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OS 3 PRIMEIROS ANOS DE VIDA

OS 3 PRIMEIROS ANOS DE VIDA

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Experimentos sobre dor foram realizados nos anos 20 e 30 no Chicago’s Lysin-In

Hospital e no Hospital de Bebês da Universidade de Columbia e concluíram que bebês

não eram afetados pelo frio, calor, dor e toque. Foram 2.000 observações, porém estas

não levaram em consideração que todos estavam sob efeito de anestesia dada às suas

mães durante o parto. No entanto, apesar deste grave erro de observação, esta pesquisa

até hoje segue sendo uma crença médica. A nova fronteira da neonatologia foi

ultrapassada quando, em 1994, neonatologistas mensuraram a reação de estresse à dor

de 46 neonatos, durante uma transfusão de sangue intra-uterina e verificaram que os

níveis de cortisol eram de 138% depois de 10 minutos e de beta-endorfina eram de

590%. (CHAMBERLAIN, 1999b, 1989)

Com o objetivo de desenvolver diretrizes baseadas em evidência para prevenir ou

tratar a dor dos neonatos e suas conseqüências adversas, compararam-se crianças mais

velhas, adultos e neonatos. Estes são mais sensíveis à dor e vulneráveis a seus efeitos a

longo prazo. Apesar da importância clínica de dor no neonato, práticas médicas atuais

continuam expondo as crianças à dor repetitiva, aguda, ou prolongada. (ANAND, 2001)

O Projeto de peritos The International Evidence-Based Group for Neonatal Pain.

(Grupo Internacional Baseado em Evidências de Dor Neonatal) representa vários países

diferentes, disciplinas profissionais, e discute práticas utilizando revisões sistemáticas,

1147

síntese de dados e discussão aberta para desenvolver consensos em práticas clínicas que

foram apoiadas através de evidência publicada. Criou-se um protocolo para descrever a

administração de analgésico em procedimentos invasivos específicos em caso de dor

contínua em neonatos. (ANAND, 2001)

O reconhecimento das fontes de dor e avaliações de rotina de dor neonatal deveria

ditar a evitação de estímulos dolorosos periódicos e o uso de intervenções ambientais,

de comportamento e doses de fármacos específicos. Cuidado individualizado,

planejamento de analgésicos, protocolos para situações clínicas específicas e

orientações de cuidado médico deveriam constar nestas diretrizes. Nesta área de

pesquisa no manejo da dor em neonatos ainda não se chegou a um consenso, havendo

apenas um esboço de protocolos de conduta. A administração da dor deve ser

considerada um componente importante do cuidado médico provido a todos os

neonatos, independente da idade, de sua idade gestacional ou severidade de doença.

(ANAND, 2001, 1988, McCLAIN e KAIN, 2005, SIMONS et. 2003, BERRY e

GREGORY, 1987, FRANCK e MIASKOWISKI, 1997, TYLER, 1988)

Num estudo, foram avaliadas as mudanças da oxigenação cerebral medidas em

relação à excitação dolorosa, usando espectroscopia com onda próxima a infravermelho

em tempo real, em 18 crianças entre 25 e 45 semanas contadas a partir da data da última

menstruação da mãe. Os estímulos dolorosos eram feitos com agulha, para a retirada de

sangue em provas rotineiras; nenhum exame de sangue foi executado somente com a

finalidade do estudo. Excitação dolorosa produziu uma resposta cortical clara, medida

como um aumento em concentração de hemoglobina total no córtex. Foi observada

resposta reflexa de retirada do pé à picada da agulha no mesmo. Prematuros de 25

semanas processam a dor. (SLATER et al. 2006)

1148

Foi feito um estudo no qual se analisaram os conhecimentos dos pediatras que

atuam com pacientes neonatais em relação à avaliação e ao tratamento da dor do recém-

nascido. Foi um estudo transversal que incluiu 104 pediatras (de um total de 110) que

trabalhavam entre 1999 a 2001 nas sete unidades de terapia intensiva e nos 14 berçários

da cidade de Belém, no Brasil. Eles responderam a um questionário escrito a respeito

do seu perfil demográfico e do conhecimento de métodos de avaliação e de tratamento

da dor no recém-nascido. Cem por cento dos médicos referiram acreditar que o recém-

nascido sente dor, porém apenas um terço deles conhecia alguma escala para avaliar a

dor nessa faixa etária. A maioria dos entrevistados referia perceber a presença de dor no

recém-nascido por meio de parâmetros comportamentais. O choro foi o preferido para

avaliar a dor do bebê a termo; a mímica facial no prematuro e a freqüência cardíaca para

o neonato em ventilação mecânica. Menos de 10% dos entrevistados diziam usar

analgesia para punções venosas e capilares; 30 a 40% referiam empregar analgesia para

punções lombares, dissecações venosas, drenagens de tórax e ventilação mecânica.

Menos da metade dos entrevistados referiram aplicar medidas para o alívio da dor no

pós-operatório de cirurgia abdominal em neonatos. O opióide foi o medicamento mais

citado para a analgesia (60%), seguido pelo midazolam (30%). (CHERMONT et al.

2003)

Examinaram-se, em recém-nascidos de dois a três dias, os efeitos da circuncisão

através de 59 pares de mãe-criança no hospital. Cada par foi observado durante quatro

alimentações, usando um sistema especificamente projetado que avalia a interação mãe-

criança. Listaram-se 43 comportamentos relativos à alimentação, expressão facial,

vocalizações e toque. O grupo experimental foi circuncidado e avaliado após a

alimentação. Foram observadas tendências diferentes entre os dois grupos,

considerando-se duas variáveis logo após cirurgia: o toque - a criança ficava retraída- e

1149

a alimentação - mamava menos, no grupo alvo, em relação ao grupo controle.

(MARSHAL et al. 1982)

As origens da circuncisão perdem-se na antiguidade. Circuncisão masculina é

descrita em tumbas egípcias há 5.000 anos atrás. Segundo Gairdner em 1949, esta se

originou na pré-história há 15.000 anos atrás. Bem antes de adquirir suas implicações

religiosas, era um ritual claramente sacrificatório, pois exigia a perda de algo de grande

valor. Nas palavras do Rabino Maimonides do século XII, que apóia a visão das perdas:

"A respeito da circuncisão, eu penso que seu objeto é limitar relações sexuais e debilitar

o órgão de geração até onde possível. Assim o homem fica moderado... Esta ordem não

foi um mandamento devido a uma criação física deficiente, mas um meio para

aperfeiçoar as faltas morais do homem. O dano corporal causado àquele órgão é

exatamente o que é desejado; não interrompe nenhuma função vital, nem destrói o poder

de geração. Circuncisão simplesmente limita a luxúria excessiva; não há nenhuma

dúvida de que circuncisão debilita o poder de excitação sexual e às vezes minora o

prazer natural...” (PRICE, 1997)

No século XIX era praticada nos países de língua inglesa como preventivo para a

masturbação e era vista como “higiênica”. Tal crença ainda persiste. Depois disso se

tornou um procedimento creditado com uma gama extensa de benefícios supostos. Até

mesmo hoje, o prepúcio é visto popularmente apenas como um pedaço de pele vestigial,

sem função e que sua remoção não causa nenhuma real dor, envolve pouco ou nenhum

risco e não produz nenhum dano a curto ou a longo prazo. A prática ainda é difundida

no EUA onde atualmente 60% (abaixo de 90% dos anos setenta) de neonatos

masculinos são circuncidados. Para pais judeus e muçulmanos a circuncisão é motivada

por razões de fé. Nos Estados Unidos é dado o poder aos pais para a autorização de uma

operação não terapêutica, embora contrária aos interesses da criança. Sem controvérsias,

1150

os fatos são que a circuncisão: inflige dor severa e os anestésicos, se usados, levam a

riscos significativos de mutilação do órgão e hemorragia bem como infecção; produz

dano a curto e a longo prazo, no nível emocional e diminui a função sexual e não tem

nenhum benefício médico, segundo a American Academy of Pediatrics. (PRICE, 1997)

A American Academy of Pediatrics, no The Committee on Fetus and Newborn (O

Comitê sobre Feto e Neonato) em seus sucessivos relatórios diz em 1971, que não há

validade médica que indique circuncisão para o período neonatal. Prossegue então que

"fimose do recém-nascido" não é uma indicação médica válida para circuncisão.

Circuncisão executada mais tarde na vida em aproximadamente 2% a 10% de homens

com verdadeira fimose tem a vantagem de não ter risco anestésico. Esta só deveria ser

executada quando é menos provável que o trauma na genitália não cause tantos

problemas psicológicos, ou seja, quanto mais tarde possível, orientação desde 1975,

pela AAP. (AAP, 1999)

Quanto à higiene, deveria ser discutida a necessidade de orientação aos pais antes

do nascimento da criança de como proceder para realizar a higiene, pois esta é a melhor

profilaxia do câncer de pênis. Não há evidência que indique que a circuncisão previne o

câncer de próstata. Extensa revisão de literatura indica que a circuncisão masculina não

previne o câncer de colo de útero nas suas parceiras, pois não é sua etiologia, como

assinala a AAP em seus relatórios de 1975 e 1977 (AAP, 1997)

Desde 1977, a AAP informa que a pele é um órgão protetor e qualquer ferimento

em sua integridade predispõe a uma oportunidade para iniciação de infecção. (AAP,

1999)

1151

O prepúcio é a dobra de pele que cobre a glande. Ao nascimento, o prepúcio está-

se desenvolvendo ainda histologicamente e sua separação da glande está normalmente

incompleta. Só aproximadamente 4% de meninos têm um prepúcio retrátil ao

nascimento, 15% aos seis meses e 50% com um ano; antes de três anos, o prepúcio pode

ser retrátil em 80% a 90% dos meninos. Fimose é uma estenose do prepúcio com

inabilidade resultante para retratar um prepúcio completamente diferenciado.

Parafimose é a retenção proximal do anel prepucial ao sulcus coronal, criando maior

tensão linfática que pressiona a glande resultando em edema subseqüente do prepúcio.

Balanite é a inflamação da glande e postite é inflamação do prepúcio; estas condições

normalmente acontecem junto com balanopostite. Meatite é inflamação do meato uretral

externo. Apenas as patologias ligadas à existência do prepúcio são evitadas com a

circuncisão. (AAP, 1999)

Estudos prévios sobre a relação entre circuncisão e prevenção contra infecção

urinária foram feitos. Em 1982 um destes estudos, realizado em hospitais militares que

até hoje é referência devido à sua grande casuística, teve erros metodológicos. (AAP,

1999)

A afirmação quanto a ser à circuncisão ser preventiva de doenças sexualmente

transmitidas não é correta; os recentes achados clínicos evidenciam que não há

diferença na incidência de gonorréia e de uretrite em circuncidado. Quanto às outras

patologias, questões metodológicas fazem estes artigos de validade discutível. (AAP,

1999)

Desde 1977, a AAP informa que a circuncisão é um procedimento cirúrgico que

requer técnica asséptica cuidadosa, observação pós-operatória sistematizada e avaliação

depois da alta do hospital. Os perigos imediatos de circuncisão do recém-nascido

1152

incluem infecção local que pode progredir para septicemia, hemorragia significativa e

mutilação. Remoção incompleta do prepúcio pode resultar em fimose. (AAP, 1999)

Crianças que sofrem circuncisão sem anestesia demonstram respostas fisiológicas

que sugerem que elas estão experimentando dor que incluem mudanças de

comportamento, cardiovasculares e hormonais. Rotas neuronais para condução do

estímulo doloroso como também o cortical e centros subcorticais necessários para

percepção de dor estão bem desenvolvidos desde o terceiro trimestre da gravidez.

Foram documentadas respostas para estímulos dolorosos em neonatos de todas as idades

gestacionais viáveis. Mudanças de comportamento incluem um padrão de grito que

indica angústia durante o procedimento de circuncisão; mudanças em atividade -

irritabilidade, padrões de sono variados e mudanças da interação materna infantil -

retraimento do contato e diminuição da alimentação. (AAP, 1999)

Desde 1977 a AAP informa que circuncisão neonatal predispõe à meatite que pode

conduzir à estenose do meato. Meatite resulta indubitavelmente em urinação dolorosa.

(AAP, 1999)

Mortes são atribuíveis à circuncisão em recém-nascido. Nos Estados Unidos,

devido à circuncisão, em 1973, houve uma morte entre as 175.000 circuncisões no

Exército dos EUA. Revisão da literatura durante os últimos 25 anos documentou duas

mortes prévias devido a este procedimento. (AAP, 1999)

Complicações devido à anestesia local consistem principalmente em hematomas

na pele seguidos de necrose. No entanto, até mesmo uma dose pequena de lidocaína

pode resultar em níveis de sangue altos o bastante para produzir respostas sistêmicas

mensuráveis em neonatos. Anestesia de Circunferencial pode ser perigosa. Seria

1153

prudente, obter mais dados de séries controladas de grande porte antes de defender

anestesia local como uma parte integrante de circuncisão em recém-nascidos. (AAP,

1999)

Desde 1977, a AAP informa que prematuridade, doenças neonatais, qualquer

anomalia congênita (especialmente hipospadias), ou sangramento são contra-indicações

absolutas à circuncisão neonatal. A evitação de circuncisão é particularmente

importante porque doença neonatal nem sempre é aparente ao nascimento. Não há

indicação médica absoluta para a circuncisão, portanto, não deve ser um procedimento

de rotina. (AAP, 1999)

É enfatizado que circuncisão no recém-nascido é um procedimento eletivo. Por

causa da falta de dados científicos claros, não foi provida uma recomendação firme para

método apropriado de controle de dor. (AAP, 1999)

Em 1989, a AAP orientou que, ao considerar circuncisão dos seus filhos, os pais

deveriam ser informados inteiramente dos possíveis benefícios e riscos potenciais da

circuncisão em recém-nascidos, tanto com, ou sem anestesia local. (AAP, 1999)

Professor Dwyer, jurista, em 1996, convincentemente discute que a visão de que

os pais têm dos direitos sobre suas crianças está incorreta e insustentável: os direitos

residem nas crianças e os pais devem ser agentes destes direitos delas. Até mesmo a

Academia Americana de Pediatria na orientação em como tratar as crianças afirma: -

“Assim, ‘consentimento por procuração’ representa um sério problema para provedores

de cuidados médicos pediátricos. Tais provedores têm deveres legais e éticos com seus

pacientes, de praticarem um cuidado médico competente baseado nas necessidades de

seus pacientes, não o que outra pessoa expressa... as responsabilidades do pediatra para

com o paciente dele existem independentes de desejos parentais ou ‘consentimento por

1154

procuração’”. Não se pode deixar de considerar, que aqui a conivência médica é

comparável com o pouco ético comportamento de um médico envolvido em tortura, que

também usa a desculpa de estar praticando o que lhe foi solicitado pela autoridade. Eles

também poderiam explicar por que o comportamento abusivo para com uma criança é

menos abusivo quando executado por um médico. (PRICE, 1997)

A Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança assinada em 1959, deixa clara

a posição a respeito de circuncisão. Artigo 24(3) provê: “Todos os Estados Parte

deverão tomar medidas efetivas e apropriadas com uma visão para abolir práticas

tradicionais prejudiciais para a saúde das crianças." Alguns buscaram discutir que esta

provisão só era direcionada à circuncisão feminina, mas este argumento não se sustenta

na Convenção erudita com as providências interpretativas da Convenção de Viena na

Lei de Tratados de 1969. (PRICE, 1997)

Ainda assim, 6% dos meninos nos Estados Unidos fazem circuncisão cosmética.

As autoridades médicas alegam razões não muito claras para tal prática, como curar

asma, alcoolismo, incontinência urinária, sífilis, doença mental e compulsão à

masturbação. Estas foram razões que os médicos nos Estados Unidos recentemente

mudaram para: previne doenças sexuais, câncer, infecções urinárias e até AIDS.

(CHAMBERLAIN, 1998)

Foi feito uma pesquisa sobre 26 recém-natos randomizados circuncidados com

dois dias de nascidos e com três semanas. Cada bebê foi examinado três vezes, usando a

Escala Brazelton de Avaliação Neonatal (NBAS), na qual o examinador não sabe que

bebê foi circuncidado. A redução na escala da média de demonstração de desanimado

ou hiperativo atingiu a 90% do grupo que sofreu o procedimento nas últimas 4 horas,

comparado com os controles. Nos Estados Unidos 80% das crianças, ou seja, 1.600.000

homens que nascem a cada ano são circuncidados, segundo Kaplan em 1977 e Grimes

1155

em 1978. Embora amplamente usada nos EUA, tal prática não ocorre na Europa. Há

muito poucos estudos que justifiquem sua realização, segundo Emde, Harmon, Metcalf,

Koenig e Wagonfeld em 1971, Anders e Chalemian em 1974, Brackbill em 1975.

(MARSHALL et al. 1980, 1982, DIXON e SNYDER, 1984)

Estudos preliminares já observaram que meninos que passaram por circuncisão

têm menor tolerância à dor. Foi realizado estudo para verificar se havia alteração da dor

aos quatro e seis meses, por ocasião de vacinação. Este estudo envolveu 87 meninos

divididos em três grupos. Utilizou-se vídeo - tape para medir expressão facial, choro,

duração do choro, e escala de dor análoga a tais reações. Os circuncidados mostraram

mais forte resposta à dor da vacinação. (TADDIO et al. 1997)

Um estudo avaliou as conseqüências da circuncisão sobre o sono. Um deles

usando polígrafo para averiguar a qualidade das fases de sono REM, e não REM, que

normalmente se alternam, para que o sono tenha sua natural função reparadora de

energia. O outro estudo, feito por Anders e Roffwarg em 1973, já haviam descrito

alteração no ciclo de sono entre os circuncidados, que ficam com o sistema supra-renal

alterado por reação de estresse prolongado. De fato, as crianças apresentavam um

aumento de cortisol nos níveis plasmáticos, assim como alteração do ciclo de sono.

(ANDERS et al. 1974)

A Fetus and Newborn Committee, Canadian Paediatric Society, em revisão de

literatura feita, concluiu que a circuncisão não deve ser praticada como rotina em

neonatos. (CANADIAN PAEDIATRIC SOCIETY, 1996)

Em muitos hospitais nos Estados Unidos a circuncisão é parte rotineira do cuidado

provido às crianças masculinas. Denniston entende que está na hora de o

estabelecimento médico repensar as razões para e as conseqüências deste procedimento.

O trabalho de Terris M, Wilson F, Nelson JH em Relation of circumcision to cancer of

1156

the cervix, publicado no Am J Obstet Gynecol em 1973 e que justificou a idéia de que a

circuncisão prevenia contra câncer do colo de útero, está incorreto. Supondo que o

trabalho estivesse correto, ainda assim, a idéia de submeter todos os bebês a este

procedimento tão doloroso, sem anestesia, para evitar algo que só poderá acontecer na

vida adulta, não soa razoável. (DENNISTON, 1992)

Sob o ponto de vista fisiológico; antes do nascimento, a glande do pênis está

coberta com pele. Esta pele é firmemente presa na glande como o é a pele da mão. Na

17ª semana de gestação aproximadamente, células na área de separação entre o prepúcio

futuro e a glande iniciam o processo de criar o espaço prepucial (isto é, o espaço entre a

glande do pênis e o prepúcio intacto). Começam a formar-se bolas microscópicas que

incluem camadas múltiplas de células. À medida que elas aumentam, os nutrientes que

vão para as células do centro são cortados e então morrem, criando um espaço. Estes

espaços minúsculos fundem-se, tornando-se o espaço prepucial. Este processo é

completado por volta dos três anos de idade em 90% dos meninos, mas pode levar até

17 anos para que alguns meninos terem um prepúcio completamente retrátil.

(DENNISTON, 1992)

Ao nascimento, começa aos poucos a separação do prepúcio da glande. O pênis do

recém-nascido não está completamente desenvolvido. Por isto, a circuncisão não só

interfere no seu desenvolvimento, mas também ocorre que, na cirurgia, a pele da glande

sensível seja lacerada para permitir a remoção. (DENNISTON, 1992)

O prepúcio cumpre várias funções. Na infância, o prepúcio protege a glande de

irritação e de material fecal. A função do prepúcio na maioridade pode parecer mais

obscura a princípio. A cabeça e normalmente a glande do pênis de um homem está

coberta de uma pele por cima da outra, pois durante a ereção, a cabeça do pênis se

1157

prolonga, tornando-se aproximadamente 50% mais longa. O prepúcio cobre este

alongamento da cabeça e é projetado especificamente para acomodar um órgão que é

capaz de tal aumento. Além disso, o prepúcio é uma das partes mais sensíveis do pênis e

pode aumentar a qualidade das relações sexuais. Estudos anatômicos demonstram que o

prepúcio tem maior concentração de terminais nervosos complexos do que a glande,

como demonstrou Taylor J. no Segundo Simpósio Internacional sobre Circuncisão, em

1991, em San Francisco, Califórnia. (DENNISTON, 1992)

Aos pais cabe a proteção de seus filhos, mas Jeannine Parvati Baker dirige-se

especialmente às mães, pois, como já visto, seus filhos vão tomar menos leite delas, vão

confiar menos nelas, nos dias que se seguem à circuncisão. Na verdade, a elas cabe

proteger a integridade física de seus filhos, e ela afirma: “Basta dizer não à

Circuncisão”. Como mãe, diz ela, esta é a “Sagrada Obrigação”. Diante de tão poderosa

e dolorosa mutilação, que criança se ligará de fato num deus interior? O trabalho de

Rima Laibow em 1991, conclui que homens que passaram por este nível de dor,

carregam uma profunda mágoa, pois suas mães os traíram. A conseqüência de abandono

pela mãe é violência contra mulher, e há estudos que relacionam circuncisão e estupro.

Marilyn Milos, diretora do NOCIRC, grupo de proteção contra violência, explica que a

circuncisão é quando o primeiro encontro com a sexualidade foi marcado por violência.

(BAKER, 2005)

A circuncisão é um dos piores tratamentos dados à criança. E o que acontece
com elas? Simplesmente olhe para elas. Elas não podem falar com você. Elas
só podem chorar, o que elas podem fazer é contrair-se. Elas contraem-se, vão
para o interior, vão embora deste mundo feio. (REICH, 1950, p. 7)

A mutilação genital feminina (FGM), segundo relatório de abril de 2006, é uma

prática que ocorre em 28 países africanos. De 100 milhões a 140 milhões de mulheres

foram submetidas à mutilação genital, no relatório das Nações Unidas de 2000, e

estima-se que dois milhões de mulheres passam por isto a cada ano, e 6.000 correm tal

1158

risco a cada dia. Muitas meninas morrem em conseqüência de hemorragia, choque,

retenção urinária, fístula vaginal com injúria a outros tecidos, ulceração da região

genital ou infecção devido a este procedimento. Outras sofrem conseqüências a longo

prazo, que são infecção urinária recorrente, abscessos, infecções pélvicas e infecção

ginecológica. Muitas vêm a morrer das complicações a longo prazo. As decorrências

também podem ser: problemas psicossociais, estresse pós-traumático, falta de confiança

no cuidador, fechamento da vagina devido à cicatriz, cistos, neuroma, corte de alguma

terminação nervosa causando dor permanente e infecção crônica por obstrução do fluxo

menstrual, dispareunia (dor durante o coito), frigidez, conflito conjugal, infertilidade por

infecção da pelve crônica, trauma ao dar à luz, com laceração vaginal e fistula vaginal,

infecção pós natal, prolongamento do trabalho de parto ou obstrução do períneo devido

à cicatriz, com morte da mãe e da criança, e também fístula vaginal em conseqüência da

obstrução do trabalho de parto. (ROYAL COLLEGE OF NURSING, 2006)

Muitas mulheres morrem de hemorragia de parto devido a este procedimento, se a

hemorragia se inicia durante o trabalho de parto, e não na fase expulsiva, a criança pode

morrer por falta de oxigênio. Na Somália, onde 90% a 98% das mulheres são

infibuladas, uma em cada 100 morrem no parto devido a este procedimento. No Reino

Unido, entre as que foram exiladas para lá ou entraram como refugiadas, 86.000

mulheres, segundo estimativa do FORWARD – Foundation for Women’s Health,

Research and Development (Fundação para a Saúde e o Desenvolvimento da Mulher),

submeteram-se a tal mutilação. E 7.000 jovens adolescentes estão sujeitas a risco

anualmente, especialmente se retornarem aos seus países de origem. De acordo com a

classificação, da FGM, segundo a OMS em 2000, há quatro procedimentos: Tipo 1 –

exêrese da parte retrátil da pele que cobre o clitóris, com ou sem excisão de parte ou de

todo o clitóris; Tipo 2 - excisão do clitóris parcial ou total e dos pequenos lábios; Tipo 3

1159

– excisão parcial ou total da genitália externa e costurar ou deixar mais estreita a

abertura vaginal, ou infibulação; Tipo 4 – furar, perfurar, ou cortar o clitóris e, ou o

lábio, cauterizando ou queimando o clitóris e o tecido ao redor, raspando o tecido à

volta do orifício ou cortando a vagina, com introdução de substâncias corrosivas ou

ervas para dentro da vagina, que causam sangramento, ou com o propósito de estreitá-la.

(ROYAL COLLEGE OF NURSING, 2006, NOBLE, 1993)

A Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, no Cairo, em

1994, entendeu que seu alvo para a redução de tal prática já começou a ser atingido,

pois verificou-se que 20.000 mulheres foram poupadas do procedimento. Outro ganho

foi a redução da incidência de circuncisão nas regiões administrativas de Asyut, Sawhaj,

Qena, Minya, Cairo e Alexandria entre meninas 5 a 10 anos de idade de 95% para 70%.

Segundo a Maternal and Child Health Survey (Pesquisa de Saúde Materno-Infantil) em

1991, 95% das meninas nas áreas rurais do Egito e 80% das áreas urbanas eram

circuncidadas, embora o procedimento fosse proibido por lei. A informação, com um

aperfeiçoamento de educação sobre o assunto, tem sido fundamental para a mudança de

atitude tanto do governo do Egito, como do clero. (FEDERAL MINISTRY FOR

FAMILY AFFAIRS, SENIOR CITIZENS, WOMEN AND YOUTH, 2007)

Segundo o Ato de Direitos Humanos de 2000, os profissionais de saúde têm o

dever de proteger as crianças de tais mutilações. Na Convenção dos Direitos da Criança,

a página 10 orienta sobre a necessidade de proteção da criança. Foi então firmado o

Protocolo da Carta Africana (União Africana de 2003) onde estão tais compromissos.

(ROYAL COLLEGE OF NURSING, 2006)

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