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Desta obra tiraram-se 100 eæenplares

em papel Leorne, il,a,Com,panhi.a il'o Pa-


Îi
pet d,o Prailo, numerad.os e tubrbados.
PREFÂC
IO

I[anuol da Sousa Coutinho é dos ûItimos


et:amflnrrs rlaquela raça de hornens, tdo em
uuHfi ,,u n,ttssal(tnasc(t,rtça,, que manelja.ua?n,
Todos os eæemplaressd,oa.utentlcados c'tnn igilill ltntnlidilo û lrt'rtn r. a csf>ada: sol-
conl d, rubrica, dos editores dedo p ë'n'rllur huuttttisfrt. Illas jd o seu fim
pranuntln )(ttt ottlrtt ltlttt l1',,,,,ulto,
qûtctleueria
ca/ffterlailr enlrc ilôs ltulrt o srt.culode Seis-
t1l*ts,s: tt lrurlr liltvaln. () x'u ztulto ad,qui,re
fttls lndu tt rtilltv lt uln sinr,bolo. Exami,-
,têtttul.t dr lttltt.
1 [ilnnuel ile ,\rtu,snCoulinho, nascido em
Smtarltl fun tt.q.i, loi filho de Lopo d.e
PRoPRIEDADE DA Soilsd ('ttultnhrt, qur lmlalhara na Âfrica e na.
LIVR,AR,IA SÂ DA COSTA_EDIÎORA tndla, e em huriltu ilr nlnnnùo cn,genholite-
nliltt, ,\ett lillut hrnlttu. dllt o dtnor das letras.
Ndo sr sill)( ao cul,o se lcria estudado na
ll'nhtorsidadr de Coimlya; sabe-seporém que
itt,lcruoml>cu bruscamente os estudos para
sttgui,r a uid,a das &rrnas. Fê-lo, segrndo
Composto e impresso na secçâo de (Linotypesr
de O Jornal do Cométci,o e iloa Col6nl'as-
Rua Dr. Luiz de Almeida e Albuquerque, 5
L ISBOA VIT
parcct;, no prôprio ano da morte d.o pai, Vezi.nho d,os Pcrciras. Manuel de Sousa
rnorle trtigica, que deueria ter abalado forte- Coutinho a.rnou a lilha unica d,essa ca.sd,
mante o ânimo do môço: ao desrnontar do D. Leonor l)r:rciru. Ital.indo-a em casamento
caualo, lresl>assara-sedesastradamente com ao hai, lti-lhc rrsfond.id,o que era muito
a 'l>rôf>riacsl>a,da.Taltscz por i.sso ,nes!fl,o o m,ôçt: (lut' fl tl.cixasseesperarmais dois anos,
jotrt'rn Mtntu'l dc Sousa decidisseentral sèri'a- solt ltrttrttt.'ss&
que a formosa Leonor lhe fica-
na t'ido 1 ganhar o fdo (onl, os seus
trxt'tt.lt: riu rrs(ruatl,a. Nessa altura o rei mand,ou-o
ltraços. s(t/'t,il u,rn,a.lortaleza ern A-t'ri,ca. Dois anos
Nlïo loi lcliz na sua eslrcia de soldado. ilrlxtis, tlt rt'grcssoa Lisboa, aui,saramo rnoço
Viajando,logo cm r577, num barco da ordem r'nttrnrtrrrrltttlr rltttt str.a.
noiua lhe seria entre-
de Malla, con1,lurno nâo se sabe para onde, F . l t . ' , , r ': , \ t ' , l t t t t t i t 1 . 1 '1 tl vr 'txi m p , n ,A i g r e j A d ,a
foi caplurado por moiros na costa da Sar I l t t t l r r '1 , ' I ) t 't t , , , l 'r t 'l tsy1 1 1 1 - çr h n i d a m e n te ,
denha e leuado, com outros, para Argel. En- t t t t i l t t r r t t t t l t T t t t l t t 'i t , t l t, l t",l t. ( 'h t,ya d o o d i a
controu no seu cati,uei,roo célebre Mi,guel de t l n t t l t l t l t t e , l t t t . 't t t r t t t l r t t t tttt i yr r j tr tr tttr t ttt,ttl ,l t,cr
Ceruantes, com quern se tomou de amizade t s 's l t l 1 1 1 1 1 'tt 't t l t ' r l r ' l t t , t ,ttt.,n t t,, tl i l t, l h t, tl ,i sSe
c do qual apreci,ari,a6 a'gud,oespïrito e a gra'n- I t s t 't s . r l 'r 'l ', t t t l t , l ) t 't r . , . 1 ,..,,,trl ti sl i tr i u t,r a l d o
drza tlc ulutû, tâo de sobra m,anifestadosnas ( t t ) l , t n t . i t t l , ' t l n ( " , t t t , t ( ,ttt,l tt tl t ( ) cr u a n l cs, a o
auenLruasrla'l>risdo argelina. O escritor espa- c t t l t l t l l t t , t t 1 i l 1 t , 't t t , l l r r t tttt'l tl t Sr tttsa d Au A U r n ,
nhtil comcrnolou nunra. clas suas obras êste [ ! l n l l t l t " , 1 1 ', l t 1 1 1 t , l t ' t l t t tttr t' cu i i l tn Or l O p Or
enconlro.()uantlo saïu,,cm t6r7, em Lisboa, a lrn n
su,antntela Los trabajos clc Pcrsiles y Sigis' l'tt,,,,11,,'l
111,'ttlr'
utt,;lrtrq'ttlosticiosdo cati-
muntla, os lci,lores portugueses ti'uetam oca- l t . fl t t t , r t l t l t s 1 1 1 y 1 1 1 t l',t t, t t'l tt t' n ,a .m o r a d o , te r i A
siào de ler nela a histôria romântica dos amo- t r l t 't l r l r r t t t t I t t t t t l t i l t t l t r t r tt 1 1 1 1 ,1 1 1nttu
ttcn l ,l tfA i L e
res d.eManuel de Sousa Couti,nho. Pura inuen- t t t t t t t t I ' 1 , , 1 , , , t t 1 , t t l t t t tl t' ( 't,r tttttl r :s Al tOU e |-
çdo de Cetuantes? Ou, como nos parece, wtfi I t l t t t r t r t ', t t t t t l r t l , u r l o t t 'l .t'l tr i ::ttt', l r u n sl o r tn An -
fundo de uerd,ade engrinaldado de /o?na- ,ltt u, trlitrtltttttltt-o. ll,lorrrr tlo antor, sô urn
nesco? A hi,stôria é esta, contada, no capitulo I 't t r l t t l : 't t r t s .. .
to do liuro I desta nouela: .4 l,risîrt, dc Manuel de Sousa loi breue, -

VIII
o suliciente pa,ra conhecer os ril,ourose o seLt, at'irmar qu,e essa al.ilu,de ndo leria sido
entr anh ad,o ôdi o r eligi oso . P ermitir am-lh e que <'patriôtica't, conlo tlit'ianns hoje, sem grand.e
fôsse a Valencia negociar o seu resga'te, dei,- /'tro/'trictl a tI r t I t' r x I tr t ssfut " Il ec en tes d o cu,rnen-
xando como f>cnhor o seu irmdo André d'e Ios, /ttr,ltli.rurlos ltt'lrt I'adre Franc'isco Manuel
Sowsa Cou\inho, quc fôra capturado a.o Alut's, t' lirtrrlrts do arquiuo de Simancas, rnos-
n1,(snl.oI,otn'lto.Conscguido o resgate, Manuel lrrttt ttrts o ltrvLt.t.gwêsseruind,o ern r58o, no
dr Sou,saloi uiuor />ara Valenc'ia, emquamto It'tttltrt das alk:raçôr,.s,o.sinteresses do preten-
(ontltan,hciro Ceruantes, tnenos afazen-
o st:t,t, tlt'rtlt t'sltatrhrtl, crtm,o alcaide de Marialua e
dado, con,linuauana f>risdode Argel, de que t trlri1,i,, tttir rla g'nl,c da sr4a.cornarca. Mai,s
sô sairia dois anos mais tarde. t t , , t ( t l. 'nt l( r t lt r t ' . \ t ' t lt slt r . : . : XI
: anuel de Sousa,
Dera-sc cm, agosto de 1578 a tremenda t t,ntu tt l:, tuttlt' ttrttittritr rltt gt'rt.l,rt fidalga, uns
derrota de Alcdc'er-Quibir; por ld tinham lt t t t I t t t t lt t tlt 't . ", t ) lt lr t , '; lt r t r : ; t i'r t lit lt tinler ê. sse,
ficado presos seus 'i,rmdosRwi, Lopes e Lopo r . t t t r lr ' l', t t lt , lr t r lr t t ( 't . ', . 1t '( ull: ( 'ir t tt,lt t t ' r ll, ir is
de Sousa. Manuel de Sousa dei,xou-seficar l ),t1,ç t l ,"i t. tl ttr' tl t", tttt l tt,tl t) rl r' l ' ttrl tt1,11l . l ' tl tts
n& ci,dade de deli,cias que era Valencia, It1r1g,, ' ,,:l rtt\tt, tl nt. l ,ttt r.i l l ri rt f' t1,,,l rtl l ttt, fc i
procurando es(luecer,no cerrado conuf'uiodas t
"ft3111i s 1' !
ti ' r r' l tt t, r' t,t ' ,t' l ' uttl tt, tt t.\ dt J unho

lclras, os i,nforltiniosdo seu pais. Viuia entâo ,l r. | .i ,tr... tt l ,rtrt nl t' t t r) 111 .y 14t$1x 10 l ,tl ,i s d,e

eslrdlam,t:rt,l,cLigado ao con'hecido h,u,manista I t' l l q tt


a cionlisla .faintc l;alcào, quc lhe Yenououo I rtt t .,,\' ; r rtttl t tti tt r rts tttutu.l o c otn urna
con,hr:cirncnlo dos aukrcs a'ntigosc lhe expli- "t.nl tt,t
l t I tt tt , l t l l l trtl ttl t' tttr ,1,' y i l l utta, ui uua
cou tlcl,itlanrcnLe a l)oética rLeHordcio. Aquela ,l c . l l 1,,,1,, ,l t' I' r,t l ttl .ttl , tttttrl o tt,a l l al al ha de

uida de ôci.o literdri'o nd'o podia porém con- .l l t ri , t' t I' ttt t ul rl rt , ,tr' u l uutt(t rl ti .ui da, rc s l aua

tinuar: reclarnauam-no ct' pd'tri'a, cheia de rl l tt' tttl l te' l t l t,l ttl y ,, l ,r,tl ttl :ttt:s /i trr' s s r s l t,C ul n-

confusdo, e a fami'Iia embaraçada. Parte em l tttl tt ,ttt,, ti t,' t,t" ,1,' ,l l tt, tt: tuui l ( ,' 0r1.0 t' t' ,gi a

t57q de Valenci'a Para Portugal' rl t' I t rl r l tttt.' tt' () ,1,' 1' ,,\t s ,' rl ti tottt.o ;X tfdi dO
Ndo se sabe bem qual a sua atitude na t r , r lr , r l, r llr t ( ulu'r lilt t " si lir t ilituua , , lq1s. ; dor ) i
importante qwestdo da sucessdo que diuidi'a t 't r t t t t t lr t t , l, t t slt r ùt r , dc z8 de Abr il de t 589,
entdo o pai,s. Temos contudo elementos para r 'r ur o r nor t o. Logo, o c&sat nent o f ez- se sem

X XI
difi.culdades, apesar d.e existirem filhos cres- e qudsi ttisti,ca, embora o rei me tiuesse dado
ci,dos d.o primeiro matrimônio. Nada nos d.i,z o comando de 7oo lrt'ôcs e de wns roo cau&-
que êste casamento tiuesse sido por a.rnor; Iei,ros,prontos a u,m,sinal rneu, qunndo fôsse
antes tudo indica que foi, um daqueles enlaces necessdr'io.Ittvtirn os ()ouernadores do Reino
à antiga porluguesa, errNçlue um honesto cdl- tr ansI rrir a tn a.côr le par a Almada. Distribuem
culo se combinaua a. uttna discreta estima. O ctt.l.rtsi us cas&sda uila; e co?zl,o restauam as
amor uinha coln o casar... Manuel de Sousa ttinltas, mais numerosas e com rnai,s cômo-
ndo era ri,co: o casarnento conl, d uiuua afa- d,os,l,a,rtt,lnç.m as reqwisi,taram.Esta exigênci,a,
zendada era um1& boa perspectiua e estaua t't'ttt'l(rlrtrurlu,tu,ainiqna au\oridad,e,contra o
dentro dos costumesdo tempo. rlirrilt, l,,llri,,, (,s ?r,so.\
insl,iluïclose as leis cle-
Viueùam entdo eyr, Lisboa nutnas casa.sa ttttttlltstttttt\ r/rrs lossos zr,rls,in.dicaua perfei-
S. Roque. No uerào iriam passar a urna casa l d ttl t,ttl t tl u f tt.l ,l t'l t'.\, ( :( ) tn a r o co r d ,a çâ o
de recrei,o que possuiqrn ern Almad,a. Ndo se ,l l tl tti l tl fi tl n t,r l h t u l r ,t\tt, l ttttl 'r tttttn t tt:l to r l tt-
conhece a. sua. uida até ao fim do século. n fl ) n fi l l l t â â l t1s, ) tl l r ,t t 1 tç'1 1 ,'1 ,,,tl u r i r l ,i o
Manuel de Sousa,ailministrau& a.s proprieda- h tl tH â tl l e l tl e n t tttl ti l l r r r l r t; t';tl ttt't i tt,tt st' fo r
des da mulher e, nurna exi,stência que lhe dei- t'ttl l l l i l tl tt q l ,.' t't tt tn r l ty.tttt tl .' l !) 1 ,1 '',',t.a n ,l e s,
xaua largos uagûfes, dedicaua-se certamente a l Ar l r \ r l l t.t, r l tte i l r l ,,tr 'ttt, u \u / tt l ttttl t'r d a m .a g i s-
a tvab alhos liter drios. h e l n tn l ,i l l ,l t n l ,,tt',,t, t'1 ti l r ItD t( t tti n g a n ça p e s-
Por r5qq ou, t6oo cncontramo-lo instalad.o unl l ) r ttstti tl r t tl r t'tl r u r tn l .i n ,d r i a a .xa l ta çd o ,
ern Alnoada, corno ca,l>i,tào-môr da uila, à testa lilrlr'l ,,\ ttttttltrrt I'trrdts // ('.s.s/l
injùria com
d,c 7oo pe?iese roo ca,ualeiros.Ateaila a peste niltt,/, t lnmttliltt tnt'ltttt.rtrl\srt: foram-se
em Li,sboa, tôda a gente e a pr6fria Côrte dlnl\ t t , 't t t f t t , r t t t t ' t t t t't . ( t sn.
acud,iaa Almada, em busca de melhores a,res. , 'ft l, ll t t t illil [ llil, nt t l t lt , \ . , r r sa o cslr anho
Dd-se entd,ourn graue conflito entre o capitd.o- I t r \ t t t lr liult r lt t 11t t I l, t 'i, l't 'it r ut , t r yat la, no
-môr e os Gouernad,oresdo Rei,no. Êle prô- l'r t lilt ir t ùs O lr yus t lr . lui, t t t , tI' , 't t l. cî i, .Cot no se
prio, em latim aqui, trad,wzi,do, nos conta o ttl , uùtt tt ,nor,(u a ,sso () tril.nl,olda pdtriat,
d.ramdtico incidente: tt rltlitt tttt u.surf>ador, cotno por muito tempo
oA minha uida decorria li,ure de cuidados sr ltrrtsou, ,nas urno, uelha quesï,lia com os

XII XIII
()oucrnarlores,rJecarticterpessoal.Estd ai'nda porém que andou no Ri,oda Prata e no Peru,
que o e ai, se dedi'catta art comércio de gado' que
Irv inuesliger o nt'otiuo dessa zange,
vt'l>ente de ira a sua proprie- mandaua 'ltara AnS4ola.Escreueu entdo uno
It:z tlcslrrûr nrr11x que
tlarlc. E'vn ktdo rt caso, temendo interpreta- foorna lal.in'o, Navcgaçâo Antârtica, de
da. rsl.ranha ati'tud,e,loi l'ogo iu,ltliznt,trtl,t' rcsLam pouquissimos uersos; por
1:îiosrn,a,l(ttola.s
dda ti t:ôrlt: tlt: Madrid, ond'e teria êltts sa.lttrtrt,os que o pobre Manuel de Sousa'
,lqv 1:tnt,l.t.t,
ts lto d,rrttstts.
tt,ttti 1ir alligido nuno rwtr de cuidad,os, longe da
Iiri luutvàttelm,t'n'l,r:al,entlido, pois o frttria, susl>irauade saiidades pela espôsa e
't)(ttt,os,!L('ss(r'n,(tstno u,no de t6oo, dirigir em fn'l,n lillt,a qucrida.
()s tt,t'gtit:i,os
n,âolhe teriam corrido tdo bern
Iisltatt lta l>aci,ficancanlt:a publicaçd,o das
(ottt() x('u irtttîio l,ht' 'frofclizara. Pelo seu tes-
obras rlo seu grand,e amigo e mestre Jairne
ern 5
tl'of>rrtlessar,
Irttttrilltt,lt'ilu r'tttt,y'sl,r'ras
Falcito. Atias os seushonsseruiçospor ocasi'do
cle 5e'letultrrt tlt' t(tt,1, ronltssn-sriluted'or a
d,a peste beno o mereciam: Manwel de Sowsa
l, lr l t 't , t t l. ', t t . t , t l, ' t lr t llt r t , 1, ' lt t t t t 'it 't t ' I lull, asar
nd.o se limi,tou a tratar de Almada durante a
3lg I t t +ld, . i . a t t llltr t t lt ' I i, , t t t , ll( , l't 'r t t , cha-
epi,d,emia; seruiu de guarda-môr da satit'deile
llloir t I 'e'lt t t t il, l, , , \ t ut lr t ( 'r t t : t lt ' l'uililha' d, e
Lisboa nessa ocasido e teue o desgôstode uer
que o mal se pegou à sua prôf>ri'a filha- Os dt t t t llnlt t t t tl, r t r lt l t t t it t . I 't lt t t wst r t o i, nst r u-
ilt r - illr t r lt 't lr t r t ulilt t , . ', t l( 1t ( t t I osqu, e ur n im por -
tl ocu m cn I os r eu ela d os ùltim arnent e p eIo P ad're
t t t lllc: t t t l, t 'l: . 1, , t ( t t lltt lt r m t ulos ( lue m andar a
I;rancisco trIanuel Alues di'zem textualmente :
uscruiu no mais a/>crlaclodo mal' acudindo t,nt'n .'lnsyilt li)rr ulvct'ndirb 'l>eloGouernador
e: ll,c, ndtt linhu silo ltayt alti àquela data.
ftt:sxtaln+entea tôdas as cûsas atacadasn. utorvc-lhc a sua. ûnica
ltrtT tlttt' lrnlxt,
A sua uida, desde entd.oaté que plofessou'
em fit4, anda enuolta ern mi,stério. Sabe-se f t lhn, , 4t t t , 1, ' Nt vonht . Nî it t sc sabe se a
contudo qwe foi à Arnérica, a rôgo, a,o que luu.rslt tutllrit tt sltrltrrtnrltu' lttn,ga dos seus,
rf,, .s.',jl tlt' uttlt,u, ussis!.irtt'rtt,ltcsna à horri-
parece, de seu irrndo tod'o Rodrigues Couti-
ttrl, rt'ttu. A ltartir d[.sst; mornenl'o, desfeita a
nho, que uiuia no Panan'td,e lh,eacenaua,corn
ûuirt ru.zâo que os al>cgaua a êste lnundo, os
esperanças de grand,e lortuna no comércio.
rlrris r'sy'rt.l,^o s considerar-se-iarn perdidos para
Ndo sabernos para onde -foi entdo; sabemos

XV
xIv
Iî lir. An,lritt'i,t,dtr lincarn,açào, quem, no
t:lt:. fi êsseprofundo desâ.nimo,êsselremendo
senlimento d'e abandono, taluez mais acen- l,yt,licirt tlttt' tr ltits t'tn r66z à 2." Parte da
l f islr irir r r kr S. l ) ot t t ir t gos, t t os cont a pela pr i, -
tuado ern Madalcna de Vilhena, cria'da nutnd.
t , t t 't t 't t 't t t ': "t t t : , 'slit t t t e r nist er iosa hist ôr i'a,
atmoslera dc ntisLici'smo, que explicam o "t t
llt ', , unt t ' ', t ' nt ', lo' I lnt , dia wr n r om eir o uindo
ditstirr:io dos dois cônjuges, feito por mùtuo
t lr t lt ur t , r t t nt lt t f r r r t cur ot t D. M adalena de
cm t6t.1 : Manuel de Sousa
t:rrttsttt,l,i,ttttn,kt
I 't llt , r r , t , ' , / isr , llt c que en, cot t t r ar a na Pales-
t:il,lrrnr,rt(ss('(t'to ltara tt tttoslt'irttde S. Domi'n- lt , t t t ililt l, or lt r l t t t ls r lue lhc m an. daua f ecor -
grtstlt llrn,ficu, a csf>ôsa l>ara o conuento do , lt t 7, ', , ", ,I ) . ll ut lult 't r r t lt "it t : t t t n sobr essalt o e,
Sal:ru,rttt'ttlo, ltou'co anLcsfttn,dadopelos con- it t lrtt r t t t t r f iit 's r lo lt onoem ', uer if icot t
1, 1'1111111r
d,cstlt: Vintioso.
t t nl'u', 1t I t "t t t t t ( 'tI tl' . ll( ( ': ; t 'I r t t I t l't t ar LcI ) . Jodo de
O caso nâo cra nol)o e naquele tem,pod'e
l', t t lt t l"t l, ', t 't t l, t t t r t ,ir , , t t t t t r it lt t . llm lit n, o
crisc />odia dizer-se alé lreqùente; pouco I ; r t 'i lt t r qc Lr t t t '-
lt t t t it t r lt ' , ll t t , t t t tl , 1, . \ , , 11',,11
hauia que D. Luis de Portugal e sua mwlher tt ' ,ttl tt rl o' , fr' l ful tts C
l l nh,t. l t,tttti l t' 1,, t,l :ui l t'
D. Joana de Mendonça, condes de Vi,mioso,
l rl tc , rl I ttnl tt tttttl l l rr rl rt l trrt t Irtt l ut' ,,, ; l ). .l rti ttt
amigos de Manctel de Sowsa, tinham feito o
,l r l t,ttl ttl ' rl l , l c l rtl l l rl rt ,' l ttrtl
rnestno. A uida parecia ndo oferecer chd'o
I t ttt,trttttt ,,r tt tl rt t tt' ,l r:i l t i i t ,l t' l l l l tt,tl ,c l tl e
segulo fara cerlas almas desiludidas.Incapa- rrrr11:,,;
l l ttl tr. 1,1 ' ,l rl rt tt"' ,tl l rtl rtrl rt l rl tv Iri s l ac Los ,
zcs dc rcagir contra a cslranha fatalid'adeque
l ûnl l ,' l tr tt' , ttl t r,t' tl rl l r t,x , l ,rtl l t (t i tttforl a: os
ùrtfrn,diu sôltrc as consciôn'cias,buscauam a r.,,ti . l rtl 1,111r' , tl ttl tttt", tl t' tl t.t( i l udt' , r' onl ,an)eî-
tia mais lricit t, n'tais 'purificadora: refugi'am t:tn
Ittz l t1tl | ç t ttrtttl t' , t' tt"tt(' l (t(l ttS t(n7 nA
do mundo, corrcndo a an'i'quilar-sena dus- r ll l'r 't 'silt 's y Sigis-
t f li, r '/ r t , / , ' I t , , ' l1. 1lr , r 1o'.
lcra sanlidadc tla uida monâstica. Assi'm suce-
l fl ti l l r !!f t tt tttl tttttttt t'i l t .'l r i 't'1 , t'0 e sl r a n h o
deu com Manuel de Sousa, assim sucedera ttt\l ttt, | i l t I'tr ttt, tl , '.t t ,, i ttt't'ttr l i d r i tt, f>Of
com muitos outros. lComo se ter'i,apois gerado
u l r tl tr tr t', tl i ' l tttr ttt,, tl tt ',u tt l ,r i t l ,r i u l r u l i L a çd o .
essalenda românti,ca, ern que Garrett fareiou
| ,.tr tt t,r r l tt t',,l ttt,tt l r i ttttt't'ttl tr r l u tl c l a n ta si a .
<tôd.a a simplici'dade d,uma fdbula ttdgica ,\'tttl tt ,ttr tl ', tttl l l tr tl l tl ttt' tt l ) ( ) 1 to tti sse n o d i U ô r -
anLigau,e urdiu à sua roda a obra-prima do
r tr , tl r ' t( tt I ,,,,,, ( ( l tl ttt'l ( t u .l .tl r a b a d a d e D e u s
teatro />ortuguês,o drama Frei Luis de Sousa?

XVII
xvI
utt', f'or|us tla aLmar, coril'o o escrilor define sdo do lùtrrt (t)t, Viana do Castelo, cuja
tr.tnttcrisr:scmclhanteà sua, vn&surn mistério (,âr,n,arn sr li,trlt.u iu,teressado uiuancente
fela
rtrrrt'Kud.o dc l,ra.gridia,conl' lortes laiuos d'e ttlvru.
trt.t'ssiattistrtoil tlocitça moral do tempo.
. 4 Vir l, r , 1, At '. "5ir po de Br aga ca, usou
Assi.ttt :;r'lt'ritt Iorutarlo,tlnanto a nôs, a lenda
I t t ut lt r ir r r f 'v, 'r r ii, , .O uult o hist ôr ico, que t ant o
tlr' l''t'.l nis tlt' Sottsu. l, t t llr r t t . t uo ( , on, cilio cle Tr ent o, achaua- se aî
rl,, i rr':r'\ rt'tltt:irlo a ,proporçdes loumildemente
lllrttltt l,ttt'trrt ttttttttltt,llfanucl de Sousa
It tr ttttrtttrs,in.llrtttt,udorle amor cristdo, uisita-
l,tts.stttrt'nlîi() a uiurr l>a.ra])cus, ne sua cela tlrtr'.11'111r,, rltr.s lxtlvcs c al/>estres aldei,as d,a
tlr' ,S. l)rtttt.ittgos. Iincontendaran.t-lheos ''t t t t t lt t t t , "; r '. , llt r i. s lt t r t lt , , r , t j1, teclesidst
, i, co,
t',tl('rtuos,(urgo lrara que o antigo guarda-
l'r l, r , t t t t i, , t , , , 'll, 't t t t t t lr r ' I t t lt o, bispo de
-rttrir tlu srnldt:oslau&benoqualificado. Entre-
l't ', r 't t , t t t t lr t t ' t lt t t t t r t ( '\ ( '( 'l( , nl. t , liogr af ia do
I,an,lo,t:tn t(tt6 lalecia o cronista da Ordem,
t".t tl l ttt, l tttt"tt tl t' tt',,,ttt( t,' .l l '',,. L tti s tl c Stn ,l sa
I;r. Lu,i,sde Cacegas,que deixaua un1,agrande .
;'+l t l t,ttl t'u tl tr . l ,,tt,t ,' l tttttttl tl t., tl l t, t:( ) sl ,g sa ,-
soma de materi,ai,ssôbre a hi,stôria dos domi- l l l t'l l l :' l r '1 ,5 ,", tl l tttttt tt I't,'l tttl ,, a t t) 1 1 ( ,y( l O &S
n,icatr,os cru Poù,ugal e sôbre a uida do arce-
? i l l tttt ', !'l r t",1 1 1 ,1 ', . tn l t,,tttttl tt t,St:t.td .C L A l l ,AS
lislto tlc Ilruga. Iir. Bartolonxeud,osMdrtires.
t l tr tn l r l l 1 1 '1 ,.,1 ,' l l ttt t r t,,tt,. .\r i o tl ccl ù ta n ce n te
I;ti, i,rtctrnr,litlofdos scu,ssuf>erioresde pôr em
c",!i '. ',r r l l i t l tt', n l i l tr l t' tt,; ( l l tt' tttu i s l AZe m AU U I-
ortltttt,t: osl.iktarlut:lt:monlà,oinlorme de pape-
Itl , r t t'i l t r tttl r t t' tt t tt.sl tt l tvn to su r a d o se U
l,atls.Aos (xt rntrosnào t'ra l,arafagrata, e rnuito
t,,l tl r t ,'l l ',,' tt'ttt'l tt, tttt l r i l l .tttttt'tt,kt a fe cti u O d ,O
,r't(n,osltaru qu.cur,dccidira septtltar na cel&
l tttt n tt.n t,t l tr n tttl tl ,', ttr r i tr cl i .n a çà o f;a r a o d ,e m i -
d.r tn,rtrt,Kr: Lôdasas gloriolas mundanas. Con-
ttu l l ttr t, tt t,, tt,ttl t' r r tl r ,,l tt 1 1 tu , l r i l i r . L u i s d ,e
formou-se, e ndo teue mais qwe obedecer. O .ti r t1 1 1 1 1,l t l t',l r t ',t'r i l tt tl l l t't,( ,1 , s( ,1 ,... so a c&so
antigo humanista ia reuelar-sepor sob o glos-
l\',t, rf f t t t ' , , , . i 1 t r' 1 .
seiro burel do frade. A histôri'a do arcebispo
I 't unlt t , r \ / ir l, r r lo r \ r . r . r , lr is1xtoq:
, 14pt 16_se d, e
ocabou por apai'xond-lo; e em Maio de r6t9, 11r , ir r1l1tt llr . , l, lr it r r lr ' S. l) or r r ir r gos, que dei_
dcl>ois taluez de ter uisi,tado alguns lugares, \ t t t t t t t t lt t t r t t r t lt it lt t . A f >r im , c|r apar t e saï , Uem
para melhrv infor'ncaçdo, assistia à impres-
r ( t , i , li , , , ' ulir t t t ot t r int lo, o ncesnl, oest ilist a

X V III
u,tlnr,irduel,quc faz soltar 610sew birSgrafo' o de Madrid. Aï foi uisitad,o pelo marquês de
lisf>o tl,eViseu, o seguinte jwsto elogio: rNd'o Castelo Rodrigo, nessedia, coln a, incwmbên-
rno rcc,n rL,t dt: acltar wm'a sô passagem de cia, da /tarlc do rei,, de escreuer de nouo a
intcligtrt,t;iat:utsl'rtsa; e em tôd'a a parte pro' Virlir rlc l). .foâo III, <por se terem achado
r:etJot:otttrt tt crtrrrntk: seren6L'que cami'nha ,to'tt(trtt,t'nl(cousas de que d,antesndo haui,a
st'trtfvl:igu,al, st.ntlof>arcttr,ltenedose se des- nttllri.u, ( que era razdo ter êste rei escri,tores
L Ltnxaexa'ctadefini' dolvud.os, como tinham os rei,s qwe com êle
lttttltu.r tlt cnl.r,ttlttf>ûs,,-
('iio tltt rk.rssit:isrtttt dr l;t'. [-tr'isde Sousa, no c(,tt,(o/r(/û./tor.A I de NoUembro, aindA em
tluul st: rr,ttl'a
rutl, f>ara o e,nortecimento
cst'în'çtt Matlritl, rtcclia uma carta do rei, com data
i/a t:xln't,ssio,c11't, ludrt concorde aos preceitos tl( .'tt tlr'ott,lu,lrytt,confirmand,oa,sud no?neA-
cldssicose ù ausleri,dadedo seu apagarnento l'ùtt 1lr ltitlttritrtltr rlaqurlc rei,. Ao prouincial
t;risldo. lSelezaiguàt e dtscreta' e wtn ndo sei' dn ( )t tle'tttltti rtrrttttt'ntlatlttque desocupas-
qwê de swauidademelancôlica, que perpassa sê ttt tt r ttttttl !,., tl ç'ttttl ,'tt'; o l ,r i y,ttfi tt's r l h ,c d e s-

atraués dessa disciplina uoluntdria da forma: te ttl çl tti tt'\\.i r ttt tt',',1 ',l r i l ttl tt ft1 1 v1 1tl sl c l r a -

corno se sentem os getni'dosda carne apertada belh ,


entrc cilicios. lldt\ u,trt, 1,t: I,'t'. ltt,ls dr Sousa obede-
crttno hi'storiador' o frad'e i.5'n .'ltlttr'lt't,t'llttt tlt'72 anos Corneçoua,
.[d '1>rit1>riarnert,le
tltt S. l)ontitr'gosrr"ttclaua certa esl'reitezad'e ttilri'ttr rltrt'tttttt'ttlil1:iirt
e meteu rndos à obra.
tisl.a.s.t:n,aLLccr;n'drt dcsntcdidamenteos seus Fnt tf,tt ou ,n.('sttt,o t6jo estaua jd pronta a
ht:rriis, de modrt (11,{,c <<os sewsliuros ndo pi'n' t " ltntlr tlt,.xAnrrisde D. Joâo IIl, que abran-
lan't,ltont.r:tls,ref>resenLam aniosn. Tatnbém é ëtt, tt\ ttttt),i(lLtc decorriam de t5zt a 1539,
tle nolar o uso e abuso do mi'lagre- O foragid'o lt'nlttluttltt. u. csf>aços,ia continuando a sua
d,a uiria, ressentido ainda dos seus espinhos, lll,.lriri;r rlt: S. Domingos. Mas ndo podia
embebia-sede gôsto no transcendente'Mas, tlttrttr tttttil,o queln estaua (.no inuerno d,a
coi.sacur'i'osa:sdo essashi,storietasmi'lagrentas ittrlttt r lazia id <ntimero d,e anos sôbre
qwe d,do uil,teza e colorido ao seu esti,Io. ',c'ltttlrtn, corno êle prôprio diz nos Anais
Em rt de Maio de fi27 uatnos encontrar (l'rrt'lr' ll, cap. r.'). A morte, culo chama-
Fr. Luis d'e Sousa no colégio de S' Tomds rttt'rtl.o lhe soûua nas orelhasr, ueio final-
-jd

XX XXI
lôrJa a ccrlcza lit'rtu cortcluïda, laltam alguns
lmclxteem Maio dêsse ano de t6jz, nd'o o
t'u.frilulo, ,t.ttslit,rt,s 2." e 5.o e ainda os liuros
deixando concluir a sua obra.
I iuuis t r st 'llt t ir t t r t , i. ", que ser iam pr eswm àuel-
t t t r 't t lt ' t t t t t i, , t t nt ( ) . I ) iz Her culano, e a nôS
lt t t t t lt , 't t r t t ( t ',t t ', 1( tt 'ssaesper ançû. ,q6e é poSSi-
t t t 'l r t t t t t / , lt 'lr r t t r t t t t lia a obr a, cO m algUm
Ii r.s.sr o[rya hiskirica, os Anais de
ilr lt r t , lr t r t r t ', lt ilt lillt : cas de Por t ugAl e Espa-
D. .foiro III, dc rlue fôra incun't'bid,ono ultimo
t t lt r t l'', / ', 'r , 't t t , , t l, r r y / sst : acaso f eliZ.
tlua,rlr:ltla cxistência, qu,e/>ublicamoshoie etn
fil ttlrltttltt .'t,tl)()r,û, cssa obrA histôrica, à
2." etliç:do.O ncanuscr'ito,que se consideraua
"foi cncontrado por Alexandre Her- t lt t t t l \ t 't t , it t i t t tl, ur l u nlt , r na, l, cr ialde inuest iga-
/>erdido,
lt lr t , 11, r t , , t t t lit t t t t r lr 't t t 'li, slat 'lissico, aqwi m ais
culano na Biblioteca .da Ajwda e dado à ( )1 t 't lilo r t î t o |r nr a doçur a
I t ut t , t t ltt t r lr t 111y11,
estampa em t844. É uma ediçd'o fiel, como
t lt llT: r t t t t t t "t lr \ r t l1t lr ', ,t lt t Vir l; r r lo Al'r . clli5pg g
seri,ade esperar do seu editor. O manuscrito,
At lf f r , t lit r lr , ', I l, t t t t t ll. r , , , r t . t t t t t r t r 1*- sc
que ao princî,pi,o é perfeitamente legïuel, na "f
I t lr llz t l t l, ll t . t lf i, t , lt t \ lt t t t t t t , lt , t t t l, t , t ' t t t '. : t 'sut nT
letra elegantf,ssimado prôprio Sousa, é depois
I t ler t lr l; it lt , il. ', t t u', t t , \ t t t ut lt t lt t . ' t nus I sem pr e
u,m borrdo i'nforme de letra rniuda e a'cres-
t lt t t t t d I t t t t t 't 1ùr ' t ' t 'lt '1'tr lt r 't t t r 'ï t 't t t , lt lar iSSi, m A,
centada, muito dilicil de decifrar. Segundo
àrt/r,rr rl i tf.' :i .,\, ttnttl rt fttfO, U tn,A nOtA d,e
nosso cosl,unte,consulldnoos o prôprio autô-
t lt llt t t t t t , , , t r u, , r t , lr rt t r t f t r of çngào par a o jôgo
gralo da Ajuda e corrigimos em, utïrios pontos
t lt , f , 4l, 11'1, , , , ( ) lr ut lr dom inicano f az gôst o
a ediçdo de Herculano, que alids segwi'tnosna'
Filt tle,,,rtt'ttt't' (ts t'tn,rcrias afri.canAS, ern que
integra, incluindo as notas acumuladas no
€rr rlr.,lttt ltttrltt san.!:ue português. O pobre
lim, que possuem euid'enteinterêsse hi,stôri'co. atlttt,tti lt,,ul)r(tt,-sc-ia às uezes que foi. caua-
As notas de fim de pdgina, do prôpri,o Fr. Lwî's
it'tr,, t' I'rtt'lt, () o Se'u,estilo parece Ani,mar-Se
de Sousa, e por uezes ainda do editor, ufr'o
.t .",,..t rt'rttrtlaçdo,' Tnas sempre o ?nes?no
metidas entre colchetes.
e", l, lt 1r t .. ) , n( sr no cast igo da f or m a, a ?nest na
Infelizmente, a obra qu,e, ennsegunila edi'-
ztttt1,111 rrltrrlt' c fro/>riedade das incagens, o
çào, apresentamos ao pwblico é um ,nonu- tttt",tttu lrtttt ligcirArnente ArCAïzante no d,iZer.
mento mutilado. Da prirneita Parte, que de

XXIII
XXII
AN AIS D A VID A, R EIN AD O
Dizia o Padre Antônio Vieira, outro grande
escvitor, na aprouaçd.o que redi,giu para a 3." COVÊRNO DO PRUDENTISSIMO
Parte da Histôria de S. Domingos, em z8 de l{il D. ilt
setembro de t(t77: uA propriedade com que
'OAO
lala em tôdas as matérias é como d,e quern a
aprentlcu na escola tlos olhos: nas do /na'/ e I.AI.I IL PRIMEIRA
naucgaçdo lala conto (luem o passou muitas LIVRO I
uczts, nas da gucrre coTnoqueln exercitou as
oînros, nas tlas côrlcs c paço como cortesdo
e desen,ganatlo;e nas da perfeiçdo e uirtudes { A I ' f 'l'lt l. o I
religiosascomo religioso perfeito... A arte de
llr t r nrlnt onlr r n pr r r r r nir , r r i, r ç. iodel- r ei D.
falar com propri,edadq em tudo o que abraça Joâo
ùa hi,stôria ndo se estuda nas Academias de fl l r i - =l tr r ttIh ,tt,r ,r l 1 1 1 1 1 1 1tr1rni
l r ti tn l i t.r ,s :ttto s tl o
Ciências, sendo na [Jniuersi'dadedo Mundor. l p l ttg r l t, r l :,11 ,1 I| fl r r t1 1 ,l , r , r ,1 t ,r l ti t ( 1 ,. s( ,
l r t,,;,i r ) i t,
Perfeitarnente acevtado: o/& essa experiência It|l l l l tsr 'a a r .|tl l .1 1 r r !l 1 1 r l l r l t, tr ,r r u r r l r , l ,,r i .lr r g l i l
da uida, êsse conhecimento do mundo, que ê l ti l tta l l .tl l i l r l r , fi ,l l r tti l l tr t l I,r r l l r r ,
1 xr r , r r r r r l l r cr a
I l tl l ttl ==4 l l f,',r l r r .l , l i l l r ,r r r r ,r r ,,r r l o .r l tt,i s C :r tô l i _
cleixort.na alma u'no fuauo de desilusôes, e?n l l r Ê ,l t* . Fh , I ttt r r i l l l n l r ,tr r l r r t,.r .o tr l r r ,r .t,r .:t. se _
olva mt:lhor se espelhamdo que nos
nen.ltttnr,a l)or
tl l ttr l .t l ,'t,l r ,l ,, r s q l 1 ,1 r i l 1 1 ,,1 tr ,r r ,tr l t;r r l ;[<;ttc fcz e m
Aniris <leD. .JoZtoIIL fi t't'r a .. r l u Jl l l l \fr l r t r r tl i i g r .r t1 ,,
Jr ri r r r :i 1 r cl ) . Afo n -
Ett, l i l l l , r l r ,l l ,l l t f ,r l ' r r r ,l ;r r r r r l ol .i o i co n scg u i n te _
R,ODR,IGUES LAPA l d i l l Ftl l ts l ttl a r l ', I'r 'r l r l ,l l r r ,r r l l s r 1 r ,sn t.s r ci s e m
Itr l e r l r , I l r tl r l ttr , l l r r l \.,r l l tvt,t:l :r l r . ;r l r so l u l o se n h o r
H e - . l r e r q ttl t,te r r l ',r l r ,i tr r ,r r l r , N i i
l r o l t,s c Si ci l i a .
f l e l l l r e , r t1 r r i q I l l l r tr l r ,r l l u ,
;i r i r r r ci r o fi l h o , o
l r l l l tt l l r F l t l l l tg l r ,l , r l t,1 r r ,r ,l 1 ,,r l l r l r ;r 2 1 , t:m si n a l
fg r l a t'l ttr i tl n t' l l ,ttl l r t ;r r :r l r r i l r r l r l r .l ;rl r r l tr , t.r l OS e Ste S
1 1 ,l 1 1 r rrilrr.' 1 1 1 1i1l r' tt l r r l r r ,l r l r ,i l ( )r , :i tt{.t,ss( ) f. M a S D a S_

ttil .t .ttttillt rrrr,/i.. :,t.lilti(l;rlttr.ttte.


'

x x lv
cot.ticç/To DE CLASSICOS SÂ DA COSTA ANArS D1, r). rII
JO,4O

sou tudo como sombra e representaçâo de ùa abre- l 'l r r tr r r r ti t ti r i tr l ti r l ) . M ;r r i r r t,r r r L i sb cn p o r fi m d o


viada tragédia. Porque estava decretado no tribu- i r tr 0 r l r , tr r i l r ,r l r tr r r l r Itr l o :;,r . vô o i Ù l tl r r i r sr :u p fi m e i r o
nal divino haverem-sede trocar as mâos no parti- l i l l r o r r o r l l r 1 o ,l , l l i r :.r l i u r r tl a - [t:i r i r ,:r sci s d i a s d o
cular da monarquia. Começou a passar no faleci- Ir r Êr ir l l i i l tr l r r ,, i 1 ,r ,l r r ,r r l r o t:r s d csp o i s d e m e a n o i te .
5 mento da princesa, que foi no mesmo dia que tinha Fe l r ' l l l r l r tl l r r l r l l ) . .f o i u r , r 1 u e , su ce d e n d o a se u
dado ao mundo o principe D. Miguel. Infelice se- i r i ti r r ,r I l r r ,r , l o t l l r cr ,i r r r d o s r e i s d ê ste n o m e e
nhora em ambos os casamentos:no primeiro com tl Êri tr l r tl l i l l r r r l o .i r l r r c sc <:o n ta m n a su C e ssâ od e l -
a morte desastradado marido; no segundo com a r .l l l r \l ,r r r ',n Ar r r i r l r r cs, c t:n tr e o s q u e l o u va m o s
prôpria; nâo menos triste, por ser na flor da idade r l r ' p ,1 ,1 1 ,,1r,',, . r ,r r .r 'l r .l r l csvi r tr r d cs n o m u n d o , se l h e
ro e quâsi repentina, que a clo marido, polo acidente It:i l r l 1 ,1 l tr ,i o ;r ti tr r r ,i tr l Ir r g :r r , fo i , Se m a n e n h u m
do cavalo. l i r ? r ,r n r r Hi r l .tr r vo , r r r n r l o s p r .i r r r t:i r - o s: cu j a h i stô r i a
Acabou de passar de todo a representaçâo com r I rtil.ir,rtiltlrlr rt r,.tttr.\,('1.,t|io lxrr rx:iosa curiosidade
a morte do principe D. Miguel, sucedida antes de i l i t r .,l i l i r l r i r .r l i l r l , l ,l r 'r tt,r( r 1 r r r ,i i ;rr : o r r tr .l tco u sa fô r a
sair das mantilhas e do primeiro leite das amas. I l l l i r l l tr r i r l r r r l r ,r ' r ,'r l r r r l nr ,l r r l u ( .r .sl ;ttr r o s), l n i ts p o r _
15 Assi se achou el-rei D.'Manuel, dentro de dous tl rl l i F H i l l rIrÉ l tti ti l rl i l rl i l ti ,,t tr,,i l x ,tl i t, s r.gttttrl 0 c t,r:o,
anos, sem mulher e sem filho e perdida de todo + l e r;ttt. È t Ê i trtl rl r-+ ,1 r, t' rl i r,rl rrrl r, rl r. rl c s c tt
a esperança da grande monarquia, de que se vira l el i l l tl r ei * r l r!t. F Fi l r,i l !t r,rrl rl rr i l tt,tr.t' lf.i
tr,t,t.t;()ri
l (l t) l .r,tt,l tt < l i -
adorado por senhor. Muito de bronze fôra o peito, i i i l gei l A + l i rt l rti i i l rt,t l l i rl ' 11,' ,, r. r r,l r,l rt,rrl ,rs
P or rrrui -
a quem nâo quebrantara tanto mal junto. Enxer- * 4= l rts l i q=
zo gou-se o abalo em que, sendo-lhe tratado segundo ltl f l c -l t,tttti l n rl l pr,tl l ,ru
Irt rl l ui l ;;ro rtrorLt (l ue us a-
casamento com a infante D. Maria, irmâ da prin- i al l l l l Ê j rti n rtl l l l l nb, rl rr' l gr pl i rr< :ïpi O dC S e daf
cesadefunta, deixou de lhe clar orclhas muitos dias, i l r1|l tr, r l ], rr,{ 1111l nrr i t,i r,rr rr' l l Ir rt l r,s t,s t:r.i tos ; mOdo mU i to
com saber que nâo havia em Espanha outro que r,rrrfr,r' rrl r.nl r, ;rr,r,r rl r,l i rrç i l o rl as ntatéri as e c l arez a
tâo bem lhe estivesse, espantado ainda, ao que dF l rl l rr l , Irrrl ,rre' rrros rro pri mc i ro ano de s eu rei -
z5 se pode crer, e receoso dos sucessosdo primeiro; Éi $ârl i l l rILr I tl i l (' ;t(.l ti u' r' nos di gno de memôri a do
e emfim o vêo a aceitar, obrigado mais de bom con- * e :* r 1 l rr l r ' l l r p r fr r r .i l xr : l e m p o q u e , p o r se r m u i to
selho e necessidadeque de gôsto. Porém logo lhe IH;1pt'rlrr lrtr,rir.nl(.,(rnl (luc nos faltam os velhos que
mostrou o sucesso quâo errados sâo muitas vezes ,r l l r ,i l r r ,,i l ,r r r r r . ;r l é i r <p u cl cs
que nos puderam dar no-
os discursos do juizo humano, e que o fôra o seu, lL lrr r|r, . ilil\illi n:cr'bidac pOr relaçâO de SeUSpaiS,
3o se mais dilatara tais vodas; porque com elas encheu trl rle fôt1ir rros lr:i <lc fazer ficar mais curtos do que
sua casa e reino de copiosa e fermosissima geraçâo. rlr:qr'lrln{rlir.rlo <;rrcpor ventura se promete de nossa

23' aotn sabey: embora soubesse. | 1, tt tt \lrt ll,o: llor mOtiVO, pOf faZâO.
29, d,iscursos: raciocinios, , rr.
l,iltl.'til,il: l rO d e f i a m.

3
u)r.Lc(:,r0 DE CLASSICOS SA DA COSTA .,1 N.4 IS 1)1, D. IO.î.O IIt

rliligência quem nos faz escrever: icomo se contra l r l t;r o tr l i tt,i ti ;r r r n tr l i tr tt,,,l ,ro r l i l r l o r l o , co m ta m a -
o que a fôrça dos anos tem jâ nâo s6 esquecidomas n l r ;r l r i r r n r , l r 'tl r r r , r l r tl tr r r r l ,r r r "r:rr r.j tr l g tr vl rl ) o r m e n o s
sotèrrado, valera, pera o tirar à luz, cuidado ou es- ,1 tr , l l r r r r r l r r r lr ,,p 1 1 tl n '.l r l l tr r :r i s, r l ttc vcl r r l o to d a vi a
tudo humano! r l l l r ' l l r l l I'l ,l i ,r l tt r ttl tl r t,tt 1 ttr l l tC tl ti tl tte tttOSa n tO e
5 Soou pola terra, no domingo, cinco dias do mês, i l ttu l l r l l l r ,t,,, l r l t r ',,l o t\':1 'o s e fe i to s d ô l c, g u a r d a -
lâ sôbre tarde, que cntrava a rainha em dores e sig- t'i l i l l r r r ,r r r r l r r r ,Ii l l r ,r r r l i sr r r oo u tr o g é n e r o d e p r Od i -
nificaçôesde parto. Espcrtou a nova o amor natural t,i ,r '1 r r l "t l ,' I,,r r :,r . l o g o n o s Pa ço s, se m se sa b e r
que os portugucscstcm a scus reis, os clesejosque r ,l r r r l 'r tr "r r , ,r :,:,it'o n to p a sso u a te m p e sta d e se m
tlnham <lc principc, c a clcvaçâo gcral da cidade- ,l ,r r , r r ,l ,r ,l ,, ,r o :;:;i r .;r r d clqs, u e a sa b i a m r e fe r i r a ca u -
que ,,, i ,r r n ,r l r r r ,r r ,, l l r r r r l r é m fo i a p a g a d o o fo g o a n te s d e
ro Juntou-sc tôda com o clcro, religiôesc prelados
havia, ctn ùa devota c comprida procissâo,acompa- l,ri, r rl,uto rlc 1;1;115ids1oçâo; e julgado, emquanto
nhacla clc tanta cera c lumes, que tornavam em dia 'l r r ',r r . p o r 'l xr r tc d a s l u m i n â r i a s e fe sta s d a q u e l e
as trcvas da noite. Foi-se com ela ao mosteiro de r l t,r
S. Domingos, a pedir misericôrdia na Capela de ),J;r({ u () 1>rincipe D. Joâo nos paços do Castelo.

Jesus pera o perigo da sua rainha, que todos haviam


15 r', 1,,,r lrrrrrtizadona capela dêles, que é de invocaçâo
por prôprio; porque a todos fazia medo e agouro ,1, S. llliguel, por D. Martinho da Costa, arcebispo
triste a lembrança fresca dos mal logrados principes, ,1 , l r ;l r o a , e l e va d o a e l a n o sb r a ço sd o d u q u e d e Br a -
D. Isabel e D. Miguel. r,,,rrr,,r,D. Gemes, acompanhado, pera madrinhas,
Mas o Senhor piadoso foi servido de converter os ,l r r ,r i r r h aD . L i a n o r , i r m â d e se u p a i e m u l h e r d e l -
ir'
zo môdos em ûa nova e nâo cuidada alegria, dando r,.r l). .|oâo segundo, e da infante D. Breitiz, sua
ao rcino rtm fermoso principe e à rainha fôrças e ,rr,r, rniri del-rei seu pai. Para padrinho chamou
saticlc; coln (luc a cidadc c o reino todo trocou a r I rr,i o cmbaixador de Veneza Pedro Paschaligio,
tristt'zir t'ttt alvoroços t' contcntamcnto,os receios '||rr. rlr côrte se achava, dandolhe aquela honra em
cm fcstas, quc sc afirrna foram as maiores e mais n,ur(. (la sua repriblica, que representava. E como
.i5 rr!illllo('(i muitas vezes, algùas cousas que se fazem
z5 custosasque em muitos tempos se nâo tinham visto
- ,r (;r:;() ou com leve ocasiâo sairem tâo acertadas,
em nacimènto de principe, competindo entre si todos
os estados de gente a çluem daria maiores sinais I r,nro qc com madureza e conselho traçadas fôssem,
do que cada um estimava aquele bem. - l,.ur.((.u um género de pron6stico da grande prudên-
E-passaram tanto adiante' que se pode crer fize- I r,r, (ln(: clcspoisresplandeceu neste principe, dar-se-
30 ram ènveja dentro no infemo ao inimigo do género t,, llrr. lror pai espiritual o nome e representaçâo de
humano; porque no mesmo dia se armou no ar ùa rrrrr l,.slrrtlo, que por toclas as idades teve fama e
tormcnta de âguas, trovôes, raios e coriscos tâo ,'l 'r ,r :,r l r ' p r u d cn ti ssi m o .

ro, religiôes: ordens religiosas, t,t, srsrrdos.'


homens rle saber e experiência.

+
corlcç;lo Dri cLasslcos sa DA cosTA ANA 1S r)L D. JOAO III

'l'ratando-sede ama de leite, como era jâ muito rl i r.;rl , l l rl rrttr rl l r (l i trl r,r l nl ,i o l tttrrpti rl os três anos e
irccito a el-rei Alvaro da Costa, que. o servia de ri l r.o) rl l tr' l )ri l r' t rrr l Irrrl ro rl r. S . A . rk ri x ar aquel e
guarda-roupa e polo tempo adiante subiu a seu ca- l trutl l l r' l tl l rl l r tl ,rtrr rrrl t,r' ,, r1rrr, rl t' s tl i z i l r j i l c l e s ua
mareiro-môr, lez parecer a afeiçâo que estaria bem trl l rl r. r tr,r i rl rr, r l rrt l ,rrrl o l i i s s c s c rv i tk l ni i o the

5 ao filho o quc agraclavaao pai. DeuJho por amo; Irrrrl rrr,rl ,' rr 1r l l rr l ' ,rl rtrn:rl ' l t r;ttt: s 6 i s to bas tara
c vêo pera o paço pcra o criar Breitiz de Paiva, sua l fi ,l { l l r,' tr,l rr l rri l ti rr .t l oi l t:U ' trr,tn pc c l i r mai s . Gran-
mulhcr. Tltnto pock:o gôsto dos reis e o respeito de i l t. rrl ,, ,l r l rl rrrl rrrrl rrrl t' c r:ons tânc i a pera em
' l rrl rr,
um valirlo, <1ur:,t:rnto (luc sc tratou de .Alvaro da l !i i l l ' l l rr.t i tl ||r' i , rl i l r, ,.1:t r.ttc l tt' r' t:i l t c om c erto av i s o,
(lost;r, niro lrouvt: <lrrcrnrluviclassccla bondade do ' 11
,rl i l nrt\,t l r' \r' t,r { l l ,,rl i t c ti :rç i o c m s onhos , que
IO Ir:itc, <lt' rlrrc prrn<liaa vi<la do principe, nem dêle rl l l I l r i tl tr,rtrrr' ' ,, Inrt(l l t, porl i l r s c r fôrç a de i magi -

1rt'rlissc('xirnlos,conro fôra rlrzâo. Porém Alvaro da l l ,l r:i rr ' rl r l i l ,r,rt,trl o rl t",r.to rl r.l :t.
(losta unrava lirnto a scu rei c cra juntamente tâo
que, sabcndo quc se lhe sccava o leite, fez
sisrrcl<-r, t r \l 'l l l l l ,( ) ll
oTicio de fiscal contra si. E antes que o defeito se
r5 sintisse na disposiçâo do briado, pediu a el-rei que | +tttttt l r r l l r r r Ér l r r r tn r ( r 1 1l ç1 .,o ;r r l r r r i p c D. loâo
passassea criaçâo a Felipa d'Abreu, mulher de Ber- p e t fte i * l e l tr r r l ê q l ctt 1 1 r l 1 1 l - i ( - ) 1 1 11' 1 1 1 ,.,1 1 1tC
'",ve
tolameu de Paiva, seu cunhado; e assi se fez. f!a E Fl l ttr e l r a a l e l ta c r , n r r r r r l F r r r r r l '..,r r ..l i n ci a .
Era Bertolameu de Paiva cidadâo de Lisboa, de Fiin'la H FHnt'Fllr"''1,1,ï';;;,,""r1r('r'r
rl;r scrra
limpo e honrado sangue. E Felipa d'Abreu acabou
de criar o principe com grande cuidado: em que nâo
ê razâo ficar-nos em silêncio o têrmo, com que esta I ' ,= l i l l ||r r: rti l l l l ," rl t,,rl r rr rr,rrro.,, l ti l tt0 rl ttt: D eU S
dona contava despois que dera fim a sua criaçâo. tl ' i 1,1i l rr l trr l l l l rrr ,nl , tr' t.r ,l i ,l r.r,, rr;ro tl rnl l rr em l ho
Costumam as amas, quando é tempo de divertirem fqe* ; i trtrrt l i l rt l tr trl r' i l o r, tr,r' t' l rr,f l l rl r s ttc es s or. É
os meninos daquele pasto, que a continuaçâo e na- f! i = fr, l l l rl tl l ,' ,1t, rl r' ;r1r' 1' t' 11r,,16 t' t:i t.tttt:l l ! C Ontfa a V a-
25 tureza f.azem saboroso, pôrem nos peitos cousas l i :* l arl t rl r' ,rl l r r,tt,rr.:i , (l l t(' o l t' tttJ l o, pai de mudan-
amargosas,cujo asco, provadas, lho faça aborrecer. !4Ë ||ti l l l ' t,r \ r' l r' ,r i l t\/r' i l 1;r (' l ul z c ()rts i g< 1.P ouc o pas -
Nâo quis Felipa d'Abreu ofender o principe, apli- c qr q rl r. l l r ,, ;,rfrrr' i pc , r;tutrr< l o a el -rei l he pare-
' ur,
' I f,n l r.l tl u ,l r ' ' ,rl t,,l ;rz t,r':r ôs l r: r' s ti l o. C hamou
cando-se cousa que lhe dessenem um leve desabri- a c ôf-
mento; e fiando mais da capacidade,que jâ nêle se drt l r' e l , 1rrrrl r,,,rr,i l tôs r.s l l rtl os t:rrt Li s boa no outono
rl i l ,rtti l rl r, t.,o 1, rr.r' r' l rt,rrl x )r s (ti t J )c s s oa em nome do
3o conhecia, que dos enganos e artificios ordinârios,
[!r l i l r,ui l r' nl ()s (: In(' tral { (} ns ordi nâri as , nos
l rtl rr, rl rr'
l rrr.rr. rl l ( .r' ,l r.l o, tr:r S ;rl i t < k rs Lc ôes .
z, oceito: est\mado. l \1,r, rr,i ,, l or r.l l c i nl (.l t()s c ui c l ados o na guarda e
15, ariad.o: criança amamentada'
z8-z<), tlcsubvimento: incômodo, desprazer' i1 llr r r r I n', lr o, lo pr 'lr r t : ipc
que em lhe segur ara suce]

6
LO|.L.CÇIO Dri CLA,SSrcOS SA DA COSTA lNAI S ])Ii I). TO , qO III

sâo. Para guarda, tanto que começou de andar, ,,r .tr rtr t'tr l r tttr ri l r l l t,",',r ' tr ,'ttt Ir t,l t l i r r r yr tt'scn te : e m
lhc deu Gonçalo Figueira, fidalgo honrado, que o ,;ttr ' :,i i l r tr ' l ttr l r r r l r 't't,t r 'l tl t r o tr r .i tl {'r :r t<;ttc o s ta i s
acompanhava de dia sem nunca o pérder de vista, ,i l 0,1, ri l t' l tl r' r I i l i l i l 1,r' r \ | ,' r' ,, l 0l l i l l l (' i l t s i l l l t' tl l t.tl ttc l es
respeito dos desastrese perigos daquela idade. Para ,tttrr!r l t,ttt11,1 l 11l l ,r,,,rttrrl ,r rl I j tti z rr r, rl i s t:ttt' s o, tttl fi s
começar a ler, nâo csperandoque comprissequatro 1tttrl l r,,l ,, rl , l tt' t | :,l t l r' , r;ttl l l tt: V (l l l l :t i ml l fi nfi f,
anos,encomendouo cuidado a um sacerdote velho l ri l i rt l rrrl i rl t,rr.,rl rl o rr' :;l x ' i l o t: Obedi ênC i a, ta
e sisudo, seu capelâo, que juntamente com a liçâo r r.tl ' r ,i ti ' i ,.i ", I tr < l t: 1S pfri tOS , qU e mU i tO
' ,l l 11i l tr.11l ()
do alfabeto lhe ia dando outra do leite, que naquela ,l r = ,1t. rl , rrrrr ,i rrl rrrr rr' :i l , rri rr;i c l o pera nandar e go-
idadc sc pocle dar c reccber das cousasda fé e cris- ! r i l r,i l ,
' ,rtr l rl ' , rrl ,rrl r' . I)0rr1rro o c argo de ai o de um
IO tanclade.O que cumpriu tâo bem Alvaro Rodrigues, ,,r' t i l rr,r,l l { , tl t: tôc l as aS ac ç ôes pol i ti c as ,
l ' | ri l r tl ' , r' .
quc assi sc chamava o sacerdote,que mereceu des* 'lilr
,r,,1 l r,r' r ri l i ,l t' t ;rl r|t:trdi das , C omO s e bU S C a mes -
pois por ôste serviço dâlo el-rei à emperatriz, sua Ir, l rr r,r ,r l trrl l rr;r l ;rl i rul c outras al tes ; e por i s s o
irmâ, quando foi a casar, pera deâo da sua capela. i l rrr\ r i l r rl i l r l ,rl trrr' :;ttr: j he nâO fal te, pOrém C Om
Mas é ponto de considerar e que deu muito que r l r tr,,l rr ,l r l rrrr;,,, r. .ur()s : rl uero di z er que o pri nc i pe
r5 falar na côrte, que razâo teria el-rei pera se desviar tâ l ' ,i l 1r' r l ,r rl r!:r i l r!.o l rr' r;r :rs t' ntender, C apaC i dade pera
do estilo de seuspassados,trocando o cargo de aio, â= : r!r l l l ,rr r r.,l rl rl o l )(,ti [ s e nâo dei x ar c ati v ar do
que usavam dar aos principes logo na primeira ida- âi r, + t ,l r tt,l :r r,r I l t,tr.i i rnpel i oS O ou menos pru-
de, em cargo de guarda ou olheiro s6mente. De que ,l :l i l r
teve pera isso motivos dignos de seu grande jufzo, l l ,r., l rrr n,rtr' 1,, ,r l rrr,l ri ri i r; também pareC eu nov i -
a ninguém deve fazer drivida. Porém saber quais 'l<'l'
l r' rl ,l ,rt r I rr,r v rr' ;Lo P aç o, pera dar' l i ç âo de
foram, se n6s o pudessemosdescobrir, preço acre- e-:rl rr | ,r" l ' tl l r l l l r., ttrtt pObfe hOmem, qge, pOI
centariam a esta hist6ria: visto como o fim de tôdas l * ,l t ' .,, rrr,r,' , l rrrl r;r r.s t:ol a aberta na C i dade. C ha-
as qllc so cscrevcm é avisar a todos os estadose a l r:ri ,r i i r l \l ,rrl i rrr A l orrs o. I)o que c ol i gi mos duas c ou-
cada unr no quc lhc podc tocar. = 4i l rrrrr r,r, ,l rrr.rl r,v i l r. s c l i ns i gne na arte; s egun-
25 1l fazcndo na matéria um breve discurso, bem se é, rl ,r
' i l r,
rr,rr' l r.rv l ti ;r l rrl l l o l rotnc m nobre, que o fôs -
deixa ver que dar aio a ta idade de três anos, que = , i ti l ,r |),rr' ,rrrr ,.r. r.i l t ;t(l l l (,1(' tc ntl to toc l os os nobres
havia de ser pessoade autoridade e grandeza, como l + frl ,r ,r, ,uttt,t' , { . l ,to l )l } u{ { } :' rs l t' tt' l ts , r.:< l m< sl c fôra
se esperava e usava, era mais honrar a pessoa do i i r,l ,r,l r rl t|' , ,t l r' i l ,r |i l rl tol ;r,;:;r' ;r l rtttr;i |".V i r:i () c t:tl l l l a
aio que acudir à necessidadedo principe minino: rl rr nr' .l r' rl i l l n ,l tl t,,tt trttti l ,,' : :rnr)s c t tt.j o rt' tl t(:tl i rt
3o era oficio de nome, mais que de sustância; mais 'ir
1| ru, r ' ,ri ,r i ' :;l r l )r l nr r|(' , ;rol ;t l rottl t r;ttc , 11119.111;15
ocioso que importante, e ûa despesamuito crecida, ,u' i l l rr' l ,rz |t i :, l r' l tl rl ; r' rr l i ul l l s :rs boas
' l rt, ti i l i l ,i l ,
,ttlr,

\ ',r n l '.,l r ) .:: ( t{,(i ;t o l ) r i r tci p t't'tl t'sccl b r i a m u i to


4, resfei.to dos.' por causa dos. , r l . r ,l r r r n l o t. 1 r t'r :r l r r r l o l r ;r l r i l i r l l L tl cc e n g e n h o .
Col.ttC(:ÂO DE CLÂSilCOS SA DA COSTA .tNA r5 I)1,: I). IO.rO III

'[ ratou el-rei


de o aplicar aos estudos de gramâtica rl i l r' , ' , r' ; l ' i ' rl l r' \ ' l ' t . l i l l l l rl l r, l r, , l o , t l l l (' l l r(. l rl l h i a m OS
c latinidade e darlhe nêlespessoasautorizadas pera l ri t , , , , r l r' i l rl t i l l t (l l l r' | [ ' rl t l l t t , t l t t :r itla<lc ju-
" r' l l l l (, 1 (' : l l
mestres. Foram, na gramâtica, Diogo Ortiz de Vi- r, t rt l , r, i l 1 1 ' 1 1 1 ; 1 , , 1 1 r I r, r , rl l r' \ ' i l,llll il tlsill t:tlttt ôltl
lhegas, famoso letrado e prègador, castelhanode na- l l rt l (t i i l lr lll'll,,lt l l t t , l t , . , t , r, l rt l (l (' l i I l i t : l rt ' t : t l t t t ;lt'L-
'lr
5 çâo e muito nobre, que com outro irmâo viera a êste I l r l l rr I rrt rl l r l rr ll,, rl , t l , rl t t rt , l ; t rl t ' t : t l t l < l t t t ra s : t rt t : s ,
reino acompanhancloa princesa D. Isabel e ficaram rl { f t | il i ,., il ; , rl
rl r
" r' ; r, t t
, 1 rt t ' s rl t t b t -' s s e : p ri n c \ l a l '
'
ambos nêle; o Diogo Ortiz foi despoisbispo de Tân- f rr l { , , r. - l r' rl r rrr, rl t , , r' , , rl l rl t t t ' ' f o mh s d e Tô f f e S ,
gcrc e, andando o tcmpo, de Viseu; e o irmâo, que Il :' ,1r,,, r l r' .l r ,r,l tol ol ' o, l l rt: l c u al guns pri nc i pi os ,
se chanrava Iîernâo Ortiz dc Vilhegas, fez casa e ,1= ,= t,l rr ! i l t"\ i l i l r' i l l r' :; rl os P l :tnc tas c omo da c ons -
lo rnorgatlo c casou com D. Maria de Tâvora, filha de i l r l i l i l t,,r,t ' 1i l ri l i l i l (l o, (' 1i l t(' l ri [ e mafes , que foi C On-
'lclcs dt: 'fâvora; c dêle decendemos Tâvoras
.foâ.o I r i l rr rrl r l ,r l ,t
' l i l r'
r' rrl t' tttk :s s c a grande parte que ti -
Ortizesde Portugal. trl l l , l ,
O outro mestre foi o doutor Luis Teixeira, filho l "' rr nr (l r' l otl o i ' s tt: c ui dado s e l he nâo pegou mai s
do doutor Joâo Teixeird, chançarel-môr que fôra Il l r rr.r l ,r,.r rrrr:l i tti rç i to pc ra as l etras e l etrados , em
15 del-rei D. Joâo segundo. Era Luis Teixeira vindo l1 l ,ri l l ,r l ,r,i l r, (l tl () ac hamos pos to em mem6ri a que,
de fresco de Itâlia com fama de homem eminente, tl r,rl ' 1,,
'
n()s s o c el ebrado c roni s ta da A s i a, J oâo
tanto nas letras humanas, em que fôra ouvinte de r l , l t ,n "., { r }n 'r p u n h ap o r l ) a ssa - te m p o a fâ b u l a d o
Ângelo Policiano, como no direito civil, sôbre que -=!r r /,,,nttrtttrl.o,a fim de polir o estilo, pera vir a
escrevera doutamente. Dêstes dous mestres ouviu i.:r r, ' I r ,r', r'r'rdades dos {eitos portugueses, guerras
zo o principe vârios livros de latinidade. Do segundo :.! ! | ', tlnrr'., rl:L Asia, com que despois espantou o
chcgou a tomar principios da lfngua grega e ouvir l r r 'r ,l r ,, l r r r l r ;r o p r i n ci p e ta n to g o sto d a l i çâ o d e l a ,
lrarte da Instituta, que é porta e entrada pera o es- rlrr rr rr11l1'1 i1qlomar-lhe os cadernos e de sua mâo
tu<lo do clireitocivil; e era justo conhecertal porta i 1", ' ur'rr(lirrrrlr>.Que nâo pode ser mais claro indi-
rlucm havia de julgar err.n trono supremo vidas e fa- i i,, ,l' .r|lr(,1'lLos livros; que todavia valeu muito a
z5 zcndas de muitos. {l f =lr r' ilr0, l)()l'(lue,vindo a reinar, fez que floreces-
Para tudo teve o principe bom natural, acompa- =!n rr,l. t'orn grandes avcntagens tôdas as boas
nhado de grande memôria, que é ùa das partes que Itl t,, ( r ) .
I mais se requerem nos que estudam qualquer ciência, lt r rrrr',,ur:r rn:rrrt:irlrquc aquela leve aplicaçâo clos
r ,.tu ,l ,,',,,r .r vi u :r o p r i n ci p c cl e fi ca r a fe i ço a d o a ô l e s
I tr r l ù | | ,, r l r .r r r l t',;r ssi d 0 tr a to cl ô stcsm e str e s e d a s p r â -
r.5-r8. Os filhos do Dr. Joâo Teixeira foram efectiva-
nrt:rrte discipulos do grande humanista italiano, que em
r7 rlo Agosto cle 1489 escrevia de Florença uma carta ao
(lhanct:lt'r, tcstcmunhando a sua aplicaçâo nas letras. r t \ l . rrrrr. l S t ' v t ' ri t n d e l i a ri a , c h a n t re tle Évotet, na
Clf. 'I'c6filo l)raga, Poetas palacianos, 3o4-3o6. | , , , , t . 1 , , ' r, t t l , l i n rro s . l

IO
corttcçI) DE cLAssICos sÂ. DA cosTA ANAI I)ti I). JOAO III

ticas mais altas que com êlestinha da doutrina cristâ ' r 'l r rr r r r r tr r o r :l r ,i l rr l l tl l i l .i i o so s. N i r o l e m b r a -
l r r tr r l r r rtr
(que em tudo eram doutos) vêo a criar ùa grande r ,i r l tr l i l n tr r i ti sr tr , l r ti ttr i g r t,r l ttr ' o l .t'tvi r ;o tl l t Scn h o r a .
devaçâo e amor a tôdas as cousas da Santa Madre l l l i r Hu ,,tt g r ttlt l ttu l r l l t.tt tp l l l l tr ' p o r l i l r st'tvi t' tl r r n b é m
Igreja. O que mostrou largamente por todo o dis- 1 1 1l'r r ,ttt g i tl ttl l l r r ,l ,, l i r 't{l p r l h r ,i l l;r l l i r tttsr l i i ts <:ttts:r n ta
5 curso da vida em tôdas as ocasiôesque se lhe ofe- I r l ttl r ,l ttg Brlrtr t:l tl r t l r r tttttl l l r ' l r l r o l i r ,'otl n ci l r ttr ; c csti -
receram, como ao diante veremos. Mas é muito ttta l r l n ttti tl l l r ' ;Fl r r r ' l r r r ,t l r 'ttr ;;i or kr 1 >r 'i r l ci i r c, co n -
de estimar o que de seus primeiros anos ach4mos tcr l e i t l fr e çr l l r r 'tr L ,rr ,,ttt 1 i ô ',1 o .l ', o 1 r l 'i n ci l l co te ve
posto em memôria nas Crdnicas da Provincia de l e tt* r i r l t'l !i . r p l ' t!l r l r tl r l u l l tt;t l xt't'ttt;i i .o .
S. Domingos dêste reino. Conta-se nelas que, nâo I l r* nl rt1 !i trl ttl l r,r l rtr t tttttl t;ott ;t l l ttt:nder c om
ro tendo êste principe mais que onze anos de idade, f:t ti el rttrr+ r' l trtt,rt,r, t, l rtt::r,1.' l l i l tl t' l ttl ttl t' trr:rtttl ou j un-
procurou, como outro Salamâo, levantar um templo l ét i trnl etl al a, r i t l l i r i i tl q l l tl t' r,l l ' r' :i rl l i rl v c nari a,
a Deus e dar um conventoa esta Ordem (r). âl ttl t rrl l rr' i f;;r l l ,l rl l l l rl t ttl l l l ,r-, l ;tl l ,t;t o tl t' s tl j o de
Havia entre os bosquese matos incultos de Almei- tel a l l rta l :' l l ,t. ,1tt,' l l r,' 1,' r, ti :tl l l (' l ' l l tttl o o t:tti da-
rim, a duas léguas da vila, ûa pequena ermida, que de tl e 1r* fi r.i l 141 erl l l l r l r H l ' l tl l l l i t3i l , rl l l l ' l l i l v t' t' tl ;l rl rr
15 el-rei D. Manuel mandara edificar por encomenda l i i êA tl rerfl ttË l tt t' ni trl ttl te 1tt-1,1r' tl l rl l i l l l l { ' ri l , A t' l l (l i i l l l l
I e legado do testamento del-rei D. Joâo segundo, seu dfei e Ë l al l l he Ê rt Ê r4= l rt rl ' r l ' i l rtl r' l t' j trr 11i );l o rl rr
primo: casa de devaçâo e romagem, consagrada à . l fl ê= = FH l rl * Fi l l i rFi !1i l r.!t, t rrl l ' rl rl r ti l rl rr i l i i i
Ë hf|gæ
Virgem Mâi de Deus, com titulo de Nossa Senhora fn F= rr ptl i l i i ;i e i i r* l t l * l l trl a' l r tl r' trrt' i = tt l l :ri r;l o
da Serra, tomado o nome da aspereza de um monte Ë t* l g+ a* :g tl e tet rtet' ts f i i i t trl rl !t rl l l r' l i ttl t' t ttotttt'
zo vizinho, onde em tempos antigos fôra achada ûa # * A rf FË tË rtÉ tdi 4 É rr-=l i rl :tl H tta rl l l rt.l l 1 \' t"r' i ' rrr
f' l t' s
:
imagem sua. Visitava-a o principe algûas vezes, em hfi thC rrr ti c qrtel a= ;ratl l ra,,1l l ' rl t' ' ,1,,,t,. l r,rt"trrttt < l tr
companhia clel-rei seu pai, qundo o gôsto da caça l Ëtifti tl
ri e
e p a ==a
ti a= = = 4 f t i l !l
!l ill t F l
i r
l rll lltr l
tri l i
l ir l
rl .l r
rl l t'
t' p
P t't;t
t' t;t l o
otl tl oso s::
$ tt
os levava nos invernos àquela recreaçâoreal da vila ë . ffi a i fa yp 1 {6 r l e l r ttttl t=tr '1 1l r r 1 l ' t' l tt;ti r i p r tl ,s l l tto s
'Ï*
tl e coutadas dc Almeirim.
ffi tftg F+r i q ti r l tl tl i l l i l 'l tl tl 'r ' l l r r 'l i l r ', o l :l ( 'tl l ( r ( ) m -
25 Um dêstes anos, tendo jâ os onze que atrâs dis-
semos, encheu-sede zêlo de ver a pobreza com que
:=,.
ali se agasalhava um retrato da Rainha dos Céus,
! i'rir 4 rrl llltrrl i!Êi il''
sendo terras, em que êle e seu pai iam buscar entre- : I ê eXr?t!rt=l
rlp-=elilIr;r r'
i!j cfel;ila:;s .' ti,,i,l: lrlrllll'rr
timento, com gôsto e muita despesa.E achando-se tl: i r.tti=Fsilt,rtilÈilr. tslrl er pttl,l,t
jo um dia ambos na ermida, pediu-lhe licença pera l. iifi|eie= alitelte= l, lrrr,l lrrtlrlrr lr"lllll'(lr'\;t an-
lglii:1 :l ,,rlli el' e,,
t- rttt tlittttr,,t ll-1. rt,l,=rl,trr lr1't,:sivo das
I'trt
lllÊi,r'=-i!i=jri * tlttt rl,r= r.rt!lr l. l|il ,l,r r'rltlo ,l| lirei LUis
E' L
l(t) Crônica d.e S. Dontingos d,a.prouincia de Portugal, ilE =t rilÊÉ
P . II, Ii v. ô, cap. 16.] ,ti \'.1: =.. ,, I'ig,r rlr, |rrlrl\ t,r!1 (l';rsl() - gôStOl.

I2 r3
COLECÇÂO DE CLA"SSICOS SA. DA COSTA ANArS Dn D. IO.4O rrr

panhia dos reis, ora sds, quando sucedia tornarem CAI 'f 'I 'ULO III
cansados e moidos (que o môr passa-tempo da vida
humana se acha, no fim do dia, comprado com De alguns perigos que o principe passou em
quebrantamento de corpo e fastio da vontade), Èuâ moelrlâ(lc, D;1 se conta como el-rei lhe deu
5 achavam aqui alivio de trato cortês e santo, com r a!râ! Ë quam loram os oficiais dela; e como
religiosos letrados e discretos. E se era tempo in- e Éom ëE. r ra lnt r oduzir nas m at ér ias de govêr no
vernoso, tinham abrigo de casas recolhidas e bom : or r lpnou t ; ue assist issecom êle em ûa cer i-
fôgo nas chaminés (r). ffifutlâ tlos reis antigos, gue se usava em véspara
Assi teve breve remate o convento e {icou logo de Nat al
ro povoado dos mesmos frades de S. Domingos, que
jâ dantes serviam a ermida, por doaçâo que dela Nr'io loi bastante a grande vigia, que el-rei man-
lizera o mesmo rei ao convento de Santarém. Mas rlrrvlr.tr:r na guarda do prfncipe, pera o livrar de
nâo se contentou o principe s6 com o rn-aterial de rrnr notâvel perigo, de que ninguém julgou que
pedra e cal; tratou de lhe alcançar de seu pai sirlssccom vida. Era entrado em doze anos e pou-
15 renda: com a qual e com outra que lhe ajuntou 5 Hnva com el-rei a Santos-o-Velho, nas casas que
despois que sucedeu na corôa, se ficaram susten- rk,spoisforam de D. Luis de Lencastre. Havia ne-
tando vinte religiosos. E no mesmo tempo que a lrrsfra varanda alta e mal reparada, donde, andan-
obra corria, lhe procurou de Roma indulgências, rlrr com pouco resguardo, caiu abaixo. E quando
que o Papa Leâo Décimo lhe mandou por um bre- llrr,acudiram, foi achado de todo ponto desacorda-
?o ve que se guarda no convento: pelo qual consta Irr rkr t: sem fala e com ûa ferida na testa, de.que lhe
que foi expedido no ano de r5r4 e impetradas as lorria muito sangue. Pareceu o caso mortal e en-
graças a instância do prfncipe. r'ltcrra côrte de sobressaltoe confusâo, porque nâo
lornilva ern si; e neste estado passou o dia todo e a
ttoitc seguinte.
t5 Mas o mesmo Deus que permitiu o desastre, pera
rrrostrarque êle é o que guarda a cidade, nâo sol-
rlarlos nem muralhas, foi servido de consolar seus
pnis c a seu povo, amanhecendo ao outro dia es-
lrrr'lo c com sua fala; e cobrou brevemente fôrças
lsl r. nnritlc, ficando-lhe sd na testa, por cima do ôlho
rlirr.ito, um sinal da ferida: sinal que bem se dei-
havn vcr, mas sem nenhûa deformidade. Outro
perigo tcve despois, em que sua vida nâo esteve
l(r) Crônica de S. Dontingos da prouincia de Portugatr; lrrlr(l$ arriscada. E ficando em memôria que foi
P. II, liv. 6, cap. 16.l

r4 r5
COLLCÇAO DE CLASSICOS SA" DA COSTA AI iI AI S I)L I). JO A. O III

de doença, e em Almeirim, nâo fazem nenhûa os l i r i s, r l r r r , ;- l r ,r i r l tn l tr l r ,r 'r ' ;ttl g o tt s;r i l r a e l e i çâ o d e


que o escrevem de que anos era.,Foi salteado de ;g l l r r r r l I r ,tttr r l ttti l ;ttl r i l l '. l o t:tttt r l s s|g u i n te s: p a r a
um prioriz com veemência de febre e dores, que o I Al tr tl r ,l n r r r r i t II l .,i u r l r . l l l cttcscs, l i l h o te r ce i r o
chegou a têrmos de se cuidar que acabava. Acudiu r l o r n l r r l r , r l r , I r r r r l r u r l r l r l r ',p o r sa n g u e ( , l ) a r te s p e s-
5 Deus com sua miseric6rdia, como no mal passado: 1 u r r l l l r l r , r ,tr l rl r l l r r r l r r l vl tl o r u m d o s l r r i m t'i r o s
deu-lhe vida e breve convalescência. I1 1 1 r ,r r q r l ,r ,1 r llr, l r 'r r l x) . Pa r a mordomo-môr
Passava o prfncipe dos doze anos. Mostrava em ll f r ,'l r r r l ,t ',r l r ,r , r ,,tr r l t. d e Po r ta l e g r e , cu j o s d e -
tudo o que fazia tanto assento e entendimento, que Fcn r i r tr l r ,r l r i l ,'r l r r r l r o j r . 0 m e sm o C a r g O n a C a Sa
claramentc vencia e anticipava a idade. E. com tudo l l e a l l ',r r ,r 1 ,r ,r r r l :rr r r r i l L u i s d a Si l ve i r a , a q u e m
to nâo acabava el-rei de se determinar em lhe dar lrr ;r l ,l l r r r r ;r r , ,l r ",l ,o r :;r l r r c vô o a fe i n a f, fe Z C On d e d e
casa, contra o costume antigo dêste reino. Do que 5 ,i r , l l r ,r t ) , r n ,r i s r r r i r r i str o sfo r a m D . L u i s d e M e -
nacia falar-se vâriamente na côrte e pola cidade, i r r .,:r , l r l l r , r l o ( 'o r r tl e l ) r i o r , a l fe r e s- m 6 r ; Jo â o d e
e às vezes pesadamente. Sâo os reis ùas paredes I r tl r r t,r yr r r l ,;,o rl r ,i r r r - r n <i r '; C r i stô vâ o d e M e l o , a l ca i -
brancas, em que se atrevem a pôr riscos e carvâo r l r , r r r ,r r l l Sr ,r p r r , tr r cstr t:- sa l a ;D . Pe d r o M a sca r e -
15 de juizos temerârios até a mais vil osc6riado povo. tI l l l l :r ,, r ',l ttl r t'l ttt r r r t'r t';I) . .f<tâ ocl c Al a r câ o , ca ça d o r -
Uns diziam que, como a malicia ia em grande cre- *rrr l ,,r 1 i r . r l t, M t,l o , r r r o r r tci r o - n r ô r ; e ve a d o r d a
cimento e cada dia se refinava mais, nâo se satis- r r - :i l i r r r l ,o p r ,r i ;t, r l ;r i i o r l l t str i r ctp cl a D i o g o Fe r -
fazia el-rei dos sujeitos que o tempo lhe oferecia. H - tr r l r t,r l r r l r l , t,r r r t:r r j ( ) l r r 6 i a t.cr r tr o u p o u co d e s-
Outros queriam interpretar que devia sintir no prin- l 'ti ,: ,' r r r .r ;l l r ' l ) i o g o Ol ti z cl c Vi l h e g a s. D o s o fi -
zo cipe algûa fraqueza secreta, que lhe tolhia fiâ-lo {,, r i :tr . r r n r ,tr .s, ( .( ) l r r o ta m b é m o cr a m n a ca l i d a d e
de criados. E na verdade êstesse enganavam; e s6 ri;r,. 1,, ,,,r ., nio lit:ou mais mem6ria que saber-se
os primeiros discorriam melhor. Porque el-rei tinha e i :i r r ,l ,r n n r , r n s p a r te s q u e co n vi n h a m p a r a o
grande conccito do principe e conhecia que, poden- i 4 !i ,,' 'l i l r l r ;r r ,'i i rd c scr vi r , b e m p r Op o r ci o n a d O à
do fiar muito dêle, convinha todavia fazer mais E = t r1 l l r, t r l r , t i l ; l i ()l ' (' S .
'
z5 reflexâo na escolha daqueles a que o havia d'en- t- l*r lr r r 1r . o 1r r 'lr r cipt t eve
: junt o de si nr im er o
tregar. r iEr ii, r '1, ,I, r r ilr r ilos0llr osque not assemsuasacçôes,
E que esta fôsse a causa, porque dilatava auto- r |ti l i l ,r l r l ,r '; r ;ttr . Iti r o l t'ttt tr o m e cSp fe i ta n OSp r i n -
rizâ-lo com casa e companhia de oficiais e minis- ::i l t,= , I r r t.',r l i r ( l ( ,r l o s sti l l r l i to s- - t:n ch e u - se l o g o a
tros, viu-se bem na calidade e partes dos que lhe !e ti + ,l ,r l ,r r r r ,rr l l l l r s. ( '.o r r tr l u ':r r(rlrr r c cr a . tâ o b e n i g n o
Jo nomeou, quando lhe pareceu tempo, que foram t ri Fn l t i r. r ,ir ll', r' l;i1 <lt'SltSS6tttltlltt16 ttnr tOdO tfatO,
tlilÈ r , l t , rrrl r. rrrr. rrl t , r' o t rv i rl i rt u ' t r :t s t ' r' : rt n a d o e s e r-

i 'l prioriz: pleuresia. rl t t , rl i rl rt rl r' : i , v i l l t t rl t ' s .


J, I l,,ttl,.
13, pesad,anzente: em desabôno do rei. 1t, l r, rt t l t , t t , / . ' , r/ / ' . : , i l ry i u l l r. l rt l l t t t ' , ru u i t i s s i mo .

T6 r7
C)LLCÇ/TO DE CLÂ.SSrcOS SA DA COSTA 1N. 4 /,S l) t , ; l) . I O , 4O III

vido com gôsto. Mas que sem saberem como, mis- l ) . Atr l r 'r 1 i o r l l Al r r l l r ', r ;ttl r l r ':i r1o i s fo i p r i m e i r o
turava com aquela afabilidade um jeito e composi- r i l ttr l r , r l r r I r |tr l {ti l l i l ,l tr t,',l l to r , l ) l ttl ( ,r i l x'l 'i t O a ve n -
l 'tl r tl tl l tr r l i l ,rt'l l t tr l l 'r l :t,l ( .,1 .l ) o t1 'r r rt'o ttt l l tl tl i Sti n -
çâo tal, que se nâo lazia menos respeitar por grave
que amar por brando. E o que mais espantava r ,r l r r l u r , r r r ttr I ttl ', ,l ,r i 'r l vt'i u t ttl tt:tvl t l r s r r l r t6 r i a s
5 era, que o mesmo que representava o sembrante, : ,l t, r It!=r .l l r r | ,!i l 'i l i 'l i l r ,t, ( r l l tt( ) t'o l tt It0 ti l cttt t,l ttfa -
se lhe enxergava nas palavras: que, sendo em qual- r l r r r .l r r l i +. ,1 , l l ,'\tr l o tti o l i i r va a s tn a i s l cvt:s c d c
quer matéria agradâveis e suaves, tinha tal modo - =r ,l Er 'i - t,r l l r ',r r tl r .,;r r r . l r o tl t:r r r {r tl s i zcr q u c L u i s d a
i i l l r r .i r ,r r t,r r , l ',r r r r r i n i o , ( l u c
em as pronunciar, que thes juntava notâvel majes- ti o ve fn a va o s e xé r ci -
tade. Porque, sem ter defeito na bôca nem vicio l r r . ,l r .\1 , r ,r r r ,l r r ,; l ) . An t6 n i o o Efé sti o n q u e
ro na lingua, adquiriu por arte e uso falar devagar' lri illlltl i :l

e com tanta pausa, que falando parecia que se es- I'r r t r r l r l i l r ,r r l r ,sl o i g i r tr l r :r ttcl on o m e d e a l to j u ïzo
cutava e ia pesando o que dizia. r l ,tr r l r l l r . r l r . :,t.u 1 l r .i r r o sl r b cr co m o n o sa n g u e ,
,l i l r ., l i l r l r r r , ( 1 i l ( .sr : Po r l t: ( ) l l C [[r C C C n re Ste p fi n C i p e .
Conformava com êste modo de proceder, nâo
se ouvir nunca de sua bôca palavra âspera nem l ',';,1 1 1,, r r ,r l r ,r tl r r r l t., j r r tr tr r tr tl o - sccm e l - r e i D . M a -
15 de movimento de ira,-que é a cousa que mais r i i l i l r I l ,r r r l ;|l lr , l tl o l ]u tr s l r r xr .svt:r r tttr a s, C o m o Sa b e -
abate na grandeza real e mais afea sua autoridade. r r r ,,,,,l r , r r r tr r l r r :rtr r :r i s p l r tct'r ,tt tttt'tt,r :t'cl opr o l a s p a r -
E ainda quando acontecia ver algum êrro ou des- t, r l r '1 i r ;r r r r l r .f.i o vr ,r r r ;r r l o<1 r ', r r rtr
: ô l t' j L r n to u a n a tu -
concêrto nos que o serviam, via-se-lhe claramente l !r l L r tr r l r . \,r .tr l r o ;r < tti tl l tr r l ttc tl l t m e sm a m a -
nos olhos que o notava e sintia; mas o silêncio e l , tr ,r r l l ( . o s l i l l r i l r l to s r l o s l cô cs, 1 >cu d u r a d o sa i n d a
=,r r l ,r l r ',1 ,rr l l r s r r r i i s, j r i . tr r o str a r n p cso n a ca ta d u r a ,
zo dissimulaçâo era tal, como se o nâo entendesse.
Assi, para quem errava nenhum castigo havia l i l r ,.,r tr ,t,i l 1 ;ti l l ts, l r ,r 't'zi rtta s u n h a s, a ssi h â m u i to s
maior que aquela dissimulaçâo:porque calando re- l 'r l r r r l r ':i l i l l r r r r l c tl i tl se fo r a m to d o s !- q u e por
prendia e olhando castigava. Mas era muito de no- l r r l r r r '/,r r l r cr ,r r r si i l r i o s, c fa z n ê l e s o sa n g u e e a
,,i l r| ,,,tr )o ( 1 i l ( ';r o r r tl i l g c:tttcn â o a l ca n ça se n â o co m
tar o como se havia c'os ministros maiores: tratava
= i r r l r l ,r r .r 1 r r .r r û rir:r t r , l o r r g o s a n o s d e e xe r ci ci o .
zj com respeito grande os velhos, contemporizava
c'os de menos idade, agasalhavaos mancebos,hon- r \l r 1 i r ,r r ',rr ,r ,r ,l r ci ( '( ) n r v( r r ta l fi l h o , co m o m e str e
,i l 1 ',r ' r l ,i o r ; l r r r r l r cn s tkr u n t b o m d i scfp u l o . M a s
rava a todos.
l r tr r , tr r r .tr l r ,l r o l l xt' o l r ':r r l r o o ci tsi i r o , cm q u e p o r
E porque das afeiçôes dos principes tira o mun-
r r l l l t,r o l o l r l u l r tr r t'tr o s t:tr l t:n tl i tl o . L n tr e ta n to
do fundados indicios pera julgar de seu entendi-
mento, é de saber que dos criados maiores se afei- i , i l ,i l r r r .i l ( 0 i l \i t ( .o i l c( ,( .l l l i \,'rtr tct- - l l t<td a d o ca sa e
;o
çoou ao guarda-m6r Luis da Silveira, que, por par-
tes de avisado e grande cortesâo, tinha nome na
côrte; e dos moços fidalgos que o serviam, qtttr '. ',llttt litZ il(), lil()ltV().

| | , , , rrt l t rl rl i s l i t t l t To : c o n r r; s t a d i f e re n ç a .
eram muitos e do melhor do reino, conheceu cm

rq
t8
C)UICÇ/TO DE CLASSICOS SA DA COSTA l,v.l /,\' l)t,; l). I0Âo III

ôle mostrado tâo bons principios na administraçâo i l ti ttl t, t|'i F r l 'r i l tr r 'r s, i r ti i l l l r r u r ' ;r i r s* r vi l ttte s, p o r te i -
dela, que começassea exercitar-se nas matérias de !l l i l r i t, Ittcq l l r ,,u tl l r , r ','r t'1 ,,tt' ( , ( '( |tt( l ( :r l t' Ta r o u ca ,
govêrno pûblico, pera que era nacido. Chamava-o i l l r l r l r r i l Ii l l t{i t, r r l r r r l l r ,r zi i r i r l o i r l l r r r ' :l d e u a o
el-rei seu pai pera tôdas as que se ofereciam, jâ de r tl l tr l l r : It r ' l ,tl tl i ;r r ', l n tn r ttttl o i t, sc Pô s <l c j o e -
justiça, de fazenda, jâ de mercês; e, vendo-o assis- l l t,,a l r ttti 5 ,1 q111 1 1rrl ri l r l r ; ( ' o t:o r ttk: r l t: Vi 'l i r - N o va ,
5
tir com atençâo e aplicaçâo, juntava suas adver- ÈEtt| 4 ttt4 tFl tr r l r t , l l r l r 'l r l g o tt l i i L a h n o fa d a p cl a o s
tências. E como âguia que provoca os filhos a inelll,-- f: e1,rrlr rllvr. o Pt'fttr:ipt:até cl-rei beber
voar, quis que assistissecom êle pessoalmenteem E Ètsl tsi ,e r i !l l tir t I r l tr i l ;tr l i t; r ,t,r r tl i o l l - r eto r n o u a to m a r
ûa celim6nia dos reis seus antecessores,que se bem ê l l ,r l l r r r n tu l r l r , n tr ,t( l ( ) n to .ttr d r .L cva n ta d a a co n -
ro estâ jâ hoje desusada,mostra-nos o cuidado que ti- aÈ i =l a r l r r r l r - l l r i , r 'fi r ;r r l o Pr ( ttt:i 1 r cr l l t m e sm a m a n e i r a
nham ele venerar com abstinência priblica a vés- tl ttr , \'l r ti r r t r l {.l tt,t, r ,r 'ttr r tr r r i sr l i l 'c'r cn çaq u e tr a ze r
para do nacimento de Nosso Senhor Jesu Cristo. ,r l l r r l l r r r r r \,r ',r l n r, ( ) r l u i r l i r r l t.r t:r o d u q u e d e Br a -
Creo que nâo serâ desagradâvelao leitor, sequer H !ttl !r t, r p l ' l l r ,r l l vr '- l ', o p t ( r r r :i p cse d e ce u a o p r i - I

por mem6ria do bom tempo da côrte portuguesa. r r ,l l r tl r ,l :r r r t r l o l r l ti r r L r t r r i l o tu cl tt a co n so a d a ; e ,


z5 Escrevê-la-emoscomo a deixou lançadannospapéis ta i tr r tl r tr i l r l ||r l tl r 'i l i l l i r !;u , r i r , l o l i l o i l ;r ci ttl l t l to p r i m e i fO
de sua secretaria Antônio Carneiro, pai de Pero Ittg ,tt, ttt,l r l r l l r '\'r ' r i ( 'n r l ) tl r r Pr "; ( ' s( ,n r l ) r ( )d - r e i o
d'Alcâçova, conde da Idanha, onde diz que foi tl tttl ||l i l l l r tr l r tl t
esta a primeira em que o principe assistiu com el- Vfr r r 1 |'n 11111,,l t | i l l l ,i l i r ( l i t r l r r r l tttl ttt' c <l o s C cl n d e s,
-rei seu pai. E passou assi: Era véspara do santo i l i l r , r 'tr i l r t l i l ,r i r ,i l l ( ,i i , ;r co r r r Pi tttl ti r r l tr
r l .c l l o fte i fOS d e
zo dia de Natal, ano de 1516: sairam el-rei e o prin- ttr .r |t r r, I r ,i r r l ',r t i l i l r i , i tfi t r tl o s t: p a ssa va n te s, p o r -
cipe da guarda-roupa a horas de cea, acompanha- l t,ttn l l r 'r t, r r r r ,:,1 tl sl tl l r r , vc;td o t s6 m e n te , p o r q u e o
dos do cluquc cle Bragança e dos condes d'Ode- f f r fr l l f! n r r r r l ,,r r r o r r r r 'ns( ' : l ) i tssr ) ua o s co n d e s. E fi ze -
mira, de Vila-Nova, de Tarouca e de Borba. Esta- l r i l i l r r i l i r i ;r {'r ,'r ,r 'ô r r t'i irtr sr ,l - r t'i . Vi n h a a C o n so a d ad O
va a mesa coberta, sôbre um estrado de dous de- r l ttr i l tl r l r ,r r r l l r l r r ,l o s t:o n r l cs, co m d i stâ n ci a d e û a
25 graus. Sentou-seel-rei a ela e o principe ficou em i t l r r l r r r r l r . l r o r r co n l r i s <l c r l o u s p a sso s. Er a o q u e
pé sôbre o estrado, à mâo direita del-rei, no topo r r l r 'r r ti r r tttr l i r l ;r l 6 i oscr t. l ,l n tn m o ço fi d a l g o d o d u -
da mesa. No primeiro degrau ficou o duque e abai- r 1 i l r ,l r ,r 'i r r ';rl n r l u r p l i r l o 1 l 'r l r r cr r od e se r vi r û a to a -
xo, no châo, os condes. l l r 'r ,l ,r l r r i r r l ;r; r r r ;r r ;r l , r 'r r r r 'l r t'g r r n i l oa co n so a d a a o
Vêo logo a consoadaa el-rei, com porteiros da câ- r l r r r ;r r r ,,l n n r o l r o :;r ,u \,t'r r r l o t'c l h a . tcr vtt se m m a i s
r tl tr r 'r tl tl r r ;ttr , i 'i r r r r r o r l cl tr tL r i n r l i r r a r ,:â ocl e ca b e ça
'
r | i l t l rI
16-19. A utilizaçâo das Memôrias de Antônio Carneiro,
secretârio de D. Joâo II e D. Manuel, assim como de seu
filho, secretlrrio de D. Joâo III, confere grande interêsstr
à histôria de Fr. Luis de Sousa. rl / . / ' r" ri r. l . l l rt ()l t r. t c v t ' ir tlisposiçâo,

20

_ -_-J)l
cot.ticÇ,To DE CLASSICOS 5,4. DA COSTA .4NAIS DE D. TOÂO III

Iispantou-se o reino, sintiu-se o principe. Estra- rnostrou a seu pai sinal de sintimento nem des-
nhava o povo ver um rei, por muito prudente re- gôsto. Mas como é ordinârio, quem faz qualquer
putado, sem dar mais tempo ao nojo e memôria ofensa julgar sempre escândalo no ofendido - por-
de ûa rainha de tanto merecimento, ôomo era a de- que a consciênciada culpa r6e no coraçâo e gera
5 funta, (cousa que até entre a gente popular causa 5 receios- quis el-rei, despois que o casamento foi
escândalo) pôr em obra casar-se, e em idade cre- priblico, defendê-lo com dar a entender que temera
cida, com a casa cheia de herdeiros; e sôbre tudo, rrovidadesda parte do principe e das condiçôesdos
com barbas brancas, buscar mulher muito moça homensque o aconselhavam.E isso lhe fizera fôrça
e com fama de fermosa pera madrasta de oito fi l)era se querer prevenir e armar contra êles com o
ro lhos; obrigar-se a si e aos seus a gastos supérfluos ,(, novo parentesco. Assi o afirmam os cronistas da-
e desnecessârios. rluele tempo (r): que bem se deixa entender quise-
Sâo os portuguesesde seu natural tâo livres de |irm sanear o conselho ou apetite juvenil do pai à
lingua pera dizerem o que sentem a seus reis nas custa do filho, fantesiando culpas, em quem até
ocasiôesde honra, como sujeitos pera darem a vida cntâo nem um minimo sinal se tinha visto de deso-
15 por êles a todo tempo. Culpavam o casamento em r , ; lr cdiência.
tôdas as conversaçôese corrilhos. E lembra-me ou- Entretanto vinha caminhando pera Portugal a
vir aos velhos que procurara el-rei nesta ocasiâo rrova rainha, desgostadatambém, como é de crer,
por trazet a sua opiniâo certo fidalgo antigo e jâ rl:r.troca do esposo, por mais oficios que em ser-
retirado da côrte, e êle the respondeucom um modo vit;o del-rei laziam alguns ministros, afirmando que,
zo de parâbola, ttque o matrim6nio serviria ao reino de .'r, r,(, llâo era nos anos, em tôdas as mais partes de
cuspir sangue em prato d'ouror.Sôbre estas razdes, y1t'rrtileza, entendimento e boa disposiçâo, fazia o
que tôdas obrigavam ao principe a magoar-sepolo 1r,rigrandesventagensao filho. E pera serem cridos
que tocava ao povo e à reputaçâo de quem o ge- r lrrtavam do filho tantas insuficiências, que chega-
rara, acudiam a lhe fazer guerra as do interesse r',rrrra pôr-lhe nomes indignos.
z5 pr6prio: que eram tomar-se-lhea dama, que jâ em éi Vt'o a entrar a rainha por Castelo de Vide em
espirito era sua, e querer seu pai pera si em segrê- litrr rlo ano seguintede r5r8, e el-rei a foi encon-
do e como a furto a mesma mulher que pera êle Ir'rr t' r'cceberna vila do Crato, acompanhadodo
tinha muitas vezespublicamente pedido. ;rrirrr'ipr'.Contava muitos anos despois D. Brites
Ajuntava-se representar-lheo entendimento e a l\llrrr'lonça,ùa das damas que com ela vinham
'l,
3o idade de dezesseisanos, mal sofrida jâ e ardente , ,lr',,poiscasoucom Manuel Côrte-Real,que a boa
pera semelhantesmatérias, que o mesmo pai con- trl '!r'llrorit, vcndo aqui o principe, como espantada
fessava culpa no segrêdo que com êle usara em
rl tamanha resoluçâo. E todavia devemos-lhelouvor,
i r, t tr,,,,Li ,' , D e y ebus ges ti s E i i x l l l anuel i s R eg., Li v ,
I porque sabendo sintir, nunca por palavra nem obra r,,' ,i ,,, f ). l V , c ap. z 6 e 34 da s aa C rôni c a.l

I
: I

?a 2Ë.
-1
c}uicÇrto DE CLASSICOS SA DA COSTA tNArs DE D. IOÂO rrI

do que lhe tinham dito e do que via por seusolhos, rrccessidade mais do que de gôsto(r). E lançando
clizià pera as damas com ironia e ao parecer nâo rnâo de ûa leve ocasiâode culpa em Luis da Silveira,
sem mâgoa: Este es eI bouo? t:onselheiro do principe e mais do seu seio que
Era o principe neste tempo entrado nos dezessete lodos os outros criados, o mandou sair da côrte c
anos, de gentil presença, alegre e. amâvel sem- (lue sem sua licença a ela nâo tornasse. Bem se
5
brante, ma- te-perudo de um certo rigor de virilida- ,1t:ntendeu na terra o lanço; e o principe nâo ignorou
de, que criava respeito e reverênciaem quem o via' rlue êle era o que fazia mal a Luis da Silveira e
Em meâ estatura, grande proporçâo de membros: (lue sua verdadeira culpa era nâo poder êle prfncipe
muita graça nos olhos e na boca; olhos entre ver- rlcixar de sintir o novo estado del-rei. Porém, como
ro des e àzuis; boca vermelha; rosto alvo e de boa lilho obediente e muito cristâo, sofreu o tiro que o
côr. Notava-se-lhe o Pescoçoum pouco curto e a ll l1'.iu no criado, cobrindo e dissimulando êste se-
cintura grossa; mas nâo que chegasse a desar. gundo desgôsto,a que nâo podia resistir, com tanta
Posto no châo, estando ou andando, em tudo era prudência e fingido descuido, que em nenhûa cou-
airoso, grave e composto. E devemoslhe os portu- st se lhe enxergou por isso escândalo ou descon-
rj guesesque, trocando nesta conjunçâo tôda a côrte, lirLnçade seu pai. E o mesmo estilo seguia nas cou-
e até a pessoa del-rei, o trajo português polo cas- t1 srrsmaiores e em tôdas as que entendia serem de
telhano è framengo, êle nem agora nem despois . :;,'u serviço e gôsto.
quis aceitar nunca tal mudança. Galante e custoso, O que mostrou bem quando por abril do ano
mas à portuguesa, acompanhou seu pai; e chegan- r52r se recebeu a ifante D. Brites com os embai-
zo do à ràinha se humilhou pera lhe beijar a mâo, rrrrloresdo duque de Sab6ia em virtude de sua pro-
com a sinceridade e cortesia de quem a reconhe- :rr r ru'rrçâolViu a el-rei muito empenhado no gôsto
cia por mâi e senhora,que ela lhe nâo quis dar por ,h:ste dia; procurou acompanhâ-lo, louçâo e gen-
muito quc o principe instou e porfiou no cumpri- lrl lromem. 56 nâo pôde acabar consigo deixar o
mento. lr;rjo natural polo estrangeiro,como entâo fez quâsi
25 Mas o ânimo del-rei nâo quietava, desejandodar l.r l;r â côrte. Ficou em lembrança que ia de trâs
a entender ao mundo que nâo fundara mal seus ;1 ,lrlr,, vestido em um pelote de brocado de pôlo,
receios, pera que se cresseque o casar.nacera de | ',rr rnangastrançadas, cortado sôbre setim pardo:
r,''prrrlad'ouro cingida e coberta ûa capa frisada;
l1r,r rrr dc duas voltas com seu firmal de prêço. Tudo
,rr u:roportuguêsda,quelaidade (z).
3. Ainda sob a impressâo das mâs inlormaçôes
que lhe tinham dado do principe, preguntava (se ert.t
aquele o pateta>. 1 t , ) l ,' ,an"i s "o de A ndrac l a, P . I, c ap.6< Ias ua C rôni c a.f

t
I
12, desar: lealdade, desprimor, defeito.
13, estando: estando em Pé, Parado.
18, custoso: ricamente trajado.
.,.i, rtcobar consigo; decidir-se.
11.' 1 l i l anc i s c o de A ndrada, P . I, c ap. 4 da s na C rô-
' ' i ,,,,, I

I z6 2,t

I
I

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cor.ticÇÂo DE cLAssrcos sA DA cosTA Ars DIt D. JOÂO III

C A P ITU LO V Acudiu o principe com tudo o que o tempo e a


Morte del -rei D . Manuel . S ucessâodo pri nci pe rloenca davam lugar. Primeiro procurou a:liviar
D . Joâo. S ol eni dâde com que' foi l evantado e scu pai, pronosticar-lhe a vida e saûde, que todos
lraviam mister, nâo se apartando de sua cabeceira
iurado por rei
r) um momento. Segundâriamente,pera the ficar mais
Foi êste ano de r5zr rico e prdspero de festas rrerto e se achar a tôda hora com os médicos e fazer
com o casamento da ifante D. Beatriz; mas tâo (,xecutar o que ordenassemde beneficio e medica-
pobre e estéril dos fruitos da terra, nâo sô em Por- rrrentos,deixou o quarto em que morava e mandou
tugal mas por tôcla Espanha e até em Africa, que lrrzer aposento em ùa câmara junto dei-rei. Porém
5 deu manifesto e triste agouro da infelicidade em r,r o mal crecia; e el-rei, nâo duvidando que o cha-
que havia de acabar. nrava a riltima hora, armou-se pera ela como bom
Três anos havia que el-rei D. Manuel era casa- . rnuito cat6lico cristâo com todos os sacramentos
cio, - que tantos correram do fim de novembro de rlrr Santa Igreja; e à sêista-feira,treze dias do mês,
r5r8, em que se recebeuna viia do Crato, até outro roveno dia da infermidade, deu a alma a seu Cria-
rc tal dia do ano de r52r - quando aos cinco dias de r'i ,lor. llostrou o principe com gravissimo sentimento
dezembro do mesmo ano, em ûa quinta-feira, foi {r llruito que amava a el-rei seu pai. Porém, como
acometido de ûa febre ardente, com inclinaçâo a ' lrrrlo dependia jâ dêle, tratou logo de fazer dar
sono. Era doença que andava na cidade; parava ,rrnrprimento ao testamento, quanto à sepultura
em modorra; matava a muitos.
' { ri{:rquiase ao mais que tocava ao bem de sua
15 Descontentaram-se os médicos; fizeram tristes 1,, ,rlrrrL,segundo o tempo dava lugar. Fizeram-se-lhe
pronôsticos. E el-rei, receoso do que em si sintia, :,rrlr'n('S oficios no mosteiro de Belém e em todos os
mandou que se desse aviso ao principe, que no r r r , r is<la cidade.
mesmo dia pola manhâ partira pera Almeirim em ,'\,r rluarto dia despoisdo falecimento se ordenou
companhia dos ifantes D. Luis e D. Fernando, ,r r'' rirndniaantiga do pranto, que estâ à conta dos
.?o seus irmâos, com tençâo de se entreterem até a festa €1 rlrrr'lrrt'siclem no govêrno popular da cidade. A or-
nos passa-temposdaqueles bosques. Sobressaltados rl.'rrrI' saircm os vereadoresda Câmara a pé, arras-
com o recado, porque quando partiram ficava el- Itulrlo grandes capuzesde d6 e com varas negras
-rei sem mal nenhum nem suspeita dêle, deram-se r,r'i ilr;ios, acompanhando ira grande bandeira ne-
pressa a caminhar, de maneira que, recebendo a
Fr;r, (pr('irtdo nos ombros do alferesda cidade, que
?5 nova ao sâbado, tâo tarde que era jâ mea noite
fd r lr r'.r :r r:;rvalo,vai arrastando as pontas por teffa
quando o correo chegou, tempo invernoso e dias llir,,111,111 n)cm6ria que servira nêste acto Nunâl-
curtos, entraram ao domingo em Lisboa. Acharam r r r, I'r'rlilr, filho de Rui Dias Pereira, que fôra
a ,el-rei mui afadigado e os médicos desconfiaclos . . qll' r , , , r lr . lr r , i D. M anuelem t em po que er a duque) .
de sua vida. Iir,,t,r .rrl.rrr l)irsseamas ruas principais da cidade,

z8 29
C0LLCç,îO DE CLASSICOS SA DA COSTA TNAIS DE D. JOAO III

seguidos dos senhores e fidalgos mais nobres da selado à brida, guarniçôes de brocado rôxo e ouro.
côrte. Param em três lugares notâveis, onde se que- Cavalgou nêle o principe e tomou-o de rédea o
bram três escudos, que levam sôbre as cabeças mi- ifante D. Fernando, vestido em um pelote de setim
nistros honrados da Câmara. Os escudos negros, e avelutado preto, aberto polas ilhargas, e sua gorra
ao quebrar de cada um sôa ita voz alta e triste, lem- ., preta de duas voltas.
brando ao povo que saiba sintir a falta de um se- Junto aos estribos de ûa e outra parte levavam
nhor, que nos anos do seu govêmo foi valeroso nas mâcs as pontas da opa D. Antdnio de Ataide,
cscudo de suas terras e contra os inimigos delas lavorecido do principe, e D. Diogo de Castro (r),
trouxc sempre bandeiras levantadas. crueainda entâo o serviam em corDo. Em roda tôda
to E tal é o riltimo oficio, com que a repriblica se- r,t li" nobreza do reino a pé; mas corn esta distinçâo:
cular scrve e honra neste reino a memôria dos reis que os grandesiam todos à mâo direita, e à esquerda
defuntos. O costume antigo era dar-se tanta pressa os oficiais m6res da Casa Real e os ministros da
nesta solenidade, que ao terceiro dia de enterrado Câmara da cidade. Eram os grandes, que foram
o rei que acabava, se ent€ndia na festa do levanta- presentes:D. James, duque de Bragança, o Mes-
r5 mento do sucessor.Desta vez houve inconvenientes r , tre de Santiago, duque de Coimbra, e com êle
que dilataram ùa e outra; e assi como a primeira I). Joâo, seu filho, duque de Tôrres Novas; D. Fer-
se fez ao quarto dia, vêo a lazer-se a segunda ao rrando de Meneses, marquês de Vila-Real com
seisto, em que se contaram dezenovedo mês, pola I). Pedro, conde d'Alcoutim, seu filho; D. Joâo
maneira seguinte: ,tc Vasconcelos,conde de Penela; o conde da Feira
Saiu o principe vestido em ùa opa roçagante ,, l). Manuel Frojaz Pereira; o conde de Portale-
de brocado, forrada em martas, sôbre gibâo de tela lirr: D. Joâo da Silveira; D. Martinho de Castel-
de prata; cinto e adaga d'ouro; colar de pedraria; lrltnco, conde de Vila Nova; e D. Vasco da Gama,
gorra grande de veludo preto, de mea volta. A ,,rrde da Vidigueira, almirante dos mares da India.
idade de vinte anos em que estava entrado e sua lam a cavalo o ifante D, Lufs, que levava o es-
natural gentileza acrecentavam graça e ar a tudo. .'', lr)(llrc,vestido de capa curta de capelo, sobre-saio
Pôs-selhe diante o ifante D. Luis, com o estoque ,ll sctim preto, gôrra de duas voltas: o cavalo cas'
de Condestabre levantado; e com êle todos os se- l,rnlro. Moderaram-se os gastos em todos, tanto
nhores e fidalgos da côrte, que enchiam a sala. Es- 1,,,1onojo fresco, como pola brevidade do tempo.
tava ao pé das escadas um fermoso cavalo ruço, llrrr cspaço adiante do infante ia o velho Conde

I ( | ) lirirncico de Andrada, P. I, cap. 7 da sta Crô-


4, Os escudos negros. Entenda-se: <Os escudos siro ,:t,,t (;r:;l i l ho di z D ot' n l "ranc i s c o Lobo, em um tnanus -
negrosD. À elipse do verbo é freqriente no estilo descri. ,ttl ,,l
tivo de Frei Luis de Sousa. ttojo: luto.

3o 3r
cor.tic(;,4o DE cLAssrcos sa DA cosTA ANAIS DE D. JOAO III

Prior D. Joâo de Menesestambém a cavalo, que principe a cadeira; e ficaram em pé junto dêle os
levava o estandarte real e Ïazia êste oficio por seu infantes D. Luis e D. Fernando: D- Luis com o
filho D. Luis, ausente na fndia, que era alferes- estoque à mâo direita; D. Fernando à esquerda.
-m6r do principe. Guiavam o acompanhamento O cardeal no teatro baixo, sentado em cadeira de
reis d'armas, arautos e passavantes,com suas cotas q veludo.
5
d'armas e divisas, e porteiros de maças todos a I-ogo subiu o conde de Vila Nova, camareiro-
cavalo; e logo apôs êles muitas trombetas e cha- -rndr, levando nas mâos um cetro d'ouro, que pôs
ramelas e atabales também a cavalo, cercados de nas do principe sem outra cerimônia. Entretanto,
tanta multidâo de povo que parecia estar todo o tinha tomado o canto direito do teatro grande que
ro reino junto. trt çaia sôbre o povo o Conde Prior com seu estan-
Começavam a abalar contra as portas da Ribeira, ciarte; e do esquerdo começou ûa eloqûente prâtica
quando o principe, lembrado das lâgrimas da rai- o cloutor Diogo Pacheco, declarando em voz alta
nha e fazendo reflexâo que lhas poderia acrecentar c inteligivql e" todo aquele grande ajuntamento
aquele estrondo festival, fez primeiro acto de fi- como, sendo falecido da vida presente o gloriosis-
15 lial piedade, como a venerava por mâi e senhora, r ; sirno rei D. Manuel, pertencia a herança e sucessâo
mandando que fôssem em silêncio até se desviarem rlêstesreinos ao muito alto e muito poderoso prin-
tanto do Paço, que se nâo ouvissem nêle. Com esta t:ipe D. Joâo, que ali tinham presente, assi por di-
ordem se foi demandar o convento de S. Domingos. nrito de filho primogénito, como por estar jurado
Apeou-seo principe, chegandoao alpêndere,queen- Iror todos os três estados do reino em vida de seu
zo tâo era coberto e tomava tudo o que ainda agora 'rr lni. E por tanto era ali vindo pera jurar por sua
divisam as paredes velhas, e estava por tôda parte l)('ssoao que em seu nome el-rei seu pai muitos
de panos de seda e ouro paramentado. ;rrrosatrâs tinha jurado: que era haver-lhesde guar-
Aqui foi recebido clo cardeal D. Afonso, seu ir- {liu (: rnanter todos os foros, graças e privilégios em
mâo, que o esperavacom todos os prelados que na ,1rrtviviam, e governâ-loscom inteireza e justiça; e
z5 cidade havia, e ievado a um espaçosoteatro, que ;i ;rrrrlrunentereceber dêles as homenagensordinârias
com oito degraus de altura se levantava junto à rll lxrns vassalos.
porta da igr"j", no qual havia outro mais recolhi- ('oncluindo o doutor, levantou-se o cardeal e
do de dous degraus de subida, çlue cerrava com a ',rrlrrrruo estrado do principe, que se levantou tam-
parede, cobertos um e outro de ricas alcati{as. E lrrrnr,t: ambos juntos se chegaram a ùa cadeira pe-
jo neste mais alto ùa cadeira de brocado, arrimada a i" rltrr,illr,cm que estava sôbre almofada de brocado
um grande e fermoso docel do mesmo. Tomou o rrrrrrrrissalaberto, e em meo dêle ûa cruz d'ouro.
l, 1r'1;11y5,ambos de joelhos, jurou o principe que
I rrrlrr iti:r.tudo o que em seu nome oferecerao dou-
rr, contra: em direcçâo de. l,,r , ( ()nr tôdas as particularidades que apontava,

32 JJ
cot.LcÇ,4o DE CLASSICOS S,{ DA COSTA lNArs DE D. IO.4O rrr

que o cardeal ia lembrando, como era o que lhe to- meiro beijou a mâo a el-rei; foram juntos o mar_
o juramento, e o principe repetindo' Tornou-se quês de Tôrres Novas e o de Vila Real, e jurou pri_
-"o"
o principe a assentar;e o cardeal deceutambémpera meiro o de Tôrres Novas e primeiro beiiou a mâo a
o seu lugar. Entâo se chegou o ifante D' Luis ao Sua Alteza; logo foi jurar ô conde de Alcoutim s6
5 missal, e passando o estoque à mâ9
esquerda, pôs a 5 e beijar a mâo. Seguiram o conde de penela por
direita sôËre a crltz e foi pronunciando as palavras si s6 e trâs êle o conde da Feira por si s6 e o da Vi_
seguintes, que D. Ant6nio de Noronha, escrivâo digueira também s6. Despois foàm juntos o conde
da'puridade lhe dizia e êle referia: - <Eu, o infante cle Portalegre e o de Vilà Nova. E jurou primeiro
D. Luis, juro a êstes Santos Evangelhos e a esta o de Por t alegr e. . . . . . . .nâo
. assist ir aà. . . . . . .
tt) Despois dos titulares tomou o cardeal juramento
to Cruz.- qo" ponho a mâo, que eu recebo por se-
nhor e reiïerâadeiro e natural o muito alto, muito por si s6; e tanto que foi a el-rei, seguiram os pre_
excelentee muito poderoso prfncipe, el-rei D' Joâo lados e logo os ministros maiores dà justiça,
tla,Silva, regedor da Casa e Côrte aa Supticiçao, Jiâo
nosso senhor, e the faço preito e homenagem se-
gundo foro e costume dêstes seus reinosrr' E isto c D. Alvaro de Castro, governador da ào Civel
t,; c todos os mais fidalgos que eram presentes.
15 àito, se foi a el-rei e lhe beijou a mâo' Nêste ponto - Em
o conde alferes-m6r, que a tudo estava atento' irltimo lugar subiram os vereadorôs, que eram
_
desenrolou o estandarte e ficou com êle nas mâos l). Pedro de Castel-branco e
Joâo Fogaça e Joâo
Itrandâo; que, sendo perguntaâos polo"escrivâo
estendido e solto sem mais o recolher' da
Foi segundo a jurar o infante D' Fernando' que' puridade se juravam.o mesmo, reiponderam pala_
='rlvras formais: - <Nôs os vereadoies
zo pondo os"joelhos Lm terra e ambas as mâos sôbre a desta cidade
'Cruz. rlt: Lisboa, como a mais principal que é do
disie sômente:- <E eu assi o jurorr' E por reino,
esta maneira juraram todos os Srandes e senhores luramos o mesmo)),E beijando a mào a Sua Alteza
de titulo; e àpôs o juramento chegava cada um rr;r forma dos mais, teve fim a solenidadedo
iura-
a el-rei e metia ambas as mâos juntas entre as suas I I t(.t)to.
?1 fintâo, levantou a voz o rei d,armas portugal,
24 (que é o acto de outra obrigaçâo que chamamos
- Èo*.nug"m) e logo lhe beijava a direita' Achamos , lxrclind.oatençâo, com repetir três vezes u pà1"_
em um Iivro da secretaria de Ant6nio Carneiro que lr;r cle linguagem antiga: Ouvide! ouvide! ouvidel
mandou el-rei que os senhores e tftulos fôssem a Icvantou a sua quanto pôde o alferes_môr,di_
jurar por suas precedências,o que, se fez na forma ,,r,rrrlooutras tantas vezes:_ Arraial, arraial, ar_
rt frt rrriirl polo muito alto e muito poderoso principe
ao seeuinte: foram juntos o duque de Bargança e
- MJst." de Santiago. Jurou o duque primeiro, e pri' r,l rr,i D. Joâo terceiro, nossosenhor!Recebèramàs
I'rrrrrliras palavras os reis d,armas, arautos e pas_
.il\',Ullcs; cog grande alegria e vozes .* gritu
r, c.o1no e/a': Pois era' _9
li,r,lrr rrrplicandomuitas vezes:rrarraial!arraiaù
3rl, Bargança no ms. ar_

J+ 35
('ot,t,(:\;,Io I)ti cI.ISSICOS SÂ DA COSTA 1,"tAIS DE D. III
IOÂ.O

raialbr. A que responderam juntamente, tocando rirlue pera darem batalha a cinco reis mouros, pro-
sem cessar, todos os instrumentos que havia de cha- r'l;rmaram por rei ao infante D. Afonso Anriques:
ramelas, trombetas e atabales, que tudo atroavam lr:rim6nia favorecida primeiro com manifestos si-
e alegravam rraise mercêsdo céu e logo com gloriosissimavit6ria
5 Deceu el-rei pera a igreja acompanhado na for- ,, t: mortâldade de infinitos mouros; e por isso corn
ma em que subira e com o cetro na mâo. Estavam luzâo usada e nunca esquecida na coroaçâo dos
à porta o cabido da Sé e os capelâes da capela real sucessores.
de ûa parte; e da outra a comunidade do convento, Recolheu-seel-rei polos mesmos passos por que
acompanhando ao capelâo-m6r D. Fernando de viera, mandando cavalgar todos os senhores que o
ro Vasconcelos, bispo de Lamego, que, vestido ern rrr {oram acompanhando a pé; e nâo se descuidando,
pontifical, tinha nas mâos ûa santa reliquia. Adian- <luando foi perto da Ribeira, de mandar guardar o
tou-se o cardeal, tomou a reliquia e dando-a a bei- mesmo silêncio nos ministris que à ida advirtira.
jar a Sua .Llteza, caminharam todos em procissâo
pera ra Capela de Jesu entoando um alegre Îe
z5 Deum lawd.amus.Fez el-rei oraçâo e o capelâo-m6r CAPTTULO VI
disse algûas oraçôes pertencentes à solenidade.
Lembra-se el-rei do seu convento da Serra de
As quais acabadas, Sua Alteza se pôs a cavalo nâo
Almeirim. Sustenta os conselheiros velhos de
deixando o cetro; e diante em seu lugar o alferes-
seu pâi. Trata de dar obediência ao Papa, e dar
-mdr, que a espaços bradava rrArraial! Arraial! Ar-
conta de sua sucessâ: da cristan-
zo raialtD juntando as mais palavras com que come-
:i,$:".tpes
çara, de que os reis d'armas rerpetiamas primeiras;
e os ministris confundiam tôdas com o rumor con- Para bem estreado principio de seu reinado, quis
tinuado de seus instrumentos (r). el-rei que começasseêste dia por lembranças do seu
Esta cerimônia é tradiçâo dos antigos que foi r5 mosteiro de S. Domingos da Serra de Almeirim, obra
z5 recebida e teve origem daquela que os povos de de suas mâos, como atrâs fica dito. Quando, entrado
Portugal usaram, quando, juntos no campo de Ou- na câmara, lhe chegaram a tirar dos ornbros a opa
de brocado, mandou que fôsse inviada aos frades
22, mini,stris: menestréis, tocadores de instrumentos. da'Serra, pera se aproveitarem dela em algum orna-
[(r) Antônio de Castilho em um manuscrito.] O lo mento do altar. Pareceu bem êste cuidado por pie-
Chantre de Évora Manuel Severim de Faria tinha comu- dade cristâ. Mas nâo foi de menos estima e piedade
nicado a Fr. Luis de Sousa o comêço da crônica de
{ilial o que os homens viram e notararn no primeiro
D. Joâo III, feita <elegantissimamenterr, por Antônio de
Castilho, além de outros documentos, entre os quais uns Conselho que ajuntou. Festeja o mundo, na suces-
Comentârios de cousas de Arzila do tempo de Antônio da sâo dos reis novos, descomposiçôese queda de mi-
Silveira, escritos por Pero de Andrade Caminha. :.5 nistros validos, ûas vezes por aborrecimento, que

?6 JI
cor)icçrt0 DE cLassrcos sA DA cosTA tNArs DE D. JOÂO IIr

naturalmente segue os poderosos, outras sô polo todos os prelados que se achavam na cidade e com
gôsto de ver novidades. Esperava-se ruina certa em êlestôdas as religiôese o cabido da Sé e sua capela;
alguns dos que nêle entravam, especialmente no e foram celebradas com tôda a pompa que ao de-
conde de Vila Nova e em D. Alvaro da Costa, como funto se devia, faltando s6 nelas a majestade e ar-
5 sabidamente culpados diante del-rei polo terceiro -5 quitecturas de eça levantada e a assistênciados mais
casamento de seu pai. Mas nâo s6mente lhes nâo prelados do reino. Porque foi cousa que o defunto
tirou seu lug.arantigo, antes os ouviu com boa graça em seu testamentoadvirtiu que nâo houvesse,com
nestc dia; e polo tempo adiante os manteve e con- aquela santa humildade, que o obrigou a mandar-se
sr:rvou nêle. lançar em ùa sepultura rasa e châ. O que por entâo
ro lioi acto êstc com que el-rei acreditou de novo ro se cumpriu, com tudo o mais que tocava a execuçâo
a opiniâo que o mundo tinha concebidode seu bom do testamento e partes espirituais dêle. Porém, cor-
juizo; pois sendo tâo moço, mostrou que sabia esti- rendo os anos, nâo consintiu a piedade do filho que
mar a companhia, conselho e parecer dos velhos, ficasse naquela humildade um pai tâo glorioso e a
contra a esperançade muitos mancebos, que se pro- quem tanto deviam êstes seus reinos: e fez trasla-
15 metiam do trato e brandura, que nêle até entâo ti- 15 eJar seus ossos ao lugar dignissimo em que hoje
nham achado, subirem logo ao mais alto grau de estâo, como ao diante veremos.
sua graça. Assi como frustrou a estes, fez espanto Neste tempo deixou el-rei a morada dos Paços da
aos mesmos velhos, que se davam por perdidos. Ribeira, ou por se aliviar do nojo a si e à rainha
Foi primeira consideraçâo neste Conselho, despois com a diferença do sitio, ou porque jâ se deviam
zo de assinardia pera as exéquiasde seu pai, que que- 30 começar a sintir na cidade as mortes apressadas e
ria fôssem solenissimas e sem dilaçâo celebradas, principios de peste, que pouco despois se declararam
dar sua obediência à Sé Apost6lica e juntamente demasiadamente. Passou-seprimeiro à parte de En-
aviso aos reis amigos da cristandade de sua suces- xobregas, pera as casas de D. Francisco d'Eça; e
sâo; e nâo esqueceu tratar-se das naus que seria pouco despois pera Santos-o-Velho;mas nâo pera
z5 bom aperceberem-se pera ir à India no março se- ?5 descansar ou se poupar, antes assistindo sempre ao
guinte. Despacharam-se logo correos; e pera o que govêrno ordinârio e ao que devia a sua obrigaçâo e
tocava ao Pontifice Romano se mandou comissâo aos homens, fazendo recreaçâo do que era ocupaçâo
a D. Miguel da Silva, que naquela côrte assistiapor e trabalho. Do que fazem prova alguns papéis, que
embaixador de Portugal, de quem a hist6ria farâ nesta conjunçâo achâmos por êle despachados, de
3o ao diante mais larga mençâo. Com a India pareceu io que apontaremos alguns.
que houvesse moderaçâo, visto ô grande poder com Ern z4,dêste mês de dezembro do ano em que
que no mesmo ano fôra despachado por governador
D. Duarte de Meneses.
Para as exéquiasmandou el-rei juntar em Belém zz, Enxobregos: Xabregas.

38 i9
cor.t;cç)Fo DL cLÂSSrcOSSA DA COSTA '| 1r/,4 1S DE D. III
JOÂO

vamos de r52r mandou fazer e assinou duas cartas: l-câo Decimo honrara com o capelo de cardeal em
ûa a D. Afonso de Vasconcelos, filho mais velho do irlade quâsi pueril.
conde de Penela, do cargo de capitâo dos ginetes, Governavam a justiça secular com cargo supre-
que lhe pertencia por renunciaçâo que nelà fizera rno: o regedor Joâo da Silva, na Relaçâo de Lisboa,
5 !op_o_Soares, propietârio dêle, com iicença del-rei ,) por renunciaçâo que nestes dias fez nêle o velho Ai-
D. Manuel, por casar com D. Guimar sua filha; res da Silva, seu pai; e na Casa do Civel D. Alvaro
outra a D. Joâo de Alarcon de seu caçaclor-môr, tle Castro. Eram vèdores da fazenda real o conde
polos serviços de D. Elvira de Mendoça, que fôra
de Penela e D. Martinho de Castel-branco, conde de
camareira-m6r da rainha D. Maria, sua mâi. Assi Vila-Nova, que juntamente fazia o oficio de cama-
ro teve fim o ano de r5zr, e entrou o de 1522 com r, 1si16-rn$rdel-rei, e D. Francisco de Portugal, con-
novos c nâo menores cuidados.
de do Vimioso. Sustentavam-se ern Africa oito fôr-
ças, guarnecidas de muita gente de pé e de cavalo,
representaçâo de boas cidades, honra de portugue-
C A P TTU LO V II ses, cotn gasto supérfluo da corôa de Portugal, pro-
r 5 veito e segurança das terras vizinhas de Andaluzia,
Do estado das cousas do reino e suas conquistas freio e terror nâo pequeno da Mauritânia. Seu sitio
nas ribeiras do mar, pera mais temidas e mais defen-
Para clareza da hist6ria, quisera propôr aos olhos sâveis.
do leitor, como em um painel de- bù pintura, o Caem as quatro sôbre o mar Atlântico, que sâo
modo de govêrno que êste reino e suas ôonquistas .'o Cabo de Gué, Safim, Azamor e Mazagâo. As outras
r5 tinham na entrada dêste ano, que é de Cristo r5ze quatro ficam da bôca do estreito pera dentro, onde o
e primeiro do reinado del-rei D.
Joâo. E ainda lue Mediterrâneo com pouca distância faz divisâo entre
nos cansâmos em procurar a cetteza de tudo, sâo as Espanha e Berberiâ. É primeira a famosa cidade
c9lsas tâo antigas, que nâo pedirei perdâo se em de Ceita; segue Alcâcere, que, a diferença doutro
algûas se nos achar falta. Administràvam o ecle_ .'1 lugar do mesmo nome, chamam os bârbaros Seguer,
zo siâstico D. Diogo de Sousa, arcebispo primaz de que é o mesmo que ((pequenol.E pouco adianteTân-
Espanha e senhor de Braga em Entrè-Douro e Mi_ ger e Arzila. Tôdas oito tinham govêrno e capitâo
nho; em Lisboa e Estremadura o ifante D. Afonso, particular de por si, sem reconheceroutro superior
arcebispo de Lisboa; em Alentejo D. Afonso de por_
t-ugal, bispo de Évora, filho de D. Afonso, marquês
a5 de ValenÇa, gue naceu primogénito do primeiro du- .rr-r2, f6rças: f"ortalezas,
que de Bragança, D. Afonso. Reluziaentreestespre_ r6-rj, Seu sitio nas ribeiras d,o ntar. SuÏ>entende-se o
lados, com roupas de escarlata e grandes virtuàes, vtrl;o <rera>, A elipse é processo freqiiente no estilo nar-
r;r1i v o dos l nai s .
o ifante D. Afonso, irmâo del-rei, a quem o papa 24, Ceita: Ceuta.

40 4r
cor.ttcç1ïo DE CLA.SSTCOS
SA DA COSTA ANAIS DE D. TOÂO III

mais que a el-rei em Portugal. Eram capitâes: cle tos, talhada de muitos rios de âguas excelentese al-
Safim D. Nuno Mascarenhas; de Azamor, GonÇalo guns dêles tâo grandes que sâo navegâveis pola terra
Mendes Sacoto; de Mazagâo, que ainda era cousa d.entro muito nûmero de léguas. As serras criam es-
pouca, Ant6nio Leite. A Tânger governava D. An- meraldas, amatistas, cristais e ouro; o mato é rico
5 rique de Meneses,irmâo de D. Duarte, que desta 5 de muitas fruitas e eryas medicinais, como sâo; ca-
cidade foi tirado pera governador da India; a Arzila nafistola, sarça parrilha, tabaco e almécega. O mar,
D. Joâo Coutinho, filho do conde de Borba. A estas sôbre grande abundância de bons pescados, lança
praças podemos juntar o Castelo de Arguim, cujo por tôdas as praias muito âmbar. E sendo com isto
sitio ainda que afastado por grande nrimero de lé- o clima todo de ares benignos e salutiferos, dava
ro guas, c por isso de menos nome, fica na mesma .ro pera o diante esperançasde maiores interesses. De-
costa-contra o sul. sejava el-rei D. Manuel a trôco dêles doutrinar os
Scguemadiante as povoaçôesde Cabo Verde, que naturais, levando-lhes a noticia do Santo Evange-
os antigos chamaram Promontdrio Arsinârio; e dai lho; mas cossâriosestrangeiros, principalmente fran-
começam a coffer as novas e estendidas provincias ceses, nos davam grande estôrvo, acudindo muitos
15 da Eti6pia ocidental, vârias em sitio, em linguagem 15 aproveitar-se do suor alheio. Era necessârio anclar
e trato, mas de ûa s6 côr dos homens (sâo todos ne- com as armas nas mâos contra êles, por nâo toma-
gros) , que à indristria do grande ifante D. Anri- rem pé na terra.
que deve êste reino. Nestas se contava a cidade de Por diferente modo se governava o que el-rei pos-
S. Jorze da Mina, praça de grande utilidade, polo suia na India Oriental. É estado de tâo grande im-
?o resgate continuo de muito ouro; e a Costa de Mala- zo portância, como se sabe, por autoridade e crédito de
gueta, rica de um género de especiaria dêste nome, descobrimento,por nûmero e grandeza de cidades,
gue, antes de descobertaa pimenta da fndia, nâo por grossurade trato e rendimento;eporissoguardâ-
tinha menos estimaçâoe valia que ela. Contavam-se mos tratar dêle pera em riltimo lugar. Tinha sucedido
também a ilha de S. Tomé, prôspera por infinito neste govêrno êste ano em que vamos a Diogo Lopes
25 açtucar, com os reinos de Congo e outros vizinhos, :5 de Siqueira, D. Duarte de Meneses,filho mais velho
ricos por muitas vias, mas prinéipalmentepor serem de D. Joâo de Meneses,conde de Tarouca e Prior
como sâo fonte perene de inumerâveis escravos. do Crato, 'despachadopor el-rei D. Manuel com ûa
No mesmo tempo se continuava o descobrimento grossa armada no mesmo ano de sua morte.
da costa contrâria: costa da terra América, ou Novo Capitaneavam as fortalezas maiores: D. Garcia
Jo Mundo, que o primeiro descobridor, PedrâlvaresCa- io Coutinho, a de Ormuz) Jorze d'Albuquerque, a de
bral, chamou Santa Cruz e o vulgo Brasil, pola esti-
ma que faz de um género de madeira dêste nome,
de que tem abundância. É a terra por tôda parte
r 3, cossdrios: corsârios, piratas.
fresquissima de aryoredos, abundante de mantimen- t6, por ndo tontarent: para nâo tomarem.

,2
4i
coLECÇAo DE CL.4SSTCOS SA DA COSTA AltArs DE D. JOÂO III

Malaca; Sancho de Toar, a de Sofala com Nloçam- -E se é ver dade- acr ecent ava- que a pr in-
bique. Estas reconheciam por superior, com tôdas cipal obrigaçâo do rei é guardar justiça, bem se
as menores,a D. Duarte. Eram as menoresCochim, segue que estais vôs outros iguais comigo no cargo,
Chaul, Colombo, na ilha de Ceilâo, Cananor, Cou- pois em vossas mâos tendes vida, fazenda e honra
5 lâo e Calicut. Destas iam crecendo,em corpo de ci- de todos aquelesque Deus tem fiado de mi. Se lhes
,dadese opulência de trato, Cochim e'Chaul. As ou- acudirdes com a vigia, cuidado e pontualidade que
tras quatro, com mais a forla\eza de Pacém, levan- deveis a essasvaras que tendesnas mâos, nâo tenho
tada na ilha de Samatra, junto a Malaca, nâo pas- eu melhor oficio que v6s, nem vôs ficais sendo me-
savam de praças de armas pera cautela de paz com nos que reis; e nâo so reis, mas tamMm deuses,que
ro amigos e freo de rebeldesna guerra. E nâo fazemos to por tais vos nomea quem s6 é verdadeiro rei e ver-
mençâo de Goa, por ser metrdpoli e cabeçade tudo dadeiro Deus de tudo.
o que tinhamos na India, e côrte e assentoordinârio I\{as nâo consintirei eu que, se isto é honra, como
dos governadoresdela. E tal era o estado em que é, ma leveis v6s tôda, e, se é trabalho, como tam-
el-rei recebeu a corôa de Portugal e suas conquistas. bém é, sejais sds a padecêJo. Eu serei convosco,
r5 Mâquina grande, bem necessitada de um valeroso e tôdas as vezes que me puder desocupar de negôcios
sâbio governador, se considerarmos que ficava sendo mais pesados. E fazei conta que assi como os desem-
Portugal com todo seu povo e rendas um ponto, e bargadoresa que presidis vos tem por oiheiros, pera
ponto indivisivel, comparado com tamanha circun- especulardescomo cada um em seu oficio procede,
ferência e tanta diferença de terras. assi me haveis de ter r'6s e êlespor vigia, pera espiar
zo Conheceu el-rei o peso que tomava às costas. E e saber o que fazeis todos: segundo isso também,
êste foi o primeiro sinal que deu pera se esperar que fazer honra e mercê a todos. E assi vos mando que
poderia com êle. Porque estava certo que naceria o dieais ambos em vossos tribunais.
de tal conhecimento levantar os olhos a Deus (como Nâo disse el-rei mais, mas seguiram obras o dito:
em sua mâo estâo os coraçôesdos reis, êle os menea porque logo limitou dias, em que assistia com estes
25 e governa), pedir-Ihe socorro, pera nâo faltar em ministros e mandava em sua presença julgar algûas
parte nenhûa de sua obrigaçâo. Na entrada clêste causas. E porque achamos em autor estrangeiro
ano chamou os dous ministros da justiça supremos, o sucessode ùa, que afirma passou diante del-rei'
Joâo da Silva e D. Alvaro de Castro; e com pala- sem nos apontar o ano, e parece que cairâ bem no
vras graves e eficaces encomendou a ambos a boa principio dêste, nâo serâ razl.o guardarmo-la pera
3o e 'diligente execuçâo do que tinham a seu cargo:
no criminal, castigo de malfeitores, extirpaçâo de vi-
cios, manter a terra empazi no civel, fazer correr as
causas sem dilaçâo e sem queixas, clar a cada um uigia: vigilància, cautela.
o seu. r8, especular: ver, examinar.

44 45
coLr,cÇÂo DE CL.4SSTCOS 5.1 DA COSTA ANArS DE D. JOÂO III

mais longe (r). Refere que julgando-se por êste quando o crime merecia menos que fôrca. Acudiu
inodo um processode certo delinqùente, vieram a o bom rei a esta ctseza um dia, que se achou em
emparelhar-se os votos de sorte que ficava no del-rei junta com os desembargadores; e mandou que dali
condenâ-lo ou assolvê-lo. Esperando todos com al- em diante se nâo usassemais, advirtindo que era
voroço o juizo del-rei: - ps, - disse - segundo o 5 um género de tolher aos homens o tornar sôbre si
que tenho entendido da graveza da causa, acho que e emendar a vida, tocando cada dia com as mâos
os que condenastesêste homem, julgastes justa e o sinal de sua infâmia. E parecia demasiado rigor
sâbiamente; e nisso fôra bem que concordâreis e sem razâo notar com pena perpétua quem estava
todos. Mas, por que se nâo diga que por voto de rei em tempo de poder, emendado, ser de grande honra
IO morreu vassalo, eu me conformo corn os que lhe dâo ro e serviço da repriblica; pois se sabia que de capitâo
vida. Até aos mais severos foi agradâvèl o juîzo, de salteadores viera Rômulo a ser fundador de Ro-
lembrando-sealguns dos curiososterem lido que era ma; e o nosso Viriato português a ser libertador de
lei entre os lacedemdniosem sernelhantecaso ficar Espanha (r) e, polo menos, famoso vingador de
a sentençaera favor do acusado (z). Assi se notou suas injûrias: que por isso lhe deram nome os mes-
r5 e contou logo por exemplo de ûa bem considerada rj mos romanos de Rômulo espanhol.
piedade real. De primeiros dias dêste ano achamos duas cartas
Nâo igaoro que se conta igual sentença clel-rei passadaspor Sua .Llteza de dous importantes car-
D. Joâo segundo, em ûa causa semelhante; mas gos de sua casa: foi ûa de seu mordomo-m6r, a
sendo possivel passar o mesmo sucessopolas mâos D. Joâo da Silva, conde de Portalegre; outra a
de ambos, como adiante veremosem outras, parece- zo D. Pedro Mascarenhas do offcio de estribeiro-môr:
-me justo nâo encontrarmos testemunho de aulor tâo cargos que um e outro faziam em seu serviço, quan-
grave. Ao que juntaremos outro muito sabido dêste do era principe.
rei e nâo menos pio (S). Poucos dias adiante entrou em Lisboa o bispo de
Achou pôsto em costume sinalar no rosto os mal- Cidade Rodrigo, D. Joâo Taveira, que despois foi
25 feitores, cortando orelhas e pondo-seferro a ladrôes, z5 arcebispo e cardeal de Toledo, inviado a el-rei polo
cardeal Adriano, bispo de Tortosa, que assistia no
govêrno de Espanha, por ausência do emperador
i(r) Marques Augustiniano, Gobernad,or Christiano, D. Carlos, em companhia do almirante e condesta-
liv.
-I,
cap. 19. Êste caso diz o Chantre que foi del-rei bre de Castela. Era o fim de sua vinda visitar el-rei
D. Joâo II.l
30 e a rainha viûva, como bons vizinhos, da morte
[ (z) Alexander ab Alexandro, Gerzeal Dierutn, liv. III, do pai e marido. E quâsi no mesmo tempo chegou
c:rp. .5.]
2r, enconlra,rnlos: contestarmos.
[(.1) Mariz, Ditilogos d,e utiria histôria, na vicla <]ôste [(r) Tito Livio, Décadas. F-loro.]
r ei , rl i ri l ogo 5.]
30, d,a ntorte: por rnotivo da morte.

46
coLECÇÂO DE CLA-SSrcOS SA DA COSTA ANAIS DE D. JOAO III

aviso de Roma de ser eleito pera sucessorde S' Pe- O Pontffice era escrupuloso: achavalhe dificul-
dro êste mesmo Adriano, por morte do Papa Leâo dade. Mas quem havia de negar a um rei, e pera tal
Décimo, falecido na entrada de dezembro pr6ximo principe? Concedeu a graça. E ainda que nas letras
passado. houve defeito, com que por entâo se nâo deram à
5 Tratou el-rei logo de lhe fazer solene embaixada: 5 execuçâo, por serem pouco prâticos nas matérias ,
e despachoo com ela Aires de Sousa, comendador da Criria Romana os ministros por quem correram,
de Sànta Maria d'Alcâçova de Santarém, a quem e o Papa deixou Espanha com tanta pr€ssa, que
entregou fermosissimo presente pera Sua Santidade, nem houve tempo pera emendar'o êrro, nem pera
qo. ù" ûa cruz feita do Santo Lenho, em queCristo chegar a nossa armada, despachada jâ e encomen-
.o .ror.o Redentor padeceu, que pouco havia o Preste ro dado o govêrno dela a Duarte de Lemos, senhor da
el-rei D' Manuel Trofa, com tudo, a graça nâo deixou de ter seu
Joâo, rei dos abexins, mandara a
em precroso e srngular dom. Ao presente ajuntou efeito, com quanto acudiram de parte da religiâo
oferà de o mandar acompanhar com ûa boa arma- grandes contradiçôes, que, se bem embaraçaram e
cla, que logo inviaria pera a passagemde ltâlia, que retardaram o neg6cio algum tempo, emfim indo a
r S era 6em fôsse por mar' pera tardar menos a se r.5 Roma o doutor Joâo de Faria, que despois foi chan-
'
achar na santa ôidade e escusar entrar por França' çarel-môr dêste reino, despachou tudo de maneira
Era requerido polo sagrado colégio dos cardeais que que o ifante entrou em posse do Priorado e o gozou
abreviasse quanto fôsse possivel sua partida, e êle emquantoviveu.
'a procurava por se desviar do emperador, que jâ
.zo ;e-dizia vinhà pera Espanha a tôda pressa. Alcan- CAPI TULO VI I I
Aragâo, ca-
çou-o Aires de Sousa em Saragoça de
minhando jâ pera o mar de Catalunha. Q ueixa- se o conde de M ar ialva a el- r ei do m ar -
Ali fez sua embaixada que Sua Santidade mostrou quês de Tôrres Novas. Dâ-se conta da razâo da
ser-lhe gratissima, recebendo e venerando o Sagrado queixa e sucesso dela
,25 Lenho èom alvoroço e devaçâo de.varâo santo, qual
- Corn nova e estranha contenda entrou na ,côrte
na vendade era; e estimando muito a promessa da
I armada que o embaixador afirmava ficar-se apres- ro e diante del-rei, nêste principio de seu govêrno, o
r tando. Entre as cousas que Aires de Sousa levava
a cargo tratar com o Pontifice de parte del-rei, foi
conde de Marialva, D. Francisco Coutinho. Era o
conde um dos primeiros senhoresdo reino, e que en-
administraçâo
3o ia pedir-lhe pera o ifante D. Luis a tâo mais valia por preço de pessoa, autoridade de
do Èriorado do Crato. Era dignidade e prebenda da anos, que passava de setenta, por grandeza de esta-
Ordem de S. Joâo de Malta, devida a valerosos ,'5 do, por grossura de rendas e dinheiro. Dês do tempo
cavaleiros, em preço do sangue que derramam pola del-rei D. Afonso quinto, nenhûa ocasiâo houverade
fé, a mâos de infiéis. guerra com Portugal em Espanha nern fora dela,

+8 4.9
COLI:CçÂO DE CLASSICOS SA DA COSTA ANArs DE D. JOÂO III

em que nâo fôsse dos mais arriscadospor valor de êle. E fra e outra cousa o traziam gravissimamente
braço e dos mais lustrosos por magnificência de ofendido e descontente. Emfim .r"o_-sea el-rei e pe_
companhia e despesa.Assi, em tôdas aS matérias de diu-lhe quisesseouvi-lo em conselho;e, sendo adiri_
paz e guerra, era o primeiro voto dêste tempo. De tido, falou desta maneira: _
mais do estado de Marialva, poderoso de grandes Jâ que as leis de por_
I 5 tugal devassaram o fôro antigo àe Espanha, polo
terras e muitos vassalos, possuia pola condessa qual os cavaleiros agravados doutros
ïediam'aos
D. Brites de Meneses,sua mulher, o condado de reis, em lugar de oferecerem libelos, carrrpo, apra_
Loulé, no Algarve, e tinha o cargo de meirinho-mdr zados pera manterem com lança suas queielas,'bei_
do reino. jarei as mâos a Vossa Altezi far"r-me justiça
do
ro Considcrandoisto, el-rei D. Manuel, como era tâo r{) marquês de Tôrres Novas: o qual conira minha
prudcntc e sâbio, tratou com êle darlhe pera genro vontade, contra as leis dêste reino e assento que
um de seus filhos e assentaramcue seria o ifante el-rei que Deus tem, vosso pai, tem tomado, pie_
D. Fernando, seu filho terceiro; e, sôbre a promessa tende ser casado com D. Guimar, minha fitha, Ëha_
real, procederam contratos pera o matrim6nio haver mando casamento legitimo aquele que nem Deus
15 efeito, tanto que o ifante tevesseidade competente. 15 ordenou nem minha filha confessa, mas inventou
Sendo o neg6ciopriblico, e juntando-se encarregâ-lo s6mente sua cobiça e a falsidade de quem o quer
el-rei por sua morte ao prfncipe nâo s6 de palavra, enganar.
mas por clâusulas expressasde testamento, vêo à Nâo fizeram verdadeiramente mais afronta oue
noticia do conde que o marquês de Tôrres Novas, esta os infantes de Carrion às filhas do Cide Éui
zo filho mais velho do Mestre de Santiago, publicava :o Dias, com quem eram casados. porque, se as
que de muito antes dos contratos del-rei estava clan- deixaram no campo desornparadas,erarn seus mari-
destinamente casado com D. Guimar, que assi se dos; tomavam vingança de si e de sua honra prô_
chamava a filha do conde; e afirmava havê-la de pria, da qual podiam usar bem ou mal, como dada
pedir por justiça. um faz do seu. Menos é isto que difamar ûa donzela
25 Foi isto cousa que feriu o conde no întimo da z5 inocente, s.emoutra fôrça de-amor mais que desejo
alma, sintindo igualmente tomâ-lo tal sucessosôbre de minha fazenda. Acudi, senhor, a demasia tào
setenta anos e êssescercados de infirmidades. Mas pesd1. E nâo seja esta querela minha o primeiro
o que mais cuidado lhe dava, era imaginar que o exemplo de sem-justiça vossa, pois tendes na terra
descobrir-se o marquês em tal tempo, ao que se nâo lugar de Deus, pera ma nâo nigardes. Entenda o
3o atrevera em vida del-rei D. Manuel, poderia ser 1r marquês que, deixando el-rei, que Deus tem, minha
em confiança de um rei de tâo pouca idade como filha jâ desposada, nem ela -podia querer outra

15, tanto que: l ogo que. d,euassatant: dissolveram,


S, desacataram.

5o
5r

)
COLITCçi\O DE CLASSICOS SA DA COSTA INArS DE D. IOÂO rrI

cousa senâo o que fôsse seu serviço, nem o mal'- causa emquanto o conde viveu, que foi té o ano
quês del'era ter outro gôsto. Trate,Vossa Alteza de r52g; e emfim, reduzindo-setodo o pêso dela à
êste meu neg6cio, nâo como contenda e litigio de declaraçâo e depoi'mento de D. Guimai, foi dada
um estado, inda que êle assi o preten'de, mas como sentença contra o marquês. Porque nem suas pro_
5 ùa cousa de tôda minha honra, contentamento da .5 vas foram havidas por bastantes, nem o descàrgo
vida e salvaçâo da minha alma. da licença del-rei, quando nâo tinha mais que dezei-
Mas que falo de rni? Infelices setenta anos, se seis anos, se teve por legitimo; antes por êle se lhe
sôbre tanto sangue, como derramado tenho, em 9?Tegava culpa, por alcançada em tempo que a
idade del-rei era demasiado verde e do ieino nâo
serviço <Ie três reis, vossos antecessores,houver de
/(r possuia mais que eqperanças.
ro duvidar cle me valerdes em tamanho agravo: agra-
vo que, sendo todo meu, se bem se cuida, é igual E pera que nâo tornemos a falar nesta matéria,
ofensa de um rei, que ontem enterrâmos, sendo em é de saber que o infante casou e el-rei lhe deu o
menoscabo da mulher, que êle com muito gôsto senhorio e tftulo de duque da Guarda e a vila de
escolheupera nora; e desacato vosso e dos vossos Abrantes, com muitos outros lugares grandes; e
r5 teve filhos e tanto gôsto dêles e da condessa in-
rj anos: poii essa mulher é esposa de vosso irmâo;
- fante, que lhe aconteceu, subindo ambos fia escada,
e devJ cuidar quem pretende tirar-lha, que ou lhe
quereis mais que a vosso irmâo, ou que a pouca em tempo que andava pejada, lançar-lhe êle mâo
iôade vossa vos encurta os espfritos e farâ que dos chapins, pera que tevesse menos pena na subi-
da. Assi o ouvimos aos antigos, gente digna de todo
sofrais vassalos insolentes e descomedidos'
:o o crédito. Mas que diremos aos juizos de Deus?
2J Aqui se viu quanto poder tem a razâo. Naciam
p"lurrt"t do cônde de um peito rnilitar, sem mais Alevantava-se um dia o infante, estando na vila da
^,
estùdo ou concêrto do que lhes dava sua indina- Azinhaga, e disse desassombradamentepera quem
o vestia: - Sonhava-me esta noite em Abrantes, e
Çâo e dor. Afirma-se que fizeram em el-rei notâvel
âbalo mâgoa. E mostrou-a nos efeitos, porque via sair de minha casa três tumbas cobertas de ne-
e5 "
juntamente mandou prender logo, no castelo ao -'5 gro ùa trâs outra. Ao segundo dia lhe chegou reca-
" do de ser falecida a senhora D. Luisa, riltimo pe-
marquês e sair da côrte ao Mestre de Santiago, seu
pai. Mas era a causa eclesiâstica, e el-rei muito nhor, que sô tinham, porque jâ entâo lhe eram
temente a Deus; e ainda que lhe tocava tanto por mortos dous filhos varôes. Era por outubro do ano
seu irmâo, nâo bastou isto pera que impedisse os de 1534. Acudiu depressa a ôonsolar a infante.
jo têrmos judiciais. Com estes correu o marquês no
juîzo da igreja a tôda a fôrça: alegando pera com pejada: grâvida.
17,
ôl-rei que, sendo principe, the dera licença pera 22, d,esassotnbrad,amen,te:intpassivelnente, sem re-
procurar estas vodas; e pera justificaçâo do casa- ceio.
inento juntando provas e testimunhos. Durou a z6-27, penhor: filho.

52 53

J
c)uicçÂo DE cLassrcos s,{. DA cosTA .,INAIS DE D. IOA.O III

Adoeceu logo e faleceu aos sete de novembro se-


guinte. E a condessa sua mulher foi apôs êle, sem CAPI TULO IX
se meter entre a morte de ambos mais tempo que
quanto houve de 7 de novembro até 9 de dezem-
bro. De sorte que em dous meses e seis dias teve Despacha el- r ei ûa em baixada a el- r ei Fr an-
5
seu cumprimento o sonho das três tumbas. Porque cisco de França; recebe outra do emperadol
a primeira, que foi da filha, saiu aos três de outu- D. Carlos, rei de Espanha
bro, e a irltima, da mâi, em nove de dezembro.
Dôstc succssoachâmos mem6ria entre os papéis No meio destas contendas caseirasfoi el-rei avi-
ro da Orclcrn clc S. Domingos, tocantes ao convento sado de França que andava naquela côrte um Joâo
de Nossa Scnhora da Consolaçâo de Abrantes, que Yarezano, de naçâo florentino, requerendo navios
é dcstir rcligiâo; porque na capela-môr dêle foram e companhia pera um novo descobrimento que se
cnterrados todos três. E a condessa de Loulé 5 oferecia fazer nas partes da fndia, com promessas
I). Brites, mâi e sogra dêstesinfantes,guardadapera de muita riqueza, e em partes, onde portugueses
15 ver tantos males juntos, enriqueceu com magnifi- nâo tinham chegado. Era o aviso certo, por ser de
cência real o convento, dando-lhe da sua capela homens nossos, que tinham assento e neg6cio em
muita pr:ata; e de suas rendas duzentos mil réis de Paris. Deu cuidado a el-rei a emprêsado florentino.
juro, que é o sustancial de que vivem aqueles reli- lo Juntou-se saber que nos portos de Normandia se
giosos. Assi o escrevemos na nossa Histôri,a d,e aprestavam armadas de franceses, com voz priblica
zo S. Dorningos, na fundaçâo dêste convento (r). de quererem passar às terras novas do Brasil e
Deram estas mortes assi repentinas grande oca- fundar povoaçôes. ûa e outra cousa pareceu que
siâo a discursos, querendo cada cabeça julgar por pedia mandar-se homem prôprio a França. No-
elas a razâo do casamento, por verem dentro de r 5 meou el-rei por seu embaixador a Joâo da Silveira,
cinco anos nâo sô mal lograda, mas perdida e apa- filho de Fernâo da Silveira. Reinava em França
z5 gada a ilustrissima casa de Marialva, subida tâo Francisco de Valois.
alto pera sintir mais a queda. Ignorância e cegueira A comissâo foi, despois de visitar o francês e lhe
d'o entendim,ento humano, que se atreve a fiar dos dar conta de sua sucessâonestes reinos, confirmar
seus palmos a medida do mar profundissimo dos io as pazes e alianças dos reis antecessoresde ambas
conselhosdivinos: sendo assi que veremos nos anos as corôas; e logo lembrar-lhe quam alheo era de tâo
3o adiante entrado êste mesmo marquês em desgôsto antiga irmandade, roubarem-se os vassalos e ma-
quâsi semelhanteao que quis dar ao conde. tarem-se uns aos outros como inimigos, onde quer
que se topavam no mar. O que era tâo ordinârio
.'5 de parte dos franceses, que se queixavam geral-
l (r)C rôni ca de S . D otni ngos, P . II, l i v. 6, caps. z e 3.] mente os nossosnâo acharem mais cruéis inimieos

54 55
coLtîcÇ.4o DE CLASSICOS SA DA COSTA r/\/,{1s DE D. IOÂO III

em tôdas suas navegaçôes. Sob color de amrza"de, ,h,.Itâlia. Respondeu el-rei com rnostras de gôsto a
eram dêles acometidos, roubados e mortos com tudo o que Honorato lhe propôs.
Jurou as pazes
tanta crueza, que s6 pera se defender dêles (que ,liante dêle; e Honorato se obrigou que el_rei seu
outros inimigos nâo achavam no mar) usavam ar- st'nhor faria o mesmo dentro do têrmô e diante da
j mas, artilheria e gente de guerra. Donde acontecia ', l)cssoa que el-rei D. Joâo sinalasse.
euanto ao
às vezes obrigar a dor e afronta os acometidos a llato do casamento, vistos os poderes que trazia,
menearem as mâos em sua justa e natural defesa; l)areceu nâo serem bastantes. polo que, julgando
e como o céu ajuda sempre a melhor causa, ficarem r) saboiano da boa sombra e gasahàdo com que
os acometedoressem vida e sem navios. Assi cre- rlel-rei era ouvido que podia esperar bom efeito
ro ciam ôdios, e, sendo os reis muito amigos, eram os rrr 11gls,se-despediu a reformar suas procuraçôes e pera
srlbditos inimicïssimos. O que tudo se evitaria lornar logo.
com mandar el-rei Francisco que nenhum vassalo Entretanto caminhava de Frandes pera Espanha
seu navegassepera as conquistas de Portugal, nem o emperador D. Carlos, tendo despachadoem mar-
êle desse orelhas a estrangeiros vâos e mintirosos, ço dêste ano a Portugal por seu ômbaixador Mon-
rj que lhe ofereciam o que era impossfvel cumprirem. 16 siur de La Xaus, seu camareiro muito aceito e do
Isto remediaria disc6rdias futuras; e pera o pre- seu Conselho. Assi nos constou por carta sua, feita
sente, se algfias queixas havia dos portugueses, em Brucelas, em dezesseisdo mesmo mês. Era a
mandassemambos os reis fazer diligentes pesquisas cornissâo geral e pûblica visitar el-rei da morte de
em suas terras e se restitufssem de parte a parte as seu pai; jurar de novo as pazes e a,lianças antigas
zo fazendas roubadas. .',, dêstes reinos. Mas trazia outra secreta ê nâo Àe-
Esta embaixada se encontrou quâsi com outra nos encaregada, de ver se poder-ia acabar com el_
do francês, que, sabendo da morte del-rei D. Ma- -rei juntâJo com o emperador em ûa liga e confe-
nuel, despachou no mesmo tempo pera êste reino tieraçâo perpétua contra França.
a Honorato de Cayz, gentil-homem saboiano, que Espraiou-se el-rei em fazer honras ao embaixa-
z5 jâ oûra vez pot sua ordem estivera câ. A razâo de ,!,; dor; jurou as pazes. Porém quanto à confederaçâo,
sua vinda, despoisde visita e confirmaçâo de pazes, clespois de grandes palavras de amor e cortesia,
era a mesma que em outro tempo o trouxera a êste c significaçôes do muito que desejava o aumento de
reino. Desejava Francisco dar sua filha, Mada- t,stados e grandeza do emperador, seu primo, res-
ma Carlota, a el-rei D. Joâo, nâo so por lhe estar pondeu que, visto como seu primo tinhà a êle e a
3o bem o parentesco, mas polo desviar de Espanha, 1r ôste reino tâo pronto pera the acudir em tôd,a oca-
com quem jâ andava de quebra sôbre os Estaclos
2r, encarregada: empenhada, insistente,
r, sob colov: com aparências, com falsas mostras. 24, Espraiou-se.. esmerou-se com largueza. Bela ex-
andaua de quebra: andava em briga. -
pressâo do Fr. Luis de Sousa.
3r,

56 Jt
coLLCÇîO DE CLASSICOS S'4.DA COSTA ,INAIS DE D. IO.4O III

siâo, como pedia o parentescoque por .tantas vias p;ti lhe fizera morrendo, de buscar um tal consorte
os iigava a ambos, parecia desnecessâriode man- ir rlante
ifante D. lsabel,
Isabel, sua irmâ.,
irmâ', que fôsse o primei
primeiro
dar-lie por ora maiôres declaraçôes, e fazêlas el- l maior senhor da cristandade.Era-o iâ neste temt
Po
rei de Pôrtugal priblicas contra um principe 99 ql' l). Carlos, rei de Espanha, por ser eleito emperad-or
amiga respondência; ,; <le Alemanha. Pareceu a el-rei que nâo havia que
5 nâo tinha lStanà, antes boa e (,sperar, senâo mover logo a prâtica; e escolheu
e no prrmerro ano que tomava o go-vêrno de seus
reinos, seria dar qoà direr ao mundo, que referi- pc.raisso o guarda-môr Luis da Silveira (se jâ nâo
ria a leviandade e ier moço ùa resoluçâotâo grande loi que êle se fizesseeleger, segundo o que entâo va-
como era romPer Suerra com um rei cristâo, 'lia). Como o negdcio era de tanto peso e tanto do
ro muito poderoso e amigo e sem ser provocado, trr gôsto del-rei, determinou Luis da Silveira mostrar
quanclo a prolissâo dos reis de Portugal era sô fa- cm Portugal e Castela ûa estranha e nova fonfarrice;
,.t go.t.J a infiéis. Antes julgava que nenhûa luntou parentes e amigos e criados, com que fez ia
cousa estava melhor a Espanha e a tôda a cristan- cornpanhia de cento de cavalo, com tania prata de
dade, que ficar êle neutral nesta sua tâo grande scrviço e ginetes de destro e paramentos de casa ri-
15 disc6rdia, pera em todo tempo poder ser medianeiro |,, (:os, que fez aparato e estado de mais que homem
de paz e concêrto entre dous tamanhos monarcas' particular. 56 nos trajos nâo houve demasia,porque
Sôbre esta reposta tratou el-rei de contentar o em- rlurava o d6 da morte del-rei D. Manuel.
baixador com joias e peças ricas; de que êle e um A tôdas as cousasque passam do termo ordinârio
filho que trazia consigo se deram por tâo satisfeitos, (: natural chama o povo <monstrosl; e monsttos
20 como se no neg6cio levaram todo bom aviamento du scûlpre foram de mau agouro pera a casa onde se
que cumpria a quem os tinha inviado. :rciram. Seu pai, Nuno Martins da Silveira, senhor
rla casa de Gdis, homem sisudo e muito entrado em
C A P ITU LO X rlias, lhe pronosticou logo haver-se de perder, mas
Iundado em diferentesprincipios. Como velho e prâ-
' d,' lico nas côrtes e condiçôes dos prfncipes, lembiou-
Embaixada del-rei D. Joâo ao emperador' Dâ-se
conta da viagem que fez Fernâo de Magalhâes lhe que fazia temeridade em se alongai del-rei; qus,
a Maluco; e da razâo e sucesso dela sc h4yj4 maldiçâo pera os que fiam em principe, por
rrruito amigo e muito que seja do sêo,
lque séria
Também se encontrou quâsi com esta embaixada l)cra os que se ausentasseme estando longe fiassem
outra del-rei D. Joâo pera o emperador. Trazia Sua
AlTezadiante dos olhos as lembranças que el-rei seu
rr, lonlarrice: fanfarrice, jactância.
11, gi.netes de destro: que se trazem à mâo direita.
zE, séo.' seio; sey do seio significa rser da intimi-
resfondência: trato, relaç6es. , l .r,l c .l .
5,

58 5a
COLDCÇ,4ODE CLASSICOS SA DA COSTA ..r),iAIS DE D. IOÂO III

de sua graça? Se ao perto sâo os prfncipes homens, Foi o caso, em breves palavras, que, senclo ho-
como nds, e por isso vârios e mudâveis, ;que seria rnem de bom sangue e com foro honrado
na Casa
a cem léguas de distância e muitos meses de ausên- l(eal, pretendeu por serviços que tinha feito
na
cia ? fndia e em Azamor, em Afiica, que el_rei lhe
man_
S - Quanto maior grandeza - dizia - fôra a ,1 dasse acrecentar sua moradia.
É- moradia ûa leve
tua, se el-rei te ama, fazeres tu embaixadores, çlue contia de dinheiro e cevada, sinalada de tempos
nâo sê-lo? Quanto maior descansolograr sua graça' antigos a tôdas as famflias nobres do reino
em casas frescas de verâo e bem abrigadas de in- acompanham a côrte, com tal regra que anda{ue -de
verno, quc andar caminhos, trafegar serras e mon- pais a filhos, sem crecer nem subir aqïeh
que ûa
ro tes, contemporiar com parentes e criados? Nâo trt ys7 se sinalou, se nâo é mui raramente.
E estima_se
quisera fadar-tc mal, mas se me nâo mente o que mais pola dignidade de. que se acompanha, por
ser
sei clo mundo, tu vâs pera nâo tornar. Quero dizer degrau pera cousas maioies, q*. polu sustância
do

15
que el-rei é moço e fica com moços; a igual'dade das
iàades pode muito; teus anos sâo mais crecidos;faço
conta qoe por muito que lâ ganhes, hâs-de perder
rendimento. Pediu Magalhâes^êsteacrecentamento;
e contentava-se com meio cruzado por mês
/ '; que jâ possuia ( r ) .
mais do i
l
câ tudo. ;Que mistérios de estreitezasfazem os reis muitas
persua-
Jâ entâo havia filhos que' em nacendo, se y,._1:t cousa.sque pouco importam, sendo pro_
diam saber mais que seus pais: nâo houve cousa que dlglos "T
de prodigalidades em outras ! Nâo hoïve
fizesse trocar o gôsto da jornada ao novo embaixa- cousa que dobrasse a el_rei, ou por nâo
devassar
zo dor. 56 lhe fez algûa dilaçâo ûa nâo esperadanovi- .'(, aquele assentoda antiguidade e abrir porta,
por que
dade. Chegou aviso a el-rei de ser aportada no Cabo muitos quisessem entiar, oo porqo. tambêm,
se_
Vende ùa das naus, com que o português Fernâo de gundo se afirma, tinha el_rei ."tpâ. dêle
do tempo
Magalhâes saira de Castela em serviço do empera- que assistira em Azamor. Deu_s-epor agravado
o
dor. Tinha dado muito que cuidar e que sintir em português; e como da navegaçâo tinha
ciência e
z5 Portugal a determinaçâo dêste homem; mas em- .'i experiência, foi-se a Castela,-pediu
navios a el_rei
quanto tardava o firn dela, esperava-seque ou o D. Carlos, oferecendo-lhe duaô cousas,
cbmeria o mar, ou o trataria de maneira que nos tra Portugal: primeira _ descobrir viagem "-bu,para"orr_
as
dessevingança da pouca lealdade que teve com sua ilhas de Maluco, mais-curta qo" u ,or*j
segunda _
pâtria. A razâo em que fundou desnaturar-se de rnostrar em boa razào d,e matemâtica que
caiam
itortugal e o sucessode sua viagem é tudo tâo sabi- t,r aquelasilhas na demarcaçâo dos reinos al,

1
3o C"rt.f".
do, que nos forra longa digressâo.

g, lralegar: petcorrer. 1r
i (r ) J oâo de B arros , A s i a, D éc .III, l i v . 5, c aps . g e 9.1
ro, contenxpoviar: contemporizar, acomodar-se. rg, deuassay: infringir.
I

6o
6r
I

I
(;orttcçÂo DD cL4.ssrcossa DA cosTA ,tNAIS DE D. IOÂO rII

Deixou-se vencer da cobiça e das promessasD. Car- Em um e outro reino fez grande movimento esta
los, como de cousa certa e nâo duvidou dar-lhe cin- rravegaçâo:em portugal.de clesgôsto,de
alvorôço
co navios e boa companhia de gente, de que o no- cm Castela e maiores do que na ver_
meou por general. "spe.arrçai
dade merecia. El-rei _d-espachou a tôda p."r." qu"_
5 Acometeu o português sua viagem animosamente: 5 tro caravelas,que lhe fôssembuscar a nau: e iunta_
foi costcando primeiro as terras do Brasil, contra mente mandou a Luis da Silveira, que poi
esta
o sul, até se pôr em altura de... graus, onde des- causa estava detido,. todavia fizeise iua jor_
_que
nada; porém advirtidô que em casamentos
cobriu um espantosocanal, polo qual navegando nâo
foi sair ao mar de ponente, que hoje chamamos falasse; s6 tratasse de visita e juramento
à;, ;";;,
ro Mar Pacifico. Mas pagou em sua pessoa e nas de ro e despois em pedir com tôda éficacia as
espeôiarias
rnuitos dos mais principais companheiroso des-ser- que a nau trouxera, que jâ por êste temio
tinha
viço que se atreveu a lazer a seu rei natural. Por- ferrado terra em S. Luèar. Mai isto seria
como ma_
que, andando de ilha em ilha buscando novas das téria distinta da sua embaixada, e que el_reide
novo
de Maluco, foi morto em ûa, onde certos bârbaros, lhe_encarregava por cartas:
rj que em dous recontros tinha vencido, lhe armaram ,5 o emp_erador, em conformidade das pazes,
.,-?1"
trnha obrigaçâo de mandar entregar tudo
cilada. o
Vendo-se os que ficaram vivos sem a cabeça que nau trazia, visto ser tomado em térras de que!o" "
esta_
os trouxera e muito diminuidos de n'itmero, deter- y1m posse pacifica os portugueses e eram conhe_
minaram reduzir-se a dous navios, com os quais "m da nossa
cidamente demarcaçâo-,assentadae recebi_
20 em fim de muitos meses chegaram a tomar terra ;o da por amtras as corôas de.Éoftugal e Castela;
que
c:m Maluco e alcançar carga de cravo e outras es- sendo cousa injusta aproveitar_se-d" o- infiel vàs_
pt:ciariasclel-rcidc Tidore; e um dêles,fazendovolta salo..seu,-que jâ a Justiça Divina tinha castigado,
corrtra o Cabo de Iloa Esperança, despois de muitas por lhe devassar suas terras, nenhum remédià
ha_
mortes c trabalhos de fome e sêde e falta de tudo, via, pera sanear o maleffcio, senâo restituïndo o
z5 chegou ao Cabo Verde, onde sendo com piedade :J q.uemal fôra adquirido; que, se isto refusasse,
fica-
agasalhado, porque fingiu virem das Antilhas, toda- na dando a entender que estimava mais aquele pe_
via entendida (que nâo pôde estar em segrêdo) a q^uenointeresse que o bem e sossêgodas confedera_
novidade da viagem, colheu a justiça da ilha de çôes e alianças antigas.
Santiago ûa batelada de treze homens, que foram A estas queixas, que Luis da Silveira sabia bem
3o inviados a Lisboa a bom recado. Os mais levanta- ;o representar, replicava o emperador com outras, ale_
ram âncoras e desapareceram, gando que lhe pagavam màl el-rei e seus vassalos,

7, de... graus. O manuscrito, qge é um borrâo,


tem por vezes destas lacunas. 25, relusasse:recusasse.

6z 6j
COUiCÇTO DE CLASSICOS SA DA COSTA ..'1t{/1S DL D. rOÂO III

o bom gasalhado que nossas naus achavam em guado: que nâo hâ fartar um mouro, se come em
todos seus portos, com os vassalos lhe prenderem mesa alhea. Se quiseram valer-se das mâos, confor-
os seus navegantes no Cabo Verde e el-rei, sôbre me ao que a terra de si dâ, puderam viver sem regra
os ter em ferros em Lisboa, mandar armada contftt e ter tesouros de trigo encovado pera muitos anos.
j a nau. E resolvia que o êrro da demarcaçâo de Achamos em lembranças de D. Antônio de Atafde,
Maluco era tâo prejudicial à corôa de Castela, que primeiro conde da Castanheira, que .nos foram
nâo podia ceder o direito que tinha nela com boa comunicadaspolo conde de Castro, seu neto e do
consciência;o mais que faria, por dar gôsto a el-rei, seu nome, e que quando isto escrevfamos,por no-
seria, scrltando-seos presos em Lisboa, consintir vembro de 1628, caminhava pera Alemanha por
ro quc de novo se visse a antiga ddlineaçâo por fidal- embaixador extraordinârio ao emperador, que co-
gos honrados e matemâticosd'ambas as corôas e se meçou el-rei a gastar neste provimento com tanta
cstivesse polo que sentenceassem.Sintido el-rei li'beralidade, que se achou importara de dano pera
desta reposta, mandou a Luis da Silveira eue, sem sua fazenda mais de cincoenta mil cruzados de ca-
dar mais ponto no requerimento, se recolhessepera bedal dentro de pouco tempo. E assi o mandou
15 o reino. Sua Alteza significar aos Estados na terceira junta
de Côrtes, que muitos anos despois iez em Almei-
C A P ITU LO XI rim.
Ordinâria conseqùência é da secura do céu e fo-
Fome crecida em Lisboa e por todo o reino. me da terra, corrupçâo de humores, novidade de
Meos que el-rei usou pera a remediar. Tremo- doenças, que param em peste. Porque a falta do
res de terra em Espanha e um muito espantoso bom mantimento |az lançar mâo do mau e extraor-
na l l ha de S . Mi guel , e soversâode ûa grande dinârio de ervas do campo e raizes mal conhecidas,
vi l a del a que, sendo por si nocivas, como lhes falta a mistura
do pâo, mantimento naturral e salutifero, ficam fa-
Padecia neste tempo o reino de Portugal cala- zendo nos corpos efeitos de veneno. Assi aconteceu
mitoso apêrto de fome. Porque, quanto mais corria em Africa e em Portugal. E el-rei, começando-sea
o ano de. 22, em que vamos, tanto maior era o tra- sintir rebates em Lisboa, foi mudando estâncias.
balho. Crecia a falta, gastando e comendo o povo Primeiro se passou ao Barreiro, ordenando que a
zo êsse pouco pâo que havia. Castela nâo podia aju- rainha e ifante D. Isabel se aposentassem no La-
dar, porque a esterilidade do ano de zr fôra igual j{} vradio. Despois se foi alongando mais da cidade,
nela. De França nâo vinha nada, respeito das guer- icgundo crecia o mal nela.

22, respeito das: por motivo das. 2, quiseratn: quisessem.

64 67
coLECÇÏ) DE CLA.SSICOSS'4.DA COSTA ANAIS DE D. TO.4,O III

Mas nâo pâra sô a falta das ordinârias influências ras que trazia com o emperador. Os pobres do reino
de humidade das nuvens em tirar os fruitos à terra acudiam todos a Lisboa arrastando consigo suas
e causar perniciosas infermidades. Também proce- tristes familias, persuadidos da fôrça da necessi-
dem do mesmo principio os tremores de terra, que dade que poderiam achar remédio onde estavam o
-5 de improviso assolam cidades e matam muitos rni- 5 rei e os grandes.
thareJ de bomens, como êste a4o se viu em Espa- Mas aconteciam casos lastimosos. Muitos caiam
nha e também em Parte desta corôa. e ficavam mortos e sem sepultura polos caminhos,
Afirmam os que consideram com bom juizo as de fracos e desalentados. Os que chegavam a Lis-
causas naturais que os excessosde secura e quen- boa pareciam desenterrados, pâlidos nos sembran-
ro tura Iazcm pcnetrâvul até o centro êste grande ro tes, débiles e sem fôrça nos membros. Dinheiro nâo
colpo da tcrra: de maneira que recolhendo em suas aceitavam de esmola, porque nâo achavam que
I entianhas os ares afogueados que câ nos âbrasam,
dâ ocasiâo a tomarem fogo os minerais que nelas
comprar com êle. 56 pâo queriam; e êste nâo havia
quem o desse. Porque algum que às escondidas se
se criam de caparosa, enxôfre e mlitre, fâciles todos vendia, era a quatrocentos e cincoenta réis o al-
rj em calida'de dè o receber. Donde nace çlue' vendo- 15 queire; o centeo a duzentos réis; o milho a cento
-se violentados fora de sua regiâo e fazendo fôrça e cincoenta, que para aquele tempo era como um
por tornar a ela, ou causam na terra os grandes prodigio. Viu-se que era açoute do céu, em que,
Èalanços, que chamamos tremores, ou arrebentam correndo muitos navios às ilhas dos Açores, onde
em novos e temerososincêndios, ùas vezes em ter- as novidades haviam sido mui floridas, uns se per-
zo ras novas, outras vezes on'de a natureza lhes tem zo deram tomando, à vista da barra de Lisboa, outros,
abertos aqueles espantosos respiradouros, que cha- forçados de tormenta, alijaram ao mar o trigo, por
mamos volc"tto., porque sempre estâo brotando salvarem as vidas.
fogo, como sâo em Nâpoles o monte Visilvio, em Foi a origem dêste mal nâo acudir o céu com
Siàilia tltongibelo, e câ nas nossasilhas dos Açores, âgua em todo o ano de zr. Estavam os campos tâo
25 a que chamamos Pico, que, sendo em-si pequena, 25 secos que, como em outro tempo se despovoou Es-
-
e i pico que lhe deu o nome ûa sô perlra redonda, panha por lhe faltarem as chuvas ordinârias, pare-
que se vài às nûvens, fica fazendo oficio de um cia que tornava semelhantedesaventura. As terras,
fàrol perpétuo no meo do estendido Oceano' delgadas, se desfaziam em cinza; as grossasse aper-
Neste âno em que imos, em zz de setembro, tavam e abriam em fendas até o centro. Assi em
3o houve um tremor na cidade de Granada e por tô- jo geral nem no Alentejo, nem ,ro Algarve, nem

t.4, fa.ciles: iâcets' Forma clâssica alatinada'


22, uulcanos: vulcôes. ro, d,ébiles: débeis. Forma clâssica, alatinada.

68 65
ANAIS DE D. TO,1 O IIT
cot,ttcÇÂo DE CLASSICOS SA DA COSTA

tos em bando os mininos de Vila Franca, diziam a


formar
na (r) Estremadura chegaram as searas a ûa voz que estava perto um dihivio, fim de to-
espiÀ;. Em erva ,*"t"tÀ e se perderam tôdas' E dos e de tudo. O que sendo mal recebido dos pode-
ii.Uo" se padecia jâ tanto no outubro de zr' rosos e referido à prègaçâo do frade, pediram ao ou-
""i
que acontec"o-parr","* muitos homens oito dias vidor que o tornassea chamar e inquirir donde sa-
5
c slm tocar pâo, iomenclo s6 carnes e fruitas' E por bia o que prègava e apregoava.
janeiro e flvereiro do ano de zz em çlue vamos' Obedeceu êle ao segundo mandado, como ao
fome
se averiguou morrerem muitos pobres à pura primeiro. Eram jâ zr do mês de outubro. Chegou
polas ruàs e alPendres de Lisboa' sôbre tarrde a casa do ouvidor. Querendo entrar,
Abalavam estas misérias as entranhas del-rei' lo mandou-lhe dizer o ouvidor que no dia seguinte o
pera
ro Mandou fazcr com tempo grandes diligências ouviria. E êle tomou, palavras formais, ao criado:
<lue cleccssc de Antre-Dooio e Minho e da Beira'
- Diz o senhor ouvidor que amanhâ me falarâ; e
tiin que se achasse de centeo e milho' E nâo eu lhe digo que, pois agora nâo quer que pode,
" com isto, que todavia foi d-e muita im-
contente àmanhâ, se quiser, por ventura nâo poderâ. Pala-
oortância, despachou navios à custa de sua fazen- rj vras foram estas, que o calamitoso sucesso que as
,.' à", .o- iet."i dinheiro, que fôssem carregar de seguiu logo deu ocasiâo a ficarem pera sempre como
"
trigo à França e Frandes. Porque,-além das neces- impressas em bronze na mem6ria dos homens.
os
sid"ades.ar"ir,"r, obrigavam e pediam remdio Cerrou-se a noite clara e serena, senâo quando,
de Africa, onâe a falta de fruitos era tâo
tog"t* sendo as duas horas despois de mea noite, em tempo
vi-
crËcida, que por muitas daquelas fronteiras se 20 qtre o sono mais senhor estâ dos membros e'sintidos
,, ,rt tamniai inteiras de môuros oferecer ao cati-
de tôda cousa vivente, começou a estremecer a ter'-
"*
-Saoà conta de lhe matarmos a fome'
veiro ra, com uns abalos e sacudimentos tâo impetuosos,
u. gentes da Mauritânia em geral de grande que nâo ameaçavam menos que querer-se desatar e
temperança na comida; mais por costume e vileza' soverter no mâr tôda a ilha; e assi nâo deixaram na
qo"^po, ialta de gula: tendo terras larguissimas e z5 vlla casa nenhfla em pé. E logo, por que nâo esca-
delas que
z5 igualmente fértiles, nâo aproveitam.mais passe nada, quebrou de ûa serra vizinha ûa mon-
- q"uantolhes parece que basta pera chegar de îia no-
tanha inteira de terra, lôdo e penedia, que, como
;id"à" ooto. Assi vem a ser ignâvia e frouxidâo levada à .mâo, correu contra a vila e a cobriu tôda
" que os faz temperados' Porque isto é averi-
até o mar e até lançar no porto grandes penedos.
" ""ot" jo Emfim o terremoto assolou e o monte sepultou
particulas']
f(r) No manuscrito faltam tôdas as três tudo que era vila: de sorte que ficou tôda um cam-
ià.itocan do escritor proviria talvez da- incerteza se
.r
lr;r".'t;;T; pôr enz Alentejo ou zo Alentejo? Note-se po-
lir:r tluc Irâô hâ pr6priamente espaçoem branco'
it, à contà ile: err' troca de' 26, quebxru: desabou.
;;', i,:it;ttt' férteis. Forma clâssica e alatinada'

7r
66
()or.ricç:I0 DE cLassrcos sa DA cosTA ANArS DE D. III
JOAO

po raso, sem sinal de casa nem povoaçâo. lGrande das as povoaçôesque tocam na costa do mar, tâo
poder do Altissimo! Ficaram sd em pé algûas casi- repentino e violento, que clerribou grande nûmero
nhas baixas, inda que tôdas abertas e destronca- de edificios: e entre êles â sumptuosa capela dos
das, de um pequeno arrabalde dividido da vila com reis catôlicos, D. Fernando e D. Isabel. Juntamente
5 ùa ribeira que ao ponente a lavava; em que se 5 vêo ao châo ûa grande parte da cidade de Almeria,
salvaram até setenta almas e com elas o nossô prè- e a fort{}eza inteira; e nos lugares que tem seu sitio
gador. Salvou-se também o senhor da viùa, gover- ao long! do rio, que a lava, foi o mal tamanho, que
nador e capitâo de tôda a ilha, Rui Gonçalves da se afirrfra ficaram debaixo dos ediffcios mais de
Câmara, com sua mulher D. Felipa Coutinha e seu duas rnfl pessoasmortas. Logo no outubro seguinte
ro filho Manuel da Câmara, que acertaram sair-se ro ûa qui{ta-feira, zz do mês, sucedeuo terremoto da
aqu.ola tarde pera ira quinta. Mas perdeu tôda a Ilha dÉ S. Miguel. É S. Miguel a maior e mais rica
,mais familia, que foram dous filhos e duas filhas
de tôdas as dos Açores, que o ifante D. Henrique
e ta irmâ e muita riqueza e um bom aposento. ma descobrir e povoar pera êste reino. Ficou
Todos os mais lugares da ilha padeceiam grandes qué tôda assolada e sovertida debaixo da terra
.r5 infortrinios; cafram tôdas as igrejas grandes e mui- r5 ar. e mais populosa vila dela. Caso é digno
tas casas, e em algûas acabaram famflias inteiras. saber pera exemplo e compunçâo e polas cir-
E afirma-se que chegou o nrimero dos mortos a ias que nele houve. Brevemente o diremos.
cinco mit, ainda que alguns m€tem nesta conta os va acasona ilha (r) um religioso castelhano
que levou a peste, que sucedeuao terremoto. euem de S. Domingos: seu nome frei Alonso de
eo quiser ver êste sucessomais ao largo, lea a hislôria
. Era prègador por titulo e por oficio: Nâo se
que escrevemosda Ordem de S. Domingos parti_ va onde o chamavam e queriam ouvir. Cor-
cular dêste reino (r). muitos lugares da ilha, notou em todos far-
tur{ grande, vida deliciosa e ûa corrente de pros-
nunca vista. Como tinha visto e lido
25 mufto, nâo lhe pareceu estado s€guro pera gente
isfâ. Soube logo que nacia daquelas boas ventu-
ras\arder tôda a ilha em destemperança de gula
; temeu-lhe castigo; começou a afiar a
contra estesvicios, mas ferindo-lhe cada

13, aposento: casa de residência, [\r) Francisco Gonzaga, De origine seraphicae Relig.
F;atz fi s c anoruuz , P arte II, fl s . rorz -ror3. E um manus -
l(t) H i stôri a d.e S . D otni ngos, P arte III, l i v. z.o, c l i to]que es tâ em poder do c hantre de.É v ora Manuel
ca ps. 7 e 8.1
S ev e$m de Fari a.]

,f2
69
COLECÇAO DE CLASSICOS SA DA COSTA ANAIS DE D. TO,TO III

dia as orelhas novas dissoluçôesde todo género de que, começando por ûa cousa muito posta em ra-
gente e mais particularrnente dos ricos e podero- zâo, que era nâo consintir Sua Alteza em se ir a
soes moradores de Vila Franca. ifante minina pera Castela, rematavam em fazer'
Era Vila Franca grande e formosa vila ie entâo fôrça e necessidadede oadar com a mâi, pera reme-
5 como cabeça e côrte de S. Miguel. Repren$ia, gri- 5 diar tudo. E foi isto tanto em forma, que houve au-
tava, chorava a devassidâo das vi'das, o Eescuido tos e se pediram certidôes. E nâo pararam aqui as
das almas, e rematava ameaçandocom ca{tigos do batarias: os procuradores dos misteres, que o sâo
céu. Residia o prègador em Ponte Delgad[, onde do povo e parte do govêrno da Câmara, nâo duvi-
primeiro desembarcara, vila entâo sem norn{, agora daram ir-se à rainha e propôrJhe a mesma maté-
ro cidade e cabeça da ilha. Aqui prègava a m\ude, e ro ria: a que a boa senhora respondeupalavras gerais,
vendo que perdia o tempo e o trabalho, porq\re nâo sem fazer de si outra demonstraçâo, agradecendo-
via nem ouvia sinais de emenda, como o peitd,e voz -lhes o zêlo que representavam do bem pûblico do
do prègador costuma a ser 6rgâo do Espirito $anto, reino, a que se confessava nâo menos obrigada que
inflamou-se um dia; e, ou fôsse que Deus nfoueie êles.
r5 ponto lho revelasse, ou que seu entendimento\o ti- tç Neste estado estavam as cousas, quando Deus
rasse por bom discurso, dizem que levantou { voz acudiu com o remédio. Chegaram cartas do empe-
como um trovâo e, apontando nas serras que {inha rador, em que pedia a el-rei com encarecimento
defronte, afirmou que elas vingariam os pecfdos desse licença a sua irmâ pera se ir pera êle: pera
da terra, e soverteriam ûa vila. \ o que tinha despachados a Badajoz, pera a irem
20 Passou a farna da prègaçâo e ameaços a irila ;r.r buscar, o bispo de C6rdova e o conde de Cabra e o
Franca. Nâo duvidando os moradores que era {on- doutor Cabreira, seus embaixadores. Respirou el-rei
" tra êles, nâo sô nâo tornaram sôbre si com emerlda, com o gôsto dêste requerimento. Mas porque o em-
mas houve alguns que se deram por escandaiiza- perador ajuntava que seria razâo nâo deixar ir a
dos e, pondo em prâtica lançar o prègador da teira, mâi sern a filha, rinica consolaçâo de seu triste esta-
z5 acabaram com o ouvidor eclesiâstico que o rrf.n- -'5 do, pôs el-rei a matéria em conselho: no qual suce-
dasse aparecer em Vila Franca e o castigasse.A@a- dendo que, sendo vencido por votos que, pois se
mos que foi frei Alonso a êste chamado em r7 de havia de ir a rainha, fôsse também a ifante com
outubro dêste ano em qlr.evamos; e, dando dp si ela, s6 o conde do Vimioso D. Francisco de Por-
bastante satisfaçâo ao ouvidor, se tornou a P{nte tugal foi de contrârio parecer, provando com muitas
3o Delgada. Porém jâ neste tempo andava outroigé-
nero de profecia mais temeroso.Afirma-se Oue,
iun- povos, receosos de que tanta riqueza se fôsse para Cas-
I tela, o cue recaïria inevitàvelmente sôbre êles e suas fa-
zerrdas, pedem ao rei <que leixe mais dias pacer as bestas
25, acabararn consegulram que, <las suas cârregasD.
I

coLECÇÂO DE CLASSICOS S,{ D.4 COSTA ANArS DE D. JO,4O III

e mui prudentes razôes que nâo cumpria ao serviço CAPf TULO XI I


del-rei sair ela do reino. E êste foi o segundo juizo
pûblico, em que el-rei rnostrou o grande entendi- Requere o povo de Lisboa a el-rei gue case com
'Repugna el-rei. Pede o
mento de que Deus o dotara. Porque, como se te- a rainha sua madrasta.
vera sessentaanos de idade e outros tantos de ex- emperador que vâ a rainha Pera Castela e leve
periência do govêrno de seus estados, assi soube a inf ant inha sua f ilha. Consent e el- r ei na ida da
pesar e conhecer os fundamentos do voto do conde; m âi, m as nâo da f ilha
e haven'do-opor mais sustancial que todos os ou-
tros, soube declarar que se conformava com êle, Em meio de tantas tempestades de desgostos,
IO como ensinando jâ aqueles velhos, que nos conse- que tôdas iam quebrar suas ondas no peito del-rei,
lhos dos principes a calidade e sustância dos pare- e êle procurava remediar a todo seu poder, trouxe
ceresse deve respeitar e seguir, nâo o nûmero. o tempo outra, que lhe dava tormento continuo e
Mas a rainha nâo podia acabar consigo haver-se 5 tanto mais penoso, quanto se sintia tomado entre
de ir de Portugal sem a ifante, em que se consi- portas e forçado a levâ-la sem remédio. É de saber
r5 deravam dous interesses; um de amor natural, que o duque D. Gemes, como velho e muito amigo
outro de fazen'da:um de ser ela o penhor que s6 do serviço del-rei, tratando-se do casamento que
lhe ficara de um rei que tanto a amara, outro do melhor lhe estaria, mostrava com vivas e eficaces
muito que, tendo-a consigo, podia lograr de renda, ro razôes que nenhûa cousa convinha mais a el-rei
jdias e dinheiro; e fa"ziagrandes instâncias por que e ao reino que casar com a rainha sua madrasta,
el-rei lhe nâo tolhesse levâ-la; e ia-se detendo corn visto como, pera o ponto de se esperar dela suces-
esperanças de que o andar do tempo e seus rogos sâo, jâ viam que era moçâ e sabiam nâo ser estéril.
mitigariam a resoluçâo que se dizia estava tomada. Pera o gôsto do povo, a todos tinha satisfeito sua
Porém achou forte contraste em pessoa que mais rS afabilidade e boa sombra e era geralmente amada;
obrigaçâo tinha de a servir e ajudar. e, sendo por estas partes o casamento muito de esti-
25 Residia em Lisboa com titulo de embaixador do mar, de se nâo efeituar, recreceram grandes incon-
emperador o secretârioCrist6vâo Barroso, que pri- venientes, duros de levar e vencer. Deviam-se-l.he
meiro nâo tevera mais nome nem oficio que de grossas affas; e a ifante, sua filha, tinha grandes
agente. Dêste se afirma que por sua malicia torceu Jo promessas de dinheiro e rendas, polas escrituras do
em mau sintido as dilaçôBsda rainha, significando dote de sua mâi. Se el-rei nâo aceitava o casa-
3o seu amo que nâo podia julgar bem delas, visto o
a
que se praticava no povo de que estaria bem a to-
a2, Peva o Ponto de: pelo que respeita a, para o
i i m de.
ro, insinando no manuscrito. 17, recrecerarn: sobreviriam.
r3, acabat consi go.' resi gnar-se. tg, ifante: infanta.

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Ir
coLECÇÂO DE CLASSICOS S,{ D.4 COSTA ANAIS DE D. JOÂO III

e mui prudentes razôesque nâo cumpria ao serviço CAPÏ TULO XI I


del-rei sair ela do reino. E êste foi o segundo juîzo
pûblico, em que el-rei rnostrou o grande entendi- Requere o povo de Lisboa a el-rei que case com
mento de que Deus o dotara. Porque, como se te- a rainha sua madrasta. Repugna el-rei. Pede o
vera sessentaanos de idade e outros tantos de ex- emperador que vâ a rainha pera Castela e leve
periência do govêrno de seus estados, assi soube a infantinha sua filha. Consente el-rei na ida da
pesar € conhecer os fundamentos do voto do conde; m âi. m as nâo da f ilha
e havendo-o por m'ais sustancial que todos os ou-
tros, soubc declarar que se conformava com êle, Em meio de tantas tempestades de desgostos,
IA como ensinando jâ aqueles velhos, que nos conse- que tôdas iam quebrar suas ondas no peito del-rei,
lhos dos prfncipes a calidade e sustância dos pare- e êle procurava remediar a todo seu poder, trouxe
ceresse deve respeitar e seguir, nâo o nûmero. o tempo outra, que lhe dava tormento continuo e
Mas a rainha nâo podia acabar consigo haver-se 5 tanto mais penoso, quanto se sintia tomado entre
de ir de Portugal sem a ifante, em que se consi- portas e forçado a levâ-la sem remédio. É de saber
r5 deravam dous interesses: um de amor natural, que o duque D. Gemes, como velho e muito amigo
outro de fazemda: um de ser ela o penhor que sô do serviço del-rei, tratando-se do casamento que
lhe ficara de um rei que tanto a amara, outro do melhor lhe estaria, mostrava com vivas e eficaces
muito que, tendo-a consigo, podia lograr de renda, tcr razôes que nenhûa cousa convinha mais a el-rei
j6ias e dinheiro; e lazia grandes instâncias por que e ao reino que casar com a rainha sua madrasta,
el-rei lhe nâo tolhesselevâ-la; e ia-se detendo com visto como, pera o ponto de se esperar dela suces-
esperanças de que o andar do tempo e seus rogos sâo, jâ viam que era moça e sabiarn nâo ser estéril.
mitigariam a resoluçâo que se dizia estava tomada. Pera o gôsto do povo, a todos tinha satisfeito sua
Porém achou forte contraste em pessoa que mais l5 afabilidade e boa sombra e era geralmente amada;
obrigaçâo tinha de a servir e ajudar. e, sendo por estas partes o casamento muito de esti-
25 Residia em Lisboa com titulo de embaixador do mar, de se nâo efeituar, recreceram grandes incon-
emperador o secretârioCristdvâo Barroso, que pri- venientes, duros de levar e vencer. Deviam-se-lhe
meiro nâo tevera mais nome nem oficio que de grossas arras; e a ifante, sua filha, tinha grandes
agente. Dêste se afirma que por sua malicia torceu J() promessasde dinheiro e rendas, polas escrituras do
em mau sintido as dilaçôgs da rainha, significando rlote de sua mâi. Se el-rei nâo aceitava o casa-
3o a seu amo que nâo podia julgar bem delas, visto o
que se praticava no povo de que estaria bem a to-
12, Perc, o Ponto de: pelo que respeita a, para o
l i rn de.
ro, insinand,o no manuscrito, 17, recvecetanl,: sobreviriam.
'r3, arabar consigo.' resignar-se. rg, ifante: infanta.

76 t3
()ol.LC()i0 DIt CL,{SSrcOS SA DA COSTA ANArS DE D. JO.4O rII

l)rento, ficava sua fazenda em grande quebra: e, o


e algtas de tamanha contia que em os tempos pre-
que era pior, enriquecendoreino alheo com o que
sentes pareceram demasiadas.Apontaremos algûas
havia de tirar do seu.
pera que vejam os ministros dêste tempo que, en-
Nâo havia na terra quem tivesse por desacertado
curtando tanto a mâo como fazem c'os homens que
5 êste conselho senâo s6 a pessoa a quem mais tocava
e melhor estava, que era o m,esmo rei. Nâo lhe 5 servem e trabalham, mais dano fazem à fazenda
real com tal escacezado que acrecentamnela, por-
sofria o ânimo haver de chamar esposa a quem
que de gente mal pagada e desfavorecidaengano é
dera o nome de mâi; haver de tratar por igual a
esperar grandes cousas.
quem reconhecerapor senhora; e emfim nâo acaba-
Tenças grossas: a Nuno de Mendonça, filho de
to va com sua honr:stidade haver de tratar amores,
ro Joâo de Mendonça, 7o$ooo, a D. Lopo d'Almeida,
inda qut: sirntos e castos, com a mulher que o fôra
filho do Prior do Crato, D. Diogo d'Almeida,
de scu pai. Parecia-lhe cousa fea pera seu nome,
agravo pera o defunto e ajuntamento indigno de rro$ooo; a D. Ant6nia, filha de D. Joâo Pereira e
ùa rainha de Portugal, inda quando em tôda a cris- mulher do dito, 6o$ooo;a Pero Correa, filho de Ro-
z5 tandade faltaram casamentos. Mas ique havia de drigo Afonso, em dous padrôes, 9o$ooo; a D. Joâo
r i Pereira, filho de D. Fernando Pereira, Sogooo; a
fazer quem tinha o reino todo contra si neste voto?
D. Diogo de Castro, 6o$ooo; a D. Antônio d'Almei-
Escreve-se que remeteu o negdcio a Deus com
da, contador-m6r, em três padrôes, z2ofiooo, af.ota
ânimo verdadeiramente cristâo, mandando celebrar
muitos sacrificios,pera que o Senhor piedoso, favo- outras; a D. Alvaro de Castro, filho de D. Garcia
eo recedor sempre de bem ordenados pensamentos, de Castro, roo$ooo, afora outras tenças; a D. Fer-
, r nando, filho do conde de Faro, 16ogooo; ao dito,
encaminhasse os seus. Porém entre tanto eram
grandes as desconsolaçôesque padecia, jâ com a outra tença de z$6oo corôas, que fôra de Gomes de
fôrça dos conselhos dos grandes, jâ com requeri- Figueiredo, provedor da comarca da Beira; a
m91to1 do povo de Lisboa, que chegou neste ternpo D. Inês de Melo, mulher que fôra de Gaspar Pe-
z5 a lhe fazer um modo de protesto priblico por meo reira, 86$ooo.Entre estes.assentosnâo é pera esque-
,'i cer, por cousa notâvel, um de 24o$ooo, dado a
dos magistradosda Câmara e com razôes por escri-
to, que, ainda que populares e pouco polidas, aper- I). Fernando de Roxas, marquês de Denia. Além
tavam tanto que parecia nâo tinham reposta. por- destas mercês proveu el-rei muitos cargos de sua
casae dos ifantes, com que honrava os homens e os
ajudava pera a vida.
g-ro, ndo acabaua com: nâo era comDativel com, ir) Em 9 de janeiro deu o cargo de seu aposentador-
r5, faltaram: faltassem. -rnôr a D. Felipe Lôbo, filho do barâo, honrando-o
25. Esta carta, na verdade curiosissima, Delo seu com a causa, que diz é sua bondade e discriçâo;
pitoresco popularismo, vem publicada em Franiisco de tnas parece que viveu pouco, porque logo aos ca-
Andrada, Crônica ile D. loâo III, parte I, cap. 19. Os
lorze de março consta que tinha jâ outro aposenta-

74-
79
coLLCÇ,rO DL CLASSTCOS 5,4 DA COSTA ANAIS DE D. TOÂO III

dor-môr, que era Manuel da Silva. Em rz de ja- dos e a tudo nâo buscar e]-rei outro casamento, e a
neiro fez seu capelâo-m6r a D. Paulo, primeiro fi- continuaçâo com que jâ era visitada dêle. Nâo fal-
lho de D. Diogo, conde da Feira, e aos 13 f"ezdeâo tava el-rei em nenhum tetmo de boa cortesia com
da capela a Diogo Ortiz, seu mestre. O offcio de esta senhora: visitava-a amiude com â mesma sin-
5 caçador-m6r, que tinha dado em dezembro passado 5 ceridade e bom têrmo que aborrecia suas vodas; e
a D. Joâo de Alarcon, deu licença a Antdnio de sucedendoir-se do Barreiro pera Almeirim, deixou
tsrito, que jâ era proprietârio dêle, que o passass€ ordenado que também eia com a ifante D. Isabel
a D. Anrique Anriques (devia ser falecido D. Joâo mudassem estância e se fôssem trâs êle, aco'mpa-
de Alarcon) . nhadas do duque de Bargança e do barâo d'Alvito.
ro Deu o de reposteiro-môr a D. Jorze Henriques, rt) Neste caminho chegou o Barroso a declarar sua
clue muitos anos despois traspassou a Bernardim tençâo com tanto despejo, que se foi a Mugem,
de Tâvora. O de contador-m6r proveu em D. Antô- onde jâ estavam, e ali fez priblico requerimento à
nio d'Almeida, por casar com D. Maria, filha her- rainha que nâo passassea Almeirim, deixando-se
deira de Joâo Rodrigues Pais, cujo era êste cargo. entender que o fazia de ordem que tinha do empe-
rj A D. Fernando de Castro, filho de D. Alvaro de l5 rador. Sintiu-se a rainha do descomedimentoe mais
Castro, corregedor da Casa clo Civel, fez seu vè- da tençâo que nêle se descobria; mas ouvindo falar
dor. A Vasco de Refoios, fidalgo de sua casa, fez seu em ordem de seu irmâo, quis antes sujeitar-se à
cevadeiro-m6r e mariscal. A Cristôvâo de Melo, al- descomposiçâodo ministro, que arriscar a opiniâo
caide-m6r de seu pai, mandou ficar com o cargo de de sua inocência com o emperador, que lhe dava
zo seu rnestre-sala,como o tinha quando Sua Alteza .'o crédito. Parou, sem dar mais passo adiante'. Mas
era prfncipe, e fez-lhe mercê das saboariasde Vila despediu logo o bispo de Cuba, seu capelâo-m6r,
Viçosa e confirmou-lhe dez mcliosde trigo no almo- com cartas ao emperador, cheas de brio real, quei-
xarifado de Beia. xando-se dos desatinos de Barroso e de valerem
Ao conde D. Martinho de Castel-branco, seu ca- mais com êle suas mintiras, por ser ministro, que
z5 mareiro-m6r, deu a vila de Vila Nova de Portimâo, :5 as verdades, autoridade e honra de quem era rai-
e que por seu falecimento ficasse a seu filho mais nha -, de quem era sua irmâ. E pera mostras de
velho e que pudesse dar todos os oficios de Vila mais sintimento, nâo tardou em despachar segundo
Nova e pôr juizes e tabeliâes. Ao mesmo, cento e messageiro,que foi o cavaleiro Bonedon, seu cria-
do, marido de madama Tumbas, sua camareira.
1o Emfim venceu a verdade. Conheceu o emperador
ro, Jorze ê a forma habitual, talvez popular, de os enganosde Barroso; lançou-o de seu serviço bem
Fr. Luis de Sousa.
14, cujo era: de quem era.
18, mariscal: marechal, graduado militar abaixo de
condestiivel. 18, d,escontposiçdo.' desacato, falta de respeito.

8o
oor.ticÇÂODE cL,4sslcos sa DA cosTA ANAIS DE D, JOÂO III

dous mil réis de assentamento,e que pudese trazer


castigado e man'dou que se passassea Lisboa em
bandeira quadrada. Mercê a Francisco d'Azevedo,
-.eu lugar o doutor Cabreira, que jâ estava em filho do doutor Gonçalo d'Azevedo, desembarga-
Badajoz.
Nâo seria sem prêço da histôria dizermos breve- dor do Paço, da vila de Ponte do Sôr com jurdiçâo
5 civel e crime e as saboarias de Alcâcere do Sal. A
-5 mente donde naceu a ira dêste homem e a sua per- alcaidaria-m6r de Sines a Crist6vâo de Brito, vaga
diçâo, que a seguiu: por que nâo haja nenhum mi-
por morte de Anrique Moniz, filho de Diogo Moniz.
nistro querfaça armas da autoridade e mâo de seu
A Pero Correa, fidalgo de sua casa, as saboarias
amo, pclïr vingança de paixôes pr6prias. É pois
da ilha de Santiago, corno as'tevera seu pai Rodri-
rlt: salrur r;rrr:Cristôvâo Barroso antes de ter o titulo
ro go Afonso. E ao mesmo, pera êle e pera um filho,
7rr rkr t"rnba.ixirdor, achanc.ln-sc
um dia na ante-câmara
tôdas as rendas e direitos da vila de Salvaterra de
tkrl-rt.i, colrriu ir ca"bcça,onde todos os fidalgos por-
Magos, - as quais pouco despois resgatou, dando-
ttrgrrcscst:stavanr dcscobertos. Acudiu o porteiro-
-lhe por elas as rendas e pensôes dos tabeliâes de
-lnirr, a <1uemtocava a emenda: mandou-lhe que se
rlescobrisse.Alegou indisposiçâo da cabeça, e que Lisboa. Doaçâo a Antônio de Miranda do lugar da
r-5 estava em sitio, que nâo era visto del-rei e que se 15 Maceira, com mero e misto império, assi como a
passaria pera outio mais desviado. Nâo lhe valeu tevera seu pai Fernâo de Miranda. Licença a
nada.. E de corrido e desconfiado ficou cheio de D. Isabel de Castro pera herdar a terra de Castro
peçonlia, pera a vomitar em tudo o que tocasse Dairo, por morte de seu irmâo Diogo Pereira. Mer-
a Por.tugal, ccrmo vimos. cê ao conde de Vila Nova da dizima da cortiça que
?o sai polafoz; e a D. Joâo de Castel-branco,seu filho,
o oficio de superior das aposentadorias de Lisboa,
C A P TTU LO X III Évora e Santarém.
Proveu a capitania de S. Jorze da Mina em
zo Antes de sairmos do reino e nos passarmos às
conquistas que jâ chamam por n6s, parece conve- D. Afonso d'Albuquerque, por sua muita bondade
niente darmos conta de tôdas as mais matérias de :5 e discriçâo. Proveu a Diogo d'Azambuja da capita-
govêrno em que achamos ocupado el-rei neste ano. nia de Aguez, com seu regimento. Em z6 de de-
zembro mercê ao mestre de Santiago, D. Jorze, fi-
Comc era o p::imeiro de seu reinado, procurou mos-
25 trar aos vassalos ânimo liberal e grandioso. E assi lho del-rei D. Joâo, pera pôr em tôdas suas terras
achamos que fez muitas mercês de juros e tenças, os juizes e tabeliâesque lhe forem necessérios.Mui-
-io tas outras mercês fez el-rei neste ano, mas estas por
parecerem mais notâveis lançamos aqui, deixadas
rr, ondc: no momento em que. as outras.
Gapltulo Xlll. Êste capitulo estâ numa fôlha sôlta,
tlc rn:i letra, e cheia de notas marginais, que foram apro- tS, coln lnero e misto impérào.'com tôda a jurisdiçâo'
veitadas por Herculano e inseridas no texto.

8r
78
colJtcÇ,To DIi CLASSICOS SA DA COSTA .4NAIS DE D. JO,îO rrt

Agora diremos das pessoas que el-rei foi proven- de como lhes estaria bem escreverem aos senhores
do io serviço dos ifantes seus irmâos' Deu o car- de titulos e mais fidalgos do reino e também a al-
go de moràomo-môr do ifante D. Luis a Brâs guns principes e outras pessoasde fora dêle. Pare-
îeles, filho de Rui Teles de Meneses, e o de seu ce-me muito semelhantê a outra, que el-rei D. Fe-
ç euarda-m6r a Rui Teles, que fôra mordomo-môr 5 lipe segundo fez muitos anos despois, sendo jâ
"
àa rainha sua mâi, em 19 de abril; e aos 25 do mes- Senhor desta corôa, que foi ûa das mais esti-
mo mês lhe deu pera escrivâo da puridade e chan- madas de seu govêrno; sd com esta diferença: que
pera seu tesoureiro- el-rei D. Felipe fez formulârio geral, ou premâtica
çarel-môr a D. Jôâo Pereira; e
-m6r Pero Boteiho, fidalgo de sua casa' O assento de cortesias, pera todo género de gente; el-rei
ro D. Joâo, como tinha em casa,um povo de irmâos,
rc da carta nâo diz ((m6nr.
Em zz de novembro achamos que proveu de tratou sô das cortesias, que lhe pareceu decente
novo o cargo de mordomo-m6r do ifante em An- usassecada um dêles com os que eram vassalos do
dré Teles, àssi como fôra Rui Teles, seu pai' Em mesmo reino e com alguns principes de fora; pera
B de setembro fez el-rei camareiro-môr e guarda- que entre os de casa se guardasse igualdade com
15 todos e nâo houvesse ocasiâo de queixa, sabendo.se
15 -m6r do ifante D. Fernando a Vasco da Silveira; e
declara o assento que tevera o mesmo cargo José que naciam de seu juizo e ponderaçâo; e com os de
da Silveira, seu pai. Consta-nos que era neste fora mostrassem os infantes entre si conformidade
tempo mordomo-m6r da ifante D' Isabel' Rui de irmâos.
Telei de Meneses, porque em dezoito de janeiro Assentou-se no Conselho que aos duques e mes-
zo Droveu el-rei do ofièio de seu mestre-sala a Diogo zo tres escrevessemdêste modo: Mui.to Honrado Senhor
àe Melo, e manda a Rui Teles que o meta de posse Primo, sem saùdaçâo. E querendo dêles algûa cou-
dêle. E em cinco de maio lhe nomeou por seu cape- sa, nâo dissessem, Rogo, nem Peço por mercê,
lâo-m6r o bispo do Porto, D. Jorze da Costa, que senâo singelamente: Peço; e no cabo nâo dissessem:
despoisfoi em Castela insigne bispo de Osma' Agradecerei, senâo Estimarei o que assi.fizerd.es.
e5 Alguns queriam que se escusasseo Muito Hon-
rad,o, e nâo dissessemmais qtue Senhor Primo. E
CAPTTULO XIV êste têrmo pareceu melhor a el-rei.
Aos marqueses assentou o Conselho que disses-
Dâ el-rei forma aos ifantes de como hâo de sem: Honrado Senhor Primo, ot Senhor Marquês
escrever pera dentro e fora do reino 3o Primo. E êste segundo modo deu el-rei por melhor.
Aos condes: Honrado Conde, Pr,imo, ou Sobri-
25
-" Demosfim a êsteano de vinte e dous nas cousas nho, se fôsse parente; e nâo sendo parente, sô-
do reino, com fia acçâo mui polltica e acertada: mente: Honrado Conde, Pedindo algûa cousa:
qo" el-rei deu foima aos ifantes seus irmâos' Agradecerei, ot Agradecer-uos-ei.
"*

8z 8j
coLUcç,4o DE CLASSICOS SA DA COSTA ANAIS DE D. III
TOÂ.O

Ao Prior do Crato, como aos condes nâo paren- Excelente e Mu'fto Poderoso Senhor Emperad,or.
tes. E. nenhùa destas cartas teria saûdaçâo, nem E escrevendo por secretârio, diriam: Ao Muito Ex-
nome de escrivâo que as fizesse,por mais cortesia, celente Principe e Muito Poderoso Emperudor, Rei
salvo quando fôsse carta de neg6cio que requeresse de Castela, d,e Leâo, de Aragâo, das Duas Sicilias
dar-se fé.
5 e de Jerusalém.
Aos arcebispos: Reuerendo Senhor Arcebispo, Ao duque de Bragança, poriam o Senhor Prirno,
sem saûdaçôcs. E pedindo-lhes algûa co:usr.;Rece- um dedo acima da primeira regra e à ilharga; e a
berei em singular graça. nota seria falando-lhe por terceira pessoa. O so-
Aos bispos: Rcuerendo Bispo, sem saûdaçôes,e brescrito diria: Ao Senhor Duque d,e Bargança,
IO Muilo agradeccrci,,ctc. S6mente ao bispo de La-
ro ,neu Primo. Ao marquês: Senhor Marquês Primo,
nrcgo, D. Itcrnando, por scr parente: Muito Reue- em regra. Ou, pera mais honra: Senhor Marquês
rendo llis'fto Primo. Prirno, sem o nomear.
Aos {ilhos herdeiros do duque de Bragança e do Aos Nrincios do Papa: Muito Reuerend,o F-oôo
mestre dc Santiago, que nâo tevessemtitulo, como Bispo, se o fôsse, ou outro titulo que tevesse.
r5 aos marqueses; e aos outros filhos que nâo fôssem r5 A todo embaixador estrangeiro, que nâo fôsse do
herdeiros nem tevessem titulo, como aos condes reino, escreveriamcomo a conde.
parentes.
Ao arcebispo de Braga, pola dignidade e autori-
Aos fidalgos que tevessemparentescocom el-rei: dade de suas câs: Senhor, em regra como o mar-
Fodo Primo, oa Sobrinho, sem saùdaçôes;e Agra- quês; e no sobrescrito:Ao Senhor Arcebispo Primaz
ilecer-uos-ernosou Agradecer-uos-ei,. zo de Espanha.
Aos senhoresde terras e aos do Conselho e a to- Aos bispos e arcebispos estrangeiros, diriam: Se-
dos os mais fidalgos honrados: Fodo amigo; e com nhor Bispo, oa Senhor Arcebispo, e com tftulo de
advertências que dentro nâo houvesse saûdaçôes. parente, se o fôsse; dando alguns riscos, começaria
E nos sobrescritosde tôda a pessoa, a que se nâo
Iogo a carta, sem nenhum espaço; mas se fôsse ao
25 desseHonrailo ou Reuererudo,se poria no alto dêles:
PoIo Cardeal, ou Polo Infante. -'.5 de Toledo ou aos prelados eleitores do Império,
seriam tratados como duques parentes.
Ao emperador: Senhor, no alto da carta. E no
Assentou-se que as senhoras infantes seguissem
sobrescrito, quando o cardeal ou infantes escreves-
o mesmo estilo sem nenhûa diferença, quando escre-
sem de sua mâo, diriam: Ao Maito AIto e Muito
vessem:salvo que às pessoasa que os infantes cha-
i{) massemFodo Amigo diriam elasFodo s6mente, ou:
Eu, a ifante, uos inuio muito saiidaz, segundo fôs-
r-2. Entenda.se: <Ao Prior do Crato far-se-ia como se a calidade da pessoa; e às donas honradas sem
aos concles nâo parentesl. titulo diriam Foâ Ami.ga, e às condessasMuito Hon-
J, for ntai s: para mai s. rada Fod; e à camareira-m6r da rainha, quando

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85
cor,Lc()ro DE cL{.ssrcossA.DA cosTA ANAIS DE D. JOÂO III

lhe escrevessemos infantes e infantas, the poriam: embaixador em Castela, que nesta forma fôra re-
Senhora, em regra; e elas nâo usariam dos têrmos cebido do emperadôr, Corno o emperador quis alte-
de Amo, nem Amado, nem Prezo, nem Prezad.o, rar os bons costumes dos reis de Castela, seus ante-
com as pessoasque os ifantes o costumam. cessores,deu-se por obrigado el-rei D. Joâo a fazer
5 Pois tratamos matéria de cortesias, bem serâ que o mesmo em sua côrte, e foi usando sem nenhùa
fique neste lugar o como el-rei trocou, em fim dêste diferença do mesmo estilo: visto como pola digrri-
ano, as que costumava el-rei D. Manuel seu pai dade do império nâo era mais honrado que por
fazer aos embaixadores do emperador e dos reis fitrho e neto dos reis de Espanha.
seus antecessores,e a razâo que pera isso houve.
ro Soia cl-rci D. Manuel, quando entrava o embaixa- CAPI TULO XV
dor pola sala, ou câmara, em que estava, levantar-
-so cm pé, e ao tempo de chegar junto dêle, pôr a corno procedia a guerra contra os mouros de
mâo no trarrete, como ameaçando a tirâ-lo; e assi Âf r ica. em Azam or e Ar zila
em pé lhe beijava a mâo o embaixador, e êle lhe
15 tomava as cartas de crença. Por êste modo tinha É tempo de nos passarmos a Africa e contarmos
el-rei D. Joâo seu filho recebido a Monsior de la zo alegremente, por fermoso e felice pronôstico dos
Chaux, que foi o primeiro que o emperador lhe in- tempos del-rei, ûa insigne vitdria que o capitâo de
viou, como temos visto. Azamor alcançou dos mouros de Fez no rnesmo
Mas, chegando por fim de novembro dêste ano dia em que Sua Alteza foi levantado por rei em
zo de zz a Lisboa segundo embaixador, que foi o dou- Lisboa. Era oapitâo Gonçalo Mendes Sacoto. En-
tor Cabreira, que vinha pera acompanhar e ser- 15 controu-se com o alcaide Latar e outros quatro alcai-
vir a rainha D. Lianor, em lugar do secretârioBar- des del-rei de Fez, que lhe vinham correr com nove-
roso, e entrando pola sala, onde el-rei estava, Sua centas lanças, gente escolhida; foi o encontro a três
Alteza se deixou estar assentado, até o doutor che- léguas da sua cidade; e levando sô duzentos de ca-
25 gar a êle e lhe oferecer a carta que trazia de crença valo, nâo duvidou dar-lhes batalha; e foi tal o es-
e começar a falar. Entâo se levantou e o ouviu em .rrr fôrço com que nela se houve, que os desbaratou com
pe. A razâo desta novidade teve fundamento em morte de quatro alcaides, ficando senhor do campo
que el-rei foi avisado por Luis da Silveira, sendo e de grosso despôjo. E fez mais glorioso o sucesso
saber-se pouco despois que na mesma conjunçâo'
que estava jogando vitoriosas lançadas c'os ini-
;'5 migos da fé, recebia el-rei à porta de S' Domingos
4. Esta longa digressâo sôbre a apertadissima prag- o cetro de seus reinos e obediência de seus vassa-
mâtica da côrte, pela qual se procunlva dar a cada um
o seu lugar, nâo abona o sentido critico do nosso grande los. Assi o mandou declarar Sua Alteza em um bra-
escritor, que por vezes se perde em ninharias. sâo d'armas, que lhe deu, de que foi parte princi-

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cor.Lc\)Âo DE cL,4ssrcossA DA cosTA r ANAIS DE D. TOAO III
i
I
I l)al as quatro cabeçasdos alcaides; e el-rei que o camos por ser da obrigaçâo dos cronistas del-rei
assinou com o seu cronista (r). D. Manuel, todo seu cuidado era, como jâ sabia
Entrou o ano de r52z com tamanho apêrto de de certo que ardiam em Beste todos os lugares à
fome, nacido da sécado ano atrâs, por tôdà Africa, roda, ver se poderia escapar de se the comunicar
5 que estando o rio de Azamor cheo de caravelas que 5 a contagiâo na vila.
deviam ir buscar a carga dos sâveis, que se pes- A êste fim nâo consintia comércio de câfilas, evi-
cam, trocaram o cliscnhoe carregavam de infinitos tava safdas de almogâvares e, se algûa consintia,
mouros 'rnoçosc moças de bom parecer, pera leva- era com mandado expresso que de nenhfla maneira
l-om ir Lisboa c a Scvilha. E no preço nâo havia se embaraçassem nas povoaçôes dos mouros. Mas
ro mollro (luc sc dcsavicssccom o comprador. porque ro por demais sâo as diligências e cautelas humanas,
rnuitos s6 ltola comicla ofercciam ser escra\rose se quando Deus quer castigar. A peste entrou por meio
dcixavam embarcar. Seguiu a tanta miséria a maior de três mouros, que a cobiça de uns almogâvares
dc tôdas, que foi contagiâo do ar, que levou a mui- desmandados e sem ordem trouxe à vila; e com a
tos, que ou com bom govêrno ou com trigo escon- mesma violência que faz o fogo, onde tem aparelho
15 dido tinham passado o apêrto da fome; e esta se r5 pera se atear, correu tMas as casas e matou tanta
afirma que consumiu homens e alimârias com ter- gente, que o capitâo, por ver se achava remédio
rivel destrôço. com a mudança da morada, primeiro se passou do
Era o capitâo de Arzila D. Joâo Coutinho, filho castelo pera ûas casas da vila e despois embarcou
hendeiro do conde de Borba. Estava bem provido sua mulher e familia pera o Algarve, o que também
zo de mantimentos, que el-rei D. Manuel antes de seu zo fizeram muitos moradores. Assi ficou a vila quâsi
falccimento lhe tinha inviado, com tanta providên- despovoada, parte polos que levou o mal e parte
cia, clue se nâo esqueceude acudir até com trigo polo destêrro voluntârio das familias que se ausenta-
tremês do campo dc Santarém pera as curtas se- ram.
menteiras dos moradores, em que logo começaram Êste estado triste das portas a dentro laziam
z5 a entender, fazendo-se todos lavradores, como o 25 mais penoso os inimigos de fora; porgue vivia Ame-
céu ia acudindo com suas âguas e temporais ordinâ- lix, atrevido e manhoso almocadém do Farrobo,
rios. Despois da grande vit6ria que alcançou dia que junto às portas da vila vinha esperar as ata-
de Todos os Santos, primeiro dia de novembro do laias e gente desmandada;e quando de dia nâo po-
ano passado de 5zt, desbaratando o valente alcaide dia fazer presa, valia-se do escuro da noite; e quâsi
3o de Alcâcere, Cid Hamete Lar6s, que nâo especifi- jo nunca tornava com as mâos vazias, levar-rdoho-

[(r) Brasâo d'armas dado por el-rei D. Joâo em 19 6, câlilas: caravanas,


cl c Jul ho de 1538.1 alnto gduares: guerreiros mouros.
7, disenho: designio, plano, rumo. alntocadént: chefe militar.

88 89

itiii
cor.EcÇio DE CLA.SSTCOSSA DA COSTA ANArS DE D. JOAO III

mens e moços, bois e vacas e outro gado. E emfim sâveis que tinham pescado: cle que os nossos se
chegou a levar-nos três atalaias, homens de conta, aproveitaram; e com êles e três cavalos e seis mou-
que foram Ant6nio de É,vora, Gonçal'Eanes e ros cativos, fizeram volta em demanda da ponte,
Joâo
Teles. Ârdia o capitâo de raiva, por lhe fazer tânta sem serem sintidos, nem haver rebate em Alcâcere,
5 guerra o ardil de um sô mouro; procurou armar_lhe senâo despois gue a Passaram.
ûa e muitas vezes; porém sabia tanto, que ao pa- Mas nâo passaram muitos dias que se nâo aguasse
recer adivinhava e conhecia as ciladas e escapava o gôsto dêste sucesso com outro bem contrârio,
de tôdas. Mas foi Deus servido que foi cessanào a como é ordinârio na guelra. El-rei de Fez, tanto
doença; e quando chegou dia de S. ;oao dêste ano que soube ser despachada na cidade a câfila ordi-
to de 5zz, se levantou bandeira de saride; e logo o ca_ TO nâria e mercadores pera Arzila, havendo que ti-
pitâo desejosode tomar algûa satisfaçâo dasàstricias nham na mâo boa ocasiâo de correr a Arzila, pôs-se
e danos de Amelix, determinou correr ao Farrobo a caminho trâs ela, avisando em secreto o alcaide
e serra de Benamarés. Lançou sua gente fora e, sem de Alcâcere que o esperassecom sua gente na ponte.
achar encontro, trouxe desta primeira vez cem bois. E foi sôbre a vila com tanta pressa e tâo calada-
15 Dêste dia em diante foram saindo amiude os r5 mente, que anticipou tôda noticia de sua vinda.
almogâvares ,e fazendo boas sortes até a ponte de Sucedeu ter o capitlo despedido no mesmo dia oito
Alcâcere; e foi muito estimada ûa de pero de Me- almogâvaresdês da mea noite, a tomar lfngua, com
neses, valente e arriscado mourisco e muito fiel e ordem que fôssem amanhecer sôbre Taliconte, que
bom cristâo. Deu a traça Alvaro Rodrigues, o Den- é um outeiro alto, junto da ponte de Alcâcere, don-
zo tudo, também mourisco. Safram trintà de cavalo de se descobre tôda a estrada que corre pera Alcâ-
à obediência de Pero de Meneses: vadearam a ri- cere e até, o Zambujal de Algarrafa. Daqui, nâo
beira de Alcâcere, por onde o Dentudo sabia que vendo cousa que temer, se foram melhorando; e
nâo havia guardas. E saltearam logo três mouios. passando adiante deram com ûas dez vacas que
de cavalo, que sendo guardas dormiam a sono solto" tomaram e, alanceando um mouro, que as pastorea-
z5 envolto_s_nasalgeravias, e os cavalos paciam junto va, começaram de se vir com elas.
rlêles. H,aviam,se por seguros de poderem chegar
. Cerrou-se entretanto a noite, tâo escura e esqui-
ali cristâos. Apds êstas deram sôbre outros três va de chuveiros e cerraçâo, que lhes fez perder o
guardas de pé, que vinbam contentes com muitos tino donde estavam e por onde haviam de ir; e foi
fôrça esperarem que amanhecesse.Descobriu-lhes a
luz que lhe eram fugidas duab vacas; e a cobiça
6-7, oo parecer: segundo paræe, parece que,
r8, mouÀsco: mouro que tinha abraçaclo-a religiâo
cristâ.
rg, traça: plano. t7, tomar lingua: tomar informaçôes, espionar, ca-
25, algeruaias: trlnicas mouriscas. tivando o inimigo.

qo
9r
cor,LcÇrto DE cLasslcos sa DA casTA ANAIS DE D. TOÂO III

de as nâo perderem fez que se apartassem quatro Assi de oito escaparamsô dous, foram mortostrês;
a buscâ-las; mas nâo correram muita terra quando e os outros três, sendo levados diante dcl-rei, man-
foram dar de rosto com o campo del-rei, de que nâo dava que fôssem entreguesaos parentes do pastor
se podendo desviar, foram logo mortos dous e dous das vacas, pera se vingarem nêles, se nâo acudira
cativos. Os outros quatro sintindo de longe e mais 5 Muley Abrahem, que também os livrou aqui da
5
a tempo a estorpiada da cavalaria, trataram de se morte. E é de saber, pera que entendamos qual é
salvar cada um como pudesse.Puseram o rosto no o 6dio dos mouros pera um cristâo, que tendo êste
Furadouro de Almenara; e foi cousa digna de con- rei setenta anos de idade e sendo tâo grande senhor,
sideraçâo quc, nâo tendo mais remédio pera esca- como teve rebate dos almogâvares, correu três lé-
ro par clc muitos mouros, que se soltaram da compa- ro guas em noite fria e chuvosa, sô por lhe nâo esca-
nhia clcl-rei trirs ôles, que a bondade dos cavalos, parem e ser êle o que os cativasse ou matasse.
sd aqueles sc perderam que os traziam mais ligei- Sâo os mouros grandes seguidores da vit6ria,
ros. quando a guerra os favorece, assi como fracos e
Dêstes foi um Miguel Lopes, criado do capitâo, desanimados, quando levam a pior. Nâo quis el-
rj que levando o milhor ginete que havia em Atzila, 15 -rei largar o pôsto do Xercâo, onde se achava,
apertou tanto com êle na subida âspera do Fura- sem fazer novo acometimento. Mandara o capitâo
douro, que quando foi na terra châ, afracou e re- da vila tomar as atalaias altas, pera ver se podia
bentou, Chegaram os mouros e nâo houve nenhum saber se tinha el-rei despejado o campo; e confia-
que the perdoassesua lançada: ficou logo morto. damente saiu fora e se foi ao facho desarmado, le-
zo E o mesmo lizeram ao cavalo, vendo que nâo era ::o vando-lhe um pagem sua lança e ûa saia,de malha:
de servir. Nâo ia pior encavalgado Jorze }Ianuel. e mandou trazer w gaviâo pera lançar aos passa-
Era o cavalo mourisco, muito alentado e corredor; rinhos. Nâo hâ drivida que foi isto pera em tal
mas levava maior carga do que sofria tâo larga cor- tempo muito descuido ou mais confiança do neces-
rida como traziam. Era Jorze Manuel homem gran- sârio. Porque os inimigos, como tinham seu rei
z5 de, grosso e pesado; vinha a cavalo abafando de :5 consigo e estavam ufanos com o sucesso do dia
cansado; e emfim foi alcançado dos que o seguiam: dantes, assi se vieram aos nossos, que eram trinta
e por sua boa ventura ficou vivo, porque se abra- de cavalo, que sairam com o adafl, que afirmava
despois o..capitâo que nunca vira em mouros tâo
çou com êle um mouro, que tinha entre n6s um ir-
mâo cativo, e o defendeucom gritos e até com a es- ardente arremetida
jo pada e ajudando-o Muley Abrahem; como magnâ-
nimo que era e nobre de condiçâo.
rg, facho: ïacho para avisar do inimigo.
22, Pela eiix tal tempo. Note-se o uso da dupla pre-
posiçâo, que é um dos caracteres do estilo de Frei Luis
6, estorpiada: tropel. de Sousa.

92
I

couicç.4o DE cL,4.ssrcos
sa DA coslA ANAIS DE D. IOÂO rrI

Vinham diante três sobrinhos do alcaide de Alcâ- deira no facho a dar vista à vila. E daqui manda-
cere, cada um por si valentes cavaleiros. Aperta- ram Muley Abrahem e o alcaide visitar o capitâo,
ram tâo temerâriamente com os nossos, que ainda parte por cortesia entre êles costumada e parte pera
que o adafl f.ez volta sôbre êles, achou tapta gente darem principio ao resgate.dos cativos.
5 e tal inteireza nela, que lhe pareceu forçado fazer
retirada por se nâo perder de todo; e assi se vêo CAPI TULO XVI
pera os valos, deixando morto de muitas lançadas
um bom cavaleiro, que Bastiâo Alvares havia no- De ûa venturosa entrada que lez em terra de
me, e de outras tantas o correeiro Atalaia e Sancho mouros o capitâo de Azamor
ro de Rebelo. Era Sancho de Rebelo moço de grandes
esperanças,natural da vila e filho de Pero de Re- 5 Nâo foi grande feito pera um rei, nem grande
belo, que quando em tempos atrâs foi o saco da afronta pera ûa pobre vila, perseguida tanto de fres-
vila, morreu sôbre o muro, por nâo deixar o lugar co de males do céu e da terra, a morte e cativeiro
que lhe fôra encomendado. Chegaram os mouros, dos poucos homens que temos contado. Mas se al-
15 apertando com o adafl, a romper os valos e jo- gûa vangldria ensoberbeceu os mouros de Alcâcere
gar de través lanças de arremesso; mas bem o pa- ro com êste nosso desar, bem lha fizemos abater, sem
garam, porque a artilheria os começou a varejar ao se meterem muitos dias em meio. E ainda que
longe com dano de muitos; e os nossos ârcabuzeiros a vingança fôra de mais gôsto, se a devêramoJ a
e bèsteiros, como era em gente junta, nâo faziam nossas mâos, lavando-as no sangue dêstes vizinhos,
zo tiro perdido- basta que foi tomada polas de nossos irrnâos, e em
Houve de nossa parte muitos feridos e entre êles r5 gente que tratava de obedecer e servir ao mesmo
o contador Fernâo Caldeira ficou com a mâo direi- rei de Fez, que nos fez o mal,
ta cortada. Ensopando a lança em um mouro, vêo 4... léguas de Azamor e... de Marrocos corre ûa
no mesmo tempo sôbre êle um golpe de espada grande e estendida comarca de boa e fértil terra,
e5 doutro mouro, de tanta fôrça, que lhe cortou o que os naturais chamam Enxouvia, muito abun-
dedo polegar e outros dous mais, até entrar pola ;o dante de gente, rica de pastos e manti,rnentos. f,i-
haste da lança. Foi também ferido o adail de ùa nha nela primeiro lugar, polos anos em que vamos,
lança de arremêsso, que falsando-lhe as couraças um xeque por nome Alimimero, tâo poderoso, que
lhe passou o corpo de ûa parte à outra; e a trouxe sô de gente sua e de seu serviço punha em campo
3o empenada emquanto durou a briga com assaz gen- mil homens de cavalo; e juntava de vizinhos e ami-
tileza. Sôbre tarde apareceu el-rei com sua ban- zj gos que lhe obedeciam cinco mil, tôdas as vezes

30, empenada: espetada no corpo como uma pêna, 22, xeque: chele rnoure.

94 95
tI
COLITCÇ.4O DE CLASVCOS SA, DA COSTA ANArS DE D. rIr
JOA.O

que lhe compria. E como conhecia suas fôrças, modidades de serra e bosques; porém pela mesma
nunca s€ tinha humilhado a el-rei de Fez, ngm razâo mais dissimulado pera o efeito: e assi foi
tratou de lhe dar obediência. Todavia andando o seguido.
tempo se vêo a persuadir que lhe estaria bem fazer Partiu Gonçalo Mendes Sacoto um sâbado, pri-
j com êle amizade e pazes, obrigado da cobiça de
5 meiro dia de novembro, e'tardou em chegar até a
por esta via se fazer senhor do lugar de Tageste. têrça feira, que foi amanhecer duas léguas àquem da
Corriam medianeiros e recados de ûa parte à outra, vila de Salé, donde começou a entrar polos aduares
por maneira que emfim de outubro dêste ano estava inimigos, a tempo que Alimimero era ido a cerrar
o neg6cio tâo apertado, que nâo faltava mais pera seus concêrtos. Polo que, como faltava cabeça
.ro rematc, que ir o xeque ver-se com os comissiirios tc certa, a quem obedecer, e os nossos entraram quâsi
del-rci, em certo lugar que tinham aprazado. sem ser sintidos até estarem sôbre os aduares e dali
Foi avisado de tudo Gonçalo Mendes Sacoto, que começaram seu assalto, com um temeroso ruido de
ainda governava a cidade de Azamor; e parecendo- trombetas e atambores e espingardaria e com vozes
-lhe conjunçâo de poder fazer um honrado feito, misturadas de cristâos e mouros, que feriam o céu,
15 emquanto durava a irresoluçâo dos concêrtos, e 15 nâo havia em todo aquele grande povo senâo mêdo,
polo mesmo caso se vivia em tôda a Enxouvia com desordem, terror e confusào. Todavia se foi jun-
descuido, como era cavaleiro de grande valor e tando, entre setexequesque na terra havia, um bom
ânimo, nâo quis perder o que o tempo lhe oferecia corpo de gente, que, vindo encontrar os nossos,
quâsi sem perigo e como jâ feito. Pôe a ponto mostraram valor e ânimo em defender, desesperada-
eo cento e oitenta de cavalo, que capitaneava; e vinte zo mente e sem fazer pé atrâs, seu povo. Masforamdes-
que lhe mandou de Mazagâo o capitâo Antônio feitos e mortos todos, como gente tumultuâria e mal
Leite, a cargo de Ant6nio das Neves, seu cunhado, ,apercebida. E entâo nâo houve mais de parte dos
com que fez duzentos; e cem bèsteiros e espingar- aduares que fugirern homens e mulheres, a quem
deiros de pé. E juntando a êste nûmero cincoenta mais podia, contra ûa ribeira que os atravessava,
z5 cavalos do xeque Acoo dos mouros de paz con-
25 cega de arvoredo e fragosa de penedia, que foi sal-
fidentes, e mil homens de pé, nâo duvidou acometer
vaçâo da maior parte do povo; e da nossa parte
alegremente a entrada.
estenderam-setodos a roubar e fazer-se ricos.
' Dous caminhos havia pera ela. Um pola corda, Foi o saco grossfssimo, porque se em Berberia
como dizem, outro polo arco; o primeiro pola praia havia algùa terra que estivesseinteira e prôspera de
jo do mar, mais breve, mais seguro e defensâvel; o
;rr tudo o que entre mouros se possue e preza, era esta.
segundo polo sertâo, mais largo e com algûas desco-

25' mouros de paz conlidentes: mouros aliados i.-


7, ad,uares: aldeias de mouros.
amigos.
25, cega de aruored,o: com espesso arvoredo.

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coLECÇÂO DE CLASSTCOS 5.4. DA COSTA AAIAIS DE D, TO,4O III

I Como gente poderosa e que se atrevia a viver fora como homens de recado, vinha na retaguarda e em
da obediência dos reis de Fez, nâo s6mente nâo ordem de guerra pera o que podia acontecer, apro-
eram garramados, mas êles garramavam e rouba- veitaram-se da confiança e da ocasiâo e vieram rou-
vam a seus vizinhos. Deu-se pressa o capitâo, como bando como infiéis tudo o'que puderam. E ainda
5 prudente, em recolher os seus e carregar tôda a 5 que o capitâo como homem prevenido e que sabia
presa, que se pôde em poucas horas juntar, antes quâo pouco devia fiar de tal gente, mandou diante
que se desserebate ao longe. Afirma-se que se trou- tomar um passo, que chamavam o Vau do Duque,
xeram dous mil camelos e de gado vinte mil cabe- ond€ houve às mâos duas barcas e alguns camelos
ças, afora seiscentoscativos, entre homens e mulhe- que jâ levavam carregados dos furtos do caminho,
ro res, em que entraram a mulher de Alimimero e as ro e polo tempo adiante foi tirando dêles muitas cou-
de dous filhos seus, que se salvaram da peleja sas de preço, - com tudo, como maiores ladrôes,
muito feridos. sempre ficaram mais aproveitados que os nossos.
De roupa houve fermoso despojo. Muitos capilha- Nesta retirada, pera que tudo sucedessepr6spera-
res e marlotas de sêdase panos finos; muitas cami- mente ao capitâo Gonçalo Mendes, lhe vêo cair nas
.r5 sas 'de zarzagitania, que entre mouros sâo particular 15 mâos ûa quadrilha de doze almogâvaresde pé, que
louçainha; grande nûmero de alcatifas e jaezes de se recolhiam pera Salé, donde eram moradores. E
cavalo custosos, estribeiras e cabeçadasde prata. Sô vendo-se perdi'dos com tal encontro, lançaram mâo
de dinheiro € prata lavrada acharam os nossosmuito das armas, a ver se, resistindo, teriam lugar de se
rnenos que imaginaram e do que desejaram. Mas salvar entre ùas rochas que à vista estavam sôbre
zo esta parte tocou tôda aos mouros de pazes que nos 20 o mar. Mas saiu-lhes o conselho errado: foram logo
foram acompanhar; que, como ladrôes de casa e que mortos sete às lançadas; e os cinco que se renderam
' sabiam onde haviam de buscar e achar as cousasde tardaram pouco em seguir os companheiros. Por-
preço, alcançaram o melhor. E afirmavam os cati- que se soube de três cristâos, que cativos levavam,
vos que foi fi.a mui grossa cantidade; da qual inda que de fresco tinham salteado um barco de Castela
z5 -nâo contentes, como a cavalgada caminhando to- zS na rio de Azarnor, em que deixavam mortos nove
mava ûa grande légua de distância e se lhes entre- homens. Correu logo ûa voz gemù que se nâo desse
gou pera alazerem andar, por quanto a nossa gente, vida a nenhum. Ao que se juntou s€rem conhecidos
por grandes almocadéns, manhosos e arriscados e
que como tais tinham feito m'uito dano em gente
gawamad,os: sujeitos a tributos.
3, 3o da cidade. Foi sua desgraça acharem tanto povo
13, capilhares: vestes de gala, usadas sôbre a mar- junto e tantas testemunhasde seusmaus feitos, que
14, marlotas: ûinicas de mouros.
15, zarzagitania: tecido oriental?
t6, louçainl'ta: louçania, arrebique, r, d,e tecado: prudentes, cautelosos.

98 99
COLECÇÂO DE CLASSICOS SA DA COSTA ANArS DE D. rIr
IOÂO

nâo pôde o capitâo estar pola boa lei da guerra e CAPI TULO XVI I
perdoar-lhes a vida, como quisera.
Diligência fizemos por alcarrçar os nomes das
Sucessosda lndia: Governador - D. Duarte de
pessoasde mais conta, que neste feito se acharam,
Meneses. Levantamento del-rei de Ormuz e
S pera lhe darrnos memôria. Nâo pudemos descobrir cêrco que pôe à fortaleza
mais que Francisco Botelho, Duarte da Cunha,
Vasco da Silveira, Diogo Leite, Bastiâo Leite, o Segundo a ordem que temos proposto, de darmos
feitor Martim Alonso de Fonseca e Carrion. Era
conta dos estados que reconhecem por cabeça o rei-
ouvidor na cidade um bom letrado, a quem o ofi-
no de Portugal e do que nêles achamos digno de
zo cio <Jajustiça c a profissâo dos livros desobrigavam
mem6ria, é tempo de dizermos algûa cousa do que
,das cmprôsas arriscadas da guerra. Mas, vendo
5 nesta conjunçâo se fazia polos nossos naturais em
posto a cavalo seu capitâo, nâo houve cousa que Asia, na conquista daquelas estendidas terras e ma-
lhe tirasse vestir num arnês, subir em um bom gr_
res da fndia, advirtindo primeiro ao leitor que se-
nete, empunhar sua lança e acompanhâ-lo. E no
guiremos nesta parte o famoso escritor Joâo de Bar-
z-5 tempo da briga soube dar tâo boa conta de si, que
ros, emquanto nos durar escritura sua. E abrevia-
mereceu lembrar-se dêle quem fez a relaçào que se
/o remos as matérias quanto a calidade delas consintir,
inviou a el-rei; mas descuidou-seno nome, que por
visto andarem escritaspor muitos autores.
ventura por muito conhecido nâo devia especifi-
Era chegado por governador D. Duarte de Mene-
car e eu muito estimara saber, pera ficar n"r[". er_
ses, filho herdeiro de D. Joâo de Meneses,conde
eo critos, por gl6ria das boas letrai, que sabido é que
de Tarouca e Prior do Crato, tirado por el-rei
. sempre deram lustre às arrnas. Mas por honra delas 15 D. Manuel da capitania de Tângere, pera ir suceder
e dêle e dos mais vencedores,lançàremos acui os
na governançada India a Diogo Lopes de Sequeira.
nomes dos xeques desbaratados,que sâo os sËzuin-
Tinha procedido D. Duarte em Tângere com crédito
tes: Josef Ben Mahamed, Barahào, Ali-Ben i{ar_
de valente braço e maduro juizo, que se teve entâo
25 bian, Josef Ben Bucibael Gueila, Mahemad Ben_ pola mais acertada eleiçâo que s€ podia fazer no
-Abuu, Azus Ben Mahamed Ben Maleque, Hamed zo reino. Levou consigo ûa armada de doze naus com
99" Maleque Barahao. Eram sete: po.èm dos que muita e boa gente, de que eram capitâes êle e
' dêles e do povo morreram na refregâ nâo pudemos
D. Luis, seu irmâo, que neste tempo servia ao prin-
alcançar nomes nem nûmero cipe no cargo de monteiro-rn6li D. Joâo de Lima,
filho de Fernâo de Lima, alcaide-m6r de Guima-
z5 rà,es, que ia pera capitâo da fortaleza de Calicut;
D. Diogo de Lima, filho do visconde D. Joâo de
Lima, pera capitâo de Cochim; Joâo de Melo da
Silva, filho de Manuel de Melo, alcaide-môr de Oli-

IOO
COLECçÏO DE CLASSICOS SA DA COSTA ANArS DE D. IO.4O III

vença, pera capitâo de Coulâo; Francisco pereira se fabricava cercado de inimigos, nâo andava o mar
Pestana, filho de Joâo de Pestana, pera capitâo de mais pacifico, como adiante veremos; e acontecia
Goa; D. Joâo da Silveira, filho de D. Marlinho da aos edificadores irem assentando com ùa mâo os
Silveira,- pera capitâo de Cananor; Diogo de Sepfl- materiais e com a outra 'esgrimindo a espada ou
5 veda, filho de D. Joâo de Seprilveda, pera capitâo 5 brandindo a lança. Conseguintemente foi D- Duar-
de Sofala; Martim Afonso de Melo, filho de jorze te despedindo os fidalgos que vinham providos de
de Melo, I-ageo d'alcunha; Gonçalo Rodrigues Cor- fortalezaspor el-rei, cada um pera a que lhe tocava.
rea de Almada, armador da pr6pria nau em que ia; Entretanto acudiu Diogo Lopes a Cochim. E por-
e Vicente Gil, filho de Duarte Tristâo, também que tinha provisâo del-rei pera nâo largar o cargo
lo armador da sua nau; e Ant6nio Riio em um navio.
zo emquanto estivessena India, vêo a fazer a entrega
com quc havia de acompanhar a Diogo de Seprilve-
a D. Duarte em 22 de janeiro de t5zz.
da a Sofala e ficar por alcaide-mdr e feitof deh, No fervor e pressa de sua partida e na carga de
pera se vir no mesmo navio Sancho de Toar, que oito naus que o haviam de acompanhar entendiam
lâ era capitâo e acabava seu tempo. ambos os governadores com igual cuidado, quando
rS Chegou D. Duarte com tôda esta frota em salvo. .r5 entrou no porto quem tho deu maior a êles e a todo
E p-orque o governador Diogo Lopes de Sequeira o Estado da India. Foi Joâo de Meira, que vinha
residia em Chaul, assistindo na obra da forlaleza em ùa caravela, em que andava de armada no mar
que a[ fazia e the nâo podia ir logo dar entrega da de Ormuz, mandado por D. Garcia Coutinho, capi-
j

governança, quis êle começar a exercitâ_la, pera tâo da fortaleza, com aviso da mais estranha e me-
zo dar lugar aos capitâes, que haviam de vir nas naus zo nos cuidada treiçâo daquele rei que se podia espe-
de viagem pera o reino, de se aperceberem e pode_ rar, se entre mouros e pera com cristâos sâo de es-
rem partir da India com cêdo, _ cousa que. iendo tranhar treiçôes. Passou assi:
a mais entendida de quantas hâ na Indiâ, p"ru ," Domingo, primeiro dia de dezembro do ano de
ganfg a viagem, é desgraça nossa sem reméàio que r52r, no maior silêncio da noite, deram no mar
e5 nenhû.a menos se segue. Despachou primeiro seu ir- 25 sôbre dous navios nossos, que eram ûa galeota e
L-ufs, que levava por el-rei o cargo de capi_ fla caravela, oito terradas de gente armada. Havia
Tâo P.
tâo-môr do mar, pera que fôsse assistir Ct uoi descuido entrc nôs, como em terra de paz e de nossa
'.
Diogo Lopes de Sequeira se pudesse vir"* a Cochim" obediência. Nâo se achavam mais na galeota que
tratar de sua embarcaçâo. alguns marinheiros, que espantados do sobressalto
jo Estava a terra de guerra e havia mister grande
fôrça de nossa parte. Porque, sendo o sitio eirl que
3o e picados das frechas dos acometedores, se lança-
ram ao mar, e ficou logo em seu poder. Defenden-

r 3, entendiam: estavam ocuPados.


29, embarcaçdo: embarque. 26, tevrad,as: navios pequenos.

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COLECÇÂO DE CLASSICOS SA DA COSTA ANArS DE D. IOÂO IIt

do-se melhor a caravela, contentaram-se com dar fazia conta que tinham a presa certa. A ferro e fogo
fogo à galeota e começaram por ûa cantidade de desfizeram os conjurados tôdas as portas; a nenhum
folhada de palma (chamam-lhe ola) que acha- português perdoavam a vida; e aos que se defen-
ram sôbre a craxia (fezeram conta que isto bastava diam faziam saltar polas jànelas, ou afogar na fu-
j pera arder o vaso), e deram volta pera terra.
5 maça que saia do fogo, que por muitas partes junta-
Apôs o fogo da ola, que levantou grande laba- mente puseram.
reda, como se fôra sinal de rebate concertado, come- Era grande a revolta, grande o furor do povo;
çou a soar da tôrre alta do Alcorâo um som muito e o estrondo das armas e o sangue tanto, que re-
picado de bacia d,earame, que um mouro com fôrça presentava tudo ûa terra que assolavam cruéis ini-
ro badalejava, juntando altas vozes, que diziam em sua ro migos. Neste conflito teveram remédio sô aqueles
lingua: rrmata!matalr. Logo se foi ouvindo por tôda que se acharam com corpo de gentedecompanheiros
a cidade ûa confusa chocalhada do mesmo arame e ou criados: tomaram suas annas, lizeram rosto com
bacias, que, segundo se mostrou, foi segundo aviso valor aos traidores e, animados da desesperaçâo, sai-
em lugar de pffaros e atambores pera se juntarem ram polo meio dêles em d'emanda da fortaleza, ma-
15 os conjurados, que eram todos os mouros que po- rj tando uns e ferindo outros. O feitor Inâcio de Bu-
diam tomar armas. Porque logo foram acudindo lhôes foi o primeiro qu€ se determinou com seus
em esquadras: uns a arrombar as portas dos portu- oficiais e criados a morrer antes no campo que
gueses,moradores da cidade; outros a.tomar as da afogado de fumo ou queimado do fogo; e por outra
fortaleza, pera estarem em cilada e colherem nelas, parte Manuel Velho com os seus fez outro tanto;
20 como em rêde, os que escapassemda cidade. :o e todavia nâo passaram sem lhes custar muito san-
' Viviam entre os mouros grande nrimero de gente gue e muitas feridas, nâo sô ao sair da estreiteza
nossa, como eram todos os oficiais da alfândega, das ruas, mas também ao entrar na fortaleza, to-
que o governador Diogo Lopes de Sequeira dei- pando com outros inimigos e gente fresca e bem
xara assentada; e muitos mercadores e chatins e armada.
25 até soldados, que pertenciam à fortaleza e aos na- .'t Passou-se a noite na fortaleza com grande des-
vios da armada. Iinham os mais sua morada em consolaçâo e dor pola muita gente que nos faltava;
, três partes distintas: uns em îia casaria grande, que até que a luz da manhâ foi descobrindo grandes
os da terra chamavam Madrassal, outros em um nuvens de fumaça, que em novelos se subiam ao
hospital nosso; e o resto nas casas da feitoria. Aqui céu, das casas que todavia ardiam. Do que jul-
3o foram acometidos com alarida e festa de gente que 1r gando o capitâo que poderia inda haver algûa gente

J' ola.' fôlhas de palmeira.


4' cra*ia- Tê,rmo de significaçâo desconhecida. 29, todauia: ainda. Parece castelhanismo, com esta
chatins: comerciantes indianos. signi{icaçâo.

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COLECçAO DE CLA.SSICOS SA DA COSTA ANArS DE D. IOÂO III

nelas escondida, mandou vinte cinco valentes ho- dolhe ao segundo dia Joâo de Meira na sua cara-
mens, gue se atreveram a entrar polo meio da vela, como temos visto.
cidade levantada; e ainda que tôda junta foi Entretanto foi a fortaleza cercada por mar e terra.
sôbre êles e houve de ambas as partes mortos e feri- Porque el-rei, quando assentou levantar-se, tinha
5 dos, salvaram alguns que acharam vivos no Ma- 5 mandado em segrêdo tomar a soldo na terra firme
drassal. três mil frècheiros; e com estese tôda a mais solda-
Apds esta diligência, foi segundo cuidado do capi- desca que na cidade havia, ordenou suas estâncias
tâo mandar a Francisco de Melo e Joâo de Meira em tôda razâo de guerm: de sorte qu€ no mar nos
que recolhessem pera junto da lortaleza e debaixo queimaram as suas terradas a galeota, que do fogo
ro da artilheria a caravela e galeota de que eram capi- ro da primeira noite tinha escapado, sem lhe poder-
tâes. O que logo fizeram. Porque é de saber que o rnos valer, como ficou desacompanhada da cara-
fogo da galeota, antes que penetrassepola madeira, vela. E juntamente se fizeram senhores de ûa nau
foi apagado, tanto que as terradas se afastaram, carregada de mantimentos (que foi maior dano),
por um moço que dentro ficou escondido. E por que de Chaul vinha pera D. Garcia. E por terra se
z5 mostrarem brio aos inimigos, foram-se logo ao z5 chegaram tanto aos nossos muros, que n-enhum ho-
porto e em seus olhos queimaram algûas naus de mem descobria a cabeça que logo nâo fôsse frècha-
mouros que nêle estavam e salvaram ùa nau de do. Ao que s,ejuntava sua artilheria, que assestada
Manuel Velho, que, carregada de tâmaras, estava em lugares acomodados,por traça de um turco que
de verga d'alto pera partir pera a India; e serviu fazia oficio de engenheiro, jogava de dia e de noite,
zo a ftuita pera sustentaçâo no cêrco e a madeira pera zo e o mesmo fazia um trabuco que tirava das casas
. reparo nas muralhas. del-rei. Mas nenhfla cousa fazia tanto pavor, como
Mas era grande a confusâo entre os nossos. Por- a falta que dissemos de âgua e vitualhas pera pas-
que, além de nos faltarem mais de vinte portugue- sar a vida, e de p6lvora e mais muniçôes pera de-
ses, que entre o fogo e armas dos levantados pere- fender do inimigo; fazendo-se juizo que sem outras
25 ceram, havia notâvel falta de mantimentos e mu- 25 armas nos poderia tomar às mâos, em caso que
niçôes; e tâo pouca âgua na cisterna que, por que tardasse socorro.
a gente nâo desesperasse, vindo à sua notfcia, tomou Assi se foi passando o mês de novembro e dezem-
o capitâo a chave e fechou-a. Do que tudo mandou bro, trabalhando os nossos de dia e de noite em
larga relaçâo ao governador D. Duarte, despachan- lazer reparos e vigia contfnua; quando o Senhor
3o Deus foi servi'do consolar os cercados, na mesma

3, Ieuantada: revoltada.
13, terrad,as: pequenos barcos de guerra, usados no 20, trabuco: engenho (re guerra que servra para
Oriente. atirar pedras.

to6 r07
it

*i]
,lil
coLECç.4O DE CLASSTCOS SA DA COSTA ANAIS DE D. IOAO III

noite e hora de seu gloriosissimo nacimento em car- os passava e conhecia o prémio certo que com êles
ne humana. Entrou em salvo e quâsi sem ser sin- grangeava.
tido, por meio de cento e sessentaterradas que sô- Nâo tardaram em chegar os dous navios, compa-
bre a fortaleza velavam, um parau cheo de boa nheiros de Tristâo Yaz, qae dêle se tinham apar-
5 gente portuguesa e muitos manti.mentos, capitâo 5 tado com tormenta mais que três dias: amanhece-
Tristâo Yaz da Veiga, que, quando soube dô le- ram a terceira oitava de Natal, surtos, duas léguas
vantamento em Mascate, onde estava em negôcios da forlaleza, à parte da ilha de Quéixome. Sintiram
pera que fôra ali deixado polo governador Diogo logo os cercados grande alvorôço entre os inimigos,
T.opes de Sequeira, logo se determinou com o capi- aoercebendo-semuitas terradas pera irem sôbre eles;
ro tâo-m6r Manuel de Sousa de Tavares e Fernâo Vaz zo e toman'do conselho no que em ial caso se devia fa-
Samache que se viessem todos três socorrer a seus zer, porque sabiam que a nau de Manuel de Sousa
irmâos. vinha falta de gente, que por se levantar de Ca-
Entâo contou como o rei infiel mandara recado laiate, com fôrça de tempo, lhe ficara em terra a
aos guazis das vilas de sua jurdiçâo que matassem maior parte, assentaram que Tristâo Vaz no seu
15 todos os portugueses; e, se nâo fôra em Mascate, 15 parau, com seus soldados e muitos outros da forta-
onde o guazil com tôda a terra tomou a voz del-rei leza, que folgaram de o acompanhar, se fôsse dar
de Portugal, todos os mais foram tâo pontuais na favor aos que os vinham socorrer.
maldade, que, sem dar tempo de passar a fama de Nâo fez dilaçâo Tristâo Yaz em sair e com o remo
um lugar a outro, padeceram nas terras de Soar, em punho ir-se a tôda frîria dern-andar os navios;
zo Calaiate e Baharém nrimero de cem portugueses, 30 nem tardaram em se ir trâs êle com a mesma dili-
afora cativos. Entre os quais nos merece o escrivâo gência oitenta terradas atulhadas de soldadesca'
da feitoria de Baharém, Rui Boto, que honremos Afirrn-a-se que vendo el-rei a temeridade com que
sua memôria, ccymoêle honrou sua pâtria. Sendo Tristâo Yaz em bom dia claro se atrevera a deixar
tentado com promessas de vida, se quisesse trocar o abrigo da fortaleza, dissera a Coge Mahamud, seu
z5 a f.é de Cristo pola seita de Mafamede, abominou :5 capitâo, que lhe fôsse trazer polas orelhas aqueles
como born português e bom cristâo a oferta e es- doudos, ou desesperados,e encomendasseaos seus
colheu antes ser martirizado, como foi com muitos que nâo matassem nenhum; que todos queria vivos.
e mui exquisitos géneros de tormentos; e todos pa- Quando êste capitâo acabou de sair, levava jâ
deceu nâo sd com valor e constância de valente Tristâo Vaz grande dianteira. Mas as terradas se de-
3o cavaleiro, mas com alegria de quem sabia por quem .io ram tenta pressa em vogar, que foram brevemente
com êle. E logo lhe lançaram em cima tantas fre-

7, Quéixonte. Veia-se mais adiante a sua locali-


t4, t6, guazil: governador de localidade, entre os ârabes, zaçâo.

ro8 r09
COLECÇÂO DE CLASSICOS SA DA COSTA ANArS DE D. JOÂO rrr

chas que se nâo viu chuva de inverno mais espessa, CAPTTULO XVI I I
ajudando-se, à volta delas, de algûas peças de arti-
lheria que levavam. Porém êle, tanto que as teve Acometem os mouros de novo as nossâs embar-
a tiro e bem apinhadas, que até entâo nâo quis caç6es: e sâo de novo desbaratadoscom segunda
5 perder p6lvora, começou a varejâ-las com sua arti- e famosa vitôria. Despeja el-rei a cidade com
lheria e arcabuzaria, amiudando ûa carga sôbre todo o povo, e manda-lhe pôr fogo
outra com tanto tino e sem perder tiro, como a gen-
te e barcos eram tantos, que nenhum se atrevia a Nâo era menos em el-rei o sintimento. Abafava
abalroâ-lo. Nesta pressa com que Tristâo Yaz pro- de indinaçâo e raiva, jâ contra os conselheiros do
ro curava ch,egar aos seus e os mouros a êle, foi a levantamento, jâ contra os pobres soldados. Àque-
briga tâo travada e crespa, que cairam mortos dos les chamava verdadeiros traidores e destruidores
inimigos mais de trinta, dos mais atrevidos, e entre 5 de seu estado, que o obrigaram com fundamentos
êles o capitâo Coge Mahamud. de malicia a perder a paz descansada em que vi-
Chegou emfim Tristâo Vaz a juntar-se com Ma- via, Aos soldados, gente fraca, vil e sem honra,
.r5 nuel de Sousa; mas foi caso gracioso que êle lhe pois sendo tantos, que sô com o bafo podiam meter
mandava tirar c.omo a inimigo, receando-se que no fundo o nosso parau, nâo houvera nenhum que
podia o parau vir de falso e ser artificio de mouros ro lhe pusesseo pé dentro. - aQue esperança- dizia
pera o enganarem; até que levantando-se Tristâo - poderei ter que subais vôs outros aqueles muros
Yaz em pé, como era conhecido por de granrle esta- altos, ou me rendais êssesencastelados, se em sal-
zo tura, emfim foi recebido na nau. Como foram iun- tar o bordo de ûa pequena barca achastesdificulda-
tos, desesperaramos inirnigos de fazerem mais eieito de? Logo, subindo a cavalo e com um bastâo na
contra êles. Resolveram-se em mandar a terra os r.; mâo, se foi à praia; e mandando que nenhum ho-
corpos mortos, ou pera terem sepultura, ou pera mem ficasse em terra, lez sair de novo cincoenta
ver el-rei nêles o que se tinha trabalhado; e man- terradas e embarcar nelas à sua vista a m6r parte
e5 dasse que queria fizessem de novo. dos mires, que o acompanhavam (sâ.omi.resos seus
A vista dos defuntos vâriamente despedaçados fidalgos ilustres). Mas primeiro usou de um têrmo,
causou na cidade um tâo excessivo clamor e pranto io que lhe pareceu seria poderoso pera esforçar a
que foi ouvido dentro na fortaleza e celebra.docom todos.
som de trombetas e estrondo de alegres folias, com Mandou vir duas mesas. ta lez luzir de ouro e
30 qlJe os cercados davam graças a Deus pola witôria prata em vârias moedas; a outra cobrir de touca-
e procuravam acrecentar mâgoa nos traidores. dos de mulheres, Era costume dos persas, usado
.'5 naquele tempo, ao homem que lana vileza na guer-
ra, enfeitarem-no com um daqueles toucados, pera
2, à uolta delas: a7êm delas. sinal de perpétua infâmia. Prometia o rei ûa cousa

ITO

l*-. : . ! *d
COLECçÂO DE CLASSICOS SA DA COSTA ,,tIrArs DE D. JOÂO rII

e outra a todos; mas de rnelhor vontade a prata e maneira que s6 elas levassem tôdas três embarca-
ouro e em cima honras e mercês aos que entrassem çôes. Dada esta traça, como todos três capitâes
os nossos navios. E ap6s isto subiu-se a um teso cram mui esforçados cavaleiros e tinham consigo
sôbre o mar, donde fôsse visto dos que iam e êle gente animosa e determinada, esperavam alegre-
5 pudesse notar o que faziam. Voavam, nâo rema- i mente o inimigo, que nâo tardou èm cnegar qiâsi
vam as cincoenta terradas, que levavam a flôr da ao mesmo tempo que soltava as velas a viraçâo, que
côrte, até se juntarem com as oitenta; e fizeram um começava a assoprar,
cardume que coalhava o mar. Foi o acometimento dos mouros bravo e teme-
Estavam os da fortaleza pendurados sôbre as rârio e como de gente que estava aos olhos de seu
ro muralhas, suspensose receosose considerandoque to principe e nâo lhe esqueciam suas promessas e
se Deus nâo acudia com suas miseric6rdias,parecia ameaças. A primeira cousa foi despedirem dos arcos
impossivel valerem-se contra tamanho poder três tantas nuvens de setas, à volta de muito fogo e ba-
pequenosnavios, em mêo do mar, que, segundoboa Ias de artilheria, que todos os três navios ficaram
conta, devia haver pera cada soldado nosso vinte cravados e juncados delas, e feridos a môr parte
15 ou mais mouros, E assi os encomendavam a Deus, i5 dos nossos que na fusta estavarni que como era
como quem fazia conta que na salvaçâo dêles con- rasa e sem mais reparo que seus peitos, recebiam
sistia a daquela fortaleza e de todos. Mas Manuel nêles tôda a frècharia. Neste passo se lançou sôbre
de Sousa deixando-se estar surto, emquanto tarda- a prôa da fusta Rayz Sabadim, que tinha pola ma-
va a viraçâo, com que havia de demandar o anco- nhâ prometido a el-rei finezas de sua pessoa, e fa-
eo radouro da fortaleza, apercebia-se pera o assalto, :o zendo-as de r,nerdade,se meteu polos nossos com
com atracar a fusta e parau ao bordo da nau, cada seis companheiros que levava escolhidos, tâo ardi-
vaso de sua parte, tâo juntos e apertados, que se damente que, entrados polo esporâo e por cima da
nâo pudessem alargar e ficassem em estado de ha- artilheria, corneçaram a subir polo bordo da nau,
ver passagem de um a outro e poderem-se socor* nâo faltando outros, que o exemplo obrigava.
25 rcr, havendo necessidade. Assi fez um género de Acometimento foi êste bem merecedor de ûa gran-
-t5
barbacâ e reparo de muito efeito pera os costados de h.rz; mas nâo o foi menos a defensâo. Dignos
da nau; e ordenou mais, pera se poder servir da uns e outros soldad'os, que teveram diante os reis
artilheria pera tôda a parte, que as prôas da fusta por quem trabalhavam. pue por muito que se es-
e parau ficassem contra a popa da nau, e por cima force a pena dos que relatamos.ossucessosda guer-
30 corresse s6mente a mar€agem das velas da nau, de Jr) ra, semprefica defectuosana representaçâodovalor,

à uolta da.' de mistura com.


2, entra,ssem: acometessem, pondo pé dentro. 26, Iuz: autéola de gl6ria.
3, faso.' monte. d,efectuosa no manuscrito da Aiuda.
5ur

I12 TI3
COLECÇAO DE CLASSICOS SA DA COSTA ANArS DE D. IOÂO IrI

das feridas, do sangue, das mortes. Porém aqui nâo deram muitos dias lenha pera se queimar na forta-
havia mais testimunhas que os mesmos que, como leza. Dos inimigos se soube d'espois que foram
em desafio e praça aprazada e cerrada, pelejavam. mortos, neste segundo assalto, oitenta e muitos mais
Porque o fumo da artilheria e arcabuzaria tinha o feridos.
5 céu e tôda a armada coberta de espessaescuridâo. j Na lortaleza entraram com triunfo de louvores
Estava muito ferido Femâo Vaz Sarnache e coln e espanto l\{anuel de Sousa e seus companheiros.
tudo sustentava o pew dos mouros no baixo da E côm tudo o capitâo D. Garcia, convèrtendo os
fusta; e Manuel de Sousa lazia o mesmo no bordo descuidos passados, de que muitos o culparn, em
da nau, pelejando todos pé a pê, a vivas cutiladas, ûa mui considerada providência,chamou no dia se-
ro e lança varada com tanta fiiria e teima de ambas as ro guinte a conselho e propôs aliviar a fortaleza de
partes, que mal se podia discernir donde ficaria tôda a gente inritil, como escravos, mulheres e mi-
a vit6ria. Aqui se lançou Tristâo Yaz de um salto ninos, que ajudavam a diminuir a âgua e consumir
dentro na fusta, e trâs êle outros valentes soldados; as poucas vitualhas que havia, nâo sendo de ne-
e ferirarn nos mouros de sorte que em fim os fize- nhum bom serviço no perigo presente. Dizia que
rj ram despegar do bordo da nau, e largar a fusta r5 embarcassem todos no navio de Manuel de Sousa
com morte de muitos. e fôssem caminho da India. Nâo sucedeu aqui o
Jogava entretanto a nossa artilheria, levando que é ordinârio nos mais dos conselhos:que em pro-
cabeças, pernas e braços, arrombarxdo terradas e pondo e .eclarando sua vontade o que preside,
metendo muitas no fundo; e fez crecer o pavor entre todos correm trâs seu gôsto. Era tempo de neces-
zo os inimigos, de sorte que houveram por seu partido zo sidade: ela ensinava a esqueceradulaçôes. Deter-
. ir-se alargando de nôs. E todavia, como a viraçâo minadamente o contradisseram os mais e melhor
. refrescava e ia levando os navios pera a fortaleza, entendidos.
nâo deixavam de se ir trâs êles frèchando e tirando; -Duas vitôrias-diziam- ganhâmosontem,ca-
até que sendo jâ o dia gastado e todos bem cansa- da ûa delas tâo famosa, que onde quer que fôrem
25 dos, o vento e maré meteu os nossosdebaixos da ar- z5 contadas, ou serâo havidas por fabulosas ou de
tilheria, que logo começou a lazer maior terror, milagre, como na verdade devemos confessar. Se
, disparando peças grossas e obrigou o inimigo a se estas, por beneffcio do Senhor, que no-las deu, e
afastar de todo e ir tomar repouso, que bem havia socôrro dêstestrês navios, nos tem rendido sermos
mister. Houve entre os nossos trinta e tantos feri- senhoresdo mar, cem que juiZo cabe desfazermo-
3o dos e nenhum morto, senâo foi um grumete negro, jo nos dos mesmos navios, despedindo com essa gente
caso sem drivida milagroso, como se pode julgar o maior e melhor dêles e encurtarmos o nrimero
do nLrmero de frechas que se colheram nos nossos dos defensoresdêstesmuros, pois de fôrça the ha-
navios e das que despois a maré foi levando à praia vemos de dar muitos pera sua defensâo? ;Que que-
da fortaleza; que foram tantas, que acho escrito reis que digam estes mouros, senâo que de puro

I14 II5
coLECÇÂO DE CLASSICOS S.{. DA COSTA Tff,4 1S DE D. IOÂO III

mêdo começamosa despejar esta praça, poucos e ria dos muros; e foram ordenando de novo ûas
poucos, - pois fazer tal despejo nâo tem outra estradas cobertas pera se chegarem a n6s sem pe-
sigaificaçâo? Se vitoriosos damos sinal de fragueza, rigo; e tendo feito disto quanto lhes pareceu bas-
;pera quando guardamos o brio e valor português, tante pera se poderem arrimar e escalar a muralha,
que nos maiores trabalhos costuma refinar-se mais? 5 amanheceram um dia sôbre ela com grande nûmero
O que cumpre é que donde estes traidores nos de altas esc,adase começaram a subir por elas os
acometiam até agora, sejam de hoje em diante de mais valentes, que foram rnuitos. Acudiram os nos-
n6s acometidos. Estâo cheos de covardia com o que sos ao perigo e a botes de lanças e chuças fizeram
ontem exprimentaram. Nâo entrarâ navio - que cair uns sôbre outros, com que muitos foram mor-
T O muitos hâo vir cada hora - que lhes nâo tomemos ro tos. E logo soltando sôbre os mais grande golpe
nas barbas: sobejarâo nâo s6 mantimentos, mas de panelas de p6lvora, queimaram tantos, que mal
riquezas de mercadorias. E se fôr faltando a âgua, de seu grado largaram o pôsto os que ficaram li-
ao seu despeito a iremos tomar dentro a Quéixome; vres do fogo, deixando o châo alastrado de corpos
que isto, senhor, é certo: emquanto formos senho- mortos e das suas escadas.
r5 r,esdo mar, sempre o seremos da terra. rS Devia el-rei confiar muito neste escalamento.
Nâo houve mais, ap6s estas razôes, senâo que Deixou-se entenderem que, despoisque viu o pouco
I logo assentaram que, providos os três navios de efeito dêle, nâo tentou nenhûa cousa mais contra a
l
boa gente, fôssem destruir e queimar a armada das fortaleza; e foi tomando novos conselhos e todos
I
terradas inimigas. Saiu com êles o capitâo-m6r Ma- de mais perdiçâo sua: por que se veja em que pa-
20 nuel de Sousa e foi sôbre elas com tanto terror 20 ram treiçôes. Resolveu com o xeque seu sogro e
dos mouros, que por fugirem o perigo as arrima- Mahamed Morado, seus principais conselheiros e
vam tanto à terra, qr-re o navio grande, com re- privados, passar a cidade com todos os moradores
ceio de dar em sêco, ficava tâo longe que lhes nâo çrera outra terra e outro sitio. Era a imaginaçâo e
podia danar. Mas os outros dous vasos tomaram discurso que, deixando êles a cidade êrma, farfa-
25 bastante vingança: porque, vindo demandar o porto zj mos n6s outro tanto à fortaleza. Porque, ficando
um Darau cheo de fazendas,em seus olhos lho abal- Ormuz sem gente, nâo tinhamos n6s pera que sus-
roaàm, sem nenhûas das terradas se atreverem a tentar muros e soldadesca em terra deserta.
socorrê-lo e o foram d'escarregarna fortaleza. O sitio que escolheram foi a ilha de Quéixome.
Desesperadosos inimigos de bom sucessono mar, Fica Quéixome à vista de Ormuz, em distância de
três léguas. Jaz sôbre a costa da Pérsia e tâo arri-
3o tornaram com tôdas suas fôrças a continuar a bata- ;o
mada a ela, que a cinge como ûa faxa; porque sen-

13, ao seu despeito.' apesar dêles, contra êles.


24, danar: causat prejuizo. 20, *eclt no manuscrito.

rt6 I17
COLECÇTO DE CLASSICOS SA DA COSTA AtlAIS DE D. JOaO III

do em demasia estreita, se estende ao longo da terra melhor da cidade estava feito brasa e cinza, se
firme por espaço de quinze léguas; tem muitas e c.mbarcou com toclos os seus. Entâo sairam muitos
boas âguas e fertilidade bastante, mas os ares sâo dos nossos a ver de perto o lastimoso estrago da
pera a saride pestilenciais. A tal terra trouxe a de- cidade, feito por mâo de seus naturais e de manda-
5 sesperaçâo e fôrça de maus conselhos êste miserâ- ç clo de seu rei. Outros foram buscar suas pousadas,
vel prfncipe. Mandou com pregâo priblico declarar a ver se achavam inda algûa fazen'da da muita que
sua mudança e amoestar que todos o seguissemcom todos tinhami mas tudo era ou trevado, ou feito
famiiias e fazendas e que pera isso teriam embarca- carvâo. Contentaram-se com acharem algûas jar-
çâo franca. Com lâgrimas e desconsolaçâofoi rece- ras de mantimento e cisternas de boa âgua, que fo-
ro bido do povo tal dito; mas executado logo. Porque ro ram de muito Proveito.
el-rei se passou ùa noite caladamente e pera que Aliviada poi esta maneira a lortaleza do cêrco,
o povo fizesseo mesmo, deixou sessentaterradas, e remediada na sustentaçâo, respiraram os nossos;
pera sua embarcaçâoe um capitâo com mil e qui- porque nâo tardou em chegar largo
-provimento
nhentos frècheirospera guarda. Êste foi lVlir Corxet, àe todo o necessârio, em um navio da fndia e nou-
J5 que soube ser tâo astuto, que pera os nossos nâo r5 tro galeâo, em que vinha por capitâo D. Gonçalo
-
impedirem a passagem, procurou prâtica com D. Coutinho, primo de D. Garcia e filho de D. Diogo
Garcia, vendendo-se-lhe por amigo; e lançando as Couiinho, mandado de Chaul polo capitâo-môr do
culpas da guerra aos privados del-rei, fazia-lhe crer mar D. Luis de Meneses.Assi pareceu bem a D'
que o ficar êle na terra, erra a fim de tratar pazes, Garcia que se fôssem Manuel d'e Sousa e Tristâo
20 pera que afirmava ter ordem e comissâo del-rei. zo Vaz a Curiate, a ver se podiam livrar de cati-
Entre estesenganos,que muito valeram ao mou- veiro a gente de Manuel de Sousa.
' ro pera acabar de fazer a transmigraçâo em salvo,
amanheceu o dia r9 de janeiro, que mostrou aos CAPI TULO XI X
nossos um espectâculo que a todos fez mâgoa. Ar-
z5 dia tôda a cidacle em fogo, que durou quatro dias Avisa o governador a seu irmâo D. Luis que
inteiros com tal violência, que temeram os da for- acuda ao socorro de Ormuz. Faz novo capitâo
taleza se lhe comunicassedentro. E com tudo inda em Chaul. Despacha outros caPitâes pera vârias
' o Mir Corxet vêo demandar o capitâo, e continuan- partes. D. Luis navega Pera Ormuz
do em sua malicia afirmava que o fogo fôra posto
jo a caso; e que no trato das pazes nâo haveria drivi- Pouco havia que D. Luis era chegado a Chaul,
da. Porém passado o quarto dia, em que tudo o quando teve aviso do governador, seu irmâo, que
cumpria ir-se com tôda diligência a Ormuz, a so-
z5 correr D. Garcia Coutinho. Porque além da neces-
30, a, caso: casualmente. sidade que obrigava, ia jâ nas naus de viagem a

IIq
tt8
coLECçÂ.O DE CLASSTCOS5.4. DA COSTA l,'v//s DD D. JOÂO III

nova do cêrco e levantamento; e polo abalo que via, guardassema costa, repartidas em três esqua-
havia de fazer em Portugal era bem darem-se mais tlras, a cargo de três capitâes, que logo nomeou,
plessa em sa'lvar aquela praça, que despois de Goa true foram D. Vasco clc Lima, Francisco de Sousa
era a maior e melhor parte do Estado da India. 'Iavares e Martim Correa. Foi a segunda tirar o
j Que por ora se fôsse com os navios que levara de 5 cargo da nova lortaleza a Anrique de Meneses,pro-
seu cargo; e que, pera aparecer mais poderoso aos vido por Diogo Lopes de Sequeira, seu tio, irmâo
lwantados, seriam com êle antes de chegar a Or- cie sua mâi, e pôr nêle Simâo d'Andrade, conhe-
muz mais três naus, que ficava despachando com cido, quando moço, por val€nte cavaleiro; e agora,
o novo capitâo Joâo Rodrigues de Noronha, que ia que era entrado em dias, por virtuoso e sisudo; ao
ro suceder a D. Garcia. Que pera guarda da fâbrica ro que se juntava estar muito rico de ûa viagem que
que se lazia em Chaul, proveria de novo gente e lizera à China e ser tâo amigo do serviço d'el-rei,
navios. que das doze fustas, que temos dito, tinha êle feito
Era D. Luis homem de guerra; sabia quanto as seis à sua custa.
pode nela a boa diligência; quis, emquanto se apres-
Justo e acertado provimento, se o nâo danara
rS tava pera partir, anticipar parte do socorro, com r 5 fazer o governador sem-justiça ao primeiro provi-
despachar no me$no dia que teve o aviso do go- do, que a possuia legitimamente, por privilégio que
vernador a D. Gonçalo Coutinho com um galeâo os governadores tem de darem a quem lhes parece
b-emprovido de gente, vitualhas e muniçôes (r). E as fortalezas que fundam de novo. Mas o que mais
êle, passadospoucos dias, se partiu ap6s D.'Gon- afeou o caso e afiou as linguas dos murmuradores
zo çalo, Ievando consigo três galèôes e quatro fustas contra o governador foi que misturou com a data
-'o
e ûa caravela, de que eram capitâes, êle e Rui Vaz da fortaleza del-rei neg6cio prôprio, contratando
, Pereira, Antônio de Lemos, Nuno Fernandes cle casamento de ùa filha bastarda com Simâo d'An-
Macedo, Anrique de }{acedo, seu irmâo, Dnartc drade. Mostrou logo Simâo d'Andrade ser digno
de Taide e Pero Vaz Trevassos. do cargo e de cousas maiores. Passando por Dabul
zS Como D. Luis deixava Chaul,tratouogovernador
-'.5 com as fustas que dissemos, foi avisado serem en-
de segurar a obra que ali Lazia, por duas maneiras: tradas no rio duas galés de rumes. Mandou da bôca
primeira, porque teve aviso que o dano que os dêle dizer ao capitâo da cidade que lhas entregasse,
. nossosrecebiam na guerra que lhes fazia Aga }Iaha- com apercebimento que, havendo tardança, êle as
mud, capitâo de Miliquiâs, procedia de trazer na- iria tomar sem por isso lhe ficar.devendo nada.
3o vios de remo leves e ligeiros, ordenou mandar doze .jo A recado tâo resoluto nâo houve réplica; entre-
fustas, que juntas com a mais armada que lâ ha- gou as galés. E porque soube que ficava em Chaul

[(r) Barros, Décaila III, liv. VII, cap. 4.1 28, cont. apercebitilento que: Iicando entendido que'

r20 I2T
coutcÇÂo DE cLassrcos sa DA cosTA ,,tNAIS DE D. JO"4O III

dio, tal era o aviso, segrêdo e dissimulaçâo, com


rrha contra a frota, demandando a capitana. Che-
que as encaminhou, que no p{rblico as culpas eram
gada a bordo, viu-se nela um fnouro que na repre-
alheas: êle sempre se ficava venden'do por inocente
scntaçâo e geito mostrava ser. pessoa honrada, que
ao povo e até aos nossos. rlisse vinha inviado polo novo rei Mahamud Xâ
5 Porém, vendo agora que se chegava dia de juizo
5 com visita e presente pera o capitâo-môr. Mandou-
pera êle com a vinda e poder de D. Luis, e come-
-lhe dizer D. Luis que se fôsse a Ormuz, que lâ o
çando a temer o mesmo os mais cûmplices, porque ouviria. Mas nâo era bem desembarcado, quando
o mesmo rei os havia de acusar e descobrir, primeiro foi o mouro com êle levando sua carta e presente.
vieram a entrar em brigas enrtre si, querendo, ao Nâo quis D. Luis ver ûa cousa nem outra, senâo
ro que se pode crer, sanear cada um sua causa, com rrr em sala priblica, diante de muitos fidalgos e solda-
carregar culpas ao companheiro, de que resultou dos; e respondendo à vista com palavras de corte-
ficar mal ferido o maior valido del-rei, que era Mir
sia, tomada do presente ûa pouca de verdura, man-
Hamed Morado e Rayz Xarafo tomar ânimo pera ,dou ao'messageiro que tornasse a levar o mais.
nova treiçâo, persuadindo a Rayz Xamisser, seu
Nâo duvidaram os presentes que seria o mais
15 rrmâo, e Rayz Geilal, que convinha pera salvaçâo
r 5 outro género de verdura com que Xarafo costumava
de todos tirarem do mundo a seu amo e senhor, o
resgatar suas insolências, quero dizer fôrça de moe-
pobre rei Torunxâ: que, morto êle, nâo tinham que
da ou peças de grande valia; e ficaram pasmados
temer culpas, nem acusador: porque despois de en-
como de grande novidade. A obra foi de D. Luis;
telrado, nem poderia descobrir crimes alheos, nern
mas o conselho naceu de Inâcio de Bulhôes, feitor
zo defender-se dos que sôbre êle amontoariam, como
.'rr de Ormuz, a quem ê razâo darmos o louvor dela.
em quem era rei e cabeça e senhor de todos. Assi
Como se criara em casa do conde Prior, pai de
vai ûa maldade chamando e às vezes necessitando
D. Luis, quando D. Garcia o mandou avisar a Soar
outra. Era o rei froxo e pouco acautelado; tinharn
das alteraçQesque contâmos, lhe escreveu êle pou-
os dous entrada com êle, como nobres que eram;
cas regras que diziam assi:
.a5 executaram sem dificuldade a trei$o. Acudiu Xa-
.:.5 rrFui criado do conde vosso pai em Portugal e sou
rafo, empossou-se da familia e tesouros; publicou
aqui ministro del-rei. ta e outra cousa me obriga
que morrera naturalmente, como era jâ notôrio que
a escrever-vos; e d'a,mbas fio que rne dareis cré-
andava enfermo; e fez levantar por rei um moço
dito. Vindes remediar a melhor praça da India
de treze anos, charnado Mahamud Xâ, filho del-rei
e vingar o sangue de cento e vint'e portugueses, mor-
3o Ceifadim passado. Êste ficou rei em titulo e Xarafo
na sustância. .r() tos à treiçâo e a sangue frio. Faço-vos saber que
estamos jâ no tempo que um gentio profetizou, que
Espantado D. Luis de tantas novidades e receoso
de outras maiores, levantou ferro de Soar a tôda
pressa. Navegando, apareceu ûa terrada que se vi-
r, capitana: nau em que vai o capitâo.

r24
r25

,J
ii coLt,cÇÂoDE cLassrcos sa DA cosTA ANArS DE D. JOÂO IIt

os portugueses ganhando a India como cavaleiros, junho com tôda a armada a Quéixome. Onde, des-
a perderiam como mercadores; quis dizer: por falta pois de tentadas em segrêdo algûas traças por haver
de verdade e sobejidâo de cobiça. Nâo basta, se- iL mâo a pessoade Xarafo, que nâo houveram efei-
nhor, ser limpo de mâos e de condiçâo; convém to, e fazendolhe no pLrblicohonras e gasalhado,em-
5 também parecê-lo. O primeiro serve pera acertar 5 fim forçado do estado das cousas e do muito que
o negôcio, o segundo pera conservar reputaçâo. Câ cumpria tornar-se a povoar Ormuz e dissimular por
estâ tudo em estado, que nâo hâ mouro que cuide ora com o passado, por se nâo arriscar o presente
haveis cle scr dc ferro pera o seu ouro, nem cristâo e futuro, porqu€ jâ se soava que Xarafo trazia em
quc o croa. I.'ilho sois de bom pai e criado em boa prâtica passar-se pera Chilao, com o rei e seus te-
ro escolu. A<l sribio basta pô-lo na estrada e deixâ-lo. ,() souros, lugar da costa da Pérsia donde era natu-
Dt'tts vos guitrdtr.r, ral, vêo a concertos de paz, que se assentou na
I)cscontcntc ficou Xarafo dêste modo de proce- forma seguinte:
dcr, parccendo-lheque o havia com homem que o Que el-rei com tôda sua côrte e povo se passasse
entendia e conhecia suas manhas; e todavia nâo a Ormuz; que pagasse de pâreas ordinârias vinte e
z5 desesperandodelas, fez segundavisita, em queajun- rJ cinco mil xerafins; e a êste respeito o que se devesse
tou carta sua a outra del-rei, acompanhadas ambas dos tempos atrâs; que governasse seu reino sem os
com peças de sêda rica da Pérsia. Era o argumento capitâes da fortaleza se entremeterem com êle, nem
das cartas ambas um s6: desculpar os males pas- na fazenda nem na justiça; tornasse todos os cati-
sados, carregâ-los todos sôbre o rei morto. Respon- vos; e pagasse a seus donos as fazendas tomadas,
zo deu D. Luis corn palavras gerais e corteses, como :o ou queimadas na noite do levantamento.
na primeira visita, apontando em resoluçâo que Assinaram-se estas condiçôes por el-rei e D. Luis
pera quietaçâo e boa ordem de tudo se viesse el-rei e o governador Xarafo. E logo vieram muitas peças
e o povo pera a sua cidade. E sem tomar nada do ricas de ouro e pedraria, ûas que Xarafo apartou
presente, despediu o embaixador. pera irem a Portugal a el-rei e à rainha, em seu
zS Fazia-se de mal a Xarafo meter-se em poder de -'5 nome e de Mahamud Xâ; outras que ofereceu a
homem tâo inteiro e limpo, e cercado de tamanha D. Luis e êle as aceitou desta vez por cortesia, mas
armada; e como sua consciência o argûia, represen- dando ordem que fôssem entregues ao feitor Inâcio
tando-lhe d'antemâo muitos géneros de perigos, nâo de Bulhôes, que as mandou tôdas a Portugal
se resolvia nem atrevia a tornar pera Ormuz. O que com as que se dera.m pera el-rei, nas três naus com
3o entendendo D. Luis, por serem passados oito dias .i() que viera Joâo Rodrigues de Noronha, que D. Luis
sem nenhûa conclusâo, se passou em primeiro de despachou logo pera Cochim tanto que assinou as
pazes, porque eram parte das que haviam de ir
pera o reino com carga de especiaria, capitâes Lopo
rJ, que o hauia: que tratava. d'Azevedo, Duarte de Atafde e l\{anuel Velho, por

rz6 r27
COLECÇÂO DE CLASSICOS SA DA COSTA AI,1 AIS DE D. TOA.O III

Pero Trevassos, que tinha a capitania da terceira despachados por el-rei D. Manuel cada um a seu
I efeito: D. André Anriques a entrar na capitania de
I e ficou em Ormuz doente.
I O sucessoque teveram foi perder-se em Mascate
a de Duarte de Ataide com um temporal que lhe
Pacém; Martim Afonso de Melo Coutinho a fundar
ùa fortaleza em terras da China; Antônio de Brito
5 outra em Maluco.
5 deu sôbre âncora. Acabou nela muita gente nobre,
entre outros o capitâo e um filho seu e D. Garcia D. André Henriques, filho de D. Henrique Hen-
Coutinho. As duas chegaram a Cochim em paz e ques, senhor da vila das Alcâçovas, passou à India
partiram com sua carga pera o reino em entrada em companhia do governador D. Dqarte de Mene-
do ano de 23, como adiante veremos. E D. Luis ses, provido por el-rei D. Manuel da fortaleza nova
to nâo tardou em se ir trâs elas, porque entrava a mon- ro de Pacém. ,Chegou a ela em maio. Foi entregue da
capitania em 23 do mesmo mês, por Antônio de
çâo de ir esperar as naus de Meca sôbre a ponta
de Dio; onde andou sem encontrar mais que ûa Miranda d'Azevedo, que a servia. Era o sitio na
que tomou, até que um rijo temporal o obrigou costa da grande ilha de Samatra, em terras do rçino
a arribar a Chaul, jâ em 16 de setembro, e pouco de Pacém, vizinha da mesma cidade que dâ o nome
15 despoispassou a Goa. 15 ao reino e à fortaleza; terra opulenta de muitos
géneros de mercadorias, mas de ares pestiferos pera
C A P ITU LO os que nâo sâo naturais: porque jaz debaixo cla
xX (r)
t6rrida zona, em cinco graus pouco mais ou m€nos
Partem D. André Anriques a entrar na forta- à banda do norte.
leza de Pacém. Martim Afonso de Melo Couti- zo O estado em que D. André a recebeu era'de guer-
nho pera a China, Ant6nio de Brito pera Maluco ra, rota e cruel, que Raia Abrahemo, rei do Achém,
lhe fazia; guerra de ôdio e raiva, nacida de que
Antes que desembarquemos a D. Luis em Goa, tendo feito muitos males em gente e navios nossos,
parreceque levarâ a hist6ria a sua verdadeira or- e procurando fazê-los maiores contra esta fortaleza,
dem se relatarmos primeiro todos os mais sucessos, z5 ûôra nâo sô rebatido em vârios acometimentos, com
que nestas partes orientais teveram os nossos, em- que a tentou, mas ficara nos mais dêles vencido e
zo quanto dura o ano de r1z2 qve nos vai correndo. afrontado e com muita gente morta. Ajuntava-se
E por esta tazâo faremos agora ûa breve memdria que aspirava a fazer-se senhor dos reinos de Pedir
da viagem que vieram a fazer nêle três capitâes, e Pacém, nossos aliados; e os artificios e treiçôes
Jo qu€ sabia inventar lhe davam disso grandes espe-
ranças e nenhû.acousa achava comprir-lhe mais que
[(r) Aqui parece que deve entrar o primeiro desba- lançar da terra os portugueses, receando que em-
rate que teve Jorze d'Albuquerque em Bintâo, acompa- quanto nela durassem, poderia algûa vez acudir tal
nhado de Antônio de Brito, que parece foi na entrada
dêste ano de 5zz. Nota à margem ilo manwscrito,) socorro de Malaca, que lhe acont€cesseo qu€ ao

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COLECÇ,TO DE CLASSICOS SA DA COSTA . . 1) i A r s DE D. IO.4.O III

reino velho de Pacém e perder como êle estado e sua cidade, com verdadeira alegria do povo igno-
vida. rante, falsa e fingida dos grandes, que o tinham en-
No tempo que D. André chegou, tinha jâ despo- ganado com suas cartas. EDtram os nossos no rio;
jado de tôdas suas terras ao rei de Daia e entrado começarn a consultar como iriam sôbre o arraial de
j tanto polas de Pedir, que o pobre rei nâo se atre- Abrahemo, quando chega recado a D. Manuel que
5
vendo a esperâ-lo na cidade, cabeça do reino, se se pusesseem salvo, porque estavam todos vendi-
vêo meter na de Pacém e favorecer-se de D. André dos. Foi o caso que entre tanta gente falsa houve
e da fortaleza. Assi ficou Abrahemo senhor de dous um bom espirito, que aquela manhâ madrugou mais
reinos: porque na hora que o rei de Pedir saiu da que o sol, a avisar a el-rei de Pedir que soubesse
ro cidade, tâo vencidos tinha os melhores dela com /o que todos os seus mais amigos estavarn conjurados
dâdivas e promessas, que foi recebido sem nenhùa pera o entregar a seu inimigo Abrahemo, na hora
contradiçâo. E com tudo, havendo que tinha feito que saissea acometê-lo; e fal conta lhe deu de tôda
pouco, por lhe ter escapado a pessoa do rei, foi a treiçâo que lhe estava armada, que o pobre rei
maquinando rûatraça pera o haver às mâos, com que caindo tarde em que fôra em demasia crédulo, se
15 de caminho pudesse fazer algûa boa sorte contra os 15 saiu dissimuladamente com dous elefantes e algfia
portugueses da fortaleza. Despejou a cidade, tanto pouca soldadesca que o pôde seguir, avisando jun-
que foi senhor dela, fingindo nos modos que era lan- tamente a D. Manuel que fizesseo mesmo.
çado à fôrça polos naturais. E logo concertou com Quando Abrahemo soube ser descobertaa cilada,
os mais honrados que escrevessema seu rei e se- e que lhe escapara o rei, foi-se com todo seu campo
zo nhor verdadeiro, que soubessecomo êles o tinham :o sôbre os portugueses. Tinha muitas lancharas es-
feito fugir da cidade; e à lei de bons vassalos, esta- condidas polo rio acima, bem providas de gente e
vam prestes pera o receber nela; e que podia vir arrnas, com ordem que a certo sinal dessem sôbre a
nâo sô pera reinar, mas também pera destru(r seu fusta e suas lancharas. Trabalhava D. Manuel jâ
inimigo Abrahemo; o que poderia fazer ligeiramente por se livrar da garganta do rio, mas era trabalho
z5 ajudando-se das armas portuguesas. ;5 per.dido, porque a conjunçâo de maré vazia tinha
Enganou-se o despojado, como é fâcil de crer o as embarcaçôes em sêco e sem poderem dar passo,
que se deseja. Mas foi maior a culpa de D. André, sujeitas a frècharia e todo género de arremêsso, que
que devera ser menos confiado. Concertaram que os inimigos disparavam sem cessar, de ûa e outra
fôssem oitenta portugueses em ûa fusta e algùas margem do rio, que além de correr muito estreito
3o lancharas (sâo lancharas embarcaçôes de remo ra- .i() na paragem em que estavam, ajudava a violência
sas e ligeiras), acompanhadasde duzentos mouros dos tiros com as barreiras altas, e com as mesmas
amigos: capitâo de todos D. Manuel, irmâo de D. os emparava da nossa artilheria, que jogava debal-
André. Foi seu rei por terra com bom nrimero de de. Assi estiveram desesperados, vendo-se ferir e
gente sua e alguns elefantes de guerra; entra na matar sem remédio, até que tornou a enchente da

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COLECÇAO DE CLASSICOS SA DA . 1N , 4 / S DE D. JOÂO rrr
COSTA

âgua. Mas entâo começou nova briga, decendo con- rnais acomodadoparecesse,ûa fortaleza em que êle
tra n6s a tôda fûria as lancharas escondidas, que ficasse por capitâo (r). Facilitava o negôcio ter
erarn em grande nûmero e bem remadas e ajuàa_ mandado Fernâo Peres d'Andrade um embaixador
ram a vitôria com tâo grande perda nossa, que sô ao mesmo rei, que foi Tomé Pires; e nâo havia até
5 dos portugueses foram mortos trinta e cinco e entre q entâo novas do mal que lhe saira a jornada.
êles D. Manuel que os capitaneava. Leripu pera o efeito quatro navios, de que eram
Encheu-se D. André de malencolia; e foi caindo capitâes, êle e Vasco Fernandes Coutinho e Diogo
na conta que entrara em praça mais aparelhada de Melo Coutinho, seus irmâos, e Pedro Homem, {i-
pera perder honra que pera a ganhar. Abria os olhos lho de Pedro Homem, que fôra estribeiro-m6r del-
to e via que era tôda de mad,eira e tal que, com ser /() -rei D. Manuel. Juntararn-se-lhe mais em Malaca,
nova no feitio, estava gastada e velha na sustância. donde saiu em dez de julho dêste ano, duas velas
A causa estava clara: penetrada a madeira das de Duarte Coelho e Ambrdsio do Rego. Por agosto
âguas do céu, que neste clirna sâ'ocontinuas e gïos- chegou à ilha de Tamou e entrou no porto acompa-
sas, e logo ferida da veemência do sol, abre, troce, nhado de Diogo de Melo e Pedro Homem, com
15 apo'drece e em pouco espaço d,e tempo fica inritil. r; tanta confiança e descuido como se entrara na barra
Colsiderava que o havia com um inimigo podero- de Goa. E foi na pior conjunçâo que pudera ser;
so, inquieto e atreiçoado e que nos amigos filtavam porque em terra andavam os chins encarniçados na
fôrças e prudência. Prejudicou ao corpo a fôrça prisâo do embaixador Tomé Pires e seus compa-
de cuidado, ajudada dos ares grossose maus. Caiu nheiros e muito mais no roubo de seu fato e fazen-
20 em cama; e resolveu-se em escre\,'€rao governador :o da, que era muita e boa; e no mar corria a costa
que provesse a ïottaleza de gente e capitâo: de gen- ûa armada grossa da mesma provincia, por ser
te, porque pera com tais inimigos e terra tâo mal monçâo em que acudiam àquele porto navios de
sâ, era pouca a que tinha; de capitâo, porque, se- vârias naçôes a lazet seu trato.
gundo o estado de sua doença, tinha pouca espe- Procurou Martim Afonso tomar lingua da tera:
25 raîça de vida. :5 mandou um barco e outro ao general da armada.
Emquanto D. André espera sucessor,passaremos Nâo lhe tornando nenhum, entendeu que estava
com Martim Afonso de Melo Coutinho à ôhina. Era tudo de guerra e que fizera êrro em se meter no
a ordem que levava del-rei D. Manuel ir-se ao porto porto. Determinou sair-se ao mar largo. Nâo espe-
de Tamou e,.procurando amizade com o rei daquela ravam mais os chins que ver . o movimento que
3o grande provincia, edificar nêle ou noutro lugar, que ict lazia. Tanto que viram que os nossos se faziam à

7-8, cai,nd,o na conta: tecothecendo. f (r) Barros, Décad,aIII, liv. VIII, cap, 5.1
1n atreiçoad.o : traiçoeiro. rg, Jato: os bens mdveis de uso pessoal.

r32 r33
coLDCç,î.O DE CLA.SSTCOSSA. DA COSTA ANArS DIi D. III
JOAO

vela, foram sôbre êles com todo seu poder, dispa- nelas ùa praça forte, como tinha em muitas terras
rando muita artilheria. Era o partido mui desigual; da fndia, ordenou que fôsse Jorze de Brito com na-
e acrecentou a desigualdade um desastre: deu fogo vios e poder bastante. Na capitania dêles, porque
na pôlvora no navio de Diogo de Melo, voaram às
.forze de Brito foi morto em ûa saida que fez na
5 cobertas pera o céu e foi tôda a gente ao mar, uns q ilha de Samatra no porto de Achém, entrou por su-
mortos, outros nadando. Era pedro Homem tâo cessâoAnt6nio de Brito, seu irmâo.
animqso, que lhe nâo tolheu a vista de tantos ini- Os navios foram seis; os capitâes dos cinco: Fran-
migos mandar alguns homens no batel, v€r se po_ cisco de Brito, Jorze de Melo, Pero Botelho, Lou-
diam salvar Diogo de Melo; e foi parte a falta dê- renço Godinho, Gaspa.rGalo; êle do sêisto. A gente
ro les, pera ser acometido com mais ousadia dos chins, lo passava de trezentos homens. Entrou polo estreito
e com menos dificuldacle entrado. de Sabâo; e seguindo sua viagem, arribou com um
Era Pedro Homem de corpo agigantado e de fôr_ tempo forte à ilha de Banda, que é jâ do senhorio
ças-e ânimo igual. Pelejou de maneira que, se o nâo de Maluco, onde deu pendor aos navios peguenos,
acabara um tiro de fogo, contra quem nâo valem que haviam mister reparo, por haver muito tempo
.r5 fôrças nem esfôrço, pudéramos dâ-lo por vencedor rj- que navegavam. Daqui foi demandar as ilhasdeMa-
de um exército inteiro. E isto é certo, qus teveram luco e primeiro a de Bachâo, a cujo rei determinou
tanto que fazer os chins com êle s6 e com o seu na_ dar castigo, por ûa maldade que naceu de traça
vio, que isso valeu a Martim Afonso pera nâo en- sua, em que foram mortos alguns soldados do jun-
tenderem com êle. Assi vendo que nâ6 tinha outro co de Simâo Correa. Pareceu que convinha assi à
eo remédio, se fez à vela pera doncle viera e chegou zo nossa reputaçâo. Saiu em terra Simâo d'Abreu:
a Malaca meado outubro do mesmo ano; e dai se queimou ûa aldea e matou muitos moradores.
' passou à India na monçâo. As ilhas de Maluco, tâo nomeadas polo fruito do
No mesmo tempo qui Martim Afonso navegava seu cravo que sô elas dâo no mundo, sâo cinco; e
da ïndia pera Malaca, a dar cumprimento à mal tâo pequenas que a maior nâo passa de seis léguas
z5 estrea'daviagem que acabamos de contar, se d.espe- zS em roda. Sendo tôdas juntas conhecidas polo nome
dia Ant6nio de Brito no cabo de Sincapura (r) -de geral de Maluco, cada ûa tem tarnbém outro parti-
Jorz-e d'Albuquerque, capitâo de Malàca, pèra ir cular. Jazem de norte a sul ùa ante outra. A pri-
' fundar fortaleza nas ilhas de Maluco, por màndado meira é Ternate, a segunda Tidore, as outras três
del-rei D. Manuel, que, sendo convidàdo por car- Moutel, Maquiem e Bachâo. Sua situaçâo é de-
jo tas de dous reis destas ilhas. pera mandar edificar
5o baixo da Equinocial e tâo vizinhas à linha, que

g, seisto no manuscrito.
9, loi parte: foi causa, motivo.
[(r) Barros, Décad.aIII, liv. 4, cap. 5.] 13, d.ar pend,or: inclinar sôbre um lado, para fazer
reparaçôes ou limpeza.

ri4
1i5
COLECç,4O DE CLASSICAS SA DA COSTA ANArS DE D. III
JO.4O

Ternate se nâo afasta dela mais que por mêo grau.


rei de Tidore, fomentava o descontentamento da
Os mareantes contam trezentas ieguas de viiçm
rainha sua filha: fazialhe crer que Cachil Daroes,
delas a Malaca. No tempo que Ant6nio de Bïto irmâo bastardo do rei minino, que por êle gover-
chegou, eram as três governadas por reis: Ternate
nava a terra, tinha jâ mais poder no reino que el-
5 por Cachil Boâhat, minino de sete anos, filho de -rei seu filho e a poucos lanços se faria rei com o
Buleife, qu-e primeiro e com mais instânôia reque_ 5
favor que tinha no capitâo e fortaleza; e o que
reu a fortaleza; Tdore por Almansor; Bachâo por
cumpria, era, antes que ela estivessémais defensâ-
Laudim.
vel, fazer-lhe a gu€rra e procurar logo algum meio
Desembarcou Antônio de Brito em Ternate com
de darem a morte ao capitâo.
ro grande alvorôço da rainha viûva e festa de todo
o ro Tratou-se de tentar veneno. Aprazou Almansor
povo, persuadindo-se ela e êle que ficava Ter_
um famoso banquete: chamou o capitâo; mas êle
nate envejada e aventajada de tôdàs as mais ilhas
andava sôbre aviso: fingiu doença e escusou-se.Se-
em honra e proveito com a nossa vizinhança e for_
guiu logo outro género de guerra, que foi reprêsa
taleza-;e procurando em que nâo houvesse iardança
secreta nos mautirnentos que vinham à praça, de
15 na fâbrica, esoolheu Antônio de Brito pera lançaia
15 que os nossos se sustentavam. Tanta era a falta
primeira pedra o^dia dg S.
Joâo Bautista, z4 d" que, havendo na fortaleza muitos doentes, nâo se
junho dêste ano. Chegado o aiâ, apareceu
com,.tôda achava ûa galinha por nenhum dinheiro. Determi-
a gsnte e armada posta d,e festa, coroados êle e
os nou-s€ entâo o capitâo em um feito, ao parccer
mais dos homens com capelas de flôres e ervas
chei_ cruel, mas mui necessârio pera o estado presente,
zo rosas, colhidas por devaçâo do santo
na mesma ?o que foi com autoridade de Cachil Daroes, que sem-
manhâ; e assentou por sua mâo a primeira pedra
. pre achou fiel, trazer a pessoa do rei moço e seus
na fortaleza, que por respeito da feJta ficou cïm
o ir'mâos e mâi pera a fortaleza. A mâi, sintindo-se
norne S.-Joâo. Foi o sitio sôbre o porto que é junto
culpada, retirou-se com tempo pera a serra; os mo-
da cidade, em um arrecife qo" â.o firiae funna_
z5 mento à obra. Trabalhavam os portugueses,ajuda_ ços vieram; e sendo tratados com a cortesia devida,
.- :5 quietou o povo e segurou a lottaleza. Mas porque
vam os da terra, creciam as parédes.
Almansor, rei de Tidore, era o principal movedor
Mas é granrde a inconstância do juizo humano. destas alteraçôes, publicou o capitâo guerra contra
, _
Longe estava a fâbrica de chegar a sua perfeiçâo, êle. Dela faremos relaçâo no ano de 23, em que
quando a rainha e muitos dos seus, como se acorda_ sucedeu.
jo ram de pesado sono, se começaram a culpar de te-
rem tomado sôbre o
.pescoçoum terrivei jugo na-
quela fortaleza. C_reciao desgôsto a passoslguais
com a fâbrica. Enxergou-se e- quj os naturais
começaram a faltar no fervor primeiro. E Almansor,

r36 r37
COLECÇÂO DE CLA.SSrcOS SA DA COSTA ANAIS DE D. JOÂO III

C A P ITU LO XXI dtr pimenta de algûas se achou em Lisboa mais terra


que pimenta. Porque além de quebrar no pêso, a
Do sucesso que tiveram as naus de carga que setenta por cento, era tal em sustância, que chegan-
êste ano despachou o governador D. Duarte do neste primeiro ano do govêrno del-rei D. Joâo,
pera o reino; e âs que do reino partiram pera 5 nâo teve gasto a contia de duas naus, senâo quatro
a fndia ou cinco anos despois de seu falecimento, que entâo
lhe fez venda nâo haver outra na casa (r).
Como é parte principal da hist6ria clareza e dis- Deu-se a culpa a André Dias, alcaide de Lisboa'
tinçâo de tudo o que nela se trata, tenho tençâo de que el-rei D. Manuel mandou à Ïndia no ano de
dar um capitulo cada ano ao nûmero das naus, que to r12o com grandes poderes pera êle s6 negociar a
acharuros despachadas da India pera o reino; e no pimenta; ao que se pode entender, com algûa des-
5 mesmo dar conta das que do reino sairem pera a confiança dos ministros da India. Êste homem se
India com a relaçâo de suas viagens. E porque, de deixou enganar, aceitando pimenta verde e carre-
ordinârio, as que se despacham no Oriente tem gando-a sem reparar nisso, sendo ponto que mais
seu aviamento mais temporâo, diremos sempre rc deveria ponderar. Desejou parecer grande oficial
destas em primeiro lugar; e no segundo das que €m carregar muita contia; da bondade, ou nâo fez
.ro partem de Portugal. caso, ou a nâo entendeu. A causa de serem muitos
Achamos que despachou o governador D. Duarte quintais na carga de Cochirn e mui poucos na des-
a seu antecessor Diogo Lopes de Sequeira por fim carga de Lisboa foi que, como nâo era colhida de
do mês de janeiro dêste ano de 5zz; e entrou Diogo zo vez nem madura, chupava-se, secava e sumia-se
Lopes em Lisboa a salvamento com oito naus, de com a quentura pr6pria e do navio e longa viagem:
15 que eram capitâes êle e D. Aleixo de Meneses, Rui e assi vinha ùa a quebrar desmedidamente e outra
de Melo de Castro, D. Aires da Gama, Manuel de a resolver-se em terra e 1É.
Lacerda, André Dias, Sancho de Toar, Pero pua- Por abril dêste ano se despacharam de Lisboa
resma. E porque €m março do mesmo ano tinha 25 pera a fndia três naus; e nâo foram mais, assi por-
chegado a nau rrAnunciadar de Bertolameu Floren- que o novo govêrno trouxe consigo ocasiôese neg6-
zo tim, de que era capitâo seu filho, Pero Paulo Mar- cios a que foi fôrça acudir pri'meiro, como porque
chone, foram por tôdas nove naus as que êste ano o grande poder que o governador D. Duarte levara
ent'rara,m em Lisboa com carga de especiaria. Mas no ano atrâslazia escusadorneter no presente maior
nâo podemos deixar de dizer, que sendo tantas as ,'o cabedal. Foram os capitâes D. Pedro de Castel-
naus tôdas bem carregadas na fndia, a maior parte

[fr) Barros, Décaila III, liv. VI, cap. ro.]


rg, Florentim: Florentino. zb. ocasiôes: momentos criticos.

r38 r39
C0LECÇAO DE CLASSICOS S^.{ DA COSTA AIiAIS DE D. IOi-o III

-branco, filho de D. Pedro de Castel-branco;Diogo um navio em que andava por capitâo daquela costa
de Melo, que ia pera suceder na capitania de Or- Pero de Montôrroio e polo batel grande e esquife
muz, na vagante de Joâo Rodrigues de Noronha, e da sua nau e Por outras duas.embarcaçôesda terra'
D. Pedro de Castro, filho de Estêvâo de Castro. E que chama n ?ambucos; juntaram-se-lhe muitos fi
5 nâo houve entre êles capitâo-m6r. dalgos, que folgaram de servir el-rei naquele feito'
Par'tiram de Lisboa tarde e sô D. Pedro de Cas- "5
qo"-fot"rn D. Roque de Castro, seu irmâo, D' Cris-
telo-branco passou à India; os companheiros inver- t-6vâo, seu primo, D. Anrique Deça, Cristôvâo de
naram em Moçambique. Tomou D. Pedro a barra Sousa, que ia entrar na lortaleza de Chaul e ou-
de Goa; e foi o primeiro que levou a nova do fale- tros. Assi acompanhado,lançou-sena praia de Que-
ro cimento del-rei D. Manuel e sucessâodel-rei D. ro rimba, defrontè da povoaçâo, que jaz esten ida
Joâo. Enxergou-se no extraordinârio sentimento por ûa fermosa châ; e dando parte da.gente a Cris-
que houve em todos os portugueses moradores da i6nâo d" Sousa, pera que desse ao inimigo polas
India, que nâo eram os reis de Portugal senhores costasrodeaudo o lugar, acometeua terra; mas nâo
sômente dos corpos dos homens, mas muito mais achou descui'donela.
15 das almas e vontades. E podemos contar esta por 15 Tinham consigo de socôrro um sobrinho dei-rei
ùa das maiores boas venturas de tais reis. de Mombaça, com boa gente: defenderam-secom
Agora digamos o que aconteceu aos que inver- tanta ousadia e fervor, que foi a briga de muito san-
naram. Era capi'tâo e feitor de Moçambique Joâo gue. Mas apertando os nossos, foram-se retirando'
da Mata. Estando a seu cargo arrecadar as pâreas, J, posto o rosto no mato, deram com Crist6vâo de
20 qloe dous mouros, senhores das ilhas de Zanzibar :o Soùsa, com quem pelejararn de novo de maneira
e Pemba, ali vizinhas, pagavam cada ano, fazialhe que o ferirarn-a êle e a Nuno Freire e Luis Macha-
dificultosa a cobrança serem êstes mouros mal obe- do e muitos outros. Por fim, foi o lugar saqueado
decidos de muitos vassalos, que tinham nas ilhas de muita e boa fazenda que nêle havia e despois
de Querimba, de cujo serviço e fazendas se ajuda- queimado. Porém nâo se paSou o gôsto da vitôria sô
25 vam, pera poderem cumprir com seus pagamentos. 15 ôr.r a dôr clas feridas, que estas.sâo as que dâo
Viu que tinha estas duas naus ali ociosas; pediu honra na guerra: outra houve maior, que foi per-
aos capitâes quisessem dar um salto na povoaçâo der-se tudo quanto tinharn recolhido de riqueza'
de Querimba, que era a maior e mais rebelde, em Foi tanta à cobiça no carregar as embarcaçôes
virtude do favor que tinha del-rei de Mombaça; que estavam em sêco e tâo pouco o tento, que,
jo que qualquer pequeno castigo bastaria pera a re- trabucaram tôdas e ficou
duzir à sujeiçâo de seus senhores. --;c quando tornou a maré,
o *"t senhor do saco. E ainda nâo parou aqui a
Pareceu aos capitâes que se pedia cousa justa.
Porérn sd D. Pedro de Castro aceitou a empresa.
Embarcou consigo até cem homens, repartidos por trabucarattt: voltaram-se,
30,

r40 r4ï
COLECÇAO DE CLASSICOS SA DA COSTA ANAI S DE D. IOAO III

desgraça: na volta pera Moçambique acharam tanto LlvRo ll (1)


trabalho de tempos contrârios e de forne e sêde,
qae f.eza jornada de assazmerecimento. E todavia,
antes de darem vela pera a India viram fruito dela, c andar Rayz Xamixir a rnonte e desterradoem
5 porque acudiram a humilhar-se a D. Pedro tôdas as galardâo do que por seu mandadoe promessasfi-
ilhas rebeldes. Chegada a monçâo, partiram ambas zera, loi tanto seu sintimento que determinouir-se
as naus juntas e foram ancorar na barra de Goa, logo pera a fndia sem esperarpor seu irmâo: e assi
onde se perdeu a de D. Pedro, que chamavam r<Na- 5 o fez, tomando por achaqueir esperar as naus de
zaré>. F'ra muito velha e ûa das maiores que se fi- Meca, na ponta de Dio. Porém, como era agosto
ro zeram no reino. ûa e outra cousa foi parte pera e os temposainda verdes,foi forçadotornar a arri-
nâo poder sustentar-se contra um furioso tempo, bar a Ormuz. E emfim pa.rtiramjuntos pera a ïn-
que a cometeu. dia. E vieram a Goa, onde o governador,em pago
ro da injusta pensâocom que deixava carregadoum
inocente,achou perdidas as terras firmes de Goa,
que rendiam muito maior contia ao Estado, como
veremosno capitulo seguinte.

CAPITULO X
Perdem-seâs terras firmes de Goa. Vern novas
ao governadorde ser achado o corPo do Apôs-
tolo S. Tomé
Justiça quer Deus que guardemos âo grande e
15 ao pequeno, ao mouro e ao judeu; e como Êle é
justissimo,ordenaque, quandonela faltamos,ou se
nâo logre o mau interesse,ou se perca muito mais
por vias nâo cuidadas.Rendiam as terras firmes de
Goa cem mil pardaus.Êstesse perderamno mesmo
20 arroque se acrecentaram35oooa um rei de treze

(1). No manuscrito da Ajuda faltam quâsi nove capi-


tulos do livro II da Parte I. É possivel que ainda apare-
çam um dia pelos arquivos de Portugal e Espanha.
to, foi P.arte pera: contribuiu, foi razâo. 5, achaque: Pretexto.

r42 r43
COLECçÂO DE CLASSICOS SA DA COSTA 1NArs DE D. IIl
JOAO

anos, de cuja pessoa nâo havia culpa nem razâo


Acudiu Ferrrâo Rodrigues: acha-os recolhidos em
de queixas. Chamamos terras firmes de Goa tôdas
um sitio fragoso de penedias: lança-lhes diante os
aquelas que abraçam a ilha ao longo d'âgua e cor-
canarins. Estes os descompuseramde maneira que
rem polo sertâo dentro até certo limite. Estas ga-
lhe ficou fâcil entrâ-,los e desbaratâ-los com morte
5 nhou Rui de Melo, sendo capitâo de Goa; e loi o
5 cie rnuitos e prisâo de mais de duzentos, que levou
titulo saber-se que em tempos antigos eram tôdas
como em triunfo à cidade, entrando no rnesmo ca-
dos senhores da ilha. valo do capitâo inimigo (chamava-se Tamerseâ),
O modo com que se sustentavam e se arrecadava porque o seu lhe foi decepado na briga.
o que rendiam era o mesmo qu€ agora se usava.
Nâo tardou el-rei de Bisnagâ em mandar novo
ro Repartidas as terras em oomarcas, que chamavam ro capitâo e maior poder de cavalaria, tanto pera ga-
tenadarias, havia ûa como cabeça de tôdas aonde
nhar as terras que pretendia serem suas, como pera
das mais se acudia com o tributo (erao nomecociue-
se satisfazer da afronta de Tamerseâ. Trazia êste
rad,o) e um capitâo que com gente cleguerra as cor-
segundo duzentos de cavalo, em que havia vinte
ria e guardava, e pola mesma razâo tinha titulo de
acobertados,e três mil de pé. Começava a Lazer al-
rj ienadar-môr. Servia neste tempo o cargo Fernâo 1j gurn dano. Porém havendo vista de alguns nossos,
Rodrigues Barba, provido por Francisco Pestana,
que se iam a êles como descobridoresdo carnpo,
capitâo da cidad,e, com quem tiaha razôes de pa- tamanho terror entrou em todos, que, sem esperar
rentesco. Eram seus oficiais, pera boa arrecadaçâo goipe de espada, viraram as costas; e èle lez o
das rendas, Joâo Lobato, tesoureiro, e escrivâo Al-
yaro Barradas. Êle, acompanhado de vinte e cinco mesmo.
20 :o Seguiu a estes capitâes, passados trinta dias, ou-
de cavalo e setenta soldados de pé, andava o mais tro de mais brio e mais fôrça, inviado polo Hidal-
do ternpo no campo; e pera quando convinha mais
câo, com quatrocentos de cavalo e cinco mil de pé,
fôrça trazia a soldo seiscentospeôes da terra, cana- que entrou polas tenadarias cobrando à fôrça as
rins. Eram três as tenadarias principais, Pondâ,
rendas e matando os portuguesesque achava nelas.
z5 Mardor e Margâo. Estas tinham seus particulares ..:c Fazia jâ neste tempo oficio de tenadar-m6r Fer-
tenadares, E Fernâo Rodrigues, quando descansa- nand'Eanes Souto Maior, que D. Duarte de novo
va, era ordinârianrente na de Pondâ, porque tinha- provera. Era bom cavaleiro: nâo duvidou sair-lhes
mos nela fortaleza.
ao encontro e rnostrar valor. Nâo passava o nûme-
Nesta posse e estado se vivia, quando entrou por
ro dos que levava de vinte cinco de cavalo e sete-
3o elas um capitâo del-rei de Bisnagâ com cem cava-
.io centos de pé, de que sô eram portugueses cincoenta,
los e quatro mil de pé, a fim de nos lançar fora.
e os mais gentio da terra. E com quanto os seus

6, tttulo: piretexto, motivo.


r.t, acobeviados: defendidos com rnalhas.

r44 r45
COLDCÇ,4O DE CLASSICOS SA DA COSTA ANAIS DE D. IOÂO III

canarins, na primeira vista do inimigo, assombra- receo de que quebrâria as pazes que connosco ti-
dos de ver tanta gente, o desempararam e se puse- nha, se de novo o escandalizâssemos. Assi, sendo
ram em salvo, como gente vil e que nâo tem por n6s os vitoriosos, perdemosas terras como vencidos.
afronta fugir, êle se vêo retirando e pelejando em Acudiu Deus nesta conjunçâo aos seus fiéis da
voltas até se recolher em Mardor, a um tempo que
5 5 India com ûa nova bastante a temperar maiores
ali havia feito a modo de fortaleza. desgostos,qual foi a que Manuel de Frias, capitâo
Lançaram-se sôbre êle os inimigos pondo-lhe da costa de Coromandel, trouxe ao governador
cêrco, até que no segundo dia lhe entrou de socorro D. Duarte: de se ter descobertoe achado o corpo
com fustas Ant6nio Correa polo rio de Goa-a-Velha do bem-aventurado apôstolo S. Tomé no sftio da
ro e os fez levantar. Mas nâo lhe sofieu o ânimo a ro mui antiga cidade de Meliapor, sete léguas do porto
Fernand'Eanes ficar sem vingança dos dous dias de de Paliacate. Mas porque nas cousas desta calidade
cercado; juntou a gente de Antônio Correa com os nâo é razâo contentar-se a pessoa a quem tocam
seus poucos e com outros sessentabèsteiros e espin- senâocom mui exactasaveriguaçôes,el-rei D. Joâo,
gardeirosfcom que nesta conjunçâo se vêo aêleJoâo que sôbre todos era o que mais desejavao descobri-
15 Lobato; seguiu-lhes a trilha; fez conta que, como 15 mento das santas reliquias, estimando muito êste
iam com presunçâo de senhores do carnpo e vito- bom principio que D. Duarte dera, assi em o pro-
riosos, estariam co,rn descuido e sem reèeo de se- curar como em lhe reparar a capela em que jaziam
rem buscados; e assi aconteceu pontualmente, e nomear capelâes que nela as ficassem honrando
Descansavam ao longo de um sôbre a erva com santos sacrificios, nâo se houve por satisfeito
zo "it"iro, sem nenhûa
vende, uns comendo outros dorrnindo, zo até qu€ no ano de 1533, governando a India Nuno
ordem de guerra. Aqui os salteou com tamanho im- da Cunha, foi tirada polo capitâo de Paliacate ûa
peto, que despois de ûa acesa briga, que todavia tâo miuda e copiosa inquiriçâo de tudo o que cum-
manteveram um espaço, foram rotos e desfeitos e pria saber-se do santo, por um interrogat6rio que
postos em vergonhosa fugida todos os cinco mil, el-rei inviou, que tirou tôda a drîvida e foi causa
z5 deixando o campo alastrado de gente morta. Mas :j que desde entâo começassea correr muita gente
nâo sem sangue dos nossos, de que foram mortos devota a lazer sua morada à sombra do sagrado
cinco de cavalo na primeira arremetida e quatro, apôstolo, pelo que nos pareceu convenientesuspen-
de pé e feridos quâsi todos e com êles o tenaclar- dermos tôda a narraçâo que aqui era devida pera
-môr. a fazermos por junto chegando àquele ano. E por
30 Agora é de considerar que, com tôdas estas vit6- jo ora passaremos a outras cousas que chamam por
rias, se nos foram da mâo estasterras, porqire, como n6s.
o Hidalcâo confina com elas e é senhor de grande
poder e começava a estar jâ desabafado das guer-
ras dos reis seus vizinhos, houve de nossa Darte

r46 r47
COLECÇ,TO DE CLASSICOS SA. DA COSTA ANAIS Dti D. lO.îO III

C A P ITU LO XI que foi de Malaca, pera passar seu destêrro e lazer


assento de guerra contra os poltugueses, despois
Sucessosdesastrados do capitâo e fortaleza de que o lançâmos do primeiro em que se tinha fortifi-
Mal aca cado (r). Chamava-se Pago; e foi o capitâo dêste
5 feito Antônio Correa, tâo venturoso em desbaratar
Caso é digno de consideraçâo que, sendo o go- reis, que poucos anos despois fundou nela ûa po-
vernador D. Duarte grandemente bem afortunado voaçâo cercadade muros e baluartes de ùa madeira
no govêrno que teve de Tângere em Africa, se lhe forte e incorruptivel, guarnecidos de muita e boa
trocassea ventura na Asia, de maneira que em todos artilheria, e fortificou o rio, por onde se vai a ela,
5 os três anos que lhe durou o cargo quâsi nâo temos ro com um género de estacada, por tal maneira dis-
que escrever'senâodesbarates,mortes, desastrese posta que ficava sua entrada maravilhosamente de-
sucessosavessosde mar e terra, entre aqueles que fensâvel. Daqui fazia seus saltos com muitas lan-
pendiam de seu govêrno; e sendo verdade que foi charas que trazia no mar; e o que era de maior pre-
muito temido dos mouros de Berberia. vêo a ser juizo: tolhia tôda provisâo de mantimentos aos nos-
to tâo pouco respeitado dos da India, que chegaram, 15 sos, ùas vezestomando os navios que lha levavam,
em um tempo que se achou em Cochim, passarem outras entrando no porto e queimando os que acha-
à vista da cidade e dêle com seus paraus e lança- va nêle.
rem contra a terra foguetesvoadores,que subiam ao Sintido destas afroutas o capitâo Jorze d'Albu-
céu em modo de escârneoe desprêzonosso. querque e doutra maior que teve o ano atrâs, quan-
15 Que acomp.anheas pessoâs a boa ou contrâria zo do pretendeu entrar o rio e tomarlhe a fôrça em
. ventura, é cousa que ieva razâo e que cada dia ex- companhia de Ant6nio de Brito, donde tornou des-
primentamos; porém que venha a trocar-se c'os baratado e com muita gente mofta, tratou êste ano
lugares e depender dêles, mistério é e dos mais de se vingar de tôdas. Deu-lhe boa ocasiâoo mês de
encobertosque a natureza em si tem. Mas sejam as abril, com um aviso que nêle terte de serem entra-
20 causas quais forem, os efeitos dêste govêrno nos z5 das no rio de Muar, a sete léguas cle Malaca, um
obrigarn a crer que pode haver tais trocas. Parte grosso nlimero de lancharas de Bintâo. Navegava
delas temos visto atrâs; parte veremos no presente Duarte Coelho em um navio seu a descobrir, por
' capftulo e em outros. ordem que tinha del-rei D. Manuel, de tempo atrâs,
Bintâo é ûa ilha no mar de Malaca, distante da- a enseadade Cauchim China, que os chins chamam
z5 quela cidade quarenta léguas. Esta escolheuo rei, 3o reino de Cacho. Como vinha correndo a costa, hou-
ve vista daquela armada: entrou em Malaca pera

j, auessos: adversos, contrârios.


t7, expri,ntentamos é a forma corrente do ms. [(r) B arros , D éc ada III, l i v . III, c ap. 5.]

r48 r49
'l
l

coLECÇ,4O Dn )LASSTCOS SA DA COSTA ANAIS DI D. TOÂO III

avisar.o
_capitâoe ser companheiro se determinasse êste rei aborrecido de seus vizinhos, na hora que o
acometê-la.
viram favorecido de bons sucessoscontra os nossos,
,^9.9:T11 forze d,Atbuquerque
a tôda a pressa assi creceu em reputaçâo que levou trâs si até os
oez embarcacôes de que deu a capitania_.0, reis que mais profissà"o ïaziam de nossa amizade.
5 D. Sancho HËnnques, seu cunhado: iriam nelas até "
duzentos homens. A oJd_emqrr, t"rrura_ 5 Foi um dêsteso rei de Pâo, provfncia da costa de
era que o Maiaca, que, sendo dantes confedeladoe amigo nos-
capitâo-môr no seu galeâo boart"
ôelho na sua so, pera penhor e segurançade seu ânimo lhe ofe-
naveta e Manuel de Berredo " em ûa galeota
fôssem receu ûa filha por mulher. Aceitou o mouro o pa-
I"rgo ao mar,- pera fazerem
Jo eram navios de mercadores ".", "ortlrri*igos qoe
_^ rentescoe imaginando logo que por meio dêle pode-
e os convidareir a vir tLt ria iazer algûa sorte importante contra Malaca, as-
ao mar; e as sete ao longo da terra, pera
que, sain_ sentou com o sogro quê estevesseo neg6cio em se-
do a armada do rio, nào tevesse'.Ërpol,
guaricla grêdo, até o tempo dar de si cousa que fizesseo ma-
nêle.
Todo êste bom conselho desordenou trimônio célebre, que nâo tardou muito.
ûa trovoa_ Como a cidade de Malaca nâo tem remédio de
t 5 da, que, estandoprenhe de vento,
io-o.o tâo forte- r5 sustentaçâosenâo de carreto, em lhe faltando na-
mente- na_conjunçâo que as sete iam
chegando à vio de mar em fora, padece muito. Vendo-se Jorze
bôca do rio,-que ûas jossobraru- fogà
e outras Ie_ d'Albuquerque cercado de necessidades,despachou
vou a fûria do vento polo rio acima el
como à mâo, D. Sancho Henriques no galeâo em que andava,
as meteu em meo da armada inimiga,
onde os nos_ acompanhado de outros dous navios, que fôssem
20 sos, cercadosdela e descompostos
ào impeto e ma- :o buscar remédio ao reino de Pâo. Estava o parentesco
rulho do mar, que tudo era ôntra êles, ioram
a môr tâo secretoe a amizade c'os nossosinda tâo corren-
. parte mortos; e teve-se por dita poderem_se
reco- te, que carregou D. Sancho os dous navios e despe-
lher em salvo pera Malaci D. S"nc'Ào
e Duarte Coe_ dindo um trâs outro, quando ficou s6s se achou ùa
rno, porque as lancharas eram quarenta,
como des_ manhà cercado de trinta e cinco lancharas de Bin-
z5 pois se soube, e nâo deixara de
os o capi_ :5 tâo, que el-rei de Pâo tinha escondidasem o rio.
tâo de Bintâo, parduca Raja, se oo ".àrn.t.,
Jàru fé dêles Estas o acometeram tâo repentinamente, que sem
ou tho nâo tolhera contentar_secom lhe
ficarem ses_ se poder valer foi morto êle e D. Ant6nio, seuirmâo,
, senta e tantos portuguesesno rio, uns
afogados ou_ com trinta portugueses. Eram êstes dous irmâos
tros mortos a ferro.
Nâo teveram fim os infortrinios de filhos de D. Afonso Henriques, senhor de Barba-
30 Malaca nos
que temos referido,.nem D. Sancho io cena. Sucedeuo caso, entrada do mês de novembro
Henriques pôde dêste ano.
escapar de acabar às mâos dos mouros
aà gintao, Com o mesmo engano de falsa amizade e com as
se bem escapou dêles no rio de Muar. pode
tanto mesmas lancharas colheu êste inimigo rei de Pâo
no mundo um bafo de prosperidade que,
andando pouco despois, como em rêde e à treiçâo, ùa nau

r50
T5I
coutcÇ,,To DE CLASSTCOS
5,4 DA COSTA. .1 1/,,{1S DE D. rOÂO III

que Jorze d'Albuquerque mandara a Siâo com dous nâo pôde com o ferro: arrimoulhc a um costado
juncos a buscar vitualha. Era capitâo um André
um junco vazio que estava no porto, deuJhe fogo,
de Brito, que da fndia viera a mercadeiar. Da volta fez que ardessemambos.
de Siâo quis entrar no porto de pâo, ignorando o Morria Jorze d'Albuquerque por se vingar, por-
5 que era passado com D. Sancho. Como hâ pouco .i que, como era muito cavaleiro, vinha a julgar por
reparo contra acometimentonâo esperadoe sribito. descréditoas adversidadesem que nâo tinha culpa.
foi salteado e levado à espada co- todos os lieus,
Quis usar do conselho do inimigo contra o mesmo
sem escapar homem. inimigo. Êle vinha tolher-nos os mantimentos com
Grande caso é que em nenhûa cousa pusesse suas lancharas; achou-se com nrimero de navios;
Jor_
ro ze d'Albuquerque mâo ou conselhopor êste tenipo, ro determinou tomar com êles a bôca do rio de Bintâo
que lhe saissebem. E nâo duvido que hâ de fiiar
e fazer que the nâo entrassebarco. Manda D. Gar-
aborrecida esta hist6ria por tantos desastres,a quern cia Henriques, seu cunhado, com sete velas pera o
ler por gôsto, pois a mi, que por obrigaçâo u efeito, com ordem que de nenhùa maneira tentasse
vo, me quebrantam e causam tanto horror, que "rcr.-
es-. o rio, que jâ tinham exprimentado ser impene-
15 tou desejando fugir de os contar. porérn ia"_^,
15 trâvel pera os navios de quilha. Estava Laxamena
fôrça, pera nâo deixar nenhum, ûa lembranÇa cle
recolhido em um cotovelo que o rio laz na entrada;
que pode haver polo tempo adiante algum Assuero, lança-lhe duas manchuas por negaça. Nâo enten-
que sequer em noites mal dormidas mande ler estes deu D. Garcia o artificio; pareceu-lhe soberba e
Anais; e, vendo que esta é a mais certa mercacloria atrevimento: despediu dous caravelôes que as fôs-
?o qre os pobres portuguesesvâo buscar à India por
. -'() sem tomar. Mas nâo tinham tocado a bôca do rio,
honra do rei e do reino, sirva a liçâo de ter dêles quando se descobre Laxamena, tâo vivo e prestes
lâstima e, à conta de tanto nûmero de mortos, fol- no remo, que antes de poderem os no-csosfazer volta
gue de fazer mercê aos poucos que tornam vivos netn valer-se das armas foram todos mortos.
de tâo longos e perigososdestêrros. É, qualquer rei_
?j no um corpo, cujos membros sâo todos os .parti_
cuùaresmoradoresdêle. Claro estâ que sempre iesul-
, tarâ consolaçâo pera os membros rnaltraiaclos da
que se der aos que menos padecem.
Tanto brio deram as perdas referidas a Laxa_
30 mena, capitâo-m6r del-rei de Bintâo, que entron nc
porto de Malaca e acometeucom suas lancharas um
navio de Simâo d'Abreu, chegado de pouco de lta_
luco. E porque treze homens que dentio estavam se
clefenderarncom valor, acabou com o fogo o que
17, ttranc huas : pequenos barc os do C )ri ente

r52 r53
COLECçÂO DE CLASSICOS SA DA COSTA ANAIS DE D. JO,4O IIt

C A P ÏTU LO X II r:tro de os nâo poder lograr a,li com quietaçâo, se


ltreveu a flazer a desordenada entrega,
Cêrco da fortaleza de Pacém, que obrigou aos Viu cercada a cidade de Pacém de um poderoso
defensores a desemparâ-la e darem-lhe fogo. cxército e muitos elefantespor Raiz Abraemo; viu-a
Guerra em Maluco contra el-rei Almansor de 5 tomada sô com três combates; entendeu que todo
Tidore rrquelepoder lhe havia de cair logo às costas: quis
rusar,inda que tarde, da licença que tinha do gover-
Nâo corriam com mais prosperidade as cousas da nador pera ir pera a ïndia. Era homem animoso
guerra e matérias de govêrno em outra lortaleza Aires Coelho e exercitado na guerra dos mouros de
vizinha e por outro Henriques administrada. Tinha to Tânger, donde era natural, e filho de Gonçalo Coe-
D. André Henriques, capitâo de Pacém, mandado lho, alcaide-m6r dela: nâo duvidou aceitar o tra-
pedir ao governador no ano atrâs lhe inviasse suces- balho. Mas entrou logo num mar de cuidados, por-
sor e gente que defendesseaquela praça, polas ra- que sôbre ter pouca gente e muita dela enfêrma,
zôes que deixamos contadas. Despachou o gover- eram os mantimentos mui poucos e a gente pera
nador no mesmo navio a Lopo d'Azevedo com al- r5 os gastar demasiada, porque se tinham metido corn
I gùas cousas necessârias pera provimento da forta- êle os reis de Daia e Pedir e Pacém, e tinha por pa-
I leza e ordem pera D. André lha entregar. Chegou drasto ùa fôrça, que D. André com pouco recato
Lopo d'Azevedo a Pacém por junho dêste ano. Era deixara fazer a um ministro pouco fiel de el-rei de
D. André vârio em suas deter,minaçôes;e vindo a Pacém, quâsi encostadaà nossa.Assi começoua pa-
ter diferenças com Lopo d'Azevedo sôbre adver- ;rr decer um apertado cêrco por tôdas as vias, de fora
tências imçrortarntes,que lhe fazia, se vêo a decla- com assaltos amiudados de grande nfimero de ini-
ï5 rar com êle que lhe nâo havia de entregar a forta- rnigos, dentro com fome e falta de muitas couses
leza. necessâriasà defensâo, que fazia mais pavor que
Despedido e embarcado Lopo d'Azevedo, nâo se a guerra.
passaram muitos dias que D. André se arrependeu ,ti Correram dias: defendia-sevalerosamente,senâo
de sorte, que a fortaleza q:ue deixou de entregar a quando, ûa noite dâ sôbre a ûortaleza o exército in-
zo qaem tinha poderes do governador, vôo a pedir a fiel junto. É costume nestaspartes, quando os bâr-
Aires Coelho, seu cunhado, que a aceitasse como baros connosco tem briga, escolherema noite es-
alcaide-m6r que era dela; e êle se embarcou e fez à cura e de melhor vontade a que é mais chuvosa,
vela. Tinha êste homem uns vinte mil pardaus, que l() porque a escuridâo tira a nossas armas a pontaria
houve de ûa nau de mouros, que tomou quando e a chuva tolhe o lavor da pôlvora. Foi o combate
z5 vinha pera Pacém. Tanto pode o amor de pouca
fazenda, se um homem começa a vencer-se dêle, 17, lôrça: fortaleza.
(bem se diz que é género de idolatria) que. com re- 3r, Iauor: trabalho, eficâcia.

r5+ r55
COLECÇAO DE CLASSICOS SA DA COSTA 4TJAIS DE D. IOÂO ITI

de tanta fôrça que os inimigos se fizeram senhor€s rrrarn-lhebambws), que juntamente sâo leves de
de um baluarte com tôda a artilheria dêle. Mas rnenear e fortes pera sustentar. Valeu aos nossos
nèste tempo acudiu Deus aos nossos,porque ama- t:staremàlerta e terem repartido entre si quatro ca-
nhecendo viram duas naus ao mar, que demanda- pitâes os quatro lanços da quadra da fortaleza, que
5 vam a fortaleza. Despediu logo Aires Coelho ûa al- t cram Aires Coelho, Bastiâo de Sousa, Martim Cor-
madia a lhes fazer saber o trabalho em que estava rea e Manuel Mendes de Vasconcelos,capitâo-m6r
e o apêrto daquela noite. Eram os capitâes Bastiâo do mar de Pacém; porque os mouros, arvoradas
de Sousa e Martim Correa, que com licença do go- suas escadas,se abalançaram a subir atrevidamente
vernador faziam viagem mercantil pera Banda. E, por tôda a roda da fortaleza com tanto impeto, que
Jo como gente de valor, nâo esperaram ser muito roga- rrr mais de ûa hora durou ûa acesa briga, procurando
dos; antes, desembarcando, deram logo vista ao êles fazer-se senhores da corôa do muro e os nossos
inimigo e o lizeram desalojar da borda do rio com fazendo-osir de salto das escadasabaixo, em que
assaz dano. houve infinitos mortos, porque logo sucediamoutros
Entrados na fortaleza, foram entendendoem repa- e outros de refrêsco sem nos darem hora de repouso.
t5 rar o dano que os mouros tinham feito e entulhar r5 Neste ponto trouxeram sete elefantescontra o lanço
ùas minas que acharam abertas. Gastados nisto oito de Aires Coelho, que arrimados juntamente e todos
dias, entrou outro navio no porto, de que os mouros a um tempo à escadada fortaleza, que era de ma-
lomaram ocasiâo pera se afastarem da fortaleza deira fortissima, assi a torceram e inclinaram pera
tanto espaço, que deram a entender levantavam o dentro como se fôra ira sebe muito fraca de varas
zo cêrco', mas alegranclo-se todos, sô Martim Correa .'r) Verdese lama.
conheceu ser ardil de guerra e persuadiu que se Foi aqui a revolta e a grita grande, porque os
dobrassem as guardas e vigias, fundado em serem defensores largaram a escada e acudiram de suas
os inimigos quinze mil homens de peleja; e os nos- estânciasBastiâo de Sousae Martim Correa a tempo
sos até trezentos e cincoenta, os mais doentes e que Aires Coelho, com ùa chuça que tinha nas
z5 feridos, todos cansadosdo contino trabalho. E nâo .'5 mâos e muitos soldados com lanças, descarrega-
durtidava que tinham os mouros disto aviso certo vam valentes botes sôbre as trombas dos elefantes.
polos escravos que cada hora nos fugiam pera êles. Mas era tempo e trabalho perdido, porque nada
Saiu o pron6stico certo e o conselho tâo acertado, mostravam sintir, até que os dous lhes arremes-
que na mesma noite, duas horas ante manhâ, foi saram riuitas panelas de p6lvora, cujo fogo os fez
jo a lortaleea cercada em roda de oito rnil dos melho- i,) em todo desobedientesa quern os governava e se
res do exército e acometida com tanto silêncio, como forarn pisando e trilhando os seus, sem pararem,
se nâo foram mais que dez homens. até muito longe.
Foi o combate geral, trazendo diante mais de sete-
centas escadas feitas de ûas canas mociças (cha- 2r, reuolta: tumulto, barafunda.

t5u r57
coLECÇÂ.O DE ÇLA.SSICOS SA DA COSTA ANAIS DE D. IOÂO rrI

I
I Emquanto se pelejava em Pacém, nâo faltavam
I Amanheceu o dia e descobriu tia espantosa mor-
cuidados, guerra e desastrestambém na nova for-
I tandade de mouros: estava o campo alastrado de
taleza de S. Joâo, em Maluco. Deixâmos Antdnio
I tantos corpos mortos que nâo seriam menos de dous
de Brito, no fim do primeiro livro, com guerra pu-
mil, sinal da teima com que todos pelejaram. O tra-
nossos nâo 5 blicada contra Almansor, rei de Tidore; agora dire-
5 balho desta noite, inda que entre os- mos brevemente como procede a dêste ano. O pri-
houve nenhum morto, sendo muitos os feridos, mos-
meiro auto que fez, despois de com trombetas lha
trou-lhes, fazendo bom discurso' çlue, se o inimigo
mandar denunciar, foi mandar publicar em Ternate
continuasse o cêrco, a lortaleza se nâo poderia de-
que daria prémio certo, em panos da feitoria, por
fender, porque a gente que tinha estava impossibili-
ro cada cabeça que se lhe presentasse de qualquer
ro tada deàoença e faltas de tudo. O socôrronâo podia
vassalo de Tidore. Foi guerra tâo cruel que em pou-
ser outro senâode Malaca com a monçâo que havia
cos dias lhe rendeu grande vingança. Porque, como
de tardar seis meses.Assi, sem mais opressâoque a
gente orgulhosa e muito sujeita ao interesse, ia-se
que tinham dentro de casa seriam vencidos e to-
em suas embarcaçôes, faziam saltos em Tidore, car-
mados às mâos.
15 regavam de cabeças dos miserâveis, e em pouco
rS
" Soube-se entanto que o navio que entrara era de
tempo se contaram dados neste emprêgo mais de
D. André, arribado por achar tempos contrârios,
seiscentospanos.
a quem, tanto que entrou na fortaleza, Aires Coe-
Mas nâo the sucedeutâo bem o segundo intento.
lho restituiu logo o cargo dela. E juntos todos assen-
Emquanto se juntavam e punham em armas os vas-
taram que a diviam despejar e queimêr, salvando
:o salos de Ternate, que Cachil d'Arroes tinha manda-
zo artilheria merida, que podiam levar enfardelada por
do armar todos pera irem sôbre Tidore com poder,
dissimulaçâo e sobrecarregando a grossa pera aÛe-
despediu Ant6nio de Brito dous capitâes em um
bentar. Èxecutou-se o conselho e começou o fogo
zambuco e outro navio de remos, que se fôssem lan-
a fazer bom efeito; mas os inimigos acudiram a
tempo que ainda salvaram ûas peças grossas, a que çar sôbre o porto de Tidore e lhe tomassem quanto
:5 de fora entrasse. Eram os capitâes Jorze Pinto da
z5 nà"otinha chegado o fogo; colheram muita e boa
Silva e Lionel de Lima. Tendo-lhe feito muito dano
Iazenda, parte deixada na fortaleza, Parte na praia:
alguns dias neste género de cêrco, eis que ûa manhâ
oue como toda a retirada tem parte de fugida, ordi-
aparece ao mar ûa caracora (sào caracoras navios
ttario é acompanhar-se com efeitos de mêdo, tratan-
de remos muito ligeiros), que fazia geito de deman-
do cada um ier o primeiro a salvar a vida mais que
obrigaçâo da .1o dar o porto. Lançou-se a ela Jorze Pinto, por que
3o a acudir ao interèsse da fazenda e
honra.

7, auto: acto, procedimento.


7, jazenilo bont' d'iscurso: raciocinando bem'
zg, fazia geito: parecia, tinha ates, î.azia mençâo.
27, tern Palte: tem aspecto, tem um Pouco'

r58 r5q
COLLCçÂO DIJ CLASSTCOS S DA COSTA ANAIS DE D. JOAO III

lhe nâo escapassee a caracora fingindo temor dos vitorioso, fez tantas instâncias corn Antônio de
nossos, apertou corftra ûa enseada da mesma ilha, Brito, que todavia consintiu em que se procedesse
que na entrada tinha ùa calheta onde o mar cobria nela; e foi Deus servido que fôsse a vingança tal,
um arrecife de tâo pouco fundo, que nâo podiam acompanhando Martim Correa c Lioncl cle Lima a
5 nadar nela navios de quilha. 5 Cachil d'Arroes, que entraram Tidore e lhe toma-
Ia Jorze Pinto a voga arrancada trâs a caracora, ram, a escalavista, a melhor vila da ilha, que cha-
e jâ com a prôa sôbre ela, quando se sente encalhar mavam o Mariaco, com morte de grande nûmero
sôbre o recife e ficar em sêco; foi laço mortal pera dos melhores; e emfim obrigaram Almansor a se
êle e pera seis portuguesese outros quarenta remei- humilhar e pedir paz, qûe Ant6nio de Brito lhe nâo
Jo ros, que todos foram mortos e as cabeçascortadas, ro quis conceder.
acudindo muitos paraus inimigos que dentro na en- Êste riltimo acometimento lançamos aqui, inda
seada estavam escondidospera o efeito, que, pin- que sei pertencia ao ano seguinte, por nâo quebrar
tado, nâo pudera sair mais a seu sabor. E sendoassi despoiso fio em casosque nele temos de mais sus-
entre êles, entre os nossosnâo cessavamdesgraças, tância.
15 que foram: em dous acometimentosque fizeram de
novo contra a ilha, tornaram-secom os capitâesmal CAPI TULO XI I I
feridos e sem efeito de consideraçâo. Eram os capi- Relaçâo das naus que na entrada dêste ano
tâes Martim Afonso de Melo Jusarte e Francisco de despachou D. Duarte pera o reino; e das que
Sousa; e as feridas ambas foram de ûa mesma es- no mesmo partiram do reino pera a
zo pingarda meneada por mâos de homem nosso, tâo .fndia
embaraçadoe pouco destro, que de ambas as vezes rS As naus que êste ano tornaram pera o reino, se-
Ihe tomou fogo fora de tempo. Do que Antdnio de gundo boa conta, em primeiros dias de janeiro, fo-
Brito chêo de paixâo e temendo que lhe viesse a ram as duas que atrâs dissemosque partiram de Lis-
laltar a gente pera defender a fortaleza, que era sua boa em maio de 523, com ordem pera tornarem com
z5 principal obrigaçâo, esteve em pensamentos de dei- especiaria. E nâo achamos mem6ria nos escritos'da
xar a guerra; porque entre todos os portuguesesque eo fndia se vieram outras em sua companhia, nem nos
ali se achavam com êIe nâo passavam de cento e dizem nada do sucesso das duas. Deviam chegar
vinte e muitos deles cortados de cloençados maus em paz, pois se fôra outra cousa, a dor do mal faz
ares da terra, que nâo esqueçao escrever-se.
30 Mas Cachil d'Arroes, que de seu era valente ho- De Portugal mandou despachar el-rei, em nove
mem e tinha por afronta sua e nossa ficar Almansor e5 de abril, fermosa frota, e nela o conde da Vidi-

6, a escala uista: de assalto, com escadas encos-


rr, Paraus: barcos de guerra indianos. tadas aos muros.

roo ûr
coLECÇ.4O DE CL,4.SSrcOS SA DA COSTA ANAIS DE D. IOAO III
I
I
gueira, almirante do mar da India, que sendo velho quim, que,levava o cargo de condestabre-m6rdos
I e tendo passado o Cabo de Boa Esperança duas ve-
ll
bombardeiros, pera o serviço na ïndia.
ti zes de ida e duas de vinda, nâo duvidou deixar a Partiu o conde em 9 cle abril com esta armada,
quietaçâo em que vivia e arriscar-se a terceira em em que iriam até três rnil homens, dos quais muita
5 serviço de seu rei. Deu-lhe Sua Alteza, sôbre as pa.rte eram gente ilustre e criados del-rei e morado-
5
mercês que lhe tinha feitas de juros e tenças e outras res de sua casa. Saido da barra. achou tâo bons
cousas no ano atrâs de que temos feito relaçâo, o tempos que, quando foram 14 de agosto, lançou
titulo de,viso-rei. ferro em Moçambique; donde, com breve detença,
A frota foi de catorze velas: as nove naus grossas, tornou logo a sua nar/egaçâo.Mas antes de passar
ro e as cinco caravelaslatinas. Eram capitâesdas naus ro daquela paragem, sempre perigosa polas muitas
D. Anrique de Meneses,filho de D. Fernando de ilhas de que é serneada, perdeu duas naus; a de
Menesesque chamavam o Roxo, que ia nomeado Francisco de Brito, sem deia parecer cousa algûa,
por Sua Alteza pera capitâo de Ormuz, Pero Masca- e a de Fernando de Monroy, que salvou a gente.
renhas, filho de Joâo Mascarenhas, que ia pera ca- Das caravelas se perdeu também a de Crist6vam
15 pitâo de Malaca; Lopo Yaz de Sampaio, filho de 15 Rosado; e a gente do rnalhorquim se levantou con-
Diogo Sampaio, que levava a capitania de Cochim; tra êIe e o matou, e pera cobrir uminsultocomoutro
Francisco de Sâ, filho de Joâo Rodrigues de Sâ, maior, desapareceram da companhia e foram-se
alcaide-môr e veador da fazenda do Porto, o qual onde o pagaram com as vidas, como adiante se
el-rei mandava que fôsse à Java fazer ia fortaleza, verâ. Prosseguiuo conde sua navegaçâo,sintido da
zo na parte que chamam a Sunda; D. Simâo de Me- zo perda mas nâo espantado, por quâo ordinâria é nes-
neses,filho de D. Rodrigo de Meneses,provido da tas viagens. Mas logo sucedeu caso que tem mais
capitania de Cananor; e D. Jorze de Menesese An- de admirar e menos que sintir.
tônio da Silveira de Meneses,filho de Nuno Martins ûa quarta-feira, véspara de Nossa Senhora de
da Silveira, senhor de Gois, que ia pera capitâo de Setembro, sendo oito horas da noite, tempo calma,
z5 Sofala; e D. Fernando de Monroy, filho de D. Afon- ?j começou-sea sintir em todas e cada ùa das naus
so de Monroy, craveiro que foi da Ordem de Alcân- um tâo desusadomovimento, que tudo o que havia
tara em Castela, que levava a capitania de Goa; e sôbre o convés, de caixas e outras cousas, assi joga-
Francisco de Brito, filho de Simâo de Brito, que va e corria a ùa parte e outpa como se fôra tormenta
havia d'andar por capitâo-m6r das naus da carreira desfeita; e nâo atinando os homens com a causa, -
3o da ïndia pera Ormuz. Os capitâes das caravelas qual julgava que eram aguagens sôbre baixos e res-
3o
eram Lopo Lobo, Pero Velho, Cristdvâo Rosado, tingas e mandava fazer sinal com artilheria aoscom-
Rui Gonçalvese Mossem Gaspar, de naçâo malhor-

32, malhorquim: da ilha de Maiorca. parecer. aparecer, saber-se,


12,

r62 r63
r

{,OLLCÇ,4O Drt CLASSICOS SA DA COSTA ANAIS DE D. TO.4.O III

panheiros, qual acudia ao leme, quai à bomba, qual CAPI TULO XI V


à sonda, qual dando-se por perdido buscava barril
ou tâboa pera salvaçâo e em todos era a confusâo Tr at a el- r ei de seu casam ent o com a if ant e
e pavor tâo geral como em certo naufrâgio, - foi D. Caterina, irmâ do emperador. Manda comis-
5 Deus servido que passou dentro de um quarto de sérios a Castela pera assentarem as condiçôes
hora, e o conde, como marinheiro velho, entendendo dêle
ser tremor da terra, que quando se abala por causas
naturais, é fôrça que sinta o mar que lhe fica em Dous anos havia que o poder e liberdade real,
cima o mesmo efeito, saiu ao convés dizendo ale- junta com o fervor da mocidade, traziam a el-rei
lo grementc: - Nâo hii quc temer, amigos: treme de . distraido com mulheres, de que houve filhos, como
n6s o mar da Inclia, sinal que também suas terras adiante diremos, vicio da fraqueza humana, a que
fazcm o mcsmo, pronristicoé dc r-itôrias.
5 os moços, por mui prudentes que sejam, sabem mal
Notou-se que deu o sobressaltosaride a muitos resistir; mas caindo na conta que ofendia a Deus
que iam ardendo em febres; e a um miserâvel foi tanto mais gravemente quanto em mais alto estado
15 causa que, sem ser bom nadador, quis prevenir a êle o tinha posto, jâ com o efeito das culpas, jâ com
morte de naufrâgio com a ir buscar na âgua, lan- o mau exemplo delas, inda que as suas nâo chega-
çando-sede salto ao mar. Cessou aquele espanto e 70 ram nunca a fazer afronta a vassalo, nem a mulher
terror; mas logo sobrevêo outro, qul foi um chu- fôrça, determinou todavia trocar o estado de sol-
veiro de âgua tâo grossa e tâo extraordinâria, que teiro em casado, que era o mesmo que vestir armas
zo passou polo encarecimento que dizemos de trchover contra o fogo da natureza e contra a libeidade das
a cântarosr>.Tal foi que, se no primeiro se temeu ocasiôes.Sô the fazia contradiçâo ùa lembrança da
' naufrâgio, neste segundo temeu-se dihivio, porque .r5 palavra que el-rei seu pai lhe tomara morrendo:
assi se alagavam todos os navios, que parecia que- que tal nâo faria sem primeiro casar a ifante D. Isa-
rerem as âguas do céu sovertê-los nas do mar. bel sua irmâ.
25 Passados estes mêdos, deu alegria geral encon- Porém, julgando que no casamento dela havia
trar-se ûa rica nau de Meca, que D. Jorze de Mene- de presente muitas dificuldades, que procediam das
ses fez amainar; e pouco despois foi surgir tôda a 20 guerras em que o emperador andava embaraçado
, frota junta no porto de Chaul. com França, que era a pessoaem quem tinha pos-
Em r5 de junho dêste ano foi por capitâo-mdr às tos os olhos e s6 lhe parecia digno consorte da
go ilhas Garcia de Melo Anes, coudel-m6r dos bèstei- ifante, ordenou de nâo suspendermais os grandes
ros, a esperar as naus da ïndia. desejos que sabia tinham geralmente todos seus

.ro-rr, Entenda-se: rque excedeu prôpriamente o exa-


gêro de quando dizemos que chove a1ântarosr. 6, caindo na conta: arlverlindo, reflectindo.

r64 16q
COLECÇAO DE CLASSICOS SA DA COSTA ANAIS DE D. JOEO III

vassalos de o verem quieto, em estado de lhes dar bos, em que foram testemunhas o marichal de Bor-
um principe pera sucessor. E como havia muitos gonha, niordomo-m6r do emperador c o comenda-
dias que em Portugal e Castela corria a prâtica de dor... e monsieorde la Chaux.
que estaria bem a ambas as corôas contrafr_sematri_ Foram as condiçôesprincipais: Que el-rei D- Joâo
5 mdnio entre el-rei e a ifante D. Caterina, irmâ do 5 tomasse à sua conta procurar da Sé
Apostôlica a
emperador, nomeou Sua Alteza por seus embaixa- dispensaçâo dos estreitos parentescos que entre os
dores, pera o irem assentar e concluir em Castela, coritraenies havia; que alcançada e sendo vinda'
a Pero Correa, senhor da vila de Belas, e o Doutor o emperador dentro de dous meses mandaria a
Joâo de Faria, ambos do seu Conselho. E mandou_ ifante-até a raia d'ambos os r€inos e ai a mandaria
ro -lhes dar duas procuraçôes bastantes pera delas usa_
to el-rei buscar; que o dote seriam duzentas mil do-
I
rem segundo as ocasiôesquc o negdcio de si desse, bras de ouro castelhanas do preço que tevessem
I feitas ambas polo secretârio Antônio Carneiro, ûa quando se fizesse o pagamento; e o pagâmento se-
em 13 de abril dêste ano em que vamos, outra em ria em termo de três anos, um têrço cada ano, e o
I 12 de maio. primeiro têrço se daria um ano despois de consu-
15 Acharam osembaixadoresoemperadoremBurgos, 15 mado o matrimônio e os outros dous têrços nos dous
que como jâ sabia ao que iam, nomeou por sua anos primeiros seguintes; que da soma maior do
parte e da ifante, sua irmâ, outros dous comissâ- dote si descontaria todo o ouro, prata e j6ias que
rios, que foram Mercurino Gatinara, seu grande a ifante consigo levasse; que el-rei daria de arras
chançarel e Fernando de Vega, comendadàr_môr à ifante o têrço de tôda a contia do dote' que eram
20 em Castela da Ordem de Santiago: pera que, jun_
zo sessentae seii mil seiscentase sessentae seis dobras
tando-se com os embaixadores, disculissem todàs a e dous têrços, dobras da mesma valia e peso das
matéria e se efeituasseo que d,acôrdo dos quatro que havia de receber em'dote; que o emperador
em conformidade resultasse. E deu-lhes soa- pro- nroveria a ifante de todo o môvel de vestidos e
curaçâo, feita em 6 dias de julho do mesmo ano . itavios de sua pessoa e casa conforme a cuja irmâ
25 por Francisco de Los Cobos, seu secretârio e notârio
25 era e a com quem casava; e lhe daria mais dous
priblico nos reinos de Castela. contos de maravedis de renda em cada um ano pera
Sendo juntos, foi primeiro cuidado reverem_see a ajuda do govêrno e sustentaçâo da sua casa, as-
' examinarem-se de parte a parte as procuraçôes dos seniados em terras e lugares onde o pagamento
principes constituintes; e aihando_rè tudo bas_ fôsse certo e seguro, e el-rei pera o mesmo efeito lhe
"-
3o tantes, foram logo procedendo no neg6cio eram possuidas pola
e tanto 3o daria as terras que de presente
continuaram nêle que aos dezenove àias de julho
vieram a conformar-s€ em todas as condiçôes do
no ms.
matrimdnio e no mesmo dia se fez delas eicritura 3. A reticência indica uma lacuna
24-2t, conlorme a cuja irmd era: letdo em vista a con-
priblica por mâo do secretârioFrancisco de Los Co-
diçâo real de seu irmâo.

r66 fi7
ÇoLECÇ/TODE cL.4ssrcos s,{ DA
COSTA ANArS DE D. rrr
IO.4O
rainha D. Lianor, sua tia, e estavam
obrigadas à
rainha de França D. Lianor, t;;;qo" CAPITULO XV
viessem a
vagar por falecimento rielas, e e-quanto
nâo vagas, De algûas cousas que el-rei mais fez neste
sem lhe pagaria_emcada um."o'!o",.o
_ contos de
5 réis - com tal declaraçâo qu", irâg""ao, se des-
terceiro ano de seu reinado
contaria dos "À
_quatro :olt9i tôda aqulh *_u qou Neste ano se assentou entre el-rei e o emperador
as terras rendessem. Foi riLltima .uplioUçao qr"ï;
novo se aprovassem as pazes que pera bem de paz houvesse junta de astr6nomos
antigâs qoé frurri"
tre ambos os princines: à* e juristas e mareantes de ambas as corôas, entre

- F;;;;;ru#iàT'i;i:
rï-i i. "rr_
ii'#-i 1îiîïijT:
,dassemtôdas as
".,,r;.
v_ezesque lhes fôsse necessârio
à
Elvas e Badajoz, sôbre revista da demarcaçâo de
5 Maluco; e, sendo juntos, se apartaram sem
defensâo dos estados q,i" tmn"_ efeito (r).
ïi, nrp"nfr" u
também em Africa, em^conformiàua"-0". No mesmo ano em 9 de fevereiro fez el-rei doaçâo
capitula_ ao conde de Tentriguel das terras do Carvalhal
çôes antigas que limitavam sitios e-tùures.
rS Celebràda âssi a escritu*, l"Àr"r."i"m Meâo, têrmo d'Agueda, e do Minhocal, têrmo de Ce-
xadores pera a vila de forâ"riir.ur,-lïra" os embai- ro lorico, e do Coudessoiroe o Minhocal no ribeiro do
r-ador_setinha passado, o empe_ Meiono, têrmo de Covilhâ, e d,a Lizira de Tâvora,
. irJJ."ç" aos dez
dias do môs de agosto jurou "*-* a têrmo de Aguiar da Beira; e declara que lhas dâ
ifânte D. Caterina
em mâos do arcebispo dé Toledo com tôda jurdiçâo civel e crime, mero e misto impé-
O. Àtor.o de Aze-
zo vedo, chançarel_môi de CasteË rio, assi como as teveram Rui Vaz Coutinho e seu
ô.,"t""to que a 15 filho Joâo Rodrigues Coutinho.
dispensaçâo viesse, ela se casaria
por palavras de
- presente com el_rei D_. Passou-secarta de viso-rei ao conde D. Vasco
Joâo de pôrtugàI, oo .o_
procurador-.
E logo àr-"Lb"i""aor., da Gama em 27 de fevereiro de t524. Em rz de
:,"_l_lTt""l"
rtzeîam outro fevereiro proveu o oficio de capitâo e anadel-m6r
tal juramento nas mâos do mesmo
e5 prelado, prometendo em nome dos espingardeirosem Henrique de Sousa, do seu
à.fo"iio" cumpri_
ria da sua parte todas as ."pit"f"là", :o Conselho, renunciado nas mâos de Sua Alteza por
e condiçôes Martim de Freitas, fidalgo de sua casa, por sessenta
que continha a es
eitasorenidade
Jïïi'i J,";#î"".iî-ffi ml mil réis de tença que the deu.
com geral contentamento do emperador Em 6 março de r5z4 era marquês de Vila Real
e de tôda e conde d'A]coutim D. Pedro de Meneses.
io sua côrte e satisfaçâo igual de el_rei e àiàgrias pÉUti_
cas de todo êstere1no, -quando 15 Fez em ro de setembromercê a D. Joana da Sil-
po, *i* dos embai_
xadores se publicou.

[(r) Antdnio de Herrera, Histôria d,as lnd,ias; Déca-


d,a III, livros VII e IX.l

r63
r6o
coLECÇÂO DE CL"{.SSTCOS SA DA COSTA ANAIS DE D. IO.4O III

va, mulher de Vasqueanes Côrte-Real, veador que a D. Francisco de Sousa, filho de D. Felipe de
foi de el-rei D. Manuel, de duas mil coroas de tèn- Sousa, do seu Conselho.
ça, - val cada coroa r2o réis: sâo z4o$ooo réis. A Em ro de setembro, confirmaçâo da capitania de
seu filho Manuel Côrte-Real, confirmaçâo da saboa- Mazagâo em Ant6nio Leite, cavaleiro de sua casa;
5 ria preta e branca das ilhas Terceiras, em 15 de 5 nomeaçâo de capitâo de Arzila em Ant6nio da Sil-
setembro. veira a requerimento do conde de Redondo, que
Em t7 de fevereiro, a D. Rodrigo de Melo, conde pediu licença pera vir ao reino a tratar de seus re-
de Tentriguel, o privilégio de desembargador da querimentos.
Casa da Suplicaçâo. Em 3o de janeiro, tença de quarenta moios de
ro Em rB de fevereiro, a Joâo Rodrigues de Sâ, zo pâo à condessade Borba.
polos muitos serviços dêle recebidos fez mercê da Em tz de novembro, tença de duas mil coroas a
alcaidaria-m6r da cidade do porto, com tôdas suas D. Isabel de Noronha, mulher que foi de Nuno Vaz
rendas e direitos, assi como a teve seu pai. de Castel-branco.
Em r4 de dezembro,mercê a D. Lopô d,Almeida. Em 8 de junho, carta de privilégio e brasâo d'ar-
z5 fidalgo de sua casa, de lhe dar a capitania de So- 15 mas a Sebastiâo Pinheiro, por mostrar descenderda
fala. linhagem dos de Pina e dos Pinheiros.
Em rB de de fevereiro, ûa tença de 6$ooo dobras Neste ano, estandoel-rei em Évora, tomou assen-
a D. Felipa de Castro, filha de D. Diogo de Castro, to de mudar o estilo que usavam os reis antigos
do Conselho del-rei D. Manuel. nas cartas e provisôes que passavam, dizendo: Nds
20 No riltimo de junho, mercê a Garcia de Sâ do zo e,l-rei, e mandou que em tôdas se falasse por têrmo
ofïcio de veador da fazenda do Porto, por razâo de singular, dizendo: Eu el-rei, e disso mandou passar
o ter comprado a seu irmâo Francisco de Sâ. sua provisâo pera aviso dos secretârios em r8 de
Em z4 de maio, tença de z$8oo coroas a D. Ana junho.
de Mendonça, comendadeira de Santos, filha de E logo em julho seguinte, porqrie se ia devassan-
25 Nuno Furtado. e5 do demasiadamenteo uso das sedasem todo o gé-
Em 6 de dezembro, carta por que el-rei fez mercê nero de gente, acudiu Sua Alteza com ûa premâtica
a Rui Lopes Coutinho, seu moço fidalgo, filho de em que as defendeu rigorosamentecom certas limi-
Fernâo Coutinho, de trinta mil réis, polos muitos taçôesem pessoase cantidades,modos e guarniçôes.
serviços que o dito seu pai Iez em Africa, onde mor- E mandou que se começassea guardar e executar
jo rc1Jna batalha da Enxouvia. 3o de Éltimo de agosto do mesmo ano em diante. E no
Em rB de fevereiro, o oficio de mestre-sala a
Cristôvâo de Melo, filho de Henrique de Melo, assi
e pela maneira que o serviu o dito seu pai. 26, pretnriti,ca: lei que procurava corrigir abusos.
Em 6 de outubro, mercê de cem mil réis de tença 27, d,efend,eu:proïbiu, fi x ou o us o (?).

r70 ï7r
coLECÇ.4O DE CLASSrcOS SA DA COSTA ANAIS DE D. TOAO III

restante dêste ano mandou pôr em ordem as cousas os alcaides fronteiros de Arzila. Quis o conde cer-
que cumpriam pera a solenidade de seu recebi- tificar-se e tomar lfngua do que havia c deu licença
mento e negociar a dispensaçâode Roma, que à sua a Estêvâo Fernandes que fôsse fora com sete com-
conta estava, e nomeou pera irem buscar a rainha panheiros, limitando-lhe os lugares até onde havia
5 e tomar entrega de Sua Alteza" na arraia aos ifan- 5 de chegar e que, achando-se tudo de paz atê a ri-
tes D. Luis e D. Fernando; e mandou ao duque de beira de Taliconte e o Xercâo, pudessem embora
Bargança se fizesse também prestes pera ir assistir montear. Mas foi sua desgraça que, tratando jâ de
com êles na entrega e a virem acompanhando. E se retirar, houveram vista de três mouros de pé
êle por fim do mês de dezembro se passou com a junto do ribeiro do Alberge: arrancaram contra
ro côrte à vila do Crato, pera ai esperar â rainha. ro êles e colheram um, çlue perguntado pera onde
iam, disse que pera el-rei, que naquele ponto che-
i C A P ITU LO XVI gava ao Xercâo, sua ordinâria estância quando nos
I
t'
i
Corre el-rei de Fez a Arzila por algûas vezes.
corria.
Deram-se os oito por perdidos, porque os dous
Perigo em gue o conde capitâo esteve corn 15 morrros que lhes escaparam foram correndo dar re-
o al cai de de A l câcere bate no campo de el-rei, o que logo entendeiam por
ver muita gente espalhada polo campo, uns a to-
Neste ano correu el-rei de Fez quatro ou cinco mar-lhes o Outeiro das Vinhas, que era por onde se
vezes a Arzlla; e ainda que das mais nâo fez efeito podiam furtar pera Tângere, outros a talhar os ca-
considerâvel, porque o conde tanto que sabia de eo minhos da vila, com que nâo teveram outro remédio
sua vinda dizia com galantaria que polo que se de- senâo largar os cavalos e embrenhar-se no Soveral;
15 via à sua pessoa real nâo seria nunca descomedido mas sintindo no dia seguinte grande rumor de gente
em lhe tolher o campo e deixava-se estar recolhido que os buscava, porque acudiram os bârbaros da
e em boa guarda, todavia da riltima que tornou sèrra, como câes a caça de coelhos, determinaram
lhe cairam nas mâos oito almogâvares. z5 sair-se em demanda da vila cada um como melhor
E foi o caso, que sendo el-rËi ido a Mequinês a pudesse, entregues ao beneficio da ventura; mas ela
zo ver seu irmâo Moley Nasser na doença de que mor- nâo valeu mais que a Gaspar Fernandes, que foi
reu, corria a fama que fôra socorrer ao xeque Omar, tâo sofrido, que em cinco dias que o campo del-rei
senhor de Tafilete, e que a êsse fim levara consigo esteve sôbre o Soveral, nâo quis desembrenhar-see'
jo como os mouros desapareceram,aparec€u êle efoi-se
em salvo à vila. Os sete, inda que se dividiram, fo-
7, Bargança no ms.
13, tanto que: logo que. ram todos cativos, porque todos acharam inimigos
18, almogduares: soldados, por via de regra cava- em grande nûmero nos caminhos que tentarâm.
leiros, experimentados em escaramuças com o inimigo. Festejou el-rei o sucesso, porque, como deixava

r72 173
coLECç.4O DE CLASSTCOS SA DA COSTA ANAIS DE D. JO,rO III

seu irmâo enterrado, vêo correndo a Arzila pera altas vozes que outros parentes nâo conhecia senâo
fazer algum oficio por sua alma com sangue cristâo, a Jesu Cristo e a Santa Maria.
que êles chamam fazer gazua. Mas sôbre tudo esti- Passadoêste caso, que o conde muito sintiu, quis
mou ver entre os cativos a Joâo Vaz, mourisco, Muley Abrahem ver-se com o conde de paz, ou pera
5 irmâo de Gonçalo Yaz, que logo determinou matar; 5 desculpar o feito, ou pera o conhecer e tratar de
e nâo the valeram grandes instâncias com que o perto; e saiu do arraial com mil de cavalo e a sua
conde acudiu logo a Muley Abrahem, pedindo-lhe a bandeira de Xixuâo vermelha e outras duas; e tanto
vida e oferecendo por êle qualquer dos mouros que que foi onde chamam os mastos, mandou que paras-
tinha cativos, que eram alguns que el-rei e êle muito sem e s6 com seis de cavalo se foi pera o conde, que
ro desejavam libertar. E a isto juntava que dissesse ro o esperavana praia com sua gente posta em ala. Vi-
a el-rei que por JoâoYaz se nâo podia dizer que de nha o mouro vestido em um pelotâo de veludo par-
mouro se tornara cristâo, porque no tempo que fôra do, cingido um cinto mourisco largo e um rico tre-
cativo era tâo minino, que quâsi nâo tinha conheci- çado em tiracolo, sem mais arrnas que fla lança e
mento de nenhûa lei. adarga, que lhe levava diante um lacaio, que acom-
15 Nâo bastou nada, nem um grande presente de 15 panhavam alguns outros com mandis e cabrestos de
dôces que a condessa mandou a el-rei: foi entregue destro. Disse-seque vinha entre os seis o filho del-
aos cacizes, que executaram nele um novo género rei, disfarçado,e osmaiseramumirmâodeAbrahem
de martirio, que foi cobrindo-o todo de linho e es- e um primo e outros principais.
tôpa, brearem-no despois com ûa sorte de breu, que O conde se apartou com outros seis companheiros;
eo chamam (mera)), com que curam os camelos, e assi zo êle todo armado em um arnês, salvo a cabeça que
lhe deram fogo e ardeu bem-aventuradamente, por- cobria com ûa gorra e nela ûa pruma; os seus com
que sendo presentes dous cavaleiros que o conde suas couraças e adargas. Juntos com suas cortesias,
mandara com seus requerimentos a el-rei e a Muley caminharam ambos pera o adro, onde andaram pas-
Abrahem, esteve tâo animado do espirito do Senhor seandoum espaço,acudindo tôda a gente do mouro
25 q.uie,esforçando-o êles, êle os requereu que fôssem 25 a ver os dous capitâes juntos; e era bem de ver o
testimunhas em Arzila de como morria na fé de conde, porque em seu tempo nâo houve homem
Cristo e que s6 sintia nâo lhe darem a morte com mais gentil-homem, armado e a cavalo. Vieram-se
tamanhos tormentos, como a tinham dado em tem- logo a êles seis pagens da condessa,com pratos e
pos atrâs a seu irmâo Gonçalo Yaz. É cousa certa confeiteiras de doces e âgua; foi Abrahem tâo bom
jo que lhe trouxeram diante a mâi que o parira e mui- 3o cortesâo que comeu e partiu com os companheiros e
tos presentes, e a todos torceu o rosto, dizendo em o que sobejou lançou em sua barjoleta e na dos com-

ntouvisco: mouro convertido ao cristianismo.


3r, barjoleta: bôIsa, al{orie.
17, cacizes: sacerdotes entre os mouros,

r7+ 175
COLECÇA.O DE CLA.SSICOS SA DA COSTA ANAIS DE D. TOA.O III

panheiros e querendo beber saltou do cavalo em tâo Bastiâo Nuges, e logo lhe deparou sua boa sorte
terra e pôs a talha na bôca e assi se satisfez. E logo entre Tângere e Tarifa ùa nau de guerra que, ven-
lançou mâo na algibeira e deu valia de cinco cruza- do-o s6, se inviou a êle, como a prcsa que tinha por
dos a cada um dos pagens. certa; mas achou-secnganada, porque o português
5 Passadasestas vistas, correu o alcaide d'Alcâcere 5 se defendeu de sorte quc de pcometido se fez acome-
à vila em tempg que o conde era saido a montear às tedor, e de combatido, combatente, e emfim a ren-
aldeas: onde correu grande risco de se perder, se o deu e ficou senhor dela.
alcaide fôra tâo atrevido que decera a lhe atalhar a Posta neste estado e começando os soldados a dar
bôca do rio doce; que, se ofizera, nâopuderaoconde saco ao que havia, acudiu o capitâo, que era fran-
.ro juntar-se com os nossos,que, como bons cavaleiros, to cês, às manhas de seus naturais, dizendo que seu
o foram buscar. Cegou Deus êste inimigo, conten- rei era irmâo do de Portugal e nâo era justo que
tando-o com levar três soldados bèsteiros que ô seus vassalos fôssem roubados por portugueses, que
conde tinham safdo e sete ou oito moços que anda- êle protestava haver-lhe de fazer restituïçâo do na-
vam fazendo lenha. vio e das fazendas que trazia.
rJ Era Bastiâo Nunes mais valente que cobiçoso:
C A P ITU LO X V II contente da honra que tinha ganhado, mandou so-
brestar no saco e levando a nau a Arzila f.ez en-
Como Bastiâo Nunes rendeu com ûa caravela trega com inventârio a dous moradores de tudo o
em que andava no Estreito a ûa nau de cossâ- que havia, com obrigaçâo de darem conta aos mi-
rios que o cometeu; e Vasco Fernandes César eo nistros del-rei quando lhes fôsse pedida, e êle avisou
" tomou um bergantim de mouros logo a Sua Alteza do sucesso;e por que se visse com
quanta mais pontualidade e justiça procedia do
rS Sâo muito anexas aos lugares de Africa tôdas as que os franceses connosco usavam em semelhantes
cousas que sucedem no mar do estreito de Gibral- acontecimentos, deu licença a um dos soldados fran-
tar; principalinente as dêste tempo em que el-rei zj oesesque fôsseseguindoo seumessageiroaPortugal.
D. Joâo tinha cuidado de o mandar guardar com Mas o soldado teve tâo mâ sorte no requerimento,
, navios armados e governados por pessoasde conhe- como na briga; porque el-rei mandou que a nau e
zo cido valor. Achou-se um dia s6 com a sua caravela fazenda ficasse por represâria, em lugar do galeâo
em que andava de guarda naquela paragem o capi- que o ano passado fôra tomado por franceses a
3o Vasco Fernandes César, e que logo se entr€gasse
a nau ao mesmo Vasco Fernandes, que, de pouco
r2-r3, que à conde tinharn saïilo: qttc tinham sa{do ao
encontro do conde. Note-se o emprêgo, pouco freqilente
ro autor, de forma popular ô, em vez d.e ao. 25, rnessageiro: mensageiro, enviado.

176 r77
coLECÇ.40 DE CLASSTCOSSA. DA COSTA ANAIS DL D, {A,4O III

havia, era chegado ao teino, despois de fugir da tanto que despachou as naus da cspeciaria pera o
prisâo de França. reino, segundo atriis cleixamoscontado, deixou em
Com esta nau e duas caravelas ficou Vasco Fer- Cochim seu irmâo D. Luis com podcres de gover-
nandes continuando êste verâo sua assistência no nador, com ordem dc guardar a costa no verâo e
5 Estreito, onde um dia yêo amanhecer com êle um 5 residir ali no inverno. E, êle se passoua Goa, donde
bergantim de mouros: deviam cuidar que eram na- partiu pera Ormuz, viagern escusada,e que, polas
vios de trato mancos. Começaram as caravelas a circunstâncias que dela se contavam, Ihe carregou
varejâJo com a artilheria. Quando entenderam grandes culpas diante del-rei e dos homens. Dizia-se
com quem o haviam, deram volta pera terra a voga que levava todos seus navios carregados de pimen-
ro arrancada até entrarem pola bôca do rio Taga' ro ta de Coulâo e Baticalâ e de gengivre de Cananor,
darte, junto a Arzila. Donde sendo vistos, acudiram . emprêgo de muito valor pera em Ormuz. Antes de
os moradores por terra e Vasco Fernandes mandou partir de Goa despachou Eitor da Silveira pera o
os batéis com cada um seu berço polo rio dentro; Estreito.
e emfim os mouros vararam em terra e se lançaram D'ambas as viagens daremos razâo neste lugar
zj ao monte do porto de Alfeixe como melhor pude- 15 e primeiro da do Silveira, que saiu primeiro. Co-
ram, e o bergantim vêo pera Arzila. meçou Eitor da Silveira a sua por fim de janeiro,
levando nove velas, a saber: quatro galeôes e quatro
C A P TTU LO X V III navetas e um bergantim, em que, fora gente de mar,
se contavam setecentoshomens. Eram capitâes dos
Despacha o governador D. Duarte ûa armada eo galeôes, êle e Ant6nio de Lemos, Nuno Fernandes
p era o E strei to do Mar R oxo; e êl e parte se- de Macedo e Manuel de Moura; das navetas Duarte
gunda vez pera Ormuz de Melo, Ant6nio Ferreira, Alvaro de Castro e Hen-
. rique de Macedo, e do bergantim Fernâo Carvalho.
Mas é tempo de nos passarmos à India seguindo Encomendava el-rei ao governador com grandes en-
a ordem que começâmos, e darmos conta do que e5 carecimentos em todas suas cartas que mandasse
nela sucedeu êste terceiro e riltimo ano do governa- buscar a Maçuâ o embaixador D. Rodrigo de Li-
zo dor D. Duarte. Como tinha assentado consigo dar ma, que fôra ao Preste; e como D. Lufs tinha ido
segunda vista a Ormuz e gastar lâ outro inverno, no ano atrâs àquele porto em conjunçâo que lhe

15-16. À margem destas palavras encontra-se escrito


7, ,nancos: incompletos na aparelhagem ou na tri- por Sousa no manuscrito da Ajuda: <Esta viagem risca-
pulaçâo. mos, porque a nâo escreve Joâo de Barros, a quem segui-
g, conz quern o hauiam: com que tratavam. mosr. Como porém nada aparece riscado, Iferculano en-
13, berço: peqtena peça de artelharia. tendeu, e muito bem, manter o p:rsso.

r78 r79
cot.rtcç:/io Drt cLAssrcos sA DA COSTA ANAIS DE D. TO,4O III

1âo foi possivel esperar por êle, mandava agora tributâria ûa tal cidade. Como moço, deixou-se le-
Eitor da Silveira ao mesmô efeito.
var do engano sempre ccrto das vcrdadcs mouris-
A derrota que 1evou foi pera fazer aguada a Saco_ cas, e como altivo, nIo quis pcclil conselhoaos ho-
tarâ e daf ir-se na volta do Estreito,- onde encon_ mens antigosda India quc vinhatu na armada, por
5 trou muitas naus de mouros com carga de roupas 5 que fôsse sô sua tôda a glôria <1ofeito que imagi-
de Cambaia, que mandava queimar ôm seus do_ nava. Respondeu ao mouro quc lhe mandasse ùa
tos, como gente sempre inimiga, despois de bal_ pessoa de confiança, com quem pudesse capitular
dear as fazendasna nossaar-aàa.
euiô juntamente as condiçôesde paz que pedia. Nâo tardou em apa-
dar ùa vista à cidade tâo nomeada àe Aâem, a ver recer um regedor da terra, cercado de muitos bar-
ro se chegaria cm conjunçâo de fazer d,e caminho
al_ ro cos cheos de refrescosde tôda sorte pera todas as
gum bom serviço ao Estado das Indias.
naus e presente rico e particular pera o capitâo-
Foi surgir nela a tempo que no porto havia mui-
-môr.
tas naus de mouros, tôdas ricas e fôdas carregadas, Chegados a concêrto de pazes, ficou capitulado
porque nâo teveram lugar com a vinda repéntina que o rei de Adem se faria vassalo del-rei D. Joâo
rj das nossasnem pera fugirem nem pera pôrem suas
rj 3.o de Portugal, por assento gravado em chapa
fazendas em terra. Deràm-se por perdidos, porque d'ouro, ao uso da India. E em reconhecimentode
acertaram a terem novas do que Eitor da Silveira
vassalagemdaria todos os arlos ùa corôa d'ouro dc
vinha fazendo aos que encontrava de sua naçâo peso de dous mil xerafins, e seria condiçâo que os
e lei, no mesmo dia que êle apareceu.Mas o rei lires portuguesesque a seu porto viessemnâo pagariam
eo mandou que estivessem de bom ânimo, que êle zo mais direitos de suas fazendas que o meo do que
tinha traça pera os salvar; e logo despediuum barco pagavam as outras naçôes; e êle, capitâo-m6r, ofe-
ao capitâo-m6r, dizendo que, sè vinhà de paz, acha_ recia em nome del-rei de Portugal segurança a tôdas
ria naquela cidade^todo bom gasalhado e serviço, as naus de seu porto e que as dos naturais de Adem
porque estimava fazer pazes por seu meio com poderiam navegar seguramentepor onde quisessem.
z5 el-1ei de Portugal e fazèr-se sôu vassalo, mas
se 2j Destas e outms particularidades se fizeram escritu-
qutsesseguerra, defenderia sua casa como era obri_ ras por ambas as partes.
8ado. Em cabo de quinze dias vêo a corôa feita e com
Alegrou-se Eitor da Silveira com a embaixada, ela novos presentespera todos os capitâes da arma-
-
f_undando nela, como moço e muito altivo que era da e a chapa d'ouro por el-rei assinada. Mas nâo
3o de pensamentos, pocler ganhar a honra de fazer jo parou o infiel vendo a facilidade com que nos iamos

17, acêltara,ln a teretn: calhou terem. aproxi-


18, xerafim: moeda incliana com o valor
2r, traça: meio astuto, habilidade.
mado de 3oo a 36o réis.

rEo r8t
COLIiL'ç.IO Dt:. CLASSrcOS SA DA DE D. III
COSTA ANAIS JOAO

enganando e fiando dêle; imaginou outra traça


pera pior é: que o rei, falsando a palavra e fé que tinha
lhe ficar pinhor eT qle se pagasse largamËntei
. dado, tanto que Eitor da Silveira saiu ultimamente
pediu ao capitâo-m6r o-berganûm"com
viù portu_ daqueles mares, prendeu F-crnio Carvalho com os
gueses a que ofercceu promessas de grossas
pagas, seus vinte companheirose todos matou com cxqui-
5 como quem nenhûa determinava cumprir.'ùtzia quise-
que o havia mister pera efeito de lhe fùer 5 sitos génerosde tormentos, salvo alguns quc
arribar ram negar a fé.
ao porto tôdas as naus que passassem.
Tâo con_ Mas se nesta viagem houve as peldas que temos
tente estava Eitor da Silveira de si e do que
tinha visto, da do governador D. Duarte nâo resultaram
feito, que nenhûa cousa soube negar: ficou
o ber- melhores fruitos, sendo ambas de muito grande
ro gantim c o mesmo capitâo Fernâi
Carvalho com ro custo pera o Estado e em tempo que os mouros de
os_vinteportuguesesqùe nêle traz\a.
Calicut, sem nenhum mêdo de nossas armas' coa-
Deu logo velas peia Maçuâ, que era
. o fim da lhavam o mar de paraus e como senhoresdêle leva-
viagem, e foi ancorar no porto p-or fim
de março- vam a Cambaia tanta pimenta que carregavam as
Aqui teve informaçâo que-o lugàr em que
D. Iio_ naus de Meca com gravissimo prejuizo da fazenda
.r5 drigo residia era tâo distante q"ue
nâo poderia vir t5 real de Portugal. O que achamos que lez foi mandar
em menos de vinte cinco dias; e iançando
conta que, Baltesar Pessoa por embaixador a Pérsia, que por
se tantos esperava, ficava arriscadà a invernai
no chegar em tempo que faleceu logo o Xâ Ismael e
Estreito, que era cousa de muito perigo, porque
nâo se fazer nova eleiçâo de um sobrinho seu por nome
podia deter-se mais que até vintè de'abril,
aos seis Xâ Thamas, tornou sem nenhum bom.despacho.
eo do mesmo mês fez .roit" pera a India
e ioi encontrar zo Bem sei que Joâo de Barros pôe esta embaixada
o governador D. que jâ vinha de Ormuz,
-Duarte, na primeira jornada que o governador fez a Ormuz;
. na costa de Dio, donde se fôram. E tal foi d;;; mas outros a pôem neste lugar. O governador se
de Eitor da Silveira.que, enganado de " opiniâo
sua vêo pola costa de Dio e dai tocou Charil e Goa e
e-das palavras do"rei mouro,"perd"o .o*
êle {uinze despois Baticalâ. E ultimamente se foi a Cochim,
e5 dias, que, se os nâo.perdera,pudera
.t.gu, a tempo z5 jâna entrada de dezembro, onde fez enlregado Es-
de trazer a D. Rodiigo cle Maçuâ; e por
dous mil tado ao conde almirante, seu sucessor,em quatro
xerafins de um tributà fingido e sem
iundamento, dias do mesmo mês.
, perdeu a muita riqueza qùe pudera
interessar das
naus dos mouros,, perdeu a despesa
!O{à daquela
30 arrr;,ada,e sobretudo ficou obrigado o Estado a man_
dar despoisoutra em busca deb. Rodîgo.
E o que

28, interessar: lucrar, ganhar.

18z 183
COLDCç/TO DE CLASSrcOS SÂ DA COSTA ANAIs DE D, III
IO.4O

C A P ITU LO X IX estava com ùa guerra surda com os mouros, e saru


Entra o conde almirante em em terra pera ser visto clôles; l)or(luc afirmavam
Coa; passa a que era fama falsa e lançaclapolos nossosdêle estar
C ochi m. D â-se.conta do qr"
i " i a" cami nho, na India pera tcrror cla gcrtte igttorante; e providrs
e navios que despachOu contra
cls mouros gue algûas cousas,foi-sc a Cochim.
navegavam especiarias; e dos 5
muitos qr" ior Nesta jornada sc lhe puseram diante muitos pa-
sua ordem e de D. Henrique J"
N4",,r"r". foram raus de mouros com mostras de que o nâo tinham
togo castigados
em conta. Ardia em raiva o ânimo do conde, mal so-
frido em semelhantesdemasias,de sorte que man-
,j1T-ï n"e ressucitaa fndia e o crédito primeiro
oos portuguesesdêste ano em diante ro dou a seu filho D. Estêvâo e Ant6nio da Silva e
e começam os Tristâo de Taide e outros fidalgos que nos batéis das
mouros a sintir que tem na India
o seu açoute an_ suas naus lhos fôssem castigar. Abaixo de Cana-
tanto no gorrêrno do Almirant.",
_ 1i8o, .l.rro dos mais nor correram trâs oito que fizeram varar em terra,
5 governadoresque logo lhe suced".am. Assi se
alenta onde houve alguns mortos e muitos feridos; e junto
o espï19 pera escrever, como
:-1Ig: vejo que se 15 a Panane deram caça a outros doze, com que teve-
antmam os capitâ_espera trabalhar
e vencer. En_ ram briga mui acesa e de perigo; porque, varando
trou o conde em Goa por fim
do mes ae setembro. os mouros na praia, juntou-se a gente da terra a
E como era homem muito activà;;;ig"
ro acudiu a muitas cousas togo, da justiça, defendê-los, e sendo dêles muitos mortos, ficaram
qo" ie-q'ieriam brevi_ feridos dos nossos Antdnio da Silva de Meneses,
dade e diligência; e sË ;râ;;";;â;
-nâo da justiça, zo Manuel da Silva, d'alcunha o Galego,e Joâo deCar-
tirou da capitania da cidade ; F;;;;.". pereira
. P":,u11, poi queixas_quedêle dona, e mortos dous. E porque lhe parecia que nâo
achou, e proveu nela conhecia a India, polo desafôro e soberba que via
.
_p. Henrigoè de MËn.ses. nos mouros, ordenou muitas armadas juntas pera
15 t-ogo caminhou-pera Cochim,
e por lhe nâo ficar acharem por tôda a parte quem os domasse e re-
nada por fazer, deu vista a
C"""ior,'o.rde meteu a5 duzisseà humildade antiga.
de posse da fortaleza D. Sil;;-âL M".r"r"", Foi a primeira de duas galés e ûa galeota, capi-
q_uemfez entregar um mouro "
cossârio chamado Balu" tâo-m6r Jer6nimo de Sousa e companheiros Fran-
Hacém, qoe .rd"va tâo sotto ;;;;Ë;r",
to e obras cisco de Mendonça o Velho e Antdnio da Silva de
? .nosso dano que, tendo feito muitos males, se Meneses,com ordem que, despois de proverem a
fazia chamar capitâo_mô,ao-_ur.
ËJi'f,."r"rrt. quu
o rei de Cananoi fez ao conde dêste
inâuro, que ti-
nha preso, e êle. mandou a D.
ii_à", que lho
teve a bom recado conhecer de suas culpas. 12, lltos lôssem no ms. Era mais regular os lôssem.
z5 Daqai passou a C,alicut, -até Note-se que no manuscriTo lhos tem um ponto baixo, sinal
o"à;b.-jrào o" rirnu talvez de futura correcçâo.

t84
û5
C0LECÇAO DE CLASSrcOS 5.4 DA COSTA ANArS DE D. JOÂO III

D. Joâo de Lima em Calicut de cousas necessârias, No mesmo tempo, tendo novas D. Henrique de
que lhe iam em ûa caravela de sua companhia, Meneses,capitâo de Goa, quc à vista da cidade pas-
ficasse naquela paragem pera freo dos paràus da- savam cada dia muitos paraus, caminho de Cam-
quele Malabar. E saiu o provimento bem acertado; baia, assi o sintia que sc dcsfazia de dor, tcndo llor
5 porque dentro de pouco tempo destruiu mais de 5 afronta sua tamanho atrevimcnto; e se lhe fôra licito
quarenta, cujo capitâo era o mouro Cutialle, que pola gbrigaçâo do cargo, nâo lhe pedia seu grande
por mandado do Samorim saia de Coulete a tolher ânimo menos que ir em pessoatomar por seu braço
os mantimentos que navegavam pera a nossa forta- satisfaçâo dêles. I\{as via-se com as mâos atadas,
I leza. Em segunda armada mandou Simâo Sodré porque o viso-rei, na passagem que fez por Goa,
ro com quatro velas às ilhas de Maldiva, em busca de ro tinha levado todo género de navios que havia no
uns mouros que faziam guer-raa certos senhoresdas porto. E com tudo achou-se um dia tâo vencido da ,
ilhas, nossos amigos, e também pera fazer vir cairo paixâo, que correndo a ribeira em pessoae achando
a Cochim, que é principal muniçâo pera as naus dous paraus, que carregavam sal pera a cidade, logo
que partem pera o reino. os comprou e mandou armar; e porque na mesma
r S Partiu Simâo Sodré e encontrou seis fustas, de 15 conjunçâo entrou Antônio Correa de Dabul com
tl que capitâo urn mouro dos principais de Cana- três paraus e ùa galeota, com que fez seis vasilhas,
nor: "era
desbaratou-as e ficaram-lhe na mâo duas. Em cheo de contentamento e boa esperança, por lhe
terceiro lugar despachou pera a costa de Melinde parecer que tinha ûa grande armada, deu a capita-
Fernâo Martins de Sousa com duas embarcaçôes; nia-mdr com a galeota a D. Jorze lelo, seu sobri-
eo e juntamente mandou mais duas galeotas a zo nho, filho de D. Joâo Telo de Meneses,e das mais
;ei6ni-
mo de Sousa, pera que igualasse em ligeirèza os fez capitâes Antdnio Correa, Paio Rodrigues
paraus de mouros e ficasse com mais fôrça. E fo- d'Araujo, Alvaro d'Araujo, seu irmâo, Joâo Cal-
ram-lhe bem necessârias; porque logo teve novas deira, de Tângere, e Duarte Denis, de Carvoeiros,
que no rio de Braçalor estavam oitenta paraus car- Eram todos homens de feito: mandou-os sair em
z5 regados de pimenta pera irem vender a ôambaia às z5 dra do ap6stolo S. Tomé, que, como é patrâo nosso
naus de Meca e foi pelejar com êles. E por ser sô- nas parles da India assi guiou aD. Jorze, que onde
bre tarde quando os acometeu, tomando doze com chamam os Ilheus Queimados, junto de Goa, lhe
seu recheio, os mais se tornaram ao rio, onde os deparou trinta e oito paraus carregadosde especia-
encerrou pera lhe tolher a navegaçâo da pimenta. ria, capitâo dêles um mouro de Calicut por nome
3o Porém nâo foi a vit6ria sem custo, porque foram
dos nossosferidos muitos e mortos quatro.

t6, uasilhas: vasos de guerra.


2+, d,e feito: decididos, prdprios para um feito de
12, cairo: cord.as feitas de filamento de côco. annas.

t86 r87
coLECÇÂo DE CLASSrcOS5,4 DA COSTA III
ANAIS DE D. TOAO

China Cutialle. pelejou com êles, tomou


f.ez dar à costa a môi parte aos
quatro e as armas reais, das quais a primeira tinha por so-
; bandeiras brescrito ûa regra assinada da mâo de Sua Alteza,
com qu-e festejou a vit6ria foram "s
-"i.;de mouros
cados das vergas das embarcaç0.r,
enfor- que dizia: - Sucessâo do Conde Almirante; e a
_ f..u terror e segunda e terceira nâo tinham mais escritura nem
_5exemplo; e nâo tardou em o fazer saii segunda vez
com sô três dias de descanso;e valeu 5 titulo no sobrescritoque duas palavras: - Sucessâo
pera dar com ûa nau de Calicut,
aliligência segunda - em ûa e - Sucessâoterceira - na ou-
acompanhaâa de trà, com o sinal ordinârio de Sua Alteza abaixo' E
nove.paraus de gu.rrrda,dos quais houve
vrrorla: tomados alguns, fez dar a nau
semelhante porque o veador da fazenda da India é a segunda
à costa. pessoa dela despois do governador em todas as ma-
ro térias da fazenda real, é costume estarem em seu
. C ]A P ITU LO XX poder estas lntentes, que, polo efeito em que ser-

t, Morte do conde almirante. Sucessâo


rique de Meneses
de D. Hen-
vem, sâo chamadas sucessôes.Ajuntou logo a esta
declaraçâo mandar fazer um auto dela por tabaliâo
prlblico, em que o veador da fazenda e os fidalgos
ro 15 è mais pessoasde importância assinaram e Ïrzeram
tl, Procedia o conde nas cousas atrâs ditas
com a juramento de obedecerem €m tudo, assi ao que
sua veemência natural e sem dar hora
de repouso a saisse nomeado pola patente de Sua Alteza, como
seu espirito. Mas o corpo, carregado
de anos e que_ a Lopo Vaz, emquanto o tal norneado tardasse em
brado dos trabalhos e navegaçôe-santigas,
vêo a sin- tomar possedo Estado.
tir com demasia cuidJdos pr"."itÀ.
.os
rj gravemente; e conhecendoque
Adoeceu 20 Nesta conjunçâo chegou a Cochim D. Duarte; e
o chamava a ultima porque sôbre a matéria de sua embarcaçâo e sôbre
hora, fez juntar diante d.e_'ri iiààfgo. p".ro", a entrega do govêrno teve o conde alguns desgostos
mai.s,principais que na cidade",." ;;Ë;;_, "
com o com êle e com seu irmâo D. Luis, como era impe-
crela, que era Lopo yaz d,eSampaio,
:aprr,ao e mos_ tuoso e ardente no que lhe parecia ordem de justiça,
rrando os poderes que el_rei lhe dera
,o
em sua parti_ 2J de maneira lhe agravaram o mal e encurtaram os
que por sua morte ficasse governan-
91,^d_":l,gou dias da vida, que vêo a falecer aos vinte e cinco dias
.loi" o capitâo Lopo yaz, até tomar
^":_1
governo
posse do de dezembro dêste ano de 524, dia em que celebra-
aquela pessoa que se achasse nomôada
nos mos o glorioso nacimento de Jesu Cristo, nosso bem.
papéis secretos, que em mâo do veador
da fazenda Sepultado o conde almirante, juntou Lopo Yaz
Afonso Mexia tinha depositados.
3o de Sampaio, como governador, nas mesmas casas
25 Eram estes três pa.tentes, cerradas e seladas
com €m que o conde falecera, tudo o que em Cochim
havia de fidalgos, cavaleiros criados del-rei e mais
25, serrad,as no ms.
23, Conxo era: Pors era.

ûq
COI,ECÇ,TU DE CLÂSSICOS SA DA COSTA ANArS DE D. IOA.O rrr

gente nobre; solenidade que o caso requeria


" "oT
fez abrir diante de
1 LtvRo ill
titulo <rSucessâo 1 pate'nte !". U"nà po,
^todg. Alirirante>.'À
do Conde qo"t ."iJà
aberta e lida polo secretârioda India, CAPI 'I 'LI I-o I
, se achou no_
5 meado por seu no govêrno do Estado
-sucessor
D. Henrique de Meneses Das naus que êste ano partiram com carga da
1r). Ëespactrou_tnel,ofo
Y-az tôda cliligênciacom a novâ cinco velas, lndia pera o reino; e das que do reino foram
1m de per a a lndia, e o sucesso que ûas e out r as
deu a capitania-môr a Francisco de
Sâ, or_
crem
-gue que desse de caminho aviso a "o_ teveram
ro Sousa na bôca clo rio a" S.açaior, .ferônimo de
Ënde estava,
sôbre o grande nrimcro de paraus que Sairam de Cochim êste ano de r5e5 polo mês de
nêie encur_ janeiro pera o reino, com a carga ordinâria de espe-
ralara,_pera se ir acompanhar o gorr"'À"ao..
D. He_nrique, recebiào o avisË d;;;u ciarias, a nau S. Jorze, em que embarcou D. Duar-
sucessâo,
nem se deu muita pressa e1 partir nem te, que acabara seu tempo de governador, e a nau
em seguir
15 a viagem despois de partido,'porque j Santa Caterina de Monte Sinai, que se deu a seu ir-
quis cfrJgar
a mâo D. Luis, e a de Duarte Tristâo Armador, em
.Cochim a tempo qud achassep".t'iàur-u, naus do
relno; que, como D. Duarte e D. Luis que s€ embarcaram os filhos do viso-rei, que êle
eram seus pa_
rentes e sabia que estavam escandalizados mandou se tomassem pera o reino. Nâo achamos
dos ter_
mos_com que o conde os fizera embarcar, noticia que fôssem despa.chadasmais naus; mas
foi_se de_
zo tend.o na viagem, porque oao /o porque consta que o conde viso-rei tinha feito fôrça
qo"ri" Jâminuir um
ponto, por razâo do sangue, que a D. Duarte que se viesse na nau Castelo, e tam-
,no o conde, seguin_
do a.obrigaçâo de justiçà au, dra.r, que trazia de bém tinha despachado outra com cartas a el-rei,
el-rei, contra D. Duarie "ora.rr"r"--n que partiu em primeiro dia de dezembro, capitâo
Ë verdade,
nâo.foi a. detença ociosa nem a" pÀ"o'fruito, Francisco de Mendoça, parece que deviam sair
gundo adiante veremos, inda que se_
Jpii_"iro 15 cinco por todas. Destas sabemos que teveram infe-
intento
z5 f9i o que temos dito, e a essaconta lice viagem as dos dous irmâos, ûa procurada e
cle caminho man-
dou suas vias de cartas pera jr-rr"os quâsi acinte, a outra muito desastrada.
de via_
gem. Mas porque vêo a êntrar"t_r.i em Coctril em 4 de Contam que dos rigores que o conde usou com
tevereiro do ano de vinte cinco, D. Duarte, que foram muitos, além de o mandar
daremos aqui fim
a.êste capitulo e com êle ao seguna, fi"i. zo ir preso em m€nagem e com ordem de nâo desem-
desta his_
3o tôria. E no seguinte se ve-râ qiao l.- barcar em Lisboa sem recado expresso del-rei, re-
e de sewiço de Deus e del_rei fora_ sultou temer-se que havia diante de Sua Alteza tâo
.o","Lpregadas
demoras.
graves culpas suas, que justamente o laziam vacilar
[ (r) B arros, D écada I]1, l i v.IX , nos conselhos; e ninguém deu disto sinal mais claro
cap. g.l
?j que seu irmâo D. Lufs, porque dês do dia que am-

r90
I9I
COLECçÂO DE CLASSrcOS SA DA COSTA ANAIS DE D. III
ïOAO

bos se ftzetam à vela em Cochim, êle o nâo desa-


seguir mais, se foi em demanda do reino aonde nâo
companhou de dia nem de noite, vigiando-o sem- chegou € se teve por perdido com tormcnta, sucesso
pre iom grande cuidado; e fazia-o de melhor von-
ordinârio nesta viagem; mas polo tempo adiante se
tade, porque enxergava, no modo que levava de
vêo a saber que, firzendo a nau tanta 6gua que se
j navegar, que era sua determinaçâo nâo passar na-
5 ia sem remédio ao fundo, cncontrou nesta costa de
. quele ano ao reino e fazerse arribado a Moçambi-
Portugal com um navio francês, do qual querendo-
que: sendo'assi que onde todos os navegantesdese-
-se valer como de amigo e pedindo-lhe ajuda e re-
jam velas dobradas e ainda asas pera chegarem
médio, os que nêle vinham lho deram de verdadei-
com cedo a vencer o cabo temeroso de Bôa Espe_
ros inimigos, porque entrando a falsa fé se fizeram
ro taîça, êle ao revés ora mandava tomar as velas de
ro senhores dela, e despois de baldearem em seu na-
gâvia, ora levantar a vela grande nos palancos; e se
i vio o melhor e mais precioso, por que nunca viesse
de noite sobrevinha qualquer chuva, inda que fôsse
a luz tamanha treiçâo, lhe puseram fogo e a fize-
sem vento, logo fazia amainar tôdas as velas, e ao
ram arder com tudo e com todos os que dentro vi-
levantâ-las dava tanto vagar que se perdia muito
nham.
rj tempo, nâo bastando arribar a êle muitas vezes
15 Averiguou êste sucessono ano de 38 Diogo da Sil-
D. Luis e lembrarlhe com brados que perdiam a
yiagemi e emfim chegaram tâo tarde ao ôabo que, veira, que andando por capitâo-m6r na costa €
colhendo um cossârio francês, alguns soldados por
a fôrça de ponentes, que jâ acharam mui frios e
salvarem as vidas lhe ofereceram descobrir o que
âsperos, arribaram a Moçambique ambos.
temos referido e ajuntaram que o capitâo com que
20 Como o tempo deu lugar de tornarem a navegar,
so ali vinham fôra companheiro na tomada da nau
sairam ambos os irmâos com o mesmo cuidado:
e era irmâo do traidor a quem D. Luis se encomen-
D. Duarte de ir muito devagar e D. Luis de o vi- dara. Posto êste a tormento, confessoutudo, e Diogo
giar e apressar. Mas, passadà o Cabo, tomando .iâ
da Silveira fez que o pagasse com a pena de taliâo,
mal D. Duarte as diligências de seu irmâo, man-
ficando queimado vivo com o navio e companha,
z5 dou-lhe dizer que êle se ia entrar na Aeuada de
s5 pequena consolaçâo pera a perda de D. Luis, mas
Saldanha, porque ia falto d,âgua, que êle D. Luis justo castigo. D. Duarte, sem tomar a ilha de Santa
nâo perdesseviagem e se fôsse embora em demanda Helena, se vêo buscar a costa do Algarve e snrgiu
da ilha de Santa Helena e que ai se juntariam. na barra de Fârâo. E logo mandou ao piloto que
D. Luis ou parecendoJhe que tinha feito assaz em fôsse tomar Sesimbra; mas êle pôs a nau na bôca
3o ïazer passar o Cabo a seu irmâo, ou cansado de o go da barra de Lisboa e ali se desembarcou com o mais
que pôde de sua fazendai e estas demoras forarp

rR a ffuça. Note-se que a é preposiçâo.


re
Ponentes: ventos que sopram do poente. 28. Fdrdo: Faro.

rg2 T93
r3
COLECç,4O DE CLASSICOS SA DA COSTA ANAIS DE D. TOÂO III

ocasiâo.de se perder a nau, levantando-se um tempo exterior concêrto o muito que dentro na alma esti-
travessia que sem remédio a ilez ir à costa. mavam o gôsto de seu rci e o bcm do reino. E tanto
De Lisboa sairam pera a India no mesmo ano que se soube que a rainha abalava dc Valhadolid,
quatro naus, capitâo-môr Felipe de Castro, filho caminharam os ifantcs corn grande c luzido acom-
5 de Alvaro de Castro; os mais capitâes eram D. Lo- 5 panhamento pera Elvas; c o duquc de Bargança
po d'Almeida, filho de D. Diogo d'Almeida, prior por outra parte, seguido de seu filho e do comenda-
do Crato,.que ia pera entrar por capitâo de Sofala dor-m6r de Cristo, seu sobrinho, e de um grande
em lugar de Diogo de Seprilveda, que acabava seu nûmero de fidalgos e criados, - aparato quâsi real
tempo; Diogo de Melo e Francisco de Anhaia, filho e estilo ordinârio desta grande casa em todas as oca-
ro de Pero de Anhaia (r). Dêstes se foi perder o ca- ro siôes que se acha de serviço dos reis e honra do rei-
pitâo-môr com a sua nau <Co1poSanto> na costa de no, - se foi juntar com êles na me$na cidade. E
Arâbia, junto ao cabo de Roçalgate, onde por mâ quando foram 14 dias do mês de fevereiro, se acha-
vigia foi a nau varar em terra; e Francisco de ram todos na ribeira de Caia, que é a raia de am-
Anhaia se perdeu também com a nau rrS. Vicenterr à bos os reinos.
15 saida da barra de Lisboa. Neste ano de z5 foi por rS Vinha a rainha da parte de Badajoz, acomparùra-
capitâo-môr d'armada da costa Fernâo Correa, com da do bispo de Siguença e do duque de Béjar, se-
ûa nau e quatro caravelas e tornou Garcia de Melo guidos ambos de muita nobreza e fidalgos princi-
às ilhas com a nau <Santa Caterinal e outros sete pais de Castela, todos lustrosos e custosos em diver-
navios. sidade de trajos, sêdas e côres e nrimero de criados.
zo Sendo juntos o bispo o duque com os ifantes e mos-
C A P ÏTU LO II trados de parte os poderes que uns e outros traziam
pera a solenidade da entrega, foi logo executada
Entra a rainha D. Caterina em Portugal. Espera-a à vista de infinito povo, que a ela concorreu de am-
el-rei na vila do Crato. Aï se recebem, e passam
pera Almeirim
5, Barganço no ms.
20 Entrado o ano de 1525, ardia o reino em aperce- 8-rr. Esta simpatia pela casa de Bragança provém
bimentos de festas, começadosdês do ano atrâl pera de que Fr. Luls de Sousa era intimo amigo do Duque,
o recebimento da rainha e continuados neste pot con o qual se ca teava desde Bemfica, Dizem os biôgrafos
que ros grandes actos da sua vida, o duque de Bragança
tôda a nobreza do reino com custo, riqueza" e varie- nâo deixava de consultar o amigo. Pena é que nâo apa-
dade de librés, desejando cada um mostrar naquele reçam essas cartas de Fr. Luis de Sousa.
18, custosos: ricos, preciosos.
2o-2r, mostrad,os d,e Pa,vte: mostrados um ap6s outro,
r-2, temPo tlauessda:vento contrârio. separadamente. Herculano supôs que faltasse alguma coisa
f (r) Joâo de Barros, Dëcad.aIII, liv. X, cap. Ll no manuscrito, e pôs <de parte a parter.
I
ii

t, I
r94 rg5
I
coLECÇÂO DE CLASSrcOS SA DA COSTA ANArS DE D. III
IOÂO

bos os reinos, com ûa universal e extraordinâria se fazer a entrega; e como {ôr feita, tomarâo logo
alegria de todos. E porque o modo e ordem desta seus lugares, a saber, o ifante D. Luis no me-
entrega saiu tôda do juizo del_rei e temos viva a lhor lugar. Os ifantes, dcspois de beijada a mâo,
carta que Sua Alteza escreveu a Damiâo Dias, que nâo cobrirâo suas cabcças, salvo quando lho man-
5 acompanhava os ifantes como notârio prlblico e 5 dar a rainha, e ela serâ avisada pera os mandar
geral dêstes reinos pera o que se oferecesse, pare_ cobrir logo.
ceu-nos mais acertado lançâ-la aqui como estâ em De tudo o que dito é houve por meu serviço vos
seu original, que fazermos descriçâo do como pas. mandar êste regimento pera, antes da saida da
I s o u.E éaquesesegue: cidade de Elvas, saberem as pessoas principais e
ro <Hei por bem que tôdas as pessoas que invio ro tôdas as outras o que nisso ordeno e mando, e terdes
99m os ifantes, meus irmâos, vào logo sàindo de cuidado pera que assi se faça. E pola muita con-
Elvas, todos juntos com êles e nâo Jpartados em fiança que de vôs tenho quis dar-vos disso cuidado
magotes; e que no lugar onde se houvér d,e fazer a antes que a outrem; e por isso fazei-o assi bem,
entrega da rainha, se deçam todos a pé e a pé bei_ como de vôs confio.l
15
iem todos a mâo à rainha e assi como'cada u-m me_ 15 Por outra carta mandou el*rei alguns aponta-
l1 lhor o puder fazer, sem nisso haver precedência; mentos a Pero Correa, senhor de Belas, concernen-
e despois de beijada a mâo se tornarâo a pôr a ca_ tes à decência desta entrega, com ordem que os te-
valo. Despois de todos beijarem a mâo, se àdiantarâ vesse em todo segrêdo, e em caso que por mandado
o duque e se decerâ a pé pera beijar a mâo; e tanto da rainha fôsse perguntado por algùa cousa, res-
20 qtu: fôr a pé, a rainha lhe mandaiâ que torne a zo pondesse conforme a êles, mas isto como quem dava
ca_
valgar, e assi a cavalo lhe beijarâ . àâo, e despois seu parecer e nâo como que tinha instruçâo sua,
de beijada se tornarâ a pôr a par dos ifantes meus pera que a rainha pudesse fazer aquilo de que te-
irmâos; e despois de ser junto iom êles, se decerâo vesse rnais gôsto. Como êste fidalgo foi um dos em-
os ifantes e se porâo a pé, e a rainha lhes man- baixadores e procuradores que assistiram na con-
25 da{a que cavalguem e lhe irâo beiiar a mâo a 2j clusâo e escrituras dêste matrimônio em Castela e
ca-
valo. O filho do duque o seu era jâ conhecido da rainha, mandou-lhe el-rei tam-
s_obrinho, beijarâo a mâo" a pé "o-..rdador_m6r,
à rainha antes do bém que ao tempo da entrega estivessejunto dela,
duque beijar. Beijada À mâo polos ifantes, pera lhe dar a conhecer as pessoas que lhe fôssem
como dito-lha é, êles
se retirarâo um pouco, ficando o beijar a mâo e nâo errar no gasalhado e honra que
3o mals junto da rainha que fôr possivel; e se vierem jo a cada um por sua calidade se devia.
o duque de Béjar e o bispo de Siguença, que vi_ Em remate desta solenidade despediu a rainha
nham. acompanhanç11oa rjinha p".à a Lntregarem
na raia, nos lugares da mâo direita e da outra-parte
da rainha, nâo lhes dando êles lugar, esperarâo até r, e c omo: e depoi s que,

r96 r97
COLECÇÂO DI:. CLASST}S SA DA C1STA ANAIS DE D. III
JOA.O

com palavras de m-uito respeito e cortesia o bispo CAPI 'TULO III


e duque e fidalgos de sua cômpanhia, que se torna_
p"3 Badaioz; e ela com os ifantes se reco-
Lt- Trata-se do casamento do emperador com a
rneu a r,lvas e logo caminhou pera o Crato,
onde if ant e D. lsabel. Vem de Cast ela em baixado-
5 el-rei a. esperava; e passados poo"o, dias se foram res pera celebraçâo dos contratos e despos6rio'
juntos à vila de Almiirim,- de$ovoando_se
os luga_ Chama el-rei a côrtes os estados do reino
res até muito longe com alvorôço de verem e feste_
Jêrem a sua rainha. E como entre os portugueses Resultou da vinda da rainha começar-sea tratar
é tâo entranhâvel e natural o amor de seus
reis, com calor do casamento da ifante D- Isabel com
-ro creceu grancfementcpolo tempo adiante pera com o emperador. El-rei o desejava polo amor que lhe
ela em todo o reino, por-queÎoi descobrindo
raras tinha e pola lembrança da palavra que el-rei seu
e herôicas virtudes, grand" zelo e piedade
grande brandura e afabilidade
cristâ, 5 pai lhe tomara morrendo, e a rainha o procurava
obr", c palavras com eficâcia, obrigada em todo extremo das exce-
pera. com grandes e pequenos, ". a que juntava fazer lentes partes que achava na ifante, das quais a ex-
.r5 mercês a uns e procurâ_Ias del_rËi pËra
outros; e periência e trato familiar fazia grande aventagem
ganhando as vontades dos vassalos,gànhar
também à f"*" que dantes tinha delas. Tratado o negdcio
a del-rei, que muito estimava êste b-om têrmo.
ro por cartai e recados dos embaixadores que em Cas-
Era a rainha de dezoito anos de idade perfeitos
iela e neste reino assistiam, emfim se vêo a apertar
quando entrou neste reino,_porquenaceu
em r5 de tanto, que pera se lhe dar conclusâo com solenidade
zo janeiro de r5o7 na vila aË Tôrquem"a".
,lrJo*" de escrituràs e dos mais autos que em semelhantes
Sua Alteza consigo alguns criados, que neste
reino matérias se costumam, ordenou o emperador man-
passarammuito adiante em cargos e èstimaçâo,
me_ t5 dar a êste reino particulares procuradores e embai'
recida por partes de entendiitento e prudência.
xadores.
Foram: no eclesiâstico,
Juliâo d'Alva, p"i,f. À}r"J Por outra parte, vendo el-rei que sôbre o grande
z5 e Ro^drigo Sanches; os Jeculares, Felipe
de Aguilar, gasto que dJvinda da rainha e sustentaçâo de sua
etc. Como foi condiçâo do contrato, qo"
Castela àasa the recrecera, tinha por d'avante outro maior,
"rn
as pessoasque a viessemâcompanhando 20 q17ecumpria lazer no dote e ida da ifante, assentou
2i !":,que
rlcanam logo gozando do privilégio
de naturais, cha-ar èôrtes pera se ajudar de seus povos nesta
todos foram admitidos ,ro qu. cab"iaem
suas cali_ ocasiâo. E na èntrada de julho mandou fazet cha-
3o dades, como adiante .r.remàs. mamento geral dos estados pera a vila de Tomar,
pera o4de se vêo logo de Évora, onde fôra ter o
z5 verâo; e porque em Tomar começou a haver doen-
* ças de mâ calidade e principios de peste, Passou-se
TI à Tôrres Novas, e nesta vila se fizeram as côrtes.

T98 rq9
coLrtcÇ,.To DE CLASSTCOS SA. DA COSTA ANAIS DE D. JOÂO III

Juntavam-se os estados na igreja de S. pedro daria em dote à ifantc novt:ccntilsmil dobras d'ou-
a tratar das cousas que se ofereceram pera beneficio ro castelhanasde 365 mar:Lve<lis:r <lobrir, nos tem-
do reino e em serviço del-rei. No que tocava ao reino 'liclrriLtllclcclaradns;
pos e lugares e tno<losrltttl logt't
fizeram muitos apontamentos de cousas que cum- na qual contia crttrat'ilrn.r2.3$<Û(r tlobrits, <1uctanto
5 priam trocar-se ou fazer-se de novo pera bom regi- j vahàm os oito cont<lsttovt:t:ctttosoitcttta mil c tan-
mento e assossêgoda terra que propuseram a el- tos réis quo a. ifantc ltcrdara da rlrittha sua mâi;
-rei, das quais, porque nâo saiu a hz o efeito delas
senâo treze anos adiante, no.de 38, despoisdoutras ..fi'
,,! e se descorrtariamda soma maior dêste dote ccnto
e sessentae cinco mil duzentas e trinta e duas do-
côrtes que el-rei juntou em Évora no de 1535, nâo bras, da mesma valia de 365 maravedis, que o em-
ro faremos aqui mençâo, guardando-aspera o ano em ro perador estava devendo a el-rei Pera-cumpdmento
que se publicaram e forirm impressas.No que tocava âo dote da rainha; e assi mais 5r$369 dobras, do
a Sua Alteza ordenaram serwi-lo com cento e cin- mesmo preço e valia, que tantas se montavam em
coenta mil cruzados, pagos em dous anos. cincoentà mil cruzados d'ouro, que o emperador de-
No mesmo tempo que as côrtes corriam, entra- via a el-rei por outros tantos que el-rei D. Manuel
rS ram em Tôrres Novas monsior de Ia Chaux, Carlos ï- rj the emprestira no tempo das alteraçôes de Castela,
Popet, e Joâo de Estrinhiga, cavaleiro do hâbito de "1 que chamaram <comunidadesl.
Santiago, pera rematarem por escrituras a prâtica Da parte do emperador prometeram os embaixa-
que corria do casamento da ifante D. Isabel. Man- dores de arras à ifante trezentas mil dobras, que era
dou el-rei juntar com êles D. Ant6nio de Noronha, o terço de tôda a contia do dote; e outras quarenta
zo irmào do marquês de Vila Real, que tinha o oficio zo m1l, a que despois juntaram mais dez mil, pera sus-
de seu escrivâo da puridade, e Pero Correa, pola tentaçâô de sua casa, Pagas tôdas 5o$ooo em cada
experiência que jâ tinha de semelhantes matérias, um ano e assentadasem rendas de cidades e vilas,
ganhada em Castela nos contratos da rainha. Do que logo se decLararam e hipotecaram' com outras
que os quatro assentaram se vêo a. celebrar escri- particularidades e miudezas que pera esta hist6ria
z5 tura em 17 de outubro dêste ano de 1525. 25 escusamosreferir. No dia seguinte foram os quatro
Foram condiçôes principais de parte del-rei que, procuradores diante del-rei, que os esperou em casa
tanto que o emperador alcançasse dispensaçâo do t: âa rainha, acompanhado dela e da ifante; e, Iida a
Sumo Pontifice, logo mandaria a ifante a um dos €scritura, jurou de cumprir tudo o que nela se con-
lugares da raia, qual o emperador nomeasse, até tinha. E logo D. Fernando de Vasconcelos,bispo
3o riltimo de novembro primeiro seguinte; e que se

16. A guerra das comunidades, que se tinham le-


vantado contra Carlos V, de r5zo a 1522, e que foi mar-
15, nl,ostor îo ms. Francisco de Andrada na Cr6- cada pelo 6dio ao estrangeiro e pela recusa, de novos
nica d,e D, Joâo III usa a forma ntonsiour.
fr tributos. Foi por fim sufocada pela artelharia real.

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coLECÇ/rO Dtt CLASSICOS SA DA COSTA ANAIS DE D. III
JOAO

que entâo era de Lamego e capelâo-mdr del-rei, to- prir por Carlo de Popet, seu embaixador e procura-
mou juramento à ifante que cumpriria tudo o que dor neste caso; e Vossa Alteza dirâ estas palavras:
à sua conta estava lazer pera bem daquele con-
- Eu a ifante D. Isalrcl, por v6s, Carlo Popet e
trato; e o mesmo juraram em nome do emperador v6s mediante, como cmbaixador e procurador pera
5 monsior de la Chaux e Joâo de Estûnhiga em mâos êste caso de D. Carlos, empcrldor dos româos, rei
5
do bispo. O que sendo assi concluido e dado tam- de Alemanha e Castcla, etc., receboao dito D. Car-
bém riltimo ponto no neg6cio das côrtes, pareceu a los, emperador, por meu marido bom e lidimo e me
el-rei passar-se pera Almeirim, como lugar mais dou por sua mulher, como manda a Santa Madre
acomodado de paços reais e largueza, pera se fazer Igreja de Roma. - E pondo o bispo os olhos em
lo a cerimônia que faltava do despos6rio. :o Carlo Popet, disse: - E vôs, magnifico embaixa-
Chegaclo el-rei a Almeirim, logo em primeiro dia dor, direis estas palavras: - O muito alto e muito
de novembro, sendo jâ noite, saiu à sala, que esta- poderoso senhor D. Carlos, emperador dos româos,
va armada de rica tapeçaria de ouro e sêda, com rei de Alemanha e de Castela, etc., pol mi, Carlo
um fermoso docel de brocado de pêlo no topo: vi- Popet, seu embaixador e procurador neste caso, e
15 nham com êle a rainha e a ifante, e sendo presente 15 eu mediante recebo a vôs, muito alta e muito escla-
monsior de la Chaux, o bispo de LamegoD. Fernan- recida princesa ifante D. Isabel, por sua mulher
do de Vasconcelos,que junto estava a Suas Altezas., boa e lidima e se dâ por vosso marido, como manda
disse em voz que de todos foi bem ouvida estas pala- a Santa Madre Igreja de Roma.
vras:-Entre o muito alto e muito poderosorei, nosso Acabado êste acto, a ifante, feita ûa grande in-
zo senhor, e o muito alto e poderoso rei senhor D. Car- eo clinaçâo ante el-rei até pôr os joelhos em terra, lhe
los, emperador dos româos, rei de Alemanha e Cas- pediu a mâo e lha beijou, porfiando el-rei por lha
tela, etc., é concertado e contratado que o dito se- nâo dar e ela pola tomar, e o mesmo fez com a rai-
nhor emperador haja de casar com a muito alta e nha. Logo beijaram a mâo a el-rei e à rainhaosifan-
muito esclarecida princesa, a senhora ifante D. Isa- tes por esta ordem: foi primeiro o ifante cardeal
z5 bel; sôbre o qual concêrto foram feitos juramentos, e5 D. Afonso, segundo o ifante D. Luis e ap6s êle os
que, dispensando o Santo Padre pera o casamento ifantes D. Fernando e D. Anrique, e o riltimo
se poder efeituar, os ditos senhor emperador e se- D. Duarte. Trâs os ifantes [izeram o mesmo os
', nhora ifante se receberiam por palavras de pre, embaixadores Carlo Popet e Joâo de Estrînhiga; a
sente. E por ora ser vinda a dispensaçâo, quer el-rei
jo nosso senhor que Vossa Alteza (falando com a ifan-
te) cumpra por sua parte o dito juramento, por- r, 3, ro, 13, 28, Carlo no ms.
que o dito senhor emperador pola sua o quer cum- 27, ?rds: depois de.
28. Por vezes a Esttifriga falta o til, que resolvemos
à portuguesa em nh. Aliâs, a forma Estùnhiga tao'bém
2t, rom6os: romanos,
aParece.

202 203

4
f-

COLECçAO DE CLÂSSICOS SA DA COSTA ANAIS DI' D. TOÂO III

quem s€guiram todos os senhores e fidalgos que


€ram presentes. E todos despois beijaram tamUem meo faleceu a rainha D. Lianor, tia clel-reie mulher
a mâo à emperatriz. del-rei D. Joâo Segunclo, crrju rnortc fcz todavia
Pareceu a el-rei festejar êste dia com sarau real amainar muito no quo sc tpcrcebia dc festas e
pompa de atavios.
5 e o seguinte com banquete, pera que foram convi-
dados os embaixadores. O saiau s"iomeçou sentan_
do-se el-rei e a rainha debaixo do docel em almofa_ CAPÏ TULO IV
das de brocado, com a emperatriz entre ambos.
Dançou a rainha com a emperatriz, el-rei com De algûas cousas que el-rei mais fez êste
ro D. Ana de Tâvora e os ifantes D. Luis e D. Fer_ ano; e como recebeu a rosa, que o sumo Pon-
nando com as damas da rainha; e foi a festa de tifice lhe mandou
tanta majestade que nâo teve fim menos das duas
horas despois de meia noite. O jantar foi com a 5 Dêste ano é fla notâvel acçâo del-rei, que o conde
mesma e maior pompa. Sentou-se el-rei à mesa da Castanheira contava com gôsto despois de sua
15 e junto dêle o cardeal, logo os ifantes D. Luis e _ morte. Vendo o emperador que tinha em Portugal
D. Fernando e apôs êles monsior de la Chaux e no sua irmâ por rainha e muito amada del-rei, e que
'esperava cêdo ter consigo a ifante D. Isabel por
topo Joâo de Estunhiga. O serviço foi que aos em_
ro mulher, pareceu-lhe conjunçâo de haver a suas
baixadores vinha tudo cortado da copi e o servi-
mâos alguns homens de conta, que por culpas das
dor da toalha thes punha os pratos e seus criados
eo lhes traziam de beber. E na mesa nâo houve mais comunidades andavam retirados neste reino. Man-
oficiais que os del-rei e dos ifantes; e nâo houve dou pedi-los. Pôs Sua Alteza o negôcio no Conselho.
âgua às mâos pera os embaixadores. Eram os que assistiram nêle o duque de Bargança
15 D. Gemes, o marquês de Vila ReaI D. Estêvâo, e
Parecia.que nâo faltava nada pera a emperatriz
se poder ir pera Castela; e de parte det-rei estava D. Martinho, conde de Vila Nova e camareiro-m6r,
e5 prestes tudo o que convinha pera a jornada; mas e outros, velhos e honrados; el-rei de z3 anos. As-
sendo visto o breve da dispensaçâo por pessoas sentaram todos que os devia entregar e êle disse
que nunca Deus quisesse que tamanho mal fizesse
, curiais e doutas, assentaram que convinha passar_
zo a seus vassalos, porque isto era tirar-lhes todo o
-se em mais ampla forma, vistos os muitos vinculos
refiigio, pera quando algum êrro fizessem. Cairam
de parentesco que entre os contraentes havia. E assi
jo toi forçado haver dilaçâo €mquanto se explica outro os velhos na conta; lançaram-seaos pés del-rei em
breve, que vêo na entrada do ano seguinie. E neste

rr-:rz, Por culpas das comunidades: por culpas na


17, Guerra das comunidades.
foi gae.. consistiu em que.
22, na conta: na verdade, na verdadeira razâo.

204
205
I
COLLCçÂ) DE CLASSICOS SA DA COSTA
fr ANAIS DD D. TO.î"O III

graças do voto e da tençâo dêle, confessando que -môr dos bèstcirosrlc tnoutc; t: tlli por razâo a bon-
os alumiava. dade de sua p(jssou.t: ttruitosscl-vit,:os
<lcÂfrica e das
Estando el-rei em Évora, em 6 d'abril dêste ano, armadas.
confirmou o oficio de capitâo-môr dêstes reinos a Em z6 clt: Sctcrrrlrro,<:iLpitiruia da fortalcza de
5 D. Antâo d'Abranches, do seu Conselho, assi como 5 Calicut a lirLrrr;iscorlc Sousa tlc 'I:rvarcs, com
o fôra seu pai o conde d'Abranches, com privilégio 4oo$oooréis tl'orclclird<,r;c <luc erttraria na vagante
passado aos dezoito do mesmo mês, que pudesse de D. foâo de Lima.
chamar a tôda hora todos os homens que quisesse, Em 6 de dezembro, licença a D. Ant6nio de No-
assi de pé como de cavalo, pera serviço de Sua ronha, seu escrivâo da puridade, pera comprar o
ro Alteza, e aos que nâo acudissem pudessetomar e ro castelo de Linhares a Francisco de Almeida, por
apropriar pcra si scus bcns e fazenda. noventa e sete mil réis de tença, que o dito D. Ant6-
Em zt d'abril, cm Évora, fez chançarcl-môr da nio nêle trespassa.
justiça, oficio vago por morte de Pero Rui da Grâ, No mês de dezembro entrou por Almeirim um
ao doutor Joâo de Faria, do seu Conselho e desem- prelado, camareiro do Sumo Pontifice Clemente Sé-
15 bargador que jâ era do paço. E dâ el-rei por razâo 15 timo, com um presente que os papas costumam in-
desta mercê suas letras e lealdade e o serviço que viar aos reis beneméritosda Santa lgreja, que é ûa
lhe fez em Castela no trato de seu casamento com rosa sagrada; e trazia com ela ùa indulgência e jubi-
a rainha D. Caterina. leu pera el-rei e pera mais cem pessoasque Sua Al-
Em a de maio confirmou o titulo de conde de teza nomeasse.Foi recebida com a cerem6nia se-
eo Abrantes a D. Lopo d'Almeida e a vila de Abrantes eo guinte: Sairam todos os capelâes del-rei à porta da
com seu castelo e alcaidaria-môr. capela com cruz alçada e cantando devotamente o
Em 8 d'agosto, em Tomar, comprou a Martim hino rrTe-Deumr, etc., receberamo prelado que tra-
Afonso de Sousa a vila de Prado e a tornou a unir zia a rosa e o levaram até o altar, onde a pôs. Deceu
à Corôa, por quatro mil cruzados, eue Sua Alteza despoisel-rei à missa, e sendo acabada,tomou a rosa
z5 lbe tinha emprestado pera compra de certa fazenda. 25 da rnà.odo messageiro e ouviu a oraçâo que, dan-
Em rz de setembro, na vila de Tomar, confirmou do-a, rezou.
, ao marquês de Vila Real, D. Pedro de Meneses, Chamava-se êste prelado Antônio Ribeiro, que
as vilas de Freixieiro e Abreiro e o castelo da vila no nome mostrava mais ser espanhol gue romano'
de Viana, foz do Lima. e tudo podia ser, mas de certo nâo nos consta. El-rei
30 Em 14 de setembro, doaçâo das saboarias de lhe fez mercê de trezentos cruzados: nâo achamos
3o
Portalegre a D. Joana de Tâvora, mulher que foi clareza nas memdrias donde esta tiramos, se foram
de Martim Yaz de Gouvea, pai de Pero de Gouvea. de renda ou pensâo, se dados por ùa vez de con-
Em 9 de novembro, capitania de Safim dada a tado. Em cousas tâo antigas nâo pode haver mais
Garcia de Melo, do seu Conselho, capitâo e anadel- certez.aque propormo-las assi como as achamos.

zo6 207
l-'l

C)LIiCÇ,ifo DIt CLASSICOS SA. DA COSTA ANArS DE D. JO.r.O III

CAPITULO V seus requerimentos; quc lhc atalhara o desbarate


I
de D. Manuel dc Mcncscs,scu sobrinho, e a neces-
Cuerra de Africa. Capitâes: em ïângere sidade que entâo havia dc s(ra pcssoa cm Arzila,
D. Duarte de Meneses: em Arzila Ant6nio pera onde partira tlcixando todos cm apôrto, proveu
da S i l vei ra 5 el-rei da capitanilr.,cm lugar do conde, a Antdnio
da Silvcir a, f ilho. . . . . . . e pr im o
Da guerra de Tângere nâo houve escritores, como
da de Arzila; mas achâmos ûa carta na secretaria
da Tôrre do Tombo, escrita a el-rei polo capitâo
I t
com-irmâo da condessa.Mandou-lhe Sua Alteza dar
três navios no Algarve pera sua passagem e foi en-
trar em Arzila por dezembro e na ûltima semana do
D. Duarte dc Mencscs, que por maior nos declara to Advento, levando consigo sua mulher D. Genebra
5 o sucodido nos três anos que jâ tinha comprido em de Brito e alguns fidalgos pera fronteiros, que fo-
seu cargo; e despois de dizer que tinha servido os ram D. Fernando de Noronha, avô por mâi de
três anos, acrecenta, palavras formais: <rosquais quem isto escrevia, e D. Jorze de Noronha, irmâo
três anos sâo mais de sete polos trabalhos e perigos de D. Fernando, e D. Joâo de Sande, Fernâo d'Al-
que neste tempo passei, em que el-rei de Fez me .r5 vares Cabral e seu irmâo Ant6nio Cabral, com os
ro apressou mais que a nenhum capitâo que câ esti- quais havia jâ na vila mais de cem lanças.
vesse êste tempo. Êle me correu por sua pessoa oito
Quis o conde entregar-lhe o govêrno; mas êle
ou dez vezes e pôs minha pessoa em mui grande pe- usando de cortesia afirmou que tal nâo aceitaria
rigo, ferindo-me o cavalo com muitas azagaiadas, emquanto êle se nâo embarcasse, e que estimaria
que parecia um touro caffegado de garrochas, e assi zo tardasse muito na embarcaçâo, porque tanto mais
.r5 as arrnas derribadas das mesmas lanças. Esteve sô- se aproveitaria de sua doutrina naquele estudo das
bre mi oito dias, afora me correrem os alcaides annas. Aconteceu logo vir Amelix, o atrevido, com
outras tantas vezes, em que passei muita afronta e os seus companheiros do Farrobo, desejoso de lazer
opressâo. Pois, senhor, quem em três anos tanta algum salto e saber que gente viera nos navios, de
afronta e perigo passou, jâ agora setâ rezâo de fol- 25 qtTe havia nova em Alcâcere. E sucedeu-lhes, de
20 gar o derradeiro quartel de sua vida, que sou velho
, e cansado das armasr. É feita a carta em zz de Cl
abril dêste ano. 6. Sousa deixou para mais tarde a averiguaçâo da
Atrâs deixamos apontado ,como requerendo o paternidade de Antônio da Silveira. Completamos o seu
texto informando que era filho de Jorge da Silveira, vè-
conde de Redondo a Sua Alteza pera vir tratar de dor da fazenda do duque de Viseu D. Diogo, e de D. Mar-
garida Furtado.
L2-r3. Manuel de Sousa Coutinho era filho de D. Maria
de Noronha, dama da rainha D. Catarina. Curioso aquele
4, por maàor: por alto, resumidamente. emprêgo modesto do imperfeito: aescreviar, em vez de
ro, aplessou: âtacou, afligiu. ((escreveD.

20E 209
r4
coLECç,4O DD CL,4.SSICOS SA. DA COSîA ANAIS DI' D. TOÂO III

dous atalaias que eram fora, cativar um que cha- 'falitxrnlt,; (! uir rn(:stnanoitc despachouo
lxrsto dc
mavam Diogo Neto; do que sintido o conde, man- t : t ut r lct r nt llir n: o il l) . l) r r ir lt r :cor n et nova a Tân-
dou no dia seguinte Artur Rodrigues que fôsse cor- , {or '( :l); ct 'irot r r lr ,t 'l"r r , ir : t r r r r ir r lr ort .rant
, o<1ucent en-
rer ao Farrobo, pera que soubesseAmelix que tanto t lt r t t ,t lt t sct r r t lr , lr rs1r r rvia,
, r : nt Âr z, ilascr dcscober t a
5 o havia de perseguir até que um dia lhe pagasse j ur t irvit t r lir; t t r it s nt 'lr ir r r r loos nr csr nos sinaiscr n'l'ân-
por junto quantos desgostoslhe tinha dado muitos gr,tr.,ruio llrlrlorrt,rrrsc lorntrr sôbre Arzila.
anos havia. Trouxe Artur Rodrigues pem sanear a lI caso cligno dc ficar em lembrança o que em um
perda do atalaia dous mouros e duas mouras e vinte dia dêstcs sucedeu a D- Jorze de Noronha com o
vacas; e um dos mouros era dos valentes do Far- valente Amelix. Estava D. Jorze doente de sezôes:
ro robo e companheiro de Amelix. ro nâo consintiu o conde que cavalgasse, por muito
Soube cl-rei em Fez do novo capitâo; e quis logo que o desejou, por se lhe nâo agravar o mal. Saiu
provar a mâo com êle, lembrado da vitôria que o conde deixando-o na cama, e ficando acompa-
tevera" do Meneses, € que, quando menos, lhe fica- nhado do médico; mas êle disse ao médico que se
riam na mâo alguns almogâvares, que jâ polo cos- houvesserepique nâo haveria febre nem frio que the
15 tume tinha certos, como atrâs contâmos, e sobretudo 15 tolhesse acudir ao campo. O que sendo ouvido polo
nos faria o mal de nos comei as eryas e pera si médico, lhe aconselhou que, pois assi o determi-
o bem de fartar seus cavalos e poupar a cevada. nava, seria melhor irem-se ambos passeando de
Era o tempo que o campo mais fermoso estava de vagar até o facho, que nâo despois que repicassem,
erva, muito verde e crecida, por ser em fim de coffendo. Pareceu bem a D. Jorze a razâo; mandou-
zo.março. Deceu com seu acostumado segrêdo, mas eo -lhe dar rim dos seus cavaloi e foram-se ambos de-
desta vez foi sintido; porque deram nova dêle uns vagar, caminho do facho.
mouros que, andando descuidadamente no Côrrego Nâo chegavam bem às tranqueiras quando o fa-
e Almenara crestando abelheiras, foram tomados cheiro, gritando quanto podia, deixou cair o facho,
por uns monteiros nossos. e vindo-se pera a vila, disse a D. Jorze que aç ata-
25 E o conde, tanto que se certificou davindadel-rei, zj laias do Côrvo vinham com pressa demandar o
mandou disparar três peças grossas, sinal pera que vale; porque sete ou oito mouros os vinham ata-
'
todo homem se recolhesse. E logo no dia seguinte lhando. Apertou D. Jorze as pernas ao cavalo e
teve mais certeza por um mouro, que vêo ganhar foi-se correndo pera onde o facheiro dizia, se nâo
os vinte cruzados que o conde dava a todos os que 'quando, chegado à tranqueira de baixo, viu um
jo traziam aviso de ser entrada no campo gente grossa. jo mouro abraçado com o atalaia, que ao parecer
Êste afirmou que el-rei estava com seu arraial no trabalhava como em luta polo cativar e tomar vivo,

7, sanear: remediar. 18, facho: sinal de luz que se acendia para dar re-
23, abelheiras: colmeias. bate do inimigo.

2ro
ANAIS DE D, JOAO III
COI.ECÇtr} DE CLASSICOS SA DA COSTA

conselho, porquc ()s rrollros, como muitos, chega-


c ôle forcejava por se defender com quanto estava ram furiosamcntr:irlé os vokrs c dcspediram muitas
cercado de outros sete ou oito mouros. lanças d'arrem0sso.Mirs (:()rnoo valo cstava coroado
Saiu D. Jorze fora da tranqueira e bradou-lhe de espingnrrkriros, lcv:rrlrn irt lrolr surriada dc setas
dizendo: -Larga! Larga! E pondo a lança em nm t: pclorrros.Vt.rrtlo-sr'o <:olrrlc' rlcntro de suas tran-
5 dos mouros que o vêo receber deu com êle em terra <;rrr:ilrrs
sr:rrrrliirro, {cz tanrbém recolher os arcabu-
e foi-se aos que estavam abraçados; e por nâo ofen- zciros r: lx\sttriros,c, arrimando-seàs portas da vila
der ao cristâo largou a lança e levando da espada com tôda a gcnte, porque os mouros vinham carre-
deu ùa boa ferida pola cabeça ao mouro, que foi gando em grande nûmero ao laranjal e da banda da
causa que, sintindo-se ferido, largou o que quisera TO pontinha e à fonte de Alvaro Gabriel, deu lugar a
ro cativar; c com um golpe de trcçado lhe cortou mea que do muro fôssem visitados de muitos pelouros
mâo c juntamente lhc fcz ûa grande ferida na ca- da artilharia, de que forçadamente haviam de rece-
beça. Porém assi ferido teve lugar de se salvar e ber dano; e emfim se meteu na vila, dizendo a An-
recolher à tranqueira, ficando D. Jorze e o doutor t6nio da Silveira que sempre que el-rei viesse lhe
e outros dous cavaleiros que lhe acudiram pelejando I1 havia de fazer cortesia-
15 c'os mouros até que o conde os vêo recolher, sintido Despois de descansados, soube o conde o caso
de ver D. Jorze, que deixara ardendo em febre, de D. Jorze e lhe louvou muito a boa ventura de
mesturado c'os mouros. E como inda nâo sabia a salvar um tâo bom homem como era Cristôvâo Ro-
boa sorte que tinha feito, the disse com aspereza: drigues, o Chamiço, que assi se chamava o atalaia,
- Pera fazerdes desmancho ficastes na vila. E pas- zo e d,e mâos de tâo valente mouro como era Amelix,
20 sando por êle disse pera Ant6nio da Silveira: - que êste era o que tinha em braços. E foi o caso
Alcanceai-me, senhor, todo homem que virdes sair que o Chamiço lhe tinha escapado outra vez, e desta
trâs mi, que vou por êste doudo. Dizia-o por colhendo-o em parte onde o poderia matar, nâo
D. Joâo de Sande que, envejoso de D. Jorze, se ia quis senâo tomâ-lo vivo. E vindo trâs êle dizia-lhe:
metendo nos mouros desalembradamente no milhor e5 - Velho, agora me pagarâs a ousadia com que
z5 avalo que havia em Africa. E o conde ia tâo rai- outra vez me encontraste e escapaste.
voso que nenhum homem achou diante de si que Velho era o Chamiço, mas tâo duro e robusto,
nâo fizesse debruçar sôbre o pescoço do cavalo às que vendo-se atalhado de oito mouros, dos melho-
contoadas. res do Farrobo, e que seu companheiro Francisco
Recolhido D. Joâo e os mais, entrou o conde da 3o da Mota, deixado o cavalo, se embrenhara na Ca-
3o tranqueira p€ra dentro, onde Ant6nio da Silveira naveirinha da fonte de Lengano, onde escapou,
estava jâ metido com tôda a gente. E foi sisudo
leuando ila espada: erguendo a espada. 3l;, Lengano. Grafia duvidosa; também poderâ ser
1 9, ilesmancho: desordem, acto de indisciplina. Longano,
2 8, contoadas: pancadas com o cabo da lança.

21?
2r2
COLECÇTo DI:. CLASSICOS SA DA COSTA ANArS DE D. IOÂO III

ôle pondo a lança debaixo do braço determinou lez em ûa câfila até se pagar (?) de certas dividas;
romper por êies; mas Amelix, como desejava to- o que foi causa dc ccrrar dc todo os portos e nâo
mâ-lo vivo, abateulhe a lança e abraçou-se com deixar vir outra. E assi sc padecia muito na vila,
êle e neste estadoos achou D. Jorue, que ficou bem porque com as câfilas corria o comércio e trato e
5 envejado polo sucesso de todos os mais {ronteiros; 5 resgatese todos sc aproveitavam, c com elas se sa-
que na verdade êste era o caso, porque os lidos nas : biam novas dos disenhos do inimigo ou pera sair
histdrias antigas se lembravam que os capitâes confiadamente ao campo, ou pera se Suardarem.
soiam coroar aqueles que tal taziam de fla corôa E foi pior, porque nesta cegueira de cousa' man-
de...... que chamavam civica, mais estimada que dando o capitâo gente fora, nâo puderam tomar lin-
lo as d'ouro, polo muito que mais valia salvar um 10 gua. Mas acudiu Deus com um caso assaz extraor-
companheiro e cidadâo na guerra que fazer qual- dinârio e todo nacido de sua divina providência,
quer outra grande façanha. por que lhe devemos dar infinitas graças.
Havia em Alcâcere um mouro, oficial de armeria,
que tinha por cativo outro, que de nacimento era
C A P ÏTU LO VI 15 surdo e mudo. Êste cativo amanheceu um dia nas
portas da vila e trazido diante do capitâo, confun-
Como se vieram fazer cristâos dous mouros, um dia a todos com a prisâo dos dous sentidos, que era
surdo e mudo, outro sâbio e valente cavaleiro. ial que nenhûa cousa falava nern dava sinal de ou-
E c o m o foi morto A mel i x em A rzi l a; e cati vo vir; s6 por acenos e geitos se deixava entender que
em Tângere o mouro Abenaix eo queria que o levassem à igreja e lhe dessem o santo
bautisms. Entendeu-selhe mais que nâo havia
Embarcado o conde, ficou a terra em apêrto, gente de guerra no campo, nem mais que homens
porque se diminuiu a gente de cavalo, assi pola e mulheres que andavam segando. Com tal nova
15 que êle trouxe sua, como por alguns moradores que assi escura e cega, deu o capitâo licença a dous al-
o foram acompanhando pera terem favor em seus z5 mocadéns que saissem com dezoito de cavalo à
requerimentos. Ajuntou-se ficar escandalizado do parte de Benagofrate. Entretanto mandou bautizar
conde o alcaide de Alcâcere, por represa que lhe o novo h6spede, e porque dos cativos se soube que
alimpava e estofava bem um capacete e de pre-

9. Como havia vârias coroas, destinadas a premiar


os autores de grandes feitos, Sousa hesitou e deixou para
depois o apurar de que coroa se tratava. A <coroa civical, r, pagar. A. grafia do manuscrito nâo estâ clara,
dada ao que salvava a vida dum cidadâo em combate, parecendo passar.
era constituida de uma grinalda de fôlhas de carvalho, 6, disenhos: designios, planos.
com fruto. 24-25, almocadéns: capitâes.

2r4 2r5
coLECÇ,4O DE CLASSTCOS S.{. DA COSTA ANAIS I)L D. IOÂO III

sente estava vaga a praça de armeiro, foi provido pola boa tençiro conr (lllc vilrlr:t, como porque o
nela e a serviu muitos anos. conheceuclo t ct nlxr t lo r ': t livr r it 'o; c lit lr çlt t t t JoJhe os
Tomaram os almocadéns com seis cativos, três br açosao l) cs( : o( '(t)t ,t ; t t t t lt t tllt t t ,r lt t t :lor lt lt sstirl caval-
mouros, duas mouras e um minino. Festejou-se en- gar c so f Ô ssclr lt 'r tit r '; t pilo: t(, lt t ( :s( 'r r t l. olt r t 't ilva. cle
5 tâo a presa por ser a primeira despois de ido o 5 llr t : lazcr lt olt nr r ' 1i; t sir llr ; t r lo. At lt r i r lt 'r lir t t lt l( t ( ) lt lo
conde; mas logo se estimou mais por um grande st t ir t t t t t llt t 'tr'' lillr o t 'sllt v: t t ttt'lt t ivost r t t t r tlr ot lt : rt lc
bem que dela resultou. E foi assi que, havendo ( ) r lr lr ilr r , ( llr ( ) ,s( : . llt osdcsscm ,t am bém os
I , 't : r 'r r iLo
dous meses que Ant6nio da Silveira fazia o oficio faria t:r'istiros.
de capitâo, um dia que as atalaias sairam contra Vêo o capitâo da guarda jâ de noite; e sabendo
ro onde chamam a Atalaia Ruiva, û.a delas, que muito ro o que passava, lhe prometeu dar-lhos, e logo o pôs
se adiantou, topou com um mouro bem armado e à sua rnesa e mandou agasalhar de suas portas a
a cavalo e de tal presença e geito, que, voltando dentro; e assi foi dêle sempre tratado até o bautizar
e dando rebate, nâo parou correndo até a Atalainha, com a mulher e filho e lhe dar ûas boas casas na
onde jâ estavam três de cavalo. O mouro sossegada- vila. No bautismo se chamaram, êle Diogo da Sil-
15 mente se foi pera êles e lhes perguntou quem era o r5 veira, ela Genebra de Brito e o filho Ant6nio de
capitâo e como se chamava, dizendo êles o nome. Brito. Pagou Ant6nio da Silveira pola mâi e filho a
- Ide - tornou o mouro - ao senhor capitâo e Fernâo Caldeira cento e cincoenta cruzados, que
dizei-lhe que o mouro de seu primo Eitor da Sil- Sua Alteza mandou despois se dessem de sua fa-
veira o vem buscar, ,e eu fico que êle vos dê boas zenda.
zo alvissaras,e nâo deixeis de lhas pedir. 20 Êste homem, sendo mouro, foi cativo no ano de
Foi o capitâo, ouvido o recado, a recebê-loaté a 17 e comprado por Eitor da Silveira, filho do cou-
carreira do Almirante, imaginando que fôsse algum del-m6r, que entâo estava em Arzila por fronteiro.
alfaqueque que trazia novas de portos abertos, que Mas êle era tâo rico que logo foi resgatado por doze
muito desejava. O mouro se apeou e chegou a êle quintais de cera, porque nâo possuia menos que
z5 dizendo que havia dias que trazia na vontade ser- 25 duas mil colmeas na serra de Benagofrate, e quanto
vi-lo e que saira aquele dia por almocadém com ao sangue era dos melhores do lugar de Zahara,
catorze de cavalo, que desejava entregar-lhe por q. e tâo cavaleiro que os alcaides fiavam muito dêle.
penhor do ânimo que tinha de morrer na fé de Era de gentil disposiçâo, grande de corpo, muito
Cristo, e os trouxera até o Zambujeiro, donde to- alvo e poucas carnes, regrado em comer e beber e
3o mando dêle algûa suspeita fizeram volta; mas que 30 tâo bem entendido e de boa prâtica, que se fazia
o tempo daria outras ocasiôes em que o mostrasse amar e estimar por ela. Fazemos tâo meirda relaçâo
com ventagem. Fez-lhe o capitâo muita festa, assi dêste homem, assi pera louvarmos a Providência
Divina, que quâsi num mesmo tempo deu luz a um
l|
23, alfaqueque: emissârio, mensageiro. surdo e mudo pera vir buscar a salvaçâo e junta-

zt6
coLricÇ.T.oDE cL.4.ssrcossa DA cosTA ANArS Dri D. IOAO IrI

mente tirou das trevas e cativeiro de Babilônia o Assi foi êste dia ntrrito ak:grc pera o capitâo, por-
grande entendimento de Diogo da Silveira, como <1uclhe trouxeram st:trrcitlrc(:irsrlc valentcs mouros
também polos grandes bens que por meo dêste ho- c entre clas a clc Amclix c rrrn cntivo c trcze cava-
mem vieram a Atzila, que iremos contando, tanto los, cm <pc hnvirr lirrrnososginctcs. D o clc Amelix
5 que dissermos como acabou Amelix, que nâo foi 5 tnntt<lorro r:ir;liliio:r cl-rr.i, m:ris pola.{ama de seu
menos ventura pera Arzila e Tângere que a vinda rlotur, r;ttt, ;xrr lt:t'rrrosrrlt:cra castanho, comprido
de Diogo da Silveira. c rlc ;lorrcn triplr; tnais dc guerra que de côrte. A
Era fim do mês de setembro e dia de S. Miguel, rnortc <lc Amelix se teve por grande vit6ria, por-
quando Amelix com dezoito ou vinte de cavalo se que ern tôda a terra de Africa nâo havia mouro mais
ro descobriu ûa manhâ correndo contra onde chamam ro valente nem mais manhoso na guerra. Afirma-se
os Codeços trâs as nossas atalaias. Ia Artur Rodri- que por sua mâo e indûstria tinha mortos e cativos
gues dando-lhe costas com dez ou doze de cavalo; mais de cem homens de cavalo em Tângere e Arzila;
recolheu-as, conheceu que era Amelix e nâo s6 esti- e porque a virtude até nos inimigos é fermosa e de
veram à vista, mas também tiveram prâtica. Dizen- estimar, sabe-se dêste mouro que nunca trouxe mais
15 do-lhe Amelix afrontas e êle desejando vingar-se, 15 iu:mas que sua lança e adarga e seu treçado. Era
emfim o trouxe até junto donde jâ vinha o capitâo; homem pequeno e de poucas carnes; e assi desar-
e ali, juntando-se com êle D. Jorze de Noronha e mado era sempre o dianteiro €m nos acometer e nos
D. Joâo de Sande e outros cavaleiros da companhia fazia mais dura guerra êle so que tôda a vizinhança
do capitâo, voltou sôbre Amelix, que vendo gente de Alcâcere e Xixuâo. Com isto, nâo havia ânimo
zo de capacetes e bem armados, se foi retirando apres- eo mais afidalgado: todo o cativo que levava, p'nha
sadamente pera o porto de Alicacapo, com prop6sito consigo à mesa, consolava-o, e primeiro que o le-
' de tornar sôbre êles, se o seguissem e se alongassem vasse a Mdey Abrahem, como era obrigado, lhe
do capitâo; mas nesta volta que fez, adiantando-se fazia tratamento de irmâo, nâo de prisioneiro.
com dous primos seus e pondo todos três as lanças Neste mesmo dia se perdeu em Tângere outro
25 nos nossos, achou tanta fôrça em dez ou doze da e5 grande e afamado almocadém, também natural de
companhia de Artur Rodrigues, em que entravam Farrobo, que muita e continua opressâo lhe dava:
os fronteiros nomeados e Jorze Manuel, que pouco chamava-se Ali-ben-aix. Foi colhido polos nossos
' havia saira de cativo, que sem se poder valer de sua em parte que lhe mataram a môr parte de sua qua-
destreza e valentia, ficaram passados de muitas lan- drilha, que era tudo gente de prêço, e êle ficoucativo
3o çadas êle e os dous primos; e os companheiros ven- 30 com outros quatro ou cinco.
do que assomava o guiâo do capitâo, se puseram
em fugida; mas nela foram mortos muitos e um
tomado vivo: os mais, deixando os cavalos, se sa"l-
rr, tinha mortos e catiaos: tinha matado e cati-
varam embrenhados. vado.

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coLLCç)ÂO DE CL.4.SilCOS SA DA COSTA
ANAIS Dli D. IOÂO III

C A P ITU LO V II
chuva, viram sair um lato rkr vncus, ctn que have-
De ûa entrada que fez Diogo da Silveira, de ria perto de corenta, quc logo rtx:olltcra.m;c Diogo
que se houve grande Presa da Silveira ordenou (luo conl ckts sc saisscm fora
da scrnt, porqu() nllnl nloln()lrloloi totnitclo<l rcbate
Tirado tamanho inimigo como era Amelix, ficou
j por tôdas ts a.klcast: jrrtrtos corttra os nossos rnais
Arzila tâo desafogada, pera que se veja quanto val dc ccur horrrcnsrk: 1>é,(luc acompanhadosde scte
um s6 homem e quâo pouco valem muitos homens, de cavalo, sc metiam desatinadamentecom os nos-
que um mês inteiro estiveram como em Pâscoae go- '| sos e, conhecendoa Diogo da Silveira, lhe diziam
mil injririas e rogavam pragas, que Diogo da Sil-
5 zando de toclosos interessesdo campo como senho- lo veira lhes pagava com bom conselho, dizendo-lhes
rcs clêlc, cnchcndo a vila de carnes de montaria,
que eram doudos em seguirem a pé gente de bons
mel, ccra c lcnha. Mas, chegado o fim de outubro,
pediu licença Diogo da Silveira pera ùa saida, de cavalos e bem armados; e êles respondiam que que-
que se lhe representava haveria proveito. riam morrer todos, s6 por se verem vingados de um
tâo mau homem, inimigo de sua lei e de seu sangue.
ro Sairam vinte homens em dia sinalado de Todos os
15 Mas Diogo da Silveira, nâo curando de mais razôes,
Santos; e entre êles Ant6nio Freire, pessoade muito
mandou que quatro de cavalo se fôssem tangendo
recado, a quem o capitâo encomendou que nâo
o gado e êle despachou um cavaleiro ao capitâo avi-
houvesse ninguém que saisse da ordem de Diogo
sando-o como tinha fermosa presa na mâo, porque
da Silveira. Foi a saida pola porta da ribeira e o
contra Benagofrate, e foram-se lançar da os mouros vinham cegos e jâ no campo, passando
15 caminho
zo .è'lef.ee Seinete e chegando ao Alborge.
banda de Zahara junto do lugar e ali estiveram es-
. perando que rompesse a alva; mas era a manhâ tâo Tomou o aviso ao capitâo jâ em Almenara, duas
I
léguas da vila, donde com um trote cerrado se vêo
esquiva de âgua grossa do céu e escuridâo da terra,
que, enfadadosos mais da companhia, obrigaram a ,I com tôda a gente juntar com Diogo da Silveira no
eo Diogo da Silveira a que fôssem, antes de tempo
e conka sua vontade, emboscar-seno lugar que êle
tinha nomeado, que seria a propdsito pera o feito
I zj
Alborge. Aqui foi de ver a teima dos sete de cavalo,
que estando jâ à vista do capitâo e podendo-se sal-
var, pelejaram tâo denodadamente, que morreram
que pretendia. -f todos sem fazer pé.atrâs. Os de pé, vendo-se perdi-
dos com a vinda do capitâo, tomaram por partido
Era alto dia: nâo saia gado nem homem; se nâo
e5 quando, começando a estiar um pouco a fôrça da
II recolherem-se a uns pardieiros e canaveal da aldeia

ro,
t2.
sinelad,o no ms. Contudo nâo esùi bem claro.
recado: circunspecçâo, prudência.
'f r, fato: rr,an.ada.
2a, Tomou o aui.so ao capitâo: o aviso encontrou
o capitâo.

221
I
cot.ti()()lo DIt cLassIcos sa DA cosTA ANAIS DE D. TOAO III

do Alborge; mas pouco thes aproveitou; porque rlos mais. Queria o cirpitiio <1trcl'ôsscprimeiro à
D. Jotze de Noronha, D. Joâo de Sande e os mais vila e tornassc[)(rrir()s s('us rrrrritogcntil-homeme
fronteiros, fazendo inveja a tôda a companhia, se vcst ido clc glii; t r r asr r iio lt r lt or rr ; r r r r r na. dvir t iuque
meteram entre êles recebendo muitas lançadas em llrc fir.riatrissorrr:1olrr';1, r;ur:;t.rrlcs llrr:cstariarnelhor
5 suas pessoase seus cavalos; e seguindo o exemplo 5 ir nl srur.lrlgt.r'trvilr t:olrcrto{s sanguee lôdo, que
os moradores, nâo ficou nem um de todos os cento niro r:onrl;r.isl;rvorcs<1uco fizessemsuspeitoe odio-
que nâo fôssemorto ou cativo. so aos scrrs.O que parecendo acertado, tirou o ca-
O capitâo, despojadosos mortos e arrecadadosos pitâo o barrete vermelho que trazia na cabeça e lho
cativos, reccbeu a Diogo da Silveira com grande deu, o que também fizeram alguns moradores e o
ro amor, vr:nclo-occrcaclode muitos parentes e amigos, ro mesmo Diogo da Silveira, com que o cativo se foi
ern sinirl do ârrimo Iicl c cristâo, uns prcsos e outros mais rico d.e barretes que de companheiros, mas
alanceados.Ii tratando de se rccolher, achou que os alegre pola liberdade que tâo temporâ alcançara.
vivos eram corenta e sete e os mortos sessenta,além Chegados todos à vila e recebidos com a festa e
de sete cavalos e das vacas que jâ iam diante. Foi gôsto que é de crer, o capitâo, despois de vendida
rj fermoso dia e com que a terra teve muito proveito .rj a presa, mandou que a Diogo da Silveira, além da
e alegria, mas a honra tôda Diogo da Silveira; e parte que lhe tocava, como a todos os mais, se
assi tratou o capitâo de ihe Ïazer fr,agrande aventa- desse um dos mouros de maior conta e o melhor
gem entre todos os cavaleiros. E foi que, sabendo cavalo da presa; e assi se fez.
por relaçâo de Ant6nio Freire que entre os cativos
eo estavam dous primos seus, que eram o Almessure, CAPTTULO VI I I
que em tempo do alcaide Larôs fôra adail de Alcâ-
cere, e outro seu irmâo mais velho, de quem êle Guerra da fndia. Parte o governador D. An-
Diogo da Silveira tinha recebido boas obras em tem- r ique de M eneses per a Cochim ; desbar at a de
pos atrâs e desejava agora mostrar-se agradecido cam inho m uit os par aus de m our os; dest r ue
25 corn lhe dar liberdade, chamou por êle diante de Panane; queim a os navios do pôr t o de Calicut
tôda a companhia e disse-lhe: - Tudo isto, Diogo
da Silveira, é vosso: se a todos quereis soltar, todos Mas chama por nds a Asia com maiores vit6rias
' seremos contentes; e quando algum nâo fôr, eu de zo de mouros que as que nos fez escrever Africa. Nâo
minha fazenda lhe pagarei suas partes. lhes foi o ano de 525 favorâvel nestas duas partes
.;o Ficou o homem tâo alegre com esta honra e do mundo. Chegado Francisco de Sâ a Goa e dada
oferta, que humilhando-se até lhe beijar a estribeira, a nova e papéis que levava a D. Anrique de Mene-
disse que nâo queria mais que aquele que tinha ali
consigo, que indo pago de obrigaçôes que the tinha
antigas, serviria também de ir negociar o resgate S, algeraaia: trinica usada pelos mouros.

22?
COI.LCÇÂO DE CLA.SSICOS SA DA COSTA ANArs Dri D. IO,4O IrI

ses, pagou-lhe êle a diligência com o fazer capitâo rci, mandou contra ôlcs l,lilor tla Silveira com
duas
daquela cidade em seu lugar; e embarcado nos na- galés e um bcrgantirnc rrio srilncntclhes
cntrou e
vios em que êle vêo, fez-se à vela pera Cochim aos rlucimou o lugar.rlc 'l'r.nrrurlxttiro, rlrc é cluasléguas
dezessetede janeiro, deixando-lhe ordem que com abaixo dc ( lar r : r t r orr .. or r lr lrC: r lir : r r tc, quant as
cm _
5 tôda a brevidade aûnasse os mais navios que pu- 5 lr ir lt 'ir çôcs
r r clr :r r r : lr r r t rt ,r r ; r ssul- lir r clo
polt r io acim a
(lu(!trn()uorrlrrrslr.ôsJugarcs,
desse e deles desse o cargo a Cristôvâo de Brito, incla que nâo foi sem
alcaide-m6r de Goa e filho de Rui Mendes de Brito, rnrrilo tr';rbirlhoc sangue dos nossos,porque os mo_
pera andar em guarda da costa até Dabul contra os radonrs os tinham fortificado com trincheiras e arti-
muitos de mouros que por ela ferviam. lheria e nâo foram covardes na defensa.
ro Partido D. Anrique de Goa e sendo tanto avante ro Daqui foi dar vista a Calicut com tôda sua arma_
-
como Baticalâ, deram ùa manhâ com êle trinta e da; e provendo a fortaleza de algùa5 cousas, se pas-
seis paraus. Levava êle, além dos navios com que s-ou de pressa a Cochim, por ali a prâtica
Francisco de Sâ o fôra buscar, os que Jerdnimo de de pazes, que se entendià querer "scusar tentar com êle
Sousa tinha consigo sôbre Braçalor, com os quais o governador da cidade; e entrou em Cochim em
.r5 deixando aquele rio se foi recebê-los ao caminho. rS 4de fevereiro, mandando diante avisar aLopoyaz
Pelejaram os mouros, como era[I muitos, valerosa- de Sampaio que nem da cidade queria festas, visto
mente, mas chegandoquâsi nas suas costas D. Jor- o falecimento do viso-rei, nem à. p.ruo. nenhûa
ze de Menesescom um galeâo em que vinha de Co- senhorias, porque r.*nio pagava de Ëonras empres-
chim, foram desbaratados fâcilmente: deram uns tadas e acidentais. E logô começou a entender no
zo à costa, outros foram fugindo; ficaram em poder eo apercebimento de ûa grossa armaâ., com que deter_-
. do governador dezessete.Aos z6 de janeiro entrou minava correr a costa do Malabar e tolhei de todo
o governador em cananor; e porque se arreceou a navegaçâo aos mouros.
que o rei lhe pedisse a vida do mouro Ballahacém, No meo dêstes cuidados recebeu cartas do capitâo
que entregara ao viso-rei, antes de lhe dar lugar de Goa, Francisco de Sâ, com relaçâo do suèesso
25 pera o requerimento o mandou enforcar de fra pal- a5 qug tevera a armada, que lhe mandâra fazer
e en_
meira, sem querer 3o$ pardaus que oferecia por si. tregar a Crist6vâo de Brito e alguns mouros cativos
Fez espanto esta apressada execuçâo em todos os que lhe mandava pera testimunhas dele. E foi
assi
mouros; e ficando mais queixosos del-rei, que fôça qu-e,partido o governador, armou a tôda pressa sete
causa original dela, que do governador, determina- velas, que eram ûa galeota e seis fustas e catures;
jo ram por vingança passar-sealém do rio de Cananor, 3o e dando a galeota a Cristdvâo de Brito, capitâo_
a um lugar chamado Tramapatâo, que era covil de -m6r, e os mais vasos a paio Rodrigues d'Aàujo,
cossârios e favorecido da vizinhança del-rei de Ca-
licut; mas saiu-lhes mal o conselho; porque, certi- 18, se ndo pogaua.- nâo gostava. Arcaismo.
ficado de sua ida o governador por aviso do mesmo 29, catures: pequenos barcos de guerra indianos.

22+ 225
coLECÇ.4.O DE CLASSTCOS SA DA COSTA ANAIS DIi D. TOAO III

Alvaro d'Araujo seu irmâo, Duarte Denis de Car- ro de triunfo, o r:irpiliiornorto c vencedorem om-
voeiros, Jordâo Fidalgo, Bertolameu Bispo e Joâo bros clc scttssolrlirrlos,krvir,ttrlo cliirutcbanhadosem
Caldeira de Tângere, se lançou pola barra fora. sitllgucos r:ntivosc crrtlc 0ltrsrrriristnrtiulo rluc todos
Foram êles correndo a costa até o rio Zemgtizar, o cilllitiio lul'co, r;ltt: lx)u(rilslronls dcspois,vcmdo-se
5 que entra no mar cinco léguas àquem de Dabul, . { t ur it lxt rt 'lit x lir tir lr t s,sor r lr r1lr o bt ut isr noc ganhar
: : r lir
onde se detiveram dous dias, obrigados da fermo- o r:étt. (itirtrrk: lôr'çrLcliLplcdcstinaçiro.Assi foram
sura do rio e necessidadede mantimentos, com que r:nterrrrtlos jrrrrtosurn S. !rancisco o vencidoaos pés
os da terra lhe acudiam largamente. Soube o tena- do vcnccdor'. Estimou o governador o sucesso
dar de Dabul, inimigo nosso, de sua chegada e de, quanto era razâo e folgou c'os navios e gente, de
to tença, do nrîmero da gente, que eram pouco mais ro que Francisco de Sâ nomeara por capitâo-môr, em
de cem homens e as vasilhas fracas e pequenas, lugar do defunto, a Manuel de Magalhâes.
por aviso que teve por terra. Pareceu-lhe que tinha Com estes navios e com os que tinha consigo e
presa certa: arma duas galeotas e sete fustas; mete outros que foi ajuntando fez o governador cincoenta
nelas trezentos homens, gente escolhida, e um va- velas, entrando neste nûmero z7 catarcs de um ca-
.r5 lente rume por capitâo; manda-lhe que vâ petejar 15 pitâo vassalo del-rei de Cochim, que era o arel de
com os nossos. Saia do rio Cristôvâo de Brito ao Porcâ, que se embarcou em serviço do estado com
tempo que os mouros chegavam, que o acometeram muita gente malabar. Eram os capitâes principais
no mar largo com impeto e alvorôço de gente que dos nossosnavios: Pero Mascarenhas,D. Simâo de
nâo duvidara da vit6ria; e assi foi tanta a frècharia Meneses,D. Antdnio de Meneses,D. Jorze de Me-
zo e atcabrzaia de sua parte, que no primeiro rompi- 20 neses, D. Jorze Telo de Meneses,Simâo'de Melo,
mento nos feriram e mataram muitos homens; e
. Crist6vâo de Brito, falsando-lhe duas frechas um " Jorze Cabral, Joâo de Melo da Silva, Rui Yaz Pe-
reira, Jer6nimo de Sousa, Ant6nio da Silva de Me-
gorjal forte que levava, atravessado delas o pes- neses, dous Franciscos de Mendonça, o velho e o
coço, foi um dos que primeiro morreram. Mas cre- moço, D. Jorze de Noronha, Aires da Cunha, Fran-
25 pev a ira nos portugueses, em lugar de afrouxarem e5 cisco de Vasconcelos, Nuno Fernandes Freire, Dio-
com a perda do capitâo, e apertaram tâo furiosa- go da Silva, Ant6nio d'Azevedo, Gomes de Souto
mente c'os inimigos, que todavia se mantinham com Maior, Ant6nio Pessoa, Rodrigo Aranha, Aires Ca-
, braveza e brio, que durou a briga desde pola manhâ bral e alguns moradores de Cochim; e havia entre
até as nove horas do dia e sem mostrarem sinal de todos dous mil homens de guerra.
jo fraq:ueza; foram a m6r parte mortos a ferro ou afo- Com esta armada saiu o governador em rB de fe-
30
gados n'âgua e alguns cativos com seu capitâo. vereiro e aos 25 surgiu sôbre Panane, que é ûa das
Nâo se tinha visto, muitos dias havia, batalha
naval mais porfiada. Assi morreram dos nossos de-
zessetee ficaram feridos quâsi todos. Foi novo géne- 15, arel: capitào de pôrto no Malabar.

zz6 227
'l

COLECÇÂO DE CLASSICOS SA. DA COSTA ANAIS DD D. JOAO III

principaig povoaçôes que el-rei de Calicut tem nesta Mas o que êle tinha por nccesshrioe nâo muito
costa; e sem embargo de a achar cercada de fortes dificultoso, quando qrris pôr cm cnn-sclhoa ordem
trincheiras e terraplenos, guarnecidos de muita e que teria no assnlto,l)iu'({)(!u ir rnrritosclosque jun-
grossa artilheria e gente bem armada e bastante pera tou quc scriil lcrrrr,r'i<lirclr:
r.lcscnrbnrcar a<1uicomo
5 a defensa, pôs a sua em terra e acometeu o lugar 5 crn l)anlru(:,l)or(lur r:rl rrt:gdciomuito mais arris-
por duas partes, em que foi tamanha a fôrça e es- cackr, visto o sftio c lbrtificaçâo tlo lugar; o sitio
fôrço dos nossos, que subindo por cima das trinchei- mais sollrarrcciro c a fortificaçâo aventaiada à de
ras e artilheria, puseram em desbarate os inimigos, Panane; e sobretudo com vinte mil solâados dos
queimaram o lugar e todos os navios que havia no melhores e mais determinados do Malabar pera lha
to tio, que eram muitos. Testimunhou a boa resistên- :o defenderem, afora um grande nûmero de navios,
cia que os mouros fizeram, o sangue dos nossos; providos todos de muita e boa artilheria; que nesta
porque foram mortos nove e feridos mais de coren- armada estava junto todo o poder da Tndia; e era
ta, de que os principais foram Jorze de Lima, Simâo sorte muito perigosa e desnecessâriae contra o ser-
de Miranda e Paio Rodrigues de Araujo. Sem des- viço del-rei, oferecê-lo a tanto inimigo junto, por ir
rj cansar passou o governador no dia seguinte a Cali- 15 queimar ûas casaspalhoças; que o trabalho passado
cut e the queimou dez ou doze velas, que no porto em P,anane devia antes abrir os olhos pera com
estavam; e no mesmo tempo D. Joâo de Lima, sain- Coulete, que nâo dar confiança: e assi resolviam
do com a soldadesca da fortaleza, andou polos ar- que bastava pelejar no mar e de nenhum modo sair
rabaldes da cidade pondo-lhe fogo por muitas em terÏa.
zo parles. 20 Era D. Anrique sôbre maneira esforçado e igual-
mente prudente: tomou um meio com que satisfez
. C A P ÏTU LO IX aos que se prezavam de sisudos e ficou em pé a
opiniâo que tinha de em todo caso saltar em terra,
Acomete o governador o rio e povoaçâo de o que fez mandando sair por ûa parte D. Simâo de
Coulete, de que alcança fermosa vit6ria 25 Meareses,seu primo, com trezentos homens, e êle
desembarcando por outra s6 com cento e cincoenta,
O caso de Panane facilitou no ânimo do governa- deixando tôda a mais gente no mar. Estâ Coulete
, dor o que trazia imaginado contra Coulete; porque seis léguas de Calicut contra o norte, assentado
lhe parecia necessârio quebrar nele os brios e so- sôbre ûa barranceira alta, que laz um reduto a
berba dos mouros de Calicut e artificios do Samo- 3o modo de mea lua e ficando a subida ingreme pola
zS r:m, que faziam tanto caso desta praça que a tra- praia. Tinha no alto um muro de madeira terraple-
ziam por provérbio de ameaço contra n6s, dizendo
em sua linguagem -Uxar Cooùete-, que era o
mesmo que <guarda de Coulete)). 29, barranceira: ribanceira, terreno alto.

zz8 229
coLricÇ^o Drt cLASSrcossa DA cosTA ANA /,S l)1,; l). .l oil 0 III

nado, guarnecido de muita artilheria, e nas portas r r r r r iloËx, ullor tn lot lllh'uqâo,al vor r r t r r krt r clr Hr : t t g
outra tal fortificaçâo, que, como de traveses, se 6; t t iilnse gt llr r r r r lr r , llr 'r r ir rr,illil r lilr , r 'r r r lir r rlôr lr r
podiam ambas ajudar. Ào sopé estavam os navios ar lt t elnlnt t llir lilna1rt r ôer r t r rf it glr lr rr ' llr 'nt to llovr r t '-
com as popas em terra e com tâo boa ordem em t t *t r f t r tlt t lr r lt r t lilt , illtslr
l 1ql1ilg ilr r lt t gr r t . M iltr r 't uilr r le
5 tudo, que justamente se fazia anecear. . 1 lt r ÉFËt |lr t t lr rr r t lillr r 'lt illt t oilF, r r llrr lilr tr 'lt lllt lit lil l) loFl( l
Mas D. Anrique, cujo peito nâo sabia dar lugar I t et . er llu, r f llt t I lt r t t ilr t Viiltr rt {r ilt dlit l, iilrt ', llioHo l, 'nt . .
a nenhum temor, pedindo a todos com poucas pala- t t 'lt 'a; r 'lr r t r t t n lr , t lr lonr ; r r r r r r , r r lr l roilo, r t ilt ( liln HR
vras que fiasse cada um de si naquele feito tanto lolt lnt 'rtrr r t r r t t ilotlirlr rllios. llcr : ollr crttr t sr : r 'ir r r r oct t lt i
como êle fiava dêles, porque sô o ir com descon- c lrês ltirvios,os rriris rlêlt:sca.rr.cga<los rlc <:slxlcitriir,
zo fiança lhes poderia danar muito mais que todo o ,t(, (lr.rocstavarnpcra ltzer viagem, c trczenta.scscssctttit
Malabar junto, fcrrou tcrra na parte direita da for- pcças de artilhcria de tôda sorte e grandc nûmero
tificaçâo inimiga, onde cstava o capitâo dela; e como rlc espingardas; e queimou-se o lugar com quâsi
ia acompanhado dos melhores fidalgos, cavaleiros cem navios, que nâo serviam pcra nosso trso; (los
e soldados da armada, pelejaram êles com tanta inimigosacabaramtantos,<1ucfir:orr() rnirr'o ir turra
ti .r5 fôrça e esfôrço diante de seus olhos, que breve- r5 semeadadc corpos nr<lrtos.
r)l mente caiu a seus pés o capitâo mouro atravessado , Dcu tnatéria rlt: t'iso tos vr:ncc<.lonrs, <klslxrisrlir
ril de muitas lançadas com outros três, que despois vitdria, a prudônciu ou prrsilanirnirliult: rkr ir.rr:ltlt:
I se soube que tinham jurado em seu Alcorâo de mor-
rerem com êle. No mesmo tempo acometeram os
Porcâ, que, como se fôra ali pcra vcr a lrrigt c rrâ,o
ter parte nela, se pôs de parte sem fazcr ncnhum
zo nossos navios de remo aos paraus, e foi Rodrigo eo movimento. Mas levou boa paga, porque o gover-
Aranha o primeiro que ganhou a honra de aferrar nador, despois de lhe mandar fazer sinal com o pe-
um e levar à espada todos os mouros dêle; a quem louro de um berço, que lhe foi quebrar ira pcrna,
seguindo os mais navios no$sos, era a briga tâo te- por remate o despediu com todos os seus. Daqui se
merosa em mar e terra, que tudo ardia em fogo e se foi o governador a Cananor curar os fcridos, ontlc
z5 resolvia em sangue. z5 o rci como em parabens da vit6ria lhe ofcrcccu um
D. Simâo tardou na volta por encavalgar o lugar fermoso colar d'ouro e pedraria, que accitou polo
da parte esquerda; mas em chegando apertou tâo nâo desgostar, mas com tençâo de o rrrn.urlirrn
vivamente com os que tinha diante, que eram o el-rei D. Joâo, como Iez, em companlriir <ltrrrrn fio
maior peso dos mouros, porque imaginaram que de pérolas e peças de sêda, que na mcsnra conjun-
3o vinha com êle o governador, que com morte de jo çâo lhe chegaramde parte del-rei d'Orrnuz, corn que
aquele rei escrevia ao conde viso-rci dcfrrnto.

tlaueses: baluartes com defesa combinada. Entenda-sc: (com quc aquclt: rr:i firz.ia anom-
3o-3r.
encaualgar: atacar subindo. panhar a catta que cscrcvia ao condc viso-rei>.

230 23r

It
i,
COLECÇÂO DE CLASSICOS SA DA COSTA ANAIS Dti D. I0Â0III

Neste mesmo tempo navegava Ant6nio de Miran- r ei, com ser r cr it r llor inst tt t t t r inolr t il; t t r ktlr t t t t t 't t t cr
da pera o Estreito com terceira armada, que ia em verdade, usarn ltliçfrtl ('olll (lH ltotltt;'itrrsea, ltllo rio
demanda do embaixador D. Rodrigo de Lima, que espant asstt lt r l ilt 'lt t t t r l't t t t 'llt r t t t ltlr' llllil t ! lt l lt ot t lnt t g
estava com o Preste. Desta tinha o conde Almi- particlrlirtrrs.
j Assi, lr t t zot t t lrrl : ot t r r i; 1o t t l lr t it ct t Hr k' r lt t it t zt t' t lt os
5 rante dado o cargo a seu filho D. Estêvâo e por
sua morte o deu Lopo Yaz de Sampaio a Antônio e qucir t t it . t t r pt
lo 'it t t t 'it lor
o lo$ os t ut vir t sr lt t t ' t t o lt ot lr r
de Miranda, que chegando a Baçorâ teve novas que havia, quc cr : t nrt t t t t it os,vit t got tt r t t t pit r ll r r n lr t lgi
andava por aqueles mares ûa caravela às presas, que dades e treiçôes dôste rci, <1ttcnio forartt s(r trttt
logo buscou e tomou e achou ser a mesma que da dano dos do bergantim, mas de muitos outros lxrr-
ro companhia do conde Almirante se levantara; e ro tugueses. Daqui se fez à vela pera a Ïndia sem ir a
prendendo a todos os que ncla andavam, vieram Màçuâ em busca de D. Rodrigo, assi por ser: jâ
muito entrado o mês de abril, como porque foi ctrr-
a pagar vâriamente, inda que tarde, sua infideli-
tificado que €m Judâ estavamlevantaclasvintc girlfis
dade.
de rumeÀ e pareceu temericlatlea todrls os cnpitircs
Pondo a prôa na cidade de Adem pera recolher
rj entrar e fazer clctcn<,:a cm ttctllttttn lxrllo rla,<ltttlo
15 as pâreas do contrato e pazes de Eitor da Silveira, c tnio vizitrlrosttt:lc.
, mar com tais inimigos
encontrou e tomou ûa nau da mesma cidade, donde
se lhe lançou um negro ao mar e em linguagem
CAPI TULO X
portuguesa pediu que o tomassem. Êste contou
como, tanto que Eitor da Silveira safra do Estreito, Recolhe-se o governador a Cochim; despacha
20 loram os portugueses do bergantim que ali deixara Pero Mascarenhas pera Malaca e D. Simâo de
presos e mortos com vârios tormentos - todos os
Meneses a correr a costa. Dâ-se conta dos prin-
que nâo quiseram negar a fé. cipios do cêr co da f or t aleza de Calicut
Nâo se fiou Ant6nio de Miranda no negro; man-
dou vir à sua nau os mouros principais; ameaçados Com as vit6rias de Panane e Coulete paroc(rll lto
25 com tormento, confessaram châmente a maldade. governador que, pera o que ficava que fazcrttttrltrFln,
Avisou-os logo que tratassem do seu resgate, che- ôosta, era jâ escusadasua assistônci^1' f11i-9tr 1'lotr[
gando-se à vista da cidade. Nâo tardaram comis- zo Cochim, donde despediu pera Malaca Pettr Mttu'tr-
sirios em ir e vir, porque os presos eram dos me- renhas, que de Portugal vêo nomcldo l)r:l'il I'rrpiiilrr
lhores e mais nobres de Adem: concertou-se o res- dela em lugar de'Jorze cl'Albuqll(!r(ltl(!,rltrl litrlrtt
7o gate em trinta mil pardaus; contado e recebido o acabadoseu tempo; e mlrnclout I)' Sitttitr rL' Mtr"
preço, mandou-os Antdnio de Miranda tornar à sua
nau e logo dar-lhe fogo e queimâ-la com todos, e
mandou significar aos moradores que quando seu r, aorn sel rei: apelsttr tlil suil trotltliçit'o tlo rol'

232 237
COLDCçÂ-U DE CLASSICOS SA DA COSTA ANA /S r)ti D. JOAO III

nesesque andasse na costa alimpando-a de ladrôes, r lt . l'iur iut t rn ( lr t t lr , lr ', lnt zir t t t rliio t ; t t cbr ant adoe
até que o inverno o obrigasse a tornar-se juntar com r lr gr : or r lulrolnSr t t t t ot 'it trtlt, t r llt c Plt t t r t : iitst , : gundoo
êle em Cochim. gt nt r r lr t il't t t r r , t r rlr ' t ur vio$t lt t r 'lit r lt it pr r lr lir lo,que
Partiu D. Simâo, e sem lhe ficar rio que nâo visi- lr t ovlnr r . t r lnvlt in r r r , glillor lr . t r iio lxr r lct llt ' no m ar
5 tasse até Mangalor, entrou neste e queimou-lhe a ,l lllit ll lln t t t nlt r 'lt t t111' ( lr r ir llt t t r lo
t t I t 'r t t 't t r lot t 'g. t t o r ct né-
cidade com dez ou doze navios que dentro estavam; r lio r la I nt r lo$t t t nllr ir , t t ir vit t l; it t t çitt lt : 1c5, r lut l igual-
e passando adiante, acompanhado jâ do galeâo de t r r ot t t et lenc. invir ( rso
r lr, . lt , r 'r r r ir r ou- r nt lr t ar dc l) az com
Fernâo Gomes'de Lemos e das duas galeotas de seu o govcrnittlor: (:r'ir, ir,tctrçlo que, sc a alcançassecom
irmâo Gomes Martins de Lemos e Antdnio da Silva, ;rs condiçôcs <1ucà sua reputaçâo convinham, ces-
ro foi-se correndo a costa, onde lhe aconteceu encon- trr sariam os males presentes,e pera se vingar nâo fal-
trar três ou quatro vezes com embarcaçôgsde mou- tariam polo tempo adiante ocasiôes; se lha nâo
ros que desbaratou fâcilmente. Mas foi fermoso dia desse,empregaria todo seu poder em nos fazer tanto
o que teve na festa da Pâscoa, em que se viu cerca- dano por tôda parte, que ou de cansados lha pedis-
do de setenta paraus, dos quais tomou vinte e fez semos, ou seu ânimo ficasse satisfeito com nossas
rS dat muitos à costa, ficando o mar tinto de sangue r5 perdas.
e as praias cobertas de gente morta; feito de estima, A êste fim cscolhcu um gentio, homem principal,
se o nâo deslustrara um desastrado acidente. seu nome Lambea Morij, que mandou ao governa-
Levava Domingos Fernandes um catur muito li- dor, pedindo-lhe que tevesse fim tanta morte de
geiro: meteu-se animosamente polo rio Marabu den- homens, tanta destruiçâo de lugares e lograssem
zo tro, trâs os que fugiam; parec€u a D. Simâo que ia eo ambos Êa paz quieta em que consistiam .todos os
meo perdido com o alvorôço de chegar aos mouros; bens da vida; que, se estava sintido dos encontros
. mandou a Gomes Martins de Lemos que lhe fôsse que seus vassalos de Calicut tinham com D. Joâo
valer com o seu catur; e foi em tâo forte hora, que de Lima, tôda a culpa era do mesmo D. Joâo, por
deu em um sêco, aonde sem remédio foi morto Às ser homem de dura condiçâo, mal sofrido e âspero,
z5 frèchadas polos moradores do rio, que acudiram 25 qlre nâo so culpas leves, mas até pensamentos casti-
por ûa e outra margem a favorecer os que fugiam, gava com rigor; e se o seu governador, que deixara
e com êle D. Manuel de Lima, filho de D. Afonso de em Calicut, se desmandara em algûa cousa contra
, Lima e quantos no batel iam, em que entraram a fortaleza, fôra parte escandalizado das bravezas
sete portugueses, afora estes dous fidalgos. de D. Joâo e parte por estar êle Samorim longe em
30 Esta perseguiçâo de D. Simâo, sôbre as perdas jo certa guerra ocupado; que pera terem fim e fica-

23, ern tdo forte hora: em hora tâo infeliz, tâo de. S, manchua: pequera embarcaçâo indiana de mas-
sastrada, tro e vela quadrada.

234 235

--.
coLECÇrtq DE CLA.SyCOSSA DA COSTA ANAIS Dlt D. JOAO III

rem sepultadas de pade a parte todas as desaven- naçâo siciliano, qll(: sc jitt:tnvit aprt:ttclcraa arte no
ças, lhe mandava pedir paz e devia êle govemador côrco e tomada rlc l{rxlcs. ,l',stl.lrrnrlirdat:stapraça
estimar pedir-lha um prfncipe tâo poderoso e senhor nt cost a br ir vr t r lt t t 't 'ot t r : r lt : t t ol't c it . st t l, scm t er
de tamanhos reinos, que por muitas perdas que porto ncnt nltrigo otrrlc possiuncstitr ttitvios scgu-
5 tevesse as podia reparar brevemente, o que nâo 5 ros, Sr'rllrc licrrttr ;x:gir.rlos tttrs ru'rcr:ilirsc pcdras,
seria tâo fâcil, em um revés da fortuna, a quem c<lrtatIitstlc itlgttttsciLrta.is, lror olttlt: lroclcrn<:tttrar
todo o seu poder tinha em pouca gente e poucos navios pequenos, mas tudo tâo exposto e patente
navios, sujeitos à braveza do mar e inconstânciados aos ventos, que a tôda hora arrebenta neles o mar
ventos. em frol e s€mpre tolhe desembarcaçâopacffica. Fi-
ro Era o governador de seu natural homem sêco ro ca-lhe a cidade nas costas à parte de levante, o mar
e de poucas palavras: cortou as do gentio, fazendo ao ponente.
delas pouco caso, com quanto lhe entendia os fins Tinha D. Joâo consigo trezentos hornens e sua
e a fuaqueza das desculpas; e vindo às condiçôes pessoa era tal que valia por outros tantos, corno se
da paz, foram tais as que propôs, que o gentio se conta del-rei Antigono, quando quis romper ûa
15 despediu sem assentar em nada. E dizem que o Sa- 15 batalha naval, que, sendo-lhe dito que as naus dos
morim teve por dita negar-seJhe; porque, como se inimigoq eram com excesso mais que as suas, res-
chegava o inverno, que em tôda a costa da India pondeu: - E a quantas dessascomparais v6s mi-
entra em primeiros dias de maio, cerrando-se todas nha pessoa?E o mesmo podiam bem dizer muitos
as barras dos rios com a fôrça das ondas do mar, parentes seus e outros fidalgos e valentes cavaleiros
20 qlJeas entupem com asareasquenelesajuntamefica eo e soldados que o acompanhavam!
inritil todo serviço dos navios, lazia conta que neste Lançou-se a cava, custando antes de ter perfei-
tempo se faria senhor da nossa lortaleza de Calicut, çâo muito sangue dos inimigos e também dos nos-
com que acudiria a seu crédito diante dos potenta- sos; porque D. Joâo, ûas vezes por crédito, outras
dos da ïndia e satisfaria pera consigo a seu 6dio. por raiva, saia a êles a meûde e matava e feria tan-
25 Assi pôs logo por obra o cêrco da fortaleza, man- 25 tos, que o engenheiro por emparar os que traba-
dando primeiro que tudo um capitâo com dez mil lhavam, cobriu a cava com vigas. Mas nada basta
homens e ordem que cingissem a fortaleza em roda, pera impedir obra de muitas mâos. Na entrada de
de tia cava de vinte cinco palmos de largo, de sorte junho estava a cava de todo aberta: e em cada
qu€ os dous extremos dela chegassem a beber no ponta, das que se olhavam de través sôbre a praia,
30 mar. Era engenheiro desta obra um renegado, de,

g, em frol: fazendo flores de espuma, espada-


nando com fôrça.
12, corn quanto: por quanto. 23, por crédito: por amor da gl6ria, para adquirir
29, beber. Bonita expressâometaf6rica, por (tocar)r. fama.

236 237
COLITCçÂ} DE CLASSrcOS S.{ DA COSTA ANAIS Drt D. IoA.O III

fundada ûa valente plataforma, coroada de tâo pcito tâo constantcr;uc cltrixtsscclc sintir grande pa-
grossa artilheria, que havia nela peça que jogava vor com o qut: trclc sc virr. 'l'ôrln :r manhâ nâo teve
pelouro de seis palmos em roda. Estas fazia o sici- rnais clariclttlc <lrrcir rlrrr:rlirviun <-rs rclâmpadose
liano pera tolher a entrada do socorro; e pera Ros rrfttzilnrr'lo logo: lrrrkr<lrrlris clruunt gfossoc cscuro
ji bater a lortaleza acompanhou a cava com outros 5 lt t t t t o,r lr r t rt 'olr liiro r : ir cr r it rrllt r lir r t ir lcza,cor n t am a-
cinco baluartes em lugares acomodados com sua ar- ttlur t.strrrrrrkr rlir irllilhcrit c grita dos cerca<Iores,
tilheria assestada, obra de que prometia tanto, que <yuc<lt:rrtrrrrlos rrossosmuros nâo havia homem
o mesmo Samorim, que, cercado de noventa mil quc so <luvisscum ao outro. E nâo era maravilha;
combatentes se vêo nesta conjunçâo sobr'ela, disse porque a terra tremia, o mar se empolava, o ar ron-
ro entre os seus que bastantes eram pera a cobrir e ro cava como em ûa semelhança do Juizo Final.
alagar s6 com punhados de tcrra' Tinha D. Joâo repartida a fortaleza em estân-
E todavia D. Joâo, querendo mostrar ao Samo- cias, de que eram as principais pessoasD. Vasco de
rim que nenhum caso fazia daquele grande poder, Lima, Jorze de Lima, Rui de Melo, Antônio de Sâ
saiu um dia a dar no æmpo, onde foi tanto o nrl- seu irmâo, Joâo Rebelo feitor, Duarte da Fonseca
rj rnero de homens e armas que vieram sobr'êle, que r5 e Antônio de Serpa, ambos escrivâes da feitoria,
correu sua pessoa muito risco e foi necessârio me- cada unl com gente ordenada, que de contino nelas
neaïem bem as mâos êle e os seus pera se recolhe- assistia. Sô D. Joâo ficava livre com outra de so-
rem em salvo. bressalente pera acudir onde o chamasse a neces-
sidade. Acabou com o dia aquela horrenda trovoa-
C A P ITU LO XI zo da e mostrou o seguinte que fôra a dos inimigos
terror sem efeito e a nossa lhe fizera gravissimo da-
Começa-se a bater a fortaleza. Acode-lhe o no: porque os seus pelouros davam em paredes
governador com vârios socorros; e Érltimamente firmes e os nossos sempre matavam ou feriam, dan-
com sua pessoa do em meo daquela multidâo de gente, que cobria
z5 montes e vales. Todavia pareceu a D. Joâo que
Era dia do nosso santo português Ant6nio de cumpria pedir socorro: avisou em fia almadia o go-
zo Pâdra, treze do mês de junho, quando el-rei de Ca- vernador; e êle despachou logo duas caravelas com
licut mandou que se começassea bater a fottaleza. cento e quarenta homens, que pelejando com as on-
Mal sabia o bârbaro que dia êscolhia pera se pro- das e tormenta do inverno, chegaram perto da for-
nosticar bem de tôda a empresa: dia pera os nossos jo taleza. Atreveu-se a desembarcar com trinta e cinco
cheo de boa esperança, sem embargo que nâo havia

3, relâmpailos: relâmpagos. Forma muito portu-


14, a dar: a dar golPes, a escaramuçâr. guesa, ainda hoje popular.

238 239
l7-

COLECÇîO DE CLA.SSICOS SA DA COSTA ANArS DE D. JO.4O III

companheiros Crist6vâo Jusarte, capitâo de ùa; mas derribadose abrasados.O callitiro cla outracaravela,
com tanto trabalho pola fiiria do mar, que safram nâo se atrevcnclo a rkrscrubitrcar,lcv<lrr carta de
com a âgua polos peitos e pelejando sempre c'os D. Joâo peri[ o gov<'rtrit,rlot:, (.rln(lrr(rllrr: clizia que
( : om r ncnosr le r lr r inlr cr r t os soklt r r losllr t : nir o m an-
mouros, que como cardume de golfinhos se foram
misturar dentro nela com os nossos, com a como- j r liLssct t t . r t t lr r r s(
r r rx'( ) r 'r o, <lc
lx) t r ( 1t l( : lir . t r t ost inha ne-
5
didade que tem de andarem sempre nus. ccssir lir r lrst, ,, lir r r r r kro r r r r r it ot llLl- r ir llrdc
o vigiir s,can-
Tinha D. Joâo feito um género de couraça com saçoc lctirlas drrsrlrrc tinha consigo;c também que
pipas e terra, que corria da porta da fortaleza com rnclrosgcutc cra tcmeridade acometer a desem-
até o arrecife, obra muito acertada, assi pera reparo barcaçâo. Nâo tardou o governador em lhe mandar
lo do socorro, quando lhe viesse, como pera danificar .ro êste nûmero, a cargo de Francisco Pereira.Pestana
o inimigo com a atcabuzeria por entre elas. Foi cor- e Antônio da Silva, em sete navios; mas estava o
rendo pola couraça D. Vasco de Lima a recolher os mar tâo levantado e tempestuoso, como era na fôrça
amigos; mas carregou sôbre êle tanta gente do campo de inverno, que levou cada navio pera sua parte.
e pelejou tâo determinadamente, que quâsi houvera Tinha o Samorim avisos continos de todos os mo-
rj de entrar, de volta com os nossos. E custou a briga 15 vimentos que o governador iazia: e entendendoque
ficarem mortos quatro da companhia do Jusarte e se aprestava pera socorrer os cercaclos,determinou
muitos feridos, entre os quais foi Manuel Cerniche, apertar com a f.ortaleza,por tantas vias, que se fi-
que por Î:azet limeza e salvar um amigo, que ficava zessesenhor dela antes de sua vinda. Aqui mostrou
cercado de mouros, foi passado de tantas frechas e o siciliano todas suas habilidades, porque ordenou
zo trabucos com çlue lançava pedras de desmesurada
eo lançadas, que dentro de poucos dias morreu, fican-
grandeza dentro na fortaleza, e tantas que nâo havia
do o amigo vivo.
Nesta conjunçâo se viu D. Joâo mui afadigado; nela lugar seguro; e no mesmo tempo fez mover ûa
porque os inimigos entendendo que estaria ocupado serra de terra, trabalhando na obra o campo todo,
que igualava a nossa muralha, e dela nos matavam
como estava com os do socôrro, arremeteram ao
z5 e feriam muita gente. Ao que juntou abrir ûa mina
25 muro pola parte da terra, arrimando-lhe muitas es-
tâo secreta e bem lançada, que fôra total destruiçâo
cadas e subindo ousadamente por elas, até que
da praça, se Deus Nosso Senhor, misericordioso
acudindo-se com muitas panelas de p6lvora foram

8, terfa. Esta palavra, sugerida por Herculano,


3, dezia no ms. Adoptamos geralmente a grafia
falta no manuscrito.
dizia.
r4-r1, que qudsi houuera d,e entrar, ile uolta corn os
8, acometer a d,esetnbarcaçdo: faz.er o desembarque.
,tossos. Parece significar: (que a gente do Samorim esteve
T2 , como era.: pois era.
quâsi para entrat na fortaleza, envolvida em combate
20, trabucos: engenhos de lançar pedras.
com os nossosD.
22, rnoaer: erguer, levantar.
18, fazer fineza: mostrâr valor, nobreza de alma.

240
24r
r6
COLECÇÂO DE CLÂSSICOS SA DA COSTA ANAI.S DE D, III
TOÂO

sempre nos rnaiores apertos, nâo movera o coraçâo Poucos dias despois chegou Francisco Pereira
de um moço português, que andava lançado c'os Pestana; e quercncloprovcr os lrossosdc arroz e de
inimigos, pera dar aviso dela, o que fez cantando, algûas cousas <;rrc lrazit, ir:crtou t:sLiv a noite
porque nâo teve outro meio. tâo clara conl a ltur, tlrur acutliu todo o oampo ao
5 Assi era o trabalho incomportâvel em todos, por-
5 ar r t : cif cc t nir t ir r ir r rt r: it t cot los nossos;c D. . |oir o de
que sôbre as vigias continuas, baterias e pelejas de Lima, <1ttciL tudo r.lrrcriascrnprescr prescnte,ficou
tôda a hora e,andarem com a enxada na mâo con- ferido t:rn îiu llt:rna com perigo, de maneira que às
traminando, nâo havia pera viver mais sustentaçâo costaso meteu Jorze de Lima da porta pera dentro,
que um pouco de arroz cozido na âgua. Mas em meo e foi necessâno fazer cama alguns dias. Trocou
ro de tantas incomodidades e na maior fraqueza dos
"ro Francisco Pereira as horas e mandou com outro
corpos, andava o espirito honrado tâo vivo, que, provimento um parau pola sésta. Tâo bravo andava
como se foram de bronze, nâo havia em nenhum o mar, que nâo podendo tomar bem a bôca da cou-
queixa, nem ainda sentimento. E esta constância raça, perdeu cinco marinheiros entre mortos e ca-
foi parte pera lhes resultar dela um nâo cuidado tivos: e saindo D. Vasco de Lima pera o recolher,
.r5 alivio. 15 achou na cavâ lançado em cilada um capitâo ini-
Viu o Samorim que continuando longos dias o seu migo, com quem teve ùa mui crespa briga: e entre
engenheiro em artificios, nâo ganhava palmo de muitos feridos ficou Jorze de Lima com ûa arcabu-
terra da fortaleza e era infinita a gente que tinha zada pola cabeça, inda que sem perigo; e nâo larga-
perdido e cada dia perdia: doendo-se dos seus, vêo ram os inimigos o campo senâo por morte de seu
:o a remediar os nossos, porque mandou cessar todo zo capitâo, que D. Vasco matou por sua mâo.
género de artificio e declarou que sô por fome nos Ia o inverno no cabo, e esperava-secada horaque
queria flazer a guerra, guerra segura pera os seus, apar€cesseo governador com todo o poder da India,
e pera os nossos de rnaior dano. quando o Samorim tentou ûa obra, que fôra a mais
Eram jâ neste tempo mortos dos cercados cin- danosa de quantas tinha feito, se Deus a nâo reme-
z5 coenta; mas os vivos estavam inteiros e generosos z5 diara com sua providência. Tinha D. Joâo levan-
de sorte que, chegando Antdnio da Silva sô, de- tado um forte de madeira sôbre a porta da fortaleza
fronte da fortaleza e despois Eitor da Silveira com pera segurança da entrada; manda-lhe o Samorim
sete navios, mandou-Ihes D. Joâo dizer que escusa-
va gente e sô lhe mandassem provisâo de p6lvora e
3o mantimentos; o que Eitor da Silveira lez larga-
3, a noi,te, A exprt.ssiro Ierlta rro rn:rnuscrito e foi
mente, mas a poder de ferro e fogo. sugerida por I{ercul:uro. li porém rluvi<loso que Sousa
deixasse de escrever um:r p:rlavra tâo vulgzrr como era
noite. Talvez antes a coilrilÇa, a rlue Sousa proouraria o
nome especial e técnico, ou t'ntio 'a fortaleza, jâ nomeada
14, Ioi parte pera: contrjbliu para.
aclma.

243
COLLCçI) Dt:. CLASSICOS SA DA COSTA A.NAIS DE D. TOA.O III

dar fogo com tanta pressa e tamanho nrimero de Eram capitâesdos navios mais principais e maio-
atiçadores, que nâo havia remédio humano pera res D. Afonso de Mrrncscs,D. Iorze 'felo de Mene-
se poder apagar nem tolher. Nesta conjunçâo apa- ses, D. Jorze rlc Mcnt'scs, D. .forzc de Castro,
receu Eitor da Silveira com os seus sete navios, dis- D. Pedro Castel-blrtnco,lorzc Cabral, D. Diogo de
5 parando contra o campo muita artilheria. Os mou- J Lima, D. ll'r'istâo<k:Nororrhir,Joâ.oclc Mclo da Sil-
ros como €speravam jâ polo governador, imaginan- va, Artt(uriotlir Silvt'ira, lir:r'nâoGomcs de Lcmos,
do que seria êle, correm todos à praia, largam o Ant6nio tlt: Lcrnos, Antônio da Silva de Meneses,
forte e assi deram tempo aos cercados pera lança- Ant6nio d'Azevedo, Manuel de Macedo, Anrique de
rem tanta terra sôbre o fogo, que Lez efeito d'âgua Macedo seu irmâo, Jorze de Vasconcelos,Duarte
ro e o a bafoueapagou. ro da Fonseca, Antônio Pereira, Rodrigo Aranha. Era
Apds liitor cla Silveira chegou Pero de Faria com também chegado da sua jornada do Estreito Ant6nio
vinte e cinco velas, que o governador, diligentissimo de Miranda com os navios de seu cargo; e juntos
em acudir a sua obrigaçâo, mandou diante; e êletar- todos, que passavam dè sessenta, laziam temerosa
dou pouco. Tnzia vinte velas e nelas mil e quinhe- vista no mar, como também a laziam na terra com
.r5 nhos homens de peleja; e apareceu sôbre Calicut Jj sua multidâo os bârbaros. Feito sinal de Conselho,
aos vinte dias de setembro. acudiram todos à capitana. E, sendo juntos,
propôs o governador que bem sabiam o fim pera
C A P ITU LO X II que ali eram vindos, que era socoffer aquela
lortaleza a pesar do Samorim; o como isto se faria
Junta o governador conselho sôbre o que deve 20 com mais crédito do Estado da India e do rei a
fazer no socôrro da fortaleza; manda pedir a quem serviam, convinha que consultassem e assen-
' D. Joâo de Lima seu parecer. Resolve-se com tassem.
ê l e e m desembarcar e dar batal ha ao S amori m Começada a tratar a matéria, houve grande va-
riedade de pareceres,muita altercaçâoe porfias, por
Surgindo D. Anrique defronte da fortaleza e de 25 ftm das quais tomando a mâo um do,s presentes, a
todo aquele grande exército inimigo, procurou pri- quem o valor da pessoa, sangue e obras davam
meiro que tudo saber o estado da fortaleza; e logo confiança pera falar livremente, dizem que falou
'zo metido em um barco com alguns capitâes e pessas assi: - Em dous meios se resolvem todos os de-
de mais conta, foi dando vista ao campo dos mou- bates que aqui sâo passados:um é sairmos em terra,
ros e notando o assento, sitio e ordem dêle; apds 3o pondo os peitos às bombardas de tantas trincheiras
esta diligência quis ouvir os pareceres dos capitâes,
fidalgos e soldados velhos sôbre o como se deviam
z5 haver naquela ocasiâo que ali os tinha juntos com a6, capitana: nau do comandante.
todo o poder da ïndia. 25, totnando a mdo: lomando a sua vez, intewindo.

244 245
COLECÇ;ÏA DE CLASSICOS SA DA COSTA ANAIS DE D. JOAO III

e baluartes como neles vemos assestadase descercar êstes contra si, pagou neste mesmo lugar o Mari-
a foftaleza"; outro é metermos nela tanta gente, mu- chal com a vida a zombaria que fazia dêstes naires;
niçâo e mantimento, que fique fornecida pera mui- e nâo eram tantos os que lha tiraram, como aqui
tos meses. Ao primeiro meio vejo aqui inclinados vemos. Por onde meu parecer é quc sem mais por-
5 alguns, e quanto a mi 6 mais quererem parecer Va- 5 fias sigamos o segundo meio; meio sisudo, meio se-
lentes e gentis homens no votar, que ordinâriamente guro e mais de scrviço del-rei que o primeiro.
é caminho de perdiçâo, ou cuidarem que agradam a Enxergavam todos no sembrante e olhos de D.
quem tudo quer levar ao fio da espada, que nâo Anrique que o que se dizia era mui contrârio ao
polo entenderem assi. Porque, senhores, se n6s que em seu coraçâo tinha; mas, como era muito
ro quâsi sem risco podemos fazer inexpugnâvel esta ro prudente e sofrido, deu fim ao Conselho daquele
praça,, iporquc ha.vcmosclc querer por cobiça de dia dizendo que seria razâo, antes de se resolverem,
um nomi vâo de honra pôr a perigo todo o Estado ouvir o parecer de D. Joâo de Lima e dos fidalgos
da India, que no poder que aqui temos consiste? e soldados qlre com êle estavam e pelejavam com
porque havemos de querer perder muitos homens, aqueles inimigos havia três meses e meio. E escre-
z5 onde podemos executar o a que vimos sem perder rj veu a D. Joâo que the inviasse ûa pessoa que lhe
um sô? Debalde e sem fruito é o feitio que se faz declarasseseu voto, pera tomar com êle assentona
por muitas mâos, quando por ùa s6 se pôde fazer. confusâo que na armada havia. Despachou D. Joâo
E nâo me alegue ninguém com as valentias de Pa- na mesma noite com sua reposta a Jorze de Lima,
nane e Coulete: se Deus lâ nos quis guardar, equem que se atreveu a embarcar em fla pequena man-
zo nos promete o mesmo em Calicut? Quanto mais, zo chlJa; e teve tal ventura que, sendo buscado com
que o havemos aqui, se consideramoso mar, com muitos pelouros de artilheria, que a montâo se tira-
. ûa costa brava, onde o rô1o das âguas quebra sem- vam do campo contra a ardentia que levantava o
pre naquele arrecife, e havemos de sair com âgua remo ao ferir na âgua, foi o barquete colhido e ar-
polos peitos, descompostose meio vencidos. Se con- rombado de um, que o fez nadar a êle e o indio que
e5 sideramos a terra, temos nela sessenta mil homens 25 O TemAvA.
que nos esperem e sete baluartes que rodeam essa Chegado à capitana, quando o governador
fortaleza, tâo bastecidos de artiiheria que s6 a que soube quem era e que sôbre a fama que tinha ga-
, daqui estamosvcndo no monte de Cota China hôu- nhado de valente no cêrco, se oferecera ao risco
vera de bastar pera nos fazer prudentes. Canhôes
3o reforçados sâo; e devera-nos lembrar que, sem teï r-2, o Mayiohal. D. Fernando Coutinho, que, ao
assaltar Calecut em 3 de janeiro de r5ro, perdeu a vida
com muitos outros portugueses. A desordem do ataque,
a fanfarronice e a vergonhosa cobiça provocaram êste
1 6 , feitio:
obra, feito, façanùra. desaire.
que o hauemos aqui: que lidamos aqui.
22, ard,entia: fosforescência, luminosidade da âgua,

240 247
coLECÇ,îO DE CLASSTCOSSA DA COSTA AI,IAIS DD D. TOA.O III
I

presente, nâo se cansava de lhe dar louvores; mas e contra navios miuclos, gcrrtc pouca e lugares
muito mais creceram despois que ouviu o voto que fracos; c que on<kr h1r îiit ;l<tttcit tlc mais fôrça
tazia de seu tio e dos mais cercados, que era con- nâo valemns ttirtlit. Assi, st'ttltori:s, vos pedem
forme o que em sua alma desejava. Nâo tinha Jorze <lt t t r vos t t iio ct t vcjcis r t vt 'r s I ncslnos e a êles
5 de Lima neste tempo mais de vinte anos, mas acom- 5 l1r ,gl6r 'ir it
r r t ollir l,r lr t c t ct t t lcscr ct 't na
a hor a que pu-
panhados de grande esfôrço e muitas fôrças. No dia os 1r / , ct
sct 'r lt 's s t r lcll'lr ; t : r lc sr t alt ar t c vos of er ecem ,
seguinte, que. foi terceiro e riltimo dos conselhos, se lllt (lll(!nl sr: <:sparrtcdaquelas bocas abertas de
sendo juntos os costumados, mandou-lhe o gover.- ferro c l>xtnzc, vomitadoras de fogo e mortes, e que
nador que declarassea resoluçâo que trazia de seu por tais tem os nômes de leôes e serpes e culebrinas,
ro tio e dos mais cercados. Levantou-se e disse assi: ro que nôs seremos os primeiros a lhes pôr em cima
- D. Joâo e seus companheiros até o rninimo de os pés e encravâ-las. E isto é o que sentem e o que
todos vos fazem saber por mi que o alvorôço, que pedem e o que de si vos prometem.
com a vossa chegada e com a vista de tâo fermosa Assi ia dizendo Jorze de Lima, quando feriu as
armada receberam, nâo é outro senâo esperarem orelhas de aquela junta ûa extraordinâria grita de
rj que lhes deis licença pera saltarem por cima dêsses 15 todos os navios da armada, que respondia a outra
valos e trincheiras e irem vingar-se dêssesinimigos, maior, que em tena Lazia retumbar montes e vales,
que ou seja pola ira e 6dio que lhes merecem, ou Era o caso que viram sair da fortaleza um corpo de
polo costume que tem de medir com êles as lanças e gente e assaltar de sribito o baluarte mais temeroso
espadas cada hora, nenhûa estima fazem de tôda de Cota China e, apesar de todo o campo que sôbre
zo sua multidâo e tem por certo que na hora que vi- zo êle se ajuntou, levarem-lhes a artilheria Que nele
rem estendida por aquelas praias tanta e tâo boa estava. Foi feito grandemente louvado na armada
gente como aqui trazeis, v6s por ûa parte e êles por e que muito alegrou a D. Anrique, de cujo juizo se
outra, por muitos que sejam, nâo poderâo deixar afirma que procedera por tirar os receos que s6
de ser desbaratados e desfeitos e ficareis com tia vi- aquele sitio fazia aos que mais contradiziam o sair
z5 tôria que seja principio e fundamento de ganhardes 25 em terra, e que por sua ordem avisara Ant6nio de
outras muitas por tôda a ïndia. Porque nâo hâ dri- Azevedo ao capitâo D. Joâo que o tentasse, man-
vida senâo que todos os potentados dela estâo hoje dando-lhe a isso um criado que fôra e viera a nado.
com os olhos postos neste cêrco, pera julgarem do Passado aquele acidente e cessando o estrondo
sucessoe estimaçâo que devem fazer das arrnas por- da nossa artilheria, que jogou contra os inimigos
3o tuguesas. Se nos virem prudentes e muito recataâos, por tôda a roda da fortaleza até que teve fim a em-
30
estâ certo que por fracos nos hâo de ter; e hâo de presa, tomou entâo o governador a mâo, e sem mais
ficar assentando que Panane e Coulete, ou deixar falar a Jorze de Lima: - Ao parecer - disse
foram cousas feitas a caso, ou que todos nossos - que nos mandam tâo bons soldados, parecer pro-
brios nâo sâo mais que pera entre rios quietos vado com a experiência de muito tempo que hâ que

248 2t/\
coLECÇÂO DE CLÂSSTCOS S.4 DA COSTA ANArS DE D. IOÂO rrI

pelejam com estes bârbaros, nâo vejo que deminuir Panane e Coulete, que êsses braços tâo honrada-
nem acrecentar: sd vos lembrarei, senhores, em con- mente destruiram; e agora com tào bom voto como
firmaçâo dele, o que me passou por estas mâos que temos ouvido e como é o de muitos fidalgos que
todos deveis de ter ouvido e por ventura vos esque- aqui estâo, sairei com o nome de Deus em terra,
5 ce: No ano de 5oB foi saqueada Arzila em Africa 5 sem mais dar orelhas a contrârio parecer. Por tanto,
por el-rei de Fez, com tanta potência de gente como tratemos dos modos de sair, que no efeito lançado
o Samorim aqui tem: ficou sd o castelo por entrar, estâ o dado.
em poder do conde de Borba D. Vasco Coutinho. E assi concluiu. E porque o fidalgo que mais con-
Acudiulhe D. Joâo de Meneses, meu tio, general tradizia esta resoluçâo, disse ainda, comg magoado
ro de ùa armada que el-rei D. Manuel tinha feito pera ro dela e na confiança de seu braço, que lâ iriam e se
Azamor; e tendo o mouro levantados outros baiuar- veria o que cada um fazia, ratificou o governador
tes, com tanta e rnelhor artilheria neles da que aqui com juramento o que tinha dito e acrecentou pro-
vemos; e havendo de ser a saida por mais perigoso messasde trezentos cruzados ao primeiro que diante
arrecife e mar de muito maior friria, nenhûa cousa de Jorze de Lima se lançasse em terra.
15 foi parte pera lhe estorvar pôr sua gente em terra;
e foi o primeiro que a tomou D. Tristâo de Meneses,
meu primo, que ganhou os trezentos cruzados, que CAPÏ TULO XI I I
D. Joâo tinha prometido de prémio a quem pri-
meiro pusesse os pés em terra: e nâo fui eu dos Sai o governador em terra; dé batalha ao câmpo
zo derradeiros neste perigo, em cuja consideraçâo fica do Sam or im ; e despois de o desbar at ar , 'der r iba
mui leve o que aqui vemos: porque lâ o haviamos a tortaleza
contra gente armada e a cavalo, e câ com indios
nus, se bem melhores frècheiros que os alarves. Os r5 Ap6s a determinaçâo que o governador declarou
casos passados sâo verdadeira doutrina pera os pre- de desembarcar com todo seu poder nas praias de
z5 sentes e por vir. Naquele perdi o mêdo ao marulho Calicut e descercar a forta)eza, seguiu o efeito pola
do mar e armas da terra; e achei que as se{pes e maneira seguinte: Ordenou primeiro que tudo me-
leôes da artilheria sâo muitas vezes mais carraneas ter dentro na fortaleza um bom golpe de gente pera
pera espantar os demasiado prudentes ou muito eo dous efeitos: um pera que o Samorim imaginasse
receosos, que pera danar os valerosos e atrevidos; que nâo era sua tençâo mais que socorrer os cerca-
3o e esta foi a causa por que nâo duvidei acometer dos com soldadescae assi estivessemais descuidado;
outro pera que assaltando os cercados as trincheiras

15, loi parte: foi causa, motivo.


23, alarues: ârabes, mouros. rs, golpe de gente: trôço' de gente.

250 25r
coLECÇ,î.O DE CLASSTCOS 5.4. DA COSTA ANAIS DI' D. TOAO III

com poder grosso, lhe ficassea desembarcaçâo,se- chamandopor Santiitgrl,<1ttt: ctlttlttndindo-se aquele
nâo de todo franqueada, ao menos mais fâcil. grande nûmcro tlc inirnigos,iri.cottt a grita que che-
Logo na mesma noite meteu cento e cincoenta gava irs IluvcIrs,jri r:ottto t'ltttto ttrtttt:rrtso clastrom-
homens a cargo de Eitor da Silveira e no seguinte . s t t t cssoit vr Lr tjrt ,t com o es-
bct r r s,r lr r ur lc r livr : t 'sit1l:
5 outros cento e cincoenta, que levou D. Diogo de 5 t t 'ot t r lor Lt ir r lillur r i; r ,( llt ( ' t r iut t 't 'ssr t l, itclt r jogar
Lima, primo de D. Joâo; que com assaz trabalho por tôrlt ir rrrtll tla lilr'trtlcz,lt c collitt'c t:rtvolvcra luz
entraram uns e outros. E quando vêo no quarto da manhâ, nâo havia cntre ôlcs capitâo que sou-
d'alva, mandou fazer am sinal de fogo na gâvea do bessemandar, nem soldado que atinasseaonde de-
seu galeâo, com que os da fortaleza, que estavam viam acudir.
ro àlerta e o esperavam, lançaram por ûa ponte Eitor ro Entretanto os dous Meneses,cada um por sua
da Silveira com os de sua companhia e por outra parte, iam despejando a cava à fôrça de p6lvora e
D. Vasco com duzentos soldados, que tocaram anna fogo, instrumento mais odioso pera êste gentio que
tâo apertada e com tanta fiiria e grita assaltaram todas as outras nossas arrnas; mas os que delas se
os inimigos dentro de suas trincheiras, que conver- desviavam subindo-se nos seus valos, achavam es-
rj teram a si todo o exército. Levava cada capitâo 15 pingardas, lanças, bombas de fogo, com que eram
muitos homens diante de si com panelas de pôlvora, feridos e mortos pola gente dos dous capitâes, Sil-
gue, como davam sôbre corpos nus, que êstes bâr- veira e Lima, que feitos senhoresdas estânciasque
baros nâo usam mais vestido que o natural com que tomaram à sua conta, uns lançavam a pôlvora que
naceram, abria o fogo lalgo caminho e abrasava nelas achavam sôbre os inimigos dentro dag cavas,
eo tudo. zo outro nâo esquecidosdo dano, que tinham recebido
Entretanto saltou o governador em t€rra com dos trabucos, foram dar-lhe fogo, e de caminho,
todo o resto dos seus, quâsi sem resistência como achando recolhidos e em som de defensa um corpo
o imaginara; e logo mandou a D. Jorze de Meneses de inimigos dentro em ûa grande casa, que em
e a D. Jorze Telo de Meneses,ambos seus primos, tempo de paz servira de almazém do gengivre ao
25 qlJe com sessentahomens cada um acometessemas z5 feitor da fortaleza, tanto fogo the deram que arde-
bocas da cava, um a do norte, outro a do sul, com ram juntos mais de trezentos; e em um baluarte,
fôrça de pôlvora em muitas panelas, pera fazerem que tinha duzentos apostados a defender a artilhe-
praça aos que vinham de trâs. E tanto que os des- ria, foram mortos todos com seu capitâo e com o
pediu, mandou dar às trombetas, aqueresponderam renegado siciliano; e sucedeu que tendo estes pera
3o as de D. Joâo, e trâs elas se levantou ûa tamanha 3o disparar ûa bombarda grossa, foi Deus servido dar-
grita e vozes de todos os nossose até dos da frota,

22, eln sol1r,de defesa: ctttn utostras de querer de-


r4-r5, conuerteyaln a si: lizeram voltar para si. fender-se.

252 253
coLECç,4O DE CLASSICOS SA DA COSTA ANAIS DE D. TOÂ.O III

-lhe tal torvaçâo, que lhe nâo tomou fogo; e sem três mil; entre os nossospcrclcram a vida mais de
dûvida fôra grande dano pera os nossos, se o trinta, sem haver entre ôlcs pcssoanot:ivel, e foram
tomara- feridos duzentos c trinta.
Estava o governador parado em um posto alto Nestc tempo o govcrrrador,vrrndotluc nâo havia
da praia, de que bem divisava tudo o que se fazia .5 jâ t:rn torlo o (:lnrpo rprt:nrfizr,ssctosto, quis tratar
5
no campo; assi dispunha e ordenava dos que. con- dc sc fortilit'irl sôlrrc irs nr()slnirs
trinchciras rl<lini-
sigo tinha, mandando uns e detendo outros e dan- migo: o que logo pôs por obra, mandando vir dos
do louvores a todos, porque em tanto nûmero de navios tôda a marinhagem com pâs, cestos e enxa-
gente nâo houve homem de nossa parte que neste das, que fazendo bastante assento pera o nosso
ro dia deixasse de mostrar grande valor. Nem se tinha ro artaial, foram cobrindo os mortos com a terra dos
visto até cntio ntr ïndia fcito mais bem ordenado, valos que êles tinham levantado e livrando aos na-
nem melhor obedecidoe executado. IJcm tomara eu vios da corrupçâo do ar que se podia temer. Gas-
poder particularizar as obras de cada homem e de tou-se nesta obra o que ficava do dia, nâo havendo
cada braço, mas em caso tâo baralhado, que.foi capitâo nem fidalgo que quisesseisentar-se do tra-
15 como ûa batalha campal, mal pode descer a miu- 15 balho dela e em levar os feridos às naus pera serem
dezas quem pretende seguir a pl:reza da verdade melhor curados.
e nâo escreve fingimentos ociosos. Com tudo, nâo Na mesma tarde apareceu diante do governador
deixaremos de dizer como esteve quâsi perdido um mouro de parte do Samorim, que disse vinha
D. Vasco de Lima, por se empenhar tanto contra pedirJhe tréguas de quatro dias pera tratarem cou-
zo sm caimal, que com quatrocentos naires se reti- ?o sas que a ambos estariam bem. Era êste mouro Coge
rava pera a cidade, que ficara sem vida, se Eitor Bequi, muito conhecido por tâo bem inclinado aos
da Silveira the nâo valera. portugueses, que lhe tinha el-rei D. Manuel feito
Pelejava D. Vasco com ûa espada de duas mâos, mercê de ûa tença de vinte mil réis. Concedida a tré-
acompanhava-a com grandes fôrças, nâo dava gua, tlatou-se de pazes; mas gastaram os dias sem
z5 golpe que fôsse menos que de morte. O mesmo acon- 25 avedguar nada, porque o governador propunha tais
tecia a D. Jorze de Menesescom outra tal espada, condiçôes, que o Samorim as tinha por afrontas
porém foi-lhe cortada a mâo direita quando maior pera sua autoridade. Emquanto iam e vinham re-
terreiro lazia;, e pera salvar a vida, fez troca com cados, entendia o governador em armar cavaleiros
um companheiro tomando-lhe ûa espada pequena, a muitos que o pediam, recebendode todos os para-
e esgrimindo-a com a esquerda. Afirma-se que se .?o bens da vit6ria; e refcrindo-a êle aos braços dêles,
3o
acharam corpos inimigos cortados em claro polo sem pera si querer mais que o gosto dela, assi en-
meio e que foram tantos os mortos que passaram de chia a todos de honra e louvores; e em especialdeu
muitos a Jorze de Vasconcelos,que foi o capitâo
20, caimal: chefe malabar. a quem D. Joâo de Lima deu o cargo de ir ganhar a

254 2 5.q
COLECç);LO DE CLASSICOS SA DA COSTA ANA.TS DE D. JOÂO rrI

artilheria do baluarte da Cota China; e assi a Bel-


CAPI TULO XI V
chior de Brito, filho de Jorze de Brito, copeiro-m6r
del-rei D. Manuel, que foi o primeiro que pôs os
Guerra de Malaca. Sucessâo de Pero Mascare-
pés sôbre a bombarda mais grossa, que era um ca-
nhas naquela capitania e de D. Garcia Anri-
5 melo, e aos mais companheiros que foram no feito.
ques na de Maluco
Mas vendo que perdia o tempo em esperar bôa
conclusâo com o Samorim, como sabia que o conde Emquanto o governador D. Anrique discorria vi-
almirante levara ordem del-rei pera derribar a for- torioso por todos os rios e costa do Malabar, pele-
taleza, determinou fazè-lo com tôda brevidade: é java Jorze de Albuquerque em Malaca com todas
zo dando mostras aos mouros que a queria reformar,
as incomodidades de fome, doença e assaltos de ini-
mandou-a picar por dentro em pontos e meter-lhe
5 migos, como se padecera verdadeiro cêrco. Tinha-
pôlvor'a cm cetto lugarcs; c no mesmo tempo fez
-lhe aliviado grande parte do trabalho a boa vinda
recolher quanto havia nela e no arraial pera a frota
e socorro com que chegara da ïndia, por julho do
em modo que nâo foi sintido. E ùa ante-manhâ
ano passado, Martim Afonso de Sousa, filho de Ma-
u5 guando menos o cuidaram os inimigos, apareceu
nuel de Sousa.Levara êstefidalgo consigo seis velas
embarcado com todos os seus, despejada a forta- ro com titulo de capitâo-m6r do mar de Malaca; e eram
leza e ardendo as estâncias. Fez grande espa.ntoem os capitâes que seguiam sua bandeira Alvaro de
todo Calicut esta novidade: acudiu logo o povo com Brito, André de Vargas, Antônio de Melo, Vasco
alvoroço e pouco recato, uns por curiosidade de ver Lourenço e André Dias.
zo a lortaleza, outros com ccibiça de haver às mâos Tanto que Jorze de Albuquerque se viu com gente
algfla cousa que poderia ficar de proveito. 15 fresca, que seriam até duzentos homens, e boa pro-
Entretanto lavrava o fogo por baixo da terra e visâo de muniçôes, quis empregâ-la em pôr cêrco
tanto que chegou aos lugares da pôlvora, lez um a el-rei de Bintâo, em vingança de quantos males
espantoso terremoto, levantar-rdonos ares e fazendo lhe tinha feito. E mandou a Martim Afonso que se
25 voar grandes panos de muro e os baluartes inteiros, fôsse lançar sôbre a bôca do seu rio, onde tantas
em que morreram grande nûmero de homens e ou- eo desgraças tinha experimentado. Porém Martim
tros ficaram miseravelmente feridos e aleijados. E Afonso, seguindo o conselho dalguns moradores que
foi o negôcio tâo bem feito, que de todo aquele levava consigo de Malaca, nâo quis esperar a con-
grande edificio nâo ficou mais em pé que um cunhal junçâo das doenças, que naquele sitio matam como
jo da tôrre da menagem e parte de ûa parede. Posta peste, e foi-se pola costa fazendo a gueffa aos ami-
por terra a fortaleza, fez-se o governador à vela pera zj gos de Bintâo a fogo e sangue, de que também tinha
Cochim, despedindo primeiro pera Goa Pero de Plalaca recebido dano e afrontas. Naceu desta guerra
Faria com os navios que dali trouxera pera conti- juntarem-se todos os escandalizados em um corpo
nuar na guarda da costa do Malabar. e darem ajuda ao rei de Bintâo pera mandar sôbre

256 257
r7
coLECÇ,4O DE CLASSICOS SA DA COSTA ANAIS DE D. JOÂO IrI

Malaca, com mil e trezentos homens em vinte lan- c tomâ-los em meio, fazendo conta que dêles lhe
charas, o seu capitâo Laxemena. nâo escaparia homem com vida. Começou-sea briga
Em z5 de março dêste ano, dia fermoso pera todo com tanta vontade e ânimo de ambas as partes,
cristâo pola anunciaçâo que nele celebramos da Vir- como se fôra desafio aprazado dentro de estacada
apareceu ante-manhâ Laxemena 5 firme, ou em praça priblica ùa naumaquia por passa-
- gem Mâi de Deus,
5
-!g-po representada.Passadoo primeiro fogo daar-
sôbre o sitio de Upa, que é junto à povoaçâo dos
mouros, e lançou em terra um golpe de gente' Eram tilheria, que os nossos empregaram bem arromban-
jâ horas de missa e estava a ela Jorze de Albuquer- do logo algflas lancharas com morte de muitos mou-
que, quando lhe chegou o aviso da armada inimiga ro.s, entrou o segundo de espingardaria e panelas de
ro e da gente quc lançara cm terra. Pera acudir a ûa ro p6lvora, que desta gente nua é mais temido que
cousa c <lutra, mandou o fcitor Garcia Chainho que tôda outra arma. Lançavam-nas os portugueses de
fôssepor terra com oitenta homens encontrar os de- lugar superior e abrasavam navios, ioldaâos e re-
sembarcados, e a Martim Afonso de Sousa que meiros, que desesperadosse iam remediar e afogar
acudisse por mar com outros tantos em duas fustas na frialdade das âguas.
rj que sô havia no porto; êle capitâo de fla e Joâo 15 Passado tambéù êstc fogo, vôo o negdcio às
Vaz Serrâo em outra. Teveram boa ventura os pri- mâos. Despediam os inimigos infinito nrimcro de
meiros, porque os bintaneses que estavam em terra, setas; e com elas e com as mais armas pelcjavam
tanto que houveram vista dos nossos que cuidavam tâo ardidamente, que nos derribaram morto na
achar dormindo, sem quererem com êles provar a prôa da sua fusta a Joâo Vaz Serrâo e junto dêle
zo mâo, se tornaram a mais que de passo a sûâs €ûl- eo Aires Coelho de Tângere, que fôra alcaide-m6r de
barcaçôes. Mas nâo aconteceu assi a Martim Afonso: Pacém. E na fusta do capitâo-môr mataram Gon-
desejoso de se encontrar com Laxemena, por ver çalo de Ataide, seu cunhado, e Duarte Borges e
se era tâo valente como ardiloso,lez apertar o remo outros homens de menos nome; mas êles venderam
e foi-se a êle a voga arrancada, chamando todos voz honradamente suas vidas, porque durando a briga
zS em grita por Nossa Senhora, cujo era o dia. z5 até,os deixar a luz do dia, foi tanta a mortandade
Nâo refusou o mouro o encontro; mas lembrado dos mouros, que Laxemena, tanto que a noite cs-
de seus ardis, alargou-se ao mar e, logo partindo a cureceu, se foi retirando ao rio de Muar pera refa-
armada em duas esquadras, vêo receber os nossos zer as lancharas e o que escapoudo desbarate.
E nâo ficaram os nossosmelhor parados com La-
jo xemena se confe5sarvencido: tais estavam de can-
2c., a mais que d,e passo: precipitadamente. Maneira sados e feridos, quando a noite os dcspartiu, que
ir6nica de dizer.
24, cï aoga arrancaila: com tôda a fôrça dos remos.
25, cujo era o dia: a quemeraconsagradoaqueledia"
2b, refusou: recusou, esquivou' zg, m.elhor parados: meLis l;em dispostos.

258 259
COLECÇAO DE CLASSICOS SA DA COSTA ANArS DE D. IO.4O rII

nâo havia braços que remassem nem mâos que ma- claramente se viu fôra. mais milagre de Deus que
reassemos navios: que quâsi nâo houve homem a obra de fôrças humanas. Porque os inimigos perde-
que nâo custasse muito sangue a vitôria; e o capi- ram ametade das embarcaçôes,ùas queimadas, ou-
tâo-m6r Martim Afonso de Sousa a pagou com tan- tras metidas no fundo, e da gente mais de seiscentos
5 tas feridas, que vêo a morrer delas em terra. -5 homens, sem da nossaparte faltar mais que um s6,
A esta vitôria seguiu logo outra, com que a Vir- inda que houve muitos feridos.
gem Gloriosa.quis consolar a perda dos bons homens Mas nâo era em mâo del-rei de Bintâo dar ùa hora
e muito sangue que houve no seu dia. Estava cer- de sossêgoà fortaleza. Crecia na indinaçâo com as
cado el-rei de Linga, em ôdio nosso, por ser amigo perdas e temia minguar em crédito c'os vizinhos,
ro e confcclcrado da f.ortalaza, por dous capitâes do ro sendo priblico que o havia com poucos homens e
rei dc llintiLo. li Linga na costa dc Samatra. Eranr êssescortados de doenças e mortos de fome. Passa-
os capitâcs Raianara e o Laxcnrctra; o trûmero dos ram dias: vêo a saber que estavam os nossos tâo
cercadores dous mil soldados e oitenta lancllaras. deminuidos em nûmero, que eram poucos mais de
Soube Jorze de Albuquerque o trabalho do amigo: cem homens os que havia na cidade pera poderem
15 nâo quis faltar-lhe sendo requerido: arma dous na- 15 tomar armas, de que alguns eram enfermos. Deter-
vios, despacha-oscom oitenta homens, (nrimero um mrnou cercar-nos por mar e terra: {oi o conselho
e outro bem escançado no recontro que acabamos forjado entre Laxemena, que andava desvalido do
de contar) a cargo de Alvaro de Brito e Baltasar rei e desejava tornar a sua graça, e um renegado
Roiz Raposo de Beja. português, cujo apelido antes de negar a fé era
zo Chegaram à boca do rio de Linga a tempo que os eo Avelar. Dizia êste Avelar a el-rei que, se queria
inimigos, com aviso que teveram do socorro, vi- de ûa vez acabar os portugueses, lhe desse gente
nham todos alegres correndo ao mar largo em bus- pera os combater por terra e Laxemena lhe tolhesse
ca dos nossos e fazendo conta de vingarem neles os mantimentos e comércio do mar.
a afronta passada. Juntaram-se os nossos navios Foi esta guerra tâo prejudicial e apertada, que
-
z5 chegou
z5 tâ,o atracados um no outro, que ficaram como um a valer ûa ganta d,e arroz, què e na meai
sô e logo começaram a varejar os inimigos com sua da nâo grande, dez cruzados, e ûa galinha dous. E
artilheria, com que fizeram neles maravilhoso es- sendo o mar fechado por êste modo, o Avelar por
trago, porque se nâo perdia tiro; e vindo às mâos, terra fazia as suas entradas e acometimentos, ùas
foi tanto o valor com que se mantiveram contra tâo vezes como rebates de almogâvares e outras com
3o excessivo nûmero de embarcaçôes e homens, que
20, ût'):ta ro ms,
25, ganta: merJJda drr Malaca, quc cquivale apro-
17, bem escançad,o.' bem sucedido. Isto é: <ainda ximadamente à canada; pêso <le z4 onfas.
ûoi uma sorte conseguir reûnir aqueles homens e naviosn. z g, rebates : s urti das .

z6o
coLECÇÂ] Dri cL{.ssrcos sa DA cosTA ANArS DE D. IOÂO rIr

fôrça de gente, com que se padecia muito trabalho ares no sitio, que se tornou com a m6r parte da
por ser necessârio manter estâncias e vigia conti. gente morta. E assi começou Pero Mascarenhasa
nua. E com tudo, em dous recontros que teve con- exprimentar as miserias, fomes, infermidades e
nosco, se désenganouel-rei do pouco que podiam falta de tudo quâsi no mesmo grau de seu ante-
5 contra os portugueses sua fôrça e manhas; porque 5 Cessor.
lhe matâmos gente e tomâmos embarcaçôes. E assi No mesmo tempo que estas cousas colriam em
cessou por algum tempo de nos perseguir. Malaca era chegado a Maluco D. Garcia Anriques,
Neste estado estava Malaca quando chegou a ela cunhado de Jorze de Albuquerque, com provisâo
Pero Mascarenhas, que partiu de Cochim em B de que alcançara do governador D. Duarte pera ir
ro maio dôstc ano, clespachadopor D. Anrique com to suceder a Ant6nio de Brito, que, se bem nâo tinha
quatro vclas, cm <1uelt:vava trezentos e cincoenta acabado seu tempo, requeria sucessor com instân-
homens e muitas r: boas muniçôes. Tanto que Pero cia, por ver que estando em gueffa continua com
Mascarenhas tomou posse da capitania e conheci- el-rei de Tidore quâsi dês do dia que fundara aquela
mento do estado e cousas dela, logo se determinou fortaleza, nâo havia de nenhûa parte quem se doesse
ri em nâo tomar hora de repouso até destruir e acabar .r5 dela nem dêle, ou the acudissecom algum favor.
de todo êste tirano de Bintâo. Porque, segundo as E com tudo, quando viu o sucessorem casa, foi
inquietaçôes que nos dava, temia poder-se perder maior o desgostode se ver tirar, que de padecer o
nela o comércio, que era s6 o que lhe dava riqueza, que padecia. Houve fogo de paixôes, bandos e re-
poder e lustre, acudindolhe de todo êste Oriente, querimentos, nâo faltando atiçadores como é ordi-
20 como a ùa feira continua, todo género de mercado- zo nâno, até que, como fidalgos sisudos que ambos
rias e mercadores mouros e gentios, que agora polos eram, se vieram a compor em que Antônio de Brito
danos que recebiam começavam de se ausentar e the largaria o cargo, tanto que tevesse acabado um
buscavam outras terras. junco que fazia peru trazer sua casa e fazenda: e assi
Para princfpio de guerra quis correr com o estilo o cumpriu. E ainda que sôbre a detença que fez em
25 que Jorze de Albuquerque usara, tolhendoJhe pri- e5 deixar a terra, que foi até fim dêste ano em que
meiro os mantimentos que lhe entravam polo rio, pera vamos, se tornaram a atear novos desgostos,serviu
despois de enfraquecido por fome ficar mais fâcil o tempo que estiveram conformes pera acordarem
de render por armas. Mandou a isto um galeâo e de mandar descobrir as ilhas dos Celebes, em que
dous navios de remo, de que deu a capitania a Aires se dizia haver ouro.
3o da Cunha, filho de Rui de Melo da Cunha, seu ca- jo Distam estas iihas sessentaiéguas de Maluco.
pitâo-mdr do mar. ÛIas êle achou tal corrupçâo de Partiu ao descobrirnento o almoxzrri{c' da fortaleza

z, estâncias: postos de guarda. r8, band,os: disputas de partidos.

202 263
coLECÇ,4ODn cLAssrcos sa DA COSTA ANAIS DE D. III
IOA.O

em ta fusta; tocou em três ou quatro; mas achou a


CAPI TULO XV
gente tâo sisuda, ou tâo ociosa dè sua liberdade que,
panos que levava em sinalderesgateedenian_
1en$o Das naus que êste ano partiram da fndia pera o
da do ouro (deviam ter notfciadago.rràquecustava
r eino e do r eino per a a f ndia, e sucesso que
5 a Maluco o seu cravo) em nenhûa'foi reCebido com ùas e outras teveram
menos que arcos e frechas e ânimos alterados. polo
que d,eterminando fazer volta pera Maluco, ao des_
Entramos em ano novo e é tempo de darmos ra-
viar das ilhas lhe deu um temporal que o levou a
zâo, segundo nosso costume, das naus que nele vie-
um mar largo e desabrigado, no quai correndo da
ro pôpa semprc contra o nascente bàas trezentas ram da India e das que no mesmo partiram dêste
lé_ reino. Cinco naus achamos que despachou de
guas, s()gun(lotr cstimativa clo piloto, foi dar em
ûa 5 Cochim, na entrada dêste ano de 26, o governador
fermosa ilha, frcsca dc arvoredà c gr.ancledc terras,
D. Anrique com a carga ordinâria de especiaria
de gente branda, simpJes ,.m *âHcia; t_rscorpos
" largas a pera o reino. Os capitâes foram D. Diogo de Lima,
bem feitos e enxutos, barbas nosso modo,
15 alegres na vista e tâo bem assomÉradosque parecia filho do visconde D. Joâo de Lima, Diogo de Se-
estarem na primeira inocência natural. prilveda, que acabara de servir de capitâo de Sofala,
Mostrando-selhe metais, feno, estanho, cobre
ro Joâo de Melo da Silva, D. Joâo de Lima e Diogo
e ouro, s6mente do ouro significaram ter noticia; e de Melo. Destas cinco se perderam duas: a de Joâo
ace_navampera ûa alta serra contra o ponente, de Melo da Silva em tal paragem que nunca mais
zo onde o havia. Mas o que fez mais espanto aos se soube dela; a de Diogo de Melo, pera fazer mais
nos_ lastima, à vista e ares da pâtria na barra de Lis-
sos foi verem que tinham grandes bem lavrados
. paraus, nâo tendo uso de ferro. Ao" que responde_ rj boa; mas salvou-se a gente tôda.
mm, perguntados, com mostrarem espinhas àe pei_ No mesmo ano mandou el-rei despachar em Lis-
xe, que faziam efeito de todos os ,rosios instrumen- boa cinco naus pera a Ïndia sem lhes nomear capi-
z5 tos de ferro e aço. Aqui se detiveram quatro meses tâo-m6r. Os capitâes que as levaram foram Fran-
como em suas casas até entrar a monçâo; e demar_ cisco da Anhaia, Tristâo Yaz da Veiga, Vicente Gil,
ca.daa ilha e posta na carta de mareai com o nome :o armador, Antdnio d'Abreu, que ia provido da capi-
de Gomes rl.e Siqueira, que era o piloto, tornaram tania-m6r do mar de Malaca, e Ant6nio Galvâo. As
em salvo a Maluco, jâ entrado o ano seguinte. três naus primeiras chegaram a Goa com pr6spera
viagem por fim de agosto. Das outras duas inver-
nou em Moçambique Antdnio d'Abreu; c Ant6nio
:5 Galvâo, porque saiu de Lisboa no môs de maio,

14, en.*utos: pouco gordos, musculosos.


8, bisconde no ms.

z6<
COLECÇîO DE CLASSICOS SA DA COSTA D. III
ANArS DIi JOÂO

tomou sua denota por fora da ilha de S. Lourenço


tinho, filhos de Francisco Coutinho, Simâo de Sou-
e foi dar entre as ilhas de Maldiva, o que tudo fbi
sa, filho de Duarte Galvâo, D. Ant6nio de Castro,
causa de chegar muito tarde à India. -
filho de Jorze de Castro, Jorzc Paçanha, filho de
De algûa gente nobre, que nestas naus e nas do
Lourenço Paçanha, Fcrrrâo da Silva, filho dc Gon-
j ano passado se embarcou pera serviço de seu rei e
da pâtria, achamos ûa memôria na ôasa da India, 5 çalo Rodrigues de Magalhâcs, Manucl de Siqueira,
Antônio Moniz, filho dc Jorze Moniz, .|oâo de Melo,
que indistintamente aponta os nomes dos homens
filho de Alvaro da Cunha, fronteiro-m6r do Algarve,
sem particularizar armada nem naus. E confesso
D. Francisco de Castro, filho.de D. Antâo d'Alma-
que me faz escrûpulo deixar de lhes dar fama nestes
da, Francisco de Melo, filho de Francisco de MeIo
ro escritos;porque, além de nâo haver crdnica de rei,
ro Câceres,D. Fernando de Eça, Lopo Botelho, Joâo
se é desacompanhadade vassalos, nâo merecem
Coutinho. filho de Francisco Coutinho. E o titulo
menos honra os que com generosadeterminaçâo se
do caderno, em que estâo lançados - <rl-ivro dos
ofereceram aos perigos do mar e inclemências do
anos de 1525 e 1526, dos fidalgos que neles passa-
céu, ficando ora sorvidos das ondas com naufrâ-
ram à Ïndiari.
15 gios, ora consumidos de doenças dos ares pestiferos
15 Nestas naus mandou el-rei novas provisôes pera
de climas_destemperados,què aqueles qui especi_
a sucessâoda governançada India, que foram causa
ilcamente louvamos ou por morrerem animosamente
de. . .
passados das lanças e ferro inimigo, ou por ganha_
Neste ano foi às Ilhas por capitâo-m6r Garcia de
rem, grandes vit6rias. Que, se é verdade que diante
Sâ com três naus e sete caravelas a esperar as naus
zo do juizo- dos que bem entendem e que côm justos
zo da India.
pesossabem avaliar as cousas, nâo tem menos preço
No mesmo despachou el-rei a primeira armada
ùa vontade determinada pera emprender feitos hi_
que foi em seu tempo ao Brasil: capitâo-m6r Cris-
r6icos,_inda que desfavorecida do sucesso, que o
tdvâo Jaques. Foi correr aquela costa e alimpâJa
valor daqueles que venturosamente os acabam,'obri_
de cossârios, que com teima a continuavam polo
z5 gaçâo me parece dos que nos encarregamosdêste
e5 proveito que tinham do pau brasil. E eram os mais,
oficio de escritores, fazermos igualmefte mem6ria
dos portos de França do mar Oceano.
de uns e outros, tôdas as vezes que em registos tâo
autênticos como sâo os da Casa aà India se nos des_
cobrirem.
30 Os que se embarcaram êstes dous anos sâo os se-
guintes: Joâo da Cunha, filho de Rui da Cunha,
Manuel da Silva, filho de Ant6nio da Silva de pom_
beiro, Aires da Fonseca, irmâo de Garcip de Castro,
Alvaro Coutinho e Fernâo Coutinho e Àntônio Cou_ 17. A reti c ênc i a s i R ni fi c a.rrrruLl rrc una no manus c ri to.
26, do rnav Oc eano: do A l l ânti c o.

266
267

i
t-
C0LECÇAO DE CLASSICOS SA, DA COSTA ANArS DE D. III
JOA.O

CAPÏTULO XVI Memdrias que temos do prirneiro conde da Casta-


nheira: famoso acompanhamento de criados e gente
Segundo recebimento da ifante D. lsabel, com de pé e de cavalo e ricas librés; quarenta azêmalas
a chegada de nova dispensaçâo.Sua partida de sua recâmara, com reposteiros quarteados de
pera Castela e entrada em Badajoz 5 branco e preto e bordados, ç no meo a sua divisa do
âleo; e a da sua cama com reposteiro de veludo
carmesi com bandas de tela d'ouro; vinte quatro
No fim do ano passado deixâmos recebida a ifante alabardeiros vestidos de suas côres e vinte e quatro
D. Isabel em Almeirim com o emperador Carlos
moços da câmara a cavalo.
Quinto, por meo de seu procurador Grlos depopet. ro Em 14 de fevereiro dêste ano se fez a entrega da
Agora temos segu,ndorecebimento, porque se impe_ emperatriz no rio de Caia; e havia um ano pontual-
i g9y e vêo segunda dispensaçâo do papa Clemeirte mente que no mesmo lugar e no mesmo dia de 14
Sétimo, na forma que convinha pera iirar todo o de fevereiro fôra entregue a rainha .D. Caterina aos
escnlpulo que se oferecera na primeira, de que se mesmos ifantes, pera vir casar com el-rei D. Joâo.
lez auto com o treslado do Brive, assinado polos 15 Saiu Sua Majestade a emperatriz da cidade de Elvas
embaixadores Popet e Estrlnhiga. E logo aos ^vinte em ûas andas de brocado descobertas, cercadas de
ro dias de janeiro dêste ano em que o"-oJ d,e oito moços da estribeira, vestidos de jaquetas de
526, îez
o segundo despos6rio o m'esmo bispo de Lamego brocado e calças de grâ, e outros oito de calças
com as mesmas palavras e solenidade que fizera brancas e jaquetas de veludo negro, e trQs ps.gsng
o primeiro. eo vestidos de tela d'ouro.
E como el-rei tinha prestes e a ponto tudo o que Iam diante o rei d'armas Portugal e o arauto Lis-
.r5 convinha pera a ifante se poder ir, sinalou p"râ a boa, com suas cotas d'armas sôbre roupas de velu-
partida o penriltimo dia do mesmo mês de iâneiro. do forradas de setim alionado e quatro porteiros
No qual saiu de Almeirim ûa terça feira atompa- com maças de prata douradas, e com êles o aposen-
nhada del-rei seu irrnâo, que por se achar indispo-sto 25 b.dor, que levava as tâbuas, pera quando Sua Ma-
e nâo deixar a rainha, que andava mui vizinha a jestade houvesse de passar-se à mula. fam a destro
?o seu primeiro parto, chegou até a Chamusca, por ùa mula com andilhas de prata, guarniçôes de tela
, onde era o caminho, e dai se tornou. passaram càm de prata sôbre veludo alionado, e ûa faca pomba
ela os ifantes D. Luis e D. Fernando, que na raia
haviam de fazer a entrega, e o rnarquès de Vila-
-Real, que ia por embaixador e pera à entregar ao
e5 emperador.
Foram celebres e grandiosos os gastos que o mar- 6, dleo: arimaT alado.
28, faoa: cavalo pequeno e forte.
quês fez-nesta jornada, de que achamos ielaçâo em 28, pomba: branca.

268 26g
COLECç,4O DE CLASSICOS SA DA COSTA ANAIS DE D. TOA.O III

com guarniçôes de tela de prata, fundo de brocado de Toledo, D. Alonso de Fonseca, doze trombetas,
de pêlo e guarniçôes d'ouro e seus telizes; o da seis charamelase três mulas de atabales.Todos ves-
mula de veludo avelutado carmesi; o da faca de tiam roupas vermelhas barradas de veludo verde,
veludo avelutado amarelo. Os dous ifantes iam de as mangas esquerdasbordadas de verde e atrocela-
j ûa € outra parte das andas à gineta, vestidos em das de amarelo, bandeiras dos estormentosdos mi-
5
saios e capuzes de coutrai frisado e barretes redon- nistris de damasco carmesi franjadas d'ouro com
dos pretos, sinal de d6 pola morte da rainha D. Lia- suâs armas bordadas, que sâo cinco estrelas de san-
nor, sua tia. gue em campo d'ouro.
Chegados ao rio de Caia, passou-sea emperatriz Seguiam ûas andas de veludo preto cercadas de
-ro à mula pera receber os senhores castelhanos. Ali ro vinte e quatro lacaios, vestidos de calças e jaquetas
parados e feita com trabalho ùa grande praça, por- de grâ, com suas gonas sem guarniçâo; e cinco
que havia povo sem conto, foram chegando os se- mulas a destro, guarnecidas duas de veludo car-
nhores castelhanos que vinham peftr a receber, e mesi, ûa de rôxo, outra de lionado e outra de preto.
diante deles a companhia e aparato que cada um Entrou o duque de Calâbria, trâs muitos senhores
t 5 trazia. 15 que lhe faziam companhia, vestido em roupa de se-
Vêo primeiro a do duque de Béjar D. Alvaro de tim preto forrada de martas, saio de veludo preto
Estûnhiga. Eram oito trombetas, cinco charamelas e com barrete de volta de pano, em ûa mula guarne-
dezoito pagens, todos bem encavalgados, parte mu- cida de negro. O arcebispo à sua mâo direita com
las, parte cavalos. Os ministris de roupas verrne- roupas de carmesi forradas em martas, barr'ete ver:
:o lhas, barradas de veludo preto, as mangas esquer- zo melho, mula guarnecida de cannesi. O duque de Bé-
das entretalhadas de preto e nelas uns AA negros jar da outra parte em um ginete castanho, bemguar-
atrocelados de branco. Os pa.genscom saios de grâ necido de jaez largo, a sela lavrada de fio d'ouro,
barrados de veludo preto, e os AA'bordados nos pei- sua mochila da feiçâo das antigas. Êle vestido em
. tos e nas costas. As bandeiras dos estormentos dos saio de setim preto, capuz de coutrai frisado, bar-
z5 ministris de damasco branco, bordadas de chaparia z5 rado de veludo preto. E porque trazia dô, barba
de prata e nelas suas aûnas bordadas, que sâo fla crecida, que lhe dava muita autoridade.
banda negra em campo de prata e ûa cadea d'ouro Os que diante dêste senhor iam eram D. Pedro
que atravessa o escudo. Entraram logo do arcebispo Sarmento, bispo de Palencia, o conde de Riba-
gorça e D. Afonso d'Azevedo, conde de Monte-rei
jo eD. Afonso da Silva, conde de Cifuentes. Êstes se-
2, telizes: panos da sela.
nhores com outros muitos vinham com o arcebispo
6, coutyai: pano de Coutrai.
rg, ministtis: tocadores de instrumentos.
22, atrocelad,os: atorçalados, ornados de torçal de
sêda branca. 25, trazia iIô: estava de luto.

270 27r
COLECçÆO DE CL,4SSICOSSA DA COSTA ANArS DE D. JOÂO rII

e outros com o duque de Béjar, todos bem acompa- dias despois de recebida. Êste gasto levava a cargo
nhados, seus pagens e lacaios vestidos de suas iô_ Fernâo d'Alvares d'Andrade e assi todo o paga-
res, exceito o conde de Cifuentes, que vinha de luto. mento do dote da emperatriz, que o soubc governar
Passando a ponte qesta ordenançï, ap"uoa*_s" e com tanta destreza e prudência, que a cmperatriz
5 chegavam a beijar a mâo à emperatriz. Ultima_ 5 em Castela e el-rei em Portugal se houvcram por
mente chegaram e se apearam o dùque de Calâbria mui bem servidos dêle. Mandou-lhe el-rei dar regi-
e o arcebispo e duque de Béjar; e ela fazendo_lhes mento em 3r de janeiro do que havia de fazer; em
muita honra, foi mais particular a que fez ao de que o advirte que nâo se gastem cada mês mais de
Calâbria. Tornando a iavalgar forarn_se pera os mil cruzados em compras e esmolas e alugueres de
ro ifantes e, mostrado o-.poder ro bestas; e que €m despesas extraordinârias, que a
{ue traziam dô empe_
rador, que foi visto c lido, troôou_setodo o acompa_ emperatriz mandar, despenda até trezentos cruzâ-
nhamento. dos. Nâo limita tempo.
l-)espediram-seos ifantes de sua irmâ Consta dêsteregimento que, além dosreisd'armas
_ e o ifante
Luis pôs ao duque de Calâbria em seu lugar e o e porteiros de maças, acompanhavam a emperatriz
!.
15 de grâ, com suas gorras sem guarniçâo; e cinco 15 charamelas, trombetas e atabales.
do arcebispo ficou o^duq re_de Béjar; àa do duque
de Calâbria o marquês dé Vita_Reai com o embaixa_ CAPI TULO XVI I
dor monsior de la Chaux, e da outra parte
Joâo de
Estunhiga. E nesta ordem se fez a entàda em Bada_ Nacimento do principe D. Afonso; e algûas
zo joz. Foi recebida debaixo de pâlio, que levaram cousas notâveis que el-rei fez êste ano
em
doze varas doze regedores di cidadê. Houve
arcos
triunfais e no dia seguinte touros e canas e desafios Sâbado, z4 de fevereiro, foi o primeiro parto da
de justas. Daqui caminhou pera Sevilha,onde entrou rainha D. Caterina em Almeirim, festejado de seus
d: março, onde foi o recebimento com ap:lxa_ pais e por todo o reino como era razâo, por nacer
:-...
z5 tos conformes ao grande poder daquela dêle o principe D. Afonso, que assi quis el-rei que
rica cidade
e ao muito amor que tem a seus principes. zo houvesse nome; mas durou pouco êste gôsto (como
. ram por mordomo_mdr da emperatriz Rui Teles sâo breves todos os da terra), porque o principe
de Menesese por veador,Joâo de Saldanha. É ponto faleceu dentro dos anos da inIância. De 16 de março
de_notar que mandou el_rei corresse por sua hâ ûa carta, que o emperador despois de casado
conta
3o todg o gasto da emp_eratrizaté chegarào lugar onde em Sevilha escrev€u a el-rei, que me pareceu digna
se houvesse de recèber com o emlerador é quinze

24. A reticência marca uma lacuna no manuscrito. 8, aduirte: adverte. Por isso adoptâmos, sem a
.
A imperatriz entrou em Sevilha modernizar, a grafia do manuscrito ad,uirtir.
"" ;ri""I;;;J"'ru..ço.

272 273
r8
COLECÇÂO DE CLASSICOS SA DA COSTA
ANArS DE D. JOÂO III

de- a lançarmos n-este lagar d.e uerbo ad.


uerbum, No mesmo fez mercê de mil c duzentas coroas de
pola grande satisfaçâo q-ue mostra
do casamento. tença a Francisco de Faria, fidalg<ldc sua casa, que
r,,lz assr:
r<D. Carlos &c. Al serenissimo, muy foram de seu pai Antâo cle -t'aria, camareiro e vè-
alto y muy dor-m6r (sâo palavras fnrnrais da carta) del-rei
5 excelente rei mi *ly.ca:g._y muy amado pii-o
Et marquéideVilâ_real"y !, 5 D. Joâo segundo e de scu Cottselho.
l:ï"î,"; n"yf"i"ryari- E a D. Pedro de Meneses,marquôsdc Vila-Real,
tonro d'Azevedo, vuestros embaxjdor"i, m" dieron
yuestra- cartà, y me hablaron confirmou ûa tença de quatrocetttose cincoenta mil
y dixeron de vuestra
parte el contentamiento que de la réis.
conclusion de mi E a D. Francisco de Portugal, conde do Vimioso,
lo casamiento y nuevo deudo que
havemos tomado ro confirmou outra tença de trezentosmil réis.
he por muy ciertoiyo lo tenfo tan gran_
1î:{-r: _e1e
oe_que no puede ser mayor y doy muàhas Em zo de outubro deu S. A. a jurdiçâo civel e
gracias crime da vila de Linhares a D. Ant6nio de Noronha,
a Nuestro Sefror p-or a,verfo guiaao
y efectuado, seu escrivâo da puridadei e juntamente o titulo de
como mâs largo lo. he dicho alos dichos
marqués, conde da dita vila em sua vida.
15 Ruy Teles y Antonio d,Azeveao,ï
ù;;'"" esro me r5 Neste ano deu S. A. trezentos mil réis de assenta-
remitto. De Sevilla a 16 de Marzo'ie _ yo,
El-rei.> 526. mento a D. Afonso de Lencastro, filho do Mestre
Na entrada dêste ano confirmou el_rei de Santiago.
a D. Ant6- E deu a alcaidaria-mdr de Alanquer a Luis da Sil-
nio d'Atafde os lugares de povos,
Cart".rfrei"a u veira, seu guarda-mdr, polo modo que a teve Rui
eo Chileiros, e lhe fez inercê qo, poa"rr"
iàzer eleiçao eo Gomes d'Azevedo, filho de Gonçalo Gomes, que
dos oficiais da câmera e dâ, o, oficù
âe tabeliâes lha vendeu.
9om9 e a quem lhe parecesse.Êstes lugares herdara E deu cento e dous mil e oitocentos e sessentae
D. A nt6ni o de D ......... seu ti o.
No mesmo ano ilez S. A. mercê quatro réis d'assentamento ao conde de Redondo
a D. Francisco D. Joâo Coutinho.
z5 Lobo, seu pagem da lança e fitho
âo barâo d,Alvito, 25 Deu trezentosmil réis de assentamentoa D. Joa-
de sessentamil réis de ténça d". *b;;;as
de To- na de Mendoça, duquesa de Bragança; e deu cento
mar, Tôrrres Novas, SourË e" po-U"t.---
No mesmo deu a e sessentamil réis de tença a D. Guimar, mulher
-capitania das ifn", a"
a Cristdvâo Leitâo, fidâlgo - Maldiva que foi de Rui Dias de Sousa, pai de Aires de
de sua Sousa.
";.
jo E deu cento e cincoenta mil réis dc tença a Tristâo
da Cunha, do seu Consclho.
_,- ,"3.,. fguj narece haver um êrro de Sousa. D. Ant6- Em zz de novembro {cz S. A. mcrcê da vila do
nro de Ataide herdou êsseslugares ao ."o
nando de Ataide. .o-U.tià"o. f"r_ Prado a D. Pedro dc Sousa, dc juro e herdade pera
todo sempre, a qual mcrcê declara que lhe faz polos

274
275
COLECÇÂO DE CLASSICOS SA DA COSTA ANAIS DE D. JOAO III

muitos e notâveis serviços que dêle recebeu em uns três mouros de pé e decendo-se do cavalo por
Africa, em muitas capitanias onde serviu muito lhe nâo escaparem em ûa ribeira onde pretenderam
honradament€, com muita gente de pé e de ca- salvar-se,vêô a braços com um e no mesmo tempo
valo, fazendo grandes gastos e despesasde sua fa- o acometeu outro por detrâs com um punhal e o
5 zenda; e diz que a vila é a mesma que S. A. houve 5 feriu de maneira, que quando os
companheirosche-
por compra de Martim Afonso de Sousa. E junta- garam a socorrêlo estavajâ em estadoquclhesmor-
mente ihe fez mercê do titulo de conde da dita vila. reu nas mâos.
E aos 17 de dezembro lhe mandou passar carta de Pouco tempo despois vêo el-rei de Fez correr a
assentamentode conde, de cento e dois mil oitocen- Tângere e à vila e sem fazer maior feitio que tomar-
:o tos e sessentae quatro réis. ro -nos-ûa atalaia e matar oufta, se recolheu' Porém
o mal que êle desejou fazer tevemos logo despois de
C A P ITU LO X V III .o" *ort" por mâo! de Muley Abraher-n e.do alcaide
de Alcâcerè, seu cunhado. Acabou el-rei Mahamet
Guerra de Africa e sucessos de Arzila. Cati- sua c"rrei.a mortal passada esta riltima corrida e fa-
veiro de Lourenço Pires de Tâvora; morte de rj l€cendo deixou mandado que no reino lhe sucedesse
"
Alvaro Pires, seu irmâo d" pr"r"r,te seu irmâo Muley Boaçu-,--edespois-da
morte de Boaçu entâo tomasse a seu filho maisvelho
Entra segundo ano dé Ant6nio da Silveira em Muley Hamel, a quem p9r bo-r.Ildireito pertencia
Arzila com o de 526 em que vamos. Em principios logo.- Foi sementeira de disc6rdias, 6dio .e mortes'
de janeiro, tendo nova, por dous mouros de cavalo zo màis que disposiçâo de homem sisudo.
atalhadores, que Artur Rodrigues, almocadém, por Tomou Boàçu-posse do reino, com efeito' Hamet
.-rj sua indristria cativou, que estava o campo de paz,
ficou-se com as esperanças de longe' Do que sendo
determinou sair fora e foi-se lanÇar com sua bandiira muitos mouros principais mal contentes, era um
e guiâo em Bena-mandux, à entrada da bôca de Be- deles Muley AÈrahem, filho de Ali Barraxa'
na-marés; e foi a corrida tâo larga o desembaraçada zç alcaide de Xixuâo e Targa, e teve ânimo pera
de inimigos, que alguns de cavalo chegaram a UOca nâo acudir ao chamado de Boaçu, antes escre-
zo de Benamede e se fez ia boa presa de cem cabeças
veu a Muley Hamet, com quem de tempos atrâs
de gado vacum e sete ou oito mouros. Estimarà o professava àmizade, que se-êle fôsse rei, como era
capitâo o sucesso, por ser a primeira vez que lan- iazâo, tinha em Muley Abrahem vassaloficl e amigo'
çara a bandeira fora, se lhe nâo aguara o gôlto dêle tanta instância' quis
a morte de Afonso Pinheiro, atalaia, que seguindo 3o Mas como esta matéria era de
ter conforme consigo o alcaide de Alcltccre pera o

14, atalhailoyes: exploradores do campo. obra, Ieito.


g, feitio:

276 2rn

f:
coLECÇ.4O DE CLA.SSrcOS S,4 DA COSTA
ANAIS DE D. JOAO III

que podia suceder; além deterpormulherûa


-porque,
irmâ sua chamada Sidoli, pouco, dando lugar a que se lhe viessem juntando
merecia o alcaide ser esti_ alguns cavaleiros.
mado por sua pessoae valor. pera êste efeito
tratou Nâo se esqueceuneste passo Alibenaix do que lhe
que s€ vissem; e por tirar ocasiâo de
suspeitas ao estava mandado: podendo passar a ribeira polo
5 novo rei, assentaram correrem ambos a Arzjla e
5 porto vizinho, foi-se demandar o do Canto, que foi
comunicarem-se, no_ campo, bastante
capa pera um sinal manifesto, se os nossos teveram discurso
cobrir a determinaçâo ma]s secreta-.
Era fim de maio e dia de Corpus e olhos abertos, que tinha costasquentes, pois alar-
Christi, que gava o caminho que podia encurtar. Chegava neste
êste ano caiu aos-z9: vieram_se
;unta, e lançar àm tempo o capitâo ao facho com alguns de repique,
ro cilada no palugal, ,ôbr" o porto
a" at"_"d;iq;;; lo e vendo ir o adail nas Lombas do Côrvo trâs os al-
sitio tâo vizinhà da.vila, qu. o ut*niava
ùa peça mogâvares, passou o vâle e foi-se pôr sôbre o Côr-
grossa de artilheria (chamaïam_lhe rro
Leâor,t,'q;; vo, onde se lhe foi juntando tôda a cavalaria da
agora estâ em Tângere. Daqui despediram
o almo_ vila. Mas notando daqui que o adail, com alguns
cadém Alibenaix com vinte -e dous de
cavalo, que desmandados que o seguiam, corria contra o porto
15 se fôsseesconderno porto e, saindo
as atalaias, cài- r5 do Canto, (pareceu que lhe revelava o coraçâo o
r€sse a elas até as tomar, ou as eucerrar
dentro nas perigo que podia haver), despediu Alvaro Pires de
tralqueiras. porém ao recolher-se
nâo tomassem Tâvora com vinte de cavalo, mandando-lhe que
polo mesmo porto de Alemoquiqu.,
*, por outro dissesseao adail que por nenhum caso passasseo
que chamam do Canto, que ê mais
além quâsi um porto e se recolhesselogo.
t" besta, p"r. qo.,.âinao afgun, nossos
!!:_de a êtes, zo Nâo falta quem diga que Alvaro Pires'tomou a
rnesrcasse a gente da cilada através e nâo escapasse
. nomem. licença, pedindo-a e negando-Iha o capitâo, género
Isto assi assentado,vêo a suceder tudo infelice de mostrar valentia e vicio natural de por-
em favor tugueses, que muito dano lhes tem causado em todas
dos mouros, como se com um compasso
o estiveram as partes, desculpado, se tem desculpa, com um
e5 traçando e disenhando. Sairam ataiaias;
foi ûa des_ 25 impeto de côlera, que nâo sabe ter rédea nem temer
cobrir a ribeira: arrebenta Alibenaix
cfm os seus: perigo. Fez enveja a remetida de Alvaro Pires a
vem tomâ_la sôbre o vale do facho
à vista do adail. todos os que ficavam. Nâo quisera ficar nenhum.
, Nâo tinha o adail
Joâo tttoniz consigo'Àai, que seis Acrecentou o alvoroço ia voz de dous atalaias, que
ou sete companheiros: reconhecerrdî
- Alibenaix vieram gritando: - Mouro tomado! Mouro tomado!
30 com gente do Farrobo, foi_se trâs êles "", pouco
a 3o - Aqui nâo houve homem que tevesse mâo em
si, como se o mouro tomado fôra principio e sinal

.r.9,. -Campo, na ed._de lferculano. No ms. escreveu_


-se inicialmente canto. Veja_set.J" "
."g"i.'"' inteligôncia, esperteza.
"

278

ra-l&i:al-, L"&: :
COLECÇ,4O DE CLASSICOS SA DA COSTA ANAIS DE D. JOÂo III

de desbarate ou cativeiro dos mais, sendo tanto ao


ridade com ficar logo morto; e o genro, que fez de-
revés, que a retirada era irem cevando e levando
tença e procurou âe o rccolhor, foi ferido de ta
manhosamente o adail à cilada. Soltaram_sedo
ca_ tania, que lhe passou o c()rl)o ent claro; e a briga
pitâo mais de quarenta, sem lhe valerem brados
a" it"'ooo aqui iâo crespa c t:stavam os nossostâo
j nem mandados, nem ferir muitos de fortes
contoa_ 5 sôfregos e embebidos ncla, rluc quancl-oqulscram
torg3 os primeiros D. Joâo de Sande e logo '
9i:: " d".pàg"t e buscar o capitâo, comctcndo a subida
Lourenço Pires e Manuel da Silveira. das L"ombas, aonde se clcteve grande espaço' e foi
Notava Alibenaix o fio da gente, que despegava jâ
mais sua detença pera salvar a muitos, acharam
do capitâo; e pera ihe f.azerlobiça e meter mais das alcaides,e foram cativos
tudo atalhado do poder
-ro cristâos na rêde, rsou nova manhâ, que foi fingir ro e mortos muitos. Foi morto Vasco Lourenço Aljo-
que levava mêdo, dc <1rrcdc.ucloussinâis: primeirî,
farinho, pola fraqueza do cavalo que caiu com êle'
soltar o nosso atalaia quc levavam cativo; iegundo,
Chegou ao capitâà D. Joâo de Sande, porque trazia
fazer ia breve detençâ além do porto, como que jâ
o *îlhot ginôte que havia em Africa, havendo
queria voltar, e logo tornar a picar-, qo.* io_ diante delè muitos mouros. Logo mataram Joâo
15 gja. Jâ neste passo o adail ia àaindo "o*o
no deimancho 15 Dias do Conde, alcaide-môr de Arzila, e Duarte
da corrida; e suspeitandomal dos têrmos que viu
Pais' criado del-rei' e Joâo Marinho; e foram cativos
em Alibenaix, começou a requerer que ninguéï pas_
Toào Yaz Aliofarinho e Francisco Lionardes; ficara
sass€o porto; mas eram jâ tantos com êie e todos
inorto atrâs"Alvaro Pires, que acabou pelejando
e foi cativo seu irmâo, muito ferido'
zo ser homem velho,-nâo-s6 passou logo, mal gritava
20 A detença que o capitâo fez nas Lombas, assi
que passassemtodos. No meo dos brados aé
como foi ptoltôito." pera muitos dos desmandados'
Coelho e passagem que muitos tentavam, eis;oao que que a êle se vinham recolhendo, como dissemos'
vem dar volta contra o porto, a rédea solta e
côm pudera ser também ocasiâo de se perder, se nâo
grita até o céu, Alibenaire seus almogâvares;
e apôs lo*"ç"tu a retirar-se à fôrça dos brados de Fernâo
z5 êles começam a dar vista de si os alJaides
com mil z5 Caldeira e de Pedro Lopes e outros, que afirmavam
e quinhentos de cavalo, que nâo trazi.aÀ menos.
ser temeridade e desatino deter-se mais em tal lugar'
Desfazia-se em tanto J vila em dar rebate
, muitas bombardas. E o bom velho, querendo
com ? E falaram bem a tempo, que logo foi sôbre êle ta-
tornar manho nûmero de inimigos, que lhe foi fôrça voltar
a tomar a ribeira, pagou primeiro quà todos a
teme_ sôbre êles; e dizendo - r<Voltalrr- em voz alta, se
mouros, sem mais com-
3o misturou animosamentec'os

2, ceuando: engodando, acenando com


a isca.
15, ta calnd.o: ia reflectindo.
8, rnais' Âssim llarocc t'slilr no manuscrito'
rS, d,esnancho: precipitaçâo, tolice.
c:ularro lèu tneo.

z8o z8r

..5.
-_,.
COLECÇÂO DE CLASSICOS SA
DA COSTA ANArS DE D. JOÂO III

panhia que d€zoitoou vinte cavaleiros


que o ouvi- ao longo da ribeira de Bugano, a ver se poderiam
ram.
Pelejavam todos com grande valentia, tomar a atalaia alta e haver vista do Soveral. Mas
sai d'antre os mourosûa Ïança quando Alibenaix e os seus, que vinham vitoriosos, aperta-
d,u.r"*.rro contra ram tâo rijo com êles, que o cavalo de Manuel da
5 o capitâo, tâo bem.guiada,qie .oft-r"ao o
polos testose ficando_lheemperrada cavalo 5 Silveira, que jâ vinha muito cansado,quando foram
nos ossos,deu junto da fonte de Bugano acabou dc desfalecerde
com êle morto em terra. Foi
sos.vendo lr"nà"ïgrita dos nos- todo.
o capitâoa pé e acùdiramioaoscom
esfôrçoa ter oi mouros;mas logo novo Aqui foi nova briga e entre os mouros nova con-
.rbtr;;oJi;: tenda. Manuel da Silveira nâo queria morrer sem
ro lhe deu um criado..u, porà*
3 a" sua vida, zo vender bem a vida: dos mouros uns trabalhavam
ficou logo morto diante de"".t"
seu senhor:glo-
l:19u"
nosa morte pera um bom criado.posto por lha tirar, outros polo tomar vivo, como as ar-
cavalo e carregandoos mouro, o capitâi a mas e ûa marlota de grâ rosada que sôbr'elas ves-
;;; nova firria, tia lhe davam sinal de ser pessoanobre; emfim aca-
tomou emfim as-tranqueir"r, tur.nao_os
.r5 poder de muitas lançadàs. afastar a baram de o render com três lançadas perigosas,
z5 alora outras muitas de que o defendeu a bondade
das armas; mas durou tanto a sua resistência e a
CAPITULO XIX contenda dos mouros, que os companheiros tiveram
lugar de se alargar e nâo serem mais seguidos, e em-
P9 qr" mais sucedeuêste dia, e como foi cativo fim se salvaram e entraram na vila ao quarto d'al-
Manuel da Sitveira e se ,;'i";raî
o
outros, e o alcaide d'Alcâcere rn"nio, adail e 20 va; porém com assaz trabalho, porque o adail se
desafiar vasava em sangue das feridas e vinha mui desfale-
ao capitâo cido. E com tudo sarou delas, mas perdeu o cargo
Emquanto o capitâopelejavae despois de adail, que o capitâo proveu logo, dando-lhe tôda
procurava a culpa do desmando que houve na briga.
recolher-see os seusas_tranqueirar,
.iâ"il e Fernâo 25 Melhor sucedeu a Diogo da Silveira. Viu que lhe
da Silva, Manuel da Silveiia
que com outros seis ou sete foram"o. Silveira, cansava o cavalo; nâo quis apertar com êle: apea-se,
"6iJgâ-oua".rJ"irË
, t, porto sairam d vârzea, mete-o na ribeira em um pégo até os peitos, coberto
.1T" _9:
mlmrgos "*ao la tomado de de muitas canas, que ali cria a âgua; lança-se à
o caminhodas Lombas, deteràinaram ir_se vista dêle em um bisnagal. Descansaram tôda d

3o noite ambos e quando viu tudo quieto, foi-se 4

o, ,asros.. casco da cabeça.


9, a te/: a conter. II, COInOAS ArlnAS: 7)OrSque âs Armas.
14, tranqueiras: cêrca que defende
a fortaleza.
J 12, ,narlota: capa curta.
zg, bisnagal: campo plantado dc bisnagas.

z8z
283

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q
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COLECÇ,4O DE CLASSICOS SA DA ANAIS DE D. JOÂ.O III
COSTA

vila no dia seguinte, com grande gôsto do capitâo, nâo tardassemna execuçâo,pois estavam no campo
que deu boas alvissarasa quem lhas pediu de sua e com as armas nas mâos. Ji pondo as pernas ao
chegada. cavalo, encaminhou pera o facho, dizendo a todos
Mas nâo é pera ficar em silêncio outro caso do que esperassemem Deus vingar a mâgoa daquele
das condiçôes
5 dia da b1S9 A3e muito lhe mitigou ao capitâo o 5 di", se o mouro cumprissc qualquer
desgosto dela. Estava nas tranqueiras cheo àe pai- que oferecera.
xâo e raiva:, parte pola falta que julgava lhe fizeiam Mas o alcaide teve bom padrinho em Muley
os seus em nâo voltarem todos com êle, quando os Abrahem, que sabendo o que passava se vêo a êle
chamou; parte por ver nas pontas das lânças dos cheo de c6lèra e o reprendeu âsperamente. E logo
ro mouros as cabeças dos nossos que foram mortos no ro chamou Joâo de Deus e lhe disse com termo bran-
recontro; quando viu chegar um mouro e pedir I_ do e cortês: - Dizei-me ao senhor capitâo que por
cença pera lhe falar, que mandado dizer o que que_ mercê lhe peço que nâo faça caso das palavras vâs
ria, falou assim: - O alcaide meu senhor vos-faz de meu cunhadô, que é homem mais montanhês
saber que êle estâ naquele facho descontente do que entendido em lànços de aviso e cortesia, e jâ
rj pouco que hoje fez e muito desejoso de entrar em 15 estava conhecido de seu êrro e bem arrependido de
campo convosco, ou de corpo a co{po, ou de tantos lhe ser pesado nesta conjunçâo. E acrecentou que
por tantos. Se aceitais a oferta, êle segura o campo naquela hora lhe traziam vivos Lourenço Pires de
e promete cumpri-la. Tâvora, Francisco Lionardes e Joâo Vaz; se outros
Nenhûa cousa pudera entâo suceder que mais viessem, lho avisaria e todos seriam bem tratados.
,
zo desassombrara ao capitâo da malencolia com que zo Recebido êste recado polo capitâo, tornou a des-
se achava. Aleg_rementee sem nenhûa alteraSo: pedir Joâo de Deus com reposta de comprimentos;
- Cavaleiro - disse - de mi tendes cincoenta cru- mas o-fim era saber da gente que faltava. Foi Joâo
zados e um capilhar d,escarlata, se fazeis com o al- de Deus alcançar os alcaides jâ sôbre as Lombas,
caloe que cumpra o que dizeis; que eu de minha onde achou com êIes Manuel da Silveira, ferido das
25 pa*e estou prestes e me vou pera êle. E chamando e5 três lançadas que dissemos, de que ùa foi assaz
t- Jglo de Deus, um cavaleiio que fôra cativo do perigosa por ser por baixo do braço direito e os al-
alcaide cinco anos, mandou-lhe que fôsse com o ôaidés tâô contentes de si por terem cativo um primo
mouro e dissessea seu amo que aôeitava o desafio do capitâo, o que haviam por grande vitôria, que
e lhe dava a escolha dos partidos que cometia; e que logo dali despediram o Benganemi, mouro muito
3o conhecido em Arzila e estimado em Alcâcere, com
nova visita ao caPitâo.
20, malencolia no ms. Iferculano interpretou <rme- Era a sustância afirmar-lhc que no meo da boa
lancolia>.
23, capilhar: trajo de gala mourisco que se pôe
ventura que Deus lhes dera aquele dia, sintiam
_ sô-
bre a marlota como amigos e bons vizinhos a pena que teria dos

284 285
coLECÇ,4O DE CLASSrcOS DE D. III
5.4 DA COSTA ANAIS TOA.O

cavaleiros perdidos, que lhe pediam mocadém. Desejava o capitâo omiziar êste novo
a aliviasse com
saber, como tâo exprimentaào, que
êstes eram os convertido com os seus naturais pera se poder fiar
fruitos que a fortunà da guerra a'"-.i
au"u, usando dele, e lançou por isso mâo da ocasiâo com mais
, ""1Pt". _mudanças, jâ olhando a uns com alegre vontade. Achava-se na vila entâo o almocadém de
5 rosto, jâ com triste e carregado a outros; qo" Tângere Francisco de Meneses com cincoenta de
esta certeza e esperança de alcançar 5
um àia "B*.
me- cavalo, companhia luzida com que viera visitar
rnor, desse passagem desgosto
_ao do presente. E Antônio da Silveira de parte do seu capitâo, pola
da parte de- Muley Abrahem, que the desgraçapassada. Pediu-lhe Ant6nio da Silveira que
î^.-r,iTt"l
razra saber que muitos dos nossos,
que se aôharam o quisesse acompanhar na empresa, do que sendo
ro no recontro do porto com
os ,eo almogâvares, lo contentes êle e os companheiros, guiou Joâo da
eram lançados ao campo, mas que
os nâo mandaria Silveira pola boca de Benamarés a ûa aldea que
buscar nem esperar.
chamam Allinaçar.
Esta palavrJ cumpriu Abrahem com pontualidade,
Chegados a ela, mandou o capitâo apear alguns
porque na verdade nâo se ptezava
*.rio, de brando de cavalo, que com uns vinte soldados que iam
-r5 e cortês na paz, que de oâl"roro t5 de pê, cercaram quatro ou cinco casaspor estarem
mostrou na mesma noite corn LourËnço lo"rru. Assi o
"u pires de espalhadas e muito distantes ûas das outras. Por isso
Tâvora; poroue trazendolhe ;-;;;i"
îra crrrz foi a presa pequena, que pudera ser muito grande.
rel?quias,-quese achara a seu irmâo Cativaram-se dezessetealmas, com algûas vacas e
!-ourg.aË
varo Pires, quando foi despojado Âl_
d;.;;;u e armas, éguas e muito gado mirido: o que tudo recolhido, se
zo logo lha maïdou entregar com
tais palavras,
-" que zo tornou o capitâo à vila sem contraste nem impedi-
muito lhe aliviaram Àâgoa ao _orio a de sua mento; e pagando aos de Tângere suas partes, aven-
prisâo. "
tajou o almocadém na sua com liberalidade, que
C A P ITU LO XX foi bem empregada, porque D. Duarte, sintido
dele fazer tal ida sem ter ordem sua, o castigou com
Corre o capitâo Antônio da Silveira e5 pnsâo, de que naceu vir-se Francisco de Meneses
a serra de
Benamarés; toma ûa al dea. C onta_se despois de solto pera Arzila e haver algùa quebra
a vari e_
dadede vida de )9âo.d-a
Siir"iÀ, iorrisco, e s entre os dois capitâes.
miserévelfim que teve Mas como contâmos que Joâo da Silveira mou-
risco foi o que deu a aldea e o que guiou os nossos
Nâo passaram muitos dias que o
. capitâo dese_
jando mostrar aos mouros
que se achavam pouco
e5 quebrantados êle e os. seus
ào ,o."rro-que acaba_
d9 co_ntar,determinou ir sôbre n" I, omiziar: inimizar.
To"r de que 20, contraste: estôrvo, perigo, percalço.
Joâo da Silveira mourisco a." "fa-"",toi
,i"ltr"*" o 26, quebra: z anga, tJ i s s enç âo.
" "l-

286 287
COLECÇÂO DE CLASSICOS SA DA COSTA ANAIS DE D. III
TOAO

a ela, nâo serâ desagradâvel contarmos também a Dêste pensamento passou a outro, que foi inten-
variedade de sua vida e miséria de sua morte, pera tar matar Diogo da Silveira ou Artur Rodrigues'
exemplo da. constância com que deve perman-.c.r fazendo conta que qualquer cabeça destas, que le-
na fé quem foi tâo ditoso que, chamado por Deus, vasse, s€ria estimada dos mouros como feito her6ico,
5 entrou no nûmero dos seus fiéis e no grémio santo polo grande 6dio que a êstesdous mouriscostinham.
de sua igreja. Ficou o capitâo tâo satisfeito de como Mas nâo lhe sucedendo,porque ambos estavam avi-
êste homem.procedeuna cavalgada, que tendo-o jâ sados de seus parentes de Alcâcere que se guardas-
por fiel, visto o que fizera contra os seus, quis obri- sem dêle, emfim desapareceu um dia do campo e
gâ-lo mais; e tanto que foram na vila, mandou-lhe se foi presentar ao alcaide em Alcâcere, onde sendo
lo dar cincoenta cruzados em dinheiro pera comprar TO festejado do filho de Cid Naçar, nâo foi bem visto
cavalo e armas; c clo seu quinto lhe deu dous bois do pai. Passadospoucos dias começou a imaginar
e duas vacas e o casou com ùa mulher viriva, moça no muito favor que tinha em Arzila e no pouco que
e honrada, que tinha de seu ùas casase bom enxo- lhe fazia o alcaide; juntavam-se lembranças da mu-
val. lher, que por virtude e bom parecer era merecedora
15 Em meio desta prosperidade, a que se juntava I5 de melhor fortuna; tudo pensamentosda terra, ne-
ser estimado e honrado do capitâo e de todos os nhum do céu.
fronteiros, o tentou o inimigo do género humano Determinou tornar-se pera os cristâos; e mandan-
e o achou tâo fraco, que se mandou preitejar com o do prometer ao capitâo outra quadrilha de almogâ-
alcaide, por m€o de um mouro de neg6cio que anda- vares mouros, como prometera ao alcaide de Alcâ-
20 ya na vila, que, se lhe desseseguro se iria pera êle e cere, e nâo podendo cumprir a promessa por incon-
lhe entregaria ûa companhia de almogâvares; e, em venientes que houve, emfim entrou um dia pola
sinal de comprir o que dizia, lhe mandou um capa- porta da vila e de sua casa. Mas ique diremos à ins-
cete que o capitâo the tinha dado. Embebido nesta tabilidade e pouca firmeza da natureza humana?
traça, como todo traidor é fraco, entrou em cuidado No mesmo momento que se viu senhor do que tanto
25 qtre o capitâo lhe podia perguntar polo capacete, e 25 desejava, logo aborreceu tudo; logo lhe fez saùdade
nâo lhe dando bôa razâo, viria a alcançar seus desig- a vida mourisca e nâo o teve em segredo. Começou
nios. Assi, sem ninguém o obrigar, se foi ao capi- a persuadir a mulher que se quisesse ir com êle; e
tâo e armou ûa mintira sôbre o capacete, com que como a nâo pôde mover, saindo um dia a montear
o capitâo ficou suspeitoso e descontente e longe-de com um moço sobrinho dela, tanto que se viu longe
jo o lazer cabeça de almogavaria de importância.
30 da vila, tomou-lhe a espadae lança, e posto no ca-

18, preitejar: comprometer, combinar. 6, rtâo lhe suced,cndo: nâo conseguindo o seu in-
24, traça: atdil. tento.

288 289
coLECÇÂO DE CLASSTCAS 5.4 DA COSTA .4NlrS Dtt D" trOÂO III

minho d'Alcâcere, à fôrça o levou diante de si e fez A primeira deu a Eitor da Silveira, que foi de
presente dele a Cid Naçar; mas nâo passaram mui- quatro galeôese ùa caravcla e ùa galeota, e no p(tbli-
tos dias que pagou esta traiçâo com a vida; porque co declarou que ia a bttscar o cmbaixador D. Ro-
houve quem o acusou diante do alcaide que pre- drigo de Lima às terras clo Pt'c'stct' ('ltl segrôdolhe
5 tendia entregar almogâvares ao capitâo de Arzila, 5 mandou que anclasseno rosto do Catxr de -b'artaque
e o alcaide, nâo querendo perder tempo em averi- até quinze dc março, no qual tcmpo scria com êle;
guar a verdade, mandou-o pendurar de ûa amea. e em caso que o niro fizesse,erttàclse fôsse deman-
dar Maçuâ e tomar o embaixador. Despachou tam-
C A P ITU LO XXI bém Antônio da Silva de Menesesa Dio com pre-
ro texto de trazer roupas pera Malaca, mas o fim prin-
Cuerra da lndia. Parte o governador de Cochim cipal era reconhecer o rio e lortaleza e sondarem a
pera Cananor, despois de despachar Eitor da barra. E pera mais certeza mandou por outra via
Silveira pera o Estreito, e a outros capitâes pera Pero Barreto ao mesmo efeito e com êle o piloto-m6r
outras partes; morre em Cananor do Estado. Com Jorze Cabral tratou que, despois
15 de o acompanhar até Cananor, iria esperâ-lo em
Deixâmos pa entrada do ano ao governador certa parte, tempo limitado, com a sua galeota e
D. Anrique em Cochim, despachandoas naus de cinco catures. Mas porque dêstesinviados sô a via-
ro carga que foram pera o reino. É tempo de tornar- gem de Eitor da Silveira teve efeito, porque as mais
mos a êle e vermos o que fez e ordenou e mandou foram atalhadas com a morte de D. Anrique, parece
nos breves dias que despois teve de vida. Trazia zo razâo nâo passarmosadiante sem dar primeiro conta
D. Anrique traçado em seu peito fazer jornada sôbre dela.
' a ilha e cidade de Dio, mas com tanto segrêdo, que Partiu Eitor da Silveira em 2 de fevereiro. Era
15 nunca se abriu com ninguém, nem se soube seu di- capitâo do galeâo em que êle ia Nuno Barreto, e dos
senho senâo despois de sua morte; e pera mais dis- outros três, Manuel de Macedo e Anrique de Mace-
simulaçâo, como os apercebimentos que fazia de na- zS do, seu irmâo, e Francisco de Mendonça. A galeota
vios e muniçôes eram grandes e nâo podiam estar levava Francisco de Vasconcelos,e Fernâo de Morais
escondidos, despachou armadas pera vârias partes, a caravela. Navegou direitamente em demanda de
tzo com ordem aos capitâes que o esperassemem para- Socotorâ, onde fez aguada; e dai passou ao Cabo
gens a prop6sito de seu intento, dandoJhes a en- de Fartaque, sôbre o qual andou até os vinte de
tender que queria ir tomar Adem. jo março, tomando mais cinco dias além do prazo,
ao que juntou pera mais desenganooutra diligência,
que foi encostar-seà costa cla Arâbia e da cidade
15-16, d,isenho.' designio, projecto. de Dofar, a ver se cncontrava com algum navio ou
17, apercebiuxentos: preparativos. recado do governador.

290 29{
coLECÇ4q DE CLÂ.SSTCOSSA DA COSTA ANAIS DI: D. lO,4O III

Teveram mêdo da armada os moradores de Do- Fortugal, com reconhocimt'ntode três mil pardaus
far, com ser a terra forte e bem murada, e pondo de pâreas, de que logo contaram primeira paga.
suas fazendas e o que mais estimavam em côbro, Terçou por êles a humildadc com quc souberam ne-
tomaram as armas e com elas acudiram à praia tâo gociar e o gôsto que o capitiro-m6r tcvc de deixar
5 soberbos, que os nossos se houveram por obrigados 5 tributârias duas ilhas em môr contia e com mais
a pedirJhes conta dêste género de rebolarias. Sai- certezapera o diante do rlue noutro tempo lhe acon-
raût em terra trezentos e cincoenta homens, que os teceu com Adenr.
lizeram dar as costas com morte de muitos e com a Passadosalguns dias que o embaixador D. Ro-
mesma arremetida foi entrado e tomado o lugar, que drigo de Lima tardou, e recebido na armada com
ro todavia custou a vida a dous dos nossose boa c6pia .lo outro que o Preste inviava a Portugal, levantou a
de sangue a mais dc vinte, sem se achar cousa de armada âncoras aos 28 de abril e foi tomar a ilha
valia que o pagasse.Nâo sendo tempo de rnais tar- de Carnarâo, donde, feita aguada, desembocou o
dar a Maçuâ, foi lançar ferro naquela ilha em pri- Estreito; e com muito trabalho de temporais e falta
meiros d'abril; e porque achou estar connosco de de âgua, tomou Mascate e dai se foi invernar a Or-
ri guerra, mandou rodear c'os batéis os portos por 15 muz, aonde chegot aos z6 de junho.
onde o povo se poderia embarcar pera a terra firme; Ap6s a partida de Eitor da Silveira deu o gover-
mas tendo-se anticipa.do muitos na fugida, todavia nador tanta diligência em prover tudo o que cum-
inda colheu bom golpe deles no mar, e melhor saco pria pera a empresa que trazia na imaginaçâo, que
na vila que em Dofar. Havia muitas roupas, que tardou pouco em sair de Cochim; mas primeiro lhe
20 em Arquico foram de proveito, dadas a troco de 20 pareceu lazer ia diligência importante pera sua
mantimentos e escravos. saride. Corrialhe humor a ûa perna, que lha in-
Pediram paz despois de saqueados pera evitarem chava e lhe tolhia a ligeireza e liberdade que havia
maior castigo, oferecendo trezentos pardaus de pâ- mister pera o exercicio das grandes ocupaçôes em
reas em cada um ano. Outorgou-iha Eitor da Sil- que se empregava. Procurou remédio: fez consul-
z5 veira com anticiparem logo o primeiro pagamento. 25 tas com médicos e cirurgiôes: assentaram que dando
Melhor andaram os moradores de Dalaca, outra ilha uns botôes de fogo se iria purgando aquele humor
vizinha e terra de mais sustância: vieram com rem- como por fonte, e enxugaria a perna. Nâo duvidou
po comprar a paz, deram-se por vassalos del-rei de da cura, com quanto foi violenta e chea de dores,
e o que pior é, pouco proveitosa.
30 No rnesrnotempo quis ouvir Cidc Alli, messageiro
6 , rebolarias: farroncadas, bravatas. de Melique Hyaz, senhor tlc Dio, qtre bem entendia
23-24, pdreas: contribuïçâo, tributo.
Otorgou-lha no ms.
2 5 , con. antioiparem: com a condiçâo de anteci- Ttrçou por i/{'..:.' ;rl)rov(iitou-)hes.
Parem. l tç l j p5 ,1, /r,gr,; |1,11i ;15
rl e fogo.

292 29.?
COLECÇÂO DE CLÂSSICAS SA DA COSTA ANAIS DE D. JOAO III

vinha mais por espia que embaixador singelo. O ne- e outras mostras de soberba, sintido do atrevimento,
g6cio de Calicut tinha espantadomuito todos os po- nâo se contentou com menos que ir em pessoaver
tentados da India, em especialos que possuiamesta- a barra e disposiçâo do rio; mas csta fragueirice,
dos e terras vizinhas ao mar. E como o melique junta a fla grande indinaçâo que tomou do engano
j era um dêstese em saber e sagacidadese aventajava dos catureiros, porque achou que nem a foz tinha
a muitos, foi o primeiro que quis com capa de visita remédio de entrada, nem parecia possfvel que tais
e ofertas de paz ver se podia penetrar os disenhos paraus pudessem por ela ir, dc sortc lhe assanhou
que o governador de novo tinha. Presentou-lhe o a chaga, que quando sôbre tarde a quis curar, en-
mouro muitas peçasricas, despoisdos comprimentos cheu de mêdo o cirureiâo achando-a cercada de
-rc que trazia dc amizade e paz. As peças mandou o n6doas negras.
governador (luc tornassc a levar, tomando s6 um Chegado a Cananor, foi rogado dos médicos que
assentoforrado de madre-pérola, peça de mais lus- logo desembarcassepera se tratar da cura em terra,
tre que valia, com tençâo de a inviar a el-rei nas como convinha, mas inda os entreteve muitos dias,
primeiras naus que fôssem pera o reino, como des- com que acrecentou o mal de maneira, que nâo
"r5 pois lhe foi. E em retorno desta lhe mandou dar al- 15 estando jâ capaz de remédio, com quanto o marti-
gùas de preço; e ordenoulhe que o seguisseaté Ca- ûzaram com muitos cautérios, aos dous dias despois
nanor pera lâ o despachar, que foi um modo de o d.e estar em terra, que foi aos 23 de feverèiro, pas-
enganar, como dizem, com a verdade, a fim que por sou a melhor vida. E nâo foi pequena ajuda pera
ûa parte se assombrassecom a grandeza dos apara- abreviar a presente, estando jâ no extremo dela,
zo tos e por outra, vendo que dêle os riâo escondia,se eo chegar-lhe recado dos dous primos D. Jorze Telo
desimaginassede serem contra seu amo. e D. Jorze de Menesese de Pedro de Faria, que
Partiu o governador de Cochim com dezessete tendo encerradosno rio de Bacanor cem paraus car-
velas e, determinado em ir de caminho alimpando a regados de pimenta, quando cuidaram de os des-
costa de inimigos, mandou entrar D. JorzJde IVIe- baratar e queimar, teveram tanta desgraça na en-
zj nesesno rio de Chale, duas léguas de Calicut, que 25 tTada e acometimento, que se tornaram pera a barra
abrasou a povoaçâo e quantas embarcaçôeshavia com perda de cuarenta homens e muitos feridos.
no rio. E a seis léguas de Cananor, dando novas os
catures que levava diante de terem visto paraus no
rio de Maine, fazenclo algazarras contra or nosros

4, nteliqzte: che{e mouro.


r J, de as i nui ay no ms-
15, lhe foi,: lhe foi enviada (ao rei).
2a, alga:artas: bravatas, desafios.

2q4- 295
COLECçA.O DE CLASSICOS SA. DA COSTA ANAIS DE D. TOA.O III

C A P ÏTU LO X X II D. Anrique levava de alimpar a costa de cossârios.


Saiu de Cochim com sete velas, de que eram capi-
tâes, da galé bastarda, em que êle ia, D. Vasco de
Abre-se a segunda sucessâo da governança:
Lima, e das mais, Manuel de Maccdo, Henrique de
acha-se nela Pero MaScarenhas. Por ser
5 Macedo, seu irmâo, Diogo da Silveira, Manuel de
ausente, abre-se a terceira, que nomea Lopo
Brito, Diogo de Mesquita, seu irmâo. E correndo
Yaz de Sampaio. Aceita o cargo, e vai pelejar
com êste intento a costa, achou cartas em Cananor
c'os paraLrs Ou tr.il?:; fica vencedor, e parte
de D. Jorze Telo e Pero de Faria, que todavia esta-
vam sôbre a barra de Bacanor, como atÉs disse-
ro mos, em que o avisavam que os mouros se faziam
Falecido o governador D. Anrique e sepultado na prestes pera navegar, e eram tanta gente e navios,
capela de Santiago da igreja de Cananor, pôs-so que nâo tinham ambos bastante fôrça pera lhes
logo por obra entre os capitâes e fidalgos que com defender a saida.
êles se achavam abrir-se a segunda sucessâo, das Encheu-se de alvoroço pera îazer sua esta empre-
j três que o conde alrnirante levara à ïndia. Achou-se rj sa e despachou a Goa um catur dos mais ligeiros
nomeado Pero Mascarenhas, capitâo de Malaca, que trazia, com recado a Antônio da Silveira e
que foi causa de grande confusâo pera todos, consi- Cristôvâo de Sousa, que ambos com seus dous ga-
derando que, se por êle haviam de esperar, ficava leôes se viessem em continente pera Bacanor, onde
o Estado sem cabeça pera mais de um ano, porque os esperava; e mandou a Manuel de Brito que com
ro a monçâo de navegar pera Malaca era por maio zo o seu se fôsse logo juntar com D. Jorze e Pero de
do ano presente e a de vir de Malaca pera a fndia Faria, e os avisasseque nâo teria mais detença que
' entrava jâ no ano seguinte. Havendo variedade de em quanto se provia de mantimentos e mais muni-
opiniôes no que se devia fazer, levou Afonso Mexia
çôes. Era capitâo-mdr da armada de Bacanor o
todos os fidalgos a seu parecer, que foi abrir-se a mouro Cotiale, que, sendo informado como o go-
15 terceira sucessâo, com um assento que assinaram z5 vernador o ia demandar, determinou esperâ-lo em
e juraram, que quem quer que nela saisse por go- em tema, com dez mil homens que ajuntara entre
vernador nâo usaria do cargo rnais tempo que até os seus e os moradores do rio, que animosamente
' a vinda de Pero Mascarenhas. Aberta a sucessâo, o seguiam.
viu-se que era nomeado nela Lopo Y,.azde Sampa.io, Chegou Lopo Vaz determinado em peltrjar; mas
zo capità,o de Cochim. Aceitou Lopo Yaz o govêrno
com a condiçâo e juramento que os mais fidalgor
tinham consintido na abertura da sua sucessâô,
Era Lopo Vaz por natureza diligente e de sua po$ol 8, todaui,a: 'a\nda,
muito valeroso; nâo tardou em seguir a ordem qUl r8, em oonl i nentel i mc di atamc nte.

296
coLECçÂO DE CLASSTCOS SA DA COSTA ANAIS DE D. IOAO III

achou contra si a maior parte dos capitâes e fidul. través ûas das outras. E como gente que devia fazer
gos de sua companhia: tantas consideraçôesfaziattt muita conta dêste forte, juntaram-lhe estacadasao
sôbre o grande nûmero e fortificaçâo dos inimigon, longo da praia e outros viradores sumidos dentro
tanto risco fantesiavam na empresa, como se n[0 na âgua nas partes onde julgavam que os nossos
foram êles os mesmos que tinham, pouco havia, 5 poderiam tentar sua desembar.caçâo.
desbaratado todo o poder de Calicut diante clol Nâo espantadoLopo Yaz da fortificaçâo e artilhe-
olhos de seu rei, abrasado Panane e destruido Cou. ria inimiga, porque, chovendo sôbre êle e outros
Iete. Fundava nisto serem fingidos todos os receioû dous catures com que foi espiar o rio ûa tempes-
que lhe punham e nacerem mais de emulaçâo ou tade contfnua de pelouros, passou ida e vinda sem
IA enveja da glôria, que a êle Lopo Yaz se aparelhavn ro receber dano, mandou primeiro que tudo cortar
(como nos feitos de guerra sempre a m6r honra fic& todos os viradores que atravessavam o rio pera dar
com o capitâo), que nâo temor de inimigos tantar passagem franca a nossas embarcaçôes, e logo fez
vezesvencidos; e nâo quebrando um ponto do quc embarcar em três grandes batéis, dos que D. Anri-
consigo trazia assentado, tanto que foram com êlg que tinha mandado lazer pen a jornada de Dio,
r5 Ant6nio da Silveira e Cristdvâo de Sousa, que achott .r5 trezentoshomens, a cento por cada um, a cargo de
conformes com sua opiniâo, foi-se um dia ante-ma. Paio Rodrigues de Araujo e Manucl clc Brito, e ou-
hâ, a horas quefazia bom luar, reconhecerpessoal. tros trezentos em bargantis, pera saltareln dc um
mente o estado do rio e fortificaçâo inimiga. golpe todos juntamente em terra; e mandados ôstes
Achou que de ùa e outra margem do rio continut. na dianteira, êle os foi seguindo com todo o restcr
vam grandes e fortes trincheiras de madeira, qrto zo da gente e navios de remo, em que havia mil solda-
terraplenadas e guarnecidas de muita artilheria, r0. dos portugueses, afora remeiros e marinhagem de
presentavam impossibilidade de passar sem perigo canaris e malabares.
a todo o género de embarcaçâo. Ao que se juntnvê Eram horas que o sol começava a apontar sôbre o
terem por êste modo estreitadoo canal em demarh, horizonte, quando os nossos,ao som de muitas trom-
25 E por lhes nâo ficar nada pot fazet, corriam fll .1 z5 betas, com grita que feria as nuvens, nesta ordem
tranqueira a tranqueira por baixo d'âgua uns vhfr I começaram a entrar o rio, com tanta fôrça e vivcza
dores grossos, pera que, chegando a êles as nolttl no remo, que mais pareciam voar polos ares que
embarcaçôese sendo de terra entesados,sossobfllr caminhar por âgua. Tinha o governador notado um
sem. Achou mais que, em ûa volta que o rio rlcntfÊ lugar junto ao baluarte que acertou a ficar livrc das
?t7 fazia, onde a terra sai com ûa lingua sôbre a égutr jo estacadase embaraçosque cingiam os mais: mandou
tinham levantado ûa cêrca de pedra e terra bËlË um catur guiar a êle os batéis dianteiros, e pera di-
entulhada e rebatida, de altura quâsi de um 6tlda
de homem, provida de boas peças de artilhoricr QËl
a modo de baluarte de três faces jogavam todC: :H r7, barganl i s : berganti ns , barc os pequenos

2q8 299

I
i
)}LECÇA.O DE CLASSICOS SA D-4 ()O\'.|'A ANAIS DE D. TOÂ.O III

l1 vertir os inimigos fez sinal de acometer a ûa lllrrto que passou de oitenta peças; os paraus queimados
i e logo tornou a outra que êles nâo cuidavam. Arclir
neste tempo o rio todo em fogo e trovôes das bom'
foram setenta e tantos. Dos inimigos que morreram
se nâo averiguou o nûmero, mas ninguém duvidou
bardas de terra e da nossa espingardaria, e a frèchn' em ser muito grande, vista a constância com que
5 ria dos rnouros era tâo espessa, que cobria o sol
5 resistiram. No iugar mandou o governador que se
1i e nos feria grande nrimero de gente em todos og nâo tocassevisto ser del-rei de Narsinga, com quem
navios. Mas, passando os batéis a abordar com o tinhamos paz. Daqui partiu pera Goa, onde despois
baluarte polo posto que dissemos e lançados nêle de algûa contradiçâo que F-rancisco de Sâ lhe fez,
os primeiros trezentos e ap6s êles os que iam nos emfim foi aceitado por governador; e despachando
ro bargantins, foi tal abraveza com que menearam os ro armadas de importância pera vârias partes, mandou
braços e armas, que por muito ânimo que os defen' ûa nau a Malaca a Pero Mascarenhascom novas de
sores mostraram, fiados em sua multidâo e na fôrça sua sucessâoe provimento de roupas de Cambaia,
de suas tranqueiras, foi o baluarte entrado e ga- que o governador D. Anrique em sua vida mandara
nhado. buscar a Dio.
rS Entretanto o governador, tendo ameaçado que-
rer acometer ûa tranqueira, aonde coffeu logo grosso
CAPt r TULO XXI I I
nrirnero de gente, despediu Pero de Faria que pas'
sasse ao posto em que estavam os paraus e lhes Parte Lopo Vaz pera Ormuz e torna pera a
desse fogo, que era o fim principal da empresa, lndia. Entende em prover as fortalezas poia
eo Aqui foi a maior fôrça da peleja, com ùa desusada nova que t em dos Rum es. Eit or da'Silveir a
fiiria e teima dos mouros, obrigados do amor da toma algûas naus de Meca. Pero Mascare-
fazenda; mas acudiu por ûa parte Antônio da Sil- nhas, tomado o titulo de governador, vai sôbre
veira e por outra o governador, e à fôrça de lança- Bint âo
das e espingardadasos fizeram retirar e ver de longe
z5 a labareda de suas embarcaçôese pimenta, que tudo,, 15 Eram tantas as queixas que el-rei d'Ormuz e Xa-
ficou feito cinza em poucas horas com morte dQ rafo, seu guazll, tinham feito ao governador D. An-
muitos. tl.;{ rique e agora faziam a Lopo Yaz, qae êle se deu por
Pera com os nossos foi grande o favor do céu;'|', obrigado a ir ouvi-las pessoalmente, navegar fora
porque sendo feridos oitenta e cinco, nâo houvo de monçâo e com menos armada do que convinha
3o mortos mais que quatro. Ficou em poder do gover. zo a sua autoridade. Levou cinco velas, que foram ûa
nador tôda a artilheria do baluarte e tranqueiras, galé bastarda, em que êle ia, de que fez capitâo

r, d,àuertir: desviar a atençâo. 't6, guazil: governador entre os mouros.

joo
30r

I
l
coLECÇÂ{) Dri ()L.4SSICOSSA DA COSTA "4 1r/.4 1S DE D. IO.4O III

D. Vasco de Lima, e três galeôes, capitâes dêles de Gâ brevemente com certeza de licarem os turcos
D. Afons,o de Meneses, Manuel de Macedo e Ma- na ilha de Camarâo levantando ùa fortaleza: o que
nuel de Brito, e um bargantim pera serviço. Chegou foi causa de despachar logo um navio a Portugal,
a Ormuz em 3 dias de junho: achou que Diogo de em que dava o aviso a el-rei, e como homem de
5 Melo tinha preso ao Xarafo em vingança das quei- j guerra empregar todo seu cuidado em prover as
xas que [izera a D. Anrique, na confiança do pa- fortalezas que se podiam temer, ùas com fâbricas
rentesco que tinha com êle Lopo Yaz: o que logo novas, outras com côpia de muniçôes.
remediou soltando o Xarafo e tornando-lhe o cargo Entretanto tinha chegado a Pero Mascarenhas,
de guazil. por diferentes vias, a nova da sua sucessâona go-
ro Nestas cousas entendia o governador, quando en- ro vernança do Estado, declarada e aceitada por todos
trou no porto Eitor da Silveira aos z6 do mesmo os fidalgos da Ïndia. E êle aceitou, tomando com so-
mês de junho, da volta da sua jornada do Mar lenidade o juramento de governador na igrejamaior;
Rôxo; e lhe entregou o Zagazabo, embaixador do e criou logo secretârio e ouvidor geral e proveu da
Preste, que êle recebeu com particulares honras e o capitania da cidade a Jorze Cabral, que foi um dos
15 mandou agasalhar e prover do necessâriocom muita rj que se adiantaram a pcdir-lhe as alvissarasda suces-
largueza. E logo no mês de julho despediu Eitor sâo. Posto logo em caminho pera a India, foi Deus
da Silveira que se fôsse lançar sôbre a ponta de Dio, servido estorvar-lhe a ida pera remédio daquela ci-
a esperar as naus que navegam do Mar Rôxo pcra dade: veio-lhe tâo forte tormenta estando surto sôbre
Cambaia: e êle, passados poucos dias, em que rece- os ilheus de Pulo-puar, que tomou a arribar com
eo beu sessentamil pardaus de resto das pâreas que cl- eo mastros quebrados e muito trabalho. Assi; vendo
-rei devia dos anos atrâs, deixou Ormuz e tornort que jâ nâo tinha monçâo senâopor fim do ano pre-
pera a fndia. Entretanto em Charil, soube que Eitor sente, ou principio do seguinte de t527, e que s,e
da Silveira fizera presa de três naus, com que cn- achavam ali com êle muitos navios e muitos fidal-
trara no mesmo porto, além de um zambuco, (luo gos e bôa gente, de que se podia aproveitar, deter-
zj também tomou e meteu no fundo. z5 minou acometer Bintâo; e tendo posto em ordem
Aqui também soube as primeiras novas dt nF, com segrêdo e cautela tudo o que cumpria pera a
mada que os turcos tinham no Mar Rôxo, derlnt empresa, partiu com vinte velas um domingo z3 de
polos mouros que o Silveira tomou nas ltn.ur (lê outubro.
Meca; todavia pera se inteirar delas despcdiu 'l'rll. Eram capitâes, do galeâo em que êle ia, Alvaro
30 teo de Gâ em um bergantim, que fôsse at(: t pnrt. 3o de Brito; e das mais Aires da Cunha, Alvaro da
gem de Adem espiar o que havia. Tornou il)'hl{o Cunha, seu irmâo, Antônio da Silva, Antônio de
Brito, D. Jorze de Meneses,Francisco de Sâ, Duar-
te Coelho, Simâo de Sousa Galvâo, Joâo Rodrigues
24, zambuco: barco de carga asiâtico. Pereira Pâssaro, Francisco de Vasconcelos, Jor-

302 30.i
coLECçÂO DE CLASSICOS SA D'4 (:o,\',|'A ANArS DD D. JO.4O rII

dâo Jorze, Francisco Jorze e Fernâo Serl'io rl0 lheria. A pouco mais dc mil passosda cidade havia
Évora. Êstes todos em navios portugueses.As trr:ri* ùa ponte sôbre o rio, que lrâo scrvia s6 de dar pas-
embarcaçôeseram lancharas da terra, que levitvrtttl sagem de ûa praia à outra, mas também de fortifi-
a seu cargo Jorze d'Alvarenga, Diogo de Ortlclits, caçâo; porque, além de cstar furrdada sôbrc vigas
Joâo Esteves, Vasco Lourenço, Fernâo Pires c Girs" grossasde um género de madcira, quc por sua gran-
par Luis. Havia nesta frota quatrocentos soldaclrn de fortaleza chamamospau ferro c os naturais baz-
portugueses e seiscentosmalaios. bwzano,tinha sôbre a parte esquerdalevantado um
Chegado'à ilha, foi primeiro trabalho desembara- .l
baluarte da mesma madeira e igualmente provido
çar o rio de um grandenrimero de estacasquetolhiart de artilheria, que ficava mais defensâvelcom um gé-
IO a entrada,obra de muito riscoefadiga;masnomaiol' TO nero de fortificaçâo natural de um espessobosque
fervor dela deu novo cuidado apareccrcm ao milt' de ârvores grossas e entre si mui enredadas (cha-
trinta lancharas que vinham demandar o rio, e eram mam-lhes mangues) que dês da loz até por cima da
de socorro que mandava el-rei de Pâo ao genro. ponte, porque se criam na âgua salgada, lhe fica-
Mandou Pero lfascarenhas contra elas Duarte Cotl- vam como rnuro.
r5 lho com cinco navios e ap6s êstes Aires da Cutrlttt I5 Na parte contrâria, <1ucé lr <lirt'itatlo rio, orrrlca
com outros, que apertaram com elas de mancir0, cidade estava assentacla, na distârrt:i;trlrrr:rlisst:t'rros
que, desbaratadas,trataram de se salvar em Ûa illtc corria dela contra a ponte, havia ù;r grarrrlr:plirr,:ir
vizinha e todavia ficaram em poder dos nossos mith aberta e desabafada,que vinha lazcr porto r{) r'io.
de doze, bom pronôstico pera o que ficavir por Nesta tinha el-rei posta tôda sua defensâo, t:orrro
f.azer. quem sô por ela temia de ser acometido. llra rrrn
grande baluarte terraplenado e neie fôrça dc gt:ntc
C A P ITU LO X X IV e artilheria; e soube-sedespois que estavam reparti-
dos nestes fortes e polos muros da cidade sctc rnil
Acomete Pero Mascarenhas a cidade de Bin- combatentes.
tâo. Canhada e saqueada, p6e-lhe fogo. D. Car- 25 Pero Mascarenhas,entendendoque lhe convinha
ci a A nri ques, capi tâo de Mal uco, saquâl I usar de manha contra terra por natureza e arte tâo
quei ma a ci dade de Ti dore defendida, intentou um ardil que s6 seu grande en-
tendimento pudera inventar e seu valor e ânimo
, Determinou Pero Mascarenhasver por Hlltr lllltta efeituar. Em todo outro homem fôra julgado por
o sitio e fortificaçâoda cidade e achou (lltt'r'lrt lltl' 3o temerârio mais que prudente. Cerrando-se o dia,
cada de madeira muito grossa,com ûa t'slitt'ttrlntltt mandou ordenar um reparo de pipas cheas de terra
brada de paus a pique, tâo alta como ttlll ttttttn F
6-7. A palavra barbuzano nâo estâ completa
é3 {eita tôda a dentes de serra, que ficavatn tttlttt tl
(bar... ano), porque o cânto da fôlha estâ hoje rasgado.
fazendo traveses,e estesdefendidoscotn tnttlln trlll

jo5
jo4

....,.,,,,u,ur{
coLECÇÂO DE CLASSICOS SA DA CASI'A ,4NATS DE D. TOÂO IIT

na margem do rio e ao longo da praça, que era porto primeiro que pôs os pés em cima foi Aires da
e serventia da cidade, pera fazer crer aos inimigos Cunha: custou-lhe a honra ficar mal ferido de um
que por ali havia de tentar o assalto, que era o zarguncho. Deram logo os nossos com um postigo
mesmo que êles tinham entendido, porque d'outra que fechava na ponte; e aberto, encaminharam por
5 parte se nâo temiam. Para mais os divertir, fcz 5 êle até irem entrar a cidade. lîizeram o mcsmo por
meter neste forte, que guarneceu de alguns falcôcs, sua parte os capitâes malaios com sua gcntc; mas
todos os malaios com seus capitâes e alguns solda- Pero Mascarenhas,quer-cndohaver às mâos o rei
dos portugueses que os governassem, descobrindo- inimigo e que tanto mal nos tinha feito, tirou contra
-lhes que tinha disenhado outro lugar pera assal- o sitio de sua morada com o maior corpo da gente.
to tar a terra e assentandocom êles os sinais que ha- ra Era o rei fugido; porém achou um capitâo seu
viam de fazer quando fôsse tempo. bem acompanhado de mouros e tâo esforçadosto-
Logo, cerrando-se a noite, lançou um golpe de dos, que foi necessârioaos nossos menear bem as
gente na margem esquerda do rio ûa légua abaixo mâos pera os desfazer;porqrle emquanto nâo sou-
da ponte, e com suas guias diante começou a cami- beram que el-rci cra irlo, ptlcjavatn o nrorrilr)l sem
15 nhar rio acima. Era o caminho por si em extremo 15 sinal de fraqueza. Fcrido ji'r clc tluas csping:Lrtl;r<1as,
trabalhoso; acrecentava a dificuldade ser por entre o capitâo, que Laxaraja sc chatnava, tcvc ;rviso da
os mangues, que do meo pera baixo cria cada um ausênciae entâo tratou dc salvar a vida, o rlrrt:lizc-
muitas raizes, com que tolhem o andar em bom dia ram também os que o seguiam e tôda a rnrrissoklu-
claro, quanto mais polo escuro da noite e por terra desca, deixando em nossasmâos a cidade conl gros-
;o alagadiça, qual esta era tôda. Mas tudo vence utn ao so despojo, de que foi a melhor parte um graudt:
ânimo determinado. Cansadose moidos e enlamcir- nûmero de peças de artilheria, que eram poucirs
dos, chegaramos nossos,antes que a alva rompcssc, menos de trezentas, mais estimadasporque mttitus
ao pé do baluarte. Dormiam os defensoresa lrorrr delas nos tinha tomado êste tirano nos recontros c
sabor, parte cansadosda vigia da noite, parte conr desgraças que atrâs ficam contados. Seguiu fogo
z5 descuido de poderem ser acometidos por tal lug;rr, zS ao saco, e ao fogo ficar feita cinza, como era tôda
E quâsi nâo sintiram os nossos senâo despois <1rre de madeira.
os viram sôbre si. Espertou-os a grita e estrondo rlp Emquanto Pero Mascarenhas alegra Malaca com
trombetas, que segundo a ordem que estava rlurlrt, o triunfo de Bintâo, serâ razâo darmos conta do
soavam temerosamente por vârias partes; c (,{rll que entretanto passava em Maluco D. Garcia An-
;o maior terror da estância dos malaios, como (lr'lun riques, que em rz de janeiro dêste ano entrava em
3o
mais gente e maior nÉmero de vozes. posse daquela fortaleza. Vendo-se com pouca gente,
Assi perdido o tino aonde haviam de acu<lil e pola muita que com seu antecessorAnt6nio de Brito
confusos com a novidade nâo esperadado a<:orrrr'll
mento, foi entrado e ganhado o ?orte da Donrô, r, r, zarguncho: azagaia, iança de arremêsso.
3,

30Ô 307
ÇjLECÇÂO DE CLÂSSICOS SA. DA COSTA

se embarcara pera Malaca e com poucas fazendas


pera paga dessa que lhe ficara, assentou paz com
el-rei Almansor de Tidore; e foi condiçâo dela que 1NDICEDO TÔMO I
dentro de seis meses primeiros seguintes entregaria
5 certas peças de artilheria, que seus vassalos tinham
tomado de ûa fusta de portugueses. PARTE PRIMEIRA
Vêo êste iei a morrer de sua doença, e havendo
discôrdia entre os filhos sôbre a sucessâo, pareceu
a D. Garcia bôa ocasiâo de lhes mover guerra; e Pâgina
ro mandando pedir aos que tinham o govêrno lhe LIV R O I
cumprissem a promessada restituiçâo da artilheria,
Cap{tulo I - Do nacimento e primeira cria-
visto ser expirado o tempo com a morte de Alman-
ç âo del -rei D . J oâo............... r
sor, porque logo lha nâo mandaram, inda que pe- D II - Como foi juraclo em côrtes o
diam cortêsmente alguns dias de tempo pera a en- prlncipe D. Joirr-r por hcrdeiro
rj tregarem, lhes mandou apregoar guerra e lha fez dês tes rei rros . Quc mr.s l rc s tc v < r
nas primeiras letlars c rras dt:
com tanta pressa e fôrça, que na mesma noite que mais sustâ,ncia. Fun<l:r () con-
teve êste recado, como de Ternate à cidade de Ti- vento de Nossa Sen'lrol'rr. dt
dore nâo hâ mais distância que ûa pequena légua, S erra d' A l mei ri m .................. 7
foi sôbre ela e a saqueou e queimou. Vitoriosos tor- III - De alguns perigos que o" prln-
cipe passou em sua mocidade.
20 naram os nossos; mas desacreditados grandemento Dâ-se conta como el-rei lhe deu
na reputaçâo que dantes tinham de guardar fé o casa e quem foram os oficiais
palavra, que é parte pr6pria de quem professa a e como o começou a introduzir
lei e verdade cristâ. nas matérias de govêrno e orde-
nou que assistisse com êle em ûa
E daqui podemos crer que naceu permitir Doul cerimônia dos reis antigos, que
25 qae perdesse despois D. Garcia em Cochim tud€ se usava em véspara de Natal,.,
quanto tinha adquirido neste cargo, que passavl d! IV - Morre a rainha, mâi do prln-
cincoenta mil cruzados. cipe. Trata el-rei e pôe por obra
casar terceira vez. Dâ-se conta
FIM DO TÔMO I como se houve o principe nesta
ocasiâo
V - Morte del-rei D. Manuel. Suces-
20-23. Êste passo dâ a medida da imparcialidnrlo rlt sâo do principe D. Joâo. Soleni-
Fr. Luis de Sousa. Na sua prdpria caridade cristfi otrcptl. dades com que {oi levantado e
tra os estimulos de tolerância cavalheiresca corh rpro Ju[l j urac l o por rei ........................
os actos dos seus perconagens. VI - Lembra-se el-rei do seu con-
22, parte: virtttde, qualidade. vento d:r Serra de Almeirim;

3c.8 3orl
i,i TNDTCî TNDICE

t{
I
sustenta os conselheiros velhos
de seu pai. Trata de dar obe-
diência ao Papa e dar conta de
Pâgi.na

Capitulo XVI - De ûa venturosa entrada que fez


em terra de mouros o capitâo
de Azamor
Pâgina

95
sua sucessâo aos principes da )) XVII - Sucessosda lutlia: govcrnatlor
cristandade amigos 37 D. Duarte de Meneses, Levanta-
Capitulo \IIi - Do estado das cousas do reino ruento del-rei de Ormuz e cêrco
e suas conqui stas ,................. 40 que pôe à fortaleza.... ror
\'III - Queixa-se o conde de Marialva a XVIII - l\cometem os mouros de novo
el-rei do marquês de Tôrres No- as nossas embarcaçôes e sâo de
vas. Dâ-se conta da tazào da novo desbaratados com segunda
quei xa e sucessodel a.........,..... 49 e famosa vitdria. DesPeja el-rei
IX - Despacha el-rei ûa embaixada a cidade com todo o povo e
a el-rei Francisco de França: manda-lhe pôr fogo rrr
recebe outra do emperador XIX - Avisa o governador a seu irmâo
D. Carlos, rei de Espanha...... 55 D. Luls que acuda ao socorro
' tle Ormuz. B'az novo capitâo
X - Embaixada del-rei D. Joâo ao
emperador. .Dâ-se conta da via- em CharîI. Despacha outrog ca-
gem que fez Fernâo de Maga- pitâes pera vâriaspartes. D. Luls
lhâes a Maluco; e da razâo e navega pera Ormuz rI9
sucesso de1a..,........., S8 XX - Partem D. Aodré Henriques ar
XI - Fome crecida em Lisboa e por entrar na fortaLeza de Pacém;
todo o reino. Meos que el-rei ùIartim Afonso de MeIo Couti-
usou pera a remediar, Tremores nho pera a China; Antônio de
de terra e um muito espantoso Brito pera Maluco r28
na ilha de S. Miguel e soversâo r XXI - Do sucessoque teveram âs nâus
d e û a g r a n d e v i l a d e 1 a . . . . . . . . . . , . 64 de carga que êste ano dospachou
XII - Requere o povo de Lisboa a el- o governador D. Duarte pera o
rei que €se com a rainha sua reino; e as que do reino parti-
madrasta. Repugna el-rei. Pede ram pera a India r38
o emperador que vâ a rainha
pera Castela e leve a infantinhr L IVR O II
sua filha. Consente el-rei na lda
da mâi, mas nâo da filha .,.,,,.,, tt
XIII _ 7â Capitulo IX - ... r43
XIV - Dâ el-rei forrna aos ifantoa do r X - Pesdorn-epns tcrr&s firnros clo
como hâo de escrever pera don- (loel. Vctrt rrovas ao gov<rntodor
tro e fora do reino....,.., Ét de sor iùchatloo cor'l)oclo A;És-
XV - Como procedia a guerra contra tolo S. l'ornd r43
os mouros de Africa em Azrmor - XI - Sucess<-rs<losu,stradostlLr capitâo
e Arzila Ëi c fortaleza tlt Maloca t48

3ro 3II

ti.
1i,
I
tt
..-,.Flsi$Èll!,
INDICE INDICE

Pâgina Pâgina

Capitulo XII - Cêrco da fiortaleza de pacém, Capltulo XX - Morte do concle almirante. Su-
que obrigou aos defensores a de- cessâo de D. Henrique de Me.
sempanir-la e darem-lhe fogo. nes es .......... r88
Guerra em Maluco contra el-iei
Almansor de Tidore r54 LIV R O III
D XIII - Relaçâo das naus que na entra-
da dêste ano despachou D. Duar- Capitulo I - Das naus que este ano partiram
te pera o reino, e das que no com carga da India pera o rei-
mesmo partiram do reino pera no; e das que do reino foram
a fndi a..................,,..........-.. r6r pera a fndia e o sucesso que
D XIV - Trata el-rei de seu casamento ûas e outras teveram r9r
com a ifante D. Caterina, irmâ II - Entra a rainha D. Caterina em
do ernperador. Manda comis_ Portugal. Espera-a el-rei na vila
sârios a Castela pera assentarem do Crato. Al se recebem e pas-
as condiçôes dêle r65 s am pera A l mei ri m ............... rg4
) XV - De algûas cousas que el-rei mais r III - Trata-se do casamento do empe-
fez neste terceiro ano de seu rador com a ifante D. Isabel.
reinado r69 Vem de Castela. embaixadores
r XVI - Corre el-rei de Fez a Arzila oor pera celebraçâo dos contratos e
algûas vezes. perigo em qu6 o desposdrio. Chama el-rei a côrtes
conde capitâo esteve com o al_ os estados do reino rgg
caide de Alcâcere t7a n IV - De algûas cous:rs que el-rei mais
D XVII - Como Bastiâo Nunes rendeu fez êste ano; e como recebeu a
com ûa caravela em que andava rosa que o Sumo Pontifice lhe
no Estreito a ûa nau de cos- mandou zos
sârios que o cometeu; e Vasco u V - Guera de Africa; capitâes: em
F'ernandes César tomou um trer- Tângere D, Duarte de Meneses;
gaûtim de mouros tl0 em Arzila Antônio da Silveira... 2o8
rt XVIII - Despacha o governador D. Duar. ,, VI - Como se vieram fazer cristâos
te ûa armada pera o Estroito dous mouros, um surdo e mudo,
do Mar Roxo; e êle parte segun. outro sâbio e valente cavâleiro.

D
da vez pera Ormu2.......,.,,.,.,.,., rtf E como foi morto Amelix em
XIX - Entra o conde atnirantc ottl Arzila; e cativo em Tângere o
Goa; passa a Cochim. I)ô.rr mouro A benai x .......,,.,,..,...,.. 2ra
conta do que fez de camlnho, D VII - De ûa entrada que Iez Diogo da
e navios que despachou contrt Silveira, de que se houve gran-
os mouros que Davegavam 0rp6. de presa z2o
ciariras; e dos muitos quô 1rof )) VIII - Guen'â da lndla. Parte o gover-
sua ordem e de D. Henriquo dr nador D. Anrique de Meneses
Meaeses foram logo caetlgndgl,,, fla nera C<rchim: desbarata de ca-

jr2
313
\

TNDICE TNDICE

PÉgina PÉgina

minho muitos paraus de mou_


Capitulo XVII - Nacimento do prlncipe D. Afon-
ros; destrue Panane; queima os
so; o algûas cousas notâveis que
navios do porto de Calicut..,... 223
Capitulo IX - Acomete o- governador el-rei fez êsto ano 273
o rio e XVIII Guerra dc Âfrica e sucessos de
povoa@o de Coulete, de que al- -
Arzila. Cativeiro de Lourenço
cança ferrrosa vi tdri a ...L...... zzB Pires dc'l'âvora. Morte de Alva-
, X-Recolhe-se o governador a Co- ro Pircs, scu irmâo 276
chim: despacha pero Mascare_
XIX - Do que mais sucedeu êste dia
nhas pera Malaca e D. Simâo
e como foi cativo Manuel da Sil-
de Meneses a correr a costa.
veira e se salvaram o adail e ou-
Dâ-se conta dos princlpios do tros, e o alcaide d'Alcâcere man-
cêrco da lortaleza de Calicut ... 233 dou desafiar ao capitâo ......... 282
Xl-Começa-se a bater a fortaleza. XX - Corre o capitâo Antônio da Sil-
Acode-lhe o governador com vâ-
veira a Serra de Benamarés: to-
rios socorros e ûltimamente com
ma fia aldea. Conta-se a varie-
sua Pessoa 238 dade de vida de Joâo da Silvei-
XII - Junta o governador conselho sô
ra, mourisco, e o miserâvel fim
bre o que deve tazer no socôrro
que teve 286
da fortaleza; manda pedir a XXI - Guerra da India. Parte o gover-
P. Joao de Lima seu parecer, nador de Cochim pera Cananor,
Resolve-se com êle em-desem-
,) i despois de despachar Eitor da
barcar e dar batalha ao Samo- . t' Silveira pera o Estreito e a ou-
rim
244 tros capitâes pera outras fartes;
XIII - Sai o governador em terra; dâ
morre em Cananor 2ga
batalha âo campo do Samorim
XXII - Abre-se a segunda sucessâo da
e, despois de o desbaratar, der-
governança; acha-se nela Pero
r i b a a f o r t a l e Z a. . . . . . . . . . , , . , , , . . . . . 25r Mascarenhas; por ser ausente
XIV - Guerra de Malaca. Sucessâo do
abre-se a terceira, que nomea
Pero Mascarenhas naquela capi- Lopo Vaz de Sampaio. Aceita o
tania e de D. Garcia Anriques
cargo e vai pelejar c'os paraus
na de Maluco 257 de Bacanor: fica voncodor o
XV - Das_naus que êste ano partiram
pârte J )era Goa .,,........,........, 2t)tl
da India pera o reino e do reino
X X III - P arte Lopo V l z 1x ' t;r ()rrtrttz r.
pera a fndia e sucesso quo taa
torna poro n ftrrl i n. l ,)rtl ettrl ootn
e outras teveram 265 provor ruJ forlnloztu ;roln rrovlr
XVI - Segundo recebinento da ifanto
quo l (rtn rk rr l { tttttnx , l l l l or rl n
D. Isabel, com â chegada de Silvolrrr lornn nlgiltll rrnrrr rlo
nova dispensa@o. Sua partida
Moc tr. l ' oro Mttl c rttt,ttl tttl , l ottt;t-
pera Castela e entrada ém Ba-
tl o o l l l ttk r rl n gov t' tttttrl ttr, v ai
dajo2,,.,.,,.. e68 rôl rrr. l l l nl l l o 3or

3r4
315

..'.
1r

l, TNDICE

I
I
pâgina
CoRRECçôESE ADTTAMENTOS
Capitulo XXIV _ Acomete pero Mascarenhas a ci_
dade de Bintâo. Ganhada e sa_
queada, pôe-lhe fogo. D. Garci:a
Anriques, capitâo de Maluco,
saquea e queima a cidade de
Ti dore ........ P âg. 4, l . 15 - l oi a-s r" uJ c s ur.
i 3o4
>, 25, l . z g - l ei ;l -s c : < Mendoç ar.
I
.t ) 35, l. S. O manuscrito neste ponto estâ ilegivel,

r
il por muito safado. A letra é por vezes, como
aqui, verdadeiramente microsc6pica.
,> 79, l. z8-zg. O passo nâo é claro. Ilerculano inter-
pretou: <de sua casa e dos infantes. Honrava
t os homens e as ajudas de custor. Fundamo-nos
n. nrimairn
^eclacçao, que parece ser a que
r

damos no texto.
)) ror. l . 26. N o ms . < bi s c onder.
)) ro9, 1. 3o. No ms. <bogarr.
,t r2r, l. 19. Note-se o jôgo de palawras: <<afeou o
caso e afiow as linguas dos murmuradoresl.
r 163, l. 24. Assim estâ no manuscrito: <tempo cal-
ma>, isto é, <tempo de calma>.
t rJJ, L 3r. Herculano interpretou bajoceta. A forma
do ms. nâo é inteiramente clara, porque tam-
bém se poderâ ler bajoleta, ou mesmo bayoleta,
tt 2r2, l. 2r - leia-se: <Alanceai-me>.
,, 224, l. z6 - leia-se: <3o$ooor.
, 253, l, zo - leia-se: <outrosr.
t 264, l . z- l ei a-s e: < ,c i os a> .
), 272, l. t5 -..1substitua-sc por: rtifantc I)' Iicrll:rndo
ao arc ebi s po l l o s (tt. I)a l l l rrtt:' r.

3ro j17