais que fizesse. Hyde. faria melhor se vigiasse a filha. gravemente: — Sabe que os gatos podem ficar tuberculosos? — Tuberculosos? — disse a porteira. Eu já me tinha habituado a vê los. minha senhora — respondeu Daniel respeitosamente. Sr. não há nada como uma manhã de bruma. Sorriu gravemente e deixou a. Era rígido. disse. com uma espécie de prazer. Sereno» (era o único inquilino que faltava entrar).» Atravessou o portão. assustada. «Ah!». — Ah!. com a sombra da prisão de vime que lhe balançava no braço. Pensou: «O homem é assim». Daniel sorriu. Quando se bebe na véspera. — Que cesto tão grande! — São os meus gatos. e a luz ofuscou o. Serei Mr. O veterinário acha que precisam de ar. Empertigou se. Quando se desprezava. estava tão exausta que adormeci sem apagar a luz. — Receava que estivesse doente. Hyde até à paragem do 72. De repente viu a própria sombra grotesca e disforme. vou levá los para a casa da minha irmã em Meudon. Não. Sentia se interiormente tão bom. Jekyll e Mr. — Voltei tarde ontem à noite e vi luz por baixo da sua porta. quando ia lá acima arrumar. «Dr. A um quilómetro dali. Daniel conhecia um sítio solitário ao pé do Sena. tão tranquilo. de planar como um juiz abstracto acima de um formigar impuro. — Muito. Apaguei a logo a seguir. só havia um Daniel. O senhor deve estar muito aborrecido. tão bonitos. com manchas esverdeadas de óleo por causa das fábricas de Vitry.— Levantou se muito cedo. Daniel contemplou se a si próprio com nojo. traiu se. «Não vou desmaiar assim sem mais nem menos». Fazia Ihe mal aos olhos. tenho tempo. corno tinha previsto. e . dir se ia um chimpanzé. Não via nada. mas a sombra permaneceu atarracada e disforme. De repente ouvi a campainha.

Ao levantá lo. No fim da rua havia um muro azul. Mas não tinha vontade de levantar a tampa. são demasiados familiares.bruscamente aquilo apanhava o e sentia se mergulhar em si próprio. — Vai com certeza querer um uísque bem doseado — afirmou o barman. Mas definem as pessoas num instante. A obscuridade era agradável. «É sinistro ver com clareza».» Tinha de fazer apenas um pequeno desvio e ficaria no Championnet. Bebeu o vodka e ficou um momento a sonhar. «vou beber um copo. e a cegueira recomeçava. E se eu levantasse a tampa?» Mas Daniel já tinha saído.. pôs vinte francos na mesa e pegou no cesto. como guarda chuvas ou máquinas de costura. o gin fizz sabe a limonada purgativa. «Tanto melhor. angustiado. secamente. eu gosto de uísques bem doseados. uma cegueira lúcida e húmida: os olhos ardiam lhe como fogo. «Merda!».. iria até ao fim do mundo — até ao fim de si próprio. Aliás. o bar estava vazio. O cesto mexeu se sozinho no seu braço. Agora só havia na prisão um pavor maciço e indefinido. l DADE DA RAZÃO e Daniel não poderia suportar isso. pensou Daniel. «Há no entanto qualquer coisa que os . não o suportaria. Assim é que imaginava o Inferno: um olhar penetrante que atravessaria tudo.. arranhavam se lá dentro. Nunca mais porei os pés neste buraco. Pensava: «Isto nunca mais acaba. como sempre. O empregado limpava as mesas de madeira avermelhada em forma de tonel. se abrisse. Eu não sou.. Aliás. um gin fizz! O barman serviu o. Aquele terror que sentia tão próximo da mão. «Que estarão fazendo aqui dentro?». «Que fossem passear com aquela mania de catalogar os indivíduos. cheques sem cobertura. a cem passos. «Que é que nunca mais acaba?» Ouviu se um miado e um ruído de garras a raspar. O silêncio repousante. «Ah!. pensou. pensou.» — Um vodka com pimenta num balão — pediu. aquele tem sempre uma boa para contar. depois sentou se num banco do bar. Espalhava se em poeira ácida sobre a língua e acabava num gosto de aço. viu no chão uma manchazinha vermelha. com um fogo de artifício na boca. não sabia se lhe causava prazer ou mal estar. tanto lhe fazia. — São gatos — disse Daniel. nunca se é nada. Quando empurrou a porta. «Que violenta dor de cabeça!» Pousou o cesto. o terror transformar se ia em gatos. O barman assustou se. Desceu do banco. Sangue. Rua Tailledouce. na frente. claras e leves como fumo.» —. Este dá boas gorjetas. sem fazer objecções.» Mas eram pensamentos superficiais. — Não — disse secamente Daniel. e de repente apercebeu se de que via casas. Devia estar magoado. Isto não me faz nada.

Uma mulher sentou se diante dele. . A — Achas que sim? Escuta.. prisões de vime: prisões. uma menina. pôs o cesto no chão. deambularia sem cheiro. Daniel fez sinal e subiu para a primeira classe. e Daniel estremeceu como se tivesse sido surpreendido em flagrante delito de assassínio.» Daniel pensou: «Para eles sou um cheiro.» A água cor de café com leite com reflexos roxos. estava farto. Mais cheques sem cobertura. Pensou novamente em Constantinopla: fechavam as mulheres J E A N P AUL SARTRE infiéis dentro de sacos com gatos hidrófobos e atiravam nos ao Bósforo. — Porque é que os carrega num cesto? — Porque estão doentes — disse Daniel. Ao lado. — Seis bilhetes — disse o cobrador. Chatear se através do mal feito aos outros. nada mais do que um invisível arrancar de si próprio para o futuro. Não queria armar em trágico. perto do lampião e que se olhava e se via chegar. — São. ele próprio. querida — disse Daniel em voz baixa e rapidamente —. sacos de couro. E sabes porquê? . eu vou afogar estes gatos. é porque se leva tudo a sério. A menina falou com uma voz convincente e encantadora. sozinho entre os homens que não têm sentidos suficientemente apurados para essa percepção. docemente.. a doença tornou os maus. Mas a montra de uma tinturaria reflectiu lhe a imagem. deixa o senhor sossegado. a suar. os gatos.» Encolheu os ombros. Daniel já não teria aquele cheiro familiar. — Posso vê los? — Jeannine — disse a mãe —. insossa e lodosa. «A água do Sena vai enlouquecê los. Daniel. — São seus? — indagou a menina. O cesto miou. encheu se de uma água lodosa e insossa. com uma vozinha clara. Foi invadido por um imenso nojo. Tonéis. Paciência. — Não posso mostrá los. sem passado. — Até ao fim da linha. estás a abusar. e a ilusão dissipou se. — Que é? — perguntou a menina. nunca Daniel levava as coisas a sério. vai encher o cesto e eles vão ferir se com as garras. Daniel reparou que estava a alguns passos à frente do seu corpo. A água do Sena. O autocarro surgiu de repente.» Dentro em breve. Quando se arma em trágico.» Parou. — São gatos — disse Daniel. pensou Daniel. Sem cheiro e sem sombra. — Tchiu — disse a mãe —. A menina olhou para o cesto com curiosidade: «Mosquinha imunda». Via se chegar e era apenas um simples olhar. Nunca se pode ser directamente atingido. coxeando ligeiramente por causa do peso que levava. E nunca. pensou: «E um acto gratuito. x — Comigo não serão maus. digna e rígida.sossega: o meu cheiro. «Há piores.

com pêlos negros sobre as falanges. Não é nada. Via desfilarem pêlos vidros as casas cinzentas. — É aqui. Daniel mudava de mão e limpava o suor da testa. e uma expressão animada veio pousar lhe no rosto. querida. — Oh! — disse a menina. — Vem. devia vê la . as mulheres olharam no surpreendidas. ligeiramente gordas. Não é o meu rosto. O autocarro partiu e mais adiante parou. Seria cómodo de mais!» Daniel reviu os olhos dourados de «Popeia» e pensou muito depressa noutras coisas. é aqui — disse. Daniel sobressaltou se. espantada. è preciso que penses. dois dias antes. satisfeito. Pô las sobre os joelhos: «Olhe! olhe!» Mas a mulher desistira. «Ela odeia me». Somente a massa espessa do sono. nenhum movimento. sabia que a mulher o estava a olhar. Daniel olhou a tranquilamente. O balde era pesado. Daniel contemplou a com uma espécie de avidez. — Término — gritou o cobrador. nem curiosidade. Descansava. Vai ser preciso arranjar um olho de vidro para ela. quando descansavam? Aquela deixara se cair com todo o seu peso dentro de si mesma e fundia se.Porque ainda hoje de manhã eles arranharam horrivelmente o rosto de uma linda menina como tu. Como faziam essas pessoas assim. O carro estava vazio. nem mesmo uma ligeira ondulação. Formara se um grupo de operários em volta de uma carrocinha. De ambos os lados havia tonéis e entrepostos. cheia de terror. Talvez as mãos. nem ódio. O cesto desatara a miar ininterruptamente e Daniel quase corria. — Estás a ver! Bem te disse que estivesses sossegada. para o cesto e foi esconder se nas saias da mãe. Cada miado era uma gota. Carregava um balde furado de que a água se escapava gota a gota. com um ar indefinido. Algumas pessoas passaram a rir diante de Daniel. Daniel apressou o passo e voltou numa rua suja que conduzia ao Sena. «Nem a minha roupa. pensou em Marcelle. Era uma praça movimentada e cheia de bares. pensou. ganhara dez mil francos na Bolsa. deitando um olhar indignado sobre Daniel. não queres pensar nos gatos? Pois bem. Antes de descer.» As mãos eram curtas e fortes. que é nova e macia. que me veio trazer flores. Nada havia naquela cabeça que se assemelhasse a uma fuga desesperada diante de si. Levantou se e desceu. que não falasses à toa. «Uma mãe indignada! Está à procura do que poderá odiar em mim. «É preciso não pensar nos gatos. Tinha os olhos fixos em frente. Ah!. o senhor estava a brincar. Olhou momentaneamente. — Estás a ver — disse a senhora. Acordou de repente. como és irritante e demorada! Pegou na mão da filha e arrastou a. a menina voltou se e deitou um olhar de terror para o cesto.» Ninguém detestava o rosto de Daniel.

Os remoinhos propagar se iam por baixo da água até à isca. à esquerda.nessa noite. mas não quis tirá lo. Sentia se perdido numa nuvem vermelha. um pescador recortado a preto na luz. O cesto flutuaria talvez durante uns décimos de segundo e a seguir uma força brutal arrastá lo ia para o fundo. sentia se fraco e teve de se apoiar ao barril. «Ele é normal.. e Daniel. duro e seco. Eles não têm coragem de confessar que não se amam. J E A N P A U L SARTRE «Às onze e trinta. Daniel ficou um momento imóvel com um estranho estremecimento atrás das orelhas. sob um céu de chumbo. Olhou para a água ondulosa e inchada de fluorescências opalinas. amarrou uma das pontas do fio à asa do cesto. Ia aproximar se da água e dizer: «Adeus ao que mais amo no mundo. Daniel estava sentado ao sol e doíam lhe as têmporas. e Daniel recomeçou a andar.». Daniel pensou que estava com calor. lá longe. pensou com ironia. Riu e tirou o lenço para enxugar o suor da testa. disse. Que era apenas .» Era preciso prolongar aquele momento extraordinário. O Sena estava amarelo sob o céu azul. e Daniel sentiu que perdia a cabeça. sentou se no chão junto a uma argola de ferro. Sem se levantar. pegou com a mão esquerda numa pedra. deu com ele a gemer. Não quer perder se.. Operários saíram de um entreposto. era o seu dia. Barcaças negras carregadas de tonéis estavam atracadas ao cais na outra margem. Ouviu se um grande barulho lá dentro e a seguir os gatos deixaram de se ouvir. deu vários nós e tornou a pôr a pedra no chão. Às onze horas e vinte e nove levantou se. Se Mathieu visse as coisas como são. Os ponteiros do seu relógio marcavam onze e vinte e cinco. entre um barril de alcatrão e um monte de paralelepípedos.. Mas não quer.» Ergueu se levemente sobre as mãos e olhou em volta: à direita a margem estava deserta.. Daniel desdobrava se. e com o canivete cortou um pedaço de fio. Vai pensar que é um peixe. Pensou com orgulho em Mathieu: «Eu é que sou livre».. amaldiçoou o pesado casaco. teria de tomar uma resolução.. De repente sentiu que estava sozinho. Desceu por uma escada de pedra até à beira do rio. enrolou o resto na pedra. Mas era um orgulho impessoal. Dentro dele qualquer coisa palpitava que pedia clemência. tem de se fazer aos bocados. Era ali. Manchou o casaco de tweed e ficou a olhar a mancha escura. Que estranha engrenagem! Daniel calculou que teria de pegar no cesto com a mão direita e na pedra com a esquerda. Depois tirou do bolso o novelo. Quando não se tem coragem de se matar de uma só vez. Largaria tudo ao mesmo tempo. pois Daniel já não era ninguém. «Arcanjo!» Daniel riu de troça: desprezava profundamente Marcelle. Os gatos miaram como se tivessem sido escaldados. Colocou o cesto no chão e deu lhe um violento pontapé.

Espantava se por sentir em si um certo entusiasmo. Sr. baixou se e cortou o fio. Dentro dele continuava o deserto. pensou. quero pedir te um pequeno favor. 22 — disse Daniel. «Nem de uma vez só nem aos poucos». subindo a escada. Sou eu. Em silêncio: mesmo dentro dele havia silêncio. Depois a vergonha voltou mais forte e começou a ver se: era intolerável. tinha demasiada vergonha para falar diante de si. Um covarde.» — De volta. O táxi parou. — Já não esperava ver te. Disse me que foste levar os gatos à casa da tua irmã. «E Mathieu». — Entra — disse. Tinha vontade de o ajudar. Disse lhe que o senhor não estava. Encontrou Mathieu no patamar do terceiro. Pegou no cesto e voltou a subir a escada. Pegou no canivete. — Quer ter a bondade de pôr este cesto aí à frente? Deixou se embalar pelo movimento do táxi. Não chegava sequer a desprezar se. «pois então vou deixar lhe um bilhete debaixo da porta. — Táxi — gritou. «Sou eu. sim.» Mas no fundo dele havia um estranho sorriso: porque tinha salvado «Popeia». — Olá! — disse Mathieu. aquele de ombros largos. «Não está». Tocou lhe de leve no ombro e retirou imediatamente a mão. foi o que ele me respondeu. Daniel deu lhe uma olhadela e reparou que estava com uma cara terrosa. — Fui levar os meus gatos a passear — disse Daniel. perto de alguém que o desprezasse. Mathieu entrou no quarto de Daniel e sentou se numa poltrona. mas não pude separar me deles. pensou.» Sentia se contente por odiar outra pessoa. minha senhora — disse Daniel —. — Há justamente alguém que acaba de subir. Quando chegou ao último degrau atreveu se a dizer a si próprio as primeiras palavras: «Que seria aquela gota de sangue?» Mas não ousou abrir o cesto. voltando a cara.» Ela olhou o cesto e exclamou: — Mas o senhor trouxe os de volta! — Que quer. Subiram. — Rua Montmar tre. — Não compreendi nada das histórias da porteira. talvez seja condenável. coxeando.um solitário. constatou sem alegria que estava cheia de dinheiro. Reconciliaste te com a tua irmã? . pensou amargamente. Quando tirou a carteira para pagar. Um tipo que gostava dos seus gatos e que não os queria deitar à água. «Parece estar em dificuldade». Era como se passasse. o silêncio. O imundo. — Sobes comigo? — Sim. Daniel pôs a chave na fechadura e empurrou a porta. «Vem a boa hora o desgraçado. «Ganhar dinheiro. Um amigo seu. Sereno? — disse a porteira. Isto posso eu fazer. Pôs se a caminhar.

Mas. — Que foi? — perguntou Mathieu. Não te estou a aborrecer muito? — acrescentou com um sorriso amável. Mathieu tinha o hábito irritante de tratar Daniel como um mitó mano e pretendia não indagar os motivos que induziam Daniel a mentir. o seu optimismo. A gata debatia se fracamente. Pronto. conservava a sua dignidade. Desculpa. acharia natural.» — «Malvina» foi ferida — explicou. sê boazinha. mas não parecia muito confiante. . vamos. durante algum tempo. «Que diria se soubesse de onde venho?» Fixou sem simpatia os olhos sérios e penetrantes do amigo: «É normal. «Popeia» fugiu do cesto assanhada e correu para a cozinha. Sobre o focinho havia uma crosta escura e em torno da crosta os pêlos estavam duros e viscosos. depois passou a mão pela testa com um ar de velho. — Sê bonita — dizia Daniel —. quando levantou a cabeça. aniquilada.» Sentia se separado dele por um abismo. Recebera uma unhada nas narinas e tinha o olho esquerdo fechado. pensou Daniel. É insuportável. infecta facilmente. — Foi certamente «Popeia». Perderia. ele é normal. Um bom aborrecimento não lhe faria mal. o seu ar de equilíbrio. Pensava em abrir o fecho. «porque me preocupo com uma gata.Qualquer coisa arrefeceu subitamente em Daniel. Daniel pôs lhe o dedo debaixo do queixo e levantou lhe a cabeça. com um olhar duro. é só um momento. uma inocente mentira — disse. pensou Daniel. Efectivamente olhou para o cesto com certa curiosidade e calou se. Sabia que Mathieu não insistiria. «Está ferida». porém já não sangrava. Foi buscar uma garrafa de arnica e um pacote de algodão ao armário. «Mal vina» não se mexia. Mathieu acompanhou o com o olhar. Riu. pensando: «Vão saltar me em cima. Tinha de tratar daquele animal. para o curativo. Tinha se levantado e olhava para a gata. — Dás licença? Daniel só tinha um desejo. Pensava que assim afastava terrivelmente Mathieu e que isso lhe dava alento. só um minuto. Abrir o cesto o mais depressa possível: «Que seria aquela gota de sangue?» Ajoelhou se. «Acha me ridículo». olhou em volta com uma expressão matreira e escondeu se debaixo da cama. Daniel pôs se a lavar o focinho de «Malvina». «Cipião» saiu por sua vez. Jazia no fundo do cesto. à casa da minha irmã. bem sabes. atentamente. — Desculpa.» E avançou o rosto de maneira a ficar inteiramente ao alcance dos gatos. Se fosse um miúdo. viu que Mathieu olhava sem ver. J E A N P A U L SARTRE — Ah! sim. Dirigiu se com passos medidos até ao armário. meu caro — disse Daniel com a sua melhor voz —. sem dizer palavra.

não quero deixá la. mas logo desatou a rir. Vais.» — Estou muito chateado — disse Mathieu com uma expressão objectiva. evidentemente. com o pretexto de guardar a garrafa de arnica no armário.. Então era isso! É verdade: «Urina sangue todos os meses lunares e é fértil como uma raia ainda por cima!» Pensou com repugnância que ia vê la naquela noite. sabes. «Pensa que me conhece. «Há desporto esta noite». Em mim. Fala das minhas mentiras. parecia em êxtase. Não me conhece nada. ela deve inspirar te horror agora. não me faças esses olhos de veludo! «Olhos de veludo!» A superioridade de Mathieu era odiosa. dava sempre resultado nessas ocasiões. com cordialidade. Não a viste muitas vezes. Tinha medo de rir. Mathieu continuava a falar gravemente: — O pior é que isso a humilha. «Não sei se terei coragem de lhe tocar na mão. E a coisa restringiu se a dois ou três soluços convulsivos. — Pronto — disse levantando se —. Perguntou: — Já lho disseste? — Não. — Não? Daniel estava profundamente surpreendido e divertido.Mathieu estremeceu. sabes? — «Popeia»? É uma peste — disse Mathieu distraído. . ora. Uma valquíria fechada num quarto — acrescentou sem maldade.. — Porquê evidentemente? Terás de lho dizer um dia. Podes dizer o que quiseres. amanhã estarás boa. — Não. Pôs se a pensar na morte da mãe. isso mataria o amor. pensou. — Grávida?! J E A N P AUL SARTRE A surpresa de Daniel foi curta. — Eu já não lhe tenho amor — disse Mathieu. e enxugou cuidadosamente a cabeça de «Malvina». mas diverte se em pôr uma etiqueta como se eu fosse uma coisa. — E para ti não é nada agradável. — Sim — disse Daniel com solicitude. Daniel encarou o e observou sóbrio: — Compreendo. Tinha agora pressa em ver Marcelle. dos meus olhos de veludo. Deu lhe uma palmadinha no dorso. — Para ela é uma diminuição terrível. — Ora. mas é uma espécie de valquíria. A gata cerrava os olhos. E bruscamente: — Marcelle está grávida. Mas a outra deu lhe uma bela unhada. Depois apressou se em voltar lhe as costas. mas teve de lutar contra uma grande vontade de rir. \ — Então? ^ A Daniel divertia se muito.» Riu. mas Daniel sabia que ela sofria.

Só que é mais ou menos como uma amizade familiar. inflexível. Bastava lhe abrir a carteira recheada.. o bom negócio foi um malogro.» Depois pensou nos gatos e sentiu se sem piedade. mesmo na aflição. É exactamente o que faço! Acrescentou com uma amargura a que Daniel não estava habituado: — Sou um escritor de domingo.. Porque é que havia de ajudá lo? Que vá procurar os que são como ele. odiava o. — Pois. meu caro. porque não desejava convencer. eu quero lhe bem e ficaria aborrecido se não a voltasse a ver. — Tenho uma direcção. Não pusera muita convicção na voz. — A culpa é tua? — É. quando receber os meus vencimentos de Agosto e Setembro. Aliás. ficou colérico: «Que vá à merda! Acha se profundo. então não podes . — Cinco mil francos — disse Daniel indeciso. — E a outra metade a 14 de Julho. verei Marcelle.. Empresta me cinco mil francos. mas não tenho dinheiro. — Que tem isso? — Pois se continuares muito tempo com esse jogo. — Disseste me há dias que ias fazer um bom negócio.» O que lhe parecia insuportável era aquele ar normal e sério que Mathieu nunca perdia. estou cheio de dívidas.. Não é culpa dela que eu já não a ame. Mathieu parecia obstinado. acabarás por detestá la. tirar de dentro as cinco notas. Daniel olhou o rosto terroso de Mathieu e pensou: «Este tipo está realmente aborrecido. isso chateia me muitíssimo. Pior para mim. Mas quando viu que Mathieu não o acreditava.. Quando Mathieu armava em quaker. Houve um silêncio. imagina que lê em mim.. — Que é que eu sacrifico? Irei ao liceu. Aliás. Bem sabes o que é a Bolsa. Daniel sentou se na poltrona. em frente Mathieu. — E vais continuar a vê la às escondidas e a.— Então nada. J E A N P AUL SARTRE — Eu dar te ei metade no fim do mês — disse Mathieu. — Cinco mil francos! — disse com voz desolada —. é simples. — Preferes sacrificar te — disse Daniel com indiferença. Mathieu fizera lhe muitas vezes favores antigamente. — Mas é preciso que tu me ajudes — disse Mathieu. — Bem — disse Mathieu aparentando bom humor —. acredita. mas não os tenho. escreverei um conto de dois em dois anos. — Não quero que ela se aborreça.

Daniel inclinou se sobre «Malvina» e coçou lhe o crânio. superficial. A Mathieu mostrou se desanimado. — É verdade — afirmou Daniel. Por causa da sua inércia bonacheirona ou talvez do seu rosto. dá se com usurários. Daniel . A maior parte das vezes. Deitou fora a ponta da língua e pôs se a lamber devagar o lábio superior. «Na tua idade». com solicitude. disse me. — Um acto de liberdade? — Mathieu parecia não entender. Mas que importam afinal os juros. Daniel sentiu repentinamente um pequeno choque mole. «Malvina» saltara lhe para os joelhos e instalava se a ronronar. Era como se tivesse virado uma unha. aqueles que emprestam aos funcionários. mas num caso destes ele vai certamente emprestar te — disse Daniel. «deverias ser independente.» — Realmente. Tu queres ser livre. Os animais e os homens não chegavam a odiá lo. Mathieu absorvera se em pequenos cálculos miseráveis. Reflectiu um instante: — De qualquer maneira. quase alegre que enfurece os outros. porque me fazia um mau serviço. — Tens uma necessidade urgente? — indagou.realmente? Daniel pensou: «É preciso que tenha muita necessidade para insistir assim. e Daniel pensou. que o tinha acalmado. — E verdade — disse Daniel um pouco decepcionado. se tens o dinheiro? Mathieu pareceu interessado. — Tens o teu irmão. — Nisso estás enganado. estou quase contente de não ter dinheiro. — Que espécie de gente é essa? Empresta logo o dinheiro? — Não — disse Daniel com vivacidade. aborrecido. Mathieu calou se. Daniel gostava das situações falsas. Sinto muito. Perturbava se com a perturbação de Mathieu. — Não poderás dirigir te a um outro? — Gostaria de evitar falar com Jacques. J E A N P AUL SARTRE — No fundo — disse.» — Oh!. mas isso não lhe era desagradável. Pôs se a acariciá la negligentemente. A mão tremia lhe. Mathieu tinha corado. pensou com nojo. — Exactamente neste caso é que não lhe posso pedir. Meditava. sem olhar Mathieu —. «Não me tem rancor». é uma oportunidade para um acto de liberdade. ainda há as associações. Meteu na cabeça que não me devia emprestar mais nada. Portanto não há perigo. conciliador. meu caro. É preciso um inquérito. Soubera encontrar logo o tom optimista. Também não tinha rancor. — Demora cerca de quinze dias.

pensou Daniel. Mathieu encarou o. Isso não acontece todos os dias. Nem sequer um momento ele deixou de ser ponderado. com o mesmo tom fútil —. quis chatear te um bocado. membros das associações dos pais dos alunos. casado. Levantou se. com três filhos! Como isso deve acalmar! — Com efeito — disse Mathieu. — Porquê? Uma simples palavra e mudas toda a tua vida. isso não te tenta. eu cá me arranjarei. Diria: «Aqui está. deve ser muito divertido fazer. bem tratado. Sentimo nos outro. franzindo as sobrancelhas. «Ele prefere rir».. para me rir. mas até à medula. «Está aborrecido. — Mas eu prefiro pedir os cinco mil francos ao meu irmão. é possível que isso me mudasse muito. Mas passou lhe. se achar um meio. — Não te incomodes — disse Mathieu —. com um trocadilho sempre à disposição e olhos de celulóide. A — Têm também uma espécie de alegria — disse Daniel. propositadamente. — Lamento — disse hesitante —. Um sujeito casado. cornudos. o contrário do que se quer. — Dão me vertigens. de perfeito acordo consigo mesmo. aborrecido. «Ele sabe que tenho dinheiro e não me odeia. E a ti. Mathieu pôs se a rir. que me vêm procurar.. Quando Daniel ouviu o passo de Mathieu na escada pensou: «É irreparável. Bastava a Daniel pôr a mão no bolso. — Sim. — Pareces bem tu — disse Mathieu.» Mas teve medo de se desprezar. precisamente — continuou Daniel.. não deve ser desagradável um tipo sentir se conformado. — Sobretudo neste momento. Eu acho que não detestaria. Quatro filhos.. Daniel pôs «Malvina» no chão e levantou se também. realmente? Vejo te muito bem. Benignos até. — Estás doido? — perguntou Mathieu. meu caro. escrevo te. Fechou a porta. mas que é preciso fazer para que me odeiem?» A carteira estava ali. casar com Marcelle. — Não me tentarás — disse Mathieu.levantou a cabeça. serias como eles. e acrescentou: — No fundo. «Nem por isso». enterrado. Parecem calmos.» E sentiu a respiração entrecortada. — Queres que eu arranje três filhos pelo prazer de me sentir outro quando os levar ao Luxemburgo? Se eu fosse um tipo acabado. mas isso fica lhe por fora. — Que outro? — disse Mathieu. Estaria Daniel a troçar dele? Daniel sustentou o olhar com um ar de gravidade modesta. sem se comover. Acompanhara Mathieu até à porta de entrada. gordo. — Tipos assim encontram se todos os dias. pensou Daniel. Dentro está à . Os pais dos alunos. — Bem.

tranquilizá la. Lia. Mathieu viu a através da porta envidraçada da sala de estar. quero dizer lhe bom dia. Atravessou a rua e pensou em Daniel. Arranjou lhe um lugar ao lado dela. Jacques dizia de bom grado: «Odette é uma das poucas mulheres de Paris que tem tempo para ler. mas escapavam se. — Bom dia. mas previna meu irmão de que irei vê lo ao escritório dentro de alguns minutos. e ela pareceu lhe repentinamente de uma fragilidade pungente. elegante. — Sim. irritado.vontade. Mas sim a Jacques. Tabelião! Entrou. o conjunto desfazia se a todo o momento. talvez possa ter uma boa notícia para lhe dar. alta e limpa até à insignificância. Ninguém tinha rancor a Daniel. Estava. Parou diante de um edifício atarracado da Rua Réaumur e leu. preciso de pedir lhe um favor. mas tenho de ver Jacques. Empurrou a porta. segundo andar. Estava sentada num sofá. Odette ergueu o belo rosto ingrato e pintado. Thieu — disse. Devia estar preocupada. e o rosto de Odette guardava o seu decepcionante mistério burguês. mas de uma beleza que parecia desaparecer com o olhar.» — O Sr. — Jacques não vai fugir. com a cabeça de lado e os olhos semicerrados: «Como? Mais dinheiro ainda!» Mathieu sentia arrepios. para além da censura e da indulgência. subiu no elevador. Mathieu quer falar com a senhora? — perguntou Rosa. Era preciso confortá la. — Não tenha tanta pressa — disse Odette.. Mathieu tentara imensas vezes reter em conjunto aqueles traços escorregadios. — Gostaria de lhe fazer uma visita — disse —.» Foi olhar o seu belo rosto no espelho e pensou: «Ainda valia uns mil se ele fosse obrigado a casar com Marcelle. Não lhe tinha rancor.» Mas resolveu passar primeiro pela casa de Jacques. cujo sentido se impunha logo. tabelião. «Preciso de lhe telefonar. — É para mim a visita que veio fazer? — Para si? Ele contemplava com uma simpatia descontente aquela fronte alta e calma e aqueles olhos verdes. . dizer lhe que não iria lá em nenhuma das hipóteses. contente. Mathieu lembrou se com ternura do pobre rosto atormentado da véspera. Habituado a rostos como o de Lola.. Era bela sem dúvida. pensou. Sente se. «Espero que Odette não esteja».» vm E stava acordada há muito tempo.» Pensava com irritação na atitude que Jacques ia tomar. «Assim. brutalmente. Uma expressão divertida e sabida. como lhe acontecia sempre: Jacques Delarue.

— Porquê? Não creio — disse Mathieu vagamente. numa risada: — Você estaria por certo muito mais à vontade comigo se eu usasse brincos. Mas tornam o rosto indiscreto.— Cuidado — acrescentou sorrindo. fala me dos meus vestidos. O braço. Mathieu riu. Quase não o vejo. — Como vai. Sentia se agora bem disposto. Como sempre. Tinha qualquer coisa de vago. — Meu Deus.» Mas a inteligência de Odette era corno a sua beleza. apertado na cintura por um cordão vermelho. deixe o vestido sossegado. Deixe isso e diga me antes o que fez esta semana. a secretária de mogno. Mathieu sentiu bruscamente um profundo desprazer. — Tem um vestido muito bonito — disse. pensava: «Realmente não é nada parva. Houve um silêncio. / A — Você é que prometeu receber me um destes dias. Todas as vezes que me vê. — Um destes dias vou zangar me. Mathieu sentou se. ultimamente. quase um vestido de rapariguinha. Houve um silêncio e em seguida Mathieu voltou à voz quente e ligeiramente nasal que conservava para Odette. Mathieu já não sabia o que dizer. Gostava de Odette. «Ela pertence a Jacques». Prometeu ma. o sofá. Essa mulher discreta e pudica cheirava a posse. — Brincos? Odette olhou o de um modo singular. — Muito bem. Contemplava com mal estar o braço moreno e fino que saía de um vestido muito simples. Esquece se de mim. o corpo por baixo do vestido. mas nunca sabia o que lhe devia dizer. como os móveis. escute — disse Odette com um riso indignado —. que é que será? — Estou a pensar se não deveria usar brincos quando o veste. Sabe onde estive esta manhã? Em Saint Germain. Isso encantou me. — E acrescentou. para ver Françoise. a sorrir —. — Não. No entanto não tinha vontade de sair. a sua saúde é extraordinária. Odette? Pôs certo calor na voz para dissimular a vulgai idade da pergunta. tudo pertencia a Jacques. Porém. — Como é delicado — disse ela. — Pois é justamente a propósito desse vestido que quero falar. — Acha vulgar? — indagou Mathieu. pensou. — Oh!. Gozava urna espécie de . — E Jacques? — Muito trabalho. Tenho direito a uma visita pessoal. o vestido. com o carro. Estava surpreendido. sem transição. não deve ter a consciência tranquila.

batendo à porta de Jacques. não imaginava isso. não achas? Mathieu não respondeu. Voltarei para me despedir. sempre muito correcto. «Não me perdoará nada». toda a sua pessoa transparecia inocência. Mathieu. atento e muito empertigado. — Bom dia — disse Mathieu. — Não. Jacques sabia muito bem o que ele queria e pensaria: «Não teve coragem de dar a facada. — Não quero insinuar coisa alguma — disse Mathieu. embora fosse mais velho.» Jacques permanecia de pé. J E A N P AUL SARTRE Agora já não podia recuar. indagava. — É a última garrafa — disse —. mas não comprarei outra antes do Outono. Pegou na garrafa e encheu dois copos. e avançou para Mathieu. pensou Mathieu com raiva. nunca se sabe. Jacques sorria inocentemente. um bom gin fizz é bem melhor com calor. «Até que ponto será uma vítima?». Sentou se com um nó na garganta. Vá ver Jacques. — Não. — Até logo. Sentia se em falta. Vestia um magnífico fato desportivo de casimira inglesa. O irmão arqueava as sobrancelhas com um ar de profunda surpresa. «Sabe muito bem porque vim e está a fazer se desentendido. / A — Bom dia. — Senta te. No entanto devia usar cinta. Levantou se. Odette disse lhe gentilmente: — Não devo retê lo mais. Há vinte anos que se sentia em falta quando via o irmão ou pensava nele. por que motivo o suspeitaria? Queres insinuar que é esse o único fim das tuas visitas? Sentou se. que bons ventos te trazem? Mathieu fez um gesto de aborrecimento. não se levante. pensou Mathieu irritado. Pensou que ia pedir dinheiro a Jacques e sentiu um formigar na ponta dos dedos. Digam o que quiserem. Pestanejou . Odette — disse afectuosamente.» Disse rispidamente: — Não te iludes por certo.calma. Parece preocupado.» Mas já era tarde.» — Entra — disse Jacques. «Com este género de mulheres. Olhava sem doçura aquele rosto rosado e fresco de rapaz. Um uísque? — Vá lá — disse Mathieu. — Há alguma novidade? — indagou Jacques. sabes que vim pedir te dinheiro. — Como vais tu? Parecia muito mais jovem do que Mathieu. cruzou as pernas com certa moleza como para compensar a rigidez do busto. meu velho — disse com entusiasmo. «Faz de inocente». mas os olhos eram duros. — Então. Mathieu levantou se. Pensava: «Bebo o uísque e vou me embora sem dizer nada. Mathieu achava que ele estava a engordar na cintura. com um sorriso afável.

Em teoria não há ninguém mais independente. Mathieu perdia imediatamente o sangue frio. Tu estás cheio de princípios. rindo alegremente. «Vai dizer não. Continuou sem deixar de rir: — E há pior: tu. vê bem. — Sabes — afirmou Mathieu para dizer alguma coisa —. — Mas não crês que com um pouco de organização.. Sabes. Mas eu pergunto: que aconteceria se eu não existisse? Note se que. Que recuse depressa para que eu possa ir me embora!» Mas Jacques não se apressava. «ele vai dá las. aproveitas te do parentesco para me cravar. . porque afinal não virias ter comigo se eu não fosse teu irmão. não leves a mal o que estou a dizer — atalhou diante de um gesto de Mathieu.. interrogo me. a sua fisionomia aberta mas obstinada e pensou inquieto: «Parece difícil.? É contrário às tuas ideias. diria eu. não quero censurar a tua conduta. divertes me e instruis me..» Mas olhou o rosto cheio do irmão. Porque eu sou um horroroso burguês — acrescentou. isso não te aborrece um pouco? — Que posso fazer? — disse Mathieu. Oh!. quando penso em ti. — Quatro mil — repetiu. Não ia travar uma discussão de ideias.. como um «filósofo». Isso é muito bom. mas afinal eu reflicto. fico mais convencido ainda de que não se deve ser um homem de princípios. Era advogado. — Divertes me. rindo igualmente. pensou Mathieu. Estendeu as pernas e olhou os sapatos com satisfação. Estás acima das classes. não ter princípios é ainda um princípio. para mini. que cospes na família. — Não quero criticar. meneando a cabeça como um conhecedor. Para mini a culpa é dos teus princípios. é até uma felicidade poder ajudar te de vez em quando. Sim. — Um mínimo! — disse Jacques.. se não estivesse a falar com um filósofo. vejo tudo de cima. sem dúvida. mas não te submetes a eles. — Uma necessidade súbita? Porque enfim na semana passada quando vieste aqui. «Agora». — Quatro mil — disse.e acrescentou apertando com força o corpo: — Mas preciso de quatro mil francos de hoje para amanhã. Não quero dizer que sejas culpado. pedir me um pequeno favor. Essas discussões acabavam sempre mal com Jacques. Thieu.» Felizmente Jacques retomara a palavra. não se tratava disso. — Com efeito — disse Jacques secamente. Tomou um ar de sincero interesse: — No fundo. eu não tenho princípios.. bem no fundo. A Mas parece me que com as tuas ideias eu faria questão de não dever nada a um horroroso burguês. tinha tempo.

«Digo que é para os meus impostos? Não. Como sempre. . evidentemente.. J E A N P AUL SARTRE Pensou rapidamente em Marcelle. Jacques pareceu interessar se. muito à vontade. — Já encontraste um médico? — indagou em tom neutro. o primeiro impulso dele era elevar se acima do debate. Habitualmente pedes dinheiro porque não sabes ou não queres organizar a tua vida. — Tomámos a decisão de fazê la abortar — disse Mathieu com brutalidade. a saúde dessa mulher é delicada. Jacques não pestanejou. mas não é nada disso. Mathieu hesitava. — Foi um acidente. Não sabia ver senão de cima. Fechou os olhos um instante.. se compreendo exactamente.. o que acontece é o seguinte: acabas de saber que a tua amiga está grávida. Sentiu que corava e encolheu os ombros. sim. — A esse ponto? É estranho. — Sim — disse Jacques —. com olhos agressivos. — Também me admirava — disse Jacques —. e Jacques perguntou.. abriu os e juntou" as mãos pelas pontas dos dedos. num tom ríspido. Ele sabe que os paguei em Maio.» — Marcelle está grávida — disse bruscamente. — Em suma — disse —. preciso do dinheiro. Naturalmente não te pergunto nada — acrescentou com uma expressão ligeiramente interrogativa. e durante esse tempo o seu espírito procurava um ninho de águia de onde pudesse fixar um olhar agudo sobre a conduta dos outros.. isto foi ontem. — Tenho amigos que mo garantiram. afinal? Porquê aquela vergonha súbita? Olhou o irmão de frente. — Um médico seguro? Segundo o que me disseste. — Não — disse Mathieu. mas afinal podias ter desejado levar até ao fim as tuas experiências à margem da ordem estabelecida. —Já.. mas nunca teria imaginado. O que quer que se dissesse ou fizesse. — E quando é o casamento? Mathieu corou de cólera. Jacques encarou o com curiosidade e Mathieu mordeu os lábios. Houve um silêncio. — Vocês queriam um filho? Fingia não compreender. Porquê.— Efectivamente — disse Mathieu —.. lembrou se dela sinistra e nua no quarto cor de rosa e acrescentou num tom angustiado que o surpreendeu a si próprio: — Jacques.. Os dois irmãos não tinham por hábito exprimir assim com tanta vivacidade os seus sentimentos. — Sim. eu. girava obstinada A mente à volta dele. tinha a paixão dos ninhos de águia. Jacques recusava se a encarar honestamente o problema.

— Venho pedir quatro mil francos. Não te fica bem a fantasia. — disse Mathieu. — E. — Estou decidido. mas não respeito a vida humana. A «Tem medo que me apanhem». mas os grandes especialistas nunca são atingidos. — Ah! Pensei. já irritado. — disse Jacques. Mas não desaprovo inteiramente os resultados. És pacifista por respeito à vida humana. — Bom — disse Jacques. resolveste fazê la abortar nas melhores condições possíveis. Mas Mathieu não se iludiu. que liquidam uma mulher com os seus instrumentos sujos.» Mas tais argumentos eram directos de mais para terem influência sobre .. — Eu sei — disse Mathieu —. Sou da mesma opinião. — Enfim. Pela própria força das circunstâncias. Afundara se na poltrona e os olhos já não lhe brilhavam. Um advogado não tira conclusões assim tão depressa.. pobres diabos são ervanários ou «fazedores de anjos». irei ver um médico hábil e que não figura nas listas da Polícia. Jacques abaixara as mãos e pousara as nos joelhos.. — Queres dizer com isso que há uma injustiça. Aliás eu sou pacifista.. de vez em quando ficam severos.Não queres casar por questões de princípios. «não me dará um franco. — Compreendo. Se recusares terei de mandar Marcelle a um charlatão e já não garanto nada. — atalhou Jacques — tens a certeza de que o aborto está de acordo com os teus princípios? — Porque não? — Não sei. e vais destruir uma vida. Olhava Mathieu com uma serenidade divertida. porque a Polícia os conhece a todos e pode de um momento para outro deitar lhes a mão. Já é alguma coisa. Os teus amigos recomendaram te um médico de confiança. As rusgas estabelecem uma selecção. — E porque precisas do dinheiro de hoje para amanhã? — O médico parte para a América dentro de oito dias. — Eis que te enfias na pele de um infanticida.. Não é isso? — Exactamente! — disse Mathieu.. o qual exige quatro mil francos. Estás a fazer confusão. Mathieu. mas consideras te ligado a ela por obrigações tão estritas como as do casamento.» Teria de lhe dizer: «Se pagares não correrás nenhum risco. Põem na cadeia uns pobres diabos sem protecção. Não querendo nem casar nem manchar a sua reputação. tu é que deves saber. J E A N P AUL SARTRE Ergueu as mãos à altura dos olhos e encarou as com o ar preciso de quem vai tirar conclusões do que acaba de dizer. pensou Mathieu. Disse com voz mole: — São muito severos neste momento na repressão ao aborto. Tens de arranjar o dinheiro.

que não aprovas isso. Há muito que receava algo semelhante. é um assassínio «metafísico». fiz um casamento de conveniência. Queres que te diga a verdade? Não mentes a ti próprio neste mesmo instante. Mas seria realmente ajudar? Estou persuadido. Jacques retirou a mão. e a sua velha cólera fraternal invadiu o... deu alguns passos. . não tenho objecções contra o assassínio metafísico. Inclinou a cabeça para trás e viu o rosto diminuído de Jacques. tu. «eu não devia ter aceitado a discussão. estás no teu direito e não te guardarei rancor. conheço te melhor do que pensas e agora estou assustado.Jacques. — Não faças cerimónia — disse Mathieu —. aparece me um. — Sim — disse com displicência. esclarece me acerca do que escondo a mim próprio. de resto. (estalou a língua como numa censura) isso não. — Mentir a mini mesmo? Ora. — Não recuso ajudar te. — Sorria. Mas que tu cometas um assassínio metafísico. que já se levantara. Mathieu ia poder sair. Jacques.. Mathieu. reflectiu. que encontrarás com facilidade o dinheiro. Mas para que falar em mentira? Não há mentira nenhuma. pensou Mathieu. suprimo o. Mathieu disse simplesmente: — Um aborto não é um infanticídio. eis tudo. Aquela suave e decidida pressão sobre o ombro era lhe intolerável. Eu voltei à burguesia depois de inúmeros erros. assim como tu és. mas tu és burguês por gosto. Essa criança que vai nascer é o resultado lógico de uma situação em que te meteste voluntariamente e queres suprimi la porque não desejas arcar com as consequências dos teus actos. — Um aborto não é um infanticídio. — Escuta. Não quero um filho. Levantou se subitamente como se tivesse tomado uma decisão e pousou amistosamente a mão sobre o ombro do irmão. vamos dizer que recusei. Não quero ajudar te a mentir a ti mesmo. Jacques pegou num cigarro e acendeu o. mas é a tua vida inteira que se constrói sobre uma mentira. Mas vou propor te outra coisa. Acrescentou com seriedade: — Meu pobre Mathieu. diz antes que não te queres meter num negócio de aborto. Thieu — disse com calor —. com clareza —.. que não tens dinheiro. — O que escondes — disse Jacques — é que és um burguês envergonhado. tornou a sentar se. seria falso.» — Mathieu — disse Jacques. Acabou. Jacques recusava. como não tenho contra outros crimes perfeitos. «Vai fazer me um discurso». Limpou a voz e perguntou por descargo de consciência: — Então não me ajudas? — Vê lá se me percebes — disse Jacques.

ironicamente. — Pois bem. regrada. porque o Estado te garante uma reforma. sentes que tens obrigações para com ela. podes dizer me em que difere isso do casamento? O facto de não morarem juntos? — A abstenção da coabitação — disse Mathieu. Não tens outras aventuras. «Nunca dissera tanto». estás casado. — Imagino muito bem que para ti essa abstenção não deve ser um grande sacrifício. pedir conselhos nos momentos difíceis. pois se alguém sofre não és tu. se não as tivesse. — Marcelle partilha as minhas ideias acerca do casamento/— disse Mathieu. e é o teu temperamento que te empurra para o casamento. . — Uma coisa sem importância. que estás sempre pronto a indignar te com uma injustiça. estás casado. Mas Mathieu sabia que ficaria até ao fim. Tens todas as vantagens do casamento e aproveitas os princípios para recusar os inconvenientes.por temperamento. — Para mim — disse —. tens um apartamento agradável. — Oh! — disse Jacques —. DADE DA RAZÃO — Sim. uma vida de funcionário. deve ter se embotado. Mathieu — disse ele com força. não a queres abandonar. o que é muito fácil e cómodo. Quatro vezes por semana vais tranquilamente encontrá la e passas a noite com ela. Na realidade. arrogante. não tens nenhuma inquietação quanto ao futuro. deves sentar te à noite junto dela e contar longamente os acontecimentos do dia. E isso dura há sete anos. pelo simples prazer de afirmar que estás de acordo com os teus princípios. humilhas essa mulher há anos. o orgulho impedia a de confessá lo. E gostas dessa vida calma. Sentia um desejo combativo e maldoso de conhecer a opinião do irmão. encolhendo os ombros. «é um desafio. pensou Mathieu. uma aparência de liberdade. — Primeira novidade — disse Mathieu. Se realmente subordinasses a tua vida às tuas ideias! Mas repito te. Ouvia se a pronunciar nitidamente cada palavra e achava se profundamente desagradável. por maior que tenha sido. Porque tu estás casado. Adquiriste hábitos com essa mulher. — Evidentemente — disse Mathieu. recebes bons vencimentos em dia certo. Recusas regularizar a situação. Tu estima la.» Devia sair e bater com a porta. Estou certo de que não procuras unicamente o prazer. Sabes o que não compreendo? Tu. mas pretendes o contrário por causa das tuas teorias. porque é que dizes que não deve ser um sacrifício para mim? — Porque com isso ganhas comodidade.

e as tuas tendências profundas que te empurram para a ordem. simplesmente. era a sua garantia. . és um burguês. — Estás. — Não censuro a tua juventude — disse. — Pelo contrário. queres parecer mais novo. Aliás. antes do amor. é uma idade moral.. Só que eu liquidei os a todos e tu afasta los aos bocadinhos. um lenço embebido em éter. Proclamas uma simpatia de princípio pêlos comunistas. um punhado de desajustados sem perigo para ninguém e que perderam o comboio. A tua vida não passa de um perpétuo compromisso entre o gosto da revolta e da anarquia. o que é isso.» Jacques era muito orgulhoso da sua juventude. na idade da razão. a boémia? Era muito divertido há cem anos. Ele escrevera a Mathieu: «É preciso ter a coragem de fazer como toda a gente para não ser como ninguém.. Mathieu fez um gesto. Tens 34 anos. Nunca votaste. não te faz bem a vida boémia. O resultado? Ficaste um velho estudante irresponsável. és funcionário dessa sociedade. Odette trazia lhe seiscentos mil francos de dote. Durante cinco anos imitara afincada mente as loucuras em voga. já nada tens de rapazinho.. — Eu imaginava — disse Jacques — que a liberdade consistia em olhar de frente as situações em que a pessoa se meteu voluntariamente e aceitar as responsabilida des. no entanto. permitia lhe defender o partido da ordem em boa consciência. meu caro. no entanto. Um belo dia acertara o passo. pensou Mathieu. agora..» E comprara um cartório. pouco me importa ser ou não burguês. — Mas isso também o escondes. «vai me falar da sua juventude. No fundo. Mas. a saúde moral. herdámos ambos os instintos daquele pirata que foi nosso avô. fora surrealista. «Pronto». tivera algumas aventuras lisonjeiras e chegara mesmo a respirar por vezes. embora modesto. Tiveste a sorte de evitar alguns maus passos. (acabou a frase entre os dentes) é conservar a minha liberdade. é certo —. Mas também não lamento a minha. apenas. filho e irmão de burgueses e vives como um burguês. olha bem para mini. O que eu quero. Não é certamente a tua opinião: condenas a sociedade capitalista e. a rotina quase. Tens ainda de atingir o fundo. É o que te perde. mas Jacques não deixou que o interrompesse. meu caro Mathieu — disse com uma piedade reprimida. Aliás. Acho que a princípio não eras muito menos pirata do que eu. no entanto. Talvez não tenhas ainda a idade da razão.— Escuta — disse Mathieu —. a que cheguei antes de ti. há um mal entendido entre nós.. mas tens cuidado em não te comprometer.. os teus cabelos já estão grisalhos — não tanto como os meus. Desprezas a classe burguesa e. talvez seja injusto.

«Terei um complexo de inferioridade em relação a meu irmão?» Não.. — Adeus — disse Jacques. mas não serve. mas tinha vontade de cantar. — Ora — disse Mathieu —. a minha mulher ignora por completo a tua vida íntima. Não há pressa. Jacques levantou se igualmente. e Odette sentir se á feliz em tratá la como amiga. será quando sentir vontade de o fazer. De qualquer maneira aquilo fornecia lhe uma saída digna. Mathieu. «Será verdade. Por maior que fosse o seu sentimento de culpa. O olhar tornou se lhe límpido e alegre e acrescentou: — Escuta. seria uma cabeçada estúpida para sair de uma complicação. Mathieu previra o golpe. a idade da razão é a idade da resignação.. acredita. pensou. que não o desonraria. «Até que enfim! Até que enfim!» Não estava alegre. Mas Jacques não o escutava. a minha proposta mantém se de pé! Mathieu sorriu e saiu sem responder. vou fazer uma proposta. «Mathieu inquieta me. sabes. «esqueci me de dizer adeus a Odette. agora. Mas não é sensato. de resto. — És realmente muito bom. não tenho remorsos.. estás ou deverias estar — repetiu dis traidamente.» Que diria ela? Desempenharia o papel de esposa reflectida ou limitar se ia a aprovar discretamente sem tirar o nariz de cima do livro? «Diabo! ». uma vez. de olhar absorto.. A tua mulher será muito bem recebida aqui. não preciso de o dizer. Desceu a escada a correr. — Como queiras — observou Jacques. será que mantenho Marcelle numa posição humilhante?» Lembrou se das violentas observações de Marcelle contra o casamento. Jacques — disse levantando se. . — Agradeço. cordialmente. — Já reflecti — disse Mathieu.Estás na idade J E A N P AUL SARTRE da razão. no entanto está na idade da razão. mas se tiver de me casar um dia. não era isso. E acrescentou: — Quando apareces? — Venho almoçar no domingo — disse Mathieu. Como te disse.. Não quero dizer que estejas inteiramente errado. Agora Jacques devia estar sentado à escrivaninha. Não posso dizer te porquê. Ponho dez mil francos à tua disposição se casares com a tua amiga.» Marcelle rira se dele. Aliás. Confio na tua escolha.. Há cinco anos. Não me interessa. se voltares atrás. não te será difícil encontrar os quatro mil francos. com um sorriso triste e grave: «Este rapaz inquieta me. — Adeus.» Ou talvez tivesse ido ver Odette. «Eu quis casar me. pensou Mathieu. estava com predisposição para o remorso. «Terá ficado muito aborrecido?».» Teve remorsos. — Reflecte. — E. Se recusares.

— Hum — murmurou Marcelle. — Quanto? — repetiu Marcelle.. é coisa que se consegue. Entrou. se visses! E depois.. «Sim». quatro mil francos não é um absurdo.. — Estou — disse Marcelle com a voz seca. A cabina telefónica era num recanto sombrio. A — Eu telefono. E acrescentou: — Quanto? — Quatro mil. — Ah! — disse Marcelle com indiferença. é húmido. — Mas não lhe disseste que era. — Estou angustiada. — Sentiu que a voz lhe carecia de firmeza e acrescentou com força. — Não estás lá muito. e fede no apartamento dela. — Não te incomodes. Recusa se a emprestar. Estava quase bêbeda. — Então? — Tenho alguém em vista. — Não. — Sempre te vejo amanhã à noite? — Sim. pensou. — Juro. Indicado por Sarah. . está.» Havia um bar na esquina da Rua Montorgueil. — E tu estás bem? — Estou. — Não. — E que é que vais fazer agora? — Não sei. é um animal. E as mãos... — Quatro mil. pediu uma ficha. — E acrescentou docemente: — Enfim. — A quem? A Jacques? — Venho de lá. Hei de arranjar. Sentia se angustiado ao pegar no telefone. Ah!. bem sabes. sinto vergonha por ele. — Daniel. — Arranja.. faz o que achares melhor. «Mas eu gosto deste tipo. Que diabo. a família é como a varíola: tem se em criança e fica marcada para o resto da vida. com uma dúvida na voz.Mathieu nunca deixara de pensar com razão perante Jacques. Temos quarenta e oito horas. o estupor! Vi o esta manhã. Quando não me envergonho diante dele. Terei de ir. tenho a certeza de que estava cheio de «massa». incrédula. — Está. Marcelle? Marcelle tinha o telefone no quarto. com vivacidade. para isto? — perguntou Marcelle. — Então? — A velha. Alguém excelente. — Também se recusa. — Mas não é possível. — És tu? — Sim. — Então arranja — disse Marcelle num tom estranho. é impossível. não vais! Peço emprestado.

Já não lhe apetecia saber mais nada. Marcelle cortou a ligação sem responder. dinheiro. porque não o havia de ter dito? Nós nos dizemos tudo. Nem chegava a meter raiva. A hora do dia em que o calor era mais sinistro. e ele próprio se transformava da cabeça aos pés. Se ela quisesse o filho? Então tudo ia por água abaixo. era papel gorduroso.. Marcelle. tirava simplesmente o gosto de viver enquanto era lido. Mathieu saiu da cabina. não se tem o direito de mudar de opinião sem mais nem menos. basta! Estava cansado de girar em volta de toda aquela história. Mathieu leu: «Bombardeio aéreo de Valência. Duas horas. Mathieu virou a página. Mathieu sobressaltou se e pensou: «Todos os franceses são uns canalhas». não deixava de mentir a si próprio. Ignora se o número exacto de mortos e feridos.» Está magoada comigo.» Quando se diz isso. Deu com um vendedor de jornais. não podia ser verdade.. Oh! basta. ela tê lo ia dito. Ao atravessar o café. Ivich.» Citavam se cifras. Deu o dinheiro e continuou. Hesitou e disse com esforço: — Amo te.» Passou os olhos sobre o título e leu o terrível texto... pelo amor de Deus. Felizmente não era verdade.. Sentia se nervoso e triste porque ia voltar a vê lo. «Quarenta aviões sobrevoam durante uma hora o centro da cidade e deixam cair cento e cinquenta bombas. ouviu a voz seca de Marcelle. Pensou em Brunet. ouvira a muitas vezes rir das amigas casadas quando estavam grávidas: «Vasos sagrados». bastava pensar nisso um só instante e tudo tomava outro sentido. O Excelsior não era um jornal agressivo. triste e aveludado como tapioca. «Estou angustiada. A França ao abrigo atrás da Linha Maginot. Um discurso de Flandin em Bar le Duc. Farei o que for preciso. Novas informações sobre o caso Weidman. «Humilhada».. ... Não havia. E Marcelle é incapaz de um abuso de confiança. A Rua Réaumur era de cobre sujo. era um estúpido. Parou à beira do passeio. — Levo os quatro mil francos amanhã à noite. Stokovski declara que não casará com Greta Garbo. quando Paris aguarda o seu Príncipe Encantado. de Madrid. «rebentam de orgulho porque vão dar à luz. quero pensar noutra coisa. A visita do rei da Inglaterra. Humilhá la ei? E se. dizia.» Ergueu a cabeça vagamente irritado. Pegou num jornal ao acaso: Excelsior.querido. — Paris Midi. apertado. dinheiro. Mas era mais triste ainda. que parecia denso e bem documentado: «Do nosso enviado especial. Todos os franceses.. em itálico. e o calor torcia se e chiava no meio da rua como uma faísca eléctrica. Ivich. mas não quero pensar nisso.. Uma amizade morta. Marcelle. escrevera Gomez. se faz favor. seria um abuso de confiança. Mas faço o que posso.

acocoraram se com ares de galinhas mortas junto dos verdadeiros cadáveres. que significa isto exactamente? Um hospital cheio? Um grave acidente de comboio? Cinquenta mortos.. contemplam o céu venenoso. havia seguramente cadáveres sob os escombros. pequena que fosse. consciente dos seus limites. sufocava numa sombra ardente. a fachada de uma casa. via a. Eu vi aquilo. Fechou o jornal e pôs se a ler na primeira página a reportagem do enviado especial. ele sentia se vazio. para sofrer. Alguma coisa se dispunha a nascer. a cólera ficava de fora. andava normalmente com a decência de um tipo que acompanha um enterro em Paris. Milhares de leitores teriam lido o jornal com ódio na garganta. e erguem a cabeça de quando em quando. Passou o lenço pela fronte e pensou: «Não se pode sofrer pelo que se . «Bandidos!» Cerrara os punhos. os automóveis passaram. bandidos!» Mathieu cerrou os punhos e murmurou: «Bandidos!» e sentiu se mais culpado ainda. a rua alargou se desmedidamente. uma rua. O seu pensamento fazia círculos em cima da cidade. era um calor real. andava a passos largos.uma vez. Era a cólera dos outros. que não tinham medo do céu. Cinquenta mortos e trezentos feridos. cerrando os punhos e murmurando: «Estupores. para rebentar. sobre os monumentos cinzentos. em Paris. destruíram no. mudas. esbateu se. À sua frente havia uma grande cólera.. já não há sombra na rua. Pronto!» O pensamento desceu lhe sobre uma rua escura. algures sob o mesmo sol. passeava de manhã. de franceses que não olhavam para o céu. os automóveis deslizavam pela rua. não em Valência. esmagada por enormes monumentos. uma cólera desesperada. bem viva e modesta. No entanto. esperava para viver. o céu flamejava muito alto acima das cabeças. aquilo é real. Mathieu sentiu se vaga mente culpado. podia tocar lhe. Estive em Valência. vi a Fiesta em 34 e uma grande tourada com Ortega e El Estu diante. havia mais porém. uma tímida aurora de cólera. os vidros partiram se. ele caminhava no meio de homenzinhos vestidos de claro. possuído por um fantasma de cólera. Mas não: sentia se vazio. Só que era inerte. procurando uma igreja. os Franceses são todos uns estupores. Pronto! Mas aquilo esvaziou se. mulheres estupefactas. não existe já. Mathieu estava com calor. qualquer coisa de que pudesse dizer: «Eu vi aquilo. o céu em fusão caiu em cima dela e o sol dardeja sobre os escombros. Já se contavam cinquenta mortos e trezentos feridos. entra agora até o fundo das casas. que ele lhe desse o próprio corpo. Se ao menos tivesse descoberto em si uma emoção qualquer. Os vidros brilhavam. Nem aviões nem defesa antiaérea. é real. mas a coisa não vinha. Pronto! As bombas caíram naquela rua.

— Tem a certeza? — respondeu Mathieu no mesmo tom. Só que ele. Mathieu olhou o hesitante. Destino.. de instrumentos cirúrgicos. — Não sei se irei — disse.» Olhou a última página do A Excelsior: fotografia do enviado especial.. — Vamos tirar isso a limpo. Na escada. E depois de maneira nenhuma ficaríamos sós.. de costas. Corpos estendidos sobre o passeio. Mathieu olhou sem afeição as costas magras. por nada e no entanto esse outro mundo é intransponível. Jacques atrás da secretária dizendo não. hoje à noite? Mathieu virou se e fingiu procurar as chaves no bolso. Boris disse na sua voz natural: — Então continua de pé o Sumatra. E o tipo de ontem. Daniel troçando. estou em Paris. nojentas por serem tão verdadeiras. Sem cabeça. — Deixei a agora. Eram duas horas e Brunet só chegaria dentro de meia hora. Marcelle no quarto cor de rosa. separado de Espanha por. mas creio que não estava. Mathieu dobrou o jornal e atirou o para a valeta. — Pensei.. sofrerá lá. Boris espreitava o à porta do prédio. Esse estava lá.. neste mundo sem Espanha? Por que razão não tive vontade de lutar? Poderia escolher outro mundo? Sou ainda livre? Posso ir aonde quero. — Não absoluta. Boris entrou à frente de Mathieu e dirigiu se com uma familiaridade desenvolta para a secretária. mas o que lhe posso dizer é que não abriu. Partiu. No meio da rua uma mulher gorda. o meu é um hospital com Marcelle grávida. de carícias nos táxis. — Entre. mas que importa? Ela é educada. estou numa gaiola sem grades. não estou lá. Não partiu.» Lá havia uma coisa formidável e trágica a pedir que se sofresse por ela. tomou um ar afectado. e o judeu a pedir quatro mil francos. — Sim.. junto de um muro. Era o seu ar de louco. — Suba comigo — disse. Há outros mundos. Ao ver Mathieu. As presenças reais. . pensava. Ivich que eu beijei esta manhã. Deve andar por aí. de saias repuxadas até às coxas. — Acabo de tocar à sua porta — disse —. na cidade em ruínas. mas é pior. Haverá Ivich. «Por que razão estou eu neste mundo de gritaria. Lola talvez prefira estar sozinha consigo. «Não posso. como eu. — Viu Ivich? — perguntou Mathieu abrindo a porta. é evidente — disse Boris —. no meio de minhas presenças. Gomez. «Viu a».quer. Subiram. não terá de fazer esforços para sofrer. Cada um no seu mundo. não encontro resistência. se der com um jornal e ler «Bombardeamento em Valência».

— Gosto da sua rua — disse Boris —. — Bem — disse Brunet com indiferença. depois de um longo momento —. — Ela quer ir — afirmou Boris. não tem mesmo nenhuma. Era Brunet.. Mathieu colocara se. Estão a tocar — acrescentou. Acrescentou: — Então. isso não tem importância.. Boris inclinara se sobre o parapeito da janela e olhava a rua. não lhe disse nada para esta noite? — perguntou Mathieu. — Não — disse sorrindo —. Procurei te mais de uma vez. — Olá! — disse Mathieu. — Ivich. velho traidor. Voltara se e olhava para Mathieu com um sorriso zombeteiro e terno.. Boris inclinou se com frieza e recuou até ao fundo do quarto. Fazia um cigarro. também há Lola. — Porquê? — Não sei. — Pois venho. — Ah. contrariado. diante de Brunet. Queria saber se ela ia. absolutamente nada. — Não é culpa minha.. é preciso vir até aqui ao teu quarto para te encontrar.. — Os quatro? Ela falou nos quatro? — Pois então — disse Boris ingenuamente —. Está a perceber? Um mês num quarto em Montmartre. com os braços pendentes. — Vens adiantado. — Então ela espera que eu vá? — Naturalmente — disse Boris. — Boris Serguine. — Ora — disse Mathieu. Mathieu aproximou se e deu lhe uma palmada nas costas. Pareceu me preocupada com o exame. — Detesta que o considerem meu discípulo. — É verdade — disse Brunet. um mês Rua Mouffetard. Livre como você é. — Pois é — disse Boris. — Disse me que seria divertido encontrarmo nos os quatro.. as tuas poltronas corrompem. mas ao fim de algum tempo deve chatear. um mês no Faubourg du Temple. deveria vender os móveis e viver no hotel. — Senta te na poltrona — disse Mathieu.. sólido e despreocupado perante o olhar rancoroso de Boris. — Para esta noite? — Sim. — Eu tornei me numa espécie de . Não sei porque mora num apartamento. Isso aborrece te? — Não. admirado. mas não consegui encontrar te. o famoso discípulo? Não o conheço. Brunet sentou se na cadeira.— Vem ou não vem? — perguntou Boris. Houve um silêncio. irritado —. — Quem é? — indagou Brunet. A Mathieu foi abrir..

Dão me tanto trabalho.. Peco lhe um favor e responde me com um sermão. Creio que envelhecíamos menos depressa se nos pudéssemos encontrar de vez em quando os três juntos. acabo de me aborrecer com ele — acrescentou Mathieu sem reflectir. — É verdade — disse Brunet. Quando Brunet encontrava Portal ou Bourrelier devia dizer com aquele mesmo tom aborrecido: «Mathieu? É professor no Liceu Buffon. que há dias em que eu próprio tenho dificuldade em me encontrar.caixeiro viajante. — É o que se diz. Brunet deitou lhe um olhar rápido e penetrante. É estranho — disse Brunet com ironia. o quarto enchia se com a sua presença. — E fora disso. — E esperas ainda vir a mudá lo? — Claro que não — respondeu Mathieu. Evitou olhar para Boris. Imagina tu! — disse ele. — É caça para Doriot — disse Brunet.» — Ainda o vejo. — Pensei muitas vezes que nos devíamos ver mais. Pensou: «Ele veio.» Sentiu que a confiança e a alegria tentavam timidamente renascer lhe no coração. com o fumo do cigarro. atónito. — Daniel! Mas ainda existe esse camarada? Ainda o vês de vez em quando. com os seus gestos lentos. Continuou com simpatia: — E quando te vejo que me encontro melhor. — Os Croix de Feu não são muito dinâmicos. — Catorze horas de curso por semana e uma viagem ao estrangeiro durante as férias. A propósito. não é verdade? A alegria de Mathieu desapareceu. Brunet olhou o com surpresa. não é? — Isso mesmo — confirmou Mathieu rindo. sentado numa cadeira de Mathieu.. ainda o vejo de vez em quando. Daniel. — Os três? — Então? Tu. Mathieu olhava as grandes mãos de camponês do amigo. Estava ali. agradecido. parece me que fiquei depositado em tua casa. . — E então ataca lo. — E teu irmão? Continua Croix de Feu? — Não — disse Mathieu. Na verdade não fazia nada. que tens feito? Mathieu sentiu se embaraçado. Brunet pousara as mãos sobre os joelhos. Mathieu sorriu. — Porquê? — Sempre a mesma coisa. pesado e maciço. eu. — Nada — disse. sim. inclinava a cabeça obstinadamente para a chama do fósforo. com amargura. irritado. Fez se silêncio.

Estava ofendido. Boris sorriu. Boris não se mexia. — Em que ponto é que está? — Termino agora a minha licenciatura — disse Boris com rapidez. Brunet sentara se a cavalo na cadeira e olhava igualmente Boris com um olhar pesado... — Fique. . Inclinou se ligeiramente. — A licenciatura — atalhou Brunet com uma expressão absorta. afectuosamente: — Disse a mini mesmo: não quero que mo deitem abaixo. com tiques nas pálbebras e no canto dos lábios. com satisfação. — Na verdade. talvez compreendesse. sou eu que me vou embora. pensou Mathieu. inchada. Não te aborreces com isso? — Pelo contrário — disse Mathieu rindo. Já foi muito amável da tua parte teres vindo. fique. meu caro. manti nha se no seu canto. Acrescentou. «Ele gostaria que Boris se fosse embora». duro: — Já percebi — disse. Demasiado amarela. Pôs se então a olhar fixamente o rapaz. sob o fogo conjugado dos olhares. Mathieu parou subitamente de rir.. parecia um cão de caça doente. pensei: preciso de falar com ele. eu sei — acrescentou vivamente. magoado. Mathieu fechou a porta e voltou se para Brunet. — Ele está acostumado e depois estou contente por te ver a sós. todo arrepiado. Mas hoje de manhã quando vi a tua cara. não é verdade? Estou lá às onze.» Mas não parecia sequer pensar nessa solução. — A licenciatura.Calaram se um instante e Mathieu pensou tristemente: «Se ao menos Boris tivesse a boa ideia de se ir embora. Acrescentou bonacheirão: "^ J E A N P AUL SARTRE — Vai ficar a odiar me se eu lhe raptar Mathieu por uns momentos? Você tem a sorte de o ver diariamente e eu. — Então? — disse esfregando as mãos. Brunet observou com voz calma: — Eu estava com pressa porque tenho apenas um quarto de hora.. — Até logo à noite. Riram. ainda bem. — Despachaste o. Mathieu acompanhou o até à porta e perguntou com entusiasmo: — Até logo à noite. tinha o dia inteiro ocupado. — Não dispões de muito tempo. Mathieu? Boris adiantou se. jovem? Boris disse que sim com a cabeça. Brunet pigarreou: — Continua a estudar Filosofia. — Um quarto de hora! Eu sei. — Tinha má cara? A — Sim. Brunet perguntou: — Talvez tenha ido longe de mais. Vamos dar uma volta.

sem dúvida — insistiu. com um gesto vago. Vou fazer te uma proposta: queres entrar para o partido? Se aceitares. creio. — Não precisas de ficar desconfiado. — Não querias que eu te levasse para o partido de La Rocque? Fez se silêncio. Mas tu. e isso de intelectuais temos até para vender. Não sentes que a tens? Mathieu sorriu tristemente. Escuta — acrescentou subitamente —... Tem o dia inteiro tomado.C. — Brunet — perguntou suavemente Mathieu —. às vezes. senão para tomar uma posição? Levaste .. Dormi mal. — Escuta — disse Brunet —.E. Nunca ninguém fala de mim.» Apesar de tudo. — Tanto melhor — disse. essa proposta. não podes vir a nós assim sem mais nem menos. sim. Mathieu estremeceu. Mas para que te serve a liberdade. — Seguiste o teu caminho — disse Brunet.Mathieu tossiu. — Ora. aliás. Comunista? Brunet pôs se a rir. porque queres que eu me torne comunista? Para meu bem ou para o bem do partido? — Para teu bem — respondeu Brunet.. levo te comigo e em vinte minutos estará tudo terminado. — És filho de burgueses. — Nunca imaginei que tivesse uma cabeça tão expressiva. Olhava Brunet com uma gratidão humilde e pensava: «Foi por isso que ele veio. — É para meu bem — repetiu Mathieu. uma porção de encontros importantes e preocupou se em vir dar me o seu apoio moral. Mas tinhas. Pensava na Espanha. Mas desejava que me dissesses o que pensas exactamente... — Ando aborrecido. de tomar posição? — Sim — disse Brunet com força. — Tens essa necessidade. tens de te libertar. — disse Mathieu. as ideias. Simples aborrecimentos de dinheiro. — Se é apenas isso. não pensei. As pálpebras dobravam se lhe em preguinhas e mostrava os dentes ofuscantes de brancura. era melhor se Brunet tivesse vindo pelo simples prazer de o ver. Então? Achas que eu tenho necessidade de entrar na luta. depois vejamos: o partido não precisa de ti.. a cara de um tipo que acaba de perceber que viveu de ideias que não dão nada. Brunet não parecia convencido. — Para o partido?.. dá se um jeito. tu tens necessidade do partido... desconcertado. não vamos complicar as coisas. vivo cercado de miúdos que só se preocupam com eles próprios e me admiram por princípio. Agora já o conseguiste. Sabes. não esperava essa tua.. Eu próprio tenho dificuldade em me encontrar.. — Para meu bem. És livre. Não sou sargento recrutador do P. Tu representas apenas um pequeno capital de inteligência. Como toda a gente.

nem sempre é divertido. pestanas ruivas. verdadeiras paixões. cor de tijolo. Meditava. desajeitado. Assemelhava se a um prussiano. — Não — disse Mathieu —. minha cara puta velha. um homem apenas.trinta e cinco anos na limpeza. um ausente. Bem sei que tudo me seria devolvido. — Meu caro aliciador de recrutas — disse —. — Vives no ar. muito claras e compridas. flutuas. Brunet. És um corpo estranho. Arescentou subitamente: — És um homem. Um homem de músculos fortes e elásticos. surpreendido. Btunet sorriu distraído. Desde que entraste no meu quarto ele parece verdadeiro e enoja me. — Não há outra — repetiu Brunet. Tinha um rosto pesado. — Quem to impede de fazer? Ou imaginas que poderás viver a vida inteira entre parênteses? Mathieu olhou o hesitante. — O contrário seria inquietante. Sempre que o via. um homem recto. um homem inteiriço. cortaste os laços burgueses e não te ligaste ao proletariado. sabes? — continuou com um sorriso amigo. Esperou um pouco e perguntou: . da psicologia. fungava docemente.» Brunet levantou se.. renuncia à própria liberdade. Seguia a sua ideia. assediado por todas as vertigens do inumano. meu caro. Mathieu sentia uma espécie de curiosidade inquieta nas narinas. — Falas como um abade — disse Mathieu a rir. não há outra escolha. não seria um sacrifício. escolherei ficar com vocês. — A sério. carne. Escuta. seguro de si. evidentemente. sangue. de traços caídos. Não deve ser muito agradável todos os dias. — És bem real — disse Mathieu. gosto que digas tudo isso. diante dele. E tudo te será devolvido. — Pois faz como eu — disse. da política. que pensava por meio de curtas e severas verdades. precocemente envelhecido. acabei por perder o sentido da realidade. Mas Brunet não tinha cheiro. indeciso. E Mathieu ali estava. — Evidentemente. e o resultado dela é o vácuo. Dá mais um passo. — Um homem? — indagou Brunet. — Tudo aquilo que tocas parece real. Que é que queres dizer com isso? — Nada a não ser que escolheste ser um homem. sóbrio. terreno refractário às angélicas tentações da arte. Gostava imensamente dele. és um abstracto. certo de perceber de repente um odor forte de animal. Disse: — Renunciaste a tudo para ser livre.. nada mais se me afigura inteiramente verdadeiro^ Brunet não respondeu. Aproximou se de Brunet e abanou o pêlos ombros com força. E se escolher. E pensava: «Eu não pareço um homem.

irritado. Na segunda quinzena de Setembro os Alemães invadem a Checoslováquia. mais densas do que as que Mathieu podia ver. como eu. Brunet olhou o e observou rapidamente: — Vamos ter a guerra em Setembro. Dir se ia que tinha medo de pecar por orgulho. a fim de que Schneider conserve os seus interesses nas fábricas Skoda. — Não compreendo — disse Mathieu. as cores e formas com que se enchiam os seus olhos eram mais verdadeiras.» E ali estava ele. com um gosto real de fumo na boca. Comprometera se. Meditava. terás os teus pequenos hábitos. — Então? — Não é a mesma coisa. mas apressa te. A idade. «Disse bem. Está de acordo consigo próprio e com o partido. e no entanto. E tudo lhe fora devolvido. Vamos admitir que partes nesse estado de espírito. renunciara à liberdade. — Sabes para onde me vão mandar? Para a frente da Linha Maginot. tudo lhe fora devolvido. E talvez o mundo esteja também demasiado velho. era apenas um soldado. a época. já nada a pode impedir de ser um destino. nesse . real. Mathieu não respondeu. — Mas então não compreendes nada? — perguntou Brunet. arriscas te e rebentas como uma bolha. serás um herói irrisório e cairás sem ter compreendido nada. Os Ingleses sabem disso. Morres sem acordar. — E tu? — perguntou Mathieu. serás o escravo da tua liberdade. a classe. Amanhã serás demasiado velho. E acrescentou a sorrir: — Não acredito que o marxismo preserve das balas. — Também não acredito — disse Brunet. — Respira. contrariado. — disse Mathieu.. ele escolhera a arma que lhe feriria as têmporas. E acrescentou docemente. Tu és mobilizável. a granada alemã que lhe perfuraria as vísceras. respira. voltando a si: A — E verdade que se compreendesses não haveria necessidade de pontos nos ii. E um risco assumido. Foste um funcionário abstracto. Sonhaste durante trinta e cinco anos. — Acrescentou com vivacidade: — Como a de todos os camaradas. — Essas informações. inclusive a liberdade. Agora nada já pode tirar o sentido da minha vida. Escuta. — Estás a brincar? — Podes acreditar.» Brunet tinha razão. para dar cabo da saúde não há melhor.. e um belo dia uma granada faz explodir os teus sonhos. o Governo francês está prevenido. «É mais livre do que eu. A sua vida era um destino. em carne e osso. aliás.— Então? — Deixa me tomar fôlego — disse Mathieu. Foi encostar se à janela.

— Não havia um só canhão de defesa antiaérea em toda a cidade. vocês os intelectuais. eram os seus irmãos e irmãs. — Tens sorte — disse Mathieu.. Mas eu. neste instante.» Voltou se para Brunet e encarou o com amargura. pensou. Não cerrou os punhos. há chineses nos escombros de Naquim e eu aqui. arriscas te a esperar muito. Brunet encolheu os ombros. Põe te de joelhos e terás fé. escolher ser um A homem. — Bombardearam Valência — disse subitamente. — Eu sei. «Nesta hora. Pensas que eu estava convencido quando entrei para o partido? A convicção forma se. serenos. fresquinho. se ao menos pudesses ver com os meus olhos. Ah!. Seria a salvação. há tipos que se matam nos arredores de Madrid. meu caro. não abandonou o tom sereno. Mais tarde. dentro de um quarto de hora ponho o chapéu e vou passear no Luxemburgo. Talvez tenhas razão.» Ergueu se com vivacidade e sentou se na ponta da mesa. — Eu sei.. desesperado. — Recusas? — Recuso — disse Mathieu. há judeus austríacos que agonizam nos campos de concentração. Tens sorte de ter podido escolher. Entrar para o partido. Parecia estar a espiá lo. Era preciso responder. «Sou um irresponsável». — Recuso. lutando. as espingardas vão disparar sozinhas e vocês. — Naturalmente — disse Brunet com impaciência. Brunet não despregava os olhos dele. espalhava se pela terra toda. Pensava: «Veio oferecer me o que tem de melhor!» Acrescentou: — Não é coisa definitiva. compreenderias que não se pode perder tempo.mesmo momento. a sua maneira de dizer sonhadora. O rosto de Brunet endureceu se um pouco. . — Queres dizer que não vais ter essa sorte? Pronto. os mortos.. dar um sentido à vida. reivindicam o direito de ser convencidos. eu quero acreditar primeiro. «As tuas poltronas corrompem. e no entanto era ele o bombardeado. Atiraram as bombas no mercado. — Essa é boa! Isso escolhe se. — Sorte de ser comunista? — Sim. os seus filhos. Tudo se desmorona. agir. Mathieu sorriu tristemente. sofrendo com os proletários de todos os países. — Mais tarde? Se estás à espera de uma revelação interior para escolher. Mathieu foi sentar se na poltrona. acreditar. livre. Sim ou não. — Vocês são todos iguais. — Já sei — atalhou Brunet.. — Então? — disse Brunet.

não tenho razões suficientes para isso. parecia uma torre. — Já pensei que nunca mais viria. Fez um esforço: convencer Brunet era o único meio que lhe restava para se convencer a si próprio. Mathieu indagou docemente. como o teu irmão se agarra ao dinheiro. neste momento. — Então? — indagou quase alegremente. Brunet parecia mais calmo. estás a compreender me? — Não sei se te compreendo muito bem — disse Brunet —. pensou Mathieu. Não é culpa minha. A minha liberdade? Pesa me. A — Tens a certeza de que o desejas? — Tenho. — Achas que pareço agarrar me a alguma coisa.. não posso comprometer me. — Eu também o espero. Quando o atacam. Mas receio que não apareça tão cedo. Há anos que sou livre para nada. Ninguém te acusa. contra as mesmas coisas. estás no teu direito. — Apesar de tudo. Brunet tomou o seu ar mais fechado. mas não é o bastante. agarras te a ele avidamente. Mathieu olhou o com desespero. mais camponês. como vocês. e daí? Brunet deu uma palmada de indignação na coxa. — Também já pensei nisso — disse Mathieu. J E A N P AUL SARTRE Fez se silêncio. — E então? . mas não te desfazes dele. Brunet olhou o com curiosidade. Espero que essa oportunidade se apresente o mais depressa possível. É teu conforto moral. contra a mesma espécie de indivíduos. Desejo ardentemente trocá la por uma convicção.. — Muito bem! Finges lamentar o teu cepticismo. o tempo passa. não precisas de justificar te.— E então? Sim. E depois. não me orgulho da minha vida e não tenho um tostão. Brunet levantara a cabeça. Revolto me. Mentia se dissesse que me sentia satisfeito em desfilar de punho erguido ao som da Internacional. penso como tu que não se é homem enquanto não se encontra uma coisa pela qual se está disposto a morrer. isso afastar me ia de mim próprio e tenho necessidade de me esquecer um pouco. — Tens? Tanto melhor. Talvez não haja oportunidade. — Estás a compreender me. Brunet? Diz lá. De boa vontade trabalharia com vocês. — Não tenho nada a defender. Reservas te para uma melhor oportunidade. «Se ele pudesse compreender me». mas como quer que seja. — Não quero dizer. ou viria demasiado tarde.

— Porque teria vindo se não me lembrasse? Se tivesses aceitado. Desejaria ver te sempre e falar contigo. esta manhã. — Não te considero um sacana — disse. J E A N P AUL SARTRE Enquanto falava. e tudo seria devolvido a Mathieu. ainda te lembras? Foste tu o meu melhor amigo. desolado. — Eu conheço vos bem. Não tenho nenhum direito sobre o seu tempo.. Bastava uma palavra. Brunet brincava com o fecho da porta. — Não me deves querer mal — disse precipitadamente. Os meus únicos amigos agora são os camaradas do partido.. A . Voltamos a ser estranhos um para o outro. Teve pena de mim de manhã. Mas isso não modifica a coisa. — Não vais. Brunet levantou se. Mathieu também se levantou. Era tentador como o sono. Tens razão. — Pois é.. Mathieu endireitou se repentinamente. — E achas que não temos mais nada em comum? Brunet ergueu os ombros sem responder. Brunet esperava delicadamente. Mathieu disse lhe: — Não podes imaginar o que me comoveu teres vindo oferecer me a tua ajuda. mas decepcionei o. Mathieu pensou: «Está com pressa. «Não pode sair pode sair assim. Calaram se. Mathieu pensava: «Evidentemente.. Brunet sorriu levemente. a amizade de Brunet. preciso de ajuda. E tudo. razões de viver. Não faz mal. Mas é do teu apoio pessoal que eu preciso.. sair assim. Doido por se ir embora.» Disse. Calaram se. mas não queres dizê lo porque julgas o caso perdido. — Acho apenas que estás menos libertado da tua classe do que eu imaginava. da tua voz. poderíamos trabalhar juntos. Tu achas me uma sacana. — Pois é. das tuas mãos. Ainda tens um minuto? Brunet olhou o relógio.— Nesse caso serei um desgraçado. Com esses eu tenho um mundo em comum. Do teu focinho. — Já estou atrasado. — Também o desejaria — disse —. a não ser que se seja sacana. só porque eu tinha má cara. é possível? Brunet desviou os olhos.. apesar de tudo estou contente por te ter visto.. sem querer: — Brunet.» Brunet acrescentou sem o olhar: — Ainda gosto muito de ti.. pensou Mathieu. uma só. E depois há as recordações. — Não é verdade — disse Mathieu. mas não tenho muito tempo. aproximara se da porta. — Mas não te quero mal — disse Brunet. — Não és obrigado a pensar como eu. não do de Karl Marx. tenho de lhe falar». Mas não tinha nada para lhe dizer. — disse. acham que se deve pensar como vocês.

porque já não teria motivos de indignação. fixa.— Não quero demorar te — disse. na minha varanda e não queria que isso mudasse. Por cima ou por baixo: quem havia de decidir? Brunet já decidiu. Daniel também. sempre não. um entusiasmo amargo nascera no seu coração. Agrada me sentir me desdenhoso e solitário. Agrada me indignar me contra o capitalismo. Acha que sou um filho da puta. eternizava tudo aquilo em que tocava. «Recusei porque quero continuar livre. e teria medo que se construísse um mundo viável porque teria de dizer sim e fazer como os outros. É o que posso dizer. Mas quem poderia conservar nesta luz a mesma parcela de entusiasmo? Era uma luz de fim de esperança. Uma tarde de Verão. se mudares de opinião. pode se sempre discutir. — E tu. a corda erguia se eternamente acima da cabeça dela e eternamente fustigava o chão a seus . Sorriu para Mathieu e foi se embora.» O quarto era agora apenas uma mancha de luz verde que tremia quando passavam os carros. e apenas a cabeça lhe saía da água. e ele mantinha a cabeça fora da água e olhava a rua pensando: «É verdade? É verdade que não podia aceitar?» Uma menina ao longe saltava à corda. A menina saltava à corda eternamente. Mathieu pensou: «Era o meu melhor amigo. a corda parece uma alça. as cortinas verdes e pensou: «Já não se sentará nas minhas cadeiras. acreditava estar a ser sincero. tudo o que fazem pode ser explicado. julgar. pouco antes. prefiro tomar ar. — Certamente — disse Brunet. e as ruas uma por uma tornavam se reais. já não fumará aqui os seus cigarros. como se desejar. prefiro a minha cortina verde. já não olhará para as minhas cortinas. Este pobre Mathieu está perdido. Mathieu chegou se à janela e encostou se ao parapeito. Mas posso dizer também: tive medo. agrada me dizer não. Jacques também. é um sacana.» Partiu. manda me um recado. Mas a realidade do quarto desaparecera com ele. Pensava: «Eu não podia aceitar». à tarde. — Vem visitar me quando tiveres tempo. e o quarto atrás dele era uma água tranquila. corruptora. igual. por cima ou por baixo. isso é indiscutível. Mathieu olhou a poltrona verde. fria. Que posso eu fazer contra todos? Tenho de decidir. Ia pelas ruas gingando um pouco como um marinheiro. como uma verdade eterna. as cadeiras. Mas em relação às pessoas. mas decidir o quê?» Quando disse não. Todos decidiram que sou um sacana. o quarto corruptor estava atrás dele. a luz estava pousada na rua e nos telhados. «Será verdade que não sou um sacana?» A poltrona é verde. Brunet abriu a porta. a corda erguia a acima da cabeça como uma alça e chicoteava o solo sob os pés. — Certamente — disse Mathieu. mas não desejo que o suprimam.

Liam os jornais ou limpavam com uma expressão de cansaço as lentes dos óculos. a mulher cheira sempre. Daniel seguiu a passo lento o desfile. havia homens.» Empertigou se novamente. perdeu se. Livre.» Em cima da mesa havia um pesa papéis em forma de caranguejo. . Nada mais lhe ficou senão um ruído surdo de avalancha. «Posso andar um pouco. Tinha medo de lhes respirar o cheiro. As mulheres pintadas que saíam das lojas deitavam lhe olhares provocantes e ele sentia o próprio corpo: «Putas». Isso permitia. embora não densa. à noite. Daniel olhara para o espelho do vestíbulo e pensara: «Vai recomeçar». do mesmo destino vago e ameaçador. Mesmo na Rua Réaumur era muito notado. não passava de um saguão aberto. os meus móveis. Para quê? Para quê?» Deixou cair o caranguejo sobre a mesa e declarou: «Sou um tipo lixado. depois quatro horas de trabalho odioso. E Mathieu contemplá la ia eternamente. a visita de Mathieu. Era fácil esconder se ali. às janelas. em Madrid e em Valência. «O meu pesa papéis. e diziam: «Para quê? Para quê continuar a lutar?» Mathieu voltou se para dentro do quarto. os gatos. Aliás. Felizmente eram raras. pelo menos. e caminhava devagar. Um pesado destino de multidão parecia esmagá lo. mas a luz seguiu o. Era uma verdadeira multidão. que olhavam as ruas desertas e eternas. era inevitável. Voltara a encontrar se. e teve medo. Não era uma rua para mulheres e os homens não se preocupavam J E A N P AUL SARTRE com ele. pois Daniel já não era capaz de se iludir. fugir à tentação de imaginar intimidades atrás das vidraças escuras das janelas. Iria porque não tinha a menor vontade de deixar de o fazer. Apropriando se do sorriso vago dos homens. «Vou chegar cedo de mais a casa de Marcelle. tenho tempo de andar um bocado. Mathieu pegou lhe por cima como se estivesse vivo. «A minha poltrona. desconfiado. Não era muito cómodo esconder se. De manhã. Por mais que se lave. ou sorriam no vazio com espanto. Marcelle.» Isso queria dizer: «Vou dar uma volta pela quermesse». Ao sair do escritório. A tarde esvaziava os edifícios comerciais. Nunca se perdia por muito tempo.pés. uma sala de espera de um tribunal. para quê? Queria ir à quermesse? Pois iria. o olhar de Daniel deslizava por entre aquelas falésias abertas até ao céu rosado e corrupto que elas fechavam no horizonte. era agora uma praia de luz esquecida. podia perfeitamente desejar uma ligeira compensação. Para quê saltar à corda? Para quê? Para quê? Para quê resolver ser livre? Sob aquela mesma luz. Entrou pela Rua Réaumur.» IX E ram seis horas. disse entre dentes.

que o repelia e atraía ao mesmo tempo. Parecia um J E A N P AUL SARTRE pesadelo. flutuavam a baixa altura. Os malandros que se distraíam diante dos caça níqueis à espera de freguês eram muito mais divertidos que os seus colegas de Montparnasse. agora Marcelle estava podre. E depois. sedosos. vozes de mel. e diminuiu o passo. Entrou no Bulevar Sébastopol. dizia sempre sim. Daniel ficou subitamente apressado e esticou o passo: «Vamos rir. como borboletas. calcinado pelo sol claro.Marcelle era um charco. dançam a cada sacudidela do fio com saltos desajeitados. Habitualmente encostava se a uma coluna. mas tinha se sem DADE DA RAZÃO pré uma inquietação no fundo dos brônquios. Sentia desejo de lhes bater. o ar seco queimava em volta dele. Daniel não suportava a humildade deles. viu a tabuleta. Um homem que se condena a si próprio tem sempre vontade de dar pancada para se liquidar de vez. enormes e leves como elefantes de borracha. eram vadios ocasionais. Quermesse. A quermesse do Bulevar Sébastopol era célebre no género. cor de gema de ovo. dissimulados. aí é que o inspector de finanças Durat descobrira a puta que o tinha matado. era de morrer a rir. Quanto aos michés. Mesmo em tempos normais não podia deixar de fungar. para partir em mil pedaços o pouco de dignidade que ainda lhe resta. a lembrança de uma luz espessa. O quarto dela estava irrespirável. Mas é preciso mudar constan temente de imbecis. puxar a corda e voltá los. e as ideias amontoavam se Ihe na cabeça.» Não precisava de se desculpar tanto. humildes e de olhar ligeiramente alucinado. erguê los no ar. Não cheirava a nada. brutais e canalhas. e encarava os fixamente enquanto batiam as asas sob os olhares maldosos e escarnecedores dos jovens amantes. de voz rouca. que procuravam apenas ganhar dez francos e um jantar. Deixava se doutrinar durante horas. A Rua Réaumur esvaiu se. de resto. aturdidos. só tinha diante dele uma distância com obstáculos. não era mal nenhum: queria observar a táctica dos maricas no engate. sim. ela só existia aparentemente. tinham sempre um ar de se confessar culpados. quando lá entrava. dar lhes corda. e ele estragava lhes todo o prazer.» Tinha a garganta seca. «Vou até à quermesse. ternos. estupefactos. as pessoas. Os michés tomavam no por protector de um dos meninos. Não via nada. Mas nos verdadeiros pesadelos. . senão é a náusea. havia uma mancha na frente dos seus olhos. Valia a pena divertir se um bocado com os imbecis. Daniel nunca atingia o fim da rua. essa luz ignóbil que flutuava entre os muros baixos como um cheiro a cave. verificou se os rostos lhe eram desconhecidos e entrou. Às vezes provocava asma.

Daniel sufocava: era aquela poeira. Tinham tirado os casacos. além disso. sonhava com ela às vezes e acordava sobressaltado. Para Daniel era uma luz de enjoo. Lançaram olhares maliciosos a Daniel e continuaram a bater com entusiasmo. Criadinhas Devassas. Uns rapazes pobremente vestidos tinham se agrupado em volta do pugilista negro. vinte e duas figurinhas de madeira pintada espetadas em ganchos de ferro. Viu a isca à esquerda. Banho de Sol. com uma pressa desajeitada. sete jogadores de pólo. aproximou se lentamente e meteu uma moeda de um franco na ranhura do aparelho. a intervalos regulares. arregaçado as mangas das camisas sobre os bracinhos magros e batiam alucinadamente sobre a almofada. do outro lado da parede. devia ter entrado por acaso — Daniel punha as mãos no fogo — e parecia absorto na contemplação de uma grua. Colocou um franco na ranhura e espreitou pelo binóculo. lembrava lhe certa noite que passara doente a bordo do navio de Palermo. Não era com certeza um canalha como os outros. Ao longo das paredes tinham posto umas caixas grosseiras sobre quatro pés: eram os jogos. No fundo da sala havia três filas de kineramas e os títulos dos filmes destacavam se em letras negras: Jovem Casal. viu um rapaz alto e de rosto cinzento que vestia um fato amarrotado. o automóvel de lata que se tinha de empurrar sobre uma estrada de pano. junto à caixa. As horas que passava na quermesse pareciam lhe ritmadas pelo martelar surdo das bielas. aliás parecia não os conhecer. À direita. um louro. Depois afastou se e pareceu . atraído sem dúvida pela lâmpada eléctrica e pela Kodak que descansavam atrás dos vidros sobre uma pilha de bombons. ao luar. Daniel franziu o sobrolho para mostrar lhes que se enganavam no endereço e virou lhes as costas. havia uma bruma amarelada semelhante. os distribuidores de chocolate e perfume. os cinco gatinhes pretos no tecto. No fim de momentos. Daniel mergulhou na luz amarela. que parecia mais triste ainda e mais cremosa que de costume. Noite de Núpcias Interrompida. aquele calor e.Era uma trincheira empoeirada com muros caiados de castanho de uma fealdade severa e cheiro de um depósito de mercadorias. por entre casas e campos. e que se tinham de derrubar com cinco tiros de revólver. contra a luz. Uma agulha marcava no mostrador a força dos murros. Na sala das máquinas. um ruivo e dois morenos. tinham começado a dar socos. pois a claridade do dia amontoava a no fundo da sala. deserta. a carabina eléctrica. Um senhor de monóculo aproximou se de um desses aparelhos. feliz por voltar às trevas. Eram quatro. manequim de dois metros de altura que trazia sobre o ventre uma almofada de couro e um mostrador. uma camisa de dormir e alpercatas. Daniel conhecia os a todos: os jogadores de futebol.

» Ia recomeçar o pesadelo.perder se em meditações. num gesto vivo. jurei aguentar. exibindo o mesmo ar de inocência viciada. Estava ligeiramente desvairado. O aparelho tremia todo. Não devia imaginar por detrás daquele corpo magro e atraente. pensou que ia desatar a rir. Fez girar as alavancas e examinou os . «não come desde ontem. e recomeçar.» Não não devia. O guindaste pôs se a girar com movimentos prudentes e desdenhosos. «Eis o homem». O senhor avançou com petulância. Ia precisar de dias e dias para se libertar daquilo. de liberdade e de esperança.» No entanto. resistir. Daniel fazia votos para que ele ganhasse a lâmpada eléctrica. pensativo. Daniel compreendia muito bem que se podia ser tragado por um daqueles aparelhos. Mas um homem entrou. os mais românticos. com aquele gosto a eternidade. com a garganta seca de vertigem e ódio. estava cheio de vontade de pousar a mão no braço do rapaz — já sentia o contacto da fazenda áspera e usada — e dizer lhe: «Não jogue mais. procurou nos bolsos e descobriu outra moeda. Os quatro vadios voltaram se ao mesmo tempo.. depois recomeçaram a dar socos na barriga do negro. nesta luz sinistra. mas sem grande entusiasmo. «Deve usar cinta». Daniel compreendia todas as vertigens. aquele tanta vitorioso junto da parede. aquela tristeza infinita e familiar que ia tudo submergir. mas o buraco cuspiu de repente um punhado de bombons multicores. O senhor olhou os com um olhar prudente. O rapaz não pareceu decepcionado. aqueles cujo menor movimento revelava uma garridice inconsciente. aquela maré de tristeza resignada que subia nele. pensou Daniel. um amor de si próprio profundo e aveludado. mas ainda assim contente por ter resistido. pensou Daniel. e Daniel libertou se. recomeçar sempre. do qual não se excluía uma certa severidade. pensou. Aquele aparelho niquelado parecia satisfeito. pensou. que tinham um aspecto avaro e estúpido de feijões. Não aqui neste inferno. dobrando os joelhos. bem barbeado. Devia ter uns cinquenta anos. uma tez aveludada sob os cabelos brancos.» Eram os mais atraentes.. uma vida misteriosa de privações. deu um passo em frente. Daniel sentiu um arrepio familiar percorrer lhe a nuca. Daniel teve medo. J E A N P AUL SARTRE O guindaste girou sobre si mesmo com um ruído de engrenagem e estremecimentos senis. «Ele gosta». «Não hoje. todo preocupado com o seu próprio prazer. um belo nariz florentino e um olhar um pouco mais duro e míope do que o que seria necessário: o olhar de circunstância. O rapaz. «São as suas últimas moedas». perder todo o dinheiro. pegou nas alavancas e pôs se a manobrá las com convicção. coçando o nariz. «gosta de se acariciar. com aqueles murros junto da parede. Empertigou se. o busto recto e as pernas flexíveis.

Quer — explicar me? Eu não compreendo. com os seus cabelos brancos e a sua roupa clara. como se ele próprio se divertisse com o capricho que o conduzia ali. não é? — Isso mesmo — disse o rapaz. pensou. — Ponha um franco e puxe. — Sabe jogar? — perguntou o velho com uma voz doce. de o lavar e talvez perfumar. sim. Com efeito. claro que quero. sem o vestir. O rapaz ao fim de um instante pareceu tomar uma decisão heróica: empunhou uma alavanca e fê la girar com rapidez. «amassa se corno pão. Inclinaram se ambos sobre as alavancas e inspeccionavam nas sem se olharem. Encostou se comodamente à coluna e lançou sobre o senhor um olhar pesado. dando o primeiro passo. é preciso mandá las para o buraco. Acontece me entrar por acaso. após um rápido conciliábulo. temeroso. Não queria baixar se. Quatro jogadores descreveram um semicírculo e pararam de cabeça para baixo. tê lo ia visto. Esse pensamento enfureceu Daniel. mas cinzentas.bonecos com uma atenção sorridente. A seguir acrescentou: — Precisam de ser dois: um de cada lado. Jogaram. e aproximou se do miché com as mãos nos bolsos. não é? Eu tento enviar uma bola para o buraco e você procura impedir. nas gordas bochechas camponesas. mas nunca o encontrei. Daniel viu o sorriso e sentiu um baque em pleno coração. Sim. — Sim. É da província? . sem dúvida? Eu não. murmurou. Pusera o casaco sobre os ombros. «Carne de mulher». com modéstia. O senhor petulante inclinou se sobre o jogo e passou o dedo frágil no corpo magro dos bonecos de madeira. sou bom fisionomista e você tem um rosto interessante. Parecia farejar. Ensine me. Um impulso sem consequências. — Quer fazer uma partida comigo? — Eu. o rapaz de camisa de dormir tirara do bolso uma terceira moeda e recomeçava pela terceira vez a sua dança silenciosa em torno da grua. aquelas simulações e mentiras horrorizaram no e ele teve uma grande vontade de fugir. considerava sem dúvida que. que uma ligeira barba sujava. já o conhecia. sim. À direita. faz treinos? Vem sempre aqui. — Mas é preciso ser dois. um olhar de cão sob as sobrancelhas espessas. o lourinho destacou se do grupo. Mas foi apenas um instante. As bolas saem.» O senhor era capaz de o levar para casa. O rapaz parara a poucos passos do velho e fingia examinar também o aparelho. Daniel reparou eno J E A N P AUL SARTRE jado nos quadris avantajados. «Filhos da puta». — E o hábito — respondeu o rapaz. O velho disse em voz de falsete: — É muito hábil! Como conseguiu? Ganha sempre. lembrar me ia de si. era uma isca deleitável para aqueles peixinhos todos.

O senhor parou de jogar e aproximou se do rapaz. Daniel empregara o numa farmácia. o velho pôs se a falar com doçura. comprada feita. com um sorriso inocente e astuto. e o homem desviou os olhos. Bobby inclinara a cabeça sobre o ombro e fazia como os meninos. ainda tem cinco bolas. — Mas a partida não acabou — disse o rapaz. não tinha o menor interesse. o velho sairia à frente apressado. Sr. ouvia apenas as palavras «rancho» e «bilhar». Fizera se gordo e grande. — Deve ser «massa»! — disse em voz alta.A — Sou — disse o rapaz. — Tinha te proibido de voltar aqui. e deparou com o olhar de Daniel. Era Bobby. Daniel sentia se reconfortado por uma cólera seca e deliciosa. passaria por polícia de costu J E A N P AUL SARTRE mês. O rapaz não vira nada. Por mais que Daniel prestasse atenção.» — Bom dia. mostro lhe a minha carteira de funcionário. fala! — Ando à procura do senhor há três dias — disse Bobby com a sua voz arrastada —. Olhava Daniel sem responder. De boca aberta. Este fez um ar de desprezo. O velho não respondeu e lançou uma olhadela furtiva para o lado de Daniel. não sei a sua morada. — Vamos. «Se pedir os meus documentos. — Pois jogamos daqui a pouco. devorando com olhar de juiz o rosto delicado e gasto da presa. passando a língua sobre os lábios finos. olhar vazio e deferente. Voltou se bruscamente. Daniel sobressaltou se. aguardava que lhe dirigissem a palavra. O rapaz consentiu com a cabeça. em voz baixa. Lalique era um nome de guerra que usava às vezes. Fez se silêncio e. O velho para juntar se a ele teve de dar uma volta sobre si mesmo. desconcertado. pareceu inquieto. se não vê mal nisso. sem o olhar. finalmente. Ia segui lo. Pensei: «Um destes . ingenuamente —. — Que estás a fazer aqui? — perguntou com severidade. Daniel gozava de antemão a cena. Imaginava o velho de um lado para o outro no passeio. depois sairia por sua vez arrastando os pés. Lalique — disse uma voz sumida. esfregou as mãos como um padre. pois. vendo chegar de repente o rapaz acompanhado por Daniel. Se houvesse oportunidade. As suas mãos tremiam e a sua felicidade era perfeita se não sentisse a garganta seca com a sede. daria um soco ou dois no ventre do negro. O rapaz sorriu forçadamente. Aquele sorriso enfureceu Daniel. O rapaz voltaria para os companheiros com indolência. Levantou a cabeça. Prefiro conversar. assentava o nome e o endereço do velho e pregava Ihe um tremendo susto. Conhecia o ritual: parecia um adeus. usava roupa nova.

respirava lhe os cabelos com um ar de bondade. Estou sujo. — Que é que foi? — observou Daniel. «Vê me com este canalha e toma me por colega. Mas isso dar lhe ia direitos para sempre? O velho pegava na mão do jovem amigo e conservava a paternalmente entre as suas. J E A N P AUL SARTRE Daniel mostrou lhe a língua. Ele inclinava a cabeça para trás e olhava o tecto com uma expressão de humilde volúpia através das pálpebras semicerradas. a fazer previsões: «Imagina que me conhece e pode manobrar me. foi por isso que tomei a liberdade. aquele sorriso mole e tenaz de borracha. Sim.» Tinha horror a essa franco maçonaria de mictórios. engordaste. mas o outro já tinha virado as costas. Daniel deitou uma olhadela furtiva para o velho e viu com despeito que este já não fazia cerimónia. que tresandas a brilhantina. pensou Daniel com ódio. — Estás feio — afirmou —. Em todo o caso. Inclinava se sobre o miúdo. — Oh! Tu falas bem! — disse Daniel. E vê se te afastas um bocado.» Atrevia se a julgar Daniel. — Como estava encostado à coluna e não parecia de modo algum apressado. Daniel sentia se solidário com aquela mancha plácida e viva: era ele que assim vivia na consciência de Bobby. deitou um olhar de cumplicidade a Daniel e saiu a passos largos e dançantes. pensou Daniel com um estremecimento de raiva. um dia Bobby tinha lhe agradado. «Agradou me porque se parecia com um gato». e ali ficaria para sempre.dias o Sr.» «Um destes dias! Merda insolente.. Depois disse lhe adeus. — Foi porque o senhor mostrou a língua ao velho maricas — . debaixo daquela fronte estreita. pois uma certa imagem de Daniel ali se achava incrustada. desatando a rir. — Compraste uma língua juntamente com a roupa? Os sarcasmos não atingiam Bobby. dar uma voltinha.» E nada há a fazer contra isto. «Era de esperar». Bobby riu se. com uma palmadinha no rosto. preferia matar me a parecer me com esse tipo. Apesar da repugnância. «Pensam que todos o são. — Desculpe — disse Bobby sem se apressar. Daniel detestava aquela paciência inerte de pobre. Olhava Daniel arregalando os olhos gentilmente e continuava a sorrir.» — Que é que queres? — perguntou brutalmente. e essa roupa não te serve.. Daniel vem aqui. a não ser esmagá lo como uma lesma. — Estou com pressa. onde a arranjaste? É horrível como a tua vulgaridade sobressai quando estás endomingado! Bobby pareceu não se incomodar. e que ainda continuaria mesmo que lhe rebentassem os lábios a soco.

«Não perdes pela demora». que as pessoas se escandalizavam. O rapaz em camisa de dormir já não estava lá. — No princípio. Bobby para ali. — Não gostava de mim. Tinha medo da solidão. — Então puseram te na rua? — perguntou. Invadido por uma suspeita perguntou: — E a farmácia? Já lá não estás? — Não tenho sorte — disse Bobby. — Então devemos abandonar os amigos. Daniel. «E um ladrão».» — «Minha senhora». Daniel encarou o. Mas o estagiário encontrou nos juntos. — Vamos. O estupor parece gostar de coisas — disse Bobby com pudor. hem! Eles não me . — Disse: «Prefiro. é um tipo estuporado. mas lá fora não me pode dizer nada. pensou Daniel. A caixa levantou se. rindo muito alto. mas eu mandei o passear. horrorizado. O tipo louro saiu vagarosamente da quermesse. queixoso. — Bom. — Eu é que saí — disse Bobby muito digno. disse eu. disse me ele. — Já te tinha dito para não te dares com Ralph. Sr. Bateram as sete horas. Daniel estremeceu. — Começou a hostilizar me porque eu via Ralph. Então comecei a ver Ralph fora da farmácia para não ser apanhado. perguntou a patroa. Procurou com o olhar o dorso curvado e a nuca magra do rapaz em camisa de dormir. E então vomita tudo na farmácia. dizia ela. era só Bobby para aqui. — Nem por isso deixaste de engordar. — Na farmácia a senhora é quem manda. sempre brincalhão.disse Bobby. sei lá. bom — disse Daniel. «Que é que eu te disse?». mas não queria deixá lo assim de repente. «Que estou a fazer aqui?». Daniel sentiu se cansado e vazio. «na farmácia a senhora é que manda. atropelavam se.» Pan! A sala estava deserta. quando entrei para a farmácia. «proíbo que ele entre na minha farmácia. — Que é que fizeste? Roubaste? — Foi a mulher do farmacêutico — respondeu Bobby. Ao passar roçou ao de leve Daniel. que nos viu juntos. era uma loura gorda. a sorrir. só porque tivemos sorte? — atalhou Bobby com indignação.» DADE DA RAZÃO Que fazer. mas lá fora não me pode dizer nada — repetiu Bobbv com agrado. E acrescentou em tom carinhoso: — É sempre o mesmo. essa mulher era uma puta. que fazíamos coisas. com nojo.» E não tinha um tostão. ir me embora. Os três companheiros seguiram no logo depois. o ruído dos socos parara. Dirigiu se com passinhos curtos até um distribuidor de perfume e olhou se no espelho. — Via o menos. «Ou não tornas a ver Ralph ou sais daqui. fala — disse distraidamente.

no sétimo andar. — Se quiser falar comigo. E depois. Está enganado sobre o Ralph. Esfalfo me para arranjar um lugar e consegues ser J E A N P AUL SARTRE posto na rua ao fim de um mês. — Toma — disse Daniel —. Sentia se acovardado. Lalique. emprestar. — Sim? E vieste pedir me dinheiro para as primeiras despesas? Guarda essas histórias para outros. mas não faz mal. Aliás. Mentes como um tira dentes. são dados. E desaparece. — Perguntar a quem? — À patroa. com voz humilde. Lalique. Lalique. Bobby afastou se. carinhosamente. indecisos. Eu sou assim. — Estávamos com um projecto de trabalhar juntos. hem. Sr. ele compreende me. — Pode perguntar lhe. toma cinquenta. Durmo na casa de Ralph. Bobby meteu o dinheiro no bolso sem falar e ficaram um diante do outro. não penses que acredito em metade do que me contaste. Daniel aproximou se do guindaste e olhou... verás como ele não me deixa em apuros. Ralph e eu. — És um idiota — disse Daniel.quiseram pagar o que me deviam. — Já não me interessas. Bobby pôs se a fazer trejeitos. mas sentia as pernas moles. — disse Bobby com indiferença. A — Vai te embora — disse Daniel com rudeza. Depois deu meia volta e foi se embora. nós moramos aqui perto. — Ainda hoje dizia a Ralph: se eu encontrar o Sr. não posso fazer nada por ti. pensou: «Tenho de me ir embora». O corpo parecia lhe algodão. a recuar e sorrindo sempre. ele gosta muito de si. E uma aventura séria. — Vai te embora. — Queremos arranjar um comércio. — Obrigado. Na Rua dês Ours. Quanto queres? — É um bom tipo. Lalique — disse Bobby. Devolvia lho no fim do mês. Não como desde anteontem. — Disse a mim próprio: vou ver se encontro o Sr. — Se pudesse emprestar me. 6. Sr. durmo de dia porque à noite ele recebe a puta. Deu uma saída em falso e voltou atrás. — Deus me livre! Não estou disposto a ouvir as suas histórias. Ver se não estou a dizer a verdade. Quanto? — Cem francos. — Quanto queres? — repetiu Daniel. Olhou Daniel. Ao lado da Kodak e da lâmpada eléctrica havia um . ou com Ralph.

mas uma sombra suave e líquida subia da rua. sensível às grandes . pensou Daniel. Daniel viu o de longe. desgraçado! Morre de sede! «Afinal». porém não queria beber. não tivera sequer a coragem de se satisfazer. pensou. naquela luz. Porque será a vontade deles a boa. a natureza toda. tudo os aprovaria.» O porteiro estava sentado numa cadeira. Deixara se roçar pelo Mal. naquela natureza. Daniel recolheu cinco ou seis na palma da mão e comeu os. Daniel estava com uma sede infernal. Um senhor disse à mulher: — Mas isso foi antes da guerra. Em 1912. pois esmagado daquela maneira também era mal.» Mas o quê? Teria cuidado para não o esquecer. Gostaria que me tivesse seguido. o céu estava cheio de ouro. não em 1913.. permitira tudo. Tinha sido preferível deixar se esma J E A N P AUL SARTRE gar pelo prazer. Daniel estremeceu: «Se pudesse esquecer aquela direcção. E o céu. da gente de bem. «A paz.» Mas fora pior. Rua dês Ours. as árvores. pensou: «Eis o Bem. morre. Voltou se bruscamente: «É capaz de me seguir para ver onde moro. O guindaste deixou cair os ponteiros sobre o monte de bombons. Bastaria um sinal para que esses homens se atirassem contra ele e o fizessem em pedaços. como sempre. com as mãos sobre o ventre como um Buda. 6. se existia. Daniel olhou os seus rostos: eram duros apesar de um aparente abandono. A paz de boa gente. Eles bem o sabiam. estava com eles. Enfiou uma moeda no aparelho e rodou os manípulos ao acaso.. «Ser aquele tipo». que Deus. Além disso. tinha ainda na vista aquela mancha amarela. dar lhe ia uma tremenda sova na rua!» Porém Bobby não aparecia. com inveja. Devia ter um coração reverencioso. O sol derramava um pouco de ouro nos grandes edifícios escuros. No limiar da entrada de um edifício. da gente honesta.. as pessoas sorriam à carícia da sombra. Se fosse possível esquecer aquela direcção. Ganhara o dia e devia ter voltado para casa. um porteiro gordo e pálido. Ao lado dele as pessoas tagarelavam em paz com a consciência. de ombros caídos. Eu ainda estava com Paul Lucas.binóculo que não tinha visto antes. os olhos amarelavam lhe tudo. estava invadido por ele da cabeça aos pés. «não fiz nada que mereça castigo. menos a satisfação. Agora carregava o Mal dentro dele como uma comichão infecciosa. via as pessoas passarem e de quando em quando aprovava uma qualquer pessoa com um meneio de cabeça. Ralph.. Qualquer coisa naquele céu. Daniel era um homem de má vontade. aquecia se ao sol. dos homens de boa vontade. assim o tinha resolvido. e não a minha?» Assim era. eles sabiam que tinham razão. a luz. É verdade que renascia sempre.

pensou com severidade. «Aliás. A luz contribuía muito para isso. os movimentos mais difíceis.. «Com a vida que levo. mas o último passo tinha sido muito maior do que os outros. Era espantoso como as pessoas pareciam simpáticas na Avenida de Orleães. Cada novo aperfeiçoamento seria reproduzido. é indispensável. mas estava calmo e frio. ao calor. era de perguntar como ninguém tinha pensado naquilo antes. e Daniel esticou o passo. também denominado ovo de Colombo (porque é simples como tudo. à humidade. Viu com prazer um bar cor de abóbora e verificou que estava no meio da Avenida de Orleães. Não se iludia sobre os riscos. Com uma sede social.forças naturais. Ser lhe ia até muito útil.» Deitou um olhar irritado sobre a pasta. Em sindicato. Filmoteca também e fitas que decomporiam. eis o que faltava. e depois era delicioso encontrar se nos limites de Paris. «Se chegar ao passeio em treze passos. fendera se como um esgrimista. tradições. Já não sabia se tinha vontade de o matar ou de deslizar confortavelmente dentro daquela alma bem regrada. fascinado pelas longas pestanas estúpidas. O homem levantou a cabeça. não gostava de carregar aquilo. até ter na cabeça apenas uma massa branca com um perfumezinho de sabão de barba. «O que acontece». à luz. era científico. «e cursos gratuitos de psicologia do roubo. para o mercado. Daniel parou. o roubo do mostruário pelo processo 1763. resta me a esperança de me tornar indulgente o mais depressa possível. biblioteca. precisando melhor a sua ideia. uma ética. para as vielas sombrias de Saint Antoine.» Atravessou a rua.» Deu os treze passos e parou justamente à beira do passeio. ou «processo de Serguine». um pouco animado. por exemplo. Embrutecer se até chegar àquele ponto. dava lhe um ar de advogado. «é que os ladrões são uns estúpidos. ao frio. pela malícia sentenciosa das bochechas cheias.» Uma associação para o conhecimento mútuo e a exploração dos processos técnicos. era uma musselina ruiva bem ajustada. como os prestidigita dores. Mas o mau humor depressa se esvaiu porque se lembrou de que não a trouxera por acaso. isto não tem a mínima importância. pensou. pensou. «Há muito tempo que deveriam ter se organizado. mas tinha de ser descoberto). a teoria seria gravada em discos e traria o nome do inventor.» Não podia falhar. sentia se mergulhar no doce exílio religioso da noite e dos arrabaldes.» O processo assentava quase inteiramente na psicologia. Tudo se classificaria por categorias. as ruas deslizavam sob os pés para o centro envelhecido e comercial da cidade. apenas. entre as sete e sete e meia da noite. em câmara lenta. Os transeuntes parece que . «Isto dorme todas as noites». Haveria.. Boris concordaria em participar de uma fita demonstrativa! «Ah!». de qualquer maneira o negócio está no papo.

Em particular discutia sempre com todos. Boris compreendera imediatamente: é um dever fazer o que se quer. E olham os mostruários com uma admiração inocente e inteiramente desinteressada. Mathieu não era tipo que se enganasse. receoso. Não gostava dos comunistas. como se arranjariam as mulheres para atirar colchões das camas sobre os soldados? Está tudo preto de fumo em volta das janelas. com um espanto divertido. pensou. com excepção de Mathieu e Ivich. e perguntou a si próprio de onde vinham aqueles impulsos de tudo subverter que o assaltavam de vez em quando. não se zangam quando são empurrados. não. eram sérios de mais. uma necessidade de ser mau. pensou. Era escrupu J E A N P AUL SARTRE losamente livre. essas fachadas lívidas e cheias de buraquinhos negros parecem manchas de tempestade num céu azul. Que teria ido fazer aquele comunista a casa de Mathieu?». nas grades douradas do Palais Royal.saíram de casa para estar juntos. Boris coçou a cabeça. com perplexidade. não sei porquê. entusiasmado. Pois. pensou de repente Boris. pensar o que bem se entende. Mas logo parou. Certamente Mathieu não se enganara. Vejo as janelas. Boris . ensinando lhe o que era a liberdade. «Hei de vir aqui todas as noites». considerando friamente as coisas. porque eram perfeitos. mas com a intenção de comprar. seria demasiado grave agora que Boris se decidira. a multidão passa através de meu corpo. analisar permanentemente o que se pensa dos outros. Mas com janelas tão estreitas. com esses era inútil. Boris construíra a sua vida sobre esses alicerces. «Pôs me fora». no 14 de Julho. dir se ia até que gostam disso. No Bulevar Saint Michel as pessoas olham também os mostruários. Brunet então parecia um papa. veria os armários com espelho ao fundo dos quartos. ser responsável apenas perante si próprio. se pudesse subir ao tecto da marquise do bar. mas Mathieu tinha o desviado. «E no próximo Verão hei de alugar um quarto numa dessas casas de três andares que parecem irmãs gémeas e fazem pensar na revolução de 48. não era recomendável analisá la demasiado. Quanto à liberdade. «Que estupor! Pôs me mesmo fora. e eu penso em guardas municipais.» E subitamente uma violenta e rápida borrasca desencadeou se lhe na cabeça. não é triste. como se tivessem sido lambidas pelas chamas de um incêndio. «No fundo. porque se deixava então de ser livre. «Talvez Mathieu tenha percebido que seguia um caminho errado e vá entrar para o partido. resolveu Boris.» Divertiu se durante um instante em enumerar as consequências incalculáveis de semelhante conversão. devo ter um temperamento inquieto». como lagos artificiais. Na Faculdade sentira se atraído pelo comunismo.

pensou. porém Mathieu era tenaz como um piolho. repetiu Boris rindo. que o roçava com uma luz suave e perfumes cheios de saudades. haveria aquele furto. estudantes de óculos que tinham sempre reservada uma teoria pessoal e acabavam por perder. engasgava se. mas por agora confiava em Mathieu. aquele mar tropical que recuava deixando o sozinho sob o céu pálido. E depois a atmosfera cheirava a uma melancolia levíssima do dia envelhecido que agonizava devagar em volta dele. raciocina como um cabo de vassoura». exactamente como se Boris se tivesse vangloriado de ser um génio. Interrogou se também se era moral ter um temperamento inquieto. Era um suplício. o mecanismo funcionou com um ruído sibilante e cuspiu um bilhete: cinquenta e sete quilos e meio. dançaria. Mais tarde sim. exactamente entre o dia e a noite. o estupor. ele ia ao Sumatra. fazia o possível para que Mathieu não percebesse. não queria perder e preferia calar se a passar por tolo: era menos humilhante. os falsos espertos. veria Ivich. por causa dos tipos que folheiam os livros. Subiu para a balança automática e pesou se para ver se não tinha engordado desde a véspera. era uma etapa. Boris achava indecente um camarada da sua idade pensar por si. Parou diante do espelho de uma bela farmácia vermelha e olhou a sua imagem com imparcialidade. que desempenhara esse papel durante três . não têm jeito para nada e são detectives particulares. gaguejava ligeiramente. Já vira muito disso na Sorbona. Boris tentava desviar a conversa. No entanto. as teorias eram idiotas. A Livraria Carbure tinha seis. Boris acabava por dizer tudo. Achou se simpático. olhava para os pés. Desceu da balança e continuou a andar. Mathieu corava. Ficou confuso por momentos: quinhentos gramas! Mas percebeu que tinha a pasta na mão. Sentia se de excelente humor e como que aveludado por dentro. «Estupor». Perguntaria a Mathieu. e o pior é que Mathieu ainda por cima o descompunha. Tinha de ter cuidado. E viu os prós e os contras. Era o seu ofício. Empertigou se e apressou o passo. E dali a pouco. veria Mathieu. Boris tinha uma ideia. A noite ia cair. de uma maneira ou de outra. mas este percebia sempre. Demais. «Sou modesto». e enchia o de perguntas. «É completamente idiota. Boris tinha horror ao ridículo. Uma lâmpada vermelha acendeu. Aquele dia. e dizia lhe: «Você tem qualquer coisa na cabeça». angulosas. sempre se tinha alegrado quando Mathieu se punha a pensar. Cinquenta e sete quilos para um metro e setenta e três estava bem. aquela obra prima. Aliás. mais uma pequenina etapa. Boris sabia o por intermédio de Picard. às vezes.sentia se satisfeito e balançou alegremente a pasta. olhava os dedos. mas era afinal um trabalho sóbrio e elegante. mas não quis levar avante a investigação.

pois gostava da palavra thesaurus. mas ainda ficar de espreita para apanhar os ingénuos. por exemplo. os tipos de monóculo. disse aborrecido. para se manter em contacto com a realidade. Mais valia roubar uma caixinha de pastilhas de alcaçuz sob o olhar do farmacêutico que uma carteira de cabedal de uma loja vazia. oitenta improvisam. Boris sentiu se «embriagado». E depois havia um momento de inteira satisfação. um herbário. às vezes as informações obtidas eram falseadas. tivera de o fazer porque os pais lhe tinham cortado a mesada. Até ali não tirara nenhum proveito material dos seus empreendimentos. em cem ladrões. rapidamente. a cinco é preciso que a escova esteja no meu bolso. «Aquele thesaurus!». mas o que sabia aprendera com método. levá lo ia para a biblioteca da Sorbona e de vez em quando. Ia abrir uma excepção aos seus princípios.» Ficava com um nó na garganta e uma extraordinária impressão de lucidez e de força. mas deixara o logo.» Ele não improvisava. enojado. possuiria aquela jóia. . «vou dormir a casa de Lola esta noite. como um inspector vulgar. e extorquiam lhe cem francos com a ameaça de um processo. aquele tesouro indispensável. murmurou. pois sempre considerara que quem trabalha com a cabeça deve ter um ofício manual também. «Será meu. o interesse seria o móbil do roubo.dias depois de ter reprovado em Geologia. a tenaz de lareira e o ovo de passajar. para o fundo de um corredor. Fausto e os cintos de castidade do Museu de Cluny. era uma ascese. nem os vinte francos. poderei consultá lo a qualquer hora do dia ou da noite». um escritório sombrio. ao interromper o trabalho de revisão. Neste ponto estava de acordo com os antigos espartanos. «Essa gente não sabe fazer as coisas. o mais tardar. «Ora». e. daria uma olhadela para se distrair. a bússola. a ele não o apanhavam. Ia colocá lo naquela mesma noite sobre a mesa de cabe ceira e na manhã seguinte o seu primeiro olhar seria para o livro. Sorriu. Por certo não sabia tudo. havia de os vingar. O que lhe importava em cada caso era a dificuldade técnica. Abelardo. Naturalmente os infelizes perdiam a cabeça. era quando dizia: «Vou contar até cinco.» Em todo o caso. eram então levados. Não somente era J E A N P AUL SARTRE preciso espiar. O benefício do roubo era exclusivamente moral. como as páginas não estavam cortadas. que lhe lembrava a Idade Média. pois não se podia considerar lucro as dezassete escovas de dentes que possuía. que se aproximam timidamente do mostruário. Dentro de meia hora. pela primeira vez. ao passo que agora era forçado a consultá lo de passagem nos mostruários. Tinha de cair lhes em cima de repente acusando os de terem tentado enfiar um livro no bolso.

teria as suas ideias próprias. Que podia invocar contra o roubo. Mas Mathieu. A Rua Denfert Rochereau aborrecia o muito. chegaria ao milhar. não se roubam os íntimos. ele dizia que sim para a irritar. Uma rua? Era apenas um buraco com casas de ambos os lados.» Boris não tinha nenhuma vontade de que esse dia chegasse e achava que era perfeitamente feliz.» E ele respondia: «Quem sabe.» Não. pensou Boris.Decidiu se a aprender uma locução por dia. mas não podia mudar ao mesmo . não estava ainda maduro. Atravessou o Bulevar Raspail e entrou pela Rua Denfert Rochereau. depois sacudiu a cabeça e disse: «É estúpido!» Dentro de cinco anos. o que se podia considerar muito bom. não contaria nada. quem sabe. mas era normal. mas não era desprovido de bom senso e sabia que isso era uma necessidade. é porque não tinha jeito. Teria de mudar. Se ela própria não roubava. A Ivich sim. as de Mathieu parecer lhe iam ingénuas e antiquadas.. é fácil de mais. com excepção de uma tinturaria escura com cortinas cor de sangue que pendiam lamentavelmente como cabeleiras escalpadas. J E A N P AUL SARTRE O sangue subiu lhe ao rosto. Mathieu era uma etapa. «Sim. mas Boris não tinha muito a certeza de que ele os aprovasse. Com as quinhentas ou seiscentas que já conhecia. ela compreenderia. ele vai ficar doido. se houver uma oportunidade. Ria com indulgência quando Boris lhe falava. e tirou dessa verificação algum conforto. Ela dizia lhe: «Eras capaz de roubar a tua mãe. talvez por causa dos castanheiros. «Tenho de contar isto a Mathieu. Não compreendia o que Mathieu podia censurar lhe. com um vago mal estar. uma olhadela amável à tinturaria e depois mergulhou no silêncio louro e distinto da rua. seria o seu próprio juiz. havia na sua admiração algo provisório que fazia que ela fosse imensa. sete anos. como Lola. ao passar.. mas o metro passa aqui em baixo». Mas Mathieu não se mostrava muito à vontade nessas histórias de furtos. em seis meses seriam trezentas e sessenta. talvez duas.» Naturalmente isso não tinha sentido. detestava a mania de Lola de ligar tudo a si própria. Não era compreensível. Contaria também a história a Lola para a chatear. Aliás era um recanto sem carácter. de deixar para trás uma multidão de coisas e de gente. não podia entender certas subtilezas e depois era um bocado avarenta. Mathieu era tão perfeito quanto possível. um dia também me hás de roubar a mim. imaginou que caminhava sobre uma fina camada de asfalto e que talvez ela fosse ceder. Boris deitou. desde que fosse efectuado dentro da regra? Essa censura tácita de Mathieu preocupou o durante alguns instantes. «Nem sei se ainda nos veremos. e nos momentos em que Boris mais o admirava. mas sem servilismo. Lola ficava doida com isso.

como um ladrão. Havia duas manchas de ferrugem na lâmina. Depois. tudo o que não fosse o brilho frio da lâmina deixou J E A N P AUL SARTRE de o interessar. aproximou se da terceira mesa. na montra. Tinha como princípio agir friamente. Era uma verdadeira navalha espanhola. tão grande que Boris ficou desanimado durante uns momentos. Daqui a pouco. tudo triste. mola.°. Mas bastou lhe olhar o título dourado que luzia docemente para sentir voltar lhe a coragem. queria largar tudo. comprar a navalha e fugir. mas o sentido do dever dominou o. com o coração contraído de desejo. de lâmina espessa e comprida. Boris verificou com uma olhadela onde se encontrava o senhor de bigodes ruivos que rondava amiúde por ali e que desconfiava ser um detective. na maioria. com olhos de lobo. era perfeito de mais. parecia sangue. a olhar os objectos uns após outros. Diante da livraria tinham colocado seis mesas cheias de livros. A navalha descansava aberta sobre uma prancheta de madeira envernizada. Dicionário Histórico e Etimológico da Linguagem Popular e do Calão desde o Século XIV até à Época Contemporânea. Era sempre agradável atravessá la por causa dos autocarros que se precipitavam sobre as pessoas como enormes perus e evitavam nos por um fio. papel encorpado. «Uma navalha espanhola!». «Vai ser preciso enfiar isto na pasta». metodicamente. Setecentas páginas. cabo de osso preto. murmurou. com um solavanco do corpo. «Que não tivessem tido a ideia de guardar o livro precisamente hoje!» Na esquina da Rua Monsieur le Prince e do Bulevar Saint Michel. sombrinhas verdes e vermelhas. enorme. como recompensa se tiver bom êxito. elegante como um quarto crescente. O livro ali estava. parou. in 4. Estes pensamentos aborreceram Boris e sentiu se satisfeito por chegar à Praça Edmond Rostand. de ocasião. Hei de comprá la daqui a pouco. já não podia mudar. Impôs a si próprio a obrigação de permanecer imóvel diante da loja de um negociante de guarda chuvas e de cutelaria. sucumbido. não era prudente chegar de rosto corado pela esperança. entre dois guarda chuvas. entrar na loja. A Livraria Carbure achava se instalada na esquina da Rua Vaugirard com o Bulevar Saint Michel e tinha — o que auxiliava as intenções de Boris — uma entrada em cada rua. gemeu Boris. lamentável. Boris contemplou a longamente e o mundo perdeu a cor à sua volta. alguns em forma de cabeça de buldogue. carregando a sua presa. pensou. e ainda por cima Boris pôs se a pensar nas pessoas idosas que compravam aqueles objectos. «Oh!». . «Picard há de me ensinar a atirá la». tremendo de prazer. Ia atingir um estado de resolução fria e sem alegria quando viu de repente uma coisa que o mergulhou de novo no júbilo. guarda chuvas de cabos de marfim. Queria dominar a sua impaciência.tempo que Boris.

é um móvel. para: ser levado a apreciar.. Pegou no volume com as duas mãos e ergueu o até aos olhos. De costume. surpreendeu Boris a folhear o dicionário de calão. Era Daniel Sereno. como que de propósito. e isso iria ter por certo aos ouvidos de Mathieu. Tinha um riso quente e agradável. Atrás dele certamente o senhor de bigodes devia estar a espiá lo. naquela camisa de linho. Diz se também: "ser do homem". Por honestidade de espírito. Devia estar a preparar algum golpe sujo. Mas era evidente que Sereno considerava que tudo lhe era permitido. Boris abriu o dicionário ao acaso. Era necessário iniciar a comédia.. Locução usada comummente hoje em dia. Boris admirou lhe a desenvoltura.» As páginas seguintes não estavam cortadas. Boris apreciava a elegância sóbria e despreocupada. mas era preciso desconfiar. Mas tinha um ar de sacana. pensou Boris. folhear o volume. Boris irritou se e resolveu observá lo severamente.» Em seguida tornou se repentinamente sério e começou a contar: «Um! dois! três! quatro!». e Boris . Mas o conjunto era inatacável. «Não é um livro. tomar uns ares de interessado que hesita e acaba por se deixar tentar. — Parei um pouco ao passar — respondeu de maneira embaraçada. Havia sem dúvida naquele fato de tweed quase cor de rosa. enlevado: «O cura era da coisa como um zangão. uma ousadia calculada que chocava um pouco Boris. confessou que Sereno era perfeitamente elegante. os que folheiam livros deixam nos sobre a mesa com receio dos detectives particulares. apesar de suave como manteiga fresca. — Bom dia — disse Sereno —. Sereno não respondeu. Tocou na encadernação com a ponta dos dedos. Sereno desatou a rir. Leu: «Ser de. parecia mergulhado na leitura. com sangue frio. «Apanhado».. que troçaria dele. «mas agem cedo de mais.. mas fingindo se indiferente: J E A N P AUL SARTRE — É uma obra curiosa. isso tinha. num gesto familiar e terno. Boris vira o duas ou três vezes e achava o admirável. Traduza se: o cura apreciava a bagatela. não podem provar coisa alguma.» Voltou se devagar. Boris largou a leitura e pôs se a rir sozinho.«Histórico!» repetiu Boris com êxtase. Devia ser ligeiramente míope. que está a ler? Parece fascinado. Na verdade mostrava se até amável de mais. naquela gravata amarela. Não tinha o ar de sacana habitual.. Uma mão pousou lhe sobre o ombro. pensou. Sereno sorriu. Exemplo: O cura era da coisa como um zangão. Esta locução parece originária do Sudoeste da França. E depois. enquanto uma alegria austera e pura lhe fazia o coração pular. com admiração. Repetia. um amigo de Mathieu. Boris murmurou com uma voz engasgada.. por "ser invertido".

— disse Boris sem fôlego. Os olhos eram incomodativos.. não. Virou a cabeça e fez se um silêncio difícil. sacudir. mas cheios de ângulos. daquilo de que gostava. descobria se neles qualquer coisa de duro. — Sim. — Ser do homem! É um achado de que me servirei oportunamente. tinha vontade de se agitar. gelado. Deve ser muito hábil. estou frito. — Você é do homem. Além disso. mas quando se olhava melhor. que se sentiu corar pela segunda vez. — Está a estudar Filosofia. não estava apressado.. «Está a querer pregar me uma partida». Boris escutava atentamente. «Oito e um quarto».» A Livraria Carbure fechava às oito e meia. À primeira vista pareciam imbuídos de ternura. Sereno tinha uma voz de baixo muito agradável. Detestava falar. atabalhoadamente. — Imagino que gosta disso — continuou Sereno. quase de maníaco. Era impudico. Sereno surgia sempre fora de propósito. Disse: — Confesso que não percebo nada de filosofia. desesperado. Você deve perceber. e manteve se atento. mas porque é que não se vai embora?» Aliás Mathieu prevenira o. «Se ele não se for embora imediatamente. pensou que convinha falar o menos possível. Pensou: «Estou a ser estúpido. Queria perguntar a Sereno o que entendia por «gestos cheios de ângulos». Ao passo que você. Estava contente por ter um pretexto para romper o silêncio. É sempre interessante ouvir alguém explicar como nos vê. pensou Boris. mas não se atreveu. pensou Boris resignadamente. e Boris parou. — Não core — disse Sereno (Boris sentiu se cor de sangue) — e saiba que um tal pensamento nem sequer me passou pelo espírito.achou o simpático porque abria inteiramente a boca quando se ria. Serguine? — Eu. Os seus gestos são vivos e precisos. o que fazia parte da sua natureza demoníaca. sentia nascer dentro de si uma estranha e descon certante doçura. Estava a observá lo há um bom bocado e estava seduzido. além disso. Sei quando um tipo é do homem — a expressão divertia o visivelmente —. E. estudo Filosofia — respondeu Boris. creio eu — continuou Sereno. pensou com angústia. os gestos têm uma moleza harmoniosa que não engana. Largou o livro sobre a mesa. — Sim — disse Boris. Tinha a impressão de que Sereno desconfiava daquele J E A N P AUL SARTRE . «Vai imaginar que sou um idiota». — Ser do homem! — disse Sereno. pular para fazer com que aquela vertigem de doçura se dissipasse. Sereno não parecia com vontade de se ir embora. — Um pouco — atalhou Boris. Mas naquele instante o relógio da Sorbona soou. sob aquele olhar insistente.

gostava muito daquilo. Você não possui cara de discípulo. não duvido. aquele alto e louro que partiu há dois anos para a Indochina. Ele sabe de mais para mim. Boris sentiu se magoado com o tom irónico. e suspeitou que Sereno queria levá lo a falar de Delarue. Sereno olhou o com uma expressão atenta e penetrante. e uma dissertação filosófica. Recruta os seus discípulos entre os próprios alunos.pudor e voluntariamente se mostrava indiscreto. Até de Kant. por cima da folha branca. Sereno riu francamente. parecia me que nem já sequer compreendia a minha própria pergunta. Pedi lhe várias explicações. Boris punha se a trabalhar ao lado de Mathieu.» Depois ficava durante um bom momento a sonhar. Pensava em Hourtiguère. — Mathieu falou me dele — observou. perfeitamente idiota. Só que somos velhos amigos e eu imagino que ele reserva as suas qualidades pedagógicas para os jovens. Boris teve de reconhecer que o golpe atingia o alvo. — Eu não sou discípulo dele — disse Boris. secamente: — Mathieu explica muito bem. Mathieu tomava às vezes um ar compenetrado quando Boris ia ter com ele ao Dome e dizia: «Tenho de escrever a Hourtiguère. aplicando se como um recruta que escreve à pequena lá da terra e desenhava silhuetas no ar com a caneta. Boris. eu perdia o pé. Boris irritou se. evidentemente. vira apenas uma fotografia que o mostrava como um rapagão infeliz vestido com calças de golfe. nada sabia dele. mas revoltou se e disse. No entanto. sentia por ele uma piedade misturada de uma ligeira repulsa (aliás. Deve ter ouvido A falar dele. e Sereno acrescentou com vivacidade: — Estou a brincar. há dois anos era a grande paixão de Mathieu. que ainda se arrastava em . e Boris mordeu os lábios com despeito. Pelo contrário. não sabia. Admirou Sereno por se mostrar tão gratuitamente sacana. Eu estudei. e a sua admiração por Sereno aumentou. Era verdade. Mas a mini não souberam torná la agradável. estavam sempre juntos. Sereno sorriu e disse: — Vê se logo que não é um amor puramente cerebral. a fim de repeti lo mais tarde a Mathieu. — Não duvido. Não tinha ciúmes de Hourtiguère. como toda a gente. — Porquê? — Não sei — disse Boris. mas gostaria de lhe ter dado um soco na cara. em geral. Na verdade acho que tem sorte. que Mathieu conhecera antes de o conhecer a ele. — Não estava a pensar em si. mas com ódio. Creio que foi Delarue quem me fez perder o gosto pela filosofia. mas quando principiava a dá las. Detestava aquele tal Hourtiguère.

Pensou com uma resignação fria que deviam ser oito e vinte e cinco. era uma permanente impressão de perigo. Não um sábio. absolutamente nada. Riu como que assaltado por uma ideia agradável. — Ora. não quero incomodá lo. Sereno parecia ter se instalado.cima da mesa de Mathieu). — Tinha de ter idade sobre mini. — Diga me. Mas tinha um olhar estranho. — «Nosso» projecto. Boris não respondeu. — Mas sim! — disse Sereno.. que devia ser muito mais inteligente do que ele próprio e lhe faria por certo imensas perguntas embaraçosas. e era divertido conversar com ele porque tinha de jogar com firmeza. Gostaria de acompanhar Sereno até o Harcourt. Desculpe tê lo . Sereno encolheu os ombros. não seria divertido se eu tivesse algumas lições consigo? Boris olhou o. se imaginasse que um dia ele pudesse vir a dizer a um jovem filósofo. que Mathieu fosse apenas uma etapa na sua vida — e isso já era bem penoso —. — Estou persuadido que sim. — Você intimidar me ia. Apoiava se com ambas as mãos à mesa. se necessário. foi o que me faltou.» Admitia. Sereno continuava a sorrir. vejamos. — Um iniciado. A Boris observava com angústia um caixeiro da livraria que começava a empilhar os livros. — Sou muito preguiçoso — disse Sereno. mas o sentimento do dever venceu o: — É que estou com pressa — disse num tom que a tristeza de não aceitar tornara cortante. desconfiado. mas não podia aceitar ser ele próprio uma etapa na vida de Mathieu. — Muito bem — disse —. com aquela expressão compenetrada e melancólica: «Hoje tenho de escrever a Serguine.. Era um tipo esquisito e admiravelmente belo. parecia encantado com a ideia. Devia ser uma armadilha. Ficaria estrangulado de timidez. a dar lições a Sereno. Boris mal o podia olhar de frente. O rosto de Sereno mudou. — Os que estudaram Filosofia afiguram se me ter tirado dos estudos grande alegria. Boris não pôde deixar de se rir e confessou francamente: — Acho que não saberia fazê lo. Mas por nada deste mundo desejara que Mathieu o tratasse mais tarde como tratava agora Hourtiguère. Não se via. numa atitude indolente e cómoda. Preferia nunca mais ver Mathieu. Debateu se por momentos. dispõe de um minuto? Poderíamos tomar alguma coisa ali em frente e falaríamos do nosso projecto. Um tipo assim como você. J E A N P AUL SARTRE — Lamento amiúde ser tão ignorante neste terreno — continuou. mas que levasse a sério as coisas.

ligeiramente arqueado. não sei. de fazer suar de raiva. Ah! uma pequena cabeça nada mais. menina. As palavras fugiam. vai passear esses modos de comunhão solene. DADE DA RAZÃO como se fosse apenas uma transparência. desmontado. dois. essas palavras.. cumprimentos a Mathieu. como se ele não fosse para os outros um corpo ligeiramente gordo. já não se dava ao trabalho de ser delicado no fim. não me tinha enganado. e ele não tinha defesa. foi bom». quatro. Passos. «Muito bem. e enfiou as unhas na palma da mão. quer um bombom.» Parou tão bruscamente que uma senhora chocou com ele com um gritinho. — Um. sem memória e sem consequência. ele teria ido dizer tudo a Mathieu e ter se iam rido de mim. precioso como um burro carregado de relíquias. Imbecil. olhos cor de avelã. os passos soavam dentro da cabeça. explicando o meu temperamento. é afectado. «Ele falou lhe de mim! Era uma coisa in to le rá vel. Daniel fugia de um corpo frágil. felizes. Tinham no julgado. pensou Boris.detido tanto tempo. se tivesse cometido a loucura de me interessar por ele. tudo era preferível ao J E A N P AUL SARTRE silêncio. cinco.. «uma excelente lição. Aos cinco pegou ostensivamente no livro com a mão direita e dirigiu se para o interior da livraria. A mãe proibiu me de falar com desconhecidos. de boca aberta naturalmente. que subia o Bulevar Saint Michel. um jovem monge. atirou lhe o lenço. um rosto austero e atraente. ser apenas esses passos. a mãe não deixa. um desses antros infectos que tresandam a roupa suja.. Acompanhou com um olhar inquieto os largos ombros de Sereno. pensou satisfeito. Uma avalancha de palavras que fugiam de todos os lados. tenho a certeza de que ele os previne contra mim. E aquele olhar que me deitou. não sei.. imaginá los ambos bem dispostos. com ar profundo. os cafés e teorias. de lhe falar com confiança. não sei e como o havia de saber. sem se esconder. uma beleza . três.» Daniel repetiu: «De morrer a rir». Voltou se bruscamente e partiu: «Tê lo ia magoado?». arregalando os olhos e pondo a mão em concha no ouvido para nada perderem do maná divino. um monge russo. quando lhe disse que não compreendia a filosofia. Mathieu deve tê lo olhado por baixo. num café de Mont parnasse. estou contente por me ter mandado passear. Alioscha. e barata. Depois pensou que não podia perder nem mais um momento. Ora. leva o ao café e o desgraçado engole tudo. com bochechas já pesadas. Adeus. é de morrer a rir. Tenho a certeza — já o tinha pressentido na época de Hourtiguère —. não desconfiava de nada. se tivesse podido existir naquele dia como nos outros dias. o pobre cordeiro! Mathieu faz de sultão na classe. gosta de filosofia. dissecado. constrangido. como hóstias. não sei. palavras.

como uma rua deserta na madrugada. esta luz grega e bem doseada. Quando encontra alguém são duas pessoas para as quais eu existo. olhando me muito. apagar. seria preciso correr por toda a parte. A solidão era tão total sob aquele céu. somente os passos lhe ecoavam na cabeça. Sereno. e talvez. bem no fundo do silêncio havia o rosto de Serguine. acariciante como uma consciência limpa. tirava tanta vaidade dessa vitória que durante um segundo esqueceu se de se dominar. Silêncio pesado e vazio. Estendeu me a mão da primeira vez. estava lá dentro.° 6 da Rua dês Ours. com Ralph. eu raspei Marcelle até aos ossos. Mora no n.oriental que fenecia. Não devia ter deixado de falar. Sereno.» Endireitou a cabeça.. Sereno aquilo. E não vai privar se desse prazer. no fundo daqueles olhos. acariciava o seu ódio: «Mas cuidado. não é uma consciência. o desfile de palavras reiniciou se: odiava Mathieu. visto que me conhece há quinze anos e é o meu melhor amigo. julga se Goethe. Não. por detrás daquela fronte obstinada. produziu se um rasgão na trama das palavras. é um psicólogo. que não faz perguntas a si próprio.» E eu olhei a também fixamente. «Aí está um camarada que deve achar muito natural existir... Palavra de honra. Ele não é cego. raspar. ninguém.. sabe ver. e depois cem... e depois nove. devia ser o pesadelo de alguém. se estendeu. e Mathieu roubara lha. Sorriu com satisfação. ele está em casa. não devia. como uma chaga.. senão prego te uma boa partida. Bobby é um camarão. Ralph sabe. Ah!. O vento caíra. de alguém que acabaria por acordar. olhava os transeuntes nos olhos. e disse: «Mathieu falou me tanto de si. J E A N P AUL SARTRE Doce rosto obscuro. era o que lhe deixava. Sereno isto. Felizmente a cólera irrompeu. estava fascinado.» Pensou: «A minha última possibilidade. este céu virtuoso foram feitos para ele. e depois três. que fervor não seriam necessários para iluminá lo ligeiramente. tem o direito de falar de mim.» Uma nova onda de cólera . Pensou: «Eu teria podido. raspar um por um. lavar. Mas Bobby sabe. cobriu tudo. vangloria se disso. um sorriso cruel. Ralphs e Bobbys. rasgão que se ampliou aos poucos. Ah! se ele morresse! Mas qual! Passeia livremente com a sua opinião a meu respeito dentro da cabeça e infecta todos os que se aproximam dele. arranja discípulos se isso te diverte. puta! Agora ela já não acredita numa só palavra do que ele diz de mim. mas não contra mini. «E daquele pobre rapaz ele fará um macaco amestrado!» Caminhava em silêncio. negligentemente. eu existia naquela carne. o corretor Sereno.» Era a última. se tornou silêncio. no meio daquela multidão atarefada. que paciência.. Mathieu não. a cólera hesitava. sentiu se reanimado por uma raiva alegre e a fuga recomeçou. que ele se sentia espantado de existir. se se pudesse viver entre cegos. nunca está só.

e de repente a ideia surgiu.avolumou se. Ela não ousaria dizer lho. «Em suma». «eu sou o anjo da guarda. ela no fundo do seu quarto cor de rosa desejasse ardentemente ter um filho. «Sou mau». alerta. essa alegria que não parava. A maldade só se mantinha em equilíbrio a toda a velocidade. se enquanto ele percorria as lojas de ervanários. voava. destacava se de repente de si próprio e partia como uma flecha. um arcanjo . não. eufórico. O pensamento saltou lhe à frente. vou estragar lhe a vida». não podia parar. calmo. resignado..» Seria divertido se ambos não fossem da mesma opinião a esse respeito. acabado. o seu rosto franco de boa fé. sou um sacana. mas.» Foi um arcanjo. a velocidade agarra pela nuca. aguda. «Vai casar se?» E Mathieu resmungaria: «As vezes têm se certos deveres. pensou Daniel. só lhe resta arranjar um filho. seria um grande serviço que lhe prestaria. entregue à alegria de se sentir terrível.. «Mathieu. Depois disso que descanse sobre os louros. é jovem ainda. Mas se houvesse uma só possibilidade de ela desejar o filho. talvez eu pudesse ajudá lo a reflectir. coitado. à direita e à esquerda. Era o rosto de Mathieu..» Era tão vertiginoso aquele repouso lânguido de uma consciência pura.. como uma bicicleta. seca como um choque eléctrico. tem a consciência do seu lado. mas a corrida continuou mais rápida ainda. barreiras que se quebravam secamente como galhos mortos.. de uma insondável consciência pura sob o céu indulgente e familiar... transbordando de alegria. rutilante: «Mas.. a cair em si. têm a honra de participar. masculina. A maldade era uma impressão extraordinária de velocidade. com que Marcelle lhe dissera uma vez: «Quando uma mulher está perdida. aumenta a cada minuto.» E a cara de Serguine quando Mathieu lhe fosse participar o casamento. é intolerável e delicioso. Havia qualquer coisa que tentava timidamente renascer.. Não é mau. E da raça de Abel... rola se sem travões. «E se ela não quisesse. pedir lhe ia amanhã mesmo que casasse com ela. «Mathieu é um homem de bem. pensou. e era embria gante essa alegria transpassada de temores. derrubando os frágeis obstáculos surgidos no caminho.» Mas os miúdos não compreendem este tipo de dever. soergueu o.» Recordava se da expressão. já não pisava o chão. fazer com que as coisas não lhe fossem tão fáceis. uma vida inteira para se felicitar pela boa acção.» O Senhor e a Senhora Delarue. um amigo comum para lhe dar coragem. no entanto se houvesse um bom amigo. rude.. o desprezo do rapaz. Pois então tem de casar com Marcelle. «Ter ainda discípulos? Um chefe de família não encontra facilmente quem apanhar. o anjo do lar. seu espanto esmagador. finalmente calmo. mas.

e o negro precipitou se ao seu encontro com o boné na mão. Duffet.» Sentia se livre como o ar. concedia a si próprio todas as licenças. Mme. revolta. vou me embora — acrescentou. — O meu maior prazer é que os aprecie — disse Daniel. gaúchos de camisa de seda tocavam em cima de um estrado. No limiar da porta. Mathieu hesitou. — Vou arranjar a cama daqui a um minuto — disse Marcelle. No fundo da cave. Leu «Sumatra» em letras de fogo. Fugiu com a vivacidade de uma rapariguinha. e não de desespero. imóveis e correctas. ficavam apenas as palavras. era preciso virá la e revirá la. gracioso.» Imaginava lindos desastres. Diante dele havia pessoas de pé. «Rua dês Ours. Quando saiu. Inclinou se sobre a mão de Mme. com manchas violáceas. entrou. suicídio. Cheirava a homem. E de repente aconteceu. «Nada mais tenho a fazer senão deixar me viver». Deixo te com o teu arcanjo. Tratava se de uma pequena miséria. não era absolutamente isso. — Arcanjo — disse Mme. farejá la com circunspecção. mas a imagem desapareceu logo e foi Bobby quem voltou a aparecer. que pareciam esperar qualquer coisa: dançavam. 6. De vez em quando. modesta. Duffet. com voz profunda. Miguel e na mão esquerda um pacote de bombons para Mme. não. como a um incurável. outras saídas extremas. Mas a ideia voltava depressa. e Daniel . como pela manhã quando ficamos de pé sem saber como nos levantámos. enternecida. por momentos. desceu os dezassete degraus da escada e estava numa cave escarlate e rumorejante. um corpo alto e desajeitado. e as palavras não eram desprovidas de certo encanto sombrio: «Um tipo lixado. A grande mercearia da Rua Vercingetorix estava ainda aberta.» Era uma ideia nova. tinha o coração ainda cheio de preguiça e de noite. como na missa. tranquila. as toalhas manchadas de um branco duvidoso. Duffet acariciou lhe os cabelos e afastou se. Recordou. um arcanjo justiceiro que enveredou pela Rua Vercingetorix. beijando Marcelle na testa. estraga me com mimos.de ódio. A carne era enrugada. Duffet e beijou a. era a noite. Ainda me zango. um tango. u ma grande flor cor de malva subia para o céu. era até confortável! Mathieu tinha a impressão de que acabariam de lhe conceder todas as licenças. Ouviu ruídos. tinha na mão direita o gládio de fogo de S. Não era isso. havia muitos homens na sala. Afastou a cortina verde. — Bom. um rosto magro inclinado sobre um livro. Marcelle enlaçou a pela cintura e reteve a durante um segundo. filha ingrata. Mathieu passeava nessa noite e pensava: «Sou um tipo lixado. Pelo contrário. Mathieu perdia a. — É demasiado gentil. — Não. pensou.

Empertigou se ligeiramente e deitou um olhar ao espelho. Pigarreou. O gesto desajeitado e sem pudor irritou Daniel. Você tem um ar muito mais interessante! — Nunca se sabe quando você fala a sério — disse. Marcelle riu se. — Eu também vou perguntar porque se está rir — disse ela. Irritava o que ela se mostrasse tão contente. Olhe que não está com a minha mãe! Acrescentou: — Mas era uma bela rapariga. Mas via se que estava lisonjeada. mas não se sentiu aliviado. com rancor. e que se esvairia ao menor gesto. — Porque fez um gesto de rapariguinha para se olhar ao espelho. Ele sorriu. pensou. «A máscara da gravidez». — Nunca deixa de lisonjear! . — Tenho uma coisa para lhe mostrar. não é verdade? — Gosto mais de si agora — disse Daniel. Sentia sempre uma certa angústia ao encontrar se à beira dessas longas conversas cochichadas e ter de mergulhar nelas. Havia naquela vaidade uma boa fé infantil e desarmada que contrasva com o seu rosto de mulher de trabalho. enrolada sobre a cama.. — disse.acompanhou com um olhar frio a sua silhueta miúda.. amuada. mas não mudou nada.. Era Marcelle com dezoito anos. Olhava o com uma ternura de proprietária. Daniel ergueu os olhos e percebeu lhe o olhar ansioso. No entanto era magra. parecia satisfeita de tê lo para ela sozinha.. Ela levantou se. Virou se para ela e viu que lhe sorria. sim. que sempre quis saber como eu era quando era jovem. Parecia uma marafona de boca mole e olhos duros. Daniel pegou lhe. — Diverte me sempre vê lo com a minha mãe. «Vou ter asma». pensou Daniel. Você é irresistível. — Mudei. E aquela mesma carne flácida. Foi buscar uma fotografia que estava sobre a lareira. flutuando como um vestido demasiado largo. É tão comovente quando por acaso se ocupa de si mesma. meu querido arcanjo. A porta fechou se. é uma vergonha não poder deixar de seduzir os outros. Marcelle corou e bateu os pés. — Você. — Que é que a faz sorrir? — perguntou. estendendo lha. tinha um vago receio de ficar a sós com Marcelle. Marcelle era um odor espesso e triste. — Era encantadora — disse com prudência —. lisonjeiro. Sabe muito bem que mudei. — Tinha qualquer coisa de mole na boca. Tivera a impressão de que ela nunca sairia.

— Ele. Um silêncio incómodo pesou sobre ambos. — Ouça.» Já não se tratava de . «Ei la nua. — Marcelle — observou —. O quarto era uma fornalha.» Estava em boas condições para o momento oportuno. mas tinha a cabeça agitada por pequenas sacudidelas rígidas.Riram ambos. Ele avançara o busto e encarava a com uma expressão preocupada.. Ela devolveu lhe o olhar. — Muito cansada! Observava a há pouco enquanto a sua mãe contava a viagem a Roma. é tão importante e queria esconder me? Já não sou seu amigo? Marcelle fez um gesto. — Conheço as histórias dela.. isso irrita me. Não se podia odiar Marcelle. é a terceira vez que ela lhe conta essa viagem. Você parecia tão preocupada. E escuta a sempre com o mesmo ar de interesse apaixonado. Oh! Tinha me jurado que não dizia nada. r A Daniel inclinou se um pouco mais e repetiu com uma expressão desolada. Ela inclinou se para trás. não sei bem o que há na sua cabeça neste momento. mas sentia se vazio e mole. —— É SUJO. — O quê? O quê? Que é que há? — Não vai zangar se com Mathieu? Ela empalideceu. podia se detestar. Pensou em Mathieu para se encorajar e ficou satisfeito de encontrar o seu ódio intacto. — Pronto — disse Marcelle.. Olhou a com ar de censura e ela estremeceu ligeiramente sob aquele olhar. tem gestos que me encantam. — E você que está estranho esta noite! Que é que tem? Ele não se apressou a responder.. Fez um gesto com o pescoço. mas gosto de ouvi la contar... sem muito entusiasmo: «Vamos. e Daniel pensou. Marcelle pestanejou. Daniel divertia se muito. — Marcelle. tão nervosa. Mathieu era liso e seco como um osso. — Parece cansada. Daniel sabia imitar muito bem quando queria. e Marcelle desatou a rir. dificilmente sustentava o olhar de um homem. — A sua mãe diverte me — disse Daniel. «Pronto!» pensou ele. Mas ficou novamente sério e Marcelle parou de rir. — Estou um pouco tonta. — Marcelle! Olhe para mini. eu não devia dizer lhe. Marcelle interrompeu o. Marcelle teve um riso desajeitado que lhe morreu imediatamente nos lábios. É do calor. com um riso indignado. para ser franca. Daniel.

— Mas imagino muito bem a cena. Sofria. Isto é — disse ela com um leve sorriso —.. Ele riu jovialmente. meu caro Daniel. e o outro protesta se não está de acordo. rígida.. Está a magicar nalguma coisa. — Telefonou me há uma hora — respondeu Marcelle. Pensei nela toda a tarde. bruscamente.. você é que deve saber. Ela fez um gesto brusco de cotovelo e de antebraço que cortou o ar escaldante do quarto. — Viu Mathieu depois de ele me ter deixado? — perguntou Daniel. sim. Marcelle não respondeu. — Está estranho. que tresandava a carne. Havia agora um novo elo entre eles. Marcelle amarfanhava o lençol e os seios palpitavam lhe. — Tinha. Daniel estava com calor. Deve . tristemente. Pelo menos antes de ter visto. tinha de procurar muito. — Sei. — Deve ter horror de mim. Tenho quinze mil francos. sim — disse Marcelle —. Era apenas uma mulher grávida. perdera a máscara de dignidade sorridente. — Quero dizer: deseja do fundo do coração que eu empreste o dinheiro? Marcelle ergueu a cabeça e olhou o surpreendida. Acabou por dizer: — Eu queria tanto tê lo afastado disto tudo! Calaram se. mas não queria emprestá lo. — Tinha? — repetiu ela admirada. (Ficou embaraçada. tem de nos emprestar.. devo emprestá lo? — Mas. nós não nos consultamos.arcanjos nem de fotografias antigas. — Você não compreende — insistiu Daniel. Um diz: Fazemos isto ou aquilo. — Eu sei como Mathieu aprecia as suas opiniões — disse. — Posso perfeitamente. de que posso dispor sem preocupações. O nariz afilado. o outro é empurrado. — Tinha. não tem tempo para pensar. bem sabe como somos.) Não sei. como um cordão umbilical. sei — atalhou Daniel. não é sujo. Daniel. — Ele disse lhe que eu recusei o empréstimo? — Disse que você não tinha dinheiro. — Naturalmente. antes de encontrar qualquer coisa que me leve a ter horror de si. — Isso é uma grande vantagem para quem já tem opinião. passou a mão pela testa suada. Baixara o rosto. — Eu só queria saber se Mathieu a tinha consultado. — Talvez. — Não — disse —. Endireitara se e tornara se dura. Tomou fôlego e acrescentou: A — Marcelle. Houve um silêncio. estava na defensiva. — Então. — Horror? Eu? Marcelle.

. Escute. Eu sei quanto isto é penoso. Você é tão diferente. Dir se ia que ia desconjuntar se. — Não me atrevo a olhá lo — continuou.. — Mais ou menos — disse. Se tem a certeza do que quer. Isto é. Mandar Ihe ia o dinheiro e tudo estaria acabado. o seu melhor amigo. Daniel. — Principalmente para si. «parece cheia de gratidão!» Como «Malvina». não terá sido um pouco precipitado tudo isso? Não deve saber você mesma o que quer? Inclinou se novamente para Marcelle. Depois corou violentamente. — Não foi assim? Marcelle não o olhava. Daniel não a perdeu de vista. Nada tenho de arcanjo. Era preciso ir até ao fim. pensou. tomou lhe a mão. Daniel. quando lhe batia. Marcelle. «Oh!»...» Ela estremeceu de novo e apertou os braços sobre os seios. Mas já não sabia se o seu prazer vinha da humilhação que impunha a Marcelle ou de ser humilhado com ela. . E tenho direito a ter uma opinião — acrescentou com firmeza — porque a posso ajudar. não se recuse a falar. Mathieu receberá o dinheiro amanhã cedo.ter se encolhido todo como faz nessas ocasiões e depois deve ter dito a engolir a saliva: «Então apelamos para os grandes meios?» Não deve ter hesitado e aliás não podia hesitar. só você se interessa por mini! Ele levantou se.. com um espanto desarmado. veio sentar se perto dela. E homem. — Não falemos mais nisso.» — Basta lhe dizer uma palavra. pensou Daniel. Daniel! «Pois não! Eu sou a pureza. — Você pergunta me isso..» — Marcelle — disse —. Voltou a cabeça para Daniel. Tinha um olhar sombrio. Marcelle tem realmente a certeza de que não quer a criança? Verificou se uma rápida derrota através do corpo de Marcelle. «Ela palpita». Depois esse prenúncio de desconjuntamento parou. mas contemplava o sem rancor. — Eu sei — disse Daniel com amargura. imóvel e pesado. sou simplesmente um amigo. — Um arcanjo assusta se facilmente.. Quase desejava que ela dissesse que sim... Virara a cabeça para o lado do lavatório e Daniel só lhe via o perfil. — Mesmo que não lhe cause repugnância. muito desagradável. por favor. E ele. voltara se para ele e parecia esperar. não me faça desempenhar este papel ridículo.. Oh! Daniel. estava vermelha. o corpo fincou se lhe à beira do leito. Daniel pensou: «Está desesperada. tenho a impressão de o ter perdido. Disse para si mesmo: «Mais fácil do que pensava. Mas. Mas ela não dizia nada.

. aturdida.» Mas naquele rosto ingrato os próprios reflexos da mocidade não eram comoventes. — Porque não? — perguntou. — Veremos mais tarde. Limpou as mãos no lenço. Disse com voz alterada: — E se eu tivesse vontade de ter um filho? Que adiantava? Não posso dar me ao luxo de ter um filho sem casar e ele nunca se casará comigo. Daniel ergueu as sobrancelhas. — Tem realmente a certeza? — Não sei — disse levantando se. A gaveta estava vazia. Havia às vezes cartas divertidas. Aliás. E depois havia aquela mão suada. «Não vale a pena odiá lo por bons motivos. Conservou a nas dele. — Pois é. está cheia de vontade de parir.» Mas não sentiu nenhum prazer. — Porque não há de casar consigo? Marcelle encarou o. depois achou melhor desatar a rir. nem sequer a consultou. — Reflicta — repetiu. é lhe indiferente que se suprima a criança? Marcelle teve um gesto de cansaço. preciso de ir arrumar a cama da minha mãe.» Estava satisfeito de ficar só.. que não era feliz. continuou com um riso seco.. era imperceptível. Daniel pensou na jovem estudante que vira na fotografia. «Ganhei.. como que para lhe espremer todo o sumo. Marcelle parecia lutar contra as lágrimas.» Marcelle voltou com uma expressão de desespero. Dir se ia que de perto Marcelle tinha um cheiro. — Não sei o que se pode fazer — disse com voz seca. bilhetes de Mathieu muito conjugais.. os outros já me dão muito que fazer. Marcelle. «Juro que ele há de casar se com ela.Uma mão mole e febril como uma confidência.. — Que fazer? Daniel pensou: «Ganhei. sem falar. e Daniel voltou a sentar se na poltrona. foi ignóbil. ou intermináveis lamentações de Andrée. — Marcelle... «Ganhei». pensou quando a porta se fechou. . Daniel acedeu silenciosamente. Neste momento estou a pensar apenas em si. Não vale a pena». Sufocava. Era o ritual. mas talvez uma sorte. ergueu se rapidamente e abriu a gaveta da mesa de cabe ceira. «Já foi jovem. olhava para os joelhos. Essa criança talvez seja um desastre. — Desculpe. Com o olhar no vazio tinha um ar de boa fé que a rejuvenescia. é preciso que não venha a acusar me mais tarde por não ter reflectido. — Pois é. era antes como se fecundasse o ambiente em torno dela. Esforçou se por apertá la mais fortemente. Podia recuperar um pouco de ódio. não chegava mesmo a ser um cheiro. Largou lhe bruscamente a mão e afastou se um pouco. — disse Marcelle.

. Eu não. Era como se já se tivesse vingado um pouco. Marcelle. é tudo. Delarue.A — Mas. nunca encarei a coisa por esse prisma. libertou me. que faça o que é necessário. — Tem de lhe falar com franqueza. senão dipersava se em todas as direcções. — Sei apenas uma coisa. — Não é verdade que você quer a criança? Marcelle apoiou uma das mãos no travesseiro e pousou a outra sobre a coxa. cheguei a julgar que era um crime. De repente falou com paixão: — Ah!. — Um crime? Mas isso é perversão. Achar criminosos os seus desejos quando são naturais. Daniel calou se.. A mão morena crispava se sobre a seda. Foi você.. com voz surda: — Daniel. Era muito difícil fazê la ver as coisas de frente. — Mas se fosse esse o único meio de conservar a criança? Marcelle pareceu perturbada. se eu tivesse um filho. carne gorda e nutrida. Era grotesco e fascinante. Era o momento decisivo. não podia dizer isto a ninguém no mundo. e dentro de um mês será mulher dele. Marcelle disse. Parecia ruminar. — Não.. — Bem sei — disse Daniel com vivacidade. Daniel! Bem sabe como nós somos! — Eu não sei nada de nada — disse Daniel.. quero. — Marcelle não respondeu. — Sim. Era preciso enfiar lhe o nariz em cima e mante la assim. Devia ser verdade.. Ergueu se um pouco e levou a ao ventre como se estivesse com dor de barriga. Que sentia por dentro aquela fêmea pesada e perturbada? Gostaria de ser ela. era uma coisa subentendida entre nós. como toda a gente. Pensou que Mathieu a desejara e sentiu uma leve chama J E A N P AUL SARTRE de satisfação. quem decidiu nunca se casar? — Sentiria horror de vê lo casar se contra a vontade. Se ele quiser. Acrescentou: — Era. — Mas. realmente era me totalmente indiferente não me chamar Mme. Estava ganho. não deixava que ele estragasse . O casamento é uma servidão e não o queríamos. apertava o ventre. — Não é um crime? Ele não pôde deixar de rir. — Não. angustiada. — Mas você quer a criança? Ela não respondeu. É uma espécie de ruptura de contrato. Eu digo em relação a Mathieu. Daniel repetiu com voz dura. Marcelle. Olhou o. Não podia tirar os olhos daquele ventre. — Não é uma resposta. Disse com voz solitária. nem um nem outro. Carne inimiga.

a vida como eu.. Tem grande afeição por mim e talvez seja o que tenho de mais precioso na vida. Marcelle. teria necessidade de mini. que a encontrei. Ele não respondeu. — Não posso. Ela curvara os ombros. era preciso evitar isso. sim. ainda não. — Porquê? — Sinto me amarrada. mas a piedade estava lá. passiva e gasta.. Defesa vã! Seria preciso não a ver. — Onde? Nunca saio. Responder? Protestar? Era preciso desconfiar. tinha horror ao abandono. Teria feito tudo para se libertar dela. — Você não estragou a vida. — Porque é que não pensa? Você pensou. é um absurdo! — Podia dizer lhe. sim. Pegou lhe na mão sem falar e apertou a de um modo significativo. — Estraguei. Mas ainda que fosse verdade. Ele não pensa nisso. A — Um filho — continuou Marcelle. Ele pensou: «A sua última possibilidade». ia assim sem . parecia pensar que ele era doido. Ele acariciou lhe a mão. — Pois então fica como está! Você empresta o dinheiro e eu vou ao médico. Essa ideia gelou o. — Um filho. — Não.. A si também não. desconfiado. Dentro de alguns dias seria apenas um grande miséria. isso não o atingiria. Não sentia nenhuma simpatia por Marcelle e sentia um profundo nojo por si mesmo. Parou repentinamente e olhou a. os braços pendiam lhe junto das ancas. Se eu morresse. — Não sei. irresistível. Daniel. Não fiz nada e ninguém precisa de mim. Mordeu os lábios e tomou uma atitude irónica. Esperava. — Não pode fazer isso — exclamou bruscamente Daniel —. Era verdade. Marcelle levantou a cabeça. Daniel. Espero que isso venha dele. J E A N P A U L SARTRE — Falar com ele? Você? Mas. — Mathieu não precisa de mim. — É a Mathieu que você tem de dizer isso. Ela ia jogar e perder.. — E se eu próprio falasse a Mathieu? Uma enorme piedade lodosa tinha o invadido. eu é que preciso de si. como pensara de si mesmo pouco antes. — Estraguei. Marcelle parecia estar numa das suas crises de clarividência cínica. mas não precisa de mim. Entre os trinta e quarenta anos joga se a última cartada. não pode. até ao fim. A emoção fizera com que tivesse deixado escapar aquela exclamação estúpida. — Mas bem sabe que nunca virá. e assim esperaria durante anos.

sentia vontade de a partir. Daniel olhava para os ombros e para o pescoço dela com avidez. ele nunca me perdoaria não lho ter dito eu própria. — Escute. evidentemente. Daniel pensou: «Ela é formidável!». atolar se com ela na humildade... Sabe o que é que vamos fazer? Dizer lhe simplesmente a verdade. Ela ainda repetiu: — Eu não quero. Era mais subtil. — Daniel. — Não quero. Marcelle. Vai irritar se . Mas Daniel era tenaz. Estava possuído de um desejo enorme e monstruoso. não faça isso. — Se não me deixar fazê lo — disse zangado —. Marcelle passeava a ponta do dedo pelo tapete. ficarei aborrecido. obstinada. — Se eu não falar com ele. Largou a. Marcelle pousou lhe a mão sobre o joelho. Olhe para mim! Tomou a pêlos ombros e os dedos afundaram se lhe numa manteiga morna. Digo lhe: «E preciso que perdoes um segredo. — Pois digo lhe — atalhou Daniel. — Naturalmente — disse Daniel. Acrescentou com um ar conjugal: — E depois. Estou furiosa com Mathieu. Não quero que falem de mim. Ele é que tem de compreender. Mas não era sadismo.mais nem menos contar lhe isto? — Não.. Por nada deste mundo quero que pensem que estou a pedir alguma coisa. viverá junto dele em silêncio. Porque é que não é possível? — Era obrigado a dizer lhe que nos vemos. mas não teve vontade de rir. — Não falo em si — disse. Era bondade. — disse Marcelle. Não se vai zangar. Nós dizemos sempre tudo um ao outro. já lhe disse que o farei.. mais húmido.. você nunca o fará e. acabará por odiá lo. — Não quero. Marcelle não respondeu.» — Daniel — suplicou Marcelle —.. ele não lhe devia ter contado. não se meta nisto.» Marcelle teve um gesto de despeito. que você parecia atormentada e que não é assim tão simples como ele pensa. mais carnal. Pensava: «Conta com isso. Eu e Marcelle víamo nos de vez em quando e não te dizíamos nada. seguia a sua ideia.. Marcelle. — Era preciso dizer lhe. sabe. Tudo isso como se viesse unicamente de mim. Violar aquela consciência. chamar lhe apenas a atenção.. Estragará a sua vida com as suas próprias mãos. Aquela obstinação tonta aborreceu o. irritado —. mas ele percebeu pela sua expressão rancorosa e abatida que ela ia ceder. — Não é possível! — Bom. Mas eu conheço o. Seja razoável. — Digo que a encontrei. por favor. — Tem de ser. dizer lhe coisas vagas — disse —.

— Apesar de tudo será uma experiência. e ia dizer lhe: «Faça como quiser. — Escute.. Quando fico ressentida com ele. abanou a cabeça.. vai ficar muito satisfeito por ter qualquer coisa a censurar lhe... Mas não parecia convencida.» Ela fascinava o. Havia aquela mulher e aquela comunhão repugnante e vertiginosa.. — Então. Daniel. Aliás. mas a seguir. Tresandava a consciência suja. — Era o nosso segredo — disse com profunda tristeza. o Bem deles e o Mal dele era igual.um pouco. — Pois bem. — E Mathieu que quer experimentar? — É. era a minha vida particular. Ela ia ceder. Não lhe posso dizer o efeito que isso me causou! Se um dia deixasse de o estimar. De qualquer maneira. não tinha outra. Acrescentou secamente: — Tenho necessidade de o estimar. tristemente. para a resignação. Teve. Ah!. por causa da criança. a minha vida privada. para o abandono. com ódio: — Só posso ter de meu o que escondo dele. — Vou falar com ele — disse Daniel. estou nas suas mãos. ao desligar. . bastava esperar. se me perguntasse uma só vez que fosse: «Em que estás a pensar?» Calou se. O Bem e o Mal. — Achou se na obrigação de dizer que me amava. mas não quero pensar nisso. Aquela chama que o devorava. Ia escorregar. já não sabia se era de maldade ou de bondade. O coração de Daniel pôs se a bater com violência. — Acredita que ele vai ficar indiferente? Que não se vai apressar com explicações? — Não sei. — É preciso tentar. desde ontem. Ele foi demasiado A negligente. é extremamente penoso.. tínhamos de lho dizer um dia.. tentemos — disse num desafio. Marcelle passou a mão pêlos cabelos. — Uma experiência? — indagou Daniel. Corou. como se sente culpado.. Não se preocupou comigo. Mas não tenho a mesma confiança com ele. arrastada pelo seu próprio peso. Dentro de momentos estaria completamente aberta. Acrescentou. tem razão. digo lhe que nos vemos há apenas alguns meses e muito raramente. se ele tentasse fazer me falar amanhã. — Ao sair daqui mando lhe um recado e marco um encontro para amanhã. já não o estima? — Estimo. E depois o telefonema de hoje foi lamentável. — É verdade. Ele foi. sem defesa. pró forma.

decorada com fitas. dorme até ao meio dia. à altura dos olhos com um gesto ligeiramente ameaçador. — Daniel! — repetiu Marcelle. Duffet. Ergueu se e foi dar umas palmadinhas nos ombros de Marcelle. mas os seus olhos tinham se avermelhado. Daniel abriu os olhos. — Daniel! — murmurou Marcelle. é o senhor — disse cordialmente. — Ouve. porém uns sopros ecoavam através dos lábios entreabertos. Levantou a caixa. — Procuro alguém — disse Mathieu. meus filhos. eram um só. sejam razoáveis — disse Mme. Havia entre ambos qualquer coisa mais forte do que o amor. — Meu arcanjo — dizia Marcelle por cima da cabeça dele. .Ficaram silenciosos. — Deseja uma mesa? Um belo rapaz inclinava se diante dele com ar de alcoviteiro. tossiu com dificuldade. retendo a respiração. O jovem reconheceu o. arrancaria dele aquela piedade viscosa. J E A N P AUL SARTRE Marcelle sorriu. — Se eu deixar. Olhava atentamente para Daniel. Bocejava por baixo do sorriso. assim engordas. conto consigo. fingindo se vítima: — Que hei de fazer? — Bom. «Não vai demorar a sair». Duffet pareceu não as ouvir. Ela sorria lhe com uma expressão maliciosa. Daniel pensava na entrevista do dia seguinte. Passará toda a vida inclinado sobre aquela mão perfumada e acariciar lhe á os cabelos. Eram lúgubres. dormes até ao meio dia. Fechou os olhos. — Ah!. Pegou lhe na mão e beijou a longamente. XI s oaram as dez horas. Ele voltou se para Mme. e isso lavá lo ia. Ele ergueu a cabeça e viu o olhar dela. Duffet. — E obrigada pêlos deliciosos bombons. Ela abrira se. pensou ele. que transbordava de gratidão sexual. Marcelle estava sentada à beira da cama. Disse alegremente: — Pois bem. De repente levantou a cabeça e pareceu tomar uma decisão. Mme. Mathieu perscrutou a sala com o olhar à procura de Boris e Ivich. — Querido Daniel. Senão. ele entrara dentro dela. — Made moiselle Lola está se a vestir. Os seus amigos estão no fundo à esquerda. querida — disse divertindo se a falar entre dentes. vou dormir. um olhar de depois do amor. Não a deixe ficar acordada até muito tarde. — Juro que sairei antes da meia noite — afirmou Daniel. como presas de um interminável destino. provavelmente. — Dormes de mais. Era um olhar pesado e envolvente. Tinha asma. Seria violenta e dura.

uma cabeça de preto. Era a última réplica de um romance ou de uma peça de teatro. — Conversa!» — disse simplesmente. Boris teve um riso curto. Ele estava agora perto de Ivich. com gestos vivos. Está cá gente hoje. sem se olhar. apesar da simpatia dos maitres d'bôtel. Havia uma crueldade inquieta e permanente na atmosfera. o ar de uma irmã mais velha e falava a Boris com uma condescendência maravilhada. O rapaz desapareceu. Ombros nus. Mathieu pousou a mão sobre a mesa. e nunca se esquecia disso. mas ela não o via. tinha a impressão de estar a espreitar pelo buraco da fechadura. Ivich não se entregava completa mente. Ouviu o tango e o arrastar dos pés. mas consomem bem. O seu casaco brilhava nos cotovelos. No entanto. «Que é que vim fazer aqui?». Tinha. pensou Mathieu. com uma austeridade cheia de graça. São um pouco barulhentos. Mathieu avançou pela sala por entre os ombros em fuga. mesmo nos momentos de maior abandono. era incapaz de se divertir naquele ócio grave. Mathieu sentiu se ligeiramente reconfortado. Mesmo com o irmão. Não era possível abrir passagem entre as pessoas que dançavam. Inclinavam se um para o outro muito ocupados. não dançava bem. oferecera ela a Mathieu um rosto assim.» Tinha vontade de dar meia volta e sair. — Obrigado. Holandeses. Achava os romanescos. porque já não podia suportar a solidão. Nunca. Inclinava se ao ouvido de Boris e segredava Ihe qualquer coisa. Mathieu olhava Boris e Ivich. .vou acompanhá lo. e no fundo dos seus corações alguma coisa mudaria. um bocadinho. contemplava as lentas deslocações daquele comício silencioso. «Conversa!» Com essa palavra o diálogo terminava definitivamente. viu Boris e Ivich.» Era Ivich quem falava. Depressa o veriam e oferecer lhe iam aquele rosto convencional que reservavam para os parentes. Numa delas um homem e uma mulher falavam. mulheres soberbas e maduras. Os sons agudos do tango passavam por cima das cabeças deles. muitos homens de idade que dançavam com ar de quem pede desculpa. Numa reentrância havia duas mesas. As lâmpadas brancas acenderam se novamente. nunca se podia sentir à vontade. Em Montmartre. nervosamente. Na outra. «Pareciam dois mongezinhos. os músicos não pareciam tocar para eles. o brilho de um colarinho. os adultos. desempenhava o papel de irmã mais velho. Eu encontro os facilmente sozinho. as calças já não tinham vincos. — Bastante. aproximou se. Mathieu esperou. «Como são jovens. Não se sentiu à vontade.

Boris apontou para a multidão com um gesto rápido. — Foi por gentileza que o pediu? — Há três semanas que o barman me chateia para o experimentar. — Tem gente! — observou com satisfação. — Quer o meu lugar? — Não. mas é porque ele é barman. Guarde o para Lola daqui a bocado. Não sabe fazer cocktails. De qualquer maneira teria bebido essa porcaria. Tinha um ar severo. mas já não tinha um ar admirado ou rancoroso. Mathieu sentia se incomodado. Ivich não o tinha recebido mal. pensou. — E que é isso? — indagou Mathieu por espírito de justiça. Sentou se. — Olá! — respondeu Boris levantando se. A sala estava deserta. deve pedir se dinheiro emprestado — explicou num tom de austeridade. — Então era melhor que tivesse sido malabarista. — Gostava de ser barman — disse Mathieu. — Boa noite. sentia se penetrado por um calor húmido. — Como? Gosta disso agora? — E forte — respondeu ela. — Deve ser divertido. não vale a pena. A um barman. — Que estão a beber? — indagou Mathieu. irritado. — E horrível — disse Boris —. sem dar a sua opinião. apontando para uma espuma branca no copo A de Boris. é o cocktail da casa. Os gaúchos tinham terminado a série de tangos. gozava a condensação feliz que dá o sentimento de ser um homem entre os outros homens. Ela não sorriu. para quebrar ovos é preciso ter jeito. Mathieu olhou o barman.— Olá! — disse. todo de branco. e fumava um cigarro. — Isso ficava lhe caro — atalhou Boris —. Viu dois olhos pálidos e mortos. — Sim — disse Mathieu. Ela inclinara se para trás. «E porquê a verdadeira?». Parecia achar natural a presença de Mathieu. A verdadeira Ivich desaparecera. Acha que o ofício é o mesmo. As pessoas murmuravam à sua volta. — Um vodka — disse Ivich. — Cem francos — disse Ivich —. Fez se barman porque foi prestidigitador. Estava de pé atrás do balcão. O jazz negro Hijito's Band ia substituí los. havia de partir . mas engana se. Boris olhava o com uma admiração jovial de surpresa. já não havia ninguém no estrado dos músicos. mas pedi Ihe emprestados cem francos. eu tinha os! — Eu também — disse Boris —. Mathieu — disse Ivich. Mathieu deitou um olhar rápido a Ivich. — Aliás. de braços cruzados. — Suponho que é por causa do misturador — disse Mathieu.

Era um barulho apenas. Só que essas duas imagens não se conciliavam. que fariam melhor se voltassem para casa. Boris olhava Mathieu. Calaram se. Adorava que Mathieu lhe falasse naquele tom. Ivich mordeu os lábios. diante dele. mas já não tinham sequer força para o fazer. Estavam ali.tudo. — Vocês são divertidos — disse Mathieu. — Você também pode beber um bocadinho — disse para Ivich. Por toda a parte. mas dava lhe um grande prazer à flor da pele. — Sim. não lhe passava pela cabeça descobrir neles uma melodia. chegavam lhe às rajadas. Boris regozijou se. Bocejou por trás da mão e os seus olhinhos pestanejaram com volúpia. Virou a cabeça. de ouvidos tapados pela música. O barman sonhava. com ares desgraçados. J E A N P AUL SARTRE Mas sentiu de repente nojo da economia e daquele maço magro de notas que jazia no fundo da sua carteira. O Mumm custava trezentos francos. «Estou a mais». no meio daqueles tipos igualmente lixados. «há sempre um que se escandaliza». Mathieu sentiu se bruscamente solidário com aqueles tipos todos. rostos sorridentes e bem arranjados com olhos pisados. — Um Mumm cordon rouge. Sons de trompete. à direita havia um camarada de monóculo. Mathieu estendeu as pernas e sorriu de prazer. sozinho. «Não se pode dizer nada». Sentiu o apelo discreto de uma felicidade humilde e . O maïtre d'hôtel apresentou lhe a lista dos champanhes: tinha de ter cuidado. a sorrir. — Estou contente por ir beber champanhe — disse Boris. — Não gosto e é preciso que me habitue. — Um uísque — disse Mathieu. atentos e severos. e continuavam ali a fumar cigarros e a beber misturas com gosto a aço. pensando melhor. àquela mesa. A mulher e o amigo deviam estar a dançar. Bem sabia que estava lixado. e Ivich olhava Boris. pensou Mathieu de mau humor. e ele parecia aliviado. mas afinal naquele dancing. só lhe restavam quinhentos francos. cada um deles tinha construído uma imagem pessoal de Mathieu e exigiam ambos que ele lhe fosse fiel. isso não tinha importância e não era desagradável de todo. — Não — respondeu ela. — Bebem sempre coisas de que não gostam. — Espere. acidulados e gloriosos. Olhou a lista. a contemplar de olhos vazios os farrapos do seu destino. Chamou o maítre d'hôtel. outro mais longe. pensou Mathieu tristemente. é preferível. Prefiro champanhe. sozinho também diante de três capas e uma bolsa de mulher. Fez se silêncio.

de encontrar na cabeça. Inclinou se para trás aproximando o copo dos lábios e deixou que lhe escorresse na boca todo o conteúdo.» Teve medo e sobressaltou se. deitou lhe um olhar de censura. Acrescentou com uma espécie de angústia: — Acho que agora vou poder divertir me. Apesar de rancorosa e distante. Ivich olhava inquieta e vagamente o líquido transparente que tinha ficado no copo. com seriedade. Ivich reflectiu um segundo. . irritada. — Tenho de engolir isto — disse ela. sem ousar engolir. acabará mais depressa. — Bebo. Era a primeira vez que o olhava. pior que um asno.. sempre é mais forte. Era como se enchesse uma garrafa. eu é que estava bêbedo. — Você aguenta o álcool? — Ele? — Ele é formidável — disse Boris. A quê? Lembrou se de repente de Gauguin.» Tinha medo. é fogo! — Eu comprei te uma garrafa para te treinares — disse Boris. Tinha os olhos cheios de lágrimas. — Quero divertir me. — Faz de conta que é água. — Engole — disse Boris. — Sinto horror em embriagar me — explicou humildemente. com aquele pequeno pântano de fogo no fundo da garganta. Voltou se vivamente para Mathieu. — É melhor treinar com aguardente. era ainda o seu único apoio. O pescoço de Ivich inchou e ela pôs o copo na mesa com uma careta horrível. — Não faça isso — atalhou Mathieu —.. se se entregasse por momentos. disperso e flutuando como uma neblina de Verão. um pensamento de mosca ou de barata. um rosto forte e exangue de olhos desertos. — Não. Voltou se para Ivich..covarde: «Ser como eles. abandonando por instantes o seu devaneio. Mesmo bêbedo. espere pelo champanhe. a falar de Kant. Mathieu sofria por ela. — Uf! — disse Ivich —. — Vodka bebe se de um trago — observou Boris. Pensou: «A minha dignidade humana. Ivich pegou no copo. No fim. — Sim — disse Boris —. Era verdade. Enquanto bebia agarrava se a qualquer coisa. — Bebe de um trago — disse Boris. — Já o vi tomar sete uísques de uma vez.. nesse ponto você é um cabeçudo. A senhora morena do lado. vai incendiar lhe a garganta. eu já não o ouvia. mas não entrego o corpo inteiro à embriaguez. queima. — Prefiro beber de um trago. Ninguém respondeu. Ficou assim um segundo. Mathieu não perdia a cabeça. não beba.

Mas agora já não se percebia nada. mas essa lucidez não lhe custava nada. arrepiado. Sinto me humilhada. e encontrou se diante de Ivich. escancarado: pensamentos. não falemos mais nisso. orgulhosamente. pensamentos sobre pensamentos. No fundo. Viu se por inteiro. Pintara de azul as pálpebras e de vermelho framboesa os lábios. vou chumbar. por favor. não desdenhava tirar dela pequenas vantagens. trocar tudo até à medula.. — Não quero que me falem mais nisso. e partirei imediatamente. uma compensação. Mathieu abriu se como uma chaga. também não era sincero. estava resplendente. Depois aquilo apagou se. — Queria passar uma noite formidável — disse —. não poderei ficar mais um dia sequer em Paris. não me deixo dominar. Estou farta. Era um truque. — Então — perguntou ele —. Acrescentou com ironia. fico tenso. Pensou: «Já desci a isso?» Estava a ponto de se aproveitar da própria decadência. o álcool inflamava lhe o rosto. servia se dela para fazer gentilezas às mulheres! «Estupor!» Mas parou. essa maneira de subir pêlos próprios ombros. não estava realmente indignado. desejava agradar a Ivich.» Mas nada o ajudava. — Passou o dia enrolada no sofá. Ou então. Ivich devia ter gemido durante horas. estou aqui para me divertir. que o contemplava com uma expressão estranha. — Ou então? — Nada. talvez soluçado. sem se preocupar com o olhar furioso da irmã: — É esquisita! É capaz de morrer de frio em pleno Verão. com olhos do tamanho de um pires. porque é a última noite. E esse juízo que emitia acerca da sua lucidez. antes o divertia. aí está o champanhe — disse ela. raivosamente. De repente.— Não sou cabeçudo. não era sincero. na Rua . como para si próprio: — Sou um vime pensante. J E A N P AUL SARTRE Boris acrescentou. trabalhou esta tarde? Ivich encolheu os ombros. Como para si próprio. Calou se. estava transparente até ao infinito e igualmente podre. imaginava salvar se da abjec ção pela «lucidez».. Não era verdade. Todos os seus pensamentos estavam contaminados desde a origem. «Será preciso mudar tudo. — Sim — disse com obstinação —. Mathieu viu a garrafa e pensou: «Trezentos e cinquenta francos. E necessário que pense sempre no que me acontece. — Isso é ridículo.. alegremente. Ah!. pensamentos sobre pensamentos de pensamentos.» O tipo que o tinha abordado na véspera. bem o sei. quando se tratava de estupor.. É uma defesa.

parecia pouco à vontade. e toda aquela gente que se cozinhava no próprio molho. sem champanhe nem belas loucuras. sob a luz vermelha. A rapariga dançava. e sorriu. de smoking. Estava nua. e os seus pés esticavam se na extremidade das . fazia a rodar com competência. calvo e redondinho. Era pesada e negra. e ainda por cima tinha fome. O empregado. Acrescentou: — Pode deitar se no balde do gelo quando o empregado não estiver a olhar. — Somos divertidos! — disse Boris. Mathieu teve nojo da garrafa. leve como uma bola de sabão. é o mesmo. — Não — atalhou Ivich —. Ficara com a sua expressão maníaca e cruel. Mathieu pensou: «Cheirava a vinho tinto barato.» Todo o dancing lhe pareceu um pequeno inferno. mis dam lê mille Émile E havia aquela garrafa que girava cerimoniosamente na ponta dos dedos pálidos. e um rolar de tambores advertiu o público. J E A N P AUL SARTRE — Senhoras e senhores. a direcção do Sumatra tem o grande prazer de apresentar Miss Ellinor pela primeira vez em Paris! Miss Ellinor! — repetiu! Com os primeiros acordes da orquestra surgiu na sala uma mulher alta e loura. rindo também. saltou para o estrado e sorriu ao microfone. eu bebo toda a garrafa. uma depois da outra. a cantar ao microfone: A // a. perplexa. O empregado serviu. Um senhor pequeno. Ivich contemplava o dela. — Não era mau — observou Boris —. O riso de Ivich era estridente. — Estou a lembrar me de que eu também não gosto de champanhe. e Mathieu levou melancolicamente o copo aos lábios. e sentia o coração magoado por uma verdadeira angústia. Puseram se a rir os três. eu quero beber. com um guardanapo em volta do gargalo. no fundo. a pensar no tipo da véspera. com alegria. o corpo. A vizinha voltou a cabeça e mediu a de alto a baixo. Acenderam se novamente as vermelhas. se fosse servido bem quente. ansiosa por agradar. Mathieu virou se para Ivich. Ela contemplava a rapariga nua com os grandes olhos arregalados. sem grandes preocupações. — Se quiserem — disse Mathieu. Mathieu continuava a olhar para a garrafa. lançava as pernas para a frente.Vercingetorix. Mas nesse momento havia um rapaz muito digno sobre o estrado. parecia um grande pedaço de algodão. inclinado sobre o balde de gelo. — De que se está a rir? — perguntou Boris. modestamente. As lâmpadas brancas apagaram se. Porém. Aliás. também estava lixado. se ninguém quiser. eu não gosto de champanhe. afectado e reverente. — Conheço a — disse Boris.

Dir se ia que ela sentia a hostilidade e esperava enternecê los. como dedos. pensou Mathieu. Na verdade havia uma fragilidade inquietante nos seus longos membros. Mathieu não respondeu. «vai cair». — Eles querem principalmente ver belas nádegas! — Sim. «Pronto». roçou pela mesa deles. deslocando se de lado sobre os calcanhares. mas com arte. eles querem ser respeitados. Aproximou se do estrado e virou se de costas. Durante uns momentos. num impulso de dedicação que constrangia a alma. «esconde sob os cabelos um rosto arrasado. as pernas da dançarina escavaram o chão sob a impotência ridícula dos quadris. com sentimentos dúbios. Não se atrevia a olhá la.» Essa ideia pareceu lhe insuportável. aperta as coxas. provocando no ar tremores que deslizaram ao longo das omoplatas até à reentrância dos rins. em seguida endireitou se. quis levantar se e desaparecer. quando pousava os pés no chão. mas não teve forças para fazê lo.. de mãos nas ancas. afinal a menina sagrada era como os outros: duplamente defendida pela sua graça e pêlos vestidos. — E espantoso como tem as ancas duras — disse Boris... aquela pobre carne nua. O público deleitava se com a sua própria indignação. goza. a rapariga parecia lhe duplamente nua. com um sorriso. Mathieu comovia se com a boa vontade desesperada dela: oferecia lhes as nádegas entreabertas. Quando se cobra a bebida a trinta e cinco francos. Uma onda de rancor subiu aos lábios de Mathieu.» Virou a cabeça e viu o punho crispado de Ivich sobre a mesa.» A dançarina. — Não sabe dançar — disse a vizinha de Ivich. Apanharam na na rua. — Como ela se cansa! — disse Boris. Pensava em Ivich. O ruído das conversas cobria por momentos a música. mordendo os lábios.. mas lembrava se da expressão cruel. Mathieu percorreu a sala com o olhar e só viu rostos severos e justiceiros. — Ela vai cair! — disse Boris.pernas. as pernas estremeciam dos tornozelos até às coxas. deve pensar se em escolher melhor os números. pensou. carmesim e aguda. Bebeu um golo do cocktail e pôs se a brincar com os anéis. — Isso não os comove — observou Mathieu —. Mathieu quis desejar aquela almofada na . «Está só». — Têm Lola Montero — observou o tipo gordo. — Isso não quer dizer nada! É vergonhoso. pensou apenas: «E dizer que gosto dela pela sua pureza. devorava com os olhos. ergueu os braços e sacudiu os. apontava para a sala como uma flecha indicadora. envenenou lhe a boca: «A fita toda desta manhã. porque era desajeitada. A unha do polegar.

na ponta de um braço invisível. ele quis sorrir lhe. os rostos abriam se em volta dele. ao longe um fogo de bengala. — Conheço a. A rapariga acocorava se com as pernas ligeiramente abertas e balançava se para a frente e para trás. ouviram se aplausos. Todos se sentiam satisfeitos por se encontrarem de novo juntos após a sentença dada. — Estão quentes. com uma suficiência sorridente e mole. — Já não a posso ver. jantei com ela e com Lola. dos cantos da boca. deve ter essa pertinência dos olhos. — Aplaudir isto? — Ela fez o que pôde — disse Boris aplaudindo. «Não estava perturbada». só havia um espectáculo. descomposto pela raiva e pela repugnância. e no fumo um monstro de quatro patas andava à roda. às rajadas. com a afectação de soltar no microfone. A rapariga desapareceu sorrindo e atirando beijos. «Que é que eu tenho?» Era como a manhã. pensou. o nome célebre: — Lola Montero! A sala estremeceu de cumplicidade e entusiasmo. o corpo obsceno e a neblina vermelha deslizaram para fora do seu alcance..» Era uma personagem de pesadelo aquele homem que saltitava no estrado e fazia gestos para pedir silêncio. com um ar de gozar de antemão o espanto que ia provocar. — Está quieto — disse Ivich. e apesar disso deve ver se que é oco. «O meu ser assim. Em volta dele. Estava só. sem comentários. a rapariga imobilizou se com o rosto voltado para o público. através de um murmúrio de folhas. era um pesadelo branco. simplesmente. e Boris pareceu encantado. Boris. como essas lanternas pálidas que oscilam de noite nas pequenas estações. com gratidão. Mathieu não acordara. — Bateu as palmas com força.. vai ser uma maravilha! . — Mais uma razão para não aplaudir. Mathieu voltou se. mas a cabeça encheu se lhe de guizos. Uma luz branca invadiu a sala e foi um acordar geral. — Que nojo! — disse Ivich.. Ivich.. é uma boa rapariga. na sua maioria não pareciam habituados. espantado.ponta de uma espinha medrosa. mas não tem cabeça. Viu um rosto triangular. Mathieu estava algures. A música parou. — Estupores! — disse Boris. Boris encolheu os ombros. Por cima do sorriso brilharam uns lindos olhos aquados. Ninguém aplaudia e houve algumas risadas ofensivas. Uma música de quermesse chegava lhe aos ouvidos. Ivich tremia. para se distrair dos seus pensamentos. A vizinha de Ivich acendeu um cigarro e teve um amuo terno para si própria. Rostos espantados vi raram se para o lado dele. nada mais. para pregar uma partida a Ivich.

Lola encostara se à porta. De longe, o seu rosto achatado e vincado parecia uma cabeça de leão. Os seus ombros, de uma brancura ondeada de reflexos verdes, eram uma folhagem de bétula numa noite de vento sob os faróis de um automóvel. — Como é bela! — disse Ivich. Adiantou se a passos largos e calmos, com um desespero desenvolto. Tinha mãos pequenas e encantos pesados de sultana, mas punha no andar uma generosidade de homem. J E A N P AUL SARTRE — Ela impõe se — disse Boris, com admiração. — Com ela ninguém se mete! Era verdade. As pessoas da primeira fila tinham recuado as cadeiras, não se atreviam sequer a olhar de perto aquele rosto célebre. Um bom rosto de tribuno, volumoso e público, marcado pesadamente por uma vaga sugestão da sua importância. A boca conhecia o seu ofício, estava habituada a abrir se amplamente, com os lábios salientes para vomitar o horror e o nojo e para que a voz fosse longe. Lola imobilizou se de repente. A vizinha de Ivich suspirou de escândalo e admiração. «Ela domina os», pensou Mathieu. Sentia se incomodado: no fundo, Lola era nobre e apaixonada; no entanto, o rosto mentia, representava a nobreza e a paixão. Ela sofria, Boris desesperava a, mas durante cinco minutos por dia aproveitava se do seu número de canto para sofrer espectacularmente. «E eu? Não estou também a sofrer espectacularmente, representando com acompanhamento musical o papel de um tipo lixado? No entanto», pensou, «é indiscutível que estou lixado». Em volta dele era a mesma coisa. Havia pessoas que não existiam, eram vapores, e outras que existiam demasiado. O barman, por exemplo. Pouco antes fumava um cigarro, vago e poético como um jasmineiro; agora acordara, era demasiado barman, sacudia o shaker, abria o, escorria a espuma amarela nos copos, com gestos de uma precisão supérflua. Representava o papel de barman. Mathieu pensou em Brunet: «Talvez não possa ser de outra maneira; talvez seja preciso escolher: não ser nada ou representar o que é. Mas é terrível ser se levado pela nossa própria natureza.» Lola, sem se apressar, percorria a sala com o olhar. A sua máscara dolorosa tornara se dura, congelara se, pare cia ter ficado esquecida sobre o rosto. Mas no fundo dos olhos, a única coisa viva, Mathieu teve a impressão de surpreender uma chama de curiosidade áspera e ameaçadora que não era fingida. Ela viu Boris e Ivich e tranquilizou se. Sorriu lhes cheia de doçura e anunciou, com um ar perdido: — Uma canção de marinheiro: Jobnny Palmer. — Gosto da voz dela — disse Ivich. — Parece veludo. — Parece.

Mathieu pensou: «Ainda Jobnny Palmer»\ A orquestra preludiou, e Lola ergueu os pesados braços. «Pronto, faz a cruz», viu a abrir sanguinolenta. Qui est cruel, jaloux, amer? Qui triche au jeu, sitôt qu'il perd? Mathieu já não ouviu, sentia se envergonhado diante daquela imagem de dor. Era apenas uma imagem, bem o sabia, mas mesmo assim... «Não sei sofrer, nunca sofro o suficiente.» O que havia de mais penoso no sofrimento era ser o de um fantasma, passava se o tempo a correr atrás dele, imaginava se sempre que se ia alcançá lo, que se ia atirar dentro dele e sofrer de verdade rangendo os dentes, mas no momento em que pensava atingi lo escapava se, não se encontrava mais nada a não ser um fogo de artifício de palavras e milhares de raciocínios desvairados em minuciosa efervescência. «Esta tagarelice na minha cabeça; daria tudo para me calar.» Olhou Boris com inveja. Aliás, naquela cabeça obstinada devia haver grandes silêncios. Qui est cruel, jaloux, amer? C'est Jobnny Palmer. «Minto.» A sua decadência, as suas lamentações eram mentiras, vácuo; atirava se para o vácuo, à superfície de si mesmo, fugir à pressão insustentável do mundo verdadeiro. Um mundo negro e terrível que tresandava a éter. Naquele mundo, Mathieu não estava lixado — era muito pior. Era um atrevido e um criminoso. Marcelle é que estava lixada, se ele não descobrisse os cinco mil francos até ao dia seguinte. «Lixada de verdade.» Sem lirismo. Tinha o filho ou ia arriscar a vida nas mãos de um charlatão. Naquele mundo o sofrimento não era um estado de alma, não havia necessidade de palavras para exprimi lo. Era uma expressão das coisas. «Casa com ela, falso boémio, casa com ela, meu caro, porque não hás de casar com ela?» «Aposto», pensou Mathieu horrorizado, «que ela vai morrer com isto.» Todos aplaudiram, e Lola dignou se sorrir. Inclinou se e disse: — Uma canção da «Ópera de Quat sous»: A Noiva do Pirata. «Não gosto dela nesta canção, Margo Lion era bem melhor. Mais misteriosa. Lola é uma racionalista, não tem mistério. E boa de mais. Ela odeia me, mas com um ódio grosseiro, volumoso, sadio, um ódio de homem de bem.» Ouvia distraidamente esses pensamentos leves que corriam como ratos num sótão. Por baixo havia um sono espesso e triste, um mundo espesso que esperava no silêncio. Mathieu cairia nele mais cedo ou mais tarde. Viu Marcelle, viu lhe a boca severa e os olhos muito abertos: «Casa com ela, falso boémio, casa com ela, estás na idade da razão, deves casar.» Un navire de baut bord Trent' canons au sabord Entrera dans lê port.

A IDADE DA RAZÃO x «Basta! Basta! Arranjarei o dinheiro, terei de o arranjar ou casarei com ela, pronto, não sou um ser abjecto, mas hoje, esta noite pelo menos, que me deixem em paz, quero esquecer. Marcelle não se esquece, está no quarto, deitada na cama, lembra se de tudo, vê me, ouve os rumores do seu corpo. E que importa? Usará o meu nome, terá a minha vida inteira, mas que me deixe esta noite só para mim.» Voltou se para Ivich, lançou se ao seu encontro, ela sorriu lhe, mas ele deu com o nariz numa muralha de vidro enquanto aplaudiam. — Mais uma! Mais uma! — gritavam. Lola não ligou aos pedidos; tinha outro número às duas horas de madrugada, poupava se. Saudou duas vezes e caminhou na direcção de Ivich. Algumas cabeças voltaram se para a mesa de Mathieu. Mathieu e Boris levantaram se. — Boa noite, querida Ivich. Como está? — Boa noite, Lola — disse Ivich, de uma maneira indolente. Lola acariciou o queixo de Boris, com delicadeza. — Boa noite, crápula. A sua voz calma e grave dava à palavra «crápula» um tom de dignidade. Dir se ia que a escolhera a dedo entre as palavras ridículas e patéticas das suas canções. — Boa noite, minha senhora — disse Mathieu. — Ah! — respondeu ela —, também está aqui! Levantaram se. Lola olhou para Boris. Parecia com pletamente à vontade. — Disseram me que patearam Ellinor? — Estávamos a falar disso. — Foi chorar ao meu camarim. Sarrunyan está furioso, é a terceira vez em oito dias. — E vai despedi la? — perguntou Boris, com ar inquieto. — Estava com vontade; ela não tem contrato. Eu disse lhe: se ela sair, eu saio também. — Que é que ele disse? — Disse que ficasse mais uma semana. Percorreu a sala com o olhar e afirmou em voz alta: — É um mau público, o desta noite. — Pois eu não diria o mesmo — observou Boris. A vizinha de Ivich, que devorava Lola imprudentemente com os olhos, estremeceu. Mathieu teve vontade de rir. Achava Lola muito simpática. — É porque tu não estás habituado — disse Lola. — Quando entrei, logo vi que acabavam de se portar como idiotas, pareciam aborrecidos. Se a rapariga perder o lugar, só lhe resta o trottoir. Ivich ergueu a cabeça bruscamente, parecia desvairada. — Que se prostitua — disse com violência —, tanto me faz, e isso convém lhe mais do que a dança.

Esforçava se por manter a cabeça direita e conservar abertos os olhos baços e rosados. Perdeu um pouco a segurança e acrescentou, conciliadora: — Naturalmente, compreendo que ela precise de ganhar a vida. Ninguém respondeu, e Mathieu sofreu por ela. Devia ser difícil manter a cabeça direita. Lola olhava a placidamente. Como se pensasse: «Menina rica.» Ivich teve um risinho. — Eu não preciso de dançar — disse, com um ar malicioso. Mas o riso apagou se e a cabeça caiu lhe. — Que é que ela tem? — disse Boris, tranquilamente. Lola contemplou a cabeça de Ivich, com curiosidade. Passado um bocado, estendeu a mão gorda, agarrou Ivich pêlos cabelos e levantou lhe a cabeça. Parecia uma enfermeira. — Que é que aconteceu? Bebeu de mais? Afastava, como uma cortina, os cachos louros de Ivich, pondo a nu as faces pálidas. Ivich entreabria os olhos amortecidos e deixava a cabeça indinar se para trás. «Vai vomitar», pensou Mathieu, sem se perturbar. Lola dava puxões nos cabelos de Ivich. — Abra os olhos, vamos, abra os olhos, olhe para mini. Os olhos de Ivich arregalaram se. Brilhavam de ódio. — Estou a olhar para si — disse com uma voz cortante. — Estou a olhar. — Ah! — observou Lola —, não está tão bêbeda como isso. Largou os cabelos de Ivich. Ivich levantou vivamente as mãos, arranjou os caracóis sobre o rosto, parecia modelar uma máscara, e na verdade o rosto triangular apareceu sob os dedos, mas em volta da boca e dos olhos ficou qualquer coisa de pastoso e gasto. Ficou um momento imóvel, com o ar intimidado dum sonâmbulo, enquanto a orquestra tocava um slow. — Vamos dançar — disse Lola. Boris levantou se e começaram a dançar. Mathieu seguiu os com os olhos, não tinha vontade de falar. — Essa mulher censura me — disse Ivich, sombria. — Lola? — Não, a minha vizinha. Ela censura me. Mathieu não respondeu. Ivich continuou. — Queria tanto divertir me esta noite... e afinal... Detesto ganhar champanhe! «Deve detestar me também porque a fiz beber!» Viu no entanto, com surpresa, que ela pegava na garrafa e enchia novamente a taça. — Que está a fazer? — Acho que não bebi o suficiente. Há um estado que precisamos de atingir, depois sentimo nos bem. Mathieu pensou que devia tê la impedido de beber, mas não se

mexeu. Ivich levou a taça aos lábios e fez novamente uma careta. — Como é mau! — disse pousando a taça. Boris e Lola passaram perto da mesa. Riam. — Como vai isso? — gritou Lola. — Agora muito bem — disse Ivich com um sorriso amável. Tomou de novo a taça e esvaziou a de um trago, sem despregar os olhos de Lola. Lola devolveu lhe o sorriso, e o par afastou se a dançar. Ivich parecia fascinada. — Ela aperta se contra ele — disse com uma voz quase imperceptível. — É... é ridículo. Tem uma cara de fera. «Está com ciúmes», pensou Mathieu, «mas de quem?» Estava semiembriagada, sorria com uma expressão maníaca, interessada em Boris e Lola, e não lhe dava a menor atenção, apenas lhe servia de pretexto para falar em voz alta. Os sorrisos, os gestos, todas as palavras que dizia, endereçava os a ela própria através dele. «Isto devia ser me insuportável», pensou Mathieu, «mas deixa me completamente indiferente.» — Vamos dançar! — disse bruscamente Ivich. Mathieu sobressaltou se. — Mas não gosta de dançar comigo. — Não faz mal, estou bêbeda. Levantou se cambaleando, quase a cair, e segurou se à mesa. Mathieu tomou a nos braços e arrastou a. Entraram num banho de vapor, a multidão fechou se sobre eles, sombria e perfumada. Durante um segundo, Mathieu sentiu se perdido, mas depressa ficou senhor de si, marcando o passo atrás de um negro. Estava só; logo aos primeiros acordes, Ivich levantara voo, já não a sentia. — Como é leve! Baixou os olhos e viu uma porção de pés! «Há quem dance pior do que eu», pensou. Segurava Ivich a certa distância e não a olhava. — Dança correctamente — disse ela —, mas vê se que não tem prazer nisso. — Dançar intimida me — disse Mathieu. Sorriu. — Você é que é espantosa. Há pouco, mal podia andar, e agora dança como uma profissional. — Posso dançar completamente bêbeda — disse Ivich. — Posso dançar a noite inteira, nunca me canso. — Gostava de ser assim. — Nunca o conseguirá. — Bem sei. Ivich olhava em volta, com nervosismo. — Já não vejo a fera. — Lola? À esquerda, atrás de si. — Vamos para lá.

J E A N P AUL SARTRE Lola fechava os olhos: as pálpebras eram duas manchas azuis sobre o rosto duro. fixava em Lola um olhar pesado. Lola já estava sentada. pensei que nunca dançasse. Ivich e Mathieu voltaram para a mesa. Fez se um silêncio difícil. Ivich beliscou o cotovelo do irmão. de maneira a ficar ela própria de costas para Boris. — Fiquemos aqui: já não há espaço. — Eh! Ivich. Ivich não respondeu. Boris e Lola aproximaram se às voltas. — Você estava magnífico — disse Boris a Mathieu —. — Dança admiravelmente — disse para Ivich. a fim de dar lugar à orquestra argentina. — Venha — disse com voz rouca. com a cabeça inclinada para trás. Acrescentou maldosamente. — São cómicas — disse Boris enchendo o cachimbo. — Eu guio. O jazz calara se. mostrando os dentes: — Não tenha receio. Levantaram se. os negros apressavam se a pôr em ordem os instrumentos. Um pequenino céu local formara se por cima das suas cabeças. redondo. Boris arregalou os olhos. — E agora? — perguntou Mathieu. IDADE DA RAZÃO — Forte como é. — São. Boris sorria. guio como um homem. — Não sei guiar — respondeu Lola. Às primeiras notas do tango. de olhos fixos no irmão e em Lola. — Percebeste porque é que ela me chamou Pequeno Polegar? — Parece me que sim — disse Lola. solitária e reivindicadora. Ivich. O homem pediu desculpas. e ninguém tinha vontade de falar. Ivich tornara se quase pesada. — Olá. nem sequer dançava. devia dedicar se de preferência à dança acrobática. perdido numa solidão angélica. fez Mathieu dar meia volta. arrastava Mathieu.Deram um encontrão num casal magricela. Ivich dirigiu se para Lola. Lola abrira os olhos. — Divirto me loucamente — disse Ivich. mas o ruído dos aplausos abafou lhe a voz. e a mulher deitou lhe um olhar raivoso. Ivich emudecera. Mathieu via lhe apenas uma ponta da orelha entre dois caracóis. . não fujas! Porque é que me chamas assim? Ivich não respondeu. As lâmpadas acenderam se de novo. seco e sufocante. Pequeno Polegar. Boris murmurou ainda algumas palavras. — Foi a sua irmã que quis. Nem Boris nem Lola os tinham visto chegar. Ivich abraçou brutalmente Lola e empurrou a para o meio da sala. Quando chegaram muito perto.

À direita. Pousou o cachimbo e disse gravemente: — Aliás. — A loura cheia de pérolas? — São falsas.. não sou como você. pensou. — Não é isso — disse Boris rindo. — Ela não tira os olhos de si.Lola. — Que vai fazer? — Nada — disse ele. Mathieu pegou delicadamente no canivete e tentou abri lo. J E A N P AUL SARTRE Calaram se. surpreendido. sou um casto. — É uma navalha espanhola — explicou — com travão de segurança. Cuidado. afinal são todas iguais. — Há de ver. — Não é isso. — Hum! — disse Mathieu. Acrescentou. Parecia uma rapa riguinha. terceira mesa — disse Boris. — Acredito. Ter uma é ter todas. é uma mulher comprometida. queria a todo o instante convidar me para dançar. Voltou a pegar no canivete. principalmente. Viverei como um monge. há de ver e vai ficar admirado. — Você está a ficar muito puritano. deu me uma cigarreira. cuidado. Tirou do bolso um enorme canivete de cabo de chifre e pousou o sobre a mesa. — Conheci a terça feira passada.. . Desviou o olhar e viu no rosto de Boris uma satisfação ingénua que o magoou. — É uma arma de caide — disse. mandou o empregado levá la daqui fora. com remorsos. as dançarinas. — Que tal? — Assim. deslizando sobre um mar sombrio. «Está contente porque está a meu lado». abriu o e colocou o perto do copo. mas as prostitutas. Mathieu olhou de esguelha para a rapariga alta e bela. quando tiver rompido com Lola. — Assim não. Mathieu contemplava a cabeça trágica de Lola ao longe. pode magoar se. assim. que tinha um ar distante. as cantoras. — Olhe — disse Boris. — Olhe para aquela mulher que acaba de chegar. era engraçada. ela está a olhar para nós. Esfregava as mãos. «e eu nunca tenho nada para lhe dizer». incrustada de pedras. com desprezo —. — E que tem isso? — indagou Mathieu. Lola estava louca. Não sabia que era tão alta. — Está a ver estas manchas escuras? O tipo que ma vendeu garantiu que eram manchas de sangue. Além disso. sombrio: — Era de prata. tinha se drogado.

cinco charutos de Havana e aquele navio dentro da garrafa que vimos na Rua de Seine. porque tem sempre razão. Vou virar as costas. É bonito. às vezes. — Estou tuberculoso.. Dança no Alcazar. Que lata! Pura vaidade. é um desgraçado. Trinta e cinco anos e ares de querubim. — Tem razão — disse. — Você é odioso. fica desvairado. enfraqueceu a sua posição. já sei. devem ter uns modos! E depois é lisonjeiro. um binóculo de corrida. isso não.satisfeito. — Eu queria ter uma mulher da alta sociedade. — Eu sei que não paga as suas dívidas de honra.. — Quero confessar lhe tudo — disse com ar confuso. Acho que deve ser divertido. — É no peito que você me faz mal — explicou Boris. Boris reconheceu o. está demasiado preso a Lola. Imagine! Você compra o Vogue. com os seis perdigueiros. e pensa: «Dormi com esta mulher ontem à noite. — Olha. trazem o nome no Vogue. J E A N P AUL SARTRE Acendeu de novo o cachimbo. — No dia l de Julho.. Depois . Quer apostar? / — Não. cuidadosamente. quer roubar me Lola porque não gosta dela. — Com trinta e cinco — disse Boris secamente —. — Não acha uma injúria formidável: o senhor é um medíocre!? — Não é má.» Deve sentir se uma certa emoção. — E você um medíocre! O rosto iluminou se lhe. não. já terei morrido há muito. — Cale se — disse Boris. Já me deve cem francos. — Mas na gostava de me tratar. ela está a sorrir lhe agora — disse Mathieu. Algumas. — Ou então: o senhor é um zero! — Não. — Ora. Mathieu disse: — Isso não acaba tão depressa. Mme. Acho que não se devem ultrapassar os trinta.. Aposta todos os meses que vai acabar no \ mês seguinte e perde sempre. de boa vontade. olha as fotografia e vê. furioso e divertido ao mesmo tempo —. — Sim. — Já sei — uma vez Boris ferira as gengivas com a escova e cuspira sangue —. E então? — Não me incomodo com isso — disse Boris. sem se perturbar. de repente. — Não pode tomar partido. pode esperar pêlos charutos e pelo navio. porquê? — Não sei. — Olhe. Você nunca pensou em acabar. — Quem é o tipo que está com ela? — Um amigo. — Agrada lhe dizer isso. você há de ser assim aos trinta e cinco anos. não acha? Olhe bem aquele focinho. — E superior às suas forças — continuou Mathieu. Ia Comtesse de Rocamadour.

J E A N P AUL SARTRE — Se eu quisesse o quê? — Nada. — Não quero pedir a Lola. — Lá isso é verdade.. Estão lá. estava realmente ali. Não o suporta.. — Não digo isso de si. e ficar nessa idade o resto da vida. No fundo de uma mala. — Se tivesse os seus vencimentos. — Não está a perceber — disse Mathieu. — Tem um ar muito chateado — disse Boris. talvez pudesse ter falta dele. — Se você quisesse. eu preciso é de cinco mil. A — Bem sei — disse Mathieu. Lola está cheia de dinheiro e não sabe o que lhe há de fazer. nem sequer teve tempo de depositá los no banco. Seria agradável. «ele sabe ser novo. Era ainda mais: uma justificação. — Eu gostava de ter dois anos a mais. naquele dancing. — Merda — disse Boris. — Desculpe! O seu amigo Daniel não lhos empresta? — Não pode. Boris riu. já nada se vale. Depois dos trinta. comprar acções. Mathieu encarou o com uma simpatia escandalizada. irritado. — Você defende se mal — disse Boris com severidade. não é tão estúpido como isso viver a mocidade a fundo até aos trinta e morrer. «Que importa». — Não quero pedir nada a Lola. Mas tem sete mil francos em casa há quatro meses. — Mas juro lhe que ela não sabe o que lhe há de fazer. não tocou neles. não precisava de pedir emprestado. embaraçado. Boris assobiou com um ar entendido. Boris corara. jogar na Bolsa.tornamo nos uma ficha inútil. porque ela não me suporta. Se se tratasse de uma conta no banco. . A juventude era para Boris uma qualidade perecível e gratuita de que era preciso tirar proveito cinicamente e uma virtude moral de que se devia mostrar digno. cheio de confusão. — E o seu irmão? — Não quer. desolado. — acrescentou. mas olhava Mathieu com uma solicitude inquieta.» Só ele. Olhou para Mathieu e acrescentou. Estava a pensar que é absurdo. Mathieu estremeceu. pensou Mathieu. Quer cem francos do barman? — Obrigado. no meio daquela gente toda. — Mas tem razão. talvez. No fundo. naquela cadeira. depois dos trinta já se está morto. De qualquer maneira. — Nota se isso? — E de que maneira! — Dificuldades de dinheiro.

de ponta para baixo. apesar de tudo. — Simpática? Ah!.» Estava envergonhadíssimo e covardemente aliviado. nervosamente. «fazer de cavalheiro à custa de Marcelle». s — Es um monstro. sombrio. não faça isso — disse Mathieu com vivacidade —. Mathieu acompanhava Boris e Lola com o olhar. Boris ainda não tocara no assunto. Boris não respondeu. — Sim. é bela! — E o corpo! Como é comovente aquele rosto devastado e o corpo amadurecido. tem nos à mão e não lhos quer pegar. — Ela é simpática — disse Mathieu. entre dentes. A — Que é isso? — perguntou Lola. A sério — insistiu —. pensou. distraidamente. com orgulho: — Eu intimidava a. Boris levantou a arma e pousou a sobre a mesa. O rosto iluminou se lhe e acrescentou com um sorriso feliz: — Tu és gentil. E se os pedisse para mini? — Não. ser me ia desagradável que lhos pedisse. uma fêmea. — Vem dançar — disse. Virou se para Boris. — Ela é formidável — disse com a sua voz enrou quecida. Parecia gracejar. Pegou no canivete com dois dedos e levantou o devagar à altura da fronte. Boris olhou para Lola. ia dizer lhe: «Peça o dinheiro a Lola». não. — Quer dançar? J E A N P AUL SARTRE — Não — respondeu Ivich —. ela acabaria por saber. Cruzava e descruzava as pernas. mas não conseguiu articular as palavras. — Vocês matam me. e Mathieu pensou: «Ele vai pedir o dinheiro. Boris abriu os dedos.— Está a ver! — Não deixa de ser estúpido. e Lola sorria lhe. para te fazer andar direita. enfiou se no chão e o cabo pôs se a vibrar. Encheu a taça por . O canivete caiu. Acrescentou. Sentia o tempo voar e tinha a impressão de que ela ia murchar nos meus braços. Você está chateado por causa de cinco mil francos. Mathieu sentia se perturbado. — Bem vi — disse Mathieu. — Uma navalha espanhola — disse Boris —. É uma mulher horrível. Boris levantou se. «Sou ignóbil». Ivich sentou se ao lado dele. e o sangue subiu lhe às faces. quero beber. Ivich e Lola voltaram aos seus lugares. A orquestra iniciara outro tango.

Lola mantinha se calma. — Não faça asneiras — disse Mathieu. Ela não compreende! Uma mulher da idade dela. — Oh!. estou exausta. isso é comigo. Lola e Ivich passaram perto de Mathieu. pensou Mathieu. No momento em que começavam a dançar. Boris tomou um ar sério. e os dançarinos abriam passagem para lhe demonstrar respeito.. não — disse Lola —. Ela corou ligeiramente e levantou se. Ivich levantou se sem mostrar espanto e atirou se ao encontro de Lola. a expressão rancorosa e acovardada dava lhe um ar de semelhança com a irmã. — Fez uma cara de poucos amigos e disse que precisava do dinheiro. falava sem olhar para Lola. Mathieu pegou na navalha . Ora. Lola seguia o. querida. — Exigiu que eu não falasse. — Ela não quer? — indagou Mathieu. Boris inclinou se para Ivich: — Faz me um favor... ora — acrescentou com um furor espantado —. «ele já está a falar». e Boris apareceu. estava irritado com Boris. inconsciente. mas por baixo do sorriso estava atenta. provocante e mau. Vou acabar bem. Parlamentaram um minuto e Ivich levou a para a sala. Foi inclinar se diante da loura grande. Os ombros de um negro gigantesco esconderam Ihe o rosto de Lola. e já. Lola não dizia nada. Porque recusou? DADE DA RAZÃO — Não sei — disse Boris. a primeira vez que lhe peço alguma coisa. A música parou. — Não deve ter acreditado. Ivich recuava com os olhos virados para o céu. majestosa. Uma semelhança perturbadora e desagradável. asperamente: — É fantástico como me divirto aqui.. mas há de pagar. Estava pálido. — Não — disse Boris —. A multidão dispersou. que quer um tipo como eu. erguendo os ombros. Mathieu sentiu que corava. não parecia satisfeita. Acrescentou. Ela conhece o. que ressurgiu com um ar fechado. não. — Ficou aborrecido comigo? — indagou Boris. A loura era toda trejeitos. — Seria parvo se me zangasse. Disse lhe o nome: Picard. — Tenha calma — advertiu Mathieu. — Ora — disse Boris com ar hostil —. convida a. porque a dança não deixa ficar embriagado e o álcool sustenta.metade e explicou: — É conveniente beber quando se dança. avançava. o que sei é que vai me pagar. — Não sei. tem de pagar! — Como é que lhe pôs o problema? — Disse que era para um amigo que quer comprar uma garagem. e é verdade que ele quer comprar uma garagem. Bem sabe que o deixei pedir. «Pronto».

espero que eu venha a rebentar de calor e a dizer: "Sim. Hei de vê la todos os dias da minha vida.pela lâmina e pôs se a bater com o cabo na mesa.» Olhava aqueles rostos avermelhados. entre as poltronas de couro verde. Cada um a sua. não te irrites. aceito a como esposa. li. pegou na garrfa e inclinou a por cima do copo. ao sabor dos meus humores. sul atrás. a Rua da Gaite. perfeitamente natural. a Mancha cor de café com leite. sou eu que me espero nas encruzilhadas. No centro. só porque a desço sempre. e eu no meio. e mares tingidos de azul ou de preto. para além de si próprio. «Vai haver sangue». o quarto de Marcelle. vestido de preto. a Porta de Clignancourt em frente de mini e no meio a Rua Ver DADE DA RAZÃO cingetorix. a Torre Eiffel à esquerda. através das ruas de Paris. nua.» Pousou a navalha na mesa. espero a minha chegada. fora. E isso marcava! Cada um dos meus gestos suscitava. bebeu o. uma pequena espera obstinada que amadurecia. fiz amor. das minhas preguiças. Elas estendem se através dos muros do dancing. Sobrava um pouco de champanhe na taça de Ivich. cortam se e permanecem. entrecruzam se.» J E A N P AUL SARTRE «Uma vida. a distâncias fixas do meu quarto. estava se marimbando. um buraquinho forrado de cetim cor de rosa. «Bocejei. Eu sabia que cada um tinha a sua vida. o meu apartamento. a Alemanha.» Pensou: «Tudo está claro. mas com segurança. sou eu que me espero sentado numa poltrona vermelha. segreguei a minha concha. minha mulher. aquelas luas ruivas que deslizavam sobre coxins de nuvens. agora acabou. estou enfiado lá dentro. Sou eu essas esperas. o Panteão à direita. escapo. como engolir a própria saliva. Estava vazia. E em volta de Paris. Aliás. Pensava em Marcelle: «Marcelle minha mulher». com um colarinho duro. o Mediterrâneo azul. Todos. Em minha casa. «Não te incomodes. a França sulcada de estradas de sentido único. na grande sala da mairie do XIV. «Lentamente. «Minha mulher."» Sacudiu violentamente a cabeça. Enganava me. o mar do Norte preto. no futuro. . mas a vida manteve se firme. tão rigorosamente pessoais quanto uma escova de dentes ou uma lâmina. descontrai te. e depois outros países. «Todos têm vidas.» Era natural. num sentido. pensou. sussurrando. e Marcelle está lá dentro. Eu sabia. viverá na minha casa. a Avenida du Maine e Paris inteiro em volta de mini. tenho uma vida. pela França. ignorava a existência da minha. sê natural.» Pensava: «Não fazendo nada. e alguma coisa se fechou dentro dele. como respirar. à minha espera. como os objectos de toilette que não se emprestam. a Itália — a Espanha é branca porque não fui bater me por ela — e as cidades redondas. norte na frente. Sentia o por todos os lados.

o autocarro.» Ergueu os olhos e viu Lola. «Levei uma vida desdentada». se agarrasse no ombro de um árabe para através dele tocar em Marráquexe. Absolutamente nada. se fosse passar as férias a Marrocos e chegasse de repente a Marráquexe. mas olhava Ivich e parecia lhe que ouvia aquela melodia triste e rude pela primeira vez. da mairie do XVIII. a três mil quilómetros do marroquino e do seu turbante. não me aproximo um centímetro sequer de Marráquexe ou de Tombuctu. Tinha um sorriso mau nos lábios. «Uma vida desdentada. onde fora examinado pelo serviço de recruta J E A N P AUL SARTRE mento em Outubro de 1923. que não esteve na Espanha. «Nunca será minha.» «A minha vida. Mesmo se eu apanhasse o comboio. entre os meus livros.» Sorriu. agora. aquele que não aprendeu inglês. um cheiro de poeira e de violetas. de uma mairie à outra. Toronto. pensou. minha querida liberdade. sem idade. vagueio. No meu quarto para sempre. Era uma estranha coisa sem começo nem fim e que no entanto não era infinita. guardava me para mais tarde — e acabo de perceber que já não tenho dentes. uma consciência sem eu. Viu Ivich. Ando. no meu quarto. um pouco de ar quente apenas. perdida. contemplou com ternura o corpinho rancoroso e frágil em que a sua liberdade se atolara. Que fazer? Quebrar a concha? É fácil de dizer. I ercorria a com os olhos. pôs se a sobrevoar o seu próprio corpo empoeirado. fico em casa. ainda estaria no meu quarto. era um olhar.Tombuctu. Nunca mordi. Aquela tinha um sentido vago e hesitante como as coisas naturais.» Envolvia o. Mi caballo murió. Para sempre.» Dançava. Ela dançava. a sua vida. Nijni Novgorod. contemplava o falso boémio. farto me de viagens: férias de universitário. o intelectual . passeio. o pequeno burguês preso às suas comodidades. esperava. o seu marido.» E de repente uma consciência. uma consciência pura. E aliás o que me restaria? Uma pequena massa viscosa que se arrastaria na poeira deixando atrás de si uma esteira brilhante. nunca entrará na minha concha. estava embriagada. por onde ando levo a minha concha comigo. incríveis como marcos quilométricos. esse árabe estaria em Marráquexe. sentia uma dor humilde e refrescante. Pairava lá em cima. Vou me embora. de cabeça inclinada para trás. Eu continuaria sentado no meu quarto. «Minha querida Ivich. não pensava em Mathieu. Como se ele nunca tivesse existido. uma insipidez tenaz. ainda estaria em casa. o barco. o professor. que não aderiu ao Partido Comunista. eu não. Kazan. à mairie do XIV. tranquilo e pensativo como escolhi ser. Para sempre o ex amante de Marcelle e. Se fosse passear nas praças. aonde ia casar com Marcelle no mês de Agosto ou Setembro de 1938. A orquestra tocava um tango argentino que Mathieu conhecia bem. sem futuro: «Não tem concha.

«não revolucionário revoltado». não têm o direito. de cabeça erguida. Boris fixou em Lola um olhar de raiva e admiração. com um ar calmo e decidido. Mas não podia durar. É uma puta. — Que é que ela fez? Boris franziu as sobrancelhas e estremeceu sem responder. sofredora. era Mathieu. olhava a nota com um ar de censura. Mathieu encontrou se a sós consigo mesmo. — É de mais — gritou a loura —. — Não — disse Sarrunyan —. Ivich voltou a sentar se perto de Mathieu. depois virou se bruscamente . Lola sorriu lhe e atravessou a sala. A orquestra argentina deixava a sala. Se aquilo pudesse durar. Mi caballo murió. não me vou embora. efémera e desolada. de resolver qualquer coisa. sobre o rosto de Ivich. girava numa bolha giratória. — Safa! — O quê? — A loura. O companheiro dela levantara se. Boris olhou para o sapato direito. não parecia muito orgulhoso de si. Já nem se julgava. seco e duro. desvairada. era capaz de tudo. a orquestra calou se. não pensei que fosse tão fácil.. Este parecia admirado. Uma consciência vermelha.» Mas não era solidária com ninguém. no fundo da sua vida. E ela pensava: «Este tipo está lixado. Disse a Mathieu. tinha um ar estranho. A loura levantou se de repente. um lamento sombrio. inchava. com afectação. — Obrigada — respondeu Lola —. dando às ancas do mesmo modo. ela cansou se. Quando se sentou. nem sequer se aceitava. Mathieu olhou em volta da sala e descobriu Lola junto dos músicos falando com Sarrunyan. Mathieu sobressaltou se.falhado. os negros voltavam com os seus instrumentos. — Nunca mais virá — disse com um sorriso divertido. de se desesperar de verdade pêlos Espanhóis. a loura deu Ihe o braço e saíram os dois. Os cantos da boca tremiam lhe. Falava lhe em voz baixa. Depois deitou um olhar matreiro para a grande loura. A loura amarrotou uma nota de cem francos e atirou a para a mesa. como um maïtre d'hotel que espera ordens. e depois?» Boris voltou ao seu lugar. Depois. que se abanava. assobiando baixinho. e fez se um silêncio pesado. com negligência. A consciência inchava.. Sarrunyan inclinara se obsequiosamente para a loura. ruidosa de música. Mexeu dentro da carteira. Sarrunyan aproximou se de Lola. bem o merece. e todos olharam. Ele afastou se. Estava só. J E A N P AUL SARTRE — Vem — disse para o companheiro. o sonhador abstracto rodeado por uma vida flácida. sou eu que a convido. eis tudo: «Um êxtase a mais.

— Vem dançar. lá pelas três horas. vacilante. — Que estranho! Dava a impressão de que ela ia soçobrar. Mathieu pôs se a rir. Não pensava em nada. — Sabia que Boris precisava de cinco mil francos? — Não — disse ele. Mathieu sorriu lhe. — Então? — Lola encolheu os ombros. — Esta gente vem aqui por minha causa. Mathieu não sabia que lhe havia de dizer. puros como uma melodia. enquanto se levantavam. — Ele sabe que nunca tenho um tostão. e ela tamborilava nervosamente na mesa. Lola contemplou os calmamente. incrédula. ou então que a boca se ia rasgar e largar um grito enorme. — Você faz o que quer nesta boite — disse. sorria. sem deixar de sorrir. casco para o ar como um velho navio. — Não. Ela abriu os olhos. — Ele diz que é para Picard. pensou. deve ter passado pelo hotel de Boris. — Precisam de mim — respondeu Lola. — Desculpe. Pensei que fosse para si. J E A N P AUL SARTRE Mathieu disse com indiferença: — Picard precisava de dinheiro. Felizmente ela levantou se instantes depois. — Picard trabalha durante o dia todo em Argenteuil. Ivich e Boris dan DADE DA RAZÃO cavam. «Já tem a sua conta». Virou a cabeça e ficou a olhar para os pés. Passou algum tempo. — Acabo de recusar — disse Lola. — Sim. Lola voltara. Deve ter encontrado Picard mais tarde. — E não lhe disse nada? — Não vejo nada de extraordinário nisso. — Esteve em casa à tarde? — perguntou ela. Mathieu via duas grandes íris verdes com pupilas minúsculas. Pensou: «Está na hora da droga. — Não sabia. tinha os olhos cerrados. Não o encontrou e depois deve tê lo visto no Bulevar . Uma espécie de queixa rouca o fez estremecer.» Ele estava só. Precisava de cinco mil francos? Lola continuava a olhá lo. apenas um pouco menos impiedosos. Mathieu viu a dar a volta à sala e desaparecer. com indiferença. — Foi o que me disse. Mas quando se afastaram. o rosto dela sulcou se de repente. Os olhos continuavam lhe inquietos.para Ivich. — Então não estava ao corrente — perguntou Lola.

Mathieu adivinhava uma grande perturbação. Lola olhava diante de si com uma expressão sombria e tensa. com frieza. Olhava Mathieu com uma insistência inquieta. triunfante. — Mas quem haveria de soprar? — Não sei.. Lola desviou o olhar e perguntou: — Não seria uma prova? — Uma prova? — repetiu Mathieu. «Ela ficaria zangada com ele e ele transformar se ia em meu cúmplice. os cantos dos lábios levantaram se lhe bruscamente. Inventou essa história de Picard. A não ser que alguém lhe tenha soprado a ideia. Lola encarou o ironicamente. Tinha vontade de dizer: «O dinheiro era para mim. por acaso. que tem apenas trezentos francos por mês de mesada? — Então. Hoje eu nem queria vir. — Ouça — disse Mathieu —. não sei — disse Mathieu. não vale a pena fazer cerimónia. — Quem é que lhe disse isso? — Admira se de que o saiba? — perguntou Lola. Mas há também quem acredite fazer lhe bem dando lhe volta à cabeça. Mas eu sei aonde ele quer chegar. De longe. — E possível. — Que ideia! — Ivich passa a vida a dizer lhe que eu sou sovina. Não tenho culpa. Não falta quem pense que já estou velha e que ele é um miúdo. Mas não era possível por causa de Boris.Saint Michel.» Lola tamborilava na mesa com as unhas escarlates. se é para mim que diz isso. A — E então? — Quis ver se eu era agarrada. Imagino que gosta de nós de maneira diferente e que fica irritado quando nos encontra ao mesmo tempo a um e outro. exasperado. mas por baixo daquela cólera. uma prova. tremiam e voltavam a cair. Ou então faz me perguntas com ar de quem não sabe o que quer. Finalmente disse: . — Acredita que se preocupa com elas? — Não. — E um tipo leal. quer ficar com a consciência limpa.» Assim teria acabado imediatamente com aquilo. Aliás eu já o sinto só pela maneira de me olhar. Tinha vontade de rir. está enganada. — Pensa que Picard iria pedir cinco mil francos a Boris. — Ah! — disse Lola. Basta ver a cara das idiotas que andam por aqui quando estamos juntos. Não sabe resistir. — Sim. Não pensem que podem falar mal de mim diante dele sem que mo conte. admirado.. Fez se silêncio e depois perguntou repentinamente: — Como explica que haja sempre cenas quando vem aqui? — Não sei.

com uma violência inquieta: — Devia saber que ele gosta de mim! Deve ter lho dito. Quando se cansar de mim. sei que sou uma mulher velha. mas o que lhe digo é que esse miúdo é a minha última oportunidade. e Mathieu compreendeu que não a convencia. «Desabafa».. — Eu sei. — Pensava — disse Lola com um ar firme. e isso acontecerá por certo bem mais cedo do que espero. Mathieu encolheu os ombros. Entre ambos. pensativamente — não é preciso que mo digam. — Que quer dizer com isso? — Olhe para nós e olhe para eles. que dançavam. apesar do ódio. Lola exclamou. Lola teve um gesto de desprezo. Mathieu calava se. Tenho a certeza de que não lhe faço mal. Se me interessassem. Entretanto.» Mas a outra coisa. ele diz lhe tudo. é feliz comigo quando não lhe metem coisas na cabeça. — Porquê tão bem como eu? — Somos iguais. faça o que entender.. Há coisas que lhe posso ensinar — acrescentou num desafio. Boris e Ivich dançavam.. Depois disso. As suas relações com Boris não me interessam. — Acho que ele gosta de si. — Eu pensava: ele acha se com responsabilidade porque é professor..— Ouça bem. achava tudo muito certo. Calou se. Mathieu . Ela parecia escolher as palavras.. algo viscoso e voraz. — Não quero que mo roubem. Olhava Boris e Ivich.. e calaram se sem se reconciliar. — Pois bem..» Mas aquela semelhança desgostava o ligeiramente. Lola volveu para ele os olhos pesados. Viu no amor de Lola. Mas é por isso que posso ajudá lo. e tinha vontade de dizer a Lola: «Não nos vamos zangar. havia uma espécie de solidariedade. Talvez o percebessem vagamente. — E depois. murmurou: A — Diz me isso a mim. Olhavam ambos Boris e Ivich. eram cruéis sem o perceber. Mas sei o tão bem como você. não pense nisso. Lola detestava Mathieu e no entanto aquilo que lhe dizia agora nunca o tinha dito a ninguém. — Já passei por tudo e não tenho ilusões. «É sem dúvida da droga. bem vê que somos iguais. poderá largar me.. pensou Mathieu. Mas não quero que mo roubem. — continuou.. — Nós não somos iguais — disse. apesar da violência e da pureza. J E A N P AUL SARTRE — Não pretendo roubá lo — disse ele. Mathieu não respondeu logo.. quem lhe diz que sou velha de mais para ele? Ele gosta de mim tal como sou.

dando voltas entre as paredes vermelhas. — Não. — Voltamos já. Ouviu Lola murmurar para si própria: «Se ao menos tivesse a certeza de que é para Picard. — Está. Lola passaria para trás do biombo e aí.» Boris e Ivich voltaram. — Naturalmente! — Que é que tem? — disse Ivich. indignada. Aliás.estava sentado ao lado de Lola. Lola tomou a droga. «Devem pensar que somos amantes». e Boris acompanhou a de mau humor. Mathieu calou se. Mathieu não respondeu. Ivich deixou se cair na cadeira. — Penso que gostaria de me drogar. — Bom. espera que a orquestra toque. será uma distracção. — Se tiver de ficar em Laon a vida inteira. Em seguida. respiraria duas pitadas de pó branco. estou cansada. quero falar contigo. mas ele não se atrevia a enxugá la. Não dançavam. Ivich. uma sala gordurosa e forrada a veludo vermelho. Lola levantou se com dificuldade. já disse. — Já percebi — disse ela. Boris pareceu não se sentir à vontade. com abandono. Depois da primeira pitada. — É verdade que estou bêbeda — disse. — Você está zangado porque estou bêbeda. porque aquilo já não era para a sua idade. Mathieu pensou que ela ia cair. Desculpe. Lola afastou se. Dançaremos. A testa de Mathieu suava. pões me doida. mas apoiou se à mesa e respirou fundo. Boris.» E Boris baixava a cabeça. receoso e obstinado. — Vem — disse a Boris —. — Não estou zangado. é uma ideia fixa tomar outra. tinha vergonha de transpirar diante de Ivich. Um vestido preto comprido. — Não — disse Lola —. — Estou bêbeda — disse Ivich. No seu camarim. aliás você não está tão embriagada como isso! — Estou for mi da vel men te bêbeda — disse Ivich com satisfação. Vem ao meu camarim. já estou quase na hora de cantar. — Não podes falar aqui? — Não. — Porque se vão embora? — Vão conversar. amavelmente. com a cabeça inclinada como para suster uma hemorragia nasal. Está a censurar me. Deviam ser duas horas. — Veio me de repente. As pessoas começavam a sair. Ela . o brilho negro do vestido no espelho e dois lindos braços brancos retorcendo se de desespero. pensou. ao dançar. Lola ameaçava e implorava: «Boris.

não é verdade! — Acho que sim. De vez em quando dizia com os seus botões que o Sol se ia levantar dentro em pouco e que teria de recomeçar as suas diligências. de Ivich. ficarei satisfeita. viver do princípio ao fim um novo dia. — Que me importam os exames — disse Ivich. — Que é que essa quer? — disse de repente. Não tenha medo. — Cale se. Percebeu a ruga rancorosa no rosto de Ivich. creio. não pensava em nada. sob aquelas luzes artificiais. com uma voz de bêbeda. — Eu não sou decente. Estava encostada à cadeira. não tinha nenhum desejo. Mathieu olhou a. — Se chumbar. a Sarah. Ivich. — Quem? — Essa mulher de preto. peco lhe. telefonar a Marcelle. Eu sou eterna. «Que chatice». o marido tinha acordado e olhava Ivich. teria dado tudo para não ter havido histórias. tomou um ar majestoso. Gostaria de permanecer indefinidamente à mesa. estou a divertir me. Ivich olhou o com uma expressão cortante. de olhos esbugalhados. Sorriu e afirmou com êxtase: — Brilha como um pequeno diamante. Dissera de manhã: «Tenho horror às mãos húmidas. apoiava obstinadamente a lâmina . Quando eu ficar dez anos em Laon.tinha dançado sem parar. — Divirto me muito — disse ela. e isso afigurava se lhe incrível. ficara pálida. vou chumbar. estou bêbeda. Pegou no canivete de Boris pelo cabo. Sentia se fraco e desanimado. com a minha mãe e o meu pai. J E A N P AUL SARTRE — Então — disse Ivich —. Desde que chegou que não pára de me censurar.» Já não sabia que fazer das mãos. Hoje de noite enterro a minha vida de solteira.» A mulher de preto compreendeu que falavam dela. os olhos maus e vagos e pensou: «Não devia ter falado. está suspenso no vácuo como um diamante. porém não transpirava. você também é decente. E redondinho. A mulher de preto olhava Ivich pelo canto do olho. pensou Mathieu. apoiou a lâmina contra o bordo da mesa e divertia se fazendo a curvar se. É verdade. Odeio a decência — gritou repente. ao meu lado. — Está a falar comigo. porque é decente — murmurou Ivich dirigindo se ao canivete. — O quê? — Este momento. Estava naquele estado de exaltação que um incidente qualquer pode transformar em furor. Sentia se preguiçoso e covarde. Mathieu voltou a cabeça. serei ainda mais decente do que você. — Essa mulher despreza me.

Estava quieta. — Nada. Ivich. que se enchiam de sangue.. venha depressa. — Um curativo? — Ivich riu. Erguera a mão à altura do nariz e examinava a com expressão crítica. ergueu a cabeça. Gosto de ver o meu sangue. — Atreve se a tocar em mini? Acrescentou. O sangue escorria. para os ombros de Mathieu. sem opor resistência. — É uma sensação muito agradável — disse Ivich. pensou Mathieu. Eu. Ivich olhava para Mathieu com os olhos a brilharem de ódio. Ivich ouvira com certeza. Quieta de mais. Parecia louca. — Está a compreender o alcance do que me está a dizer? Mathieu levantou se. — Que é que há? — perguntou Mathieu. mais uma indecência para divertir a senhora. e Ivich deixou o pegar no canivete. Mathieu estava desvairado. — Hum? — Não é culpa dela — continuou a mulher —. peco lhe. — Venha.contra a mesa e forçava a a curvar se. sem se levantar. receoso. com um ar estranho. — Não compreendo como é possível portar se como essa rapariga — disse. Segurava o canivete com a mão direita e rasgava a palma esquerda aplicadamente. maldosamente. culpados são os que a trazem aqui. O marido olhou. dir se ia o vaivém de um formigueiro. as suas mãos! Ivich troçava com um ar vago. — Ivich — gritou Mathieu —. contemplava os dedos magros de Ivich. «o escândalo». «Pronto». A vizinha de Ivich deu um gritinho e pôs se a pestanejar. Quero ver como suporta o sangue. — Parece um pedaço de manteiga. com um riso insultuoso: . Fez se um silêncio pesado e em seguida a mulher de preto voltou se para o marido. Mathieu olhou precipitadamente as mãos de Ivich. maníaco e contente ao mesmo tempo. inquieto. mas não disse nada. — Acha que ela vai desmaiar? Mathieu estendeu a mão por cima da mesa. — O meu sangue. mas ela desenvencilhou se violentamente. e pensava na dor que ela sentia. — Basta — disse Mathieu. — Você é doida! Vamos ao toilette fazer um curativo. Ivich tornara se pálida.. JEAN PAUL SARTRE Agarrou Ivich pêlos ombros. Parecia espiar qualquer coisa. A carne abrira se desde o polegar até o mindinho e o sangue gotejava devagar. e uma pesada gota de sangue caiu sobre a toalha.

deseja alguma coisa? A mulher de preto apertava o lenço sobre os lábios.» Não podia deixar de se sentir satisfeito. Era a opinião pública. tinha visto coisas piores. e o empregado acorreu: — Minha senhora. Duas gotas de sangue caíram no chão. com o cabo para o ar. tire! — Está a ver? — disse Mathieu. de pé. «Sou um imbecil». tinha o rosto completamente mudado. Era uma faca da casa? . — Oh! — disse ela —. à vida. Apontou Mathieu e Ivich. Depois fixou Mathieu. tire. com as mãos feridas levantadas. como foi que fez isso? E o senhor? — Estávamos a brincar com uma faca. o canivete ficou enterrado na carne. Mathieu arrancou rapidamente o canivete do ferimento e doeu lhe muito. — Um acidente acontece tão depressa.. À esquerda ouvia se um tumulto ameaçador. compungida —. a Daniel. Atravessaram a sala atrás do empregado. Um jogo para meninas nobres. imagino. Mas havia nele uma satisfação obstinada e uma má vontade deliciosa. Mathieu sentiu que empalidecia de raiva. Disse docemente: — Porque fez isso? — E você? — perguntou Mathieu. há lá tudo quanto é necessário. Riu tão fortemente que a mão lhe tremeu. Sentou se de novo. — Se quiserem ir ao toilette — propôs —. — Aí está — observou a mulher.— Devia ter imaginado que você acharia isto excessivo! Escandaliza se com o facto de que se possa brincar com o próprio sangue. sem dizer nada. Ivich. lamento. pensou. secamente. Ivich contemplou o. Mathieu não lhe dava ouvidos. — Ferimo nos com este canivete. — Meu Deus — exclamou a mulher do toilette —. ah! — exclamou Ivich. cerrando os dentes.. Ivich olhava a mão de Mathieu. Olhava Ivich. Ivich levantou se docilmente. O tumulto ampliou se. Quando o largou. acho isso encantador. tanto. Era tão cómico que Mathieu deu uma gargalhada. e depois riu também. O empregado não se impressionou. Não era apenas para enfrentar Ivich que tinha feito o golpe. Desta vez. Sentia se terno e maciço e tinha medo de desmaiar. Enfiou o canivete de um golpe na palma da mão e não sentiu quase nada. inquieta. o sangue que escorria em volta da lâmina. «Brunet tem razão em achar que sou uma criança velha. — Qualquer pessoa pode fazê lo. — Como isto me diverte! — disse Ivich. estendeu a mão sobre a mesa e disse docemente: — Excessivo? Não. era igualmente um desafio a Brunet. — Ah!.

— Não. . — Há pouco? — Sim. e metade do corpo desapareceu lhe dentro dele. encantada! Ela contemplava o com uma expressão de ternura e selvajaria. — Dói. tinha a impressão de que uma boca se abria na sua mão. — Está bem equipada — disse ele. tesouras. gravemente. — Faz me doer — gemeu Ivich. — Aqui está tudo — disse ela. agora. Mathieu e Ivich sorriam. tirei lhe um pedaço de vidro da sobrancelha. em letras douradas sobre as portas esmaltadas de cinzento creme. Anteontem. — Bem vê que nem tudo está perdido. — Ah! estava a estranhar. Ouviu se um ruído molhado. respirou um cheiro de desinfectante. é tintura de iodo. — Um pouco de paciência. Pronto! — Vai dizer me que sou indiscreta. Ele sangrava. A mulher movimentava se em volta de Ivich. É profundo o corte — disse. hesitou um instante. gazes. — Não deve ser muito desagradável esta profissão — disse. — A mistura dos sangues — explicou. Você estava sozinho. — Nunca imaginei que fosse fazer isso — disse Mathieu. Sentia se feliz. — Pois não — respondeu Ivich. J E A N P AUL SARTRE Abriu um armário. vai arder. — Não se inquiete. quando Boris convidou a loura. A embriaguez de Ivich parecia ter passado. Olhou o chão de ladrilhos brancos. Mas queria saber em que pensava quando eu estava a dançar com Lola — disse Ivich a Mathieu. — Parece me que pensava em mim. ligeiramente congestionada. Mathieu apertou lhe a mão sem falar e sentiu uma dor forte. depois «Homens». Mathieu viu um frasco de tintura de iodo. agulhas. Ela meneou a cabeça. vou tratar de tudo. — Bem sei.. uma senhora atirou um copo à cara de um dos nossos clientes. tive medo por causa dos olhos. depois juntou a palma da mão esquerda à palma ferida de Mathieu. — A minha mão também. Leu: «Senhoras». alegre. examinado o ferimento de Ivich. Abriu uma lata.. — O diabo — disse Mathieu. e o coração dilatou se lhe. A — Há dias em que não é brincadeira. — A mulher do toilette saíra do armário.

mas não prestou atenção. — Obrigado. ia cantar. sou horrivelmente feia. — Você é linda — disse. sei lá. Lola.. — Vai mal. vinguei me. — Tinha lhe dito que o encontrara no Bulevar Saint Michel. Tinha um rosto irritado e triste. Boris esperava os à mesa. Mathieu pôs dez francos no pires e saíram ambos.— Eu olhava o. — Cuidado. — O quê? — Disse que Picard fora a minha casa e que eu o tinha recebido no meu quarto. Na mesa estavam duas taças de champanhe meio vazias e uma dúzia de cigarros num maço aberto. — Parece que corta bem — observou Boris. — Está zangada? — Olhe para ela! Mathieu olhou. A mulher corou de prazer. — Vocês magoaram se? — Foi o estupor do canivete — respondeu Ivich. . é natural. — Ai! — disse Boris. A mulher de preto e o marido tinham desaparecido. — Que derrota — disse Mathieu. No nosso ofício há muito trabalho delicado. Pronto! Mathieu sentiu o ardor. a senhora é hábil como uma enfermeira. E o meu rosto secreto. Mathieu sentiu um desejo áspero e desesperado. você estava. Mathieu reparou que ela tinha um buço cinzento. de pé no meio do palco. Inclinou a cabeça e calou se. Parece que lhe tinha dito outra coisa antes. que se penteava desajeitadamente diante do espelho.. — Sim — respondeu Ivich —. Se pudesse conservar sempre essa expressão! — Não se pode pensar sempre em si próprio! Ivich riu. quase bonito. e o largo rosto apareceu inteiramente nu. Olhavam contentes para as mãos enfaixadas. Fiz uma asneira. — E Lola? — perguntou Mathieu. Acabou atirando os cabelos para trás. Mathieu não achou nada para dizer. vai arder. — Eu creio que penso sempre em mim. — Oh! — disse —. J E A N P AUL SARTRE — Amanhã vou pentear me assim. — Não — atalhou Ivich rindo —. fixando um olhar de amador nas mãos deles. olhava Ivich. — Pronto — disse a mulher do toilette. O dancing estava quase vazio. segurando os caracóis com a mão ferida. Boris tornou se sombrio. — Dê me a sua mão — disse a mulher do toilette para Mathieu. — Acho que gosto ainda mais dele do que do outro.

embaraçava lhe os tornozelos. Ele não quer largar o dinheiro. pensou. Acredita que lamento muito.. o céu. pensava Mathieu. baixo e cinzento. a frescura. «Eu também me levanto cedo. O montículo de gaze branca em cima da cama era a sua mão esquerda. tinha a impressão de estar sentado lá fora. mandaria o dinheiro para a América. num canto sombrio. Ela ergueu os olhos para ele. J E A N P AUL SARTRE — Há uma carta para o senhor — disse a porteira. — Ivich! — disse com ternura. Enfiou a roupa e desceu a escada a assobiar. «Vai mudar de penteado». Uma verdadeira manhã. imperceptivelmente. Empurrou as persianas. o dancing cheirava a madrugada. Ivich contemplava com ternura a mão enfaixada. mas o resto do corpo estava bem disposto. e deixá la ia atrás de si na pele inútil. A cama. A vida parecia lhe fácil. «ela disse: "Um pequeno diamante. Fora do dancing.» A vida caíra lhe aos pés. A culpa foi minha. E depois isto passa. fora da vida. porém objectos anónimos de íerro e madeira. «Bom». Marcelle! Mathieu sentiu um gosto amargo na boca. mas não pude mesmo juntar a importância de que necessitas. Era de Daniel. Doía lhe.. — Não tem de quê. a lâmpada. mas saltar lhe ia por cima."» Lola começou a cantar. e o calor era menor do que na véspera. a alvorada cinzenta tinham invadido a sala. já não eram seus cúmplices. Se fosse necessário.» Ivich estava lá. era preciso que fosse fácil! Sarah faria com que o médico esperasse alguns dias. a secretária. escrevia Daniel. a poltrona verde. «Meu caro Mathieu». e os caracóis . mas deve ter encontrado uma solução. «No Dome às dez. A rua estava deserta. A porteira entregou lhe um sobrescrito amarelo. Esquecera se de Marcelle.» Ela dissera ainda: «Estarei lá antes de si. «Um pequeno diamante». Queres passar por minha casa ao meio dia? Desejaria conversar sobre Daniel». parecia uma colcha pesada que o envolvia ainda. pensou Mathieu."» Estava feliz. «falei com conhecidos meus. Calaram se. Sorriu. Viu logo a mão enfaixada. Abriu a torneira do lavatório e mergulhou a cabeça na água. «Ela disse também: "Sou eterna.. tinha o mesmo rosto mentiroso e triangular de sempre. XII «N o Dome às dez horas. já estou habituado. não pensava em nada. não conseguirei dormir. Saltou da cama. «vou vê lo.. O sono. a sua maldosa pureza.» Eram nove horas. utensílios: passara a noite num quarto de hotel. num banco.— Desculpe — disse Mathieu.» Mathieu acordou.

— E às duas horas. Sinto as horas caírem sobre mim. era insuportável. com certeza que havia de encontrar qualquer coisa.. era manhã. e Mathieu continuou com vivacidade: — Mesmo que chumbasse não estaria ainda perdida. É o exame? Ivich respondeu apenas com um gesto de desprezo. — Vê se ala sem saber. entretanto eu procurava. Olhou as mesas vazias.escondiam lhe metade das faces. de todas as manhãs.. Ivich. Sabia que se por acaso descobrisse um emprego ela se despediria ao fim de uma semana. Ivich encolheu os ombros. Quando sentiu que o coração estava vazio.. São nove agora. ainda não chumbou. não se põe um anúncio nos jornais? — Ouça. teria lá ido passar as suas férias. mas como me vão receber agora? Calou se. Não mudara de penteado. Não pôde deixar de observar: — Não levantou os cabelos? . Ela percebeu que ele olhava para as mãos enfaixadas. — De qualquer maneira. é exaustivo.. Houve um silêncio de que Mathieu se aproveitou para enterrar as recordações nocturnas. Mathieu? — Bem. Tinha a tez amarelada da manhã. Dê me um chá e duas maçãs. A noite parecia ter deslizado sobre ela. Ivich. com um ar atormentado. mas poder se á experimentar. — Dois meses em Laon — disse Ivich com raiva. E depois. Conhecia Mathieu. Quinze horas ainda até à hora de dormir! Ivich pôs se a falar em voz baixa. Retirou lentamente a dela e escondeu a debaixo da mesa. Uma mulher lavava o chão. — E manequim? — É pouco alta. Sr. — Hei de fazer qualquer coisa para não ficar em Laon. — Como vai. Sentou se. teremos muito tempo para pensar nisso. Recomeçara a puxar os caracóis como uma maníaca. insuportável. O Dome acordava. — Não parece muito alegre. — Sim. J E A N P AUL SARTRE Falava com uma expressão de convicção serena e bem humorada. e Mathieu não disse mais nada. de joelhos. Ele contemplou a sem falar. E. O empregado aproximou se. — Nada. Disse: — Acha que me aceitariam numa loja como caixeira? — Nem pense nisso. pensou. levantou a cabeça. — Conseguiu dormir um pouco? — perguntou Mathieu tristemente. Acrescentou com uma expressão preocupada e envelhecida: — Em casos como este. Vou lavar pratos. «Nada influi nela». mas não tinha a menor esperança. Por exemplo: poderia ir passar dois meses a casa.

Repetiu energicamente como se desejasse intimidá lo: — Estava completamente embriagada. Mathieu não respondeu. Vinha em direcção a eles. Nem se podia pensar em interrogá lo imediatamente. — Boris! — disse. quando o prometeu. tomado de repentina e desagradável suspeita: — Disse lhe que viesse? — Não — respondeu Ivich. Sorria. ligeiramente irritado. mas as mãos dele começaram a tremer. — Ora — disse ela impaciente —. que tem isso? Vocês são impossíveis com as promessas. Sorria sempre.. — Não parecia tão embriagada como isso. — Que é que tens? — perguntou Ivich. «Como arranjar cinco mil francos antes da noite? Como fazer para trazer Ivich a Paris no ano próximo? Que atitude tomar para com Marcelle?» Não tinha tempo de voltar às interrogações que desde a véspera lhe enchiam o pensamento: «Quem sou? Que fiz da minha A vida?» Como voltasse a cabeça para afastar de si essa nova preocupação. — O quê? Encarou Boris. maquinalmente: — Lola morreu! Ivich voltou se para o irmão. Mathieu ficou alguns instantes sem compreender. estava lívido. . — Estava bêbeda. Tinha os olhos muito abertos e fixos. Tinha a impressão de que a todo o instante lhe faziam perguntas exigindo respostas imediatas. de olhos esbugalhados. viu ao longe a silhueta hesitante de Boris. — Olá! — disse Mathieu. Boris levantou dois dedos à altura da testa para fazer o gesto habitual de saudação. — Lola morreu — disse Boris. porque passou a noite com Lola. E olhe o ar que tem! Boris vira os. contrariado. que parecia procurá lo do lado de fora.— Bem vê que não — respondeu Ivich. — Suicidou se? — perguntou. Boris não respondeu. e de repente sentiu se invadido por um espanto escandalizado. Recuara um pouco como se tivesse medo de lhe tocar. Perguntou. secamente. Repetiu. — Pareces Frankenstein. estupefacta. Apoiou as mãos sobre a mesa e pôs se a balançar sem dizer nada. porém não pôde ir até ao fim. — Prometeu me ontem — atalhou ele. — Devia encontrá lo ao meio dia porque. Agarrou o pelo braço e forçou o a sentar se ao lado de Ivich.. Olhava para a frente fixamente com uma expressão estúpida.

— Parece me que ela tomou cocaína quando você estava a dançar . um conhaque — disse Mathieu com naturalidade. Não parecia dirigir se a eles. no camarim. contará mais tarde. «Ela não está a ver bem». Ivich encarava o fixamente. era uma atmosfera. — Ela suicidou se? Suicidou se? O sorriso de Boris abriu se.. anónima e sagrada. Boris tornou a falar com voz surda. Mathieu deu lhe uma bofetada seca e silenciosa com a ponta dos dedos. O empregado afastou se e voltou com uma garrafa e um cálice. olhou o resmungando. Já tomara antes. pensou Mathieu. — E para o senhor? — perguntou o empregado. — Oh!. — Depressa. Aproximara se e contemplava Boris com ironia.. Mathieu sentia se mole e vazio. Boris bebeu docilmente. nervosa. — Então ela envenenou se? — Não sei. Boris começou a rir: — Se vocês. — O rapaz está com muita pressa. uma substância pastosa através da qual Mathieu via a chávena de chá.. durante a discussão. Ela acariciava ternamente a mão do irmão. — Querido! Sorriu lhe com ternura. — As coisas não iam bem entre nós.— Responde! — repetiu Ivich. tu estás aí.. — Agora conta — disse Ivich. com irritação. Eargou o cálice e murmurou como para si mesmo: — Não é nada divertido! A — Querido! — disse Ivich aproximando se dele. segurou o pêlos cabelos e sacudiu lhe a cabeça. Os lábios dançavam lhe.. puxando os caracóis. — Subimos para o quarto e ela tomou a droga. Não fale agora. Só então começava a perceber os efeitos da noitada. e a morte estava entre eles. Mathieu olhava para Ivich com espanto. — Beba — disse para Boris. de boca aberta. — Essa já devia ser a segunda vez — observou Mathieu. com dificuldade. se vocês.. Calavam se os três. Não era um acontecimento. a mesa de mármore e o rosto nobre e maldoso de Ivich. — Deixe — disse —. mas o lábio superior arreganhava se lhe de modo estranho sobre os dentes miúdos. com ar estúpido. as tuas mãos estão quentes — suspirou Boris. — Tens a certeza de que ela morreu? — Tomou a droga esta noite — explicou Boris. aliviado. de um modo inquietante. Boris parou de rir.

estendido numa cama de um hotel. — Mora sozinha? — perguntou. agarrei lhe o pulso e puxei a para a endireitar. — Estás triste? — perguntou Ivich docemente. Era o braço dela.» Ela não o tirava. Chamou o empregado. Apanhei um táxi e vim. Esvaziou o copo e continuou: — Acordei cedo porque abafava. Ela saltava na cama. Boris enojava o vagamente. Saltei da cama. Mathieu esforçava se por ter pena de Boris. De repente. pensando que por vezes a profissão tinha as suas vantagens. — Sim. sirva depressa — observou Mathieu. Contemplariam o corpo sumptuoso com um misto de concupiscência e de interesse profissional. e eu não podia dormir. vesti me — continuou Boris. — Não queria que me encontrassem no quarto dela. porém sem demasiada compaixão. levantariam a camisola l A para verificar se havia ferimentos. — Então — disse Boris com lassidão — foram três vezes. — Outro conhaque. secamente. Já nada lhe restava daquela graça e rígida. Disse: — Olha para mim! Estás triste? — Eu. Então empurrei o braço com toda a força e ela quase caiu no chão.com Ivich. Parecia pedir uma informação. Os olhos estavam abertos.. Eu disse lhe: «Tira o braço. — A criada costuma acordá la a essa hora. — Daqui a duas horas — observou Ivich. — Vá. Deitámo nos sem falar. nunca mais os esquecerei. Perguntei: «Que é que tens?» Não respondeu. — olhou a e disse bruscamente: — Isto horroriza me. — Agarrei nas minhas coisas. Pensei que íosse para fazer as pazes e peguei lhe no braço. com voz monótona. não havia ninguém na porta. Teve um arrepio. ficou quieta e eu adormeci. — Pobre querido — disse Ivich. Boris desconcertava o ainda mais do que Ivich. Ninguém me viu sair. sufocas me. acho que a vão descobrir ao meio dia — disse Boris com um ar preocupado. Vi lhe os olhos — murmurou com uma espécie de raiva —. Mathieu pôs se a pensar no corpo de Lola. — Tão urgente como o primeiro? — perguntou o empregado a sorrir. dobrariam as cobertas. Uns homens de chapéu de coco iam entrar no quarto. mas não conseguia. Estava estendido na cama por cima de mim.. O seu novo rosto assemelhava se demasiado ao de Ivich. Inclinara se sobre ele. . Parecia que odiava Lola por ter morrido. Estava J E A N P AUL SARTRE gelado. Nunca tomava tanto.

Na melhor das hipóteses serei chamado como testemunha. uma vez ou duas por curiosidade. Encolhidos um ao lado do outro. Boris desviou o olhar. Tem tempo de ir sossegadamente buscar as cartas. deixei as em casa dela. porque Boris nunca lho tinha dito. — Você disse que a criada vai acordá la ao meio dia? — perguntou. São dez e meia. Perguntou: . — Pois bem.. Mathieu não compreendia. «Cá está». — E que tem isso? — O médico! O médico vai saber que morreu intoxicada! — Você falava de drogas nas cartas? — Falava — respondeu Boris.Tinha retomado os ares de irmã mais velha. mas poderá ir até de autocarro. Fez se silêncio e em seguida Mathieu percebeu que Boris o olhava de esguelha. — Oh!. uma pobre astúcia desarmada. pensou Mathieu. o pai! — atalhou Ivich. J E A N P AUL SARTRE — Boris! És doido! — disse Ivich. Boris deixava se acariciar. Apanhe um táxi se quiser. com uma expressão de astúcia na boca. Bruscamente gritou: — C'os diabos! Ivich sobressaltou se. — Sim. — As minhas cartas! Que estúpido. Não desejava que ele fosse preso por minha causa. abatido. «São assim! É assim que eles são!» Ivich perdeu o seu ar vitorioso. Estava ligeiramente ressentido. — Que é que aconteceu? — perguntou inquieta. — Eu. — Não quero lá voltar. «Há qualquer coisa no ar». — É a primeira coisa que encontrarão. — Estão a ver o sarilho! — Talvez não as encontrem — disse Mathieu. Ela bate até que Lola lhe responda. a quem comprei uma vez para Lola. pensou Mathieu. Mathieu contemplou os com piedade. Mathieu tinha a impressão de que ele representava.. — Como pudeste escrever essas coisas! Boris levantou a cabeça. — Cartas que lhe escreveu? ^ — Sim. Mas falo de um tipo da Boule Blanche. mas não tinha o hábito de praguejar. — Fazes me companhia — disse Ivich com uma voz sinistra. Boris falava normalmente em calão. Acariciava os cabelos do irmão com uma expressão de piedade e triunfo. lívidos e descompostos. pareciam duas ovelhinhas. irritado. — Vai ficar danado! — E capaz de me chamar para Laon e de me enfiar num banco. — Também tomava cocaína? — perguntou.

a gravidez de Marcelle. E acrescentou com um ar de admiração e imensa gratidão: — Você é um tipo de ouro.» Mas não lhe cabia a ele lamentá la. vou lá. Mathieu assobiou baixinho. Disse repetidas vezes «uf!». sentia se contente por estar só. há uma porção de cartas. Levantou se. diante da janela. Se Boris tivesse tido ao menos uma vaga tristeza. Vê se logo. «Morreu como um . Atirou os cabelos para trás com a graça habitual e disse sorrindo levemente: — Se alguém lhe perguntar alguma coisa. gostava dela. a chave está na bolsa de Lola sobre a mesa de cabeceira. — Esperamos — disse Boris. como uma censura.— Isso é lhe realmente impossível? — Não posso. Aquela morte era maldita porque não recebera nenhuma sanção e não lhe competia sancioná la. Em volta dele havia as preocupações da véspera. Mas tanto se lhe dava. diga que vai ver Bolívar. Pensava: «Não perde a cabeça o rapaz. prevê tudo. Mathieu viu que Ivich o observava: A — Onde estão as cartas? — Numa mala preta. Demorou um bocado e acrescentou afectando indiferença.. e no meio uma mancha negra: a morte. as minhas estão amarradas com uma fita amarela. Ivich e Boris iam agora J E A N P AUL SARTRE começar a cochichar. Em cima da mala há outra maleta. Notas*"" Notas. Mas sentia horror. passando a mão no rosto e esfregando as faces. eternamente desclassificada. Ivich continuava a olhá lo. iam reconstituir o seu mundo irrespirável e precioso. é só empurrar. é o negro do Kamtchatka. Há um molho de chaves e uma pequena chave chata. Mathieu deu alguns passos no Bulevar Montparnasse. o amor por Ivich. Boris parecia aliviado. terceiro. — Esperem me aqui — disse Mathieu. até o pagamento. Conheço o. Falara em tom de comando. — Há «massa» também. Só a essa pequenina alma cabia a responsabilidade esmagadora de pensar nela e de redimi la.» — A maleta está fechada à chave? — Está. Acrescentou mais baixo: — Estou de volta dentro de urna hora. «Pobre Lola. segundo quarto à esquerda. A morte de Lola ficaria eternamente à margem do mundo. — Bem — disse Mathieu —. É essa. — Qual é o número do quarto? — Vinte e um.. o dinheiro. Ela caíra pesadamente dentro de uma pequenina alma medrosa e perturbava a. mora também no terceiro.

Era ele que tinham esperado vinte anos. que uma criança dura exigira a realização de suas esperanças. flutuava à margem do mundo. com o futuro particular. pensou Mathieu. o dia em que dissera «Serei livre». Pensava na própria vida. O seu passado sofria sem cessar os retoques do presente. Os dias mais recuados da sua infância. O futuro penetrara a até à medula. ou melhor. ver os grandes olhos abertos e o corpo branco. cada dia vivido destruía um pouco mais os velhos sonhos de grandeza. «Não olharei. — Na esquina da Rua Navarin com a Rua dês Martyrs — avisou. de espera em espera. flutuava. Quando se sentou no carro. cansado e amadurecido. «Uma vida». «Dependem de mini».cão!» Era um pensamento insuportável. Mathieu contemplava o desfile dos grandes edifícios tristes do Bulevar Raspail. o dia em que dissera «Serei grande». de que ia entrar no quarto dela. de futuro em futuro. inesquecível e definitiva. Abandonada pelo animal mole e sentimental que a habitara durante tanto tempo. era dele. Tinham direitos sobre ele e através de todo aquele tempo decorrido mantinham as suas exigências e ele tinha amiúde remorsos esmagadores porque o seu presente negligente e céptico era o velho futuro dos dias do passado.» Sentiu se sólido e mesmo até um pouco pesado. Repetiu: «Dependem de mim. tivesse alcançado de si próprio perdão por já não ter a idade de Ivich. Mas não a vida. em direcção a quê? . pensou com amarga vaidade. de figuras e de perfumes mortos. «é feita com o futuro. dependia dele que os juramentos infantis permanecessem infantis para sempre. mais indestrutível do que um mineral e nada a podia impedir de ter sido. de brilhos sombrios. e esse futuro era ele.. — Táxi! — gritou Mathieu. Depois os vidros escureceram. apareciam lhe. ou se tornassem os primeiros sinais de um destino. acabava de sofrer a última metamorfose. e cada novo dia tinha novo futuro. cheia de gritos sem ecos e de esperanças ineficazes. Tudo nela estava em suspenso.. A consciência dela aniquilara se. Baixou a cabeça. entre parênteses.» Estava morta. desse homem cansado. e repentinamente Mathieu inteirou se de que Lola morrera. como um pequenino céu pessoal e bem redondo em cima deles. como os corpos são feitos com o vácuo». ainda agora. como se. o táxi entrou no estreito gargalo da Rua du Bac. sentiu se mais calmo. de repente. O seu futuro coagulara se. como se a mocidade subitamente já não tivesse valor. ele tal qual era agora. Experimentava mesmo um sentimento de tranquila superioridade. aquela vida deserta parara simplesmente. a vida de Mathieu deslizava docemente. Era melhor que o táxi não parasse em frente do hotel.

A freguesia habitual do hotel cantores. Mathieu desceu. dançarinos. nem uma prece. parando as. ele esperava o seu sentido do futuro. ficara em suspenso desde o primeiro dia. A chave estava na porta. nem uma carícia. ouvia se apenas o tiquetaque do relógio. Mathieu ouviu o ruído da água a descer. Mathieu perscrutou a penumbra. a olhar. de cores confusas. Parou no patamar do terceiro e olhou em volta. e também lá por volta de 1923 uma jovem cantora impaciente por se tornar um cartaz. A morte desabara sobre todas essas esperas. e que se abatia sobre si mesma. nunca ninguém saberia se Lola teria afinal sido amada por Boris. muito branca. Empurrou a porta e entrou. um barulho líquido e uma espécie de assobio. um dos seus . O quarto estava escuro e conservava ainda um cheiro húmido de sono. E o amor por Boris. Em cima de uma porta envidraçada um rectângulo de esmalte: «Gerência. Estava morta. sem objectivo. entrou no vestíbulo escuro e perfumado. — Lola — disse em voz baixa. como a de Mathieu. que jurara ser uma grande cantora. e a vida dela. ainda ontem ela esperava viver e ser amada um dia por Boris. pensou repentinamente Mathieu. absurdas. «E preciso que não suba depressa de mais». Lola não respondeu. Não tinha havido nada que esperar. mudas. — Espere — disse ao motorista.Em direcção a nada. porém indecifrável. no fundo do quarto. por causa do qual tanto sofrera. «E se houver alguém lá dentro?» Escutou com atenção uns momentos e bateu.» Mathieu deitou uma olhadela através do vidro. A sala parecia vazia. negros do jazz deitavam se tarde e acordavam tarde. obscuro e vacilante. Pensou em Lola. nada mais senão uma vida vazia. não fora senão uma espera. Mathieu viu Lola. O táxi parou. No quarto andar um hóspede puxou o autoclismo. as noites de amor que lhe tinham parecido mais eternas não passavam de esperas. Tinha havido com certeza. mais pesados. A cama ficava à direita. Tinha um rosto extraordinariamente expressivo. os momentos mais cheios. Ainda ontem. a questão não tinha sentido. pensou. num Verão passado. como se fosse um sentimento humano. Atravessou a rua em diagonal. uma menina de caracóis ruivos. não havia mais um gesto a fazer. Tudo dormia. esse grande amor de velha. Os seios estavam descobertos. estava ansioso por ler a morte no rosto de Lola. Ouvia as pancadas do coração e tinha as pernas a tremer. empurrou a porta do hotel. já nada havia senão esperas de esperas. Não havia tido de esperar. Ninguém respondeu. Elas continuavam imóveis. «Se eu morresse hoje». Lola estava morta. «ninguém saberia se estava realmente lixado ou se tinha ainda possibilidade de me salvar».

inquieto. sem olhar. mas não se pode ter uma raiva verdadeira contra si próprio. Notas de mil francos. caberia a ela mostrar se corajosa. na ignóbil velha de mãos de assassina. sem querer. «Estou pago». e ouvia o corpo silencioso de Lola. e observou as notas com perplexidade. escolhendo pelo tacto. com o olhar fixo nas notas. No fim de instantes remexeu nervosamente nos papéis. Subitamente. E não pude. o corpo envenenado por um desejo ácido. pegou rapidamente na bolsa que estava na mesa de cabeceira. Ergueu a tampa. atrás dele. pensou. Ficou durante alguns instantes à beira da cama. lutar contra .belos braços. Ela iria ao consultório da velha. nunca poderia levar me a sério». alucinada. Lola escondera um pacote de cartas amarrado com uma fita amarela.» Depois enfiou o pacote no bolso. Sou demasiado delicado. pôs a chave no bolso e saiu do quarto. hesitante. Sob um monte de recibos e de notas. depois virou se. «posso dar a mim próprio uns bons golpes de canivete na mão. o quarto estava cheio de uma presença imóvel. tinha vontade de a tocar. limpou os joelhos com a mão direita. para que evitasse essa coisa sórdida que ia marcá la. não havia outra solução. Atrás dele. «Bastava um gesto para que não sofresse. e teve medo de verdade. lembrou se. pensou olhando a mão faixada. Mathieu ajoelhou se diante da maleta. Não podia arredar o olhar daquele busto orgulhoso. como um J E A N P AUL SARTRE olhar. Bom rapaz! Depois disso». Eram notas. — Bom — murmurou resignado. sentia se pregado no sítio. estendia se sobre o leito. A chave chata estava ali. Os dedos abriram se e as notas caíram em rodopio dentro da maleta. com cuidado. com a mão no corrimão da escada. — Lola — repetiu Mathieu avançando para o leito.» Escutava atentamente. mergulhou as mãos na maleta e sentiu uns papéis amarfanharem se entre os dedos. Mathieu levou o pacote à luz. muitas notas. Mas não podia arredar pé. rígido. o outro estava debaixo das cobertas. Mathieu fechou a. pensava: «Sou um fraco. Permanecia imóvel. A luz ofuscou o. a presença irremediável estava ali. «Saí do buraco. Introduziu a chave na fechadura. Levantou se. «Não trouxe o dinheiro». virando a cabeça. pensou em Marcelle. para fazer de trágico diante das rapariguinhas.» Esforçava se por tremer de raiva. havia aquela mulher alta e branca. Uma luz cinzenta filtrava se através da cortina. Pensou: «Saí do buraco». cujos braços pareciam abrir se ainda e cujas unhas vermelhas pareciam ainda arranhar. Mathieu pegou lhe e dirigiu se à janela. espantado. examinou a letra e murmurou: «Ei las. A esquerda segurava um maço de notas.

não valho muito mais. Lola não parecia ouvir. e pareceu lhe que se afogava. — Onde está Boris? Que está a fazer aqui? — Você esteve doente — explicou Mathieu. — Precisa de alguma coisa? Quer que eu vá chamar um médico? — Não. os maxilares tremiam lhe. pensou. Encostou a porta como da primeira vez e tentou acostumar os olhos à escuridão. sacudindo a cabeça. Mas sei o que é. Disse de olhos fechados: — Dê me a minha bolsa. Lola perguntou: — Que horas são? — Um quarto para as onze. Houve um silêncio demorado.a angústia e o medo. girou sobre os calcanhares e entrou de novo no quarto. enquanto ele ganharia coragem bebendo nos bares. com repugnância. — É Mathieu. pareço morta. pôs se a rir de modo desagradável. Pousou a bolsa na cama com um suspiro de exaustão e acrescentou: — Aliás. — É verdade. não». Ainda parecia morta. Então foi Boris quem o mandou? — Foi. Ele teve medo. Em seguida. Boris falava Ihe e não lhe respondia. Ele está desvairado. ela tirou uma caixinha de pó de arroz e olhou se no espelhinho. evasivamente. mas irritada. Deu alguns passos incertos e discerniu afinal o rosto pálido de Lola e os olhos arregalados que o contemplavam. só sirvo para isso. Casarei com ela. — Que é que tive? J E A N P AUL SARTRE — Estava rígida. Mathieu sentiu um arrepio percorrer lhe o corpo da cabeça aos pés. — Uf! Houve novo silêncio. Mas logo se calou. Mathieu estendeu lhe a bolsa. «Estúpido». Puxou as cobertas até o queixo e ficou imóvel. Era uma voz fraca. — Estou com dor de cabeça — disse ela. Murmurou: «Não. com os olhos pregados em Mathieu. Ela não irá. — Quem está aí? — indagou Lola. Subitamente. Parecia fazer um esforço para voltar a si finalmente.» Pensou premindo com força a mão ferida sobre o corrimão: «Casarei com ela». — Sente se mal? — Bastante. precipitadamente. Nem sequer tinha a certeza de poder roubar. Isto passará durante o dia. «Não. depois respirou fundo. de olhos arregalados. está na mesa de cabeceira. Disse com esforço: — Ele pensou que eu tinha morrido? Mathieu não respondeu. — Não foi isso? Pensou? — Teve medo — disse Mathieu. Ela fechou os olhos. esteja sossegado. .

Mas que venha! Peco lhe que venha! Não posso suportar a ideia de que me julge morta. mas Lola chamou o. Apanhei um táxi. pensou. Pôs se a rir. À noite já estarei boa. «A cara J E A N P AUL SARTRE que ele vai fazer!». erguendo se ligeiramente. até logo. e Mathieu pensou que fosse desmaiar. ele teve um pavor louco. ele foi procurar me. ele que se arranje para a pôr novamente na bolsa». secas. coitado. — Bem — disse Mathieu —. Dirigiu se para a porta. que Boris enviara de Laon durante as férias da Páscoa. o que importava era não ter tido a coragem de agarrar no dinheiro. O pacote de cartas que enfiara no bolso interno da casaco pesava lhe fortemente sobre o peito. eu estava no Dome. Eram frases curtas. Ficarei aqui até à noite. diga lhe que já não estou zangada. Enfim. «Fui esperto em não ter pegado no dinheiro.. — Obrigada. estou satisfeito de que não tenha morrido.» Mas não estava alegre. Mathieu estava comovido. — Está bem. quando. pouco importava que a sua cobardia tivesse tido consequências favoráveis. — Leve me ao Dome. São coisas que me acontecem às vezes. Vou dizer lhe que venha.» — Olá — gritou o motorista —. — Então. Pegou no pacote de cartas.. Não estou em perigo. Fugiu sem querer saber de mais nada. Um riso sufocante e penoso. ele sabe. que não se falará mais disso. Disse com uma voz suplicante: — Promete que o manda vir? Zangámo nos ontem.. E o coração que fraqueja. «tenho de lhe entregar a chave. Mas continuou secamente depois de um momento: — Diga lhe que se tranquilize. desfez o laço e começou a ler. admirado. não precisa mesmo de nada? — Não. Sentou se e o táxi arrancou. Estou à espera dele. — Em resumo. E mandou o aqui para ver se eu estava bem morta. por aqui! Mathieu voltou se. A A cabeça de Lola recaiu no travesseiro. Nada de histórias.— Está lá em baixo? — perguntou Lola.. «Mesmo assim. De vez em quando havia . — Lola! — Vá lá. — Não. Fechou novamente os olhos. — Que é? Ah! — disse. Quis afugentar do pensamento a humilhante derrota. tentou repetir alegremente. reconhecendo o táxi. Acrescentou: — Ainda não foi desta. Saiu. Irei cantar. Diga lhe que venha já.

Ivich parecia ter recuperado o sangue frio. pareceu a Mathieu que ele era o aliado natural de Lola. Mathieu olhava o sem amizade. Este aproximou se e atirou o maço das cartas sobre a mesa. Prostrou se ainda mais.» Pensou: «E apesar de tudo guardou as.alusões à cocaína. — Não foi muito difícil? — perguntou Boris. mas tão veladas que Mathieu se surpreendeu. Ao entrar no Dome teve a impressão de que ia defender a memória de uma morta. — Aí estão.» Mathieu imaginou sem dificuldade em que estado de espírito Lola devia ter lido aquelas cartas. «Ora». de ombros recurvos. Boris ergueu os olhos para ele. Mas não podia pensar nela senão no passado. Discuti com meu pai. — Foi. pensou Mathieu.» Atou as de novo cuidadosamente e colocou o maço no bolso. «Que farsa». parecia não compreender. secamente.» As cartas começavam todas por: «Querida Lola». — Lola não morreu — repetiu estupidamente. de olhos faiscantes. «Nado. J E A N P AUL SARTRE Boris não respondeu. Ivich falava lhe ao ouvido. pensou Mathieu.» Quando o táxi parou. «já começava a habituar se. só que Lola não morreu. Fumei um Henry Clay até ao fim sem deixar cair a cinza. — Essa é boa! — Ela disse que aquilo lhe acontece às vezes quando toma cocaína. Boris levantou a cabeça. «Boris terá de se arranjar para as pôr na maleta sem que ela o perceba. Boris e Ivich custavam a engolir a notícia. Conheci um antigo lutador que me vai ensinar o catch.» Ivich olhava Mathieu.» Boris terminava sempre assim: «Amo te muito e beijo te. não sabe é dizê lo. Tinha os olhos vidrados. Calaram se. . em seguida breves relatórios das suas actividades. Boris pegou lhes e fê las desaparecer no bolso... Estava ainda desmaiada quando as apanhei. Mas calou se ao ver Mathieu. dir se ia que estava esmagado. narinas crispadas. — Tê lo ia apostado — disse. — Então o que é que teve? — Simples desmaio — respondeu Mathieu. Boris. Boris bebeu um trago de conhaque e pousou o cálice na mesa. a decepção sempre prevista e no entanto sempre nova e o esforço que devia fazer todas as vezes para dizer a si própria com alegria: «No fundo ele ama me. Parecia que Boris não fizera um movimento desde a saída de Mathieu. — Nada difícil. foi ela que lhe entregou as cartas? — Não. com animação. «Não imaginei que ele fosse prudente. boca aberta. Disse que você devia saber. Estava sentado de lado.

vejo a morta. Não vá confundir tudo. é uma desgraçada. tenha juízo. Mathieu lançou lhe um olhar de ódio. — Ela quer que a vá ver imediatamente. — Mas isso é estúpido. Boris não se mexeu. E acrescentou. — Eu. E isso — acrescentou com desgosto —.. — Não sei que fazer. — Está a ouvir? Ela sofre. mesmo para ela. vá vê la. — Ela inspira me horror! A — Porque pensou que estaria morta? Boris. na mesa do passeio. Mathieu ficou estupefacto. — disse Mathieu. Boris passou a mão pela testa. Ele continuou mais baixo. eu pensei que estivesse morta — repetiu Boris como para se desculpar. pensou. mas se a tornar a ver. — Mas. — Não queria dizer lho. sombrio. — Mas não vê que ele a vai matar? Ivich meneou a cabeça. — Não! — disse com a voz tão alta que uma mulher. mas Boris safou se com uma sacudidela violenta. é tudo. Boris. Lembre se disso. — Se ele voltar. — Há coisas que você não sente — disse. as histórias de ontem — atalhou Boris. exibia o seu rostinho irritado e sinistro. Mathieu estava farto.. obstinado. — Apanhe um táxi. com uma intenção que Mathieu não compreendeu: — No lugar dele. toda esta história é absurda. — Então? Boris olhou com uma expressão maldosa. e Boris aproveitou se. — Pelo menos tente vê la. isso não posso. não pode haver nada mais repugnante. — Não quero tornar a vê la — afirmou. se virou para ver. espantado —. tenho de lhe tocar. a história de ontem acabou.. «Ela está a meter lhe coisas na cabeça».. com vivacidade. curiosa. E arranje se para pôr as cartas no lugar sem que ela o veja. — Devia ter ficado transtornada ao vê lo ao pé da cama! — Não muito. com uma obstinação mole e invencível: — Não vou. — Pois não está — disse Mathieu. Eu disse que Boris tinha tido medo e me viera chamar. Boris olhou o. Ivich fez uma expressão impaciente. exasperado. . — Oh!. não pode exigir isso dele. ela prometeu não falar mais nisso. Naturalmente disse lhe que viera apenas ver o que acontecera. — Acho que Boris tem razão — disse Ivich. com um encolher de ombros. — Para mim está morta. Estendeu a mão para agarrar no braço de Boris. será por piedade — disse Ivich —. Enganou se.— Que disse ela? — indagou. eu teria feito o mesmo.

vou eu telefonar.. . Na véspera. Quantas vezes vi Ivich massajar o rosto inquieto em frente de um espelho. Mas este dia que ela vai ficar à espera! Não gostava de estar no lugar dela!» — Quer dar me Trudaine 00 35? — pediu à telefonista gorda. têm almas sinistras. Boris pareceu aliviado. mas reteve se. Boris vai.Mathieu sentiu se impotente. Depois.. Pensou: «Ele não telefonará. pensou. da doença. Ivich fala em suicidar se. J E A N P AUL SARTRE — Está bem — atalhou hipocritamente —. amanhã. «Por mais frescos e limpos que sejam. Treme diante da possibilidade de ter rugas.» Mas continuava pouco à vontade. Prometa me que a vê amanhã ou depois de amanhã. — Não se esqueça — disse Mathieu afastando se.. Estranha recordação de amor. mas ainda tenho muitos anos para viver. — Quando saberá o resultado? Às duas horas? — Sim. da velhice. porque têm medo. Queríamos parecer homens. Mathieu quis dizer: «Pelo menos telefone a avisá la de que não pode ir». mas pergunto se o único meio de salvar a mocidade não será esquecê la. Olhou com desânimo aquelas duas cabecinhas hostis.. uma pele de crocodilo. Medo da morte. — Quer que o vá ver? — Obrigada. via os esmaltes brandos dos toilettes. por entre duas portas abertas. Depois.. músculos retorcidos. Afinal eu tenho rugas. mas estou tranquilo. Sentia se cheio de rancor por Ivich. Enquanto Mathieu esperava.. como se só tivessem diante de si cinco ou seis anos. só fazem projectos a curto prazo.» Levantou se. — Mande me um telegrama imediatamente. — E quando a voltarei a ver? — Não sei... até que essa recordação se apague. Começo a crer que nós é que somos jovens. Agarram se à mocidade como um DADE DA RAZÃO l moribundo à vida. — Está bem. nunca se atreverá. — Então — disse —. — Adeus! — Adeus — responderam os dois ao mesmo tempo. tem de esperar. — Preciso de ir a casa de Daniel — disse a Ivich. não morrerão tão cedo. éramos ridículos. «Eles têm medo da morte». noutro toilette. — As duas cabinas estão ocupadas. juntinhos. espere um bocado. «Pobre Lola! Amanhã sem dúvida Boris voltará ao Sumatra. a dizer se passou. sentia os lá em cima. Mathieu desceu à cave do Dome e consultou a lista telefónica. Vivem a ruminar a sua mocidade.

eis a liberdade que me resta. Ela amedrontava o. um adulto. Em vão. vivo como se fosse casado. E subitamente pareceu lhe ver a sua liberdade. viva e leve. que me recuso a casar. — Na segunda cabina. — Esse telefonema vem ou não? — perguntou.sussurrantes e cúmplices. fez se toda espírito. uma dessas que dizem com uma expressão de menina: «Vou fazer um chichizinho. Cerrou os punhos e pronunciou interiormente. E estava tão longe. Sou um burguês. basta deixar me ir. não pude pegar no dinheiro de Lola. Sou um homem. . com uma gravidade de pessoa adulta. Em vão. uma opção infantil e vã. — Alguém pediu Amsterdão.» Tinha aberto o anuário e folheava o distraidamente. de oscilar entre correntes contrárias. Nord 77 80.» Viu Mathieu. cruel. Essa inexplicável liberdade.» Fechou o anuário. entreviu a apenas. Encostou se obstinadamente à sua vontade demasiado humana. de homem. É para fugir da minha vida que sussurro por toda a parte. os destroços da sua dignidade humana. um vazio. Entrou. continuou a andar com passos deslizantes. palavras. que atingia as aparências do crime. jovem e caprichosa como a graça. hesitou. — Um momento — respondeu a telefonista. asperamente. a estas palavras demasiado humanas: «Hei de casar com ela!» — É a sua vez — disse a telefonista. entrou flor na latrina. — Obrigado. «Isso também é mentira. mas fascinantes apesar de tudo. de burguês. É para não ser da minha classe que escrevo J E A N P AUL SARTRE nas revistas de esquerda. «Não pude pegar no dinheiro. Foi um momento apenas. de ser sempre outra coisa diferente do que sou. Olhava. Ela ordenava lhe simplesmente que largasse Marcelle. Sou casado. e foi este homem que beijou a pequena Ivich num táxi. não preciso de ter vontade para casar com ela. autor dramático. Leu: «Holle becque. — Pegue no telefone. os tabus deles impediram me.» Puf!. «Não pude pegar no dinheiro!» Uma mulher descia a escada. com licença de Marcelle. que quase se sentiu reconfortado. Pensou: «Querer ser o que sou. de chefe de família: «Quero casar com Marcelle. Querer casar com Marcelle. É para não ser da minha idade que há um ano ando a brincar com esses dois miúdos. a minha liberdade é um mito — Brunet tinha razão — e a minha vida constrói se por debaixo deste mito com um rigor mecânico. acabrunhado. Em vão. Estava fora de alcance. o sonho orgulhoso e sinistro de não ser nada.» Estava tão cansado de ser atirado de um lado para outro.» Sentia náuseas. A minha única liberdade. Mathieu voltou se e deu alguns passos. Mathieu ergueu o docilmente. toda perfume.

O de Octave. — Se imagina que prestou um serviço a Lola! Deu uma risadinha seca. devia telefonar lhe. — Senhor Maurice? — disse a voz. — Estou. Tinha um ar neutro. É só isso. Voltou a cabeça para a escada dos toilettes e pensou com severidade: «Foi longe de mais. não se deve falar a ninguém como me falou. coçando a cabeça: «Marcelle deve estar aflita. indeciso. — Mandar lhe ei o dinheiro para a América. e Boris sentiu um nó na garganta. Ninguém o compreendia como a Ivich.» Olhou a telefonista. Obrigado. É um velho avarento e atravessa uma crise de hipersionismo: detesta tudo o que não é judeu desde que foi expulso de Viena.— Está? Trudaine 00 35? Um recado para a senhora Montero. — Pois é — respondeu Ivich.. olhava a mão enfaixada. aproveitar a ocasião. esperava que Mathieu lhe sorrisse ao subir. não a incomode. se isso não a aborrece. E Boris. e Boris calou se satisfeito. — Mas será difícil. Ele não pode ir. é Mathieu.. J E A N P AUL SARTRE — Sim — disse Ivich —. É da parte do Senhor Boris. — Como é orgulhoso — disse. não é Maurice. você é formidável! XIII E lê é demasiado injusto — disse Boris.. Encolheu os ombros. Ivich não respondeu. Acaba de sair. — Esta gente não larga a «massa». Irei logo a seguir ao almoço. — Obrigado. — Posso tentar — disse Sarah. Houve um breve silêncio. dê me Ségur 25 64. — Não. Ele não pode ir. — Não me aborrece absolutamente nada. Sarah. Pensou. — Mas no fim do mês ele já estará longe. Não. Sarah. acha que não sou moral. sem entusiasmo. — Está zangado — continuou Boris —. — Apesar de tudo.. Pode transmiti lo mais tarde. É exactamente por isso que lhe queria pedir se não poderá dar um salto a casa desse tipo e solicitar lhe crédito até ao fim do mês.» Olhava para a escada. B de Bernard. Era o número de Sarah. saiu sem um olhar. — Então? Arranjou? — Não — disse Mathieu. Não sou Hourtiguère. — Quer outra ligação? — Sim. Saiu. — Bom dia — respondeu a voz rude de Sarah. . mas isso passa lhe. tente. — Quem? — Mathieu. Mathieu voltou.

entre ambos. — Ah. Ela sorriu levemente. E não quero que Mathieu imagine que pode fazer de mim o que quiser. Disse apenas: — Ele é injusto. Acrescentou depois de certa reflexão: — Mas eu sou mais moral do que ele. Ivich disse. mas esse bem variava segundo as pessoas. Sentira mesmo por um momento que ia sofrer. Ivich disse com doçura: — E é bem verdade que faz de ti o que quer. Nesse ponto não ia ceder. O de Ivich era mais enfadonho. Boris não protestou por hábito. Acrescentou por espírito de justiça: — Ela é que não deve achar nada disto engraçado. não o podia realmente suportar. Ruminava o que devia ter dito a Mathieu. . de resto. Era uma sacanice. Para o bem dele. Toda a gente tinha sempre em vista o bem de Boris. contanto que ele tivesse boa vontade. não era Hourtiguère. não! — Não quero que ela sofra. eu estou me nas tintas para a moral! Boris sentiu se só. Ivich tinha boas intenções.. Parecia lhe sempre que não falavam do mesmo Mathieu. e isto tinha o escandalizado. Balançou se sobre o banco. — Pois então vai vê la — disse Ivich num tom cantante. Mas alguma coisa falhara.. Boris percebeu a sem se zangar. mas Mathieu ainda estava ali. tenho a impressão de ser uma velha qualquer. Gostava de se aproximar de Ivich. — E estranho — disse —. Que não passava de um estúpido e que tivera um choque terrível ao pensar que Lola morrera. era preciso esperar que se normalizasse. A Ivich riu e Boris ficou chocado. um desarranjo no motor.— Não gosto dele quando se torna moral. mas pensava que se podia explicar tudo a Mathieu. Fizera então um esforço de domínio sobre si mesmo. tinha uma expressão tola e disse de modo cínico: — A moral. Ele compreendeu que ela lhe preparava uma armadilha e respondeu vivamente: — Não vou. Por moralidade. Não me deixou explicar lhe. — Que ar obstinado! Boris não respondeu. Achava o sofrimento imoral e. — Puf! — disse Ivich. quando penso agora em Lola. Depois. conciliadora: — Há coisas que não se podem explicar. continuo a vê la morta. — Eu gosto — atalhou Boris. — Eu dou lhe a impressão disso — disse ele com serenidade. — É a minha táctica com ele. queria que ele rompesse com Lola.

— Seria muito cómodo. — Bem sei. — Ele enerva me. — Nem eu — disse Boris. confuso —. — Querido. — É possível. É certo que diziam tudo um ao outro. O Bulevar Montparnasse estava delicioso sob aquela luz cinzenta. Pensarei nisso mais tarde. com impaciência. Passado um instante.. Deviam compreender se por meias palavras ou o encanto romper se ia. Desejava que fosse.Mas ela pusera lhe o dedo na ferida. tenho outras preocupações na cabeça. A — E verdade — disse Boris. — Pareces zangada com Mathieu. Ivich agarrou Boris pelo braço.» Ao mesmo tempo sentiu se livre: «Ela vive. Parecia Outubro. e calou se. Houve um silêncio. Mexeu se um pouco no banco. bruscamente: — Vamos. porque seria mais moral. — disse Boris. tu estás chateada. Ele precisava de cinco mil francos. Boris sentiu uma ligeira e tenaz vontade de vomitar. Ergueu os olhos.. e em seguida Ivich acrescentou. Pensou: «No mês de Outubro passado ainda não conhecia Lola. elas deixam de existir. Quando não vejo as pessoas.» . disse: — Terá levado o dinheiro? Seria bonito! — Que dinheiro? — O dinheiro de Lola. Boris acrescentou maliciosamente: — Também está zangado contigo. mas não consigo. Já não posso suportar mais o Dome. pensas de mais. Andaram um bocado calados. sim!? Ivich fez um ar intrigado e descontente. Ele perguntava a si próprio se seria realmente por causa do exame. Ivich pareceu achar divertido. eu consigo. — É estranho — disse —. Ivich riu se. — Muito. Ivich mordeu os lábios. Basta imaginares que morreu de verdade. Não se sentia capaz de tanta força espiritual. Boris pensou que tinha feito melhor se se tivesse calado. mas não o deixou perceber. J E A N P AUL SARTRE x Boris admirou a irmã. e Ivich olhou o inquieta. — Achas que ele vai ficar zangado muito tempo? — Não — disse Ivich. Perguntava a si próprio o que queria dizer Ivich. — Por causa do exame? Ivich encolheu os ombros e não respondeu. e ele sentiu raiva a Mathieu. mas de vez em quando devia haver algumas excepções. Agora de manhã dava se ares de homem diante de mim. Boris gostava muito do mês de Outubro. — Ah. Levantaram se e saíram.

palerma. — Não saberia o que lhe havia de dizer. conhecia os quase todos de vista. — Não voltarei ao hotel. mas aquele rosto ainda jovem e carrancudo que lhe mostrara na véspera quando lhe gritara: «Mentira! Não viste Picard. Boris tinha de se mover com habilidade. os transeuntes tinham bom ar. sentia que ela vivia. Entrou na Mercearia Demaria. vou almoçar. — Vamos a ver — disse —. desde que abandonara o cadáver na escuridão do quarto. mas não insistiu. Mas era um erro. talvez. deveres de família. — Vou. não. Não foi o rosto de um morto que recordou. Não insistia nunca. era uma ressurreição. — Estou com fome — disse Ivich —. — Sim. que o esperava angustiada. e havia um raio zinho de sol que cariciava as montras da Closerie de Lilás. . Sentia se feliz naquele bulevar. — Devias escrever lhe. não vale a pena pensar nisso. Boris esperou a cá fora Sentia se comovido e fraco como um convalescente e perguntava a si próprio o que poderia fazer para ter uma satisfação. Alegrou se. Mas como quer que fosse. Uma cólera que não era nem mais nem menos respeitável do que as outras.» Mas ao mesmo J E A N P AUL SARTRE tempo sentiu dentro de si um sólido rancor contra aquela falsa morta que provocara todas aquelas catástrofes. apenas mais violenta. visto que ela não morreu. mas esse sofrimento e essa angústia só se afiguravam irremediáveis e imutáveis como os sofrimentos e a angústia das pessoas que morrem desesperadas. pensou. como quando ele chegava atrasado ao encontro marcado. entre Ivich e Mathieu.Pela primeira vez. — Mas a dizer o quê? Ivich olhou o. Lola vivia. A escolha recaiu no Dicionário Histórico e Etimológico do Calão. era assim.» Até agora sabia que ela sofria. «É um móvel». ela é capaz de ir lá. Era mais correcto. — Eu faço a carta. Ivich teve uma ideia. Boris pôde assim evocar sem horror a imagem de Lola. Naquele momento tinha tanta vontade de perder Lola como de a ver. Ivich pareceu irritada. estava dominada por uma cólera viva. — Vai dormir em casa de Claude. Não tinha para com ela essas obrigações incertas e temíveis que os mortos impõem. mas deveres sérios. Pensou: «Não é possível que Mathieu fique sentido muito tempo. admirada. O dicionário estava A agora sobre a sua mesa de cabeceira. descansava de olhos abertos na cama. — A Lola? Oh!. — Não queres romper com ela? — Não sei.

entusiasmado, «foi um golpe de mestre». E como uma felicidade nunca vem sozinha, pensou no canivete espanhol, tirou o do bolso e abriu o. «Que sorte!» Comprara o na véspera e já tinha uma história, ferira duas pessoas que lhe eram queridas. «Corta que se farta», pensou. Uma mulher que passava, olhou o com insistência. Estava muito bem vestida. Voltou se para a ver de costas. Ela também se voltara e contemplaram se com simpatia. — Pronto — disse Ivich. Trazia duas maçãs canadenses. Esfregou uma delas no rabo, e quando a viu brilhante mordeu a, estendendo a outra a Boris. — Não — disse Boris —, não tenho fome. — Acrescentou: — Tu ofendes me. — Porquê? — Esfregar a maçã assim no rabo. — E para limpar — disse Ivich. — Olha aquela mulher que vai lá adiante. Dei lhe no goto. Ivich comia serenamente. — Mais uma? — disse com a boca cheia. — Aí não — disse. — Atrás de ti. Ivich voltou se para ver e arqueou as sobrancelhas, — É bela — disse simplesmente. — Viste o vestido? Ainda hei de ter uma mulher assim. Uma mulher da alta sociedade. Deve ser agradável. Ivich olhava a mulher que se afastava. Tinha uma maçã ern cada mão e parecia oferecer lhas. — Quando me cansar dela, passo ta — disse Boris, generosamente. J E A N P AUL SARTRE Ivich mordeu a maçã. — Isso é o que tu pensas! Pegou lhe no braço, e arrastou o, bruscamente. Do outro lado do Bulevar Montparnasse havia urna loja japonesa. Atravessaram e pararam diante da montra. — Olha as tacinhas — disse Ivich. — É para o saké — disse Boris. — Que é isso? — Aguardente de arroz. — Hei de vir comprá las. Para tomar chá. — São pequenas de mais. — Enchem se várias vezes. — Podias encher seis ao mesmo tempo! — Pois é — disse Ivich, contente. — Ponho seis tacinhas cheias diante de mim e beberei ora numa ora noutra. Recuou ligeiramente e disse com uma expressão apaixonada, de dentes cerrados: — Queria comprar tudo isto! Boris não apreciava o gosto da irmã por aquelas bugigangas.

Apesar disso, quis entrar na loja. Ivich não o deixou. — Hoje não. Vamos. Subiram a Rua Denfert Rochereau, e Ivich disse: — Era muito capaz de me vender a um velho para ter um quarto cheio daqueles bibelots! Mas um quarto cheio! — Não — disse Boris, com severidade. — Não podias. É um ofício que se aprende. Andavam devagar, era um momento de felicidade. Certamente, Ivich tinha se esquecido do exame, parecia alegre. Nesses momentos, Boris tinha a impressão de que eram uma só pessoa. No céu havia grandes pedaços de azul e nuvens brancas que turbilhonavam. A folhagem das árvores estava pesada com a chuva, havia um cheiro a fogo de lenha como na rua principal de uma aldeia. — Gosto deste tempo — disse Ivich, encetando a segunda maçã. — É húmido, mas não pegajoso. E não fere os olhos. Sinto me com forças para andar vinte quilómetros a pé. Boris verificou discretamente se não havia um café nas proximidades. Quando Ivich falava em fazer vinte quilómetros a pé, acontecia lhe fatalmente pedir para se sentar logo a seguir. Ela olhou para o Leão de Balfort e disse, extasiada: — Gosto deste leão. Parece um feiticeiro. — Hum. Respeitava os gostos da irmã, embora não partilhasse deles. Aliás, Mathieu já o dissera uma vez: «A sua irmã tem mau gosto, mas é melhor do que o melhor gosto.» «É um mau gosto profundo.» Nestas condições não havia que discutir. Pessoalmente, Boris era mais sensível à beleza clássica. — Vamos pelo Bulevar Arago? — Qual? — Aquele. — Vamos — disse Ivich. — Está brilhante... Andaram em silêncio. Boris observou que a irmã se tornava sombria, se enervava, e que de propósito caminhava a torcer os pés. «Vai começar a agonia», pensou, resignado. Ivich entrava em agonia cada vez que estava à espera do resultado de um exame. Ergueu os olhos e viu quatro jovens operários que vinham ao seu encontro e os encaravam a rir. Boris estava habituado a essas expansões e considerou as com simpatia. Ivich tinha a cabeça J E A N P AUL SARTRE baixa e parecia não os ter visto. Ao chegarem junto deles os rapazes separaram se. Dois passaram à esquerda de Boris e dois à direita de Ivich. — Faz se uma sanduíche? — propôs um deles. — Cara de peido! — disse Boris, gentilmente. Nesse momento,

Ivich pulou e deu um grito agudo, que abafou logo pondo a mão na boca. — Pareço me com uma cozinheira — disse vermelha de fusão. Os operários já iam longe. — Que foi? — Beliscou me — disse Ivich, com desagrado. O estupor! Acrescentou, com severidade: — Não devia ter gritado. — Qual deles? — disse Boris, indignado. Ivich reteve o. — Por favor, está quieto. São quatro. E depois já fui suficientemente ridícula. — Não é por ele te ter beliscado — explicou Boris. — Mas não posso suportar que façam isso quando estás comigo. Quando estás com Mathieu, ninguém te mexe. Tenho cara de quê? — É isso mesmo, querido — disse Ivich melancolicamente. — Eu também não te protejo. Não somos respeitáveis. Era verdade. Boris admirava se disso muitas vezes: quando olhava para o espelho, achava que tinha um ar intimidante. — Não somos respeitáveis — repetiu. Apertaram se um contra o outro e sentiram se órfãos. — Que é aquilo? — perguntou Ivich. A Apontava um muro comprido e escuro através do verde dos castanheiros. — E a Santé — disse Boris —, uma prisão. — Extraordinário — disse Ivich —, nunca vi nada mais sinistro. Há quem fuja de lá? — E raro. Li uma vez que um preso saltou por cima do muro. Agarrou se a uma pernada de um castanheiro e saltou. — Deve ser aquele. Se nos sentássemos no banco ao lado? Estou cansada. E talvez vejamos saltar outro prisioneiro. — Talvez — disse Boris sem convicção. — Acho que fazem isso de noite, compreendes? Atravessaram a rua e foram sentar se. O banco estava molhado. Ivich disse, contente: — Está fresco. Mas quase a seguir começou a agitar se e a puxar os caracóis. Boris teve de dar lhe uma pancada na mão para que não arrancasse os cabelos. — Segura na minha mão — disse Ivich —, está gelada. Era verdade. E Ivich estava lívida, parecia sofrer, todo o corpo lhe tremia. Boris achou a tão triste que tentou pensar em Lola, por simpatia. Ivich levantou bruscamente a cabeça: tinha um ar sombrio de resolução: — Tens os dados? — Tenho. Mathieu tinha oferecido a Ivich um poker de dados num saquinho de couro. Ivich tinha o dado a Boris e jogavam juntos muitas

vezes. — Vamos jogar — disse. Boris tirou os dados do saquinho. Ivich acrescentou: — Duas partidas e a negra se for preciso. Começa. Afastaram se um do outro. Boris sentou se a cavalo no banco e rolou os dados sobre o banco. Fez um poker de reis. — Só de uma vez — disse. — Odeio te. Franziu as sobrancelhas, e antes de agitar os dados soprou nos dedos a resmungar. Era uma conjura. «É a sério», pensou Boris, «está a jogar o resultado do exame». Ivich jogou e perdeu: trio de damas. — Segunda partida — disse a olhar para Boris com olhos faiscantes. Fez um trio de ases. — De uma só vez — disse. Boris jogou e viu que ia fazer um poker de ases, mas antes que os dados parassem estendeu a mão como para evitar que caíssem e virou dois com ponta do indicador e do anular. Apareceram dois reis. — Dois pares — disse com ar de despeito. — Ganhei a segunda — disse Ivich triunfante. — Vamos à negra. Boris não sabia se ela o vira fazer batota. Mas não tinha grande importância. Ivich só tinha em conta o resultado. Ganhou a negra com dois pares sem que ele precisasse de intervir. — Bem — disse ela simplesmente. — Queres jogar mais? — Não. Estava a jogar para saber se passaria. — Não sabia — disse Boris. — Então, passaste! Ivich encolheu os ombros. — Não acredito. Calaram se, ficaram ali lado a lado, de cabeça baixa. Boris não olhava para Ivich, mas sentia a tremer. — Estou com calor — disse ela. — Que horror: tenho as mãos húmidas e estou cheia de angústia. Na verdade, a sua mão direita, pouco antes gelada, estava agora a ferver. A mão esquerda, enfaixada, jazia inerte sobre o joelho. — Esta ligadura repugna me. Pareço um ferido de guerra, vou arrancá la. Boris não respondeu. Ouviu se um relógio ao longe. Ivich sobressaltou se. — Meio dia e meia hora? — perguntou, desvairada. — Uma e meia — disse Boris consultando o relógio. Olharam se e Boris disse: — Bem, agora tenho de lá ir.

Ivich apertou se contra ele, abraçando o. — Não vás, Boris, querido, não quero saber, volto para Laon hoje à noite... Não quero saber nada. — Estás a delirar — disse Boris com doçura. — Precisas de saber o que aconteceu para dizer lá em casa... Ivich deixou cair os braços. — Então vai. Mas volta o mais depressa possível. Espero aqui. — Aqui? Não preferes que façamos o caminho justos? Esperas num café do Quartier Eatin. — Não, não, espero aqui. — Como quiseres. E se chover? — Boris, por favor, não me tortures, vai depressa. Ficarei aqui, mesmo que chova, mesmo que a terra trema. Não me posso pôr de pé, não posso levantar um dedo. Boris levantou se e foi se embora a passos largos. Depois de atravessar a rua, voltou se. Viu Ivich de costas. Curvada no banco, com a cabeça enfiada entre os ombros, parecia uma pobre velha. «Apesar de tudo, é capaz de ter passado», pensou. Deu alguns passos e lembrou se de repente do rosto de Lola. Do verdadeiro rosto. Pensou: «Como é infeliz», e o coração pôs se lhe a bater violentamente. XIV D entro em pouco. Dentro em pouco. Começaria a busca infrutífera. Dentro em pouco, assombrado pêlos olhos rancorosos de Marcelle, pelo rosto matreiro de Ivich, pela máscara mortuária de Lola, tornaria a sentir um gosto de febre na boca, a angústia viria pesar lhe no estômago. Dentro em pouco. Afundou se na poltrona e acendeu o cachimbo. Estava solitário e calmo, entregava se à frescura sombria do bar. Havia aquele tonel envernizado que lhe servia de mesa, aquelas fotografias de artistas, aquelas boinas de marinheiros penduradas na parede, a rádio invisível que sussurrava como um repuxo, os dois senhores gordos e ricos ao fundo da sala, fumando charutos e bebendo vinho do Porto — últimos fregueses, homens de negócios; os outros tinham ido almoçar há muito tempo. Devia ser uma e meia, mas parecia manhã ainda, ° dia ali estava, estendido como um mar inofensivo. Mathieu diluía se nesse mar sem paixão, sem ondas, era um espiritual J E A N P AUL SARTRE negro apenas perceptível, um tumulto de vozes distintas, uma luz cor de ferrugem e o embalar de todas aquelas lindas mãos cirúrgicas que oscilavam com os seus charutos, como caravelas carregadas de especiarias. Aquele ínfimo fragmento de vida beata, bem sabia que lho emprestavam apenas, que seria preciso devolvê lo dentro em pouco, mas gozava o agora sem amargura. Aos tipos lixados, a vida ainda concedia inúmeros pequenos

. Daniel mentia. Era preciso recusar se a aceitar. Mas não agora. preciso de cinco mil francos. Gostara muito de Brunet outrora. secção século XX. mas se tivesse alguma autoridade. Pousou o copo vazio e pegou numa azeitona do pires.. — Ofereço. — Vou confessar te uma coisa. Vamos dividi los. — Muito obrigado. Não se referia ainda à sua carta nem às razões que o tinham levado a convocar Mathieu. Mathieu esticou as pernas e sorriu para si próprio. Tenho quatrocentos francos até acabar a semana. Mathieu não pôde deixar de sorrir. não estava dentro da regra do jogo. Estou sem um tostão. e isso também era um prazer para os olhos. — É — disse Daniel —. é o que há de melhor. Tinha acabado. já não se pode renová las por causa da guerra de Espanha. Disse: — Sabes que vi Brunet ontem? — É verdade? — disse Daniel. Mathieu estava lhe grato pela discrição. — Acho que desta vez tudo acabou entre nós. — Não — disse Mathieu —. Isso viria depressa. — Não te estás nas tintas para Brunet? — Bem sabes que nunca fui tão íntimo dele como tu. Mathieu podia contemplar à vontade o belo rosto de xeque árabe. Insistiu: — Não faças cerimónia. é mesmo para esses tipos que ela reserva uma boa parte das suas graças efémeras. Mas as provisões estão a esgotar se.prazeres. não vale a pena. DADE DA RAZÃO — Espero que a minha conversa esteja à altura do Xerez. — Bem. silencioso. — Não faria lá má figura. — Recomendo te o Xerez — disse Daniel. Mathieu olhou Daniel pelo canto do olho. — Zangaram se? — Pior do que isso. Mas queres que te empreste duzentos francos? Tenho vergonha de oferecer tão pouco. mandava o empalhar e colocar no Museu do Homem. Estimo o muito. Agora só desejo um Xerez e conversar contigo. solene. se mo ofereces. Daniel manifestava um grande aborrecimento. Mathieu provou o Xerez. com a condição de que as gozem modestamente. Daniel voltou para ele os seus grandes olhos acariciantes. Daniel pousou nele um olhar cheio de solicitude. cortês. — Não precisas mesmo de nada? — Sim — informou Mathieu —. — E bom. Daniel estava sentado à sua esquerda. Aquela felicidade simples e leve entrara no passado. Daniel tinha . — Não — disse Mathieu.

. Admiro muito a sua coragem e generosidade. É tudo..» Não eram as qualidades que mais apreciava em Marcelle. como se lhe fossem tirar uma fotografia. — Vocês vêem se. Daniel estava sentado na poltrona. — Diz lá — disse Mathieu. Mathieu perguntou: — Que ideia foi essa? Como é que isso aconteceu? A — Muito simplesmente. — Marcelle Duffet. estava aborrecido e veio me à ideia de ir a casa dela. — Marcelle? Mathieu não estava surpreendido. não podiam entender se.um ar nobre e compenetrado. eles nada tinham em comum. — Onde querias que a encontrasse. Mathieu contemplava os cílios negros e compridos de Daniel. uma voz de negro cantava baixinho Ther'is cradle in Caroline. era absurdo. vagamente irritado. J E A N P AUL SARTRE — Estou a pensar no efeito que isto vai fazer em ti — continuou Daniel hesitante. a sua generosidade. Houve um silêncio. — Pois bem. Mathieu sacudiu a cabeça. Mathieu mergulhou no perfume espesso. se não sai? Acrescentou. Daí por diante continuámos a ver nos. — Em casa dela? Queres dizer que vais a casa dela? Daniel não respondeu.. — Mas onde? — Em casa dela..» Mathieu voltou a cabeça e fixou o olhar no botão vermelho de uma boina de marinheiro. — repetiu sem compreender bem. — Fala e depois saberás — disse Mathieu. — disse Daniel sorrindo.. Daniel continuou: — Um dia. O relógio bateu duas vezes. sorridente. acabo de to dizer — observou Daniel. na atmosfera algodoada do quarto cor de rosa. olhava para Marcelle com os seus grandes olhos doces e Marcelle sorria desajeitadamente. «Vemo nos de vez em quando. Calou se um momento. ela nunca sai. baixando as pálpebras modestamente: — Devo dizer te que nos vemos de vez em quando. Sempre tive grande simpatia por Marcelle Duffet. Não. mas Marcelle parecia ter simpatia por Daniel. — Ficaria triste se te aborrecesses comigo. e Mathieu repetiu com espanto: «A coragem de Marcelle. Tremiam ligeiramente.... A nossa culpa está em não te termos dito nada. sabes quem vi ontem à noite? — Quem viste ontem à noite? Como hei de saber? Vês tanta gente. Onde a encontraste? — Em casa dela. — Tens sorte — disse —. Acolheu me muito amavelmente. . Daniel e Marcelle não se tinham encontrado muitas vezes.

uma vez que não está livre amanhã. Por enquanto estou apenas tonto. Mathieu voltou a cabeça e olhou o com indecisão. A Daniel parecia desconcertado.» Aquele estilo precioso e jovial nada tinha dela! Esfregou nariz. — Não. Mathieu releu a carta do princípio ao fim. — Arcanjo! Ela chama te arcanjo. — Olha — disse Daniel. admirando se por sua vez de não se sentir . depois desatou a rir. fúnebre e distinto como uma testemunha de duelo. Mas como exiges provas. — Far me ás justiça. Daniel ergueu os olhos e encarou Mathieu com uma expressão sombria. Marcelle. Seria normal.. Que seja sábado. querido Arcanjo. — Sim. Daniel pareceu ficar desanimado.. Eram de facto pervincas.. Entregou uma carta a Mathieu. continua. Esperamos com impaciência a sua visita. — Já é bastante penoso acusar me diante de ti. — Bom — disse tristemente.» Mathieu olhou para Daniel.— Vais à casa dela. querido Arcanjo. se reparares que nunca me permiti a menor brincadeira neste assunto das tuas relações com Marcelle. Eu nunca teria encontrado essa expressão. Suspirou: — Preferia que acreditasses em mim. Viu que Daniel esperava a sua cólera. — Então. deveria zangar me. um tipo do género de Lúcifer. não impede que isso seja uma graça. E talvez me zangue ainda. Era a letra de Marcelle. — Mathieu! — disse com uma voz muito profunda. Trazia a data de 20 de Abril. é verdade? Daniel fez um sinal com a cabeça. mantinha se direito. Mathieu viu o dinheiro e pensou: «Sacana!» Mas com preguiça. Um arcanjo decaído. Leu: «Tinha razão como sempre. Mas não compreendo uma só palavra do que me escreve. Tirou do bolso uma carteira cheia de notas. Esvaziou o copo. A minha mãe disse que lhe vai dar uma descompostura por causa dos bombons. sob palavra de honra. É tudo. — Ainda bem — disse. — Não falemos mais nisso. és muito divertido. e ela escondeu me isso? Acrescentou serenamente: — É uma brincadeira. — Bem sei. «Escreveu isto. E tu também vês a velha e tudo. Mas não vou na onda. perplexo. — Pensei que te zangasses. — Não me facilitas a tarefa — disse Daniel com um ar de censura. bem sei. É uma coisa muito séria. Venha depressa..

— Foste tu que pediste — repetiu Mathieu mais calmo.. — E ela não pôs dificuldades? — Admirou se muito.» E sentiu se humilhado por Marcelle. Não se sentia suficientemente abatido. O cachimbo apagou se lhe. — E incrível! Vocês são tão diferentes! Não conseguia afastar a imagem absurda. como vês. Riu se. Daniel não respondeu. com os seus ares de Cagliostro e o sorriso africano. Um espanto intelectual sim. de que falam vocês? — De tudo — disse Daniel friamente. não. Leal? Rígida? Não devia ser assim tão rígida. depois.. Não devia achar gr ande mal nisso. — Evidentemente.. esperamos a sua visita. leal. «mente há seis meses». teria havido qualquer coisa dentro dele que . Então é verdade? Gostam de conversar? Mas. e Marcelle diante dele rígida. Era grave. — Estás com ela muitas vezes? — Sem regularidade. Mathieu pensou: «Ele diverte se à custa deja. — Foste tu que lhe disseste para se calar? — Fui. fixou se em Arcanjo. Estendeu a mão e pegou maquinalmente numa azeitona. mas isso descansa a. Dantes. como quando se descobre que nos enganamos redondamente.. «Venha.. fora ela quem se espraiara naquelas gentilezas grosseiras. pensou com espanto. Continuou: — Admira me muito que Marcelle me tenha escondido qualquer coisa. — Tudo isto é tão imprevisto. cheio de gentilezas maliciosas e nobres. quase me diverte. duas vezes por mês mais ou menos. — Mas não recusou? — Não.irritado. estou a tentar compreender. Acrescentou com uma ironia velada que agradou a Mathieu: — A princípio chamava me Lohengrin. Agora já a conheço há bastante tempo. Daniel todo cerimonioso. Arcanjo.» Ela pensa que gosto de me rodear de mistério. e disse: «É um caso de consciência. desajeitada. já não tem tanta importância. Não queria que fiscalizasses as nossas relações. — Terás alguns temas a propor nos? — Não te zangues — disse Mathieu conciliador. Era a primeira vez que Mathieu se sentia invadido por uma espécie de cólera. não te aborreças.» Fora Marcelle quem escrevera aquilo. «Ela mentiu me». Mas não tenho más intenções.. lembro me. Marcelle não espera de mini conversas muito elevadas. — Mas que é que podem dizer. de que é que conversam? Daniel sobressaltou se e os olhos brilharam lhe. porém.

mal definida. Ela sabia muito bem o que fazia. sempre tivemos a intenção de to dizer. Tinha de a estimar. Disse apenas. Era o momento de o odiar... — Ela acha me. como sempre. Que queres — acrescentou —. — Uma Marcelle diferente.. Alguém que podia dizer «nós» a Mathieu ao falar de Marcelle. de que o desmontasses para devolvê lo em pedacinhos bem analisados. Continuou com uma expressão de compreensão afectuosa: — O que acontece é que confias demasiado nas tuas opiniões sobre os outros. admira essa maneira que tens de viver dentro de uma casa de vidro e dizer abertamente aquilo que se costuma conversar em segredo. porque é que ela fez isso? — Ora.. Mathieu olhou para Daniel.. mas era divertido brincar aos conspiradores. irritado. Daniel pareceu atemorizar se. — Não. Há outra coisa. «Não devia perder a confiança nela naquele dia — naquele dia em que talvez fosse obrigado a sacrificar lhe a própria liberdade.» Parece me que descubro uma Marcelle diferente. Mathieu disse lhe: — Daniel. — Ela disse te isso? . Marcelle tinha se tornado culpada. Não vás levar a sério uma infantilidade! — Censuravas me há pouco por não levar a sério as coisas. já to disse — respondeu Daniel.sangraria. Procurou um recanto na sombra. Esta história prova apenas que Marcelle é mais complicada do que imaginas. É qualquer coisa hesitante. — Porque lho pedi. E depois acho que ter um segredo a devia divertir. — Talvez — disse Mathieu —. mas creio que assim o pensa. Porque o fez? — Imagino que não era muito agradável viver sempre à luz do teu esplendor. com voz tépida: — Nós dizíamos tudo um ao outro. Note se que ela te admira. — E o que pensavas. mas ele não lhe queria mal. não exageres. nós adiávamos sempre.» — Aliás — continuou Daniel —. — Mas passas de um extremo ao outro — disse Daniel. totalitário? — Nunca o disse de uma maneira positiva. Poder se á dizer tudo? A Mathieu encolheu os ombros. sem amizade.. senão era lhe muito difícil. Não te falou das minhas visitas porque teve receio de que a forçasses a pôr um rótulo no sentimento que tinha por mim. mas estava zangado sobretudo consigo mesmo. és uma força. mas Daniel desarmava o. J E A N P AUL SARTRE Mathieu abanou a cabeça. «Nós»! Ele dizia «nós». mas há outra coisa. — E essa carta! «Nós esperamos a sua visita. Mas isso cansa a.

O que me levou a falar foi a inquietação real que se apossou de mim ontem.» Mathieu encolheu os ombros... Ontem conspiravas com Marcelle contra mini e hoje pedes a minha cumplicidade contra ela! Que estranho traidor.» Sacudiu se e disse bruscamente: A — Porque me dizes isso hoje? — Tinha de to dizer um dia ou outro. Mathieu riu sem querer. Disse mais: «O que me diverte em si é que nunca sei para onde vou.— Disse. Aquele ar evasivo era propositado. — Es mesmo o demónio! Semeias segredos por toda a parte. Mais uma comédia. Marcelle ignora que te falei e ainda ontem não estava resolvida a pôr te ao par da situação tão cedo. Daniel sorriu. Bom. — Ah! — atalhou Mathieu —. encolhera os ombros.. Mathieu não se enganou. — Porque é que ela nunca me falou disso tudo? — Ela diz que tu nunca lhe perguntas nada. por enquanto. Cada vez que se tratava de compreender os sentimentos de Marcelle sentia se possuído por uma incomensurável preguiça.» Acrescentou: . do seu acidente — disse Daniel. — E a propósito do seu.. Pareceu me que havia um mal entendido muito grave entre vocês.» «Com Mathieu sei sempre. Começara a entender. Com Mathieu sei sempre. «Ora. Mathieu baixou a cabeça.. Mathieu empertigou se: «Cuidado. Para espicaçar a curiosidade. — Oh! «Ontem ao telefone parecia temer que eu lhe contasse. Marcelle é orgulhosa de mais para falar. é agora. — Bem — disse Daniel representando —. Era verdade. — Por que razão hoje e porquê tu? Teria sido. Ficar te ei muito grato se não lhe disseres nada da nossa conversa. ela di la ia.» Ivich dizia: «Consigo não há imprevistos. — Não tenho nada de diabo. se houvesse qualquer coisa. mais normal que fosse ela a falar em primeiro lugar. não disse nada. Naturalmente. E era isso que eu intitulava a minha confiança nela! Estraguei tudo. talvez me tenha enganado. Mas pensei que fosse bom para vocês os dois. Quando por vezes acreditara discernir uma sombra nos olhos dela. Foi ela quem falou. e à noite é ela quem fala. disseste lhe que estavas ao corrente? — Não. Mathieu apertou com força o copo nas mãos..» Daniel continuou: — Vou dizer toda a verdade. diz me tudo.

. — Não sei. — Tem vontade de se casar comigo? Daniel pôs se a rir. — Que é que eu fiz? — Não o sei dizer exactamente. Um empregado trouxe lhes os chapéus. Ela falou me disso com rancor. «Isto vai acabar mal». aquela história de aborto. — Estivemos sempre de acordo sobre o que se faria em semelhante circunstância. pensou Mathieu. Tentarei falar lhe. espantado. a paz insípida e sinistra. perguntas de mais. com um nó na garganta. O dia pesado e borrascoso. e o empregado desligou a rádio. A sua vida. O que ela me disse foi. a Europa. Mas isso é uma vantagem para ele. evidentemente. é talvez a maneira como me contou as coisas.» Naquele momento. Devias falar lhe à noite. E quando encararam pela última vez essa eventualidade? — Não sei. — Sim.— E então? — Então há qualquer coisa que não está certo. acreditava se nisso. Eembrou se dos cabelos ruivos de Brunet. três feltros e um chapéu de coco. Estava convencido de que pensava como eu. que já tem opinião sobre as coisas e não me dá tempo para formar a minha. — Dois ou três anos. isto: «Ele é quem resolve sempre. meu caro.. congratulavam se sorridentes. não é isso. — Que é que te leva a dizer isso? — perguntou Mathieu. Marcelle. Sem te referires a mim. Saíram com um cumprimento amistoso para o barman. não lhe perguntaste nada.» Não garanto a exactidão das palavras. Parecia tão acabrunhada. Isso não pode ser assim tão simples. como se tivesses tido escrúpulos. E por causa da tua atitude de ontem. — Nada de especial. — Mas não tinha nenhuma decisão a tomar — atalhou Mathieu. «Em Setembro temos a guerra.. — Ela tem medo da operação? — perguntou. Houve um silêncio. e se não estou de acordo devo protestar. Não sabia exactamente o que ia acabar mal. no bar deserto e escuro. — Bom. mas procuraste saber a opinião dela anteontem? — Não. por certo. Daniel continuou com um ar aborrecido: . Era qualquer coisa mais vaga e mais ampla. — Então? Ela tem me raiva porque lhe arranjei um filho? — Não. A julgar pelo que vi ontem.. Havia qualquer coisa de podre na sua vida. E não acreditas que ela tenha mudado de opinião? No fundo da sala os senhores distintos levantaram se. Não. há dois ou três anos. — Não sei — disse Daniel com um ar distante. — Está bem. naquele Verão. entre outras coisas. ela dir te ia tudo.

não soube nada. Marcelle a masculina. J E A N P AUL SARTRE Daniel riu com vontade. preferia mil vezes que me odiasse. ela está lá na sua cabeça. a humildade ainda mais doce. com a mão sobre o auscultador. Pronto." Ah! Ele pensa nisso. é intolerável. porquê resistir. grávida. as palavras foram ditas e eu nada sei. mas nós contávamos sempre tudo. perdoada. ao menos uma vez. e a carícia em sulco sinuoso no rosto. uma pobre mulher. é tudo. Ele pensa. a mulher frágil. Uma mulher. «Ele abraçou me. Sabe agora. Marcelle a razoável. meu Deus. a doce piedade de si. a voz grave subia como fumo para o tecto do café. Eu não estava lá. ele diz que sou um homem e agora a água. ruminando: "A Marcelle contava me tudo. obrigado! — Desejas me mal? — De maneira nenhuma. «Eu não devia. aquelas mãos de veludo sobre as minhas ancas.— Enfim. o Arcanjo emprestou à minha causa a sua voz soberba... mas ele está lá. Uma vez. a conversa já se deu. tenho vontade de abraçar Mathieu e de lhe pedir perdão. com os olhos secos e vazios: vão matá lo. pobre Mathieu. lágrimas de verdadeira DADE DA RAZÃO mulher. — Bem sei. Durante oito dias ela olhara ao longe um ponto fixo. «eu não devia.. com o olhar fixo no chão como se alguma coisa se tivesse partido. Pobre Mathieu. querido Arcanjo!» Pensou: «Arcanjo» e os seus olhos encheram se de lágrimas. que irá ela dizer? Estou nua. sentado no café. ser defendida. neste momento. ela esteve. a lágrima trémula dos olhos. a voz sairá dali. tomou a minha causa a peito. Abriu a iboca mostrando os dentes brilhantes e o fundo da garganta. de doce mulher defendida. doces lágrimas. mas foi generoso. acariciou me.. dirá: "Marcelle dizia me tudo". e a voz virá e dirá: já está. lágrimas de abundância e fertilidade. é mesmo o tipo de ser yiço que podes fazer: cai nos na cabeça como uma telha. defendeu me». é tão . Eu avisei te. tão bom. a chuva nos olhos. o tremor dos lábios. amanhã serei dura e razoável. a voz virá de lá. Aliás. durante oito dias ela fora para ele Marcelle a decidida. a bela voz grave que faz sempre vibrar o auscultador do telefone. com o espanto a oprimir Ihe e esta vozinha na cabeça: «Marcelle dizia me sempre tudo!" Ela está lá. mas ela está. sobre as minhas nádegas. de joelhos.». Meu Deus. fraca e defendida no mundo dos homens e dos vivos por uma voz sombria e quente. de braços abertos como se tivesse deixado cair qualquer coisa. uma só vez as lágrimas. e essa voz sairá toda vestida da placa branca. os remorsos. meu pobre querido. foi o único a preocupar se comigo. após oito dias tórridos. Marcelle a dura. pensava ela. ela teria detestado Daniel se fosse possível detestá lo. não devíamos.

querida Marcelle. aceitarei tudo. meu pobre Mathieu. é Daniel? — Sim — respondeu uma voz calma —. — Deixei a muito tarde ontem. Tínhamos menosprezado Mathieu. farei o que ele quiser. — E você — insistia a voz terna — dormiu? — Eu? Mais ou menos. A princípio não queria acreditar. Ah!. irei ver a velha. não soube de nada. matarei a criança. — Dormiu hem? — A voz grave ecoava lhe no ventre. era insuportável e delicioso. Melhor do que eu esperava. dizemos lhe tudo. pensou com desprezo. — Efectivamente — Daniel parecia divertir se —. — Não — disse Marcelle. — Está — disse ela —.. — Disse me que compreendia muito bem. sim. Ele sabe. você disse que nos víamos? — Naturalmente — respondeu Daniel. tenho vergonha. o ácido correu Ihe nas veias. O coração batia lhe fortemente.. afinal. — Não deve enervar se — disse ele. Marcelle sentiu se melhor. meu bom Mathieu. chegará esta noite. — Ele deteve me às primeiras palavras — disse Daniel. Estou um pouco enervada. — Não tínhamos combinado isso? — Sim. — Tudo? É verdade? — E verdade.» O telefone tocou sob os seus dedos. «Esta noite.. Madame Duffet deve ter ficado zangada. tranquilo e forte. quando eu lhe puser os braços em volta do pescoço e o beijar. — Você.. — Bom dia. tudo o que tu quiseres. espantado. minha querida Marcelle. que percebeu que havia qualquer coisa e que isso o atormentava todo o dia. — Bom dia — disse Marcelle. . nós mentimos lhe». Marcelle sentiu se invadida por amargos remorsos. verei os seus olhos bons. — Deve ter lhe dito que dizíamos tudo um ao outro. pensarei: ele sabe e como poderei suportar isso. Dormia a sono solto quando você saiu. como reagiu ele? A — Foi tudo bem. ah!. — Correu tudo optimamente. e eu terei de fingir que ignoro que ele já o sabe. «continuamos a mentir lhe. Daniel riu.bom!» Subitamente surgiu lhe uma ideia nítida.. disse o exactamente nesses termos.. quando ele chegar. Crispou a mão sobre o auscultador. Era um belo riso de luxo. quem fala? J E A N P AUL SARTRE — É Marcelle. ele saberá tudo. arquejante —. Disse: — Não é verdade. Mas espero que não tenha sabido. pela primeira vez na vida fiz te sofrer. mas a nossa sinceridade está envenenada. Não é verdade que o menosprezámos.

. — Daniel! Mas o telefone tinha sido desligado. — Amanhã. depois fechou os olhos e enfiou a rosa na cabeleira escura: «Uma rosa nos meus cabelos. Oh! Daniel. interrompeu me logo às primeiras palavras e disse: «Pobre Marcelle.» Mas a voz voltara a ser grave e o telefone vibrava como um órgão.. eu queria estar escondido no quarto para ver quando se encontrassem. Riu de novo e Marcelle pensou com humilde gratidão: «Está a troçar de mim. . e ria. não..— Daniel. Com certeza que desejo muito vê la. arranjou a cabeleira e sorriu para si própria cheia de confusão. com o coração aberto. Ouviu novamente o riso profundo e sadio. aça favor de esperar aqui — disse o homenzinho. «Espremer o abcesso. tudo corre bem. sou um grande culpado.. Marcelle. tenho ódio a mim próprio. Marcelle. foi. Como ele gosta de si! — Oh! Daniel! — dizia Marcelle.. virou a timidamente entre os dedos. Marcelle pôs o auscultador no descanso e passou o lenço pêlos olhos húmidos: «Arcanjo! Fugiu depressa para que eu não lhe agradecesse. tenho remorsos. Ele não me deixou falar. quero vê lo o mais cedo possível.» Abriu as pálpebras e olhou se no espelho. — Está bem — disse Marcelle —. Uma jovem senhora corria pelo meio da rua com o filho no braço. Pode ser amanhã? A voz pareceu lhe mais seca.» Agora tudo está nas suas mãos. pareceu lhe que tinham um ar de felicidade. seja desembaraçada hoje à noite. operários. Marcelle seguiu a com o olhar.. Ah!. — Acontece! Ele também. Telefonarei. mas hei de arranjar tudo. — A sério. Marcelle pegou numa com hesitação. crianças. Ele fará o que você quiser. Depois aproximou se do espelho e mirou se com espanto. Estou satisfeito por sua causa.. F. achas que ainda posso reparar o mal?» E tinha os olhos vermelhos. querido Daniel. telefone depressa. Se vocês os dois estão com essas disposições. Saiu cheio de remorsos. — Até logo. Daniel. e Daniel continuou: — Disse me que queria falar lhe hoje à noite. — Oh! Daniel! Oh! Daniel! Tomou fôlego e acrescentou: — Você foi tão bom. é mais fácil. Promete ser delicioso. falava lhe arquejante. Sobre a prateleira do lavatório havia três rosas vermelhas num copo. Houve um silêncio. tenho tanta coisa a contar lhe e não posso falar sem lhe ver o rosto. tinha perdido o tom harmonioso.. Marcelle. — Oh! Daniel.» Aproximou se da janela e contemplou os transeuntes: mulheres.

e o homenzinho foi abrir. introduzira se entre os verdadeiros pobres e era o dinheiro deles que ia buscar. obsequioso. devolvendo os.. Está um bocado atrapalhada.Mathieu sentou se num banco. Ela tirou dois ou três papéis cuidadosamente dobrados. que cheirava a couve. Pôs se a procurar na bolsa. A jovem mulher deitou uma olhadela hostil a Mathieu e pôs se a brincar com o fecho da bolsa. Mathieu acompanhou o ao escritório. Não era o mesmo dinheiro. Não era feia. não é? A jovem mulher corou e o homenzinho esfregou as mãos: — Pois bem — disse —. O senhor apoiou os cotovelos na mesa e juntou as belas mãos brancas. O senhor apontou lhe amavelmente uma poltrona de couro já gasto e sentaram se ambos. para ter mais luz e examinou os demoradamente: — Muito bem — disse. minha senhora. cuidadosamente penteados para trás. Esperamo los com impaciência. é para um empréstimo. Contemplou a pensativo e sorridente durante uns instantes. Baixou a cabeça e olhou o chão entre os pés. Meu marido. minha senhora. é para isso que estamos aqui. O homenzinho falava lhe muito junto ao rosto. Uma mulher jovem entrou vestida com uma decência miserável. até ao banco. — Faz favor de se sentar. não é verdade? Mas quando chegam. A porta envidraçada abriu se e surgiu um senhor alto. Era uma sala escura que tresandava a couve. — Muito bem. Acompanhou a. um dinheiro cinzento e triste. Viu as notas sedosas e perfumadas na maleta de Lola. — É funcionária? — Eu. — Sim. O homenzinho olhava a com J E A N P AUL SARTRE cobiça. Tocaram. não. mas tinha uma expressão dura e perseguida.. vamos arranjar tudo. desorganizam as finanças. — Senhor? — Delarue. de bigode branco. . encolhendo as pernas. Tinha os cabelos prateados. À esquerda via se uma luz fraca através de uma porta envidraçada. A Examinou o rosto de Mathieu. em que ela se sentou. com certeza. Usava uma gravata verde escura. ele pegou lhes. depois afastou se. Dois filhos? Parece tão nova. os olhos azul claros projectavam se ligeiramente para fora do rosto. — Já estive aqui — disse a mulher —. — Deseja recorrer aos nossos serviços? — perguntou paternalmente. Mathieu não estava à vontade. cuja severidade era discretamente aliviada por uma pérola. chegou à porta envidraçada. — Desejo. vamos arranjar tudo.

. — Muito bem. Por isso faremos o nosso pequeno inquérito. necessitamos de quinze dias pelo menos para as informações! — Que informações? Já viu os meus documentos. Mathieu estava agradavelmente surpreendido. Pensou: «Não imaginava que fosse tão fácil. — Agora? Mas. — Ah! Ah! — disse o senhor com interesse. — Na entrega do dinheiro? Não pode entregá lo agora? O senhor pareceu muito surpreendido. — Nascido em Paris.. reconhecendo a dívida. um pouco gorda. Mathieu entregou lhe os documentos. No Liceu Buffon. — Quer ter a bondade de preencher estes formulários? Assine em baixo. passaporte. é tudo por agora. Bem. possibilidade de adiamento. pai e mãe franceses.. examinou os distraidamente. É professor do liceu? — Sou.» — Conhece as nossas condições? Emprestamos por seis meses. — Sou funcionário — disse Mathieu..) Quando se lida com dinheiro. E qual é o montante da soma de que vai precisar? — Seis mil francos — disse Mathieu. O senhor tomou os. Era um formulário de pedido de empréstimo em duplicado. Na entrega dos sete mil francos exigiremos um recibo selado. Em primeiro lugar vou pedir lhe um documento de identidade. Mathieu escreveu. está bem — atalhou Mathieu. Ele reflectiu um pduco e disse: — Ponhamos sete mil. — Muito bem — disse o senhor percorrendo as folhas. como as mãos. cartão de eleitor. É um sentimento miserável. J E A N P AUL SARTRE — Está bem.. Note que neste caso particular não ponho em dúvida a sua palavra. os universitários são todos iguais. o estado civil.. Um qualquer. quem nos prova que os seus documentos não são falsos? (Sorriu tristemente. porque temos despesas enormes e corremos sérios riscos. 1905. Tinha de indicar a idade. — Ah! — disse —. de um modo geral. Todos idealistas. O selo é por sua conta. Mas. Somos obrigados a exigir vinte cento de juros. mas não temos o direito de ser confiantes. O senhor tirou da gaveta duas folhas impressas. — Professor. aprende se a desconfiar. caderneta militar. concordo. a morada.. O senhor considerou Mathieu com uma indulgência divertida.— Não ignora que os estatutos da nossa sociedade estabelecem um serviço de empréstimo destinado exclusivamente aos funcionários? A voz era bela e branca. Vamos então às formalidades da praxe.. meu caro professor. — Muito bem.. — Temos muito prazer em auxiliar os universitários.

devia ter vindo antes. JEANPAUL SARTRE — Até à vista. Lá fora uma luminosidade vegetal tremia no ar cinzento. — Preciso do dinheiro para hoje à noite ou o mais tardar amanhã de manhã cedo é uma necessidade urgente. meu caro professor! A nossa sociedade tem o apoio moral do Ministério das Obras Públicas. Não leu os nossos avisos? — Não — disse Mathieu levantando se. vou ver se me arranjo até à data da entrega. — É impossível — disse Mathieu. Duvido muito que possa contar com o nosso auxílio antes de 5 de Julho. E uma instituição por assim dizer oficial. estabelecidos de acordo com as despesas e os riscos e não nos podemos prestar a nenhuma transacção desse género! Acrescentou com severidade: — Se tinha pressa. — Ao seu serviço — respondeu o senhor. com um juro mais elevado? O senhor mostrou se escandalizado. Entrou num café e pediu ficha ao balcão. Rua Huyghens. — Obrigado.» — Não rasgue — disse —. angustiado. — E muito prazer. Mathieu atravessou a sala com grandes passadas. senhor — disse Mathieu. minha senhora — disse o homem por trás de Mathieu. — Queira entrar. Não se poderia. procederemos com a máxima discrição. Estava no Bulevar Sébastopol. . há de encontrar um amigo que lhe adiante o dinheiro por quinze dias. Mordia a luva com um olhar desvairado. Mas agora Mathieu tinha sempre a impressão de estar enterrado. Ergueu se e acompanhou Mathieu até à porta. o senhor sabe. Porém. inclinando se. número 12? — Está. A jovem mulher ainda estava ali. — Foi uma decisão repentina. pensou. Mas nada receie. entre nós. — Devo rasgar os formulários que acaba de preencher? Mathieu pensou em Sarah: «Seguramente deve ter obtido um prazo. — Pois bem. A morada está certa — disse apontando para o formulário —. nos primeiros dias de Julho mandar lhe emos uma convocatória.. Ergueu as belas mãos e disse: — Não somos usurários.dirigindo nos directamente ao Ministério. — Lamento — disse friamente o senhor. «Mais um desastre». como são as administrações. Só tinha esperança em Sarah.. — Pois é — disse o senhor amavelmente —. Cobramos os juros normais.

«Tanto faz. não caso: já não tenho nada com isso. Pensou: «Não. Não sabe quando volta? — Não. — Daqui é Mathieu Delarue. Já não passava de um saco de carvão empilhado com outros sacos no fundo de um camião. Os vidros tremiam. via a sua vida desfilar. Era livre. Tossia na esquina da Rua dês Ours com o Bulevar Sébastopol. tossia na Rua Réaumur. O que quer que aconteça. — É Weysmuller. Enquanto marcava o número pensou: «Oxalá tenha conseguido.» Via surgirem um por um os pesados edifícios sombrios da Rua dos Saints Pères. não é cara ou coroa. para tudo. Diga lhe apenas que telefonei. pensou. tudo era transportado pela enorme máquina. mesmo que se deixasse transportar como um saco de carvão. está. livre. maltratava o. a minha vida é apenas um destino. por cima das águas calmas e escuras. A sua vida já não dependia dele. ao banco. Toda a sua liberdade acabava de retroceder sobre ele. tinha escolhido a sua perdição. eu digo lhe hoje à noite que caso com ela. Pensava: «A minha vida já não me pertence. a velha tossia. com liberdade de ser um animal ou uma máquina.— No fundo e à direita. Mathieu endireitou se e olhou angustiado as costas do motorista.» O autocarro parou com uma travagem brusca. O chapéu. é através de mim que há de acontecer. era embalado pela rapidez da sua vida.» Ainda que se deixasse levar. — Ah! Que chatice. os telefones. subiu e sentou se junto de uma velha que tossia no lenço. os acontecimentos batiam de encontro aos vidros. Quer deixar algum recado? — Não. Fez sinal a um autocarro. oxalá tenha conseguido. — Está. Mathieu. tossia no Pont Neuf. a velha. Posso falar com Sarah? — Saiu. desesperado. pelo menos acaba. sacudia o. «Caso. «Os judeus entendem se sempre bem».» O autocarro enorme e infantil transportava o. fazia o virar à direita e à esquerda. «E se o judeu não for nisso?» Mas esse pensamento não o chegou a arrancar do seu torpor. Mathieu pagou e pôs se a olhar pêlos vidros. as flores. J E A N P AUL SARTRE . Sarah? — Está — disse uma voz. tossia na Rua Montorgueil.» — Denfert Rochereau! — Três bilhetes — disse o cobrador. A velha não tirava o nariz do lenço e tossia. Pensava em Marcelle com um rancor melancólico. Só lhe restava esperar. «O assunto vai ser resolvido. desamparado.» Era quase uma prece. as flores dançavam lhe no chapéu de palha. É cara ou coroa. Desligou e saiu. estava nas mãos de Sarah.

No mesmo instante os muros que o cercavam desmoronaram se e pareceu lhe que mudava de mundo. Uma letra grande e inclinada: «Reprovada. «Reprovada. — Está bem — disse o motorista. Em volta dele as coisas tinham se agrupado. — Não. Só havia para ele Bem e Mal se os inventasse. Ivich. — Não sei se os tenho — disse a porteira. de hesitar. — Imagine! Toda essa gente que estuda. Impressionava se com a grandiloquência inquietante. condenado a decidir se sem apelo possível. segundo me disseram. Obrigado.. Mathieu chamou o: — Lar dos Estudantes. Rua Saint Jacques. via continuamente uma maleta aberta. sem auxílio nem desculpa. Podia fazer o que quisesse. desaparecer. Era como um remorso. ninguém tinha o direito de aconselhá lo. esperavam sem um sinal. Há quatro horas que anda por aí pelas ruas de Paris. — Ah! E que estão cada vez mais difíceis. notas perfumadas e sedosas. Um táxi parou. — Madame Garinet. e. «Reprovada.. Mathieu pegou na carta. Estava só no meio de um silêncio monstruoso.. Inconsciente. inconsciente. 173.. «Seis horas. Inconsciente. admirada. Soube do resultado às duas horas. depressa. Havia três palavras no meio da página. É claro como a água. Estava cansado e nervoso. casar.» — É um aluno meu que ficou reprovado nos exames. de se arrastar durante anos com aquela cadeia aos pés. — Denfert Rochereau — gritou o cobrador. — Bem. Ivich. está prestes a fazer uma asneira. dá me depois o troco. Mexeu na gaveta da mesa de costura. «Devia ter roubado. — Bem. Que é que se lhes há de fazer? J A IDADE DA RAZÃO — Pois é. — Só tenho cem. só e livre. Ficam com diplomas. Saiu: «Onde estará ela?» Tinha a cabeça vazia e as mãos trémulas. condenado à liberdade para sempre.» — São más notícias? — perguntou a porteira. .. de recusar. no fundo de um quarto escuro. que se há de fazer! Leu pela quarta vez a carta. empreste me cinquenta francos — pediu à porteira. rasgou o sobrescrito. deve estar a fazer alguma asneira. Mathieu levantou se e desceu. — Muito mais.de aceitar. é que o senhor ficou tão assustado.» — Que horas são? — Seis horas. Enfiou pela Rua Froi devaux. sem a menor sugestão.» Enfiou a carta no bolso.. na maleta.» — Uma carta para o senhor — disse a porteira.

nem no Harcourt. ando à procura de alguém. preciso de entrar em todos os cafés. Saiu. não veio. — Hotel de Pologne.» Mathieu tirou a carta do bolso e examinou o sobrescrito.. — E a irmã. Nas ruas? Em todo o caso não tinha ainda deixado Paris. quer que ele vá vê la imediatamente quando chegar. A Senhora Montero é que telefonou duas vezes para falar com o Senhor Boris. A No Capoulade viu um estudante chinês que a conhecia. O estudante tomava uma dose de vinho do Porto. Mathieu desceu e tocou à campainha. — Vou ver — respondeu. estava na caixa.» — Ouça — disse —.«Onde estará ela? Na melhor da hipóteses terá partido para Laon. à esquerda.. Reconheceu Mathieu e sorriu. uma rapariga loura. — Está bem. — O Senhor Serguine está? O empregado. mas de repente percebeu: «Para me mandar aquilo. «Onde estaria? No cinema? Pouco provável. O táxi parou. — Parece me que conhece a Serguine. albino. não veio dormir. Não a viu hoje? — Não — disse o chinês. pode dar lhe o recado. Tinha sido enviada da agência da Rua Cujas. não passou por aqui? — A Menina Ivich? Não. indeciso. Falava com dificuldade. — A Menina Serguine não voltou desde esta manhã. — A Menina Ivich Serguine está? A mulher olhou o. Voltou logo. nem no Palais du Café. Se o encontrar. E estou com quatro horas de atraso!» Estava dobrado para a frente e apoiava fortemente o pé sobre o tapete para acelerar. vamos subir devagar o Bulevar Saint Michel.. Mathieu olhou o. com desconfiança. nem no Source. desde o cais. Rua Sonimerard. na pior. Tem algum recado para ela? J E A N P AUL SARTRE — Não. nem no Biard. — Aonde vamos? — perguntou o motorista. — Desculpe — disse Mathieu. devia estar bêbeda. sentado num banco do bar. Ivich não estava no Biarritz. Passados instantes bateu no vidro. mas isso não queria dizer nada. Mathieu subiu novamente para o automóvel. — Ali. — Não voltou. Correu.. — Aconteceu lhe alguma desgraça? . gordo. pois teria passado antes pelo Lar para levar a bagagem. Saltou e empurrou a porta.

Estava com uma gente muito esquisita. — Bom dia — disse. Para onde é que ela foi? — Queriam ir ao dancing. sentia apenas uma necessidade dolorosa e violenta de a tornar a ver. — Obrigado. Nem sequer pensava em proteger Ivich. — Adeus. a desgraçada? — Sei. Sabe que ela reprovou. Desça a escada. Deu alguns passos. Mathieu desceu. É aqui. Ao Tarantule. — Não sei — disse lhe Mathieu. a amiga italiana de Ivich. eu aviso. Mathieu voltou para o táxi. o dancing é na cave. depois voltou: — Desculpe. Saía do Luxemburgo com uma pasta debaixo do braço. — Quando? — Há uma hora mais ou menos. creio. As mãos tremiam lhe. — Bom dia. Subiu para o táxi. — Rua Monsieur le Prince. sentiu um cheiro a mofo. Espere um momento. pensou com fúria. e Mathieu viu Renata. dançava. «Oxalá ainda lá esteja. também me esqueci de lhe dizer adeus. Viu Ivich? — Ivich? Vi. Mas afinal talvez estivesse simplesmente em Montparnasse. — Onde? J E A N P AUL SARTRE — No Luxemburgo. senão terei de correr todos os chás dançantes do Quartier Latin. — Viu Ivich? Renata tomou um ar digno. — Na cave. sim. voltando lhe as costas.— Como diz? — Estou a perguntar ao senhor se lhe aconteceu alguma desgraça.» . — Carrefour Vavin — disse. O táxi deu a volta à Fonte Médicis.» — Pare. fica a dois passos. Encostou se à ombreira da porta e pensou: «Ela está aqui. — Pare! Pare! Saltou do táxi e correu para ela. enfiou as nos bolsos. Devagar. Entrou na casa de discos. empurrou uma porta de couro e recebeu um golpe no estômago. Ivich estava ali. — O dancing? — perguntou. — Onde é isso? — Rua Monsieur le Prince. «E se ela tivesse tentado suicidar se? É muito capaz disso». E uma casa de discos.

autoritária. — Desculpe — disse o de barbas com dignidade —. com o olhar parado. vem. Ele dançava bem. No fundo quatro rapazes e uma rapariga muito pintada batiam palmas e gritavam «Olé!» O tipo alto e moreno reconduziu Ivich à mesa deles. Os cactos estavam inchados como bolhas. — Quer beijar me. ameaçou. o único à vontade. Os estudantes rodearam na e fizeram lhe uma festa. ao mesmo tempo empertigado e familiar. «reconhecem lhe o direito de se sentar ao lado dela». muito pálida. A rapariga pintada mostrava se reservada. escandalizados. — E puxou a pelo braço. sem uma sombra. «Fantástico». pensou Mathieu. — Foge porque eu prometi beijá lo — disse a sorrir. Ivich apoiava a cabeça no ombro do seu par e colava se a ele. Ivich apontou o de barbas. — Quero. Alguém disse: «Ivich!» com uma voz docemente reprovadora. nada de álibis! O de barbas levantou se atenciosamente para dar lugar ao dançarino moreno. não te beijarei. — Não. pensativa: — Olé! Ivich deixou se cair numa cadeira entre a rapariga e um lourinho de barba. Estavam sós no meio da sala. pesada e mole. Esperava. Mathieu sentiu se humilhado. Era o jovem moreno e alto que estava com Ivich na véspera. Ivich? — disse a rapariga. tinha um ar esquisito. aliás. — Pois bem. não — dizia agitando a mão diante do rosto —. Acendeu um cigarro e disse. Era. enquanto ele lhe sussurrava ao ouvido. não prometeu. Uma luz coada saía dos lustres de papel oleoso. Ela afastava então a cabeça e ria. Ivich não passava de . Ele respirava os cabelos de Ivich e de quando em quando beijava os. Envolviam na à distância com gestos redondos e ternos. Os outros afastaram se.Era uma sala vazia. Beijarei Irma. Ria como uma louca. segurando a pela cintura. Mathieu viu umas quinze mesas espalhadas sob a luz morta. Para aquele rapaz elegante. no Bulevar Saint Michel. O belo moreno parecia achar a coisa muito natural. Estava de pé. O belo moreno olhava a firamente com um leve sorriso. de olhos fechados. Um gira discos invisível difundia um paso doble e essa música em conserva tornava a sala ainda mais nua. Nas paredes tinham pregado papéis multicores que tinham forma de plantas exóticas e os quais já se estavam a despregar sob a acção da humidade. surpreendida e lisonjeada. Mathieu reconheceu o.

Não se debatera.. Na rua largou a.. — Conservaste o teu — disse Ivich. — Isso é verdade — afirmou Ivich desgostosa —..uma presa. — É um demónio. menos eu. quisemos até impedi la. — Não — gritou Ivich. No meio da escada. — Cheiras a borracha — disse com asco. Tomou a pêlos ombros e conduziu a. — Quer ir para a casa de Boris? — Ele não está em casa. e ele ficou a duvidar que o tivesse reconhecido. — Es tu — disse. Os rapazes entreolharam se. que é um pulha. Mathieu colocou se diante da mesa. não a fizemos beber. Ivich — disse o dançarino —.. Mas ela ergueu a mão esquerda e apontou o. Arrancara o curativo. — Quero sentar me aqui. Ouviu atrás dele um ruído de consternação. Olhava a com ar cúmplice. Finalmente agarrara lhe no rosto entre as mãos e beijara a na boca. ele adivinhava lhe os seios. Mas repeliu a violentamente. Percebera pela primeira vez que a desejava vergonhosamente através do desejo de outro. — Ivich! Ela sacudiu os caracóis. Ela pôs se a rir e levantou a saia acima do joelho. — Menos eu. — Ela arrancou o contra a nossa vontade — desculpou se a rapariga. Ivich voltou se para ele e disse: — Menos este. o cheiro da carne. Ivich fizera mil trejeitos antes de beijar a rapariga. melancólica. Ivich. — Quer voltar para casa? — propôs Mathieu. — Ivich! Ela olhou o. decepcionada. Ela pestanejou e olhou em volta. — Sabe — disse o de barbas —. — Olha. Tinha as pernas moles. de boca aberta. Mathieu sacudiu se bruscamente e avançou para Ivich. contente. as coxas.. Mathieu agarrou a pela cintura e empurrou a. — Leve me daqui. Mathieu viu uma crosta avermelhada com pequenos pontos brancos de pus. A Ivich ergueu se subitamente e olhou Mathieu com um ar sombrio. — Eu peco lhe. — Onde está ele? . — Quero sentar me aqui.. já estava nua diante dele. estou a achincalhar me. ele despia a com um olhar sensual de amador. — E verdade que és prudente. são uns verdadeiros pajens. Ivich tornou se pesada. — Venha — disse Mathieu docemente.

Levou a até ao táxi. — Então. Mathieu viu as costas magras sacudidas pêlos vómitos. Mathieu desceu primeiro e deu lhe a mão para a ajudar. estenda se e feche os olhos. Estendeu o braço e segurou o trinco. E. hostil. De repente ficou verde e pendurou se na janela. chegaremos num instante. — Ivich! — Tudo. já que me trouxe de lá. Só mais um andar. — Bem — disse. — Chegámos — avisou. No segundo patamar parou para tomar fôlego. Ivich tornou a encostar se na almofada e Mathieu guardou o cachimbo. Ela olhava o com uma expressão neutra. Um cheiro azedo de vómito exalava da sua boca tão pura. — Vou mandar parar numa farmácia. Ivich disse subitamente: — Como me encontrou? Mathieu inclinou se para enfiar a chave na fechadura. — Eu estava à sua procura e encontrei Renata. Ivich não protestou. Mathieu respirou apaixonadamente esse cheiro. Ivich resmungou . — Para onde quer ir? — Sei lá. — Estou doente. — Poderá deitar se no sofá e eu farei um pouco de chá. Subiu com dificuldade para o automóvel e atirou se para cima da almofada. Mathieu reflectiu. \ mas ela recusou e saltou com vivacidade para o passeio. — Levo a para a minha casa — explicou. 12. Ivich gemeu um pouco. — Mas a cabeça dói me.. — Venha. Mathieu encostou se para trás. fui reprovada. Mathieu conduziu a devagar pela escada. — Não se sente bem? Estava lívida. tirou o cachimbo. — Não — disse violentamente. tinha medo de que a porta se abrisse. Subiram em silêncio. — Está melhor? — Já não estou embriagada — disse Ivich.. Você é que deve saber. Ivich ergueu se com dificuldade. — Agora lembro me de tudo. — Tenho vergonha — disse. dei um espectáculo. sombria.— Sei lá. Ele pagou ao motorista apressadamente e voltou se para ela. — Cada degrau é uma pancada — disse ela. encheu o e fingiu estar absorto. Depois de um instante a tosse cessou. — Rua Huyghens. Andei com aquela gente imunda.

«Como é jovem». Ivich não respondeu. Endireitou os cabelos com a palma da mão e ergueu se . Mathieu puxou uma cadeira junto do sofá e sentou se sem ruído. mas bem apertado talvez se arranjasse ainda uma gota. Era a primeira vez que a recebia no seu apartamento. Pusera toda a sua esperança numa criança. — Aí está o sofá.» Mathieu levantou se e foi devagarinho ver se a água estava a ferver. Depois voltou e sentou se junto de Ivich. Olhou em volta com um olhar morto. pensou que amava Ivich e admirou se: não parecia amor. Olhava com ternura o corpinho doente e maculado que permanecia tão nobre no sono. Deite se. E Mathieu não podia auxiliá la. dir se ia uma maldição pregada no horizonte. perplexa. Mathieu foi buscar uma coberta e estendeu a sobre as pernas dela. Dormia. A água pôs se a chiar na chaleira. Ivich fechou os olhos e pousou a cabeça na almofada. — Pus água a ferver — disse. Ela roçou o ao passar e ele teve de apertá la nos braços. precisava antes de auxílio. Era tão fraca e tão leve sobre o sofá. passariam um Inverno ou dois e surgiria um tipo — um jovem — que a levaria consigo. uma promessa de desgraça. — É a sua casa? —É. nem um matiz especial dos seus sentimentos. A fronte estava lisa e pura. — Vou fazer chá — disse Mathieu —. — Quer chá? Ela não respondeu. ela sorria. Sofria. Olhou as poltronas de couro verde e a mesa de trabalho. embrutecer se ia lá. J E A N P AUL SARTRE — Quer chá? — Estou com frio. Pô lo em cima de uma bandeja com duas chávenas e voltou ao quarto. — Mas você não sabe fazer chá. não podia auxiliar ninguém. Três pequenas rugas verticais sulcavam Ihe a fronte. Ivich deu alguns passos incertos e entrou no quarto. — Entre — disse Mathieu. quer? — Chá? — indagou Ivich. e Ivich abriu os olhos. «Eu casarei com Marcelle. afastando se. Ivich atirou se para o sofá sem dizer uma palavra. Ivich partiria para Laon. Viu as nos olhos de Ivich e teve vergonha. Mathieu pegou numa chaleira eléctrica e foi enchê la na torneira do lavatório. No armário descobriu metade um limão já seco. As três rugas tinham desaparecido. pensou.atrás dele: — Estava à espera que viesse. não era uma emoção específica.

— Dê me o pacote do chá — disse —. controlando a voz: — Eu acompanhá la ei à estação. Detesto as despedidas moles que se esticam corno borracha. — Já o sabia. podemos sair. Telegrafou aos seus pais? — Não. Mathieu olhava a cabeça baixa de Ivich e os seus ombros frágeis. não abriremos. — E preciso esperar um pouco — disse. Houve um silêncio. — Só tenho uma chaleira — respondeu Mathieu. Mathieu levantou se. . mas calmo. — Não — atalhou Ivich. Estou contente aqui. Encostou se às almofadas do sofá. se vier alguém. Mathieu ficou um momento sem falar. encantada. — Então tem de lhes comunicar. Acendeu a lâmpada da secretária. — Como queira. — Ir aonde? Não. Não espero ninguém. é como se o dia tivesse terminado. — Oh!.esfregando os olhos. tanto pior. vou fazer chá à moda russa. — Depois de uma ligeira pausa. Estou inteiramente livre. — Não era verdade. Passou a ocupar se da chaleira. chá de Ceilão! Enfim. Depois disse. acrescentou: — Quero J E A N P AUL SARTRE que seja noite quando sair. Calaram se.. Estava ainda sombria. tenho medo de voltar a ver o dia. Parecia lhe que ela o abandonava aos poucos. — Então — disse —. Marcelle esperava o às onze horas. — Ficará aqui quanto tempo quiser. porém mais animada.» — Quando parte? — Amanhã. — Como é suave. Se estiver melhor.. Aliás. — Detesto isso. — E noite — disse Ivich. entregando lhe o pacote de chá. — Não gosto do seu apartamento. Há um comboio ao meio dia. E depois estarei exausta. é a sua última noite do ano? — Ah! — respondeu ela irónica —. fechou as persianas e as cortinas pesadas. — E o bule? — É verdade. você mesma? Ivich baixou a cabeça: — Tenho. Pensou com rancor: «Que espere. Foi buscar o bule à cozinha. Não poderia fechar as cortinas? Acenderíamos a lâmpada pequena. — Obrigada. deixaremos que toque. E depois aquela gente toda! Um pesadelo! Aqui é feio. Todos esses cafés giravam em torno de mim. Pôs a água no bule e voltou a sentar se. mas não deixei. Mas preciso de um samovar. Boris queria. do ano!.

Ivich afundara se no sofá e olhava por baixo com uma expressão má. Voltou se para ela e murmurou sem a olhar: — Ouça. Você detesta Laon.— Ivich. aliás. se me permitisse auxiliá la. Daqui até lá hei de me arranjar. Subitamente o sangue subiu lhe ao rosto.. Como encontrar palavras que não a ferissem? — Não é o que queria dizer. — Não pensarão em castigar. é isso? Observou secamente: — Totalmente impossível. — Não diga isso — atalhou Mathieu. durante as férias eu farei economias. Não recuse sem saber. sem pensar. isso divertir me á e eu farei economias. Ivich.. — Ah!. não sei como estou a olhar. — Ivich. Baixou os olhos e continuou: — Quero ir dormir. ouça. já lhe disse que sou incapaz de aprender um ofício. você vai partir amanhã. — Não. Pois irei este ano. Será pior. Mathieu atreveu se a erguer os olhos para ela. surpreendida e cansada. se você. Ivich encolheu os ombros. Ivich não parecia compreender... Em fins de Outubro. Mas não é possível que lhe estraguem a vida para a castigar por ter fracassado uma vez. Eu arranjarei dinheiro. — Não. Tudo o que toca Laon fica sujo. não deve. Vão desinteressar se de mim. Interrompeu se.. Ivich! — Ah!. — Há de se arranjar? — indagou Ivich. os seus pais não podem. alarmado. o que mereço. sairei simplesmente da cabeça deles. você viverá em Paris. — Detesto! Mathieu levantou se para ir buscar o bule e as chávenas.. mas dou lhe a minha palavra que voltará. mas não se sentia tranquilo. Irei visitá la a Laon. de modo nenhum — disse Mathieu com calor —. aborrecida. — Não quero.. você . É. você há de voltar. J E A N P AUL SARTRE — Não. mas um dia terei de ir. A — Não os conhece. — Não se deve resignar dessa maneira. \ — Há um novo exame em Novembro. só sei que estou com dor de cabeça — disse Ivich. Isso não pode aborrecê la.. será um empréstimo... e Mathieu acrescentou: — Terei algum dinheiro. Não diga que não. — Pois bem. não é absolutamente impossível. Ouça. — Mas não tem nada que arranjar. Não sou capaz de aprender um ofício e prefiro passar o resto vida em Laon do que voltar a fazer esse exame. — Não me olhe assim. se quisesse. Odette e Jacques convidam me sempre para passar o mês de Agosto em Juan les Pins e eu nunca aceitei.

— Não foi isto que disse? — Não quero que me dê dinheiro. — Que é que está a dizer? Olhara o com um ódio frio. com doçura. Porque não responde? Ivich continuava calada. mudando de tom todas às vezes. Enterrou o rosto nos cabelos. corrigirei provas. Mathieu perdeu a paciência. todas as horas. — Efectivamente. Teve vontade de lhe pegar no queixo e erguer lhe a cabeça à força. Mathieu via lhe apenas o alto da cabeça. Com os meus pais não preciso de ser grata. vai dizer me porque é que não aceita. — E tem motivos para aceitar o deles? — Não quero que sejam generosos comigo. Ivich fez um gesto. — Ivich. Pensava: «Ela vai aceitar. — Ivich. porque é que não aceita? Ela murmurou finalmente. e Mathieu acrescentou vivamente: — Ou então paga me Boris. — Ah!. um bocadinho da nuca entre os caracóis J E A N P AUL SARTRE e a gola da blusa. Você dizia: «Não me importa de onde venha.» Ivich encolheu os ombros. aborrecido e infeliz.há de reembolsar me quando ganhar a sua vida. responda. Disse me mil vezes que os odiava. contanto que o tenha. — Não tenho motivos para aceitar o seu dinheiro.» — Ivich. — Porquê? Não aceita o dos seus pais? — Não é a mesma coisa. A nuca era mais escura do que a pele do rosto. A Era possível vencer Ivich pelo cansaço. Mathieu permanecia em frente dela. então é porque sou um homem — disse com um riso nervoso. há de lamentá lo todos os dias. . Ivich não respondeu. Vai arrepender se de ter recusado. Mathieu pôs se a andar de um lado para o outro. Pense na existência que terá em Laon. Darei lições. sem erguer a cabeça: — Não quero o seu dinheiro. Ivich alterou se: — Deixe me! Deixe me! Acrescentou em voz baixa e rouca: — Que suplício não ser rica! Em que situações abjectas uma pessoa se mete! — Não a compreendo — disse Mathieu... não a largarei enquanto não aceitar. para isso era preciso espicaçá la com perguntas. — Porque é que não aceita? Diga. — Disse me no mês passado que o dinheiro era uma coisa aviltante com a qual as pessoas não se deviam preocupar. que orgulho é esse? Não tem o direito de desperdiçar a sua vida por uma questão de dignidade. — Ivich! Ela continuava calada. não é.

. Ela olhava o arqueando as sobrancelhas. quer dizer que. num tom estranho: — Quer. — Eu hei de escrever lhe — disse Mathieu. — Oh!. Que importa. Depois. pareceu acalmar se. — Vai descrever me a casa. «Pronto!» Mas não estava ainda sossegado.... é por egoísmo que me ajudaria? — Puro egoísmo — disse Mathieu. pois poderá tentar. Quero poder imaginá la em Laon. Mathieu pensou nas cartinhas secas de Boris a Lola.. Ao passo que Laon. talvez — murmurou com indiferença. — Porque deseja fazer me bem? Nunca lhe fiz bem. Vamos toma lo. e pouco me importa. Digo não. subitamente.. Mas tenho de fazer as malas...— É grosseiro. — Nesse caso isso é consigo. digo sim. Que o dinheiro venha de um lado ou de outro. Tenho que fazer a noite inteira. Eu e Boris ajudá la emos.. sei que estarei lá amanhã à tarde. Encheu as chávenas. mas não chego a acreditar. Sempre fui insuportável para consigo e agora você tem pena de mini.. — Então. Não se atreveu a olhá la. Levantou se. há de morar onde quiser e fazer o que lhe agradar.. Nunca pensei nisso. e Ivich perguntou. — Sinto o aqui. Mathieu esforçou se por esconder a sua irritação. — disse ela — isso é uma utopia. secamente —. Disse me que gostaria de estudar Filosofia. se não são eles que pagam? Baixou a cabeça com um ar sombrio. porque quer dar me dinheiro? Mathieu hesitou e depois disse. desviando o olhar: — Não posso suportar a ideia de não a voltar a ver... mas não sei o que lhe hei de dizer. Está tão longe. com a boca entreaberta.. Mas foi apenas um . — Tenho de lá ir — disse ela... Mathieu respirou. — O chá deve estar pronto. Nem sequer imagino. Podem ou não acreditar.. é tudo. Estava escuro como café. — Então.. — Não tenho pena de si. o quarto. — Qualquer coisa. — Mas se voltar. Basta vivê lo. — Então? Pense nisto: pela primeira vez na sua vida seria totalmente livre. Tocou na garganta com o dedo. Houve um silêncio. Afinal tem razão.. — Que vai dizer aos seus pais? — perguntou para a comprometer ainda mais.. tenho vontade de a ver. Ivich continuava com um ar aborrecido. — Não gostaria de falar nisso. — Eu também — respondeu ela —.

Voltou se para Mathieu. Era Sarah. Mathieu dirigiu se para a porta. — Como está magrinha — disse Sarah. arquejante. é Ivich Serguine. rindo com os dentes estragados. . — Não. obrigado. Ele recusa. não posso. Os olhos pareciam inundados de bondade. Sarah empurrou o amavelmente e espreitou por cima do ombro de Mathieu. Disseram me: um amigo de Gomez. sabe. — Talvez seja importante. querem ver me urgentemente. — Bom dia — falou ela.. Parecia decepcionada. — Cheguei tarde. — Não quer que eu lhe fale de regime. Há vinte dias que está em Paris e já se meteu numa quantidade de negócios escuros. — Já dissemos que não íamos abrir. — Quem está aí? — perguntou corn uma curiosidade sôfrega. No horrível tailleur verde. não é razoável. — Não tocaram? — indagou ela.» — Que chá esquisito! — disse Ivich. Ela olhou Mathieu com ternura. O ministro disse me que me tinha telefonado e eu vim. — O que me fez correr. Nem sequer pus o chapéu.. Esperava que Ivich não tivesse ouvido. estou com. aliás. Vá abrir. Não encontrei Waldmann. E Mathieu acrescentou.» Abriu a porta. Mathieu estremeceu. cheirava a catástrofe. Vem de Madrid.. Só às seis horas é que lhe pus a vista em cima. Mathieu colocou se diante de Sarah e olhou a fixamente. — Meu pobre Mathieu. Como passou? Ivich levantou se e fez uma espécie de reverência. J E A N P AUL SARTRE as unhas vermelhas e bicudas. — Quem? — perguntou Mathieu para ganhar tempo. chegou um amigo de Gomez.instante. — Lá está Mathieu a fazer me olhinhos feios — disse. não. Ivich era a única pessoa que Sarah não suportava. Mathieu pôs um dedo sobre os lábios. Sarah também. os pulsos magros e pensou: «Vou tornar a vê la.. — Bom dia — disse com vivacidade —. Venha tomar uma chávena de chá. — Ah!. Sarah. más notícias para si. Sarah riu. Pensava: «Tem horror de parecer minha cúmplice. Acabavam de tocar a campainha. alegre: — Falaremos disso mais tarde. os cabelos despenteados e a sua expressão de bondade doentia. — E muito boa. — Abrimos. preciso de ir à Livraria Espanhola. Mathieu olhou a. — Ainda não sei. Não disse nada. sim — disse Ivich com voz clara. — Aposto que não come bem. Olhou as mãos de Ivich. espantado.

— Não sei porque me está a dizer isso — observou ela com uma voz gelada. mas sabia que ela o olhava. vou me embora. — Não vale a pena — disse tristemente. Então disse: «Não dou crédito. Martirizaram nos. Mathieu sabia que ela não responderia. Insisti o mais que pude. meneando a cabeça: — Que vai fazer? — Não sei. vou casar me com Marcelle. Estava triste. — Bem — disse Mathieu. que pague. Sarah continuava: — Disse ainda: «Nunca mais lhes fio. — Não tenho quase nada a dizer. eu compreendo o. Ivich não respondeu. Nada. — Penso — disse Mathieu tristemente —. desconcertada. Ele olhou a duramente e ela calou se.» Mathieu ouviu o sofá ranger. Quando Sarah saiu. Mathieu contemplava as pesadas cortinas verdes. Continuou. Disse que não. e sai como um golpe de vento. derruba tudo. É preciso que a pessoa em questão esteja lá amanhã com o dinheiro. — Bem — disse ela ao fim de um momento —. no quarto. — Entra. há muitos médicos em Paris. A Fez se silêncio. quero saber.. J E A N P AUL SARTRE — Fiz o possível. Foi sentar se ao lado dela e disse sem a olhar: — Ivich. Calou se e fez se um silêncio pesado. Não se atrevia a olhar para Ivich. comovida. Estava com frio. mas Sarah queria justificar se. — Meu caro Mathieu — disse Sarah. Falou me dos judeus de Viena. Telefone amanhã sem falta.. E viu acender se lhe nos olhos algo que se assemelhava a um clarão de consciência. Mathieu voltou a andar de um lado para o outro. adeus Sarah. — Não tenho nada com isso. Aliás. Mathieu encolheu os .. acho que vai acabar assim. — Não se fala mais nisso.— Hem? Ainda assim. Mas Sarah não via nada. ele perguntou me se ela era judia. — Não pensa em. minha senhora — disse Ivich. Explicou a Ivich. Se quer que eu opere. fizeram nos sofrer de mais. — Adeus. Mathieu teve forças para dizer: — Deseja sem dúvida falar me particularmente? Franziu as sobrancelhas repetidas vezes. Acentuou as últimas palavras. As palavras saíam com dificuldade. de cabeça baixa: — Ela disse me anteontem que está grávida.» E é verdade. dos campos de concentração. — Está bem.. supliquei. Eu não podia acreditar. — Esta mulher é um vendaval — disse a rir.

mas está com um ar tão cómico.. Ela pusera se diante dele. — Então. — Desculpe. — Até breve. Segundo me disseram. — De qualquer maneira vou me embora. pois bem. sem dúvida. Ivich gritou e desenvencilhou se violentamente. — Vê la ei em Outubro? Saíra lhe sem querer. — Pois é.. — Bem percebi — continuou Ivich.. Depois riu se... Tenho de fazer as malas — gemeu. — É sórdido — disse Ivich com uma voz neutra.. pensei: «São modos de homem casado. Acabou de tomar o chá e perguntou: — Que horas são? — Nove menos um quarto. Uma luz suja filtrou se através das persianas.» — Chega! — disse Mathieu com dureza. vermelha de ódio e com um sorriso . Hesitou e continuou como se estivesse distraída: — Não sei porque está tão abatido. Nunca pensei em aceitar o seu dinheiro. Se casa é porque quer. — Está escuro? Mathieu foi à janela e levantou as cortinas. — Não tenho dinheiro — disse Mathieu. arquejante. — Aliás. — Ainda não. — Em Outubro? — disse ela com um olhar faiscante.. foi para isso.. não tenho nada com isso. — Mas sabia que ela. Já compreendi. até breve — disse Mathieu. — Ontem de manhã. — Era sua amante? — disse Ivich com arrogância.. — Procurei por toda a parte. — Foi por isso que encarregou Boris de pedir cinco mil francos a Lola? — Eu não. quando se atreveu a tocar me. — Não me preocupo muito com essas coisas. — Largue me! Não me toque. — Em Outubro! Ah! Não... Ivich teve um estremecimento violento..ombros. Mathieu largou a. Nem tem o suficiente sequer para o casamento. — Ivich! — gritou Mathieu pegando lhe no braço. Você é que sabe o que deve fazer. J E A N P AUL SARTRE — Não faz mal — disse Ivich levantando se. Sentia uma raiva desesperada subir dentro dele. Não tinha vontade que ela ficasse. — Não precisa de insistir. há muitos meios de.

J E A N P AUL SARTRE Uma rua comprida e direita: atrás dele um quarto verde. Recordava as antigas esperanças e ria porque tinham dado naquilo. «Só faltava mais isto». As pessoas esperavam a noite ouvindo música. — Que chatice! Levantou se. Dentro em pouco a renda luminosa da noite estender se ia sobre Paris. como se estivessem com frio. Olhava se sem vergonha. pesado e quente. Tinha vontade de chorar. Uma multidão desocupada agrupara se nas mesas da esplanada./ L contornou a multidão lírica: a doçura crepuscular não era para ele. por aquele amor. molhou o com saliva e esfregou as mãos com uma espécie de ternura. de Marcelle. Depois deu uma gargalhada. e murmurou seriamente. Olhou com gravidade as mãos sujas de lama. Um vazio. O corpo volta a marchar arrastando os pés. Tirou o lenço. com arrepios. Tu ne sais pás aimer. para sempre! Muitos atiram se à água por muito menos. jamais tu ne sauras. «só faltava mais isto». café por café. Precipitou se para a saída empurrando a e bateu com a porta atrás de si. por aquela gratidão. esbarrou no passeio e caiu no chão. pareciam felizes e juntavam se ali. A direita estava preta. diante daqueles primeiros fogos vermelhos. da vida. Ria de si mesmo.. tu ne sais pás Jamais. não havia razão para rir. — Cretino! Mathieu atirou se para a frente a fim de evitar o automóvel. olhando espantado. fria. Durante um segundo ficou suspenso. tu ne sais pás En vain je tends lês bras. com alguns arranhões. uma mulher imóvel esperava o cheia de esperança. As palmas das mãos ardiam lhe. uma conscienciazinha cheia de ódio repelia o com toda a força. Caíra sobre as mãos. Diante dele um quarto cor de rosa. da ridícula queda.insolente. montra por montra. O Café dos Três Mosqueteiros brilhava com todas as suas luzes na noite ainda indecisa. naquele homem grave que quase chorava porque dera uma queda. ardores de raiva na gar DADE DA RAZÃO . Ele teve medo de si próprio. a lama sujara lhe a ligadura. depois de uns momentos. de Ivich. A esquerda doía lhe. e pensava: «Dizer que me levava a sério. M. * XVI TH ne sais pás aimer. das suas miseráveis paixões.» Deixou de rir. Para toda a vida. Dentro de uma hora entraria escondido naquele quarto cor de rosa e deixar se ia envolver por aquela doce esperança. com uma curiosidade divertida.

intactas. odeia me. e Daniel gozava aquele ódio que os unia. aquilo que ainda há pouco as enchia desapareceu. atrás dele. um ódio requentado. com autos. «Está humilhado o macho. No fim do mundo. Ao nível dos olhos. O futuro morreu. No espelho. Ralph voltara a cabeça para o lado do espelho e olhava para Daniel com um estranho olhar. Havia outrora um futuro de homem que se interpunha entre elas e que elas reflectiam num leque de tentações diversas. Perto da janela que dava para o telhado. O quarto era um . Ralph continuava a olhá lo. uma folhinha e um pequeno espelho já manchado de ferrugem. Eram os únicos objectos do mundo. barulhento e activo. «Dentro de uma hora. havia uma porta fechada. Massas sombrias arrastam se a ranger. Entre as flores. Tirou da carteira uma chave. Daniel aproximou se. Mathieu encontrou se no meio da Rua Départ.» O mundo reformou se. entre blocos de gelo riscados por clarões. Mas não era o mesmo mundo nem exactamente o mesmo Mathieu. mergulha num gás luminoso a dançar no fundo de uma greta imunda. «Irei buscá las. para além dos edifícios e das ruas. que parecia ter vinte anos. O corpo vira à direita. sentia se mal e sereno. viu o perfil magro e duro de Ralph e as suas mãos puseram se a tremer. caem do céu como enormes estalactites. no fundo da fenda. montras. em paz consigo mesmo. Mas já ninguém o habita. o tempo de chegar até à porta e abri la.ganta e no estômago. «Um dia um tipo como este liquida me à traição. quase apagado pela penumbra e a sujidade. aquilo purificava o. Entre eles não havia nada a não ser um monte de obstáculos e distância. Lá longe aquela porta fechada. As coisas ficaram ali. abaixando se ligeiramente. tinha pressa em acabar de se vestir. mas o molho desfez se. «E se Lola tiver ficado na cama?» Pôs a chave no bolso e pensou: «Que importa! Pego no dinheiro mesmo assim. flores peludas balançam. e começou a dar o nó na gravata. pensou Daniel com um arrepio. Tinha vontade de apertar aquele pescoço fino com a maça de adão saliente e de esfrangalhá lo entre os dedos.» Uma hora. pessoas.» J E A N P AUL SARTRE A lâmpada iluminava mal. a morte infame que merecia. Voltou se. Elas calam se.» O rosto avolumar se ia no espelho e seria o fim. todos os miúdos cantos de cigarra se dissiparam no ar.» Demorou se a dar o nó na gravata. uma transparência desliza e se contempla com uma paixão gelada. entre a fotografia de Marlene Dietrich e a de Robert Taylor. sobem do chão como absurdos meni res. «Cara de assassino». Posso ir a pé. todas as pequenas solicitações quotidianas. e Ralph baixou os olhos vivamente. aqui esta chave chata. Mathieu andava com um passo regular. Não sabia que Daniel o podia ver. talvez de prazer. As rugas esvaziaram se como por um buraco de esgoto. além dessa hora não havia nada.

— Não tens uma toalha? Tinha as mãos húmidas. calçava os sapatos inclinando o busto. No momento de vestir o casaco. foi o senhor quem aconselhou Bobby a voltar para a farmácia? — Aconselhou? Não. Tinha os ombros e o peito inundados de suor. depois de um silêncio: — É mais cómodo. Vocês não parecem muito amigos da água. Dez horas ainda. que era o senhor que queria. — Bom.. «Tem uma certa graça». — Nunca houve água neste jarro. com o joelho direito erguido. Lalique. Sentado à beira da cama estreita.. antes da madrugada! Não se deitaria. mas estou a ver. não parecia muito franco. Só lhe disse que era asneira tê la deixado. agora. Ralph ergueu a cabeça: — Queria perguntar lhe. — Eu não quero coisa alguma — disse Daniel — e não lhe disse para pedir desculpas. — Se foi o Sr. Quando se deitava depois. mas não teve coragem. Dentro do jarro havia uma toalha sujíssima. hesitou. Mas há um a quem eu deitarei a mão quando o apanhar. — Não lhe vou dizer nada. acabam de soar. Sr. Daniel enxugou cuidadosamente as mãos. Daniel contemplava o dorso magro. Ele veio dizer me hoje de manhã que ia pedir desculpas. — Veja dentro do jarro. e pronto! Mas bem sabia o que o esperava lá fora. — Nós lavamo nos no lavatório do corredor — disse Ralph. não é a mesma coisa. Lalique quem te aconselhou. Não é da minha conta — explicou Ralph. era muito mais penoso.forno. e pensava apreensivo no peso do casaco que lhe ia colar a camisa de linho contra a carne húmida. Dentro de um minuto. — Que horas são? — Nove. pensou com imparcialidade. Ele é assim. chateado. estaria lá fora. Mas tinha horror àquela graça. A Explicou. J E A N P AUL SARTRE — Eu disse lhe: faz o que quiseres. — O teu quarto é terrivelmente quente! — E mesmo debaixo do telhado. Daniel quis vestir o casaco. os braços jovens e musculosos que saíam de uma camisa Lacoste de mangas curtas. Precisa sempre de mentir. — O farmacêutico? . Fez um movimento irritado para dar o laço no sapato do pé esquerdo. Sorriram ambos com desprezo.

e de passagem limpei Ihe o focinho com o cotovelo: assim. sinistro e arrogante. Esse estupor. hem? Não tens medo de ninguém. — Não são os maiores que são os mais fortes — disse.— Sim.» Todos menos Bobby. Daniel olhava o. Pensava: «São todos iguais. Ralph estava vermelho. Um camarada de trinta anos e com braços assim.» — «Não disse nada. Tinha necessidade de fazer gestos vivos e bruscos. Não acreditava muito naquelas histórias. Mandei lhe uma! Um murro no olho para começar. que era uma fêmea. pensou Daniel. Daniel sorriu com insolência. — Eh!. — Vou chegar de mãos nos bolsos. Ralph riu também e aproximaram se um do outro. coberto de glória. o pai de família. Depois todos falam em quebrar a cara a alguém. «Eu mato o».» E zás no estômago. Já não sabia onde estava. Ele sabe. Daniel sentiu se cheio de ódio. Atiro o ao chão. Em cheio. as orelhas estavam vermelhas. Levantara se imitando as fases da luta. (E Daniel deu . — Mijava sangue — continuou Ralph. com um arzinho de poucos amigos. «Vens cá para fora». Pergunte só ao empregado do Oriental. e um muito alto que eu já vi consigo. não disse nada». — E tu? Vamos lá ver se tens força. — Pergunte! Pergunte só! — disse Ralph. disse eu. — O estagiário? — Sim. Sorriu maldoso. Ele saiu: «Queres ensinar a viver a um pai de família?» Foi o que ele disse. naturalmente. Pôs se a rir. — A brincar aos heróis. Calou se. Havia uns a olhar. não disseste nada? Pois toma. — Uf! Uma rasteira e estatelou se no chão. E Corbin do matadouro. mas achava humilhante que Ralph tivesse dominado um homem de trinta anos. — Pode vir. magoado. Era Bobby. não tens medo de ninguém. era o que ele dizia. moldadas pelas calças azuis. Que é que foste dizer de mim. salto lhe em cima e bato lhe com a cabeça contra o passeio. hem! Acabarás por te espetar. hem! Que é que foste contar? Ah!. «Estás me a conhecer? Estás? Então ouve. — «Ah!. os olhos brilhavam lhe. Comprazia se no seu ódio. O que foi dizer de Bobby e de mim! Bobby não tem vergonha. O tipo novo. Parecia um insecto. Voltar para aquela casa! Mas eu vou esperar o gajo à saída. Mas não o velho. vai ver. — E tu desfizeste o. Ralph entusiasmara se. Voltou se sobre os pés mostrando as nádegas duras. — Ele? — Ralph riu maldosamente. talvez seja ele que te liquide. com uma irritação irónica. Apetecia lhe espancá lo. — Então — continuou Daniel —. Daniel não soube resistir ao desejo de o humilhar ainda mais. Queria me pôr fora.

Daniel sentiu um gosto áspero e febril no fundo da boca. Adeus. mas há a diferença de peso. Os músculos escorregavam nas mãos de Daniel. Ralph conseguiu erguê lo. está a querer de verdade — disse Ralph num tom estranho. menino? Ralph sorriu imediatamente e disse com uma voz falsa: — O Sr. satisfeito. sorridentes e raivosos. Vestiu o casaco. Daniel demasiado cansado para se levantar. mas Daniel segurou lhe os pulsos e apertou lhe os braços sobre o travesseiro. Estava arquejante e humilhado. Riram ambos. Daniel desviou se e agarrou o pela nuca. «Tenho de acabar com isto ou então ele vence me. — Vou mostrar to.Ihe um empurrão. Encontraram se novamente um diante do outro. mas Ralph resistiu. generoso. — Agora não tenho fôlego. — O fôlego não é nada — disse. mas Daniel enfiou lhe as mãos na cara e ele largou o. esmagado sob aquele peso de homem. Ralph estava pregado na cama. Ralph era duro e flexível. Juntaram se de novo e principiaram a girar no meio do quarto. contrafeitos. Ficaram assim uni bom momento. Lutavam em silêncio. Daniel agarrou o pela cintura. Daniel contemplava o. Os olhos de Ralph estavam cheios de ódio. atirou o para a cama e caiu em cima dele. Uma raiva louca invadiu Daniel. Tentou rir. — Quem ganhou. — Questão de treino. tentou arranhá lo. — Ah!. Ralph não parecia nada cansado. arranjava o colarinho da camisa e não arquejava.» Empurrou Ralph com toda a força. Daniel largou o e pôs se de pé. — Está mesmo com vontade? Atirou se subitamente sobre Daniel. e Daniel começou a arquejar. impotente. claro — disse ele com voz sibilante. Tinha a impressão vaga de ser um tipo gordo e de bigode.) Vamos lá ver se tens força. pensava: Estou a ser ridículo. mas os olhos faiscaram Ihe de raiva. Estava sem fôlego. A brincar.» Baixou se de repente e pegou Ralph pêlos rins. O coração batia lhe como se fosse estourar. — Bom — disse —. — Lutas bem — observou Daniel —. A — Quem ganhou? — perguntou Daniel ainda arquejante. — Gentilmente. — Já fui forte — disse. Daniel tinha vontade de agarrar Ralph pelo pescoço e encher lhe a cara de socos. Ralph estava de pé. . Lalique é forte. a camisa molhada de suor colou se lhe à pele. Ralph abriu a boca espantado. mas desviava os olhos de Daniel. não ganhará. vou me embora. — Consigo posso eu bem. de pai de família. menino. de cabeça. Era belo. levantou o. Ralph debateu se.

de lornhão. tinha previsto isso. depois deu uma volta e dirigiu se para a escada. — Aonde vai? — repetiu ela. Mathieu pôs se a subir sem responder. não queria roubar para ele. A mulher aproximou se do quadro. As notas que ele largara de manhã tinham caído sobre os maços de cartas. A porta fechou se. um pensamento veio lhe repentinamente. Era o toilette. Parou. Era uma mulher alta e magra. Sr. Ao levantar se percebeu no fundo do quarto uma porta que não vira de manhã. antes de sair. Mathieu ajoelhou se diante da maleta e abriu a. Ao abrir a porta. Procura. Barbeara se pela manhã. depois das nove. Parecia importante e mostrava se inquieta. Não notara isso de manhã. Vi o senhor mexer no quadro das chaves — disse a mulher. Caminhou sem se apressar até ao quadro das chaves. depois resolveu deixá la na fechadura da maleta. Uma escuridão avermelhada que cheirava a febre e a perfume. mas já se acos tumara à escuridão. Daniel desceu as escadas. «Antes de mais nada». Havia alguém. — Estava a ver se a chave estava lá. — Escondi uma coisa para ti no quarto. — Não está? — Não. — Não saiu. Mathieu pegou lhe rapidamente e enfiou a no bolso. pensou: «Talvez liguem J E A N P AUL SARTRE só de noite. Mathieu sorriu lhe. Abriu a. A chave estava ali. depois enfiou a chave na porta do 21 e abriu. — Eh! Aonde vai? — perguntou uma voz áspera.» Mas não teve medo.. «vou lavar me dos pés à beça».° — disse Mathieu tranquilamente.° parou um instante. — Não pode avisar na caixa? «Bolivar. Quarto 21. Uma porta abriu se atrás dele: «Vão chamar me. ele não saiu. no 3. Sentia uma vaga vontade de vomitar. Como transpusesse o limiar da porta. Mathieu riscou um fósforo e viu . — Bom. Fechou a porta à chave e avançou para a cama. — Pois é — disse aliviada. Pegou em cinco. Bolivar. desconfiada..» — Vou ver o Sr. A cama estava desarrumada e havia dois travesseiros ainda amassados pelo peso das cabeças.» Olhava de viés pelo vidro da porta do escritório e viu uma sombra. pensou. com as pernas moles. e deixara a navalha aberta sobre a lareira. A princípio estendia os braços para se proteger contra os possíveis obstáculos. Uma possibilidade sobre duas. No patamar do 3. «Que vou fazer da chave?» Hesitou. Mathieu voltou se. O nome do negro era Bolivar.— Boa noite. O quarto estava escuro. que hás de encontrá la. Mathieu fez soar uma campainha surda. Lalique.

A navalha não ajuda. só ele vivo na luz demasiado azul. depositou a chave e saiu ruidosamente. o fato cuidadosamente dispostos sobre as cadeiras. Mathieu desceu sem fazer barulho. Está sozinho naquele cenário. A navalha está sobre a lareira. Só ele de pé. Tem muito medo agora. o pijama. — E no quarto andar — disse ela. Tem de decidir sozinho. Enfiou a chave na fechadura e fechou a porta. Anda a passos largos. pesa apenas como um insecto na mão. Boceja de angústia e tédio. é uma coisa inerte. Manejáveis. Morta a serpente. flutuam na luz móvel. A chama corre ao longo da mecha. Dá alguns passos no quarto. A minha mão fará tudo sozinha. a mão treme lhe. a lâmina branca. Arrepia se. ela responde à pressão com uma pressão igual. viu uma mulher com um soldado. Agora apoia a mão na mesa. Pega lhe pelo cabo e contempla a. depois largou o fósforo e voltou para o quarto. Mais ainda de tédio que de angústia. que o mais difícil ainda estava por fazer: pôr a chave no lugar. . as cadeiras estão inertes. Saiu. Pensava. As ruas são azuis de mais. Sobe a escada a quatro e quatro. Mathieu deixou os passar. Pouco se lhe dava ser surpreendido. O corredor estava vazio. procura um socorro. a boca seca. até logo — respondeu ela. Fez um movimento para voltar ao quarto. A minha mão é que tem de fazer tudo. a temperatura demasiado suave. Passa o dedo pelo fio da navalha e sente na ponta do dedo um gosto ácido de corte. Teve um risinho mau e saiu. Morta a serpente. um sinal.. Agora distinguia com nitidez os móveis. nem mais nem menos.surgir no espelho o seu rosto avermelhado pela chama.. A mulher estava perto da porta de entrada e de costas voltadas para o quadro das chaves. Não. Dóceis. Custa lhe a encontrar a fechadura. os vestidos de Lola. A mulher virou se e ele cumprimentou a: J E A N P A U L SARTRE — Adeus. Tem medo. Dois gatos passam lhe entre as pernas. Nada o impede de resolver. o roupão. minha senhora.» Os gatos arranham na cozinha. O cabo é preto. morre o veneno. A mesa está inerte. Tinha vontade de rir. Contemplou se até que a chama se extinguiu. nada o impede. divertido. — Adeus. No primeiro andar parou e inclinou se sobre o corrimão. As coisas são servis. Havia gente a subir a escada. Sentia o olhar da mulher ferindo lhe as costas. «Nada me ajudará. Tudo está inerte e silencioso. mas ouviam se passos e risos. E o soldado respondeu: — É alto. A chama corre ao longo da mecha. de pernas moles. ninguém. Depois desceu. o barril de pólvora está no fim. Quando se voltou.

Escreve: Senhor Delarue. sobre a mesa. não há lugar para manchas. gelado. A navalha. Gira em torno da mesa sem despregar os olhos da navalha. entre as pernas.. a navalha estará no chão. Olha para o soalho. Nada mudou. como se encontra de pé. põe o dinheiro dentro. Quero a. Tem medo da mão. não deseja nada. Passa a navalha para a mão esquerda. Abre os dedos: a navalha cai em cima da mesa. aberta.. abre a porta e lança se escada abaixo. sem saber como se levantou. dura. «Vamos!» Se pudesse encontrar se mutilado. A noite toda. A navalha obedecerá. Nada. a minha mão é que deve fazer tudo. o braço. Morta a serpente. da nuca aos rins. Diz: «Vamos!» E um arrepio irónico percorre lhe as costas. anda. Sozinho consigo mesmo. Pode estender a mão e agarrá la. Ainda tem tempo. Puxa as cortinas. Mas é pré J E A N P AUL SARTRE ciso fazer primeiramente o gesto obsceno. pequeno. Vai até à janela. Mas é o gesto. Tem de se resolver. inerte. 12. o gesto de mictório. e a navalha na ponta. Rua Huy ghens. examina a. Nada o impedirá de a agarrar. Um gesto. Salta para trás. Contempla o soalho. Sim ou não. toca na lâmina. e o presente cai com a primeira gota de sangue. ela chupa lhe o sangue. se pudesse imaginar nitidamente aquela poça vermelha e aquele odor. A navalha está ali. É liso.o seu acto não é senão uma ausência. . Nunca será tarde de mais. Um gato desvairado rola pela escada com ele. recta. Tira cinco notas de mil francos. Já não se odeia. ele sente a. A inércia da navalha contamina lhe a mão.. unido. depois a lâmina. o gesto. A navalha. acende a luz. Tem a noite toda para isso. aquela poça vermelha no soalho não está ali. Contempla fascinado a navalha. A temperatura é suave. que nojo! Se tens assim tanta repugnância. a navalha brilha docemente. o quarto está docemente iluminado. Estende a mão. É preciso um gesto. o soalho. Pega na carteira. A minha mão. Tudo está inerte e tranquilo. Pega num sobrescrito. Com a mão esquerda. a navalha está ali. vermelha. Anda de um lado para outro. com a braguilha aberta e viscosa. Levanta se. cega. Coloca o sobrescrito bem à vista sobre a mesa. Um enorme braço de estátua. inerte. A mão direita apossa se novamente da navalha. carrega a fera no ventre. desabotoar se com paciência. pesa lhe docemente na mão. de manhã. inerte. sem que precisasse de fazer o gesto! A dor aguento a. olha para o céu. chamo a. Em vão. A minha mão fará tudo. tem a noite toda. de um modo suficientemente nítido para que se realizassem por si. flutua. inerte. Está rígida na ponta do braço. Com a mão esquerda. A serpente ali está. Um corpo vivo e quente com um braço de pedra. depois que o despertador toca.. Aquela flor vermelha entre as pernas não está ali. Ficarei deitado no chão.

» Beberia o que fosse necessário. Daniel inclinou se por cima da mesa. Daniel olhou o líquido amarelo e mole. embebida num verniz grosso que se colava às mãos quando se lhe tocava. arquejante. no qual flutuava um pouco de espuma. o empregado e o barman falavam norueguês. Dir se ia cerveja morta. nunca seria decidido. levá lo iam para casa. — É um aviso — acrescentou em tom de piada. ser olhado por outras pessoas. o mais longe possível. a porta estava aberta e a navalha brilhava em cima da mesa. O líquido escorria lentamente sobre os ladrilhos. Correu até ao Rói Olaf. o uísque ferveu durante um segundo. A — Parece cansado — disse o empregado respeitosamente. Era um norueguês que falava francês sem sotaque. Era preciso correr. — Não estou muito bem — explicou. E depois toda aquela agitação se acalmou. «Nunca mais poderei voltar. a madeira clara dos tabiques brilhava docemente. a lâmpada acesa. Como sempre. entre as pessoas da rua. O quarto esperava o docilmente. Os gatos erravam pela escada escura. um pouco febril. Não — disse bruscamente. deitando os pseudópodes em direcção aos pés de uma cadeira. — Sou um desastrado — disse Daniel. No bar. — Beber mais! Atirou o copo com um safanão. mergulhar no ruído. As pancadas violentas do coração repercutiam se nas pontas dos dedos e sentia um gosto de tinta na boca. O seu quarto esperava o. O empregado acorreu. Lá em cima a porta tinha ficado aberta. O empregado voltou com um copo meio e uma garrafa de Perrier. fugir. Dê me meia . — Um uísque — pediu. — Não devo beber esta noite. com qualquer coisa de maníaco e que dava boas gorjetas. com o barman. como comadres atarefadas. Olhava amavelmente para Daniel. Deitou um pouco de água Perrier no copo. — Trago lhe outro? — Traga. Sentou se ao fundo do café. Lá pelas quatro horas o empregado. O empregado baixara se para enxugar o chão e apanhar os cacos. nas luzes. a navalha sobre a mesa. — Obrigado. — Exactamente como gosta — disse. Daniel voltou à solidão. sorrindo. O barman e o empregado calaram se subitamente. e Daniel sentiu que se tornava um freguês rico. Nada estava decidido. invisíveis. Daniel estava só naquele bar tranquilo. Nada o impedia de retroceder. bolhas apressadas subiam à superfície. O empregado abanou a cabeça e foi se embora. Empurrou a porta sem fôlego. Esmagou se no pavimento. A luz loura espumava em volta dele. voltar a ser um homem entre os homens.Daniel corria na rua.

» Riu. O empregado acorreu. Isso. Há um meio. Pegou no copo e apertou o com raiva. curvou se e desapertou os sapatos. endireitou se e pousou a mão direita sobre o corrimão. O empregado abriu a garrafa e encheu o copo. Pobre comediante! Só no fim conseguira amedrontar se. Estupor!» Houve um momento em que pensou que ia consegui lo. não se iludira um só instante. Depois pôs o pé no primeiro degrau da escada.. — Obrigado. mas não. não havia melhor oportunidade.» Largou o copo. Ter lhe ia sido preciso. Tirou os sapatos. Gostaria de estar morto. os tabiques de madeira. O peito roçava lhe os joelhos.. fugira. — Tome.. oito ainda por viver antes da manhã..» Quando caminhava a passos largos pela rua.» Empertigou se e dirigiu se apressadamente para a porta. Alegrava se sempre com a oportunidade de uma boa farsa. queria ter nojo de si. distraído. Daniel sentia se mais calmo. M athieu fechou a porta devagar. eram palavras. com olhar fixo. aceitaria qualquer um. aquele fraco e moribundo desprezo. que parecia sempre a ponto de se aniquilar e que nunca passava. Se alguém soubesse. Ela fala. Não pode desprezar se nem esquecer. prefiro A castrar me. sim. Gostaria de estar morto e existia. não aquele atroz desprezo sem força suficiente. O rapaz afastou se. pensa que gostaria de estar morto. O tempo não passava. Pôs cem francos na mesa. abraça o. obstinadamente. também. e quando subiu as escadas.. — Chamou? — Sim — disse Daniel. se pudesse sentir pesar sobre ele o desprezo de outrem. Tinha falado alto. segurou os com a mão esquerda.» Olhou o relógio. «Mathieu está em casa de Marcelle. Um ambiente opaco formava se em volta dele. Um meio de arranjar tudo.Perrier com limão. onze horas. Onze horas! Sobressaltou se. Está de pé. a luz loura. acha que ele não se declara suficientemente depressa. de olhos erguidos para uma neblina rósea que parecia . O odor a gengibre. eu estraguei lhe a vida. pensa que pensa que gostaria de estar morto. Daniel bebeu.. menos ele próprio. Pensou: «Sabia! Sabia que não o faria. erguendo a ligeiramente sobre os gonzos para que não rangesse. Sabia o quando pegara na navalha. «Estupor! Comediante covarde.» Pôs se a tremer: «Cederá. já sabia que não iria até ao fim. tem de ceder.. Neste momento ela fala.... continuava a fazer se existir. é para si. «Há um meio. Um juiz qualquer! Qualquer juiz. «Mas nunca poderei. fui eu que fiz. «Um meio famoso.

tomado por uma insuportável doçura de existir que lhe apertava a garganta. Já não se julgava. de braços caídos. Uma voz cheia de ternura suspirou atrás dele: — Querido! Voltou se subitamente e encostou se ao armário. Marcelle estava A nua por baixo do roupão. quente e esperta da língua. Mathieu fechou a porta e ficou imóvel. uma mulher contemplava o sorridente. deslizando a língua por entre os lábios dele. Marcelle ergueu a mão até à fronte e mexeu os dedos. evitando que os degraus estalassem. Todo o calor do dia se depositara no fundo daquele compartimento como uma borra. com coração triste. Olhava o de baixo para cima. Mathieu pensou. A porta do quarto estava entreaberta. de bombons e de amor. Marcelle inclinara a cabeça para trás e observava maliciosamente através das pálpebras semicerradas. De um sono só. Subiu lentamente na escuridão. — Dormiste bem? — Admiravelmente. Viu lhe os seios formosos e passou lhe pela boca um gosto a açúcar. Ela continuava a segurar a mão dele entre as suas e apertava a de vez em quando. Ela pusera sombra azul nas pálpebras e tinha uma flor nos cabelos. Empurrou a.. — Olá. inteiramente mergulhado naquele cheiro de doença. — Não. Estava bela.suspensa nas trevas. — Estás bem disposta — disse. era Marcelle. mexendo a ponta da língua entre os dentes com uma expressão animada e feliz. Ele sorriu também e foi guardar os sapatos no armário. Mas hoje estou bem. A atmosfera era pesada. Desenvencilhou se docemente. com a cabeça levemente inclinada. — No entanto. — Estás quente — disse ela.. . muito bem mesmo. Sentada na cama. acariciando lhe a nuca. junto daquela mulher sorridente. Ele sentou se. na fealdade magra de Ivich. Vestira o seu belo roupão branco de cordão dourado. — Senta te junto de mim. Estava estúpida. desajeitadamente. ontem ao telefone não parecias muito bem. e Mathieu sentia que o calor daquelas mãos lhe subia até às axilas. ali desabrochava. — Olá — disse em voz baixa. Ela pegou lhe na mão e puxou o para a cama. tinha um ar solene e alegre. olá! Passou lhe o braço em volta do pescoço e beijou o. Beijou o de novo e ele sentiu sobre os lábios o veludo rico daquela boca e aquela nudez glabra. pintara se cuidadosamente. Ele estava ali.

— Não pareces. inerte. Isto vai infectar. virou a e examinou lhe a palma com um olhar clínico. não podes andar assim. Já me viste tão tolo? — Mas que foi que andaste a fazer? Espera. — Comprou um canivete e desafiou me duvidando que eu mal tivesse coragem de o espetar na mão. querido. Marcelle largou a mão direita de Mathieu e pegou lhe na outra. A mão de Mathieu repousava. — Cortei me. Devorava o com os olhos entreabertos. naturalmente. Ela levantou se para ir buscar os apetrechos ao armário. entre as mãos dela. Tem lama por cima. vou arranjar este penso. Marcelle voltou para ele alerta e lentamente. — Estás bem comigo? — perguntou Marcelle. apressaste te em demonstrar o contrário. Virava lhe as costas. que foi isto? — Caí. Olha para esta pobre «pata» devastada. — E tu. O ferimento era repugnante. «Que é que te aconteceu?». pensou Mathieu. e subitamente inclinou se e apoiou os lábios no ferimento num impulso de humildade. Mathieu olhou aqudes braços nus que tantas vezes acariciara e os antigos desejos giraram lhe em volta do coração. Mathieu sorriu sem responder. e exclamou: — Que é que fizeste na mão? — Cortei me. És completamente doido. erguera se nas pontas dos pés e levantava os braços para alcançar a prateleira de cima. — Naturalmente. uma expressão de humildade e confiança. como conseguiste cortar te deste modo? Estavas embriagado? — Não. Marcelle levantou devagar aquela mão à altura do rosto e olhou a de perto. cabelos de ouro. Ele deslizou devagar a mão esquerda diante do estômago e enfiou a sorrateiramente no bolso das calças para tirar o tabaco. amanhã eu pentear me ei assim para si. Desfez a ligadura e abanou a cabeça: — Que ferida tão feia.» — Uma fantasia do Boris — respondeu. dei uma queda. esses miúdos fazem o que querem de ti. Ela teve um riso indulgente e escandalizado. com a sua crosta escura e mole. Ela não respondeu. . de passagem. — Mas o curativo está sujo. — No Sumatra? J E A N P AUL SARTRE «Rosto largo e lívido.— Como está calor aqui — disse. Ele puxou a para si e beijou lhe a orelha. Marcelle viu lhe a mão. As mangas caíram. Foi ontem à noite no Sumatra. amanhã.

Será uma festa. Ele sentia contra a sua anca o calor daquele corpo tão conhecido. — Então iremos no Outono. / — Lambe! A Marcelle apresentava lhe um penso. querida. dançava com Lola. — Pronto. Porquê? — Fui. constrangida. — Que vou fazer desta porcaria? Quando saíres. Prometes? — Prometo. — É bonito o Sumatra? Sabes o que eu queria? Que me levasses lá um dia. — Agora precisas de descansar seriamente.— Dá cá a pata.. — Eu? — Sim. Marcelle aplicou a na ferida. — Não. uma vez. Disse.. Sobre o 'aço ficara um pouco de bâton. um passeio. Marcelle riu se.. Marcelle pôs o alfinete na ligadura. fui desagradável anteontem. deita o no lixo. É tudo culpa minha. . Divertiram se muito? — Mais ou menos. Marcelle não era feliz nas suas expressões. Depois pegou no curativo sujo. Boris desafiou te? E tu retalhaste a mão? Que criança! E ele também se cortou? — Não. Lola vai para a África do Norte.. cansa te — disse Mathieu. suspendeu o na ponta dos dedos e considerou o com uma falsa repugnância. — Mas isso aborrece te. contrariado. — E tinhas razão. «Uma saída!» Mathieu repetia esta palavra conjugal. — Bem vês que não estás muito bem comigo — disse. Embebera a esponja no álcool e pusera se a lavar lhe a mão. — Pregou te uma boa partida! Ela segurava um alfinete de ama na boca e rasgava a gaze com as mãos. — Oh!. depois virão as férias. Estava nervosa. — Não. J E A N P AUL SARTRE — Queres? — disse Marcelle. Ligou lhe rapidamente a mão com uma ligadura branca de gaze. apertando nos lábios o alfinete: — Ivich estava lá? — Quando me cortei? — Sim. Pôs a língua e lambeu docilmente a cobertura rósea. Marcelle tossiu. — Não pode ser antes do Outono — disse. — Então. há tanto tempo que não saio contigo.

passaram pelas mãos dele. Penso que Sarah te levará à casa dele e és tu que vais pagar. em Viena. incrédula. Já to disse ao telefone. Não parecia compreender. imaginava bem de mais a expressão do seu rosto.. de perdão. — Pois é. — Jacques? J E A N P AUL SARTRE — Não. e não podia compreender aquda confiança inexplicável e espontânea. Mathieu fez um gesto para colocar as notas em cima da mesa de cabeceira. ela esperava sem dúvida uma palavra de ternura. — Olha — disse. E gente da alta. Ela erguera a cabeça e olhava as notas pestanejando. Pegara noutro alfinete de ama do cestinho. mas ainda confiante. abria o e fechava o nervosamente. tanto melhor. e como Marcelle não falasse. Parece que é uma competência. voltou se. — Quem? . Fixou o olhar em Mathieu com uma expressão triste. Mathieu acrescentou: — Deixo tos. fazendo as estalar triunfantemente. Mathieu não aguentou mais. Houve um longo silêncio. Mordia o lábio inferior e olhava para as notas. Mathieu esperou um instante. cinco — disse. com o dinheiro A em cima dos joelhos. — Uma. — Que é que devo olhar? — Isto. categórico: — Agora podes ir ao judeu. o estupor. Marcelle esticou o pescoço e apoiou o queixo no ombro de Mathieu. Tirou as notas da carteira. gente rica. quatro. Tirou a carteira do bolso e pousou a nos joelhos. Disse: — Pensei. Fez se silêncio. três. — Daniel? Ele encolheu os ombros. Ele quer que lhe paguem adiantado. e Marcelle perguntou: — Onde arranjaste o dinheiro? — Adivinha. duas. Marcelle não respondeu. cinco mil. Tinham conservado o perfume de Lola. Disse lentamente: — Cinco mil francos. Envelhecera de repente. confiante. E que me deram trabalho a encontrar. Os olhos de Marcelle apagaram se. — Então não sei — falou secamente. — Nunca tive nada que te censurar. ontem. Ele não se atreveu a voltar se para ela.— Não tens culpa — disse ela. Ela sabia muito bem que Daniel não lho tinha querido emprestar.. Mathieu interrompeu a. Centenas de mulheres. — Tanto melhor.

Parecia amedrontada com o que ia dizer. Roubei o a Lola. ele disse o que te tinha a dizer e ao deixá lo foste roubar os cinco mil francos a Lola. e Mathieu empurrou os com o pé. — Então. estive com ele — disse Mathieu. A boca exibia de novo aquele sulco duro e cínico. Fez se silêncio. parecia espavorida e aliviada. tristemente: — Foi chato! — Sim. foi chato! — concordou Marcelle com amargura. — Não me vais dizer que o roubaste. — Porque te ris? — Rio me de mini própria — disse. sentado entre os dois.. — Não há nada que explicar.— Ninguém me deu o dinheiro. Observou. tinha um ar admirado. Mathieu pegou lhe na mão. Ela teve um riso seco. — Roubaste! — disse lentamente Marcelle. que é que há? — repetiu Mathieu. — É. — Como soubeste? Foste tu que o mandaste? Tinham combinado tudo? — Não fales tão alto — pediu Marcelle —. mas sabia que ele te ia procurar. Não fui eu. As cartas estavam sobre a mesa. Marcelle sorriu. Mathieu também se sentia aliviado. Mathieu disse. — Roubaste? Não é verdade.. era isso. Estiveste com Daniel. O rosto tornara se lhe cinzento. Tirara a flor dos cabelos e fazia a rodopiar nos dedos. Ela inclinara se para trás e crispara as mãos no lençol. Marcelle voltou lentamente a cabeça para ele. mas as palavras não lhe saíam. — Pois bem. Continuava com a boca aberta como se tivesse vontade de falar. que é que há? Marcelle fez um gesto brusco e os apetrechos de farmácia espalharam se pelo soalho. Ele perguntou: — Censuras me por tê lo roubado? — Não me interessa. era preciso ir até ao fim. — disse Mathieu — expliquemo nos francamente. Tinham a noite inteira à sua frente. vais acordar a minha mãe. Ela reflectia. Daniel estava ali. sem olhar para ele: — Que vontade tens de te ver livre da criança! — Tinha vontade principalmente de que não fosses à velha. mas ela retirou a e disse sem o olhar: — Já sei que estiveste com Daniel. Mathieu enxugou a testa suada. Olharam se ambos. — Então. Calaram se. — Roubei. irónica. — Sim. — Hei de contar to um dia. Murmurou: — Fui demasiado estúpida. Bem. . A O rosto emudecera.

não finjas que não percebes. isso não é da tua conta. — Foi o que me pareceu. — Foi Daniel quem te disse isso? — Não — respondeu Mathieu. tudo se esclarece. Bem vês que há explicações necessárias. não te obstines. — Mas porquê.— Sim. surpreendido. menos irritada. obrigar te a casar comigo. já não há tempo. que foi que se passou anteontem? — Anteontem? — Sim. «Era preciso que eu fosse muito sacana para imaginar que escapava. não é verdade? Ela tirou lhe a mão e ergueu se de um salto.. ainda há tempo. — Foi o que te pareceu — disse ela rindo. Ela hesitava. A Ela parecia não ter ouvido. foi como das outras vezes. Juro que tenho boa vontade. Disse: — Queres que nos casemos. Pensou: «Acabou se. Marcelle? Porque não conversas calmamente comigo? Uma hora apenas e tudo se acerta. pegando lhe na mão. mas não se atreveu. — Pois bem.. Ela continuou a não responder. Mathieu. às escondidas. pouco te incomodavas com o que eu tinha na cabeça. não devia ter pensado nisso. — Foi o que te pareceu! Daniel disse te que eu estava aborrecida. — Oh!. — Calma — disse Mathieu —. caso com ela. — Não.» Era evidente. — Julgo que sei. — Peço te.. Mas diz o que se passou anteontem. sofria. depois de sete anos! As mãos também lhe tremiam agora. O que eu quero já não é da tua conta. — Peço te — disse ele. não adianta falar nisso. Mathieu teve vontade de apertá la nos braços. Ela sacudiu a cabeça. Escuta. . — É verdade — disse Mathieu. Daniel disse me que tu tinhas censurado a minha atitude de anteontem.» Ela estava ali. — E que é que tinhas na cabeça? — Porque é que queres que eu diga? Sabe lo muito bem. Marcelle. Daniel acabou de me comunicar que tu te encontravas com ele e não me dizias nada. E é o que pensas de mim. triste. e tu julgaste que eu queria casar. Ele acrescentou docemente: — E um filho que tu queres? — Ah! — disse Marcelle —. Estava lívida. Ele olhou a com espanto.. — Tens razão. Ele insistiu: — Há circunstâncias atenuantes. tu recebes Daniel há meses. era infeliz e má e bastava um gesto para a acalmar. que saberei reconhecer os meus erros. Seria muito melhor se pudéssemos ter novamente um pouco de confiança um no outro.

como se se lembrasse de alguma coisa. quero. Sentia se ridículo e odioso.. Pusera se a tremer. chamo a minha mãe. Vai.. que lhe pendiam da fronte. é preciso que tenhas deixado de me amar. Pensou: «Está acabado.. Continuou tristemente: — Para pensares de mini o que pensaste. Já não havia nos seus olhos senão uma interrogação inquieta.. Escutaram. com um gesto seco. teriam a criança... já não posso ver te. — Mas eu tenho por ti toda a minha ternura! — disse. Casaria com ela.. já não sinto amor por ti.. — Não quero abandonar te. Quero ficar junto de ti a vida inteira. mas de outra maneira. estupefacto. vai. Mathieu disse: — Marcelle. A — Vai — disse ela —.» E ninguém te perguntou nada. Ia dizer: «Amo te. — Mas porquê? Porquê? — Porque já não te estimo o suficiente. ou não respondo por mim. Subitamente sorriu. mas imediatamente tapou a boca com a mão e fez lhe sinal para se calar: — A minha mãe — murmurou. e tu já não me amas. mas mostrava se surpreendida e amedrontada com o que dissera.. Preciso de explicar te. — Eu.. — Sim. Mathieu não respondeu. mas só ouviram o ruído longínquo dos automóveis. Ele abriu o armário e tirou os sapatos. Ela acrescentou como que esmagada: — Como deves desprezar me. — Mas — atalhou. Levantou umas madeixas de cabelos. Vai te embora. Era quase uma pergunta. Mathieu avançou um passo. desesperado. — Ouve. viveriam juntos o resto da vida. — Se não saíres.. — Chega! — disse. — Já sei o que queria saber. com uma alegria nervosa — não foi o que me disseste ontem ao telefone. ansiosa. Marcelle riu altivamente. tudo poderia ainda salvar se. Ela retirou a mão. Falara com segurança. — Estás doida. Ela disse: . de olhos cerrados. Se ele a abraçasse. — Eu não te desprezo — disse Mathieu..» Hesitou e disse com voz clara: — E verdade... desato a gritar.» Marcelle atirara se para trás com um gesto de triunfo. encharcados em suor. quero casar me contigo. Durante muito tempo ficou a ouvir a frase. não é? Ele pegou lhe na mão.— Eu não quero. Disseste: «Amo te. Não posso.. Ele levantara se. se lhe dissesse que a amava. mas ela repeliu o violentamente. — Vai. eu quero te muito ainda.. — Vai — repetiu ela com voz surda.

virando a cabeça: — Fui odiosa. parou um instante. Mathieu não respondeu. Não há razão. Quando chegou ao fim da escada.» Parou um instante. com os sapatos na mão. iria titubeando até à cama e deixar se ia cair. Mathieu ouvia o ruído forte e regular da sua própria respiração. Ele voltou se. nu. ela vai gritar. mas ela abriu os olhos e atirou se para trás apontando a porta. Parou no patamar do segundo andar para tomar fôlego. As notas voaram através do quarto e caíram no tapete. Ouviu de repente o riso de Marcelle. talvez nem isso: «Vou deitar me. Mas sabia que ficaria acordado a noite toda.. n. ele contemplava lhe a nuca morena e doce com uma grande ternura. . incompreensível. para nada. de olhos fechados. — Eu não devia ter me metido a dar a minha opinião. E dizia: — Ah!. e isso espantava o enormemente. e fez se de novo silêncio. Olhava para Marcelle. Ela ria. «Será por ela que fiz aquilo?» Ela baixara a cabeça. de olhos abertos no escuro. calçou se.. Ela pegou nas notas e atirou as à cara dele.» Despiria a roupa ao acaso. — Não parti — disse ela. Gostaria de verificar que a amava mais do que tudo no mundo para que o seu acto tivesse uma justificação. abandonara Marcelle grávida. Ele quis aproximar se. secamente. como não ouvisse mais nada. Subiu. a lâmpada estava acesa. Não havia mais nada nele senão fadiga e espanto. a não ser um ódio sem objectivo. uma gargalhada profunda e sombria que se elevava como um repuxo e caía em cascata! Uma voz gritou: — Marcelle! Que foi. i en ensava: «Sou um sacana».. — Estou a ver — respondeu Mathieu. Dormira apenas seis horas em três dias. as pernas estavam moles. perto da cama. que estúpida. Ivich disse. Ivich devia ter fugido. Mathieu encolheu os ombros.. A porta do apartamento ficara aberta. Estava sentada no sofá. Mathieu escutou ainda e. eu que pensava. soluçando.— Pega no teu dinheiro. escutando com a mão no fecho. escorregadio. O riso parou subitamente. abriu a porta e saiu. Na secretária. Marcelle? Era a mãe. e o seu acto estava atrás dele. desvairada. Entrou e viu Ivich. Mathieu não as apanhou. «Se ficar. com cortesia. Ivich fez um esforço e disse. — Acabo de romper com Marcelle. Isso não. que estúpida.uitu direita. Ficaram silenciosos um momento. — Não. Olhava os cabelos de Ivich e pensava. Roubara.. Mas não sentia nada..

Repetiu lentamente. renascer aquele áspero amor dentro dele... Ele atalhou. Pensava: «Não quero que me recompense. Levou a mal. Roubei. inquieta. Observou com uma voz neutra: — Deixou a. não sei o que esperava. nervosa. «se o tivesse feito. — Não. não é lá muito glorioso. forçado.» — Você é belo — disse Ivich. Disse por escrúpulo: — Não a queria abandonar. com vivacidade: A — Sim. censurar me ia agora».Ivich levantou a cabeça. — Sim. e Mathieu calou se angustiado. — Onde? Ele não respondeu. E o que quer dizer? A Lola. A expressão irritou Mathieu. Pareceu lhe que abandonava Marcelle pela segunda vez. Ivich não respondeu. Sentou se perto de Ivich e pegou lhe na mão. pensou. — Bem vejo que tem remorsos — disse Ivich. como Marcelle tinha feito pouco antes: — Roubou a Lola. — Porque fez isso? Mathieu deu uma risada seca. — Se o soubesse! Ela levantou se bruscamente. olhava o apenas. no seu lugar. sorriu: «Naturalmente». — Creio que também teria. acabrunhado. Ivich. — Arranjou dinheiro? — Arranjei. É um empréstimo. com o olhar. Não disse nada. Tudo isto é lamentável. aliás. Mathieu sentiu que corava. Foi ela que me mandou embora. Ela parecia não compreender. e Mathieu continuou: — Vou devolver lho. Ele insistiu desviando os olhos: — Não foi bonito.. — Compreendo — disse Ivich. uma mulher bela ou um belo rapaz.. Queria apenas dar lhe o dinheiro para não ser obrigado a casar. uma porta a abrir. Ela olhou o. e o seu rosto tornou se duro e solitário como quando se voltava na rua para seguir. é impossível evitar da . sorrindo. Uma escada a subir. Ivich pestanejou. Consegui arranjar me. Mas desta vez era Mathieu que ela olhava. Ele teve vergonha. sem dinheiro? Mathieu. Acabou por dizer: — Não sei o que pensa. Mathieu sentiu. Roubei por desvario e agora tenho remorsos. Ivich tinha uma expressão estúpida. — Não.. Ela insistiu: — E inacreditável como parece só. Subi ao quarto durante a ausência dela..

Ela franziu as sobrancelhas e a sua cabeça agitava se com minúsculas sacudidelas. Ela olhou o surpreendida. «Mas é uma criança!» E sentiu se inteiramente só. procurando o olhar que ela desviava obstinadamente.. Ivich. Mathieu deixou cair o braço e murmurou com lassidão: — Não sei o que quero de si..» . Largou lhe o braço. Disse: — Engana se... vermelha de ódio. Continuou. — Assim — disse..» Estendeu o braço. Ivich empertigou se. Ela deixou. eu não sou. até os meus remorsos. Retirou a mão num gesto brusco. — Mas eu amo a. pensei que viesse buscar a recompensa. abatiam se sobre a cabeça e puxavam os cabelos. fiz mal. — Ivich. — Cale se. Ele devolveu lhe o sorriso e beijou a de leve. não tem importância — disse. puxou os cabelos para trás. mas ela baixou os e assumiu uma atitude triste e terna. Ela não o retirou.. — Ivich! — disse docemente.. a sua cabeleira estava penteada e o rosto apresentava se nu. não lhe tenho amor — disse Ivich. puxou Ivich para si. mas considerava aquela crise com indiferença. Ele ouvia dentro dele uma melodia viva e alegre cuja lembrança pensara ter perdido. — Não quero que imagine. Mathieu não respondeu. — Oh!. descobrindo o rosto e as orelhas. — Que imagine o quê? Ele sabia.» Era uma expiação. Pensava: «É uma vingança. borboleteavam em torno dela.primeira vez. Está bem. Pensava: «Também desperdicei isto e no entanto estava quase A contente. Bastaram lhe alguns movimentos rápidos e. Só as mãos continuavam raivosas. ela sorriu de lábios entreabertos. Mathieu apertava com força a mãozinha áspera de unhas pontiagudas. Mathieu pensou: «Quer tirar tudo de mim. E acrescentou num tom cantante: — Parecia tão orgulhoso de ter tomado uma decisão.. — Eu. Os seus olhos faiscaram. quando baixou as mãos. — Não devo tocá la. A cabeça de Ivich rolou no seu ombro. Ele sentou se perto dela e agarrou lhe docemente o braço um pouco acima do cotovelo. Mathieu sentia a garganta seca. Ivich teve um sobressalto e desenvencilhou se rapidamente. depois olhou a e a melodia cessou repentinamente.

. ninguém verá.» Ivich empalidecera. Era Lola. No entanto Lola não parecia dirigir se a ela — nem a ninguém — nem parecia vê la. Tinha chorado. — Diga me onde está Boris. — Acho que sim. Olhou a hesitante.. — É preciso abrir — sussurrou ela. Pode verificar se quiser. Porque havia de o amar? Não desejava mais nada senão permanecer um bom momento silenciosamente ao lado dela e que ela se fosse finalmente sem falar. Quer. Ela sorriu lhe ternamente. — Ouvi a voz dele. — Além desse escritório — disse Mathieu. Ela empurrou o para entrar mais depressa.. — Onde está então? IDADE DA RAZÃO . — Não. Quer entrar na cozinha? Fecharei a porta. Não se mexeu. Agora batiam violentamente à porta. — Pois é. Lola avançara para Ivich. Pensou: «Marcelle. Pegou lhe no braço. Fico. Mathieu nem sequer se deu ao trabalho de fechar a porta. depois muitos ininterruptamente. No entanto disse: — Voltará no próximo ano? — Voltarei. Dir se ia uma máscara. devia considerar que a honra estava salva. Um toque primeiro. ameaçadora. aterrorizada. Olharam se.Aliás. tentando encontrar o olhar de Lola — só há no apartamento uma cozinha e uma casa de banho. Mathieu ficou gelado.. Ivich olhava a. Um desejo triste e resignado que não era desejo de nada. Ela olhou o com um ar de autoridade calma. era sem dúvida verdade. Estavam a tocar. tivera com certeza a mesma ideia. Lola voltou para ele o rosto desfigurado. Mathieu colocou se entre ambas: — Não está aqui. percebeu sob os dedos a carne fresca e disse: — Eu. sentiu lhe renascer o desejo. J E A N P AUL SARTRE Interrompeu se. depois outro. — Onde está Boris? Ouvi a voz dele. Era o mesmo rosto que lhe mostrara na véspera enquanto a mulher do toilette lhe ligava a mão. Ivich disse. Mathieu foi abrir e viu na penumbra um rosto trágico. num estremecimento: — É horrível pensar que há alguém atrás da porta. entrou no escritório atrás de Lola.

— Bom. não me toque.. mas deixe a partir primeiro.Conservara o vestido de seda preta e a maquilhagem de teatro. — Deixou Ivich às três horas — disse Mathieu. Mathieu empurrou violentamente Lola. Dispunha se a sair. Abriu a minha porta. então até para o ano que vem. — Pois se não sabem por onde andou. Os grandes olhos escuros pareciam ter murchado. Lola interceptou lhe a passagem. . no momento em que eu saía. creio. Não quer que eu vá à estação? — Não. arrombou uma maleta e roubou me cinco mil francos. — Lola — disse Mathieu sem tirar os olhos da bolsa —. mas disse Ihe docemente. — Eu escrevo lhe. dormir. As mãos amarfanhavam uma bolsa pequena de veludo preto que parecia conter um objecto pesado e duro. Preciso tanto de dormir. Amanhã cedo. Mathieu pegou na mão de Ivich. Lola perguntou: — Vai partir? — Vai. Lola pôs se a rir como uma cega. — Largue me. Não sabemos por onde andou depois disso. — Fique — disse Lola.. mas vou explicar lhe a história do roubo. — Oh! Não! — disse. — Quero ir para casa. — Vá dormir. Ivich — disse Matkieu tristemente. com os olhos fixos no chão: — Ivich. — Perdão! Quem me prova que não se vai juntar a Boris? — E se for? — disse Mathieu. é melhor sair. Era preciso mandar Ivich embora imediatamente. sim. — Que mulher horrível! — disse Ivich entre dentes. Não quero que me toquem. mas só havia pânico. — Até ao próximo ano — disse ela. apertando o pulso de Ivich. Foi um dia muito duro. — Vai dizer me onde está Boris? — Não. Mathieu não se atrevia a olhar para Ivich. — Ela é livre. Mathieu olhou para a bolsa e teve medo. Subiu ao meu quarto lá pelas sete horas. — Boris também vai? — Não. — Sim. Ivich. Preciso de falar com Lola. posso dizer Ihes. não gosto. Apalpava o pulso com o indicador e o polegar. fazer as minhas malas. que deu três passos para trás a resmungar. Ivich deu um grito de dor e ódio. Vejo a ainda esta noite? Ivich estava alterada. deixe a partir. tenho muito que lhe dizer. Ele olhava lhe para a bolsa. Olhava a na expectativa de descobrir nos olhos dela um sinal de ternura.

escondendo se. Voltou se para Mathieu com aquele olhar incomodativo que parecia não ver. e Mathieu ouviu aliviado o ruído dos passos dela. Que é que tem a dizer? — Fui eu que roubei.» Não me conhece! Não me conhece! Mathieu segurou a pelo braço e sacudiu a como um arbusto. — Lola — perguntou Mathieu —. — A gerente viu o a ele. Perguntou: — A que horas voltou ao hotel? — Da primeira vez. e ele sentiu um aperto no coração. — Então — disse ela. — Fale. Lola desatou a rir. — Adeus. — E se encontrar Boris. Devia estar a espiar me na rua. diga lhe que me queixei.— Pois que vá — disse Lola. sempre a olhar para a bolsa. às oito. não. irritada. mas de uma maneira monótona e parecia exprimir uma convicção absoluta. ainda vai dizer obrigada. asperamente. Ivich. pensou Mathieu desanimado. foi você? Encolheu os ombros. Lola. Ah!. Mathieu avançou. ainda se vai sentir muito feliz por eu lhe roubar a "massa". apresentou realmente alguma queixa? — Apresentei. — As notas ainda estavam na maleta. se fui eu? J E A N P AUL SARTRE — Ela viu o — disse Lola. Falava rapidamente. — Como pode tê lo visto. Não a viu sair. Ele teve de repetir: — Fui eu que roubei os cinco mil francos! — Ah!. Subiu. Esperei o dia inteiro e havia dez minutos que eu descera. . Lola deu um passo em frente e gritou: A — Diga lhe que se enganou! Que é ainda muito jovem para me levar. — Não nasci ontem. — A queixa será retirada — disse Mathieu a meia voz. «Dir se ia que tem necessidade de acreditar naquilo». Ivich não respondeu. mas o ruído extinguiu se. — Vamos à história. a velha. — Ouça. enquanto ela gritava a rir: — Não me conhece! — Cale se! Lola acalmou se e pela primeira vez pareceu vê lo. — Ele subiu às sete horas. Ela deixou o subir porque eu tinha dado ordem. Já disseram mais de uma vez que podia ser mãe dele. Lola olhava o com indiferença. — Lola! — Ele deve ter pensado: «Está doida por mim. logo que saí.

Juro que fui eu. Havia uma velha no escritório. — Boris esteve aqui. debaixo da outra mala. Os lábios de Lola tremiam e ela apertava convulsiva mente a bolsa. não teria esperado pela meia noite para vir aqui. cansada. continha as cartas.— Já disse que Boris subiu às sete. Aliás. Mathieu pensou: «É verdade. Mas é o mesmo. se quer apanhar seis meses em vez dele. diante da janela — repetiu Mathieu. — Não está a ver o meu estado? Por quem me toma com essa história? — Estava debaixo de outra mala. — Mais uma prova. Mas você não olhou para a maleta. Lola oscilava como se estivesse a dormir em pé. — Você roubou me? — Sim. ela viu me. — A gerente viu o subir. Lola. mas Mathieu segurou a. — Sei lá o que vocês fazem juntos! — É absurdo. pode testemunhar.. Às oito horas arranjou se. Quis passar. Senti me mal no Sumatra e voltei para casa. você está a mentir. — Lola. continha. pôs o seu belo vestido e foi para o Sumatra. Porque esconde que lhe roubaram as cartas?» Tinham se calado ambos. que eu queria voltar a ler. as cartas. Finalmente pareceu acordar. Eu sei.. — É tudo quanto tem a dizer me? Então vou me embora. Ela riu se. Eu subi às dez horas e trouxe o. mas você não olhou para a maleta. Lola empurrou o. Peguei no dinheiro e deixei a chave na fechadura. se você tivesse descoberto o roubo às oito horas. pensa que não sei? Vocês combinaram o que . — Olhou às oito horas? — Olhei. Às oito horas o dinheiro ainda lá estava. Eu sei que não olhou. obstinada. Porque me arriscaria em apanhar seis meses se fosse Boris o ladrão? Ela fez um gesto. De quando em quando. Deitei me e pus a maleta ao meu lado. você não está convencida. — Conte a história ao juiz. Não é verdade? Lola olhou o. você só deu conta do roubo à meia noite. — Pode ser. — Foi à meia noite. — Olhei. — Lola. talvez quisesse vê la. A maleta estava diante da janela. eu. Lola. — Bem sei. A — Pois foi — disse Lola. Às oito horas eu estava com a chave e você não a podia ter aberto.

Vamos. o culpado só podia ser Boris. Era evidente. com uma calma ameaçadora: — Então foi você quem roubou? — Fui. «É uma crise de nervos». encostara se à janela e olhava o com os olhos brilhantes de ódio impotente. Acabou por dizer com um risinho seco: — Mas é que ele pediu me cinco mil francos ontem à noite! Foi por isso mesmo que nos zangámos. triunfante: — Devolva mo que retiro a queixa. Mathieu arrancou a das mãos dela e atirou a para o sofá. Tinha a impressão de viver um sonho sinistro e absurdo. Mathieu olhou para a bolsa no sofá. Mathieu quis agarrá la pêlos ombros. — É inútil! Eu vi o entrar de manhã. mas via naquele rosto uma secura desolada que lhe era insuportável. mas Lola desenvencilhou se e tentou abrir a bolsa. Ela deixara de tremer. Lola continuou. A Mathieu sentiu a sua impotência. — Que é que isso provaria? — disse ele. Mathieu não soube o que dizer. precisava de pensar no dinheiro para manter acesa a sua cólera.deviam dizer à velha. e ele observou contrafeito: — Por causa das cartas. — Tirei a chave da sua bolsa. — Bruto! — disse Lola. — Subi ao seu quarto hoje de manhã — explicou calmamente. ela só pensava no dinheiro. não tinha medo do ódio. — Já tinha entrado uma primeira vez e voltado a sair. apanho o de outra maneira. E foi também para si que ele roubou um livro à tarde? Vangloriava se disso quando dançava comigo. Já percebi. — O dinheiro que lhe pediu era para mim. pensou. «Deveria ter previsto isso». — Pois então devolva me o dinheiro. Era inútil falar das cartas. deixe me ir embora. Pegou na bolsa novamente. Se enganar o juiz com a sua história. — Não se incomode que eu hei de apanhá lo. — Vitríolo ou revólver? — perguntou Mathieu a sorrir. sem que ele a tentasse impedir. Quando acordou. Mas era preciso convencer Lola. — Boris poderia ter me . eu ia abrir a maleta. Não pude voltar a pôr a chave no lugar e foi isso que me deu a ideia de lá voltar esta noite. pensou Mathieu. acabrunhado. e Lola disse: — Basta. Mathieu voltou a cabeça. Quando lhe falei ainda não tinha chegado ao pé da cama. o seu único recurso. Mathieu não respondeu. Calou se e subitamente recomeçou. Lola soltou um riso de troça. — Bem sei. Ela pareceu não o ter ouvido. Lola começou a tremer completamente. Lola também.

e ele escutou atrás da porta. com compreensão. Entrou com nobreza e inclinou se diante de Lola. — Tudo corre bem. quando viu de costas aquela forma negra que se retirava com a rigidez cega de uma catástrofe. — Essa é boa. — Dei o dinheiro. uma amiga minha. Mas Daniel estava sério como um papa. — Aqui estão os cinco mil francos. — Vem aí alguém — disse. Lola reapareceu. — Obrigou Boris a devolvê las? — perguntou ela.. Daniel sossegou o com um gesto. como uma louca.. Dirigiu se para a porta. — Como prova que são os meus? — Não tomou nota dos números? — perguntou Daniel. é preciso anotar sempre os números! A Mathieu teve uma inspiração. olhava para Lola. Mathieu pensou ao mesmo tempo: «Foi Marcelle quem o mandou.» Mathieu perguntou: — Ela. Mathieu receava que Daniel se risse. — Não lhe pergunto isso. Lola hesitou. Pensava: «É no Comissariado da Rua dês Martyres. — Cheire — disse. Roubou me às dez horas e à meia noite já gastou tudo? Os meus cumprimentos. irei explicar me lá. — Afinal posso dizer para quem era: era para Made moiselle Duffet. faz favor de verificar. Lola sorriu sem responder. — Estão aqui cinco mil francos? — Estão. . minha senhora. sem que ele a impedisse. Pensou na bolsa e tentou um último esforço.» Era Daniel. depois pegou no sobrescrito. — A quem? J E A N P AUL SARTRE — Não posso dizer.. teve medo.» Mas. — Já não o tenho.. e o seu coração deu um salto. — Acrescentou vivamente: — Não foi a Boris. Ouviu a gritar no patamar. Digo lhe apenas: devolva me o dinheiro. — Imagine! — Ah! Minha senhora — disse Daniel com um ar de censura —. Lola olhava desconfiada para o sobrescrito. lembrara se do pesado perfume de Chipre que exalava da maleta. Mathieu pensou: «É Boris.passado o dinheiro. rasgou o e levou as notas ao nariz. Lola abriu a porta e saiu.

À porta. De repente disse: — As cartas. Continuava imóvel no meio da sala. isso ainda é mais difícil para eles. deve ser muito.. — Roubou me cinco mil francos! É estranho! Os olhos porém apagaram se lhe e as feições tornaram se duras. — Pelo que se vê. Ali estava ele. porque não volta? — Não sei.. — Quem é esta velha senhora? — perguntou Daniel. insolente e fúnebre como nos seus piores dias. Mathieu deu um passo em frente. a amiga de Boris Serguine. Mostrava se cerimonioso. Foi uma amiga de Mathieu que mas confiou.— Não conheço ninguém com esse nome. — Mas porque teria feito isto — perguntou subitamente —. mas são igualmente incapazes de se ir embora. Acrescentou docemente: — Não se pode esquecer de retirar a queixa. de braços caídos. vivia no fundo dos olhos de Daniel. Deixaram na sair sem dizer nada. sem ódio. — Parece. — É Lola. Lola estava imóvel. voltou se: — Se ele não fez nada. — Pois é — disse Lola —. não precisa de nada? — Não. Lola soluçou e apoiou se à ombreira da porta. Está transtornada. Saiu. na sua frente. Ou então. Lola. — Adeus. — Já não as tenho. Foi o que me deu a ideia de ir buscar o dinheiro. Parecia lhe que o tinham colocado subitamente na presença do seu erro. Mathieu endureceu se e . Ouviram a porta fechar se. pelo que peço desculpa. Vim a correr e ouvi o fim da conversa. Lola contemplou Mathieu. Apertava a bolsa na mão esquerda e com a direita amarrotava as notas. vivo. Parecia angustiada e estupefacta. se quiser. Trouxe as esta manhã quando pensávamos que tivesse morrido. e só Deus sabe que forma tomara naquela consciência caprichosa e falsa. Lola voltou a cabeça e disse depressa: — Ainda não tinha apresentado queixa. — Vou me embora. apresente queixa contra mini. apenas com um enorme espanto e uma espécie de curiosidade. São incapazes de fazer a felicidade de alguém. Mathieu não se sentia à vontade sozinho com Daniel. Lola. adeus. Daniel parecia disposto a abusar da situação. a fim de que as trouxesse. Parecia sofrer. que são cinco mil francos para si? Mathieu respondeu sem alegria. mas ela já se tinha dominado. — Acha que ele vai voltar? — Acho.

«De Marcelle. cala te — atalhou secamente. — Vens da casa de Marcelle? — Venho. se te disser! — Bom.. — Ficarias muito espantado se soubesses — disse lhe Daniel. A cabeça soava lhe como Um sino. meu caro. bom. Daniel estava lívido. «Se me quer impressionar». terminou a frase: . eu sou. Daniel estava abatido. pensou Mathieu. — Foi ela quem mandou o dinheiro? — Ela não precisa dele — disse Daniel evasivamente. — Isto vai mal — disse ele. «Diverte se». Daniel olhou o como se se divertisse a intrigá lo. depois. Parou de novo e Mathieu. isso é uma história antiga. Não sei o que há por baixo disto tudo..ergueu a cabeça. Disse com calma: — Então tu amava la? — Porque não? «E de Marcelle que se trata». Erguera a sobrancelha esquerda e olhava para Mathieu com ironia. pensou Mathieu com raiva. J E A N P AUL SARTRE Mathieu pensou: «Era amante dele.. — Não se fala mais nisso. como que através de um monóculo imaginário. Escuta. — Estás com uma cara! — disse Daniel com um sorriso mau.. subitamente. Mathieu. — Não precisa? — Não. — Espera e verás.. Quero dizer que não acredito que ames Marcelle. «deve impedir que as mãos lhe tremam».» Não conseguia convencer se totalmente. — Não era disso que te vinha falar. Observava Mathieu com uma certa surpresa.. — Daniel — disse ele —. levantou se e passou a mão pela testa. impaciente. Mathieu acendeu um cigarro. Falas ou não falas? — Pois bem. — Ia dizer te o mesmo — respondeu Mathieu. Daniel disse. Sentou se sobre a secretária balançando um pé com desenvoltura. Deu uma gargalhada forçada.» — Se não queres dizer. — Não. indolentemente: — Caso me com ela. — Diz me ao menos se ela tem mais para. — Não me vais levar a sério. não acredito. DA D E DA RAZAO Daniel encolheu os ombros. Ficaremos com a criança. eu sou. pensou Mathieu.

Assim Marcelle não ficou só. Não é o que queres dizer? Daniel arregalou os olhos e assobiou. — Pois então fala — pediu Mathieu.. só. .— Es amante de Marcelle. Mathieu não pôde evitar um gesto de contrariedade. Voltou com dois copos e a garrafa. — Subi logo a seguir. meu caro. — Pois bem — atalhou Daniel —. é evidente que não tenho nenhum direito. pensava que encontraria maior dificuldade em convencê la. — Estava à espera que saísses — disse Daniel. — Estás bêbedo — observou Mathieu enojado.... — Queria apenas participar te o casamento. — Não querias outra coisa. afinal. — Deves tê la visto logo depois de eu ter saído. só tenho rum branco. — Aos meus amores — disse. — Ouve — disse Mathieu secamente —. — Sim. heni? Não. Daniel pegou na garrafa e encheu os copos. Mathieu viu lhe um brilho de rancor nos olhos. — É da Rhumerie Martiniquaise? — É. E que é que me querias dizer? — Nada... Não te aflijas. pensou. bebi um pouco. friamente. com uma paragem no Falstaff.. — Vens de lá? — Sim. — Nada mal — disse Daniel com admiração. — Poupa me a minha modéstia. — Só? — Só. À tua saúde — disse Mathieu.. nem sequer terás essa desculpa. — Estavas à espreita! Tanto melhor. A Daniel olhou o com um ar inquisidor. como se Mathieu dissimulasse qualquer coisa. Foi à cozinha e abriu o armário. — Como quiseres — disse Mathieu. é. «Fui ignóbil». e Mathieu perguntou: — Como vai ela? — Querias que eu te dissesse que está satisfeitíssima? — perguntou Daniel ironicamente. meu velho — disse Daniel com súbita cordialidade. mas afinal vieste aqui. Não tens nada para beber? Uísque? — Não. — Espera um pouco. É uma ideia — acrescentou —. sorridente.. Disse.. Bebi depois de sair de casa de Marcelle. antes não.. vamos beber um copo. Mas atirou se à minha proposta como a miséria sobre o mundo.. como para desculpar Marcelle: — Ela estava desesperada. humilhado. Mathieu sentiu que corava. — Ainda vais lá de vez em quando? — Ainda. Calaram se um instante.

mas não se sente muito infeliz. boa noite — disse Daniel levantando se. Mathieu encheu os copos. — Não te preocupes. porque é que fizeste isso? — Com certeza. Falava serenamente. não foi por filantropia — disse Daniel. Depois. pomos lhe o nome de Mathieu. Já me pus. Tudo correrá bem. não é verdade? Não chegava a ser uma interrogação.. Não compreendi. — Lamentas alguma coisa? Tens saudades? — Não. — Para os dois Não sei porquê. — É horrível este rum.. Daniel calava se. o facto de ires casar com ela perturba me um pouco. obstinado. Se for um menino. nada de especial. — Era o filho. Talvez seja melhor que nasça.. — Hem?! — Bom. mas parecia possesso. — Põe te no lugar dela — disse Daniel. — Vais casar com ela — repetiu Mathieu. Não faz mal. Beberam. vieste ver a cara que eu . e ele acrescentou sem esperar resposta: — Acho que deveria estar contente. Num certo sentido. — E agora — perguntou Daniel —. acho isso sinistro. cerrando os punhos. — Essa pequena Serguine? — Não. dá me mais um copo. tu vais salvá la. que é que vais fazer? — Nada. Falou te de mim? — Muito pouco.. secamente. Mathieu não se atrevia a olhá lo. Toda esta A história a abalou terrivelmente. — Ela odeia me. Eu queria suprimi lo. — Cala te! — Não te zangues — disse Daniel. — Bem sei. — Nunca o verei. — Vim para devolver o dinheiro e tranquilizar te. mas não compreendo. — Mas agora estás livre. não te zangues. Mathieu levantou se. Mathieu cruzou as mãos e fixou os olhos no sapato. — Em suma — disse lhe Mathieu —. Daniel dominava se. Mathieu continuou. disse como para si próprio: — Então era o filho que ela queria. Se me tivesse dito. Repetiu distraído: — Não te zangues. Daniel não respondeu. — Sabes — disse Mathieu —.Daniel encolheu os ombros e pôs se a andar de um lado para outro. duramente. Marcelle não tem nada a temer e tem confiança em mini. — Obrigado. E não se decidia a sair.

. Somos iguais. Daniel troçou: — Isto espanta te? Modifica a ideia que tinhas dos invertidos? Mathieu ergueu vivamente a cabeça. mas não se tornara mais agradável. É a reacção normal. sem simpatia. parecia apertado na sua roupa. não tenho nojo. eu também tenho de mim. J E A N P AUL SARTRE — Mathieu — disse —. mas continuava a sorrir. — Então porque me vieste contar? — Eu. IDADE DA R A Z A O Estava verde. Mostravas te sempre tão sólido. Talvez tenhas nojo de ti próprio. sou um pederasta. tão normal. Olhava Daniel e pensava: «Ele é pederasta. Era a ordem das coisas.. cortante. mas fazes bem em não dizer nada. Não precisas de tomar atitudes diante de mim. de braços colados ao corpo. — E. há qualquer coisa disso. Aliás é por . — Não. eu queria ver o efeito que isso podia provocar num tipo como tu — disse Daniel coçando a garganta.» Mas não estava muito admirado. E... A tua própria consciência já te dá bastante trabalho. uma indiferença profunda e paralisante. Não sou tão sólido como isso. agora que há alguém que sabe. tudo aquilo lhe parecia tão natural. — Pois não. Daniel deu uns passos em direcção à porta e bruscamente voltou. irritavas me. Disse finalmente: — Podes ser o que bem entenderes. depois. — Em parte — disse Daniel com franqueza —. Achava que devia dizer qualquer coisa. Perdera a expressão irónica. — Isso enoja te. não penses que és obrigado a mostrares te generoso! Mathieu não respondeu. Mathieu não pôde suportar o sorriso e voltou a cabeça. «Que ideia aquela de se vir torturar aqui». Daniel era um pederasta. Daniel afastara se e contemplava o com espanto e ódio.. Ele era um estupor. — Não dizes nada? — continuou Daniel. a reacção que deve ter todo o homem são. Daniel estava imóvel.. — Tens razão. mas mergulhava na mais completa indiferença. talvez eu consiga acreditar nisso. — Não te armes em cínico. Porque havia de ter nojo? — Oh! — disse Daniel —. É desagradável. — Bem sei — disse Daniel sorrindo com altivez. falava com dificuldade.faria depois dessa história toda. não tenho nada com isso. — Pois já viste. — Hem? — disse Mathieu. pensou Mathieu. — Efectivamente não tens nada com isso. não é? — És pederasta? — repetiu lentamente Mathieu.

E tem se sempre o benefício da confissão. O sentimento virá com o tempo. fornos idiotas há pouco. — Mas. bem se sabe. — Estou — disse a voz de Marcelle. Mathieu conservou um momento o telefone na mão. Calaram se. Daniel olhava sem falar. e Mathieu disse com obstinação: — Não quero que ela seja infeliz. quero casar contigo. Mathieu sentiu um remorso agudo. depois uma espécie de gemido e desligaram. — E que farás para o impedir? Mathieu não respondeu. não parecia triunfante. à maneira dos velhos. Daniel sorriu. Um rubor sombrio manchou lhe o rosto aflito. vais estragar lhe a vida. — Juro que não o será. Escuta. Mathieu estremeceu. Mathieu bebeu um gole de rum e tornou a sentar se na poltrona. — Bem — disse. — Ah!. — Os pederastas deram sempre bons mandos. o que ela quer. mas isso não me convém. — Tranquiliza te — observou como consolação. ela sabe? — Não! — Porque é que casas? — Por amizade. — Devias ser o último a dizê lo. principalmente. Ela propôs me viver ao seu lado. Encheram os copos.. E depois não caso por casar. Daniel contemplava o com ironia. — Tu és astucioso — disse Daniel com uma vulgaridade que Mathieu não conhecia.isso mesmo que me contas essa história. é Mathieu. Eu queria. depois largou o devagar.. não podes? — perguntou. Fez se silêncio. Pegou no telefone e marcou o número de Marcelle. — Se é assim. Marcelle! Estás a ouvir? Marcelle. — Marcelle. . porque te casas com Marcelle? — Uma coisa nada tem a ver com a outra. Daniel levantou se. Acrescentou com uma ironia dolorosa: — Estou resolvido a cumprir os meus deveres conjugais até ao fim. O tom não o convencia. Deve ser mais fácil confessar se a um miserável. demais.. Houve um curto silêncio. E. — Estou. — Não posso permitir que cases com Marcelle. arrogante. Vou instalá la em minha casa. — Daniel! Se casas por casar. Ele perdeu a cabeça e gritou ao telefone. é o filho. com um olhar fixo.. — E. — Ela julga que a amas? — Não creio.. J E A N P AUL SARTRE Não respondiam. está.. Daniel olhava sem ver.

o que tu és não me interessa. J E A N P AUL SARTRE \ — Tu odeia la? — Não. — Tenho vergonha de ser pederasta. Porque é que tens vergonha disso? Daniel teve um riso seco: — Eu esperava essa pergunta — disse. disse: — Não muito. Beberam. Mathieu foi invadido por uma ideia insuportável. e lágrimas de vergonha inundaram lhe os olhos. etc. — Gostarias de me enfiar uma bala na pele? Daniel não respondeu. Mathieu não respondeu. Há alguém que sabe.DA D E DA RAZAO Mathieu corou violentamente e acrescentou: — Também gostas de mulheres? Daniel fungou. «No teu lugar. Subitamente o silêncio tornou se pesado. exactamente porque não és pederasta. Disse: — Tenho ainda mais nojo de mim. Mathieu pôs a cabeça entre as mãos. — Daniel — disse —. é um gosto como outro qualquer. — Escuta — disse —. . Pensou: «Daniel está a olhar para mim». Para ela não terá importância nenhuma. Todos os invertidos têm vergonha. porque sou pederasta. e Mathieu percebeu que estava com vontade de fumar.» Daniel continuou a sorrir: — Vamos esvaziar a garrafa? — Vamos. e ergueu a cabeça precipitadamente. Já sei o que vais dizer. Daniel bebeu. depois de saber que vais casar com ela. Olhava para o chão entre os pés: «É um pederasta e vai casar com ela. etc. casas te para te martirizares! — E então? Isso é comigo. — Meu Deus! — disse. Mathieu pensou tristemente: «E a mini que ele odeia. — Sim — disse com um ar distraído e imparcial —. — Compreendo. reagiria.» Abriu as mãos e raspou o sapato no chão. sentia se perseguido. acho que te deves sentir bastante mal. Mesmo agora. Mathieu baixou a cabeça. exigiria um lugar ao sol. Daniel acrescentou vivamente: — Isso não tem importância.» Mas dirás isso tudo. Acendeu um cigarro. está na sua natureza.. Daniel olhava o efectivamente e com tal ódio que o coração de Mathieu se apertou. — Bem sabes. Mas desejo saber uma coisa. — Porque me olhas assim? — perguntou.

bebeu o. — Sim. como ainda havia um resto de rum no copo. Uma ideia repentina causou lhe um certo mal estar: «Ele é livre. — Nesta história ganhaste por todos os lados. — Fumar agora? — Um só. ou simplesmente se aceitam. Estava só. — Deves estar num estado horrível.. — Sim. Mas lembrou se de que nunca mais a veria. e eu não quero esse género de morte. — Conheço me muito bem. — Não — disse Mathieu —. os pederastas que se vangloriam ou se exibem. morreram de vergonha. pensou Mathieu. esta noite. Daniel pareceu irritado. estão mortos.» E o horror que Daniel lhe inspirava misturou se com a inveja. E explicou: — És livre.— Mas não seria melhor. assumir isso? — perguntou timidamente Mathieu. dos seus receios. J E A N p AUL SARTRE Daniel encolheu os ombros. num estado horrível. . só a ela podia falar da sua vida. — Dá me um cigarro. — Hoje de manhã parecias acreditar que sim. Mathieu acendeu outro cigarro e. de quatro. «ele foi até ao fim desta vez». e o desejo transformou se numa espécie de angústia. que parecia deslocado naquele rosto cor de azeitona que a barba crescida manchava de azul. Não. não basta abandonar uma mulher para se ser livre. Sorriu de um modo singular. Daniel olhou Mathieu com curiosidade. serei assim?» E subitamente foi invadido pelo desejo de falar a Marcelle.. — Já me assumi demasiado — continuou com doçura. das suas esperanças. surpreendi me — disse em voz baixa. Daniel parecia reflectir. — No meu lugar? — repetiu Daniel sem mostrar grande surpresa. tinha um ar de espanto. r A IDADE DA RAZÃO Não havia nada a dizer. Mathieu disse subitamente: — Gostava de estar no teu lugar.. quase infantil. Mas parecia mais calmo e olhava para Mathieu sem ódio. Passou a mão pela fronte... de tanto terem vergonha. — Hoje. Suspirou e qualquer coisa pareceu ceder no seu rosto. Daniel continuava a sorrir com ar de boa fé. Tinha o olhar parado e de vez em quando os lábios entreabriam se lhe. apesar de tudo. Daniel inspirava lhe horror. Disse.. — Falaremos disso no dia em que aceitares ser um sacana. «É verdade». Pensou: «Dentro de dois anos.

deve parecer lhe estranho sentir atrás de si um acto desconhecido.. — Não — disse Mathieu. — Hoje não tenho vontade de me embriagar. tudo o que faço.. Daniel levantou se. Calaram se. — Com remorsos a menos. — Acho que será difícil. Adeus. agitadas pela brisa nocturna. Eu. secamente. DADË RAZÃO — Porque é que me dizes isso? — Não sei. mas há o resto.— Não sei. e Mathieu acrescentou bruscamente: . encontrei um tipo que queria alistar se nas milícias espanholas. Ver nos emos em breve? — perguntou Mathieu. tudo se passa como se eu pudesse sempre voltar atrás. — Nesse caso. — Em toda esta história eu não fui senão recusa e negação. — Eu não — disse Mathieu. — Nada de sensacional — observou Daniel. — Por nada — repetiu. que já quase não compreende e que lhe vai transformar a vida. Marcelle disse que não queria mudar nada na minha vida. — Tiveste vontade de partir para Espanha? — Tive. à noite. — Bem — disse Mathieu. Não queres ficar mais um bocado? — Preciso de beber. faço o por nada. não vens? — Não. Não sei o que daria para cometer um acto irremediável. Sentia se fascinado por Daniel. Nada é claro. — Ofereço te um copo no Clarisse. Mas a verdade é que abandonei Marcelle por nada. felicidades. agora já não pode voltar atrás. — Então.. mas não a suficiente. agora está lixado. — E então? — Não o fez. Daniel atirou o cigarro fora e disse: — Eu queria ser seis meses mais velho. Daniel sorriu sem responder. — Adeus. Estava cansado. Pensava: «Será isto a liberdade? Ele agiu. — Tudo isto. — O quê? Mathieu mostrou a secretária num gesto largo e vago. — Daqui a seis meses serei a mesma coisa que sou hoje. Fixava o olhar nas cortinas da janela. dir se ia que me roubam as consequências dos meus actos. Não era muito claro.» Disse em voz alta: — Anteontem.. Não sei o que faria se bebesse. mas acho que lhe seria penoso saber que nos vemos. Depois de um momento. Marcelle já não faz parte da minha vida. todo o resto.

a indulgência sorridente.. Era uma noite agradável. Um ruído de música subia da Avenida do Maine. a seriedade de espírito. estou na idade da razão. tinha acabado com a sua juventude. sentado no braço da poltrona. a resignação. «Ninguém entravou a minha liberdade. em baixo. ele não era nada e. Era um céu de festa na aldeia. — Não neste momento.. já não mudaria. a luz branca de um farol deslizou no céu. Daniel saiu. não há dúvida. com um sapato na mão. Mathieu viu Daniel desaparecer e pensou: «Fico só. Era Daniel. O epicurismo desiludido. Na rua. — Adeus — disse Mathieu. uma vida falhada. agradável e azul. O perfume de Ivich ainda flutuava ali. Mathieu chegou se à janela e levantou as cortinas. Dissera a si mesmo na véspera: «Se ao menos Marcelle não existisse!» Mas era uma mentira. como bom conhecedor. pôs se a desfazer o nó da gravata.» Só. tudo isso que permite apreciar. um céu que sabia a férias e bailes campestres. Bocejou. Pensou: «Muito barulho. — Mas amanhã. O vento varrera as nuvens. mas não mais livre do que antes. Sentia ainda no fundo da garganta o calor adocicado do rum. — Adeus.» Aquela vida tinha Ihe sido dada para nada.» Fechou a janela e voltou para o quarto. Por nada. demorou se em cima de uma chaminé e escorregou por trás dos telhados. foi a minha vida que a bebeu. Tirou os sapatos e ficou imóvel. por nada. Parou na esquina da Rua Huyghens com a Rua Froidevaux e olhou o céu. Respirou o e recordou aquele dia tumultuoso. Tinha acabado o seu dia. o estoicismo. Estava formado. um homem caminhava tranquilamente. Repetia a bocejar: — Não há dúvida.— Odeias me. viam se as estrelas por cima dos telhados. Encostou se no parapeito e bocejou longamente. no entanto. minuto a minuto. Morais comprovadas já lhe ofereciam os seus serviços. Tirou o casaco. FIM DO PRIMEIRO VOLUME . Daniel aproximou se e pousou a mão no ombro dele num gesto desajeitado e envergonhado. — Daniel baixou a cabeça sem responder.

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