Você está na página 1de 13

TECNOLOGIAS DO IMAGINÁRIO

“Para os seres atentos, o mundo é um só.”


A Revolução Heráclito

contemporânea
em matéria de
comunicação A REVOLUÇÃO CONTEMPORÂNEA das comunica-
ções, da qual a emergência do ciberespaço
Texto traduzido por Juremir Machado da Silva é a manifestação mais marcante, é apenas
uma das dimensões de uma mutação antro-
pológica de grande amplitude. Em primeiro
lugar, tratarei de recolocar numa perspec-
tiva histórica de longa duração o desen-
volvimento da Internet e a digitalização da
informação. Em segundo lugar, tentarei ca-
racterizar a originalidade dos novos dispo-
sitivos de comunicação e abordarei alguns
dos problemas políticos, econômicos e so-
ciais resultantes da ascensão do ciberespa-
ço. Concluirei com uma meditação poética
sobre a página Web. Peço ao leitor para não
a tomar ao pé da letra, mas de considerá-la
como uma analogia capaz de indicar alguns
dos traços da cultura planetária em constru-
ção.
A humanidade reconecta-se consigo
mesma. O termo mundialização esconde
mais do que esclarece sobre esse fenômeno.
Por isso, precisamos fazer um esforço sem
precedentes de imaginação e de atualização
conceitual. Este curto texto só tem uma pre-
tensão: sensibilizar o leitor para a urgência
dessa tarefa.

Contextualização: breve história do


espaço humano (unidade origi-
nal, dispersão e primeiros agru-
pamentos neolíticos)

Do Homo erectus ao Homo sapiens, a


humanidade aparece em algum ponto da
África oriental, entre um milhão de anos e
300 mil anos antes de Jesus Cristo. As últi-
mas hipóteses dos paleontólogos indicam
Pierre Lévy que a faculdade de linguagem, conforme a
Filósofo e Engenheiro conhecemos hoje, só foi plenamente desen-
Universidade de Paris VIII volvida pelo Homo sapiens sapiens. A julgar

Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 9 • dezembro 1998 • semestral 37


pelas suas capacidades fonatórias, recons- venção da agricultura, da cidade, do Esta-
tituídas a partir do estudo de esqueletos, os do e da escrita. A revolução neolítica tem
homens de Neandertal quase não falavam, vários focos, sendo os três principais, por
ou apenas de maneira rudimentar. Antes ordem alfabética, o Oriente Próximo (Me-
de espalhar-se pela superfície do globo ter- sopotâmia e Egito), a China e as civilizações
restre e de misturar-se com outras espécies pré-colombianas do México e dos Andes.
de homens (ou de suplantá-las, segundo a Nessas zonas privilegiadas, a humanidade
hipótese adotada), o Homo sapiens sapiens sedentariza-se, concentra-se, multiplica-se,
parece realmente ter surgido na região dos acumula riquezas e registra signos. A partir
grandes lagos africanos, graças a um con- dos grandes focos iniciais, o sistema neolíti-
texto geográfico único e a condições ecoló- co expande-se e submete progressivamente
gicas muito específicas.1 toda a humanidade. Esse processo ainda
Nossos ancestrais mais diretos habita- não se completou, pois sobrevivem algu-
vam, portanto, todos a mesma zona geográ- mas, raras, sociedades de caçadores-coleto-
fica. Na origem, não passavam de alguns res.
milhares ou de algumas dezenas de milhar Um novo espaço-tempo estrutura-se,
de indivíduos. Ainda que não esteja total- o dos territórios, dos impérios e da histó-
mente demonstrado, é provável que falas- ria. Uma primeira tendência à conexão, à
sem a mesma língua, ou línguas próximas, reunião ou à comunicação intensa inverte,
estando em comunicação direta uns com os portanto, o movimento precedente de dis-
outros. persão. Entretanto esse processo permanece
A partir dessa origem insondável, em escala regional e apesar das relações
desde esse ponto de partida unitário quase comerciais (fortalecidas) de longa distância
mítico, a humanidade separa-se, dispersa- que conectam as regiões afastadas do mun-
se: afastamento geográfico, divergência de do antigo, a humanidade resta fragmenta-
línguas, separação progressiva das culturas, da.
invenção de mundos subjetivos e sociais
cada vez menos comensuráveis. O motor
dessa diáspora de várias dezenas de mi- A reconexão da humanidade e a
lhar de anos é relativamente simples: as revolução contemporânea das
sociedades de caçadores-coletores2 não são comunicações
sedentárias, ocupam um território extenso
e o desenvolvimento demográfico traduz- A terceira grande mutação da aven-
se quase automaticamente pela cisão do tura humana começa no fim do século
grupo inicial e a partida de um ou de vários XV e prossegue, acelerando-se, até hoje.
subgrupos rumo a outros horizontes. Vê-se, É cômodo datar essa nova fase a partir da
logo, que numa primeira fase da história “descoberta” da América por Cristóvão
humana — a mais longa — o crescimento Colombo em função da interconexão das
demográfico leva à separação, ao distancia- principais partes do mundo graças aos ha-
mento. Por vagas sucessivas, a humanidade bitantes ávidos, industriosos e missionários
ocupa todos os continentes, todos os meios, da península européia. Essa reconexão da
da savana à floresta equatorial, do Saara à humanidade é acompanhada de um certo
Groenlândia, do Velho Mundo às Américas, número de “revoluções” na demografia, na
da Mongólia às ilhas da Oceania. economia, na organização política, no habi-
A segunda grande “ruptura” da aven- tat e nas comunicações, os quais é prático
tura humana — que se estendeu por vários distinguir conceitualmente para facilitar
milênios — foi a revolução neolítica, ou seja, a exposição, mas que, em realidade, com-
a grande mutação técnica, social, cultural, põem as diferentes dimensões de um único
política e demográfica cristalizada na in- fenômeno de transformação.

38 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 9 • dezembro 1998 • semestral


No fim da Idade Média, e ainda na excepcional na aventura humana. Essa ex-
metade do século XX, a grande maioria dos plosão demográfica foi acompanhada pelo
seres humanos vivia no campo, quase todos desenvolvimento, também extraordinário,
trabalhando a terra e criando animais. A das migrações sazonais ou temporárias, dos
revolução industrial, que começou a pertur- deslocamentos de população e da mobili-
bar essa situação, aparece hoje como o iní- dade humana em geral. Não voltamos a ser
cio de um processo conduzindo à revolução nômades como os caçadores-coletores, mas
informacional contemporânea. Sempre exis- não somos mais os sedentários do neo-líti-
tirão, provavelmente, agricultores e ocu- co.
pações de transformação da matéria, mas, A freqüência crescente das nossas
inclusive nessas atividades, a parte prin- viagens, a eficiência e o custo decrescente
cipal tende a concentrar-se no tratamento dos nossos meios de transporte e de comu-
das informações e das mensagens: a gestão nicação, as turbulências de nossas vidas
dos signos. Com a automatização dessas familiares e profissionais, fazem-nos explo-
últimas operações graças à infor-mática, o rar progressivamente um terceiro estado,
trabalho humano tende a deslocar-se cada “móvel”, na sociedade urbana mundial.
vez mais para o “inautoma-tizável”, ou seja, Esta nova condição “móvel”, multiplicando
a criatividade, a iniciativa, a coordenação e os contatos, contribui para o reencontro e a
a relação. reconexão da humanidade consigo mesma.
Nossos pais eram camponeses; nossos De fato, uma vez o planeta explorado (no
filhos trabalharão em nebulosas empre- paleolítico), conquistado (neolítico), posto
sas dispostas em rede... ou pertencerão ao em relação (tempos modernos), o cresci-
terceiro mundo planetário dos pobres das mento demográfico não leva mais à separa-
grandes metrópoles. Nossos ancestrais mo- ção e ao afastamento, como no tempo dos
ravam na campanha, esse lugar bem dis- caçadores-coletores, mas, ao contrário, con-
tinto da cidade, enquanto nós e os nossos duz à intensificação dos contatos em escala
descendentes rondamos em zonas urbanas planetária.
quase sem exterior. Conectadas entre si O progresso das técnicas de transpor-
através de densas redes de transporte e de te e de comunicação é, ao mesmo tempo,
comunicação, unidas por referências econô- motor e manifestação desse relacionamento
micas, científicas e de mídia cada vez mais generalizado. Insisto com o paralelo entre
convergentes, essas zonas são atravessadas transportes e comunicações, pois o efeito de
pelos mesmos fluxos de turistas, de empre- influência mútua é constante, fundamental,
sários, de imigrantes, de mercadorias e de verificado em toda parte, enquanto a substi-
informações, irrigadas pelas mesmas redes tuição do transporte físico pela transmissão
bancárias, obcecadas pelas mesmas músi- de mensagens é apenas local e temporário.
cas, por revoltas equivalentes, semelhantes A navegação de longo curso e a imprensa
desabrigados. Nesse sentido, todas as gran- nascem juntas. O desenvolvimento dos
des cidades do planeta são como os diferen- correios estimula e utiliza a eficiência e a
tes bairros de uma só megalópole virtual. segurança das redes viárias. O telégrafo ex-
A revolução demográfica é uma di- pande-se ao mesmo tempo que as ferrovias.
mensão capital do processo de metamor- O automóvel e o telefone avançam em pa-
fose em curso. Ainda que o crescimento, ralelo. O rádio e a televisão são contempo-
sobretudo europeu, tenha sido forte ao râneos do desenvolvimento da aviação e da
longo dos séculos XVIII e XIX (vide a colo- exploração espacial. Os satélites lançados
nização do velho mundo e o povoamento pelos foguetes estão a serviço das comuni-
da América), a quintuplicação, ou mais, da cações. A aventura dos computadores e do
população somente no século XX represen- ciberespaço acompanha a banalização das
ta, sob todos os aspectos, um acontecimento viagens e do turismo, o desenvolvimento

Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 9 • dezembro 1998 • semestral 39


dos transportes aéreos, a extensão das auto- frase de Fernand Braudel: “Medida pela ve-
estradas e das linhas de trem de grande ve- locidade dos transportes da época, a Borgo-
locidade. O telefone móvel, o computador nha de Luís XI é várias centenas de vezes a
portátil, a conexão sem fio à Internet, em França inteira de hoje”.3 Subentende-se que,
breve generalizados, mostram que o cresci- pelo estudo dos fatos humanos, a conside-
mento da mobilidade física é indissociável ração do espaço prático é mais importante
do aperfeiçoamento das comunicações. de que a de um espaço físico ou geográfico
Um computador e uma conexão objetivo e imutável.
telefônica dão acesso a quase todas as in- Certo, se só considerarmos o espaço
formações do mundo, imediatamente ou físico, a distância entre Paris e Lyon era a
recorrendo a redes de pessoas capazes de mesma à época galo-romana que hoje. Mas
remeter a informação desejada. Essa pre- para o espaço prático, que nos interessa
sença virtual do todo em qualquer ponto quando desejamos compreender os fenôme-
encontra, talvez, o seu paralelo físico no nos culturais e sociais, a existência de linhas
fato de que um edifício qualquer de uma telefônicas e de uma ligação TGV [Trem de
cidade grande contém elementos materiais Grande Velocidade] põe Lyon a duas horas
vindos de todas as partes do mundo, con- de Paris e introduz uma diferença capital
centrando conhecimentos, competências, entre as proximidades antiga e contemporâ-
processos de cooperação, uma inteligência nea.
coletiva acumulada ao longo dos séculos, Cada dispositivo de transporte e de
com a participação, de alguma maneira, dos comunicação modifica o espaço prático, isto
mais diversos povos. é, as proximidades efetivas. Nessa perspec-
tiva, podemos dizer que, medida à velo-
cidade, ao custo e à dificuldade dos trans-
O espaço elástico portes e das comunicações da época, uma
nação do século XIX era mais extensa que o
Imaginemos que uma simulação in- planeta inteiro hoje. A recente constituição
formática nos permita visualizar a aventura de megaentidades político-econômicas em
humana, no globo terrestre, desde o seu escalas continentais, como a União Euro-
nascimento até a época atual. Observarí- péia, o NAFTA, na América do Norte, e o
amos o aparecimento dos homens numa Mercosul, na América do Sul, assim como
pequena zona do globo; a lenta, muito lenta os blocos esboçados na Ásia e na zona do
dispersão do período paleolítico; as primei- Pacífico, nada mais fazem do que indicar
ras grandes concentrações da fase neolítica; um processo incontornável.
depois, a extraordinária intensificação do Do ponto de vista da existência práti-
povoamento, dos transportes e das comu- ca, se multiplicarmos as quantidades de ho-
nicações característica dos últimos séculos, mens e de mercadorias em jogo pelos tem-
com a aceleração inusitada dos últimos 50 pos de transporte, as alfândegas internas
anos. que dividiam a França às vésperas da Revo-
Como na origem, mas segundo outra lução eram infinitamente menos restritivas
escala, a humanidade forma novamente que as fronteiras do mundo atual. Salien-
uma só sociedade. Este acontecimento, em temos ainda que o telefone, a televisão por
termos antropológicos, é tão recente que a satélite e Internet duplicam as condições de
maioria dos nossos conceitos, das nossas alcance material de uma proximidade cog-
formas culturais, das nossas instituições po- nitiva e afetiva não menos per-turbadora.
líticas — herdadas dos períodos anteriores Conflitos e poderes
— são radicalmente inadequados para dar
conta dele. Essa visão de mundo não conduz ne-
Meditemos um instante sobre uma cessariamente ao irenismo mas antes a uma

40 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 9 • dezembro 1998 • semestral


nova abordagem dos conflitos. De fato, equipe de Gorbatchev como uma condição
sempre se luta com os próprios vizinhos, sine qua non do progresso técnico, econômi-
ou, ao menos, com adversários ao alcan- co e social: abertura, transparência, glasnost.
ce de cada um. O inimigo hereditário, em Mas essa interconexão, base concreta dos
geral, faz fronteira. A guerra é, em grande processos de inteligência coletiva que en-
medida, um jogo relativo ao espaço e à pro- gendram a prosperidade econômica e social
ximidade, um trabalho topológico: cercar nas sociedades contemporâneas, chocava-se
o adversário, separá-lo das suas próprias frontalmente com o próprio funcionamento
forças, interromper ou embaralhar as suas do sistema burocrático.
comunicações, atingi-lo sem ser atingido, Generalizemos audaciosamente: quan-
etc. Que acontece quando quase todos os to mais um regime político, uma cultura,
pontos se tornam vizinhos uns dos outros uma forma econômica ou um estilo de orga-
por intermédio de satélites, CNN, Internet, nização tem afinidades com a intensificação
porta-aviões, bombardeiros e mísseis? As das interconexões, melhor ele sobreviverá e
duas guerras mundiais do século XX crista- resplandecerá no ambiente contemporâneo.
lizaram especialmente a redução do espaço Não é que todos seres humanos devam,
mundial. O terrorismo explora a ubiqüidade sem condições, “abrir-se” e dissolver as
e a mediatização num mundo interconecta- suas fronteiras para sobreviver. Pretendo
do. O crescimento das guerras civis eviden- apenas indicar que a melhor forma de man-
cia cada vez mais o fato de que, na nova es- ter e desenvolver uma coletividade não é
cala planetária, todas as guerras se tornam mais construir, manter ou ampliar frontei-
guerras civis. ras, mas alimentar a abundância e melhorar
Depois da segunda guerra mundial, o a qualidade das relações em seu próprio seio
conflito latente entre os dois blocos trans- bem como com outras coletividades. O po-
formou o planeta num tabuleiro em que der e a identidade de um grupo dependem
todas as casas eram diretamente acessíveis mais da qualidade e da intensidade da sua
e manipuláveis pelos dois principais ad- conexão consigo mesmo do que da sua re-
versários. Esse conflito de 40 anos terminou sistência em comunicar-se com o seu meio.
com o desabamento do império soviético, Para empregar uma metáfora zoológica,
cuja forma de organização era incompatível a interconexão dos neurônios sendo mais
com a multiplicação crescente dos contatos importante do que a espessura da pele, o
e com a desterritorialização característica da homem domina o rinoceronte.
época atual. A ascensão de modos de comu- Longe de tornar iguais as zonas geo-
nicação descentralizados e incon-troláveis políticas, a densidade das comunicações e
pelo poder político (telefone, fax, fotocopia- a redução do espaço prático tornam mais
doras, microcomputadores, impressoras, visíveis do que nunca as dominações e as
televisão por satélite, etc.) reduziu conside- disparidades. Bem se viu durante a guerra
ravelmente a influência deste sobre a socie- do Golfo o papel determinante do controle
dade. Basta lembrar que nos bons tempos dos transportes, da logística, das comuni-
de Stalin todo detentor de uma máquina cações, da coordenação e da propaganda
de escrever devia declarar-se à polícia, e os pelos Estados Unidos hoje dominantes. A
compradores de papel carbono eram objeto supremacia militar, o poder econômico e o
de vigilância feroz. brilho cultural estão diretamente relacio-
As pessoas conectadas à Internet (o nados com a capacidade de controlar os
samizdat planetário) são objeto da mesma fluxos de informação, de conhecimentos, de
inquietude paranóica do poder na China e dinheiro e de mercadorias.
em algumas outras ditaduras. Ora, o desen- O que é um centro? Um nó de fluxos,
volvimento das interconexões — internas lugar geográfico ou virtual de onde tudo
ou com o exterior — foi reconhecido pela está “próximo”, acessível. O que é uma

Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 9 • dezembro 1998 • semestral 41


periferia? Uma extremidade de rede. Zona interativas de fenômenos complexos) e per-
de interações de curto alcance e de baixa cepção (síntese de imagens especialmente a
densidade, sendo os contatos mais distantes partir de dados digitais). O domínio dessas
difíceis e custosos. O centro é densamen- tecnologias intelectuais dá uma vantagem
te interconectado consigo mesmo e com o considerável aos grupos e aos contextos hu-
mundo; a periferia, mal conectada consigo manas que as utilizam de maneira adequa-
mesma, e as suas ligações com o seu meio, da.
controladas pelo centro. Dizer que a Europa Ocorre, além disso, o favorecimento
foi, entre os séculos XVI e XIX, o centro de do desenvolvimento e da manutenção de
interconexão de todas as partes do mundo processos de inteligência coletiva, posto
ou afirmar que dominou e colonizou o pla- que, ao exteriorizar uma parte das nossas
neta, significa exprimir duas vezes a mesma operações cognitivas, as tecnologias intelec-
realidade com palavras diferentes. Interes- tuais digitais as tornam, em ampla medida,
so-me, já faz 15 anos, pela infor-mática e públicas e disponíveis.
pelas redes digitais, pois as suas técnicas de
comunicação e de tratamento da informa-
ção manifestam a densidade comunicacio- O ciberespaço e as suas implicações
nal máxima, ou a centralidade atual, e isso ao sociais
menos de duas maneiras complementares:
“exterior” (político-econômica) e “interior” A conexão da humanidade consigo mes-
(relacional e cogni-tiva). ma, cujos tremores e sobressaltos dolorosos
Na face externa, a multiplicação do experimentamos atualmente, não acarreta,
número de computadores pelo número portanto, automaticamente mais igualdade
de linhas telefônicas é o melhor índice da entre os homens.
centralidade de um lugar. Nesse sentido, Mas, de preferência a opor-se a um mo-
a ilha de Manhattan pesa mais do que a vimento tecno-social irreversível, de longa
África subsaariana. A interconexão dos duração e provavelmente inscrito no des-
computadores mede com muita precisão tino da espécie, convém acompanhá-lo para
um potencial de inteligência coletiva de alta orientá-lo no sentido mais favorável aos
densidade em tempo real. Em contraparti- grandes princípios humanistas de liberda-
da, encontramos tantos, ou mais, receptores de, de igualdade e de fraternidade.
de televisão nas favelas do México quanto O epicentro desse movimento de in-
nos bairros de negócio das grandes cidades terconexão de grande amplitude é hoje o
européias, americanas ou japonesas. Um aperfeiçoamento acelerado e o crescimento
aparelho de televisão é um receptor passi- exponencial do ciberespaço.5
vo, uma extremidade de rede, uma perife- Crescimento que diz respeito tanto ao
ria. Um computador é um instrumento de número de computadores e dos servidores
troca, de produção e de estocagem de infor- conectados quanto à diversidade qualita-
mações. Ao canalizar e entrelaçar múltiplos tiva e à quantidade dos grupos humanos e
fluxos, torna-se um centro virtual, instru- das informações acessíveis.
mento de poder. Significa que não devemos, sobretudo,
Na face interna, as redes de compu- nos polarizar a propósito do estado atual de
tadores carregam uma grande quantidade desenvolvimento da rede, mas considerar
de tecnologias intelectuais4 que aumentam e antes de tudo a tendência, claramente de
modificam a maioria das nossas capacida- rápida extensão, muito mais veloz do que a
des cognitivas: memória (banco de dados, de qualquer outro sistema de comunicação
hiperdocumentos), raciocínio (modelização anterior. Haverá, logo, cada vez menos “ex-
digital, inteligência artificial), capacidade de cluídos”. Mas o interesse final reside menos
representação mental (simulações gráficas na conexão física (condição necessária mas

42 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 9 • dezembro 1998 • semestral


não suficiente para participar dos novos Norte e no Japão, onde ninguém pensaria
processos de inteligência coletiva) do que em denunciá-lo como um sistema elitista.
no tipo de utilização adotado: passivo e uni- Mas esquecemos com facilidade que ainda
direcional ou dialógico e interativo? Eman- hoje somente um quarto da humanidade
cipador ou criador de novas dependências? possui um telefone. Ora, essa situação é
É sobre isso que os governos, os par- instável, pois os avanços tecnoló-gicos (sa-
tidos políticos, as associações e as boas télites de baixa altitude, procedimentos de
vontades podem e devem intervir. Entre- fabricação de pilhas, etc.) podem diminuir
gue a sua inércia histórica, o fenômeno de radicalmente no futuro o custo da conexão
interconexão em curso reforça naturalmen- telefônica nos países pobres.
te a centralidade — logo o poder — dos Não é difícil compreender que para
centros intelectuais, econômicos e políticos mim a extensão do ciberespaço deve ser ins-
já estabelecidos. Mas também é apropriado crita na duração longa da história das comuni-
- um não exclui o outro — por movimentos cações. Observemos as tendências de fundo,
sociais, redes de solidariedade, iniciativas o processo de transformação antropológica
de desenvolvimento, projetos pedagógicos, em curso, de preferência a adotar uma po-
formas mutantes de cooperação e de trocas larização sobre os dados de hoje, sobre os
de conhecimento, experiências de demo- conflitos locais ou os interesses corpo-rati-
cracia mais participativa. Por outro lado, o vos desta ou daquela categoria. A questão
tipo de poder favorecido pela extensão do da exclusão, ainda que séria, não deve ser-
ciberespaço não é, evidentemente, o poder vir de cobertura para dissimular a ampli-
hierárquico, burocrático ou territorial à an- tude das inevitáveis reviravoltas culturais,
tiga (vide a queda do bloco soviético evo- econômicas e políticas que nos esperam.
cada acima). Cada vez mais, será um poder Parece de fato que os que agitam com mais
nascido da capacidade de aprender e de força os espectros da exclusão, da desigual-
trabalhar de maneira cooperativa, relacio- dade econômica e social ou da dominação
nado com o grau de confiança e de reconhe- americana, não são os verdadeiros desfavo-
cimento recíprocos reinantes num contexto recidos das nossas sociedades, mas antes os
social. Centralidade indexada na densidade, que correm o risco de perder, no turbilhão
na rapidez e na diversidade qualitativa das da metamorfose, uma parcela de poder.
conexões e das trocas. A questão do poder
(ou do centro) e da exclusão (ou da perife-
ria) deve remeter-nos às nossas capacidades O ciberespaço
coletivas aqui e agora e não a atitudes de
ressentimento, de reivindicação ou de forte Já dissemos que o ciberespaço é hoje o
animosidade, pouco indicadas para resolver sistema com o desenvolvimento mais rápi-
qualquer tipo de problema. do de toda a história das técnicas de comu-
O paradoxo dos sistemas de comuni- nicação. Ao destronar a televisão, ele será
cação de vocação universal consiste em que provavelmente, desde o início do próximo
estes geram quase automaticamente exclu- século, o centro de gravidade da nova eco-
são. Por exemplo, a invenção do alfabeto logia das comunicações. Mas as razões de
criou, ao mesmo tempo, o analfabetismo, o um interesse mais próximo não são apenas
qual não existia, obviamente, nas culturas quantitativas. O ciberespaço encarna um
puramente orais. Era isso uma razão para dispositivo de comunicação qualitativa-
ser “contra” o alfabeto ou, ao contrário, mente original que se deve bem distinguir
para abrir escolas? Ao surgir, o telefone era das outras formas de comunicação de su-
um instrumento de comunicação privilégio porte técnico.
de uma ínfima minoria da população. Não é A imprensa, a edição, o rádio e a te-
mais o caso hoje na Europa, na América do levisão funcionam segundo um esquema

Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 9 • dezembro 1998 • semestral 43


em estrela, ou “um para todos”. Um centro de inteligência coletiva. Justamente para
emissor envia mensagens na direção de re- isso foram concebidos por visionários ame-
ceptores passivos e sobretudo isolados uns ricanos de primeira hora (como D. Engel-
dos outros. Certo, o dispositivo de mídia bart, J. R. Licklider, T. Nelson) e encarnados
cria comunidade, pois um grande número em redes e em programas pela comunidade
de pessoas recebe as mesmas mensagens e científica, a primeira utilizadora.
partilha, em conseqüência, certo contexto. O World Wide Web foi concebido por
Mas não há reciprocidade nem interação uma equipe dirigida por Tim Berners-Lee,
(ao menos no interior do dispositivo) e o no CERN, em Genebra, para melhorar a
contexto é imposto pelos centros emissores. pesquisa cooperativa entre os físicos. Esse
O correio e o telefone desenham um sistema permite interconectar através de
esquema em rede, ponto a ponto, “um para vínculos hipertextos todos os documentos di-
um”, no qual, ao contrário da irradiação de gitalizados do planeta e de torná-los acessí-
mídia, as mensagens podem ser ende-reça- veis com alguns cliques a partir de qualquer
das com precisão e sobretudo trocadas, com ponto do Globo. Trata-se, provavelmente,
reciprocidade. Mas, em oposição ao dispo- da maior revolução na história da escrita
sitivo estelar, o esquema em rede não cria desde a invenção da imprensa. Salientemos
comunidade, ou “público”, pois a partilha que a explosão do Web não foi nem prevista
de um contexto em grande escala é, no caso, nem desejada pelas grandes multinacionais
muito difícil. da informática, das telecomunicações ou da
O ciberespaço combina as vantagens multimídia, mas se expandiu como um ras-
dos dois sistemas anteriores. De fato, per- tro de pólvora entre os cibernautas. Todas
mite, ao mesmo tempo, a reciprocidade na as pessoas e grupos realmente desejosos de
comunicação e a partilha de um contexto. publicar um texto, uma música ou imagens
Trata-se de comunicação conforme um dis- no Word Wide Web podem fazê-lo, tornando
positivo “todos para todos”. Numa confe- as informações disponíveis para um vasto
rência eletrônica, por exemplo, uma pessoa público internacional. Cada um pode assim
envia uma mensagem a dezenas ou cente- contribuir para a confecção do imenso hi-
nas de outras. Entre estas, algumas respon- perdo-cumento mundial. Aqui ainda, mas
dem. Depois, outras respondem à resposta, numa escala mais vasta do que nos fóruns
etc. Como todos as mensagens são regis-tra- de discussão, o processo de leitura-redação
das, sedimenta-se assim progressivamente coletiva no Web assemelha-se à comunica-
uma memória, um contexto do grupo de ção “de todos para todos”.
discussão. Cabe salientar que essa memória,
esse contexto comum, em vez de vir de um
centro emissor Todo-Poderoso, emerge da Desintermediação e irrepresentabi-
interação entre os participantes. lidade
Ora, o ciberespaço abriga milhares
de grupos de discussão (os news groups). O A comunicação interativa e coletiva é
conjunto desses fóruns eletrônicos consti- a principal atração do ciberespaço. Eviden-
tui a paisagem movediça das competências temente pode-se utilizá-lo somente para
e das paixões, permitindo assim atingir relações ponto a ponto ou que reproduzam
outras pessoas, não com base no nome, no o modo mídia, isto é, emitindo informa-
endereço geográfico ou na filiação insti-tu- ções a partir de um centro. O ciberespaço
cional, mas segundo um mapa semântico é particularmente difícil de caracterizar de
ou subjetivo dos centros de interesse. O maneira simples por ser mais um metamé-
endereçamento por centro de interesse e a dium do que um médium. “Contém” a in-
comunicação todos-todos são condições fa- formática a distância, o telefone, o correio,
voráveis ao desenvolvimento de processos a imprensa, a edição de livros, de música,

44 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 9 • dezembro 1998 • semestral


de vídeos, de jogos interativos, o rádio, a dos documentos é assinada, podendo-se, ge-
televisão, os mundos virtuais, além dos dis- ralmente, identificar com facilidade o grupo
positivos interativos e coletivos já assinala- de imprensa, a universidade ou a empresa
dos e destinados a continuar a inventar-se que coloca uma informação à disposição do
e a desenvolver-se nos próximos anos. Ora, público. Numa boa lógica comu-nicacional,
os antigos midia, inseridos no novo meio, quanto mais há concentração ou monopólio
mudam de forma. Por exemplo, a televisão dos meios de informação, mais há risco que
integrada ao ciberespaço não funcionará se estabeleça uma verdade oficial “às or-
mais segundo o princípio da programação dens”.
por horário, mas propondo programas de O pluralismo não é um fator de agra-
geometria variável, explorando as possi- vação dos riscos de manipulação, de desin-
bilidades de interatividade. Além disso, o formação ou de mentira, mas, ao contrário,
mesmo espaço de comunicação acolhendo uma condição para que vozes minoritárias,
os produtos das grandes indústrias de pro- opositoras ou divergentes possam ser escu-
grama conterá também vídeos propostos por tadas. Enfim, no plano filosófico, a menos
amadores, jornalistas alternativos, atores que se aceitem os argumentos de autorida-
políticos, sociais e culturais diversos. de, uma notícia não é “verdadeira” apenas
Até agora, o espaço público de comu- por ter sido anunciada na televisão, um sa-
nicação era controlado através de interme- ber não é garantido apenas por ser ensinado
diários institucionais que preenchiam uma na universidade. Ainda que isso desagrade
função de filtragem e de difusão entre os os crédulos e os preguiçosos, a verdade não
autores e os consumidores de informação: é dada pronta (por quem?), mas está cons-
estações de televisão, de rádio, jornais, edi- tantemente em jogo em processos abertos
toras, gravadoras, escolas, etc. Ora, o sur- e coletivos de pesquisa, de construção e
gimento do ciberespaço cria uma situação de crítica. Ora, o pluralismo intrínseco e a
de desintermediação, cujas implicações polí- interconexão do ciberespaço (cuja primeira
ticas e culturais ainda não terminamos de utilizadora, deve-se lembrar, foi a comuni-
avaliar. Quase todo mundo pode publicar dade científica) favorecem justamente tais
um texto sem passar por uma editora nem processos.
pela redação de um jornal. O mesmo vale Pretende-se que os cientistas são
para todos os tipos de mensagens possíveis pessoas dotadas de curiosidade e de es-
e imagináveis (programas de infor-mática, pírito crítico e que podem “ler tudo” ou
jogos, música, filmes, etc.). Passa-se assim “ver tudo”, mas que o comum dos mor-
de uma situação de seleção a priori das tais necessita de uma informação simples,
mensagens atingindo o público a uma nova pré-digerida e sem contradição? Respondo
situação na qual o cibernauta pode escolher que esses argumentos foram, a cada vez,
num conjunto mundial muito mais amplo empregados contra a democracia, contra
e variado, não triado pelos intermediários o sufrágio universal, contra a liberdade
tradicionais. de imprensa, em favor da censura, e que
Isso levanta imediatamente ques- consistem finalmente em sempre tratar os
tões relativas à pertinência e à garantia de cidadãos como menores; mais do que isso,
autenticidade das informações. Examine- como menores isolados. Ora, para o projeto
mos inicialmente o problema da verdade. de civilização que — dando prosseguimen-
Deplora-se, por vezes, que qualquer um to ao Iluminismo — exploraria as melhores
podendo publicar o que bem entender não potencialidades do ciberespaço, trata-se
há mais, no ciberespaço, garantia quanto à precisamente de transformar os cidadãos
qualidade da informação. Para responder a em inteligências associadas.
esse argumento, deve-se observar, em prin- Retomemos o tema da pertinência. Se
cípio, que na Internet a quase totalidade colocamos em cena um indivíduo isolado,

Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 9 • dezembro 1998 • semestral 45


perdido no imenso banco de dados desor- para o Conselho Europeu sobre a Cibercul-
denado da Internet, incapaz de encontrar o tura,6 universal sem totalidade.
que procura, então temos a sensação de que O imenso hiperdocumento planetário
a crescente abundância das informações e a do Web integrará progressivamente a tota-
ausência de organização global, assim como lidade das obras do espírito. Se a isso acres-
de triagem prévia, são antes um inconve- centamos o correio eletrônico e os grupos
niente do que um progresso. Se, em contra- de discussão, a interconexão mundial dos
partida, colocamos em cena um internauta computadores está tomando sentido sob os
que já tenha identificado os sites Web mais nossos olhos: ela materializa (de forma par-
pertinentes para ele, informado a respeito cial mas significativa) o contexto vivo, mu-
de documentos que poderiam interessá-lo tante, em inflação contínua da comunicação
por amigos, colegas e correspondentes da humana. Vale dizer, da cultura.
publicação sobre o Web, conectado a di- Observemos este processo quase
versas conferências eletrônicas nas quais embriogênico: a aparição de um hiperdo-
são debatidos os seus centros favoritos de cumento produzido e lido virtualmente por
interesse, capaz de utilizar as diferentes téc- todos, a emergência de um metatexto que
nicas de pesquisa disponíveis, então pare- contém potencialmente todas as mensagens
ce-nos evidente que a sua situação é muito e as entrelaça. Esse objeto muito estranho
melhor depois do que antes do aparecimento que aparece no horizonte antropológico
do ciberespaço. manifesta a mensagem plural e não tota-
Num dos casos, apresenta-se uma re- lizável que a humanidade envia para si
lação direta entre o indivíduo e o oceano de mesma, o banho semântico que ela secreta e
informação, sem a intermediação tradicional. que a alimenta. Uma mensagem, uma obra,
No outro caso, mostra-se o funcionamento da nunca passa de uma interface entre seres
nova intermediação, a das capilaridades re- humanos, um modo objetivo de pôr subjeti-
lacionais, dos processos de inteligência co- vidades em relação. Ora, o Web opera, pela
letiva e da familiaridade com os territórios primeira vez na escala da espécie, e num
em expansão do hipertexto ou do hiperdo- modo imanente, uma mediação potencial
cumento planetário. Os antigos tipos de in- entre o conjunto das subjetividades.
termediação eram massivos e grosseiros: o O Estado, as religiões, os midia, outras
jornalista, por exemplo, deve corresponder formas culturais, sociais, até mesmo eco-
ao diapasão do maior denominador comum nômicas, pretenderam representar coletivos
dos seus supostos leitores. Os novos pro- humanos, dar-lhes uma forma. Mas todas
cessos de intermediação, em contrapartida, essas tentativas de representação — a mais
resultam dos próprios indivíduos e corres- caricatural sendo a que a televisão tenta dar
pondem de maneira fina, em função de cer- da sociedade — são parciais e redutoras.
to trabalho, às necessidades e aos interesses Surpreende que Internet seja irrepresentá-
destes. A essência da cibercultura está tal- vel e que o Web seja oceânico e sem forma.
vez nessa passagem entre seleções, hierar- Talvez seja assim porque encarnam a pri-
quias e sínteses por toda parte diferentes e meira materialização não redutora da cultu-
em constante mutação conforme as pessoas, ra, ou seja, do contexto ou do hipercontexto
os grupos e as circunstâncias. A universali- mediador. Torna-se visível hoje que a totali-
dade não passa mais pela uniformidade da dade dinâmica da sociedade é irrepresentá-
mensagem, do sentido ou do contexto, mas vel. Ora, só há virtualmente uma sociedade.
pela inter-conexão planetária entre uma Podemos agora indicar que a relação da
multiplicidade flutuante de mensagens, de humanidade consigo mesma é intotalizável...
sentidos, de microcontextos e pelo potencial ainda mais que ela é efetiva... e precisamen-
de contato entre os seres humanos que as te porque está sendo tecida. Web é a prova
produzem. A isso chamei, no meu relatório disso.

46 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 9 • dezembro 1998 • semestral


siste. Poder-se-ia mostrar que assistimos à
renovação espetacular da cultura literária
A página, o camponês e o pagão ou literal. O tratamento de texto, o correio
eletrônico, os fóruns de discussão na In-
Para terminar, meditemos sobre as pá- ternet, os bancos de dados e, sobretudo,
ginas — a de papel e a página Web — para os hipertextos e os hiperdocumentos que
ilustrar vários dos grandes temas da revolu- constituem especialmente o World Wide
ção contemporânea das comunicações. Web e os CD-Rom nos fornecem surpreen-
Salientemos inicialmente que a pala- dentes ilustrações disso. O texto, portanto,
vra “página” vem do latim pagus, que signi- multiplica-se, complexifica-se, explora-se
fica o campo do camponês. Essa etimo-logia cada vez melhor com novos instrumentos
deve ser levada a sério, pois a escrita, como de pesquisa e de navegação. Mas o espelho
lembrei no começo deste artigo, coroou a do pagus, a página ainda pesada do barro
revolução neolítica. A fixação dos signos é mesopotâmico, sempre aderente à terra do
análoga à sedentarização dos homens. O neolítico, essa página muito antiga se apaga
espaço dominado da urbanização e do ca- lentamente sob a enchente informa-cional.
dastro corresponde à disposição regular das Soltos, os seus signos vão ao encontro da
cifras nos documentos de contabilidade, às onda digital.
listas e aos gráficos dos primeiros testemu- Em vez de um texto localizado, fixado
nhos escritos. As bibliotecas são silos de sig- num suporte de celulose, no lugar de um
nos. A primeira página é de argila petrifica- pequeno território com um autor proprietá-
da como o tijolo das casas e das muralhas, rio, com começo e fim formando fronteiras,
como os campos irrigados onde crescem a o do World Wide Web confronta-nos com
cevada, o trigo selvagem e o arroz. A pági- documentos dinâmicos, abertos, ubíquos,
na imita o território, com o seu proprietário, indissociáveis de um corpus praticamente
o autor, as suas fronteiras ou os seus limites infinito. Enquanto a página de celulose fi-
— as margens. As linhas assemelham-se aos gura um território semiótico, a que aparece
sulcos, e o escriba semeia aí (com o calam na tela é uma unidade de fluxos, submetida
ou a cunha que copia a enxada ou o arado) às limitações da vazão nas redes. Mesmo
signos cuneiformes que esperarão a colheita se nas suas bibliografias ou notas ela se re-
da leitura. fere a artigos ou livros, a página material é
Ao tempo diferido da semeadura e da fisicamente fechada. A virtual, em contra-
colheita, responde a armazenagem dos ca- partida, conecta-nos tecnicamente e de ime-
racteres para a decifração e a interpretação. diato, através de vínculos hipertextos, com
A muito antiga página consona com a civi- páginas de outros documentos, dispersas
lização agrária e territorial que hoje expira. por todo o planeta, que remetem indefini-
Ela abriu um tempo literário e cumulativo, damente a outras páginas, a outras gotas do
a história, que bifurca e diverge neste fim mesmo oceano mundial de signos flutuan-
de milênio numa multiplicidade de linhas tes.
quebradas que se entremeiam e retornam A página Web é um elemento, uma
sob a influência do direto dos midia, do parte do corpus inapreensível da totalidade
tempo real do ciberespaço e das retroações dos documentos do World Wide Web. Nesse
fulgurantes da nova sociedade planetária. sentido, não se restringe à função de regis-
A escrita estática faz eco a todo um uni- tro e de restituição da informação. Preenche
verso antropológico cujo fim entrevemos também uma missão de orientação, pois re-
enquanto a nova escrita, dinâmica, fluida, mete seletivamente a outras páginas através
interconectada, sinaliza para quem deseje dos vínculos com o resto da rede, aos quais
estudá-la os caracteres do novo mundo. se tem acesso com um simples clique de
A página transforma-se; o texto sub- mouse. Bem-concebida, uma página Web

Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 9 • dezembro 1998 • semestral 47


é uma encruzilhada, uma bifurcação, um ritorializada; página plural que cresce e
instrumento de seleção ou de navegação, muda conforme o processo de leitura e de
um agente estruturador, um microfiltro do redação distribuídos em massa, simultâne-
gigantesco rio na cheia do World Wide Web. os, paralelos. De novo, recorremos ao poder
Cada elemento dessa bola que não se pode de sugestão da etimologia para compreen-
circunscrever é ao mesmo tempo um bloco der o significado dessa reunião de todos
de informação e um instrumento de nave- os textos num só hipertexto. O homem do
gação, uma parte do estoque e um ponto de pagus ou da página, o camponês, está ape-
vista original sobre este. Numa face, a pági- gado às suas tradições como ao seu campo.
na Web forma uma gotícula de um todo em É um conservador. Assim, quando o cristia-
fuga; na outra face, propõe um filtro singu- nismo expandiu-se no império romano, sob
lar do oceano da informação. a influência da diáspora cristã do Oriente
No Web, tudo está no mesmo plano. Próximo, primeiro se desenvolveu nas ci-
Como dizia um consultor americano a um dades. Depois, quando se tornou a religião
dirigente da IBM, uma criança encontra-se oficial do império, os habitantes das cida-
aí em situação de igualdade com uma mul- des, acessíveis ao controle do poder, foram
tinacional. Entretanto tudo é diferenciado. convertidos com mais facilidade.
Não existe hierarquia absoluta; cada site Os camponeses (pagani, em latim)
é um agente de seleção, de precisão ou de permaneceram, durante muito tempo, pa-
hierarquização parcial. Longe de ser uma gãos, pagani. O pagão é um camponês, um
massa amorfa, o Web articula uma mul- homem do pagus. Cada pedaço de campo,
ti-plicidade de pontos de vista. Mas essa cada fonte, cada bosque tinha o seu Deus
articulação se opera transversalmente, em ameaçado pelo monoteísmo. O território
rizoma, sem ponto de vista de Deus, sem neolítico estava dividido, partilhado, entre
unificação envolvente. Território movediço, soberanias locais, partições da divindade.
paradoxal, tecido de inúmeros mapas, todos Ora, as páginas dos livros ou dos artigos
diferentes, do próprio território. Qualquer não têm cada uma delas os seus Deuses
um terá a sua página, o seu mapa, o seu site, minúsculos, seus autores, suas referências,
o seu ou os seus pontos de vista. Cada um seus editores, seus universos de sentido
se tornará autor, proprietário de uma parce- inclinados ao fechamento? E o que o Web
la do ciberespaço. Entretanto essas páginas, anuncia e realiza progressivamente não é
sites e mapas dialogam, interconectam-se e a unificação de todos os textos num só hi-
confluem através de canais móveis e labi- pertexto, uma só página? A fusão de todos
rínticos. O autor ou o proprietário coletivo os autores num só autor coletivo, múltiplo
toma corpo. e contraditório? Só há um Deus (mas há
Como se trata de um espaço não terri- mais de uma coisa a dizer!). O ciber-espaço
torial, a superfície não é aí um recurso raro. aponta para uma espécie de mono-teísmo
Os que ocupam muito espaço na Internet imanente na esfera remodelada da comuni-
nada tiram dos outros. Sempre há mais cação e da cultura. Paradoxo: esse fenôme-
lugar. Haverá espaço para todo o mundo, no origina-se especialmente no fato de que
todas as culturas, todas as singularidades, cada um pode doravante ter a sua página.
ilimitadamente. Neste final de século, cons- Virtualmente não há mais separação entre
titui-se uma Terra semiótica sem império os proprietários e os outros. Todo mundo
possível, aberta a todos os ventos do senti- terá o seu campo e todos campos confluem.
do, geografia movediça, próxima dos para- Eis aqui o paganismo generalizado até ao
doxos, que envolve e doravante governa os monoteísmo, o universal sem totalidade .
territórios neolíticos.
Nesse sentido, só há um texto, o texto
humano. Só há uma página, mas dester- Notas

48 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 9 • dezembro 1998 • semestral


1 Ver Joseph Reichholf, L’Émergence de l’homme, Paris, Flam-
marion, 1991. O autor baseia-se especialmente nas mais
recentes pesquisas em genética das populações.

2 “Quando um grupo de caçadores atinge um certo de-


senvolvimento, fragmenta-se em vários subgrupos que
partem em busca de novos territórios de caça. Não esque-
çamos que a razão de 50 a 100 quilômetros por geração,
não é preciso mais de 15 mil anos para ir da África oriental
ao Extremo Oriente.” Yves Coppens, Le Singe, l’Afrique et
l’homme, Paris, Fayard, 1983, p. 125.

3 Fernand Braudel, Civilisation matérielle, économie et capitalis-


me, Paris, Armand Collin, 1979, t. 3, p. 340.

4 Sobre o conceito de tecnologia intelectual, peço licença para


remeter a meu próprio livro, Les technologies de l’intelligence,
l’avenir da la pensée à l’ère informatique, Paris, La Découverte,
1990.

5 Definamos o ciberespaço como o meio de comunicação


aberto pela interconexão mundial dos computadores.

6 Cibercultura, Paris, Odile Jacob, 1997.

Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 9 • dezembro 1998 • semestral 49