Jean Paul Sartre (1905 1980

)

A IDADE DA RAZÃO
Os Caminhos Da Liberdade

Volume I

Tradução de Sérgio Milliet 5." Edição BERTRAND EDITORA VENDA NOVA 1996 ' Título original: Lês Chemins de Ia Liberte — L'Age de Raison © 1945, Éditions Gallimard Ilustração de capa: No boulevard, de Malevich Todos os direitos para a publicação desta obra em língua portuguesa excepto Brasil, reservados por Bertrand Editora, Lda. Fotocomposição e montagem: Grafitexto Impressão e acabamento: Gráfica Manuel Barbosa & Filhos, Lda. Depósito Legal n.° 101049/96 ISBN: 972 25 0996 9 Acabou se de imprimir se em Junho de 1996

A Wanda Kosakiewicz No meio da Rua Vercin getorix, o sujeito grandalhão agarrou Mathieu pelo braço. Um polícia passeava no passeio oposto. — Dê me alguma coisinha, patrão, estou com fome. Tinha os olhos muito unidos e os lábios grossos. E tresandava a álcool. — Não será sede o que tu tens? — indagou Mathieu. — Juro que não, meu velho — disse com dificuldade —, juro que não. Mathieu descobrira uma moeda de cinco francos no bolso: — No fundo não me interessa, perguntei por perguntar. E deu a moeda. — O que estás a fazer está certo — disse o tipo, apoiando se à parede —, quero desejar te uma coisa formidável. Mas o que é que te vou desejar? Reflectiram ambos. Mathieu atalhou: — O que quiseres. — Pois então vou desejar te felicidades — respondeu o outro. — É tudo. Riu triunfante. Mathieu viu o polícia aproximar se e receou que prendesse o tipo. — Bom — disse —, adeus. Quis afastar se, mas o homem alcançou-o. — A felicidade não basta — disse com uma voz entaramelada —, não basta... — Então! Que mais é que queres? — Quero dar te uma coisa. — E eu vou prender te por mendicidade — disse o polícia. Era muito jovem, muito rosado e esforçava se por se mostrar duro. — Há meia hora que estás aí a chatear os transeuntes — acrescentou sem convicção. — Não está a pedir esmola — disse Mathieu com vivacidade. — Estamos a conversar. O polícia encolheu os ombros e continuou o seu caminho. O tipo titubeava de modo inquietador; não parecia sequer ter visto o polícia. — Já sei o que é que te vou dar. Vou dar te um selo de Madrid. Tirou do bolso um rectângulo de cartão verde e entregou o a Mathieu. Este leu: «C. N. T. Diário Confederai. Exemplares 2. França. Comité Anarco Sindicalista, 41, Rua de Belleville, Paris 19.» Havia um selo ao lado do endereço. Também era verde e trazia o carimbo de Madrid. Mathieu estendeu a mão — Obrigado. — Cuidado! — disse o sujeito irritado. — E... de Madrid. Mathieu olhou o. O homem parecia comovido e fazia grandes esforços para exprimir o seu pensamento. Renunciou a isso e disse apenas: — Madrid! — Já sei. — Eu queria lá ir. Juro. Mas a coisa não se arranjou.

Tornara se sombrio. Murmurou «espera» e passou devagar o dedo sobre o selo. — Pronto. Podes levá lo. — Obrigado. Mathieu deu alguns passos, mas o sujeito chamou o. — Eh! — Que é? — disse Mathieu. O homem mostrava lhe a moeda de cinco francos. — Foi um tipo que me deu isso. Ofereço te um rum. — Hoje não. Mathieu afastou se com um vago remorso. Houvera uma época na sua vida em que deambulara pelas ruas, pêlos bares, com toda a gente; o primeiro que aparecesse podia convidá lo. Agora, tudo isso tinha acabado; esse género de aventura não dava nada... Era divertido. Tivera vontade de ir combater em Espanha. Mathieu apressou o passo, e pensou com alguma irritação: «Em todo o caso não tínhamos nada que dizer um ao outro.» Tirou do bolso o cartão verde: «Vem de Madrid, mas não tem o endereço dele. Deve lho ter dado alguém e apalpou o varias vezes antes de entregá lo, porque vinha de Madrid.» Lembrava se do rosto do homem e da sua expressão ao olhar para o selo: uma expressão estranha de paixão. Mathieu olhou o selo por sua vez, sem deixar de andar, depois repôs o pedaço de cartão no bolso. Um comboio apitou, e Mathieu pensou: «Estou velho.» Eram dez e vinte e cinco. Mathieu estava adiantado. Passou sem parar, sem querer voltar a cabeça diante da casinha azul. Mas ele espreitava a pelo canto do olho. Todas as janelas estavam escuras, com excepção da de Madame Duffet. Marcelle não tivera ainda tempo para abrir a porta de entrada; debruçada sobre a mãe, ajeitava, com gestos másculos, o leito de dossel. Mathieu, preocupado, pensava: «Quinhentos francos para darem até ao dia 29, isto é, trinta francos por dia, mais ou menos. Como é que me vou arranjar?» Deu meia volta e voltou para trás. Apagara se a luz no quarto de Madame Duffet. Pouco depois, a janela de Marcelle iluminou se. Mathieu atravessou a rua e seguiu, ao longo da mercearia, tomando cuidado para que as solas novas dos sapatos não rangessem. A porta estava entreaberta, empurrou a devagar, ela gemeu. «Quarta feira vou trazer a minha almotolia para olear os gonzos.» Entrou, fechou a porta e descalçou se no escuro. A escada rangia um bocado. Mathieu subiu com precauções, de sapatos na mão; tacteava cada degrau com os dedos do pé antes de dar um passo. «Que comédia!», pensou. Marcelle abriu a porta antes que ele alcançasse o patamar. Uma névoa rósea e que cheirava a lírio projectou se fora do quarto

e espalhou se pela escada. Ela tinha vestido uma camisola verde, transparente, através da qual Mathieu viu a curva suave e gorda das ancas. Entrou. Tinha sempre a sensação de entrar numa concha. Marcelle fechou a porta à chave. Mathieu dirigiu se ao grande armário metido na parede e guardou os sapatos; contemplou depois Marcelle e viu que havia qualquer coisa. — Que é que se passa? — perguntou em voz baixa. — Nada — respondeu Marcelle, igualmente em voz baixa. — E tu, meu velho? — Estou sem cheta. Fora isso, tudo bem. Beijou a no pescoço e na boca. O pescoço cheirava a âmbar, a boca cheirava a tabaco ordinário. Marcelle sentou se à beira da cama e pôs se a olhar as pernas enquanto Mathieu se despia. — Que é isto? — indagou Mathieu. Havia em cima da lareira uma fotografia que ele não conhecia. Aproximou se e viu uma jovem magra, penteada como um rapaz, e que ria com um ar ríspido e tímido. Envergava um casaco de homem e calçava sapatos de salto baixo. — Sou eu — disse Marcelle, sem erguer a cabeça. Mathieu voltou se. Marcelle levantara a camisola sobre as coxas gordas. Estava curvada e Mathieu adivinhava sob a camisola a fragilidade dos seios pesados. — Onde é que encontraste isto? — Num álbum. É do Verão de 28. Mathieu dobrou cuidadosamente o casaco e colocou o no armário ao lado dos sapatos. Perguntou: — Então agora andas a mexer nos álbuns da família? — Não, não sei, mas hoje tive vontade de encontrar coisas da minha vida, de ver como eu era antes de te conhecer. Trá-la cá. Mathieu pegou na fotografia e ela arrancou lha das mãos. Sentou se ao lado dela. Marcelle teve um arrepio e afastou se um pouco. Olhava a fotografia com um sorriso vago: — Como eu era engraçada — disse. A jovem mantinha se rígida, apoiada à grade de um jardim. Abria a boca e devia estar também a dizer: “É cômico”, com a mesma desenvoltura atarantada, a mesma ousadia sem firmeza. Só que era jovem e magra. Marcelle sacudiu a cabeça. — É de morrer a rir! Foi tirada no Luxemburgo por um estudante de Farmácia. Estás a ver o meu blusão? Comprei o nesse mesmo dia, porque íamos dar um grande passeio a Fontainebleau no domingo seguinte. Meu Deus!... Havia com certeza alguma coisa. Nunca os seus gestos tinham sido tão bruscos, a sua voz tão masculina. Estava sentada à beira da cama, mais do que nua, sem defesa, como um vaso enorme no fundo do quarto cor de rosa, e era penoso ouvir essa voz masculina enquanto um cheiro forte e sombrio se exalava dela. Mathieu agarrou a pêlos ombros, apertando a. — Tens saudades dessa época? Marcelle respondeu secamente: — Dessa época não, mas da vida que poderia ter tido.

não? — Engordaste. estava cansada. Jantei em casa de Jacques. isto divertia me. Parecia um levantino gordo. Depois vi Ivich. — Já lá vão dez anos. Mathieu pensou: «É verdade. leva uma vida horrível. — Não. sabes. que uma doença havia interrompido. queria ver Andrée. e depois. mas ela afastou se sem violência com um risinho nervoso. Ele murmurou: — Ela vai chumbar. Ela dava lhe conselhos. indiferente: — E tu? Mathieu não tinha vontade de contar. as pessoas tinham umas caras ignóbeis. Hoje de manhã passei na tesouraria para ver se podiam adiantar me alguma coisa. mas a mãe interrompia me a cada instante por causa da loja. Ela encolheu os ombros e atirou a fotografia para cima da cama. — Disseste me que ela estudava. Marcelle ergueu as sobrancelhas e olhou o. No entanto. Quando saí de casa dela. começou a chover.» Ele perguntou: — Que fizeste ontem? Saíste? Marcelle teve um gesto desanimado e vago.Tinha iniciado os seus estudos de Química. de acotovelar pessoas. Perguntou.» Abriu os lábios para interrogá la. — Engordei.» Quis beijar lhe a cara. — Senti necessidade de tomar ar. mas viu Ihe os olhos e calou se.. com voz séria e ligeiramente autoritária. Contava lhe minuciosamente tudo o que fazia. Dizia muitas vezes: «Vivo por procuração. em tfeauvais eu entendia me com o tesoureiro. — Porquê? A voz de Marcelle voltara à firmeza habitual e o seu rosto assumira uma expressão de bom senso masculino. Ela olhava a fotografia com um ar triste e tenso. parece que não fazem isso. é um mês de Junho esquisito.» Quatro noites por semana vinha vê la. chato como de costume. Desci até à Rua da Gaite. Apanhei um táxi e voltei. Mathieu pensou: «Parece que ela me detesta. — E viste? — Cinco minutos. — E hoje? — Hoje saí — disse ela melancólica. Disse: — Ontem fui ao colégio dar as minhas últimas aulas. Acrescentou: J E A N P AUL SARTRE — Ela anda desanimada. Li um pouco. . Mathieu pensou: «Não lhe dou nada.. Ele não gostava de lhe falar de Ivich.

Mas de repente. Ela foi tão pouco feita para ser médica como eu. aceitava mesmo que ele a amasse. Mathieu não deixara de acariciar as costas de Marcelle e ela começou a pestanejar. De qualquer maneira. pois não? Eu teria receio de ofendê la. — Ah! conheço te muito bem. — Olha para isto. principalmente junto dos rins e entre as omoplatas. de repente «viu se» diante de um tipo calvo a falar de celenterados.. Um revólver é para as nossas peles de crocodilo. com os cabelos sobre o rosto e fascinada diante de um minúsculo Browning. pouco me importa que Ivich reprove. — Não achas que tenho uma pele boa para fazer uma escumadeira? . Não ousas confessar. Parece que nunca lhe viste o corpo. o examinador estava satisfeito. Mas nem só as palavras contam! Hesitou um instante e baixou a cabeça. A família não a deixará recomeçar. só de lhe passar o dedo por cima. meu pobre velho. — Em todo o caso — atalhou Mathieu —. Ele tinha a pele mais branca do que a dela. mas tens medo que ela enfie uma bala no corpo. e não poria mais os pés na Faculdade. Marcelle. — Que rapariga estranha! — disse Marcelle pensativa. meu velho. meu velho. E dizes que tens horror ao romanesco. mesmo que passasse no P. desanimado. Ou que invente alguma coisa. a minha até parece de marroquim. deve ficar horas inteiras diante de um livro sem fazer um movimento. Marcelle indagou com voz firme: — Que espécie de disparate queres tu dizer exactamente? — Não sei — respondeu ele perturbado.C. Isso pareceu lhe ridículo. pensou. como os loucos. desmaiaria na primeira dissecação. Aquele tom de displicência protectora não seria uma mentira? Tudo o que podia exprimir por meio de palavras dizia o. Mas se a coisa não correr bem desta vez. Mathieu disse lhe: A — Ouve. no próximo ano. Mas sabes como ela é: tem visões. no caso de ter um azar.B. e o tipo não lhe arrancou nem mais uma palavra. Em Outubro sabia bastante de Botânica. E tu acreditas que uma boneca com uma pele daquelas vai estragá la com tiros? Posso imaginá la caída numa cadeira. Ela apoiou o braço no de Mathieu. Gostava que ele lhe acariciasse as costas. Em suma. não. Marcelle libertou se e o seu rosto endureceu. à sua maneira. Marcelle não ignorava nada da sua afeição por Ivich. tenho medo que lhe aconteça o mesmo desta vez. ela vai fazer um disparate.— Sim. não. É muito russo isso! Mas imaginar outra coisa. Desatou a rir. «Que é que eu tenho a ver com os celenterados?». exigia apenas uma coisa: que ele falasse de Ivich precisamente naquele tom. isto é. Vais ver.

o tempo de um olhar altivo e desesperado. — E tu recusaste? — Recusei. como mil arrepios tensos. E só Deus sabe corno estas coisas se repetem ultimamente. Marcelle não se mexeu: olhava a mão de Mathieu. Mathieu temia essas explosões silenciosas: a paixão naquele quarto concha era impossível. com indiferença. Ela calou se. — Talvez tenha mudado um pouco — disse Mathieu. — Cala te. concordando. — Olha para mim — disse. — Ora! Marcelle ergueu a cabeça e contemplou o relógio com um ar míope e divertido. foi até ao armário e tirou o cartão do bolso do casaco. Marcelle pegou no cartão. irrito me sempre. — Chamas a isto uma oportunidade perdida? — Sim. Queria oferecer me um copo. J E A N P AUL SARTRE Continuava a rir. — Olha. Era sempre assim com ela: como um nó. Mathieu pousou a mão na perna de Marcelle e acariciou a docemente. Mathieu tapou lhe a boca com a mão. estouraria. A tua vida está cheia de oportunidades perdidas. Mathieu levantou se. — Quando tu me contas estas coisas. Acrescentou: — Sabes. — Porquê? — perguntou Marcelle com negligência. Vais acordar a velha. — Que é isso? — Foi um tipo que mo deu há pouco na rua. Era simpático e eu dei lhe algum dinheiro. com os bordos limpos e avermelhados. Este acabou por retirá la.Imagino um buraquinho bem redondo por baixo do esquerdo. Antigamente terias feito tudo para provocar esses encontros. — Que é que achas? Envelheci? . — Que é que tu tens? — Nada — disse ela virando a cabeça. porque era necessário exprimi la em voz baixa e sem gestos para não acordar Madame Duffet. — E curioso — observou. Não havia nada a fazer senão esperar. Viu momentaneamente as suas olheiras. Não seria nada feio. isso tinha um grande valor para ele. Ele disse: — Como estás nervosa! Ela não respondeu. Gostava daquela carne amanteigada com os pêlos suaves sob as carícias. Mathieu sentiu se ligado ao tipo por uma espécie de cumplicidade. — Podia ser divertido. A — Era um anarquista? — Não sei. Dentro em pouco não se poderia conter.

eles já se lhe tinham habituado. pensou Mathieu. era . Ouve. Antes de mais nada. Não reflecti assim tanto. de bom humor e sem vontade de discutir. — Como tu tens medo do patético! E depois? Mesmo que te mostrasses um pouco patético com esse pobre diabo! Que mal é que havia? — E o que é que adiantava? — perguntou Mathieu. Compreendes. — É tão raro. eu não tinha tempo. meu velho. não andares alheio — disse Marcelle.. Pensou: «Não é completamente verdade...» Quis fazer um esforço para ser sincero. Um ronronar baixo e terno como quando ela lhe acariciava os cabelos dizendo lhe: «Meu pobre velho. tens um medo tão grande de te iludir a ti próprio que recusarias a mais bela aventura do mundo para não te arriscares a uma mentira. — Tens perfeitamente razão — disse Marcelle. não tinha um ar terno.. J E A N P AUL SARTRE Mathieu e Marcelle tinham combinado dizer sempre tudo um ao outro. as palavras para ela não duravam mais do que uma estação). não creio que seja isso..— Tens trinta e quatro anos — disse simplesmente Marcelle. «Ela procura provocar me». — disse ele. A IDADE DA RAZÃO — Pois é — atalhou Mathieu —. Era ainda contra ele próprio que se defendia.. — Que há.. não tens razão em dar importância a essa história. — Isto não é nada. em suma. Sentia se tranquilo e algo estúpido. vinha para cá. a tua famosa lucidez. Era a que eu queria evitar. eram responsáveis por ela diante um do outro. Mas não deixa de ser sintomático. Tu és divertido. bem o sabes. agora. No Inverno anterior era «urgência». Marcelle sorriu sem ternura. — Vamos lá — disse.. — Bem. perturbado. — Conheço te bem — disse. Mathieu sobressaltou se: se ao menos ela não empregasse palavras tão rebarbativas. Mathieu acrescentou com vivacidade: — Ele também devia estar alheio. Mas Marcelle tinha desatado a rir.. Há muito tempo que se diz isso. é tudo patético. absolutamente nada e nem há motivo para tanta história. — Sim.. Trinta e quatro anos. mas Marcelle tinha a adoptado havia algum tempo.» No entanto. ando um pouco alheio. Achava a injusta. — Ouve — disse —. Essa «lucidez» (detestava a palavra. Foi antes por escrúpulo. — Que é que achas de tão interessante nisto. quando se está bêbedo. Mathieu pensou em Ivich e teve um estremecimento desagradável. essa lucidez.

Oh!. julgar: é a tua atitude predilecta. com inquietação: ainda não tinha chegado o momento de ela se decidir a falar. sabe se lá! Mas não creio.. É para te libertar de ti próprio. sim — disse ela com indolência. — Sim — disse Marcelle. Que é que tu queres que se faça? Estava irritado. . É o teu vício.. tinha lho explicado cem vezes. é o teu ideal: não ser nada. Mas raramente sentia nela aquela vontade deliberada de lhe ser desagradável. Marcelle mostrava se muitas vezes bastante dura. — Se. — Sim. é o teu vício. Não parecia muito convencida.. desconfiada. — Não pareces convencida! — Estou. — É. Só falta o contraste... Encarou Marcelle. Mathieu estava desconcertado. E não me venhas dizer que é por mim que razes isso. — Pensas que estou a mentir? — Não. — Eu sei — atalhou Marcelle —. Quando Mathieu se comprometera com Marcelle. imaginava que ele a queria dominar. ela era a sua lucidez.. — Não. gostas de te analisar. a sua companheira. Não é isso. olhar. isto é. — Isso de me conheceres não me interessa assim tanto — disse simplesmente. renunciara definitivamente aos desejos de solidão. e ela sabia que era muito importante para ele. é um meio. Nada de inútil. se eu não tentasse viver por conta própria. — Não ser nada — repetiu lentamente Mathieu. E depois havia aquela fotografia em cima da cama. Marcelle pusera um ar sorridente e obstinado: — Sim. imaginas que não és o que estás a ver. Escuta: eu. conselheira e juiz. sombrios e tímidos que dantes se esgueiravam dentro dele com a vivacidade furtiva dos peixes. de estranho. um J E A N P AUL SARTRE pouco agressiva. Quando olhas para ti próprio. não é um fim. mantinha se em guarda.. a sua testemunha. tudo é claro e nítido em ti. sim. aos pensamentos frescos. existir parecer me ia absurdo.. — Não é um vício — disse Mathieu.apenas o profundo sentido do seu amor. de hesitante. Isso era me insuportável. Totalmente livre. tu segues o teu caminho. Pensei nisso hoje. — Se eu mentisse a mim mesmo — disse —. que não és nada. Só podia amar Marcelle com inteira lucidez.. E tórrido.. teria a impressão de te mentir também... Ser livre. Sabes o que estou a pensar? Que te estás a esterilizar um pouco. eu gostaria de não dever nada senão a mim próprio. é como se tivesses passado pela lavandaria.. cheiras a roupa lavada.. e se Mathieu não concordava com ela. Tudo aquilo. No fundo.

envergonhado da sua nudez. eu sou assim. mas para ver aquele espírito teimoso e anguloso fundir se como um pedaço de gelo ao sol. — Pois eu não tenho toda essa necessidade de ser livre — disse. cansada. Mas percebeu que agora ela tinha os olhos abertos e parados. que contemplava o tecto. Pensou: «Como está a envelhecer!» E pensou que ele também estava velho. Mathieu sentia prazer na ponta dos dedos. — Marcelle. bem desenhada e severa. Deixou escorregar a mão ao longo das costas de Marcelle. — Não. aquele remorso absurdo que o perseguia quando estava com ela. e ela baixou as pálpebras. — Não se passa nada — respondeu. Marcelle deixou cair a cabeça sobre o ombro de Mathieu e ele viu lhe de perto a pele morena. dês J E A N P AUL SARTRE feita. ligeiramente envelhecida. vais dizer me o que é que se passa. Ele sentou se à beira da cama. Inclinou se sobre ela com uma espécie de mal estar. Exactamente na ponta dos dedos. com as mãos cruzadas sob a cabeça. Mathieu olhou para a sua nuca inclinada e não se sentiu à vontade. tirou as calças e a camisa. Era sempre aquele remorso. Pensou que nunca conseguiria pôr se no lugar de Marcelle: «A liberdade de que lhe falo é a liberdade de homem saudável. — Porque é que os outros não são assim. — Agora — disse com firmeza —. Apertou a nos braços: não que a desejasse naquele instante. Ela escorregou devagar para trás e deitou se de costas sobre a cama. pô las dobradas aos pés da cama e estendeu se ao lado dela.Mathieu pensou: «Ela irrita me quando se arma em esperta». — Marcelle! Ela não respondeu. levantou se. — Passa se — disse ele com ternura —. Mas havia muito tempo que já não se esquecia quando a possuía. Mathieu ergueu se. de repente. Tinha um vinco duro e triste no canto dos lábios. com voz fraca. viu lhe então as longas pestanas pretas. tinha uma expressão má. mas teve remorsos e disse suavemente: — Não é um vício. de olhos fechados. as olheiras azuladas e borbulhentas.» Pôs lhe a mão no pescoço e apertou suavemente entre os dedos aquela carne untuosa. A Marcelle deixara de rir. Calaram se. tinha uma linda boca. Beijou a na boca. se não é um vício? — São assim. gostaria de esquecer se e esquecê la. estás aborrecida? Ela ergueu para ele os olhos um pouco perturbados. mas não percebem que o são. há alguma coisa que te .

Olhou lhe o pescoço. Que é que vamos fazer? — Desenvencilharmo nos disto. e isto vai aborrecer te. E acrescentou com uma amarga ironia: — Isto agora é uma coisa de mulheres. — Espera — disse Mathieu.. Mathieu observou que o rosto se lhe tornara cinzento. Marcelle. encher o cachimbo. — Dizes me essas coisas assim. — Aconteceu o quê? — Aconteceu! Mathieu fez uma careta. Sabes que nunca perco a cabeça: mas. aquele olhar parado. Vamos reflectir. — Agora já sabes. a cintura. Os lábios cerraram se sobre as últimas palavras: uma °ca húmida com reflexos violeta. Tinha voltado a cabeça para ele e contemplava o. — Vá lá. dois meses de atraso! — Merda! Pensava: «Ela devia ter mo dito há pelo menos três semanas. — Tens a certeza? — Absoluta. As mãos de Marcelle principiaram a tremer.aborrece. Tinha uma expressão dura mas não máscula. Ela já lá esteve. Não dizemos tudo um ao outro? — Tu não podes fazer nada. sentou se a uma certa distância de Mathieu. dir se ia que procurava não tossir. — Então queres ser pai? Ela afastou se. mas o cachimbo estava no armário com o casaco. — Não podes fazer nada — repetiu Marcelle. — Pois então. conta. — Pois é — disse Marcelle. cheirava a rosas. — É a mulher que a liquidou no ano passado? Custou lhe seis meses de cama. e o seu olhar desceu mais ainda. para o largar em seguida... Mas havia aquele rosto cinzento.» Tinha vontade de fazer alguma coisa com as mãos. não? — Está bem. Ele acariciou lhe levemente os cabelos. não é a ti que te compete. Tenho uma direcção. por exemplo. um insecto vermelho . Disse com súbita paixão: — Não é preciso que reflictas. Parecia espantada. O ar estava doce. os ombros. Mathieu corou violentamente e apertou as pernas. Tirou um cigarro da mesa de cabeceira. — Quem ta deu? — Andrée. sem preparação.. açucarado. Tinha as mãos sobre as coxas e os braços pareciam asas de terracota. Não. não quero. aconteceu.

com uma obstinação rígida. a nudez satisfeita e peremptória. que descansava delicadamente sobre as coxas com um ar de impertinente inocência. como o mecanismo de uma caixinha de música. — Bem sei — disse Mathieu com amargura. para a flor culpada. um pouco curtas. — Garanto te que não me sinto orgulhoso. como um noivo. «teria vontade de bater em toda esta carne.. desastrado e nu que fizera uma asneira e sorria gentilmente para se fazer perdoar. — Acredito. sabes. querido.. musculosas. Dizes que vais da parte de Andrée? — Sim. O quarto parecia ter se esvaziado repentinamente do fumo róseo. E. «odeia me. Ela inclinou se sobre os seus ombros e fungou duas ou três vezes sem verter lágrimas. sabes? — disse de repente Marcelle com uma voz sensata. Estou a dominar me desde esta manhã. Um tipo grande. Sentia se desajeitado. Dizem que é irrisório.» Ele tinha vontade de vomitar. Era tudo o que podia permitir se. Escuta. Mathieu pensou: «Eu é que lhe fiz isto. com medo de acordar Madame Duffet. e tu é que pagas. Marcelle não se mexera. Ela só leva quatrocentos francos. quem é essa mulher? Onde é que ela mora? — Rua Morère.. Felizmente que pede pouco e eu tenho precisamente quatrocentos francos comigo. que porcaria! A asneira é minha. aconteceu. eram para a minha costureira. o espelho com os reflexos de chumbo.ocupado em devorar o rosto cinzento. a cómoda. Bolas. aconteceu. — É um bom negócio. o armário entreaberto. Quando ergueu a cabeça. Naturalmente não te censuro nada. insistindo na sua melodia. tudo adquiriu um aspecto de impiedosa engrenagem: fora posta em movimento e girava no vácuo das suas frágeis existências. que teima em tocar. Ele sabia que ela tinha vontade de gritar. o relógio. mas ela espera. — Tinhas direito a fazê lo — observou Mathieu. Era um pesadelo grotesco.» E a lâmpada. continuava a olhar para o ventre de Mathieu. havia grandes vazios entre os objectos. «Se fosse ela». «Sente se humilhada». Parece que é uma mulher estranha. pensou Mathieu. como . estou persuadida de que serei tão bem tratada por ela como por qualquer outra — afirmou —. Disse com uma voz decidida: — Desculpa. É a primeira vez. 24. pensou Mathieu. mas não o faria. — Ainda bem. precisava de desabafar. de soluçar. Mathieu mexeu se. Enfim.» Disse: — É exactamente o que me preocupa: o não levar muito.. já estava calma. sem conseguir arrancar se daquele mundo sinistro e agreste. Agarrou bruscamente Marcelle pela cintura e apertou a contra ele. Mas ela não a podia esquecer: via as coxas brancas dele.

— E então? Aonde é que vou. Marcelle suspirava. Mathieu sentiu se perturbado. Cantava lhe ao ouvido uma música gritante. cercadas de intumescências febris.» Sentou se. não podemos escolher. vai pensar que és um tipo da Polícia. de olhos cerrados. não sei muito bem o que é que vais fazer. De dia a mulher está na mercearia. — Eu vou lá — repetiu Mathieu. por volta da meia noite. não? Passou os lindos braços à volta do pescoço dele e acrescentou com um ar de resignação cómica: — Se perguntares à Sara. vê se luz por baixo de uma porta. que tenho uma amiga que está atrapalhada. Eu desejava as tuas carícias. — Mas porquê? Que é que lhe vais dizer? — Quero ver como é. não vais. se não servir? — Podemos esperar dois dias. Digo lhe que vou da parte de Andrée. Gostava das suas pontas gordas e duras. Marcelle. estamos nervosos de mais. . passiva e gulosa. — Querido. quase não dorme. Desculpa. Entra se pelo pátio. querido. Mas as pálpebras crispavam se lhe. Marcelle gemeu levemente. Estamos nervosos de mais. Gostarias que te operassem em vez de mini. Acariciou lhe a nuca.nessas famosas clínicas clandestinas onde cobram quatro mil francos. Era como uma mão morna. depois levantou se e enfiou as mãos nos cabelos. Não quero que caias no açougue de urna velha tonta. Obedeceu e deitou se. — Escuta. E súbita A mente ele pensou: «Está grávida. — Como queiras — disse com frieza. Marcelle olhou o admirada. Dizem que só recebe de noite. hoje isto não vai. Ele acariciou lhe os seios. Mas acrescentou com mais amabilidade: — No fundo tens razão. no princípio ela não queria filhos. — Estás doido? Ela põe te na rua. mas que não pode ir já. — Não podemos escolher — repetiu Mathieu. Lembras te. É engraçado. e ela abandonou se completamente. ela deve conhecer alguém. Além disso. — Quando é que vais? — Amanhã. é aí. Marcelle parecia um pouco mais calma. — Tira a tua camisa. mas percebo que queres fazer qualquer coisa. porque se constipou. Se não me agradar. Amanhã vou ter com a Sara. é de certeza um judeu. mas a mim dá me jeito por causa da minha mãe. J E A N P AUL SARTRE — Bem — disse Mathieu. Mathieu beijou a. não? Acho que ela não regula muito bem. — Eu vou lá. — Tu és bom. mas estava apreensiva. qualquer coisa. querido.

Telefona me amanhã para me dizeres o que há. mas Mathieu teve a impressão de que ela lhe guardava rancor. amanhã à noite. Escondida pela roupa escura e pela noite. ao menos? — És tola. — É que sinto repugnância por mim mesma. Não era verdade. Vou ver a velha. Não estava só. Em oito dias tudo terá acabado. — Bom. ao mesmo tempo. e encontrava pouco a pouco o calor e a inocência. Depois de amanhã. prometo. se quiseres. Mathieu tinha enfiado a camisa e as calças. «A almotolia! Vou trazê la amanhã. «Uma única vez». pensava nele. E eu não te repugno. à distância. pensava: «O estupor fez me isto. Sorria lhe. — Eu sei. Mathieu levantou se. tenho a impressão de ser um monte de comida. SARTRE Abriu a porta sem ruído e esgueirou se para fora com os sapatos na mão. a sua carne culpada sentia se resguardada. Algo se desprendeu nos seus olhos fixos. não temos mais nada a temer. mas era instintivo.. recomeçava a desabrochar sob os tecidos. esqueceu se dentro de mim como um miúdo que faz chichi na cama. Não me explico bem. — Não posso ver te amanhã à noite? Seria mais simples. enfiado até ao pescoço na sua roupa. mais incómoda do que um olhar. Só aconteceu uma vez em sete anos. querida. diante daquela pesada transparência. Não tens nada que te recriminar. Marcelle não o abandonara. Sem se poder defender. que lhe rolaram à vontade nas órbitas: ela já não o contemplava e não tinha de lhe prestar contas dos seus olhares. Se ao menos. — J E A N P A U L. Mas Jacques e Odette dormiam. No patamar voltou se: Marcelle ficara sentada na cama. odiado em silêncio. como hei de fazer para não me esquecer?» Estava sozinho. querido.— O mal está feito. nem sequer esconder o ventre com as mãos. Ivich nunca pensava nos . anonimamente. Parou. Daniel estava bêbedo ou embrutecido. não. fazes me medo. pudesse existir para outros A com aquela força.» Podia andar pelas ruas desertas.» Marcelle não se deixava convencer: ficara no quarto e pensava em Mathieu. A consciência de Marcelle ficara lá cheia de desgraças e de gritos. — Sim. — Não. e Mathieu não a deixara: ele continuava no quarto cor de rosa. — Não me queres mal? — A culpa não é tua. — Querida — disse Mathieu com ternura —. murmurou com ódio. trespassado. Beijou Marcelle nos olhos. nu e sem defesa. não lhe escaparia.. E repetiu o a meia voz para convencer Marcelle: «Uma única vez em sete anos. Era intolerável ser julgado assim.

ausentes. Boris talvez... Mas a consciência de Boris era apenas uma faísca difusa, não podia lutar contra a lucidez imóvel e sombria que fascinava Mathieu à distância. A noite amortalhara a maioria das consciências. Mathieu estava só com Marcelle dentro da noite. Um casal. Havia luz no Café Camus. O patrão empilhava as cadeiras; a servente fechava um dos lados da porta de madeira. Mathieu empurrou a outra porta e entrou. Tinha vontade de se mostrar. Simplesmente de se mostrar. Encostou se ao balcão. — Boa noite a todos. O patrão olhou o. Havia também um condutor que bebia Pernod, com o boné sobre os olhos. Eram consciências. Consciências afáveis e discretas. O condutor atirou o boné para trás, com um piparote, e olhou para Mathieu. A consciência de Marcelle abandonou a presa e diluiu se na noite. — Uma cerveja — pediu Mathieu. — Raramente aparece — disse o patrão. — Não é por falta de sede. — E verdade que temos sede. Parece que estamos no fim do Verão — disse o condutor. Calaram se. O patrão lavava os copos, o condutor assobiava baixinho, Mathieu sentia se contente porque eles olhavam no de vez em quando. Viu a sua cabeça no espelho: emergia, redonda e lívida, de um mar de prata. No Café Camus tinha se sempre a impressão de serem quatro horas da manhã, por causa da luz, uma névoa prateada que cansava os olhos, embranquecia os rostos, J E A N P A U L SARTRE as mãos, lavava os pensamentos. Bebeu. Reflectiu. «Ela está grávida. Incrível. Não parece verdade.» Parecia lhe, isso sim, chocante, grotesco como quando um velho e uma velha se beijam na boca: depois de sete anos, aquelas histórias não deviam acontecer. «Ela está grávida.» Tinha no ventre uma pequena maré translúcida que inchava docemente, que era corno um olho: «E desenvolve se no meio das porcarias que ela tem no ventre, e vive.» Viu um alfinete comprido avançando na penumbra. Um ruído mole e o olho estourou, furado; ficou apenas uma membrana opaca e seca. «Ela vai ver a velha, vai para o talho.» Sentia se venenoso. «Chega.» Mexeu se: eram pensamentos lívidos, pensamentos das quatro horas da manhã. — Boa noite. Pagou e saiu. «Que é que eu fiz?» Andava devagar, procurando lembrar se. «Dois meses...» Não se lembrava de nada, talvez fosse depois daquelas férias da Páscoa. Tomara Marcelle nos braços como de costume, com ternura sem dúvida, mais por ternura do que por desejo; e no entanto... «Um filho. Eu pensava dar lhe prazer e fiz lhe um filho. Não compreendi o que fazia. Agora vou

entregar quatrocentos francos a essa velha, e ela vai enfiar o instrumento entre as pernas de Marcelle, e raspar; a vida partirá como veio; e eu continuarei tão estúpido como dantes. Destruindo esta vida como a criei, não sabia o que fazia.» Riu secamente: «E os outros? Os que gravemente decidiram ser pais e se sentem genitores quando contemplam o ventre das suas mulheres... Compreenderão melhor do que eu? Fizeram no às cegas, ao acaso. O resto foi trabalho em câmara escura e em A gelatina, como a fotografia. Isto faz se sem eles.» Entrou no pátio e viu uma luz por baixo da porta. Era ali. Estava envergonhado. Mathieu bateu. — Quem é? — perguntou urna voz. — Gostaria de falar consigo. — Não é hora de vir a casa das pessoas. — Venho da parte de Andrée Besnier. A porta abriu se. Mathieu viu uma madeixa de cabelos amarelos e um nariz avantajado. — Que é que quer? Não venha como polícia porque não me apanha. Estou em ordem. Tenho o direito de deixar a luz acesa a noite inteira, se quiser. Se o senhor é inspector, mostre me o seu cartão. — Não sou da Polícia — disse Mathieu. — Tenho uma complicação e disseram me que podia procurá la. — Entre. Mathieu entrou. A velha vestia calças de homem e uma blusa com fecho éclair. Era muito magra, de olhos inexpressivos e duros. — Conhece Andrée Besnier? Encarava o com um ar furioso. — Sim — disse Mathieu. — Ela veio procurá la o ano passado, nas vésperas do Natal, porque estava atrapalhada. Ficou bastante doente e a senhora foi quatro vezes à casa dela para a tratar. — E depois? Mathieu olhava as mãos da velha. Eram mãos de homem, de estrangulador, ásperas, gretadas, de unhas curtas e pretas, com cicatrizes e cortes. Sobre a primeira falange do polegar esquerdo havia equimoses violáceas e uma crosta negra. Mathieu estremeceu ao pensar na carne tenra e morena de Marcelle. — Não venho por causa dela — explicou. — Venho por causa de uma das suas amigas. A velha riu secamente. — É a primeira vez que um homem tem o descaramento de se vir pavonear na minha frente! Eu não quero negócios com homens, compreende? O quarto estava sujo, em desordem. Havia caixotes em todos os cantos e palha no chão ladrilhado. Em cima de unia mesa, Mathieu viu uma garrafa de rum e um copo meio vazio.

— Vim porque a minha amiga mo pediu. Ela não pôde vir hoje e pediu me que me entendesse consigo. No fundo da sala via se uma porta entreaberta. Mathieu tinha quase a certeza de que havia alguém atrás dessa porta. A velha falou: — Essas pobres raparigas são muito tolas. Basta olhar para si para ver que é do género de tipo capaz de fazer um disparate, derrubar copos ou partir espelhos. E apesar disso elas confiam lhes o que têm de mais precioso. Afinal têm aquilo que merecem. Mathieu continuou correcto. — Gostaria de ver onde costuma operar. A velha deitou lhe um olhar de ódio e desconfiança. — Não faltava mais nada! Quem é que lhe diz que eu opero? Do que é que está a falar? No que é que se está a intrometer? Se a sua amiga me quiser ver, que venha. Com ela, só com ela é que me hei de entender! Ah!, queria ver, não? Ela também quis ver, antes de se pôr entre as suas patas? O senhor fez uma burrice. Pois bem, peça a A Deus para eu ser mais habilidosa, é tudo o que lhe posso dizer. Adeus. — Adeus, minha senhora — disse Mathieu. Saiu... Sentia se liberto de um peso. Dirigiu se vagarosamente para a Avenida de Orleães. Pela primeira vez desde que a deixara, podia pensar em Marcelle sem angústia, sem horror, com uma terna tristeza. «Amanhã vou a casa da Sara», pensou. II oris olhava para a toalha de quadrados vermelhos e pensava em Mathieu Dela rue. Pensava: «Um tipo às direitas.» A orquestra parara, a atmosfera estava azulada e as pessoas conversavam. Boris conhecia todos na salinha estreita; não era gente que vinha ali para se divertir: apareciam depois do trabalho, eram sérios e tinham fome. O negro que estava em frente de Lola era cantor no Paradise; os seis tipos com as miúdas eram músicos do Nénette. Certamente acontecera lhes qualquer coisa, uma inesperada felicidade, talvez um contrato para o Verão (na antevéspera tinham falado vagamente de uma boïte em Constantinopla), porque tinham encomendado champanhe e normalmente eram mais sóbrios. Boris também viu a loura que dançava vestida de marinheiro no Java. O magro, alto e de óculos, que fumava um charuto, era director de um cabaré da Rua Tholozé, que a Polícia tinha fechado. Dizia que o ia reabrir muito J E A N P AUL SARTRE em breve, pois tinha protecções na alta roda. Boris lamentava amargamente não ter lá ido, mas iria sem dúvida quando voltasse a abrir. O tipo estava com um pederasta que, de

longe, parecia agradável, um louro de rosto fino, que não era muito afectado e tinha um certo encanto. Boris não gostava dos pederastas porque andavam sempre atrás dele, mas Ivich apreciava os e dizia: «Esses, pelo menos, têm a coragem de não ser como toda a gente.» Boris tinha muita consideração pelas opiniões da irmã e fazia grandes esforços para suportar os tipos. O negro comia chucrute. Boris pensou: «Não gosto de chucrute.» Queria saber o nome do prato que tinham servido à dançarina do Java: um naco escuro que parecia bom. Havia uma mancha de vinho tinto na toalha. Uma bela mancha, dir se ia que a toalha era de cetim naquele lugar. Lola espalhara uma pitada de sal sobre a mancha, porque era cuidadosa. O sal estava cor de rosa. Não é verdade que o sal come as manchas. Tinha de dizer a Lola que o sal não come as manchas. Mas era preciso falar e Boris sentia que não podia falar. Lola estava ao seu lado, cansada e quente, e Boris não conseguiu dizer uma só palavra. Tinha a voz morta. «Eu seria assim se fosse mudo.» Era voluptuoso, a voz flutuava no fundo da garganta, suave como algodão, e não podia sair, estava morta. Boris pensou: «Gosto muito de Delarue.» E regozijou se com isso. Tinha tido muito mais prazer se não sentisse, de todo o seu lado esquerdo, das têmporas à cintura, que Lola o olhava. Era por certo um olhar apaixonado. Lola não sabia olhar de outro modo. Era um pouco incomodativo porque os olhares apaixonados pedem, como retribuições, gestos amáveis e sorrisos; e Boris não era capaz do menor movimento. Estava paralisado. Só que não tinha muita importância; não tinha obrigação de ter percebido o olhar de Lola; adivinhava o, mas isso era da sua conta. Assim como estava, com o cabelo caído sobre os olhos, não via nem um bocadinho de Lola e podia muito bem imaginar que ela olhava a sala e toda aquela gente. Não estava com sono, sentia se à vontade e satisfeito porque conhecia todos na sala. Viu a língua rósea do negro. Boris estimava aquele negro. Uma vez, o negro descalçou se, pegou numa caixa de fósforos com os dedos do pé, abriu a, tirou um fósforo e acendeu o, tudo com os pés. «Aquele tipo é formidável», pensou Boris com admiração, «toda a gente devia saber servir se dos pés como das mãos.» Doía lhe o seu lado esquerdo de tanto ser olhado. Sabia que se aproximava o momento em que Lola iria perguntar: «Em que estás a pensar?» Era absolutamente impossível atrasar a pergunta; não dependia dele; Lola havia de a fazer a hora certa, como uma fatalidade. Boris tinha a impressão de gozar um bocadinho de tempo infinitamente precioso. No fundo era agradável. Boris via a toalha, via o copo de Lola (Lola tinha ceado, nunca jantava antes do seu número de canto). Bebera Château Gruau,

tratava se bem, permitia se uma porção de pequenos caprichos porque andava desesperada com a velhice que a ameaçava. Sobrara um resto de vinho no copo, dir se ia sangue empoeirado. O jazz pôs se a tocar // the moon turns green e Boris perguntou a si próprio: «Saberei cantar esta música?» Seria agradável passear pela Rua Pigalle, ao luar, assobiando uma melodiazinha. Delarue tinha lhe dito: «Você assobia como um porco.» Boris riu se por dentro e pensou: «O estupor!» Transbordava de simpatia por Mathieu. Olhou de lado sem virar a cabeça e reparou nos olhos cansados de Lola por baixo de uma sumptuosa madeixa de cabelos ruivos. No fundo, suporta se sem grande esforço um olhar. Bastava habituar se àquele calor peculiar que vem queimar o rosto quando se sente que alguém nos observa de modo apaixonado. Boris entregava se docilmente aos olhares de Lola, o corpo, a nuca magra, o perfil diluído que ela tanto amava. Assim, por esse preço, podia abstrair se profundamente em si mesmo e ocupar se com os pensamentos miúdos e agradáveis que nasciam dentro dele. — Em que é que estás a pensar? — perguntou Lola. — Em nada. — Está se sempre a pensar em qualquer coisa. — Não pensava em nada. — Nem mesmo se gostas do que estão a tocar ou se gostarias de aprender a sapatear? — Sim, em coisas como essas. — Estás a ver? Porque é que não me dizes? Quero saber tudo o que pensas. — Essas coisas não se dizem. Não têm importância. — Não têm importância? Parece que só te deram uma língua para falar de filosofia com o teu professor. Ele olhou e sorriu: «Gosto dela porque é ruiva e parece velha.» — Que miúdo estranho — disse Lola. Boris piscou os olhos e pôs um ar suplicante. Não gostava que falassem dele; era tão complicado. Perdia se nessas divagações. Dir se ia que Lola estava colérica, mas era simplesmente porque o amava com paixão e se atormentava por causa dele. Havia momentos assim, em que era mais forte do que ela, em que se aborrecia sem motivo, se angustiava, contemplava Boris perdidamente, não sabia o que fazer dele e as mãos agitavam se lhe sozinhas. A princípio, Boris estranhara, mas aos poucos habituara se. Lola pousou a mão na cabeça de Boris. — Queria saber o que tens aí dentro — disse. — Faz me medo. — Porquê? Juro que é inocente — observou Boris a rir.

— Estás aí muito terno — disse Eola —. talvez. Avançava os lábios. disse consigo mesmo. e. O seu rosto pálido estava desfigurado por uma generosidade triste. muito simpática. — Estou aqui. aqueles lábios enormes de cantos caídos de que ele tinha gostado. mas deve seguramente andar pêlos quarenta. cada um dos teus pensamentos é uma pequena fuga. Despenteou lhe os cabelos. . vem assim. Além disso. Achava a. Tu dizes duas vezes criança em Lês Ecorcbés. produziram lhe o efeito de uma nudez húmida e febril no meio de uma máscara de gesso. dava Ihe uma espécie de fragilidade terrível. naquele instante. pergunto a mim própria para onde fugiste. — De quê? — És uma criança. com satisfação: «É engraçado como ela parece velha. — Tenho vergonha — disse Lola. — Não levantes a minha madeixa — disse Boris. resignado. acariciou a ligeiramente e largou a sobre a mesa. Tinham tanta vontade de me ouvir como de se enforcar. Teve vontade de beijar o rosto atormentado de Lola. tinha a sensação de estar a ser indiscreta. não diz a idade. Ele pegou lhe na mão. Lola suspirou e Boris pensou. desde que o amava: «Não posso fazer nada por ela». penso que estás bem comigo. Ele disse: — Divirto me quando dizes criança. Agora preferia a pele de Lola. Lola olhava o bem de perto. sabes. Achava isso reconfortante. — Não gosto que me vejam a testa. E que tagarelava sem parar. Mesmo assim aplaudiram quando entrei. mais só ainda. mas não sei como explicar. espontaneamente. de repente. Lola perguntou timidamente: — Tu não te chateias comigo? — Nunca me chateio.. tão branca que não parecia ser verdadeira. não há ninguém.. que tinha estragado a sua vida e ficara só. que não se revelava a princípio porque todos tinham a pele curtida como couro. Sarrunyan teve de mandá los calar. É uma linda palavra na tua boca. Só por isso iria ouvir te. pensou que ela estava acabada.— Sim. dava lhe uma certa segurança. Havia muita gente esta noite? — Uma cambada vinda nem sei de onde. eu nada posso.» Gostava que as pessoas que tinham afeição por ele parecessem velhas. Fiquei chateada. era precisamente o mesmo ar que tinha quando cantava Lês Écorchés. A voz era pesada e sombria como uma cortina de veludo vermelho. Desde que os sentira na boca.

Mas logo a cabeça de Boris se . Boris perguntava a si próprio se Mathieu lhe teria amizade. «Ela pensa que me aborrece». — Os meus pais saíram da Rússia em 17. Houve um silêncio. — Oh!. Boris não poderia amar uma mulher da sua idade. eu canto para viver. Mathieu explicava lhe coisas. atrapalhamo los e quando surgimos medem nos dos pés à cabeça. Naturalmente preferia a companhia de Mathieu.» Era mais de acordo com a moral. Claro que entre homens não deve haver sentimentalismos. falei com ele esta noite. Quando Boris estava junto de Lola. mas é tão russo como eu. Boris — disse bruscamente Lola —. Boris recordou de repente o rosto de Mathieu num dia em que ele ajudara Ivich a vestir o casaco. hesitam. pensou Boris. — Talvez ele tenha aprendido russo. seguram a cadeira da mulher enquanto ela se senta. tinha a aprovação da própria consciência. — Desgosta me cantar para estes idiotas. também vivias do canto. pensou Boris. tinha eu três meses. — Se imaginasse que iria acabar assim. Evidentemente. um tem de ser mais velho do que o outro. e Lola apressou se a acrescentar: — Sabes. E depois. Um homem é mais interessante. nunca teria começado. — Mas quando cantavas no music hall. Com as pessoas maduras. porque Mathieu não era uma simples mulher. Mathieu não era assim com Ivich. o novo. Se ambos são jovens. Mathieu era indiferente e brutal. aquele estranho sorriso envergonhado e terno. — Mas tu — disse Lola — poderias dizer me se ele tem boa pronúncia. É delicado. não sabem como se hão de conduzir. — Não era a mesma coisa. sabem orientar se e o seu amor é consistente. Acho isso muito natural. curvam se. sentia se justificado. — É engraçado que tu não saibas russo — concluiu Lola. o tipo que canta depois de mim. O sorriso de Mathieu: naquela boca amarga que tanto agradava a Boris. «Ela é extraordinária».— É normal. Prometeu a si próprio dizer lhe de uma vez para sempre que ela nunca o aborrecia. Mas não hoje. «tem vergonha de me amar porque é mais velha do que eu. não. Gente que aparece porque precisa de retribuir um convite e não pode receber em casa. — Já sei. têm a impressão de andar a brincar aos jantarzinhos. Se os vis A sés chegar cheios de sorrisos. mas há muitas maneiras de mostrar que se gosta e Mathieu já poderia ter tido um gesto que revelasse a sua amizade. estou farta — disse Lola. noutro dia. sentiu um aperto desagradável no coração. São sabidas. sonhadora.

Quando eu estou contigo pouco me importa que seja aqui ou ali. Para mim um tipo simpático é um amigo do género do Maurice. E um amigo notável. — Não é a mesma coisa. Diz me que ele parece inteligente. Não seria exactamente essa palavra que eu escolheria. Só não percebi o que é que viste nele de extraordinário. — Porque pensas em Delarue? Gostarias de estar com ele? — Estou contente de estar aqui. Enfim. — Sim. — Não? — indagou Boris surpreso. Lola aproximou dele o seu belo rosto arruinado. de que eu não desgosto. Lola sorriu tristemente. é impressão minha. querido. que é culto. — Não poderias de vez em quando pensar também um pouco em mim? — Não preciso de pensar em ti. — Estás contente de estar aqui ou de estar comigo? — E a mesma coisa. há qualquer coisa de duro e irónico. Repara nas mãos dele. não é contentamento. — Olha para mim. eu não te disse que não podia suportá lo. um tipo assim agradável. Ela olhava o com ansiedade. mas não é simpático. — Para ti é. mais três palavras e ela vai começar a tossir. — Por isso mesmo. não para mim. — Ei lo a sonhar de novo — murmurou Lola. Explica me. — São mãos grosseiras de operário. eu só quero compreender.» — Acho o simpático — disse com prudência. mas depois é preciso não o ver beber com aquela boca esquisita de pastor protestante. Quando o vejo agarrar no copo de uísque. mas ele não põe as pessoas à vontade porque não é carne nem é peixe. mas é que ele não é operário. Lola teve um sorriso contrafeito. engana as pessoas. já te vi com Delarue. Lola. tonto. Não te faças parvo. tu estás aí. como se acabasse de fazer força. está bem. — Não. . parecia implorar. mas incomoda me falar te dele. Boris pensou: «Não é verdade. sabes muito bem o que é isso. Tremem sempre ligeiramente. aborrecido. — Que é que têm as mãos? Eu gosto delas. Não posso explicar. — É o que dizes sempre. porque já me disseste que não podes suportá lo. Não é bem assim. Aliás eu nunca me sinto contente quando estou contigo.encheu de fumo e ele não pensou em mais nada. — Olha como ele se defende! Mas. não sabes onde é que te hás de meter quando ele aparece. porque é que gostas tanto dele? — Não sei. — No que é que estás a pensar? — Em Delarue — disse Boris.

que usa gravatas que o empregado do meu hotel não usaria. Eu sei que é a profissão que exige isso. pensou Boris. Boris tinha a certeza de que ela se mortificava. que és tão severo com a maneira como as pessoas se vestem. deve reflectir sobre tudo. que é o tipo que não gosta de nada simplesmente. não te incomodas quando se trata dele. que nunca as achas muito elegantes. as pessoas olhavam no escandalizadas e as costureirinhas que saíam do trabalho riam se lhe na cara. nem de beber. professor.» Já não a sentia. quando se ensina: eu tinha um professor que falava como ele. devia gostar . por exemplo. mas já não estou na escola. nem de dormir com uma mulher. bem o percebo numa data de coisas. é como a voz dele. não o perturbava de forma alguma. Mesmo quando estava só. «Que complicação». que anda sempre tão mal arranjado. e Boris achava natural que cada uma delas o tentasse afastar das outras. uma linda camisola. um bruto ou uma pessoa distinta. Pensou que estava com uma camisola azul de gola alta com o ponto grosso e ficou satisfeito. se lhe observarmos os olhos. pensou Boris com irritação. mas não as duas ao mesmo tempo. O que é ridículo é querer dar nas vistas e não o conseguir. por exemplo. «É isto que me intimida». Não sei se há mulheres a quem isso agrade. parece uma filho. estás influenciado. As pessoas que gostavam dele não eram obrigadas a gostar umas das outras. Explicou: — Quando as pessoas não se preocupam em andar bem vestidas. O dedo roçou a palma de Lola e ela olhou o com gratidão. tu. Como ele foi bom professor. Há muito que ele pensava estar predestinado a isso. mas digo te francamente que me repugnava que um tipo assim me tocasse. mas no fundo. não sabia parar quando começava. não o vês com os meus olhos.acho o austero e. não é? — Eu sei escolher o que me convém — disse Boris com modéstia. Ela era assim. Boris estava entorpecido e passivo. Compreendo que se possa ser uma coisa ou outra. nem de comer. Lola disse de repente: — Não me chegaste a dizer porque o achavas tão «bem». — Compreendo te muito bem — continuou Lola conciliadora —. Disse para si próprio que lhe seria mais fácil mostrar se terno com Lola se ela não insistisse naquelas expressões de humildade. não gostaria de sentir sobre mini essas mãos de lutador e ser trespassada pelo seu olhar glacial. no metro. uma voz cortante de senhor que nunca se engana. deve haver. Mas sentia se tranquilo. Lola pegara lhe na mão e fazia a saltar entre as suas. — Tu consegues. Boris olhou a mão que saltava e pensou: «Não parece minha. e isso irrita me. Lola respirou fundo. pastor. não tem importância que não se seja elegante. vê se logo que é culto. Quanto a deixar que uma mulher já madura lhe acariciasse a mão em público. Isso divertiu o e ele ergueu um dedo para a fazer viver.

— E tu achas bem não se prender a coisa nenhuma? Tu não te prendes a nada? — A nada. não sabia onde se enfiar. tinha se a impressão de que se iam partir. Mas os olhos permaneciam febris e duros. por desespero ou . Era um sacrilégio intolerável e ele desatara a soluçar. deixara cair a colher. — Não é bem a mesma coisa. provavelmente. mandaram no apanhá la e ele recusara se. Se se baixavam. Boris conversara com Ivich. — Nem um bocadinho a mim? — Ah! A ti sim. É demasiado difícil de explicar. e ele achava isso estúpido. telefonava lhe sempre. Oh! — gemeu Boris —. os velhos eram amargos. Tudo aquilo não a favorecia. Lola era urna vítima. De idade. Ela mortificava se. Lola pareceu infeliz e Boris voltou a cabeça. Sob outro ponto de vista. — Delarue tem paixões — disse. Mathieu explicava lhe que as pessoas deviam ter paixões. Uma vez. Boris considerava os adultos como divindades volumosas e impotentes. ficava se colocado num dilema. como em Lola naquele momento. Desde então. Não gostava de a ver quando ela tinha aquela expressão. E se as lágrimas lhes subiam aos olhos. de outro um certo temor religioso.disso. também. Contemplava a: o ar estava azulado em volta dela e o rosto era de um cinza pálido. Então o pai dissera lhe com uma atitude majestosa. naturalmente apreciava Lola por ser tão apaixonada. uma cabeça calva. era uma questão de génio. Mas dependia da maneira como se encarava a coisa: se se faz para se destruir. Era fiel a Lola. quando Boris era pequeno. — Diz lá porquê? J E A N P AUL SARTRE — Porque é um homem às direitas. e era muito comovente. e ambos tinham concordado que estava certo. obstinadamente. e Descartes também o dizia. só estou presa a ti. eu é que vou apanhá la. Até certo ponto estava certo. inesquecível: «Pois bem. — Isso não o impede de não se prender a nada. mas não podia fazer nada. — Pois então eu também sou livre. Ouvira um ranger de ossos. de um lado a vontade de rir. ia buscá la três vezes por semana à saída do Sumatra. É livre. — Eu não sou livre? — perguntou Lola.» Boris vira um corpo alto curvar se com rigidez. continuando a pensar em voz alta. Lágrimas de adulto eram uma catástrofe mística. Ele não se prende a coisa nenhuma. como se a sua vida estivesse sempre em jogo. Quanto ao resto. não tinha sorte. e então dormia em casa dela. Fazia tudo o que dependia dele. estás a chatear me. Boris não respondeu. se davam um passo em falso e se se estendiam no chão. qualquer coisa como o choro de Deus sobre a maldade do homem. E depois armava se em heroína.

Ela abriu os olhos e olhou o . bem instalado. — É assim. pergunto: quem é mais livre. O pederasta levantara se e fora convidar a dançarina do Java. essa mulher que não sai de casa. Como liberdade não há melhor! Eu só tenho os meus trapos. — Vamos dançar. nem sequer sei se serei contratada no Verão. racionalmente. Dançaram. no outro dia. — Fazes me rir — disse Lola secamente. Apertou a nos braços e respirou fortemente. Ele nunca se deixaria prender assim. vive como um funcionário. no Sumatra. Fica com ela porque precisa de dormir com alguém. — Não consigo compreender. Aqui entre nós. vivo no hotel. — Tenho vontade de te matar quando ficas assim. Lola fechava os olhos e ele ouvia a sua curta respiração. — Ah! — gritou Lola magoada —. estou muito agarrada a ti? Estúpido. aposentação garantida. Entusiasmara se nessa noite porque queria vencer Mathieu no seu próprio terreno.. E ainda por cima essa ligação de que me falaste. Pensou: «Ivich deveria aprender a sapatear. A liberdade dele não se vê. Lola pesava nos seus braços. — disse Lola sacudindo a cabeça. J E A N P AUL SARTRE Ele estava irritado. — Está se nas tintas para a casa? Vive lá como viveria noutro lugar qualquer. Boris pensou que preferia dançar com Ivich. — Sempre a mesma mania de colocar Delarue acima dos outros. Lola parecia ausente. Mas Lola fazia o com um certo abandono. e Boris teve vontade de dançar. Passou se algum tempo. o jazz tocava agora St. Lola riu com sarcasmo e a cabeça de Boris repentinamente encheu se de fumo. Lola pouco se importava com a liberdade. E achas que ele não gosta da tua irmã? Bastava olhá lo. tem ordenado fixo.para afirmar a própria liberdade está certo. mas era pesada. Acrescentou: — Estás muito agarrada a mim. Boris pensou que ia vê lo de perto e ficou contente. Nem sequer estava intoxicada. só merece elogios. ele teve vontade de a fazer sofrer um pouco. — Da Ivich? Magoas me. Ao passo que Mathieu é o voluntariamente. aliás ávido.» Depois não pensou mais nada por causa do perfume de Lola. — Não é a mesma coisa — repetiu Boris. sozinha. por princípio. E penso que ele também se está nas tintas para a mulher. James Infirmary. ele ou eu? Ele está sossegado. Dançava A bem e tinha um perfume gostoso. Então. está dentro dele. porque é que não é a mesma coisa? — Tu és livre sem querer — explicou Boris.. Esta dançava admiravelmente bem.

— Compreendo — disse Boris com seriedade. Depois. se isso te apetece.atentamente. Ele teve vontade de gritar: «Aperta me com mais força. Mas quando um tipo fora realmente jovem ficava marcado para o resto da vida. — Mas. pisou os pés de Boris. era horrível. Boris viu com satisfação que o pederasta se aproximava deles dançando. se tu próprio dizes que não te lembras disso senão quando eu to pergunto! Boris riu. e a música recomeçou. que. — Porque é que fazes essa cara? — Porque me perturbas.. «Já foi jovem». Se não é espontâneo. faz me sentir que te amo!» Mas Lola não dizia nada. Aguentava até aos vinte e cinco anos. A maior parte das vezes. — Porquê? Não é verdade então que gostas de mim? —É — Porque não dizes isso espontaneamente? É sempre preciso que eu to pergunte. J E A N P AUL SARTRE Lola não respondeu. Amo te. basta me olhar e sentir que te amo. Acho que essas coisas não se dizem. de longe. bem como em torno da boca: as narinas eram finas como se estivessem agonizantes. podes dizê lo. Mas quando o pôde examinar de perto. é tão raro perguntar te alguma coisa. mas não deves perguntar me se te amo.. Boris contemplou com horror aquela velha criança sem barba. — Querido. — Desagrada te quando digo que te amo? — Não. Pararam e aplaudiram. fazes me dizer asneiras. e o seu rosto fechara se sobre a sua felicidade. não tem sentido. Pode ter se um grande sentimento por alguém e não ter vontade de dizer nada. Um rosto . Sorria vagamente. mal lhe escondiam o crânio. mas sob os olhos de porcelana havia rugas. — Porque não me ocorre. pensou. baixara as pálpebras. Disse apenas: — Querido. meu tonto. Mas há momentos em que é o teu amor que eu quero. Tinha grandes olhos azuis de boneca e uma boca infantil. — Mas deverias esperar que isso acontecesse. e os cabelos. por exemplo — porque nunca tinham tido adolescência. se assemelhavam a um halo dourado. olha para mim. era a sua vez. — É verdade. Conservava no rosto o verniz da juventude e envelhecera por baixo. — Gostas de mim? — Gosto — disse Boris com uma careta. Havia tipos que pareciam feitos para ter trinta e cinco anos — Mathieu. estava sozinha agora. desiludiu se: tinha pelo menos quarenta anos. Os olhos de Lola ficaram vermelhos. Pôs se a olhar para Lola e bruscamente disse lhe: — Lola.

sentia a cada passo a mocidade escorregar lhe entre os dedos. A Rua Blanche estava cheia de tipos velhos e duros.. e cumprimentaram no. Encontraram o maestro Piranese. — Vamos. talvez. Lola morava num hotel da Rua Navarin. Lola mostrou se inquieta. Boris já não pensava em nada. «Isto ficará». Mas que é que eu fiz? Devias dizer. não.» Não se poder ver ao espelho. vá ter barriga. que é que se passa? J E A N P AUL SARTRE — Estou exausto. — Estás zangado.calmo e deserto. Pôs a capa de veludo sobre os ombros. porque assim eu poderia explicar te. Até aos vinte e cinco anos. que Lola mandara ampliar. pensou. pois não? Não gostas de mim. — Estás sinistro — disse Lola —.» Olhou para Lola com ódio.» — Que é que tens? — perguntou Lola. sim. . E cada instante vivido usava um pouco mais a sua mocidade. Por favor. «Ela mata me. do Chat Botté. Saíram. com dores de cabeça. As suas pernas pequeninas mexiam se sob o ventre rechonchudo. «Eu também. Não me queres mal. Era uma fotografia de passe. Que é que te fiz? — Não tenho nada.» Teve vontade de rasgar a fotografia. talvez ganhasse alguns anos. — Parece que me tens raiva. Mas para isso era preciso que não me deitasse todas as noites às duas horas. A um canto uma mala coberta de etiquetas e na parede do fundo uma fotografia de Boris. ao ralenti.. querido. Não deve ser irremediável. Agora era sinistro. «Depois estoiro os miolos. querido? Queres um comprimido? — Não. Boris. és tonta — protestou Boris molemente.» No ano passado estava sossegado. Deve ser um mal entendido. «quando eu for uma ruína. Tirou a chave do cacifo e subiram em silêncio. Lola agarrou lhe no queixo e levantou lhe a cabeça. pensou Boris. O quarto estava nu. não quero envelhecer. — Nada. sentir os próprios gestos secos e quebradiços como se fosse de madeira morta.» Já não podia suportar aquela música e aquela gente. nunca pensava nessas coisas. presa com punaises. Disse: — Vamos para casa? — Vamos já. Voltaram para a mesa. já está a passar. Aqui hei de parecer eternamente jovem. — Não estás doente. Boris sentiu se abandonado e o pensamento desagradável invadiu o de novo: «Não quero. viver devagar. Lola chamou o empregado e pagou. mas sentia se sinistro. «Tenho ainda cinco à minha frente». «Se ao menos pudesse poupar me.

estava um pouco chocado. brancos como os cabelos de uma velha. minúsculos e duros. uma cabeça de Medusa. sentia se nela. Pensou: «São os seus últimos dias de sol. como aliás todas as ideias. Estava completamente calmo. de certeza que já estava nua.» Tinha a cabeça pesada e no entanto vazia. Boris desenvencilhou se. ela cheirava bem. Arquejava um pouco. Lola atirou a capa sobre a cama e os seus braços apareceram nus. Crispou levemente a mão e a seda deslizou lhe sob os dedos como uma pele fina. Apertou Lola contra o peito e sentiu a doçura espessa dos seios. — Mas não se passa nada! Pôs os braços em volta do pescoço de Lola e beijou a na boca. — Ah! — murmurou Lola. O desejo aspirava lhe as ideias sombrias. Vou despir me à casa de banho. todo músculos. Depois teve uns momentos de sono e desvario: olhou os braços de Lola. Boris sentiu que desejava Lola e ficou satisfeito. envolvia a nos seus braços e protegia a contra a velhice. As pernas de Lola puseram se a tremer e Boris perguntou a si próprio se não iriam estender se ali no tapete.» Do outro lado da porta ela esperava o. pareceu lhe segurar a velhice nas mãos e que devia apertá la com toda a força até a abafar. — Como tu me apertas — gemeu Lola. a pele verdadeira resistiu por baixo.» Já não a odiava. não sabia exactamente no que pensava. Boris e Lola permaneceram de pé naquele mesmo lugar em que o desejo os apanhara. Pensou: «E engraçado. «Preciso de falar com Delarue. porque não tinham forças para se afastar. acariciante e morta. Ele era agora apenas aquela mão sobre uma carne de seda. rígido e magro.diz me o que se passa. Boris respirava o hálito perfumado e sentia de encontro aos lábios uma nudez húmida. Houve um redemoinho na sua cabeça e ela esvaziou se rapidamente. Lola estremeceu. — Dá me o pijama. «Uma destas manhãs ela ir se á abaixo de repente. Lola cobriu lhe o rosto de beijos. Quero te.. fria como uma luva de camurça. Entrou e fechou a porta à chave. Detestava que Lola entrasse enquanto se despia.. feliz. Dir se iam espinhos profundamente enterrados. Tinha a mão na anca de Lola e sentia a carne através do vestido de seda. Estava perturbado. Lavou o rosto e os pés e divertiu se a pôr talco nas pernas.» E apertou a mais fortemente. — Magoas me. Ela inclinou se para trás e ele estava fascinado por aquela cabeça pálida de lábios carnudos. Mas ele não . enrolaram se no pescoço de Boris. Boris DADE DA RAZÃO via lhe as axilas raspadas e marcadas de pontinhos azulados. elástica.

Os lábios escuros. inerte. atraindo o a ela —. Era uma Lola diferente. exactamente como em Nimes. — Não — disse Boris. pálido dentro do vermelho. Apagou a luz. adoro te.J E A N P AUL SARTRE tinha pressa. tão doce. cheio de odores nus.. — Tira o pijama — suplicou Lola. Ia ser necessário. era o que Lola não compreendia.» Uma onda pastosa subia lhe dos rins à nuca. Ia acontecer alguma coisa. Ele deixou durante algum tempo a mão pender. como a morte sanguinolenta do touro. vou perder a cabeça.. de gosto forte. com um triângulo de pêlos ruivos. mas antes era impossível não ter medo. «não vou perder a cabeça como das outras vezes. Daí a um bocado. agora. e espiava o através dos olhos semicerrados. continuava a ver o rosto de Lola. terrível e pesada. vem. Ela tinha a pele doce. Não demorou muito a gemer e Boris pensou: «Pronto. Todas as vezes Lola lhe pedia que tirasse o pijama e Boris recusava. Vem. junto das coxas de Lola. Mas pareceu lhe repentinamente que o erguiam pelo pescoço como um . Os seios eram um pouco moles. — Não quero — murmurou Boris. — Espera — disse Boris. inteiramente nua. Mas não viu um só sobre o esmalte branco. por causa do maldito anúncio luminoso. deslizar até ao fundo de uma sensualidade pesada. — Vem — disse Lola. Lola pegou na mão de Boris e pô la sobre o tufo de pêlos ruivos. Beijaram se. Ela estendeu lhe os braços. alguma coisa de inevi A tável. que parecia ter conservado o vestido de seda. cerrando os dentes. Boris deitou se perto de Lola e pôs se a acariciar lhe os ombros e os seios. Boris aproximou se da cama e encarou a com um misto de perturbação e de desprazer. Não adiantara apagar a luz. quando o primeiro touro entrou na arena.. pois sobre o prédio em frente tinham colocado um anúncio luminoso. abriu a porta e entrou no quarto. As mãos de Lola enfiaram se por baixo do casaco e começaram a acariciá lo devagar. «Em todo o caso». e Boris era obrigado a recusar às vezes. — Fazes me cócegas. Boris riu. uma coisa terrível. Era bela. mas Boris gostava deles assim: eram seios de alguém que vivera. os olhos eram duros. O quarto ficou inteiramente vermelho. Tinha sempre umas exigências estranhas. preguiçosa e temível. ia bem.» Penteou se cuidadosamente por cima da bacia para verificar se lhe estavam a cair os cabelos. Uma vez que começava. Um corpo nu. Era um ritual. Boris sentiu se pesado e trágico. Vestiu o pijama. Depois levantou a docemente até aos ombros. pensou com irritação. O corpo sobre a coberta azul era prateado como a barriga de um peixe. Ela parecia sofrer. Lola estava estendida na cama.

Agitava os braços como se . não me faças mal. Tenho a impressão de que me escolheste por causa disso.» Lola arranjava se para dormir. É repugnante o amor. eu só penso em ti. Mathieu caminhava pelo meio da rua sob um céu de um azul límpido. o barulho da água eram alucinações. No entanto. Acariciou lhe os cabelos e houve um longo momento de silêncio.» Repetiu com asco: «Fisiológico. — Boris. é porque és orgulhosa. Os alucinados sedentos do deserto ouviam ruídos semelhantes. Lola saltou para a cama e tomou o nos braços. que adianta escolher uma mulher. tens de me amar. — Se estás sozinha é porque gostas — afirmou com voz clara —. tenho de pensar em ti o dia inteiro. serei casto. nunca me sinto tão feliz como quando estou ao lado de um homem. Se penso na minha vida. Boris já começava a ver girarem as estrelas. Ouviu Lola abrir a porta da casa de banho e pensou: «Quando romper com ela. Não se sabe o que se faz. Se não fosse assim gostarias de um tipo mais velho do que eu. erão. e abandonou se sobre o corpo de Lola e tudo girou num estremecimento vermelho e voluptuoso. Ela abraçou o furiosamente. meu amor. será a mesma coisa com todas. nunca me faças mal. ia encontrar se em pleno deserto. Não sejas cruel. e depois. ruídos de fonte. — Amo te apaixonadamente. quando Lola se pôs a falar. pensou. O quarto. Estou sozinha. não desejaria dormir com um tipo.» Sentiu se seco e puro. O ar era quente e denso. É tudo o que sei. A voz era estranha dentro da noite vermelha. sentimo nos dominados.» Ficou contente: «Hei de ser um monge quando deixar Lola. Estou sozinha! Boris acordou sobressaltado e encarou a situação com nitidez. É fisiológico. a luz vermelha. Boris tentou imaginar que era um alucinado sedento. Ela fê lo deslizar suavemente para o lado e saiu da cama. Boris ficou aniquilado. já não quero mais histórias. Eu sou demasiado jovem e não te posso impedir de estares só. Boris ainda a ouviu dizer «Adoro te». com um capacete de cortiça sobre os olhos. — Não sei — disse Lola. querido. 111 v. O ruído da água era agradável e inocente. Não é bem repugnante. és tudo o que eu tenho. — Querido — disse Lola. Boris ouviu o com prazer. com a cabeça no travesseiro. só te tenho a ti. tenho vontade de me atirar à água. mas tenho horror a perder a cabeça. «prefiro os homens às mulheres. O rosto de Mathieu surgiu de repente: «É engraçado».coelho. e adormeceu. Estou nas tuas mãos. deitado sobre a areia.

Dinheiro. abriu. um enterro ao sol. — Entre. entre. Por trás das portas fechadas. Para elas o dia também ia começar. Uma direcção. Que dia? Mathieu estava ligeiramente ofegante quando tocou.. Não precisava de ouvir o vergonhoso segredinho de alcova que Mathieu ia confiar a Sarah. um universo sadio. Era um obstáculo. de disci plina. pensou Mathieu contrariado. de trabalho manual. Parou no patamar interno. havia uma amizade agonizante entre eles. Mathieu empurrou a porta envidraçada e penetrou no estúdio de Gomez. Sarah morava no sexto andar e naturalmente o elevador não funcionava. aborrecido: «Digo J E A N P AUL SARTRE isto cada vez que subo uma escada. — Quem é? — perguntou Sarah. Sarah dar lhe ia a direcção.» Ouviu uns passos miúdos. — Desejava falar com Sarah — disse Mathieu. Era ali. Pensou: «Devia fazer ginástica. de olhos claros. O Verão dos outros. Vai ficar muito satisfeita. sorridente. ofuscado pela luz intensa que entrava pelas grandes janelas empoeiradas. de quimono amarelo. Fê lo entrar no vestíbulo e desapareceu a correr. Rua Delambre. «É Brunet». no estúdio. — Delarue — respondeu Mathieu sem ligar. Ou Jacques. Mathieu fechou os olhos. 16. chocando as peças com os olhos e lambendo os lábios grossos. de esforços pacientes. E Brunet trazia consigo o ar de fora. Sarah estava sentada no sofá. um dia que iria arrastando até à noite. De avental. O homenzinho voltou a sorrir amavelmente.» Depois.abrisse pesadas cortinas de ouro. uma vela ardia diante dela: uma cabeça ruiva de braquicéfalo. Não o via há seis meses. — Weysmuller — disse com firmeza. Daniel emprestaria o dinheiro. era um alemão emigrado. Sarah levantou a cabeça e sorriu. com uma toalha apertada em volta da cabeça. via lhe a cabeça sob os cabelos ralos e espetados. Um homenzinho calvo. Doía lhe a cabeça. já o vira várias vezes no Dome sorvendo deliciado o seu café com leite ou inclinado sobre o tabuleiro de xadrez. . Tinha as orelhas roxas. Mathieu reconheceu o. Ela está lá em baixo. Mathieu debruçou se no corrimão.. O homenzinho pôs se sério e bateu os calcanhares. tinham muita coisa a dizer um ao outro. mulheres arranjavam as casas. Tinha sonhado que era um assassino e um resto do sonho ficara lhe nos olhos sob a luz ofuscante. mas não sentia prazer nenhum em encontrá lo ali. O Verão. Ia ser preciso correr por todos os lados. estreito e obstinado de revoltas e violências. Para ele um dia sombrio ia começar. Mathieu subiu a pé.

Não queria falar de Gomez. Partira para matar outros homens. Via de cima aquele rosto achatado e sem graça. Um dia soubera da queda de Irun no Paris Soir.— Bom dia. Pensou: «Ele procedia mal com Sarah. no meio de frascos de ácidos. — E Gomez? — perguntou Mathieu. — Tudo o que quiser. como se fosse comprar cigarros ao Dome. — Preciso de lhe pedir uma coisa. Conta as suas proezas — respondeu Sarah com ironia. com os dedos enfiados na cabeleira negra. — Viva — disse Mathieu. Mas aquilo não. e mais abaixo os seios pesados e moles. E acrescentou encantada com o prazer que esperava dar: — Sabe quem está cá? Mathieu voltou se para Brunet e apertou lhe a mão. ela estava nua. Não voltara. minado pela bondade. sabia o. Mathieu recordou a bêbeda e magnífica. — Viva. Matara outros homens. Ia fazer lhe um favor. bom dia! — disse. Mathieu sorriu também. Está em Barcelona. A sala ficara no estado em que ele a deixou: uma tela inacabada no cavalete. No quadro. A partida para a Espanha. Mathieu pensou no tipo da véspera e a garganta apertou se lhe. Perdoara lhe tudo. — Pensei que tivesses morrido. Passara muito tempo no estúdio. Para Sarah a vida humana era sagrada. Mathieu sentiu se satisfeito de ouvir aquela voz.» — Foi o ministro quem lhe abriu a porta? — pergunto Sarah alegremente. O quadro e a gravura representavam a Senhora Stimson. cantando com voz áspera nos braços de Gomez. — Teve notícias dele? J E A N P A U L SARTRE — Na semana passada. — Sabe que ele foi promovido a coronel? Coronel. Apesar de tudo. Apressou se em descer. as traições. — Que é que o traz por cá? — perguntou Sarah. uma lâmina de cobre semigravada sobre a mesa. a maldade. as fugas. Agora era portanto propriedade sua. O pequenino Pablo brincava por baixo da mesa com cubos de cartão. . Sarah olhava os ternamente. meio à mostra através do quimono. O rosto de Sarah corou de satisfação. — Sempre o mesmo. com um rosto de camponês. — Sente se ao pé de mim — disse Sarah com avidez. Brunet era grande e sólido. Os olhos de Brunet brilharam. Não parecia muito amável. não. velho traidor social — disse Brunet. Depois descera sem chapéu nem sobretudo. Gomez partira. Mathieu sentou se. Brunet riu sem responder.

. Lopez e Santi são quatro pensionistas. Não. a sério. — Annia vai se embora — disse Sarah. Puseram no fora do hotel porque não podia pagar. — Não é bem assim. Ela já não o escutava. como que a desculpar se. Voltou se para Mathieu e explicou contrariado: — Temos más informações acerca desse tipo. Se tivéssemos. Agora morre de fome. — Veio para cá com a mala. — E exactamente o que eu dizia — afirmou Brunet. pousando a mão no braço de Mathieu. — Sarah exagera — disse tranquilamente Brunet. Sarah pôs se a rir.— Que ministro? — indagou Mathieu espantado. você faria com que Paris fosse pêlos ares para evitar um aborrecimento aos seus protegidos. — Pertenceu ao governo socialista de Munique em 22. — E está claro que você o recolheu. — Porquê? Porquê? — exclamou Sarah com paixão. — E incrível — murmurou Brunet. J E A N P AUL SARTRE — Sarah — disse Brunet com ternura — . chorosa. — O meu ministro! — disse com indignação. Parece que há uns seis meses rondava os corredores da Embaixada da Alemanha. Mas mesmo que se trate de meras suposições. — Isso não interessa a Mathieu — disse Brunet a Sarah com ar de descontentamento. não tem para onde rir. olhava Sarah com o seu ar de camponês e repetia: — E incrível.. Gorara e os seus olhos verdes humedeceram se. — Você viu o. — O quê? Que é que é incrível? — Ah! — disse Sarah com vivacidade. mas é certo que não sacrificarei Weysmuller às intrigas do seu partido. Sarah sacudiu violentamente a cabeça. Sarah sorriu levemente. — Com Annia. A indignação de Brunet era pesada e calma. — Vocês não têm provas — observou Sarah. É. é tão abstracto um partido. — Mandar embora? — Diz que é um crime conservá lo aqui. — Não. Sarah mostra se de uma imprudência louca. A Mathieu contou pêlos dedos. Mathieu sobressaltou se e voltou se para ele. — O ratinho de orelhas vermelhas é um ministro — disse Sarah com um orgulho ingénuo. . ele não estaria aqui. — Venha em meu socorro. — Ele quer que eu mande embora o meu ministro — disse Sarah. — Arranjou trabalho. não temos provas. meu caro Mathieu. Não é preciso ser muito esperto para imaginar o que poderia lá fazer um judeu emigrado.

Fazia nascer em Mathieu a cumplicidade que se esboça. Explicou: — Gomez manda nos por vezes comunicações. Mas este assunto é vulgar e insignificante e juro lhe que não preciso de conselhos.Mathieu. Há muito que Brunet deixara de pedir conselhos de qualquer espécie a Mathieu. de um cão de guarda. os indivíduos que exibem feridas desagradáveis. Brunet encolheu os ombros. fica como testemunha! Se expulsar Wey muller. — Mathieu! — disse Sarah. Em tempos. horrível e triunfante. nenhum dos dois julgava o outro. «A amizade não suporta a crítica». não deixaria de o consultar. que se sente perante os esmagados. Brunet não lhe perguntava nada. ainda que seja de um professor de Filosofia. — De qualquer maneira está liquidado.» Mathieu não queria que Brunet o julgasse. ele vai atirar se ao Sena. de um intelectual sujo. Já formei a minha opinião. — A sério? — perguntou. Não parecia ser um só homem. Brunet empregara a forma interrogativa. Era entorpecente e exasperante. bem sabes que tais comunicações são confidenciais. — Sim — disse com indiferença. não se preocupava com a opinião de um burguês. dizia então Brunet. é tudo. «E feita de confiança. — Mathieu. — Vai atirar se ao Sena? — Vai agora! — disse Brunet. — Escute. Mas agora era nos camaradas do partido que pensava. Posso realmente levar um homem ao suicídio por causa de uma simples suspeita? — acrescentou Sara com desespero. seria este o lugar indicado para instalar um tipo que tem reputação de espião? Mathieu não respondeu. não lhe perguntava a sua opinião. e ficará na mesma. A calma do mar. Vai julgar me pelo que eu disser. — Gosto muito de Mathieu e aprecio muito a inteligência dele. — E o mesmo — disse Mathieu. mas era uma afirmação. Vem aqui. Levantou se. . Mathieu? — gritou Sarah com angústia. Portanto. — Voltará para a Embaixada da Alemanha e tentará vender se de uma vez. Se se tratasse de interpretar um trecho de Espinosa ou Kant. Brunet inclinou se para ela e tocou lhe no joelho. silenciosa e murmurante de uma multidão.» Talvez o dissesse ainda. por princípio. «Ele vai ouvir me com uma cortesia gelada. e aqui nos encontramos. tinha a vida lenta. — Quem é que tem razão? Diga alguma coisa. — Está a ouvir. Sarah — disse docemente. Diga me lá se ele é capaz de matar uma mosca! A calma de Brunet era grande. as vítimas de acidentes. Mathieu nada tinha a dizer.

Sarah. — Tenho de me ir embora — disse.. Pareceu finalmente decidir se. — Prometo. Olhava o hesitante.» Sentia se magoado. Não lhe estendia a mão. «Nem tudo está perdido». Aquele mesmo espanto implacável. Brunet subia os degraus com uma elasticidade surpreendente. Queime tudo. Mas se ele continuar aqui. Brunet pôs lhe a mão no ombro. uma coisa quente e modesta que se assemelhava à esperança. pensou. — Eu?. Brunet parecia duro e nodoso..» Brunet falou: não era a voz que Mathieu esperava. pensou Mathieu. E sentiu uma coisa estremecer lhe dentro do peito.. meu velho. Um desajeitado. poderei dar um pulo até à tua casa. — Estarás livre às duas horas? Tenho uns momentos livres. olhava o atentamente com um olhar duro. — Não irei tão depressa — disse Mathieu a rir. Se morresses. não será tão cedo. mas não tinha qualquer ressentimento J E A N P A U L. Mas. só o viria a saber um mês depois. Quem sou eu para lhe dar conselhos? Que fiz da minha vida? Brunet levantou se. Deu alguns . Voltou se e dirigiu se para a escada. — Como antigamente. Mathieu sentia se nu sob estes olhares. Sim. e sentia se cheio de uma humilde gratidão.. Passa se a vida a correr de um lado para o outro. Os olhos brilharam lhe. — Combinado — disse Sarah.. — Adeus. Eu tenho chatices. — Estás com uma cara! — disse gentilmente. e o que faz por nós já é considerável. SARTRE contra Brunet. por acaso. Brunet sorriu amistosamente. um tipo nu. até à vista. — Faça como quiser. Conservava o sorriso ingénuo e alegre. como o olhar de Marcelle na véspera. em migalhas. «Evidentemente. A Sentia a mão de Brunet no ombro. — E não deixe nada por aí. — Que é que tens? Mathieu também se levantou. «Quem sou eu para lhe dar conselhos?» Pestanejou. parecia aliviada. Conversaremos um pouco como dantes. Mas não é nada de importante.«Evidentemente». «E eu? Vê se o aborto no meu rosto. pedir Ihe ei que vá a minha casa quando tiver notícias de Gomez. — Não — disse —. Mathieu seguiu os com o olhar. — Vou acompanhá lo — disse Sarah.. estou inteiramente livre e espero te — disse Mathieu. — E estúpido. Brunet voltou se para Mathieu. Não pertence ao partido. Brunet ficou sério. não se tem tempo de ver os velhos amigos. Pensava: «Não me está a julgar».

Ouvia a voz de Sarah. Mathieu aproximou se da mesa e pegou num buril. indeciso. Estava ali. com uma pele branca e grandes orelhas. — Diz lá. fazia grandes esforços para sair. Mathieu deu alguns passos em direcção à escada. Vou impedir que nasça uma criança. um homenzinho que não andaria . Repetia com espanto: «Impedir que nasça. Dormia. havia uma bolha que inchava.. mas por detrás dos vagos humores que lhe enchiam as órbitas escondia se uma conscienciazinha J E A N P AUL SARTRE ávida.» O olhar de Pablo ainda não era humano e no entanto já era qualquer coisa mais do que a vida. Mathieu brincava com o buril. dentro de outra barriga. Não havia muito tempo que o miúdo saíra de uma barriga. Esquecera se de Mathieu. que pousara sobre a lâmina de cobre. entre dois sulcos que representavam um braço de mulher. levantou voo. Uma mosca é mais fácil de matar do que uma criança. disse para si Mathieu.. era mais ou menos isso. Pablo continuava a olhá lo.» Dir se ia que havia algures uma criança já formada. «Os miúdos». pequenino. sem saber porquê. uma carne pensante que grita e sangra quando a matam. pensou. Havia um homenzinho meditabundo e dissimulado. Perguntou: — E o que é que fazias quando eras pena? — Nada. mentiroso e sofredor. Do que é que estará à espera para voltar a descer? Deu meia volta. sinais e uni punhado de distintivos como os que se põem nos passaportes. deteve se no limiar e sorriu a Brunet. Ela abriu a porta. e isso via se. A mosca esvoaçou à volta dele. A porta bateu por cima da sua cabeça. Na verda de. olhou a criança e a mosca. e Mathieu barrava lhe a passagem. «Está quente».passos.. Uma mosca. para se libertar das trevas e se tornar parecida com aquilo. Uma criança.» Pablo pusera se a brincar novamente com os cubos. Mathieu estendeu a mão e tocou na mesa com o dedo. A mosca assustada pôs se a voar em círculos e pousou finalmente sobre a chapa de cobre. — Sonhei que era uma pena. conservava ainda um aveludado doentio de coisa vomitada. Mathieu sentia se incomodado. «E pensa». pensou. Tinha a impressão de estar a ser devorado pêlos olhares da criança. com aquela pequena ventosa pálida e mole que absorvia o mundo. O pequeno Pablo olhava o gravemente. Num quarto cor de rosa. aguardando o momento de saltar para o lado de cá do cenário. Encolheu os ombros: «Não vou matar ninguém. todos os seus sentidos são bocas. Era preciso agir depressa. ao sol. — Sabes o que é que eu sonhei? — perguntou Pablo. Mathieu atirou bruscamente o buril sobre a mesa. pois a bolha continuava a inchar. «são vorazes.. naquela sala.

que iriam rebentar com um alfinete.. luminosa. — Não. com insistência. nem na casca das árvores. Eu não quero casar. — Ela não gosta de crianças? — Não sente interesse por elas. Era uma adulta. — Escute. apaixonada. Ela estava inclinada sobre o corrimão. de carnes velhas. se se for a tempo. como um balão.. não queremos a criança. vocês vão. cheia de esperanças. não — respondeu Mathieu com vivacidade —. Há anos. ou negros como os de Marcelle. mãos que não tocariam nunca na neve. Mathieu não pôde suportar aquela tristeza que nem sequer era uma censura.. — Esperou muito tempo? Mathieu ergueu a cabeça e sentiu se aliviado. de raparigas doces e horríveis insectos. tente compreender me. Ele ia sorrir. Gomez disse mo — replicou com brutalidade. Ela ergueu bruscamente os olhos e acrescentou com paixão: — Não é nada. — Ah! Sim — disse ela —. ela seria a única a pôr luto por aquela morte minúscula e secreta. — Então? Que é que se passa? — disse avidamente. — Creio que isso lhe aconteceu há tempos... Calou se. sinistra. nem rosto algum.pelas ruas. — Pronto — disse Sarah. — Não é nada. havia uma imagem do mundo. secamente: — Marcelle está grávida. uma imagem povoada de jardins e de casas. encarar o futuro com confiança. um par de olhos verdes como os de Mathieu. . Sarah sorriu lhe e desceu rapidamente a escada. com um pé na calçada e outro na valeta.. sanguinolenta. nem o mar. Ela evitava julgá lo. que parecia sair da salmoura e nunca ter nascido. e que nunca haviam de ver os céus glaucos de Inverno. mas acho o casamento. Sarah — disse Mathieu irritado —. e olhos. nem na carne das mulheres. pesada e disforme. — Oh! Sarah parecia mais alegre do que aborrecida. Sarah era casada. Perguntou com timidez: — E vocês. as censuras e tinha apenas um desejo: tranquilizá lo. aborrecida. Ele acrescentou a seguir: — E depois Marcelle não quer filhos. Os grandes olhos velados encaravam no fixamente. tinha casado com Gomez cinco anos antes. O quimono balançava em volta das pernas curtas. Ele desviou o olhar e disse. pôs de parte as suas reservas.. Não é por egoísmo. — Sim.. compreendo. Baixou a cabeça e conservou se silenciosa. Sarah pareceu desconcertada.

Depois disso houve o Anscbluss e ele veio ter a Paris com uma maleta. que eu não tornaria a fazer. grandes olhos duros e cansados. se é assim. ... — disse ela com um ar penoso — eu pensava no pequeno.. com ele pode ficar sossegado. Não o viu cá em casa? Um ginecologista. perturbada. A — Sim — disse Sarah (a fisionomia alterou se lhe). uma pequena luz perdida. você pode ajudar nos Quando teve. mas. É um especialista de abortos. Mas de repente toda a bondade se lhe reflectiu no rosto e exclamou: — Sim.. sabe se? — perguntou Mathieu encolerizado.. Tenho receio de que ela o fique a detestar depois. — Deram me um embrulho depois da operação e disseram me: «Deite isso na retrete. então efectivamente. mas foi um horror. era Gomez que queria. e a Gomez ainda menos do que aos outros. poderia pedir me de joelhos. Em Berlim tinha uma clientela enorme.. Uma vida! Uma consciência a mais. Olhou Mathieu. apertando lhe com força o braço —. Sarah teve um gesto de desconsolo. como é que não pensei já nisso? Vou arranjar tudo.. procurou alguém. — Não. — Não muito. julgo eu. Mas desde há muito que enviara todo o seu dinheiro para Zurique. E quando ele queria qualquer coisa. Agarrou lhe as mãos. como deve estar acabrunhado. — É justamente isso — disse Mathieu —. nunca eu. odeia Gomez? — perguntou lhe secamente. Mathieu reviu. Bem sabe.» Numa retrete. Quando os nazis tomaram o poder. — Em todo o caso — disse resoluta —. Waldmann. é muito doloroso. — Meu pobre Mathieu. é verdade. Desejaria poder ajudá los. que voaria em círculo. recordou se dos olhos de Marcelle. foi morar para Viena... um russo. não sabe o que vai fazer! — E quando se põe uma criança no mundo. chocaria contra as paredes e não poderia escapar. Como um rato morto! Mathieu — disse ela. de desânimo. Ele ainda opera. mas agora bebe J E A N P AUL SARTRE e eu já não tenho confiança nele. agora. — E. eu quero dizer que não imagina o que vai exigir de Marcelle..— Sim — disse —. não quero mandá los a esse russo. Houve um caso complicado há dois anos.. tenho uma solução. naquele tempo. — Foi horrível! — Ah! — disse Mathieu com uma voz transtornada. — Conhece outro? — Ninguém — disse Sarah devagar. Não era capuz de odiar ninguém. — E você.. esse aborrecimento.

. alimenta se e incha. porque não hei de ir agora de manhã? Mora na Rua Blaise Desgoffes. — Bem — disse Mathieu. até logo. Mathieu empalideceu. transpirava a dormir. gotas brancas e salgadas como lágrimas. o corpo. A bolha dentro do seu ventre não dormia. colou se à sola dos seus sapatos. é pertinho. mergulhado numa sombra densa. cúmplice num acto que lhe inspirava horror. entre dentes. Mathieu respirou um cheiro vivo. os transeuntes flutuavam no céu. eu. — Devo estar no Dupont Latin. Os belos seios morenos e arroxeados tinham caído. vivamente: — Mas era um roubo. Mathieu abraçou a. Vou propor lhe três mil francos. — Dez mil francos! Ela acrescentou. Perguntava a si próprio aonde iria buscar o dinheiro. Ergueu para ele o rosto terno e desgracioso.— Acha que ele tratará do caso? — Naturalmente. A bolha inchava e o tempo passava. Pestanejou e sorriu. — Onde está por volta das onze horas? — perguntou ela. eu tenho um encontro às dez e meia. — Poderia telefonar lhe. Irradiava satisfação. Verão! Deu alguns passos. Agarrou lhe os ombros e sacudiu a a sorrir. Ela acabava de lhe sacrificar as suas repugnâncias mais profundas. de se tornar. de a humilhar. o alcatrão negro e mole. «compreendo o sadismo. Aqui ninguém o conhece. quase voluptuosa. «Verão!» O céu enchia a rua. e os rostos deles flamejavam. Não leva demasiado caro? — Em Berlim levava dois mil marcos. Vou vê lo hoje mesmo. cheio de pontos brancos. Bulevar Saint Michel. pequenas gotas nasciam nos bicos. muito contente. Ela dorme. Espera por mim? DADE DA RAZÃO — Não. — Escute — disse Sarah —. — No Dupont Latin? Está bem. Já não era o mesmo Verão. era um fantasma mineral. de poeira nova. «Quando a vejo». por ternura e para não lhe ver o corpo. Dorme sempre até ao meio dia. você é um anjo.» Mathieu beijou a nas duas faces. meu caro Mathieu. Marcelle estava grávida. É preciso que eu arranje o dinheiro dentro de . Pagava se pela reputação. Poderei ficar lá e esperar pelo seu telefonema. que dava vontade de lhe fazer mal. Será mais razoável. — Até logo — disse Sarah —.. por generosidade. não tem tempo para dormir. O roupão de Sarah abrira se sobre os enormes seios. Visto me e desço. J E A N P AUL SARTRE Ela dormia. — Estou contente — disse Mathieu —. Sarah. Havia naquele rosto uma humildade perturbadora. dizia Daniel.

Daniel. Tudo isso era tão natural. pedirei a Jacques. com o mesmo sol sobre as deusas de gesso. O Luxemburgo. Mas não consegui. Mesmo assim. «Aonde é que irei pedir o dinheiro? Daniel não mo vai emprestar. O homem que quer ser livre. Marcelle. os pombos levantam voo. existo. porque ainda não chegou a hora de partir tudo.» Contemplava aquele jardim rotineiro. em último caso. bastava para encher uma vida.» Lembrou se de repente de dois olhos muito juntos sob espessas sobrancelhas negras. independência. à vontade sob este sol.. Trinta e quatro anos. Existir é isso: beber se a si próprio sem ter sede. Havia as crianças que cornam desordenadamente. como o mar. como qualquer outro. com precaução. Correrias.. Sentou se numa cadeira de ferro. Come. vou pedir lho. esperei. O acompanhamento discreto e seráfico da verdadeira vida. pássaros de pedra.» A relva tremia a seus pés. Estirado em cima de uma cadeira. e a 29 recebo. quente e branco. relâmpagos brancos. Mas quer ser livre. e estou velho. «Neste momento. bebe. as mesmas há mais de cem anos. «Afinal é coisa de uns quinze dias. Juro. Está tudo acabado. o dinheiro. sente se leve porque espera.. caminha bamboleando se ligeiramente.» Mathieu parou de repente. os castelos no ar era. sou o meu próprio gosto. Não quero mais nada. E havia Sarah com o roupão amarelo. Queria lá ir. O resto. e aquelas árvores todas. tão monótono. Paris. Conseguirá Sarah convencer o judeu? Onde arranjar dinheiro? E o que estou a pensar. como outros desejam uma colecção de selos. os pombos arrulhavam. sempre novo. A liberdade é o seu jardim secreto A sua . saboreio. comprometido até ao pescoço na vida e não acreditando em nada. Jacques. as Espanhas. esse judeu há de esperar até ao fim do mês. no entanto. «Madrid. de dedos partidos. Brunet. Mas eu? Eu? Marcelle está grávida.» «Estou velho. o meu gosto. Haverá realmente uma Espanha? Estou aqui. As crianças correm. crianças. era a vida. o quê? Urna pobre religião laica para uso próprio. sinto o velho gosto do sangue e da água ferruginosa. sente se forte. tão normal. não faz política. pombos. Há trinta e quatro anos que eu me saboreio.quarenta e oito horas. Brunet vai sossegado pela rua. Espera. E. Mas não pode ser. anda dentro de uma cidade de vidro que em breve há de quebrar. Marcelle grávida. eu também quis partir para a Espanha. Estátuas. Um álibi? «Assim é que eles me vêem. sempre o mesmo. lê L'Oeuvre e Lê Populaire e está em dificuldades financeiras. Ele via se a pensar.» Pensou subitamente: «Estou a ficar velho. Trabalhei. é funcionário.. tinha horror de si próprio. há mais de cem anos percorrido pelas mesmas ondas de cores e ruídos. tive o que queria: Marcelle. Uma estátua mostrava lhe as nádegas de pedra.

sozinho na sala de espera. Sobre a mesa havia revistas rasgadas e um belo vaso chinês. com as narinas cheias do odor da resina. sabia muito bem que a mosca não ia acender se. Voltara lhe as costas e pusera se a revirar os olhos e a fungar em frente do espelho. ergueu o vaso. na casa do tio Jules. diante de um vaso impassível de três mil anos. Acabara de bater num jovem bordelês que lhe atirara pedras. que era pesadíssimo. Era um estúpido. ou antes não disse coisa nenhuma. o dentista. sem conseguir distrair se. uma apariçãozinha obstinada que rompera a crosta terrestre. livre. Estava em Pithiviers. Vegetava num calor provinciano que cheirava a moscas e tinha apanhado uma a que arrancara as asas. Olhava os cacos de porcelana. Era dia de disparates. Ele obrigara o a comer areia. com asas como patas de papagaio. Um tipo preguiçoso e frio. arquejante. e brincava a fazer que não existia. Aconteceu assim e logo a seguir sentiu se leve. evitando o pequeno movimento da deglutição que o lançaria na garganta. redonda. Mas esse vazio ainda tinha um gosto. Tinha dezasseis anos. Era apavorante ser uma bolinha de miolo de pão neste velho mundo ressequido. contemplava as grandes ondas do oceano. abrupta inexplicável. verde e cinza. Estava deitado na areia em Arcachon. Verificara que a cabeça se assemelhava a uma cabeça de fósforo. na luminosidade do Verão. O tio dissera lhe que o vaso tinha três mil anos. fora buscar a caixa à cozinha e esfregara nela a mosca para ver se acendia. Mathieu aproximou se do vaso com as mãos atrás das costas e contemplou o com inquietação. sem peias. Tudo isso negligentemente: era uma comédia medíocre de vagabundo e não conseguia interessar se por si próprio. tivera a impressão de ser uma pequena exploração suspensa no ar. Tinha conseguido esvaziar completamente a cabeça. e atirou o ao chão. sem origem. uma promessa. Pensou: «Fui eu que fiz isto». e sentia se orgulhoso. De repente. diáfano. Era preciso tentar não se engolir. um pouco quimérico. Tinha vinte . sem família. voltou para junto da mesa. Não é isso que sou?» J E A N P AUL SARTRE Tinha sete anos. Algo acabava de acontecer àquele vaso de três mil anos guardado entre as paredes quinquagenárias. algo totalmente irreverente que se assemelhava a uma manhã. mas muito razoável no fundo. Sentado à sombra dos pinheiros.pequena conivência para consigo próprio. maravilhado. Apostara que toda a sua vida se pareceria com aquele momento excepcional. mas era o que queria dizer e era uma aposta. feita de inércia e que justifica de vez em quando com elevadas reflexões. como quando se conserva sobre a língua um líquido demasiado frio. Disse a si próprio: «Hei de ser livre». que dissimuladamente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida.

E durante esse tempo. mas nessa idade não se tem plena consciência do que se faz. Já não sabia bem. Ser a causa de si próprio. aos seus próprios olhos. os anos tinham chegado e tinham no envolvido. Sim. lia Espinosa no quarto.» Eram palavras vazias e pomposas. Vai se na onda. Levantou se. Para uma acção. Mas através de tudo isso a sua única preocupação fora manter se disponível. aprender um ofício. Esperava. devagar. ser o próprio começo. Grandes carros multicores passavam na rua. Uma bola de ténis rolou lhe aos pés. Como Brunet.» Tinha pensado partir para a Rússia. não ter ainda nascido comple tamente. mas era uma só e mesma aposta. Pensou: «Estará tudo acabado? Serei apenas um funcionário?» Esperara tanto tempo. Tinha agora — cada vez mais — longos momentos de exílio. Naturalmente durante esse tempo andara atrás de mulheres. um funcionário em dificuldades financeiras e que ia encontrar se com a irmã de um dos seus ex alunos. Um acto livre e reflectido que acarretaria o destino da sua vida e seria o início de uma nova existência. Trinta e quatro anos. viajara e ganhara a vida. Vegetava naquele calor sufocante. Levantava se um funcionário. Que aposta? Pôs a mão sobre os olhos cansados da luz. palavras irritantes de intelectual. «Com vinte e cinco é que eu me devia ter comprometido. sempre lhe parecera estar algures. a ele e a Brunet: «Hei de salvar me. nem o amante de Marcelle. Mathieu não era um tipo que ensinava Filosofia a rapazes num liceu. se faz favor. o advogado. Eu não queria ir na onda. Esperara através de mil e uma preocupações quotidianas. sofria a velha e monótona sensação do quotidiano.e um anos. abandonar os estudos. nunca fora realmente infeliz. O que o retivera à beira destas rupturas violentas fora a ausência de motivos para fazê lo. Mathieu apanhou a bola e atirou a ao rapaz. um rapazinho corria atrás dela com a raqueta na mão. precisava de estar nos seus dias melhores. e era terça feira de Carnaval. a um prazer. Para compreender a aposta. nem o irmão de Jacques Delarue. poder dizer: sou porque quero. Decerto que não estava num desses dias. As palavras mudavam com a idade e as modas intelectuais. Erguera os olhos e apostara de novo. Inutilmente repetia as frases que os exaltavam dantes: «Ser livre. nem o amigo de Daniel e Brunet. cheios de bonecos de papelão. Nunca pudera prender se definitivamente a um amor. Sem motivos.» Dez. a decisão teria sido uma . com aquela ênfase filosófica que lhe era agora peculiar. Era unicamente aquela aposta. Um acto. — A bola. Os últimos anos tinham sido uma vigília. cem vezes tornara a fazer a aposta. E. sub repticiamente.

num desafio. está atrasada. os seus olhos apagaram se.» Viu a nesse mesmo instante. esterilizei me para ser apenas uma espera. Jovens machos rodeados de fêmeas e que pareciam insectos brilhantes e obstinados. Riram e sentaram se. esquecer se ia de respirar. nunca ela estava tão só como diante da beleza. Esvaziei me. Um dia. importuno. pensou Mathieu por fora. Ivich cheirava a mocidade. Parou para olhar o carrossel náutico. Tinham as mãos bem tratadas.» Não gostava que ela se atrasasse. M athieu olhou para o relógio. e pronto. No Inverno . Pensou: «Não sei o que quero dela. Mártires da J E A N P AUL SARTRE juventude. olharam para uma das mesas com desdém. Continuara a esperar. No entanto não desejava ser belo. — Sit down — disse um. nem Daniel. a fisionomia dura e a carne tenra. irritado. — Eu sit down — respondeu o outro. Só depois é que dei conta.» Junto do repuxo. Ivich! — Bom dia — disse ela. Boris também. esquecia se de dormir. Estava com a cara dos dias de festa. «Eu não sabia que era jovem. porque ele não era belo e era uma maneira de se desculpar. Todos riam. Ela esquecia se de tudo. Puxara os caracóis louros para a frente. — Olá. belos objectos. Mathieu levantou se. «Só há chatos por aqui». tinha sempre medo de que se deixasse morrer. esquecia se a cada momento.asneira. por dentro. um barquinho parecia perdido. e a franja descia lhe até aos olhos. Descia o bulevar ao lado de um rapaz alto de cabeleira crespa e óculos. nem Brunet. Hoje como das outras vezes olharia os quadros com um ar selvagem e maníaco. Dois rapazes pararam junto dele. feio. Ela erguia o rosto para ele e oferecia lhe um sorriso luminoso. esfu ziantes. Mas já não espero mais nada. «Dez e quarenta. Pensou: «Já não espero. pensou Mathieu. Mathieu ficaria a seu lado. Estudantes ou liceais. Barquinhos à vela giravam no tanque. Estou liquidado. Ela tem razão. mas eram excepções. bons filmes. esquecido. Agora estou vazio. inclinava se.» Lembrou se sem grande prazer que ia acompanhar Ivich a urna exposição de Gauguin. Quando viu Mathieu. fugia de si mesma. Um miúdo tentava apanhá lo com uma vara. Gostava de lhe mostrar belos quadros. esquecia se de comer. É engraçada a mocidade. Ivich não o desculpava. não sentem nada. chicoteados de quando em quando pelo repuxo. disse um adeus rápido ao companheiro e atravessou a Rua dês Ecoles como uma sonâmbula. afundava se lentamente. Falavam animadamente.

— E para a senhora? — perguntou o empregado. Mathieu fez um esforço e voltou se para Ivich. estreito e puro. — Gosto disso? — disse divertida.» Mathieu contemplou a com ternura. E as pessoas . cheiro a éter. Um rosto largo. (Estremeceu. Não estou com sede. — Menta verde. infantil e sensual. Calou se. — É o sol. Pensavam visivelmente: «Boa miúda. Ela fechara os olhos e passava levemente os dedos sobre as pálpebras. cirurgia. pálido. descobria lhe as bochechas gordas e lívidas e a testa curta. Eu deixo o tomar decisões. Marcelle estava ali. Dentro em pouco. não se referia a ela. deixe o trazer. Ivich sorriu lhe. mas era inatingível com o seu porte frágil e os belos seios duros. lembrei me do gosto. — Tome um Pippermint — disse Mathieu —. — Tenho a impressão de que ficam abertos sozinhos. questões de dinheiro. A Ela sentou se. — Você disse que gostava — atalhou Mathieu. Em dias como este não devíamos sair senão depois de escurecer. — Faz favor! — gritou Mathieu. — Então está bem. — Sim. mas estava ali. nem um franco a menos. não quero. mas depois reflecti. que ela usava por cima do verdadeiro como uma máscara triangular. Não o beberei. Parecia pintada e envernizada como uma taitiana de Gauguin. via a.o vento despenteava a. calma e taciturna. Ivich interessava se por tão pouca coisa! E ele não tinha vontade de falar. De vez em quando eu fecho os para que descansem. Não estava pintada. sabia que Ivich era feia. isso pega se na boca. a que ela chamava «testa de calmuco». Mas que é isso? — perguntou quando o empregado se afastou. — Não. mas não o devia ouvir. é bonito. — Aquela coisa verde e viscosa que bebi no outro dia? Oh!. o sol persegue nos por toda a parte. Gostava que lhe chamassem senhora. Mathieu não sabia o que dizer. quero. não. Não temos os mesmos gostos. só ele.) Nunca mais beberei disso. pronto. Inútil. Sarah telefonaria. podia chamá la pelo nome ou tocar lhe no ombro. contrariado. Não a via. Reabriu os olhos. Agora Mathieu via apenas um falso rosto. Os jovens vizinhos de Mathieu voltaram se para a ver. você gosta disso. Ivich sim.» Mathieu ouviria do outro lado do fio J E A N P AUL SARTRE uma voz sombria: «Ele quer dez mil francos. No Verão doem me. Depois virou se para Mathieu.» Hospital. porque a pintura lhe estragava a pele. indecisa. O empregado chamaria: «Senhor Delarue. como a Lua entre duas nuvens. Estão vermelhos? — Não. Não sabemos onde nos havemos de enfiar. Ele.

. não era com má intenção. — Sim. com a palma da mão. Daqui a três meses vai detestar me.ficam com as mãos húmidas. — Bom.. JEAN PAUL SARTRE — Ouça — disse Mathieu —. — Com certeza não sabe o que é um «lar de estudantes». Os olhos ardem me logo. Estava seca. ou então de lado: assim. — Não. — Não é o que está a imaginar. Julgava sempre que tivesse reparado num lugar mais ralo e não pudesse tirar de lá os olhos. num tom de voz diferente: — Eu gostava que não me doessem tanto os olhos. — Aborreceu a tê la feito sair tão cedo? — De qualquer maneira eu não podia ficar no quarto. Acrescentou. Sabia que ela não pensava o que dizia. E depois a empregada afeiçoou se a mim. Tenho horror a que me toquem.. não posso. sobretudo em tempo de exames. irritada. Eu que tenho tanto medo de ficar calvo. A — Ela gosta de mim porque sou loura. É sempre a mesma coisa. Olhava Ivich sem se sentir perturbado. — Gostaria que soubessem como você é? — acrescentou com certo desprezo. Ivich encarou o com impaciência. teria medo. Quanto a olhar as pessoas de frente. . Protegem as raparigas de verdade. entra a todo o momento no meu quarto. não. Lançou lhe um olhar matreiro e rápido. — Você perturbava me a princípio — disse Mathieu. — Afinal as pessoas acabam por perceber que esconde a cara e baixa os olhos como uma santa de pau carunchoso. Mesmo que você fosse o tipo mais bonito deste mundo. Mathieu tocou com o dedo. Ivich sacudiu a cabeça. à altura dos cabelos.. Há de dizer que eu sou dissimulada. — É verdade que não liga a essas coisas. — Sim. sob qualquer pretexto. — Acabe com isso! Não gosto que me imitem. — Você é dissimulada — disse Mathieu. — murmurou ela num tom arrastado que fazia pensar nas suas faces lívidas. Mathieu mal a ouvia. Mas estou à espera de um telefonema. por baixo da mesa. achava se culpado e liberto ao mesmo tempo por lhe querer menos. o rapaz encaracolado. mas sinto medo quando imita as minhas expressões! — Compreendo! — disse Mathieu a sorrir. Ela riu divertida e furiosa. que tinha as mãos húmidas. acaricia me os cabelos. — Porquê? — perguntou Mathieu admirado. — Olha me por cima da testa. Era o outro. se me chamarem diga ao empregado que volto já. — Olho para toda a gente assim. vou à farmácia comprar um comprimido.

— Não, não vá — disse ela secamente. — Agradeço, mas não faria nada. É do sol. Calaram se. «Estou a ficar abstracto», pensou Mathieu com um prazer estranho. Um prazer crispado. Ivich alisava a saia com as palmas das mãos, erguendo ligeiramente os dedos como se fosse tocar piano. As mãos dela estavam sempre avermelhadas porque tinha má circulação. Geralmente levantava as e agitava as de vez em quando para as descongestionar. Não lhe serviam para pegar em nada, eram dois idolozinhos gastos nas extremidades dos braços; afloravam as coisas com pequenos gestos inacabados e pareciam menos destinados a segurar do que a modelar. Mathieu olhou as unhas de Ivich, longas e pontiagudas, excessivamente pintadas, quase chinesas. Bastava contemplar aqueles adornos frágeis e incómodos para compreender que Ivich não podia fazer coisa nenhuma com os seus dez dedos. Uma vez caíra lhe uma unha, ela guardara a numa caixinha e de vez em quando observava a com uma mistura de prazer e horror. Mathieu vira a. Conservara o verniz e assemelhava se a um besouro morto. «Que será que a preocupa? Nunca esteve tão irritante. Deve ser o exame. A não ser que se chateie de estar comigo. Afinal de contas eu sou adulto.» — Não começa assim, com certeza, quando se vai ficar cego — disse de repente Ivich com um ar neutro. — Com certeza que não — respondeu Mathieu, sorrindo. — Bem sabe o que lhe disse o médico em Laon: um bocadinho de conjuntivite. A Falava docemente, sorria docemente, sentia se embebido em doçura. Com Ivich era preciso sorrir sempre, fazer gestos suaves e lentos. «Como Daniel com os gatos.» — Doem me tanto os olhos — disse Ivich —, basta uma coisa de nada. (Hesitou.) É no interior dos olhos que me dói. Não é assim que começa aquela loucura de que me falava há dias? — Ah!, aquela história? Olhe, Ivich, da última vez era o coração, receava ter uma crise cardíaca. Que rapariga estranha, parece que tem necessidade de se atormentar. E de repente declara que é feita de cimento! É preciso escolher. A sua voz deixava um gosto a açúcar na boca. Ivich olhava para os pés, pensativa. — Deve estar qualquer coisa para me acontecer. — Já sei — disse Mathieu —, a sua linha da vida foi interrompida. Mas disse me que não acredita nisso. — Não, não acredito... Mas não posso imaginar o meu futuro. Há uma barreira. Calou se e Mathieu contemplou a em silêncio. Sem futuro... De repente sentiu um gosto desagradável na boca e percebeu que estava demasiado preso a Ivich. Era verdade que ela não tinha futuro. Ivich com trinta anos, Ivich com quarenta anos, não

fazia sentido. Pensou: «Ela não é eterna.» Quando Mathieu estava só ou quando falava com Daniel, com Marcelle, a vida estendia se diante dele, clara e monótona: algumas mulheres, algumas viagens, alguns livros. Um longo declive. Mathieu descia o lentamente, lentamente, às vezes ele próprio achava que não ia muito depressa. De repente, quando via Ivich parecia J E A N P AUL SARTRE lhe viver uma catástrofe. Ivich era um pequeno sofrimento voluptuoso e trágico, sem futuro. Ir se ia embora, ficaria louca, morreria de uma crise cardíaca ou então seria sequestrada pêlos pais em Laon. Mas Mathieu não poderia suportar a vida sem ela. Fez um gesto tímido com a mão; queria pegar no braço de Ivich acima do cotovelo e apertá lo com toda a forca. «Tenho horror a que me toquem.» A mão de Mathieu caiu. Disse muito depressa: — Tem uma linda blusa, Ivich. — É feia. — Inclinou a cabeça, empertigada, e sacudiu a blusa, constrangida. Acolhia as homenagens como se fossem ofensas, era como se fizessem dela uma imagem à machadada, grosseira e fascinante, a que tinha receio de se prender. Só podia pensar o que convinha a si própria. Pensava nisso sem palavras, era uma certeza terna, uma carícia. Mathieu olhou com humildade os ombros de Ivich, o pescoço alto e roliço. Ela dizia muitas vezes: «Sinto horror pelas pessoas que não sentem o corpo.» Mathieu sentia o dele, mas era como um embrulho embaraçoso. — Ainda quer ir ver os Gauguin? — Gauguin? Quais? Ah!, a exposição de que me falou? Bem, podemos lá ir. — Não parece ter muita vontade. — Tenho. — Se não tem vontade, Ivich, diga. — Mas tem você. — Bem sabe que já lá estive. Tenho vontade é de lha mostrar, se isso lhe agradar; mas se não lhe interessa, desisto. — Pois então preferia ir noutra ocasião. A — A exposição acaba amanhã — disse Mathieu, decepcionado. — Tanto pior — disse Ivich sem energia —, mas há de haver outra oportunidade. — Acrescentou com calor: — Essas coisas estão sempre a aparecer, não é verdade? — Ivich! — observou Mathieu com uma amabilidade forçada. — Essa é mesmo sua! Diga que não lhe apetece, mas bem sabe que tão cedo não haverá outra. — Pois bem — disse ela, gentilmente —, não quero ir hoje por causa do exame. É infernal que nos façam esperar tanto tempo pelo resultado. — Não é amanhã?

— Justamente. Acrescentou, roçando a manga de Mathieu com a ponta dos dedos: — Hoje não deve ligar ao que eu digo. Não estou normal. Dependo dos outros, é aviltante. Vejo continuamente a imagem de uma folha branca pregada numa parede cinzenta. Eles impõem nos este pensamento. Quando me levantei hoje de manhã, senti que já era amanhã. Hoje é um dia perdido, riscado. Roubaram me este dia e já não me restam muitos mais. Insistiu em voz baixa e rápida: — Falhei em Botânica. — Compreendo — disse Mathieu. Queria encontrar nas suas recordações uma angústia que lhe permitisse compreender a de Ivich. Talvez na véspera da formatura... Não, não era a mesma coisa. Ele vivia sem correr riscos, sossegadamente. Agora sentia se frágil, no meio de um mundo ameaçador, mas era através de Ivich. J E A N P AUL SARTRE — Se eu for aprovada — disse Ivich —, vou beber antes da oral. Mathieu não respondeu. — Só um bocadinho — repetiu Ivich. — Disse isso em Fevereiro, antes do exame, e foi lindo, com quatro cálices de rum ficou completamente bêbeda. — Aliás não ficarei aprovada — disse ela de maneira equívoca. — Está bem, mas se por acaso ficar? — Claro que não vou beber. Mathieu não insistiu. Tinha a certeza de que ela apareceria bêbeda à oral. «Eu é que não faria isso, era demasiado prudente.» Estava irritado com Ivich e desgostoso consigo próprio. O empregado trouxe o copo e encheu o até meio de menta verde. — Já trago a água e o gelo. — Obrigada — disse Ivich. Ela olhava para o copo, e Mathieu olhava a. Um desejo violento e imperioso invadira o: ser por um momento aquela consciência perdida e cheia de seu próprio odor, sentir por dentro aqueles braços compridos e finos, sentir, na junção, a pele do antebraço colar se como um lábio à pele do braço, sentir aquele corpo e todos os pequenos beijos que dava a si próprio sem cessar. «Ser Ivich sem deixar de ser eu.» Ivich tirou o balde das mãos do empregado e pôs um pequeno cubo de gelo no copo. — Não é para beber, mas fica mais bonito. Pestanejou e sorriu com um ar acriançado. — É bonito. Mathieu olhou o copo, irritado. Procurou observar a agitação espessa e desordenada do líquido, a brancura turva do gelo. Em vão. Para Ivich era uma pequena volúpia

viscosa e verde que a deixava toda melada até à ponta dos dedos. Para ele aquilo não era nada. Nada de nada. Um copo com menta. Podia, pensar o que Ivich sentia, mas ele nunca sentia nada. Para ela as coisas eram presenças abafantes e cúmplices, grandes redemoinhos que a penetravam na carne, mas Mathieu via as sempre de longe. Olhou a e suspirou. Estava atrasado, como de costume. Ivich já não contemplava o copo, parecia triste e puxava nervosamente um caracol dos seus cabelos. — Queria um cigarro. Mathieu tirou o maço de Gold Flake do bolso e estendeu lho. — Vou lhe dar lume. — Obrigada, prefiro acendê lo eu. Acendeu o cigarro e tirou algumas baforadas. Aproximou a mão da boca e divertiu se, com um ar maníaco, a fazer deslizar o fumo pelas palmas das mãos. Explicou, como para si mesma: — Queria que o fumo parecesse sair da minha mão. Seria engraçado uma mão com neblina... — Não é possível, o fumo passa demasiado depressa. — Eu sei, e isso enerva me, mas não posso parar. Sinto o meu sopro aquecer a mão, passa lhe pelo meio, dir se ia que a corta em duas. Teve um riso rápido e calou se. Continuava a soprar na mão, descontente e obstinada. Depois deitou fora o cigarro e sacudiu a cabeça. O perfume dos cabelos chegou às narinas de Mathieu. Era um cheiro a bolo com açúcar bauni Ihado, porque ela lavava os cabelos com gema de ovo. Mas esse perfume de pastelaria tinha um gosto voluptuoso. Mathieu pôs se a pensar em Sarah. — Em que é que está a pensar, Ivich? Ela ficou um instante de boca aberta, desconcertada, depois retomou o seu ar meditativo e o rosto contraiu se lhe. Mathieu sentia se cansado de a olhar. Doíam lhe os olhos. — Em que é que está a pensar? — repetiu. — Eu... (Ivich abanou a cabeça.) Está sempre a perguntar me isso. Nada de especial. Coisas que não se podem dizer, que não se transmitem. — Sabe se lá... Diga. — Bem, eu olhava para aquele homem que vem ali, por exemplo. Que quer que lhe diga? Que é gordo, que enxuga a testa com um lenço, que traz uma gravata... É estranho que você me obrigue a contar estas coisas — disse de repente, envergonhada e irritada —, não vale a pena dizê las. — Para mini, sim. Se eu pudesse desejar qualquer coisa, desejaria que fosse obrigada a pensar alto. Ivich sorriu sem querer — É um vício — disse —, a palavra não foi feita para isso. — E engraçado esse respeito selvagem pela palavra. Parece crer

que ela só foi feita para anunciar mortes, casamentos ou dizer missa. Aliás, você não olhava para ninguém, Ivich, olhava para a sua mão e a seguir olhou para o pé. E, além disso, sei no que estava a pensar. — Então porque é que pergunta? Não é preciso ser muito esperto para adivinhar. Pensava no exame. — Está com medo de reprovar, não é? — Naturalmente. Estou com medo. Ou melhor, não estou com medo. Sei que vou reprovar. Mathieu sentiu novamente um gosto de catástrofe na boca. «Se ela reprovar, nunca mais a verei.» E ela ia reprovar de certeza. Era evidente. — Não quero voltar para Laon — disse Ivich com desespero. — Se ficar reprovada, não me deixarão voltar. Disseram me que era a minha última oportunidade. Pôs se a mexer nos cabelos. — Se tivesse coragem — disse com hesitação. — Que faria? — perguntou Mathieu inquieto. — Qualquer coisa. Tudo menos voltar para lá. Não quero voltar, ficar lá a vida inteira. — Mas disse que seu pai talvez vendesse a serração daqui a um ou dois anos e que viriam todos para Paris. — Paciência! São todos assim — disse Ivich com um olhar furioso. — Queria ver se fosse consigo! Dois anos naquela cave, ter paciência durante dois anos! Não vê que são dois anos que me roubam? Tenho só uma vida — disse com raiva. — Ao ouvi lo falar, parece que se julga eterno. Um ano perdido, na sua opinião, substitui se bem. — As lágrimas vieram lhe aos olhos. — Não, não se substitui. É a minha mocidade que se escoará gota a gota. Quero viver já, não comecei ainda e não posso esperar. Já estou velha, tenho vinte e um anos. — Ivich, por favor, faz me medo. Tente ao menos uma vez dizer com clareza o resultado dos seus trabalhos práticos. Tão depressa parece satisfeita como desesperada. — Falhei em tudo — disse Ivich, sombria. — Pensei que em Física tivesse tido êxito. — Ah!, a Física — atalhou Ivich com ironia. — E em Química foi lamentável. Não consigo enfiar as fórmulas na cabeça. É tão cansativo! — Mas então porque é que escolheu isso? — O quê? — O P.C.B. — Queria sair de Laon — disse ela, obstinada. Mathieu fez um gesto de impotência. Calaram se. Uma mulher saiu do café e passou devagar diante deles. Era bela, com um nariz minúsculo num rosto liso, parecia procurar alguém. Ivich

Olhava para Ivich. viam se lhe as pernas compridas. — Ah! Fico muito satisfeito. Teve um risinho seco. Mathieu pegou no telefone. Esta ficara quase feia. a sua fisionomia transformou se.devia ter sentido logo o perfume. por um amor ardente e perturbado A desfavorecido pela beleza. A mulher foi se embora. mas. mas quando era prestável tornava se . — Está. quando aquele corpinho encantador e quase gentil era tomado por uma força dolorosa. Quanto é que ele quer? — Ah!. Ergueu lentamente a cabeça. é Sarah Gomez. disse lhe que você estava atrapalhado. mas não quis saber. mas quer quatro mil a pronto. Já não existia para ela. — Que criatura soberba — disse em voz baixa e profunda. — Ivich — disse Mathieu. Dissera uma vez a Mathieu: «Tenho vontade de morder os narizes pequenos. — Mas é preciso andar depressa. Ela estava só. através do tecido leve do vestido. é a Sarah? — Tudo corre bem — disse a voz nasalada de Sarah. e Mathieu olhou a tristemente. É um estupor de um judeu — acrescentou. Ivich seguiu a com o olhar e murmurou raivosamente: — Há momentos em que eu gostaria de ser homem. à transparência. a porta da cabina não se fechava. Sarah era muito bondosa. quando a viu. Ele entrou no café e desceu a escada. A mulher imobilizou se pestanejando ao sol. — Chamam o Senhor Delarue ao telefone — gritou o empregado. a rir. Mathieu não gostou daquela voz. vou avisar Marcelle hoje mesmo. apertava as mãos com força. — Sou eu — disse Mathieu. docemente. Teria talvez trinta e cinco anos. juro. e sentiu se também sozinho. melancólica. Ivich sorriu lhe com frieza. — Desculpe. só que a coisa me apanha desprevenido.. Ela não respondeu. Mathieu sabia que ela não podia responder. tenho de arranjar o dinheiro. Levantou se. Mas Mathieu não tinha vontade de as olhar. Quer fazer a coisa depois de amanhã para a poder observar durante os primeiros dias. Pensou: «Não sou bonito». — Bem. — Senhor Delarue? Primeira cabina. Ele parte domingo para os Estados Unidos.» Mathieu inclinou se ligeiramente e viu a de perfil: a sua expressão era cruel. — Ivich! Era nesses momentos que mais lhe queria. e ele pensou que ela tinha vontade de morder. lamento imenso.. Insisti.

Sentou se. — Táxi — gritou. — Até logo à noite.brutal e activa. Não valia a pena telefonar a Marcelle antes de resolver o assunto do dinheiro. não vale a pena. junto de Ivich. não era consigo. — Não. parece um coche e é fechado. Passarei por lá para tratar ainda de mais umas coisas. Mathieu afastara um pouco o telefone. «Uma vez que lhe vou falar». pensava: «Quatro mil francos».. Faubourg Saint Honoré. Estavam ambos aborrecidos. vou tratar disso. — Dentro de dois dias? Bem. Michel. há vestígios de bâton. O táxi atravessou a Praça St. — Se quiser — disse Mathieu. — Uma ficha para o telefone — pediu. como uma irmã de caridade. — Pois eu tê los ia guardado. — A dor de cabeça passou me — disse ela. sem surpresa. O táxi parou. — Esse não — disse Ivich —.. Mathieu ia para dizer: . e Ivich subiu. «pedirei mais mil francos a Daniel. — Não. pensou Mathieu. para dar até ao fim do mês.» Sentou se perto de Ivich e olhou a com ternura. — Ainda bem — disse Mathieu. — Oh! Dei os ao motorista. é um anjo. veja como é bonito. Obrigado. é descapotável. Pôs vinte cêntimos na bandeja e subiu devagar a escada. silencioso. Sentia o coração amargurado. Tinha um sorriso confuso e provocante.» — Galeria das Belas Artes. Sorriram e calaram se. neste táxi. o vento na cara é incomodativo. — Mande parar aquele — pediu Ivich —. Sarah. Mathieu disse: — Uma vez achei cem francos num táxi. ecoar no auscultador. Mathieu saiu da cabina. não — disse Mathieu ao motorista —. Porque é que fez isso? — Não sei. era um pesadelo. — Deve ter ficado contente. e ouvia o riso de Sarah. Mathieu viu entre os seus pés três cigarros de ponta dourada. — Porquê? Mathieu apontou os cigarros. — Poderíamos. Levantaram se e Mathieu reparou que o copo de Ivich estava vazio. — Esteve aqui alguém que ia nervoso. poderíamos ir ver os Gauguin. Está em casa à noite. amavelmente. meio fumados. Ivich olhou o de lado através das suas longas pestanas. — Bom. «Irei ter com Daniel ao meio dia. antes do jantar? — Todo o dia. — Uma mulher — disse Ivich —.

— Ela é gentil consigo. Mas não gosto dela. o que me desagrada um bocado é Lola. hoje à noite. parece me que foi sempre assim. esforça se logo por lhes descobrir qualidades. «Não».. — Não pode fazer outra coisa. E assim que fazem as pessoas que envelhecem. pensam no dinheiro e tratam se bem. Quer sempre ser perfeito. e mais nada. A — Pois é. Eu gostaria. erguendo as sobrancelhas. Às vezes tento imaginar como você era. mas de vez em quando tinha uma expressão terna pelo prazer de sentir o rosto pesado e doce como um fruto. Ivich não era muito coqueta. — Oh!. — Ficarei muito contente em ver Boris e de estar com vocês — disse —. — Isso não quer dizer que ela não se sinta desesperada. que eram um homem e uma mulher fechados num táxi. tem a juventude de um mineral. Eu não a acho simpática. dá profundos suspiros para que pensem que está desesperada e encomenda bons petiscos! Acrescentou com uma maldade dissimulada: — Sempre pensei que as pessoas desesperadas não se incomodavam com a morte. É bonita. . não é nada agradável envelhecer. mas não consigo. você não tem idade — disse Ivich —. quando estão desgostosas consigo próprias e com a vida. Desde que as pessoas o detestem.«Olhe o Sena. — Nunca reparei nisso. fico sempre admirada quando a vejo fazer as contas das despesas e tentar economizar. e apressou se a acrescentar: — Tem razão. ao mesmo tempo. Ela não pode comigo. Ivich continuou: — Não acho que valha a pena incomodarem se por causa de Lola. — Naturalmente. como está verde!» Mas não disse nada. aborrecido. É a sua moral. disse para si próprio. é muito teatral? — Teatral? — perguntou Mathieu. Voltara a cabeça e olhava os cabelos de Mathieu avançando a boca com ternura. Mathieu achou a inconveniente e irritante. — Tinha caracóis — informou Mathieu.. Olhou a. Era como se eles tivessem imaginado. secamente. Foi Ivich quem falou de repente: — Boris pensava que íamos ao Sumatra. os três. — É engraçado que não tenha reparado. perturbado. — Que é que isso tem? Fez se um silêncio. — Eu acho a simpática. em criança. canta bem. nunca se deveria envelhecer — disse Ivich.

Ainda durante um segundo. como uma mola. Agora era amor. O corpo de Ivich voltou. Depois estendera a mão e pegara na carne. mas um pouco mais pequeno. como se fossem pombas.— Pois eu imagino o tal como é hoje. aliás não o fizera propositadamente. bruscamente. Ivich calava se. que não se exprimia por gestos. e deixou se cair como se tivesse perdido o equilíbrio. fora espontâneo. irritado. viu lhe os olhos. mas sentia um estranho nó na garganta e estava fora de si. de rosto cinzento. Mathieu pensou: «Que é que eu fiz?» Cinco minutos antes aquele amor não existia. Ivich continuava sem dizer nada. havia entre ambos um sentimento raro e precioso. pensou Mathieu. à posição vertical. e entre eles havia o . era livre. Parecia achar a coisa natural e também se devia ter sentido livre. Inclinou se. O táxi meteu se pela Rua de Rivoli. e depois. Ao levantar a cabeça. agarrou Ivich pêlos ombros e puxou a para si. sem nome. Mathieu olhava em frente. Aproximara se de uma mercearia. Mathieu quis falar. Um gesto e aquele amor aparecera perante Mathieu como um objecto importuno e já vulgar. é irremediável. Ivich não devia saber que tinha um ar terno. O dono gritou. já não estava em parte alguma. Insistia. que parecia muito admirado.» Encolheu se. o único que não devia ter feito. Tinha deixado para trás Marcelle. sentia vontade de se abandonar inteiramente. Era amor. «Está a julgar me». Aquele dia de Verão abatia se nele como uma massa densa e quente. Sarah. Pensou: «Um homem casado a conquistar uma rapariguinha num táxi». Desta vez. Estava calor. Um polícia fez sinal para parar e o táxi deteve se. rígida. olhava para o seu amor. um polícia levou o tipo. mas não via as árvores. e Mathieu sentia um corpo quente junto do seu. mas ficou dura. Desejara desaparecer. E ele fizera um gesto. Ivich não resistiu. Lembrou se do gesto de um tipo que vira uma vez na Rua J E A N P AUL SARTRE Mouffetard. Ivich ia pensar que ele a amava como às outras mulheres que tinha amado. e a sua raivosa alegria esvaiu se. Para a castigar aflorou com os lábios uma boca fria e fechada. rígida e silenciosa. os intermináveis corredores de hospital por onde andava desde manhã. Um tipo bastante bem vestido. olhara demoradamente uma fatia de carne fria que estava num prato sobre o balcão. pareceu lhe que ficava suspenso no vácuo com uma intolerável impressão de liberdade. Através do vidro da frente via as árvores e uma bandeira tricolor na ponta de um mastro. «Que pensará ela?» Estava a seu lado. e o braço recaiu lhe inerte. As arcadas do Louvre estendiam se pesadamente ao longo dos vidros. «Pronto. estendeu o braço. Não disse nada: ficou com uma expressão neutra.

» Gostava daquelas visitas misteriosas.. um calor que viera de fora. humilhado de antemão. Um calor enorme enchia o quarto. «não a desejo. humilhante para ela. Mathieu não a seguiu imediatamente. pensou. o gesto desajeitado e terno. nunca a desejei». soergueu se. Mas já não conseguia lembrar se do que queria antes. de quem vai tomar um medicamento. Desceu finalmente. como me acharia repugnante.. quando Mathieu se deitara nu ao lado dela. com a sua luz morta e rosada.» Mas não tinha vontade de deixar de a amar. mas agora pensava nelas sem prazer. «Na melhor das hipóteses». e um dia. à sua volta. Acabava sempre assim. e já velho. sem esperança. e a noite da véspera continuava ainda ali. impalpável. Ivich abriu a porta e desceu. Contemplava com espanto aquele amor completamente novo. «Não é verdade». «Está aborrecida. sacudiu a cabeça. mas o calor era de meio dia. parecia Ihe que a vida parara ao meio dia. Pensou: «Meio dia. mole. não lhe pude dizer. despreza me e pensa que sou como os outros. «tenho horror a que me toquem». aquele amor de homem casado. com os seus desejos simples e as suas condutas vulgares. «Se ele soubesse. de olhos fechados. que tinha já a obstinação impalpável das coisas passadas. envergonhado e dissimulado. «o arcanjo!» Marcelle bocejou. e . «Bom.. nua. para os seios.gesto. olhava os tornozelos com um vago descontentamento. pagou e juntou se a Ivich. pensou com desespero. Deitou lhe um olhar furtivo e achou que ela tinha uma expressão dura. aceitava o já como uma fatalidade. Mas já sabia que ia desejá la.. Marcelle deitava se tarde e não conhecia nunca as manhãs.» Ele teria respondido. Viu de repente Marcelle estendida na cama. uma repulsa de meio dia. Entraram na exposição sem trocar uma palavra. Se ao menos ela pudesse esquecer.» Não era o que eu queria dela. como na véspera. havemos de nos arranjar».» O tecto estava cinzento como uma madrugada. que deixara a luminosidade nas pregas da cortina e jazia ali. «alguma coisa deve ter acabado entre nós.» Sentou se à beira da cama. que caía largado sobre as coisas. Odiava Marcelle. «Não pude. Havia uma repulsa no ar. pensou. inerte e sinistro como um destino. chuvoso. e o seu primeiro pensamento foi: «O arcanjo vem esta noite. que o esperava à entrada. Era apenas o amor. Olhar Ihe ei para as pernas. e Mathieu é que o fizera nascer com inteira liberdade. é tão puro. estagnado. que era um eterno meio dia. como um vago perfume. com um ar alegre e bem disposto. O táxi parou. Sabia que não teria podido J E A N P AUL SARTRE suportar aquela expressão e que a coisa lhe parara na garganta.

uma piedade activa e desajeitada de homem saudável. parecia se mais com esperma. deixando traços viscosos e brilhante como lesmas. sem ternura. No último Inverno. e logo uma repugnância por tudo. E a minha mãe conheceu mulheres que não podiam suportar o cheiro a fumo. dizem que há pessoas que vomitam durante o dia todo. era como se sentisse um odor permanente. eu só vomito de manhã. enojava se facilmente consigo mesma. uma sensação morna nas ancas e nas axilas. e murmurou: «Recordação de amor. não faltaria mais nada. quando tivera diarreia. Era a vida. Sentia se mole e vencida. O dia ainda não tinha começado e já estava contra Marcelle. gotas de frio. Mathieu caminhava lá fora na poeira viva e alegre desse dia que se iniciara sem ela e já tinha um passado. Sorriu. «A sua liberdade. e o dia começou. Acontecia. e o mínimo gesto fá lo ia ruir como uma avalancha. Pensou primeiro na manteiga. depois sentiu uma espécie de riso no fundo da garganta e inclinou se sobre o lavatório. não?». «E tenho sorte. Já não pensava em nada. Tinha vontade de vomitar. Uma aguadilha saía lhe da boca. Sentia se irritada porque imaginava uma robusta piedade passeando ao sol. nas pontas dos pêlos negros. como uma bola sobre a língua. maldosa. mas aguento. a sua expressão ingénua e convencida. E de repente recordou o rosto de Mathieu. ainda ensonada: um capacete de aço na cabeça. De manhã vomitou duas vezes. um gosto de mata borrão na boca. quando dizia: «Faz se um aborto. que adianta ser livre? «Não ajuda a viver. No entanto. Olhou a baba que escorria devagar pelo buraco do lavatório. a partir do segundo mês. anda a tratar de tudo». Vomitou uma água suja. «Ele pensa em mim. franzia lhe os lábios. Teve um sorriso amargo.» Levantou se bruscamente A e correu para o lavatório. a liberdade. espumante. pensou. e um clarão de ódio atravessou a.» Plumas delicadas e embebidas em aloés acariciavam lhe a garganta. como uma clara de ovo ligeiramente batida.» Depois fez se um grande silêncio no seu cérebro.» Quando se acorda de manhã com má disposição e se sabe que se têm pela frente quinze horas para matar antes de se tornar a deitar. Não sentia repugnância. parecia lhe que mastigava um pedaço de manteiga amarela e rançosa. uma coisa talvez como o desabrochar da Primavera. não era mais repugnante do que a goma ruiva e odorífera dos rebentos das árvores. não queria que Mathieu lhe tocasse. num equilíbrio instável. passou a mão pêlos cabelos e esperou. Marcelle apoiou se no lavatótio e olhou para o líquido espumoso. e sentiu nojo. mas dominava se. e teve de tossir para se livrar dela. Disse a meia voz: «Tem graça!» Não sentia repugnância. depois fico cansada.» Deixou . «Não é isto que é repugnante.inútil! Lá fora era o dia dos vestidos claros.

Iria a casa da velha. Não podia . E Daniel.» Mas essas estão orgulhosas. «E aqui. neste momento. que nem sequer é ainda um animal e que vão raspar com a ponta de um bisturi. Não olhou para os ombros nem para os seios. «Aborta se?» Desde a véspera que se sentia perseguida.» Não se sentia com coragem. Pensou: «Tenho de me arranjar. perante a abundância pacífica das banhas. Aquele corpo que desabrochava absurdamente era feito para a maternidade. um pouco acima dos pêlos negros. diante dos seios das mulheres que amamentavam: além do medo e do descontentamento. e quando a amasse redobraria de precauções. Não era um animal. Mas os homens tinham resolvido o contrário.» Podia entregar se àquela languidez viva. Hoje já não era a mesma carne. Não gostava do seu corpo. toda a gente tem disso na vida. ela aproximara se do espelho com o mesmo espanto hesitante. seria apenas uma recordação desagradável. Há sete anos — Mathieu tinha passado a noite com ela pela primeira vez —. tirou a camisa com gestos lentos. J E A N P AUL SARTRE O espelho devolvia lhe uma imagem cercada de luzes violáceas. com uma ingénua precipitação. Aliás. pousou docemente a mão na barriga. a sofrer dos intestinos e Mathieu viria. Iria a casa da velha.» Uma bolinha de sangue esforça se por viver.. Não queria odiar Mathieu. sempre dissemos que em caso de acidente. E não se falaria mais nisso. Está no seu direito. quase um tecido. como de costume. apertou devagar e pensou com certa ternura. Voltaria para o seu quarto cor de rosa. Disse: «Não quero odiá lo. «Sempre é verdade que me podem amar!» E contemplava a carne lisa e sedosa. com uma delicadeza terna. Tornou a sentar se na cama. Pensou: «Se fosse um animal. como uma jovem mãe. Daniel viria também de vez em quando. o arcanjo. Nesta barriga. continuaria a ler. quatro noites por semana e tratá la ia. Mirou o ventre. e o seu corpo era apenas uma superfície feita para reflectir os jogos estéreis de luz e tremer sob as carícias como a água a ondular ao vento. levantaria as pernas e a velha far lhe ia uma raspa gem com um instrumento. não passa de um fibroma..correr um pouco de água para lavar a bacia.. uma espécie de esperança. urna bolinha de sangue estúpida. Aproximou se. uma impressão semelhante à que sentia no Luxemburgo. afundar se nela como no seio de uma grande fadiga feliz. Surpreendeu os seus olhos no espelho e voltou se bruscamente.» Mas o ódio não se esvaiu. durante algum tempo ainda. Encolhem os ombros. que olham para a barriga e que também pensam: «É aqui. a sua ampla bacia fecundada. Pensou: «É aqui. Há outras.. Bastava imaginar que era um fibroma. em pequena. neste momento. Olhava para a barriga e descobria. deixar me iam sossegada.

. a certeza de desejar um filho?» Via de longe. uma massa sombria e curvada: era um corpo de sultana estéril.. Ele via a às escondidas.. quando a olhava carinhosamente. Está aborrecido como alguém que partiu um vaso. Quanto a Marcelle.saber. tinham um segredo em comum. de expor os seus pequenos casos de consciência. Tinha uma maneira especial de a interrogar. isso sim. Pensou: «É aqui.» É aqui que vive uma coisa. Dentro em breve ultrapassarei a idade do amor.» Só Daniel sabia fazê la interessar se por si própria. E isso é melhor para ele do que arrastar se por aí com aquela fulana.» Iria a casa dessa velha. e chamar lhe ia: «Minha gatinha». com um ar de cumplicidade imunda. devia saber que não posso falar de mim. Mas no fundo tem a consciência tranquila. E a velha passar lhe ia as mãos pêlos cabelos. Ah!.» Durante todo o dia da véspera tinha sentido um nó na garganta. tinha confiança nela. nunca lhe disse nada. «Pois é. ao menos. Por preguiça. Não se atormentava.» Riu.» Julgou por momentos que se ia acalmar.. «Quando não se é casada. que não gosto de mim o suficiente para isso. «Porque é que só Daniel me sabe fazer falar? Se me tivesse ajudado um bocadinho. Daniel era tão misterioso. a culpa é minha. como em Andrée. agora que não tem aulas. Não quer que essa velha me faça mal. infe . principalmente..» Mas ela não podia falar.» Mas não pôde deixar de passar docemente a mão pela barriga. vai andar ocupa díssimo. Gostaria de lhe ter dito: «E se o conservássemos?» Ah!. o que mais receava era ter de o desprezar. Não faziam nada de mal. não conseguia. Deve ter prometido a si próprio encher me de amor. no espelho.» Evidentemente. Marcelle não achava desagradável ter um pouco da sua vida pessoal. Teria ao menos sobrevivido? «Estou podre. mas a cumplicidade criava entre J E A N P AUL SARTRE ambos um laço ténue e encantador. algo que lhe pertencesse de facto e que não fosse obrigada a repartir. Por outro lado. mas isso era cómodo. «Como lhe poderia ter dito? Nunca me perguntou nada.» Crispou as mãos no lençol. uma gravidez é tão sórdida como uma blenorragia. tinham combinado de uma vez para sempre que diriam tudo um ao outro. «Ele estava inquieto quando saiu. vai andar à procura de direcções. «Se me puser a odiá lo. Estou com uma doença venérea. pensava: «Se ela tiver algo. à noite. é o que tenho de dizer a mim própria. e Mathieu ignorava aquela intimidade. Às escondidas. se ele tivesse hesitado um segundo. ter lho ia dito! Mas ele dissera com o seu ar ingénuo: «Aborta se?» E ela não conseguira falar.. pensou. as suas delicadezas morais. «Ele que fizesse como Daniel». para ele. Mas logo a seguir sobressaltou se. Mas tem de andar depressa. Ele gostava de falar de si. que me restará? Teria. «No entanto. Estava apavorada. dir mo á. era quase uma brincadeira.

com um queixo enorme. que se sentiu repentinamente culpada e teve horror de si própria.DADE DA RAZÃO liz como ela própria. tapeçarias de veludo bege. ao olhar aquele retrato pela primeira vez. um ramo de flores. de nunca se esquecer da mais francesa das virtudes. Havia muitas manchas nas paredes: os quadros. Mathieu pensou: «O espírito francês. Demasiado livre. e Mathieu perguntava a si próprio o que pensava ela de tudo aquilo. duas taitianas de joelhos na areia. «Os quadros não atraem». as paredes. Viu apenas os cabelos sem cor pelo falso brilho da luz. e Mathieu deitou lhe um olhar furtivo. as telas nas molduras. Ivich não respondeu. Sou livre perante eles. fazer uso do espírito crítico com moderação e firmeza. não tocar nos objectos expostos. tão inconfessáveis. o que dava logo o tom. era preciso escondê los de tanta gente. Não os quadros. Pensou de repente com paixão: «Seria meu. uma expressão de inteligência fácil. VI v ia se por cima da porta o emblema da República e as bandeiras tricolores. Os quadros . Era uma luz dourada que dava nos olhos e se fundia em tons de cinzento. Mesmo que fosse idiota. com a verdade. mas em vão. sem falar. aquela obscura afirmação eram tão solitários. Via tudo o que era real. Depende de mim que existam ou não. Apesar disso arrastou Ivich e mostrou lhe. Mathieu sentiu se acabrunhado por uma quantidade de responsabili dades cívicas. J E A N P AUL SARTRE uma paisagem bretã com um calvário. auto retrato: Gauguin muito pálido e penteado. Mathieu tinha o achado belo. A seguir entrava se nos grandes salões desertos e mergulhava se numa luz académica que saía de um vitral.. por toda a parte. um grupo de cavaleiros maoris l. nos cabelos de Ivich. Era aquele sol expurgado. — Isto é Gauguin — disse.» Um banho de espírito francês. Mas Mathieu já não tinha vontade de os contemplar. «apresentam se.» Isso criara lhe uma responsabilidade suplementar e sentia se culpado. Na semana anterior.. as cores pastosas sobre as telas. sentia se seco. Mathieu estava sobressaltado com a realidade. tudo o que aquela luz clássica podia clarear. Era uma pequena tela quadrada com uma etiqueta. Nem sequer via o quadro. Agora. e o silêncio oficial dos salões. Uma vida absurda e supérflua como a dela. um Cristo na cruz. Tinha de falar baixo. pensava irritado. e uma arrogância triste de criança. Tentava interessar se pêlos quadros. Paredes claras. transido pelo espírito da Terceira República. Ivich não dizia nada. disforme. o bom senso. seria meu!» Mas aquele desejo secreto. mas mãos de Mathieu.

tinha ao seu lado um corpinho rancoroso. num céu tempestuoso. Ivich teve de se pôr de lado porque impediam que fosse vista. nu até à cintura. de expor nas telas objectos inexistentes. Mathieu ouviu um soluçar estranho e voltou se. mas mantinha o orgulho. «Ela já não está zangada». Mathieu tinha se comovido. Devia ser a força do hábito. seco e elegante no seu fato distinto de flanela cinzenta diante do enorme corpo nu. O homem era alto e rosado. esse anjo é literário como tudo! J E A N P AUL SARTRE — Não gosto de Gauguin quando pensa — disse o homem. Era uma competência. havia urna relação visível entre o seu aspecto de juventude e a qualidade da luz. — Não gosto nada disto! Palavra de honra. Entrou um homem e uma mulher. Por trás dele havia presenças obscuras. tche — murmurou meneando a cabeça. fazia se passar por Cristo! E aquele anjo ali. — Tche. Gauguin. Tinha uns olhos redondos e cabelos brancos. — Também é dele. Os cabelos caíam lhe para a . A solidão e o orgulho tinham lhe devorado o rosto. (N. — O verdadeiro Gauguin é o Gauguin que decora. Condecorada. foram colocar se com desembaraço diante da tela. tche. atrás dele. O corpo tinha se tornado num fruto grande e mole dos trópicos. A mulher pôs se a rir.) Mal entraram. — É verdade — disse com uma voz aflautada —. isto não é a sério. Ivich tivera um ataque de riso e olhava o com desespero mordendo os lábios. 1 Indígenas da Nova Zelândia. Perdera a dignidade — aquela dignidade humana que Mathieu ainda conservava sem saber o que fazer dela —. Certamente a luz das exposições nacionais era a que lhes ia melhor. fixava neles o olhar duro e falso dos alucinados. A mulher era do tipo gazela e devia ter uns quarenta anos. Contemplava Gauguin com os seus olhos redondinhos. mostraram se à vontade.tinham se apagado e parecia monstruoso que no fundo de todo aquele bom senso houvesse gente capaz de pintar. da R. pensou Mathieu com alegria. uma grande imundície na parede. demoníacas formas negras. Mathieu mostrou a Ivich uma grande e sombria mancha de bolor na parede do fundo. O homem inclinou se para trás e olhou a tela com uma severidade depreciativa. e Mathieu sentia vergonha de si próprio. Era de mais. Agarrou lhe no braço e conduziu a até uma poltrona de couro no meio da sala. Mas estava só. Da primeira vez que vira aquela carne obscena e terrível. Ivich deixou se cair na poltrona às gargalhadas. com profundidade. Agora. O homem e a mulher aproximaram se.

Levantou se. — Há outros quadros na sala — disse Mathieu timidamente. A outra estendia o braço com uma tranquilidade profética. — Isto não devia ser público — disse Ivich de repente.. — Quando? . Ivich desviou as mãos e Mathieu viu lhe os olhos pálidos e franzidos. Desejaria ter lho mostrado. detesto o Verão. Não pensa noutra coisa. Duas mulheres caminhavam descalças num capim cor de rosa. Oh! — disse furiosa —. Quando a encontrar. a rua ardia. Ivich fez uma careta e levou a mão aos olhos. Ivich titubeava ligeiramente e continuava a tapar os olhos.» E de repente foi invadido por uma certeza insuportável. Mathieu pensou: «Continua aborrecida comigo. Há pessoas. Calaram se. deixa me. Ivich parou de rir. sem querer. Parecia que tinham sido surpreendidas quando se metamorfoseavam em coisas. Deram alguns passos. — Ivich — murmurou. Atravessaram a rua em silêncio. «Ela quer acabar com tudo. Estão bem um para o outro! O homem e a mulher mantinham se impassíveis. Era feiticeira. Mathieu seguiu a deitando uma olhadela de pesar para o grande quadro da parede à esquerda. Mas eu não quero que ela me deixe».. — Não — disse melancólica —. — É formidável — disse em voz alta. Gostaria de passear ao ar livre. Estes quadros fizeram me outra vez dor de cabeça.cara. — Cuidado com o passeio — disse Mathieu. Uma delas tinha um capuz. agora já não é a mesma coisa. Não tinham uma expressão completamente viva. — Como é que ele dizia? Não gosto de Gauguin quando pensa. Deve estar à procura de uma frase cortês de despedida. — É como se me picassem os olhos com alfinetes. Pareciam consultar se sobre a atitude que deviam tomar. — Não tem nada de especial para fazer? — perguntou. pensou com angústia. — Refere se às exposições? — Refiro me. — Se não fosse público — tentava retomar o tom de alegre familiaridade que lhe era habitual —. Lá fora. — Quer ir se embora? — Preferia. E a mulherzinha. Mathieu teve a impressão de atravessar uma fogueira. como havíamos de fazer para lá ir? — Não íamos — disse Ivich secamente.

podia atrasar um pouco a eclosão dos pensamentos coléricos e desprezíveis que lhe iam nascer. coisas belas e sensuais que se deviam possuir. não os apreciava e não os respeitava. pensei. Os estudantes da Sorbona. imediatamente. mas viu lhe um olhar desvairado. ainda que os odiasse. — Aí está uma ideia que não me teria surgido — disse Mathieu com surpresa. de qualquer coisa. vou ter com Boris. Mathieu encolheu os ombros. Mas não volto para o Lar. Os pintores eram homens como os outros. J E A N P A U L SARTRE — Visto que quer passear. Não é possível deixá la partir assim. Perguntava se tinham sido simpáticos. Um dia. e ela respondeu: «Que horror. mas não se atreveu a fazê lo. impedia a de pensar. graciosos. Ivich tinha uma maneira de falar dos mortos ilustres que o chocava um bocado: entre os grandes pintores e os quadros não estabelecia qualquer relação. E havia também aquelas formas negras atrás dele que pareciam conspirar. e as palavras não lhe saíram. era belo — disse Ivich com convicção. Se falasse continuamente. Parecia lhe que existiam desde sempre. A — Gauguin? Não sei. — Acha que ele era doido? — perguntou bruscamente Ivich. aborrecia se de ir comigo até casa do Daniel na Rua Montmartre? Podíamos separar nos à porta e deixava me pagar lhe o táxi para voltar ao Lar.» O que não provava que lhe tivesse perdoado. Era preciso falar. — Se quiser. «Daqui a uma hora ficará livre e há de julgar me sem apelo. desajeitadamente: — Apesar de tudo gostou de ver os quadros? Ivich encolheu os ombros. — Sim. se se impusesse. Mathieu perguntou lhe se gostava das telas de Toulouse Lautrec. Enquanto estivesse com ele.» Voltou se para ela. Ivich não gostava de deixar os lugares e as pessoas. porque o futuro a apavorava. Mathieu estava contente. «Ela fica. — Não nada. não me poderei defender. Acrescentou com pesar: — Era belo. É por causa do retraio que pergunta isso? — Por causa dos olhos.. se tinham tido amantes. Mathieu teve vontade de limpar a testa.. tenho de lhe explicar. . — Naturalmente. Os quadros eram coisas. ele era tão feio!» Mathieu sentiu se pessoalmente magoado. Acabou por perguntar.— Agora. Abandonava se com uma indolência mal humorada às situações mais desagradáveis e acabava por encontrar nelas uma espécie de descanso. Apesar de tudo. Mas Mathieu não encontrava nada para dizer.

tinha filhos. bem sabe que aprecio as pessoas que são orgulhosas. compreendo isso muito bem. Adquirira uma expressão de obstinação insípida. Era apresentada na Corte. — Disse por dizer. — Quer que lhe conte a história? — Parece me que a conheço: era casado.insignificantes e frescos como raparigas. — Sim — disse Mathieu no mesmo tom —. Ivich teria sido educada em Moscovo. se é isso que quer dizer. — Eu não o acho simpático. passeava com Mathieu. Mas não Gauguin. — Porque é que disse naturalmente? — Porque tinha a certeza de que ia chamar a isso arrogância. — Naturalmente — disse Ivich a rir. De fora. Depois Ivich disse abruptamente com um ar estúpido e fechado: — Os Franceses não gostam do que é nobre. Ivich podia os devorar com os olhos à vontade. e sempre com aquela expressão estúpida. E até Mathieu a tinha achado encantadora uma vez em que ela olhara demoradamente um pupilo do orfanato acompanhado de duas religiosas e dissera com uma espécie de gravidade irrequieta: «Tenho a impressão de que me estou a tornar pederasta. Mathieu disse. O seu ar de orgulho dá lhe um olhar de peixe morto. Houve um longo silêncio. carinhosamente: — Eu não queria dizer mal dele. alto e belo. uma certa arrogância. Acrescentou. — Foi esse Gauguin que fugiu? — perguntou de repente Ivich. mas pergunto a mim própria porque é que disse isso. de testa curta.» As mulheres também as podia achar belas. de olhar mortiço. um burguês de nacionalidade francesa que não gostava da nobreza. — Foi — disse Mathieu com solicitude. Porque é a minha impressão. isso deve parecer tão exagerado! Mathieu não respondeu. não é . — Censura me porque não o acho simpático? — Não. Ivich estava em Paris. O pai de Ivich era nobre. — Que foi. O Sr. Não aquele homem maduro que fizera quadros de que ela gostava. casava com um oficial da guarda. Ivich falava de bom grado do temperamento francês quando se encolerizava. conciliadora: — Aliás. — Tem um ar nobre — disse num tom neutro. Ivich? — disse Mathieu com vivacidade. Sem a revolução de 1917. Ivich desatou a puxar um caracol dos seus cabelos. Ivich fez uma cara de desprezo e calou se. Serguine A era agora proprietário de uma serração mecânica em Laon. no colégio das raparigas nobres.

mas não com a expressão que Mathieu esperava. para realizarem o seu ideal na vida.. Estou a vê lo a fazer conferências para estudantes americanos numa universidade.» — Enfim — concluiu —. está enganada. ou cinco ou seis poemas. Não o fiz porque era absurdo. — Não — respondeu secamente Ivich —. Ivich pôs se a rir. mas para Nova Iorque. «morreria. Mathieu estremeceu. em missão. — Isso surpreender me ia muito — disse com voz glacial. Ele sentiu dificuldade em engolir a saliva. assustava se com a sua própria ousadia. corando. respirando o ar puro. que foi precisamente um funcionário até aos quarenta anos. olhou o de frente. de segunda classe. — Acha que preciso de cabinas de luxo? — perguntou ele. acho estranho vê la decidir sobre a minha possibilidade de partir. Tive muitas vezes vontade disso. Quem sabe lá se um belo dia não partirei para o Taiti? Ivich voltou se para ele. Era saudável. Por higiene. Aliás. — Sim — disse —. mas não no convés de um navio de emigrantes. . da mesma maneira que se pesca à linha.. — Então no que é que pensava? — Estava a pensar se também se podia falar em escritores de domingo? Escritores de domingo! Pequenos burgueses que escreviam anualmente uma novela. J E A N P AUL SARTRE — Refere se a mim? — indagou a rir. Era o que chamamos um «pintor de domingo». compreende porque se pintam paisagens no campo. de qualquer maneira.. — Porque não? Talvez não para o Taiti. A princípio era isso. Tinha um ar mau e amedrontado. — Acha engraçado que ele tenha começado como um pintor de domingo? — perguntou Mathieu com inquietação. pensou. antigamente. e ela continuou: — Talvez me engane. Esta história é ainda mais cómica porque veio a propósito de Gauguin. Mathieu olhou a em silêncio. Talvez por ser francês. — Bem viu que isso leva às maiores loucuras. — Pintor de domingo? — Sim. Gostaria de ir para a América! Ivich puxava os caracóis com violência.isso? — É! Trabalhava num banco e ao domingo ia para o campo com o cavalete e uma caixa de tintas. Um amador que esborrata telas ao domingo. com outros professores. «Gostaria de a ver num convés de um navio com os emigrantes». — Não era nele que eu pensava..

— Evidentemente! Se é isso que quer dizer.. não! — disse Ivich... — Ah!. Em todo o caso basta olhá lo na tela para. — Ainda estamos a falar disso? — É estúpido. tinha aceitado perdê la. — Ivich! Vai dizer me o que é que está a magicar. e Mathieu sentiu pela segunda vez ciúme. — É. — Estou a falar do quadro em que ele é ainda jovem: parece capaz de tudo. É demasiado cómodo. Ivich recomeçou a puxar os cabelos. de má vontade. Calou se. Gauguin tinha perdido a dignidade humana. — Não é verdade? — indagou Mathieu... Foi uma palavra que me veio à cabeça. nada. — Não censuro ninguém — disse ela com indiferença. Acrescentou rapidamente. depois. De repente disse: — Tanto se me dá que seja assim ou assado.. De vez em quando abria a boca. não se fala mais nisso. Mathieu lembrou se do rosto pesado e do queixo enorme. Mathieu parou e olhou a. — Aliás. E sempre assim. olhando para a ponta da sapatos: — Você já está instalado e não mudaria por nada deste mundo. Apoiava se ora num pé ora noutro e evitava o olhar de Mathieu. — Na grande tela do fundo? Estava muito doente naquela altura. — Quem é que lhe disse isso? — É uma impressão. mas quero saber o que pensa exactamente sobre isso. Faz censuras veladas e.. — Estou a ver — disse. e Mathieu imaginava que ela ia falar. — Bem. . perdido. Enrolava um caracol no dedo e puxava o como se o quisesse arrancar.Ivich desatou a rir ironicamente. Mas não saía nada. Era exasperante. Olhou indefinidamente. a impressão de que você já tem a vida organizada e com ideias sobre tudo. Ele parecia. — Nada. não vejo porque é que isso havia de ser uma qualidade — disse ele —. Ivich parou também. não sou um homem perdido. Estende as mãos para as coisas quando julga que estão ao seu alcance. ou então não estou a perceber o que quer dizer. Tinha ar de querer dizer qualquer coisa. recusa se a dar explicações. Ivich sorriu com desprezo. mas não dá um passo para as apanhar. visto que o disse. era isso — disse Mathieu. — Ah. — Para quê? — Para ver que não deve haver muitos funcionários daquela espécie. — Claro. com uma expressão ligeiramente desvairada.... J E A N P A U L SARTRE — O quê? — Nessa história de homem «perdido».

às exposições. como qualquer outro. — A que propósito diz isso.. — Como diz isso sem convicção! — Gostava realmente muito.. tudo o que faz é.. — Nunca a teria forçado. — Devia ter dito — continuou desolado. Não conseguia dizer outra coisa. — Se quer dizer que não tenho caprichos. sem que se percebesse a mais pequena ironia na sua voz: — Consigo sentimo nos em segurança. — Julgo — disse Ivich com lassidão.... — Acha isso desprezível? — Pelo contrário — respondeu Ivich. sem o olhar: — Todas as semanas chegava com a Semaine à Paris. — Julgo que não se quer arriscar.. Ivich? — A propósito de tudo — disse ela com ar vago. Mathieu pensou de repente em Marcelle e teve vergonha. mas não acho bem. A — Ah! — disse Ivich triunfante. — Não compreendo. estabelecia um programa. estou Ihe muito grata. — Era para si! — Eu sei — respondeu Ivich com delicadeza —.. deve estar a pensar nalguma coisa de especial. — Com efeito — atalhou Mathieu secamente. com indulgência. — Ah!. que é demasiado inteligente para isso. Acrescentou.. Não gostava de ir a concertos e exposições? — Gostava. Mas tenho horror — disse com uma violência repentina — que me imponham obrigações para com as coisas de que gosto. Olhava os lábios finos e moles de Ivich e perguntava a si próprio como os tinha podido beijar. Pensava que ela tinha razão. Mathieu estava aterrado. — Ivich! — disse Mathieu. descobrindo o rosto largo e pálido. tão metódico... a vida devia ser impossível. explicara lhe os . Ela murmurou.. — Não — disse em voz baixa —.. — Acho muito melhor assim. Com Gauguin. sou assim mesmo. Mathieu estava mais surpreendido do que chocado. não há que recear imprevistos. — Eu sei... Levara a aos concertos.— Quem é que lhe disse isso? — repetiu Mathieu. Levantou a cabeça e alisou os cabelos para trás. indignado... como imagina. Ivich. — Não. Mathieu sentiu se empalidecer. Poderia tê los. não gostava disso — repetiu Mathieu. os olhos brilhavam lhe.. Acrescentou com uma expressão falsa: — Mas como me diz o contrário.

. e Mathieu continuou com esforço: — Há também os museus.) Já os confunde. Ivich não respondeu. Uma cólera desesperada ardia lhe no rosto. tranquilo e reverente. Ivich conservava a sua expressão dura..) — Acho que é melhor. baralham se me na cabeça. Agora. Mathieu via se com os olhos de Ivich e sentia horror por si próprio. e durante todo aquele tempo ela odiava o. — Até logo — disse ela. «Sou repugnante». Pensamos agradar às pessoas. — Que me importam os quadros — disse Ivich sem o ouvir —. Estavam inundados de luz e odiavam se. Desculpe. Se soubesse como lamento. Mas você nunca dizia nada. Mas vinha lhe outra do fundo da garganta. silenciosos. angustiado. — Não se pode mudar — disse. — Até logo — disse Ivich sem o olhar. E sempre a mesma coisa. Você ia a essas exposições como se fosse à missa. Falava com repugnância. O táxi afastou se. Calaram se. — Não voltará a acontecer. e nem sequer lhes podia tocar. Daniel barbeava se diante do espelho do .. Caminharam lado a lado.. Mathieu pensou: «E o Sumatra? Deverei lá ir apesar de tudo?» Mas não tinha vontade de a tornar a ver. Acrescentou: — Vou tentar mudar. e pôs se a pensar em Marcelle. pensou. Falava por descargo de consciência. Foram os quadros. — Ivich! Peco lhe desculpa do que se passou esta manhã. trancou se. nem sei como aconteceu. erguia lhe a língua e saía. Ela levou a mão à testa e apertou as fontes com os dedos. Mathieu chamou um táxi. Imaginava que ia parar a cada palavra. os concertos. (Bateu o pé e olhou Mathieu com desespero. Está cansada? — Muito. aos arranques. E sentia o a meu lado. — Ainda é longe? — Um quarto de hora. Mas ao mesmo tempo. Adoptara um tom de bom senso. Todas as vezes. Sabia que a sua causa estava perdida. com o olhar. Depois uma porta bateu dentro dele. Pensava em Gauguin. e Mathieu detestou a francamente. mal me podia conter de raiva e vontade de os levar. Ivich sacudiu a cabeça. Mathieu sentiu de repente um nó na garganta. tinha pressa de ficar sozinho. se não os posso ter. vn N u até à cintura. — Quer ir se embora? (Mathieu estava quase aliviado. e durante alguns instantes Mathieu acompanhou o. Aliás. — Esta manhã? Nunca mais pensei nisso.quadros.

em plena puberdade. «Um rosto escalavrado não deixa de ser um rosto. Um rosto de arcanjo. Daniel apurou o ouvido: «Não. à luz da lâmpada eléctrica. Tinham acabado de dar as dez horas. Ao mesmo tempo escutava. eram os ruídos da rua. irritado. colocava flores diante da porta de Daniel. no ruído leve da navalha.» Não era um simples projecto. fixo e redondo. Com um pontapé atirou os cravos escada abaixo. Ficaria um pequeno tufo de pêlos pretos. sustendo a respiração.» Aproximou se do espelho e . Não seria má ideia desfigurar este rosto de que elas tanto gostavam.» Olhou a espinha vermelha e febril. Daniel saltou com a navalha na mão. Era a filha da porteira. sempre significa alguma coisa. pensou Daniel.» Tomava cuidado ao passar com a navalha à volta da espi J E A N P AUL SARTRE nhã. simplesmente. Para além disso. tudo estará acabado. ao meio dia. Pensou com uma espécie de mal estar: «E isso que a excita. Todas as manhãs.armário. Daniel tinha medo dos arranhões.» Marcelle alcunhara o de querido arcanjo» e agora tinha de suportar os olhares daquela femeazinha. Aquilo já durava há quinze dias. ao voltar da escola. Só assim a conseguirei apanhar. a criança tinha o pressentido e fugira. de faces azuladas. Era preciso vivê la. Abriu bruscamente a porta da entrada.» Tornou para o quarto e voltou a barbear se. Tarde de mais. Não se podia tentar afastá la. tinha a certeza. e lançar lhe ia um olhar severo. Inclinou se ligeiramente e com um golpe hábil de navalha decapitou a espinha. quase imperceptível. Daniel descobriu no capacho a seus pés um ramo de cravos: «Fêmea imunda». nada a não ser uma tarde vaga que se retorcia como um verme. «Hoje de manhã. Agora era assim. nu da cintura para cima. de maneira a não se cortar. Ficará chocada quando vir que tenho pêlos no peito. cada vez que bebia.» Foi como um leve roçar. Pensou: «Ela gosta da minha cara. Via no espelho o rosto moreno e nobre. Tinha também aquelas olheiras roxas e pensou: «Estou a dar cabo de mim. «Imundas». nem mesmo aproximá la para que acabasse mais depressa. «Tenho de ficar à espreita no vestíbulo uma manhã inteira. Doíam Ihe os olhos porque havia dormido muito mal e tinha uma espinha sob o lábio. Devia ter se escondido na reentrância de um dos patamares e aguardava. uma manchazinha vermelha com um ponto branco. porque tem imaginação. com o coração aos saltos. A coisa já lá estava. Dizia para si mesmo: «Desta vez não me escapa. ainda me aborreceria mais depressa. paciência. Da cara e dos ombros. A porta do quarto de dormir estava entreaberta para ouvir melhor. como um olho. Bastava ver aqueles olhos de peixe frito quando lhe dizia bom dia.» Apareceria. disse em voz alta. mas o meio dia já estava no quarto.

pouco antes do encerramento do jardim. Tinha de perder um quilo. com uma grande cicatriz no flanco direito.» Parecia cansado. duas poltronas. «espera um pouco. ah!» Ela enrolava se de um lado para o outro com movimentos graciosos de cabeça. Quatro paredes nuas. um armário. Coçava a cabeça contra o batente da porta. Daniel pegou lhe pelo pescoço e meteu o no cesto. Beliscou as ancas. com ternura. Era uma gata de telhado. Logo que percebeu que ele a estava a ver. Viu o grande cesto de vime. assanhando se. Daniel não tinha recordações. Daniel roçou lhe o dedo pelo pescoço rechonchudo. O gato. abafada. aberto no meio do compartimento. J E A N P A U L SARTRE dava lhe pequeninas patadas na manga. depois olhou em volta. à noite. Comeram se uns aos outros. tinham nos encurralado numa rua. mas encolheu se e depois resolveu ronronar. «Espera um pouco». virou se de costas então. estendeu as patas e ele fez lhe cócegas nas tetas escondidas sob o pêlo negro. uma mesa. Durante um segundo. Daniel não gostava dos cães. Olhou duramente Daniel e bocejou com ferocidade.» Pegou Ihe pelas patas e pô la ao lado de «Cipião». escolheu com atenção a gravata: a verde às listas porque estava abatido. «Ah». gosto de ser belo. «Cipião» apareceu primeiro. Não eram cães que deviam lá ter posto. Gostava do seu quarto porque era impessoal e não o atraía. Depois abriu a janela.contemplou se sem prazer. de olhos semicerrados. Daniel pensou nos cães de Constantinopla. «Cipião» ficou lá sem se mexer. O vento do mar alto trazia por vezes os uivos deles aos ouvidos dos marinheiros. A seguir. «Popeia» — chamou Daniel. uma cadeira. Dir se ia um quarto de hotel. «Malvina» veio a seguir. Daniel gostava menos dela porque era comediante e servil. fechado em sacos e abandonado numa ilha deserta. Era branco e ruivo. Enfiou uma camisa de seda creme e umas calças de flanela cinzenta. Era hoje. com uma barbinha. eufórico. Quando ela o viu. O relógio de Daniel marcava dez horas e vinte e cinco. Pareceu espantada. Disse: «Aliás. uma cama. espreguiçando se. Entreabriu a porta da cozinha e assobiou. beatificado. até ao meio dia. uma manhã pesada. Sete uísques na véspera. Daniel teve de ir buscá la à cozinha. Daniel tinha a encontrado no Luxemburgo. e a manhã entrou no quarto. Daniel deixou se flutuar no calor estagnante. sozinho no Johnny's. «ah. pulou para o fogão a gás. pôs se a ronronar e a fazer gracinhas. e . «Popeia» nunca vinha quando a chamavam. numa noite de Inverno. — «Popeia». predestinada. disse com uma voz cantante de comediante. Daniel ajoelhou se e. e desviou os olhos. pôs se a acariciar lhe o focinho. pensou ele. Não se decidira a voltar para casa antes das três horas porque era terrível pôr a cabeça no travesseiro e deixar se afundar nas trevas imaginando que ia haver um amanhã.

corado e a suar com aquele fardo nos braços. o seu terror raivoso.trouxera a.» Queria vestir o casaco de flanela. Dir se ia um canto de cigarras. bom. A porteira estava à porta da rua e sorriu lhe.» Nas costas da mão havia três arranhões e no seu íntimo havia também uma comichão estranha que ameaçava envenená lo. mas passou lhe logo.» Riu se. e Daniel pensou. Teve de a empurrar pelo rabo. «É longe. Hesitou. Daniel gostava dela. seria cómico andar ao sol. ronronando. Na escada já se sentia indiferente e seco. JEAN PAUL SARTRE apenas gatos. uma dorzinha seca. Mas para fazer «Popeia» entrar no cesto foi um castigo. Tomou a nos braços e ela esticava a cabeça para trás. mordia muitas vezes «Malvina». simplesmente gatos. o vime gemeu sob as garras de «Popeia». «Gatos. depois. Pegou no cesto pela asa e pensou: «Como são pesados estes infelizes animais. «Bom. bom. e ela voltou se raivosa e deu lhe uma unhada. Quando atravessou a porta de entrada. como de costume: «É raro um gato olhar nos de frente. como se fossem cócegas. Daniel contemplou os com um alívio maldoso: «Um bom guisado. porque ele era muito cerimonioso e bem educado! . minha rainha». Não ronronava («Popeia» nunca ronronava). Os outros dois tinham ficado um ao lado do outro. Passou lhe o dedo no focinho e ela mordeu o com raiva e divertida ao mesmo tempo. insípido. vou ter calor. A gata teve um momento de estupor e Daniel aproveitou o para baixar a tampa e fechá la. Parecia escandalizada. Levantou se e olhou para o cesto com uma satisfação irónica. mas não tinha o hábito de ceder facilmente aos próprios desejos e. é assim?» Agarrou a pela nuca e pêlos rins e enfiou a à força. baixando as orelhas e curvando se toda. Tinha a impressão de que estava a pregar uma boa partida a alguém.» Imaginava a sua posição humilhante e grotesca.» Pensava nas tetas rosadas de «Malvina». Agarrou no novelo de fio e guardou o no bolso das calças. estúpidos. «Presos. «Ah!. e sorriu lhe sem a olhar. uma insipidez de carne crua. Cómico e um bocado ridículo. «Era isto que eu gostava tanto de fazer!» Bastara lhe fechar os três ídolos dentro de um cesto de vime e tinham voltado a ser gatos apenas. «Uf!» A mão ardia lhe um pouco. Sorriu e escolheu o casaco de tweed arroxeado que já não podia suportar desde Maio. pequenos mamíferos vaidosos e estúpidos e que morriam de medo — nada de extraordinário. Gostava de Daniel.» Mas sentiu que uma intolerável A IDADE DA RAZÃO angústia o invadia e teve de desviar o olhar. Então beliscou lhe o pescoço e ela ergueu uma cabecinha obstinada. teve uma espécie de enjoo. mas olhou o bem de frente. Era voluntariosa e má.

Não. com uma garra de ferro a apertar lhe o crânio. Apaguei a logo a seguir. Daniel sorriu. corno tinha previsto. tinha a impressão de se destacar de si mesmo. não há nada como uma manhã de bruma. O senhor deve estar muito aborrecido. com uma espécie de prazer. fechado e no fundo havia uma pobre vítima que pedia clemência. aquela horrível luz quente e aguda. A um quilómetro dali. De repente ouvi a campainha. Devia tratá los mal na minha ausência: bem a proibi de lhes tocar. Sereno. Mas o seu apartamento vai ficar vazio. «Não vou desmaiar assim sem mais nem menos». «É estranho que se possa odiar a si mesmo como se fora outra pessoa!» Mas não era verdade. Daniel conhecia um sítio solitário ao pé do Sena. Sentia se interiormente tão bom. era muito alto.» Atravessou o portão.— Levantou se muito cedo. minha senhora — respondeu Daniel respeitosamente. por mais que fizesse. nadava na luz. De repente viu a própria sombra grotesca e disforme. Hyde até à paragem do 72. Jekyll e Mr. — Receava que estivesse doente. Não via nada. «Velha toupeira. quando ia lá acima arrumar.» O 72 levá lo ia a Charenton. só havia um Daniel. — Ah!. — Muito. Senhora Dupuy — disse Daniel. traiu se. nada de táxi. Quando se desprezava. de planar como um juiz abstracto acima de um formigar impuro. — Estão doentes? Coitadinhos! — Não. Empertigou se. — Veja lá — disse a porteira a rir —. Hyde. O veterinário acha que precisam de ar. assustada. faria melhor se vigiasse a filha. com a sombra da prisão de vime que lhe balançava no braço. Quando se bebe na véspera. «Ah!». Eu já me tinha habituado a vê los. Daniel contemplou se a si próprio com nojo. Pensou: «O homem é assim». trate bem deles. Fazia Ihe mal aos olhos. gravemente: — Sabe que os gatos podem ficar tuberculosos? — Tuberculosos? — disse a porteira. «Dr. não? — Mais ou menos. Sorriu gravemente e deixou a. Sereno» (era o único inquilino que faltava entrar). tão bonitos. disse. «não faltava mais nada.» A água do Sena era particularmente escura e suja naquele lugar. Acrescentou. Sr. «aí está o Sr. vou levá los para a casa da minha irmã em Meudon. com manchas esverdeadas de óleo por causa das fábricas de Vitry. e . que isso não lhe parecia natural. e a luz ofuscou o. Era rígido. — Voltei tarde ontem à noite e vi luz por baixo da sua porta. estava tão exausta que adormeci sem apagar a luz. — Que cesto tão grande! — São os meus gatos. Eram três horas mais ou menos. dir se ia um chimpanzé. Serei Mr. mas a sombra permaneceu atarracada e disforme. tenho tempo. pensei. tão tranquilo.

Sangue. Aliás. pensou. A obscuridade era agradável. depois sentou se num banco do bar. arranhavam se lá dentro. «Que fossem passear com aquela mania de catalogar os indivíduos. O empregado limpava as mesas de madeira avermelhada em forma de tonel. «vou beber um copo. «Há no entanto qualquer coisa que os . E se eu levantasse a tampa?» Mas Daniel já tinha saído. cheques sem cobertura. nunca se é nada. pôs vinte francos na mesa e pegou no cesto. «Que violenta dor de cabeça!» Pousou o cesto. «Ah!. pensou Daniel. tanto lhe fazia. iria até ao fim do mundo — até ao fim de si próprio. O silêncio repousante. o bar estava vazio.. como guarda chuvas ou máquinas de costura. aquele tem sempre uma boa para contar. o terror transformar se ia em gatos. Devia estar magoado. «Que estarão fazendo aqui dentro?». e de repente apercebeu se de que via casas... com um fogo de artifício na boca. e a cegueira recomeçava. sem fazer objecções.» —. um gin fizz! O barman serviu o. na frente. se abrisse.bruscamente aquilo apanhava o e sentia se mergulhar em si próprio. Agora só havia na prisão um pavor maciço e indefinido. Aliás. a cem passos. pensou. «Tanto melhor. Aquele terror que sentia tão próximo da mão. Pensava: «Isto nunca mais acaba. Este dá boas gorjetas. «Merda!». Mas não tinha vontade de levantar a tampa. Ao levantá lo. angustiado. — Não — disse secamente Daniel.» Mas eram pensamentos superficiais. secamente. Espalhava se em poeira ácida sobre a língua e acabava num gosto de aço. são demasiados familiares. não sabia se lhe causava prazer ou mal estar. claras e leves como fumo. eu gosto de uísques bem doseados. viu no chão uma manchazinha vermelha. uma cegueira lúcida e húmida: os olhos ardiam lhe como fogo. — São gatos — disse Daniel. — Vai com certeza querer um uísque bem doseado — afirmou o barman.» Tinha de fazer apenas um pequeno desvio e ficaria no Championnet. Isto não me faz nada. o gin fizz sabe a limonada purgativa. Bebeu o vodka e ficou um momento a sonhar.. O barman assustou se. O cesto mexeu se sozinho no seu braço. Assim é que imaginava o Inferno: um olhar penetrante que atravessaria tudo. Desceu do banco. não o suportaria. Eu não sou. Mas definem as pessoas num instante. Quando empurrou a porta. «Que é que nunca mais acaba?» Ouviu se um miado e um ruído de garras a raspar. No fim da rua havia um muro azul. Rua Tailledouce. «É sinistro ver com clareza». Nunca mais porei os pés neste buraco.» — Um vodka com pimenta num balão — pediu. como sempre. l DADE DA RAZÃO e Daniel não poderia suportar isso.

sossega: o meu cheiro. — São gatos — disse Daniel. pôs o cesto no chão. sozinho entre os homens que não têm sentidos suficientemente apurados para essa percepção. perto do lampião e que se olhava e se via chegar. Daniel fez sinal e subiu para a primeira classe. E sabes porquê? . deambularia sem cheiro. com uma vozinha clara. e a ilusão dissipou se. encheu se de uma água lodosa e insossa. — São seus? — indagou a menina. eu vou afogar estes gatos. estava farto. — Tchiu — disse a mãe —. Não queria armar em trágico. Mas a montra de uma tinturaria reflectiu lhe a imagem. A água do Sena.. Nunca se pode ser directamente atingido. deixa o senhor sossegado. estás a abusar. digna e rígida. A menina olhou para o cesto com curiosidade: «Mosquinha imunda». Foi invadido por um imenso nojo. insossa e lodosa. Tonéis. Uma mulher sentou se diante dele. nada mais do que um invisível arrancar de si próprio para o futuro. Via se chegar e era apenas um simples olhar. prisões de vime: prisões. sacos de couro. coxeando ligeiramente por causa do peso que levava. ele próprio. — Porque é que os carrega num cesto? — Porque estão doentes — disse Daniel. querida — disse Daniel em voz baixa e rapidamente —. O cesto miou. Sem cheiro e sem sombra. O autocarro surgiu de repente. «Há piores. E nunca. . Paciência. docemente. é porque se leva tudo a sério. Daniel. — Não posso mostrá los. — Que é? — perguntou a menina.» Dentro em breve. sem passado. a suar. «A água do Sena vai enlouquecê los. — Posso vê los? — Jeannine — disse a mãe —. e Daniel estremeceu como se tivesse sido surpreendido em flagrante delito de assassínio. A menina falou com uma voz convincente e encantadora. — Até ao fim da linha.» A água cor de café com leite com reflexos roxos. a doença tornou os maus. — São. x — Comigo não serão maus.» Parou. nunca Daniel levava as coisas a sério. pensou Daniel. pensou: «E um acto gratuito.» Daniel pensou: «Para eles sou um cheiro.. uma menina. Pensou novamente em Constantinopla: fechavam as mulheres J E A N P AUL SARTRE infiéis dentro de sacos com gatos hidrófobos e atiravam nos ao Bósforo. Quando se arma em trágico. A — Achas que sim? Escuta.» Encolheu os ombros. Daniel já não teria aquele cheiro familiar. Ao lado. Chatear se através do mal feito aos outros. Daniel reparou que estava a alguns passos à frente do seu corpo. — Seis bilhetes — disse o cobrador. Mais cheques sem cobertura. vai encher o cesto e eles vão ferir se com as garras. os gatos.

De ambos os lados havia tonéis e entrepostos.» As mãos eram curtas e fortes. Cada miado era uma gota. Como faziam essas pessoas assim. Daniel sobressaltou se. espantada. Olhou momentaneamente. Descansava. não queres pensar nos gatos? Pois bem. dois dias antes. Pô las sobre os joelhos: «Olhe! olhe!» Mas a mulher desistira. Somente a massa espessa do sono. Talvez as mãos. Carregava um balde furado de que a água se escapava gota a gota. Seria cómodo de mais!» Daniel reviu os olhos dourados de «Popeia» e pensou muito depressa noutras coisas. ligeiramente gordas. O carro estava vazio. è preciso que penses. que é nova e macia. querida. sabia que a mulher o estava a olhar. que me veio trazer flores. com um ar indefinido. Ah!. que não falasses à toa. «É preciso não pensar nos gatos.» Ninguém detestava o rosto de Daniel. satisfeito. quando descansavam? Aquela deixara se cair com todo o seu peso dentro de si mesma e fundia se. as mulheres olharam no surpreendidas. Antes de descer. O autocarro partiu e mais adiante parou. e uma expressão animada veio pousar lhe no rosto. «Uma mãe indignada! Está à procura do que poderá odiar em mim. pensou em Marcelle. «Nem a minha roupa. Daniel olhou a tranquilamente.Porque ainda hoje de manhã eles arranharam horrivelmente o rosto de uma linda menina como tu. cheia de terror. — É aqui. — Estás a ver! Bem te disse que estivesses sossegada. O cesto desatara a miar ininterruptamente e Daniel quase corria. Algumas pessoas passaram a rir diante de Daniel. Acordou de repente. — Término — gritou o cobrador. deitando um olhar indignado sobre Daniel. nem mesmo uma ligeira ondulação. — Vem. Vai ser preciso arranjar um olho de vidro para ela. Daniel contemplou a com uma espécie de avidez. Não é nada. nenhum movimento. o senhor estava a brincar. devia vê la . a menina voltou se e deitou um olhar de terror para o cesto. para o cesto e foi esconder se nas saias da mãe. — Estás a ver — disse a senhora. nem ódio. pensou. como és irritante e demorada! Pegou na mão da filha e arrastou a. O balde era pesado. ganhara dez mil francos na Bolsa. «Ela odeia me». Via desfilarem pêlos vidros as casas cinzentas. nem curiosidade. é aqui — disse. com pêlos negros sobre as falanges. Levantou se e desceu. — Oh! — disse a menina. Nada havia naquela cabeça que se assemelhasse a uma fuga desesperada diante de si. Tinha os olhos fixos em frente. Não é o meu rosto. Era uma praça movimentada e cheia de bares. Daniel apressou o passo e voltou numa rua suja que conduzia ao Sena. Daniel mudava de mão e limpava o suor da testa. Formara se um grupo de operários em volta de uma carrocinha.

pois Daniel já não era ninguém.. Desceu por uma escada de pedra até à beira do rio. Quando não se tem coragem de se matar de uma só vez. deu com ele a gemer. pegou com a mão esquerda numa pedra. Ouviu se um grande barulho lá dentro e a seguir os gatos deixaram de se ouvir. Daniel ficou um momento imóvel com um estranho estremecimento atrás das orelhas. O Sena estava amarelo sob o céu azul. sob um céu de chumbo. Daniel desdobrava se. Mas não quer. tem de se fazer aos bocados. mas não quis tirá lo. pensou com ironia.. disse.. amaldiçoou o pesado casaco.. enrolou o resto na pedra. Que estranha engrenagem! Daniel calculou que teria de pegar no cesto com a mão direita e na pedra com a esquerda. Manchou o casaco de tweed e ficou a olhar a mancha escura. teria de tomar uma resolução. Colocou o cesto no chão e deu lhe um violento pontapé. um pescador recortado a preto na luz. entre um barril de alcatrão e um monte de paralelepípedos. Olhou para a água ondulosa e inchada de fluorescências opalinas. Largaria tudo ao mesmo tempo. «Arcanjo!» Daniel riu de troça: desprezava profundamente Marcelle. Daniel pensou que estava com calor. Sem se levantar.» Ergueu se levemente sobre as mãos e olhou em volta: à direita a margem estava deserta. sentou se no chão junto a uma argola de ferro. Vai pensar que é um peixe. lá longe. J E A N P A U L SARTRE «Às onze e trinta.». Os remoinhos propagar se iam por baixo da água até à isca.nessa noite.. e com o canivete cortou um pedaço de fio. «Ele é normal. à esquerda. O cesto flutuaria talvez durante uns décimos de segundo e a seguir uma força brutal arrastá lo ia para o fundo. Mas era um orgulho impessoal. deu vários nós e tornou a pôr a pedra no chão. Os ponteiros do seu relógio marcavam onze e vinte e cinco. amarrou uma das pontas do fio à asa do cesto.. Depois tirou do bolso o novelo. Daniel estava sentado ao sol e doíam lhe as têmporas.» Era preciso prolongar aquele momento extraordinário. Era ali. Sentia se perdido numa nuvem vermelha. Os gatos miaram como se tivessem sido escaldados. Pensou com orgulho em Mathieu: «Eu é que sou livre». Riu e tirou o lenço para enxugar o suor da testa. era o seu dia. Barcaças negras carregadas de tonéis estavam atracadas ao cais na outra margem. e Daniel recomeçou a andar. De repente sentiu que estava sozinho. duro e seco. Não quer perder se. e Daniel sentiu que perdia a cabeça. Às onze horas e vinte e nove levantou se. Dentro dele qualquer coisa palpitava que pedia clemência. e Daniel. Eles não têm coragem de confessar que não se amam. Se Mathieu visse as coisas como são. Operários saíram de um entreposto. Que era apenas . Ia aproximar se da água e dizer: «Adeus ao que mais amo no mundo. sentia se fraco e teve de se apoiar ao barril.

coxeando. «Vem a boa hora o desgraçado.» Mas no fundo dele havia um estranho sorriso: porque tinha salvado «Popeia». pensou amargamente. subindo a escada. — Táxi — gritou. Um covarde. — Fui levar os meus gatos a passear — disse Daniel.» — De volta. o silêncio. constatou sem alegria que estava cheia de dinheiro. — Sobes comigo? — Sim. Depois a vergonha voltou mais forte e começou a ver se: era intolerável. Sr. mas não pude separar me deles. — Entra — disse. sim.» Ela olhou o cesto e exclamou: — Mas o senhor trouxe os de volta! — Que quer. tinha demasiada vergonha para falar diante de si. Pegou no cesto e voltou a subir a escada. — Quer ter a bondade de pôr este cesto aí à frente? Deixou se embalar pelo movimento do táxi. Quando chegou ao último degrau atreveu se a dizer a si próprio as primeiras palavras: «Que seria aquela gota de sangue?» Mas não ousou abrir o cesto. Disse lhe que o senhor não estava. Dentro dele continuava o deserto. Tinha vontade de o ajudar. Daniel deu lhe uma olhadela e reparou que estava com uma cara terrosa. Sou eu. Sereno? — disse a porteira. Encontrou Mathieu no patamar do terceiro. aquele de ombros largos. Subiram. Em silêncio: mesmo dentro dele havia silêncio. «Nem de uma vez só nem aos poucos». Mathieu entrou no quarto de Daniel e sentou se numa poltrona. pensou. perto de alguém que o desprezasse.um solitário. «pois então vou deixar lhe um bilhete debaixo da porta. «Parece estar em dificuldade». Não chegava sequer a desprezar se. baixou se e cortou o fio. «Ganhar dinheiro. «E Mathieu». Reconciliaste te com a tua irmã? . O imundo. — Não compreendi nada das histórias da porteira. talvez seja condenável. «Sou eu. Tocou lhe de leve no ombro e retirou imediatamente a mão.» Sentia se contente por odiar outra pessoa. — Já não esperava ver te. Um amigo seu. Espantava se por sentir em si um certo entusiasmo. pensou. minha senhora — disse Daniel —. Era como se passasse. — Olá! — disse Mathieu. Pegou no canivete. Quando tirou a carteira para pagar. quero pedir te um pequeno favor. — Há justamente alguém que acaba de subir. Pôs se a caminhar. 22 — disse Daniel. voltando a cara. «Não está». Daniel pôs a chave na fechadura e empurrou a porta. Isto posso eu fazer. foi o que ele me respondeu. Um tipo que gostava dos seus gatos e que não os queria deitar à água. Disse me que foste levar os gatos à casa da tua irmã. O táxi parou. — Rua Montmar tre.

à casa da minha irmã. «Cipião» saiu por sua vez. acharia natural. vamos. «Mal vina» não se mexia. aniquilada. porém já não sangrava. Tinha se levantado e olhava para a gata. — Sê bonita — dizia Daniel —. Um bom aborrecimento não lhe faria mal. Daniel pôs se a lavar o focinho de «Malvina». mas não parecia muito confiante. Tinha de tratar daquele animal. — Desculpa. só um minuto. pensou Daniel. meu caro — disse Daniel com a sua melhor voz —. depois passou a mão pela testa com um ar de velho. o seu ar de equilíbrio. uma inocente mentira — disse. pensou Daniel. é só um momento. «Popeia» fugiu do cesto assanhada e correu para a cozinha. — Que foi? — perguntou Mathieu. Pensava em abrir o fecho. Pensava que assim afastava terrivelmente Mathieu e que isso lhe dava alento. pensando: «Vão saltar me em cima. com um olhar duro. viu que Mathieu olhava sem ver. quando levantou a cabeça. conservava a sua dignidade. Mathieu tinha o hábito irritante de tratar Daniel como um mitó mano e pretendia não indagar os motivos que induziam Daniel a mentir.» E avançou o rosto de maneira a ficar inteiramente ao alcance dos gatos. Perderia. Mas. Se fosse um miúdo. J E A N P A U L SARTRE — Ah! sim. ele é normal. — Dás licença? Daniel só tinha um desejo. para o curativo. olhou em volta com uma expressão matreira e escondeu se debaixo da cama. Desculpa. «Está ferida». Riu. infecta facilmente. Abrir o cesto o mais depressa possível: «Que seria aquela gota de sangue?» Ajoelhou se. Foi buscar uma garrafa de arnica e um pacote de algodão ao armário. Sobre o focinho havia uma crosta escura e em torno da crosta os pêlos estavam duros e viscosos. bem sabes. — Foi certamente «Popeia». Não te estou a aborrecer muito? — acrescentou com um sorriso amável. sê boazinha. «Acha me ridículo». «Que diria se soubesse de onde venho?» Fixou sem simpatia os olhos sérios e penetrantes do amigo: «É normal. atentamente. É insuportável. sem dizer palavra. «porque me preocupo com uma gata. Pronto. Recebera uma unhada nas narinas e tinha o olho esquerdo fechado. A gata debatia se fracamente. Sabia que Mathieu não insistiria. durante algum tempo. Jazia no fundo do cesto. Daniel pôs lhe o dedo debaixo do queixo e levantou lhe a cabeça.Qualquer coisa arrefeceu subitamente em Daniel.» — «Malvina» foi ferida — explicou. Mathieu acompanhou o com o olhar. Efectivamente olhou para o cesto com certa curiosidade e calou se. o seu optimismo. .» Sentia se separado dele por um abismo. Dirigiu se com passos medidos até ao armário.

E bruscamente: — Marcelle está grávida. mas Daniel sabia que ela sofria. — Sim — disse Daniel com solicitude. Então era isso! É verdade: «Urina sangue todos os meses lunares e é fértil como uma raia ainda por cima!» Pensou com repugnância que ia vê la naquela noite. Deu lhe uma palmadinha no dorso. . Não a viste muitas vezes. — Não. mas teve de lutar contra uma grande vontade de rir. — Porquê evidentemente? Terás de lho dizer um dia. isso mataria o amor. Depois apressou se em voltar lhe as costas. «Pensa que me conhece. Mas a outra deu lhe uma bela unhada. Tinha medo de rir. pensou. — Pronto — disse levantando se —. Mathieu continuava a falar gravemente: — O pior é que isso a humilha. e enxugou cuidadosamente a cabeça de «Malvina». dava sempre resultado nessas ocasiões.. ela deve inspirar te horror agora. Uma valquíria fechada num quarto — acrescentou sem maldade. Em mim. Vais. Daniel encarou o e observou sóbrio: — Compreendo. ora. sabes? — «Popeia»? É uma peste — disse Mathieu distraído. Pôs se a pensar na morte da mãe. Não me conhece nada. parecia em êxtase. — Para ela é uma diminuição terrível. Fala das minhas mentiras. E a coisa restringiu se a dois ou três soluços convulsivos. Tinha agora pressa em ver Marcelle. Podes dizer o que quiseres. mas diverte se em pôr uma etiqueta como se eu fosse uma coisa. — E para ti não é nada agradável. «Há desporto esta noite».. \ — Então? ^ A Daniel divertia se muito.» Riu. com cordialidade. não me faças esses olhos de veludo! «Olhos de veludo!» A superioridade de Mathieu era odiosa.» — Estou muito chateado — disse Mathieu com uma expressão objectiva. — Ora. sabes. — Grávida?! J E A N P AUL SARTRE A surpresa de Daniel foi curta.Mathieu estremeceu. com o pretexto de guardar a garrafa de arnica no armário. — Não? Daniel estava profundamente surpreendido e divertido. Perguntou: — Já lho disseste? — Não. — Eu já não lhe tenho amor — disse Mathieu. dos meus olhos de veludo. amanhã estarás boa. mas logo desatou a rir. mas é uma espécie de valquíria. evidentemente. A gata cerrava os olhos. «Não sei se terei coragem de lhe tocar na mão. não quero deixá la.

verei Marcelle. Aliás. J E A N P AUL SARTRE — Eu dar te ei metade no fim do mês — disse Mathieu. Aliás. estou cheio de dívidas. mas não os tenho. acredita. — Que é que eu sacrifico? Irei ao liceu.. — Tenho uma direcção. Quando Mathieu armava em quaker.— Então nada. — E vais continuar a vê la às escondidas e a.. Mathieu parecia obstinado. inflexível. escreverei um conto de dois em dois anos. quando receber os meus vencimentos de Agosto e Setembro. tirar de dentro as cinco notas. acabarás por detestá la. mas não tenho dinheiro. Daniel olhou o rosto terroso de Mathieu e pensou: «Este tipo está realmente aborrecido. Pior para mim. Daniel sentou se na poltrona.. em frente Mathieu.» Depois pensou nos gatos e sentiu se sem piedade. — Que tem isso? — Pois se continuares muito tempo com esse jogo. Bastava lhe abrir a carteira recheada. então não podes . meu caro. — Cinco mil francos — disse Daniel indeciso.. — E a outra metade a 14 de Julho. — Disseste me há dias que ias fazer um bom negócio. odiava o. — Mas é preciso que tu me ajudes — disse Mathieu. Só que é mais ou menos como uma amizade familiar. Mas quando viu que Mathieu não o acreditava. — Pois. — A culpa é tua? — É. Não é culpa dela que eu já não a ame. porque não desejava convencer. ficou colérico: «Que vá à merda! Acha se profundo. Não pusera muita convicção na voz. — Bem — disse Mathieu aparentando bom humor —. é simples. — Não quero que ela se aborreça... Houve um silêncio. mesmo na aflição. É exactamente o que faço! Acrescentou com uma amargura a que Daniel não estava habituado: — Sou um escritor de domingo. — Cinco mil francos! — disse com voz desolada —. — Preferes sacrificar te — disse Daniel com indiferença. Porque é que havia de ajudá lo? Que vá procurar os que são como ele. o bom negócio foi um malogro. eu quero lhe bem e ficaria aborrecido se não a voltasse a ver.» O que lhe parecia insuportável era aquele ar normal e sério que Mathieu nunca perdia. Empresta me cinco mil francos. imagina que lê em mim. Mathieu fizera lhe muitas vezes favores antigamente. Bem sabes o que é a Bolsa. isso chateia me muitíssimo.

A Mathieu mostrou se desanimado. — Demora cerca de quinze dias. — Tens uma necessidade urgente? — indagou. — Nisso estás enganado. Pôs se a acariciá la negligentemente. meu caro. pensou com nojo. sem olhar Mathieu —. Mathieu absorvera se em pequenos cálculos miseráveis. porque me fazia um mau serviço. Era como se tivesse virado uma unha. Também não tinha rancor. aqueles que emprestam aos funcionários. Soubera encontrar logo o tom optimista. — Um acto de liberdade? — Mathieu parecia não entender. quase alegre que enfurece os outros. A mão tremia lhe.» — Realmente. mas num caso destes ele vai certamente emprestar te — disse Daniel.realmente? Daniel pensou: «É preciso que tenha muita necessidade para insistir assim. é uma oportunidade para um acto de liberdade. — Que espécie de gente é essa? Empresta logo o dinheiro? — Não — disse Daniel com vivacidade. «Não me tem rancor». «Malvina» saltara lhe para os joelhos e instalava se a ronronar. Mathieu calou se. «deverias ser independente. Deitou fora a ponta da língua e pôs se a lamber devagar o lábio superior. — E verdade — disse Daniel um pouco decepcionado. ainda há as associações. Perturbava se com a perturbação de Mathieu. aborrecido. superficial. — Tens o teu irmão. dá se com usurários. que o tinha acalmado. disse me. «Na tua idade». Daniel . Os animais e os homens não chegavam a odiá lo. Daniel inclinou se sobre «Malvina» e coçou lhe o crânio. Daniel sentiu repentinamente um pequeno choque mole. Meteu na cabeça que não me devia emprestar mais nada. mas isso não lhe era desagradável. Por causa da sua inércia bonacheirona ou talvez do seu rosto. estou quase contente de não ter dinheiro. Mathieu tinha corado.» — Oh!. — Não poderás dirigir te a um outro? — Gostaria de evitar falar com Jacques. Mas que importam afinal os juros. Meditava. — Exactamente neste caso é que não lhe posso pedir. É preciso um inquérito. Tu queres ser livre. A maior parte das vezes. Reflectiu um instante: — De qualquer maneira. com solicitude. conciliador. Daniel gostava das situações falsas. Portanto não há perigo. se tens o dinheiro? Mathieu pareceu interessado. e Daniel pensou. — É verdade — afirmou Daniel. J E A N P AUL SARTRE — No fundo — disse. Sinto muito.

Isso não acontece todos os dias. isso não te tenta. com o mesmo tom fútil —. — Queres que eu arranje três filhos pelo prazer de me sentir outro quando os levar ao Luxemburgo? Se eu fosse um tipo acabado. E a ti. — Lamento — disse hesitante —. Estaria Daniel a troçar dele? Daniel sustentou o olhar com um ar de gravidade modesta. Um sujeito casado. Daniel pôs «Malvina» no chão e levantou se também. Quando Daniel ouviu o passo de Mathieu na escada pensou: «É irreparável. e acrescentou: — No fundo. gordo. mas até à medula. serias como eles. — Não te incomodes — disse Mathieu —. — Mas eu prefiro pedir os cinco mil francos ao meu irmão. «Nem por isso». escrevo te. — Tipos assim encontram se todos os dias. quis chatear te um bocado. A — Têm também uma espécie de alegria — disse Daniel. membros das associações dos pais dos alunos. Diria: «Aqui está. Os pais dos alunos. Mas passou lhe. «Ele prefere rir». Nem sequer um momento ele deixou de ser ponderado. Parecem calmos. cornudos.. é possível que isso me mudasse muito. Acompanhara Mathieu até à porta de entrada. deve ser muito divertido fazer. para me rir. — Pareces bem tu — disse Mathieu. casar com Marcelle. precisamente — continuou Daniel. — Sobretudo neste momento. o contrário do que se quer. não deve ser desagradável um tipo sentir se conformado. Benignos até. que me vêm procurar. franzindo as sobrancelhas. — Não me tentarás — disse Mathieu. — Dão me vertigens. com três filhos! Como isso deve acalmar! — Com efeito — disse Mathieu. — Bem. bem tratado. mas que é preciso fazer para que me odeiem?» A carteira estava ali. se achar um meio. Fechou a porta. «Ele sabe que tenho dinheiro e não me odeia. — Porquê? Uma simples palavra e mudas toda a tua vida. eu cá me arranjarei. propositadamente.» E sentiu a respiração entrecortada.levantou a cabeça. casado. Sentimo nos outro. realmente? Vejo te muito bem.» Mas teve medo de se desprezar. — Que outro? — disse Mathieu. aborrecido. mas isso fica lhe por fora. pensou Daniel. Dentro está à . meu caro. com um trocadilho sempre à disposição e olhos de celulóide. de perfeito acordo consigo mesmo. sem se comover. — Sim. Mathieu pôs se a rir.. Levantou se.. Quatro filhos. Bastava a Daniel pôr a mão no bolso.. enterrado. — Estás doido? — perguntou Mathieu. pensou Daniel. Mathieu encarou o. «Está aborrecido. Eu acho que não detestaria.

Uma expressão divertida e sabida. elegante. dizer lhe que não iria lá em nenhuma das hipóteses. e o rosto de Odette guardava o seu decepcionante mistério burguês. — Sim. pensou. mas tenho de ver Jacques. Era bela sem dúvida. Estava. Habituado a rostos como o de Lola. Sente se. segundo andar. Ninguém tinha rancor a Daniel. quero dizer lhe bom dia. Atravessou a rua e pensou em Daniel. — Bom dia. «Preciso de lhe telefonar. contente. mas de uma beleza que parecia desaparecer com o olhar. Mas sim a Jacques.» Pensava com irritação na atitude que Jacques ia tomar. Não lhe tinha rancor. Empurrou a porta. — Gostaria de lhe fazer uma visita — disse —. Estava sentada num sofá.» vm E stava acordada há muito tempo.» Foi olhar o seu belo rosto no espelho e pensou: «Ainda valia uns mil se ele fosse obrigado a casar com Marcelle. Era preciso confortá la.. mas previna meu irmão de que irei vê lo ao escritório dentro de alguns minutos. Parou diante de um edifício atarracado da Rua Réaumur e leu. Lia. Mathieu lembrou se com ternura do pobre rosto atormentado da véspera. Arranjou lhe um lugar ao lado dela. e ela pareceu lhe repentinamente de uma fragilidade pungente. — Jacques não vai fugir.» — O Sr. irritado. Jacques dizia de bom grado: «Odette é uma das poucas mulheres de Paris que tem tempo para ler. Odette ergueu o belo rosto ingrato e pintado. talvez possa ter uma boa notícia para lhe dar.» Mas resolveu passar primeiro pela casa de Jacques. Mathieu quer falar com a senhora? — perguntou Rosa. alta e limpa até à insignificância. Devia estar preocupada. — É para mim a visita que veio fazer? — Para si? Ele contemplava com uma simpatia descontente aquela fronte alta e calma e aqueles olhos verdes. Tabelião! Entrou. o conjunto desfazia se a todo o momento. «Assim. cujo sentido se impunha logo.. mas escapavam se. para além da censura e da indulgência. Thieu — disse. como lhe acontecia sempre: Jacques Delarue. Mathieu tentara imensas vezes reter em conjunto aqueles traços escorregadios.vontade. . Mathieu viu a através da porta envidraçada da sala de estar. brutalmente. «Espero que Odette não esteja». — Não tenha tanta pressa — disse Odette. tabelião. subiu no elevador. preciso de pedir lhe um favor. tranquilizá la. com a cabeça de lado e os olhos semicerrados: «Como? Mais dinheiro ainda!» Mathieu sentia arrepios.

tudo pertencia a Jacques. Mathieu sentou se. ultimamente. Mas tornam o rosto indiscreto. Contemplava com mal estar o braço moreno e fino que saía de um vestido muito simples. com o carro. Sentia se agora bem disposto. Tenho direito a uma visita pessoal. — Tem um vestido muito bonito — disse. Estava surpreendido. o vestido. a sorrir —. Gostava de Odette. «Ela pertence a Jacques». — E Jacques? — Muito trabalho. pensou. o corpo por baixo do vestido. — Pois é justamente a propósito desse vestido que quero falar. Mathieu sentiu bruscamente um profundo desprazer. No entanto não tinha vontade de sair. Mathieu já não sabia o que dizer. o sofá. numa risada: — Você estaria por certo muito mais à vontade comigo se eu usasse brincos. — Oh!.— Cuidado — acrescentou sorrindo. O braço. Odette? Pôs certo calor na voz para dissimular a vulgai idade da pergunta. Como sempre. — E acrescentou. Mathieu riu. deixe o vestido sossegado. sem transição. Quase não o vejo. para ver Françoise. fala me dos meus vestidos. a sua saúde é extraordinária. Gozava urna espécie de . — Brincos? Odette olhou o de um modo singular. Todas as vezes que me vê. Tinha qualquer coisa de vago. escute — disse Odette com um riso indignado —. — Como vai. a secretária de mogno. pensava: «Realmente não é nada parva. não deve ter a consciência tranquila. / A — Você é que prometeu receber me um destes dias. — Um destes dias vou zangar me. — Muito bem. Esquece se de mim. — Porquê? Não creio — disse Mathieu vagamente. que é que será? — Estou a pensar se não deveria usar brincos quando o veste. — Meu Deus. Houve um silêncio. apertado na cintura por um cordão vermelho. Essa mulher discreta e pudica cheirava a posse. — Não. Deixe isso e diga me antes o que fez esta semana.» Mas a inteligência de Odette era corno a sua beleza. mas nunca sabia o que lhe devia dizer. Porém. como os móveis. — Como é delicado — disse ela. — Acha vulgar? — indagou Mathieu. Prometeu ma. Houve um silêncio e em seguida Mathieu voltou à voz quente e ligeiramente nasal que conservava para Odette. Sabe onde estive esta manhã? Em Saint Germain. Isso encantou me. quase um vestido de rapariguinha.

Vá ver Jacques. sabes que vim pedir te dinheiro. «Não me perdoará nada». Odette — disse afectuosamente. — Até logo. Pensou que ia pedir dinheiro a Jacques e sentiu um formigar na ponta dos dedos. Levantou se. — Bom dia — disse Mathieu. um bom gin fizz é bem melhor com calor. Jacques sorria inocentemente. Odette disse lhe gentilmente: — Não devo retê lo mais. que bons ventos te trazem? Mathieu fez um gesto de aborrecimento. por que motivo o suspeitaria? Queres insinuar que é esse o único fim das tuas visitas? Sentou se. — É a última garrafa — disse —. — Não. pensou Mathieu com raiva. Mathieu achava que ele estava a engordar na cintura. Há vinte anos que se sentia em falta quando via o irmão ou pensava nele. e avançou para Mathieu. — Como vais tu? Parecia muito mais jovem do que Mathieu. O irmão arqueava as sobrancelhas com um ar de profunda surpresa. pensou Mathieu irritado. Jacques sabia muito bem o que ele queria e pensaria: «Não teve coragem de dar a facada. Voltarei para me despedir. No entanto devia usar cinta. não se levante. Olhava sem doçura aquele rosto rosado e fresco de rapaz. mas os olhos eram duros. / A — Bom dia. — Então.calma. com um sorriso afável. — Não quero insinuar coisa alguma — disse Mathieu. Digam o que quiserem. não achas? Mathieu não respondeu. Pensava: «Bebo o uísque e vou me embora sem dizer nada. meu velho — disse com entusiasmo. mas não comprarei outra antes do Outono. «Até que ponto será uma vítima?». Pegou na garrafa e encheu dois copos. Mathieu.» Disse rispidamente: — Não te iludes por certo. Vestia um magnífico fato desportivo de casimira inglesa. — Não. cruzou as pernas com certa moleza como para compensar a rigidez do busto. «Sabe muito bem porque vim e está a fazer se desentendido. Sentou se com um nó na garganta. atento e muito empertigado. sempre muito correcto.» — Entra — disse Jacques. batendo à porta de Jacques. não imaginava isso. J E A N P AUL SARTRE Agora já não podia recuar. Sentia se em falta. embora fosse mais velho. toda a sua pessoa transparecia inocência. nunca se sabe. Mathieu levantou se. «Faz de inocente». Parece preocupado. «Com este género de mulheres. — Senta te. Um uísque? — Vá lá — disse Mathieu.» Mas já era tarde. — Há alguma novidade? — indagou Jacques. Pestanejou . indagava.» Jacques permanecia de pé.

para mini. — Uma necessidade súbita? Porque enfim na semana passada quando vieste aqui.e acrescentou apertando com força o corpo: — Mas preciso de quatro mil francos de hoje para amanhã. Era advogado. — Divertes me. Para mini a culpa é dos teus princípios.. vejo tudo de cima. — Quatro mil — disse.. mas afinal eu reflicto. se não estivesse a falar com um filósofo. Que recuse depressa para que eu possa ir me embora!» Mas Jacques não se apressava. divertes me e instruis me. isso não te aborrece um pouco? — Que posso fazer? — disse Mathieu. Estás acima das classes. mas não te submetes a eles. eu não tenho princípios. que cospes na família. «Agora». — Um mínimo! — disse Jacques. Não quero dizer que sejas culpado. Sabes. como um «filósofo». Em teoria não há ninguém mais independente. não quero censurar a tua conduta. pensou Mathieu. Não ia travar uma discussão de ideias. — Sabes — afirmou Mathieu para dizer alguma coisa —. Sim. «Vai dizer não. Thieu. Estendeu as pernas e olhou os sapatos com satisfação. Isso é muito bom. — Não quero criticar. não ter princípios é ainda um princípio. Mas eu pergunto: que aconteceria se eu não existisse? Note se que. — Quatro mil — repetiu. Oh!. Tu estás cheio de princípios.. não se tratava disso.» Mas olhou o rosto cheio do irmão. quando penso em ti. Essas discussões acabavam sempre mal com Jacques. Mathieu perdia imediatamente o sangue frio.» Felizmente Jacques retomara a palavra. fico mais convencido ainda de que não se deve ser um homem de princípios. . Continuou sem deixar de rir: — E há pior: tu. aproveitas te do parentesco para me cravar. rindo alegremente. meneando a cabeça como um conhecedor. porque afinal não virias ter comigo se eu não fosse teu irmão. bem no fundo. pedir me um pequeno favor. não leves a mal o que estou a dizer — atalhou diante de um gesto de Mathieu. A Mas parece me que com as tuas ideias eu faria questão de não dever nada a um horroroso burguês. interrogo me. «ele vai dá las.. é até uma felicidade poder ajudar te de vez em quando. — Com efeito — disse Jacques secamente.? É contrário às tuas ideias. Tomou um ar de sincero interesse: — No fundo. tinha tempo.. diria eu. a sua fisionomia aberta mas obstinada e pensou inquieto: «Parece difícil. vê bem.. Porque eu sou um horroroso burguês — acrescentou. — Mas não crês que com um pouco de organização. rindo igualmente. sem dúvida.

— Tomámos a decisão de fazê la abortar — disse Mathieu com brutalidade.. Jacques pareceu interessar se. — Não — disse Mathieu.» — Marcelle está grávida — disse bruscamente. a saúde dessa mulher é delicada. «Digo que é para os meus impostos? Não. girava obstinada A mente à volta dele. mas nunca teria imaginado. o que acontece é o seguinte: acabas de saber que a tua amiga está grávida. evidentemente. — A esse ponto? É estranho. — Sim — disse Jacques —. — Foi um acidente. Jacques não pestanejou. se compreendo exactamente. o primeiro impulso dele era elevar se acima do debate. — Também me admirava — disse Jacques —.. preciso do dinheiro. Jacques recusava se a encarar honestamente o problema. — Vocês queriam um filho? Fingia não compreender. Os dois irmãos não tinham por hábito exprimir assim com tanta vivacidade os seus sentimentos. Porquê. mas afinal podias ter desejado levar até ao fim as tuas experiências à margem da ordem estabelecida. isto foi ontem. e durante esse tempo o seu espírito procurava um ninho de águia de onde pudesse fixar um olhar agudo sobre a conduta dos outros. — Sim.. Como sempre. . Habitualmente pedes dinheiro porque não sabes ou não queres organizar a tua vida. eu. Naturalmente não te pergunto nada — acrescentou com uma expressão ligeiramente interrogativa. Fechou os olhos um instante. e Jacques perguntou. num tom ríspido. Ele sabe que os paguei em Maio. sim. lembrou se dela sinistra e nua no quarto cor de rosa e acrescentou num tom angustiado que o surpreendeu a si próprio: — Jacques. com olhos agressivos. Mathieu hesitava. mas não é nada disso. O que quer que se dissesse ou fizesse. — E quando é o casamento? Mathieu corou de cólera. — Já encontraste um médico? — indagou em tom neutro.. — Tenho amigos que mo garantiram.. Não sabia ver senão de cima. Jacques encarou o com curiosidade e Mathieu mordeu os lábios. Sentiu que corava e encolheu os ombros.. tinha a paixão dos ninhos de águia. — Um médico seguro? Segundo o que me disseste.. Houve um silêncio. — Em suma — disse —. afinal? Porquê aquela vergonha súbita? Olhou o irmão de frente. J E A N P AUL SARTRE Pensou rapidamente em Marcelle. muito à vontade. —Já.. abriu os e juntou" as mãos pelas pontas dos dedos.— Efectivamente — disse Mathieu —.

.. «não me dará um franco. irei ver um médico hábil e que não figura nas listas da Polícia. — Estou decidido. J E A N P AUL SARTRE Ergueu as mãos à altura dos olhos e encarou as com o ar preciso de quem vai tirar conclusões do que acaba de dizer. — Bom — disse Jacques. Não te fica bem a fantasia. porque a Polícia os conhece a todos e pode de um momento para outro deitar lhes a mão.. Pela própria força das circunstâncias. Se recusares terei de mandar Marcelle a um charlatão e já não garanto nada. Mas não desaprovo inteiramente os resultados. — Enfim. És pacifista por respeito à vida humana.» Mas tais argumentos eram directos de mais para terem influência sobre . Estás a fazer confusão. Não querendo nem casar nem manchar a sua reputação. A «Tem medo que me apanhem».. — disse Mathieu. Um advogado não tira conclusões assim tão depressa. — atalhou Jacques — tens a certeza de que o aborto está de acordo com os teus princípios? — Porque não? — Não sei. Aliás eu sou pacifista. — Queres dizer com isso que há uma injustiça. — Eis que te enfias na pele de um infanticida. já irritado. — E porque precisas do dinheiro de hoje para amanhã? — O médico parte para a América dentro de oito dias. Sou da mesma opinião. mas os grandes especialistas nunca são atingidos. pensou Mathieu. o qual exige quatro mil francos. resolveste fazê la abortar nas melhores condições possíveis. Afundara se na poltrona e os olhos já não lhe brilhavam. Tens de arranjar o dinheiro. — Ah! Pensei.» Teria de lhe dizer: «Se pagares não correrás nenhum risco. pobres diabos são ervanários ou «fazedores de anjos». Olhava Mathieu com uma serenidade divertida. que liquidam uma mulher com os seus instrumentos sujos. e vais destruir uma vida. — disse Jacques. Mathieu. — E. Os teus amigos recomendaram te um médico de confiança.. — Eu sei — disse Mathieu —. Jacques abaixara as mãos e pousara as nos joelhos. mas consideras te ligado a ela por obrigações tão estritas como as do casamento. — Venho pedir quatro mil francos.. Disse com voz mole: — São muito severos neste momento na repressão ao aborto. Não é isso? — Exactamente! — disse Mathieu. de vez em quando ficam severos. As rusgas estabelecem uma selecção.Não queres casar por questões de princípios. tu é que deves saber. Põem na cadeia uns pobres diabos sem protecção. mas não respeito a vida humana. Mas Mathieu não se iludiu. — Compreendo. Já é alguma coisa.

conheço te melhor do que pensas e agora estou assustado. Acrescentou com seriedade: — Meu pobre Mathieu. eis tudo. assim como tu és. Não quero um filho. suprimo o. Acabou. . Inclinou a cabeça para trás e viu o rosto diminuído de Jacques. de resto. Mas vou propor te outra coisa. Mas que tu cometas um assassínio metafísico.Jacques... — Não faças cerimónia — disse Mathieu —. diz antes que não te queres meter num negócio de aborto. Jacques. como não tenho contra outros crimes perfeitos. — Mentir a mini mesmo? Ora. «Vai fazer me um discurso». seria falso. reflectiu. que encontrarás com facilidade o dinheiro. — Sorria. tornou a sentar se. Mas seria realmente ajudar? Estou persuadido. Mas para que falar em mentira? Não há mentira nenhuma. fiz um casamento de conveniência. Não quero ajudar te a mentir a ti mesmo. Eu voltei à burguesia depois de inúmeros erros. Mathieu disse simplesmente: — Um aborto não é um infanticídio. que não aprovas isso. Thieu — disse com calor —. pensou Mathieu. — O que escondes — disse Jacques — é que és um burguês envergonhado. Limpou a voz e perguntou por descargo de consciência: — Então não me ajudas? — Vê lá se me percebes — disse Jacques. e a sua velha cólera fraternal invadiu o. com clareza —. — Um aborto não é um infanticídio. Mathieu ia poder sair. que não tens dinheiro. — Sim — disse com displicência. Jacques recusava. mas é a tua vida inteira que se constrói sobre uma mentira. Aquela suave e decidida pressão sobre o ombro era lhe intolerável. aparece me um. Jacques retirou a mão. Há muito que receava algo semelhante. Jacques pegou num cigarro e acendeu o. Queres que te diga a verdade? Não mentes a ti próprio neste mesmo instante. esclarece me acerca do que escondo a mim próprio.» — Mathieu — disse Jacques. mas tu és burguês por gosto. tu. — Não recuso ajudar te. estás no teu direito e não te guardarei rancor. é um assassínio «metafísico». não tenho objecções contra o assassínio metafísico. Mathieu.. que já se levantara. Levantou se subitamente como se tivesse tomado uma decisão e pousou amistosamente a mão sobre o ombro do irmão. vamos dizer que recusei. Essa criança que vai nascer é o resultado lógico de uma situação em que te meteste voluntariamente e queres suprimi la porque não desejas arcar com as consequências dos teus actos.. deu alguns passos. (estalou a língua como numa censura) isso não. — Escuta. «eu não devia ter aceitado a discussão.

o orgulho impedia a de confessá lo. deves sentar te à noite junto dela e contar longamente os acontecimentos do dia. não tens nenhuma inquietação quanto ao futuro. estás casado. Mas Mathieu sabia que ficaria até ao fim. — Imagino muito bem que para ti essa abstenção não deve ser um grande sacrifício. Quatro vezes por semana vais tranquilamente encontrá la e passas a noite com ela.por temperamento. Se realmente subordinasses a tua vida às tuas ideias! Mas repito te. pedir conselhos nos momentos difíceis. Sabes o que não compreendo? Tu. mas pretendes o contrário por causa das tuas teorias. Sentia um desejo combativo e maldoso de conhecer a opinião do irmão. estás casado. Tu estima la. Estou certo de que não procuras unicamente o prazer. Na realidade. o que é muito fácil e cómodo. encolhendo os ombros.» Devia sair e bater com a porta. «Nunca dissera tanto». pois se alguém sofre não és tu. porque é que dizes que não deve ser um sacrifício para mim? — Porque com isso ganhas comodidade. Não tens outras aventuras. porque o Estado te garante uma reforma. «é um desafio. . — Uma coisa sem importância. ironicamente. E isso dura há sete anos. — Pois bem. Tens todas as vantagens do casamento e aproveitas os princípios para recusar os inconvenientes. por maior que tenha sido. Ouvia se a pronunciar nitidamente cada palavra e achava se profundamente desagradável. uma aparência de liberdade. Recusas regularizar a situação. — Evidentemente — disse Mathieu. Adquiriste hábitos com essa mulher. Mathieu — disse ele com força. — Marcelle partilha as minhas ideias acerca do casamento/— disse Mathieu. regrada. recebes bons vencimentos em dia certo. tens um apartamento agradável. uma vida de funcionário. pensou Mathieu. deve ter se embotado. sentes que tens obrigações para com ela. — Para mim — disse —. DADE DA RAZÃO — Sim. que estás sempre pronto a indignar te com uma injustiça. pelo simples prazer de afirmar que estás de acordo com os teus princípios. podes dizer me em que difere isso do casamento? O facto de não morarem juntos? — A abstenção da coabitação — disse Mathieu. — Oh! — disse Jacques —. não a queres abandonar. arrogante. e é o teu temperamento que te empurra para o casamento. Porque tu estás casado. E gostas dessa vida calma. se não as tivesse. humilhas essa mulher há anos. — Primeira novidade — disse Mathieu.

e as tuas tendências profundas que te empurram para a ordem. mas tens cuidado em não te comprometer. Odette trazia lhe seiscentos mil francos de dote. Talvez não tenhas ainda a idade da razão. . mas Jacques não deixou que o interrompesse. (acabou a frase entre os dentes) é conservar a minha liberdade. Só que eu liquidei os a todos e tu afasta los aos bocadinhos. Mas também não lamento a minha. és um burguês. a boémia? Era muito divertido há cem anos. Nunca votaste. talvez seja injusto. queres parecer mais novo. Durante cinco anos imitara afincada mente as loucuras em voga. era a sua garantia. o que é isso. não te faz bem a vida boémia. há um mal entendido entre nós. agora.— Escuta — disse Mathieu —. Tens 34 anos. pouco me importa ser ou não burguês. a rotina quase. já nada tens de rapazinho... Aliás. «vai me falar da sua juventude. «Pronto».. olha bem para mini. és funcionário dessa sociedade. meu caro Mathieu — disse com uma piedade reprimida. um lenço embebido em éter. — Mas isso também o escondes. Desprezas a classe burguesa e. É o que te perde. antes do amor. Ele escrevera a Mathieu: «É preciso ter a coragem de fazer como toda a gente para não ser como ninguém. O que eu quero. A tua vida não passa de um perpétuo compromisso entre o gosto da revolta e da anarquia.. apenas. — Pelo contrário. permitia lhe defender o partido da ordem em boa consciência. é uma idade moral. fora surrealista.» E comprara um cartório. na idade da razão. Tens ainda de atingir o fundo.» Jacques era muito orgulhoso da sua juventude. é certo —. embora modesto. no entanto. Mas. tivera algumas aventuras lisonjeiras e chegara mesmo a respirar por vezes. O resultado? Ficaste um velho estudante irresponsável. Não é certamente a tua opinião: condenas a sociedade capitalista e.. no entanto. um punhado de desajustados sem perigo para ninguém e que perderam o comboio. Proclamas uma simpatia de princípio pêlos comunistas. Mathieu fez um gesto. — Eu imaginava — disse Jacques — que a liberdade consistia em olhar de frente as situações em que a pessoa se meteu voluntariamente e aceitar as responsabilida des. — Estás. — Não censuro a tua juventude — disse. Um belo dia acertara o passo. Aliás. a saúde moral. Acho que a princípio não eras muito menos pirata do que eu. No fundo. pensou Mathieu. no entanto. a que cheguei antes de ti. herdámos ambos os instintos daquele pirata que foi nosso avô. os teus cabelos já estão grisalhos — não tanto como os meus.. simplesmente. Tiveste a sorte de evitar alguns maus passos. filho e irmão de burgueses e vives como um burguês. meu caro.

E acrescentou: — Quando apareces? — Venho almoçar no domingo — disse Mathieu.. — Agradeço. Mathieu previra o golpe. Se recusares. «Terá ficado muito aborrecido?». que não o desonraria. estava com predisposição para o remorso.» Teve remorsos. pensou Mathieu. será que mantenho Marcelle numa posição humilhante?» Lembrou se das violentas observações de Marcelle contra o casamento. Agora Jacques devia estar sentado à escrivaninha. — Como queiras — observou Jacques. pensou. Jacques levantou se igualmente. Não quero dizer que estejas inteiramente errado.» Ou talvez tivesse ido ver Odette. vou fazer uma proposta. no entanto está na idade da razão. Como te disse. Mathieu. mas se tiver de me casar um dia. O olhar tornou se lhe límpido e alegre e acrescentou: — Escuta. acredita. uma vez. — Adeus.. Há cinco anos. Por maior que fosse o seu sentimento de culpa. — És realmente muito bom. será quando sentir vontade de o fazer. Desceu a escada a correr.. Não há pressa. «Até que enfim! Até que enfim!» Não estava alegre.» Que diria ela? Desempenharia o papel de esposa reflectida ou limitar se ia a aprovar discretamente sem tirar o nariz de cima do livro? «Diabo! ». Mas Jacques não o escutava. de olhar absorto. mas tinha vontade de cantar. sabes. Jacques — disse levantando se.. estás ou deverias estar — repetiu dis traidamente. — Ora — disse Mathieu —. não preciso de o dizer.. cordialmente. Não me interessa. não tenho remorsos.. . Aliás. «Será verdade. Mas não é sensato. de resto. não era isso. — Já reflecti — disse Mathieu. e Odette sentir se á feliz em tratá la como amiga. mas não serve.Estás na idade J E A N P AUL SARTRE da razão. «Eu quis casar me. se voltares atrás. «esqueci me de dizer adeus a Odette. — Reflecte. com um sorriso triste e grave: «Este rapaz inquieta me. — Adeus — disse Jacques. Confio na tua escolha. De qualquer maneira aquilo fornecia lhe uma saída digna. Não posso dizer te porquê. a minha proposta mantém se de pé! Mathieu sorriu e saiu sem responder. — E. agora. a idade da razão é a idade da resignação. A tua mulher será muito bem recebida aqui. seria uma cabeçada estúpida para sair de uma complicação. «Mathieu inquieta me. «Terei um complexo de inferioridade em relação a meu irmão?» Não. não te será difícil encontrar os quatro mil francos. Ponho dez mil francos à tua disposição se casares com a tua amiga.» Marcelle rira se dele. a minha mulher ignora por completo a tua vida íntima.

— Hum — murmurou Marcelle. não vais! Peço emprestado. — Quanto? — repetiu Marcelle. para isto? — perguntou Marcelle. tenho a certeza de que estava cheio de «massa». «Sim». — E que é que vais fazer agora? — Não sei. faz o que achares melhor. Que diabo. com vivacidade. se visses! E depois. «Mas eu gosto deste tipo. — Daniel. — Juro. — Então arranja — disse Marcelle num tom estranho. — Sentiu que a voz lhe carecia de firmeza e acrescentou com força. — És tu? — Sim. E acrescentou: — Quanto? — Quatro mil.. . é húmido. incrédula. é coisa que se consegue. está. pensou. — A quem? A Jacques? — Venho de lá.» Havia um bar na esquina da Rua Montorgueil. A cabina telefónica era num recanto sombrio.. — Não te incomodes. Marcelle? Marcelle tinha o telefone no quarto. Alguém excelente.. a família é como a varíola: tem se em criança e fica marcada para o resto da vida. Terei de ir. e fede no apartamento dela. quatro mil francos não é um absurdo.. — Estou — disse Marcelle com a voz seca. o estupor! Vi o esta manhã. — Arranja... E as mãos. — Mas não é possível. — Não. bem sabes. — E acrescentou docemente: — Enfim. Estava quase bêbeda. — Sempre te vejo amanhã à noite? — Sim. Hei de arranjar. — Não estás lá muito. — Então? — A velha. — Quatro mil. Recusa se a emprestar. — Mas não lhe disseste que era. — E tu estás bem? — Estou. — Está. pediu uma ficha. sinto vergonha por ele. — Não. Entrou. Ah!. é um animal. A — Eu telefono. é impossível. com uma dúvida na voz. — Também se recusa. — Estou angustiada. Temos quarenta e oito horas.Mathieu nunca deixara de pensar com razão perante Jacques. Indicado por Sarah. — Então? — Tenho alguém em vista. — Ah! — disse Marcelle com indiferença. Sentia se angustiado ao pegar no telefone. Quando não me envergonho diante dele.

apertado. quando Paris aguarda o seu Príncipe Encantado. Não havia. . Mathieu leu: «Bombardeio aéreo de Valência. Hesitou e disse com esforço: — Amo te.. quero pensar noutra coisa.» Ergueu a cabeça vagamente irritado. Se ela quisesse o filho? Então tudo ia por água abaixo. E Marcelle é incapaz de um abuso de confiança. — Paris Midi. Ignora se o número exacto de mortos e feridos. «Estou angustiada. ouvira a muitas vezes rir das amigas casadas quando estavam grávidas: «Vasos sagrados». Sentia se nervoso e triste porque ia voltar a vê lo. Pensou em Brunet. basta! Estava cansado de girar em volta de toda aquela história. A visita do rei da Inglaterra. e ele próprio se transformava da cabeça aos pés. Mathieu virou a página. Deu o dinheiro e continuou. Mas era mais triste ainda. Mathieu sobressaltou se e pensou: «Todos os franceses são uns canalhas».» Passou os olhos sobre o título e leu o terrível texto.. Mathieu saiu da cabina. Marcelle. «Humilhada».. ela tê lo ia dito. de Madrid. Nem chegava a meter raiva.. era um estúpido. se faz favor.. A hora do dia em que o calor era mais sinistro... Ao atravessar o café.» Está magoada comigo.» Quando se diz isso. O Excelsior não era um jornal agressivo. Deu com um vendedor de jornais. Farei o que for preciso. Um discurso de Flandin em Bar le Duc.. Duas horas. não se tem o direito de mudar de opinião sem mais nem menos. Novas informações sobre o caso Weidman. Já não lhe apetecia saber mais nada.querido. não deixava de mentir a si próprio. Oh! basta. não podia ser verdade. Felizmente não era verdade.» Citavam se cifras. dinheiro. Marcelle cortou a ligação sem responder. escrevera Gomez. Ivich. que parecia denso e bem documentado: «Do nosso enviado especial. Humilhá la ei? E se. ouviu a voz seca de Marcelle. porque não o havia de ter dito? Nós nos dizemos tudo.. Ivich. Todos os franceses. A Rua Réaumur era de cobre sujo. A França ao abrigo atrás da Linha Maginot.. pelo amor de Deus. Uma amizade morta. triste e aveludado como tapioca. Mas faço o que posso. bastava pensar nisso um só instante e tudo tomava outro sentido. mas não quero pensar nisso. Stokovski declara que não casará com Greta Garbo. Parou à beira do passeio. seria um abuso de confiança. e o calor torcia se e chiava no meio da rua como uma faísca eléctrica. era papel gorduroso. dizia. tirava simplesmente o gosto de viver enquanto era lido. Marcelle. «Quarenta aviões sobrevoam durante uma hora o centro da cidade e deixam cair cento e cinquenta bombas. em itálico. «rebentam de orgulho porque vão dar à luz. Pegou num jornal ao acaso: Excelsior. — Levo os quatro mil francos amanhã à noite. dinheiro.

Eu vi aquilo. Fechou o jornal e pôs se a ler na primeira página a reportagem do enviado especial. aquilo é real. havia seguramente cadáveres sob os escombros. mudas. a rua alargou se desmedidamente. passeava de manhã. para sofrer. podia tocar lhe. os automóveis passaram. Milhares de leitores teriam lido o jornal com ódio na garganta. mulheres estupefactas. Pronto! As bombas caíram naquela rua. vi a Fiesta em 34 e uma grande tourada com Ortega e El Estu diante. entra agora até o fundo das casas. procurando uma igreja. de franceses que não olhavam para o céu. sobre os monumentos cinzentos. ele sentia se vazio. a fachada de uma casa. pequena que fosse. para rebentar. Só que era inerte. Alguma coisa se dispunha a nascer. não em Valência. e erguem a cabeça de quando em quando. Se ao menos tivesse descoberto em si uma emoção qualquer. os vidros partiram se. os Franceses são todos uns estupores. esperava para viver. que ele lhe desse o próprio corpo. já não há sombra na rua. Mathieu estava com calor. ele caminhava no meio de homenzinhos vestidos de claro. destruíram no. em Paris. uma cólera desesperada. algures sob o mesmo sol. qualquer coisa de que pudesse dizer: «Eu vi aquilo. Pronto!» O pensamento desceu lhe sobre uma rua escura. Passou o lenço pela fronte e pensou: «Não se pode sofrer pelo que se . andava normalmente com a decência de um tipo que acompanha um enterro em Paris. sufocava numa sombra ardente. Os vidros brilhavam. À sua frente havia uma grande cólera. No entanto. não existe já. esmagada por enormes monumentos. esbateu se. contemplam o céu venenoso. «Bandidos!» Cerrara os punhos. Cinquenta mortos e trezentos feridos.uma vez. Nem aviões nem defesa antiaérea. Mathieu sentiu se vaga mente culpado. os automóveis deslizavam pela rua. Mas não: sentia se vazio. é real. via a. acocoraram se com ares de galinhas mortas junto dos verdadeiros cadáveres. o céu flamejava muito alto acima das cabeças. que não tinham medo do céu. a cólera ficava de fora. O seu pensamento fazia círculos em cima da cidade. bandidos!» Mathieu cerrou os punhos e murmurou: «Bandidos!» e sentiu se mais culpado ainda. andava a passos largos. cerrando os punhos e murmurando: «Estupores. Já se contavam cinquenta mortos e trezentos feridos.. uma rua. o céu em fusão caiu em cima dela e o sol dardeja sobre os escombros. que significa isto exactamente? Um hospital cheio? Um grave acidente de comboio? Cinquenta mortos. uma tímida aurora de cólera. possuído por um fantasma de cólera. mas a coisa não vinha.. Era a cólera dos outros. havia mais porém. bem viva e modesta. Estive em Valência. era um calor real. Pronto! Mas aquilo esvaziou se. consciente dos seus limites.

. de carícias nos táxis. no meio de minhas presenças. Não partiu. Boris espreitava o à porta do prédio. «Por que razão estou eu neste mundo de gritaria. Marcelle no quarto cor de rosa.. Ivich que eu beijei esta manhã. Mathieu dobrou o jornal e atirou o para a valeta. hoje à noite? Mathieu virou se e fingiu procurar as chaves no bolso. — Deixei a agora. — Suba comigo — disse. — Vamos tirar isso a limpo. de instrumentos cirúrgicos. Cada um no seu mundo. — Viu Ivich? — perguntou Mathieu abrindo a porta. como eu.» Lá havia uma coisa formidável e trágica a pedir que se sofresse por ela. Destino. Na escada. separado de Espanha por. de costas. Deve andar por aí. não estou lá. Ao ver Mathieu. sofrerá lá. As presenças reais. Jacques atrás da secretária dizendo não. estou numa gaiola sem grades. — Acabo de tocar à sua porta — disse —. neste mundo sem Espanha? Por que razão não tive vontade de lutar? Poderia escolher outro mundo? Sou ainda livre? Posso ir aonde quero. estou em Paris. Mathieu olhou o hesitante. na cidade em ruínas.. Sem cabeça. não encontro resistência. mas que importa? Ela é educada. Corpos estendidos sobre o passeio. mas creio que não estava. — Não absoluta. Gomez. — Tem a certeza? — respondeu Mathieu no mesmo tom. se der com um jornal e ler «Bombardeamento em Valência». — Entre.quer. Subiram. E depois de maneira nenhuma ficaríamos sós. E o tipo de ontem. de saias repuxadas até às coxas. «Viu a». No meio da rua uma mulher gorda. Partiu. Há outros mundos. .» Olhou a última página do A Excelsior: fotografia do enviado especial. tomou um ar afectado. é evidente — disse Boris —. junto de um muro. Boris entrou à frente de Mathieu e dirigiu se com uma familiaridade desenvolta para a secretária. o meu é um hospital com Marcelle grávida.. — Não sei se irei — disse. Mathieu olhou sem afeição as costas magras. Lola talvez prefira estar sozinha consigo. mas o que lhe posso dizer é que não abriu. Eram duas horas e Brunet só chegaria dentro de meia hora.. nojentas por serem tão verdadeiras. mas é pior. — Pensei. Haverá Ivich. Era o seu ar de louco. não terá de fazer esforços para sofrer. Boris disse na sua voz natural: — Então continua de pé o Sumatra. e o judeu a pedir quatro mil francos.. Só que ele. pensava. por nada e no entanto esse outro mundo é intransponível. Esse estava lá. «Não posso. — Sim. Daniel troçando.

o famoso discípulo? Não o conheço. — Então ela espera que eu vá? — Naturalmente — disse Boris. — Vens adiantado. Pareceu me preocupada com o exame. — Gosto da sua rua — disse Boris —. Está a perceber? Um mês num quarto em Montmartre. — Boris Serguine. Isso aborrece te? — Não... também há Lola. Boris inclinou se com frieza e recuou até ao fundo do quarto. não lhe disse nada para esta noite? — perguntou Mathieu. contrariado. — Olá! — disse Mathieu. — Não é culpa minha. — Ivich... Mathieu colocara se. as tuas poltronas corrompem. — Eu tornei me numa espécie de . sólido e despreocupado perante o olhar rancoroso de Boris.— Vem ou não vem? — perguntou Boris. admirado. Queria saber se ela ia. — Pois é — disse Boris. isso não tem importância. Não sei porque mora num apartamento.. Voltara se e olhava para Mathieu com um sorriso zombeteiro e terno. Livre como você é. — Detesta que o considerem meu discípulo. — Os quatro? Ela falou nos quatro? — Pois então — disse Boris ingenuamente —. um mês no Faubourg du Temple. é preciso vir até aqui ao teu quarto para te encontrar. irritado —.. A Mathieu foi abrir. deveria vender os móveis e viver no hotel. Mathieu aproximou se e deu lhe uma palmada nas costas. — Ela quer ir — afirmou Boris. — Disse me que seria divertido encontrarmo nos os quatro. mas não consegui encontrar te. — Porquê? — Não sei. mas ao fim de algum tempo deve chatear. um mês Rua Mouffetard. — Pois venho. — Não — disse sorrindo —. diante de Brunet. Acrescentou: — Então. velho traidor. Estão a tocar — acrescentou.. — É verdade — disse Brunet. Fazia um cigarro. — Ah. absolutamente nada.. — Senta te na poltrona — disse Mathieu. Era Brunet. com os braços pendentes. depois de um longo momento —. Brunet sentou se na cadeira. — Para esta noite? — Sim. — Bem — disse Brunet com indiferença. — Ora — disse Mathieu. Boris inclinara se sobre o parapeito da janela e olhava a rua. não tem mesmo nenhuma. — Quem é? — indagou Brunet. Houve um silêncio. Procurei te mais de uma vez.

A propósito. — E teu irmão? Continua Croix de Feu? — Não — disse Mathieu. que há dias em que eu próprio tenho dificuldade em me encontrar.caixeiro viajante. — Porquê? — Sempre a mesma coisa. — Pensei muitas vezes que nos devíamos ver mais. o quarto enchia se com a sua presença. Imagina tu! — disse ele.. não é verdade? A alegria de Mathieu desapareceu. com o fumo do cigarro. com os seus gestos lentos. pesado e maciço. sentado numa cadeira de Mathieu. não é? — Isso mesmo — confirmou Mathieu rindo. — É verdade — disse Brunet. Peco lhe um favor e responde me com um sermão. ainda o vejo de vez em quando. — Daniel! Mas ainda existe esse camarada? Ainda o vês de vez em quando. acabo de me aborrecer com ele — acrescentou Mathieu sem reflectir. Fez se silêncio. É estranho — disse Brunet com ironia. eu. — Nada — disse. Creio que envelhecíamos menos depressa se nos pudéssemos encontrar de vez em quando os três juntos. com amargura. — É caça para Doriot — disse Brunet.» — Ainda o vejo. Dão me tanto trabalho. atónito. — É o que se diz. Mathieu olhava as grandes mãos de camponês do amigo. — E fora disso. Continuou com simpatia: — E quando te vejo que me encontro melhor. — Catorze horas de curso por semana e uma viagem ao estrangeiro durante as férias. Brunet olhou o com surpresa. — E esperas ainda vir a mudá lo? — Claro que não — respondeu Mathieu. Daniel. irritado. Brunet deitou lhe um olhar rápido e penetrante. Mathieu sorriu. Quando Brunet encontrava Portal ou Bourrelier devia dizer com aquele mesmo tom aborrecido: «Mathieu? É professor no Liceu Buffon. . Pensou: «Ele veio. — E então ataca lo. parece me que fiquei depositado em tua casa.. — Os Croix de Feu não são muito dinâmicos. que tens feito? Mathieu sentiu se embaraçado. — Os três? — Então? Tu. sim. agradecido.» Sentiu que a confiança e a alegria tentavam timidamente renascer lhe no coração. inclinava a cabeça obstinadamente para a chama do fósforo. Estava ali. Na verdade não fazia nada. Brunet pousara as mãos sobre os joelhos. Evitou olhar para Boris.

Mathieu acompanhou o até à porta e perguntou com entusiasmo: — Até logo à noite. não é verdade? Estou lá às onze. Brunet sentara se a cavalo na cadeira e olhava igualmente Boris com um olhar pesado.» Mas não parecia sequer pensar nessa solução. Vamos dar uma volta. Brunet perguntou: — Talvez tenha ido longe de mais. — Tinha má cara? A — Sim. — Ele está acostumado e depois estou contente por te ver a sós. duro: — Já percebi — disse. pensou Mathieu. Estava ofendido. Não te aborreces com isso? — Pelo contrário — disse Mathieu rindo. inchada. Demasiado amarela. Pôs se então a olhar fixamente o rapaz. — Um quarto de hora! Eu sei. Mathieu fechou a porta e voltou se para Brunet. tinha o dia inteiro ocupado. sob o fogo conjugado dos olhares. magoado. — Até logo à noite. — A licenciatura — atalhou Brunet com uma expressão absorta. Brunet pigarreou: — Continua a estudar Filosofia. — Na verdade. Mas hoje de manhã quando vi a tua cara. manti nha se no seu canto. Acrescentou bonacheirão: "^ J E A N P AUL SARTRE — Vai ficar a odiar me se eu lhe raptar Mathieu por uns momentos? Você tem a sorte de o ver diariamente e eu. todo arrepiado. parecia um cão de caça doente. . «Ele gostaria que Boris se fosse embora». — Fique. Acrescentou.. — Então? — disse esfregando as mãos. pensei: preciso de falar com ele. Já foi muito amável da tua parte teres vindo..Calaram se um instante e Mathieu pensou tristemente: «Se ao menos Boris tivesse a boa ideia de se ir embora.. Mathieu parou subitamente de rir. — Despachaste o. talvez compreendesse. ainda bem. Riram. Brunet observou com voz calma: — Eu estava com pressa porque tenho apenas um quarto de hora. Boris sorriu. Inclinou se ligeiramente. jovem? Boris disse que sim com a cabeça. Boris não se mexia. com satisfação. sou eu que me vou embora. com tiques nas pálbebras e no canto dos lábios. — A licenciatura. meu caro. — Não dispões de muito tempo.. fique. eu sei — acrescentou vivamente. afectuosamente: — Disse a mini mesmo: não quero que mo deitem abaixo. — Em que ponto é que está? — Termino agora a minha licenciatura — disse Boris com rapidez. Mathieu? Boris adiantou se.

Mathieu tossiu. creio. dá se um jeito. aliás.» Apesar de tudo. Eu próprio tenho dificuldade em me encontrar. Então? Achas que eu tenho necessidade de entrar na luta. Vou fazer te uma proposta: queres entrar para o partido? Se aceitares. — Não querias que eu te levasse para o partido de La Rocque? Fez se silêncio. — Para o partido?. vivo cercado de miúdos que só se preocupam com eles próprios e me admiram por princípio. Nunca ninguém fala de mim. com um gesto vago. Mas para que te serve a liberdade. essa proposta. As pálpebras dobravam se lhe em preguinhas e mostrava os dentes ofuscantes de brancura.. — Seguiste o teu caminho — disse Brunet.. Mas tinhas. Não sou sargento recrutador do P. de tomar posição? — Sim — disse Brunet com força. não podes vir a nós assim sem mais nem menos. Tem o dia inteiro tomado. — disse Mathieu. tu tens necessidade do partido. Dormi mal.. — És filho de burgueses. não vamos complicar as coisas. desconcertado.. era melhor se Brunet tivesse vindo pelo simples prazer de o ver. — Tens essa necessidade.. Agora já o conseguiste. — Para meu bem. — Se é apenas isso. depois vejamos: o partido não precisa de ti. Mas tu. levo te comigo e em vinte minutos estará tudo terminado. porque queres que eu me torne comunista? Para meu bem ou para o bem do partido? — Para teu bem — respondeu Brunet. Mathieu estremeceu. Simples aborrecimentos de dinheiro. — Brunet — perguntou suavemente Mathieu —. Sabes. não pensei.. — Ando aborrecido.. uma porção de encontros importantes e preocupou se em vir dar me o seu apoio moral. Não sentes que a tens? Mathieu sorriu tristemente. — Ora. não esperava essa tua. às vezes.. Escuta — acrescentou subitamente —. Tu representas apenas um pequeno capital de inteligência. — É para meu bem — repetiu Mathieu.E. e isso de intelectuais temos até para vender. tens de te libertar. — Tanto melhor — disse. — Nunca imaginei que tivesse uma cabeça tão expressiva. És livre. Comunista? Brunet pôs se a rir.C. Mas desejava que me dissesses o que pensas exactamente. — Não precisas de ficar desconfiado. as ideias. Brunet não parecia convencido. Pensava na Espanha. — Escuta — disse Brunet —. sim. Como toda a gente. sem dúvida — insistiu. Olhava Brunet com uma gratidão humilde e pensava: «Foi por isso que ele veio. senão para tomar uma posição? Levaste .. a cara de um tipo que acaba de perceber que viveu de ideias que não dão nada....

Assemelhava se a um prussiano. Dá mais um passo. — Um homem? — indagou Brunet. Que é que queres dizer com isso? — Nada a não ser que escolheste ser um homem. terreno refractário às angélicas tentações da arte. seguro de si. Escuta. um homem recto. sabes? — continuou com um sorriso amigo. — És bem real — disse Mathieu. — Quem to impede de fazer? Ou imaginas que poderás viver a vida inteira entre parênteses? Mathieu olhou o hesitante. surpreendido. Um homem de músculos fortes e elásticos. gosto que digas tudo isso. muito claras e compridas. que pensava por meio de curtas e severas verdades. indeciso. carne. assediado por todas as vertigens do inumano. Sempre que o via. Esperou um pouco e perguntou: . — Tudo aquilo que tocas parece real. Desde que entraste no meu quarto ele parece verdadeiro e enoja me. Gostava imensamente dele. nem sempre é divertido. renuncia à própria liberdade. Tinha um rosto pesado. nada mais se me afigura inteiramente verdadeiro^ Brunet não respondeu. não há outra escolha.. — Vives no ar. evidentemente. cor de tijolo. da psicologia. Mas Brunet não tinha cheiro. — Não — disse Mathieu —. um ausente. certo de perceber de repente um odor forte de animal. — Falas como um abade — disse Mathieu a rir. desajeitado. — Evidentemente..trinta e cinco anos na limpeza. E se escolher. diante dele. E Mathieu ali estava. És um corpo estranho. não seria um sacrifício. és um abstracto. — Meu caro aliciador de recrutas — disse —. flutuas. Meditava. — Não há outra — repetiu Brunet. sóbrio. Mathieu sentia uma espécie de curiosidade inquieta nas narinas. de traços caídos. Bem sei que tudo me seria devolvido. Aproximou se de Brunet e abanou o pêlos ombros com força. Brunet. Disse: — Renunciaste a tudo para ser livre. Btunet sorriu distraído. um homem inteiriço. E tudo te será devolvido. acabei por perder o sentido da realidade. Não deve ser muito agradável todos os dias. — O contrário seria inquietante. — A sério. escolherei ficar com vocês. Seguia a sua ideia. — Pois faz como eu — disse. Arescentou subitamente: — És um homem. sangue. um homem apenas. e o resultado dela é o vácuo. cortaste os laços burgueses e não te ligaste ao proletariado. minha cara puta velha. da política. fungava docemente. pestanas ruivas. verdadeiras paixões. E pensava: «Eu não pareço um homem. meu caro. precocemente envelhecido.» Brunet levantou se.

para dar cabo da saúde não há melhor. contrariado. — disse Mathieu. — Então? — Não é a mesma coisa. voltando a si: A — E verdade que se compreendesses não haveria necessidade de pontos nos ii. Agora nada já pode tirar o sentido da minha vida. serás o escravo da tua liberdade. «É mais livre do que eu. era apenas um soldado. como eu. Foste um funcionário abstracto. E um risco assumido. Brunet olhou o e observou rapidamente: — Vamos ter a guerra em Setembro. Mathieu não respondeu. real. Vamos admitir que partes nesse estado de espírito. arriscas te e rebentas como uma bolha. Amanhã serás demasiado velho. Morres sem acordar. Os Ingleses sabem disso. ele escolhera a arma que lhe feriria as têmporas. em carne e osso. Tu és mobilizável. — E tu? — perguntou Mathieu. — Estás a brincar? — Podes acreditar. e no entanto.» E ali estava ele. o Governo francês está prevenido. com um gosto real de fumo na boca. — Respira. a fim de que Schneider conserve os seus interesses nas fábricas Skoda. — Acrescentou com vivacidade: — Como a de todos os camaradas. Escuta. — Também não acredito — disse Brunet. Está de acordo consigo próprio e com o partido. — Essas informações. tudo lhe fora devolvido. serás um herói irrisório e cairás sem ter compreendido nada. E acrescentou docemente. a granada alemã que lhe perfuraria as vísceras. nesse . A sua vida era um destino. a classe.. E acrescentou a sorrir: — Não acredito que o marxismo preserve das balas. E tudo lhe fora devolvido. mas apressa te. «Disse bem.. irritado. mais densas do que as que Mathieu podia ver. Meditava. Dir se ia que tinha medo de pecar por orgulho. — Mas então não compreendes nada? — perguntou Brunet. E talvez o mundo esteja também demasiado velho.— Então? — Deixa me tomar fôlego — disse Mathieu. inclusive a liberdade. a época. respira.» Brunet tinha razão. Comprometera se. Na segunda quinzena de Setembro os Alemães invadem a Checoslováquia. Foi encostar se à janela. — Sabes para onde me vão mandar? Para a frente da Linha Maginot. — Não compreendo — disse Mathieu. aliás. as cores e formas com que se enchiam os seus olhos eram mais verdadeiras. já nada a pode impedir de ser um destino. terás os teus pequenos hábitos. e um belo dia uma granada faz explodir os teus sonhos. renunciara à liberdade. Sonhaste durante trinta e cinco anos. A idade.

.» Voltou se para Brunet e encarou o com amargura. — Tens sorte — disse Mathieu. Talvez tenhas razão. — Sorte de ser comunista? — Sim. os mortos. eu quero acreditar primeiro. . as espingardas vão disparar sozinhas e vocês. — Vocês são todos iguais. eram os seus irmãos e irmãs. Mas eu. — Então? — disse Brunet. — Recuso. — Eu sei. «As tuas poltronas corrompem. Não cerrou os punhos. Entrar para o partido.. não abandonou o tom sereno. Sim ou não.» Ergueu se com vivacidade e sentou se na ponta da mesa. Mathieu foi sentar se na poltrona. Mais tarde. a sua maneira de dizer sonhadora. espalhava se pela terra toda. serenos. desesperado. há chineses nos escombros de Naquim e eu aqui. lutando. O rosto de Brunet endureceu se um pouco. arriscas te a esperar muito.. Tens sorte de ter podido escolher. dentro de um quarto de hora ponho o chapéu e vou passear no Luxemburgo. agir. fresquinho. — Recusas? — Recuso — disse Mathieu. pensou. — Queres dizer que não vais ter essa sorte? Pronto. livre. dar um sentido à vida.. Brunet não despregava os olhos dele. escolher ser um A homem. — Naturalmente — disse Brunet com impaciência. «Nesta hora. Atiraram as bombas no mercado. Mathieu sorriu tristemente. Pensas que eu estava convencido quando entrei para o partido? A convicção forma se. os seus filhos. — Essa é boa! Isso escolhe se. Tudo se desmorona. Era preciso responder. Põe te de joelhos e terás fé. — Não havia um só canhão de defesa antiaérea em toda a cidade. reivindicam o direito de ser convencidos. há tipos que se matam nos arredores de Madrid. se ao menos pudesses ver com os meus olhos. Brunet encolheu os ombros. e no entanto era ele o bombardeado. meu caro. vocês os intelectuais. acreditar. Pensava: «Veio oferecer me o que tem de melhor!» Acrescentou: — Não é coisa definitiva. neste instante. Ah!. Seria a salvação.mesmo momento. sofrendo com os proletários de todos os países. compreenderias que não se pode perder tempo. — Eu sei. Parecia estar a espiá lo. — Mais tarde? Se estás à espera de uma revelação interior para escolher. «Sou um irresponsável». — Bombardearam Valência — disse subitamente. — Já sei — atalhou Brunet. há judeus austríacos que agonizam nos campos de concentração.

Revolto me. — Também já pensei nisso — disse Mathieu.. mas não é o bastante. Há anos que sou livre para nada. não me orgulho da minha vida e não tenho um tostão. mas não te desfazes dele. penso como tu que não se é homem enquanto não se encontra uma coisa pela qual se está disposto a morrer. — Então? — indagou quase alegremente. J E A N P AUL SARTRE Fez se silêncio. não tenho razões suficientes para isso. estás a compreender me? — Não sei se te compreendo muito bem — disse Brunet —. Espero que essa oportunidade se apresente o mais depressa possível. «Se ele pudesse compreender me». como vocês. De boa vontade trabalharia com vocês. não precisas de justificar te. — Não tenho nada a defender. Mathieu indagou docemente. Reservas te para uma melhor oportunidade. estás no teu direito. Quando o atacam. A minha liberdade? Pesa me. Brunet tomou o seu ar mais fechado. — Já pensei que nunca mais viria. Brunet? Diz lá. pensou Mathieu. Mentia se dissesse que me sentia satisfeito em desfilar de punho erguido ao som da Internacional. — Eu também o espero. mas como quer que seja. neste momento. como o teu irmão se agarra ao dinheiro. contra a mesma espécie de indivíduos. — E então? .— E então? Sim. Fez um esforço: convencer Brunet era o único meio que lhe restava para se convencer a si próprio. o tempo passa. É teu conforto moral. — Apesar de tudo. A — Tens a certeza de que o desejas? — Tenho. agarras te a ele avidamente. e daí? Brunet deu uma palmada de indignação na coxa. Mathieu olhou o com desespero. parecia uma torre. — Muito bem! Finges lamentar o teu cepticismo. ou viria demasiado tarde. — Achas que pareço agarrar me a alguma coisa. Mas receio que não apareça tão cedo. — Não quero dizer. contra as mesmas coisas. — Tens? Tanto melhor. Desejo ardentemente trocá la por uma convicção. Não é culpa minha. não posso comprometer me.. E depois. Brunet levantara a cabeça. Ninguém te acusa. Talvez não haja oportunidade. mais camponês. Brunet parecia mais calmo. — Estás a compreender me. Brunet olhou o com curiosidade. isso afastar me ia de mim próprio e tenho necessidade de me esquecer um pouco.

Não faz mal. — Porque teria vindo se não me lembrasse? Se tivesses aceitado. — Já estou atrasado. da tua voz. Não tenho nenhum direito sobre o seu tempo. Mas não tinha nada para lhe dizer. Desejaria ver te sempre e falar contigo. Brunet esperava delicadamente.. E tudo. a amizade de Brunet. desolado... sair assim. Os meus únicos amigos agora são os camaradas do partido. Mathieu pensou: «Está com pressa.. ainda te lembras? Foste tu o meu melhor amigo. Calaram se. Mathieu pensava: «Evidentemente. — Também o desejaria — disse —. A . sem querer: — Brunet. Calaram se. uma só.. E depois há as recordações. Ainda tens um minuto? Brunet olhou o relógio. aproximara se da porta. Do teu focinho.» Disse.. mas não queres dizê lo porque julgas o caso perdido. mas decepcionei o. e tudo seria devolvido a Mathieu. das tuas mãos. Era tentador como o sono.. Mathieu endireitou se repentinamente. preciso de ajuda. — Não te considero um sacana — disse. — Eu conheço vos bem. não do de Karl Marx. mas não tenho muito tempo. — Pois é. — E achas que não temos mais nada em comum? Brunet ergueu os ombros sem responder. — Mas não te quero mal — disse Brunet. pensou Mathieu.. Mathieu disse lhe: — Não podes imaginar o que me comoveu teres vindo oferecer me a tua ajuda. Tens razão. Doido por se ir embora. — Não vais. Com esses eu tenho um mundo em comum. só porque eu tinha má cara. — Não é verdade — disse Mathieu. «Não pode sair pode sair assim. tenho de lhe falar». é possível? Brunet desviou os olhos. Voltamos a ser estranhos um para o outro. a não ser que se seja sacana. Bastava uma palavra. Brunet brincava com o fecho da porta. Brunet levantou se. Mas é do teu apoio pessoal que eu preciso. acham que se deve pensar como vocês. — Acho apenas que estás menos libertado da tua classe do que eu imaginava. Mas isso não modifica a coisa. Mathieu também se levantou. razões de viver. J E A N P AUL SARTRE Enquanto falava. Tu achas me uma sacana. esta manhã. — Não me deves querer mal — disse precipitadamente. apesar de tudo estou contente por te ter visto. — Pois é.» Brunet acrescentou sem o olhar: — Ainda gosto muito de ti. — disse.— Nesse caso serei um desgraçado. poderíamos trabalhar juntos. — Não és obrigado a pensar como eu. Brunet sorriu levemente. Teve pena de mim de manhã.

A menina saltava à corda eternamente. as cadeiras. mas não desejo que o suprimam. já não olhará para as minhas cortinas. mas decidir o quê?» Quando disse não. por cima ou por baixo. a corda erguia se eternamente acima da cabeça dela e eternamente fustigava o chão a seus . Jacques também. sempre não. um entusiasmo amargo nascera no seu coração. a corda erguia a acima da cabeça como uma alça e chicoteava o solo sob os pés. Todos decidiram que sou um sacana. — Certamente — disse Mathieu. eternizava tudo aquilo em que tocava. o quarto corruptor estava atrás dele. Sorriu para Mathieu e foi se embora. pode se sempre discutir. Ia pelas ruas gingando um pouco como um marinheiro. — Certamente — disse Brunet. as cortinas verdes e pensou: «Já não se sentará nas minhas cadeiras. Uma tarde de Verão. Pensava: «Eu não podia aceitar». tudo o que fazem pode ser explicado. Por cima ou por baixo: quem havia de decidir? Brunet já decidiu. na minha varanda e não queria que isso mudasse. corruptora. e apenas a cabeça lhe saía da água. Mas posso dizer também: tive medo. julgar. fria. Mathieu chegou se à janela e encostou se ao parapeito. É o que posso dizer. Que posso eu fazer contra todos? Tenho de decidir. pouco antes. e as ruas uma por uma tornavam se reais. e teria medo que se construísse um mundo viável porque teria de dizer sim e fazer como os outros. Este pobre Mathieu está perdido. Mas em relação às pessoas. se mudares de opinião. manda me um recado. à tarde. Mas a realidade do quarto desaparecera com ele. prefiro a minha cortina verde.» Partiu. Mas quem poderia conservar nesta luz a mesma parcela de entusiasmo? Era uma luz de fim de esperança. como uma verdade eterna. fixa. prefiro tomar ar. acreditava estar a ser sincero. e o quarto atrás dele era uma água tranquila. Mathieu pensou: «Era o meu melhor amigo. isso é indiscutível. — Vem visitar me quando tiveres tempo. Brunet abriu a porta. como se desejar. Mathieu olhou a poltrona verde. a luz estava pousada na rua e nos telhados. igual. Agrada me indignar me contra o capitalismo. já não fumará aqui os seus cigarros. Daniel também. Acha que sou um filho da puta. agrada me dizer não. «Recusei porque quero continuar livre.» O quarto era agora apenas uma mancha de luz verde que tremia quando passavam os carros. porque já não teria motivos de indignação. «Será verdade que não sou um sacana?» A poltrona é verde. Agrada me sentir me desdenhoso e solitário. e ele mantinha a cabeça fora da água e olhava a rua pensando: «É verdade? É verdade que não podia aceitar?» Uma menina ao longe saltava à corda. a corda parece uma alça.— Não quero demorar te — disse. — E tu. é um sacana.

o olhar de Daniel deslizava por entre aquelas falésias abertas até ao céu rosado e corrupto que elas fechavam no horizonte. De manhã. perdeu se. «Posso andar um pouco. . Aliás.pés. que olhavam as ruas desertas e eternas. disse entre dentes. Não era uma rua para mulheres e os homens não se preocupavam J E A N P AUL SARTRE com ele. Ao sair do escritório. «Vou chegar cedo de mais a casa de Marcelle.» IX E ram seis horas. E Mathieu contemplá la ia eternamente. às janelas. Nunca se perdia por muito tempo. Para quê saltar à corda? Para quê? Para quê? Para quê resolver ser livre? Sob aquela mesma luz.» Em cima da mesa havia um pesa papéis em forma de caranguejo. Um pesado destino de multidão parecia esmagá lo. Felizmente eram raras. Daniel olhara para o espelho do vestíbulo e pensara: «Vai recomeçar». Isso permitia. embora não densa. pois Daniel já não era capaz de se iludir. e teve medo. Nada mais lhe ficou senão um ruído surdo de avalancha. podia perfeitamente desejar uma ligeira compensação. desconfiado. para quê? Queria ir à quermesse? Pois iria. era agora uma praia de luz esquecida. Mathieu pegou lhe por cima como se estivesse vivo. a visita de Mathieu. Por mais que se lave. e caminhava devagar. Era uma verdadeira multidão. As mulheres pintadas que saíam das lojas deitavam lhe olhares provocantes e ele sentia o próprio corpo: «Putas». Para quê? Para quê?» Deixou cair o caranguejo sobre a mesa e declarou: «Sou um tipo lixado. à noite. Apropriando se do sorriso vago dos homens. em Madrid e em Valência. uma sala de espera de um tribunal.» Isso queria dizer: «Vou dar uma volta pela quermesse». Não era muito cómodo esconder se. Mesmo na Rua Réaumur era muito notado. Era fácil esconder se ali. A tarde esvaziava os edifícios comerciais. «O meu pesa papéis. Tinha medo de lhes respirar o cheiro. Iria porque não tinha a menor vontade de deixar de o fazer. os meus móveis. havia homens. do mesmo destino vago e ameaçador. era inevitável. os gatos. e diziam: «Para quê? Para quê continuar a lutar?» Mathieu voltou se para dentro do quarto. depois quatro horas de trabalho odioso. Liam os jornais ou limpavam com uma expressão de cansaço as lentes dos óculos. Voltara a encontrar se. mas a luz seguiu o. Daniel seguiu a passo lento o desfile. pelo menos.» Empertigou se novamente. fugir à tentação de imaginar intimidades atrás das vidraças escuras das janelas. Livre. Entrou pela Rua Réaumur. «A minha poltrona. Marcelle. a mulher cheira sempre. não passava de um saguão aberto. ou sorriam no vazio com espanto. tenho tempo de andar um bocado.

estupefactos. enormes e leves como elefantes de borracha. Mas é preciso mudar constan temente de imbecis. Mesmo em tempos normais não podia deixar de fungar. Entrou no Bulevar Sébastopol. só tinha diante dele uma distância com obstáculos. Sentia desejo de lhes bater. O quarto dela estava irrespirável. verificou se os rostos lhe eram desconhecidos e entrou. eram vadios ocasionais. havia uma mancha na frente dos seus olhos. Os michés tomavam no por protector de um dos meninos. Daniel não suportava a humildade deles. aí é que o inspector de finanças Durat descobrira a puta que o tinha matado.» Tinha a garganta seca. sim. quando lá entrava. tinham sempre um ar de se confessar culpados. Daniel ficou subitamente apressado e esticou o passo: «Vamos rir. Um homem que se condena a si próprio tem sempre vontade de dar pancada para se liquidar de vez. e encarava os fixamente enquanto batiam as asas sob os olhares maldosos e escarnecedores dos jovens amantes. Quermesse. A quermesse do Bulevar Sébastopol era célebre no género. Às vezes provocava asma. Deixava se doutrinar durante horas. dizia sempre sim. E depois. que procuravam apenas ganhar dez francos e um jantar. brutais e canalhas. Não via nada. as pessoas. era de morrer a rir. dançam a cada sacudidela do fio com saltos desajeitados. flutuavam a baixa altura.Marcelle era um charco. que o repelia e atraía ao mesmo tempo. . senão é a náusea. Mas nos verdadeiros pesadelos. como borboletas. puxar a corda e voltá los. Parecia um J E A N P AUL SARTRE pesadelo. de resto. aturdidos.» Não precisava de se desculpar tanto. ela só existia aparentemente. A Rua Réaumur esvaiu se. erguê los no ar. agora Marcelle estava podre. e ele estragava lhes todo o prazer. Quanto aos michés. calcinado pelo sol claro. humildes e de olhar ligeiramente alucinado. mas tinha se sem DADE DA RAZÃO pré uma inquietação no fundo dos brônquios. Habitualmente encostava se a uma coluna. sedosos. não era mal nenhum: queria observar a táctica dos maricas no engate. dar lhes corda. e diminuiu o passo. cor de gema de ovo. Valia a pena divertir se um bocado com os imbecis. dissimulados. a lembrança de uma luz espessa. ternos. Daniel nunca atingia o fim da rua. de voz rouca. essa luz ignóbil que flutuava entre os muros baixos como um cheiro a cave. Os malandros que se distraíam diante dos caça níqueis à espera de freguês eram muito mais divertidos que os seus colegas de Montparnasse. o ar seco queimava em volta dele. para partir em mil pedaços o pouco de dignidade que ainda lhe resta. Não cheirava a nada. viu a tabuleta. e as ideias amontoavam se Ihe na cabeça. vozes de mel. «Vou até à quermesse.

deserta. junto à caixa. Noite de Núpcias Interrompida. com uma pressa desajeitada. ao luar. os distribuidores de chocolate e perfume. À direita. um louro. pois a claridade do dia amontoava a no fundo da sala. lembrava lhe certa noite que passara doente a bordo do navio de Palermo. Eram quatro. além disso. o automóvel de lata que se tinha de empurrar sobre uma estrada de pano. aliás parecia não os conhecer. tinham começado a dar socos. arregaçado as mangas das camisas sobre os bracinhos magros e batiam alucinadamente sobre a almofada. Lançaram olhares maliciosos a Daniel e continuaram a bater com entusiasmo. sonhava com ela às vezes e acordava sobressaltado. Criadinhas Devassas. vinte e duas figurinhas de madeira pintada espetadas em ganchos de ferro. Daniel conhecia os a todos: os jogadores de futebol. Não era com certeza um canalha como os outros. que parecia mais triste ainda e mais cremosa que de costume. devia ter entrado por acaso — Daniel punha as mãos no fogo — e parecia absorto na contemplação de uma grua. feliz por voltar às trevas. Uma agulha marcava no mostrador a força dos murros. As horas que passava na quermesse pareciam lhe ritmadas pelo martelar surdo das bielas. havia uma bruma amarelada semelhante. aquele calor e. Daniel sufocava: era aquela poeira. Depois afastou se e pareceu . No fundo da sala havia três filas de kineramas e os títulos dos filmes destacavam se em letras negras: Jovem Casal. Na sala das máquinas. Viu a isca à esquerda. do outro lado da parede. sete jogadores de pólo. os cinco gatinhes pretos no tecto. e que se tinham de derrubar com cinco tiros de revólver. atraído sem dúvida pela lâmpada eléctrica e pela Kodak que descansavam atrás dos vidros sobre uma pilha de bombons. manequim de dois metros de altura que trazia sobre o ventre uma almofada de couro e um mostrador. a carabina eléctrica. No fim de momentos. Daniel mergulhou na luz amarela. Banho de Sol. um ruivo e dois morenos. viu um rapaz alto e de rosto cinzento que vestia um fato amarrotado. Tinham tirado os casacos. Uns rapazes pobremente vestidos tinham se agrupado em volta do pugilista negro. uma camisa de dormir e alpercatas. a intervalos regulares.Era uma trincheira empoeirada com muros caiados de castanho de uma fealdade severa e cheiro de um depósito de mercadorias. contra a luz. por entre casas e campos. aproximou se lentamente e meteu uma moeda de um franco na ranhura do aparelho. Ao longo das paredes tinham posto umas caixas grosseiras sobre quatro pés: eram os jogos. Um senhor de monóculo aproximou se de um desses aparelhos. Colocou um franco na ranhura e espreitou pelo binóculo. Para Daniel era uma luz de enjoo. Daniel franziu o sobrolho para mostrar lhes que se enganavam no endereço e virou lhes as costas.

uma tez aveludada sob os cabelos brancos. exibindo o mesmo ar de inocência viciada. coçando o nariz. depois recomeçaram a dar socos na barriga do negro. Os quatro vadios voltaram se ao mesmo tempo. nesta luz sinistra. de liberdade e de esperança. e Daniel libertou se. Mas um homem entrou.» No entanto. O senhor avançou com petulância. mas sem grande entusiasmo. aquele tanta vitorioso junto da parede. um amor de si próprio profundo e aveludado. O aparelho tremia todo. perder todo o dinheiro. o busto recto e as pernas flexíveis. num gesto vivo. Estava ligeiramente desvairado. e recomeçar. Devia ter uns cinquenta anos. procurou nos bolsos e descobriu outra moeda. resistir. uma vida misteriosa de privações. que tinham um aspecto avaro e estúpido de feijões. recomeçar sempre.» Eram os mais atraentes. «Deve usar cinta». Ia precisar de dias e dias para se libertar daquilo. com aqueles murros junto da parede. pensou. pensou que ia desatar a rir. O senhor olhou os com um olhar prudente.» Não não devia.» Ia recomeçar o pesadelo. pegou nas alavancas e pôs se a manobrá las com convicção. jurei aguentar. Empertigou se. O rapaz. «gosta de se acariciar. Daniel sentiu um arrepio familiar percorrer lhe a nuca.. Daniel teve medo. pensativo. Daniel fazia votos para que ele ganhasse a lâmpada eléctrica. O rapaz não pareceu decepcionado. Daniel compreendia muito bem que se podia ser tragado por um daqueles aparelhos. aquela maré de tristeza resignada que subia nele. estava cheio de vontade de pousar a mão no braço do rapaz — já sentia o contacto da fazenda áspera e usada — e dizer lhe: «Não jogue mais. aqueles cujo menor movimento revelava uma garridice inconsciente. Daniel compreendia todas as vertigens. pensou Daniel. com a garganta seca de vertigem e ódio. J E A N P AUL SARTRE O guindaste girou sobre si mesmo com um ruído de engrenagem e estremecimentos senis. mas o buraco cuspiu de repente um punhado de bombons multicores. «Não hoje. dobrando os joelhos. Não aqui neste inferno. do qual não se excluía uma certa severidade. aquela tristeza infinita e familiar que ia tudo submergir. deu um passo em frente. com aquele gosto a eternidade. «São as suas últimas moedas». todo preocupado com o seu próprio prazer. pensou Daniel. mas ainda assim contente por ter resistido. O guindaste pôs se a girar com movimentos prudentes e desdenhosos. «não come desde ontem. Não devia imaginar por detrás daquele corpo magro e atraente. um belo nariz florentino e um olhar um pouco mais duro e míope do que o que seria necessário: o olhar de circunstância. os mais românticos.. «Ele gosta».perder se em meditações. Aquele aparelho niquelado parecia satisfeito. «Eis o homem». bem barbeado. pensou. Fez girar as alavancas e examinou os .

murmurou. mas cinzentas. Esse pensamento enfureceu Daniel. — Sabe jogar? — perguntou o velho com uma voz doce. tê lo ia visto. considerava sem dúvida que. À direita. mas nunca o encontrei. aquelas simulações e mentiras horrorizaram no e ele teve uma grande vontade de fugir. que uma ligeira barba sujava. sou bom fisionomista e você tem um rosto interessante. não é? Eu tento enviar uma bola para o buraco e você procura impedir. faz treinos? Vem sempre aqui. — Ponha um franco e puxe. claro que quero. após um rápido conciliábulo. e aproximou se do miché com as mãos nos bolsos. «Carne de mulher». nas gordas bochechas camponesas. Inclinaram se ambos sobre as alavancas e inspeccionavam nas sem se olharem. Jogaram. Acontece me entrar por acaso. era uma isca deleitável para aqueles peixinhos todos. — Quer fazer uma partida comigo? — Eu. Parecia farejar. A seguir acrescentou: — Precisam de ser dois: um de cada lado. de o lavar e talvez perfumar. O senhor petulante inclinou se sobre o jogo e passou o dedo frágil no corpo magro dos bonecos de madeira. As bolas saem. O rapaz ao fim de um instante pareceu tomar uma decisão heróica: empunhou uma alavanca e fê la girar com rapidez. sem o vestir. Daniel viu o sorriso e sentiu um baque em pleno coração. Não queria baixar se. Pusera o casaco sobre os ombros. O velho disse em voz de falsete: — É muito hábil! Como conseguiu? Ganha sempre. como se ele próprio se divertisse com o capricho que o conduzia ali. «amassa se corno pão. Sim. — Sim. Encostou se comodamente à coluna e lançou sobre o senhor um olhar pesado. Quer — explicar me? Eu não compreendo. Mas foi apenas um instante. «Filhos da puta». é preciso mandá las para o buraco. Quatro jogadores descreveram um semicírculo e pararam de cabeça para baixo. lembrar me ia de si. dando o primeiro passo. sim. temeroso. O rapaz parara a poucos passos do velho e fingia examinar também o aparelho. Ensine me. — Mas é preciso ser dois. o lourinho destacou se do grupo. não é? — Isso mesmo — disse o rapaz.bonecos com uma atenção sorridente. o rapaz de camisa de dormir tirara do bolso uma terceira moeda e recomeçava pela terceira vez a sua dança silenciosa em torno da grua. já o conhecia. Um impulso sem consequências. sem dúvida? Eu não. sim. Daniel reparou eno J E A N P AUL SARTRE jado nos quadris avantajados. com os seus cabelos brancos e a sua roupa clara. pensou. com modéstia. É da província? . um olhar de cão sob as sobrancelhas espessas. — E o hábito — respondeu o rapaz.» O senhor era capaz de o levar para casa. Com efeito.

depois sairia por sua vez arrastando os pés. Fizera se gordo e grande. Conhecia o ritual: parecia um adeus. Bobby inclinara a cabeça sobre o ombro e fazia como os meninos.» — Bom dia. Daniel sobressaltou se. finalmente. Este fez um ar de desprezo. Ia segui lo. Daniel empregara o numa farmácia. O velho para juntar se a ele teve de dar uma volta sobre si mesmo. devorando com olhar de juiz o rosto delicado e gasto da presa. O rapaz voltaria para os companheiros com indolência. e deparou com o olhar de Daniel. Daniel gozava de antemão a cena. Olhava Daniel sem responder. fala! — Ando à procura do senhor há três dias — disse Bobby com a sua voz arrastada —. Fez se silêncio e. vendo chegar de repente o rapaz acompanhado por Daniel. passaria por polícia de costu J E A N P AUL SARTRE mês. O velho não respondeu e lançou uma olhadela furtiva para o lado de Daniel. com um sorriso inocente e astuto. assentava o nome e o endereço do velho e pregava Ihe um tremendo susto. usava roupa nova. O rapaz não vira nada. em voz baixa. o velho pôs se a falar com doçura. desconcertado. Daniel sentia se reconfortado por uma cólera seca e deliciosa. ingenuamente —. Lalique era um nome de guerra que usava às vezes. De boca aberta. mostro lhe a minha carteira de funcionário. Se houvesse oportunidade. — Que estás a fazer aqui? — perguntou com severidade. — Pois jogamos daqui a pouco. o velho sairia à frente apressado. O rapaz consentiu com a cabeça. — Tinha te proibido de voltar aqui. Por mais que Daniel prestasse atenção. Aquele sorriso enfureceu Daniel. pois. Imaginava o velho de um lado para o outro no passeio. As suas mãos tremiam e a sua felicidade era perfeita se não sentisse a garganta seca com a sede. aguardava que lhe dirigissem a palavra. Sr. daria um soco ou dois no ventre do negro. ouvia apenas as palavras «rancho» e «bilhar». olhar vazio e deferente. Pensei: «Um destes . e o homem desviou os olhos. ainda tem cinco bolas. comprada feita. Voltou se bruscamente. não tinha o menor interesse. passando a língua sobre os lábios finos. Levantou a cabeça.A — Sou — disse o rapaz. O rapaz sorriu forçadamente. sem o olhar. Era Bobby. se não vê mal nisso. pareceu inquieto. — Mas a partida não acabou — disse o rapaz. Prefiro conversar. esfregou as mãos como um padre. Lalique — disse uma voz sumida. — Deve ser «massa»! — disse em voz alta. — Vamos. O senhor parou de jogar e aproximou se do rapaz. não sei a sua morada. «Se pedir os meus documentos.

a fazer previsões: «Imagina que me conhece e pode manobrar me.» «Um destes dias! Merda insolente. que tresandas a brilhantina. respirava lhe os cabelos com um ar de bondade. — Estás feio — afirmou —. Daniel vem aqui. debaixo daquela fronte estreita. a não ser esmagá lo como uma lesma. Ele inclinava a cabeça para trás e olhava o tecto com uma expressão de humilde volúpia através das pálpebras semicerradas. — Desculpe — disse Bobby sem se apressar. — Que é que foi? — observou Daniel. aquele sorriso mole e tenaz de borracha. Depois disse lhe adeus. e ali ficaria para sempre.dias o Sr. foi por isso que tomei a liberdade. «Agradou me porque se parecia com um gato». Daniel sentia se solidário com aquela mancha plácida e viva: era ele que assim vivia na consciência de Bobby. — Estou com pressa. desatando a rir. «Pensam que todos o são. — Como estava encostado à coluna e não parecia de modo algum apressado. «Vê me com este canalha e toma me por colega. Inclinava se sobre o miúdo. Daniel deitou uma olhadela furtiva para o velho e viu com despeito que este já não fazia cerimónia. pois uma certa imagem de Daniel ali se achava incrustada. Sim. E vê se te afastas um bocado. um dia Bobby tinha lhe agradado. Estou sujo. com uma palmadinha no rosto. e essa roupa não te serve. mas o outro já tinha virado as costas. — Foi porque o senhor mostrou a língua ao velho maricas — . Mas isso dar lhe ia direitos para sempre? O velho pegava na mão do jovem amigo e conservava a paternalmente entre as suas. — Oh! Tu falas bem! — disse Daniel. «Era de esperar». preferia matar me a parecer me com esse tipo. Bobby riu se.» Atrevia se a julgar Daniel. e que ainda continuaria mesmo que lhe rebentassem os lábios a soco. J E A N P AUL SARTRE Daniel mostrou lhe a língua. Apesar da repugnância..» Tinha horror a essa franco maçonaria de mictórios. onde a arranjaste? É horrível como a tua vulgaridade sobressai quando estás endomingado! Bobby pareceu não se incomodar. engordaste. Daniel detestava aquela paciência inerte de pobre. deitou um olhar de cumplicidade a Daniel e saiu a passos largos e dançantes. Olhava Daniel arregalando os olhos gentilmente e continuava a sorrir. dar uma voltinha. pensou Daniel com ódio.» E nada há a fazer contra isto.. Em todo o caso. pensou Daniel com um estremecimento de raiva. — Compraste uma língua juntamente com a roupa? Os sarcasmos não atingiam Bobby.» — Que é que queres? — perguntou brutalmente.

ir me embora. com nojo. Bateram as sete horas. «na farmácia a senhora é que manda.» — «Minha senhora». Invadido por uma suspeita perguntou: — E a farmácia? Já lá não estás? — Não tenho sorte — disse Bobby. E então vomita tudo na farmácia. — Na farmácia a senhora é quem manda. Procurou com o olhar o dorso curvado e a nuca magra do rapaz em camisa de dormir. Então comecei a ver Ralph fora da farmácia para não ser apanhado. Sr. — Vamos. era uma loura gorda. queixoso. é um tipo estuporado. — Eu é que saí — disse Bobby muito digno. Daniel estremeceu. — Começou a hostilizar me porque eu via Ralph. — Não gostava de mim. que as pessoas se escandalizavam. era só Bobby para aqui. «Que estou a fazer aqui?». «Não perdes pela demora». Tinha medo da solidão. hem! Eles não me . — Via o menos. fala — disse distraidamente. rindo muito alto. pensou Daniel. mas eu mandei o passear. Bobby para ali. Dirigiu se com passinhos curtos até um distribuidor de perfume e olhou se no espelho. Daniel encarou o. a sorrir. o ruído dos socos parara. disse me ele. — Então puseram te na rua? — perguntou. A caixa levantou se. sei lá. perguntou a patroa. Ao passar roçou ao de leve Daniel. Daniel. — Disse: «Prefiro.» DADE DA RAZÃO Que fazer. «Que é que eu te disse?».» Pan! A sala estava deserta. quando entrei para a farmácia.» E não tinha um tostão. atropelavam se. «proíbo que ele entre na minha farmácia. que fazíamos coisas. — No princípio. — Nem por isso deixaste de engordar. disse eu. Os três companheiros seguiram no logo depois. que nos viu juntos. E acrescentou em tom carinhoso: — É sempre o mesmo. «Ou não tornas a ver Ralph ou sais daqui. O estupor parece gostar de coisas — disse Bobby com pudor. O rapaz em camisa de dormir já não estava lá.disse Bobby. «E um ladrão». mas lá fora não me pode dizer nada. bom — disse Daniel. — Bom. O tipo louro saiu vagarosamente da quermesse. essa mulher era uma puta. mas não queria deixá lo assim de repente. Mas o estagiário encontrou nos juntos. horrorizado. — Já te tinha dito para não te dares com Ralph. dizia ela. — Que é que fizeste? Roubaste? — Foi a mulher do farmacêutico — respondeu Bobby. só porque tivemos sorte? — atalhou Bobby com indignação. Daniel sentiu se cansado e vazio. — Então devemos abandonar os amigos. mas lá fora não me pode dizer nada — repetiu Bobbv com agrado. sempre brincalhão.

Mentes como um tira dentes. Lalique — disse Bobby. ele compreende me. Não como desde anteontem. Depois deu meia volta e foi se embora. Na Rua dês Ours. — Disse a mim próprio: vou ver se encontro o Sr. Lalique. nós moramos aqui perto. Ao lado da Kodak e da lâmpada eléctrica havia um . Durmo na casa de Ralph. não penses que acredito em metade do que me contaste. pensou: «Tenho de me ir embora». Eu sou assim. E uma aventura séria. — Se quiser falar comigo. toma cinquenta. Ver se não estou a dizer a verdade. com voz humilde. — Ainda hoje dizia a Ralph: se eu encontrar o Sr. ou com Ralph. — Toma — disse Daniel —. Sr. no sétimo andar. O corpo parecia lhe algodão. a recuar e sorrindo sempre. Bobby pôs se a fazer trejeitos. Daniel aproximou se do guindaste e olhou. Aliás. mas não faz mal. Ralph e eu. — Vai te embora. carinhosamente. — Obrigado. — Se pudesse emprestar me. — Deus me livre! Não estou disposto a ouvir as suas histórias. 6. verás como ele não me deixa em apuros. Bobby meteu o dinheiro no bolso sem falar e ficaram um diante do outro. Olhou Daniel. Sentia se acovardado. — Pode perguntar lhe. Devolvia lho no fim do mês. ele gosta muito de si. E depois. Esfalfo me para arranjar um lugar e consegues ser J E A N P AUL SARTRE posto na rua ao fim de um mês. indecisos. — Estávamos com um projecto de trabalhar juntos.. são dados. Sr. Quanto queres? — É um bom tipo. E desaparece. durmo de dia porque à noite ele recebe a puta. — Sim? E vieste pedir me dinheiro para as primeiras despesas? Guarda essas histórias para outros. Bobby afastou se. mas sentia as pernas moles. hem. Lalique. A — Vai te embora — disse Daniel com rudeza.. Deu uma saída em falso e voltou atrás. Quanto? — Cem francos. — Quanto queres? — repetiu Daniel.quiseram pagar o que me deviam. — És um idiota — disse Daniel. Lalique. — disse Bobby com indiferença. — Já não me interessas. — Queremos arranjar um comércio. — Perguntar a quem? — À patroa. Está enganado sobre o Ralph. emprestar. não posso fazer nada por ti.

O guindaste deixou cair os ponteiros sobre o monte de bombons.» Mas fora pior. A paz de boa gente. Daniel viu o de longe.binóculo que não tinha visto antes. estava com eles. assim o tinha resolvido. morre. pensou: «Eis o Bem. Daniel era um homem de má vontade.. «Ser aquele tipo». desgraçado! Morre de sede! «Afinal». não em 1913. Agora carregava o Mal dentro dele como uma comichão infecciosa.. eles sabiam que tinham razão. No limiar da entrada de um edifício. Eles bem o sabiam. tinha ainda na vista aquela mancha amarela. da gente de bem.. com inveja. um porteiro gordo e pálido. via as pessoas passarem e de quando em quando aprovava uma qualquer pessoa com um meneio de cabeça. Se fosse possível esquecer aquela direcção. as árvores. Gostaria que me tivesse seguido. e não a minha?» Assim era. naquela natureza. pensou Daniel. E o céu. não tivera sequer a coragem de se satisfazer.» Mas o quê? Teria cuidado para não o esquecer. Devia ter um coração reverencioso. «não fiz nada que mereça castigo. os olhos amarelavam lhe tudo. a natureza toda. as pessoas sorriam à carícia da sombra. Bastaria um sinal para que esses homens se atirassem contra ele e o fizessem em pedaços. «A paz. naquela luz. Deixara se roçar pelo Mal. É verdade que renascia sempre. Em 1912. Enfiou uma moeda no aparelho e rodou os manípulos ao acaso. Eu ainda estava com Paul Lucas. de ombros caídos. como sempre. Daniel recolheu cinco ou seis na palma da mão e comeu os. Um senhor disse à mulher: — Mas isso foi antes da guerra. 6. Tinha sido preferível deixar se esma J E A N P AUL SARTRE gar pelo prazer. menos a satisfação. pois esmagado daquela maneira também era mal. pensou. mas uma sombra suave e líquida subia da rua. sensível às grandes .. dos homens de boa vontade. Voltou se bruscamente: «É capaz de me seguir para ver onde moro. Daniel olhou os seus rostos: eram duros apesar de um aparente abandono. permitira tudo. que Deus. Ganhara o dia e devia ter voltado para casa.» O porteiro estava sentado numa cadeira. se existia. a luz. com as mãos sobre o ventre como um Buda. Daniel estremeceu: «Se pudesse esquecer aquela direcção. Ao lado dele as pessoas tagarelavam em paz com a consciência. estava invadido por ele da cabeça aos pés. Daniel estava com uma sede infernal. O sol derramava um pouco de ouro nos grandes edifícios escuros. Rua dês Ours. aquecia se ao sol. Qualquer coisa naquele céu. o céu estava cheio de ouro. Além disso. dar lhe ia uma tremenda sova na rua!» Porém Bobby não aparecia. Porque será a vontade deles a boa. tudo os aprovaria. da gente honesta. porém não queria beber. Ralph.

o roubo do mostruário pelo processo 1763. Viu com prazer um bar cor de abóbora e verificou que estava no meio da Avenida de Orleães. fendera se como um esgrimista. ao frio. era de perguntar como ninguém tinha pensado naquilo antes. à luz.. «Há muito tempo que deveriam ter se organizado. sentia se mergulhar no doce exílio religioso da noite e dos arrabaldes. tradições. para as vielas sombrias de Saint Antoine. mas o último passo tinha sido muito maior do que os outros.» Não podia falhar. «e cursos gratuitos de psicologia do roubo. apenas. dava lhe um ar de advogado. as ruas deslizavam sob os pés para o centro envelhecido e comercial da cidade. «Isto dorme todas as noites».» Atravessou a rua. Mas o mau humor depressa se esvaiu porque se lembrou de que não a trouxera por acaso. Cada novo aperfeiçoamento seria reproduzido.» Deu os treze passos e parou justamente à beira do passeio. Filmoteca também e fitas que decomporiam. era científico. Os transeuntes parece que . a teoria seria gravada em discos e traria o nome do inventor. «Com a vida que levo. um pouco animado.» Uma associação para o conhecimento mútuo e a exploração dos processos técnicos. de qualquer maneira o negócio está no papo. pela malícia sentenciosa das bochechas cheias. por exemplo. em câmara lenta. Daniel parou. Ser lhe ia até muito útil. e Daniel esticou o passo. para o mercado. era uma musselina ruiva bem ajustada. também denominado ovo de Colombo (porque é simples como tudo. «é que os ladrões são uns estúpidos. os movimentos mais difíceis.» Deitou um olhar irritado sobre a pasta. Haveria. «O que acontece». fascinado pelas longas pestanas estúpidas. resta me a esperança de me tornar indulgente o mais depressa possível. até ter na cabeça apenas uma massa branca com um perfumezinho de sabão de barba. biblioteca. não gostava de carregar aquilo. Em sindicato. uma ética. pensou com severidade. entre as sete e sete e meia da noite. Embrutecer se até chegar àquele ponto. eis o que faltava. isto não tem a mínima importância. e depois era delicioso encontrar se nos limites de Paris. Tudo se classificaria por categorias. «Aliás. Era espantoso como as pessoas pareciam simpáticas na Avenida de Orleães.forças naturais. à humidade. pensou. mas estava calmo e frio. mas tinha de ser descoberto). pensou. Já não sabia se tinha vontade de o matar ou de deslizar confortavelmente dentro daquela alma bem regrada. Boris concordaria em participar de uma fita demonstrativa! «Ah!». precisando melhor a sua ideia. Não se iludia sobre os riscos. ao calor. A luz contribuía muito para isso.. «Se chegar ao passeio em treze passos. como os prestidigita dores. ou «processo de Serguine». é indispensável.» O processo assentava quase inteiramente na psicologia. Com uma sede social. O homem levantou a cabeça.

Boris . pensou. como se arranjariam as mulheres para atirar colchões das camas sobre os soldados? Está tudo preto de fumo em volta das janelas. não era recomendável analisá la demasiado. «Talvez Mathieu tenha percebido que seguia um caminho errado e vá entrar para o partido. pensou. «Hei de vir aqui todas as noites». Quanto à liberdade. analisar permanentemente o que se pensa dos outros. uma necessidade de ser mau. Certamente Mathieu não se enganara. Na Faculdade sentira se atraído pelo comunismo. Não gostava dos comunistas. se pudesse subir ao tecto da marquise do bar. E olham os mostruários com uma admiração inocente e inteiramente desinteressada. ser responsável apenas perante si próprio. No Bulevar Saint Michel as pessoas olham também os mostruários. não. devo ter um temperamento inquieto». como lagos artificiais. Boris compreendera imediatamente: é um dever fazer o que se quer. «Que estupor! Pôs me mesmo fora. porque se deixava então de ser livre. não sei porquê. Boris construíra a sua vida sobre esses alicerces. eram sérios de mais. Mathieu não era tipo que se enganasse. porque eram perfeitos. mas Mathieu tinha o desviado. Boris coçou a cabeça. pensou de repente Boris. pensar o que bem se entende. «Pôs me fora». e perguntou a si próprio de onde vinham aqueles impulsos de tudo subverter que o assaltavam de vez em quando. como se tivessem sido lambidas pelas chamas de um incêndio. «No fundo. receoso. «E no próximo Verão hei de alugar um quarto numa dessas casas de três andares que parecem irmãs gémeas e fazem pensar na revolução de 48.» E subitamente uma violenta e rápida borrasca desencadeou se lhe na cabeça. com esses era inútil. ensinando lhe o que era a liberdade. mas com a intenção de comprar. Mas com janelas tão estreitas. Que teria ido fazer aquele comunista a casa de Mathieu?». nas grades douradas do Palais Royal. no 14 de Julho. Pois. não se zangam quando são empurrados. Em particular discutia sempre com todos. veria os armários com espelho ao fundo dos quartos.saíram de casa para estar juntos. dir se ia até que gostam disso. com perplexidade. Mas logo parou. entusiasmado. a multidão passa através de meu corpo. considerando friamente as coisas. essas fachadas lívidas e cheias de buraquinhos negros parecem manchas de tempestade num céu azul. e eu penso em guardas municipais. seria demasiado grave agora que Boris se decidira. não é triste.» Divertiu se durante um instante em enumerar as consequências incalculáveis de semelhante conversão. Era escrupu J E A N P AUL SARTRE losamente livre. com excepção de Mathieu e Ivich. Brunet então parecia um papa. resolveu Boris. com um espanto divertido. Vejo as janelas.

Subiu para a balança automática e pesou se para ver se não tinha engordado desde a véspera. Sentia se de excelente humor e como que aveludado por dentro. repetiu Boris rindo. No entanto. Empertigou se e apressou o passo. o estupor. Aliás. aquela obra prima. Boris tinha horror ao ridículo. «Sou modesto». que desempenhara esse papel durante três . Perguntaria a Mathieu. e dizia lhe: «Você tem qualquer coisa na cabeça». Demais. pensou. Achou se simpático. Aquele dia. gaguejava ligeiramente. A Livraria Carbure tinha seis. estudantes de óculos que tinham sempre reservada uma teoria pessoal e acabavam por perder. Já vira muito disso na Sorbona. «É completamente idiota. as teorias eram idiotas. por causa dos tipos que folheiam os livros. E depois a atmosfera cheirava a uma melancolia levíssima do dia envelhecido que agonizava devagar em volta dele. angulosas. Boris tinha uma ideia. mas era afinal um trabalho sóbrio e elegante. Boris sabia o por intermédio de Picard. olhava para os pés. e enchia o de perguntas. raciocina como um cabo de vassoura». Boris achava indecente um camarada da sua idade pensar por si. veria Ivich. Boris acabava por dizer tudo. Cinquenta e sete quilos para um metro e setenta e três estava bem. E dali a pouco. não têm jeito para nada e são detectives particulares. mas por agora confiava em Mathieu. E viu os prós e os contras. Boris tentava desviar a conversa. Parou diante do espelho de uma bela farmácia vermelha e olhou a sua imagem com imparcialidade. porém Mathieu era tenaz como um piolho. Tinha de ter cuidado. Mais tarde sim. e o pior é que Mathieu ainda por cima o descompunha. olhava os dedos. mas não quis levar avante a investigação. Interrogou se também se era moral ter um temperamento inquieto. Era um suplício.sentia se satisfeito e balançou alegremente a pasta. «Estupor». veria Mathieu. dançaria. A noite ia cair. haveria aquele furto. Uma lâmpada vermelha acendeu. ele ia ao Sumatra. exactamente entre o dia e a noite. mais uma pequenina etapa. Desceu da balança e continuou a andar. aquele mar tropical que recuava deixando o sozinho sob o céu pálido. sempre se tinha alegrado quando Mathieu se punha a pensar. exactamente como se Boris se tivesse vangloriado de ser um génio. mas este percebia sempre. os falsos espertos. às vezes. Mathieu corava. era uma etapa. Ficou confuso por momentos: quinhentos gramas! Mas percebeu que tinha a pasta na mão. não queria perder e preferia calar se a passar por tolo: era menos humilhante. fazia o possível para que Mathieu não percebesse. que o roçava com uma luz suave e perfumes cheios de saudades. de uma maneira ou de outra. Era o seu ofício. o mecanismo funcionou com um ruído sibilante e cuspiu um bilhete: cinquenta e sete quilos e meio. engasgava se.

Dentro de meia hora. em cem ladrões. Neste ponto estava de acordo com os antigos espartanos. oitenta improvisam. para o fundo de um corredor. O que lhe importava em cada caso era a dificuldade técnica. a bússola. poderei consultá lo a qualquer hora do dia ou da noite». Abelardo. Fausto e os cintos de castidade do Museu de Cluny. levá lo ia para a biblioteca da Sorbona e de vez em quando. e. mas o que sabia aprendera com método. tivera de o fazer porque os pais lhe tinham cortado a mesada. às vezes as informações obtidas eram falseadas. .» Ele não improvisava. Boris sentiu se «embriagado». disse aborrecido. mas ainda ficar de espreita para apanhar os ingénuos. Sorriu. a ele não o apanhavam. um escritório sombrio. pois não se podia considerar lucro as dezassete escovas de dentes que possuía. aquele tesouro indispensável. «Será meu. Ia colocá lo naquela mesma noite sobre a mesa de cabe ceira e na manhã seguinte o seu primeiro olhar seria para o livro. havia de os vingar. Tinha de cair lhes em cima de repente acusando os de terem tentado enfiar um livro no bolso. Até ali não tirara nenhum proveito material dos seus empreendimentos. e extorquiam lhe cem francos com a ameaça de um processo. o interesse seria o móbil do roubo. eram então levados. E depois havia um momento de inteira satisfação.dias depois de ter reprovado em Geologia. era quando dizia: «Vou contar até cinco. pela primeira vez. enojado. um herbário. Naturalmente os infelizes perdiam a cabeça. mas deixara o logo. rapidamente. que lhe lembrava a Idade Média. o mais tardar. como as páginas não estavam cortadas. Mais valia roubar uma caixinha de pastilhas de alcaçuz sob o olhar do farmacêutico que uma carteira de cabedal de uma loja vazia. O benefício do roubo era exclusivamente moral. a tenaz de lareira e o ovo de passajar.» Em todo o caso. era uma ascese. possuiria aquela jóia. ao interromper o trabalho de revisão. por exemplo. para se manter em contacto com a realidade. que se aproximam timidamente do mostruário. ao passo que agora era forçado a consultá lo de passagem nos mostruários. Ia abrir uma excepção aos seus princípios. «Essa gente não sabe fazer as coisas. daria uma olhadela para se distrair. «Aquele thesaurus!». murmurou. «Ora». Não somente era J E A N P AUL SARTRE preciso espiar. pois sempre considerara que quem trabalha com a cabeça deve ter um ofício manual também. a cinco é preciso que a escova esteja no meu bolso. como um inspector vulgar. pois gostava da palavra thesaurus. nem os vinte francos. Por certo não sabia tudo. «vou dormir a casa de Lola esta noite. os tipos de monóculo.» Ficava com um nó na garganta e uma extraordinária impressão de lucidez e de força.

«Nem sei se ainda nos veremos. mas sem servilismo. o que se podia considerar muito bom. Ria com indulgência quando Boris lhe falava. Lola ficava doida com isso.» E ele respondia: «Quem sabe.» Não.Decidiu se a aprender uma locução por dia. havia na sua admiração algo provisório que fazia que ela fosse imensa. chegaria ao milhar.. A Ivich sim. Se ela própria não roubava. Não compreendia o que Mathieu podia censurar lhe. imaginou que caminhava sobre uma fina camada de asfalto e que talvez ela fosse ceder. quem sabe. Contaria também a história a Lola para a chatear. de deixar para trás uma multidão de coisas e de gente. e nos momentos em que Boris mais o admirava. é fácil de mais. seria o seu próprio juiz. Atravessou o Bulevar Raspail e entrou pela Rua Denfert Rochereau. Uma rua? Era apenas um buraco com casas de ambos os lados. e tirou dessa verificação algum conforto. com excepção de uma tinturaria escura com cortinas cor de sangue que pendiam lamentavelmente como cabeleiras escalpadas. Mathieu era tão perfeito quanto possível. pensou Boris. se houver uma oportunidade. não se roubam os íntimos. J E A N P AUL SARTRE O sangue subiu lhe ao rosto. Não era compreensível. A Rua Denfert Rochereau aborrecia o muito. em seis meses seriam trezentas e sessenta. uma olhadela amável à tinturaria e depois mergulhou no silêncio louro e distinto da rua. as de Mathieu parecer lhe iam ingénuas e antiquadas. sete anos. como Lola. ela compreenderia. Que podia invocar contra o roubo. Ela dizia lhe: «Eras capaz de roubar a tua mãe. com um vago mal estar. Mathieu era uma etapa. ele vai ficar doido. teria as suas ideias próprias. mas Boris não tinha muito a certeza de que ele os aprovasse. desde que fosse efectuado dentro da regra? Essa censura tácita de Mathieu preocupou o durante alguns instantes. depois sacudiu a cabeça e disse: «É estúpido!» Dentro de cinco anos. talvez por causa dos castanheiros. não podia entender certas subtilezas e depois era um bocado avarenta. Boris deitou. mas era normal. Com as quinhentas ou seiscentas que já conhecia.» Boris não tinha nenhuma vontade de que esse dia chegasse e achava que era perfeitamente feliz. um dia também me hás de roubar a mim. Aliás era um recanto sem carácter. «Sim. mas o metro passa aqui em baixo».» Naturalmente isso não tinha sentido. mas não era desprovido de bom senso e sabia que isso era uma necessidade. não estava ainda maduro.. ao passar. Mas Mathieu não se mostrava muito à vontade nessas histórias de furtos. Teria de mudar. Mas Mathieu. é porque não tinha jeito. ele dizia que sim para a irritar. «Tenho de contar isto a Mathieu. detestava a mania de Lola de ligar tudo a si própria. mas não podia mudar ao mesmo . talvez duas. não contaria nada.

«Vai ser preciso enfiar isto na pasta». Era uma verdadeira navalha espanhola. Hei de comprá la daqui a pouco. Diante da livraria tinham colocado seis mesas cheias de livros. cabo de osso preto. na maioria. Dicionário Histórico e Etimológico da Linguagem Popular e do Calão desde o Século XIV até à Época Contemporânea. . sucumbido. alguns em forma de cabeça de buldogue. «Uma navalha espanhola!». Era sempre agradável atravessá la por causa dos autocarros que se precipitavam sobre as pessoas como enormes perus e evitavam nos por um fio. Depois. parou. como recompensa se tiver bom êxito. «Picard há de me ensinar a atirá la». não era prudente chegar de rosto corado pela esperança. gemeu Boris. parecia sangue. com olhos de lobo. carregando a sua presa. in 4. Queria dominar a sua impaciência. tão grande que Boris ficou desanimado durante uns momentos. O livro ali estava. lamentável.°. metodicamente. entrar na loja. tremendo de prazer. Estes pensamentos aborreceram Boris e sentiu se satisfeito por chegar à Praça Edmond Rostand. Setecentas páginas. de ocasião. papel encorpado. Ia atingir um estado de resolução fria e sem alegria quando viu de repente uma coisa que o mergulhou de novo no júbilo. com um solavanco do corpo. Daqui a pouco. tudo o que não fosse o brilho frio da lâmina deixou J E A N P AUL SARTRE de o interessar. de lâmina espessa e comprida. elegante como um quarto crescente. Mas bastou lhe olhar o título dourado que luzia docemente para sentir voltar lhe a coragem. «Que não tivessem tido a ideia de guardar o livro precisamente hoje!» Na esquina da Rua Monsieur le Prince e do Bulevar Saint Michel. enorme. na montra. como um ladrão. murmurou. Impôs a si próprio a obrigação de permanecer imóvel diante da loja de um negociante de guarda chuvas e de cutelaria.tempo que Boris. mas o sentido do dever dominou o. Tinha como princípio agir friamente. tudo triste. já não podia mudar. Boris contemplou a longamente e o mundo perdeu a cor à sua volta. com o coração contraído de desejo. era perfeito de mais. Havia duas manchas de ferrugem na lâmina. pensou. comprar a navalha e fugir. e ainda por cima Boris pôs se a pensar nas pessoas idosas que compravam aqueles objectos. Boris verificou com uma olhadela onde se encontrava o senhor de bigodes ruivos que rondava amiúde por ali e que desconfiava ser um detective. guarda chuvas de cabos de marfim. a olhar os objectos uns após outros. queria largar tudo. «Oh!». entre dois guarda chuvas. mola. A navalha descansava aberta sobre uma prancheta de madeira envernizada. aproximou se da terceira mesa. A Livraria Carbure achava se instalada na esquina da Rua Vaugirard com o Bulevar Saint Michel e tinha — o que auxiliava as intenções de Boris — uma entrada em cada rua. sombrinhas verdes e vermelhas.

Atrás dele certamente o senhor de bigodes devia estar a espiá lo. com admiração.. que está a ler? Parece fascinado. Pegou no volume com as duas mãos e ergueu o até aos olhos. os que folheiam livros deixam nos sobre a mesa com receio dos detectives particulares. Boris admirou lhe a desenvoltura. Boris largou a leitura e pôs se a rir sozinho. Mas o conjunto era inatacável.«Histórico!» repetiu Boris com êxtase.. Mas era evidente que Sereno considerava que tudo lhe era permitido. Tocou na encadernação com a ponta dos dedos. — Bom dia — disse Sereno —. surpreendeu Boris a folhear o dicionário de calão.. para: ser levado a apreciar. e Boris . mas era preciso desconfiar. «mas agem cedo de mais. Traduza se: o cura apreciava a bagatela. enlevado: «O cura era da coisa como um zangão. Mas tinha um ar de sacana. Sereno não respondeu. Diz se também: "ser do homem". confessou que Sereno era perfeitamente elegante. enquanto uma alegria austera e pura lhe fazia o coração pular. não podem provar coisa alguma. tomar uns ares de interessado que hesita e acaba por se deixar tentar. parecia mergulhado na leitura. Repetia. apesar de suave como manteiga fresca. naquela gravata amarela.. Sereno desatou a rir. Locução usada comummente hoje em dia. Na verdade mostrava se até amável de mais. «Não é um livro. é um móvel. que troçaria dele. Havia sem dúvida naquele fato de tweed quase cor de rosa. uma ousadia calculada que chocava um pouco Boris.. Não tinha o ar de sacana habitual.» As páginas seguintes não estavam cortadas. Uma mão pousou lhe sobre o ombro. Devia estar a preparar algum golpe sujo. Leu: «Ser de. Exemplo: O cura era da coisa como um zangão.» Em seguida tornou se repentinamente sério e começou a contar: «Um! dois! três! quatro!». Tinha um riso quente e agradável. como que de propósito. por "ser invertido". com sangue frio. Esta locução parece originária do Sudoeste da França. e isso iria ter por certo aos ouvidos de Mathieu. mas fingindo se indiferente: J E A N P AUL SARTRE — É uma obra curiosa. E depois. De costume. Boris murmurou com uma voz engasgada. Devia ser ligeiramente míope.. folhear o volume. um amigo de Mathieu. Era Daniel Sereno.» Voltou se devagar. num gesto familiar e terno. naquela camisa de linho. pensou Boris. Boris irritou se e resolveu observá lo severamente. Por honestidade de espírito. Boris vira o duas ou três vezes e achava o admirável. pensou. Boris abriu o dicionário ao acaso. Boris apreciava a elegância sóbria e despreocupada. isso tinha. Era necessário iniciar a comédia. «Apanhado». — Parei um pouco ao passar — respondeu de maneira embaraçada. Sereno sorriu.

pensou com angústia. creio eu — continuou Sereno. — Um pouco — atalhou Boris. «Vai imaginar que sou um idiota». — Ser do homem! — disse Sereno.achou o simpático porque abria inteiramente a boca quando se ria. mas não se atreveu. que se sentiu corar pela segunda vez. — Sim — disse Boris. Sereno surgia sempre fora de propósito. pensou Boris. — Está a estudar Filosofia. os gestos têm uma moleza harmoniosa que não engana. Você deve perceber. «Oito e um quarto». É sempre interessante ouvir alguém explicar como nos vê. sacudir. não. não estava apressado. pensou que convinha falar o menos possível. Queria perguntar a Sereno o que entendia por «gestos cheios de ângulos». o que fazia parte da sua natureza demoníaca. pular para fazer com que aquela vertigem de doçura se dissipasse. Boris escutava atentamente. Estava a observá lo há um bom bocado e estava seduzido. — Ser do homem! É um achado de que me servirei oportunamente. Ao passo que você. À primeira vista pareciam imbuídos de ternura. e manteve se atento. Os seus gestos são vivos e precisos. Largou o livro sobre a mesa. — Imagino que gosta disso — continuou Sereno. desesperado. Virou a cabeça e fez se um silêncio difícil. E. Sereno tinha uma voz de baixo muito agradável. Disse: — Confesso que não percebo nada de filosofia. sentia nascer dentro de si uma estranha e descon certante doçura. daquilo de que gostava. — Não core — disse Sereno (Boris sentiu se cor de sangue) — e saiba que um tal pensamento nem sequer me passou pelo espírito. pensou Boris resignadamente. Sereno não parecia com vontade de se ir embora. Pensou: «Estou a ser estúpido. descobria se neles qualquer coisa de duro. tinha vontade de se agitar. além disso. mas quando se olhava melhor. e Boris parou. estudo Filosofia — respondeu Boris. mas cheios de ângulos. Sei quando um tipo é do homem — a expressão divertia o visivelmente —. gelado. Os olhos eram incomodativos. sob aquele olhar insistente. Deve ser muito hábil. Tinha a impressão de que Sereno desconfiava daquele J E A N P AUL SARTRE . mas porque é que não se vai embora?» Aliás Mathieu prevenira o.. — disse Boris sem fôlego. Era impudico. Estava contente por ter um pretexto para romper o silêncio. Mas naquele instante o relógio da Sorbona soou. estou frito. «Está a querer pregar me uma partida». atabalhoadamente. — Sim. «Se ele não se for embora imediatamente. Serguine? — Eu.. Detestava falar. — Você é do homem. quase de maníaco.» A Livraria Carbure fechava às oito e meia. Além disso.

Boris. Boris teve de reconhecer que o golpe atingia o alvo.pudor e voluntariamente se mostrava indiscreto. a fim de repeti lo mais tarde a Mathieu. mas quando principiava a dá las. há dois anos era a grande paixão de Mathieu. Sereno riu francamente. Mathieu tomava às vezes um ar compenetrado quando Boris ia ter com ele ao Dome e dizia: «Tenho de escrever a Hourtiguère. Sereno olhou o com uma expressão atenta e penetrante. eu perdia o pé. Recruta os seus discípulos entre os próprios alunos. Era verdade.» Depois ficava durante um bom momento a sonhar. e Sereno acrescentou com vivacidade: — Estou a brincar. Pedi lhe várias explicações. e a sua admiração por Sereno aumentou. evidentemente. — Não duvido. nada sabia dele. — Mathieu falou me dele — observou. e suspeitou que Sereno queria levá lo a falar de Delarue. mas gostaria de lhe ter dado um soco na cara. parecia me que nem já sequer compreendia a minha própria pergunta. não sabia. por cima da folha branca. mas revoltou se e disse. Pelo contrário. Na verdade acho que tem sorte. não duvido. como toda a gente. — Não estava a pensar em si. aquele alto e louro que partiu há dois anos para a Indochina. estavam sempre juntos. Você não possui cara de discípulo. e uma dissertação filosófica. Só que somos velhos amigos e eu imagino que ele reserva as suas qualidades pedagógicas para os jovens. Creio que foi Delarue quem me fez perder o gosto pela filosofia. Boris sentiu se magoado com o tom irónico. mas com ódio. Até de Kant. — Eu não sou discípulo dele — disse Boris. vira apenas uma fotografia que o mostrava como um rapagão infeliz vestido com calças de golfe. Admirou Sereno por se mostrar tão gratuitamente sacana. perfeitamente idiota. sentia por ele uma piedade misturada de uma ligeira repulsa (aliás. aplicando se como um recruta que escreve à pequena lá da terra e desenhava silhuetas no ar com a caneta. Ele sabe de mais para mim. que ainda se arrastava em . secamente: — Mathieu explica muito bem. Deve ter ouvido A falar dele. Eu estudei. Boris punha se a trabalhar ao lado de Mathieu. Mas a mini não souberam torná la agradável. em geral. que Mathieu conhecera antes de o conhecer a ele. Boris irritou se. gostava muito daquilo. — Porquê? — Não sei — disse Boris. Detestava aquele tal Hourtiguère. Sereno sorriu e disse: — Vê se logo que não é um amor puramente cerebral. Não tinha ciúmes de Hourtiguère. e Boris mordeu os lábios com despeito. Pensava em Hourtiguère. No entanto.

— Mas sim! — disse Sereno. era uma permanente impressão de perigo. Sereno parecia ter se instalado. Não um sábio. não seria divertido se eu tivesse algumas lições consigo? Boris olhou o. não quero incomodá lo. O rosto de Sereno mudou. Sereno continuava a sorrir. se necessário.. foi o que me faltou. absolutamente nada. J E A N P AUL SARTRE — Lamento amiúde ser tão ignorante neste terreno — continuou. vejamos. Era um tipo esquisito e admiravelmente belo. Boris não pôde deixar de se rir e confessou francamente: — Acho que não saberia fazê lo. — Sou muito preguiçoso — disse Sereno. Mas tinha um olhar estranho. Gostaria de acompanhar Sereno até o Harcourt. — Você intimidar me ia. Riu como que assaltado por uma ideia agradável. Desculpe tê lo . Boris não respondeu.» Admitia. desconfiado. com aquela expressão compenetrada e melancólica: «Hoje tenho de escrever a Serguine. — Estou persuadido que sim. A Boris observava com angústia um caixeiro da livraria que começava a empilhar os livros. numa atitude indolente e cómoda. parecia encantado com a ideia. Debateu se por momentos.cima da mesa de Mathieu).. Boris mal o podia olhar de frente. Não se via. Sereno encolheu os ombros. mas que levasse a sério as coisas. Ficaria estrangulado de timidez. — «Nosso» projecto. Preferia nunca mais ver Mathieu. — Diga me. Um tipo assim como você. mas não podia aceitar ser ele próprio uma etapa na vida de Mathieu. — Os que estudaram Filosofia afiguram se me ter tirado dos estudos grande alegria. — Um iniciado. dispõe de um minuto? Poderíamos tomar alguma coisa ali em frente e falaríamos do nosso projecto. Mas por nada deste mundo desejara que Mathieu o tratasse mais tarde como tratava agora Hourtiguère. que Mathieu fosse apenas uma etapa na sua vida — e isso já era bem penoso —. se imaginasse que um dia ele pudesse vir a dizer a um jovem filósofo. que devia ser muito mais inteligente do que ele próprio e lhe faria por certo imensas perguntas embaraçosas. Pensou com uma resignação fria que deviam ser oito e vinte e cinco. — Tinha de ter idade sobre mini. mas o sentimento do dever venceu o: — É que estou com pressa — disse num tom que a tristeza de não aceitar tornara cortante. Apoiava se com ambas as mãos à mesa. — Ora. Devia ser uma armadilha. — Muito bem — disse —. e era divertido conversar com ele porque tinha de jogar com firmeza. a dar lições a Sereno.

não sei. como se ele não fosse para os outros um corpo ligeiramente gordo.detido tanto tempo. A mãe proibiu me de falar com desconhecidos. Ah! uma pequena cabeça nada mais. Imbecil. Tinham no julgado. não desconfiava de nada. Mathieu deve tê lo olhado por baixo.. com ar profundo. dois. Tenho a certeza — já o tinha pressentido na época de Hourtiguère —. não me tinha enganado. estou contente por me ter mandado passear. e ele não tinha defesa. não sei. Uma avalancha de palavras que fugiam de todos os lados. um monge russo. se tivesse cometido a loucura de me interessar por ele. se tivesse podido existir naquele dia como nos outros dias. leva o ao café e o desgraçado engole tudo. ligeiramente arqueado. é de morrer a rir. ele teria ido dizer tudo a Mathieu e ter se iam rido de mim. um jovem monge. não sei. essas palavras. Voltou se bruscamente e partiu: «Tê lo ia magoado?». como hóstias. DADE DA RAZÃO como se fosse apenas uma transparência. «Ele falou lhe de mim! Era uma coisa in to le rá vel. uma beleza . um rosto austero e atraente. o pobre cordeiro! Mathieu faz de sultão na classe.» Parou tão bruscamente que uma senhora chocou com ele com um gritinho. «uma excelente lição. felizes. atirou lhe o lenço. Depois pensou que não podia perder nem mais um momento. As palavras fugiam. Daniel fugia de um corpo frágil.» Daniel repetiu: «De morrer a rir». precioso como um burro carregado de relíquias. vai passear esses modos de comunhão solene. Alioscha. dissecado. — Um. quatro. «Muito bem. desmontado. e barata. gosta de filosofia.. cumprimentos a Mathieu. quer um bombom. constrangido. Acompanhou com um olhar inquieto os largos ombros de Sereno. pensou satisfeito. E aquele olhar que me deitou. de fazer suar de raiva. com bochechas já pesadas. cinco. ser apenas esses passos. Aos cinco pegou ostensivamente no livro com a mão direita e dirigiu se para o interior da livraria. num café de Mont parnasse... menina. os passos soavam dentro da cabeça. um desses antros infectos que tresandam a roupa suja. os cafés e teorias. que subia o Bulevar Saint Michel. tenho a certeza de que ele os previne contra mim. Ora. três. sem se esconder. tudo era preferível ao J E A N P AUL SARTRE silêncio. sem memória e sem consequência. de lhe falar com confiança. é afectado. palavras. a mãe não deixa. foi bom». quando lhe disse que não compreendia a filosofia. de boca aberta naturalmente. e enfiou as unhas na palma da mão. não sei e como o havia de saber. Adeus. pensou Boris. já não se dava ao trabalho de ser delicado no fim. imaginá los ambos bem dispostos. explicando o meu temperamento. arregalando os olhos e pondo a mão em concha no ouvido para nada perderem do maná divino. olhos cor de avelã. Passos.

no fundo daqueles olhos. Sorriu com satisfação. raspar um por um. Mas Bobby sabe. Não devia ter deixado de falar. Mathieu não. arranja discípulos se isso te diverte. Ralphs e Bobbys.. tirava tanta vaidade dessa vitória que durante um segundo esqueceu se de se dominar. sentiu se reanimado por uma raiva alegre e a fuga recomeçou. e depois nove. visto que me conhece há quinze anos e é o meu melhor amigo. no meio daquela multidão atarefada. Ralph sabe. lavar.° 6 da Rua dês Ours. e depois três. mas não contra mini. Sereno aquilo... por detrás daquela fronte obstinada.. estava lá dentro. cobriu tudo. Palavra de honra. Mora no n..» E eu olhei a também fixamente. Quando encontra alguém são duas pessoas para as quais eu existo. como uma chaga. como uma rua deserta na madrugada. é um psicólogo. ele está em casa. Pensou: «Eu teria podido. Não. eu raspei Marcelle até aos ossos. eu existia naquela carne. que ele se sentia espantado de existir. Sereno.» Endireitou a cabeça.» Uma nova onda de cólera . Estendeu me a mão da primeira vez.. nunca está só. e Mathieu roubara lha. de alguém que acabaria por acordar. Ele não é cego.» Pensou: «A minha última possibilidade. Silêncio pesado e vazio. seria preciso correr por toda a parte. puta! Agora ela já não acredita numa só palavra do que ele diz de mim. Felizmente a cólera irrompeu. acariciava o seu ódio: «Mas cuidado. raspar. que paciência. E não vai privar se desse prazer. J E A N P AUL SARTRE Doce rosto obscuro. sabe ver. acariciante como uma consciência limpa. olhando me muito. Sereno. «E daquele pobre rapaz ele fará um macaco amestrado!» Caminhava em silêncio. devia ser o pesadelo de alguém. com Ralph. Ah! se ele morresse! Mas qual! Passeia livremente com a sua opinião a meu respeito dentro da cabeça e infecta todos os que se aproximam dele. se tornou silêncio. e depois cem. julga se Goethe. bem no fundo do silêncio havia o rosto de Serguine. um sorriso cruel. o corretor Sereno. Bobby é um camarão. «Aí está um camarada que deve achar muito natural existir.. senão prego te uma boa partida. que fervor não seriam necessários para iluminá lo ligeiramente. este céu virtuoso foram feitos para ele. tem o direito de falar de mim. negligentemente. era o que lhe deixava. estava fascinado.» Era a última. olhava os transeuntes nos olhos. a cólera hesitava. apagar. somente os passos lhe ecoavam na cabeça. produziu se um rasgão na trama das palavras. se estendeu. Sereno isto. se se pudesse viver entre cegos. vangloria se disso. O vento caíra. não devia. o desfile de palavras reiniciou se: odiava Mathieu. esta luz grega e bem doseada. Ah!.. ninguém. e talvez. rasgão que se ampliou aos poucos. não é uma consciência. e disse: «Mathieu falou me tanto de si. que não faz perguntas a si próprio.oriental que fenecia. A solidão era tão total sob aquele céu.

.. à direita e à esquerda. e era embria gante essa alegria transpassada de temores. a velocidade agarra pela nuca. ela no fundo do seu quarto cor de rosa desejasse ardentemente ter um filho. Havia qualquer coisa que tentava timidamente renascer... seria um grande serviço que lhe prestaria. alerta. como uma bicicleta. «Mathieu é um homem de bem. pensou. mas a corrida continuou mais rápida ainda. uma vida inteira para se felicitar pela boa acção. já não pisava o chão..» Seria divertido se ambos não fossem da mesma opinião a esse respeito. E da raça de Abel. é jovem ainda. barreiras que se quebravam secamente como galhos mortos. aguda. destacava se de repente de si próprio e partia como uma flecha.. o desprezo do rapaz. seca como um choque eléctrico. fazer com que as coisas não lhe fossem tão fáceis.. Depois disso que descanse sobre os louros. «Em suma». mas. O pensamento saltou lhe à frente.. o anjo do lar.. não podia parar.» Mas os miúdos não compreendem este tipo de dever. coitado. «Vai casar se?» E Mathieu resmungaria: «As vezes têm se certos deveres.. resignado. entregue à alegria de se sentir terrível.» Foi um arcanjo. pedir lhe ia amanhã mesmo que casasse com ela. «Sou mau». rola se sem travões. masculina. têm a honra de participar. acabado. o seu rosto franco de boa fé. Era o rosto de Mathieu. soergueu o. seu espanto esmagador.» O Senhor e a Senhora Delarue. rude. calmo. a cair em si. voava. essa alegria que não parava.» Era tão vertiginoso aquele repouso lânguido de uma consciência pura.» Recordava se da expressão. transbordando de alegria.. sou um sacana. no entanto se houvesse um bom amigo. Pois então tem de casar com Marcelle. vou estragar lhe a vida». mas. «Ter ainda discípulos? Um chefe de família não encontra facilmente quem apanhar. Não é mau.» E a cara de Serguine quando Mathieu lhe fosse participar o casamento. «E se ela não quisesse. só lhe resta arranjar um filho.avolumou se. é intolerável e delicioso. tem a consciência do seu lado. «Mathieu. A maldade só se mantinha em equilíbrio a toda a velocidade. aumenta a cada minuto. A maldade era uma impressão extraordinária de velocidade. e de repente a ideia surgiu.. Mas se houvesse uma só possibilidade de ela desejar o filho. se enquanto ele percorria as lojas de ervanários. não. talvez eu pudesse ajudá lo a reflectir. eufórico. de uma insondável consciência pura sob o céu indulgente e familiar. derrubando os frágeis obstáculos surgidos no caminho. com que Marcelle lhe dissera uma vez: «Quando uma mulher está perdida. rutilante: «Mas. Ela não ousaria dizer lho. pensou Daniel. um amigo comum para lhe dar coragem. um arcanjo . finalmente calmo. «eu sou o anjo da guarda.

Marcelle enlaçou a pela cintura e reteve a durante um segundo. Mme. concedia a si próprio todas as licenças. Mathieu hesitou.» Era uma ideia nova. Leu «Sumatra» em letras de fogo.» Imaginava lindos desastres. Fugiu com a vivacidade de uma rapariguinha. gracioso. — O meu maior prazer é que os aprecie — disse Daniel. beijando Marcelle na testa. tinha o coração ainda cheio de preguiça e de noite. entrou. revolta. havia muitos homens na sala. um rosto magro inclinado sobre um livro. De vez em quando. A grande mercearia da Rua Vercingetorix estava ainda aberta. um arcanjo justiceiro que enveredou pela Rua Vercingetorix. como pela manhã quando ficamos de pé sem saber como nos levantámos. pensou. não. Duffet. não era absolutamente isso. A carne era enrugada. Quando saiu. Inclinou se sobre a mão de Mme. — É demasiado gentil. ficavam apenas as palavras. tranquila. Miguel e na mão esquerda um pacote de bombons para Mme. enternecida. era até confortável! Mathieu tinha a impressão de que acabariam de lhe conceder todas as licenças. «Rua dês Ours. tinha na mão direita o gládio de fogo de S. E de repente aconteceu. desceu os dezassete degraus da escada e estava numa cave escarlate e rumorejante. um tango. Mas a ideia voltava depressa. vou me embora — acrescentou. — Bom. era preciso virá la e revirá la. Ouviu ruídos. e as palavras não eram desprovidas de certo encanto sombrio: «Um tipo lixado. com voz profunda. No fundo da cave. por momentos. as toalhas manchadas de um branco duvidoso.de ódio. com manchas violáceas. modesta. Duffet. mas a imagem desapareceu logo e foi Bobby quem voltou a aparecer. Recordou. 6. Duffet e beijou a. como na missa.» Sentia se livre como o ar. Pelo contrário. — Arcanjo — disse Mme. No limiar da porta. Duffet acariciou lhe os cabelos e afastou se. farejá la com circunspecção. estraga me com mimos. um corpo alto e desajeitado. e não de desespero. era a noite. Ainda me zango. e o negro precipitou se ao seu encontro com o boné na mão. e Daniel . u ma grande flor cor de malva subia para o céu. que pareciam esperar qualquer coisa: dançavam. gaúchos de camisa de seda tocavam em cima de um estrado. — Não. Deixo te com o teu arcanjo. Tratava se de uma pequena miséria. — Vou arranjar a cama daqui a um minuto — disse Marcelle. como a um incurável. outras saídas extremas. Diante dele havia pessoas de pé. Afastou a cortina verde. Cheirava a homem. Mathieu perdia a. imóveis e correctas. Mathieu passeava nessa noite e pensava: «Sou um tipo lixado. «Nada mais tenho a fazer senão deixar me viver». Não era isso. filha ingrata. suicídio.

tinha um vago receio de ficar a sós com Marcelle. amuada. que sempre quis saber como eu era quando era jovem. Mas via se que estava lisonjeada. enrolada sobre a cama. com rancor. Empertigou se ligeiramente e deitou um olhar ao espelho. Marcelle era um odor espesso e triste. «Vou ter asma». parecia satisfeita de tê lo para ela sozinha. mas não mudou nada.. Ele sorriu. estendendo lha. Daniel pegou lhe.. e que se esvairia ao menor gesto. meu querido arcanjo. Olhava o com uma ternura de proprietária.. A porta fechou se. pensou. não é verdade? — Gosto mais de si agora — disse Daniel. — Tinha qualquer coisa de mole na boca. — Você. é uma vergonha não poder deixar de seduzir os outros. flutuando como um vestido demasiado largo. lisonjeiro. Sabe muito bem que mudei. — Nunca deixa de lisonjear! . Olhe que não está com a minha mãe! Acrescentou: — Mas era uma bela rapariga. Ela levantou se. Virou se para ela e viu que lhe sorria. No entanto era magra. mas não se sentiu aliviado. E aquela mesma carne flácida. «A máscara da gravidez». — disse. Daniel ergueu os olhos e percebeu lhe o olhar ansioso. Havia naquela vaidade uma boa fé infantil e desarmada que contrasva com o seu rosto de mulher de trabalho. pensou Daniel. Era Marcelle com dezoito anos. Parecia uma marafona de boca mole e olhos duros. Você é irresistível. É tão comovente quando por acaso se ocupa de si mesma. Irritava o que ela se mostrasse tão contente. — Mudei. Foi buscar uma fotografia que estava sobre a lareira. — Diverte me sempre vê lo com a minha mãe. — Que é que a faz sorrir? — perguntou.. Sentia sempre uma certa angústia ao encontrar se à beira dessas longas conversas cochichadas e ter de mergulhar nelas. Tivera a impressão de que ela nunca sairia. — Tenho uma coisa para lhe mostrar. — Porque fez um gesto de rapariguinha para se olhar ao espelho. Marcelle riu se.acompanhou com um olhar frio a sua silhueta miúda. — Era encantadora — disse com prudência —. Pigarreou. Marcelle corou e bateu os pés. O gesto desajeitado e sem pudor irritou Daniel. sim. — Eu também vou perguntar porque se está rir — disse ela. Você tem um ar muito mais interessante! — Nunca se sabe quando você fala a sério — disse.

. — Ouça. Mas ficou novamente sério e Marcelle parou de rir. Olhou a com ar de censura e ela estremeceu ligeiramente sob aquele olhar. — O quê? O quê? Que é que há? — Não vai zangar se com Mathieu? Ela empalideceu. eu não devia dizer lhe. Você parecia tão preocupada. Daniel. Mathieu era liso e seco como um osso.Riram ambos. Fez um gesto com o pescoço. — Conheço as histórias dela. «Ei la nua. r A Daniel inclinou se um pouco mais e repetiu com uma expressão desolada. «Pronto!» pensou ele. tão nervosa. com um riso indignado. sem muito entusiasmo: «Vamos. mas sentia se vazio e mole. — Marcelle. Daniel divertia se muito.. — E você que está estranho esta noite! Que é que tem? Ele não se apressou a responder. dificilmente sustentava o olhar de um homem. — Ele. é tão importante e queria esconder me? Já não sou seu amigo? Marcelle fez um gesto. — Marcelle! Olhe para mini. Daniel sabia imitar muito bem quando queria.» Já não se tratava de . — Muito cansada! Observava a há pouco enquanto a sua mãe contava a viagem a Roma. Um silêncio incómodo pesou sobre ambos. Ela inclinou se para trás. — Parece cansada.. Marcelle pestanejou. e Marcelle desatou a rir. Pensou em Mathieu para se encorajar e ficou satisfeito de encontrar o seu ódio intacto.. e Daniel pensou. — Estou um pouco tonta. — Marcelle — observou —. isso irrita me. Oh! Tinha me jurado que não dizia nada. é a terceira vez que ela lhe conta essa viagem. O quarto era uma fornalha. Ele avançara o busto e encarava a com uma expressão preocupada. E escuta a sempre com o mesmo ar de interesse apaixonado. Marcelle interrompeu o. não sei bem o que há na sua cabeça neste momento. Marcelle teve um riso desajeitado que lhe morreu imediatamente nos lábios.. —— É SUJO. mas gosto de ouvi la contar. podia se detestar. mas tinha a cabeça agitada por pequenas sacudidelas rígidas. Não se podia odiar Marcelle. — A sua mãe diverte me — disse Daniel.» Estava em boas condições para o momento oportuno. para ser franca.. — Pronto — disse Marcelle. Ela devolveu lhe o olhar. É do calor. tem gestos que me encantam.

— Deve ter horror de mim. meu caro Daniel. — Eu sei como Mathieu aprecia as suas opiniões — disse.. sei — atalhou Daniel. Um diz: Fazemos isto ou aquilo. Deve . não é sujo. tem de nos emprestar. — Você não compreende — insistiu Daniel. — Talvez. O nariz afilado. rígida. Houve um silêncio. Tomou fôlego e acrescentou: A — Marcelle. Tenho quinze mil francos. Daniel estava com calor. que tresandava a carne. Baixara o rosto. Pelo menos antes de ter visto. Está a magicar nalguma coisa. — Posso perfeitamente. — Ele disse lhe que eu recusei o empréstimo? — Disse que você não tinha dinheiro. Sofria. — Tinha? — repetiu ela admirada. Era apenas uma mulher grávida. — Mas imagino muito bem a cena. — Horror? Eu? Marcelle. Pensei nela toda a tarde. Ele riu jovialmente.. e o outro protesta se não está de acordo. Endireitara se e tornara se dura. perdera a máscara de dignidade sorridente. Daniel. — Tinha. — Tinha. — Eu só queria saber se Mathieu a tinha consultado. Marcelle não respondeu. — Não — disse —. (Ficou embaraçada.. — Telefonou me há uma hora — respondeu Marcelle. — Então. — Sei. — Isso é uma grande vantagem para quem já tem opinião. nós não nos consultamos. tinha de procurar muito. o outro é empurrado. Isto é — disse ela com um leve sorriso —. devo emprestá lo? — Mas. passou a mão pela testa suada. — Viu Mathieu depois de ele me ter deixado? — perguntou Daniel. sim — disse Marcelle —. não tem tempo para pensar. estava na defensiva. Acabou por dizer: — Eu queria tanto tê lo afastado disto tudo! Calaram se. — Naturalmente. bruscamente. como um cordão umbilical. bem sabe como somos. — Quero dizer: deseja do fundo do coração que eu empreste o dinheiro? Marcelle ergueu a cabeça e olhou o surpreendida. você é que deve saber. — Está estranho. de que posso dispor sem preocupações. Ela fez um gesto brusco de cotovelo e de antebraço que cortou o ar escaldante do quarto. antes de encontrar qualquer coisa que me leve a ter horror de si.. mas não queria emprestá lo. sim. Havia agora um novo elo entre eles. tristemente. Marcelle amarfanhava o lençol e os seios palpitavam lhe.) Não sei.arcanjos nem de fotografias antigas.

Mas ela não dizia nada. — Um arcanjo assusta se facilmente. sou simplesmente um amigo. não terá sido um pouco precipitado tudo isso? Não deve saber você mesma o que quer? Inclinou se novamente para Marcelle. o seu melhor amigo. Eu sei quanto isto é penoso. Se tem a certeza do que quer. não se recuse a falar. mas contemplava o sem rancor. Mathieu receberá o dinheiro amanhã cedo. imóvel e pesado. muito desagradável.» — Basta lhe dizer uma palavra.. Tinha um olhar sombrio. Quase desejava que ela dissesse que sim. — Não foi assim? Marcelle não o olhava. — Mesmo que não lhe cause repugnância.» Ela estremeceu de novo e apertou os braços sobre os seios.ter se encolhido todo como faz nessas ocasiões e depois deve ter dito a engolir a saliva: «Então apelamos para os grandes meios?» Não deve ter hesitado e aliás não podia hesitar. quando lhe batia. «parece cheia de gratidão!» Como «Malvina». só você se interessa por mini! Ele levantou se. Dir se ia que ia desconjuntar se.. pensou Daniel. Daniel. — Você pergunta me isso. Mas já não sabia se o seu prazer vinha da humilhação que impunha a Marcelle ou de ser humilhado com ela. veio sentar se perto dela. Daniel pensou: «Está desesperada. Isto é. — Mais ou menos — disse.. estava vermelha. Era preciso ir até ao fim. por favor. E tenho direito a ter uma opinião — acrescentou com firmeza — porque a posso ajudar.. Marcelle tem realmente a certeza de que não quer a criança? Verificou se uma rápida derrota através do corpo de Marcelle. Escute. pensou.. Você é tão diferente. Daniel! «Pois não! Eu sou a pureza. E homem.» — Marcelle — disse —. não me faça desempenhar este papel ridículo. E ele. Depois corou violentamente... — Eu sei — disse Daniel com amargura. — Não falemos mais nisso. Oh! Daniel. Voltou a cabeça para Daniel. — Não me atrevo a olhá lo — continuou. «Ela palpita».. Virara a cabeça para o lado do lavatório e Daniel só lhe via o perfil. Daniel. tenho a impressão de o ter perdido. com um espanto desarmado. . Marcelle. Mandar Ihe ia o dinheiro e tudo estaria acabado. tomou lhe a mão.. — Principalmente para si. «Oh!». Mas. Depois esse prenúncio de desconjuntamento parou.. Disse para si mesmo: «Mais fácil do que pensava. voltara se para ele e parecia esperar. Daniel não a perdeu de vista. o corpo fincou se lhe à beira do leito. Nada tenho de arcanjo.

. «Juro que ele há de casar se com ela. sem falar. Largou lhe bruscamente a mão e afastou se um pouco. era antes como se fecundasse o ambiente em torno dela. aturdida. «Já foi jovem. — Tem realmente a certeza? — Não sei — disse levantando se. Daniel ergueu as sobrancelhas. Marcelle.. nem sequer a consultou. Havia às vezes cartas divertidas. Sufocava. é preciso que não venha a acusar me mais tarde por não ter reflectido. está cheia de vontade de parir.. Aliás. Disse com voz alterada: — E se eu tivesse vontade de ter um filho? Que adiantava? Não posso dar me ao luxo de ter um filho sem casar e ele nunca se casará comigo. «Ganhei». — disse Marcelle. — Porque não há de casar consigo? Marcelle encarou o... Essa criança talvez seja um desastre. mas talvez uma sorte. — Pois é. os outros já me dão muito que fazer. pensou quando a porta se fechou. Era o ritual. Limpou as mãos no lenço. Marcelle parecia lutar contra as lágrimas. — Marcelle. e Daniel voltou a sentar se na poltrona. não chegava mesmo a ser um cheiro. que não era feliz.. — Que fazer? Daniel pensou: «Ganhei. Neste momento estou a pensar apenas em si.» Estava satisfeito de ficar só. — Desculpe. preciso de ir arrumar a cama da minha mãe. era imperceptível. — Não sei o que se pode fazer — disse com voz seca. Daniel acedeu silenciosamente. Daniel pensou na jovem estudante que vira na fotografia.. Não vale a pena». E depois havia aquela mão suada. «Não vale a pena odiá lo por bons motivos. é lhe indiferente que se suprima a criança? Marcelle teve um gesto de cansaço..Uma mão mole e febril como uma confidência.» Marcelle voltou com uma expressão de desespero. — Pois é. Dir se ia que de perto Marcelle tinha um cheiro. ergueu se rapidamente e abriu a gaveta da mesa de cabe ceira. Esforçou se por apertá la mais fortemente. como que para lhe espremer todo o sumo. — Porque não? — perguntou. «Ganhei. olhava para os joelhos. — Reflicta — repetiu. Conservou a nas dele. ou intermináveis lamentações de Andrée. bilhetes de Mathieu muito conjugais. continuou com um riso seco. Com o olhar no vazio tinha um ar de boa fé que a rejuvenescia.» Mas não sentiu nenhum prazer. — Veremos mais tarde. depois achou melhor desatar a rir. Podia recuperar um pouco de ódio.» Mas naquele rosto ingrato os próprios reflexos da mocidade não eram comoventes. foi ignóbil.. A gaveta estava vazia.

Ergueu se um pouco e levou a ao ventre como se estivesse com dor de barriga. Acrescentou: — Era. como toda a gente. Estava ganho. não deixava que ele estragasse . angustiada. nunca encarei a coisa por esse prisma. Era muito difícil fazê la ver as coisas de frente. se eu tivesse um filho. com voz surda: — Daniel. Parecia ruminar. — Sim. Devia ser verdade. Era o momento decisivo. apertava o ventre. Que sentia por dentro aquela fêmea pesada e perturbada? Gostaria de ser ela. Disse com voz solitária. Pensou que Mathieu a desejara e sentiu uma leve chama J E A N P AUL SARTRE de satisfação. Eu não. — Não é verdade que você quer a criança? Marcelle apoiou uma das mãos no travesseiro e pousou a outra sobre a coxa. Daniel calou se. carne gorda e nutrida. De repente falou com paixão: — Ah!. e dentro de um mês será mulher dele. — Não é uma resposta. cheguei a julgar que era um crime. Era preciso enfiar lhe o nariz em cima e mante la assim. Era como se já se tivesse vingado um pouco. — Mas você quer a criança? Ela não respondeu. quem decidiu nunca se casar? — Sentiria horror de vê lo casar se contra a vontade. é tudo. senão dipersava se em todas as direcções. Foi você. nem um nem outro. A mão morena crispava se sobre a seda. era uma coisa subentendida entre nós. libertou me. Marcelle. — Bem sei — disse Daniel com vivacidade. quero. Daniel repetiu com voz dura. Carne inimiga. — Um crime? Mas isso é perversão. não podia dizer isto a ninguém no mundo. O casamento é uma servidão e não o queríamos. — Tem de lhe falar com franqueza.. Eu digo em relação a Mathieu.. — Sei apenas uma coisa.A — Mas. Olhou o. Marcelle disse... Delarue. — Não. — Não. Se ele quiser. — Não é um crime? Ele não pôde deixar de rir. É uma espécie de ruptura de contrato. — Mas. Não podia tirar os olhos daquele ventre. Era grotesco e fascinante. Daniel! Bem sabe como nós somos! — Eu não sei nada de nada — disse Daniel. Marcelle. realmente era me totalmente indiferente não me chamar Mme.. Achar criminosos os seus desejos quando são naturais. — Marcelle não respondeu.. que faça o que é necessário. — Mas se fosse esse o único meio de conservar a criança? Marcelle pareceu perturbada.

mas não precisa de mim. e assim esperaria durante anos. Ela curvara os ombros. isso não o atingiria. Pegou lhe na mão sem falar e apertou a de um modo significativo. — Porque é que não pensa? Você pensou. — Um filho. — Estraguei. Era verdade. Marcelle parecia estar numa das suas crises de clarividência cínica. Espero que isso venha dele. — Mas bem sabe que nunca virá. — Você não estragou a vida. Entre os trinta e quarenta anos joga se a última cartada. ainda não. — Não posso. — E se eu próprio falasse a Mathieu? Uma enorme piedade lodosa tinha o invadido. Parou repentinamente e olhou a. sim. Essa ideia gelou o. Não fiz nada e ninguém precisa de mim. — Pois então fica como está! Você empresta o dinheiro e eu vou ao médico. era preciso evitar isso. — Porquê? — Sinto me amarrada. irresistível. Ela ia jogar e perder. que a encontrei. — Não. tinha horror ao abandono. passiva e gasta. Daniel.. os braços pendiam lhe junto das ancas. Ele não respondeu. — Onde? Nunca saio. parecia pensar que ele era doido. Se eu morresse. A si também não. Ele não pensa nisso. Esperava. Teria feito tudo para se libertar dela. Responder? Protestar? Era preciso desconfiar. Dentro de alguns dias seria apenas um grande miséria. sim. — É a Mathieu que você tem de dizer isso. Não sentia nenhuma simpatia por Marcelle e sentia um profundo nojo por si mesmo. Ele acariciou lhe a mão. Mordeu os lábios e tomou uma atitude irónica. Marcelle levantou a cabeça. — Mathieu não precisa de mim. Defesa vã! Seria preciso não a ver. Daniel. Marcelle. ia assim sem . eu é que preciso de si. — Não sei. teria necessidade de mini. é um absurdo! — Podia dizer lhe. desconfiado.. A — Um filho — continuou Marcelle. até ao fim. — Estraguei... A emoção fizera com que tivesse deixado escapar aquela exclamação estúpida.a vida como eu. mas a piedade estava lá. — Não pode fazer isso — exclamou bruscamente Daniel —. como pensara de si mesmo pouco antes. não pode. Ele pensou: «A sua última possibilidade». Mas ainda que fosse verdade. Tem grande afeição por mim e talvez seja o que tenho de mais precioso na vida. J E A N P A U L SARTRE — Falar com ele? Você? Mas.

. viverá junto dele em silêncio. — Não é possível! — Bom... Tudo isso como se viesse unicamente de mim.. evidentemente. Olhe para mim! Tomou a pêlos ombros e os dedos afundaram se lhe numa manteiga morna. Pensava: «Conta com isso. já lhe disse que o farei.. — Era preciso dizer lhe. seguia a sua ideia. não se meta nisto. — Se eu não falar com ele. Mas eu conheço o. Seja razoável. Estava possuído de um desejo enorme e monstruoso. sabe. — Escute. Marcelle não respondeu. Daniel olhava para os ombros e para o pescoço dela com avidez. — Tem de ser. ficarei aborrecido. — Naturalmente — disse Daniel. não faça isso. Não se vai zangar. acabará por odiá lo. irritado —. — Pois digo lhe — atalhou Daniel. Era mais subtil. Ele é que tem de compreender. Porque é que não é possível? — Era obrigado a dizer lhe que nos vemos. que você parecia atormentada e que não é assim tão simples como ele pensa. Mas não era sadismo. mas não teve vontade de rir. Largou a. dizer lhe coisas vagas — disse —. — Não quero. — Não falo em si — disse.. — Daniel.mais nem menos contar lhe isto? — Não. Era bondade. atolar se com ela na humildade. mas ele percebeu pela sua expressão rancorosa e abatida que ela ia ceder. Digo lhe: «E preciso que perdoes um segredo. Por nada deste mundo quero que pensem que estou a pedir alguma coisa. Mas Daniel era tenaz. sentia vontade de a partir. Eu e Marcelle víamo nos de vez em quando e não te dizíamos nada. obstinada. — Digo que a encontrei. Estou furiosa com Mathieu. ele não lhe devia ter contado. Daniel pensou: «Ela é formidável!». Marcelle. Aquela obstinação tonta aborreceu o.» — Daniel — suplicou Marcelle —. Violar aquela consciência. Marcelle.» Marcelle teve um gesto de despeito. Estragará a sua vida com as suas próprias mãos. Vai irritar se . chamar lhe apenas a atenção. — Se não me deixar fazê lo — disse zangado —. você nunca o fará e. por favor.. Sabe o que é que vamos fazer? Dizer lhe simplesmente a verdade. Marcelle passeava a ponta do dedo pelo tapete.. — Não quero. Marcelle pousou lhe a mão sobre o joelho. ele nunca me perdoaria não lho ter dito eu própria. mais húmido. Acrescentou com um ar conjugal: — E depois. mais carnal. Nós dizemos sempre tudo um ao outro. Ela ainda repetiu: — Eu não quero. — disse Marcelle. Não quero que falem de mim.

digo lhe que nos vemos há apenas alguns meses e muito raramente. Ele foi. Dentro de momentos estaria completamente aberta. não tinha outra. Ela ia ceder. a minha vida privada. Acrescentou secamente: — Tenho necessidade de o estimar. se me perguntasse uma só vez que fosse: «Em que estás a pensar?» Calou se. Mas não tenho a mesma confiança com ele. Não se preocupou comigo. tem razão. — Pois bem. O Bem e o Mal. bastava esperar. com ódio: — Só posso ter de meu o que escondo dele. . vai ficar muito satisfeito por ter qualquer coisa a censurar lhe. — Acredita que ele vai ficar indiferente? Que não se vai apressar com explicações? — Não sei. para a resignação. é extremamente penoso. De qualquer maneira. já não o estima? — Estimo. Corou.. E depois o telefonema de hoje foi lamentável. para o abandono. — E Mathieu que quer experimentar? — É.. tínhamos de lho dizer um dia. Daniel.. — Apesar de tudo será uma experiência. Quando fico ressentida com ele. Ele foi demasiado A negligente. — Era o nosso segredo — disse com profunda tristeza. tentemos — disse num desafio. Teve. — Escute.um pouco. mas a seguir. Aquela chama que o devorava. Ia escorregar. arrastada pelo seu próprio peso. sem defesa. e ia dizer lhe: «Faça como quiser. abanou a cabeça. mas não quero pensar nisso. como se sente culpado. O coração de Daniel pôs se a bater com violência. — Então. Não lhe posso dizer o efeito que isso me causou! Se um dia deixasse de o estimar. o Bem deles e o Mal dele era igual. Havia aquela mulher e aquela comunhão repugnante e vertiginosa.» Ela fascinava o. era a minha vida particular. — Uma experiência? — indagou Daniel. já não sabia se era de maldade ou de bondade. Acrescentou. — Vou falar com ele — disse Daniel. — É preciso tentar. desde ontem. tristemente. estou nas suas mãos. — Ao sair daqui mando lhe um recado e marco um encontro para amanhã. Tresandava a consciência suja.. Aliás. — Achou se na obrigação de dizer que me amava. Mas não parecia convencida. Marcelle passou a mão pêlos cabelos... pró forma. Ah!. ao desligar.. — É verdade. se ele tentasse fazer me falar amanhã. por causa da criança..

XI s oaram as dez horas. um olhar de depois do amor. — Procuro alguém — disse Mathieu. Fechou os olhos. — E obrigada pêlos deliciosos bombons. . que transbordava de gratidão sexual. «Não vai demorar a sair». provavelmente. Não a deixe ficar acordada até muito tarde. vou dormir. dorme até ao meio dia. porém uns sopros ecoavam através dos lábios entreabertos. Bocejava por baixo do sorriso. Havia entre ambos qualquer coisa mais forte do que o amor. Duffet. dormes até ao meio dia. — Dormes de mais.Ficaram silenciosos. Seria violenta e dura. O jovem reconheceu o. Tinha asma. pensou ele. Ela sorria lhe com uma expressão maliciosa. como presas de um interminável destino. Ergueu se e foi dar umas palmadinhas nos ombros de Marcelle. fingindo se vítima: — Que hei de fazer? — Bom. — Meu arcanjo — dizia Marcelle por cima da cabeça dele. — Made moiselle Lola está se a vestir. Eram lúgubres. — Ouve. sejam razoáveis — disse Mme. Marcelle estava sentada à beira da cama. Mathieu perscrutou a sala com o olhar à procura de Boris e Ivich. Senão. mas os seus olhos tinham se avermelhado. Olhava atentamente para Daniel. e isso lavá lo ia. Era um olhar pesado e envolvente. retendo a respiração. — Daniel! — murmurou Marcelle. — Daniel! — repetiu Marcelle. — Se eu deixar. — Juro que sairei antes da meia noite — afirmou Daniel. conto consigo. é o senhor — disse cordialmente. Daniel abriu os olhos. Daniel pensava na entrevista do dia seguinte. — Ah!. Disse alegremente: — Pois bem. — Deseja uma mesa? Um belo rapaz inclinava se diante dele com ar de alcoviteiro. à altura dos olhos com um gesto ligeiramente ameaçador. De repente levantou a cabeça e pareceu tomar uma decisão. ele entrara dentro dela. eram um só. assim engordas. Ele voltou se para Mme. arrancaria dele aquela piedade viscosa. meus filhos. J E A N P AUL SARTRE Marcelle sorriu. Os seus amigos estão no fundo à esquerda. Ela abrira se. Duffet pareceu não as ouvir. Passará toda a vida inclinado sobre aquela mão perfumada e acariciar lhe á os cabelos. — Querido Daniel. decorada com fitas. Mme. Pegou lhe na mão e beijou a longamente. tossiu com dificuldade. Ele ergueu a cabeça e viu o olhar dela. Levantou a caixa. querida — disse divertindo se a falar entre dentes. Duffet.

Em Montmartre. mas ela não o via. porque já não podia suportar a solidão. As lâmpadas brancas acenderam se novamente. era incapaz de se divertir naquele ócio grave. não dançava bem.» Era Ivich quem falava. nervosamente. . «Como são jovens. Inclinava se ao ouvido de Boris e segredava Ihe qualquer coisa. os adultos. O rapaz desapareceu. Está cá gente hoje. Na outra. com uma austeridade cheia de graça. Ouviu o tango e o arrastar dos pés.vou acompanhá lo. Ivich não se entregava completa mente. São um pouco barulhentos. aproximou se. mulheres soberbas e maduras. Depressa o veriam e oferecer lhe iam aquele rosto convencional que reservavam para os parentes. desempenhava o papel de irmã mais velho. Mathieu sentiu se ligeiramente reconfortado. Nunca. com gestos vivos. Holandeses. — Bastante. Mathieu avançou pela sala por entre os ombros em fuga. muitos homens de idade que dançavam com ar de quem pede desculpa. Mesmo com o irmão. Inclinavam se um para o outro muito ocupados. um bocadinho. Era a última réplica de um romance ou de uma peça de teatro. Achava os romanescos. «Pareciam dois mongezinhos. «Que é que vim fazer aqui?». Não se sentiu à vontade. No entanto. as calças já não tinham vincos. o brilho de um colarinho. e nunca se esquecia disso. viu Boris e Ivich. Boris teve um riso curto. tinha a impressão de estar a espreitar pelo buraco da fechadura. contemplava as lentas deslocações daquele comício silencioso. — Obrigado. O seu casaco brilhava nos cotovelos.» Tinha vontade de dar meia volta e sair. mesmo nos momentos de maior abandono. Mathieu pousou a mão sobre a mesa. apesar da simpatia dos maitres d'bôtel. nunca se podia sentir à vontade. Ele estava agora perto de Ivich. Ombros nus. oferecera ela a Mathieu um rosto assim. Numa delas um homem e uma mulher falavam. Eu encontro os facilmente sozinho. Não era possível abrir passagem entre as pessoas que dançavam. Os sons agudos do tango passavam por cima das cabeças deles. «Conversa!» Com essa palavra o diálogo terminava definitivamente. uma cabeça de preto. Numa reentrância havia duas mesas. o ar de uma irmã mais velha e falava a Boris com uma condescendência maravilhada. Mathieu olhava Boris e Ivich. mas consomem bem. Havia uma crueldade inquieta e permanente na atmosfera. — Conversa!» — disse simplesmente. e no fundo dos seus corações alguma coisa mudaria. Tinha. sem se olhar. os músicos não pareciam tocar para eles. Mathieu esperou. pensou Mathieu.

— Quer o meu lugar? — Não. — Sim — disse Mathieu. — Um vodka — disse Ivich. — Olá! — respondeu Boris levantando se. já não havia ninguém no estrado dos músicos. Não sabe fazer cocktails. é o cocktail da casa. Ela não sorriu. mas engana se. pensou. — E horrível — disse Boris —. Mathieu — disse Ivich. — Foi por gentileza que o pediu? — Há três semanas que o barman me chateia para o experimentar. — Isso ficava lhe caro — atalhou Boris —. Parecia achar natural a presença de Mathieu. — Gostava de ser barman — disse Mathieu. Ela inclinara se para trás. Boris olhava o com uma admiração jovial de surpresa. todo de branco. A um barman. e fumava um cigarro. Acha que o ofício é o mesmo. Os gaúchos tinham terminado a série de tangos. Mathieu olhou o barman. gozava a condensação feliz que dá o sentimento de ser um homem entre os outros homens. — Então era melhor que tivesse sido malabarista. «E porquê a verdadeira?». — E que é isso? — indagou Mathieu por espírito de justiça. — Cem francos — disse Ivich —. — Boa noite. sentia se penetrado por um calor húmido. Viu dois olhos pálidos e mortos. A verdadeira Ivich desaparecera. mas pedi Ihe emprestados cem francos. — Aliás. De qualquer maneira teria bebido essa porcaria. — Como? Gosta disso agora? — E forte — respondeu ela. Guarde o para Lola daqui a bocado.— Olá! — disse. As pessoas murmuravam à sua volta. havia de partir . mas é porque ele é barman. O jazz negro Hijito's Band ia substituí los. Sentou se. apontando para uma espuma branca no copo A de Boris. Ivich não o tinha recebido mal. Estava de pé atrás do balcão. — Suponho que é por causa do misturador — disse Mathieu. não vale a pena. irritado. — Que estão a beber? — indagou Mathieu. — Tem gente! — observou com satisfação. Boris apontou para a multidão com um gesto rápido. Fez se barman porque foi prestidigitador. sem dar a sua opinião. deve pedir se dinheiro emprestado — explicou num tom de austeridade. Mathieu deitou um olhar rápido a Ivich. de braços cruzados. A sala estava deserta. para quebrar ovos é preciso ter jeito. mas já não tinha um ar admirado ou rancoroso. Mathieu sentia se incomodado. Tinha um ar severo. eu tinha os! — Eu também — disse Boris —. — Deve ser divertido.

Olhou a lista. Fez se silêncio. acidulados e gloriosos. Era um barulho apenas. sozinho. no meio daqueles tipos igualmente lixados. àquela mesa. diante dele. Boris olhava Mathieu. Sons de trompete. chegavam lhe às rajadas. isso não tinha importância e não era desagradável de todo. — Estou contente por ir beber champanhe — disse Boris. Ivich mordeu os lábios. Prefiro champanhe. — Um Mumm cordon rouge. de ouvidos tapados pela música. pensou Mathieu de mau humor. O maïtre d'hôtel apresentou lhe a lista dos champanhes: tinha de ter cuidado. e continuavam ali a fumar cigarros e a beber misturas com gosto a aço. Bem sabia que estava lixado. Chamou o maítre d'hôtel. à direita havia um camarada de monóculo. que fariam melhor se voltassem para casa. Calaram se. «há sempre um que se escandaliza». com ares desgraçados. pensando melhor. — Sim. rostos sorridentes e bem arranjados com olhos pisados. a sorrir. — Bebem sempre coisas de que não gostam. pensou Mathieu tristemente. mas dava lhe um grande prazer à flor da pele. J E A N P AUL SARTRE Mas sentiu de repente nojo da economia e daquele maço magro de notas que jazia no fundo da sua carteira. «Não se pode dizer nada». — Não gosto e é preciso que me habitue. Adorava que Mathieu lhe falasse naquele tom. Só que essas duas imagens não se conciliavam. mas já não tinham sequer força para o fazer. e ele parecia aliviado. não lhe passava pela cabeça descobrir neles uma melodia. mas afinal naquele dancing. Virou a cabeça. O barman sonhava. Mathieu estendeu as pernas e sorriu de prazer. é preferível. Por toda a parte. a contemplar de olhos vazios os farrapos do seu destino. só lhe restavam quinhentos francos. Estavam ali. O Mumm custava trezentos francos. Mathieu sentiu se bruscamente solidário com aqueles tipos todos. «Estou a mais».tudo. A mulher e o amigo deviam estar a dançar. outro mais longe. e Ivich olhava Boris. — Você também pode beber um bocadinho — disse para Ivich. — Não — respondeu ela. Sentiu o apelo discreto de uma felicidade humilde e . — Vocês são divertidos — disse Mathieu. — Espere. Bocejou por trás da mão e os seus olhinhos pestanejaram com volúpia. — Um uísque — disse Mathieu. cada um deles tinha construído uma imagem pessoal de Mathieu e exigiam ambos que ele lhe fosse fiel. atentos e severos. Boris regozijou se. sozinho também diante de três capas e uma bolsa de mulher.

de encontrar na cabeça. eu já não o ouvia. — Você aguenta o álcool? — Ele? — Ele é formidável — disse Boris. com seriedade. Voltou se vivamente para Mathieu. Ninguém respondeu. abandonando por instantes o seu devaneio. — Faz de conta que é água. Mathieu sofria por ela. — Quero divertir me. Pensou: «A minha dignidade humana. Mathieu não perdia a cabeça. era ainda o seu único apoio. Mesmo bêbedo. vai incendiar lhe a garganta. espere pelo champanhe. Voltou se para Ivich. com aquele pequeno pântano de fogo no fundo da garganta. sem ousar engolir. Apesar de rancorosa e distante. deitou lhe um olhar de censura. acabará mais depressa. disperso e flutuando como uma neblina de Verão. O pescoço de Ivich inchou e ela pôs o copo na mesa com uma careta horrível. sempre é mais forte. No fim. Ivich pegou no copo. se se entregasse por momentos. Ivich olhava inquieta e vagamente o líquido transparente que tinha ficado no copo.. — Tenho de engolir isto — disse ela.. nesse ponto você é um cabeçudo. a falar de Kant. um pensamento de mosca ou de barata. irritada. Era como se enchesse uma garrafa.. — Engole — disse Boris. Era verdade.» Teve medo e sobressaltou se. — Prefiro beber de um trago. Tinha os olhos cheios de lágrimas. Acrescentou com uma espécie de angústia: — Acho que agora vou poder divertir me. — Bebo. — Já o vi tomar sete uísques de uma vez..covarde: «Ser como eles. mas não entrego o corpo inteiro à embriaguez. — Vodka bebe se de um trago — observou Boris. pior que um asno. — É melhor treinar com aguardente. queima. é fogo! — Eu comprei te uma garrafa para te treinares — disse Boris. Ivich reflectiu um segundo. — Sim — disse Boris —. Inclinou se para trás aproximando o copo dos lábios e deixou que lhe escorresse na boca todo o conteúdo. — Uf! — disse Ivich —. — Não faça isso — atalhou Mathieu —. não beba. — Sinto horror em embriagar me — explicou humildemente. — Não. A quê? Lembrou se de repente de Gauguin. Ficou assim um segundo. eu é que estava bêbedo. Era a primeira vez que o olhava. um rosto forte e exangue de olhos desertos. .» Tinha medo. A senhora morena do lado. Enquanto bebia agarrava se a qualquer coisa. — Bebe de um trago — disse Boris.

Ou então. Era um truque. servia se dela para fazer gentilezas às mulheres! «Estupor!» Mas parou. Não era verdade. estava resplendente. porque é a última noite.. É uma defesa. Estou farta. na Rua . Mathieu viu a garrafa e pensou: «Trezentos e cinquenta francos. raivosamente. — Não quero que me falem mais nisso. desejava agradar a Ivich. Pintara de azul as pálpebras e de vermelho framboesa os lábios. que o contemplava com uma expressão estranha. Sinto me humilhada. Mathieu abriu se como uma chaga. Como para si próprio. — Sim — disse com obstinação —. imaginava salvar se da abjec ção pela «lucidez». bem o sei. pensamentos sobre pensamentos. Ah!.. vou chumbar. o álcool inflamava lhe o rosto. fico tenso. arrepiado. e partirei imediatamente. Calou se. mas essa lucidez não lhe custava nada. não estava realmente indignado. pensamentos sobre pensamentos de pensamentos. com olhos do tamanho de um pires. por favor. estou aqui para me divertir. Depois aquilo apagou se. Viu se por inteiro. — Então — perguntou ele —. não poderei ficar mais um dia sequer em Paris. Pensou: «Já desci a isso?» Estava a ponto de se aproveitar da própria decadência. antes o divertia. uma compensação. aí está o champanhe — disse ela. — Ou então? — Nada. E necessário que pense sempre no que me acontece. No fundo. Ivich devia ter gemido durante horas. — Isso é ridículo. não desdenhava tirar dela pequenas vantagens.» O tipo que o tinha abordado na véspera. e encontrou se diante de Ivich. trabalhou esta tarde? Ivich encolheu os ombros. De repente. — Queria passar uma noite formidável — disse —. Acrescentou com ironia.. sem se preocupar com o olhar furioso da irmã: — É esquisita! É capaz de morrer de frio em pleno Verão. também não era sincero. Todos os seus pensamentos estavam contaminados desde a origem. J E A N P AUL SARTRE Boris acrescentou. trocar tudo até à medula. estava transparente até ao infinito e igualmente podre.» Mas nada o ajudava.. E esse juízo que emitia acerca da sua lucidez. não era sincero. escancarado: pensamentos. não me deixo dominar. quando se tratava de estupor. orgulhosamente. talvez soluçado. Mas agora já não se percebia nada. «Será preciso mudar tudo. como para si próprio: — Sou um vime pensante. — Passou o dia enrolada no sofá.— Não sou cabeçudo. essa maneira de subir pêlos próprios ombros. alegremente. não falemos mais nisso.

lançava as pernas para a frente. mis dam lê mille Émile E havia aquela garrafa que girava cerimoniosamente na ponta dos dedos pálidos. no fundo. — Não era mau — observou Boris —. a cantar ao microfone: A // a. se ninguém quiser.Vercingetorix. e ainda por cima tinha fome. Porém. sob a luz vermelha. Acenderam se novamente as vermelhas. Aliás. inclinado sobre o balde de gelo. J E A N P AUL SARTRE — Senhoras e senhores. — Somos divertidos! — disse Boris. A rapariga dançava. Puseram se a rir os três.» Todo o dancing lhe pareceu um pequeno inferno. Ficara com a sua expressão maníaca e cruel. eu não gosto de champanhe. modestamente. O riso de Ivich era estridente. As lâmpadas brancas apagaram se. Um senhor pequeno. fazia a rodar com competência. a direcção do Sumatra tem o grande prazer de apresentar Miss Ellinor pela primeira vez em Paris! Miss Ellinor! — repetiu! Com os primeiros acordes da orquestra surgiu na sala uma mulher alta e loura. eu bebo toda a garrafa. A vizinha voltou a cabeça e mediu a de alto a baixo. parecia um grande pedaço de algodão. sem champanhe nem belas loucuras. ansiosa por agradar. calvo e redondinho. Era pesada e negra. o corpo. — Estou a lembrar me de que eu também não gosto de champanhe. leve como uma bola de sabão. uma depois da outra. Mathieu continuava a olhar para a garrafa. Acrescentou: — Pode deitar se no balde do gelo quando o empregado não estiver a olhar. Mathieu virou se para Ivich. O empregado serviu. — Não — atalhou Ivich —. eu quero beber. Mas nesse momento havia um rapaz muito digno sobre o estrado. com alegria. — De que se está a rir? — perguntou Boris. — Se quiserem — disse Mathieu. Estava nua. e os seus pés esticavam se na extremidade das . e sentia o coração magoado por uma verdadeira angústia. sem grandes preocupações. com um guardanapo em volta do gargalo. afectado e reverente. Ela contemplava a rapariga nua com os grandes olhos arregalados. e um rolar de tambores advertiu o público. Mathieu pensou: «Cheirava a vinho tinto barato. perplexa. rindo também. e toda aquela gente que se cozinhava no próprio molho. e Mathieu levou melancolicamente o copo aos lábios. saltou para o estrado e sorriu ao microfone. parecia pouco à vontade. a pensar no tipo da véspera. Mathieu teve nojo da garrafa. O empregado. — Conheço a — disse Boris. Ivich contemplava o dela. é o mesmo. também estava lixado. se fosse servido bem quente. e sorriu. de smoking.

. carmesim e aguda. — Têm Lola Montero — observou o tipo gordo. pensou apenas: «E dizer que gosto dela pela sua pureza. as pernas da dançarina escavaram o chão sob a impotência ridícula dos quadris. ergueu os braços e sacudiu os. — Ela vai cair! — disse Boris. roçou pela mesa deles. em seguida endireitou se. devorava com os olhos. goza.. aperta as coxas. Quando se cobra a bebida a trinta e cinco francos. Durante uns momentos.. porque era desajeitada. com um sorriso. aquela pobre carne nua. mas não teve forças para fazê lo. envenenou lhe a boca: «A fita toda desta manhã. Não se atrevia a olhá la. Mathieu percorreu a sala com o olhar e só viu rostos severos e justiceiros.» A dançarina. deve pensar se em escolher melhor os números. apontava para a sala como uma flecha indicadora. Na verdade havia uma fragilidade inquietante nos seus longos membros. — Não sabe dançar — disse a vizinha de Ivich. afinal a menina sagrada era como os outros: duplamente defendida pela sua graça e pêlos vestidos. quando pousava os pés no chão. — Isso não quer dizer nada! É vergonhoso. a rapariga parecia lhe duplamente nua.. Mathieu quis desejar aquela almofada na . deslocando se de lado sobre os calcanhares. «Pronto». mas lembrava se da expressão cruel. pensou Mathieu. «Está só». «vai cair». pensou.» Virou a cabeça e viu o punho crispado de Ivich sobre a mesa. O ruído das conversas cobria por momentos a música. Pensava em Ivich. Mathieu comovia se com a boa vontade desesperada dela: oferecia lhes as nádegas entreabertas. provocando no ar tremores que deslizaram ao longo das omoplatas até à reentrância dos rins. de mãos nas ancas. as pernas estremeciam dos tornozelos até às coxas. O público deleitava se com a sua própria indignação. Bebeu um golo do cocktail e pôs se a brincar com os anéis. «esconde sob os cabelos um rosto arrasado.» Essa ideia pareceu lhe insuportável. com sentimentos dúbios. Dir se ia que ela sentia a hostilidade e esperava enternecê los. — E espantoso como tem as ancas duras — disse Boris. eles querem ser respeitados. — Isso não os comove — observou Mathieu —. A unha do polegar. Aproximou se do estrado e virou se de costas. Uma onda de rancor subiu aos lábios de Mathieu. — Como ela se cansa! — disse Boris. mordendo os lábios. num impulso de dedicação que constrangia a alma. mas com arte. — Eles querem principalmente ver belas nádegas! — Sim. quis levantar se e desaparecer. Apanharam na na rua. como dedos.pernas. Mathieu não respondeu.

— Está quieto — disse Ivich. e no fumo um monstro de quatro patas andava à roda. Uma música de quermesse chegava lhe aos ouvidos. Estava só. dos cantos da boca. mas a cabeça encheu se lhe de guizos. — Bateu as palmas com força. nada mais. — Conheço a. Boris encolheu os ombros. espantado. com gratidão. Mathieu não acordara. pensou. Ivich tremia. ele quis sorrir lhe. jantei com ela e com Lola. — Estupores! — disse Boris. para se distrair dos seus pensamentos. simplesmente. A rapariga desapareceu sorrindo e atirando beijos. A vizinha de Ivich acendeu um cigarro e teve um amuo terno para si própria. Mathieu voltou se. como essas lanternas pálidas que oscilam de noite nas pequenas estações. Boris. Todos se sentiam satisfeitos por se encontrarem de novo juntos após a sentença dada.» Era uma personagem de pesadelo aquele homem que saltitava no estrado e fazia gestos para pedir silêncio. — Que nojo! — disse Ivich. descomposto pela raiva e pela repugnância. A rapariga acocorava se com as pernas ligeiramente abertas e balançava se para a frente e para trás. Em volta dele. Ivich.. sem comentários. Mathieu estava algures. A música parou. com uma suficiência sorridente e mole. — Estão quentes. e Boris pareceu encantado.. Viu um rosto triangular. deve ter essa pertinência dos olhos. com a afectação de soltar no microfone. o corpo obsceno e a neblina vermelha deslizaram para fora do seu alcance. «O meu ser assim. «Que é que eu tenho?» Era como a manhã. para pregar uma partida a Ivich. vai ser uma maravilha! . através de um murmúrio de folhas. Ninguém aplaudia e houve algumas risadas ofensivas. na ponta de um braço invisível. — Mais uma razão para não aplaudir. — Já não a posso ver. é uma boa rapariga. na sua maioria não pareciam habituados. ao longe um fogo de bengala.. às rajadas.. era um pesadelo branco. Por cima do sorriso brilharam uns lindos olhos aquados. Rostos espantados vi raram se para o lado dele. o nome célebre: — Lola Montero! A sala estremeceu de cumplicidade e entusiasmo. mas não tem cabeça. só havia um espectáculo. — Aplaudir isto? — Ela fez o que pôde — disse Boris aplaudindo. ouviram se aplausos. a rapariga imobilizou se com o rosto voltado para o público. e apesar disso deve ver se que é oco. com um ar de gozar de antemão o espanto que ia provocar.ponta de uma espinha medrosa. os rostos abriam se em volta dele. Uma luz branca invadiu a sala e foi um acordar geral. «Não estava perturbada».

Lola encostara se à porta. De longe, o seu rosto achatado e vincado parecia uma cabeça de leão. Os seus ombros, de uma brancura ondeada de reflexos verdes, eram uma folhagem de bétula numa noite de vento sob os faróis de um automóvel. — Como é bela! — disse Ivich. Adiantou se a passos largos e calmos, com um desespero desenvolto. Tinha mãos pequenas e encantos pesados de sultana, mas punha no andar uma generosidade de homem. J E A N P AUL SARTRE — Ela impõe se — disse Boris, com admiração. — Com ela ninguém se mete! Era verdade. As pessoas da primeira fila tinham recuado as cadeiras, não se atreviam sequer a olhar de perto aquele rosto célebre. Um bom rosto de tribuno, volumoso e público, marcado pesadamente por uma vaga sugestão da sua importância. A boca conhecia o seu ofício, estava habituada a abrir se amplamente, com os lábios salientes para vomitar o horror e o nojo e para que a voz fosse longe. Lola imobilizou se de repente. A vizinha de Ivich suspirou de escândalo e admiração. «Ela domina os», pensou Mathieu. Sentia se incomodado: no fundo, Lola era nobre e apaixonada; no entanto, o rosto mentia, representava a nobreza e a paixão. Ela sofria, Boris desesperava a, mas durante cinco minutos por dia aproveitava se do seu número de canto para sofrer espectacularmente. «E eu? Não estou também a sofrer espectacularmente, representando com acompanhamento musical o papel de um tipo lixado? No entanto», pensou, «é indiscutível que estou lixado». Em volta dele era a mesma coisa. Havia pessoas que não existiam, eram vapores, e outras que existiam demasiado. O barman, por exemplo. Pouco antes fumava um cigarro, vago e poético como um jasmineiro; agora acordara, era demasiado barman, sacudia o shaker, abria o, escorria a espuma amarela nos copos, com gestos de uma precisão supérflua. Representava o papel de barman. Mathieu pensou em Brunet: «Talvez não possa ser de outra maneira; talvez seja preciso escolher: não ser nada ou representar o que é. Mas é terrível ser se levado pela nossa própria natureza.» Lola, sem se apressar, percorria a sala com o olhar. A sua máscara dolorosa tornara se dura, congelara se, pare cia ter ficado esquecida sobre o rosto. Mas no fundo dos olhos, a única coisa viva, Mathieu teve a impressão de surpreender uma chama de curiosidade áspera e ameaçadora que não era fingida. Ela viu Boris e Ivich e tranquilizou se. Sorriu lhes cheia de doçura e anunciou, com um ar perdido: — Uma canção de marinheiro: Jobnny Palmer. — Gosto da voz dela — disse Ivich. — Parece veludo. — Parece.

Mathieu pensou: «Ainda Jobnny Palmer»\ A orquestra preludiou, e Lola ergueu os pesados braços. «Pronto, faz a cruz», viu a abrir sanguinolenta. Qui est cruel, jaloux, amer? Qui triche au jeu, sitôt qu'il perd? Mathieu já não ouviu, sentia se envergonhado diante daquela imagem de dor. Era apenas uma imagem, bem o sabia, mas mesmo assim... «Não sei sofrer, nunca sofro o suficiente.» O que havia de mais penoso no sofrimento era ser o de um fantasma, passava se o tempo a correr atrás dele, imaginava se sempre que se ia alcançá lo, que se ia atirar dentro dele e sofrer de verdade rangendo os dentes, mas no momento em que pensava atingi lo escapava se, não se encontrava mais nada a não ser um fogo de artifício de palavras e milhares de raciocínios desvairados em minuciosa efervescência. «Esta tagarelice na minha cabeça; daria tudo para me calar.» Olhou Boris com inveja. Aliás, naquela cabeça obstinada devia haver grandes silêncios. Qui est cruel, jaloux, amer? C'est Jobnny Palmer. «Minto.» A sua decadência, as suas lamentações eram mentiras, vácuo; atirava se para o vácuo, à superfície de si mesmo, fugir à pressão insustentável do mundo verdadeiro. Um mundo negro e terrível que tresandava a éter. Naquele mundo, Mathieu não estava lixado — era muito pior. Era um atrevido e um criminoso. Marcelle é que estava lixada, se ele não descobrisse os cinco mil francos até ao dia seguinte. «Lixada de verdade.» Sem lirismo. Tinha o filho ou ia arriscar a vida nas mãos de um charlatão. Naquele mundo o sofrimento não era um estado de alma, não havia necessidade de palavras para exprimi lo. Era uma expressão das coisas. «Casa com ela, falso boémio, casa com ela, meu caro, porque não hás de casar com ela?» «Aposto», pensou Mathieu horrorizado, «que ela vai morrer com isto.» Todos aplaudiram, e Lola dignou se sorrir. Inclinou se e disse: — Uma canção da «Ópera de Quat sous»: A Noiva do Pirata. «Não gosto dela nesta canção, Margo Lion era bem melhor. Mais misteriosa. Lola é uma racionalista, não tem mistério. E boa de mais. Ela odeia me, mas com um ódio grosseiro, volumoso, sadio, um ódio de homem de bem.» Ouvia distraidamente esses pensamentos leves que corriam como ratos num sótão. Por baixo havia um sono espesso e triste, um mundo espesso que esperava no silêncio. Mathieu cairia nele mais cedo ou mais tarde. Viu Marcelle, viu lhe a boca severa e os olhos muito abertos: «Casa com ela, falso boémio, casa com ela, estás na idade da razão, deves casar.» Un navire de baut bord Trent' canons au sabord Entrera dans lê port.

A IDADE DA RAZÃO x «Basta! Basta! Arranjarei o dinheiro, terei de o arranjar ou casarei com ela, pronto, não sou um ser abjecto, mas hoje, esta noite pelo menos, que me deixem em paz, quero esquecer. Marcelle não se esquece, está no quarto, deitada na cama, lembra se de tudo, vê me, ouve os rumores do seu corpo. E que importa? Usará o meu nome, terá a minha vida inteira, mas que me deixe esta noite só para mim.» Voltou se para Ivich, lançou se ao seu encontro, ela sorriu lhe, mas ele deu com o nariz numa muralha de vidro enquanto aplaudiam. — Mais uma! Mais uma! — gritavam. Lola não ligou aos pedidos; tinha outro número às duas horas de madrugada, poupava se. Saudou duas vezes e caminhou na direcção de Ivich. Algumas cabeças voltaram se para a mesa de Mathieu. Mathieu e Boris levantaram se. — Boa noite, querida Ivich. Como está? — Boa noite, Lola — disse Ivich, de uma maneira indolente. Lola acariciou o queixo de Boris, com delicadeza. — Boa noite, crápula. A sua voz calma e grave dava à palavra «crápula» um tom de dignidade. Dir se ia que a escolhera a dedo entre as palavras ridículas e patéticas das suas canções. — Boa noite, minha senhora — disse Mathieu. — Ah! — respondeu ela —, também está aqui! Levantaram se. Lola olhou para Boris. Parecia com pletamente à vontade. — Disseram me que patearam Ellinor? — Estávamos a falar disso. — Foi chorar ao meu camarim. Sarrunyan está furioso, é a terceira vez em oito dias. — E vai despedi la? — perguntou Boris, com ar inquieto. — Estava com vontade; ela não tem contrato. Eu disse lhe: se ela sair, eu saio também. — Que é que ele disse? — Disse que ficasse mais uma semana. Percorreu a sala com o olhar e afirmou em voz alta: — É um mau público, o desta noite. — Pois eu não diria o mesmo — observou Boris. A vizinha de Ivich, que devorava Lola imprudentemente com os olhos, estremeceu. Mathieu teve vontade de rir. Achava Lola muito simpática. — É porque tu não estás habituado — disse Lola. — Quando entrei, logo vi que acabavam de se portar como idiotas, pareciam aborrecidos. Se a rapariga perder o lugar, só lhe resta o trottoir. Ivich ergueu a cabeça bruscamente, parecia desvairada. — Que se prostitua — disse com violência —, tanto me faz, e isso convém lhe mais do que a dança.

Esforçava se por manter a cabeça direita e conservar abertos os olhos baços e rosados. Perdeu um pouco a segurança e acrescentou, conciliadora: — Naturalmente, compreendo que ela precise de ganhar a vida. Ninguém respondeu, e Mathieu sofreu por ela. Devia ser difícil manter a cabeça direita. Lola olhava a placidamente. Como se pensasse: «Menina rica.» Ivich teve um risinho. — Eu não preciso de dançar — disse, com um ar malicioso. Mas o riso apagou se e a cabeça caiu lhe. — Que é que ela tem? — disse Boris, tranquilamente. Lola contemplou a cabeça de Ivich, com curiosidade. Passado um bocado, estendeu a mão gorda, agarrou Ivich pêlos cabelos e levantou lhe a cabeça. Parecia uma enfermeira. — Que é que aconteceu? Bebeu de mais? Afastava, como uma cortina, os cachos louros de Ivich, pondo a nu as faces pálidas. Ivich entreabria os olhos amortecidos e deixava a cabeça indinar se para trás. «Vai vomitar», pensou Mathieu, sem se perturbar. Lola dava puxões nos cabelos de Ivich. — Abra os olhos, vamos, abra os olhos, olhe para mini. Os olhos de Ivich arregalaram se. Brilhavam de ódio. — Estou a olhar para si — disse com uma voz cortante. — Estou a olhar. — Ah! — observou Lola —, não está tão bêbeda como isso. Largou os cabelos de Ivich. Ivich levantou vivamente as mãos, arranjou os caracóis sobre o rosto, parecia modelar uma máscara, e na verdade o rosto triangular apareceu sob os dedos, mas em volta da boca e dos olhos ficou qualquer coisa de pastoso e gasto. Ficou um momento imóvel, com o ar intimidado dum sonâmbulo, enquanto a orquestra tocava um slow. — Vamos dançar — disse Lola. Boris levantou se e começaram a dançar. Mathieu seguiu os com os olhos, não tinha vontade de falar. — Essa mulher censura me — disse Ivich, sombria. — Lola? — Não, a minha vizinha. Ela censura me. Mathieu não respondeu. Ivich continuou. — Queria tanto divertir me esta noite... e afinal... Detesto ganhar champanhe! «Deve detestar me também porque a fiz beber!» Viu no entanto, com surpresa, que ela pegava na garrafa e enchia novamente a taça. — Que está a fazer? — Acho que não bebi o suficiente. Há um estado que precisamos de atingir, depois sentimo nos bem. Mathieu pensou que devia tê la impedido de beber, mas não se

mexeu. Ivich levou a taça aos lábios e fez novamente uma careta. — Como é mau! — disse pousando a taça. Boris e Lola passaram perto da mesa. Riam. — Como vai isso? — gritou Lola. — Agora muito bem — disse Ivich com um sorriso amável. Tomou de novo a taça e esvaziou a de um trago, sem despregar os olhos de Lola. Lola devolveu lhe o sorriso, e o par afastou se a dançar. Ivich parecia fascinada. — Ela aperta se contra ele — disse com uma voz quase imperceptível. — É... é ridículo. Tem uma cara de fera. «Está com ciúmes», pensou Mathieu, «mas de quem?» Estava semiembriagada, sorria com uma expressão maníaca, interessada em Boris e Lola, e não lhe dava a menor atenção, apenas lhe servia de pretexto para falar em voz alta. Os sorrisos, os gestos, todas as palavras que dizia, endereçava os a ela própria através dele. «Isto devia ser me insuportável», pensou Mathieu, «mas deixa me completamente indiferente.» — Vamos dançar! — disse bruscamente Ivich. Mathieu sobressaltou se. — Mas não gosta de dançar comigo. — Não faz mal, estou bêbeda. Levantou se cambaleando, quase a cair, e segurou se à mesa. Mathieu tomou a nos braços e arrastou a. Entraram num banho de vapor, a multidão fechou se sobre eles, sombria e perfumada. Durante um segundo, Mathieu sentiu se perdido, mas depressa ficou senhor de si, marcando o passo atrás de um negro. Estava só; logo aos primeiros acordes, Ivich levantara voo, já não a sentia. — Como é leve! Baixou os olhos e viu uma porção de pés! «Há quem dance pior do que eu», pensou. Segurava Ivich a certa distância e não a olhava. — Dança correctamente — disse ela —, mas vê se que não tem prazer nisso. — Dançar intimida me — disse Mathieu. Sorriu. — Você é que é espantosa. Há pouco, mal podia andar, e agora dança como uma profissional. — Posso dançar completamente bêbeda — disse Ivich. — Posso dançar a noite inteira, nunca me canso. — Gostava de ser assim. — Nunca o conseguirá. — Bem sei. Ivich olhava em volta, com nervosismo. — Já não vejo a fera. — Lola? À esquerda, atrás de si. — Vamos para lá.

a fim de dar lugar à orquestra argentina. Nem Boris nem Lola os tinham visto chegar. Acrescentou maldosamente. — E agora? — perguntou Mathieu. mostrando os dentes: — Não tenha receio. — Você estava magnífico — disse Boris a Mathieu —. Ivich não respondeu. — Dança admiravelmente — disse para Ivich.Deram um encontrão num casal magricela. — São. não fujas! Porque é que me chamas assim? Ivich não respondeu. Lola já estava sentada. — Olá. — Percebeste porque é que ela me chamou Pequeno Polegar? — Parece me que sim — disse Lola. pensei que nunca dançasse. — Eu guio. J E A N P AUL SARTRE Lola fechava os olhos: as pálpebras eram duas manchas azuis sobre o rosto duro. guio como um homem. perdido numa solidão angélica. de maneira a ficar ela própria de costas para Boris. seco e sufocante. Boris arregalou os olhos. Ivich beliscou o cotovelo do irmão. Às primeiras notas do tango. — Venha — disse com voz rouca. Fez se um silêncio difícil. — Fiquemos aqui: já não há espaço. Ivich emudecera. arrastava Mathieu. — Não sei guiar — respondeu Lola. e a mulher deitou lhe um olhar raivoso. Quando chegaram muito perto. solitária e reivindicadora. . de olhos fixos no irmão e em Lola. Boris e Lola aproximaram se às voltas. Ivich. — Divirto me loucamente — disse Ivich. Lola abrira os olhos. Ivich tornara se quase pesada. IDADE DA RAZÃO — Forte como é. O homem pediu desculpas. Mathieu via lhe apenas uma ponta da orelha entre dois caracóis. Ivich abraçou brutalmente Lola e empurrou a para o meio da sala. Boris murmurou ainda algumas palavras. — São cómicas — disse Boris enchendo o cachimbo. mas o ruído dos aplausos abafou lhe a voz. Ivich dirigiu se para Lola. Boris sorria. Pequeno Polegar. e ninguém tinha vontade de falar. Um pequenino céu local formara se por cima das suas cabeças. nem sequer dançava. os negros apressavam se a pôr em ordem os instrumentos. Ivich e Mathieu voltaram para a mesa. fez Mathieu dar meia volta. As lâmpadas acenderam se de novo. com a cabeça inclinada para trás. — Eh! Ivich. Levantaram se. O jazz calara se. fixava em Lola um olhar pesado. redondo. devia dedicar se de preferência à dança acrobática. — Foi a sua irmã que quis.

«e eu nunca tenho nada para lhe dizer». — Ela não tira os olhos de si. afinal são todas iguais. — Assim não. há de ver e vai ficar admirado. — Não é isso — disse Boris rindo. as dançarinas. Esfregava as mãos.. — A loura cheia de pérolas? — São falsas. Pousou o cachimbo e disse gravemente: — Aliás. surpreendido. era engraçada. abriu o e colocou o perto do copo. as cantoras. À direita. — Que tal? — Assim. — Está a ver estas manchas escuras? O tipo que ma vendeu garantiu que eram manchas de sangue. Ter uma é ter todas.Lola. — Não é isso. Parecia uma rapa riguinha. terceira mesa — disse Boris. mas as prostitutas. pensou. que tinha um ar distante. — É uma navalha espanhola — explicou — com travão de segurança. sombrio: — Era de prata. tinha se drogado. — É uma arma de caide — disse. Mathieu pegou delicadamente no canivete e tentou abri lo. . J E A N P AUL SARTRE Calaram se. — Que vai fazer? — Nada — disse ele. Lola estava louca. deslizando sobre um mar sombrio. — Hum! — disse Mathieu. — Há de ver. pode magoar se. «Está contente porque está a meu lado». com remorsos. Cuidado. quando tiver rompido com Lola. ela está a olhar para nós. cuidado. é uma mulher comprometida. Desviou o olhar e viu no rosto de Boris uma satisfação ingénua que o magoou. com desprezo —. Mathieu olhou de esguelha para a rapariga alta e bela.. — Acredito. — Você está a ficar muito puritano. assim. — Olhe para aquela mulher que acaba de chegar. Não sabia que era tão alta. Mathieu contemplava a cabeça trágica de Lola ao longe. deu me uma cigarreira. Além disso. mandou o empregado levá la daqui fora. não sou como você. Voltou a pegar no canivete. Viverei como um monge. — Conheci a terça feira passada. queria a todo o instante convidar me para dançar. — E que tem isso? — indagou Mathieu. — Olhe — disse Boris. incrustada de pedras. sou um casto. Acrescentou. principalmente. Tirou do bolso um enorme canivete de cabo de chifre e pousou o sobre a mesa.

— No dia l de Julho. — Olhe... Acho que deve ser divertido. Trinta e cinco anos e ares de querubim. está demasiado preso a Lola. é um desgraçado. e pensa: «Dormi com esta mulher ontem à noite. — Sim. Dança no Alcazar. não acha? Olhe bem aquele focinho. — Mas na gostava de me tratar. Algumas. porque tem sempre razão. pode esperar pêlos charutos e pelo navio. isso não. — Não acha uma injúria formidável: o senhor é um medíocre!? — Não é má. trazem o nome no Vogue. Acho que não se devem ultrapassar os trinta. você há de ser assim aos trinta e cinco anos. — Quero confessar lhe tudo — disse com ar confuso. ela está a sorrir lhe agora — disse Mathieu. já terei morrido há muito. — Ou então: o senhor é um zero! — Não. de boa vontade. — Tem razão — disse... Vou virar as costas. de repente. Que lata! Pura vaidade.satisfeito. E então? — Não me incomodo com isso — disse Boris. Você nunca pensou em acabar. Ia Comtesse de Rocamadour. — É no peito que você me faz mal — explicou Boris. — Já sei — uma vez Boris ferira as gengivas com a escova e cuspira sangue —. Mme. — Com trinta e cinco — disse Boris secamente —. enfraqueceu a sua posição. Mathieu disse: — Isso não acaba tão depressa. Boris reconheceu o. — E você um medíocre! O rosto iluminou se lhe. É bonito. — Não pode tomar partido. fica desvairado. às vezes.» Deve sentir se uma certa emoção. cuidadosamente. furioso e divertido ao mesmo tempo —. olha as fotografia e vê. já sei. — Cale se — disse Boris. — Estou tuberculoso. Depois . porquê? — Não sei. cinco charutos de Havana e aquele navio dentro da garrafa que vimos na Rua de Seine. — Olha. — Eu queria ter uma mulher da alta sociedade. Já me deve cem francos. Aposta todos os meses que vai acabar no \ mês seguinte e perde sempre. quer roubar me Lola porque não gosta dela. — Agrada lhe dizer isso. — Ora. Quer apostar? / — Não. não. — Quem é o tipo que está com ela? — Um amigo. Imagine! Você compra o Vogue. um binóculo de corrida. com os seis perdigueiros. J E A N P AUL SARTRE Acendeu de novo o cachimbo. sem se perturbar. devem ter uns modos! E depois é lisonjeiro. — E superior às suas forças — continuou Mathieu. — Você é odioso. — Eu sei que não paga as suas dívidas de honra.

e ficar nessa idade o resto da vida. Olhou para Mathieu e acrescentou. comprar acções. J E A N P AUL SARTRE — Se eu quisesse o quê? — Nada. Estava a pensar que é absurdo. desolado. — Lá isso é verdade. — Merda — disse Boris.tornamo nos uma ficha inútil.» Só ele. eu preciso é de cinco mil. jogar na Bolsa. De qualquer maneira. Mathieu encarou o com uma simpatia escandalizada. — Não quero pedir a Lola. irritado. mas olhava Mathieu com uma solicitude inquieta. Boris riu. não precisava de pedir emprestado. — Mas juro lhe que ela não sabe o que lhe há de fazer. — Se você quisesse. «ele sabe ser novo. Boris corara. Seria agradável. — Você defende se mal — disse Boris com severidade. no meio daquela gente toda. — Tem um ar muito chateado — disse Boris. cheio de confusão. Se se tratasse de uma conta no banco. Estão lá. talvez pudesse ter falta dele. naquela cadeira. Mas tem sete mil francos em casa há quatro meses. Lola está cheia de dinheiro e não sabe o que lhe há de fazer. Não o suporta. A juventude era para Boris uma qualidade perecível e gratuita de que era preciso tirar proveito cinicamente e uma virtude moral de que se devia mostrar digno. naquele dancing. já nada se vale. — Eu gostava de ter dois anos a mais.. depois dos trinta já se está morto. — Não digo isso de si.. No fundo de uma mala. nem sequer teve tempo de depositá los no banco. . Era ainda mais: uma justificação. estava realmente ali. porque ela não me suporta. — E o seu irmão? — Não quer. Depois dos trinta. A — Bem sei — disse Mathieu. — Não quero pedir nada a Lola. talvez. — Desculpe! O seu amigo Daniel não lhos empresta? — Não pode. pensou Mathieu. No fundo. Boris assobiou com um ar entendido. embaraçado. — Se tivesse os seus vencimentos. — Nota se isso? — E de que maneira! — Dificuldades de dinheiro. não é tão estúpido como isso viver a mocidade a fundo até aos trinta e morrer. Mathieu estremeceu. — Mas tem razão. — Não está a perceber — disse Mathieu. não tocou neles. Quer cem francos do barman? — Obrigado. — acrescentou. «Que importa».

e o sangue subiu lhe às faces. O canivete caiu. é bela! — E o corpo! Como é comovente aquele rosto devastado e o corpo amadurecido. pensou. s — Es um monstro. entre dentes. Cruzava e descruzava as pernas. Boris abriu os dedos. A — Que é isso? — perguntou Lola. quero beber. — Quer dançar? J E A N P AUL SARTRE — Não — respondeu Ivich —. — Ela é simpática — disse Mathieu. para te fazer andar direita. — Uma navalha espanhola — disse Boris —. A orquestra iniciara outro tango. uma fêmea. Mathieu sentia se perturbado. não faça isso — disse Mathieu com vivacidade —. não. Boris não respondeu. com orgulho: — Eu intimidava a. Boris levantou a arma e pousou a sobre a mesa. Virou se para Boris. Você está chateado por causa de cinco mil francos. Encheu a taça por . Acrescentou. distraidamente. Ivich sentou se ao lado dele. O rosto iluminou se lhe e acrescentou com um sorriso feliz: — Tu és gentil. Boris olhou para Lola. ela acabaria por saber.» Estava envergonhadíssimo e covardemente aliviado. ia dizer lhe: «Peça o dinheiro a Lola». A sério — insistiu —. — Ela é formidável — disse com a sua voz enrou quecida. mas não conseguiu articular as palavras. enfiou se no chão e o cabo pôs se a vibrar. — Vem dançar — disse. — Sim. e Lola sorria lhe. Ivich e Lola voltaram aos seus lugares. Mathieu acompanhava Boris e Lola com o olhar. Sentia o tempo voar e tinha a impressão de que ela ia murchar nos meus braços. e Mathieu pensou: «Ele vai pedir o dinheiro. E se os pedisse para mini? — Não. Parecia gracejar. tem nos à mão e não lhos quer pegar. nervosamente. Boris ainda não tocara no assunto. «fazer de cavalheiro à custa de Marcelle». ser me ia desagradável que lhos pedisse. de ponta para baixo. apesar de tudo. É uma mulher horrível. — Bem vi — disse Mathieu. Boris levantou se. Pegou no canivete com dois dedos e levantou o devagar à altura da fronte. «Sou ignóbil».— Está a ver! — Não deixa de ser estúpido. sombrio. — Vocês matam me. — Simpática? Ah!.

e é verdade que ele quer comprar uma garagem. Ela conhece o. — Não — disse Boris —. convida a. — Não faça asneiras — disse Mathieu. Os ombros de um negro gigantesco esconderam Ihe o rosto de Lola. a expressão rancorosa e acovardada dava lhe um ar de semelhança com a irmã. A multidão dispersou. — Não sei. e Boris apareceu. o que sei é que vai me pagar. inconsciente. falava sem olhar para Lola. Bem sabe que o deixei pedir. «ele já está a falar». estou exausta. — Oh!. — Ela não quer? — indagou Mathieu. Mathieu pegou na navalha . Ora. Acrescentou. Estava pálido. — Tenha calma — advertiu Mathieu. — Não deve ter acreditado. Ivich recuava com os olhos virados para o céu. ora — acrescentou com um furor espantado —. querida. A música parou. Ivich levantou se sem mostrar espanto e atirou se ao encontro de Lola.metade e explicou: — É conveniente beber quando se dança. Mathieu sentiu que corava. — Fez uma cara de poucos amigos e disse que precisava do dinheiro. Ela corou ligeiramente e levantou se.. tem de pagar! — Como é que lhe pôs o problema? — Disse que era para um amigo que quer comprar uma garagem. No momento em que começavam a dançar. Ela não compreende! Uma mulher da idade dela. estava irritado com Boris. — Exigiu que eu não falasse. isso é comigo.. Foi inclinar se diante da loura grande. — Ora — disse Boris com ar hostil —. Disse lhe o nome: Picard. Boris tomou um ar sério. Boris inclinou se para Ivich: — Faz me um favor. Uma semelhança perturbadora e desagradável. e os dançarinos abriam passagem para lhe demonstrar respeito. — Seria parvo se me zangasse. mas por baixo do sorriso estava atenta. Lola não dizia nada. majestosa. A loura era toda trejeitos. não parecia satisfeita. que quer um tipo como eu. pensou Mathieu.. porque a dança não deixa ficar embriagado e o álcool sustenta. Porque recusou? DADE DA RAZÃO — Não sei — disse Boris. Parlamentaram um minuto e Ivich levou a para a sala. asperamente: — É fantástico como me divirto aqui. Vou acabar bem.. a primeira vez que lhe peço alguma coisa. que ressurgiu com um ar fechado. Lola e Ivich passaram perto de Mathieu. provocante e mau. Lola mantinha se calma. «Pronto». erguendo os ombros. e já. — Ficou aborrecido comigo? — indagou Boris. avançava. Lola seguia o. não. mas há de pagar. não — disse Lola —.

fiz amor. a Avenida du Maine e Paris inteiro em volta de mini.» Olhava aqueles rostos avermelhados.» Pensou: «Tudo está claro. espero que eu venha a rebentar de calor e a dizer: "Sim. o meu apartamento. Aliás. estava se marimbando. estou enfiado lá dentro. sou eu que me espero nas encruzilhadas. e depois outros países. perfeitamente natural. tão rigorosamente pessoais quanto uma escova de dentes ou uma lâmina. aquelas luas ruivas que deslizavam sobre coxins de nuvens. descontrai te. a França sulcada de estradas de sentido único. «Bocejei. o quarto de Marcelle. nua. «Lentamente. espero a minha chegada. vestido de preto. e alguma coisa se fechou dentro dele. viverá na minha casa. não te irrites. fora. das minhas preguiças. um buraquinho forrado de cetim cor de rosa. Sobrava um pouco de champanhe na taça de Ivich. «Todos têm vidas. como respirar. Estava vazia. e eu no meio. pegou na garrfa e inclinou a por cima do copo.» J E A N P AUL SARTRE «Uma vida. a Porta de Clignancourt em frente de mini e no meio a Rua Ver DADE DA RAZÃO cingetorix. aceito a como esposa. através das ruas de Paris. Hei de vê la todos os dias da minha vida. como os objectos de toilette que não se emprestam. a Torre Eiffel à esquerda. Pensava em Marcelle: «Marcelle minha mulher». Enganava me. o Panteão à direita. uma pequena espera obstinada que amadurecia. Eu sabia que cada um tinha a sua vida. Elas estendem se através dos muros do dancing. E em volta de Paris.» Pensava: «Não fazendo nada. só porque a desço sempre. norte na frente. e mares tingidos de azul ou de preto. e Marcelle está lá dentro. para além de si próprio.» Era natural. pensou. a Alemanha. segreguei a minha concha. sussurrando. li. num sentido."» Sacudiu violentamente a cabeça. sul atrás. a distâncias fixas do meu quarto. Todos. Sentia o por todos os lados. sou eu que me espero sentado numa poltrona vermelha. «Vai haver sangue». no futuro. entrecruzam se. Em minha casa. No centro. tenho uma vida. Eu sabia. «Minha mulher.pela lâmina e pôs se a bater com o cabo na mesa. mas a vida manteve se firme. à minha espera. sê natural. minha mulher. Sou eu essas esperas. pela França.» Pousou a navalha na mesa. entre as poltronas de couro verde. «Não te incomodes. escapo. a Itália — a Espanha é branca porque não fui bater me por ela — e as cidades redondas. o Mediterrâneo azul. na grande sala da mairie do XIV. agora acabou. com um colarinho duro. o mar do Norte preto. a Mancha cor de café com leite. E isso marcava! Cada um dos meus gestos suscitava. bebeu o. como engolir a própria saliva. a Rua da Gaite. mas com segurança. ignorava a existência da minha. ao sabor dos meus humores. cortam se e permanecem. Cada um a sua. .

onde fora examinado pelo serviço de recruta J E A N P AUL SARTRE mento em Outubro de 1923. Viu Ivich. contemplava o falso boémio. um pouco de ar quente apenas. «Uma vida desdentada.» Dançava. I ercorria a com os olhos. Pairava lá em cima. Mesmo se eu apanhasse o comboio.» «A minha vida. a três mil quilómetros do marroquino e do seu turbante. Eu continuaria sentado no meu quarto. No meu quarto para sempre. Como se ele nunca tivesse existido. era um olhar. se fosse passar as férias a Marrocos e chegasse de repente a Marráquexe. um cheiro de poeira e de violetas. que não esteve na Espanha. vagueio. nunca entrará na minha concha. o barco. Se fosse passear nas praças. por onde ando levo a minha concha comigo. sentia uma dor humilde e refrescante. Toronto. Que fazer? Quebrar a concha? É fácil de dizer. Nunca mordi.» Envolvia o. incríveis como marcos quilométricos. se agarrasse no ombro de um árabe para através dele tocar em Marráquexe. E aliás o que me restaria? Uma pequena massa viscosa que se arrastaria na poeira deixando atrás de si uma esteira brilhante. Mi caballo murió. passeio. agora. no meu quarto. aonde ia casar com Marcelle no mês de Agosto ou Setembro de 1938. ainda estaria em casa.» E de repente uma consciência. o intelectual . farto me de viagens: férias de universitário. Absolutamente nada. que não aderiu ao Partido Comunista. Ela dançava. pôs se a sobrevoar o seu próprio corpo empoeirado. Vou me embora. à mairie do XIV.» Sorriu. esse árabe estaria em Marráquexe.» Ergueu os olhos e viu Lola. minha querida liberdade. Para sempre o ex amante de Marcelle e. A orquestra tocava um tango argentino que Mathieu conhecia bem. uma insipidez tenaz. estava embriagada. uma consciência sem eu.Tombuctu. entre os meus livros. pensou. sem idade. o professor. uma consciência pura. Kazan. esperava. Nijni Novgorod. guardava me para mais tarde — e acabo de perceber que já não tenho dentes. tranquilo e pensativo como escolhi ser. «Levei uma vida desdentada». fico em casa. não me aproximo um centímetro sequer de Marráquexe ou de Tombuctu. Era uma estranha coisa sem começo nem fim e que no entanto não era infinita. aquele que não aprendeu inglês. a sua vida. de uma mairie à outra. o autocarro. o seu marido. o pequeno burguês preso às suas comodidades. contemplou com ternura o corpinho rancoroso e frágil em que a sua liberdade se atolara. perdida. Aquela tinha um sentido vago e hesitante como as coisas naturais. Para sempre. de cabeça inclinada para trás. eu não. não pensava em Mathieu. sem futuro: «Não tem concha. ainda estaria no meu quarto. da mairie do XVIII. «Minha querida Ivich. Tinha um sorriso mau nos lábios. «Nunca será minha. Ando. mas olhava Ivich e parecia lhe que ouvia aquela melodia triste e rude pela primeira vez.

— Nunca mais virá — disse com um sorriso divertido. Lola sorriu lhe e atravessou a sala. sobre o rosto de Ivich. Mexeu dentro da carteira. o sonhador abstracto rodeado por uma vida flácida. e depois?» Boris voltou ao seu lugar. Boris olhou para o sapato direito. Sarrunyan aproximou se de Lola. Boris fixou em Lola um olhar de raiva e admiração. não me vou embora. inchava.falhado. J E A N P AUL SARTRE — Vem — disse para o companheiro. no fundo da sua vida. um lamento sombrio. dando às ancas do mesmo modo. não parecia muito orgulhoso de si. que se abanava. com negligência. os negros voltavam com os seus instrumentos. Este parecia admirado. Mi caballo murió. — Que é que ela fez? Boris franziu as sobrancelhas e estremeceu sem responder. Ele afastou se. Se aquilo pudesse durar. Mathieu olhou em volta da sala e descobriu Lola junto dos músicos falando com Sarrunyan. olhava a nota com um ar de censura. Os cantos da boca tremiam lhe.» Mas não era solidária com ninguém. seco e duro. e todos olharam. eis tudo: «Um êxtase a mais. tinha um ar estranho. — Não — disse Sarrunyan —. Mathieu encontrou se a sós consigo mesmo. E ela pensava: «Este tipo está lixado. nem sequer se aceitava. — Obrigada — respondeu Lola —. Uma consciência vermelha. assobiando baixinho. Mathieu sobressaltou se. a loura deu Ihe o braço e saíram os dois. A consciência inchava. — É de mais — gritou a loura —. O companheiro dela levantara se. Estava só. depois virou se bruscamente . com um ar calmo e decidido. Mas não podia durar. Sarrunyan inclinara se obsequiosamente para a loura. A orquestra argentina deixava a sala. e fez se um silêncio pesado. É uma puta. a orquestra calou se. com afectação. não pensei que fosse tão fácil. ela cansou se. de cabeça erguida. Falava lhe em voz baixa. de se desesperar de verdade pêlos Espanhóis. A loura levantou se de repente. — Safa! — O quê? — A loura. não têm o direito. Depois deitou um olhar matreiro para a grande loura. Ivich voltou a sentar se perto de Mathieu... Já nem se julgava. Quando se sentou. era Mathieu. de resolver qualquer coisa. era capaz de tudo. sou eu que a convido. desvairada. efémera e desolada. como um maïtre d'hotel que espera ordens. «não revolucionário revoltado». bem o merece. Depois. sofredora. Disse a Mathieu. girava numa bolha giratória. A loura amarrotou uma nota de cem francos e atirou a para a mesa. ruidosa de música.

Não pensava em nada. Deve ter encontrado Picard mais tarde. — Ele diz que é para Picard. Mathieu via duas grandes íris verdes com pupilas minúsculas. sem deixar de sorrir.para Ivich. vacilante. Ivich e Boris dan DADE DA RAZÃO cavam. com indiferença. — Acabo de recusar — disse Lola. Lola voltara. incrédula. «Já tem a sua conta». deve ter passado pelo hotel de Boris. pensou. Pensou: «Está na hora da droga. Lola contemplou os calmamente. Ela abriu os olhos. Uma espécie de queixa rouca o fez estremecer. — Foi o que me disse. — Vem dançar. Os olhos continuavam lhe inquietos. — Não. — Picard trabalha durante o dia todo em Argenteuil. Mathieu viu a dar a volta à sala e desaparecer. — E não lhe disse nada? — Não vejo nada de extraordinário nisso. sorria. — Sabia que Boris precisava de cinco mil francos? — Não — disse ele. Não o encontrou e depois deve tê lo visto no Bulevar . — Então? — Lola encolheu os ombros. casco para o ar como um velho navio. — Precisam de mim — respondeu Lola. — Desculpe. Mas quando se afastaram. Passou algum tempo. — Não sabia. apenas um pouco menos impiedosos. — Você faz o que quer nesta boite — disse. Precisava de cinco mil francos? Lola continuava a olhá lo. Felizmente ela levantou se instantes depois. Mathieu não sabia que lhe havia de dizer.» Ele estava só. lá pelas três horas. Mathieu sorriu lhe. J E A N P AUL SARTRE Mathieu disse com indiferença: — Picard precisava de dinheiro. e ela tamborilava nervosamente na mesa. tinha os olhos cerrados. puros como uma melodia. Mathieu pôs se a rir. Pensei que fosse para si. Virou a cabeça e ficou a olhar para os pés. — Sim. — Que estranho! Dava a impressão de que ela ia soçobrar. — Esta gente vem aqui por minha causa. — Esteve em casa à tarde? — perguntou ela. enquanto se levantavam. ou então que a boca se ia rasgar e largar um grito enorme. o rosto dela sulcou se de repente. — Ele sabe que nunca tenho um tostão. — Então não estava ao corrente — perguntou Lola.

mas por baixo daquela cólera. não vale a pena fazer cerimónia. — E possível. Hoje eu nem queria vir. uma prova. — Sim. Mathieu adivinhava uma grande perturbação. — Quem é que lhe disse isso? — Admira se de que o saiba? — perguntou Lola. «Ela ficaria zangada com ele e ele transformar se ia em meu cúmplice. A não ser que alguém lhe tenha soprado a ideia. Lola encarou o ironicamente. Fez se silêncio e depois perguntou repentinamente: — Como explica que haja sempre cenas quando vem aqui? — Não sei. — Ah! — disse Lola. — Acredita que se preocupa com elas? — Não. que tem apenas trezentos francos por mês de mesada? — Então. Inventou essa história de Picard. tremiam e voltavam a cair. Mas há também quem acredite fazer lhe bem dando lhe volta à cabeça..Saint Michel. com frieza. Finalmente disse: . se é para mim que diz isso. — Que ideia! — Ivich passa a vida a dizer lhe que eu sou sovina. Basta ver a cara das idiotas que andam por aqui quando estamos juntos. Mas não era possível por causa de Boris. Ou então faz me perguntas com ar de quem não sabe o que quer. Tinha vontade de dizer: «O dinheiro era para mim. está enganada. Imagino que gosta de nós de maneira diferente e que fica irritado quando nos encontra ao mesmo tempo a um e outro. triunfante. Não tenho culpa. Mas eu sei aonde ele quer chegar.» Lola tamborilava na mesa com as unhas escarlates. — Mas quem haveria de soprar? — Não sei. De longe. exasperado. não sei — disse Mathieu. Olhava Mathieu com uma insistência inquieta. A — E então? — Quis ver se eu era agarrada. Aliás eu já o sinto só pela maneira de me olhar. Não pensem que podem falar mal de mim diante dele sem que mo conte. — E um tipo leal. Lola desviou o olhar e perguntou: — Não seria uma prova? — Uma prova? — repetiu Mathieu. Lola olhava diante de si com uma expressão sombria e tensa.» Assim teria acabado imediatamente com aquilo. Não falta quem pense que já estou velha e que ele é um miúdo. os cantos dos lábios levantaram se lhe bruscamente. Tinha vontade de rir. por acaso. quer ficar com a consciência limpa. Não sabe resistir. admirado. — Pensa que Picard iria pedir cinco mil francos a Boris. — Ouça — disse Mathieu —..

Boris e Ivich dançavam. pensativamente — não é preciso que mo digam. Viu no amor de Lola. — continuou. faça o que entender. Lola detestava Mathieu e no entanto aquilo que lhe dizia agora nunca o tinha dito a ninguém. Olhava Boris e Ivich. — Acho que ele gosta de si. «É sem dúvida da droga. Mathieu . J E A N P AUL SARTRE — Não pretendo roubá lo — disse ele. Mas sei o tão bem como você. — Pois bem.— Ouça bem. Entretanto.. apesar do ódio. Lola exclamou. — Nós não somos iguais — disse. Lola teve um gesto de desprezo. — Já passei por tudo e não tenho ilusões. não pense nisso. e calaram se sem se reconciliar. — Pensava — disse Lola com um ar firme. mas o que lhe digo é que esse miúdo é a minha última oportunidade. e isso acontecerá por certo bem mais cedo do que espero. Quando se cansar de mim.. com uma violência inquieta: — Devia saber que ele gosta de mim! Deve ter lho dito.. Entre ambos.. — Que quer dizer com isso? — Olhe para nós e olhe para eles. Talvez o percebessem vagamente. poderá largar me. algo viscoso e voraz. Lola volveu para ele os olhos pesados. Mathieu calava se.. Se me interessassem. bem vê que somos iguais. sei que sou uma mulher velha.. havia uma espécie de solidariedade. e tinha vontade de dizer a Lola: «Não nos vamos zangar. Há coisas que lhe posso ensinar — acrescentou num desafio. — E depois.» Mas aquela semelhança desgostava o ligeiramente. Tenho a certeza de que não lhe faço mal. Mas é por isso que posso ajudá lo. é feliz comigo quando não lhe metem coisas na cabeça. Mathieu encolheu os ombros. eram cruéis sem o perceber. — Eu pensava: ele acha se com responsabilidade porque é professor. Olhavam ambos Boris e Ivich. Depois disso. murmurou: A — Diz me isso a mim. — Eu sei. — Porquê tão bem como eu? — Somos iguais. achava tudo muito certo. «Desabafa». que dançavam. — Não quero que mo roubem. ele diz lhe tudo.. e Mathieu compreendeu que não a convencia. Mas não quero que mo roubem. pensou Mathieu.. Calou se. apesar da violência e da pureza. Ela parecia escolher as palavras. quem lhe diz que sou velha de mais para ele? Ele gosta de mim tal como sou. As suas relações com Boris não me interessam..» Mas a outra coisa.. Mathieu não respondeu logo.

e Boris acompanhou a de mau humor. será uma distracção. — Está. «Devem pensar que somos amantes». — Já percebi — disse ela. — Voltamos já. Ela . pões me doida. porque aquilo já não era para a sua idade. Ivich. Boris pareceu não se sentir à vontade. com a cabeça inclinada como para suster uma hemorragia nasal. — Não. Mathieu calou se. quero falar contigo. — Naturalmente! — Que é que tem? — disse Ivich. Lola ameaçava e implorava: «Boris. pensou. indignada. já disse. aliás você não está tão embriagada como isso! — Estou for mi da vel men te bêbeda — disse Ivich com satisfação. com abandono. — Bom. Mathieu pensou que ela ia cair. A testa de Mathieu suava. Em seguida. é uma ideia fixa tomar outra. mas ele não se atrevia a enxugá la. — Não estou zangado. Dançaremos. Lola afastou se. Não dançavam. Um vestido preto comprido. já estou quase na hora de cantar.estava sentado ao lado de Lola.» Boris e Ivich voltaram. Depois da primeira pitada. Lola levantou se com dificuldade. respiraria duas pitadas de pó branco. — É verdade que estou bêbeda — disse. Desculpe. — Não — disse Lola —. tinha vergonha de transpirar diante de Ivich. — Se tiver de ficar em Laon a vida inteira. Ivich deixou se cair na cadeira. — Veio me de repente. Lola passaria para trás do biombo e aí. dando voltas entre as paredes vermelhas. — Não podes falar aqui? — Não. amavelmente. No seu camarim. estou cansada. As pessoas começavam a sair. Lola tomou a droga. uma sala gordurosa e forrada a veludo vermelho. Mathieu não respondeu. — Penso que gostaria de me drogar. Ouviu Lola murmurar para si própria: «Se ao menos tivesse a certeza de que é para Picard. mas apoiou se à mesa e respirou fundo. — Você está zangado porque estou bêbeda. ao dançar. Deviam ser duas horas. Está a censurar me. — Porque se vão embora? — Vão conversar. Aliás. — Estou bêbeda — disse Ivich.» E Boris baixava a cabeça. receoso e obstinado. espera que a orquestra toque. Boris. Vem ao meu camarim. o brilho negro do vestido no espelho e dois lindos braços brancos retorcendo se de desespero. — Vem — disse a Boris —.

Pegou no canivete de Boris pelo cabo. — Essa mulher despreza me. ficara pálida. não pensava em nada. ao meu lado. sob aquelas luzes artificiais. Dissera de manhã: «Tenho horror às mãos húmidas. e isso afigurava se lhe incrível. — O quê? — Este momento.» Já não sabia que fazer das mãos. — Quem? — Essa mulher de preto. Mathieu voltou a cabeça. de olhos esbugalhados. serei ainda mais decente do que você. Percebeu a ruga rancorosa no rosto de Ivich. «Que chatice». Hoje de noite enterro a minha vida de solteira. viver do princípio ao fim um novo dia. Estava naquele estado de exaltação que um incidente qualquer pode transformar em furor. Odeio a decência — gritou repente. você também é decente. pensou Mathieu. peco lhe. de Ivich. Ivich olhou o com uma expressão cortante. Sorriu e afirmou com êxtase: — Brilha como um pequeno diamante. teria dado tudo para não ter havido histórias. Sentia se preguiçoso e covarde. estou a divertir me. os olhos maus e vagos e pensou: «Não devia ter falado. E redondinho. telefonar a Marcelle.» A mulher de preto compreendeu que falavam dela. creio. — Que me importam os exames — disse Ivich. De vez em quando dizia com os seus botões que o Sol se ia levantar dentro em pouco e que teria de recomeçar as suas diligências. Eu sou eterna. — Eu não sou decente. apoiava obstinadamente a lâmina . está suspenso no vácuo como um diamante. — Divirto me muito — disse ela. Sentia se fraco e desanimado. A mulher de preto olhava Ivich pelo canto do olho. J E A N P AUL SARTRE — Então — disse Ivich —. com uma voz de bêbeda. não é verdade! — Acho que sim. estou bêbeda. porque é decente — murmurou Ivich dirigindo se ao canivete. Quando eu ficar dez anos em Laon. — Está a falar comigo. apoiou a lâmina contra o bordo da mesa e divertia se fazendo a curvar se. o marido tinha acordado e olhava Ivich. Estava encostada à cadeira.tinha dançado sem parar. com a minha mãe e o meu pai. É verdade. Mathieu olhou a. Gostaria de permanecer indefinidamente à mesa. Não tenha medo. vou chumbar. ficarei satisfeita. — Que é que essa quer? — disse de repente. — Se chumbar. Ivich. a Sarah. — Cale se. tomou um ar majestoso. Desde que chegou que não pára de me censurar. não tinha nenhum desejo. porém não transpirava.

Estava quieta. para os ombros de Mathieu. e uma pesada gota de sangue caiu sobre a toalha. «o escândalo». A vizinha de Ivich deu um gritinho e pôs se a pestanejar. Quero ver como suporta o sangue. Ivich ouvira com certeza. e Ivich deixou o pegar no canivete. dir se ia o vaivém de um formigueiro. Eu. sem opor resistência. — Ivich — gritou Mathieu —. «Pronto». mais uma indecência para divertir a senhora. Fez se um silêncio pesado e em seguida a mulher de preto voltou se para o marido. O marido olhou. — Que é que há? — perguntou Mathieu. sem se levantar. — Você é doida! Vamos ao toilette fazer um curativo. Ivich olhava para Mathieu com os olhos a brilharem de ódio. Erguera a mão à altura do nariz e examinava a com expressão crítica. maldosamente. venha depressa. — Atreve se a tocar em mini? Acrescentou. — Hum? — Não é culpa dela — continuou a mulher —. — Está a compreender o alcance do que me está a dizer? Mathieu levantou se. A carne abrira se desde o polegar até o mindinho e o sangue gotejava devagar.. pensou Mathieu. Gosto de ver o meu sangue.contra a mesa e forçava a a curvar se. com um riso insultuoso: .. Parecia espiar qualquer coisa. — O meu sangue. com um ar estranho. maníaco e contente ao mesmo tempo. Ivich. peco lhe. JEAN PAUL SARTRE Agarrou Ivich pêlos ombros. inquieto. as suas mãos! Ivich troçava com um ar vago. receoso. Mathieu olhou precipitadamente as mãos de Ivich. mas não disse nada. Segurava o canivete com a mão direita e rasgava a palma esquerda aplicadamente. mas ela desenvencilhou se violentamente. culpados são os que a trazem aqui. Mathieu estava desvairado. O sangue escorria. Ivich tornara se pálida. — Venha. — Parece um pedaço de manteiga. — Basta — disse Mathieu. contemplava os dedos magros de Ivich. — Não compreendo como é possível portar se como essa rapariga — disse. — Nada. e pensava na dor que ela sentia. Quieta de mais. — Acha que ela vai desmaiar? Mathieu estendeu a mão por cima da mesa. ergueu a cabeça. Parecia louca. — É uma sensação muito agradável — disse Ivich. — Um curativo? — Ivich riu. que se enchiam de sangue.

de pé. — Ferimo nos com este canivete. e depois riu também. deseja alguma coisa? A mulher de preto apertava o lenço sobre os lábios. Enfiou o canivete de um golpe na palma da mão e não sentiu quase nada. Duas gotas de sangue caíram no chão. inquieta. estendeu a mão sobre a mesa e disse docemente: — Excessivo? Não. — Aí está — observou a mulher. tinha o rosto completamente mudado. Mathieu arrancou rapidamente o canivete do ferimento e doeu lhe muito. — Meu Deus — exclamou a mulher do toilette —. Atravessaram a sala atrás do empregado. Quando o largou. ah! — exclamou Ivich. Era a opinião pública. tire! — Está a ver? — disse Mathieu. o sangue que escorria em volta da lâmina. À esquerda ouvia se um tumulto ameaçador. Um jogo para meninas nobres. Ivich olhava a mão de Mathieu. sem dizer nada. Ivich levantou se docilmente. Mathieu não lhe dava ouvidos. Mathieu sentiu que empalidecia de raiva. Ivich. — Oh! — disse ela —. Riu tão fortemente que a mão lhe tremeu. Desta vez. secamente. «Brunet tem razão em achar que sou uma criança velha. compungida —. com as mãos feridas levantadas.— Devia ter imaginado que você acharia isto excessivo! Escandaliza se com o facto de que se possa brincar com o próprio sangue. Mas havia nele uma satisfação obstinada e uma má vontade deliciosa. — Como isto me diverte! — disse Ivich. tire. Olhava Ivich. acho isso encantador. — Ah!. o canivete ficou enterrado na carne. Sentia se terno e maciço e tinha medo de desmaiar. há lá tudo quanto é necessário. como foi que fez isso? E o senhor? — Estávamos a brincar com uma faca. Era uma faca da casa? . tanto. era igualmente um desafio a Brunet. pensou.. imagino. Depois fixou Mathieu. lamento. Apontou Mathieu e Ivich. Ivich contemplou o. «Sou um imbecil». tinha visto coisas piores. Era tão cómico que Mathieu deu uma gargalhada. com o cabo para o ar. — Um acidente acontece tão depressa. Não era apenas para enfrentar Ivich que tinha feito o golpe. Disse docemente: — Porque fez isso? — E você? — perguntou Mathieu.. Sentou se de novo. O tumulto ampliou se. à vida. e o empregado acorreu: — Minha senhora. O empregado não se impressionou. — Se quiserem ir ao toilette — propôs —.» Não podia deixar de se sentir satisfeito. cerrando os dentes. a Daniel. — Qualquer pessoa pode fazê lo.

gravemente. — Há pouco? — Sim. — Pois não — respondeu Ivich. respirou um cheiro de desinfectante. é tintura de iodo. — Um pouco de paciência. ligeiramente congestionada. gazes.— Não. — Nunca imaginei que fosse fazer isso — disse Mathieu. J E A N P AUL SARTRE Abriu um armário. — Dói. Ela meneou a cabeça. e metade do corpo desapareceu lhe dentro dele. Pronto! — Vai dizer me que sou indiscreta. alegre. Anteontem. A — Há dias em que não é brincadeira. Mathieu viu um frasco de tintura de iodo. Ele sangrava. depois «Homens». — Não deve ser muito desagradável esta profissão — disse. — Parece me que pensava em mim. Você estava sozinho. — A mistura dos sangues — explicou. Abriu uma lata. depois juntou a palma da mão esquerda à palma ferida de Mathieu. — Faz me doer — gemeu Ivich. tesouras. Mas queria saber em que pensava quando eu estava a dançar com Lola — disse Ivich a Mathieu. Mathieu e Ivich sorriam. . Mathieu apertou lhe a mão sem falar e sentiu uma dor forte. Leu: «Senhoras». Sentia se feliz. — Bem sei. — A minha mão também. A mulher movimentava se em volta de Ivich. vou tratar de tudo. É profundo o corte — disse. tirei lhe um pedaço de vidro da sobrancelha. Ouviu se um ruído molhado. Olhou o chão de ladrilhos brancos.. tive medo por causa dos olhos. — A mulher do toilette saíra do armário. agulhas. A embriaguez de Ivich parecia ter passado. — Ah! estava a estranhar. — Está bem equipada — disse ele. uma senhora atirou um copo à cara de um dos nossos clientes. — Aqui está tudo — disse ela. — O diabo — disse Mathieu.. em letras douradas sobre as portas esmaltadas de cinzento creme. vai arder. agora. encantada! Ela contemplava o com uma expressão de ternura e selvajaria. examinado o ferimento de Ivich. hesitou um instante. e o coração dilatou se lhe. — Bem vê que nem tudo está perdido. — Não se inquiete. quando Boris convidou a loura. tinha a impressão de que uma boca se abria na sua mão.

olhava Ivich. vinguei me. J E A N P AUL SARTRE — Amanhã vou pentear me assim. A mulher corou de prazer. você estava. de pé no meio do palco. ia cantar. fixando um olhar de amador nas mãos deles. — Oh! — disse —. Lola. — Ai! — disse Boris. Mathieu reparou que ela tinha um buço cinzento. — Dê me a sua mão — disse a mulher do toilette para Mathieu. Acabou atirando os cabelos para trás. Olhavam contentes para as mãos enfaixadas.— Eu olhava o. Na mesa estavam duas taças de champanhe meio vazias e uma dúzia de cigarros num maço aberto. — Está zangada? — Olhe para ela! Mathieu olhou. — O quê? — Disse que Picard fora a minha casa e que eu o tinha recebido no meu quarto. Inclinou a cabeça e calou se. — Vai mal. e o largo rosto apareceu inteiramente nu. Pronto! Mathieu sentiu o ardor. — Que derrota — disse Mathieu. a senhora é hábil como uma enfermeira. Parece que lhe tinha dito outra coisa antes. — Vocês magoaram se? — Foi o estupor do canivete — respondeu Ivich. sei lá. — Não — atalhou Ivich rindo —. segurando os caracóis com a mão ferida. — Pronto — disse a mulher do toilette.. mas não prestou atenção.. Mathieu não achou nada para dizer. — Tinha lhe dito que o encontrara no Bulevar Saint Michel. — Cuidado. — Sim — respondeu Ivich —. sou horrivelmente feia. — Parece que corta bem — observou Boris. — Acho que gosto ainda mais dele do que do outro. Fiz uma asneira. — Você é linda — disse. . Se pudesse conservar sempre essa expressão! — Não se pode pensar sempre em si próprio! Ivich riu. Boris esperava os à mesa. — Eu creio que penso sempre em mim. que se penteava desajeitadamente diante do espelho. A mulher de preto e o marido tinham desaparecido. quase bonito. — Obrigado. vai arder. No nosso ofício há muito trabalho delicado. O dancing estava quase vazio. — E Lola? — perguntou Mathieu. E o meu rosto secreto. Tinha um rosto irritado e triste. é natural. Mathieu sentiu um desejo áspero e desesperado. Boris tornou se sombrio. Mathieu pôs dez francos no pires e saíram ambos.

Fora do dancing.» Ela dissera ainda: «Estarei lá antes de si. mas saltar lhe ia por cima. J E A N P AUL SARTRE — Há uma carta para o senhor — disse a porteira. XII «N o Dome às dez horas. Esquecera se de Marcelle. Ele não quer largar o dinheiro. «Vai mudar de penteado».» Eram nove horas. mas não pude mesmo juntar a importância de que necessitas. embaraçava lhe os tornozelos. o dancing cheirava a madrugada. Se fosse necessário. num canto sombrio. Saltou da cama. mas o resto do corpo estava bem disposto. «Bom». «ela disse: "Um pequeno diamante. já não eram seus cúmplices. — Ivich! — disse com ternura. Sorriu. Ivich contemplava com ternura a mão enfaixada. — Não tem de quê. mandaria o dinheiro para a América. porém objectos anónimos de íerro e madeira. num banco. tinha o mesmo rosto mentiroso e triangular de sempre. A rua estava deserta. não pensava em nada. não conseguirei dormir. e deixá la ia atrás de si na pele inútil. imperceptivelmente. «Ela disse também: "Sou eterna. tinha a impressão de estar sentado lá fora. «falei com conhecidos meus. Queres passar por minha casa ao meio dia? Desejaria conversar sobre Daniel». «No Dome às dez. Abriu a torneira do lavatório e mergulhou a cabeça na água. pensou.. escrevia Daniel. Marcelle! Mathieu sentiu um gosto amargo na boca.» A vida caíra lhe aos pés. «Eu também me levanto cedo. «vou vê lo. fora da vida. Acredita que lamento muito. o céu. parecia uma colcha pesada que o envolvia ainda.— Desculpe — disse Mathieu. «Um pequeno diamante». a frescura. Era de Daniel."» Estava feliz. Enfiou a roupa e desceu a escada a assobiar. Doía lhe. a lâmpada. A porteira entregou lhe um sobrescrito amarelo. pensou Mathieu. Viu logo a mão enfaixada. Ela ergueu os olhos para ele. pensava Mathieu. Empurrou as persianas. baixo e cinzento. utensílios: passara a noite num quarto de hotel. A vida parecia lhe fácil. A cama.» Ivich estava lá. O sono.. E depois isto passa.. e os caracóis . Uma verdadeira manhã.» Mathieu acordou."» Lola começou a cantar. já estou habituado. e o calor era menor do que na véspera. a alvorada cinzenta tinham invadido a sala. a sua maldosa pureza. «Meu caro Mathieu». Calaram se. O montículo de gaze branca em cima da cama era a sua mão esquerda. a secretária. A culpa foi minha.. a poltrona verde. era preciso que fosse fácil! Sarah faria com que o médico esperasse alguns dias. mas deve ter encontrado uma solução.

— Nada. teremos muito tempo para pensar nisso. Acrescentou com uma expressão preocupada e envelhecida: — Em casos como este. São nove agora. Uma mulher lavava o chão. — Conseguiu dormir um pouco? — perguntou Mathieu tristemente. mas poder se á experimentar. Sr. — E às duas horas... — De qualquer maneira. Houve um silêncio de que Mathieu se aproveitou para enterrar as recordações nocturnas. Tinha a tez amarelada da manhã. era manhã. — Vê se ala sem saber. teria lá ido passar as suas férias. não se põe um anúncio nos jornais? — Ouça. Não mudara de penteado. Ela percebeu que ele olhava para as mãos enfaixadas. Disse: — Acha que me aceitariam numa loja como caixeira? — Nem pense nisso. e Mathieu não disse mais nada. Retirou lentamente a dela e escondeu a debaixo da mesa. Sabia que se por acaso descobrisse um emprego ela se despediria ao fim de uma semana.escondiam lhe metade das faces. Quando sentiu que o coração estava vazio. era insuportável. Por exemplo: poderia ir passar dois meses a casa. Ele contemplou a sem falar. O empregado aproximou se. de todas as manhãs. Ivich. E depois. — Hei de fazer qualquer coisa para não ficar em Laon. Recomeçara a puxar os caracóis como uma maníaca. levantou a cabeça. com certeza que havia de encontrar qualquer coisa. «Nada influi nela». É o exame? Ivich respondeu apenas com um gesto de desprezo. Olhou as mesas vazias. O Dome acordava. pensou. — Não parece muito alegre. entretanto eu procurava. — E manequim? — É pouco alta. Vou lavar pratos. Dê me um chá e duas maçãs. Mathieu? — Bem. ainda não chumbou. E. Não pôde deixar de observar: — Não levantou os cabelos? .. A noite parecia ter deslizado sobre ela. insuportável. e Mathieu continuou com vivacidade: — Mesmo que chumbasse não estaria ainda perdida. — Sim. de joelhos. mas como me vão receber agora? Calou se. J E A N P AUL SARTRE Falava com uma expressão de convicção serena e bem humorada. — Como vai. Sinto as horas caírem sobre mim. Ivich encolheu os ombros. Conhecia Mathieu. Quinze horas ainda até à hora de dormir! Ivich pôs se a falar em voz baixa. mas não tinha a menor esperança. é exaustivo. com um ar atormentado. — Dois meses em Laon — disse Ivich com raiva. Sentou se.. Ivich.

E olhe o ar que tem! Boris vira os. Perguntou.. Repetiu energicamente como se desejasse intimidá lo: — Estava completamente embriagada. — Olá! — disse Mathieu. Repetiu. Tinha os olhos muito abertos e fixos. Vinha em direcção a eles. secamente. — Boris! — disse. contrariado. — Ora — disse ela impaciente —. Sorria. Recuara um pouco como se tivesse medo de lhe tocar. Nem se podia pensar em interrogá lo imediatamente. Mathieu não respondeu. porém não pôde ir até ao fim. tomado de repentina e desagradável suspeita: — Disse lhe que viesse? — Não — respondeu Ivich. porque passou a noite com Lola.— Bem vê que não — respondeu Ivich.. — Estava bêbeda. estava lívido. maquinalmente: — Lola morreu! Ivich voltou se para o irmão. — Devia encontrá lo ao meio dia porque. Agarrou o pelo braço e forçou o a sentar se ao lado de Ivich. que tem isso? Vocês são impossíveis com as promessas. Boris levantou dois dedos à altura da testa para fazer o gesto habitual de saudação. — Que é que tens? — perguntou Ivich. estupefacta. Tinha a impressão de que a todo o instante lhe faziam perguntas exigindo respostas imediatas. Mathieu ficou alguns instantes sem compreender. de olhos esbugalhados. viu ao longe a silhueta hesitante de Boris. que parecia procurá lo do lado de fora. Sorria sempre. . Boris não respondeu. — O quê? Encarou Boris. — Lola morreu — disse Boris. Apoiou as mãos sobre a mesa e pôs se a balançar sem dizer nada. — Prometeu me ontem — atalhou ele. «Como arranjar cinco mil francos antes da noite? Como fazer para trazer Ivich a Paris no ano próximo? Que atitude tomar para com Marcelle?» Não tinha tempo de voltar às interrogações que desde a véspera lhe enchiam o pensamento: «Quem sou? Que fiz da minha A vida?» Como voltasse a cabeça para afastar de si essa nova preocupação. mas as mãos dele começaram a tremer. Olhava para a frente fixamente com uma expressão estúpida. e de repente sentiu se invadido por um espanto escandalizado. — Suicidou se? — perguntou. — Pareces Frankenstein. — Não parecia tão embriagada como isso. quando o prometeu. ligeiramente irritado.

— Deixe — disse —. Ivich encarava o fixamente. — Beba — disse para Boris.. nervosa. — Então ela envenenou se? — Não sei. — Oh!. no camarim. durante a discussão. Só então começava a perceber os efeitos da noitada. se vocês. «Ela não está a ver bem». — Subimos para o quarto e ela tomou a droga. Não fale agora. Não era um acontecimento. Eargou o cálice e murmurou como para si mesmo: — Não é nada divertido! A — Querido! — disse Ivich aproximando se dele. — Agora conta — disse Ivich. Mathieu deu lhe uma bofetada seca e silenciosa com a ponta dos dedos.. contará mais tarde. — E para o senhor? — perguntou o empregado.. Os lábios dançavam lhe. Calavam se os três. e a morte estava entre eles. — Ela suicidou se? Suicidou se? O sorriso de Boris abriu se. anónima e sagrada. Mathieu olhava para Ivich com espanto. — Tens a certeza de que ela morreu? — Tomou a droga esta noite — explicou Boris. Boris bebeu docilmente. a mesa de mármore e o rosto nobre e maldoso de Ivich. Boris começou a rir: — Se vocês. uma substância pastosa através da qual Mathieu via a chávena de chá. Mathieu sentia se mole e vazio. Já tomara antes. com dificuldade. olhou o resmungando. — As coisas não iam bem entre nós. aliviado. Boris parou de rir. — Parece me que ela tomou cocaína quando você estava a dançar ... Ela acariciava ternamente a mão do irmão. tu estás aí. mas o lábio superior arreganhava se lhe de modo estranho sobre os dentes miúdos. — Depressa. Aproximara se e contemplava Boris com ironia. era uma atmosfera. Não parecia dirigir se a eles. com ar estúpido.. — O rapaz está com muita pressa. de um modo inquietante. Boris tornou a falar com voz surda. um conhaque — disse Mathieu com naturalidade. — Querido! Sorriu lhe com ternura. as tuas mãos estão quentes — suspirou Boris. pensou Mathieu. segurou o pêlos cabelos e sacudiu lhe a cabeça. com irritação. O empregado afastou se e voltou com uma garrafa e um cálice. de boca aberta.— Responde! — repetiu Ivich. — Essa já devia ser a segunda vez — observou Mathieu. puxando os caracóis.

porém sem demasiada compaixão. Estava estendido na cama por cima de mim. acho que a vão descobrir ao meio dia — disse Boris com um ar preocupado. Ninguém me viu sair. Parecia pedir uma informação. Pensei que íosse para fazer as pazes e peguei lhe no braço. dobrariam as cobertas. secamente.» Ela não o tirava. mas não conseguia. Ela saltava na cama. Os olhos estavam abertos. — Agarrei nas minhas coisas.com Ivich. Disse: — Olha para mim! Estás triste? — Eu. Nunca tomava tanto. Apanhei um táxi e vim. — Tão urgente como o primeiro? — perguntou o empregado a sorrir. — Vá. Mathieu esforçava se por ter pena de Boris. — olhou a e disse bruscamente: — Isto horroriza me. Era o braço dela. Inclinara se sobre ele. ficou quieta e eu adormeci. — Pobre querido — disse Ivich. O seu novo rosto assemelhava se demasiado ao de Ivich. De repente. — Outro conhaque. — Sim. — A criada costuma acordá la a essa hora. Estava J E A N P AUL SARTRE gelado. Uns homens de chapéu de coco iam entrar no quarto. Contemplariam o corpo sumptuoso com um misto de concupiscência e de interesse profissional. e eu não podia dormir. Parecia que odiava Lola por ter morrido. levantariam a camisola l A para verificar se havia ferimentos. agarrei lhe o pulso e puxei a para a endireitar. não havia ninguém na porta. Esvaziou o copo e continuou: — Acordei cedo porque abafava. Boris enojava o vagamente.. Mathieu pôs se a pensar no corpo de Lola. Então empurrei o braço com toda a força e ela quase caiu no chão. — Estás triste? — perguntou Ivich docemente. Teve um arrepio. Vi lhe os olhos — murmurou com uma espécie de raiva —. Já nada lhe restava daquela graça e rígida. . — Mora sozinha? — perguntou. Saltei da cama.. Deitámo nos sem falar. — Então — disse Boris com lassidão — foram três vezes. sirva depressa — observou Mathieu. com voz monótona. Eu disse lhe: «Tira o braço. Boris desconcertava o ainda mais do que Ivich. estendido numa cama de um hotel. nunca mais os esquecerei. vesti me — continuou Boris. — Não queria que me encontrassem no quarto dela. Chamou o empregado. sufocas me. pensando que por vezes a profissão tinha as suas vantagens. Perguntei: «Que é que tens?» Não respondeu. — Daqui a duas horas — observou Ivich.

Boris falava normalmente em calão. com uma expressão de astúcia na boca. «Cá está». Boris deixava se acariciar. — Vai ficar danado! — E capaz de me chamar para Laon e de me enfiar num banco.. — Cartas que lhe escreveu? ^ — Sim. mas poderá ir até de autocarro. porque Boris nunca lho tinha dito. Mathieu não compreendia. lívidos e descompostos. — Pois bem. «Há qualquer coisa no ar». J E A N P AUL SARTRE — Boris! És doido! — disse Ivich. — Você disse que a criada vai acordá la ao meio dia? — perguntou. Apanhe um táxi se quiser. irritado. — Sim. Na melhor das hipóteses serei chamado como testemunha. — E que tem isso? — O médico! O médico vai saber que morreu intoxicada! — Você falava de drogas nas cartas? — Falava — respondeu Boris. — Não quero lá voltar. Bruscamente gritou: — C'os diabos! Ivich sobressaltou se. Mathieu tinha a impressão de que ele representava. «São assim! É assim que eles são!» Ivich perdeu o seu ar vitorioso. Boris desviou o olhar. — Eu. Encolhidos um ao lado do outro. Perguntou: . pareciam duas ovelhinhas. o pai! — atalhou Ivich. — É a primeira coisa que encontrarão. — Como pudeste escrever essas coisas! Boris levantou a cabeça. a quem comprei uma vez para Lola. Mas falo de um tipo da Boule Blanche. Mathieu contemplou os com piedade. abatido. — Fazes me companhia — disse Ivich com uma voz sinistra. Tem tempo de ir sossegadamente buscar as cartas. — Que é que aconteceu? — perguntou inquieta. pensou Mathieu. pensou Mathieu.. Acariciava os cabelos do irmão com uma expressão de piedade e triunfo. — As minhas cartas! Que estúpido. deixei as em casa dela. uma pobre astúcia desarmada. Fez se silêncio e em seguida Mathieu percebeu que Boris o olhava de esguelha. — Estão a ver o sarilho! — Talvez não as encontrem — disse Mathieu. uma vez ou duas por curiosidade. mas não tinha o hábito de praguejar. — Oh!.Tinha retomado os ares de irmã mais velha. Estava ligeiramente ressentido. Ela bate até que Lola lhe responda. São dez e meia. Não desejava que ele fosse preso por minha causa. — Também tomava cocaína? — perguntou.

vou lá. diga que vai ver Bolívar. Vê se logo. Mathieu assobiou baixinho. «Pobre Lola. o dinheiro. passando a mão no rosto e esfregando as faces. Ivich continuava a olhá lo. Notas*"" Notas. Ela caíra pesadamente dentro de uma pequenina alma medrosa e perturbava a. a gravidez de Marcelle. — Qual é o número do quarto? — Vinte e um. Boris parecia aliviado. Levantou se. — Bem — disse Mathieu —. o amor por Ivich. Demorou um bocado e acrescentou afectando indiferença. «Morreu como um . Em cima da mala há outra maleta.» Mas não lhe cabia a ele lamentá la. E acrescentou com um ar de admiração e imensa gratidão: — Você é um tipo de ouro. Há um molho de chaves e uma pequena chave chata.» — A maleta está fechada à chave? — Está. Acrescentou mais baixo: — Estou de volta dentro de urna hora.— Isso é lhe realmente impossível? — Não posso. terceiro. Mas sentia horror. Aquela morte era maldita porque não recebera nenhuma sanção e não lhe competia sancioná la. Falara em tom de comando. Mas tanto se lhe dava. — Esperem me aqui — disse Mathieu. segundo quarto à esquerda.. Disse repetidas vezes «uf!».. há uma porção de cartas. Se Boris tivesse tido ao menos uma vaga tristeza. Mathieu deu alguns passos no Bulevar Montparnasse. as minhas estão amarradas com uma fita amarela. Em volta dele havia as preocupações da véspera. iam reconstituir o seu mundo irrespirável e precioso. Atirou os cabelos para trás com a graça habitual e disse sorrindo levemente: — Se alguém lhe perguntar alguma coisa. Ivich e Boris iam agora J E A N P AUL SARTRE começar a cochichar. é o negro do Kamtchatka. como uma censura. é só empurrar. eternamente desclassificada. sentia se contente por estar só. diante da janela. gostava dela. Pensava: «Não perde a cabeça o rapaz. e no meio uma mancha negra: a morte. Conheço o. — Há «massa» também. Mathieu viu que Ivich o observava: A — Onde estão as cartas? — Numa mala preta. a chave está na bolsa de Lola sobre a mesa de cabeceira. — Esperamos — disse Boris. Só a essa pequenina alma cabia a responsabilidade esmagadora de pensar nela e de redimi la. mora também no terceiro. até o pagamento. A morte de Lola ficaria eternamente à margem do mundo. É essa. prevê tudo.

dependia dele que os juramentos infantis permanecessem infantis para sempre. Quando se sentou no carro. entre parênteses. «é feita com o futuro. Baixou a cabeça. como os corpos são feitos com o vácuo». desse homem cansado. acabava de sofrer a última metamorfose. «Dependem de mini». «Uma vida». O seu futuro coagulara se. tivesse alcançado de si próprio perdão por já não ter a idade de Ivich. com o futuro particular. ver os grandes olhos abertos e o corpo branco. apareciam lhe. Mas não a vida. o dia em que dissera «Serei livre». mais indestrutível do que um mineral e nada a podia impedir de ter sido. inesquecível e definitiva. a vida de Mathieu deslizava docemente. de figuras e de perfumes mortos. Tudo nela estava em suspenso. Abandonada pelo animal mole e sentimental que a habitara durante tanto tempo.. Pensava na própria vida. Mathieu contemplava o desfile dos grandes edifícios tristes do Bulevar Raspail. — Na esquina da Rua Navarin com a Rua dês Martyrs — avisou. de brilhos sombrios. sentiu se mais calmo. e cada novo dia tinha novo futuro.cão!» Era um pensamento insuportável. que uma criança dura exigira a realização de suas esperanças. Repetiu: «Dependem de mim. cada dia vivido destruía um pouco mais os velhos sonhos de grandeza. pensou com amarga vaidade. cansado e amadurecido. de que ia entrar no quarto dela. pensou Mathieu. e repentinamente Mathieu inteirou se de que Lola morrera.. como se. Tinham direitos sobre ele e através de todo aquele tempo decorrido mantinham as suas exigências e ele tinha amiúde remorsos esmagadores porque o seu presente negligente e céptico era o velho futuro dos dias do passado. cheia de gritos sem ecos e de esperanças ineficazes. Depois os vidros escureceram. como se a mocidade subitamente já não tivesse valor. o táxi entrou no estreito gargalo da Rua du Bac. flutuava. em direcção a quê? . o dia em que dissera «Serei grande». Era ele que tinham esperado vinte anos. Experimentava mesmo um sentimento de tranquila superioridade. O futuro penetrara a até à medula. e esse futuro era ele. aquela vida deserta parara simplesmente. O seu passado sofria sem cessar os retoques do presente. «Não olharei.» Estava morta. ainda agora. A consciência dela aniquilara se. ou melhor. Era melhor que o táxi não parasse em frente do hotel. flutuava à margem do mundo. de repente. Os dias mais recuados da sua infância. de futuro em futuro.» Sentiu se sólido e mesmo até um pouco pesado. ele tal qual era agora. como um pequenino céu pessoal e bem redondo em cima deles. — Táxi! — gritou Mathieu. ou se tornassem os primeiros sinais de um destino. de espera em espera. era dele.

nada mais senão uma vida vazia. dançarinos. parando as. Mathieu desceu. estava ansioso por ler a morte no rosto de Lola. ainda ontem ela esperava viver e ser amada um dia por Boris. um dos seus . No quarto andar um hóspede puxou o autoclismo. «Se eu morresse hoje». pensou repentinamente Mathieu. no fundo do quarto. Em cima de uma porta envidraçada um rectângulo de esmalte: «Gerência. Ainda ontem. a questão não tinha sentido. Mathieu perscrutou a penumbra. Elas continuavam imóveis. «ninguém saberia se estava realmente lixado ou se tinha ainda possibilidade de me salvar». nunca ninguém saberia se Lola teria afinal sido amada por Boris. como a de Mathieu. como se fosse um sentimento humano. Lola não respondeu. A cama ficava à direita. Parou no patamar do terceiro e olhou em volta. Estava morta. e que se abatia sobre si mesma. os momentos mais cheios. não havia mais um gesto a fazer. de cores confusas. mais pesados. Empurrou a porta e entrou. ficara em suspenso desde o primeiro dia. Ninguém respondeu. entrou no vestíbulo escuro e perfumado. nem uma prece. e também lá por volta de 1923 uma jovem cantora impaciente por se tornar um cartaz. obscuro e vacilante. A freguesia habitual do hotel cantores. muito branca.Em direcção a nada. Mathieu viu Lola. empurrou a porta do hotel. Atravessou a rua em diagonal. negros do jazz deitavam se tarde e acordavam tarde. um barulho líquido e uma espécie de assobio. sem objectivo. Os seios estavam descobertos. O quarto estava escuro e conservava ainda um cheiro húmido de sono. nem uma carícia. O táxi parou. «E se houver alguém lá dentro?» Escutou com atenção uns momentos e bateu. não fora senão uma espera. Tudo dormia. Mathieu ouviu o ruído da água a descer. já nada havia senão esperas de esperas. Não tinha havido nada que esperar. que jurara ser uma grande cantora. a olhar.» Mathieu deitou uma olhadela através do vidro. E o amor por Boris. Não havia tido de esperar. as noites de amor que lhe tinham parecido mais eternas não passavam de esperas. Lola estava morta. porém indecifrável. — Espere — disse ao motorista. ouvia se apenas o tiquetaque do relógio. pensou. Tinha um rosto extraordinariamente expressivo. uma menina de caracóis ruivos. ele esperava o seu sentido do futuro. Ouvia as pancadas do coração e tinha as pernas a tremer. num Verão passado. absurdas. — Lola — disse em voz baixa. esse grande amor de velha. A chave estava na porta. mudas. por causa do qual tanto sofrera. «E preciso que não suba depressa de mais». A sala parecia vazia. Tinha havido com certeza. Pensou em Lola. A morte desabara sobre todas essas esperas. e a vida dela.

A esquerda segurava um maço de notas.» Depois enfiou o pacote no bolso. o outro estava debaixo das cobertas. Os dedos abriram se e as notas caíram em rodopio dentro da maleta. espantado. Atrás dele. Sob um monte de recibos e de notas. não havia outra solução. No fim de instantes remexeu nervosamente nos papéis. hesitante.» Escutava atentamente. Mas não podia arredar pé. Mathieu fechou a. inquieto. muitas notas. rígido.» Esforçava se por tremer de raiva. pôs a chave no bolso e saiu do quarto. depois virou se. e teve medo de verdade. E não pude. — Lola — repetiu Mathieu avançando para o leito. mergulhou as mãos na maleta e sentiu uns papéis amarfanharem se entre os dedos. e ouvia o corpo silencioso de Lola. limpou os joelhos com a mão direita. como um J E A N P AUL SARTRE olhar. Mathieu levou o pacote à luz. e observou as notas com perplexidade. pensou em Marcelle. o quarto estava cheio de uma presença imóvel. Notas de mil francos. «Saí do buraco. examinou a letra e murmurou: «Ei las. Eram notas. A luz ofuscou o. tinha vontade de a tocar. «Bastava um gesto para que não sofresse. Mathieu ajoelhou se diante da maleta. sentia se pregado no sítio. Sou demasiado delicado. Pensou: «Saí do buraco». virando a cabeça. o corpo envenenado por um desejo ácido. Ela iria ao consultório da velha. com cuidado. Não podia arredar o olhar daquele busto orgulhoso. Lola escondera um pacote de cartas amarrado com uma fita amarela. Subitamente. Ficou durante alguns instantes à beira da cama. atrás dele. Uma luz cinzenta filtrava se através da cortina. pegou rapidamente na bolsa que estava na mesa de cabeceira. Bom rapaz! Depois disso». a presença irremediável estava ali. alucinada. estendia se sobre o leito.belos braços. mas não se pode ter uma raiva verdadeira contra si próprio. com a mão no corrimão da escada. havia aquela mulher alta e branca. lembrou se. com o olhar fixo nas notas. lutar contra . Mathieu pegou lhe e dirigiu se à janela. cujos braços pareciam abrir se ainda e cujas unhas vermelhas pareciam ainda arranhar. Introduziu a chave na fechadura. caberia a ela mostrar se corajosa. Permanecia imóvel. «posso dar a mim próprio uns bons golpes de canivete na mão. pensou olhando a mão faixada. pensou. para que evitasse essa coisa sórdida que ia marcá la. «Não trouxe o dinheiro». para fazer de trágico diante das rapariguinhas. escolhendo pelo tacto. na ignóbil velha de mãos de assassina. sem olhar. Ergueu a tampa. pensava: «Sou um fraco. nunca poderia levar me a sério». A chave chata estava ali. «Estou pago». Levantou se. — Bom — murmurou resignado. sem querer.

Ela fechou os olhos. Encostou a porta como da primeira vez e tentou acostumar os olhos à escuridão. — Não foi isso? Pensou? — Teve medo — disse Mathieu. Mathieu estendeu lhe a bolsa. Ela não irá. Boris falava Ihe e não lhe respondia. Disse com esforço: — Ele pensou que eu tinha morrido? Mathieu não respondeu. Disse de olhos fechados: — Dê me a minha bolsa. «Não. com repugnância. pensou. Então foi Boris quem o mandou? — Foi. Mas sei o que é. Parecia fazer um esforço para voltar a si finalmente. Pousou a bolsa na cama com um suspiro de exaustão e acrescentou: — Aliás. — Que é que tive? J E A N P AUL SARTRE — Estava rígida. Murmurou: «Não. — Onde está Boris? Que está a fazer aqui? — Você esteve doente — explicou Mathieu. Mathieu sentiu um arrepio percorrer lhe o corpo da cabeça aos pés. esteja sossegado. «Estúpido».» Pensou premindo com força a mão ferida sobre o corrimão: «Casarei com ela». Houve um silêncio demorado. enquanto ele ganharia coragem bebendo nos bares. — É verdade. com os olhos pregados em Mathieu. depois respirou fundo. evasivamente. — Precisa de alguma coisa? Quer que eu vá chamar um médico? — Não. Mas logo se calou. os maxilares tremiam lhe. só sirvo para isso. ela tirou uma caixinha de pó de arroz e olhou se no espelhinho. precipitadamente. girou sobre os calcanhares e entrou de novo no quarto. — Estou com dor de cabeça — disse ela. Subitamente. — É Mathieu. e pareceu lhe que se afogava. pareço morta. . Nem sequer tinha a certeza de poder roubar. Deu alguns passos incertos e discerniu afinal o rosto pálido de Lola e os olhos arregalados que o contemplavam. não valho muito mais. está na mesa de cabeceira. Ainda parecia morta. — Sente se mal? — Bastante. Ele está desvairado. Ele teve medo.a angústia e o medo. — Quem está aí? — indagou Lola. Lola não parecia ouvir. Em seguida. não». pôs se a rir de modo desagradável. Lola perguntou: — Que horas são? — Um quarto para as onze. Isto passará durante o dia. — Uf! Houve novo silêncio. Era uma voz fraca. mas irritada. sacudindo a cabeça. de olhos arregalados. Casarei com ela. Puxou as cobertas até o queixo e ficou imóvel.

— Então. desfez o laço e começou a ler. Pôs se a rir. reconhecendo o táxi. mas Lola chamou o. Diga lhe que venha já. Vou dizer lhe que venha.. Mas que venha! Peco lhe que venha! Não posso suportar a ideia de que me julge morta. A A cabeça de Lola recaiu no travesseiro. «Fui esperto em não ter pegado no dinheiro. que não se falará mais disso. Pegou no pacote de cartas. Irei cantar. «A cara J E A N P AUL SARTRE que ele vai fazer!».. eu estava no Dome. e Mathieu pensou que fosse desmaiar. Sentou se e o táxi arrancou. pouco importava que a sua cobardia tivesse tido consequências favoráveis. Quis afugentar do pensamento a humilhante derrota. — Que é? Ah! — disse. Acrescentou: — Ainda não foi desta. coitado. por aqui! Mathieu voltou se. Estou à espera dele. E mandou o aqui para ver se eu estava bem morta. — Lola! — Vá lá. De vez em quando havia . erguendo se ligeiramente. Fechou novamente os olhos. Um riso sufocante e penoso. o que importava era não ter tido a coragem de agarrar no dinheiro. Não estou em perigo. ele sabe.. Apanhei um táxi. Saiu. — Bem — disse Mathieu —. Mas continuou secamente depois de um momento: — Diga lhe que se tranquilize. E o coração que fraqueja. ele teve um pavor louco. «tenho de lhe entregar a chave.— Está lá em baixo? — perguntou Lola. São coisas que me acontecem às vezes. Ficarei aqui até à noite. admirado. diga lhe que já não estou zangada. ele foi procurar me. «Mesmo assim. ele que se arranje para a pôr novamente na bolsa». Dirigiu se para a porta. — Em resumo. À noite já estarei boa. quando.» — Olá — gritou o motorista —. que Boris enviara de Laon durante as férias da Páscoa. Fugiu sem querer saber de mais nada.. — Leve me ao Dome. Disse com uma voz suplicante: — Promete que o manda vir? Zangámo nos ontem. Mathieu estava comovido. pensou. — Está bem.» Mas não estava alegre. — Obrigada. não precisa mesmo de nada? — Não. Nada de histórias. — Não. até logo. estou satisfeito de que não tenha morrido. Eram frases curtas. tentou repetir alegremente. O pacote de cartas que enfiara no bolso interno da casaco pesava lhe fortemente sobre o peito. secas. Enfim.

não sabe é dizê lo. boca aberta. «Não imaginei que ele fosse prudente. Prostrou se ainda mais. pareceu a Mathieu que ele era o aliado natural de Lola. — Então o que é que teve? — Simples desmaio — respondeu Mathieu.. de olhos faiscantes. «Ora». J E A N P AUL SARTRE Boris não respondeu.» Pensou: «E apesar de tudo guardou as. Boris. Boris bebeu um trago de conhaque e pousou o cálice na mesa. Conheci um antigo lutador que me vai ensinar o catch. a decepção sempre prevista e no entanto sempre nova e o esforço que devia fazer todas as vezes para dizer a si própria com alegria: «No fundo ele ama me. de ombros recurvos. Mas calou se ao ver Mathieu. — Não foi muito difícil? — perguntou Boris.. Boris ergueu os olhos para ele. «Que farsa».» Mathieu imaginou sem dificuldade em que estado de espírito Lola devia ter lido aquelas cartas. — Essa é boa! — Ela disse que aquilo lhe acontece às vezes quando toma cocaína. Fumei um Henry Clay até ao fim sem deixar cair a cinza. «Nado. — Lola não morreu — repetiu estupidamente.alusões à cocaína. só que Lola não morreu. Estava ainda desmaiada quando as apanhei. Mas não podia pensar nela senão no passado. com animação. Boris levantou a cabeça.» Boris terminava sempre assim: «Amo te muito e beijo te. mas tão veladas que Mathieu se surpreendeu. — Foi.» Quando o táxi parou. — Tê lo ia apostado — disse. Discuti com meu pai. pensou Mathieu. dir se ia que estava esmagado. secamente. em seguida breves relatórios das suas actividades. Tinha os olhos vidrados. parecia não compreender. Boris e Ivich custavam a engolir a notícia. Boris pegou lhes e fê las desaparecer no bolso. pensou Mathieu. foi ela que lhe entregou as cartas? — Não. Mathieu olhava o sem amizade.» Atou as de novo cuidadosamente e colocou o maço no bolso. Ivich falava lhe ao ouvido. — Aí estão. Ao entrar no Dome teve a impressão de que ia defender a memória de uma morta. Estava sentado de lado. Ivich parecia ter recuperado o sangue frio. — Nada difícil. Calaram se. «Boris terá de se arranjar para as pôr na maleta sem que ela o perceba.» Ivich olhava Mathieu. Disse que você devia saber. Este aproximou se e atirou o maço das cartas sobre a mesa. narinas crispadas. Parecia que Boris não fizera um movimento desde a saída de Mathieu. . «já começava a habituar se.» As cartas começavam todas por: «Querida Lola».

E arranje se para pôr as cartas no lugar sem que ela o veja. Boris. Lembre se disso.. — Há coisas que você não sente — disse. tenho de lhe tocar. com uma obstinação mole e invencível: — Não vou. — Ela quer que a vá ver imediatamente. Boris não se mexeu.. Boris passou a mão pela testa. curiosa. — Mas isso é estúpido. — Está a ouvir? Ela sofre. Eu disse que Boris tinha tido medo e me viera chamar. a história de ontem acabou. — Então? Boris olhou com uma expressão maldosa. é uma desgraçada. — Não queria dizer lho. — Não sei que fazer. — Para mim está morta. — Pelo menos tente vê la. não pode exigir isso dele. isso não posso. — Pois não está — disse Mathieu. toda esta história é absurda. Mathieu lançou lhe um olhar de ódio. não pode haver nada mais repugnante. E acrescentou. Naturalmente disse lhe que viera apenas ver o que acontecera. — Se ele voltar. ela prometeu não falar mais nisso. e Boris aproveitou se. — Não quero tornar a vê la — afirmou. Estendeu a mão para agarrar no braço de Boris.— Que disse ela? — indagou. — Apanhe um táxi. — Devia ter ficado transtornada ao vê lo ao pé da cama! — Não muito. mas Boris safou se com uma sacudidela violenta. Mathieu ficou estupefacto. com uma intenção que Mathieu não compreendeu: — No lugar dele. com vivacidade. — Acho que Boris tem razão — disse Ivich. — Ela inspira me horror! A — Porque pensou que estaria morta? Boris. será por piedade — disse Ivich —. exibia o seu rostinho irritado e sinistro. — Mas. — Mas não vê que ele a vai matar? Ivich meneou a cabeça. — Oh!. Ele continuou mais baixo.. obstinado. — Eu. mesmo para ela. exasperado. E isso — acrescentou com desgosto —. vejo a morta. «Ela está a meter lhe coisas na cabeça». Boris olhou o. vá vê la. é tudo. as histórias de ontem — atalhou Boris. — Não! — disse com a voz tão alta que uma mulher. tenha juízo. sombrio. se virou para ver. Ivich fez uma expressão impaciente.. Não vá confundir tudo. Enganou se. com um encolher de ombros. eu teria feito o mesmo. pensou. — disse Mathieu. . Mathieu estava farto. mas se a tornar a ver. eu pensei que estivesse morta — repetiu Boris como para se desculpar. espantado —. na mesa do passeio.

mas ainda tenho muitos anos para viver. — Preciso de ir a casa de Daniel — disse a Ivich. não morrerão tão cedo. mas estou tranquilo. — Quer que o vá ver? — Obrigada. Pensou: «Ele não telefonará.. . Afinal eu tenho rugas. Enquanto Mathieu esperava.» Levantou se. — Então — disse —. porque têm medo. — E quando a voltarei a ver? — Não sei. J E A N P AUL SARTRE — Está bem — atalhou hipocritamente —. noutro toilette. — As duas cabinas estão ocupadas. — Quando saberá o resultado? Às duas horas? — Sim. só fazem projectos a curto prazo. Olhou com desânimo aquelas duas cabecinhas hostis. Mathieu desceu à cave do Dome e consultou a lista telefónica.» Mas continuava pouco à vontade. «Eles têm medo da morte». mas reteve se.. como se só tivessem diante de si cinco ou seis anos. Estranha recordação de amor. juntinhos. Boris pareceu aliviado. tem de esperar.. Sentia se cheio de rancor por Ivich. Mas este dia que ela vai ficar à espera! Não gostava de estar no lugar dela!» — Quer dar me Trudaine 00 35? — pediu à telefonista gorda. uma pele de crocodilo. «Pobre Lola! Amanhã sem dúvida Boris voltará ao Sumatra. espere um bocado. da doença. da velhice. — Não se esqueça — disse Mathieu afastando se. por entre duas portas abertas. sentia os lá em cima. Mathieu quis dizer: «Pelo menos telefone a avisá la de que não pode ir». Prometa me que a vê amanhã ou depois de amanhã. a dizer se passou. Queríamos parecer homens. Depois. Começo a crer que nós é que somos jovens. Quantas vezes vi Ivich massajar o rosto inquieto em frente de um espelho..Mathieu sentiu se impotente. Medo da morte.. vou eu telefonar. têm almas sinistras. — Está bem. Na véspera. Agarram se à mocidade como um DADE DA RAZÃO l moribundo à vida.. músculos retorcidos. pensou. mas pergunto se o único meio de salvar a mocidade não será esquecê la. Vivem a ruminar a sua mocidade. nunca se atreverá. amanhã. até que essa recordação se apague. Depois. — Adeus! — Adeus — responderam os dois ao mesmo tempo. Boris vai. Treme diante da possibilidade de ter rugas. «Por mais frescos e limpos que sejam. — Mande me um telegrama imediatamente... via os esmaltes brandos dos toilettes. éramos ridículos. Ivich fala em suicidar se.

não pude pegar no dinheiro de Lola. de chefe de família: «Quero casar com Marcelle. o sonho orgulhoso e sinistro de não ser nada. Sou um burguês. fez se toda espírito. continuou a andar com passos deslizantes. «Não pude pegar no dinheiro. com licença de Marcelle. Encostou se obstinadamente à sua vontade demasiado humana. eis a liberdade que me resta. vivo como se fosse casado. acabrunhado.sussurrantes e cúmplices.» Sentia náuseas. de burguês. um adulto. entreviu a apenas. Em vão. uma dessas que dizem com uma expressão de menina: «Vou fazer um chichizinho.» Estava tão cansado de ser atirado de um lado para outro. que quase se sentiu reconfortado. os destroços da sua dignidade humana. Mathieu voltou se e deu alguns passos. Sou casado. toda perfume. . — Pegue no telefone. Entrou. Pensou: «Querer ser o que sou. É para não ser da minha idade que há um ano ando a brincar com esses dois miúdos. «Não pude pegar no dinheiro!» Uma mulher descia a escada. os tabus deles impediram me. Estava fora de alcance. Foi um momento apenas.» Tinha aberto o anuário e folheava o distraidamente. «Isso também é mentira. Nord 77 80. a minha liberdade é um mito — Brunet tinha razão — e a minha vida constrói se por debaixo deste mito com um rigor mecânico. jovem e caprichosa como a graça. — Um momento — respondeu a telefonista. viva e leve. Querer casar com Marcelle. Ela ordenava lhe simplesmente que largasse Marcelle. Em vão. Cerrou os punhos e pronunciou interiormente. Essa inexplicável liberdade. Leu: «Holle becque. que atingia as aparências do crime. a estas palavras demasiado humanas: «Hei de casar com ela!» — É a sua vez — disse a telefonista. de ser sempre outra coisa diferente do que sou. É para fugir da minha vida que sussurro por toda a parte. de homem. uma opção infantil e vã. cruel. não preciso de ter vontade para casar com ela. Olhava. Mathieu ergueu o docilmente. e foi este homem que beijou a pequena Ivich num táxi. A minha única liberdade. E estava tão longe. um vazio. — Obrigado. palavras. Ela amedrontava o. — Alguém pediu Amsterdão. de oscilar entre correntes contrárias. autor dramático. hesitou. Em vão. com uma gravidade de pessoa adulta. Sou um homem. E subitamente pareceu lhe ver a sua liberdade.» Puf!. asperamente. basta deixar me ir. entrou flor na latrina. — Esse telefonema vem ou não? — perguntou.» Fechou o anuário.» Viu Mathieu. — Na segunda cabina. mas fascinantes apesar de tudo. É para não ser da minha classe que escrevo J E A N P AUL SARTRE nas revistas de esquerda. que me recuso a casar.

Houve um breve silêncio. — Se imagina que prestou um serviço a Lola! Deu uma risadinha seca. — Mas será difícil. e Boris calou se satisfeito. aproveitar a ocasião. — Não. E Boris. e Boris sentiu um nó na garganta. — Obrigado. não a incomode.. acha que não sou moral. Pensou. não é Maurice. Ele não pode ir. — Posso tentar — disse Sarah. Ele não pode ir. Obrigado. Tinha um ar neutro. É da parte do Senhor Boris. Ivich não respondeu. — Não me aborrece absolutamente nada. — Quer outra ligação? — Sim. Sarah.. Não. — Quem? — Mathieu. — Está zangado — continuou Boris —. — Pois é — respondeu Ivich. — Mandar lhe ei o dinheiro para a América. É um velho avarento e atravessa uma crise de hipersionismo: detesta tudo o que não é judeu desde que foi expulso de Viena. mas isso passa lhe. — Senhor Maurice? — disse a voz. Não sou Hourtiguère. — Como é orgulhoso — disse. tente. é Mathieu. É exactamente por isso que lhe queria pedir se não poderá dar um salto a casa desse tipo e solicitar lhe crédito até ao fim do mês. coçando a cabeça: «Marcelle deve estar aflita. olhava a mão enfaixada.. indeciso. devia telefonar lhe. você é formidável! XIII E lê é demasiado injusto — disse Boris. J E A N P AUL SARTRE — Sim — disse Ivich —. . Acaba de sair. dê me Ségur 25 64. se isso não a aborrece. O de Octave.. Sarah.» Olhou a telefonista. Saiu. — Mas no fim do mês ele já estará longe. Era o número de Sarah. — Estou. Irei logo a seguir ao almoço.» Olhava para a escada. não se deve falar a ninguém como me falou. esperava que Mathieu lhe sorrisse ao subir. — Bom dia — respondeu a voz rude de Sarah. Pode transmiti lo mais tarde. Ninguém o compreendia como a Ivich. É só isso. sem entusiasmo.— Está? Trudaine 00 35? Um recado para a senhora Montero. saiu sem um olhar. — Então? Arranjou? — Não — disse Mathieu. Mathieu voltou. B de Bernard. — Apesar de tudo. — Esta gente não larga a «massa». Encolheu os ombros. Voltou a cabeça para a escada dos toilettes e pensou com severidade: «Foi longe de mais.

Por moralidade. A Ivich riu e Boris ficou chocado. Sentira mesmo por um momento que ia sofrer. — Ah. um desarranjo no motor. Achava o sofrimento imoral e. Gostava de se aproximar de Ivich. mas pensava que se podia explicar tudo a Mathieu. Fizera então um esforço de domínio sobre si mesmo. Ivich disse.. conciliadora: — Há coisas que não se podem explicar. continuo a vê la morta. Depois. Boris percebeu a sem se zangar. não! — Não quero que ela sofra. queria que ele rompesse com Lola. tinha uma expressão tola e disse de modo cínico: — A moral. — É a minha táctica com ele. O de Ivich era mais enfadonho. era preciso esperar que se normalizasse. Boris não protestou por hábito. Toda a gente tinha sempre em vista o bem de Boris. mas esse bem variava segundo as pessoas. mas Mathieu ainda estava ali. eu estou me nas tintas para a moral! Boris sentiu se só. — Puf! — disse Ivich. E não quero que Mathieu imagine que pode fazer de mim o que quiser. tenho a impressão de ser uma velha qualquer.. Acrescentou por espírito de justiça: — Ela é que não deve achar nada disto engraçado. Ruminava o que devia ter dito a Mathieu. Ela sorriu levemente. Balançou se sobre o banco. — Eu gosto — atalhou Boris. Era uma sacanice. Não me deixou explicar lhe.— Não gosto dele quando se torna moral. — Pois então vai vê la — disse Ivich num tom cantante. Acrescentou depois de certa reflexão: — Mas eu sou mais moral do que ele. Ivich tinha boas intenções. Que não passava de um estúpido e que tivera um choque terrível ao pensar que Lola morrera. quando penso agora em Lola. não o podia realmente suportar. entre ambos. contanto que ele tivesse boa vontade. — E estranho — disse —. não era Hourtiguère. . e isto tinha o escandalizado. — Eu dou lhe a impressão disso — disse ele com serenidade. Mas alguma coisa falhara. Ele compreendeu que ela lhe preparava uma armadilha e respondeu vivamente: — Não vou. Nesse ponto não ia ceder. Ivich disse com doçura: — E é bem verdade que faz de ti o que quer. Parecia lhe sempre que não falavam do mesmo Mathieu. Disse apenas: — Ele é injusto. de resto. — Que ar obstinado! Boris não respondeu. Para o bem dele.

Já não posso suportar mais o Dome. sim!? Ivich fez um ar intrigado e descontente.. — É possível. Ivich riu se.Mas ela pusera lhe o dedo na ferida. Boris acrescentou maliciosamente: — Também está zangado contigo.. Não se sentia capaz de tanta força espiritual.» . É certo que diziam tudo um ao outro. Boris sentiu uma ligeira e tenaz vontade de vomitar. e calou se. Agora de manhã dava se ares de homem diante de mim. eu consigo. Deviam compreender se por meias palavras ou o encanto romper se ia. tu estás chateada. Andaram um bocado calados. confuso —. e Ivich olhou o inquieta. Passado um instante. — Ele enerva me. bruscamente: — Vamos. Pensou: «No mês de Outubro passado ainda não conhecia Lola. Ele perguntava a si próprio se seria realmente por causa do exame. — Querido. tenho outras preocupações na cabeça. Ivich agarrou Boris pelo braço. e ele sentiu raiva a Mathieu.» Ao mesmo tempo sentiu se livre: «Ela vive. Basta imaginares que morreu de verdade. mas não o deixou perceber. Desejava que fosse. Pensarei nisso mais tarde. Houve um silêncio. Quando não vejo as pessoas. mas não consigo. — Achas que ele vai ficar zangado muito tempo? — Não — disse Ivich. disse: — Terá levado o dinheiro? Seria bonito! — Que dinheiro? — O dinheiro de Lola. Ivich pareceu achar divertido. Ivich mordeu os lábios. Boris gostava muito do mês de Outubro. — Ah. Perguntava a si próprio o que queria dizer Ivich. Levantaram se e saíram. O Bulevar Montparnasse estava delicioso sob aquela luz cinzenta. mas de vez em quando devia haver algumas excepções. — Seria muito cómodo. J E A N P AUL SARTRE x Boris admirou a irmã. — Pareces zangada com Mathieu. elas deixam de existir. Ergueu os olhos. e em seguida Ivich acrescentou. Parecia Outubro. Boris pensou que tinha feito melhor se se tivesse calado. — Por causa do exame? Ivich encolheu os ombros e não respondeu. — Nem eu — disse Boris. — Bem sei. com impaciência. — Muito. A — E verdade — disse Boris. porque seria mais moral. Ele precisava de cinco mil francos. — disse Boris. pensas de mais. Mexeu se um pouco no banco. — É estranho — disse —.

estava dominada por uma cólera viva. visto que ela não morreu. talvez. conhecia os quase todos de vista. entre Ivich e Mathieu. Não insistia nunca. — Devias escrever lhe. Boris esperou a cá fora Sentia se comovido e fraco como um convalescente e perguntava a si próprio o que poderia fazer para ter uma satisfação. palerma. apenas mais violenta. os transeuntes tinham bom ar. Alegrou se. — A Lola? Oh!. descansava de olhos abertos na cama. «É um móvel». Naquele momento tinha tanta vontade de perder Lola como de a ver. era uma ressurreição. ela é capaz de ir lá. Boris pôde assim evocar sem horror a imagem de Lola. — Não queres romper com ela? — Não sei. — Mas a dizer o quê? Ivich olhou o. Entrou na Mercearia Demaria. sentia que ela vivia. Não foi o rosto de um morto que recordou. admirada. mas deveres sérios. — Sim. vou almoçar. Não tinha para com ela essas obrigações incertas e temíveis que os mortos impõem. — Vou. Boris tinha de se mover com habilidade. não. Lola vivia.Pela primeira vez. Mas era um erro. . Mas como quer que fosse. mas esse sofrimento e essa angústia só se afiguravam irremediáveis e imutáveis como os sofrimentos e a angústia das pessoas que morrem desesperadas. pensou. Pensou: «Não é possível que Mathieu fique sentido muito tempo.» Mas ao mesmo J E A N P AUL SARTRE tempo sentiu dentro de si um sólido rancor contra aquela falsa morta que provocara todas aquelas catástrofes. que o esperava angustiada. não vale a pena pensar nisso. e havia um raio zinho de sol que cariciava as montras da Closerie de Lilás. desde que abandonara o cadáver na escuridão do quarto. Uma cólera que não era nem mais nem menos respeitável do que as outras. — Eu faço a carta. Sentia se feliz naquele bulevar. Era mais correcto. O dicionário estava A agora sobre a sua mesa de cabeceira. Ivich pareceu irritada. — Vamos a ver — disse —. era assim. deveres de família. — Não voltarei ao hotel. Ivich teve uma ideia. mas aquele rosto ainda jovem e carrancudo que lhe mostrara na véspera quando lhe gritara: «Mentira! Não viste Picard. como quando ele chegava atrasado ao encontro marcado. A escolha recaiu no Dicionário Histórico e Etimológico do Calão.» Até agora sabia que ela sofria. — Não saberia o que lhe havia de dizer. — Vai dormir em casa de Claude. — Estou com fome — disse Ivich —. mas não insistiu.

entusiasmado, «foi um golpe de mestre». E como uma felicidade nunca vem sozinha, pensou no canivete espanhol, tirou o do bolso e abriu o. «Que sorte!» Comprara o na véspera e já tinha uma história, ferira duas pessoas que lhe eram queridas. «Corta que se farta», pensou. Uma mulher que passava, olhou o com insistência. Estava muito bem vestida. Voltou se para a ver de costas. Ela também se voltara e contemplaram se com simpatia. — Pronto — disse Ivich. Trazia duas maçãs canadenses. Esfregou uma delas no rabo, e quando a viu brilhante mordeu a, estendendo a outra a Boris. — Não — disse Boris —, não tenho fome. — Acrescentou: — Tu ofendes me. — Porquê? — Esfregar a maçã assim no rabo. — E para limpar — disse Ivich. — Olha aquela mulher que vai lá adiante. Dei lhe no goto. Ivich comia serenamente. — Mais uma? — disse com a boca cheia. — Aí não — disse. — Atrás de ti. Ivich voltou se para ver e arqueou as sobrancelhas, — É bela — disse simplesmente. — Viste o vestido? Ainda hei de ter uma mulher assim. Uma mulher da alta sociedade. Deve ser agradável. Ivich olhava a mulher que se afastava. Tinha uma maçã ern cada mão e parecia oferecer lhas. — Quando me cansar dela, passo ta — disse Boris, generosamente. J E A N P AUL SARTRE Ivich mordeu a maçã. — Isso é o que tu pensas! Pegou lhe no braço, e arrastou o, bruscamente. Do outro lado do Bulevar Montparnasse havia urna loja japonesa. Atravessaram e pararam diante da montra. — Olha as tacinhas — disse Ivich. — É para o saké — disse Boris. — Que é isso? — Aguardente de arroz. — Hei de vir comprá las. Para tomar chá. — São pequenas de mais. — Enchem se várias vezes. — Podias encher seis ao mesmo tempo! — Pois é — disse Ivich, contente. — Ponho seis tacinhas cheias diante de mim e beberei ora numa ora noutra. Recuou ligeiramente e disse com uma expressão apaixonada, de dentes cerrados: — Queria comprar tudo isto! Boris não apreciava o gosto da irmã por aquelas bugigangas.

Apesar disso, quis entrar na loja. Ivich não o deixou. — Hoje não. Vamos. Subiram a Rua Denfert Rochereau, e Ivich disse: — Era muito capaz de me vender a um velho para ter um quarto cheio daqueles bibelots! Mas um quarto cheio! — Não — disse Boris, com severidade. — Não podias. É um ofício que se aprende. Andavam devagar, era um momento de felicidade. Certamente, Ivich tinha se esquecido do exame, parecia alegre. Nesses momentos, Boris tinha a impressão de que eram uma só pessoa. No céu havia grandes pedaços de azul e nuvens brancas que turbilhonavam. A folhagem das árvores estava pesada com a chuva, havia um cheiro a fogo de lenha como na rua principal de uma aldeia. — Gosto deste tempo — disse Ivich, encetando a segunda maçã. — É húmido, mas não pegajoso. E não fere os olhos. Sinto me com forças para andar vinte quilómetros a pé. Boris verificou discretamente se não havia um café nas proximidades. Quando Ivich falava em fazer vinte quilómetros a pé, acontecia lhe fatalmente pedir para se sentar logo a seguir. Ela olhou para o Leão de Balfort e disse, extasiada: — Gosto deste leão. Parece um feiticeiro. — Hum. Respeitava os gostos da irmã, embora não partilhasse deles. Aliás, Mathieu já o dissera uma vez: «A sua irmã tem mau gosto, mas é melhor do que o melhor gosto.» «É um mau gosto profundo.» Nestas condições não havia que discutir. Pessoalmente, Boris era mais sensível à beleza clássica. — Vamos pelo Bulevar Arago? — Qual? — Aquele. — Vamos — disse Ivich. — Está brilhante... Andaram em silêncio. Boris observou que a irmã se tornava sombria, se enervava, e que de propósito caminhava a torcer os pés. «Vai começar a agonia», pensou, resignado. Ivich entrava em agonia cada vez que estava à espera do resultado de um exame. Ergueu os olhos e viu quatro jovens operários que vinham ao seu encontro e os encaravam a rir. Boris estava habituado a essas expansões e considerou as com simpatia. Ivich tinha a cabeça J E A N P AUL SARTRE baixa e parecia não os ter visto. Ao chegarem junto deles os rapazes separaram se. Dois passaram à esquerda de Boris e dois à direita de Ivich. — Faz se uma sanduíche? — propôs um deles. — Cara de peido! — disse Boris, gentilmente. Nesse momento,

Ivich pulou e deu um grito agudo, que abafou logo pondo a mão na boca. — Pareço me com uma cozinheira — disse vermelha de fusão. Os operários já iam longe. — Que foi? — Beliscou me — disse Ivich, com desagrado. O estupor! Acrescentou, com severidade: — Não devia ter gritado. — Qual deles? — disse Boris, indignado. Ivich reteve o. — Por favor, está quieto. São quatro. E depois já fui suficientemente ridícula. — Não é por ele te ter beliscado — explicou Boris. — Mas não posso suportar que façam isso quando estás comigo. Quando estás com Mathieu, ninguém te mexe. Tenho cara de quê? — É isso mesmo, querido — disse Ivich melancolicamente. — Eu também não te protejo. Não somos respeitáveis. Era verdade. Boris admirava se disso muitas vezes: quando olhava para o espelho, achava que tinha um ar intimidante. — Não somos respeitáveis — repetiu. Apertaram se um contra o outro e sentiram se órfãos. — Que é aquilo? — perguntou Ivich. A Apontava um muro comprido e escuro através do verde dos castanheiros. — E a Santé — disse Boris —, uma prisão. — Extraordinário — disse Ivich —, nunca vi nada mais sinistro. Há quem fuja de lá? — E raro. Li uma vez que um preso saltou por cima do muro. Agarrou se a uma pernada de um castanheiro e saltou. — Deve ser aquele. Se nos sentássemos no banco ao lado? Estou cansada. E talvez vejamos saltar outro prisioneiro. — Talvez — disse Boris sem convicção. — Acho que fazem isso de noite, compreendes? Atravessaram a rua e foram sentar se. O banco estava molhado. Ivich disse, contente: — Está fresco. Mas quase a seguir começou a agitar se e a puxar os caracóis. Boris teve de dar lhe uma pancada na mão para que não arrancasse os cabelos. — Segura na minha mão — disse Ivich —, está gelada. Era verdade. E Ivich estava lívida, parecia sofrer, todo o corpo lhe tremia. Boris achou a tão triste que tentou pensar em Lola, por simpatia. Ivich levantou bruscamente a cabeça: tinha um ar sombrio de resolução: — Tens os dados? — Tenho. Mathieu tinha oferecido a Ivich um poker de dados num saquinho de couro. Ivich tinha o dado a Boris e jogavam juntos muitas

vezes. — Vamos jogar — disse. Boris tirou os dados do saquinho. Ivich acrescentou: — Duas partidas e a negra se for preciso. Começa. Afastaram se um do outro. Boris sentou se a cavalo no banco e rolou os dados sobre o banco. Fez um poker de reis. — Só de uma vez — disse. — Odeio te. Franziu as sobrancelhas, e antes de agitar os dados soprou nos dedos a resmungar. Era uma conjura. «É a sério», pensou Boris, «está a jogar o resultado do exame». Ivich jogou e perdeu: trio de damas. — Segunda partida — disse a olhar para Boris com olhos faiscantes. Fez um trio de ases. — De uma só vez — disse. Boris jogou e viu que ia fazer um poker de ases, mas antes que os dados parassem estendeu a mão como para evitar que caíssem e virou dois com ponta do indicador e do anular. Apareceram dois reis. — Dois pares — disse com ar de despeito. — Ganhei a segunda — disse Ivich triunfante. — Vamos à negra. Boris não sabia se ela o vira fazer batota. Mas não tinha grande importância. Ivich só tinha em conta o resultado. Ganhou a negra com dois pares sem que ele precisasse de intervir. — Bem — disse ela simplesmente. — Queres jogar mais? — Não. Estava a jogar para saber se passaria. — Não sabia — disse Boris. — Então, passaste! Ivich encolheu os ombros. — Não acredito. Calaram se, ficaram ali lado a lado, de cabeça baixa. Boris não olhava para Ivich, mas sentia a tremer. — Estou com calor — disse ela. — Que horror: tenho as mãos húmidas e estou cheia de angústia. Na verdade, a sua mão direita, pouco antes gelada, estava agora a ferver. A mão esquerda, enfaixada, jazia inerte sobre o joelho. — Esta ligadura repugna me. Pareço um ferido de guerra, vou arrancá la. Boris não respondeu. Ouviu se um relógio ao longe. Ivich sobressaltou se. — Meio dia e meia hora? — perguntou, desvairada. — Uma e meia — disse Boris consultando o relógio. Olharam se e Boris disse: — Bem, agora tenho de lá ir.

Ivich apertou se contra ele, abraçando o. — Não vás, Boris, querido, não quero saber, volto para Laon hoje à noite... Não quero saber nada. — Estás a delirar — disse Boris com doçura. — Precisas de saber o que aconteceu para dizer lá em casa... Ivich deixou cair os braços. — Então vai. Mas volta o mais depressa possível. Espero aqui. — Aqui? Não preferes que façamos o caminho justos? Esperas num café do Quartier Eatin. — Não, não, espero aqui. — Como quiseres. E se chover? — Boris, por favor, não me tortures, vai depressa. Ficarei aqui, mesmo que chova, mesmo que a terra trema. Não me posso pôr de pé, não posso levantar um dedo. Boris levantou se e foi se embora a passos largos. Depois de atravessar a rua, voltou se. Viu Ivich de costas. Curvada no banco, com a cabeça enfiada entre os ombros, parecia uma pobre velha. «Apesar de tudo, é capaz de ter passado», pensou. Deu alguns passos e lembrou se de repente do rosto de Lola. Do verdadeiro rosto. Pensou: «Como é infeliz», e o coração pôs se lhe a bater violentamente. XIV D entro em pouco. Dentro em pouco. Começaria a busca infrutífera. Dentro em pouco, assombrado pêlos olhos rancorosos de Marcelle, pelo rosto matreiro de Ivich, pela máscara mortuária de Lola, tornaria a sentir um gosto de febre na boca, a angústia viria pesar lhe no estômago. Dentro em pouco. Afundou se na poltrona e acendeu o cachimbo. Estava solitário e calmo, entregava se à frescura sombria do bar. Havia aquele tonel envernizado que lhe servia de mesa, aquelas fotografias de artistas, aquelas boinas de marinheiros penduradas na parede, a rádio invisível que sussurrava como um repuxo, os dois senhores gordos e ricos ao fundo da sala, fumando charutos e bebendo vinho do Porto — últimos fregueses, homens de negócios; os outros tinham ido almoçar há muito tempo. Devia ser uma e meia, mas parecia manhã ainda, ° dia ali estava, estendido como um mar inofensivo. Mathieu diluía se nesse mar sem paixão, sem ondas, era um espiritual J E A N P AUL SARTRE negro apenas perceptível, um tumulto de vozes distintas, uma luz cor de ferrugem e o embalar de todas aquelas lindas mãos cirúrgicas que oscilavam com os seus charutos, como caravelas carregadas de especiarias. Aquele ínfimo fragmento de vida beata, bem sabia que lho emprestavam apenas, que seria preciso devolvê lo dentro em pouco, mas gozava o agora sem amargura. Aos tipos lixados, a vida ainda concedia inúmeros pequenos

Mathieu provou o Xerez. Mathieu podia contemplar à vontade o belo rosto de xeque árabe. Daniel mentia.prazeres. preciso de cinco mil francos. Estou sem um tostão.. Mas não agora. — Não — disse Mathieu. Gostara muito de Brunet outrora. Mas queres que te empreste duzentos francos? Tenho vergonha de oferecer tão pouco. Insistiu: — Não faças cerimónia. — Acho que desta vez tudo acabou entre nós. — Não te estás nas tintas para Brunet? — Bem sabes que nunca fui tão íntimo dele como tu. solene. — E bom. Era preciso recusar se a aceitar. se mo ofereces. Daniel estava sentado à sua esquerda. — Não precisas mesmo de nada? — Sim — informou Mathieu —. — Recomendo te o Xerez — disse Daniel. — Não — disse Mathieu —. é mesmo para esses tipos que ela reserva uma boa parte das suas graças efémeras. Daniel pousou nele um olhar cheio de solicitude. não estava dentro da regra do jogo. com a condição de que as gozem modestamente. Mas as provisões estão a esgotar se. e isso também era um prazer para os olhos. Mathieu olhou Daniel pelo canto do olho. — É — disse Daniel —. Estimo o muito. — Zangaram se? — Pior do que isso.. Vamos dividi los. mandava o empalhar e colocar no Museu do Homem. secção século XX. — Ofereço. Mathieu esticou as pernas e sorriu para si próprio. mas se tivesse alguma autoridade. Agora só desejo um Xerez e conversar contigo. — Muito obrigado. Daniel tinha . — Bem. Disse: — Sabes que vi Brunet ontem? — É verdade? — disse Daniel. Tinha acabado. Daniel voltou para ele os seus grandes olhos acariciantes. é o que há de melhor. Aquela felicidade simples e leve entrara no passado. cortês. Pousou o copo vazio e pegou numa azeitona do pires. — Não faria lá má figura. já não se pode renová las por causa da guerra de Espanha. Isso viria depressa. Não se referia ainda à sua carta nem às razões que o tinham levado a convocar Mathieu. Mathieu estava lhe grato pela discrição. DADE DA RAZÃO — Espero que a minha conversa esteja à altura do Xerez. não vale a pena. Tenho quatrocentos francos até acabar a semana. Mathieu não pôde deixar de sorrir. — Vou confessar te uma coisa. Daniel manifestava um grande aborrecimento. silencioso.

um ar nobre e compenetrado.. Mathieu sacudiu a cabeça. Mathieu perguntou: — Que ideia foi essa? Como é que isso aconteceu? A — Muito simplesmente. Não. Daniel e Marcelle não se tinham encontrado muitas vezes... sorridente. Onde a encontraste? — Em casa dela.. Daí por diante continuámos a ver nos. como se lhe fossem tirar uma fotografia. uma voz de negro cantava baixinho Ther'is cradle in Caroline.. Mathieu contemplava os cílios negros e compridos de Daniel. e Mathieu repetiu com espanto: «A coragem de Marcelle. Calou se um momento. — Mas onde? — Em casa dela. vagamente irritado. É tudo. acabo de to dizer — observou Daniel. estava aborrecido e veio me à ideia de ir a casa dela. Mathieu mergulhou no perfume espesso. na atmosfera algodoada do quarto cor de rosa. — Ficaria triste se te aborrecesses comigo. Acolheu me muito amavelmente. Daniel continuou: — Um dia. — Vocês vêem se. — Tens sorte — disse —. — Fala e depois saberás — disse Mathieu.» Não eram as qualidades que mais apreciava em Marcelle. mas Marcelle parecia ter simpatia por Daniel. ela nunca sai. Houve um silêncio. «Vemo nos de vez em quando. — Em casa dela? Queres dizer que vais a casa dela? Daniel não respondeu. olhava para Marcelle com os seus grandes olhos doces e Marcelle sorria desajeitadamente. se não sai? Acrescentou. — disse Daniel sorrindo. J E A N P AUL SARTRE — Estou a pensar no efeito que isto vai fazer em ti — continuou Daniel hesitante. — Pois bem. Admiro muito a sua coragem e generosidade. ..» Mathieu voltou a cabeça e fixou o olhar no botão vermelho de uma boina de marinheiro. era absurdo. baixando as pálpebras modestamente: — Devo dizer te que nos vemos de vez em quando. a sua generosidade. eles nada tinham em comum. Sempre tive grande simpatia por Marcelle Duffet. — repetiu sem compreender bem.. — Marcelle Duffet. Daniel estava sentado na poltrona. A nossa culpa está em não te termos dito nada. — Diz lá — disse Mathieu. Tremiam ligeiramente. — Onde querias que a encontrasse.. não podiam entender se. — Marcelle? Mathieu não estava surpreendido. O relógio bateu duas vezes. sabes quem vi ontem à noite? — Quem viste ontem à noite? Como hei de saber? Vês tanta gente.

não impede que isso seja uma graça. A Daniel parecia desconcertado. Seria normal. É tudo.» Mathieu olhou para Daniel. e ela escondeu me isso? Acrescentou serenamente: — É uma brincadeira. Mas não compreendo uma só palavra do que me escreve. «Escreveu isto. Suspirou: — Preferia que acreditasses em mim.. fúnebre e distinto como uma testemunha de duelo. E tu também vês a velha e tudo. É uma coisa muito séria. — Bom — disse tristemente. — Então. se reparares que nunca me permiti a menor brincadeira neste assunto das tuas relações com Marcelle. mantinha se direito. E talvez me zangue ainda.. — Arcanjo! Ela chama te arcanjo. — Pensei que te zangasses. querido Arcanjo. Trazia a data de 20 de Abril. deveria zangar me. é verdade? Daniel fez um sinal com a cabeça. — Ainda bem — disse. és muito divertido. — Far me ás justiça. Mathieu voltou a cabeça e olhou o com indecisão. Daniel ergueu os olhos e encarou Mathieu com uma expressão sombria. Mas como exiges provas. Entregou uma carta a Mathieu. — Olha — disse Daniel. Marcelle. — Não falemos mais nisso. Leu: «Tinha razão como sempre. Venha depressa. Mathieu viu o dinheiro e pensou: «Sacana!» Mas com preguiça. um tipo do género de Lúcifer. Por enquanto estou apenas tonto. — Bem sei. perplexo. Era a letra de Marcelle. Eu nunca teria encontrado essa expressão. Que seja sábado. Viu que Daniel esperava a sua cólera. uma vez que não está livre amanhã. Mathieu releu a carta do princípio ao fim.— Vais à casa dela. admirando se por sua vez de não se sentir . Mas não vou na onda. sob palavra de honra. — Já é bastante penoso acusar me diante de ti. depois desatou a rir. Um arcanjo decaído. continua. Eram de facto pervincas. A minha mãe disse que lhe vai dar uma descompostura por causa dos bombons.. — Mathieu! — disse com uma voz muito profunda. Daniel pareceu ficar desanimado. querido Arcanjo. — Não me facilitas a tarefa — disse Daniel com um ar de censura. Esperamos com impaciência a sua visita. bem sei. — Não. Esvaziou o copo. — Sim.. Tirou do bolso uma carteira cheia de notas.» Aquele estilo precioso e jovial nada tinha dela! Esfregou nariz.

. teria havido qualquer coisa dentro dele que . com os seus ares de Cagliostro e o sorriso africano.» Ela pensa que gosto de me rodear de mistério. depois. não te aborreças.. Era grave. — Terás alguns temas a propor nos? — Não te zangues — disse Mathieu conciliador. — Mas não recusou? — Não. estou a tentar compreender. cheio de gentilezas maliciosas e nobres.» E sentiu se humilhado por Marcelle. — Estás com ela muitas vezes? — Sem regularidade. de que falam vocês? — De tudo — disse Daniel friamente. «mente há seis meses». — Tudo isto é tão imprevisto. Era a primeira vez que Mathieu se sentia invadido por uma espécie de cólera. quase me diverte. Daniel não respondeu. fixou se em Arcanjo. Não queria que fiscalizasses as nossas relações. Acrescentou com uma ironia velada que agradou a Mathieu: — A princípio chamava me Lohengrin. Então é verdade? Gostam de conversar? Mas. e disse: «É um caso de consciência. Agora já a conheço há bastante tempo. leal. mas isso descansa a. de que é que conversam? Daniel sobressaltou se e os olhos brilharam lhe. como quando se descobre que nos enganamos redondamente. O cachimbo apagou se lhe. Mathieu pensou: «Ele diverte se à custa deja. Arcanjo. esperamos a sua visita.... Dantes. — Evidentemente.irritado. Leal? Rígida? Não devia ser assim tão rígida. — Foste tu que lhe disseste para se calar? — Fui. — Mas que é que podem dizer. desajeitada. pensou com espanto. — E incrível! Vocês são tão diferentes! Não conseguia afastar a imagem absurda. — Foste tu que pediste — repetiu Mathieu mais calmo. Daniel todo cerimonioso. Não se sentia suficientemente abatido. duas vezes por mês mais ou menos. como vês. fora ela quem se espraiara naquelas gentilezas grosseiras.» Fora Marcelle quem escrevera aquilo. «Venha. e Marcelle diante dele rígida. já não tem tanta importância. Continuou: — Admira me muito que Marcelle me tenha escondido qualquer coisa. Mas não tenho más intenções. Riu se. lembro me. — E ela não pôs dificuldades? — Admirou se muito.. «Ela mentiu me». Marcelle não espera de mini conversas muito elevadas. Um espanto intelectual sim. não. Estendeu a mão e pegou maquinalmente numa azeitona. Não devia achar gr ande mal nisso. porém.

totalitário? — Nunca o disse de uma maneira positiva. porque é que ela fez isso? — Ora.. senão era lhe muito difícil. mal definida. Mathieu disse lhe: — Daniel. Não te falou das minhas visitas porque teve receio de que a forçasses a pôr um rótulo no sentimento que tinha por mim. Tinha de a estimar. és uma força. não exageres. sempre tivemos a intenção de to dizer. sem amizade. Esta história prova apenas que Marcelle é mais complicada do que imaginas.» — Aliás — continuou Daniel —. nós adiávamos sempre. como sempre. — E o que pensavas. — Ela disse te isso? . Alguém que podia dizer «nós» a Mathieu ao falar de Marcelle.sangraria. J E A N P AUL SARTRE Mathieu abanou a cabeça. Continuou com uma expressão de compreensão afectuosa: — O que acontece é que confias demasiado nas tuas opiniões sobre os outros. Há outra coisa. Não vás levar a sério uma infantilidade! — Censuravas me há pouco por não levar a sério as coisas. Era o momento de o odiar. E depois acho que ter um segredo a devia divertir. «Não devia perder a confiança nela naquele dia — naquele dia em que talvez fosse obrigado a sacrificar lhe a própria liberdade. mas era divertido brincar aos conspiradores. — Ela acha me. Procurou um recanto na sombra. de que o desmontasses para devolvê lo em pedacinhos bem analisados. «Nós»! Ele dizia «nós». — Porque lho pedi. admira essa maneira que tens de viver dentro de uma casa de vidro e dizer abertamente aquilo que se costuma conversar em segredo. mas há outra coisa. mas creio que assim o pensa.. Porque o fez? — Imagino que não era muito agradável viver sempre à luz do teu esplendor. — Mas passas de um extremo ao outro — disse Daniel. — Não. Poder se á dizer tudo? A Mathieu encolheu os ombros. mas ele não lhe queria mal. mas estava zangado sobretudo consigo mesmo... com voz tépida: — Nós dizíamos tudo um ao outro.» Parece me que descubro uma Marcelle diferente. Mas isso cansa a.. — Talvez — disse Mathieu —. Note se que ela te admira. Marcelle tinha se tornado culpada. — Uma Marcelle diferente. irritado. Ela sabia muito bem o que fazia. já to disse — respondeu Daniel. Disse apenas. — E essa carta! «Nós esperamos a sua visita. É qualquer coisa hesitante. mas Daniel desarmava o.. Que queres — acrescentou —. Mathieu olhou para Daniel. Daniel pareceu atemorizar se.

.» Mathieu encolheu os ombros. Ficar te ei muito grato se não lhe disseres nada da nossa conversa. talvez me tenha enganado. Mathieu empertigou se: «Cuidado. Mathieu apertou com força o copo nas mãos. Começara a entender. e à noite é ela quem fala.» Sacudiu se e disse bruscamente: A — Porque me dizes isso hoje? — Tinha de to dizer um dia ou outro. E era isso que eu intitulava a minha confiança nela! Estraguei tudo. «Ora. encolhera os ombros. Com Mathieu sei sempre. Mathieu baixou a cabeça. Naturalmente. — Por que razão hoje e porquê tu? Teria sido. — Bem — disse Daniel representando —. não disse nada.» Acrescentou: . Marcelle é orgulhosa de mais para falar. — E a propósito do seu. — Não tenho nada de diabo. é agora. Mas pensei que fosse bom para vocês os dois.— Disse. — Es mesmo o demónio! Semeias segredos por toda a parte. Foi ela quem falou. Disse mais: «O que me diverte em si é que nunca sei para onde vou. Bom.. Cada vez que se tratava de compreender os sentimentos de Marcelle sentia se possuído por uma incomensurável preguiça. — Ah! — atalhou Mathieu —. O que me levou a falar foi a inquietação real que se apossou de mim ontem. Mathieu não se enganou.» Daniel continuou: — Vou dizer toda a verdade... Quando por vezes acreditara discernir uma sombra nos olhos dela. Ontem conspiravas com Marcelle contra mini e hoje pedes a minha cumplicidade contra ela! Que estranho traidor. Para espicaçar a curiosidade. — Oh! «Ontem ao telefone parecia temer que eu lhe contasse. ela di la ia. mais normal que fosse ela a falar em primeiro lugar.. do seu acidente — disse Daniel. Daniel sorriu. diz me tudo. Marcelle ignora que te falei e ainda ontem não estava resolvida a pôr te ao par da situação tão cedo. Aquele ar evasivo era propositado. Mais uma comédia.» Ivich dizia: «Consigo não há imprevistos. disseste lhe que estavas ao corrente? — Não. Mathieu riu sem querer.. Era verdade.» «Com Mathieu sei sempre. por enquanto. se houvesse qualquer coisa. Pareceu me que havia um mal entendido muito grave entre vocês. — Porque é que ela nunca me falou disso tudo? — Ela diz que tu nunca lhe perguntas nada.

Não sabia exactamente o que ia acabar mal.— E então? — Então há qualquer coisa que não está certo. — Ela tem medo da operação? — perguntou.» Não garanto a exactidão das palavras. a paz insípida e sinistra. Sem te referires a mim. Tentarei falar lhe. — Bom. não é isso. — Dois ou três anos. por certo. no bar deserto e escuro. entre outras coisas. O dia pesado e borrascoso. meu caro. que já tem opinião sobre as coisas e não me dá tempo para formar a minha.. pensou Mathieu. perguntas de mais. A sua vida. O que ela me disse foi. E quando encararam pela última vez essa eventualidade? — Não sei. Não. — Não sei. — Estivemos sempre de acordo sobre o que se faria em semelhante circunstância. E por causa da tua atitude de ontem. — Que é que te leva a dizer isso? — perguntou Mathieu. Parecia tão acabrunhada. — Tem vontade de se casar comigo? Daniel pôs se a rir. e o empregado desligou a rádio. congratulavam se sorridentes. Eembrou se dos cabelos ruivos de Brunet. «Em Setembro temos a guerra. Era qualquer coisa mais vaga e mais ampla. — Está bem. e se não estou de acordo devo protestar.. Um empregado trouxe lhes os chapéus. — Nada de especial. evidentemente. como se tivesses tido escrúpulos. é talvez a maneira como me contou as coisas. Isso não pode ser assim tão simples. Marcelle. a Europa. mas procuraste saber a opinião dela anteontem? — Não. Devias falar lhe à noite. Havia qualquer coisa de podre na sua vida. — Então? Ela tem me raiva porque lhe arranjei um filho? — Não. Saíram com um cumprimento amistoso para o barman.. naquele Verão. ela dir te ia tudo. espantado. Estava convencido de que pensava como eu. aquela história de aborto.. A julgar pelo que vi ontem. «Isto vai acabar mal». — Que é que eu fiz? — Não o sei dizer exactamente. isto: «Ele é quem resolve sempre. três feltros e um chapéu de coco. Ela falou me disso com rancor. acreditava se nisso. — Sim. com um nó na garganta.» Naquele momento. Daniel continuou com um ar aborrecido: . Houve um silêncio. Mas isso é uma vantagem para ele. — Mas não tinha nenhuma decisão a tomar — atalhou Mathieu. há dois ou três anos. — Não sei — disse Daniel com um ar distante. E não acreditas que ela tenha mudado de opinião? No fundo da sala os senhores distintos levantaram se. não lhe perguntaste nada.

com os olhos secos e vazios: vão matá lo. a humildade ainda mais doce. a conversa já se deu. Pobre Mathieu. Pronto. o tremor dos lábios. mas nós contávamos sempre tudo. «Eu não devia. com a mão sobre o auscultador.. e a voz virá e dirá: já está. doces lágrimas. perdoada. os remorsos. fraca e defendida no mundo dos homens e dos vivos por uma voz sombria e quente. a chuva nos olhos. mas foi generoso. ser defendida. de doce mulher defendida. as palavras foram ditas e eu nada sei. Marcelle a dura. após oito dias tórridos. J E A N P AUL SARTRE Daniel riu com vontade. a doce piedade de si. ao menos uma vez. pensava ela. a voz grave subia como fumo para o tecto do café.— Enfim. Eu avisei te. lágrimas de verdadeira DADE DA RAZÃO mulher. mas ela está. Uma mulher. tão bom. a bela voz grave que faz sempre vibrar o auscultador do telefone. preferia mil vezes que me odiasse. sentado no café." Ah! Ele pensa nisso.. de joelhos. Durante oito dias ela olhara ao longe um ponto fixo. a voz virá de lá. é tudo. com o olhar fixo no chão como se alguma coisa se tivesse partido. querido Arcanjo!» Pensou: «Arcanjo» e os seus olhos encheram se de lágrimas. «eu não devia. é mesmo o tipo de ser yiço que podes fazer: cai nos na cabeça como uma telha. Eu não estava lá. a mulher frágil. Aliás.».. ela teria detestado Daniel se fosse possível detestá lo. de braços abertos como se tivesse deixado cair qualquer coisa. obrigado! — Desejas me mal? — De maneira nenhuma. com o espanto a oprimir Ihe e esta vozinha na cabeça: «Marcelle dizia me sempre tudo!" Ela está lá. não devíamos. ruminando: "A Marcelle contava me tudo. sobre as minhas nádegas. ela está lá na sua cabeça. e a carícia em sulco sinuoso no rosto. porquê resistir. pobre Mathieu. foi o único a preocupar se comigo. o Arcanjo emprestou à minha causa a sua voz soberba. ela esteve. Meu Deus. mas ele está lá. grávida. defendeu me». a voz sairá dali. acariciou me. Ele pensa. Abriu a iboca mostrando os dentes brilhantes e o fundo da garganta. lágrimas de abundância e fertilidade. aquelas mãos de veludo sobre as minhas ancas. é tão . meu pobre querido.. é intolerável. amanhã serei dura e razoável. Marcelle a razoável. dirá: "Marcelle dizia me tudo". Marcelle a masculina. e essa voz sairá toda vestida da placa branca. a lágrima trémula dos olhos. uma pobre mulher. uma só vez as lágrimas. neste momento. tenho vontade de abraçar Mathieu e de lhe pedir perdão. — Bem sei. «Ele abraçou me. Uma vez. Sabe agora. não soube nada. ele diz que sou um homem e agora a água. durante oito dias ela fora para ele Marcelle a decidida. que irá ela dizer? Estou nua. tomou a minha causa a peito. meu Deus.

— Está — disse ela —. Ah!. pensou com desprezo. O coração batia lhe fortemente. — E você — insistia a voz terna — dormiu? — Eu? Mais ou menos. — Você. é Daniel? — Sim — respondeu uma voz calma —. meu bom Mathieu.. «Esta noite. . sim. — Não tínhamos combinado isso? — Sim. e eu terei de fingir que ignoro que ele já o sabe. Era um belo riso de luxo. que percebeu que havia qualquer coisa e que isso o atormentava todo o dia. matarei a criança. Crispou a mão sobre o auscultador. aceitarei tudo. o ácido correu Ihe nas veias.bom!» Subitamente surgiu lhe uma ideia nítida. você disse que nos víamos? — Naturalmente — respondeu Daniel. irei ver a velha. — Correu tudo optimamente. Disse: — Não é verdade. Mas espero que não tenha sabido. — Efectivamente — Daniel parecia divertir se —. Ele sabe. «continuamos a mentir lhe. tenho vergonha. era insuportável e delicioso. Tínhamos menosprezado Mathieu... — Dormiu hem? — A voz grave ecoava lhe no ventre. minha querida Marcelle. tranquilo e forte. farei o que ele quiser. Estou um pouco enervada. quando ele chegar. — Não deve enervar se — disse ele. — Deixei a muito tarde ontem. nós mentimos lhe». quando eu lhe puser os braços em volta do pescoço e o beijar. Marcelle sentiu se melhor. Marcelle sentiu se invadida por amargos remorsos. A princípio não queria acreditar. Melhor do que eu esperava.. pela primeira vez na vida fiz te sofrer. pensarei: ele sabe e como poderei suportar isso. — Disse me que compreendia muito bem. quem fala? J E A N P AUL SARTRE — É Marcelle. meu pobre Mathieu. — Ele deteve me às primeiras palavras — disse Daniel. Madame Duffet deve ter ficado zangada. disse o exactamente nesses termos. querida Marcelle.. como reagiu ele? A — Foi tudo bem. dizemos lhe tudo. Daniel riu. — Tudo? É verdade? — E verdade. verei os seus olhos bons. chegará esta noite. ah!. mas a nossa sinceridade está envenenada. espantado. não soube de nada. tudo o que tu quiseres. Não é verdade que o menosprezámos. afinal.. — Bom dia. — Bom dia — disse Marcelle. arquejante —.» O telefone tocou sob os seus dedos. — Deve ter lhe dito que dizíamos tudo um ao outro. ele saberá tudo. — Não — disse Marcelle. Dormia a sono solto quando você saiu.

Saiu cheio de remorsos. quero vê lo o mais cedo possível. falava lhe arquejante. mas hei de arranjar tudo. Pode ser amanhã? A voz pareceu lhe mais seca. telefone depressa. — A sério. Riu de novo e Marcelle pensou com humilde gratidão: «Está a troçar de mim. Como ele gosta de si! — Oh! Daniel! — dizia Marcelle. operários. crianças. — Acontece! Ele também. querido Daniel. Ouviu novamente o riso profundo e sadio.» Aproximou se da janela e contemplou os transeuntes: mulheres.» Mas a voz voltara a ser grave e o telefone vibrava como um órgão. F. . tenho tanta coisa a contar lhe e não posso falar sem lhe ver o rosto. Estou satisfeito por sua causa. Uma jovem senhora corria pelo meio da rua com o filho no braço. — Oh! Daniel.. — Oh! Daniel! Oh! Daniel! Tomou fôlego e acrescentou: — Você foi tão bom. não.. Depois aproximou se do espelho e mirou se com espanto. depois fechou os olhos e enfiou a rosa na cabeleira escura: «Uma rosa nos meus cabelos. Promete ser delicioso. — Está bem — disse Marcelle —.. Marcelle seguiu a com o olhar. Telefonarei. foi. Ele não me deixou falar. eu queria estar escondido no quarto para ver quando se encontrassem. Marcelle. achas que ainda posso reparar o mal?» E tinha os olhos vermelhos. — Até logo. tenho remorsos. Marcelle pôs o auscultador no descanso e passou o lenço pêlos olhos húmidos: «Arcanjo! Fugiu depressa para que eu não lhe agradecesse. interrompeu me logo às primeiras palavras e disse: «Pobre Marcelle. aça favor de esperar aqui — disse o homenzinho. Marcelle. virou a timidamente entre os dedos. é mais fácil.— Daniel. arranjou a cabeleira e sorriu para si própria cheia de confusão. — Daniel! Mas o telefone tinha sido desligado..» Abriu as pálpebras e olhou se no espelho.» Agora tudo está nas suas mãos. Se vocês os dois estão com essas disposições. Daniel. Houve um silêncio. Sobre a prateleira do lavatório havia três rosas vermelhas num copo.... tinha perdido o tom harmonioso. tudo corre bem. seja desembaraçada hoje à noite. Com certeza que desejo muito vê la. Ele fará o que você quiser. «Espremer o abcesso. com o coração aberto. — Amanhã. Ah!. sou um grande culpado. Marcelle.. pareceu lhe que tinham um ar de felicidade. e Daniel continuou: — Disse me que queria falar lhe hoje à noite. Marcelle pegou numa com hesitação. Oh! Daniel. e ria. tenho ódio a mim próprio.

mas tinha uma expressão dura e perseguida. — Senhor? — Delarue. — É funcionária? — Eu. para ter mais luz e examinou os demoradamente: — Muito bem — disse. — Já estive aqui — disse a mulher —. Tinha os cabelos prateados. Tocaram. A Examinou o rosto de Mathieu. os olhos azul claros projectavam se ligeiramente para fora do rosto. que cheirava a couve. desorganizam as finanças. minha senhora. Não era o mesmo dinheiro. e o homenzinho foi abrir. — Deseja recorrer aos nossos serviços? — perguntou paternalmente. ele pegou lhes. Era uma sala escura que tresandava a couve. — Faz favor de se sentar. cuja severidade era discretamente aliviada por uma pérola. Esperamo los com impaciência. cuidadosamente penteados para trás. Baixou a cabeça e olhou o chão entre os pés. encolhendo as pernas. não.. minha senhora. um dinheiro cinzento e triste. O homenzinho olhava a com J E A N P AUL SARTRE cobiça. A jovem mulher deitou uma olhadela hostil a Mathieu e pôs se a brincar com o fecho da bolsa.Mathieu sentou se num banco. Acompanhou a. não é? A jovem mulher corou e o homenzinho esfregou as mãos: — Pois bem — disse —. — Desejo. Dois filhos? Parece tão nova. Uma mulher jovem entrou vestida com uma decência miserável. — Muito bem. Usava uma gravata verde escura. é para isso que estamos aqui. Meu marido. Mathieu não estava à vontade. chegou à porta envidraçada. de bigode branco. até ao banco. Pôs se a procurar na bolsa. — Sim. À esquerda via se uma luz fraca através de uma porta envidraçada. vamos arranjar tudo. Ela tirou dois ou três papéis cuidadosamente dobrados. Mathieu acompanhou o ao escritório. A porta envidraçada abriu se e surgiu um senhor alto. obsequioso. O homenzinho falava lhe muito junto ao rosto. depois afastou se. com certeza. O senhor apontou lhe amavelmente uma poltrona de couro já gasto e sentaram se ambos. . introduzira se entre os verdadeiros pobres e era o dinheiro deles que ia buscar. Contemplou a pensativo e sorridente durante uns instantes.. O senhor apoiou os cotovelos na mesa e juntou as belas mãos brancas. Não era feia. Está um bocado atrapalhada. vamos arranjar tudo. é para um empréstimo. devolvendo os. em que ela se sentou. Viu as notas sedosas e perfumadas na maleta de Lola. não é verdade? Mas quando chegam.

. está bem — atalhou Mathieu. No Liceu Buffon. Na entrega dos sete mil francos exigiremos um recibo selado. Vamos então às formalidades da praxe. quem nos prova que os seus documentos não são falsos? (Sorriu tristemente. — Quer ter a bondade de preencher estes formulários? Assine em baixo.. caderneta militar. — Muito bem. Bem. O senhor tomou os.. É um sentimento miserável. um pouco gorda. E qual é o montante da soma de que vai precisar? — Seis mil francos — disse Mathieu. — Ah! — disse —. possibilidade de adiamento. como as mãos. Era um formulário de pedido de empréstimo em duplicado. O senhor tirou da gaveta duas folhas impressas.» — Conhece as nossas condições? Emprestamos por seis meses.. necessitamos de quinze dias pelo menos para as informações! — Que informações? Já viu os meus documentos.. a morada. — Muito bem. aprende se a desconfiar. cartão de eleitor. É professor do liceu? — Sou. Mathieu estava agradavelmente surpreendido. — Professor. Mathieu escreveu. reconhecendo a dívida. examinou os distraidamente. — Temos muito prazer em auxiliar os universitários. porque temos despesas enormes e corremos sérios riscos. . Somos obrigados a exigir vinte cento de juros. Note que neste caso particular não ponho em dúvida a sua palavra. O selo é por sua conta. — Na entrega do dinheiro? Não pode entregá lo agora? O senhor pareceu muito surpreendido.) Quando se lida com dinheiro. é tudo por agora. Por isso faremos o nosso pequeno inquérito. Todos idealistas. 1905. Ele reflectiu um pduco e disse: — Ponhamos sete mil. Mas. pai e mãe franceses.. — Nascido em Paris. concordo. — Ah! Ah! — disse o senhor com interesse.. de um modo geral. os universitários são todos iguais. Pensou: «Não imaginava que fosse tão fácil. — Agora? Mas. Tinha de indicar a idade. O senhor considerou Mathieu com uma indulgência divertida.— Não ignora que os estatutos da nossa sociedade estabelecem um serviço de empréstimo destinado exclusivamente aos funcionários? A voz era bela e branca. Mathieu entregou lhe os documentos. Um qualquer. — Sou funcionário — disse Mathieu. meu caro professor. J E A N P AUL SARTRE — Está bem. mas não temos o direito de ser confiantes. — Muito bem — disse o senhor percorrendo as folhas. Em primeiro lugar vou pedir lhe um documento de identidade. passaporte. o estado civil..

Não se poderia. — Lamento — disse friamente o senhor. procederemos com a máxima discrição. — E muito prazer. entre nós. estabelecidos de acordo com as despesas e os riscos e não nos podemos prestar a nenhuma transacção desse género! Acrescentou com severidade: — Se tinha pressa. Só tinha esperança em Sarah. — Pois bem. JEANPAUL SARTRE — Até à vista. — Foi uma decisão repentina. — Preciso do dinheiro para hoje à noite ou o mais tardar amanhã de manhã cedo é uma necessidade urgente. angustiado. A jovem mulher ainda estava ali. Lá fora uma luminosidade vegetal tremia no ar cinzento. devia ter vindo antes. — Devo rasgar os formulários que acaba de preencher? Mathieu pensou em Sarah: «Seguramente deve ter obtido um prazo. «Mais um desastre». Porém. Não leu os nossos avisos? — Não — disse Mathieu levantando se. Cobramos os juros normais. número 12? — Está. o senhor sabe. inclinando se. Mas agora Mathieu tinha sempre a impressão de estar enterrado. vou ver se me arranjo até à data da entrega. — Obrigado. Ergueu as belas mãos e disse: — Não somos usurários. Mas nada receie. — É impossível — disse Mathieu. como são as administrações. Rua Huyghens. há de encontrar um amigo que lhe adiante o dinheiro por quinze dias. E uma instituição por assim dizer oficial. . Mathieu atravessou a sala com grandes passadas. — Pois é — disse o senhor amavelmente —.dirigindo nos directamente ao Ministério. — Ao seu serviço — respondeu o senhor. nos primeiros dias de Julho mandar lhe emos uma convocatória. Mordia a luva com um olhar desvairado. pensou.» — Não rasgue — disse —. A morada está certa — disse apontando para o formulário —. Entrou num café e pediu ficha ao balcão. senhor — disse Mathieu. com um juro mais elevado? O senhor mostrou se escandalizado.. minha senhora — disse o homem por trás de Mathieu. Ergueu se e acompanhou Mathieu até à porta. Estava no Bulevar Sébastopol. Duvido muito que possa contar com o nosso auxílio antes de 5 de Julho. — Queira entrar. meu caro professor! A nossa sociedade tem o apoio moral do Ministério das Obras Públicas..

» Ainda que se deixasse levar. desesperado. «Tanto faz. com liberdade de ser um animal ou uma máquina. Quer deixar algum recado? — Não.» — Denfert Rochereau! — Três bilhetes — disse o cobrador. é através de mim que há de acontecer. «Os judeus entendem se sempre bem». — É Weysmuller. Desligou e saiu. Só lhe restava esperar. ao banco. Mathieu. a minha vida é apenas um destino. Pensou: «Não. tudo era transportado pela enorme máquina. as flores. — Daqui é Mathieu Delarue. está. para tudo. tinha escolhido a sua perdição.» O autocarro parou com uma travagem brusca.» Via surgirem um por um os pesados edifícios sombrios da Rua dos Saints Pères. a velha tossia. Fez sinal a um autocarro. as flores dançavam lhe no chapéu de palha. «Caso. É cara ou coroa.» Era quase uma prece. A sua vida já não dependia dele. Pensava: «A minha vida já não me pertence. Já não passava de um saco de carvão empilhado com outros sacos no fundo de um camião. subiu e sentou se junto de uma velha que tossia no lenço. Posso falar com Sarah? — Saiu. era embalado pela rapidez da sua vida. O chapéu. maltratava o. Mathieu endireitou se e olhou angustiado as costas do motorista. oxalá tenha conseguido. «E se o judeu não for nisso?» Mas esse pensamento não o chegou a arrancar do seu torpor. pelo menos acaba. Toda a sua liberdade acabava de retroceder sobre ele. A velha não tirava o nariz do lenço e tossia. J E A N P AUL SARTRE . Enquanto marcava o número pensou: «Oxalá tenha conseguido. a velha. Mathieu pagou e pôs se a olhar pêlos vidros. não caso: já não tenho nada com isso. tossia na Rua Réaumur. livre. pensou. via a sua vida desfilar. mesmo que se deixasse transportar como um saco de carvão. Era livre. «O assunto vai ser resolvido. os acontecimentos batiam de encontro aos vidros. Pensava em Marcelle com um rancor melancólico. fazia o virar à direita e à esquerda. estava nas mãos de Sarah. por cima das águas calmas e escuras. eu digo lhe hoje à noite que caso com ela. não é cara ou coroa.— No fundo e à direita. tossia no Pont Neuf. — Está. tossia na Rua Montorgueil. Os vidros tremiam. sacudia o. os telefones. Diga lhe apenas que telefonei. Não sabe quando volta? — Não. — Ah! Que chatice. Tossia na esquina da Rua dês Ours com o Bulevar Sébastopol. Sarah? — Está — disse uma voz. desamparado.» O autocarro enorme e infantil transportava o. O que quer que aconteça.

— Não. de se arrastar durante anos com aquela cadeia aos pés. condenado à liberdade para sempre. Mathieu pegou na carta. deve estar a fazer alguma asneira. «Devia ter roubado.» — Que horas são? — Seis horas. Uma letra grande e inclinada: «Reprovada. Ivich. via continuamente uma maleta aberta. — Ah! E que estão cada vez mais difíceis. Em volta dele as coisas tinham se agrupado..» — São más notícias? — perguntou a porteira.» Enfiou a carta no bolso. dá me depois o troco. «Seis horas. de recusar. e. esperavam sem um sinal. depressa. sem a menor sugestão. «Reprovada.. Impressionava se com a grandiloquência inquietante. — Denfert Rochereau — gritou o cobrador. Estava cansado e nervoso. de hesitar. Ficam com diplomas. Estava só no meio de um silêncio monstruoso. Era como um remorso. Inconsciente. «Reprovada. só e livre. Há quatro horas que anda por aí pelas ruas de Paris. está prestes a fazer uma asneira. notas perfumadas e sedosas. Rua Saint Jacques. casar. Mexeu na gaveta da mesa de costura. Inconsciente. — Bem. 173. — Muito mais. sem auxílio nem desculpa. Obrigado. ninguém tinha o direito de aconselhá lo. . — Não sei se os tenho — disse a porteira. Podia fazer o que quisesse.de aceitar. segundo me disseram. — Bem.. na maleta. Ivich. Enfiou pela Rua Froi devaux. Só havia para ele Bem e Mal se os inventasse. No mesmo instante os muros que o cercavam desmoronaram se e pareceu lhe que mudava de mundo. inconsciente..» — É um aluno meu que ficou reprovado nos exames. Havia três palavras no meio da página. Mathieu chamou o: — Lar dos Estudantes. Que é que se lhes há de fazer? J A IDADE DA RAZÃO — Pois é. — Só tenho cem. é que o senhor ficou tão assustado. que se há de fazer! Leu pela quarta vez a carta.. — Está bem — disse o motorista. Um táxi parou. Soube do resultado às duas horas. no fundo de um quarto escuro. Saiu: «Onde estará ela?» Tinha a cabeça vazia e as mãos trémulas. admirada.» — Uma carta para o senhor — disse a porteira. condenado a decidir se sem apelo possível. empreste me cinquenta francos — pediu à porteira. — Imagine! Toda essa gente que estuda. Mathieu levantou se e desceu. É claro como a água. rasgou o sobrescrito. desaparecer. — Madame Garinet..

Voltou logo. mas isso não queria dizer nada. mas de repente percebeu: «Para me mandar aquilo.. desde o cais. pois teria passado antes pelo Lar para levar a bagagem. — Não voltou. — E a irmã.. na pior. pode dar lhe o recado. — Está bem. — Aconteceu lhe alguma desgraça? . Mathieu desceu e tocou à campainha. «Onde estaria? No cinema? Pouco provável. A Senhora Montero é que telefonou duas vezes para falar com o Senhor Boris. quer que ele vá vê la imediatamente quando chegar. nem no Palais du Café. Reconheceu Mathieu e sorriu. Mathieu olhou o.. — A Menina Ivich Serguine está? A mulher olhou o. O táxi parou. indeciso. sentado num banco do bar. — Hotel de Pologne. à esquerda. preciso de entrar em todos os cafés. nem no Source. Passados instantes bateu no vidro. Nas ruas? Em todo o caso não tinha ainda deixado Paris. — Aonde vamos? — perguntou o motorista. O estudante tomava uma dose de vinho do Porto. ando à procura de alguém. Falava com dificuldade. Tinha sido enviada da agência da Rua Cujas.«Onde estará ela? Na melhor da hipóteses terá partido para Laon. não veio dormir. nem no Biard. — Desculpe — disse Mathieu. não veio. — Vou ver — respondeu. — Ali. Rua Sonimerard. nem no Harcourt.. Se o encontrar. A No Capoulade viu um estudante chinês que a conhecia. — Parece me que conhece a Serguine. vamos subir devagar o Bulevar Saint Michel. E estou com quatro horas de atraso!» Estava dobrado para a frente e apoiava fortemente o pé sobre o tapete para acelerar. Saltou e empurrou a porta. uma rapariga loura. estava na caixa. Não a viu hoje? — Não — disse o chinês. devia estar bêbeda. Tem algum recado para ela? J E A N P AUL SARTRE — Não.» Mathieu tirou a carta do bolso e examinou o sobrescrito. não passou por aqui? — A Menina Ivich? Não. gordo. Mathieu subiu novamente para o automóvel.» — Ouça — disse —. Correu. com desconfiança. albino. Ivich não estava no Biarritz. Saiu. — A Menina Serguine não voltou desde esta manhã. — O Senhor Serguine está? O empregado.

fica a dois passos. Devagar. — Na cave. Sabe que ela reprovou. enfiou as nos bolsos. — Bom dia. pensou com fúria. — Onde? J E A N P AUL SARTRE — No Luxemburgo. sentia apenas uma necessidade dolorosa e violenta de a tornar a ver. empurrou uma porta de couro e recebeu um golpe no estômago. Desça a escada. a desgraçada? — Sei. — Viu Ivich? Renata tomou um ar digno. Saía do Luxemburgo com uma pasta debaixo do braço. — Onde é isso? — Rua Monsieur le Prince. — Bom dia — disse.» . Viu Ivich? — Ivich? Vi. Subiu para o táxi. depois voltou: — Desculpe. também me esqueci de lhe dizer adeus. As mãos tremiam lhe. — Adeus. sim. Mathieu voltou para o táxi. É aqui. sentiu um cheiro a mofo. Nem sequer pensava em proteger Ivich.» — Pare. — O dancing? — perguntou. Ivich estava ali. o dancing é na cave. «Oxalá ainda lá esteja. creio. Espere um momento. Mas afinal talvez estivesse simplesmente em Montparnasse. Encostou se à ombreira da porta e pensou: «Ela está aqui. Ao Tarantule. — Não sei — disse lhe Mathieu.— Como diz? — Estou a perguntar ao senhor se lhe aconteceu alguma desgraça. a amiga italiana de Ivich. — Rua Monsieur le Prince. Para onde é que ela foi? — Queriam ir ao dancing. Mathieu desceu. — Pare! Pare! Saltou do táxi e correu para ela. — Quando? — Há uma hora mais ou menos. E uma casa de discos. O táxi deu a volta à Fonte Médicis. «E se ela tivesse tentado suicidar se? É muito capaz disso». — Carrefour Vavin — disse. voltando lhe as costas. — Obrigado. eu aviso. Deu alguns passos. Entrou na casa de discos. e Mathieu viu Renata. Estava com uma gente muito esquisita. senão terei de correr todos os chás dançantes do Quartier Latin. dançava.

Acendeu um cigarro e disse. — Não. No fundo quatro rapazes e uma rapariga muito pintada batiam palmas e gritavam «Olé!» O tipo alto e moreno reconduziu Ivich à mesa deles. pensou Mathieu. Ele dançava bem. Os cactos estavam inchados como bolhas. Envolviam na à distância com gestos redondos e ternos. — Quer beijar me. Os estudantes rodearam na e fizeram lhe uma festa. — Foge porque eu prometi beijá lo — disse a sorrir. A rapariga pintada mostrava se reservada. — Pois bem. tinha um ar esquisito. sem uma sombra. Para aquele rapaz elegante. Os outros afastaram se. Alguém disse: «Ivich!» com uma voz docemente reprovadora. «Fantástico». não — dizia agitando a mão diante do rosto —. O belo moreno parecia achar a coisa muito natural. não te beijarei. de olhos fechados. — Quero. Nas paredes tinham pregado papéis multicores que tinham forma de plantas exóticas e os quais já se estavam a despregar sob a acção da humidade. Ivich? — disse a rapariga. surpreendida e lisonjeada. no Bulevar Saint Michel. ameaçou. pensativa: — Olé! Ivich deixou se cair numa cadeira entre a rapariga e um lourinho de barba. — Desculpe — disse o de barbas com dignidade —. pesada e mole. Era o jovem moreno e alto que estava com Ivich na véspera. ao mesmo tempo empertigado e familiar. Ivich apontou o de barbas. Ivich apoiava a cabeça no ombro do seu par e colava se a ele. vem. Mathieu sentiu se humilhado. Beijarei Irma. com o olhar parado. Ela afastava então a cabeça e ria. Um gira discos invisível difundia um paso doble e essa música em conserva tornava a sala ainda mais nua. não prometeu. escandalizados. Era. autoritária. o único à vontade. Esperava. Ivich não passava de . O belo moreno olhava a firamente com um leve sorriso. Ele respirava os cabelos de Ivich e de quando em quando beijava os. enquanto ele lhe sussurrava ao ouvido. Uma luz coada saía dos lustres de papel oleoso. — E puxou a pelo braço. Mathieu viu umas quinze mesas espalhadas sob a luz morta. «reconhecem lhe o direito de se sentar ao lado dela». Mathieu reconheceu o. aliás. nada de álibis! O de barbas levantou se atenciosamente para dar lugar ao dançarino moreno. Estava de pé. Estavam sós no meio da sala.Era uma sala vazia. segurando a pela cintura. Ria como uma louca. muito pálida.

— Quer voltar para casa? — propôs Mathieu. — Es tu — disse. — É um demónio. Não se debatera. Mathieu agarrou a pela cintura e empurrou a. Arrancara o curativo. — Cheiras a borracha — disse com asco. — Quero sentar me aqui. Ela pôs se a rir e levantou a saia acima do joelho.uma presa. A Ivich ergueu se subitamente e olhou Mathieu com um ar sombrio. Mathieu viu uma crosta avermelhada com pequenos pontos brancos de pus. — Menos eu. Tinha as pernas moles. ele adivinhava lhe os seios. melancólica. o cheiro da carne. — Sabe — disse o de barbas —. Mas ela ergueu a mão esquerda e apontou o. Ivich fizera mil trejeitos antes de beijar a rapariga. — Isso é verdade — afirmou Ivich desgostosa —. Ivich — disse o dançarino —.. Ivich tornou se pesada. — Ivich! Ela sacudiu os caracóis. Tomou a pêlos ombros e conduziu a. e ele ficou a duvidar que o tivesse reconhecido. — E verdade que és prudente. Mathieu colocou se diante da mesa. não a fizemos beber. quisemos até impedi la. Ivich voltou se para ele e disse: — Menos este.. — Leve me daqui. ele despia a com um olhar sensual de amador. estou a achincalhar me. — Quero sentar me aqui. as coxas. menos eu. contente. — Venha — disse Mathieu docemente.. — Olha. Os rapazes entreolharam se. — Quer ir para a casa de Boris? — Ele não está em casa. Olhava a com ar cúmplice. — Onde está ele? . No meio da escada. — Não — gritou Ivich. — Eu peco lhe. Ivich.. de boca aberta. — Ivich! Ela olhou o. Percebera pela primeira vez que a desejava vergonhosamente através do desejo de outro. já estava nua diante dele. Finalmente agarrara lhe no rosto entre as mãos e beijara a na boca. decepcionada. que é um pulha. — Ela arrancou o contra a nossa vontade — desculpou se a rapariga... Mathieu sacudiu se bruscamente e avançou para Ivich. — Conservaste o teu — disse Ivich. Ouviu atrás dele um ruído de consternação. são uns verdadeiros pajens. Na rua largou a. Ela pestanejou e olhou em volta. Mas repeliu a violentamente.

tirou o cachimbo. já que me trouxe de lá. Um cheiro azedo de vómito exalava da sua boca tão pura.. Ivich não protestou. dei um espectáculo. — Não se sente bem? Estava lívida. E. tinha medo de que a porta se abrisse. chegaremos num instante. estenda se e feche os olhos. — Levo a para a minha casa — explicou. Subiram em silêncio. Só mais um andar. — Venha. Ivich resmungou . — Então. — Bem — disse. Ela olhava o com uma expressão neutra. Levou a até ao táxi. — Vou mandar parar numa farmácia. Ele pagou ao motorista apressadamente e voltou se para ela. Ivich tornou a encostar se na almofada e Mathieu guardou o cachimbo. — Agora lembro me de tudo.— Sei lá. encheu o e fingiu estar absorto. fui reprovada. Subiu com dificuldade para o automóvel e atirou se para cima da almofada. No segundo patamar parou para tomar fôlego. — Ivich! — Tudo. sombria. — Poderá deitar se no sofá e eu farei um pouco de chá. De repente ficou verde e pendurou se na janela. — Chegámos — avisou. \ mas ela recusou e saltou com vivacidade para o passeio. — Não — disse violentamente. — Rua Huyghens. Ivich gemeu um pouco. Mathieu reflectiu. Mathieu desceu primeiro e deu lhe a mão para a ajudar. Mathieu conduziu a devagar pela escada. Estendeu o braço e segurou o trinco. — Tenho vergonha — disse.. Mathieu viu as costas magras sacudidas pêlos vómitos. Mathieu respirou apaixonadamente esse cheiro. — Está melhor? — Já não estou embriagada — disse Ivich. Mathieu encostou se para trás. 12. hostil. Andei com aquela gente imunda. Você é que deve saber. — Mas a cabeça dói me. Depois de um instante a tosse cessou. Ivich disse subitamente: — Como me encontrou? Mathieu inclinou se para enfiar a chave na fechadura. Ivich ergueu se com dificuldade. — Eu estava à sua procura e encontrei Renata. — Estou doente. — Para onde quer ir? — Sei lá. — Cada degrau é uma pancada — disse ela.

— Quer chá? Ela não respondeu. e Ivich abriu os olhos. Ivich atirou se para o sofá sem dizer uma palavra. Ivich fechou os olhos e pousou a cabeça na almofada. A água pôs se a chiar na chaleira. J E A N P AUL SARTRE — Quer chá? — Estou com frio. dir se ia uma maldição pregada no horizonte. ela sorria. Mathieu puxou uma cadeira junto do sofá e sentou se sem ruído. quer? — Chá? — indagou Ivich. Mathieu pegou numa chaleira eléctrica e foi enchê la na torneira do lavatório. Pô lo em cima de uma bandeja com duas chávenas e voltou ao quarto. — Vou fazer chá — disse Mathieu —. A fronte estava lisa e pura. uma promessa de desgraça. Sofria. Ivich partiria para Laon. Ivich deu alguns passos incertos e entrou no quarto. mas bem apertado talvez se arranjasse ainda uma gota. afastando se.» Mathieu levantou se e foi devagarinho ver se a água estava a ferver. perplexa. — Aí está o sofá. No armário descobriu metade um limão já seco. — Entre — disse Mathieu. Endireitou os cabelos com a palma da mão e ergueu se . embrutecer se ia lá. Ela roçou o ao passar e ele teve de apertá la nos braços. — Pus água a ferver — disse. não era uma emoção específica. não podia auxiliar ninguém. Dormia. Mathieu foi buscar uma coberta e estendeu a sobre as pernas dela. Era a primeira vez que a recebia no seu apartamento. Ivich não respondeu. nem um matiz especial dos seus sentimentos. Olhou em volta com um olhar morto. «Como é jovem». As três rugas tinham desaparecido. passariam um Inverno ou dois e surgiria um tipo — um jovem — que a levaria consigo. Era tão fraca e tão leve sobre o sofá. Três pequenas rugas verticais sulcavam Ihe a fronte.atrás dele: — Estava à espera que viesse. Olhava com ternura o corpinho doente e maculado que permanecia tão nobre no sono. — Mas você não sabe fazer chá. pensou. Viu as nos olhos de Ivich e teve vergonha. E Mathieu não podia auxiliá la. precisava antes de auxílio. Depois voltou e sentou se junto de Ivich. — É a sua casa? —É. Pusera toda a sua esperança numa criança. Olhou as poltronas de couro verde e a mesa de trabalho. Deite se. «Eu casarei com Marcelle. pensou que amava Ivich e admirou se: não parecia amor.

Parecia lhe que ela o abandonava aos poucos. Mathieu ficou um momento sem falar. — Não era verdade. tenho medo de voltar a ver o dia. Todos esses cafés giravam em torno de mim. — Dê me o pacote do chá — disse —. — E o bule? — É verdade. mas não deixei. — E preciso esperar um pouco — disse. Telegrafou aos seus pais? — Não. Estou contente aqui. mas calmo. é como se o dia tivesse terminado. Acendeu a lâmpada da secretária. Estava ainda sombria. Encostou se às almofadas do sofá. — E noite — disse Ivich. Não poderia fechar as cortinas? Acenderíamos a lâmpada pequena. encantada. se vier alguém. porém mais animada. podemos sair. do ano!. Depois disse. — Só tenho uma chaleira — respondeu Mathieu. Mathieu levantou se. Marcelle esperava o às onze horas. Mathieu olhava a cabeça baixa de Ivich e os seus ombros frágeis. você mesma? Ivich baixou a cabeça: — Tenho. — Detesto isso. entregando lhe o pacote de chá. Mas preciso de um samovar. Houve um silêncio. vou fazer chá à moda russa. Há um comboio ao meio dia. é a sua última noite do ano? — Ah! — respondeu ela irónica —.» — Quando parte? — Amanhã...esfregando os olhos. não abriremos. Aliás. — Então tem de lhes comunicar. — Não — atalhou Ivich. Estou inteiramente livre. — Ir aonde? Não. Não espero ninguém. Calaram se. — Ficará aqui quanto tempo quiser. — Não gosto do seu apartamento. Pôs a água no bule e voltou a sentar se. — Obrigada. Detesto as despedidas moles que se esticam corno borracha. Boris queria. . controlando a voz: — Eu acompanhá la ei à estação. E depois aquela gente toda! Um pesadelo! Aqui é feio. — Oh!. deixaremos que toque. tanto pior. E depois estarei exausta. — Como é suave. — Já o sabia. Se estiver melhor. — Então — disse —. — Como queira. acrescentou: — Quero J E A N P AUL SARTRE que seja noite quando sair. Passou a ocupar se da chaleira. Pensou com rancor: «Que espere. chá de Ceilão! Enfim. fechou as persianas e as cortinas pesadas. Foi buscar o bule à cozinha. — Depois de uma ligeira pausa.

A — Não os conhece. — Não me olhe assim. É.. Subitamente o sangue subiu lhe ao rosto. você vai partir amanhã. Em fins de Outubro. Não diga que não. aborrecida. Odette e Jacques convidam me sempre para passar o mês de Agosto em Juan les Pins e eu nunca aceitei. Tudo o que toca Laon fica sujo. só sei que estou com dor de cabeça — disse Ivich..— Ivich. — Mas não tem nada que arranjar. você há de voltar. Ivich! — Ah!. não sei como estou a olhar. Isso não pode aborrecê la. Como encontrar palavras que não a ferissem? — Não é o que queria dizer.. J E A N P AUL SARTRE — Não. — Não. Não recuse sem saber. isso divertir me á e eu farei economias. já lhe disse que sou incapaz de aprender um ofício. durante as férias eu farei economias. Ivich afundara se no sofá e olhava por baixo com uma expressão má. sem pensar. se quisesse. é isso? Observou secamente: — Totalmente impossível. surpreendida e cansada. — Não quero. — Não. Pois irei este ano.. Daqui até lá hei de me arranjar. — Ah!. ouça. se me permitisse auxiliá la... você . \ — Há um novo exame em Novembro. — Detesto! Mathieu levantou se para ir buscar o bule e as chávenas. Ivich não parecia compreender. mas um dia terei de ir. não é absolutamente impossível. — Não se deve resignar dessa maneira. — Não pensarão em castigar. Irei visitá la a Laon.. Mathieu atreveu se a erguer os olhos para ela. alarmado. Não sou capaz de aprender um ofício e prefiro passar o resto vida em Laon do que voltar a fazer esse exame. Será pior. não deve.. Baixou os olhos e continuou: — Quero ir dormir. sairei simplesmente da cabeça deles. Mas não é possível que lhe estraguem a vida para a castigar por ter fracassado uma vez. você viverá em Paris. de modo nenhum — disse Mathieu com calor —. será um empréstimo. mas não se sentia tranquilo. — Não diga isso — atalhou Mathieu. os seus pais não podem. Eu arranjarei dinheiro. o que mereço. aliás. e Mathieu acrescentou: — Terei algum dinheiro.. Ouça. Ivich. Ivich encolheu os ombros. — Há de se arranjar? — indagou Ivich.. Você detesta Laon. — Pois bem. Voltou se para ela e murmurou sem a olhar: — Ouça. — Ivich. Vão desinteressar se de mim. mas dou lhe a minha palavra que voltará. se você. Interrompeu se.

porque é que não aceita? Ela murmurou finalmente. .. um bocadinho da nuca entre os caracóis J E A N P AUL SARTRE e a gola da blusa. mudando de tom todas às vezes. — Porquê? Não aceita o dos seus pais? — Não é a mesma coisa.» Ivich encolheu os ombros. vai dizer me porque é que não aceita. Mathieu permanecia em frente dela. não a largarei enquanto não aceitar. Ivich não respondeu. então é porque sou um homem — disse com um riso nervoso. que orgulho é esse? Não tem o direito de desperdiçar a sua vida por uma questão de dignidade. — Ivich. — Que é que está a dizer? Olhara o com um ódio frio. — Ivich. Enterrou o rosto nos cabelos. sem erguer a cabeça: — Não quero o seu dinheiro. A Era possível vencer Ivich pelo cansaço. A nuca era mais escura do que a pele do rosto. Mathieu via lhe apenas o alto da cabeça. Disse me mil vezes que os odiava. — E tem motivos para aceitar o deles? — Não quero que sejam generosos comigo. com doçura. para isso era preciso espicaçá la com perguntas. não é. — Ah!. Darei lições. — Efectivamente. Teve vontade de lhe pegar no queixo e erguer lhe a cabeça à força. — Não foi isto que disse? — Não quero que me dê dinheiro. Você dizia: «Não me importa de onde venha. Porque não responde? Ivich continuava calada. responda.há de reembolsar me quando ganhar a sua vida. Pense na existência que terá em Laon. Pensava: «Ela vai aceitar. — Não tenho motivos para aceitar o seu dinheiro. Vai arrepender se de ter recusado. — Ivich! Ela continuava calada. Mathieu perdeu a paciência. Ivich fez um gesto. Com os meus pais não preciso de ser grata. corrigirei provas. e Mathieu acrescentou vivamente: — Ou então paga me Boris.. todas as horas. aborrecido e infeliz.» — Ivich. Ivich alterou se: — Deixe me! Deixe me! Acrescentou em voz baixa e rouca: — Que suplício não ser rica! Em que situações abjectas uma pessoa se mete! — Não a compreendo — disse Mathieu. Mathieu pôs se a andar de um lado para o outro. — Porque é que não aceita? Diga. contanto que o tenha. há de lamentá lo todos os dias. — Disse me no mês passado que o dinheiro era uma coisa aviltante com a qual as pessoas não se deviam preocupar.

é tudo. «Pronto!» Mas não estava ainda sossegado. Mas tenho de fazer as malas.. Depois.— É grosseiro.. Houve um silêncio. Quero poder imaginá la em Laon. subitamente.. Está tão longe. — Porque deseja fazer me bem? Nunca lhe fiz bem. com a boca entreaberta. Ao passo que Laon. porque quer dar me dinheiro? Mathieu hesitou e depois disse. Vamos toma lo. Mathieu pensou nas cartinhas secas de Boris a Lola.. Mathieu esforçou se por esconder a sua irritação.. secamente —.. Sempre fui insuportável para consigo e agora você tem pena de mini. Ivich continuava com um ar aborrecido. — Então? Pense nisto: pela primeira vez na sua vida seria totalmente livre. — Tenho de lá ir — disse ela... num tom estranho: — Quer. é por egoísmo que me ajudaria? — Puro egoísmo — disse Mathieu.. Podem ou não acreditar. Encheu as chávenas. — Que vai dizer aos seus pais? — perguntou para a comprometer ainda mais. — Então. Que importa. mas não chego a acreditar. há de morar onde quiser e fazer o que lhe agradar. desviando o olhar: — Não posso suportar a ideia de não a voltar a ver. Afinal tem razão.. — Sinto o aqui. — O chá deve estar pronto. Disse me que gostaria de estudar Filosofia. Estava escuro como café. pareceu acalmar se. — Então. Mas foi apenas um .. digo sim. Eu e Boris ajudá la emos. — Eu também — respondeu ela —.. — Qualquer coisa. Que o dinheiro venha de um lado ou de outro. Levantou se. — Nesse caso isso é consigo. e Ivich perguntou.. — Vai descrever me a casa. — Mas se voltar.. Nem sequer imagino.. tenho vontade de a ver. Tenho que fazer a noite inteira. Não se atreveu a olhá la. — Eu hei de escrever lhe — disse Mathieu. Digo não. — disse ela — isso é uma utopia. talvez — murmurou com indiferença. Basta vivê lo. pois poderá tentar. mas não sei o que lhe hei de dizer... quer dizer que. se não são eles que pagam? Baixou a cabeça com um ar sombrio. — Oh!.. sei que estarei lá amanhã à tarde. Ela olhava o arqueando as sobrancelhas. o quarto. Tocou na garganta com o dedo. Nunca pensei nisso. — Não tenho pena de si. — Não gostaria de falar nisso. Mathieu respirou... e pouco me importa.

Como passou? Ivich levantou se e fez uma espécie de reverência. chegou um amigo de Gomez. não posso. — O que me fez correr. Mathieu olhou a. — Quem? — perguntou Mathieu para ganhar tempo.. Ela olhou Mathieu com ternura. não. — Meu pobre Mathieu. Acabavam de tocar a campainha. não é razoável. — Bom dia — disse com vivacidade —. Mathieu pôs um dedo sobre os lábios. Nem sequer pus o chapéu. querem ver me urgentemente. Sarah riu. — Não. — Bom dia — falou ela. Não disse nada. preciso de ir à Livraria Espanhola. — Aposto que não come bem. Não encontrei Waldmann. é Ivich Serguine. Sarah empurrou o amavelmente e espreitou por cima do ombro de Mathieu. Vem de Madrid. Venha tomar uma chávena de chá. Vá abrir. — Abrimos. J E A N P AUL SARTRE as unhas vermelhas e bicudas. — E muito boa. os pulsos magros e pensou: «Vou tornar a vê la.» — Que chá esquisito! — disse Ivich. sabe.» Abriu a porta. Voltou se para Mathieu. Só às seis horas é que lhe pus a vista em cima. Sarah. E Mathieu acrescentou. — Lá está Mathieu a fazer me olhinhos feios — disse. Ele recusa. — Como está magrinha — disse Sarah. — Não quer que eu lhe fale de regime. — Ah!. — Quem está aí? — perguntou corn uma curiosidade sôfrega. Esperava que Ivich não tivesse ouvido. rindo com os dentes estragados. obrigado. sim — disse Ivich com voz clara. No horrível tailleur verde. Pensava: «Tem horror de parecer minha cúmplice.. — Ainda não sei. os cabelos despenteados e a sua expressão de bondade doentia. Disseram me: um amigo de Gomez. — Talvez seja importante. Os olhos pareciam inundados de bondade. Mathieu estremeceu. — Não tocaram? — indagou ela. Olhou as mãos de Ivich. Há vinte dias que está em Paris e já se meteu numa quantidade de negócios escuros. Mathieu colocou se diante de Sarah e olhou a fixamente. — Já dissemos que não íamos abrir. Ivich era a única pessoa que Sarah não suportava. cheirava a catástrofe. espantado.. O ministro disse me que me tinha telefonado e eu vim.instante. Sarah também.. arquejante. Parecia decepcionada. alegre: — Falaremos disso mais tarde. — Cheguei tarde. Mathieu dirigiu se para a porta. más notícias para si. estou com. Era Sarah. aliás. .

Eu não podia acreditar. — Esta mulher é um vendaval — disse a rir. Quando Sarah saiu. Estava triste. — Não sei porque me está a dizer isso — observou ela com uma voz gelada.. Nada. — Entra. Foi sentar se ao lado dela e disse sem a olhar: — Ivich. meneando a cabeça: — Que vai fazer? — Não sei. Não se atrevia a olhar para Ivich. — Meu caro Mathieu — disse Sarah. — Não tenho quase nada a dizer. Calou se e fez se um silêncio pesado. no quarto. que pague. dos campos de concentração. Estava com frio. — Não tenho nada com isso. É preciso que a pessoa em questão esteja lá amanhã com o dinheiro. E viu acender se lhe nos olhos algo que se assemelhava a um clarão de consciência. — Penso — disse Mathieu tristemente —. Mathieu contemplava as pesadas cortinas verdes.. vou me embora.. Mathieu sabia que ela não responderia. Disse que não. Aliás. Martirizaram nos.. Mathieu encolheu os .— Hem? Ainda assim. J E A N P AUL SARTRE — Fiz o possível. há muitos médicos em Paris. acho que vai acabar assim. Ivich não respondeu. desconcertada. e sai como um golpe de vento.» Mathieu ouviu o sofá ranger. Mathieu voltou a andar de um lado para o outro. Então disse: «Não dou crédito. — Não se fala mais nisso. — Bem — disse Mathieu. Continuou. quero saber. Falou me dos judeus de Viena. comovida. A Fez se silêncio. Acentuou as últimas palavras. de cabeça baixa: — Ela disse me anteontem que está grávida. — Está bem. Ele olhou a duramente e ela calou se.» E é verdade. — Bem — disse ela ao fim de um momento —. Insisti o mais que pude. Sarah continuava: — Disse ainda: «Nunca mais lhes fio. supliquei. Mas Sarah não via nada. vou casar me com Marcelle. mas Sarah queria justificar se. minha senhora — disse Ivich. Explicou a Ivich. As palavras saíam com dificuldade. fizeram nos sofrer de mais. ele perguntou me se ela era judia. — Não vale a pena — disse tristemente. derruba tudo. eu compreendo o. mas sabia que ela o olhava. Se quer que eu opere. adeus Sarah. — Não pensa em. Telefone amanhã sem falta. — Adeus. Mathieu teve forças para dizer: — Deseja sem dúvida falar me particularmente? Franziu as sobrancelhas repetidas vezes.

— Procurei por toda a parte. Você é que sabe o que deve fazer. — Mas sabia que ela. — Largue me! Não me toque. Ivich teve um estremecimento violento. — Não precisa de insistir.. até breve — disse Mathieu. Hesitou e continuou como se estivesse distraída: — Não sei porque está tão abatido. — Então.» — Chega! — disse Mathieu com dureza.. Depois riu se. — Em Outubro! Ah! Não.. Já compreendi. — Era sua amante? — disse Ivich com arrogância. — Não tenho dinheiro — disse Mathieu.. — É sórdido — disse Ivich com uma voz neutra. Acabou de tomar o chá e perguntou: — Que horas são? — Nove menos um quarto. Nunca pensei em aceitar o seu dinheiro... vermelha de ódio e com um sorriso . pois bem. — Foi por isso que encarregou Boris de pedir cinco mil francos a Lola? — Eu não. — Desculpe. — Em Outubro? — disse ela com um olhar faiscante.. não tenho nada com isso.. Nem tem o suficiente sequer para o casamento.ombros. — Ainda não. — Ontem de manhã. — Não me preocupo muito com essas coisas. Ela pusera se diante dele. — Aliás. Tenho de fazer as malas — gemeu.. — Bem percebi — continuou Ivich. Uma luz suja filtrou se através das persianas. — Vê la ei em Outubro? Saíra lhe sem querer. Sentia uma raiva desesperada subir dentro dele. mas está com um ar tão cómico. J E A N P AUL SARTRE — Não faz mal — disse Ivich levantando se. — De qualquer maneira vou me embora. foi para isso. arquejante. Se casa é porque quer. sem dúvida. quando se atreveu a tocar me. há muitos meios de. pensei: «São modos de homem casado. Não tinha vontade que ela ficasse.. — Pois é.. Segundo me disseram. Ivich gritou e desenvencilhou se violentamente.. — Até breve. Mathieu largou a. — Ivich! — gritou Mathieu pegando lhe no braço. — Está escuro? Mathieu foi à janela e levantou as cortinas.

naquele homem grave que quase chorava porque dera uma queda.. por aquele amor. «Só faltava mais isto». Durante um segundo ficou suspenso. e pensava: «Dizer que me levava a sério. As pessoas esperavam a noite ouvindo música. fria. por aquela gratidão. molhou o com saliva e esfregou as mãos com uma espécie de ternura. — Cretino! Mathieu atirou se para a frente a fim de evitar o automóvel. Ria de si mesmo. café por café. Uma multidão desocupada agrupara se nas mesas da esplanada. Olhou com gravidade as mãos sujas de lama. Dentro de uma hora entraria escondido naquele quarto cor de rosa e deixar se ia envolver por aquela doce esperança. uma conscienciazinha cheia de ódio repelia o com toda a força. Caíra sobre as mãos. como se estivessem com frio. diante daqueles primeiros fogos vermelhos. tu ne sais pás Jamais. Tirou o lenço. Ele teve medo de si próprio. tu ne sais pás En vain je tends lês bras. jamais tu ne sauras. Tinha vontade de chorar.» Deixou de rir. montra por montra. Diante dele um quarto cor de rosa./ L contornou a multidão lírica: a doçura crepuscular não era para ele. esbarrou no passeio e caiu no chão. depois de uns momentos. para sempre! Muitos atiram se à água por muito menos. a lama sujara lhe a ligadura. de Marcelle. olhando espantado.insolente. M. de Ivich. das suas miseráveis paixões. A esquerda doía lhe. O corpo volta a marchar arrastando os pés. Depois deu uma gargalhada. Precipitou se para a saída empurrando a e bateu com a porta atrás de si. não havia razão para rir. com uma curiosidade divertida. da vida. com alguns arranhões. J E A N P AUL SARTRE Uma rua comprida e direita: atrás dele um quarto verde. A direita estava preta. * XVI TH ne sais pás aimer. pareciam felizes e juntavam se ali. — Que chatice! Levantou se. uma mulher imóvel esperava o cheia de esperança. Olhava se sem vergonha. da ridícula queda. Dentro em pouco a renda luminosa da noite estender se ia sobre Paris. Para toda a vida. com arrepios. As palmas das mãos ardiam lhe. «só faltava mais isto». ardores de raiva na gar DADE DA RAZÃO . O Café dos Três Mosqueteiros brilhava com todas as suas luzes na noite ainda indecisa. e murmurou seriamente. Um vazio. pesado e quente. Tu ne sais pás aimer. Recordava as antigas esperanças e ria porque tinham dado naquilo.

todos os miúdos cantos de cigarra se dissiparam no ar.» O rosto avolumar se ia no espelho e seria o fim. pensou Daniel com um arrepio.» Uma hora. além dessa hora não havia nada. aqui esta chave chata. entre blocos de gelo riscados por clarões. barulhento e activo. aquilo purificava o. odeia me. No espelho. intactas. e Ralph baixou os olhos vivamente. O futuro morreu. As rugas esvaziaram se como por um buraco de esgoto. Havia outrora um futuro de homem que se interpunha entre elas e que elas reflectiam num leque de tentações diversas. Mas já ninguém o habita. havia uma porta fechada. talvez de prazer. entre a fotografia de Marlene Dietrich e a de Robert Taylor.» Demorou se a dar o nó na gravata. «Dentro de uma hora. Daniel aproximou se. mergulha num gás luminoso a dançar no fundo de uma greta imunda. uma folhinha e um pequeno espelho já manchado de ferrugem. Entre eles não havia nada a não ser um monte de obstáculos e distância. Voltou se. montras. O quarto era um . que parecia ter vinte anos. a morte infame que merecia. Tirou da carteira uma chave. sentia se mal e sereno. no fundo da fenda. «Um dia um tipo como este liquida me à traição. Ao nível dos olhos. mas o molho desfez se. «E se Lola tiver ficado na cama?» Pôs a chave no bolso e pensou: «Que importa! Pego no dinheiro mesmo assim. Lá longe aquela porta fechada. Entre as flores. flores peludas balançam. viu o perfil magro e duro de Ralph e as suas mãos puseram se a tremer. Mathieu encontrou se no meio da Rua Départ. uma transparência desliza e se contempla com uma paixão gelada. Elas calam se. aquilo que ainda há pouco as enchia desapareceu. Não sabia que Daniel o podia ver. Posso ir a pé. atrás dele. sobem do chão como absurdos meni res. quase apagado pela penumbra e a sujidade. em paz consigo mesmo. tinha pressa em acabar de se vestir. Massas sombrias arrastam se a ranger. Mathieu andava com um passo regular.» O mundo reformou se. «Cara de assassino». O corpo vira à direita. para além dos edifícios e das ruas. e começou a dar o nó na gravata. Eram os únicos objectos do mundo.» J E A N P AUL SARTRE A lâmpada iluminava mal. No fim do mundo. pessoas. com autos.ganta e no estômago. e Daniel gozava aquele ódio que os unia. Ralph continuava a olhá lo. um ódio requentado. caem do céu como enormes estalactites. abaixando se ligeiramente. Mas não era o mesmo mundo nem exactamente o mesmo Mathieu. Ralph voltara a cabeça para o lado do espelho e olhava para Daniel com um estranho olhar. As coisas ficaram ali. todas as pequenas solicitações quotidianas. «Irei buscá las. Tinha vontade de apertar aquele pescoço fino com a maça de adão saliente e de esfrangalhá lo entre os dedos. Perto da janela que dava para o telhado. «Está humilhado o macho. o tempo de chegar até à porta e abri la.

. — Eu não quero coisa alguma — disse Daniel — e não lhe disse para pedir desculpas. — Não lhe vou dizer nada. Quando se deitava depois. Não é da minha conta — explicou Ralph. depois de um silêncio: — É mais cómodo. — Não tens uma toalha? Tinha as mãos húmidas. Daniel quis vestir o casaco. não é a mesma coisa. Sr. mas não teve coragem. Ele veio dizer me hoje de manhã que ia pedir desculpas. hesitou. — Que horas são? — Nove.. Tinha os ombros e o peito inundados de suor. Só lhe disse que era asneira tê la deixado. e pronto! Mas bem sabia o que o esperava lá fora. os braços jovens e musculosos que saíam de uma camisa Lacoste de mangas curtas. Vocês não parecem muito amigos da água. que era o senhor que queria. chateado. No momento de vestir o casaco. — Se foi o Sr. foi o senhor quem aconselhou Bobby a voltar para a farmácia? — Aconselhou? Não. Daniel enxugou cuidadosamente as mãos. Sorriram ambos com desprezo. Fez um movimento irritado para dar o laço no sapato do pé esquerdo. A Explicou. mas estou a ver. — Bom. calçava os sapatos inclinando o busto. antes da madrugada! Não se deitaria. Dentro de um minuto. Ele é assim. Mas há um a quem eu deitarei a mão quando o apanhar. e pensava apreensivo no peso do casaco que lhe ia colar a camisa de linho contra a carne húmida. — Veja dentro do jarro. Mas tinha horror àquela graça. não parecia muito franco. Lalique.forno. Dez horas ainda. — O teu quarto é terrivelmente quente! — E mesmo debaixo do telhado. Ralph ergueu a cabeça: — Queria perguntar lhe. — Nunca houve água neste jarro. Sentado à beira da cama estreita. com o joelho direito erguido. Dentro do jarro havia uma toalha sujíssima. — Nós lavamo nos no lavatório do corredor — disse Ralph. Precisa sempre de mentir. «Tem uma certa graça». estaria lá fora. acabam de soar. Daniel contemplava o dorso magro. agora. era muito mais penoso. Lalique quem te aconselhou. — O farmacêutico? . J E A N P AUL SARTRE — Eu disse lhe: faz o que quiseres. pensou com imparcialidade.

que era uma fêmea.» E zás no estômago. Não acreditava muito naquelas histórias. talvez seja ele que te liquide. coberto de glória. Daniel sentiu se cheio de ódio. as orelhas estavam vermelhas. vai ver. (E Daniel deu . «Eu mato o». Daniel não soube resistir ao desejo de o humilhar ainda mais. e de passagem limpei Ihe o focinho com o cotovelo: assim. magoado. O tipo novo. Esse estupor. os olhos brilhavam lhe. Ralph entusiasmara se.— Sim. Apetecia lhe espancá lo. Já não sabia onde estava. Mas não o velho. Pôs se a rir. — Uf! Uma rasteira e estatelou se no chão. Voltar para aquela casa! Mas eu vou esperar o gajo à saída. Ele sabe. mas achava humilhante que Ralph tivesse dominado um homem de trinta anos. salto lhe em cima e bato lhe com a cabeça contra o passeio. — Não são os maiores que são os mais fortes — disse. Mandei lhe uma! Um murro no olho para começar. — Então — continuou Daniel —. moldadas pelas calças azuis. era o que ele dizia. Queria me pôr fora. e um muito alto que eu já vi consigo. Depois todos falam em quebrar a cara a alguém. pensou Daniel. Ele saiu: «Queres ensinar a viver a um pai de família?» Foi o que ele disse. — «Ah!. Daniel sorriu com insolência.» Todos menos Bobby. naturalmente. — Vou chegar de mãos nos bolsos. — Ele? — Ralph riu maldosamente. Pergunte só ao empregado do Oriental. — Pode vir. — Mijava sangue — continuou Ralph. «Vens cá para fora». E Corbin do matadouro. Pensava: «São todos iguais. Em cheio. — Eh!. Havia uns a olhar. hem! Acabarás por te espetar. não disseste nada? Pois toma. Ralph riu também e aproximaram se um do outro. hem! Que é que foste contar? Ah!. hem? Não tens medo de ninguém. — O estagiário? — Sim. Sorriu maldoso. sinistro e arrogante. Calou se. — Pergunte! Pergunte só! — disse Ralph. Comprazia se no seu ódio. «Estás me a conhecer? Estás? Então ouve. Levantara se imitando as fases da luta. Um camarada de trinta anos e com braços assim. Parecia um insecto. disse eu. Era Bobby. — A brincar aos heróis. Tinha necessidade de fazer gestos vivos e bruscos. — E tu desfizeste o. não tens medo de ninguém.» — «Não disse nada. Daniel olhava o. Atiro o ao chão. com um arzinho de poucos amigos. com uma irritação irónica. Que é que foste dizer de mim. Ralph estava vermelho. O que foi dizer de Bobby e de mim! Bobby não tem vergonha. o pai de família. não disse nada». — E tu? Vamos lá ver se tens força. Voltou se sobre os pés mostrando as nádegas duras.

A brincar. vou me embora.) Vamos lá ver se tens força. mas desviava os olhos de Daniel. Tinha a impressão vaga de ser um tipo gordo e de bigode. Ralph conseguiu erguê lo.» Empurrou Ralph com toda a força. . contrafeitos. Os músculos escorregavam nas mãos de Daniel. Ralph não parecia nada cansado. Daniel contemplava o. a camisa molhada de suor colou se lhe à pele. não ganhará. generoso. — Agora não tenho fôlego. — Já fui forte — disse. levantou o. Adeus. Uma raiva louca invadiu Daniel. Tentou rir. mas há a diferença de peso. Ralph estava de pé. — Gentilmente. — Lutas bem — observou Daniel —. Estava arquejante e humilhado. Encontraram se novamente um diante do outro. pensava: Estou a ser ridículo. Ralph abriu a boca espantado. menino? Ralph sorriu imediatamente e disse com uma voz falsa: — O Sr. — Está mesmo com vontade? Atirou se subitamente sobre Daniel. mas Daniel segurou lhe os pulsos e apertou lhe os braços sobre o travesseiro. — Bom — disse —. Lutavam em silêncio. de pai de família. — Vou mostrar to. Ralph debateu se. impotente. Daniel sentiu um gosto áspero e febril no fundo da boca. Daniel desviou se e agarrou o pela nuca. Lalique é forte. Vestiu o casaco. de cabeça. Daniel agarrou o pela cintura. Os olhos de Ralph estavam cheios de ódio. Ralph estava pregado na cama. satisfeito.» Baixou se de repente e pegou Ralph pêlos rins. Era belo. Riram ambos. sorridentes e raivosos. menino. Ralph era duro e flexível.Ihe um empurrão. A — Quem ganhou? — perguntou Daniel ainda arquejante. O coração batia lhe como se fosse estourar. arranjava o colarinho da camisa e não arquejava. Daniel demasiado cansado para se levantar. mas Ralph resistiu. está a querer de verdade — disse Ralph num tom estranho. mas Daniel enfiou lhe as mãos na cara e ele largou o. — O fôlego não é nada — disse. — Questão de treino. esmagado sob aquele peso de homem. claro — disse ele com voz sibilante. tentou arranhá lo. Estava sem fôlego. mas os olhos faiscaram Ihe de raiva. — Quem ganhou. — Ah!. Daniel tinha vontade de agarrar Ralph pelo pescoço e encher lhe a cara de socos. Ficaram assim uni bom momento. e Daniel começou a arquejar. — Consigo posso eu bem. «Tenho de acabar com isto ou então ele vence me. Juntaram se de novo e principiaram a girar no meio do quarto. Daniel largou o e pôs se de pé. atirou o para a cama e caiu em cima dele.

«Que vou fazer da chave?» Hesitou. — Eh! Aonde vai? — perguntou uma voz áspera. Sentia uma vaga vontade de vomitar.. A cama estava desarrumada e havia dois travesseiros ainda amassados pelo peso das cabeças. Daniel desceu as escadas.— Boa noite. Mathieu fez soar uma campainha surda. depois deu uma volta e dirigiu se para a escada. O quarto estava escuro. um pensamento veio lhe repentinamente. Uma escuridão avermelhada que cheirava a febre e a perfume. Mathieu voltou se. Era o toilette. ele não saiu. Era uma mulher alta e magra. — Não pode avisar na caixa? «Bolivar. A princípio estendia os braços para se proteger contra os possíveis obstáculos. Não notara isso de manhã. e deixara a navalha aberta sobre a lareira.» Mas não teve medo. antes de sair. — Não saiu. Caminhou sem se apressar até ao quadro das chaves. — Aonde vai? — repetiu ela.» — Vou ver o Sr. Lalique. Bolivar. Ao levantar se percebeu no fundo do quarto uma porta que não vira de manhã. Como transpusesse o limiar da porta. depois enfiou a chave na porta do 21 e abriu. Vi o senhor mexer no quadro das chaves — disse a mulher. — Não está? — Não. Mathieu pegou lhe rapidamente e enfiou a no bolso. depois das nove. — Pois é — disse aliviada. Uma porta abriu se atrás dele: «Vão chamar me. no 3. A chave estava ali. Sr. Barbeara se pela manhã.° parou um instante. Fechou a porta à chave e avançou para a cama. Procura. com as pernas moles. Quarto 21. pensou. A porta fechou se. Mathieu riscou um fósforo e viu . — Estava a ver se a chave estava lá. Mathieu pôs se a subir sem responder. desconfiada. Uma possibilidade sobre duas. que hás de encontrá la. Ao abrir a porta. — Bom. Havia alguém.° — disse Mathieu tranquilamente. depois resolveu deixá la na fechadura da maleta. tinha previsto isso.. mas já se acos tumara à escuridão. «Antes de mais nada». No patamar do 3. A mulher aproximou se do quadro. «vou lavar me dos pés à beça». Mathieu sorriu lhe. As notas que ele largara de manhã tinham caído sobre os maços de cartas. de lornhão. Abriu a. O nome do negro era Bolivar. Parecia importante e mostrava se inquieta. — Escondi uma coisa para ti no quarto.» Olhava de viés pelo vidro da porta do escritório e viu uma sombra. pensou: «Talvez liguem J E A N P AUL SARTRE só de noite. Parou. Mathieu ajoelhou se diante da maleta e abriu a. Pegou em cinco. não queria roubar para ele.

o fato cuidadosamente dispostos sobre as cadeiras. Depois desceu. No primeiro andar parou e inclinou se sobre o corrimão. O cabo é preto. é uma coisa inerte. nem mais nem menos. Saiu. Tudo está inerte e silencioso.. ninguém. o barril de pólvora está no fim. que o mais difícil ainda estava por fazer: pôr a chave no lugar. Havia gente a subir a escada. Tem medo. depois largou o fósforo e voltou para o quarto. E o soldado respondeu: — É alto. Contemplou se até que a chama se extinguiu. A mulher virou se e ele cumprimentou a: J E A N P A U L SARTRE — Adeus. a mão treme lhe. Tinha vontade de rir. a temperatura demasiado suave. Mais ainda de tédio que de angústia. Custa lhe a encontrar a fechadura. A navalha está sobre a lareira. o roupão. morre o veneno. Mathieu desceu sem fazer barulho. ela responde à pressão com uma pressão igual. Passa o dedo pelo fio da navalha e sente na ponta do dedo um gosto ácido de corte. Agora apoia a mão na mesa. os vestidos de Lola. Fez um movimento para voltar ao quarto.surgir no espelho o seu rosto avermelhado pela chama. A mesa está inerte. Dóceis. . viu uma mulher com um soldado. A minha mão fará tudo sozinha. A minha mão é que tem de fazer tudo. pesa apenas como um insecto na mão. Só ele de pé. as cadeiras estão inertes. Morta a serpente. — Adeus. A navalha não ajuda. A mulher estava perto da porta de entrada e de costas voltadas para o quadro das chaves. Morta a serpente. só ele vivo na luz demasiado azul. A chama corre ao longo da mecha. — E no quarto andar — disse ela. nada o impede. A chama corre ao longo da mecha.. o pijama. Pensava. procura um socorro. de pernas moles. Sentia o olhar da mulher ferindo lhe as costas. «Nada me ajudará. um sinal. flutuam na luz móvel. divertido. Não. O corredor estava vazio. depositou a chave e saiu ruidosamente. Está sozinho naquele cenário. Arrepia se. Quando se voltou. As coisas são servis. Boceja de angústia e tédio. minha senhora. Teve um risinho mau e saiu. Enfiou a chave na fechadura e fechou a porta. Tem muito medo agora. Agora distinguia com nitidez os móveis. Pouco se lhe dava ser surpreendido. Anda a passos largos. Sobe a escada a quatro e quatro. Manejáveis. mas ouviam se passos e risos. a lâmina branca. Tem de decidir sozinho. Mathieu deixou os passar. Dá alguns passos no quarto. Pega lhe pelo cabo e contempla a. até logo — respondeu ela. Nada o impede de resolver. a boca seca.» Os gatos arranham na cozinha. As ruas são azuis de mais. Dois gatos passam lhe entre as pernas.

e o presente cai com a primeira gota de sangue. A navalha obedecerá. de um modo suficientemente nítido para que se realizassem por si. Um corpo vivo e quente com um braço de pedra. Nada mudou. o gesto de mictório. Morta a serpente. A temperatura é suave. o soalho. Passa a navalha para a mão esquerda. sem que precisasse de fazer o gesto! A dor aguento a. dura. carrega a fera no ventre. A navalha está ali. a navalha estará no chão. não deseja nada. chamo a. A minha mão fará tudo. A inércia da navalha contamina lhe a mão. Mas é pré J E A N P AUL SARTRE ciso fazer primeiramente o gesto obsceno. depois a lâmina. e a navalha na ponta. Puxa as cortinas. tem a noite toda. Anda de um lado para outro. depois que o despertador toca.. não há lugar para manchas. vermelha. Sim ou não. Nunca será tarde de mais. Ficarei deitado no chão. É liso.. Com a mão esquerda. Levanta se. da nuca aos rins. A minha mão. unido. de manhã. entre as pernas. Ainda tem tempo. acende a luz. Contempla o soalho. Contempla fascinado a navalha. que nojo! Se tens assim tanta repugnância. Escreve: Senhor Delarue. abre a porta e lança se escada abaixo. Vai até à janela. Nada. Nada o impedirá de a agarrar. ele sente a. Olha para o soalho. Coloca o sobrescrito bem à vista sobre a mesa. a navalha brilha docemente. A mão direita apossa se novamente da navalha. se pudesse imaginar nitidamente aquela poça vermelha e aquele odor. Rua Huy ghens. Pega na carteira. Quero a. A navalha. Um enorme braço de estátua. a minha mão é que deve fazer tudo. o quarto está docemente iluminado. Um gesto. toca na lâmina. Está rígida na ponta do braço. Com a mão esquerda. Salta para trás. como se encontra de pé. pequeno. Diz: «Vamos!» E um arrepio irónico percorre lhe as costas. desabotoar se com paciência. pesa lhe docemente na mão. ela chupa lhe o sangue. «Vamos!» Se pudesse encontrar se mutilado. inerte. a navalha está ali. Tudo está inerte e tranquilo. Um gato desvairado rola pela escada com ele. sobre a mesa. inerte. Pega num sobrescrito. anda. A noite toda. põe o dinheiro dentro. sem saber como se levantou. 12. A navalha. Pode estender a mão e agarrá la. Mas é o gesto. inerte. Já não se odeia. Abre os dedos: a navalha cai em cima da mesa. Tem de se resolver. aquela poça vermelha no soalho não está ali. Tem a noite toda para isso. Aquela flor vermelha entre as pernas não está ali. gelado. Estende a mão. .. recta. Tem medo da mão. inerte. Gira em torno da mesa sem despregar os olhos da navalha. A serpente ali está. Sozinho consigo mesmo. aberta. o gesto. Tira cinco notas de mil francos. flutua.. examina a. com a braguilha aberta e viscosa.o seu acto não é senão uma ausência. É preciso um gesto. Em vão. cega. olha para o céu. o braço.

— Um uísque — pediu. Olhava amavelmente para Daniel. Daniel olhou o líquido amarelo e mole. — Obrigado. O empregado voltou com um copo meio e uma garrafa de Perrier. Daniel inclinou se por cima da mesa. Dir se ia cerveja morta. Lá pelas quatro horas o empregado. — Não estou muito bem — explicou. nunca seria decidido. Nada o impedia de retroceder. sorrindo. E depois toda aquela agitação se acalmou. Era preciso correr. ser olhado por outras pessoas. — Sou um desastrado — disse Daniel. As pancadas violentas do coração repercutiam se nas pontas dos dedos e sentia um gosto de tinta na boca. Deitou um pouco de água Perrier no copo. entre as pessoas da rua. mergulhar no ruído. O seu quarto esperava o. Sentou se ao fundo do café.Daniel corria na rua. Era um norueguês que falava francês sem sotaque. O barman e o empregado calaram se subitamente. Como sempre.» Beberia o que fosse necessário. um pouco febril. voltar a ser um homem entre os homens. com o barman. Correu até ao Rói Olaf. arquejante. levá lo iam para casa. no qual flutuava um pouco de espuma. a lâmpada acesa. Lá em cima a porta tinha ficado aberta. nas luzes. bolhas apressadas subiam à superfície. o uísque ferveu durante um segundo. a navalha sobre a mesa. Daniel estava só naquele bar tranquilo. invisíveis. como comadres atarefadas. o empregado e o barman falavam norueguês. O empregado abanou a cabeça e foi se embora. — Exactamente como gosta — disse. A luz loura espumava em volta dele. Esmagou se no pavimento. Empurrou a porta sem fôlego. deitando os pseudópodes em direcção aos pés de uma cadeira. Daniel voltou à solidão. o mais longe possível. O quarto esperava o docilmente. Nada estava decidido. O empregado acorreu. com qualquer coisa de maníaco e que dava boas gorjetas. — Beber mais! Atirou o copo com um safanão. A — Parece cansado — disse o empregado respeitosamente. Dê me meia . No bar. — Não devo beber esta noite. e Daniel sentiu que se tornava um freguês rico. a madeira clara dos tabiques brilhava docemente. O empregado baixara se para enxugar o chão e apanhar os cacos. — Trago lhe outro? — Traga. embebida num verniz grosso que se colava às mãos quando se lhe tocava. fugir. «Nunca mais poderei voltar. — É um aviso — acrescentou em tom de piada. a porta estava aberta e a navalha brilhava em cima da mesa. Não — disse bruscamente. O líquido escorria lentamente sobre os ladrilhos. Os gatos erravam pela escada escura.

Daniel bebeu. Há um meio. Onze horas! Sobressaltou se. — Obrigado.. Um juiz qualquer! Qualquer juiz. obstinadamente. Ter lhe ia sido preciso. que parecia sempre a ponto de se aniquilar e que nunca passava. acha que ele não se declara suficientemente depressa. distraído. tem de ceder. «Estupor! Comediante covarde. aquele fraco e moribundo desprezo. «Mathieu está em casa de Marcelle. Pegou no copo e apertou o com raiva. Tirou os sapatos. O peito roçava lhe os joelhos. O rapaz afastou se. a luz loura. Um meio de arranjar tudo. O empregado acorreu. Isso.Perrier com limão. sim. queria ter nojo de si. é para si. pensa que gostaria de estar morto. «Há um meio. de olhos erguidos para uma neblina rósea que parecia . não havia melhor oportunidade. Ela fala. — Chamou? — Sim — disse Daniel. O empregado abriu a garrafa e encheu o copo. aceitaria qualquer um. não se iludira um só instante. se pudesse sentir pesar sobre ele o desprezo de outrem. também.» Largou o copo. com olhar fixo. «Um meio famoso. — Tome. fugira. Alegrava se sempre com a oportunidade de uma boa farsa. onze horas. Daniel sentia se mais calmo. erguendo a ligeiramente sobre os gonzos para que não rangesse. mas não. Um ambiente opaco formava se em volta dele. e quando subiu as escadas. Sabia o quando pegara na navalha. prefiro A castrar me. Neste momento ela fala.. pensa que pensa que gostaria de estar morto.» Quando caminhava a passos largos pela rua. já sabia que não iria até ao fim. Estupor!» Houve um momento em que pensou que ia consegui lo.» Riu..» Pôs se a tremer: «Cederá. eu estraguei lhe a vida. Está de pé.. endireitou se e pousou a mão direita sobre o corrimão. «Mas nunca poderei. os tabiques de madeira.» Olhou o relógio. O tempo não passava. Se alguém soubesse... abraça o. continuava a fazer se existir. M athieu fechou a porta devagar. oito ainda por viver antes da manhã. Pobre comediante! Só no fim conseguira amedrontar se.. Gostaria de estar morto. Depois pôs o pé no primeiro degrau da escada. Pensou: «Sabia! Sabia que não o faria.. segurou os com a mão esquerda. O odor a gengibre. Tinha falado alto. curvou se e desapertou os sapatos.. não aquele atroz desprezo sem força suficiente.» Empertigou se e dirigiu se apressadamente para a porta. eram palavras. Gostaria de estar morto e existia.. fui eu que fiz. menos ele próprio. Não pode desprezar se nem esquecer. Pôs cem francos na mesa.

tinha um ar solene e alegre.. ali desabrochava.. inteiramente mergulhado naquele cheiro de doença. Empurrou a. na fealdade magra de Ivich. Ela pusera sombra azul nas pálpebras e tinha uma flor nos cabelos. deslizando a língua por entre os lábios dele. — Não. quente e esperta da língua. Marcelle estava A nua por baixo do roupão. Vestira o seu belo roupão branco de cordão dourado. — Dormiste bem? — Admiravelmente. Mas hoje estou bem. mexendo a ponta da língua entre os dentes com uma expressão animada e feliz. Mathieu fechou a porta e ficou imóvel. Todo o calor do dia se depositara no fundo daquele compartimento como uma borra. — Olá — disse em voz baixa. muito bem mesmo. olá! Passou lhe o braço em volta do pescoço e beijou o. desajeitadamente. A atmosfera era pesada. Ela pegou lhe na mão e puxou o para a cama. Ela continuava a segurar a mão dele entre as suas e apertava a de vez em quando. Beijou o de novo e ele sentiu sobre os lábios o veludo rico daquela boca e aquela nudez glabra. Sentada na cama. — No entanto. — Estás quente — disse ela. Mathieu pensou. era Marcelle. Marcelle ergueu a mão até à fronte e mexeu os dedos. Marcelle inclinara a cabeça para trás e observava maliciosamente através das pálpebras semicerradas. com a cabeça levemente inclinada. de braços caídos.suspensa nas trevas. Ele sentou se. Já não se julgava. Estava bela. e Mathieu sentia que o calor daquelas mãos lhe subia até às axilas. de bombons e de amor. — Senta te junto de mim. Desenvencilhou se docemente. uma mulher contemplava o sorridente. Ele sorriu também e foi guardar os sapatos no armário. tomado por uma insuportável doçura de existir que lhe apertava a garganta. — Estás bem disposta — disse. Olhava o de baixo para cima. Uma voz cheia de ternura suspirou atrás dele: — Querido! Voltou se subitamente e encostou se ao armário. Viu lhe os seios formosos e passou lhe pela boca um gosto a açúcar. Ele estava ali. De um sono só. Estava estúpida. . pintara se cuidadosamente. A porta do quarto estava entreaberta. com coração triste. junto daquela mulher sorridente. ontem ao telefone não parecias muito bem. — Olá. Subiu lentamente na escuridão. acariciando lhe a nuca. evitando que os degraus estalassem.

— No Sumatra? J E A N P AUL SARTRE «Rosto largo e lívido.» — Uma fantasia do Boris — respondeu. Ele puxou a para si e beijou lhe a orelha. de passagem. como conseguiste cortar te deste modo? Estavas embriagado? — Não. que foi isto? — Caí. Olha para esta pobre «pata» devastada. Marcelle voltou para ele alerta e lentamente. Isto vai infectar. Ele deslizou devagar a mão esquerda diante do estômago e enfiou a sorrateiramente no bolso das calças para tirar o tabaco. esses miúdos fazem o que querem de ti. Virava lhe as costas. naturalmente. — Não pareces. — E tu.— Como está calor aqui — disse. As mangas caíram. inerte. e subitamente inclinou se e apoiou os lábios no ferimento num impulso de humildade. Marcelle levantou devagar aquela mão à altura do rosto e olhou a de perto. não podes andar assim. — Mas o curativo está sujo. com a sua crosta escura e mole. Ela não respondeu. Marcelle largou a mão direita de Mathieu e pegou lhe na outra. Desfez a ligadura e abanou a cabeça: — Que ferida tão feia. O ferimento era repugnante. — Naturalmente. Mathieu sorriu sem responder. És completamente doido. Marcelle viu lhe a mão. Tem lama por cima. entre as mãos dela. apressaste te em demonstrar o contrário. Ela teve um riso indulgente e escandalizado. — Comprou um canivete e desafiou me duvidando que eu mal tivesse coragem de o espetar na mão. dei uma queda. cabelos de ouro. erguera se nas pontas dos pés e levantava os braços para alcançar a prateleira de cima. amanhã. — Cortei me. . «Que é que te aconteceu?». — Estás bem comigo? — perguntou Marcelle. pensou Mathieu. vou arranjar este penso. virou a e examinou lhe a palma com um olhar clínico. amanhã eu pentear me ei assim para si. e exclamou: — Que é que fizeste na mão? — Cortei me. querido. Devorava o com os olhos entreabertos. Mathieu olhou aqudes braços nus que tantas vezes acariciara e os antigos desejos giraram lhe em volta do coração. Já me viste tão tolo? — Mas que foi que andaste a fazer? Espera. A mão de Mathieu repousava. Foi ontem à noite no Sumatra. Ela levantou se para ir buscar os apetrechos ao armário. uma expressão de humildade e confiança.

— Mas isso aborrece te. — Oh!. — Não pode ser antes do Outono — disse. — Agora precisas de descansar seriamente. há tanto tempo que não saio contigo. Marcelle não era feliz nas suas expressões. Embebera a esponja no álcool e pusera se a lavar lhe a mão. Sobre o 'aço ficara um pouco de bâton. Estava nervosa. — Eu? — Sim. Marcelle pôs o alfinete na ligadura..— Dá cá a pata. — Não. Boris desafiou te? E tu retalhaste a mão? Que criança! E ele também se cortou? — Não. Marcelle riu se. um passeio. Ele sentia contra a sua anca o calor daquele corpo tão conhecido. Disse. — Pronto. apertando nos lábios o alfinete: — Ivich estava lá? — Quando me cortei? — Sim. querida. constrangida. / — Lambe! A Marcelle apresentava lhe um penso. — Então iremos no Outono. Pôs a língua e lambeu docilmente a cobertura rósea. Ligou lhe rapidamente a mão com uma ligadura branca de gaze. dançava com Lola. depois virão as férias. Lola vai para a África do Norte. Será uma festa. Marcelle aplicou a na ferida.. — Então. — É bonito o Sumatra? Sabes o que eu queria? Que me levasses lá um dia.. J E A N P AUL SARTRE — Queres? — disse Marcelle. uma vez. contrariado. Prometes? — Prometo. deita o no lixo. . — Não. Depois pegou no curativo sujo. cansa te — disse Mathieu. Porquê? — Fui. É tudo culpa minha. — Bem vês que não estás muito bem comigo — disse. fui desagradável anteontem. — E tinhas razão. — Que vou fazer desta porcaria? Quando saíres. «Uma saída!» Mathieu repetia esta palavra conjugal. Marcelle tossiu. suspendeu o na ponta dos dedos e considerou o com uma falsa repugnância. Divertiram se muito? — Mais ou menos. — Pregou te uma boa partida! Ela segurava um alfinete de ama na boca e rasgava a gaze com as mãos..

de perdão. Mathieu interrompeu a. Mathieu não aguentou mais. cinco — disse. Marcelle não respondeu. E que me deram trabalho a encontrar. imaginava bem de mais a expressão do seu rosto. Ele não se atreveu a voltar se para ela. — Daniel? Ele encolheu os ombros. Penso que Sarah te levará à casa dele e és tu que vais pagar. e Marcelle perguntou: — Onde arranjaste o dinheiro? — Adivinha. E gente da alta. ela esperava sem dúvida uma palavra de ternura. passaram pelas mãos dele. Não parecia compreender. fazendo as estalar triunfantemente. Mathieu esperou um instante. — Quem? . Já to disse ao telefone. com o dinheiro A em cima dos joelhos. em Viena. Pegara noutro alfinete de ama do cestinho. — Uma. Tirou as notas da carteira. Houve um longo silêncio. quatro. Os olhos de Marcelle apagaram se. Ela erguera a cabeça e olhava as notas pestanejando. Parece que é uma competência. — Jacques? J E A N P AUL SARTRE — Não. abria o e fechava o nervosamente. confiante. Tinham conservado o perfume de Lola. Mathieu fez um gesto para colocar as notas em cima da mesa de cabeceira. — Tanto melhor.. Fez se silêncio. Ela sabia muito bem que Daniel não lho tinha querido emprestar. Mathieu acrescentou: — Deixo tos. Ele quer que lhe paguem adiantado. incrédula. categórico: — Agora podes ir ao judeu. duas.. cinco mil. Centenas de mulheres. Fixou o olhar em Mathieu com uma expressão triste. tanto melhor.— Não tens culpa — disse ela. mas ainda confiante. Tirou a carteira do bolso e pousou a nos joelhos. voltou se. e como Marcelle não falasse. o estupor. e não podia compreender aquda confiança inexplicável e espontânea. Marcelle esticou o pescoço e apoiou o queixo no ombro de Mathieu. gente rica. — Então não sei — falou secamente. Mordia o lábio inferior e olhava para as notas. — Nunca tive nada que te censurar. — Pois é. Envelhecera de repente. — Olha — disse. Disse: — Pensei. Disse lentamente: — Cinco mil francos. — Que é que devo olhar? — Isto. três. ontem.

— Roubei. Continuava com a boca aberta como se tivesse vontade de falar. Roubei o a Lola. Murmurou: — Fui demasiado estúpida. ele disse o que te tinha a dizer e ao deixá lo foste roubar os cinco mil francos a Lola. O rosto tornara se lhe cinzento. Ela teve um riso seco. Estiveste com Daniel. parecia espavorida e aliviada. tristemente: — Foi chato! — Sim. Mathieu enxugou a testa suada. — Pois bem. Daniel estava ali. que é que há? Marcelle fez um gesto brusco e os apetrechos de farmácia espalharam se pelo soalho. Tinham a noite inteira à sua frente. — Não há nada que explicar. Marcelle sorriu.. — É. — Então. foi chato! — concordou Marcelle com amargura. Tirara a flor dos cabelos e fazia a rodopiar nos dedos. sentado entre os dois. Ela inclinara se para trás e crispara as mãos no lençol. Calaram se. — Porque te ris? — Rio me de mini própria — disse. Mathieu pegou lhe na mão. tinha um ar admirado. e Mathieu empurrou os com o pé. mas sabia que ele te ia procurar. — disse Mathieu — expliquemo nos francamente. — Como soubeste? Foste tu que o mandaste? Tinham combinado tudo? — Não fales tão alto — pediu Marcelle —. Ele perguntou: — Censuras me por tê lo roubado? — Não me interessa. Marcelle voltou lentamente a cabeça para ele. — Roubaste? Não é verdade. — Não me vais dizer que o roubaste. era isso. vais acordar a minha mãe. Olharam se ambos. — Sim. — Então. — Roubaste! — disse lentamente Marcelle. que é que há? — repetiu Mathieu. mas ela retirou a e disse sem o olhar: — Já sei que estiveste com Daniel. A boca exibia de novo aquele sulco duro e cínico. era preciso ir até ao fim. A O rosto emudecera. . sem olhar para ele: — Que vontade tens de te ver livre da criança! — Tinha vontade principalmente de que não fosses à velha. Parecia amedrontada com o que ia dizer. Mathieu disse.— Ninguém me deu o dinheiro. Não fui eu. Bem. mas as palavras não lhe saíam.. As cartas estavam sobre a mesa. estive com ele — disse Mathieu. Ela reflectia. irónica. Observou. Fez se silêncio. Mathieu também se sentia aliviado. — Hei de contar to um dia.

Ela hesitava. Estava lívida. sofria. que foi que se passou anteontem? — Anteontem? — Sim. — Não. e tu julgaste que eu queria casar.» Ela estava ali. Daniel acabou de me comunicar que tu te encontravas com ele e não me dizias nada. — Calma — disse Mathieu —. — Julgo que sei. pegando lhe na mão. tu recebes Daniel há meses. mas não se atreveu. não finjas que não percebes. ainda há tempo. caso com ela. Mathieu teve vontade de apertá la nos braços.. menos irritada. A Ela parecia não ter ouvido. às escondidas. que saberei reconhecer os meus erros. não te obstines. — Foi o que te pareceu! Daniel disse te que eu estava aborrecida. E é o que pensas de mim. Ele olhou a com espanto. Escuta. tudo se esclarece.. depois de sete anos! As mãos também lhe tremiam agora. não adianta falar nisso. Ela continuou a não responder. — Tens razão. — É verdade — disse Mathieu. . O que eu quero já não é da tua conta. «Era preciso que eu fosse muito sacana para imaginar que escapava. era infeliz e má e bastava um gesto para a acalmar.. foi como das outras vezes. triste. Marcelle. — Foi o que me pareceu. não é verdade? Ela tirou lhe a mão e ergueu se de um salto. Mathieu. Mas diz o que se passou anteontem. Juro que tenho boa vontade. — Pois bem. — Peço te. surpreendido. — Oh!.— Sim. Bem vês que há explicações necessárias. Marcelle? Porque não conversas calmamente comigo? Uma hora apenas e tudo se acerta. Ele insistiu: — Há circunstâncias atenuantes. — E que é que tinhas na cabeça? — Porque é que queres que eu diga? Sabe lo muito bem.» Era evidente. — Foi o que te pareceu — disse ela rindo. — Foi Daniel quem te disse isso? — Não — respondeu Mathieu. Pensou: «Acabou se. não devia ter pensado nisso. Ela sacudiu a cabeça. pouco te incomodavas com o que eu tinha na cabeça. Seria muito melhor se pudéssemos ter novamente um pouco de confiança um no outro.. Ele acrescentou docemente: — E um filho que tu queres? — Ah! — disse Marcelle —. Disse: — Queres que nos casemos. obrigar te a casar comigo. — Mas porquê. Daniel disse me que tu tinhas censurado a minha atitude de anteontem. isso não é da tua conta. — Peço te — disse ele. já não há tempo.

Ela retirou a mão. quero. já não posso ver te. ou não respondo por mim. teriam a criança.. desato a gritar.. encharcados em suor. — Chega! — disse. mas ela repeliu o violentamente. Ela acrescentou como que esmagada: — Como deves desprezar me. — Vai — repetiu ela com voz surda. Mathieu avançou um passo. de olhos cerrados. com uma alegria nervosa — não foi o que me disseste ontem ao telefone.— Eu não quero. Escutaram. vai. Vai te embora. Ele abriu o armário e tirou os sapatos. A — Vai — disse ela —.» Hesitou e disse com voz clara: — E verdade. Marcelle riu altivamente. mas de outra maneira. — Mas porquê? Porquê? — Porque já não te estimo o suficiente. — Ouve. é preciso que tenhas deixado de me amar. Ia dizer: «Amo te. já não sinto amor por ti. mas só ouviram o ruído longínquo dos automóveis. — Já sei o que queria saber. — Não quero abandonar te. tudo poderia ainda salvar se. ansiosa. Não posso. Já não havia nos seus olhos senão uma interrogação inquieta. — Se não saíres. Mathieu disse: — Marcelle. — Mas eu tenho por ti toda a minha ternura! — disse. Ela disse: . Quero ficar junto de ti a vida inteira.. Vai. que lhe pendiam da fronte.... mas imediatamente tapou a boca com a mão e fez lhe sinal para se calar: — A minha mãe — murmurou. se lhe dissesse que a amava. não é? Ele pegou lhe na mão.. Casaria com ela. Ele levantara se. Disseste: «Amo te.» Marcelle atirara se para trás com um gesto de triunfo. Durante muito tempo ficou a ouvir a frase. — Sim. Sentia se ridículo e odioso. eu quero te muito ainda. Pensou: «Está acabado.. — Vai. — Eu. Levantou umas madeixas de cabelos. Pusera se a tremer. Falara com segurança. desesperado. quero casar me contigo.. — Estás doida.. chamo a minha mãe.. Era quase uma pergunta.» E ninguém te perguntou nada. e tu já não me amas.. viveriam juntos o resto da vida. Preciso de explicar te. mas mostrava se surpreendida e amedrontada com o que dissera... — Mas — atalhou. Se ele a abraçasse.. Subitamente sorriu. Continuou tristemente: — Para pensares de mini o que pensaste. com um gesto seco. Mathieu não respondeu. — Eu não te desprezo — disse Mathieu. estupefacto.. como se se lembrasse de alguma coisa.

escutando com a mão no fecho. Na secretária. abriu a porta e saiu. parou um instante. talvez nem isso: «Vou deitar me. soluçando. abandonara Marcelle grávida. e fez se de novo silêncio. — Estou a ver — respondeu Mathieu. .uitu direita. desvairada... uma gargalhada profunda e sombria que se elevava como um repuxo e caía em cascata! Uma voz gritou: — Marcelle! Que foi. que estúpida. ele contemplava lhe a nuca morena e doce com uma grande ternura. nu. Entrou e viu Ivich. «Será por ela que fiz aquilo?» Ela baixara a cabeça. E dizia: — Ah!. incompreensível. e isso espantava o enormemente. i en ensava: «Sou um sacana». Mathieu encolheu os ombros. que estúpida. de olhos fechados. Mathieu escutou ainda e. Não há razão. Olhava os cabelos de Ivich e pensava. Ivich fez um esforço e disse. Mas não sentia nada. Subiu. Isso não. Mathieu não as apanhou. com cortesia. com os sapatos na mão. Estava sentada no sofá. virando a cabeça: — Fui odiosa. «Se ficar.» Despiria a roupa ao acaso. mas ela abriu os olhos e atirou se para trás apontando a porta. como não ouvisse mais nada.. Mas sabia que ficaria acordado a noite toda. A porta do apartamento ficara aberta. Gostaria de verificar que a amava mais do que tudo no mundo para que o seu acto tivesse uma justificação. eu que pensava. Ouviu de repente o riso de Marcelle.» Parou um instante. Dormira apenas seis horas em três dias... Ela pegou nas notas e atirou as à cara dele. Olhava para Marcelle. de olhos abertos no escuro.— Pega no teu dinheiro.. — Acabo de romper com Marcelle. para nada. iria titubeando até à cama e deixar se ia cair. Ele quis aproximar se. O riso parou subitamente. Ivich devia ter fugido. calçou se. perto da cama. n. Não havia mais nada nele senão fadiga e espanto. e o seu acto estava atrás dele. — Não parti — disse ela. As notas voaram através do quarto e caíram no tapete. escorregadio. as pernas estavam moles. a não ser um ódio sem objectivo. a lâmpada estava acesa. Ela ria. Parou no patamar do segundo andar para tomar fôlego. Marcelle? Era a mãe. Ivich disse. Quando chegou ao fim da escada. Mathieu ouvia o ruído forte e regular da sua própria respiração. — Eu não devia ter me metido a dar a minha opinião. ela vai gritar. Ele voltou se. Roubara. Mathieu não respondeu. — Não. Ficaram silenciosos um momento. secamente.

sorriu: «Naturalmente». — Bem vejo que tem remorsos — disse Ivich. Não disse nada. A expressão irritou Mathieu. — Não. — Arranjou dinheiro? — Arranjei. Ele teve vergonha.. Acabou por dizer: — Não sei o que pensa. inquieta. e Mathieu calou se angustiado. e o seu rosto tornou se duro e solitário como quando se voltava na rua para seguir. no seu lugar. Disse por escrúpulo: — Não a queria abandonar. como Marcelle tinha feito pouco antes: — Roubou a Lola. — Creio que também teria. Queria apenas dar lhe o dinheiro para não ser obrigado a casar.. Roubei. «se o tivesse feito.» — Você é belo — disse Ivich. Ela insistiu: — E inacreditável como parece só. renascer aquele áspero amor dentro dele. Mathieu sentiu que corava. não sei o que esperava. não é lá muito glorioso. Ivich tinha uma expressão estúpida. Mas desta vez era Mathieu que ela olhava. — Compreendo — disse Ivich. É um empréstimo.. sem dinheiro? Mathieu. — Sim. Consegui arranjar me. olhava o apenas. Ivich. Ele atalhou. com o olhar. Ela olhou o. — Não.Ivich levantou a cabeça. Observou com uma voz neutra: — Deixou a. nervosa. Repetiu lentamente. Ivich não respondeu. — Onde? Ele não respondeu. Uma escada a subir. e Mathieu continuou: — Vou devolver lho. — Se o soubesse! Ela levantou se bruscamente. Mathieu sentiu. pensou. Pareceu lhe que abandonava Marcelle pela segunda vez. Sentou se perto de Ivich e pegou lhe na mão. Pensava: «Não quero que me recompense. uma mulher bela ou um belo rapaz. Tudo isto é lamentável. Ela parecia não compreender. Levou a mal. E o que quer dizer? A Lola.. — Porque fez isso? Mathieu deu uma risada seca.. Foi ela que me mandou embora. Ele insistiu desviando os olhos: — Não foi bonito. acabrunhado. uma porta a abrir.. Roubei por desvario e agora tenho remorsos. Ivich pestanejou. censurar me ia agora». forçado. com vivacidade: A — Sim. é impossível evitar da . sorrindo. Subi ao quarto durante a ausência dela. aliás.

Retirou a mão num gesto brusco. Mathieu apertava com força a mãozinha áspera de unhas pontiagudas. borboleteavam em torno dela. — Mas eu amo a. Só as mãos continuavam raivosas. — Ivich! — disse docemente. Pensava: «É uma vingança. Ivich. — Cale se.. mas ela baixou os e assumiu uma atitude triste e terna. descobrindo o rosto e as orelhas. Mathieu deixou cair o braço e murmurou com lassidão: — Não sei o que quero de si.primeira vez. Ela franziu as sobrancelhas e a sua cabeça agitava se com minúsculas sacudidelas. eu não sou. — Não devo tocá la. — Assim — disse.. Ele ouvia dentro dele uma melodia viva e alegre cuja lembrança pensara ter perdido.. Largou lhe o braço. Mathieu pensou: «Quer tirar tudo de mim.. — Oh!. Ele sentou se perto dela e agarrou lhe docemente o braço um pouco acima do cotovelo. ela sorriu de lábios entreabertos. Disse: — Engana se. Ela não o retirou.» . Ele devolveu lhe o sorriso e beijou a de leve.» Era uma expiação. puxou Ivich para si. Está bem. vermelha de ódio. procurando o olhar que ela desviava obstinadamente. Mathieu sentia a garganta seca. — Não quero que imagine. — Eu. E acrescentou num tom cantante: — Parecia tão orgulhoso de ter tomado uma decisão.. A cabeça de Ivich rolou no seu ombro. mas considerava aquela crise com indiferença. a sua cabeleira estava penteada e o rosto apresentava se nu. «Mas é uma criança!» E sentiu se inteiramente só. Ela olhou o surpreendida. Pensava: «Também desperdicei isto e no entanto estava quase A contente. Ela deixou. Ivich teve um sobressalto e desenvencilhou se rapidamente.. puxou os cabelos para trás.» Estendeu o braço. depois olhou a e a melodia cessou repentinamente. Os seus olhos faiscaram. não tem importância — disse. não lhe tenho amor — disse Ivich. Ivich empertigou se. Bastaram lhe alguns movimentos rápidos e.. até os meus remorsos.. pensei que viesse buscar a recompensa. fiz mal. — Ivich. Mathieu não respondeu. Continuou. quando baixou as mãos. abatiam se sobre a cabeça e puxavam os cabelos. — Que imagine o quê? Ele sabia.

— Diga me onde está Boris. — Ouvi a voz dele. Mathieu nem sequer se deu ao trabalho de fechar a porta. era sem dúvida verdade. depois muitos ininterruptamente. Não se mexeu. — É preciso abrir — sussurrou ela. ninguém verá. Lola avançara para Ivich. Pensou: «Marcelle. — Não. num estremecimento: — É horrível pensar que há alguém atrás da porta. percebeu sob os dedos a carne fresca e disse: — Eu. Mathieu foi abrir e viu na penumbra um rosto trágico. No entanto disse: — Voltará no próximo ano? — Voltarei. devia considerar que a honra estava salva. Mathieu colocou se entre ambas: — Não está aqui. aterrorizada. Agora batiam violentamente à porta. — Além desse escritório — disse Mathieu.» Ivich empalidecera. tentando encontrar o olhar de Lola — só há no apartamento uma cozinha e uma casa de banho. Quer entrar na cozinha? Fecharei a porta. Ivich olhava a. Mathieu ficou gelado.. Pode verificar se quiser. tivera com certeza a mesma ideia. Pegou lhe no braço. Tinha chorado. Ela empurrou o para entrar mais depressa. — Pois é..Aliás. Lola voltou para ele o rosto desfigurado. Quer. Era Lola. Fico. — Acho que sim. Um toque primeiro. Olhou a hesitante. Olharam se.. Ela olhou o com um ar de autoridade calma. Ela sorriu lhe ternamente. ameaçadora. Era o mesmo rosto que lhe mostrara na véspera enquanto a mulher do toilette lhe ligava a mão. Porque havia de o amar? Não desejava mais nada senão permanecer um bom momento silenciosamente ao lado dela e que ela se fosse finalmente sem falar. — Onde está então? IDADE DA RAZÃO . Um desejo triste e resignado que não era desejo de nada. J E A N P AUL SARTRE Interrompeu se. entrou no escritório atrás de Lola. — Onde está Boris? Ouvi a voz dele. depois outro. Ivich disse.. Dir se ia uma máscara. No entanto Lola não parecia dirigir se a ela — nem a ninguém — nem parecia vê la. sentiu lhe renascer o desejo. Estavam a tocar.

dormir.. no momento em que eu saía. creio. — Sim. — Vai dizer me onde está Boris? — Não. tenho muito que lhe dizer. — Boris também vai? — Não. Lola perguntou: — Vai partir? — Vai. Mathieu não se atrevia a olhar para Ivich. As mãos amarfanhavam uma bolsa pequena de veludo preto que parecia conter um objecto pesado e duro. Preciso tanto de dormir. Não quer que eu vá à estação? — Não. não me toque. — Eu escrevo lhe. — Bom. — Pois se não sabem por onde andou. que deu três passos para trás a resmungar. Subiu ao meu quarto lá pelas sete horas. Vejo a ainda esta noite? Ivich estava alterada. Lola pôs se a rir como uma cega. Mathieu olhou para a bolsa e teve medo. mas só havia pânico. — Perdão! Quem me prova que não se vai juntar a Boris? — E se for? — disse Mathieu. Ivich. Amanhã cedo. Era preciso mandar Ivich embora imediatamente. — Até ao próximo ano — disse ela. — Largue me. . mas deixe a partir primeiro. mas vou explicar lhe a história do roubo. Mathieu empurrou violentamente Lola. mas disse Ihe docemente. Ivich — disse Matkieu tristemente. Ele olhava lhe para a bolsa. com os olhos fixos no chão: — Ivich. — Deixou Ivich às três horas — disse Mathieu. — Oh! Não! — disse. — Lola — disse Mathieu sem tirar os olhos da bolsa —. Dispunha se a sair. sim. Não quero que me toquem. Ivich deu um grito de dor e ódio. é melhor sair. Olhava a na expectativa de descobrir nos olhos dela um sinal de ternura. arrombou uma maleta e roubou me cinco mil francos. posso dizer Ihes. Foi um dia muito duro. Mathieu pegou na mão de Ivich. então até para o ano que vem. — Ela é livre. — Vá dormir. Apalpava o pulso com o indicador e o polegar. Preciso de falar com Lola. Lola interceptou lhe a passagem. Não sabemos por onde andou depois disso. — Fique — disse Lola. Abriu a minha porta. Os grandes olhos escuros pareciam ter murchado. apertando o pulso de Ivich. não gosto. — Quero ir para casa. fazer as minhas malas.Conservara o vestido de seda preta e a maquilhagem de teatro.. — Que mulher horrível! — disse Ivich entre dentes. deixe a partir.

se fui eu? J E A N P AUL SARTRE — Ela viu o — disse Lola. irritada. — As notas ainda estavam na maleta. — Lola! — Ele deve ter pensado: «Está doida por mim. Mathieu avançou. — Vamos à história. — Então — disse ela. Que é que tem a dizer? — Fui eu que roubei. mas o ruído extinguiu se. — Adeus. apresentou realmente alguma queixa? — Apresentei. Subiu. Ivich. enquanto ela gritava a rir: — Não me conhece! — Cale se! Lola acalmou se e pela primeira vez pareceu vê lo. Lola olhava o com indiferença.» Não me conhece! Não me conhece! Mathieu segurou a pelo braço e sacudiu a como um arbusto. — A queixa será retirada — disse Mathieu a meia voz. foi você? Encolheu os ombros. Ele teve de repetir: — Fui eu que roubei os cinco mil francos! — Ah!. Ela deixou o subir porque eu tinha dado ordem. ainda vai dizer obrigada. escondendo se. logo que saí.— Pois que vá — disse Lola. Lola deu um passo em frente e gritou: A — Diga lhe que se enganou! Que é ainda muito jovem para me levar. Devia estar a espiar me na rua. — Ele subiu às sete horas. pensou Mathieu desanimado. Ah!. Perguntou: — A que horas voltou ao hotel? — Da primeira vez. Já disseram mais de uma vez que podia ser mãe dele. mas de uma maneira monótona e parecia exprimir uma convicção absoluta. Voltou se para Mathieu com aquele olhar incomodativo que parecia não ver. a velha. não. . — Lola — perguntou Mathieu —. — E se encontrar Boris. Lola desatou a rir. Falava rapidamente. Lola. e ele sentiu um aperto no coração. asperamente. — Como pode tê lo visto. às oito. — Fale. Não a viu sair. — Ouça. diga lhe que me queixei. sempre a olhar para a bolsa. e Mathieu ouviu aliviado o ruído dos passos dela. «Dir se ia que tem necessidade de acreditar naquilo». Esperei o dia inteiro e havia dez minutos que eu descera. — Não nasci ontem. ainda se vai sentir muito feliz por eu lhe roubar a "massa". Ivich não respondeu. — A gerente viu o a ele.

mas Mathieu segurou a. Aliás. — Pode ser. Lola. Mas é o mesmo. — É tudo quanto tem a dizer me? Então vou me embora. De quando em quando. — Olhou às oito horas? — Olhei. — Olhei. continha as cartas. você está a mentir. Às oito horas arranjou se. Porque me arriscaria em apanhar seis meses se fosse Boris o ladrão? Ela fez um gesto. se quer apanhar seis meses em vez dele. Ela riu se. Lola empurrou o. A maleta estava diante da janela. Peguei no dinheiro e deixei a chave na fechadura. pôs o seu belo vestido e foi para o Sumatra. Juro que fui eu. Lola. Eu sei que não olhou. Senti me mal no Sumatra e voltei para casa. debaixo da outra mala. — Mais uma prova. Às oito horas o dinheiro ainda lá estava. Lola oscilava como se estivesse a dormir em pé. você só deu conta do roubo à meia noite. diante da janela — repetiu Mathieu. Mathieu pensou: «É verdade. pode testemunhar. Eu subi às dez horas e trouxe o. — Sei lá o que vocês fazem juntos! — É absurdo. Eu sei. Às oito horas eu estava com a chave e você não a podia ter aberto. Mas você não olhou para a maleta.. continha. — Conte a história ao juiz. Os lábios de Lola tremiam e ela apertava convulsiva mente a bolsa. Quis passar. — Não está a ver o meu estado? Por quem me toma com essa história? — Estava debaixo de outra mala. pensa que não sei? Vocês combinaram o que . Não é verdade? Lola olhou o. — Lola. não teria esperado pela meia noite para vir aqui. Deitei me e pus a maleta ao meu lado. talvez quisesse vê la. mas você não olhou para a maleta. Havia uma velha no escritório. — Boris esteve aqui. Finalmente pareceu acordar. você não está convencida. — A gerente viu o subir. eu. que eu queria voltar a ler. — Lola. — Você roubou me? — Sim.. ela viu me.— Já disse que Boris subiu às sete. cansada. as cartas. — Bem sei. A — Pois foi — disse Lola. se você tivesse descoberto o roubo às oito horas. — Foi à meia noite. obstinada. Porque esconde que lhe roubaram as cartas?» Tinham se calado ambos.

— Que é que isso provaria? — disse ele. mas via naquele rosto uma secura desolada que lhe era insuportável. Ela deixara de tremer. Era evidente. Mas era preciso convencer Lola. A Mathieu sentiu a sua impotência. pensou Mathieu. Mathieu arrancou a das mãos dela e atirou a para o sofá. precisava de pensar no dinheiro para manter acesa a sua cólera. — Já tinha entrado uma primeira vez e voltado a sair. — Bem sei. sem que ele a tentasse impedir. Quando acordou. acabrunhado. Lola continuou. — Subi ao seu quarto hoje de manhã — explicou calmamente. Quando lhe falei ainda não tinha chegado ao pé da cama. o seu único recurso. o culpado só podia ser Boris. e Lola disse: — Basta. Lola começou a tremer completamente. — Boris poderia ter me . — O dinheiro que lhe pediu era para mim. Ela pareceu não o ter ouvido. Lola soltou um riso de troça. Mathieu olhou para a bolsa no sofá.deviam dizer à velha. Mathieu não soube o que dizer. Tinha a impressão de viver um sonho sinistro e absurdo. «É uma crise de nervos». deixe me ir embora. Pegou na bolsa novamente. E foi também para si que ele roubou um livro à tarde? Vangloriava se disso quando dançava comigo. Já percebi. apanho o de outra maneira. Se enganar o juiz com a sua história. — Bruto! — disse Lola. — Não se incomode que eu hei de apanhá lo. Mathieu voltou a cabeça. — Pois então devolva me o dinheiro. Vamos. — Vitríolo ou revólver? — perguntou Mathieu a sorrir. com uma calma ameaçadora: — Então foi você quem roubou? — Fui. e ele observou contrafeito: — Por causa das cartas. ela só pensava no dinheiro. eu ia abrir a maleta. — Tirei a chave da sua bolsa. — É inútil! Eu vi o entrar de manhã. mas Lola desenvencilhou se e tentou abrir a bolsa. Não pude voltar a pôr a chave no lugar e foi isso que me deu a ideia de lá voltar esta noite. triunfante: — Devolva mo que retiro a queixa. Mathieu quis agarrá la pêlos ombros. Lola também. Mathieu não respondeu. «Deveria ter previsto isso». Calou se e subitamente recomeçou. encostara se à janela e olhava o com os olhos brilhantes de ódio impotente. pensou. Era inútil falar das cartas. Acabou por dizer com um risinho seco: — Mas é que ele pediu me cinco mil francos ontem à noite! Foi por isso mesmo que nos zangámos. não tinha medo do ódio.

— Dei o dinheiro. e ele escutou atrás da porta. — Acrescentou vivamente: — Não foi a Boris.. — Essa é boa. Roubou me às dez horas e à meia noite já gastou tudo? Os meus cumprimentos. teve medo. Dirigiu se para a porta. Mas Daniel estava sério como um papa.passado o dinheiro. Daniel sossegou o com um gesto. Lola reapareceu. — Tudo corre bem. Mathieu pensou: «É Boris. Pensou na bolsa e tentou um último esforço. Lola abriu a porta e saiu..» Mas.. Lola sorriu sem responder. é preciso anotar sempre os números! A Mathieu teve uma inspiração. faz favor de verificar. Pensava: «É no Comissariado da Rua dês Martyres. como uma louca.» Mathieu perguntou: — Ela. minha senhora. Entrou com nobreza e inclinou se diante de Lola. rasgou o e levou as notas ao nariz. irei explicar me lá. lembrara se do pesado perfume de Chipre que exalava da maleta. Mathieu pensou ao mesmo tempo: «Foi Marcelle quem o mandou. — Cheire — disse. — Imagine! — Ah! Minha senhora — disse Daniel com um ar de censura —. uma amiga minha. — Já não o tenho. — Vem aí alguém — disse. depois pegou no sobrescrito. — Aqui estão os cinco mil francos. e o seu coração deu um salto. sem que ele a impedisse.. — Não lhe pergunto isso. — Obrigou Boris a devolvê las? — perguntou ela. — A quem? J E A N P AUL SARTRE — Não posso dizer. — Afinal posso dizer para quem era: era para Made moiselle Duffet. Mathieu receava que Daniel se risse. Ouviu a gritar no patamar. com compreensão. Lola hesitou. quando viu de costas aquela forma negra que se retirava com a rigidez cega de uma catástrofe. . Digo lhe apenas: devolva me o dinheiro.» Era Daniel. Lola olhava desconfiada para o sobrescrito. olhava para Lola. — Estão aqui cinco mil francos? — Estão. — Como prova que são os meus? — Não tomou nota dos números? — perguntou Daniel.

Deixaram na sair sem dizer nada. Mostrava se cerimonioso. na sua frente. — Adeus. — Vou me embora. Foi o que me deu a ideia de ir buscar o dinheiro. deve ser muito.. De repente disse: — As cartas. Apertava a bolsa na mão esquerda e com a direita amarrotava as notas. Mathieu não se sentia à vontade sozinho com Daniel. — Já não as tenho. À porta. Lola. Ali estava ele. sem ódio.— Não conheço ninguém com esse nome. insolente e fúnebre como nos seus piores dias. — É Lola. Mathieu endureceu se e . Vim a correr e ouvi o fim da conversa. — Pois é — disse Lola —. — Roubou me cinco mil francos! É estranho! Os olhos porém apagaram se lhe e as feições tornaram se duras. a fim de que as trouxesse. Parecia lhe que o tinham colocado subitamente na presença do seu erro. Continuava imóvel no meio da sala. Está transtornada. Ouviram a porta fechar se. a amiga de Boris Serguine. apenas com um enorme espanto e uma espécie de curiosidade.. Parecia angustiada e estupefacta. Trouxe as esta manhã quando pensávamos que tivesse morrido. não precisa de nada? — Não. vivia no fundo dos olhos de Daniel. e só Deus sabe que forma tomara naquela consciência caprichosa e falsa. Parecia sofrer. voltou se: — Se ele não fez nada. Lola soluçou e apoiou se à ombreira da porta. pelo que peço desculpa. adeus. — Quem é esta velha senhora? — perguntou Daniel. Lola estava imóvel. que são cinco mil francos para si? Mathieu respondeu sem alegria. — Acha que ele vai voltar? — Acho. Lola. de braços caídos. Ou então. Lola voltou a cabeça e disse depressa: — Ainda não tinha apresentado queixa. — Pelo que se vê. — Mas porque teria feito isto — perguntou subitamente —. apresente queixa contra mini. São incapazes de fazer a felicidade de alguém. mas são igualmente incapazes de se ir embora. se quiser. — Parece. porque não volta? — Não sei. mas ela já se tinha dominado. vivo. Daniel parecia disposto a abusar da situação. Foi uma amiga de Mathieu que mas confiou. Saiu. isso ainda é mais difícil para eles. Acrescentou docemente: — Não se pode esquecer de retirar a queixa. Mathieu deu um passo em frente. Lola contemplou Mathieu.

Parou de novo e Mathieu. Daniel disse... — Não me vais levar a sério. Observava Mathieu com uma certa surpresa. — Ficarias muito espantado se soubesses — disse lhe Daniel..» — Se não queres dizer. pensou Mathieu. — Isto vai mal — disse ele. «Se me quer impressionar». — Foi ela quem mandou o dinheiro? — Ela não precisa dele — disse Daniel evasivamente. Mathieu acendeu um cigarro.. A cabeça soava lhe como Um sino.ergueu a cabeça. Escuta. Daniel olhou o como se se divertisse a intrigá lo. isso é uma história antiga. subitamente. — Diz me ao menos se ela tem mais para. pensou Mathieu. J E A N P AUL SARTRE Mathieu pensou: «Era amante dele. — Daniel — disse ele —. meu caro. Sentou se sobre a secretária balançando um pé com desenvoltura.. «deve impedir que as mãos lhe tremam».» Não conseguia convencer se totalmente. Não sei o que há por baixo disto tudo. Quero dizer que não acredito que ames Marcelle. — Não se fala mais nisso. bom. não acredito. cala te — atalhou secamente. como que através de um monóculo imaginário. Daniel estava abatido. Disse com calma: — Então tu amava la? — Porque não? «E de Marcelle que se trata». depois. — Não. terminou a frase: . Ficaremos com a criança. pensou Mathieu com raiva. indolentemente: — Caso me com ela. — Ia dizer te o mesmo — respondeu Mathieu. «De Marcelle. — Não precisa? — Não. — Estás com uma cara! — disse Daniel com um sorriso mau. se te disser! — Bom. eu sou. Deu uma gargalhada forçada. impaciente. «Diverte se». eu sou. Erguera a sobrancelha esquerda e olhava para Mathieu com ironia. DA D E DA RAZAO Daniel encolheu os ombros. — Vens da casa de Marcelle? — Venho. — Espera e verás.. Mathieu. — Não era disso que te vinha falar. Daniel estava lívido. Falas ou não falas? — Pois bem. levantou se e passou a mão pela testa.

. — Só? — Só. sorridente. Daniel pegou na garrafa e encheu os copos. nem sequer terás essa desculpa. Mas atirou se à minha proposta como a miséria sobre o mundo. Assim Marcelle não ficou só. — Estás bêbedo — observou Mathieu enojado. pensou. antes não. vamos beber um copo.. «Fui ignóbil». — Ainda vais lá de vez em quando? — Ainda. friamente. meu velho — disse Daniel com súbita cordialidade. Bebi depois de sair de casa de Marcelle.. — Queria apenas participar te o casamento.. com uma paragem no Falstaff. Mathieu não pôde evitar um gesto de contrariedade.. como se Mathieu dissimulasse qualquer coisa. — Espera um pouco. A Daniel olhou o com um ar inquisidor. É uma ideia — acrescentou —. Não é o que queres dizer? Daniel arregalou os olhos e assobiou. é evidente que não tenho nenhum direito. pensava que encontraria maior dificuldade em convencê la.. — Estava à espera que saísses — disse Daniel. mas afinal vieste aqui.. À tua saúde — disse Mathieu. bebi um pouco. só tenho rum branco. Mathieu viu lhe um brilho de rancor nos olhos..— Es amante de Marcelle. — Nada mal — disse Daniel com admiração. como para desculpar Marcelle: — Ela estava desesperada. — Sim. afinal... Foi à cozinha e abriu o armário. só. — Pois bem — atalhou Daniel —. Mathieu sentiu que corava. — Deves tê la visto logo depois de eu ter saído. humilhado.. Não te aflijas. — Aos meus amores — disse. — Poupa me a minha modéstia. — Ouve — disse Mathieu secamente —. e Mathieu perguntou: — Como vai ela? — Querias que eu te dissesse que está satisfeitíssima? — perguntou Daniel ironicamente. Calaram se um instante. — Subi logo a seguir. meu caro. é. — Pois então fala — pediu Mathieu. — Como quiseres — disse Mathieu.. Não tens nada para beber? Uísque? — Não. heni? Não. Voltou com dois copos e a garrafa.. — Não querias outra coisa. E que é que me querias dizer? — Nada. — É da Rhumerie Martiniquaise? — É. Disse. — Estavas à espreita! Tanto melhor. — Vens de lá? — Sim.

disse como para si próprio: — Então era o filho que ela queria. mas não compreendo. — Em suma — disse lhe Mathieu —. que é que vais fazer? — Nada. mas parecia possesso. não te zangues. Daniel dominava se. Se me tivesse dito. Mathieu levantou se. Repetiu distraído: — Não te zangues. não foi por filantropia — disse Daniel. — Lamentas alguma coisa? Tens saudades? — Não. — Nunca o verei. — Obrigado. — É horrível este rum. Depois. — Põe te no lugar dela — disse Daniel. Toda esta A história a abalou terrivelmente. — Hem?! — Bom. Daniel não respondeu. tu vais salvá la. Eu queria suprimi lo. duramente. E não se decidia a sair. — Era o filho. Não compreendi. mas não se sente muito infeliz. Marcelle não tem nada a temer e tem confiança em mini. Mathieu continuou. Mathieu cruzou as mãos e fixou os olhos no sapato. — Bem sei. Já me pus.. — E agora — perguntou Daniel —. — Essa pequena Serguine? — Não. Mathieu encheu os copos. Se for um menino. nada de especial. Falava serenamente. — Para os dois Não sei porquê. dá me mais um copo. não é verdade? Não chegava a ser uma interrogação. cerrando os punhos. o facto de ires casar com ela perturba me um pouco. vieste ver a cara que eu . Falou te de mim? — Muito pouco... acho isso sinistro. — Mas agora estás livre. — Vim para devolver o dinheiro e tranquilizar te. Tudo correrá bem. Daniel calava se. Talvez seja melhor que nasça. Beberam. Num certo sentido. — Ela odeia me. secamente. — Não te preocupes. pomos lhe o nome de Mathieu.Daniel encolheu os ombros e pôs se a andar de um lado para outro. boa noite — disse Daniel levantando se.. e ele acrescentou sem esperar resposta: — Acho que deveria estar contente. — Vais casar com ela — repetiu Mathieu. — Cala te! — Não te zangues — disse Daniel. obstinado. Mathieu não se atrevia a olhá lo. Não faz mal. porque é que fizeste isso? — Com certeza. — Sabes — disse Mathieu —.

a reacção que deve ter todo o homem são. — Pois já viste. Mathieu não pôde suportar o sorriso e voltou a cabeça. sem simpatia. — Em parte — disse Daniel com franqueza —. Ele era um estupor. — Tens razão. Disse finalmente: — Podes ser o que bem entenderes. — Não te armes em cínico. — Isso enoja te. há qualquer coisa disso. Somos iguais. sou um pederasta. É desagradável. depois. — Bem sei — disse Daniel sorrindo com altivez. pensou Mathieu. não tenho nojo. Daniel afastara se e contemplava o com espanto e ódio. Talvez tenhas nojo de ti próprio. Daniel estava imóvel... Mostravas te sempre tão sólido. Não sou tão sólido como isso. mas continuava a sorrir. «Que ideia aquela de se vir torturar aqui». Era a ordem das coisas.» Mas não estava muito admirado. — Pois não. — Não. mas não se tornara mais agradável. mas fazes bem em não dizer nada. não tenho nada com isso. parecia apertado na sua roupa. Olhava Daniel e pensava: «Ele é pederasta. de braços colados ao corpo.. agora que há alguém que sabe. Daniel deu uns passos em direcção à porta e bruscamente voltou. tão normal. A tua própria consciência já te dá bastante trabalho.. Aliás é por . — Não dizes nada? — continuou Daniel. — Efectivamente não tens nada com isso. falava com dificuldade. — Então porque me vieste contar? — Eu. eu queria ver o efeito que isso podia provocar num tipo como tu — disse Daniel coçando a garganta. Daniel troçou: — Isto espanta te? Modifica a ideia que tinhas dos invertidos? Mathieu ergueu vivamente a cabeça.. Achava que devia dizer qualquer coisa. IDADE DA R A Z A O Estava verde. irritavas me. cortante. tudo aquilo lhe parecia tão natural. E. mas mergulhava na mais completa indiferença. talvez eu consiga acreditar nisso. Não precisas de tomar atitudes diante de mim. Porque havia de ter nojo? — Oh! — disse Daniel —. não penses que és obrigado a mostrares te generoso! Mathieu não respondeu. uma indiferença profunda e paralisante.faria depois dessa história toda. — Hem? — disse Mathieu. — E.. É a reacção normal. Daniel era um pederasta. Perdera a expressão irónica. não é? — És pederasta? — repetiu lentamente Mathieu. eu também tenho de mim. J E A N P AUL SARTRE — Mathieu — disse —.

o que ela quer. Encheram os copos. — Mas. bem se sabe. principalmente.isso mesmo que me contas essa história. E depois não caso por casar. — Tu és astucioso — disse Daniel com uma vulgaridade que Mathieu não conhecia. Marcelle! Estás a ouvir? Marcelle. — Não posso permitir que cases com Marcelle. O sentimento virá com o tempo. Daniel olhava sem falar. Um rubor sombrio manchou lhe o rosto aflito. Daniel sorriu. O tom não o convencia. E. fornos idiotas há pouco. Daniel levantou se.. .. Ela propôs me viver ao seu lado. J E A N P AUL SARTRE Não respondiam. — Juro que não o será. Ele perdeu a cabeça e gritou ao telefone.. Mathieu conservou um momento o telefone na mão. arrogante. — Ah!. Mathieu estremeceu. E tem se sempre o benefício da confissão. — Daniel! Se casas por casar. é o filho. — Os pederastas deram sempre bons mandos. Pegou no telefone e marcou o número de Marcelle. quero casar contigo. mas isso não me convém. Daniel contemplava o com ironia. ela sabe? — Não! — Porque é que casas? — Por amizade. demais. depois largou o devagar. — Tranquiliza te — observou como consolação. Mathieu bebeu um gole de rum e tornou a sentar se na poltrona.. Deve ser mais fácil confessar se a um miserável. — E que farás para o impedir? Mathieu não respondeu. — Se é assim. Houve um curto silêncio. — Devias ser o último a dizê lo.. Mathieu sentiu um remorso agudo. Escuta. com um olhar fixo.. Acrescentou com uma ironia dolorosa: — Estou resolvido a cumprir os meus deveres conjugais até ao fim. — Estou — disse a voz de Marcelle. Vou instalá la em minha casa. depois uma espécie de gemido e desligaram. — Ela julga que a amas? — Não creio. — E. não parecia triunfante. é Mathieu. porque te casas com Marcelle? — Uma coisa nada tem a ver com a outra. — Estou. à maneira dos velhos. — Marcelle. vais estragar lhe a vida. Eu queria. está. — Bem — disse. Daniel olhava sem ver. Calaram se. não podes? — perguntou. e Mathieu disse com obstinação: — Não quero que ela seja infeliz. Fez se silêncio.

exactamente porque não és pederasta.» Abriu as mãos e raspou o sapato no chão. — Compreendo.» Mas dirás isso tudo. etc. é um gosto como outro qualquer. sentia se perseguido. e Mathieu percebeu que estava com vontade de fumar. — Bem sabes. — Meu Deus! — disse. — Tenho vergonha de ser pederasta.DA D E DA RAZAO Mathieu corou violentamente e acrescentou: — Também gostas de mulheres? Daniel fungou. Mathieu pôs a cabeça entre as mãos. Mas desejo saber uma coisa. Já sei o que vais dizer. — Daniel — disse —. — Sim — disse com um ar distraído e imparcial —. Disse: — Tenho ainda mais nojo de mim. disse: — Não muito. Subitamente o silêncio tornou se pesado. acho que te deves sentir bastante mal. está na sua natureza. Pensou: «Daniel está a olhar para mim». Acendeu um cigarro. Beberam. Para ela não terá importância nenhuma. Olhava para o chão entre os pés: «É um pederasta e vai casar com ela. — Escuta — disse —. J E A N P AUL SARTRE \ — Tu odeia la? — Não. . e lágrimas de vergonha inundaram lhe os olhos. e ergueu a cabeça precipitadamente. «No teu lugar. Mesmo agora. reagiria. Daniel acrescentou vivamente: — Isso não tem importância. casas te para te martirizares! — E então? Isso é comigo. o que tu és não me interessa. exigiria um lugar ao sol. Daniel olhava o efectivamente e com tal ódio que o coração de Mathieu se apertou.. Todos os invertidos têm vergonha.» Daniel continuou a sorrir: — Vamos esvaziar a garrafa? — Vamos. etc. Mathieu não respondeu. Mathieu baixou a cabeça. Há alguém que sabe. — Gostarias de me enfiar uma bala na pele? Daniel não respondeu. porque sou pederasta. — Porque me olhas assim? — perguntou. Porque é que tens vergonha disso? Daniel teve um riso seco: — Eu esperava essa pergunta — disse. Mathieu pensou tristemente: «E a mini que ele odeia. Mathieu foi invadido por uma ideia insuportável. depois de saber que vais casar com ela. Daniel bebeu.

tinha um ar de espanto. Tinha o olhar parado e de vez em quando os lábios entreabriam se lhe. surpreendi me — disse em voz baixa. morreram de vergonha. «ele foi até ao fim desta vez». de quatro.. apesar de tudo. — Já me assumi demasiado — continuou com doçura.. Daniel parecia reflectir. bebeu o. — No meu lugar? — repetiu Daniel sem mostrar grande surpresa. como ainda havia um resto de rum no copo..» E o horror que Daniel lhe inspirava misturou se com a inveja. Não. e eu não quero esse género de morte. — Sim.. dos seus receios. . Sorriu de um modo singular. — Hoje de manhã parecias acreditar que sim. r A IDADE DA RAZÃO Não havia nada a dizer. Daniel inspirava lhe horror. Daniel continuava a sorrir com ar de boa fé. ou simplesmente se aceitam. J E A N p AUL SARTRE Daniel encolheu os ombros. quase infantil. os pederastas que se vangloriam ou se exibem. — Falaremos disso no dia em que aceitares ser um sacana. Mathieu disse subitamente: — Gostava de estar no teu lugar. — Deves estar num estado horrível.— Mas não seria melhor. Uma ideia repentina causou lhe um certo mal estar: «Ele é livre. Mas parecia mais calmo e olhava para Mathieu sem ódio. «É verdade». Suspirou e qualquer coisa pareceu ceder no seu rosto. e o desejo transformou se numa espécie de angústia. esta noite. Estava só. Mathieu acendeu outro cigarro e. — Hoje. Pensou: «Dentro de dois anos.. não basta abandonar uma mulher para se ser livre. pensou Mathieu. assumir isso? — perguntou timidamente Mathieu. Disse. das suas esperanças. — Não — disse Mathieu —. Passou a mão pela fronte. serei assim?» E subitamente foi invadido pelo desejo de falar a Marcelle. estão mortos. — Sim. que parecia deslocado naquele rosto cor de azeitona que a barba crescida manchava de azul. Daniel pareceu irritado. Daniel olhou Mathieu com curiosidade. — Fumar agora? — Um só. num estado horrível. E explicou: — És livre. — Conheço me muito bem. Mas lembrou se de que nunca mais a veria.. — Nesta história ganhaste por todos os lados. de tanto terem vergonha. — Dá me um cigarro. só a ela podia falar da sua vida.

— Por nada — repetiu. — Bem — disse Mathieu.. Estava cansado. — Nada de sensacional — observou Daniel. Não sei o que faria se bebesse.» Disse em voz alta: — Anteontem. — Daqui a seis meses serei a mesma coisa que sou hoje. — Com remorsos a menos.. — Hoje não tenho vontade de me embriagar. agitadas pela brisa nocturna.. — Tudo isto. — O quê? Mathieu mostrou a secretária num gesto largo e vago. Fixava o olhar nas cortinas da janela. mas não a suficiente. Marcelle já não faz parte da minha vida. todo o resto. dir se ia que me roubam as consequências dos meus actos. Mas a verdade é que abandonei Marcelle por nada. tudo o que faço. Daniel levantou se. encontrei um tipo que queria alistar se nas milícias espanholas. que já quase não compreende e que lhe vai transformar a vida. e Mathieu acrescentou bruscamente: . Sentia se fascinado por Daniel. tudo se passa como se eu pudesse sempre voltar atrás. não vens? — Não. Não queres ficar mais um bocado? — Preciso de beber. — Então. mas acho que lhe seria penoso saber que nos vemos. faço o por nada. Eu. Marcelle disse que não queria mudar nada na minha vida. Ver nos emos em breve? — perguntou Mathieu. Adeus. — Nesse caso. — Adeus. DADË RAZÃO — Porque é que me dizes isso? — Não sei. agora está lixado. — E então? — Não o fez. agora já não pode voltar atrás. mas há o resto. Pensava: «Será isto a liberdade? Ele agiu. Calaram se. — Eu não — disse Mathieu. Nada é claro. — Em toda esta história eu não fui senão recusa e negação. Daniel sorriu sem responder. Não era muito claro. Não sei o que daria para cometer um acto irremediável. à noite. Daniel atirou o cigarro fora e disse: — Eu queria ser seis meses mais velho.— Não sei. Depois de um momento. secamente. felicidades. deve parecer lhe estranho sentir atrás de si um acto desconhecido.. — Tiveste vontade de partir para Espanha? — Tive. — Ofereço te um copo no Clarisse. — Acho que será difícil. — Não — disse Mathieu.

Daniel saiu. Sentia ainda no fundo da garganta o calor adocicado do rum. Dissera a si mesmo na véspera: «Se ao menos Marcelle não existisse!» Mas era uma mentira. agradável e azul. estou na idade da razão. o estoicismo. a seriedade de espírito. O perfume de Ivich ainda flutuava ali. Respirou o e recordou aquele dia tumultuoso. a resignação.» Aquela vida tinha Ihe sido dada para nada. Era uma noite agradável. tudo isso que permite apreciar.— Odeias me. foi a minha vida que a bebeu. por nada. Tirou o casaco. Mathieu chegou se à janela e levantou as cortinas. Era um céu de festa na aldeia. sentado no braço da poltrona. FIM DO PRIMEIRO VOLUME . tinha acabado com a sua juventude. Estava formado. Era Daniel. Na rua. O epicurismo desiludido. ele não era nada e. minuto a minuto. — Daniel baixou a cabeça sem responder. já não mudaria. — Não neste momento. uma vida falhada. Encostou se no parapeito e bocejou longamente. — Adeus — disse Mathieu. um céu que sabia a férias e bailes campestres. a indulgência sorridente. no entanto. «Ninguém entravou a minha liberdade. mas não mais livre do que antes. como bom conhecedor. em baixo. Pensou: «Muito barulho. — Mas amanhã.. não há dúvida. Mathieu viu Daniel desaparecer e pensou: «Fico só. Daniel aproximou se e pousou a mão no ombro dele num gesto desajeitado e envergonhado. — Adeus. um homem caminhava tranquilamente.. Por nada. Repetia a bocejar: — Não há dúvida. pôs se a desfazer o nó da gravata. Um ruído de música subia da Avenida do Maine. Parou na esquina da Rua Huyghens com a Rua Froidevaux e olhou o céu. viam se as estrelas por cima dos telhados.» Só. Tinha acabado o seu dia. Morais comprovadas já lhe ofereciam os seus serviços.» Fechou a janela e voltou para o quarto. O vento varrera as nuvens. a luz branca de um farol deslizou no céu. demorou se em cima de uma chaminé e escorregou por trás dos telhados. com um sapato na mão. Bocejou. Tirou os sapatos e ficou imóvel.