Jean Paul Sartre (1905 1980

)

A IDADE DA RAZÃO
Os Caminhos Da Liberdade

Volume I

Tradução de Sérgio Milliet 5." Edição BERTRAND EDITORA VENDA NOVA 1996 ' Título original: Lês Chemins de Ia Liberte — L'Age de Raison © 1945, Éditions Gallimard Ilustração de capa: No boulevard, de Malevich Todos os direitos para a publicação desta obra em língua portuguesa excepto Brasil, reservados por Bertrand Editora, Lda. Fotocomposição e montagem: Grafitexto Impressão e acabamento: Gráfica Manuel Barbosa & Filhos, Lda. Depósito Legal n.° 101049/96 ISBN: 972 25 0996 9 Acabou se de imprimir se em Junho de 1996

A Wanda Kosakiewicz No meio da Rua Vercin getorix, o sujeito grandalhão agarrou Mathieu pelo braço. Um polícia passeava no passeio oposto. — Dê me alguma coisinha, patrão, estou com fome. Tinha os olhos muito unidos e os lábios grossos. E tresandava a álcool. — Não será sede o que tu tens? — indagou Mathieu. — Juro que não, meu velho — disse com dificuldade —, juro que não. Mathieu descobrira uma moeda de cinco francos no bolso: — No fundo não me interessa, perguntei por perguntar. E deu a moeda. — O que estás a fazer está certo — disse o tipo, apoiando se à parede —, quero desejar te uma coisa formidável. Mas o que é que te vou desejar? Reflectiram ambos. Mathieu atalhou: — O que quiseres. — Pois então vou desejar te felicidades — respondeu o outro. — É tudo. Riu triunfante. Mathieu viu o polícia aproximar se e receou que prendesse o tipo. — Bom — disse —, adeus. Quis afastar se, mas o homem alcançou-o. — A felicidade não basta — disse com uma voz entaramelada —, não basta... — Então! Que mais é que queres? — Quero dar te uma coisa. — E eu vou prender te por mendicidade — disse o polícia. Era muito jovem, muito rosado e esforçava se por se mostrar duro. — Há meia hora que estás aí a chatear os transeuntes — acrescentou sem convicção. — Não está a pedir esmola — disse Mathieu com vivacidade. — Estamos a conversar. O polícia encolheu os ombros e continuou o seu caminho. O tipo titubeava de modo inquietador; não parecia sequer ter visto o polícia. — Já sei o que é que te vou dar. Vou dar te um selo de Madrid. Tirou do bolso um rectângulo de cartão verde e entregou o a Mathieu. Este leu: «C. N. T. Diário Confederai. Exemplares 2. França. Comité Anarco Sindicalista, 41, Rua de Belleville, Paris 19.» Havia um selo ao lado do endereço. Também era verde e trazia o carimbo de Madrid. Mathieu estendeu a mão — Obrigado. — Cuidado! — disse o sujeito irritado. — E... de Madrid. Mathieu olhou o. O homem parecia comovido e fazia grandes esforços para exprimir o seu pensamento. Renunciou a isso e disse apenas: — Madrid! — Já sei. — Eu queria lá ir. Juro. Mas a coisa não se arranjou.

Tornara se sombrio. Murmurou «espera» e passou devagar o dedo sobre o selo. — Pronto. Podes levá lo. — Obrigado. Mathieu deu alguns passos, mas o sujeito chamou o. — Eh! — Que é? — disse Mathieu. O homem mostrava lhe a moeda de cinco francos. — Foi um tipo que me deu isso. Ofereço te um rum. — Hoje não. Mathieu afastou se com um vago remorso. Houvera uma época na sua vida em que deambulara pelas ruas, pêlos bares, com toda a gente; o primeiro que aparecesse podia convidá lo. Agora, tudo isso tinha acabado; esse género de aventura não dava nada... Era divertido. Tivera vontade de ir combater em Espanha. Mathieu apressou o passo, e pensou com alguma irritação: «Em todo o caso não tínhamos nada que dizer um ao outro.» Tirou do bolso o cartão verde: «Vem de Madrid, mas não tem o endereço dele. Deve lho ter dado alguém e apalpou o varias vezes antes de entregá lo, porque vinha de Madrid.» Lembrava se do rosto do homem e da sua expressão ao olhar para o selo: uma expressão estranha de paixão. Mathieu olhou o selo por sua vez, sem deixar de andar, depois repôs o pedaço de cartão no bolso. Um comboio apitou, e Mathieu pensou: «Estou velho.» Eram dez e vinte e cinco. Mathieu estava adiantado. Passou sem parar, sem querer voltar a cabeça diante da casinha azul. Mas ele espreitava a pelo canto do olho. Todas as janelas estavam escuras, com excepção da de Madame Duffet. Marcelle não tivera ainda tempo para abrir a porta de entrada; debruçada sobre a mãe, ajeitava, com gestos másculos, o leito de dossel. Mathieu, preocupado, pensava: «Quinhentos francos para darem até ao dia 29, isto é, trinta francos por dia, mais ou menos. Como é que me vou arranjar?» Deu meia volta e voltou para trás. Apagara se a luz no quarto de Madame Duffet. Pouco depois, a janela de Marcelle iluminou se. Mathieu atravessou a rua e seguiu, ao longo da mercearia, tomando cuidado para que as solas novas dos sapatos não rangessem. A porta estava entreaberta, empurrou a devagar, ela gemeu. «Quarta feira vou trazer a minha almotolia para olear os gonzos.» Entrou, fechou a porta e descalçou se no escuro. A escada rangia um bocado. Mathieu subiu com precauções, de sapatos na mão; tacteava cada degrau com os dedos do pé antes de dar um passo. «Que comédia!», pensou. Marcelle abriu a porta antes que ele alcançasse o patamar. Uma névoa rósea e que cheirava a lírio projectou se fora do quarto

e espalhou se pela escada. Ela tinha vestido uma camisola verde, transparente, através da qual Mathieu viu a curva suave e gorda das ancas. Entrou. Tinha sempre a sensação de entrar numa concha. Marcelle fechou a porta à chave. Mathieu dirigiu se ao grande armário metido na parede e guardou os sapatos; contemplou depois Marcelle e viu que havia qualquer coisa. — Que é que se passa? — perguntou em voz baixa. — Nada — respondeu Marcelle, igualmente em voz baixa. — E tu, meu velho? — Estou sem cheta. Fora isso, tudo bem. Beijou a no pescoço e na boca. O pescoço cheirava a âmbar, a boca cheirava a tabaco ordinário. Marcelle sentou se à beira da cama e pôs se a olhar as pernas enquanto Mathieu se despia. — Que é isto? — indagou Mathieu. Havia em cima da lareira uma fotografia que ele não conhecia. Aproximou se e viu uma jovem magra, penteada como um rapaz, e que ria com um ar ríspido e tímido. Envergava um casaco de homem e calçava sapatos de salto baixo. — Sou eu — disse Marcelle, sem erguer a cabeça. Mathieu voltou se. Marcelle levantara a camisola sobre as coxas gordas. Estava curvada e Mathieu adivinhava sob a camisola a fragilidade dos seios pesados. — Onde é que encontraste isto? — Num álbum. É do Verão de 28. Mathieu dobrou cuidadosamente o casaco e colocou o no armário ao lado dos sapatos. Perguntou: — Então agora andas a mexer nos álbuns da família? — Não, não sei, mas hoje tive vontade de encontrar coisas da minha vida, de ver como eu era antes de te conhecer. Trá-la cá. Mathieu pegou na fotografia e ela arrancou lha das mãos. Sentou se ao lado dela. Marcelle teve um arrepio e afastou se um pouco. Olhava a fotografia com um sorriso vago: — Como eu era engraçada — disse. A jovem mantinha se rígida, apoiada à grade de um jardim. Abria a boca e devia estar também a dizer: “É cômico”, com a mesma desenvoltura atarantada, a mesma ousadia sem firmeza. Só que era jovem e magra. Marcelle sacudiu a cabeça. — É de morrer a rir! Foi tirada no Luxemburgo por um estudante de Farmácia. Estás a ver o meu blusão? Comprei o nesse mesmo dia, porque íamos dar um grande passeio a Fontainebleau no domingo seguinte. Meu Deus!... Havia com certeza alguma coisa. Nunca os seus gestos tinham sido tão bruscos, a sua voz tão masculina. Estava sentada à beira da cama, mais do que nua, sem defesa, como um vaso enorme no fundo do quarto cor de rosa, e era penoso ouvir essa voz masculina enquanto um cheiro forte e sombrio se exalava dela. Mathieu agarrou a pêlos ombros, apertando a. — Tens saudades dessa época? Marcelle respondeu secamente: — Dessa época não, mas da vida que poderia ter tido.

que uma doença havia interrompido. começou a chover.» Quis beijar lhe a cara.» Quatro noites por semana vinha vê la. Hoje de manhã passei na tesouraria para ver se podiam adiantar me alguma coisa. isto divertia me. Perguntou. Marcelle ergueu as sobrancelhas e olhou o. de acotovelar pessoas. em tfeauvais eu entendia me com o tesoureiro.» Ele perguntou: — Que fizeste ontem? Saíste? Marcelle teve um gesto desanimado e vago. não? — Engordaste. Desci até à Rua da Gaite. Ela olhava a fotografia com um ar triste e tenso. sabes. Apanhei um táxi e voltei. Mathieu pensou: «Parece que ela me detesta... Mathieu pensou: «É verdade. — Já lá vão dez anos. indiferente: — E tu? Mathieu não tinha vontade de contar. — Porquê? A voz de Marcelle voltara à firmeza habitual e o seu rosto assumira uma expressão de bom senso masculino. — Disseste me que ela estudava. mas viu Ihe os olhos e calou se. Ela encolheu os ombros e atirou a fotografia para cima da cama. — Não. queria ver Andrée. — E viste? — Cinco minutos.Tinha iniciado os seus estudos de Química. Depois vi Ivich. mas ela afastou se sem violência com um risinho nervoso. Jantei em casa de Jacques. Acrescentou: J E A N P AUL SARTRE — Ela anda desanimada. Contava lhe minuciosamente tudo o que fazia. é um mês de Junho esquisito. leva uma vida horrível. e depois. parece que não fazem isso. Ele murmurou: — Ela vai chumbar. — Engordei. Disse: — Ontem fui ao colégio dar as minhas últimas aulas. mas a mãe interrompia me a cada instante por causa da loja. Parecia um levantino gordo. — Senti necessidade de tomar ar. chato como de costume.» Abriu os lábios para interrogá la. — E hoje? — Hoje saí — disse ela melancólica. Li um pouco. Mathieu pensou: «Não lhe dou nada. No entanto. com voz séria e ligeiramente autoritária. Dizia muitas vezes: «Vivo por procuração. estava cansada. Quando saí de casa dela. Ele não gostava de lhe falar de Ivich. as pessoas tinham umas caras ignóbeis. Ela dava lhe conselhos. .

Mas de repente. no caso de ter um azar. pensou. tenho medo que lhe aconteça o mesmo desta vez. «Que é que eu tenho a ver com os celenterados?». à sua maneira.C. meu velho. E tu acreditas que uma boneca com uma pele daquelas vai estragá la com tiros? Posso imaginá la caída numa cadeira. — Ah! conheço te muito bem. o examinador estava satisfeito. Não ousas confessar. meu velho. com os cabelos sobre o rosto e fascinada diante de um minúsculo Browning. e não poria mais os pés na Faculdade. meu pobre velho. Marcelle libertou se e o seu rosto endureceu. Desatou a rir. não.. Mathieu não deixara de acariciar as costas de Marcelle e ela começou a pestanejar. exigia apenas uma coisa: que ele falasse de Ivich precisamente naquele tom. ela vai fazer um disparate. e o tipo não lhe arrancou nem mais uma palavra. a minha até parece de marroquim. mesmo que passasse no P. Ele tinha a pele mais branca do que a dela. A família não a deixará recomeçar. mas tens medo que ela enfie uma bala no corpo. Em suma. Mas sabes como ela é: tem visões. — Olha para isto.B. Mas nem só as palavras contam! Hesitou um instante e baixou a cabeça. — Não achas que tenho uma pele boa para fazer uma escumadeira? . Mas se a coisa não correr bem desta vez. de repente «viu se» diante de um tipo calvo a falar de celenterados. pois não? Eu teria receio de ofendê la. deve ficar horas inteiras diante de um livro sem fazer um movimento. principalmente junto dos rins e entre as omoplatas. Um revólver é para as nossas peles de crocodilo. isto é. Marcelle. Gostava que ele lhe acariciasse as costas. desanimado. É muito russo isso! Mas imaginar outra coisa. Aquele tom de displicência protectora não seria uma mentira? Tudo o que podia exprimir por meio de palavras dizia o. no próximo ano. Marcelle não ignorava nada da sua afeição por Ivich. Ou que invente alguma coisa. Ela apoiou o braço no de Mathieu. E dizes que tens horror ao romanesco. desmaiaria na primeira dissecação. Em Outubro sabia bastante de Botânica. — Em todo o caso — atalhou Mathieu —. — Que rapariga estranha! — disse Marcelle pensativa. só de lhe passar o dedo por cima. De qualquer maneira.— Sim. Vais ver. Marcelle indagou com voz firme: — Que espécie de disparate queres tu dizer exactamente? — Não sei — respondeu ele perturbado. Parece que nunca lhe viste o corpo. não. pouco me importa que Ivich reprove. como os loucos. Ela foi tão pouco feita para ser médica como eu. aceitava mesmo que ele a amasse. Mathieu disse lhe: A — Ouve. Isso pareceu lhe ridículo.

— Que é isso? — Foi um tipo que mo deu há pouco na rua. — Podia ser divertido. isso tinha um grande valor para ele. E só Deus sabe corno estas coisas se repetem ultimamente. Era simpático e eu dei lhe algum dinheiro. Gostava daquela carne amanteigada com os pêlos suaves sob as carícias. Vais acordar a velha. estouraria. — Chamas a isto uma oportunidade perdida? — Sim. Ela calou se. — Quando tu me contas estas coisas. — Que é que achas? Envelheci? . Marcelle não se mexeu: olhava a mão de Mathieu. Não havia nada a fazer senão esperar. Antigamente terias feito tudo para provocar esses encontros. A tua vida está cheia de oportunidades perdidas.Imagino um buraquinho bem redondo por baixo do esquerdo. Mathieu sentiu se ligado ao tipo por uma espécie de cumplicidade. — Olha para mim — disse. como mil arrepios tensos. Mathieu pousou a mão na perna de Marcelle e acariciou a docemente. com indiferença. Ele disse: — Como estás nervosa! Ela não respondeu. concordando. Marcelle pegou no cartão. o tempo de um olhar altivo e desesperado. irrito me sempre. — Cala te. — Porquê? — perguntou Marcelle com negligência. — Olha. Era sempre assim com ela: como um nó. foi até ao armário e tirou o cartão do bolso do casaco. com os bordos limpos e avermelhados. Viu momentaneamente as suas olheiras. — Talvez tenha mudado um pouco — disse Mathieu. Dentro em pouco não se poderia conter. — Que é que tu tens? — Nada — disse ela virando a cabeça. — Ora! Marcelle ergueu a cabeça e contemplou o relógio com um ar míope e divertido. porque era necessário exprimi la em voz baixa e sem gestos para não acordar Madame Duffet. Mathieu tapou lhe a boca com a mão. — E curioso — observou. Este acabou por retirá la. Não seria nada feio. Mathieu temia essas explosões silenciosas: a paixão naquele quarto concha era impossível. Queria oferecer me um copo. A — Era um anarquista? — Não sei. — E tu recusaste? — Recusei. Acrescentou: — Sabes. J E A N P AUL SARTRE Continuava a rir. Mathieu levantou se.

» Quis fazer um esforço para ser sincero. Marcelle sorriu sem ternura. Um ronronar baixo e terno como quando ela lhe acariciava os cabelos dizendo lhe: «Meu pobre velho. Compreendes. Achava a injusta. Mathieu pensou em Ivich e teve um estremecimento desagradável. Trinta e quatro anos.. Pensou: «Não é completamente verdade.. Era ainda contra ele próprio que se defendia. de bom humor e sem vontade de discutir. J E A N P AUL SARTRE Mathieu e Marcelle tinham combinado dizer sempre tudo um ao outro.. — Bem.— Tens trinta e quatro anos — disse simplesmente Marcelle. é tudo patético. Mathieu acrescentou com vivacidade: — Ele também devia estar alheio. Mas não deixa de ser sintomático. Sentia se tranquilo e algo estúpido. — Conheço te bem — disse. «Ela procura provocar me».. Ouve. Não reflecti assim tanto. — Como tu tens medo do patético! E depois? Mesmo que te mostrasses um pouco patético com esse pobre diabo! Que mal é que havia? — E o que é que adiantava? — perguntou Mathieu. — Isto não é nada. Foi antes por escrúpulo. — Que é que achas de tão interessante nisto. — Que há. agora. eu não tinha tempo. Há muito tempo que se diz isso. perturbado. bem o sabes. não tens razão em dar importância a essa história. a tua famosa lucidez. absolutamente nada e nem há motivo para tanta história.. Mathieu sobressaltou se: se ao menos ela não empregasse palavras tão rebarbativas. não tinha um ar terno. Era a que eu queria evitar.. mas Marcelle tinha a adoptado havia algum tempo. eles já se lhe tinham habituado.. — Vamos lá — disse. — É tão raro. — disse ele. tens um medo tão grande de te iludir a ti próprio que recusarias a mais bela aventura do mundo para não te arriscares a uma mentira. Mas Marcelle tinha desatado a rir. pensou Mathieu.. não andares alheio — disse Marcelle. — Tens perfeitamente razão — disse Marcelle.. era .» No entanto. as palavras para ela não duravam mais do que uma estação). Tu és divertido. em suma. No Inverno anterior era «urgência». vinha para cá.. essa lucidez. não creio que seja isso. eram responsáveis por ela diante um do outro. — Sim. Essa «lucidez» (detestava a palavra. — Ouve — disse —. quando se está bêbedo. meu velho. ando um pouco alheio. A IDADE DA RAZÃO — Pois é — atalhou Mathieu —. Antes de mais nada.

existir parecer me ia absurdo. sabe se lá! Mas não creio. Marcelle pusera um ar sorridente e obstinado: — Sim. Sabes o que estou a pensar? Que te estás a esterilizar um pouco... — Pensas que estou a mentir? — Não. — Não pareces convencida! — Estou. No fundo. com inquietação: ainda não tinha chegado o momento de ela se decidir a falar. E tórrido. Isso era me insuportável. Que é que tu queres que se faça? Estava irritado. renunciara definitivamente aos desejos de solidão.. desconfiada. gostas de te analisar. — Não. tu segues o teu caminho. Nada de inútil.. se eu não tentasse viver por conta própria.. Tudo aquilo. de estranho. Pensei nisso hoje.. — Não é um vício — disse Mathieu. julgar: é a tua atitude predilecta.. E não me venhas dizer que é por mim que razes isso. imaginava que ele a queria dominar. — Sim — disse Marcelle. imaginas que não és o que estás a ver. Só falta o contraste. Marcelle mostrava se muitas vezes bastante dura. sim — disse ela com indolência. aos pensamentos frescos. é como se tivesses passado pela lavandaria. — Se. e se Mathieu não concordava com ela. a sua companheira. Mas raramente sentia nela aquela vontade deliberada de lhe ser desagradável.. — Sim. a sua testemunha. sim. Escuta: eu. mantinha se em guarda.. não é um fim.. é o teu vício. . Não parecia muito convencida. tinha lho explicado cem vezes.. — Eu sei — atalhou Marcelle —. olhar. Ser livre. um J E A N P AUL SARTRE pouco agressiva.. eu gostaria de não dever nada senão a mim próprio. teria a impressão de te mentir também. de hesitante. Não é isso. — É. Totalmente livre. Só podia amar Marcelle com inteira lucidez. que não és nada. — Se eu mentisse a mim mesmo — disse —. é um meio. cheiras a roupa lavada. ela era a sua lucidez. tudo é claro e nítido em ti. — Isso de me conheceres não me interessa assim tanto — disse simplesmente. Mathieu estava desconcertado. E depois havia aquela fotografia em cima da cama. e ela sabia que era muito importante para ele. É o teu vício. É para te libertar de ti próprio. — Não ser nada — repetiu lentamente Mathieu... sombrios e tímidos que dantes se esgueiravam dentro dele com a vivacidade furtiva dos peixes. Quando olhas para ti próprio. conselheira e juiz. isto é.apenas o profundo sentido do seu amor. Encarou Marcelle. Oh!. é o teu ideal: não ser nada. Quando Mathieu se comprometera com Marcelle.

Ele sentou se à beira da cama. — Porque é que os outros não são assim. Pensou que nunca conseguiria pôr se no lugar de Marcelle: «A liberdade de que lhe falo é a liberdade de homem saudável. Ela escorregou devagar para trás e deitou se de costas sobre a cama. viu lhe então as longas pestanas pretas. estás aborrecida? Ela ergueu para ele os olhos um pouco perturbados. mas teve remorsos e disse suavemente: — Não é um vício. gostaria de esquecer se e esquecê la. Beijou a na boca.Mathieu pensou: «Ela irrita me quando se arma em esperta». se não é um vício? — São assim. mas para ver aquele espírito teimoso e anguloso fundir se como um pedaço de gelo ao sol. — Marcelle! Ela não respondeu. as olheiras azuladas e borbulhentas. mas não percebem que o são. — Não. Deixou escorregar a mão ao longo das costas de Marcelle. — Passa se — disse ele com ternura —. de repente. Pensou: «Como está a envelhecer!» E pensou que ele também estava velho. — Pois eu não tenho toda essa necessidade de ser livre — disse. bem desenhada e severa. Mathieu ergueu se. Mas havia muito tempo que já não se esquecia quando a possuía. eu sou assim. há alguma coisa que te . tinha uma linda boca. que contemplava o tecto. vais dizer me o que é que se passa. cansada. ligeiramente envelhecida. tirou as calças e a camisa. de olhos fechados. envergonhado da sua nudez. aquele remorso absurdo que o perseguia quando estava com ela. Apertou a nos braços: não que a desejasse naquele instante. — Não se passa nada — respondeu. Mas percebeu que agora ela tinha os olhos abertos e parados. dês J E A N P AUL SARTRE feita. Marcelle deixou cair a cabeça sobre o ombro de Mathieu e ele viu lhe de perto a pele morena. e ela baixou as pálpebras. A Marcelle deixara de rir. com voz fraca. — Agora — disse com firmeza —. Era sempre aquele remorso. tinha uma expressão má. levantou se. — Marcelle. pô las dobradas aos pés da cama e estendeu se ao lado dela. Inclinou se sobre ela com uma espécie de mal estar.» Pôs lhe a mão no pescoço e apertou suavemente entre os dedos aquela carne untuosa. Exactamente na ponta dos dedos. com as mãos cruzadas sob a cabeça. Calaram se. Tinha um vinco duro e triste no canto dos lábios. Mathieu sentia prazer na ponta dos dedos. Mathieu olhou para a sua nuca inclinada e não se sentiu à vontade.

— Pois é — disse Marcelle. Parecia espantada. Ela já lá esteve.» Tinha vontade de fazer alguma coisa com as mãos. Mathieu observou que o rosto se lhe tornara cinzento. Os lábios cerraram se sobre as últimas palavras: uma °ca húmida com reflexos violeta. Tinha uma expressão dura mas não máscula. Não. Marcelle. — Vá lá. — Espera — disse Mathieu. sem preparação.. — Aconteceu o quê? — Aconteceu! Mathieu fez uma careta. açucarado. a cintura. um insecto vermelho . Que é que vamos fazer? — Desenvencilharmo nos disto. — É a mulher que a liquidou no ano passado? Custou lhe seis meses de cama. — Agora já sabes. e isto vai aborrecer te.aborrece. não quero.. aconteceu. encher o cachimbo. Tenho uma direcção. Não dizemos tudo um ao outro? — Tu não podes fazer nada. Sabes que nunca perco a cabeça: mas. não é a ti que te compete. aquele olhar parado. Vamos reflectir. Tinha voltado a cabeça para ele e contemplava o. os ombros. Disse com súbita paixão: — Não é preciso que reflictas. Tinha as mãos sobre as coxas e os braços pareciam asas de terracota. Mas havia aquele rosto cinzento. conta. Ele acariciou lhe levemente os cabelos. cheirava a rosas.. Tirou um cigarro da mesa de cabeceira. E acrescentou com uma amarga ironia: — Isto agora é uma coisa de mulheres. — Não podes fazer nada — repetiu Marcelle. por exemplo. sentou se a uma certa distância de Mathieu. dir se ia que procurava não tossir. — Tens a certeza? — Absoluta. Mathieu corou violentamente e apertou as pernas. dois meses de atraso! — Merda! Pensava: «Ela devia ter mo dito há pelo menos três semanas. — Dizes me essas coisas assim. — Quem ta deu? — Andrée. não? — Está bem. O ar estava doce. para o largar em seguida. mas o cachimbo estava no armário com o casaco. — Então queres ser pai? Ela afastou se. Olhou lhe o pescoço.. — Pois então. As mãos de Marcelle principiaram a tremer. e o seu olhar desceu mais ainda.

Escuta. «odeia me. — Garanto te que não me sinto orgulhoso. «Se fosse ela». Ele sabia que ela tinha vontade de gritar. e tu é que pagas. Ela só leva quatrocentos francos. com medo de acordar Madame Duffet. — Acredito. mas não o faria.. que descansava delicadamente sobre as coxas com um ar de impertinente inocência. Era tudo o que podia permitir se. Disse com uma voz decidida: — Desculpa. pensou Mathieu. o espelho com os reflexos de chumbo. É a primeira vez. tudo adquiriu um aspecto de impiedosa engrenagem: fora posta em movimento e girava no vácuo das suas frágeis existências. continuava a olhar para o ventre de Mathieu. Quando ergueu a cabeça. «teria vontade de bater em toda esta carne. mas ela espera. sem conseguir arrancar se daquele mundo sinistro e agreste. querido..» Ele tinha vontade de vomitar. eram para a minha costureira.. Naturalmente não te censuro nada. desastrado e nu que fizera uma asneira e sorria gentilmente para se fazer perdoar. Mas ela não a podia esquecer: via as coxas brancas dele. aconteceu. Agarrou bruscamente Marcelle pela cintura e apertou a contra ele. 24. para a flor culpada. — Ainda bem. precisava de desabafar.. a nudez satisfeita e peremptória. o relógio. pensou Mathieu. já estava calma. Era um pesadelo grotesco. — Tinhas direito a fazê lo — observou Mathieu. Enfim. — Bem sei — disse Mathieu com amargura. Estou a dominar me desde esta manhã. um pouco curtas. havia grandes vazios entre os objectos. estou persuadida de que serei tão bem tratada por ela como por qualquer outra — afirmou —. sabes? — disse de repente Marcelle com uma voz sensata. O quarto parecia ter se esvaziado repentinamente do fumo róseo. Sentia se desajeitado. Ela inclinou se sobre os seus ombros e fungou duas ou três vezes sem verter lágrimas. Mathieu pensou: «Eu é que lhe fiz isto.» Disse: — É exactamente o que me preocupa: o não levar muito. com uma obstinação rígida.» E a lâmpada. Bolas.ocupado em devorar o rosto cinzento. insistindo na sua melodia. «Sente se humilhada». como . Dizes que vais da parte de Andrée? — Sim. E. que porcaria! A asneira é minha. de soluçar. musculosas. Dizem que é irrisório. Um tipo grande. Marcelle não se mexera. como o mecanismo de uma caixinha de música. Felizmente que pede pouco e eu tenho precisamente quatrocentos francos comigo. Parece que é uma mulher estranha. o armário entreaberto. quem é essa mulher? Onde é que ela mora? — Rua Morère. Mathieu mexeu se. a cómoda. — É um bom negócio. como um noivo. que teima em tocar. aconteceu. sabes.

nessas famosas clínicas clandestinas onde cobram quatro mil francos. Amanhã vou ter com a Sara. Era como uma mão morna. Marcelle gemeu levemente. mas que não pode ir já. mas percebo que queres fazer qualquer coisa. ela deve conhecer alguém. no princípio ela não queria filhos. — Eu vou lá. quase não dorme. não podemos escolher. não? Acho que ela não regula muito bem. não vais. Acariciou lhe a nuca. vê se luz por baixo de uma porta. não? Passou os lindos braços à volta do pescoço dele e acrescentou com um ar de resignação cómica: — Se perguntares à Sara. Dizem que só recebe de noite. — Querido. — Tu és bom. E súbita A mente ele pensou: «Está grávida. De dia a mulher está na mercearia. Mas acrescentou com mais amabilidade: — No fundo tens razão. é aí. Marcelle olhou o admirada. Ele acariciou lhe os seios. É engraçado. passiva e gulosa. Mathieu sentiu se perturbado. Cantava lhe ao ouvido uma música gritante. Estamos nervosos de mais. vai pensar que és um tipo da Polícia. mas a mim dá me jeito por causa da minha mãe. Entra se pelo pátio. se não servir? — Podemos esperar dois dias. querido. — Quando é que vais? — Amanhã. Desculpa. — Escuta. — Estás doido? Ela põe te na rua. estamos nervosos de mais. hoje isto não vai. Lembras te. Se não me agradar. Além disso. Não quero que caias no açougue de urna velha tonta. que tenho uma amiga que está atrapalhada. Marcelle suspirava. J E A N P AUL SARTRE — Bem — disse Mathieu. Marcelle parecia um pouco mais calma. de olhos cerrados. porque se constipou. não sei muito bem o que é que vais fazer. por volta da meia noite. e ela abandonou se completamente. — E então? Aonde é que vou. — Como queiras — disse com frieza. cercadas de intumescências febris. depois levantou se e enfiou as mãos nos cabelos. Gostava das suas pontas gordas e duras. . Obedeceu e deitou se. — Mas porquê? Que é que lhe vais dizer? — Quero ver como é. querido. Eu desejava as tuas carícias. Mas as pálpebras crispavam se lhe. qualquer coisa. Marcelle. — Eu vou lá — repetiu Mathieu.» Sentou se. Mathieu beijou a. mas estava apreensiva. Digo lhe que vou da parte de Andrée. é de certeza um judeu. Gostarias que te operassem em vez de mini. — Tira a tua camisa. — Não podemos escolher — repetiu Mathieu.

diante daquela pesada transparência. como hei de fazer para não me esquecer?» Estava sozinho.— O mal está feito. murmurou com ódio. enfiado até ao pescoço na sua roupa. E repetiu o a meia voz para convencer Marcelle: «Uma única vez em sete anos.. fazes me medo. Mathieu tinha enfiado a camisa e as calças. Sem se poder defender. — É que sinto repugnância por mim mesma.. recomeçava a desabrochar sob os tecidos. Mathieu levantou se. Beijou Marcelle nos olhos. Mas Jacques e Odette dormiam. «A almotolia! Vou trazê la amanhã. — Eu sei. Vou ver a velha. Não me explico bem. Daniel estava bêbedo ou embrutecido. esqueceu se dentro de mim como um miúdo que faz chichi na cama. se quiseres. No patamar voltou se: Marcelle ficara sentada na cama.» Marcelle não se deixava convencer: ficara no quarto e pensava em Mathieu. mas Mathieu teve a impressão de que ela lhe guardava rancor. nu e sem defesa. à distância. Marcelle não o abandonara. prometo. — Não posso ver te amanhã à noite? Seria mais simples. — J E A N P A U L. A consciência de Marcelle ficara lá cheia de desgraças e de gritos. Se ao menos. Depois de amanhã. anonimamente. pudesse existir para outros A com aquela força. pensava nele. Só aconteceu uma vez em sete anos. amanhã à noite. mas era instintivo. querido. Não estava só. Escondida pela roupa escura e pela noite. — Não me queres mal? — A culpa não é tua. querida. trespassado. Ivich nunca pensava nos . Não era verdade. a sua carne culpada sentia se resguardada. — Querida — disse Mathieu com ternura —. e encontrava pouco a pouco o calor e a inocência. «Uma única vez». — Bom. mais incómoda do que um olhar. Telefona me amanhã para me dizeres o que há. não temos mais nada a temer. Sorria lhe. tenho a impressão de ser um monte de comida. pensava: «O estupor fez me isto. que lhe rolaram à vontade nas órbitas: ela já não o contemplava e não tinha de lhe prestar contas dos seus olhares. não. Em oito dias tudo terá acabado. — Não. E eu não te repugno. — Sim. Parou.» Podia andar pelas ruas desertas. Era intolerável ser julgado assim. não lhe escaparia. Não tens nada que te recriminar. nem sequer esconder o ventre com as mãos. SARTRE Abriu a porta sem ruído e esgueirou se para fora com os sapatos na mão. ao mesmo tempo. Algo se desprendeu nos seus olhos fixos. e Mathieu não a deixara: ele continuava no quarto cor de rosa. odiado em silêncio. ao menos? — És tola.

ausentes. Boris talvez... Mas a consciência de Boris era apenas uma faísca difusa, não podia lutar contra a lucidez imóvel e sombria que fascinava Mathieu à distância. A noite amortalhara a maioria das consciências. Mathieu estava só com Marcelle dentro da noite. Um casal. Havia luz no Café Camus. O patrão empilhava as cadeiras; a servente fechava um dos lados da porta de madeira. Mathieu empurrou a outra porta e entrou. Tinha vontade de se mostrar. Simplesmente de se mostrar. Encostou se ao balcão. — Boa noite a todos. O patrão olhou o. Havia também um condutor que bebia Pernod, com o boné sobre os olhos. Eram consciências. Consciências afáveis e discretas. O condutor atirou o boné para trás, com um piparote, e olhou para Mathieu. A consciência de Marcelle abandonou a presa e diluiu se na noite. — Uma cerveja — pediu Mathieu. — Raramente aparece — disse o patrão. — Não é por falta de sede. — E verdade que temos sede. Parece que estamos no fim do Verão — disse o condutor. Calaram se. O patrão lavava os copos, o condutor assobiava baixinho, Mathieu sentia se contente porque eles olhavam no de vez em quando. Viu a sua cabeça no espelho: emergia, redonda e lívida, de um mar de prata. No Café Camus tinha se sempre a impressão de serem quatro horas da manhã, por causa da luz, uma névoa prateada que cansava os olhos, embranquecia os rostos, J E A N P A U L SARTRE as mãos, lavava os pensamentos. Bebeu. Reflectiu. «Ela está grávida. Incrível. Não parece verdade.» Parecia lhe, isso sim, chocante, grotesco como quando um velho e uma velha se beijam na boca: depois de sete anos, aquelas histórias não deviam acontecer. «Ela está grávida.» Tinha no ventre uma pequena maré translúcida que inchava docemente, que era corno um olho: «E desenvolve se no meio das porcarias que ela tem no ventre, e vive.» Viu um alfinete comprido avançando na penumbra. Um ruído mole e o olho estourou, furado; ficou apenas uma membrana opaca e seca. «Ela vai ver a velha, vai para o talho.» Sentia se venenoso. «Chega.» Mexeu se: eram pensamentos lívidos, pensamentos das quatro horas da manhã. — Boa noite. Pagou e saiu. «Que é que eu fiz?» Andava devagar, procurando lembrar se. «Dois meses...» Não se lembrava de nada, talvez fosse depois daquelas férias da Páscoa. Tomara Marcelle nos braços como de costume, com ternura sem dúvida, mais por ternura do que por desejo; e no entanto... «Um filho. Eu pensava dar lhe prazer e fiz lhe um filho. Não compreendi o que fazia. Agora vou

entregar quatrocentos francos a essa velha, e ela vai enfiar o instrumento entre as pernas de Marcelle, e raspar; a vida partirá como veio; e eu continuarei tão estúpido como dantes. Destruindo esta vida como a criei, não sabia o que fazia.» Riu secamente: «E os outros? Os que gravemente decidiram ser pais e se sentem genitores quando contemplam o ventre das suas mulheres... Compreenderão melhor do que eu? Fizeram no às cegas, ao acaso. O resto foi trabalho em câmara escura e em A gelatina, como a fotografia. Isto faz se sem eles.» Entrou no pátio e viu uma luz por baixo da porta. Era ali. Estava envergonhado. Mathieu bateu. — Quem é? — perguntou urna voz. — Gostaria de falar consigo. — Não é hora de vir a casa das pessoas. — Venho da parte de Andrée Besnier. A porta abriu se. Mathieu viu uma madeixa de cabelos amarelos e um nariz avantajado. — Que é que quer? Não venha como polícia porque não me apanha. Estou em ordem. Tenho o direito de deixar a luz acesa a noite inteira, se quiser. Se o senhor é inspector, mostre me o seu cartão. — Não sou da Polícia — disse Mathieu. — Tenho uma complicação e disseram me que podia procurá la. — Entre. Mathieu entrou. A velha vestia calças de homem e uma blusa com fecho éclair. Era muito magra, de olhos inexpressivos e duros. — Conhece Andrée Besnier? Encarava o com um ar furioso. — Sim — disse Mathieu. — Ela veio procurá la o ano passado, nas vésperas do Natal, porque estava atrapalhada. Ficou bastante doente e a senhora foi quatro vezes à casa dela para a tratar. — E depois? Mathieu olhava as mãos da velha. Eram mãos de homem, de estrangulador, ásperas, gretadas, de unhas curtas e pretas, com cicatrizes e cortes. Sobre a primeira falange do polegar esquerdo havia equimoses violáceas e uma crosta negra. Mathieu estremeceu ao pensar na carne tenra e morena de Marcelle. — Não venho por causa dela — explicou. — Venho por causa de uma das suas amigas. A velha riu secamente. — É a primeira vez que um homem tem o descaramento de se vir pavonear na minha frente! Eu não quero negócios com homens, compreende? O quarto estava sujo, em desordem. Havia caixotes em todos os cantos e palha no chão ladrilhado. Em cima de unia mesa, Mathieu viu uma garrafa de rum e um copo meio vazio.

— Vim porque a minha amiga mo pediu. Ela não pôde vir hoje e pediu me que me entendesse consigo. No fundo da sala via se uma porta entreaberta. Mathieu tinha quase a certeza de que havia alguém atrás dessa porta. A velha falou: — Essas pobres raparigas são muito tolas. Basta olhar para si para ver que é do género de tipo capaz de fazer um disparate, derrubar copos ou partir espelhos. E apesar disso elas confiam lhes o que têm de mais precioso. Afinal têm aquilo que merecem. Mathieu continuou correcto. — Gostaria de ver onde costuma operar. A velha deitou lhe um olhar de ódio e desconfiança. — Não faltava mais nada! Quem é que lhe diz que eu opero? Do que é que está a falar? No que é que se está a intrometer? Se a sua amiga me quiser ver, que venha. Com ela, só com ela é que me hei de entender! Ah!, queria ver, não? Ela também quis ver, antes de se pôr entre as suas patas? O senhor fez uma burrice. Pois bem, peça a A Deus para eu ser mais habilidosa, é tudo o que lhe posso dizer. Adeus. — Adeus, minha senhora — disse Mathieu. Saiu... Sentia se liberto de um peso. Dirigiu se vagarosamente para a Avenida de Orleães. Pela primeira vez desde que a deixara, podia pensar em Marcelle sem angústia, sem horror, com uma terna tristeza. «Amanhã vou a casa da Sara», pensou. II oris olhava para a toalha de quadrados vermelhos e pensava em Mathieu Dela rue. Pensava: «Um tipo às direitas.» A orquestra parara, a atmosfera estava azulada e as pessoas conversavam. Boris conhecia todos na salinha estreita; não era gente que vinha ali para se divertir: apareciam depois do trabalho, eram sérios e tinham fome. O negro que estava em frente de Lola era cantor no Paradise; os seis tipos com as miúdas eram músicos do Nénette. Certamente acontecera lhes qualquer coisa, uma inesperada felicidade, talvez um contrato para o Verão (na antevéspera tinham falado vagamente de uma boïte em Constantinopla), porque tinham encomendado champanhe e normalmente eram mais sóbrios. Boris também viu a loura que dançava vestida de marinheiro no Java. O magro, alto e de óculos, que fumava um charuto, era director de um cabaré da Rua Tholozé, que a Polícia tinha fechado. Dizia que o ia reabrir muito J E A N P AUL SARTRE em breve, pois tinha protecções na alta roda. Boris lamentava amargamente não ter lá ido, mas iria sem dúvida quando voltasse a abrir. O tipo estava com um pederasta que, de

longe, parecia agradável, um louro de rosto fino, que não era muito afectado e tinha um certo encanto. Boris não gostava dos pederastas porque andavam sempre atrás dele, mas Ivich apreciava os e dizia: «Esses, pelo menos, têm a coragem de não ser como toda a gente.» Boris tinha muita consideração pelas opiniões da irmã e fazia grandes esforços para suportar os tipos. O negro comia chucrute. Boris pensou: «Não gosto de chucrute.» Queria saber o nome do prato que tinham servido à dançarina do Java: um naco escuro que parecia bom. Havia uma mancha de vinho tinto na toalha. Uma bela mancha, dir se ia que a toalha era de cetim naquele lugar. Lola espalhara uma pitada de sal sobre a mancha, porque era cuidadosa. O sal estava cor de rosa. Não é verdade que o sal come as manchas. Tinha de dizer a Lola que o sal não come as manchas. Mas era preciso falar e Boris sentia que não podia falar. Lola estava ao seu lado, cansada e quente, e Boris não conseguiu dizer uma só palavra. Tinha a voz morta. «Eu seria assim se fosse mudo.» Era voluptuoso, a voz flutuava no fundo da garganta, suave como algodão, e não podia sair, estava morta. Boris pensou: «Gosto muito de Delarue.» E regozijou se com isso. Tinha tido muito mais prazer se não sentisse, de todo o seu lado esquerdo, das têmporas à cintura, que Lola o olhava. Era por certo um olhar apaixonado. Lola não sabia olhar de outro modo. Era um pouco incomodativo porque os olhares apaixonados pedem, como retribuições, gestos amáveis e sorrisos; e Boris não era capaz do menor movimento. Estava paralisado. Só que não tinha muita importância; não tinha obrigação de ter percebido o olhar de Lola; adivinhava o, mas isso era da sua conta. Assim como estava, com o cabelo caído sobre os olhos, não via nem um bocadinho de Lola e podia muito bem imaginar que ela olhava a sala e toda aquela gente. Não estava com sono, sentia se à vontade e satisfeito porque conhecia todos na sala. Viu a língua rósea do negro. Boris estimava aquele negro. Uma vez, o negro descalçou se, pegou numa caixa de fósforos com os dedos do pé, abriu a, tirou um fósforo e acendeu o, tudo com os pés. «Aquele tipo é formidável», pensou Boris com admiração, «toda a gente devia saber servir se dos pés como das mãos.» Doía lhe o seu lado esquerdo de tanto ser olhado. Sabia que se aproximava o momento em que Lola iria perguntar: «Em que estás a pensar?» Era absolutamente impossível atrasar a pergunta; não dependia dele; Lola havia de a fazer a hora certa, como uma fatalidade. Boris tinha a impressão de gozar um bocadinho de tempo infinitamente precioso. No fundo era agradável. Boris via a toalha, via o copo de Lola (Lola tinha ceado, nunca jantava antes do seu número de canto). Bebera Château Gruau,

tratava se bem, permitia se uma porção de pequenos caprichos porque andava desesperada com a velhice que a ameaçava. Sobrara um resto de vinho no copo, dir se ia sangue empoeirado. O jazz pôs se a tocar // the moon turns green e Boris perguntou a si próprio: «Saberei cantar esta música?» Seria agradável passear pela Rua Pigalle, ao luar, assobiando uma melodiazinha. Delarue tinha lhe dito: «Você assobia como um porco.» Boris riu se por dentro e pensou: «O estupor!» Transbordava de simpatia por Mathieu. Olhou de lado sem virar a cabeça e reparou nos olhos cansados de Lola por baixo de uma sumptuosa madeixa de cabelos ruivos. No fundo, suporta se sem grande esforço um olhar. Bastava habituar se àquele calor peculiar que vem queimar o rosto quando se sente que alguém nos observa de modo apaixonado. Boris entregava se docilmente aos olhares de Lola, o corpo, a nuca magra, o perfil diluído que ela tanto amava. Assim, por esse preço, podia abstrair se profundamente em si mesmo e ocupar se com os pensamentos miúdos e agradáveis que nasciam dentro dele. — Em que é que estás a pensar? — perguntou Lola. — Em nada. — Está se sempre a pensar em qualquer coisa. — Não pensava em nada. — Nem mesmo se gostas do que estão a tocar ou se gostarias de aprender a sapatear? — Sim, em coisas como essas. — Estás a ver? Porque é que não me dizes? Quero saber tudo o que pensas. — Essas coisas não se dizem. Não têm importância. — Não têm importância? Parece que só te deram uma língua para falar de filosofia com o teu professor. Ele olhou e sorriu: «Gosto dela porque é ruiva e parece velha.» — Que miúdo estranho — disse Lola. Boris piscou os olhos e pôs um ar suplicante. Não gostava que falassem dele; era tão complicado. Perdia se nessas divagações. Dir se ia que Lola estava colérica, mas era simplesmente porque o amava com paixão e se atormentava por causa dele. Havia momentos assim, em que era mais forte do que ela, em que se aborrecia sem motivo, se angustiava, contemplava Boris perdidamente, não sabia o que fazer dele e as mãos agitavam se lhe sozinhas. A princípio, Boris estranhara, mas aos poucos habituara se. Lola pousou a mão na cabeça de Boris. — Queria saber o que tens aí dentro — disse. — Faz me medo. — Porquê? Juro que é inocente — observou Boris a rir.

. mas não sei como explicar. Havia muita gente esta noite? — Uma cambada vinda nem sei de onde. cada um dos teus pensamentos é uma pequena fuga. Além disso. dava lhe uma certa segurança. Desde que os sentira na boca. Lola perguntou timidamente: — Tu não te chateias comigo? — Nunca me chateio.— Sim. Fiquei chateada. — Estás aí muito terno — disse Eola —. vem assim. Sarrunyan teve de mandá los calar. — Não gosto que me vejam a testa. Lola olhava o bem de perto.» Gostava que as pessoas que tinham afeição por ele parecessem velhas. Tinham tanta vontade de me ouvir como de se enforcar. — Não levantes a minha madeixa — disse Boris. A voz era pesada e sombria como uma cortina de veludo vermelho. aqueles lábios enormes de cantos caídos de que ele tinha gostado. Despenteou lhe os cabelos. não diz a idade. de repente. desde que o amava: «Não posso fazer nada por ela». tinha a sensação de estar a ser indiscreta. penso que estás bem comigo. talvez.. É uma linda palavra na tua boca. Achava isso reconfortante. muito simpática. — Estou aqui. mais só ainda. E que tagarelava sem parar. acariciou a ligeiramente e largou a sobre a mesa. eu nada posso. pergunto a mim própria para onde fugiste. Lola suspirou e Boris pensou. pensou que ela estava acabada. — De quê? — És uma criança.. sabes. e. Ele disse: — Divirto me quando dizes criança. O seu rosto pálido estava desfigurado por uma generosidade triste. era precisamente o mesmo ar que tinha quando cantava Lês Écorchés. Só por isso iria ouvir te. produziram lhe o efeito de uma nudez húmida e febril no meio de uma máscara de gesso. Teve vontade de beijar o rosto atormentado de Lola. disse consigo mesmo. tão branca que não parecia ser verdadeira. que tinha estragado a sua vida e ficara só. resignado. Agora preferia a pele de Lola. Tu dizes duas vezes criança em Lês Ecorcbés. Mesmo assim aplaudiram quando entrei. mas deve seguramente andar pêlos quarenta. — Tenho vergonha — disse Lola. dava Ihe uma espécie de fragilidade terrível. que não se revelava a princípio porque todos tinham a pele curtida como couro. Ele pegou lhe na mão. Avançava os lábios. naquele instante. não há ninguém. Achava a. espontaneamente. com satisfação: «É engraçado como ela parece velha.

e Lola apressou se a acrescentar: — Sabes. têm a impressão de andar a brincar aos jantarzinhos. atrapalhamo los e quando surgimos medem nos dos pés à cabeça. — É engraçado que tu não saibas russo — concluiu Lola. — Mas quando cantavas no music hall. Mathieu era indiferente e brutal. hesitam. não sabem como se hão de conduzir. falei com ele esta noite. tinha a aprovação da própria consciência. «Ela é extraordinária». — Não era a mesma coisa. também vivias do canto. — Já sei.— É normal. nunca teria começado. Houve um silêncio. Boris recordou de repente o rosto de Mathieu num dia em que ele ajudara Ivich a vestir o casaco. Mathieu explicava lhe coisas. Acho isso muito natural. um tem de ser mais velho do que o outro. aquele estranho sorriso envergonhado e terno. curvam se. pensou Boris. — Os meus pais saíram da Rússia em 17. noutro dia. tinha eu três meses. pensou Boris. E depois. São sabidas. — Oh!. o tipo que canta depois de mim. Naturalmente preferia a companhia de Mathieu. Um homem é mais interessante. «Ela pensa que me aborrece». Evidentemente. Quando Boris estava junto de Lola. Mathieu não era assim com Ivich. Se os vis A sés chegar cheios de sorrisos. É delicado.» Era mais de acordo com a moral. Boris perguntava a si próprio se Mathieu lhe teria amizade. Se ambos são jovens. — Se imaginasse que iria acabar assim. não. estou farta — disse Lola. — Mas tu — disse Lola — poderias dizer me se ele tem boa pronúncia. sentia se justificado. porque Mathieu não era uma simples mulher. sonhadora. Boris — disse bruscamente Lola —. — Desgosta me cantar para estes idiotas. Gente que aparece porque precisa de retribuir um convite e não pode receber em casa. mas há muitas maneiras de mostrar que se gosta e Mathieu já poderia ter tido um gesto que revelasse a sua amizade. O sorriso de Mathieu: naquela boca amarga que tanto agradava a Boris. Mas logo a cabeça de Boris se . Mas não hoje. sentiu um aperto desagradável no coração. «tem vergonha de me amar porque é mais velha do que eu. mas é tão russo como eu. o novo. seguram a cadeira da mulher enquanto ela se senta. sabem orientar se e o seu amor é consistente. Claro que entre homens não deve haver sentimentalismos. Prometeu a si próprio dizer lhe de uma vez para sempre que ela nunca o aborrecia. eu canto para viver. — Talvez ele tenha aprendido russo. Com as pessoas maduras. Boris não poderia amar uma mulher da sua idade.

tonto. eu não te disse que não podia suportá lo. mas é que ele não é operário. Não te faças parvo. não para mim. como se acabasse de fazer força. — Por isso mesmo. Não seria exactamente essa palavra que eu escolheria. está bem. Tremem sempre ligeiramente. — No que é que estás a pensar? — Em Delarue — disse Boris. mais três palavras e ela vai começar a tossir. aborrecido.» — Acho o simpático — disse com prudência. — É o que dizes sempre. já te vi com Delarue. mas incomoda me falar te dele. — Não poderias de vez em quando pensar também um pouco em mim? — Não preciso de pensar em ti. há qualquer coisa de duro e irónico. . Lola sorriu tristemente. — Porque pensas em Delarue? Gostarias de estar com ele? — Estou contente de estar aqui. Só não percebi o que é que viste nele de extraordinário. parecia implorar. — Estás contente de estar aqui ou de estar comigo? — E a mesma coisa. — Ei lo a sonhar de novo — murmurou Lola. é impressão minha. não é contentamento. Não posso explicar. — Sim. Enfim. mas depois é preciso não o ver beber com aquela boca esquisita de pastor protestante. Quando eu estou contigo pouco me importa que seja aqui ou ali. — Não? — indagou Boris surpreso. engana as pessoas. mas não é simpático. — Olha para mim. — Que é que têm as mãos? Eu gosto delas.encheu de fumo e ele não pensou em mais nada. tu estás aí. Boris pensou: «Não é verdade. um tipo assim agradável. Aliás eu nunca me sinto contente quando estou contigo. mas ele não põe as pessoas à vontade porque não é carne nem é peixe. Para mim um tipo simpático é um amigo do género do Maurice. Não é bem assim. querido. Lola aproximou dele o seu belo rosto arruinado. Explica me. não sabes onde é que te hás de meter quando ele aparece. Lola teve um sorriso contrafeito. Repara nas mãos dele. — Não é a mesma coisa. Ela olhava o com ansiedade. — Não. porque é que gostas tanto dele? — Não sei. sabes muito bem o que é isso. — Para ti é. — Olha como ele se defende! Mas. Lola. Quando o vejo agarrar no copo de uísque. E um amigo notável. — São mãos grosseiras de operário. que é culto. porque já me disseste que não podes suportá lo. Diz me que ele parece inteligente. de que eu não desgosto. eu só quero compreender.

no metro. Quanto a deixar que uma mulher já madura lhe acariciasse a mão em público. Pensou que estava com uma camisola azul de gola alta com o ponto grosso e ficou satisfeito. que anda sempre tão mal arranjado. uma linda camisola. Eu sei que é a profissão que exige isso. não tem importância que não se seja elegante. não sabia parar quando começava. por exemplo. pensou Boris com irritação.» Já não a sentia. professor. «Que complicação». que usa gravatas que o empregado do meu hotel não usaria. — Compreendo te muito bem — continuou Lola conciliadora —. Boris estava entorpecido e passivo. Mesmo quando estava só. nem de beber. por exemplo. estás influenciado. tu. Disse para si próprio que lhe seria mais fácil mostrar se terno com Lola se ela não insistisse naquelas expressões de humildade. deve reflectir sobre tudo. Explicou: — Quando as pessoas não se preocupam em andar bem vestidas. bem o percebo numa data de coisas. Isso divertiu o e ele ergueu um dedo para a fazer viver. parece uma filho. Não sei se há mulheres a quem isso agrade. mas já não estou na escola. que nunca as achas muito elegantes. quando se ensina: eu tinha um professor que falava como ele. uma voz cortante de senhor que nunca se engana.acho o austero e. é como a voz dele. Lola pegara lhe na mão e fazia a saltar entre as suas. pensou Boris. Como ele foi bom professor. O que é ridículo é querer dar nas vistas e não o conseguir. nem de comer. deve haver. não o vês com os meus olhos. não te incomodas quando se trata dele. nem de dormir com uma mulher. Lola respirou fundo. mas no fundo. Compreendo que se possa ser uma coisa ou outra. Ela era assim. um bruto ou uma pessoa distinta. e Boris achava natural que cada uma delas o tentasse afastar das outras. não gostaria de sentir sobre mini essas mãos de lutador e ser trespassada pelo seu olhar glacial. mas não as duas ao mesmo tempo. As pessoas que gostavam dele não eram obrigadas a gostar umas das outras. Lola disse de repente: — Não me chegaste a dizer porque o achavas tão «bem». Há muito que ele pensava estar predestinado a isso. as pessoas olhavam no escandalizadas e as costureirinhas que saíam do trabalho riam se lhe na cara. O dedo roçou a palma de Lola e ela olhou o com gratidão. que és tão severo com a maneira como as pessoas se vestem. que é o tipo que não gosta de nada simplesmente. vê se logo que é culto. Mas sentia se tranquilo. e isso irrita me. devia gostar . — Tu consegues. pastor. mas digo te francamente que me repugnava que um tipo assim me tocasse. «É isto que me intimida». não o perturbava de forma alguma. Boris tinha a certeza de que ela se mortificava. se lhe observarmos os olhos. Boris olhou a mão que saltava e pensou: «Não parece minha. não é? — Eu sei escolher o que me convém — disse Boris com modéstia.

deixara cair a colher. e ele achava isso estúpido. eu é que vou apanhá la. só estou presa a ti. inesquecível: «Pois bem. — Delarue tem paixões — disse. Boris não respondeu. É livre. como se a sua vida estivesse sempre em jogo. Boris conversara com Ivich. E depois armava se em heroína. Quanto ao resto. Era um sacrilégio intolerável e ele desatara a soluçar. — Pois então eu também sou livre. Fazia tudo o que dependia dele. Mas os olhos permaneciam febris e duros. — Eu não sou livre? — perguntou Lola. — Isso não o impede de não se prender a nada. quando Boris era pequeno. uma cabeça calva. — E tu achas bem não se prender a coisa nenhuma? Tu não te prendes a nada? — A nada. naturalmente apreciava Lola por ser tão apaixonada. era uma questão de génio. Boris considerava os adultos como divindades volumosas e impotentes. Desde então. continuando a pensar em voz alta. não tinha sorte. — Nem um bocadinho a mim? — Ah! A ti sim.» Boris vira um corpo alto curvar se com rigidez. obstinadamente. É demasiado difícil de explicar. os velhos eram amargos. de um lado a vontade de rir. Contemplava a: o ar estava azulado em volta dela e o rosto era de um cinza pálido. Ela mortificava se. qualquer coisa como o choro de Deus sobre a maldade do homem. provavelmente. Lola pareceu infeliz e Boris voltou a cabeça. não sabia onde se enfiar. tinha se a impressão de que se iam partir. Se se baixavam. — Não é bem a mesma coisa. telefonava lhe sempre. e então dormia em casa dela. — Diz lá porquê? J E A N P AUL SARTRE — Porque é um homem às direitas. Ele não se prende a coisa nenhuma. como em Lola naquele momento. mandaram no apanhá la e ele recusara se. ia buscá la três vezes por semana à saída do Sumatra. de outro um certo temor religioso. se davam um passo em falso e se se estendiam no chão. ficava se colocado num dilema. Até certo ponto estava certo. e era muito comovente. Mathieu explicava lhe que as pessoas deviam ter paixões. e ambos tinham concordado que estava certo. Lágrimas de adulto eram uma catástrofe mística. também. Mas dependia da maneira como se encarava a coisa: se se faz para se destruir. estás a chatear me. Ouvira um ranger de ossos. Lola era urna vítima. E se as lágrimas lhes subiam aos olhos. Oh! — gemeu Boris —.disso. e Descartes também o dizia. Não gostava de a ver quando ela tinha aquela expressão. Uma vez. mas não podia fazer nada. Tudo aquilo não a favorecia. De idade. Então o pai dissera lhe com uma atitude majestosa. Era fiel a Lola. Sob outro ponto de vista. por desespero ou .

— Da Ivich? Magoas me. — Está se nas tintas para a casa? Vive lá como viveria noutro lugar qualquer. Passou se algum tempo. — Fazes me rir — disse Lola secamente. aliás ávido. Boris pensou que ia vê lo de perto e ficou contente. A liberdade dele não se vê.. Fica com ela porque precisa de dormir com alguém.» Depois não pensou mais nada por causa do perfume de Lola. Mas Lola fazia o com um certo abandono. vive como um funcionário. Lola pouco se importava com a liberdade. e Boris teve vontade de dançar. vivo no hotel. — Tenho vontade de te matar quando ficas assim. Ao passo que Mathieu é o voluntariamente. Como liberdade não há melhor! Eu só tenho os meus trapos. por princípio. — disse Lola sacudindo a cabeça. no outro dia. aposentação garantida. Dançava A bem e tinha um perfume gostoso. — Vamos dançar. Lola parecia ausente. Ele nunca se deixaria prender assim. Nem sequer estava intoxicada. — Não consigo compreender. E achas que ele não gosta da tua irmã? Bastava olhá lo. estou muito agarrada a ti? Estúpido. o jazz tocava agora St.para afirmar a própria liberdade está certo. J E A N P AUL SARTRE Ele estava irritado. racionalmente. essa mulher que não sai de casa. pergunto: quem é mais livre. E penso que ele também se está nas tintas para a mulher. no Sumatra. — Não é a mesma coisa — repetiu Boris. porque é que não é a mesma coisa? — Tu és livre sem querer — explicou Boris. Pensou: «Ivich deveria aprender a sapatear. O pederasta levantara se e fora convidar a dançarina do Java. mas era pesada. Ela abriu os olhos e olhou o . Boris pensou que preferia dançar com Ivich. está dentro dele. Lola fechava os olhos e ele ouvia a sua curta respiração. E ainda por cima essa ligação de que me falaste. ele teve vontade de a fazer sofrer um pouco. Entusiasmara se nessa noite porque queria vencer Mathieu no seu próprio terreno. nem sequer sei se serei contratada no Verão. Lola riu com sarcasmo e a cabeça de Boris repentinamente encheu se de fumo. — Ah! — gritou Lola magoada —. James Infirmary. Lola pesava nos seus braços. bem instalado. — Sempre a mesma mania de colocar Delarue acima dos outros. sozinha. Esta dançava admiravelmente bem.. só merece elogios. Apertou a nos braços e respirou fortemente. Acrescentou: — Estás muito agarrada a mim. Aqui entre nós. ele ou eu? Ele está sossegado. Dançaram. tem ordenado fixo. Então. — É assim.

. Acho que essas coisas não se dizem. baixara as pálpebras. Pode ter se um grande sentimento por alguém e não ter vontade de dizer nada. Boris viu com satisfação que o pederasta se aproximava deles dançando. se tu próprio dizes que não te lembras disso senão quando eu to pergunto! Boris riu. fazes me dizer asneiras. se assemelhavam a um halo dourado. A maior parte das vezes. — Desagrada te quando digo que te amo? — Não. e o seu rosto fechara se sobre a sua felicidade. é tão raro perguntar te alguma coisa. — Compreendo — disse Boris com seriedade. mal lhe escondiam o crânio. — Porque é que fazes essa cara? — Porque me perturbas. olha para mim. era horrível. de longe. Pôs se a olhar para Lola e bruscamente disse lhe: — Lola. J E A N P AUL SARTRE Lola não respondeu. faz me sentir que te amo!» Mas Lola não dizia nada. — Porque não me ocorre. Havia tipos que pareciam feitos para ter trinta e cinco anos — Mathieu. e a música recomeçou. — É verdade. — Querido. Tinha grandes olhos azuis de boneca e uma boca infantil. Ele teve vontade de gritar: «Aperta me com mais força. Mas quando o pôde examinar de perto. bem como em torno da boca: as narinas eram finas como se estivessem agonizantes. meu tonto. desiludiu se: tinha pelo menos quarenta anos. podes dizê lo. pensou. Mas quando um tipo fora realmente jovem ficava marcado para o resto da vida. não tem sentido. Os olhos de Lola ficaram vermelhos. Pararam e aplaudiram. Amo te. que. basta me olhar e sentir que te amo. Aguentava até aos vinte e cinco anos. pisou os pés de Boris. — Mas. Sorria vagamente. «Já foi jovem». Disse apenas: — Querido. se isso te apetece.atentamente. Mas há momentos em que é o teu amor que eu quero. mas sob os olhos de porcelana havia rugas. Um rosto . e os cabelos. por exemplo — porque nunca tinham tido adolescência. mas não deves perguntar me se te amo. era a sua vez. Se não é espontâneo. — Gostas de mim? — Gosto — disse Boris com uma careta. — Porquê? Não é verdade então que gostas de mim? —É — Porque não dizes isso espontaneamente? É sempre preciso que eu to pergunte.. Depois. estava sozinha agora. Boris contemplou com horror aquela velha criança sem barba. — Mas deverias esperar que isso acontecesse. Conservava no rosto o verniz da juventude e envelhecera por baixo.

já está a passar. Disse: — Vamos para casa? — Vamos já. talvez. sim.calmo e deserto. «Eu também. Boris sentiu se abandonado e o pensamento desagradável invadiu o de novo: «Não quero. — Não estás doente. Lola morava num hotel da Rua Navarin. Pôs a capa de veludo sobre os ombros. «Ela mata me. querido? Queres um comprimido? — Não. do Chat Botté. presa com punaises. porque assim eu poderia explicar te. querido. — Nada. Mas que é que eu fiz? Devias dizer. Aqui hei de parecer eternamente jovem. Boris já não pensava em nada. — Estás sinistro — disse Lola —. A Rua Blanche estava cheia de tipos velhos e duros.» Não se poder ver ao espelho. Boris. — Vamos. mas sentia se sinistro.» Já não podia suportar aquela música e aquela gente. e cumprimentaram no. com dores de cabeça. Lola agarrou lhe no queixo e levantou lhe a cabeça. talvez ganhasse alguns anos. Encontraram o maestro Piranese. As suas pernas pequeninas mexiam se sob o ventre rechonchudo. não quero envelhecer. pensou. que é que se passa? J E A N P AUL SARTRE — Estou exausto. Até aos vinte e cinco anos. . Não me queres mal. Era uma fotografia de passe. «Isto ficará».» No ano passado estava sossegado. não. — Estás zangado. «quando eu for uma ruína. Voltaram para a mesa. Tirou a chave do cacifo e subiram em silêncio. Por favor. sentir os próprios gestos secos e quebradiços como se fosse de madeira morta. vá ter barriga. «Se ao menos pudesse poupar me. Agora era sinistro. pensou Boris. Não deve ser irremediável. Lola mostrou se inquieta. pois não? Não gostas de mim. viver devagar. és tonta — protestou Boris molemente. nunca pensava nessas coisas... Mas para isso era preciso que não me deitasse todas as noites às duas horas. «Depois estoiro os miolos. E cada instante vivido usava um pouco mais a sua mocidade. O quarto estava nu.» Olhou para Lola com ódio. Deve ser um mal entendido. A um canto uma mala coberta de etiquetas e na parede do fundo uma fotografia de Boris. Lola chamou o empregado e pagou. que Lola mandara ampliar. ao ralenti. Saíram. «Tenho ainda cinco à minha frente». Que é que te fiz? — Não tenho nada. — Parece que me tens raiva.» — Que é que tens? — perguntou Lola. sentia a cada passo a mocidade escorregar lhe entre os dedos.» Teve vontade de rasgar a fotografia.

— Dá me o pijama.diz me o que se passa. Pensou: «São os seus últimos dias de sol. «Uma destas manhãs ela ir se á abaixo de repente. As pernas de Lola puseram se a tremer e Boris perguntou a si próprio se não iriam estender se ali no tapete. Boris e Lola permaneceram de pé naquele mesmo lugar em que o desejo os apanhara. Entrou e fechou a porta à chave. todo músculos. Dir se iam espinhos profundamente enterrados. Ela inclinou se para trás e ele estava fascinado por aquela cabeça pálida de lábios carnudos.» Do outro lado da porta ela esperava o. O desejo aspirava lhe as ideias sombrias. porque não tinham forças para se afastar. Quero te. uma cabeça de Medusa. Pensou: «E engraçado. Detestava que Lola entrasse enquanto se despia.. Boris DADE DA RAZÃO via lhe as axilas raspadas e marcadas de pontinhos azulados. brancos como os cabelos de uma velha. Houve um redemoinho na sua cabeça e ela esvaziou se rapidamente. Lavou o rosto e os pés e divertiu se a pôr talco nas pernas. Mas ele não . «Preciso de falar com Delarue. acariciante e morta. — Como tu me apertas — gemeu Lola. enrolaram se no pescoço de Boris. ela cheirava bem. elástica. — Mas não se passa nada! Pôs os braços em volta do pescoço de Lola e beijou a na boca. Apertou Lola contra o peito e sentiu a doçura espessa dos seios. Arquejava um pouco. minúsculos e duros. como aliás todas as ideias. envolvia a nos seus braços e protegia a contra a velhice. Boris desenvencilhou se. sentia se nela. Estava completamente calmo. estava um pouco chocado.» E apertou a mais fortemente. Lola atirou a capa sobre a cama e os seus braços apareceram nus. pareceu lhe segurar a velhice nas mãos e que devia apertá la com toda a força até a abafar. Ele era agora apenas aquela mão sobre uma carne de seda.» Tinha a cabeça pesada e no entanto vazia. feliz. Lola estremeceu.» Já não a odiava. não sabia exactamente no que pensava. Estava perturbado. Depois teve uns momentos de sono e desvario: olhou os braços de Lola. a pele verdadeira resistiu por baixo. de certeza que já estava nua. Boris respirava o hálito perfumado e sentia de encontro aos lábios uma nudez húmida. rígido e magro. — Ah! — murmurou Lola. Tinha a mão na anca de Lola e sentia a carne através do vestido de seda. Vou despir me à casa de banho. Boris sentiu que desejava Lola e ficou satisfeito. Lola cobriu lhe o rosto de beijos. Crispou levemente a mão e a seda deslizou lhe sob os dedos como uma pele fina. — Magoas me.. fria como uma luva de camurça.

Vestiu o pijama.» Penteou se cuidadosamente por cima da bacia para verificar se lhe estavam a cair os cabelos. Não adiantara apagar a luz. Ela estendeu lhe os braços. inteiramente nua. — Tira o pijama — suplicou Lola. Lola estava estendida na cama. Ela parecia sofrer. e espiava o através dos olhos semicerrados. atraindo o a ela —. adoro te. deslizar até ao fundo de uma sensualidade pesada. cheio de odores nus. pois sobre o prédio em frente tinham colocado um anúncio luminoso. Um corpo nu. Uma vez que começava. com um triângulo de pêlos ruivos. — Espera — disse Boris. preguiçosa e temível. Era uma Lola diferente.. Era um ritual. alguma coisa de inevi A tável. Os lábios escuros. junto das coxas de Lola. pensou com irritação. abriu a porta e entrou no quarto. Boris aproximou se da cama e encarou a com um misto de perturbação e de desprazer. tão doce. uma coisa terrível.. — Vem — disse Lola. e Boris era obrigado a recusar às vezes. As mãos de Lola enfiaram se por baixo do casaco e começaram a acariciá lo devagar. mas Boris gostava deles assim: eram seios de alguém que vivera. era o que Lola não compreendia. que parecia ter conservado o vestido de seda. Ia acontecer alguma coisa. O corpo sobre a coberta azul era prateado como a barriga de um peixe. Era bela. Ele deixou durante algum tempo a mão pender. — Não quero — murmurou Boris. Daí a um bocado. Depois levantou a docemente até aos ombros. O quarto ficou inteiramente vermelho. como a morte sanguinolenta do touro. Boris sentiu se pesado e trágico. mas antes era impossível não ter medo. agora. Mas pareceu lhe repentinamente que o erguiam pelo pescoço como um . Todas as vezes Lola lhe pedia que tirasse o pijama e Boris recusava. vou perder a cabeça. terrível e pesada. — Fazes me cócegas. Boris deitou se perto de Lola e pôs se a acariciar lhe os ombros e os seios. exactamente como em Nimes. ia bem. Apagou a luz. Lola pegou na mão de Boris e pô la sobre o tufo de pêlos ruivos. Tinha sempre umas exigências estranhas. Mas não viu um só sobre o esmalte branco. os olhos eram duros. Ela tinha a pele doce. vem..J E A N P AUL SARTRE tinha pressa.» Uma onda pastosa subia lhe dos rins à nuca. cerrando os dentes. — Não — disse Boris. quando o primeiro touro entrou na arena. Os seios eram um pouco moles. Vem. de gosto forte. Ia ser necessário. inerte. pálido dentro do vermelho. Não demorou muito a gemer e Boris pensou: «Pronto. Beijaram se. «Em todo o caso». «não vou perder a cabeça como das outras vezes. Boris riu. por causa do maldito anúncio luminoso. continuava a ver o rosto de Lola.

Ouviu Lola abrir a porta da casa de banho e pensou: «Quando romper com ela. és tudo o que eu tenho. Estou nas tuas mãos. deitado sobre a areia. Agitava os braços como se . com a cabeça no travesseiro. — Se estás sozinha é porque gostas — afirmou com voz clara —. Se não fosse assim gostarias de um tipo mais velho do que eu. será a mesma coisa com todas. e abandonou se sobre o corpo de Lola e tudo girou num estremecimento vermelho e voluptuoso. Não é bem repugnante. tens de me amar. O quarto. e depois. sentimo nos dominados. nunca me sinto tão feliz como quando estou ao lado de um homem. O ar era quente e denso. A voz era estranha dentro da noite vermelha. 111 v. ruídos de fonte. eu só penso em ti. não me faças mal. não desejaria dormir com um tipo. Estou sozinha! Boris acordou sobressaltado e encarou a situação com nitidez. — Amo te apaixonadamente. Ela abraçou o furiosamente. tenho vontade de me atirar à água. pensou.coelho. já não quero mais histórias. nunca me faças mal. O ruído da água era agradável e inocente. quando Lola se pôs a falar. É tudo o que sei. o barulho da água eram alucinações. Acariciou lhe os cabelos e houve um longo momento de silêncio. e adormeceu. Lola saltou para a cama e tomou o nos braços. Tenho a impressão de que me escolheste por causa disso. só te tenho a ti. No entanto. com um capacete de cortiça sobre os olhos. Não se sabe o que se faz. erão. querido. Boris ainda a ouviu dizer «Adoro te». É repugnante o amor. a luz vermelha. Boris ouviu o com prazer. mas tenho horror a perder a cabeça.» Repetiu com asco: «Fisiológico. O rosto de Mathieu surgiu de repente: «É engraçado».» Lola arranjava se para dormir. é porque és orgulhosa. «prefiro os homens às mulheres. É fisiológico. Boris tentou imaginar que era um alucinado sedento. Eu sou demasiado jovem e não te posso impedir de estares só. — Não sei — disse Lola. Mathieu caminhava pelo meio da rua sob um céu de um azul límpido. Não sejas cruel.» Sentiu se seco e puro. Estou sozinha. Os alucinados sedentos do deserto ouviam ruídos semelhantes.» Ficou contente: «Hei de ser um monge quando deixar Lola. Ela fê lo deslizar suavemente para o lado e saiu da cama. — Querido — disse Lola. Boris ficou aniquilado. Se penso na minha vida. tenho de pensar em ti o dia inteiro. — Boris. meu amor. Boris já começava a ver girarem as estrelas. serei casto. ia encontrar se em pleno deserto. que adianta escolher uma mulher.

Vai ficar muito satisfeita. entre. com uma toalha apertada em volta da cabeça.. Rua Delambre. Tinha sonhado que era um assassino e um resto do sonho ficara lhe nos olhos sob a luz ofuscante. Sarah dar lhe ia a direcção. pensou Mathieu contrariado. Sarah levantou a cabeça e sorriu. 16. Mathieu fechou os olhos. no estúdio. Ou Jacques. Era ali. estreito e obstinado de revoltas e violências. Tinha as orelhas roxas. um enterro ao sol.abrisse pesadas cortinas de ouro..» Ouviu uns passos miúdos. de olhos claros. Para ele um dia sombrio ia começar.» Depois. de trabalho manual. Dinheiro. via lhe a cabeça sob os cabelos ralos e espetados. mulheres arranjavam as casas. Doía lhe a cabeça. Ela está lá em baixo. Não o via há seis meses. Era um obstáculo. um universo sadio. já o vira várias vezes no Dome sorvendo deliciado o seu café com leite ou inclinado sobre o tabuleiro de xadrez. Ia ser preciso correr por todos os lados. O Verão. de quimono amarelo. Por trás das portas fechadas. Que dia? Mathieu estava ligeiramente ofegante quando tocou. Fê lo entrar no vestíbulo e desapareceu a correr. — Desejava falar com Sarah — disse Mathieu. Mathieu debruçou se no corrimão. Um homenzinho calvo. Sarah estava sentada no sofá. Sarah morava no sexto andar e naturalmente o elevador não funcionava. O Verão dos outros. uma vela ardia diante dela: uma cabeça ruiva de braquicéfalo. mas não sentia prazer nenhum em encontrá lo ali. de esforços pacientes. ofuscado pela luz intensa que entrava pelas grandes janelas empoeiradas. Para elas o dia também ia começar. chocando as peças com os olhos e lambendo os lábios grossos. de disci plina. E Brunet trazia consigo o ar de fora. abriu. — Weysmuller — disse com firmeza. — Entre. Mathieu empurrou a porta envidraçada e penetrou no estúdio de Gomez. Uma direcção. — Delarue — respondeu Mathieu sem ligar. O homenzinho pôs se sério e bateu os calcanhares. havia uma amizade agonizante entre eles. Daniel emprestaria o dinheiro. «É Brunet». um dia que iria arrastando até à noite. Não precisava de ouvir o vergonhoso segredinho de alcova que Mathieu ia confiar a Sarah. O homenzinho voltou a sorrir amavelmente. aborrecido: «Digo J E A N P AUL SARTRE isto cada vez que subo uma escada. Pensou: «Devia fazer ginástica. Parou no patamar interno. era um alemão emigrado. Mathieu subiu a pé. De avental. sorridente. tinham muita coisa a dizer um ao outro. Mathieu reconheceu o. . — Quem é? — perguntou Sarah.

A sala ficara no estado em que ele a deixou: uma tela inacabada no cavalete. Os olhos de Brunet brilharam. Mathieu sorriu também. Mathieu recordou a bêbeda e magnífica. com os dedos enfiados na cabeleira negra. — E Gomez? — perguntou Mathieu. Pensou: «Ele procedia mal com Sarah. A partida para a Espanha. não. Perdoara lhe tudo. — Tudo o que quiser. No quadro. as traições. Para Sarah a vida humana era sagrada. Agora era portanto propriedade sua. — Preciso de lhe pedir uma coisa. com um rosto de camponês. a maldade. Não parecia muito amável. O rosto de Sarah corou de satisfação. as fugas. Partira para matar outros homens. . — Que é que o traz por cá? — perguntou Sarah. Não queria falar de Gomez. O quadro e a gravura representavam a Senhora Stimson. Ia fazer lhe um favor. Passara muito tempo no estúdio. no meio de frascos de ácidos.» — Foi o ministro quem lhe abriu a porta? — pergunto Sarah alegremente. — Pensei que tivesses morrido. — Sempre o mesmo. Gomez partira. Depois descera sem chapéu nem sobretudo. Mas aquilo não. ela estava nua. Via de cima aquele rosto achatado e sem graça. E acrescentou encantada com o prazer que esperava dar: — Sabe quem está cá? Mathieu voltou se para Brunet e apertou lhe a mão. Brunet riu sem responder. Matara outros homens. Brunet era grande e sólido. uma lâmina de cobre semigravada sobre a mesa. Não voltara. — Viva.— Bom dia. Apesar de tudo. Está em Barcelona. O pequenino Pablo brincava por baixo da mesa com cubos de cartão. como se fosse comprar cigarros ao Dome. Conta as suas proezas — respondeu Sarah com ironia. — Viva — disse Mathieu. meio à mostra através do quimono. Sarah olhava os ternamente. velho traidor social — disse Brunet. sabia o. Mathieu pensou no tipo da véspera e a garganta apertou se lhe. cantando com voz áspera nos braços de Gomez. — Sente se ao pé de mim — disse Sarah com avidez. minado pela bondade. Mathieu sentou se. — Teve notícias dele? J E A N P A U L SARTRE — Na semana passada. Apressou se em descer. Um dia soubera da queda de Irun no Paris Soir. — Sabe que ele foi promovido a coronel? Coronel. e mais abaixo os seios pesados e moles. bom dia! — disse. Mathieu sentiu se satisfeito de ouvir aquela voz.

Ela já não o escutava. não tem para onde rir. mas é certo que não sacrificarei Weysmuller às intrigas do seu partido. .. Agora morre de fome. — Veio para cá com a mala. Não. ele não estaria aqui. Voltou se para Mathieu e explicou contrariado: — Temos más informações acerca desse tipo. É. — E exactamente o que eu dizia — afirmou Brunet. — Mandar embora? — Diz que é um crime conservá lo aqui. — Não. Sarah mostra se de uma imprudência louca.— Que ministro? — indagou Mathieu espantado. olhava Sarah com o seu ar de camponês e repetia: — E incrível. Lopez e Santi são quatro pensionistas. — Pertenceu ao governo socialista de Munique em 22. — Isso não interessa a Mathieu — disse Brunet a Sarah com ar de descontentamento. — Ele quer que eu mande embora o meu ministro — disse Sarah. — Não é bem assim. Sarah pôs se a rir. Sarah sorriu levemente. pousando a mão no braço de Mathieu. Não é preciso ser muito esperto para imaginar o que poderia lá fazer um judeu emigrado. — Sarah exagera — disse tranquilamente Brunet. Puseram no fora do hotel porque não podia pagar. você faria com que Paris fosse pêlos ares para evitar um aborrecimento aos seus protegidos.. Sarah sacudiu violentamente a cabeça. a sério. como que a desculpar se. Se tivéssemos. — O quê? Que é que é incrível? — Ah! — disse Sarah com vivacidade. Parece que há uns seis meses rondava os corredores da Embaixada da Alemanha. — E incrível — murmurou Brunet. — Porquê? Porquê? — exclamou Sarah com paixão. J E A N P AUL SARTRE — Sarah — disse Brunet com ternura — . A indignação de Brunet era pesada e calma. meu caro Mathieu. — O meu ministro! — disse com indignação. — Annia vai se embora — disse Sarah. — O ratinho de orelhas vermelhas é um ministro — disse Sarah com um orgulho ingénuo. é tão abstracto um partido. chorosa. não temos provas. A Mathieu contou pêlos dedos. — E está claro que você o recolheu. Gorara e os seus olhos verdes humedeceram se. — Com Annia. — Você viu o. — Arranjou trabalho. — Venha em meu socorro. — Vocês não têm provas — observou Sarah. Mathieu sobressaltou se e voltou se para ele. Mas mesmo que se trate de meras suposições.

silenciosa e murmurante de uma multidão.Mathieu. Vai julgar me pelo que eu disser. — Gosto muito de Mathieu e aprecio muito a inteligência dele. mas era uma afirmação. Mathieu? — gritou Sarah com angústia. ainda que seja de um professor de Filosofia. ele vai atirar se ao Sena. — Vai atirar se ao Sena? — Vai agora! — disse Brunet. é tudo. não lhe perguntava a sua opinião. por princípio.» Talvez o dissesse ainda. Em tempos. Brunet encolheu os ombros. Portanto. as vítimas de acidentes. «A amizade não suporta a crítica». não deixaria de o consultar. fica como testemunha! Se expulsar Wey muller. nenhum dos dois julgava o outro. bem sabes que tais comunicações são confidenciais. tinha a vida lenta. e ficará na mesma. — A sério? — perguntou. de um cão de guarda. os indivíduos que exibem feridas desagradáveis. Não parecia ser um só homem. «Ele vai ouvir me com uma cortesia gelada. Era entorpecente e exasperante. não se preocupava com a opinião de um burguês. Fazia nascer em Mathieu a cumplicidade que se esboça. Vem aqui. Há muito que Brunet deixara de pedir conselhos de qualquer espécie a Mathieu. Já formei a minha opinião. e aqui nos encontramos. Levantou se. «E feita de confiança. . Brunet empregara a forma interrogativa. — De qualquer maneira está liquidado. dizia então Brunet. Mas agora era nos camaradas do partido que pensava.» Mathieu não queria que Brunet o julgasse. seria este o lugar indicado para instalar um tipo que tem reputação de espião? Mathieu não respondeu. Sarah — disse docemente. Mathieu nada tinha a dizer. — Voltará para a Embaixada da Alemanha e tentará vender se de uma vez. de um intelectual sujo. — E o mesmo — disse Mathieu. que se sente perante os esmagados. — Está a ouvir. — Mathieu! — disse Sarah. A calma do mar. Brunet não lhe perguntava nada. — Sim — disse com indiferença. Diga me lá se ele é capaz de matar uma mosca! A calma de Brunet era grande. Mas este assunto é vulgar e insignificante e juro lhe que não preciso de conselhos. Posso realmente levar um homem ao suicídio por causa de uma simples suspeita? — acrescentou Sara com desespero. horrível e triunfante. Se se tratasse de interpretar um trecho de Espinosa ou Kant. — Quem é que tem razão? Diga alguma coisa. — Mathieu. Brunet inclinou se para ela e tocou lhe no joelho. — Escute. Explicou: — Gomez manda nos por vezes comunicações.

Aquele mesmo espanto implacável. «Nem tudo está perdido». Mas se ele continuar aqui. Mas não é nada de importante. Mathieu sentia se nu sob estes olhares. Brunet parecia duro e nodoso. pedir Ihe ei que vá a minha casa quando tiver notícias de Gomez. Olhava o hesitante. Queime tudo. Não pertence ao partido. Se morresses. Mas.. Pensava: «Não me está a julgar». pensou Mathieu. «E eu? Vê se o aborto no meu rosto. Eu tenho chatices. mas não tinha qualquer ressentimento J E A N P A U L.. meu velho. — Não irei tão depressa — disse Mathieu a rir. A Sentia a mão de Brunet no ombro.» Sentia se magoado. Sarah. Um desajeitado. olhava o atentamente com um olhar duro. estou inteiramente livre e espero te — disse Mathieu. parecia aliviada. poderei dar um pulo até à tua casa. «Quem sou eu para lhe dar conselhos?» Pestanejou. não será tão cedo. em migalhas. uma coisa quente e modesta que se assemelhava à esperança. — Tenho de me ir embora — disse. Voltou se e dirigiu se para a escada. — Não — disse —. como o olhar de Marcelle na véspera. SARTRE contra Brunet. Os olhos brilharam lhe. — Vou acompanhá lo — disse Sarah. Brunet ficou sério. só o viria a saber um mês depois. «Evidentemente. — Adeus.. não se tem tempo de ver os velhos amigos. Pareceu finalmente decidir se. Passa se a vida a correr de um lado para o outro. — Como antigamente. Deu alguns .. Brunet pôs lhe a mão no ombro. E sentiu uma coisa estremecer lhe dentro do peito. por acaso. e sentia se cheio de uma humilde gratidão. — Estás com uma cara! — disse gentilmente. — Combinado — disse Sarah. — Eu?. Brunet sorriu amistosamente. — Que é que tens? Mathieu também se levantou. pensou. — Faça como quiser. um tipo nu.«Evidentemente». Mathieu seguiu os com o olhar. Brunet subia os degraus com uma elasticidade surpreendente. — E não deixe nada por aí. Não lhe estendia a mão.. e o que faz por nós já é considerável.. Conservava o sorriso ingénuo e alegre. — Prometo. — Estarás livre às duas horas? Tenho uns momentos livres. Brunet voltou se para Mathieu. até à vista.» Brunet falou: não era a voz que Mathieu esperava. Quem sou eu para lhe dar conselhos? Que fiz da minha vida? Brunet levantou se. Conversaremos um pouco como dantes. Sim. — E estúpido.

disse para si Mathieu. Encolheu os ombros: «Não vou matar ninguém. Uma mosca é mais fácil de matar do que uma criança.» Dir se ia que havia algures uma criança já formada. Pablo continuava a olhá lo. Mathieu aproximou se da mesa e pegou num buril. Não havia muito tempo que o miúdo saíra de uma barriga. mas por detrás dos vagos humores que lhe enchiam as órbitas escondia se uma conscienciazinha J E A N P AUL SARTRE ávida. Vou impedir que nasça uma criança. Mathieu deu alguns passos em direcção à escada. levantou voo. um homenzinho que não andaria . pois a bolha continuava a inchar. conservava ainda um aveludado doentio de coisa vomitada. olhou a criança e a mosca. Uma criança. pensou.passos. ao sol. Do que é que estará à espera para voltar a descer? Deu meia volta.. «Os miúdos». «E pensa». todos os seus sentidos são bocas.. — Diz lá.» Pablo pusera se a brincar novamente com os cubos. Esquecera se de Mathieu. aguardando o momento de saltar para o lado de cá do cenário. e Mathieu barrava lhe a passagem. com aquela pequena ventosa pálida e mole que absorvia o mundo. Estava ali. com uma pele branca e grandes orelhas..» O olhar de Pablo ainda não era humano e no entanto já era qualquer coisa mais do que a vida. Perguntou: — E o que é que fazias quando eras pena? — Nada. «Está quente». Uma mosca. Mathieu brincava com o buril. Na verda de. naquela sala. mentiroso e sofredor. sinais e uni punhado de distintivos como os que se põem nos passaportes. fazia grandes esforços para sair. Mathieu estendeu a mão e tocou na mesa com o dedo. Dormia. uma carne pensante que grita e sangra quando a matam. — Sabes o que é que eu sonhei? — perguntou Pablo. Num quarto cor de rosa. e isso via se. Mathieu sentia se incomodado. Tinha a impressão de estar a ser devorado pêlos olhares da criança.. indeciso. A mosca assustada pôs se a voar em círculos e pousou finalmente sobre a chapa de cobre. O pequeno Pablo olhava o gravemente. A mosca esvoaçou à volta dele. — Sonhei que era uma pena. deteve se no limiar e sorriu a Brunet. Ouvia a voz de Sarah. havia uma bolha que inchava. para se libertar das trevas e se tornar parecida com aquilo. que pousara sobre a lâmina de cobre. sem saber porquê. pensou. Havia um homenzinho meditabundo e dissimulado. Era preciso agir depressa. Repetia com espanto: «Impedir que nasça. entre dois sulcos que representavam um braço de mulher. era mais ou menos isso. Mathieu atirou bruscamente o buril sobre a mesa. pequenino. «são vorazes. dentro de outra barriga. A porta bateu por cima da sua cabeça. Ela abriu a porta.

mas acho o casamento. sanguinolenta. de carnes velhas. Não é por egoísmo. de raparigas doces e horríveis insectos. com um pé na calçada e outro na valeta. cheia de esperanças. um par de olhos verdes como os de Mathieu. luminosa. uma imagem povoada de jardins e de casas. Sarah sorriu lhe e desceu rapidamente a escada. tinha casado com Gomez cinco anos antes. que iriam rebentar com um alfinete. ou negros como os de Marcelle.. que parecia sair da salmoura e nunca ter nascido. . — Pronto — disse Sarah. Sarah era casada. pôs de parte as suas reservas.. aborrecida. como um balão. não queremos a criança. — Escute. — Oh! Sarah parecia mais alegre do que aborrecida. Os grandes olhos velados encaravam no fixamente. Calou se. vocês vão.. nem na casca das árvores. secamente: — Marcelle está grávida. Baixou a cabeça e conservou se silenciosa. se se for a tempo. tente compreender me. com insistência. Mathieu não pôde suportar aquela tristeza que nem sequer era uma censura. — Ah! Sim — disse ela —. e olhos. encarar o futuro com confiança. sinistra. — Creio que isso lhe aconteceu há tempos. Ela estava inclinada sobre o corrimão. Eu não quero casar. ela seria a única a pôr luto por aquela morte minúscula e secreta. nem na carne das mulheres. Sarah pareceu desconcertada. mãos que não tocariam nunca na neve. nem o mar. pesada e disforme... compreendo.pelas ruas. Perguntou com timidez: — E vocês. — Sim. Ela ergueu bruscamente os olhos e acrescentou com paixão: — Não é nada. Sarah — disse Mathieu irritado —. não — respondeu Mathieu com vivacidade —. Ele acrescentou a seguir: — E depois Marcelle não quer filhos. e que nunca haviam de ver os céus glaucos de Inverno. Ela evitava julgá lo. Há anos.. — Não. — Então? Que é que se passa? — disse avidamente. nem rosto algum. as censuras e tinha apenas um desejo: tranquilizá lo. — Não é nada. Era uma adulta. havia uma imagem do mundo. Gomez disse mo — replicou com brutalidade. — Esperou muito tempo? Mathieu ergueu a cabeça e sentiu se aliviado.. — Ela não gosta de crianças? — Não sente interesse por elas.. Ele desviou o olhar e disse. O quimono balançava em volta das pernas curtas. apaixonada. Ele ia sorrir.

E quando ele queria qualquer coisa. é verdade. julgo eu.... Olhou Mathieu. Ele ainda opera.. se é assim. sabe se? — perguntou Mathieu encolerizado. Tenho receio de que ela o fique a detestar depois. odeia Gomez? — perguntou lhe secamente. tenho uma solução. Quando os nazis tomaram o poder. — É justamente isso — disse Mathieu —. e a Gomez ainda menos do que aos outros. Não era capuz de odiar ninguém. Bem sabe.— Sim — disse —.. que voaria em círculo. mas. Mas de repente toda a bondade se lhe reflectiu no rosto e exclamou: — Sim. é muito doloroso. — Conhece outro? — Ninguém — disse Sarah devagar. — E você. Uma vida! Uma consciência a mais. Waldmann. apertando lhe com força o braço —. procurou alguém. que eu não tornaria a fazer. — Deram me um embrulho depois da operação e disseram me: «Deite isso na retrete. — Em todo o caso — disse resoluta —. É um especialista de abortos.. agora. . A — Sim — disse Sarah (a fisionomia alterou se lhe). Sarah teve um gesto de desconsolo. você pode ajudar nos Quando teve. Como um rato morto! Mathieu — disse ela. foi morar para Viena. perturbada. eu quero dizer que não imagina o que vai exigir de Marcelle. com ele pode ficar sossegado.. recordou se dos olhos de Marcelle. poderia pedir me de joelhos. — disse ela com um ar penoso — eu pensava no pequeno. era Gomez que queria. — Foi horrível! — Ah! — disse Mathieu com uma voz transtornada. como deve estar acabrunhado. naquele tempo. — E. mas agora bebe J E A N P AUL SARTRE e eu já não tenho confiança nele. chocaria contra as paredes e não poderia escapar. Depois disso houve o Anscbluss e ele veio ter a Paris com uma maleta. — Não. — Não muito. Houve um caso complicado há dois anos. mas foi um horror. nunca eu.. grandes olhos duros e cansados. uma pequena luz perdida. um russo.. não sabe o que vai fazer! — E quando se põe uma criança no mundo. — Meu pobre Mathieu. Em Berlim tinha uma clientela enorme. Mathieu reviu. Desejaria poder ajudá los.. de desânimo. esse aborrecimento. Não o viu cá em casa? Um ginecologista.. então efectivamente..» Numa retrete. Mas desde há muito que enviara todo o seu dinheiro para Zurique. não quero mandá los a esse russo. Agarrou lhe as mãos. como é que não pensei já nisso? Vou arranjar tudo.

você é um anjo. Vou propor lhe três mil francos. porque não hei de ir agora de manhã? Mora na Rua Blaise Desgoffes. gotas brancas e salgadas como lágrimas. meu caro Mathieu. é pertinho. Irradiava satisfação. Vou vê lo hoje mesmo. — No Dupont Latin? Está bem. dizia Daniel. de a humilhar. por ternura e para não lhe ver o corpo. de se tornar. muito contente. Já não era o mesmo Verão. «Quando a vejo». É preciso que eu arranje o dinheiro dentro de . Ergueu para ele o rosto terno e desgracioso. transpirava a dormir. — Bem — disse Mathieu. Dorme sempre até ao meio dia. — Poderia telefonar lhe. colou se à sola dos seus sapatos. pequenas gotas nasciam nos bicos. — Até logo — disse Sarah —. Ela acabava de lhe sacrificar as suas repugnâncias mais profundas. Agarrou lhe os ombros e sacudiu a a sorrir. Sarah. A bolha inchava e o tempo passava. Havia naquele rosto uma humildade perturbadora. quase voluptuosa.» Mathieu beijou a nas duas faces. que dava vontade de lhe fazer mal. Poderei ficar lá e esperar pelo seu telefonema. cúmplice num acto que lhe inspirava horror. Pestanejou e sorriu. Os belos seios morenos e arroxeados tinham caído. J E A N P AUL SARTRE Ela dormia. A bolha dentro do seu ventre não dormia. O roupão de Sarah abrira se sobre os enormes seios. «Verão!» O céu enchia a rua. de poeira nova. Visto me e desço. era um fantasma mineral.— Acha que ele tratará do caso? — Naturalmente. Não leva demasiado caro? — Em Berlim levava dois mil marcos.. eu tenho um encontro às dez e meia. mergulhado numa sombra densa. Aqui ninguém o conhece. — Escute — disse Sarah —. alimenta se e incha. Espera por mim? DADE DA RAZÃO — Não. Verão! Deu alguns passos. «compreendo o sadismo. Será mais razoável. os transeuntes flutuavam no céu. cheio de pontos brancos. o alcatrão negro e mole. — Onde está por volta das onze horas? — perguntou ela. Pagava se pela reputação. Ela dorme. — Devo estar no Dupont Latin. Perguntava a si próprio aonde iria buscar o dinheiro. e os rostos deles flamejavam. por generosidade. Marcelle estava grávida. Mathieu abraçou a.. Mathieu respirou um cheiro vivo. não tem tempo para dormir. — Dez mil francos! Ela acrescentou. o corpo. Mathieu empalideceu. eu. entre dentes. vivamente: — Mas era um roubo. até logo. Bulevar Saint Michel. — Estou contente — disse Mathieu —.

anda dentro de uma cidade de vidro que em breve há de quebrar. Trabalhei. Ele via se a pensar. Sentou se numa cadeira de ferro. Queria lá ir.» Mathieu parou de repente. sente se leve porque espera. saboreio. esse judeu há de esperar até ao fim do mês. Estirado em cima de uma cadeira. os pombos levantam voo.. Mas quer ser livre. há mais de cem anos percorrido pelas mesmas ondas de cores e ruídos. relâmpagos brancos.quarenta e oito horas.» Pensou subitamente: «Estou a ficar velho. «Aonde é que irei pedir o dinheiro? Daniel não mo vai emprestar. Mas eu? Eu? Marcelle está grávida. Havia as crianças que cornam desordenadamente. E havia Sarah com o roupão amarelo. o dinheiro. sinto o velho gosto do sangue e da água ferruginosa. e estou velho. Uma estátua mostrava lhe as nádegas de pedra. Conseguirá Sarah convencer o judeu? Onde arranjar dinheiro? E o que estou a pensar. Juro. Tudo isso era tão natural. Brunet. E.» Contemplava aquele jardim rotineiro. Trinta e quatro anos. tão normal. O acompanhamento discreto e seráfico da verdadeira vida. com o mesmo sol sobre as deusas de gesso. existo. Estátuas. os pombos arrulhavam. crianças. os castelos no ar era. vou pedir lho. lê L'Oeuvre e Lê Populaire e está em dificuldades financeiras. Come. Não quero mais nada. não faz política. As crianças correm. eu também quis partir para a Espanha. porque ainda não chegou a hora de partir tudo. o quê? Urna pobre religião laica para uso próprio. de dedos partidos. sente se forte. é funcionário. bebe.» «Estou velho.. as Espanhas. Marcelle. tive o que queria: Marcelle. pássaros de pedra. tinha horror de si próprio. Jacques. à vontade sob este sol. com precaução. Há trinta e quatro anos que eu me saboreio. Mas não consegui. e a 29 recebo. Haverá realmente uma Espanha? Estou aqui. em último caso.. «Madrid. Espera. tão monótono. Está tudo acabado. sempre novo. Paris. Correrias. era a vida. O resto. Existir é isso: beber se a si próprio sem ter sede. O Luxemburgo. Mas não pode ser. Um álibi? «Assim é que eles me vêem. no entanto. esperei. comprometido até ao pescoço na vida e não acreditando em nada. o meu gosto. «Afinal é coisa de uns quinze dias. sempre o mesmo. A liberdade é o seu jardim secreto A sua .» Lembrou se de repente de dois olhos muito juntos sob espessas sobrancelhas negras. como o mar.. quente e branco. Daniel.» A relva tremia a seus pés. «Neste momento. independência. Brunet vai sossegado pela rua. as mesmas há mais de cem anos. como qualquer outro. Marcelle grávida. pedirei a Jacques. pombos. bastava para encher uma vida. sou o meu próprio gosto. caminha bamboleando se ligeiramente. como outros desejam uma colecção de selos. Mesmo assim. e aquelas árvores todas. O homem que quer ser livre.

algo totalmente irreverente que se assemelhava a uma manhã. Algo acabava de acontecer àquele vaso de três mil anos guardado entre as paredes quinquagenárias. um pouco quimérico. Pensou: «Fui eu que fiz isto». Tinha vinte . Era um estúpido. tivera a impressão de ser uma pequena exploração suspensa no ar. Ele obrigara o a comer areia. Não é isso que sou?» J E A N P AUL SARTRE Tinha sete anos. Disse a si próprio: «Hei de ser livre». voltou para junto da mesa. e atirou o ao chão. maravilhado. redonda. diáfano. como quando se conserva sobre a língua um líquido demasiado frio. Sentado à sombra dos pinheiros. sem origem. ou antes não disse coisa nenhuma. uma promessa. mas era o que queria dizer e era uma aposta. com asas como patas de papagaio. Mas esse vazio ainda tinha um gosto. Voltara lhe as costas e pusera se a revirar os olhos e a fungar em frente do espelho. Era preciso tentar não se engolir. sem conseguir distrair se. Acabara de bater num jovem bordelês que lhe atirara pedras. Sobre a mesa havia revistas rasgadas e um belo vaso chinês. Vegetava num calor provinciano que cheirava a moscas e tinha apanhado uma a que arrancara as asas. na luminosidade do Verão. Aconteceu assim e logo a seguir sentiu se leve. Olhava os cacos de porcelana. o dentista. Tinha dezasseis anos. na casa do tio Jules. fora buscar a caixa à cozinha e esfregara nela a mosca para ver se acendia. e sentia se orgulhoso. Era dia de disparates. O tio dissera lhe que o vaso tinha três mil anos. ergueu o vaso. De repente. Tinha conseguido esvaziar completamente a cabeça. abrupta inexplicável. Mathieu aproximou se do vaso com as mãos atrás das costas e contemplou o com inquietação. e brincava a fazer que não existia. verde e cinza. diante de um vaso impassível de três mil anos. Apostara que toda a sua vida se pareceria com aquele momento excepcional. sabia muito bem que a mosca não ia acender se. que dissimuladamente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida. sozinho na sala de espera. que era pesadíssimo.pequena conivência para consigo próprio. contemplava as grandes ondas do oceano. sem família. uma apariçãozinha obstinada que rompera a crosta terrestre. Um tipo preguiçoso e frio. livre. Era apavorante ser uma bolinha de miolo de pão neste velho mundo ressequido. com as narinas cheias do odor da resina. Verificara que a cabeça se assemelhava a uma cabeça de fósforo. Tudo isso negligentemente: era uma comédia medíocre de vagabundo e não conseguia interessar se por si próprio. sem peias. arquejante. evitando o pequeno movimento da deglutição que o lançaria na garganta. Estava deitado na areia em Arcachon. mas muito razoável no fundo. feita de inércia e que justifica de vez em quando com elevadas reflexões. Estava em Pithiviers.

Eu não queria ir na onda. a decisão teria sido uma . o advogado. sempre lhe parecera estar algures. sub repticiamente. Já não sabia bem. e era terça feira de Carnaval. Levantava se um funcionário. ser o próprio começo. Sem motivos. Naturalmente durante esse tempo andara atrás de mulheres. a ele e a Brunet: «Hei de salvar me. Uma bola de ténis rolou lhe aos pés. a um prazer. Pensou: «Estará tudo acabado? Serei apenas um funcionário?» Esperara tanto tempo. se faz favor.» Tinha pensado partir para a Rússia. E durante esse tempo. «Com vinte e cinco é que eu me devia ter comprometido. Trinta e quatro anos. Nunca pudera prender se definitivamente a um amor. Os últimos anos tinham sido uma vigília. mas nessa idade não se tem plena consciência do que se faz. os anos tinham chegado e tinham no envolvido. palavras irritantes de intelectual. E. com aquela ênfase filosófica que lhe era agora peculiar. Como Brunet. Mas através de tudo isso a sua única preocupação fora manter se disponível. abandonar os estudos. nunca fora realmente infeliz. Mathieu apanhou a bola e atirou a ao rapaz. viajara e ganhara a vida.» Eram palavras vazias e pomposas. Levantou se. mas era uma só e mesma aposta. aprender um ofício. Que aposta? Pôs a mão sobre os olhos cansados da luz. Vegetava naquele calor sufocante. Um acto. Esperara através de mil e uma preocupações quotidianas. precisava de estar nos seus dias melhores. Era unicamente aquela aposta. Vai se na onda. devagar. — A bola. Para compreender a aposta. Inutilmente repetia as frases que os exaltavam dantes: «Ser livre. nem o amigo de Daniel e Brunet. Sim. Para uma acção. Tinha agora — cada vez mais — longos momentos de exílio. não ter ainda nascido comple tamente. nem o irmão de Jacques Delarue. cheios de bonecos de papelão. aos seus próprios olhos. lia Espinosa no quarto. poder dizer: sou porque quero. cem vezes tornara a fazer a aposta. nem o amante de Marcelle. Um acto livre e reflectido que acarretaria o destino da sua vida e seria o início de uma nova existência.» Dez. Ser a causa de si próprio. O que o retivera à beira destas rupturas violentas fora a ausência de motivos para fazê lo. Grandes carros multicores passavam na rua. um funcionário em dificuldades financeiras e que ia encontrar se com a irmã de um dos seus ex alunos. um rapazinho corria atrás dela com a raqueta na mão. sofria a velha e monótona sensação do quotidiano.e um anos. Erguera os olhos e apostara de novo. Mathieu não era um tipo que ensinava Filosofia a rapazes num liceu. Esperava. Decerto que não estava num desses dias. As palavras mudavam com a idade e as modas intelectuais.

mas eram excepções. Só depois é que dei conta. Jovens machos rodeados de fêmeas e que pareciam insectos brilhantes e obstinados. Puxara os caracóis louros para a frente. está atrasada. M athieu olhou para o relógio. «Dez e quarenta. esquecia se a cada momento. feio. Hoje como das outras vezes olharia os quadros com um ar selvagem e maníaco. Parou para olhar o carrossel náutico. Barquinhos à vela giravam no tanque. — Sit down — disse um. Estudantes ou liceais. Pensou: «Não sei o que quero dela. Mathieu levantou se. e pronto. — Olá. inclinava se. Todos riam. esquecido. Ivich cheirava a mocidade. Um miúdo tentava apanhá lo com uma vara. Continuara a esperar. num desafio. Tinham as mãos bem tratadas. Pensou: «Já não espero. Dois rapazes pararam junto dele. Ivich! — Bom dia — disse ela. esfu ziantes. esterilizei me para ser apenas uma espera. um barquinho parecia perdido. Esvaziei me. porque ele não era belo e era uma maneira de se desculpar. Mathieu ficaria a seu lado. No Inverno .» Não gostava que ela se atrasasse. Riram e sentaram se. chicoteados de quando em quando pelo repuxo. olharam para uma das mesas com desdém. esquecia se de comer. Ivich não o desculpava. os seus olhos apagaram se. Estou liquidado. irritado. Mas já não espero mais nada. Ela esquecia se de tudo. esquecer se ia de respirar.» Lembrou se sem grande prazer que ia acompanhar Ivich a urna exposição de Gauguin. Ela tem razão. bons filmes. fugia de si mesma. pensou Mathieu.asneira. esquecia se de dormir. nem Daniel. tinha sempre medo de que se deixasse morrer. Descia o bulevar ao lado de um rapaz alto de cabeleira crespa e óculos. Um dia.» Junto do repuxo. Gostava de lhe mostrar belos quadros. «Eu não sabia que era jovem. Agora estou vazio. belos objectos. Estava com a cara dos dias de festa. e a franja descia lhe até aos olhos. «Só há chatos por aqui». afundava se lentamente. nunca ela estava tão só como diante da beleza. Ela erguia o rosto para ele e oferecia lhe um sorriso luminoso. nem Brunet. Falavam animadamente. Mártires da J E A N P AUL SARTRE juventude. É engraçada a mocidade. por dentro. pensou Mathieu por fora. Quando viu Mathieu. disse um adeus rápido ao companheiro e atravessou a Rua dês Ecoles como uma sonâmbula. Boris também. importuno. não sentem nada.» Viu a nesse mesmo instante. a fisionomia dura e a carne tenra. No entanto não desejava ser belo. — Eu sit down — respondeu o outro.

Parecia pintada e envernizada como uma taitiana de Gauguin. sabia que Ivich era feia. — Menta verde. Mathieu fez um esforço e voltou se para Ivich. A Ela sentou se. No Verão doem me. — Tenho a impressão de que ficam abertos sozinhos. Ele. mas estava ali. mas não o devia ouvir. Agora Mathieu via apenas um falso rosto. o sol persegue nos por toda a parte. nem um franco a menos. que ela usava por cima do verdadeiro como uma máscara triangular. — Você disse que gostava — atalhou Mathieu. — Então está bem. Mas que é isso? — perguntou quando o empregado se afastou. Um rosto largo. Não a via. estreito e puro. — Sim. via a. isso pega se na boca. — Não. Não sabemos onde nos havemos de enfiar. pálido. De vez em quando eu fecho os para que descansem. — E para a senhora? — perguntou o empregado. mas era inatingível com o seu porte frágil e os belos seios duros. Não o beberei. (Estremeceu. Ela fechara os olhos e passava levemente os dedos sobre as pálpebras. não quero. deixe o trazer.o vento despenteava a. contrariado. questões de dinheiro. Depois virou se para Mathieu. Em dias como este não devíamos sair senão depois de escurecer. a que ela chamava «testa de calmuco». descobria lhe as bochechas gordas e lívidas e a testa curta.» Hospital. porque a pintura lhe estragava a pele. Gostava que lhe chamassem senhora. Ivich sorriu lhe. Mathieu não sabia o que dizer. indecisa. Marcelle estava ali. só ele. lembrei me do gosto. — Gosto disso? — disse divertida. quero. O empregado chamaria: «Senhor Delarue. Ivich sim. E as pessoas . Não estava pintada. Pensavam visivelmente: «Boa miúda. Eu deixo o tomar decisões. é bonito. Ivich interessava se por tão pouca coisa! E ele não tinha vontade de falar.) Nunca mais beberei disso. Não temos os mesmos gostos. — Faz favor! — gritou Mathieu. Calou se. Os jovens vizinhos de Mathieu voltaram se para a ver. não se referia a ela. Dentro em pouco. calma e taciturna. — Tome um Pippermint — disse Mathieu —. pronto. — Aquela coisa verde e viscosa que bebi no outro dia? Oh!. — É o sol. você gosta disso. não. podia chamá la pelo nome ou tocar lhe no ombro.» Mathieu contemplou a com ternura. mas depois reflecti. cirurgia. cheiro a éter. Inútil. Não estou com sede. como a Lua entre duas nuvens. Estão vermelhos? — Não.» Mathieu ouviria do outro lado do fio J E A N P AUL SARTRE uma voz sombria: «Ele quer dez mil francos. Sarah telefonaria. Reabriu os olhos. infantil e sensual.

teria medo. Mas estou à espera de um telefonema. . — É verdade que não liga a essas coisas. Julgava sempre que tivesse reparado num lugar mais ralo e não pudesse tirar de lá os olhos. — Você perturbava me a princípio — disse Mathieu. com a palma da mão. A — Ela gosta de mim porque sou loura.... — Você é dissimulada — disse Mathieu. Mesmo que você fosse o tipo mais bonito deste mundo. Eu que tenho tanto medo de ficar calvo. Mathieu mal a ouvia. Era o outro. — Não. — Bom. — Porquê? — perguntou Mathieu admirado. acaricia me os cabelos. Olhava Ivich sem se sentir perturbado. — Gostaria que soubessem como você é? — acrescentou com certo desprezo. o rapaz encaracolado. — Afinal as pessoas acabam por perceber que esconde a cara e baixa os olhos como uma santa de pau carunchoso. — murmurou ela num tom arrastado que fazia pensar nas suas faces lívidas. não posso. Ivich encarou o com impaciência. JEAN PAUL SARTRE — Ouça — disse Mathieu —. — Aborreceu a tê la feito sair tão cedo? — De qualquer maneira eu não podia ficar no quarto. Sabia que ela não pensava o que dizia. Lançou lhe um olhar matreiro e rápido. Quanto a olhar as pessoas de frente. Ela riu divertida e furiosa. mas sinto medo quando imita as minhas expressões! — Compreendo! — disse Mathieu a sorrir. achava se culpado e liberto ao mesmo tempo por lhe querer menos. — Sim. — Sim. sobretudo em tempo de exames. entra a todo o momento no meu quarto. É sempre a mesma coisa. vou à farmácia comprar um comprimido. num tom de voz diferente: — Eu gostava que não me doessem tanto os olhos. Mathieu tocou com o dedo. — Não é o que está a imaginar. não era com má intenção. Protegem as raparigas de verdade. ou então de lado: assim. à altura dos cabelos. sob qualquer pretexto. Há de dizer que eu sou dissimulada. — Acabe com isso! Não gosto que me imitem.ficam com as mãos húmidas. se me chamarem diga ao empregado que volto já. não. Estava seca. irritada. — Olha me por cima da testa. E depois a empregada afeiçoou se a mim. Ivich sacudiu a cabeça. — Com certeza não sabe o que é um «lar de estudantes». — Olho para toda a gente assim.. Daqui a três meses vai detestar me. que tinha as mãos húmidas. por baixo da mesa. Os olhos ardem me logo. Tenho horror a que me toquem. Acrescentou.

— Não, não vá — disse ela secamente. — Agradeço, mas não faria nada. É do sol. Calaram se. «Estou a ficar abstracto», pensou Mathieu com um prazer estranho. Um prazer crispado. Ivich alisava a saia com as palmas das mãos, erguendo ligeiramente os dedos como se fosse tocar piano. As mãos dela estavam sempre avermelhadas porque tinha má circulação. Geralmente levantava as e agitava as de vez em quando para as descongestionar. Não lhe serviam para pegar em nada, eram dois idolozinhos gastos nas extremidades dos braços; afloravam as coisas com pequenos gestos inacabados e pareciam menos destinados a segurar do que a modelar. Mathieu olhou as unhas de Ivich, longas e pontiagudas, excessivamente pintadas, quase chinesas. Bastava contemplar aqueles adornos frágeis e incómodos para compreender que Ivich não podia fazer coisa nenhuma com os seus dez dedos. Uma vez caíra lhe uma unha, ela guardara a numa caixinha e de vez em quando observava a com uma mistura de prazer e horror. Mathieu vira a. Conservara o verniz e assemelhava se a um besouro morto. «Que será que a preocupa? Nunca esteve tão irritante. Deve ser o exame. A não ser que se chateie de estar comigo. Afinal de contas eu sou adulto.» — Não começa assim, com certeza, quando se vai ficar cego — disse de repente Ivich com um ar neutro. — Com certeza que não — respondeu Mathieu, sorrindo. — Bem sabe o que lhe disse o médico em Laon: um bocadinho de conjuntivite. A Falava docemente, sorria docemente, sentia se embebido em doçura. Com Ivich era preciso sorrir sempre, fazer gestos suaves e lentos. «Como Daniel com os gatos.» — Doem me tanto os olhos — disse Ivich —, basta uma coisa de nada. (Hesitou.) É no interior dos olhos que me dói. Não é assim que começa aquela loucura de que me falava há dias? — Ah!, aquela história? Olhe, Ivich, da última vez era o coração, receava ter uma crise cardíaca. Que rapariga estranha, parece que tem necessidade de se atormentar. E de repente declara que é feita de cimento! É preciso escolher. A sua voz deixava um gosto a açúcar na boca. Ivich olhava para os pés, pensativa. — Deve estar qualquer coisa para me acontecer. — Já sei — disse Mathieu —, a sua linha da vida foi interrompida. Mas disse me que não acredita nisso. — Não, não acredito... Mas não posso imaginar o meu futuro. Há uma barreira. Calou se e Mathieu contemplou a em silêncio. Sem futuro... De repente sentiu um gosto desagradável na boca e percebeu que estava demasiado preso a Ivich. Era verdade que ela não tinha futuro. Ivich com trinta anos, Ivich com quarenta anos, não

fazia sentido. Pensou: «Ela não é eterna.» Quando Mathieu estava só ou quando falava com Daniel, com Marcelle, a vida estendia se diante dele, clara e monótona: algumas mulheres, algumas viagens, alguns livros. Um longo declive. Mathieu descia o lentamente, lentamente, às vezes ele próprio achava que não ia muito depressa. De repente, quando via Ivich parecia J E A N P AUL SARTRE lhe viver uma catástrofe. Ivich era um pequeno sofrimento voluptuoso e trágico, sem futuro. Ir se ia embora, ficaria louca, morreria de uma crise cardíaca ou então seria sequestrada pêlos pais em Laon. Mas Mathieu não poderia suportar a vida sem ela. Fez um gesto tímido com a mão; queria pegar no braço de Ivich acima do cotovelo e apertá lo com toda a forca. «Tenho horror a que me toquem.» A mão de Mathieu caiu. Disse muito depressa: — Tem uma linda blusa, Ivich. — É feia. — Inclinou a cabeça, empertigada, e sacudiu a blusa, constrangida. Acolhia as homenagens como se fossem ofensas, era como se fizessem dela uma imagem à machadada, grosseira e fascinante, a que tinha receio de se prender. Só podia pensar o que convinha a si própria. Pensava nisso sem palavras, era uma certeza terna, uma carícia. Mathieu olhou com humildade os ombros de Ivich, o pescoço alto e roliço. Ela dizia muitas vezes: «Sinto horror pelas pessoas que não sentem o corpo.» Mathieu sentia o dele, mas era como um embrulho embaraçoso. — Ainda quer ir ver os Gauguin? — Gauguin? Quais? Ah!, a exposição de que me falou? Bem, podemos lá ir. — Não parece ter muita vontade. — Tenho. — Se não tem vontade, Ivich, diga. — Mas tem você. — Bem sabe que já lá estive. Tenho vontade é de lha mostrar, se isso lhe agradar; mas se não lhe interessa, desisto. — Pois então preferia ir noutra ocasião. A — A exposição acaba amanhã — disse Mathieu, decepcionado. — Tanto pior — disse Ivich sem energia —, mas há de haver outra oportunidade. — Acrescentou com calor: — Essas coisas estão sempre a aparecer, não é verdade? — Ivich! — observou Mathieu com uma amabilidade forçada. — Essa é mesmo sua! Diga que não lhe apetece, mas bem sabe que tão cedo não haverá outra. — Pois bem — disse ela, gentilmente —, não quero ir hoje por causa do exame. É infernal que nos façam esperar tanto tempo pelo resultado. — Não é amanhã?

— Justamente. Acrescentou, roçando a manga de Mathieu com a ponta dos dedos: — Hoje não deve ligar ao que eu digo. Não estou normal. Dependo dos outros, é aviltante. Vejo continuamente a imagem de uma folha branca pregada numa parede cinzenta. Eles impõem nos este pensamento. Quando me levantei hoje de manhã, senti que já era amanhã. Hoje é um dia perdido, riscado. Roubaram me este dia e já não me restam muitos mais. Insistiu em voz baixa e rápida: — Falhei em Botânica. — Compreendo — disse Mathieu. Queria encontrar nas suas recordações uma angústia que lhe permitisse compreender a de Ivich. Talvez na véspera da formatura... Não, não era a mesma coisa. Ele vivia sem correr riscos, sossegadamente. Agora sentia se frágil, no meio de um mundo ameaçador, mas era através de Ivich. J E A N P AUL SARTRE — Se eu for aprovada — disse Ivich —, vou beber antes da oral. Mathieu não respondeu. — Só um bocadinho — repetiu Ivich. — Disse isso em Fevereiro, antes do exame, e foi lindo, com quatro cálices de rum ficou completamente bêbeda. — Aliás não ficarei aprovada — disse ela de maneira equívoca. — Está bem, mas se por acaso ficar? — Claro que não vou beber. Mathieu não insistiu. Tinha a certeza de que ela apareceria bêbeda à oral. «Eu é que não faria isso, era demasiado prudente.» Estava irritado com Ivich e desgostoso consigo próprio. O empregado trouxe o copo e encheu o até meio de menta verde. — Já trago a água e o gelo. — Obrigada — disse Ivich. Ela olhava para o copo, e Mathieu olhava a. Um desejo violento e imperioso invadira o: ser por um momento aquela consciência perdida e cheia de seu próprio odor, sentir por dentro aqueles braços compridos e finos, sentir, na junção, a pele do antebraço colar se como um lábio à pele do braço, sentir aquele corpo e todos os pequenos beijos que dava a si próprio sem cessar. «Ser Ivich sem deixar de ser eu.» Ivich tirou o balde das mãos do empregado e pôs um pequeno cubo de gelo no copo. — Não é para beber, mas fica mais bonito. Pestanejou e sorriu com um ar acriançado. — É bonito. Mathieu olhou o copo, irritado. Procurou observar a agitação espessa e desordenada do líquido, a brancura turva do gelo. Em vão. Para Ivich era uma pequena volúpia

viscosa e verde que a deixava toda melada até à ponta dos dedos. Para ele aquilo não era nada. Nada de nada. Um copo com menta. Podia, pensar o que Ivich sentia, mas ele nunca sentia nada. Para ela as coisas eram presenças abafantes e cúmplices, grandes redemoinhos que a penetravam na carne, mas Mathieu via as sempre de longe. Olhou a e suspirou. Estava atrasado, como de costume. Ivich já não contemplava o copo, parecia triste e puxava nervosamente um caracol dos seus cabelos. — Queria um cigarro. Mathieu tirou o maço de Gold Flake do bolso e estendeu lho. — Vou lhe dar lume. — Obrigada, prefiro acendê lo eu. Acendeu o cigarro e tirou algumas baforadas. Aproximou a mão da boca e divertiu se, com um ar maníaco, a fazer deslizar o fumo pelas palmas das mãos. Explicou, como para si mesma: — Queria que o fumo parecesse sair da minha mão. Seria engraçado uma mão com neblina... — Não é possível, o fumo passa demasiado depressa. — Eu sei, e isso enerva me, mas não posso parar. Sinto o meu sopro aquecer a mão, passa lhe pelo meio, dir se ia que a corta em duas. Teve um riso rápido e calou se. Continuava a soprar na mão, descontente e obstinada. Depois deitou fora o cigarro e sacudiu a cabeça. O perfume dos cabelos chegou às narinas de Mathieu. Era um cheiro a bolo com açúcar bauni Ihado, porque ela lavava os cabelos com gema de ovo. Mas esse perfume de pastelaria tinha um gosto voluptuoso. Mathieu pôs se a pensar em Sarah. — Em que é que está a pensar, Ivich? Ela ficou um instante de boca aberta, desconcertada, depois retomou o seu ar meditativo e o rosto contraiu se lhe. Mathieu sentia se cansado de a olhar. Doíam lhe os olhos. — Em que é que está a pensar? — repetiu. — Eu... (Ivich abanou a cabeça.) Está sempre a perguntar me isso. Nada de especial. Coisas que não se podem dizer, que não se transmitem. — Sabe se lá... Diga. — Bem, eu olhava para aquele homem que vem ali, por exemplo. Que quer que lhe diga? Que é gordo, que enxuga a testa com um lenço, que traz uma gravata... É estranho que você me obrigue a contar estas coisas — disse de repente, envergonhada e irritada —, não vale a pena dizê las. — Para mini, sim. Se eu pudesse desejar qualquer coisa, desejaria que fosse obrigada a pensar alto. Ivich sorriu sem querer — É um vício — disse —, a palavra não foi feita para isso. — E engraçado esse respeito selvagem pela palavra. Parece crer

que ela só foi feita para anunciar mortes, casamentos ou dizer missa. Aliás, você não olhava para ninguém, Ivich, olhava para a sua mão e a seguir olhou para o pé. E, além disso, sei no que estava a pensar. — Então porque é que pergunta? Não é preciso ser muito esperto para adivinhar. Pensava no exame. — Está com medo de reprovar, não é? — Naturalmente. Estou com medo. Ou melhor, não estou com medo. Sei que vou reprovar. Mathieu sentiu novamente um gosto de catástrofe na boca. «Se ela reprovar, nunca mais a verei.» E ela ia reprovar de certeza. Era evidente. — Não quero voltar para Laon — disse Ivich com desespero. — Se ficar reprovada, não me deixarão voltar. Disseram me que era a minha última oportunidade. Pôs se a mexer nos cabelos. — Se tivesse coragem — disse com hesitação. — Que faria? — perguntou Mathieu inquieto. — Qualquer coisa. Tudo menos voltar para lá. Não quero voltar, ficar lá a vida inteira. — Mas disse que seu pai talvez vendesse a serração daqui a um ou dois anos e que viriam todos para Paris. — Paciência! São todos assim — disse Ivich com um olhar furioso. — Queria ver se fosse consigo! Dois anos naquela cave, ter paciência durante dois anos! Não vê que são dois anos que me roubam? Tenho só uma vida — disse com raiva. — Ao ouvi lo falar, parece que se julga eterno. Um ano perdido, na sua opinião, substitui se bem. — As lágrimas vieram lhe aos olhos. — Não, não se substitui. É a minha mocidade que se escoará gota a gota. Quero viver já, não comecei ainda e não posso esperar. Já estou velha, tenho vinte e um anos. — Ivich, por favor, faz me medo. Tente ao menos uma vez dizer com clareza o resultado dos seus trabalhos práticos. Tão depressa parece satisfeita como desesperada. — Falhei em tudo — disse Ivich, sombria. — Pensei que em Física tivesse tido êxito. — Ah!, a Física — atalhou Ivich com ironia. — E em Química foi lamentável. Não consigo enfiar as fórmulas na cabeça. É tão cansativo! — Mas então porque é que escolheu isso? — O quê? — O P.C.B. — Queria sair de Laon — disse ela, obstinada. Mathieu fez um gesto de impotência. Calaram se. Uma mulher saiu do café e passou devagar diante deles. Era bela, com um nariz minúsculo num rosto liso, parecia procurar alguém. Ivich

Esta ficara quase feia. — Sou eu — disse Mathieu. — Está. — Mas é preciso andar depressa. só que a coisa me apanha desprevenido. Ela não respondeu.» Mathieu inclinou se ligeiramente e viu a de perfil: a sua expressão era cruel. Dissera uma vez a Mathieu: «Tenho vontade de morder os narizes pequenos.devia ter sentido logo o perfume. Insisti. Ela estava só. Ivich seguiu a com o olhar e murmurou raivosamente: — Há momentos em que eu gostaria de ser homem. Mas Mathieu não tinha vontade de as olhar. — Ah! Fico muito satisfeito. juro. docemente. A mulher imobilizou se pestanejando ao sol. disse lhe que você estava atrapalhado. Teve um risinho seco. mas quando era prestável tornava se . A mulher foi se embora. — Ivich — disse Mathieu. a sua fisionomia transformou se. Mathieu sabia que ela não podia responder. a porta da cabina não se fechava. mas não quis saber. quando aquele corpinho encantador e quase gentil era tomado por uma força dolorosa. Teria talvez trinta e cinco anos. e sentiu se também sozinho. Pensou: «Não sou bonito». através do tecido leve do vestido. Olhava para Ivich. é Sarah Gomez. Ele parte domingo para os Estados Unidos. Levantou se. Já não existia para ela. Mathieu não gostou daquela voz. Quanto é que ele quer? — Ah!. tenho de arranjar o dinheiro. Mathieu pegou no telefone. à transparência. É um estupor de um judeu — acrescentou. mas. a rir. e Mathieu olhou a tristemente.. lamento imenso. quando a viu. Ele entrou no café e desceu a escada.. — Bem. vou avisar Marcelle hoje mesmo. viam se lhe as pernas compridas. é a Sarah? — Tudo corre bem — disse a voz nasalada de Sarah. — Que criatura soberba — disse em voz baixa e profunda. Ergueu lentamente a cabeça. e ele pensou que ela tinha vontade de morder. — Desculpe. melancólica. mas quer quatro mil a pronto. — Senhor Delarue? Primeira cabina. Sarah era muito bondosa. apertava as mãos com força. — Ivich! Era nesses momentos que mais lhe queria. Ivich sorriu lhe com frieza. Quer fazer a coisa depois de amanhã para a poder observar durante os primeiros dias. por um amor ardente e perturbado A desfavorecido pela beleza. — Chamam o Senhor Delarue ao telefone — gritou o empregado.

Mathieu disse: — Uma vez achei cem francos num táxi. o vento na cara é incomodativo. junto de Ivich. Mathieu ia para dizer: . Mathieu afastara um pouco o telefone. como uma irmã de caridade. — Poderíamos. para dar até ao fim do mês. Michel. Sorriram e calaram se. silencioso. antes do jantar? — Todo o dia. — Bom. poderíamos ir ver os Gauguin. Sarah. sem surpresa. Ivich olhou o de lado através das suas longas pestanas. é descapotável. «pedirei mais mil francos a Daniel. parece um coche e é fechado. — Pois eu tê los ia guardado. e ouvia o riso de Sarah. Está em casa à noite. — Mande parar aquele — pediu Ivich —. Mathieu saiu da cabina. O táxi atravessou a Praça St. Passarei por lá para tratar ainda de mais umas coisas. Tinha um sorriso confuso e provocante. — Se quiser — disse Mathieu. «Irei ter com Daniel ao meio dia. «Uma vez que lhe vou falar». — Porquê? Mathieu apontou os cigarros. Obrigado. pensou Mathieu.brutal e activa. ecoar no auscultador. meio fumados.. vou tratar disso. não — disse Mathieu ao motorista —. veja como é bonito. é um anjo. — Oh! Dei os ao motorista. — Esse não — disse Ivich —. — Até logo à noite. Sentia o coração amargurado. era um pesadelo. — Dentro de dois dias? Bem. Levantaram se e Mathieu reparou que o copo de Ivich estava vazio. há vestígios de bâton. Estavam ambos aborrecidos. — Uma ficha para o telefone — pediu. não vale a pena.» — Galeria das Belas Artes. — A dor de cabeça passou me — disse ela. não era consigo. Faubourg Saint Honoré. neste táxi. amavelmente. — Esteve aqui alguém que ia nervoso. — Uma mulher — disse Ivich —. pensava: «Quatro mil francos». — Ainda bem — disse Mathieu. — Deve ter ficado contente. — Não. Porque é que fez isso? — Não sei. — Táxi — gritou. Mathieu viu entre os seus pés três cigarros de ponta dourada.» Sentou se perto de Ivich e olhou a com ternura. Sentou se. Não valia a pena telefonar a Marcelle antes de resolver o assunto do dinheiro. — Não. O táxi parou.. Pôs vinte cêntimos na bandeja e subiu devagar a escada. e Ivich subiu.

. — Não pode fazer outra coisa. Olhou a. erguendo as sobrancelhas. como está verde!» Mas não disse nada. o que me desagrada um bocado é Lola. Ivich continuou: — Não acho que valha a pena incomodarem se por causa de Lola. fico sempre admirada quando a vejo fazer as contas das despesas e tentar economizar. Ela não pode comigo. secamente. ao mesmo tempo. que eram um homem e uma mulher fechados num táxi. dá profundos suspiros para que pensem que está desesperada e encomenda bons petiscos! Acrescentou com uma maldade dissimulada: — Sempre pensei que as pessoas desesperadas não se incomodavam com a morte.. nunca se deveria envelhecer — disse Ivich. tem a juventude de um mineral. Voltara a cabeça e olhava os cabelos de Mathieu avançando a boca com ternura. E assim que fazem as pessoas que envelhecem. Eu não a acho simpática. os três. mas não consigo. em criança. você não tem idade — disse Ivich —. quando estão desgostosas consigo próprias e com a vida. Às vezes tento imaginar como você era. Foi Ivich quem falou de repente: — Boris pensava que íamos ao Sumatra. — Isso não quer dizer que ela não se sinta desesperada. A — Pois é. — Naturalmente. disse para si próprio. Desde que as pessoas o detestem. parece me que foi sempre assim. Eu gostaria. Mas não gosto dela. É a sua moral. Quer sempre ser perfeito. é muito teatral? — Teatral? — perguntou Mathieu.«Olhe o Sena. Ivich não era muito coqueta. Era como se eles tivessem imaginado. «Não».. — Ela é gentil consigo. — Tinha caracóis — informou Mathieu. não é nada agradável envelhecer. aborrecido. É bonita. — Que é que isso tem? Fez se um silêncio. Mathieu achou a inconveniente e irritante. — É engraçado que não tenha reparado. esforça se logo por lhes descobrir qualidades. e apressou se a acrescentar: — Tem razão. hoje à noite. canta bem. perturbado. — Nunca reparei nisso. e mais nada. — Eu acho a simpática. mas de vez em quando tinha uma expressão terna pelo prazer de sentir o rosto pesado e doce como um fruto. pensam no dinheiro e tratam se bem. — Oh!. — Ficarei muito contente em ver Boris e de estar com vocês — disse —.

viu lhe os olhos. pareceu lhe que ficava suspenso no vácuo com uma intolerável impressão de liberdade. «Pronto. havia entre ambos um sentimento raro e precioso. Pensou: «Um homem casado a conquistar uma rapariguinha num táxi». Um polícia fez sinal para parar e o táxi deteve se. e depois. e o braço recaiu lhe inerte. irritado. Ivich ia pensar que ele a amava como às outras mulheres que tinha amado. bruscamente. um polícia levou o tipo. Ivich não devia saber que tinha um ar terno. estendeu o braço. sentia vontade de se abandonar inteiramente. Aquele dia de Verão abatia se nele como uma massa densa e quente. Agora era amor. aliás não o fizera propositadamente. fora espontâneo. como uma mola. Um tipo bastante bem vestido. Tinha deixado para trás Marcelle. mas um pouco mais pequeno. olhava para o seu amor. à posição vertical. Mathieu quis falar. Aproximara se de uma mercearia. e entre eles havia o . mas não via as árvores. E ele fizera um gesto. «Que pensará ela?» Estava a seu lado. os intermináveis corredores de hospital por onde andava desde manhã. Através do vidro da frente via as árvores e uma bandeira tricolor na ponta de um mastro. Ivich não resistiu. mas sentia um estranho nó na garganta e estava fora de si. «Está a julgar me». Ainda durante um segundo. Estava calor. e Mathieu sentia um corpo quente junto do seu. olhara demoradamente uma fatia de carne fria que estava num prato sobre o balcão. Parecia achar a coisa natural e também se devia ter sentido livre. Depois estendera a mão e pegara na carne. Mathieu pensou: «Que é que eu fiz?» Cinco minutos antes aquele amor não existia. Inclinou se. Não disse nada: ficou com uma expressão neutra. Insistia. Sarah. Ivich continuava sem dizer nada. que parecia muito admirado. sem nome.» Encolheu se. agarrou Ivich pêlos ombros e puxou a para si. Ao levantar a cabeça. Lembrou se do gesto de um tipo que vira uma vez na Rua J E A N P AUL SARTRE Mouffetard. O táxi meteu se pela Rua de Rivoli. Era amor. de rosto cinzento. era livre. Mathieu olhava em frente. Desta vez. já não estava em parte alguma. Ivich calava se. Desejara desaparecer. O corpo de Ivich voltou. Um gesto e aquele amor aparecera perante Mathieu como um objecto importuno e já vulgar. As arcadas do Louvre estendiam se pesadamente ao longo dos vidros. é irremediável. O dono gritou. que não se exprimia por gestos. rígida e silenciosa.— Pois eu imagino o tal como é hoje. o único que não devia ter feito. e a sua raivosa alegria esvaiu se. pensou Mathieu. como se fossem pombas. e deixou se cair como se tivesse perdido o equilíbrio. rígida. mas ficou dura. Para a castigar aflorou com os lábios uma boca fria e fechada.

é tão puro. inerte e sinistro como um destino. Era apenas o amor. Odiava Marcelle. com os seus desejos simples e as suas condutas vulgares. Se ao menos ela pudesse esquecer. «Na melhor das hipóteses». que caía largado sobre as coisas. Marcelle deitava se tarde e não conhecia nunca as manhãs. como um vago perfume. nua.» Mas não tinha vontade de deixar de a amar. envergonhado e dissimulado. que o esperava à entrada. sacudiu a cabeça. «tenho horror a que me toquem». Olhar Ihe ei para as pernas.. «Se ele soubesse. pagou e juntou se a Ivich. soergueu se. pensou. à sua volta. humilhado de antemão. Mathieu não a seguiu imediatamente. impalpável. de olhos fechados.» O tecto estava cinzento como uma madrugada. Contemplava com espanto aquele amor completamente novo. Desceu finalmente. com a sua luz morta e rosada. que era um eterno meio dia. Deitou lhe um olhar furtivo e achou que ela tinha uma expressão dura. havemos de nos arranjar». chuvoso. «Está aborrecida.» Gostava daquelas visitas misteriosas. parecia Ihe que a vida parara ao meio dia. Acabava sempre assim. e já velho. pensou.» Não era o que eu queria dela.» Ele teria respondido. mole. e Mathieu é que o fizera nascer com inteira liberdade. «o arcanjo!» Marcelle bocejou. e o seu primeiro pensamento foi: «O arcanjo vem esta noite. e a noite da véspera continuava ainda ali. «não a desejo. para os seios.» Sentou se à beira da cama. Um calor enorme enchia o quarto..gesto. Ivich abriu a porta e desceu. e . «Bom. que tinha já a obstinação impalpável das coisas passadas. despreza me e pensa que sou como os outros. Havia uma repulsa no ar. aceitava o já como uma fatalidade.. com um ar alegre e bem disposto. um calor que viera de fora. mas agora pensava nelas sem prazer. «Não é verdade». humilhante para ela.. O táxi parou. Sabia que não teria podido J E A N P AUL SARTRE suportar aquela expressão e que a coisa lhe parara na garganta. de quem vai tomar um medicamento. como na véspera. «Não pude. que deixara a luminosidade nas pregas da cortina e jazia ali. olhava os tornozelos com um vago descontentamento. uma repulsa de meio dia. e um dia. estagnado. Pensou: «Meio dia. mas o calor era de meio dia. quando Mathieu se deitara nu ao lado dela. sem esperança. Mas já sabia que ia desejá la. pensou com desespero. o gesto desajeitado e terno. não lhe pude dizer. nunca a desejei». Entraram na exposição sem trocar uma palavra. como me acharia repugnante. «alguma coisa deve ter acabado entre nós. aquele amor de homem casado. Viu de repente Marcelle estendida na cama. Mas já não conseguia lembrar se do que queria antes.

passou a mão pêlos cabelos e esperou.» Plumas delicadas e embebidas em aloés acariciavam lhe a garganta. Sorriu. parecia lhe que mastigava um pedaço de manteiga amarela e rançosa. que adianta ser livre? «Não ajuda a viver. num equilíbrio instável. deixando traços viscosos e brilhante como lesmas. ainda ensonada: um capacete de aço na cabeça. não queria que Mathieu lhe tocasse.» Deixou . Sentia se mole e vencida. e sentiu nojo. No último Inverno. e murmurou: «Recordação de amor. não faltaria mais nada. Mathieu caminhava lá fora na poeira viva e alegre desse dia que se iniciara sem ela e já tinha um passado. e o mínimo gesto fá lo ia ruir como uma avalancha.inútil! Lá fora era o dia dos vestidos claros. a liberdade. quando dizia: «Faz se um aborto. sem ternura. anda a tratar de tudo».» Depois fez se um grande silêncio no seu cérebro. não?». E de repente recordou o rosto de Mathieu. como uma clara de ovo ligeiramente batida. e o dia começou. depois fico cansada. parecia se mais com esperma. O dia ainda não tinha começado e já estava contra Marcelle. depois sentiu uma espécie de riso no fundo da garganta e inclinou se sobre o lavatório. Acontecia.» Quando se acorda de manhã com má disposição e se sabe que se têm pela frente quinze horas para matar antes de se tornar a deitar.» Levantou se bruscamente A e correu para o lavatório. Era a vida. De manhã vomitou duas vezes. nas pontas dos pêlos negros. uma sensação morna nas ancas e nas axilas. Uma aguadilha saía lhe da boca. uma piedade activa e desajeitada de homem saudável. quando tivera diarreia. Olhou a baba que escorria devagar pelo buraco do lavatório. um gosto de mata borrão na boca. Não sentia repugnância. «E tenho sorte. a sua expressão ingénua e convencida. espumante. «Não é isto que é repugnante. maldosa. dizem que há pessoas que vomitam durante o dia todo. «Ele pensa em mim. e um clarão de ódio atravessou a. eu só vomito de manhã. como uma bola sobre a língua. Disse a meia voz: «Tem graça!» Não sentia repugnância. Teve um sorriso amargo. Sentia se irritada porque imaginava uma robusta piedade passeando ao sol. Já não pensava em nada. gotas de frio. enojava se facilmente consigo mesma. uma coisa talvez como o desabrochar da Primavera. era como se sentisse um odor permanente. No entanto. franzia lhe os lábios. Vomitou uma água suja. mas dominava se. E a minha mãe conheceu mulheres que não podiam suportar o cheiro a fumo. e teve de tossir para se livrar dela. Pensou primeiro na manteiga. a partir do segundo mês. «A sua liberdade. Marcelle apoiou se no lavatótio e olhou para o líquido espumoso. Tinha vontade de vomitar. e logo uma repugnância por tudo. mas aguento. não era mais repugnante do que a goma ruiva e odorífera dos rebentos das árvores. pensou.

com uma ingénua precipitação. Não olhou para os ombros nem para os seios. pousou docemente a mão na barriga. Não queria odiar Mathieu. Aproximou se. Está no seu direito. em pequena. Encolhem os ombros. Pensou: «Se fosse um animal. apertou devagar e pensou com certa ternura. Não era um animal. que olham para a barriga e que também pensam: «É aqui. toda a gente tem disso na vida. neste momento. durante algum tempo ainda. continuaria a ler.» Mas essas estão orgulhosas. Aliás. e o seu corpo era apenas uma superfície feita para reflectir os jogos estéreis de luz e tremer sob as carícias como a água a ondular ao vento. como de costume. Pensou: «É aqui.» Podia entregar se àquela languidez viva. uma espécie de esperança. Mirou o ventre. como uma jovem mãe.correr um pouco de água para lavar a bacia. E não se falaria mais nisso.» Mas o ódio não se esvaiu. tirou a camisa com gestos lentos. afundar se nela como no seio de uma grande fadiga feliz. Iria a casa da velha. E Daniel. Hoje já não era a mesma carne. Disse: «Não quero odiá lo. sempre dissemos que em caso de acidente. um pouco acima dos pêlos negros. Olhava para a barriga e descobria. Não podia . a sofrer dos intestinos e Mathieu viria. levantaria as pernas e a velha far lhe ia uma raspa gem com um instrumento. ela aproximara se do espelho com o mesmo espanto hesitante. Aquele corpo que desabrochava absurdamente era feito para a maternidade. quatro noites por semana e tratá la ia. Daniel viria também de vez em quando. Há sete anos — Mathieu tinha passado a noite com ela pela primeira vez —. Bastava imaginar que era um fibroma. não passa de um fibroma. Mas os homens tinham resolvido o contrário. J E A N P AUL SARTRE O espelho devolvia lhe uma imagem cercada de luzes violáceas.. Pensou: «Tenho de me arranjar. diante dos seios das mulheres que amamentavam: além do medo e do descontentamento.. Não gostava do seu corpo. «Sempre é verdade que me podem amar!» E contemplava a carne lisa e sedosa. perante a abundância pacífica das banhas. Iria a casa da velha. Voltaria para o seu quarto cor de rosa. Há outras. que nem sequer é ainda um animal e que vão raspar com a ponta de um bisturi. o arcanjo.. seria apenas uma recordação desagradável. uma impressão semelhante à que sentia no Luxemburgo. com uma delicadeza terna. Surpreendeu os seus olhos no espelho e voltou se bruscamente. Nesta barriga. neste momento. deixar me iam sossegada. e quando a amasse redobraria de precauções. «E aqui. Tornou a sentar se na cama..» Uma bolinha de sangue esforça se por viver. a sua ampla bacia fecundada. «Aborta se?» Desde a véspera que se sentia perseguida.» Não se sentia com coragem. urna bolinha de sangue estúpida. quase um tecido.

.» Durante todo o dia da véspera tinha sentido um nó na garganta. Quanto a Marcelle.» Mas não pôde deixar de passar docemente a mão pela barriga. Estava apavorada. de expor os seus pequenos casos de consciência.. uma gravidez é tão sórdida como uma blenorragia. infe . tinha confiança nela.» Mas ela não podia falar. E isso é melhor para ele do que arrastar se por aí com aquela fulana. E a velha passar lhe ia as mãos pêlos cabelos. a certeza de desejar um filho?» Via de longe.. Ele gostava de falar de si. as suas delicadezas morais. Mas tem de andar depressa.» Crispou as mãos no lençol. Às escondidas. ao menos. «Porque é que só Daniel me sabe fazer falar? Se me tivesse ajudado um bocadinho.. «Pois é. Daniel era tão misterioso. mas isso era cómodo. o que mais receava era ter de o desprezar. «Como lhe poderia ter dito? Nunca me perguntou nada. Estou com uma doença venérea. uma massa sombria e curvada: era um corpo de sultana estéril. se ele tivesse hesitado um segundo. isso sim. algo que lhe pertencesse de facto e que não fosse obrigada a repartir. Pensou: «É aqui. pensava: «Se ela tiver algo. dir mo á..» É aqui que vive uma coisa.» Riu. Gostaria de lhe ter dito: «E se o conservássemos?» Ah!. Deve ter prometido a si próprio encher me de amor. Por preguiça. Não faziam nada de mal. «No entanto. pensou. no espelho. Dentro em breve ultrapassarei a idade do amor. Não se atormentava. Ele via a às escondidas. Tinha uma maneira especial de a interrogar. Ah!. nunca lhe disse nada. vai andar à procura de direcções. tinham um segredo em comum. devia saber que não posso falar de mim. tinham combinado de uma vez para sempre que diriam tudo um ao outro. com um ar de cumplicidade imunda. à noite. a culpa é minha. como em Andrée. «Ele que fizesse como Daniel». Por outro lado. Está aborrecido como alguém que partiu um vaso. para ele. Mas logo a seguir sobressaltou se. mas a cumplicidade criava entre J E A N P AUL SARTRE ambos um laço ténue e encantador. que me restará? Teria. quando a olhava carinhosamente. é o que tenho de dizer a mim própria. não conseguia.» Iria a casa dessa velha. ter lho ia dito! Mas ele dissera com o seu ar ingénuo: «Aborta se?» E ela não conseguira falar. «Ele estava inquieto quando saiu.» Só Daniel sabia fazê la interessar se por si própria.saber. vai andar ocupa díssimo. e chamar lhe ia: «Minha gatinha».. era quase uma brincadeira. Não quer que essa velha me faça mal.» Julgou por momentos que se ia acalmar. «Se me puser a odiá lo.» Evidentemente. agora que não tem aulas. que não gosto de mim o suficiente para isso. Mas no fundo tem a consciência tranquila. Marcelle não achava desagradável ter um pouco da sua vida pessoal. e Mathieu ignorava aquela intimidade. principalmente. «Quando não se é casada. Teria ao menos sobrevivido? «Estou podre.

DADE DA RAZÃO liz como ela própria. «Os quadros não atraem». e Mathieu deitou lhe um olhar furtivo. Ivich não respondeu. tão inconfessáveis. Era uma pequena tela quadrada com uma etiqueta. de nunca se esquecer da mais francesa das virtudes. fazer uso do espírito crítico com moderação e firmeza. Viu apenas os cabelos sem cor pelo falso brilho da luz. Os quadros . tudo o que aquela luz clássica podia clarear. seria meu!» Mas aquele desejo secreto. Pensou de repente com paixão: «Seria meu. o bom senso. que se sentiu repentinamente culpada e teve horror de si própria. sentia se seco. Agora. as telas nas molduras. as paredes. «apresentam se. Nem sequer via o quadro. tapeçarias de veludo bege. auto retrato: Gauguin muito pálido e penteado. A seguir entrava se nos grandes salões desertos e mergulhava se numa luz académica que saía de um vitral. pensava irritado. Não os quadros. Mathieu sentiu se acabrunhado por uma quantidade de responsabili dades cívicas. Na semana anterior. Mathieu tinha o achado belo. Havia muitas manchas nas paredes: os quadros. mas mãos de Mathieu. Mas Mathieu já não tinha vontade de os contemplar.» Um banho de espírito francês. disforme. e o silêncio oficial dos salões. transido pelo espírito da Terceira República. Tentava interessar se pêlos quadros. J E A N P AUL SARTRE uma paisagem bretã com um calvário.. — Isto é Gauguin — disse. nos cabelos de Ivich. mas em vão. Mathieu estava sobressaltado com a realidade. Paredes claras. Sou livre perante eles. um ramo de flores. ao olhar aquele retrato pela primeira vez. um Cristo na cruz.. e uma arrogância triste de criança. não tocar nos objectos expostos. Mathieu pensou: «O espírito francês. com a verdade. Apesar disso arrastou Ivich e mostrou lhe. Uma vida absurda e supérflua como a dela. Tinha de falar baixo. VI v ia se por cima da porta o emblema da República e as bandeiras tricolores. era preciso escondê los de tanta gente. por toda a parte. Via tudo o que era real. sem falar. Era uma luz dourada que dava nos olhos e se fundia em tons de cinzento. com um queixo enorme. Depende de mim que existam ou não. aquela obscura afirmação eram tão solitários. Era aquele sol expurgado.» Isso criara lhe uma responsabilidade suplementar e sentia se culpado. Demasiado livre. duas taitianas de joelhos na areia. Mesmo que fosse idiota. Ivich não dizia nada. o que dava logo o tom. e Mathieu perguntava a si próprio o que pensava ela de tudo aquilo. um grupo de cavaleiros maoris l. as cores pastosas sobre as telas. uma expressão de inteligência fácil.

demoníacas formas negras. fazia se passar por Cristo! E aquele anjo ali. O homem inclinou se para trás e olhou a tela com uma severidade depreciativa. Devia ser a força do hábito. A mulher era do tipo gazela e devia ter uns quarenta anos. Mathieu mostrou a Ivich uma grande e sombria mancha de bolor na parede do fundo. de expor nas telas objectos inexistentes. Mathieu ouviu um soluçar estranho e voltou se.tinham se apagado e parecia monstruoso que no fundo de todo aquele bom senso houvesse gente capaz de pintar. Agarrou lhe no braço e conduziu a até uma poltrona de couro no meio da sala. A solidão e o orgulho tinham lhe devorado o rosto. tche. — Não gosto nada disto! Palavra de honra. nu até à cintura. foram colocar se com desembaraço diante da tela. e Mathieu sentia vergonha de si próprio. num céu tempestuoso. atrás dele. (N. havia urna relação visível entre o seu aspecto de juventude e a qualidade da luz. Certamente a luz das exposições nacionais era a que lhes ia melhor. com profundidade. Agora. O homem era alto e rosado. Por trás dele havia presenças obscuras. mostraram se à vontade. «Ela já não está zangada». mas mantinha o orgulho. Era uma competência. Os cabelos caíam lhe para a . 1 Indígenas da Nova Zelândia. Era de mais. esse anjo é literário como tudo! J E A N P AUL SARTRE — Não gosto de Gauguin quando pensa — disse o homem. tinha ao seu lado um corpinho rancoroso. Mathieu tinha se comovido. Tinha uns olhos redondos e cabelos brancos.) Mal entraram. Perdera a dignidade — aquela dignidade humana que Mathieu ainda conservava sem saber o que fazer dela —. — Também é dele. tche — murmurou meneando a cabeça. fixava neles o olhar duro e falso dos alucinados. — É verdade — disse com uma voz aflautada —. O homem e a mulher aproximaram se. Entrou um homem e uma mulher. da R. A mulher pôs se a rir. Gauguin. O corpo tinha se tornado num fruto grande e mole dos trópicos. Contemplava Gauguin com os seus olhos redondinhos. Mas estava só. uma grande imundície na parede. Da primeira vez que vira aquela carne obscena e terrível. Ivich teve de se pôr de lado porque impediam que fosse vista. isto não é a sério. Ivich deixou se cair na poltrona às gargalhadas. Condecorada. seco e elegante no seu fato distinto de flanela cinzenta diante do enorme corpo nu. Ivich tivera um ataque de riso e olhava o com desespero mordendo os lábios. — Tche. pensou Mathieu com alegria. — O verdadeiro Gauguin é o Gauguin que decora.

Gostaria de passear ao ar livre. «Ela quer acabar com tudo. agora já não é a mesma coisa. Ivich desviou as mãos e Mathieu viu lhe os olhos pálidos e franzidos. Mas eu não quero que ela me deixe». — Quer ir se embora? — Preferia. Pareciam consultar se sobre a atitude que deviam tomar. Duas mulheres caminhavam descalças num capim cor de rosa. A outra estendia o braço com uma tranquilidade profética.cara. — Se não fosse público — tentava retomar o tom de alegre familiaridade que lhe era habitual —. Parecia que tinham sido surpreendidas quando se metamorfoseavam em coisas. Levantou se. — Há outros quadros na sala — disse Mathieu timidamente. pensou com angústia. Ivich titubeava ligeiramente e continuava a tapar os olhos.» E de repente foi invadido por uma certeza insuportável. deixa me. a rua ardia. Lá fora. Ivich parou de rir. Uma delas tinha um capuz. — É como se me picassem os olhos com alfinetes. detesto o Verão. — É formidável — disse em voz alta. Quando a encontrar. — Isto não devia ser público — disse Ivich de repente.. Há pessoas. — Refere se às exposições? — Refiro me. E a mulherzinha. Era feiticeira. sem querer. Estes quadros fizeram me outra vez dor de cabeça. Deram alguns passos. Não tinham uma expressão completamente viva. Desejaria ter lho mostrado. Deve estar à procura de uma frase cortês de despedida. — Não tem nada de especial para fazer? — perguntou. Calaram se. Estão bem um para o outro! O homem e a mulher mantinham se impassíveis. — Quando? . — Ivich — murmurou. — Como é que ele dizia? Não gosto de Gauguin quando pensa. Atravessaram a rua em silêncio. Mathieu pensou: «Continua aborrecida comigo. Não pensa noutra coisa. — Cuidado com o passeio — disse Mathieu. Mathieu teve a impressão de atravessar uma fogueira. Oh! — disse furiosa —. Ivich fez uma careta e levou a mão aos olhos. — Não — disse melancólica —.. como havíamos de fazer para lá ir? — Não íamos — disse Ivich secamente. Mathieu seguiu a deitando uma olhadela de pesar para o grande quadro da parede à esquerda.

mas não se atreveu a fazê lo. «Daqui a uma hora ficará livre e há de julgar me sem apelo. Um dia. «Ela fica. aborrecia se de ir comigo até casa do Daniel na Rua Montmartre? Podíamos separar nos à porta e deixava me pagar lhe o táxi para voltar ao Lar. não os apreciava e não os respeitava. Os estudantes da Sorbona. Abandonava se com uma indolência mal humorada às situações mais desagradáveis e acabava por encontrar nelas uma espécie de descanso.» O que não provava que lhe tivesse perdoado. imediatamente. J E A N P A U L SARTRE — Visto que quer passear. Não é possível deixá la partir assim. — Sim. Acabou por perguntar. Mathieu teve vontade de limpar a testa. impedia a de pensar. de qualquer coisa.. ainda que os odiasse. — Naturalmente. mas viu lhe um olhar desvairado. Parecia lhe que existiam desde sempre. tenho de lhe explicar. Mathieu estava contente. Mas Mathieu não encontrava nada para dizer. . — Acha que ele era doido? — perguntou bruscamente Ivich. e as palavras não lhe saíram. E havia também aquelas formas negras atrás dele que pareciam conspirar. e ela respondeu: «Que horror. não me poderei defender. Os quadros eram coisas.. Mathieu perguntou lhe se gostava das telas de Toulouse Lautrec. Mathieu encolheu os ombros. Perguntava se tinham sido simpáticos. Se falasse continuamente. graciosos. A — Gauguin? Não sei. Ivich não gostava de deixar os lugares e as pessoas.— Agora. Mas não volto para o Lar. Enquanto estivesse com ele. — Se quiser. É por causa do retraio que pergunta isso? — Por causa dos olhos. vou ter com Boris. Os pintores eram homens como os outros. — Não nada. porque o futuro a apavorava. se tinham tido amantes. Era preciso falar. desajeitadamente: — Apesar de tudo gostou de ver os quadros? Ivich encolheu os ombros. — Aí está uma ideia que não me teria surgido — disse Mathieu com surpresa. podia atrasar um pouco a eclosão dos pensamentos coléricos e desprezíveis que lhe iam nascer. Acrescentou com pesar: — Era belo. ele era tão feio!» Mathieu sentiu se pessoalmente magoado. coisas belas e sensuais que se deviam possuir. pensei. se se impusesse.» Voltou se para ela. era belo — disse Ivich com convicção. Apesar de tudo. Ivich tinha uma maneira de falar dos mortos ilustres que o chocava um bocado: entre os grandes pintores e os quadros não estabelecia qualquer relação.

Ivich teria sido educada em Moscovo. mas pergunto a mim própria porque é que disse isso. O Sr.insignificantes e frescos como raparigas. — Disse por dizer. E até Mathieu a tinha achado encantadora uma vez em que ela olhara demoradamente um pupilo do orfanato acompanhado de duas religiosas e dissera com uma espécie de gravidade irrequieta: «Tenho a impressão de que me estou a tornar pederasta. Era apresentada na Corte. carinhosamente: — Eu não queria dizer mal dele. Ivich fez uma cara de desprezo e calou se. Ivich falava de bom grado do temperamento francês quando se encolerizava. casava com um oficial da guarda. alto e belo. Ivich? — disse Mathieu com vivacidade. Ivich desatou a puxar um caracol dos seus cabelos. — Porque é que disse naturalmente? — Porque tinha a certeza de que ia chamar a isso arrogância. passeava com Mathieu. de olhar mortiço. de testa curta. se é isso que quer dizer. — Sim — disse Mathieu no mesmo tom —. — Naturalmente — disse Ivich a rir. O pai de Ivich era nobre. Acrescentou. uma certa arrogância. Sem a revolução de 1917. — Eu não o acho simpático. Ivich podia os devorar com os olhos à vontade. compreendo isso muito bem. e sempre com aquela expressão estúpida. — Que foi. Mathieu disse. Não aquele homem maduro que fizera quadros de que ela gostava. Serguine A era agora proprietário de uma serração mecânica em Laon. Ivich estava em Paris. Mas não Gauguin. — Tem um ar nobre — disse num tom neutro. tinha filhos. De fora. Houve um longo silêncio. Porque é a minha impressão. Depois Ivich disse abruptamente com um ar estúpido e fechado: — Os Franceses não gostam do que é nobre. isso deve parecer tão exagerado! Mathieu não respondeu. O seu ar de orgulho dá lhe um olhar de peixe morto. no colégio das raparigas nobres. — Foi — disse Mathieu com solicitude. conciliadora: — Aliás. — Quer que lhe conte a história? — Parece me que a conheço: era casado. Adquirira uma expressão de obstinação insípida. — Foi esse Gauguin que fugiu? — perguntou de repente Ivich. — Censura me porque não o acho simpático? — Não. não é . bem sabe que aprecio as pessoas que são orgulhosas.» As mulheres também as podia achar belas. um burguês de nacionalidade francesa que não gostava da nobreza.

para realizarem o seu ideal na vida. Esta história é ainda mais cómica porque veio a propósito de Gauguin. Aliás. Era saudável. — Acha engraçado que ele tenha começado como um pintor de domingo? — perguntou Mathieu com inquietação. da mesma maneira que se pesca à linha. Por higiene. e ela continuou: — Talvez me engane. A princípio era isso. de qualquer maneira. olhou o de frente. — Isso surpreender me ia muito — disse com voz glacial.. Estou a vê lo a fazer conferências para estudantes americanos numa universidade. corando. compreende porque se pintam paisagens no campo. «Gostaria de a ver num convés de um navio com os emigrantes». Tive muitas vezes vontade disso. pensou. em missão. . Ivich pôs se a rir.isso? — É! Trabalhava num banco e ao domingo ia para o campo com o cavalete e uma caixa de tintas. assustava se com a sua própria ousadia. acho estranho vê la decidir sobre a minha possibilidade de partir. Não o fiz porque era absurdo. Tinha um ar mau e amedrontado.. de segunda classe. — Porque não? Talvez não para o Taiti.» — Enfim — concluiu —. Quem sabe lá se um belo dia não partirei para o Taiti? Ivich voltou se para ele. Mathieu estremeceu. com outros professores. — Não era nele que eu pensava. ou cinco ou seis poemas. Gostaria de ir para a América! Ivich puxava os caracóis com violência. antigamente. J E A N P AUL SARTRE — Refere se a mim? — indagou a rir. — Pintor de domingo? — Sim. — Sim — disse —. Um amador que esborrata telas ao domingo. que foi precisamente um funcionário até aos quarenta anos. — Acha que preciso de cabinas de luxo? — perguntou ele. Era o que chamamos um «pintor de domingo».. Ele sentiu dificuldade em engolir a saliva. mas não com a expressão que Mathieu esperava. Mathieu olhou a em silêncio.. mas não no convés de um navio de emigrantes. mas para Nova Iorque. — Não — respondeu secamente Ivich —. Talvez por ser francês. está enganada. — Então no que é que pensava? — Estava a pensar se também se podia falar em escritores de domingo? Escritores de domingo! Pequenos burgueses que escreviam anualmente uma novela. — Bem viu que isso leva às maiores loucuras. respirando o ar puro. «morreria.

a impressão de que você já tem a vida organizada e com ideias sobre tudo. — Ah!. Faz censuras veladas e. visto que o disse. Olhou indefinidamente. Ivich recomeçou a puxar os cabelos. — Estou a ver — disse. Foi uma palavra que me veio à cabeça.Ivich desatou a rir ironicamente. tinha aceitado perdê la. — Na grande tela do fundo? Estava muito doente naquela altura. e Mathieu imaginava que ela ia falar... Mathieu lembrou se do rosto pesado e do queixo enorme. — Nada. não vejo porque é que isso havia de ser uma qualidade — disse ele —. Apoiava se ora num pé ora noutro e evitava o olhar de Mathieu. É demasiado cómodo. — Não censuro ninguém — disse ela com indiferença.. com uma expressão ligeiramente desvairada. Calou se. Ivich sorriu com desprezo. depois. Mas não saía nada. recusa se a dar explicações. era isso — disse Mathieu. olhando para a ponta da sapatos: — Você já está instalado e não mudaria por nada deste mundo. J E A N P A U L SARTRE — O quê? — Nessa história de homem «perdido».. — Ivich! Vai dizer me o que é que está a magicar. De repente disse: — Tanto se me dá que seja assim ou assado. mas não dá um passo para as apanhar. — Bem. — Estou a falar do quadro em que ele é ainda jovem: parece capaz de tudo. Mathieu parou e olhou a. . — Ah. mas quero saber o que pensa exactamente sobre isso. — Para quê? — Para ver que não deve haver muitos funcionários daquela espécie. ou então não estou a perceber o que quer dizer.. e Mathieu sentiu pela segunda vez ciúme. — Quem é que lhe disse isso? — É uma impressão. Gauguin tinha perdido a dignidade humana. perdido. Ele parecia. De vez em quando abria a boca. nada. Ivich parou também. — Claro. Enrolava um caracol no dedo e puxava o como se o quisesse arrancar. Acrescentou rapidamente. não sou um homem perdido. Era exasperante. não se fala mais nisso. E sempre assim.. — Não é verdade? — indagou Mathieu. de má vontade. Tinha ar de querer dizer qualquer coisa.. Em todo o caso basta olhá lo na tela para.. — Aliás.. — É. — Evidentemente! Se é isso que quer dizer.. não! — disse Ivich. — Ainda estamos a falar disso? — É estúpido. Estende as mãos para as coisas quando julga que estão ao seu alcance.

estou Ihe muito grata. — Com efeito — atalhou Mathieu secamente.. — Devia ter dito — continuou desolado. Mathieu estava mais surpreendido do que chocado... — Julgo — disse Ivich com lassidão.. às exposições. explicara lhe os .. deve estar a pensar nalguma coisa de especial.. Levantou a cabeça e alisou os cabelos para trás. — Ivich! — disse Mathieu. sem o olhar: — Todas as semanas chegava com a Semaine à Paris. Mathieu estava aterrado. — Como diz isso sem convicção! — Gostava realmente muito. — Não. Ivich? — A propósito de tudo — disse ela com ar vago. Mathieu pensou de repente em Marcelle e teve vergonha. — Ah!.. não gostava disso — repetiu Mathieu.. sou assim mesmo. tudo o que faz é. — Era para si! — Eu sei — respondeu Ivich com delicadeza —.— Quem é que lhe disse isso? — repetiu Mathieu. indignado. Mathieu sentiu se empalidecer. Acrescentou com uma expressão falsa: — Mas como me diz o contrário. — Não compreendo.. Ivich.. — Acha isso desprezível? — Pelo contrário — respondeu Ivich. Ela murmurou. Com Gauguin. como qualquer outro. — Acho muito melhor assim. sem que se percebesse a mais pequena ironia na sua voz: — Consigo sentimo nos em segurança. os olhos brilhavam lhe.. que é demasiado inteligente para isso. como imagina. Poderia tê los. A — Ah! — disse Ivich triunfante.. Mas tenho horror — disse com uma violência repentina — que me imponham obrigações para com as coisas de que gosto. — Nunca a teria forçado. Não conseguia dizer outra coisa. — Eu sei. mas não acho bem.. Acrescentou. Não gostava de ir a concertos e exposições? — Gostava.. Olhava os lábios finos e moles de Ivich e perguntava a si próprio como os tinha podido beijar. Pensava que ela tinha razão. — A que propósito diz isso. não há que recear imprevistos. a vida devia ser impossível.. Levara a aos concertos. — Não — disse em voz baixa —.. descobrindo o rosto largo e pálido.. tão metódico. estabelecia um programa.. — Se quer dizer que não tenho caprichos. com indulgência. — Julgo que não se quer arriscar.

silenciosos. Você ia a essas exposições como se fosse à missa. — Até logo — disse Ivich sem o olhar. e Mathieu detestou a francamente. Mathieu via se com os olhos de Ivich e sentia horror por si próprio. Calaram se. Pensamos agradar às pessoas. aos arranques. — Não voltará a acontecer. E sentia o a meu lado. Acrescentou: — Vou tentar mudar. tranquilo e reverente. — Que me importam os quadros — disse Ivich sem o ouvir —. «Sou repugnante». — Ainda é longe? — Um quarto de hora. O táxi afastou se. Ivich sacudiu a cabeça. Se soubesse como lamento. Estavam inundados de luz e odiavam se. Caminharam lado a lado. (Bateu o pé e olhou Mathieu com desespero. angustiado. Mathieu pensou: «E o Sumatra? Deverei lá ir apesar de tudo?» Mas não tinha vontade de a tornar a ver. vn N u até à cintura. Agora. Imaginava que ia parar a cada palavra.. Ivich não respondeu. e durante alguns instantes Mathieu acompanhou o. Pensava em Gauguin. e pôs se a pensar em Marcelle. Desculpe. Todas as vezes. tinha pressa de ficar sozinho.) — Acho que é melhor. pensou. Mathieu chamou um táxi. Mathieu sentiu de repente um nó na garganta. Foram os quadros. Uma cólera desesperada ardia lhe no rosto. — Ivich! Peco lhe desculpa do que se passou esta manhã. e Mathieu continuou com esforço: — Há também os museus. mal me podia conter de raiva e vontade de os levar. nem sei como aconteceu. E sempre a mesma coisa. Mas ao mesmo tempo. e nem sequer lhes podia tocar. trancou se. Mas vinha lhe outra do fundo da garganta. baralham se me na cabeça. — Quer ir se embora? (Mathieu estava quase aliviado. erguia lhe a língua e saía.. Sabia que a sua causa estava perdida. Falava com repugnância. Falava por descargo de consciência..quadros. os concertos. com o olhar. — Não se pode mudar — disse. — Até logo — disse ela. Ivich conservava a sua expressão dura. Está cansada? — Muito. Ela levou a mão à testa e apertou as fontes com os dedos. Depois uma porta bateu dentro dele. Adoptara um tom de bom senso. se não os posso ter. — Esta manhã? Nunca mais pensei nisso. e durante todo aquele tempo ela odiava o.. Mas você nunca dizia nada. Aliás.) Já os confunde. Daniel barbeava se diante do espelho do .

Daniel saltou com a navalha na mão. Aquilo já durava há quinze dias. «Tenho de ficar à espreita no vestíbulo uma manhã inteira. Dizia para si mesmo: «Desta vez não me escapa. Daniel apurou o ouvido: «Não. fixo e redondo. Só assim a conseguirei apanhar. como um olho. Era a filha da porteira.» Tornou para o quarto e voltou a barbear se. Ficaria um pequeno tufo de pêlos pretos. Tinham acabado de dar as dez horas. Todas as manhãs. ainda me aborreceria mais depressa. à luz da lâmpada eléctrica. mas o meio dia já estava no quarto. Um rosto de arcanjo. Agora era assim. ao voltar da escola. eram os ruídos da rua.» Marcelle alcunhara o de querido arcanjo» e agora tinha de suportar os olhares daquela femeazinha. simplesmente. Tinha também aquelas olheiras roxas e pensou: «Estou a dar cabo de mim. Ficará chocada quando vir que tenho pêlos no peito. no ruído leve da navalha. quase imperceptível. colocava flores diante da porta de Daniel. e lançar lhe ia um olhar severo. A coisa já lá estava. cada vez que bebia. Ao mesmo tempo escutava. tinha a certeza. Era preciso vivê la.» Tomava cuidado ao passar com a navalha à volta da espi J E A N P AUL SARTRE nhã. Daniel descobriu no capacho a seus pés um ramo de cravos: «Fêmea imunda». irritado. sempre significa alguma coisa. porque tem imaginação.» Olhou a espinha vermelha e febril. Para além disso. Abriu bruscamente a porta da entrada. Não se podia tentar afastá la. disse em voz alta.» Foi como um leve roçar. com o coração aos saltos.» Não era um simples projecto. paciência. de maneira a não se cortar. nada a não ser uma tarde vaga que se retorcia como um verme. «Hoje de manhã. de faces azuladas. Doíam Ihe os olhos porque havia dormido muito mal e tinha uma espinha sob o lábio. Tarde de mais. Com um pontapé atirou os cravos escada abaixo. Pensou: «Ela gosta da minha cara. Via no espelho o rosto moreno e nobre. Pensou com uma espécie de mal estar: «E isso que a excita. nu da cintura para cima.» Aproximou se do espelho e . Daniel tinha medo dos arranhões. Devia ter se escondido na reentrância de um dos patamares e aguardava. sustendo a respiração. «Imundas». Não seria má ideia desfigurar este rosto de que elas tanto gostavam. pensou Daniel. «Um rosto escalavrado não deixa de ser um rosto. Inclinou se ligeiramente e com um golpe hábil de navalha decapitou a espinha. ao meio dia. em plena puberdade. Da cara e dos ombros. A porta do quarto de dormir estava entreaberta para ouvir melhor. a criança tinha o pressentido e fugira. tudo estará acabado. nem mesmo aproximá la para que acabasse mais depressa. Bastava ver aqueles olhos de peixe frito quando lhe dizia bom dia. uma manchazinha vermelha com um ponto branco.» Apareceria.armário.

Durante um segundo. «Cipião» ficou lá sem se mexer. Era uma gata de telhado.» Pegou Ihe pelas patas e pô la ao lado de «Cipião». Enfiou uma camisa de seda creme e umas calças de flanela cinzenta. e . pouco antes do encerramento do jardim. pulou para o fogão a gás. O relógio de Daniel marcava dez horas e vinte e cinco. Daniel pegou lhe pelo pescoço e meteu o no cesto. sozinho no Johnny's. «Popeia» — chamou Daniel. Era hoje. Comeram se uns aos outros. Daniel gostava menos dela porque era comediante e servil. pôs se a acariciar lhe o focinho. e desviou os olhos. com uma grande cicatriz no flanco direito. Era branco e ruivo. e a manhã entrou no quarto. fechado em sacos e abandonado numa ilha deserta. eufórico. Daniel roçou lhe o dedo pelo pescoço rechonchudo. Gostava do seu quarto porque era impessoal e não o atraía. Quatro paredes nuas. predestinada. ah!» Ela enrolava se de um lado para o outro com movimentos graciosos de cabeça. uma manhã pesada. duas poltronas. Logo que percebeu que ele a estava a ver. até ao meio dia. A seguir. escolheu com atenção a gravata: a verde às listas porque estava abatido. Daniel teve de ir buscá la à cozinha. Beliscou as ancas. Dir se ia um quarto de hotel. Tinha de perder um quilo. Sete uísques na véspera. Não eram cães que deviam lá ter posto. gosto de ser belo. Olhou duramente Daniel e bocejou com ferocidade. virou se de costas então. abafada. «ah. Daniel não gostava dos cães. de olhos semicerrados. O gato. «espera um pouco. Entreabriu a porta da cozinha e assobiou. depois olhou em volta. «Cipião» apareceu primeiro. Não se decidira a voltar para casa antes das três horas porque era terrível pôr a cabeça no travesseiro e deixar se afundar nas trevas imaginando que ia haver um amanhã. uma mesa. com uma barbinha. aberto no meio do compartimento. Disse: «Aliás. Viu o grande cesto de vime. «Espera um pouco».contemplou se sem prazer. à noite. pensou ele. estendeu as patas e ele fez lhe cócegas nas tetas escondidas sob o pêlo negro. uma cadeira. um armário. — «Popeia». Pareceu espantada. O vento do mar alto trazia por vezes os uivos deles aos ouvidos dos marinheiros. Daniel não tinha recordações. pôs se a ronronar e a fazer gracinhas. disse com uma voz cantante de comediante. beatificado. Daniel ajoelhou se e. mas encolheu se e depois resolveu ronronar. com ternura. assanhando se. «Popeia» nunca vinha quando a chamavam. Daniel pensou nos cães de Constantinopla.» Parecia cansado. espreguiçando se. J E A N P A U L SARTRE dava lhe pequeninas patadas na manga. «Malvina» veio a seguir. numa noite de Inverno. Depois abriu a janela. Coçava a cabeça contra o batente da porta. Daniel tinha a encontrado no Luxemburgo. «Ah». uma cama. Daniel deixou se flutuar no calor estagnante. tinham nos encurralado numa rua. Quando ela o viu.

teve uma espécie de enjoo.» Nas costas da mão havia três arranhões e no seu íntimo havia também uma comichão estranha que ameaçava envenená lo. insípido. corado e a suar com aquele fardo nos braços. Gostava de Daniel. Levantou se e olhou para o cesto com uma satisfação irónica. «Presos. Tinha a impressão de que estava a pregar uma boa partida a alguém. JEAN PAUL SARTRE apenas gatos. Era voluntariosa e má. Tomou a nos braços e ela esticava a cabeça para trás. porque ele era muito cerimonioso e bem educado! . o seu terror raivoso. «Bom. mas passou lhe logo. Pegou no cesto pela asa e pensou: «Como são pesados estes infelizes animais. vou ter calor. é assim?» Agarrou a pela nuca e pêlos rins e enfiou a à força. uma insipidez de carne crua. Passou lhe o dedo no focinho e ela mordeu o com raiva e divertida ao mesmo tempo. minha rainha». o vime gemeu sob as garras de «Popeia». Cómico e um bocado ridículo. Mas para fazer «Popeia» entrar no cesto foi um castigo.» Mas sentiu que uma intolerável A IDADE DA RAZÃO angústia o invadia e teve de desviar o olhar. «Era isto que eu gostava tanto de fazer!» Bastara lhe fechar os três ídolos dentro de um cesto de vime e tinham voltado a ser gatos apenas. Daniel gostava dela. mordia muitas vezes «Malvina». A gata teve um momento de estupor e Daniel aproveitou o para baixar a tampa e fechá la. Quando atravessou a porta de entrada.» Pensava nas tetas rosadas de «Malvina». bom. e ela voltou se raivosa e deu lhe uma unhada.» Riu se. estúpidos. «É longe. depois. como se fossem cócegas. Teve de a empurrar pelo rabo. Daniel contemplou os com um alívio maldoso: «Um bom guisado. mas não tinha o hábito de ceder facilmente aos próprios desejos e. simplesmente gatos. Sorriu e escolheu o casaco de tweed arroxeado que já não podia suportar desde Maio.trouxera a. baixando as orelhas e curvando se toda. Agarrou no novelo de fio e guardou o no bolso das calças. e sorriu lhe sem a olhar. seria cómico andar ao sol. pequenos mamíferos vaidosos e estúpidos e que morriam de medo — nada de extraordinário. Parecia escandalizada.» Queria vestir o casaco de flanela. e Daniel pensou. Os outros dois tinham ficado um ao lado do outro. Dir se ia um canto de cigarras. ronronando. como de costume: «É raro um gato olhar nos de frente. A porteira estava à porta da rua e sorriu lhe. uma dorzinha seca. bom. «Ah!. «Uf!» A mão ardia lhe um pouco. «Gatos.» Imaginava a sua posição humilhante e grotesca. Não ronronava («Popeia» nunca ronronava). Hesitou. Na escada já se sentia indiferente e seco. mas olhou o bem de frente. Então beliscou lhe o pescoço e ela ergueu uma cabecinha obstinada.

— Muito. «Dr. A um quilómetro dali. tão tranquilo. Não. Sorriu gravemente e deixou a. minha senhora — respondeu Daniel respeitosamente. Senhora Dupuy — disse Daniel. aquela horrível luz quente e aguda. Daniel sorriu. e . — Ah!. Apaguei a logo a seguir. estava tão exausta que adormeci sem apagar a luz. pensei. nada de táxi. Quando se bebe na véspera.» O 72 levá lo ia a Charenton. De repente ouvi a campainha.» Atravessou o portão. Daniel conhecia um sítio solitário ao pé do Sena. Mas o seu apartamento vai ficar vazio. era muito alto. — Veja lá — disse a porteira a rir —. Sereno» (era o único inquilino que faltava entrar). quando ia lá acima arrumar. «não faltava mais nada. — Voltei tarde ontem à noite e vi luz por baixo da sua porta. nadava na luz. O senhor deve estar muito aborrecido. Jekyll e Mr. Eu já me tinha habituado a vê los. Fazia Ihe mal aos olhos. Não via nada. Era rígido. e a luz ofuscou o. fechado e no fundo havia uma pobre vítima que pedia clemência. gravemente: — Sabe que os gatos podem ficar tuberculosos? — Tuberculosos? — disse a porteira. Sentia se interiormente tão bom. Pensou: «O homem é assim». assustada. Sereno. «Não vou desmaiar assim sem mais nem menos». «aí está o Sr. O veterinário acha que precisam de ar. «É estranho que se possa odiar a si mesmo como se fora outra pessoa!» Mas não era verdade. só havia um Daniel. — Que cesto tão grande! — São os meus gatos. Acrescentou. tão bonitos. corno tinha previsto. Serei Mr. trate bem deles. com a sombra da prisão de vime que lhe balançava no braço. — Estão doentes? Coitadinhos! — Não.» A água do Sena era particularmente escura e suja naquele lugar. tinha a impressão de se destacar de si mesmo. que isso não lhe parecia natural. dir se ia um chimpanzé. «Velha toupeira. com uma garra de ferro a apertar lhe o crânio. faria melhor se vigiasse a filha. por mais que fizesse. não há nada como uma manhã de bruma. De repente viu a própria sombra grotesca e disforme. mas a sombra permaneceu atarracada e disforme. Hyde. vou levá los para a casa da minha irmã em Meudon. com manchas esverdeadas de óleo por causa das fábricas de Vitry. Eram três horas mais ou menos. com uma espécie de prazer. não? — Mais ou menos. disse. de planar como um juiz abstracto acima de um formigar impuro. Daniel contemplou se a si próprio com nojo.— Levantou se muito cedo. traiu se. Sr. — Receava que estivesse doente. Empertigou se. Devia tratá los mal na minha ausência: bem a proibi de lhes tocar. Hyde até à paragem do 72. tenho tempo. Quando se desprezava. «Ah!».

l DADE DA RAZÃO e Daniel não poderia suportar isso. secamente. Mas não tinha vontade de levantar a tampa. Quando empurrou a porta. iria até ao fim do mundo — até ao fim de si próprio. um gin fizz! O barman serviu o. Rua Tailledouce. tanto lhe fazia. uma cegueira lúcida e húmida: os olhos ardiam lhe como fogo. A obscuridade era agradável..» Tinha de fazer apenas um pequeno desvio e ficaria no Championnet.bruscamente aquilo apanhava o e sentia se mergulhar em si próprio. Eu não sou. aquele tem sempre uma boa para contar. «Merda!». como sempre. «Há no entanto qualquer coisa que os .» — Um vodka com pimenta num balão — pediu. Isto não me faz nada. «vou beber um copo. são demasiados familiares. Devia estar magoado. claras e leves como fumo. arranhavam se lá dentro.. «Que fossem passear com aquela mania de catalogar os indivíduos. — Não — disse secamente Daniel. Espalhava se em poeira ácida sobre a língua e acabava num gosto de aço. pôs vinte francos na mesa e pegou no cesto. não o suportaria. «Ah!. e a cegueira recomeçava. Assim é que imaginava o Inferno: um olhar penetrante que atravessaria tudo. a cem passos. angustiado. «É sinistro ver com clareza». se abrisse. Ao levantá lo. o terror transformar se ia em gatos. viu no chão uma manchazinha vermelha. Desceu do banco. «Que violenta dor de cabeça!» Pousou o cesto.. Nunca mais porei os pés neste buraco. na frente. pensou. pensou.» Mas eram pensamentos superficiais.» —. o bar estava vazio. Pensava: «Isto nunca mais acaba. O barman assustou se. — Vai com certeza querer um uísque bem doseado — afirmou o barman. não sabia se lhe causava prazer ou mal estar. Aliás. O empregado limpava as mesas de madeira avermelhada em forma de tonel. o gin fizz sabe a limonada purgativa. O cesto mexeu se sozinho no seu braço. depois sentou se num banco do bar. «Que é que nunca mais acaba?» Ouviu se um miado e um ruído de garras a raspar. O silêncio repousante. Este dá boas gorjetas. — São gatos — disse Daniel. No fim da rua havia um muro azul. «Tanto melhor. nunca se é nada. Aliás. Bebeu o vodka e ficou um momento a sonhar. Sangue. e de repente apercebeu se de que via casas. com um fogo de artifício na boca. sem fazer objecções. cheques sem cobertura. E se eu levantasse a tampa?» Mas Daniel já tinha saído. Aquele terror que sentia tão próximo da mão. Mas definem as pessoas num instante. pensou Daniel. eu gosto de uísques bem doseados. Agora só havia na prisão um pavor maciço e indefinido. como guarda chuvas ou máquinas de costura.. «Que estarão fazendo aqui dentro?».

querida — disse Daniel em voz baixa e rapidamente —. os gatos. Daniel já não teria aquele cheiro familiar. Mais cheques sem cobertura. Mas a montra de uma tinturaria reflectiu lhe a imagem. Daniel fez sinal e subiu para a primeira classe. digna e rígida. nada mais do que um invisível arrancar de si próprio para o futuro. a suar. a doença tornou os maus. Daniel. Tonéis. — Posso vê los? — Jeannine — disse a mãe —. x — Comigo não serão maus. — Não posso mostrá los. . A menina falou com uma voz convincente e encantadora. ele próprio. estás a abusar.» Encolheu os ombros. pensou: «E um acto gratuito. — Tchiu — disse a mãe —. sem passado.» Daniel pensou: «Para eles sou um cheiro. deixa o senhor sossegado. A — Achas que sim? Escuta. docemente. A menina olhou para o cesto com curiosidade: «Mosquinha imunda». eu vou afogar estes gatos.. e Daniel estremeceu como se tivesse sido surpreendido em flagrante delito de assassínio.» Parou.sossega: o meu cheiro. prisões de vime: prisões. uma menina. Paciência. pôs o cesto no chão. A água do Sena. com uma vozinha clara. — São gatos — disse Daniel. Via se chegar e era apenas um simples olhar. encheu se de uma água lodosa e insossa. E nunca. Daniel reparou que estava a alguns passos à frente do seu corpo. — São.. — Seis bilhetes — disse o cobrador. Sem cheiro e sem sombra. Pensou novamente em Constantinopla: fechavam as mulheres J E A N P AUL SARTRE infiéis dentro de sacos com gatos hidrófobos e atiravam nos ao Bósforo. Não queria armar em trágico. O cesto miou.» A água cor de café com leite com reflexos roxos. sacos de couro. nunca Daniel levava as coisas a sério. perto do lampião e que se olhava e se via chegar. E sabes porquê? . estava farto. — Porque é que os carrega num cesto? — Porque estão doentes — disse Daniel. pensou Daniel. deambularia sem cheiro.» Dentro em breve. Ao lado. vai encher o cesto e eles vão ferir se com as garras. «A água do Sena vai enlouquecê los. Foi invadido por um imenso nojo. coxeando ligeiramente por causa do peso que levava. Uma mulher sentou se diante dele. — Que é? — perguntou a menina. Nunca se pode ser directamente atingido. Chatear se através do mal feito aos outros. e a ilusão dissipou se. «Há piores. O autocarro surgiu de repente. insossa e lodosa. Quando se arma em trágico. sozinho entre os homens que não têm sentidos suficientemente apurados para essa percepção. é porque se leva tudo a sério. — São seus? — indagou a menina. — Até ao fim da linha.

nenhum movimento. — Vem. O autocarro partiu e mais adiante parou. com um ar indefinido.» Ninguém detestava o rosto de Daniel. pensou. — Estás a ver — disse a senhora. Tinha os olhos fixos em frente. Daniel apressou o passo e voltou numa rua suja que conduzia ao Sena. e uma expressão animada veio pousar lhe no rosto. ganhara dez mil francos na Bolsa. o senhor estava a brincar. Algumas pessoas passaram a rir diante de Daniel. nem mesmo uma ligeira ondulação. Daniel mudava de mão e limpava o suor da testa. a menina voltou se e deitou um olhar de terror para o cesto. como és irritante e demorada! Pegou na mão da filha e arrastou a. «Nem a minha roupa. Somente a massa espessa do sono. «Ela odeia me». «Uma mãe indignada! Está à procura do que poderá odiar em mim. Talvez as mãos. Seria cómodo de mais!» Daniel reviu os olhos dourados de «Popeia» e pensou muito depressa noutras coisas. «É preciso não pensar nos gatos. — É aqui. Daniel sobressaltou se. que não falasses à toa. é aqui — disse. Via desfilarem pêlos vidros as casas cinzentas. com pêlos negros sobre as falanges. Carregava um balde furado de que a água se escapava gota a gota. nem ódio. espantada. devia vê la . dois dias antes. è preciso que penses. De ambos os lados havia tonéis e entrepostos. Pô las sobre os joelhos: «Olhe! olhe!» Mas a mulher desistira. quando descansavam? Aquela deixara se cair com todo o seu peso dentro de si mesma e fundia se. Olhou momentaneamente. deitando um olhar indignado sobre Daniel. — Oh! — disse a menina. Levantou se e desceu. para o cesto e foi esconder se nas saias da mãe.Porque ainda hoje de manhã eles arranharam horrivelmente o rosto de uma linda menina como tu. — Estás a ver! Bem te disse que estivesses sossegada.» As mãos eram curtas e fortes. Era uma praça movimentada e cheia de bares. Ah!. Como faziam essas pessoas assim. Antes de descer. sabia que a mulher o estava a olhar. nem curiosidade. Acordou de repente. Descansava. Não é o meu rosto. O carro estava vazio. pensou em Marcelle. Nada havia naquela cabeça que se assemelhasse a uma fuga desesperada diante de si. que é nova e macia. Daniel contemplou a com uma espécie de avidez. Não é nada. Daniel olhou a tranquilamente. que me veio trazer flores. Formara se um grupo de operários em volta de uma carrocinha. Vai ser preciso arranjar um olho de vidro para ela. ligeiramente gordas. não queres pensar nos gatos? Pois bem. — Término — gritou o cobrador. O balde era pesado. Cada miado era uma gota. O cesto desatara a miar ininterruptamente e Daniel quase corria. querida. as mulheres olharam no surpreendidas. cheia de terror. satisfeito.

duro e seco. disse. Os remoinhos propagar se iam por baixo da água até à isca. Se Mathieu visse as coisas como são. deu com ele a gemer. teria de tomar uma resolução. Operários saíram de um entreposto. Barcaças negras carregadas de tonéis estavam atracadas ao cais na outra margem. Manchou o casaco de tweed e ficou a olhar a mancha escura. Daniel pensou que estava com calor.» Era preciso prolongar aquele momento extraordinário. «Ele é normal. Que estranha engrenagem! Daniel calculou que teria de pegar no cesto com a mão direita e na pedra com a esquerda.. Pensou com orgulho em Mathieu: «Eu é que sou livre». pensou com ironia. O Sena estava amarelo sob o céu azul.».. Olhou para a água ondulosa e inchada de fluorescências opalinas. Colocou o cesto no chão e deu lhe um violento pontapé. enrolou o resto na pedra. Daniel desdobrava se. Às onze horas e vinte e nove levantou se. pegou com a mão esquerda numa pedra. amarrou uma das pontas do fio à asa do cesto. Mas era um orgulho impessoal. e com o canivete cortou um pedaço de fio. Sentia se perdido numa nuvem vermelha. Daniel ficou um momento imóvel com um estranho estremecimento atrás das orelhas. um pescador recortado a preto na luz. Dentro dele qualquer coisa palpitava que pedia clemência. Eles não têm coragem de confessar que não se amam. Ia aproximar se da água e dizer: «Adeus ao que mais amo no mundo.» Ergueu se levemente sobre as mãos e olhou em volta: à direita a margem estava deserta. Daniel estava sentado ao sol e doíam lhe as têmporas. Largaria tudo ao mesmo tempo. Não quer perder se. amaldiçoou o pesado casaco. sentou se no chão junto a uma argola de ferro. Riu e tirou o lenço para enxugar o suor da testa. Os ponteiros do seu relógio marcavam onze e vinte e cinco. e Daniel sentiu que perdia a cabeça. Quando não se tem coragem de se matar de uma só vez. entre um barril de alcatrão e um monte de paralelepípedos. J E A N P A U L SARTRE «Às onze e trinta. De repente sentiu que estava sozinho. à esquerda. mas não quis tirá lo. sob um céu de chumbo. Sem se levantar. deu vários nós e tornou a pôr a pedra no chão. Desceu por uma escada de pedra até à beira do rio. era o seu dia. tem de se fazer aos bocados. Mas não quer. Os gatos miaram como se tivessem sido escaldados.. Vai pensar que é um peixe. e Daniel recomeçou a andar. Que era apenas .. Era ali. «Arcanjo!» Daniel riu de troça: desprezava profundamente Marcelle. pois Daniel já não era ninguém. e Daniel.. lá longe.nessa noite.. sentia se fraco e teve de se apoiar ao barril. O cesto flutuaria talvez durante uns décimos de segundo e a seguir uma força brutal arrastá lo ia para o fundo. Depois tirou do bolso o novelo. Ouviu se um grande barulho lá dentro e a seguir os gatos deixaram de se ouvir.

— Rua Montmar tre.» — De volta. — Há justamente alguém que acaba de subir. pensou. «Sou eu. Sereno? — disse a porteira. tinha demasiada vergonha para falar diante de si. «E Mathieu». Espantava se por sentir em si um certo entusiasmo. pensou. Sou eu. Dentro dele continuava o deserto. Era como se passasse. baixou se e cortou o fio. O imundo. 22 — disse Daniel. — Já não esperava ver te. Reconciliaste te com a tua irmã? . — Não compreendi nada das histórias da porteira. — Sobes comigo? — Sim. Encontrou Mathieu no patamar do terceiro. «Parece estar em dificuldade». constatou sem alegria que estava cheia de dinheiro. foi o que ele me respondeu. Tocou lhe de leve no ombro e retirou imediatamente a mão. Depois a vergonha voltou mais forte e começou a ver se: era intolerável. perto de alguém que o desprezasse. aquele de ombros largos. Daniel pôs a chave na fechadura e empurrou a porta. Pegou no canivete. Um tipo que gostava dos seus gatos e que não os queria deitar à água. talvez seja condenável. minha senhora — disse Daniel —. mas não pude separar me deles. Quando chegou ao último degrau atreveu se a dizer a si próprio as primeiras palavras: «Que seria aquela gota de sangue?» Mas não ousou abrir o cesto. quero pedir te um pequeno favor. Disse lhe que o senhor não estava. Daniel deu lhe uma olhadela e reparou que estava com uma cara terrosa. O táxi parou. Quando tirou a carteira para pagar.um solitário. Tinha vontade de o ajudar. Disse me que foste levar os gatos à casa da tua irmã.» Sentia se contente por odiar outra pessoa. Mathieu entrou no quarto de Daniel e sentou se numa poltrona. «Nem de uma vez só nem aos poucos». pensou amargamente. — Entra — disse. «Não está». sim. «pois então vou deixar lhe um bilhete debaixo da porta. Isto posso eu fazer. — Olá! — disse Mathieu.» Ela olhou o cesto e exclamou: — Mas o senhor trouxe os de volta! — Que quer. Um covarde. — Táxi — gritou. Não chegava sequer a desprezar se. — Quer ter a bondade de pôr este cesto aí à frente? Deixou se embalar pelo movimento do táxi. coxeando. «Ganhar dinheiro. Um amigo seu. Em silêncio: mesmo dentro dele havia silêncio. Pegou no cesto e voltou a subir a escada. — Fui levar os meus gatos a passear — disse Daniel. o silêncio. voltando a cara. «Vem a boa hora o desgraçado. subindo a escada. Pôs se a caminhar.» Mas no fundo dele havia um estranho sorriso: porque tinha salvado «Popeia». Subiram. Sr.

atentamente. Pronto. Desculpa.» — «Malvina» foi ferida — explicou.» Sentia se separado dele por um abismo. sê boazinha. conservava a sua dignidade. Riu. Daniel pôs lhe o dedo debaixo do queixo e levantou lhe a cabeça. infecta facilmente. «Mal vina» não se mexia. «Popeia» fugiu do cesto assanhada e correu para a cozinha. — Foi certamente «Popeia». vamos. Um bom aborrecimento não lhe faria mal. — Dás licença? Daniel só tinha um desejo. «porque me preocupo com uma gata. Efectivamente olhou para o cesto com certa curiosidade e calou se. . Não te estou a aborrecer muito? — acrescentou com um sorriso amável. Jazia no fundo do cesto. Abrir o cesto o mais depressa possível: «Que seria aquela gota de sangue?» Ajoelhou se. pensando: «Vão saltar me em cima. A gata debatia se fracamente. à casa da minha irmã. Recebera uma unhada nas narinas e tinha o olho esquerdo fechado. durante algum tempo. Perderia. — Desculpa. pensou Daniel. com um olhar duro. quando levantou a cabeça. só um minuto. porém já não sangrava. «Está ferida». «Que diria se soubesse de onde venho?» Fixou sem simpatia os olhos sérios e penetrantes do amigo: «É normal. Pensava em abrir o fecho. para o curativo. Se fosse um miúdo. Mathieu tinha o hábito irritante de tratar Daniel como um mitó mano e pretendia não indagar os motivos que induziam Daniel a mentir. o seu optimismo. pensou Daniel. ele é normal. Pensava que assim afastava terrivelmente Mathieu e que isso lhe dava alento. Mathieu acompanhou o com o olhar. depois passou a mão pela testa com um ar de velho. uma inocente mentira — disse. Foi buscar uma garrafa de arnica e um pacote de algodão ao armário.Qualquer coisa arrefeceu subitamente em Daniel. «Acha me ridículo». J E A N P A U L SARTRE — Ah! sim. Mas. mas não parecia muito confiante. o seu ar de equilíbrio. — Que foi? — perguntou Mathieu. olhou em volta com uma expressão matreira e escondeu se debaixo da cama. aniquilada. Tinha se levantado e olhava para a gata. meu caro — disse Daniel com a sua melhor voz —. Daniel pôs se a lavar o focinho de «Malvina». «Cipião» saiu por sua vez. É insuportável. é só um momento. sem dizer palavra. acharia natural. Sobre o focinho havia uma crosta escura e em torno da crosta os pêlos estavam duros e viscosos. Sabia que Mathieu não insistiria. Dirigiu se com passos medidos até ao armário. bem sabes. — Sê bonita — dizia Daniel —.» E avançou o rosto de maneira a ficar inteiramente ao alcance dos gatos. viu que Mathieu olhava sem ver. Tinha de tratar daquele animal.

pensou. parecia em êxtase. sabes. mas logo desatou a rir. Daniel encarou o e observou sóbrio: — Compreendo.. Depois apressou se em voltar lhe as costas.» Riu. Pôs se a pensar na morte da mãe. sabes? — «Popeia»? É uma peste — disse Mathieu distraído. . Não me conhece nada. Mathieu continuava a falar gravemente: — O pior é que isso a humilha. — Porquê evidentemente? Terás de lho dizer um dia. evidentemente.Mathieu estremeceu. mas teve de lutar contra uma grande vontade de rir. não me faças esses olhos de veludo! «Olhos de veludo!» A superioridade de Mathieu era odiosa. — E para ti não é nada agradável. — Não. não quero deixá la. Tinha medo de rir. E a coisa restringiu se a dois ou três soluços convulsivos. amanhã estarás boa. e enxugou cuidadosamente a cabeça de «Malvina». Tinha agora pressa em ver Marcelle. Perguntou: — Já lho disseste? — Não. E bruscamente: — Marcelle está grávida. A gata cerrava os olhos. Deu lhe uma palmadinha no dorso. Não a viste muitas vezes. — Sim — disse Daniel com solicitude. mas Daniel sabia que ela sofria. mas é uma espécie de valquíria. ela deve inspirar te horror agora. Vais. — Ora. Então era isso! É verdade: «Urina sangue todos os meses lunares e é fértil como uma raia ainda por cima!» Pensou com repugnância que ia vê la naquela noite. Podes dizer o que quiseres.» — Estou muito chateado — disse Mathieu com uma expressão objectiva. «Não sei se terei coragem de lhe tocar na mão. isso mataria o amor. com cordialidade. Uma valquíria fechada num quarto — acrescentou sem maldade. — Para ela é uma diminuição terrível.. dos meus olhos de veludo. — Pronto — disse levantando se —. Mas a outra deu lhe uma bela unhada. dava sempre resultado nessas ocasiões. — Não? Daniel estava profundamente surpreendido e divertido. com o pretexto de guardar a garrafa de arnica no armário. «Pensa que me conhece. mas diverte se em pôr uma etiqueta como se eu fosse uma coisa. \ — Então? ^ A Daniel divertia se muito. Em mim. — Eu já não lhe tenho amor — disse Mathieu. ora. «Há desporto esta noite». Fala das minhas mentiras. — Grávida?! J E A N P AUL SARTRE A surpresa de Daniel foi curta.

Bastava lhe abrir a carteira recheada. Não pusera muita convicção na voz. Aliás. — Não quero que ela se aborreça. Mas quando viu que Mathieu não o acreditava. Porque é que havia de ajudá lo? Que vá procurar os que são como ele. Mathieu fizera lhe muitas vezes favores antigamente. Empresta me cinco mil francos.» Depois pensou nos gatos e sentiu se sem piedade. — Preferes sacrificar te — disse Daniel com indiferença. — E vais continuar a vê la às escondidas e a. quando receber os meus vencimentos de Agosto e Setembro. então não podes . — Tenho uma direcção. J E A N P AUL SARTRE — Eu dar te ei metade no fim do mês — disse Mathieu. meu caro. Houve um silêncio. Só que é mais ou menos como uma amizade familiar. — Cinco mil francos — disse Daniel indeciso. — Disseste me há dias que ias fazer um bom negócio.— Então nada. — Cinco mil francos! — disse com voz desolada —.. mesmo na aflição. É exactamente o que faço! Acrescentou com uma amargura a que Daniel não estava habituado: — Sou um escritor de domingo.. isso chateia me muitíssimo. acabarás por detestá la. verei Marcelle. mas não tenho dinheiro. escreverei um conto de dois em dois anos. tirar de dentro as cinco notas.. é simples. estou cheio de dívidas. Pior para mim. odiava o. Bem sabes o que é a Bolsa. — Mas é preciso que tu me ajudes — disse Mathieu. em frente Mathieu. — E a outra metade a 14 de Julho.. eu quero lhe bem e ficaria aborrecido se não a voltasse a ver. acredita. — Pois. mas não os tenho. imagina que lê em mim.. Daniel sentou se na poltrona. Daniel olhou o rosto terroso de Mathieu e pensou: «Este tipo está realmente aborrecido. — Que é que eu sacrifico? Irei ao liceu. Quando Mathieu armava em quaker. Mathieu parecia obstinado. inflexível. — A culpa é tua? — É.. Aliás. o bom negócio foi um malogro. — Bem — disse Mathieu aparentando bom humor —. porque não desejava convencer. — Que tem isso? — Pois se continuares muito tempo com esse jogo.» O que lhe parecia insuportável era aquele ar normal e sério que Mathieu nunca perdia. ficou colérico: «Que vá à merda! Acha se profundo. Não é culpa dela que eu já não a ame.

— Exactamente neste caso é que não lhe posso pedir.» — Realmente.realmente? Daniel pensou: «É preciso que tenha muita necessidade para insistir assim. A maior parte das vezes. — É verdade — afirmou Daniel. «deverias ser independente. Sinto muito. Daniel inclinou se sobre «Malvina» e coçou lhe o crânio. mas num caso destes ele vai certamente emprestar te — disse Daniel. Daniel sentiu repentinamente um pequeno choque mole. Perturbava se com a perturbação de Mathieu. «Malvina» saltara lhe para os joelhos e instalava se a ronronar. Deitou fora a ponta da língua e pôs se a lamber devagar o lábio superior. ainda há as associações. — E verdade — disse Daniel um pouco decepcionado. Era como se tivesse virado uma unha. se tens o dinheiro? Mathieu pareceu interessado. aqueles que emprestam aos funcionários. A mão tremia lhe. Mathieu calou se. Daniel gostava das situações falsas. Mas que importam afinal os juros.» — Oh!. Pôs se a acariciá la negligentemente. Meditava. disse me. superficial. A Mathieu mostrou se desanimado. — Demora cerca de quinze dias. Soubera encontrar logo o tom optimista. Mathieu absorvera se em pequenos cálculos miseráveis. — Não poderás dirigir te a um outro? — Gostaria de evitar falar com Jacques. aborrecido. Mathieu tinha corado. Daniel . Tu queres ser livre. quase alegre que enfurece os outros. e Daniel pensou. — Tens o teu irmão. porque me fazia um mau serviço. Meteu na cabeça que não me devia emprestar mais nada. É preciso um inquérito. com solicitude. Reflectiu um instante: — De qualquer maneira. conciliador. «Não me tem rancor». Por causa da sua inércia bonacheirona ou talvez do seu rosto. estou quase contente de não ter dinheiro. pensou com nojo. — Tens uma necessidade urgente? — indagou. é uma oportunidade para um acto de liberdade. Portanto não há perigo. mas isso não lhe era desagradável. meu caro. — Que espécie de gente é essa? Empresta logo o dinheiro? — Não — disse Daniel com vivacidade. dá se com usurários. «Na tua idade». — Um acto de liberdade? — Mathieu parecia não entender. que o tinha acalmado. Também não tinha rancor. — Nisso estás enganado. sem olhar Mathieu —. J E A N P AUL SARTRE — No fundo — disse. Os animais e os homens não chegavam a odiá lo.

«Ele prefere rir». aborrecido. casado. Eu acho que não detestaria. — Que outro? — disse Mathieu. — Dão me vertigens. A — Têm também uma espécie de alegria — disse Daniel. Nem sequer um momento ele deixou de ser ponderado. — Mas eu prefiro pedir os cinco mil francos ao meu irmão.. Mathieu pôs se a rir. e acrescentou: — No fundo. Parecem calmos. pensou Daniel. o contrário do que se quer.» Mas teve medo de se desprezar. — Sobretudo neste momento. Diria: «Aqui está.. deve ser muito divertido fazer. Bastava a Daniel pôr a mão no bolso. casar com Marcelle. — Tipos assim encontram se todos os dias. Estaria Daniel a troçar dele? Daniel sustentou o olhar com um ar de gravidade modesta. se achar um meio. bem tratado. Mathieu encarou o. gordo. membros das associações dos pais dos alunos. quis chatear te um bocado. com o mesmo tom fútil —. cornudos. Dentro está à . Os pais dos alunos. Um sujeito casado. propositadamente. «Está aborrecido. para me rir. Fechou a porta. Quatro filhos. — Não te incomodes — disse Mathieu —. serias como eles. — Bem. não deve ser desagradável um tipo sentir se conformado. franzindo as sobrancelhas.levantou a cabeça. eu cá me arranjarei. — Sim. enterrado. realmente? Vejo te muito bem. Acompanhara Mathieu até à porta de entrada. mas até à medula. — Pareces bem tu — disse Mathieu. — Estás doido? — perguntou Mathieu. sem se comover. — Porquê? Uma simples palavra e mudas toda a tua vida. pensou Daniel. «Nem por isso». E a ti. mas que é preciso fazer para que me odeiem?» A carteira estava ali. — Não me tentarás — disse Mathieu.. com um trocadilho sempre à disposição e olhos de celulóide. que me vêm procurar. «Ele sabe que tenho dinheiro e não me odeia. Isso não acontece todos os dias. Benignos até. — Queres que eu arranje três filhos pelo prazer de me sentir outro quando os levar ao Luxemburgo? Se eu fosse um tipo acabado. Sentimo nos outro.. — Lamento — disse hesitante —. com três filhos! Como isso deve acalmar! — Com efeito — disse Mathieu. meu caro. mas isso fica lhe por fora. Quando Daniel ouviu o passo de Mathieu na escada pensou: «É irreparável. isso não te tenta.» E sentiu a respiração entrecortada. Levantou se. Daniel pôs «Malvina» no chão e levantou se também. escrevo te. Mas passou lhe. é possível que isso me mudasse muito. de perfeito acordo consigo mesmo. precisamente — continuou Daniel.

Empurrou a porta. . tranquilizá la.» Mas resolveu passar primeiro pela casa de Jacques. preciso de pedir lhe um favor. «Preciso de lhe telefonar. Estava. Era preciso confortá la. e o rosto de Odette guardava o seu decepcionante mistério burguês. Jacques dizia de bom grado: «Odette é uma das poucas mulheres de Paris que tem tempo para ler.» Foi olhar o seu belo rosto no espelho e pensou: «Ainda valia uns mil se ele fosse obrigado a casar com Marcelle. Mas sim a Jacques. alta e limpa até à insignificância.» — O Sr.» vm E stava acordada há muito tempo. Atravessou a rua e pensou em Daniel. Tabelião! Entrou.. Ninguém tinha rancor a Daniel. — Jacques não vai fugir. tabelião. brutalmente. Arranjou lhe um lugar ao lado dela. — É para mim a visita que veio fazer? — Para si? Ele contemplava com uma simpatia descontente aquela fronte alta e calma e aqueles olhos verdes. Mathieu quer falar com a senhora? — perguntou Rosa. cujo sentido se impunha logo. — Bom dia. Não lhe tinha rancor. Lia. Odette ergueu o belo rosto ingrato e pintado. — Gostaria de lhe fazer uma visita — disse —. com a cabeça de lado e os olhos semicerrados: «Como? Mais dinheiro ainda!» Mathieu sentia arrepios. — Sim. «Espero que Odette não esteja». dizer lhe que não iria lá em nenhuma das hipóteses.. Mathieu tentara imensas vezes reter em conjunto aqueles traços escorregadios. contente. Era bela sem dúvida. irritado. como lhe acontecia sempre: Jacques Delarue. pensou.vontade. Estava sentada num sofá. Thieu — disse. Devia estar preocupada. Mathieu viu a através da porta envidraçada da sala de estar. e ela pareceu lhe repentinamente de uma fragilidade pungente. Sente se. Habituado a rostos como o de Lola. elegante. mas escapavam se. mas previna meu irmão de que irei vê lo ao escritório dentro de alguns minutos. o conjunto desfazia se a todo o momento. mas tenho de ver Jacques. Mathieu lembrou se com ternura do pobre rosto atormentado da véspera. segundo andar.» Pensava com irritação na atitude que Jacques ia tomar. Parou diante de um edifício atarracado da Rua Réaumur e leu. quero dizer lhe bom dia. talvez possa ter uma boa notícia para lhe dar. Uma expressão divertida e sabida. subiu no elevador. «Assim. para além da censura e da indulgência. mas de uma beleza que parecia desaparecer com o olhar. — Não tenha tanta pressa — disse Odette.

Houve um silêncio e em seguida Mathieu voltou à voz quente e ligeiramente nasal que conservava para Odette. Houve um silêncio. Quase não o vejo. — Oh!. sem transição. com o carro. Todas as vezes que me vê. Tinha qualquer coisa de vago. — Não. Sentia se agora bem disposto. não deve ter a consciência tranquila. — Como é delicado — disse ela. — Acha vulgar? — indagou Mathieu.— Cuidado — acrescentou sorrindo. — Brincos? Odette olhou o de um modo singular. pensou. Essa mulher discreta e pudica cheirava a posse. Prometeu ma. — Meu Deus. pensava: «Realmente não é nada parva. quase um vestido de rapariguinha. Como sempre. Contemplava com mal estar o braço moreno e fino que saía de um vestido muito simples. fala me dos meus vestidos. para ver Françoise. a secretária de mogno. o sofá. — Um destes dias vou zangar me. — E Jacques? — Muito trabalho. Mathieu sentou se. — Pois é justamente a propósito desse vestido que quero falar. Mathieu riu. O braço. Mathieu sentiu bruscamente um profundo desprazer. ultimamente. Isso encantou me. Odette? Pôs certo calor na voz para dissimular a vulgai idade da pergunta. — Porquê? Não creio — disse Mathieu vagamente. / A — Você é que prometeu receber me um destes dias. escute — disse Odette com um riso indignado —. Porém. Mathieu já não sabia o que dizer. Deixe isso e diga me antes o que fez esta semana. Sabe onde estive esta manhã? Em Saint Germain. como os móveis. Gostava de Odette. a sua saúde é extraordinária. que é que será? — Estou a pensar se não deveria usar brincos quando o veste. — Como vai. tudo pertencia a Jacques.» Mas a inteligência de Odette era corno a sua beleza. mas nunca sabia o que lhe devia dizer. «Ela pertence a Jacques». Gozava urna espécie de . numa risada: — Você estaria por certo muito mais à vontade comigo se eu usasse brincos. apertado na cintura por um cordão vermelho. o corpo por baixo do vestido. Estava surpreendido. Esquece se de mim. Tenho direito a uma visita pessoal. a sorrir —. o vestido. — Muito bem. — E acrescentou. Mas tornam o rosto indiscreto. No entanto não tinha vontade de sair. — Tem um vestido muito bonito — disse. deixe o vestido sossegado.

batendo à porta de Jacques. Vá ver Jacques. Pensou que ia pedir dinheiro a Jacques e sentiu um formigar na ponta dos dedos. meu velho — disse com entusiasmo. mas os olhos eram duros. — Há alguma novidade? — indagou Jacques. Vestia um magnífico fato desportivo de casimira inglesa. Mathieu. — Como vais tu? Parecia muito mais jovem do que Mathieu. «Até que ponto será uma vítima?». Olhava sem doçura aquele rosto rosado e fresco de rapaz. Pegou na garrafa e encheu dois copos. — Senta te. por que motivo o suspeitaria? Queres insinuar que é esse o único fim das tuas visitas? Sentou se. Levantou se. Odette — disse afectuosamente. Pensava: «Bebo o uísque e vou me embora sem dizer nada. Um uísque? — Vá lá — disse Mathieu. sempre muito correcto. cruzou as pernas com certa moleza como para compensar a rigidez do busto. — Então.» — Entra — disse Jacques. — Não quero insinuar coisa alguma — disse Mathieu. Sentou se com um nó na garganta. — Não. Voltarei para me despedir. Sentia se em falta. Jacques sabia muito bem o que ele queria e pensaria: «Não teve coragem de dar a facada. O irmão arqueava as sobrancelhas com um ar de profunda surpresa. não se levante. atento e muito empertigado. indagava. «Não me perdoará nada». «Faz de inocente». — É a última garrafa — disse —. Jacques sorria inocentemente. não achas? Mathieu não respondeu.calma. Digam o que quiserem.» Mas já era tarde. que bons ventos te trazem? Mathieu fez um gesto de aborrecimento. Parece preocupado. nunca se sabe. — Não. — Até logo. / A — Bom dia. Há vinte anos que se sentia em falta quando via o irmão ou pensava nele. Mathieu levantou se. No entanto devia usar cinta. com um sorriso afável.» Disse rispidamente: — Não te iludes por certo. toda a sua pessoa transparecia inocência. J E A N P AUL SARTRE Agora já não podia recuar. mas não comprarei outra antes do Outono. — Bom dia — disse Mathieu. Mathieu achava que ele estava a engordar na cintura. Odette disse lhe gentilmente: — Não devo retê lo mais. Pestanejou . não imaginava isso. pensou Mathieu irritado. um bom gin fizz é bem melhor com calor. pensou Mathieu com raiva. sabes que vim pedir te dinheiro. «Com este género de mulheres. «Sabe muito bem porque vim e está a fazer se desentendido.» Jacques permanecia de pé. e avançou para Mathieu. embora fosse mais velho.

— Sabes — afirmou Mathieu para dizer alguma coisa —. quando penso em ti. — Uma necessidade súbita? Porque enfim na semana passada quando vieste aqui. A Mas parece me que com as tuas ideias eu faria questão de não dever nada a um horroroso burguês. Isso é muito bom. — Um mínimo! — disse Jacques. mas afinal eu reflicto. Tomou um ar de sincero interesse: — No fundo. rindo igualmente. Para mini a culpa é dos teus princípios. Mathieu perdia imediatamente o sangue frio.» Felizmente Jacques retomara a palavra. — Com efeito — disse Jacques secamente. diria eu.» Mas olhou o rosto cheio do irmão. isso não te aborrece um pouco? — Que posso fazer? — disse Mathieu. — Não quero criticar. para mini. Estendeu as pernas e olhou os sapatos com satisfação. Estás acima das classes. não ter princípios é ainda um princípio. «Vai dizer não. vê bem. aproveitas te do parentesco para me cravar. Thieu. vejo tudo de cima. a sua fisionomia aberta mas obstinada e pensou inquieto: «Parece difícil.e acrescentou apertando com força o corpo: — Mas preciso de quatro mil francos de hoje para amanhã.. Oh!. «Agora». que cospes na família. Não ia travar uma discussão de ideias. Mas eu pergunto: que aconteceria se eu não existisse? Note se que. — Quatro mil — repetiu. Em teoria não há ninguém mais independente. eu não tenho princípios..? É contrário às tuas ideias. porque afinal não virias ter comigo se eu não fosse teu irmão. Sabes. interrogo me.. «ele vai dá las. Não quero dizer que sejas culpado. — Quatro mil — disse.. divertes me e instruis me. não se tratava disso. — Divertes me. Era advogado.. pedir me um pequeno favor. Porque eu sou um horroroso burguês — acrescentou. bem no fundo. Continuou sem deixar de rir: — E há pior: tu. meneando a cabeça como um conhecedor. tinha tempo. Essas discussões acabavam sempre mal com Jacques. não quero censurar a tua conduta. pensou Mathieu. rindo alegremente. Tu estás cheio de princípios. sem dúvida. — Mas não crês que com um pouco de organização. fico mais convencido ainda de que não se deve ser um homem de princípios. é até uma felicidade poder ajudar te de vez em quando. como um «filósofo». . se não estivesse a falar com um filósofo. Sim. não leves a mal o que estou a dizer — atalhou diante de um gesto de Mathieu. mas não te submetes a eles.. Que recuse depressa para que eu possa ir me embora!» Mas Jacques não se apressava.

Ele sabe que os paguei em Maio. — Um médico seguro? Segundo o que me disseste. isto foi ontem.. tinha a paixão dos ninhos de águia. Fechou os olhos um instante. Jacques pareceu interessar se. afinal? Porquê aquela vergonha súbita? Olhou o irmão de frente. e durante esse tempo o seu espírito procurava um ninho de águia de onde pudesse fixar um olhar agudo sobre a conduta dos outros. preciso do dinheiro. Naturalmente não te pergunto nada — acrescentou com uma expressão ligeiramente interrogativa. eu. Como sempre. Porquê. evidentemente. sim. o que acontece é o seguinte: acabas de saber que a tua amiga está grávida. mas nunca teria imaginado. — Tenho amigos que mo garantiram. o primeiro impulso dele era elevar se acima do debate. — Vocês queriam um filho? Fingia não compreender. Mathieu hesitava. Jacques recusava se a encarar honestamente o problema. . abriu os e juntou" as mãos pelas pontas dos dedos... — Em suma — disse —. num tom ríspido. — Não — disse Mathieu. — Foi um acidente. Sentiu que corava e encolheu os ombros. mas afinal podias ter desejado levar até ao fim as tuas experiências à margem da ordem estabelecida. —Já. — Tomámos a decisão de fazê la abortar — disse Mathieu com brutalidade. O que quer que se dissesse ou fizesse. — Sim.— Efectivamente — disse Mathieu —. mas não é nada disso.. «Digo que é para os meus impostos? Não. lembrou se dela sinistra e nua no quarto cor de rosa e acrescentou num tom angustiado que o surpreendeu a si próprio: — Jacques. com olhos agressivos. — Sim — disse Jacques —. Não sabia ver senão de cima. — Também me admirava — disse Jacques —. Habitualmente pedes dinheiro porque não sabes ou não queres organizar a tua vida.. se compreendo exactamente. — Já encontraste um médico? — indagou em tom neutro. Jacques encarou o com curiosidade e Mathieu mordeu os lábios.» — Marcelle está grávida — disse bruscamente. e Jacques perguntou. Os dois irmãos não tinham por hábito exprimir assim com tanta vivacidade os seus sentimentos. J E A N P AUL SARTRE Pensou rapidamente em Marcelle. Jacques não pestanejou. a saúde dessa mulher é delicada... girava obstinada A mente à volta dele. — E quando é o casamento? Mathieu corou de cólera.. muito à vontade. Houve um silêncio. — A esse ponto? É estranho.

— Eu sei — disse Mathieu —. A «Tem medo que me apanhem».Não queres casar por questões de princípios. «não me dará um franco. Estás a fazer confusão. irei ver um médico hábil e que não figura nas listas da Polícia. — Eis que te enfias na pele de um infanticida. Sou da mesma opinião. — disse Jacques. — E porque precisas do dinheiro de hoje para amanhã? — O médico parte para a América dentro de oito dias. Mas Mathieu não se iludiu. Mathieu. Disse com voz mole: — São muito severos neste momento na repressão ao aborto. — E.» Teria de lhe dizer: «Se pagares não correrás nenhum risco. — Bom — disse Jacques. Afundara se na poltrona e os olhos já não lhe brilhavam. Tens de arranjar o dinheiro. Os teus amigos recomendaram te um médico de confiança. — Ah! Pensei. Mas não desaprovo inteiramente os resultados. — Enfim... resolveste fazê la abortar nas melhores condições possíveis. de vez em quando ficam severos. Se recusares terei de mandar Marcelle a um charlatão e já não garanto nada. J E A N P AUL SARTRE Ergueu as mãos à altura dos olhos e encarou as com o ar preciso de quem vai tirar conclusões do que acaba de dizer. Não querendo nem casar nem manchar a sua reputação. pobres diabos são ervanários ou «fazedores de anjos».. — Compreendo. Não é isso? — Exactamente! — disse Mathieu.» Mas tais argumentos eram directos de mais para terem influência sobre . porque a Polícia os conhece a todos e pode de um momento para outro deitar lhes a mão. As rusgas estabelecem uma selecção. mas consideras te ligado a ela por obrigações tão estritas como as do casamento. pensou Mathieu. — Queres dizer com isso que há uma injustiça.... — Venho pedir quatro mil francos. — disse Mathieu. Jacques abaixara as mãos e pousara as nos joelhos. que liquidam uma mulher com os seus instrumentos sujos. mas os grandes especialistas nunca são atingidos. És pacifista por respeito à vida humana. Um advogado não tira conclusões assim tão depressa. já irritado. Aliás eu sou pacifista. e vais destruir uma vida. — Estou decidido. Não te fica bem a fantasia. mas não respeito a vida humana. tu é que deves saber. — atalhou Jacques — tens a certeza de que o aborto está de acordo com os teus princípios? — Porque não? — Não sei. Põem na cadeia uns pobres diabos sem protecção. o qual exige quatro mil francos. Olhava Mathieu com uma serenidade divertida. Pela própria força das circunstâncias. Já é alguma coisa.

que já se levantara. Limpou a voz e perguntou por descargo de consciência: — Então não me ajudas? — Vê lá se me percebes — disse Jacques. pensou Mathieu. Essa criança que vai nascer é o resultado lógico de uma situação em que te meteste voluntariamente e queres suprimi la porque não desejas arcar com as consequências dos teus actos. . Jacques recusava. Eu voltei à burguesia depois de inúmeros erros. Mathieu. Não quero ajudar te a mentir a ti mesmo. como não tenho contra outros crimes perfeitos. de resto. diz antes que não te queres meter num negócio de aborto. mas é a tua vida inteira que se constrói sobre uma mentira.. vamos dizer que recusei. Mathieu disse simplesmente: — Um aborto não é um infanticídio. Mas seria realmente ajudar? Estou persuadido. esclarece me acerca do que escondo a mim próprio. Thieu — disse com calor —. e a sua velha cólera fraternal invadiu o. Levantou se subitamente como se tivesse tomado uma decisão e pousou amistosamente a mão sobre o ombro do irmão.. «eu não devia ter aceitado a discussão. que encontrarás com facilidade o dinheiro. aparece me um. Inclinou a cabeça para trás e viu o rosto diminuído de Jacques.Jacques. seria falso. Mas vou propor te outra coisa. Jacques retirou a mão. Mas que tu cometas um assassínio metafísico. conheço te melhor do que pensas e agora estou assustado. Acrescentou com seriedade: — Meu pobre Mathieu. — Um aborto não é um infanticídio. — Escuta.» — Mathieu — disse Jacques. mas tu és burguês por gosto. — O que escondes — disse Jacques — é que és um burguês envergonhado. — Não recuso ajudar te. que não tens dinheiro. suprimo o.. — Sim — disse com displicência. deu alguns passos. que não aprovas isso. — Mentir a mini mesmo? Ora. Jacques. com clareza —. Acabou.. tornou a sentar se. eis tudo. «Vai fazer me um discurso». Queres que te diga a verdade? Não mentes a ti próprio neste mesmo instante. — Sorria. não tenho objecções contra o assassínio metafísico. reflectiu. — Não faças cerimónia — disse Mathieu —. é um assassínio «metafísico». Jacques pegou num cigarro e acendeu o. fiz um casamento de conveniência. tu. (estalou a língua como numa censura) isso não. Mas para que falar em mentira? Não há mentira nenhuma. Não quero um filho. Aquela suave e decidida pressão sobre o ombro era lhe intolerável. estás no teu direito e não te guardarei rancor. Há muito que receava algo semelhante. assim como tu és. Mathieu ia poder sair.

Quatro vezes por semana vais tranquilamente encontrá la e passas a noite com ela. deves sentar te à noite junto dela e contar longamente os acontecimentos do dia. o orgulho impedia a de confessá lo. o que é muito fácil e cómodo. regrada. tens um apartamento agradável. — Marcelle partilha as minhas ideias acerca do casamento/— disse Mathieu. pensou Mathieu. — Primeira novidade — disse Mathieu. DADE DA RAZÃO — Sim. Tens todas as vantagens do casamento e aproveitas os princípios para recusar os inconvenientes. pedir conselhos nos momentos difíceis. Estou certo de que não procuras unicamente o prazer. Recusas regularizar a situação. podes dizer me em que difere isso do casamento? O facto de não morarem juntos? — A abstenção da coabitação — disse Mathieu. — Evidentemente — disse Mathieu. Sentia um desejo combativo e maldoso de conhecer a opinião do irmão. uma aparência de liberdade.por temperamento. estás casado. — Imagino muito bem que para ti essa abstenção não deve ser um grande sacrifício. mas pretendes o contrário por causa das tuas teorias. — Pois bem. não a queres abandonar. deve ter se embotado. sentes que tens obrigações para com ela. — Oh! — disse Jacques —. porque é que dizes que não deve ser um sacrifício para mim? — Porque com isso ganhas comodidade. Não tens outras aventuras. uma vida de funcionário. Adquiriste hábitos com essa mulher. Ouvia se a pronunciar nitidamente cada palavra e achava se profundamente desagradável. ironicamente. porque o Estado te garante uma reforma. estás casado. — Uma coisa sem importância. e é o teu temperamento que te empurra para o casamento. E gostas dessa vida calma. «Nunca dissera tanto». Porque tu estás casado. Mathieu — disse ele com força. humilhas essa mulher há anos. «é um desafio. arrogante. pois se alguém sofre não és tu. Mas Mathieu sabia que ficaria até ao fim. Se realmente subordinasses a tua vida às tuas ideias! Mas repito te. recebes bons vencimentos em dia certo. E isso dura há sete anos. pelo simples prazer de afirmar que estás de acordo com os teus princípios. encolhendo os ombros. que estás sempre pronto a indignar te com uma injustiça. Na realidade. Sabes o que não compreendo? Tu. .» Devia sair e bater com a porta. se não as tivesse. não tens nenhuma inquietação quanto ao futuro. — Para mim — disse —. por maior que tenha sido. Tu estima la.

. Tens 34 anos. meu caro Mathieu — disse com uma piedade reprimida. no entanto. era a sua garantia. — Mas isso também o escondes. és funcionário dessa sociedade.. Ele escrevera a Mathieu: «É preciso ter a coragem de fazer como toda a gente para não ser como ninguém. pensou Mathieu. já nada tens de rapazinho. a que cheguei antes de ti. embora modesto. no entanto. é certo —. um punhado de desajustados sem perigo para ninguém e que perderam o comboio. (acabou a frase entre os dentes) é conservar a minha liberdade. herdámos ambos os instintos daquele pirata que foi nosso avô. permitia lhe defender o partido da ordem em boa consciência. Proclamas uma simpatia de princípio pêlos comunistas. Aliás. Durante cinco anos imitara afincada mente as loucuras em voga. agora. na idade da razão. tivera algumas aventuras lisonjeiras e chegara mesmo a respirar por vezes. a boémia? Era muito divertido há cem anos. no entanto.. fora surrealista. queres parecer mais novo.. Nunca votaste. olha bem para mini. Odette trazia lhe seiscentos mil francos de dote. Tiveste a sorte de evitar alguns maus passos. Tens ainda de atingir o fundo. — Não censuro a tua juventude — disse. não te faz bem a vida boémia. . Só que eu liquidei os a todos e tu afasta los aos bocadinhos. há um mal entendido entre nós. meu caro. No fundo. pouco me importa ser ou não burguês. mas tens cuidado em não te comprometer. O resultado? Ficaste um velho estudante irresponsável.» Jacques era muito orgulhoso da sua juventude. um lenço embebido em éter. Acho que a princípio não eras muito menos pirata do que eu. talvez seja injusto. o que é isso.» E comprara um cartório. Desprezas a classe burguesa e. — Estás. É o que te perde. — Eu imaginava — disse Jacques — que a liberdade consistia em olhar de frente as situações em que a pessoa se meteu voluntariamente e aceitar as responsabilida des. é uma idade moral. és um burguês. apenas.. a rotina quase. Mas também não lamento a minha. «Pronto».— Escuta — disse Mathieu —. a saúde moral. Mathieu fez um gesto. Não é certamente a tua opinião: condenas a sociedade capitalista e.. Um belo dia acertara o passo. Mas. e as tuas tendências profundas que te empurram para a ordem. O que eu quero. filho e irmão de burgueses e vives como um burguês. — Pelo contrário. Talvez não tenhas ainda a idade da razão. A tua vida não passa de um perpétuo compromisso entre o gosto da revolta e da anarquia. «vai me falar da sua juventude. simplesmente. Aliás. os teus cabelos já estão grisalhos — não tanto como os meus. antes do amor. mas Jacques não deixou que o interrompesse.

— Já reflecti — disse Mathieu. mas se tiver de me casar um dia. será quando sentir vontade de o fazer. Não há pressa. Jacques — disse levantando se. que não o desonraria. Confio na tua escolha. «Mathieu inquieta me. A tua mulher será muito bem recebida aqui. — És realmente muito bom.» Que diria ela? Desempenharia o papel de esposa reflectida ou limitar se ia a aprovar discretamente sem tirar o nariz de cima do livro? «Diabo! ». «Até que enfim! Até que enfim!» Não estava alegre. pensou Mathieu. Ponho dez mil francos à tua disposição se casares com a tua amiga. Mas não é sensato. Aliás. a idade da razão é a idade da resignação. com um sorriso triste e grave: «Este rapaz inquieta me.» Ou talvez tivesse ido ver Odette. «Terá ficado muito aborrecido?». «esqueci me de dizer adeus a Odette. — Adeus — disse Jacques. . De qualquer maneira aquilo fornecia lhe uma saída digna. não era isso. Desceu a escada a correr.» Marcelle rira se dele. se voltares atrás. — Como queiras — observou Jacques. Mathieu.. «Eu quis casar me. pensou. de resto. estava com predisposição para o remorso. sabes. mas não serve. uma vez. de olhar absorto. Por maior que fosse o seu sentimento de culpa. estás ou deverias estar — repetiu dis traidamente. Jacques levantou se igualmente. «Terei um complexo de inferioridade em relação a meu irmão?» Não. «Será verdade. — Agradeço. — E. a minha proposta mantém se de pé! Mathieu sorriu e saiu sem responder. não te será difícil encontrar os quatro mil francos. a minha mulher ignora por completo a tua vida íntima. acredita. Como te disse.. Não posso dizer te porquê. Se recusares. O olhar tornou se lhe límpido e alegre e acrescentou: — Escuta. Não me interessa.» Teve remorsos. cordialmente. — Ora — disse Mathieu —. não tenho remorsos. no entanto está na idade da razão. mas tinha vontade de cantar. — Reflecte. e Odette sentir se á feliz em tratá la como amiga.Estás na idade J E A N P AUL SARTRE da razão. Mas Jacques não o escutava. E acrescentou: — Quando apareces? — Venho almoçar no domingo — disse Mathieu. Agora Jacques devia estar sentado à escrivaninha... — Adeus. seria uma cabeçada estúpida para sair de uma complicação.. Há cinco anos. Mathieu previra o golpe. será que mantenho Marcelle numa posição humilhante?» Lembrou se das violentas observações de Marcelle contra o casamento. não preciso de o dizer. Não quero dizer que estejas inteiramente errado.. agora. vou fazer uma proposta.

Recusa se a emprestar. — E que é que vais fazer agora? — Não sei. Ah!. bem sabes. — Então? — Tenho alguém em vista. não vais! Peço emprestado. Estava quase bêbeda.» Havia um bar na esquina da Rua Montorgueil. Marcelle? Marcelle tinha o telefone no quarto.. a família é como a varíola: tem se em criança e fica marcada para o resto da vida. — Não. — Daniel. — Arranja. faz o que achares melhor. Indicado por Sarah. — Mas não é possível. — E tu estás bem? — Estou.. Terei de ir. Sentia se angustiado ao pegar no telefone. com uma dúvida na voz. — Ah! — disse Marcelle com indiferença. para isto? — perguntou Marcelle. Que diabo.Mathieu nunca deixara de pensar com razão perante Jacques... Hei de arranjar. — Não. «Sim». . — Não te incomodes. quatro mil francos não é um absurdo. — Está. — Juro. — Estou angustiada. tenho a certeza de que estava cheio de «massa». — Sempre te vejo amanhã à noite? — Sim. — A quem? A Jacques? — Venho de lá.. é impossível. — Hum — murmurou Marcelle. — E acrescentou docemente: — Enfim. com vivacidade. — Estou — disse Marcelle com a voz seca. — Quanto? — repetiu Marcelle. — Então? — A velha. A — Eu telefono. sinto vergonha por ele. incrédula. — Não estás lá muito. pensou. — És tu? — Sim. — Sentiu que a voz lhe carecia de firmeza e acrescentou com força. Alguém excelente. pediu uma ficha. — Também se recusa. é coisa que se consegue. — Então arranja — disse Marcelle num tom estranho. o estupor! Vi o esta manhã. A cabina telefónica era num recanto sombrio. E acrescentou: — Quanto? — Quatro mil. «Mas eu gosto deste tipo.. está. — Quatro mil. — Mas não lhe disseste que era. Entrou. é húmido. é um animal. E as mãos. Temos quarenta e oito horas. se visses! E depois. e fede no apartamento dela. Quando não me envergonho diante dele.

dizia. Ao atravessar o café. Nem chegava a meter raiva. Ivich. E Marcelle é incapaz de um abuso de confiança. A França ao abrigo atrás da Linha Maginot. A visita do rei da Inglaterra. escrevera Gomez. triste e aveludado como tapioca. Duas horas. Sentia se nervoso e triste porque ia voltar a vê lo. quando Paris aguarda o seu Príncipe Encantado. Um discurso de Flandin em Bar le Duc. «Quarenta aviões sobrevoam durante uma hora o centro da cidade e deixam cair cento e cinquenta bombas. Stokovski declara que não casará com Greta Garbo. «Estou angustiada.. que parecia denso e bem documentado: «Do nosso enviado especial. Já não lhe apetecia saber mais nada. Todos os franceses. Marcelle.» Ergueu a cabeça vagamente irritado. dinheiro. A hora do dia em que o calor era mais sinistro. era um estúpido. ouvira a muitas vezes rir das amigas casadas quando estavam grávidas: «Vasos sagrados». Mathieu virou a página. — Levo os quatro mil francos amanhã à noite. pelo amor de Deus. Parou à beira do passeio.. ela tê lo ia dito.» Passou os olhos sobre o título e leu o terrível texto. Mathieu leu: «Bombardeio aéreo de Valência. Uma amizade morta. não se tem o direito de mudar de opinião sem mais nem menos. Felizmente não era verdade. Marcelle. não podia ser verdade. Mathieu sobressaltou se e pensou: «Todos os franceses são uns canalhas».» Está magoada comigo. basta! Estava cansado de girar em volta de toda aquela história.» Citavam se cifras. era papel gorduroso. se faz favor. Não havia. «Humilhada».. Mas era mais triste ainda. Mas faço o que posso. Ignora se o número exacto de mortos e feridos. Hesitou e disse com esforço: — Amo te. ouviu a voz seca de Marcelle. Deu o dinheiro e continuou. porque não o havia de ter dito? Nós nos dizemos tudo. de Madrid. O Excelsior não era um jornal agressivo. tirava simplesmente o gosto de viver enquanto era lido. dinheiro. A Rua Réaumur era de cobre sujo. Oh! basta.» Quando se diz isso.. «rebentam de orgulho porque vão dar à luz....querido. e ele próprio se transformava da cabeça aos pés. não deixava de mentir a si próprio. Humilhá la ei? E se. em itálico. — Paris Midi. mas não quero pensar nisso. apertado. Se ela quisesse o filho? Então tudo ia por água abaixo... Pegou num jornal ao acaso: Excelsior. seria um abuso de confiança.. . Deu com um vendedor de jornais. Pensou em Brunet. Novas informações sobre o caso Weidman. Farei o que for preciso. quero pensar noutra coisa. Mathieu saiu da cabina. e o calor torcia se e chiava no meio da rua como uma faísca eléctrica. Marcelle cortou a ligação sem responder. bastava pensar nisso um só instante e tudo tomava outro sentido. Ivich.

que ele lhe desse o próprio corpo. de franceses que não olhavam para o céu. Só que era inerte. possuído por um fantasma de cólera. Eu vi aquilo. sobre os monumentos cinzentos. e erguem a cabeça de quando em quando. já não há sombra na rua. acocoraram se com ares de galinhas mortas junto dos verdadeiros cadáveres. os automóveis deslizavam pela rua. esbateu se. para rebentar. cerrando os punhos e murmurando: «Estupores. a rua alargou se desmedidamente. Já se contavam cinquenta mortos e trezentos feridos. o céu flamejava muito alto acima das cabeças. Alguma coisa se dispunha a nascer.uma vez. andava a passos largos. os Franceses são todos uns estupores. Nem aviões nem defesa antiaérea. ele caminhava no meio de homenzinhos vestidos de claro. uma cólera desesperada. Mathieu sentiu se vaga mente culpado. Pronto! As bombas caíram naquela rua. uma tímida aurora de cólera. em Paris. aquilo é real. que não tinham medo do céu. a cólera ficava de fora. esmagada por enormes monumentos. Pronto! Mas aquilo esvaziou se. vi a Fiesta em 34 e uma grande tourada com Ortega e El Estu diante. qualquer coisa de que pudesse dizer: «Eu vi aquilo. Se ao menos tivesse descoberto em si uma emoção qualquer. não existe já. via a. passeava de manhã. bem viva e modesta. À sua frente havia uma grande cólera. Mas não: sentia se vazio. contemplam o céu venenoso. mudas. para sofrer. o céu em fusão caiu em cima dela e o sol dardeja sobre os escombros. esperava para viver. consciente dos seus limites.. Mathieu estava com calor. pequena que fosse. «Bandidos!» Cerrara os punhos. sufocava numa sombra ardente. havia mais porém. Cinquenta mortos e trezentos feridos. era um calor real. andava normalmente com a decência de um tipo que acompanha um enterro em Paris. algures sob o mesmo sol.. O seu pensamento fazia círculos em cima da cidade. procurando uma igreja. Passou o lenço pela fronte e pensou: «Não se pode sofrer pelo que se . não em Valência. ele sentia se vazio. mulheres estupefactas. entra agora até o fundo das casas. destruíram no. a fachada de uma casa. é real. mas a coisa não vinha. podia tocar lhe. os vidros partiram se. Era a cólera dos outros. que significa isto exactamente? Um hospital cheio? Um grave acidente de comboio? Cinquenta mortos. os automóveis passaram. Pronto!» O pensamento desceu lhe sobre uma rua escura. bandidos!» Mathieu cerrou os punhos e murmurou: «Bandidos!» e sentiu se mais culpado ainda. uma rua. Fechou o jornal e pôs se a ler na primeira página a reportagem do enviado especial. No entanto. havia seguramente cadáveres sob os escombros. Milhares de leitores teriam lido o jornal com ódio na garganta. Os vidros brilhavam. Estive em Valência.

— Viu Ivich? — perguntou Mathieu abrindo a porta. Corpos estendidos sobre o passeio. No meio da rua uma mulher gorda. por nada e no entanto esse outro mundo é intransponível. de carícias nos táxis. — Tem a certeza? — respondeu Mathieu no mesmo tom. mas creio que não estava. — Sim. estou em Paris.. na cidade em ruínas. Cada um no seu mundo. junto de um muro. Ao ver Mathieu. mas o que lhe posso dizer é que não abriu. não estou lá. . Boris disse na sua voz natural: — Então continua de pé o Sumatra. pensava. se der com um jornal e ler «Bombardeamento em Valência». e o judeu a pedir quatro mil francos. Lola talvez prefira estar sozinha consigo. Jacques atrás da secretária dizendo não.. Marcelle no quarto cor de rosa. Deve andar por aí. Não partiu.. tomou um ar afectado. no meio de minhas presenças.. — Entre. Era o seu ar de louco. não encontro resistência. «Viu a». Só que ele. — Acabo de tocar à sua porta — disse —. não terá de fazer esforços para sofrer. de instrumentos cirúrgicos. — Suba comigo — disse. de saias repuxadas até às coxas. — Não sei se irei — disse. Na escada. Partiu. mas é pior. estou numa gaiola sem grades. Gomez. As presenças reais. E o tipo de ontem. como eu. — Pensei. Há outros mundos. Mathieu olhou sem afeição as costas magras.. Sem cabeça. Ivich que eu beijei esta manhã. Destino. «Não posso. Mathieu olhou o hesitante. separado de Espanha por.» Olhou a última página do A Excelsior: fotografia do enviado especial. é evidente — disse Boris —. de costas. hoje à noite? Mathieu virou se e fingiu procurar as chaves no bolso. Boris entrou à frente de Mathieu e dirigiu se com uma familiaridade desenvolta para a secretária.. neste mundo sem Espanha? Por que razão não tive vontade de lutar? Poderia escolher outro mundo? Sou ainda livre? Posso ir aonde quero. Haverá Ivich. E depois de maneira nenhuma ficaríamos sós. «Por que razão estou eu neste mundo de gritaria. — Vamos tirar isso a limpo. Boris espreitava o à porta do prédio. — Não absoluta. o meu é um hospital com Marcelle grávida. Esse estava lá. mas que importa? Ela é educada. Subiram. — Deixei a agora. nojentas por serem tão verdadeiras. sofrerá lá. Eram duas horas e Brunet só chegaria dentro de meia hora.quer.» Lá havia uma coisa formidável e trágica a pedir que se sofresse por ela. Mathieu dobrou o jornal e atirou o para a valeta. Daniel troçando.

— Não — disse sorrindo —. as tuas poltronas corrompem. Procurei te mais de uma vez. velho traidor.. — Boris Serguine. Fazia um cigarro. — Então ela espera que eu vá? — Naturalmente — disse Boris. — Olá! — disse Mathieu. Houve um silêncio. — Disse me que seria divertido encontrarmo nos os quatro. isso não tem importância. contrariado. — Quem é? — indagou Brunet. Mathieu colocara se. — Senta te na poltrona — disse Mathieu. não tem mesmo nenhuma. — Gosto da sua rua — disse Boris —. Livre como você é.. mas ao fim de algum tempo deve chatear. Estão a tocar — acrescentou. Voltara se e olhava para Mathieu com um sorriso zombeteiro e terno. Isso aborrece te? — Não. é preciso vir até aqui ao teu quarto para te encontrar. Queria saber se ela ia. — Pois venho. Acrescentou: — Então. sólido e despreocupado perante o olhar rancoroso de Boris. um mês Rua Mouffetard. Não sei porque mora num apartamento.. — Ah. depois de um longo momento —.. — Detesta que o considerem meu discípulo. — Ivich. A Mathieu foi abrir.. mas não consegui encontrar te. Brunet sentou se na cadeira. — Não é culpa minha. diante de Brunet.. Era Brunet. Boris inclinou se com frieza e recuou até ao fundo do quarto. — Porquê? — Não sei. — Para esta noite? — Sim. Está a perceber? Um mês num quarto em Montmartre. — Bem — disse Brunet com indiferença. admirado. com os braços pendentes.. também há Lola. — Eu tornei me numa espécie de . deveria vender os móveis e viver no hotel. — Ora — disse Mathieu. — É verdade — disse Brunet. — Ela quer ir — afirmou Boris.— Vem ou não vem? — perguntou Boris. absolutamente nada. o famoso discípulo? Não o conheço. — Os quatro? Ela falou nos quatro? — Pois então — disse Boris ingenuamente —.. Mathieu aproximou se e deu lhe uma palmada nas costas. um mês no Faubourg du Temple. — Vens adiantado. — Pois é — disse Boris. Pareceu me preocupada com o exame. Boris inclinara se sobre o parapeito da janela e olhava a rua. irritado —. não lhe disse nada para esta noite? — perguntou Mathieu.

— Os Croix de Feu não são muito dinâmicos. A propósito. — E fora disso. que tens feito? Mathieu sentiu se embaraçado. . — E então ataca lo. — Porquê? — Sempre a mesma coisa. — Catorze horas de curso por semana e uma viagem ao estrangeiro durante as férias. ainda o vejo de vez em quando. não é? — Isso mesmo — confirmou Mathieu rindo. Pensou: «Ele veio. — É verdade — disse Brunet.» Sentiu que a confiança e a alegria tentavam timidamente renascer lhe no coração. Quando Brunet encontrava Portal ou Bourrelier devia dizer com aquele mesmo tom aborrecido: «Mathieu? É professor no Liceu Buffon.caixeiro viajante. Imagina tu! — disse ele. irritado.. com amargura. atónito. Brunet deitou lhe um olhar rápido e penetrante. Dão me tanto trabalho. Creio que envelhecíamos menos depressa se nos pudéssemos encontrar de vez em quando os três juntos. eu. Estava ali. que há dias em que eu próprio tenho dificuldade em me encontrar. — É o que se diz. agradecido. — Nada — disse. com os seus gestos lentos. o quarto enchia se com a sua presença.» — Ainda o vejo. sentado numa cadeira de Mathieu. Mathieu olhava as grandes mãos de camponês do amigo. pesado e maciço. — E teu irmão? Continua Croix de Feu? — Não — disse Mathieu. — Os três? — Então? Tu. Brunet pousara as mãos sobre os joelhos. Mathieu sorriu. Fez se silêncio. não é verdade? A alegria de Mathieu desapareceu. acabo de me aborrecer com ele — acrescentou Mathieu sem reflectir. Evitou olhar para Boris. com o fumo do cigarro. Continuou com simpatia: — E quando te vejo que me encontro melhor. Daniel. Peco lhe um favor e responde me com um sermão. — Pensei muitas vezes que nos devíamos ver mais. inclinava a cabeça obstinadamente para a chama do fósforo. Brunet olhou o com surpresa. sim. Na verdade não fazia nada. — Daniel! Mas ainda existe esse camarada? Ainda o vês de vez em quando. — É caça para Doriot — disse Brunet. É estranho — disse Brunet com ironia. parece me que fiquei depositado em tua casa. — E esperas ainda vir a mudá lo? — Claro que não — respondeu Mathieu..

— Na verdade. com tiques nas pálbebras e no canto dos lábios. magoado. — Fique. ainda bem. Mathieu acompanhou o até à porta e perguntou com entusiasmo: — Até logo à noite. Acrescentou. — Então? — disse esfregando as mãos.. manti nha se no seu canto.. eu sei — acrescentou vivamente. — Não dispões de muito tempo.» Mas não parecia sequer pensar nessa solução. parecia um cão de caça doente. tinha o dia inteiro ocupado. Vamos dar uma volta. — Em que ponto é que está? — Termino agora a minha licenciatura — disse Boris com rapidez. Pôs se então a olhar fixamente o rapaz. . Brunet observou com voz calma: — Eu estava com pressa porque tenho apenas um quarto de hora. Acrescentou bonacheirão: "^ J E A N P AUL SARTRE — Vai ficar a odiar me se eu lhe raptar Mathieu por uns momentos? Você tem a sorte de o ver diariamente e eu. Mathieu fechou a porta e voltou se para Brunet. afectuosamente: — Disse a mini mesmo: não quero que mo deitem abaixo. — Tinha má cara? A — Sim. Já foi muito amável da tua parte teres vindo. não é verdade? Estou lá às onze. «Ele gostaria que Boris se fosse embora». — A licenciatura. meu caro. Brunet perguntou: — Talvez tenha ido longe de mais. jovem? Boris disse que sim com a cabeça. pensou Mathieu. — Ele está acostumado e depois estou contente por te ver a sós. — Até logo à noite. Inclinou se ligeiramente. Brunet pigarreou: — Continua a estudar Filosofia. fique. talvez compreendesse. — Um quarto de hora! Eu sei. Demasiado amarela. Mathieu parou subitamente de rir. sob o fogo conjugado dos olhares. inchada. todo arrepiado. Riram. Boris sorriu. Não te aborreces com isso? — Pelo contrário — disse Mathieu rindo.Calaram se um instante e Mathieu pensou tristemente: «Se ao menos Boris tivesse a boa ideia de se ir embora. com satisfação.. Brunet sentara se a cavalo na cadeira e olhava igualmente Boris com um olhar pesado. — Despachaste o. sou eu que me vou embora. Estava ofendido. Boris não se mexia. — A licenciatura — atalhou Brunet com uma expressão absorta. pensei: preciso de falar com ele. duro: — Já percebi — disse. Mas hoje de manhã quando vi a tua cara.. Mathieu? Boris adiantou se.

— Tens essa necessidade.. — Escuta — disse Brunet —. senão para tomar uma posição? Levaste .. sim. Agora já o conseguiste. de tomar posição? — Sim — disse Brunet com força. tens de te libertar. — Ando aborrecido. Comunista? Brunet pôs se a rir. Mas para que te serve a liberdade. as ideias. a cara de um tipo que acaba de perceber que viveu de ideias que não dão nada. não pensei.. não esperava essa tua. — Se é apenas isso. Olhava Brunet com uma gratidão humilde e pensava: «Foi por isso que ele veio. depois vejamos: o partido não precisa de ti. Mas tu. desconcertado. — Ora. — disse Mathieu. não vamos complicar as coisas. — Para meu bem.» Apesar de tudo. — Tanto melhor — disse. — É para meu bem — repetiu Mathieu. As pálpebras dobravam se lhe em preguinhas e mostrava os dentes ofuscantes de brancura. vivo cercado de miúdos que só se preocupam com eles próprios e me admiram por princípio... dá se um jeito. Nunca ninguém fala de mim. — Não querias que eu te levasse para o partido de La Rocque? Fez se silêncio. Então? Achas que eu tenho necessidade de entrar na luta. tu tens necessidade do partido. Mathieu estremeceu.Mathieu tossiu. Vou fazer te uma proposta: queres entrar para o partido? Se aceitares.. Não sou sargento recrutador do P. e isso de intelectuais temos até para vender. não podes vir a nós assim sem mais nem menos. essa proposta. porque queres que eu me torne comunista? Para meu bem ou para o bem do partido? — Para teu bem — respondeu Brunet.... levo te comigo e em vinte minutos estará tudo terminado. Mas tinhas. uma porção de encontros importantes e preocupou se em vir dar me o seu apoio moral. Escuta — acrescentou subitamente —. com um gesto vago.. Simples aborrecimentos de dinheiro.E. — Brunet — perguntou suavemente Mathieu —. Brunet não parecia convencido.. às vezes. És livre. — Não precisas de ficar desconfiado. Mas desejava que me dissesses o que pensas exactamente. — Seguiste o teu caminho — disse Brunet. — Nunca imaginei que tivesse uma cabeça tão expressiva. Tem o dia inteiro tomado. sem dúvida — insistiu. creio. Tu representas apenas um pequeno capital de inteligência. aliás. Pensava na Espanha.C. Eu próprio tenho dificuldade em me encontrar. — És filho de burgueses. Como toda a gente. Não sentes que a tens? Mathieu sorriu tristemente. — Para o partido?. Sabes. era melhor se Brunet tivesse vindo pelo simples prazer de o ver. Dormi mal..

diante dele. cor de tijolo. meu caro. Que é que queres dizer com isso? — Nada a não ser que escolheste ser um homem. verdadeiras paixões. minha cara puta velha. Assemelhava se a um prussiano. Mathieu sentia uma espécie de curiosidade inquieta nas narinas. escolherei ficar com vocês. Esperou um pouco e perguntou: . pestanas ruivas. Meditava. Escuta. nem sempre é divertido. da política. Bem sei que tudo me seria devolvido. Sempre que o via. evidentemente. da psicologia. — Tudo aquilo que tocas parece real. assediado por todas as vertigens do inumano. um homem inteiriço. — Não há outra — repetiu Brunet. um homem apenas. não há outra escolha. terreno refractário às angélicas tentações da arte. carne. — És bem real — disse Mathieu. renuncia à própria liberdade. Arescentou subitamente: — És um homem.. — Pois faz como eu — disse. E Mathieu ali estava. — A sério. certo de perceber de repente um odor forte de animal. cortaste os laços burgueses e não te ligaste ao proletariado. E se escolher. um ausente. e o resultado dela é o vácuo. — Falas como um abade — disse Mathieu a rir. — Meu caro aliciador de recrutas — disse —. — O contrário seria inquietante. — Não — disse Mathieu —. és um abstracto. sangue. de traços caídos.. gosto que digas tudo isso. flutuas. não seria um sacrifício. — Vives no ar. — Evidentemente. — Um homem? — indagou Brunet. Aproximou se de Brunet e abanou o pêlos ombros com força. seguro de si. um homem recto. — Quem to impede de fazer? Ou imaginas que poderás viver a vida inteira entre parênteses? Mathieu olhou o hesitante. Brunet. sabes? — continuou com um sorriso amigo.trinta e cinco anos na limpeza. Mas Brunet não tinha cheiro. Gostava imensamente dele. indeciso. Um homem de músculos fortes e elásticos. muito claras e compridas. sóbrio. E tudo te será devolvido. Tinha um rosto pesado. És um corpo estranho. acabei por perder o sentido da realidade. nada mais se me afigura inteiramente verdadeiro^ Brunet não respondeu. Seguia a sua ideia. Disse: — Renunciaste a tudo para ser livre.» Brunet levantou se. que pensava por meio de curtas e severas verdades. Desde que entraste no meu quarto ele parece verdadeiro e enoja me. E pensava: «Eu não pareço um homem. Btunet sorriu distraído. Dá mais um passo. Não deve ser muito agradável todos os dias. fungava docemente. precocemente envelhecido. surpreendido. desajeitado.

A idade. Agora nada já pode tirar o sentido da minha vida. e um belo dia uma granada faz explodir os teus sonhos. Foi encostar se à janela. Escuta. Está de acordo consigo próprio e com o partido. — Essas informações.— Então? — Deixa me tomar fôlego — disse Mathieu. inclusive a liberdade. o Governo francês está prevenido. — Sabes para onde me vão mandar? Para a frente da Linha Maginot. e no entanto. — Também não acredito — disse Brunet. mas apressa te. arriscas te e rebentas como uma bolha. aliás. — E tu? — perguntou Mathieu. voltando a si: A — E verdade que se compreendesses não haveria necessidade de pontos nos ii. as cores e formas com que se enchiam os seus olhos eram mais verdadeiras.» Brunet tinha razão. respira. Amanhã serás demasiado velho. era apenas um soldado. Vamos admitir que partes nesse estado de espírito. Tu és mobilizável. — Não compreendo — disse Mathieu. — Acrescentou com vivacidade: — Como a de todos os camaradas. — Então? — Não é a mesma coisa.. tudo lhe fora devolvido.» E ali estava ele. irritado. — disse Mathieu. serás o escravo da tua liberdade. Na segunda quinzena de Setembro os Alemães invadem a Checoslováquia. «Disse bem. — Mas então não compreendes nada? — perguntou Brunet. real. para dar cabo da saúde não há melhor. Os Ingleses sabem disso. — Estás a brincar? — Podes acreditar. renunciara à liberdade. Sonhaste durante trinta e cinco anos. «É mais livre do que eu. Dir se ia que tinha medo de pecar por orgulho. a classe. Foste um funcionário abstracto. serás um herói irrisório e cairás sem ter compreendido nada. E um risco assumido. como eu. contrariado. em carne e osso. Brunet olhou o e observou rapidamente: — Vamos ter a guerra em Setembro. E acrescentou a sorrir: — Não acredito que o marxismo preserve das balas. Meditava. ele escolhera a arma que lhe feriria as têmporas. a época. Mathieu não respondeu. mais densas do que as que Mathieu podia ver. a granada alemã que lhe perfuraria as vísceras. nesse .. Comprometera se. E talvez o mundo esteja também demasiado velho. E acrescentou docemente. Morres sem acordar. com um gosto real de fumo na boca. terás os teus pequenos hábitos. já nada a pode impedir de ser um destino. E tudo lhe fora devolvido. A sua vida era um destino. — Respira. a fim de que Schneider conserve os seus interesses nas fábricas Skoda.

. os mortos. Tens sorte de ter podido escolher. Mathieu foi sentar se na poltrona. Pensas que eu estava convencido quando entrei para o partido? A convicção forma se. — Recuso. os seus filhos. — Vocês são todos iguais. O rosto de Brunet endureceu se um pouco. Pensava: «Veio oferecer me o que tem de melhor!» Acrescentou: — Não é coisa definitiva. Entrar para o partido. livre.. desesperado. há chineses nos escombros de Naquim e eu aqui. — Mais tarde? Se estás à espera de uma revelação interior para escolher. Parecia estar a espiá lo.. Era preciso responder. — Queres dizer que não vais ter essa sorte? Pronto. eram os seus irmãos e irmãs. — Recusas? — Recuso — disse Mathieu. Mais tarde. Sim ou não. Não cerrou os punhos. acreditar. — Bombardearam Valência — disse subitamente. pensou. «Sou um irresponsável». Brunet não despregava os olhos dele. — Essa é boa! Isso escolhe se. vocês os intelectuais.» Voltou se para Brunet e encarou o com amargura. lutando. «Nesta hora. agir. — Naturalmente — disse Brunet com impaciência. — Já sei — atalhou Brunet. Mathieu sorriu tristemente. — Sorte de ser comunista? — Sim. Seria a salvação. não abandonou o tom sereno. fresquinho. eu quero acreditar primeiro. se ao menos pudesses ver com os meus olhos. serenos. Põe te de joelhos e terás fé. reivindicam o direito de ser convencidos. há judeus austríacos que agonizam nos campos de concentração. — Eu sei. Atiraram as bombas no mercado. «As tuas poltronas corrompem. dentro de um quarto de hora ponho o chapéu e vou passear no Luxemburgo. Mas eu. a sua maneira de dizer sonhadora.» Ergueu se com vivacidade e sentou se na ponta da mesa. escolher ser um A homem. há tipos que se matam nos arredores de Madrid. arriscas te a esperar muito. espalhava se pela terra toda. as espingardas vão disparar sozinhas e vocês. neste instante. Tudo se desmorona. — Tens sorte — disse Mathieu.mesmo momento. e no entanto era ele o bombardeado. compreenderias que não se pode perder tempo. . dar um sentido à vida.. sofrendo com os proletários de todos os países. — Eu sei. meu caro. Brunet encolheu os ombros. Talvez tenhas razão. — Não havia um só canhão de defesa antiaérea em toda a cidade. — Então? — disse Brunet. Ah!.

— Não tenho nada a defender. mas não te desfazes dele. — Também já pensei nisso — disse Mathieu. — Tens? Tanto melhor. Brunet parecia mais calmo. De boa vontade trabalharia com vocês. Revolto me. mais camponês. — Estás a compreender me. Mentia se dissesse que me sentia satisfeito em desfilar de punho erguido ao som da Internacional.. Brunet? Diz lá. estás no teu direito. Brunet tomou o seu ar mais fechado. isso afastar me ia de mim próprio e tenho necessidade de me esquecer um pouco. pensou Mathieu. não precisas de justificar te. Fez um esforço: convencer Brunet era o único meio que lhe restava para se convencer a si próprio. ou viria demasiado tarde. — Eu também o espero. neste momento. Talvez não haja oportunidade. o tempo passa. — Já pensei que nunca mais viria. Desejo ardentemente trocá la por uma convicção. parecia uma torre. penso como tu que não se é homem enquanto não se encontra uma coisa pela qual se está disposto a morrer. Quando o atacam. Ninguém te acusa.— E então? Sim. — E então? . como o teu irmão se agarra ao dinheiro. contra as mesmas coisas. contra a mesma espécie de indivíduos. E depois. Brunet levantara a cabeça. Mathieu olhou o com desespero. como vocês. — Então? — indagou quase alegremente. «Se ele pudesse compreender me». e daí? Brunet deu uma palmada de indignação na coxa. Espero que essa oportunidade se apresente o mais depressa possível. não tenho razões suficientes para isso. mas não é o bastante. — Achas que pareço agarrar me a alguma coisa. mas como quer que seja. Mas receio que não apareça tão cedo. A minha liberdade? Pesa me. não posso comprometer me. — Apesar de tudo. Há anos que sou livre para nada. A — Tens a certeza de que o desejas? — Tenho. J E A N P AUL SARTRE Fez se silêncio. Mathieu indagou docemente. Brunet olhou o com curiosidade. — Não quero dizer. estás a compreender me? — Não sei se te compreendo muito bem — disse Brunet —. — Muito bem! Finges lamentar o teu cepticismo. Não é culpa minha. Reservas te para uma melhor oportunidade. agarras te a ele avidamente.. É teu conforto moral. não me orgulho da minha vida e não tenho um tostão.

esta manhã.» Brunet acrescentou sem o olhar: — Ainda gosto muito de ti. não do de Karl Marx. Mathieu pensou: «Está com pressa. Brunet levantou se. preciso de ajuda. «Não pode sair pode sair assim. Mathieu também se levantou. — Já estou atrasado. Bastava uma palavra. Tens razão. Era tentador como o sono. tenho de lhe falar». pensou Mathieu. da tua voz. Calaram se. Tu achas me uma sacana. — Pois é. — Não é verdade — disse Mathieu. Mas não tinha nada para lhe dizer. Mathieu endireitou se repentinamente. — Mas não te quero mal — disse Brunet. — E achas que não temos mais nada em comum? Brunet ergueu os ombros sem responder. Doido por se ir embora. E depois há as recordações. — Pois é. — Não te considero um sacana — disse.. — Não me deves querer mal — disse precipitadamente. Os meus únicos amigos agora são os camaradas do partido. a amizade de Brunet. Calaram se. Mas é do teu apoio pessoal que eu preciso. sair assim.. apesar de tudo estou contente por te ter visto. — Não vais. acham que se deve pensar como vocês. e tudo seria devolvido a Mathieu. desolado. Mathieu pensava: «Evidentemente. Brunet sorriu levemente... mas decepcionei o. Ainda tens um minuto? Brunet olhou o relógio. — Eu conheço vos bem. Brunet brincava com o fecho da porta. J E A N P AUL SARTRE Enquanto falava. Não faz mal. Mas isso não modifica a coisa. Desejaria ver te sempre e falar contigo. só porque eu tinha má cara. Teve pena de mim de manhã.» Disse. Com esses eu tenho um mundo em comum.. mas não queres dizê lo porque julgas o caso perdido. — Também o desejaria — disse —. Mathieu disse lhe: — Não podes imaginar o que me comoveu teres vindo oferecer me a tua ajuda. a não ser que se seja sacana. é possível? Brunet desviou os olhos.. — Acho apenas que estás menos libertado da tua classe do que eu imaginava. Voltamos a ser estranhos um para o outro. Do teu focinho... poderíamos trabalhar juntos. Não tenho nenhum direito sobre o seu tempo. Brunet esperava delicadamente. A .— Nesse caso serei um desgraçado. — Porque teria vindo se não me lembrasse? Se tivesses aceitado. mas não tenho muito tempo. sem querer: — Brunet. E tudo. aproximara se da porta. — Não és obrigado a pensar como eu. uma só. ainda te lembras? Foste tu o meu melhor amigo. das tuas mãos. — disse. razões de viver.

a luz estava pousada na rua e nos telhados.» Partiu. Acha que sou um filho da puta. Mathieu chegou se à janela e encostou se ao parapeito. a corda erguia a acima da cabeça como uma alça e chicoteava o solo sob os pés. manda me um recado. é um sacana. o quarto corruptor estava atrás dele. as cortinas verdes e pensou: «Já não se sentará nas minhas cadeiras. Agrada me indignar me contra o capitalismo. prefiro tomar ar. Brunet abriu a porta.» O quarto era agora apenas uma mancha de luz verde que tremia quando passavam os carros. e ele mantinha a cabeça fora da água e olhava a rua pensando: «É verdade? É verdade que não podia aceitar?» Uma menina ao longe saltava à corda. Mathieu olhou a poltrona verde. fria. Daniel também. como uma verdade eterna. Todos decidiram que sou um sacana. sempre não. a corda parece uma alça. e apenas a cabeça lhe saía da água. Que posso eu fazer contra todos? Tenho de decidir. mas não desejo que o suprimam. A menina saltava à corda eternamente. e teria medo que se construísse um mundo viável porque teria de dizer sim e fazer como os outros.— Não quero demorar te — disse. Mas a realidade do quarto desaparecera com ele. isso é indiscutível. «Recusei porque quero continuar livre. Mas em relação às pessoas. Jacques também. Mas quem poderia conservar nesta luz a mesma parcela de entusiasmo? Era uma luz de fim de esperança. — Certamente — disse Mathieu. julgar. Este pobre Mathieu está perdido. Pensava: «Eu não podia aceitar». Ia pelas ruas gingando um pouco como um marinheiro. Sorriu para Mathieu e foi se embora. — E tu. já não olhará para as minhas cortinas. tudo o que fazem pode ser explicado. É o que posso dizer. pouco antes. — Certamente — disse Brunet. a corda erguia se eternamente acima da cabeça dela e eternamente fustigava o chão a seus . agrada me dizer não. as cadeiras. «Será verdade que não sou um sacana?» A poltrona é verde. — Vem visitar me quando tiveres tempo. mas decidir o quê?» Quando disse não. fixa. Uma tarde de Verão. como se desejar. por cima ou por baixo. e as ruas uma por uma tornavam se reais. prefiro a minha cortina verde. e o quarto atrás dele era uma água tranquila. acreditava estar a ser sincero. pode se sempre discutir. à tarde. Agrada me sentir me desdenhoso e solitário. igual. Mas posso dizer também: tive medo. um entusiasmo amargo nascera no seu coração. porque já não teria motivos de indignação. Por cima ou por baixo: quem havia de decidir? Brunet já decidiu. já não fumará aqui os seus cigarros. na minha varanda e não queria que isso mudasse. eternizava tudo aquilo em que tocava. Mathieu pensou: «Era o meu melhor amigo. se mudares de opinião. corruptora.

Era uma verdadeira multidão. às janelas. perdeu se. A tarde esvaziava os edifícios comerciais. Para quê? Para quê?» Deixou cair o caranguejo sobre a mesa e declarou: «Sou um tipo lixado.» Empertigou se novamente. que olhavam as ruas desertas e eternas. os meus móveis. e teve medo. Entrou pela Rua Réaumur. . «Vou chegar cedo de mais a casa de Marcelle. ou sorriam no vazio com espanto. Nunca se perdia por muito tempo. Um pesado destino de multidão parecia esmagá lo. depois quatro horas de trabalho odioso. Aliás. do mesmo destino vago e ameaçador. em Madrid e em Valência. disse entre dentes. Não era uma rua para mulheres e os homens não se preocupavam J E A N P AUL SARTRE com ele. era agora uma praia de luz esquecida.» Isso queria dizer: «Vou dar uma volta pela quermesse». «A minha poltrona. Não era muito cómodo esconder se. pelo menos. Ao sair do escritório. e caminhava devagar. «Posso andar um pouco. os gatos. pois Daniel já não era capaz de se iludir. era inevitável.» Em cima da mesa havia um pesa papéis em forma de caranguejo. desconfiado. podia perfeitamente desejar uma ligeira compensação. embora não densa. Daniel seguiu a passo lento o desfile.pés. o olhar de Daniel deslizava por entre aquelas falésias abertas até ao céu rosado e corrupto que elas fechavam no horizonte. Isso permitia. Livre. Nada mais lhe ficou senão um ruído surdo de avalancha. a mulher cheira sempre. Apropriando se do sorriso vago dos homens. à noite. Tinha medo de lhes respirar o cheiro. Mesmo na Rua Réaumur era muito notado. Daniel olhara para o espelho do vestíbulo e pensara: «Vai recomeçar». uma sala de espera de um tribunal. fugir à tentação de imaginar intimidades atrás das vidraças escuras das janelas. não passava de um saguão aberto. Para quê saltar à corda? Para quê? Para quê? Para quê resolver ser livre? Sob aquela mesma luz. As mulheres pintadas que saíam das lojas deitavam lhe olhares provocantes e ele sentia o próprio corpo: «Putas». Iria porque não tinha a menor vontade de deixar de o fazer. Voltara a encontrar se. E Mathieu contemplá la ia eternamente. Marcelle. para quê? Queria ir à quermesse? Pois iria. a visita de Mathieu. Era fácil esconder se ali. Felizmente eram raras. e diziam: «Para quê? Para quê continuar a lutar?» Mathieu voltou se para dentro do quarto. Liam os jornais ou limpavam com uma expressão de cansaço as lentes dos óculos.» IX E ram seis horas. mas a luz seguiu o. De manhã. tenho tempo de andar um bocado. havia homens. Mathieu pegou lhe por cima como se estivesse vivo. «O meu pesa papéis. Por mais que se lave.

só tinha diante dele uma distância com obstáculos. viu a tabuleta. dizia sempre sim. calcinado pelo sol claro. dançam a cada sacudidela do fio com saltos desajeitados. aturdidos. Os michés tomavam no por protector de um dos meninos. A Rua Réaumur esvaiu se. Os malandros que se distraíam diante dos caça níqueis à espera de freguês eram muito mais divertidos que os seus colegas de Montparnasse. Daniel não suportava a humildade deles. E depois. Quermesse. quando lá entrava. havia uma mancha na frente dos seus olhos.Marcelle era um charco. dar lhes corda. e as ideias amontoavam se Ihe na cabeça.» Tinha a garganta seca. sedosos. humildes e de olhar ligeiramente alucinado. para partir em mil pedaços o pouco de dignidade que ainda lhe resta. agora Marcelle estava podre. ela só existia aparentemente. Às vezes provocava asma. que procuravam apenas ganhar dez francos e um jantar. puxar a corda e voltá los.» Não precisava de se desculpar tanto. cor de gema de ovo. que o repelia e atraía ao mesmo tempo. Sentia desejo de lhes bater. enormes e leves como elefantes de borracha. O quarto dela estava irrespirável. tinham sempre um ar de se confessar culpados. e ele estragava lhes todo o prazer. Entrou no Bulevar Sébastopol. e encarava os fixamente enquanto batiam as asas sob os olhares maldosos e escarnecedores dos jovens amantes. essa luz ignóbil que flutuava entre os muros baixos como um cheiro a cave. flutuavam a baixa altura. «Vou até à quermesse. e diminuiu o passo. Um homem que se condena a si próprio tem sempre vontade de dar pancada para se liquidar de vez. Quanto aos michés. erguê los no ar. estupefactos. Mas nos verdadeiros pesadelos. Valia a pena divertir se um bocado com os imbecis. Deixava se doutrinar durante horas. eram vadios ocasionais. Não cheirava a nada. ternos. era de morrer a rir. Habitualmente encostava se a uma coluna. aí é que o inspector de finanças Durat descobrira a puta que o tinha matado. como borboletas. não era mal nenhum: queria observar a táctica dos maricas no engate. . a lembrança de uma luz espessa. sim. Mas é preciso mudar constan temente de imbecis. Mesmo em tempos normais não podia deixar de fungar. brutais e canalhas. A quermesse do Bulevar Sébastopol era célebre no género. dissimulados. de resto. o ar seco queimava em volta dele. vozes de mel. as pessoas. de voz rouca. Não via nada. Daniel nunca atingia o fim da rua. senão é a náusea. verificou se os rostos lhe eram desconhecidos e entrou. mas tinha se sem DADE DA RAZÃO pré uma inquietação no fundo dos brônquios. Daniel ficou subitamente apressado e esticou o passo: «Vamos rir. Parecia um J E A N P AUL SARTRE pesadelo.

Eram quatro. Lançaram olhares maliciosos a Daniel e continuaram a bater com entusiasmo. o automóvel de lata que se tinha de empurrar sobre uma estrada de pano. À direita. As horas que passava na quermesse pareciam lhe ritmadas pelo martelar surdo das bielas. sete jogadores de pólo. a carabina eléctrica. Criadinhas Devassas. Daniel conhecia os a todos: os jogadores de futebol. vinte e duas figurinhas de madeira pintada espetadas em ganchos de ferro. com uma pressa desajeitada. sonhava com ela às vezes e acordava sobressaltado. aproximou se lentamente e meteu uma moeda de um franco na ranhura do aparelho. tinham começado a dar socos. ao luar. Uma agulha marcava no mostrador a força dos murros. feliz por voltar às trevas. junto à caixa. Colocou um franco na ranhura e espreitou pelo binóculo. atraído sem dúvida pela lâmpada eléctrica e pela Kodak que descansavam atrás dos vidros sobre uma pilha de bombons. que parecia mais triste ainda e mais cremosa que de costume. Daniel mergulhou na luz amarela. Na sala das máquinas. os cinco gatinhes pretos no tecto. Noite de Núpcias Interrompida. Um senhor de monóculo aproximou se de um desses aparelhos. Depois afastou se e pareceu . uma camisa de dormir e alpercatas. No fundo da sala havia três filas de kineramas e os títulos dos filmes destacavam se em letras negras: Jovem Casal. Ao longo das paredes tinham posto umas caixas grosseiras sobre quatro pés: eram os jogos. do outro lado da parede. os distribuidores de chocolate e perfume. deserta. Uns rapazes pobremente vestidos tinham se agrupado em volta do pugilista negro. devia ter entrado por acaso — Daniel punha as mãos no fogo — e parecia absorto na contemplação de uma grua. Para Daniel era uma luz de enjoo. havia uma bruma amarelada semelhante. Viu a isca à esquerda. viu um rapaz alto e de rosto cinzento que vestia um fato amarrotado. aquele calor e. Daniel sufocava: era aquela poeira. Banho de Sol. a intervalos regulares. No fim de momentos. por entre casas e campos. contra a luz. aliás parecia não os conhecer.Era uma trincheira empoeirada com muros caiados de castanho de uma fealdade severa e cheiro de um depósito de mercadorias. Tinham tirado os casacos. manequim de dois metros de altura que trazia sobre o ventre uma almofada de couro e um mostrador. e que se tinham de derrubar com cinco tiros de revólver. lembrava lhe certa noite que passara doente a bordo do navio de Palermo. arregaçado as mangas das camisas sobre os bracinhos magros e batiam alucinadamente sobre a almofada. um louro. pois a claridade do dia amontoava a no fundo da sala. um ruivo e dois morenos. Não era com certeza um canalha como os outros. além disso. Daniel franziu o sobrolho para mostrar lhes que se enganavam no endereço e virou lhes as costas.

pensou Daniel. mas sem grande entusiasmo. depois recomeçaram a dar socos na barriga do negro. aqueles cujo menor movimento revelava uma garridice inconsciente. O aparelho tremia todo. «Deve usar cinta». procurou nos bolsos e descobriu outra moeda. recomeçar sempre. pensou. resistir. com a garganta seca de vertigem e ódio. Estava ligeiramente desvairado. Daniel compreendia todas as vertigens. Daniel sentiu um arrepio familiar percorrer lhe a nuca. Daniel teve medo. Empertigou se. um belo nariz florentino e um olhar um pouco mais duro e míope do que o que seria necessário: o olhar de circunstância.. «Ele gosta». pensativo. Daniel compreendia muito bem que se podia ser tragado por um daqueles aparelhos. pensou Daniel. o busto recto e as pernas flexíveis. uma tez aveludada sob os cabelos brancos. Daniel fazia votos para que ele ganhasse a lâmpada eléctrica. O senhor avançou com petulância. aquela tristeza infinita e familiar que ia tudo submergir. jurei aguentar. que tinham um aspecto avaro e estúpido de feijões. nesta luz sinistra. estava cheio de vontade de pousar a mão no braço do rapaz — já sentia o contacto da fazenda áspera e usada — e dizer lhe: «Não jogue mais. Não devia imaginar por detrás daquele corpo magro e atraente. pegou nas alavancas e pôs se a manobrá las com convicção. O guindaste pôs se a girar com movimentos prudentes e desdenhosos.perder se em meditações. aquela maré de tristeza resignada que subia nele. com aqueles murros junto da parede. coçando o nariz. «Eis o homem». Os quatro vadios voltaram se ao mesmo tempo. os mais românticos. Ia precisar de dias e dias para se libertar daquilo. exibindo o mesmo ar de inocência viciada. com aquele gosto a eternidade. mas ainda assim contente por ter resistido. «gosta de se acariciar. e Daniel libertou se. bem barbeado. todo preocupado com o seu próprio prazer. dobrando os joelhos. deu um passo em frente. Não aqui neste inferno. mas o buraco cuspiu de repente um punhado de bombons multicores. de liberdade e de esperança.. «São as suas últimas moedas». Devia ter uns cinquenta anos. J E A N P AUL SARTRE O guindaste girou sobre si mesmo com um ruído de engrenagem e estremecimentos senis.» Ia recomeçar o pesadelo. aquele tanta vitorioso junto da parede. O rapaz não pareceu decepcionado. pensou. Aquele aparelho niquelado parecia satisfeito. perder todo o dinheiro. num gesto vivo. Mas um homem entrou. O rapaz.» No entanto. pensou que ia desatar a rir. uma vida misteriosa de privações. do qual não se excluía uma certa severidade. um amor de si próprio profundo e aveludado. Fez girar as alavancas e examinou os . e recomeçar.» Eram os mais atraentes. «não come desde ontem.» Não não devia. O senhor olhou os com um olhar prudente. «Não hoje.

É da província? . O senhor petulante inclinou se sobre o jogo e passou o dedo frágil no corpo magro dos bonecos de madeira. sem o vestir. Quer — explicar me? Eu não compreendo. mas cinzentas. após um rápido conciliábulo. Daniel viu o sorriso e sentiu um baque em pleno coração. pensou. de o lavar e talvez perfumar. temeroso. nas gordas bochechas camponesas. Pusera o casaco sobre os ombros.bonecos com uma atenção sorridente. como se ele próprio se divertisse com o capricho que o conduzia ali. Acontece me entrar por acaso. — Sabe jogar? — perguntou o velho com uma voz doce. «amassa se corno pão. dando o primeiro passo. não é? Eu tento enviar uma bola para o buraco e você procura impedir. — Quer fazer uma partida comigo? — Eu. considerava sem dúvida que. Quatro jogadores descreveram um semicírculo e pararam de cabeça para baixo. que uma ligeira barba sujava. À direita. Um impulso sem consequências.» O senhor era capaz de o levar para casa. murmurou. — E o hábito — respondeu o rapaz. não é? — Isso mesmo — disse o rapaz. A seguir acrescentou: — Precisam de ser dois: um de cada lado. Com efeito. é preciso mandá las para o buraco. O rapaz ao fim de um instante pareceu tomar uma decisão heróica: empunhou uma alavanca e fê la girar com rapidez. mas nunca o encontrei. claro que quero. Jogaram. As bolas saem. — Sim. com os seus cabelos brancos e a sua roupa clara. «Filhos da puta». sem dúvida? Eu não. lembrar me ia de si. era uma isca deleitável para aqueles peixinhos todos. «Carne de mulher». faz treinos? Vem sempre aqui. Ensine me. com modéstia. um olhar de cão sob as sobrancelhas espessas. Não queria baixar se. Encostou se comodamente à coluna e lançou sobre o senhor um olhar pesado. Daniel reparou eno J E A N P AUL SARTRE jado nos quadris avantajados. e aproximou se do miché com as mãos nos bolsos. Parecia farejar. O velho disse em voz de falsete: — É muito hábil! Como conseguiu? Ganha sempre. Esse pensamento enfureceu Daniel. — Ponha um franco e puxe. — Mas é preciso ser dois. o lourinho destacou se do grupo. sim. Sim. tê lo ia visto. aquelas simulações e mentiras horrorizaram no e ele teve uma grande vontade de fugir. Mas foi apenas um instante. O rapaz parara a poucos passos do velho e fingia examinar também o aparelho. já o conhecia. o rapaz de camisa de dormir tirara do bolso uma terceira moeda e recomeçava pela terceira vez a sua dança silenciosa em torno da grua. sou bom fisionomista e você tem um rosto interessante. sim. Inclinaram se ambos sobre as alavancas e inspeccionavam nas sem se olharem.

O rapaz voltaria para os companheiros com indolência. Lalique — disse uma voz sumida. em voz baixa. finalmente. ainda tem cinco bolas. fala! — Ando à procura do senhor há três dias — disse Bobby com a sua voz arrastada —. sem o olhar. Daniel gozava de antemão a cena. — Deve ser «massa»! — disse em voz alta. O velho para juntar se a ele teve de dar uma volta sobre si mesmo. depois sairia por sua vez arrastando os pés. passaria por polícia de costu J E A N P AUL SARTRE mês. O rapaz não vira nada. Olhava Daniel sem responder.A — Sou — disse o rapaz. com um sorriso inocente e astuto. O rapaz sorriu forçadamente. Pensei: «Um destes . Bobby inclinara a cabeça sobre o ombro e fazia como os meninos. Por mais que Daniel prestasse atenção. O senhor parou de jogar e aproximou se do rapaz. desconcertado. — Pois jogamos daqui a pouco. O rapaz consentiu com a cabeça. Daniel sobressaltou se. ingenuamente —. — Tinha te proibido de voltar aqui. pois. «Se pedir os meus documentos. olhar vazio e deferente. assentava o nome e o endereço do velho e pregava Ihe um tremendo susto. vendo chegar de repente o rapaz acompanhado por Daniel. Prefiro conversar. Voltou se bruscamente. Sr. Levantou a cabeça. o velho sairia à frente apressado. Daniel sentia se reconfortado por uma cólera seca e deliciosa. usava roupa nova. — Mas a partida não acabou — disse o rapaz. Fez se silêncio e. Aquele sorriso enfureceu Daniel. mostro lhe a minha carteira de funcionário. — Que estás a fazer aqui? — perguntou com severidade. não tinha o menor interesse. De boca aberta. se não vê mal nisso. Ia segui lo. Fizera se gordo e grande. ouvia apenas as palavras «rancho» e «bilhar». daria um soco ou dois no ventre do negro. Imaginava o velho de um lado para o outro no passeio. Daniel empregara o numa farmácia. esfregou as mãos como um padre. e deparou com o olhar de Daniel. e o homem desviou os olhos. comprada feita.» — Bom dia. o velho pôs se a falar com doçura. As suas mãos tremiam e a sua felicidade era perfeita se não sentisse a garganta seca com a sede. O velho não respondeu e lançou uma olhadela furtiva para o lado de Daniel. — Vamos. Se houvesse oportunidade. pareceu inquieto. Este fez um ar de desprezo. não sei a sua morada. Lalique era um nome de guerra que usava às vezes. devorando com olhar de juiz o rosto delicado e gasto da presa. Conhecia o ritual: parecia um adeus. Era Bobby. passando a língua sobre os lábios finos. aguardava que lhe dirigissem a palavra.

Ele inclinava a cabeça para trás e olhava o tecto com uma expressão de humilde volúpia através das pálpebras semicerradas. foi por isso que tomei a liberdade. a não ser esmagá lo como uma lesma. e essa roupa não te serve. — Oh! Tu falas bem! — disse Daniel. debaixo daquela fronte estreita. a fazer previsões: «Imagina que me conhece e pode manobrar me.» Atrevia se a julgar Daniel. Olhava Daniel arregalando os olhos gentilmente e continuava a sorrir.. e que ainda continuaria mesmo que lhe rebentassem os lábios a soco. engordaste. — Foi porque o senhor mostrou a língua ao velho maricas — . Estou sujo. E vê se te afastas um bocado. respirava lhe os cabelos com um ar de bondade. com uma palmadinha no rosto. Daniel deitou uma olhadela furtiva para o velho e viu com despeito que este já não fazia cerimónia. deitou um olhar de cumplicidade a Daniel e saiu a passos largos e dançantes. — Desculpe — disse Bobby sem se apressar. pensou Daniel com ódio. «Vê me com este canalha e toma me por colega. Apesar da repugnância. Bobby riu se. um dia Bobby tinha lhe agradado. Sim.» — Que é que queres? — perguntou brutalmente. desatando a rir. pois uma certa imagem de Daniel ali se achava incrustada. preferia matar me a parecer me com esse tipo. mas o outro já tinha virado as costas. — Estou com pressa.. Depois disse lhe adeus. — Que é que foi? — observou Daniel.» E nada há a fazer contra isto. dar uma voltinha. Daniel sentia se solidário com aquela mancha plácida e viva: era ele que assim vivia na consciência de Bobby. «Era de esperar».dias o Sr. J E A N P AUL SARTRE Daniel mostrou lhe a língua. pensou Daniel com um estremecimento de raiva.» «Um destes dias! Merda insolente. Daniel vem aqui. e ali ficaria para sempre. que tresandas a brilhantina. — Estás feio — afirmou —. Mas isso dar lhe ia direitos para sempre? O velho pegava na mão do jovem amigo e conservava a paternalmente entre as suas.» Tinha horror a essa franco maçonaria de mictórios. Em todo o caso. — Compraste uma língua juntamente com a roupa? Os sarcasmos não atingiam Bobby. Daniel detestava aquela paciência inerte de pobre. aquele sorriso mole e tenaz de borracha. Inclinava se sobre o miúdo. — Como estava encostado à coluna e não parecia de modo algum apressado. onde a arranjaste? É horrível como a tua vulgaridade sobressai quando estás endomingado! Bobby pareceu não se incomodar. «Pensam que todos o são. «Agradou me porque se parecia com um gato».

Daniel. era uma loura gorda. «Não perdes pela demora». mas não queria deixá lo assim de repente.» — «Minha senhora». queixoso. «E um ladrão». Invadido por uma suspeita perguntou: — E a farmácia? Já lá não estás? — Não tenho sorte — disse Bobby. perguntou a patroa. Daniel estremeceu. era só Bobby para aqui. Procurou com o olhar o dorso curvado e a nuca magra do rapaz em camisa de dormir. «proíbo que ele entre na minha farmácia. hem! Eles não me . Então comecei a ver Ralph fora da farmácia para não ser apanhado. só porque tivemos sorte? — atalhou Bobby com indignação. E então vomita tudo na farmácia. dizia ela. — Então puseram te na rua? — perguntou. «Que é que eu te disse?». disse eu. — Que é que fizeste? Roubaste? — Foi a mulher do farmacêutico — respondeu Bobby. O rapaz em camisa de dormir já não estava lá.» E não tinha um tostão. que nos viu juntos. sei lá. atropelavam se.» Pan! A sala estava deserta. Tinha medo da solidão. Dirigiu se com passinhos curtos até um distribuidor de perfume e olhou se no espelho. O tipo louro saiu vagarosamente da quermesse. — Então devemos abandonar os amigos. — Começou a hostilizar me porque eu via Ralph. «na farmácia a senhora é que manda. pensou Daniel. sempre brincalhão. A caixa levantou se. — Via o menos. — Já te tinha dito para não te dares com Ralph. «Ou não tornas a ver Ralph ou sais daqui. O estupor parece gostar de coisas — disse Bobby com pudor. Daniel sentiu se cansado e vazio. quando entrei para a farmácia. mas eu mandei o passear. fala — disse distraidamente. é um tipo estuporado.» DADE DA RAZÃO Que fazer. ir me embora. com nojo. Daniel encarou o. — Nem por isso deixaste de engordar. Os três companheiros seguiram no logo depois. Mas o estagiário encontrou nos juntos. o ruído dos socos parara. Bobby para ali. horrorizado. a sorrir. E acrescentou em tom carinhoso: — É sempre o mesmo. — Disse: «Prefiro. — Não gostava de mim. — Bom. «Que estou a fazer aqui?».disse Bobby. essa mulher era uma puta. rindo muito alto. disse me ele. mas lá fora não me pode dizer nada — repetiu Bobbv com agrado. — Eu é que saí — disse Bobby muito digno. — Vamos. bom — disse Daniel. — Na farmácia a senhora é quem manda. que as pessoas se escandalizavam. Sr. que fazíamos coisas. Ao passar roçou ao de leve Daniel. — No princípio. Bateram as sete horas. mas lá fora não me pode dizer nada.

— Já não me interessas. — Sim? E vieste pedir me dinheiro para as primeiras despesas? Guarda essas histórias para outros. Esfalfo me para arranjar um lugar e consegues ser J E A N P AUL SARTRE posto na rua ao fim de um mês. ele gosta muito de si. E depois. Durmo na casa de Ralph. — Se quiser falar comigo. — És um idiota — disse Daniel. não posso fazer nada por ti. — Disse a mim próprio: vou ver se encontro o Sr. com voz humilde. Sr. Na Rua dês Ours. — Deus me livre! Não estou disposto a ouvir as suas histórias. Lalique — disse Bobby. Não como desde anteontem. ele compreende me. Está enganado sobre o Ralph. 6. nós moramos aqui perto. Ao lado da Kodak e da lâmpada eléctrica havia um . — Obrigado. Ralph e eu. carinhosamente.. mas não faz mal. mas sentia as pernas moles. Sr. Ver se não estou a dizer a verdade. O corpo parecia lhe algodão. durmo de dia porque à noite ele recebe a puta. Devolvia lho no fim do mês. Lalique. são dados. Sentia se acovardado. Aliás. Eu sou assim. pensou: «Tenho de me ir embora».quiseram pagar o que me deviam. — Ainda hoje dizia a Ralph: se eu encontrar o Sr. — Pode perguntar lhe. indecisos. no sétimo andar. Daniel aproximou se do guindaste e olhou. ou com Ralph.. Quanto? — Cem francos. Mentes como um tira dentes. verás como ele não me deixa em apuros. toma cinquenta. Bobby meteu o dinheiro no bolso sem falar e ficaram um diante do outro. não penses que acredito em metade do que me contaste. E desaparece. Bobby pôs se a fazer trejeitos. Bobby afastou se. — Toma — disse Daniel —. A — Vai te embora — disse Daniel com rudeza. E uma aventura séria. Lalique. — Se pudesse emprestar me. — Estávamos com um projecto de trabalhar juntos. — Perguntar a quem? — À patroa. Quanto queres? — É um bom tipo. — Queremos arranjar um comércio. — Vai te embora. Olhou Daniel. Lalique. — Quanto queres? — repetiu Daniel. emprestar. hem. Depois deu meia volta e foi se embora. Deu uma saída em falso e voltou atrás. a recuar e sorrindo sempre. — disse Bobby com indiferença.

com as mãos sobre o ventre como um Buda. Daniel viu o de longe. E o céu. dos homens de boa vontade. Gostaria que me tivesse seguido. não tivera sequer a coragem de se satisfazer. o céu estava cheio de ouro. Ganhara o dia e devia ter voltado para casa. «A paz. as árvores.. Daniel era um homem de má vontade. «não fiz nada que mereça castigo. Daniel olhou os seus rostos: eram duros apesar de um aparente abandono. porém não queria beber. Em 1912. da gente de bem.. assim o tinha resolvido. como sempre. estava invadido por ele da cabeça aos pés. Enfiou uma moeda no aparelho e rodou os manípulos ao acaso.» Mas o quê? Teria cuidado para não o esquecer. pois esmagado daquela maneira também era mal. Ao lado dele as pessoas tagarelavam em paz com a consciência. Devia ter um coração reverencioso. e não a minha?» Assim era. Tinha sido preferível deixar se esma J E A N P AUL SARTRE gar pelo prazer. O guindaste deixou cair os ponteiros sobre o monte de bombons. Voltou se bruscamente: «É capaz de me seguir para ver onde moro.» O porteiro estava sentado numa cadeira. morre. Daniel estremeceu: «Se pudesse esquecer aquela direcção. os olhos amarelavam lhe tudo. O sol derramava um pouco de ouro nos grandes edifícios escuros. 6. Além disso. Agora carregava o Mal dentro dele como uma comichão infecciosa. sensível às grandes .. pensou. Deixara se roçar pelo Mal. que Deus. É verdade que renascia sempre. aquecia se ao sol. estava com eles. pensou: «Eis o Bem. via as pessoas passarem e de quando em quando aprovava uma qualquer pessoa com um meneio de cabeça. tudo os aprovaria. A paz de boa gente. naquela natureza. um porteiro gordo e pálido. com inveja.» Mas fora pior. Eu ainda estava com Paul Lucas. da gente honesta. Eles bem o sabiam. permitira tudo.binóculo que não tinha visto antes. Daniel recolheu cinco ou seis na palma da mão e comeu os. Qualquer coisa naquele céu. Se fosse possível esquecer aquela direcção. não em 1913. naquela luz. pensou Daniel. Bastaria um sinal para que esses homens se atirassem contra ele e o fizessem em pedaços. as pessoas sorriam à carícia da sombra. tinha ainda na vista aquela mancha amarela. Um senhor disse à mulher: — Mas isso foi antes da guerra. menos a satisfação. a natureza toda. se existia. dar lhe ia uma tremenda sova na rua!» Porém Bobby não aparecia. Ralph. No limiar da entrada de um edifício. Porque será a vontade deles a boa. eles sabiam que tinham razão. desgraçado! Morre de sede! «Afinal». a luz. mas uma sombra suave e líquida subia da rua. Daniel estava com uma sede infernal. de ombros caídos. «Ser aquele tipo». Rua dês Ours..

pensou com severidade. é indispensável. pensou. e depois era delicioso encontrar se nos limites de Paris. como os prestidigita dores. era científico. as ruas deslizavam sob os pés para o centro envelhecido e comercial da cidade. Embrutecer se até chegar àquele ponto. resta me a esperança de me tornar indulgente o mais depressa possível. Haveria. uma ética. ao frio. Boris concordaria em participar de uma fita demonstrativa! «Ah!». de qualquer maneira o negócio está no papo. Mas o mau humor depressa se esvaiu porque se lembrou de que não a trouxera por acaso. sentia se mergulhar no doce exílio religioso da noite e dos arrabaldes. «e cursos gratuitos de psicologia do roubo. um pouco animado. Daniel parou. «Se chegar ao passeio em treze passos. Viu com prazer um bar cor de abóbora e verificou que estava no meio da Avenida de Orleães. Em sindicato.. precisando melhor a sua ideia. A luz contribuía muito para isso. Com uma sede social. «O que acontece».» Não podia falhar. mas o último passo tinha sido muito maior do que os outros. isto não tem a mínima importância. «Há muito tempo que deveriam ter se organizado. «Com a vida que levo. apenas. em câmara lenta. pela malícia sentenciosa das bochechas cheias. Filmoteca também e fitas que decomporiam. Não se iludia sobre os riscos. eis o que faltava.» O processo assentava quase inteiramente na psicologia. também denominado ovo de Colombo (porque é simples como tudo. era uma musselina ruiva bem ajustada.forças naturais. os movimentos mais difíceis. mas estava calmo e frio. à luz. ao calor. Ser lhe ia até muito útil. Cada novo aperfeiçoamento seria reproduzido. «Aliás. Os transeuntes parece que . pensou. «Isto dorme todas as noites».» Uma associação para o conhecimento mútuo e a exploração dos processos técnicos. à humidade.. «é que os ladrões são uns estúpidos. Tudo se classificaria por categorias. ou «processo de Serguine».» Deu os treze passos e parou justamente à beira do passeio.» Deitou um olhar irritado sobre a pasta. tradições. era de perguntar como ninguém tinha pensado naquilo antes. e Daniel esticou o passo. até ter na cabeça apenas uma massa branca com um perfumezinho de sabão de barba. mas tinha de ser descoberto). a teoria seria gravada em discos e traria o nome do inventor. Já não sabia se tinha vontade de o matar ou de deslizar confortavelmente dentro daquela alma bem regrada. para o mercado. dava lhe um ar de advogado. por exemplo. Era espantoso como as pessoas pareciam simpáticas na Avenida de Orleães. O homem levantou a cabeça. biblioteca. fascinado pelas longas pestanas estúpidas.» Atravessou a rua. não gostava de carregar aquilo. o roubo do mostruário pelo processo 1763. para as vielas sombrias de Saint Antoine. entre as sete e sete e meia da noite. fendera se como um esgrimista.

receoso. não sei porquê. entusiasmado. com perplexidade. Em particular discutia sempre com todos. dir se ia até que gostam disso. Não gostava dos comunistas. ensinando lhe o que era a liberdade. com um espanto divertido. com excepção de Mathieu e Ivich. pensar o que bem se entende. se pudesse subir ao tecto da marquise do bar. porque eram perfeitos. Boris . mas com a intenção de comprar. «No fundo. como se tivessem sido lambidas pelas chamas de um incêndio. a multidão passa através de meu corpo. como lagos artificiais. No Bulevar Saint Michel as pessoas olham também os mostruários.» E subitamente uma violenta e rápida borrasca desencadeou se lhe na cabeça. nas grades douradas do Palais Royal. essas fachadas lívidas e cheias de buraquinhos negros parecem manchas de tempestade num céu azul. Mathieu não era tipo que se enganasse. Mas logo parou. Boris coçou a cabeça. uma necessidade de ser mau. Certamente Mathieu não se enganara. E olham os mostruários com uma admiração inocente e inteiramente desinteressada. mas Mathieu tinha o desviado. como se arranjariam as mulheres para atirar colchões das camas sobre os soldados? Está tudo preto de fumo em volta das janelas. e eu penso em guardas municipais. Boris construíra a sua vida sobre esses alicerces. com esses era inútil. resolveu Boris. pensou. ser responsável apenas perante si próprio. Era escrupu J E A N P AUL SARTRE losamente livre. considerando friamente as coisas. analisar permanentemente o que se pensa dos outros. Mas com janelas tão estreitas. «Pôs me fora». veria os armários com espelho ao fundo dos quartos. «Hei de vir aqui todas as noites». não era recomendável analisá la demasiado. Que teria ido fazer aquele comunista a casa de Mathieu?». Na Faculdade sentira se atraído pelo comunismo. seria demasiado grave agora que Boris se decidira. Brunet então parecia um papa. não se zangam quando são empurrados. devo ter um temperamento inquieto». «Talvez Mathieu tenha percebido que seguia um caminho errado e vá entrar para o partido. no 14 de Julho. Vejo as janelas. Pois. «E no próximo Verão hei de alugar um quarto numa dessas casas de três andares que parecem irmãs gémeas e fazem pensar na revolução de 48. e perguntou a si próprio de onde vinham aqueles impulsos de tudo subverter que o assaltavam de vez em quando. pensou. eram sérios de mais. porque se deixava então de ser livre.saíram de casa para estar juntos. Quanto à liberdade. Boris compreendera imediatamente: é um dever fazer o que se quer. «Que estupor! Pôs me mesmo fora.» Divertiu se durante um instante em enumerar as consequências incalculáveis de semelhante conversão. não. não é triste. pensou de repente Boris.

E depois a atmosfera cheirava a uma melancolia levíssima do dia envelhecido que agonizava devagar em volta dele. mas não quis levar avante a investigação. e o pior é que Mathieu ainda por cima o descompunha. mais uma pequenina etapa. veria Mathieu. E dali a pouco. repetiu Boris rindo. exactamente entre o dia e a noite. angulosas. olhava os dedos. Cinquenta e sete quilos para um metro e setenta e três estava bem. Aliás. por causa dos tipos que folheiam os livros. que desempenhara esse papel durante três . Parou diante do espelho de uma bela farmácia vermelha e olhou a sua imagem com imparcialidade. Mais tarde sim. A noite ia cair. Boris tentava desviar a conversa. Demais. veria Ivich. «Estupor». haveria aquele furto. mas este percebia sempre. aquela obra prima. e dizia lhe: «Você tem qualquer coisa na cabeça». exactamente como se Boris se tivesse vangloriado de ser um génio. o mecanismo funcionou com um ruído sibilante e cuspiu um bilhete: cinquenta e sete quilos e meio. Era o seu ofício. porém Mathieu era tenaz como um piolho.sentia se satisfeito e balançou alegremente a pasta. estudantes de óculos que tinham sempre reservada uma teoria pessoal e acabavam por perder. No entanto. Uma lâmpada vermelha acendeu. dançaria. Tinha de ter cuidado. pensou. Já vira muito disso na Sorbona. fazia o possível para que Mathieu não percebesse. Boris tinha uma ideia. E viu os prós e os contras. engasgava se. que o roçava com uma luz suave e perfumes cheios de saudades. Sentia se de excelente humor e como que aveludado por dentro. não têm jeito para nada e são detectives particulares. era uma etapa. Achou se simpático. o estupor. Boris acabava por dizer tudo. Subiu para a balança automática e pesou se para ver se não tinha engordado desde a véspera. Ficou confuso por momentos: quinhentos gramas! Mas percebeu que tinha a pasta na mão. sempre se tinha alegrado quando Mathieu se punha a pensar. Boris sabia o por intermédio de Picard. às vezes. Perguntaria a Mathieu. e enchia o de perguntas. aquele mar tropical que recuava deixando o sozinho sob o céu pálido. mas era afinal um trabalho sóbrio e elegante. «É completamente idiota. «Sou modesto». raciocina como um cabo de vassoura». gaguejava ligeiramente. A Livraria Carbure tinha seis. Boris achava indecente um camarada da sua idade pensar por si. as teorias eram idiotas. de uma maneira ou de outra. Boris tinha horror ao ridículo. não queria perder e preferia calar se a passar por tolo: era menos humilhante. Desceu da balança e continuou a andar. Empertigou se e apressou o passo. mas por agora confiava em Mathieu. os falsos espertos. ele ia ao Sumatra. Aquele dia. olhava para os pés. Interrogou se também se era moral ter um temperamento inquieto. Mathieu corava. Era um suplício.

a tenaz de lareira e o ovo de passajar. que lhe lembrava a Idade Média. «Essa gente não sabe fazer as coisas. poderei consultá lo a qualquer hora do dia ou da noite». a ele não o apanhavam. a cinco é preciso que a escova esteja no meu bolso. pois não se podia considerar lucro as dezassete escovas de dentes que possuía. possuiria aquela jóia. Não somente era J E A N P AUL SARTRE preciso espiar. e. «Será meu. E depois havia um momento de inteira satisfação. Mais valia roubar uma caixinha de pastilhas de alcaçuz sob o olhar do farmacêutico que uma carteira de cabedal de uma loja vazia. Tinha de cair lhes em cima de repente acusando os de terem tentado enfiar um livro no bolso. mas o que sabia aprendera com método. Fausto e os cintos de castidade do Museu de Cluny. Sorriu. «Ora». levá lo ia para a biblioteca da Sorbona e de vez em quando. Abelardo. pois sempre considerara que quem trabalha com a cabeça deve ter um ofício manual também. era quando dizia: «Vou contar até cinco. O que lhe importava em cada caso era a dificuldade técnica. nem os vinte francos. o mais tardar. Dentro de meia hora. às vezes as informações obtidas eram falseadas. . Até ali não tirara nenhum proveito material dos seus empreendimentos. tivera de o fazer porque os pais lhe tinham cortado a mesada. e extorquiam lhe cem francos com a ameaça de um processo. como as páginas não estavam cortadas. era uma ascese. os tipos de monóculo. em cem ladrões. Naturalmente os infelizes perdiam a cabeça.» Em todo o caso. Ia colocá lo naquela mesma noite sobre a mesa de cabe ceira e na manhã seguinte o seu primeiro olhar seria para o livro. que se aproximam timidamente do mostruário. a bússola. enojado. como um inspector vulgar.» Ficava com um nó na garganta e uma extraordinária impressão de lucidez e de força. para o fundo de um corredor. mas ainda ficar de espreita para apanhar os ingénuos. disse aborrecido. murmurou. aquele tesouro indispensável. Boris sentiu se «embriagado». «vou dormir a casa de Lola esta noite. O benefício do roubo era exclusivamente moral. pela primeira vez. pois gostava da palavra thesaurus. ao interromper o trabalho de revisão. rapidamente. mas deixara o logo. Ia abrir uma excepção aos seus princípios. um escritório sombrio. para se manter em contacto com a realidade. havia de os vingar.» Ele não improvisava. oitenta improvisam. o interesse seria o móbil do roubo. um herbário. eram então levados. ao passo que agora era forçado a consultá lo de passagem nos mostruários. «Aquele thesaurus!». daria uma olhadela para se distrair. Neste ponto estava de acordo com os antigos espartanos. por exemplo.dias depois de ter reprovado em Geologia. Por certo não sabia tudo.

um dia também me hás de roubar a mim. depois sacudiu a cabeça e disse: «É estúpido!» Dentro de cinco anos. talvez duas. Uma rua? Era apenas um buraco com casas de ambos os lados. ao passar. se houver uma oportunidade. Contaria também a história a Lola para a chatear. não se roubam os íntimos. não estava ainda maduro. Com as quinhentas ou seiscentas que já conhecia. Não compreendia o que Mathieu podia censurar lhe. sete anos. em seis meses seriam trezentas e sessenta. Mas Mathieu. mas Boris não tinha muito a certeza de que ele os aprovasse. o que se podia considerar muito bom. Lola ficava doida com isso. ele dizia que sim para a irritar.» E ele respondia: «Quem sabe. talvez por causa dos castanheiros. teria as suas ideias próprias. mas não era desprovido de bom senso e sabia que isso era uma necessidade. Aliás era um recanto sem carácter. pensou Boris. Atravessou o Bulevar Raspail e entrou pela Rua Denfert Rochereau. havia na sua admiração algo provisório que fazia que ela fosse imensa. com excepção de uma tinturaria escura com cortinas cor de sangue que pendiam lamentavelmente como cabeleiras escalpadas. seria o seu próprio juiz. como Lola. quem sabe. Ela dizia lhe: «Eras capaz de roubar a tua mãe. é fácil de mais.. mas o metro passa aqui em baixo». é porque não tinha jeito. «Sim. as de Mathieu parecer lhe iam ingénuas e antiquadas. Que podia invocar contra o roubo. não contaria nada. e nos momentos em que Boris mais o admirava. uma olhadela amável à tinturaria e depois mergulhou no silêncio louro e distinto da rua. «Nem sei se ainda nos veremos. não podia entender certas subtilezas e depois era um bocado avarenta. mas sem servilismo. J E A N P AUL SARTRE O sangue subiu lhe ao rosto.Decidiu se a aprender uma locução por dia. Teria de mudar.» Boris não tinha nenhuma vontade de que esse dia chegasse e achava que era perfeitamente feliz. e tirou dessa verificação algum conforto. «Tenho de contar isto a Mathieu. A Ivich sim. com um vago mal estar. Boris deitou. ela compreenderia. detestava a mania de Lola de ligar tudo a si própria.. imaginou que caminhava sobre uma fina camada de asfalto e que talvez ela fosse ceder. mas não podia mudar ao mesmo . A Rua Denfert Rochereau aborrecia o muito. mas era normal. Se ela própria não roubava. Mathieu era uma etapa.» Naturalmente isso não tinha sentido. Mathieu era tão perfeito quanto possível. de deixar para trás uma multidão de coisas e de gente. Mas Mathieu não se mostrava muito à vontade nessas histórias de furtos. chegaria ao milhar. ele vai ficar doido.» Não. desde que fosse efectuado dentro da regra? Essa censura tácita de Mathieu preocupou o durante alguns instantes. Não era compreensível. Ria com indulgência quando Boris lhe falava.

«Vai ser preciso enfiar isto na pasta». gemeu Boris. «Picard há de me ensinar a atirá la». in 4. sucumbido. Mas bastou lhe olhar o título dourado que luzia docemente para sentir voltar lhe a coragem. Tinha como princípio agir friamente. queria largar tudo. «Oh!». entrar na loja. parecia sangue. com o coração contraído de desejo. Impôs a si próprio a obrigação de permanecer imóvel diante da loja de um negociante de guarda chuvas e de cutelaria. a olhar os objectos uns após outros. Era sempre agradável atravessá la por causa dos autocarros que se precipitavam sobre as pessoas como enormes perus e evitavam nos por um fio. metodicamente. tão grande que Boris ficou desanimado durante uns momentos. como um ladrão. A navalha descansava aberta sobre uma prancheta de madeira envernizada. Queria dominar a sua impaciência. Era uma verdadeira navalha espanhola. aproximou se da terceira mesa. elegante como um quarto crescente.tempo que Boris. Diante da livraria tinham colocado seis mesas cheias de livros. de lâmina espessa e comprida. mas o sentido do dever dominou o. pensou. Estes pensamentos aborreceram Boris e sentiu se satisfeito por chegar à Praça Edmond Rostand. «Que não tivessem tido a ideia de guardar o livro precisamente hoje!» Na esquina da Rua Monsieur le Prince e do Bulevar Saint Michel. Boris verificou com uma olhadela onde se encontrava o senhor de bigodes ruivos que rondava amiúde por ali e que desconfiava ser um detective. A Livraria Carbure achava se instalada na esquina da Rua Vaugirard com o Bulevar Saint Michel e tinha — o que auxiliava as intenções de Boris — uma entrada em cada rua. com um solavanco do corpo. Havia duas manchas de ferrugem na lâmina. Dicionário Histórico e Etimológico da Linguagem Popular e do Calão desde o Século XIV até à Época Contemporânea. na maioria. como recompensa se tiver bom êxito. tudo o que não fosse o brilho frio da lâmina deixou J E A N P AUL SARTRE de o interessar. de ocasião. «Uma navalha espanhola!». na montra. papel encorpado. era perfeito de mais. . mola. Depois. Setecentas páginas. cabo de osso preto. murmurou. com olhos de lobo. Ia atingir um estado de resolução fria e sem alegria quando viu de repente uma coisa que o mergulhou de novo no júbilo. enorme. sombrinhas verdes e vermelhas. comprar a navalha e fugir. já não podia mudar. tudo triste. lamentável. não era prudente chegar de rosto corado pela esperança. guarda chuvas de cabos de marfim. parou. Daqui a pouco. Boris contemplou a longamente e o mundo perdeu a cor à sua volta. carregando a sua presa. tremendo de prazer. alguns em forma de cabeça de buldogue.°. Hei de comprá la daqui a pouco. e ainda por cima Boris pôs se a pensar nas pessoas idosas que compravam aqueles objectos. O livro ali estava. entre dois guarda chuvas.

naquela camisa de linho. Boris murmurou com uma voz engasgada.» Em seguida tornou se repentinamente sério e começou a contar: «Um! dois! três! quatro!». Boris apreciava a elegância sóbria e despreocupada. parecia mergulhado na leitura. Tocou na encadernação com a ponta dos dedos. Boris abriu o dicionário ao acaso.. pensou Boris. que está a ler? Parece fascinado. e Boris . Devia ser ligeiramente míope. enlevado: «O cura era da coisa como um zangão. é um móvel. Sereno desatou a rir. Leu: «Ser de. «mas agem cedo de mais. Boris irritou se e resolveu observá lo severamente. — Bom dia — disse Sereno —. Traduza se: o cura apreciava a bagatela.. Era Daniel Sereno. Boris largou a leitura e pôs se a rir sozinho. tomar uns ares de interessado que hesita e acaba por se deixar tentar. Atrás dele certamente o senhor de bigodes devia estar a espiá lo. mas fingindo se indiferente: J E A N P AUL SARTRE — É uma obra curiosa. Não tinha o ar de sacana habitual. De costume. uma ousadia calculada que chocava um pouco Boris. como que de propósito.. Havia sem dúvida naquele fato de tweed quase cor de rosa. «Apanhado». que troçaria dele. «Não é um livro. não podem provar coisa alguma.» Voltou se devagar. apesar de suave como manteiga fresca.. os que folheiam livros deixam nos sobre a mesa com receio dos detectives particulares. pensou. Por honestidade de espírito. para: ser levado a apreciar.. Exemplo: O cura era da coisa como um zangão. Mas era evidente que Sereno considerava que tudo lhe era permitido. enquanto uma alegria austera e pura lhe fazia o coração pular. Mas tinha um ar de sacana. Na verdade mostrava se até amável de mais. Locução usada comummente hoje em dia. Esta locução parece originária do Sudoeste da França. surpreendeu Boris a folhear o dicionário de calão. num gesto familiar e terno.«Histórico!» repetiu Boris com êxtase.» As páginas seguintes não estavam cortadas. com sangue frio. Era necessário iniciar a comédia. Repetia. por "ser invertido". Uma mão pousou lhe sobre o ombro.. um amigo de Mathieu. Tinha um riso quente e agradável. Pegou no volume com as duas mãos e ergueu o até aos olhos. Boris admirou lhe a desenvoltura. Sereno sorriu. Sereno não respondeu. com admiração. isso tinha. confessou que Sereno era perfeitamente elegante. folhear o volume. Diz se também: "ser do homem". naquela gravata amarela. mas era preciso desconfiar. Boris vira o duas ou três vezes e achava o admirável. Devia estar a preparar algum golpe sujo. Mas o conjunto era inatacável. e isso iria ter por certo aos ouvidos de Mathieu. — Parei um pouco ao passar — respondeu de maneira embaraçada. E depois.

E. pensou que convinha falar o menos possível. quase de maníaco. Deve ser muito hábil. pensou com angústia. que se sentiu corar pela segunda vez. Queria perguntar a Sereno o que entendia por «gestos cheios de ângulos».. e Boris parou.» A Livraria Carbure fechava às oito e meia. creio eu — continuou Sereno. estudo Filosofia — respondeu Boris. Os olhos eram incomodativos. não estava apressado. os gestos têm uma moleza harmoniosa que não engana. À primeira vista pareciam imbuídos de ternura. «Vai imaginar que sou um idiota». pensou Boris resignadamente. sentia nascer dentro de si uma estranha e descon certante doçura. atabalhoadamente. Tinha a impressão de que Sereno desconfiava daquele J E A N P AUL SARTRE . «Está a querer pregar me uma partida».achou o simpático porque abria inteiramente a boca quando se ria. além disso. Mas naquele instante o relógio da Sorbona soou. — Ser do homem! É um achado de que me servirei oportunamente. — Um pouco — atalhou Boris. Ao passo que você. Boris escutava atentamente. estou frito. Detestava falar. mas não se atreveu. Disse: — Confesso que não percebo nada de filosofia. — Você é do homem. Sereno surgia sempre fora de propósito. Além disso. Sei quando um tipo é do homem — a expressão divertia o visivelmente —. Sereno não parecia com vontade de se ir embora. — Ser do homem! — disse Sereno. — Está a estudar Filosofia. não. «Oito e um quarto». daquilo de que gostava. gelado. — Imagino que gosta disso — continuou Sereno. sob aquele olhar insistente. Os seus gestos são vivos e precisos. desesperado. Virou a cabeça e fez se um silêncio difícil. sacudir. e manteve se atento. Estava contente por ter um pretexto para romper o silêncio. descobria se neles qualquer coisa de duro. pensou Boris. Pensou: «Estou a ser estúpido. — Sim — disse Boris. tinha vontade de se agitar. mas cheios de ângulos. o que fazia parte da sua natureza demoníaca. pular para fazer com que aquela vertigem de doçura se dissipasse. «Se ele não se for embora imediatamente. Era impudico. — disse Boris sem fôlego. Sereno tinha uma voz de baixo muito agradável. É sempre interessante ouvir alguém explicar como nos vê.. mas porque é que não se vai embora?» Aliás Mathieu prevenira o. mas quando se olhava melhor. Estava a observá lo há um bom bocado e estava seduzido. Você deve perceber. — Sim. Serguine? — Eu. — Não core — disse Sereno (Boris sentiu se cor de sangue) — e saiba que um tal pensamento nem sequer me passou pelo espírito. Largou o livro sobre a mesa.

eu perdia o pé. — Mathieu falou me dele — observou. e Boris mordeu os lábios com despeito. não duvido. Boris teve de reconhecer que o golpe atingia o alvo. Boris punha se a trabalhar ao lado de Mathieu. Só que somos velhos amigos e eu imagino que ele reserva as suas qualidades pedagógicas para os jovens. Deve ter ouvido A falar dele. Detestava aquele tal Hourtiguère. Recruta os seus discípulos entre os próprios alunos. Sereno riu francamente. Eu estudei. e suspeitou que Sereno queria levá lo a falar de Delarue. Não tinha ciúmes de Hourtiguère. — Não estava a pensar em si. em geral. — Eu não sou discípulo dele — disse Boris. vira apenas uma fotografia que o mostrava como um rapagão infeliz vestido com calças de golfe. Creio que foi Delarue quem me fez perder o gosto pela filosofia.» Depois ficava durante um bom momento a sonhar. a fim de repeti lo mais tarde a Mathieu. Boris sentiu se magoado com o tom irónico. Sereno olhou o com uma expressão atenta e penetrante. No entanto. estavam sempre juntos. que ainda se arrastava em . mas revoltou se e disse. Mas a mini não souberam torná la agradável.pudor e voluntariamente se mostrava indiscreto. e a sua admiração por Sereno aumentou. Pelo contrário. Mathieu tomava às vezes um ar compenetrado quando Boris ia ter com ele ao Dome e dizia: «Tenho de escrever a Hourtiguère. secamente: — Mathieu explica muito bem. aquele alto e louro que partiu há dois anos para a Indochina. mas quando principiava a dá las. como toda a gente. aplicando se como um recruta que escreve à pequena lá da terra e desenhava silhuetas no ar com a caneta. Pensava em Hourtiguère. Você não possui cara de discípulo. que Mathieu conhecera antes de o conhecer a ele. mas gostaria de lhe ter dado um soco na cara. por cima da folha branca. Sereno sorriu e disse: — Vê se logo que não é um amor puramente cerebral. parecia me que nem já sequer compreendia a minha própria pergunta. há dois anos era a grande paixão de Mathieu. Na verdade acho que tem sorte. — Não duvido. e uma dissertação filosófica. Admirou Sereno por se mostrar tão gratuitamente sacana. gostava muito daquilo. não sabia. mas com ódio. Até de Kant. nada sabia dele. evidentemente. sentia por ele uma piedade misturada de uma ligeira repulsa (aliás. Pedi lhe várias explicações. Boris. Era verdade. perfeitamente idiota. — Porquê? — Não sei — disse Boris. Boris irritou se. Ele sabe de mais para mim. e Sereno acrescentou com vivacidade: — Estou a brincar.

Sereno continuava a sorrir. — Os que estudaram Filosofia afiguram se me ter tirado dos estudos grande alegria. Era um tipo esquisito e admiravelmente belo. e era divertido conversar com ele porque tinha de jogar com firmeza. mas que levasse a sério as coisas. mas o sentimento do dever venceu o: — É que estou com pressa — disse num tom que a tristeza de não aceitar tornara cortante. Mas por nada deste mundo desejara que Mathieu o tratasse mais tarde como tratava agora Hourtiguère. O rosto de Sereno mudou. — Mas sim! — disse Sereno. dispõe de um minuto? Poderíamos tomar alguma coisa ali em frente e falaríamos do nosso projecto. — «Nosso» projecto. — Tinha de ter idade sobre mini. — Ora.. Sereno encolheu os ombros. Desculpe tê lo . desconfiado. — Diga me. numa atitude indolente e cómoda. foi o que me faltou. A Boris observava com angústia um caixeiro da livraria que começava a empilhar os livros. não quero incomodá lo. Devia ser uma armadilha. que Mathieu fosse apenas uma etapa na sua vida — e isso já era bem penoso —.» Admitia. se imaginasse que um dia ele pudesse vir a dizer a um jovem filósofo. com aquela expressão compenetrada e melancólica: «Hoje tenho de escrever a Serguine. Boris não respondeu. Riu como que assaltado por uma ideia agradável. — Você intimidar me ia. Não se via. era uma permanente impressão de perigo. — Muito bem — disse —. — Estou persuadido que sim. Apoiava se com ambas as mãos à mesa. se necessário. Sereno parecia ter se instalado. Boris mal o podia olhar de frente. Boris não pôde deixar de se rir e confessou francamente: — Acho que não saberia fazê lo. a dar lições a Sereno. Não um sábio. parecia encantado com a ideia. — Um iniciado. — Sou muito preguiçoso — disse Sereno. Ficaria estrangulado de timidez. vejamos. Mas tinha um olhar estranho.cima da mesa de Mathieu). J E A N P AUL SARTRE — Lamento amiúde ser tão ignorante neste terreno — continuou. Debateu se por momentos. absolutamente nada. que devia ser muito mais inteligente do que ele próprio e lhe faria por certo imensas perguntas embaraçosas. Pensou com uma resignação fria que deviam ser oito e vinte e cinco. Um tipo assim como você. Preferia nunca mais ver Mathieu.. não seria divertido se eu tivesse algumas lições consigo? Boris olhou o. mas não podia aceitar ser ele próprio uma etapa na vida de Mathieu. Gostaria de acompanhar Sereno até o Harcourt.

um jovem monge. Mathieu deve tê lo olhado por baixo. três. uma beleza . menina.» Daniel repetiu: «De morrer a rir». «Muito bem. que subia o Bulevar Saint Michel. ser apenas esses passos. um monge russo. um rosto austero e atraente. «Ele falou lhe de mim! Era uma coisa in to le rá vel. não sei. ele teria ido dizer tudo a Mathieu e ter se iam rido de mim. desmontado. tenho a certeza de que ele os previne contra mim.. «uma excelente lição. cumprimentos a Mathieu. como se ele não fosse para os outros um corpo ligeiramente gordo. com ar profundo. ligeiramente arqueado. — Um. quatro. a mãe não deixa. pensou satisfeito. vai passear esses modos de comunhão solene. e enfiou as unhas na palma da mão. precioso como um burro carregado de relíquias. quando lhe disse que não compreendia a filosofia. é afectado. quer um bombom. Ah! uma pequena cabeça nada mais. felizes. palavras. Voltou se bruscamente e partiu: «Tê lo ia magoado?». gosta de filosofia. como hóstias. Depois pensou que não podia perder nem mais um momento. explicando o meu temperamento. atirou lhe o lenço.» Parou tão bruscamente que uma senhora chocou com ele com um gritinho. E aquele olhar que me deitou. As palavras fugiam. de lhe falar com confiança.. Tinham no julgado. não sei. arregalando os olhos e pondo a mão em concha no ouvido para nada perderem do maná divino. leva o ao café e o desgraçado engole tudo. de boca aberta naturalmente. Tenho a certeza — já o tinha pressentido na época de Hourtiguère —. pensou Boris. não sei e como o havia de saber. se tivesse podido existir naquele dia como nos outros dias. Uma avalancha de palavras que fugiam de todos os lados. Acompanhou com um olhar inquieto os largos ombros de Sereno. Aos cinco pegou ostensivamente no livro com a mão direita e dirigiu se para o interior da livraria. e ele não tinha defesa. Passos. essas palavras. Imbecil. A mãe proibiu me de falar com desconhecidos. dissecado. com bochechas já pesadas. Adeus. Alioscha. num café de Mont parnasse. não desconfiava de nada. constrangido. de fazer suar de raiva. cinco. os passos soavam dentro da cabeça. imaginá los ambos bem dispostos. estou contente por me ter mandado passear. dois. não me tinha enganado. tudo era preferível ao J E A N P AUL SARTRE silêncio. foi bom». Ora. já não se dava ao trabalho de ser delicado no fim. não sei. é de morrer a rir.. o pobre cordeiro! Mathieu faz de sultão na classe. sem memória e sem consequência. Daniel fugia de um corpo frágil.. se tivesse cometido a loucura de me interessar por ele. olhos cor de avelã. DADE DA RAZÃO como se fosse apenas uma transparência. um desses antros infectos que tresandam a roupa suja. os cafés e teorias. e barata. sem se esconder.detido tanto tempo.

devia ser o pesadelo de alguém. negligentemente. não devia.. olhava os transeuntes nos olhos. Estendeu me a mão da primeira vez. cobriu tudo. que paciência. ele está em casa. mas não contra mini. Não devia ter deixado de falar. não é uma consciência. e talvez. estava lá dentro. Felizmente a cólera irrompeu. Sereno.oriental que fenecia. e depois cem. bem no fundo do silêncio havia o rosto de Serguine. olhando me muito. sabe ver. sentiu se reanimado por uma raiva alegre e a fuga recomeçou. a cólera hesitava. Mora no n. de alguém que acabaria por acordar. ninguém. o desfile de palavras reiniciou se: odiava Mathieu. eu existia naquela carne. e disse: «Mathieu falou me tanto de si. esta luz grega e bem doseada.» E eu olhei a também fixamente. e depois nove. se tornou silêncio.. O vento caíra. por detrás daquela fronte obstinada. como uma rua deserta na madrugada. «E daquele pobre rapaz ele fará um macaco amestrado!» Caminhava em silêncio. um sorriso cruel. arranja discípulos se isso te diverte. J E A N P AUL SARTRE Doce rosto obscuro. é um psicólogo. era o que lhe deixava. visto que me conhece há quinze anos e é o meu melhor amigo. o corretor Sereno.. acariciava o seu ódio: «Mas cuidado. apagar. estava fascinado. puta! Agora ela já não acredita numa só palavra do que ele diz de mim. produziu se um rasgão na trama das palavras.» Endireitou a cabeça. que fervor não seriam necessários para iluminá lo ligeiramente.. Não. tem o direito de falar de mim. Ralphs e Bobbys. nunca está só. vangloria se disso. e Mathieu roubara lha. Mas Bobby sabe. lavar. Sereno aquilo. seria preciso correr por toda a parte. tirava tanta vaidade dessa vitória que durante um segundo esqueceu se de se dominar. Sereno isto. no meio daquela multidão atarefada. rasgão que se ampliou aos poucos. julga se Goethe. Silêncio pesado e vazio. se se pudesse viver entre cegos. acariciante como uma consciência limpa.. como uma chaga. Sereno. Palavra de honra. Bobby é um camarão. E não vai privar se desse prazer. Ah! se ele morresse! Mas qual! Passeia livremente com a sua opinião a meu respeito dentro da cabeça e infecta todos os que se aproximam dele.» Uma nova onda de cólera .. eu raspei Marcelle até aos ossos.. se estendeu. Sorriu com satisfação. «Aí está um camarada que deve achar muito natural existir. com Ralph.» Era a última. no fundo daqueles olhos. que ele se sentia espantado de existir. e depois três. somente os passos lhe ecoavam na cabeça. Mathieu não. Quando encontra alguém são duas pessoas para as quais eu existo. A solidão era tão total sob aquele céu. este céu virtuoso foram feitos para ele. Pensou: «Eu teria podido. Ele não é cego.. raspar.» Pensou: «A minha última possibilidade.° 6 da Rua dês Ours. senão prego te uma boa partida. Ah!. Ralph sabe. raspar um por um. que não faz perguntas a si próprio.

já não pisava o chão. coitado. seca como um choque eléctrico. talvez eu pudesse ajudá lo a reflectir. como uma bicicleta. à direita e à esquerda. derrubando os frágeis obstáculos surgidos no caminho. A maldade só se mantinha em equilíbrio a toda a velocidade. Havia qualquer coisa que tentava timidamente renascer. a velocidade agarra pela nuca. calmo. seu espanto esmagador.. não podia parar. voava.. finalmente calmo. «Ter ainda discípulos? Um chefe de família não encontra facilmente quem apanhar. transbordando de alegria. no entanto se houvesse um bom amigo. aguda. não. de uma insondável consciência pura sob o céu indulgente e familiar. «Sou mau».avolumou se. «Em suma».» Seria divertido se ambos não fossem da mesma opinião a esse respeito. «eu sou o anjo da guarda. mas a corrida continuou mais rápida ainda.» Mas os miúdos não compreendem este tipo de dever. eufórico. seria um grande serviço que lhe prestaria. o desprezo do rapaz. mas.. essa alegria que não parava. é intolerável e delicioso. soergueu o. vou estragar lhe a vida».» Foi um arcanjo. e de repente a ideia surgiu. só lhe resta arranjar um filho. barreiras que se quebravam secamente como galhos mortos.. se enquanto ele percorria as lojas de ervanários. resignado. pensou Daniel. fazer com que as coisas não lhe fossem tão fáceis. rude. «Mathieu é um homem de bem.. o anjo do lar. destacava se de repente de si próprio e partia como uma flecha. um amigo comum para lhe dar coragem. uma vida inteira para se felicitar pela boa acção... pensou. Não é mau. Mas se houvesse uma só possibilidade de ela desejar o filho. aumenta a cada minuto. Era o rosto de Mathieu.» O Senhor e a Senhora Delarue.. um arcanjo . masculina. rola se sem travões. rutilante: «Mas. o seu rosto franco de boa fé.» E a cara de Serguine quando Mathieu lhe fosse participar o casamento. «E se ela não quisesse. mas. Ela não ousaria dizer lho.. entregue à alegria de se sentir terrível..» Recordava se da expressão. com que Marcelle lhe dissera uma vez: «Quando uma mulher está perdida. é jovem ainda. a cair em si. O pensamento saltou lhe à frente. ela no fundo do seu quarto cor de rosa desejasse ardentemente ter um filho. Pois então tem de casar com Marcelle. Depois disso que descanse sobre os louros. E da raça de Abel..» Era tão vertiginoso aquele repouso lânguido de uma consciência pura. alerta. e era embria gante essa alegria transpassada de temores. tem a consciência do seu lado. A maldade era uma impressão extraordinária de velocidade. pedir lhe ia amanhã mesmo que casasse com ela. «Vai casar se?» E Mathieu resmungaria: «As vezes têm se certos deveres. sou um sacana.. «Mathieu. têm a honra de participar. acabado.

Miguel e na mão esquerda um pacote de bombons para Mme. modesta. não era absolutamente isso. Mme. e as palavras não eram desprovidas de certo encanto sombrio: «Um tipo lixado.» Sentia se livre como o ar.» Imaginava lindos desastres. — Arcanjo — disse Mme. Fugiu com a vivacidade de uma rapariguinha. e não de desespero. imóveis e correctas. Tratava se de uma pequena miséria. tinha o coração ainda cheio de preguiça e de noite. era preciso virá la e revirá la. gaúchos de camisa de seda tocavam em cima de um estrado. Afastou a cortina verde. desceu os dezassete degraus da escada e estava numa cave escarlate e rumorejante. Duffet. Mathieu passeava nessa noite e pensava: «Sou um tipo lixado. gracioso. Cheirava a homem. como a um incurável. com voz profunda. Não era isso. Marcelle enlaçou a pela cintura e reteve a durante um segundo. Mathieu hesitou.de ódio. E de repente aconteceu. farejá la com circunspecção. 6. como pela manhã quando ficamos de pé sem saber como nos levantámos. com manchas violáceas. filha ingrata. e Daniel . por momentos. Mathieu perdia a. Ouviu ruídos. Inclinou se sobre a mão de Mme. Duffet acariciou lhe os cabelos e afastou se. A carne era enrugada. No limiar da porta. Duffet e beijou a. era a noite. concedia a si próprio todas as licenças. um corpo alto e desajeitado. Recordou. suicídio. Pelo contrário. Ainda me zango. vou me embora — acrescentou. que pareciam esperar qualquer coisa: dançavam. — Bom. Diante dele havia pessoas de pé. — O meu maior prazer é que os aprecie — disse Daniel. era até confortável! Mathieu tinha a impressão de que acabariam de lhe conceder todas as licenças. um arcanjo justiceiro que enveredou pela Rua Vercingetorix. entrou. como na missa. revolta. Quando saiu. não. A grande mercearia da Rua Vercingetorix estava ainda aberta. «Nada mais tenho a fazer senão deixar me viver». De vez em quando. e o negro precipitou se ao seu encontro com o boné na mão. tranquila. Duffet. mas a imagem desapareceu logo e foi Bobby quem voltou a aparecer. um rosto magro inclinado sobre um livro. um tango. — Não. havia muitos homens na sala. pensou. — Vou arranjar a cama daqui a um minuto — disse Marcelle. Mas a ideia voltava depressa. as toalhas manchadas de um branco duvidoso. beijando Marcelle na testa. «Rua dês Ours. enternecida. Leu «Sumatra» em letras de fogo. tinha na mão direita o gládio de fogo de S.» Era uma ideia nova. No fundo da cave. — É demasiado gentil. Deixo te com o teu arcanjo. estraga me com mimos. ficavam apenas as palavras. u ma grande flor cor de malva subia para o céu. outras saídas extremas.

Olhava o com uma ternura de proprietária. sim. parecia satisfeita de tê lo para ela sozinha. Mas via se que estava lisonjeada. e que se esvairia ao menor gesto. Virou se para ela e viu que lhe sorria. — Mudei. No entanto era magra. enrolada sobre a cama. «A máscara da gravidez». flutuando como um vestido demasiado largo. não é verdade? — Gosto mais de si agora — disse Daniel. Sabe muito bem que mudei.. pensou Daniel. com rancor. Olhe que não está com a minha mãe! Acrescentou: — Mas era uma bela rapariga. — Era encantadora — disse com prudência —. meu querido arcanjo. Sentia sempre uma certa angústia ao encontrar se à beira dessas longas conversas cochichadas e ter de mergulhar nelas. Tivera a impressão de que ela nunca sairia. A porta fechou se. — Diverte me sempre vê lo com a minha mãe. — Porque fez um gesto de rapariguinha para se olhar ao espelho. — Nunca deixa de lisonjear! . amuada. Empertigou se ligeiramente e deitou um olhar ao espelho. É tão comovente quando por acaso se ocupa de si mesma. — Eu também vou perguntar porque se está rir — disse ela. mas não mudou nada..acompanhou com um olhar frio a sua silhueta miúda. — Tinha qualquer coisa de mole na boca. Ele sorriu.. — Você. — Que é que a faz sorrir? — perguntou. «Vou ter asma». estendendo lha. é uma vergonha não poder deixar de seduzir os outros. Marcelle riu se. Você tem um ar muito mais interessante! — Nunca se sabe quando você fala a sério — disse. Marcelle corou e bateu os pés.. que sempre quis saber como eu era quando era jovem. Daniel pegou lhe. Você é irresistível. O gesto desajeitado e sem pudor irritou Daniel. Era Marcelle com dezoito anos. lisonjeiro. tinha um vago receio de ficar a sós com Marcelle. Havia naquela vaidade uma boa fé infantil e desarmada que contrasva com o seu rosto de mulher de trabalho. Ela levantou se. Marcelle era um odor espesso e triste. Irritava o que ela se mostrasse tão contente. Daniel ergueu os olhos e percebeu lhe o olhar ansioso. Parecia uma marafona de boca mole e olhos duros. mas não se sentiu aliviado. — Tenho uma coisa para lhe mostrar. — disse. Foi buscar uma fotografia que estava sobre a lareira. pensou. E aquela mesma carne flácida. Pigarreou.

— Marcelle.Riram ambos. Fez um gesto com o pescoço. é a terceira vez que ela lhe conta essa viagem. com um riso indignado.» Estava em boas condições para o momento oportuno. eu não devia dizer lhe. Mathieu era liso e seco como um osso. «Pronto!» pensou ele. Daniel sabia imitar muito bem quando queria. — Pronto — disse Marcelle. e Daniel pensou. mas sentia se vazio e mole. não sei bem o que há na sua cabeça neste momento. Mas ficou novamente sério e Marcelle parou de rir. — Conheço as histórias dela. sem muito entusiasmo: «Vamos. Ela inclinou se para trás.. podia se detestar. Marcelle interrompeu o. — Marcelle — observou —.. O quarto era uma fornalha. mas gosto de ouvi la contar. — Ouça.. é tão importante e queria esconder me? Já não sou seu amigo? Marcelle fez um gesto. Pensou em Mathieu para se encorajar e ficou satisfeito de encontrar o seu ódio intacto. — Marcelle! Olhe para mini. É do calor. Um silêncio incómodo pesou sobre ambos. — Ele. E escuta a sempre com o mesmo ar de interesse apaixonado. — A sua mãe diverte me — disse Daniel. Olhou a com ar de censura e ela estremeceu ligeiramente sob aquele olhar. isso irrita me... Oh! Tinha me jurado que não dizia nada. tão nervosa. —— É SUJO. «Ei la nua. — O quê? O quê? Que é que há? — Não vai zangar se com Mathieu? Ela empalideceu. Não se podia odiar Marcelle. Você parecia tão preocupada. Ele avançara o busto e encarava a com uma expressão preocupada. — Estou um pouco tonta. Ela devolveu lhe o olhar. e Marcelle desatou a rir.» Já não se tratava de . r A Daniel inclinou se um pouco mais e repetiu com uma expressão desolada. Marcelle teve um riso desajeitado que lhe morreu imediatamente nos lábios. dificilmente sustentava o olhar de um homem. para ser franca. — Muito cansada! Observava a há pouco enquanto a sua mãe contava a viagem a Roma. Marcelle pestanejou. mas tinha a cabeça agitada por pequenas sacudidelas rígidas. tem gestos que me encantam. — E você que está estranho esta noite! Que é que tem? Ele não se apressou a responder. Daniel divertia se muito.. Daniel. — Parece cansada.

Daniel estava com calor. Baixara o rosto.) Não sei. Ele riu jovialmente. Ela fez um gesto brusco de cotovelo e de antebraço que cortou o ar escaldante do quarto.. que tresandava a carne. — Tinha. bruscamente. de que posso dispor sem preocupações. não é sujo.. sim — disse Marcelle —. O nariz afilado.arcanjos nem de fotografias antigas. Pensei nela toda a tarde. Daniel. tem de nos emprestar. — Você não compreende — insistiu Daniel. você é que deve saber. — Deve ter horror de mim. Pelo menos antes de ter visto. — Então. tristemente. — Telefonou me há uma hora — respondeu Marcelle.. Marcelle amarfanhava o lençol e os seios palpitavam lhe. tinha de procurar muito. nós não nos consultamos. — Viu Mathieu depois de ele me ter deixado? — perguntou Daniel. — Quero dizer: deseja do fundo do coração que eu empreste o dinheiro? Marcelle ergueu a cabeça e olhou o surpreendida. — Não — disse —. Deve . estava na defensiva. devo emprestá lo? — Mas. Sofria. Havia agora um novo elo entre eles. Está a magicar nalguma coisa. — Sei. e o outro protesta se não está de acordo. sei — atalhou Daniel. — Horror? Eu? Marcelle. — Eu só queria saber se Mathieu a tinha consultado. Endireitara se e tornara se dura. meu caro Daniel. Tenho quinze mil francos.. (Ficou embaraçada. perdera a máscara de dignidade sorridente. — Naturalmente. — Tinha? — repetiu ela admirada. Era apenas uma mulher grávida. — Eu sei como Mathieu aprecia as suas opiniões — disse. Isto é — disse ela com um leve sorriso —. Um diz: Fazemos isto ou aquilo. antes de encontrar qualquer coisa que me leve a ter horror de si. — Tinha. — Talvez. — Isso é uma grande vantagem para quem já tem opinião. como um cordão umbilical. passou a mão pela testa suada. bem sabe como somos. o outro é empurrado. mas não queria emprestá lo. — Está estranho. Marcelle não respondeu. Tomou fôlego e acrescentou: A — Marcelle. rígida. Houve um silêncio. sim. — Ele disse lhe que eu recusei o empréstimo? — Disse que você não tinha dinheiro. não tem tempo para pensar. — Mas imagino muito bem a cena. — Posso perfeitamente. Acabou por dizer: — Eu queria tanto tê lo afastado disto tudo! Calaram se.

Mas ela não dizia nada. — Não foi assim? Marcelle não o olhava. Virara a cabeça para o lado do lavatório e Daniel só lhe via o perfil. «Ela palpita».. — Não falemos mais nisso. — Eu sei — disse Daniel com amargura.. Mandar Ihe ia o dinheiro e tudo estaria acabado. Eu sei quanto isto é penoso. muito desagradável. — Principalmente para si. E tenho direito a ter uma opinião — acrescentou com firmeza — porque a posso ajudar. Depois esse prenúncio de desconjuntamento parou.» — Basta lhe dizer uma palavra. «parece cheia de gratidão!» Como «Malvina». — Mesmo que não lhe cause repugnância. — Não me atrevo a olhá lo — continuou.. E homem. Quase desejava que ela dissesse que sim. não se recuse a falar. Depois corou violentamente. — Um arcanjo assusta se facilmente.ter se encolhido todo como faz nessas ocasiões e depois deve ter dito a engolir a saliva: «Então apelamos para os grandes meios?» Não deve ter hesitado e aliás não podia hesitar. tomou lhe a mão. Daniel não a perdeu de vista. pensou. — Mais ou menos — disse. não terá sido um pouco precipitado tudo isso? Não deve saber você mesma o que quer? Inclinou se novamente para Marcelle. Daniel pensou: «Está desesperada. Mathieu receberá o dinheiro amanhã cedo. Daniel. Escute. tenho a impressão de o ter perdido.» Ela estremeceu de novo e apertou os braços sobre os seios. o seu melhor amigo. por favor. só você se interessa por mini! Ele levantou se. estava vermelha. Daniel. veio sentar se perto dela. Marcelle. Daniel! «Pois não! Eu sou a pureza. quando lhe batia. Nada tenho de arcanjo. voltara se para ele e parecia esperar.. Oh! Daniel. pensou Daniel. mas contemplava o sem rancor. não me faça desempenhar este papel ridículo. «Oh!».. .. Era preciso ir até ao fim. Tinha um olhar sombrio. Mas já não sabia se o seu prazer vinha da humilhação que impunha a Marcelle ou de ser humilhado com ela. E ele. Isto é. Você é tão diferente.. Mas. Dir se ia que ia desconjuntar se.» — Marcelle — disse —.. com um espanto desarmado. — Você pergunta me isso.. o corpo fincou se lhe à beira do leito. Voltou a cabeça para Daniel.. imóvel e pesado. Se tem a certeza do que quer. Disse para si mesmo: «Mais fácil do que pensava. Marcelle tem realmente a certeza de que não quer a criança? Verificou se uma rápida derrota através do corpo de Marcelle. sou simplesmente um amigo.

.. era imperceptível. — Pois é. aturdida. — Porque não? — perguntou. os outros já me dão muito que fazer. preciso de ir arrumar a cama da minha mãe. era antes como se fecundasse o ambiente em torno dela. depois achou melhor desatar a rir. «Juro que ele há de casar se com ela. Neste momento estou a pensar apenas em si. Com o olhar no vazio tinha um ar de boa fé que a rejuvenescia. Essa criança talvez seja um desastre. Daniel ergueu as sobrancelhas.. — Marcelle. Marcelle parecia lutar contra as lágrimas. — disse Marcelle.» Marcelle voltou com uma expressão de desespero. é lhe indiferente que se suprima a criança? Marcelle teve um gesto de cansaço. nem sequer a consultou. que não era feliz. Havia às vezes cartas divertidas. olhava para os joelhos. Disse com voz alterada: — E se eu tivesse vontade de ter um filho? Que adiantava? Não posso dar me ao luxo de ter um filho sem casar e ele nunca se casará comigo. Limpou as mãos no lenço. Daniel pensou na jovem estudante que vira na fotografia. não chegava mesmo a ser um cheiro. bilhetes de Mathieu muito conjugais. Esforçou se por apertá la mais fortemente. Não vale a pena». está cheia de vontade de parir.» Mas naquele rosto ingrato os próprios reflexos da mocidade não eram comoventes. Conservou a nas dele.. A gaveta estava vazia. ergueu se rapidamente e abriu a gaveta da mesa de cabe ceira. — Que fazer? Daniel pensou: «Ganhei. — Desculpe. — Não sei o que se pode fazer — disse com voz seca. Marcelle. Sufocava. Largou lhe bruscamente a mão e afastou se um pouco.. — Reflicta — repetiu. — Porque não há de casar consigo? Marcelle encarou o.. Era o ritual. ou intermináveis lamentações de Andrée. sem falar.. Dir se ia que de perto Marcelle tinha um cheiro. foi ignóbil. é preciso que não venha a acusar me mais tarde por não ter reflectido.Uma mão mole e febril como uma confidência. — Tem realmente a certeza? — Não sei — disse levantando se. Aliás. Daniel acedeu silenciosamente. mas talvez uma sorte. como que para lhe espremer todo o sumo.» Estava satisfeito de ficar só. «Ganhei.» Mas não sentiu nenhum prazer. continuou com um riso seco. «Já foi jovem. e Daniel voltou a sentar se na poltrona. Podia recuperar um pouco de ódio. — Pois é. pensou quando a porta se fechou. — Veremos mais tarde. «Não vale a pena odiá lo por bons motivos.. . «Ganhei». E depois havia aquela mão suada.

Carne inimiga. Marcelle. e dentro de um mês será mulher dele. carne gorda e nutrida. — Mas se fosse esse o único meio de conservar a criança? Marcelle pareceu perturbada. Parecia ruminar. Daniel repetiu com voz dura. Era o momento decisivo. Ergueu se um pouco e levou a ao ventre como se estivesse com dor de barriga. realmente era me totalmente indiferente não me chamar Mme. angustiada. Se ele quiser. — Não. É uma espécie de ruptura de contrato. não deixava que ele estragasse . Daniel calou se. libertou me.. era uma coisa subentendida entre nós. Eu digo em relação a Mathieu. Marcelle. Marcelle disse. De repente falou com paixão: — Ah!. se eu tivesse um filho. — Marcelle não respondeu. Delarue. apertava o ventre.. como toda a gente. Pensou que Mathieu a desejara e sentiu uma leve chama J E A N P AUL SARTRE de satisfação. nunca encarei a coisa por esse prisma. Estava ganho. Devia ser verdade. — Mas. Daniel! Bem sabe como nós somos! — Eu não sei nada de nada — disse Daniel. — Não é um crime? Ele não pôde deixar de rir. Era como se já se tivesse vingado um pouco. A mão morena crispava se sobre a seda. Foi você. — Não. nem um nem outro. Eu não. — Bem sei — disse Daniel com vivacidade.. Achar criminosos os seus desejos quando são naturais.. — Um crime? Mas isso é perversão. Olhou o. — Mas você quer a criança? Ela não respondeu. — Sim. senão dipersava se em todas as direcções.. é tudo. Que sentia por dentro aquela fêmea pesada e perturbada? Gostaria de ser ela. O casamento é uma servidão e não o queríamos. — Não é verdade que você quer a criança? Marcelle apoiou uma das mãos no travesseiro e pousou a outra sobre a coxa. — Tem de lhe falar com franqueza. Disse com voz solitária. Acrescentou: — Era. cheguei a julgar que era um crime. com voz surda: — Daniel.. que faça o que é necessário. Era grotesco e fascinante. Era muito difícil fazê la ver as coisas de frente.A — Mas. — Não é uma resposta. Era preciso enfiar lhe o nariz em cima e mante la assim. — Sei apenas uma coisa. quem decidiu nunca se casar? — Sentiria horror de vê lo casar se contra a vontade. não podia dizer isto a ninguém no mundo. Não podia tirar os olhos daquele ventre. quero.

passiva e gasta. não pode. Não fiz nada e ninguém precisa de mim. mas a piedade estava lá. Ele pensou: «A sua última possibilidade». Mordeu os lábios e tomou uma atitude irónica. Ele acariciou lhe a mão. A si também não. Daniel. Responder? Protestar? Era preciso desconfiar. — Porquê? — Sinto me amarrada. Ele não respondeu. — Um filho. — Estraguei. eu é que preciso de si. Esperava. como pensara de si mesmo pouco antes. J E A N P A U L SARTRE — Falar com ele? Você? Mas. Ela curvara os ombros. — É a Mathieu que você tem de dizer isso. Entre os trinta e quarenta anos joga se a última cartada. Espero que isso venha dele.. — Não posso. é um absurdo! — Podia dizer lhe. ia assim sem . que a encontrei. parecia pensar que ele era doido.. Marcelle. isso não o atingiria. Parou repentinamente e olhou a. A emoção fizera com que tivesse deixado escapar aquela exclamação estúpida. Tem grande afeição por mim e talvez seja o que tenho de mais precioso na vida. — E se eu próprio falasse a Mathieu? Uma enorme piedade lodosa tinha o invadido. era preciso evitar isso. — Não pode fazer isso — exclamou bruscamente Daniel —. Mas ainda que fosse verdade. — Onde? Nunca saio.a vida como eu. ainda não. Ela ia jogar e perder. — Não. Marcelle levantou a cabeça. — Você não estragou a vida. — Mas bem sabe que nunca virá. sim. os braços pendiam lhe junto das ancas. — Mathieu não precisa de mim. Pegou lhe na mão sem falar e apertou a de um modo significativo. Essa ideia gelou o. tinha horror ao abandono. e assim esperaria durante anos. Não sentia nenhuma simpatia por Marcelle e sentia um profundo nojo por si mesmo.. Marcelle parecia estar numa das suas crises de clarividência cínica. irresistível. — Porque é que não pensa? Você pensou. A — Um filho — continuou Marcelle. sim. — Estraguei. desconfiado. Se eu morresse. teria necessidade de mini.. Defesa vã! Seria preciso não a ver. mas não precisa de mim. Daniel. — Não sei. — Pois então fica como está! Você empresta o dinheiro e eu vou ao médico. Dentro de alguns dias seria apenas um grande miséria. Ele não pensa nisso. Era verdade. até ao fim. Teria feito tudo para se libertar dela.

ele não lhe devia ter contado..» — Daniel — suplicou Marcelle —. Marcelle. Estragará a sua vida com as suas próprias mãos. — Pois digo lhe — atalhou Daniel. mas ele percebeu pela sua expressão rancorosa e abatida que ela ia ceder. — disse Marcelle. mas não teve vontade de rir. Tudo isso como se viesse unicamente de mim. não faça isso. — Tem de ser. Marcelle passeava a ponta do dedo pelo tapete. Mas eu conheço o. Era mais subtil. — Não quero. Nós dizemos sempre tudo um ao outro. Sabe o que é que vamos fazer? Dizer lhe simplesmente a verdade. Daniel olhava para os ombros e para o pescoço dela com avidez. Daniel pensou: «Ela é formidável!». Marcelle não respondeu. — Se eu não falar com ele. atolar se com ela na humildade. viverá junto dele em silêncio. obstinada. Pensava: «Conta com isso. Vai irritar se . Estava possuído de um desejo enorme e monstruoso. mais carnal. por favor. que você parecia atormentada e que não é assim tão simples como ele pensa. Era bondade. já lhe disse que o farei. Mas Daniel era tenaz. Seja razoável. irritado —. Por nada deste mundo quero que pensem que estou a pedir alguma coisa.. sentia vontade de a partir.mais nem menos contar lhe isto? — Não. dizer lhe coisas vagas — disse —.» Marcelle teve um gesto de despeito. Marcelle pousou lhe a mão sobre o joelho. chamar lhe apenas a atenção. não se meta nisto. — Escute.. Olhe para mim! Tomou a pêlos ombros e os dedos afundaram se lhe numa manteiga morna. Violar aquela consciência. Digo lhe: «E preciso que perdoes um segredo. sabe. ele nunca me perdoaria não lho ter dito eu própria. Acrescentou com um ar conjugal: — E depois. — Não é possível! — Bom. — Se não me deixar fazê lo — disse zangado —.. Eu e Marcelle víamo nos de vez em quando e não te dizíamos nada.. seguia a sua ideia. — Era preciso dizer lhe. — Daniel. Estou furiosa com Mathieu. — Naturalmente — disse Daniel. Marcelle. — Digo que a encontrei. Não quero que falem de mim. — Não quero. Ela ainda repetiu: — Eu não quero. acabará por odiá lo. Largou a... Mas não era sadismo. você nunca o fará e. Porque é que não é possível? — Era obrigado a dizer lhe que nos vemos. Aquela obstinação tonta aborreceu o. mais húmido.. Ele é que tem de compreender. ficarei aborrecido. — Não falo em si — disse. evidentemente. Não se vai zangar.

— Ao sair daqui mando lhe um recado e marco um encontro para amanhã.um pouco. já não o estima? — Estimo. tristemente. ao desligar.. Ela ia ceder. já não sabia se era de maldade ou de bondade. Ia escorregar.» Ela fascinava o. . — Pois bem. — É preciso tentar. Ele foi demasiado A negligente. e ia dizer lhe: «Faça como quiser. Corou. Não se preocupou comigo.. E depois o telefonema de hoje foi lamentável. O Bem e o Mal. com ódio: — Só posso ter de meu o que escondo dele. não tinha outra. para a resignação. digo lhe que nos vemos há apenas alguns meses e muito raramente. Não lhe posso dizer o efeito que isso me causou! Se um dia deixasse de o estimar. — Vou falar com ele — disse Daniel. se ele tentasse fazer me falar amanhã. arrastada pelo seu próprio peso. — É verdade. Dentro de momentos estaria completamente aberta. Tresandava a consciência suja. — Era o nosso segredo — disse com profunda tristeza. — Achou se na obrigação de dizer que me amava. a minha vida privada. tínhamos de lho dizer um dia. Havia aquela mulher e aquela comunhão repugnante e vertiginosa. tentemos — disse num desafio. por causa da criança.. — Apesar de tudo será uma experiência. se me perguntasse uma só vez que fosse: «Em que estás a pensar?» Calou se.. Daniel. para o abandono. bastava esperar. Acrescentou. mas não quero pensar nisso. desde ontem. — Acredita que ele vai ficar indiferente? Que não se vai apressar com explicações? — Não sei. pró forma. Ah!. Mas não tenho a mesma confiança com ele. mas a seguir.. Aquela chama que o devorava. estou nas suas mãos. era a minha vida particular. Aliás. vai ficar muito satisfeito por ter qualquer coisa a censurar lhe. sem defesa. Quando fico ressentida com ele.. o Bem deles e o Mal dele era igual. é extremamente penoso. Teve. Ele foi. como se sente culpado. — E Mathieu que quer experimentar? — É. — Então. De qualquer maneira. — Uma experiência? — indagou Daniel. Acrescentou secamente: — Tenho necessidade de o estimar. — Escute. tem razão. Marcelle passou a mão pêlos cabelos.. abanou a cabeça. Mas não parecia convencida. O coração de Daniel pôs se a bater com violência..

— Daniel! — repetiu Marcelle.Ficaram silenciosos. decorada com fitas. — Meu arcanjo — dizia Marcelle por cima da cabeça dele. porém uns sopros ecoavam através dos lábios entreabertos. — Ah!. — Juro que sairei antes da meia noite — afirmou Daniel. pensou ele. Senão. — Dormes de mais. conto consigo. XI s oaram as dez horas. sejam razoáveis — disse Mme. — Se eu deixar. «Não vai demorar a sair». — Daniel! — murmurou Marcelle. e isso lavá lo ia. um olhar de depois do amor. Ela sorria lhe com uma expressão maliciosa. O jovem reconheceu o. Olhava atentamente para Daniel. meus filhos. arrancaria dele aquela piedade viscosa. — Made moiselle Lola está se a vestir. — Deseja uma mesa? Um belo rapaz inclinava se diante dele com ar de alcoviteiro. Passará toda a vida inclinado sobre aquela mão perfumada e acariciar lhe á os cabelos. eram um só. Não a deixe ficar acordada até muito tarde. dormes até ao meio dia. mas os seus olhos tinham se avermelhado. Duffet pareceu não as ouvir. retendo a respiração. Daniel pensava na entrevista do dia seguinte. J E A N P AUL SARTRE Marcelle sorriu. Ele ergueu a cabeça e viu o olhar dela. — E obrigada pêlos deliciosos bombons. é o senhor — disse cordialmente. à altura dos olhos com um gesto ligeiramente ameaçador. — Procuro alguém — disse Mathieu. vou dormir. assim engordas. Pegou lhe na mão e beijou a longamente. como presas de um interminável destino. ele entrara dentro dela. De repente levantou a cabeça e pareceu tomar uma decisão. querida — disse divertindo se a falar entre dentes. tossiu com dificuldade. Duffet. Disse alegremente: — Pois bem. que transbordava de gratidão sexual. Ele voltou se para Mme. Seria violenta e dura. Era um olhar pesado e envolvente. Levantou a caixa. Tinha asma. Marcelle estava sentada à beira da cama. Os seus amigos estão no fundo à esquerda. Mathieu perscrutou a sala com o olhar à procura de Boris e Ivich. Fechou os olhos. Mme. Eram lúgubres. Havia entre ambos qualquer coisa mais forte do que o amor. Bocejava por baixo do sorriso. — Querido Daniel. Duffet. Daniel abriu os olhos. Ergueu se e foi dar umas palmadinhas nos ombros de Marcelle. dorme até ao meio dia. fingindo se vítima: — Que hei de fazer? — Bom. provavelmente. Ela abrira se. — Ouve. .

desempenhava o papel de irmã mais velho. — Conversa!» — disse simplesmente. Havia uma crueldade inquieta e permanente na atmosfera. o ar de uma irmã mais velha e falava a Boris com uma condescendência maravilhada. «Como são jovens. Eu encontro os facilmente sozinho.vou acompanhá lo. com uma austeridade cheia de graça. Não se sentiu à vontade. Numa reentrância havia duas mesas. aproximou se. Inclinava se ao ouvido de Boris e segredava Ihe qualquer coisa. Achava os romanescos. São um pouco barulhentos. . Em Montmartre. «Conversa!» Com essa palavra o diálogo terminava definitivamente. Ivich não se entregava completa mente. Mathieu pousou a mão sobre a mesa. mas ela não o via. com gestos vivos.» Tinha vontade de dar meia volta e sair. os adultos. tinha a impressão de estar a espreitar pelo buraco da fechadura. nervosamente. «Que é que vim fazer aqui?». — Bastante. mulheres soberbas e maduras. Mathieu avançou pela sala por entre os ombros em fuga. Ele estava agora perto de Ivich. Nunca. — Obrigado. um bocadinho. porque já não podia suportar a solidão.» Era Ivich quem falava. pensou Mathieu. oferecera ela a Mathieu um rosto assim. Boris teve um riso curto. Numa delas um homem e uma mulher falavam. No entanto. Depressa o veriam e oferecer lhe iam aquele rosto convencional que reservavam para os parentes. O seu casaco brilhava nos cotovelos. Está cá gente hoje. os músicos não pareciam tocar para eles. O rapaz desapareceu. uma cabeça de preto. Tinha. Mathieu olhava Boris e Ivich. Holandeses. As lâmpadas brancas acenderam se novamente. «Pareciam dois mongezinhos. e no fundo dos seus corações alguma coisa mudaria. não dançava bem. sem se olhar. Na outra. Ombros nus. nunca se podia sentir à vontade. Mathieu sentiu se ligeiramente reconfortado. mas consomem bem. Mathieu esperou. contemplava as lentas deslocações daquele comício silencioso. era incapaz de se divertir naquele ócio grave. mesmo nos momentos de maior abandono. e nunca se esquecia disso. muitos homens de idade que dançavam com ar de quem pede desculpa. apesar da simpatia dos maitres d'bôtel. Mesmo com o irmão. Era a última réplica de um romance ou de uma peça de teatro. Ouviu o tango e o arrastar dos pés. Não era possível abrir passagem entre as pessoas que dançavam. Os sons agudos do tango passavam por cima das cabeças deles. Inclinavam se um para o outro muito ocupados. viu Boris e Ivich. o brilho de um colarinho. as calças já não tinham vincos.

— Sim — disse Mathieu. — Olá! — respondeu Boris levantando se. já não havia ninguém no estrado dos músicos. — Um vodka — disse Ivich. para quebrar ovos é preciso ter jeito. havia de partir . é o cocktail da casa. apontando para uma espuma branca no copo A de Boris. — Cem francos — disse Ivich —. A sala estava deserta. — E horrível — disse Boris —. — E que é isso? — indagou Mathieu por espírito de justiça. — Boa noite. As pessoas murmuravam à sua volta. mas pedi Ihe emprestados cem francos.— Olá! — disse. O jazz negro Hijito's Band ia substituí los. — Deve ser divertido. eu tinha os! — Eu também — disse Boris —. — Quer o meu lugar? — Não. Viu dois olhos pálidos e mortos. pensou. Mathieu — disse Ivich. — Isso ficava lhe caro — atalhou Boris —. não vale a pena. todo de branco. irritado. A verdadeira Ivich desaparecera. deve pedir se dinheiro emprestado — explicou num tom de austeridade. «E porquê a verdadeira?». — Que estão a beber? — indagou Mathieu. sentia se penetrado por um calor húmido. sem dar a sua opinião. Parecia achar natural a presença de Mathieu. mas já não tinha um ar admirado ou rancoroso. gozava a condensação feliz que dá o sentimento de ser um homem entre os outros homens. Guarde o para Lola daqui a bocado. Os gaúchos tinham terminado a série de tangos. Ela inclinara se para trás. — Aliás. Mathieu sentia se incomodado. e fumava um cigarro. — Tem gente! — observou com satisfação. Estava de pé atrás do balcão. De qualquer maneira teria bebido essa porcaria. Acha que o ofício é o mesmo. — Como? Gosta disso agora? — E forte — respondeu ela. Ela não sorriu. A um barman. Não sabe fazer cocktails. mas engana se. de braços cruzados. — Gostava de ser barman — disse Mathieu. Mathieu olhou o barman. Fez se barman porque foi prestidigitador. — Suponho que é por causa do misturador — disse Mathieu. — Foi por gentileza que o pediu? — Há três semanas que o barman me chateia para o experimentar. Ivich não o tinha recebido mal. Boris apontou para a multidão com um gesto rápido. Boris olhava o com uma admiração jovial de surpresa. — Então era melhor que tivesse sido malabarista. Sentou se. Mathieu deitou um olhar rápido a Ivich. Tinha um ar severo. mas é porque ele é barman.

«Estou a mais». atentos e severos. «há sempre um que se escandaliza». — Sim. Olhou a lista. pensou Mathieu tristemente. a sorrir. Fez se silêncio. mas afinal naquele dancing. Chamou o maítre d'hôtel. — Um Mumm cordon rouge. rostos sorridentes e bem arranjados com olhos pisados. que fariam melhor se voltassem para casa. — Vocês são divertidos — disse Mathieu. — Um uísque — disse Mathieu. outro mais longe. cada um deles tinha construído uma imagem pessoal de Mathieu e exigiam ambos que ele lhe fosse fiel. Sentiu o apelo discreto de uma felicidade humilde e . é preferível. a contemplar de olhos vazios os farrapos do seu destino. no meio daqueles tipos igualmente lixados. mas já não tinham sequer força para o fazer. Sons de trompete. — Espere. à direita havia um camarada de monóculo. pensando melhor. Calaram se. O barman sonhava. Só que essas duas imagens não se conciliavam. «Não se pode dizer nada». Ivich mordeu os lábios. chegavam lhe às rajadas. Adorava que Mathieu lhe falasse naquele tom. diante dele. Estavam ali. O Mumm custava trezentos francos. — Bebem sempre coisas de que não gostam. Mathieu estendeu as pernas e sorriu de prazer. e ele parecia aliviado. isso não tinha importância e não era desagradável de todo. e Ivich olhava Boris. de ouvidos tapados pela música. Era um barulho apenas. Virou a cabeça. sozinho também diante de três capas e uma bolsa de mulher. Boris regozijou se. J E A N P AUL SARTRE Mas sentiu de repente nojo da economia e daquele maço magro de notas que jazia no fundo da sua carteira. com ares desgraçados.tudo. — Não — respondeu ela. não lhe passava pela cabeça descobrir neles uma melodia. A mulher e o amigo deviam estar a dançar. Prefiro champanhe. Bocejou por trás da mão e os seus olhinhos pestanejaram com volúpia. Bem sabia que estava lixado. mas dava lhe um grande prazer à flor da pele. pensou Mathieu de mau humor. àquela mesa. Mathieu sentiu se bruscamente solidário com aqueles tipos todos. Boris olhava Mathieu. sozinho. — Estou contente por ir beber champanhe — disse Boris. — Você também pode beber um bocadinho — disse para Ivich. e continuavam ali a fumar cigarros e a beber misturas com gosto a aço. — Não gosto e é preciso que me habitue. O maïtre d'hôtel apresentou lhe a lista dos champanhes: tinha de ter cuidado. só lhe restavam quinhentos francos. Por toda a parte. acidulados e gloriosos.

Pensou: «A minha dignidade humana.covarde: «Ser como eles. — Quero divertir me. era ainda o seu único apoio. — Engole — disse Boris. Ninguém respondeu. acabará mais depressa. Inclinou se para trás aproximando o copo dos lábios e deixou que lhe escorresse na boca todo o conteúdo. — Já o vi tomar sete uísques de uma vez. Mathieu sofria por ela.. um rosto forte e exangue de olhos desertos. Acrescentou com uma espécie de angústia: — Acho que agora vou poder divertir me. com aquele pequeno pântano de fogo no fundo da garganta. O pescoço de Ivich inchou e ela pôs o copo na mesa com uma careta horrível. — Não faça isso — atalhou Mathieu —. A quê? Lembrou se de repente de Gauguin. abandonando por instantes o seu devaneio. queima. — Bebo. No fim. — Uf! — disse Ivich —. eu é que estava bêbedo. Apesar de rancorosa e distante. Voltou se vivamente para Mathieu.. é fogo! — Eu comprei te uma garrafa para te treinares — disse Boris. com seriedade. espere pelo champanhe. Mathieu não perdia a cabeça. — Sim — disse Boris —. — Prefiro beber de um trago. — Tenho de engolir isto — disse ela. vai incendiar lhe a garganta. um pensamento de mosca ou de barata. — Você aguenta o álcool? — Ele? — Ele é formidável — disse Boris. Mesmo bêbedo. Ivich olhava inquieta e vagamente o líquido transparente que tinha ficado no copo. sem ousar engolir. . Ivich reflectiu um segundo. — Sinto horror em embriagar me — explicou humildemente. — Faz de conta que é água..» Tinha medo. Voltou se para Ivich. disperso e flutuando como uma neblina de Verão. Ivich pegou no copo. Ficou assim um segundo. se se entregasse por momentos. irritada. Tinha os olhos cheios de lágrimas. eu já não o ouvia. pior que um asno. Era como se enchesse uma garrafa. nesse ponto você é um cabeçudo. Era verdade. deitou lhe um olhar de censura. a falar de Kant. Enquanto bebia agarrava se a qualquer coisa. — Vodka bebe se de um trago — observou Boris.» Teve medo e sobressaltou se. mas não entrego o corpo inteiro à embriaguez.. — É melhor treinar com aguardente. — Bebe de um trago — disse Boris. sempre é mais forte. — Não. de encontrar na cabeça. não beba. A senhora morena do lado. Era a primeira vez que o olhava.

. escancarado: pensamentos. não poderei ficar mais um dia sequer em Paris. servia se dela para fazer gentilezas às mulheres! «Estupor!» Mas parou.— Não sou cabeçudo. bem o sei. Mas agora já não se percebia nada. alegremente. pensamentos sobre pensamentos. vou chumbar. — Sim — disse com obstinação —. pensamentos sobre pensamentos de pensamentos. essa maneira de subir pêlos próprios ombros. e encontrou se diante de Ivich. Viu se por inteiro. sem se preocupar com o olhar furioso da irmã: — É esquisita! É capaz de morrer de frio em pleno Verão. que o contemplava com uma expressão estranha. talvez soluçado. na Rua . não era sincero. antes o divertia.. Sinto me humilhada. Não era verdade. orgulhosamente. Todos os seus pensamentos estavam contaminados desde a origem. Depois aquilo apagou se. e partirei imediatamente. — Ou então? — Nada. No fundo. raivosamente.» O tipo que o tinha abordado na véspera. — Então — perguntou ele —. arrepiado. porque é a última noite. De repente. por favor. — Isso é ridículo. imaginava salvar se da abjec ção pela «lucidez». não desdenhava tirar dela pequenas vantagens. Acrescentou com ironia. É uma defesa. não estava realmente indignado. trabalhou esta tarde? Ivich encolheu os ombros. Pensou: «Já desci a isso?» Estava a ponto de se aproveitar da própria decadência. trocar tudo até à medula. «Será preciso mudar tudo. mas essa lucidez não lhe custava nada. também não era sincero. Ivich devia ter gemido durante horas. Mathieu viu a garrafa e pensou: «Trezentos e cinquenta francos.. uma compensação. Como para si próprio. estava resplendente. Calou se. o álcool inflamava lhe o rosto. Estou farta.» Mas nada o ajudava. Era um truque. — Queria passar uma noite formidável — disse —. Pintara de azul as pálpebras e de vermelho framboesa os lábios. quando se tratava de estupor. não me deixo dominar. como para si próprio: — Sou um vime pensante. com olhos do tamanho de um pires. estava transparente até ao infinito e igualmente podre. fico tenso. — Passou o dia enrolada no sofá. estou aqui para me divertir. E esse juízo que emitia acerca da sua lucidez. Mathieu abriu se como uma chaga. — Não quero que me falem mais nisso. desejava agradar a Ivich. não falemos mais nisso. Ou então.. Ah!. J E A N P AUL SARTRE Boris acrescentou. aí está o champanhe — disse ela. E necessário que pense sempre no que me acontece.

e um rolar de tambores advertiu o público. uma depois da outra. Mathieu teve nojo da garrafa. Um senhor pequeno. com alegria. parecia pouco à vontade. o corpo. eu não gosto de champanhe. se ninguém quiser. Puseram se a rir os três. Estava nua. sem grandes preocupações. afectado e reverente. rindo também. A rapariga dançava. Porém. modestamente. — Não era mau — observou Boris —. fazia a rodar com competência. mis dam lê mille Émile E havia aquela garrafa que girava cerimoniosamente na ponta dos dedos pálidos. A vizinha voltou a cabeça e mediu a de alto a baixo. se fosse servido bem quente. e sentia o coração magoado por uma verdadeira angústia. eu quero beber. no fundo. com um guardanapo em volta do gargalo. e sorriu. sem champanhe nem belas loucuras. e os seus pés esticavam se na extremidade das . e toda aquela gente que se cozinhava no próprio molho. — Conheço a — disse Boris. — Não — atalhou Ivich —. J E A N P AUL SARTRE — Senhoras e senhores. sob a luz vermelha. é o mesmo. Mathieu continuava a olhar para a garrafa. Ela contemplava a rapariga nua com os grandes olhos arregalados.» Todo o dancing lhe pareceu um pequeno inferno. lançava as pernas para a frente. eu bebo toda a garrafa. Ivich contemplava o dela. a direcção do Sumatra tem o grande prazer de apresentar Miss Ellinor pela primeira vez em Paris! Miss Ellinor! — repetiu! Com os primeiros acordes da orquestra surgiu na sala uma mulher alta e loura. Ficara com a sua expressão maníaca e cruel. O empregado serviu. Acenderam se novamente as vermelhas. Acrescentou: — Pode deitar se no balde do gelo quando o empregado não estiver a olhar. O empregado. — Estou a lembrar me de que eu também não gosto de champanhe. também estava lixado. de smoking. e ainda por cima tinha fome. As lâmpadas brancas apagaram se. — De que se está a rir? — perguntou Boris. O riso de Ivich era estridente. ansiosa por agradar. saltou para o estrado e sorriu ao microfone. — Se quiserem — disse Mathieu. inclinado sobre o balde de gelo. Mas nesse momento havia um rapaz muito digno sobre o estrado. Mathieu pensou: «Cheirava a vinho tinto barato. a cantar ao microfone: A // a.Vercingetorix. Mathieu virou se para Ivich. Era pesada e negra. Aliás. leve como uma bola de sabão. calvo e redondinho. e Mathieu levou melancolicamente o copo aos lábios. — Somos divertidos! — disse Boris. parecia um grande pedaço de algodão. a pensar no tipo da véspera. perplexa.

aperta as coxas. deslocando se de lado sobre os calcanhares. afinal a menina sagrada era como os outros: duplamente defendida pela sua graça e pêlos vestidos. Apanharam na na rua. pensou. eles querem ser respeitados. — E espantoso como tem as ancas duras — disse Boris. pensou apenas: «E dizer que gosto dela pela sua pureza. Pensava em Ivich. «Está só».pernas. Na verdade havia uma fragilidade inquietante nos seus longos membros. Aproximou se do estrado e virou se de costas. Mathieu não respondeu. a rapariga parecia lhe duplamente nua. «vai cair». — Ela vai cair! — disse Boris. apontava para a sala como uma flecha indicadora. as pernas estremeciam dos tornozelos até às coxas. Mathieu comovia se com a boa vontade desesperada dela: oferecia lhes as nádegas entreabertas. deve pensar se em escolher melhor os números. num impulso de dedicação que constrangia a alma. quis levantar se e desaparecer. O público deleitava se com a sua própria indignação. Não se atrevia a olhá la.» Virou a cabeça e viu o punho crispado de Ivich sobre a mesa. mas lembrava se da expressão cruel. de mãos nas ancas. — Isso não quer dizer nada! É vergonhoso. A unha do polegar. com sentimentos dúbios. carmesim e aguda. quando pousava os pés no chão. mordendo os lábios. «esconde sob os cabelos um rosto arrasado. as pernas da dançarina escavaram o chão sob a impotência ridícula dos quadris. «Pronto».. porque era desajeitada. Dir se ia que ela sentia a hostilidade e esperava enternecê los.. Durante uns momentos. em seguida endireitou se. roçou pela mesa deles. mas não teve forças para fazê lo.. — Como ela se cansa! — disse Boris. Quando se cobra a bebida a trinta e cinco francos.. provocando no ar tremores que deslizaram ao longo das omoplatas até à reentrância dos rins. ergueu os braços e sacudiu os. — Isso não os comove — observou Mathieu —. envenenou lhe a boca: «A fita toda desta manhã. Mathieu quis desejar aquela almofada na . como dedos. Bebeu um golo do cocktail e pôs se a brincar com os anéis. goza. — Eles querem principalmente ver belas nádegas! — Sim. — Não sabe dançar — disse a vizinha de Ivich.» A dançarina. O ruído das conversas cobria por momentos a música. mas com arte. aquela pobre carne nua. com um sorriso.» Essa ideia pareceu lhe insuportável. pensou Mathieu. — Têm Lola Montero — observou o tipo gordo. Uma onda de rancor subiu aos lábios de Mathieu. devorava com os olhos. Mathieu percorreu a sala com o olhar e só viu rostos severos e justiceiros.

Ivich tremia. para pregar uma partida a Ivich. Mathieu estava algures. os rostos abriam se em volta dele. ao longe um fogo de bengala. A vizinha de Ivich acendeu um cigarro e teve um amuo terno para si própria. Estava só. na sua maioria não pareciam habituados.. descomposto pela raiva e pela repugnância. simplesmente. — Estão quentes. — Bateu as palmas com força. A música parou. «Não estava perturbada». jantei com ela e com Lola.. — Conheço a. vai ser uma maravilha! . o nome célebre: — Lola Montero! A sala estremeceu de cumplicidade e entusiasmo. nada mais. Boris encolheu os ombros. Viu um rosto triangular. na ponta de um braço invisível. mas não tem cabeça. ele quis sorrir lhe. — Estupores! — disse Boris. pensou. com um ar de gozar de antemão o espanto que ia provocar. — Está quieto — disse Ivich. sem comentários. às rajadas. Uma luz branca invadiu a sala e foi um acordar geral. e Boris pareceu encantado. para se distrair dos seus pensamentos. a rapariga imobilizou se com o rosto voltado para o público. — Já não a posso ver. com gratidão. e apesar disso deve ver se que é oco. — Aplaudir isto? — Ela fez o que pôde — disse Boris aplaudindo. deve ter essa pertinência dos olhos. o corpo obsceno e a neblina vermelha deslizaram para fora do seu alcance. espantado. Ninguém aplaudia e houve algumas risadas ofensivas. «O meu ser assim. Ivich. Uma música de quermesse chegava lhe aos ouvidos.» Era uma personagem de pesadelo aquele homem que saltitava no estrado e fazia gestos para pedir silêncio. Em volta dele. com uma suficiência sorridente e mole. A rapariga desapareceu sorrindo e atirando beijos.. Por cima do sorriso brilharam uns lindos olhos aquados. dos cantos da boca. Rostos espantados vi raram se para o lado dele. ouviram se aplausos. através de um murmúrio de folhas. era um pesadelo branco. «Que é que eu tenho?» Era como a manhã.ponta de uma espinha medrosa. é uma boa rapariga. Boris. como essas lanternas pálidas que oscilam de noite nas pequenas estações. e no fumo um monstro de quatro patas andava à roda. mas a cabeça encheu se lhe de guizos. Todos se sentiam satisfeitos por se encontrarem de novo juntos após a sentença dada. A rapariga acocorava se com as pernas ligeiramente abertas e balançava se para a frente e para trás. — Que nojo! — disse Ivich. só havia um espectáculo. — Mais uma razão para não aplaudir.. Mathieu voltou se. com a afectação de soltar no microfone. Mathieu não acordara.

Lola encostara se à porta. De longe, o seu rosto achatado e vincado parecia uma cabeça de leão. Os seus ombros, de uma brancura ondeada de reflexos verdes, eram uma folhagem de bétula numa noite de vento sob os faróis de um automóvel. — Como é bela! — disse Ivich. Adiantou se a passos largos e calmos, com um desespero desenvolto. Tinha mãos pequenas e encantos pesados de sultana, mas punha no andar uma generosidade de homem. J E A N P AUL SARTRE — Ela impõe se — disse Boris, com admiração. — Com ela ninguém se mete! Era verdade. As pessoas da primeira fila tinham recuado as cadeiras, não se atreviam sequer a olhar de perto aquele rosto célebre. Um bom rosto de tribuno, volumoso e público, marcado pesadamente por uma vaga sugestão da sua importância. A boca conhecia o seu ofício, estava habituada a abrir se amplamente, com os lábios salientes para vomitar o horror e o nojo e para que a voz fosse longe. Lola imobilizou se de repente. A vizinha de Ivich suspirou de escândalo e admiração. «Ela domina os», pensou Mathieu. Sentia se incomodado: no fundo, Lola era nobre e apaixonada; no entanto, o rosto mentia, representava a nobreza e a paixão. Ela sofria, Boris desesperava a, mas durante cinco minutos por dia aproveitava se do seu número de canto para sofrer espectacularmente. «E eu? Não estou também a sofrer espectacularmente, representando com acompanhamento musical o papel de um tipo lixado? No entanto», pensou, «é indiscutível que estou lixado». Em volta dele era a mesma coisa. Havia pessoas que não existiam, eram vapores, e outras que existiam demasiado. O barman, por exemplo. Pouco antes fumava um cigarro, vago e poético como um jasmineiro; agora acordara, era demasiado barman, sacudia o shaker, abria o, escorria a espuma amarela nos copos, com gestos de uma precisão supérflua. Representava o papel de barman. Mathieu pensou em Brunet: «Talvez não possa ser de outra maneira; talvez seja preciso escolher: não ser nada ou representar o que é. Mas é terrível ser se levado pela nossa própria natureza.» Lola, sem se apressar, percorria a sala com o olhar. A sua máscara dolorosa tornara se dura, congelara se, pare cia ter ficado esquecida sobre o rosto. Mas no fundo dos olhos, a única coisa viva, Mathieu teve a impressão de surpreender uma chama de curiosidade áspera e ameaçadora que não era fingida. Ela viu Boris e Ivich e tranquilizou se. Sorriu lhes cheia de doçura e anunciou, com um ar perdido: — Uma canção de marinheiro: Jobnny Palmer. — Gosto da voz dela — disse Ivich. — Parece veludo. — Parece.

Mathieu pensou: «Ainda Jobnny Palmer»\ A orquestra preludiou, e Lola ergueu os pesados braços. «Pronto, faz a cruz», viu a abrir sanguinolenta. Qui est cruel, jaloux, amer? Qui triche au jeu, sitôt qu'il perd? Mathieu já não ouviu, sentia se envergonhado diante daquela imagem de dor. Era apenas uma imagem, bem o sabia, mas mesmo assim... «Não sei sofrer, nunca sofro o suficiente.» O que havia de mais penoso no sofrimento era ser o de um fantasma, passava se o tempo a correr atrás dele, imaginava se sempre que se ia alcançá lo, que se ia atirar dentro dele e sofrer de verdade rangendo os dentes, mas no momento em que pensava atingi lo escapava se, não se encontrava mais nada a não ser um fogo de artifício de palavras e milhares de raciocínios desvairados em minuciosa efervescência. «Esta tagarelice na minha cabeça; daria tudo para me calar.» Olhou Boris com inveja. Aliás, naquela cabeça obstinada devia haver grandes silêncios. Qui est cruel, jaloux, amer? C'est Jobnny Palmer. «Minto.» A sua decadência, as suas lamentações eram mentiras, vácuo; atirava se para o vácuo, à superfície de si mesmo, fugir à pressão insustentável do mundo verdadeiro. Um mundo negro e terrível que tresandava a éter. Naquele mundo, Mathieu não estava lixado — era muito pior. Era um atrevido e um criminoso. Marcelle é que estava lixada, se ele não descobrisse os cinco mil francos até ao dia seguinte. «Lixada de verdade.» Sem lirismo. Tinha o filho ou ia arriscar a vida nas mãos de um charlatão. Naquele mundo o sofrimento não era um estado de alma, não havia necessidade de palavras para exprimi lo. Era uma expressão das coisas. «Casa com ela, falso boémio, casa com ela, meu caro, porque não hás de casar com ela?» «Aposto», pensou Mathieu horrorizado, «que ela vai morrer com isto.» Todos aplaudiram, e Lola dignou se sorrir. Inclinou se e disse: — Uma canção da «Ópera de Quat sous»: A Noiva do Pirata. «Não gosto dela nesta canção, Margo Lion era bem melhor. Mais misteriosa. Lola é uma racionalista, não tem mistério. E boa de mais. Ela odeia me, mas com um ódio grosseiro, volumoso, sadio, um ódio de homem de bem.» Ouvia distraidamente esses pensamentos leves que corriam como ratos num sótão. Por baixo havia um sono espesso e triste, um mundo espesso que esperava no silêncio. Mathieu cairia nele mais cedo ou mais tarde. Viu Marcelle, viu lhe a boca severa e os olhos muito abertos: «Casa com ela, falso boémio, casa com ela, estás na idade da razão, deves casar.» Un navire de baut bord Trent' canons au sabord Entrera dans lê port.

A IDADE DA RAZÃO x «Basta! Basta! Arranjarei o dinheiro, terei de o arranjar ou casarei com ela, pronto, não sou um ser abjecto, mas hoje, esta noite pelo menos, que me deixem em paz, quero esquecer. Marcelle não se esquece, está no quarto, deitada na cama, lembra se de tudo, vê me, ouve os rumores do seu corpo. E que importa? Usará o meu nome, terá a minha vida inteira, mas que me deixe esta noite só para mim.» Voltou se para Ivich, lançou se ao seu encontro, ela sorriu lhe, mas ele deu com o nariz numa muralha de vidro enquanto aplaudiam. — Mais uma! Mais uma! — gritavam. Lola não ligou aos pedidos; tinha outro número às duas horas de madrugada, poupava se. Saudou duas vezes e caminhou na direcção de Ivich. Algumas cabeças voltaram se para a mesa de Mathieu. Mathieu e Boris levantaram se. — Boa noite, querida Ivich. Como está? — Boa noite, Lola — disse Ivich, de uma maneira indolente. Lola acariciou o queixo de Boris, com delicadeza. — Boa noite, crápula. A sua voz calma e grave dava à palavra «crápula» um tom de dignidade. Dir se ia que a escolhera a dedo entre as palavras ridículas e patéticas das suas canções. — Boa noite, minha senhora — disse Mathieu. — Ah! — respondeu ela —, também está aqui! Levantaram se. Lola olhou para Boris. Parecia com pletamente à vontade. — Disseram me que patearam Ellinor? — Estávamos a falar disso. — Foi chorar ao meu camarim. Sarrunyan está furioso, é a terceira vez em oito dias. — E vai despedi la? — perguntou Boris, com ar inquieto. — Estava com vontade; ela não tem contrato. Eu disse lhe: se ela sair, eu saio também. — Que é que ele disse? — Disse que ficasse mais uma semana. Percorreu a sala com o olhar e afirmou em voz alta: — É um mau público, o desta noite. — Pois eu não diria o mesmo — observou Boris. A vizinha de Ivich, que devorava Lola imprudentemente com os olhos, estremeceu. Mathieu teve vontade de rir. Achava Lola muito simpática. — É porque tu não estás habituado — disse Lola. — Quando entrei, logo vi que acabavam de se portar como idiotas, pareciam aborrecidos. Se a rapariga perder o lugar, só lhe resta o trottoir. Ivich ergueu a cabeça bruscamente, parecia desvairada. — Que se prostitua — disse com violência —, tanto me faz, e isso convém lhe mais do que a dança.

Esforçava se por manter a cabeça direita e conservar abertos os olhos baços e rosados. Perdeu um pouco a segurança e acrescentou, conciliadora: — Naturalmente, compreendo que ela precise de ganhar a vida. Ninguém respondeu, e Mathieu sofreu por ela. Devia ser difícil manter a cabeça direita. Lola olhava a placidamente. Como se pensasse: «Menina rica.» Ivich teve um risinho. — Eu não preciso de dançar — disse, com um ar malicioso. Mas o riso apagou se e a cabeça caiu lhe. — Que é que ela tem? — disse Boris, tranquilamente. Lola contemplou a cabeça de Ivich, com curiosidade. Passado um bocado, estendeu a mão gorda, agarrou Ivich pêlos cabelos e levantou lhe a cabeça. Parecia uma enfermeira. — Que é que aconteceu? Bebeu de mais? Afastava, como uma cortina, os cachos louros de Ivich, pondo a nu as faces pálidas. Ivich entreabria os olhos amortecidos e deixava a cabeça indinar se para trás. «Vai vomitar», pensou Mathieu, sem se perturbar. Lola dava puxões nos cabelos de Ivich. — Abra os olhos, vamos, abra os olhos, olhe para mini. Os olhos de Ivich arregalaram se. Brilhavam de ódio. — Estou a olhar para si — disse com uma voz cortante. — Estou a olhar. — Ah! — observou Lola —, não está tão bêbeda como isso. Largou os cabelos de Ivich. Ivich levantou vivamente as mãos, arranjou os caracóis sobre o rosto, parecia modelar uma máscara, e na verdade o rosto triangular apareceu sob os dedos, mas em volta da boca e dos olhos ficou qualquer coisa de pastoso e gasto. Ficou um momento imóvel, com o ar intimidado dum sonâmbulo, enquanto a orquestra tocava um slow. — Vamos dançar — disse Lola. Boris levantou se e começaram a dançar. Mathieu seguiu os com os olhos, não tinha vontade de falar. — Essa mulher censura me — disse Ivich, sombria. — Lola? — Não, a minha vizinha. Ela censura me. Mathieu não respondeu. Ivich continuou. — Queria tanto divertir me esta noite... e afinal... Detesto ganhar champanhe! «Deve detestar me também porque a fiz beber!» Viu no entanto, com surpresa, que ela pegava na garrafa e enchia novamente a taça. — Que está a fazer? — Acho que não bebi o suficiente. Há um estado que precisamos de atingir, depois sentimo nos bem. Mathieu pensou que devia tê la impedido de beber, mas não se

mexeu. Ivich levou a taça aos lábios e fez novamente uma careta. — Como é mau! — disse pousando a taça. Boris e Lola passaram perto da mesa. Riam. — Como vai isso? — gritou Lola. — Agora muito bem — disse Ivich com um sorriso amável. Tomou de novo a taça e esvaziou a de um trago, sem despregar os olhos de Lola. Lola devolveu lhe o sorriso, e o par afastou se a dançar. Ivich parecia fascinada. — Ela aperta se contra ele — disse com uma voz quase imperceptível. — É... é ridículo. Tem uma cara de fera. «Está com ciúmes», pensou Mathieu, «mas de quem?» Estava semiembriagada, sorria com uma expressão maníaca, interessada em Boris e Lola, e não lhe dava a menor atenção, apenas lhe servia de pretexto para falar em voz alta. Os sorrisos, os gestos, todas as palavras que dizia, endereçava os a ela própria através dele. «Isto devia ser me insuportável», pensou Mathieu, «mas deixa me completamente indiferente.» — Vamos dançar! — disse bruscamente Ivich. Mathieu sobressaltou se. — Mas não gosta de dançar comigo. — Não faz mal, estou bêbeda. Levantou se cambaleando, quase a cair, e segurou se à mesa. Mathieu tomou a nos braços e arrastou a. Entraram num banho de vapor, a multidão fechou se sobre eles, sombria e perfumada. Durante um segundo, Mathieu sentiu se perdido, mas depressa ficou senhor de si, marcando o passo atrás de um negro. Estava só; logo aos primeiros acordes, Ivich levantara voo, já não a sentia. — Como é leve! Baixou os olhos e viu uma porção de pés! «Há quem dance pior do que eu», pensou. Segurava Ivich a certa distância e não a olhava. — Dança correctamente — disse ela —, mas vê se que não tem prazer nisso. — Dançar intimida me — disse Mathieu. Sorriu. — Você é que é espantosa. Há pouco, mal podia andar, e agora dança como uma profissional. — Posso dançar completamente bêbeda — disse Ivich. — Posso dançar a noite inteira, nunca me canso. — Gostava de ser assim. — Nunca o conseguirá. — Bem sei. Ivich olhava em volta, com nervosismo. — Já não vejo a fera. — Lola? À esquerda, atrás de si. — Vamos para lá.

— São. Às primeiras notas do tango. Ivich e Mathieu voltaram para a mesa. Ivich abraçou brutalmente Lola e empurrou a para o meio da sala. Boris arregalou os olhos. de olhos fixos no irmão e em Lola. Pequeno Polegar. As lâmpadas acenderam se de novo. solitária e reivindicadora. Nem Boris nem Lola os tinham visto chegar. — Percebeste porque é que ela me chamou Pequeno Polegar? — Parece me que sim — disse Lola. — Foi a sua irmã que quis. Ivich dirigiu se para Lola. os negros apressavam se a pôr em ordem os instrumentos. Boris e Lola aproximaram se às voltas. — São cómicas — disse Boris enchendo o cachimbo. Ivich não respondeu. Quando chegaram muito perto. nem sequer dançava. fixava em Lola um olhar pesado. Ivich beliscou o cotovelo do irmão. fez Mathieu dar meia volta. a fim de dar lugar à orquestra argentina. — E agora? — perguntou Mathieu. O homem pediu desculpas. e a mulher deitou lhe um olhar raivoso. Mathieu via lhe apenas uma ponta da orelha entre dois caracóis. mas o ruído dos aplausos abafou lhe a voz. Fez se um silêncio difícil. — Você estava magnífico — disse Boris a Mathieu —. devia dedicar se de preferência à dança acrobática. Um pequenino céu local formara se por cima das suas cabeças. J E A N P AUL SARTRE Lola fechava os olhos: as pálpebras eram duas manchas azuis sobre o rosto duro. IDADE DA RAZÃO — Forte como é. — Eu guio. — Fiquemos aqui: já não há espaço.Deram um encontrão num casal magricela. — Não sei guiar — respondeu Lola. Boris murmurou ainda algumas palavras. Ivich. Levantaram se. O jazz calara se. Ivich tornara se quase pesada. arrastava Mathieu. pensei que nunca dançasse. seco e sufocante. Acrescentou maldosamente. — Dança admiravelmente — disse para Ivich. perdido numa solidão angélica. — Olá. redondo. e ninguém tinha vontade de falar. não fujas! Porque é que me chamas assim? Ivich não respondeu. guio como um homem. — Venha — disse com voz rouca. Lola já estava sentada. — Eh! Ivich. — Divirto me loucamente — disse Ivich. . Lola abrira os olhos. de maneira a ficar ela própria de costas para Boris. mostrando os dentes: — Não tenha receio. Ivich emudecera. com a cabeça inclinada para trás. Boris sorria.

Cuidado. não sou como você. Mathieu olhou de esguelha para a rapariga alta e bela. as cantoras. — Ela não tira os olhos de si. Mathieu pegou delicadamente no canivete e tentou abri lo. «Está contente porque está a meu lado». — Que vai fazer? — Nada — disse ele. . tinha se drogado. Pousou o cachimbo e disse gravemente: — Aliás. — Hum! — disse Mathieu. Acrescentou. — Olhe para aquela mulher que acaba de chegar. — É uma navalha espanhola — explicou — com travão de segurança. com desprezo —. — Olhe — disse Boris. surpreendido. — E que tem isso? — indagou Mathieu. terceira mesa — disse Boris. sou um casto. mandou o empregado levá la daqui fora. que tinha um ar distante. À direita. J E A N P AUL SARTRE Calaram se. Tirou do bolso um enorme canivete de cabo de chifre e pousou o sobre a mesa. era engraçada. Mathieu contemplava a cabeça trágica de Lola ao longe. pensou. Parecia uma rapa riguinha. — Há de ver. Viverei como um monge. Voltou a pegar no canivete. — Acredito. — Conheci a terça feira passada. abriu o e colocou o perto do copo. — Está a ver estas manchas escuras? O tipo que ma vendeu garantiu que eram manchas de sangue. — Você está a ficar muito puritano. mas as prostitutas. «e eu nunca tenho nada para lhe dizer». assim. Ter uma é ter todas. incrustada de pedras. principalmente. as dançarinas. — Que tal? — Assim. afinal são todas iguais. — A loura cheia de pérolas? — São falsas. Desviou o olhar e viu no rosto de Boris uma satisfação ingénua que o magoou. deslizando sobre um mar sombrio. cuidado. — Não é isso — disse Boris rindo. queria a todo o instante convidar me para dançar. com remorsos. ela está a olhar para nós. Além disso. quando tiver rompido com Lola. Esfregava as mãos. há de ver e vai ficar admirado. deu me uma cigarreira. Lola estava louca... — Não é isso. — É uma arma de caide — disse. Não sabia que era tão alta. pode magoar se.Lola. — Assim não. sombrio: — Era de prata. é uma mulher comprometida.

você há de ser assim aos trinta e cinco anos. de repente. pode esperar pêlos charutos e pelo navio. — É no peito que você me faz mal — explicou Boris. com os seis perdigueiros. — Olha. — Agrada lhe dizer isso.. — E você um medíocre! O rosto iluminou se lhe. está demasiado preso a Lola. — Eu sei que não paga as suas dívidas de honra. cinco charutos de Havana e aquele navio dentro da garrafa que vimos na Rua de Seine. é um desgraçado. já terei morrido há muito. Depois . Quer apostar? / — Não. — Eu queria ter uma mulher da alta sociedade. não. — Já sei — uma vez Boris ferira as gengivas com a escova e cuspira sangue —. trazem o nome no Vogue. — Mas na gostava de me tratar. porquê? — Não sei. — Ora. Que lata! Pura vaidade. furioso e divertido ao mesmo tempo —. cuidadosamente. Vou virar as costas. — E superior às suas forças — continuou Mathieu. Mathieu disse: — Isso não acaba tão depressa. às vezes. Trinta e cinco anos e ares de querubim. Imagine! Você compra o Vogue. Já me deve cem francos. Acho que deve ser divertido. — Tem razão — disse. de boa vontade. Boris reconheceu o. — Ou então: o senhor é um zero! — Não. olha as fotografia e vê. — Não acha uma injúria formidável: o senhor é um medíocre!? — Não é má. J E A N P AUL SARTRE Acendeu de novo o cachimbo. já sei. não acha? Olhe bem aquele focinho. porque tem sempre razão. Mme. enfraqueceu a sua posição.satisfeito. — Com trinta e cinco — disse Boris secamente —. Ia Comtesse de Rocamadour.» Deve sentir se uma certa emoção. E então? — Não me incomodo com isso — disse Boris. e pensa: «Dormi com esta mulher ontem à noite. — Estou tuberculoso. ela está a sorrir lhe agora — disse Mathieu.. Você nunca pensou em acabar. — Não pode tomar partido. devem ter uns modos! E depois é lisonjeiro. É bonito. quer roubar me Lola porque não gosta dela. — Sim. sem se perturbar. — Cale se — disse Boris... — Quero confessar lhe tudo — disse com ar confuso. Dança no Alcazar. — Quem é o tipo que está com ela? — Um amigo. — No dia l de Julho. — Olhe. Algumas. Aposta todos os meses que vai acabar no \ mês seguinte e perde sempre. fica desvairado. Acho que não se devem ultrapassar os trinta. um binóculo de corrida. — Você é odioso. isso não.

Não o suporta. irritado. não precisava de pedir emprestado. já nada se vale. — Não digo isso de si. — Não quero pedir a Lola. Boris corara. — Desculpe! O seu amigo Daniel não lhos empresta? — Não pode. naquele dancing. não tocou neles. embaraçado. Quer cem francos do barman? — Obrigado. — Tem um ar muito chateado — disse Boris. — Mas tem razão. . — Se tivesse os seus vencimentos. Estão lá. Olhou para Mathieu e acrescentou. Boris riu. desolado. jogar na Bolsa. Mathieu encarou o com uma simpatia escandalizada. A — Bem sei — disse Mathieu. depois dos trinta já se está morto. — Você defende se mal — disse Boris com severidade. talvez pudesse ter falta dele. Estava a pensar que é absurdo. porque ela não me suporta. — acrescentou. não é tão estúpido como isso viver a mocidade a fundo até aos trinta e morrer. Seria agradável. Se se tratasse de uma conta no banco. Lola está cheia de dinheiro e não sabe o que lhe há de fazer. — Se você quisesse. pensou Mathieu. A juventude era para Boris uma qualidade perecível e gratuita de que era preciso tirar proveito cinicamente e uma virtude moral de que se devia mostrar digno. «ele sabe ser novo. No fundo de uma mala. estava realmente ali. Mathieu estremeceu. cheio de confusão. no meio daquela gente toda. naquela cadeira. nem sequer teve tempo de depositá los no banco. — Não quero pedir nada a Lola. Depois dos trinta. «Que importa». mas olhava Mathieu com uma solicitude inquieta.. eu preciso é de cinco mil. — Nota se isso? — E de que maneira! — Dificuldades de dinheiro..tornamo nos uma ficha inútil. — Não está a perceber — disse Mathieu. comprar acções. J E A N P AUL SARTRE — Se eu quisesse o quê? — Nada. — Eu gostava de ter dois anos a mais. e ficar nessa idade o resto da vida. — E o seu irmão? — Não quer. talvez.» Só ele. — Mas juro lhe que ela não sabe o que lhe há de fazer. — Lá isso é verdade. No fundo. Era ainda mais: uma justificação. — Merda — disse Boris. Boris assobiou com um ar entendido. De qualquer maneira. Mas tem sete mil francos em casa há quatro meses.

— Uma navalha espanhola — disse Boris —. Virou se para Boris. A — Que é isso? — perguntou Lola. É uma mulher horrível. não. — Vocês matam me. — Quer dançar? J E A N P AUL SARTRE — Não — respondeu Ivich —.— Está a ver! — Não deixa de ser estúpido. Ivich sentou se ao lado dele. «fazer de cavalheiro à custa de Marcelle». Boris abriu os dedos. de ponta para baixo. e Mathieu pensou: «Ele vai pedir o dinheiro. mas não conseguiu articular as palavras. O rosto iluminou se lhe e acrescentou com um sorriso feliz: — Tu és gentil. Boris não respondeu. Mathieu sentia se perturbado. Acrescentou. e Lola sorria lhe. Parecia gracejar. E se os pedisse para mini? — Não. ser me ia desagradável que lhos pedisse. «Sou ignóbil».» Estava envergonhadíssimo e covardemente aliviado. Pegou no canivete com dois dedos e levantou o devagar à altura da fronte. A orquestra iniciara outro tango. — Sim. — Ela é formidável — disse com a sua voz enrou quecida. entre dentes. — Simpática? Ah!. nervosamente. sombrio. ela acabaria por saber. Cruzava e descruzava as pernas. com orgulho: — Eu intimidava a. Você está chateado por causa de cinco mil francos. quero beber. A sério — insistiu —. Boris olhou para Lola. O canivete caiu. para te fazer andar direita. e o sangue subiu lhe às faces. — Ela é simpática — disse Mathieu. Encheu a taça por . Mathieu acompanhava Boris e Lola com o olhar. Ivich e Lola voltaram aos seus lugares. não faça isso — disse Mathieu com vivacidade —. — Bem vi — disse Mathieu. distraidamente. Boris levantou a arma e pousou a sobre a mesa. pensou. uma fêmea. apesar de tudo. Boris levantou se. é bela! — E o corpo! Como é comovente aquele rosto devastado e o corpo amadurecido. — Vem dançar — disse. enfiou se no chão e o cabo pôs se a vibrar. tem nos à mão e não lhos quer pegar. Sentia o tempo voar e tinha a impressão de que ela ia murchar nos meus braços. ia dizer lhe: «Peça o dinheiro a Lola». s — Es um monstro. Boris ainda não tocara no assunto.

Bem sabe que o deixei pedir. A loura era toda trejeitos. e os dançarinos abriam passagem para lhe demonstrar respeito. asperamente: — É fantástico como me divirto aqui. «ele já está a falar». mas há de pagar. Foi inclinar se diante da loura grande. avançava. Ivich levantou se sem mostrar espanto e atirou se ao encontro de Lola. — Não — disse Boris —. mas por baixo do sorriso estava atenta. a primeira vez que lhe peço alguma coisa. — Não deve ter acreditado. Ela conhece o. Mathieu pegou na navalha . — Não faça asneiras — disse Mathieu. — Exigiu que eu não falasse. Acrescentou. ora — acrescentou com um furor espantado —.. e Boris apareceu. Parlamentaram um minuto e Ivich levou a para a sala. — Ora — disse Boris com ar hostil —. e já. Ivich recuava com os olhos virados para o céu. A música parou. — Oh!. — Não sei. não — disse Lola —... inconsciente. Mathieu sentiu que corava. Lola mantinha se calma. querida. provocante e mau. Lola seguia o. estava irritado com Boris. falava sem olhar para Lola. Ela não compreende! Uma mulher da idade dela. «Pronto». — Ela não quer? — indagou Mathieu. erguendo os ombros. o que sei é que vai me pagar. Vou acabar bem. Lola não dizia nada.metade e explicou: — É conveniente beber quando se dança. Boris inclinou se para Ivich: — Faz me um favor.. Disse lhe o nome: Picard. tem de pagar! — Como é que lhe pôs o problema? — Disse que era para um amigo que quer comprar uma garagem. a expressão rancorosa e acovardada dava lhe um ar de semelhança com a irmã. estou exausta. isso é comigo. porque a dança não deixa ficar embriagado e o álcool sustenta. — Fez uma cara de poucos amigos e disse que precisava do dinheiro. não. Porque recusou? DADE DA RAZÃO — Não sei — disse Boris. majestosa. Uma semelhança perturbadora e desagradável. Ela corou ligeiramente e levantou se. convida a. — Seria parvo se me zangasse. — Tenha calma — advertiu Mathieu. Lola e Ivich passaram perto de Mathieu. — Ficou aborrecido comigo? — indagou Boris. Estava pálido. e é verdade que ele quer comprar uma garagem. Os ombros de um negro gigantesco esconderam Ihe o rosto de Lola. A multidão dispersou. Boris tomou um ar sério. que ressurgiu com um ar fechado. Ora. pensou Mathieu. No momento em que começavam a dançar. não parecia satisfeita. que quer um tipo como eu.

espero que eu venha a rebentar de calor e a dizer: "Sim."» Sacudiu violentamente a cabeça. E isso marcava! Cada um dos meus gestos suscitava. num sentido. e eu no meio. sussurrando. à minha espera. ignorava a existência da minha. «Não te incomodes. viverá na minha casa. Sentia o por todos os lados. Hei de vê la todos os dias da minha vida. a Alemanha. Sobrava um pouco de champanhe na taça de Ivich. Sou eu essas esperas. o Mediterrâneo azul. a Itália — a Espanha é branca porque não fui bater me por ela — e as cidades redondas. a Mancha cor de café com leite. nua. Eu sabia que cada um tinha a sua vida. a Porta de Clignancourt em frente de mini e no meio a Rua Ver DADE DA RAZÃO cingetorix. Eu sabia. «Todos têm vidas. das minhas preguiças. E em volta de Paris. através das ruas de Paris. e alguma coisa se fechou dentro dele. o Panteão à direita. a distâncias fixas do meu quarto. como respirar. escapo. um buraquinho forrado de cetim cor de rosa. na grande sala da mairie do XIV. Todos. norte na frente. para além de si próprio.» Pousou a navalha na mesa. cortam se e permanecem.» Pensou: «Tudo está claro. «Bocejei. fora. «Minha mulher. a Rua da Gaite. No centro. sul atrás. entre as poltronas de couro verde. .» Olhava aqueles rostos avermelhados. não te irrites. Aliás. perfeitamente natural. sou eu que me espero sentado numa poltrona vermelha. «Lentamente. tenho uma vida. sê natural. fiz amor. Elas estendem se através dos muros do dancing. como os objectos de toilette que não se emprestam.» Pensava: «Não fazendo nada. pela França. Pensava em Marcelle: «Marcelle minha mulher». e depois outros países. e Marcelle está lá dentro. Enganava me. estou enfiado lá dentro. sou eu que me espero nas encruzilhadas. minha mulher. bebeu o. e mares tingidos de azul ou de preto. estava se marimbando. «Vai haver sangue». aquelas luas ruivas que deslizavam sobre coxins de nuvens. Cada um a sua. no futuro. agora acabou. ao sabor dos meus humores. pensou. segreguei a minha concha. espero a minha chegada. o quarto de Marcelle. a Avenida du Maine e Paris inteiro em volta de mini.pela lâmina e pôs se a bater com o cabo na mesa. mas a vida manteve se firme. o meu apartamento. descontrai te. a Torre Eiffel à esquerda. uma pequena espera obstinada que amadurecia. vestido de preto. o mar do Norte preto. Estava vazia. pegou na garrfa e inclinou a por cima do copo. aceito a como esposa. Em minha casa. mas com segurança.» Era natural. li. só porque a desço sempre. entrecruzam se. com um colarinho duro. a França sulcada de estradas de sentido único. como engolir a própria saliva.» J E A N P AUL SARTRE «Uma vida. tão rigorosamente pessoais quanto uma escova de dentes ou uma lâmina.

da mairie do XVIII. de cabeça inclinada para trás. de uma mairie à outra. «Uma vida desdentada. era um olhar.» «A minha vida. Nunca mordi. Toronto. Se fosse passear nas praças. «Nunca será minha. «Levei uma vida desdentada». um pouco de ar quente apenas. Para sempre. o professor. uma insipidez tenaz. sentia uma dor humilde e refrescante. Como se ele nunca tivesse existido.» Envolvia o. Aquela tinha um sentido vago e hesitante como as coisas naturais. minha querida liberdade.» Dançava. guardava me para mais tarde — e acabo de perceber que já não tenho dentes. fico em casa. Mi caballo murió. a sua vida.» E de repente uma consciência. ainda estaria no meu quarto. por onde ando levo a minha concha comigo. Viu Ivich. mas olhava Ivich e parecia lhe que ouvia aquela melodia triste e rude pela primeira vez. Pairava lá em cima. contemplou com ternura o corpinho rancoroso e frágil em que a sua liberdade se atolara. Ela dançava. esse árabe estaria em Marráquexe. o barco. não pensava em Mathieu.» Ergueu os olhos e viu Lola. aquele que não aprendeu inglês. o seu marido. o autocarro. aonde ia casar com Marcelle no mês de Agosto ou Setembro de 1938. nunca entrará na minha concha. Mesmo se eu apanhasse o comboio. Era uma estranha coisa sem começo nem fim e que no entanto não era infinita. o intelectual . o pequeno burguês preso às suas comodidades. A orquestra tocava um tango argentino que Mathieu conhecia bem. entre os meus livros. uma consciência sem eu. ainda estaria em casa. que não aderiu ao Partido Comunista. I ercorria a com os olhos. eu não. E aliás o que me restaria? Uma pequena massa viscosa que se arrastaria na poeira deixando atrás de si uma esteira brilhante. farto me de viagens: férias de universitário. pensou. No meu quarto para sempre. tranquilo e pensativo como escolhi ser. agora. Absolutamente nada. onde fora examinado pelo serviço de recruta J E A N P AUL SARTRE mento em Outubro de 1923. no meu quarto. incríveis como marcos quilométricos.Tombuctu. Que fazer? Quebrar a concha? É fácil de dizer. Tinha um sorriso mau nos lábios. esperava. Vou me embora. sem idade. a três mil quilómetros do marroquino e do seu turbante.» Sorriu. «Minha querida Ivich. um cheiro de poeira e de violetas. Ando. vagueio. não me aproximo um centímetro sequer de Marráquexe ou de Tombuctu. estava embriagada. perdida. à mairie do XIV. Para sempre o ex amante de Marcelle e. pôs se a sobrevoar o seu próprio corpo empoeirado. contemplava o falso boémio. se agarrasse no ombro de um árabe para através dele tocar em Marráquexe. passeio. se fosse passar as férias a Marrocos e chegasse de repente a Marráquexe. Nijni Novgorod. Kazan. uma consciência pura. sem futuro: «Não tem concha. Eu continuaria sentado no meu quarto. que não esteve na Espanha.

O companheiro dela levantara se. Este parecia admirado. como um maïtre d'hotel que espera ordens. não parecia muito orgulhoso de si. Quando se sentou.falhado. E ela pensava: «Este tipo está lixado. de resolver qualquer coisa. não têm o direito. Boris olhou para o sapato direito. Uma consciência vermelha. depois virou se bruscamente . Mathieu olhou em volta da sala e descobriu Lola junto dos músicos falando com Sarrunyan. não me vou embora. A loura amarrotou uma nota de cem francos e atirou a para a mesa. os negros voltavam com os seus instrumentos. um lamento sombrio. A orquestra argentina deixava a sala. — Não — disse Sarrunyan —. — Safa! — O quê? — A loura. e todos olharam. Mathieu encontrou se a sós consigo mesmo. com afectação. de cabeça erguida. nem sequer se aceitava. Lola sorriu lhe e atravessou a sala. tinha um ar estranho. ruidosa de música. que se abanava. Sarrunyan inclinara se obsequiosamente para a loura. Estava só. inchava.. A consciência inchava. era capaz de tudo. Falava lhe em voz baixa. Mas não podia durar. olhava a nota com um ar de censura. bem o merece. girava numa bolha giratória. com negligência. sofredora. a loura deu Ihe o braço e saíram os dois. Ivich voltou a sentar se perto de Mathieu. J E A N P AUL SARTRE — Vem — disse para o companheiro. de se desesperar de verdade pêlos Espanhóis. seco e duro. A loura levantou se de repente. Mi caballo murió. com um ar calmo e decidido. — Obrigada — respondeu Lola —. no fundo da sua vida. e depois?» Boris voltou ao seu lugar. Ele afastou se. sou eu que a convido. dando às ancas do mesmo modo. e fez se um silêncio pesado. Se aquilo pudesse durar. — É de mais — gritou a loura —. era Mathieu. — Que é que ela fez? Boris franziu as sobrancelhas e estremeceu sem responder. Sarrunyan aproximou se de Lola. — Nunca mais virá — disse com um sorriso divertido. ela cansou se.. a orquestra calou se. Depois deitou um olhar matreiro para a grande loura. Mexeu dentro da carteira. assobiando baixinho. Boris fixou em Lola um olhar de raiva e admiração. não pensei que fosse tão fácil. sobre o rosto de Ivich. eis tudo: «Um êxtase a mais. Mathieu sobressaltou se. Depois. É uma puta. o sonhador abstracto rodeado por uma vida flácida. Disse a Mathieu. Já nem se julgava. Os cantos da boca tremiam lhe. «não revolucionário revoltado». efémera e desolada. desvairada.» Mas não era solidária com ninguém.

— Ele diz que é para Picard. Lola voltara. — Não sabia. Mathieu pôs se a rir. «Já tem a sua conta». com indiferença. Mathieu sorriu lhe.» Ele estava só. enquanto se levantavam. ou então que a boca se ia rasgar e largar um grito enorme. tinha os olhos cerrados. Mas quando se afastaram. — E não lhe disse nada? — Não vejo nada de extraordinário nisso. Uma espécie de queixa rouca o fez estremecer. Deve ter encontrado Picard mais tarde. — Então não estava ao corrente — perguntou Lola. Os olhos continuavam lhe inquietos. sorria. — Que estranho! Dava a impressão de que ela ia soçobrar. puros como uma melodia. casco para o ar como um velho navio. Felizmente ela levantou se instantes depois. o rosto dela sulcou se de repente. e ela tamborilava nervosamente na mesa. Lola contemplou os calmamente. pensou. incrédula. — Acabo de recusar — disse Lola. — Esta gente vem aqui por minha causa. Mathieu via duas grandes íris verdes com pupilas minúsculas. — Ele sabe que nunca tenho um tostão. Ivich e Boris dan DADE DA RAZÃO cavam. — Precisam de mim — respondeu Lola. — Vem dançar. — Esteve em casa à tarde? — perguntou ela. Precisava de cinco mil francos? Lola continuava a olhá lo. vacilante. — Sim. Não pensava em nada. — Então? — Lola encolheu os ombros. Ela abriu os olhos.para Ivich. Mathieu não sabia que lhe havia de dizer. Passou algum tempo. apenas um pouco menos impiedosos. — Foi o que me disse. — Você faz o que quer nesta boite — disse. Pensou: «Está na hora da droga. Virou a cabeça e ficou a olhar para os pés. — Não. — Desculpe. Mathieu viu a dar a volta à sala e desaparecer. — Picard trabalha durante o dia todo em Argenteuil. Não o encontrou e depois deve tê lo visto no Bulevar . — Sabia que Boris precisava de cinco mil francos? — Não — disse ele. sem deixar de sorrir. deve ter passado pelo hotel de Boris. Pensei que fosse para si. lá pelas três horas. J E A N P AUL SARTRE Mathieu disse com indiferença: — Picard precisava de dinheiro.

Mas eu sei aonde ele quer chegar. uma prova. por acaso. Tinha vontade de rir. — Ouça — disse Mathieu —. A — E então? — Quis ver se eu era agarrada. Olhava Mathieu com uma insistência inquieta. que tem apenas trezentos francos por mês de mesada? — Então. quer ficar com a consciência limpa. exasperado. Hoje eu nem queria vir.» Lola tamborilava na mesa com as unhas escarlates. — E possível. Basta ver a cara das idiotas que andam por aqui quando estamos juntos. Lola olhava diante de si com uma expressão sombria e tensa. Finalmente disse: . se é para mim que diz isso. — Acredita que se preocupa com elas? — Não. — Mas quem haveria de soprar? — Não sei. Não pensem que podem falar mal de mim diante dele sem que mo conte..Saint Michel. Lola encarou o ironicamente. Inventou essa história de Picard. triunfante. Não tenho culpa.. admirado. Imagino que gosta de nós de maneira diferente e que fica irritado quando nos encontra ao mesmo tempo a um e outro. Mathieu adivinhava uma grande perturbação. não vale a pena fazer cerimónia. Ou então faz me perguntas com ar de quem não sabe o que quer. Não falta quem pense que já estou velha e que ele é um miúdo.» Assim teria acabado imediatamente com aquilo. — Pensa que Picard iria pedir cinco mil francos a Boris. Mas não era possível por causa de Boris. — Ah! — disse Lola. Fez se silêncio e depois perguntou repentinamente: — Como explica que haja sempre cenas quando vem aqui? — Não sei. «Ela ficaria zangada com ele e ele transformar se ia em meu cúmplice. os cantos dos lábios levantaram se lhe bruscamente. Tinha vontade de dizer: «O dinheiro era para mim. Não sabe resistir. — E um tipo leal. não sei — disse Mathieu. está enganada. — Sim. — Quem é que lhe disse isso? — Admira se de que o saiba? — perguntou Lola. mas por baixo daquela cólera. Lola desviou o olhar e perguntou: — Não seria uma prova? — Uma prova? — repetiu Mathieu. A não ser que alguém lhe tenha soprado a ideia. Aliás eu já o sinto só pela maneira de me olhar. — Que ideia! — Ivich passa a vida a dizer lhe que eu sou sovina. De longe. Mas há também quem acredite fazer lhe bem dando lhe volta à cabeça. tremiam e voltavam a cair. com frieza.

Mas é por isso que posso ajudá lo. Boris e Ivich dançavam. As suas relações com Boris não me interessam. ele diz lhe tudo. poderá largar me. e calaram se sem se reconciliar. e tinha vontade de dizer a Lola: «Não nos vamos zangar. Mas não quero que mo roubem.. — Pensava — disse Lola com um ar firme. — Que quer dizer com isso? — Olhe para nós e olhe para eles.» Mas a outra coisa. mas o que lhe digo é que esse miúdo é a minha última oportunidade. Tenho a certeza de que não lhe faço mal. e Mathieu compreendeu que não a convencia. J E A N P AUL SARTRE — Não pretendo roubá lo — disse ele. quem lhe diz que sou velha de mais para ele? Ele gosta de mim tal como sou. apesar da violência e da pureza. que dançavam.. faça o que entender. Olhavam ambos Boris e Ivich. é feliz comigo quando não lhe metem coisas na cabeça. — continuou. e isso acontecerá por certo bem mais cedo do que espero. pensou Mathieu. algo viscoso e voraz. Lola teve um gesto de desprezo. Há coisas que lhe posso ensinar — acrescentou num desafio.... Viu no amor de Lola. achava tudo muito certo. Mas sei o tão bem como você. não pense nisso.» Mas aquela semelhança desgostava o ligeiramente. Ela parecia escolher as palavras. Depois disso. — Pois bem. havia uma espécie de solidariedade. Mathieu calava se.. Quando se cansar de mim. Mathieu não respondeu logo.. Talvez o percebessem vagamente. Olhava Boris e Ivich. Entretanto. — Não quero que mo roubem. murmurou: A — Diz me isso a mim. Calou se. — Nós não somos iguais — disse. Lola detestava Mathieu e no entanto aquilo que lhe dizia agora nunca o tinha dito a ninguém.— Ouça bem. Lola exclamou. — Porquê tão bem como eu? — Somos iguais. — E depois. Se me interessassem. eram cruéis sem o perceber.. Entre ambos. Mathieu . bem vê que somos iguais. «É sem dúvida da droga. «Desabafa». sei que sou uma mulher velha. — Eu pensava: ele acha se com responsabilidade porque é professor. — Eu sei.. — Acho que ele gosta de si.. Mathieu encolheu os ombros. — Já passei por tudo e não tenho ilusões. pensativamente — não é preciso que mo digam. com uma violência inquieta: — Devia saber que ele gosta de mim! Deve ter lho dito. Lola volveu para ele os olhos pesados. apesar do ódio.

— Vem — disse a Boris —. — Estou bêbeda — disse Ivich. — Voltamos já. com a cabeça inclinada como para suster uma hemorragia nasal. dando voltas entre as paredes vermelhas. Dançaremos. Está a censurar me. — Já percebi — disse ela. — É verdade que estou bêbeda — disse. Lola passaria para trás do biombo e aí. — Naturalmente! — Que é que tem? — disse Ivich. «Devem pensar que somos amantes». quero falar contigo. Mathieu calou se. Um vestido preto comprido. — Veio me de repente. uma sala gordurosa e forrada a veludo vermelho. mas apoiou se à mesa e respirou fundo. pões me doida. Lola afastou se. Ivich. aliás você não está tão embriagada como isso! — Estou for mi da vel men te bêbeda — disse Ivich com satisfação. — Não — disse Lola —. Lola tomou a droga. pensou. — Penso que gostaria de me drogar. — Você está zangado porque estou bêbeda. — Não. — Não estou zangado. já estou quase na hora de cantar. Ela . Boris. Depois da primeira pitada. o brilho negro do vestido no espelho e dois lindos braços brancos retorcendo se de desespero. já disse. será uma distracção. — Está. mas ele não se atrevia a enxugá la. — Não podes falar aqui? — Não. porque aquilo já não era para a sua idade. Boris pareceu não se sentir à vontade. é uma ideia fixa tomar outra. Não dançavam.» E Boris baixava a cabeça. — Se tiver de ficar em Laon a vida inteira. Mathieu pensou que ela ia cair. receoso e obstinado. Desculpe.estava sentado ao lado de Lola. Vem ao meu camarim. espera que a orquestra toque. ao dançar. Mathieu não respondeu. Lola levantou se com dificuldade. Lola ameaçava e implorava: «Boris.» Boris e Ivich voltaram. As pessoas começavam a sair. respiraria duas pitadas de pó branco. — Bom. Em seguida. indignada. amavelmente. e Boris acompanhou a de mau humor. com abandono. No seu camarim. tinha vergonha de transpirar diante de Ivich. — Porque se vão embora? — Vão conversar. Ivich deixou se cair na cadeira. Aliás. A testa de Mathieu suava. Ouviu Lola murmurar para si própria: «Se ao menos tivesse a certeza de que é para Picard. estou cansada. Deviam ser duas horas.

estou bêbeda. Percebeu a ruga rancorosa no rosto de Ivich. Pegou no canivete de Boris pelo cabo. — Se chumbar. peco lhe. Mathieu voltou a cabeça. ficara pálida.tinha dançado sem parar. ao meu lado. tomou um ar majestoso. — O quê? — Este momento. apoiava obstinadamente a lâmina . pensou Mathieu. teria dado tudo para não ter havido histórias. os olhos maus e vagos e pensou: «Não devia ter falado. — Eu não sou decente. a Sarah. telefonar a Marcelle. porém não transpirava. serei ainda mais decente do que você. Estava naquele estado de exaltação que um incidente qualquer pode transformar em furor. Desde que chegou que não pára de me censurar. — Divirto me muito — disse ela. Estava encostada à cadeira. creio. está suspenso no vácuo como um diamante. — Cale se. J E A N P AUL SARTRE — Então — disse Ivich —. de olhos esbugalhados. — Que me importam os exames — disse Ivich. Quando eu ficar dez anos em Laon. Gostaria de permanecer indefinidamente à mesa. você também é decente.» A mulher de preto compreendeu que falavam dela. — Quem? — Essa mulher de preto. não tinha nenhum desejo. não é verdade! — Acho que sim. E redondinho. o marido tinha acordado e olhava Ivich. de Ivich. Dissera de manhã: «Tenho horror às mãos húmidas. Sentia se preguiçoso e covarde. Hoje de noite enterro a minha vida de solteira. apoiou a lâmina contra o bordo da mesa e divertia se fazendo a curvar se. — Está a falar comigo. Ivich. Mathieu olhou a. Odeio a decência — gritou repente. estou a divertir me. sob aquelas luzes artificiais. ficarei satisfeita. — Essa mulher despreza me. não pensava em nada. De vez em quando dizia com os seus botões que o Sol se ia levantar dentro em pouco e que teria de recomeçar as suas diligências. porque é decente — murmurou Ivich dirigindo se ao canivete. com uma voz de bêbeda. «Que chatice». Ivich olhou o com uma expressão cortante. e isso afigurava se lhe incrível.» Já não sabia que fazer das mãos. vou chumbar. Sentia se fraco e desanimado. A mulher de preto olhava Ivich pelo canto do olho. com a minha mãe e o meu pai. É verdade. Eu sou eterna. — Que é que essa quer? — disse de repente. viver do princípio ao fim um novo dia. Sorriu e afirmou com êxtase: — Brilha como um pequeno diamante. Não tenha medo.

— Você é doida! Vamos ao toilette fazer um curativo. maníaco e contente ao mesmo tempo. dir se ia o vaivém de um formigueiro. Parecia louca. O marido olhou. Quero ver como suporta o sangue. — Basta — disse Mathieu. que se enchiam de sangue. inquieto. e Ivich deixou o pegar no canivete. «Pronto». — O meu sangue. Segurava o canivete com a mão direita e rasgava a palma esquerda aplicadamente. A carne abrira se desde o polegar até o mindinho e o sangue gotejava devagar. — Um curativo? — Ivich riu. e pensava na dor que ela sentia. — Atreve se a tocar em mini? Acrescentou. venha depressa. peco lhe. culpados são os que a trazem aqui.. — Que é que há? — perguntou Mathieu. com um ar estranho. — É uma sensação muito agradável — disse Ivich. Ivich olhava para Mathieu com os olhos a brilharem de ódio. pensou Mathieu. — Parece um pedaço de manteiga. Ivich tornara se pálida. mas não disse nada. Erguera a mão à altura do nariz e examinava a com expressão crítica. Mathieu olhou precipitadamente as mãos de Ivich. JEAN PAUL SARTRE Agarrou Ivich pêlos ombros. Ivich. — Nada. — Não compreendo como é possível portar se como essa rapariga — disse.contra a mesa e forçava a a curvar se. Eu. sem opor resistência.. — Venha. as suas mãos! Ivich troçava com um ar vago. O sangue escorria. — Acha que ela vai desmaiar? Mathieu estendeu a mão por cima da mesa. Mathieu estava desvairado. mas ela desenvencilhou se violentamente. «o escândalo». maldosamente. Ivich ouvira com certeza. Parecia espiar qualquer coisa. — Ivich — gritou Mathieu —. ergueu a cabeça. Estava quieta. Fez se um silêncio pesado e em seguida a mulher de preto voltou se para o marido. e uma pesada gota de sangue caiu sobre a toalha. sem se levantar. A vizinha de Ivich deu um gritinho e pôs se a pestanejar. contemplava os dedos magros de Ivich. receoso. mais uma indecência para divertir a senhora. — Hum? — Não é culpa dela — continuou a mulher —. Quieta de mais. — Está a compreender o alcance do que me está a dizer? Mathieu levantou se. para os ombros de Mathieu. Gosto de ver o meu sangue. com um riso insultuoso: .

Apontou Mathieu e Ivich. sem dizer nada.» Não podia deixar de se sentir satisfeito. Olhava Ivich. — Como isto me diverte! — disse Ivich. — Aí está — observou a mulher. pensou. deseja alguma coisa? A mulher de preto apertava o lenço sobre os lábios. Ivich levantou se docilmente. — Se quiserem ir ao toilette — propôs —. acho isso encantador. Sentia se terno e maciço e tinha medo de desmaiar. «Brunet tem razão em achar que sou uma criança velha. «Sou um imbecil». estendeu a mão sobre a mesa e disse docemente: — Excessivo? Não. — Meu Deus — exclamou a mulher do toilette —. tinha visto coisas piores. o sangue que escorria em volta da lâmina. e o empregado acorreu: — Minha senhora. há lá tudo quanto é necessário. lamento. tire! — Está a ver? — disse Mathieu. inquieta. Mas havia nele uma satisfação obstinada e uma má vontade deliciosa.— Devia ter imaginado que você acharia isto excessivo! Escandaliza se com o facto de que se possa brincar com o próprio sangue. — Ah!. o canivete ficou enterrado na carne. Ivich olhava a mão de Mathieu. Mathieu não lhe dava ouvidos. Um jogo para meninas nobres. tire. e depois riu também. Era a opinião pública. Mathieu arrancou rapidamente o canivete do ferimento e doeu lhe muito. à vida. Era uma faca da casa? . Disse docemente: — Porque fez isso? — E você? — perguntou Mathieu. Era tão cómico que Mathieu deu uma gargalhada. de pé. Sentou se de novo. Ivich. — Qualquer pessoa pode fazê lo. compungida —. Enfiou o canivete de um golpe na palma da mão e não sentiu quase nada. Quando o largou. Atravessaram a sala atrás do empregado. — Ferimo nos com este canivete. Não era apenas para enfrentar Ivich que tinha feito o golpe. O tumulto ampliou se. era igualmente um desafio a Brunet. a Daniel. como foi que fez isso? E o senhor? — Estávamos a brincar com uma faca. ah! — exclamou Ivich. Duas gotas de sangue caíram no chão. com as mãos feridas levantadas. tanto. Desta vez. Depois fixou Mathieu. — Oh! — disse ela —. cerrando os dentes. O empregado não se impressionou. À esquerda ouvia se um tumulto ameaçador.. secamente.. tinha o rosto completamente mudado. Mathieu sentiu que empalidecia de raiva. Riu tão fortemente que a mão lhe tremeu. imagino. com o cabo para o ar. — Um acidente acontece tão depressa. Ivich contemplou o.

tirei lhe um pedaço de vidro da sobrancelha. vou tratar de tudo. — A mulher do toilette saíra do armário. encantada! Ela contemplava o com uma expressão de ternura e selvajaria. — O diabo — disse Mathieu. — Há pouco? — Sim. — Dói. quando Boris convidou a loura. Ela meneou a cabeça. — Não deve ser muito desagradável esta profissão — disse. ligeiramente congestionada.— Não. A mulher movimentava se em volta de Ivich. é tintura de iodo. Anteontem. Você estava sozinho.. gazes. — Bem sei. Olhou o chão de ladrilhos brancos. agora. hesitou um instante. Ouviu se um ruído molhado. — Aqui está tudo — disse ela. — Está bem equipada — disse ele. uma senhora atirou um copo à cara de um dos nossos clientes. J E A N P AUL SARTRE Abriu um armário. Ele sangrava. respirou um cheiro de desinfectante. — Pois não — respondeu Ivich. A embriaguez de Ivich parecia ter passado. gravemente. — Parece me que pensava em mim. — A minha mão também. e o coração dilatou se lhe. vai arder. depois juntou a palma da mão esquerda à palma ferida de Mathieu. — Ah! estava a estranhar.. — Um pouco de paciência. alegre. e metade do corpo desapareceu lhe dentro dele. — Faz me doer — gemeu Ivich. Mas queria saber em que pensava quando eu estava a dançar com Lola — disse Ivich a Mathieu. É profundo o corte — disse. Abriu uma lata. Leu: «Senhoras». Mathieu viu um frasco de tintura de iodo. . Pronto! — Vai dizer me que sou indiscreta. A — Há dias em que não é brincadeira. — Nunca imaginei que fosse fazer isso — disse Mathieu. — Não se inquiete. — Bem vê que nem tudo está perdido. tive medo por causa dos olhos. tesouras. Mathieu e Ivich sorriam. depois «Homens». — A mistura dos sangues — explicou. Sentia se feliz. agulhas. em letras douradas sobre as portas esmaltadas de cinzento creme. tinha a impressão de que uma boca se abria na sua mão. examinado o ferimento de Ivich. Mathieu apertou lhe a mão sem falar e sentiu uma dor forte.

— O quê? — Disse que Picard fora a minha casa e que eu o tinha recebido no meu quarto. Pronto! Mathieu sentiu o ardor. — Obrigado. ia cantar. A mulher corou de prazer. Mathieu não achou nada para dizer. e o largo rosto apareceu inteiramente nu. — E Lola? — perguntou Mathieu. — Oh! — disse —. Boris esperava os à mesa. — Parece que corta bem — observou Boris. — Acho que gosto ainda mais dele do que do outro.. J E A N P AUL SARTRE — Amanhã vou pentear me assim. Mathieu pôs dez francos no pires e saíram ambos. — Não — atalhou Ivich rindo —. — Pronto — disse a mulher do toilette. de pé no meio do palco. — Vai mal. — Você é linda — disse. Se pudesse conservar sempre essa expressão! — Não se pode pensar sempre em si próprio! Ivich riu. — Sim — respondeu Ivich —. vinguei me. — Tinha lhe dito que o encontrara no Bulevar Saint Michel. — Dê me a sua mão — disse a mulher do toilette para Mathieu. Parece que lhe tinha dito outra coisa antes. No nosso ofício há muito trabalho delicado. sou horrivelmente feia. sei lá. segurando os caracóis com a mão ferida. Olhavam contentes para as mãos enfaixadas. Inclinou a cabeça e calou se. — Ai! — disse Boris. é natural. A mulher de preto e o marido tinham desaparecido. Mathieu reparou que ela tinha um buço cinzento. Tinha um rosto irritado e triste.. fixando um olhar de amador nas mãos deles. O dancing estava quase vazio. — Cuidado. E o meu rosto secreto.— Eu olhava o. — Eu creio que penso sempre em mim. . olhava Ivich. Boris tornou se sombrio. que se penteava desajeitadamente diante do espelho. — Vocês magoaram se? — Foi o estupor do canivete — respondeu Ivich. Mathieu sentiu um desejo áspero e desesperado. vai arder. a senhora é hábil como uma enfermeira. Lola. quase bonito. você estava. — Que derrota — disse Mathieu. — Está zangada? — Olhe para ela! Mathieu olhou. Na mesa estavam duas taças de champanhe meio vazias e uma dúzia de cigarros num maço aberto. Acabou atirando os cabelos para trás. mas não prestou atenção. Fiz uma asneira.

Calaram se. mas deve ter encontrado uma solução. Ivich contemplava com ternura a mão enfaixada. «Bom». mas o resto do corpo estava bem disposto. «Ela disse também: "Sou eterna. era preciso que fosse fácil! Sarah faria com que o médico esperasse alguns dias. A culpa foi minha. o dancing cheirava a madrugada."» Estava feliz. o céu. Empurrou as persianas."» Lola começou a cantar. não pensava em nada. Esquecera se de Marcelle. parecia uma colcha pesada que o envolvia ainda. já estou habituado. O montículo de gaze branca em cima da cama era a sua mão esquerda. A cama. «Eu também me levanto cedo..» Mathieu acordou. mandaria o dinheiro para a América. pensou Mathieu. Uma verdadeira manhã. Viu logo a mão enfaixada. Enfiou a roupa e desceu a escada a assobiar. e o calor era menor do que na véspera. — Não tem de quê. Queres passar por minha casa ao meio dia? Desejaria conversar sobre Daniel». J E A N P AUL SARTRE — Há uma carta para o senhor — disse a porteira. «Um pequeno diamante». XII «N o Dome às dez horas. porém objectos anónimos de íerro e madeira. «Vai mudar de penteado». E depois isto passa. «vou vê lo. Saltou da cama. escrevia Daniel. a secretária. a sua maldosa pureza.. e deixá la ia atrás de si na pele inútil. pensava Mathieu. a frescura. já não eram seus cúmplices. a alvorada cinzenta tinham invadido a sala. não conseguirei dormir. Marcelle! Mathieu sentiu um gosto amargo na boca. Ela ergueu os olhos para ele. pensou. Doía lhe. Ele não quer largar o dinheiro. a poltrona verde. Se fosse necessário. a lâmpada. — Ivich! — disse com ternura. baixo e cinzento. embaraçava lhe os tornozelos. «ela disse: "Um pequeno diamante. Era de Daniel.. «Meu caro Mathieu». e os caracóis .» A vida caíra lhe aos pés. Acredita que lamento muito. tinha a impressão de estar sentado lá fora..— Desculpe — disse Mathieu. Sorriu. O sono.» Eram nove horas. imperceptivelmente. Fora do dancing. A vida parecia lhe fácil. A porteira entregou lhe um sobrescrito amarelo. num canto sombrio. Abriu a torneira do lavatório e mergulhou a cabeça na água. utensílios: passara a noite num quarto de hotel. mas não pude mesmo juntar a importância de que necessitas. tinha o mesmo rosto mentiroso e triangular de sempre. fora da vida. num banco.» Ela dissera ainda: «Estarei lá antes de si. «No Dome às dez. «falei com conhecidos meus. mas saltar lhe ia por cima. A rua estava deserta.» Ivich estava lá.

E depois. Mathieu? — Bem. Sinto as horas caírem sobre mim. levantou a cabeça. teria lá ido passar as suas férias. entretanto eu procurava. era insuportável. mas como me vão receber agora? Calou se. O empregado aproximou se. de todas as manhãs. com certeza que havia de encontrar qualquer coisa. Não mudara de penteado.. Ele contemplou a sem falar. Recomeçara a puxar os caracóis como uma maníaca. — Hei de fazer qualquer coisa para não ficar em Laon. O Dome acordava. — E manequim? — É pouco alta.. — De qualquer maneira. com um ar atormentado. A noite parecia ter deslizado sobre ela. Quinze horas ainda até à hora de dormir! Ivich pôs se a falar em voz baixa. Quando sentiu que o coração estava vazio. Ivich. Disse: — Acha que me aceitariam numa loja como caixeira? — Nem pense nisso. Acrescentou com uma expressão preocupada e envelhecida: — Em casos como este.. — Dois meses em Laon — disse Ivich com raiva. Sr. — Sim. de joelhos. Sentou se. não se põe um anúncio nos jornais? — Ouça. — Conseguiu dormir um pouco? — perguntou Mathieu tristemente. mas poder se á experimentar.escondiam lhe metade das faces. Vou lavar pratos. Por exemplo: poderia ir passar dois meses a casa. pensou. São nove agora. Sabia que se por acaso descobrisse um emprego ela se despediria ao fim de uma semana. Conhecia Mathieu. Dê me um chá e duas maçãs. — Não parece muito alegre. teremos muito tempo para pensar nisso. Ivich encolheu os ombros. ainda não chumbou. É o exame? Ivich respondeu apenas com um gesto de desprezo.. Houve um silêncio de que Mathieu se aproveitou para enterrar as recordações nocturnas. Tinha a tez amarelada da manhã. — E às duas horas. Não pôde deixar de observar: — Não levantou os cabelos? . e Mathieu continuou com vivacidade: — Mesmo que chumbasse não estaria ainda perdida. e Mathieu não disse mais nada. é exaustivo. era manhã. «Nada influi nela». Retirou lentamente a dela e escondeu a debaixo da mesa. — Vê se ala sem saber. Uma mulher lavava o chão. Olhou as mesas vazias. Ela percebeu que ele olhava para as mãos enfaixadas. Ivich. — Nada. — Como vai. insuportável. J E A N P AUL SARTRE Falava com uma expressão de convicção serena e bem humorada. mas não tinha a menor esperança. E.

que tem isso? Vocês são impossíveis com as promessas. — Prometeu me ontem — atalhou ele. — Que é que tens? — perguntou Ivich. quando o prometeu. viu ao longe a silhueta hesitante de Boris. — Pareces Frankenstein. Boris levantou dois dedos à altura da testa para fazer o gesto habitual de saudação. ligeiramente irritado. Repetiu energicamente como se desejasse intimidá lo: — Estava completamente embriagada. Repetiu. Tinha a impressão de que a todo o instante lhe faziam perguntas exigindo respostas imediatas. Olhava para a frente fixamente com uma expressão estúpida. Boris não respondeu. — Estava bêbeda.. Sorria. e de repente sentiu se invadido por um espanto escandalizado. — Boris! — disse. — Não parecia tão embriagada como isso.. Mathieu ficou alguns instantes sem compreender. «Como arranjar cinco mil francos antes da noite? Como fazer para trazer Ivich a Paris no ano próximo? Que atitude tomar para com Marcelle?» Não tinha tempo de voltar às interrogações que desde a véspera lhe enchiam o pensamento: «Quem sou? Que fiz da minha A vida?» Como voltasse a cabeça para afastar de si essa nova preocupação. Vinha em direcção a eles. mas as mãos dele começaram a tremer. — Suicidou se? — perguntou. Apoiou as mãos sobre a mesa e pôs se a balançar sem dizer nada. secamente. estupefacta. tomado de repentina e desagradável suspeita: — Disse lhe que viesse? — Não — respondeu Ivich. — O quê? Encarou Boris. Mathieu não respondeu. contrariado. — Devia encontrá lo ao meio dia porque. porque passou a noite com Lola. Tinha os olhos muito abertos e fixos. — Lola morreu — disse Boris. . Nem se podia pensar em interrogá lo imediatamente. — Ora — disse ela impaciente —. E olhe o ar que tem! Boris vira os. Perguntou. — Olá! — disse Mathieu. Agarrou o pelo braço e forçou o a sentar se ao lado de Ivich. estava lívido. maquinalmente: — Lola morreu! Ivich voltou se para o irmão. que parecia procurá lo do lado de fora. Recuara um pouco como se tivesse medo de lhe tocar. de olhos esbugalhados. porém não pôde ir até ao fim.— Bem vê que não — respondeu Ivich. Sorria sempre.

Já tomara antes. Aproximara se e contemplava Boris com ironia. Boris começou a rir: — Se vocês. olhou o resmungando. — Depressa. Boris bebeu docilmente. Calavam se os três. nervosa. — Ela suicidou se? Suicidou se? O sorriso de Boris abriu se. pensou Mathieu. com dificuldade.— Responde! — repetiu Ivich. O empregado afastou se e voltou com uma garrafa e um cálice. Não parecia dirigir se a eles.. um conhaque — disse Mathieu com naturalidade.. Não fale agora. Não era um acontecimento. Mathieu olhava para Ivich com espanto. Boris tornou a falar com voz surda. Ela acariciava ternamente a mão do irmão. de um modo inquietante. com irritação. — Então ela envenenou se? — Não sei. contará mais tarde. — Querido! Sorriu lhe com ternura. segurou o pêlos cabelos e sacudiu lhe a cabeça.. uma substância pastosa através da qual Mathieu via a chávena de chá. mas o lábio superior arreganhava se lhe de modo estranho sobre os dentes miúdos. com ar estúpido. Mathieu deu lhe uma bofetada seca e silenciosa com a ponta dos dedos. — Tens a certeza de que ela morreu? — Tomou a droga esta noite — explicou Boris.. no camarim. aliviado. — Essa já devia ser a segunda vez — observou Mathieu. puxando os caracóis. — E para o senhor? — perguntou o empregado. — Parece me que ela tomou cocaína quando você estava a dançar . tu estás aí. anónima e sagrada. Boris parou de rir. — Subimos para o quarto e ela tomou a droga. Só então começava a perceber os efeitos da noitada. era uma atmosfera. Os lábios dançavam lhe. as tuas mãos estão quentes — suspirou Boris. durante a discussão. e a morte estava entre eles. Eargou o cálice e murmurou como para si mesmo: — Não é nada divertido! A — Querido! — disse Ivich aproximando se dele. — As coisas não iam bem entre nós. Mathieu sentia se mole e vazio.. «Ela não está a ver bem». se vocês. — Agora conta — disse Ivich. Ivich encarava o fixamente. a mesa de mármore e o rosto nobre e maldoso de Ivich. — Oh!. — O rapaz está com muita pressa. de boca aberta. — Beba — disse para Boris.. — Deixe — disse —.

— Então — disse Boris com lassidão — foram três vezes. Disse: — Olha para mim! Estás triste? — Eu.. Mathieu esforçava se por ter pena de Boris. Contemplariam o corpo sumptuoso com um misto de concupiscência e de interesse profissional. — Daqui a duas horas — observou Ivich. dobrariam as cobertas. De repente. Inclinara se sobre ele. Teve um arrepio. Chamou o empregado. sufocas me. levantariam a camisola l A para verificar se havia ferimentos. . Nunca tomava tanto. Perguntei: «Que é que tens?» Não respondeu. — Estás triste? — perguntou Ivich docemente. Boris enojava o vagamente. não havia ninguém na porta. Esvaziou o copo e continuou: — Acordei cedo porque abafava. porém sem demasiada compaixão. Deitámo nos sem falar. — Sim.» Ela não o tirava. Ninguém me viu sair. — Outro conhaque. Então empurrei o braço com toda a força e ela quase caiu no chão. agarrei lhe o pulso e puxei a para a endireitar. e eu não podia dormir. Ela saltava na cama. acho que a vão descobrir ao meio dia — disse Boris com um ar preocupado. Era o braço dela. Estava J E A N P AUL SARTRE gelado. nunca mais os esquecerei. com voz monótona. Parecia pedir uma informação. — Pobre querido — disse Ivich. Uns homens de chapéu de coco iam entrar no quarto. — Vá. Estava estendido na cama por cima de mim. — A criada costuma acordá la a essa hora. — Tão urgente como o primeiro? — perguntou o empregado a sorrir. Apanhei um táxi e vim. Eu disse lhe: «Tira o braço.com Ivich. mas não conseguia. vesti me — continuou Boris. Boris desconcertava o ainda mais do que Ivich. Pensei que íosse para fazer as pazes e peguei lhe no braço. secamente. — Agarrei nas minhas coisas. ficou quieta e eu adormeci. Saltei da cama.. Mathieu pôs se a pensar no corpo de Lola. Já nada lhe restava daquela graça e rígida. Os olhos estavam abertos. Vi lhe os olhos — murmurou com uma espécie de raiva —. O seu novo rosto assemelhava se demasiado ao de Ivich. Parecia que odiava Lola por ter morrido. — Não queria que me encontrassem no quarto dela. sirva depressa — observou Mathieu. — olhou a e disse bruscamente: — Isto horroriza me. estendido numa cama de um hotel. pensando que por vezes a profissão tinha as suas vantagens. — Mora sozinha? — perguntou.

mas não tinha o hábito de praguejar. o pai! — atalhou Ivich. — Não quero lá voltar. pensou Mathieu. pensou Mathieu. — Vai ficar danado! — E capaz de me chamar para Laon e de me enfiar num banco. — Fazes me companhia — disse Ivich com uma voz sinistra. Boris falava normalmente em calão. pareciam duas ovelhinhas. «São assim! É assim que eles são!» Ivich perdeu o seu ar vitorioso. Acariciava os cabelos do irmão com uma expressão de piedade e triunfo. Tem tempo de ir sossegadamente buscar as cartas. lívidos e descompostos. «Há qualquer coisa no ar». Apanhe um táxi se quiser. irritado. Mas falo de um tipo da Boule Blanche. — É a primeira coisa que encontrarão. — As minhas cartas! Que estúpido. deixei as em casa dela. — Oh!. — Como pudeste escrever essas coisas! Boris levantou a cabeça. Encolhidos um ao lado do outro. — Cartas que lhe escreveu? ^ — Sim. uma vez ou duas por curiosidade. Estava ligeiramente ressentido. — Também tomava cocaína? — perguntou. — Você disse que a criada vai acordá la ao meio dia? — perguntou. uma pobre astúcia desarmada. com uma expressão de astúcia na boca.Tinha retomado os ares de irmã mais velha. — Que é que aconteceu? — perguntou inquieta. São dez e meia. Ela bate até que Lola lhe responda. Não desejava que ele fosse preso por minha causa. mas poderá ir até de autocarro. porque Boris nunca lho tinha dito. «Cá está». Na melhor das hipóteses serei chamado como testemunha. Boris deixava se acariciar.. — Estão a ver o sarilho! — Talvez não as encontrem — disse Mathieu. Fez se silêncio e em seguida Mathieu percebeu que Boris o olhava de esguelha. — Sim. J E A N P AUL SARTRE — Boris! És doido! — disse Ivich. Mathieu contemplou os com piedade. — Eu. abatido. Mathieu tinha a impressão de que ele representava. — E que tem isso? — O médico! O médico vai saber que morreu intoxicada! — Você falava de drogas nas cartas? — Falava — respondeu Boris. a quem comprei uma vez para Lola. Boris desviou o olhar. Mathieu não compreendia. — Pois bem. Bruscamente gritou: — C'os diabos! Ivich sobressaltou se.. Perguntou: .

vou lá. Ela caíra pesadamente dentro de uma pequenina alma medrosa e perturbava a. até o pagamento. segundo quarto à esquerda. passando a mão no rosto e esfregando as faces.— Isso é lhe realmente impossível? — Não posso. mora também no terceiro. — Qual é o número do quarto? — Vinte e um. é só empurrar. «Pobre Lola. o dinheiro. Mathieu assobiou baixinho. Levantou se. sentia se contente por estar só. diga que vai ver Bolívar. é o negro do Kamtchatka. Mathieu deu alguns passos no Bulevar Montparnasse.» Mas não lhe cabia a ele lamentá la. Notas*"" Notas. gostava dela. «Morreu como um . Mas sentia horror. Se Boris tivesse tido ao menos uma vaga tristeza. Falara em tom de comando. — Esperem me aqui — disse Mathieu. Mathieu viu que Ivich o observava: A — Onde estão as cartas? — Numa mala preta. Boris parecia aliviado. — Bem — disse Mathieu —. Aquela morte era maldita porque não recebera nenhuma sanção e não lhe competia sancioná la. Ivich e Boris iam agora J E A N P AUL SARTRE começar a cochichar. a chave está na bolsa de Lola sobre a mesa de cabeceira. prevê tudo. E acrescentou com um ar de admiração e imensa gratidão: — Você é um tipo de ouro. Mas tanto se lhe dava. — Esperamos — disse Boris. Só a essa pequenina alma cabia a responsabilidade esmagadora de pensar nela e de redimi la. iam reconstituir o seu mundo irrespirável e precioso. há uma porção de cartas. terceiro. as minhas estão amarradas com uma fita amarela. É essa. como uma censura. Conheço o.. — Há «massa» também. Disse repetidas vezes «uf!». Há um molho de chaves e uma pequena chave chata. Atirou os cabelos para trás com a graça habitual e disse sorrindo levemente: — Se alguém lhe perguntar alguma coisa. diante da janela. eternamente desclassificada. Em cima da mala há outra maleta. A morte de Lola ficaria eternamente à margem do mundo.» — A maleta está fechada à chave? — Está. Em volta dele havia as preocupações da véspera.. Ivich continuava a olhá lo. Acrescentou mais baixo: — Estou de volta dentro de urna hora. o amor por Ivich. Vê se logo. Demorou um bocado e acrescentou afectando indiferença. e no meio uma mancha negra: a morte. Pensava: «Não perde a cabeça o rapaz. a gravidez de Marcelle.

Baixou a cabeça. — Na esquina da Rua Navarin com a Rua dês Martyrs — avisou. tivesse alcançado de si próprio perdão por já não ter a idade de Ivich. sentiu se mais calmo. Depois os vidros escureceram. «Dependem de mini». de figuras e de perfumes mortos. de brilhos sombrios. Mas não a vida. de repente. ou se tornassem os primeiros sinais de um destino. cheia de gritos sem ecos e de esperanças ineficazes. Os dias mais recuados da sua infância.. cansado e amadurecido. mais indestrutível do que um mineral e nada a podia impedir de ter sido. de que ia entrar no quarto dela. Mathieu contemplava o desfile dos grandes edifícios tristes do Bulevar Raspail. Abandonada pelo animal mole e sentimental que a habitara durante tanto tempo. Pensava na própria vida. a vida de Mathieu deslizava docemente. como os corpos são feitos com o vácuo». «Não olharei. de futuro em futuro. Experimentava mesmo um sentimento de tranquila superioridade. o táxi entrou no estreito gargalo da Rua du Bac. pensou Mathieu. cada dia vivido destruía um pouco mais os velhos sonhos de grandeza. Quando se sentou no carro. «é feita com o futuro. como se a mocidade subitamente já não tivesse valor. Era ele que tinham esperado vinte anos. desse homem cansado.» Sentiu se sólido e mesmo até um pouco pesado. pensou com amarga vaidade. entre parênteses. — Táxi! — gritou Mathieu. flutuava. como um pequenino céu pessoal e bem redondo em cima deles. flutuava à margem do mundo. o dia em que dissera «Serei livre». e esse futuro era ele. O seu passado sofria sem cessar os retoques do presente. como se. que uma criança dura exigira a realização de suas esperanças. e cada novo dia tinha novo futuro. dependia dele que os juramentos infantis permanecessem infantis para sempre. era dele. o dia em que dissera «Serei grande». com o futuro particular. apareciam lhe. A consciência dela aniquilara se. aquela vida deserta parara simplesmente. ver os grandes olhos abertos e o corpo branco. Era melhor que o táxi não parasse em frente do hotel. O futuro penetrara a até à medula.cão!» Era um pensamento insuportável. inesquecível e definitiva.» Estava morta.. ou melhor. ele tal qual era agora. e repentinamente Mathieu inteirou se de que Lola morrera. acabava de sofrer a última metamorfose. Tudo nela estava em suspenso. O seu futuro coagulara se. em direcção a quê? . de espera em espera. «Uma vida». ainda agora. Tinham direitos sobre ele e através de todo aquele tempo decorrido mantinham as suas exigências e ele tinha amiúde remorsos esmagadores porque o seu presente negligente e céptico era o velho futuro dos dias do passado. Repetiu: «Dependem de mim.

e que se abatia sobre si mesma. — Espere — disse ao motorista. as noites de amor que lhe tinham parecido mais eternas não passavam de esperas.» Mathieu deitou uma olhadela através do vidro. no fundo do quarto. «E se houver alguém lá dentro?» Escutou com atenção uns momentos e bateu. Não havia tido de esperar. os momentos mais cheios. muito branca. nada mais senão uma vida vazia. não havia mais um gesto a fazer. Tinha um rosto extraordinariamente expressivo. Lola não respondeu. esse grande amor de velha. e a vida dela. pensou. A chave estava na porta. mais pesados. a olhar. Elas continuavam imóveis. «ninguém saberia se estava realmente lixado ou se tinha ainda possibilidade de me salvar». E o amor por Boris. não fora senão uma espera. ouvia se apenas o tiquetaque do relógio. Não tinha havido nada que esperar. Ouvia as pancadas do coração e tinha as pernas a tremer. No quarto andar um hóspede puxou o autoclismo. parando as. A morte desabara sobre todas essas esperas. Atravessou a rua em diagonal. nem uma carícia. um barulho líquido e uma espécie de assobio. Tinha havido com certeza. um dos seus . Mathieu perscrutou a penumbra. ainda ontem ela esperava viver e ser amada um dia por Boris. nem uma prece. absurdas. de cores confusas. por causa do qual tanto sofrera. que jurara ser uma grande cantora. empurrou a porta do hotel. Estava morta. mudas. a questão não tinha sentido. «E preciso que não suba depressa de mais». «Se eu morresse hoje». Em cima de uma porta envidraçada um rectângulo de esmalte: «Gerência. Lola estava morta. como a de Mathieu. nunca ninguém saberia se Lola teria afinal sido amada por Boris. — Lola — disse em voz baixa. sem objectivo. A cama ficava à direita. Ainda ontem. Mathieu desceu. obscuro e vacilante. Tudo dormia.Em direcção a nada. Ninguém respondeu. entrou no vestíbulo escuro e perfumado. uma menina de caracóis ruivos. Os seios estavam descobertos. estava ansioso por ler a morte no rosto de Lola. como se fosse um sentimento humano. A sala parecia vazia. dançarinos. O táxi parou. Mathieu viu Lola. ele esperava o seu sentido do futuro. porém indecifrável. e também lá por volta de 1923 uma jovem cantora impaciente por se tornar um cartaz. Empurrou a porta e entrou. ficara em suspenso desde o primeiro dia. já nada havia senão esperas de esperas. Parou no patamar do terceiro e olhou em volta. O quarto estava escuro e conservava ainda um cheiro húmido de sono. A freguesia habitual do hotel cantores. pensou repentinamente Mathieu. Pensou em Lola. num Verão passado. Mathieu ouviu o ruído da água a descer. negros do jazz deitavam se tarde e acordavam tarde.

E não pude. caberia a ela mostrar se corajosa. No fim de instantes remexeu nervosamente nos papéis. o corpo envenenado por um desejo ácido. hesitante. virando a cabeça. o outro estava debaixo das cobertas. «posso dar a mim próprio uns bons golpes de canivete na mão. pensava: «Sou um fraco. Lola escondera um pacote de cartas amarrado com uma fita amarela. sem olhar. e teve medo de verdade. inquieto. pegou rapidamente na bolsa que estava na mesa de cabeceira. escolhendo pelo tacto. e ouvia o corpo silencioso de Lola. Os dedos abriram se e as notas caíram em rodopio dentro da maleta. para fazer de trágico diante das rapariguinhas. Ficou durante alguns instantes à beira da cama. havia aquela mulher alta e branca. «Não trouxe o dinheiro». Pensou: «Saí do buraco». pensou olhando a mão faixada. com o olhar fixo nas notas. atrás dele. Mathieu levou o pacote à luz. — Lola — repetiu Mathieu avançando para o leito. lembrou se. limpou os joelhos com a mão direita. Atrás dele. rígido. espantado. Não podia arredar o olhar daquele busto orgulhoso. Sob um monte de recibos e de notas. Ergueu a tampa. sentia se pregado no sítio. A chave chata estava ali. Mas não podia arredar pé. para que evitasse essa coisa sórdida que ia marcá la. cujos braços pareciam abrir se ainda e cujas unhas vermelhas pareciam ainda arranhar. Mathieu ajoelhou se diante da maleta. depois virou se. Permanecia imóvel. «Estou pago». com a mão no corrimão da escada. mas não se pode ter uma raiva verdadeira contra si próprio. Eram notas. pensou em Marcelle. Notas de mil francos. pensou. — Bom — murmurou resignado. estendia se sobre o leito. «Saí do buraco. Levantou se.» Esforçava se por tremer de raiva. Uma luz cinzenta filtrava se através da cortina. muitas notas. Bom rapaz! Depois disso». e observou as notas com perplexidade. alucinada. Subitamente. Mathieu pegou lhe e dirigiu se à janela. lutar contra . Ela iria ao consultório da velha. pôs a chave no bolso e saiu do quarto. com cuidado. A esquerda segurava um maço de notas. sem querer. mergulhou as mãos na maleta e sentiu uns papéis amarfanharem se entre os dedos. Sou demasiado delicado. como um J E A N P AUL SARTRE olhar. nunca poderia levar me a sério». tinha vontade de a tocar. A luz ofuscou o. não havia outra solução. Introduziu a chave na fechadura. na ignóbil velha de mãos de assassina. examinou a letra e murmurou: «Ei las. o quarto estava cheio de uma presença imóvel. Mathieu fechou a. a presença irremediável estava ali.» Depois enfiou o pacote no bolso.» Escutava atentamente.belos braços. «Bastava um gesto para que não sofresse.

a angústia e o medo. Nem sequer tinha a certeza de poder roubar. — Sente se mal? — Bastante. evasivamente. Mas logo se calou. Houve um silêncio demorado. Ele está desvairado. Em seguida. pareço morta.» Pensou premindo com força a mão ferida sobre o corrimão: «Casarei com ela». está na mesa de cabeceira. — Que é que tive? J E A N P AUL SARTRE — Estava rígida. — Não foi isso? Pensou? — Teve medo — disse Mathieu. Ainda parecia morta. Isto passará durante o dia. Pousou a bolsa na cama com um suspiro de exaustão e acrescentou: — Aliás. com repugnância. e pareceu lhe que se afogava. «Não. Parecia fazer um esforço para voltar a si finalmente. esteja sossegado. Disse de olhos fechados: — Dê me a minha bolsa. Encostou a porta como da primeira vez e tentou acostumar os olhos à escuridão. não». Disse com esforço: — Ele pensou que eu tinha morrido? Mathieu não respondeu. não valho muito mais. — Quem está aí? — indagou Lola. com os olhos pregados em Mathieu. Era uma voz fraca. Lola perguntou: — Que horas são? — Um quarto para as onze. Mas sei o que é. Ele teve medo. enquanto ele ganharia coragem bebendo nos bares. Subitamente. — Uf! Houve novo silêncio. Murmurou: «Não. — Precisa de alguma coisa? Quer que eu vá chamar um médico? — Não. Boris falava Ihe e não lhe respondia. sacudindo a cabeça. Então foi Boris quem o mandou? — Foi. pensou. os maxilares tremiam lhe. Mathieu estendeu lhe a bolsa. — Onde está Boris? Que está a fazer aqui? — Você esteve doente — explicou Mathieu. Ela fechou os olhos. depois respirou fundo. — Estou com dor de cabeça — disse ela. ela tirou uma caixinha de pó de arroz e olhou se no espelhinho. de olhos arregalados. precipitadamente. — É Mathieu. pôs se a rir de modo desagradável. Deu alguns passos incertos e discerniu afinal o rosto pálido de Lola e os olhos arregalados que o contemplavam. — É verdade. Casarei com ela. . Lola não parecia ouvir. «Estúpido». girou sobre os calcanhares e entrou de novo no quarto. Puxou as cobertas até o queixo e ficou imóvel. mas irritada. Mathieu sentiu um arrepio percorrer lhe o corpo da cabeça aos pés. Ela não irá. só sirvo para isso.

Mas continuou secamente depois de um momento: — Diga lhe que se tranquilize. — Está bem. Diga lhe que venha já. Enfim. Fechou novamente os olhos. Dirigiu se para a porta. E mandou o aqui para ver se eu estava bem morta. «tenho de lhe entregar a chave. Estou à espera dele.. erguendo se ligeiramente.. A A cabeça de Lola recaiu no travesseiro. por aqui! Mathieu voltou se. — Em resumo. o que importava era não ter tido a coragem de agarrar no dinheiro. Disse com uma voz suplicante: — Promete que o manda vir? Zangámo nos ontem. — Que é? Ah! — disse. Eram frases curtas. e Mathieu pensou que fosse desmaiar. até logo. tentou repetir alegremente. Vou dizer lhe que venha. ele sabe. — Não. pouco importava que a sua cobardia tivesse tido consequências favoráveis. Acrescentou: — Ainda não foi desta. Irei cantar. — Obrigada. secas. coitado.. Pegou no pacote de cartas. — Leve me ao Dome. De vez em quando havia . Não estou em perigo.» — Olá — gritou o motorista —. Mathieu estava comovido. — Lola! — Vá lá. O pacote de cartas que enfiara no bolso interno da casaco pesava lhe fortemente sobre o peito. quando. Pôs se a rir. «A cara J E A N P AUL SARTRE que ele vai fazer!».. — Então. «Mesmo assim.» Mas não estava alegre.— Está lá em baixo? — perguntou Lola. desfez o laço e começou a ler. ele foi procurar me. reconhecendo o táxi. E o coração que fraqueja. Sentou se e o táxi arrancou. mas Lola chamou o. «Fui esperto em não ter pegado no dinheiro. admirado. À noite já estarei boa. ele teve um pavor louco. Saiu. que Boris enviara de Laon durante as férias da Páscoa. não precisa mesmo de nada? — Não. Ficarei aqui até à noite. eu estava no Dome. que não se falará mais disso. Nada de histórias. Um riso sufocante e penoso. Fugiu sem querer saber de mais nada. Mas que venha! Peco lhe que venha! Não posso suportar a ideia de que me julge morta. pensou. ele que se arranje para a pôr novamente na bolsa». diga lhe que já não estou zangada. estou satisfeito de que não tenha morrido. São coisas que me acontecem às vezes. Apanhei um táxi. Quis afugentar do pensamento a humilhante derrota. — Bem — disse Mathieu —.

— Tê lo ia apostado — disse. «já começava a habituar se.» Boris terminava sempre assim: «Amo te muito e beijo te. — Aí estão. pareceu a Mathieu que ele era o aliado natural de Lola.» Atou as de novo cuidadosamente e colocou o maço no bolso. . Boris ergueu os olhos para ele. «Ora».. Boris pegou lhes e fê las desaparecer no bolso. Estava sentado de lado. Prostrou se ainda mais. — Essa é boa! — Ela disse que aquilo lhe acontece às vezes quando toma cocaína. narinas crispadas. a decepção sempre prevista e no entanto sempre nova e o esforço que devia fazer todas as vezes para dizer a si própria com alegria: «No fundo ele ama me. Boris e Ivich custavam a engolir a notícia. Ivich parecia ter recuperado o sangue frio.» Quando o táxi parou. Fumei um Henry Clay até ao fim sem deixar cair a cinza. pensou Mathieu. pensou Mathieu. Ivich falava lhe ao ouvido. de ombros recurvos. Calaram se. Ao entrar no Dome teve a impressão de que ia defender a memória de uma morta.alusões à cocaína.» Mathieu imaginou sem dificuldade em que estado de espírito Lola devia ter lido aquelas cartas. secamente.» As cartas começavam todas por: «Querida Lola». Mas não podia pensar nela senão no passado. com animação. «Não imaginei que ele fosse prudente. «Nado. boca aberta. Boris. só que Lola não morreu.» Ivich olhava Mathieu. — Lola não morreu — repetiu estupidamente. Mas calou se ao ver Mathieu. Discuti com meu pai. — Não foi muito difícil? — perguntou Boris. Tinha os olhos vidrados.. dir se ia que estava esmagado. Este aproximou se e atirou o maço das cartas sobre a mesa. mas tão veladas que Mathieu se surpreendeu. Disse que você devia saber. «Que farsa».» Pensou: «E apesar de tudo guardou as. não sabe é dizê lo. foi ela que lhe entregou as cartas? — Não. «Boris terá de se arranjar para as pôr na maleta sem que ela o perceba. J E A N P AUL SARTRE Boris não respondeu. em seguida breves relatórios das suas actividades. Estava ainda desmaiada quando as apanhei. — Foi. parecia não compreender. Conheci um antigo lutador que me vai ensinar o catch. Boris bebeu um trago de conhaque e pousou o cálice na mesa. — Nada difícil. Mathieu olhava o sem amizade. de olhos faiscantes. Boris levantou a cabeça. — Então o que é que teve? — Simples desmaio — respondeu Mathieu. Parecia que Boris não fizera um movimento desde a saída de Mathieu.

— Não! — disse com a voz tão alta que uma mulher.. E acrescentou. será por piedade — disse Ivich —. — Eu. — Para mim está morta. — disse Mathieu. espantado —. — Não sei que fazer. — Ela quer que a vá ver imediatamente. — Oh!. Lembre se disso. — Mas. não pode haver nada mais repugnante. as histórias de ontem — atalhou Boris. mas se a tornar a ver. Boris não se mexeu. se virou para ver. — Ela inspira me horror! A — Porque pensou que estaria morta? Boris. mas Boris safou se com uma sacudidela violenta. — Não queria dizer lho. E isso — acrescentou com desgosto —. é uma desgraçada. — Acho que Boris tem razão — disse Ivich. Naturalmente disse lhe que viera apenas ver o que acontecera. não pode exigir isso dele... isso não posso. sombrio. . vá vê la. Mathieu estava farto. tenho de lhe tocar. vejo a morta. Boris. Enganou se. com uma intenção que Mathieu não compreendeu: — No lugar dele. exibia o seu rostinho irritado e sinistro. toda esta história é absurda. — Se ele voltar. «Ela está a meter lhe coisas na cabeça». eu pensei que estivesse morta — repetiu Boris como para se desculpar. com uma obstinação mole e invencível: — Não vou.— Que disse ela? — indagou. com um encolher de ombros. Ivich fez uma expressão impaciente. com vivacidade. exasperado. obstinado. Mathieu lançou lhe um olhar de ódio. e Boris aproveitou se. — Então? Boris olhou com uma expressão maldosa. pensou. — Há coisas que você não sente — disse. — Devia ter ficado transtornada ao vê lo ao pé da cama! — Não muito. mesmo para ela. Mathieu ficou estupefacto. é tudo. eu teria feito o mesmo. Eu disse que Boris tinha tido medo e me viera chamar. E arranje se para pôr as cartas no lugar sem que ela o veja. Ele continuou mais baixo. — Apanhe um táxi. — Pelo menos tente vê la. Estendeu a mão para agarrar no braço de Boris. — Mas isso é estúpido. a história de ontem acabou. Boris passou a mão pela testa. — Pois não está — disse Mathieu. tenha juízo. — Está a ouvir? Ela sofre. na mesa do passeio. — Não quero tornar a vê la — afirmou. ela prometeu não falar mais nisso. Boris olhou o. Não vá confundir tudo.. — Mas não vê que ele a vai matar? Ivich meneou a cabeça. curiosa.

. «Por mais frescos e limpos que sejam. Prometa me que a vê amanhã ou depois de amanhã. Depois. Afinal eu tenho rugas. só fazem projectos a curto prazo. noutro toilette. . via os esmaltes brandos dos toilettes. Sentia se cheio de rancor por Ivich.. Boris pareceu aliviado. — Adeus! — Adeus — responderam os dois ao mesmo tempo. «Pobre Lola! Amanhã sem dúvida Boris voltará ao Sumatra. Boris vai. porque têm medo. tem de esperar. Queríamos parecer homens. Agarram se à mocidade como um DADE DA RAZÃO l moribundo à vida. Treme diante da possibilidade de ter rugas. pensou. — As duas cabinas estão ocupadas. Quantas vezes vi Ivich massajar o rosto inquieto em frente de um espelho. — Está bem. Pensou: «Ele não telefonará. da doença. mas reteve se. Vivem a ruminar a sua mocidade. até que essa recordação se apague. Enquanto Mathieu esperava. a dizer se passou. — Preciso de ir a casa de Daniel — disse a Ivich. por entre duas portas abertas. Ivich fala em suicidar se. vou eu telefonar. não morrerão tão cedo. «Eles têm medo da morte».. — Não se esqueça — disse Mathieu afastando se. mas pergunto se o único meio de salvar a mocidade não será esquecê la. uma pele de crocodilo. Começo a crer que nós é que somos jovens. têm almas sinistras. Mathieu desceu à cave do Dome e consultou a lista telefónica.. Mathieu quis dizer: «Pelo menos telefone a avisá la de que não pode ir». — E quando a voltarei a ver? — Não sei. mas estou tranquilo. nunca se atreverá.. da velhice. mas ainda tenho muitos anos para viver. como se só tivessem diante de si cinco ou seis anos. Medo da morte.. — Mande me um telegrama imediatamente. — Quando saberá o resultado? Às duas horas? — Sim. sentia os lá em cima. músculos retorcidos.. Estranha recordação de amor.. — Quer que o vá ver? — Obrigada. amanhã. juntinhos. Mas este dia que ela vai ficar à espera! Não gostava de estar no lugar dela!» — Quer dar me Trudaine 00 35? — pediu à telefonista gorda. Olhou com desânimo aquelas duas cabecinhas hostis. — Então — disse —. Depois.» Mas continuava pouco à vontade. Na véspera. J E A N P AUL SARTRE — Está bem — atalhou hipocritamente —. espere um bocado.Mathieu sentiu se impotente.» Levantou se. éramos ridículos.

Cerrou os punhos e pronunciou interiormente. jovem e caprichosa como a graça. — Um momento — respondeu a telefonista. Essa inexplicável liberdade. Ela ordenava lhe simplesmente que largasse Marcelle. «Não pude pegar no dinheiro. com uma gravidade de pessoa adulta. com licença de Marcelle. Em vão. . — Alguém pediu Amsterdão.» Tinha aberto o anuário e folheava o distraidamente. que quase se sentiu reconfortado.» Fechou o anuário. acabrunhado. entreviu a apenas. basta deixar me ir. Ela amedrontava o. entrou flor na latrina. Em vão. cruel.» Viu Mathieu. É para não ser da minha idade que há um ano ando a brincar com esses dois miúdos. Foi um momento apenas. o sonho orgulhoso e sinistro de não ser nada. Nord 77 80. E estava tão longe. os destroços da sua dignidade humana. eis a liberdade que me resta. Entrou. uma dessas que dizem com uma expressão de menina: «Vou fazer um chichizinho. vivo como se fosse casado. a minha liberdade é um mito — Brunet tinha razão — e a minha vida constrói se por debaixo deste mito com um rigor mecânico. É para fugir da minha vida que sussurro por toda a parte.» Estava tão cansado de ser atirado de um lado para outro. Querer casar com Marcelle. autor dramático. de chefe de família: «Quero casar com Marcelle. Pensou: «Querer ser o que sou. — Esse telefonema vem ou não? — perguntou. Encostou se obstinadamente à sua vontade demasiado humana.sussurrantes e cúmplices.» Sentia náuseas. «Não pude pegar no dinheiro!» Uma mulher descia a escada. toda perfume. viva e leve. não preciso de ter vontade para casar com ela. Leu: «Holle becque. «Isso também é mentira. — Obrigado. a estas palavras demasiado humanas: «Hei de casar com ela!» — É a sua vez — disse a telefonista. de burguês. uma opção infantil e vã. — Na segunda cabina.» Puf!. asperamente. É para não ser da minha classe que escrevo J E A N P AUL SARTRE nas revistas de esquerda. mas fascinantes apesar de tudo. A minha única liberdade. os tabus deles impediram me. Sou casado. um vazio. Sou um burguês. um adulto. e foi este homem que beijou a pequena Ivich num táxi. — Pegue no telefone. Mathieu voltou se e deu alguns passos. Em vão. Estava fora de alcance. que atingia as aparências do crime. Mathieu ergueu o docilmente. fez se toda espírito. hesitou. palavras. E subitamente pareceu lhe ver a sua liberdade. de homem. continuou a andar com passos deslizantes. não pude pegar no dinheiro de Lola. que me recuso a casar. de ser sempre outra coisa diferente do que sou. Sou um homem. de oscilar entre correntes contrárias. Olhava.

Era o número de Sarah. Não. coçando a cabeça: «Marcelle deve estar aflita. Mathieu voltou. — Esta gente não larga a «massa». aproveitar a ocasião. — Mas no fim do mês ele já estará longe. Obrigado. — Mandar lhe ei o dinheiro para a América. — Está zangado — continuou Boris —. — Estou. esperava que Mathieu lhe sorrisse ao subir. E Boris. É da parte do Senhor Boris. Pensou. Ele não pode ir. Não sou Hourtiguère. tente. não é Maurice. — Mas será difícil. Ivich não respondeu. B de Bernard. Houve um breve silêncio.» Olhava para a escada. — Apesar de tudo. Sarah.. olhava a mão enfaixada.. O de Octave. devia telefonar lhe.» Olhou a telefonista. . sem entusiasmo. não se deve falar a ninguém como me falou. É um velho avarento e atravessa uma crise de hipersionismo: detesta tudo o que não é judeu desde que foi expulso de Viena. J E A N P AUL SARTRE — Sim — disse Ivich —. — Obrigado. É só isso. dê me Ségur 25 64. e Boris calou se satisfeito. Tinha um ar neutro. — Então? Arranjou? — Não — disse Mathieu. — Quem? — Mathieu. e Boris sentiu um nó na garganta. Irei logo a seguir ao almoço. Acaba de sair.. não a incomode. — Senhor Maurice? — disse a voz. Voltou a cabeça para a escada dos toilettes e pensou com severidade: «Foi longe de mais. você é formidável! XIII E lê é demasiado injusto — disse Boris. É exactamente por isso que lhe queria pedir se não poderá dar um salto a casa desse tipo e solicitar lhe crédito até ao fim do mês.. — Como é orgulhoso — disse. — Pois é — respondeu Ivich. acha que não sou moral.— Está? Trudaine 00 35? Um recado para a senhora Montero. saiu sem um olhar. Ninguém o compreendia como a Ivich. — Posso tentar — disse Sarah. — Bom dia — respondeu a voz rude de Sarah. Pode transmiti lo mais tarde. Ele não pode ir. Encolheu os ombros. é Mathieu. — Não me aborrece absolutamente nada. indeciso. se isso não a aborrece. — Não. Sarah. — Quer outra ligação? — Sim. mas isso passa lhe. — Se imagina que prestou um serviço a Lola! Deu uma risadinha seca. Saiu.

Por moralidade. — Que ar obstinado! Boris não respondeu. Sentira mesmo por um momento que ia sofrer. não! — Não quero que ela sofra. — Puf! — disse Ivich. E não quero que Mathieu imagine que pode fazer de mim o que quiser. Que não passava de um estúpido e que tivera um choque terrível ao pensar que Lola morrera. Boris não protestou por hábito. mas esse bem variava segundo as pessoas. não era Hourtiguère. A Ivich riu e Boris ficou chocado. Acrescentou por espírito de justiça: — Ela é que não deve achar nada disto engraçado. quando penso agora em Lola. Ela sorriu levemente. Ruminava o que devia ter dito a Mathieu.— Não gosto dele quando se torna moral. continuo a vê la morta. — E estranho — disse —. Para o bem dele. Mas alguma coisa falhara. — Eu gosto — atalhou Boris. — Pois então vai vê la — disse Ivich num tom cantante.. um desarranjo no motor.. conciliadora: — Há coisas que não se podem explicar. Gostava de se aproximar de Ivich. — Ah. queria que ele rompesse com Lola. Ivich disse. Fizera então um esforço de domínio sobre si mesmo. contanto que ele tivesse boa vontade. não o podia realmente suportar. Ivich tinha boas intenções. e isto tinha o escandalizado. Parecia lhe sempre que não falavam do mesmo Mathieu. Ivich disse com doçura: — E é bem verdade que faz de ti o que quer. . Boris percebeu a sem se zangar. Era uma sacanice. — Eu dou lhe a impressão disso — disse ele com serenidade. Ele compreendeu que ela lhe preparava uma armadilha e respondeu vivamente: — Não vou. Disse apenas: — Ele é injusto. O de Ivich era mais enfadonho. Nesse ponto não ia ceder. eu estou me nas tintas para a moral! Boris sentiu se só. Achava o sofrimento imoral e. de resto. tinha uma expressão tola e disse de modo cínico: — A moral. era preciso esperar que se normalizasse. Acrescentou depois de certa reflexão: — Mas eu sou mais moral do que ele. — É a minha táctica com ele. Balançou se sobre o banco. mas Mathieu ainda estava ali. mas pensava que se podia explicar tudo a Mathieu. Toda a gente tinha sempre em vista o bem de Boris. Não me deixou explicar lhe. entre ambos. Depois. tenho a impressão de ser uma velha qualquer.

Andaram um bocado calados. — Seria muito cómodo. Pensarei nisso mais tarde. Perguntava a si próprio o que queria dizer Ivich. Houve um silêncio. Ele precisava de cinco mil francos. tenho outras preocupações na cabeça. Não se sentia capaz de tanta força espiritual. disse: — Terá levado o dinheiro? Seria bonito! — Que dinheiro? — O dinheiro de Lola. J E A N P AUL SARTRE x Boris admirou a irmã. Boris pensou que tinha feito melhor se se tivesse calado. sim!? Ivich fez um ar intrigado e descontente. Agora de manhã dava se ares de homem diante de mim. e ele sentiu raiva a Mathieu. e Ivich olhou o inquieta. Boris acrescentou maliciosamente: — Também está zangado contigo. O Bulevar Montparnasse estava delicioso sob aquela luz cinzenta. Ivich agarrou Boris pelo braço. Ivich riu se.. — disse Boris. eu consigo. bruscamente: — Vamos. — É estranho — disse —. e em seguida Ivich acrescentou. e calou se. porque seria mais moral. confuso —.» Ao mesmo tempo sentiu se livre: «Ela vive. com impaciência. A — E verdade — disse Boris. Boris sentiu uma ligeira e tenaz vontade de vomitar. — Ah. É certo que diziam tudo um ao outro. — Bem sei. — É possível. — Ele enerva me. pensas de mais. Quando não vejo as pessoas.» . Deviam compreender se por meias palavras ou o encanto romper se ia. Levantaram se e saíram. Mexeu se um pouco no banco. mas não o deixou perceber. mas não consigo. Ele perguntava a si próprio se seria realmente por causa do exame. — Muito. Ivich pareceu achar divertido. Passado um instante. elas deixam de existir. — Por causa do exame? Ivich encolheu os ombros e não respondeu. Parecia Outubro. Pensou: «No mês de Outubro passado ainda não conhecia Lola. tu estás chateada. Já não posso suportar mais o Dome. Boris gostava muito do mês de Outubro. — Nem eu — disse Boris. — Querido. — Achas que ele vai ficar zangado muito tempo? — Não — disse Ivich. Ergueu os olhos. — Pareces zangada com Mathieu.Mas ela pusera lhe o dedo na ferida. Desejava que fosse.. Basta imaginares que morreu de verdade. mas de vez em quando devia haver algumas excepções. Ivich mordeu os lábios.

«É um móvel». Naquele momento tinha tanta vontade de perder Lola como de a ver. Não foi o rosto de um morto que recordou.» Até agora sabia que ela sofria. admirada. pensou. vou almoçar. Entrou na Mercearia Demaria. Sentia se feliz naquele bulevar. mas aquele rosto ainda jovem e carrancudo que lhe mostrara na véspera quando lhe gritara: «Mentira! Não viste Picard. descansava de olhos abertos na cama. mas não insistiu. entre Ivich e Mathieu. apenas mais violenta. — Devias escrever lhe. que o esperava angustiada. — Vai dormir em casa de Claude. — A Lola? Oh!. Não insistia nunca. os transeuntes tinham bom ar. Não tinha para com ela essas obrigações incertas e temíveis que os mortos impõem. Uma cólera que não era nem mais nem menos respeitável do que as outras. — Vou. — Estou com fome — disse Ivich —. Boris pôde assim evocar sem horror a imagem de Lola. — Não voltarei ao hotel. visto que ela não morreu. era uma ressurreição. desde que abandonara o cadáver na escuridão do quarto. O dicionário estava A agora sobre a sua mesa de cabeceira. — Não saberia o que lhe havia de dizer. Boris esperou a cá fora Sentia se comovido e fraco como um convalescente e perguntava a si próprio o que poderia fazer para ter uma satisfação. Alegrou se. Boris tinha de se mover com habilidade. e havia um raio zinho de sol que cariciava as montras da Closerie de Lilás. . Mas era um erro.» Mas ao mesmo J E A N P AUL SARTRE tempo sentiu dentro de si um sólido rancor contra aquela falsa morta que provocara todas aquelas catástrofes. era assim. talvez. Ivich teve uma ideia. sentia que ela vivia. não. Era mais correcto.Pela primeira vez. ela é capaz de ir lá. — Vamos a ver — disse —. Lola vivia. não vale a pena pensar nisso. — Eu faço a carta. conhecia os quase todos de vista. Ivich pareceu irritada. palerma. estava dominada por uma cólera viva. mas esse sofrimento e essa angústia só se afiguravam irremediáveis e imutáveis como os sofrimentos e a angústia das pessoas que morrem desesperadas. Mas como quer que fosse. — Não queres romper com ela? — Não sei. como quando ele chegava atrasado ao encontro marcado. Pensou: «Não é possível que Mathieu fique sentido muito tempo. A escolha recaiu no Dicionário Histórico e Etimológico do Calão. deveres de família. mas deveres sérios. — Sim. — Mas a dizer o quê? Ivich olhou o.

entusiasmado, «foi um golpe de mestre». E como uma felicidade nunca vem sozinha, pensou no canivete espanhol, tirou o do bolso e abriu o. «Que sorte!» Comprara o na véspera e já tinha uma história, ferira duas pessoas que lhe eram queridas. «Corta que se farta», pensou. Uma mulher que passava, olhou o com insistência. Estava muito bem vestida. Voltou se para a ver de costas. Ela também se voltara e contemplaram se com simpatia. — Pronto — disse Ivich. Trazia duas maçãs canadenses. Esfregou uma delas no rabo, e quando a viu brilhante mordeu a, estendendo a outra a Boris. — Não — disse Boris —, não tenho fome. — Acrescentou: — Tu ofendes me. — Porquê? — Esfregar a maçã assim no rabo. — E para limpar — disse Ivich. — Olha aquela mulher que vai lá adiante. Dei lhe no goto. Ivich comia serenamente. — Mais uma? — disse com a boca cheia. — Aí não — disse. — Atrás de ti. Ivich voltou se para ver e arqueou as sobrancelhas, — É bela — disse simplesmente. — Viste o vestido? Ainda hei de ter uma mulher assim. Uma mulher da alta sociedade. Deve ser agradável. Ivich olhava a mulher que se afastava. Tinha uma maçã ern cada mão e parecia oferecer lhas. — Quando me cansar dela, passo ta — disse Boris, generosamente. J E A N P AUL SARTRE Ivich mordeu a maçã. — Isso é o que tu pensas! Pegou lhe no braço, e arrastou o, bruscamente. Do outro lado do Bulevar Montparnasse havia urna loja japonesa. Atravessaram e pararam diante da montra. — Olha as tacinhas — disse Ivich. — É para o saké — disse Boris. — Que é isso? — Aguardente de arroz. — Hei de vir comprá las. Para tomar chá. — São pequenas de mais. — Enchem se várias vezes. — Podias encher seis ao mesmo tempo! — Pois é — disse Ivich, contente. — Ponho seis tacinhas cheias diante de mim e beberei ora numa ora noutra. Recuou ligeiramente e disse com uma expressão apaixonada, de dentes cerrados: — Queria comprar tudo isto! Boris não apreciava o gosto da irmã por aquelas bugigangas.

Apesar disso, quis entrar na loja. Ivich não o deixou. — Hoje não. Vamos. Subiram a Rua Denfert Rochereau, e Ivich disse: — Era muito capaz de me vender a um velho para ter um quarto cheio daqueles bibelots! Mas um quarto cheio! — Não — disse Boris, com severidade. — Não podias. É um ofício que se aprende. Andavam devagar, era um momento de felicidade. Certamente, Ivich tinha se esquecido do exame, parecia alegre. Nesses momentos, Boris tinha a impressão de que eram uma só pessoa. No céu havia grandes pedaços de azul e nuvens brancas que turbilhonavam. A folhagem das árvores estava pesada com a chuva, havia um cheiro a fogo de lenha como na rua principal de uma aldeia. — Gosto deste tempo — disse Ivich, encetando a segunda maçã. — É húmido, mas não pegajoso. E não fere os olhos. Sinto me com forças para andar vinte quilómetros a pé. Boris verificou discretamente se não havia um café nas proximidades. Quando Ivich falava em fazer vinte quilómetros a pé, acontecia lhe fatalmente pedir para se sentar logo a seguir. Ela olhou para o Leão de Balfort e disse, extasiada: — Gosto deste leão. Parece um feiticeiro. — Hum. Respeitava os gostos da irmã, embora não partilhasse deles. Aliás, Mathieu já o dissera uma vez: «A sua irmã tem mau gosto, mas é melhor do que o melhor gosto.» «É um mau gosto profundo.» Nestas condições não havia que discutir. Pessoalmente, Boris era mais sensível à beleza clássica. — Vamos pelo Bulevar Arago? — Qual? — Aquele. — Vamos — disse Ivich. — Está brilhante... Andaram em silêncio. Boris observou que a irmã se tornava sombria, se enervava, e que de propósito caminhava a torcer os pés. «Vai começar a agonia», pensou, resignado. Ivich entrava em agonia cada vez que estava à espera do resultado de um exame. Ergueu os olhos e viu quatro jovens operários que vinham ao seu encontro e os encaravam a rir. Boris estava habituado a essas expansões e considerou as com simpatia. Ivich tinha a cabeça J E A N P AUL SARTRE baixa e parecia não os ter visto. Ao chegarem junto deles os rapazes separaram se. Dois passaram à esquerda de Boris e dois à direita de Ivich. — Faz se uma sanduíche? — propôs um deles. — Cara de peido! — disse Boris, gentilmente. Nesse momento,

Ivich pulou e deu um grito agudo, que abafou logo pondo a mão na boca. — Pareço me com uma cozinheira — disse vermelha de fusão. Os operários já iam longe. — Que foi? — Beliscou me — disse Ivich, com desagrado. O estupor! Acrescentou, com severidade: — Não devia ter gritado. — Qual deles? — disse Boris, indignado. Ivich reteve o. — Por favor, está quieto. São quatro. E depois já fui suficientemente ridícula. — Não é por ele te ter beliscado — explicou Boris. — Mas não posso suportar que façam isso quando estás comigo. Quando estás com Mathieu, ninguém te mexe. Tenho cara de quê? — É isso mesmo, querido — disse Ivich melancolicamente. — Eu também não te protejo. Não somos respeitáveis. Era verdade. Boris admirava se disso muitas vezes: quando olhava para o espelho, achava que tinha um ar intimidante. — Não somos respeitáveis — repetiu. Apertaram se um contra o outro e sentiram se órfãos. — Que é aquilo? — perguntou Ivich. A Apontava um muro comprido e escuro através do verde dos castanheiros. — E a Santé — disse Boris —, uma prisão. — Extraordinário — disse Ivich —, nunca vi nada mais sinistro. Há quem fuja de lá? — E raro. Li uma vez que um preso saltou por cima do muro. Agarrou se a uma pernada de um castanheiro e saltou. — Deve ser aquele. Se nos sentássemos no banco ao lado? Estou cansada. E talvez vejamos saltar outro prisioneiro. — Talvez — disse Boris sem convicção. — Acho que fazem isso de noite, compreendes? Atravessaram a rua e foram sentar se. O banco estava molhado. Ivich disse, contente: — Está fresco. Mas quase a seguir começou a agitar se e a puxar os caracóis. Boris teve de dar lhe uma pancada na mão para que não arrancasse os cabelos. — Segura na minha mão — disse Ivich —, está gelada. Era verdade. E Ivich estava lívida, parecia sofrer, todo o corpo lhe tremia. Boris achou a tão triste que tentou pensar em Lola, por simpatia. Ivich levantou bruscamente a cabeça: tinha um ar sombrio de resolução: — Tens os dados? — Tenho. Mathieu tinha oferecido a Ivich um poker de dados num saquinho de couro. Ivich tinha o dado a Boris e jogavam juntos muitas

vezes. — Vamos jogar — disse. Boris tirou os dados do saquinho. Ivich acrescentou: — Duas partidas e a negra se for preciso. Começa. Afastaram se um do outro. Boris sentou se a cavalo no banco e rolou os dados sobre o banco. Fez um poker de reis. — Só de uma vez — disse. — Odeio te. Franziu as sobrancelhas, e antes de agitar os dados soprou nos dedos a resmungar. Era uma conjura. «É a sério», pensou Boris, «está a jogar o resultado do exame». Ivich jogou e perdeu: trio de damas. — Segunda partida — disse a olhar para Boris com olhos faiscantes. Fez um trio de ases. — De uma só vez — disse. Boris jogou e viu que ia fazer um poker de ases, mas antes que os dados parassem estendeu a mão como para evitar que caíssem e virou dois com ponta do indicador e do anular. Apareceram dois reis. — Dois pares — disse com ar de despeito. — Ganhei a segunda — disse Ivich triunfante. — Vamos à negra. Boris não sabia se ela o vira fazer batota. Mas não tinha grande importância. Ivich só tinha em conta o resultado. Ganhou a negra com dois pares sem que ele precisasse de intervir. — Bem — disse ela simplesmente. — Queres jogar mais? — Não. Estava a jogar para saber se passaria. — Não sabia — disse Boris. — Então, passaste! Ivich encolheu os ombros. — Não acredito. Calaram se, ficaram ali lado a lado, de cabeça baixa. Boris não olhava para Ivich, mas sentia a tremer. — Estou com calor — disse ela. — Que horror: tenho as mãos húmidas e estou cheia de angústia. Na verdade, a sua mão direita, pouco antes gelada, estava agora a ferver. A mão esquerda, enfaixada, jazia inerte sobre o joelho. — Esta ligadura repugna me. Pareço um ferido de guerra, vou arrancá la. Boris não respondeu. Ouviu se um relógio ao longe. Ivich sobressaltou se. — Meio dia e meia hora? — perguntou, desvairada. — Uma e meia — disse Boris consultando o relógio. Olharam se e Boris disse: — Bem, agora tenho de lá ir.

Ivich apertou se contra ele, abraçando o. — Não vás, Boris, querido, não quero saber, volto para Laon hoje à noite... Não quero saber nada. — Estás a delirar — disse Boris com doçura. — Precisas de saber o que aconteceu para dizer lá em casa... Ivich deixou cair os braços. — Então vai. Mas volta o mais depressa possível. Espero aqui. — Aqui? Não preferes que façamos o caminho justos? Esperas num café do Quartier Eatin. — Não, não, espero aqui. — Como quiseres. E se chover? — Boris, por favor, não me tortures, vai depressa. Ficarei aqui, mesmo que chova, mesmo que a terra trema. Não me posso pôr de pé, não posso levantar um dedo. Boris levantou se e foi se embora a passos largos. Depois de atravessar a rua, voltou se. Viu Ivich de costas. Curvada no banco, com a cabeça enfiada entre os ombros, parecia uma pobre velha. «Apesar de tudo, é capaz de ter passado», pensou. Deu alguns passos e lembrou se de repente do rosto de Lola. Do verdadeiro rosto. Pensou: «Como é infeliz», e o coração pôs se lhe a bater violentamente. XIV D entro em pouco. Dentro em pouco. Começaria a busca infrutífera. Dentro em pouco, assombrado pêlos olhos rancorosos de Marcelle, pelo rosto matreiro de Ivich, pela máscara mortuária de Lola, tornaria a sentir um gosto de febre na boca, a angústia viria pesar lhe no estômago. Dentro em pouco. Afundou se na poltrona e acendeu o cachimbo. Estava solitário e calmo, entregava se à frescura sombria do bar. Havia aquele tonel envernizado que lhe servia de mesa, aquelas fotografias de artistas, aquelas boinas de marinheiros penduradas na parede, a rádio invisível que sussurrava como um repuxo, os dois senhores gordos e ricos ao fundo da sala, fumando charutos e bebendo vinho do Porto — últimos fregueses, homens de negócios; os outros tinham ido almoçar há muito tempo. Devia ser uma e meia, mas parecia manhã ainda, ° dia ali estava, estendido como um mar inofensivo. Mathieu diluía se nesse mar sem paixão, sem ondas, era um espiritual J E A N P AUL SARTRE negro apenas perceptível, um tumulto de vozes distintas, uma luz cor de ferrugem e o embalar de todas aquelas lindas mãos cirúrgicas que oscilavam com os seus charutos, como caravelas carregadas de especiarias. Aquele ínfimo fragmento de vida beata, bem sabia que lho emprestavam apenas, que seria preciso devolvê lo dentro em pouco, mas gozava o agora sem amargura. Aos tipos lixados, a vida ainda concedia inúmeros pequenos

preciso de cinco mil francos. Disse: — Sabes que vi Brunet ontem? — É verdade? — disse Daniel. Pousou o copo vazio e pegou numa azeitona do pires. Mathieu esticou as pernas e sorriu para si próprio. Gostara muito de Brunet outrora. cortês. Daniel manifestava um grande aborrecimento. mandava o empalhar e colocar no Museu do Homem. — Não precisas mesmo de nada? — Sim — informou Mathieu —. Estimo o muito. secção século XX. — Muito obrigado. Insistiu: — Não faças cerimónia.. Aquela felicidade simples e leve entrara no passado. — Zangaram se? — Pior do que isso. Tenho quatrocentos francos até acabar a semana. Tinha acabado. solene. Isso viria depressa. Mathieu não pôde deixar de sorrir. é o que há de melhor. Era preciso recusar se a aceitar. não vale a pena. Agora só desejo um Xerez e conversar contigo. e isso também era um prazer para os olhos. — Acho que desta vez tudo acabou entre nós. Daniel pousou nele um olhar cheio de solicitude. Mas queres que te empreste duzentos francos? Tenho vergonha de oferecer tão pouco. Daniel voltou para ele os seus grandes olhos acariciantes. com a condição de que as gozem modestamente. Daniel mentia. DADE DA RAZÃO — Espero que a minha conversa esteja à altura do Xerez.prazeres. Mathieu estava lhe grato pela discrição.. — Vou confessar te uma coisa. Mathieu provou o Xerez. mas se tivesse alguma autoridade. é mesmo para esses tipos que ela reserva uma boa parte das suas graças efémeras. não estava dentro da regra do jogo. Mathieu olhou Daniel pelo canto do olho. — E bom. já não se pode renová las por causa da guerra de Espanha. Daniel tinha . Estou sem um tostão. — É — disse Daniel —. Mas as provisões estão a esgotar se. Daniel estava sentado à sua esquerda. Mathieu podia contemplar à vontade o belo rosto de xeque árabe. se mo ofereces. silencioso. — Não — disse Mathieu —. — Ofereço. — Bem. — Não te estás nas tintas para Brunet? — Bem sabes que nunca fui tão íntimo dele como tu. — Não — disse Mathieu. Vamos dividi los. Não se referia ainda à sua carta nem às razões que o tinham levado a convocar Mathieu. — Não faria lá má figura. — Recomendo te o Xerez — disse Daniel. Mas não agora.

» Não eram as qualidades que mais apreciava em Marcelle. Sempre tive grande simpatia por Marcelle Duffet. Daniel e Marcelle não se tinham encontrado muitas vezes.um ar nobre e compenetrado. Não. — Pois bem. — Em casa dela? Queres dizer que vais a casa dela? Daniel não respondeu. Onde a encontraste? — Em casa dela. — Tens sorte — disse —. na atmosfera algodoada do quarto cor de rosa. — Ficaria triste se te aborrecesses comigo. baixando as pálpebras modestamente: — Devo dizer te que nos vemos de vez em quando. sorridente. Mathieu perguntou: — Que ideia foi essa? Como é que isso aconteceu? A — Muito simplesmente. Daniel estava sentado na poltrona. — repetiu sem compreender bem. eles nada tinham em comum.. — Marcelle? Mathieu não estava surpreendido. ela nunca sai. mas Marcelle parecia ter simpatia por Daniel... A nossa culpa está em não te termos dito nada. acabo de to dizer — observou Daniel. — Fala e depois saberás — disse Mathieu. Mathieu sacudiu a cabeça. . Daí por diante continuámos a ver nos. J E A N P AUL SARTRE — Estou a pensar no efeito que isto vai fazer em ti — continuou Daniel hesitante. Calou se um momento. «Vemo nos de vez em quando. — Onde querias que a encontrasse. — Marcelle Duffet.. — Vocês vêem se. estava aborrecido e veio me à ideia de ir a casa dela. era absurdo. Mathieu mergulhou no perfume espesso. — disse Daniel sorrindo. sabes quem vi ontem à noite? — Quem viste ontem à noite? Como hei de saber? Vês tanta gente. Admiro muito a sua coragem e generosidade. e Mathieu repetiu com espanto: «A coragem de Marcelle. O relógio bateu duas vezes.» Mathieu voltou a cabeça e fixou o olhar no botão vermelho de uma boina de marinheiro. como se lhe fossem tirar uma fotografia. Daniel continuou: — Um dia. olhava para Marcelle com os seus grandes olhos doces e Marcelle sorria desajeitadamente.. se não sai? Acrescentou. — Diz lá — disse Mathieu. uma voz de negro cantava baixinho Ther'is cradle in Caroline. vagamente irritado. não podiam entender se. Houve um silêncio. Mathieu contemplava os cílios negros e compridos de Daniel. É tudo. Acolheu me muito amavelmente. — Mas onde? — Em casa dela... a sua generosidade.. Tremiam ligeiramente.

— Olha — disse Daniel. Mas não compreendo uma só palavra do que me escreve. Mathieu viu o dinheiro e pensou: «Sacana!» Mas com preguiça. Viu que Daniel esperava a sua cólera. — Mathieu! — disse com uma voz muito profunda. deveria zangar me. bem sei. Venha depressa. é verdade? Daniel fez um sinal com a cabeça. admirando se por sua vez de não se sentir . querido Arcanjo. A minha mãe disse que lhe vai dar uma descompostura por causa dos bombons. — Não falemos mais nisso... Daniel ergueu os olhos e encarou Mathieu com uma expressão sombria. Suspirou: — Preferia que acreditasses em mim. Mas não vou na onda. É tudo. E tu também vês a velha e tudo. Leu: «Tinha razão como sempre. se reparares que nunca me permiti a menor brincadeira neste assunto das tuas relações com Marcelle. mantinha se direito. — Bom — disse tristemente. perplexo. Daniel pareceu ficar desanimado.» Mathieu olhou para Daniel.. — Pensei que te zangasses.. É uma coisa muito séria. — Não me facilitas a tarefa — disse Daniel com um ar de censura. querido Arcanjo. Entregou uma carta a Mathieu. Por enquanto estou apenas tonto. Eram de facto pervincas. E talvez me zangue ainda. Um arcanjo decaído. — Ainda bem — disse. Esvaziou o copo. fúnebre e distinto como uma testemunha de duelo. — Far me ás justiça. és muito divertido. Que seja sábado. Seria normal. um tipo do género de Lúcifer. sob palavra de honra. Eu nunca teria encontrado essa expressão. — Sim. Esperamos com impaciência a sua visita. Era a letra de Marcelle.» Aquele estilo precioso e jovial nada tinha dela! Esfregou nariz. A Daniel parecia desconcertado. Mas como exiges provas. Tirou do bolso uma carteira cheia de notas.— Vais à casa dela. continua. Trazia a data de 20 de Abril. — Não. — Já é bastante penoso acusar me diante de ti. não impede que isso seja uma graça. depois desatou a rir. uma vez que não está livre amanhã. — Bem sei. Mathieu releu a carta do princípio ao fim. e ela escondeu me isso? Acrescentou serenamente: — É uma brincadeira. — Arcanjo! Ela chama te arcanjo. Marcelle. Mathieu voltou a cabeça e olhou o com indecisão. «Escreveu isto. — Então.

Mas não tenho más intenções. com os seus ares de Cagliostro e o sorriso africano. «mente há seis meses». lembro me. quase me diverte. — E ela não pôs dificuldades? — Admirou se muito. Era a primeira vez que Mathieu se sentia invadido por uma espécie de cólera.. Leal? Rígida? Não devia ser assim tão rígida.. Marcelle não espera de mini conversas muito elevadas. Riu se. Então é verdade? Gostam de conversar? Mas. — Evidentemente... pensou com espanto. como quando se descobre que nos enganamos redondamente. Estendeu a mão e pegou maquinalmente numa azeitona. e disse: «É um caso de consciência. teria havido qualquer coisa dentro dele que . Mathieu pensou: «Ele diverte se à custa deja. depois. esperamos a sua visita. O cachimbo apagou se lhe.» Ela pensa que gosto de me rodear de mistério. Dantes. e Marcelle diante dele rígida. — E incrível! Vocês são tão diferentes! Não conseguia afastar a imagem absurda. Daniel todo cerimonioso. já não tem tanta importância. Arcanjo. fora ela quem se espraiara naquelas gentilezas grosseiras. — Mas não recusou? — Não. «Venha. Era grave. duas vezes por mês mais ou menos. — Estás com ela muitas vezes? — Sem regularidade. como vês. — Foste tu que lhe disseste para se calar? — Fui. porém.» Fora Marcelle quem escrevera aquilo. estou a tentar compreender. — Tudo isto é tão imprevisto. Não devia achar gr ande mal nisso. desajeitada. — Mas que é que podem dizer. Não se sentia suficientemente abatido. leal. Agora já a conheço há bastante tempo.. de que é que conversam? Daniel sobressaltou se e os olhos brilharam lhe. Acrescentou com uma ironia velada que agradou a Mathieu: — A princípio chamava me Lohengrin. Não queria que fiscalizasses as nossas relações. não. «Ela mentiu me». mas isso descansa a.» E sentiu se humilhado por Marcelle. — Terás alguns temas a propor nos? — Não te zangues — disse Mathieu conciliador. Continuou: — Admira me muito que Marcelle me tenha escondido qualquer coisa. não te aborreças. de que falam vocês? — De tudo — disse Daniel friamente. Um espanto intelectual sim.irritado.. — Foste tu que pediste — repetiu Mathieu mais calmo. fixou se em Arcanjo. Daniel não respondeu. cheio de gentilezas maliciosas e nobres.

mas estava zangado sobretudo consigo mesmo. Não te falou das minhas visitas porque teve receio de que a forçasses a pôr um rótulo no sentimento que tinha por mim. Continuou com uma expressão de compreensão afectuosa: — O que acontece é que confias demasiado nas tuas opiniões sobre os outros. de que o desmontasses para devolvê lo em pedacinhos bem analisados. — Talvez — disse Mathieu —. E depois acho que ter um segredo a devia divertir. és uma força. É qualquer coisa hesitante. Tinha de a estimar. Procurou um recanto na sombra. «Não devia perder a confiança nela naquele dia — naquele dia em que talvez fosse obrigado a sacrificar lhe a própria liberdade. Não vás levar a sério uma infantilidade! — Censuravas me há pouco por não levar a sério as coisas. Porque o fez? — Imagino que não era muito agradável viver sempre à luz do teu esplendor.. mal definida. Esta história prova apenas que Marcelle é mais complicada do que imaginas. mas Daniel desarmava o.. — Uma Marcelle diferente. Mathieu disse lhe: — Daniel.» — Aliás — continuou Daniel —. Mathieu olhou para Daniel. Que queres — acrescentou —. com voz tépida: — Nós dizíamos tudo um ao outro. — E essa carta! «Nós esperamos a sua visita. Note se que ela te admira. Marcelle tinha se tornado culpada. porque é que ela fez isso? — Ora. sempre tivemos a intenção de to dizer. — Ela disse te isso? .sangraria. sem amizade. — E o que pensavas. Ela sabia muito bem o que fazia.. mas ele não lhe queria mal. admira essa maneira que tens de viver dentro de uma casa de vidro e dizer abertamente aquilo que se costuma conversar em segredo... totalitário? — Nunca o disse de uma maneira positiva. mas creio que assim o pensa. J E A N P AUL SARTRE Mathieu abanou a cabeça. — Mas passas de um extremo ao outro — disse Daniel. nós adiávamos sempre. Daniel pareceu atemorizar se. não exageres. Há outra coisa. Poder se á dizer tudo? A Mathieu encolheu os ombros. irritado. — Ela acha me.. Mas isso cansa a. já to disse — respondeu Daniel. como sempre. Alguém que podia dizer «nós» a Mathieu ao falar de Marcelle. mas há outra coisa. mas era divertido brincar aos conspiradores.» Parece me que descubro uma Marcelle diferente. — Porque lho pedi. «Nós»! Ele dizia «nós». senão era lhe muito difícil. — Não. Era o momento de o odiar. Disse apenas.

do seu acidente — disse Daniel. Mathieu apertou com força o copo nas mãos. Mathieu baixou a cabeça. — Ah! — atalhou Mathieu —. Com Mathieu sei sempre. Ficar te ei muito grato se não lhe disseres nada da nossa conversa. Foi ela quem falou.. Para espicaçar a curiosidade.» Daniel continuou: — Vou dizer toda a verdade.» Ivich dizia: «Consigo não há imprevistos. — E a propósito do seu. disseste lhe que estavas ao corrente? — Não. — Não tenho nada de diabo. O que me levou a falar foi a inquietação real que se apossou de mim ontem.. Mathieu não se enganou. Ontem conspiravas com Marcelle contra mini e hoje pedes a minha cumplicidade contra ela! Que estranho traidor. Quando por vezes acreditara discernir uma sombra nos olhos dela. talvez me tenha enganado. Mas pensei que fosse bom para vocês os dois. diz me tudo. se houvesse qualquer coisa. — Bem — disse Daniel representando —. mais normal que fosse ela a falar em primeiro lugar. Mathieu riu sem querer. Daniel sorriu. é agora. encolhera os ombros. ela di la ia. Mais uma comédia. Começara a entender... e à noite é ela quem fala. — Porque é que ela nunca me falou disso tudo? — Ela diz que tu nunca lhe perguntas nada.» Mathieu encolheu os ombros. «Ora. Cada vez que se tratava de compreender os sentimentos de Marcelle sentia se possuído por uma incomensurável preguiça. Aquele ar evasivo era propositado.» Acrescentou: . por enquanto.. — Es mesmo o demónio! Semeias segredos por toda a parte.. Marcelle ignora que te falei e ainda ontem não estava resolvida a pôr te ao par da situação tão cedo. — Oh! «Ontem ao telefone parecia temer que eu lhe contasse. não disse nada.» «Com Mathieu sei sempre. Era verdade.— Disse. Mathieu empertigou se: «Cuidado.» Sacudiu se e disse bruscamente: A — Porque me dizes isso hoje? — Tinha de to dizer um dia ou outro. — Por que razão hoje e porquê tu? Teria sido. Disse mais: «O que me diverte em si é que nunca sei para onde vou. Naturalmente. E era isso que eu intitulava a minha confiança nela! Estraguei tudo. Bom. Marcelle é orgulhosa de mais para falar. Pareceu me que havia um mal entendido muito grave entre vocês.

Sem te referires a mim. a paz insípida e sinistra. — Não sei. Mas isso é uma vantagem para ele. não é isso. que já tem opinião sobre as coisas e não me dá tempo para formar a minha. Parecia tão acabrunhada. Não. por certo. Eembrou se dos cabelos ruivos de Brunet. naquele Verão. — Que é que te leva a dizer isso? — perguntou Mathieu.» Não garanto a exactidão das palavras. — Estivemos sempre de acordo sobre o que se faria em semelhante circunstância. três feltros e um chapéu de coco. Não sabia exactamente o que ia acabar mal. e se não estou de acordo devo protestar. há dois ou três anos. — Tem vontade de se casar comigo? Daniel pôs se a rir. «Em Setembro temos a guerra. — Não sei — disse Daniel com um ar distante. pensou Mathieu. E não acreditas que ela tenha mudado de opinião? No fundo da sala os senhores distintos levantaram se. Saíram com um cumprimento amistoso para o barman. Ela falou me disso com rancor. aquela história de aborto.» Naquele momento. a Europa. perguntas de mais. Devias falar lhe à noite. Isso não pode ser assim tão simples. mas procuraste saber a opinião dela anteontem? — Não. — Dois ou três anos. O que ela me disse foi. E por causa da tua atitude de ontem. não lhe perguntaste nada. congratulavam se sorridentes. ela dir te ia tudo. Era qualquer coisa mais vaga e mais ampla.. entre outras coisas. Houve um silêncio.— E então? — Então há qualquer coisa que não está certo. Estava convencido de que pensava como eu. — Bom. Havia qualquer coisa de podre na sua vida. A julgar pelo que vi ontem. Um empregado trouxe lhes os chapéus. A sua vida. — Sim. espantado. E quando encararam pela última vez essa eventualidade? — Não sei.. — Ela tem medo da operação? — perguntou. isto: «Ele é quem resolve sempre. no bar deserto e escuro. com um nó na garganta. Marcelle. — Mas não tinha nenhuma decisão a tomar — atalhou Mathieu. Daniel continuou com um ar aborrecido: . — Que é que eu fiz? — Não o sei dizer exactamente. evidentemente. meu caro. e o empregado desligou a rádio. — Então? Ela tem me raiva porque lhe arranjei um filho? — Não. Tentarei falar lhe. como se tivesses tido escrúpulos. «Isto vai acabar mal».. — Nada de especial. é talvez a maneira como me contou as coisas.. O dia pesado e borrascoso. — Está bem. acreditava se nisso.

dirá: "Marcelle dizia me tudo". o Arcanjo emprestou à minha causa a sua voz soberba. preferia mil vezes que me odiasse. pensava ela. que irá ela dizer? Estou nua. ao menos uma vez. não devíamos. de doce mulher defendida. Sabe agora. as palavras foram ditas e eu nada sei. com o olhar fixo no chão como se alguma coisa se tivesse partido. Ele pensa. Aliás. meu pobre querido. de joelhos. Marcelle a razoável. foi o único a preocupar se comigo. defendeu me». uma só vez as lágrimas. e a carícia em sulco sinuoso no rosto.. é tudo. e a voz virá e dirá: já está.». a voz virá de lá." Ah! Ele pensa nisso. J E A N P AUL SARTRE Daniel riu com vontade. obrigado! — Desejas me mal? — De maneira nenhuma. Eu avisei te. tão bom. «eu não devia. de braços abertos como se tivesse deixado cair qualquer coisa. ela está lá na sua cabeça. é intolerável. Durante oito dias ela olhara ao longe um ponto fixo. ruminando: "A Marcelle contava me tudo. Uma vez. querido Arcanjo!» Pensou: «Arcanjo» e os seus olhos encheram se de lágrimas. ele diz que sou um homem e agora a água. pobre Mathieu. sobre as minhas nádegas. a voz sairá dali. a doce piedade de si. sentado no café. Pronto. lágrimas de abundância e fertilidade. mas foi generoso. não soube nada. Eu não estava lá. neste momento. «Eu não devia. a voz grave subia como fumo para o tecto do café. e essa voz sairá toda vestida da placa branca. Marcelle a dura.. tenho vontade de abraçar Mathieu e de lhe pedir perdão. ela esteve. «Ele abraçou me. ser defendida. Meu Deus. amanhã serei dura e razoável. a conversa já se deu. — Bem sei. aquelas mãos de veludo sobre as minhas ancas. a chuva nos olhos. com a mão sobre o auscultador. meu Deus. os remorsos. grávida. acariciou me. a humildade ainda mais doce. mas ela está. doces lágrimas. tomou a minha causa a peito.. é mesmo o tipo de ser yiço que podes fazer: cai nos na cabeça como uma telha. o tremor dos lábios. a bela voz grave que faz sempre vibrar o auscultador do telefone.. uma pobre mulher.— Enfim. Marcelle a masculina. porquê resistir. Pobre Mathieu. mas nós contávamos sempre tudo. após oito dias tórridos. fraca e defendida no mundo dos homens e dos vivos por uma voz sombria e quente. perdoada. lágrimas de verdadeira DADE DA RAZÃO mulher. ela teria detestado Daniel se fosse possível detestá lo. mas ele está lá. com os olhos secos e vazios: vão matá lo. a mulher frágil. Abriu a iboca mostrando os dentes brilhantes e o fundo da garganta. com o espanto a oprimir Ihe e esta vozinha na cabeça: «Marcelle dizia me sempre tudo!" Ela está lá. durante oito dias ela fora para ele Marcelle a decidida. a lágrima trémula dos olhos. é tão . Uma mulher.

tranquilo e forte. Ele sabe. tudo o que tu quiseres. Não é verdade que o menosprezámos. — Bom dia. — Deixei a muito tarde ontem. A princípio não queria acreditar. pela primeira vez na vida fiz te sofrer. pensou com desprezo... espantado. — Não tínhamos combinado isso? — Sim. — Dormiu hem? — A voz grave ecoava lhe no ventre. afinal. — Não deve enervar se — disse ele. nós mentimos lhe». matarei a criança. — Tudo? É verdade? — E verdade. — Está — disse ela —.bom!» Subitamente surgiu lhe uma ideia nítida. era insuportável e delicioso. o ácido correu Ihe nas veias. farei o que ele quiser. Daniel riu. quem fala? J E A N P AUL SARTRE — É Marcelle..» O telefone tocou sob os seus dedos. Melhor do que eu esperava. que percebeu que havia qualquer coisa e que isso o atormentava todo o dia.. Marcelle sentiu se invadida por amargos remorsos. meu pobre Mathieu. pensarei: ele sabe e como poderei suportar isso. minha querida Marcelle. — Correu tudo optimamente. como reagiu ele? A — Foi tudo bem. aceitarei tudo. — E você — insistia a voz terna — dormiu? — Eu? Mais ou menos. ele saberá tudo. Crispou a mão sobre o auscultador. Estou um pouco enervada. . O coração batia lhe fortemente. querida Marcelle. chegará esta noite. tenho vergonha. — Bom dia — disse Marcelle. — Disse me que compreendia muito bem. dizemos lhe tudo. disse o exactamente nesses termos. Disse: — Não é verdade. Ah!. Mas espero que não tenha sabido. — Efectivamente — Daniel parecia divertir se —. quando ele chegar. não soube de nada.. e eu terei de fingir que ignoro que ele já o sabe. verei os seus olhos bons. — Ele deteve me às primeiras palavras — disse Daniel. Era um belo riso de luxo. quando eu lhe puser os braços em volta do pescoço e o beijar. «Esta noite. Marcelle sentiu se melhor. Tínhamos menosprezado Mathieu. Dormia a sono solto quando você saiu. «continuamos a mentir lhe.. mas a nossa sinceridade está envenenada. meu bom Mathieu. é Daniel? — Sim — respondeu uma voz calma —. — Você. arquejante —. Madame Duffet deve ter ficado zangada. sim. — Deve ter lhe dito que dizíamos tudo um ao outro. irei ver a velha. ah!. você disse que nos víamos? — Naturalmente — respondeu Daniel. — Não — disse Marcelle.

F. — Daniel! Mas o telefone tinha sido desligado.. — Oh! Daniel! Oh! Daniel! Tomou fôlego e acrescentou: — Você foi tão bom. — Oh! Daniel. e ria. Ah!.. falava lhe arquejante. Marcelle. e Daniel continuou: — Disse me que queria falar lhe hoje à noite. operários. Depois aproximou se do espelho e mirou se com espanto. quero vê lo o mais cedo possível. crianças. Ele não me deixou falar. eu queria estar escondido no quarto para ver quando se encontrassem. arranjou a cabeleira e sorriu para si própria cheia de confusão.. Ouviu novamente o riso profundo e sadio. Sobre a prateleira do lavatório havia três rosas vermelhas num copo. querido Daniel.» Mas a voz voltara a ser grave e o telefone vibrava como um órgão...» Aproximou se da janela e contemplou os transeuntes: mulheres. — Até logo. Estou satisfeito por sua causa. .— Daniel. seja desembaraçada hoje à noite. virou a timidamente entre os dedos. Daniel. pareceu lhe que tinham um ar de felicidade. tinha perdido o tom harmonioso. Se vocês os dois estão com essas disposições. tenho remorsos. «Espremer o abcesso. interrompeu me logo às primeiras palavras e disse: «Pobre Marcelle. tudo corre bem. Houve um silêncio.. Pode ser amanhã? A voz pareceu lhe mais seca. com o coração aberto. Marcelle. — Amanhã. — Está bem — disse Marcelle —. — Acontece! Ele também. Oh! Daniel. Promete ser delicioso. aça favor de esperar aqui — disse o homenzinho. é mais fácil. Marcelle pegou numa com hesitação. Marcelle pôs o auscultador no descanso e passou o lenço pêlos olhos húmidos: «Arcanjo! Fugiu depressa para que eu não lhe agradecesse. Riu de novo e Marcelle pensou com humilde gratidão: «Está a troçar de mim. Marcelle seguiu a com o olhar. Saiu cheio de remorsos.» Agora tudo está nas suas mãos. não.» Abriu as pálpebras e olhou se no espelho. depois fechou os olhos e enfiou a rosa na cabeleira escura: «Uma rosa nos meus cabelos. Uma jovem senhora corria pelo meio da rua com o filho no braço. achas que ainda posso reparar o mal?» E tinha os olhos vermelhos. sou um grande culpado. foi.. tenho tanta coisa a contar lhe e não posso falar sem lhe ver o rosto. Marcelle. Com certeza que desejo muito vê la. Telefonarei. mas hei de arranjar tudo. telefone depressa. Ele fará o que você quiser. — A sério.. tenho ódio a mim próprio. Como ele gosta de si! — Oh! Daniel! — dizia Marcelle.

Tinha os cabelos prateados. não. Mathieu não estava à vontade. Contemplou a pensativo e sorridente durante uns instantes. — Já estive aqui — disse a mulher —. ele pegou lhes. que cheirava a couve. depois afastou se. — Faz favor de se sentar. O homenzinho olhava a com J E A N P AUL SARTRE cobiça. é para um empréstimo. — Sim. Não era o mesmo dinheiro. Baixou a cabeça e olhou o chão entre os pés. cuidadosamente penteados para trás. — Deseja recorrer aos nossos serviços? — perguntou paternalmente. . — Muito bem. Esperamo los com impaciência. O senhor apontou lhe amavelmente uma poltrona de couro já gasto e sentaram se ambos. A Examinou o rosto de Mathieu. — Desejo. À esquerda via se uma luz fraca através de uma porta envidraçada. chegou à porta envidraçada. vamos arranjar tudo. não é verdade? Mas quando chegam. A jovem mulher deitou uma olhadela hostil a Mathieu e pôs se a brincar com o fecho da bolsa. para ter mais luz e examinou os demoradamente: — Muito bem — disse. até ao banco. e o homenzinho foi abrir. Usava uma gravata verde escura. O senhor apoiou os cotovelos na mesa e juntou as belas mãos brancas. é para isso que estamos aqui. encolhendo as pernas. com certeza. Tocaram. Acompanhou a. minha senhora.. em que ela se sentou. Ela tirou dois ou três papéis cuidadosamente dobrados.Mathieu sentou se num banco. desorganizam as finanças.. introduzira se entre os verdadeiros pobres e era o dinheiro deles que ia buscar. A porta envidraçada abriu se e surgiu um senhor alto. Viu as notas sedosas e perfumadas na maleta de Lola. Pôs se a procurar na bolsa. Não era feia. cuja severidade era discretamente aliviada por uma pérola. Está um bocado atrapalhada. não é? A jovem mulher corou e o homenzinho esfregou as mãos: — Pois bem — disse —. de bigode branco. Uma mulher jovem entrou vestida com uma decência miserável. — É funcionária? — Eu. — Senhor? — Delarue. vamos arranjar tudo. Meu marido. Era uma sala escura que tresandava a couve. Dois filhos? Parece tão nova. obsequioso. minha senhora. devolvendo os. mas tinha uma expressão dura e perseguida. um dinheiro cinzento e triste. O homenzinho falava lhe muito junto ao rosto. os olhos azul claros projectavam se ligeiramente para fora do rosto. Mathieu acompanhou o ao escritório.

— Temos muito prazer em auxiliar os universitários.) Quando se lida com dinheiro. necessitamos de quinze dias pelo menos para as informações! — Que informações? Já viu os meus documentos. É um sentimento miserável. quem nos prova que os seus documentos não são falsos? (Sorriu tristemente. os universitários são todos iguais. Ele reflectiu um pduco e disse: — Ponhamos sete mil. mas não temos o direito de ser confiantes. é tudo por agora. caderneta militar.— Não ignora que os estatutos da nossa sociedade estabelecem um serviço de empréstimo destinado exclusivamente aos funcionários? A voz era bela e branca. Pensou: «Não imaginava que fosse tão fácil. — Muito bem. — Nascido em Paris. aprende se a desconfiar.. reconhecendo a dívida. Bem. — Muito bem. Mathieu escreveu. — Muito bem — disse o senhor percorrendo as folhas. — Na entrega do dinheiro? Não pode entregá lo agora? O senhor pareceu muito surpreendido. — Professor. um pouco gorda. Era um formulário de pedido de empréstimo em duplicado. — Ah! Ah! — disse o senhor com interesse. porque temos despesas enormes e corremos sérios riscos. É professor do liceu? — Sou. J E A N P AUL SARTRE — Está bem. meu caro professor. Vamos então às formalidades da praxe. Por isso faremos o nosso pequeno inquérito. No Liceu Buffon. — Sou funcionário — disse Mathieu. — Ah! — disse —.. examinou os distraidamente. E qual é o montante da soma de que vai precisar? — Seis mil francos — disse Mathieu.... Todos idealistas. concordo. 1905. Na entrega dos sete mil francos exigiremos um recibo selado. O senhor tomou os. — Quer ter a bondade de preencher estes formulários? Assine em baixo. Somos obrigados a exigir vinte cento de juros. passaporte. possibilidade de adiamento. Um qualquer. O senhor considerou Mathieu com uma indulgência divertida. de um modo geral.. o estado civil. O selo é por sua conta. Mas. Note que neste caso particular não ponho em dúvida a sua palavra. está bem — atalhou Mathieu. Tinha de indicar a idade. Em primeiro lugar vou pedir lhe um documento de identidade. como as mãos. cartão de eleitor. Mathieu estava agradavelmente surpreendido.» — Conhece as nossas condições? Emprestamos por seis meses. a morada. . Mathieu entregou lhe os documentos. pai e mãe franceses.. — Agora? Mas. O senhor tirou da gaveta duas folhas impressas..

angustiado. — Ao seu serviço — respondeu o senhor.» — Não rasgue — disse —. — Foi uma decisão repentina. Mordia a luva com um olhar desvairado. Só tinha esperança em Sarah. — Obrigado. Mas agora Mathieu tinha sempre a impressão de estar enterrado. entre nós. o senhor sabe. há de encontrar um amigo que lhe adiante o dinheiro por quinze dias. pensou. número 12? — Está. A morada está certa — disse apontando para o formulário —. vou ver se me arranjo até à data da entrega. Não leu os nossos avisos? — Não — disse Mathieu levantando se.. senhor — disse Mathieu. com um juro mais elevado? O senhor mostrou se escandalizado. Duvido muito que possa contar com o nosso auxílio antes de 5 de Julho. — Queira entrar. «Mais um desastre». devia ter vindo antes. minha senhora — disse o homem por trás de Mathieu. — Devo rasgar os formulários que acaba de preencher? Mathieu pensou em Sarah: «Seguramente deve ter obtido um prazo. estabelecidos de acordo com as despesas e os riscos e não nos podemos prestar a nenhuma transacção desse género! Acrescentou com severidade: — Se tinha pressa. — E muito prazer. como são as administrações.. — Lamento — disse friamente o senhor. — É impossível — disse Mathieu. Lá fora uma luminosidade vegetal tremia no ar cinzento. Mathieu atravessou a sala com grandes passadas. E uma instituição por assim dizer oficial. procederemos com a máxima discrição. A jovem mulher ainda estava ali. Ergueu as belas mãos e disse: — Não somos usurários. nos primeiros dias de Julho mandar lhe emos uma convocatória. Entrou num café e pediu ficha ao balcão. inclinando se. JEANPAUL SARTRE — Até à vista. Estava no Bulevar Sébastopol. — Pois bem.dirigindo nos directamente ao Ministério. Rua Huyghens. Não se poderia. — Preciso do dinheiro para hoje à noite ou o mais tardar amanhã de manhã cedo é uma necessidade urgente. . Ergueu se e acompanhou Mathieu até à porta. Cobramos os juros normais. Mas nada receie. meu caro professor! A nossa sociedade tem o apoio moral do Ministério das Obras Públicas. — Pois é — disse o senhor amavelmente —. Porém.

Pensava em Marcelle com um rancor melancólico. Pensava: «A minha vida já não me pertence. pelo menos acaba. com liberdade de ser um animal ou uma máquina. a velha.» Era quase uma prece. fazia o virar à direita e à esquerda. as flores dançavam lhe no chapéu de palha. «Tanto faz. ao banco. eu digo lhe hoje à noite que caso com ela. Não sabe quando volta? — Não. sacudia o. Mathieu pagou e pôs se a olhar pêlos vidros. as flores. tossia na Rua Réaumur. O que quer que aconteça. maltratava o. — Daqui é Mathieu Delarue. tossia no Pont Neuf. Desligou e saiu. — É Weysmuller. é através de mim que há de acontecer. está.» O autocarro parou com uma travagem brusca. A velha não tirava o nariz do lenço e tossia. «Caso. — Ah! Que chatice.» Ainda que se deixasse levar. Só lhe restava esperar. Sarah? — Está — disse uma voz. oxalá tenha conseguido. J E A N P AUL SARTRE . Diga lhe apenas que telefonei. pensou. Mathieu endireitou se e olhou angustiado as costas do motorista. livre. «O assunto vai ser resolvido. Tossia na esquina da Rua dês Ours com o Bulevar Sébastopol. A sua vida já não dependia dele. Toda a sua liberdade acabava de retroceder sobre ele. tossia na Rua Montorgueil. a velha tossia. «E se o judeu não for nisso?» Mas esse pensamento não o chegou a arrancar do seu torpor. para tudo. desamparado. Já não passava de um saco de carvão empilhado com outros sacos no fundo de um camião. Pensou: «Não. desesperado. era embalado pela rapidez da sua vida. Mathieu. Era livre. Quer deixar algum recado? — Não. Enquanto marcava o número pensou: «Oxalá tenha conseguido.» — Denfert Rochereau! — Três bilhetes — disse o cobrador. não é cara ou coroa. tudo era transportado pela enorme máquina. Os vidros tremiam. os acontecimentos batiam de encontro aos vidros. a minha vida é apenas um destino. não caso: já não tenho nada com isso. tinha escolhido a sua perdição. por cima das águas calmas e escuras. via a sua vida desfilar. mesmo que se deixasse transportar como um saco de carvão.» Via surgirem um por um os pesados edifícios sombrios da Rua dos Saints Pères. Posso falar com Sarah? — Saiu. O chapéu.» O autocarro enorme e infantil transportava o. subiu e sentou se junto de uma velha que tossia no lenço. É cara ou coroa. «Os judeus entendem se sempre bem».— No fundo e à direita. estava nas mãos de Sarah. os telefones. Fez sinal a um autocarro. — Está.

desaparecer. Mathieu levantou se e desceu.» — São más notícias? — perguntou a porteira. — Ah! E que estão cada vez mais difíceis. Obrigado.. Podia fazer o que quisesse. — Está bem — disse o motorista. Enfiou pela Rua Froi devaux. Rua Saint Jacques. Inconsciente. Ivich. — Bem. no fundo de um quarto escuro.. Ficam com diplomas. «Reprovada. 173.» — É um aluno meu que ficou reprovado nos exames. empreste me cinquenta francos — pediu à porteira. Ivich. está prestes a fazer uma asneira. No mesmo instante os muros que o cercavam desmoronaram se e pareceu lhe que mudava de mundo. Impressionava se com a grandiloquência inquietante. de hesitar.de aceitar. — Denfert Rochereau — gritou o cobrador. — Bem. Mathieu chamou o: — Lar dos Estudantes.» — Uma carta para o senhor — disse a porteira. admirada. dá me depois o troco. rasgou o sobrescrito. Estava cansado e nervoso. via continuamente uma maleta aberta. que se há de fazer! Leu pela quarta vez a carta. É claro como a água.. — Não. Saiu: «Onde estará ela?» Tinha a cabeça vazia e as mãos trémulas.. só e livre. na maleta. condenado à liberdade para sempre. esperavam sem um sinal. — Muito mais. sem a menor sugestão. — Não sei se os tenho — disse a porteira. Era como um remorso. Estava só no meio de um silêncio monstruoso. «Devia ter roubado. é que o senhor ficou tão assustado. Há quatro horas que anda por aí pelas ruas de Paris. . «Reprovada.. notas perfumadas e sedosas. inconsciente. de recusar. Em volta dele as coisas tinham se agrupado. Só havia para ele Bem e Mal se os inventasse. «Seis horas. Havia três palavras no meio da página. deve estar a fazer alguma asneira. — Imagine! Toda essa gente que estuda..» — Que horas são? — Seis horas. e. condenado a decidir se sem apelo possível.» Enfiou a carta no bolso. Mexeu na gaveta da mesa de costura. Mathieu pegou na carta. casar. Que é que se lhes há de fazer? J A IDADE DA RAZÃO — Pois é. Uma letra grande e inclinada: «Reprovada. — Madame Garinet. de se arrastar durante anos com aquela cadeia aos pés. — Só tenho cem. sem auxílio nem desculpa. Um táxi parou. Inconsciente. segundo me disseram. Soube do resultado às duas horas. ninguém tinha o direito de aconselhá lo. depressa.

não veio. — Hotel de Pologne. O estudante tomava uma dose de vinho do Porto. não passou por aqui? — A Menina Ivich? Não. Nas ruas? Em todo o caso não tinha ainda deixado Paris. Rua Sonimerard. A No Capoulade viu um estudante chinês que a conhecia. vamos subir devagar o Bulevar Saint Michel. albino. Se o encontrar. nem no Harcourt. — Está bem. — A Menina Serguine não voltou desde esta manhã. não veio dormir. com desconfiança. na pior. A Senhora Montero é que telefonou duas vezes para falar com o Senhor Boris. Mathieu desceu e tocou à campainha. quer que ele vá vê la imediatamente quando chegar. Saltou e empurrou a porta. Não a viu hoje? — Não — disse o chinês. — Parece me que conhece a Serguine. — Aconteceu lhe alguma desgraça? . preciso de entrar em todos os cafés. — Desculpe — disse Mathieu. Reconheceu Mathieu e sorriu. mas isso não queria dizer nada. — E a irmã. nem no Biard. uma rapariga loura. pode dar lhe o recado.» Mathieu tirou a carta do bolso e examinou o sobrescrito.. devia estar bêbeda. Tinha sido enviada da agência da Rua Cujas. nem no Source.» — Ouça — disse —.. E estou com quatro horas de atraso!» Estava dobrado para a frente e apoiava fortemente o pé sobre o tapete para acelerar. Mathieu olhou o. mas de repente percebeu: «Para me mandar aquilo. Mathieu subiu novamente para o automóvel.. ando à procura de alguém. — Ali.. indeciso. «Onde estaria? No cinema? Pouco provável. sentado num banco do bar. — A Menina Ivich Serguine está? A mulher olhou o. Tem algum recado para ela? J E A N P AUL SARTRE — Não.«Onde estará ela? Na melhor da hipóteses terá partido para Laon. — Aonde vamos? — perguntou o motorista. à esquerda. pois teria passado antes pelo Lar para levar a bagagem. nem no Palais du Café. Falava com dificuldade. — Vou ver — respondeu. Voltou logo. Passados instantes bateu no vidro. Correu. gordo. O táxi parou. — O Senhor Serguine está? O empregado. desde o cais. — Não voltou. Saiu. Ivich não estava no Biarritz. estava na caixa.

Ao Tarantule. — Bom dia — disse. depois voltou: — Desculpe. voltando lhe as costas. Para onde é que ela foi? — Queriam ir ao dancing. — Onde? J E A N P AUL SARTRE — No Luxemburgo. — Onde é isso? — Rua Monsieur le Prince. fica a dois passos. Mas afinal talvez estivesse simplesmente em Montparnasse. Mathieu desceu. — Rua Monsieur le Prince. — Adeus. senão terei de correr todos os chás dançantes do Quartier Latin. Deu alguns passos. eu aviso. pensou com fúria. E uma casa de discos. a amiga italiana de Ivich. — O dancing? — perguntou. — Não sei — disse lhe Mathieu. — Bom dia. sentiu um cheiro a mofo. As mãos tremiam lhe. a desgraçada? — Sei. Devagar. dançava.» . Sabe que ela reprovou. Saía do Luxemburgo com uma pasta debaixo do braço. O táxi deu a volta à Fonte Médicis. creio. Espere um momento. — Quando? — Há uma hora mais ou menos. sim. Entrou na casa de discos. Subiu para o táxi. enfiou as nos bolsos. Desça a escada.— Como diz? — Estou a perguntar ao senhor se lhe aconteceu alguma desgraça. Ivich estava ali. — Pare! Pare! Saltou do táxi e correu para ela.» — Pare. sentia apenas uma necessidade dolorosa e violenta de a tornar a ver. Viu Ivich? — Ivich? Vi. Encostou se à ombreira da porta e pensou: «Ela está aqui. também me esqueci de lhe dizer adeus. — Viu Ivich? Renata tomou um ar digno. «E se ela tivesse tentado suicidar se? É muito capaz disso». Mathieu voltou para o táxi. Estava com uma gente muito esquisita. «Oxalá ainda lá esteja. — Carrefour Vavin — disse. o dancing é na cave. — Obrigado. empurrou uma porta de couro e recebeu um golpe no estômago. — Na cave. e Mathieu viu Renata. É aqui. Nem sequer pensava em proteger Ivich.

O belo moreno olhava a firamente com um leve sorriso. O belo moreno parecia achar a coisa muito natural. vem. Nas paredes tinham pregado papéis multicores que tinham forma de plantas exóticas e os quais já se estavam a despregar sob a acção da humidade. Esperava. não te beijarei. Beijarei Irma. Um gira discos invisível difundia um paso doble e essa música em conserva tornava a sala ainda mais nua. autoritária. — Não. não — dizia agitando a mão diante do rosto —. Uma luz coada saía dos lustres de papel oleoso. surpreendida e lisonjeada. Ivich apoiava a cabeça no ombro do seu par e colava se a ele.Era uma sala vazia. Ivich? — disse a rapariga. enquanto ele lhe sussurrava ao ouvido. escandalizados. «reconhecem lhe o direito de se sentar ao lado dela». Alguém disse: «Ivich!» com uma voz docemente reprovadora. nada de álibis! O de barbas levantou se atenciosamente para dar lugar ao dançarino moreno. no Bulevar Saint Michel. pesada e mole. Ele dançava bem. Os estudantes rodearam na e fizeram lhe uma festa. — Quero. de olhos fechados. muito pálida. Ivich apontou o de barbas. Estava de pé. Era o jovem moreno e alto que estava com Ivich na véspera. Acendeu um cigarro e disse. Era. Os cactos estavam inchados como bolhas. — Quer beijar me. aliás. — E puxou a pelo braço. Ela afastava então a cabeça e ria. Os outros afastaram se. A rapariga pintada mostrava se reservada. tinha um ar esquisito. «Fantástico». Mathieu sentiu se humilhado. Ele respirava os cabelos de Ivich e de quando em quando beijava os. segurando a pela cintura. ao mesmo tempo empertigado e familiar. não prometeu. Estavam sós no meio da sala. — Foge porque eu prometi beijá lo — disse a sorrir. — Pois bem. Ivich não passava de . Mathieu viu umas quinze mesas espalhadas sob a luz morta. com o olhar parado. pensou Mathieu. — Desculpe — disse o de barbas com dignidade —. Para aquele rapaz elegante. o único à vontade. Envolviam na à distância com gestos redondos e ternos. sem uma sombra. pensativa: — Olé! Ivich deixou se cair numa cadeira entre a rapariga e um lourinho de barba. No fundo quatro rapazes e uma rapariga muito pintada batiam palmas e gritavam «Olé!» O tipo alto e moreno reconduziu Ivich à mesa deles. ameaçou. Mathieu reconheceu o. Ria como uma louca.

Ivich fizera mil trejeitos antes de beijar a rapariga. estou a achincalhar me. — Olha. — Ivich! Ela olhou o. Percebera pela primeira vez que a desejava vergonhosamente através do desejo de outro. e ele ficou a duvidar que o tivesse reconhecido. Ivich — disse o dançarino —. — Onde está ele? . menos eu. que é um pulha. — Quero sentar me aqui. contente. já estava nua diante dele. Olhava a com ar cúmplice. — Leve me daqui. No meio da escada. — Não — gritou Ivich. Ela pestanejou e olhou em volta.. quisemos até impedi la. decepcionada. — Quer voltar para casa? — propôs Mathieu. Arrancara o curativo. Ouviu atrás dele um ruído de consternação.. Mathieu sacudiu se bruscamente e avançou para Ivich. — Sabe — disse o de barbas —. Mathieu viu uma crosta avermelhada com pequenos pontos brancos de pus. Mas ela ergueu a mão esquerda e apontou o. ele despia a com um olhar sensual de amador. Na rua largou a. não a fizemos beber.. — Conservaste o teu — disse Ivich.. — Quer ir para a casa de Boris? — Ele não está em casa.. Mathieu agarrou a pela cintura e empurrou a. são uns verdadeiros pajens. Mathieu colocou se diante da mesa. — Cheiras a borracha — disse com asco. Tomou a pêlos ombros e conduziu a. Mas repeliu a violentamente. Os rapazes entreolharam se. — Venha — disse Mathieu docemente. Finalmente agarrara lhe no rosto entre as mãos e beijara a na boca. — Isso é verdade — afirmou Ivich desgostosa —. melancólica. o cheiro da carne. Ela pôs se a rir e levantou a saia acima do joelho. — É um demónio. Ivich voltou se para ele e disse: — Menos este. Tinha as pernas moles. as coxas. — Ela arrancou o contra a nossa vontade — desculpou se a rapariga. A Ivich ergueu se subitamente e olhou Mathieu com um ar sombrio. — Eu peco lhe. Não se debatera. Ivich.. ele adivinhava lhe os seios. — Menos eu. Ivich tornou se pesada. de boca aberta.uma presa. — E verdade que és prudente. — Ivich! Ela sacudiu os caracóis. — Quero sentar me aqui. — Es tu — disse.

— Então. encheu o e fingiu estar absorto. — Tenho vergonha — disse.— Sei lá. Ivich ergueu se com dificuldade. — Para onde quer ir? — Sei lá. Ivich não protestou. Mathieu conduziu a devagar pela escada. Mathieu encostou se para trás. Ivich tornou a encostar se na almofada e Mathieu guardou o cachimbo. 12. — Cada degrau é uma pancada — disse ela. Só mais um andar. Ivich disse subitamente: — Como me encontrou? Mathieu inclinou se para enfiar a chave na fechadura. — Não — disse violentamente. — Não se sente bem? Estava lívida. tinha medo de que a porta se abrisse. Mathieu respirou apaixonadamente esse cheiro. — Rua Huyghens. chegaremos num instante. — Chegámos — avisou. — Agora lembro me de tudo. — Está melhor? — Já não estou embriagada — disse Ivich. Mathieu viu as costas magras sacudidas pêlos vómitos. Estendeu o braço e segurou o trinco. — Poderá deitar se no sofá e eu farei um pouco de chá. — Eu estava à sua procura e encontrei Renata. Depois de um instante a tosse cessou. Mathieu reflectiu. — Ivich! — Tudo. estenda se e feche os olhos. Levou a até ao táxi. Ivich gemeu um pouco. De repente ficou verde e pendurou se na janela.. Subiram em silêncio. já que me trouxe de lá. Você é que deve saber. Ivich resmungou . tirou o cachimbo. — Mas a cabeça dói me. — Bem — disse. — Vou mandar parar numa farmácia. — Levo a para a minha casa — explicou.. hostil. E. Ele pagou ao motorista apressadamente e voltou se para ela. Mathieu desceu primeiro e deu lhe a mão para a ajudar. No segundo patamar parou para tomar fôlego. fui reprovada. Subiu com dificuldade para o automóvel e atirou se para cima da almofada. dei um espectáculo. — Venha. Andei com aquela gente imunda. Ela olhava o com uma expressão neutra. Um cheiro azedo de vómito exalava da sua boca tão pura. — Estou doente. sombria. \ mas ela recusou e saltou com vivacidade para o passeio.

— Mas você não sabe fazer chá. Ivich fechou os olhos e pousou a cabeça na almofada. ela sorria. pensou. Mathieu pegou numa chaleira eléctrica e foi enchê la na torneira do lavatório. afastando se. passariam um Inverno ou dois e surgiria um tipo — um jovem — que a levaria consigo. «Como é jovem». não era uma emoção específica. Olhou em volta com um olhar morto. Olhou as poltronas de couro verde e a mesa de trabalho. Deite se. Ivich partiria para Laon. quer? — Chá? — indagou Ivich. Viu as nos olhos de Ivich e teve vergonha. Mathieu puxou uma cadeira junto do sofá e sentou se sem ruído. pensou que amava Ivich e admirou se: não parecia amor. Ivich não respondeu. As três rugas tinham desaparecido. Dormia.atrás dele: — Estava à espera que viesse. Era a primeira vez que a recebia no seu apartamento. Ivich atirou se para o sofá sem dizer uma palavra. Era tão fraca e tão leve sobre o sofá. Endireitou os cabelos com a palma da mão e ergueu se . Mathieu foi buscar uma coberta e estendeu a sobre as pernas dela. Ivich deu alguns passos incertos e entrou no quarto. A água pôs se a chiar na chaleira. uma promessa de desgraça. Pusera toda a sua esperança numa criança. Ela roçou o ao passar e ele teve de apertá la nos braços. No armário descobriu metade um limão já seco. dir se ia uma maldição pregada no horizonte. mas bem apertado talvez se arranjasse ainda uma gota. A fronte estava lisa e pura. perplexa. embrutecer se ia lá. não podia auxiliar ninguém. — Quer chá? Ela não respondeu. «Eu casarei com Marcelle. Olhava com ternura o corpinho doente e maculado que permanecia tão nobre no sono. J E A N P AUL SARTRE — Quer chá? — Estou com frio. — Vou fazer chá — disse Mathieu —. nem um matiz especial dos seus sentimentos. E Mathieu não podia auxiliá la. — É a sua casa? —É.» Mathieu levantou se e foi devagarinho ver se a água estava a ferver. Depois voltou e sentou se junto de Ivich. — Aí está o sofá. Sofria. e Ivich abriu os olhos. — Entre — disse Mathieu. Três pequenas rugas verticais sulcavam Ihe a fronte. — Pus água a ferver — disse. Pô lo em cima de uma bandeja com duas chávenas e voltou ao quarto. precisava antes de auxílio.

— Obrigada. Telegrafou aos seus pais? — Não. — Não — atalhou Ivich. — Detesto isso. é como se o dia tivesse terminado. Estava ainda sombria. porém mais animada. — Não gosto do seu apartamento. Mas preciso de um samovar. E depois estarei exausta. Se estiver melhor. Todos esses cafés giravam em torno de mim. Pensou com rancor: «Que espere. . — E o bule? — É verdade. chá de Ceilão! Enfim. Passou a ocupar se da chaleira. — Como queira. E depois aquela gente toda! Um pesadelo! Aqui é feio. acrescentou: — Quero J E A N P AUL SARTRE que seja noite quando sair. Não poderia fechar as cortinas? Acenderíamos a lâmpada pequena. — Então tem de lhes comunicar. — Só tenho uma chaleira — respondeu Mathieu. — Não era verdade. entregando lhe o pacote de chá. do ano!. Boris queria. — Então — disse —. podemos sair. Encostou se às almofadas do sofá. Mathieu levantou se.. Aliás. Pôs a água no bule e voltou a sentar se. Detesto as despedidas moles que se esticam corno borracha. — Já o sabia.» — Quando parte? — Amanhã. encantada. — Como é suave. Há um comboio ao meio dia. — Oh!. mas não deixei. Não espero ninguém. Estou inteiramente livre. — Depois de uma ligeira pausa. Acendeu a lâmpada da secretária.. Foi buscar o bule à cozinha. fechou as persianas e as cortinas pesadas. você mesma? Ivich baixou a cabeça: — Tenho. Marcelle esperava o às onze horas. — Dê me o pacote do chá — disse —. Calaram se. — E noite — disse Ivich. Mathieu olhava a cabeça baixa de Ivich e os seus ombros frágeis. vou fazer chá à moda russa. mas calmo. Estou contente aqui. Depois disse.esfregando os olhos. deixaremos que toque. Houve um silêncio. tenho medo de voltar a ver o dia. Parecia lhe que ela o abandonava aos poucos. — Ficará aqui quanto tempo quiser. se vier alguém. — E preciso esperar um pouco — disse. é a sua última noite do ano? — Ah! — respondeu ela irónica —. — Ir aonde? Não. tanto pior. controlando a voz: — Eu acompanhá la ei à estação. Mathieu ficou um momento sem falar. não abriremos.

\ — Há um novo exame em Novembro. só sei que estou com dor de cabeça — disse Ivich. sem pensar. Isso não pode aborrecê la. não deve. mas não se sentia tranquilo. sairei simplesmente da cabeça deles.. — Não. — Ivich. os seus pais não podem. — Não diga isso — atalhou Mathieu. — Há de se arranjar? — indagou Ivich. — Não quero. é isso? Observou secamente: — Totalmente impossível. Ivich encolheu os ombros. — Mas não tem nada que arranjar. você . Você detesta Laon. se você. — Não me olhe assim. de modo nenhum — disse Mathieu com calor —. Irei visitá la a Laon. ouça. Não sou capaz de aprender um ofício e prefiro passar o resto vida em Laon do que voltar a fazer esse exame. Tudo o que toca Laon fica sujo.. Subitamente o sangue subiu lhe ao rosto. se me permitisse auxiliá la.. Ivich.. Como encontrar palavras que não a ferissem? — Não é o que queria dizer. surpreendida e cansada. você viverá em Paris. isso divertir me á e eu farei economias. — Detesto! Mathieu levantou se para ir buscar o bule e as chávenas. será um empréstimo. Mathieu atreveu se a erguer os olhos para ela.. você vai partir amanhã. aborrecida.. Ivich afundara se no sofá e olhava por baixo com uma expressão má. o que mereço. você há de voltar. A — Não os conhece.. Mas não é possível que lhe estraguem a vida para a castigar por ter fracassado uma vez. Será pior. Ivich não parecia compreender. — Não. — Não se deve resignar dessa maneira. É. já lhe disse que sou incapaz de aprender um ofício. Vão desinteressar se de mim.... Daqui até lá hei de me arranjar. Ivich! — Ah!. Não diga que não. não sei como estou a olhar. Odette e Jacques convidam me sempre para passar o mês de Agosto em Juan les Pins e eu nunca aceitei. aliás. Interrompeu se. mas um dia terei de ir. mas dou lhe a minha palavra que voltará. J E A N P AUL SARTRE — Não. Pois irei este ano. Eu arranjarei dinheiro. e Mathieu acrescentou: — Terei algum dinheiro. — Ah!. Não recuse sem saber.— Ivich. durante as férias eu farei economias. Baixou os olhos e continuou: — Quero ir dormir. — Não pensarão em castigar. Em fins de Outubro. alarmado. não é absolutamente impossível. Ouça. Voltou se para ela e murmurou sem a olhar: — Ouça. se quisesse. — Pois bem.

então é porque sou um homem — disse com um riso nervoso. Você dizia: «Não me importa de onde venha. Disse me mil vezes que os odiava.» Ivich encolheu os ombros. — Porquê? Não aceita o dos seus pais? — Não é a mesma coisa. Mathieu pôs se a andar de um lado para o outro. — Que é que está a dizer? Olhara o com um ódio frio. Mathieu permanecia em frente dela. — Porque é que não aceita? Diga. que orgulho é esse? Não tem o direito de desperdiçar a sua vida por uma questão de dignidade. mudando de tom todas às vezes. contanto que o tenha. aborrecido e infeliz. — Disse me no mês passado que o dinheiro era uma coisa aviltante com a qual as pessoas não se deviam preocupar. e Mathieu acrescentou vivamente: — Ou então paga me Boris. corrigirei provas. todas as horas. não a largarei enquanto não aceitar. Ivich alterou se: — Deixe me! Deixe me! Acrescentou em voz baixa e rouca: — Que suplício não ser rica! Em que situações abjectas uma pessoa se mete! — Não a compreendo — disse Mathieu. Com os meus pais não preciso de ser grata. com doçura. Mathieu via lhe apenas o alto da cabeça. — Efectivamente. — Não tenho motivos para aceitar o seu dinheiro. — Não foi isto que disse? — Não quero que me dê dinheiro. Enterrou o rosto nos cabelos. Vai arrepender se de ter recusado.. porque é que não aceita? Ela murmurou finalmente. Ivich fez um gesto. — E tem motivos para aceitar o deles? — Não quero que sejam generosos comigo. A Era possível vencer Ivich pelo cansaço. Pense na existência que terá em Laon.. — Ivich. vai dizer me porque é que não aceita. — Ah!. Darei lições. sem erguer a cabeça: — Não quero o seu dinheiro. Porque não responde? Ivich continuava calada. para isso era preciso espicaçá la com perguntas. A nuca era mais escura do que a pele do rosto. Pensava: «Ela vai aceitar. um bocadinho da nuca entre os caracóis J E A N P AUL SARTRE e a gola da blusa.há de reembolsar me quando ganhar a sua vida. responda. Teve vontade de lhe pegar no queixo e erguer lhe a cabeça à força. Mathieu perdeu a paciência. . não é. — Ivich! Ela continuava calada.» — Ivich. — Ivich. há de lamentá lo todos os dias. Ivich não respondeu.

o quarto. Mas tenho de fazer as malas. digo sim. Digo não. num tom estranho: — Quer. Nunca pensei nisso. desviando o olhar: — Não posso suportar a ideia de não a voltar a ver. tenho vontade de a ver. — Não tenho pena de si. — Mas se voltar.. Mathieu esforçou se por esconder a sua irritação. Disse me que gostaria de estudar Filosofia.. Não se atreveu a olhá la. sei que estarei lá amanhã à tarde. — Não gostaria de falar nisso. Mathieu respirou.. Depois. é tudo. Podem ou não acreditar. Que importa. mas não sei o que lhe hei de dizer. — Então.. Que o dinheiro venha de um lado ou de outro. Ela olhava o arqueando as sobrancelhas.. — Então. Afinal tem razão. Nem sequer imagino. — Que vai dizer aos seus pais? — perguntou para a comprometer ainda mais. — Sinto o aqui. — Qualquer coisa. secamente —. Levantou se. Ivich continuava com um ar aborrecido.. — Porque deseja fazer me bem? Nunca lhe fiz bem.. Basta vivê lo. Houve um silêncio. Estava escuro como café.. Sempre fui insuportável para consigo e agora você tem pena de mini. — disse ela — isso é uma utopia.. — Eu hei de escrever lhe — disse Mathieu. «Pronto!» Mas não estava ainda sossegado. — Oh!.. com a boca entreaberta.— É grosseiro. — Então? Pense nisto: pela primeira vez na sua vida seria totalmente livre..... Mathieu pensou nas cartinhas secas de Boris a Lola. quer dizer que... Mas foi apenas um . Está tão longe. — Eu também — respondeu ela —. Eu e Boris ajudá la emos. e Ivich perguntou. pareceu acalmar se. Ao passo que Laon. — Vai descrever me a casa. Vamos toma lo. e pouco me importa. Encheu as chávenas.... — Tenho de lá ir — disse ela.. pois poderá tentar. Tocou na garganta com o dedo. se não são eles que pagam? Baixou a cabeça com um ar sombrio. — Nesse caso isso é consigo. subitamente. Quero poder imaginá la em Laon. Tenho que fazer a noite inteira. mas não chego a acreditar. é por egoísmo que me ajudaria? — Puro egoísmo — disse Mathieu. há de morar onde quiser e fazer o que lhe agradar. porque quer dar me dinheiro? Mathieu hesitou e depois disse. — O chá deve estar pronto. talvez — murmurou com indiferença.

— O que me fez correr.. Esperava que Ivich não tivesse ouvido. — Não. — Abrimos. sabe. Não encontrei Waldmann.instante. arquejante. Como passou? Ivich levantou se e fez uma espécie de reverência. — Não tocaram? — indagou ela. — Quem está aí? — perguntou corn uma curiosidade sôfrega. — Ah!. — Bom dia — falou ela.» Abriu a porta. Venha tomar uma chávena de chá. estou com. não posso. No horrível tailleur verde. — Talvez seja importante.» — Que chá esquisito! — disse Ivich. Ivich era a única pessoa que Sarah não suportava. Os olhos pareciam inundados de bondade. E Mathieu acrescentou. rindo com os dentes estragados. espantado.. Mathieu estremeceu. Ele recusa. não é razoável. os pulsos magros e pensou: «Vou tornar a vê la.. aliás. Sarah também. — Cheguei tarde. Há vinte dias que está em Paris e já se meteu numa quantidade de negócios escuros. — Já dissemos que não íamos abrir. cheirava a catástrofe. — Aposto que não come bem.. Vem de Madrid. Voltou se para Mathieu. Mathieu pôs um dedo sobre os lábios. O ministro disse me que me tinha telefonado e eu vim. Só às seis horas é que lhe pus a vista em cima. alegre: — Falaremos disso mais tarde. Mathieu dirigiu se para a porta. Pensava: «Tem horror de parecer minha cúmplice. Disseram me: um amigo de Gomez. Nem sequer pus o chapéu. — Quem? — perguntou Mathieu para ganhar tempo. sim — disse Ivich com voz clara. más notícias para si. — Não quer que eu lhe fale de regime. não. — Bom dia — disse com vivacidade —. — Ainda não sei. obrigado. é Ivich Serguine. os cabelos despenteados e a sua expressão de bondade doentia. chegou um amigo de Gomez. — Como está magrinha — disse Sarah. Não disse nada. J E A N P AUL SARTRE as unhas vermelhas e bicudas. Olhou as mãos de Ivich. . Era Sarah. Mathieu colocou se diante de Sarah e olhou a fixamente. — Meu pobre Mathieu. querem ver me urgentemente. Sarah riu. Ela olhou Mathieu com ternura. Parecia decepcionada. Acabavam de tocar a campainha. Vá abrir. Sarah empurrou o amavelmente e espreitou por cima do ombro de Mathieu. preciso de ir à Livraria Espanhola. — Lá está Mathieu a fazer me olhinhos feios — disse. Sarah. — E muito boa. Mathieu olhou a.

. adeus Sarah.— Hem? Ainda assim. Nada. — Não tenho nada com isso. Continuou. Mathieu sabia que ela não responderia. — Bem — disse ela ao fim de um momento —.» Mathieu ouviu o sofá ranger. de cabeça baixa: — Ela disse me anteontem que está grávida. Foi sentar se ao lado dela e disse sem a olhar: — Ivich. Ivich não respondeu. Explicou a Ivich. Estava triste. mas sabia que ela o olhava. acho que vai acabar assim. eu compreendo o.. Disse que não. supliquei. Ele olhou a duramente e ela calou se. Estava com frio. mas Sarah queria justificar se. e sai como um golpe de vento. E viu acender se lhe nos olhos algo que se assemelhava a um clarão de consciência. vou casar me com Marcelle. Então disse: «Não dou crédito. — Meu caro Mathieu — disse Sarah. Insisti o mais que pude. — Bem — disse Mathieu. — Não sei porque me está a dizer isso — observou ela com uma voz gelada. Mathieu voltou a andar de um lado para o outro. que pague. — Não tenho quase nada a dizer. Acentuou as últimas palavras..» E é verdade. — Esta mulher é um vendaval — disse a rir. fizeram nos sofrer de mais. há muitos médicos em Paris. Eu não podia acreditar. ele perguntou me se ela era judia. vou me embora. — Está bem. Calou se e fez se um silêncio pesado. A Fez se silêncio. minha senhora — disse Ivich. dos campos de concentração. — Não se fala mais nisso. Se quer que eu opere. Mas Sarah não via nada. Mathieu teve forças para dizer: — Deseja sem dúvida falar me particularmente? Franziu as sobrancelhas repetidas vezes. É preciso que a pessoa em questão esteja lá amanhã com o dinheiro. J E A N P AUL SARTRE — Fiz o possível. Martirizaram nos. comovida. — Entra. Falou me dos judeus de Viena. As palavras saíam com dificuldade. meneando a cabeça: — Que vai fazer? — Não sei. Quando Sarah saiu.. — Não pensa em. no quarto. Telefone amanhã sem falta. — Adeus. derruba tudo. Mathieu contemplava as pesadas cortinas verdes. — Penso — disse Mathieu tristemente —. — Não vale a pena — disse tristemente. quero saber. desconcertada. Mathieu encolheu os . Sarah continuava: — Disse ainda: «Nunca mais lhes fio. Aliás. Não se atrevia a olhar para Ivich.

— Desculpe. Sentia uma raiva desesperada subir dentro dele.. Nunca pensei em aceitar o seu dinheiro. — Não tenho dinheiro — disse Mathieu. vermelha de ódio e com um sorriso . — De qualquer maneira vou me embora. Acabou de tomar o chá e perguntou: — Que horas são? — Nove menos um quarto. — Largue me! Não me toque. — Foi por isso que encarregou Boris de pedir cinco mil francos a Lola? — Eu não... — Procurei por toda a parte. — Mas sabia que ela. — Ivich! — gritou Mathieu pegando lhe no braço. até breve — disse Mathieu. Segundo me disseram... Tenho de fazer as malas — gemeu. há muitos meios de. — Está escuro? Mathieu foi à janela e levantou as cortinas. — Pois é.. Ivich gritou e desenvencilhou se violentamente. — Em Outubro? — disse ela com um olhar faiscante.. — É sórdido — disse Ivich com uma voz neutra. não tenho nada com isso. sem dúvida... Hesitou e continuou como se estivesse distraída: — Não sei porque está tão abatido. foi para isso. — Vê la ei em Outubro? Saíra lhe sem querer. quando se atreveu a tocar me. Você é que sabe o que deve fazer. Não tinha vontade que ela ficasse. pensei: «São modos de homem casado. Depois riu se. Se casa é porque quer. J E A N P AUL SARTRE — Não faz mal — disse Ivich levantando se. — Ainda não. — Ontem de manhã. — Não me preocupo muito com essas coisas. Nem tem o suficiente sequer para o casamento.. — Em Outubro! Ah! Não. — Aliás. — Bem percebi — continuou Ivich..ombros. Ivich teve um estremecimento violento. — Era sua amante? — disse Ivich com arrogância. pois bem.. Ela pusera se diante dele. mas está com um ar tão cómico. — Não precisa de insistir. Já compreendi. arquejante. — Até breve. — Então. Uma luz suja filtrou se através das persianas. Mathieu largou a.» — Chega! — disse Mathieu com dureza.

/ L contornou a multidão lírica: a doçura crepuscular não era para ele. Depois deu uma gargalhada. A direita estava preta. Diante dele um quarto cor de rosa. por aquela gratidão. para sempre! Muitos atiram se à água por muito menos. Um vazio. Tirou o lenço. O Café dos Três Mosqueteiros brilhava com todas as suas luzes na noite ainda indecisa. a lama sujara lhe a ligadura. por aquele amor. A esquerda doía lhe. tu ne sais pás En vain je tends lês bras.» Deixou de rir. ardores de raiva na gar DADE DA RAZÃO . Precipitou se para a saída empurrando a e bateu com a porta atrás de si. de Ivich. Recordava as antigas esperanças e ria porque tinham dado naquilo. de Marcelle. Dentro em pouco a renda luminosa da noite estender se ia sobre Paris. olhando espantado. Para toda a vida. pareciam felizes e juntavam se ali. Uma multidão desocupada agrupara se nas mesas da esplanada. Ele teve medo de si próprio. Caíra sobre as mãos. naquele homem grave que quase chorava porque dera uma queda. com alguns arranhões. das suas miseráveis paixões. Olhava se sem vergonha. As palmas das mãos ardiam lhe. Olhou com gravidade as mãos sujas de lama. O corpo volta a marchar arrastando os pés. Tu ne sais pás aimer. e murmurou seriamente. pesado e quente. «Só faltava mais isto».. fria. depois de uns momentos. da vida. As pessoas esperavam a noite ouvindo música. uma mulher imóvel esperava o cheia de esperança. com arrepios. J E A N P AUL SARTRE Uma rua comprida e direita: atrás dele um quarto verde. e pensava: «Dizer que me levava a sério. molhou o com saliva e esfregou as mãos com uma espécie de ternura. da ridícula queda. Dentro de uma hora entraria escondido naquele quarto cor de rosa e deixar se ia envolver por aquela doce esperança. jamais tu ne sauras. não havia razão para rir. diante daqueles primeiros fogos vermelhos. café por café. M. como se estivessem com frio. com uma curiosidade divertida.insolente. Durante um segundo ficou suspenso. montra por montra. esbarrou no passeio e caiu no chão. * XVI TH ne sais pás aimer. Tinha vontade de chorar. — Que chatice! Levantou se. tu ne sais pás Jamais. Ria de si mesmo. — Cretino! Mathieu atirou se para a frente a fim de evitar o automóvel. uma conscienciazinha cheia de ódio repelia o com toda a força. «só faltava mais isto».

Tinha vontade de apertar aquele pescoço fino com a maça de adão saliente e de esfrangalhá lo entre os dedos. «E se Lola tiver ficado na cama?» Pôs a chave no bolso e pensou: «Que importa! Pego no dinheiro mesmo assim. todas as pequenas solicitações quotidianas. aqui esta chave chata. uma folhinha e um pequeno espelho já manchado de ferrugem. e Ralph baixou os olhos vivamente. Lá longe aquela porta fechada. tinha pressa em acabar de se vestir. quase apagado pela penumbra e a sujidade. pessoas. para além dos edifícios e das ruas.» O mundo reformou se. No espelho.» O rosto avolumar se ia no espelho e seria o fim. o tempo de chegar até à porta e abri la. Elas calam se. com autos. pensou Daniel com um arrepio. no fundo da fenda. uma transparência desliza e se contempla com uma paixão gelada. montras. a morte infame que merecia. entre a fotografia de Marlene Dietrich e a de Robert Taylor. odeia me.ganta e no estômago. havia uma porta fechada. sentia se mal e sereno. barulhento e activo. Não sabia que Daniel o podia ver. Mas não era o mesmo mundo nem exactamente o mesmo Mathieu. Posso ir a pé. um ódio requentado.» Uma hora. Voltou se. Havia outrora um futuro de homem que se interpunha entre elas e que elas reflectiam num leque de tentações diversas. caem do céu como enormes estalactites.» J E A N P AUL SARTRE A lâmpada iluminava mal. O futuro morreu. Entre as flores. No fim do mundo. As coisas ficaram ali. «Cara de assassino». Eram os únicos objectos do mundo. Entre eles não havia nada a não ser um monte de obstáculos e distância. e Daniel gozava aquele ódio que os unia. e começou a dar o nó na gravata. Perto da janela que dava para o telhado. além dessa hora não havia nada. abaixando se ligeiramente. mergulha num gás luminoso a dançar no fundo de uma greta imunda.» Demorou se a dar o nó na gravata. aquilo que ainda há pouco as enchia desapareceu. Mas já ninguém o habita. O corpo vira à direita. Massas sombrias arrastam se a ranger. viu o perfil magro e duro de Ralph e as suas mãos puseram se a tremer. «Um dia um tipo como este liquida me à traição. «Está humilhado o macho. aquilo purificava o. Ralph continuava a olhá lo. Mathieu encontrou se no meio da Rua Départ. sobem do chão como absurdos meni res. flores peludas balançam. «Irei buscá las. Ao nível dos olhos. intactas. As rugas esvaziaram se como por um buraco de esgoto. mas o molho desfez se. Ralph voltara a cabeça para o lado do espelho e olhava para Daniel com um estranho olhar. Daniel aproximou se. entre blocos de gelo riscados por clarões. todos os miúdos cantos de cigarra se dissiparam no ar. O quarto era um . atrás dele. Mathieu andava com um passo regular. «Dentro de uma hora. que parecia ter vinte anos. em paz consigo mesmo. talvez de prazer. Tirou da carteira uma chave.

não parecia muito franco. — Não tens uma toalha? Tinha as mãos húmidas.forno. — Eu não quero coisa alguma — disse Daniel — e não lhe disse para pedir desculpas. que era o senhor que queria. J E A N P AUL SARTRE — Eu disse lhe: faz o que quiseres. Ele veio dizer me hoje de manhã que ia pedir desculpas. Dentro de um minuto. Dentro do jarro havia uma toalha sujíssima. não é a mesma coisa.. — Nós lavamo nos no lavatório do corredor — disse Ralph. A Explicou. — Veja dentro do jarro. Daniel quis vestir o casaco. — O farmacêutico? . calçava os sapatos inclinando o busto. Sr. e pronto! Mas bem sabia o que o esperava lá fora. «Tem uma certa graça». — Não lhe vou dizer nada. Mas tinha horror àquela graça. depois de um silêncio: — É mais cómodo. Dez horas ainda. Só lhe disse que era asneira tê la deixado. acabam de soar. pensou com imparcialidade. — Que horas são? — Nove. Ralph ergueu a cabeça: — Queria perguntar lhe. antes da madrugada! Não se deitaria. Fez um movimento irritado para dar o laço no sapato do pé esquerdo. hesitou. Lalique quem te aconselhou. Sentado à beira da cama estreita. — Nunca houve água neste jarro. Ele é assim. Lalique. Quando se deitava depois. Vocês não parecem muito amigos da água. — Bom. — Se foi o Sr. Tinha os ombros e o peito inundados de suor. Não é da minha conta — explicou Ralph. e pensava apreensivo no peso do casaco que lhe ia colar a camisa de linho contra a carne húmida. mas não teve coragem. com o joelho direito erguido. Daniel enxugou cuidadosamente as mãos. Mas há um a quem eu deitarei a mão quando o apanhar. No momento de vestir o casaco. chateado. foi o senhor quem aconselhou Bobby a voltar para a farmácia? — Aconselhou? Não. Precisa sempre de mentir. — O teu quarto é terrivelmente quente! — E mesmo debaixo do telhado. era muito mais penoso. mas estou a ver. os braços jovens e musculosos que saíam de uma camisa Lacoste de mangas curtas. Sorriram ambos com desprezo. estaria lá fora. Daniel contemplava o dorso magro.. agora.

Pergunte só ao empregado do Oriental.» — «Não disse nada. Depois todos falam em quebrar a cara a alguém. vai ver. Pensava: «São todos iguais. Havia uns a olhar. Levantara se imitando as fases da luta. Daniel não soube resistir ao desejo de o humilhar ainda mais. Apetecia lhe espancá lo. Ralph entusiasmara se. Ele saiu: «Queres ensinar a viver a um pai de família?» Foi o que ele disse. Tinha necessidade de fazer gestos vivos e bruscos.» Todos menos Bobby. sinistro e arrogante. — Mijava sangue — continuou Ralph. Calou se. O tipo novo. E Corbin do matadouro. — Uf! Uma rasteira e estatelou se no chão.» E zás no estômago. hem? Não tens medo de ninguém. Queria me pôr fora. não tens medo de ninguém. Daniel sentiu se cheio de ódio. Esse estupor. Ralph riu também e aproximaram se um do outro. pensou Daniel. — «Ah!. Daniel olhava o. Daniel sorriu com insolência.— Sim. mas achava humilhante que Ralph tivesse dominado um homem de trinta anos. Mas não o velho. «Estás me a conhecer? Estás? Então ouve. naturalmente. (E Daniel deu . e de passagem limpei Ihe o focinho com o cotovelo: assim. não disseste nada? Pois toma. talvez seja ele que te liquide. O que foi dizer de Bobby e de mim! Bobby não tem vergonha. Mandei lhe uma! Um murro no olho para começar. disse eu. com um arzinho de poucos amigos. «Eu mato o». — Pergunte! Pergunte só! — disse Ralph. — Ele? — Ralph riu maldosamente. era o que ele dizia. coberto de glória. Voltar para aquela casa! Mas eu vou esperar o gajo à saída. — A brincar aos heróis. — E tu? Vamos lá ver se tens força. o pai de família. hem! Que é que foste contar? Ah!. salto lhe em cima e bato lhe com a cabeça contra o passeio. «Vens cá para fora». Comprazia se no seu ódio. que era uma fêmea. os olhos brilhavam lhe. Parecia um insecto. as orelhas estavam vermelhas. Era Bobby. hem! Acabarás por te espetar. Um camarada de trinta anos e com braços assim. Não acreditava muito naquelas histórias. Atiro o ao chão. Pôs se a rir. moldadas pelas calças azuis. — E tu desfizeste o. — Pode vir. — Não são os maiores que são os mais fortes — disse. Ele sabe. Já não sabia onde estava. Sorriu maldoso. Voltou se sobre os pés mostrando as nádegas duras. não disse nada». — Vou chegar de mãos nos bolsos. Em cheio. Ralph estava vermelho. magoado. e um muito alto que eu já vi consigo. Que é que foste dizer de mim. — Então — continuou Daniel —. com uma irritação irónica. — Eh!. — O estagiário? — Sim.

Tentou rir. — Já fui forte — disse. Daniel contemplava o. — Questão de treino. — Vou mostrar to. . Ralph estava de pé. — Consigo posso eu bem. está a querer de verdade — disse Ralph num tom estranho. Daniel tinha vontade de agarrar Ralph pelo pescoço e encher lhe a cara de socos. Daniel sentiu um gosto áspero e febril no fundo da boca. Adeus. não ganhará. vou me embora. levantou o.) Vamos lá ver se tens força. Daniel agarrou o pela cintura. Daniel demasiado cansado para se levantar. de cabeça. impotente. Ralph abriu a boca espantado. Daniel largou o e pôs se de pé. — Quem ganhou. Daniel desviou se e agarrou o pela nuca. mas desviava os olhos de Daniel. — Bom — disse —. menino? Ralph sorriu imediatamente e disse com uma voz falsa: — O Sr. pensava: Estou a ser ridículo. satisfeito. mas os olhos faiscaram Ihe de raiva. a camisa molhada de suor colou se lhe à pele. sorridentes e raivosos. Juntaram se de novo e principiaram a girar no meio do quarto. mas Daniel enfiou lhe as mãos na cara e ele largou o. Era belo. esmagado sob aquele peso de homem. contrafeitos. mas há a diferença de peso. mas Daniel segurou lhe os pulsos e apertou lhe os braços sobre o travesseiro. Ralph não parecia nada cansado. Ralph era duro e flexível. menino.» Empurrou Ralph com toda a força. Ficaram assim uni bom momento. Lalique é forte. — Está mesmo com vontade? Atirou se subitamente sobre Daniel. generoso. — Gentilmente. O coração batia lhe como se fosse estourar. — Ah!. Os olhos de Ralph estavam cheios de ódio. — O fôlego não é nada — disse.Ihe um empurrão. Estava sem fôlego. atirou o para a cama e caiu em cima dele. Estava arquejante e humilhado. mas Ralph resistiu. «Tenho de acabar com isto ou então ele vence me. Vestiu o casaco. — Lutas bem — observou Daniel —. de pai de família. Uma raiva louca invadiu Daniel. A brincar. — Agora não tenho fôlego.» Baixou se de repente e pegou Ralph pêlos rins. Ralph conseguiu erguê lo. A — Quem ganhou? — perguntou Daniel ainda arquejante. arranjava o colarinho da camisa e não arquejava. claro — disse ele com voz sibilante. e Daniel começou a arquejar. Ralph estava pregado na cama. Os músculos escorregavam nas mãos de Daniel. Encontraram se novamente um diante do outro. Ralph debateu se. Tinha a impressão vaga de ser um tipo gordo e de bigode. tentou arranhá lo. Lutavam em silêncio. Riram ambos.

Barbeara se pela manhã. pensou: «Talvez liguem J E A N P AUL SARTRE só de noite. que hás de encontrá la. — Bom. A porta fechou se. A cama estava desarrumada e havia dois travesseiros ainda amassados pelo peso das cabeças. Bolivar. — Aonde vai? — repetiu ela. Não notara isso de manhã. O quarto estava escuro. — Estava a ver se a chave estava lá. tinha previsto isso. Mathieu pôs se a subir sem responder.» Olhava de viés pelo vidro da porta do escritório e viu uma sombra. mas já se acos tumara à escuridão. Era o toilette. «Antes de mais nada». depois resolveu deixá la na fechadura da maleta. — Eh! Aonde vai? — perguntou uma voz áspera. Mathieu ajoelhou se diante da maleta e abriu a. Caminhou sem se apressar até ao quadro das chaves. ele não saiu. As notas que ele largara de manhã tinham caído sobre os maços de cartas. Vi o senhor mexer no quadro das chaves — disse a mulher. Fechou a porta à chave e avançou para a cama.» Mas não teve medo. — Não pode avisar na caixa? «Bolivar. — Não saiu. depois enfiou a chave na porta do 21 e abriu.. Como transpusesse o limiar da porta. Era uma mulher alta e magra. A chave estava ali.° — disse Mathieu tranquilamente. Parecia importante e mostrava se inquieta. de lornhão. A princípio estendia os braços para se proteger contra os possíveis obstáculos. Abriu a. no 3. Mathieu riscou um fósforo e viu . Mathieu sorriu lhe. pensou. No patamar do 3. Parou.» — Vou ver o Sr.° parou um instante. Sentia uma vaga vontade de vomitar. Pegou em cinco. — Não está? — Não. «vou lavar me dos pés à beça». desconfiada. com as pernas moles. depois das nove.. Mathieu fez soar uma campainha surda. Sr. Uma porta abriu se atrás dele: «Vão chamar me. — Pois é — disse aliviada. depois deu uma volta e dirigiu se para a escada. Mathieu pegou lhe rapidamente e enfiou a no bolso. antes de sair.— Boa noite. Quarto 21. — Escondi uma coisa para ti no quarto. Procura. não queria roubar para ele. Uma possibilidade sobre duas. Ao abrir a porta. A mulher aproximou se do quadro. Lalique. Ao levantar se percebeu no fundo do quarto uma porta que não vira de manhã. Havia alguém. e deixara a navalha aberta sobre a lareira. O nome do negro era Bolivar. Daniel desceu as escadas. «Que vou fazer da chave?» Hesitou. um pensamento veio lhe repentinamente. Mathieu voltou se. Uma escuridão avermelhada que cheirava a febre e a perfume.

flutuam na luz móvel. Passa o dedo pelo fio da navalha e sente na ponta do dedo um gosto ácido de corte. que o mais difícil ainda estava por fazer: pôr a chave no lugar. A minha mão é que tem de fazer tudo. Está sozinho naquele cenário. O cabo é preto. um sinal. Quando se voltou. Anda a passos largos. Havia gente a subir a escada. o pijama. a lâmina branca. Sentia o olhar da mulher ferindo lhe as costas. Contemplou se até que a chama se extinguiu. de pernas moles. minha senhora.» Os gatos arranham na cozinha. nada o impede. Mathieu deixou os passar. No primeiro andar parou e inclinou se sobre o corrimão. Saiu. Tem muito medo agora. Agora distinguia com nitidez os móveis. até logo — respondeu ela. — E no quarto andar — disse ela. Dóceis. mas ouviam se passos e risos. o fato cuidadosamente dispostos sobre as cadeiras. os vestidos de Lola. Depois desceu. — Adeus. nem mais nem menos. O corredor estava vazio. Não.surgir no espelho o seu rosto avermelhado pela chama. Agora apoia a mão na mesa. ela responde à pressão com uma pressão igual. . procura um socorro. depositou a chave e saiu ruidosamente. Arrepia se. Teve um risinho mau e saiu. Morta a serpente. Manejáveis. «Nada me ajudará. divertido. Fez um movimento para voltar ao quarto. Pega lhe pelo cabo e contempla a. Tem de decidir sozinho. Morta a serpente. A mulher estava perto da porta de entrada e de costas voltadas para o quadro das chaves. a temperatura demasiado suave. Mais ainda de tédio que de angústia. Pouco se lhe dava ser surpreendido. A mesa está inerte. ninguém. morre o veneno. pesa apenas como um insecto na mão. Tudo está inerte e silencioso. o barril de pólvora está no fim. As coisas são servis. Só ele de pé. só ele vivo na luz demasiado azul. A chama corre ao longo da mecha. o roupão. Mathieu desceu sem fazer barulho. A minha mão fará tudo sozinha. Dá alguns passos no quarto. A navalha não ajuda. E o soldado respondeu: — É alto. Sobe a escada a quatro e quatro. depois largou o fósforo e voltou para o quarto.. Enfiou a chave na fechadura e fechou a porta. Tinha vontade de rir. é uma coisa inerte. viu uma mulher com um soldado. Dois gatos passam lhe entre as pernas. Nada o impede de resolver. as cadeiras estão inertes. Custa lhe a encontrar a fechadura. As ruas são azuis de mais.. A chama corre ao longo da mecha. A navalha está sobre a lareira. a mão treme lhe. a boca seca. Tem medo. A mulher virou se e ele cumprimentou a: J E A N P A U L SARTRE — Adeus. Boceja de angústia e tédio. Pensava.

Tudo está inerte e tranquilo. Passa a navalha para a mão esquerda. olha para o céu. Tem de se resolver. a navalha está ali. A temperatura é suave. Está rígida na ponta do braço.. abre a porta e lança se escada abaixo. Com a mão esquerda. sem que precisasse de fazer o gesto! A dor aguento a. ele sente a. inerte. Sim ou não. flutua. Quero a.. Pode estender a mão e agarrá la. A navalha. depois que o despertador toca. A minha mão. Coloca o sobrescrito bem à vista sobre a mesa. Puxa as cortinas. Tem a noite toda para isso. Salta para trás. de um modo suficientemente nítido para que se realizassem por si. desabotoar se com paciência. A navalha obedecerá. aberta. recta. se pudesse imaginar nitidamente aquela poça vermelha e aquele odor. Tem medo da mão. Tira cinco notas de mil francos. Pega na carteira. ela chupa lhe o sangue. carrega a fera no ventre.. . Nada mudou. Rua Huy ghens. Mas é pré J E A N P AUL SARTRE ciso fazer primeiramente o gesto obsceno. dura. Sozinho consigo mesmo. e o presente cai com a primeira gota de sangue. e a navalha na ponta. Contempla o soalho. A serpente ali está. depois a lâmina. É liso. chamo a. Contempla fascinado a navalha. toca na lâmina. Aquela flor vermelha entre as pernas não está ali. Em vão. A navalha. Um enorme braço de estátua. tem a noite toda. a navalha brilha docemente. o gesto de mictório. Olha para o soalho. anda. Mas é o gesto. Morta a serpente. unido. Um corpo vivo e quente com um braço de pedra. A minha mão fará tudo. põe o dinheiro dentro. acende a luz. aquela poça vermelha no soalho não está ali. vermelha.o seu acto não é senão uma ausência. Abre os dedos: a navalha cai em cima da mesa. Vai até à janela. Anda de um lado para outro. como se encontra de pé. 12. Gira em torno da mesa sem despregar os olhos da navalha. o gesto. Um gesto. da nuca aos rins. o soalho. Pega num sobrescrito. «Vamos!» Se pudesse encontrar se mutilado. A inércia da navalha contamina lhe a mão. entre as pernas. pequeno. Escreve: Senhor Delarue. que nojo! Se tens assim tanta repugnância. o braço. a minha mão é que deve fazer tudo. inerte. Nunca será tarde de mais. examina a. É preciso um gesto. Ficarei deitado no chão. pesa lhe docemente na mão. a navalha estará no chão. cega. Com a mão esquerda. não deseja nada. A noite toda. sem saber como se levantou. com a braguilha aberta e viscosa. Diz: «Vamos!» E um arrepio irónico percorre lhe as costas. inerte. inerte. A navalha está ali. não há lugar para manchas. A mão direita apossa se novamente da navalha. Nada. Levanta se. o quarto está docemente iluminado. de manhã. Nada o impedirá de a agarrar. gelado.. Já não se odeia. Ainda tem tempo. Um gato desvairado rola pela escada com ele. Estende a mão. sobre a mesa.

Daniel olhou o líquido amarelo e mole. arquejante. Como sempre. o uísque ferveu durante um segundo. O empregado baixara se para enxugar o chão e apanhar os cacos. nunca seria decidido. Dir se ia cerveja morta. levá lo iam para casa. O barman e o empregado calaram se subitamente. com qualquer coisa de maníaco e que dava boas gorjetas. Daniel inclinou se por cima da mesa. — Não devo beber esta noite. Daniel estava só naquele bar tranquilo. Nada estava decidido. deitando os pseudópodes em direcção aos pés de uma cadeira. — Beber mais! Atirou o copo com um safanão. O quarto esperava o docilmente. Sentou se ao fundo do café. Dê me meia . — É um aviso — acrescentou em tom de piada. O líquido escorria lentamente sobre os ladrilhos. a porta estava aberta e a navalha brilhava em cima da mesa. sorrindo. a madeira clara dos tabiques brilhava docemente. Os gatos erravam pela escada escura. — Exactamente como gosta — disse. — Um uísque — pediu. Deitou um pouco de água Perrier no copo. Empurrou a porta sem fôlego. no qual flutuava um pouco de espuma. um pouco febril. Nada o impedia de retroceder. As pancadas violentas do coração repercutiam se nas pontas dos dedos e sentia um gosto de tinta na boca. O empregado acorreu. Era um norueguês que falava francês sem sotaque.Daniel corria na rua. Lá pelas quatro horas o empregado. No bar. como comadres atarefadas. E depois toda aquela agitação se acalmou.» Beberia o que fosse necessário. — Não estou muito bem — explicou. fugir. Daniel voltou à solidão. O seu quarto esperava o. o empregado e o barman falavam norueguês. A luz loura espumava em volta dele. com o barman. invisíveis. Esmagou se no pavimento. Lá em cima a porta tinha ficado aberta. mergulhar no ruído. Era preciso correr. a lâmpada acesa. ser olhado por outras pessoas. «Nunca mais poderei voltar. O empregado voltou com um copo meio e uma garrafa de Perrier. O empregado abanou a cabeça e foi se embora. — Trago lhe outro? — Traga. Não — disse bruscamente. — Sou um desastrado — disse Daniel. entre as pessoas da rua. a navalha sobre a mesa. bolhas apressadas subiam à superfície. e Daniel sentiu que se tornava um freguês rico. Correu até ao Rói Olaf. Olhava amavelmente para Daniel. A — Parece cansado — disse o empregado respeitosamente. nas luzes. — Obrigado. voltar a ser um homem entre os homens. o mais longe possível. embebida num verniz grosso que se colava às mãos quando se lhe tocava.

que parecia sempre a ponto de se aniquilar e que nunca passava.. Daniel sentia se mais calmo.» Empertigou se e dirigiu se apressadamente para a porta. M athieu fechou a porta devagar. também. Não pode desprezar se nem esquecer.. Pobre comediante! Só no fim conseguira amedrontar se. com olhar fixo. O rapaz afastou se. O empregado abriu a garrafa e encheu o copo. Gostaria de estar morto e existia. tem de ceder. acha que ele não se declara suficientemente depressa... O odor a gengibre. a luz loura. Isso. «Mas nunca poderei. O tempo não passava. Sabia o quando pegara na navalha. Gostaria de estar morto. Ter lhe ia sido preciso.. Alegrava se sempre com a oportunidade de uma boa farsa. aquele fraco e moribundo desprezo. Está de pé. endireitou se e pousou a mão direita sobre o corrimão. «Estupor! Comediante covarde. fugira. «Mathieu está em casa de Marcelle.. é para si. — Obrigado. «Há um meio. não se iludira um só instante. não aquele atroz desprezo sem força suficiente. sim.» Pôs se a tremer: «Cederá. prefiro A castrar me. abraça o. — Chamou? — Sim — disse Daniel. fui eu que fiz. menos ele próprio. Neste momento ela fala. os tabiques de madeira. queria ter nojo de si. não havia melhor oportunidade. já sabia que não iria até ao fim. se pudesse sentir pesar sobre ele o desprezo de outrem.Perrier com limão. aceitaria qualquer um. onze horas. O peito roçava lhe os joelhos.» Quando caminhava a passos largos pela rua. Se alguém soubesse. eu estraguei lhe a vida. distraído. Um meio de arranjar tudo. obstinadamente. segurou os com a mão esquerda. de olhos erguidos para uma neblina rósea que parecia . Depois pôs o pé no primeiro degrau da escada.» Olhou o relógio. Tirou os sapatos. O empregado acorreu.. Daniel bebeu. pensa que gostaria de estar morto.. mas não. pensa que pensa que gostaria de estar morto. Há um meio. Onze horas! Sobressaltou se. Um ambiente opaco formava se em volta dele.. Pensou: «Sabia! Sabia que não o faria. «Um meio famoso. curvou se e desapertou os sapatos. Estupor!» Houve um momento em que pensou que ia consegui lo. continuava a fazer se existir. Um juiz qualquer! Qualquer juiz. eram palavras. Pôs cem francos na mesa. Pegou no copo e apertou o com raiva. e quando subiu as escadas. Ela fala. — Tome. erguendo a ligeiramente sobre os gonzos para que não rangesse. Tinha falado alto. oito ainda por viver antes da manhã..» Largou o copo.» Riu.

Marcelle inclinara a cabeça para trás e observava maliciosamente através das pálpebras semicerradas. — Estás quente — disse ela. Estava estúpida. Todo o calor do dia se depositara no fundo daquele compartimento como uma borra. acariciando lhe a nuca. Ele sorriu também e foi guardar os sapatos no armário. — Senta te junto de mim. — Não. Ele estava ali. Ele sentou se. junto daquela mulher sorridente. Marcelle ergueu a mão até à fronte e mexeu os dedos. desajeitadamente. de braços caídos. olá! Passou lhe o braço em volta do pescoço e beijou o. tomado por uma insuportável doçura de existir que lhe apertava a garganta. com coração triste. Ela pegou lhe na mão e puxou o para a cama.. deslizando a língua por entre os lábios dele. Subiu lentamente na escuridão. Sentada na cama. Já não se julgava. Ela continuava a segurar a mão dele entre as suas e apertava a de vez em quando. com a cabeça levemente inclinada. — Olá — disse em voz baixa. e Mathieu sentia que o calor daquelas mãos lhe subia até às axilas. na fealdade magra de Ivich. era Marcelle. evitando que os degraus estalassem. Viu lhe os seios formosos e passou lhe pela boca um gosto a açúcar. Mathieu pensou. Mathieu fechou a porta e ficou imóvel. Ela pusera sombra azul nas pálpebras e tinha uma flor nos cabelos. Vestira o seu belo roupão branco de cordão dourado. Desenvencilhou se docemente. — Olá. quente e esperta da língua. Marcelle estava A nua por baixo do roupão. Olhava o de baixo para cima. uma mulher contemplava o sorridente. A porta do quarto estava entreaberta.suspensa nas trevas. Beijou o de novo e ele sentiu sobre os lábios o veludo rico daquela boca e aquela nudez glabra. Estava bela. mexendo a ponta da língua entre os dentes com uma expressão animada e feliz. — Estás bem disposta — disse. de bombons e de amor.. inteiramente mergulhado naquele cheiro de doença. Uma voz cheia de ternura suspirou atrás dele: — Querido! Voltou se subitamente e encostou se ao armário. — Dormiste bem? — Admiravelmente. De um sono só. Mas hoje estou bem. A atmosfera era pesada. pintara se cuidadosamente. tinha um ar solene e alegre. Empurrou a. . — No entanto. ali desabrochava. muito bem mesmo. ontem ao telefone não parecias muito bem.

— Cortei me. naturalmente. cabelos de ouro. amanhã. Devorava o com os olhos entreabertos. amanhã eu pentear me ei assim para si. de passagem. Mathieu olhou aqudes braços nus que tantas vezes acariciara e os antigos desejos giraram lhe em volta do coração.— Como está calor aqui — disse. — Estás bem comigo? — perguntou Marcelle. Olha para esta pobre «pata» devastada. virou a e examinou lhe a palma com um olhar clínico. As mangas caíram. «Que é que te aconteceu?». O ferimento era repugnante. Mathieu sorriu sem responder. e exclamou: — Que é que fizeste na mão? — Cortei me. Já me viste tão tolo? — Mas que foi que andaste a fazer? Espera. Ela não respondeu. Ela teve um riso indulgente e escandalizado. — Não pareces. Ele puxou a para si e beijou lhe a orelha. Marcelle levantou devagar aquela mão à altura do rosto e olhou a de perto. Marcelle voltou para ele alerta e lentamente. — E tu.» — Uma fantasia do Boris — respondeu. A mão de Mathieu repousava. — Naturalmente. Marcelle largou a mão direita de Mathieu e pegou lhe na outra. Ele deslizou devagar a mão esquerda diante do estômago e enfiou a sorrateiramente no bolso das calças para tirar o tabaco. Isto vai infectar. Foi ontem à noite no Sumatra. esses miúdos fazem o que querem de ti. inerte. como conseguiste cortar te deste modo? Estavas embriagado? — Não. Ela levantou se para ir buscar os apetrechos ao armário. que foi isto? — Caí. querido. uma expressão de humildade e confiança. entre as mãos dela. dei uma queda. . Virava lhe as costas. pensou Mathieu. — No Sumatra? J E A N P AUL SARTRE «Rosto largo e lívido. não podes andar assim. Marcelle viu lhe a mão. vou arranjar este penso. Tem lama por cima. apressaste te em demonstrar o contrário. com a sua crosta escura e mole. Desfez a ligadura e abanou a cabeça: — Que ferida tão feia. — Comprou um canivete e desafiou me duvidando que eu mal tivesse coragem de o espetar na mão. e subitamente inclinou se e apoiou os lábios no ferimento num impulso de humildade. — Mas o curativo está sujo. És completamente doido. erguera se nas pontas dos pés e levantava os braços para alcançar a prateleira de cima.

Será uma festa. — Então. — Oh!. Pôs a língua e lambeu docilmente a cobertura rósea.. Disse. — E tinhas razão. deita o no lixo.. — Não. Marcelle pôs o alfinete na ligadura. Prometes? — Prometo. Boris desafiou te? E tu retalhaste a mão? Que criança! E ele também se cortou? — Não. — Eu? — Sim. um passeio. Estava nervosa. contrariado. — Não. — Não pode ser antes do Outono — disse. . / — Lambe! A Marcelle apresentava lhe um penso. Divertiram se muito? — Mais ou menos. Sobre o 'aço ficara um pouco de bâton. — Bem vês que não estás muito bem comigo — disse. — Agora precisas de descansar seriamente. Marcelle riu se. — Então iremos no Outono. — Pregou te uma boa partida! Ela segurava um alfinete de ama na boca e rasgava a gaze com as mãos. apertando nos lábios o alfinete: — Ivich estava lá? — Quando me cortei? — Sim.— Dá cá a pata. — Que vou fazer desta porcaria? Quando saíres. dançava com Lola. Porquê? — Fui. Depois pegou no curativo sujo. É tudo culpa minha. Embebera a esponja no álcool e pusera se a lavar lhe a mão. Ele sentia contra a sua anca o calor daquele corpo tão conhecido.. — Pronto. J E A N P AUL SARTRE — Queres? — disse Marcelle. suspendeu o na ponta dos dedos e considerou o com uma falsa repugnância. Ligou lhe rapidamente a mão com uma ligadura branca de gaze. Marcelle aplicou a na ferida. constrangida. fui desagradável anteontem. Marcelle não era feliz nas suas expressões. depois virão as férias. há tanto tempo que não saio contigo. — Mas isso aborrece te. Lola vai para a África do Norte. Marcelle tossiu. «Uma saída!» Mathieu repetia esta palavra conjugal.. querida. uma vez. — É bonito o Sumatra? Sabes o que eu queria? Que me levasses lá um dia. cansa te — disse Mathieu.

Envelhecera de repente. em Viena. quatro. Mordia o lábio inferior e olhava para as notas. voltou se. — Uma. — Que é que devo olhar? — Isto. mas ainda confiante. Mathieu acrescentou: — Deixo tos. — Jacques? J E A N P AUL SARTRE — Não. Ele não se atreveu a voltar se para ela. e não podia compreender aquda confiança inexplicável e espontânea. Os olhos de Marcelle apagaram se. três. Já to disse ao telefone.— Não tens culpa — disse ela. Marcelle não respondeu. — Nunca tive nada que te censurar. Penso que Sarah te levará à casa dele e és tu que vais pagar. Disse lentamente: — Cinco mil francos. tanto melhor. incrédula. cinco — disse. E que me deram trabalho a encontrar. e como Marcelle não falasse. — Pois é. fazendo as estalar triunfantemente.. imaginava bem de mais a expressão do seu rosto. — Olha — disse. — Daniel? Ele encolheu os ombros. gente rica. Tinham conservado o perfume de Lola.. Ela erguera a cabeça e olhava as notas pestanejando. ela esperava sem dúvida uma palavra de ternura. Tirou a carteira do bolso e pousou a nos joelhos. abria o e fechava o nervosamente. Fez se silêncio. Fixou o olhar em Mathieu com uma expressão triste. passaram pelas mãos dele. e Marcelle perguntou: — Onde arranjaste o dinheiro? — Adivinha. E gente da alta. — Tanto melhor. Pegara noutro alfinete de ama do cestinho. Mathieu fez um gesto para colocar as notas em cima da mesa de cabeceira. Tirou as notas da carteira. com o dinheiro A em cima dos joelhos. duas. confiante. Ela sabia muito bem que Daniel não lho tinha querido emprestar. Disse: — Pensei. — Então não sei — falou secamente. Parece que é uma competência. Mathieu não aguentou mais. Mathieu esperou um instante. Mathieu interrompeu a. Ele quer que lhe paguem adiantado. o estupor. Não parecia compreender. Houve um longo silêncio. ontem. de perdão. — Quem? . categórico: — Agora podes ir ao judeu. cinco mil. Centenas de mulheres. Marcelle esticou o pescoço e apoiou o queixo no ombro de Mathieu.

foi chato! — concordou Marcelle com amargura. A boca exibia de novo aquele sulco duro e cínico. — Não há nada que explicar. Calaram se. — Porque te ris? — Rio me de mini própria — disse. — Pois bem. Tinham a noite inteira à sua frente. — Roubei. Mathieu enxugou a testa suada. sem olhar para ele: — Que vontade tens de te ver livre da criança! — Tinha vontade principalmente de que não fosses à velha.. — Então. — Como soubeste? Foste tu que o mandaste? Tinham combinado tudo? — Não fales tão alto — pediu Marcelle —. mas ela retirou a e disse sem o olhar: — Já sei que estiveste com Daniel. Parecia amedrontada com o que ia dizer. que é que há? Marcelle fez um gesto brusco e os apetrechos de farmácia espalharam se pelo soalho. Estiveste com Daniel. Não fui eu. parecia espavorida e aliviada. — Então. vais acordar a minha mãe. Murmurou: — Fui demasiado estúpida. Bem.— Ninguém me deu o dinheiro. estive com ele — disse Mathieu. que é que há? — repetiu Mathieu. mas as palavras não lhe saíam. Marcelle sorriu. Mathieu pegou lhe na mão. — Sim. — É. Mathieu disse. — disse Mathieu — expliquemo nos francamente. tristemente: — Foi chato! — Sim. — Hei de contar to um dia. era preciso ir até ao fim. Roubei o a Lola.. Marcelle voltou lentamente a cabeça para ele. irónica. Ela reflectia. A O rosto emudecera. Daniel estava ali. Mathieu também se sentia aliviado. era isso. Ela teve um riso seco. Ela inclinara se para trás e crispara as mãos no lençol. Ele perguntou: — Censuras me por tê lo roubado? — Não me interessa. ele disse o que te tinha a dizer e ao deixá lo foste roubar os cinco mil francos a Lola. Olharam se ambos. — Não me vais dizer que o roubaste. Fez se silêncio. mas sabia que ele te ia procurar. . As cartas estavam sobre a mesa. O rosto tornara se lhe cinzento. Tirara a flor dos cabelos e fazia a rodopiar nos dedos. — Roubaste! — disse lentamente Marcelle. Continuava com a boca aberta como se tivesse vontade de falar. sentado entre os dois. Observou. e Mathieu empurrou os com o pé. tinha um ar admirado. — Roubaste? Não é verdade.

triste. não te obstines. — É verdade — disse Mathieu. — Foi o que te pareceu — disse ela rindo. — Não. não adianta falar nisso. Marcelle? Porque não conversas calmamente comigo? Uma hora apenas e tudo se acerta. era infeliz e má e bastava um gesto para a acalmar. Ele acrescentou docemente: — E um filho que tu queres? — Ah! — disse Marcelle —. surpreendido. às escondidas. pouco te incomodavas com o que eu tinha na cabeça. — Mas porquê. — Foi o que me pareceu. menos irritada. sofria. foi como das outras vezes. que foi que se passou anteontem? — Anteontem? — Sim. Escuta. Ele olhou a com espanto. Mathieu teve vontade de apertá la nos braços. Mas diz o que se passou anteontem. — E que é que tinhas na cabeça? — Porque é que queres que eu diga? Sabe lo muito bem. Disse: — Queres que nos casemos. Ele insistiu: — Há circunstâncias atenuantes. obrigar te a casar comigo. — Julgo que sei. ainda há tempo. Daniel acabou de me comunicar que tu te encontravas com ele e não me dizias nada. Bem vês que há explicações necessárias. — Peço te — disse ele.» Era evidente.. Estava lívida. Seria muito melhor se pudéssemos ter novamente um pouco de confiança um no outro. depois de sete anos! As mãos também lhe tremiam agora. «Era preciso que eu fosse muito sacana para imaginar que escapava. não devia ter pensado nisso. Ela continuou a não responder. Ela sacudiu a cabeça.. Marcelle. Ela hesitava..— Sim. pegando lhe na mão. não é verdade? Ela tirou lhe a mão e ergueu se de um salto. Juro que tenho boa vontade. O que eu quero já não é da tua conta. A Ela parecia não ter ouvido. tudo se esclarece. mas não se atreveu. não finjas que não percebes. — Pois bem. que saberei reconhecer os meus erros. — Foi Daniel quem te disse isso? — Não — respondeu Mathieu. caso com ela. Mathieu. e tu julgaste que eu queria casar. . Daniel disse me que tu tinhas censurado a minha atitude de anteontem. já não há tempo.. tu recebes Daniel há meses. E é o que pensas de mim. isso não é da tua conta. — Calma — disse Mathieu —. — Oh!.» Ela estava ali. — Tens razão. — Peço te. Pensou: «Acabou se. — Foi o que te pareceu! Daniel disse te que eu estava aborrecida.

— Eu não te desprezo — disse Mathieu.» Marcelle atirara se para trás com um gesto de triunfo.— Eu não quero. Quero ficar junto de ti a vida inteira. quero. quero casar me contigo. Disseste: «Amo te... Vai te embora. encharcados em suor. que lhe pendiam da fronte. Ele levantara se. Ela acrescentou como que esmagada: — Como deves desprezar me. Mathieu não respondeu. Ele abriu o armário e tirou os sapatos.. Durante muito tempo ficou a ouvir a frase.. ansiosa. — Já sei o que queria saber. mas de outra maneira. — Se não saíres. Vai. com uma alegria nervosa — não foi o que me disseste ontem ao telefone. Não posso. Preciso de explicar te... tudo poderia ainda salvar se... — Chega! — disse. já não posso ver te. A — Vai — disse ela —. Sentia se ridículo e odioso. teriam a criança. viveriam juntos o resto da vida. Continuou tristemente: — Para pensares de mini o que pensaste. Pusera se a tremer.. — Eu.... mas imediatamente tapou a boca com a mão e fez lhe sinal para se calar: — A minha mãe — murmurou. Levantou umas madeixas de cabelos. já não sinto amor por ti. estupefacto.. com um gesto seco. Se ele a abraçasse. Marcelle riu altivamente. é preciso que tenhas deixado de me amar. vai. eu quero te muito ainda. não é? Ele pegou lhe na mão. Já não havia nos seus olhos senão uma interrogação inquieta. — Não quero abandonar te. Era quase uma pergunta. Pensou: «Está acabado. — Sim. Ela disse: . Subitamente sorriu. Ia dizer: «Amo te. — Mas porquê? Porquê? — Porque já não te estimo o suficiente. — Vai. como se se lembrasse de alguma coisa. Escutaram. chamo a minha mãe. mas só ouviram o ruído longínquo dos automóveis. — Ouve. Falara com segurança. se lhe dissesse que a amava. ou não respondo por mim..» Hesitou e disse com voz clara: — E verdade. — Estás doida. desesperado.» E ninguém te perguntou nada. de olhos cerrados. Mathieu disse: — Marcelle.. mas ela repeliu o violentamente. — Vai — repetiu ela com voz surda. mas mostrava se surpreendida e amedrontada com o que dissera. — Mas eu tenho por ti toda a minha ternura! — disse. e tu já não me amas. Casaria com ela. — Mas — atalhou. Mathieu avançou um passo. Ela retirou a mão. desato a gritar..

— Acabo de romper com Marcelle. — Estou a ver — respondeu Mathieu. «Será por ela que fiz aquilo?» Ela baixara a cabeça. Roubara. Parou no patamar do segundo andar para tomar fôlego. i en ensava: «Sou um sacana». desvairada. E dizia: — Ah!. parou um instante. Ficaram silenciosos um momento. ela vai gritar. Mas sabia que ficaria acordado a noite toda. A porta do apartamento ficara aberta.. As notas voaram através do quarto e caíram no tapete. Estava sentada no sofá. Gostaria de verificar que a amava mais do que tudo no mundo para que o seu acto tivesse uma justificação. Mathieu escutou ainda e. Isso não. Dormira apenas seis horas em três dias.— Pega no teu dinheiro. eu que pensava. Mathieu ouvia o ruído forte e regular da sua própria respiração. Não havia mais nada nele senão fadiga e espanto.. ele contemplava lhe a nuca morena e doce com uma grande ternura. com os sapatos na mão. Ivich disse. que estúpida. perto da cama. com cortesia. secamente. calçou se. Marcelle? Era a mãe.. nu. a não ser um ódio sem objectivo. n. Ela pegou nas notas e atirou as à cara dele. virando a cabeça: — Fui odiosa. . Mas não sentia nada. de olhos abertos no escuro. e fez se de novo silêncio. iria titubeando até à cama e deixar se ia cair. mas ela abriu os olhos e atirou se para trás apontando a porta. — Eu não devia ter me metido a dar a minha opinião. Ivich fez um esforço e disse.» Parou um instante. Ela ria. as pernas estavam moles.. Quando chegou ao fim da escada. escorregadio. Subiu. O riso parou subitamente. Ivich devia ter fugido. Mathieu encolheu os ombros. que estúpida. Ouviu de repente o riso de Marcelle.uitu direita. como não ouvisse mais nada. Olhava os cabelos de Ivich e pensava.» Despiria a roupa ao acaso. incompreensível. Ele quis aproximar se. soluçando. Olhava para Marcelle. Mathieu não respondeu. e o seu acto estava atrás dele. abriu a porta e saiu. escutando com a mão no fecho.. «Se ficar. talvez nem isso: «Vou deitar me. uma gargalhada profunda e sombria que se elevava como um repuxo e caía em cascata! Uma voz gritou: — Marcelle! Que foi. a lâmpada estava acesa. abandonara Marcelle grávida. — Não. Mathieu não as apanhou. e isso espantava o enormemente. Entrou e viu Ivich. Na secretária.. — Não parti — disse ela. de olhos fechados. Não há razão. Ele voltou se. para nada.

nervosa. Ivich. Ela olhou o. e o seu rosto tornou se duro e solitário como quando se voltava na rua para seguir. Ele insistiu desviando os olhos: — Não foi bonito. — Onde? Ele não respondeu. como Marcelle tinha feito pouco antes: — Roubou a Lola. — Arranjou dinheiro? — Arranjei.. Sentou se perto de Ivich e pegou lhe na mão. Pensava: «Não quero que me recompense. Consegui arranjar me. Não disse nada. Tudo isto é lamentável. — Não. forçado.. — Porque fez isso? Mathieu deu uma risada seca. e Mathieu calou se angustiado.. Pareceu lhe que abandonava Marcelle pela segunda vez. uma porta a abrir. Ivich tinha uma expressão estúpida. Mathieu sentiu. Foi ela que me mandou embora. sorriu: «Naturalmente». é impossível evitar da . Uma escada a subir. com vivacidade: A — Sim. — Se o soubesse! Ela levantou se bruscamente. «se o tivesse feito. com o olhar. Ele atalhou. Disse por escrúpulo: — Não a queria abandonar. no seu lugar. Repetiu lentamente. — Bem vejo que tem remorsos — disse Ivich. Ela insistiu: — E inacreditável como parece só. acabrunhado. Roubei. — Creio que também teria. olhava o apenas. Ele teve vergonha. A expressão irritou Mathieu. Queria apenas dar lhe o dinheiro para não ser obrigado a casar.. sem dinheiro? Mathieu. pensou. renascer aquele áspero amor dentro dele. E o que quer dizer? A Lola. — Não.. não é lá muito glorioso. sorrindo.» — Você é belo — disse Ivich. inquieta. censurar me ia agora». — Compreendo — disse Ivich. Observou com uma voz neutra: — Deixou a. Mathieu sentiu que corava.Ivich levantou a cabeça. Subi ao quarto durante a ausência dela. Ivich não respondeu. não sei o que esperava. e Mathieu continuou: — Vou devolver lho. aliás. Roubei por desvario e agora tenho remorsos.. uma mulher bela ou um belo rapaz. Ela parecia não compreender. É um empréstimo. Acabou por dizer: — Não sei o que pensa. Levou a mal. — Sim. Mas desta vez era Mathieu que ela olhava. Ivich pestanejou.

. — Oh!. não tem importância — disse. — Assim — disse. borboleteavam em torno dela. — Cale se. Mathieu deixou cair o braço e murmurou com lassidão: — Não sei o que quero de si.. Ivich empertigou se. não lhe tenho amor — disse Ivich..primeira vez. — Eu. mas considerava aquela crise com indiferença. — Que imagine o quê? Ele sabia. Mathieu não respondeu. mas ela baixou os e assumiu uma atitude triste e terna. fiz mal. — Não quero que imagine. vermelha de ódio. — Ivich! — disse docemente. — Não devo tocá la. «Mas é uma criança!» E sentiu se inteiramente só.» Era uma expiação. procurando o olhar que ela desviava obstinadamente. Bastaram lhe alguns movimentos rápidos e. Mathieu apertava com força a mãozinha áspera de unhas pontiagudas. descobrindo o rosto e as orelhas.. Largou lhe o braço. puxou os cabelos para trás. Ivich. puxou Ivich para si. Mathieu pensou: «Quer tirar tudo de mim. abatiam se sobre a cabeça e puxavam os cabelos. Os seus olhos faiscaram. — Mas eu amo a. Retirou a mão num gesto brusco. E acrescentou num tom cantante: — Parecia tão orgulhoso de ter tomado uma decisão. Pensava: «Também desperdicei isto e no entanto estava quase A contente. Ela deixou. Mathieu sentia a garganta seca.. pensei que viesse buscar a recompensa.. Ele sentou se perto dela e agarrou lhe docemente o braço um pouco acima do cotovelo.. até os meus remorsos. ela sorriu de lábios entreabertos.. quando baixou as mãos. Continuou. A cabeça de Ivich rolou no seu ombro. depois olhou a e a melodia cessou repentinamente. Ele ouvia dentro dele uma melodia viva e alegre cuja lembrança pensara ter perdido.» Estendeu o braço. Ivich teve um sobressalto e desenvencilhou se rapidamente. Disse: — Engana se. Está bem. Ela franziu as sobrancelhas e a sua cabeça agitava se com minúsculas sacudidelas. eu não sou. Só as mãos continuavam raivosas.» . Pensava: «É uma vingança. Ele devolveu lhe o sorriso e beijou a de leve. Ela não o retirou. a sua cabeleira estava penteada e o rosto apresentava se nu. — Ivich. Ela olhou o surpreendida.

num estremecimento: — É horrível pensar que há alguém atrás da porta. Mathieu nem sequer se deu ao trabalho de fechar a porta. Mathieu colocou se entre ambas: — Não está aqui. No entanto Lola não parecia dirigir se a ela — nem a ninguém — nem parecia vê la. — Onde está Boris? Ouvi a voz dele. depois outro. Estavam a tocar. Ela empurrou o para entrar mais depressa. — Além desse escritório — disse Mathieu. Olharam se. depois muitos ininterruptamente. — Pois é. percebeu sob os dedos a carne fresca e disse: — Eu. Olhou a hesitante. ninguém verá. Um toque primeiro. Ivich disse. tentando encontrar o olhar de Lola — só há no apartamento uma cozinha e uma casa de banho. No entanto disse: — Voltará no próximo ano? — Voltarei. Não se mexeu. Tinha chorado. — Acho que sim. sentiu lhe renascer o desejo. Era Lola. Pegou lhe no braço. Um desejo triste e resignado que não era desejo de nada. ameaçadora. Agora batiam violentamente à porta. Ela sorriu lhe ternamente. — É preciso abrir — sussurrou ela. Pode verificar se quiser. J E A N P AUL SARTRE Interrompeu se. Porque havia de o amar? Não desejava mais nada senão permanecer um bom momento silenciosamente ao lado dela e que ela se fosse finalmente sem falar. Lola avançara para Ivich.Aliás. devia considerar que a honra estava salva. Ivich olhava a.. Mathieu ficou gelado. Quer. — Não. Era o mesmo rosto que lhe mostrara na véspera enquanto a mulher do toilette lhe ligava a mão. entrou no escritório atrás de Lola. Fico.. Mathieu foi abrir e viu na penumbra um rosto trágico. — Ouvi a voz dele. — Onde está então? IDADE DA RAZÃO . Ela olhou o com um ar de autoridade calma. tivera com certeza a mesma ideia. aterrorizada. Dir se ia uma máscara.. Pensou: «Marcelle. Lola voltou para ele o rosto desfigurado.. Quer entrar na cozinha? Fecharei a porta.» Ivich empalidecera. era sem dúvida verdade. — Diga me onde está Boris.

As mãos amarfanhavam uma bolsa pequena de veludo preto que parecia conter um objecto pesado e duro.Conservara o vestido de seda preta e a maquilhagem de teatro. então até para o ano que vem. não gosto. — Ela é livre. Dispunha se a sair. — Quero ir para casa. Era preciso mandar Ivich embora imediatamente. — Fique — disse Lola. mas deixe a partir primeiro. mas vou explicar lhe a história do roubo. Lola pôs se a rir como uma cega. Lola interceptou lhe a passagem. — Largue me. Não quero que me toquem. Ele olhava lhe para a bolsa. Não quer que eu vá à estação? — Não. arrombou uma maleta e roubou me cinco mil francos. — Pois se não sabem por onde andou. . é melhor sair. — Bom. Não sabemos por onde andou depois disso. Amanhã cedo. tenho muito que lhe dizer. — Lola — disse Mathieu sem tirar os olhos da bolsa —.. — Eu escrevo lhe. — Que mulher horrível! — disse Ivich entre dentes. com os olhos fixos no chão: — Ivich. — Vá dormir. Abriu a minha porta. Vejo a ainda esta noite? Ivich estava alterada. Preciso de falar com Lola. deixe a partir. não me toque. fazer as minhas malas. mas só havia pânico. sim. Olhava a na expectativa de descobrir nos olhos dela um sinal de ternura. Lola perguntou: — Vai partir? — Vai. Subiu ao meu quarto lá pelas sete horas. Os grandes olhos escuros pareciam ter murchado. Preciso tanto de dormir. Mathieu empurrou violentamente Lola. Apalpava o pulso com o indicador e o polegar. posso dizer Ihes. dormir. — Oh! Não! — disse. no momento em que eu saía. mas disse Ihe docemente. Mathieu não se atrevia a olhar para Ivich. que deu três passos para trás a resmungar. — Sim. Ivich.. Ivich deu um grito de dor e ódio. — Até ao próximo ano — disse ela. — Vai dizer me onde está Boris? — Não. creio. Mathieu pegou na mão de Ivich. apertando o pulso de Ivich. — Deixou Ivich às três horas — disse Mathieu. — Perdão! Quem me prova que não se vai juntar a Boris? — E se for? — disse Mathieu. Ivich — disse Matkieu tristemente. Foi um dia muito duro. Mathieu olhou para a bolsa e teve medo. — Boris também vai? — Não.

mas o ruído extinguiu se. — Ouça. — Não nasci ontem. — Como pode tê lo visto. Devia estar a espiar me na rua. escondendo se. a velha. — Lola — perguntou Mathieu —. — A gerente viu o a ele. Subiu. Já disseram mais de uma vez que podia ser mãe dele. diga lhe que me queixei. foi você? Encolheu os ombros. se fui eu? J E A N P AUL SARTRE — Ela viu o — disse Lola. — E se encontrar Boris. «Dir se ia que tem necessidade de acreditar naquilo». mas de uma maneira monótona e parecia exprimir uma convicção absoluta. Ele teve de repetir: — Fui eu que roubei os cinco mil francos! — Ah!. sempre a olhar para a bolsa.» Não me conhece! Não me conhece! Mathieu segurou a pelo braço e sacudiu a como um arbusto. não. Lola. — Lola! — Ele deve ter pensado: «Está doida por mim. ainda se vai sentir muito feliz por eu lhe roubar a "massa". Ah!. — A queixa será retirada — disse Mathieu a meia voz. Que é que tem a dizer? — Fui eu que roubei. logo que saí. — Ele subiu às sete horas. — As notas ainda estavam na maleta. irritada. Não a viu sair. Mathieu avançou. apresentou realmente alguma queixa? — Apresentei. . — Então — disse ela. Lola olhava o com indiferença. Voltou se para Mathieu com aquele olhar incomodativo que parecia não ver. Ela deixou o subir porque eu tinha dado ordem. Falava rapidamente. Esperei o dia inteiro e havia dez minutos que eu descera. — Adeus. Lola deu um passo em frente e gritou: A — Diga lhe que se enganou! Que é ainda muito jovem para me levar. pensou Mathieu desanimado.— Pois que vá — disse Lola. ainda vai dizer obrigada. e ele sentiu um aperto no coração. às oito. Ivich. Perguntou: — A que horas voltou ao hotel? — Da primeira vez. Ivich não respondeu. enquanto ela gritava a rir: — Não me conhece! — Cale se! Lola acalmou se e pela primeira vez pareceu vê lo. — Fale. asperamente. — Vamos à história. Lola desatou a rir. e Mathieu ouviu aliviado o ruído dos passos dela.

pôs o seu belo vestido e foi para o Sumatra. pensa que não sei? Vocês combinaram o que . Lola. se quer apanhar seis meses em vez dele. Peguei no dinheiro e deixei a chave na fechadura. Finalmente pareceu acordar. — Mais uma prova. Deitei me e pus a maleta ao meu lado. — A gerente viu o subir. Às oito horas o dinheiro ainda lá estava. Porque esconde que lhe roubaram as cartas?» Tinham se calado ambos. — Não está a ver o meu estado? Por quem me toma com essa história? — Estava debaixo de outra mala. mas você não olhou para a maleta. — Foi à meia noite. obstinada. não teria esperado pela meia noite para vir aqui.. Lola oscilava como se estivesse a dormir em pé. continha. pode testemunhar. ela viu me. — Lola. continha as cartas. você só deu conta do roubo à meia noite. talvez quisesse vê la. Aliás. mas Mathieu segurou a. — É tudo quanto tem a dizer me? Então vou me embora. A — Pois foi — disse Lola. Porque me arriscaria em apanhar seis meses se fosse Boris o ladrão? Ela fez um gesto. Os lábios de Lola tremiam e ela apertava convulsiva mente a bolsa. Lola empurrou o. eu. — Pode ser. De quando em quando. que eu queria voltar a ler. Eu subi às dez horas e trouxe o. debaixo da outra mala. cansada. Mas é o mesmo. Mathieu pensou: «É verdade. — Sei lá o que vocês fazem juntos! — É absurdo. diante da janela — repetiu Mathieu. Senti me mal no Sumatra e voltei para casa.— Já disse que Boris subiu às sete. — Olhou às oito horas? — Olhei. Lola. você está a mentir. — Bem sei. Quis passar. Às oito horas eu estava com a chave e você não a podia ter aberto. Eu sei. se você tivesse descoberto o roubo às oito horas. Não é verdade? Lola olhou o.. Eu sei que não olhou. — Você roubou me? — Sim. — Conte a história ao juiz. Mas você não olhou para a maleta. — Olhei. A maleta estava diante da janela. você não está convencida. Às oito horas arranjou se. — Boris esteve aqui. as cartas. Ela riu se. — Lola. Juro que fui eu. Havia uma velha no escritório.

Mas era preciso convencer Lola. com uma calma ameaçadora: — Então foi você quem roubou? — Fui. E foi também para si que ele roubou um livro à tarde? Vangloriava se disso quando dançava comigo. Era inútil falar das cartas. Mathieu não respondeu. Mathieu quis agarrá la pêlos ombros. o seu único recurso. «Deveria ter previsto isso». Mathieu não soube o que dizer. Mathieu voltou a cabeça. encostara se à janela e olhava o com os olhos brilhantes de ódio impotente. — É inútil! Eu vi o entrar de manhã. e ele observou contrafeito: — Por causa das cartas. mas Lola desenvencilhou se e tentou abrir a bolsa. o culpado só podia ser Boris. — O dinheiro que lhe pediu era para mim. deixe me ir embora. — Vitríolo ou revólver? — perguntou Mathieu a sorrir. Quando lhe falei ainda não tinha chegado ao pé da cama. Tinha a impressão de viver um sonho sinistro e absurdo. precisava de pensar no dinheiro para manter acesa a sua cólera. Mathieu arrancou a das mãos dela e atirou a para o sofá. — Não se incomode que eu hei de apanhá lo. Lola também. Se enganar o juiz com a sua história. eu ia abrir a maleta.deviam dizer à velha. sem que ele a tentasse impedir. triunfante: — Devolva mo que retiro a queixa. Calou se e subitamente recomeçou. ela só pensava no dinheiro. — Tirei a chave da sua bolsa. — Boris poderia ter me . Ela pareceu não o ter ouvido. «É uma crise de nervos». — Bem sei. e Lola disse: — Basta. — Bruto! — disse Lola. mas via naquele rosto uma secura desolada que lhe era insuportável. pensou Mathieu. — Já tinha entrado uma primeira vez e voltado a sair. Lola continuou. Acabou por dizer com um risinho seco: — Mas é que ele pediu me cinco mil francos ontem à noite! Foi por isso mesmo que nos zangámos. — Pois então devolva me o dinheiro. Mathieu olhou para a bolsa no sofá. apanho o de outra maneira. A Mathieu sentiu a sua impotência. Lola soltou um riso de troça. Ela deixara de tremer. pensou. Quando acordou. não tinha medo do ódio. — Subi ao seu quarto hoje de manhã — explicou calmamente. Pegou na bolsa novamente. Era evidente. acabrunhado. Lola começou a tremer completamente. — Que é que isso provaria? — disse ele. Não pude voltar a pôr a chave no lugar e foi isso que me deu a ideia de lá voltar esta noite. Já percebi. Vamos.

Mathieu pensou ao mesmo tempo: «Foi Marcelle quem o mandou. rasgou o e levou as notas ao nariz.. minha senhora. — Já não o tenho. e o seu coração deu um salto. depois pegou no sobrescrito. Pensou na bolsa e tentou um último esforço. . — Estão aqui cinco mil francos? — Estão. Lola reapareceu. uma amiga minha. irei explicar me lá. Lola abriu a porta e saiu. como uma louca.. Lola hesitou. — Imagine! — Ah! Minha senhora — disse Daniel com um ar de censura —. Mas Daniel estava sério como um papa. Mathieu receava que Daniel se risse. — Aqui estão os cinco mil francos.» Era Daniel. olhava para Lola. — Cheire — disse. Lola olhava desconfiada para o sobrescrito.. — Afinal posso dizer para quem era: era para Made moiselle Duffet. — Acrescentou vivamente: — Não foi a Boris. — Essa é boa. com compreensão. Ouviu a gritar no patamar. Pensava: «É no Comissariado da Rua dês Martyres. — Vem aí alguém — disse. Dirigiu se para a porta. faz favor de verificar.» Mathieu perguntou: — Ela. — Não lhe pergunto isso. e ele escutou atrás da porta. Mathieu pensou: «É Boris. Lola sorriu sem responder. teve medo. — A quem? J E A N P AUL SARTRE — Não posso dizer. sem que ele a impedisse. Roubou me às dez horas e à meia noite já gastou tudo? Os meus cumprimentos. Daniel sossegou o com um gesto. — Tudo corre bem. quando viu de costas aquela forma negra que se retirava com a rigidez cega de uma catástrofe. — Como prova que são os meus? — Não tomou nota dos números? — perguntou Daniel. — Obrigou Boris a devolvê las? — perguntou ela. Entrou com nobreza e inclinou se diante de Lola.passado o dinheiro. — Dei o dinheiro. lembrara se do pesado perfume de Chipre que exalava da maleta. Digo lhe apenas: devolva me o dinheiro.» Mas.. é preciso anotar sempre os números! A Mathieu teve uma inspiração.

Vim a correr e ouvi o fim da conversa. insolente e fúnebre como nos seus piores dias. — Mas porque teria feito isto — perguntou subitamente —. — Vou me embora. voltou se: — Se ele não fez nada. — Acha que ele vai voltar? — Acho. Ou então. Acrescentou docemente: — Não se pode esquecer de retirar a queixa. De repente disse: — As cartas. — Adeus. Lola contemplou Mathieu. Saiu. — Quem é esta velha senhora? — perguntou Daniel. Apertava a bolsa na mão esquerda e com a direita amarrotava as notas. a amiga de Boris Serguine. — Já não as tenho. Ali estava ele. — Pelo que se vê. Foi uma amiga de Mathieu que mas confiou. Mathieu não se sentia à vontade sozinho com Daniel. vivo. Ouviram a porta fechar se. de braços caídos. Deixaram na sair sem dizer nada. Mathieu endureceu se e . Lola. Está transtornada.. À porta. adeus. na sua frente. Lola voltou a cabeça e disse depressa: — Ainda não tinha apresentado queixa. se quiser. Lola. isso ainda é mais difícil para eles. Parecia lhe que o tinham colocado subitamente na presença do seu erro. — Roubou me cinco mil francos! É estranho! Os olhos porém apagaram se lhe e as feições tornaram se duras.. apresente queixa contra mini. que são cinco mil francos para si? Mathieu respondeu sem alegria. vivia no fundo dos olhos de Daniel. deve ser muito. Mathieu deu um passo em frente.— Não conheço ninguém com esse nome. São incapazes de fazer a felicidade de alguém. pelo que peço desculpa. Lola estava imóvel. a fim de que as trouxesse. porque não volta? — Não sei. — Parece. Parecia angustiada e estupefacta. Daniel parecia disposto a abusar da situação. e só Deus sabe que forma tomara naquela consciência caprichosa e falsa. sem ódio. Lola soluçou e apoiou se à ombreira da porta. Continuava imóvel no meio da sala. mas são igualmente incapazes de se ir embora. — É Lola. Foi o que me deu a ideia de ir buscar o dinheiro. mas ela já se tinha dominado. apenas com um enorme espanto e uma espécie de curiosidade. — Pois é — disse Lola —. Trouxe as esta manhã quando pensávamos que tivesse morrido. não precisa de nada? — Não. Parecia sofrer. Mostrava se cerimonioso.

«Se me quer impressionar». Falas ou não falas? — Pois bem.. — Não me vais levar a sério. DA D E DA RAZAO Daniel encolheu os ombros. impaciente. indolentemente: — Caso me com ela. — Não precisa? — Não. — Não. Daniel estava abatido. Daniel olhou o como se se divertisse a intrigá lo. «De Marcelle.ergueu a cabeça. subitamente. pensou Mathieu com raiva.. — Não era disso que te vinha falar. — Não se fala mais nisso. meu caro. terminou a frase: .. levantou se e passou a mão pela testa. Escuta. «deve impedir que as mãos lhe tremam». — Espera e verás. como que através de um monóculo imaginário.» Não conseguia convencer se totalmente. «Diverte se». J E A N P AUL SARTRE Mathieu pensou: «Era amante dele. Daniel disse. — Ia dizer te o mesmo — respondeu Mathieu. Mathieu. Sentou se sobre a secretária balançando um pé com desenvoltura. Erguera a sobrancelha esquerda e olhava para Mathieu com ironia.. Daniel estava lívido. Observava Mathieu com uma certa surpresa. bom. cala te — atalhou secamente. isso é uma história antiga. — Diz me ao menos se ela tem mais para.. pensou Mathieu. — Daniel — disse ele —. Mathieu acendeu um cigarro. A cabeça soava lhe como Um sino. depois. Quero dizer que não acredito que ames Marcelle. se te disser! — Bom. — Vens da casa de Marcelle? — Venho. — Estás com uma cara! — disse Daniel com um sorriso mau. — Isto vai mal — disse ele. eu sou. Parou de novo e Mathieu. Disse com calma: — Então tu amava la? — Porque não? «E de Marcelle que se trata».. Não sei o que há por baixo disto tudo. Ficaremos com a criança. — Foi ela quem mandou o dinheiro? — Ela não precisa dele — disse Daniel evasivamente. não acredito. eu sou. — Ficarias muito espantado se soubesses — disse lhe Daniel. pensou Mathieu.» — Se não queres dizer. Deu uma gargalhada forçada.

— Poupa me a minha modéstia. meu velho — disse Daniel com súbita cordialidade.. antes não. Não é o que queres dizer? Daniel arregalou os olhos e assobiou. A Daniel olhou o com um ar inquisidor. Daniel pegou na garrafa e encheu os copos. — Não querias outra coisa. afinal. — Deves tê la visto logo depois de eu ter saído.— Es amante de Marcelle. humilhado. — Subi logo a seguir. — Só? — Só. só tenho rum branco.. Mathieu viu lhe um brilho de rancor nos olhos... Mas atirou se à minha proposta como a miséria sobre o mundo. — Ouve — disse Mathieu secamente —. Não tens nada para beber? Uísque? — Não. é evidente que não tenho nenhum direito. À tua saúde — disse Mathieu. friamente. Assim Marcelle não ficou só.. com uma paragem no Falstaff.. — Como quiseres — disse Mathieu.. só. é. — Estavas à espreita! Tanto melhor. pensou. — Aos meus amores — disse. Bebi depois de sair de casa de Marcelle. mas afinal vieste aqui. bebi um pouco. — Nada mal — disse Daniel com admiração. Não te aflijas. — Espera um pouco... e Mathieu perguntou: — Como vai ela? — Querias que eu te dissesse que está satisfeitíssima? — perguntou Daniel ironicamente. — Vens de lá? — Sim. — Estás bêbedo — observou Mathieu enojado. «Fui ignóbil». — Ainda vais lá de vez em quando? — Ainda. .. — Sim. pensava que encontraria maior dificuldade em convencê la.. — Pois bem — atalhou Daniel —. como para desculpar Marcelle: — Ela estava desesperada. — Pois então fala — pediu Mathieu. — Queria apenas participar te o casamento. como se Mathieu dissimulasse qualquer coisa. É uma ideia — acrescentou —. Mathieu sentiu que corava. E que é que me querias dizer? — Nada. Foi à cozinha e abriu o armário. heni? Não. vamos beber um copo. sorridente. — Estava à espera que saísses — disse Daniel. Mathieu não pôde evitar um gesto de contrariedade. nem sequer terás essa desculpa. Voltou com dois copos e a garrafa. Calaram se um instante. — É da Rhumerie Martiniquaise? — É. Disse. meu caro..

— Era o filho. cerrando os punhos.Daniel encolheu os ombros e pôs se a andar de um lado para outro. Não compreendi. — E agora — perguntou Daniel —. — Vais casar com ela — repetiu Mathieu. Daniel não respondeu. — Nunca o verei. — Em suma — disse lhe Mathieu —. não é verdade? Não chegava a ser uma interrogação. — Põe te no lugar dela — disse Daniel. acho isso sinistro. mas não se sente muito infeliz. — Bem sei. não foi por filantropia — disse Daniel. Mathieu continuou.. Talvez seja melhor que nasça. — Sabes — disse Mathieu —.. — Lamentas alguma coisa? Tens saudades? — Não. Depois. dá me mais um copo. Se me tivesse dito. — Ela odeia me. Mathieu cruzou as mãos e fixou os olhos no sapato. que é que vais fazer? — Nada. mas parecia possesso. Mathieu não se atrevia a olhá lo. nada de especial. e ele acrescentou sem esperar resposta: — Acho que deveria estar contente. obstinado. porque é que fizeste isso? — Com certeza. Toda esta A história a abalou terrivelmente. Já me pus. — Não te preocupes. Eu queria suprimi lo. boa noite — disse Daniel levantando se. — Mas agora estás livre.. — Para os dois Não sei porquê. — Essa pequena Serguine? — Não. duramente. — É horrível este rum. tu vais salvá la. não te zangues. E não se decidia a sair. pomos lhe o nome de Mathieu. mas não compreendo. Beberam. Falou te de mim? — Muito pouco. Se for um menino.. o facto de ires casar com ela perturba me um pouco. Mathieu levantou se. — Cala te! — Não te zangues — disse Daniel. Falava serenamente. secamente. Mathieu encheu os copos. Daniel calava se. — Obrigado. vieste ver a cara que eu . Daniel dominava se. Marcelle não tem nada a temer e tem confiança em mini. — Vim para devolver o dinheiro e tranquilizar te. disse como para si próprio: — Então era o filho que ela queria. Tudo correrá bem. — Hem?! — Bom. Não faz mal. Num certo sentido. Repetiu distraído: — Não te zangues.

É desagradável. Daniel afastara se e contemplava o com espanto e ódio. sem simpatia.. Daniel era um pederasta. sou um pederasta. Olhava Daniel e pensava: «Ele é pederasta. — Bem sei — disse Daniel sorrindo com altivez. — Não dizes nada? — continuou Daniel. — Pois já viste. parecia apertado na sua roupa. Não precisas de tomar atitudes diante de mim. pensou Mathieu. — Efectivamente não tens nada com isso. falava com dificuldade. Daniel deu uns passos em direcção à porta e bruscamente voltou.» Mas não estava muito admirado. Talvez tenhas nojo de ti próprio. Não sou tão sólido como isso. uma indiferença profunda e paralisante. tão normal. agora que há alguém que sabe. Daniel troçou: — Isto espanta te? Modifica a ideia que tinhas dos invertidos? Mathieu ergueu vivamente a cabeça. mas fazes bem em não dizer nada. Achava que devia dizer qualquer coisa. Disse finalmente: — Podes ser o que bem entenderes. E.. irritavas me. depois. Mostravas te sempre tão sólido. Porque havia de ter nojo? — Oh! — disse Daniel —. Aliás é por . É a reacção normal. não penses que és obrigado a mostrares te generoso! Mathieu não respondeu. Era a ordem das coisas. — Não te armes em cínico.. — Então porque me vieste contar? — Eu. eu queria ver o efeito que isso podia provocar num tipo como tu — disse Daniel coçando a garganta. não tenho nada com isso. de braços colados ao corpo. — Hem? — disse Mathieu. — Isso enoja te. J E A N P AUL SARTRE — Mathieu — disse —. — Não. — Pois não. talvez eu consiga acreditar nisso... a reacção que deve ter todo o homem são. tudo aquilo lhe parecia tão natural. «Que ideia aquela de se vir torturar aqui». Mathieu não pôde suportar o sorriso e voltou a cabeça. cortante. Daniel estava imóvel. não tenho nojo. mas continuava a sorrir. não é? — És pederasta? — repetiu lentamente Mathieu. — Em parte — disse Daniel com franqueza —. mas não se tornara mais agradável.. Perdera a expressão irónica.faria depois dessa história toda. — Tens razão. IDADE DA R A Z A O Estava verde. mas mergulhava na mais completa indiferença. Ele era um estupor. — E. eu também tenho de mim. A tua própria consciência já te dá bastante trabalho. há qualquer coisa disso. Somos iguais.

depois largou o devagar. quero casar contigo. Encheram os copos. Daniel levantou se. Marcelle! Estás a ouvir? Marcelle.. — Juro que não o será. Ela propôs me viver ao seu lado. não podes? — perguntou.. é o filho. — Estou — disse a voz de Marcelle. arrogante.. E.isso mesmo que me contas essa história. Mathieu sentiu um remorso agudo. depois uma espécie de gemido e desligaram. principalmente. — Mas.. — E que farás para o impedir? Mathieu não respondeu. fornos idiotas há pouco. bem se sabe. Eu queria. é Mathieu. à maneira dos velhos. demais. Houve um curto silêncio. Calaram se. Daniel contemplava o com ironia. não parecia triunfante. e Mathieu disse com obstinação: — Não quero que ela seja infeliz. Ele perdeu a cabeça e gritou ao telefone. Daniel olhava sem ver. vais estragar lhe a vida. — Bem — disse. — Se é assim. — Devias ser o último a dizê lo. Fez se silêncio. o que ela quer. — Ela julga que a amas? — Não creio. — Ah!. — Marcelle. Acrescentou com uma ironia dolorosa: — Estou resolvido a cumprir os meus deveres conjugais até ao fim. J E A N P AUL SARTRE Não respondiam. Mathieu bebeu um gole de rum e tornou a sentar se na poltrona. Mathieu estremeceu. com um olhar fixo. porque te casas com Marcelle? — Uma coisa nada tem a ver com a outra. Pegou no telefone e marcou o número de Marcelle. está. Daniel sorriu. ela sabe? — Não! — Porque é que casas? — Por amizade. O tom não o convencia.. O sentimento virá com o tempo. — Não posso permitir que cases com Marcelle. Um rubor sombrio manchou lhe o rosto aflito. Vou instalá la em minha casa. Escuta. — Estou. E tem se sempre o benefício da confissão. — Tu és astucioso — disse Daniel com uma vulgaridade que Mathieu não conhecia.. Deve ser mais fácil confessar se a um miserável. — E. Daniel olhava sem falar. — Tranquiliza te — observou como consolação. — Daniel! Se casas por casar. Mathieu conservou um momento o telefone na mão. — Os pederastas deram sempre bons mandos. mas isso não me convém. E depois não caso por casar. .

etc. casas te para te martirizares! — E então? Isso é comigo. Mesmo agora. Mathieu pôs a cabeça entre as mãos. Há alguém que sabe. «No teu lugar. porque sou pederasta. — Porque me olhas assim? — perguntou. e ergueu a cabeça precipitadamente. o que tu és não me interessa. — Sim — disse com um ar distraído e imparcial —.» Daniel continuou a sorrir: — Vamos esvaziar a garrafa? — Vamos. Mathieu não respondeu. Para ela não terá importância nenhuma. — Daniel — disse —. Disse: — Tenho ainda mais nojo de mim. Daniel bebeu. e lágrimas de vergonha inundaram lhe os olhos. Porque é que tens vergonha disso? Daniel teve um riso seco: — Eu esperava essa pergunta — disse. é um gosto como outro qualquer. Daniel olhava o efectivamente e com tal ódio que o coração de Mathieu se apertou. etc. — Compreendo. .. — Bem sabes. Mathieu baixou a cabeça. Todos os invertidos têm vergonha. está na sua natureza. Olhava para o chão entre os pés: «É um pederasta e vai casar com ela. Mathieu pensou tristemente: «E a mini que ele odeia. — Meu Deus! — disse. Beberam. — Gostarias de me enfiar uma bala na pele? Daniel não respondeu. Pensou: «Daniel está a olhar para mim». Acendeu um cigarro. e Mathieu percebeu que estava com vontade de fumar. J E A N P AUL SARTRE \ — Tu odeia la? — Não. Daniel acrescentou vivamente: — Isso não tem importância. — Tenho vergonha de ser pederasta.» Abriu as mãos e raspou o sapato no chão. exactamente porque não és pederasta. — Escuta — disse —. disse: — Não muito. Mas desejo saber uma coisa. reagiria. exigiria um lugar ao sol. Mathieu foi invadido por uma ideia insuportável. depois de saber que vais casar com ela. acho que te deves sentir bastante mal. Subitamente o silêncio tornou se pesado.» Mas dirás isso tudo.DA D E DA RAZAO Mathieu corou violentamente e acrescentou: — Também gostas de mulheres? Daniel fungou. Já sei o que vais dizer. sentia se perseguido.

num estado horrível. bebeu o. — Deves estar num estado horrível. serei assim?» E subitamente foi invadido pelo desejo de falar a Marcelle. — Nesta história ganhaste por todos os lados. Mas lembrou se de que nunca mais a veria. e o desejo transformou se numa espécie de angústia. apesar de tudo.. que parecia deslocado naquele rosto cor de azeitona que a barba crescida manchava de azul. estão mortos. . Mathieu disse subitamente: — Gostava de estar no teu lugar. Daniel pareceu irritado. E explicou: — És livre. — No meu lugar? — repetiu Daniel sem mostrar grande surpresa. Daniel olhou Mathieu com curiosidade. — Não — disse Mathieu —. Estava só. Não. — Conheço me muito bem. pensou Mathieu. surpreendi me — disse em voz baixa. assumir isso? — perguntou timidamente Mathieu. como ainda havia um resto de rum no copo. esta noite. Uma ideia repentina causou lhe um certo mal estar: «Ele é livre. Passou a mão pela fronte.. de tanto terem vergonha. — Hoje. Tinha o olhar parado e de vez em quando os lábios entreabriam se lhe. — Falaremos disso no dia em que aceitares ser um sacana. — Fumar agora? — Um só.. e eu não quero esse género de morte... os pederastas que se vangloriam ou se exibem. de quatro. não basta abandonar uma mulher para se ser livre. quase infantil. Daniel continuava a sorrir com ar de boa fé. «ele foi até ao fim desta vez». Mathieu acendeu outro cigarro e. — Dá me um cigarro. J E A N p AUL SARTRE Daniel encolheu os ombros. — Sim. morreram de vergonha. — Sim. «É verdade». Suspirou e qualquer coisa pareceu ceder no seu rosto.— Mas não seria melhor. — Hoje de manhã parecias acreditar que sim.» E o horror que Daniel lhe inspirava misturou se com a inveja. dos seus receios. Daniel parecia reflectir.. Disse. das suas esperanças. tinha um ar de espanto. Sorriu de um modo singular. Daniel inspirava lhe horror. só a ela podia falar da sua vida. Pensou: «Dentro de dois anos. r A IDADE DA RAZÃO Não havia nada a dizer. Mas parecia mais calmo e olhava para Mathieu sem ódio. ou simplesmente se aceitam. — Já me assumi demasiado — continuou com doçura.

— E então? — Não o fez. — Daqui a seis meses serei a mesma coisa que sou hoje. Nada é claro. Daniel atirou o cigarro fora e disse: — Eu queria ser seis meses mais velho. — Ofereço te um copo no Clarisse. — Bem — disse Mathieu. — Então. — Tudo isto.» Disse em voz alta: — Anteontem. Não sei o que daria para cometer um acto irremediável. — Acho que será difícil. secamente. deve parecer lhe estranho sentir atrás de si um acto desconhecido.— Não sei. — Nada de sensacional — observou Daniel.. Não sei o que faria se bebesse. Ver nos emos em breve? — perguntou Mathieu. mas acho que lhe seria penoso saber que nos vemos. todo o resto. — Eu não — disse Mathieu. — O quê? Mathieu mostrou a secretária num gesto largo e vago. mas há o resto. DADË RAZÃO — Porque é que me dizes isso? — Não sei. à noite. — Tiveste vontade de partir para Espanha? — Tive. tudo se passa como se eu pudesse sempre voltar atrás. Marcelle disse que não queria mudar nada na minha vida. — Com remorsos a menos. tudo o que faço. mas não a suficiente. — Por nada — repetiu. Pensava: «Será isto a liberdade? Ele agiu. Mas a verdade é que abandonei Marcelle por nada. Daniel levantou se. Marcelle já não faz parte da minha vida. Sentia se fascinado por Daniel. Depois de um momento. agitadas pela brisa nocturna. Não queres ficar mais um bocado? — Preciso de beber.. faço o por nada. que já quase não compreende e que lhe vai transformar a vida. não vens? — Não. Estava cansado. encontrei um tipo que queria alistar se nas milícias espanholas. Daniel sorriu sem responder. — Não — disse Mathieu. dir se ia que me roubam as consequências dos meus actos. Adeus. Fixava o olhar nas cortinas da janela... — Hoje não tenho vontade de me embriagar. e Mathieu acrescentou bruscamente: . Eu. agora já não pode voltar atrás. — Adeus. — Nesse caso. Calaram se. — Em toda esta história eu não fui senão recusa e negação. agora está lixado. Não era muito claro. felicidades.

— Adeus. a indulgência sorridente. Tirou os sapatos e ficou imóvel. já não mudaria. agradável e azul. Parou na esquina da Rua Huyghens com a Rua Froidevaux e olhou o céu. Pensou: «Muito barulho.. a luz branca de um farol deslizou no céu. Repetia a bocejar: — Não há dúvida. minuto a minuto. Dissera a si mesmo na véspera: «Se ao menos Marcelle não existisse!» Mas era uma mentira. Bocejou. com um sapato na mão. Daniel saiu. estou na idade da razão.» Só. Era uma noite agradável. Morais comprovadas já lhe ofereciam os seus serviços. Sentia ainda no fundo da garganta o calor adocicado do rum. O perfume de Ivich ainda flutuava ali. um homem caminhava tranquilamente. Por nada. viam se as estrelas por cima dos telhados. sentado no braço da poltrona. demorou se em cima de uma chaminé e escorregou por trás dos telhados. — Mas amanhã. Tirou o casaco. Na rua. foi a minha vida que a bebeu. pôs se a desfazer o nó da gravata. «Ninguém entravou a minha liberdade. Mathieu viu Daniel desaparecer e pensou: «Fico só. Estava formado. — Daniel baixou a cabeça sem responder. — Adeus — disse Mathieu. a seriedade de espírito. Encostou se no parapeito e bocejou longamente. O vento varrera as nuvens. Era um céu de festa na aldeia. O epicurismo desiludido. ele não era nada e. — Não neste momento. FIM DO PRIMEIRO VOLUME .. uma vida falhada. Daniel aproximou se e pousou a mão no ombro dele num gesto desajeitado e envergonhado. Tinha acabado o seu dia.» Aquela vida tinha Ihe sido dada para nada. como bom conhecedor. um céu que sabia a férias e bailes campestres. Um ruído de música subia da Avenida do Maine. Mathieu chegou se à janela e levantou as cortinas. o estoicismo. por nada. em baixo.— Odeias me. no entanto.» Fechou a janela e voltou para o quarto. mas não mais livre do que antes. a resignação. Respirou o e recordou aquele dia tumultuoso. não há dúvida. tudo isso que permite apreciar. Era Daniel. tinha acabado com a sua juventude.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful