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OS 3 PRIMEIROS ANOS DE VIDA

OS 3 PRIMEIROS ANOS DE VIDA

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Olga Maratos, psicóloga grega, percebeu a capacidade do recém-nato de imitar.

Mais tarde, Andrew Meltzoff estudou esta capacidade em grande detalhe: protundindo a

1160

língua, abrindo a boca, franzindo os lábios, o recém-nato, imita a careta para a pessoa

que a fez, demonstrando registro de memória. Os bebês também imitam rostos de

tristeza, felicidade e surpresa. (KLAUS e KLAUS, 1989)

Fez-se um estudo para observação do uso de movimentos expressivos como

indicadores de estados subjetivos no bebê recém-nascido, a partir de registros de

reações a estímulos nociceptivos e a estímulos olfativos e gustativos. A análise dessas

reações (choro e expressões faciais de agrado e desagrado) evidenciam sintonia com o

ambiente e variabilidade individual - duas condições incluídas no sentido de consciência

como "awareness"- e excluiu-se a possibilidade de uma interpretação desses

movimentos como reações reflexas. Considerando-se o bebê como ser social e

altamente comunicativo, estas evidências permitem admitir uma correspondência

estreita entre movimentos expressivos e estados internos, um pressuposto comum às

teorias de emoção. (BERGAMASCO, 1997)

Décadas de pesquisa têm confirmado que os bebês emitem sinais para as mães,

que geram respostas nelas, e esta comunicação implica em desenvolvimento cognitivo

para o bebê. Hoje já existem estudos em animais e estudos endocrinológicos que dão

sustentação às observações antigas, assim como estudos transculturais que marcam

diferenças de comunicação. (STALLING, 1994)

Meltzoff e Moore publicaram o primeiro estudo, que já se tornou clássico, de uma

extensa linha de pesquisas sobre imitação em recém-nascidos. A hipótese deles era que

os recém-nascidos são capazes de imitação de movimentos faciais. Usaram quatro

modelos: três faciais (colocar a língua para fora, estender o lábio, abrir a boca) e um

envolvendo os dedos, com bebês de 12 a 21 dias de idade. Cada um deles era

apresentado para os bebês por um adulto e as respostas eram codificadas por

observadores que desconheciam o movimento a ser imitado. Foi verificada uma

1161

freqüência significativamente maior do gesto que estava sendo mostrado, do que de

qualquer outro. (MELTZOFF, 1977)

Em uma amostra de 40 bebês de menos de uma hora a bebês de 71 horas,

apresentaram-se dois gestos de um modelo adulto: abertura da boca e protrusão da

língua. Os resultados indicaram que os bebês imitaram ambos. (MELTZOFF e

MOORE, 1983a)

Em outro estudo foi evidenciou-se que os bebês são capazes de reconhecer

visualmente a chupeta que sugam. (MELTZOFF e BORTON, 1979)

Na tentativa de tornar mais precisa a experiência anterior, foi feito um

experimento em que se criaram procedimentos para impedir que os bebês respondessem

imediatamente à ação do modelo. Os resultados corroboraram os anteriores.

(MELTZOFF e MOORE, 1983b)

A habilidade de crianças de nove meses para imitar ações simples com objetos foi

investigada. Depois colocou-se uma demora de 24 horas entre o estímulo-apresentação e

os períodos de resposta. Os resultados demonstram evidência de que existe imitação

imediata e também mediata. Estes resultados mostram que esta habilidade está a serviço

de um desenvolvimento social. Ações e novos objetos que são observados um dia

podem ser armazenados pela criança e repetidos no próximo dia. (MELTZOFF, 1988b)

Imitação com demora de l semana foi examinada em crianças de 14 meses. Seis

ações, cada uma usando um objeto diferente. Uma das seis ações era um

comportamento novo que tinha nenhuma probabilidade de ocorrência espontânea. As

crianças demonstraram ter memória evocativa. (MELTZOFF, 1988a)

Outro experimento incluiu a protrusão da língua e movimento de cabeça. Com os

mesmos cuidados de usar observadores que desconheciam o gesto que serviu de

modelo, verificaram que os bebês eram capazes de reproduzir ambos os movimentos.

1162

Mais tarde, após algum tempo depois da execução do movimento pelo adulto, eles

repetiam o gesto. Daí começou-se a pensar na questão da memória. (MELTZOFF e

MOORE, 1989)

A partir de estudos com bebês de seis semanas e de dois a três meses, atribuiu-se

uma função social e psicológica às imitações iniciais. Posturas faciais estáticas e

movimentos, tanto de estranhos como das respectivas mães, eram imitados; portanto, os

resultados não dependiam da familiaridade com o modelo. Esse comportamento

apresentado em bebês de seis semanas de idade continuava presente aos dois e três

meses. Para os autores, a imitação inicial tem uma função comunicativa e os bebês a

utilizam nos encontros com outros para enriquecer seu conhecimento de pessoas e de

suas ações e também para identificar essas pessoas. O que este pesquisador percebeu é

que o desenvolvimento do cérebro humano depende desta imitação, e o ato de imitar é,

dentre outras coisas, um importante exercício de memória. A criança percebe o rosto do

adulto como um espelho que se comunica com ela, portanto é fundamental como

aprendizado de auto-estima. (MELTZOFF e MOORE, 1992)

O trabalho de Sophian em 1980 trouxe dados na mesma direção e o autor afirma

que a memória de reconhecimento está presente desde os primeiros dias de vida.

Legerstee em 1991 também encontrou evidências confirmatórias, ao examinar o papel

de pessoas e objetos ao provocar imitação em bebês de cinco e oito semanas. Para os

três autores, a imitação é uma resposta social que tem implicações para o

desenvolvimento, especialmente da comunicação e da linguagem. (MOURA e RIBAS,

2002)

As crianças desenvolvem a fala com padrões de linguagem universal e um

mecanismo que influi é a imitação. As crianças buscam copiar as vogais. Em análise em

1163

espectrógrafo, as vogais vão-se separando quando as crianças tinham entre 12 a 20

semanas. (KUHL e MELTZOFF, 1996)

A idéia de imitar está conectada com a idéia de se inserir no contexto social. Mas,

além disto, envolve a observação e a própriocepção, assim como habilidades motoras.

Nos pacientes com Síndrome de Down e com autismo, esta capacidade de imitar está

alterada. Por outro lado, padrões de imitação são observados em muitas culturas, como

descrito nos Estados Unidos, por Abravanel e Sigafoos em 1984, e por Field et al. em

1982 no Canadá por Legertee em 1991, na França por Foutaine em 1984, na Suíça por

Vinter em 1986, na Suécia por Helmann e Schaller em 1985 e por Heinann et al. em

1989, em Israel por Kaitz et al. em 1988, no Nepal, em área rural por Reissland em

1988. (MELTZOFF e GOPNIK, 1993)

No trabalho de Reissland foi confirmada a imitação de posições dos lábios em 12

bebês com uma hora de vida de uma região rural do Nepal, para quem o experimentador

era a primeira pessoa com quem interagiam após o nascimento. (REISSLAND apud

MOURA e RIBAS, 2002)

Confirmaram-se as evidências de que em fase muito precoce existe uma variedade

de gestos imitados. A imitação de ações novas, portanto não pode ser resposta. A

estereotipada, visto que a possibilidade de imitação facial diferente com intervalos de 24

horas. (MELTZOFF e MOORE, 1999)

Foi feito um estudo para testar a imitação imediata e a memória (com intervalo de

24 horas). Este trabalho utilizou um procedimento experimental muito cuidadoso,

incluindo a micro análise da topografia da resposta. Os procedimentos foram testados

para fidedignidade, apresentando índices bastante altos. Os resultados mostraram

imitação imediata, e imitação após um intervalo de tempo. Esse último resultado indica

que memória de evocação em bebês de seis semanas pode gerar ações com base em

1164

alguma forma de representações armazenadas. A organização motora envolvida na

imitação, investigada pela micro análise das respostas, revelou que os bebês se

modificam. (MELTZOFF e MOORE, 1994)

Neste caso, Meltzoff (1995) relata um estudo com crianças de 18 meses, no qual o

modelo tentava realizar uma determinada ação com um objeto, mas falhava. A conduta

imitativa observada levava em conta o que os adultos haviam tentado fazer, e não o que

eles de fato haviam feito. É com base nesse tipo de dado que os autores ressaltam que

estas crianças de 18 meses não estavam apenas imitando o que elas haviam visto, mas

realizando atos de certa complexidade de intenção. (MELTZOFF, 1995)

Gallagher e Meltzoff (1996) discutem alguns pressupostos tradicionais sobre o

desenvolvimento do esquema, da imagem corporal e do processo de tradução entre a

experiência perceptual e a capacidade motora. Com os achados nas pesquisas de

Meltzoff sobre a imitação de gestos não-vistos, defende-se então uma capacidade

rudimentar de diferenciação entre o self e o que não é o self presente no recém-nascido.

(GALLAGHER, S. MELTZOFF, 1996)

Foram analisadas questões relativas ao processo de imitação e entenderam que os

bebês relacionam partes de seus próprios corpos aos correspondentes nos adultos. Ao

mesmo tempo, realizam movimentos espontâneos que são como "balbucios" e que lhes

dão experiência em mapear mudanças e configurações de seu próprio corpo.

Finalmente, estabelecem relações entre órgãos que lhes permitem perceber e emparelhar

seus movimentos com os do modelo. (MELTZOFF e MOORE, 1997)

Já ficou comprovada a existência de memória nos primeiros meses e há uma

complexa mente funcionando nos bebês de 18 meses. O cérebro é uma estrutura inata e

de evolução progressiva, há uma reorganização qualitativa na vida mental do bebê, com

base em sua experiência com pessoas e eventos de sua cultura. (MELTZOFF, 1999)

1165

Algumas coisas foram mudando e Meltzoff entende que, primeiro, a psicologia do

desenvolvimento veio transformando-se ao entende-se o sentido da imitação nos bebês;

segundo, é preciso mudar paradigmas de pesquisa em bebês, e deixar de considerá-los

iguais aos ratos de laboratório, pois sua psicologia é mais complexa. E em terceiro lugar

a comparação de imitação de animais e de humanos, demonstra que nestes a mente é

contínua e descontínua em função da subjetividade. Em quarto lugar, neurocientistas

vêm, através das experiências de imitação, explorando o conceito de neurônio espelho,

como Decety em 2002, Prinz, 2002, Rizzolatti, Fadiga, Fogassi e Gallese em 2002.

(MELTZOFF, 2002a)

A imitação é um recurso para entender como outra mente funciona. O passo um

sendo “Como eu” e o passo dois, “Compreensão do outro”. De algum modo a direção

da imitação é inclusiva de si próprio, num contexto de relação e do outro, no contexto

afetivo das relações sociais. A criança de 14 meses é capaz de perceber a direção do

jogo que o adulto pretende desenvolver, sem que antes tenha sido feito. Isto ocorre com

a criança humana, pois há uma interação lúdica que a faz antecipar no jogo à ação a ser

realizada e, quando percebe que isto de algum modo era o que se esperava, ela fica

satisfeita e ri. (MELTZOFF 2002b)

Um aspecto importante da imitação na interação social é o da empatia. As

crianças imitam gestos novos, demonstrando flexibilidade e não há automatismo.

Crianças que dão respostas corretas é que estão confiando no modelo. Não há fixidez

neste aspecto; e crianças imitam por memória, não por reflexo. (MELTZOFF, 2005)

Outras evidências do desenvolvimento inicial parecem consistentes com os

achados sobre imitação e serão apresentadas a seguir. A literatura sobre esse tema é

muito extensa e optou-se por citar somente alguns estudos básicos. A capacidade de

estabelecimento de intersubjetividade entre o bebê e os adultos é um dos aspectos

1166

centrais que se podem vincular às evidências que vêm sendo descritas. Trevarthen e

Hubley em 1978 discutem que a comunicação entre o bebê e os adultos -principalmente

a mãe - e suas transformações, se devem à diferenciação de uma função inata,

interpessoal, geral e altamente complexa, que se manifesta muito cedo de uma forma

rudimentar. Essa função identifica pessoas, regula motivação e intenção em relação a

elas e constrói simultaneamente atos rudimentares de fala e gesto em combinações e

seqüências-padrão. Uma forma primitiva de intersubjetividade começa nas primeiras

semanas de vida, com o prazer do contato visual entre a mãe e o bebê (ao qual se

deveria acrescentar o prazer do toque). A partir disso, desenvolve-se, transformando-se

na capacidade de compartilhar atenção a objetos comuns e tornando-se verbal na época

da pré-história.

No curso das primeiras semanas, os bebês apresentam uma ligação estreita entre

os sistemas de percepção e ação organizada e uma sensibilidade essencialmente humana

para estímulos sociais. No segundo mês, mostram os primeiros sinais de

"intersubjetividade primária", definida originalmente por Trevarthen e Hubley (1978).

Esta é caracterizada como uma forma de interação que tem como aspectos essenciais o

interesse que o bebê demonstra pela fala da mãe e sua capacidade de orientar a atenção

para o rosto da mesma e de responder às solicitações dela. (MELTZOFF, 2005)

As capacidades imitativas iniciais, entretanto, não podem ser entendidas de forma

isolada, mas se inserem em um panorama mais geral. Os bebês parecem predispostos a

responder seletivamente a eventos sociais e demonstram uma motivação básica para se

relacionar com pessoas. Além disso, revelam um conjunto de características que os

capacitam para os primeiros contatos e trocas com os membros da cultura, inicialmente

representados, sobretudo, por sua mãe. (MOURA e RIBAS, 2002)

1167

O sistema auditivo parece pré-adaptado para identificar a voz humana. Os bebês

discriminam sons da voz humana de outros sons, preferindo os primeiros, em especial,

os das vozes femininas (Eisember, 1975). Esta capacidade discriminativa se manifesta

também no sistema olfativo. Tem sido verificado que, desde o terceiro dia de vida,

conseguem distinguir sua mãe de uma estranha com base no odor (Engen, Lipsitt &

Haye, 1963). (MOURA e RIBAS, 2002)

No campo visual, as investigações de Fantz em 1965 demonstraram a capacidade

de discriminar e manifestar preferências por configurações de rostos humanos. Em

condições normais, os bebês buscam estabelecer contato visual com os adultos que

cuidam deles e são estimulados e incentivados a fazê-lo, segundo Schaffer em 1979.

(MOURA e RIBAS, 2002)

Há divergências entre os autores quanto à natureza das percepções iniciais do

bebê. Em geral, não tem sido confirmada a concepção piagetiana de que estas são

modais e justapostas e de que a organização comportamental é não-coordenada e

constituída de reflexos isolados. Bertenthal em 1996 revê e analisa as evidências das

origens e do desenvolvimento inicial da percepção, ação e representação. Para este

autor, os resultados das pesquisas recentes desafiam "crenças antigas" que viam os

recém-nascidos como dotados apenas de um repertório muito simples de

comportamentos sensório-motores que são gradualmente integrados e internalizados.

Além disso, evidenciam que a capacidade de representação pode estar presente desde o

nascimento. (MOURA e RIBAS, 2002)

Este mesmo autor Bertenthal em 1996 questiona a visão monolítica da percepção

de que diferentes inputs sensoriais convergem numa representação única que precede o

pensamento e ação. Propõe, então, um modelo em que o sistema visual é dividido em

duas rotas funcionalmente dissociáveis. Uma dessas rotas trata do controle perceptivo e

1168

da orientação das ações, e a outra da percepção e do reconhecimento de objetos e

eventos. Diferentes fatores contribuem para mudanças evolutivas nos dois sistemas.

Nem percepção, nem ação, nem representação são privilegiadas ontogeneticamente.

(MOURA e RIBAS, 2002)

O que essas pesquisas têm indicado é que o estado inicial do desenvolvimento

talvez não seja exatamente o que Piaget propôs e, é necessário levar em conta algumas

predisposições inatamente especificadas. As evidências mostram que a percepção

depende de relações e de descrições abstratas, permitindo defender a hipótese de que a

obtenção de aspectos do conhecimento conceitual e a aprendizagem sobre os mundos

físico e social através da percepção. Deste modo, é preciso repensar o estágio sensório-

motor tal como apresentado e explicado por Piaget. (MOURA e RIBAS, 2002)

É necessário adotar uma posição que inclua as novas evidências sobre o estado

inicial e que inclua também um processo em que a representação sofra transformações e

tenha maior complexidade, ou seja, passe por uma construção gradual. Essa é a proposta

de Meltzoff e Moore. Num modelo mais geral, isto é o que propõe também Karmiloff-

Smith em 1995. Márcia L.S. Moura e Adriana F.P. Ribas admitem tais capacidades

inatas, mas também a hipótese de um mecanismo de construção. Pensam que as

predisposições inatas podem ser especificadas em detalhe ou ter apenas uma direção

geral. No primeiro caso, os estímulos do ambiente são apenas disparadores do processo.

No segundo caso, o ambiente influencia a estrutura subseqüente do cérebro através de

uma interação rica e específica entre a mente e o ambiente físico e sociocultural.

Karmiloff-Smith desenvolveu o que chama de modelo RR (Redescrições

Representacionais). O modelo pressupõe um processo cíclico pelo qual a informação, já

presente no funcionamento independente do organismo, se apresenta sob a forma de

representações com finalidades específicas e se torna progressivamente disponível, por

1169

meio de redescrição, para outras partes do sistema cognitivo. Para elas, é necessário

acrescentar à visão de Piaget algumas predisposições inatas, impregnadas de

conhecimento, dando ao processo epigenético uma base para se desenrolar. (MOURA e

RIBAS, 2002)

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