Jean Paul Sartre (1905 1980

)

A IDADE DA RAZÃO
Os Caminhos Da Liberdade

Volume I

Tradução de Sérgio Milliet 5." Edição BERTRAND EDITORA VENDA NOVA 1996 ' Título original: Lês Chemins de Ia Liberte — L'Age de Raison © 1945, Éditions Gallimard Ilustração de capa: No boulevard, de Malevich Todos os direitos para a publicação desta obra em língua portuguesa excepto Brasil, reservados por Bertrand Editora, Lda. Fotocomposição e montagem: Grafitexto Impressão e acabamento: Gráfica Manuel Barbosa & Filhos, Lda. Depósito Legal n.° 101049/96 ISBN: 972 25 0996 9 Acabou se de imprimir se em Junho de 1996

A Wanda Kosakiewicz No meio da Rua Vercin getorix, o sujeito grandalhão agarrou Mathieu pelo braço. Um polícia passeava no passeio oposto. — Dê me alguma coisinha, patrão, estou com fome. Tinha os olhos muito unidos e os lábios grossos. E tresandava a álcool. — Não será sede o que tu tens? — indagou Mathieu. — Juro que não, meu velho — disse com dificuldade —, juro que não. Mathieu descobrira uma moeda de cinco francos no bolso: — No fundo não me interessa, perguntei por perguntar. E deu a moeda. — O que estás a fazer está certo — disse o tipo, apoiando se à parede —, quero desejar te uma coisa formidável. Mas o que é que te vou desejar? Reflectiram ambos. Mathieu atalhou: — O que quiseres. — Pois então vou desejar te felicidades — respondeu o outro. — É tudo. Riu triunfante. Mathieu viu o polícia aproximar se e receou que prendesse o tipo. — Bom — disse —, adeus. Quis afastar se, mas o homem alcançou-o. — A felicidade não basta — disse com uma voz entaramelada —, não basta... — Então! Que mais é que queres? — Quero dar te uma coisa. — E eu vou prender te por mendicidade — disse o polícia. Era muito jovem, muito rosado e esforçava se por se mostrar duro. — Há meia hora que estás aí a chatear os transeuntes — acrescentou sem convicção. — Não está a pedir esmola — disse Mathieu com vivacidade. — Estamos a conversar. O polícia encolheu os ombros e continuou o seu caminho. O tipo titubeava de modo inquietador; não parecia sequer ter visto o polícia. — Já sei o que é que te vou dar. Vou dar te um selo de Madrid. Tirou do bolso um rectângulo de cartão verde e entregou o a Mathieu. Este leu: «C. N. T. Diário Confederai. Exemplares 2. França. Comité Anarco Sindicalista, 41, Rua de Belleville, Paris 19.» Havia um selo ao lado do endereço. Também era verde e trazia o carimbo de Madrid. Mathieu estendeu a mão — Obrigado. — Cuidado! — disse o sujeito irritado. — E... de Madrid. Mathieu olhou o. O homem parecia comovido e fazia grandes esforços para exprimir o seu pensamento. Renunciou a isso e disse apenas: — Madrid! — Já sei. — Eu queria lá ir. Juro. Mas a coisa não se arranjou.

Tornara se sombrio. Murmurou «espera» e passou devagar o dedo sobre o selo. — Pronto. Podes levá lo. — Obrigado. Mathieu deu alguns passos, mas o sujeito chamou o. — Eh! — Que é? — disse Mathieu. O homem mostrava lhe a moeda de cinco francos. — Foi um tipo que me deu isso. Ofereço te um rum. — Hoje não. Mathieu afastou se com um vago remorso. Houvera uma época na sua vida em que deambulara pelas ruas, pêlos bares, com toda a gente; o primeiro que aparecesse podia convidá lo. Agora, tudo isso tinha acabado; esse género de aventura não dava nada... Era divertido. Tivera vontade de ir combater em Espanha. Mathieu apressou o passo, e pensou com alguma irritação: «Em todo o caso não tínhamos nada que dizer um ao outro.» Tirou do bolso o cartão verde: «Vem de Madrid, mas não tem o endereço dele. Deve lho ter dado alguém e apalpou o varias vezes antes de entregá lo, porque vinha de Madrid.» Lembrava se do rosto do homem e da sua expressão ao olhar para o selo: uma expressão estranha de paixão. Mathieu olhou o selo por sua vez, sem deixar de andar, depois repôs o pedaço de cartão no bolso. Um comboio apitou, e Mathieu pensou: «Estou velho.» Eram dez e vinte e cinco. Mathieu estava adiantado. Passou sem parar, sem querer voltar a cabeça diante da casinha azul. Mas ele espreitava a pelo canto do olho. Todas as janelas estavam escuras, com excepção da de Madame Duffet. Marcelle não tivera ainda tempo para abrir a porta de entrada; debruçada sobre a mãe, ajeitava, com gestos másculos, o leito de dossel. Mathieu, preocupado, pensava: «Quinhentos francos para darem até ao dia 29, isto é, trinta francos por dia, mais ou menos. Como é que me vou arranjar?» Deu meia volta e voltou para trás. Apagara se a luz no quarto de Madame Duffet. Pouco depois, a janela de Marcelle iluminou se. Mathieu atravessou a rua e seguiu, ao longo da mercearia, tomando cuidado para que as solas novas dos sapatos não rangessem. A porta estava entreaberta, empurrou a devagar, ela gemeu. «Quarta feira vou trazer a minha almotolia para olear os gonzos.» Entrou, fechou a porta e descalçou se no escuro. A escada rangia um bocado. Mathieu subiu com precauções, de sapatos na mão; tacteava cada degrau com os dedos do pé antes de dar um passo. «Que comédia!», pensou. Marcelle abriu a porta antes que ele alcançasse o patamar. Uma névoa rósea e que cheirava a lírio projectou se fora do quarto

e espalhou se pela escada. Ela tinha vestido uma camisola verde, transparente, através da qual Mathieu viu a curva suave e gorda das ancas. Entrou. Tinha sempre a sensação de entrar numa concha. Marcelle fechou a porta à chave. Mathieu dirigiu se ao grande armário metido na parede e guardou os sapatos; contemplou depois Marcelle e viu que havia qualquer coisa. — Que é que se passa? — perguntou em voz baixa. — Nada — respondeu Marcelle, igualmente em voz baixa. — E tu, meu velho? — Estou sem cheta. Fora isso, tudo bem. Beijou a no pescoço e na boca. O pescoço cheirava a âmbar, a boca cheirava a tabaco ordinário. Marcelle sentou se à beira da cama e pôs se a olhar as pernas enquanto Mathieu se despia. — Que é isto? — indagou Mathieu. Havia em cima da lareira uma fotografia que ele não conhecia. Aproximou se e viu uma jovem magra, penteada como um rapaz, e que ria com um ar ríspido e tímido. Envergava um casaco de homem e calçava sapatos de salto baixo. — Sou eu — disse Marcelle, sem erguer a cabeça. Mathieu voltou se. Marcelle levantara a camisola sobre as coxas gordas. Estava curvada e Mathieu adivinhava sob a camisola a fragilidade dos seios pesados. — Onde é que encontraste isto? — Num álbum. É do Verão de 28. Mathieu dobrou cuidadosamente o casaco e colocou o no armário ao lado dos sapatos. Perguntou: — Então agora andas a mexer nos álbuns da família? — Não, não sei, mas hoje tive vontade de encontrar coisas da minha vida, de ver como eu era antes de te conhecer. Trá-la cá. Mathieu pegou na fotografia e ela arrancou lha das mãos. Sentou se ao lado dela. Marcelle teve um arrepio e afastou se um pouco. Olhava a fotografia com um sorriso vago: — Como eu era engraçada — disse. A jovem mantinha se rígida, apoiada à grade de um jardim. Abria a boca e devia estar também a dizer: “É cômico”, com a mesma desenvoltura atarantada, a mesma ousadia sem firmeza. Só que era jovem e magra. Marcelle sacudiu a cabeça. — É de morrer a rir! Foi tirada no Luxemburgo por um estudante de Farmácia. Estás a ver o meu blusão? Comprei o nesse mesmo dia, porque íamos dar um grande passeio a Fontainebleau no domingo seguinte. Meu Deus!... Havia com certeza alguma coisa. Nunca os seus gestos tinham sido tão bruscos, a sua voz tão masculina. Estava sentada à beira da cama, mais do que nua, sem defesa, como um vaso enorme no fundo do quarto cor de rosa, e era penoso ouvir essa voz masculina enquanto um cheiro forte e sombrio se exalava dela. Mathieu agarrou a pêlos ombros, apertando a. — Tens saudades dessa época? Marcelle respondeu secamente: — Dessa época não, mas da vida que poderia ter tido.

. Contava lhe minuciosamente tudo o que fazia. indiferente: — E tu? Mathieu não tinha vontade de contar.» Abriu os lábios para interrogá la. Desci até à Rua da Gaite. — Já lá vão dez anos. Apanhei um táxi e voltei. parece que não fazem isso.Tinha iniciado os seus estudos de Química. em tfeauvais eu entendia me com o tesoureiro. Ela dava lhe conselhos. chato como de costume. Acrescentou: J E A N P AUL SARTRE — Ela anda desanimada. Jantei em casa de Jacques. No entanto. leva uma vida horrível.» Quis beijar lhe a cara. Dizia muitas vezes: «Vivo por procuração. Ela olhava a fotografia com um ar triste e tenso. começou a chover. Marcelle ergueu as sobrancelhas e olhou o. é um mês de Junho esquisito. — Porquê? A voz de Marcelle voltara à firmeza habitual e o seu rosto assumira uma expressão de bom senso masculino. — Disseste me que ela estudava. que uma doença havia interrompido. de acotovelar pessoas. — E viste? — Cinco minutos. Mathieu pensou: «Não lhe dou nada. — E hoje? — Hoje saí — disse ela melancólica. Depois vi Ivich. Parecia um levantino gordo.. Li um pouco. mas a mãe interrompia me a cada instante por causa da loja. Mathieu pensou: «É verdade. — Engordei. não? — Engordaste. Disse: — Ontem fui ao colégio dar as minhas últimas aulas. mas viu Ihe os olhos e calou se.» Quatro noites por semana vinha vê la.» Ele perguntou: — Que fizeste ontem? Saíste? Marcelle teve um gesto desanimado e vago. com voz séria e ligeiramente autoritária. Ele não gostava de lhe falar de Ivich. sabes. Hoje de manhã passei na tesouraria para ver se podiam adiantar me alguma coisa. Perguntou.. queria ver Andrée. Mathieu pensou: «Parece que ela me detesta. e depois. Ele murmurou: — Ela vai chumbar. mas ela afastou se sem violência com um risinho nervoso. Quando saí de casa dela. estava cansada. as pessoas tinham umas caras ignóbeis. Ela encolheu os ombros e atirou a fotografia para cima da cama. isto divertia me. — Senti necessidade de tomar ar. — Não.

pois não? Eu teria receio de ofendê la. Ela apoiou o braço no de Mathieu. Vais ver. não. Marcelle libertou se e o seu rosto endureceu. — Ah! conheço te muito bem. mas tens medo que ela enfie uma bala no corpo. à sua maneira. e não poria mais os pés na Faculdade. Em Outubro sabia bastante de Botânica. e o tipo não lhe arrancou nem mais uma palavra. Mas nem só as palavras contam! Hesitou um instante e baixou a cabeça. De qualquer maneira.. Mathieu não deixara de acariciar as costas de Marcelle e ela começou a pestanejar. A família não a deixará recomeçar. meu velho. Isso pareceu lhe ridículo. — Olha para isto. desmaiaria na primeira dissecação. mesmo que passasse no P. Ele tinha a pele mais branca do que a dela. Ela foi tão pouco feita para ser médica como eu. desanimado. Marcelle indagou com voz firme: — Que espécie de disparate queres tu dizer exactamente? — Não sei — respondeu ele perturbado. pouco me importa que Ivich reprove. ela vai fazer um disparate. aceitava mesmo que ele a amasse. meu velho. a minha até parece de marroquim. Marcelle. Gostava que ele lhe acariciasse as costas. principalmente junto dos rins e entre as omoplatas.— Sim. no próximo ano. Mas sabes como ela é: tem visões. Aquele tom de displicência protectora não seria uma mentira? Tudo o que podia exprimir por meio de palavras dizia o. o examinador estava satisfeito. «Que é que eu tenho a ver com os celenterados?». exigia apenas uma coisa: que ele falasse de Ivich precisamente naquele tom. Não ousas confessar. Um revólver é para as nossas peles de crocodilo. meu pobre velho. de repente «viu se» diante de um tipo calvo a falar de celenterados. não. Parece que nunca lhe viste o corpo. Desatou a rir. deve ficar horas inteiras diante de um livro sem fazer um movimento. Mas se a coisa não correr bem desta vez. E dizes que tens horror ao romanesco. Mas de repente. isto é. no caso de ter um azar.B. pensou. E tu acreditas que uma boneca com uma pele daquelas vai estragá la com tiros? Posso imaginá la caída numa cadeira. tenho medo que lhe aconteça o mesmo desta vez. Marcelle não ignorava nada da sua afeição por Ivich. Mathieu disse lhe: A — Ouve. só de lhe passar o dedo por cima. Ou que invente alguma coisa. Em suma.C. — Que rapariga estranha! — disse Marcelle pensativa. como os loucos. — Em todo o caso — atalhou Mathieu —. com os cabelos sobre o rosto e fascinada diante de um minúsculo Browning. É muito russo isso! Mas imaginar outra coisa. — Não achas que tenho uma pele boa para fazer uma escumadeira? .

com os bordos limpos e avermelhados. — Que é isso? — Foi um tipo que mo deu há pouco na rua. — Porquê? — perguntou Marcelle com negligência. Queria oferecer me um copo. — Olha. Não seria nada feio. A tua vida está cheia de oportunidades perdidas. como mil arrepios tensos. Ela calou se. foi até ao armário e tirou o cartão do bolso do casaco. E só Deus sabe corno estas coisas se repetem ultimamente. Acrescentou: — Sabes. Mathieu pousou a mão na perna de Marcelle e acariciou a docemente. Viu momentaneamente as suas olheiras. concordando. Antigamente terias feito tudo para provocar esses encontros. Ele disse: — Como estás nervosa! Ela não respondeu. Vais acordar a velha. Não havia nada a fazer senão esperar. — Talvez tenha mudado um pouco — disse Mathieu. J E A N P AUL SARTRE Continuava a rir. o tempo de um olhar altivo e desesperado. Mathieu tapou lhe a boca com a mão. Dentro em pouco não se poderia conter. porque era necessário exprimi la em voz baixa e sem gestos para não acordar Madame Duffet. — Ora! Marcelle ergueu a cabeça e contemplou o relógio com um ar míope e divertido. — Cala te. — Olha para mim — disse. — Quando tu me contas estas coisas. Marcelle não se mexeu: olhava a mão de Mathieu. Era simpático e eu dei lhe algum dinheiro. isso tinha um grande valor para ele. estouraria. com indiferença. — Que é que tu tens? — Nada — disse ela virando a cabeça.Imagino um buraquinho bem redondo por baixo do esquerdo. Mathieu sentiu se ligado ao tipo por uma espécie de cumplicidade. — E curioso — observou. — E tu recusaste? — Recusei. — Chamas a isto uma oportunidade perdida? — Sim. — Que é que achas? Envelheci? . Era sempre assim com ela: como um nó. irrito me sempre. Mathieu temia essas explosões silenciosas: a paixão naquele quarto concha era impossível. Este acabou por retirá la. Gostava daquela carne amanteigada com os pêlos suaves sob as carícias. A — Era um anarquista? — Não sei. — Podia ser divertido. Mathieu levantou se. Marcelle pegou no cartão.

. Era a que eu queria evitar. agora. Mas Marcelle tinha desatado a rir. Trinta e quatro anos.. Há muito tempo que se diz isso. eram responsáveis por ela diante um do outro.— Tens trinta e quatro anos — disse simplesmente Marcelle.. vinha para cá. Sentia se tranquilo e algo estúpido. eles já se lhe tinham habituado. não andares alheio — disse Marcelle. as palavras para ela não duravam mais do que uma estação). No Inverno anterior era «urgência». Foi antes por escrúpulo. essa lucidez. — Vamos lá — disse. — Como tu tens medo do patético! E depois? Mesmo que te mostrasses um pouco patético com esse pobre diabo! Que mal é que havia? — E o que é que adiantava? — perguntou Mathieu. não tinha um ar terno. é tudo patético. em suma. Mas não deixa de ser sintomático. Um ronronar baixo e terno como quando ela lhe acariciava os cabelos dizendo lhe: «Meu pobre velho. Pensou: «Não é completamente verdade. — Que há. — disse ele.. Essa «lucidez» (detestava a palavra.. era . — Isto não é nada. Era ainda contra ele próprio que se defendia. a tua famosa lucidez.» Quis fazer um esforço para ser sincero.. quando se está bêbedo. — Que é que achas de tão interessante nisto. «Ela procura provocar me». J E A N P AUL SARTRE Mathieu e Marcelle tinham combinado dizer sempre tudo um ao outro. bem o sabes. Marcelle sorriu sem ternura. não creio que seja isso. A IDADE DA RAZÃO — Pois é — atalhou Mathieu —. Mathieu acrescentou com vivacidade: — Ele também devia estar alheio. Mathieu sobressaltou se: se ao menos ela não empregasse palavras tão rebarbativas. — É tão raro. — Sim.. ando um pouco alheio. Não reflecti assim tanto. Ouve. perturbado. — Ouve — disse —. pensou Mathieu. Achava a injusta. Tu és divertido.. absolutamente nada e nem há motivo para tanta história. meu velho. Mathieu pensou em Ivich e teve um estremecimento desagradável.. Antes de mais nada. — Bem. — Conheço te bem — disse. Compreendes.» No entanto. de bom humor e sem vontade de discutir.. tens um medo tão grande de te iludir a ti próprio que recusarias a mais bela aventura do mundo para não te arriscares a uma mentira. não tens razão em dar importância a essa história. mas Marcelle tinha a adoptado havia algum tempo. eu não tinha tempo. — Tens perfeitamente razão — disse Marcelle.

apenas o profundo sentido do seu amor. Totalmente livre. — Sim — disse Marcelle. e ela sabia que era muito importante para ele. um J E A N P AUL SARTRE pouco agressiva. teria a impressão de te mentir também. ela era a sua lucidez. Nada de inútil. sim — disse ela com indolência. com inquietação: ainda não tinha chegado o momento de ela se decidir a falar. — Sim. Só podia amar Marcelle com inteira lucidez. Pensei nisso hoje.. de hesitante. Não é isso. — Não pareces convencida! — Estou. E depois havia aquela fotografia em cima da cama... eu gostaria de não dever nada senão a mim próprio. a sua testemunha. sim. é um meio.. — Eu sei — atalhou Marcelle —. E tórrido. sabe se lá! Mas não creio. é como se tivesses passado pela lavandaria.. — Não ser nada — repetiu lentamente Mathieu. gostas de te analisar. É o teu vício... Marcelle mostrava se muitas vezes bastante dura. renunciara definitivamente aos desejos de solidão. aos pensamentos frescos. julgar: é a tua atitude predilecta. Que é que tu queres que se faça? Estava irritado. de estranho. isto é. . Mathieu estava desconcertado. conselheira e juiz. Quando Mathieu se comprometera com Marcelle. — Não. Só falta o contraste. — Se. Ser livre.. tinha lho explicado cem vezes. Isso era me insuportável. a sua companheira.. existir parecer me ia absurdo. tudo é claro e nítido em ti. Tudo aquilo.. Oh!. é o teu vício. É para te libertar de ti próprio.. — Isso de me conheceres não me interessa assim tanto — disse simplesmente. sombrios e tímidos que dantes se esgueiravam dentro dele com a vivacidade furtiva dos peixes. Quando olhas para ti próprio. tu segues o teu caminho. E não me venhas dizer que é por mim que razes isso. e se Mathieu não concordava com ela... é o teu ideal: não ser nada.. imaginava que ele a queria dominar. que não és nada. olhar. cheiras a roupa lavada. — Se eu mentisse a mim mesmo — disse —. se eu não tentasse viver por conta própria. No fundo. Escuta: eu. Encarou Marcelle. Marcelle pusera um ar sorridente e obstinado: — Sim. Sabes o que estou a pensar? Que te estás a esterilizar um pouco. Não parecia muito convencida. desconfiada. — Não é um vício — disse Mathieu. Mas raramente sentia nela aquela vontade deliberada de lhe ser desagradável. — É. imaginas que não és o que estás a ver. não é um fim. — Pensas que estou a mentir? — Não. mantinha se em guarda.

Mathieu olhou para a sua nuca inclinada e não se sentiu à vontade. com as mãos cruzadas sob a cabeça. Mathieu ergueu se. de repente. Ele sentou se à beira da cama. cansada. Mas percebeu que agora ela tinha os olhos abertos e parados. Pensou que nunca conseguiria pôr se no lugar de Marcelle: «A liberdade de que lhe falo é a liberdade de homem saudável. Ela escorregou devagar para trás e deitou se de costas sobre a cama. viu lhe então as longas pestanas pretas. Pensou: «Como está a envelhecer!» E pensou que ele também estava velho. pô las dobradas aos pés da cama e estendeu se ao lado dela.» Pôs lhe a mão no pescoço e apertou suavemente entre os dedos aquela carne untuosa. Deixou escorregar a mão ao longo das costas de Marcelle. Marcelle deixou cair a cabeça sobre o ombro de Mathieu e ele viu lhe de perto a pele morena. com voz fraca. gostaria de esquecer se e esquecê la. — Porque é que os outros não são assim. eu sou assim. — Não. vais dizer me o que é que se passa. Apertou a nos braços: não que a desejasse naquele instante. que contemplava o tecto. se não é um vício? — São assim. mas teve remorsos e disse suavemente: — Não é um vício. tirou as calças e a camisa. mas para ver aquele espírito teimoso e anguloso fundir se como um pedaço de gelo ao sol. as olheiras azuladas e borbulhentas. — Marcelle. de olhos fechados. envergonhado da sua nudez. bem desenhada e severa. — Passa se — disse ele com ternura —. Calaram se. levantou se. tinha uma expressão má. Era sempre aquele remorso. Exactamente na ponta dos dedos. tinha uma linda boca. e ela baixou as pálpebras. Inclinou se sobre ela com uma espécie de mal estar. Tinha um vinco duro e triste no canto dos lábios. Beijou a na boca. Mathieu sentia prazer na ponta dos dedos. mas não percebem que o são.Mathieu pensou: «Ela irrita me quando se arma em esperta». estás aborrecida? Ela ergueu para ele os olhos um pouco perturbados. A Marcelle deixara de rir. — Marcelle! Ela não respondeu. dês J E A N P AUL SARTRE feita. — Pois eu não tenho toda essa necessidade de ser livre — disse. ligeiramente envelhecida. aquele remorso absurdo que o perseguia quando estava com ela. Mas havia muito tempo que já não se esquecia quando a possuía. — Agora — disse com firmeza —. há alguma coisa que te . — Não se passa nada — respondeu.

Não dizemos tudo um ao outro? — Tu não podes fazer nada. a cintura. Tinha voltado a cabeça para ele e contemplava o. As mãos de Marcelle principiaram a tremer. — Quem ta deu? — Andrée. por exemplo. não? — Está bem. encher o cachimbo. — Não podes fazer nada — repetiu Marcelle. para o largar em seguida. Ela já lá esteve. e isto vai aborrecer te.. — É a mulher que a liquidou no ano passado? Custou lhe seis meses de cama.. — Agora já sabes. — Pois é — disse Marcelle. Olhou lhe o pescoço. Disse com súbita paixão: — Não é preciso que reflictas. sentou se a uma certa distância de Mathieu. — Vá lá. Os lábios cerraram se sobre as últimas palavras: uma °ca húmida com reflexos violeta. açucarado. — Espera — disse Mathieu. Vamos reflectir. não quero. Tinha as mãos sobre as coxas e os braços pareciam asas de terracota. Sabes que nunca perco a cabeça: mas.» Tinha vontade de fazer alguma coisa com as mãos..aborrece. Ele acariciou lhe levemente os cabelos. — Então queres ser pai? Ela afastou se. Tirou um cigarro da mesa de cabeceira. Mathieu observou que o rosto se lhe tornara cinzento. Mas havia aquele rosto cinzento. — Tens a certeza? — Absoluta. Que é que vamos fazer? — Desenvencilharmo nos disto. O ar estava doce. não é a ti que te compete. cheirava a rosas. Não. e o seu olhar desceu mais ainda. Parecia espantada. E acrescentou com uma amarga ironia: — Isto agora é uma coisa de mulheres.. mas o cachimbo estava no armário com o casaco. sem preparação. os ombros. Mathieu corou violentamente e apertou as pernas. Marcelle. — Aconteceu o quê? — Aconteceu! Mathieu fez uma careta. — Dizes me essas coisas assim. — Pois então. Tenho uma direcção. dir se ia que procurava não tossir. dois meses de atraso! — Merda! Pensava: «Ela devia ter mo dito há pelo menos três semanas. Tinha uma expressão dura mas não máscula. aconteceu. um insecto vermelho . conta. aquele olhar parado.

Dizem que é irrisório. Sentia se desajeitado. Quando ergueu a cabeça. Naturalmente não te censuro nada. O quarto parecia ter se esvaziado repentinamente do fumo róseo. «Sente se humilhada». o espelho com os reflexos de chumbo. pensou Mathieu. Marcelle não se mexera. quem é essa mulher? Onde é que ela mora? — Rua Morère. Dizes que vais da parte de Andrée? — Sim. Enfim. um pouco curtas.. Disse com uma voz decidida: — Desculpa. — Bem sei — disse Mathieu com amargura. Era tudo o que podia permitir se. E. estou persuadida de que serei tão bem tratada por ela como por qualquer outra — afirmou —. mas não o faria.» E a lâmpada.» Ele tinha vontade de vomitar. — Garanto te que não me sinto orgulhoso. que descansava delicadamente sobre as coxas com um ar de impertinente inocência. sabes? — disse de repente Marcelle com uma voz sensata. Parece que é uma mulher estranha. para a flor culpada. com uma obstinação rígida. que porcaria! A asneira é minha. tudo adquiriu um aspecto de impiedosa engrenagem: fora posta em movimento e girava no vácuo das suas frágeis existências. «Se fosse ela».. querido.. com medo de acordar Madame Duffet. havia grandes vazios entre os objectos. aconteceu. eram para a minha costureira. a nudez satisfeita e peremptória. já estava calma. insistindo na sua melodia. Agarrou bruscamente Marcelle pela cintura e apertou a contra ele. — Tinhas direito a fazê lo — observou Mathieu.» Disse: — É exactamente o que me preocupa: o não levar muito. «odeia me. como . o relógio. Escuta.. como o mecanismo de uma caixinha de música. Estou a dominar me desde esta manhã. aconteceu. precisava de desabafar. sabes. Um tipo grande. Mas ela não a podia esquecer: via as coxas brancas dele. É a primeira vez. Ela só leva quatrocentos francos. pensou Mathieu. Felizmente que pede pouco e eu tenho precisamente quatrocentos francos comigo. musculosas. continuava a olhar para o ventre de Mathieu. Ele sabia que ela tinha vontade de gritar. Mathieu pensou: «Eu é que lhe fiz isto. — É um bom negócio. Era um pesadelo grotesco. «teria vontade de bater em toda esta carne. 24. o armário entreaberto. mas ela espera. e tu é que pagas. desastrado e nu que fizera uma asneira e sorria gentilmente para se fazer perdoar. Bolas.ocupado em devorar o rosto cinzento. Ela inclinou se sobre os seus ombros e fungou duas ou três vezes sem verter lágrimas. — Acredito. Mathieu mexeu se. a cómoda. como um noivo. de soluçar. que teima em tocar. sem conseguir arrancar se daquele mundo sinistro e agreste. — Ainda bem.

nessas famosas clínicas clandestinas onde cobram quatro mil francos. qualquer coisa. mas percebo que queres fazer qualquer coisa. Lembras te. não? Acho que ela não regula muito bem. Marcelle. Digo lhe que vou da parte de Andrée. — Mas porquê? Que é que lhe vais dizer? — Quero ver como é. não sei muito bem o que é que vais fazer. Obedeceu e deitou se. Entra se pelo pátio. Não quero que caias no açougue de urna velha tonta. Marcelle parecia um pouco mais calma. porque se constipou. Marcelle suspirava. depois levantou se e enfiou as mãos nos cabelos. hoje isto não vai. Gostarias que te operassem em vez de mini. Mathieu sentiu se perturbado. Mas acrescentou com mais amabilidade: — No fundo tens razão. de olhos cerrados. Marcelle gemeu levemente. vai pensar que és um tipo da Polícia. Mathieu beijou a. mas a mim dá me jeito por causa da minha mãe. é aí. Acariciou lhe a nuca. se não servir? — Podemos esperar dois dias. é de certeza um judeu. não vais. vê se luz por baixo de uma porta. Marcelle olhou o admirada. É engraçado. Era como uma mão morna. no princípio ela não queria filhos. De dia a mulher está na mercearia. passiva e gulosa. — Tu és bom. — Como queiras — disse com frieza. querido. Além disso. Eu desejava as tuas carícias. Ele acariciou lhe os seios. — Tira a tua camisa. quase não dorme. Dizem que só recebe de noite. ela deve conhecer alguém. — Estás doido? Ela põe te na rua. e ela abandonou se completamente. . querido. não? Passou os lindos braços à volta do pescoço dele e acrescentou com um ar de resignação cómica: — Se perguntares à Sara. — Querido. mas que não pode ir já. cercadas de intumescências febris. não podemos escolher. — Escuta. — Quando é que vais? — Amanhã. E súbita A mente ele pensou: «Está grávida. — E então? Aonde é que vou. — Eu vou lá. J E A N P AUL SARTRE — Bem — disse Mathieu. Mas as pálpebras crispavam se lhe. — Não podemos escolher — repetiu Mathieu. Desculpa. Cantava lhe ao ouvido uma música gritante. Gostava das suas pontas gordas e duras. por volta da meia noite. — Eu vou lá — repetiu Mathieu. Amanhã vou ter com a Sara. Se não me agradar. Estamos nervosos de mais.» Sentou se. estamos nervosos de mais. mas estava apreensiva. que tenho uma amiga que está atrapalhada.

anonimamente. Era intolerável ser julgado assim. fazes me medo..» Marcelle não se deixava convencer: ficara no quarto e pensava em Mathieu. E eu não te repugno. — Não. querida. odiado em silêncio.— O mal está feito. querido. Mas Jacques e Odette dormiam. Mathieu tinha enfiado a camisa e as calças. Sem se poder defender.. — Eu sei. ao menos? — És tola. Não me explico bem. E repetiu o a meia voz para convencer Marcelle: «Uma única vez em sete anos. tenho a impressão de ser um monte de comida. Algo se desprendeu nos seus olhos fixos. Mathieu levantou se. — Sim. ao mesmo tempo. Em oito dias tudo terá acabado. Sorria lhe. a sua carne culpada sentia se resguardada. se quiseres. Vou ver a velha. nu e sem defesa. enfiado até ao pescoço na sua roupa. Não estava só. recomeçava a desabrochar sob os tecidos. Marcelle não o abandonara.» Podia andar pelas ruas desertas. que lhe rolaram à vontade nas órbitas: ela já não o contemplava e não tinha de lhe prestar contas dos seus olhares. «Uma única vez». Não tens nada que te recriminar. Se ao menos. não. Daniel estava bêbedo ou embrutecido. — J E A N P A U L. esqueceu se dentro de mim como um miúdo que faz chichi na cama. «A almotolia! Vou trazê la amanhã. — Não me queres mal? — A culpa não é tua. Escondida pela roupa escura e pela noite. — É que sinto repugnância por mim mesma. Só aconteceu uma vez em sete anos. — Não posso ver te amanhã à noite? Seria mais simples. mas Mathieu teve a impressão de que ela lhe guardava rancor. trespassado. Não era verdade. diante daquela pesada transparência. Parou. mais incómoda do que um olhar. No patamar voltou se: Marcelle ficara sentada na cama. Telefona me amanhã para me dizeres o que há. Ivich nunca pensava nos . SARTRE Abriu a porta sem ruído e esgueirou se para fora com os sapatos na mão. pensava nele. como hei de fazer para não me esquecer?» Estava sozinho. — Querida — disse Mathieu com ternura —. à distância. e Mathieu não a deixara: ele continuava no quarto cor de rosa. prometo. A consciência de Marcelle ficara lá cheia de desgraças e de gritos. e encontrava pouco a pouco o calor e a inocência. Beijou Marcelle nos olhos. — Bom. não temos mais nada a temer. Depois de amanhã. mas era instintivo. murmurou com ódio. pudesse existir para outros A com aquela força. não lhe escaparia. nem sequer esconder o ventre com as mãos. amanhã à noite. pensava: «O estupor fez me isto.

ausentes. Boris talvez... Mas a consciência de Boris era apenas uma faísca difusa, não podia lutar contra a lucidez imóvel e sombria que fascinava Mathieu à distância. A noite amortalhara a maioria das consciências. Mathieu estava só com Marcelle dentro da noite. Um casal. Havia luz no Café Camus. O patrão empilhava as cadeiras; a servente fechava um dos lados da porta de madeira. Mathieu empurrou a outra porta e entrou. Tinha vontade de se mostrar. Simplesmente de se mostrar. Encostou se ao balcão. — Boa noite a todos. O patrão olhou o. Havia também um condutor que bebia Pernod, com o boné sobre os olhos. Eram consciências. Consciências afáveis e discretas. O condutor atirou o boné para trás, com um piparote, e olhou para Mathieu. A consciência de Marcelle abandonou a presa e diluiu se na noite. — Uma cerveja — pediu Mathieu. — Raramente aparece — disse o patrão. — Não é por falta de sede. — E verdade que temos sede. Parece que estamos no fim do Verão — disse o condutor. Calaram se. O patrão lavava os copos, o condutor assobiava baixinho, Mathieu sentia se contente porque eles olhavam no de vez em quando. Viu a sua cabeça no espelho: emergia, redonda e lívida, de um mar de prata. No Café Camus tinha se sempre a impressão de serem quatro horas da manhã, por causa da luz, uma névoa prateada que cansava os olhos, embranquecia os rostos, J E A N P A U L SARTRE as mãos, lavava os pensamentos. Bebeu. Reflectiu. «Ela está grávida. Incrível. Não parece verdade.» Parecia lhe, isso sim, chocante, grotesco como quando um velho e uma velha se beijam na boca: depois de sete anos, aquelas histórias não deviam acontecer. «Ela está grávida.» Tinha no ventre uma pequena maré translúcida que inchava docemente, que era corno um olho: «E desenvolve se no meio das porcarias que ela tem no ventre, e vive.» Viu um alfinete comprido avançando na penumbra. Um ruído mole e o olho estourou, furado; ficou apenas uma membrana opaca e seca. «Ela vai ver a velha, vai para o talho.» Sentia se venenoso. «Chega.» Mexeu se: eram pensamentos lívidos, pensamentos das quatro horas da manhã. — Boa noite. Pagou e saiu. «Que é que eu fiz?» Andava devagar, procurando lembrar se. «Dois meses...» Não se lembrava de nada, talvez fosse depois daquelas férias da Páscoa. Tomara Marcelle nos braços como de costume, com ternura sem dúvida, mais por ternura do que por desejo; e no entanto... «Um filho. Eu pensava dar lhe prazer e fiz lhe um filho. Não compreendi o que fazia. Agora vou

entregar quatrocentos francos a essa velha, e ela vai enfiar o instrumento entre as pernas de Marcelle, e raspar; a vida partirá como veio; e eu continuarei tão estúpido como dantes. Destruindo esta vida como a criei, não sabia o que fazia.» Riu secamente: «E os outros? Os que gravemente decidiram ser pais e se sentem genitores quando contemplam o ventre das suas mulheres... Compreenderão melhor do que eu? Fizeram no às cegas, ao acaso. O resto foi trabalho em câmara escura e em A gelatina, como a fotografia. Isto faz se sem eles.» Entrou no pátio e viu uma luz por baixo da porta. Era ali. Estava envergonhado. Mathieu bateu. — Quem é? — perguntou urna voz. — Gostaria de falar consigo. — Não é hora de vir a casa das pessoas. — Venho da parte de Andrée Besnier. A porta abriu se. Mathieu viu uma madeixa de cabelos amarelos e um nariz avantajado. — Que é que quer? Não venha como polícia porque não me apanha. Estou em ordem. Tenho o direito de deixar a luz acesa a noite inteira, se quiser. Se o senhor é inspector, mostre me o seu cartão. — Não sou da Polícia — disse Mathieu. — Tenho uma complicação e disseram me que podia procurá la. — Entre. Mathieu entrou. A velha vestia calças de homem e uma blusa com fecho éclair. Era muito magra, de olhos inexpressivos e duros. — Conhece Andrée Besnier? Encarava o com um ar furioso. — Sim — disse Mathieu. — Ela veio procurá la o ano passado, nas vésperas do Natal, porque estava atrapalhada. Ficou bastante doente e a senhora foi quatro vezes à casa dela para a tratar. — E depois? Mathieu olhava as mãos da velha. Eram mãos de homem, de estrangulador, ásperas, gretadas, de unhas curtas e pretas, com cicatrizes e cortes. Sobre a primeira falange do polegar esquerdo havia equimoses violáceas e uma crosta negra. Mathieu estremeceu ao pensar na carne tenra e morena de Marcelle. — Não venho por causa dela — explicou. — Venho por causa de uma das suas amigas. A velha riu secamente. — É a primeira vez que um homem tem o descaramento de se vir pavonear na minha frente! Eu não quero negócios com homens, compreende? O quarto estava sujo, em desordem. Havia caixotes em todos os cantos e palha no chão ladrilhado. Em cima de unia mesa, Mathieu viu uma garrafa de rum e um copo meio vazio.

— Vim porque a minha amiga mo pediu. Ela não pôde vir hoje e pediu me que me entendesse consigo. No fundo da sala via se uma porta entreaberta. Mathieu tinha quase a certeza de que havia alguém atrás dessa porta. A velha falou: — Essas pobres raparigas são muito tolas. Basta olhar para si para ver que é do género de tipo capaz de fazer um disparate, derrubar copos ou partir espelhos. E apesar disso elas confiam lhes o que têm de mais precioso. Afinal têm aquilo que merecem. Mathieu continuou correcto. — Gostaria de ver onde costuma operar. A velha deitou lhe um olhar de ódio e desconfiança. — Não faltava mais nada! Quem é que lhe diz que eu opero? Do que é que está a falar? No que é que se está a intrometer? Se a sua amiga me quiser ver, que venha. Com ela, só com ela é que me hei de entender! Ah!, queria ver, não? Ela também quis ver, antes de se pôr entre as suas patas? O senhor fez uma burrice. Pois bem, peça a A Deus para eu ser mais habilidosa, é tudo o que lhe posso dizer. Adeus. — Adeus, minha senhora — disse Mathieu. Saiu... Sentia se liberto de um peso. Dirigiu se vagarosamente para a Avenida de Orleães. Pela primeira vez desde que a deixara, podia pensar em Marcelle sem angústia, sem horror, com uma terna tristeza. «Amanhã vou a casa da Sara», pensou. II oris olhava para a toalha de quadrados vermelhos e pensava em Mathieu Dela rue. Pensava: «Um tipo às direitas.» A orquestra parara, a atmosfera estava azulada e as pessoas conversavam. Boris conhecia todos na salinha estreita; não era gente que vinha ali para se divertir: apareciam depois do trabalho, eram sérios e tinham fome. O negro que estava em frente de Lola era cantor no Paradise; os seis tipos com as miúdas eram músicos do Nénette. Certamente acontecera lhes qualquer coisa, uma inesperada felicidade, talvez um contrato para o Verão (na antevéspera tinham falado vagamente de uma boïte em Constantinopla), porque tinham encomendado champanhe e normalmente eram mais sóbrios. Boris também viu a loura que dançava vestida de marinheiro no Java. O magro, alto e de óculos, que fumava um charuto, era director de um cabaré da Rua Tholozé, que a Polícia tinha fechado. Dizia que o ia reabrir muito J E A N P AUL SARTRE em breve, pois tinha protecções na alta roda. Boris lamentava amargamente não ter lá ido, mas iria sem dúvida quando voltasse a abrir. O tipo estava com um pederasta que, de

longe, parecia agradável, um louro de rosto fino, que não era muito afectado e tinha um certo encanto. Boris não gostava dos pederastas porque andavam sempre atrás dele, mas Ivich apreciava os e dizia: «Esses, pelo menos, têm a coragem de não ser como toda a gente.» Boris tinha muita consideração pelas opiniões da irmã e fazia grandes esforços para suportar os tipos. O negro comia chucrute. Boris pensou: «Não gosto de chucrute.» Queria saber o nome do prato que tinham servido à dançarina do Java: um naco escuro que parecia bom. Havia uma mancha de vinho tinto na toalha. Uma bela mancha, dir se ia que a toalha era de cetim naquele lugar. Lola espalhara uma pitada de sal sobre a mancha, porque era cuidadosa. O sal estava cor de rosa. Não é verdade que o sal come as manchas. Tinha de dizer a Lola que o sal não come as manchas. Mas era preciso falar e Boris sentia que não podia falar. Lola estava ao seu lado, cansada e quente, e Boris não conseguiu dizer uma só palavra. Tinha a voz morta. «Eu seria assim se fosse mudo.» Era voluptuoso, a voz flutuava no fundo da garganta, suave como algodão, e não podia sair, estava morta. Boris pensou: «Gosto muito de Delarue.» E regozijou se com isso. Tinha tido muito mais prazer se não sentisse, de todo o seu lado esquerdo, das têmporas à cintura, que Lola o olhava. Era por certo um olhar apaixonado. Lola não sabia olhar de outro modo. Era um pouco incomodativo porque os olhares apaixonados pedem, como retribuições, gestos amáveis e sorrisos; e Boris não era capaz do menor movimento. Estava paralisado. Só que não tinha muita importância; não tinha obrigação de ter percebido o olhar de Lola; adivinhava o, mas isso era da sua conta. Assim como estava, com o cabelo caído sobre os olhos, não via nem um bocadinho de Lola e podia muito bem imaginar que ela olhava a sala e toda aquela gente. Não estava com sono, sentia se à vontade e satisfeito porque conhecia todos na sala. Viu a língua rósea do negro. Boris estimava aquele negro. Uma vez, o negro descalçou se, pegou numa caixa de fósforos com os dedos do pé, abriu a, tirou um fósforo e acendeu o, tudo com os pés. «Aquele tipo é formidável», pensou Boris com admiração, «toda a gente devia saber servir se dos pés como das mãos.» Doía lhe o seu lado esquerdo de tanto ser olhado. Sabia que se aproximava o momento em que Lola iria perguntar: «Em que estás a pensar?» Era absolutamente impossível atrasar a pergunta; não dependia dele; Lola havia de a fazer a hora certa, como uma fatalidade. Boris tinha a impressão de gozar um bocadinho de tempo infinitamente precioso. No fundo era agradável. Boris via a toalha, via o copo de Lola (Lola tinha ceado, nunca jantava antes do seu número de canto). Bebera Château Gruau,

tratava se bem, permitia se uma porção de pequenos caprichos porque andava desesperada com a velhice que a ameaçava. Sobrara um resto de vinho no copo, dir se ia sangue empoeirado. O jazz pôs se a tocar // the moon turns green e Boris perguntou a si próprio: «Saberei cantar esta música?» Seria agradável passear pela Rua Pigalle, ao luar, assobiando uma melodiazinha. Delarue tinha lhe dito: «Você assobia como um porco.» Boris riu se por dentro e pensou: «O estupor!» Transbordava de simpatia por Mathieu. Olhou de lado sem virar a cabeça e reparou nos olhos cansados de Lola por baixo de uma sumptuosa madeixa de cabelos ruivos. No fundo, suporta se sem grande esforço um olhar. Bastava habituar se àquele calor peculiar que vem queimar o rosto quando se sente que alguém nos observa de modo apaixonado. Boris entregava se docilmente aos olhares de Lola, o corpo, a nuca magra, o perfil diluído que ela tanto amava. Assim, por esse preço, podia abstrair se profundamente em si mesmo e ocupar se com os pensamentos miúdos e agradáveis que nasciam dentro dele. — Em que é que estás a pensar? — perguntou Lola. — Em nada. — Está se sempre a pensar em qualquer coisa. — Não pensava em nada. — Nem mesmo se gostas do que estão a tocar ou se gostarias de aprender a sapatear? — Sim, em coisas como essas. — Estás a ver? Porque é que não me dizes? Quero saber tudo o que pensas. — Essas coisas não se dizem. Não têm importância. — Não têm importância? Parece que só te deram uma língua para falar de filosofia com o teu professor. Ele olhou e sorriu: «Gosto dela porque é ruiva e parece velha.» — Que miúdo estranho — disse Lola. Boris piscou os olhos e pôs um ar suplicante. Não gostava que falassem dele; era tão complicado. Perdia se nessas divagações. Dir se ia que Lola estava colérica, mas era simplesmente porque o amava com paixão e se atormentava por causa dele. Havia momentos assim, em que era mais forte do que ela, em que se aborrecia sem motivo, se angustiava, contemplava Boris perdidamente, não sabia o que fazer dele e as mãos agitavam se lhe sozinhas. A princípio, Boris estranhara, mas aos poucos habituara se. Lola pousou a mão na cabeça de Boris. — Queria saber o que tens aí dentro — disse. — Faz me medo. — Porquê? Juro que é inocente — observou Boris a rir.

— Estou aqui. Sarrunyan teve de mandá los calar. Havia muita gente esta noite? — Uma cambada vinda nem sei de onde. tão branca que não parecia ser verdadeira. — Estás aí muito terno — disse Eola —. muito simpática. disse consigo mesmo. e. Ele disse: — Divirto me quando dizes criança. pensou que ela estava acabada.— Sim. tinha a sensação de estar a ser indiscreta. não há ninguém. mais só ainda. com satisfação: «É engraçado como ela parece velha. mas deve seguramente andar pêlos quarenta. Mesmo assim aplaudiram quando entrei. penso que estás bem comigo. não diz a idade. É uma linda palavra na tua boca. Lola suspirou e Boris pensou. desde que o amava: «Não posso fazer nada por ela». — Tenho vergonha — disse Lola. A voz era pesada e sombria como uma cortina de veludo vermelho. Lola perguntou timidamente: — Tu não te chateias comigo? — Nunca me chateio. . Desde que os sentira na boca. acariciou a ligeiramente e largou a sobre a mesa. Além disso. Despenteou lhe os cabelos. de repente. aqueles lábios enormes de cantos caídos de que ele tinha gostado. era precisamente o mesmo ar que tinha quando cantava Lês Écorchés. — Não gosto que me vejam a testa. talvez. dava lhe uma certa segurança. eu nada posso. Achava isso reconfortante. — Não levantes a minha madeixa — disse Boris. Tinham tanta vontade de me ouvir como de se enforcar. produziram lhe o efeito de uma nudez húmida e febril no meio de uma máscara de gesso. E que tagarelava sem parar. dava Ihe uma espécie de fragilidade terrível. resignado. Só por isso iria ouvir te. vem assim. sabes. — De quê? — És uma criança. Tu dizes duas vezes criança em Lês Ecorcbés. pergunto a mim própria para onde fugiste. O seu rosto pálido estava desfigurado por uma generosidade triste.» Gostava que as pessoas que tinham afeição por ele parecessem velhas. Teve vontade de beijar o rosto atormentado de Lola.. que não se revelava a princípio porque todos tinham a pele curtida como couro. Avançava os lábios. Achava a. Agora preferia a pele de Lola. que tinha estragado a sua vida e ficara só. espontaneamente.. cada um dos teus pensamentos é uma pequena fuga. Fiquei chateada. Ele pegou lhe na mão. naquele instante. Lola olhava o bem de perto. mas não sei como explicar.

também vivias do canto. noutro dia. Boris não poderia amar uma mulher da sua idade. sonhadora. falei com ele esta noite. o tipo que canta depois de mim. Um homem é mais interessante. seguram a cadeira da mulher enquanto ela se senta. — Oh!. «Ela pensa que me aborrece». Houve um silêncio. eu canto para viver. O sorriso de Mathieu: naquela boca amarga que tanto agradava a Boris. Mathieu explicava lhe coisas. mas há muitas maneiras de mostrar que se gosta e Mathieu já poderia ter tido um gesto que revelasse a sua amizade. Boris — disse bruscamente Lola —. — Já sei.— É normal. Claro que entre homens não deve haver sentimentalismos. e Lola apressou se a acrescentar: — Sabes. pensou Boris. Mathieu não era assim com Ivich. mas é tão russo como eu. têm a impressão de andar a brincar aos jantarzinhos. Naturalmente preferia a companhia de Mathieu. Prometeu a si próprio dizer lhe de uma vez para sempre que ela nunca o aborrecia. tinha a aprovação da própria consciência. Boris recordou de repente o rosto de Mathieu num dia em que ele ajudara Ivich a vestir o casaco. sabem orientar se e o seu amor é consistente. — Talvez ele tenha aprendido russo. Mathieu era indiferente e brutal. Gente que aparece porque precisa de retribuir um convite e não pode receber em casa. Acho isso muito natural. — Mas quando cantavas no music hall. Se os vis A sés chegar cheios de sorrisos. atrapalhamo los e quando surgimos medem nos dos pés à cabeça. E depois. Com as pessoas maduras. pensou Boris. um tem de ser mais velho do que o outro. Boris perguntava a si próprio se Mathieu lhe teria amizade. — Se imaginasse que iria acabar assim. — Desgosta me cantar para estes idiotas. sentiu um aperto desagradável no coração. o novo. aquele estranho sorriso envergonhado e terno. não sabem como se hão de conduzir. — É engraçado que tu não saibas russo — concluiu Lola. Mas não hoje. nunca teria começado. sentia se justificado. «tem vergonha de me amar porque é mais velha do que eu. tinha eu três meses. não. hesitam. Se ambos são jovens. É delicado. — Os meus pais saíram da Rússia em 17. — Mas tu — disse Lola — poderias dizer me se ele tem boa pronúncia. porque Mathieu não era uma simples mulher. São sabidas. Mas logo a cabeça de Boris se . curvam se. Quando Boris estava junto de Lola. — Não era a mesma coisa. Evidentemente. estou farta — disse Lola. «Ela é extraordinária».» Era mais de acordo com a moral.

— Porque pensas em Delarue? Gostarias de estar com ele? — Estou contente de estar aqui.encheu de fumo e ele não pensou em mais nada. não sabes onde é que te hás de meter quando ele aparece. um tipo assim agradável. Boris pensou: «Não é verdade. Não seria exactamente essa palavra que eu escolheria. já te vi com Delarue. mais três palavras e ela vai começar a tossir. Não te faças parvo. Tremem sempre ligeiramente. de que eu não desgosto. Só não percebi o que é que viste nele de extraordinário. Lola teve um sorriso contrafeito. — Sim. parecia implorar. — São mãos grosseiras de operário. Não é bem assim. mas é que ele não é operário. . — Que é que têm as mãos? Eu gosto delas. está bem. tonto. — Ei lo a sonhar de novo — murmurou Lola. é impressão minha. como se acabasse de fazer força. Lola. — Não poderias de vez em quando pensar também um pouco em mim? — Não preciso de pensar em ti. Aliás eu nunca me sinto contente quando estou contigo. E um amigo notável. há qualquer coisa de duro e irónico. — Estás contente de estar aqui ou de estar comigo? — E a mesma coisa. sabes muito bem o que é isso. Diz me que ele parece inteligente. eu não te disse que não podia suportá lo. Para mim um tipo simpático é um amigo do género do Maurice. — Para ti é. — Não é a mesma coisa. eu só quero compreender. mas ele não põe as pessoas à vontade porque não é carne nem é peixe. Repara nas mãos dele. — Não? — indagou Boris surpreso. — Por isso mesmo. — É o que dizes sempre. querido. — Não. engana as pessoas. porque já me disseste que não podes suportá lo. não é contentamento. Não posso explicar.» — Acho o simpático — disse com prudência. mas incomoda me falar te dele. Explica me. porque é que gostas tanto dele? — Não sei. tu estás aí. que é culto. Lola sorriu tristemente. — No que é que estás a pensar? — Em Delarue — disse Boris. aborrecido. — Olha como ele se defende! Mas. mas não é simpático. Quando eu estou contigo pouco me importa que seja aqui ou ali. Lola aproximou dele o seu belo rosto arruinado. não para mim. Enfim. mas depois é preciso não o ver beber com aquela boca esquisita de pastor protestante. — Olha para mim. Quando o vejo agarrar no copo de uísque. Ela olhava o com ansiedade.

e isso irrita me. professor. Lola disse de repente: — Não me chegaste a dizer porque o achavas tão «bem». Eu sei que é a profissão que exige isso. Mesmo quando estava só. não gostaria de sentir sobre mini essas mãos de lutador e ser trespassada pelo seu olhar glacial. uma voz cortante de senhor que nunca se engana. pastor. Mas sentia se tranquilo. Pensou que estava com uma camisola azul de gola alta com o ponto grosso e ficou satisfeito. não tem importância que não se seja elegante. parece uma filho. por exemplo. Compreendo que se possa ser uma coisa ou outra. mas já não estou na escola. «É isto que me intimida». quando se ensina: eu tinha um professor que falava como ele. Há muito que ele pensava estar predestinado a isso. Boris estava entorpecido e passivo. Lola respirou fundo. não te incomodas quando se trata dele. mas digo te francamente que me repugnava que um tipo assim me tocasse. mas no fundo. bem o percebo numa data de coisas. que anda sempre tão mal arranjado. «Que complicação». um bruto ou uma pessoa distinta. deve reflectir sobre tudo. pensou Boris. as pessoas olhavam no escandalizadas e as costureirinhas que saíam do trabalho riam se lhe na cara. Explicou: — Quando as pessoas não se preocupam em andar bem vestidas. não sabia parar quando começava. estás influenciado. que és tão severo com a maneira como as pessoas se vestem. As pessoas que gostavam dele não eram obrigadas a gostar umas das outras. tu. deve haver. uma linda camisola. que usa gravatas que o empregado do meu hotel não usaria. é como a voz dele. Ela era assim. Isso divertiu o e ele ergueu um dedo para a fazer viver. nem de dormir com uma mulher.» Já não a sentia. Quanto a deixar que uma mulher já madura lhe acariciasse a mão em público. Boris tinha a certeza de que ela se mortificava. Como ele foi bom professor. nem de beber. — Tu consegues. nem de comer. por exemplo. pensou Boris com irritação. Disse para si próprio que lhe seria mais fácil mostrar se terno com Lola se ela não insistisse naquelas expressões de humildade. Boris olhou a mão que saltava e pensou: «Não parece minha. Não sei se há mulheres a quem isso agrade.acho o austero e. — Compreendo te muito bem — continuou Lola conciliadora —. mas não as duas ao mesmo tempo. e Boris achava natural que cada uma delas o tentasse afastar das outras. não o vês com os meus olhos. vê se logo que é culto. no metro. Lola pegara lhe na mão e fazia a saltar entre as suas. não é? — Eu sei escolher o que me convém — disse Boris com modéstia. devia gostar . O dedo roçou a palma de Lola e ela olhou o com gratidão. O que é ridículo é querer dar nas vistas e não o conseguir. se lhe observarmos os olhos. que nunca as achas muito elegantes. não o perturbava de forma alguma. que é o tipo que não gosta de nada simplesmente.

era uma questão de génio. Era um sacrilégio intolerável e ele desatara a soluçar. Lola pareceu infeliz e Boris voltou a cabeça. naturalmente apreciava Lola por ser tão apaixonada. tinha se a impressão de que se iam partir. por desespero ou . quando Boris era pequeno. É demasiado difícil de explicar. Era fiel a Lola.» Boris vira um corpo alto curvar se com rigidez. como se a sua vida estivesse sempre em jogo. — Eu não sou livre? — perguntou Lola. É livre. inesquecível: «Pois bem. mandaram no apanhá la e ele recusara se. de um lado a vontade de rir. De idade. Ele não se prende a coisa nenhuma. — Diz lá porquê? J E A N P AUL SARTRE — Porque é um homem às direitas. e então dormia em casa dela. não tinha sorte. — Isso não o impede de não se prender a nada. Mathieu explicava lhe que as pessoas deviam ter paixões. eu é que vou apanhá la. provavelmente. — Não é bem a mesma coisa. — Nem um bocadinho a mim? — Ah! A ti sim. e Descartes também o dizia. Sob outro ponto de vista. obstinadamente. uma cabeça calva. e ambos tinham concordado que estava certo. — E tu achas bem não se prender a coisa nenhuma? Tu não te prendes a nada? — A nada. Boris considerava os adultos como divindades volumosas e impotentes. como em Lola naquele momento. — Pois então eu também sou livre. continuando a pensar em voz alta. Ouvira um ranger de ossos. — Delarue tem paixões — disse. Boris conversara com Ivich. Uma vez. Desde então. Então o pai dissera lhe com uma atitude majestosa. Contemplava a: o ar estava azulado em volta dela e o rosto era de um cinza pálido. Não gostava de a ver quando ela tinha aquela expressão. Oh! — gemeu Boris —. Mas dependia da maneira como se encarava a coisa: se se faz para se destruir. Quanto ao resto.disso. e era muito comovente. qualquer coisa como o choro de Deus sobre a maldade do homem. e ele achava isso estúpido. só estou presa a ti. também. Se se baixavam. E depois armava se em heroína. ia buscá la três vezes por semana à saída do Sumatra. deixara cair a colher. os velhos eram amargos. Ela mortificava se. Até certo ponto estava certo. E se as lágrimas lhes subiam aos olhos. não sabia onde se enfiar. Lágrimas de adulto eram uma catástrofe mística. estás a chatear me. Tudo aquilo não a favorecia. de outro um certo temor religioso. mas não podia fazer nada. Lola era urna vítima. telefonava lhe sempre. se davam um passo em falso e se se estendiam no chão. ficava se colocado num dilema. Boris não respondeu. Fazia tudo o que dependia dele. Mas os olhos permaneciam febris e duros.

vive como um funcionário. porque é que não é a mesma coisa? — Tu és livre sem querer — explicou Boris.para afirmar a própria liberdade está certo. Aqui entre nós. Ela abriu os olhos e olhou o . aposentação garantida. Dançaram. — disse Lola sacudindo a cabeça. Pensou: «Ivich deveria aprender a sapatear.» Depois não pensou mais nada por causa do perfume de Lola. por princípio. Esta dançava admiravelmente bem. Ao passo que Mathieu é o voluntariamente. — Está se nas tintas para a casa? Vive lá como viveria noutro lugar qualquer. — Da Ivich? Magoas me. o jazz tocava agora St. — É assim. Acrescentou: — Estás muito agarrada a mim. — Sempre a mesma mania de colocar Delarue acima dos outros. Nem sequer estava intoxicada. Apertou a nos braços e respirou fortemente. — Vamos dançar. — Não consigo compreender. aliás ávido. — Não é a mesma coisa — repetiu Boris. nem sequer sei se serei contratada no Verão. E penso que ele também se está nas tintas para a mulher. James Infirmary. Lola pouco se importava com a liberdade. ele ou eu? Ele está sossegado. A liberdade dele não se vê. — Ah! — gritou Lola magoada —. Como liberdade não há melhor! Eu só tenho os meus trapos. Lola fechava os olhos e ele ouvia a sua curta respiração. Passou se algum tempo. ele teve vontade de a fazer sofrer um pouco. Boris pensou que ia vê lo de perto e ficou contente. E achas que ele não gosta da tua irmã? Bastava olhá lo. racionalmente. só merece elogios.. Ele nunca se deixaria prender assim. está dentro dele. Dançava A bem e tinha um perfume gostoso. no outro dia. sozinha. E ainda por cima essa ligação de que me falaste. no Sumatra. vivo no hotel. — Fazes me rir — disse Lola secamente. bem instalado. — Tenho vontade de te matar quando ficas assim. estou muito agarrada a ti? Estúpido. mas era pesada. essa mulher que não sai de casa. Lola pesava nos seus braços. Entusiasmara se nessa noite porque queria vencer Mathieu no seu próprio terreno. Lola riu com sarcasmo e a cabeça de Boris repentinamente encheu se de fumo. e Boris teve vontade de dançar. Mas Lola fazia o com um certo abandono. Então.. pergunto: quem é mais livre. O pederasta levantara se e fora convidar a dançarina do Java. Lola parecia ausente. tem ordenado fixo. Fica com ela porque precisa de dormir com alguém. J E A N P AUL SARTRE Ele estava irritado. Boris pensou que preferia dançar com Ivich.

— Porque é que fazes essa cara? — Porque me perturbas. J E A N P AUL SARTRE Lola não respondeu. mas sob os olhos de porcelana havia rugas. podes dizê lo. se assemelhavam a um halo dourado. — Querido. — Porque não me ocorre. pisou os pés de Boris. olha para mim. bem como em torno da boca: as narinas eram finas como se estivessem agonizantes. Pôs se a olhar para Lola e bruscamente disse lhe: — Lola. pensou. era a sua vez. — Mas. mal lhe escondiam o crânio. — Compreendo — disse Boris com seriedade. estava sozinha agora. meu tonto. Tinha grandes olhos azuis de boneca e uma boca infantil. é tão raro perguntar te alguma coisa. Pode ter se um grande sentimento por alguém e não ter vontade de dizer nada. Os olhos de Lola ficaram vermelhos. Aguentava até aos vinte e cinco anos. desiludiu se: tinha pelo menos quarenta anos. e os cabelos. que. Conservava no rosto o verniz da juventude e envelhecera por baixo. — Gostas de mim? — Gosto — disse Boris com uma careta. «Já foi jovem». e o seu rosto fechara se sobre a sua felicidade. mas não deves perguntar me se te amo. fazes me dizer asneiras. Mas quando um tipo fora realmente jovem ficava marcado para o resto da vida. Depois. e a música recomeçou. Amo te. Mas quando o pôde examinar de perto. Boris contemplou com horror aquela velha criança sem barba. Se não é espontâneo.. Acho que essas coisas não se dizem. era horrível. por exemplo — porque nunca tinham tido adolescência. — Mas deverias esperar que isso acontecesse. Boris viu com satisfação que o pederasta se aproximava deles dançando. — Porquê? Não é verdade então que gostas de mim? —É — Porque não dizes isso espontaneamente? É sempre preciso que eu to pergunte. Havia tipos que pareciam feitos para ter trinta e cinco anos — Mathieu.atentamente. faz me sentir que te amo!» Mas Lola não dizia nada. — É verdade. Mas há momentos em que é o teu amor que eu quero. de longe. Sorria vagamente.. Um rosto . Disse apenas: — Querido. A maior parte das vezes. — Desagrada te quando digo que te amo? — Não. não tem sentido. se isso te apetece. Pararam e aplaudiram. Ele teve vontade de gritar: «Aperta me com mais força. baixara as pálpebras. se tu próprio dizes que não te lembras disso senão quando eu to pergunto! Boris riu. basta me olhar e sentir que te amo.

Aqui hei de parecer eternamente jovem. — Estás zangado. sentir os próprios gestos secos e quebradiços como se fosse de madeira morta. talvez. «Se ao menos pudesse poupar me.» Olhou para Lola com ódio. — Nada.» Teve vontade de rasgar a fotografia. viver devagar. Encontraram o maestro Piranese. Não deve ser irremediável. sim.» Não se poder ver ao espelho. Que é que te fiz? — Não tenho nada.. Deve ser um mal entendido. «quando eu for uma ruína. A um canto uma mala coberta de etiquetas e na parede do fundo uma fotografia de Boris. talvez ganhasse alguns anos. «Ela mata me. «Eu também. Boris. Lola mostrou se inquieta. já está a passar. Mas para isso era preciso que não me deitasse todas as noites às duas horas. pensou Boris. Lola morava num hotel da Rua Navarin. és tonta — protestou Boris molemente. A Rua Blanche estava cheia de tipos velhos e duros. com dores de cabeça. e cumprimentaram no. E cada instante vivido usava um pouco mais a sua mocidade. «Tenho ainda cinco à minha frente». Mas que é que eu fiz? Devias dizer. — Estás sinistro — disse Lola —. sentia a cada passo a mocidade escorregar lhe entre os dedos. não quero envelhecer. — Não estás doente. do Chat Botté.» No ano passado estava sossegado. vá ter barriga. «Isto ficará». As suas pernas pequeninas mexiam se sob o ventre rechonchudo.calmo e deserto. pois não? Não gostas de mim. Boris sentiu se abandonado e o pensamento desagradável invadiu o de novo: «Não quero. nunca pensava nessas coisas. Pôs a capa de veludo sobre os ombros. Por favor. — Parece que me tens raiva. Tirou a chave do cacifo e subiram em silêncio. Voltaram para a mesa. não. que é que se passa? J E A N P AUL SARTRE — Estou exausto. Lola agarrou lhe no queixo e levantou lhe a cabeça. . Disse: — Vamos para casa? — Vamos já. pensou.» Já não podia suportar aquela música e aquela gente. Era uma fotografia de passe. querido. que Lola mandara ampliar. Agora era sinistro. «Depois estoiro os miolos.» — Que é que tens? — perguntou Lola. Até aos vinte e cinco anos. O quarto estava nu. Lola chamou o empregado e pagou.. mas sentia se sinistro. Não me queres mal. ao ralenti. Saíram. querido? Queres um comprimido? — Não. — Vamos. Boris já não pensava em nada. porque assim eu poderia explicar te. presa com punaises.

Ele era agora apenas aquela mão sobre uma carne de seda. O desejo aspirava lhe as ideias sombrias. Dir se iam espinhos profundamente enterrados. As pernas de Lola puseram se a tremer e Boris perguntou a si próprio se não iriam estender se ali no tapete. Houve um redemoinho na sua cabeça e ela esvaziou se rapidamente.» Do outro lado da porta ela esperava o. fria como uma luva de camurça. Detestava que Lola entrasse enquanto se despia. «Uma destas manhãs ela ir se á abaixo de repente. — Como tu me apertas — gemeu Lola. Boris DADE DA RAZÃO via lhe as axilas raspadas e marcadas de pontinhos azulados. Vou despir me à casa de banho. Estava completamente calmo. a pele verdadeira resistiu por baixo.. Estava perturbado. — Magoas me. Entrou e fechou a porta à chave. — Ah! — murmurou Lola. envolvia a nos seus braços e protegia a contra a velhice. minúsculos e duros. ela cheirava bem. enrolaram se no pescoço de Boris. acariciante e morta. Lola estremeceu. Lola atirou a capa sobre a cama e os seus braços apareceram nus. Pensou: «São os seus últimos dias de sol.. rígido e magro. porque não tinham forças para se afastar. Boris sentiu que desejava Lola e ficou satisfeito. Boris desenvencilhou se. Crispou levemente a mão e a seda deslizou lhe sob os dedos como uma pele fina. Pensou: «E engraçado. Tinha a mão na anca de Lola e sentia a carne através do vestido de seda. uma cabeça de Medusa. Depois teve uns momentos de sono e desvario: olhou os braços de Lola.diz me o que se passa. — Mas não se passa nada! Pôs os braços em volta do pescoço de Lola e beijou a na boca. de certeza que já estava nua. Boris respirava o hálito perfumado e sentia de encontro aos lábios uma nudez húmida. brancos como os cabelos de uma velha. estava um pouco chocado. feliz. Apertou Lola contra o peito e sentiu a doçura espessa dos seios. não sabia exactamente no que pensava. Quero te. «Preciso de falar com Delarue. — Dá me o pijama. como aliás todas as ideias. sentia se nela.» Já não a odiava. Arquejava um pouco. Ela inclinou se para trás e ele estava fascinado por aquela cabeça pálida de lábios carnudos. Boris e Lola permaneceram de pé naquele mesmo lugar em que o desejo os apanhara. Mas ele não . pareceu lhe segurar a velhice nas mãos e que devia apertá la com toda a força até a abafar. Lavou o rosto e os pés e divertiu se a pôr talco nas pernas.» E apertou a mais fortemente. Lola cobriu lhe o rosto de beijos.» Tinha a cabeça pesada e no entanto vazia. todo músculos. elástica.

pensou com irritação. — Espera — disse Boris. — Não — disse Boris. abriu a porta e entrou no quarto. Vestiu o pijama. Não demorou muito a gemer e Boris pensou: «Pronto. Os seios eram um pouco moles. Mas pareceu lhe repentinamente que o erguiam pelo pescoço como um . Não adiantara apagar a luz. quando o primeiro touro entrou na arena. Ia acontecer alguma coisa. Era bela. Era uma Lola diferente. por causa do maldito anúncio luminoso.» Penteou se cuidadosamente por cima da bacia para verificar se lhe estavam a cair os cabelos. adoro te. Um corpo nu. Tinha sempre umas exigências estranhas. continuava a ver o rosto de Lola. e espiava o através dos olhos semicerrados. Lola pegou na mão de Boris e pô la sobre o tufo de pêlos ruivos. Todas as vezes Lola lhe pedia que tirasse o pijama e Boris recusava. como a morte sanguinolenta do touro. e Boris era obrigado a recusar às vezes. ia bem. Vem. — Não quero — murmurou Boris. Apagou a luz. O quarto ficou inteiramente vermelho. era o que Lola não compreendia. deslizar até ao fundo de uma sensualidade pesada. exactamente como em Nimes.J E A N P AUL SARTRE tinha pressa. Mas não viu um só sobre o esmalte branco. — Vem — disse Lola. preguiçosa e temível. Os lábios escuros. — Fazes me cócegas. «Em todo o caso». Uma vez que começava. junto das coxas de Lola. cerrando os dentes. As mãos de Lola enfiaram se por baixo do casaco e começaram a acariciá lo devagar. alguma coisa de inevi A tável. Boris sentiu se pesado e trágico. Ela tinha a pele doce. Boris deitou se perto de Lola e pôs se a acariciar lhe os ombros e os seios. Era um ritual. Boris aproximou se da cama e encarou a com um misto de perturbação e de desprazer. terrível e pesada. vou perder a cabeça. tão doce. que parecia ter conservado o vestido de seda. inerte. com um triângulo de pêlos ruivos.. Beijaram se.. cheio de odores nus. mas Boris gostava deles assim: eram seios de alguém que vivera.» Uma onda pastosa subia lhe dos rins à nuca. vem. Ela parecia sofrer. «não vou perder a cabeça como das outras vezes. Lola estava estendida na cama. de gosto forte. atraindo o a ela —. O corpo sobre a coberta azul era prateado como a barriga de um peixe.. pálido dentro do vermelho. Ela estendeu lhe os braços. Daí a um bocado. Depois levantou a docemente até aos ombros. uma coisa terrível. mas antes era impossível não ter medo. — Tira o pijama — suplicou Lola. Boris riu. Ele deixou durante algum tempo a mão pender. Ia ser necessário. inteiramente nua. os olhos eram duros. pois sobre o prédio em frente tinham colocado um anúncio luminoso. agora.

e adormeceu. o barulho da água eram alucinações. Mathieu caminhava pelo meio da rua sob um céu de um azul límpido. és tudo o que eu tenho. nunca me sinto tão feliz como quando estou ao lado de um homem. O rosto de Mathieu surgiu de repente: «É engraçado». Boris ainda a ouviu dizer «Adoro te». Eu sou demasiado jovem e não te posso impedir de estares só. Lola saltou para a cama e tomou o nos braços. não desejaria dormir com um tipo. Os alucinados sedentos do deserto ouviam ruídos semelhantes. sentimo nos dominados. não me faças mal. A voz era estranha dentro da noite vermelha. Estou nas tuas mãos. — Se estás sozinha é porque gostas — afirmou com voz clara —. Não sejas cruel.coelho. O ruído da água era agradável e inocente. ruídos de fonte. — Boris. com um capacete de cortiça sobre os olhos. Ouviu Lola abrir a porta da casa de banho e pensou: «Quando romper com ela. pensou. — Amo te apaixonadamente. Boris já começava a ver girarem as estrelas. erão. tens de me amar. só te tenho a ti. nunca me faças mal.» Sentiu se seco e puro. serei casto. mas tenho horror a perder a cabeça. e abandonou se sobre o corpo de Lola e tudo girou num estremecimento vermelho e voluptuoso. No entanto. Acariciou lhe os cabelos e houve um longo momento de silêncio. Ela fê lo deslizar suavemente para o lado e saiu da cama. eu só penso em ti. querido. tenho vontade de me atirar à água. É fisiológico. Se não fosse assim gostarias de um tipo mais velho do que eu. Se penso na minha vida. é porque és orgulhosa. com a cabeça no travesseiro.» Lola arranjava se para dormir.» Ficou contente: «Hei de ser um monge quando deixar Lola. Não se sabe o que se faz. O quarto. a luz vermelha. Agitava os braços como se . «prefiro os homens às mulheres. ia encontrar se em pleno deserto. É tudo o que sei. tenho de pensar em ti o dia inteiro. 111 v. será a mesma coisa com todas.» Repetiu com asco: «Fisiológico. Ela abraçou o furiosamente. Boris ficou aniquilado. Boris tentou imaginar que era um alucinado sedento. É repugnante o amor. — Querido — disse Lola. — Não sei — disse Lola. Estou sozinha! Boris acordou sobressaltado e encarou a situação com nitidez. deitado sobre a areia. Estou sozinha. O ar era quente e denso. quando Lola se pôs a falar. meu amor. que adianta escolher uma mulher. Boris ouviu o com prazer. Tenho a impressão de que me escolheste por causa disso. e depois. já não quero mais histórias. Não é bem repugnante.

Pensou: «Devia fazer ginástica. aborrecido: «Digo J E A N P AUL SARTRE isto cada vez que subo uma escada. um enterro ao sol. . — Quem é? — perguntou Sarah. O Verão. Ela está lá em baixo. de trabalho manual. O homenzinho voltou a sorrir amavelmente. Mathieu subiu a pé. chocando as peças com os olhos e lambendo os lábios grossos. Não o via há seis meses. sorridente. uma vela ardia diante dela: uma cabeça ruiva de braquicéfalo. de olhos claros. Doía lhe a cabeça. estreito e obstinado de revoltas e violências. Mathieu empurrou a porta envidraçada e penetrou no estúdio de Gomez. ofuscado pela luz intensa que entrava pelas grandes janelas empoeiradas.» Depois. de quimono amarelo. — Desejava falar com Sarah — disse Mathieu. Sarah dar lhe ia a direcção. E Brunet trazia consigo o ar de fora.. O homenzinho pôs se sério e bateu os calcanhares. Uma direcção. mas não sentia prazer nenhum em encontrá lo ali. era um alemão emigrado. Não precisava de ouvir o vergonhoso segredinho de alcova que Mathieu ia confiar a Sarah. pensou Mathieu contrariado. Sarah estava sentada no sofá. Fê lo entrar no vestíbulo e desapareceu a correr. Daniel emprestaria o dinheiro. — Weysmuller — disse com firmeza. Parou no patamar interno. de esforços pacientes. Ou Jacques. «É Brunet». Vai ficar muito satisfeita. Rua Delambre. Tinha as orelhas roxas. abriu. Mathieu fechou os olhos. com uma toalha apertada em volta da cabeça. Para ele um dia sombrio ia começar. Mathieu reconheceu o. um universo sadio. tinham muita coisa a dizer um ao outro.. Um homenzinho calvo. já o vira várias vezes no Dome sorvendo deliciado o seu café com leite ou inclinado sobre o tabuleiro de xadrez. via lhe a cabeça sob os cabelos ralos e espetados. Por trás das portas fechadas. Dinheiro. Para elas o dia também ia começar. Sarah levantou a cabeça e sorriu. Era um obstáculo. O Verão dos outros.» Ouviu uns passos miúdos. Sarah morava no sexto andar e naturalmente o elevador não funcionava. 16. — Entre. entre. Ia ser preciso correr por todos os lados. um dia que iria arrastando até à noite. Tinha sonhado que era um assassino e um resto do sonho ficara lhe nos olhos sob a luz ofuscante. de disci plina.abrisse pesadas cortinas de ouro. mulheres arranjavam as casas. — Delarue — respondeu Mathieu sem ligar. havia uma amizade agonizante entre eles. De avental. no estúdio. Era ali. Mathieu debruçou se no corrimão. Que dia? Mathieu estava ligeiramente ofegante quando tocou.

velho traidor social — disse Brunet. Pensou: «Ele procedia mal com Sarah. — E Gomez? — perguntou Mathieu. Matara outros homens. Mathieu recordou a bêbeda e magnífica. Mathieu pensou no tipo da véspera e a garganta apertou se lhe. Gomez partira. — Tudo o que quiser. a maldade. como se fosse comprar cigarros ao Dome. no meio de frascos de ácidos. não. Sarah olhava os ternamente. E acrescentou encantada com o prazer que esperava dar: — Sabe quem está cá? Mathieu voltou se para Brunet e apertou lhe a mão. com um rosto de camponês. O quadro e a gravura representavam a Senhora Stimson. uma lâmina de cobre semigravada sobre a mesa. Os olhos de Brunet brilharam. Partira para matar outros homens. A partida para a Espanha. Brunet riu sem responder. — Viva — disse Mathieu. Conta as suas proezas — respondeu Sarah com ironia. — Preciso de lhe pedir uma coisa. bom dia! — disse. as traições. sabia o. . Para Sarah a vida humana era sagrada. Mathieu sorriu também. Não queria falar de Gomez. — Viva. A sala ficara no estado em que ele a deixou: uma tela inacabada no cavalete. com os dedos enfiados na cabeleira negra. Mas aquilo não. Um dia soubera da queda de Irun no Paris Soir. Perdoara lhe tudo. Agora era portanto propriedade sua. Mathieu sentou se. Apesar de tudo. ela estava nua. No quadro. Apressou se em descer. Está em Barcelona. — Sempre o mesmo. O pequenino Pablo brincava por baixo da mesa com cubos de cartão. Mathieu sentiu se satisfeito de ouvir aquela voz. minado pela bondade. O rosto de Sarah corou de satisfação. — Que é que o traz por cá? — perguntou Sarah. — Pensei que tivesses morrido. Depois descera sem chapéu nem sobretudo. meio à mostra através do quimono. cantando com voz áspera nos braços de Gomez. as fugas.— Bom dia. Ia fazer lhe um favor. Via de cima aquele rosto achatado e sem graça. Brunet era grande e sólido. Passara muito tempo no estúdio. Não voltara. — Sabe que ele foi promovido a coronel? Coronel. — Teve notícias dele? J E A N P A U L SARTRE — Na semana passada. e mais abaixo os seios pesados e moles. Não parecia muito amável.» — Foi o ministro quem lhe abriu a porta? — pergunto Sarah alegremente. — Sente se ao pé de mim — disse Sarah com avidez.

— Com Annia. — O ratinho de orelhas vermelhas é um ministro — disse Sarah com um orgulho ingénuo. como que a desculpar se. — E está claro que você o recolheu. Não é preciso ser muito esperto para imaginar o que poderia lá fazer um judeu emigrado. a sério. Sarah sacudiu violentamente a cabeça. não temos provas. Ela já não o escutava. — Ele quer que eu mande embora o meu ministro — disse Sarah. — O meu ministro! — disse com indignação. — Arranjou trabalho. — Sarah exagera — disse tranquilamente Brunet. olhava Sarah com o seu ar de camponês e repetia: — E incrível. Não. Mathieu sobressaltou se e voltou se para ele. mas é certo que não sacrificarei Weysmuller às intrigas do seu partido. Parece que há uns seis meses rondava os corredores da Embaixada da Alemanha. . você faria com que Paris fosse pêlos ares para evitar um aborrecimento aos seus protegidos. — Não é bem assim.. ele não estaria aqui.— Que ministro? — indagou Mathieu espantado. — Não. Mas mesmo que se trate de meras suposições. Se tivéssemos. Sarah sorriu levemente. — Porquê? Porquê? — exclamou Sarah com paixão.. — E exactamente o que eu dizia — afirmou Brunet. — O quê? Que é que é incrível? — Ah! — disse Sarah com vivacidade. chorosa. — Annia vai se embora — disse Sarah. não tem para onde rir. — Você viu o. Lopez e Santi são quatro pensionistas. Puseram no fora do hotel porque não podia pagar. — Isso não interessa a Mathieu — disse Brunet a Sarah com ar de descontentamento. Sarah pôs se a rir. A Mathieu contou pêlos dedos. — Pertenceu ao governo socialista de Munique em 22. — Vocês não têm provas — observou Sarah. — Venha em meu socorro. Sarah mostra se de uma imprudência louca. J E A N P AUL SARTRE — Sarah — disse Brunet com ternura — . — E incrível — murmurou Brunet. É. Voltou se para Mathieu e explicou contrariado: — Temos más informações acerca desse tipo. meu caro Mathieu. — Mandar embora? — Diz que é um crime conservá lo aqui. — Veio para cá com a mala. é tão abstracto um partido. pousando a mão no braço de Mathieu. A indignação de Brunet era pesada e calma. Agora morre de fome. Gorara e os seus olhos verdes humedeceram se.

Era entorpecente e exasperante. que se sente perante os esmagados. Brunet encolheu os ombros. — Voltará para a Embaixada da Alemanha e tentará vender se de uma vez. mas era uma afirmação. e ficará na mesma. Sarah — disse docemente. Não parecia ser um só homem. — Quem é que tem razão? Diga alguma coisa. Se se tratasse de interpretar um trecho de Espinosa ou Kant. Há muito que Brunet deixara de pedir conselhos de qualquer espécie a Mathieu. de um intelectual sujo. — Escute. não deixaria de o consultar. não se preocupava com a opinião de um burguês. Vai julgar me pelo que eu disser. Explicou: — Gomez manda nos por vezes comunicações. silenciosa e murmurante de uma multidão. — Mathieu! — disse Sarah.» Mathieu não queria que Brunet o julgasse. e aqui nos encontramos. Brunet não lhe perguntava nada. «A amizade não suporta a crítica». seria este o lugar indicado para instalar um tipo que tem reputação de espião? Mathieu não respondeu. — Está a ouvir. Mas agora era nos camaradas do partido que pensava. ainda que seja de um professor de Filosofia. Brunet empregara a forma interrogativa. A calma do mar. Já formei a minha opinião. por princípio. Vem aqui. Em tempos. . Levantou se. «E feita de confiança. — De qualquer maneira está liquidado. Posso realmente levar um homem ao suicídio por causa de uma simples suspeita? — acrescentou Sara com desespero. — Sim — disse com indiferença. ele vai atirar se ao Sena. bem sabes que tais comunicações são confidenciais. é tudo. — Gosto muito de Mathieu e aprecio muito a inteligência dele. — Mathieu. tinha a vida lenta. as vítimas de acidentes. Brunet inclinou se para ela e tocou lhe no joelho. Mas este assunto é vulgar e insignificante e juro lhe que não preciso de conselhos. — Vai atirar se ao Sena? — Vai agora! — disse Brunet.» Talvez o dissesse ainda. Fazia nascer em Mathieu a cumplicidade que se esboça. nenhum dos dois julgava o outro. Diga me lá se ele é capaz de matar uma mosca! A calma de Brunet era grande. os indivíduos que exibem feridas desagradáveis. fica como testemunha! Se expulsar Wey muller. não lhe perguntava a sua opinião. horrível e triunfante. Mathieu nada tinha a dizer. dizia então Brunet. «Ele vai ouvir me com uma cortesia gelada. — A sério? — perguntou. — E o mesmo — disse Mathieu. Mathieu? — gritou Sarah com angústia. de um cão de guarda. Portanto.Mathieu.

até à vista. — Estarás livre às duas horas? Tenho uns momentos livres. poderei dar um pulo até à tua casa. — Combinado — disse Sarah. — Tenho de me ir embora — disse. E sentiu uma coisa estremecer lhe dentro do peito. — Estás com uma cara! — disse gentilmente. Pareceu finalmente decidir se. Eu tenho chatices. — Não — disse —. Os olhos brilharam lhe. «Nem tudo está perdido».. uma coisa quente e modesta que se assemelhava à esperança..» Brunet falou: não era a voz que Mathieu esperava. — Eu?. Passa se a vida a correr de um lado para o outro. — E estúpido. por acaso. Mas. SARTRE contra Brunet. — E não deixe nada por aí. Brunet pôs lhe a mão no ombro. Sarah. «E eu? Vê se o aborto no meu rosto. Olhava o hesitante. Sim. não se tem tempo de ver os velhos amigos. Conversaremos um pouco como dantes. — Como antigamente. — Que é que tens? Mathieu também se levantou. não será tão cedo. parecia aliviada.. Não lhe estendia a mão. pensou. A Sentia a mão de Brunet no ombro. meu velho. — Não irei tão depressa — disse Mathieu a rir. Se morresses. pedir Ihe ei que vá a minha casa quando tiver notícias de Gomez.. Brunet subia os degraus com uma elasticidade surpreendente. Brunet voltou se para Mathieu. Mathieu seguiu os com o olhar. Não pertence ao partido. estou inteiramente livre e espero te — disse Mathieu. Brunet sorriu amistosamente. pensou Mathieu. Um desajeitado.» Sentia se magoado. Brunet parecia duro e nodoso. mas não tinha qualquer ressentimento J E A N P A U L. um tipo nu. em migalhas.. — Prometo. Deu alguns . — Faça como quiser. Voltou se e dirigiu se para a escada.. Brunet ficou sério. «Evidentemente. e o que faz por nós já é considerável. Mas se ele continuar aqui. como o olhar de Marcelle na véspera. — Adeus. olhava o atentamente com um olhar duro. — Vou acompanhá lo — disse Sarah. «Quem sou eu para lhe dar conselhos?» Pestanejou. Mas não é nada de importante. Aquele mesmo espanto implacável. Pensava: «Não me está a julgar». Quem sou eu para lhe dar conselhos? Que fiz da minha vida? Brunet levantou se.«Evidentemente». Queime tudo. e sentia se cheio de uma humilde gratidão. Mathieu sentia se nu sob estes olhares. só o viria a saber um mês depois. Conservava o sorriso ingénuo e alegre.

e isso via se. Não havia muito tempo que o miúdo saíra de uma barriga. uma carne pensante que grita e sangra quando a matam. Ela abriu a porta. Mathieu aproximou se da mesa e pegou num buril. que pousara sobre a lâmina de cobre.. Encolheu os ombros: «Não vou matar ninguém. com aquela pequena ventosa pálida e mole que absorvia o mundo.passos. pois a bolha continuava a inchar. Do que é que estará à espera para voltar a descer? Deu meia volta. Tinha a impressão de estar a ser devorado pêlos olhares da criança. Mathieu atirou bruscamente o buril sobre a mesa. Ouvia a voz de Sarah.. para se libertar das trevas e se tornar parecida com aquilo. fazia grandes esforços para sair. Na verda de. Uma mosca.» Pablo pusera se a brincar novamente com os cubos. levantou voo.» O olhar de Pablo ainda não era humano e no entanto já era qualquer coisa mais do que a vida. Num quarto cor de rosa. Esquecera se de Mathieu. Dormia. mas por detrás dos vagos humores que lhe enchiam as órbitas escondia se uma conscienciazinha J E A N P AUL SARTRE ávida. A mosca esvoaçou à volta dele. Mathieu sentia se incomodado. Vou impedir que nasça uma criança. disse para si Mathieu. pensou. dentro de outra barriga. «Os miúdos». Era preciso agir depressa. Pablo continuava a olhá lo. Estava ali. Repetia com espanto: «Impedir que nasça. A porta bateu por cima da sua cabeça. e Mathieu barrava lhe a passagem. pequenino. O pequeno Pablo olhava o gravemente. Uma criança. um homenzinho que não andaria . naquela sala. — Sonhei que era uma pena.» Dir se ia que havia algures uma criança já formada. ao sol. Mathieu estendeu a mão e tocou na mesa com o dedo. deteve se no limiar e sorriu a Brunet. A mosca assustada pôs se a voar em círculos e pousou finalmente sobre a chapa de cobre. indeciso. olhou a criança e a mosca. — Diz lá. «são vorazes. — Sabes o que é que eu sonhei? — perguntou Pablo.. Mathieu deu alguns passos em direcção à escada. sinais e uni punhado de distintivos como os que se põem nos passaportes. «Está quente». sem saber porquê. havia uma bolha que inchava. todos os seus sentidos são bocas. Perguntou: — E o que é que fazias quando eras pena? — Nada. com uma pele branca e grandes orelhas. Mathieu brincava com o buril. entre dois sulcos que representavam um braço de mulher.. pensou. mentiroso e sofredor. era mais ou menos isso. Havia um homenzinho meditabundo e dissimulado. «E pensa». aguardando o momento de saltar para o lado de cá do cenário. conservava ainda um aveludado doentio de coisa vomitada. Uma mosca é mais fácil de matar do que uma criança.

Eu não quero casar.pelas ruas. mas acho o casamento. Era uma adulta. as censuras e tinha apenas um desejo: tranquilizá lo. nem na carne das mulheres.. vocês vão. — Pronto — disse Sarah. e olhos. — Oh! Sarah parecia mais alegre do que aborrecida. Sarah era casada. Ele desviou o olhar e disse. O quimono balançava em volta das pernas curtas. — Não é nada. nem rosto algum. com insistência. Ela ergueu bruscamente os olhos e acrescentou com paixão: — Não é nada... ou negros como os de Marcelle. não queremos a criança. — Não. Há anos. de raparigas doces e horríveis insectos. um par de olhos verdes como os de Mathieu. com um pé na calçada e outro na valeta.. nem o mar. — Ela não gosta de crianças? — Não sente interesse por elas. sanguinolenta. Mathieu não pôde suportar aquela tristeza que nem sequer era uma censura. Sarah — disse Mathieu irritado —.. Ela evitava julgá lo. encarar o futuro com confiança. se se for a tempo. secamente: — Marcelle está grávida. não — respondeu Mathieu com vivacidade —. Gomez disse mo — replicou com brutalidade. e que nunca haviam de ver os céus glaucos de Inverno. tente compreender me.. que parecia sair da salmoura e nunca ter nascido. — Sim. .. tinha casado com Gomez cinco anos antes. — Escute. Sarah pareceu desconcertada. Calou se. pôs de parte as suas reservas. Os grandes olhos velados encaravam no fixamente. Ela estava inclinada sobre o corrimão. como um balão. sinistra. — Ah! Sim — disse ela —. Ele acrescentou a seguir: — E depois Marcelle não quer filhos. nem na casca das árvores. compreendo. — Então? Que é que se passa? — disse avidamente. Sarah sorriu lhe e desceu rapidamente a escada. — Esperou muito tempo? Mathieu ergueu a cabeça e sentiu se aliviado. de carnes velhas. mãos que não tocariam nunca na neve. cheia de esperanças. luminosa.. uma imagem povoada de jardins e de casas. havia uma imagem do mundo. Ele ia sorrir. Perguntou com timidez: — E vocês. aborrecida. apaixonada. que iriam rebentar com um alfinete. — Creio que isso lhe aconteceu há tempos. Baixou a cabeça e conservou se silenciosa. ela seria a única a pôr luto por aquela morte minúscula e secreta. Não é por egoísmo. pesada e disforme.

. — Meu pobre Mathieu. — E você.. Como um rato morto! Mathieu — disse ela. Depois disso houve o Anscbluss e ele veio ter a Paris com uma maleta. era Gomez que queria. — Foi horrível! — Ah! — disse Mathieu com uma voz transtornada. como é que não pensei já nisso? Vou arranjar tudo. Bem sabe. com ele pode ficar sossegado. grandes olhos duros e cansados.. Uma vida! Uma consciência a mais. perturbada. A — Sim — disse Sarah (a fisionomia alterou se lhe). não quero mandá los a esse russo. odeia Gomez? — perguntou lhe secamente. de desânimo. Em Berlim tinha uma clientela enorme. — E. Não era capuz de odiar ninguém. mas foi um horror. procurou alguém. Ele ainda opera. Sarah teve um gesto de desconsolo. Quando os nazis tomaram o poder.. mas agora bebe J E A N P AUL SARTRE e eu já não tenho confiança nele. Waldmann. sabe se? — perguntou Mathieu encolerizado. agora.. é verdade. — Em todo o caso — disse resoluta —.. se é assim. mas. Olhou Mathieu. Desejaria poder ajudá los.. Houve um caso complicado há dois anos. que voaria em círculo.. É um especialista de abortos. — Deram me um embrulho depois da operação e disseram me: «Deite isso na retrete. você pode ajudar nos Quando teve. nunca eu. — Conhece outro? — Ninguém — disse Sarah devagar. que eu não tornaria a fazer. — É justamente isso — disse Mathieu —. naquele tempo... Mathieu reviu. não sabe o que vai fazer! — E quando se põe uma criança no mundo.» Numa retrete. E quando ele queria qualquer coisa.. esse aborrecimento. Agarrou lhe as mãos. — disse ela com um ar penoso — eu pensava no pequeno. julgo eu. eu quero dizer que não imagina o que vai exigir de Marcelle. — Não muito. Mas de repente toda a bondade se lhe reflectiu no rosto e exclamou: — Sim..— Sim — disse —. Tenho receio de que ela o fique a detestar depois. . poderia pedir me de joelhos. recordou se dos olhos de Marcelle. apertando lhe com força o braço —. um russo. — Não. é muito doloroso. foi morar para Viena. Não o viu cá em casa? Um ginecologista. então efectivamente. Mas desde há muito que enviara todo o seu dinheiro para Zurique. como deve estar acabrunhado. uma pequena luz perdida. tenho uma solução. e a Gomez ainda menos do que aos outros. chocaria contra as paredes e não poderia escapar.

É preciso que eu arranje o dinheiro dentro de . alimenta se e incha. Sarah.— Acha que ele tratará do caso? — Naturalmente. — Onde está por volta das onze horas? — perguntou ela. — Bem — disse Mathieu. — Estou contente — disse Mathieu —. — Devo estar no Dupont Latin. vivamente: — Mas era um roubo. Verão! Deu alguns passos. Será mais razoável. pequenas gotas nasciam nos bicos. — Poderia telefonar lhe. e os rostos deles flamejavam. Bulevar Saint Michel. era um fantasma mineral. Mathieu abraçou a. Aqui ninguém o conhece. Agarrou lhe os ombros e sacudiu a a sorrir. Já não era o mesmo Verão. Perguntava a si próprio aonde iria buscar o dinheiro. Pestanejou e sorriu. transpirava a dormir. Havia naquele rosto uma humildade perturbadora. é pertinho. Dorme sempre até ao meio dia. quase voluptuosa. de a humilhar. gotas brancas e salgadas como lágrimas. eu tenho um encontro às dez e meia. A bolha inchava e o tempo passava.. entre dentes. de se tornar. de poeira nova. por ternura e para não lhe ver o corpo. dizia Daniel. «Verão!» O céu enchia a rua. Mathieu empalideceu. Não leva demasiado caro? — Em Berlim levava dois mil marcos. Ela acabava de lhe sacrificar as suas repugnâncias mais profundas. — Até logo — disse Sarah —. — No Dupont Latin? Está bem.» Mathieu beijou a nas duas faces. o alcatrão negro e mole. Visto me e desço. cheio de pontos brancos. os transeuntes flutuavam no céu. muito contente. Espera por mim? DADE DA RAZÃO — Não. Poderei ficar lá e esperar pelo seu telefonema. Pagava se pela reputação. mergulhado numa sombra densa. cúmplice num acto que lhe inspirava horror. eu. «Quando a vejo». Ela dorme. meu caro Mathieu. colou se à sola dos seus sapatos. J E A N P AUL SARTRE Ela dormia. A bolha dentro do seu ventre não dormia. — Dez mil francos! Ela acrescentou. Ergueu para ele o rosto terno e desgracioso. «compreendo o sadismo. Irradiava satisfação. até logo. o corpo. Marcelle estava grávida. — Escute — disse Sarah —. você é um anjo. que dava vontade de lhe fazer mal. porque não hei de ir agora de manhã? Mora na Rua Blaise Desgoffes. por generosidade. Mathieu respirou um cheiro vivo. não tem tempo para dormir. Vou vê lo hoje mesmo.. Vou propor lhe três mil francos. Os belos seios morenos e arroxeados tinham caído. O roupão de Sarah abrira se sobre os enormes seios.

vou pedir lho. Marcelle grávida. As crianças correm. é funcionário. O Luxemburgo.» Lembrou se de repente de dois olhos muito juntos sob espessas sobrancelhas negras. pombos.» «Estou velho. esperei. os pombos levantam voo. com o mesmo sol sobre as deusas de gesso. o dinheiro. lê L'Oeuvre e Lê Populaire e está em dificuldades financeiras.» Contemplava aquele jardim rotineiro. Brunet. saboreio. O resto. tão normal.. Marcelle.» Pensou subitamente: «Estou a ficar velho. como o mar. O homem que quer ser livre. Tudo isso era tão natural. Jacques. Queria lá ir. Haverá realmente uma Espanha? Estou aqui. esse judeu há de esperar até ao fim do mês. «Madrid. Ele via se a pensar. os pombos arrulhavam. porque ainda não chegou a hora de partir tudo. sempre o mesmo. eu também quis partir para a Espanha. bastava para encher uma vida. comprometido até ao pescoço na vida e não acreditando em nada. Juro. crianças.. pássaros de pedra. anda dentro de uma cidade de vidro que em breve há de quebrar. Brunet vai sossegado pela rua. à vontade sob este sol. «Neste momento. Um álibi? «Assim é que eles me vêem. Sentou se numa cadeira de ferro. Está tudo acabado. O acompanhamento discreto e seráfico da verdadeira vida. existo. de dedos partidos. E havia Sarah com o roupão amarelo. Estirado em cima de uma cadeira. e aquelas árvores todas. Conseguirá Sarah convencer o judeu? Onde arranjar dinheiro? E o que estou a pensar. Mesmo assim. Daniel. no entanto. sente se forte. Paris. sempre novo.. como outros desejam uma colecção de selos. Estátuas..» A relva tremia a seus pés. e estou velho. pedirei a Jacques. e a 29 recebo. quente e branco. como qualquer outro. Não quero mais nada. sinto o velho gosto do sangue e da água ferruginosa. tive o que queria: Marcelle. as Espanhas. relâmpagos brancos. Trinta e quatro anos. Uma estátua mostrava lhe as nádegas de pedra. era a vida. A liberdade é o seu jardim secreto A sua . há mais de cem anos percorrido pelas mesmas ondas de cores e ruídos. Come. o meu gosto. sente se leve porque espera. Mas não consegui. com precaução. o quê? Urna pobre religião laica para uso próprio. Há trinta e quatro anos que eu me saboreio. bebe. as mesmas há mais de cem anos. sou o meu próprio gosto. «Aonde é que irei pedir o dinheiro? Daniel não mo vai emprestar. E. tinha horror de si próprio. Existir é isso: beber se a si próprio sem ter sede. tão monótono. «Afinal é coisa de uns quinze dias. não faz política. os castelos no ar era. caminha bamboleando se ligeiramente. Mas não pode ser. em último caso. Trabalhei.quarenta e oito horas.» Mathieu parou de repente. Correrias. Havia as crianças que cornam desordenadamente. independência. Mas quer ser livre. Mas eu? Eu? Marcelle está grávida. Espera.

Algo acabava de acontecer àquele vaso de três mil anos guardado entre as paredes quinquagenárias. redonda. na casa do tio Jules. Era dia de disparates. Estava em Pithiviers. abrupta inexplicável. feita de inércia e que justifica de vez em quando com elevadas reflexões. com as narinas cheias do odor da resina. uma apariçãozinha obstinada que rompera a crosta terrestre. Tinha dezasseis anos. ergueu o vaso. tivera a impressão de ser uma pequena exploração suspensa no ar.pequena conivência para consigo próprio. Um tipo preguiçoso e frio. Estava deitado na areia em Arcachon. voltou para junto da mesa. que dissimuladamente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida. Ele obrigara o a comer areia. uma promessa. Tudo isso negligentemente: era uma comédia medíocre de vagabundo e não conseguia interessar se por si próprio. Disse a si próprio: «Hei de ser livre». O tio dissera lhe que o vaso tinha três mil anos. fora buscar a caixa à cozinha e esfregara nela a mosca para ver se acendia. algo totalmente irreverente que se assemelhava a uma manhã. na luminosidade do Verão. Era preciso tentar não se engolir. sem família. evitando o pequeno movimento da deglutição que o lançaria na garganta. arquejante. Acabara de bater num jovem bordelês que lhe atirara pedras. mas era o que queria dizer e era uma aposta. Sobre a mesa havia revistas rasgadas e um belo vaso chinês. e sentia se orgulhoso. Tinha conseguido esvaziar completamente a cabeça. mas muito razoável no fundo. Tinha vinte . verde e cinza. sem peias. Apostara que toda a sua vida se pareceria com aquele momento excepcional. sabia muito bem que a mosca não ia acender se. e atirou o ao chão. livre. que era pesadíssimo. Aconteceu assim e logo a seguir sentiu se leve. contemplava as grandes ondas do oceano. diáfano. o dentista. Verificara que a cabeça se assemelhava a uma cabeça de fósforo. De repente. sem origem. diante de um vaso impassível de três mil anos. e brincava a fazer que não existia. Vegetava num calor provinciano que cheirava a moscas e tinha apanhado uma a que arrancara as asas. Olhava os cacos de porcelana. com asas como patas de papagaio. Pensou: «Fui eu que fiz isto». Era um estúpido. ou antes não disse coisa nenhuma. Mas esse vazio ainda tinha um gosto. Voltara lhe as costas e pusera se a revirar os olhos e a fungar em frente do espelho. um pouco quimérico. Mathieu aproximou se do vaso com as mãos atrás das costas e contemplou o com inquietação. sem conseguir distrair se. como quando se conserva sobre a língua um líquido demasiado frio. Era apavorante ser uma bolinha de miolo de pão neste velho mundo ressequido. sozinho na sala de espera. maravilhado. Sentado à sombra dos pinheiros. Não é isso que sou?» J E A N P AUL SARTRE Tinha sete anos.

Vai se na onda. não ter ainda nascido comple tamente. Trinta e quatro anos. Um acto livre e reflectido que acarretaria o destino da sua vida e seria o início de uma nova existência. cem vezes tornara a fazer a aposta. Era unicamente aquela aposta. Mas através de tudo isso a sua única preocupação fora manter se disponível. Grandes carros multicores passavam na rua.» Eram palavras vazias e pomposas. nem o amigo de Daniel e Brunet. a ele e a Brunet: «Hei de salvar me. se faz favor. lia Espinosa no quarto. Um acto. cheios de bonecos de papelão. O que o retivera à beira destas rupturas violentas fora a ausência de motivos para fazê lo. Vegetava naquele calor sufocante. viajara e ganhara a vida. nunca fora realmente infeliz. Mathieu não era um tipo que ensinava Filosofia a rapazes num liceu. aprender um ofício. Já não sabia bem. Esperara através de mil e uma preocupações quotidianas. E durante esse tempo. Para uma acção. poder dizer: sou porque quero.» Dez. Ser a causa de si próprio. nem o irmão de Jacques Delarue. a decisão teria sido uma . os anos tinham chegado e tinham no envolvido. Nunca pudera prender se definitivamente a um amor. palavras irritantes de intelectual. Como Brunet. devagar. mas nessa idade não se tem plena consciência do que se faz. precisava de estar nos seus dias melhores. Para compreender a aposta. com aquela ênfase filosófica que lhe era agora peculiar. Sem motivos. «Com vinte e cinco é que eu me devia ter comprometido. aos seus próprios olhos. E. Naturalmente durante esse tempo andara atrás de mulheres. o advogado.» Tinha pensado partir para a Rússia. Levantou se. Eu não queria ir na onda. um funcionário em dificuldades financeiras e que ia encontrar se com a irmã de um dos seus ex alunos. Os últimos anos tinham sido uma vigília. sofria a velha e monótona sensação do quotidiano. As palavras mudavam com a idade e as modas intelectuais. sub repticiamente. Inutilmente repetia as frases que os exaltavam dantes: «Ser livre. Que aposta? Pôs a mão sobre os olhos cansados da luz. mas era uma só e mesma aposta. — A bola. Mathieu apanhou a bola e atirou a ao rapaz. um rapazinho corria atrás dela com a raqueta na mão. ser o próprio começo. Esperava. Levantava se um funcionário. Sim. sempre lhe parecera estar algures. nem o amante de Marcelle.e um anos. Pensou: «Estará tudo acabado? Serei apenas um funcionário?» Esperara tanto tempo. e era terça feira de Carnaval. abandonar os estudos. Decerto que não estava num desses dias. a um prazer. Uma bola de ténis rolou lhe aos pés. Tinha agora — cada vez mais — longos momentos de exílio. Erguera os olhos e apostara de novo.

inclinava se. É engraçada a mocidade. a fisionomia dura e a carne tenra. pensou Mathieu. por dentro. Pensou: «Não sei o que quero dela. No entanto não desejava ser belo. Mas já não espero mais nada. Mathieu ficaria a seu lado. mas eram excepções. Quando viu Mathieu. Riram e sentaram se. tinha sempre medo de que se deixasse morrer. esquecia se a cada momento. Ivich cheirava a mocidade. Ela tem razão. irritado.» Junto do repuxo. e a franja descia lhe até aos olhos. afundava se lentamente. Puxara os caracóis louros para a frente. Pensou: «Já não espero. nem Brunet. Boris também. Estava com a cara dos dias de festa. Barquinhos à vela giravam no tanque. Mártires da J E A N P AUL SARTRE juventude. Todos riam. Ela esquecia se de tudo. Ivich não o desculpava. não sentem nada.» Não gostava que ela se atrasasse. Gostava de lhe mostrar belos quadros. importuno. Ela erguia o rosto para ele e oferecia lhe um sorriso luminoso. Esvaziei me. Dois rapazes pararam junto dele. «Só há chatos por aqui». num desafio. M athieu olhou para o relógio. está atrasada. Um dia. Descia o bulevar ao lado de um rapaz alto de cabeleira crespa e óculos. porque ele não era belo e era uma maneira de se desculpar. olharam para uma das mesas com desdém. Jovens machos rodeados de fêmeas e que pareciam insectos brilhantes e obstinados. esquecer se ia de respirar. belos objectos. feio. Estou liquidado. Falavam animadamente. — Eu sit down — respondeu o outro. nunca ela estava tão só como diante da beleza. «Eu não sabia que era jovem. esquecia se de dormir. Parou para olhar o carrossel náutico. um barquinho parecia perdido. esquecia se de comer. Hoje como das outras vezes olharia os quadros com um ar selvagem e maníaco. Só depois é que dei conta. chicoteados de quando em quando pelo repuxo. — Olá. Continuara a esperar. esfu ziantes.» Viu a nesse mesmo instante. Estudantes ou liceais. Ivich! — Bom dia — disse ela. esquecido. pensou Mathieu por fora. «Dez e quarenta. — Sit down — disse um. os seus olhos apagaram se. bons filmes. disse um adeus rápido ao companheiro e atravessou a Rua dês Ecoles como uma sonâmbula. e pronto. Mathieu levantou se. Um miúdo tentava apanhá lo com uma vara. esterilizei me para ser apenas uma espera.asneira. Tinham as mãos bem tratadas. nem Daniel. fugia de si mesma. No Inverno .» Lembrou se sem grande prazer que ia acompanhar Ivich a urna exposição de Gauguin. Agora estou vazio.

infantil e sensual. pálido. Parecia pintada e envernizada como uma taitiana de Gauguin. questões de dinheiro. cheiro a éter. Não o beberei. — Tenho a impressão de que ficam abertos sozinhos. Não a via. Calou se. Os jovens vizinhos de Mathieu voltaram se para a ver.o vento despenteava a. podia chamá la pelo nome ou tocar lhe no ombro. Ele. que ela usava por cima do verdadeiro como uma máscara triangular. De vez em quando eu fecho os para que descansem. Não sabemos onde nos havemos de enfiar. Em dias como este não devíamos sair senão depois de escurecer. Marcelle estava ali. pronto. deixe o trazer.» Mathieu ouviria do outro lado do fio J E A N P AUL SARTRE uma voz sombria: «Ele quer dez mil francos. Não temos os mesmos gostos.) Nunca mais beberei disso. isso pega se na boca. mas estava ali. — Sim. Gostava que lhe chamassem senhora.» Hospital. Inútil. como a Lua entre duas nuvens. cirurgia. Sarah telefonaria. só ele. — Gosto disso? — disse divertida. O empregado chamaria: «Senhor Delarue. a que ela chamava «testa de calmuco». Estão vermelhos? — Não. — E para a senhora? — perguntou o empregado. você gosta disso. Não estava pintada. indecisa.» Mathieu contemplou a com ternura. No Verão doem me. não quero. mas era inatingível com o seu porte frágil e os belos seios duros. Reabriu os olhos. — Faz favor! — gritou Mathieu. nem um franco a menos. descobria lhe as bochechas gordas e lívidas e a testa curta. Ivich sorriu lhe. E as pessoas . lembrei me do gosto. Dentro em pouco. Não estou com sede. Mathieu fez um esforço e voltou se para Ivich. Agora Mathieu via apenas um falso rosto. — É o sol. via a. — Aquela coisa verde e viscosa que bebi no outro dia? Oh!. calma e taciturna. (Estremeceu. mas não o devia ouvir. mas depois reflecti. quero. Mas que é isso? — perguntou quando o empregado se afastou. porque a pintura lhe estragava a pele. Depois virou se para Mathieu. Ivich sim. Um rosto largo. — Você disse que gostava — atalhou Mathieu. sabia que Ivich era feia. não se referia a ela. estreito e puro. o sol persegue nos por toda a parte. — Não. Mathieu não sabia o que dizer. não. — Então está bem. A Ela sentou se. — Tome um Pippermint — disse Mathieu —. Eu deixo o tomar decisões. contrariado. Pensavam visivelmente: «Boa miúda. Ivich interessava se por tão pouca coisa! E ele não tinha vontade de falar. — Menta verde. é bonito. Ela fechara os olhos e passava levemente os dedos sobre as pálpebras.

sob qualquer pretexto. — Com certeza não sabe o que é um «lar de estudantes». achava se culpado e liberto ao mesmo tempo por lhe querer menos. JEAN PAUL SARTRE — Ouça — disse Mathieu —. Sabia que ela não pensava o que dizia. — Olho para toda a gente assim. Os olhos ardem me logo. Lançou lhe um olhar matreiro e rápido. — Gostaria que soubessem como você é? — acrescentou com certo desprezo. à altura dos cabelos. Julgava sempre que tivesse reparado num lugar mais ralo e não pudesse tirar de lá os olhos.ficam com as mãos húmidas. Tenho horror a que me toquem. — Aborreceu a tê la feito sair tão cedo? — De qualquer maneira eu não podia ficar no quarto. E depois a empregada afeiçoou se a mim. mas sinto medo quando imita as minhas expressões! — Compreendo! — disse Mathieu a sorrir. Mas estou à espera de um telefonema. — Porquê? — perguntou Mathieu admirado. Mathieu mal a ouvia. Era o outro. não. — Você é dissimulada — disse Mathieu. — Sim. . Mathieu tocou com o dedo. Estava seca. vou à farmácia comprar um comprimido. num tom de voz diferente: — Eu gostava que não me doessem tanto os olhos. Acrescentou. não era com má intenção. sobretudo em tempo de exames. Olhava Ivich sem se sentir perturbado. — Bom.. por baixo da mesa. irritada. — Olha me por cima da testa. — murmurou ela num tom arrastado que fazia pensar nas suas faces lívidas.. teria medo. — É verdade que não liga a essas coisas. acaricia me os cabelos. Ivich sacudiu a cabeça. com a palma da mão. — Não. — Você perturbava me a princípio — disse Mathieu. — Sim. — Não é o que está a imaginar. Quanto a olhar as pessoas de frente. ou então de lado: assim. A — Ela gosta de mim porque sou loura. Mesmo que você fosse o tipo mais bonito deste mundo.. não posso. — Afinal as pessoas acabam por perceber que esconde a cara e baixa os olhos como uma santa de pau carunchoso. Ela riu divertida e furiosa. Ivich encarou o com impaciência. Há de dizer que eu sou dissimulada. se me chamarem diga ao empregado que volto já.. entra a todo o momento no meu quarto. É sempre a mesma coisa. Protegem as raparigas de verdade. Eu que tenho tanto medo de ficar calvo. Daqui a três meses vai detestar me. que tinha as mãos húmidas. — Acabe com isso! Não gosto que me imitem. o rapaz encaracolado.

— Não, não vá — disse ela secamente. — Agradeço, mas não faria nada. É do sol. Calaram se. «Estou a ficar abstracto», pensou Mathieu com um prazer estranho. Um prazer crispado. Ivich alisava a saia com as palmas das mãos, erguendo ligeiramente os dedos como se fosse tocar piano. As mãos dela estavam sempre avermelhadas porque tinha má circulação. Geralmente levantava as e agitava as de vez em quando para as descongestionar. Não lhe serviam para pegar em nada, eram dois idolozinhos gastos nas extremidades dos braços; afloravam as coisas com pequenos gestos inacabados e pareciam menos destinados a segurar do que a modelar. Mathieu olhou as unhas de Ivich, longas e pontiagudas, excessivamente pintadas, quase chinesas. Bastava contemplar aqueles adornos frágeis e incómodos para compreender que Ivich não podia fazer coisa nenhuma com os seus dez dedos. Uma vez caíra lhe uma unha, ela guardara a numa caixinha e de vez em quando observava a com uma mistura de prazer e horror. Mathieu vira a. Conservara o verniz e assemelhava se a um besouro morto. «Que será que a preocupa? Nunca esteve tão irritante. Deve ser o exame. A não ser que se chateie de estar comigo. Afinal de contas eu sou adulto.» — Não começa assim, com certeza, quando se vai ficar cego — disse de repente Ivich com um ar neutro. — Com certeza que não — respondeu Mathieu, sorrindo. — Bem sabe o que lhe disse o médico em Laon: um bocadinho de conjuntivite. A Falava docemente, sorria docemente, sentia se embebido em doçura. Com Ivich era preciso sorrir sempre, fazer gestos suaves e lentos. «Como Daniel com os gatos.» — Doem me tanto os olhos — disse Ivich —, basta uma coisa de nada. (Hesitou.) É no interior dos olhos que me dói. Não é assim que começa aquela loucura de que me falava há dias? — Ah!, aquela história? Olhe, Ivich, da última vez era o coração, receava ter uma crise cardíaca. Que rapariga estranha, parece que tem necessidade de se atormentar. E de repente declara que é feita de cimento! É preciso escolher. A sua voz deixava um gosto a açúcar na boca. Ivich olhava para os pés, pensativa. — Deve estar qualquer coisa para me acontecer. — Já sei — disse Mathieu —, a sua linha da vida foi interrompida. Mas disse me que não acredita nisso. — Não, não acredito... Mas não posso imaginar o meu futuro. Há uma barreira. Calou se e Mathieu contemplou a em silêncio. Sem futuro... De repente sentiu um gosto desagradável na boca e percebeu que estava demasiado preso a Ivich. Era verdade que ela não tinha futuro. Ivich com trinta anos, Ivich com quarenta anos, não

fazia sentido. Pensou: «Ela não é eterna.» Quando Mathieu estava só ou quando falava com Daniel, com Marcelle, a vida estendia se diante dele, clara e monótona: algumas mulheres, algumas viagens, alguns livros. Um longo declive. Mathieu descia o lentamente, lentamente, às vezes ele próprio achava que não ia muito depressa. De repente, quando via Ivich parecia J E A N P AUL SARTRE lhe viver uma catástrofe. Ivich era um pequeno sofrimento voluptuoso e trágico, sem futuro. Ir se ia embora, ficaria louca, morreria de uma crise cardíaca ou então seria sequestrada pêlos pais em Laon. Mas Mathieu não poderia suportar a vida sem ela. Fez um gesto tímido com a mão; queria pegar no braço de Ivich acima do cotovelo e apertá lo com toda a forca. «Tenho horror a que me toquem.» A mão de Mathieu caiu. Disse muito depressa: — Tem uma linda blusa, Ivich. — É feia. — Inclinou a cabeça, empertigada, e sacudiu a blusa, constrangida. Acolhia as homenagens como se fossem ofensas, era como se fizessem dela uma imagem à machadada, grosseira e fascinante, a que tinha receio de se prender. Só podia pensar o que convinha a si própria. Pensava nisso sem palavras, era uma certeza terna, uma carícia. Mathieu olhou com humildade os ombros de Ivich, o pescoço alto e roliço. Ela dizia muitas vezes: «Sinto horror pelas pessoas que não sentem o corpo.» Mathieu sentia o dele, mas era como um embrulho embaraçoso. — Ainda quer ir ver os Gauguin? — Gauguin? Quais? Ah!, a exposição de que me falou? Bem, podemos lá ir. — Não parece ter muita vontade. — Tenho. — Se não tem vontade, Ivich, diga. — Mas tem você. — Bem sabe que já lá estive. Tenho vontade é de lha mostrar, se isso lhe agradar; mas se não lhe interessa, desisto. — Pois então preferia ir noutra ocasião. A — A exposição acaba amanhã — disse Mathieu, decepcionado. — Tanto pior — disse Ivich sem energia —, mas há de haver outra oportunidade. — Acrescentou com calor: — Essas coisas estão sempre a aparecer, não é verdade? — Ivich! — observou Mathieu com uma amabilidade forçada. — Essa é mesmo sua! Diga que não lhe apetece, mas bem sabe que tão cedo não haverá outra. — Pois bem — disse ela, gentilmente —, não quero ir hoje por causa do exame. É infernal que nos façam esperar tanto tempo pelo resultado. — Não é amanhã?

— Justamente. Acrescentou, roçando a manga de Mathieu com a ponta dos dedos: — Hoje não deve ligar ao que eu digo. Não estou normal. Dependo dos outros, é aviltante. Vejo continuamente a imagem de uma folha branca pregada numa parede cinzenta. Eles impõem nos este pensamento. Quando me levantei hoje de manhã, senti que já era amanhã. Hoje é um dia perdido, riscado. Roubaram me este dia e já não me restam muitos mais. Insistiu em voz baixa e rápida: — Falhei em Botânica. — Compreendo — disse Mathieu. Queria encontrar nas suas recordações uma angústia que lhe permitisse compreender a de Ivich. Talvez na véspera da formatura... Não, não era a mesma coisa. Ele vivia sem correr riscos, sossegadamente. Agora sentia se frágil, no meio de um mundo ameaçador, mas era através de Ivich. J E A N P AUL SARTRE — Se eu for aprovada — disse Ivich —, vou beber antes da oral. Mathieu não respondeu. — Só um bocadinho — repetiu Ivich. — Disse isso em Fevereiro, antes do exame, e foi lindo, com quatro cálices de rum ficou completamente bêbeda. — Aliás não ficarei aprovada — disse ela de maneira equívoca. — Está bem, mas se por acaso ficar? — Claro que não vou beber. Mathieu não insistiu. Tinha a certeza de que ela apareceria bêbeda à oral. «Eu é que não faria isso, era demasiado prudente.» Estava irritado com Ivich e desgostoso consigo próprio. O empregado trouxe o copo e encheu o até meio de menta verde. — Já trago a água e o gelo. — Obrigada — disse Ivich. Ela olhava para o copo, e Mathieu olhava a. Um desejo violento e imperioso invadira o: ser por um momento aquela consciência perdida e cheia de seu próprio odor, sentir por dentro aqueles braços compridos e finos, sentir, na junção, a pele do antebraço colar se como um lábio à pele do braço, sentir aquele corpo e todos os pequenos beijos que dava a si próprio sem cessar. «Ser Ivich sem deixar de ser eu.» Ivich tirou o balde das mãos do empregado e pôs um pequeno cubo de gelo no copo. — Não é para beber, mas fica mais bonito. Pestanejou e sorriu com um ar acriançado. — É bonito. Mathieu olhou o copo, irritado. Procurou observar a agitação espessa e desordenada do líquido, a brancura turva do gelo. Em vão. Para Ivich era uma pequena volúpia

viscosa e verde que a deixava toda melada até à ponta dos dedos. Para ele aquilo não era nada. Nada de nada. Um copo com menta. Podia, pensar o que Ivich sentia, mas ele nunca sentia nada. Para ela as coisas eram presenças abafantes e cúmplices, grandes redemoinhos que a penetravam na carne, mas Mathieu via as sempre de longe. Olhou a e suspirou. Estava atrasado, como de costume. Ivich já não contemplava o copo, parecia triste e puxava nervosamente um caracol dos seus cabelos. — Queria um cigarro. Mathieu tirou o maço de Gold Flake do bolso e estendeu lho. — Vou lhe dar lume. — Obrigada, prefiro acendê lo eu. Acendeu o cigarro e tirou algumas baforadas. Aproximou a mão da boca e divertiu se, com um ar maníaco, a fazer deslizar o fumo pelas palmas das mãos. Explicou, como para si mesma: — Queria que o fumo parecesse sair da minha mão. Seria engraçado uma mão com neblina... — Não é possível, o fumo passa demasiado depressa. — Eu sei, e isso enerva me, mas não posso parar. Sinto o meu sopro aquecer a mão, passa lhe pelo meio, dir se ia que a corta em duas. Teve um riso rápido e calou se. Continuava a soprar na mão, descontente e obstinada. Depois deitou fora o cigarro e sacudiu a cabeça. O perfume dos cabelos chegou às narinas de Mathieu. Era um cheiro a bolo com açúcar bauni Ihado, porque ela lavava os cabelos com gema de ovo. Mas esse perfume de pastelaria tinha um gosto voluptuoso. Mathieu pôs se a pensar em Sarah. — Em que é que está a pensar, Ivich? Ela ficou um instante de boca aberta, desconcertada, depois retomou o seu ar meditativo e o rosto contraiu se lhe. Mathieu sentia se cansado de a olhar. Doíam lhe os olhos. — Em que é que está a pensar? — repetiu. — Eu... (Ivich abanou a cabeça.) Está sempre a perguntar me isso. Nada de especial. Coisas que não se podem dizer, que não se transmitem. — Sabe se lá... Diga. — Bem, eu olhava para aquele homem que vem ali, por exemplo. Que quer que lhe diga? Que é gordo, que enxuga a testa com um lenço, que traz uma gravata... É estranho que você me obrigue a contar estas coisas — disse de repente, envergonhada e irritada —, não vale a pena dizê las. — Para mini, sim. Se eu pudesse desejar qualquer coisa, desejaria que fosse obrigada a pensar alto. Ivich sorriu sem querer — É um vício — disse —, a palavra não foi feita para isso. — E engraçado esse respeito selvagem pela palavra. Parece crer

que ela só foi feita para anunciar mortes, casamentos ou dizer missa. Aliás, você não olhava para ninguém, Ivich, olhava para a sua mão e a seguir olhou para o pé. E, além disso, sei no que estava a pensar. — Então porque é que pergunta? Não é preciso ser muito esperto para adivinhar. Pensava no exame. — Está com medo de reprovar, não é? — Naturalmente. Estou com medo. Ou melhor, não estou com medo. Sei que vou reprovar. Mathieu sentiu novamente um gosto de catástrofe na boca. «Se ela reprovar, nunca mais a verei.» E ela ia reprovar de certeza. Era evidente. — Não quero voltar para Laon — disse Ivich com desespero. — Se ficar reprovada, não me deixarão voltar. Disseram me que era a minha última oportunidade. Pôs se a mexer nos cabelos. — Se tivesse coragem — disse com hesitação. — Que faria? — perguntou Mathieu inquieto. — Qualquer coisa. Tudo menos voltar para lá. Não quero voltar, ficar lá a vida inteira. — Mas disse que seu pai talvez vendesse a serração daqui a um ou dois anos e que viriam todos para Paris. — Paciência! São todos assim — disse Ivich com um olhar furioso. — Queria ver se fosse consigo! Dois anos naquela cave, ter paciência durante dois anos! Não vê que são dois anos que me roubam? Tenho só uma vida — disse com raiva. — Ao ouvi lo falar, parece que se julga eterno. Um ano perdido, na sua opinião, substitui se bem. — As lágrimas vieram lhe aos olhos. — Não, não se substitui. É a minha mocidade que se escoará gota a gota. Quero viver já, não comecei ainda e não posso esperar. Já estou velha, tenho vinte e um anos. — Ivich, por favor, faz me medo. Tente ao menos uma vez dizer com clareza o resultado dos seus trabalhos práticos. Tão depressa parece satisfeita como desesperada. — Falhei em tudo — disse Ivich, sombria. — Pensei que em Física tivesse tido êxito. — Ah!, a Física — atalhou Ivich com ironia. — E em Química foi lamentável. Não consigo enfiar as fórmulas na cabeça. É tão cansativo! — Mas então porque é que escolheu isso? — O quê? — O P.C.B. — Queria sair de Laon — disse ela, obstinada. Mathieu fez um gesto de impotência. Calaram se. Uma mulher saiu do café e passou devagar diante deles. Era bela, com um nariz minúsculo num rosto liso, parecia procurar alguém. Ivich

é Sarah Gomez. a rir. mas. — Desculpe. Mathieu sabia que ela não podia responder. É um estupor de um judeu — acrescentou... mas quer quatro mil a pronto. por um amor ardente e perturbado A desfavorecido pela beleza. viam se lhe as pernas compridas. — Que criatura soberba — disse em voz baixa e profunda. Ivich seguiu a com o olhar e murmurou raivosamente: — Há momentos em que eu gostaria de ser homem. — Senhor Delarue? Primeira cabina. — Ah! Fico muito satisfeito. A mulher imobilizou se pestanejando ao sol. Esta ficara quase feia. — Está. — Mas é preciso andar depressa. a porta da cabina não se fechava. Insisti. Levantou se. Mas Mathieu não tinha vontade de as olhar. melancólica. Ele entrou no café e desceu a escada. — Ivich — disse Mathieu. Quer fazer a coisa depois de amanhã para a poder observar durante os primeiros dias. Sarah era muito bondosa. Teria talvez trinta e cinco anos. a sua fisionomia transformou se. Mathieu não gostou daquela voz. vou avisar Marcelle hoje mesmo. à transparência. só que a coisa me apanha desprevenido. tenho de arranjar o dinheiro. Mathieu pegou no telefone. quando aquele corpinho encantador e quase gentil era tomado por uma força dolorosa. — Sou eu — disse Mathieu. — Bem. quando a viu. Quanto é que ele quer? — Ah!. docemente. mas não quis saber. A mulher foi se embora. Ela estava só. lamento imenso. apertava as mãos com força. Pensou: «Não sou bonito». mas quando era prestável tornava se . — Chamam o Senhor Delarue ao telefone — gritou o empregado. e ele pensou que ela tinha vontade de morder. juro. e Mathieu olhou a tristemente. e sentiu se também sozinho. Ela não respondeu. Já não existia para ela. Teve um risinho seco.» Mathieu inclinou se ligeiramente e viu a de perfil: a sua expressão era cruel. — Ivich! Era nesses momentos que mais lhe queria. é a Sarah? — Tudo corre bem — disse a voz nasalada de Sarah. Olhava para Ivich. Ele parte domingo para os Estados Unidos. através do tecido leve do vestido.devia ter sentido logo o perfume. Ergueu lentamente a cabeça. disse lhe que você estava atrapalhado. Dissera uma vez a Mathieu: «Tenho vontade de morder os narizes pequenos. Ivich sorriu lhe com frieza.

Faubourg Saint Honoré.» Sentou se perto de Ivich e olhou a com ternura. «Irei ter com Daniel ao meio dia. — Poderíamos. Mathieu afastara um pouco o telefone. Mathieu viu entre os seus pés três cigarros de ponta dourada. junto de Ivich. — Não. — Bom. silencioso. — Esse não — disse Ivich —. não vale a pena. amavelmente. veja como é bonito. — Oh! Dei os ao motorista.» — Galeria das Belas Artes. Obrigado. neste táxi. meio fumados. — A dor de cabeça passou me — disse ela. Porque é que fez isso? — Não sei. é um anjo. Sarah. sem surpresa. Está em casa à noite. há vestígios de bâton. O táxi parou.. — Dentro de dois dias? Bem.. pensou Mathieu. «Uma vez que lhe vou falar». O táxi atravessou a Praça St. Levantaram se e Mathieu reparou que o copo de Ivich estava vazio. como uma irmã de caridade. Sentou se. — Até logo à noite. — Porquê? Mathieu apontou os cigarros. Tinha um sorriso confuso e provocante. Sentia o coração amargurado. Mathieu saiu da cabina. poderíamos ir ver os Gauguin. — Pois eu tê los ia guardado. não — disse Mathieu ao motorista —. Passarei por lá para tratar ainda de mais umas coisas. para dar até ao fim do mês. Mathieu disse: — Uma vez achei cem francos num táxi. é descapotável. vou tratar disso. — Uma mulher — disse Ivich —. Ivich olhou o de lado através das suas longas pestanas. parece um coche e é fechado. — Ainda bem — disse Mathieu. Michel. pensava: «Quatro mil francos». e Ivich subiu. o vento na cara é incomodativo. — Mande parar aquele — pediu Ivich —. e ouvia o riso de Sarah. era um pesadelo.brutal e activa. — Se quiser — disse Mathieu. não era consigo. Pôs vinte cêntimos na bandeja e subiu devagar a escada. antes do jantar? — Todo o dia. Mathieu ia para dizer: . Não valia a pena telefonar a Marcelle antes de resolver o assunto do dinheiro. — Esteve aqui alguém que ia nervoso. — Uma ficha para o telefone — pediu. ecoar no auscultador. Sorriram e calaram se. — Deve ter ficado contente. — Não. «pedirei mais mil francos a Daniel. Estavam ambos aborrecidos. — Táxi — gritou.

Ivich continuou: — Não acho que valha a pena incomodarem se por causa de Lola. em criança. o que me desagrada um bocado é Lola. secamente. Era como se eles tivessem imaginado. os três. Às vezes tento imaginar como você era. e mais nada. — Ficarei muito contente em ver Boris e de estar com vocês — disse —. não é nada agradável envelhecer.«Olhe o Sena. — É engraçado que não tenha reparado. mas de vez em quando tinha uma expressão terna pelo prazer de sentir o rosto pesado e doce como um fruto. — Naturalmente. Mas não gosto dela. — Eu acho a simpática. quando estão desgostosas consigo próprias e com a vida. — Não pode fazer outra coisa. dá profundos suspiros para que pensem que está desesperada e encomenda bons petiscos! Acrescentou com uma maldade dissimulada: — Sempre pensei que as pessoas desesperadas não se incomodavam com a morte. — Oh!. é muito teatral? — Teatral? — perguntou Mathieu. aborrecido. você não tem idade — disse Ivich —. Olhou a. Ela não pode comigo. A — Pois é. Ivich não era muito coqueta. esforça se logo por lhes descobrir qualidades. ao mesmo tempo. Eu gostaria. hoje à noite. . — Isso não quer dizer que ela não se sinta desesperada. e apressou se a acrescentar: — Tem razão. «Não». nunca se deveria envelhecer — disse Ivich. tem a juventude de um mineral. Eu não a acho simpática.. pensam no dinheiro e tratam se bem. canta bem. mas não consigo. — Que é que isso tem? Fez se um silêncio. É a sua moral. É bonita. — Ela é gentil consigo. Desde que as pessoas o detestem. erguendo as sobrancelhas. Mathieu achou a inconveniente e irritante. Voltara a cabeça e olhava os cabelos de Mathieu avançando a boca com ternura. que eram um homem e uma mulher fechados num táxi. E assim que fazem as pessoas que envelhecem. como está verde!» Mas não disse nada.. parece me que foi sempre assim. — Tinha caracóis — informou Mathieu. fico sempre admirada quando a vejo fazer as contas das despesas e tentar economizar. disse para si próprio. perturbado. Foi Ivich quem falou de repente: — Boris pensava que íamos ao Sumatra. — Nunca reparei nisso. Quer sempre ser perfeito.

Um gesto e aquele amor aparecera perante Mathieu como um objecto importuno e já vulgar. e o braço recaiu lhe inerte. Ivich não devia saber que tinha um ar terno. sem nome. Um polícia fez sinal para parar e o táxi deteve se. Estava calor. rígida e silenciosa.» Encolheu se. pareceu lhe que ficava suspenso no vácuo com uma intolerável impressão de liberdade. Aquele dia de Verão abatia se nele como uma massa densa e quente. de rosto cinzento. Pensou: «Um homem casado a conquistar uma rapariguinha num táxi». As arcadas do Louvre estendiam se pesadamente ao longo dos vidros. como se fossem pombas. O corpo de Ivich voltou. mas um pouco mais pequeno. Aproximara se de uma mercearia. que parecia muito admirado.— Pois eu imagino o tal como é hoje. E ele fizera um gesto. e entre eles havia o . Ivich continuava sem dizer nada. estendeu o braço. aliás não o fizera propositadamente. Ivich não resistiu. mas não via as árvores. «Pronto. o único que não devia ter feito. e Mathieu sentia um corpo quente junto do seu. Mathieu olhava em frente. olhara demoradamente uma fatia de carne fria que estava num prato sobre o balcão. Parecia achar a coisa natural e também se devia ter sentido livre. Mathieu quis falar. já não estava em parte alguma. O táxi meteu se pela Rua de Rivoli. que não se exprimia por gestos. Não disse nada: ficou com uma expressão neutra. como uma mola. O dono gritou. é irremediável. Inclinou se. Através do vidro da frente via as árvores e uma bandeira tricolor na ponta de um mastro. e a sua raivosa alegria esvaiu se. Era amor. sentia vontade de se abandonar inteiramente. irritado. «Está a julgar me». «Que pensará ela?» Estava a seu lado. Sarah. Lembrou se do gesto de um tipo que vira uma vez na Rua J E A N P AUL SARTRE Mouffetard. Tinha deixado para trás Marcelle. um polícia levou o tipo. pensou Mathieu. Agora era amor. e depois. Desta vez. e deixou se cair como se tivesse perdido o equilíbrio. Desejara desaparecer. Insistia. era livre. à posição vertical. rígida. havia entre ambos um sentimento raro e precioso. Para a castigar aflorou com os lábios uma boca fria e fechada. bruscamente. Ao levantar a cabeça. Mathieu pensou: «Que é que eu fiz?» Cinco minutos antes aquele amor não existia. os intermináveis corredores de hospital por onde andava desde manhã. olhava para o seu amor. mas ficou dura. mas sentia um estranho nó na garganta e estava fora de si. Um tipo bastante bem vestido. agarrou Ivich pêlos ombros e puxou a para si. Ivich ia pensar que ele a amava como às outras mulheres que tinha amado. Depois estendera a mão e pegara na carne. Ainda durante um segundo. viu lhe os olhos. fora espontâneo. Ivich calava se.

O táxi parou. pensou.» Não era o que eu queria dela. Pensou: «Meio dia.. Acabava sempre assim. inerte e sinistro como um destino. sacudiu a cabeça. Viu de repente Marcelle estendida na cama. «o arcanjo!» Marcelle bocejou. de quem vai tomar um medicamento. Mas já não conseguia lembrar se do que queria antes. soergueu se. sem esperança.. pensou com desespero.» Gostava daquelas visitas misteriosas. Era apenas o amor. olhava os tornozelos com um vago descontentamento. que era um eterno meio dia. impalpável. nua. mole. como um vago perfume. que caía largado sobre as coisas. «não a desejo. Olhar Ihe ei para as pernas. Havia uma repulsa no ar. «Na melhor das hipóteses». Marcelle deitava se tarde e não conhecia nunca as manhãs. como na véspera. estagnado. mas agora pensava nelas sem prazer. «tenho horror a que me toquem». Mas já sabia que ia desejá la. envergonhado e dissimulado. Sabia que não teria podido J E A N P AUL SARTRE suportar aquela expressão e que a coisa lhe parara na garganta. que deixara a luminosidade nas pregas da cortina e jazia ali. com os seus desejos simples e as suas condutas vulgares. como me acharia repugnante. à sua volta. com um ar alegre e bem disposto. de olhos fechados. Ivich abriu a porta e desceu. Contemplava com espanto aquele amor completamente novo. e a noite da véspera continuava ainda ali. não lhe pude dizer. Entraram na exposição sem trocar uma palavra. «Se ele soubesse. e Mathieu é que o fizera nascer com inteira liberdade. Deitou lhe um olhar furtivo e achou que ela tinha uma expressão dura. «Bom. despreza me e pensa que sou como os outros. aquele amor de homem casado. havemos de nos arranjar».. pagou e juntou se a Ivich. para os seios. que tinha já a obstinação impalpável das coisas passadas. e um dia.» Sentou se à beira da cama. humilhado de antemão. «alguma coisa deve ter acabado entre nós. e já velho. Se ao menos ela pudesse esquecer.. Mathieu não a seguiu imediatamente.» Mas não tinha vontade de deixar de a amar. Um calor enorme enchia o quarto. nunca a desejei». mas o calor era de meio dia. chuvoso. um calor que viera de fora.gesto. quando Mathieu se deitara nu ao lado dela. uma repulsa de meio dia.» Ele teria respondido. Odiava Marcelle. «Não é verdade». «Não pude. «Está aborrecida. aceitava o já como uma fatalidade. é tão puro. e . com a sua luz morta e rosada. pensou. Desceu finalmente. humilhante para ela. que o esperava à entrada.» O tecto estava cinzento como uma madrugada. parecia Ihe que a vida parara ao meio dia. e o seu primeiro pensamento foi: «O arcanjo vem esta noite. o gesto desajeitado e terno.

dizem que há pessoas que vomitam durante o dia todo. Já não pensava em nada. enojava se facilmente consigo mesma. não era mais repugnante do que a goma ruiva e odorífera dos rebentos das árvores. O dia ainda não tinha começado e já estava contra Marcelle. Teve um sorriso amargo. e um clarão de ódio atravessou a. mas dominava se. «Ele pensa em mim. sem ternura. «A sua liberdade. Mathieu caminhava lá fora na poeira viva e alegre desse dia que se iniciara sem ela e já tinha um passado. Pensou primeiro na manteiga. que adianta ser livre? «Não ajuda a viver. quando tivera diarreia. eu só vomito de manhã. pensou. depois fico cansada. a partir do segundo mês. Uma aguadilha saía lhe da boca. gotas de frio. parecia lhe que mastigava um pedaço de manteiga amarela e rançosa. Era a vida. De manhã vomitou duas vezes. deixando traços viscosos e brilhante como lesmas. mas aguento. a sua expressão ingénua e convencida. e sentiu nojo. espumante. Disse a meia voz: «Tem graça!» Não sentia repugnância.» Levantou se bruscamente A e correu para o lavatório. num equilíbrio instável. e logo uma repugnância por tudo. maldosa. e murmurou: «Recordação de amor. não faltaria mais nada. passou a mão pêlos cabelos e esperou. depois sentiu uma espécie de riso no fundo da garganta e inclinou se sobre o lavatório. Não sentia repugnância.» Depois fez se um grande silêncio no seu cérebro. Olhou a baba que escorria devagar pelo buraco do lavatório. como uma clara de ovo ligeiramente batida. um gosto de mata borrão na boca. e o mínimo gesto fá lo ia ruir como uma avalancha. e teve de tossir para se livrar dela. No entanto.» Plumas delicadas e embebidas em aloés acariciavam lhe a garganta. Sentia se mole e vencida. Sorriu. Marcelle apoiou se no lavatótio e olhou para o líquido espumoso. ainda ensonada: um capacete de aço na cabeça. quando dizia: «Faz se um aborto. parecia se mais com esperma. como uma bola sobre a língua. E a minha mãe conheceu mulheres que não podiam suportar o cheiro a fumo.» Deixou .» Quando se acorda de manhã com má disposição e se sabe que se têm pela frente quinze horas para matar antes de se tornar a deitar. não queria que Mathieu lhe tocasse. E de repente recordou o rosto de Mathieu. No último Inverno. Tinha vontade de vomitar. nas pontas dos pêlos negros. uma coisa talvez como o desabrochar da Primavera. uma sensação morna nas ancas e nas axilas. Vomitou uma água suja. «E tenho sorte. e o dia começou. a liberdade.inútil! Lá fora era o dia dos vestidos claros. uma piedade activa e desajeitada de homem saudável. Acontecia. anda a tratar de tudo». não?». franzia lhe os lábios. «Não é isto que é repugnante. era como se sentisse um odor permanente. Sentia se irritada porque imaginava uma robusta piedade passeando ao sol.

que olham para a barriga e que também pensam: «É aqui. Está no seu direito. Voltaria para o seu quarto cor de rosa. Não gostava do seu corpo.. Há sete anos — Mathieu tinha passado a noite com ela pela primeira vez —. diante dos seios das mulheres que amamentavam: além do medo e do descontentamento. Tornou a sentar se na cama. Pensou: «Tenho de me arranjar. «Sempre é verdade que me podem amar!» E contemplava a carne lisa e sedosa. seria apenas uma recordação desagradável. apertou devagar e pensou com certa ternura. um pouco acima dos pêlos negros. ela aproximara se do espelho com o mesmo espanto hesitante. Nesta barriga. deixar me iam sossegada. Daniel viria também de vez em quando.. neste momento. Não queria odiar Mathieu. Surpreendeu os seus olhos no espelho e voltou se bruscamente. J E A N P AUL SARTRE O espelho devolvia lhe uma imagem cercada de luzes violáceas. não passa de um fibroma. urna bolinha de sangue estúpida. o arcanjo.. «Aborta se?» Desde a véspera que se sentia perseguida. que nem sequer é ainda um animal e que vão raspar com a ponta de um bisturi. neste momento. Hoje já não era a mesma carne. com uma delicadeza terna. Mas os homens tinham resolvido o contrário. a sofrer dos intestinos e Mathieu viria. Não era um animal.correr um pouco de água para lavar a bacia.. toda a gente tem disso na vida. «E aqui. Mirou o ventre. como uma jovem mãe. Pensou: «É aqui. Há outras. Aliás. Encolhem os ombros. pousou docemente a mão na barriga. Olhava para a barriga e descobria. a sua ampla bacia fecundada. E Daniel.» Não se sentia com coragem. como de costume. em pequena.» Podia entregar se àquela languidez viva. Não olhou para os ombros nem para os seios. Bastava imaginar que era um fibroma. durante algum tempo ainda. levantaria as pernas e a velha far lhe ia uma raspa gem com um instrumento. Não podia . E não se falaria mais nisso. continuaria a ler.» Uma bolinha de sangue esforça se por viver. uma espécie de esperança. e o seu corpo era apenas uma superfície feita para reflectir os jogos estéreis de luz e tremer sob as carícias como a água a ondular ao vento.» Mas o ódio não se esvaiu. Aproximou se. quase um tecido. tirou a camisa com gestos lentos. com uma ingénua precipitação. Iria a casa da velha. Pensou: «Se fosse um animal. uma impressão semelhante à que sentia no Luxemburgo.» Mas essas estão orgulhosas. Disse: «Não quero odiá lo. e quando a amasse redobraria de precauções. Iria a casa da velha. perante a abundância pacífica das banhas. afundar se nela como no seio de uma grande fadiga feliz. Aquele corpo que desabrochava absurdamente era feito para a maternidade. sempre dissemos que em caso de acidente. quatro noites por semana e tratá la ia.

E a velha passar lhe ia as mãos pêlos cabelos. «Pois é. Gostaria de lhe ter dito: «E se o conservássemos?» Ah!. «Se me puser a odiá lo.. uma gravidez é tão sórdida como uma blenorragia. principalmente. Por preguiça. que me restará? Teria. «Quando não se é casada. Estou com uma doença venérea. de expor os seus pequenos casos de consciência. vai andar à procura de direcções. isso sim.» É aqui que vive uma coisa. e Mathieu ignorava aquela intimidade. mas isso era cómodo. Não faziam nada de mal. «Ele que fizesse como Daniel». a culpa é minha. o que mais receava era ter de o desprezar. como em Andrée. pensava: «Se ela tiver algo.» Mas não pôde deixar de passar docemente a mão pela barriga. com um ar de cumplicidade imunda. as suas delicadezas morais.» Mas ela não podia falar. algo que lhe pertencesse de facto e que não fosse obrigada a repartir. «Como lhe poderia ter dito? Nunca me perguntou nada. Às escondidas.» Iria a casa dessa velha. Ele gostava de falar de si. Teria ao menos sobrevivido? «Estou podre. quando a olhava carinhosamente. agora que não tem aulas. Está aborrecido como alguém que partiu um vaso. Mas no fundo tem a consciência tranquila. Estava apavorada. dir mo á.» Durante todo o dia da véspera tinha sentido um nó na garganta. ao menos. não conseguia. era quase uma brincadeira.. E isso é melhor para ele do que arrastar se por aí com aquela fulana. Dentro em breve ultrapassarei a idade do amor. Pensou: «É aqui.. Ele via a às escondidas. tinham combinado de uma vez para sempre que diriam tudo um ao outro. Por outro lado. à noite.saber. vai andar ocupa díssimo.. devia saber que não posso falar de mim. Daniel era tão misterioso. Deve ter prometido a si próprio encher me de amor. se ele tivesse hesitado um segundo. Não quer que essa velha me faça mal. é o que tenho de dizer a mim própria. e chamar lhe ia: «Minha gatinha».» Julgou por momentos que se ia acalmar. ter lho ia dito! Mas ele dissera com o seu ar ingénuo: «Aborta se?» E ela não conseguira falar. Marcelle não achava desagradável ter um pouco da sua vida pessoal. «Porque é que só Daniel me sabe fazer falar? Se me tivesse ajudado um bocadinho.. Ah!. mas a cumplicidade criava entre J E A N P AUL SARTRE ambos um laço ténue e encantador. a certeza de desejar um filho?» Via de longe. «No entanto. nunca lhe disse nada. tinha confiança nela.» Riu. pensou.» Evidentemente. no espelho. Mas tem de andar depressa.. Quanto a Marcelle. tinham um segredo em comum. que não gosto de mim o suficiente para isso.» Só Daniel sabia fazê la interessar se por si própria. Mas logo a seguir sobressaltou se. uma massa sombria e curvada: era um corpo de sultana estéril. infe . para ele.» Crispou as mãos no lençol. Não se atormentava. Tinha uma maneira especial de a interrogar. «Ele estava inquieto quando saiu.

as cores pastosas sobre as telas.. mas mãos de Mathieu. Havia muitas manchas nas paredes: os quadros. Mathieu pensou: «O espírito francês. Depende de mim que existam ou não. «apresentam se. sem falar. Apesar disso arrastou Ivich e mostrou lhe. as paredes. tão inconfessáveis. tapeçarias de veludo bege. seria meu!» Mas aquele desejo secreto. Demasiado livre. aquela obscura afirmação eram tão solitários. que se sentiu repentinamente culpada e teve horror de si própria. por toda a parte. Não os quadros. uma expressão de inteligência fácil. o que dava logo o tom. Agora. Os quadros . Mathieu sentiu se acabrunhado por uma quantidade de responsabili dades cívicas. VI v ia se por cima da porta o emblema da República e as bandeiras tricolores. Era uma luz dourada que dava nos olhos e se fundia em tons de cinzento. e uma arrogância triste de criança. transido pelo espírito da Terceira República. mas em vão. «Os quadros não atraem». de nunca se esquecer da mais francesa das virtudes. Tinha de falar baixo. o bom senso. nos cabelos de Ivich. Tentava interessar se pêlos quadros. com um queixo enorme.DADE DA RAZÃO liz como ela própria. pensava irritado. Mathieu tinha o achado belo. e Mathieu deitou lhe um olhar furtivo. Mathieu estava sobressaltado com a realidade. disforme. com a verdade. Pensou de repente com paixão: «Seria meu. Paredes claras.» Um banho de espírito francês. J E A N P AUL SARTRE uma paisagem bretã com um calvário. Mas Mathieu já não tinha vontade de os contemplar. as telas nas molduras. Via tudo o que era real. um ramo de flores. era preciso escondê los de tanta gente. — Isto é Gauguin — disse.. A seguir entrava se nos grandes salões desertos e mergulhava se numa luz académica que saía de um vitral. fazer uso do espírito crítico com moderação e firmeza.» Isso criara lhe uma responsabilidade suplementar e sentia se culpado. e o silêncio oficial dos salões. duas taitianas de joelhos na areia. auto retrato: Gauguin muito pálido e penteado. Era uma pequena tela quadrada com uma etiqueta. não tocar nos objectos expostos. Sou livre perante eles. um Cristo na cruz. Ivich não dizia nada. sentia se seco. e Mathieu perguntava a si próprio o que pensava ela de tudo aquilo. tudo o que aquela luz clássica podia clarear. ao olhar aquele retrato pela primeira vez. Era aquele sol expurgado. Ivich não respondeu. Uma vida absurda e supérflua como a dela. um grupo de cavaleiros maoris l. Na semana anterior. Viu apenas os cabelos sem cor pelo falso brilho da luz. Mesmo que fosse idiota. Nem sequer via o quadro.

isto não é a sério. Mas estava só. Perdera a dignidade — aquela dignidade humana que Mathieu ainda conservava sem saber o que fazer dela —.tinham se apagado e parecia monstruoso que no fundo de todo aquele bom senso houvesse gente capaz de pintar. — Também é dele. Contemplava Gauguin com os seus olhos redondinhos. foram colocar se com desembaraço diante da tela. uma grande imundície na parede. pensou Mathieu com alegria. tche. — O verdadeiro Gauguin é o Gauguin que decora. Entrou um homem e uma mulher. O corpo tinha se tornado num fruto grande e mole dos trópicos. 1 Indígenas da Nova Zelândia. da R. esse anjo é literário como tudo! J E A N P AUL SARTRE — Não gosto de Gauguin quando pensa — disse o homem. atrás dele. Certamente a luz das exposições nacionais era a que lhes ia melhor. Agarrou lhe no braço e conduziu a até uma poltrona de couro no meio da sala. Era de mais. fazia se passar por Cristo! E aquele anjo ali. seco e elegante no seu fato distinto de flanela cinzenta diante do enorme corpo nu. Condecorada. A solidão e o orgulho tinham lhe devorado o rosto. de expor nas telas objectos inexistentes. fixava neles o olhar duro e falso dos alucinados. nu até à cintura. tinha ao seu lado um corpinho rancoroso. Era uma competência. — Não gosto nada disto! Palavra de honra. «Ela já não está zangada». Mathieu mostrou a Ivich uma grande e sombria mancha de bolor na parede do fundo. Ivich tivera um ataque de riso e olhava o com desespero mordendo os lábios. A mulher era do tipo gazela e devia ter uns quarenta anos. Gauguin. e Mathieu sentia vergonha de si próprio. Por trás dele havia presenças obscuras. — Tche. Tinha uns olhos redondos e cabelos brancos. num céu tempestuoso.) Mal entraram. O homem inclinou se para trás e olhou a tela com uma severidade depreciativa. (N. Devia ser a força do hábito. Ivich deixou se cair na poltrona às gargalhadas. demoníacas formas negras. mas mantinha o orgulho. havia urna relação visível entre o seu aspecto de juventude e a qualidade da luz. Da primeira vez que vira aquela carne obscena e terrível. tche — murmurou meneando a cabeça. Mathieu tinha se comovido. Os cabelos caíam lhe para a . com profundidade. Agora. Ivich teve de se pôr de lado porque impediam que fosse vista. — É verdade — disse com uma voz aflautada —. A mulher pôs se a rir. O homem e a mulher aproximaram se. Mathieu ouviu um soluçar estranho e voltou se. O homem era alto e rosado. mostraram se à vontade.

Pareciam consultar se sobre a atitude que deviam tomar.cara. Estes quadros fizeram me outra vez dor de cabeça. Mathieu pensou: «Continua aborrecida comigo. Ivich parou de rir. detesto o Verão. deixa me. «Ela quer acabar com tudo. — É formidável — disse em voz alta. pensou com angústia. Quando a encontrar. A outra estendia o braço com uma tranquilidade profética. Ivich fez uma careta e levou a mão aos olhos. Calaram se. — Se não fosse público — tentava retomar o tom de alegre familiaridade que lhe era habitual —. Era feiticeira. Atravessaram a rua em silêncio. Mas eu não quero que ela me deixe». — Cuidado com o passeio — disse Mathieu. — Refere se às exposições? — Refiro me. como havíamos de fazer para lá ir? — Não íamos — disse Ivich secamente. Ivich titubeava ligeiramente e continuava a tapar os olhos. — Quer ir se embora? — Preferia. a rua ardia. Deve estar à procura de uma frase cortês de despedida. Parecia que tinham sido surpreendidas quando se metamorfoseavam em coisas. Deram alguns passos. — Não tem nada de especial para fazer? — perguntou. Mathieu seguiu a deitando uma olhadela de pesar para o grande quadro da parede à esquerda.» E de repente foi invadido por uma certeza insuportável. Há pessoas. Não pensa noutra coisa. — Ivich — murmurou. Gostaria de passear ao ar livre. — Não — disse melancólica —. Lá fora.. Desejaria ter lho mostrado. — Isto não devia ser público — disse Ivich de repente. — É como se me picassem os olhos com alfinetes. Não tinham uma expressão completamente viva. E a mulherzinha.. Mathieu teve a impressão de atravessar uma fogueira. Estão bem um para o outro! O homem e a mulher mantinham se impassíveis. sem querer. agora já não é a mesma coisa. Duas mulheres caminhavam descalças num capim cor de rosa. — Há outros quadros na sala — disse Mathieu timidamente. Ivich desviou as mãos e Mathieu viu lhe os olhos pálidos e franzidos. — Quando? . Uma delas tinha um capuz. — Como é que ele dizia? Não gosto de Gauguin quando pensa. Oh! — disse furiosa —. Levantou se.

se se impusesse. J E A N P A U L SARTRE — Visto que quer passear. Abandonava se com uma indolência mal humorada às situações mais desagradáveis e acabava por encontrar nelas uma espécie de descanso. Mathieu teve vontade de limpar a testa. se tinham tido amantes. Mathieu estava contente. vou ter com Boris. tenho de lhe explicar. É por causa do retraio que pergunta isso? — Por causa dos olhos. coisas belas e sensuais que se deviam possuir. Enquanto estivesse com ele. pensei. aborrecia se de ir comigo até casa do Daniel na Rua Montmartre? Podíamos separar nos à porta e deixava me pagar lhe o táxi para voltar ao Lar. ainda que os odiasse. mas viu lhe um olhar desvairado. não os apreciava e não os respeitava. podia atrasar um pouco a eclosão dos pensamentos coléricos e desprezíveis que lhe iam nascer.» Voltou se para ela. «Ela fica. imediatamente. — Não nada. Mathieu encolheu os ombros. era belo — disse Ivich com convicção. — Se quiser. Um dia.— Agora. mas não se atreveu a fazê lo. — Acha que ele era doido? — perguntou bruscamente Ivich. de qualquer coisa. ele era tão feio!» Mathieu sentiu se pessoalmente magoado. Apesar de tudo. Acabou por perguntar. — Naturalmente. impedia a de pensar. Os pintores eram homens como os outros. E havia também aquelas formas negras atrás dele que pareciam conspirar.. não me poderei defender. — Aí está uma ideia que não me teria surgido — disse Mathieu com surpresa. porque o futuro a apavorava. Perguntava se tinham sido simpáticos. Os estudantes da Sorbona. Mas Mathieu não encontrava nada para dizer. Ivich não gostava de deixar os lugares e as pessoas. e as palavras não lhe saíram. Os quadros eram coisas. A — Gauguin? Não sei. Se falasse continuamente.» O que não provava que lhe tivesse perdoado. Era preciso falar. — Sim. Parecia lhe que existiam desde sempre. Acrescentou com pesar: — Era belo. Ivich tinha uma maneira de falar dos mortos ilustres que o chocava um bocado: entre os grandes pintores e os quadros não estabelecia qualquer relação. desajeitadamente: — Apesar de tudo gostou de ver os quadros? Ivich encolheu os ombros. .. Mas não volto para o Lar. Não é possível deixá la partir assim. Mathieu perguntou lhe se gostava das telas de Toulouse Lautrec. «Daqui a uma hora ficará livre e há de julgar me sem apelo. e ela respondeu: «Que horror. graciosos.

Depois Ivich disse abruptamente com um ar estúpido e fechado: — Os Franceses não gostam do que é nobre. não é . O seu ar de orgulho dá lhe um olhar de peixe morto. Mathieu disse. — Que foi. O Sr. — Foi esse Gauguin que fugiu? — perguntou de repente Ivich. — Naturalmente — disse Ivich a rir.» As mulheres também as podia achar belas. de olhar mortiço. Ivich? — disse Mathieu com vivacidade. O pai de Ivich era nobre. Mas não Gauguin. um burguês de nacionalidade francesa que não gostava da nobreza. se é isso que quer dizer. casava com um oficial da guarda. Ivich fez uma cara de desprezo e calou se. De fora. — Foi — disse Mathieu com solicitude.insignificantes e frescos como raparigas. — Quer que lhe conte a história? — Parece me que a conheço: era casado. e sempre com aquela expressão estúpida. Ivich podia os devorar com os olhos à vontade. — Disse por dizer. Ivich desatou a puxar um caracol dos seus cabelos. Ivich estava em Paris. uma certa arrogância. compreendo isso muito bem. Acrescentou. passeava com Mathieu. — Censura me porque não o acho simpático? — Não. carinhosamente: — Eu não queria dizer mal dele. bem sabe que aprecio as pessoas que são orgulhosas. Não aquele homem maduro que fizera quadros de que ela gostava. Era apresentada na Corte. isso deve parecer tão exagerado! Mathieu não respondeu. Porque é a minha impressão. no colégio das raparigas nobres. tinha filhos. de testa curta. Adquirira uma expressão de obstinação insípida. E até Mathieu a tinha achado encantadora uma vez em que ela olhara demoradamente um pupilo do orfanato acompanhado de duas religiosas e dissera com uma espécie de gravidade irrequieta: «Tenho a impressão de que me estou a tornar pederasta. mas pergunto a mim própria porque é que disse isso. — Sim — disse Mathieu no mesmo tom —. Sem a revolução de 1917. Ivich teria sido educada em Moscovo. conciliadora: — Aliás. Serguine A era agora proprietário de uma serração mecânica em Laon. Houve um longo silêncio. — Eu não o acho simpático. alto e belo. Ivich falava de bom grado do temperamento francês quando se encolerizava. — Porque é que disse naturalmente? — Porque tinha a certeza de que ia chamar a isso arrogância. — Tem um ar nobre — disse num tom neutro.

Era o que chamamos um «pintor de domingo». para realizarem o seu ideal na vida. Era saudável.isso? — É! Trabalhava num banco e ao domingo ia para o campo com o cavalete e uma caixa de tintas. «Gostaria de a ver num convés de um navio com os emigrantes». de segunda classe. — Acha que preciso de cabinas de luxo? — perguntou ele. e ela continuou: — Talvez me engane. pensou. — Pintor de domingo? — Sim. Quem sabe lá se um belo dia não partirei para o Taiti? Ivich voltou se para ele. que foi precisamente um funcionário até aos quarenta anos. Aliás. — Sim — disse —. Tinha um ar mau e amedrontado. — Isso surpreender me ia muito — disse com voz glacial. está enganada. corando. Mathieu olhou a em silêncio. — Acha engraçado que ele tenha começado como um pintor de domingo? — perguntou Mathieu com inquietação. Esta história é ainda mais cómica porque veio a propósito de Gauguin. — Não — respondeu secamente Ivich —.» — Enfim — concluiu —. Ele sentiu dificuldade em engolir a saliva. em missão. acho estranho vê la decidir sobre a minha possibilidade de partir. «morreria. — Bem viu que isso leva às maiores loucuras. — Porque não? Talvez não para o Taiti. mas para Nova Iorque. Não o fiz porque era absurdo. . A princípio era isso. Um amador que esborrata telas ao domingo.. mas não com a expressão que Mathieu esperava. da mesma maneira que se pesca à linha. Ivich pôs se a rir. — Não era nele que eu pensava. antigamente. respirando o ar puro. mas não no convés de um navio de emigrantes. Mathieu estremeceu.. compreende porque se pintam paisagens no campo.. Talvez por ser francês. Gostaria de ir para a América! Ivich puxava os caracóis com violência. assustava se com a sua própria ousadia. com outros professores. Por higiene. olhou o de frente. de qualquer maneira. — Então no que é que pensava? — Estava a pensar se também se podia falar em escritores de domingo? Escritores de domingo! Pequenos burgueses que escreviam anualmente uma novela. J E A N P AUL SARTRE — Refere se a mim? — indagou a rir. Estou a vê lo a fazer conferências para estudantes americanos numa universidade.. Tive muitas vezes vontade disso. ou cinco ou seis poemas.

e Mathieu sentiu pela segunda vez ciúme. — Na grande tela do fundo? Estava muito doente naquela altura. não sou um homem perdido. Era exasperante. Em todo o caso basta olhá lo na tela para. — Claro. visto que o disse. — Ivich! Vai dizer me o que é que está a magicar. Ivich sorriu com desprezo. não vejo porque é que isso havia de ser uma qualidade — disse ele —. Faz censuras veladas e. ou então não estou a perceber o que quer dizer. Apoiava se ora num pé ora noutro e evitava o olhar de Mathieu. — Aliás. era isso — disse Mathieu.. Mathieu parou e olhou a. perdido. — Não é verdade? — indagou Mathieu. Calou se. — Estou a falar do quadro em que ele é ainda jovem: parece capaz de tudo. mas não dá um passo para as apanhar. com uma expressão ligeiramente desvairada.. De repente disse: — Tanto se me dá que seja assim ou assado. — É. — Para quê? — Para ver que não deve haver muitos funcionários daquela espécie. Acrescentou rapidamente. — Quem é que lhe disse isso? — É uma impressão. Mathieu lembrou se do rosto pesado e do queixo enorme.. mas quero saber o que pensa exactamente sobre isso. J E A N P A U L SARTRE — O quê? — Nessa história de homem «perdido». recusa se a dar explicações. — Ah!. Tinha ar de querer dizer qualquer coisa. — Ah. Ivich recomeçou a puxar os cabelos. Estende as mãos para as coisas quando julga que estão ao seu alcance. Foi uma palavra que me veio à cabeça. Enrolava um caracol no dedo e puxava o como se o quisesse arrancar. E sempre assim. — Evidentemente! Se é isso que quer dizer. É demasiado cómodo... nada.Ivich desatou a rir ironicamente. — Ainda estamos a falar disso? — É estúpido. olhando para a ponta da sapatos: — Você já está instalado e não mudaria por nada deste mundo. Ele parecia.. — Bem. e Mathieu imaginava que ela ia falar. — Nada. depois.. — Não censuro ninguém — disse ela com indiferença. de má vontade. tinha aceitado perdê la. Olhou indefinidamente. não! — disse Ivich. não se fala mais nisso. Gauguin tinha perdido a dignidade humana.. Ivich parou também. Mas não saía nada. a impressão de que você já tem a vida organizada e com ideias sobre tudo... De vez em quando abria a boca. — Estou a ver — disse. .

... Mas tenho horror — disse com uma violência repentina — que me imponham obrigações para com as coisas de que gosto. — Julgo que não se quer arriscar. Mathieu pensou de repente em Marcelle e teve vergonha.. como imagina. — Ivich! — disse Mathieu. Com Gauguin. Poderia tê los. estou Ihe muito grata. mas não acho bem.. — Não. Ivich? — A propósito de tudo — disse ela com ar vago. — Com efeito — atalhou Mathieu secamente. descobrindo o rosto largo e pálido.. não gostava disso — repetiu Mathieu. sem o olhar: — Todas as semanas chegava com a Semaine à Paris. — Como diz isso sem convicção! — Gostava realmente muito. estabelecia um programa. A — Ah! — disse Ivich triunfante. Não gostava de ir a concertos e exposições? — Gostava. — Não compreendo. — Não — disse em voz baixa —. Acrescentou. — Era para si! — Eu sei — respondeu Ivich com delicadeza —. tudo o que faz é.. explicara lhe os . Levara a aos concertos. Não conseguia dizer outra coisa. que é demasiado inteligente para isso... — Nunca a teria forçado.. sou assim mesmo. — Ah!.. — Acho muito melhor assim. Mathieu sentiu se empalidecer. sem que se percebesse a mais pequena ironia na sua voz: — Consigo sentimo nos em segurança.. como qualquer outro. com indulgência.. Levantou a cabeça e alisou os cabelos para trás.— Quem é que lhe disse isso? — repetiu Mathieu. tão metódico. os olhos brilhavam lhe. a vida devia ser impossível. — A que propósito diz isso.. às exposições. Mathieu estava mais surpreendido do que chocado.. deve estar a pensar nalguma coisa de especial. Ela murmurou. Olhava os lábios finos e moles de Ivich e perguntava a si próprio como os tinha podido beijar... Acrescentou com uma expressão falsa: — Mas como me diz o contrário. — Julgo — disse Ivich com lassidão. — Devia ter dito — continuou desolado. — Eu sei. não há que recear imprevistos. — Se quer dizer que não tenho caprichos. Ivich. Pensava que ela tinha razão. — Acha isso desprezível? — Pelo contrário — respondeu Ivich.. indignado. Mathieu estava aterrado.

O táxi afastou se. Falava por descargo de consciência. Se soubesse como lamento. Mas vinha lhe outra do fundo da garganta. Pensava em Gauguin. Imaginava que ia parar a cada palavra.. Caminharam lado a lado. Mas você nunca dizia nada. e Mathieu continuou com esforço: — Há também os museus. silenciosos. — Quer ir se embora? (Mathieu estava quase aliviado. Mathieu pensou: «E o Sumatra? Deverei lá ir apesar de tudo?» Mas não tinha vontade de a tornar a ver. mal me podia conter de raiva e vontade de os levar. E sentia o a meu lado. Estavam inundados de luz e odiavam se.. baralham se me na cabeça. Acrescentou: — Vou tentar mudar. Sabia que a sua causa estava perdida. Ivich não respondeu. — Não se pode mudar — disse. — Ainda é longe? — Um quarto de hora. e pôs se a pensar em Marcelle. Agora.. Daniel barbeava se diante do espelho do .quadros. Ivich conservava a sua expressão dura. — Esta manhã? Nunca mais pensei nisso. angustiado. e nem sequer lhes podia tocar. Adoptara um tom de bom senso. e durante todo aquele tempo ela odiava o. pensou. Depois uma porta bateu dentro dele. Ela levou a mão à testa e apertou as fontes com os dedos. Ivich sacudiu a cabeça. Foram os quadros. Mathieu chamou um táxi. Mas ao mesmo tempo. com o olhar. Todas as vezes. «Sou repugnante». tranquilo e reverente. Uma cólera desesperada ardia lhe no rosto. Falava com repugnância. — Não voltará a acontecer. Aliás.) Já os confunde. Pensamos agradar às pessoas. erguia lhe a língua e saía. — Ivich! Peco lhe desculpa do que se passou esta manhã. E sempre a mesma coisa. Está cansada? — Muito. Mathieu sentiu de repente um nó na garganta.) — Acho que é melhor. vn N u até à cintura. os concertos. Desculpe.. Calaram se. e Mathieu detestou a francamente. — Até logo — disse Ivich sem o olhar. (Bateu o pé e olhou Mathieu com desespero. tinha pressa de ficar sozinho. se não os posso ter. — Até logo — disse ela. aos arranques. Você ia a essas exposições como se fosse à missa. — Que me importam os quadros — disse Ivich sem o ouvir —. Mathieu via se com os olhos de Ivich e sentia horror por si próprio. trancou se. e durante alguns instantes Mathieu acompanhou o. nem sei como aconteceu.

de maneira a não se cortar. Para além disso.» Apareceria. Não seria má ideia desfigurar este rosto de que elas tanto gostavam. A coisa já lá estava. colocava flores diante da porta de Daniel. Pensou: «Ela gosta da minha cara. tinha a certeza. Tarde de mais. à luz da lâmpada eléctrica. «Um rosto escalavrado não deixa de ser um rosto. ainda me aborreceria mais depressa. Todas as manhãs. irritado. uma manchazinha vermelha com um ponto branco. Doíam Ihe os olhos porque havia dormido muito mal e tinha uma espinha sob o lábio. mas o meio dia já estava no quarto. A porta do quarto de dormir estava entreaberta para ouvir melhor. em plena puberdade. Só assim a conseguirei apanhar. Era preciso vivê la. eram os ruídos da rua. de faces azuladas. no ruído leve da navalha. como um olho. Inclinou se ligeiramente e com um golpe hábil de navalha decapitou a espinha. sempre significa alguma coisa.» Marcelle alcunhara o de querido arcanjo» e agora tinha de suportar os olhares daquela femeazinha. simplesmente. cada vez que bebia. Da cara e dos ombros. Era a filha da porteira. paciência. Tinha também aquelas olheiras roxas e pensou: «Estou a dar cabo de mim. Daniel descobriu no capacho a seus pés um ramo de cravos: «Fêmea imunda». porque tem imaginação. Dizia para si mesmo: «Desta vez não me escapa. quase imperceptível. fixo e redondo. «Tenho de ficar à espreita no vestíbulo uma manhã inteira. ao meio dia. com o coração aos saltos. nem mesmo aproximá la para que acabasse mais depressa. Daniel saltou com a navalha na mão.» Aproximou se do espelho e . «Imundas». Pensou com uma espécie de mal estar: «E isso que a excita. Um rosto de arcanjo.» Tornou para o quarto e voltou a barbear se. Não se podia tentar afastá la. Aquilo já durava há quinze dias.» Tomava cuidado ao passar com a navalha à volta da espi J E A N P AUL SARTRE nhã. sustendo a respiração. Devia ter se escondido na reentrância de um dos patamares e aguardava.» Foi como um leve roçar. pensou Daniel. disse em voz alta. Ficaria um pequeno tufo de pêlos pretos. Tinham acabado de dar as dez horas. Ao mesmo tempo escutava. a criança tinha o pressentido e fugira. Abriu bruscamente a porta da entrada. nu da cintura para cima.» Olhou a espinha vermelha e febril. nada a não ser uma tarde vaga que se retorcia como um verme. e lançar lhe ia um olhar severo. Bastava ver aqueles olhos de peixe frito quando lhe dizia bom dia. Com um pontapé atirou os cravos escada abaixo. ao voltar da escola. Ficará chocada quando vir que tenho pêlos no peito. «Hoje de manhã. Via no espelho o rosto moreno e nobre.» Não era um simples projecto. tudo estará acabado.armário. Agora era assim. Daniel apurou o ouvido: «Não. Daniel tinha medo dos arranhões.

Enfiou uma camisa de seda creme e umas calças de flanela cinzenta. Daniel deixou se flutuar no calor estagnante. «ah. Daniel teve de ir buscá la à cozinha. Daniel pensou nos cães de Constantinopla. ah!» Ela enrolava se de um lado para o outro com movimentos graciosos de cabeça. beatificado. Não se decidira a voltar para casa antes das três horas porque era terrível pôr a cabeça no travesseiro e deixar se afundar nas trevas imaginando que ia haver um amanhã. Tinha de perder um quilo. Quando ela o viu. gosto de ser belo. Daniel não gostava dos cães. pensou ele. de olhos semicerrados. Beliscou as ancas. A seguir. aberto no meio do compartimento. eufórico. Daniel roçou lhe o dedo pelo pescoço rechonchudo. Disse: «Aliás. «Popeia» nunca vinha quando a chamavam. abafada. e desviou os olhos. J E A N P A U L SARTRE dava lhe pequeninas patadas na manga.» Parecia cansado. O relógio de Daniel marcava dez horas e vinte e cinco. O vento do mar alto trazia por vezes os uivos deles aos ouvidos dos marinheiros. numa noite de Inverno. — «Popeia». «Cipião» apareceu primeiro. escolheu com atenção a gravata: a verde às listas porque estava abatido. com uma barbinha. pôs se a acariciar lhe o focinho.contemplou se sem prazer. Não eram cães que deviam lá ter posto. uma mesa. Quatro paredes nuas. Pareceu espantada. uma cadeira. Era branco e ruivo. depois olhou em volta. Daniel não tinha recordações. fechado em sacos e abandonado numa ilha deserta. um armário. Daniel tinha a encontrado no Luxemburgo. «espera um pouco. Comeram se uns aos outros. espreguiçando se. pouco antes do encerramento do jardim. à noite. com ternura. Sete uísques na véspera. sozinho no Johnny's. Era uma gata de telhado. «Malvina» veio a seguir. uma cama. Viu o grande cesto de vime. e . Depois abriu a janela. «Cipião» ficou lá sem se mexer. Logo que percebeu que ele a estava a ver. Entreabriu a porta da cozinha e assobiou. Daniel pegou lhe pelo pescoço e meteu o no cesto. «Espera um pouco». O gato. com uma grande cicatriz no flanco direito. até ao meio dia. predestinada. Durante um segundo. virou se de costas então. estendeu as patas e ele fez lhe cócegas nas tetas escondidas sob o pêlo negro. Daniel gostava menos dela porque era comediante e servil. pulou para o fogão a gás. pôs se a ronronar e a fazer gracinhas. «Popeia» — chamou Daniel. Olhou duramente Daniel e bocejou com ferocidade. duas poltronas. Dir se ia um quarto de hotel. mas encolheu se e depois resolveu ronronar. e a manhã entrou no quarto. Era hoje. tinham nos encurralado numa rua. «Ah». Coçava a cabeça contra o batente da porta. uma manhã pesada. disse com uma voz cantante de comediante. Daniel ajoelhou se e. Gostava do seu quarto porque era impessoal e não o atraía.» Pegou Ihe pelas patas e pô la ao lado de «Cipião». assanhando se.

simplesmente gatos. teve uma espécie de enjoo. ronronando. mas olhou o bem de frente. seria cómico andar ao sol. «Bom. como se fossem cócegas. porque ele era muito cerimonioso e bem educado! . «É longe.» Riu se. insípido. Dir se ia um canto de cigarras. «Presos. e sorriu lhe sem a olhar. estúpidos. depois. Tinha a impressão de que estava a pregar uma boa partida a alguém. Levantou se e olhou para o cesto com uma satisfação irónica. Era voluntariosa e má. Agarrou no novelo de fio e guardou o no bolso das calças. Passou lhe o dedo no focinho e ela mordeu o com raiva e divertida ao mesmo tempo. Na escada já se sentia indiferente e seco. «Ah!. mas passou lhe logo. Sorriu e escolheu o casaco de tweed arroxeado que já não podia suportar desde Maio. Teve de a empurrar pelo rabo. JEAN PAUL SARTRE apenas gatos. Daniel gostava dela.» Queria vestir o casaco de flanela. pequenos mamíferos vaidosos e estúpidos e que morriam de medo — nada de extraordinário. Daniel contemplou os com um alívio maldoso: «Um bom guisado. uma insipidez de carne crua. Pegou no cesto pela asa e pensou: «Como são pesados estes infelizes animais. corado e a suar com aquele fardo nos braços. o vime gemeu sob as garras de «Popeia». mas não tinha o hábito de ceder facilmente aos próprios desejos e. é assim?» Agarrou a pela nuca e pêlos rins e enfiou a à força. «Era isto que eu gostava tanto de fazer!» Bastara lhe fechar os três ídolos dentro de um cesto de vime e tinham voltado a ser gatos apenas.» Nas costas da mão havia três arranhões e no seu íntimo havia também uma comichão estranha que ameaçava envenená lo.» Mas sentiu que uma intolerável A IDADE DA RAZÃO angústia o invadia e teve de desviar o olhar. uma dorzinha seca. Parecia escandalizada. vou ter calor. A gata teve um momento de estupor e Daniel aproveitou o para baixar a tampa e fechá la. Os outros dois tinham ficado um ao lado do outro. o seu terror raivoso. e Daniel pensou. Cómico e um bocado ridículo. Quando atravessou a porta de entrada. bom.» Pensava nas tetas rosadas de «Malvina». Gostava de Daniel.» Imaginava a sua posição humilhante e grotesca. bom. «Gatos. mordia muitas vezes «Malvina».trouxera a. A porteira estava à porta da rua e sorriu lhe. como de costume: «É raro um gato olhar nos de frente. minha rainha». Então beliscou lhe o pescoço e ela ergueu uma cabecinha obstinada. e ela voltou se raivosa e deu lhe uma unhada. Tomou a nos braços e ela esticava a cabeça para trás. baixando as orelhas e curvando se toda. «Uf!» A mão ardia lhe um pouco. Mas para fazer «Popeia» entrar no cesto foi um castigo. Não ronronava («Popeia» nunca ronronava). Hesitou.

— Veja lá — disse a porteira a rir —. assustada. aquela horrível luz quente e aguda. dir se ia um chimpanzé. tão bonitos.» O 72 levá lo ia a Charenton. não há nada como uma manhã de bruma. mas a sombra permaneceu atarracada e disforme. Sorriu gravemente e deixou a. disse. Mas o seu apartamento vai ficar vazio. «Velha toupeira. traiu se. gravemente: — Sabe que os gatos podem ficar tuberculosos? — Tuberculosos? — disse a porteira. Acrescentou. com uma espécie de prazer. Sentia se interiormente tão bom. De repente ouvi a campainha. — Que cesto tão grande! — São os meus gatos. Senhora Dupuy — disse Daniel. Não via nada. — Voltei tarde ontem à noite e vi luz por baixo da sua porta. «Dr. Eram três horas mais ou menos. «não faltava mais nada. Hyde até à paragem do 72. Daniel contemplou se a si próprio com nojo. estava tão exausta que adormeci sem apagar a luz. de planar como um juiz abstracto acima de um formigar impuro. Sereno.— Levantou se muito cedo. De repente viu a própria sombra grotesca e disforme.» A água do Sena era particularmente escura e suja naquele lugar. — Ah!. fechado e no fundo havia uma pobre vítima que pedia clemência. corno tinha previsto. «aí está o Sr. Sereno» (era o único inquilino que faltava entrar). Daniel conhecia um sítio solitário ao pé do Sena. «É estranho que se possa odiar a si mesmo como se fora outra pessoa!» Mas não era verdade. tinha a impressão de se destacar de si mesmo. trate bem deles. por mais que fizesse. quando ia lá acima arrumar. não? — Mais ou menos. Sr. Daniel sorriu. — Receava que estivesse doente. nada de táxi. Era rígido. «Não vou desmaiar assim sem mais nem menos». com manchas esverdeadas de óleo por causa das fábricas de Vitry. e a luz ofuscou o. Não. O veterinário acha que precisam de ar. era muito alto. Quando se bebe na véspera. só havia um Daniel. faria melhor se vigiasse a filha. com a sombra da prisão de vime que lhe balançava no braço. — Muito. vou levá los para a casa da minha irmã em Meudon. com uma garra de ferro a apertar lhe o crânio. — Estão doentes? Coitadinhos! — Não. Empertigou se. A um quilómetro dali. Serei Mr. Eu já me tinha habituado a vê los. Pensou: «O homem é assim». «Ah!». que isso não lhe parecia natural. Quando se desprezava. Apaguei a logo a seguir. tão tranquilo. minha senhora — respondeu Daniel respeitosamente. Hyde. Jekyll e Mr.» Atravessou o portão. O senhor deve estar muito aborrecido. nadava na luz. Devia tratá los mal na minha ausência: bem a proibi de lhes tocar. e . Fazia Ihe mal aos olhos. tenho tempo. pensei.

o bar estava vazio.. «Que é que nunca mais acaba?» Ouviu se um miado e um ruído de garras a raspar. eu gosto de uísques bem doseados. Ao levantá lo. Quando empurrou a porta. — São gatos — disse Daniel. Eu não sou. Mas não tinha vontade de levantar a tampa. tanto lhe fazia. «Ah!. Bebeu o vodka e ficou um momento a sonhar. Aliás. Espalhava se em poeira ácida sobre a língua e acabava num gosto de aço. com um fogo de artifício na boca. não o suportaria. pôs vinte francos na mesa e pegou no cesto. E se eu levantasse a tampa?» Mas Daniel já tinha saído. Sangue.» —.» Tinha de fazer apenas um pequeno desvio e ficaria no Championnet. Agora só havia na prisão um pavor maciço e indefinido. «Merda!». Este dá boas gorjetas. Pensava: «Isto nunca mais acaba. claras e leves como fumo. — Vai com certeza querer um uísque bem doseado — afirmou o barman. são demasiados familiares. O silêncio repousante. o terror transformar se ia em gatos. pensou. Mas definem as pessoas num instante. No fim da rua havia um muro azul. e de repente apercebeu se de que via casas. como sempre. angustiado. A obscuridade era agradável. não sabia se lhe causava prazer ou mal estar. Nunca mais porei os pés neste buraco. o gin fizz sabe a limonada purgativa. Desceu do banco. Aliás. «Que fossem passear com aquela mania de catalogar os indivíduos. depois sentou se num banco do bar. um gin fizz! O barman serviu o. na frente. viu no chão uma manchazinha vermelha.. O empregado limpava as mesas de madeira avermelhada em forma de tonel. Aquele terror que sentia tão próximo da mão. uma cegueira lúcida e húmida: os olhos ardiam lhe como fogo.. cheques sem cobertura. «É sinistro ver com clareza»..» Mas eram pensamentos superficiais. Isto não me faz nada. arranhavam se lá dentro. «Que violenta dor de cabeça!» Pousou o cesto. secamente. nunca se é nada. O cesto mexeu se sozinho no seu braço. O barman assustou se. pensou Daniel. «Tanto melhor. — Não — disse secamente Daniel. se abrisse. Assim é que imaginava o Inferno: um olhar penetrante que atravessaria tudo. l DADE DA RAZÃO e Daniel não poderia suportar isso. como guarda chuvas ou máquinas de costura. «Que estarão fazendo aqui dentro?». pensou. Devia estar magoado.bruscamente aquilo apanhava o e sentia se mergulhar em si próprio. sem fazer objecções. «vou beber um copo. aquele tem sempre uma boa para contar. Rua Tailledouce. «Há no entanto qualquer coisa que os .» — Um vodka com pimenta num balão — pediu. a cem passos. iria até ao fim do mundo — até ao fim de si próprio. e a cegueira recomeçava.

Nunca se pode ser directamente atingido. Quando se arma em trágico. Uma mulher sentou se diante dele.» Encolheu os ombros. perto do lampião e que se olhava e se via chegar. Tonéis. O cesto miou. e a ilusão dissipou se. — Seis bilhetes — disse o cobrador. docemente. pensou: «E um acto gratuito. A menina falou com uma voz convincente e encantadora. os gatos. Chatear se através do mal feito aos outros. Via se chegar e era apenas um simples olhar. O autocarro surgiu de repente. — Não posso mostrá los. A água do Sena. ele próprio. Mais cheques sem cobertura. insossa e lodosa. pensou Daniel.» A água cor de café com leite com reflexos roxos. e Daniel estremeceu como se tivesse sido surpreendido em flagrante delito de assassínio. E sabes porquê? . encheu se de uma água lodosa e insossa. «A água do Sena vai enlouquecê los. é porque se leva tudo a sério. com uma vozinha clara.» Parou. Daniel reparou que estava a alguns passos à frente do seu corpo.. — São. A — Achas que sim? Escuta. — São gatos — disse Daniel. Paciência. sacos de couro. Daniel. — Tchiu — disse a mãe —. a doença tornou os maus. nada mais do que um invisível arrancar de si próprio para o futuro. eu vou afogar estes gatos. E nunca. Daniel fez sinal e subiu para a primeira classe. digna e rígida. sem passado. Não queria armar em trágico. Mas a montra de uma tinturaria reflectiu lhe a imagem. pôs o cesto no chão. nunca Daniel levava as coisas a sério. uma menina. coxeando ligeiramente por causa do peso que levava. x — Comigo não serão maus. Foi invadido por um imenso nojo. querida — disse Daniel em voz baixa e rapidamente —. estava farto. — São seus? — indagou a menina. — Até ao fim da linha. Daniel já não teria aquele cheiro familiar. prisões de vime: prisões.» Dentro em breve. Ao lado. — Porque é que os carrega num cesto? — Porque estão doentes — disse Daniel. Sem cheiro e sem sombra.. A menina olhou para o cesto com curiosidade: «Mosquinha imunda». vai encher o cesto e eles vão ferir se com as garras. — Que é? — perguntou a menina. deambularia sem cheiro. sozinho entre os homens que não têm sentidos suficientemente apurados para essa percepção. «Há piores. Pensou novamente em Constantinopla: fechavam as mulheres J E A N P AUL SARTRE infiéis dentro de sacos com gatos hidrófobos e atiravam nos ao Bósforo. deixa o senhor sossegado. — Posso vê los? — Jeannine — disse a mãe —. estás a abusar. .» Daniel pensou: «Para eles sou um cheiro. a suar.sossega: o meu cheiro.

Carregava um balde furado de que a água se escapava gota a gota. Formara se um grupo de operários em volta de uma carrocinha. satisfeito. Vai ser preciso arranjar um olho de vidro para ela. «Ela odeia me». Tinha os olhos fixos em frente. o senhor estava a brincar. nem ódio. querida. como és irritante e demorada! Pegou na mão da filha e arrastou a. Ah!. Daniel olhou a tranquilamente. Levantou se e desceu. espantada. Daniel apressou o passo e voltou numa rua suja que conduzia ao Sena. Acordou de repente. — Vem. Olhou momentaneamente. — É aqui. com pêlos negros sobre as falanges. è preciso que penses. quando descansavam? Aquela deixara se cair com todo o seu peso dentro de si mesma e fundia se. O cesto desatara a miar ininterruptamente e Daniel quase corria. — Estás a ver! Bem te disse que estivesses sossegada. dois dias antes. a menina voltou se e deitou um olhar de terror para o cesto. não queres pensar nos gatos? Pois bem. para o cesto e foi esconder se nas saias da mãe. deitando um olhar indignado sobre Daniel. Algumas pessoas passaram a rir diante de Daniel. ganhara dez mil francos na Bolsa. Via desfilarem pêlos vidros as casas cinzentas. pensou. Somente a massa espessa do sono. Nada havia naquela cabeça que se assemelhasse a uma fuga desesperada diante de si. «Uma mãe indignada! Está à procura do que poderá odiar em mim. nem mesmo uma ligeira ondulação. Antes de descer. Daniel sobressaltou se. pensou em Marcelle. Como faziam essas pessoas assim. que não falasses à toa. — Estás a ver — disse a senhora. Pô las sobre os joelhos: «Olhe! olhe!» Mas a mulher desistira. as mulheres olharam no surpreendidas. Não é o meu rosto. Não é nada.Porque ainda hoje de manhã eles arranharam horrivelmente o rosto de uma linda menina como tu. O carro estava vazio. é aqui — disse. Daniel mudava de mão e limpava o suor da testa. Seria cómodo de mais!» Daniel reviu os olhos dourados de «Popeia» e pensou muito depressa noutras coisas.» Ninguém detestava o rosto de Daniel. O autocarro partiu e mais adiante parou. Era uma praça movimentada e cheia de bares. Talvez as mãos. De ambos os lados havia tonéis e entrepostos. Descansava. nem curiosidade. nenhum movimento. — Oh! — disse a menina. «Nem a minha roupa. ligeiramente gordas. que é nova e macia. «É preciso não pensar nos gatos. — Término — gritou o cobrador. O balde era pesado. sabia que a mulher o estava a olhar. Daniel contemplou a com uma espécie de avidez.» As mãos eram curtas e fortes. cheia de terror. devia vê la . com um ar indefinido. Cada miado era uma gota. que me veio trazer flores. e uma expressão animada veio pousar lhe no rosto.

e Daniel. lá longe. pois Daniel já não era ninguém. O cesto flutuaria talvez durante uns décimos de segundo e a seguir uma força brutal arrastá lo ia para o fundo. Operários saíram de um entreposto. O Sena estava amarelo sob o céu azul. Manchou o casaco de tweed e ficou a olhar a mancha escura. Que era apenas . Os ponteiros do seu relógio marcavam onze e vinte e cinco.. Daniel pensou que estava com calor. sob um céu de chumbo. Se Mathieu visse as coisas como são. Eles não têm coragem de confessar que não se amam. Os remoinhos propagar se iam por baixo da água até à isca. Mas não quer. Os gatos miaram como se tivessem sido escaldados. Daniel estava sentado ao sol e doíam lhe as têmporas. à esquerda. Que estranha engrenagem! Daniel calculou que teria de pegar no cesto com a mão direita e na pedra com a esquerda. Era ali. e Daniel sentiu que perdia a cabeça.. deu vários nós e tornou a pôr a pedra no chão. Largaria tudo ao mesmo tempo.. era o seu dia. sentou se no chão junto a uma argola de ferro.. Ouviu se um grande barulho lá dentro e a seguir os gatos deixaram de se ouvir. Sem se levantar. duro e seco. Daniel ficou um momento imóvel com um estranho estremecimento atrás das orelhas.» Ergueu se levemente sobre as mãos e olhou em volta: à direita a margem estava deserta. pegou com a mão esquerda numa pedra. De repente sentiu que estava sozinho. Quando não se tem coragem de se matar de uma só vez... Sentia se perdido numa nuvem vermelha. mas não quis tirá lo. «Arcanjo!» Daniel riu de troça: desprezava profundamente Marcelle. sentia se fraco e teve de se apoiar ao barril. Barcaças negras carregadas de tonéis estavam atracadas ao cais na outra margem. um pescador recortado a preto na luz. e Daniel recomeçou a andar. amaldiçoou o pesado casaco.». Vai pensar que é um peixe. Riu e tirou o lenço para enxugar o suor da testa. Às onze horas e vinte e nove levantou se. enrolou o resto na pedra. J E A N P A U L SARTRE «Às onze e trinta.nessa noite. amarrou uma das pontas do fio à asa do cesto. tem de se fazer aos bocados. teria de tomar uma resolução. Desceu por uma escada de pedra até à beira do rio. e com o canivete cortou um pedaço de fio. Olhou para a água ondulosa e inchada de fluorescências opalinas. Colocou o cesto no chão e deu lhe um violento pontapé. Pensou com orgulho em Mathieu: «Eu é que sou livre». pensou com ironia. Dentro dele qualquer coisa palpitava que pedia clemência. Ia aproximar se da água e dizer: «Adeus ao que mais amo no mundo. entre um barril de alcatrão e um monte de paralelepípedos. Depois tirou do bolso o novelo. disse. Não quer perder se. deu com ele a gemer. Daniel desdobrava se.» Era preciso prolongar aquele momento extraordinário. Mas era um orgulho impessoal. «Ele é normal.

— Sobes comigo? — Sim. Sou eu. Encontrou Mathieu no patamar do terceiro. Mathieu entrou no quarto de Daniel e sentou se numa poltrona. tinha demasiada vergonha para falar diante de si. 22 — disse Daniel. Quando chegou ao último degrau atreveu se a dizer a si próprio as primeiras palavras: «Que seria aquela gota de sangue?» Mas não ousou abrir o cesto. pensou. baixou se e cortou o fio. subindo a escada. «Não está». — Entra — disse. aquele de ombros largos. constatou sem alegria que estava cheia de dinheiro. Depois a vergonha voltou mais forte e começou a ver se: era intolerável. — Quer ter a bondade de pôr este cesto aí à frente? Deixou se embalar pelo movimento do táxi. sim. minha senhora — disse Daniel —. perto de alguém que o desprezasse. «Vem a boa hora o desgraçado. Tinha vontade de o ajudar. pensou. — Não compreendi nada das histórias da porteira. «E Mathieu».» Ela olhou o cesto e exclamou: — Mas o senhor trouxe os de volta! — Que quer. quero pedir te um pequeno favor. Disse lhe que o senhor não estava.» Sentia se contente por odiar outra pessoa. Sereno? — disse a porteira. Pegou no canivete. Era como se passasse. «Parece estar em dificuldade». — Rua Montmar tre.» — De volta. Sr. Pôs se a caminhar. — Já não esperava ver te. Subiram. Espantava se por sentir em si um certo entusiasmo. Em silêncio: mesmo dentro dele havia silêncio. coxeando.» Mas no fundo dele havia um estranho sorriso: porque tinha salvado «Popeia». Daniel deu lhe uma olhadela e reparou que estava com uma cara terrosa. voltando a cara. o silêncio. — Fui levar os meus gatos a passear — disse Daniel. Quando tirou a carteira para pagar. «Sou eu. Isto posso eu fazer. Um covarde. Daniel pôs a chave na fechadura e empurrou a porta. «Nem de uma vez só nem aos poucos». O táxi parou. pensou amargamente. Um tipo que gostava dos seus gatos e que não os queria deitar à água. Dentro dele continuava o deserto. O imundo. «pois então vou deixar lhe um bilhete debaixo da porta. — Táxi — gritou. Reconciliaste te com a tua irmã? . Disse me que foste levar os gatos à casa da tua irmã. talvez seja condenável. Tocou lhe de leve no ombro e retirou imediatamente a mão. — Olá! — disse Mathieu. Pegou no cesto e voltou a subir a escada. Um amigo seu.um solitário. — Há justamente alguém que acaba de subir. foi o que ele me respondeu. mas não pude separar me deles. «Ganhar dinheiro. Não chegava sequer a desprezar se.

Um bom aborrecimento não lhe faria mal. A gata debatia se fracamente. mas não parecia muito confiante. — Foi certamente «Popeia». Perderia. aniquilada. atentamente. — Desculpa. Tinha se levantado e olhava para a gata. Abrir o cesto o mais depressa possível: «Que seria aquela gota de sangue?» Ajoelhou se. sem dizer palavra. J E A N P A U L SARTRE — Ah! sim. viu que Mathieu olhava sem ver. acharia natural. «Mal vina» não se mexia. meu caro — disse Daniel com a sua melhor voz —. para o curativo. com um olhar duro. . uma inocente mentira — disse. Não te estou a aborrecer muito? — acrescentou com um sorriso amável. Mathieu tinha o hábito irritante de tratar Daniel como um mitó mano e pretendia não indagar os motivos que induziam Daniel a mentir. «Está ferida». Mathieu acompanhou o com o olhar. ele é normal. Desculpa. «Acha me ridículo». conservava a sua dignidade. — Sê bonita — dizia Daniel —. o seu optimismo.» Sentia se separado dele por um abismo. Daniel pôs lhe o dedo debaixo do queixo e levantou lhe a cabeça. Recebera uma unhada nas narinas e tinha o olho esquerdo fechado. «Popeia» fugiu do cesto assanhada e correu para a cozinha. Se fosse um miúdo. Pensava em abrir o fecho. «Cipião» saiu por sua vez. Efectivamente olhou para o cesto com certa curiosidade e calou se. infecta facilmente. Dirigiu se com passos medidos até ao armário. o seu ar de equilíbrio. é só um momento.Qualquer coisa arrefeceu subitamente em Daniel. Jazia no fundo do cesto. Sobre o focinho havia uma crosta escura e em torno da crosta os pêlos estavam duros e viscosos. porém já não sangrava. — Que foi? — perguntou Mathieu. Sabia que Mathieu não insistiria. «porque me preocupo com uma gata. — Dás licença? Daniel só tinha um desejo. Daniel pôs se a lavar o focinho de «Malvina». «Que diria se soubesse de onde venho?» Fixou sem simpatia os olhos sérios e penetrantes do amigo: «É normal. Riu. Foi buscar uma garrafa de arnica e um pacote de algodão ao armário. Pensava que assim afastava terrivelmente Mathieu e que isso lhe dava alento.» — «Malvina» foi ferida — explicou. à casa da minha irmã. depois passou a mão pela testa com um ar de velho. quando levantou a cabeça. Mas. sê boazinha. pensou Daniel. só um minuto.» E avançou o rosto de maneira a ficar inteiramente ao alcance dos gatos. pensou Daniel. pensando: «Vão saltar me em cima. bem sabes. durante algum tempo. vamos. olhou em volta com uma expressão matreira e escondeu se debaixo da cama. Pronto. É insuportável. Tinha de tratar daquele animal.

Depois apressou se em voltar lhe as costas. — Sim — disse Daniel com solicitude. Não me conhece nada. não me faças esses olhos de veludo! «Olhos de veludo!» A superioridade de Mathieu era odiosa. Mathieu continuava a falar gravemente: — O pior é que isso a humilha. pensou. mas diverte se em pôr uma etiqueta como se eu fosse uma coisa. «Não sei se terei coragem de lhe tocar na mão. sabes. Pôs se a pensar na morte da mãe. — Grávida?! J E A N P AUL SARTRE A surpresa de Daniel foi curta. evidentemente. não quero deixá la. parecia em êxtase. mas teve de lutar contra uma grande vontade de rir.» Riu. Tinha medo de rir. Perguntou: — Já lho disseste? — Não. dos meus olhos de veludo. sabes? — «Popeia»? É uma peste — disse Mathieu distraído. dava sempre resultado nessas ocasiões. A gata cerrava os olhos. Podes dizer o que quiseres.Mathieu estremeceu. isso mataria o amor. — Pronto — disse levantando se —. mas logo desatou a rir. Tinha agora pressa em ver Marcelle. Deu lhe uma palmadinha no dorso. E a coisa restringiu se a dois ou três soluços convulsivos. ora. amanhã estarás boa. Fala das minhas mentiras. Mas a outra deu lhe uma bela unhada. e enxugou cuidadosamente a cabeça de «Malvina». — Não? Daniel estava profundamente surpreendido e divertido. — Ora. \ — Então? ^ A Daniel divertia se muito. .. Daniel encarou o e observou sóbrio: — Compreendo.. — Porquê evidentemente? Terás de lho dizer um dia. «Há desporto esta noite».» — Estou muito chateado — disse Mathieu com uma expressão objectiva. com cordialidade. mas é uma espécie de valquíria. Não a viste muitas vezes. Uma valquíria fechada num quarto — acrescentou sem maldade. — Eu já não lhe tenho amor — disse Mathieu. — Para ela é uma diminuição terrível. — E para ti não é nada agradável. Vais. «Pensa que me conhece. Então era isso! É verdade: «Urina sangue todos os meses lunares e é fértil como uma raia ainda por cima!» Pensou com repugnância que ia vê la naquela noite. E bruscamente: — Marcelle está grávida. mas Daniel sabia que ela sofria. Em mim. com o pretexto de guardar a garrafa de arnica no armário. — Não. ela deve inspirar te horror agora.

— Preferes sacrificar te — disse Daniel com indiferença.. Daniel sentou se na poltrona. — Bem — disse Mathieu aparentando bom humor —. então não podes . — Que é que eu sacrifico? Irei ao liceu. isso chateia me muitíssimo. porque não desejava convencer. Bem sabes o que é a Bolsa. Aliás. é simples. É exactamente o que faço! Acrescentou com uma amargura a que Daniel não estava habituado: — Sou um escritor de domingo. Mathieu fizera lhe muitas vezes favores antigamente. — Tenho uma direcção. mesmo na aflição. — Disseste me há dias que ias fazer um bom negócio. estou cheio de dívidas. odiava o. Quando Mathieu armava em quaker. em frente Mathieu. eu quero lhe bem e ficaria aborrecido se não a voltasse a ver. Daniel olhou o rosto terroso de Mathieu e pensou: «Este tipo está realmente aborrecido.. Mas quando viu que Mathieu não o acreditava. ficou colérico: «Que vá à merda! Acha se profundo. acredita. — E vais continuar a vê la às escondidas e a. Não é culpa dela que eu já não a ame. Porque é que havia de ajudá lo? Que vá procurar os que são como ele. verei Marcelle. meu caro. Não pusera muita convicção na voz. tirar de dentro as cinco notas. o bom negócio foi um malogro. — Pois. J E A N P AUL SARTRE — Eu dar te ei metade no fim do mês — disse Mathieu. — Não quero que ela se aborreça. escreverei um conto de dois em dois anos. Bastava lhe abrir a carteira recheada.» Depois pensou nos gatos e sentiu se sem piedade. Só que é mais ou menos como uma amizade familiar. Mathieu parecia obstinado.. inflexível. Aliás. quando receber os meus vencimentos de Agosto e Setembro. — Mas é preciso que tu me ajudes — disse Mathieu.— Então nada. — E a outra metade a 14 de Julho.» O que lhe parecia insuportável era aquele ar normal e sério que Mathieu nunca perdia.. — Cinco mil francos! — disse com voz desolada —. — A culpa é tua? — É. Pior para mim. — Que tem isso? — Pois se continuares muito tempo com esse jogo. mas não os tenho.. acabarás por detestá la. Empresta me cinco mil francos. mas não tenho dinheiro. imagina que lê em mim. — Cinco mil francos — disse Daniel indeciso.. Houve um silêncio.

Portanto não há perigo. Era como se tivesse virado uma unha. Meditava. J E A N P AUL SARTRE — No fundo — disse. Os animais e os homens não chegavam a odiá lo. estou quase contente de não ter dinheiro. — Tens uma necessidade urgente? — indagou. «Malvina» saltara lhe para os joelhos e instalava se a ronronar. pensou com nojo. mas isso não lhe era desagradável.» — Oh!. «Não me tem rancor». conciliador. com solicitude. meu caro. disse me. superficial. — Nisso estás enganado. Daniel sentiu repentinamente um pequeno choque mole. quase alegre que enfurece os outros. e Daniel pensou. Deitou fora a ponta da língua e pôs se a lamber devagar o lábio superior.realmente? Daniel pensou: «É preciso que tenha muita necessidade para insistir assim. Mathieu calou se. porque me fazia um mau serviço. Daniel inclinou se sobre «Malvina» e coçou lhe o crânio. aborrecido. dá se com usurários.» — Realmente. sem olhar Mathieu —. — Que espécie de gente é essa? Empresta logo o dinheiro? — Não — disse Daniel com vivacidade. — E verdade — disse Daniel um pouco decepcionado. — É verdade — afirmou Daniel. ainda há as associações. Também não tinha rancor. Meteu na cabeça que não me devia emprestar mais nada. — Exactamente neste caso é que não lhe posso pedir. Daniel . Perturbava se com a perturbação de Mathieu. — Demora cerca de quinze dias. Sinto muito. aqueles que emprestam aos funcionários. Mathieu tinha corado. A maior parte das vezes. Pôs se a acariciá la negligentemente. que o tinha acalmado. A mão tremia lhe. É preciso um inquérito. Daniel gostava das situações falsas. Soubera encontrar logo o tom optimista. — Não poderás dirigir te a um outro? — Gostaria de evitar falar com Jacques. — Um acto de liberdade? — Mathieu parecia não entender. A Mathieu mostrou se desanimado. Mathieu absorvera se em pequenos cálculos miseráveis. é uma oportunidade para um acto de liberdade. se tens o dinheiro? Mathieu pareceu interessado. «deverias ser independente. mas num caso destes ele vai certamente emprestar te — disse Daniel. Por causa da sua inércia bonacheirona ou talvez do seu rosto. «Na tua idade». — Tens o teu irmão. Tu queres ser livre. Mas que importam afinal os juros. Reflectiu um instante: — De qualquer maneira.

mas até à medula. que me vêm procurar. mas que é preciso fazer para que me odeiem?» A carteira estava ali. Mathieu encarou o. Estaria Daniel a troçar dele? Daniel sustentou o olhar com um ar de gravidade modesta. Sentimo nos outro. Benignos até. «Está aborrecido. — Sobretudo neste momento.» E sentiu a respiração entrecortada.levantou a cabeça.» Mas teve medo de se desprezar. serias como eles. A — Têm também uma espécie de alegria — disse Daniel. Quatro filhos. precisamente — continuou Daniel. Acompanhara Mathieu até à porta de entrada. para me rir. pensou Daniel.. pensou Daniel. Nem sequer um momento ele deixou de ser ponderado. com o mesmo tom fútil —. Levantou se. — Bem. — Não te incomodes — disse Mathieu —. — Não me tentarás — disse Mathieu. quis chatear te um bocado. Um sujeito casado. «Ele prefere rir». de perfeito acordo consigo mesmo. «Nem por isso». membros das associações dos pais dos alunos. enterrado. — Pareces bem tu — disse Mathieu. mas isso fica lhe por fora. isso não te tenta. — Dão me vertigens. Os pais dos alunos. Dentro está à . realmente? Vejo te muito bem. casar com Marcelle. Diria: «Aqui está. propositadamente. — Porquê? Uma simples palavra e mudas toda a tua vida.. — Queres que eu arranje três filhos pelo prazer de me sentir outro quando os levar ao Luxemburgo? Se eu fosse um tipo acabado. Mathieu pôs se a rir. sem se comover. com um trocadilho sempre à disposição e olhos de celulóide. casado. aborrecido. é possível que isso me mudasse muito. — Sim. deve ser muito divertido fazer. Daniel pôs «Malvina» no chão e levantou se também. não deve ser desagradável um tipo sentir se conformado. eu cá me arranjarei. — Tipos assim encontram se todos os dias. Quando Daniel ouviu o passo de Mathieu na escada pensou: «É irreparável. o contrário do que se quer. Bastava a Daniel pôr a mão no bolso. meu caro. cornudos. — Mas eu prefiro pedir os cinco mil francos ao meu irmão. e acrescentou: — No fundo. com três filhos! Como isso deve acalmar! — Com efeito — disse Mathieu. se achar um meio. Eu acho que não detestaria. Parecem calmos. Fechou a porta. franzindo as sobrancelhas. E a ti. gordo. — Que outro? — disse Mathieu. bem tratado. Mas passou lhe. escrevo te... Isso não acontece todos os dias. — Estás doido? — perguntou Mathieu. «Ele sabe que tenho dinheiro e não me odeia. — Lamento — disse hesitante —.

» — O Sr. — Bom dia. — Não tenha tanta pressa — disse Odette. Odette ergueu o belo rosto ingrato e pintado.vontade. . Arranjou lhe um lugar ao lado dela.. o conjunto desfazia se a todo o momento. Devia estar preocupada. — Jacques não vai fugir. «Assim. Tabelião! Entrou. mas escapavam se. irritado. como lhe acontecia sempre: Jacques Delarue. com a cabeça de lado e os olhos semicerrados: «Como? Mais dinheiro ainda!» Mathieu sentia arrepios. para além da censura e da indulgência. Thieu — disse. talvez possa ter uma boa notícia para lhe dar. Lia. mas tenho de ver Jacques. Empurrou a porta. brutalmente. tranquilizá la. elegante.» Pensava com irritação na atitude que Jacques ia tomar. Mathieu viu a através da porta envidraçada da sala de estar. contente.» Foi olhar o seu belo rosto no espelho e pensou: «Ainda valia uns mil se ele fosse obrigado a casar com Marcelle. Habituado a rostos como o de Lola. Atravessou a rua e pensou em Daniel. alta e limpa até à insignificância. Era bela sem dúvida. e ela pareceu lhe repentinamente de uma fragilidade pungente. mas previna meu irmão de que irei vê lo ao escritório dentro de alguns minutos. preciso de pedir lhe um favor. — É para mim a visita que veio fazer? — Para si? Ele contemplava com uma simpatia descontente aquela fronte alta e calma e aqueles olhos verdes. Mathieu lembrou se com ternura do pobre rosto atormentado da véspera. «Preciso de lhe telefonar. Estava. Mathieu quer falar com a senhora? — perguntou Rosa. Era preciso confortá la. segundo andar. Não lhe tinha rancor. e o rosto de Odette guardava o seu decepcionante mistério burguês. Ninguém tinha rancor a Daniel. dizer lhe que não iria lá em nenhuma das hipóteses. Mas sim a Jacques.» Mas resolveu passar primeiro pela casa de Jacques.. Uma expressão divertida e sabida. Parou diante de um edifício atarracado da Rua Réaumur e leu. tabelião. quero dizer lhe bom dia. Estava sentada num sofá. pensou. cujo sentido se impunha logo. «Espero que Odette não esteja». mas de uma beleza que parecia desaparecer com o olhar. Mathieu tentara imensas vezes reter em conjunto aqueles traços escorregadios. — Gostaria de lhe fazer uma visita — disse —. Jacques dizia de bom grado: «Odette é uma das poucas mulheres de Paris que tem tempo para ler. subiu no elevador. Sente se. — Sim.» vm E stava acordada há muito tempo.

Gozava urna espécie de . Todas as vezes que me vê. — Oh!. a sua saúde é extraordinária. — Acha vulgar? — indagou Mathieu. Essa mulher discreta e pudica cheirava a posse. para ver Françoise. a secretária de mogno. Estava surpreendido. Prometeu ma. Esquece se de mim. não deve ter a consciência tranquila. Houve um silêncio. Contemplava com mal estar o braço moreno e fino que saía de um vestido muito simples. Deixe isso e diga me antes o que fez esta semana. como os móveis. Gostava de Odette. — Como vai. — Porquê? Não creio — disse Mathieu vagamente. / A — Você é que prometeu receber me um destes dias. tudo pertencia a Jacques. apertado na cintura por um cordão vermelho. Sentia se agora bem disposto. fala me dos meus vestidos. pensou. — Meu Deus. — Muito bem. Mathieu já não sabia o que dizer. com o carro.» Mas a inteligência de Odette era corno a sua beleza. — Não. Mathieu sentiu bruscamente um profundo desprazer. sem transição. quase um vestido de rapariguinha. pensava: «Realmente não é nada parva. numa risada: — Você estaria por certo muito mais à vontade comigo se eu usasse brincos. — Tem um vestido muito bonito — disse. o vestido. a sorrir —. — E Jacques? — Muito trabalho. o sofá. Como sempre. Mathieu sentou se. mas nunca sabia o que lhe devia dizer. Odette? Pôs certo calor na voz para dissimular a vulgai idade da pergunta. No entanto não tinha vontade de sair. deixe o vestido sossegado. escute — disse Odette com um riso indignado —. — Um destes dias vou zangar me. que é que será? — Estou a pensar se não deveria usar brincos quando o veste. — Como é delicado — disse ela. — Brincos? Odette olhou o de um modo singular. Tenho direito a uma visita pessoal. Mas tornam o rosto indiscreto. O braço. Sabe onde estive esta manhã? Em Saint Germain. Isso encantou me. Quase não o vejo. Mathieu riu. «Ela pertence a Jacques». — Pois é justamente a propósito desse vestido que quero falar. ultimamente. Porém.— Cuidado — acrescentou sorrindo. o corpo por baixo do vestido. Tinha qualquer coisa de vago. — E acrescentou. Houve um silêncio e em seguida Mathieu voltou à voz quente e ligeiramente nasal que conservava para Odette.

não se levante. — Não. Vestia um magnífico fato desportivo de casimira inglesa. «Com este género de mulheres. batendo à porta de Jacques.» — Entra — disse Jacques. No entanto devia usar cinta. — Como vais tu? Parecia muito mais jovem do que Mathieu. Sentou se com um nó na garganta. Há vinte anos que se sentia em falta quando via o irmão ou pensava nele. mas os olhos eram duros. Jacques sabia muito bem o que ele queria e pensaria: «Não teve coragem de dar a facada. Mathieu achava que ele estava a engordar na cintura. — Não quero insinuar coisa alguma — disse Mathieu. cruzou as pernas com certa moleza como para compensar a rigidez do busto. Olhava sem doçura aquele rosto rosado e fresco de rapaz. «Não me perdoará nada». Levantou se. com um sorriso afável. — É a última garrafa — disse —. J E A N P AUL SARTRE Agora já não podia recuar. Voltarei para me despedir. Pegou na garrafa e encheu dois copos. Mathieu. — Bom dia — disse Mathieu. embora fosse mais velho. Pensou que ia pedir dinheiro a Jacques e sentiu um formigar na ponta dos dedos. não imaginava isso. sempre muito correcto. O irmão arqueava as sobrancelhas com um ar de profunda surpresa. / A — Bom dia. não achas? Mathieu não respondeu. «Sabe muito bem porque vim e está a fazer se desentendido. Sentia se em falta. por que motivo o suspeitaria? Queres insinuar que é esse o único fim das tuas visitas? Sentou se.» Disse rispidamente: — Não te iludes por certo. sabes que vim pedir te dinheiro.» Mas já era tarde. nunca se sabe. — Não. Mathieu levantou se. Odette — disse afectuosamente. mas não comprarei outra antes do Outono. que bons ventos te trazem? Mathieu fez um gesto de aborrecimento. — Há alguma novidade? — indagou Jacques. Odette disse lhe gentilmente: — Não devo retê lo mais. indagava. Pensava: «Bebo o uísque e vou me embora sem dizer nada. «Faz de inocente». Jacques sorria inocentemente.calma. Um uísque? — Vá lá — disse Mathieu. Digam o que quiserem. meu velho — disse com entusiasmo. Pestanejou . — Então. atento e muito empertigado. «Até que ponto será uma vítima?». Parece preocupado. Vá ver Jacques. — Até logo. — Senta te.» Jacques permanecia de pé. e avançou para Mathieu. pensou Mathieu com raiva. toda a sua pessoa transparecia inocência. um bom gin fizz é bem melhor com calor. pensou Mathieu irritado.

«Agora». Em teoria não há ninguém mais independente. Oh!. — Não quero criticar. que cospes na família.. meneando a cabeça como um conhecedor. Era advogado. «ele vai dá las. Estás acima das classes. não ter princípios é ainda um princípio. aproveitas te do parentesco para me cravar. não leves a mal o que estou a dizer — atalhou diante de um gesto de Mathieu. mas afinal eu reflicto. para mini. Tomou um ar de sincero interesse: — No fundo. porque afinal não virias ter comigo se eu não fosse teu irmão. quando penso em ti. — Uma necessidade súbita? Porque enfim na semana passada quando vieste aqui. A Mas parece me que com as tuas ideias eu faria questão de não dever nada a um horroroso burguês. — Sabes — afirmou Mathieu para dizer alguma coisa —. Tu estás cheio de princípios. a sua fisionomia aberta mas obstinada e pensou inquieto: «Parece difícil. não se tratava disso. mas não te submetes a eles. diria eu. — Um mínimo! — disse Jacques. divertes me e instruis me. como um «filósofo». rindo igualmente.? É contrário às tuas ideias. se não estivesse a falar com um filósofo. — Quatro mil — disse. — Com efeito — disse Jacques secamente. tinha tempo. isso não te aborrece um pouco? — Que posso fazer? — disse Mathieu. Não quero dizer que sejas culpado. Sim. interrogo me. — Divertes me. — Mas não crês que com um pouco de organização. Essas discussões acabavam sempre mal com Jacques.» Felizmente Jacques retomara a palavra. Continuou sem deixar de rir: — E há pior: tu. não quero censurar a tua conduta. Sabes. Não ia travar uma discussão de ideias.. Mathieu perdia imediatamente o sangue frio. . Porque eu sou um horroroso burguês — acrescentou. Mas eu pergunto: que aconteceria se eu não existisse? Note se que... é até uma felicidade poder ajudar te de vez em quando. sem dúvida. pedir me um pequeno favor. vejo tudo de cima. pensou Mathieu. Thieu. Para mini a culpa é dos teus princípios. bem no fundo.. Estendeu as pernas e olhou os sapatos com satisfação.e acrescentou apertando com força o corpo: — Mas preciso de quatro mil francos de hoje para amanhã. vê bem. fico mais convencido ainda de que não se deve ser um homem de princípios. Isso é muito bom. Que recuse depressa para que eu possa ir me embora!» Mas Jacques não se apressava. eu não tenho princípios. rindo alegremente.» Mas olhou o rosto cheio do irmão. — Quatro mil — repetiu.. «Vai dizer não.

Habitualmente pedes dinheiro porque não sabes ou não queres organizar a tua vida. o primeiro impulso dele era elevar se acima do debate. mas afinal podias ter desejado levar até ao fim as tuas experiências à margem da ordem estabelecida. — Já encontraste um médico? — indagou em tom neutro. sim. Mathieu hesitava. eu.. Houve um silêncio. abriu os e juntou" as mãos pelas pontas dos dedos. Jacques recusava se a encarar honestamente o problema. evidentemente. o que acontece é o seguinte: acabas de saber que a tua amiga está grávida.. O que quer que se dissesse ou fizesse. —Já.. Naturalmente não te pergunto nada — acrescentou com uma expressão ligeiramente interrogativa.. — Sim — disse Jacques —. Jacques não pestanejou. lembrou se dela sinistra e nua no quarto cor de rosa e acrescentou num tom angustiado que o surpreendeu a si próprio: — Jacques. a saúde dessa mulher é delicada. se compreendo exactamente. — Um médico seguro? Segundo o que me disseste. e durante esse tempo o seu espírito procurava um ninho de águia de onde pudesse fixar um olhar agudo sobre a conduta dos outros. num tom ríspido. mas nunca teria imaginado. mas não é nada disso. afinal? Porquê aquela vergonha súbita? Olhou o irmão de frente.» — Marcelle está grávida — disse bruscamente. — Tomámos a decisão de fazê la abortar — disse Mathieu com brutalidade. Os dois irmãos não tinham por hábito exprimir assim com tanta vivacidade os seus sentimentos. e Jacques perguntou. — Em suma — disse —.... Fechou os olhos um instante. — Também me admirava — disse Jacques —. tinha a paixão dos ninhos de águia. preciso do dinheiro. — Vocês queriam um filho? Fingia não compreender.— Efectivamente — disse Mathieu —. com olhos agressivos. — Não — disse Mathieu. Porquê. — Sim. Jacques pareceu interessar se. girava obstinada A mente à volta dele.. isto foi ontem. — E quando é o casamento? Mathieu corou de cólera. Jacques encarou o com curiosidade e Mathieu mordeu os lábios. Ele sabe que os paguei em Maio. Não sabia ver senão de cima. «Digo que é para os meus impostos? Não. . — Foi um acidente. muito à vontade. — A esse ponto? É estranho. — Tenho amigos que mo garantiram. Como sempre. Sentiu que corava e encolheu os ombros. J E A N P AUL SARTRE Pensou rapidamente em Marcelle.

» Teria de lhe dizer: «Se pagares não correrás nenhum risco. Se recusares terei de mandar Marcelle a um charlatão e já não garanto nada. — Estou decidido. J E A N P AUL SARTRE Ergueu as mãos à altura dos olhos e encarou as com o ar preciso de quem vai tirar conclusões do que acaba de dizer. As rusgas estabelecem uma selecção. Sou da mesma opinião. e vais destruir uma vida.Não queres casar por questões de princípios. resolveste fazê la abortar nas melhores condições possíveis. Não é isso? — Exactamente! — disse Mathieu. — Bom — disse Jacques. Não te fica bem a fantasia. que liquidam uma mulher com os seus instrumentos sujos.. Mas não desaprovo inteiramente os resultados.» Mas tais argumentos eram directos de mais para terem influência sobre . Estás a fazer confusão. — atalhou Jacques — tens a certeza de que o aborto está de acordo com os teus princípios? — Porque não? — Não sei. — E porque precisas do dinheiro de hoje para amanhã? — O médico parte para a América dentro de oito dias. Já é alguma coisa. Mathieu. pensou Mathieu. — disse Mathieu. — disse Jacques. tu é que deves saber. Disse com voz mole: — São muito severos neste momento na repressão ao aborto. porque a Polícia os conhece a todos e pode de um momento para outro deitar lhes a mão. o qual exige quatro mil francos. — Enfim. «não me dará um franco. Olhava Mathieu com uma serenidade divertida. já irritado. A «Tem medo que me apanhem». irei ver um médico hábil e que não figura nas listas da Polícia. És pacifista por respeito à vida humana. Um advogado não tira conclusões assim tão depressa. — Eis que te enfias na pele de um infanticida. Mas Mathieu não se iludiu... Afundara se na poltrona e os olhos já não lhe brilhavam. Aliás eu sou pacifista. — Queres dizer com isso que há uma injustiça. de vez em quando ficam severos. Põem na cadeia uns pobres diabos sem protecção. mas consideras te ligado a ela por obrigações tão estritas como as do casamento... mas não respeito a vida humana. Tens de arranjar o dinheiro. — Eu sei — disse Mathieu —. mas os grandes especialistas nunca são atingidos. Não querendo nem casar nem manchar a sua reputação. Os teus amigos recomendaram te um médico de confiança. Pela própria força das circunstâncias. pobres diabos são ervanários ou «fazedores de anjos». — Venho pedir quatro mil francos.. — Ah! Pensei. — Compreendo. Jacques abaixara as mãos e pousara as nos joelhos. — E.

com clareza —. que não tens dinheiro. Mathieu. tornou a sentar se. Limpou a voz e perguntou por descargo de consciência: — Então não me ajudas? — Vê lá se me percebes — disse Jacques.. Mas vou propor te outra coisa. — O que escondes — disse Jacques — é que és um burguês envergonhado. Queres que te diga a verdade? Não mentes a ti próprio neste mesmo instante. fiz um casamento de conveniência.Jacques.. mas tu és burguês por gosto.» — Mathieu — disse Jacques. «Vai fazer me um discurso». Jacques pegou num cigarro e acendeu o. aparece me um. . Jacques retirou a mão. Não quero ajudar te a mentir a ti mesmo. que encontrarás com facilidade o dinheiro. — Escuta. Levantou se subitamente como se tivesse tomado uma decisão e pousou amistosamente a mão sobre o ombro do irmão. Mas que tu cometas um assassínio metafísico. — Não faças cerimónia — disse Mathieu —. pensou Mathieu. e a sua velha cólera fraternal invadiu o. não tenho objecções contra o assassínio metafísico. «eu não devia ter aceitado a discussão. Inclinou a cabeça para trás e viu o rosto diminuído de Jacques. Acabou. — Sim — disse com displicência. Mas seria realmente ajudar? Estou persuadido. mas é a tua vida inteira que se constrói sobre uma mentira. reflectiu.. diz antes que não te queres meter num negócio de aborto. assim como tu és. vamos dizer que recusei. eis tudo. esclarece me acerca do que escondo a mim próprio. — Não recuso ajudar te. (estalou a língua como numa censura) isso não. que não aprovas isso. suprimo o. Essa criança que vai nascer é o resultado lógico de uma situação em que te meteste voluntariamente e queres suprimi la porque não desejas arcar com as consequências dos teus actos. Acrescentou com seriedade: — Meu pobre Mathieu. é um assassínio «metafísico». Jacques. Não quero um filho. Mathieu ia poder sair. que já se levantara. Jacques recusava. — Mentir a mini mesmo? Ora. — Um aborto não é um infanticídio. de resto. Mas para que falar em mentira? Não há mentira nenhuma. como não tenho contra outros crimes perfeitos. tu. estás no teu direito e não te guardarei rancor. conheço te melhor do que pensas e agora estou assustado. Há muito que receava algo semelhante. Aquela suave e decidida pressão sobre o ombro era lhe intolerável. seria falso. — Sorria. Eu voltei à burguesia depois de inúmeros erros. Thieu — disse com calor —.. Mathieu disse simplesmente: — Um aborto não é um infanticídio. deu alguns passos.

Na realidade. E gostas dessa vida calma. Adquiriste hábitos com essa mulher. pedir conselhos nos momentos difíceis. Tu estima la. sentes que tens obrigações para com ela. Porque tu estás casado. . uma vida de funcionário. «é um desafio. — Marcelle partilha as minhas ideias acerca do casamento/— disse Mathieu. E isso dura há sete anos. «Nunca dissera tanto». Mathieu — disse ele com força. Não tens outras aventuras. ironicamente. Tens todas as vantagens do casamento e aproveitas os princípios para recusar os inconvenientes. Sabes o que não compreendo? Tu. porque o Estado te garante uma reforma. humilhas essa mulher há anos. porque é que dizes que não deve ser um sacrifício para mim? — Porque com isso ganhas comodidade. Quatro vezes por semana vais tranquilamente encontrá la e passas a noite com ela. DADE DA RAZÃO — Sim.» Devia sair e bater com a porta. — Para mim — disse —. o orgulho impedia a de confessá lo.por temperamento. tens um apartamento agradável. Recusas regularizar a situação. regrada. Mas Mathieu sabia que ficaria até ao fim. arrogante. pelo simples prazer de afirmar que estás de acordo com os teus princípios. Sentia um desejo combativo e maldoso de conhecer a opinião do irmão. mas pretendes o contrário por causa das tuas teorias. não a queres abandonar. deve ter se embotado. podes dizer me em que difere isso do casamento? O facto de não morarem juntos? — A abstenção da coabitação — disse Mathieu. por maior que tenha sido. pensou Mathieu. encolhendo os ombros. não tens nenhuma inquietação quanto ao futuro. estás casado. — Imagino muito bem que para ti essa abstenção não deve ser um grande sacrifício. Se realmente subordinasses a tua vida às tuas ideias! Mas repito te. — Pois bem. que estás sempre pronto a indignar te com uma injustiça. o que é muito fácil e cómodo. — Evidentemente — disse Mathieu. Ouvia se a pronunciar nitidamente cada palavra e achava se profundamente desagradável. se não as tivesse. pois se alguém sofre não és tu. recebes bons vencimentos em dia certo. e é o teu temperamento que te empurra para o casamento. Estou certo de que não procuras unicamente o prazer. deves sentar te à noite junto dela e contar longamente os acontecimentos do dia. — Uma coisa sem importância. uma aparência de liberdade. — Oh! — disse Jacques —. estás casado. — Primeira novidade — disse Mathieu.

um lenço embebido em éter. Talvez não tenhas ainda a idade da razão. és um burguês. «Pronto». — Mas isso também o escondes. Tiveste a sorte de evitar alguns maus passos. Tens ainda de atingir o fundo. . filho e irmão de burgueses e vives como um burguês. mas Jacques não deixou que o interrompesse. Um belo dia acertara o passo. O que eu quero. A tua vida não passa de um perpétuo compromisso entre o gosto da revolta e da anarquia. Mas. meu caro.. embora modesto. no entanto. há um mal entendido entre nós. os teus cabelos já estão grisalhos — não tanto como os meus. tivera algumas aventuras lisonjeiras e chegara mesmo a respirar por vezes.. — Eu imaginava — disse Jacques — que a liberdade consistia em olhar de frente as situações em que a pessoa se meteu voluntariamente e aceitar as responsabilida des. simplesmente. a boémia? Era muito divertido há cem anos. era a sua garantia. «vai me falar da sua juventude. no entanto.» Jacques era muito orgulhoso da sua juventude. o que é isso. apenas. antes do amor.. fora surrealista. Aliás. Não é certamente a tua opinião: condenas a sociedade capitalista e. — Pelo contrário. Tens 34 anos. a rotina quase.. pensou Mathieu. mas tens cuidado em não te comprometer. talvez seja injusto. É o que te perde. queres parecer mais novo. é uma idade moral. e as tuas tendências profundas que te empurram para a ordem. no entanto. a que cheguei antes de ti. meu caro Mathieu — disse com uma piedade reprimida. um punhado de desajustados sem perigo para ninguém e que perderam o comboio. é certo —. herdámos ambos os instintos daquele pirata que foi nosso avô. Ele escrevera a Mathieu: «É preciso ter a coragem de fazer como toda a gente para não ser como ninguém. olha bem para mini. pouco me importa ser ou não burguês.» E comprara um cartório. agora. (acabou a frase entre os dentes) é conservar a minha liberdade. permitia lhe defender o partido da ordem em boa consciência. Durante cinco anos imitara afincada mente as loucuras em voga.. Aliás. Mathieu fez um gesto.— Escuta — disse Mathieu —. O resultado? Ficaste um velho estudante irresponsável. na idade da razão. Acho que a princípio não eras muito menos pirata do que eu. Desprezas a classe burguesa e. — Não censuro a tua juventude — disse. não te faz bem a vida boémia. a saúde moral. Nunca votaste. Só que eu liquidei os a todos e tu afasta los aos bocadinhos. No fundo. Odette trazia lhe seiscentos mil francos de dote. — Estás. és funcionário dessa sociedade.. Proclamas uma simpatia de princípio pêlos comunistas. Mas também não lamento a minha. já nada tens de rapazinho.

» Ou talvez tivesse ido ver Odette. Mas não é sensato. mas não serve. sabes. estás ou deverias estar — repetiu dis traidamente.» Teve remorsos. Não posso dizer te porquê. estava com predisposição para o remorso. A tua mulher será muito bem recebida aqui. uma vez. — Agradeço... Mas Jacques não o escutava. — Adeus — disse Jacques. Jacques levantou se igualmente. que não o desonraria. Agora Jacques devia estar sentado à escrivaninha.. — E. a idade da razão é a idade da resignação. a minha proposta mantém se de pé! Mathieu sorriu e saiu sem responder.» Que diria ela? Desempenharia o papel de esposa reflectida ou limitar se ia a aprovar discretamente sem tirar o nariz de cima do livro? «Diabo! ». — Já reflecti — disse Mathieu. — Como queiras — observou Jacques. pensou Mathieu. «Mathieu inquieta me. Mathieu previra o golpe. Aliás. pensou.Estás na idade J E A N P AUL SARTRE da razão.» Marcelle rira se dele. e Odette sentir se á feliz em tratá la como amiga. Desceu a escada a correr. se voltares atrás. não te será difícil encontrar os quatro mil francos. E acrescentou: — Quando apareces? — Venho almoçar no domingo — disse Mathieu. — És realmente muito bom. a minha mulher ignora por completo a tua vida íntima. agora. . Confio na tua escolha. Ponho dez mil francos à tua disposição se casares com a tua amiga.. — Reflecte. mas tinha vontade de cantar.. «Será verdade. vou fazer uma proposta. Há cinco anos. «Terá ficado muito aborrecido?». Se recusares. no entanto está na idade da razão. não preciso de o dizer. Não quero dizer que estejas inteiramente errado. não era isso.. — Ora — disse Mathieu —. será quando sentir vontade de o fazer. de resto. Jacques — disse levantando se. Mathieu. mas se tiver de me casar um dia. Não me interessa. não tenho remorsos. O olhar tornou se lhe límpido e alegre e acrescentou: — Escuta. «Até que enfim! Até que enfim!» Não estava alegre. acredita. com um sorriso triste e grave: «Este rapaz inquieta me. cordialmente. Como te disse. — Adeus. «esqueci me de dizer adeus a Odette. «Terei um complexo de inferioridade em relação a meu irmão?» Não. seria uma cabeçada estúpida para sair de uma complicação. Não há pressa. será que mantenho Marcelle numa posição humilhante?» Lembrou se das violentas observações de Marcelle contra o casamento. Por maior que fosse o seu sentimento de culpa. de olhar absorto. «Eu quis casar me. De qualquer maneira aquilo fornecia lhe uma saída digna.

Que diabo. Hei de arranjar. — E acrescentou docemente: — Enfim. — Estou angustiada. faz o que achares melhor. Alguém excelente. E acrescentou: — Quanto? — Quatro mil. — Então? — A velha. incrédula. A cabina telefónica era num recanto sombrio.. é húmido. a família é como a varíola: tem se em criança e fica marcada para o resto da vida. para isto? — perguntou Marcelle. sinto vergonha por ele.Mathieu nunca deixara de pensar com razão perante Jacques. — Sentiu que a voz lhe carecia de firmeza e acrescentou com força. — E tu estás bem? — Estou. — Juro. é coisa que se consegue. — Também se recusa. E as mãos. Indicado por Sarah. — Então arranja — disse Marcelle num tom estranho. se visses! E depois.. — Sempre te vejo amanhã à noite? — Sim. A — Eu telefono. Temos quarenta e oito horas. — Daniel. — Mas não lhe disseste que era. — Não. Quando não me envergonho diante dele. — Então? — Tenho alguém em vista. — Hum — murmurou Marcelle. pensou.. — Arranja.. Entrou. pediu uma ficha. — Quatro mil. bem sabes. «Mas eu gosto deste tipo. e fede no apartamento dela. Sentia se angustiado ao pegar no telefone. Marcelle? Marcelle tinha o telefone no quarto. — E que é que vais fazer agora? — Não sei. — Está. — Não te incomodes. tenho a certeza de que estava cheio de «massa». é impossível. com uma dúvida na voz. — Estou — disse Marcelle com a voz seca. quatro mil francos não é um absurdo. está. «Sim». .» Havia um bar na esquina da Rua Montorgueil. — Não. — Não estás lá muito. o estupor! Vi o esta manhã. — Quanto? — repetiu Marcelle. — A quem? A Jacques? — Venho de lá. — Mas não é possível. Recusa se a emprestar. é um animal... com vivacidade. Estava quase bêbeda. — És tu? — Sim. não vais! Peço emprestado. — Ah! — disse Marcelle com indiferença. Ah!. Terei de ir.

porque não o havia de ter dito? Nós nos dizemos tudo.. quando Paris aguarda o seu Príncipe Encantado. Marcelle. ouvira a muitas vezes rir das amigas casadas quando estavam grávidas: «Vasos sagrados». A visita do rei da Inglaterra. — Levo os quatro mil francos amanhã à noite. A Rua Réaumur era de cobre sujo. Marcelle cortou a ligação sem responder. pelo amor de Deus.. Deu o dinheiro e continuou. escrevera Gomez. não podia ser verdade. Mathieu leu: «Bombardeio aéreo de Valência. Uma amizade morta.. Já não lhe apetecia saber mais nada. Todos os franceses.. O Excelsior não era um jornal agressivo.querido. Se ela quisesse o filho? Então tudo ia por água abaixo. Sentia se nervoso e triste porque ia voltar a vê lo. dinheiro. e o calor torcia se e chiava no meio da rua como uma faísca eléctrica. era papel gorduroso. Novas informações sobre o caso Weidman. Marcelle. que parecia denso e bem documentado: «Do nosso enviado especial. — Paris Midi. Duas horas. Mathieu sobressaltou se e pensou: «Todos os franceses são uns canalhas». Pensou em Brunet. basta! Estava cansado de girar em volta de toda aquela história. . «Humilhada». ela tê lo ia dito. e ele próprio se transformava da cabeça aos pés. E Marcelle é incapaz de um abuso de confiança. em itálico. Mathieu virou a página. quero pensar noutra coisa. Mas era mais triste ainda. A França ao abrigo atrás da Linha Maginot. se faz favor.» Passou os olhos sobre o título e leu o terrível texto. Parou à beira do passeio. Mas faço o que posso. Nem chegava a meter raiva. Farei o que for preciso. Oh! basta.» Ergueu a cabeça vagamente irritado. triste e aveludado como tapioca. apertado.. Deu com um vendedor de jornais. Ivich. Ivich. Não havia. dizia. tirava simplesmente o gosto de viver enquanto era lido.» Quando se diz isso. seria um abuso de confiança. não deixava de mentir a si próprio. ouviu a voz seca de Marcelle. de Madrid.» Está magoada comigo... «Quarenta aviões sobrevoam durante uma hora o centro da cidade e deixam cair cento e cinquenta bombas. não se tem o direito de mudar de opinião sem mais nem menos. «rebentam de orgulho porque vão dar à luz. Humilhá la ei? E se. dinheiro. Felizmente não era verdade.. era um estúpido. bastava pensar nisso um só instante e tudo tomava outro sentido.» Citavam se cifras. Um discurso de Flandin em Bar le Duc. Hesitou e disse com esforço: — Amo te. A hora do dia em que o calor era mais sinistro. Mathieu saiu da cabina. Stokovski declara que não casará com Greta Garbo. «Estou angustiada. mas não quero pensar nisso. Pegou num jornal ao acaso: Excelsior. Ao atravessar o café.. Ignora se o número exacto de mortos e feridos..

cerrando os punhos e murmurando: «Estupores. Estive em Valência. que ele lhe desse o próprio corpo. No entanto. esbateu se. Era a cólera dos outros. andava a passos largos. bandidos!» Mathieu cerrou os punhos e murmurou: «Bandidos!» e sentiu se mais culpado ainda. já não há sombra na rua. vi a Fiesta em 34 e uma grande tourada com Ortega e El Estu diante. À sua frente havia uma grande cólera. esperava para viver. uma rua. de franceses que não olhavam para o céu. qualquer coisa de que pudesse dizer: «Eu vi aquilo. os automóveis passaram. para rebentar. consciente dos seus limites. sobre os monumentos cinzentos. é real. os Franceses são todos uns estupores. para sofrer. Passou o lenço pela fronte e pensou: «Não se pode sofrer pelo que se . mas a coisa não vinha. O seu pensamento fazia círculos em cima da cidade. destruíram no. «Bandidos!» Cerrara os punhos. o céu em fusão caiu em cima dela e o sol dardeja sobre os escombros. os automóveis deslizavam pela rua. Os vidros brilhavam. a rua alargou se desmedidamente.uma vez. Só que era inerte. era um calor real. aquilo é real. passeava de manhã. possuído por um fantasma de cólera. os vidros partiram se. em Paris. uma tímida aurora de cólera. havia seguramente cadáveres sob os escombros. Pronto! As bombas caíram naquela rua. Nem aviões nem defesa antiaérea. andava normalmente com a decência de um tipo que acompanha um enterro em Paris. Fechou o jornal e pôs se a ler na primeira página a reportagem do enviado especial. havia mais porém. ele sentia se vazio. uma cólera desesperada. podia tocar lhe. mulheres estupefactas. Já se contavam cinquenta mortos e trezentos feridos. a cólera ficava de fora. que não tinham medo do céu.. não em Valência. entra agora até o fundo das casas. algures sob o mesmo sol. contemplam o céu venenoso. esmagada por enormes monumentos. Pronto! Mas aquilo esvaziou se.. via a. não existe já. o céu flamejava muito alto acima das cabeças. que significa isto exactamente? Um hospital cheio? Um grave acidente de comboio? Cinquenta mortos. a fachada de uma casa. e erguem a cabeça de quando em quando. Mathieu sentiu se vaga mente culpado. Cinquenta mortos e trezentos feridos. acocoraram se com ares de galinhas mortas junto dos verdadeiros cadáveres. procurando uma igreja. Se ao menos tivesse descoberto em si uma emoção qualquer. Milhares de leitores teriam lido o jornal com ódio na garganta. Eu vi aquilo. pequena que fosse. Alguma coisa se dispunha a nascer. bem viva e modesta. sufocava numa sombra ardente. Mas não: sentia se vazio. ele caminhava no meio de homenzinhos vestidos de claro. Pronto!» O pensamento desceu lhe sobre uma rua escura. Mathieu estava com calor. mudas.

e o judeu a pedir quatro mil francos. As presenças reais.. junto de um muro. — Não absoluta. se der com um jornal e ler «Bombardeamento em Valência». de saias repuxadas até às coxas.. o meu é um hospital com Marcelle grávida. estou em Paris. de instrumentos cirúrgicos. E depois de maneira nenhuma ficaríamos sós. mas que importa? Ela é educada. mas creio que não estava. — Entre. pensava. «Por que razão estou eu neste mundo de gritaria. Mathieu olhou o hesitante. como eu. Partiu. Cada um no seu mundo.» Lá havia uma coisa formidável e trágica a pedir que se sofresse por ela. — Suba comigo — disse. «Viu a». de carícias nos táxis. separado de Espanha por. nojentas por serem tão verdadeiras. Esse estava lá. Sem cabeça. «Não posso... Mathieu dobrou o jornal e atirou o para a valeta. mas é pior. — Acabo de tocar à sua porta — disse —. estou numa gaiola sem grades. Boris disse na sua voz natural: — Então continua de pé o Sumatra.. neste mundo sem Espanha? Por que razão não tive vontade de lutar? Poderia escolher outro mundo? Sou ainda livre? Posso ir aonde quero. por nada e no entanto esse outro mundo é intransponível. de costas. Jacques atrás da secretária dizendo não. não terá de fazer esforços para sofrer. é evidente — disse Boris —. Só que ele.» Olhou a última página do A Excelsior: fotografia do enviado especial. Eram duas horas e Brunet só chegaria dentro de meia hora. Era o seu ar de louco. E o tipo de ontem. no meio de minhas presenças. Corpos estendidos sobre o passeio. — Viu Ivich? — perguntou Mathieu abrindo a porta. . não estou lá. Gomez. não encontro resistência. Deve andar por aí. — Tem a certeza? — respondeu Mathieu no mesmo tom. Na escada. No meio da rua uma mulher gorda. na cidade em ruínas. Boris espreitava o à porta do prédio. Destino. Não partiu. Há outros mundos. Haverá Ivich. hoje à noite? Mathieu virou se e fingiu procurar as chaves no bolso. Subiram. Boris entrou à frente de Mathieu e dirigiu se com uma familiaridade desenvolta para a secretária. — Deixei a agora. sofrerá lá. Daniel troçando. Lola talvez prefira estar sozinha consigo. Ao ver Mathieu. mas o que lhe posso dizer é que não abriu. — Sim.. Ivich que eu beijei esta manhã.quer. Mathieu olhou sem afeição as costas magras. — Não sei se irei — disse. — Vamos tirar isso a limpo. tomou um ar afectado. Marcelle no quarto cor de rosa. — Pensei.

— Gosto da sua rua — disse Boris —. — Para esta noite? — Sim. — Ela quer ir — afirmou Boris. mas não consegui encontrar te. Era Brunet. Houve um silêncio. Brunet sentou se na cadeira. Pareceu me preocupada com o exame.. — Bem — disse Brunet com indiferença. — Eu tornei me numa espécie de . com os braços pendentes. — Ora — disse Mathieu. é preciso vir até aqui ao teu quarto para te encontrar. não tem mesmo nenhuma. — Ah.. — Olá! — disse Mathieu. — Então ela espera que eu vá? — Naturalmente — disse Boris. um mês Rua Mouffetard. Mathieu aproximou se e deu lhe uma palmada nas costas. — Vens adiantado. — Não é culpa minha. Queria saber se ela ia. — Disse me que seria divertido encontrarmo nos os quatro.. diante de Brunet. contrariado. absolutamente nada. as tuas poltronas corrompem. Voltara se e olhava para Mathieu com um sorriso zombeteiro e terno. não lhe disse nada para esta noite? — perguntou Mathieu. velho traidor. — Boris Serguine. irritado —.. Fazia um cigarro. admirado.. A Mathieu foi abrir. Procurei te mais de uma vez. — Pois venho. Não sei porque mora num apartamento. Acrescentou: — Então. Isso aborrece te? — Não. Está a perceber? Um mês num quarto em Montmartre. Mathieu colocara se. mas ao fim de algum tempo deve chatear. — Não — disse sorrindo —.. — Senta te na poltrona — disse Mathieu. Livre como você é. Estão a tocar — acrescentou. — É verdade — disse Brunet. Boris inclinara se sobre o parapeito da janela e olhava a rua. também há Lola. sólido e despreocupado perante o olhar rancoroso de Boris.— Vem ou não vem? — perguntou Boris. — Ivich. — Detesta que o considerem meu discípulo. o famoso discípulo? Não o conheço. — Pois é — disse Boris. depois de um longo momento —. — Porquê? — Não sei. — Os quatro? Ela falou nos quatro? — Pois então — disse Boris ingenuamente —. isso não tem importância. deveria vender os móveis e viver no hotel. — Quem é? — indagou Brunet.. um mês no Faubourg du Temple.. Boris inclinou se com frieza e recuou até ao fundo do quarto.

Brunet deitou lhe um olhar rápido e penetrante. Imagina tu! — disse ele. Pensou: «Ele veio. — Os Croix de Feu não são muito dinâmicos. sentado numa cadeira de Mathieu. não é? — Isso mesmo — confirmou Mathieu rindo. — Catorze horas de curso por semana e uma viagem ao estrangeiro durante as férias. com o fumo do cigarro. Fez se silêncio.» — Ainda o vejo. A propósito. o quarto enchia se com a sua presença. irritado. — É caça para Doriot — disse Brunet. Evitou olhar para Boris. Daniel.» Sentiu que a confiança e a alegria tentavam timidamente renascer lhe no coração.caixeiro viajante.. inclinava a cabeça obstinadamente para a chama do fósforo. parece me que fiquei depositado em tua casa. que tens feito? Mathieu sentiu se embaraçado. eu. — Pensei muitas vezes que nos devíamos ver mais. Peco lhe um favor e responde me com um sermão. com amargura. com os seus gestos lentos. Dão me tanto trabalho. — Nada — disse. Na verdade não fazia nada. Continuou com simpatia: — E quando te vejo que me encontro melhor. — E fora disso. É estranho — disse Brunet com ironia. pesado e maciço. . — Daniel! Mas ainda existe esse camarada? Ainda o vês de vez em quando. — Porquê? — Sempre a mesma coisa. não é verdade? A alegria de Mathieu desapareceu. acabo de me aborrecer com ele — acrescentou Mathieu sem reflectir. agradecido. sim. Brunet olhou o com surpresa. atónito. Quando Brunet encontrava Portal ou Bourrelier devia dizer com aquele mesmo tom aborrecido: «Mathieu? É professor no Liceu Buffon. ainda o vejo de vez em quando. Estava ali. — Os três? — Então? Tu. Creio que envelhecíamos menos depressa se nos pudéssemos encontrar de vez em quando os três juntos. que há dias em que eu próprio tenho dificuldade em me encontrar. Mathieu sorriu. — É verdade — disse Brunet.. — E teu irmão? Continua Croix de Feu? — Não — disse Mathieu. Mathieu olhava as grandes mãos de camponês do amigo. — E esperas ainda vir a mudá lo? — Claro que não — respondeu Mathieu. — E então ataca lo. — É o que se diz. Brunet pousara as mãos sobre os joelhos.

pensei: preciso de falar com ele. ainda bem. não é verdade? Estou lá às onze. Demasiado amarela. Vamos dar uma volta. manti nha se no seu canto. com satisfação. Mas hoje de manhã quando vi a tua cara. sob o fogo conjugado dos olhares. Já foi muito amável da tua parte teres vindo. sou eu que me vou embora. — A licenciatura. . Brunet pigarreou: — Continua a estudar Filosofia. Mathieu fechou a porta e voltou se para Brunet. Mathieu acompanhou o até à porta e perguntou com entusiasmo: — Até logo à noite. — Despachaste o. Inclinou se ligeiramente. afectuosamente: — Disse a mini mesmo: não quero que mo deitem abaixo. «Ele gostaria que Boris se fosse embora». — Fique. Mathieu parou subitamente de rir. eu sei — acrescentou vivamente.. Brunet perguntou: — Talvez tenha ido longe de mais. jovem? Boris disse que sim com a cabeça.. — Tinha má cara? A — Sim. meu caro. parecia um cão de caça doente. Pôs se então a olhar fixamente o rapaz. Acrescentou.Calaram se um instante e Mathieu pensou tristemente: «Se ao menos Boris tivesse a boa ideia de se ir embora. — Um quarto de hora! Eu sei. Acrescentou bonacheirão: "^ J E A N P AUL SARTRE — Vai ficar a odiar me se eu lhe raptar Mathieu por uns momentos? Você tem a sorte de o ver diariamente e eu. — A licenciatura — atalhou Brunet com uma expressão absorta. Boris não se mexia. duro: — Já percebi — disse. pensou Mathieu. tinha o dia inteiro ocupado.. — Na verdade. — Então? — disse esfregando as mãos. Boris sorriu. Brunet sentara se a cavalo na cadeira e olhava igualmente Boris com um olhar pesado. magoado. inchada. — Em que ponto é que está? — Termino agora a minha licenciatura — disse Boris com rapidez. fique. Mathieu? Boris adiantou se.» Mas não parecia sequer pensar nessa solução. — Até logo à noite.. todo arrepiado. Brunet observou com voz calma: — Eu estava com pressa porque tenho apenas um quarto de hora. talvez compreendesse. Estava ofendido. Riram. — Não dispões de muito tempo. — Ele está acostumado e depois estou contente por te ver a sós. Não te aborreces com isso? — Pelo contrário — disse Mathieu rindo. com tiques nas pálbebras e no canto dos lábios.

Tem o dia inteiro tomado. Mas tinhas. — Escuta — disse Brunet —.. — Ora. Dormi mal. essa proposta. — Não querias que eu te levasse para o partido de La Rocque? Fez se silêncio. Brunet não parecia convencido. Então? Achas que eu tenho necessidade de entrar na luta. às vezes. senão para tomar uma posição? Levaste . porque queres que eu me torne comunista? Para meu bem ou para o bem do partido? — Para teu bem — respondeu Brunet. Eu próprio tenho dificuldade em me encontrar.. Agora já o conseguiste. não pensei. Não sou sargento recrutador do P. vivo cercado de miúdos que só se preocupam com eles próprios e me admiram por princípio. Comunista? Brunet pôs se a rir. com um gesto vago.. Tu representas apenas um pequeno capital de inteligência. tens de te libertar. — Se é apenas isso. Mas tu. não esperava essa tua. as ideias. creio. — Nunca imaginei que tivesse uma cabeça tão expressiva.. — Para o partido?.. — disse Mathieu. És livre. tu tens necessidade do partido. As pálpebras dobravam se lhe em preguinhas e mostrava os dentes ofuscantes de brancura. Como toda a gente. — Tens essa necessidade. sem dúvida — insistiu. uma porção de encontros importantes e preocupou se em vir dar me o seu apoio moral. dá se um jeito. — És filho de burgueses. — É para meu bem — repetiu Mathieu... Nunca ninguém fala de mim.C. — Tanto melhor — disse. — Brunet — perguntou suavemente Mathieu —. não vamos complicar as coisas. — Para meu bem. — Seguiste o teu caminho — disse Brunet. desconcertado. era melhor se Brunet tivesse vindo pelo simples prazer de o ver. a cara de um tipo que acaba de perceber que viveu de ideias que não dão nada. Sabes.» Apesar de tudo.Mathieu tossiu. e isso de intelectuais temos até para vender. Pensava na Espanha. Mathieu estremeceu. Escuta — acrescentou subitamente —. — Não precisas de ficar desconfiado. não podes vir a nós assim sem mais nem menos... — Ando aborrecido. Simples aborrecimentos de dinheiro..E. levo te comigo e em vinte minutos estará tudo terminado.. Mas para que te serve a liberdade. Olhava Brunet com uma gratidão humilde e pensava: «Foi por isso que ele veio. de tomar posição? — Sim — disse Brunet com força. aliás. Não sentes que a tens? Mathieu sorriu tristemente.. Vou fazer te uma proposta: queres entrar para o partido? Se aceitares. depois vejamos: o partido não precisa de ti. Mas desejava que me dissesses o que pensas exactamente. sim.

pestanas ruivas. que pensava por meio de curtas e severas verdades. não seria um sacrifício.» Brunet levantou se. — Falas como um abade — disse Mathieu a rir.. cor de tijolo. de traços caídos.trinta e cinco anos na limpeza. um homem apenas. evidentemente. meu caro. — Pois faz como eu — disse. Mas Brunet não tinha cheiro. — Não há outra — repetiu Brunet. Não deve ser muito agradável todos os dias. nem sempre é divertido. és um abstracto. carne. sangue. fungava docemente. sabes? — continuou com um sorriso amigo. — A sério. E Mathieu ali estava. Brunet. Gostava imensamente dele. E pensava: «Eu não pareço um homem. seguro de si. E se escolher. — Vives no ar. — És bem real — disse Mathieu. És um corpo estranho. nada mais se me afigura inteiramente verdadeiro^ Brunet não respondeu. Tinha um rosto pesado. Desde que entraste no meu quarto ele parece verdadeiro e enoja me. precocemente envelhecido. Btunet sorriu distraído. E tudo te será devolvido. Que é que queres dizer com isso? — Nada a não ser que escolheste ser um homem. Dá mais um passo. — Evidentemente. — Quem to impede de fazer? Ou imaginas que poderás viver a vida inteira entre parênteses? Mathieu olhou o hesitante. um homem recto. Sempre que o via. Aproximou se de Brunet e abanou o pêlos ombros com força. escolherei ficar com vocês. Disse: — Renunciaste a tudo para ser livre. e o resultado dela é o vácuo. diante dele. terreno refractário às angélicas tentações da arte. Arescentou subitamente: — És um homem. da política. da psicologia. Seguia a sua ideia. Meditava. — O contrário seria inquietante. certo de perceber de repente um odor forte de animal. assediado por todas as vertigens do inumano. um homem inteiriço. gosto que digas tudo isso. surpreendido. um ausente. — Tudo aquilo que tocas parece real. acabei por perder o sentido da realidade. flutuas. — Meu caro aliciador de recrutas — disse —. Bem sei que tudo me seria devolvido. não há outra escolha. Escuta. desajeitado. renuncia à própria liberdade. cortaste os laços burgueses e não te ligaste ao proletariado. — Um homem? — indagou Brunet. indeciso. Esperou um pouco e perguntou: .. Assemelhava se a um prussiano. minha cara puta velha. — Não — disse Mathieu —. muito claras e compridas. verdadeiras paixões. Mathieu sentia uma espécie de curiosidade inquieta nas narinas. Um homem de músculos fortes e elásticos. sóbrio.

Sonhaste durante trinta e cinco anos. como eu. E tudo lhe fora devolvido. serás o escravo da tua liberdade. A idade. com um gosto real de fumo na boca.— Então? — Deixa me tomar fôlego — disse Mathieu.» Brunet tinha razão. contrariado. Morres sem acordar. Dir se ia que tinha medo de pecar por orgulho. Comprometera se. aliás. inclusive a liberdade. «Disse bem. — Sabes para onde me vão mandar? Para a frente da Linha Maginot. Vamos admitir que partes nesse estado de espírito. Foste um funcionário abstracto. ele escolhera a arma que lhe feriria as têmporas. já nada a pode impedir de ser um destino. Meditava. em carne e osso. — Estás a brincar? — Podes acreditar. — Essas informações. a fim de que Schneider conserve os seus interesses nas fábricas Skoda. E talvez o mundo esteja também demasiado velho. — Então? — Não é a mesma coisa. — Acrescentou com vivacidade: — Como a de todos os camaradas. E acrescentou a sorrir: — Não acredito que o marxismo preserve das balas. e um belo dia uma granada faz explodir os teus sonhos. real. Foi encostar se à janela. respira.» E ali estava ele. Escuta. — E tu? — perguntou Mathieu. arriscas te e rebentas como uma bolha. — Respira. a época. mais densas do que as que Mathieu podia ver. — Também não acredito — disse Brunet. — Mas então não compreendes nada? — perguntou Brunet. Amanhã serás demasiado velho.. A sua vida era um destino. Está de acordo consigo próprio e com o partido. — disse Mathieu. Na segunda quinzena de Setembro os Alemães invadem a Checoslováquia. e no entanto. — Não compreendo — disse Mathieu. Brunet olhou o e observou rapidamente: — Vamos ter a guerra em Setembro. tudo lhe fora devolvido. «É mais livre do que eu. a granada alemã que lhe perfuraria as vísceras. Agora nada já pode tirar o sentido da minha vida. nesse . para dar cabo da saúde não há melhor. Tu és mobilizável. irritado. a classe. E um risco assumido. E acrescentou docemente. era apenas um soldado. mas apressa te. serás um herói irrisório e cairás sem ter compreendido nada. Mathieu não respondeu. renunciara à liberdade. Os Ingleses sabem disso. voltando a si: A — E verdade que se compreendesses não haveria necessidade de pontos nos ii.. terás os teus pequenos hábitos. as cores e formas com que se enchiam os seus olhos eram mais verdadeiras. o Governo francês está prevenido.

há tipos que se matam nos arredores de Madrid. Tens sorte de ter podido escolher. Brunet encolheu os ombros.. arriscas te a esperar muito. dar um sentido à vida. agir. vocês os intelectuais. O rosto de Brunet endureceu se um pouco. — Sorte de ser comunista? — Sim.. Não cerrou os punhos. — Bombardearam Valência — disse subitamente. acreditar. Talvez tenhas razão. sofrendo com os proletários de todos os países. há judeus austríacos que agonizam nos campos de concentração. — Tens sorte — disse Mathieu. — Então? — disse Brunet. eu quero acreditar primeiro. dentro de um quarto de hora ponho o chapéu e vou passear no Luxemburgo. Tudo se desmorona. «Sou um irresponsável».. «As tuas poltronas corrompem. — Vocês são todos iguais. Brunet não despregava os olhos dele. — Mais tarde? Se estás à espera de uma revelação interior para escolher. serenos. — Já sei — atalhou Brunet. espalhava se pela terra toda.» Ergueu se com vivacidade e sentou se na ponta da mesa. — Eu sei. os seus filhos. se ao menos pudesses ver com os meus olhos. Põe te de joelhos e terás fé. as espingardas vão disparar sozinhas e vocês. Pensava: «Veio oferecer me o que tem de melhor!» Acrescentou: — Não é coisa definitiva. a sua maneira de dizer sonhadora. fresquinho. livre. desesperado. Seria a salvação. Entrar para o partido. Parecia estar a espiá lo.. — Recuso. lutando. «Nesta hora.mesmo momento. — Essa é boa! Isso escolhe se. — Naturalmente — disse Brunet com impaciência. Pensas que eu estava convencido quando entrei para o partido? A convicção forma se. compreenderias que não se pode perder tempo. — Queres dizer que não vais ter essa sorte? Pronto. Mathieu sorriu tristemente. escolher ser um A homem. reivindicam o direito de ser convencidos. neste instante. Ah!. . — Eu sei.» Voltou se para Brunet e encarou o com amargura. Mais tarde. pensou. meu caro. Sim ou não. Mas eu. — Recusas? — Recuso — disse Mathieu. e no entanto era ele o bombardeado. não abandonou o tom sereno. — Não havia um só canhão de defesa antiaérea em toda a cidade. Atiraram as bombas no mercado. Mathieu foi sentar se na poltrona. os mortos. eram os seus irmãos e irmãs. há chineses nos escombros de Naquim e eu aqui. Era preciso responder.

— E então? Sim. mas não te desfazes dele. penso como tu que não se é homem enquanto não se encontra uma coisa pela qual se está disposto a morrer. — Já pensei que nunca mais viria. Revolto me. mais camponês. Brunet levantara a cabeça. Há anos que sou livre para nada. mas não é o bastante. não tenho razões suficientes para isso. contra a mesma espécie de indivíduos. J E A N P AUL SARTRE Fez se silêncio. Talvez não haja oportunidade. Brunet tomou o seu ar mais fechado. — Achas que pareço agarrar me a alguma coisa. Brunet? Diz lá. — Eu também o espero. ou viria demasiado tarde.. Não é culpa minha. como vocês. Desejo ardentemente trocá la por uma convicção. «Se ele pudesse compreender me». — Não tenho nada a defender. Reservas te para uma melhor oportunidade. neste momento. Fez um esforço: convencer Brunet era o único meio que lhe restava para se convencer a si próprio. — Não quero dizer. Mentia se dissesse que me sentia satisfeito em desfilar de punho erguido ao som da Internacional. — E então? . e daí? Brunet deu uma palmada de indignação na coxa. Quando o atacam. E depois. Ninguém te acusa. — Também já pensei nisso — disse Mathieu. estás a compreender me? — Não sei se te compreendo muito bem — disse Brunet —. Mas receio que não apareça tão cedo. — Então? — indagou quase alegremente. contra as mesmas coisas. estás no teu direito. Brunet olhou o com curiosidade. — Estás a compreender me. Mathieu indagou docemente. Brunet parecia mais calmo. o tempo passa. — Apesar de tudo.. parecia uma torre. Mathieu olhou o com desespero. É teu conforto moral. não posso comprometer me. A — Tens a certeza de que o desejas? — Tenho. não me orgulho da minha vida e não tenho um tostão. não precisas de justificar te. — Tens? Tanto melhor. isso afastar me ia de mim próprio e tenho necessidade de me esquecer um pouco. mas como quer que seja. De boa vontade trabalharia com vocês. como o teu irmão se agarra ao dinheiro. agarras te a ele avidamente. Espero que essa oportunidade se apresente o mais depressa possível. — Muito bem! Finges lamentar o teu cepticismo. A minha liberdade? Pesa me. pensou Mathieu.

— Não vais. Desejaria ver te sempre e falar contigo. Ainda tens um minuto? Brunet olhou o relógio. da tua voz.. Não tenho nenhum direito sobre o seu tempo. Os meus únicos amigos agora são os camaradas do partido. a não ser que se seja sacana. sem querer: — Brunet... Tens razão. «Não pode sair pode sair assim. e tudo seria devolvido a Mathieu. Calaram se. sair assim. é possível? Brunet desviou os olhos. mas não tenho muito tempo.— Nesse caso serei um desgraçado. Brunet levantou se. não do de Karl Marx. Brunet esperava delicadamente. pensou Mathieu. Mathieu também se levantou. Brunet sorriu levemente. ainda te lembras? Foste tu o meu melhor amigo. E tudo. E depois há as recordações. poderíamos trabalhar juntos. — Também o desejaria — disse —. A . — Pois é. Do teu focinho. Doido por se ir embora. — Acho apenas que estás menos libertado da tua classe do que eu imaginava. esta manhã. Não faz mal. Tu achas me uma sacana. — Não me deves querer mal — disse precipitadamente. Mathieu pensava: «Evidentemente. mas decepcionei o. — Eu conheço vos bem. uma só.» Disse. das tuas mãos. — Não te considero um sacana — disse.» Brunet acrescentou sem o olhar: — Ainda gosto muito de ti. — Já estou atrasado. desolado. mas não queres dizê lo porque julgas o caso perdido. Bastava uma palavra. — Não é verdade — disse Mathieu. Mas não tinha nada para lhe dizer. — Não és obrigado a pensar como eu. Mathieu disse lhe: — Não podes imaginar o que me comoveu teres vindo oferecer me a tua ajuda. Voltamos a ser estranhos um para o outro. Com esses eu tenho um mundo em comum. — Mas não te quero mal — disse Brunet. apesar de tudo estou contente por te ter visto.. Mas isso não modifica a coisa. aproximara se da porta. Brunet brincava com o fecho da porta. Mathieu pensou: «Está com pressa.. — Pois é. razões de viver. Teve pena de mim de manhã. Mas é do teu apoio pessoal que eu preciso.. Mathieu endireitou se repentinamente. preciso de ajuda. — disse. J E A N P AUL SARTRE Enquanto falava. — E achas que não temos mais nada em comum? Brunet ergueu os ombros sem responder. Era tentador como o sono.. tenho de lhe falar». só porque eu tinha má cara. a amizade de Brunet. acham que se deve pensar como vocês. — Porque teria vindo se não me lembrasse? Se tivesses aceitado.. Calaram se.

como uma verdade eterna. Uma tarde de Verão. Brunet abriu a porta. Mas posso dizer também: tive medo. as cortinas verdes e pensou: «Já não se sentará nas minhas cadeiras. — E tu. é um sacana. pode se sempre discutir.» O quarto era agora apenas uma mancha de luz verde que tremia quando passavam os carros. Por cima ou por baixo: quem havia de decidir? Brunet já decidiu. prefiro tomar ar. Jacques também. prefiro a minha cortina verde. Mathieu chegou se à janela e encostou se ao parapeito. isso é indiscutível. Acha que sou um filho da puta. Ia pelas ruas gingando um pouco como um marinheiro. Mas quem poderia conservar nesta luz a mesma parcela de entusiasmo? Era uma luz de fim de esperança. Este pobre Mathieu está perdido. por cima ou por baixo. Agrada me sentir me desdenhoso e solitário. as cadeiras. Mas em relação às pessoas. «Recusei porque quero continuar livre. pouco antes. julgar. Todos decidiram que sou um sacana. à tarde. acreditava estar a ser sincero. sempre não. a corda parece uma alça. se mudares de opinião. fixa. «Será verdade que não sou um sacana?» A poltrona é verde. corruptora. Mathieu olhou a poltrona verde. manda me um recado. Pensava: «Eu não podia aceitar». Mathieu pensou: «Era o meu melhor amigo. tudo o que fazem pode ser explicado. e ele mantinha a cabeça fora da água e olhava a rua pensando: «É verdade? É verdade que não podia aceitar?» Uma menina ao longe saltava à corda. É o que posso dizer. um entusiasmo amargo nascera no seu coração. Mas a realidade do quarto desaparecera com ele. fria. porque já não teria motivos de indignação.— Não quero demorar te — disse. como se desejar. a luz estava pousada na rua e nos telhados. — Certamente — disse Mathieu. e as ruas uma por uma tornavam se reais. A menina saltava à corda eternamente. o quarto corruptor estava atrás dele. Daniel também. — Vem visitar me quando tiveres tempo. na minha varanda e não queria que isso mudasse. Que posso eu fazer contra todos? Tenho de decidir. mas não desejo que o suprimam. — Certamente — disse Brunet. já não fumará aqui os seus cigarros. e o quarto atrás dele era uma água tranquila. mas decidir o quê?» Quando disse não. e teria medo que se construísse um mundo viável porque teria de dizer sim e fazer como os outros. agrada me dizer não. Sorriu para Mathieu e foi se embora. a corda erguia a acima da cabeça como uma alça e chicoteava o solo sob os pés. igual. e apenas a cabeça lhe saía da água.» Partiu. Agrada me indignar me contra o capitalismo. eternizava tudo aquilo em que tocava. já não olhará para as minhas cortinas. a corda erguia se eternamente acima da cabeça dela e eternamente fustigava o chão a seus .

e teve medo.» IX E ram seis horas. Tinha medo de lhes respirar o cheiro. Mesmo na Rua Réaumur era muito notado. Marcelle. Para quê saltar à corda? Para quê? Para quê? Para quê resolver ser livre? Sob aquela mesma luz. «O meu pesa papéis. Liam os jornais ou limpavam com uma expressão de cansaço as lentes dos óculos. Era fácil esconder se ali. uma sala de espera de um tribunal. desconfiado. a mulher cheira sempre. pois Daniel já não era capaz de se iludir. ou sorriam no vazio com espanto. Por mais que se lave. mas a luz seguiu o. Para quê? Para quê?» Deixou cair o caranguejo sobre a mesa e declarou: «Sou um tipo lixado. depois quatro horas de trabalho odioso. perdeu se. Nada mais lhe ficou senão um ruído surdo de avalancha. que olhavam as ruas desertas e eternas. «Vou chegar cedo de mais a casa de Marcelle. à noite. Daniel seguiu a passo lento o desfile. «A minha poltrona. para quê? Queria ir à quermesse? Pois iria. Isso permitia. Iria porque não tinha a menor vontade de deixar de o fazer. A tarde esvaziava os edifícios comerciais. Mathieu pegou lhe por cima como se estivesse vivo.» Isso queria dizer: «Vou dar uma volta pela quermesse». e caminhava devagar. embora não densa. «Posso andar um pouco. Daniel olhara para o espelho do vestíbulo e pensara: «Vai recomeçar». Não era uma rua para mulheres e os homens não se preocupavam J E A N P AUL SARTRE com ele. era inevitável. havia homens. As mulheres pintadas que saíam das lojas deitavam lhe olhares provocantes e ele sentia o próprio corpo: «Putas». . Aliás. Não era muito cómodo esconder se. Era uma verdadeira multidão. os meus móveis. Apropriando se do sorriso vago dos homens. Livre. e diziam: «Para quê? Para quê continuar a lutar?» Mathieu voltou se para dentro do quarto. era agora uma praia de luz esquecida. De manhã. o olhar de Daniel deslizava por entre aquelas falésias abertas até ao céu rosado e corrupto que elas fechavam no horizonte. Entrou pela Rua Réaumur.pés. Ao sair do escritório. Nunca se perdia por muito tempo. tenho tempo de andar um bocado. às janelas. os gatos. em Madrid e em Valência. podia perfeitamente desejar uma ligeira compensação. disse entre dentes. não passava de um saguão aberto. Um pesado destino de multidão parecia esmagá lo. Voltara a encontrar se. fugir à tentação de imaginar intimidades atrás das vidraças escuras das janelas. a visita de Mathieu.» Empertigou se novamente.» Em cima da mesa havia um pesa papéis em forma de caranguejo. Felizmente eram raras. do mesmo destino vago e ameaçador. E Mathieu contemplá la ia eternamente. pelo menos.

mas tinha se sem DADE DA RAZÃO pré uma inquietação no fundo dos brônquios. «Vou até à quermesse. quando lá entrava. dançam a cada sacudidela do fio com saltos desajeitados. só tinha diante dele uma distância com obstáculos. ternos. O quarto dela estava irrespirável. de voz rouca. a lembrança de uma luz espessa. Os malandros que se distraíam diante dos caça níqueis à espera de freguês eram muito mais divertidos que os seus colegas de Montparnasse. aturdidos. Valia a pena divertir se um bocado com os imbecis. Mas é preciso mudar constan temente de imbecis. Daniel não suportava a humildade deles. aí é que o inspector de finanças Durat descobrira a puta que o tinha matado. Deixava se doutrinar durante horas. e diminuiu o passo.Marcelle era um charco. Habitualmente encostava se a uma coluna. como borboletas. que o repelia e atraía ao mesmo tempo. Daniel ficou subitamente apressado e esticou o passo: «Vamos rir. e encarava os fixamente enquanto batiam as asas sob os olhares maldosos e escarnecedores dos jovens amantes. Daniel nunca atingia o fim da rua. e as ideias amontoavam se Ihe na cabeça. humildes e de olhar ligeiramente alucinado. flutuavam a baixa altura. as pessoas. dissimulados. Não cheirava a nada. puxar a corda e voltá los. erguê los no ar. dar lhes corda. verificou se os rostos lhe eram desconhecidos e entrou. que procuravam apenas ganhar dez francos e um jantar. Um homem que se condena a si próprio tem sempre vontade de dar pancada para se liquidar de vez. E depois. Quermesse. senão é a náusea. Quanto aos michés. estupefactos. Não via nada. enormes e leves como elefantes de borracha. para partir em mil pedaços o pouco de dignidade que ainda lhe resta. ela só existia aparentemente. brutais e canalhas. eram vadios ocasionais. tinham sempre um ar de se confessar culpados. Às vezes provocava asma. . havia uma mancha na frente dos seus olhos. dizia sempre sim. Mas nos verdadeiros pesadelos. agora Marcelle estava podre.» Tinha a garganta seca. essa luz ignóbil que flutuava entre os muros baixos como um cheiro a cave. e ele estragava lhes todo o prazer. cor de gema de ovo. A quermesse do Bulevar Sébastopol era célebre no género. Entrou no Bulevar Sébastopol. de resto. Os michés tomavam no por protector de um dos meninos. viu a tabuleta. sedosos. sim. A Rua Réaumur esvaiu se. vozes de mel. o ar seco queimava em volta dele.» Não precisava de se desculpar tanto. era de morrer a rir. não era mal nenhum: queria observar a táctica dos maricas no engate. Parecia um J E A N P AUL SARTRE pesadelo. calcinado pelo sol claro. Mesmo em tempos normais não podia deixar de fungar. Sentia desejo de lhes bater.

sonhava com ela às vezes e acordava sobressaltado. ao luar. a carabina eléctrica. Um senhor de monóculo aproximou se de um desses aparelhos. tinham começado a dar socos. feliz por voltar às trevas. havia uma bruma amarelada semelhante. As horas que passava na quermesse pareciam lhe ritmadas pelo martelar surdo das bielas. Eram quatro. lembrava lhe certa noite que passara doente a bordo do navio de Palermo. Para Daniel era uma luz de enjoo. pois a claridade do dia amontoava a no fundo da sala. Não era com certeza um canalha como os outros. Viu a isca à esquerda. Daniel conhecia os a todos: os jogadores de futebol. do outro lado da parede. que parecia mais triste ainda e mais cremosa que de costume. Depois afastou se e pareceu . devia ter entrado por acaso — Daniel punha as mãos no fogo — e parecia absorto na contemplação de uma grua. Banho de Sol. atraído sem dúvida pela lâmpada eléctrica e pela Kodak que descansavam atrás dos vidros sobre uma pilha de bombons. com uma pressa desajeitada. além disso. Uns rapazes pobremente vestidos tinham se agrupado em volta do pugilista negro. Uma agulha marcava no mostrador a força dos murros. aliás parecia não os conhecer. Lançaram olhares maliciosos a Daniel e continuaram a bater com entusiasmo. Tinham tirado os casacos. junto à caixa. No fundo da sala havia três filas de kineramas e os títulos dos filmes destacavam se em letras negras: Jovem Casal. manequim de dois metros de altura que trazia sobre o ventre uma almofada de couro e um mostrador. a intervalos regulares. Colocou um franco na ranhura e espreitou pelo binóculo. deserta. por entre casas e campos. sete jogadores de pólo. contra a luz. uma camisa de dormir e alpercatas. À direita. os cinco gatinhes pretos no tecto. viu um rapaz alto e de rosto cinzento que vestia um fato amarrotado. Daniel sufocava: era aquela poeira. Daniel mergulhou na luz amarela. um louro. aquele calor e. Noite de Núpcias Interrompida. os distribuidores de chocolate e perfume. aproximou se lentamente e meteu uma moeda de um franco na ranhura do aparelho.Era uma trincheira empoeirada com muros caiados de castanho de uma fealdade severa e cheiro de um depósito de mercadorias. um ruivo e dois morenos. vinte e duas figurinhas de madeira pintada espetadas em ganchos de ferro. Ao longo das paredes tinham posto umas caixas grosseiras sobre quatro pés: eram os jogos. Na sala das máquinas. Daniel franziu o sobrolho para mostrar lhes que se enganavam no endereço e virou lhes as costas. e que se tinham de derrubar com cinco tiros de revólver. Criadinhas Devassas. arregaçado as mangas das camisas sobre os bracinhos magros e batiam alucinadamente sobre a almofada. o automóvel de lata que se tinha de empurrar sobre uma estrada de pano. No fim de momentos.

de liberdade e de esperança. Aquele aparelho niquelado parecia satisfeito. com aquele gosto a eternidade. os mais românticos. O aparelho tremia todo. O rapaz não pareceu decepcionado. «gosta de se acariciar. estava cheio de vontade de pousar a mão no braço do rapaz — já sentia o contacto da fazenda áspera e usada — e dizer lhe: «Não jogue mais. Daniel compreendia muito bem que se podia ser tragado por um daqueles aparelhos. uma tez aveludada sob os cabelos brancos. aquela tristeza infinita e familiar que ia tudo submergir. O senhor olhou os com um olhar prudente. O senhor avançou com petulância. Devia ter uns cinquenta anos. deu um passo em frente. pensou Daniel. Não aqui neste inferno. Estava ligeiramente desvairado. mas o buraco cuspiu de repente um punhado de bombons multicores. pegou nas alavancas e pôs se a manobrá las com convicção. Mas um homem entrou.perder se em meditações. coçando o nariz. Daniel fazia votos para que ele ganhasse a lâmpada eléctrica. pensou Daniel. uma vida misteriosa de privações. pensou. mas sem grande entusiasmo. com a garganta seca de vertigem e ódio. pensou que ia desatar a rir. depois recomeçaram a dar socos na barriga do negro. Ia precisar de dias e dias para se libertar daquilo. que tinham um aspecto avaro e estúpido de feijões. e Daniel libertou se.. nesta luz sinistra. um belo nariz florentino e um olhar um pouco mais duro e míope do que o que seria necessário: o olhar de circunstância. perder todo o dinheiro. aquele tanta vitorioso junto da parede. Daniel compreendia todas as vertigens.. aqueles cujo menor movimento revelava uma garridice inconsciente. num gesto vivo. O guindaste pôs se a girar com movimentos prudentes e desdenhosos. com aqueles murros junto da parede. recomeçar sempre. Daniel sentiu um arrepio familiar percorrer lhe a nuca. e recomeçar. Fez girar as alavancas e examinou os .» No entanto. procurou nos bolsos e descobriu outra moeda. Daniel teve medo. jurei aguentar.» Ia recomeçar o pesadelo. «não come desde ontem. todo preocupado com o seu próprio prazer. pensativo. Empertigou se. pensou. «Não hoje.» Não não devia. O rapaz. exibindo o mesmo ar de inocência viciada. «Ele gosta». «Deve usar cinta». Os quatro vadios voltaram se ao mesmo tempo. Não devia imaginar por detrás daquele corpo magro e atraente. do qual não se excluía uma certa severidade. «Eis o homem». «São as suas últimas moedas». resistir. bem barbeado. J E A N P AUL SARTRE O guindaste girou sobre si mesmo com um ruído de engrenagem e estremecimentos senis. um amor de si próprio profundo e aveludado. mas ainda assim contente por ter resistido. dobrando os joelhos.» Eram os mais atraentes. o busto recto e as pernas flexíveis. aquela maré de tristeza resignada que subia nele.

Um impulso sem consequências. Inclinaram se ambos sobre as alavancas e inspeccionavam nas sem se olharem. Mas foi apenas um instante. — E o hábito — respondeu o rapaz. Parecia farejar. Daniel reparou eno J E A N P AUL SARTRE jado nos quadris avantajados. já o conhecia. após um rápido conciliábulo. Ensine me. não é? Eu tento enviar uma bola para o buraco e você procura impedir. «Filhos da puta». o rapaz de camisa de dormir tirara do bolso uma terceira moeda e recomeçava pela terceira vez a sua dança silenciosa em torno da grua. sim. considerava sem dúvida que. O velho disse em voz de falsete: — É muito hábil! Como conseguiu? Ganha sempre. Quatro jogadores descreveram um semicírculo e pararam de cabeça para baixo. dando o primeiro passo. Acontece me entrar por acaso. com os seus cabelos brancos e a sua roupa clara. É da província? . À direita. faz treinos? Vem sempre aqui. mas nunca o encontrei. não é? — Isso mesmo — disse o rapaz.» O senhor era capaz de o levar para casa. Não queria baixar se. claro que quero. de o lavar e talvez perfumar. um olhar de cão sob as sobrancelhas espessas. como se ele próprio se divertisse com o capricho que o conduzia ali. lembrar me ia de si. Pusera o casaco sobre os ombros. era uma isca deleitável para aqueles peixinhos todos. pensou. sem o vestir. Jogaram. — Ponha um franco e puxe. Quer — explicar me? Eu não compreendo. com modéstia. sim. — Quer fazer uma partida comigo? — Eu. O rapaz ao fim de um instante pareceu tomar uma decisão heróica: empunhou uma alavanca e fê la girar com rapidez. «amassa se corno pão. Sim. temeroso. As bolas saem. — Sim. que uma ligeira barba sujava. Encostou se comodamente à coluna e lançou sobre o senhor um olhar pesado. A seguir acrescentou: — Precisam de ser dois: um de cada lado. sem dúvida? Eu não. aquelas simulações e mentiras horrorizaram no e ele teve uma grande vontade de fugir. Esse pensamento enfureceu Daniel. O senhor petulante inclinou se sobre o jogo e passou o dedo frágil no corpo magro dos bonecos de madeira.bonecos com uma atenção sorridente. «Carne de mulher». Daniel viu o sorriso e sentiu um baque em pleno coração. é preciso mandá las para o buraco. tê lo ia visto. o lourinho destacou se do grupo. sou bom fisionomista e você tem um rosto interessante. mas cinzentas. — Mas é preciso ser dois. e aproximou se do miché com as mãos nos bolsos. — Sabe jogar? — perguntou o velho com uma voz doce. murmurou. Com efeito. O rapaz parara a poucos passos do velho e fingia examinar também o aparelho. nas gordas bochechas camponesas.

desconcertado. Pensei: «Um destes . Este fez um ar de desprezo. Lalique era um nome de guerra que usava às vezes. Daniel empregara o numa farmácia. mostro lhe a minha carteira de funcionário. com um sorriso inocente e astuto. As suas mãos tremiam e a sua felicidade era perfeita se não sentisse a garganta seca com a sede. se não vê mal nisso. — Tinha te proibido de voltar aqui. fala! — Ando à procura do senhor há três dias — disse Bobby com a sua voz arrastada —. comprada feita. Daniel sobressaltou se. O velho para juntar se a ele teve de dar uma volta sobre si mesmo. depois sairia por sua vez arrastando os pés.» — Bom dia. De boca aberta. O rapaz não vira nada. Prefiro conversar. O velho não respondeu e lançou uma olhadela furtiva para o lado de Daniel. o velho sairia à frente apressado. Fizera se gordo e grande. pareceu inquieto. ingenuamente —. Imaginava o velho de um lado para o outro no passeio. usava roupa nova. — Que estás a fazer aqui? — perguntou com severidade. olhar vazio e deferente. Olhava Daniel sem responder. finalmente. Ia segui lo. Bobby inclinara a cabeça sobre o ombro e fazia como os meninos. O senhor parou de jogar e aproximou se do rapaz. e o homem desviou os olhos. sem o olhar. Conhecia o ritual: parecia um adeus. e deparou com o olhar de Daniel. — Pois jogamos daqui a pouco. ainda tem cinco bolas. O rapaz consentiu com a cabeça. — Deve ser «massa»! — disse em voz alta. Daniel gozava de antemão a cena.A — Sou — disse o rapaz. Se houvesse oportunidade. Era Bobby. esfregou as mãos como um padre. o velho pôs se a falar com doçura. passaria por polícia de costu J E A N P AUL SARTRE mês. Aquele sorriso enfureceu Daniel. pois. — Vamos. ouvia apenas as palavras «rancho» e «bilhar». «Se pedir os meus documentos. aguardava que lhe dirigissem a palavra. vendo chegar de repente o rapaz acompanhado por Daniel. Por mais que Daniel prestasse atenção. não sei a sua morada. O rapaz sorriu forçadamente. em voz baixa. Sr. O rapaz voltaria para os companheiros com indolência. assentava o nome e o endereço do velho e pregava Ihe um tremendo susto. Daniel sentia se reconfortado por uma cólera seca e deliciosa. — Mas a partida não acabou — disse o rapaz. Fez se silêncio e. passando a língua sobre os lábios finos. Lalique — disse uma voz sumida. Levantou a cabeça. Voltou se bruscamente. daria um soco ou dois no ventre do negro. devorando com olhar de juiz o rosto delicado e gasto da presa. não tinha o menor interesse.

Ele inclinava a cabeça para trás e olhava o tecto com uma expressão de humilde volúpia através das pálpebras semicerradas. preferia matar me a parecer me com esse tipo. engordaste. foi por isso que tomei a liberdade. onde a arranjaste? É horrível como a tua vulgaridade sobressai quando estás endomingado! Bobby pareceu não se incomodar. E vê se te afastas um bocado. e essa roupa não te serve. Bobby riu se. Daniel sentia se solidário com aquela mancha plácida e viva: era ele que assim vivia na consciência de Bobby. dar uma voltinha. pois uma certa imagem de Daniel ali se achava incrustada. Olhava Daniel arregalando os olhos gentilmente e continuava a sorrir. Daniel vem aqui. mas o outro já tinha virado as costas. e ali ficaria para sempre. — Desculpe — disse Bobby sem se apressar.» E nada há a fazer contra isto. a fazer previsões: «Imagina que me conhece e pode manobrar me. com uma palmadinha no rosto. debaixo daquela fronte estreita. a não ser esmagá lo como uma lesma. «Pensam que todos o são. aquele sorriso mole e tenaz de borracha.» Atrevia se a julgar Daniel. que tresandas a brilhantina. — Como estava encostado à coluna e não parecia de modo algum apressado. «Agradou me porque se parecia com um gato». Apesar da repugnância.» Tinha horror a essa franco maçonaria de mictórios. — Estás feio — afirmou —.» — Que é que queres? — perguntou brutalmente. Estou sujo. — Estou com pressa. Sim. desatando a rir. um dia Bobby tinha lhe agradado. Daniel deitou uma olhadela furtiva para o velho e viu com despeito que este já não fazia cerimónia. — Oh! Tu falas bem! — disse Daniel. pensou Daniel com ódio. Em todo o caso. Mas isso dar lhe ia direitos para sempre? O velho pegava na mão do jovem amigo e conservava a paternalmente entre as suas. deitou um olhar de cumplicidade a Daniel e saiu a passos largos e dançantes. — Compraste uma língua juntamente com a roupa? Os sarcasmos não atingiam Bobby. «Vê me com este canalha e toma me por colega. Daniel detestava aquela paciência inerte de pobre. — Foi porque o senhor mostrou a língua ao velho maricas — . — Que é que foi? — observou Daniel. J E A N P AUL SARTRE Daniel mostrou lhe a língua. pensou Daniel com um estremecimento de raiva.» «Um destes dias! Merda insolente. Inclinava se sobre o miúdo. «Era de esperar».. respirava lhe os cabelos com um ar de bondade. Depois disse lhe adeus.. e que ainda continuaria mesmo que lhe rebentassem os lábios a soco.dias o Sr.

Procurou com o olhar o dorso curvado e a nuca magra do rapaz em camisa de dormir. — Então puseram te na rua? — perguntou. E então vomita tudo na farmácia.» E não tinha um tostão. Dirigiu se com passinhos curtos até um distribuidor de perfume e olhou se no espelho. dizia ela.disse Bobby. horrorizado. é um tipo estuporado. Invadido por uma suspeita perguntou: — E a farmácia? Já lá não estás? — Não tenho sorte — disse Bobby. «na farmácia a senhora é que manda. «Não perdes pela demora». — Vamos. Sr.» Pan! A sala estava deserta.» — «Minha senhora».» DADE DA RAZÃO Que fazer. — Via o menos. Mas o estagiário encontrou nos juntos. mas eu mandei o passear. sempre brincalhão. — Já te tinha dito para não te dares com Ralph. ir me embora. A caixa levantou se. essa mulher era uma puta. fala — disse distraidamente. «Que é que eu te disse?». Os três companheiros seguiram no logo depois. mas lá fora não me pode dizer nada — repetiu Bobbv com agrado. mas não queria deixá lo assim de repente. Então comecei a ver Ralph fora da farmácia para não ser apanhado. Bobby para ali. «E um ladrão». Bateram as sete horas. era só Bobby para aqui. quando entrei para a farmácia. — Que é que fizeste? Roubaste? — Foi a mulher do farmacêutico — respondeu Bobby. que fazíamos coisas. — Nem por isso deixaste de engordar. E acrescentou em tom carinhoso: — É sempre o mesmo. atropelavam se. — Bom. — No princípio. Daniel estremeceu. Daniel encarou o. o ruído dos socos parara. só porque tivemos sorte? — atalhou Bobby com indignação. Tinha medo da solidão. hem! Eles não me . bom — disse Daniel. Daniel sentiu se cansado e vazio. a sorrir. sei lá. O tipo louro saiu vagarosamente da quermesse. «proíbo que ele entre na minha farmácia. que as pessoas se escandalizavam. disse eu. queixoso. O estupor parece gostar de coisas — disse Bobby com pudor. disse me ele. — Não gostava de mim. O rapaz em camisa de dormir já não estava lá. Daniel. — Na farmácia a senhora é quem manda. — Disse: «Prefiro. que nos viu juntos. rindo muito alto. perguntou a patroa. «Ou não tornas a ver Ralph ou sais daqui. pensou Daniel. Ao passar roçou ao de leve Daniel. — Começou a hostilizar me porque eu via Ralph. com nojo. era uma loura gorda. «Que estou a fazer aqui?». — Então devemos abandonar os amigos. — Eu é que saí — disse Bobby muito digno. mas lá fora não me pode dizer nada.

Bobby pôs se a fazer trejeitos. — Toma — disse Daniel —. — Obrigado. mas não faz mal. Eu sou assim. — Vai te embora. verás como ele não me deixa em apuros. — Perguntar a quem? — À patroa.. Sentia se acovardado. — És um idiota — disse Daniel. Não como desde anteontem. Lalique. ele compreende me. — Estávamos com um projecto de trabalhar juntos. indecisos. Está enganado sobre o Ralph. Na Rua dês Ours. O corpo parecia lhe algodão. Esfalfo me para arranjar um lugar e consegues ser J E A N P AUL SARTRE posto na rua ao fim de um mês. — Se pudesse emprestar me. Durmo na casa de Ralph. hem. nós moramos aqui perto. Mentes como um tira dentes. Aliás. — Deus me livre! Não estou disposto a ouvir as suas histórias. Lalique. — disse Bobby com indiferença. pensou: «Tenho de me ir embora». Quanto? — Cem francos. 6. Quanto queres? — É um bom tipo. emprestar. não posso fazer nada por ti. com voz humilde. mas sentia as pernas moles. ele gosta muito de si. E depois. — Já não me interessas. não penses que acredito em metade do que me contaste. Ralph e eu. Depois deu meia volta e foi se embora. Ao lado da Kodak e da lâmpada eléctrica havia um . — Disse a mim próprio: vou ver se encontro o Sr. ou com Ralph. Ver se não estou a dizer a verdade. Sr. a recuar e sorrindo sempre. — Se quiser falar comigo. Bobby meteu o dinheiro no bolso sem falar e ficaram um diante do outro. Lalique — disse Bobby. no sétimo andar. — Ainda hoje dizia a Ralph: se eu encontrar o Sr.quiseram pagar o que me deviam. Bobby afastou se. toma cinquenta. Sr. Deu uma saída em falso e voltou atrás. E uma aventura séria. durmo de dia porque à noite ele recebe a puta. são dados. — Pode perguntar lhe. Daniel aproximou se do guindaste e olhou. Lalique.. — Sim? E vieste pedir me dinheiro para as primeiras despesas? Guarda essas histórias para outros. Devolvia lho no fim do mês. carinhosamente. A — Vai te embora — disse Daniel com rudeza. Olhou Daniel. — Queremos arranjar um comércio. — Quanto queres? — repetiu Daniel. E desaparece.

Daniel viu o de longe. como sempre. dos homens de boa vontade. dar lhe ia uma tremenda sova na rua!» Porém Bobby não aparecia. Gostaria que me tivesse seguido. Eu ainda estava com Paul Lucas. Em 1912. E o céu. e não a minha?» Assim era. não em 1913. Daniel era um homem de má vontade. Além disso. «Ser aquele tipo». Agora carregava o Mal dentro dele como uma comichão infecciosa.» O porteiro estava sentado numa cadeira. Daniel estava com uma sede infernal.» Mas o quê? Teria cuidado para não o esquecer. Daniel estremeceu: «Se pudesse esquecer aquela direcção. Bastaria um sinal para que esses homens se atirassem contra ele e o fizessem em pedaços. mas uma sombra suave e líquida subia da rua. O sol derramava um pouco de ouro nos grandes edifícios escuros. Deixara se roçar pelo Mal. «não fiz nada que mereça castigo. Eles bem o sabiam. o céu estava cheio de ouro. Rua dês Ours. as pessoas sorriam à carícia da sombra. com as mãos sobre o ventre como um Buda. um porteiro gordo e pálido. da gente de bem. morre. pensou: «Eis o Bem. Daniel recolheu cinco ou seis na palma da mão e comeu os. de ombros caídos. Daniel olhou os seus rostos: eram duros apesar de um aparente abandono.. menos a satisfação. pensou Daniel. Enfiou uma moeda no aparelho e rodou os manípulos ao acaso. Devia ter um coração reverencioso. 6. sensível às grandes . que Deus. não tivera sequer a coragem de se satisfazer. eles sabiam que tinham razão.. Voltou se bruscamente: «É capaz de me seguir para ver onde moro. desgraçado! Morre de sede! «Afinal». assim o tinha resolvido. Um senhor disse à mulher: — Mas isso foi antes da guerra. estava invadido por ele da cabeça aos pés. Ralph. a natureza toda. tudo os aprovaria. Ganhara o dia e devia ter voltado para casa. se existia. estava com eles. da gente honesta.binóculo que não tinha visto antes.. tinha ainda na vista aquela mancha amarela. A paz de boa gente. as árvores. pois esmagado daquela maneira também era mal. O guindaste deixou cair os ponteiros sobre o monte de bombons. Tinha sido preferível deixar se esma J E A N P AUL SARTRE gar pelo prazer. a luz. naquela luz. porém não queria beber. «A paz. No limiar da entrada de um edifício. via as pessoas passarem e de quando em quando aprovava uma qualquer pessoa com um meneio de cabeça. Qualquer coisa naquele céu. pensou. Se fosse possível esquecer aquela direcção. naquela natureza. permitira tudo. É verdade que renascia sempre. Porque será a vontade deles a boa. Ao lado dele as pessoas tagarelavam em paz com a consciência..» Mas fora pior. os olhos amarelavam lhe tudo. com inveja. aquecia se ao sol.

» Deu os treze passos e parou justamente à beira do passeio. Não se iludia sobre os riscos. dava lhe um ar de advogado. Boris concordaria em participar de uma fita demonstrativa! «Ah!». o roubo do mostruário pelo processo 1763. é indispensável. «O que acontece». fascinado pelas longas pestanas estúpidas. não gostava de carregar aquilo.» Deitou um olhar irritado sobre a pasta. um pouco animado. à luz. até ter na cabeça apenas uma massa branca com um perfumezinho de sabão de barba. a teoria seria gravada em discos e traria o nome do inventor. os movimentos mais difíceis. «é que os ladrões são uns estúpidos. e Daniel esticou o passo. isto não tem a mínima importância. era de perguntar como ninguém tinha pensado naquilo antes. as ruas deslizavam sob os pés para o centro envelhecido e comercial da cidade. Viu com prazer um bar cor de abóbora e verificou que estava no meio da Avenida de Orleães. ou «processo de Serguine». entre as sete e sete e meia da noite. uma ética.» Não podia falhar. A luz contribuía muito para isso. também denominado ovo de Colombo (porque é simples como tudo. ao calor. Haveria. «Há muito tempo que deveriam ter se organizado. e depois era delicioso encontrar se nos limites de Paris. para o mercado. Tudo se classificaria por categorias. «Se chegar ao passeio em treze passos. Era espantoso como as pessoas pareciam simpáticas na Avenida de Orleães. Os transeuntes parece que . Daniel parou. Mas o mau humor depressa se esvaiu porque se lembrou de que não a trouxera por acaso.» O processo assentava quase inteiramente na psicologia.. Cada novo aperfeiçoamento seria reproduzido. «e cursos gratuitos de psicologia do roubo. de qualquer maneira o negócio está no papo. fendera se como um esgrimista. mas o último passo tinha sido muito maior do que os outros. Já não sabia se tinha vontade de o matar ou de deslizar confortavelmente dentro daquela alma bem regrada. por exemplo. precisando melhor a sua ideia. era uma musselina ruiva bem ajustada. para as vielas sombrias de Saint Antoine. Ser lhe ia até muito útil. resta me a esperança de me tornar indulgente o mais depressa possível. tradições. sentia se mergulhar no doce exílio religioso da noite e dos arrabaldes. eis o que faltava.» Atravessou a rua.. em câmara lenta. apenas. «Isto dorme todas as noites». pensou. pensou com severidade.» Uma associação para o conhecimento mútuo e a exploração dos processos técnicos. mas tinha de ser descoberto). Embrutecer se até chegar àquele ponto. pela malícia sentenciosa das bochechas cheias. à humidade. era científico. biblioteca. Em sindicato. pensou. «Aliás.forças naturais. O homem levantou a cabeça. Filmoteca também e fitas que decomporiam. mas estava calmo e frio. «Com a vida que levo. Com uma sede social. ao frio. como os prestidigita dores.

no 14 de Julho. Pois. porque se deixava então de ser livre. «Talvez Mathieu tenha percebido que seguia um caminho errado e vá entrar para o partido. Mathieu não era tipo que se enganasse. com excepção de Mathieu e Ivich.» E subitamente uma violenta e rápida borrasca desencadeou se lhe na cabeça. mas com a intenção de comprar. «No fundo. com esses era inútil. veria os armários com espelho ao fundo dos quartos. e perguntou a si próprio de onde vinham aqueles impulsos de tudo subverter que o assaltavam de vez em quando. como lagos artificiais. pensou de repente Boris. ser responsável apenas perante si próprio. pensou. pensou.» Divertiu se durante um instante em enumerar as consequências incalculáveis de semelhante conversão. pensar o que bem se entende. nas grades douradas do Palais Royal. Quanto à liberdade. uma necessidade de ser mau. não sei porquê. Que teria ido fazer aquele comunista a casa de Mathieu?». a multidão passa através de meu corpo.saíram de casa para estar juntos. não era recomendável analisá la demasiado. devo ter um temperamento inquieto». eram sérios de mais. «E no próximo Verão hei de alugar um quarto numa dessas casas de três andares que parecem irmãs gémeas e fazem pensar na revolução de 48. não se zangam quando são empurrados. Brunet então parecia um papa. Boris . resolveu Boris. E olham os mostruários com uma admiração inocente e inteiramente desinteressada. seria demasiado grave agora que Boris se decidira. «Hei de vir aqui todas as noites». Em particular discutia sempre com todos. considerando friamente as coisas. como se arranjariam as mulheres para atirar colchões das camas sobre os soldados? Está tudo preto de fumo em volta das janelas. não é triste. Não gostava dos comunistas. Era escrupu J E A N P AUL SARTRE losamente livre. porque eram perfeitos. mas Mathieu tinha o desviado. Boris construíra a sua vida sobre esses alicerces. «Pôs me fora». Mas logo parou. com perplexidade. receoso. como se tivessem sido lambidas pelas chamas de um incêndio. dir se ia até que gostam disso. essas fachadas lívidas e cheias de buraquinhos negros parecem manchas de tempestade num céu azul. com um espanto divertido. Certamente Mathieu não se enganara. e eu penso em guardas municipais. Mas com janelas tão estreitas. Boris compreendera imediatamente: é um dever fazer o que se quer. se pudesse subir ao tecto da marquise do bar. Boris coçou a cabeça. analisar permanentemente o que se pensa dos outros. ensinando lhe o que era a liberdade. entusiasmado. Na Faculdade sentira se atraído pelo comunismo. «Que estupor! Pôs me mesmo fora. não. No Bulevar Saint Michel as pessoas olham também os mostruários. Vejo as janelas.

engasgava se. aquele mar tropical que recuava deixando o sozinho sob o céu pálido. não têm jeito para nada e são detectives particulares. Boris tinha horror ao ridículo. Parou diante do espelho de uma bela farmácia vermelha e olhou a sua imagem com imparcialidade. «Sou modesto». fazia o possível para que Mathieu não percebesse. Boris achava indecente um camarada da sua idade pensar por si. mas este percebia sempre. haveria aquele furto. mais uma pequenina etapa. Ficou confuso por momentos: quinhentos gramas! Mas percebeu que tinha a pasta na mão. Perguntaria a Mathieu. Boris tentava desviar a conversa. Aliás. E viu os prós e os contras. raciocina como um cabo de vassoura». Boris acabava por dizer tudo. e o pior é que Mathieu ainda por cima o descompunha. E dali a pouco. Tinha de ter cuidado. que o roçava com uma luz suave e perfumes cheios de saudades. olhava os dedos. Desceu da balança e continuou a andar.sentia se satisfeito e balançou alegremente a pasta. exactamente como se Boris se tivesse vangloriado de ser um génio. Sentia se de excelente humor e como que aveludado por dentro. sempre se tinha alegrado quando Mathieu se punha a pensar. Achou se simpático. era uma etapa. estudantes de óculos que tinham sempre reservada uma teoria pessoal e acabavam por perder. E depois a atmosfera cheirava a uma melancolia levíssima do dia envelhecido que agonizava devagar em volta dele. repetiu Boris rindo. gaguejava ligeiramente. veria Mathieu. porém Mathieu era tenaz como um piolho. Mathieu corava. Já vira muito disso na Sorbona. exactamente entre o dia e a noite. Mais tarde sim. A noite ia cair. às vezes. ele ia ao Sumatra. os falsos espertos. Aquele dia. que desempenhara esse papel durante três . mas era afinal um trabalho sóbrio e elegante. Demais. Cinquenta e sete quilos para um metro e setenta e três estava bem. pensou. de uma maneira ou de outra. Boris sabia o por intermédio de Picard. Subiu para a balança automática e pesou se para ver se não tinha engordado desde a véspera. «Estupor». por causa dos tipos que folheiam os livros. Uma lâmpada vermelha acendeu. Era um suplício. olhava para os pés. mas não quis levar avante a investigação. e enchia o de perguntas. o estupor. Empertigou se e apressou o passo. angulosas. Interrogou se também se era moral ter um temperamento inquieto. o mecanismo funcionou com um ruído sibilante e cuspiu um bilhete: cinquenta e sete quilos e meio. No entanto. não queria perder e preferia calar se a passar por tolo: era menos humilhante. «É completamente idiota. Boris tinha uma ideia. e dizia lhe: «Você tem qualquer coisa na cabeça». mas por agora confiava em Mathieu. dançaria. A Livraria Carbure tinha seis. Era o seu ofício. aquela obra prima. as teorias eram idiotas. veria Ivich.

Dentro de meia hora. Até ali não tirara nenhum proveito material dos seus empreendimentos. enojado. Ia colocá lo naquela mesma noite sobre a mesa de cabe ceira e na manhã seguinte o seu primeiro olhar seria para o livro. mas o que sabia aprendera com método. daria uma olhadela para se distrair. como um inspector vulgar. por exemplo. Fausto e os cintos de castidade do Museu de Cluny. a ele não o apanhavam. Naturalmente os infelizes perdiam a cabeça.» Ele não improvisava. «Aquele thesaurus!».dias depois de ter reprovado em Geologia.» Ficava com um nó na garganta e uma extraordinária impressão de lucidez e de força. Sorriu. E depois havia um momento de inteira satisfação. ao passo que agora era forçado a consultá lo de passagem nos mostruários. eram então levados. rapidamente. havia de os vingar. que lhe lembrava a Idade Média. levá lo ia para a biblioteca da Sorbona e de vez em quando. Mais valia roubar uma caixinha de pastilhas de alcaçuz sob o olhar do farmacêutico que uma carteira de cabedal de uma loja vazia. tivera de o fazer porque os pais lhe tinham cortado a mesada. nem os vinte francos. disse aborrecido. para o fundo de um corredor. para se manter em contacto com a realidade. e. O benefício do roubo era exclusivamente moral. pois não se podia considerar lucro as dezassete escovas de dentes que possuía. e extorquiam lhe cem francos com a ameaça de um processo. Tinha de cair lhes em cima de repente acusando os de terem tentado enfiar um livro no bolso. pois sempre considerara que quem trabalha com a cabeça deve ter um ofício manual também. a bússola. o mais tardar. os tipos de monóculo. a cinco é preciso que a escova esteja no meu bolso. às vezes as informações obtidas eram falseadas. um herbário. em cem ladrões. . a tenaz de lareira e o ovo de passajar. Por certo não sabia tudo. «vou dormir a casa de Lola esta noite.» Em todo o caso. pois gostava da palavra thesaurus. como as páginas não estavam cortadas. pela primeira vez. «Ora». mas ainda ficar de espreita para apanhar os ingénuos. ao interromper o trabalho de revisão. murmurou. o interesse seria o móbil do roubo. Boris sentiu se «embriagado». «Será meu. que se aproximam timidamente do mostruário. Não somente era J E A N P AUL SARTRE preciso espiar. um escritório sombrio. oitenta improvisam. poderei consultá lo a qualquer hora do dia ou da noite». O que lhe importava em cada caso era a dificuldade técnica. mas deixara o logo. Neste ponto estava de acordo com os antigos espartanos. Abelardo. era uma ascese. Ia abrir uma excepção aos seus princípios. «Essa gente não sabe fazer as coisas. possuiria aquela jóia. aquele tesouro indispensável. era quando dizia: «Vou contar até cinco.

Se ela própria não roubava.. o que se podia considerar muito bom. Ria com indulgência quando Boris lhe falava. com excepção de uma tinturaria escura com cortinas cor de sangue que pendiam lamentavelmente como cabeleiras escalpadas. mas o metro passa aqui em baixo». J E A N P AUL SARTRE O sangue subiu lhe ao rosto.» Não. pensou Boris. e nos momentos em que Boris mais o admirava. mas sem servilismo. seria o seu próprio juiz. «Sim. mas era normal. desde que fosse efectuado dentro da regra? Essa censura tácita de Mathieu preocupou o durante alguns instantes. é fácil de mais. depois sacudiu a cabeça e disse: «É estúpido!» Dentro de cinco anos.» Boris não tinha nenhuma vontade de que esse dia chegasse e achava que era perfeitamente feliz. com um vago mal estar. Ela dizia lhe: «Eras capaz de roubar a tua mãe. mas não podia mudar ao mesmo . Não era compreensível. não estava ainda maduro. Aliás era um recanto sem carácter. sete anos. A Ivich sim. uma olhadela amável à tinturaria e depois mergulhou no silêncio louro e distinto da rua.. ela compreenderia. «Nem sei se ainda nos veremos. mas não era desprovido de bom senso e sabia que isso era uma necessidade. talvez duas. em seis meses seriam trezentas e sessenta. Teria de mudar. não podia entender certas subtilezas e depois era um bocado avarenta. Com as quinhentas ou seiscentas que já conhecia. A Rua Denfert Rochereau aborrecia o muito. Uma rua? Era apenas um buraco com casas de ambos os lados. se houver uma oportunidade.Decidiu se a aprender uma locução por dia. teria as suas ideias próprias. Atravessou o Bulevar Raspail e entrou pela Rua Denfert Rochereau. imaginou que caminhava sobre uma fina camada de asfalto e que talvez ela fosse ceder. ele dizia que sim para a irritar. Contaria também a história a Lola para a chatear. Que podia invocar contra o roubo. de deixar para trás uma multidão de coisas e de gente. Não compreendia o que Mathieu podia censurar lhe. Mas Mathieu. as de Mathieu parecer lhe iam ingénuas e antiquadas. não contaria nada. não se roubam os íntimos. como Lola. detestava a mania de Lola de ligar tudo a si própria. um dia também me hás de roubar a mim. é porque não tinha jeito. e tirou dessa verificação algum conforto.» E ele respondia: «Quem sabe. chegaria ao milhar. quem sabe. ele vai ficar doido.» Naturalmente isso não tinha sentido. Mathieu era tão perfeito quanto possível. Mathieu era uma etapa. Lola ficava doida com isso. Boris deitou. ao passar. talvez por causa dos castanheiros. havia na sua admiração algo provisório que fazia que ela fosse imensa. «Tenho de contar isto a Mathieu. mas Boris não tinha muito a certeza de que ele os aprovasse. Mas Mathieu não se mostrava muito à vontade nessas histórias de furtos.

e ainda por cima Boris pôs se a pensar nas pessoas idosas que compravam aqueles objectos. era perfeito de mais. gemeu Boris. Depois. Hei de comprá la daqui a pouco. «Oh!». A Livraria Carbure achava se instalada na esquina da Rua Vaugirard com o Bulevar Saint Michel e tinha — o que auxiliava as intenções de Boris — uma entrada em cada rua. já não podia mudar. Boris verificou com uma olhadela onde se encontrava o senhor de bigodes ruivos que rondava amiúde por ali e que desconfiava ser um detective. com o coração contraído de desejo. tudo o que não fosse o brilho frio da lâmina deixou J E A N P AUL SARTRE de o interessar. mola. sombrinhas verdes e vermelhas. . papel encorpado. «Picard há de me ensinar a atirá la». tão grande que Boris ficou desanimado durante uns momentos. Daqui a pouco. «Que não tivessem tido a ideia de guardar o livro precisamente hoje!» Na esquina da Rua Monsieur le Prince e do Bulevar Saint Michel. Tinha como princípio agir friamente. A navalha descansava aberta sobre uma prancheta de madeira envernizada. entre dois guarda chuvas. metodicamente. Boris contemplou a longamente e o mundo perdeu a cor à sua volta. Queria dominar a sua impaciência. como um ladrão. na montra. Dicionário Histórico e Etimológico da Linguagem Popular e do Calão desde o Século XIV até à Época Contemporânea. Era uma verdadeira navalha espanhola. a olhar os objectos uns após outros. de ocasião. in 4. aproximou se da terceira mesa. tudo triste. não era prudente chegar de rosto corado pela esperança. queria largar tudo. com um solavanco do corpo. «Uma navalha espanhola!». comprar a navalha e fugir. Diante da livraria tinham colocado seis mesas cheias de livros. parou. lamentável. cabo de osso preto. «Vai ser preciso enfiar isto na pasta». parecia sangue. Ia atingir um estado de resolução fria e sem alegria quando viu de repente uma coisa que o mergulhou de novo no júbilo. enorme.tempo que Boris. com olhos de lobo. Mas bastou lhe olhar o título dourado que luzia docemente para sentir voltar lhe a coragem. elegante como um quarto crescente. alguns em forma de cabeça de buldogue. sucumbido. pensou. O livro ali estava. como recompensa se tiver bom êxito. murmurou. na maioria. guarda chuvas de cabos de marfim. de lâmina espessa e comprida. Havia duas manchas de ferrugem na lâmina. entrar na loja. Setecentas páginas.°. Impôs a si próprio a obrigação de permanecer imóvel diante da loja de um negociante de guarda chuvas e de cutelaria. tremendo de prazer. Estes pensamentos aborreceram Boris e sentiu se satisfeito por chegar à Praça Edmond Rostand. Era sempre agradável atravessá la por causa dos autocarros que se precipitavam sobre as pessoas como enormes perus e evitavam nos por um fio. carregando a sua presa. mas o sentido do dever dominou o.

um amigo de Mathieu. que troçaria dele. Mas o conjunto era inatacável. Uma mão pousou lhe sobre o ombro.. num gesto familiar e terno.. não podem provar coisa alguma. parecia mergulhado na leitura. Havia sem dúvida naquele fato de tweed quase cor de rosa. e Boris . Era Daniel Sereno. Sereno sorriu. Boris vira o duas ou três vezes e achava o admirável.. Repetia. «Apanhado». e isso iria ter por certo aos ouvidos de Mathieu. E depois. Traduza se: o cura apreciava a bagatela. «mas agem cedo de mais. Boris irritou se e resolveu observá lo severamente. — Parei um pouco ao passar — respondeu de maneira embaraçada.. Por honestidade de espírito. folhear o volume. por "ser invertido". uma ousadia calculada que chocava um pouco Boris. Leu: «Ser de. naquela gravata amarela. Mas tinha um ar de sacana. Boris abriu o dicionário ao acaso. De costume. Exemplo: O cura era da coisa como um zangão. Era necessário iniciar a comédia. Na verdade mostrava se até amável de mais. naquela camisa de linho. com sangue frio. mas era preciso desconfiar. Boris admirou lhe a desenvoltura.«Histórico!» repetiu Boris com êxtase. Boris murmurou com uma voz engasgada. com admiração. Sereno desatou a rir. Devia estar a preparar algum golpe sujo. tomar uns ares de interessado que hesita e acaba por se deixar tentar. Não tinha o ar de sacana habitual. Tocou na encadernação com a ponta dos dedos.» As páginas seguintes não estavam cortadas. Pegou no volume com as duas mãos e ergueu o até aos olhos. surpreendeu Boris a folhear o dicionário de calão. mas fingindo se indiferente: J E A N P AUL SARTRE — É uma obra curiosa. como que de propósito. confessou que Sereno era perfeitamente elegante. pensou. Mas era evidente que Sereno considerava que tudo lhe era permitido. Devia ser ligeiramente míope. isso tinha. Boris apreciava a elegância sóbria e despreocupada. enlevado: «O cura era da coisa como um zangão. Tinha um riso quente e agradável. pensou Boris. que está a ler? Parece fascinado.. «Não é um livro. Esta locução parece originária do Sudoeste da França. Atrás dele certamente o senhor de bigodes devia estar a espiá lo. apesar de suave como manteiga fresca. Boris largou a leitura e pôs se a rir sozinho. enquanto uma alegria austera e pura lhe fazia o coração pular. — Bom dia — disse Sereno —. é um móvel. Sereno não respondeu.» Em seguida tornou se repentinamente sério e começou a contar: «Um! dois! três! quatro!». para: ser levado a apreciar. Diz se também: "ser do homem". os que folheiam livros deixam nos sobre a mesa com receio dos detectives particulares.. Locução usada comummente hoje em dia.» Voltou se devagar.

Sereno surgia sempre fora de propósito. — Está a estudar Filosofia. Mas naquele instante o relógio da Sorbona soou. creio eu — continuou Sereno. Pensou: «Estou a ser estúpido. Tinha a impressão de que Sereno desconfiava daquele J E A N P AUL SARTRE . mas cheios de ângulos.. Boris escutava atentamente. pular para fazer com que aquela vertigem de doçura se dissipasse. pensou com angústia. e manteve se atento.achou o simpático porque abria inteiramente a boca quando se ria. Era impudico. Sei quando um tipo é do homem — a expressão divertia o visivelmente —. — disse Boris sem fôlego. — Você é do homem. Estava contente por ter um pretexto para romper o silêncio. atabalhoadamente. E. descobria se neles qualquer coisa de duro. sob aquele olhar insistente. gelado. Sereno tinha uma voz de baixo muito agradável. Largou o livro sobre a mesa. que se sentiu corar pela segunda vez. mas não se atreveu. À primeira vista pareciam imbuídos de ternura. — Imagino que gosta disso — continuou Sereno. estudo Filosofia — respondeu Boris. e Boris parou. estou frito. pensou que convinha falar o menos possível. Os seus gestos são vivos e precisos. sentia nascer dentro de si uma estranha e descon certante doçura. Queria perguntar a Sereno o que entendia por «gestos cheios de ângulos».. «Está a querer pregar me uma partida». É sempre interessante ouvir alguém explicar como nos vê. não. quase de maníaco. Detestava falar. sacudir. tinha vontade de se agitar. Sereno não parecia com vontade de se ir embora.» A Livraria Carbure fechava às oito e meia. além disso. os gestos têm uma moleza harmoniosa que não engana. Os olhos eram incomodativos. desesperado. mas porque é que não se vai embora?» Aliás Mathieu prevenira o. pensou Boris. «Vai imaginar que sou um idiota». — Ser do homem! É um achado de que me servirei oportunamente. Estava a observá lo há um bom bocado e estava seduzido. não estava apressado. daquilo de que gostava. o que fazia parte da sua natureza demoníaca. Ao passo que você. — Sim — disse Boris. — Não core — disse Sereno (Boris sentiu se cor de sangue) — e saiba que um tal pensamento nem sequer me passou pelo espírito. — Um pouco — atalhou Boris. Deve ser muito hábil. Virou a cabeça e fez se um silêncio difícil. — Sim. — Ser do homem! — disse Sereno. Você deve perceber. «Oito e um quarto». Disse: — Confesso que não percebo nada de filosofia. «Se ele não se for embora imediatamente. pensou Boris resignadamente. Além disso. mas quando se olhava melhor. Serguine? — Eu.

» Depois ficava durante um bom momento a sonhar. Era verdade. Pelo contrário. Só que somos velhos amigos e eu imagino que ele reserva as suas qualidades pedagógicas para os jovens. perfeitamente idiota. Admirou Sereno por se mostrar tão gratuitamente sacana. Boris teve de reconhecer que o golpe atingia o alvo. Não tinha ciúmes de Hourtiguère. e Sereno acrescentou com vivacidade: — Estou a brincar. Mas a mini não souberam torná la agradável. Recruta os seus discípulos entre os próprios alunos. mas quando principiava a dá las. — Não duvido. Deve ter ouvido A falar dele. sentia por ele uma piedade misturada de uma ligeira repulsa (aliás. eu perdia o pé. que Mathieu conhecera antes de o conhecer a ele. Mathieu tomava às vezes um ar compenetrado quando Boris ia ter com ele ao Dome e dizia: «Tenho de escrever a Hourtiguère. — Porquê? — Não sei — disse Boris. vira apenas uma fotografia que o mostrava como um rapagão infeliz vestido com calças de golfe. Na verdade acho que tem sorte. como toda a gente. Sereno sorriu e disse: — Vê se logo que não é um amor puramente cerebral. No entanto. Boris irritou se. e a sua admiração por Sereno aumentou. evidentemente. Sereno olhou o com uma expressão atenta e penetrante. mas gostaria de lhe ter dado um soco na cara. — Não estava a pensar em si. parecia me que nem já sequer compreendia a minha própria pergunta.pudor e voluntariamente se mostrava indiscreto. — Eu não sou discípulo dele — disse Boris. mas com ódio. Eu estudei. não sabia. e suspeitou que Sereno queria levá lo a falar de Delarue. gostava muito daquilo. Até de Kant. Ele sabe de mais para mim. nada sabia dele. Você não possui cara de discípulo. Boris. secamente: — Mathieu explica muito bem. Boris sentiu se magoado com o tom irónico. Creio que foi Delarue quem me fez perder o gosto pela filosofia. há dois anos era a grande paixão de Mathieu. mas revoltou se e disse. por cima da folha branca. que ainda se arrastava em . Detestava aquele tal Hourtiguère. aquele alto e louro que partiu há dois anos para a Indochina. Boris punha se a trabalhar ao lado de Mathieu. a fim de repeti lo mais tarde a Mathieu. aplicando se como um recruta que escreve à pequena lá da terra e desenhava silhuetas no ar com a caneta. Pensava em Hourtiguère. e uma dissertação filosófica. estavam sempre juntos. Sereno riu francamente. não duvido. — Mathieu falou me dele — observou. em geral. e Boris mordeu os lábios com despeito. Pedi lhe várias explicações.

Não um sábio. se necessário. Boris mal o podia olhar de frente. Sereno continuava a sorrir. Ficaria estrangulado de timidez. que Mathieu fosse apenas uma etapa na sua vida — e isso já era bem penoso —. O rosto de Sereno mudou. — Tinha de ter idade sobre mini. mas não podia aceitar ser ele próprio uma etapa na vida de Mathieu. não seria divertido se eu tivesse algumas lições consigo? Boris olhou o. Debateu se por momentos. se imaginasse que um dia ele pudesse vir a dizer a um jovem filósofo. Pensou com uma resignação fria que deviam ser oito e vinte e cinco. desconfiado. J E A N P AUL SARTRE — Lamento amiúde ser tão ignorante neste terreno — continuou. — Estou persuadido que sim. Devia ser uma armadilha. Mas tinha um olhar estranho. — Diga me.. — Sou muito preguiçoso — disse Sereno. Desculpe tê lo . era uma permanente impressão de perigo. e era divertido conversar com ele porque tinha de jogar com firmeza. mas que levasse a sério as coisas. — Os que estudaram Filosofia afiguram se me ter tirado dos estudos grande alegria. vejamos. mas o sentimento do dever venceu o: — É que estou com pressa — disse num tom que a tristeza de não aceitar tornara cortante. — Um iniciado. Era um tipo esquisito e admiravelmente belo. absolutamente nada. com aquela expressão compenetrada e melancólica: «Hoje tenho de escrever a Serguine. que devia ser muito mais inteligente do que ele próprio e lhe faria por certo imensas perguntas embaraçosas. parecia encantado com a ideia. Preferia nunca mais ver Mathieu.cima da mesa de Mathieu). Riu como que assaltado por uma ideia agradável. foi o que me faltou. — Você intimidar me ia. Boris não pôde deixar de se rir e confessou francamente: — Acho que não saberia fazê lo. dispõe de um minuto? Poderíamos tomar alguma coisa ali em frente e falaríamos do nosso projecto. a dar lições a Sereno. — Muito bem — disse —.. Sereno encolheu os ombros. — Ora. Boris não respondeu. Um tipo assim como você. não quero incomodá lo. A Boris observava com angústia um caixeiro da livraria que começava a empilhar os livros.» Admitia. Mas por nada deste mundo desejara que Mathieu o tratasse mais tarde como tratava agora Hourtiguère. Gostaria de acompanhar Sereno até o Harcourt. Não se via. Sereno parecia ter se instalado. — «Nosso» projecto. — Mas sim! — disse Sereno. numa atitude indolente e cómoda. Apoiava se com ambas as mãos à mesa.

Voltou se bruscamente e partiu: «Tê lo ia magoado?». sem memória e sem consequência. imaginá los ambos bem dispostos. cumprimentos a Mathieu. um monge russo. As palavras fugiam. não desconfiava de nada. ser apenas esses passos. desmontado. quer um bombom. menina. não sei. e barata. Adeus. com bochechas já pesadas. arregalando os olhos e pondo a mão em concha no ouvido para nada perderem do maná divino. uma beleza .. é de morrer a rir. não sei. tenho a certeza de que ele os previne contra mim. precioso como um burro carregado de relíquias. quatro. tudo era preferível ao J E A N P AUL SARTRE silêncio. e enfiou as unhas na palma da mão. leva o ao café e o desgraçado engole tudo. dissecado. essas palavras. não me tinha enganado. Ora. Passos.. os cafés e teorias. Depois pensou que não podia perder nem mais um momento. — Um. a mãe não deixa. se tivesse podido existir naquele dia como nos outros dias. DADE DA RAZÃO como se fosse apenas uma transparência. Uma avalancha de palavras que fugiam de todos os lados. Mathieu deve tê lo olhado por baixo. explicando o meu temperamento. não sei e como o havia de saber. e ele não tinha defesa.. Tinham no julgado. com ar profundo. três. ele teria ido dizer tudo a Mathieu e ter se iam rido de mim. de lhe falar com confiança. Imbecil. já não se dava ao trabalho de ser delicado no fim. se tivesse cometido a loucura de me interessar por ele. quando lhe disse que não compreendia a filosofia. Tenho a certeza — já o tinha pressentido na época de Hourtiguère —. «Muito bem. que subia o Bulevar Saint Michel. cinco. «Ele falou lhe de mim! Era uma coisa in to le rá vel. num café de Mont parnasse. não sei. como hóstias. constrangido. Alioscha. E aquele olhar que me deitou. Ah! uma pequena cabeça nada mais. ligeiramente arqueado. estou contente por me ter mandado passear. o pobre cordeiro! Mathieu faz de sultão na classe. um jovem monge. A mãe proibiu me de falar com desconhecidos. os passos soavam dentro da cabeça. gosta de filosofia.» Parou tão bruscamente que uma senhora chocou com ele com um gritinho. é afectado.detido tanto tempo. um rosto austero e atraente. de fazer suar de raiva. atirou lhe o lenço. olhos cor de avelã. Acompanhou com um olhar inquieto os largos ombros de Sereno. Daniel fugia de um corpo frágil. Aos cinco pegou ostensivamente no livro com a mão direita e dirigiu se para o interior da livraria. «uma excelente lição.. dois. palavras.» Daniel repetiu: «De morrer a rir». vai passear esses modos de comunhão solene. sem se esconder. felizes. pensou Boris. de boca aberta naturalmente. um desses antros infectos que tresandam a roupa suja. foi bom». como se ele não fosse para os outros um corpo ligeiramente gordo. pensou satisfeito.

e talvez. olhava os transeuntes nos olhos.° 6 da Rua dês Ours. produziu se um rasgão na trama das palavras.oriental que fenecia. esta luz grega e bem doseada. um sorriso cruel. J E A N P AUL SARTRE Doce rosto obscuro. «Aí está um camarada que deve achar muito natural existir. como uma rua deserta na madrugada. visto que me conhece há quinze anos e é o meu melhor amigo. eu existia naquela carne. negligentemente. o desfile de palavras reiniciou se: odiava Mathieu. que ele se sentia espantado de existir. nunca está só. Mathieu não. que paciência. se tornou silêncio. senão prego te uma boa partida. A solidão era tão total sob aquele céu. Sereno aquilo. no fundo daqueles olhos. era o que lhe deixava. se se pudesse viver entre cegos. Pensou: «Eu teria podido. Ele não é cego.» Endireitou a cabeça.» Uma nova onda de cólera . devia ser o pesadelo de alguém. puta! Agora ela já não acredita numa só palavra do que ele diz de mim.. Palavra de honra. tem o direito de falar de mim. arranja discípulos se isso te diverte. não é uma consciência. O vento caíra. Mora no n. de alguém que acabaria por acordar. apagar. é um psicólogo. Sereno. Não devia ter deixado de falar. julga se Goethe. Sorriu com satisfação. Quando encontra alguém são duas pessoas para as quais eu existo. Ralphs e Bobbys. a cólera hesitava. Felizmente a cólera irrompeu.. estava fascinado. se estendeu. Bobby é um camarão. este céu virtuoso foram feitos para ele. e disse: «Mathieu falou me tanto de si. e depois cem. seria preciso correr por toda a parte. mas não contra mini. E não vai privar se desse prazer. Não. Sereno isto. e depois três. não devia. ele está em casa. «E daquele pobre rapaz ele fará um macaco amestrado!» Caminhava em silêncio. Mas Bobby sabe. como uma chaga. lavar. Ah! se ele morresse! Mas qual! Passeia livremente com a sua opinião a meu respeito dentro da cabeça e infecta todos os que se aproximam dele.» Pensou: «A minha última possibilidade. acariciante como uma consciência limpa. somente os passos lhe ecoavam na cabeça. Estendeu me a mão da primeira vez. e Mathieu roubara lha.. no meio daquela multidão atarefada. Sereno... que fervor não seriam necessários para iluminá lo ligeiramente. por detrás daquela fronte obstinada.» Era a última. sabe ver. Ah!. que não faz perguntas a si próprio. bem no fundo do silêncio havia o rosto de Serguine.» E eu olhei a também fixamente.. Silêncio pesado e vazio. Ralph sabe. e depois nove. estava lá dentro.. rasgão que se ampliou aos poucos. acariciava o seu ódio: «Mas cuidado. cobriu tudo. raspar um por um. com Ralph. o corretor Sereno. ninguém. olhando me muito. vangloria se disso. tirava tanta vaidade dessa vitória que durante um segundo esqueceu se de se dominar. sentiu se reanimado por uma raiva alegre e a fuga recomeçou. raspar. eu raspei Marcelle até aos ossos..

calmo. já não pisava o chão. Mas se houvesse uma só possibilidade de ela desejar o filho.» E a cara de Serguine quando Mathieu lhe fosse participar o casamento. A maldade era uma impressão extraordinária de velocidade. Era o rosto de Mathieu. à direita e à esquerda. sou um sacana.» Era tão vertiginoso aquele repouso lânguido de uma consciência pura. é intolerável e delicioso.. barreiras que se quebravam secamente como galhos mortos. acabado. um arcanjo . rutilante: «Mas.» Recordava se da expressão. um amigo comum para lhe dar coragem... «Em suma». E da raça de Abel. seu espanto esmagador. O pensamento saltou lhe à frente. com que Marcelle lhe dissera uma vez: «Quando uma mulher está perdida. têm a honra de participar. a velocidade agarra pela nuca. transbordando de alegria. não. pedir lhe ia amanhã mesmo que casasse com ela. e era embria gante essa alegria transpassada de temores. talvez eu pudesse ajudá lo a reflectir. o anjo do lar.. no entanto se houvesse um bom amigo. resignado. seria um grande serviço que lhe prestaria. como uma bicicleta. Havia qualquer coisa que tentava timidamente renascer.. pensou. o seu rosto franco de boa fé. voava. «Sou mau».» Foi um arcanjo. aguda. finalmente calmo. Pois então tem de casar com Marcelle. vou estragar lhe a vida». coitado. fazer com que as coisas não lhe fossem tão fáceis. tem a consciência do seu lado. aumenta a cada minuto. mas. não podia parar. a cair em si. masculina. de uma insondável consciência pura sob o céu indulgente e familiar.» Seria divertido se ambos não fossem da mesma opinião a esse respeito. «Mathieu é um homem de bem. pensou Daniel. mas a corrida continuou mais rápida ainda. rude.. destacava se de repente de si próprio e partia como uma flecha. alerta. e de repente a ideia surgiu. «Vai casar se?» E Mathieu resmungaria: «As vezes têm se certos deveres. eufórico.. só lhe resta arranjar um filho. Depois disso que descanse sobre os louros.. «eu sou o anjo da guarda.. Não é mau. derrubando os frágeis obstáculos surgidos no caminho. uma vida inteira para se felicitar pela boa acção.. o desprezo do rapaz. essa alegria que não parava. A maldade só se mantinha em equilíbrio a toda a velocidade.» Mas os miúdos não compreendem este tipo de dever. «Mathieu. mas. entregue à alegria de se sentir terrível.. é jovem ainda. Ela não ousaria dizer lho. se enquanto ele percorria as lojas de ervanários.» O Senhor e a Senhora Delarue. soergueu o. ela no fundo do seu quarto cor de rosa desejasse ardentemente ter um filho. «E se ela não quisesse..avolumou se. «Ter ainda discípulos? Um chefe de família não encontra facilmente quem apanhar. rola se sem travões. seca como um choque eléctrico.

um corpo alto e desajeitado. um tango. Fugiu com a vivacidade de uma rapariguinha. Pelo contrário. Ainda me zango. e Daniel . não. com voz profunda. filha ingrata. No fundo da cave. era preciso virá la e revirá la. De vez em quando. Quando saiu. por momentos. como na missa. era até confortável! Mathieu tinha a impressão de que acabariam de lhe conceder todas as licenças. Leu «Sumatra» em letras de fogo. «Nada mais tenho a fazer senão deixar me viver». beijando Marcelle na testa. revolta. Recordou. concedia a si próprio todas as licenças. Mas a ideia voltava depressa. «Rua dês Ours.» Sentia se livre como o ar. não era absolutamente isso. enternecida. estraga me com mimos. Marcelle enlaçou a pela cintura e reteve a durante um segundo.de ódio. — Não. Inclinou se sobre a mão de Mme. suicídio. gracioso. tinha na mão direita o gládio de fogo de S. Mathieu hesitou. — Arcanjo — disse Mme. tranquila. Não era isso.» Era uma ideia nova. entrou. que pareciam esperar qualquer coisa: dançavam. havia muitos homens na sala. farejá la com circunspecção. vou me embora — acrescentou. u ma grande flor cor de malva subia para o céu. tinha o coração ainda cheio de preguiça e de noite. Diante dele havia pessoas de pé. com manchas violáceas. imóveis e correctas. como a um incurável. e não de desespero. gaúchos de camisa de seda tocavam em cima de um estrado. Mathieu passeava nessa noite e pensava: «Sou um tipo lixado. — Bom. desceu os dezassete degraus da escada e estava numa cave escarlate e rumorejante. 6. Ouviu ruídos. um arcanjo justiceiro que enveredou pela Rua Vercingetorix. e as palavras não eram desprovidas de certo encanto sombrio: «Um tipo lixado. ficavam apenas as palavras. A grande mercearia da Rua Vercingetorix estava ainda aberta. um rosto magro inclinado sobre um livro.» Imaginava lindos desastres. A carne era enrugada. E de repente aconteceu. Duffet. — Vou arranjar a cama daqui a um minuto — disse Marcelle. pensou. Tratava se de uma pequena miséria. No limiar da porta. — É demasiado gentil. mas a imagem desapareceu logo e foi Bobby quem voltou a aparecer. Miguel e na mão esquerda um pacote de bombons para Mme. era a noite. como pela manhã quando ficamos de pé sem saber como nos levantámos. as toalhas manchadas de um branco duvidoso. modesta. — O meu maior prazer é que os aprecie — disse Daniel. Cheirava a homem. Mme. Duffet e beijou a. Deixo te com o teu arcanjo. Duffet. e o negro precipitou se ao seu encontro com o boné na mão. Duffet acariciou lhe os cabelos e afastou se. Mathieu perdia a. outras saídas extremas. Afastou a cortina verde.

sim. flutuando como um vestido demasiado largo. — Eu também vou perguntar porque se está rir — disse ela. Irritava o que ela se mostrasse tão contente. Ela levantou se. — Mudei. Pigarreou. Virou se para ela e viu que lhe sorria. é uma vergonha não poder deixar de seduzir os outros. Ele sorriu. Você é irresistível. — Tenho uma coisa para lhe mostrar. «Vou ter asma». Empertigou se ligeiramente e deitou um olhar ao espelho.acompanhou com um olhar frio a sua silhueta miúda. E aquela mesma carne flácida. — Você. — disse. tinha um vago receio de ficar a sós com Marcelle.. Daniel pegou lhe. Marcelle era um odor espesso e triste. parecia satisfeita de tê lo para ela sozinha. Parecia uma marafona de boca mole e olhos duros. Marcelle riu se. Daniel ergueu os olhos e percebeu lhe o olhar ansioso. Você tem um ar muito mais interessante! — Nunca se sabe quando você fala a sério — disse. meu querido arcanjo. É tão comovente quando por acaso se ocupa de si mesma. — Diverte me sempre vê lo com a minha mãe. «A máscara da gravidez». com rancor. A porta fechou se. Sentia sempre uma certa angústia ao encontrar se à beira dessas longas conversas cochichadas e ter de mergulhar nelas. — Que é que a faz sorrir? — perguntou. enrolada sobre a cama. Olhava o com uma ternura de proprietária. Olhe que não está com a minha mãe! Acrescentou: — Mas era uma bela rapariga. — Nunca deixa de lisonjear! .. pensou. pensou Daniel. e que se esvairia ao menor gesto. Mas via se que estava lisonjeada. Era Marcelle com dezoito anos. não é verdade? — Gosto mais de si agora — disse Daniel. — Tinha qualquer coisa de mole na boca. lisonjeiro.. — Era encantadora — disse com prudência —. que sempre quis saber como eu era quando era jovem. Sabe muito bem que mudei. No entanto era magra. amuada.. Foi buscar uma fotografia que estava sobre a lareira. Havia naquela vaidade uma boa fé infantil e desarmada que contrasva com o seu rosto de mulher de trabalho. O gesto desajeitado e sem pudor irritou Daniel. Tivera a impressão de que ela nunca sairia. estendendo lha. mas não se sentiu aliviado. — Porque fez um gesto de rapariguinha para se olhar ao espelho. mas não mudou nada. Marcelle corou e bateu os pés.

eu não devia dizer lhe.» Estava em boas condições para o momento oportuno. podia se detestar. mas sentia se vazio e mole. — Ouça. Ele avançara o busto e encarava a com uma expressão preocupada. Marcelle pestanejou. Você parecia tão preocupada. — Marcelle — observou —. «Pronto!» pensou ele. Mathieu era liso e seco como um osso. «Ei la nua. é tão importante e queria esconder me? Já não sou seu amigo? Marcelle fez um gesto. tem gestos que me encantam. dificilmente sustentava o olhar de um homem. e Daniel pensou. — Parece cansada. — A sua mãe diverte me — disse Daniel. isso irrita me. Olhou a com ar de censura e ela estremeceu ligeiramente sob aquele olhar. — Marcelle! Olhe para mini. mas gosto de ouvi la contar. Oh! Tinha me jurado que não dizia nada. Daniel.» Já não se tratava de . tão nervosa. — Estou um pouco tonta. é a terceira vez que ela lhe conta essa viagem.. Não se podia odiar Marcelle.. sem muito entusiasmo: «Vamos. E escuta a sempre com o mesmo ar de interesse apaixonado. Um silêncio incómodo pesou sobre ambos. mas tinha a cabeça agitada por pequenas sacudidelas rígidas. e Marcelle desatou a rir. Mas ficou novamente sério e Marcelle parou de rir. não sei bem o que há na sua cabeça neste momento. —— É SUJO. Daniel sabia imitar muito bem quando queria. Marcelle interrompeu o.. Fez um gesto com o pescoço. — Conheço as histórias dela. — Marcelle. — Ele. r A Daniel inclinou se um pouco mais e repetiu com uma expressão desolada.. Ela devolveu lhe o olhar. Daniel divertia se muito. Pensou em Mathieu para se encorajar e ficou satisfeito de encontrar o seu ódio intacto. — Muito cansada! Observava a há pouco enquanto a sua mãe contava a viagem a Roma. para ser franca. Ela inclinou se para trás. — E você que está estranho esta noite! Que é que tem? Ele não se apressou a responder. Marcelle teve um riso desajeitado que lhe morreu imediatamente nos lábios. É do calor..Riram ambos. — O quê? O quê? Que é que há? — Não vai zangar se com Mathieu? Ela empalideceu. O quarto era uma fornalha.. — Pronto — disse Marcelle. com um riso indignado.

estava na defensiva. (Ficou embaraçada. bruscamente. — Naturalmente. nós não nos consultamos. sim. — Tinha? — repetiu ela admirada. Tomou fôlego e acrescentou: A — Marcelle. que tresandava a carne.. Pensei nela toda a tarde. — Ele disse lhe que eu recusei o empréstimo? — Disse que você não tinha dinheiro. rígida. — Isso é uma grande vantagem para quem já tem opinião. como um cordão umbilical. tristemente. — Eu só queria saber se Mathieu a tinha consultado. de que posso dispor sem preocupações. bem sabe como somos. — Mas imagino muito bem a cena. antes de encontrar qualquer coisa que me leve a ter horror de si. Era apenas uma mulher grávida. Está a magicar nalguma coisa. e o outro protesta se não está de acordo. Deve . Marcelle amarfanhava o lençol e os seios palpitavam lhe. o outro é empurrado. — Não — disse —. — Eu sei como Mathieu aprecia as suas opiniões — disse. tem de nos emprestar.arcanjos nem de fotografias antigas.. tinha de procurar muito. Daniel estava com calor. — Então. — Horror? Eu? Marcelle.) Não sei. Havia agora um novo elo entre eles. Pelo menos antes de ter visto. Ele riu jovialmente. Um diz: Fazemos isto ou aquilo. — Você não compreende — insistiu Daniel. — Deve ter horror de mim. — Telefonou me há uma hora — respondeu Marcelle.. — Está estranho. Tenho quinze mil francos. — Posso perfeitamente. Endireitara se e tornara se dura. passou a mão pela testa suada. Sofria. você é que deve saber. perdera a máscara de dignidade sorridente. não tem tempo para pensar. Acabou por dizer: — Eu queria tanto tê lo afastado disto tudo! Calaram se. devo emprestá lo? — Mas. sim — disse Marcelle —. Isto é — disse ela com um leve sorriso —. Ela fez um gesto brusco de cotovelo e de antebraço que cortou o ar escaldante do quarto. — Viu Mathieu depois de ele me ter deixado? — perguntou Daniel. mas não queria emprestá lo.. Marcelle não respondeu. Houve um silêncio. — Tinha. — Talvez. — Quero dizer: deseja do fundo do coração que eu empreste o dinheiro? Marcelle ergueu a cabeça e olhou o surpreendida. Baixara o rosto. não é sujo. sei — atalhou Daniel. meu caro Daniel. — Tinha. Daniel. — Sei. O nariz afilado.

não terá sido um pouco precipitado tudo isso? Não deve saber você mesma o que quer? Inclinou se novamente para Marcelle. Daniel pensou: «Está desesperada. mas contemplava o sem rancor. Isto é.» — Marcelle — disse —. — Eu sei — disse Daniel com amargura.. muito desagradável.. não se recuse a falar. Daniel não a perdeu de vista. Tinha um olhar sombrio. Oh! Daniel. veio sentar se perto dela. o seu melhor amigo.» — Basta lhe dizer uma palavra. «parece cheia de gratidão!» Como «Malvina». — Não falemos mais nisso.. Marcelle tem realmente a certeza de que não quer a criança? Verificou se uma rápida derrota através do corpo de Marcelle.. Depois corou violentamente. Se tem a certeza do que quer. só você se interessa por mini! Ele levantou se. imóvel e pesado.. — Um arcanjo assusta se facilmente. Mathieu receberá o dinheiro amanhã cedo. Mas já não sabia se o seu prazer vinha da humilhação que impunha a Marcelle ou de ser humilhado com ela. Daniel! «Pois não! Eu sou a pureza. Dir se ia que ia desconjuntar se. Marcelle. Você é tão diferente.» Ela estremeceu de novo e apertou os braços sobre os seios. pensou. «Oh!».ter se encolhido todo como faz nessas ocasiões e depois deve ter dito a engolir a saliva: «Então apelamos para os grandes meios?» Não deve ter hesitado e aliás não podia hesitar. Quase desejava que ela dissesse que sim. não me faça desempenhar este papel ridículo. Mandar Ihe ia o dinheiro e tudo estaria acabado.. Daniel. o corpo fincou se lhe à beira do leito. Era preciso ir até ao fim. Mas. Escute. Depois esse prenúncio de desconjuntamento parou. E tenho direito a ter uma opinião — acrescentou com firmeza — porque a posso ajudar. pensou Daniel. . — Mais ou menos — disse. Virara a cabeça para o lado do lavatório e Daniel só lhe via o perfil. sou simplesmente um amigo. E homem. Nada tenho de arcanjo. «Ela palpita». estava vermelha. Disse para si mesmo: «Mais fácil do que pensava.. E ele.. quando lhe batia. — Mesmo que não lhe cause repugnância.. — Você pergunta me isso.. voltara se para ele e parecia esperar. — Não foi assim? Marcelle não o olhava. tenho a impressão de o ter perdido. por favor. — Principalmente para si. Mas ela não dizia nada. Daniel. tomou lhe a mão. — Não me atrevo a olhá lo — continuou. Voltou a cabeça para Daniel. com um espanto desarmado. Eu sei quanto isto é penoso.

como que para lhe espremer todo o sumo. mas talvez uma sorte. Essa criança talvez seja um desastre. nem sequer a consultou. os outros já me dão muito que fazer. — Pois é. Marcelle parecia lutar contra as lágrimas. sem falar. pensou quando a porta se fechou. . é lhe indiferente que se suprima a criança? Marcelle teve um gesto de cansaço. Sufocava. Não vale a pena». preciso de ir arrumar a cama da minha mãe.» Mas naquele rosto ingrato os próprios reflexos da mocidade não eram comoventes. Daniel ergueu as sobrancelhas. — Desculpe.. foi ignóbil..» Estava satisfeito de ficar só.» Marcelle voltou com uma expressão de desespero. «Não vale a pena odiá lo por bons motivos. — Pois é. Daniel pensou na jovem estudante que vira na fotografia. — Que fazer? Daniel pensou: «Ganhei. — Porque não há de casar consigo? Marcelle encarou o. Daniel acedeu silenciosamente.. Com o olhar no vazio tinha um ar de boa fé que a rejuvenescia. «Ganhei. Neste momento estou a pensar apenas em si.. Havia às vezes cartas divertidas. está cheia de vontade de parir. — Não sei o que se pode fazer — disse com voz seca. «Já foi jovem.. Limpou as mãos no lenço. Largou lhe bruscamente a mão e afastou se um pouco. ergueu se rapidamente e abriu a gaveta da mesa de cabe ceira. bilhetes de Mathieu muito conjugais. Disse com voz alterada: — E se eu tivesse vontade de ter um filho? Que adiantava? Não posso dar me ao luxo de ter um filho sem casar e ele nunca se casará comigo.. ou intermináveis lamentações de Andrée. Esforçou se por apertá la mais fortemente.. Conservou a nas dele. Marcelle. «Juro que ele há de casar se com ela. é preciso que não venha a acusar me mais tarde por não ter reflectido. — disse Marcelle. era imperceptível. — Veremos mais tarde. não chegava mesmo a ser um cheiro. aturdida. «Ganhei». e Daniel voltou a sentar se na poltrona. — Reflicta — repetiu. depois achou melhor desatar a rir. Aliás. Era o ritual. — Tem realmente a certeza? — Não sei — disse levantando se.. A gaveta estava vazia. Dir se ia que de perto Marcelle tinha um cheiro. — Porque não? — perguntou. era antes como se fecundasse o ambiente em torno dela. que não era feliz.Uma mão mole e febril como uma confidência. olhava para os joelhos. continuou com um riso seco. — Marcelle. Podia recuperar um pouco de ódio. E depois havia aquela mão suada.» Mas não sentiu nenhum prazer.

O casamento é uma servidão e não o queríamos.. Disse com voz solitária. Eu digo em relação a Mathieu. — Mas. Era grotesco e fascinante. com voz surda: — Daniel. realmente era me totalmente indiferente não me chamar Mme. É uma espécie de ruptura de contrato. Acrescentou: — Era. Devia ser verdade. Era o momento decisivo.. quem decidiu nunca se casar? — Sentiria horror de vê lo casar se contra a vontade. Eu não. Achar criminosos os seus desejos quando são naturais. era uma coisa subentendida entre nós. Daniel calou se. apertava o ventre. — Um crime? Mas isso é perversão. — Não é um crime? Ele não pôde deixar de rir. A mão morena crispava se sobre a seda. — Bem sei — disse Daniel com vivacidade. Estava ganho. — Sei apenas uma coisa. Parecia ruminar. — Não é verdade que você quer a criança? Marcelle apoiou uma das mãos no travesseiro e pousou a outra sobre a coxa. como toda a gente. nem um nem outro. — Marcelle não respondeu.. quero. Foi você. é tudo. Pensou que Mathieu a desejara e sentiu uma leve chama J E A N P AUL SARTRE de satisfação. Olhou o. — Não. senão dipersava se em todas as direcções. De repente falou com paixão: — Ah!. Daniel! Bem sabe como nós somos! — Eu não sei nada de nada — disse Daniel. Era muito difícil fazê la ver as coisas de frente. Marcelle. nunca encarei a coisa por esse prisma. — Mas você quer a criança? Ela não respondeu.. libertou me.A — Mas. e dentro de um mês será mulher dele. Marcelle disse. não deixava que ele estragasse .. — Não. que faça o que é necessário. Daniel repetiu com voz dura. — Sim. Se ele quiser. angustiada. Era como se já se tivesse vingado um pouco. cheguei a julgar que era um crime. não podia dizer isto a ninguém no mundo. — Tem de lhe falar com franqueza. Não podia tirar os olhos daquele ventre. — Não é uma resposta. Ergueu se um pouco e levou a ao ventre como se estivesse com dor de barriga.. Marcelle. Era preciso enfiar lhe o nariz em cima e mante la assim. Que sentia por dentro aquela fêmea pesada e perturbada? Gostaria de ser ela. carne gorda e nutrida. Carne inimiga. Delarue. se eu tivesse um filho. — Mas se fosse esse o único meio de conservar a criança? Marcelle pareceu perturbada.

irresistível. A emoção fizera com que tivesse deixado escapar aquela exclamação estúpida. Daniel. que a encontrei. A si também não. tinha horror ao abandono. — Um filho. Se eu morresse. Dentro de alguns dias seria apenas um grande miséria.. Essa ideia gelou o.. — Não sei. — Porquê? — Sinto me amarrada. era preciso evitar isso. Ela ia jogar e perder. até ao fim. Mordeu os lábios e tomou uma atitude irónica. Tem grande afeição por mim e talvez seja o que tenho de mais precioso na vida. Pegou lhe na mão sem falar e apertou a de um modo significativo. Marcelle levantou a cabeça. Defesa vã! Seria preciso não a ver. Era verdade. Ele acariciou lhe a mão. Responder? Protestar? Era preciso desconfiar. — Onde? Nunca saio. Ela curvara os ombros. — Porque é que não pensa? Você pensou. Marcelle parecia estar numa das suas crises de clarividência cínica. não pode. — Mathieu não precisa de mim. Espero que isso venha dele. Esperava. — Não. Ele pensou: «A sua última possibilidade». — E se eu próprio falasse a Mathieu? Uma enorme piedade lodosa tinha o invadido. — Estraguei. Marcelle. Parou repentinamente e olhou a. teria necessidade de mini. passiva e gasta. — Não pode fazer isso — exclamou bruscamente Daniel —. ia assim sem . — Mas bem sabe que nunca virá.. — Não posso. isso não o atingiria. Daniel. — Estraguei. A — Um filho — continuou Marcelle. Teria feito tudo para se libertar dela. J E A N P A U L SARTRE — Falar com ele? Você? Mas.a vida como eu. como pensara de si mesmo pouco antes. e assim esperaria durante anos. Não sentia nenhuma simpatia por Marcelle e sentia um profundo nojo por si mesmo. os braços pendiam lhe junto das ancas. eu é que preciso de si. mas a piedade estava lá. parecia pensar que ele era doido. Ele não pensa nisso. Ele não respondeu. Mas ainda que fosse verdade. Entre os trinta e quarenta anos joga se a última cartada. sim. — Pois então fica como está! Você empresta o dinheiro e eu vou ao médico. é um absurdo! — Podia dizer lhe. desconfiado. Não fiz nada e ninguém precisa de mim. — Você não estragou a vida. mas não precisa de mim.. — É a Mathieu que você tem de dizer isso. ainda não. sim.

Nós dizemos sempre tudo um ao outro. mais carnal.. por favor.. Olhe para mim! Tomou a pêlos ombros e os dedos afundaram se lhe numa manteiga morna. Seja razoável. atolar se com ela na humildade. Estragará a sua vida com as suas próprias mãos. irritado —. — Escute. Violar aquela consciência. mais húmido. — Não quero. Estava possuído de um desejo enorme e monstruoso. ele nunca me perdoaria não lho ter dito eu própria.. Era bondade. — disse Marcelle.. Mas não era sadismo. — Se eu não falar com ele. — Não é possível! — Bom. mas ele percebeu pela sua expressão rancorosa e abatida que ela ia ceder. que você parecia atormentada e que não é assim tão simples como ele pensa. Largou a. sabe.mais nem menos contar lhe isto? — Não. mas não teve vontade de rir. você nunca o fará e. Eu e Marcelle víamo nos de vez em quando e não te dizíamos nada. Por nada deste mundo quero que pensem que estou a pedir alguma coisa. não faça isso. Aquela obstinação tonta aborreceu o. sentia vontade de a partir. — Pois digo lhe — atalhou Daniel. acabará por odiá lo. já lhe disse que o farei. — Se não me deixar fazê lo — disse zangado —. — Não quero. Sabe o que é que vamos fazer? Dizer lhe simplesmente a verdade. Porque é que não é possível? — Era obrigado a dizer lhe que nos vemos. — Digo que a encontrei. Acrescentou com um ar conjugal: — E depois. Marcelle.. viverá junto dele em silêncio.. Daniel pensou: «Ela é formidável!»..» — Daniel — suplicou Marcelle —. evidentemente. Vai irritar se . dizer lhe coisas vagas — disse —. Não quero que falem de mim. Marcelle. — Naturalmente — disse Daniel. chamar lhe apenas a atenção. ficarei aborrecido. Mas eu conheço o. ele não lhe devia ter contado. Marcelle passeava a ponta do dedo pelo tapete. Pensava: «Conta com isso. Era mais subtil. — Tem de ser. Digo lhe: «E preciso que perdoes um segredo. Marcelle não respondeu. — Daniel. obstinada. — Não falo em si — disse. Não se vai zangar. Mas Daniel era tenaz. não se meta nisto. Marcelle pousou lhe a mão sobre o joelho. Ela ainda repetiu: — Eu não quero.. Estou furiosa com Mathieu. seguia a sua ideia. Daniel olhava para os ombros e para o pescoço dela com avidez. Ele é que tem de compreender. — Era preciso dizer lhe.» Marcelle teve um gesto de despeito. Tudo isso como se viesse unicamente de mim.

e ia dizer lhe: «Faça como quiser. Mas não parecia convencida. — E Mathieu que quer experimentar? — É. — Então. Acrescentou. Acrescentou secamente: — Tenho necessidade de o estimar. De qualquer maneira.» Ela fascinava o. é extremamente penoso. não tinha outra. Teve. abanou a cabeça.. Corou. — Pois bem. digo lhe que nos vemos há apenas alguns meses e muito raramente. — Uma experiência? — indagou Daniel... já não o estima? — Estimo. se ele tentasse fazer me falar amanhã. Daniel. era a minha vida particular. Aliás. Não se preocupou comigo. mas a seguir. Não lhe posso dizer o efeito que isso me causou! Se um dia deixasse de o estimar. Quando fico ressentida com ele. se me perguntasse uma só vez que fosse: «Em que estás a pensar?» Calou se. arrastada pelo seu próprio peso. — Era o nosso segredo — disse com profunda tristeza.. Aquela chama que o devorava.. Havia aquela mulher e aquela comunhão repugnante e vertiginosa.. — É verdade. Marcelle passou a mão pêlos cabelos. ao desligar. por causa da criança. com ódio: — Só posso ter de meu o que escondo dele. Dentro de momentos estaria completamente aberta. tínhamos de lho dizer um dia. O Bem e o Mal. para o abandono. Ele foi demasiado A negligente. — Ao sair daqui mando lhe um recado e marco um encontro para amanhã. Ia escorregar. bastava esperar.. Ele foi. pró forma. a minha vida privada. como se sente culpado. — Vou falar com ele — disse Daniel. — Achou se na obrigação de dizer que me amava. tem razão. E depois o telefonema de hoje foi lamentável. já não sabia se era de maldade ou de bondade. para a resignação. — Apesar de tudo será uma experiência. O coração de Daniel pôs se a bater com violência. o Bem deles e o Mal dele era igual. . — Escute. Ela ia ceder. Ah!..um pouco. tentemos — disse num desafio. mas não quero pensar nisso. Tresandava a consciência suja. Mas não tenho a mesma confiança com ele. vai ficar muito satisfeito por ter qualquer coisa a censurar lhe. — É preciso tentar. desde ontem. tristemente. — Acredita que ele vai ficar indiferente? Que não se vai apressar com explicações? — Não sei. estou nas suas mãos. sem defesa.

pensou ele. fingindo se vítima: — Que hei de fazer? — Bom. conto consigo. Tinha asma. tossiu com dificuldade. e isso lavá lo ia. provavelmente. J E A N P AUL SARTRE Marcelle sorriu. .Ficaram silenciosos. Seria violenta e dura. — Juro que sairei antes da meia noite — afirmou Daniel. Não a deixe ficar acordada até muito tarde. que transbordava de gratidão sexual. um olhar de depois do amor. — E obrigada pêlos deliciosos bombons. mas os seus olhos tinham se avermelhado. eram um só. — Se eu deixar. Fechou os olhos. ele entrara dentro dela. — Dormes de mais. arrancaria dele aquela piedade viscosa. é o senhor — disse cordialmente. dormes até ao meio dia. Mathieu perscrutou a sala com o olhar à procura de Boris e Ivich. Daniel abriu os olhos. à altura dos olhos com um gesto ligeiramente ameaçador. meus filhos. De repente levantou a cabeça e pareceu tomar uma decisão. Disse alegremente: — Pois bem. Pegou lhe na mão e beijou a longamente. Eram lúgubres. Era um olhar pesado e envolvente. Olhava atentamente para Daniel. Bocejava por baixo do sorriso. Duffet pareceu não as ouvir. Ela abrira se. como presas de um interminável destino. Ele voltou se para Mme. — Ah!. Ergueu se e foi dar umas palmadinhas nos ombros de Marcelle. Duffet. — Made moiselle Lola está se a vestir. — Procuro alguém — disse Mathieu. «Não vai demorar a sair». querida — disse divertindo se a falar entre dentes. Marcelle estava sentada à beira da cama. Daniel pensava na entrevista do dia seguinte. Passará toda a vida inclinado sobre aquela mão perfumada e acariciar lhe á os cabelos. retendo a respiração. — Ouve. — Daniel! — repetiu Marcelle. decorada com fitas. dorme até ao meio dia. assim engordas. Ela sorria lhe com uma expressão maliciosa. O jovem reconheceu o. Ele ergueu a cabeça e viu o olhar dela. — Meu arcanjo — dizia Marcelle por cima da cabeça dele. Os seus amigos estão no fundo à esquerda. Duffet. vou dormir. Levantou a caixa. Havia entre ambos qualquer coisa mais forte do que o amor. XI s oaram as dez horas. Mme. porém uns sopros ecoavam através dos lábios entreabertos. — Querido Daniel. sejam razoáveis — disse Mme. Senão. — Daniel! — murmurou Marcelle. — Deseja uma mesa? Um belo rapaz inclinava se diante dele com ar de alcoviteiro.

apesar da simpatia dos maitres d'bôtel. Era a última réplica de um romance ou de uma peça de teatro. Mathieu avançou pela sala por entre os ombros em fuga. não dançava bem. Em Montmartre. porque já não podia suportar a solidão. Mathieu esperou. uma cabeça de preto. e no fundo dos seus corações alguma coisa mudaria. Tinha. mesmo nos momentos de maior abandono. sem se olhar. Mathieu sentiu se ligeiramente reconfortado. Eu encontro os facilmente sozinho.vou acompanhá lo. Ivich não se entregava completa mente. Na outra. O rapaz desapareceu. Numa reentrância havia duas mesas. era incapaz de se divertir naquele ócio grave. Os sons agudos do tango passavam por cima das cabeças deles. mas ela não o via. «Pareciam dois mongezinhos. contemplava as lentas deslocações daquele comício silencioso. mulheres soberbas e maduras. o ar de uma irmã mais velha e falava a Boris com uma condescendência maravilhada. — Obrigado. as calças já não tinham vincos. «Que é que vim fazer aqui?». tinha a impressão de estar a espreitar pelo buraco da fechadura. Não se sentiu à vontade. pensou Mathieu. Mathieu pousou a mão sobre a mesa. . desempenhava o papel de irmã mais velho. Numa delas um homem e uma mulher falavam. Mesmo com o irmão. Inclinava se ao ouvido de Boris e segredava Ihe qualquer coisa. No entanto. viu Boris e Ivich. aproximou se. Inclinavam se um para o outro muito ocupados. São um pouco barulhentos. o brilho de um colarinho. nervosamente. «Como são jovens. Depressa o veriam e oferecer lhe iam aquele rosto convencional que reservavam para os parentes. Havia uma crueldade inquieta e permanente na atmosfera. Achava os romanescos. O seu casaco brilhava nos cotovelos. oferecera ela a Mathieu um rosto assim. com uma austeridade cheia de graça. Ombros nus. As lâmpadas brancas acenderam se novamente. — Bastante. Nunca. mas consomem bem. um bocadinho. nunca se podia sentir à vontade. muitos homens de idade que dançavam com ar de quem pede desculpa. os músicos não pareciam tocar para eles. Está cá gente hoje.» Tinha vontade de dar meia volta e sair. Ouviu o tango e o arrastar dos pés. Ele estava agora perto de Ivich. «Conversa!» Com essa palavra o diálogo terminava definitivamente. Boris teve um riso curto. Holandeses. — Conversa!» — disse simplesmente. com gestos vivos. os adultos. Mathieu olhava Boris e Ivich. Não era possível abrir passagem entre as pessoas que dançavam. e nunca se esquecia disso.» Era Ivich quem falava.

A verdadeira Ivich desaparecera. — Aliás. Os gaúchos tinham terminado a série de tangos. mas é porque ele é barman. todo de branco. Ela inclinara se para trás. Ivich não o tinha recebido mal. eu tinha os! — Eu também — disse Boris —. gozava a condensação feliz que dá o sentimento de ser um homem entre os outros homens. sentia se penetrado por um calor húmido. havia de partir . mas engana se. Ela não sorriu. Parecia achar natural a presença de Mathieu. — Suponho que é por causa do misturador — disse Mathieu. Tinha um ar severo. para quebrar ovos é preciso ter jeito. não vale a pena. — Sim — disse Mathieu. A sala estava deserta. — E horrível — disse Boris —. — Então era melhor que tivesse sido malabarista. sem dar a sua opinião. Viu dois olhos pálidos e mortos. — Olá! — respondeu Boris levantando se. é o cocktail da casa. pensou. — Gostava de ser barman — disse Mathieu. — Tem gente! — observou com satisfação. Mathieu — disse Ivich. Mathieu deitou um olhar rápido a Ivich. De qualquer maneira teria bebido essa porcaria. Acha que o ofício é o mesmo. O jazz negro Hijito's Band ia substituí los. A um barman. — Isso ficava lhe caro — atalhou Boris —. apontando para uma espuma branca no copo A de Boris. mas pedi Ihe emprestados cem francos. — E que é isso? — indagou Mathieu por espírito de justiça. Mathieu sentia se incomodado. Boris apontou para a multidão com um gesto rápido. Sentou se. já não havia ninguém no estrado dos músicos. Guarde o para Lola daqui a bocado. deve pedir se dinheiro emprestado — explicou num tom de austeridade. e fumava um cigarro. — Um vodka — disse Ivich. — Boa noite. Boris olhava o com uma admiração jovial de surpresa. Mathieu olhou o barman. — Como? Gosta disso agora? — E forte — respondeu ela. irritado. mas já não tinha um ar admirado ou rancoroso. «E porquê a verdadeira?». — Que estão a beber? — indagou Mathieu. — Cem francos — disse Ivich —. As pessoas murmuravam à sua volta. Não sabe fazer cocktails. — Deve ser divertido.— Olá! — disse. — Foi por gentileza que o pediu? — Há três semanas que o barman me chateia para o experimentar. Fez se barman porque foi prestidigitador. Estava de pé atrás do balcão. — Quer o meu lugar? — Não. de braços cruzados.

Mathieu estendeu as pernas e sorriu de prazer. «há sempre um que se escandaliza». pensou Mathieu de mau humor. a contemplar de olhos vazios os farrapos do seu destino. Estavam ali. O maïtre d'hôtel apresentou lhe a lista dos champanhes: tinha de ter cuidado. «Não se pode dizer nada». só lhe restavam quinhentos francos. Adorava que Mathieu lhe falasse naquele tom. Virou a cabeça. Por toda a parte. mas afinal naquele dancing. diante dele. chegavam lhe às rajadas. não lhe passava pela cabeça descobrir neles uma melodia. Bem sabia que estava lixado. e Ivich olhava Boris. Ivich mordeu os lábios. — Não gosto e é preciso que me habitue. Olhou a lista. Sons de trompete. O Mumm custava trezentos francos. — Espere. no meio daqueles tipos igualmente lixados. Chamou o maítre d'hôtel. — Um uísque — disse Mathieu. mas já não tinham sequer força para o fazer. «Estou a mais». Bocejou por trás da mão e os seus olhinhos pestanejaram com volúpia. — Não — respondeu ela. Só que essas duas imagens não se conciliavam. — Bebem sempre coisas de que não gostam. Fez se silêncio. — Vocês são divertidos — disse Mathieu. que fariam melhor se voltassem para casa. Prefiro champanhe. Boris regozijou se. é preferível. O barman sonhava. rostos sorridentes e bem arranjados com olhos pisados. e continuavam ali a fumar cigarros e a beber misturas com gosto a aço. pensou Mathieu tristemente. — Sim. atentos e severos. pensando melhor. Boris olhava Mathieu. mas dava lhe um grande prazer à flor da pele. à direita havia um camarada de monóculo. — Estou contente por ir beber champanhe — disse Boris. acidulados e gloriosos. outro mais longe. Era um barulho apenas. Sentiu o apelo discreto de uma felicidade humilde e . àquela mesa.tudo. de ouvidos tapados pela música. com ares desgraçados. — Um Mumm cordon rouge. Calaram se. J E A N P AUL SARTRE Mas sentiu de repente nojo da economia e daquele maço magro de notas que jazia no fundo da sua carteira. sozinho. A mulher e o amigo deviam estar a dançar. sozinho também diante de três capas e uma bolsa de mulher. e ele parecia aliviado. isso não tinha importância e não era desagradável de todo. Mathieu sentiu se bruscamente solidário com aqueles tipos todos. a sorrir. cada um deles tinha construído uma imagem pessoal de Mathieu e exigiam ambos que ele lhe fosse fiel. — Você também pode beber um bocadinho — disse para Ivich.

— Prefiro beber de um trago. disperso e flutuando como uma neblina de Verão. com aquele pequeno pântano de fogo no fundo da garganta. Enquanto bebia agarrava se a qualquer coisa. a falar de Kant. — Faz de conta que é água. — Quero divertir me. O pescoço de Ivich inchou e ela pôs o copo na mesa com uma careta horrível. nesse ponto você é um cabeçudo. Inclinou se para trás aproximando o copo dos lábios e deixou que lhe escorresse na boca todo o conteúdo. abandonando por instantes o seu devaneio. Pensou: «A minha dignidade humana. pior que um asno. No fim. — Sinto horror em embriagar me — explicou humildemente. Tinha os olhos cheios de lágrimas. — É melhor treinar com aguardente. sempre é mais forte. mas não entrego o corpo inteiro à embriaguez. Ninguém respondeu. Voltou se para Ivich. Era a primeira vez que o olhava. com seriedade. — Sim — disse Boris —. acabará mais depressa.» Teve medo e sobressaltou se. de encontrar na cabeça. eu é que estava bêbedo. — Engole — disse Boris. Era verdade.covarde: «Ser como eles. — Já o vi tomar sete uísques de uma vez. — Bebo. A quê? Lembrou se de repente de Gauguin. deitou lhe um olhar de censura. . — Não faça isso — atalhou Mathieu —. queima. era ainda o seu único apoio.. não beba. Acrescentou com uma espécie de angústia: — Acho que agora vou poder divertir me. — Vodka bebe se de um trago — observou Boris..» Tinha medo. Era como se enchesse uma garrafa. sem ousar engolir. é fogo! — Eu comprei te uma garrafa para te treinares — disse Boris. — Bebe de um trago — disse Boris. Ficou assim um segundo. Voltou se vivamente para Mathieu. — Você aguenta o álcool? — Ele? — Ele é formidável — disse Boris. Ivich reflectiu um segundo. Apesar de rancorosa e distante. vai incendiar lhe a garganta. eu já não o ouvia.. Ivich pegou no copo. irritada. espere pelo champanhe. um rosto forte e exangue de olhos desertos.. Mathieu sofria por ela. Mathieu não perdia a cabeça. Mesmo bêbedo. A senhora morena do lado. — Uf! — disse Ivich —. se se entregasse por momentos. Ivich olhava inquieta e vagamente o líquido transparente que tinha ficado no copo. — Tenho de engolir isto — disse ela. — Não. um pensamento de mosca ou de barata.

— Passou o dia enrolada no sofá.» Mas nada o ajudava. quando se tratava de estupor.» O tipo que o tinha abordado na véspera. Depois aquilo apagou se. — Então — perguntou ele —. aí está o champanhe — disse ela. Mathieu abriu se como uma chaga. vou chumbar. com olhos do tamanho de um pires.. alegremente.. E esse juízo que emitia acerca da sua lucidez. — Isso é ridículo. De repente. não estava realmente indignado. não poderei ficar mais um dia sequer em Paris. No fundo. como para si próprio: — Sou um vime pensante. não desdenhava tirar dela pequenas vantagens. Ah!. Estou farta. J E A N P AUL SARTRE Boris acrescentou. não falemos mais nisso. fico tenso. pensamentos sobre pensamentos. e partirei imediatamente. Ivich devia ter gemido durante horas. servia se dela para fazer gentilezas às mulheres! «Estupor!» Mas parou. Sinto me humilhada. Pensou: «Já desci a isso?» Estava a ponto de se aproveitar da própria decadência. «Será preciso mudar tudo. essa maneira de subir pêlos próprios ombros. orgulhosamente. na Rua .. arrepiado. Mathieu viu a garrafa e pensou: «Trezentos e cinquenta francos. bem o sei. estou aqui para me divertir. — Sim — disse com obstinação —. sem se preocupar com o olhar furioso da irmã: — É esquisita! É capaz de morrer de frio em pleno Verão.. talvez soluçado. Viu se por inteiro. Como para si próprio. Todos os seus pensamentos estavam contaminados desde a origem. raivosamente. trocar tudo até à medula. desejava agradar a Ivich. uma compensação. Acrescentou com ironia. o álcool inflamava lhe o rosto. pensamentos sobre pensamentos de pensamentos. mas essa lucidez não lhe custava nada. não me deixo dominar. Calou se. também não era sincero. Não era verdade. antes o divertia. e encontrou se diante de Ivich. imaginava salvar se da abjec ção pela «lucidez». que o contemplava com uma expressão estranha. — Não quero que me falem mais nisso. porque é a última noite. estava transparente até ao infinito e igualmente podre. É uma defesa. — Queria passar uma noite formidável — disse —.— Não sou cabeçudo. E necessário que pense sempre no que me acontece. trabalhou esta tarde? Ivich encolheu os ombros. estava resplendente. escancarado: pensamentos. não era sincero. Era um truque. Mas agora já não se percebia nada. Ou então. — Ou então? — Nada. por favor. Pintara de azul as pálpebras e de vermelho framboesa os lábios.

— De que se está a rir? — perguntou Boris. e Mathieu levou melancolicamente o copo aos lábios. modestamente. afectado e reverente. Porém. e ainda por cima tinha fome. — Não era mau — observou Boris —. mis dam lê mille Émile E havia aquela garrafa que girava cerimoniosamente na ponta dos dedos pálidos. A vizinha voltou a cabeça e mediu a de alto a baixo. de smoking. inclinado sobre o balde de gelo. e toda aquela gente que se cozinhava no próprio molho. com alegria. leve como uma bola de sabão. e os seus pés esticavam se na extremidade das . com um guardanapo em volta do gargalo. O empregado. parecia pouco à vontade. saltou para o estrado e sorriu ao microfone. Ivich contemplava o dela. Aliás.Vercingetorix. — Se quiserem — disse Mathieu. — Somos divertidos! — disse Boris. e sentia o coração magoado por uma verdadeira angústia.» Todo o dancing lhe pareceu um pequeno inferno. é o mesmo. perplexa. Mathieu pensou: «Cheirava a vinho tinto barato. o corpo. Acenderam se novamente as vermelhas. Ficara com a sua expressão maníaca e cruel. — Estou a lembrar me de que eu também não gosto de champanhe. J E A N P AUL SARTRE — Senhoras e senhores. se fosse servido bem quente. Puseram se a rir os três. — Não — atalhou Ivich —. a cantar ao microfone: A // a. uma depois da outra. e um rolar de tambores advertiu o público. A rapariga dançava. Era pesada e negra. calvo e redondinho. Mathieu continuava a olhar para a garrafa. a direcção do Sumatra tem o grande prazer de apresentar Miss Ellinor pela primeira vez em Paris! Miss Ellinor! — repetiu! Com os primeiros acordes da orquestra surgiu na sala uma mulher alta e loura. eu quero beber. Um senhor pequeno. se ninguém quiser. Mathieu teve nojo da garrafa. O riso de Ivich era estridente. e sorriu. também estava lixado. sem grandes preocupações. Mas nesse momento havia um rapaz muito digno sobre o estrado. As lâmpadas brancas apagaram se. ansiosa por agradar. eu bebo toda a garrafa. no fundo. sob a luz vermelha. Ela contemplava a rapariga nua com os grandes olhos arregalados. a pensar no tipo da véspera. O empregado serviu. sem champanhe nem belas loucuras. fazia a rodar com competência. rindo também. parecia um grande pedaço de algodão. eu não gosto de champanhe. Acrescentou: — Pode deitar se no balde do gelo quando o empregado não estiver a olhar. — Conheço a — disse Boris. Estava nua. Mathieu virou se para Ivich. lançava as pernas para a frente.

deslocando se de lado sobre os calcanhares.. quando pousava os pés no chão. as pernas estremeciam dos tornozelos até às coxas. pensou. com um sorriso. com sentimentos dúbios. Pensava em Ivich. afinal a menina sagrada era como os outros: duplamente defendida pela sua graça e pêlos vestidos.pernas. roçou pela mesa deles. «Pronto». Bebeu um golo do cocktail e pôs se a brincar com os anéis. pensou Mathieu. — Isso não os comove — observou Mathieu —. mordendo os lábios. — Têm Lola Montero — observou o tipo gordo. — Eles querem principalmente ver belas nádegas! — Sim. pensou apenas: «E dizer que gosto dela pela sua pureza. — Isso não quer dizer nada! É vergonhoso. como dedos.. A unha do polegar. — E espantoso como tem as ancas duras — disse Boris. carmesim e aguda. as pernas da dançarina escavaram o chão sob a impotência ridícula dos quadris. aquela pobre carne nua. quis levantar se e desaparecer. Mathieu percorreu a sala com o olhar e só viu rostos severos e justiceiros. aperta as coxas. — Ela vai cair! — disse Boris. Durante uns momentos. Não se atrevia a olhá la. O público deleitava se com a sua própria indignação.. em seguida endireitou se. num impulso de dedicação que constrangia a alma. «esconde sob os cabelos um rosto arrasado. apontava para a sala como uma flecha indicadora. Apanharam na na rua. Mathieu não respondeu. — Não sabe dançar — disse a vizinha de Ivich. «vai cair». Uma onda de rancor subiu aos lábios de Mathieu. O ruído das conversas cobria por momentos a música. Dir se ia que ela sentia a hostilidade e esperava enternecê los. «Está só». mas com arte.» Virou a cabeça e viu o punho crispado de Ivich sobre a mesa. porque era desajeitada. eles querem ser respeitados. Mathieu comovia se com a boa vontade desesperada dela: oferecia lhes as nádegas entreabertas. Mathieu quis desejar aquela almofada na .» Essa ideia pareceu lhe insuportável. Na verdade havia uma fragilidade inquietante nos seus longos membros.. goza. provocando no ar tremores que deslizaram ao longo das omoplatas até à reentrância dos rins. ergueu os braços e sacudiu os. envenenou lhe a boca: «A fita toda desta manhã. Aproximou se do estrado e virou se de costas. devorava com os olhos. a rapariga parecia lhe duplamente nua. de mãos nas ancas.» A dançarina. deve pensar se em escolher melhor os números. Quando se cobra a bebida a trinta e cinco francos. mas lembrava se da expressão cruel. mas não teve forças para fazê lo. — Como ela se cansa! — disse Boris.

mas a cabeça encheu se lhe de guizos. Ninguém aplaudia e houve algumas risadas ofensivas. com um ar de gozar de antemão o espanto que ia provocar.. «Que é que eu tenho?» Era como a manhã. Mathieu voltou se. o nome célebre: — Lola Montero! A sala estremeceu de cumplicidade e entusiasmo. e Boris pareceu encantado. e apesar disso deve ver se que é oco. nada mais. dos cantos da boca. — Está quieto — disse Ivich. para pregar uma partida a Ivich. na ponta de um braço invisível. — Estupores! — disse Boris. Estava só. Viu um rosto triangular. Boris. Todos se sentiam satisfeitos por se encontrarem de novo juntos após a sentença dada. é uma boa rapariga. sem comentários. A rapariga acocorava se com as pernas ligeiramente abertas e balançava se para a frente e para trás. pensou. a rapariga imobilizou se com o rosto voltado para o público. como essas lanternas pálidas que oscilam de noite nas pequenas estações. — Bateu as palmas com força. era um pesadelo branco. só havia um espectáculo. com gratidão. ouviram se aplausos. com uma suficiência sorridente e mole.ponta de uma espinha medrosa. espantado. deve ter essa pertinência dos olhos. os rostos abriam se em volta dele. — Mais uma razão para não aplaudir. Uma luz branca invadiu a sala e foi um acordar geral.. mas não tem cabeça. «Não estava perturbada». através de um murmúrio de folhas. com a afectação de soltar no microfone. ao longe um fogo de bengala. — Conheço a. Mathieu não acordara. ele quis sorrir lhe. Mathieu estava algures. vai ser uma maravilha! .. e no fumo um monstro de quatro patas andava à roda.» Era uma personagem de pesadelo aquele homem que saltitava no estrado e fazia gestos para pedir silêncio. A rapariga desapareceu sorrindo e atirando beijos. descomposto pela raiva e pela repugnância. A música parou. — Aplaudir isto? — Ela fez o que pôde — disse Boris aplaudindo. A vizinha de Ivich acendeu um cigarro e teve um amuo terno para si própria. «O meu ser assim. na sua maioria não pareciam habituados. para se distrair dos seus pensamentos. jantei com ela e com Lola. o corpo obsceno e a neblina vermelha deslizaram para fora do seu alcance. Ivich tremia. às rajadas. Em volta dele. — Que nojo! — disse Ivich. Uma música de quermesse chegava lhe aos ouvidos. Boris encolheu os ombros. Rostos espantados vi raram se para o lado dele. — Estão quentes. Ivich. Por cima do sorriso brilharam uns lindos olhos aquados.. — Já não a posso ver. simplesmente.

Lola encostara se à porta. De longe, o seu rosto achatado e vincado parecia uma cabeça de leão. Os seus ombros, de uma brancura ondeada de reflexos verdes, eram uma folhagem de bétula numa noite de vento sob os faróis de um automóvel. — Como é bela! — disse Ivich. Adiantou se a passos largos e calmos, com um desespero desenvolto. Tinha mãos pequenas e encantos pesados de sultana, mas punha no andar uma generosidade de homem. J E A N P AUL SARTRE — Ela impõe se — disse Boris, com admiração. — Com ela ninguém se mete! Era verdade. As pessoas da primeira fila tinham recuado as cadeiras, não se atreviam sequer a olhar de perto aquele rosto célebre. Um bom rosto de tribuno, volumoso e público, marcado pesadamente por uma vaga sugestão da sua importância. A boca conhecia o seu ofício, estava habituada a abrir se amplamente, com os lábios salientes para vomitar o horror e o nojo e para que a voz fosse longe. Lola imobilizou se de repente. A vizinha de Ivich suspirou de escândalo e admiração. «Ela domina os», pensou Mathieu. Sentia se incomodado: no fundo, Lola era nobre e apaixonada; no entanto, o rosto mentia, representava a nobreza e a paixão. Ela sofria, Boris desesperava a, mas durante cinco minutos por dia aproveitava se do seu número de canto para sofrer espectacularmente. «E eu? Não estou também a sofrer espectacularmente, representando com acompanhamento musical o papel de um tipo lixado? No entanto», pensou, «é indiscutível que estou lixado». Em volta dele era a mesma coisa. Havia pessoas que não existiam, eram vapores, e outras que existiam demasiado. O barman, por exemplo. Pouco antes fumava um cigarro, vago e poético como um jasmineiro; agora acordara, era demasiado barman, sacudia o shaker, abria o, escorria a espuma amarela nos copos, com gestos de uma precisão supérflua. Representava o papel de barman. Mathieu pensou em Brunet: «Talvez não possa ser de outra maneira; talvez seja preciso escolher: não ser nada ou representar o que é. Mas é terrível ser se levado pela nossa própria natureza.» Lola, sem se apressar, percorria a sala com o olhar. A sua máscara dolorosa tornara se dura, congelara se, pare cia ter ficado esquecida sobre o rosto. Mas no fundo dos olhos, a única coisa viva, Mathieu teve a impressão de surpreender uma chama de curiosidade áspera e ameaçadora que não era fingida. Ela viu Boris e Ivich e tranquilizou se. Sorriu lhes cheia de doçura e anunciou, com um ar perdido: — Uma canção de marinheiro: Jobnny Palmer. — Gosto da voz dela — disse Ivich. — Parece veludo. — Parece.

Mathieu pensou: «Ainda Jobnny Palmer»\ A orquestra preludiou, e Lola ergueu os pesados braços. «Pronto, faz a cruz», viu a abrir sanguinolenta. Qui est cruel, jaloux, amer? Qui triche au jeu, sitôt qu'il perd? Mathieu já não ouviu, sentia se envergonhado diante daquela imagem de dor. Era apenas uma imagem, bem o sabia, mas mesmo assim... «Não sei sofrer, nunca sofro o suficiente.» O que havia de mais penoso no sofrimento era ser o de um fantasma, passava se o tempo a correr atrás dele, imaginava se sempre que se ia alcançá lo, que se ia atirar dentro dele e sofrer de verdade rangendo os dentes, mas no momento em que pensava atingi lo escapava se, não se encontrava mais nada a não ser um fogo de artifício de palavras e milhares de raciocínios desvairados em minuciosa efervescência. «Esta tagarelice na minha cabeça; daria tudo para me calar.» Olhou Boris com inveja. Aliás, naquela cabeça obstinada devia haver grandes silêncios. Qui est cruel, jaloux, amer? C'est Jobnny Palmer. «Minto.» A sua decadência, as suas lamentações eram mentiras, vácuo; atirava se para o vácuo, à superfície de si mesmo, fugir à pressão insustentável do mundo verdadeiro. Um mundo negro e terrível que tresandava a éter. Naquele mundo, Mathieu não estava lixado — era muito pior. Era um atrevido e um criminoso. Marcelle é que estava lixada, se ele não descobrisse os cinco mil francos até ao dia seguinte. «Lixada de verdade.» Sem lirismo. Tinha o filho ou ia arriscar a vida nas mãos de um charlatão. Naquele mundo o sofrimento não era um estado de alma, não havia necessidade de palavras para exprimi lo. Era uma expressão das coisas. «Casa com ela, falso boémio, casa com ela, meu caro, porque não hás de casar com ela?» «Aposto», pensou Mathieu horrorizado, «que ela vai morrer com isto.» Todos aplaudiram, e Lola dignou se sorrir. Inclinou se e disse: — Uma canção da «Ópera de Quat sous»: A Noiva do Pirata. «Não gosto dela nesta canção, Margo Lion era bem melhor. Mais misteriosa. Lola é uma racionalista, não tem mistério. E boa de mais. Ela odeia me, mas com um ódio grosseiro, volumoso, sadio, um ódio de homem de bem.» Ouvia distraidamente esses pensamentos leves que corriam como ratos num sótão. Por baixo havia um sono espesso e triste, um mundo espesso que esperava no silêncio. Mathieu cairia nele mais cedo ou mais tarde. Viu Marcelle, viu lhe a boca severa e os olhos muito abertos: «Casa com ela, falso boémio, casa com ela, estás na idade da razão, deves casar.» Un navire de baut bord Trent' canons au sabord Entrera dans lê port.

A IDADE DA RAZÃO x «Basta! Basta! Arranjarei o dinheiro, terei de o arranjar ou casarei com ela, pronto, não sou um ser abjecto, mas hoje, esta noite pelo menos, que me deixem em paz, quero esquecer. Marcelle não se esquece, está no quarto, deitada na cama, lembra se de tudo, vê me, ouve os rumores do seu corpo. E que importa? Usará o meu nome, terá a minha vida inteira, mas que me deixe esta noite só para mim.» Voltou se para Ivich, lançou se ao seu encontro, ela sorriu lhe, mas ele deu com o nariz numa muralha de vidro enquanto aplaudiam. — Mais uma! Mais uma! — gritavam. Lola não ligou aos pedidos; tinha outro número às duas horas de madrugada, poupava se. Saudou duas vezes e caminhou na direcção de Ivich. Algumas cabeças voltaram se para a mesa de Mathieu. Mathieu e Boris levantaram se. — Boa noite, querida Ivich. Como está? — Boa noite, Lola — disse Ivich, de uma maneira indolente. Lola acariciou o queixo de Boris, com delicadeza. — Boa noite, crápula. A sua voz calma e grave dava à palavra «crápula» um tom de dignidade. Dir se ia que a escolhera a dedo entre as palavras ridículas e patéticas das suas canções. — Boa noite, minha senhora — disse Mathieu. — Ah! — respondeu ela —, também está aqui! Levantaram se. Lola olhou para Boris. Parecia com pletamente à vontade. — Disseram me que patearam Ellinor? — Estávamos a falar disso. — Foi chorar ao meu camarim. Sarrunyan está furioso, é a terceira vez em oito dias. — E vai despedi la? — perguntou Boris, com ar inquieto. — Estava com vontade; ela não tem contrato. Eu disse lhe: se ela sair, eu saio também. — Que é que ele disse? — Disse que ficasse mais uma semana. Percorreu a sala com o olhar e afirmou em voz alta: — É um mau público, o desta noite. — Pois eu não diria o mesmo — observou Boris. A vizinha de Ivich, que devorava Lola imprudentemente com os olhos, estremeceu. Mathieu teve vontade de rir. Achava Lola muito simpática. — É porque tu não estás habituado — disse Lola. — Quando entrei, logo vi que acabavam de se portar como idiotas, pareciam aborrecidos. Se a rapariga perder o lugar, só lhe resta o trottoir. Ivich ergueu a cabeça bruscamente, parecia desvairada. — Que se prostitua — disse com violência —, tanto me faz, e isso convém lhe mais do que a dança.

Esforçava se por manter a cabeça direita e conservar abertos os olhos baços e rosados. Perdeu um pouco a segurança e acrescentou, conciliadora: — Naturalmente, compreendo que ela precise de ganhar a vida. Ninguém respondeu, e Mathieu sofreu por ela. Devia ser difícil manter a cabeça direita. Lola olhava a placidamente. Como se pensasse: «Menina rica.» Ivich teve um risinho. — Eu não preciso de dançar — disse, com um ar malicioso. Mas o riso apagou se e a cabeça caiu lhe. — Que é que ela tem? — disse Boris, tranquilamente. Lola contemplou a cabeça de Ivich, com curiosidade. Passado um bocado, estendeu a mão gorda, agarrou Ivich pêlos cabelos e levantou lhe a cabeça. Parecia uma enfermeira. — Que é que aconteceu? Bebeu de mais? Afastava, como uma cortina, os cachos louros de Ivich, pondo a nu as faces pálidas. Ivich entreabria os olhos amortecidos e deixava a cabeça indinar se para trás. «Vai vomitar», pensou Mathieu, sem se perturbar. Lola dava puxões nos cabelos de Ivich. — Abra os olhos, vamos, abra os olhos, olhe para mini. Os olhos de Ivich arregalaram se. Brilhavam de ódio. — Estou a olhar para si — disse com uma voz cortante. — Estou a olhar. — Ah! — observou Lola —, não está tão bêbeda como isso. Largou os cabelos de Ivich. Ivich levantou vivamente as mãos, arranjou os caracóis sobre o rosto, parecia modelar uma máscara, e na verdade o rosto triangular apareceu sob os dedos, mas em volta da boca e dos olhos ficou qualquer coisa de pastoso e gasto. Ficou um momento imóvel, com o ar intimidado dum sonâmbulo, enquanto a orquestra tocava um slow. — Vamos dançar — disse Lola. Boris levantou se e começaram a dançar. Mathieu seguiu os com os olhos, não tinha vontade de falar. — Essa mulher censura me — disse Ivich, sombria. — Lola? — Não, a minha vizinha. Ela censura me. Mathieu não respondeu. Ivich continuou. — Queria tanto divertir me esta noite... e afinal... Detesto ganhar champanhe! «Deve detestar me também porque a fiz beber!» Viu no entanto, com surpresa, que ela pegava na garrafa e enchia novamente a taça. — Que está a fazer? — Acho que não bebi o suficiente. Há um estado que precisamos de atingir, depois sentimo nos bem. Mathieu pensou que devia tê la impedido de beber, mas não se

mexeu. Ivich levou a taça aos lábios e fez novamente uma careta. — Como é mau! — disse pousando a taça. Boris e Lola passaram perto da mesa. Riam. — Como vai isso? — gritou Lola. — Agora muito bem — disse Ivich com um sorriso amável. Tomou de novo a taça e esvaziou a de um trago, sem despregar os olhos de Lola. Lola devolveu lhe o sorriso, e o par afastou se a dançar. Ivich parecia fascinada. — Ela aperta se contra ele — disse com uma voz quase imperceptível. — É... é ridículo. Tem uma cara de fera. «Está com ciúmes», pensou Mathieu, «mas de quem?» Estava semiembriagada, sorria com uma expressão maníaca, interessada em Boris e Lola, e não lhe dava a menor atenção, apenas lhe servia de pretexto para falar em voz alta. Os sorrisos, os gestos, todas as palavras que dizia, endereçava os a ela própria através dele. «Isto devia ser me insuportável», pensou Mathieu, «mas deixa me completamente indiferente.» — Vamos dançar! — disse bruscamente Ivich. Mathieu sobressaltou se. — Mas não gosta de dançar comigo. — Não faz mal, estou bêbeda. Levantou se cambaleando, quase a cair, e segurou se à mesa. Mathieu tomou a nos braços e arrastou a. Entraram num banho de vapor, a multidão fechou se sobre eles, sombria e perfumada. Durante um segundo, Mathieu sentiu se perdido, mas depressa ficou senhor de si, marcando o passo atrás de um negro. Estava só; logo aos primeiros acordes, Ivich levantara voo, já não a sentia. — Como é leve! Baixou os olhos e viu uma porção de pés! «Há quem dance pior do que eu», pensou. Segurava Ivich a certa distância e não a olhava. — Dança correctamente — disse ela —, mas vê se que não tem prazer nisso. — Dançar intimida me — disse Mathieu. Sorriu. — Você é que é espantosa. Há pouco, mal podia andar, e agora dança como uma profissional. — Posso dançar completamente bêbeda — disse Ivich. — Posso dançar a noite inteira, nunca me canso. — Gostava de ser assim. — Nunca o conseguirá. — Bem sei. Ivich olhava em volta, com nervosismo. — Já não vejo a fera. — Lola? À esquerda, atrás de si. — Vamos para lá.

O homem pediu desculpas. Levantaram se. Ivich e Mathieu voltaram para a mesa. — Fiquemos aqui: já não há espaço. — Venha — disse com voz rouca. As lâmpadas acenderam se de novo. Ivich abraçou brutalmente Lola e empurrou a para o meio da sala. solitária e reivindicadora. guio como um homem. Um pequenino céu local formara se por cima das suas cabeças. Mathieu via lhe apenas uma ponta da orelha entre dois caracóis. IDADE DA RAZÃO — Forte como é. Ivich não respondeu. Boris arregalou os olhos. — Eu guio. e ninguém tinha vontade de falar. mostrando os dentes: — Não tenha receio. — Percebeste porque é que ela me chamou Pequeno Polegar? — Parece me que sim — disse Lola. — Dança admiravelmente — disse para Ivich. e a mulher deitou lhe um olhar raivoso. fixava em Lola um olhar pesado. Às primeiras notas do tango.Deram um encontrão num casal magricela. — São cómicas — disse Boris enchendo o cachimbo. — Você estava magnífico — disse Boris a Mathieu —. — São. Fez se um silêncio difícil. Ivich beliscou o cotovelo do irmão. Boris e Lola aproximaram se às voltas. perdido numa solidão angélica. Ivich emudecera. arrastava Mathieu. de maneira a ficar ela própria de costas para Boris. Ivich. J E A N P AUL SARTRE Lola fechava os olhos: as pálpebras eram duas manchas azuis sobre o rosto duro. Boris sorria. não fujas! Porque é que me chamas assim? Ivich não respondeu. de olhos fixos no irmão e em Lola. Quando chegaram muito perto. — Eh! Ivich. Acrescentou maldosamente. pensei que nunca dançasse. mas o ruído dos aplausos abafou lhe a voz. Ivich tornara se quase pesada. fez Mathieu dar meia volta. . a fim de dar lugar à orquestra argentina. — E agora? — perguntou Mathieu. — Divirto me loucamente — disse Ivich. — Não sei guiar — respondeu Lola. redondo. Boris murmurou ainda algumas palavras. — Foi a sua irmã que quis. Lola abrira os olhos. Nem Boris nem Lola os tinham visto chegar. Ivich dirigiu se para Lola. O jazz calara se. Pequeno Polegar. com a cabeça inclinada para trás. devia dedicar se de preferência à dança acrobática. nem sequer dançava. seco e sufocante. Lola já estava sentada. — Olá. os negros apressavam se a pôr em ordem os instrumentos.

À direita. incrustada de pedras. há de ver e vai ficar admirado. queria a todo o instante convidar me para dançar. Desviou o olhar e viu no rosto de Boris uma satisfação ingénua que o magoou. — A loura cheia de pérolas? — São falsas. — E que tem isso? — indagou Mathieu. tinha se drogado. abriu o e colocou o perto do copo. assim. Mathieu contemplava a cabeça trágica de Lola ao longe. — É uma navalha espanhola — explicou — com travão de segurança.. — Olhe — disse Boris. não sou como você. deu me uma cigarreira. mandou o empregado levá la daqui fora. principalmente. deslizando sobre um mar sombrio. era engraçada. Lola estava louca. Tirou do bolso um enorme canivete de cabo de chifre e pousou o sobre a mesa. Acrescentou. as cantoras.. — É uma arma de caide — disse. surpreendido. — Que vai fazer? — Nada — disse ele. — Há de ver. — Ela não tira os olhos de si. — Hum! — disse Mathieu. «Está contente porque está a meu lado». J E A N P AUL SARTRE Calaram se. — Olhe para aquela mulher que acaba de chegar. as dançarinas. ela está a olhar para nós. cuidado. quando tiver rompido com Lola. Ter uma é ter todas. com desprezo —. — Não é isso — disse Boris rindo.Lola. — Assim não. — Você está a ficar muito puritano. Não sabia que era tão alta. Cuidado. — Acredito. Pousou o cachimbo e disse gravemente: — Aliás. — Não é isso. — Está a ver estas manchas escuras? O tipo que ma vendeu garantiu que eram manchas de sangue. afinal são todas iguais. Além disso. — Conheci a terça feira passada. sombrio: — Era de prata. Mathieu pegou delicadamente no canivete e tentou abri lo. Voltou a pegar no canivete. mas as prostitutas. é uma mulher comprometida. pode magoar se. pensou. terceira mesa — disse Boris. Viverei como um monge. . sou um casto. Mathieu olhou de esguelha para a rapariga alta e bela. com remorsos. Esfregava as mãos. Parecia uma rapa riguinha. «e eu nunca tenho nada para lhe dizer». — Que tal? — Assim. que tinha um ar distante.

fica desvairado. — Você é odioso. Já me deve cem francos. Vou virar as costas. às vezes. Boris reconheceu o. quer roubar me Lola porque não gosta dela. enfraqueceu a sua posição. isso não. — Já sei — uma vez Boris ferira as gengivas com a escova e cuspira sangue —. — Olha. Acho que não se devem ultrapassar os trinta. Dança no Alcazar. Mathieu disse: — Isso não acaba tão depressa. com os seis perdigueiros. E então? — Não me incomodo com isso — disse Boris.. Quer apostar? / — Não. Imagine! Você compra o Vogue. — Tem razão — disse. Você nunca pensou em acabar. é um desgraçado. — Estou tuberculoso. — Olhe. — Sim. Trinta e cinco anos e ares de querubim. — Com trinta e cinco — disse Boris secamente —. Depois .. — Quem é o tipo que está com ela? — Um amigo. devem ter uns modos! E depois é lisonjeiro. pode esperar pêlos charutos e pelo navio.. É bonito.» Deve sentir se uma certa emoção. — Cale se — disse Boris. furioso e divertido ao mesmo tempo —. Ia Comtesse de Rocamadour. olha as fotografia e vê. porquê? — Não sei. — Quero confessar lhe tudo — disse com ar confuso. já terei morrido há muito. sem se perturbar. — E superior às suas forças — continuou Mathieu. cuidadosamente. — No dia l de Julho. — Eu sei que não paga as suas dívidas de honra. de boa vontade. você há de ser assim aos trinta e cinco anos. está demasiado preso a Lola. de repente. não. — Não pode tomar partido. cinco charutos de Havana e aquele navio dentro da garrafa que vimos na Rua de Seine. — Ora. um binóculo de corrida. e pensa: «Dormi com esta mulher ontem à noite. já sei. — É no peito que você me faz mal — explicou Boris. Aposta todos os meses que vai acabar no \ mês seguinte e perde sempre. porque tem sempre razão.satisfeito. — Mas na gostava de me tratar. Acho que deve ser divertido. ela está a sorrir lhe agora — disse Mathieu. — Agrada lhe dizer isso. — E você um medíocre! O rosto iluminou se lhe. Algumas. J E A N P AUL SARTRE Acendeu de novo o cachimbo. Que lata! Pura vaidade. — Eu queria ter uma mulher da alta sociedade.. não acha? Olhe bem aquele focinho. — Não acha uma injúria formidável: o senhor é um medíocre!? — Não é má. trazem o nome no Vogue. — Ou então: o senhor é um zero! — Não. Mme.

— Nota se isso? — E de que maneira! — Dificuldades de dinheiro. — Você defende se mal — disse Boris com severidade. — E o seu irmão? — Não quer. . — Eu gostava de ter dois anos a mais. — acrescentou. Estão lá.. No fundo de uma mala. naquela cadeira. A juventude era para Boris uma qualidade perecível e gratuita de que era preciso tirar proveito cinicamente e uma virtude moral de que se devia mostrar digno. Era ainda mais: uma justificação. Quer cem francos do barman? — Obrigado. estava realmente ali. «ele sabe ser novo. — Não quero pedir a Lola. Boris corara. não é tão estúpido como isso viver a mocidade a fundo até aos trinta e morrer. Estava a pensar que é absurdo. Mathieu encarou o com uma simpatia escandalizada. pensou Mathieu. nem sequer teve tempo de depositá los no banco. talvez pudesse ter falta dele. — Mas juro lhe que ela não sabe o que lhe há de fazer. — Desculpe! O seu amigo Daniel não lhos empresta? — Não pode. no meio daquela gente toda. Seria agradável. — Se você quisesse. — Mas tem razão. J E A N P AUL SARTRE — Se eu quisesse o quê? — Nada. Depois dos trinta. não precisava de pedir emprestado. porque ela não me suporta. Olhou para Mathieu e acrescentou. Não o suporta. — Lá isso é verdade.. — Merda — disse Boris. — Tem um ar muito chateado — disse Boris. De qualquer maneira. Mathieu estremeceu. naquele dancing. já nada se vale. A — Bem sei — disse Mathieu. Boris assobiou com um ar entendido. e ficar nessa idade o resto da vida. depois dos trinta já se está morto. No fundo.tornamo nos uma ficha inútil. «Que importa».» Só ele. Boris riu. irritado. Se se tratasse de uma conta no banco. cheio de confusão. — Não está a perceber — disse Mathieu. não tocou neles. — Não quero pedir nada a Lola. talvez. — Se tivesse os seus vencimentos. comprar acções. Lola está cheia de dinheiro e não sabe o que lhe há de fazer. jogar na Bolsa. eu preciso é de cinco mil. mas olhava Mathieu com uma solicitude inquieta. desolado. Mas tem sete mil francos em casa há quatro meses. — Não digo isso de si. embaraçado.

nervosamente. — Ela é formidável — disse com a sua voz enrou quecida. Boris levantou a arma e pousou a sobre a mesa. — Quer dançar? J E A N P AUL SARTRE — Não — respondeu Ivich —. é bela! — E o corpo! Como é comovente aquele rosto devastado e o corpo amadurecido. Mathieu sentia se perturbado. O rosto iluminou se lhe e acrescentou com um sorriso feliz: — Tu és gentil. ia dizer lhe: «Peça o dinheiro a Lola». «Sou ignóbil». Ivich sentou se ao lado dele. — Sim. — Uma navalha espanhola — disse Boris —. mas não conseguiu articular as palavras. O canivete caiu. para te fazer andar direita. A sério — insistiu —. Boris abriu os dedos. Cruzava e descruzava as pernas. Você está chateado por causa de cinco mil francos. pensou. entre dentes. A orquestra iniciara outro tango. É uma mulher horrível. com orgulho: — Eu intimidava a. — Vem dançar — disse. Boris não respondeu. — Simpática? Ah!. — Vocês matam me. Mathieu acompanhava Boris e Lola com o olhar.» Estava envergonhadíssimo e covardemente aliviado. Virou se para Boris. Boris ainda não tocara no assunto. e Lola sorria lhe. e o sangue subiu lhe às faces. quero beber. uma fêmea. Boris olhou para Lola. Boris levantou se. «fazer de cavalheiro à custa de Marcelle». Parecia gracejar. não. apesar de tudo. E se os pedisse para mini? — Não. s — Es um monstro. ela acabaria por saber. enfiou se no chão e o cabo pôs se a vibrar. Sentia o tempo voar e tinha a impressão de que ela ia murchar nos meus braços. Encheu a taça por . Ivich e Lola voltaram aos seus lugares. e Mathieu pensou: «Ele vai pedir o dinheiro. ser me ia desagradável que lhos pedisse. A — Que é isso? — perguntou Lola. — Ela é simpática — disse Mathieu. Acrescentou. — Bem vi — disse Mathieu. Pegou no canivete com dois dedos e levantou o devagar à altura da fronte. não faça isso — disse Mathieu com vivacidade —. tem nos à mão e não lhos quer pegar. distraidamente. sombrio. de ponta para baixo.— Está a ver! — Não deixa de ser estúpido.

Lola seguia o. Ela não compreende! Uma mulher da idade dela. inconsciente. tem de pagar! — Como é que lhe pôs o problema? — Disse que era para um amigo que quer comprar uma garagem. o que sei é que vai me pagar. A multidão dispersou. a primeira vez que lhe peço alguma coisa. — Ela não quer? — indagou Mathieu. A loura era toda trejeitos... Mathieu pegou na navalha . «Pronto». e é verdade que ele quer comprar uma garagem. falava sem olhar para Lola. que ressurgiu com um ar fechado.. Lola e Ivich passaram perto de Mathieu. «ele já está a falar». provocante e mau. Parlamentaram um minuto e Ivich levou a para a sala. — Não sei. — Seria parvo se me zangasse. erguendo os ombros. Lola não dizia nada.metade e explicou: — É conveniente beber quando se dança. Lola mantinha se calma. — Tenha calma — advertiu Mathieu. avançava. não. Boris tomou um ar sério. — Ora — disse Boris com ar hostil —. No momento em que começavam a dançar. a expressão rancorosa e acovardada dava lhe um ar de semelhança com a irmã. pensou Mathieu.. que quer um tipo como eu. — Não deve ter acreditado. — Oh!. A música parou. estou exausta. e Boris apareceu. porque a dança não deixa ficar embriagado e o álcool sustenta. e os dançarinos abriam passagem para lhe demonstrar respeito. e já. — Exigiu que eu não falasse. Mathieu sentiu que corava. mas há de pagar. — Ficou aborrecido comigo? — indagou Boris. Acrescentou. Ela conhece o. Boris inclinou se para Ivich: — Faz me um favor. Ivich recuava com os olhos virados para o céu. não — disse Lola —. Ivich levantou se sem mostrar espanto e atirou se ao encontro de Lola. querida. — Não faça asneiras — disse Mathieu. convida a. Porque recusou? DADE DA RAZÃO — Não sei — disse Boris. Estava pálido. Ela corou ligeiramente e levantou se. Vou acabar bem. — Não — disse Boris —. estava irritado com Boris. asperamente: — É fantástico como me divirto aqui. Uma semelhança perturbadora e desagradável. Os ombros de um negro gigantesco esconderam Ihe o rosto de Lola. — Fez uma cara de poucos amigos e disse que precisava do dinheiro. mas por baixo do sorriso estava atenta. isso é comigo. Bem sabe que o deixei pedir. não parecia satisfeita. Disse lhe o nome: Picard. majestosa. Ora. Foi inclinar se diante da loura grande. ora — acrescentou com um furor espantado —.

pela França. norte na frente. a Itália — a Espanha é branca porque não fui bater me por ela — e as cidades redondas. e Marcelle está lá dentro. fora. escapo. E em volta de Paris. o meu apartamento. entre as poltronas de couro verde. e eu no meio. como engolir a própria saliva. a Avenida du Maine e Paris inteiro em volta de mini. no futuro. segreguei a minha concha. Sobrava um pouco de champanhe na taça de Ivich. Sou eu essas esperas. Pensava em Marcelle: «Marcelle minha mulher». «Minha mulher. a Rua da Gaite. com um colarinho duro. como respirar. sul atrás. a Torre Eiffel à esquerda. E isso marcava! Cada um dos meus gestos suscitava. «Bocejei. Hei de vê la todos os dias da minha vida. o Mediterrâneo azul. sussurrando. só porque a desço sempre. a Mancha cor de café com leite. mas com segurança. espero que eu venha a rebentar de calor e a dizer: "Sim. e alguma coisa se fechou dentro dele. li. num sentido. nua. aquelas luas ruivas que deslizavam sobre coxins de nuvens. bebeu o. o mar do Norte preto. ignorava a existência da minha. descontrai te. e depois outros países. agora acabou. Estava vazia. sou eu que me espero nas encruzilhadas. vestido de preto. a França sulcada de estradas de sentido único. a Porta de Clignancourt em frente de mini e no meio a Rua Ver DADE DA RAZÃO cingetorix. das minhas preguiças. a distâncias fixas do meu quarto. Elas estendem se através dos muros do dancing. Todos. não te irrites. estava se marimbando. Sentia o por todos os lados. tão rigorosamente pessoais quanto uma escova de dentes ou uma lâmina. pensou. mas a vida manteve se firme.» Pousou a navalha na mesa. cortam se e permanecem. a Alemanha. à minha espera. sê natural. tenho uma vida. uma pequena espera obstinada que amadurecia.pela lâmina e pôs se a bater com o cabo na mesa. e mares tingidos de azul ou de preto.» Olhava aqueles rostos avermelhados. estou enfiado lá dentro. como os objectos de toilette que não se emprestam. entrecruzam se. aceito a como esposa. para além de si próprio."» Sacudiu violentamente a cabeça.» J E A N P AUL SARTRE «Uma vida. através das ruas de Paris. espero a minha chegada. «Não te incomodes. Aliás. Eu sabia que cada um tinha a sua vida.» Pensava: «Não fazendo nada. perfeitamente natural. o Panteão à direita. ao sabor dos meus humores. «Vai haver sangue». na grande sala da mairie do XIV. . minha mulher. Enganava me. «Todos têm vidas.» Pensou: «Tudo está claro. fiz amor. Eu sabia. sou eu que me espero sentado numa poltrona vermelha. No centro. «Lentamente. um buraquinho forrado de cetim cor de rosa.» Era natural. pegou na garrfa e inclinou a por cima do copo. viverá na minha casa. Cada um a sua. o quarto de Marcelle. Em minha casa.

Ando. entre os meus livros. um pouco de ar quente apenas. tranquilo e pensativo como escolhi ser. à mairie do XIV. guardava me para mais tarde — e acabo de perceber que já não tenho dentes.» Ergueu os olhos e viu Lola. eu não. Toronto. uma insipidez tenaz. contemplou com ternura o corpinho rancoroso e frágil em que a sua liberdade se atolara. de cabeça inclinada para trás. o barco. Eu continuaria sentado no meu quarto. vagueio. «Levei uma vida desdentada». Que fazer? Quebrar a concha? É fácil de dizer. passeio. agora. Era uma estranha coisa sem começo nem fim e que no entanto não era infinita. era um olhar. a sua vida. Pairava lá em cima. Aquela tinha um sentido vago e hesitante como as coisas naturais. aonde ia casar com Marcelle no mês de Agosto ou Setembro de 1938. «Minha querida Ivich. minha querida liberdade. uma consciência pura. E aliás o que me restaria? Uma pequena massa viscosa que se arrastaria na poeira deixando atrás de si uma esteira brilhante. a três mil quilómetros do marroquino e do seu turbante.» Dançava. mas olhava Ivich e parecia lhe que ouvia aquela melodia triste e rude pela primeira vez. Absolutamente nada.» Sorriu. Mesmo se eu apanhasse o comboio. o professor. por onde ando levo a minha concha comigo. o seu marido. Nunca mordi. fico em casa. pensou. o intelectual . Viu Ivich. que não esteve na Espanha. A orquestra tocava um tango argentino que Mathieu conhecia bem. incríveis como marcos quilométricos. «Nunca será minha. o autocarro.» «A minha vida. perdida. pôs se a sobrevoar o seu próprio corpo empoeirado. se fosse passar as férias a Marrocos e chegasse de repente a Marráquexe. aquele que não aprendeu inglês. sem idade. ainda estaria no meu quarto. no meu quarto. não pensava em Mathieu. de uma mairie à outra. Se fosse passear nas praças. sentia uma dor humilde e refrescante. sem futuro: «Não tem concha. onde fora examinado pelo serviço de recruta J E A N P AUL SARTRE mento em Outubro de 1923. o pequeno burguês preso às suas comodidades. um cheiro de poeira e de violetas. contemplava o falso boémio. I ercorria a com os olhos. Ela dançava.» E de repente uma consciência. que não aderiu ao Partido Comunista. esse árabe estaria em Marráquexe. Como se ele nunca tivesse existido. Kazan. Para sempre o ex amante de Marcelle e. Tinha um sorriso mau nos lábios.» Envolvia o. da mairie do XVIII. No meu quarto para sempre. Para sempre. «Uma vida desdentada. Mi caballo murió. uma consciência sem eu. ainda estaria em casa. esperava. não me aproximo um centímetro sequer de Marráquexe ou de Tombuctu. Nijni Novgorod. estava embriagada. farto me de viagens: férias de universitário. nunca entrará na minha concha. Vou me embora. se agarrasse no ombro de um árabe para através dele tocar em Marráquexe.Tombuctu.

não parecia muito orgulhoso de si.. não têm o direito. Quando se sentou. desvairada. inchava.» Mas não era solidária com ninguém. Mathieu sobressaltou se. Falava lhe em voz baixa. um lamento sombrio. A loura amarrotou uma nota de cem francos e atirou a para a mesa. como um maïtre d'hotel que espera ordens. O companheiro dela levantara se. sofredora. e fez se um silêncio pesado. que se abanava. a loura deu Ihe o braço e saíram os dois. com afectação. Mexeu dentro da carteira. Ele afastou se. — É de mais — gritou a loura —. assobiando baixinho. com negligência. dando às ancas do mesmo modo. tinha um ar estranho. Boris fixou em Lola um olhar de raiva e admiração. Depois deitou um olhar matreiro para a grande loura. «não revolucionário revoltado». com um ar calmo e decidido. eis tudo: «Um êxtase a mais. não pensei que fosse tão fácil. olhava a nota com um ar de censura. Disse a Mathieu. era capaz de tudo. sobre o rosto de Ivich. Ivich voltou a sentar se perto de Mathieu. Depois. Os cantos da boca tremiam lhe. sou eu que a convido. de se desesperar de verdade pêlos Espanhóis. não me vou embora. — Safa! — O quê? — A loura. a orquestra calou se. girava numa bolha giratória. Estava só. era Mathieu. os negros voltavam com os seus instrumentos. J E A N P AUL SARTRE — Vem — disse para o companheiro. efémera e desolada. Sarrunyan inclinara se obsequiosamente para a loura. — Nunca mais virá — disse com um sorriso divertido. o sonhador abstracto rodeado por uma vida flácida. e todos olharam. Uma consciência vermelha. Lola sorriu lhe e atravessou a sala. — Que é que ela fez? Boris franziu as sobrancelhas e estremeceu sem responder. Boris olhou para o sapato direito. Mathieu encontrou se a sós consigo mesmo. — Obrigada — respondeu Lola —. A loura levantou se de repente. Este parecia admirado. Mas não podia durar. Mathieu olhou em volta da sala e descobriu Lola junto dos músicos falando com Sarrunyan. A orquestra argentina deixava a sala. e depois?» Boris voltou ao seu lugar. de cabeça erguida. — Não — disse Sarrunyan —. E ela pensava: «Este tipo está lixado. Já nem se julgava. Se aquilo pudesse durar. no fundo da sua vida. ruidosa de música. Mi caballo murió. A consciência inchava. de resolver qualquer coisa.. É uma puta. Sarrunyan aproximou se de Lola. nem sequer se aceitava. depois virou se bruscamente . seco e duro. bem o merece. ela cansou se.falhado.

Uma espécie de queixa rouca o fez estremecer. — Precisam de mim — respondeu Lola. — Sabia que Boris precisava de cinco mil francos? — Não — disse ele. — Esta gente vem aqui por minha causa. — Desculpe. apenas um pouco menos impiedosos. incrédula. Mas quando se afastaram. casco para o ar como um velho navio. Mathieu pôs se a rir. — Picard trabalha durante o dia todo em Argenteuil. Deve ter encontrado Picard mais tarde. ou então que a boca se ia rasgar e largar um grito enorme. — Ele sabe que nunca tenho um tostão. o rosto dela sulcou se de repente. sem deixar de sorrir. — Sim. sorria. Os olhos continuavam lhe inquietos.para Ivich. Precisava de cinco mil francos? Lola continuava a olhá lo. Mathieu via duas grandes íris verdes com pupilas minúsculas.» Ele estava só. «Já tem a sua conta». deve ter passado pelo hotel de Boris. Mathieu não sabia que lhe havia de dizer. Pensou: «Está na hora da droga. J E A N P AUL SARTRE Mathieu disse com indiferença: — Picard precisava de dinheiro. tinha os olhos cerrados. puros como uma melodia. Ela abriu os olhos. Não o encontrou e depois deve tê lo visto no Bulevar . Não pensava em nada. e ela tamborilava nervosamente na mesa. Virou a cabeça e ficou a olhar para os pés. Mathieu sorriu lhe. Lola voltara. pensou. Mathieu viu a dar a volta à sala e desaparecer. com indiferença. Pensei que fosse para si. — Ele diz que é para Picard. Passou algum tempo. Lola contemplou os calmamente. — Vem dançar. — E não lhe disse nada? — Não vejo nada de extraordinário nisso. — Então? — Lola encolheu os ombros. — Acabo de recusar — disse Lola. — Foi o que me disse. — Você faz o que quer nesta boite — disse. vacilante. lá pelas três horas. enquanto se levantavam. — Então não estava ao corrente — perguntou Lola. — Esteve em casa à tarde? — perguntou ela. — Não. — Não sabia. Ivich e Boris dan DADE DA RAZÃO cavam. Felizmente ela levantou se instantes depois. — Que estranho! Dava a impressão de que ela ia soçobrar.

Fez se silêncio e depois perguntou repentinamente: — Como explica que haja sempre cenas quando vem aqui? — Não sei. — Quem é que lhe disse isso? — Admira se de que o saiba? — perguntou Lola. Mas há também quem acredite fazer lhe bem dando lhe volta à cabeça. por acaso. quer ficar com a consciência limpa. Basta ver a cara das idiotas que andam por aqui quando estamos juntos. — E um tipo leal. Não sabe resistir. que tem apenas trezentos francos por mês de mesada? — Então. Tinha vontade de rir. tremiam e voltavam a cair. exasperado. não sei — disse Mathieu. não vale a pena fazer cerimónia.. com frieza. A não ser que alguém lhe tenha soprado a ideia. Não falta quem pense que já estou velha e que ele é um miúdo. Lola encarou o ironicamente. — Mas quem haveria de soprar? — Não sei. Ou então faz me perguntas com ar de quem não sabe o que quer. — Acredita que se preocupa com elas? — Não. Hoje eu nem queria vir. Mas não era possível por causa de Boris. — Que ideia! — Ivich passa a vida a dizer lhe que eu sou sovina. uma prova. — Ah! — disse Lola. «Ela ficaria zangada com ele e ele transformar se ia em meu cúmplice. Inventou essa história de Picard. Aliás eu já o sinto só pela maneira de me olhar. De longe. os cantos dos lábios levantaram se lhe bruscamente..» Assim teria acabado imediatamente com aquilo. — E possível. — Ouça — disse Mathieu —. Lola desviou o olhar e perguntou: — Não seria uma prova? — Uma prova? — repetiu Mathieu. Olhava Mathieu com uma insistência inquieta.Saint Michel. Não pensem que podem falar mal de mim diante dele sem que mo conte. Finalmente disse: . — Pensa que Picard iria pedir cinco mil francos a Boris.» Lola tamborilava na mesa com as unhas escarlates. está enganada. triunfante. Mas eu sei aonde ele quer chegar. Imagino que gosta de nós de maneira diferente e que fica irritado quando nos encontra ao mesmo tempo a um e outro. mas por baixo daquela cólera. admirado. Lola olhava diante de si com uma expressão sombria e tensa. — Sim. se é para mim que diz isso. Mathieu adivinhava uma grande perturbação. A — E então? — Quis ver se eu era agarrada. Tinha vontade de dizer: «O dinheiro era para mim. Não tenho culpa.

. faça o que entender. não pense nisso. — Nós não somos iguais — disse. Entre ambos. Quando se cansar de mim. — Acho que ele gosta de si. poderá largar me. «Desabafa». Lola detestava Mathieu e no entanto aquilo que lhe dizia agora nunca o tinha dito a ninguém. é feliz comigo quando não lhe metem coisas na cabeça.. «É sem dúvida da droga. Tenho a certeza de que não lhe faço mal. murmurou: A — Diz me isso a mim. algo viscoso e voraz. apesar do ódio. havia uma espécie de solidariedade.— Ouça bem. Olhava Boris e Ivich.. — E depois. — Porquê tão bem como eu? — Somos iguais.. Lola exclamou. — Não quero que mo roubem. Mas sei o tão bem como você. Mathieu . Mathieu encolheu os ombros. apesar da violência e da pureza. e tinha vontade de dizer a Lola: «Não nos vamos zangar. As suas relações com Boris não me interessam. Lola volveu para ele os olhos pesados. — Que quer dizer com isso? — Olhe para nós e olhe para eles. sei que sou uma mulher velha. Mathieu não respondeu logo. e Mathieu compreendeu que não a convencia. mas o que lhe digo é que esse miúdo é a minha última oportunidade. Entretanto. Viu no amor de Lola. pensativamente — não é preciso que mo digam.. e calaram se sem se reconciliar. — continuou.. — Pois bem. Olhavam ambos Boris e Ivich. Mas é por isso que posso ajudá lo.. Calou se. que dançavam. quem lhe diz que sou velha de mais para ele? Ele gosta de mim tal como sou.» Mas a outra coisa. achava tudo muito certo.. J E A N P AUL SARTRE — Não pretendo roubá lo — disse ele.. Talvez o percebessem vagamente. Depois disso. — Pensava — disse Lola com um ar firme. — Eu pensava: ele acha se com responsabilidade porque é professor. Se me interessassem. — Já passei por tudo e não tenho ilusões. Mas não quero que mo roubem. Ela parecia escolher as palavras. Há coisas que lhe posso ensinar — acrescentou num desafio. bem vê que somos iguais. pensou Mathieu. eram cruéis sem o perceber. e isso acontecerá por certo bem mais cedo do que espero. Boris e Ivich dançavam.» Mas aquela semelhança desgostava o ligeiramente. ele diz lhe tudo. Mathieu calava se. Lola teve um gesto de desprezo. com uma violência inquieta: — Devia saber que ele gosta de mim! Deve ter lho dito.. — Eu sei.

Ivich. — Veio me de repente. receoso e obstinado. — Porque se vão embora? — Vão conversar. dando voltas entre as paredes vermelhas. pensou. respiraria duas pitadas de pó branco.» E Boris baixava a cabeça. com a cabeça inclinada como para suster uma hemorragia nasal. quero falar contigo. — Já percebi — disse ela. Em seguida. indignada. — Você está zangado porque estou bêbeda. — Está. — Penso que gostaria de me drogar. — Estou bêbeda — disse Ivich. — Não estou zangado. mas apoiou se à mesa e respirou fundo. Lola levantou se com dificuldade. No seu camarim. já disse. Desculpe. Mathieu não respondeu. será uma distracção. Ivich deixou se cair na cadeira. tinha vergonha de transpirar diante de Ivich. — Não. — Naturalmente! — Que é que tem? — disse Ivich.» Boris e Ivich voltaram. Depois da primeira pitada. — Não podes falar aqui? — Não. já estou quase na hora de cantar. Aliás. «Devem pensar que somos amantes». amavelmente. Mathieu calou se. — Bom. Não dançavam. Dançaremos. Lola passaria para trás do biombo e aí. Vem ao meu camarim.estava sentado ao lado de Lola. e Boris acompanhou a de mau humor. Ouviu Lola murmurar para si própria: «Se ao menos tivesse a certeza de que é para Picard. — Vem — disse a Boris —. Um vestido preto comprido. — Não — disse Lola —. é uma ideia fixa tomar outra. Boris. pões me doida. A testa de Mathieu suava. — Voltamos já. mas ele não se atrevia a enxugá la. Lola tomou a droga. o brilho negro do vestido no espelho e dois lindos braços brancos retorcendo se de desespero. espera que a orquestra toque. Lola ameaçava e implorava: «Boris. uma sala gordurosa e forrada a veludo vermelho. aliás você não está tão embriagada como isso! — Estou for mi da vel men te bêbeda — disse Ivich com satisfação. Está a censurar me. Mathieu pensou que ela ia cair. Ela . As pessoas começavam a sair. Lola afastou se. porque aquilo já não era para a sua idade. — Se tiver de ficar em Laon a vida inteira. estou cansada. ao dançar. Deviam ser duas horas. com abandono. — É verdade que estou bêbeda — disse. Boris pareceu não se sentir à vontade.

com uma voz de bêbeda. teria dado tudo para não ter havido histórias. você também é decente. porém não transpirava. sob aquelas luzes artificiais. Mathieu olhou a. com a minha mãe e o meu pai. Sorriu e afirmou com êxtase: — Brilha como um pequeno diamante. Dissera de manhã: «Tenho horror às mãos húmidas. — Divirto me muito — disse ela. Estava encostada à cadeira. telefonar a Marcelle. estou a divertir me. — Eu não sou decente. — Quem? — Essa mulher de preto.tinha dançado sem parar. tomou um ar majestoso. estou bêbeda. a Sarah.» A mulher de preto compreendeu que falavam dela. vou chumbar. está suspenso no vácuo como um diamante. — Que é que essa quer? — disse de repente. ficarei satisfeita. Estava naquele estado de exaltação que um incidente qualquer pode transformar em furor. Gostaria de permanecer indefinidamente à mesa. — Essa mulher despreza me. — Cale se. porque é decente — murmurou Ivich dirigindo se ao canivete. Hoje de noite enterro a minha vida de solteira. — Está a falar comigo. de Ivich. Ivich olhou o com uma expressão cortante. Pegou no canivete de Boris pelo cabo. creio. «Que chatice». apoiou a lâmina contra o bordo da mesa e divertia se fazendo a curvar se. Sentia se preguiçoso e covarde. J E A N P AUL SARTRE — Então — disse Ivich —. de olhos esbugalhados. não é verdade! — Acho que sim. apoiava obstinadamente a lâmina . os olhos maus e vagos e pensou: «Não devia ter falado. não pensava em nada. A mulher de preto olhava Ivich pelo canto do olho. Eu sou eterna. É verdade. pensou Mathieu. Não tenha medo. e isso afigurava se lhe incrível.» Já não sabia que fazer das mãos. Mathieu voltou a cabeça. Quando eu ficar dez anos em Laon. não tinha nenhum desejo. Sentia se fraco e desanimado. Percebeu a ruga rancorosa no rosto de Ivich. De vez em quando dizia com os seus botões que o Sol se ia levantar dentro em pouco e que teria de recomeçar as suas diligências. serei ainda mais decente do que você. peco lhe. ficara pálida. — O quê? — Este momento. ao meu lado. Odeio a decência — gritou repente. Ivich. viver do princípio ao fim um novo dia. Desde que chegou que não pára de me censurar. o marido tinha acordado e olhava Ivich. — Se chumbar. E redondinho. — Que me importam os exames — disse Ivich.

Ivich ouvira com certeza. Erguera a mão à altura do nariz e examinava a com expressão crítica. — Nada. Parecia louca. mas ela desenvencilhou se violentamente. — É uma sensação muito agradável — disse Ivich. Ivich. «Pronto». A carne abrira se desde o polegar até o mindinho e o sangue gotejava devagar. Parecia espiar qualquer coisa.. e pensava na dor que ela sentia. A vizinha de Ivich deu um gritinho e pôs se a pestanejar. — Acha que ela vai desmaiar? Mathieu estendeu a mão por cima da mesa. mais uma indecência para divertir a senhora. Quero ver como suporta o sangue. Mathieu estava desvairado. — Atreve se a tocar em mini? Acrescentou. Ivich tornara se pálida. maníaco e contente ao mesmo tempo. Eu. Fez se um silêncio pesado e em seguida a mulher de preto voltou se para o marido.contra a mesa e forçava a a curvar se. para os ombros de Mathieu. Ivich olhava para Mathieu com os olhos a brilharem de ódio. — Não compreendo como é possível portar se como essa rapariga — disse. O sangue escorria. — Venha. — Hum? — Não é culpa dela — continuou a mulher —. — Ivich — gritou Mathieu —. Segurava o canivete com a mão direita e rasgava a palma esquerda aplicadamente. contemplava os dedos magros de Ivich. as suas mãos! Ivich troçava com um ar vago. — Que é que há? — perguntou Mathieu. pensou Mathieu. — Um curativo? — Ivich riu. — Parece um pedaço de manteiga. — Você é doida! Vamos ao toilette fazer um curativo. — Basta — disse Mathieu. mas não disse nada. — Está a compreender o alcance do que me está a dizer? Mathieu levantou se. e uma pesada gota de sangue caiu sobre a toalha. — O meu sangue. O marido olhou. sem opor resistência. venha depressa. e Ivich deixou o pegar no canivete.. maldosamente. JEAN PAUL SARTRE Agarrou Ivich pêlos ombros. com um riso insultuoso: . Gosto de ver o meu sangue. inquieto. Estava quieta. receoso. Mathieu olhou precipitadamente as mãos de Ivich. ergueu a cabeça. com um ar estranho. Quieta de mais. peco lhe. culpados são os que a trazem aqui. que se enchiam de sangue. sem se levantar. dir se ia o vaivém de um formigueiro. «o escândalo».

Depois fixou Mathieu. Apontou Mathieu e Ivich. — Se quiserem ir ao toilette — propôs —. à vida. Atravessaram a sala atrás do empregado. Um jogo para meninas nobres. estendeu a mão sobre a mesa e disse docemente: — Excessivo? Não. Olhava Ivich. pensou. — Qualquer pessoa pode fazê lo. tinha visto coisas piores. Ivich contemplou o. ah! — exclamou Ivich. a Daniel. inquieta. o canivete ficou enterrado na carne. deseja alguma coisa? A mulher de preto apertava o lenço sobre os lábios. Riu tão fortemente que a mão lhe tremeu. — Oh! — disse ela —.. O tumulto ampliou se. Mathieu sentiu que empalidecia de raiva.» Não podia deixar de se sentir satisfeito. cerrando os dentes. Não era apenas para enfrentar Ivich que tinha feito o golpe. Sentou se de novo. — Um acidente acontece tão depressa.. com as mãos feridas levantadas. Enfiou o canivete de um golpe na palma da mão e não sentiu quase nada. secamente. como foi que fez isso? E o senhor? — Estávamos a brincar com uma faca. tire! — Está a ver? — disse Mathieu. Mathieu arrancou rapidamente o canivete do ferimento e doeu lhe muito. — Ah!. Era a opinião pública. Quando o largou. Disse docemente: — Porque fez isso? — E você? — perguntou Mathieu. Era uma faca da casa? . Ivich. À esquerda ouvia se um tumulto ameaçador. com o cabo para o ar. — Aí está — observou a mulher. tinha o rosto completamente mudado. — Meu Deus — exclamou a mulher do toilette —. compungida —. Duas gotas de sangue caíram no chão. e depois riu também. Era tão cómico que Mathieu deu uma gargalhada. Ivich levantou se docilmente. imagino. tire. — Ferimo nos com este canivete. Ivich olhava a mão de Mathieu. Sentia se terno e maciço e tinha medo de desmaiar. tanto. sem dizer nada. Desta vez. de pé. há lá tudo quanto é necessário. era igualmente um desafio a Brunet. acho isso encantador. o sangue que escorria em volta da lâmina. lamento. Mas havia nele uma satisfação obstinada e uma má vontade deliciosa. — Como isto me diverte! — disse Ivich. e o empregado acorreu: — Minha senhora. «Sou um imbecil». O empregado não se impressionou. «Brunet tem razão em achar que sou uma criança velha. Mathieu não lhe dava ouvidos.— Devia ter imaginado que você acharia isto excessivo! Escandaliza se com o facto de que se possa brincar com o próprio sangue.

depois juntou a palma da mão esquerda à palma ferida de Mathieu. vai arder. Pronto! — Vai dizer me que sou indiscreta. É profundo o corte — disse. gravemente. tirei lhe um pedaço de vidro da sobrancelha. em letras douradas sobre as portas esmaltadas de cinzento creme. Olhou o chão de ladrilhos brancos. A embriaguez de Ivich parecia ter passado. — Pois não — respondeu Ivich. — Um pouco de paciência.. e o coração dilatou se lhe. — Nunca imaginei que fosse fazer isso — disse Mathieu. respirou um cheiro de desinfectante. alegre. tesouras. agulhas. — A minha mão também. — Dói. Leu: «Senhoras». examinado o ferimento de Ivich. Sentia se feliz. tive medo por causa dos olhos. agora. — A mistura dos sangues — explicou. Ouviu se um ruído molhado. encantada! Ela contemplava o com uma expressão de ternura e selvajaria. Ele sangrava. vou tratar de tudo. . — Está bem equipada — disse ele. — Faz me doer — gemeu Ivich. J E A N P AUL SARTRE Abriu um armário. — Bem vê que nem tudo está perdido. — Aqui está tudo — disse ela. Mathieu e Ivich sorriam. A — Há dias em que não é brincadeira. — A mulher do toilette saíra do armário.. — Parece me que pensava em mim.— Não. uma senhora atirou um copo à cara de um dos nossos clientes. gazes. depois «Homens». ligeiramente congestionada. — Bem sei. — Não se inquiete. Anteontem. A mulher movimentava se em volta de Ivich. — Ah! estava a estranhar. Mathieu apertou lhe a mão sem falar e sentiu uma dor forte. e metade do corpo desapareceu lhe dentro dele. tinha a impressão de que uma boca se abria na sua mão. é tintura de iodo. Mas queria saber em que pensava quando eu estava a dançar com Lola — disse Ivich a Mathieu. — Não deve ser muito desagradável esta profissão — disse. Você estava sozinho. — Há pouco? — Sim. hesitou um instante. quando Boris convidou a loura. — O diabo — disse Mathieu. Mathieu viu um frasco de tintura de iodo. Ela meneou a cabeça. Abriu uma lata.

vinguei me. você estava. — Tinha lhe dito que o encontrara no Bulevar Saint Michel.— Eu olhava o. — Cuidado. — E Lola? — perguntou Mathieu. — Pronto — disse a mulher do toilette. — Você é linda — disse. — Vai mal. Mathieu reparou que ela tinha um buço cinzento. Olhavam contentes para as mãos enfaixadas. olhava Ivich. — Eu creio que penso sempre em mim. — Ai! — disse Boris. E o meu rosto secreto. fixando um olhar de amador nas mãos deles. Inclinou a cabeça e calou se. Acabou atirando os cabelos para trás.. Mathieu sentiu um desejo áspero e desesperado. de pé no meio do palco. — Sim — respondeu Ivich —. Boris tornou se sombrio. . — O quê? — Disse que Picard fora a minha casa e que eu o tinha recebido no meu quarto. A mulher corou de prazer. Boris esperava os à mesa. — Vocês magoaram se? — Foi o estupor do canivete — respondeu Ivich. Mathieu não achou nada para dizer. — Parece que corta bem — observou Boris.. a senhora é hábil como uma enfermeira. Na mesa estavam duas taças de champanhe meio vazias e uma dúzia de cigarros num maço aberto. Mathieu pôs dez francos no pires e saíram ambos. é natural. e o largo rosto apareceu inteiramente nu. No nosso ofício há muito trabalho delicado. — Dê me a sua mão — disse a mulher do toilette para Mathieu. Tinha um rosto irritado e triste. — Que derrota — disse Mathieu. vai arder. segurando os caracóis com a mão ferida. Pronto! Mathieu sentiu o ardor. Fiz uma asneira. mas não prestou atenção. A mulher de preto e o marido tinham desaparecido. — Oh! — disse —. Se pudesse conservar sempre essa expressão! — Não se pode pensar sempre em si próprio! Ivich riu. sou horrivelmente feia. Parece que lhe tinha dito outra coisa antes. que se penteava desajeitadamente diante do espelho. — Acho que gosto ainda mais dele do que do outro. — Obrigado. — Não — atalhou Ivich rindo —. ia cantar. sei lá. quase bonito. J E A N P AUL SARTRE — Amanhã vou pentear me assim. Lola. O dancing estava quase vazio. — Está zangada? — Olhe para ela! Mathieu olhou.

mandaria o dinheiro para a América. a lâmpada. a secretária. num canto sombrio. «Meu caro Mathieu»."» Estava feliz. tinha o mesmo rosto mentiroso e triangular de sempre.» Ela dissera ainda: «Estarei lá antes de si. — Não tem de quê.— Desculpe — disse Mathieu.. e deixá la ia atrás de si na pele inútil.» Ivich estava lá. não pensava em nada. Sorriu. Abriu a torneira do lavatório e mergulhou a cabeça na água. pensou. embaraçava lhe os tornozelos. Doía lhe. pensou Mathieu. Saltou da cama. Ele não quer largar o dinheiro. Enfiou a roupa e desceu a escada a assobiar. mas o resto do corpo estava bem disposto. A culpa foi minha. Marcelle! Mathieu sentiu um gosto amargo na boca. a poltrona verde. não conseguirei dormir. e o calor era menor do que na véspera. A porteira entregou lhe um sobrescrito amarelo. O montículo de gaze branca em cima da cama era a sua mão esquerda.» Eram nove horas. era preciso que fosse fácil! Sarah faria com que o médico esperasse alguns dias. Ivich contemplava com ternura a mão enfaixada. a frescura. XII «N o Dome às dez horas. num banco. pensava Mathieu. Queres passar por minha casa ao meio dia? Desejaria conversar sobre Daniel». Se fosse necessário. «falei com conhecidos meus. «Ela disse também: "Sou eterna. E depois isto passa. mas deve ter encontrado uma solução. Empurrou as persianas. Ela ergueu os olhos para ele. utensílios: passara a noite num quarto de hotel. o céu. Acredita que lamento muito. mas saltar lhe ia por cima. Fora do dancing. mas não pude mesmo juntar a importância de que necessitas. imperceptivelmente. tinha a impressão de estar sentado lá fora.» Mathieu acordou. já estou habituado. já não eram seus cúmplices. «No Dome às dez. Calaram se. o dancing cheirava a madrugada. Uma verdadeira manhã. «vou vê lo. «Bom».. — Ivich! — disse com ternura. «ela disse: "Um pequeno diamante.. fora da vida. «Vai mudar de penteado»."» Lola começou a cantar. Esquecera se de Marcelle. A rua estava deserta. Era de Daniel. «Um pequeno diamante». parecia uma colcha pesada que o envolvia ainda. a alvorada cinzenta tinham invadido a sala. porém objectos anónimos de íerro e madeira.» A vida caíra lhe aos pés. Viu logo a mão enfaixada. escrevia Daniel. «Eu também me levanto cedo. A vida parecia lhe fácil.. e os caracóis . baixo e cinzento. a sua maldosa pureza. O sono. A cama. J E A N P AUL SARTRE — Há uma carta para o senhor — disse a porteira.

— Dois meses em Laon — disse Ivich com raiva. — Vê se ala sem saber. Acrescentou com uma expressão preocupada e envelhecida: — Em casos como este. com um ar atormentado. levantou a cabeça. — Sim. Ele contemplou a sem falar. teria lá ido passar as suas férias. Quando sentiu que o coração estava vazio. Dê me um chá e duas maçãs. e Mathieu não disse mais nada. A noite parecia ter deslizado sobre ela. Não mudara de penteado. Sabia que se por acaso descobrisse um emprego ela se despediria ao fim de uma semana. — E manequim? — É pouco alta. — De qualquer maneira. E. Vou lavar pratos.. Ivich. Retirou lentamente a dela e escondeu a debaixo da mesa. O empregado aproximou se. Olhou as mesas vazias. Por exemplo: poderia ir passar dois meses a casa. — Nada. — Conseguiu dormir um pouco? — perguntou Mathieu tristemente. Sr. Ela percebeu que ele olhava para as mãos enfaixadas. Tinha a tez amarelada da manhã. Disse: — Acha que me aceitariam numa loja como caixeira? — Nem pense nisso. Quinze horas ainda até à hora de dormir! Ivich pôs se a falar em voz baixa.. mas não tinha a menor esperança. O Dome acordava. Ivich. Conhecia Mathieu. E depois. Uma mulher lavava o chão. J E A N P AUL SARTRE Falava com uma expressão de convicção serena e bem humorada. era insuportável. com certeza que havia de encontrar qualquer coisa. — Não parece muito alegre. ainda não chumbou. teremos muito tempo para pensar nisso. entretanto eu procurava. de todas as manhãs. Mathieu? — Bem.. São nove agora. de joelhos.. mas poder se á experimentar. Não pôde deixar de observar: — Não levantou os cabelos? . Ivich encolheu os ombros. Recomeçara a puxar os caracóis como uma maníaca. insuportável. — Hei de fazer qualquer coisa para não ficar em Laon. Houve um silêncio de que Mathieu se aproveitou para enterrar as recordações nocturnas. mas como me vão receber agora? Calou se. — Como vai. — E às duas horas. Sentou se. e Mathieu continuou com vivacidade: — Mesmo que chumbasse não estaria ainda perdida.escondiam lhe metade das faces. Sinto as horas caírem sobre mim. É o exame? Ivich respondeu apenas com um gesto de desprezo. não se põe um anúncio nos jornais? — Ouça. é exaustivo. era manhã. «Nada influi nela». pensou.

Tinha a impressão de que a todo o instante lhe faziam perguntas exigindo respostas imediatas. Recuara um pouco como se tivesse medo de lhe tocar.— Bem vê que não — respondeu Ivich. Boris levantou dois dedos à altura da testa para fazer o gesto habitual de saudação. Perguntou. — Lola morreu — disse Boris. Apoiou as mãos sobre a mesa e pôs se a balançar sem dizer nada. Mathieu ficou alguns instantes sem compreender. — Devia encontrá lo ao meio dia porque. — Prometeu me ontem — atalhou ele. Nem se podia pensar em interrogá lo imediatamente. de olhos esbugalhados. tomado de repentina e desagradável suspeita: — Disse lhe que viesse? — Não — respondeu Ivich. Boris não respondeu. estupefacta. Vinha em direcção a eles. maquinalmente: — Lola morreu! Ivich voltou se para o irmão. estava lívido. «Como arranjar cinco mil francos antes da noite? Como fazer para trazer Ivich a Paris no ano próximo? Que atitude tomar para com Marcelle?» Não tinha tempo de voltar às interrogações que desde a véspera lhe enchiam o pensamento: «Quem sou? Que fiz da minha A vida?» Como voltasse a cabeça para afastar de si essa nova preocupação.. — Não parecia tão embriagada como isso. — Estava bêbeda. E olhe o ar que tem! Boris vira os. Agarrou o pelo braço e forçou o a sentar se ao lado de Ivich. — O quê? Encarou Boris. — Olá! — disse Mathieu. secamente. . — Suicidou se? — perguntou. — Boris! — disse. — Que é que tens? — perguntou Ivich. Repetiu. Olhava para a frente fixamente com uma expressão estúpida. quando o prometeu. porém não pôde ir até ao fim. que tem isso? Vocês são impossíveis com as promessas. e de repente sentiu se invadido por um espanto escandalizado. porque passou a noite com Lola. ligeiramente irritado. — Pareces Frankenstein. Tinha os olhos muito abertos e fixos.. Repetiu energicamente como se desejasse intimidá lo: — Estava completamente embriagada. Mathieu não respondeu. Sorria. — Ora — disse ela impaciente —. viu ao longe a silhueta hesitante de Boris. Sorria sempre. contrariado. que parecia procurá lo do lado de fora. mas as mãos dele começaram a tremer.

de um modo inquietante. Só então começava a perceber os efeitos da noitada. e a morte estava entre eles. pensou Mathieu. — Então ela envenenou se? — Não sei. segurou o pêlos cabelos e sacudiu lhe a cabeça. Não parecia dirigir se a eles. olhou o resmungando. com dificuldade. — E para o senhor? — perguntou o empregado.. com ar estúpido. no camarim. — O rapaz está com muita pressa. O empregado afastou se e voltou com uma garrafa e um cálice. Calavam se os três.. durante a discussão. «Ela não está a ver bem». Os lábios dançavam lhe. era uma atmosfera. com irritação. Não era um acontecimento. — Beba — disse para Boris. — Parece me que ela tomou cocaína quando você estava a dançar . Mathieu sentia se mole e vazio. Boris bebeu docilmente. aliviado. — Tens a certeza de que ela morreu? — Tomou a droga esta noite — explicou Boris. Ela acariciava ternamente a mão do irmão. Boris começou a rir: — Se vocês. Não fale agora. Boris tornou a falar com voz surda. — Oh!. Eargou o cálice e murmurou como para si mesmo: — Não é nada divertido! A — Querido! — disse Ivich aproximando se dele. contará mais tarde. se vocês. as tuas mãos estão quentes — suspirou Boris. de boca aberta. nervosa.. anónima e sagrada. — Ela suicidou se? Suicidou se? O sorriso de Boris abriu se. mas o lábio superior arreganhava se lhe de modo estranho sobre os dentes miúdos. — As coisas não iam bem entre nós. tu estás aí. a mesa de mármore e o rosto nobre e maldoso de Ivich. um conhaque — disse Mathieu com naturalidade. Mathieu olhava para Ivich com espanto... Boris parou de rir. — Essa já devia ser a segunda vez — observou Mathieu. — Subimos para o quarto e ela tomou a droga. — Agora conta — disse Ivich. — Querido! Sorriu lhe com ternura. — Depressa. Mathieu deu lhe uma bofetada seca e silenciosa com a ponta dos dedos. puxando os caracóis. — Deixe — disse —. Já tomara antes. Ivich encarava o fixamente.. Aproximara se e contemplava Boris com ironia.— Responde! — repetiu Ivich. uma substância pastosa através da qual Mathieu via a chávena de chá.

Disse: — Olha para mim! Estás triste? — Eu. Então empurrei o braço com toda a força e ela quase caiu no chão. — Estás triste? — perguntou Ivich docemente.. Mathieu pôs se a pensar no corpo de Lola. agarrei lhe o pulso e puxei a para a endireitar. Os olhos estavam abertos. Deitámo nos sem falar. Esvaziou o copo e continuou: — Acordei cedo porque abafava.com Ivich. — Tão urgente como o primeiro? — perguntou o empregado a sorrir. Vi lhe os olhos — murmurou com uma espécie de raiva —. vesti me — continuou Boris. . Ninguém me viu sair. Mathieu esforçava se por ter pena de Boris. — Daqui a duas horas — observou Ivich.. — Vá. Parecia que odiava Lola por ter morrido. Perguntei: «Que é que tens?» Não respondeu. Ela saltava na cama. Eu disse lhe: «Tira o braço. Inclinara se sobre ele. levantariam a camisola l A para verificar se havia ferimentos. sufocas me. nunca mais os esquecerei. não havia ninguém na porta. De repente. Estava J E A N P AUL SARTRE gelado. Era o braço dela. — Então — disse Boris com lassidão — foram três vezes. Apanhei um táxi e vim. Já nada lhe restava daquela graça e rígida. Pensei que íosse para fazer as pazes e peguei lhe no braço. — Agarrei nas minhas coisas.» Ela não o tirava. — A criada costuma acordá la a essa hora. Teve um arrepio. Saltei da cama. Chamou o empregado. Nunca tomava tanto. pensando que por vezes a profissão tinha as suas vantagens. — Não queria que me encontrassem no quarto dela. Contemplariam o corpo sumptuoso com um misto de concupiscência e de interesse profissional. dobrariam as cobertas. sirva depressa — observou Mathieu. com voz monótona. — Pobre querido — disse Ivich. — Outro conhaque. acho que a vão descobrir ao meio dia — disse Boris com um ar preocupado. ficou quieta e eu adormeci. Parecia pedir uma informação. O seu novo rosto assemelhava se demasiado ao de Ivich. — Mora sozinha? — perguntou. Uns homens de chapéu de coco iam entrar no quarto. Boris enojava o vagamente. — Sim. e eu não podia dormir. porém sem demasiada compaixão. mas não conseguia. Boris desconcertava o ainda mais do que Ivich. Estava estendido na cama por cima de mim. — olhou a e disse bruscamente: — Isto horroriza me. secamente. estendido numa cama de um hotel.

— Cartas que lhe escreveu? ^ — Sim. Mathieu contemplou os com piedade. Boris deixava se acariciar. — Oh!. — Estão a ver o sarilho! — Talvez não as encontrem — disse Mathieu. — Eu. Encolhidos um ao lado do outro. — Você disse que a criada vai acordá la ao meio dia? — perguntou. pensou Mathieu. «Cá está». — Sim. Mas falo de um tipo da Boule Blanche. Bruscamente gritou: — C'os diabos! Ivich sobressaltou se. — Não quero lá voltar. Tem tempo de ir sossegadamente buscar as cartas. — Como pudeste escrever essas coisas! Boris levantou a cabeça. J E A N P AUL SARTRE — Boris! És doido! — disse Ivich. «Há qualquer coisa no ar». uma vez ou duas por curiosidade. a quem comprei uma vez para Lola. Mathieu tinha a impressão de que ele representava.Tinha retomado os ares de irmã mais velha. — Que é que aconteceu? — perguntou inquieta. mas não tinha o hábito de praguejar. porque Boris nunca lho tinha dito. São dez e meia. — Vai ficar danado! — E capaz de me chamar para Laon e de me enfiar num banco. Mathieu não compreendia.. Não desejava que ele fosse preso por minha causa. pensou Mathieu. Boris desviou o olhar. — Também tomava cocaína? — perguntou. «São assim! É assim que eles são!» Ivich perdeu o seu ar vitorioso. — Pois bem. uma pobre astúcia desarmada. irritado. com uma expressão de astúcia na boca. Perguntou: . — Fazes me companhia — disse Ivich com uma voz sinistra. abatido. — É a primeira coisa que encontrarão. mas poderá ir até de autocarro. Na melhor das hipóteses serei chamado como testemunha. — As minhas cartas! Que estúpido. pareciam duas ovelhinhas. o pai! — atalhou Ivich. Fez se silêncio e em seguida Mathieu percebeu que Boris o olhava de esguelha. Boris falava normalmente em calão. Apanhe um táxi se quiser. deixei as em casa dela.. lívidos e descompostos. Ela bate até que Lola lhe responda. Estava ligeiramente ressentido. — E que tem isso? — O médico! O médico vai saber que morreu intoxicada! — Você falava de drogas nas cartas? — Falava — respondeu Boris. Acariciava os cabelos do irmão com uma expressão de piedade e triunfo.

sentia se contente por estar só. eternamente desclassificada. Mathieu deu alguns passos no Bulevar Montparnasse. Notas*"" Notas.— Isso é lhe realmente impossível? — Não posso. Ivich continuava a olhá lo. prevê tudo. há uma porção de cartas. vou lá. Vê se logo. é o negro do Kamtchatka. — Bem — disse Mathieu —. «Morreu como um . mora também no terceiro. A morte de Lola ficaria eternamente à margem do mundo. Mathieu assobiou baixinho. Mas sentia horror. Atirou os cabelos para trás com a graça habitual e disse sorrindo levemente: — Se alguém lhe perguntar alguma coisa. e no meio uma mancha negra: a morte. Há um molho de chaves e uma pequena chave chata. segundo quarto à esquerda. terceiro. «Pobre Lola. gostava dela..» — A maleta está fechada à chave? — Está. Acrescentou mais baixo: — Estou de volta dentro de urna hora. Conheço o. Falara em tom de comando. Demorou um bocado e acrescentou afectando indiferença. — Esperem me aqui — disse Mathieu. as minhas estão amarradas com uma fita amarela. até o pagamento. Aquela morte era maldita porque não recebera nenhuma sanção e não lhe competia sancioná la.. — Há «massa» também. é só empurrar. a gravidez de Marcelle. — Qual é o número do quarto? — Vinte e um.» Mas não lhe cabia a ele lamentá la. iam reconstituir o seu mundo irrespirável e precioso. o dinheiro. Levantou se. passando a mão no rosto e esfregando as faces. a chave está na bolsa de Lola sobre a mesa de cabeceira. Só a essa pequenina alma cabia a responsabilidade esmagadora de pensar nela e de redimi la. Se Boris tivesse tido ao menos uma vaga tristeza. diga que vai ver Bolívar. como uma censura. Em cima da mala há outra maleta. Mas tanto se lhe dava. Boris parecia aliviado. Ivich e Boris iam agora J E A N P AUL SARTRE começar a cochichar. Disse repetidas vezes «uf!». Mathieu viu que Ivich o observava: A — Onde estão as cartas? — Numa mala preta. diante da janela. É essa. — Esperamos — disse Boris. E acrescentou com um ar de admiração e imensa gratidão: — Você é um tipo de ouro. Em volta dele havia as preocupações da véspera. o amor por Ivich. Pensava: «Não perde a cabeça o rapaz. Ela caíra pesadamente dentro de uma pequenina alma medrosa e perturbava a.

A consciência dela aniquilara se. «Não olharei. e esse futuro era ele. Os dias mais recuados da sua infância. Baixou a cabeça.» Sentiu se sólido e mesmo até um pouco pesado. ou se tornassem os primeiros sinais de um destino. Abandonada pelo animal mole e sentimental que a habitara durante tanto tempo. O futuro penetrara a até à medula. Depois os vidros escureceram. a vida de Mathieu deslizava docemente. tivesse alcançado de si próprio perdão por já não ter a idade de Ivich. O seu futuro coagulara se. Tinham direitos sobre ele e através de todo aquele tempo decorrido mantinham as suas exigências e ele tinha amiúde remorsos esmagadores porque o seu presente negligente e céptico era o velho futuro dos dias do passado. que uma criança dura exigira a realização de suas esperanças. ver os grandes olhos abertos e o corpo branco. de futuro em futuro. Era ele que tinham esperado vinte anos. Pensava na própria vida. como se. como os corpos são feitos com o vácuo». entre parênteses. em direcção a quê? . apareciam lhe. pensou com amarga vaidade. ainda agora. como um pequenino céu pessoal e bem redondo em cima deles. flutuava à margem do mundo. de figuras e de perfumes mortos. acabava de sofrer a última metamorfose. Mathieu contemplava o desfile dos grandes edifícios tristes do Bulevar Raspail. como se a mocidade subitamente já não tivesse valor.cão!» Era um pensamento insuportável. e cada novo dia tinha novo futuro. cada dia vivido destruía um pouco mais os velhos sonhos de grandeza. desse homem cansado. mais indestrutível do que um mineral e nada a podia impedir de ter sido. «é feita com o futuro. cansado e amadurecido. dependia dele que os juramentos infantis permanecessem infantis para sempre. Era melhor que o táxi não parasse em frente do hotel. — Táxi! — gritou Mathieu. Mas não a vida. era dele. O seu passado sofria sem cessar os retoques do presente. — Na esquina da Rua Navarin com a Rua dês Martyrs — avisou. ele tal qual era agora. de repente. «Uma vida». Experimentava mesmo um sentimento de tranquila superioridade. cheia de gritos sem ecos e de esperanças ineficazes. «Dependem de mini». de espera em espera. o táxi entrou no estreito gargalo da Rua du Bac. Tudo nela estava em suspenso. aquela vida deserta parara simplesmente. o dia em que dissera «Serei livre». o dia em que dissera «Serei grande».. Quando se sentou no carro. com o futuro particular. pensou Mathieu. e repentinamente Mathieu inteirou se de que Lola morrera. Repetiu: «Dependem de mim. flutuava. de que ia entrar no quarto dela. sentiu se mais calmo.» Estava morta. inesquecível e definitiva. de brilhos sombrios. ou melhor..

O táxi parou. Tinha havido com certeza. entrou no vestíbulo escuro e perfumado. A sala parecia vazia. e também lá por volta de 1923 uma jovem cantora impaciente por se tornar um cartaz. Mathieu viu Lola. um dos seus . Os seios estavam descobertos. por causa do qual tanto sofrera. E o amor por Boris. Em cima de uma porta envidraçada um rectângulo de esmalte: «Gerência. Lola estava morta. como se fosse um sentimento humano. A morte desabara sobre todas essas esperas. Tinha um rosto extraordinariamente expressivo. e que se abatia sobre si mesma. obscuro e vacilante. e a vida dela. parando as. nunca ninguém saberia se Lola teria afinal sido amada por Boris. No quarto andar um hóspede puxou o autoclismo. ouvia se apenas o tiquetaque do relógio. Estava morta. a olhar. esse grande amor de velha. num Verão passado. os momentos mais cheios. Ninguém respondeu. — Espere — disse ao motorista. Tudo dormia. estava ansioso por ler a morte no rosto de Lola. Mathieu ouviu o ruído da água a descer.Em direcção a nada. pensou repentinamente Mathieu. sem objectivo. não havia mais um gesto a fazer. nem uma carícia. ainda ontem ela esperava viver e ser amada um dia por Boris. A freguesia habitual do hotel cantores. Lola não respondeu. a questão não tinha sentido. empurrou a porta do hotel. A chave estava na porta. mais pesados. pensou. A cama ficava à direita. Mathieu desceu. uma menina de caracóis ruivos. não fora senão uma espera. «E se houver alguém lá dentro?» Escutou com atenção uns momentos e bateu. nem uma prece. Mathieu perscrutou a penumbra. muito branca. absurdas. de cores confusas. mudas. ele esperava o seu sentido do futuro. Pensou em Lola. porém indecifrável. Elas continuavam imóveis. ficara em suspenso desde o primeiro dia. no fundo do quarto. negros do jazz deitavam se tarde e acordavam tarde. um barulho líquido e uma espécie de assobio. Atravessou a rua em diagonal. Ouvia as pancadas do coração e tinha as pernas a tremer. Não tinha havido nada que esperar. Não havia tido de esperar. que jurara ser uma grande cantora.» Mathieu deitou uma olhadela através do vidro. já nada havia senão esperas de esperas. Empurrou a porta e entrou. Parou no patamar do terceiro e olhou em volta. «ninguém saberia se estava realmente lixado ou se tinha ainda possibilidade de me salvar». as noites de amor que lhe tinham parecido mais eternas não passavam de esperas. O quarto estava escuro e conservava ainda um cheiro húmido de sono. Ainda ontem. «E preciso que não suba depressa de mais». «Se eu morresse hoje». como a de Mathieu. nada mais senão uma vida vazia. dançarinos. — Lola — disse em voz baixa.

belos braços. pensava: «Sou um fraco. mergulhou as mãos na maleta e sentiu uns papéis amarfanharem se entre os dedos. lembrou se. o quarto estava cheio de uma presença imóvel. atrás dele. cujos braços pareciam abrir se ainda e cujas unhas vermelhas pareciam ainda arranhar. com cuidado. mas não se pode ter uma raiva verdadeira contra si próprio. limpou os joelhos com a mão direita. «Não trouxe o dinheiro». rígido. nunca poderia levar me a sério». «Bastava um gesto para que não sofresse. Eram notas. virando a cabeça. Mathieu levou o pacote à luz. e ouvia o corpo silencioso de Lola. como um J E A N P AUL SARTRE olhar. Levantou se. «posso dar a mim próprio uns bons golpes de canivete na mão. A chave chata estava ali. hesitante. para que evitasse essa coisa sórdida que ia marcá la. sem querer. Bom rapaz! Depois disso». muitas notas. escolhendo pelo tacto. Mathieu ajoelhou se diante da maleta. lutar contra . sem olhar. e teve medo de verdade. — Bom — murmurou resignado. Subitamente. A luz ofuscou o. Permanecia imóvel. Ergueu a tampa. havia aquela mulher alta e branca.» Escutava atentamente. Mas não podia arredar pé. Introduziu a chave na fechadura. e observou as notas com perplexidade. na ignóbil velha de mãos de assassina. com o olhar fixo nas notas. caberia a ela mostrar se corajosa. para fazer de trágico diante das rapariguinhas. Lola escondera um pacote de cartas amarrado com uma fita amarela. o outro estava debaixo das cobertas. A esquerda segurava um maço de notas. pensou olhando a mão faixada. Uma luz cinzenta filtrava se através da cortina. com a mão no corrimão da escada. tinha vontade de a tocar. Sob um monte de recibos e de notas. examinou a letra e murmurou: «Ei las. Não podia arredar o olhar daquele busto orgulhoso. pegou rapidamente na bolsa que estava na mesa de cabeceira. Notas de mil francos. pôs a chave no bolso e saiu do quarto. Mathieu fechou a. «Saí do buraco. Sou demasiado delicado. depois virou se. Atrás dele. pensou. espantado. alucinada. a presença irremediável estava ali. Ficou durante alguns instantes à beira da cama. «Estou pago». — Lola — repetiu Mathieu avançando para o leito. o corpo envenenado por um desejo ácido. Os dedos abriram se e as notas caíram em rodopio dentro da maleta. E não pude. Pensou: «Saí do buraco». Mathieu pegou lhe e dirigiu se à janela. No fim de instantes remexeu nervosamente nos papéis. inquieto. pensou em Marcelle. sentia se pregado no sítio. Ela iria ao consultório da velha.» Esforçava se por tremer de raiva. não havia outra solução.» Depois enfiou o pacote no bolso. estendia se sobre o leito.

não». — Estou com dor de cabeça — disse ela. Deu alguns passos incertos e discerniu afinal o rosto pálido de Lola e os olhos arregalados que o contemplavam. Mathieu sentiu um arrepio percorrer lhe o corpo da cabeça aos pés.a angústia e o medo. não valho muito mais. — Sente se mal? — Bastante. precipitadamente. Subitamente. com os olhos pregados em Mathieu. «Estúpido». e pareceu lhe que se afogava. — É Mathieu. Murmurou: «Não. evasivamente. Ainda parecia morta. girou sobre os calcanhares e entrou de novo no quarto. Ele teve medo. — Uf! Houve novo silêncio. só sirvo para isso. — Que é que tive? J E A N P AUL SARTRE — Estava rígida. de olhos arregalados. «Não. . Ele está desvairado. Mas logo se calou. Então foi Boris quem o mandou? — Foi. pensou. — É verdade. Parecia fazer um esforço para voltar a si finalmente. os maxilares tremiam lhe. Isto passará durante o dia. esteja sossegado. — Precisa de alguma coisa? Quer que eu vá chamar um médico? — Não. Pousou a bolsa na cama com um suspiro de exaustão e acrescentou: — Aliás. Disse de olhos fechados: — Dê me a minha bolsa. — Onde está Boris? Que está a fazer aqui? — Você esteve doente — explicou Mathieu. Lola não parecia ouvir. depois respirou fundo. sacudindo a cabeça. Puxou as cobertas até o queixo e ficou imóvel.» Pensou premindo com força a mão ferida sobre o corrimão: «Casarei com ela». Disse com esforço: — Ele pensou que eu tinha morrido? Mathieu não respondeu. Encostou a porta como da primeira vez e tentou acostumar os olhos à escuridão. Ela fechou os olhos. Mathieu estendeu lhe a bolsa. — Quem está aí? — indagou Lola. pôs se a rir de modo desagradável. pareço morta. ela tirou uma caixinha de pó de arroz e olhou se no espelhinho. Houve um silêncio demorado. enquanto ele ganharia coragem bebendo nos bares. Casarei com ela. Ela não irá. com repugnância. Lola perguntou: — Que horas são? — Um quarto para as onze. está na mesa de cabeceira. Em seguida. Boris falava Ihe e não lhe respondia. Nem sequer tinha a certeza de poder roubar. — Não foi isso? Pensou? — Teve medo — disse Mathieu. mas irritada. Era uma voz fraca. Mas sei o que é.

diga lhe que já não estou zangada. — Então. De vez em quando havia . Mas continuou secamente depois de um momento: — Diga lhe que se tranquilize. Eram frases curtas. não precisa mesmo de nada? — Não. mas Lola chamou o. Sentou se e o táxi arrancou. ele sabe. «Mesmo assim. o que importava era não ter tido a coragem de agarrar no dinheiro. Pôs se a rir. pensou. Mathieu estava comovido. por aqui! Mathieu voltou se. Acrescentou: — Ainda não foi desta.. Dirigiu se para a porta. Nada de histórias. Fugiu sem querer saber de mais nada. Apanhei um táxi. reconhecendo o táxi. Fechou novamente os olhos. Quis afugentar do pensamento a humilhante derrota. «A cara J E A N P AUL SARTRE que ele vai fazer!». «Fui esperto em não ter pegado no dinheiro. Um riso sufocante e penoso. Irei cantar.— Está lá em baixo? — perguntou Lola. coitado. À noite já estarei boa. — Está bem. Disse com uma voz suplicante: — Promete que o manda vir? Zangámo nos ontem. «tenho de lhe entregar a chave. Pegou no pacote de cartas.» — Olá — gritou o motorista —. São coisas que me acontecem às vezes. — Leve me ao Dome. Vou dizer lhe que venha. Estou à espera dele.. tentou repetir alegremente. quando. Saiu. — Não. que não se falará mais disso. ele teve um pavor louco. admirado. secas. ele foi procurar me. — Em resumo. Não estou em perigo. E o coração que fraqueja. A A cabeça de Lola recaiu no travesseiro. Enfim. até logo. estou satisfeito de que não tenha morrido. — Bem — disse Mathieu —. Ficarei aqui até à noite. pouco importava que a sua cobardia tivesse tido consequências favoráveis. E mandou o aqui para ver se eu estava bem morta. e Mathieu pensou que fosse desmaiar. — Obrigada.» Mas não estava alegre. O pacote de cartas que enfiara no bolso interno da casaco pesava lhe fortemente sobre o peito.. Diga lhe que venha já. Mas que venha! Peco lhe que venha! Não posso suportar a ideia de que me julge morta. ele que se arranje para a pôr novamente na bolsa». — Que é? Ah! — disse. que Boris enviara de Laon durante as férias da Páscoa. desfez o laço e começou a ler. — Lola! — Vá lá.. erguendo se ligeiramente. eu estava no Dome.

Tinha os olhos vidrados. Disse que você devia saber. «Nado. — Tê lo ia apostado — disse. parecia não compreender. — Nada difícil.» Atou as de novo cuidadosamente e colocou o maço no bolso. Calaram se. Estava sentado de lado. J E A N P AUL SARTRE Boris não respondeu. . Estava ainda desmaiada quando as apanhei. Boris bebeu um trago de conhaque e pousou o cálice na mesa. — Então o que é que teve? — Simples desmaio — respondeu Mathieu..» Mathieu imaginou sem dificuldade em que estado de espírito Lola devia ter lido aquelas cartas. de ombros recurvos. mas tão veladas que Mathieu se surpreendeu.» As cartas começavam todas por: «Querida Lola». Boris e Ivich custavam a engolir a notícia. em seguida breves relatórios das suas actividades. — Lola não morreu — repetiu estupidamente. secamente. boca aberta. com animação. — Foi. Ivich falava lhe ao ouvido. — Não foi muito difícil? — perguntou Boris. Mas não podia pensar nela senão no passado. foi ela que lhe entregou as cartas? — Não. Este aproximou se e atirou o maço das cartas sobre a mesa. Parecia que Boris não fizera um movimento desde a saída de Mathieu. Boris ergueu os olhos para ele. Discuti com meu pai. Mathieu olhava o sem amizade. Conheci um antigo lutador que me vai ensinar o catch. — Essa é boa! — Ela disse que aquilo lhe acontece às vezes quando toma cocaína. Ao entrar no Dome teve a impressão de que ia defender a memória de uma morta. — Aí estão.» Pensou: «E apesar de tudo guardou as. «Ora». Prostrou se ainda mais. pensou Mathieu.» Quando o táxi parou. só que Lola não morreu. narinas crispadas. a decepção sempre prevista e no entanto sempre nova e o esforço que devia fazer todas as vezes para dizer a si própria com alegria: «No fundo ele ama me. Boris levantou a cabeça. Boris. «já começava a habituar se.» Boris terminava sempre assim: «Amo te muito e beijo te. «Não imaginei que ele fosse prudente. pareceu a Mathieu que ele era o aliado natural de Lola. Ivich parecia ter recuperado o sangue frio. dir se ia que estava esmagado.. de olhos faiscantes. Boris pegou lhes e fê las desaparecer no bolso. Fumei um Henry Clay até ao fim sem deixar cair a cinza. pensou Mathieu.» Ivich olhava Mathieu.alusões à cocaína. não sabe é dizê lo. Mas calou se ao ver Mathieu. «Boris terá de se arranjar para as pôr na maleta sem que ela o perceba. «Que farsa».

— Se ele voltar. e Boris aproveitou se. será por piedade — disse Ivich —. Mathieu lançou lhe um olhar de ódio. — Está a ouvir? Ela sofre. E acrescentou. Não vá confundir tudo.. tenha juízo. — Pois não está — disse Mathieu. mas Boris safou se com uma sacudidela violenta. pensou. — Eu. com uma intenção que Mathieu não compreendeu: — No lugar dele. Boris.. — Não sei que fazer. — Pelo menos tente vê la. — Acho que Boris tem razão — disse Ivich. — Não quero tornar a vê la — afirmou. tenho de lhe tocar. — disse Mathieu. Boris não se mexeu. Lembre se disso. — Há coisas que você não sente — disse. exasperado. — Ela quer que a vá ver imediatamente.— Que disse ela? — indagou. ela prometeu não falar mais nisso. E arranje se para pôr as cartas no lugar sem que ela o veja. é tudo.. — Não! — disse com a voz tão alta que uma mulher. Boris olhou o. isso não posso. obstinado. — Para mim está morta. . — Apanhe um táxi. curiosa.. Boris passou a mão pela testa. — Não queria dizer lho. com uma obstinação mole e invencível: — Não vou. na mesa do passeio. — Mas não vê que ele a vai matar? Ivich meneou a cabeça. Naturalmente disse lhe que viera apenas ver o que acontecera. Ivich fez uma expressão impaciente. Eu disse que Boris tinha tido medo e me viera chamar. — Oh!. E isso — acrescentou com desgosto —. mesmo para ela. — Mas isso é estúpido. Estendeu a mão para agarrar no braço de Boris. Enganou se. as histórias de ontem — atalhou Boris. não pode haver nada mais repugnante. com vivacidade. — Devia ter ficado transtornada ao vê lo ao pé da cama! — Não muito. Mathieu ficou estupefacto. mas se a tornar a ver. espantado —. eu teria feito o mesmo. Mathieu estava farto. — Ela inspira me horror! A — Porque pensou que estaria morta? Boris. — Então? Boris olhou com uma expressão maldosa. sombrio. toda esta história é absurda. exibia o seu rostinho irritado e sinistro. se virou para ver. com um encolher de ombros. Ele continuou mais baixo. vejo a morta. eu pensei que estivesse morta — repetiu Boris como para se desculpar. a história de ontem acabou. vá vê la. «Ela está a meter lhe coisas na cabeça». — Mas. é uma desgraçada. não pode exigir isso dele.

como se só tivessem diante de si cinco ou seis anos. juntinhos. Prometa me que a vê amanhã ou depois de amanhã.Mathieu sentiu se impotente. porque têm medo. espere um bocado. «Eles têm medo da morte». a dizer se passou. músculos retorcidos.. — E quando a voltarei a ver? — Não sei. Agarram se à mocidade como um DADE DA RAZÃO l moribundo à vida. Queríamos parecer homens. Treme diante da possibilidade de ter rugas. Mas este dia que ela vai ficar à espera! Não gostava de estar no lugar dela!» — Quer dar me Trudaine 00 35? — pediu à telefonista gorda.. via os esmaltes brandos dos toilettes. — Quando saberá o resultado? Às duas horas? — Sim. Vivem a ruminar a sua mocidade.» Mas continuava pouco à vontade. têm almas sinistras. — Mande me um telegrama imediatamente.» Levantou se.. da velhice. Mathieu desceu à cave do Dome e consultou a lista telefónica. amanhã. Quantas vezes vi Ivich massajar o rosto inquieto em frente de um espelho... pensou. mas ainda tenho muitos anos para viver. Depois.. Começo a crer que nós é que somos jovens. Mathieu quis dizer: «Pelo menos telefone a avisá la de que não pode ir». Na véspera. Sentia se cheio de rancor por Ivich. Boris pareceu aliviado. Boris vai. Ivich fala em suicidar se. éramos ridículos. sentia os lá em cima. . Estranha recordação de amor. — Adeus! — Adeus — responderam os dois ao mesmo tempo. só fazem projectos a curto prazo. Pensou: «Ele não telefonará. — As duas cabinas estão ocupadas. nunca se atreverá. — Não se esqueça — disse Mathieu afastando se. «Por mais frescos e limpos que sejam. mas estou tranquilo. J E A N P AUL SARTRE — Está bem — atalhou hipocritamente —. uma pele de crocodilo. mas reteve se. Enquanto Mathieu esperava. — Quer que o vá ver? — Obrigada. noutro toilette. Afinal eu tenho rugas. Depois.. — Então — disse —. não morrerão tão cedo. por entre duas portas abertas. — Está bem.. até que essa recordação se apague. Medo da morte. — Preciso de ir a casa de Daniel — disse a Ivich. vou eu telefonar. tem de esperar. Olhou com desânimo aquelas duas cabecinhas hostis. da doença. «Pobre Lola! Amanhã sem dúvida Boris voltará ao Sumatra. mas pergunto se o único meio de salvar a mocidade não será esquecê la.

o sonho orgulhoso e sinistro de não ser nada. os tabus deles impediram me. de chefe de família: «Quero casar com Marcelle. «Isso também é mentira. Sou um homem. Leu: «Holle becque. que atingia as aparências do crime. Sou casado. — Pegue no telefone. um adulto. um vazio. e foi este homem que beijou a pequena Ivich num táxi. Mathieu voltou se e deu alguns passos. asperamente. de oscilar entre correntes contrárias. Pensou: «Querer ser o que sou. de burguês. Em vão. mas fascinantes apesar de tudo. uma dessas que dizem com uma expressão de menina: «Vou fazer um chichizinho. fez se toda espírito.» Sentia náuseas. toda perfume. viva e leve. Encostou se obstinadamente à sua vontade demasiado humana. Nord 77 80. E estava tão longe. entreviu a apenas. Ela amedrontava o. Em vão. A minha única liberdade. É para não ser da minha idade que há um ano ando a brincar com esses dois miúdos. de homem. .sussurrantes e cúmplices. não preciso de ter vontade para casar com ela. que me recuso a casar. Em vão. Ela ordenava lhe simplesmente que largasse Marcelle. É para fugir da minha vida que sussurro por toda a parte. uma opção infantil e vã. Estava fora de alcance. eis a liberdade que me resta.» Puf!. Olhava. Sou um burguês. cruel.» Tinha aberto o anuário e folheava o distraidamente. autor dramático. acabrunhado. Foi um momento apenas. entrou flor na latrina. jovem e caprichosa como a graça. — Um momento — respondeu a telefonista. Querer casar com Marcelle. «Não pude pegar no dinheiro. que quase se sentiu reconfortado.» Viu Mathieu. com licença de Marcelle. basta deixar me ir. a estas palavras demasiado humanas: «Hei de casar com ela!» — É a sua vez — disse a telefonista. É para não ser da minha classe que escrevo J E A N P AUL SARTRE nas revistas de esquerda. a minha liberdade é um mito — Brunet tinha razão — e a minha vida constrói se por debaixo deste mito com um rigor mecânico. Essa inexplicável liberdade. os destroços da sua dignidade humana. Cerrou os punhos e pronunciou interiormente. — Na segunda cabina. E subitamente pareceu lhe ver a sua liberdade.» Fechou o anuário. com uma gravidade de pessoa adulta. não pude pegar no dinheiro de Lola. Mathieu ergueu o docilmente. — Obrigado. continuou a andar com passos deslizantes. vivo como se fosse casado. hesitou. «Não pude pegar no dinheiro!» Uma mulher descia a escada. Entrou. palavras. — Esse telefonema vem ou não? — perguntou.» Estava tão cansado de ser atirado de um lado para outro. de ser sempre outra coisa diferente do que sou. — Alguém pediu Amsterdão.

O de Octave. — Quer outra ligação? — Sim. mas isso passa lhe. você é formidável! XIII E lê é demasiado injusto — disse Boris.— Está? Trudaine 00 35? Um recado para a senhora Montero. se isso não a aborrece. Encolheu os ombros. — Apesar de tudo. Pensou. e Boris sentiu um nó na garganta. dê me Ségur 25 64.. — Quem? — Mathieu.» Olhou a telefonista. — Mas no fim do mês ele já estará longe. — Então? Arranjou? — Não — disse Mathieu. — Mandar lhe ei o dinheiro para a América. indeciso. Não. Acaba de sair. saiu sem um olhar. Ele não pode ir. coçando a cabeça: «Marcelle deve estar aflita. sem entusiasmo. olhava a mão enfaixada. — Bom dia — respondeu a voz rude de Sarah. — Não. Ninguém o compreendia como a Ivich. Mathieu voltou. É da parte do Senhor Boris. Houve um breve silêncio. — Estou. — Como é orgulhoso — disse. Ivich não respondeu. — Esta gente não larga a «massa». Irei logo a seguir ao almoço. — Pois é — respondeu Ivich. não é Maurice. esperava que Mathieu lhe sorrisse ao subir.. Sarah. acha que não sou moral. J E A N P AUL SARTRE — Sim — disse Ivich —. E Boris. Era o número de Sarah. tente. É só isso. não se deve falar a ninguém como me falou. aproveitar a ocasião. Tinha um ar neutro.. — Posso tentar — disse Sarah. devia telefonar lhe. Não sou Hourtiguère. — Está zangado — continuou Boris —.. Ele não pode ir. B de Bernard. . não a incomode. — Senhor Maurice? — disse a voz. Pode transmiti lo mais tarde.» Olhava para a escada. Voltou a cabeça para a escada dos toilettes e pensou com severidade: «Foi longe de mais. — Não me aborrece absolutamente nada. É exactamente por isso que lhe queria pedir se não poderá dar um salto a casa desse tipo e solicitar lhe crédito até ao fim do mês. Obrigado. É um velho avarento e atravessa uma crise de hipersionismo: detesta tudo o que não é judeu desde que foi expulso de Viena. Sarah. Saiu. — Obrigado. e Boris calou se satisfeito. — Se imagina que prestou um serviço a Lola! Deu uma risadinha seca. é Mathieu. — Mas será difícil.

Nesse ponto não ia ceder. Achava o sofrimento imoral e. — E estranho — disse —. Acrescentou por espírito de justiça: — Ela é que não deve achar nada disto engraçado. Ivich disse com doçura: — E é bem verdade que faz de ti o que quer. Ivich tinha boas intenções. A Ivich riu e Boris ficou chocado. Boris não protestou por hábito. Disse apenas: — Ele é injusto. — Eu gosto — atalhou Boris. E não quero que Mathieu imagine que pode fazer de mim o que quiser. tenho a impressão de ser uma velha qualquer. Sentira mesmo por um momento que ia sofrer. O de Ivich era mais enfadonho. Era uma sacanice. — É a minha táctica com ele. conciliadora: — Há coisas que não se podem explicar. mas esse bem variava segundo as pessoas. Balançou se sobre o banco. Ruminava o que devia ter dito a Mathieu. Que não passava de um estúpido e que tivera um choque terrível ao pensar que Lola morrera. entre ambos. — Puf! — disse Ivich. era preciso esperar que se normalizasse.. Depois. Parecia lhe sempre que não falavam do mesmo Mathieu. não o podia realmente suportar. tinha uma expressão tola e disse de modo cínico: — A moral. — Eu dou lhe a impressão disso — disse ele com serenidade. quando penso agora em Lola. — Ah.— Não gosto dele quando se torna moral. Ivich disse. não era Hourtiguère. queria que ele rompesse com Lola. Boris percebeu a sem se zangar. contanto que ele tivesse boa vontade. e isto tinha o escandalizado. continuo a vê la morta. Toda a gente tinha sempre em vista o bem de Boris. mas pensava que se podia explicar tudo a Mathieu.. um desarranjo no motor. Fizera então um esforço de domínio sobre si mesmo. Gostava de se aproximar de Ivich. Para o bem dele. de resto. Por moralidade. Não me deixou explicar lhe. Ela sorriu levemente. eu estou me nas tintas para a moral! Boris sentiu se só. Mas alguma coisa falhara. Acrescentou depois de certa reflexão: — Mas eu sou mais moral do que ele. . Ele compreendeu que ela lhe preparava uma armadilha e respondeu vivamente: — Não vou. não! — Não quero que ela sofra. — Pois então vai vê la — disse Ivich num tom cantante. — Que ar obstinado! Boris não respondeu. mas Mathieu ainda estava ali.

— Querido. Ivich riu se. Ele precisava de cinco mil francos. — É possível. Boris acrescentou maliciosamente: — Também está zangado contigo. Perguntava a si próprio o que queria dizer Ivich. Andaram um bocado calados. Passado um instante. Deviam compreender se por meias palavras ou o encanto romper se ia. Desejava que fosse. Parecia Outubro. — Nem eu — disse Boris. Basta imaginares que morreu de verdade. Houve um silêncio.. Ele perguntava a si próprio se seria realmente por causa do exame. eu consigo. mas não consigo. e Ivich olhou o inquieta. Não se sentia capaz de tanta força espiritual.» . — Por causa do exame? Ivich encolheu os ombros e não respondeu. — disse Boris. — Seria muito cómodo. — Muito. mas de vez em quando devia haver algumas excepções. — Ah. Ivich pareceu achar divertido. J E A N P AUL SARTRE x Boris admirou a irmã. porque seria mais moral.. Pensarei nisso mais tarde. Ergueu os olhos. O Bulevar Montparnasse estava delicioso sob aquela luz cinzenta. — Pareces zangada com Mathieu. — Ele enerva me. disse: — Terá levado o dinheiro? Seria bonito! — Que dinheiro? — O dinheiro de Lola. — Achas que ele vai ficar zangado muito tempo? — Não — disse Ivich. tenho outras preocupações na cabeça. bruscamente: — Vamos. tu estás chateada. Quando não vejo as pessoas. — Bem sei. Boris gostava muito do mês de Outubro. Levantaram se e saíram. Pensou: «No mês de Outubro passado ainda não conhecia Lola. — É estranho — disse —. mas não o deixou perceber. Boris pensou que tinha feito melhor se se tivesse calado. Mexeu se um pouco no banco. pensas de mais. e calou se. Agora de manhã dava se ares de homem diante de mim.Mas ela pusera lhe o dedo na ferida. É certo que diziam tudo um ao outro. Ivich agarrou Boris pelo braço. A — E verdade — disse Boris. e ele sentiu raiva a Mathieu. Ivich mordeu os lábios. elas deixam de existir. confuso —. sim!? Ivich fez um ar intrigado e descontente. e em seguida Ivich acrescentou. Boris sentiu uma ligeira e tenaz vontade de vomitar.» Ao mesmo tempo sentiu se livre: «Ela vive. Já não posso suportar mais o Dome. com impaciência.

que o esperava angustiada. — Eu faço a carta. e havia um raio zinho de sol que cariciava as montras da Closerie de Lilás. mas não insistiu. ela é capaz de ir lá. — Sim. Mas como quer que fosse. Mas era um erro. — Mas a dizer o quê? Ivich olhou o.» Até agora sabia que ela sofria. visto que ela não morreu. Não tinha para com ela essas obrigações incertas e temíveis que os mortos impõem. — A Lola? Oh!. Boris esperou a cá fora Sentia se comovido e fraco como um convalescente e perguntava a si próprio o que poderia fazer para ter uma satisfação. — Devias escrever lhe.» Mas ao mesmo J E A N P AUL SARTRE tempo sentiu dentro de si um sólido rancor contra aquela falsa morta que provocara todas aquelas catástrofes. «É um móvel». — Estou com fome — disse Ivich —. Boris tinha de se mover com habilidade. era assim. conhecia os quase todos de vista. Ivich pareceu irritada. Sentia se feliz naquele bulevar. Não foi o rosto de um morto que recordou. entre Ivich e Mathieu. sentia que ela vivia. descansava de olhos abertos na cama. mas deveres sérios. . como quando ele chegava atrasado ao encontro marcado. — Vou. Lola vivia. admirada. Entrou na Mercearia Demaria. A escolha recaiu no Dicionário Histórico e Etimológico do Calão.Pela primeira vez. Pensou: «Não é possível que Mathieu fique sentido muito tempo. mas esse sofrimento e essa angústia só se afiguravam irremediáveis e imutáveis como os sofrimentos e a angústia das pessoas que morrem desesperadas. O dicionário estava A agora sobre a sua mesa de cabeceira. Boris pôde assim evocar sem horror a imagem de Lola. apenas mais violenta. não. Não insistia nunca. — Vai dormir em casa de Claude. vou almoçar. talvez. — Não voltarei ao hotel. Ivich teve uma ideia. — Não saberia o que lhe havia de dizer. desde que abandonara o cadáver na escuridão do quarto. — Não queres romper com ela? — Não sei. deveres de família. palerma. Uma cólera que não era nem mais nem menos respeitável do que as outras. Era mais correcto. não vale a pena pensar nisso. — Vamos a ver — disse —. Naquele momento tinha tanta vontade de perder Lola como de a ver. mas aquele rosto ainda jovem e carrancudo que lhe mostrara na véspera quando lhe gritara: «Mentira! Não viste Picard. pensou. estava dominada por uma cólera viva. era uma ressurreição. os transeuntes tinham bom ar. Alegrou se.

entusiasmado, «foi um golpe de mestre». E como uma felicidade nunca vem sozinha, pensou no canivete espanhol, tirou o do bolso e abriu o. «Que sorte!» Comprara o na véspera e já tinha uma história, ferira duas pessoas que lhe eram queridas. «Corta que se farta», pensou. Uma mulher que passava, olhou o com insistência. Estava muito bem vestida. Voltou se para a ver de costas. Ela também se voltara e contemplaram se com simpatia. — Pronto — disse Ivich. Trazia duas maçãs canadenses. Esfregou uma delas no rabo, e quando a viu brilhante mordeu a, estendendo a outra a Boris. — Não — disse Boris —, não tenho fome. — Acrescentou: — Tu ofendes me. — Porquê? — Esfregar a maçã assim no rabo. — E para limpar — disse Ivich. — Olha aquela mulher que vai lá adiante. Dei lhe no goto. Ivich comia serenamente. — Mais uma? — disse com a boca cheia. — Aí não — disse. — Atrás de ti. Ivich voltou se para ver e arqueou as sobrancelhas, — É bela — disse simplesmente. — Viste o vestido? Ainda hei de ter uma mulher assim. Uma mulher da alta sociedade. Deve ser agradável. Ivich olhava a mulher que se afastava. Tinha uma maçã ern cada mão e parecia oferecer lhas. — Quando me cansar dela, passo ta — disse Boris, generosamente. J E A N P AUL SARTRE Ivich mordeu a maçã. — Isso é o que tu pensas! Pegou lhe no braço, e arrastou o, bruscamente. Do outro lado do Bulevar Montparnasse havia urna loja japonesa. Atravessaram e pararam diante da montra. — Olha as tacinhas — disse Ivich. — É para o saké — disse Boris. — Que é isso? — Aguardente de arroz. — Hei de vir comprá las. Para tomar chá. — São pequenas de mais. — Enchem se várias vezes. — Podias encher seis ao mesmo tempo! — Pois é — disse Ivich, contente. — Ponho seis tacinhas cheias diante de mim e beberei ora numa ora noutra. Recuou ligeiramente e disse com uma expressão apaixonada, de dentes cerrados: — Queria comprar tudo isto! Boris não apreciava o gosto da irmã por aquelas bugigangas.

Apesar disso, quis entrar na loja. Ivich não o deixou. — Hoje não. Vamos. Subiram a Rua Denfert Rochereau, e Ivich disse: — Era muito capaz de me vender a um velho para ter um quarto cheio daqueles bibelots! Mas um quarto cheio! — Não — disse Boris, com severidade. — Não podias. É um ofício que se aprende. Andavam devagar, era um momento de felicidade. Certamente, Ivich tinha se esquecido do exame, parecia alegre. Nesses momentos, Boris tinha a impressão de que eram uma só pessoa. No céu havia grandes pedaços de azul e nuvens brancas que turbilhonavam. A folhagem das árvores estava pesada com a chuva, havia um cheiro a fogo de lenha como na rua principal de uma aldeia. — Gosto deste tempo — disse Ivich, encetando a segunda maçã. — É húmido, mas não pegajoso. E não fere os olhos. Sinto me com forças para andar vinte quilómetros a pé. Boris verificou discretamente se não havia um café nas proximidades. Quando Ivich falava em fazer vinte quilómetros a pé, acontecia lhe fatalmente pedir para se sentar logo a seguir. Ela olhou para o Leão de Balfort e disse, extasiada: — Gosto deste leão. Parece um feiticeiro. — Hum. Respeitava os gostos da irmã, embora não partilhasse deles. Aliás, Mathieu já o dissera uma vez: «A sua irmã tem mau gosto, mas é melhor do que o melhor gosto.» «É um mau gosto profundo.» Nestas condições não havia que discutir. Pessoalmente, Boris era mais sensível à beleza clássica. — Vamos pelo Bulevar Arago? — Qual? — Aquele. — Vamos — disse Ivich. — Está brilhante... Andaram em silêncio. Boris observou que a irmã se tornava sombria, se enervava, e que de propósito caminhava a torcer os pés. «Vai começar a agonia», pensou, resignado. Ivich entrava em agonia cada vez que estava à espera do resultado de um exame. Ergueu os olhos e viu quatro jovens operários que vinham ao seu encontro e os encaravam a rir. Boris estava habituado a essas expansões e considerou as com simpatia. Ivich tinha a cabeça J E A N P AUL SARTRE baixa e parecia não os ter visto. Ao chegarem junto deles os rapazes separaram se. Dois passaram à esquerda de Boris e dois à direita de Ivich. — Faz se uma sanduíche? — propôs um deles. — Cara de peido! — disse Boris, gentilmente. Nesse momento,

Ivich pulou e deu um grito agudo, que abafou logo pondo a mão na boca. — Pareço me com uma cozinheira — disse vermelha de fusão. Os operários já iam longe. — Que foi? — Beliscou me — disse Ivich, com desagrado. O estupor! Acrescentou, com severidade: — Não devia ter gritado. — Qual deles? — disse Boris, indignado. Ivich reteve o. — Por favor, está quieto. São quatro. E depois já fui suficientemente ridícula. — Não é por ele te ter beliscado — explicou Boris. — Mas não posso suportar que façam isso quando estás comigo. Quando estás com Mathieu, ninguém te mexe. Tenho cara de quê? — É isso mesmo, querido — disse Ivich melancolicamente. — Eu também não te protejo. Não somos respeitáveis. Era verdade. Boris admirava se disso muitas vezes: quando olhava para o espelho, achava que tinha um ar intimidante. — Não somos respeitáveis — repetiu. Apertaram se um contra o outro e sentiram se órfãos. — Que é aquilo? — perguntou Ivich. A Apontava um muro comprido e escuro através do verde dos castanheiros. — E a Santé — disse Boris —, uma prisão. — Extraordinário — disse Ivich —, nunca vi nada mais sinistro. Há quem fuja de lá? — E raro. Li uma vez que um preso saltou por cima do muro. Agarrou se a uma pernada de um castanheiro e saltou. — Deve ser aquele. Se nos sentássemos no banco ao lado? Estou cansada. E talvez vejamos saltar outro prisioneiro. — Talvez — disse Boris sem convicção. — Acho que fazem isso de noite, compreendes? Atravessaram a rua e foram sentar se. O banco estava molhado. Ivich disse, contente: — Está fresco. Mas quase a seguir começou a agitar se e a puxar os caracóis. Boris teve de dar lhe uma pancada na mão para que não arrancasse os cabelos. — Segura na minha mão — disse Ivich —, está gelada. Era verdade. E Ivich estava lívida, parecia sofrer, todo o corpo lhe tremia. Boris achou a tão triste que tentou pensar em Lola, por simpatia. Ivich levantou bruscamente a cabeça: tinha um ar sombrio de resolução: — Tens os dados? — Tenho. Mathieu tinha oferecido a Ivich um poker de dados num saquinho de couro. Ivich tinha o dado a Boris e jogavam juntos muitas

vezes. — Vamos jogar — disse. Boris tirou os dados do saquinho. Ivich acrescentou: — Duas partidas e a negra se for preciso. Começa. Afastaram se um do outro. Boris sentou se a cavalo no banco e rolou os dados sobre o banco. Fez um poker de reis. — Só de uma vez — disse. — Odeio te. Franziu as sobrancelhas, e antes de agitar os dados soprou nos dedos a resmungar. Era uma conjura. «É a sério», pensou Boris, «está a jogar o resultado do exame». Ivich jogou e perdeu: trio de damas. — Segunda partida — disse a olhar para Boris com olhos faiscantes. Fez um trio de ases. — De uma só vez — disse. Boris jogou e viu que ia fazer um poker de ases, mas antes que os dados parassem estendeu a mão como para evitar que caíssem e virou dois com ponta do indicador e do anular. Apareceram dois reis. — Dois pares — disse com ar de despeito. — Ganhei a segunda — disse Ivich triunfante. — Vamos à negra. Boris não sabia se ela o vira fazer batota. Mas não tinha grande importância. Ivich só tinha em conta o resultado. Ganhou a negra com dois pares sem que ele precisasse de intervir. — Bem — disse ela simplesmente. — Queres jogar mais? — Não. Estava a jogar para saber se passaria. — Não sabia — disse Boris. — Então, passaste! Ivich encolheu os ombros. — Não acredito. Calaram se, ficaram ali lado a lado, de cabeça baixa. Boris não olhava para Ivich, mas sentia a tremer. — Estou com calor — disse ela. — Que horror: tenho as mãos húmidas e estou cheia de angústia. Na verdade, a sua mão direita, pouco antes gelada, estava agora a ferver. A mão esquerda, enfaixada, jazia inerte sobre o joelho. — Esta ligadura repugna me. Pareço um ferido de guerra, vou arrancá la. Boris não respondeu. Ouviu se um relógio ao longe. Ivich sobressaltou se. — Meio dia e meia hora? — perguntou, desvairada. — Uma e meia — disse Boris consultando o relógio. Olharam se e Boris disse: — Bem, agora tenho de lá ir.

Ivich apertou se contra ele, abraçando o. — Não vás, Boris, querido, não quero saber, volto para Laon hoje à noite... Não quero saber nada. — Estás a delirar — disse Boris com doçura. — Precisas de saber o que aconteceu para dizer lá em casa... Ivich deixou cair os braços. — Então vai. Mas volta o mais depressa possível. Espero aqui. — Aqui? Não preferes que façamos o caminho justos? Esperas num café do Quartier Eatin. — Não, não, espero aqui. — Como quiseres. E se chover? — Boris, por favor, não me tortures, vai depressa. Ficarei aqui, mesmo que chova, mesmo que a terra trema. Não me posso pôr de pé, não posso levantar um dedo. Boris levantou se e foi se embora a passos largos. Depois de atravessar a rua, voltou se. Viu Ivich de costas. Curvada no banco, com a cabeça enfiada entre os ombros, parecia uma pobre velha. «Apesar de tudo, é capaz de ter passado», pensou. Deu alguns passos e lembrou se de repente do rosto de Lola. Do verdadeiro rosto. Pensou: «Como é infeliz», e o coração pôs se lhe a bater violentamente. XIV D entro em pouco. Dentro em pouco. Começaria a busca infrutífera. Dentro em pouco, assombrado pêlos olhos rancorosos de Marcelle, pelo rosto matreiro de Ivich, pela máscara mortuária de Lola, tornaria a sentir um gosto de febre na boca, a angústia viria pesar lhe no estômago. Dentro em pouco. Afundou se na poltrona e acendeu o cachimbo. Estava solitário e calmo, entregava se à frescura sombria do bar. Havia aquele tonel envernizado que lhe servia de mesa, aquelas fotografias de artistas, aquelas boinas de marinheiros penduradas na parede, a rádio invisível que sussurrava como um repuxo, os dois senhores gordos e ricos ao fundo da sala, fumando charutos e bebendo vinho do Porto — últimos fregueses, homens de negócios; os outros tinham ido almoçar há muito tempo. Devia ser uma e meia, mas parecia manhã ainda, ° dia ali estava, estendido como um mar inofensivo. Mathieu diluía se nesse mar sem paixão, sem ondas, era um espiritual J E A N P AUL SARTRE negro apenas perceptível, um tumulto de vozes distintas, uma luz cor de ferrugem e o embalar de todas aquelas lindas mãos cirúrgicas que oscilavam com os seus charutos, como caravelas carregadas de especiarias. Aquele ínfimo fragmento de vida beata, bem sabia que lho emprestavam apenas, que seria preciso devolvê lo dentro em pouco, mas gozava o agora sem amargura. Aos tipos lixados, a vida ainda concedia inúmeros pequenos

Tenho quatrocentos francos até acabar a semana. — É — disse Daniel —. — Recomendo te o Xerez — disse Daniel. mas se tivesse alguma autoridade. Mathieu podia contemplar à vontade o belo rosto de xeque árabe.. não estava dentro da regra do jogo. Daniel manifestava um grande aborrecimento. — Bem. silencioso. Aquela felicidade simples e leve entrara no passado. Mas as provisões estão a esgotar se. Estou sem um tostão. Mathieu estava lhe grato pela discrição. — Não faria lá má figura. — E bom. Insistiu: — Não faças cerimónia. Agora só desejo um Xerez e conversar contigo. já não se pode renová las por causa da guerra de Espanha. Era preciso recusar se a aceitar. — Não te estás nas tintas para Brunet? — Bem sabes que nunca fui tão íntimo dele como tu. mandava o empalhar e colocar no Museu do Homem. DADE DA RAZÃO — Espero que a minha conversa esteja à altura do Xerez. — Vou confessar te uma coisa. Não se referia ainda à sua carta nem às razões que o tinham levado a convocar Mathieu. cortês. Isso viria depressa. Daniel estava sentado à sua esquerda.prazeres. com a condição de que as gozem modestamente. Tinha acabado. é o que há de melhor. Mathieu provou o Xerez. Mathieu esticou as pernas e sorriu para si próprio. Mathieu olhou Daniel pelo canto do olho. Mas não agora. — Ofereço. Daniel tinha . Mas queres que te empreste duzentos francos? Tenho vergonha de oferecer tão pouco. Disse: — Sabes que vi Brunet ontem? — É verdade? — disse Daniel. Estimo o muito. se mo ofereces. Daniel voltou para ele os seus grandes olhos acariciantes. Daniel mentia. Pousou o copo vazio e pegou numa azeitona do pires. preciso de cinco mil francos. — Muito obrigado. é mesmo para esses tipos que ela reserva uma boa parte das suas graças efémeras. — Zangaram se? — Pior do que isso. — Acho que desta vez tudo acabou entre nós.. Gostara muito de Brunet outrora. — Não — disse Mathieu —. não vale a pena. e isso também era um prazer para os olhos. Mathieu não pôde deixar de sorrir. secção século XX. — Não precisas mesmo de nada? — Sim — informou Mathieu —. Vamos dividi los. — Não — disse Mathieu. solene. Daniel pousou nele um olhar cheio de solicitude.

uma voz de negro cantava baixinho Ther'is cradle in Caroline.. não podiam entender se. Não. Acolheu me muito amavelmente. — Marcelle Duffet.. — Tens sorte — disse —. Onde a encontraste? — Em casa dela. — Em casa dela? Queres dizer que vais a casa dela? Daniel não respondeu. Daniel e Marcelle não se tinham encontrado muitas vezes.. era absurdo. Calou se um momento. Mathieu perguntou: — Que ideia foi essa? Como é que isso aconteceu? A — Muito simplesmente. — disse Daniel sorrindo. — Onde querias que a encontrasse. — Fala e depois saberás — disse Mathieu. sabes quem vi ontem à noite? — Quem viste ontem à noite? Como hei de saber? Vês tanta gente. vagamente irritado.. — Diz lá — disse Mathieu. — Marcelle? Mathieu não estava surpreendido.. sorridente. Tremiam ligeiramente. Sempre tive grande simpatia por Marcelle Duffet... Daniel continuou: — Um dia. — Pois bem. A nossa culpa está em não te termos dito nada. J E A N P AUL SARTRE — Estou a pensar no efeito que isto vai fazer em ti — continuou Daniel hesitante. . É tudo. baixando as pálpebras modestamente: — Devo dizer te que nos vemos de vez em quando. ela nunca sai. e Mathieu repetiu com espanto: «A coragem de Marcelle.» Mathieu voltou a cabeça e fixou o olhar no botão vermelho de uma boina de marinheiro. a sua generosidade.. O relógio bateu duas vezes. Mathieu mergulhou no perfume espesso. na atmosfera algodoada do quarto cor de rosa. «Vemo nos de vez em quando.» Não eram as qualidades que mais apreciava em Marcelle. Daniel estava sentado na poltrona. Mathieu sacudiu a cabeça. Houve um silêncio. como se lhe fossem tirar uma fotografia. olhava para Marcelle com os seus grandes olhos doces e Marcelle sorria desajeitadamente.um ar nobre e compenetrado. se não sai? Acrescentou. Mathieu contemplava os cílios negros e compridos de Daniel. — repetiu sem compreender bem. — Vocês vêem se. mas Marcelle parecia ter simpatia por Daniel. Daí por diante continuámos a ver nos. estava aborrecido e veio me à ideia de ir a casa dela. eles nada tinham em comum. Admiro muito a sua coragem e generosidade. — Mas onde? — Em casa dela. — Ficaria triste se te aborrecesses comigo. acabo de to dizer — observou Daniel.

Seria normal. querido Arcanjo. se reparares que nunca me permiti a menor brincadeira neste assunto das tuas relações com Marcelle. É uma coisa muito séria. Tirou do bolso uma carteira cheia de notas. depois desatou a rir. Marcelle. A minha mãe disse que lhe vai dar uma descompostura por causa dos bombons. Mas não compreendo uma só palavra do que me escreve. é verdade? Daniel fez um sinal com a cabeça. — Ainda bem — disse. querido Arcanjo. um tipo do género de Lúcifer. — Mathieu! — disse com uma voz muito profunda. — Não. «Escreveu isto. — Pensei que te zangasses. E tu também vês a velha e tudo. sob palavra de honra. mantinha se direito. Trazia a data de 20 de Abril. Suspirou: — Preferia que acreditasses em mim. Leu: «Tinha razão como sempre. perplexo. Eu nunca teria encontrado essa expressão. — Olha — disse Daniel. E talvez me zangue ainda. — Não falemos mais nisso. Que seja sábado. — Não me facilitas a tarefa — disse Daniel com um ar de censura.» Aquele estilo precioso e jovial nada tinha dela! Esfregou nariz. Mathieu releu a carta do princípio ao fim.» Mathieu olhou para Daniel. Eram de facto pervincas. — Sim. não impede que isso seja uma graça. uma vez que não está livre amanhã. continua. Por enquanto estou apenas tonto. Venha depressa.. A Daniel parecia desconcertado. — Então. Mas não vou na onda. Entregou uma carta a Mathieu.. Viu que Daniel esperava a sua cólera. — Bom — disse tristemente. e ela escondeu me isso? Acrescentou serenamente: — É uma brincadeira. — Já é bastante penoso acusar me diante de ti.— Vais à casa dela. Era a letra de Marcelle.. Esperamos com impaciência a sua visita. Um arcanjo decaído. Daniel ergueu os olhos e encarou Mathieu com uma expressão sombria. Mathieu voltou a cabeça e olhou o com indecisão. és muito divertido. Esvaziou o copo. É tudo. Mas como exiges provas. fúnebre e distinto como uma testemunha de duelo. — Bem sei. Daniel pareceu ficar desanimado. — Far me ás justiça. bem sei. Mathieu viu o dinheiro e pensou: «Sacana!» Mas com preguiça. admirando se por sua vez de não se sentir .. — Arcanjo! Ela chama te arcanjo. deveria zangar me.

não. — Terás alguns temas a propor nos? — Não te zangues — disse Mathieu conciliador. O cachimbo apagou se lhe. Estendeu a mão e pegou maquinalmente numa azeitona. «Venha. — Tudo isto é tão imprevisto. com os seus ares de Cagliostro e o sorriso africano. — Mas não recusou? — Não. fora ela quem se espraiara naquelas gentilezas grosseiras. fixou se em Arcanjo. de que é que conversam? Daniel sobressaltou se e os olhos brilharam lhe. Dantes. — Evidentemente. Mas não tenho más intenções.. teria havido qualquer coisa dentro dele que . depois. e Marcelle diante dele rígida. Era grave. — E incrível! Vocês são tão diferentes! Não conseguia afastar a imagem absurda. esperamos a sua visita. Riu se. Não se sentia suficientemente abatido.. porém. — Foste tu que lhe disseste para se calar? — Fui. Não devia achar gr ande mal nisso.» Ela pensa que gosto de me rodear de mistério. estou a tentar compreender.irritado.» Fora Marcelle quem escrevera aquilo.» E sentiu se humilhado por Marcelle. duas vezes por mês mais ou menos. — Foste tu que pediste — repetiu Mathieu mais calmo. lembro me. como vês. já não tem tanta importância. mas isso descansa a.. «Ela mentiu me». Agora já a conheço há bastante tempo. Não queria que fiscalizasses as nossas relações. cheio de gentilezas maliciosas e nobres. Acrescentou com uma ironia velada que agradou a Mathieu: — A princípio chamava me Lohengrin.. Então é verdade? Gostam de conversar? Mas. Leal? Rígida? Não devia ser assim tão rígida.. — Mas que é que podem dizer. de que falam vocês? — De tudo — disse Daniel friamente. pensou com espanto. desajeitada. como quando se descobre que nos enganamos redondamente. não te aborreças. Daniel não respondeu.. «mente há seis meses». Era a primeira vez que Mathieu se sentia invadido por uma espécie de cólera. Um espanto intelectual sim. Arcanjo. Mathieu pensou: «Ele diverte se à custa deja. Marcelle não espera de mini conversas muito elevadas. quase me diverte. e disse: «É um caso de consciência. — E ela não pôs dificuldades? — Admirou se muito. leal. — Estás com ela muitas vezes? — Sem regularidade. Daniel todo cerimonioso. Continuou: — Admira me muito que Marcelle me tenha escondido qualquer coisa.

E depois acho que ter um segredo a devia divertir.. totalitário? — Nunca o disse de uma maneira positiva. mas era divertido brincar aos conspiradores. «Nós»! Ele dizia «nós». — Não. Mathieu olhou para Daniel. mas há outra coisa. já to disse — respondeu Daniel. mas creio que assim o pensa. porque é que ela fez isso? — Ora. irritado. Ela sabia muito bem o que fazia. Não te falou das minhas visitas porque teve receio de que a forçasses a pôr um rótulo no sentimento que tinha por mim. — Mas passas de um extremo ao outro — disse Daniel.» Parece me que descubro uma Marcelle diferente. — Talvez — disse Mathieu —. É qualquer coisa hesitante. Que queres — acrescentou —. admira essa maneira que tens de viver dentro de uma casa de vidro e dizer abertamente aquilo que se costuma conversar em segredo. — Uma Marcelle diferente.sangraria. mas ele não lhe queria mal. como sempre. não exageres. — E o que pensavas. — E essa carta! «Nós esperamos a sua visita. Era o momento de o odiar. de que o desmontasses para devolvê lo em pedacinhos bem analisados. Esta história prova apenas que Marcelle é mais complicada do que imaginas. Disse apenas.. sempre tivemos a intenção de to dizer. Mathieu disse lhe: — Daniel. Procurou um recanto na sombra. J E A N P AUL SARTRE Mathieu abanou a cabeça. Marcelle tinha se tornado culpada. — Porque lho pedi. Porque o fez? — Imagino que não era muito agradável viver sempre à luz do teu esplendor. «Não devia perder a confiança nela naquele dia — naquele dia em que talvez fosse obrigado a sacrificar lhe a própria liberdade. Poder se á dizer tudo? A Mathieu encolheu os ombros. Tinha de a estimar. Mas isso cansa a. com voz tépida: — Nós dizíamos tudo um ao outro.. Note se que ela te admira. Daniel pareceu atemorizar se... és uma força.. — Ela disse te isso? . Continuou com uma expressão de compreensão afectuosa: — O que acontece é que confias demasiado nas tuas opiniões sobre os outros. mal definida. mas Daniel desarmava o. — Ela acha me. sem amizade.» — Aliás — continuou Daniel —. Há outra coisa. nós adiávamos sempre. senão era lhe muito difícil. Alguém que podia dizer «nós» a Mathieu ao falar de Marcelle. mas estava zangado sobretudo consigo mesmo. Não vás levar a sério uma infantilidade! — Censuravas me há pouco por não levar a sério as coisas.

Cada vez que se tratava de compreender os sentimentos de Marcelle sentia se possuído por uma incomensurável preguiça. se houvesse qualquer coisa..» Ivich dizia: «Consigo não há imprevistos. — E a propósito do seu. e à noite é ela quem fala. Mathieu não se enganou. não disse nada. Mathieu baixou a cabeça. Começara a entender.. Marcelle ignora que te falei e ainda ontem não estava resolvida a pôr te ao par da situação tão cedo. Ficar te ei muito grato se não lhe disseres nada da nossa conversa. Daniel sorriu. Quando por vezes acreditara discernir uma sombra nos olhos dela.» Sacudiu se e disse bruscamente: A — Porque me dizes isso hoje? — Tinha de to dizer um dia ou outro. Bom. Mas pensei que fosse bom para vocês os dois. Mathieu riu sem querer. do seu acidente — disse Daniel. — Oh! «Ontem ao telefone parecia temer que eu lhe contasse. Pareceu me que havia um mal entendido muito grave entre vocês.— Disse. — Não tenho nada de diabo. Para espicaçar a curiosidade.» Daniel continuou: — Vou dizer toda a verdade. ela di la ia. mais normal que fosse ela a falar em primeiro lugar. E era isso que eu intitulava a minha confiança nela! Estraguei tudo. encolhera os ombros.» Acrescentou: . O que me levou a falar foi a inquietação real que se apossou de mim ontem. Ontem conspiravas com Marcelle contra mini e hoje pedes a minha cumplicidade contra ela! Que estranho traidor. Foi ela quem falou. Era verdade.. é agora. Naturalmente. — Ah! — atalhou Mathieu —.» Mathieu encolheu os ombros. disseste lhe que estavas ao corrente? — Não.. Mathieu empertigou se: «Cuidado.» «Com Mathieu sei sempre. Marcelle é orgulhosa de mais para falar.. — Bem — disse Daniel representando —. diz me tudo. Mais uma comédia. Disse mais: «O que me diverte em si é que nunca sei para onde vou. por enquanto. — Es mesmo o demónio! Semeias segredos por toda a parte. — Por que razão hoje e porquê tu? Teria sido.. — Porque é que ela nunca me falou disso tudo? — Ela diz que tu nunca lhe perguntas nada. Mathieu apertou com força o copo nas mãos. Aquele ar evasivo era propositado. talvez me tenha enganado. Com Mathieu sei sempre. «Ora.

Saíram com um cumprimento amistoso para o barman. — Então? Ela tem me raiva porque lhe arranjei um filho? — Não. Estava convencido de que pensava como eu. — Não sei. no bar deserto e escuro.— E então? — Então há qualquer coisa que não está certo. por certo. O que ela me disse foi. mas procuraste saber a opinião dela anteontem? — Não. — Mas não tinha nenhuma decisão a tomar — atalhou Mathieu. A sua vida. Sem te referires a mim. Daniel continuou com um ar aborrecido: . congratulavam se sorridentes. três feltros e um chapéu de coco. Ela falou me disso com rancor. Houve um silêncio.» Naquele momento. não lhe perguntaste nada. com um nó na garganta. como se tivesses tido escrúpulos. naquele Verão. — Bom. a Europa. espantado. O dia pesado e borrascoso. é talvez a maneira como me contou as coisas. «Isto vai acabar mal». que já tem opinião sobre as coisas e não me dá tempo para formar a minha. E não acreditas que ela tenha mudado de opinião? No fundo da sala os senhores distintos levantaram se. A julgar pelo que vi ontem. — Que é que eu fiz? — Não o sei dizer exactamente. — Está bem. — Não sei — disse Daniel com um ar distante. Não sabia exactamente o que ia acabar mal. — Estivemos sempre de acordo sobre o que se faria em semelhante circunstância. há dois ou três anos. meu caro. — Sim. Marcelle. isto: «Ele é quem resolve sempre. Isso não pode ser assim tão simples. Parecia tão acabrunhada. entre outras coisas. perguntas de mais. — Tem vontade de se casar comigo? Daniel pôs se a rir. Tentarei falar lhe. Não. e o empregado desligou a rádio.. não é isso. — Nada de especial. e se não estou de acordo devo protestar. «Em Setembro temos a guerra.. Um empregado trouxe lhes os chapéus. ela dir te ia tudo. Era qualquer coisa mais vaga e mais ampla. Eembrou se dos cabelos ruivos de Brunet. Mas isso é uma vantagem para ele. E quando encararam pela última vez essa eventualidade? — Não sei. pensou Mathieu. Devias falar lhe à noite. acreditava se nisso. E por causa da tua atitude de ontem. evidentemente.» Não garanto a exactidão das palavras. aquela história de aborto. — Ela tem medo da operação? — perguntou. — Dois ou três anos. — Que é que te leva a dizer isso? — perguntou Mathieu.. Havia qualquer coisa de podre na sua vida. a paz insípida e sinistra..

Pobre Mathieu. — Bem sei. lágrimas de abundância e fertilidade.. com a mão sobre o auscultador. ela está lá na sua cabeça. J E A N P AUL SARTRE Daniel riu com vontade.— Enfim. «Ele abraçou me. mas nós contávamos sempre tudo. ela esteve. dirá: "Marcelle dizia me tudo". acariciou me. Marcelle a razoável. aquelas mãos de veludo sobre as minhas ancas. a conversa já se deu. porquê resistir. não soube nada. Ele pensa. com os olhos secos e vazios: vão matá lo. que irá ela dizer? Estou nua." Ah! Ele pensa nisso. sentado no café. a lágrima trémula dos olhos. pobre Mathieu. e essa voz sairá toda vestida da placa branca. preferia mil vezes que me odiasse. mas ele está lá. Abriu a iboca mostrando os dentes brilhantes e o fundo da garganta. Eu não estava lá. mas foi generoso. o Arcanjo emprestou à minha causa a sua voz soberba. querido Arcanjo!» Pensou: «Arcanjo» e os seus olhos encheram se de lágrimas. o tremor dos lábios. Uma mulher. as palavras foram ditas e eu nada sei. sobre as minhas nádegas. com o olhar fixo no chão como se alguma coisa se tivesse partido. não devíamos. ao menos uma vez. fraca e defendida no mundo dos homens e dos vivos por uma voz sombria e quente. «eu não devia. a chuva nos olhos. a mulher frágil. é tudo.. e a carícia em sulco sinuoso no rosto. uma pobre mulher. após oito dias tórridos. lágrimas de verdadeira DADE DA RAZÃO mulher. Marcelle a masculina. a humildade ainda mais doce. ele diz que sou um homem e agora a água. tão bom. tenho vontade de abraçar Mathieu e de lhe pedir perdão. obrigado! — Desejas me mal? — De maneira nenhuma. meu Deus. ser defendida. e a voz virá e dirá: já está. é tão . a doce piedade de si. Pronto. foi o único a preocupar se comigo. mas ela está. de joelhos. Marcelle a dura. Uma vez. meu pobre querido. ela teria detestado Daniel se fosse possível detestá lo. doces lágrimas. defendeu me». Sabe agora. «Eu não devia. a bela voz grave que faz sempre vibrar o auscultador do telefone. amanhã serei dura e razoável. a voz virá de lá. perdoada. de doce mulher defendida. a voz sairá dali. é mesmo o tipo de ser yiço que podes fazer: cai nos na cabeça como uma telha. uma só vez as lágrimas. neste momento. Meu Deus.. de braços abertos como se tivesse deixado cair qualquer coisa. Durante oito dias ela olhara ao longe um ponto fixo. Aliás.». durante oito dias ela fora para ele Marcelle a decidida. Eu avisei te. é intolerável. a voz grave subia como fumo para o tecto do café.. os remorsos. ruminando: "A Marcelle contava me tudo. grávida. tomou a minha causa a peito. com o espanto a oprimir Ihe e esta vozinha na cabeça: «Marcelle dizia me sempre tudo!" Ela está lá. pensava ela.

querida Marcelle. ah!. — Deixei a muito tarde ontem. espantado. — Bom dia — disse Marcelle. Marcelle sentiu se melhor. Crispou a mão sobre o auscultador. — Correu tudo optimamente. pela primeira vez na vida fiz te sofrer. verei os seus olhos bons. tudo o que tu quiseres. chegará esta noite.. afinal. meu bom Mathieu. você disse que nos víamos? — Naturalmente — respondeu Daniel. não soube de nada. — Disse me que compreendia muito bem... Disse: — Não é verdade. — Não tínhamos combinado isso? — Sim.. mas a nossa sinceridade está envenenada. Era um belo riso de luxo. — Ele deteve me às primeiras palavras — disse Daniel. A princípio não queria acreditar. quando ele chegar. — Você. tenho vergonha. e eu terei de fingir que ignoro que ele já o sabe.» O telefone tocou sob os seus dedos. ele saberá tudo. — Não — disse Marcelle. era insuportável e delicioso. — Deve ter lhe dito que dizíamos tudo um ao outro. Estou um pouco enervada. disse o exactamente nesses termos. que percebeu que havia qualquer coisa e que isso o atormentava todo o dia. quando eu lhe puser os braços em volta do pescoço e o beijar. dizemos lhe tudo. minha querida Marcelle. matarei a criança. é Daniel? — Sim — respondeu uma voz calma —. Ele sabe. irei ver a velha. — Tudo? É verdade? — E verdade. Melhor do que eu esperava. . como reagiu ele? A — Foi tudo bem.bom!» Subitamente surgiu lhe uma ideia nítida. pensarei: ele sabe e como poderei suportar isso. — E você — insistia a voz terna — dormiu? — Eu? Mais ou menos. Dormia a sono solto quando você saiu. Madame Duffet deve ter ficado zangada. Ah!. farei o que ele quiser. pensou com desprezo. arquejante —. nós mentimos lhe». aceitarei tudo. — Dormiu hem? — A voz grave ecoava lhe no ventre. tranquilo e forte. Daniel riu. Tínhamos menosprezado Mathieu. — Bom dia. — Não deve enervar se — disse ele. «continuamos a mentir lhe. o ácido correu Ihe nas veias. meu pobre Mathieu.. Mas espero que não tenha sabido. sim. — Está — disse ela —. Marcelle sentiu se invadida por amargos remorsos. — Efectivamente — Daniel parecia divertir se —.. quem fala? J E A N P AUL SARTRE — É Marcelle. Não é verdade que o menosprezámos. O coração batia lhe fortemente. «Esta noite.

achas que ainda posso reparar o mal?» E tinha os olhos vermelhos. foi. tenho tanta coisa a contar lhe e não posso falar sem lhe ver o rosto. — Daniel! Mas o telefone tinha sido desligado. e ria. operários. Riu de novo e Marcelle pensou com humilde gratidão: «Está a troçar de mim. é mais fácil. tinha perdido o tom harmonioso. eu queria estar escondido no quarto para ver quando se encontrassem. F. tenho remorsos.» Abriu as pálpebras e olhou se no espelho. Pode ser amanhã? A voz pareceu lhe mais seca. . falava lhe arquejante. Marcelle pegou numa com hesitação. Ah!. mas hei de arranjar tudo. pareceu lhe que tinham um ar de felicidade.. não. tudo corre bem. Ele não me deixou falar. Uma jovem senhora corria pelo meio da rua com o filho no braço. Marcelle.. Saiu cheio de remorsos. arranjou a cabeleira e sorriu para si própria cheia de confusão. tenho ódio a mim próprio. Marcelle pôs o auscultador no descanso e passou o lenço pêlos olhos húmidos: «Arcanjo! Fugiu depressa para que eu não lhe agradecesse..» Agora tudo está nas suas mãos. quero vê lo o mais cedo possível. «Espremer o abcesso.. Estou satisfeito por sua causa.» Aproximou se da janela e contemplou os transeuntes: mulheres. Com certeza que desejo muito vê la. Marcelle. Marcelle seguiu a com o olhar. aça favor de esperar aqui — disse o homenzinho.. com o coração aberto. Se vocês os dois estão com essas disposições. Depois aproximou se do espelho e mirou se com espanto.— Daniel. — Oh! Daniel. Daniel. seja desembaraçada hoje à noite. telefone depressa. Promete ser delicioso. Telefonarei. depois fechou os olhos e enfiou a rosa na cabeleira escura: «Uma rosa nos meus cabelos. Ele fará o que você quiser. Marcelle.» Mas a voz voltara a ser grave e o telefone vibrava como um órgão. interrompeu me logo às primeiras palavras e disse: «Pobre Marcelle. Sobre a prateleira do lavatório havia três rosas vermelhas num copo. — Amanhã. e Daniel continuou: — Disse me que queria falar lhe hoje à noite. querido Daniel. crianças.. — Até logo. Oh! Daniel.. sou um grande culpado. — Está bem — disse Marcelle —.. — Oh! Daniel! Oh! Daniel! Tomou fôlego e acrescentou: — Você foi tão bom. — A sério. virou a timidamente entre os dedos. Ouviu novamente o riso profundo e sadio. — Acontece! Ele também. Houve um silêncio. Como ele gosta de si! — Oh! Daniel! — dizia Marcelle.

em que ela se sentou. e o homenzinho foi abrir. vamos arranjar tudo. de bigode branco. é para um empréstimo. Está um bocado atrapalhada. Mathieu acompanhou o ao escritório. Dois filhos? Parece tão nova. A porta envidraçada abriu se e surgiu um senhor alto. — É funcionária? — Eu. O senhor apontou lhe amavelmente uma poltrona de couro já gasto e sentaram se ambos. mas tinha uma expressão dura e perseguida. Mathieu não estava à vontade. Ela tirou dois ou três papéis cuidadosamente dobrados. Contemplou a pensativo e sorridente durante uns instantes. A jovem mulher deitou uma olhadela hostil a Mathieu e pôs se a brincar com o fecho da bolsa. encolhendo as pernas. Baixou a cabeça e olhou o chão entre os pés. Não era o mesmo dinheiro. Tocaram. que cheirava a couve. Usava uma gravata verde escura. desorganizam as finanças.. À esquerda via se uma luz fraca através de uma porta envidraçada. introduzira se entre os verdadeiros pobres e era o dinheiro deles que ia buscar. Não era feia.Mathieu sentou se num banco. um dinheiro cinzento e triste. não é verdade? Mas quando chegam. Pôs se a procurar na bolsa. — Faz favor de se sentar. A Examinou o rosto de Mathieu. para ter mais luz e examinou os demoradamente: — Muito bem — disse. ele pegou lhes. O senhor apoiou os cotovelos na mesa e juntou as belas mãos brancas. Viu as notas sedosas e perfumadas na maleta de Lola. — Deseja recorrer aos nossos serviços? — perguntou paternalmente. — Sim. . Esperamo los com impaciência. não.. chegou à porta envidraçada. até ao banco. Uma mulher jovem entrou vestida com uma decência miserável. Era uma sala escura que tresandava a couve. depois afastou se. minha senhora. cuja severidade era discretamente aliviada por uma pérola. O homenzinho falava lhe muito junto ao rosto. os olhos azul claros projectavam se ligeiramente para fora do rosto. Acompanhou a. — Já estive aqui — disse a mulher —. obsequioso. Tinha os cabelos prateados. cuidadosamente penteados para trás. devolvendo os. é para isso que estamos aqui. — Senhor? — Delarue. — Desejo. com certeza. minha senhora. não é? A jovem mulher corou e o homenzinho esfregou as mãos: — Pois bem — disse —. O homenzinho olhava a com J E A N P AUL SARTRE cobiça. Meu marido. — Muito bem. vamos arranjar tudo.

— Não ignora que os estatutos da nossa sociedade estabelecem um serviço de empréstimo destinado exclusivamente aos funcionários? A voz era bela e branca. caderneta militar. J E A N P AUL SARTRE — Está bem. — Sou funcionário — disse Mathieu. Somos obrigados a exigir vinte cento de juros. aprende se a desconfiar. É um sentimento miserável. quem nos prova que os seus documentos não são falsos? (Sorriu tristemente. concordo.. É professor do liceu? — Sou. O selo é por sua conta.) Quando se lida com dinheiro. — Na entrega do dinheiro? Não pode entregá lo agora? O senhor pareceu muito surpreendido. — Muito bem. Note que neste caso particular não ponho em dúvida a sua palavra. Ele reflectiu um pduco e disse: — Ponhamos sete mil. Um qualquer. de um modo geral. Mathieu estava agradavelmente surpreendido. a morada. — Professor. O senhor considerou Mathieu com uma indulgência divertida. — Quer ter a bondade de preencher estes formulários? Assine em baixo. — Temos muito prazer em auxiliar os universitários. reconhecendo a dívida.. o estado civil. Em primeiro lugar vou pedir lhe um documento de identidade. passaporte.. — Muito bem — disse o senhor percorrendo as folhas. Mathieu escreveu. Na entrega dos sete mil francos exigiremos um recibo selado. um pouco gorda. possibilidade de adiamento. — Ah! — disse —. No Liceu Buffon. Bem. pai e mãe franceses. Por isso faremos o nosso pequeno inquérito. — Nascido em Paris. — Agora? Mas.. O senhor tomou os. Todos idealistas. necessitamos de quinze dias pelo menos para as informações! — Que informações? Já viu os meus documentos.. O senhor tirou da gaveta duas folhas impressas. — Muito bem.. mas não temos o direito de ser confiantes. Era um formulário de pedido de empréstimo em duplicado. Pensou: «Não imaginava que fosse tão fácil. está bem — atalhou Mathieu. Vamos então às formalidades da praxe. cartão de eleitor. como as mãos. — Ah! Ah! — disse o senhor com interesse... 1905. Mas. porque temos despesas enormes e corremos sérios riscos. os universitários são todos iguais. meu caro professor. Mathieu entregou lhe os documentos. é tudo por agora.» — Conhece as nossas condições? Emprestamos por seis meses. E qual é o montante da soma de que vai precisar? — Seis mil francos — disse Mathieu. . Tinha de indicar a idade. examinou os distraidamente.

— Lamento — disse friamente o senhor. — Obrigado. A morada está certa — disse apontando para o formulário —. Duvido muito que possa contar com o nosso auxílio antes de 5 de Julho. nos primeiros dias de Julho mandar lhe emos uma convocatória. angustiado.» — Não rasgue — disse —. como são as administrações. meu caro professor! A nossa sociedade tem o apoio moral do Ministério das Obras Públicas. estabelecidos de acordo com as despesas e os riscos e não nos podemos prestar a nenhuma transacção desse género! Acrescentou com severidade: — Se tinha pressa. Mathieu atravessou a sala com grandes passadas. devia ter vindo antes. Só tinha esperança em Sarah.dirigindo nos directamente ao Ministério. . Não se poderia. — Pois bem. há de encontrar um amigo que lhe adiante o dinheiro por quinze dias. Estava no Bulevar Sébastopol. vou ver se me arranjo até à data da entrega. — Pois é — disse o senhor amavelmente —. JEANPAUL SARTRE — Até à vista. minha senhora — disse o homem por trás de Mathieu. inclinando se. — E muito prazer. Lá fora uma luminosidade vegetal tremia no ar cinzento. pensou. Rua Huyghens. E uma instituição por assim dizer oficial. A jovem mulher ainda estava ali. Mas nada receie. Porém. Mordia a luva com um olhar desvairado. procederemos com a máxima discrição. o senhor sabe. senhor — disse Mathieu. «Mais um desastre». com um juro mais elevado? O senhor mostrou se escandalizado.. número 12? — Está. — Ao seu serviço — respondeu o senhor. Mas agora Mathieu tinha sempre a impressão de estar enterrado. Ergueu as belas mãos e disse: — Não somos usurários. entre nós. Ergueu se e acompanhou Mathieu até à porta. Entrou num café e pediu ficha ao balcão. Cobramos os juros normais. — Queira entrar. — Devo rasgar os formulários que acaba de preencher? Mathieu pensou em Sarah: «Seguramente deve ter obtido um prazo. Não leu os nossos avisos? — Não — disse Mathieu levantando se. — Foi uma decisão repentina. — Preciso do dinheiro para hoje à noite ou o mais tardar amanhã de manhã cedo é uma necessidade urgente.. — É impossível — disse Mathieu.

as flores. Mathieu endireitou se e olhou angustiado as costas do motorista. está. O que quer que aconteça. Pensava: «A minha vida já não me pertence. livre. desesperado. Mathieu. subiu e sentou se junto de uma velha que tossia no lenço.» O autocarro enorme e infantil transportava o.» — Denfert Rochereau! — Três bilhetes — disse o cobrador. «O assunto vai ser resolvido. oxalá tenha conseguido. a velha tossia. ao banco. estava nas mãos de Sarah. tossia na Rua Montorgueil. sacudia o. Pensava em Marcelle com um rancor melancólico. — Ah! Que chatice. Sarah? — Está — disse uma voz.— No fundo e à direita. Mathieu pagou e pôs se a olhar pêlos vidros. Posso falar com Sarah? — Saiu. — Está.» Via surgirem um por um os pesados edifícios sombrios da Rua dos Saints Pères. Diga lhe apenas que telefonei. com liberdade de ser um animal ou uma máquina. tossia no Pont Neuf. não é cara ou coroa. tinha escolhido a sua perdição. mesmo que se deixasse transportar como um saco de carvão. Toda a sua liberdade acabava de retroceder sobre ele. tossia na Rua Réaumur. Só lhe restava esperar. Já não passava de um saco de carvão empilhado com outros sacos no fundo de um camião. fazia o virar à direita e à esquerda. a velha. Fez sinal a um autocarro. pensou. «Caso. por cima das águas calmas e escuras. Os vidros tremiam. A velha não tirava o nariz do lenço e tossia. «Os judeus entendem se sempre bem». — Daqui é Mathieu Delarue. Pensou: «Não. Quer deixar algum recado? — Não. Desligou e saiu. as flores dançavam lhe no chapéu de palha. É cara ou coroa. Era livre.» Era quase uma prece. «Tanto faz. maltratava o. Tossia na esquina da Rua dês Ours com o Bulevar Sébastopol. não caso: já não tenho nada com isso. os telefones. é através de mim que há de acontecer. Não sabe quando volta? — Não. a minha vida é apenas um destino. tudo era transportado pela enorme máquina. «E se o judeu não for nisso?» Mas esse pensamento não o chegou a arrancar do seu torpor. era embalado pela rapidez da sua vida.» O autocarro parou com uma travagem brusca. via a sua vida desfilar. A sua vida já não dependia dele. Enquanto marcava o número pensou: «Oxalá tenha conseguido. para tudo. J E A N P AUL SARTRE . — É Weysmuller.» Ainda que se deixasse levar. desamparado. os acontecimentos batiam de encontro aos vidros. O chapéu. pelo menos acaba. eu digo lhe hoje à noite que caso com ela.

Ivich. empreste me cinquenta francos — pediu à porteira. Em volta dele as coisas tinham se agrupado. — Ah! E que estão cada vez mais difíceis. admirada. Mathieu chamou o: — Lar dos Estudantes.. casar. está prestes a fazer uma asneira. Inconsciente.» — São más notícias? — perguntou a porteira. No mesmo instante os muros que o cercavam desmoronaram se e pareceu lhe que mudava de mundo. Era como um remorso. «Seis horas. Que é que se lhes há de fazer? J A IDADE DA RAZÃO — Pois é. «Devia ter roubado. — Madame Garinet. que se há de fazer! Leu pela quarta vez a carta. segundo me disseram. ninguém tinha o direito de aconselhá lo.de aceitar. Há quatro horas que anda por aí pelas ruas de Paris. Ivich. . — Imagine! Toda essa gente que estuda. — Muito mais. — Bem. Impressionava se com a grandiloquência inquietante. condenado a decidir se sem apelo possível. notas perfumadas e sedosas.. Ficam com diplomas. Só havia para ele Bem e Mal se os inventasse. — Não sei se os tenho — disse a porteira. 173. condenado à liberdade para sempre. de recusar.» — É um aluno meu que ficou reprovado nos exames. só e livre. — Está bem — disse o motorista. Mexeu na gaveta da mesa de costura. — Não. de hesitar.» — Uma carta para o senhor — disse a porteira. rasgou o sobrescrito. — Só tenho cem. Soube do resultado às duas horas. sem auxílio nem desculpa. «Reprovada. — Bem. de se arrastar durante anos com aquela cadeia aos pés. Podia fazer o que quisesse. — Denfert Rochereau — gritou o cobrador. Obrigado. Inconsciente.» Enfiou a carta no bolso.. Um táxi parou. «Reprovada. inconsciente. depressa. Mathieu pegou na carta. no fundo de um quarto escuro... Rua Saint Jacques. É claro como a água. sem a menor sugestão. e. é que o senhor ficou tão assustado. Havia três palavras no meio da página. dá me depois o troco. via continuamente uma maleta aberta. Saiu: «Onde estará ela?» Tinha a cabeça vazia e as mãos trémulas. Enfiou pela Rua Froi devaux.. Estava só no meio de um silêncio monstruoso.» — Que horas são? — Seis horas. na maleta. Uma letra grande e inclinada: «Reprovada. deve estar a fazer alguma asneira. desaparecer. Mathieu levantou se e desceu. esperavam sem um sinal. Estava cansado e nervoso.

«Onde estará ela? Na melhor da hipóteses terá partido para Laon. pois teria passado antes pelo Lar para levar a bagagem. gordo.. — Parece me que conhece a Serguine. Tinha sido enviada da agência da Rua Cujas. ando à procura de alguém. — Hotel de Pologne. — Está bem. A Senhora Montero é que telefonou duas vezes para falar com o Senhor Boris. O táxi parou. não veio. — E a irmã. nem no Harcourt. Mathieu desceu e tocou à campainha. Rua Sonimerard. Mathieu olhou o. com desconfiança. A No Capoulade viu um estudante chinês que a conhecia. pode dar lhe o recado. desde o cais. nem no Palais du Café. uma rapariga loura. Passados instantes bateu no vidro. — O Senhor Serguine está? O empregado. — A Menina Serguine não voltou desde esta manhã. sentado num banco do bar. quer que ele vá vê la imediatamente quando chegar. — Não voltou. Ivich não estava no Biarritz. Falava com dificuldade.. na pior. mas de repente percebeu: «Para me mandar aquilo. Nas ruas? Em todo o caso não tinha ainda deixado Paris. estava na caixa. Saltou e empurrou a porta.. devia estar bêbeda. Reconheceu Mathieu e sorriu. Correu. não veio dormir. indeciso. Não a viu hoje? — Não — disse o chinês. Mathieu subiu novamente para o automóvel.» — Ouça — disse —. — Ali. mas isso não queria dizer nada. Voltou logo. — Aonde vamos? — perguntou o motorista. albino.» Mathieu tirou a carta do bolso e examinou o sobrescrito. preciso de entrar em todos os cafés. nem no Source. — A Menina Ivich Serguine está? A mulher olhou o. — Vou ver — respondeu. — Desculpe — disse Mathieu. vamos subir devagar o Bulevar Saint Michel. Saiu. E estou com quatro horas de atraso!» Estava dobrado para a frente e apoiava fortemente o pé sobre o tapete para acelerar. Tem algum recado para ela? J E A N P AUL SARTRE — Não. não passou por aqui? — A Menina Ivich? Não. «Onde estaria? No cinema? Pouco provável. — Aconteceu lhe alguma desgraça? . nem no Biard.. à esquerda. Se o encontrar. O estudante tomava uma dose de vinho do Porto.

— Viu Ivich? Renata tomou um ar digno. Nem sequer pensava em proteger Ivich. Entrou na casa de discos. — Pare! Pare! Saltou do táxi e correu para ela. senão terei de correr todos os chás dançantes do Quartier Latin. a amiga italiana de Ivich. Mas afinal talvez estivesse simplesmente em Montparnasse. As mãos tremiam lhe. Espere um momento. — Adeus. Ao Tarantule. — Carrefour Vavin — disse. Estava com uma gente muito esquisita. voltando lhe as costas. — Bom dia. empurrou uma porta de couro e recebeu um golpe no estômago. O táxi deu a volta à Fonte Médicis. — Rua Monsieur le Prince. Deu alguns passos. Mathieu desceu. — O dancing? — perguntou.» . também me esqueci de lhe dizer adeus. enfiou as nos bolsos. E uma casa de discos. Sabe que ela reprovou. Devagar. creio. Encostou se à ombreira da porta e pensou: «Ela está aqui. — Obrigado. Subiu para o táxi. dançava.» — Pare. o dancing é na cave. Para onde é que ela foi? — Queriam ir ao dancing. Mathieu voltou para o táxi. «Oxalá ainda lá esteja. e Mathieu viu Renata. Viu Ivich? — Ivich? Vi. «E se ela tivesse tentado suicidar se? É muito capaz disso». fica a dois passos. pensou com fúria. — Onde é isso? — Rua Monsieur le Prince. depois voltou: — Desculpe. Desça a escada.— Como diz? — Estou a perguntar ao senhor se lhe aconteceu alguma desgraça. Saía do Luxemburgo com uma pasta debaixo do braço. sim. sentia apenas uma necessidade dolorosa e violenta de a tornar a ver. eu aviso. — Quando? — Há uma hora mais ou menos. sentiu um cheiro a mofo. — Não sei — disse lhe Mathieu. — Onde? J E A N P AUL SARTRE — No Luxemburgo. — Bom dia — disse. a desgraçada? — Sei. Ivich estava ali. É aqui. — Na cave.

pensou Mathieu. O belo moreno parecia achar a coisa muito natural. Uma luz coada saía dos lustres de papel oleoso. Ivich apontou o de barbas. — Quer beijar me. Era o jovem moreno e alto que estava com Ivich na véspera. O belo moreno olhava a firamente com um leve sorriso. o único à vontade. Mathieu reconheceu o. — E puxou a pelo braço. Mathieu sentiu se humilhado. — Desculpe — disse o de barbas com dignidade —. ameaçou. Alguém disse: «Ivich!» com uma voz docemente reprovadora. tinha um ar esquisito. Era. — Quero. segurando a pela cintura. Ria como uma louca. Acendeu um cigarro e disse. Envolviam na à distância com gestos redondos e ternos. escandalizados. Ele dançava bem. Beijarei Irma. com o olhar parado. autoritária. aliás. Ele respirava os cabelos de Ivich e de quando em quando beijava os. pesada e mole. surpreendida e lisonjeada. muito pálida. não prometeu. A rapariga pintada mostrava se reservada. Estavam sós no meio da sala. sem uma sombra. não — dizia agitando a mão diante do rosto —. Mathieu viu umas quinze mesas espalhadas sob a luz morta. não te beijarei. Os outros afastaram se. Um gira discos invisível difundia um paso doble e essa música em conserva tornava a sala ainda mais nua. de olhos fechados. — Pois bem. Estava de pé. vem. Os cactos estavam inchados como bolhas. Ivich apoiava a cabeça no ombro do seu par e colava se a ele. Os estudantes rodearam na e fizeram lhe uma festa.Era uma sala vazia. Ela afastava então a cabeça e ria. pensativa: — Olé! Ivich deixou se cair numa cadeira entre a rapariga e um lourinho de barba. «reconhecem lhe o direito de se sentar ao lado dela». «Fantástico». Para aquele rapaz elegante. Nas paredes tinham pregado papéis multicores que tinham forma de plantas exóticas e os quais já se estavam a despregar sob a acção da humidade. Ivich? — disse a rapariga. Esperava. no Bulevar Saint Michel. — Não. nada de álibis! O de barbas levantou se atenciosamente para dar lugar ao dançarino moreno. No fundo quatro rapazes e uma rapariga muito pintada batiam palmas e gritavam «Olé!» O tipo alto e moreno reconduziu Ivich à mesa deles. enquanto ele lhe sussurrava ao ouvido. ao mesmo tempo empertigado e familiar. — Foge porque eu prometi beijá lo — disse a sorrir. Ivich não passava de .

decepcionada. já estava nua diante dele. Finalmente agarrara lhe no rosto entre as mãos e beijara a na boca. Na rua largou a.uma presa. — Isso é verdade — afirmou Ivich desgostosa —.. Ela pestanejou e olhou em volta. Ivich tornou se pesada. — Menos eu. Mas repeliu a violentamente. — Ivich! Ela olhou o.. — Sabe — disse o de barbas —. Ivich — disse o dançarino —. ele adivinhava lhe os seios. — Quer voltar para casa? — propôs Mathieu.. Mathieu viu uma crosta avermelhada com pequenos pontos brancos de pus. Ivich. menos eu. Mathieu sacudiu se bruscamente e avançou para Ivich. que é um pulha. Ivich voltou se para ele e disse: — Menos este. — Quero sentar me aqui. são uns verdadeiros pajens. — É um demónio.. — Leve me daqui. — Eu peco lhe. — Ivich! Ela sacudiu os caracóis. as coxas.. — Quero sentar me aqui. Olhava a com ar cúmplice. Mathieu colocou se diante da mesa. A Ivich ergueu se subitamente e olhou Mathieu com um ar sombrio. Tomou a pêlos ombros e conduziu a. Ivich fizera mil trejeitos antes de beijar a rapariga. estou a achincalhar me. e ele ficou a duvidar que o tivesse reconhecido. Não se debatera. Percebera pela primeira vez que a desejava vergonhosamente através do desejo de outro. Ouviu atrás dele um ruído de consternação. — Não — gritou Ivich. — Es tu — disse. Arrancara o curativo. contente. Ela pôs se a rir e levantou a saia acima do joelho. Mas ela ergueu a mão esquerda e apontou o. — Olha. não a fizemos beber. Tinha as pernas moles. — Venha — disse Mathieu docemente. No meio da escada. — Onde está ele? . — Cheiras a borracha — disse com asco. ele despia a com um olhar sensual de amador. Mathieu agarrou a pela cintura e empurrou a. o cheiro da carne. — Ela arrancou o contra a nossa vontade — desculpou se a rapariga. melancólica. de boca aberta. Os rapazes entreolharam se. — Quer ir para a casa de Boris? — Ele não está em casa. — Conservaste o teu — disse Ivich. — E verdade que és prudente. quisemos até impedi la..

— Vou mandar parar numa farmácia. Um cheiro azedo de vómito exalava da sua boca tão pura. — Chegámos — avisou. sombria. encheu o e fingiu estar absorto.. Mathieu conduziu a devagar pela escada. — Tenho vergonha — disse. Mathieu desceu primeiro e deu lhe a mão para a ajudar. Depois de um instante a tosse cessou. estenda se e feche os olhos. Ela olhava o com uma expressão neutra. — Poderá deitar se no sofá e eu farei um pouco de chá.. Mathieu viu as costas magras sacudidas pêlos vómitos. — Mas a cabeça dói me. — Estou doente. fui reprovada. — Rua Huyghens. Levou a até ao táxi. Você é que deve saber. chegaremos num instante. dei um espectáculo. hostil. \ mas ela recusou e saltou com vivacidade para o passeio. Ele pagou ao motorista apressadamente e voltou se para ela. tirou o cachimbo. — Para onde quer ir? — Sei lá. tinha medo de que a porta se abrisse. 12. — Eu estava à sua procura e encontrei Renata. já que me trouxe de lá. — Levo a para a minha casa — explicou. Só mais um andar. De repente ficou verde e pendurou se na janela. Ivich não protestou. Subiu com dificuldade para o automóvel e atirou se para cima da almofada. Ivich tornou a encostar se na almofada e Mathieu guardou o cachimbo. Andei com aquela gente imunda. Mathieu encostou se para trás. — Agora lembro me de tudo. — Não se sente bem? Estava lívida. — Então. — Cada degrau é uma pancada — disse ela. — Ivich! — Tudo.— Sei lá. E. No segundo patamar parou para tomar fôlego. Ivich disse subitamente: — Como me encontrou? Mathieu inclinou se para enfiar a chave na fechadura. — Está melhor? — Já não estou embriagada — disse Ivich. Estendeu o braço e segurou o trinco. — Bem — disse. Mathieu respirou apaixonadamente esse cheiro. — Venha. Ivich gemeu um pouco. Ivich ergueu se com dificuldade. — Não — disse violentamente. Subiram em silêncio. Ivich resmungou . Mathieu reflectiu.

J E A N P AUL SARTRE — Quer chá? — Estou com frio. — É a sua casa? —É. Ivich fechou os olhos e pousou a cabeça na almofada. Mathieu pegou numa chaleira eléctrica e foi enchê la na torneira do lavatório. A água pôs se a chiar na chaleira. — Pus água a ferver — disse.» Mathieu levantou se e foi devagarinho ver se a água estava a ferver. Mathieu foi buscar uma coberta e estendeu a sobre as pernas dela. A fronte estava lisa e pura. Era tão fraca e tão leve sobre o sofá. Pusera toda a sua esperança numa criança. não podia auxiliar ninguém. passariam um Inverno ou dois e surgiria um tipo — um jovem — que a levaria consigo. precisava antes de auxílio. — Vou fazer chá — disse Mathieu —. Três pequenas rugas verticais sulcavam Ihe a fronte. Viu as nos olhos de Ivich e teve vergonha. Depois voltou e sentou se junto de Ivich.atrás dele: — Estava à espera que viesse. Ela roçou o ao passar e ele teve de apertá la nos braços. No armário descobriu metade um limão já seco. Dormia. afastando se. embrutecer se ia lá. — Mas você não sabe fazer chá. Deite se. Pô lo em cima de uma bandeja com duas chávenas e voltou ao quarto. Endireitou os cabelos com a palma da mão e ergueu se . quer? — Chá? — indagou Ivich. Olhou as poltronas de couro verde e a mesa de trabalho. uma promessa de desgraça. Olhou em volta com um olhar morto. pensou. Ivich não respondeu. Sofria. Ivich deu alguns passos incertos e entrou no quarto. e Ivich abriu os olhos. «Como é jovem». Mathieu puxou uma cadeira junto do sofá e sentou se sem ruído. Era a primeira vez que a recebia no seu apartamento. — Entre — disse Mathieu. As três rugas tinham desaparecido. «Eu casarei com Marcelle. Olhava com ternura o corpinho doente e maculado que permanecia tão nobre no sono. dir se ia uma maldição pregada no horizonte. perplexa. nem um matiz especial dos seus sentimentos. não era uma emoção específica. Ivich atirou se para o sofá sem dizer uma palavra. mas bem apertado talvez se arranjasse ainda uma gota. — Quer chá? Ela não respondeu. ela sorria. — Aí está o sofá. pensou que amava Ivich e admirou se: não parecia amor. Ivich partiria para Laon. E Mathieu não podia auxiliá la.

é como se o dia tivesse terminado. fechou as persianas e as cortinas pesadas. Boris queria. — E noite — disse Ivich. Não espero ninguém. — Dê me o pacote do chá — disse —. — E preciso esperar um pouco — disse.. encantada. — Não — atalhou Ivich. E depois aquela gente toda! Um pesadelo! Aqui é feio. — Como é suave. podemos sair. é a sua última noite do ano? — Ah! — respondeu ela irónica —. Mas preciso de um samovar. Pôs a água no bule e voltou a sentar se. — Não gosto do seu apartamento. se vier alguém. — Então tem de lhes comunicar. — Ficará aqui quanto tempo quiser. acrescentou: — Quero J E A N P AUL SARTRE que seja noite quando sair. Estou contente aqui. Calaram se. Mathieu olhava a cabeça baixa de Ivich e os seus ombros frágeis. Mathieu levantou se.esfregando os olhos.» — Quando parte? — Amanhã. do ano!. mas não deixei. Telegrafou aos seus pais? — Não. — Como queira.. Há um comboio ao meio dia. Todos esses cafés giravam em torno de mim. chá de Ceilão! Enfim. — Ir aonde? Não. Depois disse. mas calmo. Parecia lhe que ela o abandonava aos poucos. porém mais animada. Passou a ocupar se da chaleira. entregando lhe o pacote de chá. Acendeu a lâmpada da secretária. . Foi buscar o bule à cozinha. deixaremos que toque. tenho medo de voltar a ver o dia. Não poderia fechar as cortinas? Acenderíamos a lâmpada pequena. Mathieu ficou um momento sem falar. Encostou se às almofadas do sofá. Se estiver melhor. — Detesto isso. — Já o sabia. controlando a voz: — Eu acompanhá la ei à estação. E depois estarei exausta. Estava ainda sombria. Houve um silêncio. tanto pior. Estou inteiramente livre. — Então — disse —. não abriremos. Aliás. Pensou com rancor: «Que espere. — E o bule? — É verdade. — Depois de uma ligeira pausa. — Só tenho uma chaleira — respondeu Mathieu. Marcelle esperava o às onze horas. você mesma? Ivich baixou a cabeça: — Tenho. — Obrigada. vou fazer chá à moda russa. Detesto as despedidas moles que se esticam corno borracha. — Não era verdade. — Oh!.

Será pior. não deve. isso divertir me á e eu farei economias. você vai partir amanhã. você viverá em Paris. se quisesse. não é absolutamente impossível.. J E A N P AUL SARTRE — Não. você há de voltar. e Mathieu acrescentou: — Terei algum dinheiro. Você detesta Laon. Ivich não parecia compreender. sairei simplesmente da cabeça deles. Vão desinteressar se de mim. ouça. mas dou lhe a minha palavra que voltará. Tudo o que toca Laon fica sujo. Em fins de Outubro. — Ivich.. — Não. — Ah!. já lhe disse que sou incapaz de aprender um ofício. — Não me olhe assim. Ivich afundara se no sofá e olhava por baixo com uma expressão má. Mas não é possível que lhe estraguem a vida para a castigar por ter fracassado uma vez. — Pois bem.— Ivich.. aliás.. A — Não os conhece. Subitamente o sangue subiu lhe ao rosto. \ — Há um novo exame em Novembro. — Não quero. — Não. surpreendida e cansada. se você. aborrecida. Ivich. Ivich encolheu os ombros.. os seus pais não podem. se me permitisse auxiliá la. Ivich! — Ah!. — Não se deve resignar dessa maneira.. não sei como estou a olhar. Pois irei este ano.. Mathieu atreveu se a erguer os olhos para ela.. — Não pensarão em castigar. Não sou capaz de aprender um ofício e prefiro passar o resto vida em Laon do que voltar a fazer esse exame.. Voltou se para ela e murmurou sem a olhar: — Ouça. — Mas não tem nada que arranjar. mas não se sentia tranquilo. Odette e Jacques convidam me sempre para passar o mês de Agosto em Juan les Pins e eu nunca aceitei. Baixou os olhos e continuou: — Quero ir dormir. Não recuse sem saber. sem pensar. — Há de se arranjar? — indagou Ivich. o que mereço. Daqui até lá hei de me arranjar. durante as férias eu farei economias. mas um dia terei de ir. Como encontrar palavras que não a ferissem? — Não é o que queria dizer. Ouça. Não diga que não. Irei visitá la a Laon. — Detesto! Mathieu levantou se para ir buscar o bule e as chávenas. alarmado.. será um empréstimo. só sei que estou com dor de cabeça — disse Ivich. de modo nenhum — disse Mathieu com calor —. É. você . — Não diga isso — atalhou Mathieu. Isso não pode aborrecê la. Interrompeu se. é isso? Observou secamente: — Totalmente impossível. Eu arranjarei dinheiro.

Com os meus pais não preciso de ser grata.. — Disse me no mês passado que o dinheiro era uma coisa aviltante com a qual as pessoas não se deviam preocupar. Vai arrepender se de ter recusado. há de lamentá lo todos os dias. Mathieu via lhe apenas o alto da cabeça. — E tem motivos para aceitar o deles? — Não quero que sejam generosos comigo. A Era possível vencer Ivich pelo cansaço. porque é que não aceita? Ela murmurou finalmente. — Porquê? Não aceita o dos seus pais? — Não é a mesma coisa. Disse me mil vezes que os odiava. Darei lições. não é. Enterrou o rosto nos cabelos.» — Ivich. um bocadinho da nuca entre os caracóis J E A N P AUL SARTRE e a gola da blusa. — Ivich! Ela continuava calada. — Ivich. mudando de tom todas às vezes. sem erguer a cabeça: — Não quero o seu dinheiro. para isso era preciso espicaçá la com perguntas. Você dizia: «Não me importa de onde venha. aborrecido e infeliz. — Porque é que não aceita? Diga. Pense na existência que terá em Laon. com doçura. Mathieu permanecia em frente dela. vai dizer me porque é que não aceita. todas as horas. . que orgulho é esse? Não tem o direito de desperdiçar a sua vida por uma questão de dignidade.. e Mathieu acrescentou vivamente: — Ou então paga me Boris. corrigirei provas. não a largarei enquanto não aceitar. — Que é que está a dizer? Olhara o com um ódio frio. — Efectivamente. Ivich fez um gesto. contanto que o tenha. Ivich não respondeu. — Ah!. Ivich alterou se: — Deixe me! Deixe me! Acrescentou em voz baixa e rouca: — Que suplício não ser rica! Em que situações abjectas uma pessoa se mete! — Não a compreendo — disse Mathieu.» Ivich encolheu os ombros.há de reembolsar me quando ganhar a sua vida. A nuca era mais escura do que a pele do rosto. Mathieu pôs se a andar de um lado para o outro. responda. Porque não responde? Ivich continuava calada. — Não tenho motivos para aceitar o seu dinheiro. Mathieu perdeu a paciência. — Não foi isto que disse? — Não quero que me dê dinheiro. — Ivich. então é porque sou um homem — disse com um riso nervoso. Pensava: «Ela vai aceitar. Teve vontade de lhe pegar no queixo e erguer lhe a cabeça à força.

Depois.. Podem ou não acreditar. com a boca entreaberta. Basta vivê lo. Ela olhava o arqueando as sobrancelhas. «Pronto!» Mas não estava ainda sossegado.. e pouco me importa. quer dizer que. tenho vontade de a ver. subitamente.. mas não chego a acreditar. Não se atreveu a olhá la. é por egoísmo que me ajudaria? — Puro egoísmo — disse Mathieu. — Nesse caso isso é consigo. — Não gostaria de falar nisso. sei que estarei lá amanhã à tarde. Mas foi apenas um . num tom estranho: — Quer. Mathieu pensou nas cartinhas secas de Boris a Lola. digo sim. Levantou se. Estava escuro como café.. desviando o olhar: — Não posso suportar a ideia de não a voltar a ver... há de morar onde quiser e fazer o que lhe agradar... Houve um silêncio.. — Mas se voltar.— É grosseiro.. — disse ela — isso é uma utopia. — Que vai dizer aos seus pais? — perguntou para a comprometer ainda mais. Eu e Boris ajudá la emos. Vamos toma lo. o quarto. Disse me que gostaria de estudar Filosofia. é tudo. — Então? Pense nisto: pela primeira vez na sua vida seria totalmente livre.. Afinal tem razão. Ivich continuava com um ar aborrecido. pois poderá tentar. — Tenho de lá ir — disse ela.. Quero poder imaginá la em Laon. porque quer dar me dinheiro? Mathieu hesitou e depois disse. Ao passo que Laon. talvez — murmurou com indiferença.. e Ivich perguntou. Que o dinheiro venha de um lado ou de outro. Nem sequer imagino.. pareceu acalmar se. Nunca pensei nisso. — Então. — Não tenho pena de si.. Tocou na garganta com o dedo. — Eu hei de escrever lhe — disse Mathieu.. — Então. Digo não. Sempre fui insuportável para consigo e agora você tem pena de mini. Encheu as chávenas. — O chá deve estar pronto. — Porque deseja fazer me bem? Nunca lhe fiz bem. — Oh!. Mathieu esforçou se por esconder a sua irritação. — Qualquer coisa. — Eu também — respondeu ela —.. Que importa... se não são eles que pagam? Baixou a cabeça com um ar sombrio. — Sinto o aqui. secamente —. Mathieu respirou. Está tão longe.. mas não sei o que lhe hei de dizer. — Vai descrever me a casa. Tenho que fazer a noite inteira. Mas tenho de fazer as malas.

Olhou as mãos de Ivich. alegre: — Falaremos disso mais tarde. Acabavam de tocar a campainha. J E A N P AUL SARTRE as unhas vermelhas e bicudas. Esperava que Ivich não tivesse ouvido. . Há vinte dias que está em Paris e já se meteu numa quantidade de negócios escuros. não é razoável. Disseram me: um amigo de Gomez. é Ivich Serguine. Sarah também. Os olhos pareciam inundados de bondade. — Cheguei tarde. sabe. Como passou? Ivich levantou se e fez uma espécie de reverência. estou com. aliás. não posso. Não disse nada. querem ver me urgentemente. Sarah. rindo com os dentes estragados. Sarah empurrou o amavelmente e espreitou por cima do ombro de Mathieu. sim — disse Ivich com voz clara. — Quem está aí? — perguntou corn uma curiosidade sôfrega. espantado. No horrível tailleur verde. — O que me fez correr. Parecia decepcionada. — Bom dia — disse com vivacidade —. Não encontrei Waldmann. — Abrimos. Venha tomar uma chávena de chá. não. Era Sarah. — Não tocaram? — indagou ela. Pensava: «Tem horror de parecer minha cúmplice. os cabelos despenteados e a sua expressão de bondade doentia. Só às seis horas é que lhe pus a vista em cima. arquejante. Vá abrir. Ele recusa. más notícias para si. — Lá está Mathieu a fazer me olhinhos feios — disse. Voltou se para Mathieu. — Meu pobre Mathieu. Mathieu estremeceu. obrigado. — Não. cheirava a catástrofe. — Bom dia — falou ela. Sarah riu.. os pulsos magros e pensou: «Vou tornar a vê la. — Ainda não sei. — E muito boa.. — Não quer que eu lhe fale de regime.instante. Ela olhou Mathieu com ternura. Nem sequer pus o chapéu. — Aposto que não come bem. chegou um amigo de Gomez.. Mathieu pôs um dedo sobre os lábios.» — Que chá esquisito! — disse Ivich. — Quem? — perguntou Mathieu para ganhar tempo. E Mathieu acrescentou.» Abriu a porta. — Já dissemos que não íamos abrir. Mathieu dirigiu se para a porta. — Talvez seja importante. preciso de ir à Livraria Espanhola. Mathieu colocou se diante de Sarah e olhou a fixamente. Mathieu olhou a. Vem de Madrid. — Como está magrinha — disse Sarah. Ivich era a única pessoa que Sarah não suportava. — Ah!.. O ministro disse me que me tinha telefonado e eu vim.

E viu acender se lhe nos olhos algo que se assemelhava a um clarão de consciência. — Bem — disse Mathieu. Explicou a Ivich. mas Sarah queria justificar se. quero saber. Mathieu voltou a andar de um lado para o outro. meneando a cabeça: — Que vai fazer? — Não sei. — Adeus. Então disse: «Não dou crédito. — Não tenho nada com isso. Estava triste. Não se atrevia a olhar para Ivich. adeus Sarah. eu compreendo o.. Mathieu contemplava as pesadas cortinas verdes.. mas sabia que ela o olhava. dos campos de concentração.. — Não vale a pena — disse tristemente. Estava com frio. Disse que não. — Entra. Falou me dos judeus de Viena. — Não tenho quase nada a dizer. As palavras saíam com dificuldade. Calou se e fez se um silêncio pesado. Quando Sarah saiu. Foi sentar se ao lado dela e disse sem a olhar: — Ivich.. Se quer que eu opere. Martirizaram nos. J E A N P AUL SARTRE — Fiz o possível. — Meu caro Mathieu — disse Sarah. que pague. Telefone amanhã sem falta. Mathieu encolheu os . minha senhora — disse Ivich. de cabeça baixa: — Ela disse me anteontem que está grávida. desconcertada.» Mathieu ouviu o sofá ranger. Mas Sarah não via nada. — Não se fala mais nisso. Acentuou as últimas palavras. Nada. — Bem — disse ela ao fim de um momento —.» E é verdade. — Não sei porque me está a dizer isso — observou ela com uma voz gelada. vou casar me com Marcelle. A Fez se silêncio. Aliás. supliquei. no quarto. — Está bem. fizeram nos sofrer de mais. ele perguntou me se ela era judia. e sai como um golpe de vento. há muitos médicos em Paris. — Esta mulher é um vendaval — disse a rir. Mathieu teve forças para dizer: — Deseja sem dúvida falar me particularmente? Franziu as sobrancelhas repetidas vezes. Ele olhou a duramente e ela calou se. Eu não podia acreditar. acho que vai acabar assim. — Penso — disse Mathieu tristemente —. vou me embora. Ivich não respondeu. Sarah continuava: — Disse ainda: «Nunca mais lhes fio. comovida. É preciso que a pessoa em questão esteja lá amanhã com o dinheiro.— Hem? Ainda assim. Insisti o mais que pude. — Não pensa em. Mathieu sabia que ela não responderia. derruba tudo. Continuou.

— Bem percebi — continuou Ivich. — Vê la ei em Outubro? Saíra lhe sem querer. — Ontem de manhã. Uma luz suja filtrou se através das persianas. — Em Outubro! Ah! Não. — Ainda não. Sentia uma raiva desesperada subir dentro dele. Já compreendi. pensei: «São modos de homem casado. — Aliás. Nem tem o suficiente sequer para o casamento. sem dúvida. Você é que sabe o que deve fazer. — Ivich! — gritou Mathieu pegando lhe no braço. — De qualquer maneira vou me embora.. — Procurei por toda a parte. foi para isso.. — É sórdido — disse Ivich com uma voz neutra..» — Chega! — disse Mathieu com dureza. Nunca pensei em aceitar o seu dinheiro. Hesitou e continuou como se estivesse distraída: — Não sei porque está tão abatido. — Era sua amante? — disse Ivich com arrogância. — Em Outubro? — disse ela com um olhar faiscante. Se casa é porque quer.. Mathieu largou a. mas está com um ar tão cómico. — Não precisa de insistir.. Segundo me disseram. quando se atreveu a tocar me. — Até breve.. — Está escuro? Mathieu foi à janela e levantou as cortinas. Acabou de tomar o chá e perguntou: — Que horas são? — Nove menos um quarto. Ivich teve um estremecimento violento.. — Mas sabia que ela. arquejante. não tenho nada com isso. — Largue me! Não me toque.. J E A N P AUL SARTRE — Não faz mal — disse Ivich levantando se. — Foi por isso que encarregou Boris de pedir cinco mil francos a Lola? — Eu não.. Depois riu se. — Não tenho dinheiro — disse Mathieu. até breve — disse Mathieu. vermelha de ódio e com um sorriso . há muitos meios de. Tenho de fazer as malas — gemeu. Não tinha vontade que ela ficasse. — Desculpe. — Pois é.. Ela pusera se diante dele. — Não me preocupo muito com essas coisas..ombros.. pois bem. — Então. Ivich gritou e desenvencilhou se violentamente.

«Só faltava mais isto». esbarrou no passeio e caiu no chão. As palmas das mãos ardiam lhe. J E A N P AUL SARTRE Uma rua comprida e direita: atrás dele um quarto verde. A direita estava preta. como se estivessem com frio.. e pensava: «Dizer que me levava a sério. café por café. — Cretino! Mathieu atirou se para a frente a fim de evitar o automóvel. Precipitou se para a saída empurrando a e bateu com a porta atrás de si. Olhou com gravidade as mãos sujas de lama. Ele teve medo de si próprio. diante daqueles primeiros fogos vermelhos. para sempre! Muitos atiram se à água por muito menos. montra por montra. de Ivich. Depois deu uma gargalhada. das suas miseráveis paixões. As pessoas esperavam a noite ouvindo música. «só faltava mais isto».insolente. não havia razão para rir.» Deixou de rir. Ria de si mesmo. O corpo volta a marchar arrastando os pés. a lama sujara lhe a ligadura. jamais tu ne sauras. Recordava as antigas esperanças e ria porque tinham dado naquilo. com uma curiosidade divertida. ardores de raiva na gar DADE DA RAZÃO . de Marcelle. tu ne sais pás En vain je tends lês bras. uma mulher imóvel esperava o cheia de esperança. * XVI TH ne sais pás aimer. Caíra sobre as mãos. Durante um segundo ficou suspenso. uma conscienciazinha cheia de ódio repelia o com toda a força. por aquela gratidão. — Que chatice! Levantou se. molhou o com saliva e esfregou as mãos com uma espécie de ternura. com arrepios. Tinha vontade de chorar. depois de uns momentos. Dentro de uma hora entraria escondido naquele quarto cor de rosa e deixar se ia envolver por aquela doce esperança. da ridícula queda. naquele homem grave que quase chorava porque dera uma queda. Olhava se sem vergonha. tu ne sais pás Jamais. M. e murmurou seriamente. Dentro em pouco a renda luminosa da noite estender se ia sobre Paris. com alguns arranhões. Para toda a vida. fria. Diante dele um quarto cor de rosa. Tirou o lenço. Uma multidão desocupada agrupara se nas mesas da esplanada. Tu ne sais pás aimer. por aquele amor./ L contornou a multidão lírica: a doçura crepuscular não era para ele. da vida. Um vazio. O Café dos Três Mosqueteiros brilhava com todas as suas luzes na noite ainda indecisa. pesado e quente. olhando espantado. A esquerda doía lhe. pareciam felizes e juntavam se ali.

em paz consigo mesmo. viu o perfil magro e duro de Ralph e as suas mãos puseram se a tremer. havia uma porta fechada. No espelho. Perto da janela que dava para o telhado. intactas. O corpo vira à direita. Massas sombrias arrastam se a ranger.» Demorou se a dar o nó na gravata. Não sabia que Daniel o podia ver. Ralph voltara a cabeça para o lado do espelho e olhava para Daniel com um estranho olhar. todos os miúdos cantos de cigarra se dissiparam no ar. uma folhinha e um pequeno espelho já manchado de ferrugem. e começou a dar o nó na gravata. Entre as flores. uma transparência desliza e se contempla com uma paixão gelada. Havia outrora um futuro de homem que se interpunha entre elas e que elas reflectiam num leque de tentações diversas. um ódio requentado. O futuro morreu. entre a fotografia de Marlene Dietrich e a de Robert Taylor. que parecia ter vinte anos. montras. a morte infame que merecia. abaixando se ligeiramente. As coisas ficaram ali. «Dentro de uma hora. Ao nível dos olhos. aqui esta chave chata. todas as pequenas solicitações quotidianas. «Cara de assassino». As rugas esvaziaram se como por um buraco de esgoto. Eram os únicos objectos do mundo. Mathieu encontrou se no meio da Rua Départ.ganta e no estômago. Entre eles não havia nada a não ser um monte de obstáculos e distância. Elas calam se. «Um dia um tipo como este liquida me à traição. aquilo purificava o. O quarto era um . Mas já ninguém o habita.» Uma hora. Mathieu andava com um passo regular. No fim do mundo. Daniel aproximou se. Ralph continuava a olhá lo. Posso ir a pé. pensou Daniel com um arrepio. e Daniel gozava aquele ódio que os unia. entre blocos de gelo riscados por clarões. sobem do chão como absurdos meni res. o tempo de chegar até à porta e abri la. mas o molho desfez se. mergulha num gás luminoso a dançar no fundo de uma greta imunda. com autos. quase apagado pela penumbra e a sujidade. aquilo que ainda há pouco as enchia desapareceu.» O rosto avolumar se ia no espelho e seria o fim. para além dos edifícios e das ruas. além dessa hora não havia nada. caem do céu como enormes estalactites. talvez de prazer.» J E A N P AUL SARTRE A lâmpada iluminava mal. «Irei buscá las. Voltou se. Mas não era o mesmo mundo nem exactamente o mesmo Mathieu. «Está humilhado o macho. Tirou da carteira uma chave. e Ralph baixou os olhos vivamente.» O mundo reformou se. pessoas. sentia se mal e sereno. tinha pressa em acabar de se vestir. atrás dele. «E se Lola tiver ficado na cama?» Pôs a chave no bolso e pensou: «Que importa! Pego no dinheiro mesmo assim. no fundo da fenda. odeia me. flores peludas balançam. Tinha vontade de apertar aquele pescoço fino com a maça de adão saliente e de esfrangalhá lo entre os dedos. Lá longe aquela porta fechada. barulhento e activo.

chateado. antes da madrugada! Não se deitaria. Fez um movimento irritado para dar o laço no sapato do pé esquerdo. agora. Dentro do jarro havia uma toalha sujíssima. depois de um silêncio: — É mais cómodo. Não é da minha conta — explicou Ralph. hesitou. — Nós lavamo nos no lavatório do corredor — disse Ralph. — Bom. — O teu quarto é terrivelmente quente! — E mesmo debaixo do telhado. e pensava apreensivo no peso do casaco que lhe ia colar a camisa de linho contra a carne húmida. — Não lhe vou dizer nada. acabam de soar. — Se foi o Sr. calçava os sapatos inclinando o busto. os braços jovens e musculosos que saíam de uma camisa Lacoste de mangas curtas. Ele veio dizer me hoje de manhã que ia pedir desculpas. não é a mesma coisa. Tinha os ombros e o peito inundados de suor. «Tem uma certa graça». No momento de vestir o casaco. — Que horas são? — Nove. Ele é assim. Daniel enxugou cuidadosamente as mãos. Mas tinha horror àquela graça. era muito mais penoso. Vocês não parecem muito amigos da água. mas não teve coragem. Sorriram ambos com desprezo. — Eu não quero coisa alguma — disse Daniel — e não lhe disse para pedir desculpas. que era o senhor que queria. Sr. — Nunca houve água neste jarro.forno. não parecia muito franco. A Explicou.. e pronto! Mas bem sabia o que o esperava lá fora. Lalique quem te aconselhou. Daniel contemplava o dorso magro. — Veja dentro do jarro. Ralph ergueu a cabeça: — Queria perguntar lhe. Lalique. estaria lá fora. foi o senhor quem aconselhou Bobby a voltar para a farmácia? — Aconselhou? Não. Daniel quis vestir o casaco. J E A N P AUL SARTRE — Eu disse lhe: faz o que quiseres.. com o joelho direito erguido. — O farmacêutico? . Mas há um a quem eu deitarei a mão quando o apanhar. Só lhe disse que era asneira tê la deixado. mas estou a ver. Dentro de um minuto. pensou com imparcialidade. Precisa sempre de mentir. — Não tens uma toalha? Tinha as mãos húmidas. Sentado à beira da cama estreita. Quando se deitava depois. Dez horas ainda.

— Mijava sangue — continuou Ralph. Havia uns a olhar. os olhos brilhavam lhe. e um muito alto que eu já vi consigo. — Vou chegar de mãos nos bolsos. — Eh!. Ralph estava vermelho. Calou se. não disseste nada? Pois toma. Parecia um insecto. o pai de família. Apetecia lhe espancá lo. — Uf! Uma rasteira e estatelou se no chão. Tinha necessidade de fazer gestos vivos e bruscos. «Estás me a conhecer? Estás? Então ouve. Ele sabe. coberto de glória. sinistro e arrogante. Voltar para aquela casa! Mas eu vou esperar o gajo à saída. Depois todos falam em quebrar a cara a alguém. — O estagiário? — Sim. O tipo novo. Era Bobby. Daniel sorriu com insolência. Ele saiu: «Queres ensinar a viver a um pai de família?» Foi o que ele disse.» E zás no estômago. era o que ele dizia. Que é que foste dizer de mim. hem! Acabarás por te espetar. — «Ah!. com um arzinho de poucos amigos. talvez seja ele que te liquide. Queria me pôr fora. Voltou se sobre os pés mostrando as nádegas duras. Mas não o velho. E Corbin do matadouro. Mandei lhe uma! Um murro no olho para começar. Daniel olhava o.— Sim.» Todos menos Bobby. «Vens cá para fora». — A brincar aos heróis. naturalmente. que era uma fêmea. mas achava humilhante que Ralph tivesse dominado um homem de trinta anos. Daniel sentiu se cheio de ódio. Sorriu maldoso. Ralph riu também e aproximaram se um do outro. Comprazia se no seu ódio. Já não sabia onde estava. — Pode vir. Daniel não soube resistir ao desejo de o humilhar ainda mais.» — «Não disse nada. Um camarada de trinta anos e com braços assim. Pensava: «São todos iguais. — Ele? — Ralph riu maldosamente. — Pergunte! Pergunte só! — disse Ralph. magoado. Em cheio. e de passagem limpei Ihe o focinho com o cotovelo: assim. disse eu. as orelhas estavam vermelhas. pensou Daniel. — E tu desfizeste o. moldadas pelas calças azuis. vai ver. (E Daniel deu . Não acreditava muito naquelas histórias. com uma irritação irónica. Levantara se imitando as fases da luta. Atiro o ao chão. Pôs se a rir. O que foi dizer de Bobby e de mim! Bobby não tem vergonha. «Eu mato o». Esse estupor. — Não são os maiores que são os mais fortes — disse. Ralph entusiasmara se. hem! Que é que foste contar? Ah!. — E tu? Vamos lá ver se tens força. não disse nada». — Então — continuou Daniel —. Pergunte só ao empregado do Oriental. salto lhe em cima e bato lhe com a cabeça contra o passeio. não tens medo de ninguém. hem? Não tens medo de ninguém.

) Vamos lá ver se tens força. está a querer de verdade — disse Ralph num tom estranho. Daniel desviou se e agarrou o pela nuca. Ficaram assim uni bom momento. Ralph estava de pé. claro — disse ele com voz sibilante. Vestiu o casaco. — Vou mostrar to. Daniel contemplava o. tentou arranhá lo. — Quem ganhou. Era belo. — Está mesmo com vontade? Atirou se subitamente sobre Daniel. generoso. mas Ralph resistiu. — Questão de treino.» Empurrou Ralph com toda a força. Tentou rir. Estava arquejante e humilhado. atirou o para a cama e caiu em cima dele. impotente. O coração batia lhe como se fosse estourar. Lalique é forte. Uma raiva louca invadiu Daniel. Daniel largou o e pôs se de pé. Ralph estava pregado na cama. Daniel tinha vontade de agarrar Ralph pelo pescoço e encher lhe a cara de socos. A brincar. mas Daniel segurou lhe os pulsos e apertou lhe os braços sobre o travesseiro.» Baixou se de repente e pegou Ralph pêlos rins. Juntaram se de novo e principiaram a girar no meio do quarto. Adeus. mas os olhos faiscaram Ihe de raiva. Estava sem fôlego. Encontraram se novamente um diante do outro. levantou o. Daniel demasiado cansado para se levantar. Ralph debateu se. Lutavam em silêncio. — Bom — disse —. a camisa molhada de suor colou se lhe à pele. — O fôlego não é nada — disse. menino. Daniel agarrou o pela cintura. arranjava o colarinho da camisa e não arquejava. — Gentilmente. — Já fui forte — disse. satisfeito. e Daniel começou a arquejar. «Tenho de acabar com isto ou então ele vence me. sorridentes e raivosos. Ralph abriu a boca espantado. A — Quem ganhou? — perguntou Daniel ainda arquejante. Daniel sentiu um gosto áspero e febril no fundo da boca. pensava: Estou a ser ridículo. mas desviava os olhos de Daniel. — Consigo posso eu bem. esmagado sob aquele peso de homem. não ganhará. Ralph era duro e flexível. . Ralph não parecia nada cansado. Os olhos de Ralph estavam cheios de ódio. menino? Ralph sorriu imediatamente e disse com uma voz falsa: — O Sr. vou me embora. Tinha a impressão vaga de ser um tipo gordo e de bigode. Riram ambos. — Lutas bem — observou Daniel —. — Agora não tenho fôlego. — Ah!. mas Daniel enfiou lhe as mãos na cara e ele largou o.Ihe um empurrão. Ralph conseguiu erguê lo. mas há a diferença de peso. contrafeitos. de cabeça. de pai de família. Os músculos escorregavam nas mãos de Daniel.

— Escondi uma coisa para ti no quarto. — Pois é — disse aliviada. Parou. Mathieu pegou lhe rapidamente e enfiou a no bolso.° — disse Mathieu tranquilamente. «Que vou fazer da chave?» Hesitou. Mathieu ajoelhou se diante da maleta e abriu a. Não notara isso de manhã. O quarto estava escuro. Mathieu fez soar uma campainha surda.. Procura. que hás de encontrá la. Bolivar. antes de sair.» Olhava de viés pelo vidro da porta do escritório e viu uma sombra. A chave estava ali. depois das nove. — Estava a ver se a chave estava lá. Havia alguém. um pensamento veio lhe repentinamente. Caminhou sem se apressar até ao quadro das chaves. de lornhão. — Não pode avisar na caixa? «Bolivar. depois deu uma volta e dirigiu se para a escada. depois resolveu deixá la na fechadura da maleta. A mulher aproximou se do quadro. Fechou a porta à chave e avançou para a cama. Mathieu riscou um fósforo e viu .» Mas não teve medo. Era o toilette. e deixara a navalha aberta sobre a lareira. Uma porta abriu se atrás dele: «Vão chamar me. «vou lavar me dos pés à beça». pensou. Uma escuridão avermelhada que cheirava a febre e a perfume. Vi o senhor mexer no quadro das chaves — disse a mulher. A cama estava desarrumada e havia dois travesseiros ainda amassados pelo peso das cabeças. — Bom. Ao abrir a porta.. não queria roubar para ele. A princípio estendia os braços para se proteger contra os possíveis obstáculos.— Boa noite. «Antes de mais nada». desconfiada. Ao levantar se percebeu no fundo do quarto uma porta que não vira de manhã. — Eh! Aonde vai? — perguntou uma voz áspera. Como transpusesse o limiar da porta. ele não saiu. Barbeara se pela manhã. — Não está? — Não. Daniel desceu as escadas. Sentia uma vaga vontade de vomitar. no 3. No patamar do 3. Sr. tinha previsto isso. Parecia importante e mostrava se inquieta. com as pernas moles. Mathieu voltou se. Mathieu sorriu lhe. As notas que ele largara de manhã tinham caído sobre os maços de cartas. depois enfiou a chave na porta do 21 e abriu. mas já se acos tumara à escuridão.» — Vou ver o Sr. Abriu a. Era uma mulher alta e magra. Quarto 21. Mathieu pôs se a subir sem responder.° parou um instante. Lalique. O nome do negro era Bolivar. pensou: «Talvez liguem J E A N P AUL SARTRE só de noite. — Não saiu. — Aonde vai? — repetiu ela. Pegou em cinco. A porta fechou se. Uma possibilidade sobre duas.

Pensava. Passa o dedo pelo fio da navalha e sente na ponta do dedo um gosto ácido de corte. Sentia o olhar da mulher ferindo lhe as costas. Tinha vontade de rir. Agora apoia a mão na mesa. o fato cuidadosamente dispostos sobre as cadeiras. pesa apenas como um insecto na mão. que o mais difícil ainda estava por fazer: pôr a chave no lugar. O corredor estava vazio. as cadeiras estão inertes. A mesa está inerte.surgir no espelho o seu rosto avermelhado pela chama. No primeiro andar parou e inclinou se sobre o corrimão. flutuam na luz móvel. Sobe a escada a quatro e quatro. «Nada me ajudará. os vestidos de Lola. procura um socorro. minha senhora. a mão treme lhe. Saiu. Não. A mulher virou se e ele cumprimentou a: J E A N P A U L SARTRE — Adeus. o pijama. só ele vivo na luz demasiado azul. A navalha não ajuda. nem mais nem menos. Anda a passos largos. Pega lhe pelo cabo e contempla a. Morta a serpente. As coisas são servis.. até logo — respondeu ela. Manejáveis. Enfiou a chave na fechadura e fechou a porta. Está sozinho naquele cenário. Tem medo. Quando se voltou. Teve um risinho mau e saiu. Boceja de angústia e tédio. ela responde à pressão com uma pressão igual. . o barril de pólvora está no fim. Tem de decidir sozinho. é uma coisa inerte. — E no quarto andar — disse ela.» Os gatos arranham na cozinha. a boca seca. Depois desceu. Dá alguns passos no quarto. A minha mão fará tudo sozinha. Custa lhe a encontrar a fechadura. depositou a chave e saiu ruidosamente. A chama corre ao longo da mecha. Havia gente a subir a escada. divertido. nada o impede. Fez um movimento para voltar ao quarto. E o soldado respondeu: — É alto. de pernas moles. Dóceis. Tudo está inerte e silencioso.. mas ouviam se passos e risos. um sinal. a temperatura demasiado suave. Mathieu desceu sem fazer barulho. ninguém. o roupão. As ruas são azuis de mais. A chama corre ao longo da mecha. A minha mão é que tem de fazer tudo. A navalha está sobre a lareira. morre o veneno. Morta a serpente. O cabo é preto. Mathieu deixou os passar. A mulher estava perto da porta de entrada e de costas voltadas para o quadro das chaves. Tem muito medo agora. Dois gatos passam lhe entre as pernas. Nada o impede de resolver. — Adeus. Agora distinguia com nitidez os móveis. Mais ainda de tédio que de angústia. Arrepia se. depois largou o fósforo e voltou para o quarto. Só ele de pé. Pouco se lhe dava ser surpreendido. Contemplou se até que a chama se extinguiu. a lâmina branca. viu uma mulher com um soldado.

A minha mão fará tudo. vermelha. Pega na carteira. aquela poça vermelha no soalho não está ali. . flutua. Tem medo da mão. como se encontra de pé. Quero a. pesa lhe docemente na mão. desabotoar se com paciência. sobre a mesa. «Vamos!» Se pudesse encontrar se mutilado. Morta a serpente. Contempla fascinado a navalha. e a navalha na ponta. o quarto está docemente iluminado. Já não se odeia. Ainda tem tempo. A inércia da navalha contamina lhe a mão. Com a mão esquerda. Tem a noite toda para isso. Coloca o sobrescrito bem à vista sobre a mesa. tem a noite toda. Levanta se. depois a lâmina. se pudesse imaginar nitidamente aquela poça vermelha e aquele odor. aberta. de um modo suficientemente nítido para que se realizassem por si. 12. examina a. não deseja nada. que nojo! Se tens assim tanta repugnância.. Anda de um lado para outro. da nuca aos rins. sem saber como se levantou. É liso. unido. entre as pernas. toca na lâmina. sem que precisasse de fazer o gesto! A dor aguento a. Gira em torno da mesa sem despregar os olhos da navalha. A navalha. pequeno. o gesto de mictório. Passa a navalha para a mão esquerda. inerte. A navalha. a minha mão é que deve fazer tudo. com a braguilha aberta e viscosa. Pode estender a mão e agarrá la. Diz: «Vamos!» E um arrepio irónico percorre lhe as costas. o braço. Escreve: Senhor Delarue. Vai até à janela. a navalha brilha docemente. Nada. inerte. Salta para trás. Puxa as cortinas. a navalha está ali. Estende a mão. Tudo está inerte e tranquilo. Tira cinco notas de mil francos. Sim ou não.. o soalho. chamo a. carrega a fera no ventre. de manhã. Abre os dedos: a navalha cai em cima da mesa. A mão direita apossa se novamente da navalha. dura. inerte. A noite toda. Sozinho consigo mesmo. Nada mudou. Um enorme braço de estátua. Pega num sobrescrito. Mas é pré J E A N P AUL SARTRE ciso fazer primeiramente o gesto obsceno. Um gato desvairado rola pela escada com ele. A serpente ali está. A minha mão. Nunca será tarde de mais. olha para o céu. Em vão..o seu acto não é senão uma ausência. o gesto. Tem de se resolver.. acende a luz. cega. inerte. Olha para o soalho. A navalha está ali. Um corpo vivo e quente com um braço de pedra. Rua Huy ghens. ela chupa lhe o sangue. A navalha obedecerá. Com a mão esquerda. abre a porta e lança se escada abaixo. a navalha estará no chão. e o presente cai com a primeira gota de sangue. não há lugar para manchas. A temperatura é suave. Nada o impedirá de a agarrar. recta. É preciso um gesto. Mas é o gesto. ele sente a. Aquela flor vermelha entre as pernas não está ali. Contempla o soalho. põe o dinheiro dentro. Ficarei deitado no chão. gelado. Está rígida na ponta do braço. depois que o despertador toca. Um gesto. anda.

embebida num verniz grosso que se colava às mãos quando se lhe tocava. como comadres atarefadas. O quarto esperava o docilmente. Empurrou a porta sem fôlego. O empregado abanou a cabeça e foi se embora. mergulhar no ruído. — Não estou muito bem — explicou. Esmagou se no pavimento. nas luzes. a navalha sobre a mesa. sorrindo. a porta estava aberta e a navalha brilhava em cima da mesa. o uísque ferveu durante um segundo. Os gatos erravam pela escada escura. Como sempre. Era preciso correr. — É um aviso — acrescentou em tom de piada.Daniel corria na rua. Lá pelas quatro horas o empregado. As pancadas violentas do coração repercutiam se nas pontas dos dedos e sentia um gosto de tinta na boca. invisíveis. Lá em cima a porta tinha ficado aberta. Daniel olhou o líquido amarelo e mole. Era um norueguês que falava francês sem sotaque. Daniel inclinou se por cima da mesa. arquejante. O empregado acorreu. e Daniel sentiu que se tornava um freguês rico. O empregado baixara se para enxugar o chão e apanhar os cacos. com o barman. E depois toda aquela agitação se acalmou. «Nunca mais poderei voltar.» Beberia o que fosse necessário. voltar a ser um homem entre os homens. no qual flutuava um pouco de espuma. o mais longe possível. Correu até ao Rói Olaf. a madeira clara dos tabiques brilhava docemente. Daniel voltou à solidão. entre as pessoas da rua. Não — disse bruscamente. O seu quarto esperava o. — Beber mais! Atirou o copo com um safanão. Dê me meia . fugir. — Exactamente como gosta — disse. — Sou um desastrado — disse Daniel. O líquido escorria lentamente sobre os ladrilhos. deitando os pseudópodes em direcção aos pés de uma cadeira. Deitou um pouco de água Perrier no copo. Dir se ia cerveja morta. — Um uísque — pediu. levá lo iam para casa. — Não devo beber esta noite. O empregado voltou com um copo meio e uma garrafa de Perrier. Sentou se ao fundo do café. — Obrigado. Daniel estava só naquele bar tranquilo. nunca seria decidido. um pouco febril. Olhava amavelmente para Daniel. bolhas apressadas subiam à superfície. ser olhado por outras pessoas. A luz loura espumava em volta dele. o empregado e o barman falavam norueguês. Nada estava decidido. a lâmpada acesa. Nada o impedia de retroceder. — Trago lhe outro? — Traga. com qualquer coisa de maníaco e que dava boas gorjetas. A — Parece cansado — disse o empregado respeitosamente. No bar. O barman e o empregado calaram se subitamente.

Tinha falado alto. Gostaria de estar morto.. Gostaria de estar morto e existia. sim.. M athieu fechou a porta devagar. é para si. acha que ele não se declara suficientemente depressa. Ela fala. Se alguém soubesse. Pegou no copo e apertou o com raiva. «Mas nunca poderei. «Estupor! Comediante covarde. fui eu que fiz. «Mathieu está em casa de Marcelle.» Olhou o relógio. Pobre comediante! Só no fim conseguira amedrontar se.» Pôs se a tremer: «Cederá. Depois pôs o pé no primeiro degrau da escada. fugira. distraído.» Empertigou se e dirigiu se apressadamente para a porta.» Riu. Pôs cem francos na mesa. — Obrigado. O rapaz afastou se. Daniel bebeu. O odor a gengibre. O empregado acorreu. onze horas. O empregado abriu a garrafa e encheu o copo. erguendo a ligeiramente sobre os gonzos para que não rangesse. obstinadamente.Perrier com limão.. não se iludira um só instante. Um juiz qualquer! Qualquer juiz. Um meio de arranjar tudo. pensa que gostaria de estar morto.. O tempo não passava. Está de pé.. aceitaria qualquer um... mas não. curvou se e desapertou os sapatos. pensa que pensa que gostaria de estar morto. não havia melhor oportunidade. aquele fraco e moribundo desprezo. — Chamou? — Sim — disse Daniel. os tabiques de madeira. prefiro A castrar me. — Tome. Daniel sentia se mais calmo. tem de ceder. eram palavras.. que parecia sempre a ponto de se aniquilar e que nunca passava. Há um meio..» Quando caminhava a passos largos pela rua. também. abraça o. endireitou se e pousou a mão direita sobre o corrimão. oito ainda por viver antes da manhã. se pudesse sentir pesar sobre ele o desprezo de outrem. menos ele próprio. Ter lhe ia sido preciso. segurou os com a mão esquerda. de olhos erguidos para uma neblina rósea que parecia . já sabia que não iria até ao fim. e quando subiu as escadas. «Um meio famoso. «Há um meio.» Largou o copo. Um ambiente opaco formava se em volta dele. eu estraguei lhe a vida. a luz loura.. Alegrava se sempre com a oportunidade de uma boa farsa. Tirou os sapatos. continuava a fazer se existir. Estupor!» Houve um momento em que pensou que ia consegui lo. Pensou: «Sabia! Sabia que não o faria. não aquele atroz desprezo sem força suficiente. com olhar fixo. Onze horas! Sobressaltou se. Neste momento ela fala. Isso. queria ter nojo de si. O peito roçava lhe os joelhos. Sabia o quando pegara na navalha. Não pode desprezar se nem esquecer.

Marcelle estava A nua por baixo do roupão. Viu lhe os seios formosos e passou lhe pela boca um gosto a açúcar. deslizando a língua por entre os lábios dele. era Marcelle. de bombons e de amor. olá! Passou lhe o braço em volta do pescoço e beijou o. — No entanto. tomado por uma insuportável doçura de existir que lhe apertava a garganta. Todo o calor do dia se depositara no fundo daquele compartimento como uma borra. — Não. — Olá. de braços caídos. acariciando lhe a nuca. com a cabeça levemente inclinada. tinha um ar solene e alegre. e Mathieu sentia que o calor daquelas mãos lhe subia até às axilas. Ele sorriu também e foi guardar os sapatos no armário. muito bem mesmo. . Mas hoje estou bem. A atmosfera era pesada. Subiu lentamente na escuridão.. Estava estúpida. quente e esperta da língua. Ela pusera sombra azul nas pálpebras e tinha uma flor nos cabelos. inteiramente mergulhado naquele cheiro de doença. Sentada na cama.suspensa nas trevas. Uma voz cheia de ternura suspirou atrás dele: — Querido! Voltou se subitamente e encostou se ao armário. mexendo a ponta da língua entre os dentes com uma expressão animada e feliz. Ela pegou lhe na mão e puxou o para a cama. Mathieu pensou. — Senta te junto de mim. ali desabrochava. Empurrou a. Mathieu fechou a porta e ficou imóvel. junto daquela mulher sorridente. ontem ao telefone não parecias muito bem. De um sono só. pintara se cuidadosamente. Vestira o seu belo roupão branco de cordão dourado. — Olá — disse em voz baixa. — Dormiste bem? — Admiravelmente. Beijou o de novo e ele sentiu sobre os lábios o veludo rico daquela boca e aquela nudez glabra. Estava bela. Marcelle inclinara a cabeça para trás e observava maliciosamente através das pálpebras semicerradas. Ele estava ali. Já não se julgava. evitando que os degraus estalassem. desajeitadamente. uma mulher contemplava o sorridente. Desenvencilhou se docemente. — Estás bem disposta — disse. Marcelle ergueu a mão até à fronte e mexeu os dedos. Ela continuava a segurar a mão dele entre as suas e apertava a de vez em quando. Olhava o de baixo para cima. na fealdade magra de Ivich. com coração triste. Ele sentou se. A porta do quarto estava entreaberta. — Estás quente — disse ela..

e subitamente inclinou se e apoiou os lábios no ferimento num impulso de humildade. esses miúdos fazem o que querem de ti. Devorava o com os olhos entreabertos. Isto vai infectar. virou a e examinou lhe a palma com um olhar clínico. Olha para esta pobre «pata» devastada. — Estás bem comigo? — perguntou Marcelle.» — Uma fantasia do Boris — respondeu. pensou Mathieu. erguera se nas pontas dos pés e levantava os braços para alcançar a prateleira de cima. O ferimento era repugnante. . Marcelle voltou para ele alerta e lentamente. Ela levantou se para ir buscar os apetrechos ao armário. como conseguiste cortar te deste modo? Estavas embriagado? — Não. entre as mãos dela. Ela não respondeu. Ela teve um riso indulgente e escandalizado. vou arranjar este penso.— Como está calor aqui — disse. e exclamou: — Que é que fizeste na mão? — Cortei me. Tem lama por cima. — E tu. Ele deslizou devagar a mão esquerda diante do estômago e enfiou a sorrateiramente no bolso das calças para tirar o tabaco. — No Sumatra? J E A N P AUL SARTRE «Rosto largo e lívido. — Cortei me. — Comprou um canivete e desafiou me duvidando que eu mal tivesse coragem de o espetar na mão. Mathieu olhou aqudes braços nus que tantas vezes acariciara e os antigos desejos giraram lhe em volta do coração. És completamente doido. apressaste te em demonstrar o contrário. uma expressão de humildade e confiança. não podes andar assim. Marcelle viu lhe a mão. naturalmente. com a sua crosta escura e mole. Ele puxou a para si e beijou lhe a orelha. querido. de passagem. amanhã. Foi ontem à noite no Sumatra. cabelos de ouro. Já me viste tão tolo? — Mas que foi que andaste a fazer? Espera. «Que é que te aconteceu?». — Mas o curativo está sujo. A mão de Mathieu repousava. As mangas caíram. dei uma queda. Desfez a ligadura e abanou a cabeça: — Que ferida tão feia. Mathieu sorriu sem responder. Marcelle levantou devagar aquela mão à altura do rosto e olhou a de perto. amanhã eu pentear me ei assim para si. inerte. — Naturalmente. Marcelle largou a mão direita de Mathieu e pegou lhe na outra. — Não pareces. que foi isto? — Caí. Virava lhe as costas.

J E A N P AUL SARTRE — Queres? — disse Marcelle. É tudo culpa minha. Marcelle aplicou a na ferida. fui desagradável anteontem. constrangida. — Agora precisas de descansar seriamente. Divertiram se muito? — Mais ou menos. — Que vou fazer desta porcaria? Quando saíres. Será uma festa. — Não pode ser antes do Outono — disse. — Eu? — Sim. — Pregou te uma boa partida! Ela segurava um alfinete de ama na boca e rasgava a gaze com as mãos. deita o no lixo. Porquê? — Fui. Pôs a língua e lambeu docilmente a cobertura rósea.— Dá cá a pata. Marcelle riu se. — Bem vês que não estás muito bem comigo — disse. — Oh!. — Então. / — Lambe! A Marcelle apresentava lhe um penso.. Lola vai para a África do Norte. — Pronto. . — Não. Ligou lhe rapidamente a mão com uma ligadura branca de gaze. suspendeu o na ponta dos dedos e considerou o com uma falsa repugnância. — Mas isso aborrece te. — Então iremos no Outono. dançava com Lola. cansa te — disse Mathieu. — Não. — E tinhas razão. Estava nervosa. «Uma saída!» Mathieu repetia esta palavra conjugal. apertando nos lábios o alfinete: — Ivich estava lá? — Quando me cortei? — Sim. contrariado. há tanto tempo que não saio contigo.. Marcelle pôs o alfinete na ligadura.. depois virão as férias. Marcelle tossiu. Prometes? — Prometo. querida. um passeio. Depois pegou no curativo sujo. Disse. Sobre o 'aço ficara um pouco de bâton. Embebera a esponja no álcool e pusera se a lavar lhe a mão. Boris desafiou te? E tu retalhaste a mão? Que criança! E ele também se cortou? — Não. Ele sentia contra a sua anca o calor daquele corpo tão conhecido. uma vez. Marcelle não era feliz nas suas expressões.. — É bonito o Sumatra? Sabes o que eu queria? Que me levasses lá um dia.

— Que é que devo olhar? — Isto. Fixou o olhar em Mathieu com uma expressão triste. abria o e fechava o nervosamente. Tinham conservado o perfume de Lola. Ele quer que lhe paguem adiantado. Ele não se atreveu a voltar se para ela. Disse lentamente: — Cinco mil francos. passaram pelas mãos dele. Os olhos de Marcelle apagaram se. Ela sabia muito bem que Daniel não lho tinha querido emprestar. tanto melhor.. — Quem? . de perdão. Mathieu acrescentou: — Deixo tos. voltou se. Mathieu fez um gesto para colocar as notas em cima da mesa de cabeceira. E gente da alta. Marcelle não respondeu. Mathieu não aguentou mais. Já to disse ao telefone. Tirou a carteira do bolso e pousou a nos joelhos. cinco — disse.. confiante. Tirou as notas da carteira. fazendo as estalar triunfantemente. com o dinheiro A em cima dos joelhos.— Não tens culpa — disse ela. Mordia o lábio inferior e olhava para as notas. — Pois é. — Nunca tive nada que te censurar. ontem. imaginava bem de mais a expressão do seu rosto. ela esperava sem dúvida uma palavra de ternura. Parece que é uma competência. Fez se silêncio. Centenas de mulheres. — Daniel? Ele encolheu os ombros. três. e Marcelle perguntou: — Onde arranjaste o dinheiro? — Adivinha. gente rica. Penso que Sarah te levará à casa dele e és tu que vais pagar. e não podia compreender aquda confiança inexplicável e espontânea. quatro. Disse: — Pensei. duas. — Uma. Mathieu esperou um instante. Não parecia compreender. E que me deram trabalho a encontrar. — Jacques? J E A N P AUL SARTRE — Não. Houve um longo silêncio. em Viena. e como Marcelle não falasse. categórico: — Agora podes ir ao judeu. Ela erguera a cabeça e olhava as notas pestanejando. Mathieu interrompeu a. Pegara noutro alfinete de ama do cestinho. o estupor. Marcelle esticou o pescoço e apoiou o queixo no ombro de Mathieu. — Então não sei — falou secamente. — Olha — disse. — Tanto melhor. mas ainda confiante. Envelhecera de repente. incrédula. cinco mil.

Mathieu enxugou a testa suada. Roubei o a Lola.. era preciso ir até ao fim. Ela reflectia. Mathieu pegou lhe na mão. Continuava com a boca aberta como se tivesse vontade de falar. que é que há? Marcelle fez um gesto brusco e os apetrechos de farmácia espalharam se pelo soalho. que é que há? — repetiu Mathieu. sentado entre os dois. — Sim. — É. ele disse o que te tinha a dizer e ao deixá lo foste roubar os cinco mil francos a Lola.— Ninguém me deu o dinheiro. — Hei de contar to um dia. A boca exibia de novo aquele sulco duro e cínico. tristemente: — Foi chato! — Sim. e Mathieu empurrou os com o pé. Não fui eu. — Roubaste! — disse lentamente Marcelle.. As cartas estavam sobre a mesa. Ela teve um riso seco. — Pois bem. Daniel estava ali. — Porque te ris? — Rio me de mini própria — disse. parecia espavorida e aliviada. Bem. era isso. A O rosto emudecera. — Então. Mathieu também se sentia aliviado. — Roubei. mas as palavras não lhe saíam. Observou. Mathieu disse. vais acordar a minha mãe. Murmurou: — Fui demasiado estúpida. Marcelle sorriu. — disse Mathieu — expliquemo nos francamente. irónica. Parecia amedrontada com o que ia dizer. Ela inclinara se para trás e crispara as mãos no lençol. — Então. — Como soubeste? Foste tu que o mandaste? Tinham combinado tudo? — Não fales tão alto — pediu Marcelle —. Olharam se ambos. Tirara a flor dos cabelos e fazia a rodopiar nos dedos. Calaram se. mas ela retirou a e disse sem o olhar: — Já sei que estiveste com Daniel. sem olhar para ele: — Que vontade tens de te ver livre da criança! — Tinha vontade principalmente de que não fosses à velha. O rosto tornara se lhe cinzento. — Roubaste? Não é verdade. — Não há nada que explicar. Ele perguntou: — Censuras me por tê lo roubado? — Não me interessa. tinha um ar admirado. Fez se silêncio. . Estiveste com Daniel. — Não me vais dizer que o roubaste. Marcelle voltou lentamente a cabeça para ele. mas sabia que ele te ia procurar. Tinham a noite inteira à sua frente. foi chato! — concordou Marcelle com amargura. estive com ele — disse Mathieu.

pegando lhe na mão. tudo se esclarece.. — Julgo que sei. Pensou: «Acabou se. que foi que se passou anteontem? — Anteontem? — Sim.» Era evidente. Bem vês que há explicações necessárias. Marcelle? Porque não conversas calmamente comigo? Uma hora apenas e tudo se acerta. — Não.— Sim. — Foi o que me pareceu.. O que eu quero já não é da tua conta. Ele acrescentou docemente: — E um filho que tu queres? — Ah! — disse Marcelle —. — É verdade — disse Mathieu. que saberei reconhecer os meus erros.. depois de sete anos! As mãos também lhe tremiam agora. — Foi o que te pareceu — disse ela rindo. Mathieu. Mas diz o que se passou anteontem. triste. — Foi Daniel quem te disse isso? — Não — respondeu Mathieu. — Tens razão. não te obstines. . Escuta. Daniel disse me que tu tinhas censurado a minha atitude de anteontem. e tu julgaste que eu queria casar. Seria muito melhor se pudéssemos ter novamente um pouco de confiança um no outro. não devia ter pensado nisso. — Mas porquê. Ela sacudiu a cabeça. A Ela parecia não ter ouvido. sofria. menos irritada. Ele insistiu: — Há circunstâncias atenuantes. «Era preciso que eu fosse muito sacana para imaginar que escapava. — Pois bem. E é o que pensas de mim. Juro que tenho boa vontade. Disse: — Queres que nos casemos. às escondidas.» Ela estava ali. não finjas que não percebes. caso com ela. pouco te incomodavas com o que eu tinha na cabeça. surpreendido. não é verdade? Ela tirou lhe a mão e ergueu se de um salto. — Foi o que te pareceu! Daniel disse te que eu estava aborrecida. Ela continuou a não responder. era infeliz e má e bastava um gesto para a acalmar. Ele olhou a com espanto. — Calma — disse Mathieu —. obrigar te a casar comigo. isso não é da tua conta. — Peço te — disse ele. ainda há tempo. foi como das outras vezes. — E que é que tinhas na cabeça? — Porque é que queres que eu diga? Sabe lo muito bem. — Oh!. tu recebes Daniel há meses. Marcelle. já não há tempo. Mathieu teve vontade de apertá la nos braços.. Ela hesitava. — Peço te. Daniel acabou de me comunicar que tu te encontravas com ele e não me dizias nada. mas não se atreveu. não adianta falar nisso. Estava lívida.

tudo poderia ainda salvar se. eu quero te muito ainda.. Pusera se a tremer. teriam a criança. mas só ouviram o ruído longínquo dos automóveis. — Vai... — Sim.. Vai. mas de outra maneira. Já não havia nos seus olhos senão uma interrogação inquieta. ansiosa. — Ouve. Mathieu disse: — Marcelle. Ia dizer: «Amo te.. se lhe dissesse que a amava. quero. chamo a minha mãe. Marcelle riu altivamente. — Mas eu tenho por ti toda a minha ternura! — disse. Não posso. Durante muito tempo ficou a ouvir a frase. Mathieu não respondeu. é preciso que tenhas deixado de me amar. — Não quero abandonar te. Era quase uma pergunta. Disseste: «Amo te.. desato a gritar.» Marcelle atirara se para trás com um gesto de triunfo. viveriam juntos o resto da vida. estupefacto. e tu já não me amas.. Vai te embora.» Hesitou e disse com voz clara: — E verdade. já não posso ver te. Pensou: «Está acabado. — Chega! — disse.. mas mostrava se surpreendida e amedrontada com o que dissera. Ela acrescentou como que esmagada: — Como deves desprezar me.. Se ele a abraçasse. Mathieu avançou um passo. Subitamente sorriu. quero casar me contigo.. Falara com segurança. com uma alegria nervosa — não foi o que me disseste ontem ao telefone. que lhe pendiam da fronte. não é? Ele pegou lhe na mão. encharcados em suor. desesperado. já não sinto amor por ti. Escutaram. Quero ficar junto de ti a vida inteira. — Eu não te desprezo — disse Mathieu. Levantou umas madeixas de cabelos.. mas imediatamente tapou a boca com a mão e fez lhe sinal para se calar: — A minha mãe — murmurou. — Estás doida. — Mas porquê? Porquê? — Porque já não te estimo o suficiente. como se se lembrasse de alguma coisa. Ele abriu o armário e tirou os sapatos. Ele levantara se... com um gesto seco. vai. — Vai — repetiu ela com voz surda.. de olhos cerrados. — Já sei o que queria saber. — Mas — atalhou. Continuou tristemente: — Para pensares de mini o que pensaste. Casaria com ela.. Ela disse: . Preciso de explicar te. mas ela repeliu o violentamente. Ela retirou a mão. — Se não saíres.— Eu não quero. A — Vai — disse ela —. — Eu.» E ninguém te perguntou nada. ou não respondo por mim.. Sentia se ridículo e odioso.

Ela pegou nas notas e atirou as à cara dele. perto da cama. secamente. com os sapatos na mão. abriu a porta e saiu. Parou no patamar do segundo andar para tomar fôlego.. escutando com a mão no fecho. e o seu acto estava atrás dele. eu que pensava. soluçando. de olhos fechados. Ela ria.. calçou se. ele contemplava lhe a nuca morena e doce com uma grande ternura. Ivich fez um esforço e disse. abandonara Marcelle grávida.. Ficaram silenciosos um momento. — Acabo de romper com Marcelle. que estúpida. escorregadio. Mas sabia que ficaria acordado a noite toda. ela vai gritar. O riso parou subitamente. Não havia mais nada nele senão fadiga e espanto. — Não. para nada.» Despiria a roupa ao acaso.. as pernas estavam moles. Olhava os cabelos de Ivich e pensava. como não ouvisse mais nada.» Parou um instante. e isso espantava o enormemente. Ivich disse. Ele quis aproximar se. «Será por ela que fiz aquilo?» Ela baixara a cabeça. virando a cabeça: — Fui odiosa. Mathieu não as apanhou. Não há razão. «Se ficar. Mathieu encolheu os ombros. Ivich devia ter fugido. Mathieu escutou ainda e. Mathieu ouvia o ruído forte e regular da sua própria respiração. Subiu. a não ser um ódio sem objectivo. n. com cortesia. Mas não sentia nada.uitu direita. As notas voaram através do quarto e caíram no tapete. Isso não. — Não parti — disse ela. Dormira apenas seis horas em três dias. E dizia: — Ah!. mas ela abriu os olhos e atirou se para trás apontando a porta. Olhava para Marcelle. Marcelle? Era a mãe.. — Eu não devia ter me metido a dar a minha opinião. talvez nem isso: «Vou deitar me. Quando chegou ao fim da escada. Ele voltou se. — Estou a ver — respondeu Mathieu. desvairada. incompreensível. que estúpida. iria titubeando até à cama e deixar se ia cair. A porta do apartamento ficara aberta. parou um instante. de olhos abertos no escuro. a lâmpada estava acesa.. Mathieu não respondeu. uma gargalhada profunda e sombria que se elevava como um repuxo e caía em cascata! Uma voz gritou: — Marcelle! Que foi. Na secretária. e fez se de novo silêncio. Ouviu de repente o riso de Marcelle. Gostaria de verificar que a amava mais do que tudo no mundo para que o seu acto tivesse uma justificação. Estava sentada no sofá.— Pega no teu dinheiro. Entrou e viu Ivich. i en ensava: «Sou um sacana». . nu. Roubara.

olhava o apenas. Ele atalhou. uma porta a abrir. e Mathieu calou se angustiado. — Arranjou dinheiro? — Arranjei. é impossível evitar da . aliás. Uma escada a subir. — Creio que também teria. Pareceu lhe que abandonava Marcelle pela segunda vez. uma mulher bela ou um belo rapaz. renascer aquele áspero amor dentro dele. Ela parecia não compreender. — Bem vejo que tem remorsos — disse Ivich. «se o tivesse feito. Mathieu sentiu que corava. Pensava: «Não quero que me recompense. sorriu: «Naturalmente». Não disse nada. Ele teve vergonha. sem dinheiro? Mathieu. Mathieu sentiu.. — Não. Sentou se perto de Ivich e pegou lhe na mão. — Onde? Ele não respondeu. — Compreendo — disse Ivich. E o que quer dizer? A Lola. e Mathieu continuou: — Vou devolver lho. forçado. Mas desta vez era Mathieu que ela olhava. — Não. inquieta. Disse por escrúpulo: — Não a queria abandonar. Subi ao quarto durante a ausência dela. Ela olhou o. censurar me ia agora». Ivich pestanejou.. no seu lugar. e o seu rosto tornou se duro e solitário como quando se voltava na rua para seguir. Observou com uma voz neutra: — Deixou a. Ivich.. Queria apenas dar lhe o dinheiro para não ser obrigado a casar. É um empréstimo..Ivich levantou a cabeça. Roubei por desvario e agora tenho remorsos. Consegui arranjar me. — Se o soubesse! Ela levantou se bruscamente. como Marcelle tinha feito pouco antes: — Roubou a Lola. não é lá muito glorioso.. com o olhar. Ela insistiu: — E inacreditável como parece só. Ele insistiu desviando os olhos: — Não foi bonito. com vivacidade: A — Sim. acabrunhado. nervosa. Ivich não respondeu. Acabou por dizer: — Não sei o que pensa.. — Sim. Tudo isto é lamentável. Levou a mal. Roubei. sorrindo. A expressão irritou Mathieu. Repetiu lentamente. — Porque fez isso? Mathieu deu uma risada seca. não sei o que esperava.» — Você é belo — disse Ivich. pensou. Ivich tinha uma expressão estúpida. Foi ela que me mandou embora.

não tem importância — disse. abatiam se sobre a cabeça e puxavam os cabelos.» Estendeu o braço. Ivich empertigou se.. descobrindo o rosto e as orelhas. Bastaram lhe alguns movimentos rápidos e. borboleteavam em torno dela. puxou Ivich para si. Só as mãos continuavam raivosas. Mathieu apertava com força a mãozinha áspera de unhas pontiagudas. — Ivich! — disse docemente.. Mathieu não respondeu. Mathieu sentia a garganta seca.. — Ivich. Disse: — Engana se. Ivich teve um sobressalto e desenvencilhou se rapidamente. Está bem. eu não sou.. E acrescentou num tom cantante: — Parecia tão orgulhoso de ter tomado uma decisão. até os meus remorsos. procurando o olhar que ela desviava obstinadamente. quando baixou as mãos. não lhe tenho amor — disse Ivich..primeira vez. vermelha de ódio.» Era uma expiação. — Que imagine o quê? Ele sabia. A cabeça de Ivich rolou no seu ombro. — Oh!. — Cale se. mas considerava aquela crise com indiferença. Mathieu deixou cair o braço e murmurou com lassidão: — Não sei o que quero de si. Ivich. Retirou a mão num gesto brusco. pensei que viesse buscar a recompensa.. a sua cabeleira estava penteada e o rosto apresentava se nu. Ele devolveu lhe o sorriso e beijou a de leve. «Mas é uma criança!» E sentiu se inteiramente só. fiz mal. Ela olhou o surpreendida. puxou os cabelos para trás. Mathieu pensou: «Quer tirar tudo de mim. depois olhou a e a melodia cessou repentinamente... Ela não o retirou. Os seus olhos faiscaram. Pensava: «Também desperdicei isto e no entanto estava quase A contente. — Eu. Largou lhe o braço.» . Ele sentou se perto dela e agarrou lhe docemente o braço um pouco acima do cotovelo. Ela deixou. — Mas eu amo a. — Não devo tocá la. mas ela baixou os e assumiu uma atitude triste e terna. — Não quero que imagine. Ela franziu as sobrancelhas e a sua cabeça agitava se com minúsculas sacudidelas. — Assim — disse. Ele ouvia dentro dele uma melodia viva e alegre cuja lembrança pensara ter perdido. Continuou. ela sorriu de lábios entreabertos. Pensava: «É uma vingança.

Ela olhou o com um ar de autoridade calma.» Ivich empalidecera. — Onde está Boris? Ouvi a voz dele. Ivich disse.. percebeu sob os dedos a carne fresca e disse: — Eu. — Acho que sim. num estremecimento: — É horrível pensar que há alguém atrás da porta. depois muitos ininterruptamente. devia considerar que a honra estava salva. tentando encontrar o olhar de Lola — só há no apartamento uma cozinha e uma casa de banho. Mathieu foi abrir e viu na penumbra um rosto trágico. No entanto disse: — Voltará no próximo ano? — Voltarei. Fico.. — É preciso abrir — sussurrou ela. Tinha chorado. Quer. Lola voltou para ele o rosto desfigurado. J E A N P AUL SARTRE Interrompeu se. ninguém verá. — Onde está então? IDADE DA RAZÃO . Não se mexeu. Porque havia de o amar? Não desejava mais nada senão permanecer um bom momento silenciosamente ao lado dela e que ela se fosse finalmente sem falar. Um toque primeiro. No entanto Lola não parecia dirigir se a ela — nem a ninguém — nem parecia vê la. Era o mesmo rosto que lhe mostrara na véspera enquanto a mulher do toilette lhe ligava a mão.Aliás. Agora batiam violentamente à porta. tivera com certeza a mesma ideia. Estavam a tocar. — Ouvi a voz dele. Lola avançara para Ivich. era sem dúvida verdade. Era Lola. — Pois é. Olhou a hesitante. — Além desse escritório — disse Mathieu. Ela sorriu lhe ternamente. Mathieu ficou gelado. Olharam se. Mathieu nem sequer se deu ao trabalho de fechar a porta.. — Não. Mathieu colocou se entre ambas: — Não está aqui. Um desejo triste e resignado que não era desejo de nada. Pegou lhe no braço. Pode verificar se quiser. depois outro. Pensou: «Marcelle. ameaçadora. Ela empurrou o para entrar mais depressa. Quer entrar na cozinha? Fecharei a porta. Ivich olhava a. Dir se ia uma máscara. entrou no escritório atrás de Lola. sentiu lhe renascer o desejo.. — Diga me onde está Boris. aterrorizada.

Não quero que me toquem. não gosto. Dispunha se a sair. que deu três passos para trás a resmungar. é melhor sair. Mathieu pegou na mão de Ivich. dormir. mas só havia pânico. Lola pôs se a rir como uma cega. Ivich — disse Matkieu tristemente. tenho muito que lhe dizer. Lola interceptou lhe a passagem. fazer as minhas malas. Não quer que eu vá à estação? — Não. com os olhos fixos no chão: — Ivich. Mathieu olhou para a bolsa e teve medo. posso dizer Ihes. Preciso de falar com Lola. Vejo a ainda esta noite? Ivich estava alterada. Preciso tanto de dormir. Subiu ao meu quarto lá pelas sete horas. — Lola — disse Mathieu sem tirar os olhos da bolsa —. As mãos amarfanhavam uma bolsa pequena de veludo preto que parecia conter um objecto pesado e duro. Mathieu não se atrevia a olhar para Ivich. Mathieu empurrou violentamente Lola. Era preciso mandar Ivich embora imediatamente. Ele olhava lhe para a bolsa. não me toque. mas disse Ihe docemente. — Pois se não sabem por onde andou. então até para o ano que vem.Conservara o vestido de seda preta e a maquilhagem de teatro. arrombou uma maleta e roubou me cinco mil francos. Ivich. Amanhã cedo. Olhava a na expectativa de descobrir nos olhos dela um sinal de ternura. — Quero ir para casa. — Boris também vai? — Não. — Vai dizer me onde está Boris? — Não. Apalpava o pulso com o indicador e o polegar. — Eu escrevo lhe.. — Vá dormir. creio. — Largue me. — Bom. — Ela é livre. Abriu a minha porta. — Fique — disse Lola.. Foi um dia muito duro. sim. Os grandes olhos escuros pareciam ter murchado. — Até ao próximo ano — disse ela. — Deixou Ivich às três horas — disse Mathieu. . — Que mulher horrível! — disse Ivich entre dentes. no momento em que eu saía. Não sabemos por onde andou depois disso. — Perdão! Quem me prova que não se vai juntar a Boris? — E se for? — disse Mathieu. mas deixe a partir primeiro. — Sim. Ivich deu um grito de dor e ódio. mas vou explicar lhe a história do roubo. Lola perguntou: — Vai partir? — Vai. — Oh! Não! — disse. deixe a partir. apertando o pulso de Ivich.

mas o ruído extinguiu se. — Fale. ainda se vai sentir muito feliz por eu lhe roubar a "massa". Mathieu avançou. — Não nasci ontem. não. Ivich não respondeu. diga lhe que me queixei. pensou Mathieu desanimado. foi você? Encolheu os ombros. Lola olhava o com indiferença. enquanto ela gritava a rir: — Não me conhece! — Cale se! Lola acalmou se e pela primeira vez pareceu vê lo. logo que saí. irritada. mas de uma maneira monótona e parecia exprimir uma convicção absoluta.» Não me conhece! Não me conhece! Mathieu segurou a pelo braço e sacudiu a como um arbusto. escondendo se. Esperei o dia inteiro e havia dez minutos que eu descera. — Ele subiu às sete horas. — E se encontrar Boris. — A gerente viu o a ele. Lola desatou a rir. — As notas ainda estavam na maleta. Ele teve de repetir: — Fui eu que roubei os cinco mil francos! — Ah!. — Ouça. Falava rapidamente. asperamente. — Lola! — Ele deve ter pensado: «Está doida por mim. às oito. apresentou realmente alguma queixa? — Apresentei. Ela deixou o subir porque eu tinha dado ordem. se fui eu? J E A N P AUL SARTRE — Ela viu o — disse Lola. Que é que tem a dizer? — Fui eu que roubei.— Pois que vá — disse Lola. Ah!. Ivich. . Não a viu sair. — Vamos à história. Lola. Devia estar a espiar me na rua. Já disseram mais de uma vez que podia ser mãe dele. — Adeus. — A queixa será retirada — disse Mathieu a meia voz. Lola deu um passo em frente e gritou: A — Diga lhe que se enganou! Que é ainda muito jovem para me levar. — Como pode tê lo visto. sempre a olhar para a bolsa. e ele sentiu um aperto no coração. Perguntou: — A que horas voltou ao hotel? — Da primeira vez. — Então — disse ela. «Dir se ia que tem necessidade de acreditar naquilo». Voltou se para Mathieu com aquele olhar incomodativo que parecia não ver. — Lola — perguntou Mathieu —. Subiu. ainda vai dizer obrigada. a velha. e Mathieu ouviu aliviado o ruído dos passos dela.

mas Mathieu segurou a. você está a mentir. — É tudo quanto tem a dizer me? Então vou me embora. ela viu me. Deitei me e pus a maleta ao meu lado. — Lola. Quis passar. — Lola. — Mais uma prova. Os lábios de Lola tremiam e ela apertava convulsiva mente a bolsa. Aliás. — Conte a história ao juiz. Às oito horas arranjou se. Juro que fui eu. Lola empurrou o. — Não está a ver o meu estado? Por quem me toma com essa história? — Estava debaixo de outra mala. Porque me arriscaria em apanhar seis meses se fosse Boris o ladrão? Ela fez um gesto. Lola oscilava como se estivesse a dormir em pé. Às oito horas eu estava com a chave e você não a podia ter aberto. você não está convencida. Lola. que eu queria voltar a ler. — Bem sei. Lola. Senti me mal no Sumatra e voltei para casa. você só deu conta do roubo à meia noite. mas você não olhou para a maleta. — Você roubou me? — Sim. A — Pois foi — disse Lola.— Já disse que Boris subiu às sete. Mathieu pensou: «É verdade. se quer apanhar seis meses em vez dele. Ela riu se. — Pode ser. continha as cartas. Eu sei que não olhou. — Foi à meia noite. — Olhou às oito horas? — Olhei. se você tivesse descoberto o roubo às oito horas. Mas é o mesmo. — Sei lá o que vocês fazem juntos! — É absurdo. Eu sei. Não é verdade? Lola olhou o. pode testemunhar. não teria esperado pela meia noite para vir aqui. debaixo da outra mala.. as cartas. pensa que não sei? Vocês combinaram o que .. cansada. Havia uma velha no escritório. Peguei no dinheiro e deixei a chave na fechadura. obstinada. continha. Porque esconde que lhe roubaram as cartas?» Tinham se calado ambos. Mas você não olhou para a maleta. pôs o seu belo vestido e foi para o Sumatra. Às oito horas o dinheiro ainda lá estava. Eu subi às dez horas e trouxe o. diante da janela — repetiu Mathieu. Finalmente pareceu acordar. — Boris esteve aqui. A maleta estava diante da janela. De quando em quando. talvez quisesse vê la. eu. — Olhei. — A gerente viu o subir.

— Tirei a chave da sua bolsa. Mas era preciso convencer Lola. sem que ele a tentasse impedir. — O dinheiro que lhe pediu era para mim. Se enganar o juiz com a sua história. pensou Mathieu. — Pois então devolva me o dinheiro. — É inútil! Eu vi o entrar de manhã. Era evidente. eu ia abrir a maleta. Pegou na bolsa novamente. Vamos. e Lola disse: — Basta. Mathieu olhou para a bolsa no sofá. Lola também. — Já tinha entrado uma primeira vez e voltado a sair. Ela pareceu não o ter ouvido. — Boris poderia ter me . deixe me ir embora. triunfante: — Devolva mo que retiro a queixa. mas Lola desenvencilhou se e tentou abrir a bolsa. — Vitríolo ou revólver? — perguntou Mathieu a sorrir. acabrunhado. Quando acordou. «É uma crise de nervos». Já percebi. apanho o de outra maneira. E foi também para si que ele roubou um livro à tarde? Vangloriava se disso quando dançava comigo. Tinha a impressão de viver um sonho sinistro e absurdo. ela só pensava no dinheiro. — Bruto! — disse Lola. o culpado só podia ser Boris. — Bem sei. Mathieu voltou a cabeça. precisava de pensar no dinheiro para manter acesa a sua cólera. Mathieu arrancou a das mãos dela e atirou a para o sofá. Lola continuou. Lola começou a tremer completamente. encostara se à janela e olhava o com os olhos brilhantes de ódio impotente. Mathieu não respondeu. o seu único recurso.deviam dizer à velha. — Que é que isso provaria? — disse ele. pensou. «Deveria ter previsto isso». Quando lhe falei ainda não tinha chegado ao pé da cama. Mathieu não soube o que dizer. Calou se e subitamente recomeçou. Acabou por dizer com um risinho seco: — Mas é que ele pediu me cinco mil francos ontem à noite! Foi por isso mesmo que nos zangámos. Lola soltou um riso de troça. e ele observou contrafeito: — Por causa das cartas. Era inútil falar das cartas. Ela deixara de tremer. Não pude voltar a pôr a chave no lugar e foi isso que me deu a ideia de lá voltar esta noite. não tinha medo do ódio. — Não se incomode que eu hei de apanhá lo. Mathieu quis agarrá la pêlos ombros. A Mathieu sentiu a sua impotência. mas via naquele rosto uma secura desolada que lhe era insuportável. — Subi ao seu quarto hoje de manhã — explicou calmamente. com uma calma ameaçadora: — Então foi você quem roubou? — Fui.

passado o dinheiro. Pensou na bolsa e tentou um último esforço. Daniel sossegou o com um gesto. — Imagine! — Ah! Minha senhora — disse Daniel com um ar de censura —. como uma louca.» Mas. sem que ele a impedisse. Roubou me às dez horas e à meia noite já gastou tudo? Os meus cumprimentos. — Não lhe pergunto isso.. rasgou o e levou as notas ao nariz. quando viu de costas aquela forma negra que se retirava com a rigidez cega de uma catástrofe. — Já não o tenho. — Acrescentou vivamente: — Não foi a Boris. . — Obrigou Boris a devolvê las? — perguntou ela. teve medo. — Cheire — disse. é preciso anotar sempre os números! A Mathieu teve uma inspiração.. olhava para Lola. — Essa é boa.. minha senhora. — Afinal posso dizer para quem era: era para Made moiselle Duffet. — Aqui estão os cinco mil francos. e ele escutou atrás da porta. com compreensão. Mas Daniel estava sério como um papa. — Tudo corre bem. Lola sorriu sem responder. irei explicar me lá. uma amiga minha. Dirigiu se para a porta.» Mathieu perguntou: — Ela. — Como prova que são os meus? — Não tomou nota dos números? — perguntou Daniel. e o seu coração deu um salto. faz favor de verificar. Digo lhe apenas: devolva me o dinheiro.. — A quem? J E A N P AUL SARTRE — Não posso dizer. lembrara se do pesado perfume de Chipre que exalava da maleta. Mathieu pensou: «É Boris. depois pegou no sobrescrito. Mathieu receava que Daniel se risse. Pensava: «É no Comissariado da Rua dês Martyres. Lola reapareceu. Lola olhava desconfiada para o sobrescrito. — Dei o dinheiro. Ouviu a gritar no patamar. Mathieu pensou ao mesmo tempo: «Foi Marcelle quem o mandou. — Vem aí alguém — disse. — Estão aqui cinco mil francos? — Estão. Lola abriu a porta e saiu. Lola hesitou. Entrou com nobreza e inclinou se diante de Lola.» Era Daniel.

Continuava imóvel no meio da sala. insolente e fúnebre como nos seus piores dias. Foi uma amiga de Mathieu que mas confiou. — Adeus. deve ser muito. a amiga de Boris Serguine. mas são igualmente incapazes de se ir embora. porque não volta? — Não sei. voltou se: — Se ele não fez nada. Lola. — Parece. Mostrava se cerimonioso. Lola voltou a cabeça e disse depressa: — Ainda não tinha apresentado queixa. e só Deus sabe que forma tomara naquela consciência caprichosa e falsa. adeus. isso ainda é mais difícil para eles. Vim a correr e ouvi o fim da conversa. Lola estava imóvel. Ouviram a porta fechar se. apresente queixa contra mini. Saiu. — É Lola. Deixaram na sair sem dizer nada.. Trouxe as esta manhã quando pensávamos que tivesse morrido. de braços caídos. Parecia sofrer. Lola contemplou Mathieu. — Já não as tenho. Acrescentou docemente: — Não se pode esquecer de retirar a queixa. apenas com um enorme espanto e uma espécie de curiosidade. Parecia angustiada e estupefacta. Está transtornada. Ali estava ele. vivia no fundo dos olhos de Daniel. — Roubou me cinco mil francos! É estranho! Os olhos porém apagaram se lhe e as feições tornaram se duras. vivo. sem ódio. À porta. Mathieu deu um passo em frente. Parecia lhe que o tinham colocado subitamente na presença do seu erro. — Pelo que se vê.. a fim de que as trouxesse. Apertava a bolsa na mão esquerda e com a direita amarrotava as notas. — Vou me embora. Lola soluçou e apoiou se à ombreira da porta. São incapazes de fazer a felicidade de alguém. — Acha que ele vai voltar? — Acho. De repente disse: — As cartas. — Pois é — disse Lola —.— Não conheço ninguém com esse nome. na sua frente. Daniel parecia disposto a abusar da situação. pelo que peço desculpa. se quiser. mas ela já se tinha dominado. — Quem é esta velha senhora? — perguntou Daniel. Mathieu não se sentia à vontade sozinho com Daniel. Lola. — Mas porque teria feito isto — perguntou subitamente —. Ou então. não precisa de nada? — Não. Mathieu endureceu se e . que são cinco mil francos para si? Mathieu respondeu sem alegria. Foi o que me deu a ideia de ir buscar o dinheiro.

«Diverte se». se te disser! — Bom. impaciente. Daniel estava lívido. eu sou.. Observava Mathieu com uma certa surpresa. não acredito. — Isto vai mal — disse ele. — Diz me ao menos se ela tem mais para. — Foi ela quem mandou o dinheiro? — Ela não precisa dele — disse Daniel evasivamente.» Não conseguia convencer se totalmente.» — Se não queres dizer. indolentemente: — Caso me com ela. Falas ou não falas? — Pois bem. subitamente. Mathieu. Escuta. terminou a frase: . como que através de um monóculo imaginário. pensou Mathieu. — Não precisa? — Não. — Daniel — disse ele —. — Não era disso que te vinha falar. «Se me quer impressionar». — Não. meu caro. cala te — atalhou secamente. Daniel olhou o como se se divertisse a intrigá lo. pensou Mathieu. Quero dizer que não acredito que ames Marcelle.. — Não me vais levar a sério. Erguera a sobrancelha esquerda e olhava para Mathieu com ironia. isso é uma história antiga.. — Vens da casa de Marcelle? — Venho. Daniel estava abatido. Sentou se sobre a secretária balançando um pé com desenvoltura.ergueu a cabeça. DA D E DA RAZAO Daniel encolheu os ombros. Não sei o que há por baixo disto tudo. — Não se fala mais nisso. eu sou.. pensou Mathieu com raiva. bom. Ficaremos com a criança.. — Estás com uma cara! — disse Daniel com um sorriso mau. J E A N P AUL SARTRE Mathieu pensou: «Era amante dele. — Ficarias muito espantado se soubesses — disse lhe Daniel. Disse com calma: — Então tu amava la? — Porque não? «E de Marcelle que se trata». «De Marcelle.. — Espera e verás. depois. A cabeça soava lhe como Um sino. Parou de novo e Mathieu. — Ia dizer te o mesmo — respondeu Mathieu. Daniel disse. «deve impedir que as mãos lhe tremam». levantou se e passou a mão pela testa. Mathieu acendeu um cigarro. Deu uma gargalhada forçada.

— Pois então fala — pediu Mathieu. Mathieu não pôde evitar um gesto de contrariedade. nem sequer terás essa desculpa. é evidente que não tenho nenhum direito... sorridente. — Pois bem — atalhou Daniel —. — Ainda vais lá de vez em quando? — Ainda. afinal. Calaram se um instante. humilhado. e Mathieu perguntou: — Como vai ela? — Querias que eu te dissesse que está satisfeitíssima? — perguntou Daniel ironicamente. Mas atirou se à minha proposta como a miséria sobre o mundo. — Nada mal — disse Daniel com admiração. antes não. meu velho — disse Daniel com súbita cordialidade. — Vens de lá? — Sim. Não é o que queres dizer? Daniel arregalou os olhos e assobiou. Assim Marcelle não ficou só. É uma ideia — acrescentou —. heni? Não. Bebi depois de sair de casa de Marcelle.. meu caro.. pensava que encontraria maior dificuldade em convencê la. como para desculpar Marcelle: — Ela estava desesperada. bebi um pouco. só tenho rum branco.— Es amante de Marcelle. — Subi logo a seguir. — Sim. é. Mathieu sentiu que corava. Não tens nada para beber? Uísque? — Não. A Daniel olhou o com um ar inquisidor. mas afinal vieste aqui. À tua saúde — disse Mathieu. Mathieu viu lhe um brilho de rancor nos olhos. — Estavas à espreita! Tanto melhor. com uma paragem no Falstaff.. — Deves tê la visto logo depois de eu ter saído. — Como quiseres — disse Mathieu. pensou. vamos beber um copo. — Espera um pouco. Daniel pegou na garrafa e encheu os copos. . Não te aflijas. — Poupa me a minha modéstia.. E que é que me querias dizer? — Nada... — Aos meus amores — disse. «Fui ignóbil».. — Não querias outra coisa. como se Mathieu dissimulasse qualquer coisa. Foi à cozinha e abriu o armário... — Ouve — disse Mathieu secamente —. — Queria apenas participar te o casamento. — Só? — Só.. — Estava à espera que saísses — disse Daniel. só. friamente. — Estás bêbedo — observou Mathieu enojado. — É da Rhumerie Martiniquaise? — É. Voltou com dois copos e a garrafa. Disse.

Repetiu distraído: — Não te zangues. E não se decidia a sair. — Ela odeia me. Tudo correrá bem. — Põe te no lugar dela — disse Daniel. Se me tivesse dito. que é que vais fazer? — Nada. não é verdade? Não chegava a ser uma interrogação... disse como para si próprio: — Então era o filho que ela queria. — É horrível este rum. Eu queria suprimi lo. Toda esta A história a abalou terrivelmente. Marcelle não tem nada a temer e tem confiança em mini. — Lamentas alguma coisa? Tens saudades? — Não. Num certo sentido. secamente. Mathieu não se atrevia a olhá lo. dá me mais um copo. Daniel dominava se. Daniel não respondeu. — Sabes — disse Mathieu —. não te zangues. Não faz mal. Falava serenamente. — Para os dois Não sei porquê. Depois. Mathieu levantou se.Daniel encolheu os ombros e pôs se a andar de um lado para outro.. — E agora — perguntou Daniel —. acho isso sinistro. Mathieu cruzou as mãos e fixou os olhos no sapato.. — Em suma — disse lhe Mathieu —. pomos lhe o nome de Mathieu. — Obrigado. Daniel calava se. — Vais casar com ela — repetiu Mathieu. Já me pus. mas não compreendo. — Hem?! — Bom. porque é que fizeste isso? — Com certeza. vieste ver a cara que eu . obstinado. mas parecia possesso. — Bem sei. o facto de ires casar com ela perturba me um pouco. duramente. tu vais salvá la. — Essa pequena Serguine? — Não. — Nunca o verei. Mathieu continuou. — Cala te! — Não te zangues — disse Daniel. Talvez seja melhor que nasça. Se for um menino. e ele acrescentou sem esperar resposta: — Acho que deveria estar contente. mas não se sente muito infeliz. — Era o filho. boa noite — disse Daniel levantando se. nada de especial. Beberam. Falou te de mim? — Muito pouco. Não compreendi. Mathieu encheu os copos. cerrando os punhos. não foi por filantropia — disse Daniel. — Mas agora estás livre. — Não te preocupes. — Vim para devolver o dinheiro e tranquilizar te.

de braços colados ao corpo. talvez eu consiga acreditar nisso. J E A N P AUL SARTRE — Mathieu — disse —. mas mergulhava na mais completa indiferença.. — Tens razão.» Mas não estava muito admirado. — Hem? — disse Mathieu. — Efectivamente não tens nada com isso. pensou Mathieu. mas fazes bem em não dizer nada.. É a reacção normal. A tua própria consciência já te dá bastante trabalho. não tenho nojo. — Então porque me vieste contar? — Eu. tão normal. — Pois já viste. a reacção que deve ter todo o homem são. agora que há alguém que sabe. IDADE DA R A Z A O Estava verde. — Isso enoja te.faria depois dessa história toda. Olhava Daniel e pensava: «Ele é pederasta. — Pois não. não é? — És pederasta? — repetiu lentamente Mathieu. eu queria ver o efeito que isso podia provocar num tipo como tu — disse Daniel coçando a garganta.. Mostravas te sempre tão sólido. uma indiferença profunda e paralisante. — Em parte — disse Daniel com franqueza —. tudo aquilo lhe parecia tão natural. — E. eu também tenho de mim. sou um pederasta. Porque havia de ter nojo? — Oh! — disse Daniel —. Mathieu não pôde suportar o sorriso e voltou a cabeça. sem simpatia. Daniel era um pederasta. Achava que devia dizer qualquer coisa. mas não se tornara mais agradável. Daniel afastara se e contemplava o com espanto e ódio. Talvez tenhas nojo de ti próprio. mas continuava a sorrir. Não precisas de tomar atitudes diante de mim. Perdera a expressão irónica. parecia apertado na sua roupa. Somos iguais. Daniel estava imóvel. — Não te armes em cínico. Aliás é por . não penses que és obrigado a mostrares te generoso! Mathieu não respondeu. E. depois. há qualquer coisa disso. — Não.. cortante.. Daniel troçou: — Isto espanta te? Modifica a ideia que tinhas dos invertidos? Mathieu ergueu vivamente a cabeça. «Que ideia aquela de se vir torturar aqui». — Não dizes nada? — continuou Daniel. Era a ordem das coisas. não tenho nada com isso. — Bem sei — disse Daniel sorrindo com altivez. Disse finalmente: — Podes ser o que bem entenderes. Ele era um estupor. É desagradável. Não sou tão sólido como isso. falava com dificuldade.. irritavas me. Daniel deu uns passos em direcção à porta e bruscamente voltou.

vais estragar lhe a vida. — Ela julga que a amas? — Não creio. Daniel levantou se. Houve um curto silêncio. depois uma espécie de gemido e desligaram. — Devias ser o último a dizê lo.. Daniel sorriu. Escuta.isso mesmo que me contas essa história. Deve ser mais fácil confessar se a um miserável. Ela propôs me viver ao seu lado. O tom não o convencia. Fez se silêncio. o que ela quer. E tem se sempre o benefício da confissão. O sentimento virá com o tempo. Vou instalá la em minha casa. Encheram os copos. Mathieu sentiu um remorso agudo. não podes? — perguntou. — Juro que não o será. — Mas... Mathieu bebeu um gole de rum e tornou a sentar se na poltrona. quero casar contigo. é o filho. — Marcelle. e Mathieu disse com obstinação: — Não quero que ela seja infeliz. — E. — Estou. Pegou no telefone e marcou o número de Marcelle. Um rubor sombrio manchou lhe o rosto aflito. — Se é assim. Daniel contemplava o com ironia. Acrescentou com uma ironia dolorosa: — Estou resolvido a cumprir os meus deveres conjugais até ao fim. J E A N P AUL SARTRE Não respondiam. — Os pederastas deram sempre bons mandos. fornos idiotas há pouco. — Ah!. — Tu és astucioso — disse Daniel com uma vulgaridade que Mathieu não conhecia. mas isso não me convém. — Tranquiliza te — observou como consolação. Mathieu conservou um momento o telefone na mão. E depois não caso por casar. principalmente. — Não posso permitir que cases com Marcelle. bem se sabe. — Daniel! Se casas por casar. Daniel olhava sem ver. Mathieu estremeceu.. Eu queria. arrogante.. E. — Bem — disse. Calaram se. depois largou o devagar. com um olhar fixo. — E que farás para o impedir? Mathieu não respondeu. não parecia triunfante. Ele perdeu a cabeça e gritou ao telefone. . ela sabe? — Não! — Porque é que casas? — Por amizade. é Mathieu. Marcelle! Estás a ouvir? Marcelle. está. Daniel olhava sem falar. demais. à maneira dos velhos. — Estou — disse a voz de Marcelle.. porque te casas com Marcelle? — Uma coisa nada tem a ver com a outra.

Daniel bebeu. porque sou pederasta. Daniel olhava o efectivamente e com tal ódio que o coração de Mathieu se apertou. sentia se perseguido. Pensou: «Daniel está a olhar para mim». — Daniel — disse —. acho que te deves sentir bastante mal. Já sei o que vais dizer. Mathieu foi invadido por uma ideia insuportável. — Porque me olhas assim? — perguntou. Acendeu um cigarro. — Escuta — disse —. «No teu lugar. e ergueu a cabeça precipitadamente.. Para ela não terá importância nenhuma. depois de saber que vais casar com ela. reagiria. Disse: — Tenho ainda mais nojo de mim. Mas desejo saber uma coisa. etc. exigiria um lugar ao sol. — Tenho vergonha de ser pederasta. casas te para te martirizares! — E então? Isso é comigo. Porque é que tens vergonha disso? Daniel teve um riso seco: — Eu esperava essa pergunta — disse. — Sim — disse com um ar distraído e imparcial —. e lágrimas de vergonha inundaram lhe os olhos. Mathieu pensou tristemente: «E a mini que ele odeia. e Mathieu percebeu que estava com vontade de fumar. Mathieu baixou a cabeça.» Abriu as mãos e raspou o sapato no chão. — Compreendo. etc. Mathieu não respondeu. Todos os invertidos têm vergonha. Beberam. J E A N P AUL SARTRE \ — Tu odeia la? — Não. Olhava para o chão entre os pés: «É um pederasta e vai casar com ela. está na sua natureza.» Daniel continuou a sorrir: — Vamos esvaziar a garrafa? — Vamos. Daniel acrescentou vivamente: — Isso não tem importância. o que tu és não me interessa. Mathieu pôs a cabeça entre as mãos.DA D E DA RAZAO Mathieu corou violentamente e acrescentou: — Também gostas de mulheres? Daniel fungou. Há alguém que sabe. Subitamente o silêncio tornou se pesado. Mesmo agora. — Gostarias de me enfiar uma bala na pele? Daniel não respondeu. é um gosto como outro qualquer. — Bem sabes.» Mas dirás isso tudo. — Meu Deus! — disse. disse: — Não muito. exactamente porque não és pederasta. .

. de tanto terem vergonha. Pensou: «Dentro de dois anos. Suspirou e qualquer coisa pareceu ceder no seu rosto. assumir isso? — perguntou timidamente Mathieu. — Sim.. Mathieu acendeu outro cigarro e. — Já me assumi demasiado — continuou com doçura. de quatro. Daniel olhou Mathieu com curiosidade. Não. Estava só. Mas lembrou se de que nunca mais a veria. Daniel continuava a sorrir com ar de boa fé. esta noite. — Hoje de manhã parecias acreditar que sim. «ele foi até ao fim desta vez». serei assim?» E subitamente foi invadido pelo desejo de falar a Marcelle. das suas esperanças.. bebeu o. — Falaremos disso no dia em que aceitares ser um sacana. Passou a mão pela fronte. «É verdade». Tinha o olhar parado e de vez em quando os lábios entreabriam se lhe. apesar de tudo. e eu não quero esse género de morte. — Sim. E explicou: — És livre.. Mathieu disse subitamente: — Gostava de estar no teu lugar. os pederastas que se vangloriam ou se exibem. quase infantil. — Nesta história ganhaste por todos os lados. — Hoje. tinha um ar de espanto. e o desejo transformou se numa espécie de angústia. Mas parecia mais calmo e olhava para Mathieu sem ódio. só a ela podia falar da sua vida. J E A N p AUL SARTRE Daniel encolheu os ombros. r A IDADE DA RAZÃO Não havia nada a dizer. — Deves estar num estado horrível. — Dá me um cigarro. estão mortos. pensou Mathieu.— Mas não seria melhor. — Conheço me muito bem. — Não — disse Mathieu —.. ou simplesmente se aceitam.. Uma ideia repentina causou lhe um certo mal estar: «Ele é livre. surpreendi me — disse em voz baixa. Daniel pareceu irritado. como ainda havia um resto de rum no copo. dos seus receios. Disse. que parecia deslocado naquele rosto cor de azeitona que a barba crescida manchava de azul.» E o horror que Daniel lhe inspirava misturou se com a inveja. num estado horrível. — Fumar agora? — Um só. morreram de vergonha. — No meu lugar? — repetiu Daniel sem mostrar grande surpresa. não basta abandonar uma mulher para se ser livre. Daniel parecia reflectir. Sorriu de um modo singular. Daniel inspirava lhe horror. .

Adeus. Depois de um momento. — Ofereço te um copo no Clarisse. Eu. Pensava: «Será isto a liberdade? Ele agiu. — Por nada — repetiu. — Nesse caso. Calaram se. — Com remorsos a menos. agora já não pode voltar atrás. — Acho que será difícil. — Então. Não sei o que daria para cometer um acto irremediável. — Adeus. Estava cansado. — Tiveste vontade de partir para Espanha? — Tive. felicidades. faço o por nada. Sentia se fascinado por Daniel. não vens? — Não. — O quê? Mathieu mostrou a secretária num gesto largo e vago.» Disse em voz alta: — Anteontem. — Eu não — disse Mathieu.. tudo se passa como se eu pudesse sempre voltar atrás. mas acho que lhe seria penoso saber que nos vemos. — Em toda esta história eu não fui senão recusa e negação. todo o resto. que já quase não compreende e que lhe vai transformar a vida. secamente. Não queres ficar mais um bocado? — Preciso de beber. agora está lixado. Daniel sorriu sem responder. — Tudo isto.— Não sei. Mas a verdade é que abandonei Marcelle por nada. — E então? — Não o fez. Fixava o olhar nas cortinas da janela. Daniel levantou se. DADË RAZÃO — Porque é que me dizes isso? — Não sei. dir se ia que me roubam as consequências dos meus actos. — Não — disse Mathieu. — Bem — disse Mathieu.. e Mathieu acrescentou bruscamente: . encontrei um tipo que queria alistar se nas milícias espanholas. Daniel atirou o cigarro fora e disse: — Eu queria ser seis meses mais velho. Ver nos emos em breve? — perguntou Mathieu. — Daqui a seis meses serei a mesma coisa que sou hoje. Não sei o que faria se bebesse. — Hoje não tenho vontade de me embriagar. mas não a suficiente.. — Nada de sensacional — observou Daniel. mas há o resto. agitadas pela brisa nocturna.. deve parecer lhe estranho sentir atrás de si um acto desconhecido. à noite. Marcelle disse que não queria mudar nada na minha vida. Marcelle já não faz parte da minha vida. tudo o que faço. Não era muito claro. Nada é claro.

já não mudaria. — Adeus — disse Mathieu. a resignação. foi a minha vida que a bebeu. um céu que sabia a férias e bailes campestres. minuto a minuto. em baixo. não há dúvida. Um ruído de música subia da Avenida do Maine. — Não neste momento. a luz branca de um farol deslizou no céu. Tirou o casaco. como bom conhecedor. Mathieu viu Daniel desaparecer e pensou: «Fico só. — Adeus. Na rua. Parou na esquina da Rua Huyghens com a Rua Froidevaux e olhou o céu. Dissera a si mesmo na véspera: «Se ao menos Marcelle não existisse!» Mas era uma mentira. — Mas amanhã. por nada. Respirou o e recordou aquele dia tumultuoso. viam se as estrelas por cima dos telhados. com um sapato na mão. — Daniel baixou a cabeça sem responder. Morais comprovadas já lhe ofereciam os seus serviços. tinha acabado com a sua juventude. Era Daniel. um homem caminhava tranquilamente. a seriedade de espírito. mas não mais livre do que antes. Sentia ainda no fundo da garganta o calor adocicado do rum.» Aquela vida tinha Ihe sido dada para nada. Daniel saiu.» Só. Repetia a bocejar: — Não há dúvida.. O vento varrera as nuvens. Era uma noite agradável. a indulgência sorridente. Daniel aproximou se e pousou a mão no ombro dele num gesto desajeitado e envergonhado. Tirou os sapatos e ficou imóvel.» Fechou a janela e voltou para o quarto. estou na idade da razão. Bocejou. O perfume de Ivich ainda flutuava ali. Pensou: «Muito barulho. O epicurismo desiludido. Tinha acabado o seu dia. o estoicismo. «Ninguém entravou a minha liberdade. FIM DO PRIMEIRO VOLUME . Mathieu chegou se à janela e levantou as cortinas. sentado no braço da poltrona.. Era um céu de festa na aldeia. ele não era nada e. Estava formado. no entanto. pôs se a desfazer o nó da gravata. uma vida falhada. Encostou se no parapeito e bocejou longamente.— Odeias me. agradável e azul. demorou se em cima de uma chaminé e escorregou por trás dos telhados. Por nada. tudo isso que permite apreciar.

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