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Jean Paul Sartre - A idade da Razão

Jean Paul Sartre - A idade da Razão

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Jean Paul Sartre (1905 1980

)

A IDADE DA RAZÃO
Os Caminhos Da Liberdade

Volume I

Tradução de Sérgio Milliet 5." Edição BERTRAND EDITORA VENDA NOVA 1996 ' Título original: Lês Chemins de Ia Liberte — L'Age de Raison © 1945, Éditions Gallimard Ilustração de capa: No boulevard, de Malevich Todos os direitos para a publicação desta obra em língua portuguesa excepto Brasil, reservados por Bertrand Editora, Lda. Fotocomposição e montagem: Grafitexto Impressão e acabamento: Gráfica Manuel Barbosa & Filhos, Lda. Depósito Legal n.° 101049/96 ISBN: 972 25 0996 9 Acabou se de imprimir se em Junho de 1996

A Wanda Kosakiewicz No meio da Rua Vercin getorix, o sujeito grandalhão agarrou Mathieu pelo braço. Um polícia passeava no passeio oposto. — Dê me alguma coisinha, patrão, estou com fome. Tinha os olhos muito unidos e os lábios grossos. E tresandava a álcool. — Não será sede o que tu tens? — indagou Mathieu. — Juro que não, meu velho — disse com dificuldade —, juro que não. Mathieu descobrira uma moeda de cinco francos no bolso: — No fundo não me interessa, perguntei por perguntar. E deu a moeda. — O que estás a fazer está certo — disse o tipo, apoiando se à parede —, quero desejar te uma coisa formidável. Mas o que é que te vou desejar? Reflectiram ambos. Mathieu atalhou: — O que quiseres. — Pois então vou desejar te felicidades — respondeu o outro. — É tudo. Riu triunfante. Mathieu viu o polícia aproximar se e receou que prendesse o tipo. — Bom — disse —, adeus. Quis afastar se, mas o homem alcançou-o. — A felicidade não basta — disse com uma voz entaramelada —, não basta... — Então! Que mais é que queres? — Quero dar te uma coisa. — E eu vou prender te por mendicidade — disse o polícia. Era muito jovem, muito rosado e esforçava se por se mostrar duro. — Há meia hora que estás aí a chatear os transeuntes — acrescentou sem convicção. — Não está a pedir esmola — disse Mathieu com vivacidade. — Estamos a conversar. O polícia encolheu os ombros e continuou o seu caminho. O tipo titubeava de modo inquietador; não parecia sequer ter visto o polícia. — Já sei o que é que te vou dar. Vou dar te um selo de Madrid. Tirou do bolso um rectângulo de cartão verde e entregou o a Mathieu. Este leu: «C. N. T. Diário Confederai. Exemplares 2. França. Comité Anarco Sindicalista, 41, Rua de Belleville, Paris 19.» Havia um selo ao lado do endereço. Também era verde e trazia o carimbo de Madrid. Mathieu estendeu a mão — Obrigado. — Cuidado! — disse o sujeito irritado. — E... de Madrid. Mathieu olhou o. O homem parecia comovido e fazia grandes esforços para exprimir o seu pensamento. Renunciou a isso e disse apenas: — Madrid! — Já sei. — Eu queria lá ir. Juro. Mas a coisa não se arranjou.

Tornara se sombrio. Murmurou «espera» e passou devagar o dedo sobre o selo. — Pronto. Podes levá lo. — Obrigado. Mathieu deu alguns passos, mas o sujeito chamou o. — Eh! — Que é? — disse Mathieu. O homem mostrava lhe a moeda de cinco francos. — Foi um tipo que me deu isso. Ofereço te um rum. — Hoje não. Mathieu afastou se com um vago remorso. Houvera uma época na sua vida em que deambulara pelas ruas, pêlos bares, com toda a gente; o primeiro que aparecesse podia convidá lo. Agora, tudo isso tinha acabado; esse género de aventura não dava nada... Era divertido. Tivera vontade de ir combater em Espanha. Mathieu apressou o passo, e pensou com alguma irritação: «Em todo o caso não tínhamos nada que dizer um ao outro.» Tirou do bolso o cartão verde: «Vem de Madrid, mas não tem o endereço dele. Deve lho ter dado alguém e apalpou o varias vezes antes de entregá lo, porque vinha de Madrid.» Lembrava se do rosto do homem e da sua expressão ao olhar para o selo: uma expressão estranha de paixão. Mathieu olhou o selo por sua vez, sem deixar de andar, depois repôs o pedaço de cartão no bolso. Um comboio apitou, e Mathieu pensou: «Estou velho.» Eram dez e vinte e cinco. Mathieu estava adiantado. Passou sem parar, sem querer voltar a cabeça diante da casinha azul. Mas ele espreitava a pelo canto do olho. Todas as janelas estavam escuras, com excepção da de Madame Duffet. Marcelle não tivera ainda tempo para abrir a porta de entrada; debruçada sobre a mãe, ajeitava, com gestos másculos, o leito de dossel. Mathieu, preocupado, pensava: «Quinhentos francos para darem até ao dia 29, isto é, trinta francos por dia, mais ou menos. Como é que me vou arranjar?» Deu meia volta e voltou para trás. Apagara se a luz no quarto de Madame Duffet. Pouco depois, a janela de Marcelle iluminou se. Mathieu atravessou a rua e seguiu, ao longo da mercearia, tomando cuidado para que as solas novas dos sapatos não rangessem. A porta estava entreaberta, empurrou a devagar, ela gemeu. «Quarta feira vou trazer a minha almotolia para olear os gonzos.» Entrou, fechou a porta e descalçou se no escuro. A escada rangia um bocado. Mathieu subiu com precauções, de sapatos na mão; tacteava cada degrau com os dedos do pé antes de dar um passo. «Que comédia!», pensou. Marcelle abriu a porta antes que ele alcançasse o patamar. Uma névoa rósea e que cheirava a lírio projectou se fora do quarto

e espalhou se pela escada. Ela tinha vestido uma camisola verde, transparente, através da qual Mathieu viu a curva suave e gorda das ancas. Entrou. Tinha sempre a sensação de entrar numa concha. Marcelle fechou a porta à chave. Mathieu dirigiu se ao grande armário metido na parede e guardou os sapatos; contemplou depois Marcelle e viu que havia qualquer coisa. — Que é que se passa? — perguntou em voz baixa. — Nada — respondeu Marcelle, igualmente em voz baixa. — E tu, meu velho? — Estou sem cheta. Fora isso, tudo bem. Beijou a no pescoço e na boca. O pescoço cheirava a âmbar, a boca cheirava a tabaco ordinário. Marcelle sentou se à beira da cama e pôs se a olhar as pernas enquanto Mathieu se despia. — Que é isto? — indagou Mathieu. Havia em cima da lareira uma fotografia que ele não conhecia. Aproximou se e viu uma jovem magra, penteada como um rapaz, e que ria com um ar ríspido e tímido. Envergava um casaco de homem e calçava sapatos de salto baixo. — Sou eu — disse Marcelle, sem erguer a cabeça. Mathieu voltou se. Marcelle levantara a camisola sobre as coxas gordas. Estava curvada e Mathieu adivinhava sob a camisola a fragilidade dos seios pesados. — Onde é que encontraste isto? — Num álbum. É do Verão de 28. Mathieu dobrou cuidadosamente o casaco e colocou o no armário ao lado dos sapatos. Perguntou: — Então agora andas a mexer nos álbuns da família? — Não, não sei, mas hoje tive vontade de encontrar coisas da minha vida, de ver como eu era antes de te conhecer. Trá-la cá. Mathieu pegou na fotografia e ela arrancou lha das mãos. Sentou se ao lado dela. Marcelle teve um arrepio e afastou se um pouco. Olhava a fotografia com um sorriso vago: — Como eu era engraçada — disse. A jovem mantinha se rígida, apoiada à grade de um jardim. Abria a boca e devia estar também a dizer: “É cômico”, com a mesma desenvoltura atarantada, a mesma ousadia sem firmeza. Só que era jovem e magra. Marcelle sacudiu a cabeça. — É de morrer a rir! Foi tirada no Luxemburgo por um estudante de Farmácia. Estás a ver o meu blusão? Comprei o nesse mesmo dia, porque íamos dar um grande passeio a Fontainebleau no domingo seguinte. Meu Deus!... Havia com certeza alguma coisa. Nunca os seus gestos tinham sido tão bruscos, a sua voz tão masculina. Estava sentada à beira da cama, mais do que nua, sem defesa, como um vaso enorme no fundo do quarto cor de rosa, e era penoso ouvir essa voz masculina enquanto um cheiro forte e sombrio se exalava dela. Mathieu agarrou a pêlos ombros, apertando a. — Tens saudades dessa época? Marcelle respondeu secamente: — Dessa época não, mas da vida que poderia ter tido.

mas ela afastou se sem violência com um risinho nervoso. Ela olhava a fotografia com um ar triste e tenso. Acrescentou: J E A N P AUL SARTRE — Ela anda desanimada.Tinha iniciado os seus estudos de Química. Dizia muitas vezes: «Vivo por procuração. Parecia um levantino gordo. Depois vi Ivich. — Engordei.» Abriu os lábios para interrogá la. Mathieu pensou: «Não lhe dou nada. — E hoje? — Hoje saí — disse ela melancólica..» Quis beijar lhe a cara. Apanhei um táxi e voltei. Contava lhe minuciosamente tudo o que fazia. — Disseste me que ela estudava.. de acotovelar pessoas. Hoje de manhã passei na tesouraria para ver se podiam adiantar me alguma coisa. chato como de costume. indiferente: — E tu? Mathieu não tinha vontade de contar. começou a chover. parece que não fazem isso. estava cansada. com voz séria e ligeiramente autoritária. Marcelle ergueu as sobrancelhas e olhou o.» Quatro noites por semana vinha vê la. não? — Engordaste. em tfeauvais eu entendia me com o tesoureiro. — Já lá vão dez anos. que uma doença havia interrompido. leva uma vida horrível. Mathieu pensou: «É verdade. Disse: — Ontem fui ao colégio dar as minhas últimas aulas. sabes. — Senti necessidade de tomar ar. as pessoas tinham umas caras ignóbeis. Ele não gostava de lhe falar de Ivich. mas viu Ihe os olhos e calou se. é um mês de Junho esquisito. Ela dava lhe conselhos. Mathieu pensou: «Parece que ela me detesta. No entanto. Ela encolheu os ombros e atirou a fotografia para cima da cama.» Ele perguntou: — Que fizeste ontem? Saíste? Marcelle teve um gesto desanimado e vago. Ele murmurou: — Ela vai chumbar. e depois. Perguntou. mas a mãe interrompia me a cada instante por causa da loja. Quando saí de casa dela. isto divertia me. — Não. . Li um pouco. — Porquê? A voz de Marcelle voltara à firmeza habitual e o seu rosto assumira uma expressão de bom senso masculino. Jantei em casa de Jacques. — E viste? — Cinco minutos. Desci até à Rua da Gaite. queria ver Andrée.

só de lhe passar o dedo por cima. Desatou a rir. — Não achas que tenho uma pele boa para fazer uma escumadeira? . Não ousas confessar. não. de repente «viu se» diante de um tipo calvo a falar de celenterados. o examinador estava satisfeito. Isso pareceu lhe ridículo. Ela foi tão pouco feita para ser médica como eu. E tu acreditas que uma boneca com uma pele daquelas vai estragá la com tiros? Posso imaginá la caída numa cadeira. tenho medo que lhe aconteça o mesmo desta vez. Mas se a coisa não correr bem desta vez. meu pobre velho. Parece que nunca lhe viste o corpo.C. e o tipo não lhe arrancou nem mais uma palavra. Marcelle libertou se e o seu rosto endureceu. ela vai fazer um disparate. De qualquer maneira. Um revólver é para as nossas peles de crocodilo. Em Outubro sabia bastante de Botânica. Mathieu não deixara de acariciar as costas de Marcelle e ela começou a pestanejar. no próximo ano. mesmo que passasse no P. com os cabelos sobre o rosto e fascinada diante de um minúsculo Browning. A família não a deixará recomeçar. Em suma. desmaiaria na primeira dissecação. pensou.B. principalmente junto dos rins e entre as omoplatas. Mathieu disse lhe: A — Ouve. no caso de ter um azar. Ou que invente alguma coisa. Ela apoiou o braço no de Mathieu. «Que é que eu tenho a ver com os celenterados?». mas tens medo que ela enfie uma bala no corpo. Marcelle indagou com voz firme: — Que espécie de disparate queres tu dizer exactamente? — Não sei — respondeu ele perturbado. — Olha para isto. E dizes que tens horror ao romanesco. — Que rapariga estranha! — disse Marcelle pensativa. Mas sabes como ela é: tem visões. Marcelle. não. pouco me importa que Ivich reprove. — Ah! conheço te muito bem. Ele tinha a pele mais branca do que a dela. meu velho. meu velho. exigia apenas uma coisa: que ele falasse de Ivich precisamente naquele tom. Gostava que ele lhe acariciasse as costas. Mas nem só as palavras contam! Hesitou um instante e baixou a cabeça.— Sim. isto é. e não poria mais os pés na Faculdade. Mas de repente. É muito russo isso! Mas imaginar outra coisa. aceitava mesmo que ele a amasse. desanimado. Marcelle não ignorava nada da sua afeição por Ivich. como os loucos.. deve ficar horas inteiras diante de um livro sem fazer um movimento. pois não? Eu teria receio de ofendê la. — Em todo o caso — atalhou Mathieu —. Vais ver. Aquele tom de displicência protectora não seria uma mentira? Tudo o que podia exprimir por meio de palavras dizia o. à sua maneira. a minha até parece de marroquim.

Gostava daquela carne amanteigada com os pêlos suaves sob as carícias. J E A N P AUL SARTRE Continuava a rir. — Ora! Marcelle ergueu a cabeça e contemplou o relógio com um ar míope e divertido. Mathieu pousou a mão na perna de Marcelle e acariciou a docemente. Queria oferecer me um copo. Marcelle pegou no cartão. Não seria nada feio. Dentro em pouco não se poderia conter. Mathieu tapou lhe a boca com a mão. Mathieu temia essas explosões silenciosas: a paixão naquele quarto concha era impossível.Imagino um buraquinho bem redondo por baixo do esquerdo. Este acabou por retirá la. — Que é que achas? Envelheci? . Não havia nada a fazer senão esperar. — Chamas a isto uma oportunidade perdida? — Sim. Mathieu levantou se. o tempo de um olhar altivo e desesperado. Viu momentaneamente as suas olheiras. como mil arrepios tensos. — Porquê? — perguntou Marcelle com negligência. — Olha. — Talvez tenha mudado um pouco — disse Mathieu. — Olha para mim — disse. E só Deus sabe corno estas coisas se repetem ultimamente. concordando. A — Era um anarquista? — Não sei. A tua vida está cheia de oportunidades perdidas. — E curioso — observou. — E tu recusaste? — Recusei. Ela calou se. Era sempre assim com ela: como um nó. — Quando tu me contas estas coisas. isso tinha um grande valor para ele. Antigamente terias feito tudo para provocar esses encontros. irrito me sempre. foi até ao armário e tirou o cartão do bolso do casaco. Era simpático e eu dei lhe algum dinheiro. — Cala te. Acrescentou: — Sabes. Vais acordar a velha. Ele disse: — Como estás nervosa! Ela não respondeu. — Que é que tu tens? — Nada — disse ela virando a cabeça. Marcelle não se mexeu: olhava a mão de Mathieu. porque era necessário exprimi la em voz baixa e sem gestos para não acordar Madame Duffet. — Podia ser divertido. — Que é isso? — Foi um tipo que mo deu há pouco na rua. com os bordos limpos e avermelhados. Mathieu sentiu se ligado ao tipo por uma espécie de cumplicidade. com indiferença. estouraria.

. Sentia se tranquilo e algo estúpido.. — Bem. Mas não deixa de ser sintomático... Mathieu pensou em Ivich e teve um estremecimento desagradável. não tinha um ar terno. — Tens perfeitamente razão — disse Marcelle. — Vamos lá — disse. Marcelle sorriu sem ternura. J E A N P AUL SARTRE Mathieu e Marcelle tinham combinado dizer sempre tudo um ao outro. Tu és divertido. — Conheço te bem — disse. eu não tinha tempo. as palavras para ela não duravam mais do que uma estação). No Inverno anterior era «urgência». Não reflecti assim tanto. «Ela procura provocar me».. — Sim... — Ouve — disse —. Mas Marcelle tinha desatado a rir.» No entanto. perturbado. Foi antes por escrúpulo. absolutamente nada e nem há motivo para tanta história. Mathieu acrescentou com vivacidade: — Ele também devia estar alheio. meu velho. — Como tu tens medo do patético! E depois? Mesmo que te mostrasses um pouco patético com esse pobre diabo! Que mal é que havia? — E o que é que adiantava? — perguntou Mathieu. Pensou: «Não é completamente verdade. eles já se lhe tinham habituado.» Quis fazer um esforço para ser sincero.. tens um medo tão grande de te iludir a ti próprio que recusarias a mais bela aventura do mundo para não te arriscares a uma mentira. Era ainda contra ele próprio que se defendia.. Essa «lucidez» (detestava a palavra. quando se está bêbedo. vinha para cá. eram responsáveis por ela diante um do outro. ando um pouco alheio. — Que há. Há muito tempo que se diz isso. essa lucidez. Era a que eu queria evitar. agora. Antes de mais nada. em suma. pensou Mathieu. a tua famosa lucidez.. Mathieu sobressaltou se: se ao menos ela não empregasse palavras tão rebarbativas.— Tens trinta e quatro anos — disse simplesmente Marcelle. — disse ele. não creio que seja isso. de bom humor e sem vontade de discutir. — É tão raro. bem o sabes. A IDADE DA RAZÃO — Pois é — atalhou Mathieu —. não andares alheio — disse Marcelle. é tudo patético. era . Trinta e quatro anos. — Que é que achas de tão interessante nisto. — Isto não é nada. Compreendes. Um ronronar baixo e terno como quando ela lhe acariciava os cabelos dizendo lhe: «Meu pobre velho. Ouve. não tens razão em dar importância a essa história. mas Marcelle tinha a adoptado havia algum tempo. Achava a injusta.

. — Pensas que estou a mentir? — Não. de hesitante. Pensei nisso hoje. Não é isso. cheiras a roupa lavada.. Ser livre. Totalmente livre. é o teu vício. — Se eu mentisse a mim mesmo — disse —. Marcelle pusera um ar sorridente e obstinado: — Sim.. É para te libertar de ti próprio. — Isso de me conheceres não me interessa assim tanto — disse simplesmente. tudo é claro e nítido em ti. Tudo aquilo. um J E A N P AUL SARTRE pouco agressiva.. — Não ser nada — repetiu lentamente Mathieu. não é um fim. e se Mathieu não concordava com ela. é um meio. imaginas que não és o que estás a ver. Isso era me insuportável. sim. ela era a sua lucidez. se eu não tentasse viver por conta própria. Só podia amar Marcelle com inteira lucidez. No fundo. — Não é um vício — disse Mathieu. renunciara definitivamente aos desejos de solidão. — Eu sei — atalhou Marcelle —.apenas o profundo sentido do seu amor. Escuta: eu. sabe se lá! Mas não creio.. a sua testemunha. isto é. — Não. existir parecer me ia absurdo. teria a impressão de te mentir também. Encarou Marcelle.. julgar: é a tua atitude predilecta. É o teu vício. que não és nada.. E depois havia aquela fotografia em cima da cama. Mathieu estava desconcertado. — Não pareces convencida! — Estou. — Sim — disse Marcelle. Oh!. é como se tivesses passado pela lavandaria. Marcelle mostrava se muitas vezes bastante dura. desconfiada... gostas de te analisar. tinha lho explicado cem vezes. aos pensamentos frescos.. Mas raramente sentia nela aquela vontade deliberada de lhe ser desagradável. Nada de inútil. olhar. — É. sim — disse ela com indolência. Não parecia muito convencida. E não me venhas dizer que é por mim que razes isso.. a sua companheira. Quando olhas para ti próprio. mantinha se em guarda. é o teu ideal: não ser nada.. conselheira e juiz.. tu segues o teu caminho. E tórrido. eu gostaria de não dever nada senão a mim próprio. imaginava que ele a queria dominar. — Sim. sombrios e tímidos que dantes se esgueiravam dentro dele com a vivacidade furtiva dos peixes. — Se. e ela sabia que era muito importante para ele. de estranho. Quando Mathieu se comprometera com Marcelle.. Sabes o que estou a pensar? Que te estás a esterilizar um pouco. Só falta o contraste.. com inquietação: ainda não tinha chegado o momento de ela se decidir a falar. Que é que tu queres que se faça? Estava irritado.

Pensou: «Como está a envelhecer!» E pensou que ele também estava velho. gostaria de esquecer se e esquecê la. Calaram se. mas teve remorsos e disse suavemente: — Não é um vício. e ela baixou as pálpebras. Ela escorregou devagar para trás e deitou se de costas sobre a cama. tinha uma linda boca. de repente. Marcelle deixou cair a cabeça sobre o ombro de Mathieu e ele viu lhe de perto a pele morena. ligeiramente envelhecida. com voz fraca. Mathieu sentia prazer na ponta dos dedos. cansada. — Agora — disse com firmeza —. Mas percebeu que agora ela tinha os olhos abertos e parados. há alguma coisa que te . eu sou assim. Inclinou se sobre ela com uma espécie de mal estar. viu lhe então as longas pestanas pretas. — Não se passa nada — respondeu. — Marcelle! Ela não respondeu. Apertou a nos braços: não que a desejasse naquele instante. Era sempre aquele remorso. tirou as calças e a camisa. Tinha um vinco duro e triste no canto dos lábios. Mathieu ergueu se. Beijou a na boca. — Passa se — disse ele com ternura —. vais dizer me o que é que se passa. Pensou que nunca conseguiria pôr se no lugar de Marcelle: «A liberdade de que lhe falo é a liberdade de homem saudável.Mathieu pensou: «Ela irrita me quando se arma em esperta». estás aborrecida? Ela ergueu para ele os olhos um pouco perturbados. levantou se. A Marcelle deixara de rir. bem desenhada e severa. Deixou escorregar a mão ao longo das costas de Marcelle. Ele sentou se à beira da cama. — Não.» Pôs lhe a mão no pescoço e apertou suavemente entre os dedos aquela carne untuosa. Mathieu olhou para a sua nuca inclinada e não se sentiu à vontade. com as mãos cruzadas sob a cabeça. Exactamente na ponta dos dedos. — Pois eu não tenho toda essa necessidade de ser livre — disse. que contemplava o tecto. Mas havia muito tempo que já não se esquecia quando a possuía. envergonhado da sua nudez. as olheiras azuladas e borbulhentas. aquele remorso absurdo que o perseguia quando estava com ela. — Porque é que os outros não são assim. se não é um vício? — São assim. tinha uma expressão má. pô las dobradas aos pés da cama e estendeu se ao lado dela. dês J E A N P AUL SARTRE feita. mas para ver aquele espírito teimoso e anguloso fundir se como um pedaço de gelo ao sol. de olhos fechados. mas não percebem que o são. — Marcelle.

Os lábios cerraram se sobre as últimas palavras: uma °ca húmida com reflexos violeta. Ele acariciou lhe levemente os cabelos. Ela já lá esteve. Que é que vamos fazer? — Desenvencilharmo nos disto. sem preparação. e o seu olhar desceu mais ainda. por exemplo. Tinha voltado a cabeça para ele e contemplava o. Marcelle. — É a mulher que a liquidou no ano passado? Custou lhe seis meses de cama. Não dizemos tudo um ao outro? — Tu não podes fazer nada. não quero. encher o cachimbo. e isto vai aborrecer te. Disse com súbita paixão: — Não é preciso que reflictas. E acrescentou com uma amarga ironia: — Isto agora é uma coisa de mulheres.. conta. os ombros. Vamos reflectir. açucarado. — Agora já sabes.aborrece. — Então queres ser pai? Ela afastou se. não? — Está bem. dir se ia que procurava não tossir. Sabes que nunca perco a cabeça: mas. — Aconteceu o quê? — Aconteceu! Mathieu fez uma careta. — Pois então. Olhou lhe o pescoço. Mathieu corou violentamente e apertou as pernas. — Espera — disse Mathieu. Mathieu observou que o rosto se lhe tornara cinzento. a cintura. Parecia espantada. As mãos de Marcelle principiaram a tremer. Tinha uma expressão dura mas não máscula.. — Pois é — disse Marcelle.» Tinha vontade de fazer alguma coisa com as mãos. para o largar em seguida. — Dizes me essas coisas assim. aconteceu. um insecto vermelho . cheirava a rosas. O ar estava doce. — Não podes fazer nada — repetiu Marcelle. dois meses de atraso! — Merda! Pensava: «Ela devia ter mo dito há pelo menos três semanas.. não é a ti que te compete. Tirou um cigarro da mesa de cabeceira. aquele olhar parado. Tenho uma direcção. — Tens a certeza? — Absoluta. — Vá lá. Mas havia aquele rosto cinzento. Tinha as mãos sobre as coxas e os braços pareciam asas de terracota. sentou se a uma certa distância de Mathieu. mas o cachimbo estava no armário com o casaco.. Não. — Quem ta deu? — Andrée.

pensou Mathieu. Era tudo o que podia permitir se. que descansava delicadamente sobre as coxas com um ar de impertinente inocência. como o mecanismo de uma caixinha de música. estou persuadida de que serei tão bem tratada por ela como por qualquer outra — afirmou —. Escuta. É a primeira vez. quem é essa mulher? Onde é que ela mora? — Rua Morère. o espelho com os reflexos de chumbo. Quando ergueu a cabeça. insistindo na sua melodia. Mathieu mexeu se. Sentia se desajeitado. Dizem que é irrisório.. Marcelle não se mexera. Enfim. — É um bom negócio. — Garanto te que não me sinto orgulhoso. que teima em tocar. «teria vontade de bater em toda esta carne. sabes. aconteceu.» E a lâmpada. como um noivo. como . Mas ela não a podia esquecer: via as coxas brancas dele. o relógio. Ela inclinou se sobre os seus ombros e fungou duas ou três vezes sem verter lágrimas. — Bem sei — disse Mathieu com amargura. Naturalmente não te censuro nada.. com uma obstinação rígida.. musculosas. pensou Mathieu. sem conseguir arrancar se daquele mundo sinistro e agreste. «Sente se humilhada». Estou a dominar me desde esta manhã. já estava calma. o armário entreaberto. querido. um pouco curtas. a nudez satisfeita e peremptória. Ele sabia que ela tinha vontade de gritar. Bolas. para a flor culpada. Disse com uma voz decidida: — Desculpa. Dizes que vais da parte de Andrée? — Sim. tudo adquiriu um aspecto de impiedosa engrenagem: fora posta em movimento e girava no vácuo das suas frágeis existências. precisava de desabafar. — Acredito. com medo de acordar Madame Duffet. de soluçar. sabes? — disse de repente Marcelle com uma voz sensata. Um tipo grande. «Se fosse ela». Felizmente que pede pouco e eu tenho precisamente quatrocentos francos comigo. continuava a olhar para o ventre de Mathieu. mas não o faria. O quarto parecia ter se esvaziado repentinamente do fumo róseo.» Ele tinha vontade de vomitar. desastrado e nu que fizera uma asneira e sorria gentilmente para se fazer perdoar. «odeia me. E. que porcaria! A asneira é minha. havia grandes vazios entre os objectos. Agarrou bruscamente Marcelle pela cintura e apertou a contra ele. Ela só leva quatrocentos francos. — Ainda bem.ocupado em devorar o rosto cinzento. e tu é que pagas. — Tinhas direito a fazê lo — observou Mathieu.» Disse: — É exactamente o que me preocupa: o não levar muito. eram para a minha costureira.. Mathieu pensou: «Eu é que lhe fiz isto. mas ela espera. a cómoda. Parece que é uma mulher estranha. aconteceu. 24. Era um pesadelo grotesco.

Mas as pálpebras crispavam se lhe. De dia a mulher está na mercearia. Não quero que caias no açougue de urna velha tonta. Obedeceu e deitou se. Se não me agradar. — Mas porquê? Que é que lhe vais dizer? — Quero ver como é. Estamos nervosos de mais. mas que não pode ir já. Marcelle suspirava. de olhos cerrados. Mathieu sentiu se perturbado. Marcelle olhou o admirada. é aí. Desculpa.nessas famosas clínicas clandestinas onde cobram quatro mil francos. . Ele acariciou lhe os seios. J E A N P AUL SARTRE — Bem — disse Mathieu. — Querido. hoje isto não vai. por volta da meia noite. — Quando é que vais? — Amanhã. Dizem que só recebe de noite. não? Acho que ela não regula muito bem. no princípio ela não queria filhos. Digo lhe que vou da parte de Andrée. depois levantou se e enfiou as mãos nos cabelos. é de certeza um judeu. — Tu és bom. Além disso. Gostarias que te operassem em vez de mini. mas estava apreensiva. É engraçado. que tenho uma amiga que está atrapalhada. Amanhã vou ter com a Sara. Marcelle. Acariciou lhe a nuca. — Escuta. — Tira a tua camisa. Mas acrescentou com mais amabilidade: — No fundo tens razão. Marcelle gemeu levemente. não sei muito bem o que é que vais fazer. cercadas de intumescências febris. — Não podemos escolher — repetiu Mathieu. vê se luz por baixo de uma porta. querido. mas a mim dá me jeito por causa da minha mãe. Eu desejava as tuas carícias. Lembras te. não podemos escolher. não? Passou os lindos braços à volta do pescoço dele e acrescentou com um ar de resignação cómica: — Se perguntares à Sara. estamos nervosos de mais. — E então? Aonde é que vou. E súbita A mente ele pensou: «Está grávida. quase não dorme. Gostava das suas pontas gordas e duras. mas percebo que queres fazer qualquer coisa. passiva e gulosa. ela deve conhecer alguém. Entra se pelo pátio. Cantava lhe ao ouvido uma música gritante.» Sentou se. Mathieu beijou a. — Estás doido? Ela põe te na rua. querido. se não servir? — Podemos esperar dois dias. porque se constipou. e ela abandonou se completamente. — Eu vou lá — repetiu Mathieu. — Como queiras — disse com frieza. qualquer coisa. Era como uma mão morna. Marcelle parecia um pouco mais calma. — Eu vou lá. vai pensar que és um tipo da Polícia. não vais.

Depois de amanhã. Mas Jacques e Odette dormiam. — Sim.. «Uma única vez». como hei de fazer para não me esquecer?» Estava sozinho. Vou ver a velha. prometo. ao mesmo tempo. Sorria lhe. Daniel estava bêbedo ou embrutecido. Em oito dias tudo terá acabado. a sua carne culpada sentia se resguardada. não. querido. fazes me medo. — Não posso ver te amanhã à noite? Seria mais simples. nu e sem defesa. murmurou com ódio. Não estava só.— O mal está feito. ao menos? — És tola. Mathieu tinha enfiado a camisa e as calças. Marcelle não o abandonara. E eu não te repugno. Escondida pela roupa escura e pela noite. e Mathieu não a deixara: ele continuava no quarto cor de rosa. Se ao menos. à distância. mais incómoda do que um olhar. Mathieu levantou se. Não tens nada que te recriminar. trespassado.» Marcelle não se deixava convencer: ficara no quarto e pensava em Mathieu. — J E A N P A U L. se quiseres. E repetiu o a meia voz para convencer Marcelle: «Uma única vez em sete anos. Algo se desprendeu nos seus olhos fixos. Só aconteceu uma vez em sete anos. SARTRE Abriu a porta sem ruído e esgueirou se para fora com os sapatos na mão. Sem se poder defender. odiado em silêncio. não temos mais nada a temer. amanhã à noite. pudesse existir para outros A com aquela força. No patamar voltou se: Marcelle ficara sentada na cama. Não me explico bem. A consciência de Marcelle ficara lá cheia de desgraças e de gritos. pensava: «O estupor fez me isto. anonimamente. — Eu sei. Não era verdade. recomeçava a desabrochar sob os tecidos. pensava nele.. Parou. nem sequer esconder o ventre com as mãos. — Bom. enfiado até ao pescoço na sua roupa. — Querida — disse Mathieu com ternura —. mas era instintivo. — Não. que lhe rolaram à vontade nas órbitas: ela já não o contemplava e não tinha de lhe prestar contas dos seus olhares. Ivich nunca pensava nos . — É que sinto repugnância por mim mesma. Era intolerável ser julgado assim. — Não me queres mal? — A culpa não é tua. Telefona me amanhã para me dizeres o que há. querida. não lhe escaparia. e encontrava pouco a pouco o calor e a inocência. esqueceu se dentro de mim como um miúdo que faz chichi na cama. diante daquela pesada transparência. tenho a impressão de ser um monte de comida. Beijou Marcelle nos olhos.» Podia andar pelas ruas desertas. mas Mathieu teve a impressão de que ela lhe guardava rancor. «A almotolia! Vou trazê la amanhã.

ausentes. Boris talvez... Mas a consciência de Boris era apenas uma faísca difusa, não podia lutar contra a lucidez imóvel e sombria que fascinava Mathieu à distância. A noite amortalhara a maioria das consciências. Mathieu estava só com Marcelle dentro da noite. Um casal. Havia luz no Café Camus. O patrão empilhava as cadeiras; a servente fechava um dos lados da porta de madeira. Mathieu empurrou a outra porta e entrou. Tinha vontade de se mostrar. Simplesmente de se mostrar. Encostou se ao balcão. — Boa noite a todos. O patrão olhou o. Havia também um condutor que bebia Pernod, com o boné sobre os olhos. Eram consciências. Consciências afáveis e discretas. O condutor atirou o boné para trás, com um piparote, e olhou para Mathieu. A consciência de Marcelle abandonou a presa e diluiu se na noite. — Uma cerveja — pediu Mathieu. — Raramente aparece — disse o patrão. — Não é por falta de sede. — E verdade que temos sede. Parece que estamos no fim do Verão — disse o condutor. Calaram se. O patrão lavava os copos, o condutor assobiava baixinho, Mathieu sentia se contente porque eles olhavam no de vez em quando. Viu a sua cabeça no espelho: emergia, redonda e lívida, de um mar de prata. No Café Camus tinha se sempre a impressão de serem quatro horas da manhã, por causa da luz, uma névoa prateada que cansava os olhos, embranquecia os rostos, J E A N P A U L SARTRE as mãos, lavava os pensamentos. Bebeu. Reflectiu. «Ela está grávida. Incrível. Não parece verdade.» Parecia lhe, isso sim, chocante, grotesco como quando um velho e uma velha se beijam na boca: depois de sete anos, aquelas histórias não deviam acontecer. «Ela está grávida.» Tinha no ventre uma pequena maré translúcida que inchava docemente, que era corno um olho: «E desenvolve se no meio das porcarias que ela tem no ventre, e vive.» Viu um alfinete comprido avançando na penumbra. Um ruído mole e o olho estourou, furado; ficou apenas uma membrana opaca e seca. «Ela vai ver a velha, vai para o talho.» Sentia se venenoso. «Chega.» Mexeu se: eram pensamentos lívidos, pensamentos das quatro horas da manhã. — Boa noite. Pagou e saiu. «Que é que eu fiz?» Andava devagar, procurando lembrar se. «Dois meses...» Não se lembrava de nada, talvez fosse depois daquelas férias da Páscoa. Tomara Marcelle nos braços como de costume, com ternura sem dúvida, mais por ternura do que por desejo; e no entanto... «Um filho. Eu pensava dar lhe prazer e fiz lhe um filho. Não compreendi o que fazia. Agora vou

entregar quatrocentos francos a essa velha, e ela vai enfiar o instrumento entre as pernas de Marcelle, e raspar; a vida partirá como veio; e eu continuarei tão estúpido como dantes. Destruindo esta vida como a criei, não sabia o que fazia.» Riu secamente: «E os outros? Os que gravemente decidiram ser pais e se sentem genitores quando contemplam o ventre das suas mulheres... Compreenderão melhor do que eu? Fizeram no às cegas, ao acaso. O resto foi trabalho em câmara escura e em A gelatina, como a fotografia. Isto faz se sem eles.» Entrou no pátio e viu uma luz por baixo da porta. Era ali. Estava envergonhado. Mathieu bateu. — Quem é? — perguntou urna voz. — Gostaria de falar consigo. — Não é hora de vir a casa das pessoas. — Venho da parte de Andrée Besnier. A porta abriu se. Mathieu viu uma madeixa de cabelos amarelos e um nariz avantajado. — Que é que quer? Não venha como polícia porque não me apanha. Estou em ordem. Tenho o direito de deixar a luz acesa a noite inteira, se quiser. Se o senhor é inspector, mostre me o seu cartão. — Não sou da Polícia — disse Mathieu. — Tenho uma complicação e disseram me que podia procurá la. — Entre. Mathieu entrou. A velha vestia calças de homem e uma blusa com fecho éclair. Era muito magra, de olhos inexpressivos e duros. — Conhece Andrée Besnier? Encarava o com um ar furioso. — Sim — disse Mathieu. — Ela veio procurá la o ano passado, nas vésperas do Natal, porque estava atrapalhada. Ficou bastante doente e a senhora foi quatro vezes à casa dela para a tratar. — E depois? Mathieu olhava as mãos da velha. Eram mãos de homem, de estrangulador, ásperas, gretadas, de unhas curtas e pretas, com cicatrizes e cortes. Sobre a primeira falange do polegar esquerdo havia equimoses violáceas e uma crosta negra. Mathieu estremeceu ao pensar na carne tenra e morena de Marcelle. — Não venho por causa dela — explicou. — Venho por causa de uma das suas amigas. A velha riu secamente. — É a primeira vez que um homem tem o descaramento de se vir pavonear na minha frente! Eu não quero negócios com homens, compreende? O quarto estava sujo, em desordem. Havia caixotes em todos os cantos e palha no chão ladrilhado. Em cima de unia mesa, Mathieu viu uma garrafa de rum e um copo meio vazio.

— Vim porque a minha amiga mo pediu. Ela não pôde vir hoje e pediu me que me entendesse consigo. No fundo da sala via se uma porta entreaberta. Mathieu tinha quase a certeza de que havia alguém atrás dessa porta. A velha falou: — Essas pobres raparigas são muito tolas. Basta olhar para si para ver que é do género de tipo capaz de fazer um disparate, derrubar copos ou partir espelhos. E apesar disso elas confiam lhes o que têm de mais precioso. Afinal têm aquilo que merecem. Mathieu continuou correcto. — Gostaria de ver onde costuma operar. A velha deitou lhe um olhar de ódio e desconfiança. — Não faltava mais nada! Quem é que lhe diz que eu opero? Do que é que está a falar? No que é que se está a intrometer? Se a sua amiga me quiser ver, que venha. Com ela, só com ela é que me hei de entender! Ah!, queria ver, não? Ela também quis ver, antes de se pôr entre as suas patas? O senhor fez uma burrice. Pois bem, peça a A Deus para eu ser mais habilidosa, é tudo o que lhe posso dizer. Adeus. — Adeus, minha senhora — disse Mathieu. Saiu... Sentia se liberto de um peso. Dirigiu se vagarosamente para a Avenida de Orleães. Pela primeira vez desde que a deixara, podia pensar em Marcelle sem angústia, sem horror, com uma terna tristeza. «Amanhã vou a casa da Sara», pensou. II oris olhava para a toalha de quadrados vermelhos e pensava em Mathieu Dela rue. Pensava: «Um tipo às direitas.» A orquestra parara, a atmosfera estava azulada e as pessoas conversavam. Boris conhecia todos na salinha estreita; não era gente que vinha ali para se divertir: apareciam depois do trabalho, eram sérios e tinham fome. O negro que estava em frente de Lola era cantor no Paradise; os seis tipos com as miúdas eram músicos do Nénette. Certamente acontecera lhes qualquer coisa, uma inesperada felicidade, talvez um contrato para o Verão (na antevéspera tinham falado vagamente de uma boïte em Constantinopla), porque tinham encomendado champanhe e normalmente eram mais sóbrios. Boris também viu a loura que dançava vestida de marinheiro no Java. O magro, alto e de óculos, que fumava um charuto, era director de um cabaré da Rua Tholozé, que a Polícia tinha fechado. Dizia que o ia reabrir muito J E A N P AUL SARTRE em breve, pois tinha protecções na alta roda. Boris lamentava amargamente não ter lá ido, mas iria sem dúvida quando voltasse a abrir. O tipo estava com um pederasta que, de

longe, parecia agradável, um louro de rosto fino, que não era muito afectado e tinha um certo encanto. Boris não gostava dos pederastas porque andavam sempre atrás dele, mas Ivich apreciava os e dizia: «Esses, pelo menos, têm a coragem de não ser como toda a gente.» Boris tinha muita consideração pelas opiniões da irmã e fazia grandes esforços para suportar os tipos. O negro comia chucrute. Boris pensou: «Não gosto de chucrute.» Queria saber o nome do prato que tinham servido à dançarina do Java: um naco escuro que parecia bom. Havia uma mancha de vinho tinto na toalha. Uma bela mancha, dir se ia que a toalha era de cetim naquele lugar. Lola espalhara uma pitada de sal sobre a mancha, porque era cuidadosa. O sal estava cor de rosa. Não é verdade que o sal come as manchas. Tinha de dizer a Lola que o sal não come as manchas. Mas era preciso falar e Boris sentia que não podia falar. Lola estava ao seu lado, cansada e quente, e Boris não conseguiu dizer uma só palavra. Tinha a voz morta. «Eu seria assim se fosse mudo.» Era voluptuoso, a voz flutuava no fundo da garganta, suave como algodão, e não podia sair, estava morta. Boris pensou: «Gosto muito de Delarue.» E regozijou se com isso. Tinha tido muito mais prazer se não sentisse, de todo o seu lado esquerdo, das têmporas à cintura, que Lola o olhava. Era por certo um olhar apaixonado. Lola não sabia olhar de outro modo. Era um pouco incomodativo porque os olhares apaixonados pedem, como retribuições, gestos amáveis e sorrisos; e Boris não era capaz do menor movimento. Estava paralisado. Só que não tinha muita importância; não tinha obrigação de ter percebido o olhar de Lola; adivinhava o, mas isso era da sua conta. Assim como estava, com o cabelo caído sobre os olhos, não via nem um bocadinho de Lola e podia muito bem imaginar que ela olhava a sala e toda aquela gente. Não estava com sono, sentia se à vontade e satisfeito porque conhecia todos na sala. Viu a língua rósea do negro. Boris estimava aquele negro. Uma vez, o negro descalçou se, pegou numa caixa de fósforos com os dedos do pé, abriu a, tirou um fósforo e acendeu o, tudo com os pés. «Aquele tipo é formidável», pensou Boris com admiração, «toda a gente devia saber servir se dos pés como das mãos.» Doía lhe o seu lado esquerdo de tanto ser olhado. Sabia que se aproximava o momento em que Lola iria perguntar: «Em que estás a pensar?» Era absolutamente impossível atrasar a pergunta; não dependia dele; Lola havia de a fazer a hora certa, como uma fatalidade. Boris tinha a impressão de gozar um bocadinho de tempo infinitamente precioso. No fundo era agradável. Boris via a toalha, via o copo de Lola (Lola tinha ceado, nunca jantava antes do seu número de canto). Bebera Château Gruau,

tratava se bem, permitia se uma porção de pequenos caprichos porque andava desesperada com a velhice que a ameaçava. Sobrara um resto de vinho no copo, dir se ia sangue empoeirado. O jazz pôs se a tocar // the moon turns green e Boris perguntou a si próprio: «Saberei cantar esta música?» Seria agradável passear pela Rua Pigalle, ao luar, assobiando uma melodiazinha. Delarue tinha lhe dito: «Você assobia como um porco.» Boris riu se por dentro e pensou: «O estupor!» Transbordava de simpatia por Mathieu. Olhou de lado sem virar a cabeça e reparou nos olhos cansados de Lola por baixo de uma sumptuosa madeixa de cabelos ruivos. No fundo, suporta se sem grande esforço um olhar. Bastava habituar se àquele calor peculiar que vem queimar o rosto quando se sente que alguém nos observa de modo apaixonado. Boris entregava se docilmente aos olhares de Lola, o corpo, a nuca magra, o perfil diluído que ela tanto amava. Assim, por esse preço, podia abstrair se profundamente em si mesmo e ocupar se com os pensamentos miúdos e agradáveis que nasciam dentro dele. — Em que é que estás a pensar? — perguntou Lola. — Em nada. — Está se sempre a pensar em qualquer coisa. — Não pensava em nada. — Nem mesmo se gostas do que estão a tocar ou se gostarias de aprender a sapatear? — Sim, em coisas como essas. — Estás a ver? Porque é que não me dizes? Quero saber tudo o que pensas. — Essas coisas não se dizem. Não têm importância. — Não têm importância? Parece que só te deram uma língua para falar de filosofia com o teu professor. Ele olhou e sorriu: «Gosto dela porque é ruiva e parece velha.» — Que miúdo estranho — disse Lola. Boris piscou os olhos e pôs um ar suplicante. Não gostava que falassem dele; era tão complicado. Perdia se nessas divagações. Dir se ia que Lola estava colérica, mas era simplesmente porque o amava com paixão e se atormentava por causa dele. Havia momentos assim, em que era mais forte do que ela, em que se aborrecia sem motivo, se angustiava, contemplava Boris perdidamente, não sabia o que fazer dele e as mãos agitavam se lhe sozinhas. A princípio, Boris estranhara, mas aos poucos habituara se. Lola pousou a mão na cabeça de Boris. — Queria saber o que tens aí dentro — disse. — Faz me medo. — Porquê? Juro que é inocente — observou Boris a rir.

talvez. Tu dizes duas vezes criança em Lês Ecorcbés. Tinham tanta vontade de me ouvir como de se enforcar. mas deve seguramente andar pêlos quarenta. era precisamente o mesmo ar que tinha quando cantava Lês Écorchés. tão branca que não parecia ser verdadeira. mas não sei como explicar. Sarrunyan teve de mandá los calar. muito simpática. — De quê? — És uma criança. disse consigo mesmo. resignado. Além disso. Mesmo assim aplaudiram quando entrei. penso que estás bem comigo. com satisfação: «É engraçado como ela parece velha. vem assim. cada um dos teus pensamentos é uma pequena fuga. Teve vontade de beijar o rosto atormentado de Lola. que tinha estragado a sua vida e ficara só.. não há ninguém. — Tenho vergonha — disse Lola. É uma linda palavra na tua boca. naquele instante. e. — Não levantes a minha madeixa — disse Boris. Fiquei chateada. Lola suspirou e Boris pensou. . Ele disse: — Divirto me quando dizes criança. pergunto a mim própria para onde fugiste. desde que o amava: «Não posso fazer nada por ela».» Gostava que as pessoas que tinham afeição por ele parecessem velhas. acariciou a ligeiramente e largou a sobre a mesa. de repente. sabes. aqueles lábios enormes de cantos caídos de que ele tinha gostado. A voz era pesada e sombria como uma cortina de veludo vermelho.— Sim. — Não gosto que me vejam a testa. Despenteou lhe os cabelos. — Estás aí muito terno — disse Eola —. espontaneamente.. Ele pegou lhe na mão. Só por isso iria ouvir te. mais só ainda. pensou que ela estava acabada. eu nada posso. que não se revelava a princípio porque todos tinham a pele curtida como couro. Achava a. Lola perguntou timidamente: — Tu não te chateias comigo? — Nunca me chateio. produziram lhe o efeito de uma nudez húmida e febril no meio de uma máscara de gesso. Achava isso reconfortante. Havia muita gente esta noite? — Uma cambada vinda nem sei de onde. Desde que os sentira na boca. O seu rosto pálido estava desfigurado por uma generosidade triste. dava lhe uma certa segurança. não diz a idade. Agora preferia a pele de Lola. tinha a sensação de estar a ser indiscreta. dava Ihe uma espécie de fragilidade terrível. E que tagarelava sem parar. Avançava os lábios. — Estou aqui. Lola olhava o bem de perto.

— Os meus pais saíram da Rússia em 17. hesitam. E depois. mas há muitas maneiras de mostrar que se gosta e Mathieu já poderia ter tido um gesto que revelasse a sua amizade. Boris — disse bruscamente Lola —. não sabem como se hão de conduzir. noutro dia. Mas não hoje. seguram a cadeira da mulher enquanto ela se senta. — Oh!. Mathieu era indiferente e brutal. «tem vergonha de me amar porque é mais velha do que eu. e Lola apressou se a acrescentar: — Sabes. É delicado. curvam se. Prometeu a si próprio dizer lhe de uma vez para sempre que ela nunca o aborrecia.» Era mais de acordo com a moral. — É engraçado que tu não saibas russo — concluiu Lola. — Já sei. tinha eu três meses. eu canto para viver. pensou Boris. Naturalmente preferia a companhia de Mathieu. também vivias do canto. sentia se justificado. um tem de ser mais velho do que o outro. Mas logo a cabeça de Boris se . pensou Boris. «Ela é extraordinária». Se os vis A sés chegar cheios de sorrisos. mas é tão russo como eu. — Talvez ele tenha aprendido russo. Quando Boris estava junto de Lola. aquele estranho sorriso envergonhado e terno. não. o tipo que canta depois de mim. Gente que aparece porque precisa de retribuir um convite e não pode receber em casa. Mathieu não era assim com Ivich. — Desgosta me cantar para estes idiotas. Acho isso muito natural. — Se imaginasse que iria acabar assim. «Ela pensa que me aborrece».— É normal. sabem orientar se e o seu amor é consistente. tinha a aprovação da própria consciência. Boris perguntava a si próprio se Mathieu lhe teria amizade. estou farta — disse Lola. Se ambos são jovens. Claro que entre homens não deve haver sentimentalismos. o novo. Boris recordou de repente o rosto de Mathieu num dia em que ele ajudara Ivich a vestir o casaco. — Mas quando cantavas no music hall. nunca teria começado. Houve um silêncio. O sorriso de Mathieu: naquela boca amarga que tanto agradava a Boris. têm a impressão de andar a brincar aos jantarzinhos. falei com ele esta noite. porque Mathieu não era uma simples mulher. São sabidas. Um homem é mais interessante. — Não era a mesma coisa. sentiu um aperto desagradável no coração. atrapalhamo los e quando surgimos medem nos dos pés à cabeça. Boris não poderia amar uma mulher da sua idade. Mathieu explicava lhe coisas. — Mas tu — disse Lola — poderias dizer me se ele tem boa pronúncia. Com as pessoas maduras. Evidentemente. sonhadora.

porque é que gostas tanto dele? — Não sei. tu estás aí. Lola sorriu tristemente. Lola. — Ei lo a sonhar de novo — murmurou Lola. — Olha para mim. Para mim um tipo simpático é um amigo do género do Maurice. porque já me disseste que não podes suportá lo. de que eu não desgosto. E um amigo notável. — Por isso mesmo. mas incomoda me falar te dele. mas depois é preciso não o ver beber com aquela boca esquisita de pastor protestante. é impressão minha. Ela olhava o com ansiedade. Não posso explicar. Diz me que ele parece inteligente. Quando o vejo agarrar no copo de uísque. — Para ti é. engana as pessoas. mas ele não põe as pessoas à vontade porque não é carne nem é peixe. está bem. Explica me. mas é que ele não é operário. como se acabasse de fazer força. Repara nas mãos dele. Só não percebi o que é que viste nele de extraordinário.» — Acho o simpático — disse com prudência. mais três palavras e ela vai começar a tossir. Enfim. — No que é que estás a pensar? — Em Delarue — disse Boris. Tremem sempre ligeiramente. Quando eu estou contigo pouco me importa que seja aqui ou ali. Lola aproximou dele o seu belo rosto arruinado. já te vi com Delarue. — Não. — É o que dizes sempre. aborrecido. parecia implorar. não é contentamento. — Não é a mesma coisa. um tipo assim agradável. Lola teve um sorriso contrafeito. Não seria exactamente essa palavra que eu escolheria. eu não te disse que não podia suportá lo. querido. que é culto. Não te faças parvo. tonto. mas não é simpático. — Não? — indagou Boris surpreso. — Porque pensas em Delarue? Gostarias de estar com ele? — Estou contente de estar aqui. sabes muito bem o que é isso. não sabes onde é que te hás de meter quando ele aparece. — Estás contente de estar aqui ou de estar comigo? — E a mesma coisa. — Não poderias de vez em quando pensar também um pouco em mim? — Não preciso de pensar em ti. Não é bem assim. eu só quero compreender. Aliás eu nunca me sinto contente quando estou contigo. Boris pensou: «Não é verdade.encheu de fumo e ele não pensou em mais nada. — São mãos grosseiras de operário. há qualquer coisa de duro e irónico. não para mim. — Sim. — Olha como ele se defende! Mas. . — Que é que têm as mãos? Eu gosto delas.

que anda sempre tão mal arranjado. professor.acho o austero e. — Tu consegues. tu. nem de beber. pastor. pensou Boris. no metro. por exemplo. não é? — Eu sei escolher o que me convém — disse Boris com modéstia.» Já não a sentia. Compreendo que se possa ser uma coisa ou outra. «Que complicação». Disse para si próprio que lhe seria mais fácil mostrar se terno com Lola se ela não insistisse naquelas expressões de humildade. nem de dormir com uma mulher. se lhe observarmos os olhos. Mas sentia se tranquilo. Quanto a deixar que uma mulher já madura lhe acariciasse a mão em público. Há muito que ele pensava estar predestinado a isso. Mesmo quando estava só. não sabia parar quando começava. vê se logo que é culto. Explicou: — Quando as pessoas não se preocupam em andar bem vestidas. que nunca as achas muito elegantes. Boris olhou a mão que saltava e pensou: «Não parece minha. deve reflectir sobre tudo. por exemplo. quando se ensina: eu tinha um professor que falava como ele. nem de comer. mas digo te francamente que me repugnava que um tipo assim me tocasse. — Compreendo te muito bem — continuou Lola conciliadora —. Boris tinha a certeza de que ela se mortificava. O que é ridículo é querer dar nas vistas e não o conseguir. Lola respirou fundo. e isso irrita me. As pessoas que gostavam dele não eram obrigadas a gostar umas das outras. uma voz cortante de senhor que nunca se engana. as pessoas olhavam no escandalizadas e as costureirinhas que saíam do trabalho riam se lhe na cara. Isso divertiu o e ele ergueu um dedo para a fazer viver. e Boris achava natural que cada uma delas o tentasse afastar das outras. um bruto ou uma pessoa distinta. pensou Boris com irritação. Eu sei que é a profissão que exige isso. deve haver. parece uma filho. O dedo roçou a palma de Lola e ela olhou o com gratidão. Lola disse de repente: — Não me chegaste a dizer porque o achavas tão «bem». não o vês com os meus olhos. Pensou que estava com uma camisola azul de gola alta com o ponto grosso e ficou satisfeito. estás influenciado. bem o percebo numa data de coisas. devia gostar . mas não as duas ao mesmo tempo. que é o tipo que não gosta de nada simplesmente. Como ele foi bom professor. não te incomodas quando se trata dele. «É isto que me intimida». que és tão severo com a maneira como as pessoas se vestem. Boris estava entorpecido e passivo. que usa gravatas que o empregado do meu hotel não usaria. é como a voz dele. não o perturbava de forma alguma. Não sei se há mulheres a quem isso agrade. não gostaria de sentir sobre mini essas mãos de lutador e ser trespassada pelo seu olhar glacial. Ela era assim. não tem importância que não se seja elegante. mas no fundo. mas já não estou na escola. uma linda camisola. Lola pegara lhe na mão e fazia a saltar entre as suas.

mas não podia fazer nada. também. continuando a pensar em voz alta. Era um sacrilégio intolerável e ele desatara a soluçar. tinha se a impressão de que se iam partir. obstinadamente. E se as lágrimas lhes subiam aos olhos. deixara cair a colher. — Nem um bocadinho a mim? — Ah! A ti sim. os velhos eram amargos. Boris não respondeu. estás a chatear me.» Boris vira um corpo alto curvar se com rigidez. Se se baixavam. ia buscá la três vezes por semana à saída do Sumatra. era uma questão de génio. — E tu achas bem não se prender a coisa nenhuma? Tu não te prendes a nada? — A nada. Lola pareceu infeliz e Boris voltou a cabeça. naturalmente apreciava Lola por ser tão apaixonada. E depois armava se em heroína. e ele achava isso estúpido. e Descartes também o dizia. — Isso não o impede de não se prender a nada. — Delarue tem paixões — disse. Desde então. qualquer coisa como o choro de Deus sobre a maldade do homem. de outro um certo temor religioso. se davam um passo em falso e se se estendiam no chão. Lola era urna vítima. Sob outro ponto de vista. — Eu não sou livre? — perguntou Lola. Contemplava a: o ar estava azulado em volta dela e o rosto era de um cinza pálido. como em Lola naquele momento. — Diz lá porquê? J E A N P AUL SARTRE — Porque é um homem às direitas. Tudo aquilo não a favorecia. Boris conversara com Ivich. só estou presa a ti. Uma vez. mandaram no apanhá la e ele recusara se. Mathieu explicava lhe que as pessoas deviam ter paixões. de um lado a vontade de rir. Lágrimas de adulto eram uma catástrofe mística. e era muito comovente. como se a sua vida estivesse sempre em jogo. uma cabeça calva. e então dormia em casa dela. não tinha sorte. Mas dependia da maneira como se encarava a coisa: se se faz para se destruir. — Pois então eu também sou livre. Mas os olhos permaneciam febris e duros. eu é que vou apanhá la. inesquecível: «Pois bem. por desespero ou . ficava se colocado num dilema. Fazia tudo o que dependia dele. Oh! — gemeu Boris —. De idade. Era fiel a Lola. e ambos tinham concordado que estava certo. provavelmente. Quanto ao resto. Boris considerava os adultos como divindades volumosas e impotentes. quando Boris era pequeno. Ouvira um ranger de ossos. — Não é bem a mesma coisa. É demasiado difícil de explicar. Então o pai dissera lhe com uma atitude majestosa. Ele não se prende a coisa nenhuma.disso. Até certo ponto estava certo. Não gostava de a ver quando ela tinha aquela expressão. não sabia onde se enfiar. É livre. telefonava lhe sempre. Ela mortificava se.

no Sumatra. E penso que ele também se está nas tintas para a mulher. ele ou eu? Ele está sossegado.para afirmar a própria liberdade está certo. E ainda por cima essa ligação de que me falaste. Acrescentou: — Estás muito agarrada a mim. Fica com ela porque precisa de dormir com alguém.. Lola parecia ausente. Apertou a nos braços e respirou fortemente. — Sempre a mesma mania de colocar Delarue acima dos outros. Mas Lola fazia o com um certo abandono. — disse Lola sacudindo a cabeça. vive como um funcionário.. Ele nunca se deixaria prender assim. por princípio. vivo no hotel. Dançaram. Boris pensou que ia vê lo de perto e ficou contente. Ao passo que Mathieu é o voluntariamente. — Fazes me rir — disse Lola secamente. pergunto: quem é mais livre. mas era pesada. aposentação garantida. — Vamos dançar. Então. O pederasta levantara se e fora convidar a dançarina do Java. E achas que ele não gosta da tua irmã? Bastava olhá lo. Lola pouco se importava com a liberdade. Como liberdade não há melhor! Eu só tenho os meus trapos. — Não é a mesma coisa — repetiu Boris. Lola riu com sarcasmo e a cabeça de Boris repentinamente encheu se de fumo. tem ordenado fixo. — Não consigo compreender. Dançava A bem e tinha um perfume gostoso. — Da Ivich? Magoas me. porque é que não é a mesma coisa? — Tu és livre sem querer — explicou Boris. Ela abriu os olhos e olhou o . nem sequer sei se serei contratada no Verão. Pensou: «Ivich deveria aprender a sapatear. bem instalado. estou muito agarrada a ti? Estúpido. — É assim. Aqui entre nós. James Infirmary. Lola fechava os olhos e ele ouvia a sua curta respiração. Entusiasmara se nessa noite porque queria vencer Mathieu no seu próprio terreno.» Depois não pensou mais nada por causa do perfume de Lola. só merece elogios. ele teve vontade de a fazer sofrer um pouco. no outro dia. aliás ávido. essa mulher que não sai de casa. e Boris teve vontade de dançar. — Tenho vontade de te matar quando ficas assim. — Está se nas tintas para a casa? Vive lá como viveria noutro lugar qualquer. racionalmente. Passou se algum tempo. Lola pesava nos seus braços. o jazz tocava agora St. Boris pensou que preferia dançar com Ivich. sozinha. — Ah! — gritou Lola magoada —. está dentro dele. A liberdade dele não se vê. Nem sequer estava intoxicada. Esta dançava admiravelmente bem. J E A N P AUL SARTRE Ele estava irritado.

podes dizê lo. Um rosto . Boris viu com satisfação que o pederasta se aproximava deles dançando. Os olhos de Lola ficaram vermelhos. Pôs se a olhar para Lola e bruscamente disse lhe: — Lola. faz me sentir que te amo!» Mas Lola não dizia nada. — É verdade. — Mas deverias esperar que isso acontecesse. bem como em torno da boca: as narinas eram finas como se estivessem agonizantes. J E A N P AUL SARTRE Lola não respondeu. mas sob os olhos de porcelana havia rugas. A maior parte das vezes. pensou. — Mas. era horrível. estava sozinha agora. por exemplo — porque nunca tinham tido adolescência. Se não é espontâneo. meu tonto. — Desagrada te quando digo que te amo? — Não. e a música recomeçou. — Compreendo — disse Boris com seriedade. — Querido. Mas quando o pôde examinar de perto. Sorria vagamente. e o seu rosto fechara se sobre a sua felicidade. Acho que essas coisas não se dizem. baixara as pálpebras. Aguentava até aos vinte e cinco anos. mal lhe escondiam o crânio. era a sua vez. «Já foi jovem». se assemelhavam a um halo dourado. mas não deves perguntar me se te amo. — Porquê? Não é verdade então que gostas de mim? —É — Porque não dizes isso espontaneamente? É sempre preciso que eu to pergunte. de longe. pisou os pés de Boris. Havia tipos que pareciam feitos para ter trinta e cinco anos — Mathieu. se isso te apetece.. é tão raro perguntar te alguma coisa.atentamente. e os cabelos. Mas há momentos em que é o teu amor que eu quero. Disse apenas: — Querido. — Porque não me ocorre. basta me olhar e sentir que te amo. Tinha grandes olhos azuis de boneca e uma boca infantil. fazes me dizer asneiras. Boris contemplou com horror aquela velha criança sem barba. Amo te. Pode ter se um grande sentimento por alguém e não ter vontade de dizer nada. Depois. Ele teve vontade de gritar: «Aperta me com mais força. se tu próprio dizes que não te lembras disso senão quando eu to pergunto! Boris riu. olha para mim. Mas quando um tipo fora realmente jovem ficava marcado para o resto da vida. — Gostas de mim? — Gosto — disse Boris com uma careta. Conservava no rosto o verniz da juventude e envelhecera por baixo. Pararam e aplaudiram. desiludiu se: tinha pelo menos quarenta anos. não tem sentido. — Porque é que fazes essa cara? — Porque me perturbas. que..

sim. Tirou a chave do cacifo e subiram em silêncio. Lola chamou o empregado e pagou. sentir os próprios gestos secos e quebradiços como se fosse de madeira morta. que Lola mandara ampliar. pois não? Não gostas de mim. mas sentia se sinistro. O quarto estava nu. querido? Queres um comprimido? — Não. e cumprimentaram no. «Isto ficará».. com dores de cabeça. és tonta — protestou Boris molemente. que é que se passa? J E A N P AUL SARTRE — Estou exausto. Não deve ser irremediável. — Não estás doente. não. — Parece que me tens raiva. nunca pensava nessas coisas. «Tenho ainda cinco à minha frente». querido. «Depois estoiro os miolos. pensou Boris. «Eu também. sentia a cada passo a mocidade escorregar lhe entre os dedos. A um canto uma mala coberta de etiquetas e na parede do fundo uma fotografia de Boris. Saíram. Não me queres mal. presa com punaises.» Olhou para Lola com ódio. — Estás zangado. ao ralenti. viver devagar. Boris.» Teve vontade de rasgar a fotografia. «Ela mata me. Lola agarrou lhe no queixo e levantou lhe a cabeça. . «quando eu for uma ruína. Encontraram o maestro Piranese. E cada instante vivido usava um pouco mais a sua mocidade. Deve ser um mal entendido. Aqui hei de parecer eternamente jovem. porque assim eu poderia explicar te. Mas que é que eu fiz? Devias dizer. — Estás sinistro — disse Lola —.» Não se poder ver ao espelho. Por favor. Boris sentiu se abandonado e o pensamento desagradável invadiu o de novo: «Não quero. Voltaram para a mesa.. não quero envelhecer. Era uma fotografia de passe.calmo e deserto. Pôs a capa de veludo sobre os ombros. A Rua Blanche estava cheia de tipos velhos e duros. Até aos vinte e cinco anos. — Nada. Boris já não pensava em nada. talvez ganhasse alguns anos. talvez. do Chat Botté. Lola mostrou se inquieta.» — Que é que tens? — perguntou Lola. já está a passar. Que é que te fiz? — Não tenho nada. Agora era sinistro. — Vamos. pensou.» No ano passado estava sossegado. Lola morava num hotel da Rua Navarin. Disse: — Vamos para casa? — Vamos já. Mas para isso era preciso que não me deitasse todas as noites às duas horas. «Se ao menos pudesse poupar me. As suas pernas pequeninas mexiam se sob o ventre rechonchudo. vá ter barriga.» Já não podia suportar aquela música e aquela gente.

As pernas de Lola puseram se a tremer e Boris perguntou a si próprio se não iriam estender se ali no tapete. a pele verdadeira resistiu por baixo.» Já não a odiava. Lola cobriu lhe o rosto de beijos. Mas ele não . envolvia a nos seus braços e protegia a contra a velhice. elástica. uma cabeça de Medusa. Boris DADE DA RAZÃO via lhe as axilas raspadas e marcadas de pontinhos azulados. feliz.» E apertou a mais fortemente. brancos como os cabelos de uma velha. Pensou: «E engraçado. — Magoas me. Estava completamente calmo. Houve um redemoinho na sua cabeça e ela esvaziou se rapidamente.diz me o que se passa. pareceu lhe segurar a velhice nas mãos e que devia apertá la com toda a força até a abafar. ela cheirava bem. Arquejava um pouco.. «Preciso de falar com Delarue. Detestava que Lola entrasse enquanto se despia. — Mas não se passa nada! Pôs os braços em volta do pescoço de Lola e beijou a na boca. rígido e magro. de certeza que já estava nua. Pensou: «São os seus últimos dias de sol. como aliás todas as ideias. Quero te. Estava perturbado. Vou despir me à casa de banho. todo músculos. Ele era agora apenas aquela mão sobre uma carne de seda. Ela inclinou se para trás e ele estava fascinado por aquela cabeça pálida de lábios carnudos. O desejo aspirava lhe as ideias sombrias. fria como uma luva de camurça. acariciante e morta. porque não tinham forças para se afastar. Boris sentiu que desejava Lola e ficou satisfeito. Boris respirava o hálito perfumado e sentia de encontro aos lábios uma nudez húmida. Entrou e fechou a porta à chave. — Ah! — murmurou Lola. Boris e Lola permaneceram de pé naquele mesmo lugar em que o desejo os apanhara. — Dá me o pijama. Lola estremeceu. «Uma destas manhãs ela ir se á abaixo de repente. Depois teve uns momentos de sono e desvario: olhou os braços de Lola. Lola atirou a capa sobre a cama e os seus braços apareceram nus. estava um pouco chocado. Apertou Lola contra o peito e sentiu a doçura espessa dos seios. Crispou levemente a mão e a seda deslizou lhe sob os dedos como uma pele fina. sentia se nela. Lavou o rosto e os pés e divertiu se a pôr talco nas pernas. não sabia exactamente no que pensava.» Do outro lado da porta ela esperava o.. Boris desenvencilhou se. Tinha a mão na anca de Lola e sentia a carne através do vestido de seda.» Tinha a cabeça pesada e no entanto vazia. Dir se iam espinhos profundamente enterrados. minúsculos e duros. — Como tu me apertas — gemeu Lola. enrolaram se no pescoço de Boris.

— Tira o pijama — suplicou Lola.. Boris sentiu se pesado e trágico. «não vou perder a cabeça como das outras vezes. terrível e pesada. e espiava o através dos olhos semicerrados. Não demorou muito a gemer e Boris pensou: «Pronto. Mas não viu um só sobre o esmalte branco. Daí a um bocado. pois sobre o prédio em frente tinham colocado um anúncio luminoso. tão doce. junto das coxas de Lola. Vestiu o pijama. pensou com irritação. Os lábios escuros. mas Boris gostava deles assim: eram seios de alguém que vivera. ia bem.. «Em todo o caso». Boris riu. Apagou a luz. deslizar até ao fundo de uma sensualidade pesada. inerte. Era bela. Ia ser necessário. Ele deixou durante algum tempo a mão pender. que parecia ter conservado o vestido de seda. quando o primeiro touro entrou na arena. Ela estendeu lhe os braços. preguiçosa e temível. Ia acontecer alguma coisa. Ela parecia sofrer.» Uma onda pastosa subia lhe dos rins à nuca. — Não — disse Boris. mas antes era impossível não ter medo. por causa do maldito anúncio luminoso. cheio de odores nus. Era um ritual. vou perder a cabeça. de gosto forte. alguma coisa de inevi A tável. com um triângulo de pêlos ruivos. cerrando os dentes. — Vem — disse Lola. Todas as vezes Lola lhe pedia que tirasse o pijama e Boris recusava. Os seios eram um pouco moles. Uma vez que começava. Boris aproximou se da cama e encarou a com um misto de perturbação e de desprazer.J E A N P AUL SARTRE tinha pressa. inteiramente nua. atraindo o a ela —. Mas pareceu lhe repentinamente que o erguiam pelo pescoço como um .» Penteou se cuidadosamente por cima da bacia para verificar se lhe estavam a cair os cabelos.. era o que Lola não compreendia. As mãos de Lola enfiaram se por baixo do casaco e começaram a acariciá lo devagar. Era uma Lola diferente. Ela tinha a pele doce. como a morte sanguinolenta do touro. uma coisa terrível. Não adiantara apagar a luz. Boris deitou se perto de Lola e pôs se a acariciar lhe os ombros e os seios. abriu a porta e entrou no quarto. Beijaram se. Lola pegou na mão de Boris e pô la sobre o tufo de pêlos ruivos. exactamente como em Nimes. agora. pálido dentro do vermelho. adoro te. O quarto ficou inteiramente vermelho. e Boris era obrigado a recusar às vezes. Tinha sempre umas exigências estranhas. vem. Vem. Depois levantou a docemente até aos ombros. O corpo sobre a coberta azul era prateado como a barriga de um peixe. Lola estava estendida na cama. Um corpo nu. — Não quero — murmurou Boris. — Fazes me cócegas. continuava a ver o rosto de Lola. os olhos eram duros. — Espera — disse Boris.

No entanto. Tenho a impressão de que me escolheste por causa disso. Não se sabe o que se faz. Boris ficou aniquilado. deitado sobre a areia. Não é bem repugnante. — Boris. ruídos de fonte. com a cabeça no travesseiro. ia encontrar se em pleno deserto. É fisiológico. Estou sozinha! Boris acordou sobressaltado e encarou a situação com nitidez. — Não sei — disse Lola. O rosto de Mathieu surgiu de repente: «É engraçado». Se não fosse assim gostarias de um tipo mais velho do que eu.» Repetiu com asco: «Fisiológico. Boris já começava a ver girarem as estrelas. — Amo te apaixonadamente.coelho. sentimo nos dominados. É tudo o que sei. tenho de pensar em ti o dia inteiro. Lola saltou para a cama e tomou o nos braços. és tudo o que eu tenho. Boris tentou imaginar que era um alucinado sedento. É repugnante o amor. A voz era estranha dentro da noite vermelha. Ela abraçou o furiosamente. não me faças mal. tens de me amar. é porque és orgulhosa. com um capacete de cortiça sobre os olhos. serei casto. eu só penso em ti. Acariciou lhe os cabelos e houve um longo momento de silêncio. meu amor. — Querido — disse Lola. será a mesma coisa com todas. Agitava os braços como se .» Lola arranjava se para dormir. e adormeceu. só te tenho a ti. querido. pensou. Ouviu Lola abrir a porta da casa de banho e pensou: «Quando romper com ela. não desejaria dormir com um tipo. O ruído da água era agradável e inocente. já não quero mais histórias. Se penso na minha vida. a luz vermelha. e depois. Boris ouviu o com prazer. mas tenho horror a perder a cabeça. Ela fê lo deslizar suavemente para o lado e saiu da cama. «prefiro os homens às mulheres. O quarto. nunca me faças mal. Os alucinados sedentos do deserto ouviam ruídos semelhantes. Não sejas cruel. O ar era quente e denso.» Ficou contente: «Hei de ser um monge quando deixar Lola. Estou nas tuas mãos. — Se estás sozinha é porque gostas — afirmou com voz clara —. que adianta escolher uma mulher. quando Lola se pôs a falar. nunca me sinto tão feliz como quando estou ao lado de um homem. o barulho da água eram alucinações. Mathieu caminhava pelo meio da rua sob um céu de um azul límpido. 111 v. erão. Estou sozinha.» Sentiu se seco e puro. Eu sou demasiado jovem e não te posso impedir de estares só. tenho vontade de me atirar à água. e abandonou se sobre o corpo de Lola e tudo girou num estremecimento vermelho e voluptuoso. Boris ainda a ouviu dizer «Adoro te».

Não o via há seis meses. Era um obstáculo. Uma direcção. O homenzinho voltou a sorrir amavelmente. entre. — Delarue — respondeu Mathieu sem ligar. uma vela ardia diante dela: uma cabeça ruiva de braquicéfalo. — Quem é? — perguntou Sarah. — Entre. havia uma amizade agonizante entre eles. de esforços pacientes. Mathieu debruçou se no corrimão. Tinha sonhado que era um assassino e um resto do sonho ficara lhe nos olhos sob a luz ofuscante. O Verão dos outros. Sarah dar lhe ia a direcção. de olhos claros. mulheres arranjavam as casas. um dia que iria arrastando até à noite. Mathieu fechou os olhos. sorridente. de quimono amarelo. Não precisava de ouvir o vergonhoso segredinho de alcova que Mathieu ia confiar a Sarah. Ela está lá em baixo. O Verão. via lhe a cabeça sob os cabelos ralos e espetados. Ou Jacques. Vai ficar muito satisfeita. Para elas o dia também ia começar. Sarah estava sentada no sofá. era um alemão emigrado. já o vira várias vezes no Dome sorvendo deliciado o seu café com leite ou inclinado sobre o tabuleiro de xadrez. de trabalho manual. Mathieu reconheceu o.. Dinheiro. no estúdio.» Depois. chocando as peças com os olhos e lambendo os lábios grossos. Que dia? Mathieu estava ligeiramente ofegante quando tocou. Mathieu subiu a pé. Era ali. um universo sadio. mas não sentia prazer nenhum em encontrá lo ali. estreito e obstinado de revoltas e violências. de disci plina. Por trás das portas fechadas. Tinha as orelhas roxas. 16. Parou no patamar interno. com uma toalha apertada em volta da cabeça. um enterro ao sol.abrisse pesadas cortinas de ouro. E Brunet trazia consigo o ar de fora. — Desejava falar com Sarah — disse Mathieu. tinham muita coisa a dizer um ao outro. Ia ser preciso correr por todos os lados. Um homenzinho calvo. ofuscado pela luz intensa que entrava pelas grandes janelas empoeiradas. Fê lo entrar no vestíbulo e desapareceu a correr. pensou Mathieu contrariado. aborrecido: «Digo J E A N P AUL SARTRE isto cada vez que subo uma escada. Sarah morava no sexto andar e naturalmente o elevador não funcionava. — Weysmuller — disse com firmeza. Doía lhe a cabeça. Mathieu empurrou a porta envidraçada e penetrou no estúdio de Gomez.. Para ele um dia sombrio ia começar. Daniel emprestaria o dinheiro. O homenzinho pôs se sério e bateu os calcanhares. Rua Delambre. Sarah levantou a cabeça e sorriu. . Pensou: «Devia fazer ginástica. «É Brunet». De avental.» Ouviu uns passos miúdos. abriu.

Perdoara lhe tudo. E acrescentou encantada com o prazer que esperava dar: — Sabe quem está cá? Mathieu voltou se para Brunet e apertou lhe a mão. Um dia soubera da queda de Irun no Paris Soir. — Sempre o mesmo. velho traidor social — disse Brunet. Matara outros homens. Não parecia muito amável. Via de cima aquele rosto achatado e sem graça. Mas aquilo não. O quadro e a gravura representavam a Senhora Stimson. Partira para matar outros homens. — Sente se ao pé de mim — disse Sarah com avidez. Apesar de tudo. como se fosse comprar cigarros ao Dome. Está em Barcelona. e mais abaixo os seios pesados e moles. Depois descera sem chapéu nem sobretudo. Não voltara. Brunet era grande e sólido. sabia o. meio à mostra através do quimono. — Que é que o traz por cá? — perguntou Sarah. as traições. Para Sarah a vida humana era sagrada. bom dia! — disse. A sala ficara no estado em que ele a deixou: uma tela inacabada no cavalete. com os dedos enfiados na cabeleira negra. Não queria falar de Gomez. Mathieu sentiu se satisfeito de ouvir aquela voz. . Gomez partira. Mathieu sentou se. ela estava nua.» — Foi o ministro quem lhe abriu a porta? — pergunto Sarah alegremente. A partida para a Espanha. cantando com voz áspera nos braços de Gomez. Mathieu sorriu também. — Teve notícias dele? J E A N P A U L SARTRE — Na semana passada. Sarah olhava os ternamente. Brunet riu sem responder. no meio de frascos de ácidos.— Bom dia. Os olhos de Brunet brilharam. — Tudo o que quiser. Ia fazer lhe um favor. minado pela bondade. O pequenino Pablo brincava por baixo da mesa com cubos de cartão. Conta as suas proezas — respondeu Sarah com ironia. as fugas. uma lâmina de cobre semigravada sobre a mesa. Passara muito tempo no estúdio. O rosto de Sarah corou de satisfação. — Pensei que tivesses morrido. com um rosto de camponês. No quadro. — Viva. — E Gomez? — perguntou Mathieu. Agora era portanto propriedade sua. Pensou: «Ele procedia mal com Sarah. Apressou se em descer. — Preciso de lhe pedir uma coisa. a maldade. — Sabe que ele foi promovido a coronel? Coronel. não. Mathieu recordou a bêbeda e magnífica. — Viva — disse Mathieu. Mathieu pensou no tipo da véspera e a garganta apertou se lhe.

a sério. — O ratinho de orelhas vermelhas é um ministro — disse Sarah com um orgulho ingénuo. — Vocês não têm provas — observou Sarah. Se tivéssemos. — E incrível — murmurou Brunet. Não é preciso ser muito esperto para imaginar o que poderia lá fazer um judeu emigrado. não tem para onde rir. Sarah sorriu levemente. mas é certo que não sacrificarei Weysmuller às intrigas do seu partido. A indignação de Brunet era pesada e calma. — Annia vai se embora — disse Sarah. é tão abstracto um partido. — Pertenceu ao governo socialista de Munique em 22. — Sarah exagera — disse tranquilamente Brunet. Agora morre de fome. — Ele quer que eu mande embora o meu ministro — disse Sarah. não temos provas. Mas mesmo que se trate de meras suposições. meu caro Mathieu. Parece que há uns seis meses rondava os corredores da Embaixada da Alemanha. — Você viu o. — E está claro que você o recolheu. Gorara e os seus olhos verdes humedeceram se. . — Não é bem assim.. A Mathieu contou pêlos dedos. chorosa.— Que ministro? — indagou Mathieu espantado. ele não estaria aqui. — Venha em meu socorro. — Porquê? Porquê? — exclamou Sarah com paixão. Voltou se para Mathieu e explicou contrariado: — Temos más informações acerca desse tipo. Puseram no fora do hotel porque não podia pagar. você faria com que Paris fosse pêlos ares para evitar um aborrecimento aos seus protegidos. como que a desculpar se. Ela já não o escutava. — Arranjou trabalho. Sarah sacudiu violentamente a cabeça. pousando a mão no braço de Mathieu. — Não. Mathieu sobressaltou se e voltou se para ele. J E A N P AUL SARTRE — Sarah — disse Brunet com ternura — . Não. Sarah pôs se a rir. É. Lopez e Santi são quatro pensionistas. — O meu ministro! — disse com indignação. — Veio para cá com a mala. — O quê? Que é que é incrível? — Ah! — disse Sarah com vivacidade. Sarah mostra se de uma imprudência louca. — E exactamente o que eu dizia — afirmou Brunet. — Mandar embora? — Diz que é um crime conservá lo aqui. — Isso não interessa a Mathieu — disse Brunet a Sarah com ar de descontentamento. — Com Annia. olhava Sarah com o seu ar de camponês e repetia: — E incrível..

Mathieu? — gritou Sarah com angústia. Em tempos. — Gosto muito de Mathieu e aprecio muito a inteligência dele. A calma do mar. fica como testemunha! Se expulsar Wey muller. as vítimas de acidentes. que se sente perante os esmagados. «E feita de confiança. não se preocupava com a opinião de um burguês.» Talvez o dissesse ainda. Não parecia ser um só homem. Explicou: — Gomez manda nos por vezes comunicações. dizia então Brunet. bem sabes que tais comunicações são confidenciais. os indivíduos que exibem feridas desagradáveis. Mas este assunto é vulgar e insignificante e juro lhe que não preciso de conselhos. Brunet inclinou se para ela e tocou lhe no joelho. Brunet não lhe perguntava nada. — De qualquer maneira está liquidado. — Mathieu. Era entorpecente e exasperante. nenhum dos dois julgava o outro. não lhe perguntava a sua opinião. de um intelectual sujo. Levantou se. — Vai atirar se ao Sena? — Vai agora! — disse Brunet. por princípio. Posso realmente levar um homem ao suicídio por causa de uma simples suspeita? — acrescentou Sara com desespero. «Ele vai ouvir me com uma cortesia gelada. Já formei a minha opinião. ele vai atirar se ao Sena. Diga me lá se ele é capaz de matar uma mosca! A calma de Brunet era grande. e ficará na mesma. tinha a vida lenta. — Quem é que tem razão? Diga alguma coisa. seria este o lugar indicado para instalar um tipo que tem reputação de espião? Mathieu não respondeu. — Está a ouvir. é tudo. — Mathieu! — disse Sarah. — Voltará para a Embaixada da Alemanha e tentará vender se de uma vez. Brunet empregara a forma interrogativa. «A amizade não suporta a crítica». — Escute. . Há muito que Brunet deixara de pedir conselhos de qualquer espécie a Mathieu. Fazia nascer em Mathieu a cumplicidade que se esboça. — Sim — disse com indiferença. não deixaria de o consultar. Mathieu nada tinha a dizer. ainda que seja de um professor de Filosofia. horrível e triunfante. — E o mesmo — disse Mathieu. Portanto. Se se tratasse de interpretar um trecho de Espinosa ou Kant. mas era uma afirmação. silenciosa e murmurante de uma multidão.» Mathieu não queria que Brunet o julgasse. Brunet encolheu os ombros. Vem aqui. Mas agora era nos camaradas do partido que pensava. de um cão de guarda. — A sério? — perguntou. e aqui nos encontramos. Vai julgar me pelo que eu disser.Mathieu. Sarah — disse docemente.

pensou Mathieu. uma coisa quente e modesta que se assemelhava à esperança.. Olhava o hesitante. — E estúpido. Brunet subia os degraus com uma elasticidade surpreendente. Os olhos brilharam lhe. «Nem tudo está perdido». Sim. Mas. — Estarás livre às duas horas? Tenho uns momentos livres. estou inteiramente livre e espero te — disse Mathieu. Mas não é nada de importante. não se tem tempo de ver os velhos amigos. só o viria a saber um mês depois. — Não — disse —. Se morresses. Mathieu seguiu os com o olhar. um tipo nu. Mas se ele continuar aqui. SARTRE contra Brunet.. — Vou acompanhá lo — disse Sarah.. — Eu?. olhava o atentamente com um olhar duro. Brunet sorriu amistosamente. Eu tenho chatices. Não lhe estendia a mão. como o olhar de Marcelle na véspera. poderei dar um pulo até à tua casa. — E não deixe nada por aí. — Que é que tens? Mathieu também se levantou. não será tão cedo. Pareceu finalmente decidir se. Conservava o sorriso ingénuo e alegre. mas não tinha qualquer ressentimento J E A N P A U L. pedir Ihe ei que vá a minha casa quando tiver notícias de Gomez. Quem sou eu para lhe dar conselhos? Que fiz da minha vida? Brunet levantou se. «Quem sou eu para lhe dar conselhos?» Pestanejou. Deu alguns . Brunet voltou se para Mathieu. parecia aliviada. em migalhas. — Tenho de me ir embora — disse. por acaso. — Adeus. Aquele mesmo espanto implacável. Conversaremos um pouco como dantes. «Evidentemente. Sarah. Brunet ficou sério.» Sentia se magoado. E sentiu uma coisa estremecer lhe dentro do peito.» Brunet falou: não era a voz que Mathieu esperava. pensou. Brunet pôs lhe a mão no ombro.. Mathieu sentia se nu sob estes olhares. Voltou se e dirigiu se para a escada. e o que faz por nós já é considerável. — Não irei tão depressa — disse Mathieu a rir. Pensava: «Não me está a julgar». — Faça como quiser. e sentia se cheio de uma humilde gratidão. Passa se a vida a correr de um lado para o outro. Queime tudo. — Prometo. meu velho.. — Estás com uma cara! — disse gentilmente. Um desajeitado. «E eu? Vê se o aborto no meu rosto. — Como antigamente. até à vista. A Sentia a mão de Brunet no ombro. Não pertence ao partido. Brunet parecia duro e nodoso.«Evidentemente». — Combinado — disse Sarah..

todos os seus sentidos são bocas. — Diz lá. Encolheu os ombros: «Não vou matar ninguém. Uma mosca. O pequeno Pablo olhava o gravemente. era mais ou menos isso. «Está quente». Era preciso agir depressa. Mathieu aproximou se da mesa e pegou num buril. deteve se no limiar e sorriu a Brunet. Mathieu atirou bruscamente o buril sobre a mesa. indeciso. com aquela pequena ventosa pálida e mole que absorvia o mundo. com uma pele branca e grandes orelhas. Ela abriu a porta. Mathieu sentia se incomodado. Dormia. Mathieu brincava com o buril. pensou. Pablo continuava a olhá lo. dentro de outra barriga. Ouvia a voz de Sarah. naquela sala. Perguntou: — E o que é que fazias quando eras pena? — Nada. entre dois sulcos que representavam um braço de mulher. Tinha a impressão de estar a ser devorado pêlos olhares da criança. e isso via se. A mosca assustada pôs se a voar em círculos e pousou finalmente sobre a chapa de cobre...passos. Repetia com espanto: «Impedir que nasça. e Mathieu barrava lhe a passagem. pequenino. — Sonhei que era uma pena. — Sabes o que é que eu sonhei? — perguntou Pablo. Uma criança. que pousara sobre a lâmina de cobre. A porta bateu por cima da sua cabeça. A mosca esvoaçou à volta dele. mas por detrás dos vagos humores que lhe enchiam as órbitas escondia se uma conscienciazinha J E A N P AUL SARTRE ávida. pois a bolha continuava a inchar. Não havia muito tempo que o miúdo saíra de uma barriga. Uma mosca é mais fácil de matar do que uma criança. Mathieu estendeu a mão e tocou na mesa com o dedo.. pensou.» Pablo pusera se a brincar novamente com os cubos. olhou a criança e a mosca. Havia um homenzinho meditabundo e dissimulado. sem saber porquê. Num quarto cor de rosa. Do que é que estará à espera para voltar a descer? Deu meia volta. «E pensa». sinais e uni punhado de distintivos como os que se põem nos passaportes. havia uma bolha que inchava. mentiroso e sofredor. Na verda de. ao sol. um homenzinho que não andaria . fazia grandes esforços para sair.. levantou voo. conservava ainda um aveludado doentio de coisa vomitada. uma carne pensante que grita e sangra quando a matam. «Os miúdos».» O olhar de Pablo ainda não era humano e no entanto já era qualquer coisa mais do que a vida. para se libertar das trevas e se tornar parecida com aquilo.» Dir se ia que havia algures uma criança já formada. Esquecera se de Mathieu. Vou impedir que nasça uma criança. Estava ali. disse para si Mathieu. aguardando o momento de saltar para o lado de cá do cenário. Mathieu deu alguns passos em direcção à escada. «são vorazes.

— Ela não gosta de crianças? — Não sente interesse por elas. com um pé na calçada e outro na valeta. Era uma adulta. Baixou a cabeça e conservou se silenciosa. Sarah — disse Mathieu irritado —. Ele ia sorrir. Ela evitava julgá lo.. — Creio que isso lhe aconteceu há tempos. pôs de parte as suas reservas. tente compreender me. Eu não quero casar. não — respondeu Mathieu com vivacidade —. uma imagem povoada de jardins e de casas.. Não é por egoísmo. vocês vão. Mathieu não pôde suportar aquela tristeza que nem sequer era uma censura. de carnes velhas.. não queremos a criança. se se for a tempo. — Não. Sarah pareceu desconcertada. e olhos. — Ah! Sim — disse ela —. mas acho o casamento. Ele desviou o olhar e disse. — Esperou muito tempo? Mathieu ergueu a cabeça e sentiu se aliviado.. — Não é nada. nem rosto algum. Gomez disse mo — replicou com brutalidade. Ela estava inclinada sobre o corrimão. — Pronto — disse Sarah. Os grandes olhos velados encaravam no fixamente.pelas ruas. cheia de esperanças. de raparigas doces e horríveis insectos. pesada e disforme.. — Oh! Sarah parecia mais alegre do que aborrecida. ou negros como os de Marcelle. Há anos. Ela ergueu bruscamente os olhos e acrescentou com paixão: — Não é nada. . — Sim. tinha casado com Gomez cinco anos antes. — Então? Que é que se passa? — disse avidamente. Calou se. Perguntou com timidez: — E vocês. nem na carne das mulheres.. mãos que não tocariam nunca na neve. aborrecida. as censuras e tinha apenas um desejo: tranquilizá lo. um par de olhos verdes como os de Mathieu. que iriam rebentar com um alfinete. que parecia sair da salmoura e nunca ter nascido. com insistência. e que nunca haviam de ver os céus glaucos de Inverno. secamente: — Marcelle está grávida. havia uma imagem do mundo. luminosa. — Escute. Sarah era casada. ela seria a única a pôr luto por aquela morte minúscula e secreta. encarar o futuro com confiança. sanguinolenta. nem na casca das árvores. nem o mar. Sarah sorriu lhe e desceu rapidamente a escada.. O quimono balançava em volta das pernas curtas.. compreendo. Ele acrescentou a seguir: — E depois Marcelle não quer filhos. apaixonada. sinistra. como um balão.

com ele pode ficar sossegado. e a Gomez ainda menos do que aos outros. Olhou Mathieu. Mas de repente toda a bondade se lhe reflectiu no rosto e exclamou: — Sim. É um especialista de abortos. apertando lhe com força o braço —. — Em todo o caso — disse resoluta —. como deve estar acabrunhado. Agarrou lhe as mãos.. — Não muito. — É justamente isso — disse Mathieu —. esse aborrecimento. de desânimo. Tenho receio de que ela o fique a detestar depois. Depois disso houve o Anscbluss e ele veio ter a Paris com uma maleta. não sabe o que vai fazer! — E quando se põe uma criança no mundo.. eu quero dizer que não imagina o que vai exigir de Marcelle. nunca eu. Sarah teve um gesto de desconsolo. Não era capuz de odiar ninguém.. uma pequena luz perdida. — E. Quando os nazis tomaram o poder. perturbada. Bem sabe. poderia pedir me de joelhos. recordou se dos olhos de Marcelle. procurou alguém. tenho uma solução. chocaria contra as paredes e não poderia escapar. naquele tempo. Uma vida! Uma consciência a mais. não quero mandá los a esse russo. se é assim. que voaria em círculo. é muito doloroso.. mas foi um horror. — Não. como é que não pensei já nisso? Vou arranjar tudo. foi morar para Viena. você pode ajudar nos Quando teve. então efectivamente.» Numa retrete.. .. Mas desde há muito que enviara todo o seu dinheiro para Zurique. mas agora bebe J E A N P AUL SARTRE e eu já não tenho confiança nele. — Foi horrível! — Ah! — disse Mathieu com uma voz transtornada. — E você.— Sim — disse —.. grandes olhos duros e cansados.. Ele ainda opera. era Gomez que queria.. que eu não tornaria a fazer. mas. odeia Gomez? — perguntou lhe secamente. sabe se? — perguntou Mathieu encolerizado. — Conhece outro? — Ninguém — disse Sarah devagar. Em Berlim tinha uma clientela enorme. Mathieu reviu. Waldmann. Como um rato morto! Mathieu — disse ela. — Deram me um embrulho depois da operação e disseram me: «Deite isso na retrete. — disse ela com um ar penoso — eu pensava no pequeno.. — Meu pobre Mathieu. é verdade. Não o viu cá em casa? Um ginecologista.. E quando ele queria qualquer coisa. Desejaria poder ajudá los. agora. A — Sim — disse Sarah (a fisionomia alterou se lhe). um russo.. julgo eu. Houve um caso complicado há dois anos.

Sarah. Marcelle estava grávida. Vou vê lo hoje mesmo. pequenas gotas nasciam nos bicos. Agarrou lhe os ombros e sacudiu a a sorrir. que dava vontade de lhe fazer mal. A bolha dentro do seu ventre não dormia. até logo. Poderei ficar lá e esperar pelo seu telefonema. Os belos seios morenos e arroxeados tinham caído. quase voluptuosa. cúmplice num acto que lhe inspirava horror.. — No Dupont Latin? Está bem. Não leva demasiado caro? — Em Berlim levava dois mil marcos. você é um anjo. colou se à sola dos seus sapatos. eu. alimenta se e incha. Aqui ninguém o conhece.. Perguntava a si próprio aonde iria buscar o dinheiro. — Onde está por volta das onze horas? — perguntou ela. — Escute — disse Sarah —. mergulhado numa sombra densa. muito contente. Ergueu para ele o rosto terno e desgracioso. por generosidade. gotas brancas e salgadas como lágrimas. Mathieu empalideceu. A bolha inchava e o tempo passava. — Poderia telefonar lhe. «Quando a vejo». entre dentes. Verão! Deu alguns passos. de se tornar. porque não hei de ir agora de manhã? Mora na Rua Blaise Desgoffes. — Até logo — disse Sarah —. é pertinho. de poeira nova. e os rostos deles flamejavam. o alcatrão negro e mole. por ternura e para não lhe ver o corpo. eu tenho um encontro às dez e meia. Vou propor lhe três mil francos. — Devo estar no Dupont Latin.» Mathieu beijou a nas duas faces. os transeuntes flutuavam no céu. era um fantasma mineral. — Estou contente — disse Mathieu —. dizia Daniel. «compreendo o sadismo. Já não era o mesmo Verão. meu caro Mathieu. O roupão de Sarah abrira se sobre os enormes seios. Bulevar Saint Michel.— Acha que ele tratará do caso? — Naturalmente. Irradiava satisfação. Dorme sempre até ao meio dia. Mathieu abraçou a. não tem tempo para dormir. Ela dorme. — Dez mil francos! Ela acrescentou. J E A N P AUL SARTRE Ela dormia. de a humilhar. transpirava a dormir. Havia naquele rosto uma humildade perturbadora. cheio de pontos brancos. Mathieu respirou um cheiro vivo. Ela acabava de lhe sacrificar as suas repugnâncias mais profundas. Espera por mim? DADE DA RAZÃO — Não. o corpo. Será mais razoável. Visto me e desço. Pestanejou e sorriu. «Verão!» O céu enchia a rua. É preciso que eu arranje o dinheiro dentro de . Pagava se pela reputação. — Bem — disse Mathieu. vivamente: — Mas era um roubo.

Jacques. sente se forte. Conseguirá Sarah convencer o judeu? Onde arranjar dinheiro? E o que estou a pensar. Espera.» Mathieu parou de repente. sente se leve porque espera. Brunet vai sossegado pela rua.quarenta e oito horas. há mais de cem anos percorrido pelas mesmas ondas de cores e ruídos. Uma estátua mostrava lhe as nádegas de pedra. A liberdade é o seu jardim secreto A sua . em último caso. lê L'Oeuvre e Lê Populaire e está em dificuldades financeiras. como qualquer outro. saboreio. O homem que quer ser livre. Marcelle grávida. «Neste momento. Queria lá ir. sinto o velho gosto do sangue e da água ferruginosa. «Afinal é coisa de uns quinze dias. vou pedir lho. Brunet. os pombos arrulhavam.» Contemplava aquele jardim rotineiro. esperei. Existir é isso: beber se a si próprio sem ter sede. eu também quis partir para a Espanha. Trabalhei.. Estátuas. esse judeu há de esperar até ao fim do mês. Estirado em cima de uma cadeira. As crianças correm. Haverá realmente uma Espanha? Estou aqui. independência. o meu gosto. as Espanhas. anda dentro de uma cidade de vidro que em breve há de quebrar. Havia as crianças que cornam desordenadamente. «Aonde é que irei pedir o dinheiro? Daniel não mo vai emprestar. Mas eu? Eu? Marcelle está grávida. pedirei a Jacques. tinha horror de si próprio.. tão normal. as mesmas há mais de cem anos. Juro. com o mesmo sol sobre as deusas de gesso. Mas não pode ser. sempre novo. o quê? Urna pobre religião laica para uso próprio. Um álibi? «Assim é que eles me vêem. Há trinta e quatro anos que eu me saboreio. Trinta e quatro anos. crianças. no entanto. E. sempre o mesmo. não faz política. Marcelle. tive o que queria: Marcelle. O acompanhamento discreto e seráfico da verdadeira vida. Está tudo acabado. o dinheiro. com precaução. Mas quer ser livre. Paris. Sentou se numa cadeira de ferro. pássaros de pedra. existo. quente e branco. pombos. de dedos partidos. como outros desejam uma colecção de selos. sou o meu próprio gosto. bastava para encher uma vida. tão monótono. e estou velho. os pombos levantam voo. Come. Daniel. e aquelas árvores todas.. Correrias. era a vida.» Lembrou se de repente de dois olhos muito juntos sob espessas sobrancelhas negras. Mas não consegui. «Madrid. como o mar. caminha bamboleando se ligeiramente. O resto. à vontade sob este sol.» A relva tremia a seus pés. O Luxemburgo. Não quero mais nada.. bebe.» «Estou velho. Tudo isso era tão natural. Ele via se a pensar. E havia Sarah com o roupão amarelo. é funcionário. os castelos no ar era. comprometido até ao pescoço na vida e não acreditando em nada.» Pensou subitamente: «Estou a ficar velho. e a 29 recebo. relâmpagos brancos. Mesmo assim. porque ainda não chegou a hora de partir tudo.

Sobre a mesa havia revistas rasgadas e um belo vaso chinês. tivera a impressão de ser uma pequena exploração suspensa no ar. Ele obrigara o a comer areia. Olhava os cacos de porcelana.pequena conivência para consigo próprio. o dentista. diáfano. voltou para junto da mesa. Aconteceu assim e logo a seguir sentiu se leve. Verificara que a cabeça se assemelhava a uma cabeça de fósforo. Era preciso tentar não se engolir. arquejante. Tinha dezasseis anos. Sentado à sombra dos pinheiros. sem família. Tinha conseguido esvaziar completamente a cabeça. sozinho na sala de espera. que dissimuladamente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida. ergueu o vaso. feita de inércia e que justifica de vez em quando com elevadas reflexões. um pouco quimérico. fora buscar a caixa à cozinha e esfregara nela a mosca para ver se acendia. Algo acabava de acontecer àquele vaso de três mil anos guardado entre as paredes quinquagenárias. verde e cinza. na casa do tio Jules. Era apavorante ser uma bolinha de miolo de pão neste velho mundo ressequido. que era pesadíssimo. sabia muito bem que a mosca não ia acender se. Apostara que toda a sua vida se pareceria com aquele momento excepcional. e brincava a fazer que não existia. mas era o que queria dizer e era uma aposta. mas muito razoável no fundo. maravilhado. Mathieu aproximou se do vaso com as mãos atrás das costas e contemplou o com inquietação. Pensou: «Fui eu que fiz isto». contemplava as grandes ondas do oceano. sem peias. e sentia se orgulhoso. Estava deitado na areia em Arcachon. Mas esse vazio ainda tinha um gosto. Acabara de bater num jovem bordelês que lhe atirara pedras. ou antes não disse coisa nenhuma. Disse a si próprio: «Hei de ser livre». abrupta inexplicável. Um tipo preguiçoso e frio. Tinha vinte . com as narinas cheias do odor da resina. com asas como patas de papagaio. Estava em Pithiviers. sem origem. redonda. Voltara lhe as costas e pusera se a revirar os olhos e a fungar em frente do espelho. Era um estúpido. Não é isso que sou?» J E A N P AUL SARTRE Tinha sete anos. uma promessa. O tio dissera lhe que o vaso tinha três mil anos. Era dia de disparates. na luminosidade do Verão. Vegetava num calor provinciano que cheirava a moscas e tinha apanhado uma a que arrancara as asas. De repente. diante de um vaso impassível de três mil anos. evitando o pequeno movimento da deglutição que o lançaria na garganta. como quando se conserva sobre a língua um líquido demasiado frio. algo totalmente irreverente que se assemelhava a uma manhã. e atirou o ao chão. livre. sem conseguir distrair se. uma apariçãozinha obstinada que rompera a crosta terrestre. Tudo isso negligentemente: era uma comédia medíocre de vagabundo e não conseguia interessar se por si próprio.

um funcionário em dificuldades financeiras e que ia encontrar se com a irmã de um dos seus ex alunos.e um anos. cheios de bonecos de papelão. «Com vinte e cinco é que eu me devia ter comprometido. Vegetava naquele calor sufocante. E. E durante esse tempo. Levantou se. Levantava se um funcionário. nem o amante de Marcelle. a decisão teria sido uma . Como Brunet. Mathieu não era um tipo que ensinava Filosofia a rapazes num liceu. aprender um ofício.» Tinha pensado partir para a Rússia. a ele e a Brunet: «Hei de salvar me. lia Espinosa no quarto. Mas através de tudo isso a sua única preocupação fora manter se disponível. As palavras mudavam com a idade e as modas intelectuais. devagar. abandonar os estudos. sub repticiamente. o advogado. ser o próprio começo. Pensou: «Estará tudo acabado? Serei apenas um funcionário?» Esperara tanto tempo. Naturalmente durante esse tempo andara atrás de mulheres. Esperara através de mil e uma preocupações quotidianas. Para compreender a aposta. Nunca pudera prender se definitivamente a um amor. um rapazinho corria atrás dela com a raqueta na mão.» Eram palavras vazias e pomposas. Eu não queria ir na onda. Sim. poder dizer: sou porque quero. nunca fora realmente infeliz. Já não sabia bem. Um acto livre e reflectido que acarretaria o destino da sua vida e seria o início de uma nova existência. Esperava. — A bola. Mathieu apanhou a bola e atirou a ao rapaz. precisava de estar nos seus dias melhores. Vai se na onda.» Dez. Ser a causa de si próprio. e era terça feira de Carnaval. Que aposta? Pôs a mão sobre os olhos cansados da luz. a um prazer. Era unicamente aquela aposta. os anos tinham chegado e tinham no envolvido. sempre lhe parecera estar algures. palavras irritantes de intelectual. Os últimos anos tinham sido uma vigília. Sem motivos. nem o amigo de Daniel e Brunet. viajara e ganhara a vida. com aquela ênfase filosófica que lhe era agora peculiar. Decerto que não estava num desses dias. cem vezes tornara a fazer a aposta. Um acto. aos seus próprios olhos. nem o irmão de Jacques Delarue. O que o retivera à beira destas rupturas violentas fora a ausência de motivos para fazê lo. mas nessa idade não se tem plena consciência do que se faz. não ter ainda nascido comple tamente. Grandes carros multicores passavam na rua. Erguera os olhos e apostara de novo. Trinta e quatro anos. Tinha agora — cada vez mais — longos momentos de exílio. Inutilmente repetia as frases que os exaltavam dantes: «Ser livre. Para uma acção. sofria a velha e monótona sensação do quotidiano. Uma bola de ténis rolou lhe aos pés. se faz favor. mas era uma só e mesma aposta.

esterilizei me para ser apenas uma espera. feio. a fisionomia dura e a carne tenra. disse um adeus rápido ao companheiro e atravessou a Rua dês Ecoles como uma sonâmbula. esfu ziantes. «Eu não sabia que era jovem. nunca ela estava tão só como diante da beleza. Puxara os caracóis louros para a frente. Quando viu Mathieu. Agora estou vazio. — Sit down — disse um. num desafio. Descia o bulevar ao lado de um rapaz alto de cabeleira crespa e óculos. Tinham as mãos bem tratadas. nem Daniel. Pensou: «Não sei o que quero dela. pensou Mathieu por fora. Parou para olhar o carrossel náutico. Estava com a cara dos dias de festa. Barquinhos à vela giravam no tanque. pensou Mathieu. Pensou: «Já não espero. Mártires da J E A N P AUL SARTRE juventude. Só depois é que dei conta. Ela esquecia se de tudo. porque ele não era belo e era uma maneira de se desculpar. Mathieu ficaria a seu lado. os seus olhos apagaram se. nem Brunet.» Lembrou se sem grande prazer que ia acompanhar Ivich a urna exposição de Gauguin. Um dia. Ivich não o desculpava. Estudantes ou liceais. Hoje como das outras vezes olharia os quadros com um ar selvagem e maníaco. Esvaziei me. Estou liquidado. fugia de si mesma. e a franja descia lhe até aos olhos. Riram e sentaram se. Ivich cheirava a mocidade. mas eram excepções. Ela tem razão. esquecido. chicoteados de quando em quando pelo repuxo. belos objectos.» Viu a nesse mesmo instante. um barquinho parecia perdido. irritado. «Dez e quarenta. Jovens machos rodeados de fêmeas e que pareciam insectos brilhantes e obstinados. olharam para uma das mesas com desdém. esquecia se de comer. por dentro. No entanto não desejava ser belo. «Só há chatos por aqui».asneira. M athieu olhou para o relógio. Falavam animadamente. Mas já não espero mais nada. Continuara a esperar. É engraçada a mocidade. importuno. Todos riam. tinha sempre medo de que se deixasse morrer. esquecia se a cada momento. Ivich! — Bom dia — disse ela.» Não gostava que ela se atrasasse. Boris também. não sentem nada. e pronto. Um miúdo tentava apanhá lo com uma vara. Ela erguia o rosto para ele e oferecia lhe um sorriso luminoso. esquecer se ia de respirar. Mathieu levantou se. afundava se lentamente. — Eu sit down — respondeu o outro. Dois rapazes pararam junto dele. esquecia se de dormir. inclinava se. — Olá. Gostava de lhe mostrar belos quadros. bons filmes. está atrasada.» Junto do repuxo. No Inverno .

Estão vermelhos? — Não. No Verão doem me. — Tenho a impressão de que ficam abertos sozinhos. — Sim. podia chamá la pelo nome ou tocar lhe no ombro. mas não o devia ouvir. (Estremeceu. Reabriu os olhos. pronto. contrariado. Não estava pintada. Ivich sim. Parecia pintada e envernizada como uma taitiana de Gauguin. Não estou com sede. cirurgia. a que ela chamava «testa de calmuco». Inútil. não quero. Em dias como este não devíamos sair senão depois de escurecer. A Ela sentou se. — Faz favor! — gritou Mathieu. não se referia a ela. Ivich interessava se por tão pouca coisa! E ele não tinha vontade de falar. lembrei me do gosto. você gosta disso. — Aquela coisa verde e viscosa que bebi no outro dia? Oh!. — Gosto disso? — disse divertida. estreito e puro.) Nunca mais beberei disso. Mathieu fez um esforço e voltou se para Ivich. Não a via. porque a pintura lhe estragava a pele. Mathieu não sabia o que dizer. Agora Mathieu via apenas um falso rosto.» Mathieu ouviria do outro lado do fio J E A N P AUL SARTRE uma voz sombria: «Ele quer dez mil francos. Ele. infantil e sensual. isso pega se na boca. é bonito. — E para a senhora? — perguntou o empregado. como a Lua entre duas nuvens. Ela fechara os olhos e passava levemente os dedos sobre as pálpebras. E as pessoas . descobria lhe as bochechas gordas e lívidas e a testa curta. Os jovens vizinhos de Mathieu voltaram se para a ver. mas depois reflecti. cheiro a éter.» Mathieu contemplou a com ternura. questões de dinheiro. Gostava que lhe chamassem senhora. Mas que é isso? — perguntou quando o empregado se afastou. — Você disse que gostava — atalhou Mathieu. De vez em quando eu fecho os para que descansem. sabia que Ivich era feia. Sarah telefonaria. não. Um rosto largo. nem um franco a menos. Dentro em pouco. Ivich sorriu lhe. quero. o sol persegue nos por toda a parte. Não sabemos onde nos havemos de enfiar. — Tome um Pippermint — disse Mathieu —. — É o sol. — Então está bem. via a. Não temos os mesmos gostos.o vento despenteava a.» Hospital. mas estava ali. calma e taciturna. Não o beberei. Eu deixo o tomar decisões. Marcelle estava ali. — Não. só ele. Depois virou se para Mathieu. indecisa. Pensavam visivelmente: «Boa miúda. — Menta verde. O empregado chamaria: «Senhor Delarue. deixe o trazer. que ela usava por cima do verdadeiro como uma máscara triangular. pálido. mas era inatingível com o seu porte frágil e os belos seios duros. Calou se.

irritada. se me chamarem diga ao empregado que volto já. teria medo. por baixo da mesa. sob qualquer pretexto. — murmurou ela num tom arrastado que fazia pensar nas suas faces lívidas. A — Ela gosta de mim porque sou loura. achava se culpado e liberto ao mesmo tempo por lhe querer menos.. Julgava sempre que tivesse reparado num lugar mais ralo e não pudesse tirar de lá os olhos. — Aborreceu a tê la feito sair tão cedo? — De qualquer maneira eu não podia ficar no quarto. — Olha me por cima da testa.. — Sim.ficam com as mãos húmidas. — É verdade que não liga a essas coisas. — Não. Olhava Ivich sem se sentir perturbado. Mas estou à espera de um telefonema. Há de dizer que eu sou dissimulada. — Você perturbava me a princípio — disse Mathieu. não. E depois a empregada afeiçoou se a mim. . Mathieu mal a ouvia. não era com má intenção. Acrescentou. — Você é dissimulada — disse Mathieu. num tom de voz diferente: — Eu gostava que não me doessem tanto os olhos. Ivich encarou o com impaciência. Eu que tenho tanto medo de ficar calvo. Tenho horror a que me toquem. Os olhos ardem me logo. JEAN PAUL SARTRE — Ouça — disse Mathieu —. — Acabe com isso! Não gosto que me imitem. — Porquê? — perguntou Mathieu admirado. Lançou lhe um olhar matreiro e rápido. o rapaz encaracolado. — Afinal as pessoas acabam por perceber que esconde a cara e baixa os olhos como uma santa de pau carunchoso. à altura dos cabelos. — Sim. Era o outro. Mathieu tocou com o dedo. sobretudo em tempo de exames. — Bom. vou à farmácia comprar um comprimido. acaricia me os cabelos. É sempre a mesma coisa. mas sinto medo quando imita as minhas expressões! — Compreendo! — disse Mathieu a sorrir. — Olho para toda a gente assim. — Não é o que está a imaginar. que tinha as mãos húmidas. — Gostaria que soubessem como você é? — acrescentou com certo desprezo. Ela riu divertida e furiosa. não posso. Estava seca. com a palma da mão.. ou então de lado: assim.. Daqui a três meses vai detestar me. Protegem as raparigas de verdade. Mesmo que você fosse o tipo mais bonito deste mundo. entra a todo o momento no meu quarto. Ivich sacudiu a cabeça. Quanto a olhar as pessoas de frente. Sabia que ela não pensava o que dizia. — Com certeza não sabe o que é um «lar de estudantes».

— Não, não vá — disse ela secamente. — Agradeço, mas não faria nada. É do sol. Calaram se. «Estou a ficar abstracto», pensou Mathieu com um prazer estranho. Um prazer crispado. Ivich alisava a saia com as palmas das mãos, erguendo ligeiramente os dedos como se fosse tocar piano. As mãos dela estavam sempre avermelhadas porque tinha má circulação. Geralmente levantava as e agitava as de vez em quando para as descongestionar. Não lhe serviam para pegar em nada, eram dois idolozinhos gastos nas extremidades dos braços; afloravam as coisas com pequenos gestos inacabados e pareciam menos destinados a segurar do que a modelar. Mathieu olhou as unhas de Ivich, longas e pontiagudas, excessivamente pintadas, quase chinesas. Bastava contemplar aqueles adornos frágeis e incómodos para compreender que Ivich não podia fazer coisa nenhuma com os seus dez dedos. Uma vez caíra lhe uma unha, ela guardara a numa caixinha e de vez em quando observava a com uma mistura de prazer e horror. Mathieu vira a. Conservara o verniz e assemelhava se a um besouro morto. «Que será que a preocupa? Nunca esteve tão irritante. Deve ser o exame. A não ser que se chateie de estar comigo. Afinal de contas eu sou adulto.» — Não começa assim, com certeza, quando se vai ficar cego — disse de repente Ivich com um ar neutro. — Com certeza que não — respondeu Mathieu, sorrindo. — Bem sabe o que lhe disse o médico em Laon: um bocadinho de conjuntivite. A Falava docemente, sorria docemente, sentia se embebido em doçura. Com Ivich era preciso sorrir sempre, fazer gestos suaves e lentos. «Como Daniel com os gatos.» — Doem me tanto os olhos — disse Ivich —, basta uma coisa de nada. (Hesitou.) É no interior dos olhos que me dói. Não é assim que começa aquela loucura de que me falava há dias? — Ah!, aquela história? Olhe, Ivich, da última vez era o coração, receava ter uma crise cardíaca. Que rapariga estranha, parece que tem necessidade de se atormentar. E de repente declara que é feita de cimento! É preciso escolher. A sua voz deixava um gosto a açúcar na boca. Ivich olhava para os pés, pensativa. — Deve estar qualquer coisa para me acontecer. — Já sei — disse Mathieu —, a sua linha da vida foi interrompida. Mas disse me que não acredita nisso. — Não, não acredito... Mas não posso imaginar o meu futuro. Há uma barreira. Calou se e Mathieu contemplou a em silêncio. Sem futuro... De repente sentiu um gosto desagradável na boca e percebeu que estava demasiado preso a Ivich. Era verdade que ela não tinha futuro. Ivich com trinta anos, Ivich com quarenta anos, não

fazia sentido. Pensou: «Ela não é eterna.» Quando Mathieu estava só ou quando falava com Daniel, com Marcelle, a vida estendia se diante dele, clara e monótona: algumas mulheres, algumas viagens, alguns livros. Um longo declive. Mathieu descia o lentamente, lentamente, às vezes ele próprio achava que não ia muito depressa. De repente, quando via Ivich parecia J E A N P AUL SARTRE lhe viver uma catástrofe. Ivich era um pequeno sofrimento voluptuoso e trágico, sem futuro. Ir se ia embora, ficaria louca, morreria de uma crise cardíaca ou então seria sequestrada pêlos pais em Laon. Mas Mathieu não poderia suportar a vida sem ela. Fez um gesto tímido com a mão; queria pegar no braço de Ivich acima do cotovelo e apertá lo com toda a forca. «Tenho horror a que me toquem.» A mão de Mathieu caiu. Disse muito depressa: — Tem uma linda blusa, Ivich. — É feia. — Inclinou a cabeça, empertigada, e sacudiu a blusa, constrangida. Acolhia as homenagens como se fossem ofensas, era como se fizessem dela uma imagem à machadada, grosseira e fascinante, a que tinha receio de se prender. Só podia pensar o que convinha a si própria. Pensava nisso sem palavras, era uma certeza terna, uma carícia. Mathieu olhou com humildade os ombros de Ivich, o pescoço alto e roliço. Ela dizia muitas vezes: «Sinto horror pelas pessoas que não sentem o corpo.» Mathieu sentia o dele, mas era como um embrulho embaraçoso. — Ainda quer ir ver os Gauguin? — Gauguin? Quais? Ah!, a exposição de que me falou? Bem, podemos lá ir. — Não parece ter muita vontade. — Tenho. — Se não tem vontade, Ivich, diga. — Mas tem você. — Bem sabe que já lá estive. Tenho vontade é de lha mostrar, se isso lhe agradar; mas se não lhe interessa, desisto. — Pois então preferia ir noutra ocasião. A — A exposição acaba amanhã — disse Mathieu, decepcionado. — Tanto pior — disse Ivich sem energia —, mas há de haver outra oportunidade. — Acrescentou com calor: — Essas coisas estão sempre a aparecer, não é verdade? — Ivich! — observou Mathieu com uma amabilidade forçada. — Essa é mesmo sua! Diga que não lhe apetece, mas bem sabe que tão cedo não haverá outra. — Pois bem — disse ela, gentilmente —, não quero ir hoje por causa do exame. É infernal que nos façam esperar tanto tempo pelo resultado. — Não é amanhã?

— Justamente. Acrescentou, roçando a manga de Mathieu com a ponta dos dedos: — Hoje não deve ligar ao que eu digo. Não estou normal. Dependo dos outros, é aviltante. Vejo continuamente a imagem de uma folha branca pregada numa parede cinzenta. Eles impõem nos este pensamento. Quando me levantei hoje de manhã, senti que já era amanhã. Hoje é um dia perdido, riscado. Roubaram me este dia e já não me restam muitos mais. Insistiu em voz baixa e rápida: — Falhei em Botânica. — Compreendo — disse Mathieu. Queria encontrar nas suas recordações uma angústia que lhe permitisse compreender a de Ivich. Talvez na véspera da formatura... Não, não era a mesma coisa. Ele vivia sem correr riscos, sossegadamente. Agora sentia se frágil, no meio de um mundo ameaçador, mas era através de Ivich. J E A N P AUL SARTRE — Se eu for aprovada — disse Ivich —, vou beber antes da oral. Mathieu não respondeu. — Só um bocadinho — repetiu Ivich. — Disse isso em Fevereiro, antes do exame, e foi lindo, com quatro cálices de rum ficou completamente bêbeda. — Aliás não ficarei aprovada — disse ela de maneira equívoca. — Está bem, mas se por acaso ficar? — Claro que não vou beber. Mathieu não insistiu. Tinha a certeza de que ela apareceria bêbeda à oral. «Eu é que não faria isso, era demasiado prudente.» Estava irritado com Ivich e desgostoso consigo próprio. O empregado trouxe o copo e encheu o até meio de menta verde. — Já trago a água e o gelo. — Obrigada — disse Ivich. Ela olhava para o copo, e Mathieu olhava a. Um desejo violento e imperioso invadira o: ser por um momento aquela consciência perdida e cheia de seu próprio odor, sentir por dentro aqueles braços compridos e finos, sentir, na junção, a pele do antebraço colar se como um lábio à pele do braço, sentir aquele corpo e todos os pequenos beijos que dava a si próprio sem cessar. «Ser Ivich sem deixar de ser eu.» Ivich tirou o balde das mãos do empregado e pôs um pequeno cubo de gelo no copo. — Não é para beber, mas fica mais bonito. Pestanejou e sorriu com um ar acriançado. — É bonito. Mathieu olhou o copo, irritado. Procurou observar a agitação espessa e desordenada do líquido, a brancura turva do gelo. Em vão. Para Ivich era uma pequena volúpia

viscosa e verde que a deixava toda melada até à ponta dos dedos. Para ele aquilo não era nada. Nada de nada. Um copo com menta. Podia, pensar o que Ivich sentia, mas ele nunca sentia nada. Para ela as coisas eram presenças abafantes e cúmplices, grandes redemoinhos que a penetravam na carne, mas Mathieu via as sempre de longe. Olhou a e suspirou. Estava atrasado, como de costume. Ivich já não contemplava o copo, parecia triste e puxava nervosamente um caracol dos seus cabelos. — Queria um cigarro. Mathieu tirou o maço de Gold Flake do bolso e estendeu lho. — Vou lhe dar lume. — Obrigada, prefiro acendê lo eu. Acendeu o cigarro e tirou algumas baforadas. Aproximou a mão da boca e divertiu se, com um ar maníaco, a fazer deslizar o fumo pelas palmas das mãos. Explicou, como para si mesma: — Queria que o fumo parecesse sair da minha mão. Seria engraçado uma mão com neblina... — Não é possível, o fumo passa demasiado depressa. — Eu sei, e isso enerva me, mas não posso parar. Sinto o meu sopro aquecer a mão, passa lhe pelo meio, dir se ia que a corta em duas. Teve um riso rápido e calou se. Continuava a soprar na mão, descontente e obstinada. Depois deitou fora o cigarro e sacudiu a cabeça. O perfume dos cabelos chegou às narinas de Mathieu. Era um cheiro a bolo com açúcar bauni Ihado, porque ela lavava os cabelos com gema de ovo. Mas esse perfume de pastelaria tinha um gosto voluptuoso. Mathieu pôs se a pensar em Sarah. — Em que é que está a pensar, Ivich? Ela ficou um instante de boca aberta, desconcertada, depois retomou o seu ar meditativo e o rosto contraiu se lhe. Mathieu sentia se cansado de a olhar. Doíam lhe os olhos. — Em que é que está a pensar? — repetiu. — Eu... (Ivich abanou a cabeça.) Está sempre a perguntar me isso. Nada de especial. Coisas que não se podem dizer, que não se transmitem. — Sabe se lá... Diga. — Bem, eu olhava para aquele homem que vem ali, por exemplo. Que quer que lhe diga? Que é gordo, que enxuga a testa com um lenço, que traz uma gravata... É estranho que você me obrigue a contar estas coisas — disse de repente, envergonhada e irritada —, não vale a pena dizê las. — Para mini, sim. Se eu pudesse desejar qualquer coisa, desejaria que fosse obrigada a pensar alto. Ivich sorriu sem querer — É um vício — disse —, a palavra não foi feita para isso. — E engraçado esse respeito selvagem pela palavra. Parece crer

que ela só foi feita para anunciar mortes, casamentos ou dizer missa. Aliás, você não olhava para ninguém, Ivich, olhava para a sua mão e a seguir olhou para o pé. E, além disso, sei no que estava a pensar. — Então porque é que pergunta? Não é preciso ser muito esperto para adivinhar. Pensava no exame. — Está com medo de reprovar, não é? — Naturalmente. Estou com medo. Ou melhor, não estou com medo. Sei que vou reprovar. Mathieu sentiu novamente um gosto de catástrofe na boca. «Se ela reprovar, nunca mais a verei.» E ela ia reprovar de certeza. Era evidente. — Não quero voltar para Laon — disse Ivich com desespero. — Se ficar reprovada, não me deixarão voltar. Disseram me que era a minha última oportunidade. Pôs se a mexer nos cabelos. — Se tivesse coragem — disse com hesitação. — Que faria? — perguntou Mathieu inquieto. — Qualquer coisa. Tudo menos voltar para lá. Não quero voltar, ficar lá a vida inteira. — Mas disse que seu pai talvez vendesse a serração daqui a um ou dois anos e que viriam todos para Paris. — Paciência! São todos assim — disse Ivich com um olhar furioso. — Queria ver se fosse consigo! Dois anos naquela cave, ter paciência durante dois anos! Não vê que são dois anos que me roubam? Tenho só uma vida — disse com raiva. — Ao ouvi lo falar, parece que se julga eterno. Um ano perdido, na sua opinião, substitui se bem. — As lágrimas vieram lhe aos olhos. — Não, não se substitui. É a minha mocidade que se escoará gota a gota. Quero viver já, não comecei ainda e não posso esperar. Já estou velha, tenho vinte e um anos. — Ivich, por favor, faz me medo. Tente ao menos uma vez dizer com clareza o resultado dos seus trabalhos práticos. Tão depressa parece satisfeita como desesperada. — Falhei em tudo — disse Ivich, sombria. — Pensei que em Física tivesse tido êxito. — Ah!, a Física — atalhou Ivich com ironia. — E em Química foi lamentável. Não consigo enfiar as fórmulas na cabeça. É tão cansativo! — Mas então porque é que escolheu isso? — O quê? — O P.C.B. — Queria sair de Laon — disse ela, obstinada. Mathieu fez um gesto de impotência. Calaram se. Uma mulher saiu do café e passou devagar diante deles. Era bela, com um nariz minúsculo num rosto liso, parecia procurar alguém. Ivich

Ivich sorriu lhe com frieza. quando aquele corpinho encantador e quase gentil era tomado por uma força dolorosa. — Sou eu — disse Mathieu. mas quer quatro mil a pronto. — Ivich — disse Mathieu. A mulher imobilizou se pestanejando ao sol. Quer fazer a coisa depois de amanhã para a poder observar durante os primeiros dias. e Mathieu olhou a tristemente. — Que criatura soberba — disse em voz baixa e profunda. Mathieu sabia que ela não podia responder. É um estupor de um judeu — acrescentou. Ele entrou no café e desceu a escada. — Chamam o Senhor Delarue ao telefone — gritou o empregado. melancólica. Teria talvez trinta e cinco anos. Esta ficara quase feia. — Ah! Fico muito satisfeito. apertava as mãos com força. Levantou se. juro. Ela não respondeu. a rir. mas não quis saber. Dissera uma vez a Mathieu: «Tenho vontade de morder os narizes pequenos. e ele pensou que ela tinha vontade de morder. por um amor ardente e perturbado A desfavorecido pela beleza. disse lhe que você estava atrapalhado. a porta da cabina não se fechava. viam se lhe as pernas compridas. a sua fisionomia transformou se. e sentiu se também sozinho. Mathieu pegou no telefone. Mathieu não gostou daquela voz. é Sarah Gomez.. — Bem. Insisti. é a Sarah? — Tudo corre bem — disse a voz nasalada de Sarah. lamento imenso. através do tecido leve do vestido. Ela estava só. — Desculpe.» Mathieu inclinou se ligeiramente e viu a de perfil: a sua expressão era cruel. A mulher foi se embora. à transparência.. só que a coisa me apanha desprevenido. quando a viu. Olhava para Ivich. docemente. Quanto é que ele quer? — Ah!.devia ter sentido logo o perfume. — Ivich! Era nesses momentos que mais lhe queria. — Está. Já não existia para ela. mas quando era prestável tornava se . Ivich seguiu a com o olhar e murmurou raivosamente: — Há momentos em que eu gostaria de ser homem. Ele parte domingo para os Estados Unidos. — Senhor Delarue? Primeira cabina. tenho de arranjar o dinheiro. vou avisar Marcelle hoje mesmo. mas. — Mas é preciso andar depressa. Sarah era muito bondosa. Mas Mathieu não tinha vontade de as olhar. Ergueu lentamente a cabeça. Pensou: «Não sou bonito». Teve um risinho seco.

O táxi parou. Ivich olhou o de lado através das suas longas pestanas. pensava: «Quatro mil francos». Sarah. — Esteve aqui alguém que ia nervoso. Passarei por lá para tratar ainda de mais umas coisas. é descapotável. Não valia a pena telefonar a Marcelle antes de resolver o assunto do dinheiro. não era consigo. — A dor de cabeça passou me — disse ela. silencioso. «pedirei mais mil francos a Daniel. vou tratar disso. — Táxi — gritou. e Ivich subiu. Tinha um sorriso confuso e provocante. — Não. — Oh! Dei os ao motorista.» — Galeria das Belas Artes. junto de Ivich. como uma irmã de caridade. neste táxi. Estavam ambos aborrecidos. não — disse Mathieu ao motorista —. o vento na cara é incomodativo. Sorriram e calaram se. «Uma vez que lhe vou falar». — Bom. para dar até ao fim do mês. amavelmente. — Não. Mathieu ia para dizer: . Michel. — Esse não — disse Ivich —. O táxi atravessou a Praça St. Pôs vinte cêntimos na bandeja e subiu devagar a escada. parece um coche e é fechado. antes do jantar? — Todo o dia. Obrigado. — Dentro de dois dias? Bem. Mathieu afastara um pouco o telefone. era um pesadelo. veja como é bonito. poderíamos ir ver os Gauguin. — Pois eu tê los ia guardado. Porque é que fez isso? — Não sei..brutal e activa. ecoar no auscultador. — Uma mulher — disse Ivich —. Levantaram se e Mathieu reparou que o copo de Ivich estava vazio. — Porquê? Mathieu apontou os cigarros. pensou Mathieu. não vale a pena. «Irei ter com Daniel ao meio dia. meio fumados.» Sentou se perto de Ivich e olhou a com ternura. — Uma ficha para o telefone — pediu. — Se quiser — disse Mathieu. Está em casa à noite. — Deve ter ficado contente. — Mande parar aquele — pediu Ivich —. Mathieu viu entre os seus pés três cigarros de ponta dourada. — Até logo à noite. Mathieu saiu da cabina. há vestígios de bâton. é um anjo. e ouvia o riso de Sarah. — Ainda bem — disse Mathieu. sem surpresa.. Sentou se. Sentia o coração amargurado. — Poderíamos. Mathieu disse: — Uma vez achei cem francos num táxi. Faubourg Saint Honoré.

como está verde!» Mas não disse nada. perturbado. dá profundos suspiros para que pensem que está desesperada e encomenda bons petiscos! Acrescentou com uma maldade dissimulada: — Sempre pensei que as pessoas desesperadas não se incomodavam com a morte. o que me desagrada um bocado é Lola. em criança. — Ela é gentil consigo. — Eu acho a simpática. mas de vez em quando tinha uma expressão terna pelo prazer de sentir o rosto pesado e doce como um fruto. — Isso não quer dizer que ela não se sinta desesperada. disse para si próprio. — Nunca reparei nisso. É bonita. pensam no dinheiro e tratam se bem. — Naturalmente. — Não pode fazer outra coisa. os três. Às vezes tento imaginar como você era.. Foi Ivich quem falou de repente: — Boris pensava que íamos ao Sumatra. — Ficarei muito contente em ver Boris e de estar com vocês — disse —. que eram um homem e uma mulher fechados num táxi.. e mais nada. erguendo as sobrancelhas. Mas não gosto dela. canta bem. Eu gostaria. Era como se eles tivessem imaginado. aborrecido. nunca se deveria envelhecer — disse Ivich. — Tinha caracóis — informou Mathieu. ao mesmo tempo. A — Pois é. Voltara a cabeça e olhava os cabelos de Mathieu avançando a boca com ternura. secamente. mas não consigo. E assim que fazem as pessoas que envelhecem. esforça se logo por lhes descobrir qualidades. é muito teatral? — Teatral? — perguntou Mathieu. tem a juventude de um mineral. Ivich continuou: — Não acho que valha a pena incomodarem se por causa de Lola. você não tem idade — disse Ivich —. Desde que as pessoas o detestem. — É engraçado que não tenha reparado. Ela não pode comigo. parece me que foi sempre assim. . e apressou se a acrescentar: — Tem razão. quando estão desgostosas consigo próprias e com a vida. hoje à noite. Ivich não era muito coqueta. não é nada agradável envelhecer. «Não». — Que é que isso tem? Fez se um silêncio.«Olhe o Sena. — Oh!. É a sua moral. Mathieu achou a inconveniente e irritante. Eu não a acho simpática. Olhou a. Quer sempre ser perfeito. fico sempre admirada quando a vejo fazer as contas das despesas e tentar economizar.

Sarah. Tinha deixado para trás Marcelle. é irremediável. era livre. e Mathieu sentia um corpo quente junto do seu. um polícia levou o tipo. mas sentia um estranho nó na garganta e estava fora de si. mas um pouco mais pequeno. Parecia achar a coisa natural e também se devia ter sentido livre. Agora era amor. à posição vertical. Mathieu quis falar. olhava para o seu amor. rígida e silenciosa. Para a castigar aflorou com os lábios uma boca fria e fechada. Inclinou se. aliás não o fizera propositadamente. Desta vez. Aquele dia de Verão abatia se nele como uma massa densa e quente. Desejara desaparecer. As arcadas do Louvre estendiam se pesadamente ao longo dos vidros. já não estava em parte alguma. Ivich não devia saber que tinha um ar terno. «Pronto. havia entre ambos um sentimento raro e precioso. que não se exprimia por gestos. e deixou se cair como se tivesse perdido o equilíbrio. Pensou: «Um homem casado a conquistar uma rapariguinha num táxi». O táxi meteu se pela Rua de Rivoli. mas não via as árvores. rígida. Um polícia fez sinal para parar e o táxi deteve se. estendeu o braço. de rosto cinzento. Ivich ia pensar que ele a amava como às outras mulheres que tinha amado.» Encolheu se. Ivich calava se. Um gesto e aquele amor aparecera perante Mathieu como um objecto importuno e já vulgar. Mathieu olhava em frente. bruscamente. viu lhe os olhos. Aproximara se de uma mercearia. agarrou Ivich pêlos ombros e puxou a para si. os intermináveis corredores de hospital por onde andava desde manhã. e entre eles havia o . Insistia. Através do vidro da frente via as árvores e uma bandeira tricolor na ponta de um mastro.— Pois eu imagino o tal como é hoje. que parecia muito admirado. sem nome. Não disse nada: ficou com uma expressão neutra. O corpo de Ivich voltou. Ivich continuava sem dizer nada. pareceu lhe que ficava suspenso no vácuo com uma intolerável impressão de liberdade. o único que não devia ter feito. pensou Mathieu. como uma mola. «Está a julgar me». Mathieu pensou: «Que é que eu fiz?» Cinco minutos antes aquele amor não existia. Um tipo bastante bem vestido. Depois estendera a mão e pegara na carne. Era amor. Lembrou se do gesto de um tipo que vira uma vez na Rua J E A N P AUL SARTRE Mouffetard. mas ficou dura. O dono gritou. Ainda durante um segundo. Estava calor. e o braço recaiu lhe inerte. Ao levantar a cabeça. Ivich não resistiu. E ele fizera um gesto. e depois. olhara demoradamente uma fatia de carne fria que estava num prato sobre o balcão. como se fossem pombas. «Que pensará ela?» Estava a seu lado. fora espontâneo. irritado. e a sua raivosa alegria esvaiu se. sentia vontade de se abandonar inteiramente.

soergueu se. Havia uma repulsa no ar. Mas já sabia que ia desejá la. humilhante para ela. «Bom. mas agora pensava nelas sem prazer. mas o calor era de meio dia. havemos de nos arranjar». à sua volta. Acabava sempre assim. impalpável. pagou e juntou se a Ivich. o gesto desajeitado e terno. de olhos fechados. Viu de repente Marcelle estendida na cama. «Está aborrecida. com os seus desejos simples e as suas condutas vulgares. despreza me e pensa que sou como os outros. aceitava o já como uma fatalidade. chuvoso. pensou. que caía largado sobre as coisas. e já velho.» Não era o que eu queria dela. de quem vai tomar um medicamento. que tinha já a obstinação impalpável das coisas passadas. e . Mas já não conseguia lembrar se do que queria antes. Um calor enorme enchia o quarto. pensou com desespero. que era um eterno meio dia. parecia Ihe que a vida parara ao meio dia. um calor que viera de fora. olhava os tornozelos com um vago descontentamento. Ivich abriu a porta e desceu. que deixara a luminosidade nas pregas da cortina e jazia ali. Deitou lhe um olhar furtivo e achou que ela tinha uma expressão dura. nunca a desejei». Pensou: «Meio dia. sacudiu a cabeça. Contemplava com espanto aquele amor completamente novo. como um vago perfume. não lhe pude dizer. «Não é verdade». humilhado de antemão. Mathieu não a seguiu imediatamente. Sabia que não teria podido J E A N P AUL SARTRE suportar aquela expressão e que a coisa lhe parara na garganta. e Mathieu é que o fizera nascer com inteira liberdade. que o esperava à entrada.. Desceu finalmente. «tenho horror a que me toquem». com um ar alegre e bem disposto. Marcelle deitava se tarde e não conhecia nunca as manhãs. «alguma coisa deve ter acabado entre nós. e a noite da véspera continuava ainda ali. «não a desejo. envergonhado e dissimulado.gesto. «Se ele soubesse. uma repulsa de meio dia. quando Mathieu se deitara nu ao lado dela.» Ele teria respondido.» Mas não tinha vontade de deixar de a amar. Era apenas o amor. e um dia.» O tecto estava cinzento como uma madrugada. mole. estagnado. aquele amor de homem casado. é tão puro.. nua. pensou. «Não pude. Olhar Ihe ei para as pernas.» Gostava daquelas visitas misteriosas. com a sua luz morta e rosada. como me acharia repugnante. Entraram na exposição sem trocar uma palavra. e o seu primeiro pensamento foi: «O arcanjo vem esta noite. inerte e sinistro como um destino. O táxi parou. como na véspera.» Sentou se à beira da cama. sem esperança. «Na melhor das hipóteses». para os seios. Se ao menos ela pudesse esquecer. «o arcanjo!» Marcelle bocejou... Odiava Marcelle.

era como se sentisse um odor permanente. e sentiu nojo. como uma clara de ovo ligeiramente batida. pensou. a partir do segundo mês. e o dia começou. e teve de tossir para se livrar dela. Teve um sorriso amargo. «E tenho sorte. parecia lhe que mastigava um pedaço de manteiga amarela e rançosa. No entanto. uma sensação morna nas ancas e nas axilas.inútil! Lá fora era o dia dos vestidos claros. Vomitou uma água suja. quando dizia: «Faz se um aborto. anda a tratar de tudo». Acontecia. e o mínimo gesto fá lo ia ruir como uma avalancha. a sua expressão ingénua e convencida.» Deixou . enojava se facilmente consigo mesma.» Quando se acorda de manhã com má disposição e se sabe que se têm pela frente quinze horas para matar antes de se tornar a deitar. que adianta ser livre? «Não ajuda a viver.» Levantou se bruscamente A e correu para o lavatório. Não sentia repugnância.» Plumas delicadas e embebidas em aloés acariciavam lhe a garganta. depois sentiu uma espécie de riso no fundo da garganta e inclinou se sobre o lavatório. e um clarão de ódio atravessou a. Mathieu caminhava lá fora na poeira viva e alegre desse dia que se iniciara sem ela e já tinha um passado. Pensou primeiro na manteiga. não?». E a minha mãe conheceu mulheres que não podiam suportar o cheiro a fumo. eu só vomito de manhã. Já não pensava em nada. maldosa. uma coisa talvez como o desabrochar da Primavera. Olhou a baba que escorria devagar pelo buraco do lavatório. sem ternura. dizem que há pessoas que vomitam durante o dia todo. O dia ainda não tinha começado e já estava contra Marcelle. Uma aguadilha saía lhe da boca. nas pontas dos pêlos negros. e logo uma repugnância por tudo. e murmurou: «Recordação de amor. Marcelle apoiou se no lavatótio e olhou para o líquido espumoso. Sorriu. No último Inverno. E de repente recordou o rosto de Mathieu. De manhã vomitou duas vezes. Disse a meia voz: «Tem graça!» Não sentia repugnância. «Ele pensa em mim. uma piedade activa e desajeitada de homem saudável. depois fico cansada. deixando traços viscosos e brilhante como lesmas. gotas de frio. Tinha vontade de vomitar. não queria que Mathieu lhe tocasse. «A sua liberdade. ainda ensonada: um capacete de aço na cabeça. não era mais repugnante do que a goma ruiva e odorífera dos rebentos das árvores. a liberdade. quando tivera diarreia. franzia lhe os lábios. um gosto de mata borrão na boca. Era a vida. mas dominava se. espumante. «Não é isto que é repugnante. num equilíbrio instável.» Depois fez se um grande silêncio no seu cérebro. Sentia se mole e vencida. passou a mão pêlos cabelos e esperou. mas aguento. como uma bola sobre a língua. parecia se mais com esperma. Sentia se irritada porque imaginava uma robusta piedade passeando ao sol. não faltaria mais nada.

Não gostava do seu corpo.. Tornou a sentar se na cama. diante dos seios das mulheres que amamentavam: além do medo e do descontentamento. Olhava para a barriga e descobria. Não era um animal. com uma ingénua precipitação. a sua ampla bacia fecundada. um pouco acima dos pêlos negros. em pequena. Surpreendeu os seus olhos no espelho e voltou se bruscamente. durante algum tempo ainda. Iria a casa da velha. tirou a camisa com gestos lentos. e quando a amasse redobraria de precauções. não passa de um fibroma. J E A N P AUL SARTRE O espelho devolvia lhe uma imagem cercada de luzes violáceas.» Não se sentia com coragem. Pensou: «Tenho de me arranjar. Daniel viria também de vez em quando. Pensou: «Se fosse um animal. que nem sequer é ainda um animal e que vão raspar com a ponta de um bisturi.» Mas o ódio não se esvaiu. Aquele corpo que desabrochava absurdamente era feito para a maternidade. a sofrer dos intestinos e Mathieu viria.. que olham para a barriga e que também pensam: «É aqui. Encolhem os ombros. uma espécie de esperança. e o seu corpo era apenas uma superfície feita para reflectir os jogos estéreis de luz e tremer sob as carícias como a água a ondular ao vento. com uma delicadeza terna. Iria a casa da velha.. o arcanjo. Mas os homens tinham resolvido o contrário. pousou docemente a mão na barriga.correr um pouco de água para lavar a bacia. Está no seu direito. ela aproximara se do espelho com o mesmo espanto hesitante. Bastava imaginar que era um fibroma. Pensou: «É aqui. Aliás. Mirou o ventre. Há sete anos — Mathieu tinha passado a noite com ela pela primeira vez —.. toda a gente tem disso na vida. quase um tecido. Hoje já não era a mesma carne.» Uma bolinha de sangue esforça se por viver. levantaria as pernas e a velha far lhe ia uma raspa gem com um instrumento. Aproximou se. E não se falaria mais nisso. sempre dissemos que em caso de acidente. uma impressão semelhante à que sentia no Luxemburgo. E Daniel. afundar se nela como no seio de uma grande fadiga feliz. quatro noites por semana e tratá la ia. como uma jovem mãe. seria apenas uma recordação desagradável. Voltaria para o seu quarto cor de rosa. como de costume. neste momento. «Sempre é verdade que me podem amar!» E contemplava a carne lisa e sedosa.» Podia entregar se àquela languidez viva. «E aqui. perante a abundância pacífica das banhas. apertou devagar e pensou com certa ternura. Nesta barriga. Não podia . neste momento. deixar me iam sossegada. Não queria odiar Mathieu. Não olhou para os ombros nem para os seios. «Aborta se?» Desde a véspera que se sentia perseguida. urna bolinha de sangue estúpida. Há outras.» Mas essas estão orgulhosas. continuaria a ler. Disse: «Não quero odiá lo.

«Porque é que só Daniel me sabe fazer falar? Se me tivesse ajudado um bocadinho. dir mo á. Pensou: «É aqui. para ele.» Julgou por momentos que se ia acalmar. algo que lhe pertencesse de facto e que não fosse obrigada a repartir. Às escondidas. «Se me puser a odiá lo. vai andar à procura de direcções.. Por preguiça.» Mas não pôde deixar de passar docemente a mão pela barriga. quando a olhava carinhosamente.» Iria a casa dessa velha. E a velha passar lhe ia as mãos pêlos cabelos. pensou. «Pois é. «Como lhe poderia ter dito? Nunca me perguntou nada. Dentro em breve ultrapassarei a idade do amor. de expor os seus pequenos casos de consciência.» É aqui que vive uma coisa. mas a cumplicidade criava entre J E A N P AUL SARTRE ambos um laço ténue e encantador. as suas delicadezas morais.» Só Daniel sabia fazê la interessar se por si própria. «Ele que fizesse como Daniel». Não se atormentava. com um ar de cumplicidade imunda. Teria ao menos sobrevivido? «Estou podre. Por outro lado. Daniel era tão misterioso.saber. que não gosto de mim o suficiente para isso. a culpa é minha. no espelho. E isso é melhor para ele do que arrastar se por aí com aquela fulana. e Mathieu ignorava aquela intimidade.» Riu. Mas tem de andar depressa. agora que não tem aulas. Estou com uma doença venérea.. o que mais receava era ter de o desprezar. Ele gostava de falar de si. nunca lhe disse nada. devia saber que não posso falar de mim. infe . uma massa sombria e curvada: era um corpo de sultana estéril. uma gravidez é tão sórdida como uma blenorragia. e chamar lhe ia: «Minha gatinha».» Crispou as mãos no lençol.. Gostaria de lhe ter dito: «E se o conservássemos?» Ah!. era quase uma brincadeira.. que me restará? Teria. tinham combinado de uma vez para sempre que diriam tudo um ao outro. Ele via a às escondidas. Mas logo a seguir sobressaltou se.» Mas ela não podia falar. «Quando não se é casada. «No entanto. se ele tivesse hesitado um segundo. Quanto a Marcelle.» Durante todo o dia da véspera tinha sentido um nó na garganta.. Marcelle não achava desagradável ter um pouco da sua vida pessoal. Não quer que essa velha me faça mal. Mas no fundo tem a consciência tranquila. tinha confiança nela. Está aborrecido como alguém que partiu um vaso. a certeza de desejar um filho?» Via de longe. é o que tenho de dizer a mim própria. pensava: «Se ela tiver algo. principalmente. Estava apavorada. não conseguia. «Ele estava inquieto quando saiu.. Ah!. Tinha uma maneira especial de a interrogar. Deve ter prometido a si próprio encher me de amor. à noite. isso sim. mas isso era cómodo. ter lho ia dito! Mas ele dissera com o seu ar ingénuo: «Aborta se?» E ela não conseguira falar. vai andar ocupa díssimo. tinham um segredo em comum. ao menos. como em Andrée. Não faziam nada de mal.» Evidentemente.

Pensou de repente com paixão: «Seria meu. Mathieu pensou: «O espírito francês. e Mathieu perguntava a si próprio o que pensava ela de tudo aquilo. Demasiado livre. nos cabelos de Ivich. ao olhar aquele retrato pela primeira vez. com um queixo enorme. Era aquele sol expurgado. Mesmo que fosse idiota. A seguir entrava se nos grandes salões desertos e mergulhava se numa luz académica que saía de um vitral. «apresentam se. Paredes claras.» Um banho de espírito francês. — Isto é Gauguin — disse. auto retrato: Gauguin muito pálido e penteado. sem falar. Era uma luz dourada que dava nos olhos e se fundia em tons de cinzento. Na semana anterior. pensava irritado. Mathieu estava sobressaltado com a realidade. Nem sequer via o quadro. Tinha de falar baixo. um ramo de flores. tão inconfessáveis. Tentava interessar se pêlos quadros. «Os quadros não atraem». Ivich não respondeu. Uma vida absurda e supérflua como a dela. Apesar disso arrastou Ivich e mostrou lhe. Ivich não dizia nada. sentia se seco. Os quadros . duas taitianas de joelhos na areia. de nunca se esquecer da mais francesa das virtudes. o bom senso. Via tudo o que era real. as cores pastosas sobre as telas. Sou livre perante eles. um Cristo na cruz. e uma arrogância triste de criança. disforme. mas em vão.DADE DA RAZÃO liz como ela própria.. Depende de mim que existam ou não. Viu apenas os cabelos sem cor pelo falso brilho da luz. Mathieu sentiu se acabrunhado por uma quantidade de responsabili dades cívicas. as paredes. tapeçarias de veludo bege. Havia muitas manchas nas paredes: os quadros. com a verdade. VI v ia se por cima da porta o emblema da República e as bandeiras tricolores. uma expressão de inteligência fácil. que se sentiu repentinamente culpada e teve horror de si própria. não tocar nos objectos expostos. Era uma pequena tela quadrada com uma etiqueta. e o silêncio oficial dos salões. transido pelo espírito da Terceira República. fazer uso do espírito crítico com moderação e firmeza. Mathieu tinha o achado belo. Agora. aquela obscura afirmação eram tão solitários. tudo o que aquela luz clássica podia clarear. por toda a parte. mas mãos de Mathieu. Não os quadros.» Isso criara lhe uma responsabilidade suplementar e sentia se culpado. e Mathieu deitou lhe um olhar furtivo. o que dava logo o tom. Mas Mathieu já não tinha vontade de os contemplar. um grupo de cavaleiros maoris l.. era preciso escondê los de tanta gente. as telas nas molduras. seria meu!» Mas aquele desejo secreto. J E A N P AUL SARTRE uma paisagem bretã com um calvário.

Os cabelos caíam lhe para a . «Ela já não está zangada». Agora. A mulher pôs se a rir. Perdera a dignidade — aquela dignidade humana que Mathieu ainda conservava sem saber o que fazer dela —.) Mal entraram. O homem e a mulher aproximaram se. A mulher era do tipo gazela e devia ter uns quarenta anos. pensou Mathieu com alegria. com profundidade. Era de mais. — Também é dele. A solidão e o orgulho tinham lhe devorado o rosto. seco e elegante no seu fato distinto de flanela cinzenta diante do enorme corpo nu. havia urna relação visível entre o seu aspecto de juventude e a qualidade da luz. — É verdade — disse com uma voz aflautada —. uma grande imundície na parede. de expor nas telas objectos inexistentes. Devia ser a força do hábito. 1 Indígenas da Nova Zelândia. fixava neles o olhar duro e falso dos alucinados.tinham se apagado e parecia monstruoso que no fundo de todo aquele bom senso houvesse gente capaz de pintar. mostraram se à vontade. da R. — O verdadeiro Gauguin é o Gauguin que decora. Contemplava Gauguin com os seus olhos redondinhos. Mas estava só. O homem inclinou se para trás e olhou a tela com uma severidade depreciativa. Por trás dele havia presenças obscuras. mas mantinha o orgulho. tche — murmurou meneando a cabeça. Da primeira vez que vira aquela carne obscena e terrível. atrás dele. Condecorada. demoníacas formas negras. isto não é a sério. Ivich deixou se cair na poltrona às gargalhadas. — Tche. Agarrou lhe no braço e conduziu a até uma poltrona de couro no meio da sala. nu até à cintura. e Mathieu sentia vergonha de si próprio. O corpo tinha se tornado num fruto grande e mole dos trópicos. num céu tempestuoso. Tinha uns olhos redondos e cabelos brancos. Entrou um homem e uma mulher. O homem era alto e rosado. Mathieu mostrou a Ivich uma grande e sombria mancha de bolor na parede do fundo. tche. Certamente a luz das exposições nacionais era a que lhes ia melhor. (N. Ivich teve de se pôr de lado porque impediam que fosse vista. Ivich tivera um ataque de riso e olhava o com desespero mordendo os lábios. Mathieu ouviu um soluçar estranho e voltou se. foram colocar se com desembaraço diante da tela. Gauguin. fazia se passar por Cristo! E aquele anjo ali. Era uma competência. Mathieu tinha se comovido. — Não gosto nada disto! Palavra de honra. tinha ao seu lado um corpinho rancoroso. esse anjo é literário como tudo! J E A N P AUL SARTRE — Não gosto de Gauguin quando pensa — disse o homem.

agora já não é a mesma coisa. Parecia que tinham sido surpreendidas quando se metamorfoseavam em coisas. — É formidável — disse em voz alta. a rua ardia.. — Não tem nada de especial para fazer? — perguntou. — Quando? . E a mulherzinha. Ivich fez uma careta e levou a mão aos olhos. Gostaria de passear ao ar livre. Ivich desviou as mãos e Mathieu viu lhe os olhos pálidos e franzidos. como havíamos de fazer para lá ir? — Não íamos — disse Ivich secamente. sem querer. Quando a encontrar. — Refere se às exposições? — Refiro me. Era feiticeira. Ivich parou de rir. Oh! — disse furiosa —. — Há outros quadros na sala — disse Mathieu timidamente. — Quer ir se embora? — Preferia. Ivich titubeava ligeiramente e continuava a tapar os olhos. Pareciam consultar se sobre a atitude que deviam tomar. — Como é que ele dizia? Não gosto de Gauguin quando pensa. Deve estar à procura de uma frase cortês de despedida. Atravessaram a rua em silêncio. — Se não fosse público — tentava retomar o tom de alegre familiaridade que lhe era habitual —. Lá fora. Calaram se. Uma delas tinha um capuz. detesto o Verão. Desejaria ter lho mostrado. A outra estendia o braço com uma tranquilidade profética. — Isto não devia ser público — disse Ivich de repente. Duas mulheres caminhavam descalças num capim cor de rosa. — Não — disse melancólica —. Mathieu seguiu a deitando uma olhadela de pesar para o grande quadro da parede à esquerda. Mathieu teve a impressão de atravessar uma fogueira. Estes quadros fizeram me outra vez dor de cabeça. Mas eu não quero que ela me deixe». — Ivich — murmurou.cara. deixa me. Há pessoas. Mathieu pensou: «Continua aborrecida comigo. «Ela quer acabar com tudo. — Cuidado com o passeio — disse Mathieu. Não tinham uma expressão completamente viva. Deram alguns passos. Não pensa noutra coisa. Estão bem um para o outro! O homem e a mulher mantinham se impassíveis. — É como se me picassem os olhos com alfinetes.» E de repente foi invadido por uma certeza insuportável.. Levantou se. pensou com angústia.

imediatamente. Mathieu perguntou lhe se gostava das telas de Toulouse Lautrec. — Acha que ele era doido? — perguntou bruscamente Ivich. e ela respondeu: «Que horror. coisas belas e sensuais que se deviam possuir. graciosos. Os pintores eram homens como os outros.» Voltou se para ela. Mas não volto para o Lar.. pensei. podia atrasar um pouco a eclosão dos pensamentos coléricos e desprezíveis que lhe iam nascer. Ivich não gostava de deixar os lugares e as pessoas. era belo — disse Ivich com convicção. Mathieu estava contente. A — Gauguin? Não sei. mas viu lhe um olhar desvairado. porque o futuro a apavorava. Os quadros eram coisas. Mathieu teve vontade de limpar a testa. ele era tão feio!» Mathieu sentiu se pessoalmente magoado. Mathieu encolheu os ombros. vou ter com Boris. É por causa do retraio que pergunta isso? — Por causa dos olhos. — Naturalmente. se se impusesse. E havia também aquelas formas negras atrás dele que pareciam conspirar. Era preciso falar. ainda que os odiasse. de qualquer coisa. J E A N P A U L SARTRE — Visto que quer passear. Ivich tinha uma maneira de falar dos mortos ilustres que o chocava um bocado: entre os grandes pintores e os quadros não estabelecia qualquer relação. Acabou por perguntar.» O que não provava que lhe tivesse perdoado. «Daqui a uma hora ficará livre e há de julgar me sem apelo. Perguntava se tinham sido simpáticos. — Aí está uma ideia que não me teria surgido — disse Mathieu com surpresa. Os estudantes da Sorbona. Parecia lhe que existiam desde sempre.. não me poderei defender. Enquanto estivesse com ele. Abandonava se com uma indolência mal humorada às situações mais desagradáveis e acabava por encontrar nelas uma espécie de descanso. — Não nada. Um dia. . mas não se atreveu a fazê lo. Mas Mathieu não encontrava nada para dizer. e as palavras não lhe saíram. se tinham tido amantes. «Ela fica. aborrecia se de ir comigo até casa do Daniel na Rua Montmartre? Podíamos separar nos à porta e deixava me pagar lhe o táxi para voltar ao Lar.— Agora. tenho de lhe explicar. desajeitadamente: — Apesar de tudo gostou de ver os quadros? Ivich encolheu os ombros. — Se quiser. impedia a de pensar. não os apreciava e não os respeitava. — Sim. Não é possível deixá la partir assim. Apesar de tudo. Acrescentou com pesar: — Era belo. Se falasse continuamente.

— Tem um ar nobre — disse num tom neutro. — Foi esse Gauguin que fugiu? — perguntou de repente Ivich. Ivich podia os devorar com os olhos à vontade. bem sabe que aprecio as pessoas que são orgulhosas. tinha filhos.» As mulheres também as podia achar belas. Houve um longo silêncio. não é . Era apresentada na Corte. e sempre com aquela expressão estúpida. Ivich desatou a puxar um caracol dos seus cabelos. Ivich teria sido educada em Moscovo. Mathieu disse.insignificantes e frescos como raparigas. — Quer que lhe conte a história? — Parece me que a conheço: era casado. — Eu não o acho simpático. alto e belo. casava com um oficial da guarda. conciliadora: — Aliás. Ivich? — disse Mathieu com vivacidade. de testa curta. Ivich estava em Paris. uma certa arrogância. — Disse por dizer. Sem a revolução de 1917. Não aquele homem maduro que fizera quadros de que ela gostava. O Sr. de olhar mortiço. — Porque é que disse naturalmente? — Porque tinha a certeza de que ia chamar a isso arrogância. passeava com Mathieu. isso deve parecer tão exagerado! Mathieu não respondeu. Depois Ivich disse abruptamente com um ar estúpido e fechado: — Os Franceses não gostam do que é nobre. O seu ar de orgulho dá lhe um olhar de peixe morto. Ivich fez uma cara de desprezo e calou se. — Que foi. Acrescentou. Adquirira uma expressão de obstinação insípida. um burguês de nacionalidade francesa que não gostava da nobreza. — Foi — disse Mathieu com solicitude. Porque é a minha impressão. Mas não Gauguin. Ivich falava de bom grado do temperamento francês quando se encolerizava. carinhosamente: — Eu não queria dizer mal dele. no colégio das raparigas nobres. compreendo isso muito bem. — Naturalmente — disse Ivich a rir. De fora. O pai de Ivich era nobre. E até Mathieu a tinha achado encantadora uma vez em que ela olhara demoradamente um pupilo do orfanato acompanhado de duas religiosas e dissera com uma espécie de gravidade irrequieta: «Tenho a impressão de que me estou a tornar pederasta. Serguine A era agora proprietário de uma serração mecânica em Laon. — Censura me porque não o acho simpático? — Não. mas pergunto a mim própria porque é que disse isso. — Sim — disse Mathieu no mesmo tom —. se é isso que quer dizer.

Não o fiz porque era absurdo.» — Enfim — concluiu —. A princípio era isso. Era saudável. compreende porque se pintam paisagens no campo. mas não com a expressão que Mathieu esperava.. «morreria. — Acha que preciso de cabinas de luxo? — perguntou ele. Tive muitas vezes vontade disso. — Porque não? Talvez não para o Taiti. Um amador que esborrata telas ao domingo. para realizarem o seu ideal na vida. Mathieu olhou a em silêncio. Ivich pôs se a rir. — Acha engraçado que ele tenha começado como um pintor de domingo? — perguntou Mathieu com inquietação. Talvez por ser francês. de qualquer maneira. . — Isso surpreender me ia muito — disse com voz glacial. pensou. acho estranho vê la decidir sobre a minha possibilidade de partir. ou cinco ou seis poemas. — Não — respondeu secamente Ivich —. Mathieu estremeceu. Por higiene. Ele sentiu dificuldade em engolir a saliva. olhou o de frente. «Gostaria de a ver num convés de um navio com os emigrantes». — Então no que é que pensava? — Estava a pensar se também se podia falar em escritores de domingo? Escritores de domingo! Pequenos burgueses que escreviam anualmente uma novela. Quem sabe lá se um belo dia não partirei para o Taiti? Ivich voltou se para ele. e ela continuou: — Talvez me engane.. J E A N P AUL SARTRE — Refere se a mim? — indagou a rir. — Bem viu que isso leva às maiores loucuras. — Não era nele que eu pensava. está enganada..isso? — É! Trabalhava num banco e ao domingo ia para o campo com o cavalete e uma caixa de tintas. Aliás. Esta história é ainda mais cómica porque veio a propósito de Gauguin. Era o que chamamos um «pintor de domingo». respirando o ar puro. da mesma maneira que se pesca à linha. mas para Nova Iorque. — Sim — disse —. corando. antigamente. Gostaria de ir para a América! Ivich puxava os caracóis com violência. Tinha um ar mau e amedrontado. que foi precisamente um funcionário até aos quarenta anos.. Estou a vê lo a fazer conferências para estudantes americanos numa universidade. assustava se com a sua própria ousadia. de segunda classe. com outros professores. — Pintor de domingo? — Sim. mas não no convés de um navio de emigrantes. em missão.

. Mathieu parou e olhou a. — Ainda estamos a falar disso? — É estúpido. — Claro. de má vontade. não vejo porque é que isso havia de ser uma qualidade — disse ele —. — É. ou então não estou a perceber o que quer dizer. nada.. e Mathieu imaginava que ela ia falar. a impressão de que você já tem a vida organizada e com ideias sobre tudo.. — Ivich! Vai dizer me o que é que está a magicar. Faz censuras veladas e. — Não censuro ninguém — disse ela com indiferença. — Nada.. e Mathieu sentiu pela segunda vez ciúme. Era exasperante. — Para quê? — Para ver que não deve haver muitos funcionários daquela espécie. Olhou indefinidamente... — Não é verdade? — indagou Mathieu. De repente disse: — Tanto se me dá que seja assim ou assado. E sempre assim. Em todo o caso basta olhá lo na tela para. Ivich sorriu com desprezo. não! — disse Ivich. — Estou a falar do quadro em que ele é ainda jovem: parece capaz de tudo. perdido. Enrolava um caracol no dedo e puxava o como se o quisesse arrancar.Ivich desatou a rir ironicamente.. — Ah... recusa se a dar explicações. Apoiava se ora num pé ora noutro e evitava o olhar de Mathieu. olhando para a ponta da sapatos: — Você já está instalado e não mudaria por nada deste mundo. Estende as mãos para as coisas quando julga que estão ao seu alcance. . É demasiado cómodo. mas não dá um passo para as apanhar. — Ah!. Ele parecia. com uma expressão ligeiramente desvairada. Ivich recomeçou a puxar os cabelos. tinha aceitado perdê la. Mathieu lembrou se do rosto pesado e do queixo enorme. visto que o disse. — Evidentemente! Se é isso que quer dizer. Foi uma palavra que me veio à cabeça. Acrescentou rapidamente. J E A N P A U L SARTRE — O quê? — Nessa história de homem «perdido». Gauguin tinha perdido a dignidade humana. — Aliás. — Na grande tela do fundo? Estava muito doente naquela altura. Ivich parou também. depois. não sou um homem perdido. Mas não saía nada. — Estou a ver — disse. De vez em quando abria a boca. Tinha ar de querer dizer qualquer coisa.. não se fala mais nisso. era isso — disse Mathieu. mas quero saber o que pensa exactamente sobre isso. Calou se. — Bem. — Quem é que lhe disse isso? — É uma impressão.

não gostava disso — repetiu Mathieu. Mathieu sentiu se empalidecer.. sou assim mesmo. — Se quer dizer que não tenho caprichos.. — Julgo que não se quer arriscar. descobrindo o rosto largo e pálido. — Ah!. Mathieu estava mais surpreendido do que chocado. A — Ah! — disse Ivich triunfante. — Era para si! — Eu sei — respondeu Ivich com delicadeza —.— Quem é que lhe disse isso? — repetiu Mathieu. — Acho muito melhor assim. Não gostava de ir a concertos e exposições? — Gostava. Levantou a cabeça e alisou os cabelos para trás. deve estar a pensar nalguma coisa de especial.. Ela murmurou. Ivich? — A propósito de tudo — disse ela com ar vago. — Com efeito — atalhou Mathieu secamente. estou Ihe muito grata. que é demasiado inteligente para isso. — Nunca a teria forçado. Olhava os lábios finos e moles de Ivich e perguntava a si próprio como os tinha podido beijar. mas não acho bem. Poderia tê los. a vida devia ser impossível. com indulgência. — Não compreendo.. — Como diz isso sem convicção! — Gostava realmente muito. — Não — disse em voz baixa —. Mathieu estava aterrado. Levara a aos concertos.... não há que recear imprevistos.. — Acha isso desprezível? — Pelo contrário — respondeu Ivich. indignado. sem o olhar: — Todas as semanas chegava com a Semaine à Paris.. como imagina. tão metódico. sem que se percebesse a mais pequena ironia na sua voz: — Consigo sentimo nos em segurança. tudo o que faz é. — A que propósito diz isso.. — Ivich! — disse Mathieu. Ivich. Não conseguia dizer outra coisa. Pensava que ela tinha razão.. estabelecia um programa. — Julgo — disse Ivich com lassidão. — Não. Mathieu pensou de repente em Marcelle e teve vergonha.. — Eu sei. Mas tenho horror — disse com uma violência repentina — que me imponham obrigações para com as coisas de que gosto.. — Devia ter dito — continuou desolado. como qualquer outro. explicara lhe os . Acrescentou. Com Gauguin. Acrescentou com uma expressão falsa: — Mas como me diz o contrário. os olhos brilhavam lhe. às exposições......

— Ivich! Peco lhe desculpa do que se passou esta manhã.. vn N u até à cintura. Estavam inundados de luz e odiavam se.quadros. Falava com repugnância. erguia lhe a língua e saía. Está cansada? — Muito. Agora. pensou. Mas ao mesmo tempo. Adoptara um tom de bom senso. — Até logo — disse Ivich sem o olhar. Imaginava que ia parar a cada palavra. e Mathieu continuou com esforço: — Há também os museus. «Sou repugnante». com o olhar. os concertos. Depois uma porta bateu dentro dele. e durante alguns instantes Mathieu acompanhou o. Foram os quadros. Acrescentou: — Vou tentar mudar. Pensava em Gauguin. baralham se me na cabeça. Desculpe. Mathieu via se com os olhos de Ivich e sentia horror por si próprio. Mas você nunca dizia nada. Você ia a essas exposições como se fosse à missa. — Esta manhã? Nunca mais pensei nisso. trancou se. Sabia que a sua causa estava perdida. Pensamos agradar às pessoas.. e nem sequer lhes podia tocar. — Quer ir se embora? (Mathieu estava quase aliviado. Se soubesse como lamento. Ivich conservava a sua expressão dura. Ela levou a mão à testa e apertou as fontes com os dedos.. Mathieu chamou um táxi. aos arranques. nem sei como aconteceu. — Que me importam os quadros — disse Ivich sem o ouvir —. Mathieu sentiu de repente um nó na garganta. E sentia o a meu lado. Caminharam lado a lado. tinha pressa de ficar sozinho. — Ainda é longe? — Um quarto de hora.) — Acho que é melhor. — Não voltará a acontecer. Mas vinha lhe outra do fundo da garganta. e Mathieu detestou a francamente.. Daniel barbeava se diante do espelho do . silenciosos. mal me podia conter de raiva e vontade de os levar. Ivich não respondeu. tranquilo e reverente. Falava por descargo de consciência. Mathieu pensou: «E o Sumatra? Deverei lá ir apesar de tudo?» Mas não tinha vontade de a tornar a ver. se não os posso ter. O táxi afastou se. Calaram se. e durante todo aquele tempo ela odiava o. Todas as vezes. Ivich sacudiu a cabeça. angustiado. Uma cólera desesperada ardia lhe no rosto. e pôs se a pensar em Marcelle. — Não se pode mudar — disse. Aliás.) Já os confunde. — Até logo — disse ela. (Bateu o pé e olhou Mathieu com desespero. E sempre a mesma coisa.

Não seria má ideia desfigurar este rosto de que elas tanto gostavam. Pensou com uma espécie de mal estar: «E isso que a excita. Daniel saltou com a navalha na mão. Todas as manhãs. Dizia para si mesmo: «Desta vez não me escapa.» Não era um simples projecto. Devia ter se escondido na reentrância de um dos patamares e aguardava. cada vez que bebia. Para além disso. Inclinou se ligeiramente e com um golpe hábil de navalha decapitou a espinha. «Tenho de ficar à espreita no vestíbulo uma manhã inteira. de maneira a não se cortar.» Marcelle alcunhara o de querido arcanjo» e agora tinha de suportar os olhares daquela femeazinha. tinha a certeza. em plena puberdade. como um olho. Ao mesmo tempo escutava. Bastava ver aqueles olhos de peixe frito quando lhe dizia bom dia. «Um rosto escalavrado não deixa de ser um rosto.» Olhou a espinha vermelha e febril. colocava flores diante da porta de Daniel. Ficará chocada quando vir que tenho pêlos no peito. tudo estará acabado. Daniel apurou o ouvido: «Não. Tinham acabado de dar as dez horas. Abriu bruscamente a porta da entrada. Com um pontapé atirou os cravos escada abaixo. Não se podia tentar afastá la. nada a não ser uma tarde vaga que se retorcia como um verme. Aquilo já durava há quinze dias. paciência. Tarde de mais. eram os ruídos da rua. Via no espelho o rosto moreno e nobre. Pensou: «Ela gosta da minha cara. Daniel tinha medo dos arranhões. fixo e redondo. Doíam Ihe os olhos porque havia dormido muito mal e tinha uma espinha sob o lábio. no ruído leve da navalha. A porta do quarto de dormir estava entreaberta para ouvir melhor. a criança tinha o pressentido e fugira. e lançar lhe ia um olhar severo. Só assim a conseguirei apanhar.» Foi como um leve roçar. simplesmente. disse em voz alta.» Tomava cuidado ao passar com a navalha à volta da espi J E A N P AUL SARTRE nhã. Era preciso vivê la. Da cara e dos ombros. com o coração aos saltos. Um rosto de arcanjo. «Hoje de manhã. Daniel descobriu no capacho a seus pés um ramo de cravos: «Fêmea imunda». pensou Daniel. Ficaria um pequeno tufo de pêlos pretos. A coisa já lá estava. nu da cintura para cima. quase imperceptível. porque tem imaginação. nem mesmo aproximá la para que acabasse mais depressa.» Apareceria. Era a filha da porteira. Tinha também aquelas olheiras roxas e pensou: «Estou a dar cabo de mim. mas o meio dia já estava no quarto. de faces azuladas. ao meio dia. irritado. ao voltar da escola. uma manchazinha vermelha com um ponto branco.» Aproximou se do espelho e . ainda me aborreceria mais depressa. à luz da lâmpada eléctrica. «Imundas». Agora era assim.armário. sempre significa alguma coisa. sustendo a respiração.» Tornou para o quarto e voltou a barbear se.

um armário. Depois abriu a janela. Daniel pensou nos cães de Constantinopla. «Ah». Daniel não tinha recordações. até ao meio dia. Coçava a cabeça contra o batente da porta.contemplou se sem prazer. Viu o grande cesto de vime. Dir se ia um quarto de hotel. tinham nos encurralado numa rua. e . Olhou duramente Daniel e bocejou com ferocidade. O vento do mar alto trazia por vezes os uivos deles aos ouvidos dos marinheiros. «espera um pouco. abafada. — «Popeia». O relógio de Daniel marcava dez horas e vinte e cinco. «Popeia» — chamou Daniel. assanhando se. sozinho no Johnny's.» Pegou Ihe pelas patas e pô la ao lado de «Cipião». ah!» Ela enrolava se de um lado para o outro com movimentos graciosos de cabeça. «Espera um pouco». Daniel deixou se flutuar no calor estagnante. com ternura. e desviou os olhos. Era hoje. Entreabriu a porta da cozinha e assobiou. Enfiou uma camisa de seda creme e umas calças de flanela cinzenta. à noite. Durante um segundo. aberto no meio do compartimento. Daniel ajoelhou se e. disse com uma voz cantante de comediante. «Cipião» ficou lá sem se mexer. Disse: «Aliás. Era uma gata de telhado. «Cipião» apareceu primeiro. numa noite de Inverno.» Parecia cansado. Beliscou as ancas. pulou para o fogão a gás. pôs se a acariciar lhe o focinho. Pareceu espantada. predestinada. beatificado. virou se de costas então. Daniel gostava menos dela porque era comediante e servil. mas encolheu se e depois resolveu ronronar. uma cadeira. Gostava do seu quarto porque era impessoal e não o atraía. Daniel tinha a encontrado no Luxemburgo. J E A N P A U L SARTRE dava lhe pequeninas patadas na manga. pensou ele. espreguiçando se. «Popeia» nunca vinha quando a chamavam. e a manhã entrou no quarto. Daniel roçou lhe o dedo pelo pescoço rechonchudo. uma mesa. Daniel teve de ir buscá la à cozinha. Não eram cães que deviam lá ter posto. Comeram se uns aos outros. Não se decidira a voltar para casa antes das três horas porque era terrível pôr a cabeça no travesseiro e deixar se afundar nas trevas imaginando que ia haver um amanhã. Quatro paredes nuas. gosto de ser belo. uma manhã pesada. com uma barbinha. fechado em sacos e abandonado numa ilha deserta. com uma grande cicatriz no flanco direito. O gato. Tinha de perder um quilo. Logo que percebeu que ele a estava a ver. Daniel pegou lhe pelo pescoço e meteu o no cesto. pouco antes do encerramento do jardim. Sete uísques na véspera. eufórico. estendeu as patas e ele fez lhe cócegas nas tetas escondidas sob o pêlo negro. de olhos semicerrados. pôs se a ronronar e a fazer gracinhas. escolheu com atenção a gravata: a verde às listas porque estava abatido. A seguir. Daniel não gostava dos cães. duas poltronas. Era branco e ruivo. uma cama. «Malvina» veio a seguir. depois olhou em volta. Quando ela o viu. «ah.

«É longe. Teve de a empurrar pelo rabo. é assim?» Agarrou a pela nuca e pêlos rins e enfiou a à força. Na escada já se sentia indiferente e seco. Pegou no cesto pela asa e pensou: «Como são pesados estes infelizes animais.» Nas costas da mão havia três arranhões e no seu íntimo havia também uma comichão estranha que ameaçava envenená lo.» Pensava nas tetas rosadas de «Malvina». como se fossem cócegas. Tomou a nos braços e ela esticava a cabeça para trás. Passou lhe o dedo no focinho e ela mordeu o com raiva e divertida ao mesmo tempo. «Gatos. Gostava de Daniel. como de costume: «É raro um gato olhar nos de frente. e sorriu lhe sem a olhar. mas não tinha o hábito de ceder facilmente aos próprios desejos e. Dir se ia um canto de cigarras. mordia muitas vezes «Malvina».» Riu se. bom. porque ele era muito cerimonioso e bem educado! . Daniel contemplou os com um alívio maldoso: «Um bom guisado. depois. «Uf!» A mão ardia lhe um pouco. o seu terror raivoso. Os outros dois tinham ficado um ao lado do outro. baixando as orelhas e curvando se toda. mas passou lhe logo. «Era isto que eu gostava tanto de fazer!» Bastara lhe fechar os três ídolos dentro de um cesto de vime e tinham voltado a ser gatos apenas. Mas para fazer «Popeia» entrar no cesto foi um castigo. Parecia escandalizada. Levantou se e olhou para o cesto com uma satisfação irónica. e Daniel pensou. vou ter calor. JEAN PAUL SARTRE apenas gatos. Tinha a impressão de que estava a pregar uma boa partida a alguém. insípido. Sorriu e escolheu o casaco de tweed arroxeado que já não podia suportar desde Maio.» Mas sentiu que uma intolerável A IDADE DA RAZÃO angústia o invadia e teve de desviar o olhar. «Ah!. bom. Agarrou no novelo de fio e guardou o no bolso das calças. «Bom. corado e a suar com aquele fardo nos braços. Hesitou. Daniel gostava dela. teve uma espécie de enjoo. ronronando. mas olhou o bem de frente. simplesmente gatos. Cómico e um bocado ridículo. «Presos. e ela voltou se raivosa e deu lhe uma unhada. Então beliscou lhe o pescoço e ela ergueu uma cabecinha obstinada. uma dorzinha seca.» Queria vestir o casaco de flanela. A gata teve um momento de estupor e Daniel aproveitou o para baixar a tampa e fechá la. Não ronronava («Popeia» nunca ronronava). Era voluntariosa e má. minha rainha». estúpidos. seria cómico andar ao sol. o vime gemeu sob as garras de «Popeia». uma insipidez de carne crua. pequenos mamíferos vaidosos e estúpidos e que morriam de medo — nada de extraordinário. Quando atravessou a porta de entrada.trouxera a. A porteira estava à porta da rua e sorriu lhe.» Imaginava a sua posição humilhante e grotesca.

estava tão exausta que adormeci sem apagar a luz. Mas o seu apartamento vai ficar vazio. Não via nada. e . mas a sombra permaneceu atarracada e disforme. De repente viu a própria sombra grotesca e disforme. Empertigou se. «É estranho que se possa odiar a si mesmo como se fora outra pessoa!» Mas não era verdade. nadava na luz. tão tranquilo. «Ah!». «Dr. trate bem deles. traiu se. Sentia se interiormente tão bom. Senhora Dupuy — disse Daniel. quando ia lá acima arrumar. Quando se desprezava. só havia um Daniel. com uma espécie de prazer. Sr. nada de táxi. — Que cesto tão grande! — São os meus gatos. vou levá los para a casa da minha irmã em Meudon. «Não vou desmaiar assim sem mais nem menos».» Atravessou o portão. Hyde até à paragem do 72. Era rígido. Hyde. Daniel conhecia um sítio solitário ao pé do Sena. corno tinha previsto. — Voltei tarde ontem à noite e vi luz por baixo da sua porta. gravemente: — Sabe que os gatos podem ficar tuberculosos? — Tuberculosos? — disse a porteira. «Velha toupeira. fechado e no fundo havia uma pobre vítima que pedia clemência. Fazia Ihe mal aos olhos. Daniel sorriu.» A água do Sena era particularmente escura e suja naquele lugar. De repente ouvi a campainha. «não faltava mais nada. pensei. com manchas esverdeadas de óleo por causa das fábricas de Vitry. O veterinário acha que precisam de ar. com a sombra da prisão de vime que lhe balançava no braço. Quando se bebe na véspera. Eu já me tinha habituado a vê los. Sorriu gravemente e deixou a. A um quilómetro dali. Acrescentou. não há nada como uma manhã de bruma. «aí está o Sr. por mais que fizesse. e a luz ofuscou o. Sereno.» O 72 levá lo ia a Charenton. Pensou: «O homem é assim». — Estão doentes? Coitadinhos! — Não. Devia tratá los mal na minha ausência: bem a proibi de lhes tocar. não? — Mais ou menos. era muito alto. Daniel contemplou se a si próprio com nojo. Jekyll e Mr. assustada. — Muito. Apaguei a logo a seguir. — Ah!. disse.— Levantou se muito cedo. tinha a impressão de se destacar de si mesmo. dir se ia um chimpanzé. O senhor deve estar muito aborrecido. Sereno» (era o único inquilino que faltava entrar). que isso não lhe parecia natural. Não. tão bonitos. tenho tempo. com uma garra de ferro a apertar lhe o crânio. Eram três horas mais ou menos. — Receava que estivesse doente. Serei Mr. de planar como um juiz abstracto acima de um formigar impuro. — Veja lá — disse a porteira a rir —. minha senhora — respondeu Daniel respeitosamente. faria melhor se vigiasse a filha. aquela horrível luz quente e aguda.

angustiado.. nunca se é nada. — Vai com certeza querer um uísque bem doseado — afirmou o barman. Aliás. tanto lhe fazia. — São gatos — disse Daniel. «Que é que nunca mais acaba?» Ouviu se um miado e um ruído de garras a raspar. o bar estava vazio. não o suportaria. Eu não sou. Assim é que imaginava o Inferno: um olhar penetrante que atravessaria tudo. Bebeu o vodka e ficou um momento a sonhar. Sangue. o gin fizz sabe a limonada purgativa.» Tinha de fazer apenas um pequeno desvio e ficaria no Championnet. O barman assustou se. não sabia se lhe causava prazer ou mal estar. pensou Daniel. claras e leves como fumo. arranhavam se lá dentro. «É sinistro ver com clareza». Pensava: «Isto nunca mais acaba. E se eu levantasse a tampa?» Mas Daniel já tinha saído. Rua Tailledouce. eu gosto de uísques bem doseados. Quando empurrou a porta.bruscamente aquilo apanhava o e sentia se mergulhar em si próprio.» —. sem fazer objecções. na frente. um gin fizz! O barman serviu o. O silêncio repousante. «Há no entanto qualquer coisa que os . O cesto mexeu se sozinho no seu braço.. viu no chão uma manchazinha vermelha. A obscuridade era agradável. Aliás. Ao levantá lo. pensou.. iria até ao fim do mundo — até ao fim de si próprio. «Que violenta dor de cabeça!» Pousou o cesto. secamente. o terror transformar se ia em gatos. depois sentou se num banco do bar. No fim da rua havia um muro azul. como sempre. Devia estar magoado. O empregado limpava as mesas de madeira avermelhada em forma de tonel. se abrisse. Aquele terror que sentia tão próximo da mão. — Não — disse secamente Daniel.» — Um vodka com pimenta num balão — pediu. «Ah!. uma cegueira lúcida e húmida: os olhos ardiam lhe como fogo. Desceu do banco. Este dá boas gorjetas. pôs vinte francos na mesa e pegou no cesto. e a cegueira recomeçava. são demasiados familiares. «Merda!». «Que fossem passear com aquela mania de catalogar os indivíduos. «vou beber um copo. l DADE DA RAZÃO e Daniel não poderia suportar isso. aquele tem sempre uma boa para contar. pensou. com um fogo de artifício na boca. Mas não tinha vontade de levantar a tampa. Espalhava se em poeira ácida sobre a língua e acabava num gosto de aço. Mas definem as pessoas num instante. como guarda chuvas ou máquinas de costura. cheques sem cobertura. Agora só havia na prisão um pavor maciço e indefinido.» Mas eram pensamentos superficiais. «Que estarão fazendo aqui dentro?». e de repente apercebeu se de que via casas. «Tanto melhor. Isto não me faz nada. Nunca mais porei os pés neste buraco.. a cem passos.

Sem cheiro e sem sombra. prisões de vime: prisões. Paciência. querida — disse Daniel em voz baixa e rapidamente —. Daniel reparou que estava a alguns passos à frente do seu corpo. O cesto miou. E nunca. Quando se arma em trágico. insossa e lodosa. e Daniel estremeceu como se tivesse sido surpreendido em flagrante delito de assassínio. coxeando ligeiramente por causa do peso que levava. sacos de couro. «Há piores.. Daniel. nada mais do que um invisível arrancar de si próprio para o futuro. Mais cheques sem cobertura. com uma vozinha clara. «A água do Sena vai enlouquecê los. uma menina. . A — Achas que sim? Escuta. é porque se leva tudo a sério. Mas a montra de uma tinturaria reflectiu lhe a imagem. a suar. os gatos. A água do Sena. — Seis bilhetes — disse o cobrador. eu vou afogar estes gatos. Chatear se através do mal feito aos outros. — São seus? — indagou a menina. deambularia sem cheiro. A menina olhou para o cesto com curiosidade: «Mosquinha imunda».» Encolheu os ombros. Pensou novamente em Constantinopla: fechavam as mulheres J E A N P AUL SARTRE infiéis dentro de sacos com gatos hidrófobos e atiravam nos ao Bósforo. — São. Tonéis.. pensou Daniel. A menina falou com uma voz convincente e encantadora. digna e rígida. Daniel fez sinal e subiu para a primeira classe. Não queria armar em trágico. perto do lampião e que se olhava e se via chegar.» Daniel pensou: «Para eles sou um cheiro. sem passado. — São gatos — disse Daniel. estava farto. nunca Daniel levava as coisas a sério. — Até ao fim da linha. ele próprio. estás a abusar. sozinho entre os homens que não têm sentidos suficientemente apurados para essa percepção. encheu se de uma água lodosa e insossa. x — Comigo não serão maus. — Porque é que os carrega num cesto? — Porque estão doentes — disse Daniel. Nunca se pode ser directamente atingido. e a ilusão dissipou se. vai encher o cesto e eles vão ferir se com as garras. pôs o cesto no chão.sossega: o meu cheiro. Daniel já não teria aquele cheiro familiar. docemente. Uma mulher sentou se diante dele. — Não posso mostrá los. a doença tornou os maus. — Que é? — perguntou a menina.» Dentro em breve. — Tchiu — disse a mãe —. E sabes porquê? . O autocarro surgiu de repente.» A água cor de café com leite com reflexos roxos. — Posso vê los? — Jeannine — disse a mãe —. deixa o senhor sossegado. pensou: «E um acto gratuito. Via se chegar e era apenas um simples olhar. Foi invadido por um imenso nojo. Ao lado.» Parou.

não queres pensar nos gatos? Pois bem. nem ódio. «É preciso não pensar nos gatos. Nada havia naquela cabeça que se assemelhasse a uma fuga desesperada diante de si. querida. satisfeito. Olhou momentaneamente. O carro estava vazio. Seria cómodo de mais!» Daniel reviu os olhos dourados de «Popeia» e pensou muito depressa noutras coisas. devia vê la . Talvez as mãos. Via desfilarem pêlos vidros as casas cinzentas. Cada miado era uma gota. — Estás a ver — disse a senhora. Descansava. Pô las sobre os joelhos: «Olhe! olhe!» Mas a mulher desistira. nem curiosidade. — Estás a ver! Bem te disse que estivesses sossegada. com um ar indefinido. Daniel apressou o passo e voltou numa rua suja que conduzia ao Sena. que não falasses à toa. o senhor estava a brincar.» Ninguém detestava o rosto de Daniel. Levantou se e desceu. «Ela odeia me». ligeiramente gordas. que me veio trazer flores. — Vem. O balde era pesado. «Nem a minha roupa. Era uma praça movimentada e cheia de bares. — Oh! — disse a menina. Ah!. Daniel contemplou a com uma espécie de avidez. Daniel sobressaltou se. — É aqui. que é nova e macia. as mulheres olharam no surpreendidas. ganhara dez mil francos na Bolsa. como és irritante e demorada! Pegou na mão da filha e arrastou a. Não é nada. é aqui — disse. e uma expressão animada veio pousar lhe no rosto. è preciso que penses. sabia que a mulher o estava a olhar. Antes de descer.Porque ainda hoje de manhã eles arranharam horrivelmente o rosto de uma linda menina como tu. nem mesmo uma ligeira ondulação. dois dias antes. quando descansavam? Aquela deixara se cair com todo o seu peso dentro de si mesma e fundia se.» As mãos eram curtas e fortes. pensou. com pêlos negros sobre as falanges. Tinha os olhos fixos em frente. Acordou de repente. Daniel mudava de mão e limpava o suor da testa. a menina voltou se e deitou um olhar de terror para o cesto. O cesto desatara a miar ininterruptamente e Daniel quase corria. para o cesto e foi esconder se nas saias da mãe. Algumas pessoas passaram a rir diante de Daniel. — Término — gritou o cobrador. Daniel olhou a tranquilamente. Como faziam essas pessoas assim. «Uma mãe indignada! Está à procura do que poderá odiar em mim. nenhum movimento. Carregava um balde furado de que a água se escapava gota a gota. De ambos os lados havia tonéis e entrepostos. pensou em Marcelle. Somente a massa espessa do sono. Formara se um grupo de operários em volta de uma carrocinha. deitando um olhar indignado sobre Daniel. espantada. Vai ser preciso arranjar um olho de vidro para ela. cheia de terror. O autocarro partiu e mais adiante parou. Não é o meu rosto.

. «Arcanjo!» Daniel riu de troça: desprezava profundamente Marcelle. Os ponteiros do seu relógio marcavam onze e vinte e cinco. Que estranha engrenagem! Daniel calculou que teria de pegar no cesto com a mão direita e na pedra com a esquerda.» Era preciso prolongar aquele momento extraordinário. Os remoinhos propagar se iam por baixo da água até à isca. Os gatos miaram como se tivessem sido escaldados. Largaria tudo ao mesmo tempo. De repente sentiu que estava sozinho. amaldiçoou o pesado casaco. Barcaças negras carregadas de tonéis estavam atracadas ao cais na outra margem. um pescador recortado a preto na luz.». Daniel estava sentado ao sol e doíam lhe as têmporas. Era ali. Pensou com orgulho em Mathieu: «Eu é que sou livre». e com o canivete cortou um pedaço de fio. J E A N P A U L SARTRE «Às onze e trinta.. pois Daniel já não era ninguém. Que era apenas . Eles não têm coragem de confessar que não se amam. pensou com ironia.. à esquerda. Riu e tirou o lenço para enxugar o suor da testa. Daniel desdobrava se. e Daniel recomeçou a andar. duro e seco. O cesto flutuaria talvez durante uns décimos de segundo e a seguir uma força brutal arrastá lo ia para o fundo. Não quer perder se.. Se Mathieu visse as coisas como são. Dentro dele qualquer coisa palpitava que pedia clemência. pegou com a mão esquerda numa pedra. disse. Quando não se tem coragem de se matar de uma só vez. Colocou o cesto no chão e deu lhe um violento pontapé. sentia se fraco e teve de se apoiar ao barril. «Ele é normal. deu vários nós e tornou a pôr a pedra no chão. sentou se no chão junto a uma argola de ferro. deu com ele a gemer.. enrolou o resto na pedra. Mas não quer. lá longe.nessa noite. Ouviu se um grande barulho lá dentro e a seguir os gatos deixaram de se ouvir. Daniel pensou que estava com calor. Depois tirou do bolso o novelo.» Ergueu se levemente sobre as mãos e olhou em volta: à direita a margem estava deserta. Vai pensar que é um peixe. Operários saíram de um entreposto. teria de tomar uma resolução.. Desceu por uma escada de pedra até à beira do rio. amarrou uma das pontas do fio à asa do cesto. Ia aproximar se da água e dizer: «Adeus ao que mais amo no mundo. O Sena estava amarelo sob o céu azul. e Daniel sentiu que perdia a cabeça. Manchou o casaco de tweed e ficou a olhar a mancha escura. Sentia se perdido numa nuvem vermelha. sob um céu de chumbo. Mas era um orgulho impessoal. tem de se fazer aos bocados. entre um barril de alcatrão e um monte de paralelepípedos. mas não quis tirá lo. era o seu dia. Olhou para a água ondulosa e inchada de fluorescências opalinas. Às onze horas e vinte e nove levantou se. e Daniel. Daniel ficou um momento imóvel com um estranho estremecimento atrás das orelhas. Sem se levantar.

«Parece estar em dificuldade». Sr. — Táxi — gritou. Espantava se por sentir em si um certo entusiasmo. Quando chegou ao último degrau atreveu se a dizer a si próprio as primeiras palavras: «Que seria aquela gota de sangue?» Mas não ousou abrir o cesto. O imundo. — Quer ter a bondade de pôr este cesto aí à frente? Deixou se embalar pelo movimento do táxi. Disse lhe que o senhor não estava. Tinha vontade de o ajudar. — Fui levar os meus gatos a passear — disse Daniel. Isto posso eu fazer.» — De volta. «pois então vou deixar lhe um bilhete debaixo da porta.» Mas no fundo dele havia um estranho sorriso: porque tinha salvado «Popeia». perto de alguém que o desprezasse.» Sentia se contente por odiar outra pessoa. Tocou lhe de leve no ombro e retirou imediatamente a mão. — Olá! — disse Mathieu. — Não compreendi nada das histórias da porteira. Em silêncio: mesmo dentro dele havia silêncio. constatou sem alegria que estava cheia de dinheiro. «Ganhar dinheiro. voltando a cara. — Há justamente alguém que acaba de subir. Um tipo que gostava dos seus gatos e que não os queria deitar à água. Dentro dele continuava o deserto. tinha demasiada vergonha para falar diante de si. «Nem de uma vez só nem aos poucos». foi o que ele me respondeu. o silêncio. Sereno? — disse a porteira. Subiram. Quando tirou a carteira para pagar. Daniel deu lhe uma olhadela e reparou que estava com uma cara terrosa. minha senhora — disse Daniel —. coxeando. pensou. Pôs se a caminhar. — Já não esperava ver te. subindo a escada.um solitário. pensou. — Sobes comigo? — Sim. sim. aquele de ombros largos. mas não pude separar me deles. Depois a vergonha voltou mais forte e começou a ver se: era intolerável. «Não está». Mathieu entrou no quarto de Daniel e sentou se numa poltrona. Era como se passasse. Encontrou Mathieu no patamar do terceiro. Pegou no cesto e voltou a subir a escada. pensou amargamente. baixou se e cortou o fio. Disse me que foste levar os gatos à casa da tua irmã. Pegou no canivete. «E Mathieu». 22 — disse Daniel.» Ela olhou o cesto e exclamou: — Mas o senhor trouxe os de volta! — Que quer. «Sou eu. talvez seja condenável. Um covarde. «Vem a boa hora o desgraçado. quero pedir te um pequeno favor. Reconciliaste te com a tua irmã? . Daniel pôs a chave na fechadura e empurrou a porta. Um amigo seu. Sou eu. Não chegava sequer a desprezar se. O táxi parou. — Rua Montmar tre. — Entra — disse.

Pensava que assim afastava terrivelmente Mathieu e que isso lhe dava alento. Mas. o seu optimismo. quando levantou a cabeça. Um bom aborrecimento não lhe faria mal. — Desculpa. Jazia no fundo do cesto. Foi buscar uma garrafa de arnica e um pacote de algodão ao armário. «Mal vina» não se mexia. Desculpa. Recebera uma unhada nas narinas e tinha o olho esquerdo fechado. Tinha de tratar daquele animal. bem sabes. . É insuportável. só um minuto. — Que foi? — perguntou Mathieu. Efectivamente olhou para o cesto com certa curiosidade e calou se. Se fosse um miúdo. «Popeia» fugiu do cesto assanhada e correu para a cozinha. Mathieu tinha o hábito irritante de tratar Daniel como um mitó mano e pretendia não indagar os motivos que induziam Daniel a mentir. pensando: «Vão saltar me em cima. sê boazinha. «Que diria se soubesse de onde venho?» Fixou sem simpatia os olhos sérios e penetrantes do amigo: «É normal. Sabia que Mathieu não insistiria. pensou Daniel. viu que Mathieu olhava sem ver. — Foi certamente «Popeia». ele é normal. sem dizer palavra. uma inocente mentira — disse. «Cipião» saiu por sua vez. «Está ferida». Sobre o focinho havia uma crosta escura e em torno da crosta os pêlos estavam duros e viscosos. Mathieu acompanhou o com o olhar. Tinha se levantado e olhava para a gata. Dirigiu se com passos medidos até ao armário. atentamente. J E A N P A U L SARTRE — Ah! sim. para o curativo. meu caro — disse Daniel com a sua melhor voz —. infecta facilmente. Daniel pôs lhe o dedo debaixo do queixo e levantou lhe a cabeça. aniquilada. pensou Daniel. com um olhar duro. «porque me preocupo com uma gata. Não te estou a aborrecer muito? — acrescentou com um sorriso amável. acharia natural. é só um momento.Qualquer coisa arrefeceu subitamente em Daniel.» Sentia se separado dele por um abismo. Pensava em abrir o fecho. à casa da minha irmã. depois passou a mão pela testa com um ar de velho. durante algum tempo. olhou em volta com uma expressão matreira e escondeu se debaixo da cama. — Dás licença? Daniel só tinha um desejo. conservava a sua dignidade. «Acha me ridículo». A gata debatia se fracamente. Riu. Daniel pôs se a lavar o focinho de «Malvina». o seu ar de equilíbrio. Perderia. Abrir o cesto o mais depressa possível: «Que seria aquela gota de sangue?» Ajoelhou se.» — «Malvina» foi ferida — explicou.» E avançou o rosto de maneira a ficar inteiramente ao alcance dos gatos. Pronto. porém já não sangrava. — Sê bonita — dizia Daniel —. vamos. mas não parecia muito confiante.

ela deve inspirar te horror agora. não quero deixá la. — Não. mas logo desatou a rir. mas Daniel sabia que ela sofria. — Sim — disse Daniel com solicitude. Tinha agora pressa em ver Marcelle.» Riu. — Grávida?! J E A N P AUL SARTRE A surpresa de Daniel foi curta. — Eu já não lhe tenho amor — disse Mathieu. — Pronto — disse levantando se —. isso mataria o amor. E bruscamente: — Marcelle está grávida. Deu lhe uma palmadinha no dorso. com o pretexto de guardar a garrafa de arnica no armário.» — Estou muito chateado — disse Mathieu com uma expressão objectiva. Então era isso! É verdade: «Urina sangue todos os meses lunares e é fértil como uma raia ainda por cima!» Pensou com repugnância que ia vê la naquela noite. E a coisa restringiu se a dois ou três soluços convulsivos. sabes? — «Popeia»? É uma peste — disse Mathieu distraído.Mathieu estremeceu. — Não? Daniel estava profundamente surpreendido e divertido. com cordialidade. — Para ela é uma diminuição terrível. mas diverte se em pôr uma etiqueta como se eu fosse uma coisa. — E para ti não é nada agradável. sabes. Não me conhece nada. «Não sei se terei coragem de lhe tocar na mão. mas teve de lutar contra uma grande vontade de rir. não me faças esses olhos de veludo! «Olhos de veludo!» A superioridade de Mathieu era odiosa. — Ora. parecia em êxtase. «Há desporto esta noite». Perguntou: — Já lho disseste? — Não. — Porquê evidentemente? Terás de lho dizer um dia. ora. e enxugou cuidadosamente a cabeça de «Malvina». Mathieu continuava a falar gravemente: — O pior é que isso a humilha.. . Podes dizer o que quiseres. Uma valquíria fechada num quarto — acrescentou sem maldade. Em mim.. «Pensa que me conhece. Vais. evidentemente. Não a viste muitas vezes. mas é uma espécie de valquíria. Tinha medo de rir. amanhã estarás boa. \ — Então? ^ A Daniel divertia se muito. Mas a outra deu lhe uma bela unhada. dava sempre resultado nessas ocasiões. Fala das minhas mentiras. Daniel encarou o e observou sóbrio: — Compreendo. dos meus olhos de veludo. Pôs se a pensar na morte da mãe. A gata cerrava os olhos. Depois apressou se em voltar lhe as costas. pensou.

estou cheio de dívidas. mas não tenho dinheiro. — Que tem isso? — Pois se continuares muito tempo com esse jogo. inflexível. Aliás. — Bem — disse Mathieu aparentando bom humor —. então não podes . Só que é mais ou menos como uma amizade familiar. — Tenho uma direcção. escreverei um conto de dois em dois anos..» Depois pensou nos gatos e sentiu se sem piedade.. — E vais continuar a vê la às escondidas e a. — Disseste me há dias que ias fazer um bom negócio.. mas não os tenho. o bom negócio foi um malogro... isso chateia me muitíssimo. — Cinco mil francos! — disse com voz desolada —. Daniel olhou o rosto terroso de Mathieu e pensou: «Este tipo está realmente aborrecido. acredita. Mas quando viu que Mathieu não o acreditava. em frente Mathieu. quando receber os meus vencimentos de Agosto e Setembro. Bastava lhe abrir a carteira recheada. Pior para mim. — Cinco mil francos — disse Daniel indeciso. eu quero lhe bem e ficaria aborrecido se não a voltasse a ver. Não é culpa dela que eu já não a ame. — Pois. Mathieu fizera lhe muitas vezes favores antigamente. ficou colérico: «Que vá à merda! Acha se profundo. Bem sabes o que é a Bolsa. Não pusera muita convicção na voz. imagina que lê em mim. Houve um silêncio. Quando Mathieu armava em quaker. Aliás. Porque é que havia de ajudá lo? Que vá procurar os que são como ele. — Não quero que ela se aborreça. É exactamente o que faço! Acrescentou com uma amargura a que Daniel não estava habituado: — Sou um escritor de domingo. acabarás por detestá la. — A culpa é tua? — É. meu caro. porque não desejava convencer. Mathieu parecia obstinado. é simples. Daniel sentou se na poltrona. J E A N P AUL SARTRE — Eu dar te ei metade no fim do mês — disse Mathieu. verei Marcelle.. mesmo na aflição. — Que é que eu sacrifico? Irei ao liceu. — Preferes sacrificar te — disse Daniel com indiferença.— Então nada. Empresta me cinco mil francos.» O que lhe parecia insuportável era aquele ar normal e sério que Mathieu nunca perdia. — Mas é preciso que tu me ajudes — disse Mathieu. odiava o. tirar de dentro as cinco notas. — E a outra metade a 14 de Julho.

Tu queres ser livre.» — Oh!. «Não me tem rancor». — Que espécie de gente é essa? Empresta logo o dinheiro? — Não — disse Daniel com vivacidade. — Não poderás dirigir te a um outro? — Gostaria de evitar falar com Jacques. — É verdade — afirmou Daniel. A maior parte das vezes. J E A N P AUL SARTRE — No fundo — disse. Reflectiu um instante: — De qualquer maneira. — Tens o teu irmão. conciliador. Mathieu tinha corado. pensou com nojo. Por causa da sua inércia bonacheirona ou talvez do seu rosto. com solicitude.realmente? Daniel pensou: «É preciso que tenha muita necessidade para insistir assim. mas isso não lhe era desagradável. dá se com usurários. É preciso um inquérito. que o tinha acalmado. «Na tua idade». aborrecido. — Nisso estás enganado. Daniel . Mathieu calou se. Portanto não há perigo. — Exactamente neste caso é que não lhe posso pedir. é uma oportunidade para um acto de liberdade. A Mathieu mostrou se desanimado. quase alegre que enfurece os outros. Mas que importam afinal os juros. se tens o dinheiro? Mathieu pareceu interessado. Pôs se a acariciá la negligentemente. Meditava. Os animais e os homens não chegavam a odiá lo. aqueles que emprestam aos funcionários. e Daniel pensou. — Demora cerca de quinze dias. «Malvina» saltara lhe para os joelhos e instalava se a ronronar. Sinto muito. A mão tremia lhe. Era como se tivesse virado uma unha. Também não tinha rancor. Meteu na cabeça que não me devia emprestar mais nada. Mathieu absorvera se em pequenos cálculos miseráveis. Daniel gostava das situações falsas. Deitou fora a ponta da língua e pôs se a lamber devagar o lábio superior. meu caro. ainda há as associações. Daniel inclinou se sobre «Malvina» e coçou lhe o crânio. — Tens uma necessidade urgente? — indagou. Perturbava se com a perturbação de Mathieu. porque me fazia um mau serviço. «deverias ser independente. estou quase contente de não ter dinheiro. Soubera encontrar logo o tom optimista. Daniel sentiu repentinamente um pequeno choque mole. sem olhar Mathieu —. — Um acto de liberdade? — Mathieu parecia não entender. mas num caso destes ele vai certamente emprestar te — disse Daniel. — E verdade — disse Daniel um pouco decepcionado.» — Realmente. superficial. disse me.

A — Têm também uma espécie de alegria — disse Daniel. mas que é preciso fazer para que me odeiem?» A carteira estava ali. que me vêm procurar. casar com Marcelle. Sentimo nos outro. pensou Daniel. membros das associações dos pais dos alunos. — Estás doido? — perguntou Mathieu. gordo. de perfeito acordo consigo mesmo. Diria: «Aqui está. com um trocadilho sempre à disposição e olhos de celulóide. Estaria Daniel a troçar dele? Daniel sustentou o olhar com um ar de gravidade modesta. — Não me tentarás — disse Mathieu. Um sujeito casado. «Nem por isso». casado. Mathieu encarou o. — Lamento — disse hesitante —.» E sentiu a respiração entrecortada. Os pais dos alunos. — Tipos assim encontram se todos os dias. pensou Daniel. cornudos. com três filhos! Como isso deve acalmar! — Com efeito — disse Mathieu. Nem sequer um momento ele deixou de ser ponderado. bem tratado. Eu acho que não detestaria. aborrecido. propositadamente. Parecem calmos. franzindo as sobrancelhas. é possível que isso me mudasse muito. Benignos até. — Mas eu prefiro pedir os cinco mil francos ao meu irmão. — Porquê? Uma simples palavra e mudas toda a tua vida. precisamente — continuou Daniel. — Que outro? — disse Mathieu. meu caro. mas até à medula. enterrado. Isso não acontece todos os dias. — Não te incomodes — disse Mathieu —. e acrescentou: — No fundo. — Queres que eu arranje três filhos pelo prazer de me sentir outro quando os levar ao Luxemburgo? Se eu fosse um tipo acabado. Quatro filhos. Mathieu pôs se a rir. — Sobretudo neste momento. Quando Daniel ouviu o passo de Mathieu na escada pensou: «É irreparável. Mas passou lhe. Acompanhara Mathieu até à porta de entrada. Fechou a porta.. se achar um meio. sem se comover. — Dão me vertigens.. «Ele sabe que tenho dinheiro e não me odeia. não deve ser desagradável um tipo sentir se conformado. quis chatear te um bocado. — Pareces bem tu — disse Mathieu. para me rir. Dentro está à . Bastava a Daniel pôr a mão no bolso. com o mesmo tom fútil —.levantou a cabeça. «Está aborrecido. — Bem. isso não te tenta. E a ti. Daniel pôs «Malvina» no chão e levantou se também. eu cá me arranjarei. escrevo te. o contrário do que se quer. deve ser muito divertido fazer. serias como eles. «Ele prefere rir». — Sim.. Levantou se. mas isso fica lhe por fora.. realmente? Vejo te muito bem.» Mas teve medo de se desprezar.

— Não tenha tanta pressa — disse Odette. Mas sim a Jacques. Mathieu tentara imensas vezes reter em conjunto aqueles traços escorregadios. contente.vontade. tranquilizá la. Thieu — disse. cujo sentido se impunha logo. Arranjou lhe um lugar ao lado dela. Não lhe tinha rancor. Estava sentada num sofá. Mathieu viu a através da porta envidraçada da sala de estar. irritado. Ninguém tinha rancor a Daniel.» — O Sr.. Mathieu lembrou se com ternura do pobre rosto atormentado da véspera. como lhe acontecia sempre: Jacques Delarue.. brutalmente. segundo andar. Era preciso confortá la. Mathieu quer falar com a senhora? — perguntou Rosa. Atravessou a rua e pensou em Daniel. Era bela sem dúvida. mas de uma beleza que parecia desaparecer com o olhar. — Gostaria de lhe fazer uma visita — disse —. subiu no elevador. talvez possa ter uma boa notícia para lhe dar. — Sim. com a cabeça de lado e os olhos semicerrados: «Como? Mais dinheiro ainda!» Mathieu sentia arrepios. Tabelião! Entrou. Lia.» Foi olhar o seu belo rosto no espelho e pensou: «Ainda valia uns mil se ele fosse obrigado a casar com Marcelle. Jacques dizia de bom grado: «Odette é uma das poucas mulheres de Paris que tem tempo para ler. para além da censura e da indulgência. Habituado a rostos como o de Lola. Uma expressão divertida e sabida. dizer lhe que não iria lá em nenhuma das hipóteses. preciso de pedir lhe um favor. quero dizer lhe bom dia. — Jacques não vai fugir. — É para mim a visita que veio fazer? — Para si? Ele contemplava com uma simpatia descontente aquela fronte alta e calma e aqueles olhos verdes. «Assim. Devia estar preocupada. o conjunto desfazia se a todo o momento. «Espero que Odette não esteja». Empurrou a porta. mas escapavam se. e o rosto de Odette guardava o seu decepcionante mistério burguês. pensou. Sente se. alta e limpa até à insignificância. Parou diante de um edifício atarracado da Rua Réaumur e leu. «Preciso de lhe telefonar. . mas previna meu irmão de que irei vê lo ao escritório dentro de alguns minutos. mas tenho de ver Jacques.» Mas resolveu passar primeiro pela casa de Jacques. tabelião. Estava. — Bom dia.» vm E stava acordada há muito tempo. Odette ergueu o belo rosto ingrato e pintado. elegante. e ela pareceu lhe repentinamente de uma fragilidade pungente.» Pensava com irritação na atitude que Jacques ia tomar.

— Acha vulgar? — indagou Mathieu. Mathieu sentou se. — Tem um vestido muito bonito — disse. tudo pertencia a Jacques. deixe o vestido sossegado. Contemplava com mal estar o braço moreno e fino que saía de um vestido muito simples. Gostava de Odette. Esquece se de mim. a sorrir —. Porém. Todas as vezes que me vê. — Pois é justamente a propósito desse vestido que quero falar. O braço. pensava: «Realmente não é nada parva. numa risada: — Você estaria por certo muito mais à vontade comigo se eu usasse brincos.» Mas a inteligência de Odette era corno a sua beleza. Tenho direito a uma visita pessoal. — Porquê? Não creio — disse Mathieu vagamente. o vestido. sem transição. Essa mulher discreta e pudica cheirava a posse.— Cuidado — acrescentou sorrindo. Prometeu ma. — E acrescentou. Houve um silêncio. — Meu Deus. apertado na cintura por um cordão vermelho. — E Jacques? — Muito trabalho. a secretária de mogno. Houve um silêncio e em seguida Mathieu voltou à voz quente e ligeiramente nasal que conservava para Odette. Mathieu já não sabia o que dizer. pensou. No entanto não tinha vontade de sair. Odette? Pôs certo calor na voz para dissimular a vulgai idade da pergunta. — Oh!. Estava surpreendido. Sentia se agora bem disposto. Mathieu sentiu bruscamente um profundo desprazer. Gozava urna espécie de . para ver Françoise. que é que será? — Estou a pensar se não deveria usar brincos quando o veste. quase um vestido de rapariguinha. Quase não o vejo. «Ela pertence a Jacques». fala me dos meus vestidos. — Como vai. — Não. mas nunca sabia o que lhe devia dizer. — Um destes dias vou zangar me. Tinha qualquer coisa de vago. Sabe onde estive esta manhã? Em Saint Germain. não deve ter a consciência tranquila. Deixe isso e diga me antes o que fez esta semana. como os móveis. com o carro. Como sempre. o corpo por baixo do vestido. Mathieu riu. — Brincos? Odette olhou o de um modo singular. — Como é delicado — disse ela. o sofá. escute — disse Odette com um riso indignado —. a sua saúde é extraordinária. / A — Você é que prometeu receber me um destes dias. — Muito bem. ultimamente. Mas tornam o rosto indiscreto. Isso encantou me.

não achas? Mathieu não respondeu. Um uísque? — Vá lá — disse Mathieu. «Faz de inocente».» — Entra — disse Jacques. Pestanejou . atento e muito empertigado. Levantou se. — Até logo. J E A N P AUL SARTRE Agora já não podia recuar. O irmão arqueava as sobrancelhas com um ar de profunda surpresa. «Até que ponto será uma vítima?». e avançou para Mathieu. Odette — disse afectuosamente. nunca se sabe. com um sorriso afável. / A — Bom dia. Sentia se em falta. por que motivo o suspeitaria? Queres insinuar que é esse o único fim das tuas visitas? Sentou se. não se levante. toda a sua pessoa transparecia inocência. Digam o que quiserem. Pensou que ia pedir dinheiro a Jacques e sentiu um formigar na ponta dos dedos. No entanto devia usar cinta. «Sabe muito bem porque vim e está a fazer se desentendido. cruzou as pernas com certa moleza como para compensar a rigidez do busto. Mathieu achava que ele estava a engordar na cintura. Há vinte anos que se sentia em falta quando via o irmão ou pensava nele. Mathieu levantou se. — Como vais tu? Parecia muito mais jovem do que Mathieu. indagava. — Há alguma novidade? — indagou Jacques. — Não. um bom gin fizz é bem melhor com calor. sempre muito correcto. Parece preocupado. Jacques sorria inocentemente. Odette disse lhe gentilmente: — Não devo retê lo mais. — É a última garrafa — disse —.» Jacques permanecia de pé. — Bom dia — disse Mathieu. pensou Mathieu irritado. «Não me perdoará nada». mas os olhos eram duros. — Não quero insinuar coisa alguma — disse Mathieu. Pegou na garrafa e encheu dois copos. — Não. Voltarei para me despedir. sabes que vim pedir te dinheiro. Sentou se com um nó na garganta. — Então. Pensava: «Bebo o uísque e vou me embora sem dizer nada. Vestia um magnífico fato desportivo de casimira inglesa. não imaginava isso.» Mas já era tarde. que bons ventos te trazem? Mathieu fez um gesto de aborrecimento. embora fosse mais velho. Mathieu. Vá ver Jacques.calma.» Disse rispidamente: — Não te iludes por certo. «Com este género de mulheres. mas não comprarei outra antes do Outono. Jacques sabia muito bem o que ele queria e pensaria: «Não teve coragem de dar a facada. pensou Mathieu com raiva. meu velho — disse com entusiasmo. batendo à porta de Jacques. Olhava sem doçura aquele rosto rosado e fresco de rapaz. — Senta te.

Porque eu sou um horroroso burguês — acrescentou.. Que recuse depressa para que eu possa ir me embora!» Mas Jacques não se apressava. Era advogado. sem dúvida. bem no fundo. Em teoria não há ninguém mais independente. — Não quero criticar. — Com efeito — disse Jacques secamente. Mathieu perdia imediatamente o sangue frio. «Agora». Continuou sem deixar de rir: — E há pior: tu. como um «filósofo». não ter princípios é ainda um princípio. — Sabes — afirmou Mathieu para dizer alguma coisa —. divertes me e instruis me.. pensou Mathieu. «Vai dizer não. — Um mínimo! — disse Jacques. meneando a cabeça como um conhecedor. fico mais convencido ainda de que não se deve ser um homem de princípios. isso não te aborrece um pouco? — Que posso fazer? — disse Mathieu.. quando penso em ti. para mini. a sua fisionomia aberta mas obstinada e pensou inquieto: «Parece difícil. rindo alegremente. vejo tudo de cima. aproveitas te do parentesco para me cravar. vê bem.» Mas olhou o rosto cheio do irmão. porque afinal não virias ter comigo se eu não fosse teu irmão. Estendeu as pernas e olhou os sapatos com satisfação. rindo igualmente. não se tratava disso. se não estivesse a falar com um filósofo. A Mas parece me que com as tuas ideias eu faria questão de não dever nada a um horroroso burguês. eu não tenho princípios. — Quatro mil — repetiu. pedir me um pequeno favor. Mas eu pergunto: que aconteceria se eu não existisse? Note se que. diria eu. Tomou um ar de sincero interesse: — No fundo. Thieu. Para mini a culpa é dos teus princípios. interrogo me. tinha tempo.. é até uma felicidade poder ajudar te de vez em quando. — Mas não crês que com um pouco de organização. Não ia travar uma discussão de ideias. Sabes. mas não te submetes a eles. — Divertes me.» Felizmente Jacques retomara a palavra. Estás acima das classes. Oh!. Não quero dizer que sejas culpado. — Quatro mil — disse. — Uma necessidade súbita? Porque enfim na semana passada quando vieste aqui. Isso é muito bom.. não quero censurar a tua conduta. Tu estás cheio de princípios. «ele vai dá las. .. mas afinal eu reflicto. Sim.? É contrário às tuas ideias. que cospes na família. não leves a mal o que estou a dizer — atalhou diante de um gesto de Mathieu.e acrescentou apertando com força o corpo: — Mas preciso de quatro mil francos de hoje para amanhã. Essas discussões acabavam sempre mal com Jacques.

— Tomámos a decisão de fazê la abortar — disse Mathieu com brutalidade. eu. Jacques pareceu interessar se. Os dois irmãos não tinham por hábito exprimir assim com tanta vivacidade os seus sentimentos. — Não — disse Mathieu. evidentemente. — Um médico seguro? Segundo o que me disseste. — E quando é o casamento? Mathieu corou de cólera.. muito à vontade.» — Marcelle está grávida — disse bruscamente. e durante esse tempo o seu espírito procurava um ninho de águia de onde pudesse fixar um olhar agudo sobre a conduta dos outros. Jacques encarou o com curiosidade e Mathieu mordeu os lábios.. — Já encontraste um médico? — indagou em tom neutro. lembrou se dela sinistra e nua no quarto cor de rosa e acrescentou num tom angustiado que o surpreendeu a si próprio: — Jacques.. — Sim — disse Jacques —. tinha a paixão dos ninhos de águia. mas afinal podias ter desejado levar até ao fim as tuas experiências à margem da ordem estabelecida. O que quer que se dissesse ou fizesse. Sentiu que corava e encolheu os ombros. girava obstinada A mente à volta dele. mas nunca teria imaginado. . com olhos agressivos. Houve um silêncio. a saúde dessa mulher é delicada. Fechou os olhos um instante. Ele sabe que os paguei em Maio. Naturalmente não te pergunto nada — acrescentou com uma expressão ligeiramente interrogativa.. preciso do dinheiro. afinal? Porquê aquela vergonha súbita? Olhou o irmão de frente. e Jacques perguntou. «Digo que é para os meus impostos? Não. se compreendo exactamente. — Também me admirava — disse Jacques —. Mathieu hesitava. isto foi ontem. num tom ríspido. J E A N P AUL SARTRE Pensou rapidamente em Marcelle. o primeiro impulso dele era elevar se acima do debate. — Foi um acidente. Não sabia ver senão de cima. — Em suma — disse —. Habitualmente pedes dinheiro porque não sabes ou não queres organizar a tua vida. Jacques não pestanejou. — Vocês queriam um filho? Fingia não compreender.. abriu os e juntou" as mãos pelas pontas dos dedos.. mas não é nada disso. sim. — Sim. Jacques recusava se a encarar honestamente o problema. o que acontece é o seguinte: acabas de saber que a tua amiga está grávida.— Efectivamente — disse Mathieu —. — A esse ponto? É estranho.. —Já. Porquê. — Tenho amigos que mo garantiram.. Como sempre.

irei ver um médico hábil e que não figura nas listas da Polícia.. J E A N P AUL SARTRE Ergueu as mãos à altura dos olhos e encarou as com o ar preciso de quem vai tirar conclusões do que acaba de dizer. Não te fica bem a fantasia. — Enfim. — disse Mathieu. mas os grandes especialistas nunca são atingidos. As rusgas estabelecem uma selecção. de vez em quando ficam severos.. — atalhou Jacques — tens a certeza de que o aborto está de acordo com os teus princípios? — Porque não? — Não sei. — E. — Venho pedir quatro mil francos. Afundara se na poltrona e os olhos já não lhe brilhavam. e vais destruir uma vida. Disse com voz mole: — São muito severos neste momento na repressão ao aborto. pobres diabos são ervanários ou «fazedores de anjos». Sou da mesma opinião. mas consideras te ligado a ela por obrigações tão estritas como as do casamento.. resolveste fazê la abortar nas melhores condições possíveis. Tens de arranjar o dinheiro. — Eu sei — disse Mathieu —. A «Tem medo que me apanhem». Aliás eu sou pacifista. Mas não desaprovo inteiramente os resultados. Olhava Mathieu com uma serenidade divertida. pensou Mathieu. — Ah! Pensei.» Teria de lhe dizer: «Se pagares não correrás nenhum risco. Já é alguma coisa.. — Estou decidido.Não queres casar por questões de princípios. o qual exige quatro mil francos. Pela própria força das circunstâncias. Estás a fazer confusão. que liquidam uma mulher com os seus instrumentos sujos. Jacques abaixara as mãos e pousara as nos joelhos. Põem na cadeia uns pobres diabos sem protecção. — Queres dizer com isso que há uma injustiça. «não me dará um franco. tu é que deves saber. Não é isso? — Exactamente! — disse Mathieu. Mas Mathieu não se iludiu. — E porque precisas do dinheiro de hoje para amanhã? — O médico parte para a América dentro de oito dias. — Eis que te enfias na pele de um infanticida.» Mas tais argumentos eram directos de mais para terem influência sobre . És pacifista por respeito à vida humana... mas não respeito a vida humana. Se recusares terei de mandar Marcelle a um charlatão e já não garanto nada. Não querendo nem casar nem manchar a sua reputação. Os teus amigos recomendaram te um médico de confiança. Um advogado não tira conclusões assim tão depressa. Mathieu. — Compreendo. — Bom — disse Jacques. — disse Jacques. porque a Polícia os conhece a todos e pode de um momento para outro deitar lhes a mão. já irritado.

(estalou a língua como numa censura) isso não. Limpou a voz e perguntou por descargo de consciência: — Então não me ajudas? — Vê lá se me percebes — disse Jacques. pensou Mathieu. Mathieu. Mas seria realmente ajudar? Estou persuadido. Queres que te diga a verdade? Não mentes a ti próprio neste mesmo instante. «Vai fazer me um discurso».. Thieu — disse com calor —. que não aprovas isso. é um assassínio «metafísico». como não tenho contra outros crimes perfeitos. — Sorria. e a sua velha cólera fraternal invadiu o. tu. que não tens dinheiro. reflectiu.. Acrescentou com seriedade: — Meu pobre Mathieu. tornou a sentar se.. Acabou. Levantou se subitamente como se tivesse tomado uma decisão e pousou amistosamente a mão sobre o ombro do irmão. Aquela suave e decidida pressão sobre o ombro era lhe intolerável. Mathieu ia poder sair. esclarece me acerca do que escondo a mim próprio. que encontrarás com facilidade o dinheiro. com clareza —. — Sim — disse com displicência. Jacques recusava. que já se levantara. deu alguns passos. fiz um casamento de conveniência. . seria falso. diz antes que não te queres meter num negócio de aborto. Não quero um filho.. «eu não devia ter aceitado a discussão.Jacques. aparece me um. estás no teu direito e não te guardarei rancor. de resto. — O que escondes — disse Jacques — é que és um burguês envergonhado. — Um aborto não é um infanticídio. Eu voltei à burguesia depois de inúmeros erros. Não quero ajudar te a mentir a ti mesmo. Jacques. Jacques retirou a mão. — Escuta. — Mentir a mini mesmo? Ora. Mas para que falar em mentira? Não há mentira nenhuma. suprimo o. — Não recuso ajudar te. vamos dizer que recusei. Há muito que receava algo semelhante. mas é a tua vida inteira que se constrói sobre uma mentira. conheço te melhor do que pensas e agora estou assustado. Inclinou a cabeça para trás e viu o rosto diminuído de Jacques. Mas vou propor te outra coisa. assim como tu és.» — Mathieu — disse Jacques. Mas que tu cometas um assassínio metafísico. Essa criança que vai nascer é o resultado lógico de uma situação em que te meteste voluntariamente e queres suprimi la porque não desejas arcar com as consequências dos teus actos. Jacques pegou num cigarro e acendeu o. não tenho objecções contra o assassínio metafísico. — Não faças cerimónia — disse Mathieu —. mas tu és burguês por gosto. Mathieu disse simplesmente: — Um aborto não é um infanticídio. eis tudo.

— Para mim — disse —. regrada. — Oh! — disse Jacques —. recebes bons vencimentos em dia certo. porque é que dizes que não deve ser um sacrifício para mim? — Porque com isso ganhas comodidade. encolhendo os ombros. humilhas essa mulher há anos. Se realmente subordinasses a tua vida às tuas ideias! Mas repito te. arrogante. e é o teu temperamento que te empurra para o casamento. uma aparência de liberdade. o que é muito fácil e cómodo. Ouvia se a pronunciar nitidamente cada palavra e achava se profundamente desagradável. que estás sempre pronto a indignar te com uma injustiça. tens um apartamento agradável. Na realidade. Mathieu — disse ele com força. — Marcelle partilha as minhas ideias acerca do casamento/— disse Mathieu. Quatro vezes por semana vais tranquilamente encontrá la e passas a noite com ela. Não tens outras aventuras. estás casado. Recusas regularizar a situação. pelo simples prazer de afirmar que estás de acordo com os teus princípios. Adquiriste hábitos com essa mulher. deve ter se embotado. Mas Mathieu sabia que ficaria até ao fim. pedir conselhos nos momentos difíceis. — Uma coisa sem importância.por temperamento. — Pois bem. por maior que tenha sido. porque o Estado te garante uma reforma. Tens todas as vantagens do casamento e aproveitas os princípios para recusar os inconvenientes. DADE DA RAZÃO — Sim. não tens nenhuma inquietação quanto ao futuro. «Nunca dissera tanto». mas pretendes o contrário por causa das tuas teorias. Sabes o que não compreendo? Tu. E gostas dessa vida calma. Tu estima la. deves sentar te à noite junto dela e contar longamente os acontecimentos do dia. sentes que tens obrigações para com ela. . — Imagino muito bem que para ti essa abstenção não deve ser um grande sacrifício. se não as tivesse. «é um desafio. — Primeira novidade — disse Mathieu. pensou Mathieu. Sentia um desejo combativo e maldoso de conhecer a opinião do irmão. estás casado. não a queres abandonar. — Evidentemente — disse Mathieu.» Devia sair e bater com a porta. E isso dura há sete anos. o orgulho impedia a de confessá lo. Porque tu estás casado. podes dizer me em que difere isso do casamento? O facto de não morarem juntos? — A abstenção da coabitação — disse Mathieu. uma vida de funcionário. ironicamente. pois se alguém sofre não és tu. Estou certo de que não procuras unicamente o prazer.

embora modesto. Aliás. No fundo. É o que te perde. Um belo dia acertara o passo. Ele escrevera a Mathieu: «É preciso ter a coragem de fazer como toda a gente para não ser como ninguém. és funcionário dessa sociedade. mas tens cuidado em não te comprometer. «Pronto». um punhado de desajustados sem perigo para ninguém e que perderam o comboio. Mathieu fez um gesto. «vai me falar da sua juventude. fora surrealista.» E comprara um cartório. Durante cinco anos imitara afincada mente as loucuras em voga. Odette trazia lhe seiscentos mil francos de dote.. — Eu imaginava — disse Jacques — que a liberdade consistia em olhar de frente as situações em que a pessoa se meteu voluntariamente e aceitar as responsabilida des. Só que eu liquidei os a todos e tu afasta los aos bocadinhos.. meu caro Mathieu — disse com uma piedade reprimida. não te faz bem a vida boémia. — Não censuro a tua juventude — disse.. os teus cabelos já estão grisalhos — não tanto como os meus. no entanto. A tua vida não passa de um perpétuo compromisso entre o gosto da revolta e da anarquia. talvez seja injusto. pouco me importa ser ou não burguês. Não é certamente a tua opinião: condenas a sociedade capitalista e. — Estás.. Acho que a princípio não eras muito menos pirata do que eu. Tens ainda de atingir o fundo. um lenço embebido em éter. Mas também não lamento a minha. e as tuas tendências profundas que te empurram para a ordem. Tiveste a sorte de evitar alguns maus passos.. a rotina quase. agora. mas Jacques não deixou que o interrompesse. Proclamas uma simpatia de princípio pêlos comunistas. antes do amor. Talvez não tenhas ainda a idade da razão. há um mal entendido entre nós. O resultado? Ficaste um velho estudante irresponsável. meu caro.— Escuta — disse Mathieu —.. olha bem para mini. a que cheguei antes de ti. Aliás. era a sua garantia. Tens 34 anos. é certo —. já nada tens de rapazinho. o que é isso. O que eu quero. tivera algumas aventuras lisonjeiras e chegara mesmo a respirar por vezes. pensou Mathieu. — Pelo contrário. no entanto. é uma idade moral. . herdámos ambos os instintos daquele pirata que foi nosso avô. na idade da razão. Desprezas a classe burguesa e. filho e irmão de burgueses e vives como um burguês. no entanto. (acabou a frase entre os dentes) é conservar a minha liberdade. queres parecer mais novo.» Jacques era muito orgulhoso da sua juventude. — Mas isso também o escondes. a saúde moral. simplesmente. Nunca votaste. apenas. permitia lhe defender o partido da ordem em boa consciência. a boémia? Era muito divertido há cem anos. és um burguês. Mas.

— Já reflecti — disse Mathieu. — Ora — disse Mathieu —. . Não posso dizer te porquê. «esqueci me de dizer adeus a Odette. — Agradeço.. Confio na tua escolha. «Será verdade. Não me interessa. de olhar absorto. — Adeus. não te será difícil encontrar os quatro mil francos. E acrescentou: — Quando apareces? — Venho almoçar no domingo — disse Mathieu.» Que diria ela? Desempenharia o papel de esposa reflectida ou limitar se ia a aprovar discretamente sem tirar o nariz de cima do livro? «Diabo! ». — E. mas tinha vontade de cantar. — Adeus — disse Jacques.. Mas não é sensato. a minha mulher ignora por completo a tua vida íntima. uma vez.. Mathieu. pensou. — Como queiras — observou Jacques.» Teve remorsos.» Marcelle rira se dele. estás ou deverias estar — repetiu dis traidamente. seria uma cabeçada estúpida para sair de uma complicação. no entanto está na idade da razão. «Terá ficado muito aborrecido?». Não há pressa. Se recusares. será quando sentir vontade de o fazer. estava com predisposição para o remorso. «Eu quis casar me. mas não serve. agora. — Reflecte.. Agora Jacques devia estar sentado à escrivaninha. Desceu a escada a correr. a minha proposta mantém se de pé! Mathieu sorriu e saiu sem responder. não era isso. A tua mulher será muito bem recebida aqui. vou fazer uma proposta. de resto. com um sorriso triste e grave: «Este rapaz inquieta me. Por maior que fosse o seu sentimento de culpa.. mas se tiver de me casar um dia. Como te disse. e Odette sentir se á feliz em tratá la como amiga. De qualquer maneira aquilo fornecia lhe uma saída digna. se voltares atrás. «Terei um complexo de inferioridade em relação a meu irmão?» Não. — És realmente muito bom. Jacques — disse levantando se. «Mathieu inquieta me. Ponho dez mil francos à tua disposição se casares com a tua amiga. O olhar tornou se lhe límpido e alegre e acrescentou: — Escuta. «Até que enfim! Até que enfim!» Não estava alegre. sabes. que não o desonraria. a idade da razão é a idade da resignação.Estás na idade J E A N P AUL SARTRE da razão. pensou Mathieu. não preciso de o dizer. Mas Jacques não o escutava. não tenho remorsos. acredita.. cordialmente.» Ou talvez tivesse ido ver Odette. Mathieu previra o golpe. será que mantenho Marcelle numa posição humilhante?» Lembrou se das violentas observações de Marcelle contra o casamento. Aliás. Não quero dizer que estejas inteiramente errado. Jacques levantou se igualmente. Há cinco anos.

Mathieu nunca deixara de pensar com razão perante Jacques. Alguém excelente. Quando não me envergonho diante dele. A cabina telefónica era num recanto sombrio. — E tu estás bem? — Estou. — Está.. — E que é que vais fazer agora? — Não sei. faz o que achares melhor. com vivacidade. — Então? — Tenho alguém em vista. — Não te incomodes. — Mas não é possível. — Também se recusa. — Arranja. — Sempre te vejo amanhã à noite? — Sim. Recusa se a emprestar. é coisa que se consegue. «Mas eu gosto deste tipo. — Então? — A velha. se visses! E depois. bem sabes. Temos quarenta e oito horas. — E acrescentou docemente: — Enfim. Estava quase bêbeda. Indicado por Sarah.. não vais! Peço emprestado.» Havia um bar na esquina da Rua Montorgueil. sinto vergonha por ele. .. — Não estás lá muito. — Juro. é um animal. está. — A quem? A Jacques? — Venho de lá. — Quanto? — repetiu Marcelle. com uma dúvida na voz. E acrescentou: — Quanto? — Quatro mil. Que diabo. pensou.. — Não. a família é como a varíola: tem se em criança e fica marcada para o resto da vida. pediu uma ficha. — Daniel. quatro mil francos não é um absurdo.. — Estou — disse Marcelle com a voz seca. é húmido. tenho a certeza de que estava cheio de «massa». — Hum — murmurou Marcelle. A — Eu telefono. Marcelle? Marcelle tinha o telefone no quarto. — És tu? — Sim. — Estou angustiada. «Sim». o estupor! Vi o esta manhã. — Ah! — disse Marcelle com indiferença. — Não. incrédula. E as mãos. Sentia se angustiado ao pegar no telefone. para isto? — perguntou Marcelle. Entrou. Hei de arranjar. Terei de ir.. — Então arranja — disse Marcelle num tom estranho. e fede no apartamento dela. — Quatro mil. — Mas não lhe disseste que era. Ah!. é impossível. — Sentiu que a voz lhe carecia de firmeza e acrescentou com força.

Mathieu sobressaltou se e pensou: «Todos os franceses são uns canalhas». Nem chegava a meter raiva.. Ignora se o número exacto de mortos e feridos. Já não lhe apetecia saber mais nada. triste e aveludado como tapioca. seria um abuso de confiança. de Madrid. Parou à beira do passeio. Marcelle. Oh! basta. em itálico.. não podia ser verdade.. Marcelle. Mathieu virou a página. se faz favor. — Levo os quatro mil francos amanhã à noite. basta! Estava cansado de girar em volta de toda aquela história. dinheiro. «Estou angustiada. Sentia se nervoso e triste porque ia voltar a vê lo.» Citavam se cifras. Deu com um vendedor de jornais. não se tem o direito de mudar de opinião sem mais nem menos. ela tê lo ia dito. ouviu a voz seca de Marcelle. não deixava de mentir a si próprio. Uma amizade morta. pelo amor de Deus. E Marcelle é incapaz de um abuso de confiança. escrevera Gomez. . Felizmente não era verdade. Marcelle cortou a ligação sem responder. e ele próprio se transformava da cabeça aos pés. dinheiro. quando Paris aguarda o seu Príncipe Encantado. quero pensar noutra coisa. Stokovski declara que não casará com Greta Garbo.. apertado. Deu o dinheiro e continuou. «rebentam de orgulho porque vão dar à luz.» Está magoada comigo. Mas era mais triste ainda. ouvira a muitas vezes rir das amigas casadas quando estavam grávidas: «Vasos sagrados». Novas informações sobre o caso Weidman. Todos os franceses. Mathieu leu: «Bombardeio aéreo de Valência.querido. Ivich. — Paris Midi.. «Humilhada». O Excelsior não era um jornal agressivo.» Passou os olhos sobre o título e leu o terrível texto. Farei o que for preciso.. A França ao abrigo atrás da Linha Maginot. Pegou num jornal ao acaso: Excelsior. era papel gorduroso. Não havia.» Ergueu a cabeça vagamente irritado. Se ela quisesse o filho? Então tudo ia por água abaixo. «Quarenta aviões sobrevoam durante uma hora o centro da cidade e deixam cair cento e cinquenta bombas.. e o calor torcia se e chiava no meio da rua como uma faísca eléctrica. A hora do dia em que o calor era mais sinistro. dizia. bastava pensar nisso um só instante e tudo tomava outro sentido. que parecia denso e bem documentado: «Do nosso enviado especial. mas não quero pensar nisso. Mathieu saiu da cabina. Pensou em Brunet.. Ivich.. porque não o havia de ter dito? Nós nos dizemos tudo. tirava simplesmente o gosto de viver enquanto era lido. Humilhá la ei? E se. Hesitou e disse com esforço: — Amo te. Ao atravessar o café. era um estúpido.» Quando se diz isso. Mas faço o que posso. A Rua Réaumur era de cobre sujo.. A visita do rei da Inglaterra. Duas horas. Um discurso de Flandin em Bar le Duc.

consciente dos seus limites. mulheres estupefactas. para sofrer. sobre os monumentos cinzentos.. Mathieu sentiu se vaga mente culpado. O seu pensamento fazia círculos em cima da cidade. Se ao menos tivesse descoberto em si uma emoção qualquer. mas a coisa não vinha. esbateu se. procurando uma igreja. uma tímida aurora de cólera. esperava para viver. a rua alargou se desmedidamente. Já se contavam cinquenta mortos e trezentos feridos. o céu em fusão caiu em cima dela e o sol dardeja sobre os escombros. os vidros partiram se. Cinquenta mortos e trezentos feridos. bem viva e modesta.uma vez. acocoraram se com ares de galinhas mortas junto dos verdadeiros cadáveres. ele caminhava no meio de homenzinhos vestidos de claro. Só que era inerte. que não tinham medo do céu. À sua frente havia uma grande cólera. que ele lhe desse o próprio corpo. os Franceses são todos uns estupores. havia mais porém. Mathieu estava com calor. ele sentia se vazio. em Paris. destruíram no. Estive em Valência. «Bandidos!» Cerrara os punhos. No entanto. e erguem a cabeça de quando em quando. a cólera ficava de fora. o céu flamejava muito alto acima das cabeças. pequena que fosse. via a. possuído por um fantasma de cólera. Passou o lenço pela fronte e pensou: «Não se pode sofrer pelo que se . Alguma coisa se dispunha a nascer. não existe já. a fachada de uma casa. Pronto! As bombas caíram naquela rua. Milhares de leitores teriam lido o jornal com ódio na garganta. havia seguramente cadáveres sob os escombros. passeava de manhã. os automóveis deslizavam pela rua. uma rua. cerrando os punhos e murmurando: «Estupores. os automóveis passaram. Fechou o jornal e pôs se a ler na primeira página a reportagem do enviado especial. que significa isto exactamente? Um hospital cheio? Um grave acidente de comboio? Cinquenta mortos. Nem aviões nem defesa antiaérea. sufocava numa sombra ardente. Pronto! Mas aquilo esvaziou se. Pronto!» O pensamento desceu lhe sobre uma rua escura. qualquer coisa de que pudesse dizer: «Eu vi aquilo. vi a Fiesta em 34 e uma grande tourada com Ortega e El Estu diante. já não há sombra na rua. bandidos!» Mathieu cerrou os punhos e murmurou: «Bandidos!» e sentiu se mais culpado ainda. andava a passos largos. podia tocar lhe. era um calor real. entra agora até o fundo das casas. Mas não: sentia se vazio. não em Valência.. aquilo é real. contemplam o céu venenoso. para rebentar. mudas. andava normalmente com a decência de um tipo que acompanha um enterro em Paris. esmagada por enormes monumentos. Os vidros brilhavam. de franceses que não olhavam para o céu. uma cólera desesperada. algures sob o mesmo sol. Eu vi aquilo. é real. Era a cólera dos outros.

As presenças reais. — Acabo de tocar à sua porta — disse —. neste mundo sem Espanha? Por que razão não tive vontade de lutar? Poderia escolher outro mundo? Sou ainda livre? Posso ir aonde quero. Partiu. se der com um jornal e ler «Bombardeamento em Valência». Boris disse na sua voz natural: — Então continua de pé o Sumatra. estou em Paris. é evidente — disse Boris —. não estou lá. «Não posso. como eu.» Olhou a última página do A Excelsior: fotografia do enviado especial. Não partiu. Marcelle no quarto cor de rosa. — Deixei a agora. Boris entrou à frente de Mathieu e dirigiu se com uma familiaridade desenvolta para a secretária. Gomez. Lola talvez prefira estar sozinha consigo. Haverá Ivich. separado de Espanha por. nojentas por serem tão verdadeiras. hoje à noite? Mathieu virou se e fingiu procurar as chaves no bolso.. estou numa gaiola sem grades. mas que importa? Ela é educada. Há outros mundos.. — Vamos tirar isso a limpo. — Não absoluta. — Tem a certeza? — respondeu Mathieu no mesmo tom. . o meu é um hospital com Marcelle grávida. Ivich que eu beijei esta manhã. de saias repuxadas até às coxas. «Viu a». mas creio que não estava. tomou um ar afectado. Cada um no seu mundo. Na escada.. Só que ele. Destino. Eram duas horas e Brunet só chegaria dentro de meia hora. de instrumentos cirúrgicos. — Viu Ivich? — perguntou Mathieu abrindo a porta. Daniel troçando. e o judeu a pedir quatro mil francos.. Era o seu ar de louco. — Sim. de costas. mas é pior. — Não sei se irei — disse. não encontro resistência. Sem cabeça. Esse estava lá. não terá de fazer esforços para sofrer. E o tipo de ontem. Ao ver Mathieu. Corpos estendidos sobre o passeio. — Pensei. — Suba comigo — disse. no meio de minhas presenças. Mathieu olhou o hesitante. Mathieu olhou sem afeição as costas magras.. sofrerá lá. de carícias nos táxis. Deve andar por aí. Mathieu dobrou o jornal e atirou o para a valeta. No meio da rua uma mulher gorda.. mas o que lhe posso dizer é que não abriu. «Por que razão estou eu neste mundo de gritaria. Jacques atrás da secretária dizendo não. E depois de maneira nenhuma ficaríamos sós. junto de um muro. por nada e no entanto esse outro mundo é intransponível.quer. na cidade em ruínas.» Lá havia uma coisa formidável e trágica a pedir que se sofresse por ela. — Entre. pensava. Boris espreitava o à porta do prédio. Subiram.

com os braços pendentes. — Pois é — disse Boris. um mês no Faubourg du Temple. — Gosto da sua rua — disse Boris —. — Os quatro? Ela falou nos quatro? — Pois então — disse Boris ingenuamente —.. Procurei te mais de uma vez. — Não é culpa minha. Boris inclinou se com frieza e recuou até ao fundo do quarto. — É verdade — disse Brunet. velho traidor. A Mathieu foi abrir. um mês Rua Mouffetard. isso não tem importância. Mathieu colocara se. irritado —. Livre como você é. não tem mesmo nenhuma. as tuas poltronas corrompem.. deveria vender os móveis e viver no hotel. Isso aborrece te? — Não. Está a perceber? Um mês num quarto em Montmartre. — Detesta que o considerem meu discípulo. Brunet sentou se na cadeira.. mas não consegui encontrar te.. admirado.— Vem ou não vem? — perguntou Boris. Era Brunet.. — Porquê? — Não sei. Pareceu me preocupada com o exame. — Pois venho. — Olá! — disse Mathieu. Houve um silêncio. — Bem — disse Brunet com indiferença. contrariado. depois de um longo momento —.. — Eu tornei me numa espécie de . não lhe disse nada para esta noite? — perguntou Mathieu. Fazia um cigarro.. mas ao fim de algum tempo deve chatear. Voltara se e olhava para Mathieu com um sorriso zombeteiro e terno. — Vens adiantado. — Ivich. — Para esta noite? — Sim. — Quem é? — indagou Brunet. Estão a tocar — acrescentou. — Senta te na poltrona — disse Mathieu. é preciso vir até aqui ao teu quarto para te encontrar. — Ora — disse Mathieu. o famoso discípulo? Não o conheço. Acrescentou: — Então. absolutamente nada. Mathieu aproximou se e deu lhe uma palmada nas costas. diante de Brunet. Boris inclinara se sobre o parapeito da janela e olhava a rua. também há Lola. — Boris Serguine. — Não — disse sorrindo —. Queria saber se ela ia. — Disse me que seria divertido encontrarmo nos os quatro. — Ela quer ir — afirmou Boris. Não sei porque mora num apartamento. sólido e despreocupado perante o olhar rancoroso de Boris. — Ah. — Então ela espera que eu vá? — Naturalmente — disse Boris..

Brunet olhou o com surpresa. com amargura. — Os Croix de Feu não são muito dinâmicos. agradecido. sim. . Evitou olhar para Boris. Continuou com simpatia: — E quando te vejo que me encontro melhor. com os seus gestos lentos.caixeiro viajante. Mathieu olhava as grandes mãos de camponês do amigo. Daniel. pesado e maciço. Brunet deitou lhe um olhar rápido e penetrante. — É verdade — disse Brunet. — E esperas ainda vir a mudá lo? — Claro que não — respondeu Mathieu. — Catorze horas de curso por semana e uma viagem ao estrangeiro durante as férias. ainda o vejo de vez em quando. que tens feito? Mathieu sentiu se embaraçado. — É o que se diz. com o fumo do cigarro. — É caça para Doriot — disse Brunet. Mathieu sorriu. Pensou: «Ele veio.» — Ainda o vejo. que há dias em que eu próprio tenho dificuldade em me encontrar. Fez se silêncio. irritado. parece me que fiquei depositado em tua casa. — Nada — disse. — E então ataca lo.. Imagina tu! — disse ele. Quando Brunet encontrava Portal ou Bourrelier devia dizer com aquele mesmo tom aborrecido: «Mathieu? É professor no Liceu Buffon. Peco lhe um favor e responde me com um sermão. A propósito. sentado numa cadeira de Mathieu. Dão me tanto trabalho. acabo de me aborrecer com ele — acrescentou Mathieu sem reflectir. — Porquê? — Sempre a mesma coisa.» Sentiu que a confiança e a alegria tentavam timidamente renascer lhe no coração. Na verdade não fazia nada. É estranho — disse Brunet com ironia.. atónito. Creio que envelhecíamos menos depressa se nos pudéssemos encontrar de vez em quando os três juntos. não é? — Isso mesmo — confirmou Mathieu rindo. Estava ali. Brunet pousara as mãos sobre os joelhos. o quarto enchia se com a sua presença. não é verdade? A alegria de Mathieu desapareceu. — Pensei muitas vezes que nos devíamos ver mais. inclinava a cabeça obstinadamente para a chama do fósforo. — E fora disso. — Daniel! Mas ainda existe esse camarada? Ainda o vês de vez em quando. eu. — E teu irmão? Continua Croix de Feu? — Não — disse Mathieu. — Os três? — Então? Tu.

— A licenciatura. com tiques nas pálbebras e no canto dos lábios. Brunet pigarreou: — Continua a estudar Filosofia. — Em que ponto é que está? — Termino agora a minha licenciatura — disse Boris com rapidez. eu sei — acrescentou vivamente.. Boris não se mexia. Boris sorriu. Estava ofendido. fique.. — Tinha má cara? A — Sim. Já foi muito amável da tua parte teres vindo. — Despachaste o. todo arrepiado. Vamos dar uma volta. . sou eu que me vou embora. ainda bem. afectuosamente: — Disse a mini mesmo: não quero que mo deitem abaixo. jovem? Boris disse que sim com a cabeça. Pôs se então a olhar fixamente o rapaz. sob o fogo conjugado dos olhares. pensei: preciso de falar com ele. Demasiado amarela. Riram. Inclinou se ligeiramente. Acrescentou. Mathieu fechou a porta e voltou se para Brunet. — Na verdade. inchada. — Até logo à noite. Brunet observou com voz calma: — Eu estava com pressa porque tenho apenas um quarto de hora. Mas hoje de manhã quando vi a tua cara. magoado. parecia um cão de caça doente. — Fique.» Mas não parecia sequer pensar nessa solução. Mathieu? Boris adiantou se. talvez compreendesse. manti nha se no seu canto. com satisfação. pensou Mathieu. — Um quarto de hora! Eu sei. Mathieu parou subitamente de rir. — Ele está acostumado e depois estou contente por te ver a sós. — A licenciatura — atalhou Brunet com uma expressão absorta.. — Não dispões de muito tempo. meu caro.. Mathieu acompanhou o até à porta e perguntou com entusiasmo: — Até logo à noite.Calaram se um instante e Mathieu pensou tristemente: «Se ao menos Boris tivesse a boa ideia de se ir embora. Brunet sentara se a cavalo na cadeira e olhava igualmente Boris com um olhar pesado. duro: — Já percebi — disse. Brunet perguntou: — Talvez tenha ido longe de mais. tinha o dia inteiro ocupado. não é verdade? Estou lá às onze. Não te aborreces com isso? — Pelo contrário — disse Mathieu rindo. Acrescentou bonacheirão: "^ J E A N P AUL SARTRE — Vai ficar a odiar me se eu lhe raptar Mathieu por uns momentos? Você tem a sorte de o ver diariamente e eu. — Então? — disse esfregando as mãos. «Ele gostaria que Boris se fosse embora».

essa proposta. as ideias. Mathieu estremeceu. Mas tu.. — Se é apenas isso. Olhava Brunet com uma gratidão humilde e pensava: «Foi por isso que ele veio. Não sou sargento recrutador do P. Pensava na Espanha. depois vejamos: o partido não precisa de ti.. era melhor se Brunet tivesse vindo pelo simples prazer de o ver. dá se um jeito.. não esperava essa tua. senão para tomar uma posição? Levaste . vivo cercado de miúdos que só se preocupam com eles próprios e me admiram por princípio. — Tanto melhor — disse. com um gesto vago. És livre. Escuta — acrescentou subitamente —. sim. As pálpebras dobravam se lhe em preguinhas e mostrava os dentes ofuscantes de brancura. às vezes. Mas para que te serve a liberdade. — Brunet — perguntou suavemente Mathieu —. Agora já o conseguiste. creio. Eu próprio tenho dificuldade em me encontrar.. Simples aborrecimentos de dinheiro. Tu representas apenas um pequeno capital de inteligência.C. — Escuta — disse Brunet —. porque queres que eu me torne comunista? Para meu bem ou para o bem do partido? — Para teu bem — respondeu Brunet. — Ando aborrecido. — Seguiste o teu caminho — disse Brunet. — Nunca imaginei que tivesse uma cabeça tão expressiva. Vou fazer te uma proposta: queres entrar para o partido? Se aceitares. a cara de um tipo que acaba de perceber que viveu de ideias que não dão nada. Mas tinhas.. sem dúvida — insistiu. — Não querias que eu te levasse para o partido de La Rocque? Fez se silêncio.. — É para meu bem — repetiu Mathieu. uma porção de encontros importantes e preocupou se em vir dar me o seu apoio moral. levo te comigo e em vinte minutos estará tudo terminado. Comunista? Brunet pôs se a rir.» Apesar de tudo. Não sentes que a tens? Mathieu sorriu tristemente. tu tens necessidade do partido. Mas desejava que me dissesses o que pensas exactamente. e isso de intelectuais temos até para vender. Tem o dia inteiro tomado.. não podes vir a nós assim sem mais nem menos. não vamos complicar as coisas. Sabes. Brunet não parecia convencido. não pensei. Dormi mal. — És filho de burgueses. tens de te libertar.Mathieu tossiu.. — Para meu bem. desconcertado. Nunca ninguém fala de mim. Como toda a gente. Então? Achas que eu tenho necessidade de entrar na luta. — disse Mathieu. — Para o partido?... de tomar posição? — Sim — disse Brunet com força.E. aliás... — Não precisas de ficar desconfiado. — Tens essa necessidade. — Ora.

E tudo te será devolvido. surpreendido. Desde que entraste no meu quarto ele parece verdadeiro e enoja me. renuncia à própria liberdade. seguro de si.trinta e cinco anos na limpeza. E se escolher. desajeitado. sabes? — continuou com um sorriso amigo. um homem recto. Disse: — Renunciaste a tudo para ser livre. Sempre que o via. flutuas. Não deve ser muito agradável todos os dias. Esperou um pouco e perguntou: . cortaste os laços burgueses e não te ligaste ao proletariado. que pensava por meio de curtas e severas verdades. — Não — disse Mathieu —. certo de perceber de repente um odor forte de animal. Bem sei que tudo me seria devolvido. — Evidentemente. Seguia a sua ideia. E pensava: «Eu não pareço um homem. verdadeiras paixões. gosto que digas tudo isso. — O contrário seria inquietante. meu caro. evidentemente. — Quem to impede de fazer? Ou imaginas que poderás viver a vida inteira entre parênteses? Mathieu olhou o hesitante. cor de tijolo. — Falas como um abade — disse Mathieu a rir. Meditava. e o resultado dela é o vácuo.» Brunet levantou se. fungava docemente. da política. Mas Brunet não tinha cheiro. Aproximou se de Brunet e abanou o pêlos ombros com força. — A sério. Um homem de músculos fortes e elásticos. da psicologia. — Meu caro aliciador de recrutas — disse —. precocemente envelhecido. Arescentou subitamente: — És um homem. Dá mais um passo. — Tudo aquilo que tocas parece real. nada mais se me afigura inteiramente verdadeiro^ Brunet não respondeu. Assemelhava se a um prussiano. indeciso. não seria um sacrifício. Tinha um rosto pesado. carne. um homem apenas. — Não há outra — repetiu Brunet. um ausente. sóbrio. terreno refractário às angélicas tentações da arte. — Pois faz como eu — disse. — Vives no ar. minha cara puta velha. acabei por perder o sentido da realidade. muito claras e compridas. Mathieu sentia uma espécie de curiosidade inquieta nas narinas. és um abstracto. Gostava imensamente dele. de traços caídos. não há outra escolha. Que é que queres dizer com isso? — Nada a não ser que escolheste ser um homem. um homem inteiriço. pestanas ruivas. Btunet sorriu distraído. És um corpo estranho. Brunet.. — Um homem? — indagou Brunet. assediado por todas as vertigens do inumano.. escolherei ficar com vocês. diante dele. Escuta. E Mathieu ali estava. — És bem real — disse Mathieu. nem sempre é divertido. sangue.

renunciara à liberdade. Brunet olhou o e observou rapidamente: — Vamos ter a guerra em Setembro. «Disse bem. era apenas um soldado. Escuta.. Os Ingleses sabem disso.» Brunet tinha razão. Tu és mobilizável.. Foste um funcionário abstracto. E tudo lhe fora devolvido. — Estás a brincar? — Podes acreditar. irritado. Amanhã serás demasiado velho. ele escolhera a arma que lhe feriria as têmporas. — Então? — Não é a mesma coisa. a fim de que Schneider conserve os seus interesses nas fábricas Skoda. serás um herói irrisório e cairás sem ter compreendido nada. Morres sem acordar. real. — Mas então não compreendes nada? — perguntou Brunet. — disse Mathieu. o Governo francês está prevenido. a classe. Meditava. para dar cabo da saúde não há melhor. — Respira. contrariado. Comprometera se. — Não compreendo — disse Mathieu. Agora nada já pode tirar o sentido da minha vida. mas apressa te. nesse . E talvez o mundo esteja também demasiado velho. — Essas informações. A sua vida era um destino. terás os teus pequenos hábitos. e no entanto. E acrescentou a sorrir: — Não acredito que o marxismo preserve das balas. «É mais livre do que eu. E um risco assumido. e um belo dia uma granada faz explodir os teus sonhos. respira. as cores e formas com que se enchiam os seus olhos eram mais verdadeiras. Sonhaste durante trinta e cinco anos. a granada alemã que lhe perfuraria as vísceras. tudo lhe fora devolvido. Foi encostar se à janela. — E tu? — perguntou Mathieu. já nada a pode impedir de ser um destino.— Então? — Deixa me tomar fôlego — disse Mathieu. mais densas do que as que Mathieu podia ver. com um gosto real de fumo na boca. arriscas te e rebentas como uma bolha. Mathieu não respondeu.» E ali estava ele. em carne e osso. Vamos admitir que partes nesse estado de espírito. serás o escravo da tua liberdade. Está de acordo consigo próprio e com o partido. aliás. A idade. — Também não acredito — disse Brunet. — Sabes para onde me vão mandar? Para a frente da Linha Maginot. voltando a si: A — E verdade que se compreendesses não haveria necessidade de pontos nos ii. E acrescentou docemente. Dir se ia que tinha medo de pecar por orgulho. a época. inclusive a liberdade. — Acrescentou com vivacidade: — Como a de todos os camaradas. como eu. Na segunda quinzena de Setembro os Alemães invadem a Checoslováquia.

há tipos que se matam nos arredores de Madrid. dar um sentido à vida. Põe te de joelhos e terás fé. Brunet encolheu os ombros. meu caro. Seria a salvação. escolher ser um A homem. — Naturalmente — disse Brunet com impaciência. Mathieu sorriu tristemente. — Recuso. fresquinho. Parecia estar a espiá lo. Ah!. e no entanto era ele o bombardeado. — Essa é boa! Isso escolhe se..» Voltou se para Brunet e encarou o com amargura. serenos. Era preciso responder. — Vocês são todos iguais. «Nesta hora. as espingardas vão disparar sozinhas e vocês. Brunet não despregava os olhos dele. — Não havia um só canhão de defesa antiaérea em toda a cidade. — Mais tarde? Se estás à espera de uma revelação interior para escolher. não abandonou o tom sereno. Mas eu. se ao menos pudesses ver com os meus olhos. acreditar. — Tens sorte — disse Mathieu. — Eu sei. arriscas te a esperar muito. dentro de um quarto de hora ponho o chapéu e vou passear no Luxemburgo. desesperado. «Sou um irresponsável». . «As tuas poltronas corrompem. Talvez tenhas razão. neste instante. vocês os intelectuais. reivindicam o direito de ser convencidos. os mortos. Mais tarde. O rosto de Brunet endureceu se um pouco. há judeus austríacos que agonizam nos campos de concentração. Sim ou não. espalhava se pela terra toda. compreenderias que não se pode perder tempo. Tens sorte de ter podido escolher. livre. Tudo se desmorona. Pensas que eu estava convencido quando entrei para o partido? A convicção forma se. pensou. — Queres dizer que não vais ter essa sorte? Pronto. Não cerrou os punhos. Mathieu foi sentar se na poltrona. — Bombardearam Valência — disse subitamente. Atiraram as bombas no mercado. — Já sei — atalhou Brunet. os seus filhos. — Então? — disse Brunet. a sua maneira de dizer sonhadora. — Sorte de ser comunista? — Sim. Entrar para o partido.. agir.mesmo momento. Pensava: «Veio oferecer me o que tem de melhor!» Acrescentou: — Não é coisa definitiva. lutando. há chineses nos escombros de Naquim e eu aqui.. eu quero acreditar primeiro.. sofrendo com os proletários de todos os países.» Ergueu se com vivacidade e sentou se na ponta da mesa. eram os seus irmãos e irmãs. — Eu sei. — Recusas? — Recuso — disse Mathieu.

estás no teu direito. pensou Mathieu. mas não é o bastante. — E então? . como o teu irmão se agarra ao dinheiro. É teu conforto moral. Ninguém te acusa.. A — Tens a certeza de que o desejas? — Tenho. Brunet levantara a cabeça. Mathieu olhou o com desespero. Reservas te para uma melhor oportunidade. contra a mesma espécie de indivíduos. Mas receio que não apareça tão cedo.— E então? Sim. Brunet? Diz lá. De boa vontade trabalharia com vocês. como vocês. Talvez não haja oportunidade. E depois. mas não te desfazes dele. Desejo ardentemente trocá la por uma convicção. Quando o atacam. — Apesar de tudo. contra as mesmas coisas. Mentia se dissesse que me sentia satisfeito em desfilar de punho erguido ao som da Internacional. Brunet tomou o seu ar mais fechado. Brunet olhou o com curiosidade. estás a compreender me? — Não sei se te compreendo muito bem — disse Brunet —. neste momento. mas como quer que seja. não posso comprometer me. — Muito bem! Finges lamentar o teu cepticismo. Mathieu indagou docemente. — Eu também o espero. o tempo passa. parecia uma torre. — Também já pensei nisso — disse Mathieu. não precisas de justificar te. ou viria demasiado tarde. isso afastar me ia de mim próprio e tenho necessidade de me esquecer um pouco. — Achas que pareço agarrar me a alguma coisa. J E A N P AUL SARTRE Fez se silêncio. — Não tenho nada a defender. Espero que essa oportunidade se apresente o mais depressa possível. Revolto me. — Já pensei que nunca mais viria. A minha liberdade? Pesa me. Brunet parecia mais calmo. mais camponês. — Não quero dizer. não tenho razões suficientes para isso. Há anos que sou livre para nada. não me orgulho da minha vida e não tenho um tostão.. «Se ele pudesse compreender me». — Então? — indagou quase alegremente. — Estás a compreender me. Fez um esforço: convencer Brunet era o único meio que lhe restava para se convencer a si próprio. e daí? Brunet deu uma palmada de indignação na coxa. agarras te a ele avidamente. — Tens? Tanto melhor. penso como tu que não se é homem enquanto não se encontra uma coisa pela qual se está disposto a morrer. Não é culpa minha.

Mathieu disse lhe: — Não podes imaginar o que me comoveu teres vindo oferecer me a tua ajuda. não do de Karl Marx.» Brunet acrescentou sem o olhar: — Ainda gosto muito de ti. mas não queres dizê lo porque julgas o caso perdido.. Mas isso não modifica a coisa. — Mas não te quero mal — disse Brunet. Os meus únicos amigos agora são os camaradas do partido. Desejaria ver te sempre e falar contigo.. Ainda tens um minuto? Brunet olhou o relógio. E depois há as recordações. Era tentador como o sono. Teve pena de mim de manhã. — Porque teria vindo se não me lembrasse? Se tivesses aceitado.. Mas não tinha nada para lhe dizer. tenho de lhe falar». — Também o desejaria — disse —. apesar de tudo estou contente por te ter visto. Brunet levantou se. Brunet brincava com o fecho da porta. poderíamos trabalhar juntos. Mathieu endireitou se repentinamente. Calaram se.— Nesse caso serei um desgraçado. uma só. preciso de ajuda. Com esses eu tenho um mundo em comum. «Não pode sair pode sair assim. esta manhã. Tens razão. Tu achas me uma sacana.. mas não tenho muito tempo. — Não vais. Doido por se ir embora. A . razões de viver. só porque eu tinha má cara. Mas é do teu apoio pessoal que eu preciso. Mathieu também se levantou. — Não é verdade — disse Mathieu. acham que se deve pensar como vocês. e tudo seria devolvido a Mathieu. é possível? Brunet desviou os olhos. Mathieu pensou: «Está com pressa. a não ser que se seja sacana. mas decepcionei o. desolado. — Pois é. E tudo. — E achas que não temos mais nada em comum? Brunet ergueu os ombros sem responder.. — Não és obrigado a pensar como eu. a amizade de Brunet. — Pois é.. — Já estou atrasado. Bastava uma palavra. da tua voz. Brunet sorriu levemente. — disse. aproximara se da porta. Brunet esperava delicadamente.. Do teu focinho. sair assim. pensou Mathieu. Mathieu pensava: «Evidentemente. das tuas mãos. — Acho apenas que estás menos libertado da tua classe do que eu imaginava. Voltamos a ser estranhos um para o outro. ainda te lembras? Foste tu o meu melhor amigo.. — Não me deves querer mal — disse precipitadamente.» Disse. Calaram se. Não faz mal. — Não te considero um sacana — disse. Não tenho nenhum direito sobre o seu tempo. sem querer: — Brunet. — Eu conheço vos bem. J E A N P AUL SARTRE Enquanto falava.

É o que posso dizer. por cima ou por baixo. um entusiasmo amargo nascera no seu coração. Ia pelas ruas gingando um pouco como um marinheiro. Mas a realidade do quarto desaparecera com ele. como uma verdade eterna. sempre não. e apenas a cabeça lhe saía da água. Mas posso dizer também: tive medo. fixa. porque já não teria motivos de indignação. a corda erguia se eternamente acima da cabeça dela e eternamente fustigava o chão a seus . prefiro a minha cortina verde. e ele mantinha a cabeça fora da água e olhava a rua pensando: «É verdade? É verdade que não podia aceitar?» Uma menina ao longe saltava à corda. «Recusei porque quero continuar livre. a corda parece uma alça. Este pobre Mathieu está perdido. Uma tarde de Verão. — Certamente — disse Brunet. — E tu. Sorriu para Mathieu e foi se embora. Todos decidiram que sou um sacana. «Será verdade que não sou um sacana?» A poltrona é verde. Pensava: «Eu não podia aceitar». agrada me dizer não. Brunet abriu a porta. Mathieu chegou se à janela e encostou se ao parapeito. mas não desejo que o suprimam. Jacques também. Mathieu olhou a poltrona verde. manda me um recado. as cadeiras. tudo o que fazem pode ser explicado. prefiro tomar ar. e as ruas uma por uma tornavam se reais. mas decidir o quê?» Quando disse não.» Partiu. — Certamente — disse Mathieu. Agrada me sentir me desdenhoso e solitário. Mas em relação às pessoas. a luz estava pousada na rua e nos telhados. as cortinas verdes e pensou: «Já não se sentará nas minhas cadeiras. à tarde. Por cima ou por baixo: quem havia de decidir? Brunet já decidiu. e teria medo que se construísse um mundo viável porque teria de dizer sim e fazer como os outros. Mathieu pensou: «Era o meu melhor amigo. já não fumará aqui os seus cigarros. acreditava estar a ser sincero. na minha varanda e não queria que isso mudasse. igual. Agrada me indignar me contra o capitalismo. é um sacana. Mas quem poderia conservar nesta luz a mesma parcela de entusiasmo? Era uma luz de fim de esperança. A menina saltava à corda eternamente. pode se sempre discutir. se mudares de opinião. o quarto corruptor estava atrás dele. isso é indiscutível.» O quarto era agora apenas uma mancha de luz verde que tremia quando passavam os carros. Que posso eu fazer contra todos? Tenho de decidir. como se desejar. corruptora. a corda erguia a acima da cabeça como uma alça e chicoteava o solo sob os pés. — Vem visitar me quando tiveres tempo. e o quarto atrás dele era uma água tranquila. pouco antes. Acha que sou um filho da puta. fria. Daniel também. já não olhará para as minhas cortinas.— Não quero demorar te — disse. julgar. eternizava tudo aquilo em que tocava.

disse entre dentes. Isso permitia. Mathieu pegou lhe por cima como se estivesse vivo. As mulheres pintadas que saíam das lojas deitavam lhe olhares provocantes e ele sentia o próprio corpo: «Putas». podia perfeitamente desejar uma ligeira compensação. Livre. Nunca se perdia por muito tempo. Por mais que se lave.» IX E ram seis horas. «Vou chegar cedo de mais a casa de Marcelle. e teve medo. ou sorriam no vazio com espanto. De manhã. tenho tempo de andar um bocado. Para quê? Para quê?» Deixou cair o caranguejo sobre a mesa e declarou: «Sou um tipo lixado. Não era muito cómodo esconder se. para quê? Queria ir à quermesse? Pois iria. Um pesado destino de multidão parecia esmagá lo. Nada mais lhe ficou senão um ruído surdo de avalancha. pelo menos. A tarde esvaziava os edifícios comerciais. Para quê saltar à corda? Para quê? Para quê? Para quê resolver ser livre? Sob aquela mesma luz. à noite. havia homens. Daniel seguiu a passo lento o desfile. Ao sair do escritório. Mesmo na Rua Réaumur era muito notado. «O meu pesa papéis. fugir à tentação de imaginar intimidades atrás das vidraças escuras das janelas. Era fácil esconder se ali. do mesmo destino vago e ameaçador. Apropriando se do sorriso vago dos homens. . perdeu se. não passava de um saguão aberto. «Posso andar um pouco.» Empertigou se novamente. era agora uma praia de luz esquecida. que olhavam as ruas desertas e eternas. os gatos. Era uma verdadeira multidão. a visita de Mathieu. Felizmente eram raras. Marcelle. desconfiado. Liam os jornais ou limpavam com uma expressão de cansaço as lentes dos óculos. pois Daniel já não era capaz de se iludir. em Madrid e em Valência. a mulher cheira sempre.» Isso queria dizer: «Vou dar uma volta pela quermesse». os meus móveis. era inevitável. Tinha medo de lhes respirar o cheiro. Não era uma rua para mulheres e os homens não se preocupavam J E A N P AUL SARTRE com ele. embora não densa. Iria porque não tinha a menor vontade de deixar de o fazer. E Mathieu contemplá la ia eternamente. mas a luz seguiu o. «A minha poltrona. Voltara a encontrar se. depois quatro horas de trabalho odioso.pés. às janelas. e caminhava devagar. Entrou pela Rua Réaumur. Daniel olhara para o espelho do vestíbulo e pensara: «Vai recomeçar». o olhar de Daniel deslizava por entre aquelas falésias abertas até ao céu rosado e corrupto que elas fechavam no horizonte. uma sala de espera de um tribunal. e diziam: «Para quê? Para quê continuar a lutar?» Mathieu voltou se para dentro do quarto. Aliás.» Em cima da mesa havia um pesa papéis em forma de caranguejo.

e as ideias amontoavam se Ihe na cabeça. não era mal nenhum: queria observar a táctica dos maricas no engate. e diminuiu o passo. . Entrou no Bulevar Sébastopol.Marcelle era um charco. Não via nada. Um homem que se condena a si próprio tem sempre vontade de dar pancada para se liquidar de vez. estupefactos. senão é a náusea. Daniel não suportava a humildade deles. Parecia um J E A N P AUL SARTRE pesadelo. a lembrança de uma luz espessa. Sentia desejo de lhes bater. enormes e leves como elefantes de borracha. mas tinha se sem DADE DA RAZÃO pré uma inquietação no fundo dos brônquios. humildes e de olhar ligeiramente alucinado. Habitualmente encostava se a uma coluna.» Tinha a garganta seca. A Rua Réaumur esvaiu se. que procuravam apenas ganhar dez francos e um jantar. de resto. dar lhes corda. que o repelia e atraía ao mesmo tempo. de voz rouca. ela só existia aparentemente. e ele estragava lhes todo o prazer. sedosos. o ar seco queimava em volta dele. Mesmo em tempos normais não podia deixar de fungar. Os malandros que se distraíam diante dos caça níqueis à espera de freguês eram muito mais divertidos que os seus colegas de Montparnasse. cor de gema de ovo. as pessoas. era de morrer a rir. Quanto aos michés. Mas é preciso mudar constan temente de imbecis. como borboletas. erguê los no ar. Daniel nunca atingia o fim da rua. dissimulados. para partir em mil pedaços o pouco de dignidade que ainda lhe resta. sim. Não cheirava a nada. Deixava se doutrinar durante horas. «Vou até à quermesse. Mas nos verdadeiros pesadelos. calcinado pelo sol claro. havia uma mancha na frente dos seus olhos. só tinha diante dele uma distância com obstáculos. quando lá entrava. ternos. flutuavam a baixa altura. Os michés tomavam no por protector de um dos meninos. E depois. brutais e canalhas. vozes de mel. aturdidos. viu a tabuleta. puxar a corda e voltá los. essa luz ignóbil que flutuava entre os muros baixos como um cheiro a cave. Daniel ficou subitamente apressado e esticou o passo: «Vamos rir. agora Marcelle estava podre. Às vezes provocava asma. verificou se os rostos lhe eram desconhecidos e entrou. A quermesse do Bulevar Sébastopol era célebre no género. O quarto dela estava irrespirável. aí é que o inspector de finanças Durat descobrira a puta que o tinha matado. dizia sempre sim. Quermesse. dançam a cada sacudidela do fio com saltos desajeitados. tinham sempre um ar de se confessar culpados. Valia a pena divertir se um bocado com os imbecis. e encarava os fixamente enquanto batiam as asas sob os olhares maldosos e escarnecedores dos jovens amantes. eram vadios ocasionais.» Não precisava de se desculpar tanto.

vinte e duas figurinhas de madeira pintada espetadas em ganchos de ferro. As horas que passava na quermesse pareciam lhe ritmadas pelo martelar surdo das bielas. Na sala das máquinas. sonhava com ela às vezes e acordava sobressaltado. além disso. Daniel sufocava: era aquela poeira. o automóvel de lata que se tinha de empurrar sobre uma estrada de pano. do outro lado da parede. aproximou se lentamente e meteu uma moeda de um franco na ranhura do aparelho. Daniel conhecia os a todos: os jogadores de futebol. lembrava lhe certa noite que passara doente a bordo do navio de Palermo. Viu a isca à esquerda. com uma pressa desajeitada. a carabina eléctrica. um ruivo e dois morenos. Daniel franziu o sobrolho para mostrar lhes que se enganavam no endereço e virou lhes as costas. No fundo da sala havia três filas de kineramas e os títulos dos filmes destacavam se em letras negras: Jovem Casal. a intervalos regulares. Um senhor de monóculo aproximou se de um desses aparelhos. Tinham tirado os casacos. aquele calor e. atraído sem dúvida pela lâmpada eléctrica e pela Kodak que descansavam atrás dos vidros sobre uma pilha de bombons. pois a claridade do dia amontoava a no fundo da sala. e que se tinham de derrubar com cinco tiros de revólver. feliz por voltar às trevas. Banho de Sol. Uma agulha marcava no mostrador a força dos murros. os distribuidores de chocolate e perfume. Para Daniel era uma luz de enjoo. deserta. manequim de dois metros de altura que trazia sobre o ventre uma almofada de couro e um mostrador. Eram quatro. Ao longo das paredes tinham posto umas caixas grosseiras sobre quatro pés: eram os jogos. No fim de momentos. havia uma bruma amarelada semelhante. sete jogadores de pólo. contra a luz. Noite de Núpcias Interrompida. Não era com certeza um canalha como os outros. Lançaram olhares maliciosos a Daniel e continuaram a bater com entusiasmo. Depois afastou se e pareceu . Colocou um franco na ranhura e espreitou pelo binóculo. uma camisa de dormir e alpercatas. Daniel mergulhou na luz amarela. os cinco gatinhes pretos no tecto. viu um rapaz alto e de rosto cinzento que vestia um fato amarrotado. À direita. um louro. junto à caixa. Criadinhas Devassas. tinham começado a dar socos.Era uma trincheira empoeirada com muros caiados de castanho de uma fealdade severa e cheiro de um depósito de mercadorias. ao luar. por entre casas e campos. Uns rapazes pobremente vestidos tinham se agrupado em volta do pugilista negro. aliás parecia não os conhecer. que parecia mais triste ainda e mais cremosa que de costume. arregaçado as mangas das camisas sobre os bracinhos magros e batiam alucinadamente sobre a almofada. devia ter entrado por acaso — Daniel punha as mãos no fogo — e parecia absorto na contemplação de uma grua.

num gesto vivo. Devia ter uns cinquenta anos.» Ia recomeçar o pesadelo. uma vida misteriosa de privações.. «Eis o homem». Daniel sentiu um arrepio familiar percorrer lhe a nuca. «gosta de se acariciar. pensou Daniel. de liberdade e de esperança. mas sem grande entusiasmo. aquela tristeza infinita e familiar que ia tudo submergir. deu um passo em frente. aqueles cujo menor movimento revelava uma garridice inconsciente. pegou nas alavancas e pôs se a manobrá las com convicção. Não aqui neste inferno. aquele tanta vitorioso junto da parede. Aquele aparelho niquelado parecia satisfeito. mas o buraco cuspiu de repente um punhado de bombons multicores. e recomeçar. «São as suas últimas moedas». coçando o nariz. um amor de si próprio profundo e aveludado. resistir. dobrando os joelhos. «não come desde ontem. perder todo o dinheiro. uma tez aveludada sob os cabelos brancos.. depois recomeçaram a dar socos na barriga do negro. «Deve usar cinta». Os quatro vadios voltaram se ao mesmo tempo. Daniel compreendia todas as vertigens. bem barbeado. procurou nos bolsos e descobriu outra moeda. pensou. Estava ligeiramente desvairado. Empertigou se. jurei aguentar. Mas um homem entrou.» No entanto.» Eram os mais atraentes. «Ele gosta». J E A N P AUL SARTRE O guindaste girou sobre si mesmo com um ruído de engrenagem e estremecimentos senis. nesta luz sinistra. os mais românticos. recomeçar sempre. Daniel compreendia muito bem que se podia ser tragado por um daqueles aparelhos. pensou. o busto recto e as pernas flexíveis. «Não hoje. pensou que ia desatar a rir. com aquele gosto a eternidade. e Daniel libertou se. O rapaz não pareceu decepcionado. O senhor avançou com petulância. com aqueles murros junto da parede. um belo nariz florentino e um olhar um pouco mais duro e míope do que o que seria necessário: o olhar de circunstância. com a garganta seca de vertigem e ódio. O guindaste pôs se a girar com movimentos prudentes e desdenhosos. todo preocupado com o seu próprio prazer.perder se em meditações. Daniel teve medo. estava cheio de vontade de pousar a mão no braço do rapaz — já sentia o contacto da fazenda áspera e usada — e dizer lhe: «Não jogue mais. O senhor olhou os com um olhar prudente. O aparelho tremia todo. Não devia imaginar por detrás daquele corpo magro e atraente. aquela maré de tristeza resignada que subia nele. Fez girar as alavancas e examinou os .» Não não devia. que tinham um aspecto avaro e estúpido de feijões. Daniel fazia votos para que ele ganhasse a lâmpada eléctrica. pensou Daniel. exibindo o mesmo ar de inocência viciada. Ia precisar de dias e dias para se libertar daquilo. do qual não se excluía uma certa severidade. mas ainda assim contente por ter resistido. pensativo. O rapaz.

sem o vestir. Jogaram. O rapaz parara a poucos passos do velho e fingia examinar também o aparelho. É da província? . As bolas saem. — E o hábito — respondeu o rapaz. dando o primeiro passo. de o lavar e talvez perfumar. não é? Eu tento enviar uma bola para o buraco e você procura impedir. Encostou se comodamente à coluna e lançou sobre o senhor um olhar pesado. com modéstia. Daniel reparou eno J E A N P AUL SARTRE jado nos quadris avantajados. O senhor petulante inclinou se sobre o jogo e passou o dedo frágil no corpo magro dos bonecos de madeira. Não queria baixar se. temeroso. o rapaz de camisa de dormir tirara do bolso uma terceira moeda e recomeçava pela terceira vez a sua dança silenciosa em torno da grua. — Sabe jogar? — perguntou o velho com uma voz doce. tê lo ia visto. é preciso mandá las para o buraco. Acontece me entrar por acaso.bonecos com uma atenção sorridente. considerava sem dúvida que. Parecia farejar. «Filhos da puta». Quatro jogadores descreveram um semicírculo e pararam de cabeça para baixo. claro que quero. já o conhecia. Ensine me. sim. sem dúvida? Eu não. A seguir acrescentou: — Precisam de ser dois: um de cada lado. murmurou. mas cinzentas. — Mas é preciso ser dois. e aproximou se do miché com as mãos nos bolsos. O velho disse em voz de falsete: — É muito hábil! Como conseguiu? Ganha sempre. Mas foi apenas um instante. lembrar me ia de si. um olhar de cão sob as sobrancelhas espessas. era uma isca deleitável para aqueles peixinhos todos. Com efeito. o lourinho destacou se do grupo. sou bom fisionomista e você tem um rosto interessante. com os seus cabelos brancos e a sua roupa clara. não é? — Isso mesmo — disse o rapaz. nas gordas bochechas camponesas. sim. Daniel viu o sorriso e sentiu um baque em pleno coração. — Ponha um franco e puxe. pensou. — Quer fazer uma partida comigo? — Eu. aquelas simulações e mentiras horrorizaram no e ele teve uma grande vontade de fugir. Sim. Um impulso sem consequências. mas nunca o encontrei. Pusera o casaco sobre os ombros. Inclinaram se ambos sobre as alavancas e inspeccionavam nas sem se olharem. como se ele próprio se divertisse com o capricho que o conduzia ali. após um rápido conciliábulo. «amassa se corno pão. Esse pensamento enfureceu Daniel. À direita. — Sim. faz treinos? Vem sempre aqui. Quer — explicar me? Eu não compreendo.» O senhor era capaz de o levar para casa. O rapaz ao fim de um instante pareceu tomar uma decisão heróica: empunhou uma alavanca e fê la girar com rapidez. «Carne de mulher». que uma ligeira barba sujava.

vendo chegar de repente o rapaz acompanhado por Daniel. Aquele sorriso enfureceu Daniel. o velho pôs se a falar com doçura. usava roupa nova. não tinha o menor interesse. — Vamos. ainda tem cinco bolas. Por mais que Daniel prestasse atenção. Olhava Daniel sem responder. Prefiro conversar. pareceu inquieto. em voz baixa. ouvia apenas as palavras «rancho» e «bilhar». sem o olhar. mostro lhe a minha carteira de funcionário. — Tinha te proibido de voltar aqui. passando a língua sobre os lábios finos. Conhecia o ritual: parecia um adeus. — Pois jogamos daqui a pouco. Sr. e deparou com o olhar de Daniel. Daniel empregara o numa farmácia. aguardava que lhe dirigissem a palavra. Se houvesse oportunidade. ingenuamente —. Ia segui lo. O rapaz não vira nada. passaria por polícia de costu J E A N P AUL SARTRE mês. — Mas a partida não acabou — disse o rapaz. Levantou a cabeça. Daniel sentia se reconfortado por uma cólera seca e deliciosa.A — Sou — disse o rapaz. daria um soco ou dois no ventre do negro. Voltou se bruscamente. o velho sairia à frente apressado. As suas mãos tremiam e a sua felicidade era perfeita se não sentisse a garganta seca com a sede. finalmente. Daniel sobressaltou se. «Se pedir os meus documentos. Este fez um ar de desprezo. Pensei: «Um destes . esfregou as mãos como um padre. Fizera se gordo e grande. Imaginava o velho de um lado para o outro no passeio. depois sairia por sua vez arrastando os pés. — Que estás a fazer aqui? — perguntou com severidade. comprada feita. pois. desconcertado. com um sorriso inocente e astuto. assentava o nome e o endereço do velho e pregava Ihe um tremendo susto. O velho para juntar se a ele teve de dar uma volta sobre si mesmo. O rapaz sorriu forçadamente. — Deve ser «massa»! — disse em voz alta. Fez se silêncio e. Era Bobby. Bobby inclinara a cabeça sobre o ombro e fazia como os meninos. De boca aberta. O rapaz voltaria para os companheiros com indolência. O rapaz consentiu com a cabeça. não sei a sua morada. fala! — Ando à procura do senhor há três dias — disse Bobby com a sua voz arrastada —. O senhor parou de jogar e aproximou se do rapaz.» — Bom dia. Lalique era um nome de guerra que usava às vezes. O velho não respondeu e lançou uma olhadela furtiva para o lado de Daniel. Daniel gozava de antemão a cena. devorando com olhar de juiz o rosto delicado e gasto da presa. olhar vazio e deferente. e o homem desviou os olhos. Lalique — disse uma voz sumida. se não vê mal nisso.

«Vê me com este canalha e toma me por colega. Sim. e que ainda continuaria mesmo que lhe rebentassem os lábios a soco.» — Que é que queres? — perguntou brutalmente. Daniel deitou uma olhadela furtiva para o velho e viu com despeito que este já não fazia cerimónia. com uma palmadinha no rosto.» E nada há a fazer contra isto. — Compraste uma língua juntamente com a roupa? Os sarcasmos não atingiam Bobby. deitou um olhar de cumplicidade a Daniel e saiu a passos largos e dançantes. preferia matar me a parecer me com esse tipo. pensou Daniel com um estremecimento de raiva. debaixo daquela fronte estreita. aquele sorriso mole e tenaz de borracha. Em todo o caso. J E A N P AUL SARTRE Daniel mostrou lhe a língua. «Pensam que todos o são. — Como estava encostado à coluna e não parecia de modo algum apressado. Daniel vem aqui. a fazer previsões: «Imagina que me conhece e pode manobrar me. Bobby riu se. Mas isso dar lhe ia direitos para sempre? O velho pegava na mão do jovem amigo e conservava a paternalmente entre as suas. — Que é que foi? — observou Daniel. Apesar da repugnância. dar uma voltinha. que tresandas a brilhantina. pensou Daniel com ódio. um dia Bobby tinha lhe agradado. Daniel detestava aquela paciência inerte de pobre. Olhava Daniel arregalando os olhos gentilmente e continuava a sorrir. foi por isso que tomei a liberdade.. desatando a rir.. — Foi porque o senhor mostrou a língua ao velho maricas — . — Desculpe — disse Bobby sem se apressar. engordaste. mas o outro já tinha virado as costas. onde a arranjaste? É horrível como a tua vulgaridade sobressai quando estás endomingado! Bobby pareceu não se incomodar. Ele inclinava a cabeça para trás e olhava o tecto com uma expressão de humilde volúpia através das pálpebras semicerradas. — Estás feio — afirmou —. E vê se te afastas um bocado. respirava lhe os cabelos com um ar de bondade. Estou sujo. a não ser esmagá lo como uma lesma.» «Um destes dias! Merda insolente. e ali ficaria para sempre. pois uma certa imagem de Daniel ali se achava incrustada. — Estou com pressa. «Era de esperar». e essa roupa não te serve. Inclinava se sobre o miúdo.» Atrevia se a julgar Daniel. Daniel sentia se solidário com aquela mancha plácida e viva: era ele que assim vivia na consciência de Bobby. Depois disse lhe adeus. «Agradou me porque se parecia com um gato».» Tinha horror a essa franco maçonaria de mictórios.dias o Sr. — Oh! Tu falas bem! — disse Daniel.

— No princípio.» DADE DA RAZÃO Que fazer. horrorizado. a sorrir. era só Bobby para aqui. Então comecei a ver Ralph fora da farmácia para não ser apanhado. é um tipo estuporado. queixoso.» E não tinha um tostão. Sr.disse Bobby. Daniel sentiu se cansado e vazio. E acrescentou em tom carinhoso: — É sempre o mesmo. que nos viu juntos. disse eu. Daniel encarou o. Bateram as sete horas. sempre brincalhão. Invadido por uma suspeita perguntou: — E a farmácia? Já lá não estás? — Não tenho sorte — disse Bobby. rindo muito alto. Daniel estremeceu. «E um ladrão». quando entrei para a farmácia.» — «Minha senhora». Procurou com o olhar o dorso curvado e a nuca magra do rapaz em camisa de dormir. o ruído dos socos parara. «na farmácia a senhora é que manda. fala — disse distraidamente. mas lá fora não me pode dizer nada — repetiu Bobbv com agrado. que fazíamos coisas. Tinha medo da solidão. A caixa levantou se. «Que estou a fazer aqui?». «Que é que eu te disse?». O tipo louro saiu vagarosamente da quermesse. E então vomita tudo na farmácia. com nojo. Bobby para ali. O estupor parece gostar de coisas — disse Bobby com pudor. mas não queria deixá lo assim de repente. — Eu é que saí — disse Bobby muito digno. — Vamos. — Que é que fizeste? Roubaste? — Foi a mulher do farmacêutico — respondeu Bobby. — Não gostava de mim. mas lá fora não me pode dizer nada. Daniel. só porque tivemos sorte? — atalhou Bobby com indignação. que as pessoas se escandalizavam. Ao passar roçou ao de leve Daniel. bom — disse Daniel. atropelavam se. «Não perdes pela demora». sei lá. — Na farmácia a senhora é quem manda. — Então puseram te na rua? — perguntou. era uma loura gorda. pensou Daniel. — Começou a hostilizar me porque eu via Ralph. O rapaz em camisa de dormir já não estava lá. disse me ele. — Então devemos abandonar os amigos. — Disse: «Prefiro. «Ou não tornas a ver Ralph ou sais daqui. mas eu mandei o passear. perguntou a patroa. «proíbo que ele entre na minha farmácia. — Bom. — Nem por isso deixaste de engordar. — Via o menos. dizia ela. ir me embora. Dirigiu se com passinhos curtos até um distribuidor de perfume e olhou se no espelho. Os três companheiros seguiram no logo depois. Mas o estagiário encontrou nos juntos.» Pan! A sala estava deserta. essa mulher era uma puta. — Já te tinha dito para não te dares com Ralph. hem! Eles não me .

carinhosamente. verás como ele não me deixa em apuros. E uma aventura séria. Devolvia lho no fim do mês. Deu uma saída em falso e voltou atrás. são dados. Lalique. — Perguntar a quem? — À patroa. — Queremos arranjar um comércio. mas não faz mal. emprestar. Ao lado da Kodak e da lâmpada eléctrica havia um . — Se quiser falar comigo. indecisos. Olhou Daniel. Ralph e eu. Na Rua dês Ours. Lalique — disse Bobby. não penses que acredito em metade do que me contaste.quiseram pagar o que me deviam. Está enganado sobre o Ralph. Sr. Daniel aproximou se do guindaste e olhou. — Obrigado. — Estávamos com um projecto de trabalhar juntos.. — Se pudesse emprestar me. — Já não me interessas. E depois. — Deus me livre! Não estou disposto a ouvir as suas histórias. ou com Ralph. — Toma — disse Daniel —. Bobby afastou se. pensou: «Tenho de me ir embora». não posso fazer nada por ti. Mentes como um tira dentes. hem. — disse Bobby com indiferença. com voz humilde. Sr. durmo de dia porque à noite ele recebe a puta. — Pode perguntar lhe. Esfalfo me para arranjar um lugar e consegues ser J E A N P AUL SARTRE posto na rua ao fim de um mês. — Disse a mim próprio: vou ver se encontro o Sr. Não como desde anteontem.. mas sentia as pernas moles. — Vai te embora. — Quanto queres? — repetiu Daniel. ele gosta muito de si. — És um idiota — disse Daniel. Ver se não estou a dizer a verdade. Depois deu meia volta e foi se embora. Quanto queres? — É um bom tipo. a recuar e sorrindo sempre. Aliás. no sétimo andar. toma cinquenta. 6. A — Vai te embora — disse Daniel com rudeza. — Sim? E vieste pedir me dinheiro para as primeiras despesas? Guarda essas histórias para outros. Bobby pôs se a fazer trejeitos. — Ainda hoje dizia a Ralph: se eu encontrar o Sr. Durmo na casa de Ralph. E desaparece. Bobby meteu o dinheiro no bolso sem falar e ficaram um diante do outro. nós moramos aqui perto. ele compreende me. Lalique. Eu sou assim. Sentia se acovardado. Lalique. Quanto? — Cem francos. O corpo parecia lhe algodão.

. pois esmagado daquela maneira também era mal. Daniel era um homem de má vontade. de ombros caídos. Ao lado dele as pessoas tagarelavam em paz com a consciência. como sempre. naquela natureza. não em 1913. Rua dês Ours. um porteiro gordo e pálido.» Mas fora pior. com inveja. da gente honesta. No limiar da entrada de um edifício. assim o tinha resolvido. se existia. 6. Eles bem o sabiam. Porque será a vontade deles a boa. pensou. Devia ter um coração reverencioso. Em 1912. da gente de bem. não tivera sequer a coragem de se satisfazer. A paz de boa gente. com as mãos sobre o ventre como um Buda. e não a minha?» Assim era. Voltou se bruscamente: «É capaz de me seguir para ver onde moro. Daniel estava com uma sede infernal. naquela luz. sensível às grandes . tudo os aprovaria. eles sabiam que tinham razão. desgraçado! Morre de sede! «Afinal». morre. Bastaria um sinal para que esses homens se atirassem contra ele e o fizessem em pedaços. Ganhara o dia e devia ter voltado para casa. Daniel viu o de longe. os olhos amarelavam lhe tudo. o céu estava cheio de ouro. pensou Daniel.binóculo que não tinha visto antes. permitira tudo. estava invadido por ele da cabeça aos pés. via as pessoas passarem e de quando em quando aprovava uma qualquer pessoa com um meneio de cabeça. tinha ainda na vista aquela mancha amarela. Enfiou uma moeda no aparelho e rodou os manípulos ao acaso. aquecia se ao sol. Se fosse possível esquecer aquela direcção. Um senhor disse à mulher: — Mas isso foi antes da guerra. Daniel recolheu cinco ou seis na palma da mão e comeu os. O guindaste deixou cair os ponteiros sobre o monte de bombons. Gostaria que me tivesse seguido. Além disso.. as pessoas sorriam à carícia da sombra. Daniel estremeceu: «Se pudesse esquecer aquela direcção.» O porteiro estava sentado numa cadeira. Daniel olhou os seus rostos: eram duros apesar de um aparente abandono. Tinha sido preferível deixar se esma J E A N P AUL SARTRE gar pelo prazer. dar lhe ia uma tremenda sova na rua!» Porém Bobby não aparecia. Eu ainda estava com Paul Lucas. Ralph. Agora carregava o Mal dentro dele como uma comichão infecciosa. «A paz.» Mas o quê? Teria cuidado para não o esquecer. a luz. pensou: «Eis o Bem.. Deixara se roçar pelo Mal. «Ser aquele tipo». E o céu. estava com eles. a natureza toda. dos homens de boa vontade. Qualquer coisa naquele céu. O sol derramava um pouco de ouro nos grandes edifícios escuros. as árvores. «não fiz nada que mereça castigo. menos a satisfação. porém não queria beber. mas uma sombra suave e líquida subia da rua.. É verdade que renascia sempre. que Deus.

» O processo assentava quase inteiramente na psicologia. fendera se como um esgrimista. tradições.» Deu os treze passos e parou justamente à beira do passeio. «é que os ladrões são uns estúpidos. fascinado pelas longas pestanas estúpidas.. a teoria seria gravada em discos e traria o nome do inventor.. biblioteca. «O que acontece». Em sindicato. sentia se mergulhar no doce exílio religioso da noite e dos arrabaldes. «Isto dorme todas as noites». Não se iludia sobre os riscos. para o mercado. era de perguntar como ninguém tinha pensado naquilo antes. e Daniel esticou o passo. à humidade. Haveria. mas tinha de ser descoberto). é indispensável. até ter na cabeça apenas uma massa branca com um perfumezinho de sabão de barba. em câmara lenta. Viu com prazer um bar cor de abóbora e verificou que estava no meio da Avenida de Orleães. pensou. «e cursos gratuitos de psicologia do roubo. Mas o mau humor depressa se esvaiu porque se lembrou de que não a trouxera por acaso. precisando melhor a sua ideia.» Deitou um olhar irritado sobre a pasta. ou «processo de Serguine». «Há muito tempo que deveriam ter se organizado. de qualquer maneira o negócio está no papo. não gostava de carregar aquilo. A luz contribuía muito para isso. «Com a vida que levo. Os transeuntes parece que . Com uma sede social. à luz. as ruas deslizavam sob os pés para o centro envelhecido e comercial da cidade. pela malícia sentenciosa das bochechas cheias. era uma musselina ruiva bem ajustada. por exemplo. entre as sete e sete e meia da noite. Era espantoso como as pessoas pareciam simpáticas na Avenida de Orleães. ao frio. mas estava calmo e frio. Já não sabia se tinha vontade de o matar ou de deslizar confortavelmente dentro daquela alma bem regrada. ao calor. isto não tem a mínima importância. mas o último passo tinha sido muito maior do que os outros. era científico. «Se chegar ao passeio em treze passos. Filmoteca também e fitas que decomporiam.» Uma associação para o conhecimento mútuo e a exploração dos processos técnicos.» Não podia falhar. Ser lhe ia até muito útil. Cada novo aperfeiçoamento seria reproduzido. Daniel parou. resta me a esperança de me tornar indulgente o mais depressa possível. O homem levantou a cabeça. também denominado ovo de Colombo (porque é simples como tudo. pensou com severidade. Tudo se classificaria por categorias. Embrutecer se até chegar àquele ponto.forças naturais. o roubo do mostruário pelo processo 1763. pensou. eis o que faltava. uma ética. e depois era delicioso encontrar se nos limites de Paris. um pouco animado. dava lhe um ar de advogado. apenas. como os prestidigita dores. «Aliás.» Atravessou a rua. os movimentos mais difíceis. Boris concordaria em participar de uma fita demonstrativa! «Ah!». para as vielas sombrias de Saint Antoine.

devo ter um temperamento inquieto». ensinando lhe o que era a liberdade. Pois. e eu penso em guardas municipais. Na Faculdade sentira se atraído pelo comunismo. pensou. com um espanto divertido. «Talvez Mathieu tenha percebido que seguia um caminho errado e vá entrar para o partido. «Que estupor! Pôs me mesmo fora. com excepção de Mathieu e Ivich. analisar permanentemente o que se pensa dos outros.saíram de casa para estar juntos. não sei porquê. «E no próximo Verão hei de alugar um quarto numa dessas casas de três andares que parecem irmãs gémeas e fazem pensar na revolução de 48. Era escrupu J E A N P AUL SARTRE losamente livre. considerando friamente as coisas. «No fundo. pensar o que bem se entende. Vejo as janelas. Que teria ido fazer aquele comunista a casa de Mathieu?». dir se ia até que gostam disso. pensou. mas com a intenção de comprar. não é triste. Boris construíra a sua vida sobre esses alicerces. como se tivessem sido lambidas pelas chamas de um incêndio. uma necessidade de ser mau. «Hei de vir aqui todas as noites». Certamente Mathieu não se enganara. essas fachadas lívidas e cheias de buraquinhos negros parecem manchas de tempestade num céu azul. Boris compreendera imediatamente: é um dever fazer o que se quer. a multidão passa através de meu corpo. porque eram perfeitos. receoso. E olham os mostruários com uma admiração inocente e inteiramente desinteressada. porque se deixava então de ser livre. Brunet então parecia um papa. Boris . e perguntou a si próprio de onde vinham aqueles impulsos de tudo subverter que o assaltavam de vez em quando. Mas com janelas tão estreitas. Mathieu não era tipo que se enganasse. não era recomendável analisá la demasiado. como lagos artificiais. pensou de repente Boris. Quanto à liberdade. se pudesse subir ao tecto da marquise do bar. veria os armários com espelho ao fundo dos quartos. No Bulevar Saint Michel as pessoas olham também os mostruários. seria demasiado grave agora que Boris se decidira. nas grades douradas do Palais Royal. «Pôs me fora». Boris coçou a cabeça.» E subitamente uma violenta e rápida borrasca desencadeou se lhe na cabeça. no 14 de Julho. não se zangam quando são empurrados. entusiasmado. mas Mathieu tinha o desviado. resolveu Boris. Em particular discutia sempre com todos.» Divertiu se durante um instante em enumerar as consequências incalculáveis de semelhante conversão. Mas logo parou. com esses era inútil. não. ser responsável apenas perante si próprio. eram sérios de mais. com perplexidade. Não gostava dos comunistas. como se arranjariam as mulheres para atirar colchões das camas sobre os soldados? Está tudo preto de fumo em volta das janelas.

Boris acabava por dizer tudo. de uma maneira ou de outra. ele ia ao Sumatra. Aquele dia. Mais tarde sim. aquele mar tropical que recuava deixando o sozinho sob o céu pálido. olhava para os pés. e dizia lhe: «Você tem qualquer coisa na cabeça». Era um suplício. às vezes. Sentia se de excelente humor e como que aveludado por dentro. Uma lâmpada vermelha acendeu. e enchia o de perguntas. E viu os prós e os contras. mais uma pequenina etapa. mas por agora confiava em Mathieu. Já vira muito disso na Sorbona. estudantes de óculos que tinham sempre reservada uma teoria pessoal e acabavam por perder. Cinquenta e sete quilos para um metro e setenta e três estava bem. repetiu Boris rindo. E dali a pouco. «Sou modesto». o estupor. não têm jeito para nada e são detectives particulares. Achou se simpático. Tinha de ter cuidado. engasgava se. veria Mathieu. pensou. No entanto. haveria aquele furto. raciocina como um cabo de vassoura». Desceu da balança e continuou a andar. porém Mathieu era tenaz como um piolho. Mathieu corava. Perguntaria a Mathieu. veria Ivich. «É completamente idiota. Boris achava indecente um camarada da sua idade pensar por si. Aliás. Interrogou se também se era moral ter um temperamento inquieto. Boris tinha horror ao ridículo. gaguejava ligeiramente. não queria perder e preferia calar se a passar por tolo: era menos humilhante. e o pior é que Mathieu ainda por cima o descompunha. aquela obra prima. Empertigou se e apressou o passo. Boris tinha uma ideia. mas este percebia sempre. E depois a atmosfera cheirava a uma melancolia levíssima do dia envelhecido que agonizava devagar em volta dele. Boris sabia o por intermédio de Picard. mas não quis levar avante a investigação. dançaria. Parou diante do espelho de uma bela farmácia vermelha e olhou a sua imagem com imparcialidade. Era o seu ofício. o mecanismo funcionou com um ruído sibilante e cuspiu um bilhete: cinquenta e sete quilos e meio. era uma etapa. sempre se tinha alegrado quando Mathieu se punha a pensar. por causa dos tipos que folheiam os livros. Demais. que desempenhara esse papel durante três . «Estupor». mas era afinal um trabalho sóbrio e elegante. olhava os dedos. Ficou confuso por momentos: quinhentos gramas! Mas percebeu que tinha a pasta na mão. fazia o possível para que Mathieu não percebesse. A noite ia cair. Boris tentava desviar a conversa. angulosas. Subiu para a balança automática e pesou se para ver se não tinha engordado desde a véspera. A Livraria Carbure tinha seis.sentia se satisfeito e balançou alegremente a pasta. os falsos espertos. que o roçava com uma luz suave e perfumes cheios de saudades. exactamente entre o dia e a noite. as teorias eram idiotas. exactamente como se Boris se tivesse vangloriado de ser um génio.

a cinco é preciso que a escova esteja no meu bolso. enojado. Abelardo. Ia colocá lo naquela mesma noite sobre a mesa de cabe ceira e na manhã seguinte o seu primeiro olhar seria para o livro. Fausto e os cintos de castidade do Museu de Cluny. rapidamente.» Ele não improvisava. possuiria aquela jóia. Naturalmente os infelizes perdiam a cabeça. Dentro de meia hora. «vou dormir a casa de Lola esta noite. Sorriu. em cem ladrões. como as páginas não estavam cortadas. que lhe lembrava a Idade Média. às vezes as informações obtidas eram falseadas. Não somente era J E A N P AUL SARTRE preciso espiar. tivera de o fazer porque os pais lhe tinham cortado a mesada. a ele não o apanhavam. eram então levados. Tinha de cair lhes em cima de repente acusando os de terem tentado enfiar um livro no bolso. era uma ascese. como um inspector vulgar. mas o que sabia aprendera com método.» Em todo o caso. Mais valia roubar uma caixinha de pastilhas de alcaçuz sob o olhar do farmacêutico que uma carteira de cabedal de uma loja vazia. ao interromper o trabalho de revisão. mas deixara o logo. um escritório sombrio. por exemplo. para se manter em contacto com a realidade. o interesse seria o móbil do roubo. «Aquele thesaurus!». Por certo não sabia tudo. murmurou. e extorquiam lhe cem francos com a ameaça de um processo. «Será meu. ao passo que agora era forçado a consultá lo de passagem nos mostruários. pois sempre considerara que quem trabalha com a cabeça deve ter um ofício manual também. poderei consultá lo a qualquer hora do dia ou da noite». oitenta improvisam. daria uma olhadela para se distrair. E depois havia um momento de inteira satisfação. mas ainda ficar de espreita para apanhar os ingénuos. Boris sentiu se «embriagado». era quando dizia: «Vou contar até cinco. Ia abrir uma excepção aos seus princípios.» Ficava com um nó na garganta e uma extraordinária impressão de lucidez e de força. o mais tardar. aquele tesouro indispensável. disse aborrecido. Neste ponto estava de acordo com os antigos espartanos. um herbário. e. para o fundo de um corredor. havia de os vingar. nem os vinte francos. os tipos de monóculo. pois não se podia considerar lucro as dezassete escovas de dentes que possuía.dias depois de ter reprovado em Geologia. «Ora». que se aproximam timidamente do mostruário. «Essa gente não sabe fazer as coisas. O que lhe importava em cada caso era a dificuldade técnica. levá lo ia para a biblioteca da Sorbona e de vez em quando. a tenaz de lareira e o ovo de passajar. pela primeira vez. pois gostava da palavra thesaurus. . Até ali não tirara nenhum proveito material dos seus empreendimentos. a bússola. O benefício do roubo era exclusivamente moral.

Boris deitou. ele vai ficar doido. não estava ainda maduro. um dia também me hás de roubar a mim. Lola ficava doida com isso. «Nem sei se ainda nos veremos. A Rua Denfert Rochereau aborrecia o muito. mas não era desprovido de bom senso e sabia que isso era uma necessidade.» Boris não tinha nenhuma vontade de que esse dia chegasse e achava que era perfeitamente feliz. sete anos. Ria com indulgência quando Boris lhe falava. Mathieu era uma etapa. A Ivich sim. não contaria nada. Que podia invocar contra o roubo. teria as suas ideias próprias. chegaria ao milhar. mas Boris não tinha muito a certeza de que ele os aprovasse. ele dizia que sim para a irritar. Uma rua? Era apenas um buraco com casas de ambos os lados. talvez por causa dos castanheiros. Contaria também a história a Lola para a chatear. mas o metro passa aqui em baixo». Não era compreensível. Com as quinhentas ou seiscentas que já conhecia. Mas Mathieu não se mostrava muito à vontade nessas histórias de furtos.. ao passar. depois sacudiu a cabeça e disse: «É estúpido!» Dentro de cinco anos.» E ele respondia: «Quem sabe. de deixar para trás uma multidão de coisas e de gente.Decidiu se a aprender uma locução por dia. «Tenho de contar isto a Mathieu. Mathieu era tão perfeito quanto possível. Atravessou o Bulevar Raspail e entrou pela Rua Denfert Rochereau. Teria de mudar. quem sabe. Aliás era um recanto sem carácter. uma olhadela amável à tinturaria e depois mergulhou no silêncio louro e distinto da rua. detestava a mania de Lola de ligar tudo a si própria. é fácil de mais. como Lola. mas era normal. e tirou dessa verificação algum conforto. «Sim. o que se podia considerar muito bom. e nos momentos em que Boris mais o admirava. desde que fosse efectuado dentro da regra? Essa censura tácita de Mathieu preocupou o durante alguns instantes. se houver uma oportunidade.. não se roubam os íntimos. em seis meses seriam trezentas e sessenta. Mas Mathieu. Ela dizia lhe: «Eras capaz de roubar a tua mãe. ela compreenderia.» Naturalmente isso não tinha sentido.» Não. talvez duas. pensou Boris. J E A N P AUL SARTRE O sangue subiu lhe ao rosto. com excepção de uma tinturaria escura com cortinas cor de sangue que pendiam lamentavelmente como cabeleiras escalpadas. havia na sua admiração algo provisório que fazia que ela fosse imensa. as de Mathieu parecer lhe iam ingénuas e antiquadas. é porque não tinha jeito. imaginou que caminhava sobre uma fina camada de asfalto e que talvez ela fosse ceder. não podia entender certas subtilezas e depois era um bocado avarenta. Se ela própria não roubava. mas sem servilismo. com um vago mal estar. Não compreendia o que Mathieu podia censurar lhe. seria o seu próprio juiz. mas não podia mudar ao mesmo .

como um ladrão. papel encorpado. lamentável. entrar na loja. «Oh!». como recompensa se tiver bom êxito. parecia sangue. Impôs a si próprio a obrigação de permanecer imóvel diante da loja de um negociante de guarda chuvas e de cutelaria. na maioria. Daqui a pouco. alguns em forma de cabeça de buldogue. «Vai ser preciso enfiar isto na pasta». já não podia mudar. Dicionário Histórico e Etimológico da Linguagem Popular e do Calão desde o Século XIV até à Época Contemporânea. na montra. metodicamente. guarda chuvas de cabos de marfim.°. carregando a sua presa. Boris verificou com uma olhadela onde se encontrava o senhor de bigodes ruivos que rondava amiúde por ali e que desconfiava ser um detective. Diante da livraria tinham colocado seis mesas cheias de livros. gemeu Boris. Havia duas manchas de ferrugem na lâmina. cabo de osso preto. tudo triste. Mas bastou lhe olhar o título dourado que luzia docemente para sentir voltar lhe a coragem. Hei de comprá la daqui a pouco. A Livraria Carbure achava se instalada na esquina da Rua Vaugirard com o Bulevar Saint Michel e tinha — o que auxiliava as intenções de Boris — uma entrada em cada rua. entre dois guarda chuvas. não era prudente chegar de rosto corado pela esperança. com um solavanco do corpo. era perfeito de mais. Setecentas páginas. de lâmina espessa e comprida. sombrinhas verdes e vermelhas. tão grande que Boris ficou desanimado durante uns momentos. . sucumbido. Tinha como princípio agir friamente. «Picard há de me ensinar a atirá la». «Uma navalha espanhola!». in 4. Queria dominar a sua impaciência. a olhar os objectos uns após outros. comprar a navalha e fugir. parou. aproximou se da terceira mesa. Era uma verdadeira navalha espanhola. O livro ali estava. Boris contemplou a longamente e o mundo perdeu a cor à sua volta. Estes pensamentos aborreceram Boris e sentiu se satisfeito por chegar à Praça Edmond Rostand. tudo o que não fosse o brilho frio da lâmina deixou J E A N P AUL SARTRE de o interessar. de ocasião.tempo que Boris. queria largar tudo. elegante como um quarto crescente. tremendo de prazer. «Que não tivessem tido a ideia de guardar o livro precisamente hoje!» Na esquina da Rua Monsieur le Prince e do Bulevar Saint Michel. Ia atingir um estado de resolução fria e sem alegria quando viu de repente uma coisa que o mergulhou de novo no júbilo. mas o sentido do dever dominou o. pensou. murmurou. enorme. com olhos de lobo. e ainda por cima Boris pôs se a pensar nas pessoas idosas que compravam aqueles objectos. A navalha descansava aberta sobre uma prancheta de madeira envernizada. mola. Era sempre agradável atravessá la por causa dos autocarros que se precipitavam sobre as pessoas como enormes perus e evitavam nos por um fio. com o coração contraído de desejo. Depois.

— Parei um pouco ao passar — respondeu de maneira embaraçada. mas fingindo se indiferente: J E A N P AUL SARTRE — É uma obra curiosa. — Bom dia — disse Sereno —. Havia sem dúvida naquele fato de tweed quase cor de rosa. pensou Boris. Por honestidade de espírito. Mas tinha um ar de sacana. um amigo de Mathieu. Boris irritou se e resolveu observá lo severamente. Traduza se: o cura apreciava a bagatela. num gesto familiar e terno. como que de propósito. Boris largou a leitura e pôs se a rir sozinho. é um móvel. Exemplo: O cura era da coisa como um zangão. enquanto uma alegria austera e pura lhe fazia o coração pular.» As páginas seguintes não estavam cortadas. apesar de suave como manteiga fresca. Não tinha o ar de sacana habitual. que está a ler? Parece fascinado. naquela gravata amarela. Mas o conjunto era inatacável. Pegou no volume com as duas mãos e ergueu o até aos olhos. «Apanhado». naquela camisa de linho. Boris vira o duas ou três vezes e achava o admirável. com admiração. Era necessário iniciar a comédia. Na verdade mostrava se até amável de mais. «Não é um livro. surpreendeu Boris a folhear o dicionário de calão. parecia mergulhado na leitura. Repetia. que troçaria dele. não podem provar coisa alguma. pensou. Tinha um riso quente e agradável. Boris murmurou com uma voz engasgada.. «mas agem cedo de mais.» Em seguida tornou se repentinamente sério e começou a contar: «Um! dois! três! quatro!». para: ser levado a apreciar. isso tinha. Sereno sorriu. folhear o volume. Mas era evidente que Sereno considerava que tudo lhe era permitido. uma ousadia calculada que chocava um pouco Boris. Boris abriu o dicionário ao acaso. Devia ser ligeiramente míope. e isso iria ter por certo aos ouvidos de Mathieu. Leu: «Ser de. enlevado: «O cura era da coisa como um zangão.. confessou que Sereno era perfeitamente elegante. Sereno não respondeu. Boris admirou lhe a desenvoltura. Tocou na encadernação com a ponta dos dedos. Atrás dele certamente o senhor de bigodes devia estar a espiá lo..» Voltou se devagar. e Boris . E depois.. Uma mão pousou lhe sobre o ombro.. Esta locução parece originária do Sudoeste da França. Boris apreciava a elegância sóbria e despreocupada. os que folheiam livros deixam nos sobre a mesa com receio dos detectives particulares. mas era preciso desconfiar. Devia estar a preparar algum golpe sujo. por "ser invertido". tomar uns ares de interessado que hesita e acaba por se deixar tentar. Sereno desatou a rir.. Era Daniel Sereno. De costume.«Histórico!» repetiu Boris com êxtase. com sangue frio. Diz se também: "ser do homem". Locução usada comummente hoje em dia.

mas cheios de ângulos. pensou Boris. Os olhos eram incomodativos. Pensou: «Estou a ser estúpido. daquilo de que gostava. — Sim — disse Boris. pensou que convinha falar o menos possível. Sereno não parecia com vontade de se ir embora. atabalhoadamente. «Oito e um quarto». «Está a querer pregar me uma partida». estou frito. — disse Boris sem fôlego. Detestava falar. Você deve perceber.. descobria se neles qualquer coisa de duro. mas quando se olhava melhor. Deve ser muito hábil. Estava contente por ter um pretexto para romper o silêncio. — Ser do homem! — disse Sereno. estudo Filosofia — respondeu Boris. não. — Sim. — Um pouco — atalhou Boris. mas não se atreveu. creio eu — continuou Sereno. — Imagino que gosta disso — continuou Sereno. É sempre interessante ouvir alguém explicar como nos vê. não estava apressado. E. que se sentiu corar pela segunda vez. «Se ele não se for embora imediatamente. Era impudico. Boris escutava atentamente. — Está a estudar Filosofia. gelado. Disse: — Confesso que não percebo nada de filosofia. pular para fazer com que aquela vertigem de doçura se dissipasse. Sei quando um tipo é do homem — a expressão divertia o visivelmente —. À primeira vista pareciam imbuídos de ternura. pensou com angústia. Serguine? — Eu. e manteve se atento.achou o simpático porque abria inteiramente a boca quando se ria. os gestos têm uma moleza harmoniosa que não engana.» A Livraria Carbure fechava às oito e meia. — Ser do homem! É um achado de que me servirei oportunamente. sob aquele olhar insistente. Mas naquele instante o relógio da Sorbona soou. Ao passo que você. Além disso. Estava a observá lo há um bom bocado e estava seduzido. mas porque é que não se vai embora?» Aliás Mathieu prevenira o. o que fazia parte da sua natureza demoníaca. — Você é do homem. Queria perguntar a Sereno o que entendia por «gestos cheios de ângulos». além disso. Sereno tinha uma voz de baixo muito agradável. Os seus gestos são vivos e precisos. quase de maníaco. desesperado. Largou o livro sobre a mesa. tinha vontade de se agitar. — Não core — disse Sereno (Boris sentiu se cor de sangue) — e saiba que um tal pensamento nem sequer me passou pelo espírito. sentia nascer dentro de si uma estranha e descon certante doçura.. «Vai imaginar que sou um idiota». Tinha a impressão de que Sereno desconfiava daquele J E A N P AUL SARTRE . e Boris parou. Sereno surgia sempre fora de propósito. sacudir. Virou a cabeça e fez se um silêncio difícil. pensou Boris resignadamente.

Sereno sorriu e disse: — Vê se logo que não é um amor puramente cerebral. — Não duvido. e Boris mordeu os lábios com despeito. aquele alto e louro que partiu há dois anos para a Indochina. Boris teve de reconhecer que o golpe atingia o alvo. Boris sentiu se magoado com o tom irónico. Admirou Sereno por se mostrar tão gratuitamente sacana. Não tinha ciúmes de Hourtiguère. No entanto. Pensava em Hourtiguère. e uma dissertação filosófica. por cima da folha branca. mas quando principiava a dá las. que ainda se arrastava em . — Eu não sou discípulo dele — disse Boris. que Mathieu conhecera antes de o conhecer a ele. como toda a gente. Na verdade acho que tem sorte. e Sereno acrescentou com vivacidade: — Estou a brincar. Sereno olhou o com uma expressão atenta e penetrante. mas gostaria de lhe ter dado um soco na cara. nada sabia dele.» Depois ficava durante um bom momento a sonhar. Pelo contrário. Eu estudei.pudor e voluntariamente se mostrava indiscreto. e suspeitou que Sereno queria levá lo a falar de Delarue. mas com ódio. secamente: — Mathieu explica muito bem. Só que somos velhos amigos e eu imagino que ele reserva as suas qualidades pedagógicas para os jovens. — Não estava a pensar em si. parecia me que nem já sequer compreendia a minha própria pergunta. vira apenas uma fotografia que o mostrava como um rapagão infeliz vestido com calças de golfe. em geral. Detestava aquele tal Hourtiguère. Boris irritou se. Boris punha se a trabalhar ao lado de Mathieu. evidentemente. eu perdia o pé. gostava muito daquilo. — Porquê? — Não sei — disse Boris. não sabia. Recruta os seus discípulos entre os próprios alunos. Boris. Deve ter ouvido A falar dele. — Mathieu falou me dele — observou. e a sua admiração por Sereno aumentou. Mathieu tomava às vezes um ar compenetrado quando Boris ia ter com ele ao Dome e dizia: «Tenho de escrever a Hourtiguère. não duvido. Ele sabe de mais para mim. sentia por ele uma piedade misturada de uma ligeira repulsa (aliás. Mas a mini não souberam torná la agradável. mas revoltou se e disse. aplicando se como um recruta que escreve à pequena lá da terra e desenhava silhuetas no ar com a caneta. a fim de repeti lo mais tarde a Mathieu. Você não possui cara de discípulo. Pedi lhe várias explicações. perfeitamente idiota. Sereno riu francamente. estavam sempre juntos. Creio que foi Delarue quem me fez perder o gosto pela filosofia. Até de Kant. há dois anos era a grande paixão de Mathieu. Era verdade.

e era divertido conversar com ele porque tinha de jogar com firmeza. parecia encantado com a ideia. Mas tinha um olhar estranho. — Tinha de ter idade sobre mini. que devia ser muito mais inteligente do que ele próprio e lhe faria por certo imensas perguntas embaraçosas. se necessário. Debateu se por momentos. Desculpe tê lo . — Ora. Pensou com uma resignação fria que deviam ser oito e vinte e cinco. Não um sábio. dispõe de um minuto? Poderíamos tomar alguma coisa ali em frente e falaríamos do nosso projecto. — Diga me. desconfiado. mas o sentimento do dever venceu o: — É que estou com pressa — disse num tom que a tristeza de não aceitar tornara cortante. — Os que estudaram Filosofia afiguram se me ter tirado dos estudos grande alegria. Riu como que assaltado por uma ideia agradável. — Muito bem — disse —. O rosto de Sereno mudou. não seria divertido se eu tivesse algumas lições consigo? Boris olhou o... Devia ser uma armadilha. Sereno continuava a sorrir. Boris não pôde deixar de se rir e confessou francamente: — Acho que não saberia fazê lo. Preferia nunca mais ver Mathieu. se imaginasse que um dia ele pudesse vir a dizer a um jovem filósofo. mas que levasse a sério as coisas. Gostaria de acompanhar Sereno até o Harcourt. Era um tipo esquisito e admiravelmente belo. era uma permanente impressão de perigo. — Você intimidar me ia.» Admitia. Sereno parecia ter se instalado. Sereno encolheu os ombros. Ficaria estrangulado de timidez. — Mas sim! — disse Sereno. Apoiava se com ambas as mãos à mesa. — Sou muito preguiçoso — disse Sereno. absolutamente nada. que Mathieu fosse apenas uma etapa na sua vida — e isso já era bem penoso —. A Boris observava com angústia um caixeiro da livraria que começava a empilhar os livros.cima da mesa de Mathieu). — Estou persuadido que sim. J E A N P AUL SARTRE — Lamento amiúde ser tão ignorante neste terreno — continuou. — «Nosso» projecto. Boris mal o podia olhar de frente. não quero incomodá lo. numa atitude indolente e cómoda. Mas por nada deste mundo desejara que Mathieu o tratasse mais tarde como tratava agora Hourtiguère. Não se via. a dar lições a Sereno. com aquela expressão compenetrada e melancólica: «Hoje tenho de escrever a Serguine. Boris não respondeu. foi o que me faltou. — Um iniciado. mas não podia aceitar ser ele próprio uma etapa na vida de Mathieu. Um tipo assim como você. vejamos.

sem memória e sem consequência. precioso como um burro carregado de relíquias. Voltou se bruscamente e partiu: «Tê lo ia magoado?». dissecado. foi bom». «uma excelente lição. não sei e como o havia de saber. é de morrer a rir. cinco. se tivesse cometido a loucura de me interessar por ele. olhos cor de avelã. estou contente por me ter mandado passear.detido tanto tempo.» Parou tão bruscamente que uma senhora chocou com ele com um gritinho. desmontado. Passos. o pobre cordeiro! Mathieu faz de sultão na classe. Acompanhou com um olhar inquieto os largos ombros de Sereno. essas palavras. Uma avalancha de palavras que fugiam de todos os lados. se tivesse podido existir naquele dia como nos outros dias. não sei. atirou lhe o lenço. de boca aberta naturalmente. a mãe não deixa. e barata. Adeus. Tenho a certeza — já o tinha pressentido na época de Hourtiguère —. «Ele falou lhe de mim! Era uma coisa in to le rá vel. é afectado. tenho a certeza de que ele os previne contra mim. leva o ao café e o desgraçado engole tudo. que subia o Bulevar Saint Michel. um rosto austero e atraente. e ele não tinha defesa.. imaginá los ambos bem dispostos. quatro. sem se esconder. ele teria ido dizer tudo a Mathieu e ter se iam rido de mim. gosta de filosofia. — Um. Imbecil. ligeiramente arqueado. não sei. um monge russo. como se ele não fosse para os outros um corpo ligeiramente gordo. felizes.. um jovem monge. não desconfiava de nada.» Daniel repetiu: «De morrer a rir». não me tinha enganado. pensou satisfeito. explicando o meu temperamento. Depois pensou que não podia perder nem mais um momento. menina. num café de Mont parnasse. Alioscha. Daniel fugia de um corpo frágil. de fazer suar de raiva. Ora. e enfiou as unhas na palma da mão. «Muito bem. constrangido. Aos cinco pegou ostensivamente no livro com a mão direita e dirigiu se para o interior da livraria. arregalando os olhos e pondo a mão em concha no ouvido para nada perderem do maná divino. quer um bombom. cumprimentos a Mathieu. não sei. DADE DA RAZÃO como se fosse apenas uma transparência. de lhe falar com confiança.. como hóstias. palavras. três. um desses antros infectos que tresandam a roupa suja. ser apenas esses passos. tudo era preferível ao J E A N P AUL SARTRE silêncio. vai passear esses modos de comunhão solene. A mãe proibiu me de falar com desconhecidos. As palavras fugiam. com ar profundo. já não se dava ao trabalho de ser delicado no fim. E aquele olhar que me deitou. quando lhe disse que não compreendia a filosofia. Tinham no julgado. Ah! uma pequena cabeça nada mais.. os passos soavam dentro da cabeça. dois. com bochechas já pesadas. os cafés e teorias. uma beleza . pensou Boris. Mathieu deve tê lo olhado por baixo.

A solidão era tão total sob aquele céu. sabe ver. raspar. Ralph sabe. visto que me conhece há quinze anos e é o meu melhor amigo. nunca está só. eu raspei Marcelle até aos ossos.° 6 da Rua dês Ours.» Uma nova onda de cólera . Ele não é cego. Sereno. o corretor Sereno.» E eu olhei a também fixamente. Ah!.. lavar. «E daquele pobre rapaz ele fará um macaco amestrado!» Caminhava em silêncio. que ele se sentia espantado de existir. e depois três. é um psicólogo.» Era a última. Sereno. que fervor não seriam necessários para iluminá lo ligeiramente. e depois nove. não devia. que paciência. olhava os transeuntes nos olhos. Quando encontra alguém são duas pessoas para as quais eu existo.. como uma chaga. somente os passos lhe ecoavam na cabeça.. seria preciso correr por toda a parte. e disse: «Mathieu falou me tanto de si. acariciava o seu ódio: «Mas cuidado. produziu se um rasgão na trama das palavras. um sorriso cruel. bem no fundo do silêncio havia o rosto de Serguine. estava lá dentro. julga se Goethe.. não é uma consciência. senão prego te uma boa partida. ninguém. se tornou silêncio. se se pudesse viver entre cegos. puta! Agora ela já não acredita numa só palavra do que ele diz de mim. Palavra de honra. arranja discípulos se isso te diverte. mas não contra mini.. eu existia naquela carne. Felizmente a cólera irrompeu. Sereno isto. devia ser o pesadelo de alguém.oriental que fenecia. Mora no n. no fundo daqueles olhos. negligentemente. e depois cem. O vento caíra. que não faz perguntas a si próprio. e talvez. cobriu tudo.» Endireitou a cabeça. raspar um por um. era o que lhe deixava.. Ah! se ele morresse! Mas qual! Passeia livremente com a sua opinião a meu respeito dentro da cabeça e infecta todos os que se aproximam dele. este céu virtuoso foram feitos para ele. tem o direito de falar de mim. Mas Bobby sabe. «Aí está um camarada que deve achar muito natural existir. no meio daquela multidão atarefada. esta luz grega e bem doseada.» Pensou: «A minha última possibilidade. Estendeu me a mão da primeira vez. o desfile de palavras reiniciou se: odiava Mathieu. Sorriu com satisfação. Não devia ter deixado de falar. tirava tanta vaidade dessa vitória que durante um segundo esqueceu se de se dominar. J E A N P AUL SARTRE Doce rosto obscuro.. acariciante como uma consciência limpa. E não vai privar se desse prazer.. por detrás daquela fronte obstinada. como uma rua deserta na madrugada. a cólera hesitava. Silêncio pesado e vazio. ele está em casa. de alguém que acabaria por acordar. estava fascinado. e Mathieu roubara lha. Mathieu não. rasgão que se ampliou aos poucos. Bobby é um camarão. olhando me muito. Pensou: «Eu teria podido. Não. sentiu se reanimado por uma raiva alegre e a fuga recomeçou. se estendeu. Ralphs e Bobbys. com Ralph. vangloria se disso. Sereno aquilo. apagar.

sou um sacana. um amigo comum para lhe dar coragem. Pois então tem de casar com Marcelle. já não pisava o chão. mas a corrida continuou mais rápida ainda.. pedir lhe ia amanhã mesmo que casasse com ela. se enquanto ele percorria as lojas de ervanários.» O Senhor e a Senhora Delarue. acabado. soergueu o... A maldade era uma impressão extraordinária de velocidade. finalmente calmo. destacava se de repente de si próprio e partia como uma flecha. têm a honra de participar. mas. O pensamento saltou lhe à frente. à direita e à esquerda.. Não é mau. só lhe resta arranjar um filho. não. e de repente a ideia surgiu. Depois disso que descanse sobre os louros. rude. rutilante: «Mas. calmo.» Mas os miúdos não compreendem este tipo de dever. Ela não ousaria dizer lho... como uma bicicleta. alerta. derrubando os frágeis obstáculos surgidos no caminho.» Era tão vertiginoso aquele repouso lânguido de uma consciência pura. é intolerável e delicioso. entregue à alegria de se sentir terrível. «Mathieu é um homem de bem. fazer com que as coisas não lhe fossem tão fáceis. o anjo do lar.» Foi um arcanjo. seu espanto esmagador. vou estragar lhe a vida». o desprezo do rapaz. transbordando de alegria. mas.» Seria divertido se ambos não fossem da mesma opinião a esse respeito. aguda. não podia parar.. «Mathieu. pensou. de uma insondável consciência pura sob o céu indulgente e familiar. com que Marcelle lhe dissera uma vez: «Quando uma mulher está perdida. coitado. Era o rosto de Mathieu.. masculina. «Vai casar se?» E Mathieu resmungaria: «As vezes têm se certos deveres. seria um grande serviço que lhe prestaria. tem a consciência do seu lado. barreiras que se quebravam secamente como galhos mortos.avolumou se. eufórico. uma vida inteira para se felicitar pela boa acção. «Sou mau». resignado. pensou Daniel... «E se ela não quisesse. um arcanjo . E da raça de Abel. o seu rosto franco de boa fé. A maldade só se mantinha em equilíbrio a toda a velocidade. a cair em si. voava. ela no fundo do seu quarto cor de rosa desejasse ardentemente ter um filho.» E a cara de Serguine quando Mathieu lhe fosse participar o casamento. essa alegria que não parava. «Ter ainda discípulos? Um chefe de família não encontra facilmente quem apanhar. a velocidade agarra pela nuca. aumenta a cada minuto. seca como um choque eléctrico. rola se sem travões. é jovem ainda. Havia qualquer coisa que tentava timidamente renascer. «Em suma». e era embria gante essa alegria transpassada de temores. talvez eu pudesse ajudá lo a reflectir. «eu sou o anjo da guarda. Mas se houvesse uma só possibilidade de ela desejar o filho..» Recordava se da expressão.. no entanto se houvesse um bom amigo.

um corpo alto e desajeitado. E de repente aconteceu. era até confortável! Mathieu tinha a impressão de que acabariam de lhe conceder todas as licenças. imóveis e correctas. Duffet. Inclinou se sobre a mão de Mme. — É demasiado gentil. e as palavras não eram desprovidas de certo encanto sombrio: «Um tipo lixado. Marcelle enlaçou a pela cintura e reteve a durante um segundo. mas a imagem desapareceu logo e foi Bobby quem voltou a aparecer. Fugiu com a vivacidade de uma rapariguinha. Recordou. «Nada mais tenho a fazer senão deixar me viver». era a noite. estraga me com mimos. as toalhas manchadas de um branco duvidoso. filha ingrata. era preciso virá la e revirá la. e o negro precipitou se ao seu encontro com o boné na mão. com voz profunda. e Daniel . desceu os dezassete degraus da escada e estava numa cave escarlate e rumorejante.de ódio. enternecida. No limiar da porta. havia muitos homens na sala. Quando saiu. Mathieu passeava nessa noite e pensava: «Sou um tipo lixado. outras saídas extremas. que pareciam esperar qualquer coisa: dançavam. um rosto magro inclinado sobre um livro. Afastou a cortina verde. Tratava se de uma pequena miséria.» Imaginava lindos desastres. Diante dele havia pessoas de pé. Mathieu hesitou. tinha o coração ainda cheio de preguiça e de noite. um tango. beijando Marcelle na testa. Duffet. por momentos. tinha na mão direita o gládio de fogo de S. Mathieu perdia a. modesta. e não de desespero. vou me embora — acrescentou. pensou. revolta. como a um incurável. Mme. Ouviu ruídos.» Era uma ideia nova. como pela manhã quando ficamos de pé sem saber como nos levantámos. gracioso. concedia a si próprio todas as licenças. A carne era enrugada. «Rua dês Ours. Mas a ideia voltava depressa. — Vou arranjar a cama daqui a um minuto — disse Marcelle. Ainda me zango. não era absolutamente isso. como na missa. Deixo te com o teu arcanjo. u ma grande flor cor de malva subia para o céu. — O meu maior prazer é que os aprecie — disse Daniel. Cheirava a homem. 6. um arcanjo justiceiro que enveredou pela Rua Vercingetorix. — Bom.» Sentia se livre como o ar. farejá la com circunspecção. Leu «Sumatra» em letras de fogo. não. ficavam apenas as palavras. A grande mercearia da Rua Vercingetorix estava ainda aberta. Pelo contrário. Duffet e beijou a. No fundo da cave. suicídio. tranquila. — Não. Não era isso. Duffet acariciou lhe os cabelos e afastou se. Miguel e na mão esquerda um pacote de bombons para Mme. gaúchos de camisa de seda tocavam em cima de um estrado. De vez em quando. entrou. — Arcanjo — disse Mme. com manchas violáceas.

. é uma vergonha não poder deixar de seduzir os outros. — Você. e que se esvairia ao menor gesto. Marcelle corou e bateu os pés. — Mudei. — Tenho uma coisa para lhe mostrar. Você é irresistível. — Diverte me sempre vê lo com a minha mãe. Ela levantou se. sim. — Tinha qualquer coisa de mole na boca. não é verdade? — Gosto mais de si agora — disse Daniel. Pigarreou. pensou Daniel. Daniel ergueu os olhos e percebeu lhe o olhar ansioso. Olhe que não está com a minha mãe! Acrescentou: — Mas era uma bela rapariga. Marcelle era um odor espesso e triste.. lisonjeiro. Foi buscar uma fotografia que estava sobre a lareira. — Nunca deixa de lisonjear! . — Porque fez um gesto de rapariguinha para se olhar ao espelho.acompanhou com um olhar frio a sua silhueta miúda. Parecia uma marafona de boca mole e olhos duros.. — Que é que a faz sorrir? — perguntou. — disse. Irritava o que ela se mostrasse tão contente.. Olhava o com uma ternura de proprietária. pensou. parecia satisfeita de tê lo para ela sozinha. Daniel pegou lhe. A porta fechou se. — Eu também vou perguntar porque se está rir — disse ela. Empertigou se ligeiramente e deitou um olhar ao espelho. meu querido arcanjo. — Era encantadora — disse com prudência —. Era Marcelle com dezoito anos. «Vou ter asma». É tão comovente quando por acaso se ocupa de si mesma. com rancor. amuada. enrolada sobre a cama. Ele sorriu. flutuando como um vestido demasiado largo. Virou se para ela e viu que lhe sorria. Havia naquela vaidade uma boa fé infantil e desarmada que contrasva com o seu rosto de mulher de trabalho. estendendo lha. No entanto era magra. Marcelle riu se. mas não mudou nada. Você tem um ar muito mais interessante! — Nunca se sabe quando você fala a sério — disse. que sempre quis saber como eu era quando era jovem. E aquela mesma carne flácida. Sabe muito bem que mudei. tinha um vago receio de ficar a sós com Marcelle. mas não se sentiu aliviado. «A máscara da gravidez». Tivera a impressão de que ela nunca sairia. Mas via se que estava lisonjeada. O gesto desajeitado e sem pudor irritou Daniel. Sentia sempre uma certa angústia ao encontrar se à beira dessas longas conversas cochichadas e ter de mergulhar nelas.

— O quê? O quê? Que é que há? — Não vai zangar se com Mathieu? Ela empalideceu. Mathieu era liso e seco como um osso. Mas ficou novamente sério e Marcelle parou de rir. e Daniel pensou.. Um silêncio incómodo pesou sobre ambos. O quarto era uma fornalha. mas sentia se vazio e mole.» Estava em boas condições para o momento oportuno. Marcelle teve um riso desajeitado que lhe morreu imediatamente nos lábios. E escuta a sempre com o mesmo ar de interesse apaixonado. Daniel sabia imitar muito bem quando queria.. Oh! Tinha me jurado que não dizia nada. Pensou em Mathieu para se encorajar e ficou satisfeito de encontrar o seu ódio intacto. Marcelle interrompeu o. «Pronto!» pensou ele. tem gestos que me encantam. Marcelle pestanejou. isso irrita me. Olhou a com ar de censura e ela estremeceu ligeiramente sob aquele olhar. não sei bem o que há na sua cabeça neste momento. — E você que está estranho esta noite! Que é que tem? Ele não se apressou a responder. — Ele. dificilmente sustentava o olhar de um homem.Riram ambos. Fez um gesto com o pescoço. mas tinha a cabeça agitada por pequenas sacudidelas rígidas. — Ouça. e Marcelle desatou a rir.. — Muito cansada! Observava a há pouco enquanto a sua mãe contava a viagem a Roma. — Marcelle! Olhe para mini. com um riso indignado.. — Estou um pouco tonta. — Parece cansada. é tão importante e queria esconder me? Já não sou seu amigo? Marcelle fez um gesto. Ela inclinou se para trás. —— É SUJO. Ele avançara o busto e encarava a com uma expressão preocupada. eu não devia dizer lhe. mas gosto de ouvi la contar.» Já não se tratava de . — Conheço as histórias dela. é a terceira vez que ela lhe conta essa viagem. para ser franca. — Marcelle. Ela devolveu lhe o olhar. — A sua mãe diverte me — disse Daniel. sem muito entusiasmo: «Vamos.. — Pronto — disse Marcelle. Não se podia odiar Marcelle.. podia se detestar. «Ei la nua. r A Daniel inclinou se um pouco mais e repetiu com uma expressão desolada. Você parecia tão preocupada. — Marcelle — observou —. Daniel. Daniel divertia se muito. tão nervosa. É do calor.

Houve um silêncio. Marcelle não respondeu. como um cordão umbilical. (Ficou embaraçada. o outro é empurrado. Um diz: Fazemos isto ou aquilo. — Deve ter horror de mim.. — Mas imagino muito bem a cena. de que posso dispor sem preocupações. Deve . não tem tempo para pensar. O nariz afilado. — Ele disse lhe que eu recusei o empréstimo? — Disse que você não tinha dinheiro. — Sei. Pensei nela toda a tarde. sim — disse Marcelle —. — Isso é uma grande vantagem para quem já tem opinião. — Telefonou me há uma hora — respondeu Marcelle.) Não sei. — Horror? Eu? Marcelle. tristemente. bem sabe como somos. Havia agora um novo elo entre eles. — Então. Ele riu jovialmente. perdera a máscara de dignidade sorridente. que tresandava a carne. Endireitara se e tornara se dura. — Tinha. Tenho quinze mil francos.arcanjos nem de fotografias antigas. Pelo menos antes de ter visto. — Está estranho. sim.. e o outro protesta se não está de acordo. nós não nos consultamos. Ela fez um gesto brusco de cotovelo e de antebraço que cortou o ar escaldante do quarto. meu caro Daniel. Sofria. não é sujo. você é que deve saber. — Viu Mathieu depois de ele me ter deixado? — perguntou Daniel. — Não — disse —. antes de encontrar qualquer coisa que me leve a ter horror de si. — Eu sei como Mathieu aprecia as suas opiniões — disse. rígida. Marcelle amarfanhava o lençol e os seios palpitavam lhe. Daniel estava com calor. passou a mão pela testa suada.. Acabou por dizer: — Eu queria tanto tê lo afastado disto tudo! Calaram se. — Tinha. tem de nos emprestar. sei — atalhou Daniel. — Tinha? — repetiu ela admirada. — Talvez. tinha de procurar muito. mas não queria emprestá lo. Era apenas uma mulher grávida. Está a magicar nalguma coisa.. — Posso perfeitamente. — Você não compreende — insistiu Daniel. — Naturalmente. — Quero dizer: deseja do fundo do coração que eu empreste o dinheiro? Marcelle ergueu a cabeça e olhou o surpreendida. Daniel. Tomou fôlego e acrescentou: A — Marcelle. — Eu só queria saber se Mathieu a tinha consultado. devo emprestá lo? — Mas. bruscamente. Isto é — disse ela com um leve sorriso —. Baixara o rosto. estava na defensiva.

Mas ela não dizia nada. sou simplesmente um amigo. Daniel pensou: «Está desesperada.» Ela estremeceu de novo e apertou os braços sobre os seios. Dir se ia que ia desconjuntar se.» — Marcelle — disse —. estava vermelha. Marcelle. pensou. tenho a impressão de o ter perdido. Daniel! «Pois não! Eu sou a pureza. Isto é. não me faça desempenhar este papel ridículo.. Mathieu receberá o dinheiro amanhã cedo. muito desagradável. Você é tão diferente. o seu melhor amigo.. Marcelle tem realmente a certeza de que não quer a criança? Verificou se uma rápida derrota através do corpo de Marcelle. Daniel não a perdeu de vista. . «parece cheia de gratidão!» Como «Malvina».. «Ela palpita».» — Basta lhe dizer uma palavra.. — Eu sei — disse Daniel com amargura. Depois corou violentamente.. Depois esse prenúncio de desconjuntamento parou. Mas já não sabia se o seu prazer vinha da humilhação que impunha a Marcelle ou de ser humilhado com ela. Voltou a cabeça para Daniel. — Você pergunta me isso. pensou Daniel. Daniel. Nada tenho de arcanjo. Oh! Daniel. por favor. — Não me atrevo a olhá lo — continuou. Disse para si mesmo: «Mais fácil do que pensava.. — Mais ou menos — disse. Tinha um olhar sombrio. não terá sido um pouco precipitado tudo isso? Não deve saber você mesma o que quer? Inclinou se novamente para Marcelle. Escute. E tenho direito a ter uma opinião — acrescentou com firmeza — porque a posso ajudar. quando lhe batia. Quase desejava que ela dissesse que sim. — Principalmente para si. — Um arcanjo assusta se facilmente. o corpo fincou se lhe à beira do leito.. veio sentar se perto dela. com um espanto desarmado. Mas. tomou lhe a mão. «Oh!».. só você se interessa por mini! Ele levantou se.. Daniel..ter se encolhido todo como faz nessas ocasiões e depois deve ter dito a engolir a saliva: «Então apelamos para os grandes meios?» Não deve ter hesitado e aliás não podia hesitar. imóvel e pesado. Eu sei quanto isto é penoso. E homem. Virara a cabeça para o lado do lavatório e Daniel só lhe via o perfil. — Mesmo que não lhe cause repugnância. E ele. Se tem a certeza do que quer. mas contemplava o sem rancor. voltara se para ele e parecia esperar. Era preciso ir até ao fim. — Não falemos mais nisso. — Não foi assim? Marcelle não o olhava. Mandar Ihe ia o dinheiro e tudo estaria acabado. não se recuse a falar.

era antes como se fecundasse o ambiente em torno dela. — Reflicta — repetiu. preciso de ir arrumar a cama da minha mãe. os outros já me dão muito que fazer. Aliás.. é preciso que não venha a acusar me mais tarde por não ter reflectido. mas talvez uma sorte. — Porque não há de casar consigo? Marcelle encarou o. aturdida. Marcelle parecia lutar contra as lágrimas. «Não vale a pena odiá lo por bons motivos. Não vale a pena».. Marcelle. Esforçou se por apertá la mais fortemente. — Não sei o que se pode fazer — disse com voz seca. ou intermináveis lamentações de Andrée. depois achou melhor desatar a rir. Largou lhe bruscamente a mão e afastou se um pouco.. Era o ritual. bilhetes de Mathieu muito conjugais. E depois havia aquela mão suada. Sufocava.» Mas naquele rosto ingrato os próprios reflexos da mocidade não eram comoventes. é lhe indiferente que se suprima a criança? Marcelle teve um gesto de cansaço. Daniel acedeu silenciosamente. e Daniel voltou a sentar se na poltrona.» Estava satisfeito de ficar só. nem sequer a consultou. está cheia de vontade de parir. Disse com voz alterada: — E se eu tivesse vontade de ter um filho? Que adiantava? Não posso dar me ao luxo de ter um filho sem casar e ele nunca se casará comigo.» Mas não sentiu nenhum prazer. Havia às vezes cartas divertidas. «Ganhei». — disse Marcelle. — Que fazer? Daniel pensou: «Ganhei. ergueu se rapidamente e abriu a gaveta da mesa de cabe ceira. não chegava mesmo a ser um cheiro.. Dir se ia que de perto Marcelle tinha um cheiro. A gaveta estava vazia.» Marcelle voltou com uma expressão de desespero. foi ignóbil. continuou com um riso seco. Neste momento estou a pensar apenas em si. era imperceptível.. olhava para os joelhos. «Ganhei. Limpou as mãos no lenço. «Juro que ele há de casar se com ela. Conservou a nas dele. — Pois é. — Porque não? — perguntou. — Pois é. como que para lhe espremer todo o sumo. Com o olhar no vazio tinha um ar de boa fé que a rejuvenescia.. Daniel ergueu as sobrancelhas. Podia recuperar um pouco de ódio.. Daniel pensou na jovem estudante que vira na fotografia. — Veremos mais tarde. «Já foi jovem. que não era feliz. sem falar. pensou quando a porta se fechou. — Desculpe. .. — Marcelle.Uma mão mole e febril como uma confidência. — Tem realmente a certeza? — Não sei — disse levantando se. Essa criança talvez seja um desastre.

. — Sei apenas uma coisa. Foi você.. — Tem de lhe falar com franqueza. que faça o que é necessário. carne gorda e nutrida. como toda a gente. realmente era me totalmente indiferente não me chamar Mme. nem um nem outro. Carne inimiga. não deixava que ele estragasse . — Um crime? Mas isso é perversão. — Sim.. senão dipersava se em todas as direcções. — Bem sei — disse Daniel com vivacidade. Parecia ruminar. quero. Marcelle.. com voz surda: — Daniel. — Não. Devia ser verdade. se eu tivesse um filho. angustiada. Era preciso enfiar lhe o nariz em cima e mante la assim. — Não é uma resposta. e dentro de um mês será mulher dele. Daniel calou se. Que sentia por dentro aquela fêmea pesada e perturbada? Gostaria de ser ela. Se ele quiser. Eu não. Ergueu se um pouco e levou a ao ventre como se estivesse com dor de barriga. Era o momento decisivo. apertava o ventre. Pensou que Mathieu a desejara e sentiu uma leve chama J E A N P AUL SARTRE de satisfação. Olhou o. Estava ganho. Marcelle. Era grotesco e fascinante. O casamento é uma servidão e não o queríamos. Acrescentou: — Era. Era muito difícil fazê la ver as coisas de frente. Marcelle disse. Delarue. libertou me.. Não podia tirar os olhos daquele ventre. É uma espécie de ruptura de contrato.. quem decidiu nunca se casar? — Sentiria horror de vê lo casar se contra a vontade. Achar criminosos os seus desejos quando são naturais. — Mas. Daniel! Bem sabe como nós somos! — Eu não sei nada de nada — disse Daniel. — Mas se fosse esse o único meio de conservar a criança? Marcelle pareceu perturbada. era uma coisa subentendida entre nós. nunca encarei a coisa por esse prisma. — Mas você quer a criança? Ela não respondeu. — Não. é tudo. não podia dizer isto a ninguém no mundo. — Marcelle não respondeu. — Não é verdade que você quer a criança? Marcelle apoiou uma das mãos no travesseiro e pousou a outra sobre a coxa. cheguei a julgar que era um crime. Disse com voz solitária. Era como se já se tivesse vingado um pouco. A mão morena crispava se sobre a seda. — Não é um crime? Ele não pôde deixar de rir. Eu digo em relação a Mathieu. De repente falou com paixão: — Ah!.A — Mas. Daniel repetiu com voz dura.

— Não sei. — É a Mathieu que você tem de dizer isso.a vida como eu. — Você não estragou a vida. mas não precisa de mim. — Não pode fazer isso — exclamou bruscamente Daniel —. Marcelle. — Mas bem sabe que nunca virá. e assim esperaria durante anos. eu é que preciso de si. é um absurdo! — Podia dizer lhe. Entre os trinta e quarenta anos joga se a última cartada. A — Um filho — continuou Marcelle. — E se eu próprio falasse a Mathieu? Uma enorme piedade lodosa tinha o invadido. Teria feito tudo para se libertar dela. A si também não. Parou repentinamente e olhou a. — Não posso. era preciso evitar isso.. — Porquê? — Sinto me amarrada. — Porque é que não pensa? Você pensou. os braços pendiam lhe junto das ancas. tinha horror ao abandono. não pode. Daniel. até ao fim. ainda não. Dentro de alguns dias seria apenas um grande miséria. Mordeu os lábios e tomou uma atitude irónica. desconfiado. Responder? Protestar? Era preciso desconfiar. — Não. Era verdade. isso não o atingiria. Daniel. como pensara de si mesmo pouco antes. Mas ainda que fosse verdade. Não fiz nada e ninguém precisa de mim. Ele acariciou lhe a mão. Ela ia jogar e perder. — Estraguei. Essa ideia gelou o. Ela curvara os ombros. — Mathieu não precisa de mim.. — Estraguei. Pegou lhe na mão sem falar e apertou a de um modo significativo. — Pois então fica como está! Você empresta o dinheiro e eu vou ao médico. que a encontrei. parecia pensar que ele era doido. J E A N P A U L SARTRE — Falar com ele? Você? Mas. Esperava. teria necessidade de mini. Ele não respondeu. sim. A emoção fizera com que tivesse deixado escapar aquela exclamação estúpida. Tem grande afeição por mim e talvez seja o que tenho de mais precioso na vida. Se eu morresse. Defesa vã! Seria preciso não a ver. passiva e gasta. — Onde? Nunca saio. sim. Marcelle parecia estar numa das suas crises de clarividência cínica. Espero que isso venha dele. Marcelle levantou a cabeça. Não sentia nenhuma simpatia por Marcelle e sentia um profundo nojo por si mesmo. Ele pensou: «A sua última possibilidade». Ele não pensa nisso. ia assim sem . — Um filho.. mas a piedade estava lá. irresistível..

Marcelle. Não se vai zangar. não faça isso. — Se não me deixar fazê lo — disse zangado —. Olhe para mim! Tomou a pêlos ombros e os dedos afundaram se lhe numa manteiga morna. Eu e Marcelle víamo nos de vez em quando e não te dizíamos nada..mais nem menos contar lhe isto? — Não. Vai irritar se . Sabe o que é que vamos fazer? Dizer lhe simplesmente a verdade.. Aquela obstinação tonta aborreceu o. por favor. — Não quero. você nunca o fará e.. dizer lhe coisas vagas — disse —. Marcelle. Daniel olhava para os ombros e para o pescoço dela com avidez. ele não lhe devia ter contado.. Largou a. Era bondade. — Daniel. — Não quero. Daniel pensou: «Ela é formidável!». Mas não era sadismo. ficarei aborrecido. — Digo que a encontrei.. Estou furiosa com Mathieu. Mas Daniel era tenaz. sabe. já lhe disse que o farei. acabará por odiá lo. irritado —. Ela ainda repetiu: — Eu não quero. — Se eu não falar com ele. atolar se com ela na humildade. Ele é que tem de compreender.» — Daniel — suplicou Marcelle —. Seja razoável. Marcelle passeava a ponta do dedo pelo tapete. Estragará a sua vida com as suas próprias mãos. Porque é que não é possível? — Era obrigado a dizer lhe que nos vemos. — Não é possível! — Bom. mais carnal. Violar aquela consciência. sentia vontade de a partir. — Escute. Digo lhe: «E preciso que perdoes um segredo. ele nunca me perdoaria não lho ter dito eu própria.. mais húmido. — Naturalmente — disse Daniel. que você parecia atormentada e que não é assim tão simples como ele pensa. Não quero que falem de mim. mas não teve vontade de rir. — Era preciso dizer lhe. Acrescentou com um ar conjugal: — E depois.. — Pois digo lhe — atalhou Daniel. chamar lhe apenas a atenção. Tudo isso como se viesse unicamente de mim. não se meta nisto. Pensava: «Conta com isso. viverá junto dele em silêncio. mas ele percebeu pela sua expressão rancorosa e abatida que ela ia ceder. seguia a sua ideia. obstinada. Marcelle pousou lhe a mão sobre o joelho. Por nada deste mundo quero que pensem que estou a pedir alguma coisa. Nós dizemos sempre tudo um ao outro. Estava possuído de um desejo enorme e monstruoso.. — Tem de ser. Mas eu conheço o. — disse Marcelle. evidentemente.» Marcelle teve um gesto de despeito. — Não falo em si — disse. Marcelle não respondeu. Era mais subtil.

não tinha outra. vai ficar muito satisfeito por ter qualquer coisa a censurar lhe. — Ao sair daqui mando lhe um recado e marco um encontro para amanhã. e ia dizer lhe: «Faça como quiser. Aliás.. — É preciso tentar. digo lhe que nos vemos há apenas alguns meses e muito raramente. — Vou falar com ele — disse Daniel. tristemente.. tínhamos de lho dizer um dia. por causa da criança. para a resignação. a minha vida privada. Ia escorregar. Não lhe posso dizer o efeito que isso me causou! Se um dia deixasse de o estimar.. — E Mathieu que quer experimentar? — É. estou nas suas mãos. já não sabia se era de maldade ou de bondade. — É verdade. Aquela chama que o devorava. Quando fico ressentida com ele.» Ela fascinava o. arrastada pelo seu próprio peso. Acrescentou. Daniel. se ele tentasse fazer me falar amanhã... bastava esperar. tentemos — disse num desafio. Mas não parecia convencida. Dentro de momentos estaria completamente aberta. Ah!. Havia aquela mulher e aquela comunhão repugnante e vertiginosa. De qualquer maneira. abanou a cabeça. o Bem deles e o Mal dele era igual. tem razão. — Apesar de tudo será uma experiência. — Escute. para o abandono. . ao desligar.. Ele foi. — Pois bem. Corou. Mas não tenho a mesma confiança com ele. Ele foi demasiado A negligente. — Então. — Uma experiência? — indagou Daniel. O Bem e o Mal. sem defesa. é extremamente penoso. Não se preocupou comigo. já não o estima? — Estimo. com ódio: — Só posso ter de meu o que escondo dele. se me perguntasse uma só vez que fosse: «Em que estás a pensar?» Calou se. — Era o nosso segredo — disse com profunda tristeza.um pouco. Ela ia ceder. — Acredita que ele vai ficar indiferente? Que não se vai apressar com explicações? — Não sei. Teve. mas não quero pensar nisso. — Achou se na obrigação de dizer que me amava. pró forma. O coração de Daniel pôs se a bater com violência. Acrescentou secamente: — Tenho necessidade de o estimar. desde ontem. como se sente culpado.. Tresandava a consciência suja. E depois o telefonema de hoje foi lamentável. era a minha vida particular. mas a seguir. Marcelle passou a mão pêlos cabelos..

Duffet. XI s oaram as dez horas. Ela sorria lhe com uma expressão maliciosa. Levantou a caixa. que transbordava de gratidão sexual. Não a deixe ficar acordada até muito tarde. pensou ele. Os seus amigos estão no fundo à esquerda. — Daniel! — murmurou Marcelle. um olhar de depois do amor. Pegou lhe na mão e beijou a longamente. Passará toda a vida inclinado sobre aquela mão perfumada e acariciar lhe á os cabelos. — Querido Daniel. . — Made moiselle Lola está se a vestir. Daniel abriu os olhos. mas os seus olhos tinham se avermelhado. Marcelle estava sentada à beira da cama. à altura dos olhos com um gesto ligeiramente ameaçador. O jovem reconheceu o. sejam razoáveis — disse Mme. eram um só. Mathieu perscrutou a sala com o olhar à procura de Boris e Ivich. é o senhor — disse cordialmente. — Ah!. — E obrigada pêlos deliciosos bombons. meus filhos. decorada com fitas. «Não vai demorar a sair». arrancaria dele aquela piedade viscosa. vou dormir. Ela abrira se. tossiu com dificuldade. fingindo se vítima: — Que hei de fazer? — Bom. ele entrara dentro dela. Fechou os olhos. Disse alegremente: — Pois bem. e isso lavá lo ia.Ficaram silenciosos. — Deseja uma mesa? Um belo rapaz inclinava se diante dele com ar de alcoviteiro. Duffet. — Se eu deixar. conto consigo. Daniel pensava na entrevista do dia seguinte. Eram lúgubres. retendo a respiração. — Ouve. — Dormes de mais. Duffet pareceu não as ouvir. Ergueu se e foi dar umas palmadinhas nos ombros de Marcelle. Mme. — Juro que sairei antes da meia noite — afirmou Daniel. porém uns sopros ecoavam através dos lábios entreabertos. Havia entre ambos qualquer coisa mais forte do que o amor. Ele voltou se para Mme. dormes até ao meio dia. — Procuro alguém — disse Mathieu. Tinha asma. Ele ergueu a cabeça e viu o olhar dela. provavelmente. Seria violenta e dura. — Meu arcanjo — dizia Marcelle por cima da cabeça dele. querida — disse divertindo se a falar entre dentes. Olhava atentamente para Daniel. Bocejava por baixo do sorriso. assim engordas. De repente levantou a cabeça e pareceu tomar uma decisão. Era um olhar pesado e envolvente. — Daniel! — repetiu Marcelle. J E A N P AUL SARTRE Marcelle sorriu. dorme até ao meio dia. Senão. como presas de um interminável destino.

Eu encontro os facilmente sozinho. apesar da simpatia dos maitres d'bôtel. Nunca.» Tinha vontade de dar meia volta e sair. São um pouco barulhentos. mesmo nos momentos de maior abandono. Inclinavam se um para o outro muito ocupados. Holandeses. era incapaz de se divertir naquele ócio grave. aproximou se. nunca se podia sentir à vontade. um bocadinho. Mathieu olhava Boris e Ivich. com gestos vivos. Numa delas um homem e uma mulher falavam. tinha a impressão de estar a espreitar pelo buraco da fechadura. — Obrigado. sem se olhar. os adultos. Mathieu esperou. viu Boris e Ivich.» Era Ivich quem falava. Ouviu o tango e o arrastar dos pés. muitos homens de idade que dançavam com ar de quem pede desculpa. . Em Montmartre. Mathieu sentiu se ligeiramente reconfortado. Não se sentiu à vontade. porque já não podia suportar a solidão. O rapaz desapareceu. «Pareciam dois mongezinhos. mulheres soberbas e maduras. «Conversa!» Com essa palavra o diálogo terminava definitivamente. nervosamente. as calças já não tinham vincos. não dançava bem. Achava os romanescos. o brilho de um colarinho. As lâmpadas brancas acenderam se novamente. Era a última réplica de um romance ou de uma peça de teatro. Inclinava se ao ouvido de Boris e segredava Ihe qualquer coisa. uma cabeça de preto. Tinha. mas ela não o via. «Que é que vim fazer aqui?». e nunca se esquecia disso. Não era possível abrir passagem entre as pessoas que dançavam. Ombros nus.vou acompanhá lo. com uma austeridade cheia de graça. Numa reentrância havia duas mesas. Os sons agudos do tango passavam por cima das cabeças deles. mas consomem bem. contemplava as lentas deslocações daquele comício silencioso. Mathieu avançou pela sala por entre os ombros em fuga. Havia uma crueldade inquieta e permanente na atmosfera. Na outra. e no fundo dos seus corações alguma coisa mudaria. Está cá gente hoje. Mesmo com o irmão. Mathieu pousou a mão sobre a mesa. No entanto. O seu casaco brilhava nos cotovelos. «Como são jovens. Boris teve um riso curto. o ar de uma irmã mais velha e falava a Boris com uma condescendência maravilhada. pensou Mathieu. oferecera ela a Mathieu um rosto assim. — Bastante. Ivich não se entregava completa mente. Ele estava agora perto de Ivich. Depressa o veriam e oferecer lhe iam aquele rosto convencional que reservavam para os parentes. — Conversa!» — disse simplesmente. desempenhava o papel de irmã mais velho. os músicos não pareciam tocar para eles.

— Quer o meu lugar? — Não. — Boa noite. pensou. Os gaúchos tinham terminado a série de tangos. todo de branco. Sentou se. — E que é isso? — indagou Mathieu por espírito de justiça. sem dar a sua opinião. Boris apontou para a multidão com um gesto rápido. Viu dois olhos pálidos e mortos. mas pedi Ihe emprestados cem francos. — Suponho que é por causa do misturador — disse Mathieu. para quebrar ovos é preciso ter jeito. — Que estão a beber? — indagou Mathieu. A sala estava deserta. A verdadeira Ivich desaparecera. Fez se barman porque foi prestidigitador. Tinha um ar severo. já não havia ninguém no estrado dos músicos. é o cocktail da casa. — Gostava de ser barman — disse Mathieu. gozava a condensação feliz que dá o sentimento de ser um homem entre os outros homens. — Tem gente! — observou com satisfação. «E porquê a verdadeira?». — Cem francos — disse Ivich —. e fumava um cigarro. — Sim — disse Mathieu. eu tinha os! — Eu também — disse Boris —. — Foi por gentileza que o pediu? — Há três semanas que o barman me chateia para o experimentar. não vale a pena. Ela não sorriu. Mathieu sentia se incomodado. — Um vodka — disse Ivich. As pessoas murmuravam à sua volta. Guarde o para Lola daqui a bocado. irritado. — Deve ser divertido. havia de partir . Mathieu — disse Ivich. deve pedir se dinheiro emprestado — explicou num tom de austeridade. — Então era melhor que tivesse sido malabarista. mas engana se. — Aliás. Mathieu olhou o barman. Parecia achar natural a presença de Mathieu. Acha que o ofício é o mesmo. Estava de pé atrás do balcão. — Olá! — respondeu Boris levantando se. Não sabe fazer cocktails. O jazz negro Hijito's Band ia substituí los. De qualquer maneira teria bebido essa porcaria. mas é porque ele é barman. mas já não tinha um ar admirado ou rancoroso. — E horrível — disse Boris —. Ela inclinara se para trás. Mathieu deitou um olhar rápido a Ivich. — Como? Gosta disso agora? — E forte — respondeu ela.— Olá! — disse. de braços cruzados. A um barman. — Isso ficava lhe caro — atalhou Boris —. sentia se penetrado por um calor húmido. Ivich não o tinha recebido mal. Boris olhava o com uma admiração jovial de surpresa. apontando para uma espuma branca no copo A de Boris.

Fez se silêncio. Ivich mordeu os lábios. Mathieu sentiu se bruscamente solidário com aqueles tipos todos. «Estou a mais». é preferível. Prefiro champanhe. Sons de trompete. que fariam melhor se voltassem para casa. — Bebem sempre coisas de que não gostam. e continuavam ali a fumar cigarros e a beber misturas com gosto a aço. Bem sabia que estava lixado. — Estou contente por ir beber champanhe — disse Boris. e ele parecia aliviado. O Mumm custava trezentos francos. isso não tinha importância e não era desagradável de todo. mas afinal naquele dancing. àquela mesa. Bocejou por trás da mão e os seus olhinhos pestanejaram com volúpia. — Espere. «há sempre um que se escandaliza». Só que essas duas imagens não se conciliavam. sozinho. pensando melhor. Chamou o maítre d'hôtel. cada um deles tinha construído uma imagem pessoal de Mathieu e exigiam ambos que ele lhe fosse fiel. O barman sonhava. pensou Mathieu tristemente. com ares desgraçados. Boris regozijou se. — Sim. mas dava lhe um grande prazer à flor da pele. pensou Mathieu de mau humor. — Um Mumm cordon rouge. Estavam ali. Calaram se. e Ivich olhava Boris. à direita havia um camarada de monóculo. — Você também pode beber um bocadinho — disse para Ivich. — Não gosto e é preciso que me habitue. outro mais longe. só lhe restavam quinhentos francos. mas já não tinham sequer força para o fazer. de ouvidos tapados pela música. rostos sorridentes e bem arranjados com olhos pisados. Sentiu o apelo discreto de uma felicidade humilde e . a contemplar de olhos vazios os farrapos do seu destino. «Não se pode dizer nada». não lhe passava pela cabeça descobrir neles uma melodia. diante dele. A mulher e o amigo deviam estar a dançar. Mathieu estendeu as pernas e sorriu de prazer. atentos e severos. Olhou a lista. no meio daqueles tipos igualmente lixados. sozinho também diante de três capas e uma bolsa de mulher. — Vocês são divertidos — disse Mathieu. Adorava que Mathieu lhe falasse naquele tom. J E A N P AUL SARTRE Mas sentiu de repente nojo da economia e daquele maço magro de notas que jazia no fundo da sua carteira. Era um barulho apenas.tudo. — Não — respondeu ela. Virou a cabeça. Boris olhava Mathieu. Por toda a parte. — Um uísque — disse Mathieu. acidulados e gloriosos. a sorrir. chegavam lhe às rajadas. O maïtre d'hôtel apresentou lhe a lista dos champanhes: tinha de ter cuidado.

A quê? Lembrou se de repente de Gauguin. um rosto forte e exangue de olhos desertos. com aquele pequeno pântano de fogo no fundo da garganta. — Não faça isso — atalhou Mathieu —. sempre é mais forte. Ninguém respondeu. A senhora morena do lado.» Tinha medo. — É melhor treinar com aguardente. — Tenho de engolir isto — disse ela. é fogo! — Eu comprei te uma garrafa para te treinares — disse Boris. se se entregasse por momentos. Era como se enchesse uma garrafa. — Faz de conta que é água. Era a primeira vez que o olhava. eu já não o ouvia. pior que um asno. — Quero divertir me. eu é que estava bêbedo. Ivich pegou no copo. — Sim — disse Boris —. abandonando por instantes o seu devaneio. — Não. Mesmo bêbedo.. — Uf! — disse Ivich —. Era verdade. Acrescentou com uma espécie de angústia: — Acho que agora vou poder divertir me. irritada. — Bebo. espere pelo champanhe... . queima. de encontrar na cabeça. — Engole — disse Boris. disperso e flutuando como uma neblina de Verão. Enquanto bebia agarrava se a qualquer coisa. era ainda o seu único apoio. Mathieu não perdia a cabeça. Ficou assim um segundo. Inclinou se para trás aproximando o copo dos lábios e deixou que lhe escorresse na boca todo o conteúdo. — Já o vi tomar sete uísques de uma vez. Mathieu sofria por ela. Tinha os olhos cheios de lágrimas. nesse ponto você é um cabeçudo. Ivich olhava inquieta e vagamente o líquido transparente que tinha ficado no copo. Ivich reflectiu um segundo. deitou lhe um olhar de censura. acabará mais depressa. Voltou se vivamente para Mathieu. um pensamento de mosca ou de barata. — Vodka bebe se de um trago — observou Boris. sem ousar engolir. Apesar de rancorosa e distante.» Teve medo e sobressaltou se. mas não entrego o corpo inteiro à embriaguez. vai incendiar lhe a garganta. — Você aguenta o álcool? — Ele? — Ele é formidável — disse Boris. Pensou: «A minha dignidade humana. a falar de Kant. — Sinto horror em embriagar me — explicou humildemente.. não beba. com seriedade. — Bebe de um trago — disse Boris. — Prefiro beber de um trago. O pescoço de Ivich inchou e ela pôs o copo na mesa com uma careta horrível. No fim.covarde: «Ser como eles. Voltou se para Ivich.

antes o divertia.» O tipo que o tinha abordado na véspera. orgulhosamente. — Queria passar uma noite formidável — disse —. Ou então. estou aqui para me divertir. não estava realmente indignado. Viu se por inteiro. pensamentos sobre pensamentos de pensamentos. sem se preocupar com o olhar furioso da irmã: — É esquisita! É capaz de morrer de frio em pleno Verão. desejava agradar a Ivich. — Sim — disse com obstinação —. escancarado: pensamentos. por favor. mas essa lucidez não lhe custava nada. imaginava salvar se da abjec ção pela «lucidez». o álcool inflamava lhe o rosto. — Então — perguntou ele —. essa maneira de subir pêlos próprios ombros. Todos os seus pensamentos estavam contaminados desde a origem.. Era um truque. que o contemplava com uma expressão estranha. com olhos do tamanho de um pires.. e encontrou se diante de Ivich. estava resplendente. pensamentos sobre pensamentos. porque é a última noite. Sinto me humilhada. bem o sei. trocar tudo até à medula. estava transparente até ao infinito e igualmente podre. quando se tratava de estupor. não era sincero. E esse juízo que emitia acerca da sua lucidez.— Não sou cabeçudo. Depois aquilo apagou se. uma compensação. não me deixo dominar. E necessário que pense sempre no que me acontece. Ah!. No fundo. não desdenhava tirar dela pequenas vantagens. «Será preciso mudar tudo. Mathieu abriu se como uma chaga. alegremente. Pensou: «Já desci a isso?» Estava a ponto de se aproveitar da própria decadência. Mathieu viu a garrafa e pensou: «Trezentos e cinquenta francos. aí está o champanhe — disse ela. — Passou o dia enrolada no sofá.. também não era sincero. e partirei imediatamente. não poderei ficar mais um dia sequer em Paris. na Rua . arrepiado. Mas agora já não se percebia nada. Não era verdade. De repente. Estou farta. Acrescentou com ironia. não falemos mais nisso.. servia se dela para fazer gentilezas às mulheres! «Estupor!» Mas parou. fico tenso.» Mas nada o ajudava. — Isso é ridículo. trabalhou esta tarde? Ivich encolheu os ombros. Calou se. Ivich devia ter gemido durante horas. Pintara de azul as pálpebras e de vermelho framboesa os lábios. — Ou então? — Nada. como para si próprio: — Sou um vime pensante. J E A N P AUL SARTRE Boris acrescentou. raivosamente. vou chumbar. É uma defesa. — Não quero que me falem mais nisso. Como para si próprio. talvez soluçado.

e ainda por cima tinha fome. e um rolar de tambores advertiu o público. calvo e redondinho. Puseram se a rir os três. Estava nua. afectado e reverente. Mas nesse momento havia um rapaz muito digno sobre o estrado. parecia pouco à vontade. — Não era mau — observou Boris —. eu quero beber. lançava as pernas para a frente. sem grandes preocupações. Ficara com a sua expressão maníaca e cruel. e sorriu. saltou para o estrado e sorriu ao microfone. Ivich contemplava o dela. eu bebo toda a garrafa. a direcção do Sumatra tem o grande prazer de apresentar Miss Ellinor pela primeira vez em Paris! Miss Ellinor! — repetiu! Com os primeiros acordes da orquestra surgiu na sala uma mulher alta e loura. e toda aquela gente que se cozinhava no próprio molho. fazia a rodar com competência. com um guardanapo em volta do gargalo. ansiosa por agradar. Porém. eu não gosto de champanhe.» Todo o dancing lhe pareceu um pequeno inferno. Mathieu continuava a olhar para a garrafa. no fundo. — Conheço a — disse Boris. A rapariga dançava. sem champanhe nem belas loucuras. leve como uma bola de sabão. se ninguém quiser. e os seus pés esticavam se na extremidade das . A vizinha voltou a cabeça e mediu a de alto a baixo. é o mesmo. O empregado.Vercingetorix. Acenderam se novamente as vermelhas. de smoking. e Mathieu levou melancolicamente o copo aos lábios. As lâmpadas brancas apagaram se. O empregado serviu. o corpo. sob a luz vermelha. — De que se está a rir? — perguntou Boris. a cantar ao microfone: A // a. J E A N P AUL SARTRE — Senhoras e senhores. parecia um grande pedaço de algodão. Ela contemplava a rapariga nua com os grandes olhos arregalados. O riso de Ivich era estridente. a pensar no tipo da véspera. — Estou a lembrar me de que eu também não gosto de champanhe. inclinado sobre o balde de gelo. se fosse servido bem quente. — Se quiserem — disse Mathieu. Era pesada e negra. Aliás. — Somos divertidos! — disse Boris. Mathieu virou se para Ivich. perplexa. com alegria. uma depois da outra. também estava lixado. e sentia o coração magoado por uma verdadeira angústia. Mathieu teve nojo da garrafa. mis dam lê mille Émile E havia aquela garrafa que girava cerimoniosamente na ponta dos dedos pálidos. — Não — atalhou Ivich —. Mathieu pensou: «Cheirava a vinho tinto barato. Acrescentou: — Pode deitar se no balde do gelo quando o empregado não estiver a olhar. rindo também. Um senhor pequeno. modestamente.

O público deleitava se com a sua própria indignação.pernas. — Isso não os comove — observou Mathieu —... quis levantar se e desaparecer. — Não sabe dançar — disse a vizinha de Ivich. «Está só». deslocando se de lado sobre os calcanhares. mas com arte. quando pousava os pés no chão. Dir se ia que ela sentia a hostilidade e esperava enternecê los. «Pronto». envenenou lhe a boca: «A fita toda desta manhã. Mathieu comovia se com a boa vontade desesperada dela: oferecia lhes as nádegas entreabertas.. roçou pela mesa deles. eles querem ser respeitados. porque era desajeitada. Quando se cobra a bebida a trinta e cinco francos. deve pensar se em escolher melhor os números. pensou apenas: «E dizer que gosto dela pela sua pureza. como dedos.» Virou a cabeça e viu o punho crispado de Ivich sobre a mesa. ergueu os braços e sacudiu os. as pernas da dançarina escavaram o chão sob a impotência ridícula dos quadris. carmesim e aguda.» A dançarina. goza. Durante uns momentos. em seguida endireitou se. Apanharam na na rua. — Eles querem principalmente ver belas nádegas! — Sim. a rapariga parecia lhe duplamente nua. mas lembrava se da expressão cruel. pensou Mathieu. «esconde sob os cabelos um rosto arrasado. Uma onda de rancor subiu aos lábios de Mathieu. — Têm Lola Montero — observou o tipo gordo. Bebeu um golo do cocktail e pôs se a brincar com os anéis. apontava para a sala como uma flecha indicadora. devorava com os olhos. provocando no ar tremores que deslizaram ao longo das omoplatas até à reentrância dos rins. A unha do polegar. O ruído das conversas cobria por momentos a música. mas não teve forças para fazê lo. Mathieu percorreu a sala com o olhar e só viu rostos severos e justiceiros. — Como ela se cansa! — disse Boris. as pernas estremeciam dos tornozelos até às coxas. Na verdade havia uma fragilidade inquietante nos seus longos membros.. Mathieu não respondeu. — Isso não quer dizer nada! É vergonhoso. Aproximou se do estrado e virou se de costas. Pensava em Ivich. mordendo os lábios. «vai cair». de mãos nas ancas. — E espantoso como tem as ancas duras — disse Boris. pensou. aperta as coxas. com um sorriso. afinal a menina sagrada era como os outros: duplamente defendida pela sua graça e pêlos vestidos. com sentimentos dúbios. aquela pobre carne nua. — Ela vai cair! — disse Boris. Mathieu quis desejar aquela almofada na . Não se atrevia a olhá la.» Essa ideia pareceu lhe insuportável. num impulso de dedicação que constrangia a alma.

e Boris pareceu encantado. — Está quieto — disse Ivich. «O meu ser assim. — Estão quentes. Ivich.. através de um murmúrio de folhas. como essas lanternas pálidas que oscilam de noite nas pequenas estações. — Mais uma razão para não aplaudir. — Estupores! — disse Boris. «Não estava perturbada». Uma luz branca invadiu a sala e foi um acordar geral. Viu um rosto triangular. com uma suficiência sorridente e mole. às rajadas. com gratidão. Boris.. mas a cabeça encheu se lhe de guizos. Uma música de quermesse chegava lhe aos ouvidos. nada mais. espantado. Por cima do sorriso brilharam uns lindos olhos aquados. Ninguém aplaudia e houve algumas risadas ofensivas. — Bateu as palmas com força. pensou. era um pesadelo branco. Boris encolheu os ombros. A vizinha de Ivich acendeu um cigarro e teve um amuo terno para si própria. A rapariga acocorava se com as pernas ligeiramente abertas e balançava se para a frente e para trás.» Era uma personagem de pesadelo aquele homem que saltitava no estrado e fazia gestos para pedir silêncio. A música parou. ouviram se aplausos. — Que nojo! — disse Ivich. — Já não a posso ver. na sua maioria não pareciam habituados. «Que é que eu tenho?» Era como a manhã. só havia um espectáculo. Mathieu não acordara. com a afectação de soltar no microfone. A rapariga desapareceu sorrindo e atirando beijos. descomposto pela raiva e pela repugnância. ao longe um fogo de bengala. para se distrair dos seus pensamentos. mas não tem cabeça. e no fumo um monstro de quatro patas andava à roda. deve ter essa pertinência dos olhos. simplesmente. os rostos abriam se em volta dele. jantei com ela e com Lola. sem comentários. é uma boa rapariga.ponta de uma espinha medrosa. ele quis sorrir lhe. o corpo obsceno e a neblina vermelha deslizaram para fora do seu alcance. Estava só. a rapariga imobilizou se com o rosto voltado para o público. para pregar uma partida a Ivich. na ponta de um braço invisível. Ivich tremia. com um ar de gozar de antemão o espanto que ia provocar. Em volta dele. — Aplaudir isto? — Ela fez o que pôde — disse Boris aplaudindo. Mathieu voltou se... Rostos espantados vi raram se para o lado dele. vai ser uma maravilha! . Todos se sentiam satisfeitos por se encontrarem de novo juntos após a sentença dada. dos cantos da boca. e apesar disso deve ver se que é oco. Mathieu estava algures. o nome célebre: — Lola Montero! A sala estremeceu de cumplicidade e entusiasmo. — Conheço a.

Lola encostara se à porta. De longe, o seu rosto achatado e vincado parecia uma cabeça de leão. Os seus ombros, de uma brancura ondeada de reflexos verdes, eram uma folhagem de bétula numa noite de vento sob os faróis de um automóvel. — Como é bela! — disse Ivich. Adiantou se a passos largos e calmos, com um desespero desenvolto. Tinha mãos pequenas e encantos pesados de sultana, mas punha no andar uma generosidade de homem. J E A N P AUL SARTRE — Ela impõe se — disse Boris, com admiração. — Com ela ninguém se mete! Era verdade. As pessoas da primeira fila tinham recuado as cadeiras, não se atreviam sequer a olhar de perto aquele rosto célebre. Um bom rosto de tribuno, volumoso e público, marcado pesadamente por uma vaga sugestão da sua importância. A boca conhecia o seu ofício, estava habituada a abrir se amplamente, com os lábios salientes para vomitar o horror e o nojo e para que a voz fosse longe. Lola imobilizou se de repente. A vizinha de Ivich suspirou de escândalo e admiração. «Ela domina os», pensou Mathieu. Sentia se incomodado: no fundo, Lola era nobre e apaixonada; no entanto, o rosto mentia, representava a nobreza e a paixão. Ela sofria, Boris desesperava a, mas durante cinco minutos por dia aproveitava se do seu número de canto para sofrer espectacularmente. «E eu? Não estou também a sofrer espectacularmente, representando com acompanhamento musical o papel de um tipo lixado? No entanto», pensou, «é indiscutível que estou lixado». Em volta dele era a mesma coisa. Havia pessoas que não existiam, eram vapores, e outras que existiam demasiado. O barman, por exemplo. Pouco antes fumava um cigarro, vago e poético como um jasmineiro; agora acordara, era demasiado barman, sacudia o shaker, abria o, escorria a espuma amarela nos copos, com gestos de uma precisão supérflua. Representava o papel de barman. Mathieu pensou em Brunet: «Talvez não possa ser de outra maneira; talvez seja preciso escolher: não ser nada ou representar o que é. Mas é terrível ser se levado pela nossa própria natureza.» Lola, sem se apressar, percorria a sala com o olhar. A sua máscara dolorosa tornara se dura, congelara se, pare cia ter ficado esquecida sobre o rosto. Mas no fundo dos olhos, a única coisa viva, Mathieu teve a impressão de surpreender uma chama de curiosidade áspera e ameaçadora que não era fingida. Ela viu Boris e Ivich e tranquilizou se. Sorriu lhes cheia de doçura e anunciou, com um ar perdido: — Uma canção de marinheiro: Jobnny Palmer. — Gosto da voz dela — disse Ivich. — Parece veludo. — Parece.

Mathieu pensou: «Ainda Jobnny Palmer»\ A orquestra preludiou, e Lola ergueu os pesados braços. «Pronto, faz a cruz», viu a abrir sanguinolenta. Qui est cruel, jaloux, amer? Qui triche au jeu, sitôt qu'il perd? Mathieu já não ouviu, sentia se envergonhado diante daquela imagem de dor. Era apenas uma imagem, bem o sabia, mas mesmo assim... «Não sei sofrer, nunca sofro o suficiente.» O que havia de mais penoso no sofrimento era ser o de um fantasma, passava se o tempo a correr atrás dele, imaginava se sempre que se ia alcançá lo, que se ia atirar dentro dele e sofrer de verdade rangendo os dentes, mas no momento em que pensava atingi lo escapava se, não se encontrava mais nada a não ser um fogo de artifício de palavras e milhares de raciocínios desvairados em minuciosa efervescência. «Esta tagarelice na minha cabeça; daria tudo para me calar.» Olhou Boris com inveja. Aliás, naquela cabeça obstinada devia haver grandes silêncios. Qui est cruel, jaloux, amer? C'est Jobnny Palmer. «Minto.» A sua decadência, as suas lamentações eram mentiras, vácuo; atirava se para o vácuo, à superfície de si mesmo, fugir à pressão insustentável do mundo verdadeiro. Um mundo negro e terrível que tresandava a éter. Naquele mundo, Mathieu não estava lixado — era muito pior. Era um atrevido e um criminoso. Marcelle é que estava lixada, se ele não descobrisse os cinco mil francos até ao dia seguinte. «Lixada de verdade.» Sem lirismo. Tinha o filho ou ia arriscar a vida nas mãos de um charlatão. Naquele mundo o sofrimento não era um estado de alma, não havia necessidade de palavras para exprimi lo. Era uma expressão das coisas. «Casa com ela, falso boémio, casa com ela, meu caro, porque não hás de casar com ela?» «Aposto», pensou Mathieu horrorizado, «que ela vai morrer com isto.» Todos aplaudiram, e Lola dignou se sorrir. Inclinou se e disse: — Uma canção da «Ópera de Quat sous»: A Noiva do Pirata. «Não gosto dela nesta canção, Margo Lion era bem melhor. Mais misteriosa. Lola é uma racionalista, não tem mistério. E boa de mais. Ela odeia me, mas com um ódio grosseiro, volumoso, sadio, um ódio de homem de bem.» Ouvia distraidamente esses pensamentos leves que corriam como ratos num sótão. Por baixo havia um sono espesso e triste, um mundo espesso que esperava no silêncio. Mathieu cairia nele mais cedo ou mais tarde. Viu Marcelle, viu lhe a boca severa e os olhos muito abertos: «Casa com ela, falso boémio, casa com ela, estás na idade da razão, deves casar.» Un navire de baut bord Trent' canons au sabord Entrera dans lê port.

A IDADE DA RAZÃO x «Basta! Basta! Arranjarei o dinheiro, terei de o arranjar ou casarei com ela, pronto, não sou um ser abjecto, mas hoje, esta noite pelo menos, que me deixem em paz, quero esquecer. Marcelle não se esquece, está no quarto, deitada na cama, lembra se de tudo, vê me, ouve os rumores do seu corpo. E que importa? Usará o meu nome, terá a minha vida inteira, mas que me deixe esta noite só para mim.» Voltou se para Ivich, lançou se ao seu encontro, ela sorriu lhe, mas ele deu com o nariz numa muralha de vidro enquanto aplaudiam. — Mais uma! Mais uma! — gritavam. Lola não ligou aos pedidos; tinha outro número às duas horas de madrugada, poupava se. Saudou duas vezes e caminhou na direcção de Ivich. Algumas cabeças voltaram se para a mesa de Mathieu. Mathieu e Boris levantaram se. — Boa noite, querida Ivich. Como está? — Boa noite, Lola — disse Ivich, de uma maneira indolente. Lola acariciou o queixo de Boris, com delicadeza. — Boa noite, crápula. A sua voz calma e grave dava à palavra «crápula» um tom de dignidade. Dir se ia que a escolhera a dedo entre as palavras ridículas e patéticas das suas canções. — Boa noite, minha senhora — disse Mathieu. — Ah! — respondeu ela —, também está aqui! Levantaram se. Lola olhou para Boris. Parecia com pletamente à vontade. — Disseram me que patearam Ellinor? — Estávamos a falar disso. — Foi chorar ao meu camarim. Sarrunyan está furioso, é a terceira vez em oito dias. — E vai despedi la? — perguntou Boris, com ar inquieto. — Estava com vontade; ela não tem contrato. Eu disse lhe: se ela sair, eu saio também. — Que é que ele disse? — Disse que ficasse mais uma semana. Percorreu a sala com o olhar e afirmou em voz alta: — É um mau público, o desta noite. — Pois eu não diria o mesmo — observou Boris. A vizinha de Ivich, que devorava Lola imprudentemente com os olhos, estremeceu. Mathieu teve vontade de rir. Achava Lola muito simpática. — É porque tu não estás habituado — disse Lola. — Quando entrei, logo vi que acabavam de se portar como idiotas, pareciam aborrecidos. Se a rapariga perder o lugar, só lhe resta o trottoir. Ivich ergueu a cabeça bruscamente, parecia desvairada. — Que se prostitua — disse com violência —, tanto me faz, e isso convém lhe mais do que a dança.

Esforçava se por manter a cabeça direita e conservar abertos os olhos baços e rosados. Perdeu um pouco a segurança e acrescentou, conciliadora: — Naturalmente, compreendo que ela precise de ganhar a vida. Ninguém respondeu, e Mathieu sofreu por ela. Devia ser difícil manter a cabeça direita. Lola olhava a placidamente. Como se pensasse: «Menina rica.» Ivich teve um risinho. — Eu não preciso de dançar — disse, com um ar malicioso. Mas o riso apagou se e a cabeça caiu lhe. — Que é que ela tem? — disse Boris, tranquilamente. Lola contemplou a cabeça de Ivich, com curiosidade. Passado um bocado, estendeu a mão gorda, agarrou Ivich pêlos cabelos e levantou lhe a cabeça. Parecia uma enfermeira. — Que é que aconteceu? Bebeu de mais? Afastava, como uma cortina, os cachos louros de Ivich, pondo a nu as faces pálidas. Ivich entreabria os olhos amortecidos e deixava a cabeça indinar se para trás. «Vai vomitar», pensou Mathieu, sem se perturbar. Lola dava puxões nos cabelos de Ivich. — Abra os olhos, vamos, abra os olhos, olhe para mini. Os olhos de Ivich arregalaram se. Brilhavam de ódio. — Estou a olhar para si — disse com uma voz cortante. — Estou a olhar. — Ah! — observou Lola —, não está tão bêbeda como isso. Largou os cabelos de Ivich. Ivich levantou vivamente as mãos, arranjou os caracóis sobre o rosto, parecia modelar uma máscara, e na verdade o rosto triangular apareceu sob os dedos, mas em volta da boca e dos olhos ficou qualquer coisa de pastoso e gasto. Ficou um momento imóvel, com o ar intimidado dum sonâmbulo, enquanto a orquestra tocava um slow. — Vamos dançar — disse Lola. Boris levantou se e começaram a dançar. Mathieu seguiu os com os olhos, não tinha vontade de falar. — Essa mulher censura me — disse Ivich, sombria. — Lola? — Não, a minha vizinha. Ela censura me. Mathieu não respondeu. Ivich continuou. — Queria tanto divertir me esta noite... e afinal... Detesto ganhar champanhe! «Deve detestar me também porque a fiz beber!» Viu no entanto, com surpresa, que ela pegava na garrafa e enchia novamente a taça. — Que está a fazer? — Acho que não bebi o suficiente. Há um estado que precisamos de atingir, depois sentimo nos bem. Mathieu pensou que devia tê la impedido de beber, mas não se

mexeu. Ivich levou a taça aos lábios e fez novamente uma careta. — Como é mau! — disse pousando a taça. Boris e Lola passaram perto da mesa. Riam. — Como vai isso? — gritou Lola. — Agora muito bem — disse Ivich com um sorriso amável. Tomou de novo a taça e esvaziou a de um trago, sem despregar os olhos de Lola. Lola devolveu lhe o sorriso, e o par afastou se a dançar. Ivich parecia fascinada. — Ela aperta se contra ele — disse com uma voz quase imperceptível. — É... é ridículo. Tem uma cara de fera. «Está com ciúmes», pensou Mathieu, «mas de quem?» Estava semiembriagada, sorria com uma expressão maníaca, interessada em Boris e Lola, e não lhe dava a menor atenção, apenas lhe servia de pretexto para falar em voz alta. Os sorrisos, os gestos, todas as palavras que dizia, endereçava os a ela própria através dele. «Isto devia ser me insuportável», pensou Mathieu, «mas deixa me completamente indiferente.» — Vamos dançar! — disse bruscamente Ivich. Mathieu sobressaltou se. — Mas não gosta de dançar comigo. — Não faz mal, estou bêbeda. Levantou se cambaleando, quase a cair, e segurou se à mesa. Mathieu tomou a nos braços e arrastou a. Entraram num banho de vapor, a multidão fechou se sobre eles, sombria e perfumada. Durante um segundo, Mathieu sentiu se perdido, mas depressa ficou senhor de si, marcando o passo atrás de um negro. Estava só; logo aos primeiros acordes, Ivich levantara voo, já não a sentia. — Como é leve! Baixou os olhos e viu uma porção de pés! «Há quem dance pior do que eu», pensou. Segurava Ivich a certa distância e não a olhava. — Dança correctamente — disse ela —, mas vê se que não tem prazer nisso. — Dançar intimida me — disse Mathieu. Sorriu. — Você é que é espantosa. Há pouco, mal podia andar, e agora dança como uma profissional. — Posso dançar completamente bêbeda — disse Ivich. — Posso dançar a noite inteira, nunca me canso. — Gostava de ser assim. — Nunca o conseguirá. — Bem sei. Ivich olhava em volta, com nervosismo. — Já não vejo a fera. — Lola? À esquerda, atrás de si. — Vamos para lá.

e ninguém tinha vontade de falar. Ivich não respondeu. — Venha — disse com voz rouca. de olhos fixos no irmão e em Lola. redondo. O jazz calara se. mas o ruído dos aplausos abafou lhe a voz. — Olá. a fim de dar lugar à orquestra argentina. Nem Boris nem Lola os tinham visto chegar. e a mulher deitou lhe um olhar raivoso. Mathieu via lhe apenas uma ponta da orelha entre dois caracóis. Boris arregalou os olhos. de maneira a ficar ela própria de costas para Boris. Ivich emudecera. O homem pediu desculpas. Quando chegaram muito perto. Lola já estava sentada. os negros apressavam se a pôr em ordem os instrumentos. Ivich abraçou brutalmente Lola e empurrou a para o meio da sala. — Dança admiravelmente — disse para Ivich. perdido numa solidão angélica. — Eu guio. não fujas! Porque é que me chamas assim? Ivich não respondeu. Boris sorria. Às primeiras notas do tango. solitária e reivindicadora. devia dedicar se de preferência à dança acrobática. Lola abrira os olhos. Fez se um silêncio difícil. mostrando os dentes: — Não tenha receio. — Fiquemos aqui: já não há espaço. nem sequer dançava. Ivich. — Você estava magnífico — disse Boris a Mathieu —. seco e sufocante. arrastava Mathieu. — Não sei guiar — respondeu Lola. — Foi a sua irmã que quis. guio como um homem. Um pequenino céu local formara se por cima das suas cabeças. J E A N P AUL SARTRE Lola fechava os olhos: as pálpebras eram duas manchas azuis sobre o rosto duro. . — Eh! Ivich.Deram um encontrão num casal magricela. Ivich dirigiu se para Lola. Acrescentou maldosamente. — E agora? — perguntou Mathieu. As lâmpadas acenderam se de novo. fez Mathieu dar meia volta. — Percebeste porque é que ela me chamou Pequeno Polegar? — Parece me que sim — disse Lola. Boris murmurou ainda algumas palavras. Ivich beliscou o cotovelo do irmão. IDADE DA RAZÃO — Forte como é. Levantaram se. — São cómicas — disse Boris enchendo o cachimbo. pensei que nunca dançasse. Ivich tornara se quase pesada. com a cabeça inclinada para trás. fixava em Lola um olhar pesado. Boris e Lola aproximaram se às voltas. — São. Pequeno Polegar. Ivich e Mathieu voltaram para a mesa. — Divirto me loucamente — disse Ivich.

— É uma arma de caide — disse. — Que vai fazer? — Nada — disse ele. — Não é isso — disse Boris rindo. com remorsos. Além disso. ela está a olhar para nós. era engraçada. Parecia uma rapa riguinha.. Viverei como um monge. principalmente. — Há de ver. — Olhe — disse Boris. mandou o empregado levá la daqui fora. Esfregava as mãos. quando tiver rompido com Lola. «Está contente porque está a meu lado». — Olhe para aquela mulher que acaba de chegar. Cuidado. Desviou o olhar e viu no rosto de Boris uma satisfação ingénua que o magoou. deu me uma cigarreira. queria a todo o instante convidar me para dançar. Lola estava louca. não sou como você. — A loura cheia de pérolas? — São falsas. — Que tal? — Assim. Não sabia que era tão alta.Lola. — Assim não. — Conheci a terça feira passada. J E A N P AUL SARTRE Calaram se. . sombrio: — Era de prata. — Está a ver estas manchas escuras? O tipo que ma vendeu garantiu que eram manchas de sangue. Pousou o cachimbo e disse gravemente: — Aliás. com desprezo —. Voltou a pegar no canivete. abriu o e colocou o perto do copo. que tinha um ar distante. incrustada de pedras. — Não é isso. cuidado. Mathieu pegou delicadamente no canivete e tentou abri lo. terceira mesa — disse Boris. Mathieu olhou de esguelha para a rapariga alta e bela. À direita. — Ela não tira os olhos de si. pensou. — Você está a ficar muito puritano. afinal são todas iguais.. as cantoras. — É uma navalha espanhola — explicou — com travão de segurança. Tirou do bolso um enorme canivete de cabo de chifre e pousou o sobre a mesa. há de ver e vai ficar admirado. sou um casto. «e eu nunca tenho nada para lhe dizer». — Hum! — disse Mathieu. Ter uma é ter todas. é uma mulher comprometida. — E que tem isso? — indagou Mathieu. deslizando sobre um mar sombrio. as dançarinas. tinha se drogado. Mathieu contemplava a cabeça trágica de Lola ao longe. assim. surpreendido. Acrescentou. pode magoar se. — Acredito. mas as prostitutas.

Imagine! Você compra o Vogue.. Ia Comtesse de Rocamadour. não. furioso e divertido ao mesmo tempo —. — Cale se — disse Boris. fica desvairado. — Quero confessar lhe tudo — disse com ar confuso. — Mas na gostava de me tratar. — Sim. sem se perturbar. Quer apostar? / — Não. com os seis perdigueiros. isso não. É bonito. J E A N P AUL SARTRE Acendeu de novo o cachimbo.» Deve sentir se uma certa emoção. — Você é odioso. Depois . Trinta e cinco anos e ares de querubim. — Tem razão — disse. olha as fotografia e vê. às vezes. quer roubar me Lola porque não gosta dela. Boris reconheceu o. Mme.. é um desgraçado. Algumas. — Eu queria ter uma mulher da alta sociedade. um binóculo de corrida. já terei morrido há muito. ela está a sorrir lhe agora — disse Mathieu. — Olha. enfraqueceu a sua posição. Acho que não se devem ultrapassar os trinta. de repente.satisfeito. Dança no Alcazar. — Quem é o tipo que está com ela? — Um amigo. cinco charutos de Havana e aquele navio dentro da garrafa que vimos na Rua de Seine. — No dia l de Julho. — Ora. — Não acha uma injúria formidável: o senhor é um medíocre!? — Não é má. — E superior às suas forças — continuou Mathieu. Aposta todos os meses que vai acabar no \ mês seguinte e perde sempre. não acha? Olhe bem aquele focinho. trazem o nome no Vogue. — Estou tuberculoso. — Com trinta e cinco — disse Boris secamente —. porque tem sempre razão. — E você um medíocre! O rosto iluminou se lhe. — Eu sei que não paga as suas dívidas de honra. devem ter uns modos! E depois é lisonjeiro. Que lata! Pura vaidade. — Ou então: o senhor é um zero! — Não. cuidadosamente. de boa vontade.. — Agrada lhe dizer isso. e pensa: «Dormi com esta mulher ontem à noite. você há de ser assim aos trinta e cinco anos. — Não pode tomar partido. — É no peito que você me faz mal — explicou Boris. Mathieu disse: — Isso não acaba tão depressa. Você nunca pensou em acabar.. está demasiado preso a Lola. Vou virar as costas. já sei. Já me deve cem francos. — Já sei — uma vez Boris ferira as gengivas com a escova e cuspira sangue —. — Olhe. Acho que deve ser divertido. E então? — Não me incomodo com isso — disse Boris. pode esperar pêlos charutos e pelo navio. porquê? — Não sei.

e ficar nessa idade o resto da vida. talvez pudesse ter falta dele. pensou Mathieu. Mas tem sete mil francos em casa há quatro meses. Estava a pensar que é absurdo. mas olhava Mathieu com uma solicitude inquieta.» Só ele. No fundo de uma mala. talvez. — Não quero pedir a Lola. — Mas tem razão.tornamo nos uma ficha inútil. — Tem um ar muito chateado — disse Boris.. — Se tivesse os seus vencimentos. Seria agradável. Quer cem francos do barman? — Obrigado. — E o seu irmão? — Não quer. Depois dos trinta. no meio daquela gente toda. Se se tratasse de uma conta no banco. cheio de confusão. Era ainda mais: uma justificação. porque ela não me suporta. — Desculpe! O seu amigo Daniel não lhos empresta? — Não pode. eu preciso é de cinco mil. comprar acções. irritado. — Merda — disse Boris. Mathieu encarou o com uma simpatia escandalizada. já nada se vale. Mathieu estremeceu. Lola está cheia de dinheiro e não sabe o que lhe há de fazer. naquele dancing. não tocou neles. De qualquer maneira. — Não quero pedir nada a Lola. nem sequer teve tempo de depositá los no banco. Boris riu. — Nota se isso? — E de que maneira! — Dificuldades de dinheiro. Não o suporta. A — Bem sei — disse Mathieu. — Se você quisesse. não é tão estúpido como isso viver a mocidade a fundo até aos trinta e morrer. jogar na Bolsa. — Não está a perceber — disse Mathieu. naquela cadeira. depois dos trinta já se está morto. — Lá isso é verdade. Olhou para Mathieu e acrescentou. Boris assobiou com um ar entendido. embaraçado.. «Que importa». A juventude era para Boris uma qualidade perecível e gratuita de que era preciso tirar proveito cinicamente e uma virtude moral de que se devia mostrar digno. No fundo. Boris corara. — Mas juro lhe que ela não sabe o que lhe há de fazer. — acrescentou. não precisava de pedir emprestado. — Eu gostava de ter dois anos a mais. estava realmente ali. Estão lá. — Você defende se mal — disse Boris com severidade. — Não digo isso de si. J E A N P AUL SARTRE — Se eu quisesse o quê? — Nada. desolado. . «ele sabe ser novo.

A — Que é isso? — perguntou Lola. ser me ia desagradável que lhos pedisse. de ponta para baixo. não. não faça isso — disse Mathieu com vivacidade —. ia dizer lhe: «Peça o dinheiro a Lola». Boris não respondeu. sombrio. O canivete caiu. Boris olhou para Lola. — Quer dançar? J E A N P AUL SARTRE — Não — respondeu Ivich —.» Estava envergonhadíssimo e covardemente aliviado. O rosto iluminou se lhe e acrescentou com um sorriso feliz: — Tu és gentil. é bela! — E o corpo! Como é comovente aquele rosto devastado e o corpo amadurecido. e o sangue subiu lhe às faces. E se os pedisse para mini? — Não. Você está chateado por causa de cinco mil francos. Ivich sentou se ao lado dele. Virou se para Boris. Pegou no canivete com dois dedos e levantou o devagar à altura da fronte. ela acabaria por saber. — Bem vi — disse Mathieu. Sentia o tempo voar e tinha a impressão de que ela ia murchar nos meus braços. «Sou ignóbil». mas não conseguiu articular as palavras. Acrescentou. e Mathieu pensou: «Ele vai pedir o dinheiro. s — Es um monstro. entre dentes. — Ela é formidável — disse com a sua voz enrou quecida. apesar de tudo. «fazer de cavalheiro à custa de Marcelle». Boris levantou a arma e pousou a sobre a mesa. tem nos à mão e não lhos quer pegar. e Lola sorria lhe. Mathieu acompanhava Boris e Lola com o olhar. pensou. Boris abriu os dedos. Cruzava e descruzava as pernas. — Simpática? Ah!. nervosamente. Boris levantou se. quero beber. — Vocês matam me. É uma mulher horrível. A sério — insistiu —. Ivich e Lola voltaram aos seus lugares. com orgulho: — Eu intimidava a. — Ela é simpática — disse Mathieu. Parecia gracejar. distraidamente. Encheu a taça por . — Vem dançar — disse. Mathieu sentia se perturbado. enfiou se no chão e o cabo pôs se a vibrar.— Está a ver! — Não deixa de ser estúpido. — Sim. Boris ainda não tocara no assunto. para te fazer andar direita. A orquestra iniciara outro tango. — Uma navalha espanhola — disse Boris —. uma fêmea.

Ela corou ligeiramente e levantou se. «ele já está a falar». não — disse Lola —. Ela conhece o. o que sei é que vai me pagar. Boris inclinou se para Ivich: — Faz me um favor. Foi inclinar se diante da loura grande. — Fez uma cara de poucos amigos e disse que precisava do dinheiro. Vou acabar bem. a primeira vez que lhe peço alguma coisa. isso é comigo. — Não deve ter acreditado. querida.. não. Ora. mas por baixo do sorriso estava atenta. e os dançarinos abriam passagem para lhe demonstrar respeito. Acrescentou.. A multidão dispersou. que quer um tipo como eu. — Ficou aborrecido comigo? — indagou Boris. No momento em que começavam a dançar.. e é verdade que ele quer comprar uma garagem. tem de pagar! — Como é que lhe pôs o problema? — Disse que era para um amigo que quer comprar uma garagem. A loura era toda trejeitos. Lola e Ivich passaram perto de Mathieu. e já. Mathieu sentiu que corava. A música parou. Estava pálido. estou exausta. — Exigiu que eu não falasse. e Boris apareceu. — Não sei. porque a dança não deixa ficar embriagado e o álcool sustenta. Porque recusou? DADE DA RAZÃO — Não sei — disse Boris. — Ela não quer? — indagou Mathieu. ora — acrescentou com um furor espantado —. Bem sabe que o deixei pedir. «Pronto». mas há de pagar. provocante e mau. Boris tomou um ar sério. Uma semelhança perturbadora e desagradável. Lola mantinha se calma. majestosa. estava irritado com Boris. — Não faça asneiras — disse Mathieu. — Ora — disse Boris com ar hostil —. a expressão rancorosa e acovardada dava lhe um ar de semelhança com a irmã. falava sem olhar para Lola. Ela não compreende! Uma mulher da idade dela. Ivich recuava com os olhos virados para o céu. que ressurgiu com um ar fechado. — Seria parvo se me zangasse. erguendo os ombros. não parecia satisfeita.metade e explicou: — É conveniente beber quando se dança. — Tenha calma — advertiu Mathieu. asperamente: — É fantástico como me divirto aqui. avançava. pensou Mathieu. Mathieu pegou na navalha . convida a. Lola seguia o. Disse lhe o nome: Picard. inconsciente. Os ombros de um negro gigantesco esconderam Ihe o rosto de Lola. Parlamentaram um minuto e Ivich levou a para a sala. — Não — disse Boris —. Ivich levantou se sem mostrar espanto e atirou se ao encontro de Lola. Lola não dizia nada. — Oh!..

» Era natural.pela lâmina e pôs se a bater com o cabo na mesa. a Mancha cor de café com leite. vestido de preto. não te irrites.» Pensou: «Tudo está claro. a Avenida du Maine e Paris inteiro em volta de mini. entre as poltronas de couro verde. minha mulher. Pensava em Marcelle: «Marcelle minha mulher». um buraquinho forrado de cetim cor de rosa. Eu sabia que cada um tinha a sua vida. Sobrava um pouco de champanhe na taça de Ivich.» Pensava: «Não fazendo nada. e alguma coisa se fechou dentro dele. a França sulcada de estradas de sentido único. como engolir a própria saliva. sou eu que me espero nas encruzilhadas."» Sacudiu violentamente a cabeça. e eu no meio. fiz amor. só porque a desço sempre. através das ruas de Paris. Eu sabia. cortam se e permanecem.» Olhava aqueles rostos avermelhados. pegou na garrfa e inclinou a por cima do copo. aquelas luas ruivas que deslizavam sobre coxins de nuvens. No centro. ignorava a existência da minha. . escapo. o Panteão à direita. entrecruzam se. espero a minha chegada. Todos. para além de si próprio. o meu apartamento. descontrai te. das minhas preguiças. Estava vazia. e mares tingidos de azul ou de preto. estava se marimbando. espero que eu venha a rebentar de calor e a dizer: "Sim. a Rua da Gaite. o Mediterrâneo azul. a Itália — a Espanha é branca porque não fui bater me por ela — e as cidades redondas. sou eu que me espero sentado numa poltrona vermelha. bebeu o. «Vai haver sangue». na grande sala da mairie do XIV. viverá na minha casa. «Não te incomodes. perfeitamente natural. tão rigorosamente pessoais quanto uma escova de dentes ou uma lâmina. mas a vida manteve se firme. nua. ao sabor dos meus humores. sê natural. «Lentamente. E em volta de Paris. Cada um a sua. Enganava me. o mar do Norte preto. a Alemanha. agora acabou. Sou eu essas esperas. a Torre Eiffel à esquerda.» Pousou a navalha na mesa. num sentido. «Minha mulher. como os objectos de toilette que não se emprestam. tenho uma vida. norte na frente. sussurrando. li. «Todos têm vidas.» J E A N P AUL SARTRE «Uma vida. pela França. como respirar. Sentia o por todos os lados. e Marcelle está lá dentro. Hei de vê la todos os dias da minha vida. aceito a como esposa. à minha espera. e depois outros países. Aliás. segreguei a minha concha. sul atrás. estou enfiado lá dentro. uma pequena espera obstinada que amadurecia. pensou. «Bocejei. com um colarinho duro. no futuro. Em minha casa. fora. a distâncias fixas do meu quarto. o quarto de Marcelle. mas com segurança. a Porta de Clignancourt em frente de mini e no meio a Rua Ver DADE DA RAZÃO cingetorix. Elas estendem se através dos muros do dancing. E isso marcava! Cada um dos meus gestos suscitava.

contemplou com ternura o corpinho rancoroso e frágil em que a sua liberdade se atolara. estava embriagada. pôs se a sobrevoar o seu próprio corpo empoeirado. minha querida liberdade. o pequeno burguês preso às suas comodidades.» Ergueu os olhos e viu Lola. o intelectual . uma consciência pura. se agarrasse no ombro de um árabe para através dele tocar em Marráquexe. Como se ele nunca tivesse existido. Toronto. uma consciência sem eu. aonde ia casar com Marcelle no mês de Agosto ou Setembro de 1938. pensou. Nunca mordi. «Levei uma vida desdentada». ainda estaria em casa. a sua vida. o barco. não pensava em Mathieu. da mairie do XVIII. Viu Ivich. aquele que não aprendeu inglês. I ercorria a com os olhos. Mesmo se eu apanhasse o comboio. no meu quarto. farto me de viagens: férias de universitário.» Envolvia o. guardava me para mais tarde — e acabo de perceber que já não tenho dentes. de cabeça inclinada para trás. esse árabe estaria em Marráquexe. uma insipidez tenaz. passeio.» Dançava. vagueio. um cheiro de poeira e de violetas.Tombuctu. Se fosse passear nas praças. contemplava o falso boémio. «Uma vida desdentada. à mairie do XIV. incríveis como marcos quilométricos. sentia uma dor humilde e refrescante.» «A minha vida. Nijni Novgorod. Que fazer? Quebrar a concha? É fácil de dizer. se fosse passar as férias a Marrocos e chegasse de repente a Marráquexe. Era uma estranha coisa sem começo nem fim e que no entanto não era infinita. o professor. Tinha um sorriso mau nos lábios. Kazan. mas olhava Ivich e parecia lhe que ouvia aquela melodia triste e rude pela primeira vez. Para sempre o ex amante de Marcelle e. tranquilo e pensativo como escolhi ser. que não aderiu ao Partido Comunista. agora. Ando. de uma mairie à outra. o autocarro. esperava. Pairava lá em cima. fico em casa. E aliás o que me restaria? Uma pequena massa viscosa que se arrastaria na poeira deixando atrás de si uma esteira brilhante. a três mil quilómetros do marroquino e do seu turbante. Aquela tinha um sentido vago e hesitante como as coisas naturais. Vou me embora. onde fora examinado pelo serviço de recruta J E A N P AUL SARTRE mento em Outubro de 1923. «Minha querida Ivich. Mi caballo murió. não me aproximo um centímetro sequer de Marráquexe ou de Tombuctu. No meu quarto para sempre. ainda estaria no meu quarto. entre os meus livros. era um olhar. perdida. um pouco de ar quente apenas. Eu continuaria sentado no meu quarto. que não esteve na Espanha.» Sorriu. por onde ando levo a minha concha comigo. «Nunca será minha. nunca entrará na minha concha. eu não. Para sempre.» E de repente uma consciência. o seu marido. sem futuro: «Não tem concha. Ela dançava. A orquestra tocava um tango argentino que Mathieu conhecia bem. Absolutamente nada. sem idade.

depois virou se bruscamente . Depois. Mi caballo murió. Se aquilo pudesse durar.» Mas não era solidária com ninguém. a loura deu Ihe o braço e saíram os dois. Disse a Mathieu. O companheiro dela levantara se. J E A N P AUL SARTRE — Vem — disse para o companheiro. Estava só. com um ar calmo e decidido.. com afectação. efémera e desolada. eis tudo: «Um êxtase a mais.. Já nem se julgava. A orquestra argentina deixava a sala. não pensei que fosse tão fácil. de se desesperar de verdade pêlos Espanhóis. Lola sorriu lhe e atravessou a sala. com negligência. tinha um ar estranho. assobiando baixinho. Sarrunyan aproximou se de Lola. e fez se um silêncio pesado. não têm o direito. no fundo da sua vida. ela cansou se. não parecia muito orgulhoso de si. a orquestra calou se. seco e duro. Os cantos da boca tremiam lhe. A loura levantou se de repente. Mathieu encontrou se a sós consigo mesmo. — Nunca mais virá — disse com um sorriso divertido. que se abanava. nem sequer se aceitava. sofredora. Mathieu olhou em volta da sala e descobriu Lola junto dos músicos falando com Sarrunyan. — Safa! — O quê? — A loura.falhado. — Que é que ela fez? Boris franziu as sobrancelhas e estremeceu sem responder. — É de mais — gritou a loura —. dando às ancas do mesmo modo. um lamento sombrio. Mexeu dentro da carteira. — Não — disse Sarrunyan —. e todos olharam. como um maïtre d'hotel que espera ordens. sobre o rosto de Ivich. ruidosa de música. Mathieu sobressaltou se. o sonhador abstracto rodeado por uma vida flácida. era Mathieu. não me vou embora. Boris fixou em Lola um olhar de raiva e admiração. desvairada. e depois?» Boris voltou ao seu lugar. Mas não podia durar. de resolver qualquer coisa. Quando se sentou. E ela pensava: «Este tipo está lixado. — Obrigada — respondeu Lola —. Boris olhou para o sapato direito. Ivich voltou a sentar se perto de Mathieu. Uma consciência vermelha. os negros voltavam com os seus instrumentos. É uma puta. Sarrunyan inclinara se obsequiosamente para a loura. Depois deitou um olhar matreiro para a grande loura. era capaz de tudo. olhava a nota com um ar de censura. «não revolucionário revoltado». girava numa bolha giratória. A consciência inchava. Falava lhe em voz baixa. A loura amarrotou uma nota de cem francos e atirou a para a mesa. inchava. Ele afastou se. bem o merece. de cabeça erguida. sou eu que a convido. Este parecia admirado.

Mathieu pôs se a rir. Os olhos continuavam lhe inquietos. Pensou: «Está na hora da droga. — Esteve em casa à tarde? — perguntou ela. — Sim. e ela tamborilava nervosamente na mesa. — Picard trabalha durante o dia todo em Argenteuil. com indiferença. Passou algum tempo. — Ele diz que é para Picard. deve ter passado pelo hotel de Boris. Mathieu via duas grandes íris verdes com pupilas minúsculas. Ivich e Boris dan DADE DA RAZÃO cavam. «Já tem a sua conta». sem deixar de sorrir. Pensei que fosse para si. Ela abriu os olhos. Lola contemplou os calmamente. Lola voltara. incrédula. Mathieu sorriu lhe. puros como uma melodia. — Não sabia. — Acabo de recusar — disse Lola. — Vem dançar. — Não. — Você faz o que quer nesta boite — disse. Uma espécie de queixa rouca o fez estremecer. Não o encontrou e depois deve tê lo visto no Bulevar . apenas um pouco menos impiedosos. — Sabia que Boris precisava de cinco mil francos? — Não — disse ele.» Ele estava só. — Então? — Lola encolheu os ombros. — Desculpe. — Que estranho! Dava a impressão de que ela ia soçobrar. — Então não estava ao corrente — perguntou Lola.para Ivich. o rosto dela sulcou se de repente. enquanto se levantavam. sorria. Mathieu viu a dar a volta à sala e desaparecer. Não pensava em nada. Precisava de cinco mil francos? Lola continuava a olhá lo. vacilante. — Ele sabe que nunca tenho um tostão. tinha os olhos cerrados. ou então que a boca se ia rasgar e largar um grito enorme. Deve ter encontrado Picard mais tarde. casco para o ar como um velho navio. Felizmente ela levantou se instantes depois. Mas quando se afastaram. Mathieu não sabia que lhe havia de dizer. pensou. J E A N P AUL SARTRE Mathieu disse com indiferença: — Picard precisava de dinheiro. — Precisam de mim — respondeu Lola. — E não lhe disse nada? — Não vejo nada de extraordinário nisso. lá pelas três horas. Virou a cabeça e ficou a olhar para os pés. — Esta gente vem aqui por minha causa. — Foi o que me disse.

Fez se silêncio e depois perguntou repentinamente: — Como explica que haja sempre cenas quando vem aqui? — Não sei. Aliás eu já o sinto só pela maneira de me olhar. se é para mim que diz isso. A não ser que alguém lhe tenha soprado a ideia. Mas há também quem acredite fazer lhe bem dando lhe volta à cabeça. De longe. — Ouça — disse Mathieu —. «Ela ficaria zangada com ele e ele transformar se ia em meu cúmplice. Não pensem que podem falar mal de mim diante dele sem que mo conte. Mathieu adivinhava uma grande perturbação. não sei — disse Mathieu. não vale a pena fazer cerimónia. com frieza. — E um tipo leal. Lola encarou o ironicamente. Ou então faz me perguntas com ar de quem não sabe o que quer. por acaso. está enganada.Saint Michel.» Assim teria acabado imediatamente com aquilo. Não falta quem pense que já estou velha e que ele é um miúdo. — Que ideia! — Ivich passa a vida a dizer lhe que eu sou sovina.» Lola tamborilava na mesa com as unhas escarlates. Imagino que gosta de nós de maneira diferente e que fica irritado quando nos encontra ao mesmo tempo a um e outro. Basta ver a cara das idiotas que andam por aqui quando estamos juntos. Não tenho culpa. uma prova. Não sabe resistir.. Tinha vontade de dizer: «O dinheiro era para mim. Mas eu sei aonde ele quer chegar. — Ah! — disse Lola. — Acredita que se preocupa com elas? — Não. admirado. — Quem é que lhe disse isso? — Admira se de que o saiba? — perguntou Lola. quer ficar com a consciência limpa. Lola olhava diante de si com uma expressão sombria e tensa. tremiam e voltavam a cair. triunfante. mas por baixo daquela cólera. — Mas quem haveria de soprar? — Não sei. Hoje eu nem queria vir. Lola desviou o olhar e perguntou: — Não seria uma prova? — Uma prova? — repetiu Mathieu.. Olhava Mathieu com uma insistência inquieta. Mas não era possível por causa de Boris. A — E então? — Quis ver se eu era agarrada. — E possível. Finalmente disse: . Tinha vontade de rir. — Sim. — Pensa que Picard iria pedir cinco mil francos a Boris. Inventou essa história de Picard. exasperado. os cantos dos lábios levantaram se lhe bruscamente. que tem apenas trezentos francos por mês de mesada? — Então.

não pense nisso. — Nós não somos iguais — disse. Há coisas que lhe posso ensinar — acrescentou num desafio. — Eu sei. As suas relações com Boris não me interessam. J E A N P AUL SARTRE — Não pretendo roubá lo — disse ele. e isso acontecerá por certo bem mais cedo do que espero. Se me interessassem. — Acho que ele gosta de si. Entre ambos. — Eu pensava: ele acha se com responsabilidade porque é professor. Talvez o percebessem vagamente. e Mathieu compreendeu que não a convencia. é feliz comigo quando não lhe metem coisas na cabeça. Lola exclamou. eram cruéis sem o perceber. Viu no amor de Lola. com uma violência inquieta: — Devia saber que ele gosta de mim! Deve ter lho dito. Mathieu não respondeu logo. Olhava Boris e Ivich.. pensativamente — não é preciso que mo digam. — Pensava — disse Lola com um ar firme. poderá largar me. Quando se cansar de mim. — Pois bem. algo viscoso e voraz.. mas o que lhe digo é que esse miúdo é a minha última oportunidade. Boris e Ivich dançavam. — Já passei por tudo e não tenho ilusões. Lola detestava Mathieu e no entanto aquilo que lhe dizia agora nunca o tinha dito a ninguém. e tinha vontade de dizer a Lola: «Não nos vamos zangar. Tenho a certeza de que não lhe faço mal. sei que sou uma mulher velha. murmurou: A — Diz me isso a mim. — Porquê tão bem como eu? — Somos iguais. — E depois. — Que quer dizer com isso? — Olhe para nós e olhe para eles. faça o que entender. achava tudo muito certo. bem vê que somos iguais. apesar da violência e da pureza.— Ouça bem.. Calou se. Mas é por isso que posso ajudá lo.» Mas a outra coisa. «É sem dúvida da droga. Olhavam ambos Boris e Ivich. Lola volveu para ele os olhos pesados. Mathieu calava se. Mathieu . ele diz lhe tudo. apesar do ódio.. Depois disso. — Não quero que mo roubem. — continuou.. «Desabafa». Entretanto. Mas não quero que mo roubem. e calaram se sem se reconciliar.» Mas aquela semelhança desgostava o ligeiramente... quem lhe diz que sou velha de mais para ele? Ele gosta de mim tal como sou.. Lola teve um gesto de desprezo.. Mas sei o tão bem como você. que dançavam.. havia uma espécie de solidariedade. Mathieu encolheu os ombros. pensou Mathieu. Ela parecia escolher as palavras.

Desculpe. Ivich deixou se cair na cadeira. mas ele não se atrevia a enxugá la. mas apoiou se à mesa e respirou fundo. Ouviu Lola murmurar para si própria: «Se ao menos tivesse a certeza de que é para Picard. — É verdade que estou bêbeda — disse. Lola tomou a droga. Lola ameaçava e implorava: «Boris. Mathieu pensou que ela ia cair. — Veio me de repente. porque aquilo já não era para a sua idade. «Devem pensar que somos amantes». Depois da primeira pitada. — Não estou zangado. — Está.» E Boris baixava a cabeça. aliás você não está tão embriagada como isso! — Estou for mi da vel men te bêbeda — disse Ivich com satisfação. — Estou bêbeda — disse Ivich. Lola passaria para trás do biombo e aí. Ela . já estou quase na hora de cantar. e Boris acompanhou a de mau humor. — Não podes falar aqui? — Não. amavelmente. pões me doida. pensou. Em seguida. com abandono. o brilho negro do vestido no espelho e dois lindos braços brancos retorcendo se de desespero. receoso e obstinado. com a cabeça inclinada como para suster uma hemorragia nasal. A testa de Mathieu suava. Mathieu não respondeu. — Bom. ao dançar. Ivich. tinha vergonha de transpirar diante de Ivich. Um vestido preto comprido. Deviam ser duas horas. — Voltamos já.» Boris e Ivich voltaram. será uma distracção. indignada. Lola afastou se. é uma ideia fixa tomar outra. Boris pareceu não se sentir à vontade. — Já percebi — disse ela. já disse. — Naturalmente! — Que é que tem? — disse Ivich. — Vem — disse a Boris —. — Você está zangado porque estou bêbeda.estava sentado ao lado de Lola. Mathieu calou se. As pessoas começavam a sair. uma sala gordurosa e forrada a veludo vermelho. Vem ao meu camarim. — Não — disse Lola —. Está a censurar me. — Penso que gostaria de me drogar. espera que a orquestra toque. quero falar contigo. Aliás. Boris. — Não. respiraria duas pitadas de pó branco. Dançaremos. — Se tiver de ficar em Laon a vida inteira. dando voltas entre as paredes vermelhas. Não dançavam. — Porque se vão embora? — Vão conversar. Lola levantou se com dificuldade. No seu camarim. estou cansada.

apoiava obstinadamente a lâmina . serei ainda mais decente do que você. — Divirto me muito — disse ela. está suspenso no vácuo como um diamante. — Que é que essa quer? — disse de repente. Sentia se fraco e desanimado. Estava encostada à cadeira.» Já não sabia que fazer das mãos. você também é decente. Percebeu a ruga rancorosa no rosto de Ivich. «Que chatice». Gostaria de permanecer indefinidamente à mesa. viver do princípio ao fim um novo dia. Pegou no canivete de Boris pelo cabo. — Está a falar comigo. sob aquelas luzes artificiais. porém não transpirava. Quando eu ficar dez anos em Laon. — Quem? — Essa mulher de preto. — Cale se. peco lhe. Dissera de manhã: «Tenho horror às mãos húmidas. telefonar a Marcelle. — O quê? — Este momento. apoiou a lâmina contra o bordo da mesa e divertia se fazendo a curvar se. ficarei satisfeita. — Eu não sou decente. de olhos esbugalhados. teria dado tudo para não ter havido histórias. Sentia se preguiçoso e covarde. o marido tinha acordado e olhava Ivich. Mathieu olhou a. Eu sou eterna. tomou um ar majestoso. porque é decente — murmurou Ivich dirigindo se ao canivete. Hoje de noite enterro a minha vida de solteira. estou bêbeda.tinha dançado sem parar. Desde que chegou que não pára de me censurar. com a minha mãe e o meu pai. pensou Mathieu. de Ivich. não pensava em nada. creio. De vez em quando dizia com os seus botões que o Sol se ia levantar dentro em pouco e que teria de recomeçar as suas diligências. ao meu lado. — Se chumbar. não tinha nenhum desejo. ficara pálida. com uma voz de bêbeda. E redondinho. Estava naquele estado de exaltação que um incidente qualquer pode transformar em furor. Odeio a decência — gritou repente. vou chumbar. A mulher de preto olhava Ivich pelo canto do olho. os olhos maus e vagos e pensou: «Não devia ter falado. não é verdade! — Acho que sim. J E A N P AUL SARTRE — Então — disse Ivich —. Ivich. a Sarah. — Que me importam os exames — disse Ivich. Sorriu e afirmou com êxtase: — Brilha como um pequeno diamante.» A mulher de preto compreendeu que falavam dela. estou a divertir me. Mathieu voltou a cabeça. Não tenha medo. — Essa mulher despreza me. Ivich olhou o com uma expressão cortante. É verdade. e isso afigurava se lhe incrível.

mais uma indecência para divertir a senhora. — Atreve se a tocar em mini? Acrescentou. — Você é doida! Vamos ao toilette fazer um curativo. — Que é que há? — perguntou Mathieu. culpados são os que a trazem aqui. maníaco e contente ao mesmo tempo. «o escândalo». Parecia espiar qualquer coisa. — O meu sangue. — Ivich — gritou Mathieu —. Parecia louca.. mas ela desenvencilhou se violentamente. e pensava na dor que ela sentia. inquieto. para os ombros de Mathieu. e uma pesada gota de sangue caiu sobre a toalha. Quero ver como suporta o sangue. sem se levantar. Gosto de ver o meu sangue..contra a mesa e forçava a a curvar se. peco lhe. e Ivich deixou o pegar no canivete. — Um curativo? — Ivich riu. «Pronto». Fez se um silêncio pesado e em seguida a mulher de preto voltou se para o marido. — Não compreendo como é possível portar se como essa rapariga — disse. A vizinha de Ivich deu um gritinho e pôs se a pestanejar. Quieta de mais. contemplava os dedos magros de Ivich. JEAN PAUL SARTRE Agarrou Ivich pêlos ombros. Ivich. venha depressa. com um riso insultuoso: . — Venha. — Nada. A carne abrira se desde o polegar até o mindinho e o sangue gotejava devagar. as suas mãos! Ivich troçava com um ar vago. ergueu a cabeça. Mathieu olhou precipitadamente as mãos de Ivich. Ivich tornara se pálida. sem opor resistência. dir se ia o vaivém de um formigueiro. — É uma sensação muito agradável — disse Ivich. O marido olhou. Segurava o canivete com a mão direita e rasgava a palma esquerda aplicadamente. Ivich ouvira com certeza. Eu. Mathieu estava desvairado. — Hum? — Não é culpa dela — continuou a mulher —. Erguera a mão à altura do nariz e examinava a com expressão crítica. que se enchiam de sangue. — Acha que ela vai desmaiar? Mathieu estendeu a mão por cima da mesa. receoso. — Parece um pedaço de manteiga. maldosamente. com um ar estranho. pensou Mathieu. Ivich olhava para Mathieu com os olhos a brilharem de ódio. — Está a compreender o alcance do que me está a dizer? Mathieu levantou se. — Basta — disse Mathieu. Estava quieta. O sangue escorria. mas não disse nada.

«Brunet tem razão em achar que sou uma criança velha. imagino. e depois riu também. Ivich levantou se docilmente.— Devia ter imaginado que você acharia isto excessivo! Escandaliza se com o facto de que se possa brincar com o próprio sangue. pensou. tinha visto coisas piores. Era uma faca da casa? . e o empregado acorreu: — Minha senhora. Sentou se de novo. Atravessaram a sala atrás do empregado. inquieta. Não era apenas para enfrentar Ivich que tinha feito o golpe. sem dizer nada. o canivete ficou enterrado na carne. Quando o largou. acho isso encantador. — Oh! — disse ela —. o sangue que escorria em volta da lâmina. Sentia se terno e maciço e tinha medo de desmaiar. Mas havia nele uma satisfação obstinada e uma má vontade deliciosa. Olhava Ivich. À esquerda ouvia se um tumulto ameaçador. de pé. deseja alguma coisa? A mulher de preto apertava o lenço sobre os lábios.. Mathieu não lhe dava ouvidos. era igualmente um desafio a Brunet. Mathieu arrancou rapidamente o canivete do ferimento e doeu lhe muito. tire. — Ferimo nos com este canivete. O tumulto ampliou se. — Um acidente acontece tão depressa.» Não podia deixar de se sentir satisfeito. Ivich. Um jogo para meninas nobres. Desta vez. Ivich olhava a mão de Mathieu. Era a opinião pública.. como foi que fez isso? E o senhor? — Estávamos a brincar com uma faca. a Daniel. — Ah!. Ivich contemplou o. — Como isto me diverte! — disse Ivich. secamente. Apontou Mathieu e Ivich. Era tão cómico que Mathieu deu uma gargalhada. «Sou um imbecil». cerrando os dentes. — Se quiserem ir ao toilette — propôs —. Depois fixou Mathieu. ah! — exclamou Ivich. com o cabo para o ar. lamento. Disse docemente: — Porque fez isso? — E você? — perguntou Mathieu. O empregado não se impressionou. Riu tão fortemente que a mão lhe tremeu. tinha o rosto completamente mudado. — Meu Deus — exclamou a mulher do toilette —. tanto. — Qualquer pessoa pode fazê lo. à vida. — Aí está — observou a mulher. Enfiou o canivete de um golpe na palma da mão e não sentiu quase nada. Duas gotas de sangue caíram no chão. estendeu a mão sobre a mesa e disse docemente: — Excessivo? Não. compungida —. há lá tudo quanto é necessário. tire! — Está a ver? — disse Mathieu. com as mãos feridas levantadas. Mathieu sentiu que empalidecia de raiva.

ligeiramente congestionada. Pronto! — Vai dizer me que sou indiscreta. É profundo o corte — disse.. uma senhora atirou um copo à cara de um dos nossos clientes. — Um pouco de paciência. tinha a impressão de que uma boca se abria na sua mão. J E A N P AUL SARTRE Abriu um armário. Mathieu e Ivich sorriam. gravemente. tesouras. — Não se inquiete. Você estava sozinho. depois «Homens». depois juntou a palma da mão esquerda à palma ferida de Mathieu. — Bem vê que nem tudo está perdido.. — A mulher do toilette saíra do armário. — Parece me que pensava em mim. . agulhas. Leu: «Senhoras». — A mistura dos sangues — explicou. Abriu uma lata. Ele sangrava. — Pois não — respondeu Ivich. — Há pouco? — Sim. — Não deve ser muito desagradável esta profissão — disse. é tintura de iodo. em letras douradas sobre as portas esmaltadas de cinzento creme. tive medo por causa dos olhos. Anteontem. Mathieu apertou lhe a mão sem falar e sentiu uma dor forte.— Não. tirei lhe um pedaço de vidro da sobrancelha. — A minha mão também. — O diabo — disse Mathieu. — Está bem equipada — disse ele. — Aqui está tudo — disse ela. e o coração dilatou se lhe. hesitou um instante. quando Boris convidou a loura. Mathieu viu um frasco de tintura de iodo. A mulher movimentava se em volta de Ivich. agora. Sentia se feliz. encantada! Ela contemplava o com uma expressão de ternura e selvajaria. vai arder. A embriaguez de Ivich parecia ter passado. A — Há dias em que não é brincadeira. gazes. respirou um cheiro de desinfectante. vou tratar de tudo. — Bem sei. e metade do corpo desapareceu lhe dentro dele. — Faz me doer — gemeu Ivich. examinado o ferimento de Ivich. — Ah! estava a estranhar. — Nunca imaginei que fosse fazer isso — disse Mathieu. — Dói. Olhou o chão de ladrilhos brancos. Ouviu se um ruído molhado. Ela meneou a cabeça. Mas queria saber em que pensava quando eu estava a dançar com Lola — disse Ivich a Mathieu. alegre.

J E A N P AUL SARTRE — Amanhã vou pentear me assim. você estava. vai arder. — Está zangada? — Olhe para ela! Mathieu olhou. — Tinha lhe dito que o encontrara no Bulevar Saint Michel. Parece que lhe tinha dito outra coisa antes. sou horrivelmente feia. Lola. — Oh! — disse —. ia cantar. fixando um olhar de amador nas mãos deles. Mathieu reparou que ela tinha um buço cinzento. quase bonito. . Inclinou a cabeça e calou se. — Que derrota — disse Mathieu.— Eu olhava o. — E Lola? — perguntou Mathieu. — Pronto — disse a mulher do toilette. — O quê? — Disse que Picard fora a minha casa e que eu o tinha recebido no meu quarto. olhava Ivich. Fiz uma asneira. Olhavam contentes para as mãos enfaixadas. — Cuidado. — Ai! — disse Boris. de pé no meio do palco. mas não prestou atenção. Pronto! Mathieu sentiu o ardor. — Eu creio que penso sempre em mim. A mulher de preto e o marido tinham desaparecido. Boris tornou se sombrio.. — Dê me a sua mão — disse a mulher do toilette para Mathieu. Tinha um rosto irritado e triste. — Vocês magoaram se? — Foi o estupor do canivete — respondeu Ivich. — Sim — respondeu Ivich —. A mulher corou de prazer. é natural. a senhora é hábil como uma enfermeira. Se pudesse conservar sempre essa expressão! — Não se pode pensar sempre em si próprio! Ivich riu. e o largo rosto apareceu inteiramente nu.. — Parece que corta bem — observou Boris. Mathieu pôs dez francos no pires e saíram ambos. que se penteava desajeitadamente diante do espelho. Boris esperava os à mesa. Mathieu sentiu um desejo áspero e desesperado. — Vai mal. — Acho que gosto ainda mais dele do que do outro. O dancing estava quase vazio. Mathieu não achou nada para dizer. vinguei me. No nosso ofício há muito trabalho delicado. Na mesa estavam duas taças de champanhe meio vazias e uma dúzia de cigarros num maço aberto. E o meu rosto secreto. — Você é linda — disse. segurando os caracóis com a mão ferida. — Obrigado. — Não — atalhou Ivich rindo —. Acabou atirando os cabelos para trás. sei lá.

Enfiou a roupa e desceu a escada a assobiar. Abriu a torneira do lavatório e mergulhou a cabeça na água. imperceptivelmente.» Eram nove horas. O montículo de gaze branca em cima da cama era a sua mão esquerda. Saltou da cama. Uma verdadeira manhã. «Um pequeno diamante». Ivich contemplava com ternura a mão enfaixada. Sorriu. «ela disse: "Um pequeno diamante. «Ela disse também: "Sou eterna.» A vida caíra lhe aos pés. — Ivich! — disse com ternura. mas saltar lhe ia por cima... A culpa foi minha. A porteira entregou lhe um sobrescrito amarelo. a poltrona verde. Marcelle! Mathieu sentiu um gosto amargo na boca. baixo e cinzento. e deixá la ia atrás de si na pele inútil. o dancing cheirava a madrugada. Esquecera se de Marcelle. Queres passar por minha casa ao meio dia? Desejaria conversar sobre Daniel». já estou habituado."» Lola começou a cantar. «No Dome às dez. não conseguirei dormir. o céu. escrevia Daniel. pensava Mathieu. embaraçava lhe os tornozelos. a sua maldosa pureza. parecia uma colcha pesada que o envolvia ainda.» Ela dissera ainda: «Estarei lá antes de si. «Bom». «Meu caro Mathieu». num canto sombrio. pensou. tinha a impressão de estar sentado lá fora. não pensava em nada. «Vai mudar de penteado». XII «N o Dome às dez horas. Fora do dancing. O sono.— Desculpe — disse Mathieu. Acredita que lamento muito.» Ivich estava lá. «Eu também me levanto cedo. porém objectos anónimos de íerro e madeira. fora da vida. Se fosse necessário. a lâmpada. A cama. pensou Mathieu. — Não tem de quê. e o calor era menor do que na véspera. tinha o mesmo rosto mentiroso e triangular de sempre. utensílios: passara a noite num quarto de hotel. a frescura. a secretária. J E A N P AUL SARTRE — Há uma carta para o senhor — disse a porteira. num banco. Viu logo a mão enfaixada. era preciso que fosse fácil! Sarah faria com que o médico esperasse alguns dias.. a alvorada cinzenta tinham invadido a sala. E depois isto passa. «vou vê lo. mas deve ter encontrado uma solução.» Mathieu acordou. A rua estava deserta."» Estava feliz. Ele não quer largar o dinheiro. mas não pude mesmo juntar a importância de que necessitas. «falei com conhecidos meus. e os caracóis . Doía lhe. Ela ergueu os olhos para ele. Era de Daniel. mas o resto do corpo estava bem disposto. A vida parecia lhe fácil. Calaram se. já não eram seus cúmplices. Empurrou as persianas.. mandaria o dinheiro para a América.

. São nove agora. e Mathieu continuou com vivacidade: — Mesmo que chumbasse não estaria ainda perdida. Ivich. Sentou se. era insuportável. Ela percebeu que ele olhava para as mãos enfaixadas. Conhecia Mathieu. — Como vai.. era manhã. não se põe um anúncio nos jornais? — Ouça. E. é exaustivo. Dê me um chá e duas maçãs. — Sim. teremos muito tempo para pensar nisso. A noite parecia ter deslizado sobre ela. — Hei de fazer qualquer coisa para não ficar em Laon. — Vê se ala sem saber. Quando sentiu que o coração estava vazio. Quinze horas ainda até à hora de dormir! Ivich pôs se a falar em voz baixa. mas poder se á experimentar. — E às duas horas. Ivich. levantou a cabeça. de joelhos. Retirou lentamente a dela e escondeu a debaixo da mesa. «Nada influi nela». Ele contemplou a sem falar. Disse: — Acha que me aceitariam numa loja como caixeira? — Nem pense nisso. mas não tinha a menor esperança. insuportável. mas como me vão receber agora? Calou se. ainda não chumbou. — Nada. Tinha a tez amarelada da manhã. — Não parece muito alegre. de todas as manhãs. Acrescentou com uma expressão preocupada e envelhecida: — Em casos como este. Sinto as horas caírem sobre mim. — Dois meses em Laon — disse Ivich com raiva. com um ar atormentado. Por exemplo: poderia ir passar dois meses a casa. Sr. O empregado aproximou se. — Conseguiu dormir um pouco? — perguntou Mathieu tristemente. com certeza que havia de encontrar qualquer coisa. teria lá ido passar as suas férias. E depois. Mathieu? — Bem. Não pôde deixar de observar: — Não levantou os cabelos? . Vou lavar pratos. Ivich encolheu os ombros. e Mathieu não disse mais nada.escondiam lhe metade das faces.. Recomeçara a puxar os caracóis como uma maníaca. É o exame? Ivich respondeu apenas com um gesto de desprezo. entretanto eu procurava.. pensou. Olhou as mesas vazias. Não mudara de penteado. J E A N P AUL SARTRE Falava com uma expressão de convicção serena e bem humorada. Uma mulher lavava o chão. Houve um silêncio de que Mathieu se aproveitou para enterrar as recordações nocturnas. — De qualquer maneira. Sabia que se por acaso descobrisse um emprego ela se despediria ao fim de uma semana. O Dome acordava. — E manequim? — É pouco alta.

Mathieu não respondeu. porque passou a noite com Lola. porém não pôde ir até ao fim. Repetiu energicamente como se desejasse intimidá lo: — Estava completamente embriagada. maquinalmente: — Lola morreu! Ivich voltou se para o irmão. Boris levantou dois dedos à altura da testa para fazer o gesto habitual de saudação. Agarrou o pelo braço e forçou o a sentar se ao lado de Ivich. Apoiou as mãos sobre a mesa e pôs se a balançar sem dizer nada. ligeiramente irritado. Mathieu ficou alguns instantes sem compreender. Boris não respondeu. Sorria sempre. — Suicidou se? — perguntou. — Não parecia tão embriagada como isso. e de repente sentiu se invadido por um espanto escandalizado. que parecia procurá lo do lado de fora. .. Perguntou. mas as mãos dele começaram a tremer. Tinha a impressão de que a todo o instante lhe faziam perguntas exigindo respostas imediatas. — Lola morreu — disse Boris. — Ora — disse ela impaciente —. — Prometeu me ontem — atalhou ele. Olhava para a frente fixamente com uma expressão estúpida. quando o prometeu. contrariado. Recuara um pouco como se tivesse medo de lhe tocar. — Olá! — disse Mathieu. viu ao longe a silhueta hesitante de Boris. E olhe o ar que tem! Boris vira os. secamente. — Que é que tens? — perguntou Ivich.— Bem vê que não — respondeu Ivich. estupefacta. estava lívido. tomado de repentina e desagradável suspeita: — Disse lhe que viesse? — Não — respondeu Ivich. — Devia encontrá lo ao meio dia porque. — Boris! — disse. Vinha em direcção a eles. de olhos esbugalhados. Sorria.. que tem isso? Vocês são impossíveis com as promessas. — Estava bêbeda. Repetiu. «Como arranjar cinco mil francos antes da noite? Como fazer para trazer Ivich a Paris no ano próximo? Que atitude tomar para com Marcelle?» Não tinha tempo de voltar às interrogações que desde a véspera lhe enchiam o pensamento: «Quem sou? Que fiz da minha A vida?» Como voltasse a cabeça para afastar de si essa nova preocupação. Nem se podia pensar em interrogá lo imediatamente. Tinha os olhos muito abertos e fixos. — O quê? Encarou Boris. — Pareces Frankenstein.

durante a discussão. — Depressa. tu estás aí. e a morte estava entre eles. — Tens a certeza de que ela morreu? — Tomou a droga esta noite — explicou Boris. com dificuldade. Não era um acontecimento. Mathieu sentia se mole e vazio.. — Deixe — disse —. Boris parou de rir. Ivich encarava o fixamente. Eargou o cálice e murmurou como para si mesmo: — Não é nada divertido! A — Querido! — disse Ivich aproximando se dele. O empregado afastou se e voltou com uma garrafa e um cálice. a mesa de mármore e o rosto nobre e maldoso de Ivich. com irritação. de um modo inquietante. era uma atmosfera.. «Ela não está a ver bem». pensou Mathieu. contará mais tarde. Não parecia dirigir se a eles..— Responde! — repetiu Ivich. com ar estúpido. um conhaque — disse Mathieu com naturalidade. as tuas mãos estão quentes — suspirou Boris. Calavam se os três. — Subimos para o quarto e ela tomou a droga. — Ela suicidou se? Suicidou se? O sorriso de Boris abriu se. — Agora conta — disse Ivich. se vocês. Já tomara antes. Mathieu olhava para Ivich com espanto. Só então começava a perceber os efeitos da noitada. Boris tornou a falar com voz surda. Os lábios dançavam lhe. — Oh!. no camarim. mas o lábio superior arreganhava se lhe de modo estranho sobre os dentes miúdos. anónima e sagrada. olhou o resmungando. segurou o pêlos cabelos e sacudiu lhe a cabeça. — Parece me que ela tomou cocaína quando você estava a dançar .. Boris bebeu docilmente. de boca aberta. — O rapaz está com muita pressa. uma substância pastosa através da qual Mathieu via a chávena de chá. — As coisas não iam bem entre nós. nervosa. — Então ela envenenou se? — Não sei. — E para o senhor? — perguntou o empregado. Aproximara se e contemplava Boris com ironia. — Querido! Sorriu lhe com ternura. Não fale agora. Mathieu deu lhe uma bofetada seca e silenciosa com a ponta dos dedos. Boris começou a rir: — Se vocês. — Beba — disse para Boris. aliviado. — Essa já devia ser a segunda vez — observou Mathieu.. puxando os caracóis. Ela acariciava ternamente a mão do irmão..

e eu não podia dormir. Apanhei um táxi e vim. — Sim. Saltei da cama. Contemplariam o corpo sumptuoso com um misto de concupiscência e de interesse profissional. Mathieu pôs se a pensar no corpo de Lola. vesti me — continuou Boris. — Então — disse Boris com lassidão — foram três vezes. . acho que a vão descobrir ao meio dia — disse Boris com um ar preocupado. Então empurrei o braço com toda a força e ela quase caiu no chão. Perguntei: «Que é que tens?» Não respondeu. sirva depressa — observou Mathieu. Eu disse lhe: «Tira o braço. Mathieu esforçava se por ter pena de Boris. — Mora sozinha? — perguntou. — Agarrei nas minhas coisas. Inclinara se sobre ele. — Tão urgente como o primeiro? — perguntou o empregado a sorrir. nunca mais os esquecerei. — Vá. — olhou a e disse bruscamente: — Isto horroriza me. dobrariam as cobertas. Pensei que íosse para fazer as pazes e peguei lhe no braço. estendido numa cama de um hotel. pensando que por vezes a profissão tinha as suas vantagens. levantariam a camisola l A para verificar se havia ferimentos. Nunca tomava tanto. mas não conseguia. secamente. Parecia pedir uma informação. — Outro conhaque. Boris enojava o vagamente. — Não queria que me encontrassem no quarto dela. Estava J E A N P AUL SARTRE gelado. Parecia que odiava Lola por ter morrido. Já nada lhe restava daquela graça e rígida. Boris desconcertava o ainda mais do que Ivich. O seu novo rosto assemelhava se demasiado ao de Ivich. Ela saltava na cama. — Estás triste? — perguntou Ivich docemente. Esvaziou o copo e continuou: — Acordei cedo porque abafava. Vi lhe os olhos — murmurou com uma espécie de raiva —.» Ela não o tirava. Ninguém me viu sair. — Pobre querido — disse Ivich. Os olhos estavam abertos. Estava estendido na cama por cima de mim. De repente. Chamou o empregado.com Ivich. — A criada costuma acordá la a essa hora. Era o braço dela. sufocas me.. com voz monótona. Teve um arrepio. Uns homens de chapéu de coco iam entrar no quarto. Deitámo nos sem falar. — Daqui a duas horas — observou Ivich. Disse: — Olha para mim! Estás triste? — Eu. não havia ninguém na porta. porém sem demasiada compaixão. agarrei lhe o pulso e puxei a para a endireitar.. ficou quieta e eu adormeci.

irritado. Perguntou: . — É a primeira coisa que encontrarão. — Eu. Fez se silêncio e em seguida Mathieu percebeu que Boris o olhava de esguelha. o pai! — atalhou Ivich. — Cartas que lhe escreveu? ^ — Sim. mas poderá ir até de autocarro. — Estão a ver o sarilho! — Talvez não as encontrem — disse Mathieu. «Cá está». pensou Mathieu.. Boris falava normalmente em calão. Mathieu tinha a impressão de que ele representava. Apanhe um táxi se quiser. deixei as em casa dela. — Como pudeste escrever essas coisas! Boris levantou a cabeça. lívidos e descompostos. J E A N P AUL SARTRE — Boris! És doido! — disse Ivich. Não desejava que ele fosse preso por minha causa. — Também tomava cocaína? — perguntou. uma pobre astúcia desarmada.. Estava ligeiramente ressentido. Boris desviou o olhar. a quem comprei uma vez para Lola. Encolhidos um ao lado do outro. Bruscamente gritou: — C'os diabos! Ivich sobressaltou se. «Há qualquer coisa no ar». com uma expressão de astúcia na boca. Ela bate até que Lola lhe responda. Boris deixava se acariciar. — Você disse que a criada vai acordá la ao meio dia? — perguntou. Acariciava os cabelos do irmão com uma expressão de piedade e triunfo. — Vai ficar danado! — E capaz de me chamar para Laon e de me enfiar num banco. «São assim! É assim que eles são!» Ivich perdeu o seu ar vitorioso. porque Boris nunca lho tinha dito. mas não tinha o hábito de praguejar. — Fazes me companhia — disse Ivich com uma voz sinistra. — Não quero lá voltar. pareciam duas ovelhinhas. — Sim. — Que é que aconteceu? — perguntou inquieta. Mas falo de um tipo da Boule Blanche. Na melhor das hipóteses serei chamado como testemunha. — E que tem isso? — O médico! O médico vai saber que morreu intoxicada! — Você falava de drogas nas cartas? — Falava — respondeu Boris. uma vez ou duas por curiosidade. abatido. São dez e meia. — Oh!. — Pois bem.Tinha retomado os ares de irmã mais velha. pensou Mathieu. — As minhas cartas! Que estúpido. Mathieu contemplou os com piedade. Tem tempo de ir sossegadamente buscar as cartas. Mathieu não compreendia.

Boris parecia aliviado. eternamente desclassificada. Acrescentou mais baixo: — Estou de volta dentro de urna hora.» Mas não lhe cabia a ele lamentá la. Só a essa pequenina alma cabia a responsabilidade esmagadora de pensar nela e de redimi la. segundo quarto à esquerda. — Esperamos — disse Boris. iam reconstituir o seu mundo irrespirável e precioso. Disse repetidas vezes «uf!». como uma censura. as minhas estão amarradas com uma fita amarela. mora também no terceiro. diante da janela. Demorou um bocado e acrescentou afectando indiferença. terceiro. o dinheiro. A morte de Lola ficaria eternamente à margem do mundo. Falara em tom de comando. — Esperem me aqui — disse Mathieu. Mathieu assobiou baixinho.» — A maleta está fechada à chave? — Está..— Isso é lhe realmente impossível? — Não posso. É essa. Pensava: «Não perde a cabeça o rapaz. Mas sentia horror. Levantou se. Ivich continuava a olhá lo. diga que vai ver Bolívar. Notas*"" Notas. Mas tanto se lhe dava. a gravidez de Marcelle. — Há «massa» também. — Qual é o número do quarto? — Vinte e um. «Morreu como um . Em volta dele havia as preocupações da véspera. gostava dela. Vê se logo. Se Boris tivesse tido ao menos uma vaga tristeza. sentia se contente por estar só. «Pobre Lola. prevê tudo. é o negro do Kamtchatka. é só empurrar. Conheço o. até o pagamento. passando a mão no rosto e esfregando as faces. E acrescentou com um ar de admiração e imensa gratidão: — Você é um tipo de ouro. Há um molho de chaves e uma pequena chave chata. Aquela morte era maldita porque não recebera nenhuma sanção e não lhe competia sancioná la. há uma porção de cartas. Mathieu viu que Ivich o observava: A — Onde estão as cartas? — Numa mala preta. — Bem — disse Mathieu —. a chave está na bolsa de Lola sobre a mesa de cabeceira. Ela caíra pesadamente dentro de uma pequenina alma medrosa e perturbava a. Ivich e Boris iam agora J E A N P AUL SARTRE começar a cochichar. o amor por Ivich. Em cima da mala há outra maleta. e no meio uma mancha negra: a morte. Mathieu deu alguns passos no Bulevar Montparnasse. vou lá.. Atirou os cabelos para trás com a graça habitual e disse sorrindo levemente: — Se alguém lhe perguntar alguma coisa.

Tudo nela estava em suspenso. «Não olharei. desse homem cansado. ainda agora. — Na esquina da Rua Navarin com a Rua dês Martyrs — avisou. flutuava à margem do mundo. A consciência dela aniquilara se. e cada novo dia tinha novo futuro. o táxi entrou no estreito gargalo da Rua du Bac. Mathieu contemplava o desfile dos grandes edifícios tristes do Bulevar Raspail. era dele. ele tal qual era agora. de futuro em futuro. Baixou a cabeça. O seu passado sofria sem cessar os retoques do presente. o dia em que dissera «Serei livre». como se. de repente. Tinham direitos sobre ele e através de todo aquele tempo decorrido mantinham as suas exigências e ele tinha amiúde remorsos esmagadores porque o seu presente negligente e céptico era o velho futuro dos dias do passado. tivesse alcançado de si próprio perdão por já não ter a idade de Ivich. como os corpos são feitos com o vácuo». «Uma vida». flutuava.. pensou com amarga vaidade.cão!» Era um pensamento insuportável.» Estava morta. de brilhos sombrios. o dia em que dissera «Serei grande». aquela vida deserta parara simplesmente. a vida de Mathieu deslizava docemente. com o futuro particular. em direcção a quê? . como se a mocidade subitamente já não tivesse valor. acabava de sofrer a última metamorfose. inesquecível e definitiva. O futuro penetrara a até à medula. ou se tornassem os primeiros sinais de um destino. sentiu se mais calmo. cheia de gritos sem ecos e de esperanças ineficazes. Experimentava mesmo um sentimento de tranquila superioridade. «é feita com o futuro. Era ele que tinham esperado vinte anos. Repetiu: «Dependem de mim. Era melhor que o táxi não parasse em frente do hotel. ou melhor. Abandonada pelo animal mole e sentimental que a habitara durante tanto tempo. cansado e amadurecido.. dependia dele que os juramentos infantis permanecessem infantis para sempre. entre parênteses. «Dependem de mini». de espera em espera. e repentinamente Mathieu inteirou se de que Lola morrera. apareciam lhe. cada dia vivido destruía um pouco mais os velhos sonhos de grandeza. de figuras e de perfumes mortos. e esse futuro era ele. Depois os vidros escureceram. mais indestrutível do que um mineral e nada a podia impedir de ter sido. Os dias mais recuados da sua infância. Pensava na própria vida. Quando se sentou no carro. de que ia entrar no quarto dela. ver os grandes olhos abertos e o corpo branco. que uma criança dura exigira a realização de suas esperanças.» Sentiu se sólido e mesmo até um pouco pesado. — Táxi! — gritou Mathieu. Mas não a vida. O seu futuro coagulara se. pensou Mathieu. como um pequenino céu pessoal e bem redondo em cima deles.

mais pesados. empurrou a porta do hotel. parando as. A sala parecia vazia. que jurara ser uma grande cantora. ouvia se apenas o tiquetaque do relógio. Tudo dormia. como se fosse um sentimento humano. não fora senão uma espera. A chave estava na porta. A cama ficava à direita. as noites de amor que lhe tinham parecido mais eternas não passavam de esperas. — Lola — disse em voz baixa. Tinha havido com certeza. ainda ontem ela esperava viver e ser amada um dia por Boris. pensou repentinamente Mathieu. sem objectivo. A freguesia habitual do hotel cantores. a olhar. a questão não tinha sentido. ele esperava o seu sentido do futuro. ficara em suspenso desde o primeiro dia. estava ansioso por ler a morte no rosto de Lola. num Verão passado. Lola não respondeu. nada mais senão uma vida vazia. nunca ninguém saberia se Lola teria afinal sido amada por Boris. um barulho líquido e uma espécie de assobio. um dos seus . absurdas. negros do jazz deitavam se tarde e acordavam tarde. uma menina de caracóis ruivos. O quarto estava escuro e conservava ainda um cheiro húmido de sono. Elas continuavam imóveis. muito branca. Parou no patamar do terceiro e olhou em volta. obscuro e vacilante. Estava morta. Pensou em Lola. «E preciso que não suba depressa de mais». «Se eu morresse hoje». — Espere — disse ao motorista. Mathieu ouviu o ruído da água a descer. «ninguém saberia se estava realmente lixado ou se tinha ainda possibilidade de me salvar». de cores confusas. Tinha um rosto extraordinariamente expressivo. nem uma prece.» Mathieu deitou uma olhadela através do vidro. os momentos mais cheios. como a de Mathieu. Em cima de uma porta envidraçada um rectângulo de esmalte: «Gerência. Atravessou a rua em diagonal. e que se abatia sobre si mesma. entrou no vestíbulo escuro e perfumado. Não tinha havido nada que esperar. Mathieu viu Lola. Não havia tido de esperar. Ainda ontem. Mathieu perscrutou a penumbra. No quarto andar um hóspede puxou o autoclismo. Ninguém respondeu. Mathieu desceu. e também lá por volta de 1923 uma jovem cantora impaciente por se tornar um cartaz. Ouvia as pancadas do coração e tinha as pernas a tremer. pensou. por causa do qual tanto sofrera. Os seios estavam descobertos. no fundo do quarto.Em direcção a nada. mudas. e a vida dela. porém indecifrável. «E se houver alguém lá dentro?» Escutou com atenção uns momentos e bateu. A morte desabara sobre todas essas esperas. Empurrou a porta e entrou. O táxi parou. esse grande amor de velha. não havia mais um gesto a fazer. dançarinos. já nada havia senão esperas de esperas. E o amor por Boris. nem uma carícia. Lola estava morta.

pensava: «Sou um fraco. Não podia arredar o olhar daquele busto orgulhoso. e observou as notas com perplexidade. Os dedos abriram se e as notas caíram em rodopio dentro da maleta. Lola escondera um pacote de cartas amarrado com uma fita amarela. mergulhou as mãos na maleta e sentiu uns papéis amarfanharem se entre os dedos. muitas notas. lutar contra . Atrás dele. Ergueu a tampa.» Depois enfiou o pacote no bolso. depois virou se. Subitamente. pôs a chave no bolso e saiu do quarto. para fazer de trágico diante das rapariguinhas. Sou demasiado delicado. o outro estava debaixo das cobertas. Mathieu levou o pacote à luz. com a mão no corrimão da escada. Mas não podia arredar pé. como um J E A N P AUL SARTRE olhar. E não pude. Sob um monte de recibos e de notas. A chave chata estava ali. A luz ofuscou o. Pensou: «Saí do buraco». A esquerda segurava um maço de notas. Mathieu ajoelhou se diante da maleta. Uma luz cinzenta filtrava se através da cortina. Mathieu fechou a. sem querer. pensou. escolhendo pelo tacto. Bom rapaz! Depois disso». espantado. «posso dar a mim próprio uns bons golpes de canivete na mão. tinha vontade de a tocar. o quarto estava cheio de uma presença imóvel. e ouvia o corpo silencioso de Lola. e teve medo de verdade. com o olhar fixo nas notas. nunca poderia levar me a sério». Notas de mil francos. sem olhar. mas não se pode ter uma raiva verdadeira contra si próprio.» Escutava atentamente. «Estou pago». rígido. «Saí do buraco. — Lola — repetiu Mathieu avançando para o leito. sentia se pregado no sítio. Levantou se. estendia se sobre o leito.belos braços. Eram notas. Permanecia imóvel. cujos braços pareciam abrir se ainda e cujas unhas vermelhas pareciam ainda arranhar. Ela iria ao consultório da velha. Mathieu pegou lhe e dirigiu se à janela. caberia a ela mostrar se corajosa. pensou em Marcelle. a presença irremediável estava ali. — Bom — murmurou resignado. lembrou se. Ficou durante alguns instantes à beira da cama. havia aquela mulher alta e branca. pensou olhando a mão faixada. examinou a letra e murmurou: «Ei las. na ignóbil velha de mãos de assassina. pegou rapidamente na bolsa que estava na mesa de cabeceira. «Não trouxe o dinheiro».» Esforçava se por tremer de raiva. Introduziu a chave na fechadura. No fim de instantes remexeu nervosamente nos papéis. limpou os joelhos com a mão direita. para que evitasse essa coisa sórdida que ia marcá la. alucinada. inquieto. atrás dele. com cuidado. virando a cabeça. o corpo envenenado por um desejo ácido. hesitante. «Bastava um gesto para que não sofresse. não havia outra solução.

Ela não irá. Isto passará durante o dia. está na mesa de cabeceira. Parecia fazer um esforço para voltar a si finalmente. Murmurou: «Não. Ele está desvairado. — Sente se mal? — Bastante. Mas sei o que é. Deu alguns passos incertos e discerniu afinal o rosto pálido de Lola e os olhos arregalados que o contemplavam. sacudindo a cabeça. enquanto ele ganharia coragem bebendo nos bares. Era uma voz fraca. Casarei com ela. Subitamente. Pousou a bolsa na cama com um suspiro de exaustão e acrescentou: — Aliás. pareço morta. mas irritada. Boris falava Ihe e não lhe respondia. Nem sequer tinha a certeza de poder roubar. «Não. — Quem está aí? — indagou Lola. Ainda parecia morta. Lola não parecia ouvir. — É verdade.a angústia e o medo. Mas logo se calou. evasivamente. — Não foi isso? Pensou? — Teve medo — disse Mathieu. — É Mathieu. — Estou com dor de cabeça — disse ela. de olhos arregalados. Então foi Boris quem o mandou? — Foi. esteja sossegado. não valho muito mais. Puxou as cobertas até o queixo e ficou imóvel. com repugnância. Disse com esforço: — Ele pensou que eu tinha morrido? Mathieu não respondeu.» Pensou premindo com força a mão ferida sobre o corrimão: «Casarei com ela». ela tirou uma caixinha de pó de arroz e olhou se no espelhinho. e pareceu lhe que se afogava. Houve um silêncio demorado. — Uf! Houve novo silêncio. — Onde está Boris? Que está a fazer aqui? — Você esteve doente — explicou Mathieu. com os olhos pregados em Mathieu. Lola perguntou: — Que horas são? — Um quarto para as onze. . «Estúpido». Mathieu estendeu lhe a bolsa. Ela fechou os olhos. não». girou sobre os calcanhares e entrou de novo no quarto. Ele teve medo. Disse de olhos fechados: — Dê me a minha bolsa. — Precisa de alguma coisa? Quer que eu vá chamar um médico? — Não. Encostou a porta como da primeira vez e tentou acostumar os olhos à escuridão. Mathieu sentiu um arrepio percorrer lhe o corpo da cabeça aos pés. — Que é que tive? J E A N P AUL SARTRE — Estava rígida. precipitadamente. só sirvo para isso. pensou. os maxilares tremiam lhe. depois respirou fundo. pôs se a rir de modo desagradável. Em seguida.

. Não estou em perigo.— Está lá em baixo? — perguntou Lola. Apanhei um táxi. São coisas que me acontecem às vezes. ele teve um pavor louco. Vou dizer lhe que venha. Nada de histórias. Eram frases curtas. Diga lhe que venha já. E mandou o aqui para ver se eu estava bem morta. Dirigiu se para a porta. quando. — Então. até logo. Pôs se a rir. Fugiu sem querer saber de mais nada. o que importava era não ter tido a coragem de agarrar no dinheiro. «A cara J E A N P AUL SARTRE que ele vai fazer!».» — Olá — gritou o motorista —.. secas. pouco importava que a sua cobardia tivesse tido consequências favoráveis. Quis afugentar do pensamento a humilhante derrota. Enfim. estou satisfeito de que não tenha morrido. que Boris enviara de Laon durante as férias da Páscoa. De vez em quando havia . pensou. Mathieu estava comovido. desfez o laço e começou a ler. Acrescentou: — Ainda não foi desta. diga lhe que já não estou zangada. — Que é? Ah! — disse. — Não. O pacote de cartas que enfiara no bolso interno da casaco pesava lhe fortemente sobre o peito. Pegou no pacote de cartas. coitado. Ficarei aqui até à noite. Mas continuou secamente depois de um momento: — Diga lhe que se tranquilize. — Está bem. A A cabeça de Lola recaiu no travesseiro.. reconhecendo o táxi. Disse com uma voz suplicante: — Promete que o manda vir? Zangámo nos ontem. Mas que venha! Peco lhe que venha! Não posso suportar a ideia de que me julge morta.. Estou à espera dele. tentou repetir alegremente. À noite já estarei boa. admirado. não precisa mesmo de nada? — Não. erguendo se ligeiramente. que não se falará mais disso. Saiu. — Obrigada. ele foi procurar me. ele que se arranje para a pôr novamente na bolsa». E o coração que fraqueja. e Mathieu pensou que fosse desmaiar. Um riso sufocante e penoso. — Leve me ao Dome. Sentou se e o táxi arrancou. «Fui esperto em não ter pegado no dinheiro. — Bem — disse Mathieu —.» Mas não estava alegre. por aqui! Mathieu voltou se. — Em resumo. Irei cantar. eu estava no Dome. ele sabe. — Lola! — Vá lá. «Mesmo assim. Fechou novamente os olhos. mas Lola chamou o. «tenho de lhe entregar a chave.

Mathieu olhava o sem amizade. em seguida breves relatórios das suas actividades. dir se ia que estava esmagado. Tinha os olhos vidrados. «já começava a habituar se. — Aí estão. — Foi. boca aberta. Boris e Ivich custavam a engolir a notícia. Calaram se.» Mathieu imaginou sem dificuldade em que estado de espírito Lola devia ter lido aquelas cartas.. só que Lola não morreu. com animação. Ao entrar no Dome teve a impressão de que ia defender a memória de uma morta. de ombros recurvos. secamente. Boris ergueu os olhos para ele. — Nada difícil..alusões à cocaína.» Pensou: «E apesar de tudo guardou as. — Não foi muito difícil? — perguntou Boris. pensou Mathieu. Estava ainda desmaiada quando as apanhei. — Essa é boa! — Ela disse que aquilo lhe acontece às vezes quando toma cocaína. não sabe é dizê lo. Boris levantou a cabeça. Prostrou se ainda mais. Estava sentado de lado. narinas crispadas. «Boris terá de se arranjar para as pôr na maleta sem que ela o perceba.» Atou as de novo cuidadosamente e colocou o maço no bolso. — Tê lo ia apostado — disse. . Ivich falava lhe ao ouvido. Ivich parecia ter recuperado o sangue frio. «Ora». — Lola não morreu — repetiu estupidamente. a decepção sempre prevista e no entanto sempre nova e o esforço que devia fazer todas as vezes para dizer a si própria com alegria: «No fundo ele ama me. «Nado. Boris. pensou Mathieu. Conheci um antigo lutador que me vai ensinar o catch. Boris bebeu um trago de conhaque e pousou o cálice na mesa. Este aproximou se e atirou o maço das cartas sobre a mesa. Parecia que Boris não fizera um movimento desde a saída de Mathieu. J E A N P AUL SARTRE Boris não respondeu. pareceu a Mathieu que ele era o aliado natural de Lola. «Não imaginei que ele fosse prudente.» Ivich olhava Mathieu. Fumei um Henry Clay até ao fim sem deixar cair a cinza. de olhos faiscantes.» Quando o táxi parou. Boris pegou lhes e fê las desaparecer no bolso. «Que farsa».» Boris terminava sempre assim: «Amo te muito e beijo te. mas tão veladas que Mathieu se surpreendeu. Disse que você devia saber. — Então o que é que teve? — Simples desmaio — respondeu Mathieu. foi ela que lhe entregou as cartas? — Não. parecia não compreender. Discuti com meu pai.» As cartas começavam todas por: «Querida Lola». Mas não podia pensar nela senão no passado. Mas calou se ao ver Mathieu.

com uma intenção que Mathieu não compreendeu: — No lugar dele. toda esta história é absurda. Ivich fez uma expressão impaciente. será por piedade — disse Ivich —. se virou para ver. Boris olhou o... — Devia ter ficado transtornada ao vê lo ao pé da cama! — Não muito. Boris passou a mão pela testa. com um encolher de ombros. — disse Mathieu. E isso — acrescentou com desgosto —. — Mas não vê que ele a vai matar? Ivich meneou a cabeça. — Está a ouvir? Ela sofre. Boris não se mexeu. Lembre se disso. eu teria feito o mesmo. — Oh!. «Ela está a meter lhe coisas na cabeça». — Há coisas que você não sente — disse. Não vá confundir tudo. mesmo para ela. curiosa. e Boris aproveitou se. Mathieu lançou lhe um olhar de ódio. exibia o seu rostinho irritado e sinistro. Estendeu a mão para agarrar no braço de Boris. — Ela inspira me horror! A — Porque pensou que estaria morta? Boris. — Pois não está — disse Mathieu. Boris. .. espantado —. — Eu. eu pensei que estivesse morta — repetiu Boris como para se desculpar. isso não posso. — Para mim está morta. ela prometeu não falar mais nisso. mas Boris safou se com uma sacudidela violenta. é uma desgraçada. E acrescentou. — Apanhe um táxi. — Então? Boris olhou com uma expressão maldosa. Enganou se. obstinado. com uma obstinação mole e invencível: — Não vou. Eu disse que Boris tinha tido medo e me viera chamar. — Não quero tornar a vê la — afirmou. Naturalmente disse lhe que viera apenas ver o que acontecera. tenha juízo. Ele continuou mais baixo.— Que disse ela? — indagou. — Mas isso é estúpido. — Ela quer que a vá ver imediatamente.. — Não queria dizer lho. a história de ontem acabou. tenho de lhe tocar. E arranje se para pôr as cartas no lugar sem que ela o veja. — Acho que Boris tem razão — disse Ivich. sombrio. vejo a morta. exasperado. pensou. mas se a tornar a ver. não pode haver nada mais repugnante. não pode exigir isso dele. é tudo. as histórias de ontem — atalhou Boris. — Se ele voltar. — Pelo menos tente vê la. Mathieu ficou estupefacto. — Mas. — Não! — disse com a voz tão alta que uma mulher. Mathieu estava farto. vá vê la. — Não sei que fazer. na mesa do passeio. com vivacidade.

Mathieu sentiu se impotente. da doença. — Quer que o vá ver? — Obrigada. Depois. não morrerão tão cedo. nunca se atreverá.. mas estou tranquilo. uma pele de crocodilo. tem de esperar. mas pergunto se o único meio de salvar a mocidade não será esquecê la. Afinal eu tenho rugas. Sentia se cheio de rancor por Ivich. Na véspera.. só fazem projectos a curto prazo. juntinhos. mas reteve se. até que essa recordação se apague. amanhã. Olhou com desânimo aquelas duas cabecinhas hostis. Pensou: «Ele não telefonará.» Levantou se. — Quando saberá o resultado? Às duas horas? — Sim. a dizer se passou. «Pobre Lola! Amanhã sem dúvida Boris voltará ao Sumatra. — Está bem. porque têm medo. Ivich fala em suicidar se. Mathieu desceu à cave do Dome e consultou a lista telefónica. Prometa me que a vê amanhã ou depois de amanhã. Treme diante da possibilidade de ter rugas. Depois. espere um bocado. da velhice. — As duas cabinas estão ocupadas. Enquanto Mathieu esperava. pensou.» Mas continuava pouco à vontade. sentia os lá em cima. Boris vai. noutro toilette. — Preciso de ir a casa de Daniel — disse a Ivich.. Estranha recordação de amor. — Adeus! — Adeus — responderam os dois ao mesmo tempo. . — E quando a voltarei a ver? — Não sei. têm almas sinistras. Quantas vezes vi Ivich massajar o rosto inquieto em frente de um espelho. éramos ridículos. via os esmaltes brandos dos toilettes. Medo da morte. — Mande me um telegrama imediatamente.. mas ainda tenho muitos anos para viver. por entre duas portas abertas. Agarram se à mocidade como um DADE DA RAZÃO l moribundo à vida. Mathieu quis dizer: «Pelo menos telefone a avisá la de que não pode ir». vou eu telefonar.. como se só tivessem diante de si cinco ou seis anos. músculos retorcidos. Começo a crer que nós é que somos jovens... — Não se esqueça — disse Mathieu afastando se.. Mas este dia que ela vai ficar à espera! Não gostava de estar no lugar dela!» — Quer dar me Trudaine 00 35? — pediu à telefonista gorda. Vivem a ruminar a sua mocidade. «Eles têm medo da morte». J E A N P AUL SARTRE — Está bem — atalhou hipocritamente —. — Então — disse —. «Por mais frescos e limpos que sejam. Queríamos parecer homens. Boris pareceu aliviado.

— Pegue no telefone. Foi um momento apenas.» Estava tão cansado de ser atirado de um lado para outro. É para não ser da minha idade que há um ano ando a brincar com esses dois miúdos. Mathieu ergueu o docilmente. a minha liberdade é um mito — Brunet tinha razão — e a minha vida constrói se por debaixo deste mito com um rigor mecânico. Nord 77 80. Em vão. uma opção infantil e vã.» Viu Mathieu. «Isso também é mentira. Entrou. não pude pegar no dinheiro de Lola. Cerrou os punhos e pronunciou interiormente. que me recuso a casar. os tabus deles impediram me.» Puf!. Essa inexplicável liberdade. É para fugir da minha vida que sussurro por toda a parte. mas fascinantes apesar de tudo. asperamente. hesitou. o sonho orgulhoso e sinistro de não ser nada. de oscilar entre correntes contrárias. Leu: «Holle becque.» Tinha aberto o anuário e folheava o distraidamente. autor dramático. cruel. . a estas palavras demasiado humanas: «Hei de casar com ela!» — É a sua vez — disse a telefonista. não preciso de ter vontade para casar com ela. com licença de Marcelle. palavras. acabrunhado. vivo como se fosse casado. «Não pude pegar no dinheiro. de homem.» Sentia náuseas. continuou a andar com passos deslizantes. fez se toda espírito. de chefe de família: «Quero casar com Marcelle.sussurrantes e cúmplices. e foi este homem que beijou a pequena Ivich num táxi. de ser sempre outra coisa diferente do que sou. Em vão. que atingia as aparências do crime. entrou flor na latrina. — Na segunda cabina. Querer casar com Marcelle. os destroços da sua dignidade humana. E estava tão longe. toda perfume. entreviu a apenas. — Obrigado. um vazio. com uma gravidade de pessoa adulta. Estava fora de alcance. Olhava. Encostou se obstinadamente à sua vontade demasiado humana. eis a liberdade que me resta. uma dessas que dizem com uma expressão de menina: «Vou fazer um chichizinho. Ela amedrontava o. Mathieu voltou se e deu alguns passos. A minha única liberdade. Em vão. Sou casado. viva e leve. um adulto. Sou um homem. — Alguém pediu Amsterdão. — Um momento — respondeu a telefonista. Pensou: «Querer ser o que sou. É para não ser da minha classe que escrevo J E A N P AUL SARTRE nas revistas de esquerda. de burguês. «Não pude pegar no dinheiro!» Uma mulher descia a escada. — Esse telefonema vem ou não? — perguntou. Ela ordenava lhe simplesmente que largasse Marcelle.» Fechou o anuário. que quase se sentiu reconfortado. basta deixar me ir. jovem e caprichosa como a graça. E subitamente pareceu lhe ver a sua liberdade. Sou um burguês.

indeciso. Não sou Hourtiguère. — Mas no fim do mês ele já estará longe. B de Bernard. Irei logo a seguir ao almoço. Ninguém o compreendia como a Ivich. Ele não pode ir. Saiu. É só isso. — Bom dia — respondeu a voz rude de Sarah. J E A N P AUL SARTRE — Sim — disse Ivich —. — Quer outra ligação? — Sim.. — Mandar lhe ei o dinheiro para a América. — Então? Arranjou? — Não — disse Mathieu. aproveitar a ocasião. Pode transmiti lo mais tarde. tente. e Boris sentiu um nó na garganta. Ele não pode ir. Acaba de sair. É exactamente por isso que lhe queria pedir se não poderá dar um salto a casa desse tipo e solicitar lhe crédito até ao fim do mês. devia telefonar lhe. — Posso tentar — disse Sarah.. — Estou. Encolheu os ombros. dê me Ségur 25 64. O de Octave. Mathieu voltou. não é Maurice. Obrigado. não se deve falar a ninguém como me falou.— Está? Trudaine 00 35? Um recado para a senhora Montero.. Houve um breve silêncio. — Obrigado. — Como é orgulhoso — disse. olhava a mão enfaixada. É da parte do Senhor Boris. É um velho avarento e atravessa uma crise de hipersionismo: detesta tudo o que não é judeu desde que foi expulso de Viena. — Pois é — respondeu Ivich. Pensou.» Olhou a telefonista. Não. se isso não a aborrece. saiu sem um olhar. — Não me aborrece absolutamente nada. esperava que Mathieu lhe sorrisse ao subir. . — Senhor Maurice? — disse a voz. Sarah. Tinha um ar neutro. você é formidável! XIII E lê é demasiado injusto — disse Boris. coçando a cabeça: «Marcelle deve estar aflita. — Quem? — Mathieu. — Apesar de tudo. Era o número de Sarah. — Esta gente não larga a «massa». acha que não sou moral. — Não.» Olhava para a escada. sem entusiasmo. Sarah. não a incomode. é Mathieu. Ivich não respondeu. mas isso passa lhe. Voltou a cabeça para a escada dos toilettes e pensou com severidade: «Foi longe de mais. — Está zangado — continuou Boris —. e Boris calou se satisfeito. — Se imagina que prestou um serviço a Lola! Deu uma risadinha seca. — Mas será difícil.. E Boris.

Ivich disse. Para o bem dele. Ela sorriu levemente. Acrescentou por espírito de justiça: — Ela é que não deve achar nada disto engraçado. Parecia lhe sempre que não falavam do mesmo Mathieu. e isto tinha o escandalizado. A Ivich riu e Boris ficou chocado. um desarranjo no motor. Que não passava de um estúpido e que tivera um choque terrível ao pensar que Lola morrera.— Não gosto dele quando se torna moral. tinha uma expressão tola e disse de modo cínico: — A moral. mas esse bem variava segundo as pessoas. O de Ivich era mais enfadonho. Achava o sofrimento imoral e. Não me deixou explicar lhe. quando penso agora em Lola. Nesse ponto não ia ceder.. Acrescentou depois de certa reflexão: — Mas eu sou mais moral do que ele. era preciso esperar que se normalizasse. não o podia realmente suportar. Mas alguma coisa falhara.. Ele compreendeu que ela lhe preparava uma armadilha e respondeu vivamente: — Não vou. — Pois então vai vê la — disse Ivich num tom cantante. . não era Hourtiguère. de resto. — É a minha táctica com ele. E não quero que Mathieu imagine que pode fazer de mim o que quiser. Gostava de se aproximar de Ivich. contanto que ele tivesse boa vontade. conciliadora: — Há coisas que não se podem explicar. — Eu dou lhe a impressão disso — disse ele com serenidade. Por moralidade. Ivich tinha boas intenções. Sentira mesmo por um momento que ia sofrer. Fizera então um esforço de domínio sobre si mesmo. mas pensava que se podia explicar tudo a Mathieu. — Ah. Depois. Boris percebeu a sem se zangar. — Eu gosto — atalhou Boris. — E estranho — disse —. Boris não protestou por hábito. Era uma sacanice. tenho a impressão de ser uma velha qualquer. entre ambos. eu estou me nas tintas para a moral! Boris sentiu se só. — Que ar obstinado! Boris não respondeu. continuo a vê la morta. queria que ele rompesse com Lola. Toda a gente tinha sempre em vista o bem de Boris. Ruminava o que devia ter dito a Mathieu. Ivich disse com doçura: — E é bem verdade que faz de ti o que quer. não! — Não quero que ela sofra. Balançou se sobre o banco. — Puf! — disse Ivich. Disse apenas: — Ele é injusto. mas Mathieu ainda estava ali.

com impaciência. Boris acrescentou maliciosamente: — Também está zangado contigo. — Pareces zangada com Mathieu. Não se sentia capaz de tanta força espiritual. — Querido.» . sim!? Ivich fez um ar intrigado e descontente.. mas não consigo. Ivich pareceu achar divertido. — É possível. Levantaram se e saíram. tenho outras preocupações na cabeça. — Por causa do exame? Ivich encolheu os ombros e não respondeu. Pensou: «No mês de Outubro passado ainda não conhecia Lola. — Nem eu — disse Boris. e Ivich olhou o inquieta. É certo que diziam tudo um ao outro. — Ele enerva me. — É estranho — disse —. Ergueu os olhos. A — E verdade — disse Boris. — Bem sei. Agora de manhã dava se ares de homem diante de mim. e em seguida Ivich acrescentou. Deviam compreender se por meias palavras ou o encanto romper se ia. Houve um silêncio. Já não posso suportar mais o Dome.Mas ela pusera lhe o dedo na ferida. Boris pensou que tinha feito melhor se se tivesse calado. — Achas que ele vai ficar zangado muito tempo? — Não — disse Ivich. Ele perguntava a si próprio se seria realmente por causa do exame. Desejava que fosse. Perguntava a si próprio o que queria dizer Ivich. Boris gostava muito do mês de Outubro. — Muito.» Ao mesmo tempo sentiu se livre: «Ela vive. Ele precisava de cinco mil francos. elas deixam de existir. Ivich mordeu os lábios. bruscamente: — Vamos. — Seria muito cómodo.. — disse Boris. tu estás chateada. Basta imaginares que morreu de verdade. Pensarei nisso mais tarde. Mexeu se um pouco no banco. eu consigo. porque seria mais moral. e ele sentiu raiva a Mathieu. — Ah. Parecia Outubro. Passado um instante. J E A N P AUL SARTRE x Boris admirou a irmã. Boris sentiu uma ligeira e tenaz vontade de vomitar. mas não o deixou perceber. mas de vez em quando devia haver algumas excepções. Quando não vejo as pessoas. disse: — Terá levado o dinheiro? Seria bonito! — Que dinheiro? — O dinheiro de Lola. e calou se. Ivich agarrou Boris pelo braço. Andaram um bocado calados. Ivich riu se. confuso —. O Bulevar Montparnasse estava delicioso sob aquela luz cinzenta. pensas de mais.

— Vou. . — Devias escrever lhe. desde que abandonara o cadáver na escuridão do quarto. sentia que ela vivia. mas esse sofrimento e essa angústia só se afiguravam irremediáveis e imutáveis como os sofrimentos e a angústia das pessoas que morrem desesperadas. A escolha recaiu no Dicionário Histórico e Etimológico do Calão. — Não voltarei ao hotel. Alegrou se. Pensou: «Não é possível que Mathieu fique sentido muito tempo. — Eu faço a carta. pensou. mas deveres sérios. mas não insistiu. Não tinha para com ela essas obrigações incertas e temíveis que os mortos impõem. entre Ivich e Mathieu. Naquele momento tinha tanta vontade de perder Lola como de a ver. Lola vivia. — Não queres romper com ela? — Não sei. Ivich pareceu irritada. conhecia os quase todos de vista. ela é capaz de ir lá. mas aquele rosto ainda jovem e carrancudo que lhe mostrara na véspera quando lhe gritara: «Mentira! Não viste Picard. os transeuntes tinham bom ar. Entrou na Mercearia Demaria. — Vamos a ver — disse —. Não foi o rosto de um morto que recordou. descansava de olhos abertos na cama. como quando ele chegava atrasado ao encontro marcado. «É um móvel». talvez. era uma ressurreição. Boris pôde assim evocar sem horror a imagem de Lola. estava dominada por uma cólera viva. Boris esperou a cá fora Sentia se comovido e fraco como um convalescente e perguntava a si próprio o que poderia fazer para ter uma satisfação. não. — Estou com fome — disse Ivich —. apenas mais violenta. Sentia se feliz naquele bulevar. — Sim. visto que ela não morreu. Uma cólera que não era nem mais nem menos respeitável do que as outras.» Até agora sabia que ela sofria. que o esperava angustiada. Era mais correcto.» Mas ao mesmo J E A N P AUL SARTRE tempo sentiu dentro de si um sólido rancor contra aquela falsa morta que provocara todas aquelas catástrofes. Mas como quer que fosse. e havia um raio zinho de sol que cariciava as montras da Closerie de Lilás. Não insistia nunca. — Vai dormir em casa de Claude. O dicionário estava A agora sobre a sua mesa de cabeceira. — Mas a dizer o quê? Ivich olhou o. Mas era um erro. admirada. palerma. Ivich teve uma ideia. Boris tinha de se mover com habilidade. não vale a pena pensar nisso. era assim.Pela primeira vez. vou almoçar. — A Lola? Oh!. deveres de família. — Não saberia o que lhe havia de dizer.

entusiasmado, «foi um golpe de mestre». E como uma felicidade nunca vem sozinha, pensou no canivete espanhol, tirou o do bolso e abriu o. «Que sorte!» Comprara o na véspera e já tinha uma história, ferira duas pessoas que lhe eram queridas. «Corta que se farta», pensou. Uma mulher que passava, olhou o com insistência. Estava muito bem vestida. Voltou se para a ver de costas. Ela também se voltara e contemplaram se com simpatia. — Pronto — disse Ivich. Trazia duas maçãs canadenses. Esfregou uma delas no rabo, e quando a viu brilhante mordeu a, estendendo a outra a Boris. — Não — disse Boris —, não tenho fome. — Acrescentou: — Tu ofendes me. — Porquê? — Esfregar a maçã assim no rabo. — E para limpar — disse Ivich. — Olha aquela mulher que vai lá adiante. Dei lhe no goto. Ivich comia serenamente. — Mais uma? — disse com a boca cheia. — Aí não — disse. — Atrás de ti. Ivich voltou se para ver e arqueou as sobrancelhas, — É bela — disse simplesmente. — Viste o vestido? Ainda hei de ter uma mulher assim. Uma mulher da alta sociedade. Deve ser agradável. Ivich olhava a mulher que se afastava. Tinha uma maçã ern cada mão e parecia oferecer lhas. — Quando me cansar dela, passo ta — disse Boris, generosamente. J E A N P AUL SARTRE Ivich mordeu a maçã. — Isso é o que tu pensas! Pegou lhe no braço, e arrastou o, bruscamente. Do outro lado do Bulevar Montparnasse havia urna loja japonesa. Atravessaram e pararam diante da montra. — Olha as tacinhas — disse Ivich. — É para o saké — disse Boris. — Que é isso? — Aguardente de arroz. — Hei de vir comprá las. Para tomar chá. — São pequenas de mais. — Enchem se várias vezes. — Podias encher seis ao mesmo tempo! — Pois é — disse Ivich, contente. — Ponho seis tacinhas cheias diante de mim e beberei ora numa ora noutra. Recuou ligeiramente e disse com uma expressão apaixonada, de dentes cerrados: — Queria comprar tudo isto! Boris não apreciava o gosto da irmã por aquelas bugigangas.

Apesar disso, quis entrar na loja. Ivich não o deixou. — Hoje não. Vamos. Subiram a Rua Denfert Rochereau, e Ivich disse: — Era muito capaz de me vender a um velho para ter um quarto cheio daqueles bibelots! Mas um quarto cheio! — Não — disse Boris, com severidade. — Não podias. É um ofício que se aprende. Andavam devagar, era um momento de felicidade. Certamente, Ivich tinha se esquecido do exame, parecia alegre. Nesses momentos, Boris tinha a impressão de que eram uma só pessoa. No céu havia grandes pedaços de azul e nuvens brancas que turbilhonavam. A folhagem das árvores estava pesada com a chuva, havia um cheiro a fogo de lenha como na rua principal de uma aldeia. — Gosto deste tempo — disse Ivich, encetando a segunda maçã. — É húmido, mas não pegajoso. E não fere os olhos. Sinto me com forças para andar vinte quilómetros a pé. Boris verificou discretamente se não havia um café nas proximidades. Quando Ivich falava em fazer vinte quilómetros a pé, acontecia lhe fatalmente pedir para se sentar logo a seguir. Ela olhou para o Leão de Balfort e disse, extasiada: — Gosto deste leão. Parece um feiticeiro. — Hum. Respeitava os gostos da irmã, embora não partilhasse deles. Aliás, Mathieu já o dissera uma vez: «A sua irmã tem mau gosto, mas é melhor do que o melhor gosto.» «É um mau gosto profundo.» Nestas condições não havia que discutir. Pessoalmente, Boris era mais sensível à beleza clássica. — Vamos pelo Bulevar Arago? — Qual? — Aquele. — Vamos — disse Ivich. — Está brilhante... Andaram em silêncio. Boris observou que a irmã se tornava sombria, se enervava, e que de propósito caminhava a torcer os pés. «Vai começar a agonia», pensou, resignado. Ivich entrava em agonia cada vez que estava à espera do resultado de um exame. Ergueu os olhos e viu quatro jovens operários que vinham ao seu encontro e os encaravam a rir. Boris estava habituado a essas expansões e considerou as com simpatia. Ivich tinha a cabeça J E A N P AUL SARTRE baixa e parecia não os ter visto. Ao chegarem junto deles os rapazes separaram se. Dois passaram à esquerda de Boris e dois à direita de Ivich. — Faz se uma sanduíche? — propôs um deles. — Cara de peido! — disse Boris, gentilmente. Nesse momento,

Ivich pulou e deu um grito agudo, que abafou logo pondo a mão na boca. — Pareço me com uma cozinheira — disse vermelha de fusão. Os operários já iam longe. — Que foi? — Beliscou me — disse Ivich, com desagrado. O estupor! Acrescentou, com severidade: — Não devia ter gritado. — Qual deles? — disse Boris, indignado. Ivich reteve o. — Por favor, está quieto. São quatro. E depois já fui suficientemente ridícula. — Não é por ele te ter beliscado — explicou Boris. — Mas não posso suportar que façam isso quando estás comigo. Quando estás com Mathieu, ninguém te mexe. Tenho cara de quê? — É isso mesmo, querido — disse Ivich melancolicamente. — Eu também não te protejo. Não somos respeitáveis. Era verdade. Boris admirava se disso muitas vezes: quando olhava para o espelho, achava que tinha um ar intimidante. — Não somos respeitáveis — repetiu. Apertaram se um contra o outro e sentiram se órfãos. — Que é aquilo? — perguntou Ivich. A Apontava um muro comprido e escuro através do verde dos castanheiros. — E a Santé — disse Boris —, uma prisão. — Extraordinário — disse Ivich —, nunca vi nada mais sinistro. Há quem fuja de lá? — E raro. Li uma vez que um preso saltou por cima do muro. Agarrou se a uma pernada de um castanheiro e saltou. — Deve ser aquele. Se nos sentássemos no banco ao lado? Estou cansada. E talvez vejamos saltar outro prisioneiro. — Talvez — disse Boris sem convicção. — Acho que fazem isso de noite, compreendes? Atravessaram a rua e foram sentar se. O banco estava molhado. Ivich disse, contente: — Está fresco. Mas quase a seguir começou a agitar se e a puxar os caracóis. Boris teve de dar lhe uma pancada na mão para que não arrancasse os cabelos. — Segura na minha mão — disse Ivich —, está gelada. Era verdade. E Ivich estava lívida, parecia sofrer, todo o corpo lhe tremia. Boris achou a tão triste que tentou pensar em Lola, por simpatia. Ivich levantou bruscamente a cabeça: tinha um ar sombrio de resolução: — Tens os dados? — Tenho. Mathieu tinha oferecido a Ivich um poker de dados num saquinho de couro. Ivich tinha o dado a Boris e jogavam juntos muitas

vezes. — Vamos jogar — disse. Boris tirou os dados do saquinho. Ivich acrescentou: — Duas partidas e a negra se for preciso. Começa. Afastaram se um do outro. Boris sentou se a cavalo no banco e rolou os dados sobre o banco. Fez um poker de reis. — Só de uma vez — disse. — Odeio te. Franziu as sobrancelhas, e antes de agitar os dados soprou nos dedos a resmungar. Era uma conjura. «É a sério», pensou Boris, «está a jogar o resultado do exame». Ivich jogou e perdeu: trio de damas. — Segunda partida — disse a olhar para Boris com olhos faiscantes. Fez um trio de ases. — De uma só vez — disse. Boris jogou e viu que ia fazer um poker de ases, mas antes que os dados parassem estendeu a mão como para evitar que caíssem e virou dois com ponta do indicador e do anular. Apareceram dois reis. — Dois pares — disse com ar de despeito. — Ganhei a segunda — disse Ivich triunfante. — Vamos à negra. Boris não sabia se ela o vira fazer batota. Mas não tinha grande importância. Ivich só tinha em conta o resultado. Ganhou a negra com dois pares sem que ele precisasse de intervir. — Bem — disse ela simplesmente. — Queres jogar mais? — Não. Estava a jogar para saber se passaria. — Não sabia — disse Boris. — Então, passaste! Ivich encolheu os ombros. — Não acredito. Calaram se, ficaram ali lado a lado, de cabeça baixa. Boris não olhava para Ivich, mas sentia a tremer. — Estou com calor — disse ela. — Que horror: tenho as mãos húmidas e estou cheia de angústia. Na verdade, a sua mão direita, pouco antes gelada, estava agora a ferver. A mão esquerda, enfaixada, jazia inerte sobre o joelho. — Esta ligadura repugna me. Pareço um ferido de guerra, vou arrancá la. Boris não respondeu. Ouviu se um relógio ao longe. Ivich sobressaltou se. — Meio dia e meia hora? — perguntou, desvairada. — Uma e meia — disse Boris consultando o relógio. Olharam se e Boris disse: — Bem, agora tenho de lá ir.

Ivich apertou se contra ele, abraçando o. — Não vás, Boris, querido, não quero saber, volto para Laon hoje à noite... Não quero saber nada. — Estás a delirar — disse Boris com doçura. — Precisas de saber o que aconteceu para dizer lá em casa... Ivich deixou cair os braços. — Então vai. Mas volta o mais depressa possível. Espero aqui. — Aqui? Não preferes que façamos o caminho justos? Esperas num café do Quartier Eatin. — Não, não, espero aqui. — Como quiseres. E se chover? — Boris, por favor, não me tortures, vai depressa. Ficarei aqui, mesmo que chova, mesmo que a terra trema. Não me posso pôr de pé, não posso levantar um dedo. Boris levantou se e foi se embora a passos largos. Depois de atravessar a rua, voltou se. Viu Ivich de costas. Curvada no banco, com a cabeça enfiada entre os ombros, parecia uma pobre velha. «Apesar de tudo, é capaz de ter passado», pensou. Deu alguns passos e lembrou se de repente do rosto de Lola. Do verdadeiro rosto. Pensou: «Como é infeliz», e o coração pôs se lhe a bater violentamente. XIV D entro em pouco. Dentro em pouco. Começaria a busca infrutífera. Dentro em pouco, assombrado pêlos olhos rancorosos de Marcelle, pelo rosto matreiro de Ivich, pela máscara mortuária de Lola, tornaria a sentir um gosto de febre na boca, a angústia viria pesar lhe no estômago. Dentro em pouco. Afundou se na poltrona e acendeu o cachimbo. Estava solitário e calmo, entregava se à frescura sombria do bar. Havia aquele tonel envernizado que lhe servia de mesa, aquelas fotografias de artistas, aquelas boinas de marinheiros penduradas na parede, a rádio invisível que sussurrava como um repuxo, os dois senhores gordos e ricos ao fundo da sala, fumando charutos e bebendo vinho do Porto — últimos fregueses, homens de negócios; os outros tinham ido almoçar há muito tempo. Devia ser uma e meia, mas parecia manhã ainda, ° dia ali estava, estendido como um mar inofensivo. Mathieu diluía se nesse mar sem paixão, sem ondas, era um espiritual J E A N P AUL SARTRE negro apenas perceptível, um tumulto de vozes distintas, uma luz cor de ferrugem e o embalar de todas aquelas lindas mãos cirúrgicas que oscilavam com os seus charutos, como caravelas carregadas de especiarias. Aquele ínfimo fragmento de vida beata, bem sabia que lho emprestavam apenas, que seria preciso devolvê lo dentro em pouco, mas gozava o agora sem amargura. Aos tipos lixados, a vida ainda concedia inúmeros pequenos

— Acho que desta vez tudo acabou entre nós. Mathieu podia contemplar à vontade o belo rosto de xeque árabe. Mas queres que te empreste duzentos francos? Tenho vergonha de oferecer tão pouco. silencioso. Mathieu não pôde deixar de sorrir. Mathieu provou o Xerez. Não se referia ainda à sua carta nem às razões que o tinham levado a convocar Mathieu. mandava o empalhar e colocar no Museu do Homem. Tenho quatrocentos francos até acabar a semana. Tinha acabado. — Ofereço. DADE DA RAZÃO — Espero que a minha conversa esteja à altura do Xerez. Mathieu esticou as pernas e sorriu para si próprio. — Vou confessar te uma coisa. se mo ofereces. Daniel mentia. secção século XX. — Zangaram se? — Pior do que isso. Aquela felicidade simples e leve entrara no passado. — Não — disse Mathieu —. Daniel tinha . não estava dentro da regra do jogo. cortês. Estimo o muito. — E bom. Daniel voltou para ele os seus grandes olhos acariciantes. Gostara muito de Brunet outrora. e isso também era um prazer para os olhos. Era preciso recusar se a aceitar. — É — disse Daniel —. solene. — Não te estás nas tintas para Brunet? — Bem sabes que nunca fui tão íntimo dele como tu. preciso de cinco mil francos. — Não — disse Mathieu. Mas não agora. Vamos dividi los. Daniel manifestava um grande aborrecimento. — Recomendo te o Xerez — disse Daniel. Mathieu olhou Daniel pelo canto do olho. já não se pode renová las por causa da guerra de Espanha. com a condição de que as gozem modestamente. Daniel estava sentado à sua esquerda. é mesmo para esses tipos que ela reserva uma boa parte das suas graças efémeras.. Daniel pousou nele um olhar cheio de solicitude. Isso viria depressa. é o que há de melhor. — Muito obrigado. — Bem. Insistiu: — Não faças cerimónia. — Não faria lá má figura.prazeres. — Não precisas mesmo de nada? — Sim — informou Mathieu —. Mathieu estava lhe grato pela discrição.. mas se tivesse alguma autoridade. Agora só desejo um Xerez e conversar contigo. Estou sem um tostão. Disse: — Sabes que vi Brunet ontem? — É verdade? — disse Daniel. não vale a pena. Mas as provisões estão a esgotar se. Pousou o copo vazio e pegou numa azeitona do pires.

.. Acolheu me muito amavelmente. «Vemo nos de vez em quando. como se lhe fossem tirar uma fotografia. Não. Calou se um momento. sabes quem vi ontem à noite? — Quem viste ontem à noite? Como hei de saber? Vês tanta gente. Sempre tive grande simpatia por Marcelle Duffet. olhava para Marcelle com os seus grandes olhos doces e Marcelle sorria desajeitadamente... eles nada tinham em comum.um ar nobre e compenetrado. se não sai? Acrescentou. vagamente irritado.. Mathieu sacudiu a cabeça. uma voz de negro cantava baixinho Ther'is cradle in Caroline. Onde a encontraste? — Em casa dela. — Mas onde? — Em casa dela. — Fala e depois saberás — disse Mathieu.» Não eram as qualidades que mais apreciava em Marcelle. Daniel e Marcelle não se tinham encontrado muitas vezes. J E A N P AUL SARTRE — Estou a pensar no efeito que isto vai fazer em ti — continuou Daniel hesitante. Mathieu mergulhou no perfume espesso. — Onde querias que a encontrasse. — Marcelle Duffet. na atmosfera algodoada do quarto cor de rosa. Daí por diante continuámos a ver nos. Tremiam ligeiramente. — Vocês vêem se. — Tens sorte — disse —. — repetiu sem compreender bem. — Pois bem... e Mathieu repetiu com espanto: «A coragem de Marcelle. Admiro muito a sua coragem e generosidade. era absurdo. Daniel estava sentado na poltrona. — Marcelle? Mathieu não estava surpreendido. a sua generosidade. . sorridente. A nossa culpa está em não te termos dito nada. ela nunca sai.» Mathieu voltou a cabeça e fixou o olhar no botão vermelho de uma boina de marinheiro. É tudo. Houve um silêncio. — Ficaria triste se te aborrecesses comigo. — Diz lá — disse Mathieu.. Mathieu contemplava os cílios negros e compridos de Daniel. O relógio bateu duas vezes. não podiam entender se. — disse Daniel sorrindo. Mathieu perguntou: — Que ideia foi essa? Como é que isso aconteceu? A — Muito simplesmente. estava aborrecido e veio me à ideia de ir a casa dela. Daniel continuou: — Um dia. baixando as pálpebras modestamente: — Devo dizer te que nos vemos de vez em quando. mas Marcelle parecia ter simpatia por Daniel. — Em casa dela? Queres dizer que vais a casa dela? Daniel não respondeu. acabo de to dizer — observou Daniel.

Mathieu voltou a cabeça e olhou o com indecisão. Mas não vou na onda. Esperamos com impaciência a sua visita. — Bom — disse tristemente. perplexo. sob palavra de honra. admirando se por sua vez de não se sentir . depois desatou a rir. querido Arcanjo.. continua. — Não falemos mais nisso. — Ainda bem — disse. Marcelle. — Olha — disse Daniel. «Escreveu isto. E talvez me zangue ainda. E tu também vês a velha e tudo. um tipo do género de Lúcifer. Era a letra de Marcelle. — Não. — Mathieu! — disse com uma voz muito profunda. — Não me facilitas a tarefa — disse Daniel com um ar de censura. não impede que isso seja uma graça. Que seja sábado. — Pensei que te zangasses. Entregou uma carta a Mathieu. — Far me ás justiça. Por enquanto estou apenas tonto. uma vez que não está livre amanhã. Eram de facto pervincas. A minha mãe disse que lhe vai dar uma descompostura por causa dos bombons. É tudo. fúnebre e distinto como uma testemunha de duelo. e ela escondeu me isso? Acrescentou serenamente: — É uma brincadeira.— Vais à casa dela. — Sim. Venha depressa. querido Arcanjo. Mathieu viu o dinheiro e pensou: «Sacana!» Mas com preguiça. Mathieu releu a carta do princípio ao fim...» Aquele estilo precioso e jovial nada tinha dela! Esfregou nariz. Leu: «Tinha razão como sempre. Um arcanjo decaído. Esvaziou o copo. — Bem sei. — Arcanjo! Ela chama te arcanjo. é verdade? Daniel fez um sinal com a cabeça. Mas não compreendo uma só palavra do que me escreve.» Mathieu olhou para Daniel. A Daniel parecia desconcertado. Suspirou: — Preferia que acreditasses em mim. Daniel pareceu ficar desanimado. Eu nunca teria encontrado essa expressão.. se reparares que nunca me permiti a menor brincadeira neste assunto das tuas relações com Marcelle. deveria zangar me. — Então. mantinha se direito. É uma coisa muito séria. Viu que Daniel esperava a sua cólera. Trazia a data de 20 de Abril. — Já é bastante penoso acusar me diante de ti. és muito divertido. Mas como exiges provas. Seria normal. Daniel ergueu os olhos e encarou Mathieu com uma expressão sombria. Tirou do bolso uma carteira cheia de notas. bem sei.

cheio de gentilezas maliciosas e nobres. Mas não tenho más intenções. Continuou: — Admira me muito que Marcelle me tenha escondido qualquer coisa. Riu se. «mente há seis meses». Daniel não respondeu. — Evidentemente. esperamos a sua visita. não te aborreças. estou a tentar compreender. quase me diverte. lembro me. Marcelle não espera de mini conversas muito elevadas. Mathieu pensou: «Ele diverte se à custa deja. teria havido qualquer coisa dentro dele que . Daniel todo cerimonioso. — E ela não pôs dificuldades? — Admirou se muito. Era grave. Dantes. Acrescentou com uma ironia velada que agradou a Mathieu: — A princípio chamava me Lohengrin. de que é que conversam? Daniel sobressaltou se e os olhos brilharam lhe. O cachimbo apagou se lhe. Não devia achar gr ande mal nisso.irritado.. — Mas não recusou? — Não. e disse: «É um caso de consciência. pensou com espanto. mas isso descansa a. já não tem tanta importância.. — Tudo isto é tão imprevisto.» Fora Marcelle quem escrevera aquilo. duas vezes por mês mais ou menos. como vês. fora ela quem se espraiara naquelas gentilezas grosseiras. Então é verdade? Gostam de conversar? Mas. Um espanto intelectual sim. «Venha. — Mas que é que podem dizer.. — Terás alguns temas a propor nos? — Não te zangues — disse Mathieu conciliador. — E incrível! Vocês são tão diferentes! Não conseguia afastar a imagem absurda. de que falam vocês? — De tudo — disse Daniel friamente. leal. depois. e Marcelle diante dele rígida. Arcanjo. desajeitada. Agora já a conheço há bastante tempo.» E sentiu se humilhado por Marcelle. «Ela mentiu me». com os seus ares de Cagliostro e o sorriso africano. porém. — Foste tu que pediste — repetiu Mathieu mais calmo. Não se sentia suficientemente abatido. Não queria que fiscalizasses as nossas relações. — Foste tu que lhe disseste para se calar? — Fui.» Ela pensa que gosto de me rodear de mistério.. — Estás com ela muitas vezes? — Sem regularidade.. Era a primeira vez que Mathieu se sentia invadido por uma espécie de cólera. Estendeu a mão e pegou maquinalmente numa azeitona. não.. fixou se em Arcanjo. como quando se descobre que nos enganamos redondamente. Leal? Rígida? Não devia ser assim tão rígida.

— Mas passas de um extremo ao outro — disse Daniel. Poder se á dizer tudo? A Mathieu encolheu os ombros. não exageres. — E essa carta! «Nós esperamos a sua visita. nós adiávamos sempre. «Não devia perder a confiança nela naquele dia — naquele dia em que talvez fosse obrigado a sacrificar lhe a própria liberdade.. Que queres — acrescentou —. — Porque lho pedi. Mas isso cansa a. — Talvez — disse Mathieu —. Mathieu olhou para Daniel. Disse apenas. Marcelle tinha se tornado culpada. mal definida. «Nós»! Ele dizia «nós».sangraria. Tinha de a estimar. sem amizade. Esta história prova apenas que Marcelle é mais complicada do que imaginas. Porque o fez? — Imagino que não era muito agradável viver sempre à luz do teu esplendor. de que o desmontasses para devolvê lo em pedacinhos bem analisados... mas era divertido brincar aos conspiradores. Não vás levar a sério uma infantilidade! — Censuravas me há pouco por não levar a sério as coisas. mas ele não lhe queria mal. totalitário? — Nunca o disse de uma maneira positiva. J E A N P AUL SARTRE Mathieu abanou a cabeça.. — Ela acha me. irritado. és uma força. Note se que ela te admira.. com voz tépida: — Nós dizíamos tudo um ao outro. senão era lhe muito difícil. Ela sabia muito bem o que fazia. mas estava zangado sobretudo consigo mesmo.» Parece me que descubro uma Marcelle diferente. E depois acho que ter um segredo a devia divertir.» — Aliás — continuou Daniel —. Alguém que podia dizer «nós» a Mathieu ao falar de Marcelle. — Não. Procurou um recanto na sombra. Há outra coisa. — E o que pensavas. admira essa maneira que tens de viver dentro de uma casa de vidro e dizer abertamente aquilo que se costuma conversar em segredo. mas creio que assim o pensa. É qualquer coisa hesitante. mas há outra coisa. Não te falou das minhas visitas porque teve receio de que a forçasses a pôr um rótulo no sentimento que tinha por mim. — Uma Marcelle diferente. Daniel pareceu atemorizar se.. — Ela disse te isso? . porque é que ela fez isso? — Ora. sempre tivemos a intenção de to dizer. como sempre. já to disse — respondeu Daniel. Era o momento de o odiar. Continuou com uma expressão de compreensão afectuosa: — O que acontece é que confias demasiado nas tuas opiniões sobre os outros. Mathieu disse lhe: — Daniel. mas Daniel desarmava o.

— Oh! «Ontem ao telefone parecia temer que eu lhe contasse.» Mathieu encolheu os ombros. — E a propósito do seu.» Daniel continuou: — Vou dizer toda a verdade. — Ah! — atalhou Mathieu —. se houvesse qualquer coisa. Mathieu baixou a cabeça. Aquele ar evasivo era propositado. Ontem conspiravas com Marcelle contra mini e hoje pedes a minha cumplicidade contra ela! Que estranho traidor. Mathieu apertou com força o copo nas mãos. talvez me tenha enganado. Começara a entender.. Mathieu empertigou se: «Cuidado.. mais normal que fosse ela a falar em primeiro lugar. por enquanto. e à noite é ela quem fala. Foi ela quem falou. Era verdade. é agora. ela di la ia. Daniel sorriu. Cada vez que se tratava de compreender os sentimentos de Marcelle sentia se possuído por uma incomensurável preguiça. — Por que razão hoje e porquê tu? Teria sido. disseste lhe que estavas ao corrente? — Não. Para espicaçar a curiosidade.» Ivich dizia: «Consigo não há imprevistos. — Porque é que ela nunca me falou disso tudo? — Ela diz que tu nunca lhe perguntas nada. do seu acidente — disse Daniel. Disse mais: «O que me diverte em si é que nunca sei para onde vou. Marcelle ignora que te falei e ainda ontem não estava resolvida a pôr te ao par da situação tão cedo. Bom. Naturalmente.. «Ora. E era isso que eu intitulava a minha confiança nela! Estraguei tudo. Mathieu riu sem querer. Mas pensei que fosse bom para vocês os dois.» Acrescentou: . Com Mathieu sei sempre. Mathieu não se enganou. Quando por vezes acreditara discernir uma sombra nos olhos dela. Marcelle é orgulhosa de mais para falar. Pareceu me que havia um mal entendido muito grave entre vocês. — Bem — disse Daniel representando —. encolhera os ombros.. Mais uma comédia. Ficar te ei muito grato se não lhe disseres nada da nossa conversa. — Es mesmo o demónio! Semeias segredos por toda a parte.» «Com Mathieu sei sempre..— Disse. diz me tudo.» Sacudiu se e disse bruscamente: A — Porque me dizes isso hoje? — Tinha de to dizer um dia ou outro. não disse nada.. O que me levou a falar foi a inquietação real que se apossou de mim ontem. — Não tenho nada de diabo.

Havia qualquer coisa de podre na sua vida. Não. — Então? Ela tem me raiva porque lhe arranjei um filho? — Não. por certo. «Em Setembro temos a guerra. Não sabia exactamente o que ia acabar mal. acreditava se nisso. como se tivesses tido escrúpulos. A julgar pelo que vi ontem. E quando encararam pela última vez essa eventualidade? — Não sei. três feltros e um chapéu de coco. — Ela tem medo da operação? — perguntou. Isso não pode ser assim tão simples. — Está bem. «Isto vai acabar mal». e se não estou de acordo devo protestar. Era qualquer coisa mais vaga e mais ampla. O que ela me disse foi. Houve um silêncio. — Mas não tinha nenhuma decisão a tomar — atalhou Mathieu. meu caro. há dois ou três anos. não é isso. naquele Verão. — Bom. é talvez a maneira como me contou as coisas. E não acreditas que ela tenha mudado de opinião? No fundo da sala os senhores distintos levantaram se. O dia pesado e borrascoso. evidentemente. Devias falar lhe à noite. — Não sei — disse Daniel com um ar distante. não lhe perguntaste nada. que já tem opinião sobre as coisas e não me dá tempo para formar a minha. Tentarei falar lhe. isto: «Ele é quem resolve sempre. Marcelle. perguntas de mais.. com um nó na garganta. Um empregado trouxe lhes os chapéus. Daniel continuou com um ar aborrecido: .. — Dois ou três anos.— E então? — Então há qualquer coisa que não está certo. no bar deserto e escuro. Ela falou me disso com rancor. — Que é que te leva a dizer isso? — perguntou Mathieu. Eembrou se dos cabelos ruivos de Brunet. — Não sei. e o empregado desligou a rádio. — Nada de especial. ela dir te ia tudo.» Não garanto a exactidão das palavras. a paz insípida e sinistra.» Naquele momento. E por causa da tua atitude de ontem. Sem te referires a mim. Parecia tão acabrunhada. espantado.. Saíram com um cumprimento amistoso para o barman. pensou Mathieu. — Sim. — Que é que eu fiz? — Não o sei dizer exactamente. aquela história de aborto. — Tem vontade de se casar comigo? Daniel pôs se a rir. mas procuraste saber a opinião dela anteontem? — Não. A sua vida. congratulavam se sorridentes. — Estivemos sempre de acordo sobre o que se faria em semelhante circunstância. a Europa.. Mas isso é uma vantagem para ele. Estava convencido de que pensava como eu. entre outras coisas.

e essa voz sairá toda vestida da placa branca. meu pobre querido. — Bem sei. a voz virá de lá. a lágrima trémula dos olhos. as palavras foram ditas e eu nada sei. Marcelle a razoável. lágrimas de verdadeira DADE DA RAZÃO mulher. com a mão sobre o auscultador. pobre Mathieu. de braços abertos como se tivesse deixado cair qualquer coisa. porquê resistir. «eu não devia. Marcelle a dura. pensava ela. perdoada. sobre as minhas nádegas. uma pobre mulher. querido Arcanjo!» Pensou: «Arcanjo» e os seus olhos encheram se de lágrimas. a voz grave subia como fumo para o tecto do café. os remorsos. a mulher frágil. aquelas mãos de veludo sobre as minhas ancas. ao menos uma vez. é tudo. tão bom. J E A N P AUL SARTRE Daniel riu com vontade. Uma vez." Ah! Ele pensa nisso. Pronto. Pobre Mathieu. não soube nada. Aliás. com o espanto a oprimir Ihe e esta vozinha na cabeça: «Marcelle dizia me sempre tudo!" Ela está lá.. Sabe agora. lágrimas de abundância e fertilidade. ruminando: "A Marcelle contava me tudo. preferia mil vezes que me odiasse. a voz sairá dali. é tão . mas nós contávamos sempre tudo. Abriu a iboca mostrando os dentes brilhantes e o fundo da garganta. meu Deus. a conversa já se deu. a doce piedade de si. ela esteve. obrigado! — Desejas me mal? — De maneira nenhuma.». de doce mulher defendida. sentado no café. de joelhos. com o olhar fixo no chão como se alguma coisa se tivesse partido. grávida. Marcelle a masculina. foi o único a preocupar se comigo. ela está lá na sua cabeça. é mesmo o tipo de ser yiço que podes fazer: cai nos na cabeça como uma telha. Eu não estava lá. amanhã serei dura e razoável. tomou a minha causa a peito. «Eu não devia. ele diz que sou um homem e agora a água. mas ele está lá. e a voz virá e dirá: já está. Uma mulher. é intolerável. com os olhos secos e vazios: vão matá lo. durante oito dias ela fora para ele Marcelle a decidida. mas foi generoso. defendeu me». mas ela está. e a carícia em sulco sinuoso no rosto. Ele pensa. fraca e defendida no mundo dos homens e dos vivos por uma voz sombria e quente. dirá: "Marcelle dizia me tudo". Eu avisei te. que irá ela dizer? Estou nua. tenho vontade de abraçar Mathieu e de lhe pedir perdão. Durante oito dias ela olhara ao longe um ponto fixo. o Arcanjo emprestou à minha causa a sua voz soberba. uma só vez as lágrimas. neste momento... doces lágrimas. a humildade ainda mais doce. após oito dias tórridos. ser defendida.— Enfim. a chuva nos olhos. Meu Deus. «Ele abraçou me.. acariciou me. a bela voz grave que faz sempre vibrar o auscultador do telefone. não devíamos. ela teria detestado Daniel se fosse possível detestá lo. o tremor dos lábios.

— Efectivamente — Daniel parecia divertir se —. ele saberá tudo. Madame Duffet deve ter ficado zangada. meu pobre Mathieu. — Não tínhamos combinado isso? — Sim.. Marcelle sentiu se melhor. tenho vergonha. e eu terei de fingir que ignoro que ele já o sabe. . como reagiu ele? A — Foi tudo bem. Não é verdade que o menosprezámos. Crispou a mão sobre o auscultador. Dormia a sono solto quando você saiu. «Esta noite. — Tudo? É verdade? — E verdade. — Não — disse Marcelle. espantado. Melhor do que eu esperava. disse o exactamente nesses termos. — Está — disse ela —. querida Marcelle. Daniel riu. Tínhamos menosprezado Mathieu. aceitarei tudo. A princípio não queria acreditar. irei ver a velha. «continuamos a mentir lhe. — Não deve enervar se — disse ele. quem fala? J E A N P AUL SARTRE — É Marcelle. — Correu tudo optimamente. você disse que nos víamos? — Naturalmente — respondeu Daniel. — Bom dia — disse Marcelle. ah!. chegará esta noite. meu bom Mathieu. nós mentimos lhe». — Deixei a muito tarde ontem. pensarei: ele sabe e como poderei suportar isso. Estou um pouco enervada. Marcelle sentiu se invadida por amargos remorsos. Era um belo riso de luxo. quando ele chegar. afinal. — E você — insistia a voz terna — dormiu? — Eu? Mais ou menos..bom!» Subitamente surgiu lhe uma ideia nítida. — Disse me que compreendia muito bem... que percebeu que havia qualquer coisa e que isso o atormentava todo o dia. Ele sabe. — Ele deteve me às primeiras palavras — disse Daniel. mas a nossa sinceridade está envenenada. tranquilo e forte. matarei a criança. era insuportável e delicioso. pensou com desprezo. verei os seus olhos bons. o ácido correu Ihe nas veias.. — Dormiu hem? — A voz grave ecoava lhe no ventre.. dizemos lhe tudo. pela primeira vez na vida fiz te sofrer. não soube de nada. Disse: — Não é verdade. é Daniel? — Sim — respondeu uma voz calma —. Mas espero que não tenha sabido. minha querida Marcelle. tudo o que tu quiseres. — Bom dia. farei o que ele quiser. sim. Ah!. quando eu lhe puser os braços em volta do pescoço e o beijar. O coração batia lhe fortemente. — Deve ter lhe dito que dizíamos tudo um ao outro. arquejante —. — Você.» O telefone tocou sob os seus dedos.

tinha perdido o tom harmonioso. — Está bem — disse Marcelle —. Marcelle seguiu a com o olhar. Marcelle. — Oh! Daniel. interrompeu me logo às primeiras palavras e disse: «Pobre Marcelle. — Amanhã. virou a timidamente entre os dedos. achas que ainda posso reparar o mal?» E tinha os olhos vermelhos. e ria. eu queria estar escondido no quarto para ver quando se encontrassem. Com certeza que desejo muito vê la. Saiu cheio de remorsos.. Ouviu novamente o riso profundo e sadio. Daniel. Telefonarei.. Sobre a prateleira do lavatório havia três rosas vermelhas num copo. Marcelle pôs o auscultador no descanso e passou o lenço pêlos olhos húmidos: «Arcanjo! Fugiu depressa para que eu não lhe agradecesse.» Agora tudo está nas suas mãos. «Espremer o abcesso. é mais fácil... sou um grande culpado. telefone depressa. . Ele fará o que você quiser.» Abriu as pálpebras e olhou se no espelho. com o coração aberto. tudo corre bem. mas hei de arranjar tudo. Depois aproximou se do espelho e mirou se com espanto. depois fechou os olhos e enfiou a rosa na cabeleira escura: «Uma rosa nos meus cabelos. pareceu lhe que tinham um ar de felicidade. e Daniel continuou: — Disse me que queria falar lhe hoje à noite. — Acontece! Ele também. seja desembaraçada hoje à noite. operários. foi. Houve um silêncio. não. Marcelle pegou numa com hesitação. Pode ser amanhã? A voz pareceu lhe mais seca. Se vocês os dois estão com essas disposições. Riu de novo e Marcelle pensou com humilde gratidão: «Está a troçar de mim. Uma jovem senhora corria pelo meio da rua com o filho no braço. — Daniel! Mas o telefone tinha sido desligado. aça favor de esperar aqui — disse o homenzinho..» Mas a voz voltara a ser grave e o telefone vibrava como um órgão..» Aproximou se da janela e contemplou os transeuntes: mulheres. F. tenho remorsos.. tenho tanta coisa a contar lhe e não posso falar sem lhe ver o rosto. — Oh! Daniel! Oh! Daniel! Tomou fôlego e acrescentou: — Você foi tão bom. Estou satisfeito por sua causa. arranjou a cabeleira e sorriu para si própria cheia de confusão. quero vê lo o mais cedo possível. falava lhe arquejante.. Oh! Daniel. tenho ódio a mim próprio. — A sério. Promete ser delicioso.— Daniel. Ah!. Marcelle. crianças. querido Daniel. Como ele gosta de si! — Oh! Daniel! — dizia Marcelle. Marcelle. Ele não me deixou falar. — Até logo.

é para um empréstimo. cuja severidade era discretamente aliviada por uma pérola. vamos arranjar tudo. À esquerda via se uma luz fraca através de uma porta envidraçada. é para isso que estamos aqui. desorganizam as finanças. introduzira se entre os verdadeiros pobres e era o dinheiro deles que ia buscar. Uma mulher jovem entrou vestida com uma decência miserável. Ela tirou dois ou três papéis cuidadosamente dobrados. Meu marido. Mathieu acompanhou o ao escritório. vamos arranjar tudo. Baixou a cabeça e olhou o chão entre os pés. não. para ter mais luz e examinou os demoradamente: — Muito bem — disse. Viu as notas sedosas e perfumadas na maleta de Lola. em que ela se sentou. O senhor apontou lhe amavelmente uma poltrona de couro já gasto e sentaram se ambos. Acompanhou a. não é verdade? Mas quando chegam. os olhos azul claros projectavam se ligeiramente para fora do rosto. . obsequioso. Contemplou a pensativo e sorridente durante uns instantes. cuidadosamente penteados para trás. chegou à porta envidraçada.Mathieu sentou se num banco. depois afastou se. Dois filhos? Parece tão nova. A jovem mulher deitou uma olhadela hostil a Mathieu e pôs se a brincar com o fecho da bolsa. Pôs se a procurar na bolsa. devolvendo os. — Senhor? — Delarue. Está um bocado atrapalhada. O homenzinho falava lhe muito junto ao rosto. com certeza. Não era feia. Esperamo los com impaciência. Mathieu não estava à vontade. e o homenzinho foi abrir. Não era o mesmo dinheiro. Era uma sala escura que tresandava a couve. Tocaram. encolhendo as pernas.. — Faz favor de se sentar. A Examinou o rosto de Mathieu.. Usava uma gravata verde escura. — É funcionária? — Eu. — Sim. — Muito bem. de bigode branco. minha senhora. mas tinha uma expressão dura e perseguida. — Desejo. minha senhora. Tinha os cabelos prateados. — Já estive aqui — disse a mulher —. ele pegou lhes. que cheirava a couve. O homenzinho olhava a com J E A N P AUL SARTRE cobiça. O senhor apoiou os cotovelos na mesa e juntou as belas mãos brancas. — Deseja recorrer aos nossos serviços? — perguntou paternalmente. A porta envidraçada abriu se e surgiu um senhor alto. um dinheiro cinzento e triste. até ao banco. não é? A jovem mulher corou e o homenzinho esfregou as mãos: — Pois bem — disse —.

é tudo por agora.. Todos idealistas. necessitamos de quinze dias pelo menos para as informações! — Que informações? Já viu os meus documentos. Note que neste caso particular não ponho em dúvida a sua palavra. Pensou: «Não imaginava que fosse tão fácil. Mathieu entregou lhe os documentos.— Não ignora que os estatutos da nossa sociedade estabelecem um serviço de empréstimo destinado exclusivamente aos funcionários? A voz era bela e branca. — Muito bem — disse o senhor percorrendo as folhas. Mathieu estava agradavelmente surpreendido.) Quando se lida com dinheiro. — Agora? Mas. — Muito bem. É professor do liceu? — Sou. O senhor tirou da gaveta duas folhas impressas. O senhor tomou os. O senhor considerou Mathieu com uma indulgência divertida. É um sentimento miserável. J E A N P AUL SARTRE — Está bem. o estado civil. E qual é o montante da soma de que vai precisar? — Seis mil francos — disse Mathieu. a morada. aprende se a desconfiar. os universitários são todos iguais. Tinha de indicar a idade.» — Conhece as nossas condições? Emprestamos por seis meses. — Ah! — disse —. — Muito bem. No Liceu Buffon. meu caro professor. está bem — atalhou Mathieu.. 1905. Bem. — Temos muito prazer em auxiliar os universitários. — Sou funcionário — disse Mathieu... . caderneta militar. como as mãos. Ele reflectiu um pduco e disse: — Ponhamos sete mil.. Mas. porque temos despesas enormes e corremos sérios riscos. concordo. reconhecendo a dívida. Era um formulário de pedido de empréstimo em duplicado. examinou os distraidamente. Vamos então às formalidades da praxe. Na entrega dos sete mil francos exigiremos um recibo selado.. — Ah! Ah! — disse o senhor com interesse. Somos obrigados a exigir vinte cento de juros. pai e mãe franceses.. O selo é por sua conta. Um qualquer. — Professor.. um pouco gorda. — Quer ter a bondade de preencher estes formulários? Assine em baixo. Em primeiro lugar vou pedir lhe um documento de identidade. — Na entrega do dinheiro? Não pode entregá lo agora? O senhor pareceu muito surpreendido. passaporte. mas não temos o direito de ser confiantes. de um modo geral. — Nascido em Paris. Por isso faremos o nosso pequeno inquérito. cartão de eleitor. quem nos prova que os seus documentos não são falsos? (Sorriu tristemente. Mathieu escreveu. possibilidade de adiamento.

Entrou num café e pediu ficha ao balcão.. Mas agora Mathieu tinha sempre a impressão de estar enterrado. Rua Huyghens. com um juro mais elevado? O senhor mostrou se escandalizado. Porém. inclinando se. o senhor sabe. nos primeiros dias de Julho mandar lhe emos uma convocatória. número 12? — Está.» — Não rasgue — disse —. procederemos com a máxima discrição. Não leu os nossos avisos? — Não — disse Mathieu levantando se. A jovem mulher ainda estava ali. Mordia a luva com um olhar desvairado. pensou. minha senhora — disse o homem por trás de Mathieu. — Foi uma decisão repentina. — Preciso do dinheiro para hoje à noite ou o mais tardar amanhã de manhã cedo é uma necessidade urgente. «Mais um desastre». . Ergueu as belas mãos e disse: — Não somos usurários. Duvido muito que possa contar com o nosso auxílio antes de 5 de Julho. Lá fora uma luminosidade vegetal tremia no ar cinzento. — Devo rasgar os formulários que acaba de preencher? Mathieu pensou em Sarah: «Seguramente deve ter obtido um prazo. E uma instituição por assim dizer oficial. entre nós. Ergueu se e acompanhou Mathieu até à porta. senhor — disse Mathieu. — E muito prazer. — Ao seu serviço — respondeu o senhor. — É impossível — disse Mathieu. Mas nada receie. Só tinha esperança em Sarah. — Pois é — disse o senhor amavelmente —.. estabelecidos de acordo com as despesas e os riscos e não nos podemos prestar a nenhuma transacção desse género! Acrescentou com severidade: — Se tinha pressa. — Queira entrar. como são as administrações. Cobramos os juros normais. vou ver se me arranjo até à data da entrega.dirigindo nos directamente ao Ministério. Estava no Bulevar Sébastopol. — Lamento — disse friamente o senhor. há de encontrar um amigo que lhe adiante o dinheiro por quinze dias. JEANPAUL SARTRE — Até à vista. — Obrigado. meu caro professor! A nossa sociedade tem o apoio moral do Ministério das Obras Públicas. Mathieu atravessou a sala com grandes passadas. Não se poderia. — Pois bem. angustiado. A morada está certa — disse apontando para o formulário —. devia ter vindo antes.

está. Mathieu endireitou se e olhou angustiado as costas do motorista. «E se o judeu não for nisso?» Mas esse pensamento não o chegou a arrancar do seu torpor. tinha escolhido a sua perdição.» O autocarro enorme e infantil transportava o. Só lhe restava esperar. tossia no Pont Neuf. não caso: já não tenho nada com isso.» Era quase uma prece. fazia o virar à direita e à esquerda. maltratava o. tossia na Rua Montorgueil. para tudo. desamparado. livre. — Daqui é Mathieu Delarue. os telefones. tossia na Rua Réaumur.» O autocarro parou com uma travagem brusca. a minha vida é apenas um destino. não é cara ou coroa. sacudia o. Mathieu pagou e pôs se a olhar pêlos vidros. os acontecimentos batiam de encontro aos vidros. pensou. Os vidros tremiam. Sarah? — Está — disse uma voz. «Os judeus entendem se sempre bem».» Via surgirem um por um os pesados edifícios sombrios da Rua dos Saints Pères. a velha. «Tanto faz. as flores dançavam lhe no chapéu de palha. Já não passava de um saco de carvão empilhado com outros sacos no fundo de um camião. Posso falar com Sarah? — Saiu. — Está.— No fundo e à direita. é através de mim que há de acontecer. Desligou e saiu. Tossia na esquina da Rua dês Ours com o Bulevar Sébastopol. as flores. O que quer que aconteça. Era livre. era embalado pela rapidez da sua vida. — É Weysmuller. Diga lhe apenas que telefonei. desesperado. O chapéu. A sua vida já não dependia dele. — Ah! Que chatice. Fez sinal a um autocarro. J E A N P AUL SARTRE . Toda a sua liberdade acabava de retroceder sobre ele. oxalá tenha conseguido.» — Denfert Rochereau! — Três bilhetes — disse o cobrador. tudo era transportado pela enorme máquina. via a sua vida desfilar. Pensava em Marcelle com um rancor melancólico. por cima das águas calmas e escuras. Quer deixar algum recado? — Não. A velha não tirava o nariz do lenço e tossia. É cara ou coroa. Pensava: «A minha vida já não me pertence.» Ainda que se deixasse levar. Mathieu. estava nas mãos de Sarah. pelo menos acaba. Pensou: «Não. a velha tossia. Não sabe quando volta? — Não. «O assunto vai ser resolvido. «Caso. eu digo lhe hoje à noite que caso com ela. ao banco. com liberdade de ser um animal ou uma máquina. mesmo que se deixasse transportar como um saco de carvão. subiu e sentou se junto de uma velha que tossia no lenço. Enquanto marcava o número pensou: «Oxalá tenha conseguido.

» — São más notícias? — perguntou a porteira. de hesitar. só e livre. Estava só no meio de um silêncio monstruoso. — Bem. Havia três palavras no meio da página. — Imagine! Toda essa gente que estuda. — Não sei se os tenho — disse a porteira. Um táxi parou. No mesmo instante os muros que o cercavam desmoronaram se e pareceu lhe que mudava de mundo. Soube do resultado às duas horas.. condenado a decidir se sem apelo possível. admirada. Mathieu chamou o: — Lar dos Estudantes. «Reprovada. Só havia para ele Bem e Mal se os inventasse. deve estar a fazer alguma asneira. e. — Denfert Rochereau — gritou o cobrador. — Só tenho cem. 173. — Está bem — disse o motorista. Ficam com diplomas. é que o senhor ficou tão assustado. esperavam sem um sinal.» — Que horas são? — Seis horas. que se há de fazer! Leu pela quarta vez a carta. — Ah! E que estão cada vez mais difíceis. condenado à liberdade para sempre. casar. Enfiou pela Rua Froi devaux. no fundo de um quarto escuro. Em volta dele as coisas tinham se agrupado. depressa.. Ivich. Inconsciente. sem a menor sugestão. notas perfumadas e sedosas. Que é que se lhes há de fazer? J A IDADE DA RAZÃO — Pois é. É claro como a água. Mexeu na gaveta da mesa de costura. sem auxílio nem desculpa. Estava cansado e nervoso. Obrigado. rasgou o sobrescrito. Era como um remorso. «Reprovada. Ivich. «Devia ter roubado. Rua Saint Jacques. Saiu: «Onde estará ela?» Tinha a cabeça vazia e as mãos trémulas. — Bem. desaparecer. — Madame Garinet. via continuamente uma maleta aberta. — Muito mais. de recusar.» Enfiou a carta no bolso. está prestes a fazer uma asneira..» — Uma carta para o senhor — disse a porteira. dá me depois o troco. empreste me cinquenta francos — pediu à porteira. Impressionava se com a grandiloquência inquietante.de aceitar. — Não.» — É um aluno meu que ficou reprovado nos exames. Mathieu levantou se e desceu. Há quatro horas que anda por aí pelas ruas de Paris.. Mathieu pegou na carta. «Seis horas. Podia fazer o que quisesse.. inconsciente. de se arrastar durante anos com aquela cadeia aos pés. Uma letra grande e inclinada: «Reprovada. na maleta. Inconsciente. ninguém tinha o direito de aconselhá lo.. segundo me disseram. .

. — Aonde vamos? — perguntou o motorista. — A Menina Ivich Serguine está? A mulher olhou o. estava na caixa. mas isso não queria dizer nada. — Está bem. Reconheceu Mathieu e sorriu. Saiu. Nas ruas? Em todo o caso não tinha ainda deixado Paris.. mas de repente percebeu: «Para me mandar aquilo. Falava com dificuldade. — E a irmã. com desconfiança. Tem algum recado para ela? J E A N P AUL SARTRE — Não. pode dar lhe o recado. pois teria passado antes pelo Lar para levar a bagagem. na pior. gordo. vamos subir devagar o Bulevar Saint Michel. «Onde estaria? No cinema? Pouco provável. Ivich não estava no Biarritz. não veio. — O Senhor Serguine está? O empregado. preciso de entrar em todos os cafés. A Senhora Montero é que telefonou duas vezes para falar com o Senhor Boris. Correu. à esquerda. A No Capoulade viu um estudante chinês que a conhecia. — Aconteceu lhe alguma desgraça? . Mathieu olhou o. Passados instantes bateu no vidro. Não a viu hoje? — Não — disse o chinês. uma rapariga loura. E estou com quatro horas de atraso!» Estava dobrado para a frente e apoiava fortemente o pé sobre o tapete para acelerar. — Desculpe — disse Mathieu. O estudante tomava uma dose de vinho do Porto. — Parece me que conhece a Serguine. quer que ele vá vê la imediatamente quando chegar. O táxi parou.«Onde estará ela? Na melhor da hipóteses terá partido para Laon. Tinha sido enviada da agência da Rua Cujas. nem no Palais du Café. nem no Biard. Saltou e empurrou a porta. — Vou ver — respondeu. não veio dormir. não passou por aqui? — A Menina Ivich? Não. — A Menina Serguine não voltou desde esta manhã. albino. Voltou logo.. desde o cais. — Ali. ando à procura de alguém. Rua Sonimerard. devia estar bêbeda.» Mathieu tirou a carta do bolso e examinou o sobrescrito. Se o encontrar. — Não voltou.. sentado num banco do bar. — Hotel de Pologne. Mathieu desceu e tocou à campainha. nem no Source. nem no Harcourt. Mathieu subiu novamente para o automóvel.» — Ouça — disse —. indeciso.

— Onde é isso? — Rua Monsieur le Prince. sentiu um cheiro a mofo. a amiga italiana de Ivich. pensou com fúria. Entrou na casa de discos. também me esqueci de lhe dizer adeus. — Obrigado. voltando lhe as costas. — Onde? J E A N P AUL SARTRE — No Luxemburgo. — Bom dia. enfiou as nos bolsos. Ao Tarantule. O táxi deu a volta à Fonte Médicis. Saía do Luxemburgo com uma pasta debaixo do braço. Espere um momento. — Não sei — disse lhe Mathieu. — O dancing? — perguntou. — Quando? — Há uma hora mais ou menos. Ivich estava ali. Mathieu desceu. Sabe que ela reprovou. depois voltou: — Desculpe. eu aviso. e Mathieu viu Renata. — Pare! Pare! Saltou do táxi e correu para ela. «Oxalá ainda lá esteja. Deu alguns passos. — Adeus. Viu Ivich? — Ivich? Vi. — Bom dia — disse. Nem sequer pensava em proteger Ivich. Para onde é que ela foi? — Queriam ir ao dancing. Mas afinal talvez estivesse simplesmente em Montparnasse. a desgraçada? — Sei. As mãos tremiam lhe. Subiu para o táxi.— Como diz? — Estou a perguntar ao senhor se lhe aconteceu alguma desgraça. dançava. E uma casa de discos. creio. — Rua Monsieur le Prince. empurrou uma porta de couro e recebeu um golpe no estômago. senão terei de correr todos os chás dançantes do Quartier Latin. Desça a escada. — Na cave.» — Pare. sim. sentia apenas uma necessidade dolorosa e violenta de a tornar a ver. «E se ela tivesse tentado suicidar se? É muito capaz disso». — Viu Ivich? Renata tomou um ar digno. Encostou se à ombreira da porta e pensou: «Ela está aqui. Mathieu voltou para o táxi.» . É aqui. o dancing é na cave. — Carrefour Vavin — disse. Devagar. Estava com uma gente muito esquisita. fica a dois passos.

ameaçou. pesada e mole. Os estudantes rodearam na e fizeram lhe uma festa. — E puxou a pelo braço. — Quero. Os cactos estavam inchados como bolhas. o único à vontade. Mathieu viu umas quinze mesas espalhadas sob a luz morta. no Bulevar Saint Michel. — Pois bem. Era. A rapariga pintada mostrava se reservada.Era uma sala vazia. aliás. ao mesmo tempo empertigado e familiar. Era o jovem moreno e alto que estava com Ivich na véspera. No fundo quatro rapazes e uma rapariga muito pintada batiam palmas e gritavam «Olé!» O tipo alto e moreno reconduziu Ivich à mesa deles. segurando a pela cintura. pensou Mathieu. não — dizia agitando a mão diante do rosto —. Os outros afastaram se. Uma luz coada saía dos lustres de papel oleoso. — Quer beijar me. escandalizados. autoritária. Envolviam na à distância com gestos redondos e ternos. «Fantástico». «reconhecem lhe o direito de se sentar ao lado dela». Ivich apoiava a cabeça no ombro do seu par e colava se a ele. Mathieu sentiu se humilhado. com o olhar parado. não te beijarei. Esperava. — Foge porque eu prometi beijá lo — disse a sorrir. sem uma sombra. Nas paredes tinham pregado papéis multicores que tinham forma de plantas exóticas e os quais já se estavam a despregar sob a acção da humidade. — Desculpe — disse o de barbas com dignidade —. Ria como uma louca. Estava de pé. nada de álibis! O de barbas levantou se atenciosamente para dar lugar ao dançarino moreno. vem. — Não. não prometeu. Um gira discos invisível difundia um paso doble e essa música em conserva tornava a sala ainda mais nua. de olhos fechados. Estavam sós no meio da sala. Ivich? — disse a rapariga. Alguém disse: «Ivich!» com uma voz docemente reprovadora. Mathieu reconheceu o. surpreendida e lisonjeada. Para aquele rapaz elegante. muito pálida. O belo moreno parecia achar a coisa muito natural. Ele dançava bem. Ivich apontou o de barbas. O belo moreno olhava a firamente com um leve sorriso. tinha um ar esquisito. pensativa: — Olé! Ivich deixou se cair numa cadeira entre a rapariga e um lourinho de barba. Acendeu um cigarro e disse. Beijarei Irma. Ivich não passava de . enquanto ele lhe sussurrava ao ouvido. Ela afastava então a cabeça e ria. Ele respirava os cabelos de Ivich e de quando em quando beijava os.

— Quero sentar me aqui. Tomou a pêlos ombros e conduziu a. Mas ela ergueu a mão esquerda e apontou o.. — Sabe — disse o de barbas —. A Ivich ergueu se subitamente e olhou Mathieu com um ar sombrio. — Não — gritou Ivich. já estava nua diante dele. — Onde está ele? . ele adivinhava lhe os seios. são uns verdadeiros pajens. Ela pôs se a rir e levantou a saia acima do joelho. — Ela arrancou o contra a nossa vontade — desculpou se a rapariga. Ivich voltou se para ele e disse: — Menos este... Ivich. — É um demónio. Ivich fizera mil trejeitos antes de beijar a rapariga. — Eu peco lhe. No meio da escada. — Ivich! Ela olhou o. — Venha — disse Mathieu docemente. Ivich tornou se pesada. — Quer voltar para casa? — propôs Mathieu. Mathieu agarrou a pela cintura e empurrou a. — Quero sentar me aqui. melancólica. — Olha. Finalmente agarrara lhe no rosto entre as mãos e beijara a na boca. as coxas. — Menos eu. quisemos até impedi la. Ouviu atrás dele um ruído de consternação. de boca aberta. estou a achincalhar me. Ivich — disse o dançarino —. ele despia a com um olhar sensual de amador. Mathieu viu uma crosta avermelhada com pequenos pontos brancos de pus. que é um pulha. — Cheiras a borracha — disse com asco.uma presa. — Ivich! Ela sacudiu os caracóis. menos eu. Mathieu sacudiu se bruscamente e avançou para Ivich. — E verdade que és prudente. — Es tu — disse. Mas repeliu a violentamente. e ele ficou a duvidar que o tivesse reconhecido. decepcionada.. contente. Olhava a com ar cúmplice. Os rapazes entreolharam se. — Quer ir para a casa de Boris? — Ele não está em casa. Na rua largou a. Não se debatera. — Isso é verdade — afirmou Ivich desgostosa —. Percebera pela primeira vez que a desejava vergonhosamente através do desejo de outro. Mathieu colocou se diante da mesa. — Leve me daqui. o cheiro da carne.. Tinha as pernas moles. Arrancara o curativo. — Conservaste o teu — disse Ivich. Ela pestanejou e olhou em volta. não a fizemos beber..

tirou o cachimbo. Mathieu desceu primeiro e deu lhe a mão para a ajudar. Ele pagou ao motorista apressadamente e voltou se para ela. Estendeu o braço e segurou o trinco. — Poderá deitar se no sofá e eu farei um pouco de chá. — Está melhor? — Já não estou embriagada — disse Ivich. Mathieu respirou apaixonadamente esse cheiro. Um cheiro azedo de vómito exalava da sua boca tão pura. — Mas a cabeça dói me. — Levo a para a minha casa — explicou. — Ivich! — Tudo. sombria. — Tenho vergonha — disse. Mathieu conduziu a devagar pela escada.. Mathieu encostou se para trás. hostil. — Venha. 12. dei um espectáculo. Depois de um instante a tosse cessou. estenda se e feche os olhos. já que me trouxe de lá. — Para onde quer ir? — Sei lá. Ivich gemeu um pouco. — Rua Huyghens. Levou a até ao táxi. — Então. De repente ficou verde e pendurou se na janela. tinha medo de que a porta se abrisse. — Não se sente bem? Estava lívida.. — Chegámos — avisou. Ivich resmungou . Ela olhava o com uma expressão neutra. — Agora lembro me de tudo. Subiram em silêncio. — Não — disse violentamente. chegaremos num instante. — Vou mandar parar numa farmácia. — Bem — disse.— Sei lá. E. Você é que deve saber. Ivich tornou a encostar se na almofada e Mathieu guardou o cachimbo. Ivich disse subitamente: — Como me encontrou? Mathieu inclinou se para enfiar a chave na fechadura. \ mas ela recusou e saltou com vivacidade para o passeio. Ivich não protestou. Ivich ergueu se com dificuldade. Só mais um andar. encheu o e fingiu estar absorto. Mathieu viu as costas magras sacudidas pêlos vómitos. No segundo patamar parou para tomar fôlego. — Estou doente. — Cada degrau é uma pancada — disse ela. fui reprovada. — Eu estava à sua procura e encontrei Renata. Mathieu reflectiu. Subiu com dificuldade para o automóvel e atirou se para cima da almofada. Andei com aquela gente imunda.

Ivich partiria para Laon.atrás dele: — Estava à espera que viesse. — Entre — disse Mathieu. Pô lo em cima de uma bandeja com duas chávenas e voltou ao quarto. quer? — Chá? — indagou Ivich. Era tão fraca e tão leve sobre o sofá. pensou. — Vou fazer chá — disse Mathieu —. A fronte estava lisa e pura. Ivich não respondeu. «Eu casarei com Marcelle. Olhou as poltronas de couro verde e a mesa de trabalho. Sofria. e Ivich abriu os olhos. pensou que amava Ivich e admirou se: não parecia amor. A água pôs se a chiar na chaleira. — É a sua casa? —É. Olhou em volta com um olhar morto. mas bem apertado talvez se arranjasse ainda uma gota. embrutecer se ia lá. E Mathieu não podia auxiliá la. J E A N P AUL SARTRE — Quer chá? — Estou com frio. uma promessa de desgraça. — Mas você não sabe fazer chá. — Quer chá? Ela não respondeu. Olhava com ternura o corpinho doente e maculado que permanecia tão nobre no sono. Ela roçou o ao passar e ele teve de apertá la nos braços. não era uma emoção específica. precisava antes de auxílio. No armário descobriu metade um limão já seco. Endireitou os cabelos com a palma da mão e ergueu se . Mathieu puxou uma cadeira junto do sofá e sentou se sem ruído. afastando se. Três pequenas rugas verticais sulcavam Ihe a fronte. Ivich fechou os olhos e pousou a cabeça na almofada. Pusera toda a sua esperança numa criança. dir se ia uma maldição pregada no horizonte. Era a primeira vez que a recebia no seu apartamento. Mathieu foi buscar uma coberta e estendeu a sobre as pernas dela. ela sorria. Deite se.» Mathieu levantou se e foi devagarinho ver se a água estava a ferver. passariam um Inverno ou dois e surgiria um tipo — um jovem — que a levaria consigo. — Pus água a ferver — disse. — Aí está o sofá. Depois voltou e sentou se junto de Ivich. perplexa. Ivich atirou se para o sofá sem dizer uma palavra. Dormia. nem um matiz especial dos seus sentimentos. Mathieu pegou numa chaleira eléctrica e foi enchê la na torneira do lavatório. Viu as nos olhos de Ivich e teve vergonha. As três rugas tinham desaparecido. «Como é jovem». não podia auxiliar ninguém. Ivich deu alguns passos incertos e entrou no quarto.

Pensou com rancor: «Que espere. — E noite — disse Ivich. Estou contente aqui. mas calmo. Mathieu olhava a cabeça baixa de Ivich e os seus ombros frágeis. — Como é suave. Detesto as despedidas moles que se esticam corno borracha. Marcelle esperava o às onze horas. Acendeu a lâmpada da secretária. — Como queira. entregando lhe o pacote de chá. — Ficará aqui quanto tempo quiser. E depois estarei exausta. — Depois de uma ligeira pausa. Telegrafou aos seus pais? — Não. — Não — atalhou Ivich. deixaremos que toque. não abriremos. Passou a ocupar se da chaleira. do ano!. você mesma? Ivich baixou a cabeça: — Tenho.. — Oh!. Todos esses cafés giravam em torno de mim.. Há um comboio ao meio dia. Encostou se às almofadas do sofá. encantada. Não poderia fechar as cortinas? Acenderíamos a lâmpada pequena. Não espero ninguém. é como se o dia tivesse terminado. porém mais animada. — E preciso esperar um pouco — disse. E depois aquela gente toda! Um pesadelo! Aqui é feio. Mas preciso de um samovar. — Ir aonde? Não. Mathieu ficou um momento sem falar. é a sua última noite do ano? — Ah! — respondeu ela irónica —. mas não deixei. podemos sair. — Dê me o pacote do chá — disse —. — Então — disse —. Aliás. Pôs a água no bule e voltou a sentar se. vou fazer chá à moda russa. Depois disse. Houve um silêncio. — Já o sabia. Boris queria.esfregando os olhos. — Detesto isso. acrescentou: — Quero J E A N P AUL SARTRE que seja noite quando sair. — Então tem de lhes comunicar. — Só tenho uma chaleira — respondeu Mathieu. . controlando a voz: — Eu acompanhá la ei à estação. tenho medo de voltar a ver o dia. Mathieu levantou se. Estava ainda sombria. — Obrigada. — Não gosto do seu apartamento. chá de Ceilão! Enfim. fechou as persianas e as cortinas pesadas. Estou inteiramente livre. — Não era verdade. Parecia lhe que ela o abandonava aos poucos. tanto pior. se vier alguém.» — Quando parte? — Amanhã. — E o bule? — É verdade. Se estiver melhor. Foi buscar o bule à cozinha. Calaram se.

Irei visitá la a Laon.— Ivich. Baixou os olhos e continuou: — Quero ir dormir. já lhe disse que sou incapaz de aprender um ofício. Mathieu atreveu se a erguer os olhos para ela. — Não diga isso — atalhou Mathieu. Você detesta Laon. mas não se sentia tranquilo. Ivich.. Não diga que não. Ouça. Interrompeu se. — Pois bem. Mas não é possível que lhe estraguem a vida para a castigar por ter fracassado uma vez. e Mathieu acrescentou: — Terei algum dinheiro. aborrecida. Isso não pode aborrecê la. — Não me olhe assim. o que mereço. — Mas não tem nada que arranjar. \ — Há um novo exame em Novembro. durante as férias eu farei economias. os seus pais não podem. se me permitisse auxiliá la. mas um dia terei de ir. será um empréstimo. aliás. — Não quero. você há de voltar. — Não pensarão em castigar. Não sou capaz de aprender um ofício e prefiro passar o resto vida em Laon do que voltar a fazer esse exame. Ivich encolheu os ombros.. Voltou se para ela e murmurou sem a olhar: — Ouça. sem pensar. Não recuse sem saber.. Ivich! — Ah!. — Não. — Ah!. não é absolutamente impossível. ouça. — Não. de modo nenhum — disse Mathieu com calor —. Ivich não parecia compreender.. se você. você . Ivich afundara se no sofá e olhava por baixo com uma expressão má. Odette e Jacques convidam me sempre para passar o mês de Agosto em Juan les Pins e eu nunca aceitei. sairei simplesmente da cabeça deles. mas dou lhe a minha palavra que voltará. Como encontrar palavras que não a ferissem? — Não é o que queria dizer. alarmado. — Detesto! Mathieu levantou se para ir buscar o bule e as chávenas. Subitamente o sangue subiu lhe ao rosto. não sei como estou a olhar. não deve. — Há de se arranjar? — indagou Ivich.. só sei que estou com dor de cabeça — disse Ivich. Daqui até lá hei de me arranjar. — Não se deve resignar dessa maneira. isso divertir me á e eu farei economias. É.. você viverá em Paris. Eu arranjarei dinheiro. Em fins de Outubro.. Pois irei este ano. surpreendida e cansada. A — Não os conhece. se quisesse. J E A N P AUL SARTRE — Não. é isso? Observou secamente: — Totalmente impossível.. Tudo o que toca Laon fica sujo.. Será pior.. Vão desinteressar se de mim. — Ivich. você vai partir amanhã.

— Ivich.há de reembolsar me quando ganhar a sua vida. e Mathieu acrescentou vivamente: — Ou então paga me Boris. há de lamentá lo todos os dias. Mathieu pôs se a andar de um lado para o outro. — Disse me no mês passado que o dinheiro era uma coisa aviltante com a qual as pessoas não se deviam preocupar. que orgulho é esse? Não tem o direito de desperdiçar a sua vida por uma questão de dignidade. . — Ivich! Ela continuava calada. não a largarei enquanto não aceitar. Enterrou o rosto nos cabelos. Mathieu via lhe apenas o alto da cabeça. Com os meus pais não preciso de ser grata. A nuca era mais escura do que a pele do rosto. Pensava: «Ela vai aceitar. aborrecido e infeliz. — Não tenho motivos para aceitar o seu dinheiro.» — Ivich. então é porque sou um homem — disse com um riso nervoso. Pense na existência que terá em Laon. — Porque é que não aceita? Diga. — Porquê? Não aceita o dos seus pais? — Não é a mesma coisa. — Que é que está a dizer? Olhara o com um ódio frio. com doçura. contanto que o tenha. Disse me mil vezes que os odiava.» Ivich encolheu os ombros. Ivich não respondeu. Darei lições. vai dizer me porque é que não aceita. porque é que não aceita? Ela murmurou finalmente. Teve vontade de lhe pegar no queixo e erguer lhe a cabeça à força.. responda. para isso era preciso espicaçá la com perguntas. — Ivich. — Não foi isto que disse? — Não quero que me dê dinheiro. não é. — E tem motivos para aceitar o deles? — Não quero que sejam generosos comigo. Você dizia: «Não me importa de onde venha. mudando de tom todas às vezes. — Ah!. A Era possível vencer Ivich pelo cansaço. todas as horas.. um bocadinho da nuca entre os caracóis J E A N P AUL SARTRE e a gola da blusa. corrigirei provas. Ivich fez um gesto. Mathieu perdeu a paciência. Vai arrepender se de ter recusado. Ivich alterou se: — Deixe me! Deixe me! Acrescentou em voz baixa e rouca: — Que suplício não ser rica! Em que situações abjectas uma pessoa se mete! — Não a compreendo — disse Mathieu. — Efectivamente. Porque não responde? Ivich continuava calada. sem erguer a cabeça: — Não quero o seu dinheiro. Mathieu permanecia em frente dela.

sei que estarei lá amanhã à tarde. num tom estranho: — Quer.. — Eu hei de escrever lhe — disse Mathieu. Depois. — Qualquer coisa. Tocou na garganta com o dedo. — Eu também — respondeu ela —. Mathieu esforçou se por esconder a sua irritação. — Então.. Que o dinheiro venha de um lado ou de outro. Podem ou não acreditar. Vamos toma lo. se não são eles que pagam? Baixou a cabeça com um ar sombrio. Que importa. talvez — murmurou com indiferença. pareceu acalmar se. Houve um silêncio.. Nunca pensei nisso. Encheu as chávenas. — Não gostaria de falar nisso. Mathieu pensou nas cartinhas secas de Boris a Lola. — disse ela — isso é uma utopia. Quero poder imaginá la em Laon. — Oh!.. desviando o olhar: — Não posso suportar a ideia de não a voltar a ver. pois poderá tentar. e pouco me importa. — Mas se voltar. Sempre fui insuportável para consigo e agora você tem pena de mini. Mas tenho de fazer as malas. — Sinto o aqui. Ivich continuava com um ar aborrecido.. Ao passo que Laon. Mathieu respirou. — Vai descrever me a casa.. subitamente. — O chá deve estar pronto.. mas não sei o que lhe hei de dizer.. Afinal tem razão. Está tão longe. Levantou se.. digo sim. o quarto.. Tenho que fazer a noite inteira. Ela olhava o arqueando as sobrancelhas. «Pronto!» Mas não estava ainda sossegado. Digo não. Nem sequer imagino. Mas foi apenas um . — Nesse caso isso é consigo. — Então... Disse me que gostaria de estudar Filosofia.. Não se atreveu a olhá la. há de morar onde quiser e fazer o que lhe agradar.— É grosseiro. secamente —. Estava escuro como café. com a boca entreaberta.. é por egoísmo que me ajudaria? — Puro egoísmo — disse Mathieu. — Porque deseja fazer me bem? Nunca lhe fiz bem.. porque quer dar me dinheiro? Mathieu hesitou e depois disse. quer dizer que. — Que vai dizer aos seus pais? — perguntou para a comprometer ainda mais. — Tenho de lá ir — disse ela... e Ivich perguntou.. mas não chego a acreditar... é tudo. — Não tenho pena de si. tenho vontade de a ver. Eu e Boris ajudá la emos. — Então? Pense nisto: pela primeira vez na sua vida seria totalmente livre. Basta vivê lo.

não posso. Sarah também.instante. . querem ver me urgentemente. Sarah empurrou o amavelmente e espreitou por cima do ombro de Mathieu. chegou um amigo de Gomez. J E A N P AUL SARTRE as unhas vermelhas e bicudas. No horrível tailleur verde. Só às seis horas é que lhe pus a vista em cima. — Cheguei tarde. — Não quer que eu lhe fale de regime. Ele recusa. Não encontrei Waldmann. sim — disse Ivich com voz clara. rindo com os dentes estragados. — Não tocaram? — indagou ela. — Bom dia — disse com vivacidade —. — Aposto que não come bem. Pensava: «Tem horror de parecer minha cúmplice. — Lá está Mathieu a fazer me olhinhos feios — disse. os pulsos magros e pensou: «Vou tornar a vê la. Mathieu colocou se diante de Sarah e olhou a fixamente. Vem de Madrid. — Já dissemos que não íamos abrir. Venha tomar uma chávena de chá. Era Sarah. sabe. é Ivich Serguine. Acabavam de tocar a campainha. — E muito boa. espantado. — Meu pobre Mathieu. — Quem? — perguntou Mathieu para ganhar tempo. obrigado. Mathieu dirigiu se para a porta. — O que me fez correr... más notícias para si. — Talvez seja importante. Ela olhou Mathieu com ternura. Parecia decepcionada. Há vinte dias que está em Paris e já se meteu numa quantidade de negócios escuros. não. Esperava que Ivich não tivesse ouvido. Voltou se para Mathieu. — Ainda não sei. E Mathieu acrescentou.» — Que chá esquisito! — disse Ivich. arquejante. preciso de ir à Livraria Espanhola. alegre: — Falaremos disso mais tarde. cheirava a catástrofe. estou com. Disseram me: um amigo de Gomez. — Ah!. aliás. — Abrimos. — Quem está aí? — perguntou corn uma curiosidade sôfrega. Mathieu olhou a. Como passou? Ivich levantou se e fez uma espécie de reverência. Os olhos pareciam inundados de bondade. os cabelos despenteados e a sua expressão de bondade doentia. não é razoável. O ministro disse me que me tinha telefonado e eu vim. Sarah riu. — Bom dia — falou ela. — Como está magrinha — disse Sarah. Ivich era a única pessoa que Sarah não suportava. — Não. Olhou as mãos de Ivich.» Abriu a porta. Mathieu estremeceu. Nem sequer pus o chapéu. Mathieu pôs um dedo sobre os lábios.. Vá abrir. Não disse nada.. Sarah.

que pague. Estava triste. desconcertada. — Adeus.. Acentuou as últimas palavras.. Mathieu sabia que ela não responderia. há muitos médicos em Paris.» E é verdade. vou casar me com Marcelle. — Bem — disse Mathieu. mas Sarah queria justificar se. fizeram nos sofrer de mais. J E A N P AUL SARTRE — Fiz o possível. quero saber. Sarah continuava: — Disse ainda: «Nunca mais lhes fio.— Hem? Ainda assim. — Entra. As palavras saíam com dificuldade. de cabeça baixa: — Ela disse me anteontem que está grávida. supliquei. mas sabia que ela o olhava. — Bem — disse ela ao fim de um momento —. acho que vai acabar assim. meneando a cabeça: — Que vai fazer? — Não sei. vou me embora. Nada.. A Fez se silêncio. ele perguntou me se ela era judia. derruba tudo. Aliás. Se quer que eu opere. — Não pensa em.» Mathieu ouviu o sofá ranger. — Penso — disse Mathieu tristemente —. — Não vale a pena — disse tristemente. Mathieu teve forças para dizer: — Deseja sem dúvida falar me particularmente? Franziu as sobrancelhas repetidas vezes. Insisti o mais que pude. É preciso que a pessoa em questão esteja lá amanhã com o dinheiro. Telefone amanhã sem falta. Ele olhou a duramente e ela calou se. comovida. Martirizaram nos. — Está bem. Mathieu contemplava as pesadas cortinas verdes. Então disse: «Não dou crédito. Quando Sarah saiu. Não se atrevia a olhar para Ivich. Calou se e fez se um silêncio pesado. Explicou a Ivich. — Não tenho quase nada a dizer. Continuou. Foi sentar se ao lado dela e disse sem a olhar: — Ivich. — Não tenho nada com isso. Estava com frio. adeus Sarah. no quarto. — Não se fala mais nisso.. Mathieu encolheu os . minha senhora — disse Ivich. Falou me dos judeus de Viena. e sai como um golpe de vento. Mas Sarah não via nada. E viu acender se lhe nos olhos algo que se assemelhava a um clarão de consciência. eu compreendo o. — Meu caro Mathieu — disse Sarah. Ivich não respondeu. Mathieu voltou a andar de um lado para o outro. — Não sei porque me está a dizer isso — observou ela com uma voz gelada. Eu não podia acreditar. — Esta mulher é um vendaval — disse a rir. dos campos de concentração. Disse que não.

há muitos meios de. Ivich gritou e desenvencilhou se violentamente. Depois riu se. Ivich teve um estremecimento violento. — Em Outubro? — disse ela com um olhar faiscante. Hesitou e continuou como se estivesse distraída: — Não sei porque está tão abatido. Se casa é porque quer. foi para isso. — É sórdido — disse Ivich com uma voz neutra. Já compreendi. — Vê la ei em Outubro? Saíra lhe sem querer. Mathieu largou a. — Então.. — Não me preocupo muito com essas coisas. — Foi por isso que encarregou Boris de pedir cinco mil francos a Lola? — Eu não... não tenho nada com isso. arquejante. J E A N P AUL SARTRE — Não faz mal — disse Ivich levantando se.. — Mas sabia que ela. — Ivich! — gritou Mathieu pegando lhe no braço. — Até breve.. até breve — disse Mathieu.. — Não precisa de insistir. Tenho de fazer as malas — gemeu. pensei: «São modos de homem casado. — Pois é. Nem tem o suficiente sequer para o casamento. — Em Outubro! Ah! Não. — Aliás. sem dúvida. — Bem percebi — continuou Ivich. Acabou de tomar o chá e perguntou: — Que horas são? — Nove menos um quarto. — Desculpe. Ela pusera se diante dele. Nunca pensei em aceitar o seu dinheiro.» — Chega! — disse Mathieu com dureza. — Ontem de manhã. mas está com um ar tão cómico. — Não tenho dinheiro — disse Mathieu.. Não tinha vontade que ela ficasse.. — Está escuro? Mathieu foi à janela e levantou as cortinas... quando se atreveu a tocar me. — Ainda não. Segundo me disseram. — Largue me! Não me toque. Você é que sabe o que deve fazer. — Era sua amante? — disse Ivich com arrogância. vermelha de ódio e com um sorriso . — De qualquer maneira vou me embora.ombros. pois bem. — Procurei por toda a parte. Sentia uma raiva desesperada subir dentro dele. Uma luz suja filtrou se através das persianas...

naquele homem grave que quase chorava porque dera uma queda. olhando espantado. para sempre! Muitos atiram se à água por muito menos. Tirou o lenço. — Cretino! Mathieu atirou se para a frente a fim de evitar o automóvel. Tinha vontade de chorar.insolente. de Marcelle. — Que chatice! Levantou se. como se estivessem com frio. Diante dele um quarto cor de rosa. por aquela gratidão. e pensava: «Dizer que me levava a sério. café por café. As palmas das mãos ardiam lhe. depois de uns momentos. tu ne sais pás En vain je tends lês bras./ L contornou a multidão lírica: a doçura crepuscular não era para ele. com alguns arranhões. das suas miseráveis paixões. com uma curiosidade divertida. uma conscienciazinha cheia de ódio repelia o com toda a força. As pessoas esperavam a noite ouvindo música. da ridícula queda. molhou o com saliva e esfregou as mãos com uma espécie de ternura.» Deixou de rir. Depois deu uma gargalhada. Um vazio. da vida. Tu ne sais pás aimer.. uma mulher imóvel esperava o cheia de esperança. jamais tu ne sauras. Caíra sobre as mãos. Uma multidão desocupada agrupara se nas mesas da esplanada. montra por montra. fria. «só faltava mais isto». e murmurou seriamente. «Só faltava mais isto». Ria de si mesmo. Recordava as antigas esperanças e ria porque tinham dado naquilo. Ele teve medo de si próprio. Olhava se sem vergonha. Dentro em pouco a renda luminosa da noite estender se ia sobre Paris. Para toda a vida. não havia razão para rir. Durante um segundo ficou suspenso. O Café dos Três Mosqueteiros brilhava com todas as suas luzes na noite ainda indecisa. de Ivich. com arrepios. Precipitou se para a saída empurrando a e bateu com a porta atrás de si. A direita estava preta. diante daqueles primeiros fogos vermelhos. pesado e quente. A esquerda doía lhe. pareciam felizes e juntavam se ali. * XVI TH ne sais pás aimer. a lama sujara lhe a ligadura. tu ne sais pás Jamais. J E A N P AUL SARTRE Uma rua comprida e direita: atrás dele um quarto verde. por aquele amor. Dentro de uma hora entraria escondido naquele quarto cor de rosa e deixar se ia envolver por aquela doce esperança. M. ardores de raiva na gar DADE DA RAZÃO . Olhou com gravidade as mãos sujas de lama. O corpo volta a marchar arrastando os pés. esbarrou no passeio e caiu no chão.

Voltou se. uma transparência desliza e se contempla com uma paixão gelada.ganta e no estômago. Havia outrora um futuro de homem que se interpunha entre elas e que elas reflectiam num leque de tentações diversas. Eram os únicos objectos do mundo. Entre as flores. Entre eles não havia nada a não ser um monte de obstáculos e distância. «Está humilhado o macho. Ralph continuava a olhá lo. uma folhinha e um pequeno espelho já manchado de ferrugem. Não sabia que Daniel o podia ver. flores peludas balançam. Ao nível dos olhos. intactas. entre a fotografia de Marlene Dietrich e a de Robert Taylor. pessoas. a morte infame que merecia. barulhento e activo. Tirou da carteira uma chave.» J E A N P AUL SARTRE A lâmpada iluminava mal. todas as pequenas solicitações quotidianas. que parecia ter vinte anos. aqui esta chave chata. «Irei buscá las. Elas calam se. abaixando se ligeiramente. e Ralph baixou os olhos vivamente. sobem do chão como absurdos meni res. mas o molho desfez se. Daniel aproximou se. em paz consigo mesmo. Mathieu encontrou se no meio da Rua Départ. Ralph voltara a cabeça para o lado do espelho e olhava para Daniel com um estranho olhar. entre blocos de gelo riscados por clarões. mergulha num gás luminoso a dançar no fundo de uma greta imunda. Posso ir a pé. Perto da janela que dava para o telhado. talvez de prazer. Tinha vontade de apertar aquele pescoço fino com a maça de adão saliente e de esfrangalhá lo entre os dedos. e começou a dar o nó na gravata. «Cara de assassino». O futuro morreu. todos os miúdos cantos de cigarra se dissiparam no ar. no fundo da fenda. «Dentro de uma hora. e Daniel gozava aquele ódio que os unia. para além dos edifícios e das ruas. caem do céu como enormes estalactites. As coisas ficaram ali. Mathieu andava com um passo regular.» O mundo reformou se. havia uma porta fechada. o tempo de chegar até à porta e abri la. com autos. pensou Daniel com um arrepio.» O rosto avolumar se ia no espelho e seria o fim. além dessa hora não havia nada. montras. quase apagado pela penumbra e a sujidade. aquilo purificava o. Massas sombrias arrastam se a ranger. O quarto era um . As rugas esvaziaram se como por um buraco de esgoto. atrás dele. No espelho. «Um dia um tipo como este liquida me à traição. um ódio requentado. Lá longe aquela porta fechada. O corpo vira à direita. «E se Lola tiver ficado na cama?» Pôs a chave no bolso e pensou: «Que importa! Pego no dinheiro mesmo assim. Mas não era o mesmo mundo nem exactamente o mesmo Mathieu. tinha pressa em acabar de se vestir. aquilo que ainda há pouco as enchia desapareceu.» Uma hora. viu o perfil magro e duro de Ralph e as suas mãos puseram se a tremer. No fim do mundo. sentia se mal e sereno. Mas já ninguém o habita. odeia me.» Demorou se a dar o nó na gravata.

pensou com imparcialidade. que era o senhor que queria. hesitou. Daniel contemplava o dorso magro. os braços jovens e musculosos que saíam de uma camisa Lacoste de mangas curtas. agora. — Bom. calçava os sapatos inclinando o busto. e pronto! Mas bem sabia o que o esperava lá fora. mas estou a ver. Daniel enxugou cuidadosamente as mãos. era muito mais penoso. — Não tens uma toalha? Tinha as mãos húmidas. Só lhe disse que era asneira tê la deixado. Quando se deitava depois. Lalique quem te aconselhou. — Veja dentro do jarro. «Tem uma certa graça». — Nunca houve água neste jarro. — Que horas são? — Nove. e pensava apreensivo no peso do casaco que lhe ia colar a camisa de linho contra a carne húmida. Dez horas ainda. — Não lhe vou dizer nada. Não é da minha conta — explicou Ralph. acabam de soar. não parecia muito franco.forno. Sorriram ambos com desprezo. J E A N P AUL SARTRE — Eu disse lhe: faz o que quiseres. depois de um silêncio: — É mais cómodo. Precisa sempre de mentir. mas não teve coragem. Fez um movimento irritado para dar o laço no sapato do pé esquerdo. Ele é assim. Tinha os ombros e o peito inundados de suor. chateado. Sentado à beira da cama estreita. — Se foi o Sr. Daniel quis vestir o casaco. não é a mesma coisa. Lalique. estaria lá fora. antes da madrugada! Não se deitaria. Dentro do jarro havia uma toalha sujíssima. — O teu quarto é terrivelmente quente! — E mesmo debaixo do telhado. — Eu não quero coisa alguma — disse Daniel — e não lhe disse para pedir desculpas. Ele veio dizer me hoje de manhã que ia pedir desculpas.. Mas há um a quem eu deitarei a mão quando o apanhar. A Explicou. Sr. No momento de vestir o casaco. com o joelho direito erguido. foi o senhor quem aconselhou Bobby a voltar para a farmácia? — Aconselhou? Não. Ralph ergueu a cabeça: — Queria perguntar lhe. — Nós lavamo nos no lavatório do corredor — disse Ralph.. Dentro de um minuto. Mas tinha horror àquela graça. — O farmacêutico? . Vocês não parecem muito amigos da água.

vai ver. E Corbin do matadouro. Levantara se imitando as fases da luta. Tinha necessidade de fazer gestos vivos e bruscos. talvez seja ele que te liquide. — Então — continuou Daniel —. não disseste nada? Pois toma. disse eu. Um camarada de trinta anos e com braços assim. Mas não o velho. Depois todos falam em quebrar a cara a alguém. magoado. Não acreditava muito naquelas histórias. — Mijava sangue — continuou Ralph. com uma irritação irónica.» Todos menos Bobby. sinistro e arrogante. — Uf! Uma rasteira e estatelou se no chão. — Pergunte! Pergunte só! — disse Ralph. «Vens cá para fora». O tipo novo. os olhos brilhavam lhe.» E zás no estômago. era o que ele dizia. hem! Acabarás por te espetar. Pensava: «São todos iguais. Daniel sorriu com insolência. Ralph entusiasmara se. hem? Não tens medo de ninguém. — O estagiário? — Sim. Pergunte só ao empregado do Oriental. Sorriu maldoso. Queria me pôr fora. «Eu mato o». — E tu? Vamos lá ver se tens força.» — «Não disse nada. Esse estupor. Parecia um insecto. Era Bobby. — Não são os maiores que são os mais fortes — disse. — Pode vir. (E Daniel deu . naturalmente. Voltou se sobre os pés mostrando as nádegas duras. Daniel não soube resistir ao desejo de o humilhar ainda mais. Calou se. mas achava humilhante que Ralph tivesse dominado um homem de trinta anos. Daniel olhava o. — Eh!. — Ele? — Ralph riu maldosamente. Em cheio. Ele sabe. O que foi dizer de Bobby e de mim! Bobby não tem vergonha. Apetecia lhe espancá lo. não tens medo de ninguém. e de passagem limpei Ihe o focinho com o cotovelo: assim. hem! Que é que foste contar? Ah!. Já não sabia onde estava. Mandei lhe uma! Um murro no olho para começar. Ele saiu: «Queres ensinar a viver a um pai de família?» Foi o que ele disse. Havia uns a olhar. que era uma fêmea. Ralph estava vermelho.— Sim. o pai de família. — A brincar aos heróis. Ralph riu também e aproximaram se um do outro. Atiro o ao chão. — Vou chegar de mãos nos bolsos. com um arzinho de poucos amigos. não disse nada». «Estás me a conhecer? Estás? Então ouve. — «Ah!. as orelhas estavam vermelhas. Pôs se a rir. coberto de glória. Daniel sentiu se cheio de ódio. salto lhe em cima e bato lhe com a cabeça contra o passeio. Que é que foste dizer de mim. e um muito alto que eu já vi consigo. pensou Daniel. — E tu desfizeste o. Voltar para aquela casa! Mas eu vou esperar o gajo à saída. Comprazia se no seu ódio. moldadas pelas calças azuis.

Os olhos de Ralph estavam cheios de ódio. menino. Era belo. Juntaram se de novo e principiaram a girar no meio do quarto. Estava arquejante e humilhado. Ralph debateu se. — Está mesmo com vontade? Atirou se subitamente sobre Daniel. A brincar. — Ah!. está a querer de verdade — disse Ralph num tom estranho. Estava sem fôlego. . Vestiu o casaco. não ganhará. Ralph abriu a boca espantado. mas há a diferença de peso. de cabeça. generoso. sorridentes e raivosos. mas Ralph resistiu. — Agora não tenho fôlego. contrafeitos. Lutavam em silêncio. Daniel contemplava o. vou me embora. levantou o. Ralph era duro e flexível. mas desviava os olhos de Daniel. Ralph estava pregado na cama. «Tenho de acabar com isto ou então ele vence me. menino? Ralph sorriu imediatamente e disse com uma voz falsa: — O Sr. — Já fui forte — disse. — Gentilmente. Riram ambos. Encontraram se novamente um diante do outro. Daniel agarrou o pela cintura. Ficaram assim uni bom momento. Daniel desviou se e agarrou o pela nuca. A — Quem ganhou? — perguntou Daniel ainda arquejante. mas Daniel segurou lhe os pulsos e apertou lhe os braços sobre o travesseiro. — Lutas bem — observou Daniel —. arranjava o colarinho da camisa e não arquejava. Tentou rir. Tinha a impressão vaga de ser um tipo gordo e de bigode. — Quem ganhou. Ralph estava de pé. Lalique é forte. pensava: Estou a ser ridículo. — Questão de treino. Daniel tinha vontade de agarrar Ralph pelo pescoço e encher lhe a cara de socos. Adeus. satisfeito. tentou arranhá lo. de pai de família. atirou o para a cama e caiu em cima dele. impotente.» Empurrou Ralph com toda a força. Daniel demasiado cansado para se levantar. — Consigo posso eu bem. Ralph não parecia nada cansado. Daniel sentiu um gosto áspero e febril no fundo da boca. — Vou mostrar to.Ihe um empurrão. Uma raiva louca invadiu Daniel. mas Daniel enfiou lhe as mãos na cara e ele largou o. claro — disse ele com voz sibilante. esmagado sob aquele peso de homem. e Daniel começou a arquejar. O coração batia lhe como se fosse estourar.) Vamos lá ver se tens força.» Baixou se de repente e pegou Ralph pêlos rins. — O fôlego não é nada — disse. Ralph conseguiu erguê lo. Os músculos escorregavam nas mãos de Daniel. Daniel largou o e pôs se de pé. mas os olhos faiscaram Ihe de raiva. a camisa molhada de suor colou se lhe à pele. — Bom — disse —.

Era o toilette. Ao levantar se percebeu no fundo do quarto uma porta que não vira de manhã. — Escondi uma coisa para ti no quarto. Mathieu riscou um fósforo e viu . Mathieu sorriu lhe. um pensamento veio lhe repentinamente. Procura. — Não está? — Não. pensou. — Estava a ver se a chave estava lá. que hás de encontrá la. Quarto 21. — Bom. tinha previsto isso. — Eh! Aonde vai? — perguntou uma voz áspera. Não notara isso de manhã.» Olhava de viés pelo vidro da porta do escritório e viu uma sombra. Como transpusesse o limiar da porta. Mathieu fez soar uma campainha surda. Abriu a. O nome do negro era Bolivar. depois das nove. mas já se acos tumara à escuridão. e deixara a navalha aberta sobre a lareira. Ao abrir a porta. «Que vou fazer da chave?» Hesitou. Daniel desceu as escadas. não queria roubar para ele.— Boa noite. No patamar do 3. Uma porta abriu se atrás dele: «Vão chamar me.» Mas não teve medo. As notas que ele largara de manhã tinham caído sobre os maços de cartas. Mathieu pôs se a subir sem responder. A mulher aproximou se do quadro. — Aonde vai? — repetiu ela. «vou lavar me dos pés à beça». A chave estava ali. depois enfiou a chave na porta do 21 e abriu. — Não saiu.° parou um instante. — Pois é — disse aliviada. Fechou a porta à chave e avançou para a cama. Havia alguém. «Antes de mais nada». — Não pode avisar na caixa? «Bolivar. com as pernas moles. Bolivar. depois resolveu deixá la na fechadura da maleta. antes de sair. O quarto estava escuro.° — disse Mathieu tranquilamente. A cama estava desarrumada e havia dois travesseiros ainda amassados pelo peso das cabeças. Parou. no 3. desconfiada. Parecia importante e mostrava se inquieta. depois deu uma volta e dirigiu se para a escada. Caminhou sem se apressar até ao quadro das chaves. Mathieu ajoelhou se diante da maleta e abriu a. A porta fechou se. Barbeara se pela manhã. Pegou em cinco. de lornhão.. ele não saiu. Mathieu pegou lhe rapidamente e enfiou a no bolso.. Uma possibilidade sobre duas. Sentia uma vaga vontade de vomitar. Era uma mulher alta e magra. Uma escuridão avermelhada que cheirava a febre e a perfume. pensou: «Talvez liguem J E A N P AUL SARTRE só de noite. Mathieu voltou se.» — Vou ver o Sr. Sr. Lalique. A princípio estendia os braços para se proteger contra os possíveis obstáculos. Vi o senhor mexer no quadro das chaves — disse a mulher.

Anda a passos largos. o fato cuidadosamente dispostos sobre as cadeiras. Agora distinguia com nitidez os móveis. divertido. minha senhora. Havia gente a subir a escada. até logo — respondeu ela. Está sozinho naquele cenário. Não. A chama corre ao longo da mecha. só ele vivo na luz demasiado azul. Depois desceu. Dá alguns passos no quarto. A navalha está sobre a lareira. Quando se voltou. A mulher estava perto da porta de entrada e de costas voltadas para o quadro das chaves.surgir no espelho o seu rosto avermelhado pela chama. Sentia o olhar da mulher ferindo lhe as costas. que o mais difícil ainda estava por fazer: pôr a chave no lugar. E o soldado respondeu: — É alto. O cabo é preto. o barril de pólvora está no fim. nada o impede.» Os gatos arranham na cozinha. procura um socorro. viu uma mulher com um soldado. Mathieu deixou os passar. nem mais nem menos. ninguém. As ruas são azuis de mais. Só ele de pé. pesa apenas como um insecto na mão. Arrepia se. — Adeus. A navalha não ajuda. os vestidos de Lola.. mas ouviam se passos e risos. o pijama. as cadeiras estão inertes. Agora apoia a mão na mesa. de pernas moles. «Nada me ajudará. Mathieu desceu sem fazer barulho. Nada o impede de resolver. Teve um risinho mau e saiu. Mais ainda de tédio que de angústia. A mesa está inerte. As coisas são servis. A minha mão é que tem de fazer tudo. a lâmina branca. Pega lhe pelo cabo e contempla a. é uma coisa inerte. Boceja de angústia e tédio. a boca seca. Saiu. flutuam na luz móvel. Sobe a escada a quatro e quatro. a mão treme lhe. Tem medo. depois largou o fósforo e voltou para o quarto. O corredor estava vazio. Tudo está inerte e silencioso. o roupão. Tem muito medo agora. Enfiou a chave na fechadura e fechou a porta. Pensava.. A minha mão fará tudo sozinha. . Dóceis. A mulher virou se e ele cumprimentou a: J E A N P A U L SARTRE — Adeus. No primeiro andar parou e inclinou se sobre o corrimão. A chama corre ao longo da mecha. Morta a serpente. Fez um movimento para voltar ao quarto. Contemplou se até que a chama se extinguiu. Tinha vontade de rir. Custa lhe a encontrar a fechadura. depositou a chave e saiu ruidosamente. Manejáveis. Pouco se lhe dava ser surpreendido. um sinal. Tem de decidir sozinho. morre o veneno. Dois gatos passam lhe entre as pernas. — E no quarto andar — disse ela. Passa o dedo pelo fio da navalha e sente na ponta do dedo um gosto ácido de corte. Morta a serpente. ela responde à pressão com uma pressão igual. a temperatura demasiado suave.

Levanta se. Mas é pré J E A N P AUL SARTRE ciso fazer primeiramente o gesto obsceno. Olha para o soalho. da nuca aos rins. inerte. Ficarei deitado no chão. Sim ou não. o braço. tem a noite toda. a minha mão é que deve fazer tudo. inerte. dura. Mas é o gesto. A inércia da navalha contamina lhe a mão. o soalho. recta. A serpente ali está. Abre os dedos: a navalha cai em cima da mesa.. Passa a navalha para a mão esquerda. Nada o impedirá de a agarrar. sem saber como se levantou. com a braguilha aberta e viscosa. entre as pernas. A navalha. Salta para trás. desabotoar se com paciência.. Nada mudou. Nada. não deseja nada. abre a porta e lança se escada abaixo. como se encontra de pé. É preciso um gesto. carrega a fera no ventre. aberta. Com a mão esquerda.o seu acto não é senão uma ausência. Escreve: Senhor Delarue. Estende a mão. A mão direita apossa se novamente da navalha.. Coloca o sobrescrito bem à vista sobre a mesa. o gesto. se pudesse imaginar nitidamente aquela poça vermelha e aquele odor. cega. Diz: «Vamos!» E um arrepio irónico percorre lhe as costas. sobre a mesa. Tem medo da mão.. Sozinho consigo mesmo. flutua. A minha mão. e a navalha na ponta. a navalha está ali. Nunca será tarde de mais. Está rígida na ponta do braço. Quero a. Aquela flor vermelha entre as pernas não está ali. Um gato desvairado rola pela escada com ele. unido. . Em vão. a navalha estará no chão. pequeno. que nojo! Se tens assim tanta repugnância. Tira cinco notas de mil francos. Um corpo vivo e quente com um braço de pedra. Contempla fascinado a navalha. Rua Huy ghens. Um gesto. o gesto de mictório. Puxa as cortinas. Com a mão esquerda. chamo a. A temperatura é suave. depois a lâmina. Tem de se resolver. Gira em torno da mesa sem despregar os olhos da navalha. gelado. anda. Um enorme braço de estátua. 12. Tem a noite toda para isso. A navalha. É liso. ela chupa lhe o sangue. pesa lhe docemente na mão. de um modo suficientemente nítido para que se realizassem por si. toca na lâmina. «Vamos!» Se pudesse encontrar se mutilado. Pode estender a mão e agarrá la. inerte. sem que precisasse de fazer o gesto! A dor aguento a. A navalha está ali. Pega num sobrescrito. o quarto está docemente iluminado. e o presente cai com a primeira gota de sangue. inerte. não há lugar para manchas. examina a. acende a luz. põe o dinheiro dentro. Tudo está inerte e tranquilo. Vai até à janela. A navalha obedecerá. aquela poça vermelha no soalho não está ali. Contempla o soalho. olha para o céu. Anda de um lado para outro. de manhã. Ainda tem tempo. ele sente a. A noite toda. vermelha. Já não se odeia. Morta a serpente. Pega na carteira. A minha mão fará tudo. depois que o despertador toca. a navalha brilha docemente.

bolhas apressadas subiam à superfície. Daniel inclinou se por cima da mesa. O quarto esperava o docilmente. Os gatos erravam pela escada escura. — Obrigado. — Não estou muito bem — explicou. As pancadas violentas do coração repercutiam se nas pontas dos dedos e sentia um gosto de tinta na boca. com qualquer coisa de maníaco e que dava boas gorjetas. mergulhar no ruído. Sentou se ao fundo do café. — Exactamente como gosta — disse. O empregado acorreu. A — Parece cansado — disse o empregado respeitosamente. e Daniel sentiu que se tornava um freguês rico. nas luzes. Como sempre. E depois toda aquela agitação se acalmou. Esmagou se no pavimento. No bar. Não — disse bruscamente.Daniel corria na rua. fugir. levá lo iam para casa. a porta estava aberta e a navalha brilhava em cima da mesa. como comadres atarefadas. Daniel estava só naquele bar tranquilo. Empurrou a porta sem fôlego. O empregado baixara se para enxugar o chão e apanhar os cacos. o mais longe possível. com o barman. O seu quarto esperava o. Deitou um pouco de água Perrier no copo. invisíveis. — Trago lhe outro? — Traga. Era um norueguês que falava francês sem sotaque. a lâmpada acesa. o uísque ferveu durante um segundo. O empregado abanou a cabeça e foi se embora. A luz loura espumava em volta dele. Lá em cima a porta tinha ficado aberta. Nada estava decidido. nunca seria decidido. arquejante. Dir se ia cerveja morta. O empregado voltou com um copo meio e uma garrafa de Perrier. o empregado e o barman falavam norueguês. O líquido escorria lentamente sobre os ladrilhos. — Sou um desastrado — disse Daniel. Nada o impedia de retroceder. Correu até ao Rói Olaf. no qual flutuava um pouco de espuma. «Nunca mais poderei voltar. Dê me meia . O barman e o empregado calaram se subitamente. um pouco febril. — Um uísque — pediu. voltar a ser um homem entre os homens. ser olhado por outras pessoas. sorrindo. Olhava amavelmente para Daniel. Era preciso correr. deitando os pseudópodes em direcção aos pés de uma cadeira.» Beberia o que fosse necessário. Lá pelas quatro horas o empregado. a navalha sobre a mesa. Daniel olhou o líquido amarelo e mole. Daniel voltou à solidão. — Beber mais! Atirou o copo com um safanão. a madeira clara dos tabiques brilhava docemente. — É um aviso — acrescentou em tom de piada. — Não devo beber esta noite. entre as pessoas da rua. embebida num verniz grosso que se colava às mãos quando se lhe tocava.

a luz loura. Pôs cem francos na mesa. «Estupor! Comediante covarde. tem de ceder. não se iludira um só instante. continuava a fazer se existir. onze horas. fugira.. os tabiques de madeira. Sabia o quando pegara na navalha.. O peito roçava lhe os joelhos. Não pode desprezar se nem esquecer. pensa que pensa que gostaria de estar morto. queria ter nojo de si.. Um juiz qualquer! Qualquer juiz. obstinadamente. «Mathieu está em casa de Marcelle. pensa que gostaria de estar morto. Daniel bebeu. Neste momento ela fala. «Há um meio. Depois pôs o pé no primeiro degrau da escada.» Quando caminhava a passos largos pela rua. O empregado abriu a garrafa e encheu o copo. Alegrava se sempre com a oportunidade de uma boa farsa. distraído. Tirou os sapatos.. curvou se e desapertou os sapatos.» Pôs se a tremer: «Cederá. fui eu que fiz. aceitaria qualquer um. Tinha falado alto. «Um meio famoso. Ter lhe ia sido preciso.. M athieu fechou a porta devagar. Há um meio. eu estraguei lhe a vida. já sabia que não iria até ao fim. — Tome. acha que ele não se declara suficientemente depressa.» Riu. se pudesse sentir pesar sobre ele o desprezo de outrem. não aquele atroz desprezo sem força suficiente. Pegou no copo e apertou o com raiva. que parecia sempre a ponto de se aniquilar e que nunca passava. Ela fala. — Chamou? — Sim — disse Daniel.. Se alguém soubesse. Um ambiente opaco formava se em volta dele. erguendo a ligeiramente sobre os gonzos para que não rangesse. Pensou: «Sabia! Sabia que não o faria. eram palavras. oito ainda por viver antes da manhã. Pobre comediante! Só no fim conseguira amedrontar se. Onze horas! Sobressaltou se. endireitou se e pousou a mão direita sobre o corrimão.» Empertigou se e dirigiu se apressadamente para a porta. menos ele próprio. O empregado acorreu.. Gostaria de estar morto e existia. Um meio de arranjar tudo.» Olhou o relógio.. abraça o.. Está de pé. não havia melhor oportunidade.Perrier com limão.. «Mas nunca poderei. prefiro A castrar me. é para si. com olhar fixo. Daniel sentia se mais calmo. — Obrigado.» Largou o copo. também. O tempo não passava. Gostaria de estar morto. segurou os com a mão esquerda. de olhos erguidos para uma neblina rósea que parecia . O rapaz afastou se. mas não. sim. Estupor!» Houve um momento em que pensou que ia consegui lo. Isso. O odor a gengibre. aquele fraco e moribundo desprezo. e quando subiu as escadas.

mexendo a ponta da língua entre os dentes com uma expressão animada e feliz.. junto daquela mulher sorridente. Marcelle estava A nua por baixo do roupão. Marcelle ergueu a mão até à fronte e mexeu os dedos. Mathieu pensou. Viu lhe os seios formosos e passou lhe pela boca um gosto a açúcar. Ela pegou lhe na mão e puxou o para a cama. — Estás bem disposta — disse. Ele sentou se. Subiu lentamente na escuridão. olá! Passou lhe o braço em volta do pescoço e beijou o. Estava bela. inteiramente mergulhado naquele cheiro de doença.suspensa nas trevas. Ela continuava a segurar a mão dele entre as suas e apertava a de vez em quando. A atmosfera era pesada. Marcelle inclinara a cabeça para trás e observava maliciosamente através das pálpebras semicerradas. — Estás quente — disse ela. de bombons e de amor. Ele sorriu também e foi guardar os sapatos no armário. era Marcelle. evitando que os degraus estalassem. — Olá. muito bem mesmo. tinha um ar solene e alegre. acariciando lhe a nuca. Mathieu fechou a porta e ficou imóvel. — Olá — disse em voz baixa. Olhava o de baixo para cima. com coração triste. Empurrou a. A porta do quarto estava entreaberta. Já não se julgava. Vestira o seu belo roupão branco de cordão dourado. ali desabrochava. de braços caídos. — Dormiste bem? — Admiravelmente. — Senta te junto de mim. — No entanto. . Beijou o de novo e ele sentiu sobre os lábios o veludo rico daquela boca e aquela nudez glabra. Uma voz cheia de ternura suspirou atrás dele: — Querido! Voltou se subitamente e encostou se ao armário. uma mulher contemplava o sorridente. Mas hoje estou bem. com a cabeça levemente inclinada. De um sono só. quente e esperta da língua. Sentada na cama. tomado por uma insuportável doçura de existir que lhe apertava a garganta. pintara se cuidadosamente.. Todo o calor do dia se depositara no fundo daquele compartimento como uma borra. Desenvencilhou se docemente. Estava estúpida. desajeitadamente. ontem ao telefone não parecias muito bem. Ele estava ali. e Mathieu sentia que o calor daquelas mãos lhe subia até às axilas. — Não. na fealdade magra de Ivich. Ela pusera sombra azul nas pálpebras e tinha uma flor nos cabelos. deslizando a língua por entre os lábios dele.

e exclamou: — Que é que fizeste na mão? — Cortei me. de passagem. virou a e examinou lhe a palma com um olhar clínico. As mangas caíram. Ele deslizou devagar a mão esquerda diante do estômago e enfiou a sorrateiramente no bolso das calças para tirar o tabaco. Marcelle viu lhe a mão. Olha para esta pobre «pata» devastada. Foi ontem à noite no Sumatra. — E tu. Mathieu olhou aqudes braços nus que tantas vezes acariciara e os antigos desejos giraram lhe em volta do coração. dei uma queda. com a sua crosta escura e mole. apressaste te em demonstrar o contrário. Ela não respondeu. não podes andar assim. erguera se nas pontas dos pés e levantava os braços para alcançar a prateleira de cima. — Mas o curativo está sujo. cabelos de ouro. — Naturalmente. uma expressão de humildade e confiança. O ferimento era repugnante. «Que é que te aconteceu?». esses miúdos fazem o que querem de ti. Marcelle levantou devagar aquela mão à altura do rosto e olhou a de perto. És completamente doido. pensou Mathieu. amanhã eu pentear me ei assim para si. Mathieu sorriu sem responder. Já me viste tão tolo? — Mas que foi que andaste a fazer? Espera. Virava lhe as costas. e subitamente inclinou se e apoiou os lábios no ferimento num impulso de humildade. entre as mãos dela. inerte. Desfez a ligadura e abanou a cabeça: — Que ferida tão feia. Ela teve um riso indulgente e escandalizado. — Não pareces. Isto vai infectar. — No Sumatra? J E A N P AUL SARTRE «Rosto largo e lívido. que foi isto? — Caí. Marcelle largou a mão direita de Mathieu e pegou lhe na outra. A mão de Mathieu repousava. querido. amanhã.» — Uma fantasia do Boris — respondeu. Marcelle voltou para ele alerta e lentamente. Tem lama por cima. como conseguiste cortar te deste modo? Estavas embriagado? — Não.— Como está calor aqui — disse. — Comprou um canivete e desafiou me duvidando que eu mal tivesse coragem de o espetar na mão. Ele puxou a para si e beijou lhe a orelha. — Estás bem comigo? — perguntou Marcelle. Ela levantou se para ir buscar os apetrechos ao armário. naturalmente. Devorava o com os olhos entreabertos. . vou arranjar este penso. — Cortei me.

Boris desafiou te? E tu retalhaste a mão? Que criança! E ele também se cortou? — Não. — Pronto. — Então iremos no Outono. há tanto tempo que não saio contigo. Porquê? — Fui. suspendeu o na ponta dos dedos e considerou o com uma falsa repugnância. deita o no lixo. Marcelle pôs o alfinete na ligadura. contrariado. apertando nos lábios o alfinete: — Ivich estava lá? — Quando me cortei? — Sim. Marcelle tossiu. depois virão as férias. Será uma festa.. — Não pode ser antes do Outono — disse. É tudo culpa minha. J E A N P AUL SARTRE — Queres? — disse Marcelle.. fui desagradável anteontem. — E tinhas razão. Prometes? — Prometo. / — Lambe! A Marcelle apresentava lhe um penso. Marcelle aplicou a na ferida. — Não. — Mas isso aborrece te. Embebera a esponja no álcool e pusera se a lavar lhe a mão. Sobre o 'aço ficara um pouco de bâton. dançava com Lola. — É bonito o Sumatra? Sabes o que eu queria? Que me levasses lá um dia. Ele sentia contra a sua anca o calor daquele corpo tão conhecido. Divertiram se muito? — Mais ou menos. Disse. constrangida. Ligou lhe rapidamente a mão com uma ligadura branca de gaze. um passeio. — Que vou fazer desta porcaria? Quando saíres.. Estava nervosa. Marcelle não era feliz nas suas expressões. — Oh!. — Não. — Então. «Uma saída!» Mathieu repetia esta palavra conjugal. querida. Pôs a língua e lambeu docilmente a cobertura rósea.— Dá cá a pata. . Marcelle riu se. cansa te — disse Mathieu. — Eu? — Sim.. — Bem vês que não estás muito bem comigo — disse. Lola vai para a África do Norte. — Agora precisas de descansar seriamente. uma vez. — Pregou te uma boa partida! Ela segurava um alfinete de ama na boca e rasgava a gaze com as mãos. Depois pegou no curativo sujo.

ontem. Penso que Sarah te levará à casa dele e és tu que vais pagar. voltou se. categórico: — Agora podes ir ao judeu. confiante. abria o e fechava o nervosamente. Parece que é uma competência.. Mordia o lábio inferior e olhava para as notas. Os olhos de Marcelle apagaram se. cinco mil. três. Fixou o olhar em Mathieu com uma expressão triste. e Marcelle perguntou: — Onde arranjaste o dinheiro? — Adivinha. incrédula. tanto melhor. Tinham conservado o perfume de Lola. — Que é que devo olhar? — Isto. Disse: — Pensei. — Uma. E que me deram trabalho a encontrar. o estupor. Ela sabia muito bem que Daniel não lho tinha querido emprestar. Disse lentamente: — Cinco mil francos. mas ainda confiante. — Tanto melhor. Houve um longo silêncio. Marcelle não respondeu. Já to disse ao telefone. e não podia compreender aquda confiança inexplicável e espontânea.— Não tens culpa — disse ela. — Jacques? J E A N P AUL SARTRE — Não. Mathieu acrescentou: — Deixo tos. Mathieu não aguentou mais. — Pois é. — Quem? . Pegara noutro alfinete de ama do cestinho. E gente da alta. gente rica. cinco — disse. — Olha — disse.. Fez se silêncio. Ele quer que lhe paguem adiantado. Mathieu interrompeu a. ela esperava sem dúvida uma palavra de ternura. Não parecia compreender. com o dinheiro A em cima dos joelhos. — Daniel? Ele encolheu os ombros. duas. — Nunca tive nada que te censurar. Tirou a carteira do bolso e pousou a nos joelhos. imaginava bem de mais a expressão do seu rosto. fazendo as estalar triunfantemente. Envelhecera de repente. Mathieu fez um gesto para colocar as notas em cima da mesa de cabeceira. Marcelle esticou o pescoço e apoiou o queixo no ombro de Mathieu. quatro. passaram pelas mãos dele. Tirou as notas da carteira. Ela erguera a cabeça e olhava as notas pestanejando. e como Marcelle não falasse. Centenas de mulheres. Ele não se atreveu a voltar se para ela. em Viena. de perdão. Mathieu esperou um instante. — Então não sei — falou secamente.

Mathieu disse. Roubei o a Lola. — Então. — Roubaste! — disse lentamente Marcelle. A boca exibia de novo aquele sulco duro e cínico. A O rosto emudecera. sem olhar para ele: — Que vontade tens de te ver livre da criança! — Tinha vontade principalmente de que não fosses à velha. Marcelle voltou lentamente a cabeça para ele. mas ela retirou a e disse sem o olhar: — Já sei que estiveste com Daniel. — Então. Mathieu pegou lhe na mão. sentado entre os dois. parecia espavorida e aliviada.. — Hei de contar to um dia. Mathieu também se sentia aliviado. Não fui eu. mas as palavras não lhe saíam. Observou. e Mathieu empurrou os com o pé. era isso. Marcelle sorriu. As cartas estavam sobre a mesa. foi chato! — concordou Marcelle com amargura. ele disse o que te tinha a dizer e ao deixá lo foste roubar os cinco mil francos a Lola. mas sabia que ele te ia procurar. — É. — disse Mathieu — expliquemo nos francamente. — Como soubeste? Foste tu que o mandaste? Tinham combinado tudo? — Não fales tão alto — pediu Marcelle —. Parecia amedrontada com o que ia dizer. Estiveste com Daniel. tinha um ar admirado. Ela teve um riso seco. que é que há? — repetiu Mathieu.— Ninguém me deu o dinheiro. tristemente: — Foi chato! — Sim. Ela inclinara se para trás e crispara as mãos no lençol. Daniel estava ali. Olharam se ambos.. Tirara a flor dos cabelos e fazia a rodopiar nos dedos. Continuava com a boca aberta como se tivesse vontade de falar. Fez se silêncio. vais acordar a minha mãe. — Sim. Tinham a noite inteira à sua frente. irónica. Mathieu enxugou a testa suada. que é que há? Marcelle fez um gesto brusco e os apetrechos de farmácia espalharam se pelo soalho. — Porque te ris? — Rio me de mini própria — disse. Murmurou: — Fui demasiado estúpida. Calaram se. — Roubei. estive com ele — disse Mathieu. Ele perguntou: — Censuras me por tê lo roubado? — Não me interessa. — Pois bem. O rosto tornara se lhe cinzento. . Bem. era preciso ir até ao fim. — Não há nada que explicar. — Não me vais dizer que o roubaste. Ela reflectia. — Roubaste? Não é verdade.

— Sim. isso não é da tua conta. — Não. — Peço te. — Pois bem. caso com ela. Mas diz o que se passou anteontem. sofria. Ela sacudiu a cabeça. depois de sete anos! As mãos também lhe tremiam agora. E é o que pensas de mim. Pensou: «Acabou se. Mathieu teve vontade de apertá la nos braços. surpreendido. que saberei reconhecer os meus erros. Ele acrescentou docemente: — E um filho que tu queres? — Ah! — disse Marcelle —. Seria muito melhor se pudéssemos ter novamente um pouco de confiança um no outro. que foi que se passou anteontem? — Anteontem? — Sim. às escondidas. — Julgo que sei. Mathieu. — Mas porquê. — Foi o que me pareceu. — Peço te — disse ele. — Foi o que te pareceu — disse ela rindo. mas não se atreveu. . pouco te incomodavas com o que eu tinha na cabeça. já não há tempo. Daniel acabou de me comunicar que tu te encontravas com ele e não me dizias nada. Escuta. O que eu quero já não é da tua conta.. ainda há tempo. Marcelle.» Ela estava ali. Juro que tenho boa vontade. pegando lhe na mão. não te obstines. A Ela parecia não ter ouvido. Marcelle? Porque não conversas calmamente comigo? Uma hora apenas e tudo se acerta. foi como das outras vezes. era infeliz e má e bastava um gesto para a acalmar. e tu julgaste que eu queria casar. não devia ter pensado nisso. Daniel disse me que tu tinhas censurado a minha atitude de anteontem. não finjas que não percebes. — Tens razão. — Oh!. Estava lívida.. menos irritada. — Foi o que te pareceu! Daniel disse te que eu estava aborrecida.» Era evidente. — Foi Daniel quem te disse isso? — Não — respondeu Mathieu. Ela hesitava. não é verdade? Ela tirou lhe a mão e ergueu se de um salto. — Calma — disse Mathieu —. — É verdade — disse Mathieu. Disse: — Queres que nos casemos. tudo se esclarece. Ela continuou a não responder.. Ele insistiu: — Há circunstâncias atenuantes.. «Era preciso que eu fosse muito sacana para imaginar que escapava. não adianta falar nisso. Ele olhou a com espanto. tu recebes Daniel há meses. triste. — E que é que tinhas na cabeça? — Porque é que queres que eu diga? Sabe lo muito bem. obrigar te a casar comigo. Bem vês que há explicações necessárias.

mas mostrava se surpreendida e amedrontada com o que dissera.. desato a gritar. Ia dizer: «Amo te. — Ouve.. Pusera se a tremer. Pensou: «Está acabado. como se se lembrasse de alguma coisa. não é? Ele pegou lhe na mão. — Vai. — Eu. tudo poderia ainda salvar se. Continuou tristemente: — Para pensares de mini o que pensaste. Ele levantara se. de olhos cerrados. Mathieu não respondeu. eu quero te muito ainda. Vai te embora. se lhe dissesse que a amava. — Sim. Era quase uma pergunta. ansiosa. Ela disse: .. encharcados em suor. — Vai — repetiu ela com voz surda... — Mas — atalhou.. quero. Se ele a abraçasse. — Eu não te desprezo — disse Mathieu. Sentia se ridículo e odioso. — Estás doida. — Já sei o que queria saber. mas imediatamente tapou a boca com a mão e fez lhe sinal para se calar: — A minha mãe — murmurou.. Já não havia nos seus olhos senão uma interrogação inquieta. A — Vai — disse ela —. Falara com segurança. ou não respondo por mim. já não sinto amor por ti.» E ninguém te perguntou nada. e tu já não me amas. Durante muito tempo ficou a ouvir a frase. teriam a criança.. Disseste: «Amo te. Subitamente sorriu..— Eu não quero.. Mathieu disse: — Marcelle. Ela retirou a mão. Quero ficar junto de ti a vida inteira. Ela acrescentou como que esmagada: — Como deves desprezar me. Escutaram. Marcelle riu altivamente. mas ela repeliu o violentamente.. — Chega! — disse. vai. que lhe pendiam da fronte. Vai. Não posso. é preciso que tenhas deixado de me amar. — Mas porquê? Porquê? — Porque já não te estimo o suficiente. mas só ouviram o ruído longínquo dos automóveis. quero casar me contigo. com um gesto seco... estupefacto. já não posso ver te. Levantou umas madeixas de cabelos. chamo a minha mãe. Casaria com ela. mas de outra maneira...» Marcelle atirara se para trás com um gesto de triunfo. — Não quero abandonar te. Preciso de explicar te.» Hesitou e disse com voz clara: — E verdade. Ele abriu o armário e tirou os sapatos.. Mathieu avançou um passo. — Mas eu tenho por ti toda a minha ternura! — disse. desesperado. com uma alegria nervosa — não foi o que me disseste ontem ao telefone. — Se não saíres. viveriam juntos o resto da vida.

» Parou um instante. mas ela abriu os olhos e atirou se para trás apontando a porta. incompreensível. a não ser um ódio sem objectivo. secamente. Mathieu não as apanhou. Ele quis aproximar se. Roubara. com cortesia. Não há razão. Ela pegou nas notas e atirou as à cara dele. Ficaram silenciosos um momento. Mas sabia que ficaria acordado a noite toda.uitu direita. soluçando. Mathieu escutou ainda e. Mathieu não respondeu.. Subiu. Gostaria de verificar que a amava mais do que tudo no mundo para que o seu acto tivesse uma justificação. — Não parti — disse ela. As notas voaram através do quarto e caíram no tapete. escorregadio. «Se ficar. Ele voltou se. Marcelle? Era a mãe. Na secretária. desvairada. e fez se de novo silêncio. — Estou a ver — respondeu Mathieu. — Eu não devia ter me metido a dar a minha opinião. Olhava os cabelos de Ivich e pensava. virando a cabeça: — Fui odiosa.. Mathieu ouvia o ruído forte e regular da sua própria respiração. A porta do apartamento ficara aberta. E dizia: — Ah!. Olhava para Marcelle. . uma gargalhada profunda e sombria que se elevava como um repuxo e caía em cascata! Uma voz gritou: — Marcelle! Que foi. Ivich devia ter fugido... i en ensava: «Sou um sacana». ela vai gritar. O riso parou subitamente. — Acabo de romper com Marcelle. Ivich disse. abriu a porta e saiu. que estúpida. Ivich fez um esforço e disse.— Pega no teu dinheiro. que estúpida. Entrou e viu Ivich. calçou se. Ela ria. «Será por ela que fiz aquilo?» Ela baixara a cabeça.. de olhos fechados. com os sapatos na mão. Isso não. e o seu acto estava atrás dele. de olhos abertos no escuro. parou um instante. — Não. ele contemplava lhe a nuca morena e doce com uma grande ternura. talvez nem isso: «Vou deitar me. as pernas estavam moles. eu que pensava. perto da cama. Não havia mais nada nele senão fadiga e espanto. Parou no patamar do segundo andar para tomar fôlego. nu. escutando com a mão no fecho. Quando chegou ao fim da escada.. iria titubeando até à cama e deixar se ia cair. abandonara Marcelle grávida. Mas não sentia nada. a lâmpada estava acesa. como não ouvisse mais nada. Ouviu de repente o riso de Marcelle.» Despiria a roupa ao acaso. Dormira apenas seis horas em três dias. Estava sentada no sofá. para nada. e isso espantava o enormemente. n. Mathieu encolheu os ombros.

e o seu rosto tornou se duro e solitário como quando se voltava na rua para seguir. sorrindo. olhava o apenas. Ivich não respondeu. censurar me ia agora».. — Bem vejo que tem remorsos — disse Ivich. E o que quer dizer? A Lola. no seu lugar. aliás. Queria apenas dar lhe o dinheiro para não ser obrigado a casar. acabrunhado. não é lá muito glorioso. — Arranjou dinheiro? — Arranjei. — Sim. Mathieu sentiu que corava. inquieta. é impossível evitar da . Ele teve vergonha. pensou. Consegui arranjar me. Disse por escrúpulo: — Não a queria abandonar. Não disse nada. forçado. Sentou se perto de Ivich e pegou lhe na mão. — Não. — Não. Levou a mal. não sei o que esperava.. com vivacidade: A — Sim. nervosa. Observou com uma voz neutra: — Deixou a.. Ivich tinha uma expressão estúpida. Ela olhou o.» — Você é belo — disse Ivich. como Marcelle tinha feito pouco antes: — Roubou a Lola. com o olhar. Tudo isto é lamentável. Mas desta vez era Mathieu que ela olhava. Mathieu sentiu. Acabou por dizer: — Não sei o que pensa. Roubei por desvario e agora tenho remorsos. Foi ela que me mandou embora. Ele atalhou. uma porta a abrir. Subi ao quarto durante a ausência dela. renascer aquele áspero amor dentro dele. e Mathieu continuou: — Vou devolver lho. — Se o soubesse! Ela levantou se bruscamente.. Pensava: «Não quero que me recompense. e Mathieu calou se angustiado. Ivich pestanejou.. Roubei. Ele insistiu desviando os olhos: — Não foi bonito. — Onde? Ele não respondeu. Ela insistiu: — E inacreditável como parece só.. sem dinheiro? Mathieu. uma mulher bela ou um belo rapaz. Ivich. — Creio que também teria. A expressão irritou Mathieu. — Porque fez isso? Mathieu deu uma risada seca. Repetiu lentamente. Pareceu lhe que abandonava Marcelle pela segunda vez. sorriu: «Naturalmente». «se o tivesse feito. — Compreendo — disse Ivich. Ela parecia não compreender.Ivich levantou a cabeça. É um empréstimo. Uma escada a subir.

não lhe tenho amor — disse Ivich. — Mas eu amo a. Pensava: «É uma vingança. Os seus olhos faiscaram. E acrescentou num tom cantante: — Parecia tão orgulhoso de ter tomado uma decisão. a sua cabeleira estava penteada e o rosto apresentava se nu. — Assim — disse. A cabeça de Ivich rolou no seu ombro.. Ele ouvia dentro dele uma melodia viva e alegre cuja lembrança pensara ter perdido. borboleteavam em torno dela. até os meus remorsos. descobrindo o rosto e as orelhas. Bastaram lhe alguns movimentos rápidos e. — Não devo tocá la. Ela não o retirou. eu não sou. — Oh!... Ivich teve um sobressalto e desenvencilhou se rapidamente. Ivich empertigou se. Retirou a mão num gesto brusco. — Não quero que imagine. Mathieu apertava com força a mãozinha áspera de unhas pontiagudas. abatiam se sobre a cabeça e puxavam os cabelos. Disse: — Engana se. Continuou. Ela olhou o surpreendida. Pensava: «Também desperdicei isto e no entanto estava quase A contente. — Ivich! — disse docemente.. puxou Ivich para si. mas considerava aquela crise com indiferença. «Mas é uma criança!» E sentiu se inteiramente só. Mathieu pensou: «Quer tirar tudo de mim. Largou lhe o braço.primeira vez. Mathieu sentia a garganta seca. Ivich. vermelha de ódio. — Ivich. — Cale se. mas ela baixou os e assumiu uma atitude triste e terna.» Era uma expiação. puxou os cabelos para trás. não tem importância — disse.» ..» Estendeu o braço. Ele sentou se perto dela e agarrou lhe docemente o braço um pouco acima do cotovelo. depois olhou a e a melodia cessou repentinamente. Mathieu não respondeu.. pensei que viesse buscar a recompensa. Só as mãos continuavam raivosas.. — Eu. — Que imagine o quê? Ele sabia. procurando o olhar que ela desviava obstinadamente.. fiz mal. Mathieu deixou cair o braço e murmurou com lassidão: — Não sei o que quero de si. Ela deixou. Ela franziu as sobrancelhas e a sua cabeça agitava se com minúsculas sacudidelas. Ele devolveu lhe o sorriso e beijou a de leve. quando baixou as mãos. Está bem. ela sorriu de lábios entreabertos.

— Onde está Boris? Ouvi a voz dele. num estremecimento: — É horrível pensar que há alguém atrás da porta. era sem dúvida verdade. percebeu sob os dedos a carne fresca e disse: — Eu. Quer.. Fico. Ivich olhava a. Ivich disse. Dir se ia uma máscara. Lola voltou para ele o rosto desfigurado. Era Lola. depois muitos ininterruptamente.Aliás. Não se mexeu. tentando encontrar o olhar de Lola — só há no apartamento uma cozinha e uma casa de banho. — Acho que sim. Era o mesmo rosto que lhe mostrara na véspera enquanto a mulher do toilette lhe ligava a mão. aterrorizada. — É preciso abrir — sussurrou ela.. tivera com certeza a mesma ideia. Ela olhou o com um ar de autoridade calma. Lola avançara para Ivich. depois outro. Pode verificar se quiser. Mathieu ficou gelado. Um desejo triste e resignado que não era desejo de nada. Pegou lhe no braço. Olharam se. ninguém verá. ameaçadora. — Ouvi a voz dele. sentiu lhe renascer o desejo. Quer entrar na cozinha? Fecharei a porta. Ela empurrou o para entrar mais depressa. devia considerar que a honra estava salva. No entanto Lola não parecia dirigir se a ela — nem a ninguém — nem parecia vê la.» Ivich empalidecera. Mathieu colocou se entre ambas: — Não está aqui. Estavam a tocar. Tinha chorado. Mathieu foi abrir e viu na penumbra um rosto trágico. — Não.. — Pois é. J E A N P AUL SARTRE Interrompeu se. Ela sorriu lhe ternamente. Um toque primeiro. — Diga me onde está Boris. Pensou: «Marcelle. Porque havia de o amar? Não desejava mais nada senão permanecer um bom momento silenciosamente ao lado dela e que ela se fosse finalmente sem falar. Agora batiam violentamente à porta. entrou no escritório atrás de Lola. — Onde está então? IDADE DA RAZÃO . — Além desse escritório — disse Mathieu. No entanto disse: — Voltará no próximo ano? — Voltarei. Olhou a hesitante.. Mathieu nem sequer se deu ao trabalho de fechar a porta.

Lola pôs se a rir como uma cega. Ivich. tenho muito que lhe dizer. — Fique — disse Lola. não gosto. Não quer que eu vá à estação? — Não. Mathieu não se atrevia a olhar para Ivich. arrombou uma maleta e roubou me cinco mil francos. Subiu ao meu quarto lá pelas sete horas. — Eu escrevo lhe. no momento em que eu saía. Lola perguntou: — Vai partir? — Vai. — Largue me. Olhava a na expectativa de descobrir nos olhos dela um sinal de ternura. que deu três passos para trás a resmungar. Era preciso mandar Ivich embora imediatamente. Dispunha se a sair. creio. Mathieu empurrou violentamente Lola.Conservara o vestido de seda preta e a maquilhagem de teatro. Mathieu olhou para a bolsa e teve medo. — Vai dizer me onde está Boris? — Não. — Deixou Ivich às três horas — disse Mathieu. — Oh! Não! — disse. Os grandes olhos escuros pareciam ter murchado. com os olhos fixos no chão: — Ivich. mas só havia pânico. — Boris também vai? — Não. — Perdão! Quem me prova que não se vai juntar a Boris? — E se for? — disse Mathieu. Abriu a minha porta. — Ela é livre. deixe a partir. então até para o ano que vem. posso dizer Ihes. fazer as minhas malas. Ivich deu um grito de dor e ódio. As mãos amarfanhavam uma bolsa pequena de veludo preto que parecia conter um objecto pesado e duro. Preciso tanto de dormir. — Pois se não sabem por onde andou. Vejo a ainda esta noite? Ivich estava alterada. — Que mulher horrível! — disse Ivich entre dentes. mas vou explicar lhe a história do roubo. . mas deixe a partir primeiro. — Quero ir para casa. Lola interceptou lhe a passagem. — Vá dormir.. sim. Não sabemos por onde andou depois disso. Mathieu pegou na mão de Ivich. não me toque. mas disse Ihe docemente. apertando o pulso de Ivich. — Até ao próximo ano — disse ela. Amanhã cedo. é melhor sair. Foi um dia muito duro.. Preciso de falar com Lola. — Bom. Ele olhava lhe para a bolsa. — Lola — disse Mathieu sem tirar os olhos da bolsa —. — Sim. Apalpava o pulso com o indicador e o polegar. Ivich — disse Matkieu tristemente. dormir. Não quero que me toquem.

asperamente. mas o ruído extinguiu se. foi você? Encolheu os ombros. pensou Mathieu desanimado. Lola olhava o com indiferença. Que é que tem a dizer? — Fui eu que roubei. apresentou realmente alguma queixa? — Apresentei. e ele sentiu um aperto no coração. mas de uma maneira monótona e parecia exprimir uma convicção absoluta. Ela deixou o subir porque eu tinha dado ordem. enquanto ela gritava a rir: — Não me conhece! — Cale se! Lola acalmou se e pela primeira vez pareceu vê lo. Ivich. — As notas ainda estavam na maleta. — Fale. — Ele subiu às sete horas. às oito. Voltou se para Mathieu com aquele olhar incomodativo que parecia não ver. — A queixa será retirada — disse Mathieu a meia voz. «Dir se ia que tem necessidade de acreditar naquilo». — E se encontrar Boris. — Então — disse ela. — Vamos à história. — Como pode tê lo visto. sempre a olhar para a bolsa. ainda vai dizer obrigada. Não a viu sair. Ah!. escondendo se. Mathieu avançou. irritada. . Ivich não respondeu. — Lola — perguntou Mathieu —. ainda se vai sentir muito feliz por eu lhe roubar a "massa". Já disseram mais de uma vez que podia ser mãe dele.» Não me conhece! Não me conhece! Mathieu segurou a pelo braço e sacudiu a como um arbusto. e Mathieu ouviu aliviado o ruído dos passos dela. Perguntou: — A que horas voltou ao hotel? — Da primeira vez. Lola deu um passo em frente e gritou: A — Diga lhe que se enganou! Que é ainda muito jovem para me levar. — Ouça. Falava rapidamente. diga lhe que me queixei. Subiu.— Pois que vá — disse Lola. logo que saí. a velha. — Adeus. — Não nasci ontem. se fui eu? J E A N P AUL SARTRE — Ela viu o — disse Lola. — A gerente viu o a ele. Devia estar a espiar me na rua. Esperei o dia inteiro e havia dez minutos que eu descera. Lola. — Lola! — Ele deve ter pensado: «Está doida por mim. Lola desatou a rir. Ele teve de repetir: — Fui eu que roubei os cinco mil francos! — Ah!. não.

Mas é o mesmo. Aliás. Havia uma velha no escritório.. Quis passar. mas você não olhou para a maleta. pôs o seu belo vestido e foi para o Sumatra. — Não está a ver o meu estado? Por quem me toma com essa história? — Estava debaixo de outra mala. continha. Os lábios de Lola tremiam e ela apertava convulsiva mente a bolsa. que eu queria voltar a ler. — Pode ser. De quando em quando. Porque me arriscaria em apanhar seis meses se fosse Boris o ladrão? Ela fez um gesto. Mas você não olhou para a maleta. Finalmente pareceu acordar. diante da janela — repetiu Mathieu. A — Pois foi — disse Lola. debaixo da outra mala. Mathieu pensou: «É verdade.. — Bem sei. Eu subi às dez horas e trouxe o. Não é verdade? Lola olhou o. — Olhei. Lola oscilava como se estivesse a dormir em pé. — Sei lá o que vocês fazem juntos! — É absurdo. se quer apanhar seis meses em vez dele. A maleta estava diante da janela. — Lola. — Lola. Lola empurrou o. Porque esconde que lhe roubaram as cartas?» Tinham se calado ambos. Eu sei. — Você roubou me? — Sim. você não está convencida. você só deu conta do roubo à meia noite. Deitei me e pus a maleta ao meu lado. Lola. Às oito horas o dinheiro ainda lá estava. pode testemunhar. Lola.— Já disse que Boris subiu às sete. não teria esperado pela meia noite para vir aqui. — Mais uma prova. Senti me mal no Sumatra e voltei para casa. se você tivesse descoberto o roubo às oito horas. mas Mathieu segurou a. — Olhou às oito horas? — Olhei. Ela riu se. — É tudo quanto tem a dizer me? Então vou me embora. — Conte a história ao juiz. — A gerente viu o subir. Às oito horas arranjou se. você está a mentir. Eu sei que não olhou. cansada. Juro que fui eu. Às oito horas eu estava com a chave e você não a podia ter aberto. talvez quisesse vê la. as cartas. Peguei no dinheiro e deixei a chave na fechadura. eu. ela viu me. pensa que não sei? Vocês combinaram o que . — Boris esteve aqui. — Foi à meia noite. continha as cartas. obstinada.

Ela pareceu não o ter ouvido. pensou Mathieu. Quando acordou. e Lola disse: — Basta. deixe me ir embora. não tinha medo do ódio. Mas era preciso convencer Lola. Não pude voltar a pôr a chave no lugar e foi isso que me deu a ideia de lá voltar esta noite. E foi também para si que ele roubou um livro à tarde? Vangloriava se disso quando dançava comigo. acabrunhado. Lola continuou. Se enganar o juiz com a sua história. — Não se incomode que eu hei de apanhá lo. mas Lola desenvencilhou se e tentou abrir a bolsa. — Que é que isso provaria? — disse ele. Mathieu arrancou a das mãos dela e atirou a para o sofá. Mathieu não soube o que dizer. — Vitríolo ou revólver? — perguntou Mathieu a sorrir. ela só pensava no dinheiro. Lola começou a tremer completamente. — O dinheiro que lhe pediu era para mim. triunfante: — Devolva mo que retiro a queixa. — É inútil! Eu vi o entrar de manhã. — Subi ao seu quarto hoje de manhã — explicou calmamente. — Boris poderia ter me . Tinha a impressão de viver um sonho sinistro e absurdo. encostara se à janela e olhava o com os olhos brilhantes de ódio impotente. Mathieu quis agarrá la pêlos ombros. — Bruto! — disse Lola. Ela deixara de tremer. Pegou na bolsa novamente. o culpado só podia ser Boris. Mathieu não respondeu. «Deveria ter previsto isso». mas via naquele rosto uma secura desolada que lhe era insuportável. «É uma crise de nervos». Quando lhe falei ainda não tinha chegado ao pé da cama. com uma calma ameaçadora: — Então foi você quem roubou? — Fui. Lola soltou um riso de troça. — Já tinha entrado uma primeira vez e voltado a sair. sem que ele a tentasse impedir. Era inútil falar das cartas. Já percebi. apanho o de outra maneira. Mathieu olhou para a bolsa no sofá. eu ia abrir a maleta. Vamos. — Tirei a chave da sua bolsa. e ele observou contrafeito: — Por causa das cartas.deviam dizer à velha. o seu único recurso. precisava de pensar no dinheiro para manter acesa a sua cólera. A Mathieu sentiu a sua impotência. Era evidente. Mathieu voltou a cabeça. — Pois então devolva me o dinheiro. — Bem sei. Calou se e subitamente recomeçou. pensou. Lola também. Acabou por dizer com um risinho seco: — Mas é que ele pediu me cinco mil francos ontem à noite! Foi por isso mesmo que nos zangámos.

— Imagine! — Ah! Minha senhora — disse Daniel com um ar de censura —. rasgou o e levou as notas ao nariz. Lola hesitou. — Vem aí alguém — disse. — Afinal posso dizer para quem era: era para Made moiselle Duffet. — Dei o dinheiro. Lola reapareceu. depois pegou no sobrescrito. — Tudo corre bem. Daniel sossegou o com um gesto.» Era Daniel.» Mas. teve medo. quando viu de costas aquela forma negra que se retirava com a rigidez cega de uma catástrofe. faz favor de verificar. minha senhora. — Essa é boa. Lola olhava desconfiada para o sobrescrito. — Cheire — disse. Mathieu receava que Daniel se risse. — Obrigou Boris a devolvê las? — perguntou ela. como uma louca. Lola abriu a porta e saiu. — A quem? J E A N P AUL SARTRE — Não posso dizer. — Acrescentou vivamente: — Não foi a Boris. — Já não o tenho. com compreensão..passado o dinheiro. Ouviu a gritar no patamar. — Aqui estão os cinco mil francos. Entrou com nobreza e inclinou se diante de Lola. Pensou na bolsa e tentou um último esforço. . e o seu coração deu um salto. é preciso anotar sempre os números! A Mathieu teve uma inspiração. lembrara se do pesado perfume de Chipre que exalava da maleta. Dirigiu se para a porta. Mathieu pensou ao mesmo tempo: «Foi Marcelle quem o mandou. sem que ele a impedisse. — Estão aqui cinco mil francos? — Estão. e ele escutou atrás da porta. Digo lhe apenas: devolva me o dinheiro. — Como prova que são os meus? — Não tomou nota dos números? — perguntou Daniel. irei explicar me lá. uma amiga minha. Lola sorriu sem responder. — Não lhe pergunto isso.. Roubou me às dez horas e à meia noite já gastou tudo? Os meus cumprimentos. olhava para Lola. Mathieu pensou: «É Boris...» Mathieu perguntou: — Ela. Pensava: «É no Comissariado da Rua dês Martyres. Mas Daniel estava sério como um papa.

— Pois é — disse Lola —. vivia no fundo dos olhos de Daniel. Foi o que me deu a ideia de ir buscar o dinheiro. À porta. De repente disse: — As cartas. Mathieu deu um passo em frente. — Quem é esta velha senhora? — perguntou Daniel. Saiu. Mostrava se cerimonioso. insolente e fúnebre como nos seus piores dias. Lola voltou a cabeça e disse depressa: — Ainda não tinha apresentado queixa. apresente queixa contra mini. não precisa de nada? — Não. — Parece. Daniel parecia disposto a abusar da situação. a fim de que as trouxesse. que são cinco mil francos para si? Mathieu respondeu sem alegria. Vim a correr e ouvi o fim da conversa. Está transtornada. Trouxe as esta manhã quando pensávamos que tivesse morrido. Mathieu não se sentia à vontade sozinho com Daniel. adeus. voltou se: — Se ele não fez nada. Parecia lhe que o tinham colocado subitamente na presença do seu erro. Lola contemplou Mathieu. — Pelo que se vê. pelo que peço desculpa. e só Deus sabe que forma tomara naquela consciência caprichosa e falsa. Parecia angustiada e estupefacta. — Vou me embora.. vivo. Parecia sofrer. Ouviram a porta fechar se. — Mas porque teria feito isto — perguntou subitamente —. a amiga de Boris Serguine. — Já não as tenho. Foi uma amiga de Mathieu que mas confiou. — Adeus. na sua frente. Ou então.. — É Lola. Ali estava ele. Acrescentou docemente: — Não se pode esquecer de retirar a queixa. porque não volta? — Não sei.— Não conheço ninguém com esse nome. Continuava imóvel no meio da sala. deve ser muito. Lola soluçou e apoiou se à ombreira da porta. — Acha que ele vai voltar? — Acho. Lola. Lola. sem ódio. Lola estava imóvel. apenas com um enorme espanto e uma espécie de curiosidade. Deixaram na sair sem dizer nada. Apertava a bolsa na mão esquerda e com a direita amarrotava as notas. se quiser. de braços caídos. São incapazes de fazer a felicidade de alguém. Mathieu endureceu se e . — Roubou me cinco mil francos! É estranho! Os olhos porém apagaram se lhe e as feições tornaram se duras. mas ela já se tinha dominado. isso ainda é mais difícil para eles. mas são igualmente incapazes de se ir embora.

» — Se não queres dizer. isso é uma história antiga. — Estás com uma cara! — disse Daniel com um sorriso mau. «De Marcelle. — Não se fala mais nisso.» Não conseguia convencer se totalmente. Não sei o que há por baixo disto tudo. impaciente. eu sou. cala te — atalhou secamente. indolentemente: — Caso me com ela. — Espera e verás. Daniel estava lívido. levantou se e passou a mão pela testa. Daniel olhou o como se se divertisse a intrigá lo. J E A N P AUL SARTRE Mathieu pensou: «Era amante dele. como que através de um monóculo imaginário. Deu uma gargalhada forçada. — Não. — Foi ela quem mandou o dinheiro? — Ela não precisa dele — disse Daniel evasivamente..ergueu a cabeça.. terminou a frase: . Erguera a sobrancelha esquerda e olhava para Mathieu com ironia. Escuta. pensou Mathieu. — Não precisa? — Não. — Ficarias muito espantado se soubesses — disse lhe Daniel.. DA D E DA RAZAO Daniel encolheu os ombros. — Isto vai mal — disse ele. — Vens da casa de Marcelle? — Venho. Mathieu. Daniel estava abatido. Mathieu acendeu um cigarro. «Se me quer impressionar». pensou Mathieu. — Diz me ao menos se ela tem mais para. não acredito. Parou de novo e Mathieu.. eu sou. A cabeça soava lhe como Um sino. — Não me vais levar a sério. Ficaremos com a criança. Sentou se sobre a secretária balançando um pé com desenvoltura. depois. «Diverte se». Disse com calma: — Então tu amava la? — Porque não? «E de Marcelle que se trata». se te disser! — Bom. — Não era disso que te vinha falar. Observava Mathieu com uma certa surpresa. Falas ou não falas? — Pois bem. — Daniel — disse ele —. meu caro. «deve impedir que as mãos lhe tremam». subitamente. Quero dizer que não acredito que ames Marcelle.. pensou Mathieu com raiva. Daniel disse. — Ia dizer te o mesmo — respondeu Mathieu. bom..

vamos beber um copo.. e Mathieu perguntou: — Como vai ela? — Querias que eu te dissesse que está satisfeitíssima? — perguntou Daniel ironicamente.. Não é o que queres dizer? Daniel arregalou os olhos e assobiou.. pensou... antes não. Mathieu viu lhe um brilho de rancor nos olhos. — Não querias outra coisa.. como para desculpar Marcelle: — Ela estava desesperada. afinal. heni? Não.— Es amante de Marcelle. — Ainda vais lá de vez em quando? — Ainda. Daniel pegou na garrafa e encheu os copos. Voltou com dois copos e a garrafa. — Só? — Só. é.. — Estás bêbedo — observou Mathieu enojado. Mas atirou se à minha proposta como a miséria sobre o mundo.. Disse. só tenho rum branco. — Pois bem — atalhou Daniel —. meu velho — disse Daniel com súbita cordialidade. Mathieu não pôde evitar um gesto de contrariedade. bebi um pouco. Não tens nada para beber? Uísque? — Não. pensava que encontraria maior dificuldade em convencê la. — Pois então fala — pediu Mathieu. — Queria apenas participar te o casamento. meu caro. — É da Rhumerie Martiniquaise? — É. só. — Sim. — Deves tê la visto logo depois de eu ter saído. Mathieu sentiu que corava. é evidente que não tenho nenhum direito. — Subi logo a seguir. — Poupa me a minha modéstia. — Como quiseres — disse Mathieu. humilhado. friamente. É uma ideia — acrescentou —.. — Estava à espera que saísses — disse Daniel. nem sequer terás essa desculpa. . sorridente. Bebi depois de sair de casa de Marcelle. — Estavas à espreita! Tanto melhor. Assim Marcelle não ficou só.. — Vens de lá? — Sim. Calaram se um instante. — Ouve — disse Mathieu secamente —... Foi à cozinha e abriu o armário. mas afinal vieste aqui. «Fui ignóbil». com uma paragem no Falstaff. E que é que me querias dizer? — Nada. — Espera um pouco. — Aos meus amores — disse. — Nada mal — disse Daniel com admiração. como se Mathieu dissimulasse qualquer coisa. A Daniel olhou o com um ar inquisidor. Não te aflijas. À tua saúde — disse Mathieu.

Não faz mal. — Mas agora estás livre. que é que vais fazer? — Nada. Eu queria suprimi lo. Mathieu continuou. cerrando os punhos. — É horrível este rum. duramente. — Bem sei. — E agora — perguntou Daniel —. Daniel calava se. — Ela odeia me. secamente. Falava serenamente.Daniel encolheu os ombros e pôs se a andar de um lado para outro. Depois. Mathieu cruzou as mãos e fixou os olhos no sapato. dá me mais um copo. Tudo correrá bem. Mathieu não se atrevia a olhá lo. — Vais casar com ela — repetiu Mathieu. — Era o filho. E não se decidia a sair. — Cala te! — Não te zangues — disse Daniel. — Põe te no lugar dela — disse Daniel. — Não te preocupes.. Daniel não respondeu. — Para os dois Não sei porquê. Num certo sentido. Marcelle não tem nada a temer e tem confiança em mini. Falou te de mim? — Muito pouco. mas parecia possesso. — Vim para devolver o dinheiro e tranquilizar te. Não compreendi. não foi por filantropia — disse Daniel. Repetiu distraído: — Não te zangues. — Essa pequena Serguine? — Não. — Lamentas alguma coisa? Tens saudades? — Não. acho isso sinistro. Toda esta A história a abalou terrivelmente. Se for um menino... não te zangues. — Hem?! — Bom. vieste ver a cara que eu . Mathieu levantou se. — Obrigado. — Em suma — disse lhe Mathieu —. pomos lhe o nome de Mathieu. mas não se sente muito infeliz. boa noite — disse Daniel levantando se. Já me pus. porque é que fizeste isso? — Com certeza. obstinado.. — Nunca o verei. não é verdade? Não chegava a ser uma interrogação. mas não compreendo. e ele acrescentou sem esperar resposta: — Acho que deveria estar contente. nada de especial. Daniel dominava se. — Sabes — disse Mathieu —. Beberam. Se me tivesse dito. tu vais salvá la. o facto de ires casar com ela perturba me um pouco. Mathieu encheu os copos. disse como para si próprio: — Então era o filho que ela queria. Talvez seja melhor que nasça.

Daniel deu uns passos em direcção à porta e bruscamente voltou. talvez eu consiga acreditar nisso. tudo aquilo lhe parecia tão natural. — Pois não. É desagradável. — E. Não precisas de tomar atitudes diante de mim. tão normal.. há qualquer coisa disso.. Não sou tão sólido como isso. agora que há alguém que sabe. não penses que és obrigado a mostrares te generoso! Mathieu não respondeu. parecia apertado na sua roupa. Achava que devia dizer qualquer coisa. J E A N P AUL SARTRE — Mathieu — disse —. Perdera a expressão irónica. pensou Mathieu. Disse finalmente: — Podes ser o que bem entenderes. Era a ordem das coisas. mas continuava a sorrir. falava com dificuldade.. Aliás é por . É a reacção normal.» Mas não estava muito admirado. — Em parte — disse Daniel com franqueza —. irritavas me. — Pois já viste. uma indiferença profunda e paralisante. Porque havia de ter nojo? — Oh! — disse Daniel —. cortante. sou um pederasta. «Que ideia aquela de se vir torturar aqui». Daniel estava imóvel. E. A tua própria consciência já te dá bastante trabalho. Daniel afastara se e contemplava o com espanto e ódio. — Não dizes nada? — continuou Daniel. Mostravas te sempre tão sólido. — Bem sei — disse Daniel sorrindo com altivez.. Daniel troçou: — Isto espanta te? Modifica a ideia que tinhas dos invertidos? Mathieu ergueu vivamente a cabeça. Mathieu não pôde suportar o sorriso e voltou a cabeça. mas fazes bem em não dizer nada. IDADE DA R A Z A O Estava verde. Somos iguais. sem simpatia. — Não.. Olhava Daniel e pensava: «Ele é pederasta. — Isso enoja te. a reacção que deve ter todo o homem são. não é? — És pederasta? — repetiu lentamente Mathieu. — Hem? — disse Mathieu. de braços colados ao corpo. mas mergulhava na mais completa indiferença. Daniel era um pederasta. não tenho nojo.faria depois dessa história toda. — Tens razão. — Então porque me vieste contar? — Eu. eu queria ver o efeito que isso podia provocar num tipo como tu — disse Daniel coçando a garganta. Talvez tenhas nojo de ti próprio. depois.. — Não te armes em cínico. não tenho nada com isso. Ele era um estupor. eu também tenho de mim. mas não se tornara mais agradável. — Efectivamente não tens nada com isso.

porque te casas com Marcelle? — Uma coisa nada tem a ver com a outra.. Um rubor sombrio manchou lhe o rosto aflito. E depois não caso por casar. — Estou. Ela propôs me viver ao seu lado. — Marcelle. quero casar contigo. Marcelle! Estás a ouvir? Marcelle. é Mathieu. Pegou no telefone e marcou o número de Marcelle. Calaram se. — Ela julga que a amas? — Não creio. Daniel levantou se. Houve um curto silêncio.. E. — E que farás para o impedir? Mathieu não respondeu. Deve ser mais fácil confessar se a um miserável. ela sabe? — Não! — Porque é que casas? — Por amizade. — Ah!. mas isso não me convém. Encheram os copos. está.. arrogante. Fez se silêncio. Mathieu conservou um momento o telefone na mão. bem se sabe. Escuta. Daniel sorriu.. — Não posso permitir que cases com Marcelle. não parecia triunfante. J E A N P AUL SARTRE Não respondiam. Vou instalá la em minha casa. — Bem — disse. Daniel olhava sem falar. O tom não o convencia. Mathieu bebeu um gole de rum e tornou a sentar se na poltrona. Daniel olhava sem ver. é o filho. Daniel contemplava o com ironia. Eu queria. — Os pederastas deram sempre bons mandos. depois largou o devagar. — Juro que não o será. O sentimento virá com o tempo. demais. — Estou — disse a voz de Marcelle. vais estragar lhe a vida. fornos idiotas há pouco. não podes? — perguntou. Ele perdeu a cabeça e gritou ao telefone. e Mathieu disse com obstinação: — Não quero que ela seja infeliz. — Tranquiliza te — observou como consolação. o que ela quer. com um olhar fixo. — Mas. Mathieu sentiu um remorso agudo. depois uma espécie de gemido e desligaram. — Daniel! Se casas por casar. Acrescentou com uma ironia dolorosa: — Estou resolvido a cumprir os meus deveres conjugais até ao fim.. Mathieu estremeceu. — Tu és astucioso — disse Daniel com uma vulgaridade que Mathieu não conhecia. — Se é assim. . à maneira dos velhos. principalmente. — E.isso mesmo que me contas essa história. — Devias ser o último a dizê lo. E tem se sempre o benefício da confissão..

— Compreendo. Porque é que tens vergonha disso? Daniel teve um riso seco: — Eu esperava essa pergunta — disse. Acendeu um cigarro. acho que te deves sentir bastante mal. «No teu lugar. o que tu és não me interessa.» Daniel continuou a sorrir: — Vamos esvaziar a garrafa? — Vamos.DA D E DA RAZAO Mathieu corou violentamente e acrescentou: — Também gostas de mulheres? Daniel fungou. etc. exactamente porque não és pederasta. depois de saber que vais casar com ela. porque sou pederasta. Mas desejo saber uma coisa. reagiria. Daniel olhava o efectivamente e com tal ódio que o coração de Mathieu se apertou. é um gosto como outro qualquer. Olhava para o chão entre os pés: «É um pederasta e vai casar com ela. sentia se perseguido. Mathieu baixou a cabeça. Pensou: «Daniel está a olhar para mim». Mesmo agora. Para ela não terá importância nenhuma. etc.» Mas dirás isso tudo. Mathieu foi invadido por uma ideia insuportável. e Mathieu percebeu que estava com vontade de fumar. Mathieu não respondeu. exigiria um lugar ao sol. está na sua natureza. — Sim — disse com um ar distraído e imparcial —. Todos os invertidos têm vergonha. J E A N P AUL SARTRE \ — Tu odeia la? — Não.. Daniel acrescentou vivamente: — Isso não tem importância. Mathieu pensou tristemente: «E a mini que ele odeia. — Meu Deus! — disse. Mathieu pôs a cabeça entre as mãos. casas te para te martirizares! — E então? Isso é comigo. — Bem sabes. Há alguém que sabe. — Escuta — disse —. Beberam. . — Gostarias de me enfiar uma bala na pele? Daniel não respondeu. Já sei o que vais dizer.» Abriu as mãos e raspou o sapato no chão. — Tenho vergonha de ser pederasta. — Daniel — disse —. e ergueu a cabeça precipitadamente. — Porque me olhas assim? — perguntou. e lágrimas de vergonha inundaram lhe os olhos. disse: — Não muito. Daniel bebeu. Subitamente o silêncio tornou se pesado. Disse: — Tenho ainda mais nojo de mim.

. Daniel pareceu irritado. de tanto terem vergonha.. — Fumar agora? — Um só. r A IDADE DA RAZÃO Não havia nada a dizer. Tinha o olhar parado e de vez em quando os lábios entreabriam se lhe. Daniel continuava a sorrir com ar de boa fé. os pederastas que se vangloriam ou se exibem. Daniel parecia reflectir. — No meu lugar? — repetiu Daniel sem mostrar grande surpresa. assumir isso? — perguntou timidamente Mathieu. que parecia deslocado naquele rosto cor de azeitona que a barba crescida manchava de azul. Suspirou e qualquer coisa pareceu ceder no seu rosto. como ainda havia um resto de rum no copo. morreram de vergonha. pensou Mathieu. — Hoje. «ele foi até ao fim desta vez». E explicou: — És livre. — Já me assumi demasiado — continuou com doçura. de quatro. — Nesta história ganhaste por todos os lados. estão mortos. e o desejo transformou se numa espécie de angústia. .. Uma ideia repentina causou lhe um certo mal estar: «Ele é livre. ou simplesmente se aceitam. Daniel olhou Mathieu com curiosidade. — Conheço me muito bem. dos seus receios.— Mas não seria melhor. só a ela podia falar da sua vida. Mathieu acendeu outro cigarro e. Não. apesar de tudo. e eu não quero esse género de morte. num estado horrível.. Mas lembrou se de que nunca mais a veria. Mathieu disse subitamente: — Gostava de estar no teu lugar. J E A N p AUL SARTRE Daniel encolheu os ombros. — Deves estar num estado horrível. — Falaremos disso no dia em que aceitares ser um sacana. serei assim?» E subitamente foi invadido pelo desejo de falar a Marcelle. não basta abandonar uma mulher para se ser livre. — Sim. Pensou: «Dentro de dois anos. Disse. — Sim. Daniel inspirava lhe horror. esta noite.» E o horror que Daniel lhe inspirava misturou se com a inveja. — Hoje de manhã parecias acreditar que sim. Sorriu de um modo singular. surpreendi me — disse em voz baixa. quase infantil.. «É verdade». — Não — disse Mathieu —. tinha um ar de espanto. Passou a mão pela fronte. Estava só. das suas esperanças. bebeu o.. — Dá me um cigarro. Mas parecia mais calmo e olhava para Mathieu sem ódio.

— Eu não — disse Mathieu. Mas a verdade é que abandonei Marcelle por nada. tudo o que faço. secamente. — Acho que será difícil. — Hoje não tenho vontade de me embriagar. — O quê? Mathieu mostrou a secretária num gesto largo e vago. Estava cansado. — Com remorsos a menos. todo o resto. Depois de um momento. — Em toda esta história eu não fui senão recusa e negação. — Tiveste vontade de partir para Espanha? — Tive. Pensava: «Será isto a liberdade? Ele agiu. Daniel levantou se. — Ofereço te um copo no Clarisse. e Mathieu acrescentou bruscamente: . mas há o resto..— Não sei. mas não a suficiente.» Disse em voz alta: — Anteontem. Não sei o que daria para cometer um acto irremediável. não vens? — Não.. Daniel atirou o cigarro fora e disse: — Eu queria ser seis meses mais velho. — Adeus. agora está lixado. Não sei o que faria se bebesse. Não era muito claro. encontrei um tipo que queria alistar se nas milícias espanholas. felicidades. agitadas pela brisa nocturna. — Nada de sensacional — observou Daniel. mas acho que lhe seria penoso saber que nos vemos. — Bem — disse Mathieu. tudo se passa como se eu pudesse sempre voltar atrás.. — Tudo isto. dir se ia que me roubam as consequências dos meus actos. Adeus. — Por nada — repetiu. Sentia se fascinado por Daniel. faço o por nada. Nada é claro. DADË RAZÃO — Porque é que me dizes isso? — Não sei. Marcelle já não faz parte da minha vida. à noite. — E então? — Não o fez. deve parecer lhe estranho sentir atrás de si um acto desconhecido. Daniel sorriu sem responder. que já quase não compreende e que lhe vai transformar a vida. — Então. — Nesse caso. — Daqui a seis meses serei a mesma coisa que sou hoje. Não queres ficar mais um bocado? — Preciso de beber. Calaram se. Marcelle disse que não queria mudar nada na minha vida. agora já não pode voltar atrás. — Não — disse Mathieu. Ver nos emos em breve? — perguntou Mathieu.. Fixava o olhar nas cortinas da janela. Eu.

O epicurismo desiludido. um céu que sabia a férias e bailes campestres. Parou na esquina da Rua Huyghens com a Rua Froidevaux e olhou o céu. — Não neste momento. Encostou se no parapeito e bocejou longamente. a seriedade de espírito. Por nada. uma vida falhada. Era Daniel. Mathieu chegou se à janela e levantou as cortinas. Bocejou.» Só. Pensou: «Muito barulho. em baixo. Um ruído de música subia da Avenida do Maine. O vento varrera as nuvens. Daniel saiu. Tirou o casaco.. Na rua. mas não mais livre do que antes. — Adeus. Morais comprovadas já lhe ofereciam os seus serviços. O perfume de Ivich ainda flutuava ali. tudo isso que permite apreciar.» Fechou a janela e voltou para o quarto. já não mudaria. o estoicismo. Mathieu viu Daniel desaparecer e pensou: «Fico só. — Daniel baixou a cabeça sem responder. pôs se a desfazer o nó da gravata. a resignação. por nada. Era um céu de festa na aldeia.» Aquela vida tinha Ihe sido dada para nada. Estava formado. tinha acabado com a sua juventude. a luz branca de um farol deslizou no céu. Tirou os sapatos e ficou imóvel. «Ninguém entravou a minha liberdade. Repetia a bocejar: — Não há dúvida. — Adeus — disse Mathieu. Era uma noite agradável.— Odeias me. Respirou o e recordou aquele dia tumultuoso. sentado no braço da poltrona. Daniel aproximou se e pousou a mão no ombro dele num gesto desajeitado e envergonhado. Dissera a si mesmo na véspera: «Se ao menos Marcelle não existisse!» Mas era uma mentira. um homem caminhava tranquilamente. — Mas amanhã. Sentia ainda no fundo da garganta o calor adocicado do rum. a indulgência sorridente.. no entanto. FIM DO PRIMEIRO VOLUME . como bom conhecedor. agradável e azul. viam se as estrelas por cima dos telhados. não há dúvida. foi a minha vida que a bebeu. minuto a minuto. estou na idade da razão. ele não era nada e. com um sapato na mão. Tinha acabado o seu dia. demorou se em cima de uma chaminé e escorregou por trás dos telhados.

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