Você está na página 1de 37

FUNDAÇÃO ZOO-BOTÂNICA DE BELO HORIZONTE

CADERNO DO TRATADOR DE ANIMAIS


DA FUNDAÇÃO ZOO-BOTÂNICA DE BELO HORIZONTE
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE

FERNANDO DAMATA PIMENTEL

SECRETARIA MUNICIPAL DE POLÍTICAS URBANAS

MURILO DE CAMPOS VALADARES

FUNDAÇÃO ZOO-BOTÂNICA DE BELO HORIZONTE

AV. OTACÍLIO NEGRÃO DE LIMA, 8000 – PAMPULHA – BH/MG

PRESIDENTE: EVANDRO XAVIER GOMES

DIRETORES: CARLYLE MENDES COELHO, ERIVERTO ANTÔNIO DOS REIS, JORGE MARTINS
ESPESCHIT e LUÍS MÁRCIO RIBEIRO VIANA.

REVISÃO TÉCNICA: CARLYLE MENDES COELHO, ELISA MARIA VAZ MAGNI e HUMBERTO DO
ESPÍRITO SANTO MELLO.

REVISÃO TEXTUAL E PROJETO GRÁFICO: BRENO NUNES.

Esta publicação só pode ser reproduzida com prévia autorização da instituição organizadora da obra.

DEZEMBRO/2006
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

APRESENTAÇÃO

O conhecimento, o treinamento e o aprimoramento das diversas funções relacionadas à rotina de um


Jardim Zoológico são de fundamental importância para proporcionar condições adequadas à
sobrevivência e bem estar dos animais, além da segurança para os visitantes, para os funcionários e
para o manejo das espécies.

Este caderno apresenta as informações básicas e orientações quanto à biologia das espécies silvestres
mantidas no Zoológico e suas técnicas de manejo e contenção, aos aspectos nutricionais e demais
procedimentos básicos de segurança relacionados à possíveis ocorrências de fuga de animais.

Esperamos que estas informações, dentre outras tantas necessárias, venham contribuir para o contínuo
aperfeiçoamento e sucesso das atividades de um Jardim Zoológico, bem como do profissional tratador
de animais.

Departamento de Jardim Zoológico

Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte


Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 04

RÉPTEIS 05

AVES 12

MAMÍFEROS 18

TÉCNICAS DE MANIPULAÇÃO, CONTENÇÃO E IMOBILIZAÇÃO 24

EMERGÊNCIAS COM OS ANIMAIS – FUGAS 28

RECAPTURA 29

NUTRIÇÃO 30

AS PLANTAS NOS RECINTOS DE UM JARDIM ZOOLÓGICO 34

O TRABALHO DO TRATADOR E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL 35


Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

INTRODUÇÃO

Diante da perda progressiva dos ambientes naturais e devido à crescente necessidade mundial de
preservar a fauna existente, nos vemos na situação de criar centros especializados na proteção,
manutenção e reprodução das espécies, principalmente aquelas ameaçadas de extinção. Hoje em dia,
estas funções são desenvolvidas em parques, zoológicos, aquários e centros especializados na
preservação destas espécies.

Além da preservação, a pesquisa, a educação e o lazer são justificativas importantes para se manter
animais silvestres em cativeiro.

TRATADORES DE ANIMAIS EM UM ZOOLÓGICO

Assim como qualquer funcionário de um zoológico, o tratador de animais deve ter em mente a
importância de um Zoológico para o melhor desempenho de suas funções.

O tratador possui importância fundamental dentro de um Zoológico pois, durante o seu trabalho,
possui um contato direto e diário com os animais que estão sob os seus cuidados. Esse contato permite
um rico aprendizado sobre a vida de cada animal e das plantas que crescem no seu recinto. Ao
alimentar, medicar e manejar o animal, assim como ao limpar e cuidar da vegetação dos recintos, o
tratador é capaz de melhorar sua prática, descobrir novas formas de trabalhar e conhecer mais sobre
cada animal. Para isso é preciso “conhecer a natureza do bicho”, ou seja, estar atento a cada coisa que
o animal faz e como ele se comporta todo os dias.

A observação, o registro e a organização das informações sobre o comportamento e as condições de


vida de cada animal, podem permitir ao tratador descobrir fatos novos que, algumas vezes, ainda nem
foram estudados pela ciência. Com o apoio da equipe técnica do Zoológico, ele pode participar do
levantamento e da organização de dados que, somados aos estudos científicos, podem ser uma
ferramenta muito importante para a educação ambiental, para a conservação das espécies e da
natureza.

4
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

RÉPTEIS

Os primeiros vertebrados a tornarem-se independentes da água o suficiente para viverem toda a sua
vida fora dela foram os répteis, que estão divididos em cinco grupos:

• Quelônios (tartaruga, cágado, jabuti);

• Crocodilianos (jacaré, crocodilo);

• Lagartos (iguana, teú, calango);

• Serpentes ou cobras (sucuri, jibóia, cascavél, jararaca, caninana);

• Tuatara (semelhante a um lagarto).

A conquista definitiva do ambiente terrestre se deu graças à aquisição de algumas características


importantes. Para quem vive na terra, o mais importante para a sobrevivência é a economia de água
para se evitar a desidratação. Os répteis conseguiram não só evitar a perda de água, mas também se
protegerem de predadores graças à cobertura de seu corpo, constituída de escamas. Além disso, sua
pele possui poucas glândulas (existem umas poucas que produzem substâncias de defesa, de
reconhecimento de indivíduos, ou de atração). A troca de pele acontece de tempos em tempos para
permitir o crescimento do animal. Ela pode ser solta em pedaços, como nos lagartos, ou solta inteira,
como nas serpentes.

Mas a mais importante “novidade” apresentada por estes animais está relacionada à sua reprodução: o
ovo com casca e a fecundação interna. Uma glândula localizada na parte inferior do canal por onde
passa o embrião (oviduto) secreta uma casca que o envolve totalmente e é suficientemente porosa e
densa para proteger o filhote, permitir que respire e impedir a desidratação. Como o espermatozóide
não consegue penetrar na casca, a fecundação precisa ocorrer dentro do corpo da fêmea, antes de sua
produção. Desta forma, os répteis copulam.

TIPOS DE REPRODUÇÃO EM RÉPTEIS

Os animais realizam a postura de ovos com casca rígida que após um certo período,
OVÍPAROS: que varia de espécie para espécie, o filhote nasce ou sai do ovo.
ex: jacarés, quelônios, algumas cobras e lagartos

Os filhotes nascem direto, sem a necessidade ou presença do ovo.


VIVÍPAROS ou OVOVIVÍPAROS:
ex: sucuri, salamanta, cascavel, jararaca.

Os répteis, assim como os anfíbios, são animais ectotérmicos, comumente chamados de “sangue frio”.
Isso quer dizer que estes animais conseguem o calor para aquecer seus corpos de fontes externas, ou
seja, do ambiente. Quando necessitam aquecer o corpo, os répteis expõem-se ao sol ou ficam sobre
uma pedra ou solo aquecidos. Caso queiram resfriar-se, procuram uma sombra. Os répteis conseguem
manter a temperatura do seu corpo constante em torno de 34ºC durante grande parte do dia, variando
sua posição em relação ao sol e à sombra (isto é chamado de termorregulação). As aves e mamíferos
são diferentes dos répteis por serem animais de “sangue quente” (endotérmicos), isto é, sua temperatura
do corpo é controlada por dentro e deve se manter sempre a mesma . Assim, sua fonte de calor vem
dos alimentos que comem. Os répteis não precisam de muito alimento para conseguirem calor.

5
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

OUTRAS CARACTERÍSTICAS DOS RÉPTEIS

Quelônios: seus representantes são os cágados, jabutis e tartarugas e se diferenciam de acordo com o
local onde vivem: tartarugas são as espécies marinhas, cágados são espécies de água doce (rios, e
lagos) e os jabutis, terrestres. Segundo alguns autores, a diferenciação entre tartarugas e cágados está
na forma como estes animais recolhem a cabeça, sendo os cágados aqueles que recolhem a cabeça
lateralmente ao corpo e as tartarugas recolhem perpendicularmente.

Possuem uma proteção rígida do corpo dividida em duas partes: carapaça (a parte de cima) e plastrão
(a parte de baixo). As tartarugas e os cágados possuem carapaças baixas que oferecem pequena
resistência ao deslocamento na água. Nos jabutis, a forma do plastrão é côncava nos machos e reta
nas fêmeas, o que facilita a cópula.

Todas as espécies põem ovos. As fêmeas utilizam as patas posteriores para escavar um ninho na areia
ou no solo, onde fazem uma postura que varia de quatro ou cinco ovos para as espécies pequenas e
até mais de 100 ovos para as maiores tartarugas marinhas. O período de incubação pode variar de 28
até 420 dias (a média fica em torno de 40 a 60 dias).

Não possuem dentes, mas sim uma estrutura chamada de bico córneo.

Crocodilianos: incluem as espécies de jacarés, crocodilos e gaviais.

Uma característica comum a todos é que eles fornecem alguma proteção ao ninho. A guarda do ninho
é geralmente feita pela fêmea. Existem dois tipos básicos de ninhos: os formados por um amontoado de
vegetação e outros escavados no solo.

Os jacarés podem ser distintos dos crocodilos pelo focinho mais largo e arredondado, pela pele mais
lisa e pelo fato de quando fecha a boca, os dentes inferiores não aparecem. Já o crocodilo, com a
boca fechada aparecem os dentes superiores e também o 4º dente inferior. Ambos possuem muita força
para fechar a boca, mas pouca para abrí-la. O gavial apresenta o focinho muito fino e longo.
Apresentam uma grande boca, dotada de dentes cônicos, que são trocados com freqüência.

Eles nadam depressa, movidos pela longa cauda achatada lateralmente (como um remo). Quando
param, ficam longo tempo com o corpo mergulhado, só com as narinas e os olhos fora d’água.

Os jacarés não atacam com facilidade, a menos que se sintam ameaçados. Geralmente, são lentos e
quietos, sendo mais ágeis dentro d’água, para onde sempre procuram levar suas presas.

Os crocodilos são os maiores répteis da atualidade, podendo atingir sete metros de comprimento e
pesar até 900Kg. São desajeitados fora da água, mas nadam muito bem e são peritos em flutuar, para
não assustar a sua presa.

No Brasil existem apenas seis espécies de jacarés: o jacaré-açú, o jacaré-do-Pantanal, o jacaré-de-


papo-amarelo, o jacaretinga e duas espécies de jacaré-coroa. Não existem crocodilos e gaviais em vida
livre no Brasil.

Lagartos: as cerca de 3300 espécies de lagartos variam em tamanho, desde formas muito pequenas,
com apenas três centímetros de comprimento, até indivíduos com cerca de três metros.

Muitos lagartos podem correr sobre o chão com grande rapidez. Algumas espécies usam apenas os
membros posteriores, quando estão correndo. Muitos podem subir em superfícies verticais (lagartixas).
Existem também lagartos sem os membros externos. Estes lagartos possuem aparência de serpente e
vivem debaixo da terra. Ex.: cobra-de-vidro.

6
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

Sua língua, bem como a das cobras, serve para sentir os cheiros, razão pela qual ficam sempre
colocando-a para fora da boca. Existe um órgão dentro da boca, chamado de Órgão de Jacobson,
que serve para indicar os tipos de cheiro. Assim as serpentes e lagartos colocam a língua neste órgão e
conseguem saber o cheiro das coisas.

A maioria das espécies é ovípara, sendo algumas vivíparas.

Serpentes: As serpentes caracterizam-se pelo formato do corpo alongado e cilíndrico, em decorrência


da ausência de membros. Apresentam a pele seca, coberta por escamas que distribuem-se numa única
fileira no ventre.

Das aproximadamente 3000 espécies existentes no mundo, apenas 10% são venenosas (peçonhentas).
No Brasil, existem 256 espécies, sendo 33 venenosas. Todas as serpentes possuem um par de glândulas
de veneno na cabeça, por trás dos olhos, porém só as que apresentam presas, que são dentes
modificados capazes de injetar o veneno, é que são consideradas peçonhentas. As outras, por não
conseguirem injetar o veneno, são tratadas como não-venenosas.

Algumas espécies são ovíparas, sendo que a incubação dura aproximadamente 90 dias; outras são
ovovivíparas e o número médio de filhotes é de 15.

As serpentes são venenosas e utilizam do veneno principalmente para a digestão do alimento, captura
de alimento (presa) e defesa. Apenas algumas espécies são peçonhentas, cuja principal característica
está no dente modificado para inocular o veneno, também conhecido como glifo ou presa. Além das
serpentes, apenas duas espécies de lagartos do México e Estados Unidos são venenosos.

OBSERVAÇÃO: Em caso de acidente por picada de serpente, o tratamento único é aplicação do soro
específico. Este soro é produzido com o próprio veneno das serpentes, principalmente pelo Instituto
Butantan (São Paulo) e Fundação Ezequiel Dias (Belo Horizonte) que, portanto, necessitam destes
animais vivos, mantendo-os em cativeiro para a extração periódica do veneno, o qual também é
utilizado em pesquisas médicas dadas as suas inúmeras propriedades.

ALIMENTAÇÃO

Quando se trata de animais em cativeiro, deve-se observar a qualidade, estocagem e preparação dos
alimentos a serem dados aos animais. Os alimentos devem ser preparados de maneira higiênica,
lavados e retiradas as partes podres, para evitar contaminação. Quando picados, deve-se observar o
tamanho dos pedaços, adaptados ao tamanho da boca de cada animal. Presas vivas ou abatidas
devem estar em perfeito estado de saúde, evitando-se propagação de alguma doença indesejada.

Quelônios: são bem exigentes quanto às necessidades nutricionais. Quando mal nutridos durante sua
fase jovem, podem crescer com deformidades na carapaça.

Sua alimentação varia entre carne de peixe, minhocas, filhotes de camundongos, larvas de insetos (para
espécies carnívoras) além de frutas e verduras variadas. Uma boa ração pode substituir em parte alguns
alimentos.

O quelônios podem ser alimentados diariamente.

Crocodilianos: os jovens aceitam presas vivas como filhotes de camundongos, larvas de insetos,
pequenos peixes e carne de boi aos pedaços. Os adultos recebem também carne de boi ou frango aos
pedaços, acrescidos de carbonato de cálcio.

7
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

O alimento deve ser colocado à beira dos tanques ou lançados na boca dos animais, uma vez por
senama.

Lagartos: são de modo geral insetívoros, porém lagartos de grande porte como teiús se adaptam bem a
uma alimentação preparada: ovos de galinha, banana, mamão e carne de boi. Iguanas são insetívoras
na fase jovem e quando adultas, alimentam-se de frutas picadas e vegetais.

Os lagartos devem receber o alimento no mínimo três vezes por semana.

Serpentes: não apresentam muitos problemas quanto à alimentação e nutrição, uma vez que são
predadoras e aceitam como alimento presas vivas ou abatidas. A qualidade de seu alimento varia de
animais de sangue quente como roedores e aves a pequenos insetos, caramujos e até outras cobras. A
coral-verdadeira e a mussurana, por exemplo, têm sua preferência alimentar quase que exclusiva por
jararacas e outras serpentes peçonhentas, ajudando assim, a controlar as populações destas serpentes.

As serpentes são capazes de ingerir animais muito maiores que o tamanho normal de suas bocas, pois
os ossos maxilares (ossos da boca) são unidos entre si por ligamentos muito flexíveis. Não mastigam a
presa, engolindo-a por inteiro. As que possuem dentes para injetar veneno utilizam este mecanismo
para a captura do alimento. Outras capturam suas presas com o próprio corpo, enrolando-se nelas e
comprimindo-as, até asfixiá-las.

As serpentes devem receber o alimento no mínino uma vez por semana, aumentando para três vezes
por semana quando filhotes.

RECINTOS

Os recintos, para uma grande variedade de répteis, devem apresentar acomodações que devam tentar
suprir suas necessidades ambientais, comportamentais e nutricionais. Para tal, devem ser observadas
temperatura, luminosidade, umidade, alimentação, água e outros. Deve-se considerar a altura do
recinto para répteis que tem o hábito de escalar. Uma grande área é mais importante para animais
terrestres e maiores, como os jabutis, alguns lagartos e jacarés. Espécies que vivem em árvores
necessitam de galhos para escalarem. Animais aquáticos vão precisar de lagos com profundidades
variadas e uma área para descansarem ao sol. Esconderijos devem ser improvisados.

O tamanho dos recintos deve estar de acordo com o tamanho do corpo do animal, apesar de algumas
serpentes não necessitarem de um terrário muito grande, como a jibóia. Mas é importante terem uma
área para poderem se exercitar. Em regra geral, os recintos devem ter espaço suficiente e ser
ambientado o bastante que permita seus ocupantes moverem-se livremente e exibir um comportamento
normal (Ex.: escalar, entocar e reproduzir).

A ambientação de recintos de exposição deve ser o mais natural possível, com plantas, areia, terra,
musgos, pedras e galhos. Por outro lado, pode-se manter os animais em terrários o mais limpo possível,
com piso forrado por jornal e acessórios fáceis de lavar. Para répteis que costumam se enterrar ou
entocar não se pode usar deste procedimento.

Apesar dos répteis tolerarem variações de temperatura, existe uma temperatura ótima para suas funções
corporais. Deve-se fornecer aquecedores, que podem variar de simples resistências a pedras aquecidas,
ventiladores, lâmpadas e outros.

A luminosidade é muito importante, pois estimula a atividade e o apetite, fornece raios ultravioleta,
importante para a produção de vitaminas, além de fazer parte dos processos de reprodução.

O suprimento de água é muito importante. Além de manter o ambiente úmido, é usada para beber e
banhar, muitas vezes facilitando a troca de pele.

8
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

COMPORTAMENTO

Os répteis são animais que dependem da temperatura ambiente para a regulação de sua temperatura.
Geralmente, são solitários mas podem viver agregados em áreas onde o ambiente é apropriado. São
reservados e geralmente fogem ou se escondem porque não gostam de interagir com homens ou outros
animais.

Muitas pessoas não gostam de répteis, especialmente cobras. Alguns répteis podem causar lesões
corporais: crocodilo, jacarés, grandes pítons, sucuris ou cobras peçonhentas.

Devido ao fato de serem animais pouco ativos, se a fuga é detectada imediatamente, a localização do
animal é mais fácil, pois permanecem nas proximidades. No entanto, se este tempo for longo, a
localização de algumas espécies como cobras se torna bastante difícil.

Muitos répteis podem se tornar agressivos quando alguém se aproxima e muitos podem atacar o
homem. Crocodilianos podem ser extremamente perigosos devido ao seu tamanho, força e velocidade.
Mesmo pequenos animais podem causar ferimentos se não forem contidos adeqüadamente.

A recaptura de pequenos animais é muito difícil, especialmente cobras, porque se escondem facilmente
na área.

CONTENÇÃO FÍSICA

Tartarugas

A contenção física de quelônios não apresenta dificuldade, não sendo necessários equipamentos
adicionais, além das mãos. Entretanto, devem ser usadas luvas caso o animal tenha o costume de
morder.

O transporte deve ser feito em caixas de madeira ou plásticas.

Crocodilianos

Jacarés e crocodilos devem ser manuseados com muito cuidado. Eles podem se mover com extrema
rapidez. Além de sua forte mordida, eles podem atacar também com a cauda. A cauda é forte o
suficiente para derrubar e aturdir um homem.

Os crocodilianos devem ser contidos sempre por uma equipe que deverá ser coordenada por uma
pessoa habilitada e experiente, utilizando-se o cambão associado com cordas.

1. O primeiro passo é laçar o pescoço do animal com um ou dois cambões, dependendo do tamanho
do animal. Aguardar com segurança, pois o animal tende a rodar sobre ele na tentativa de se
soltar. Atenção ao segurar o cabo do cambão: não apoie sobre sua perna, virilha ou barriga; utilize
a força do braço. Utilize cordas para segurar o animal amarrando as pernas, se necessário.

2. Com outro cambão, feche a boca do animal.

3. Agarre rapidamente o animal, pulando sobre ele e firmando a boca, já fechada pelo cambão.

4. Com uma tira de borracha, corda ou até mesmo uma fita adesiva, amarre a boca do animal.

5. Tampe seus olhos com um pedaço de pano.

6. Amarre as patas com corda fina, unindo os membros anteriores (mãos) e os membros posteriores
(pés).

9
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

O transporte pode ser feito manualmente, ou em caixas de madeira. Os crocodilianos podem ser
condicionados a entrar em caixas de transporte. Caso não haja necessidade de contenção física do
animal, ele pode ser conduzido ao recinto, com o cuidado de não deixá-lo próximo a um corpo de
água (lago, córrego ou rio), aonde provavelmente o animal irá tentar se refugiar.

Lagartos

Grandes lagartos podem ser contidos inicialmente com o cambão ou com o puçá, seguido pela
contenção manual com ou sem luvas. Sua cauda deve ser imobilizada com cuidado pois, além de dar
“chicotadas”, é muito frágil, podendo se quebrar e soltar. Esse é um mecanismo de defesa do animal e,
com o tempo, a cauda cresce novamente. Os pequenos lagartos devem ser gentilmente contidos com
as mãos, sem fazer muita pressão para não machucá-los.

Serpentes

Existe uma grande variedade de serpentes, tornando-se necessário saber um pouco sobre sua biologia
para podermos utilizar os equipamentos e a proteção adequados. Deve-se saber se é peçonhenta ou
não, como inocula o veneno e o seu comportamento.

Na captura para transporte, exames, tratamentos e outros, devem ser usados o gancho ou a pinça de
contenção. O tratador deve conter a serpente colocando o gancho na metade do corpo do animal,
levantando-o com agilidade e muita atenção. A pinça de contenção deve ser utilizada com muito
cuidado para que não machuque o animal e lesione sua coluna. Tubos plásticos também são
equipamentos bons para contenção para exames e qualquer intervenção, onde a serpente é induzida a
entrar no tubo.

As caixas de contenção e transporte devem possuir pequenos orifícios para ventilação e serem bem
fechadas.

Alguns acidentes podem ocorrer durante a captura de um réptil, tanto para o Tratador de Animais
quanto para o próprio animal. Os quadros seguintes resumem o que pode acontecer:

Reações possíveis por parte


Sacudir com

de um RÉPTIL ao ser
Bater com a

Estrangular

Envenenar

manuseado pelo
Arranhar

violência

Defecar
Morder

TRATADOR DE
Atacar
cauda

ANIMAIS
ANIMAIS
Cágados √ √ √
Tartarugas √ √ √
Jabutis
Lagartos √ √ √ √ √
Serpentes peçonhentas √ √ √ √
Serpentes constritoras √ √ √ √
Outras serpentes √ √ √
Jacarés √ √ √ √
Crocodilo √ √ √ √

10
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

Acidentes que podem acontecer

Lesão na coluna

Perder os dentes
Perder a cauda

Quebrar ossos
com o RÉPTIL ao ser
manipulado pelo

Escorregar
TRATADOR DE

Arranhar
Sufocar
ANIMAIS

Cair
ANIMAIS

Cágados √ √
Tartarugas √ √
Jabutis √ √
Lagartos √ √ √
Serpentes peçonhentas √ √ √ √
Serpentes constritoras √ √ √ √
Outras serpentes √ √ √ √
Jacarés √ √ √ √
Crocodilo √ √ √ √

11
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

AVES

As aves compreendem o maior grupo de vertebrados terrestres do planeta, existindo cerca de 9680
espécies conhecidas. O Brasil é o terceiro país em número de aves com1492 espécies.

As aves caracterizam-se, principalmente, pela presença de penas, bico e pelo fato de serem ovíparas
(procriarem através da postura de ovos de tamanhos e cores variadas).

Além de serem fundamentais para o vôo, as penas desempenham diversas funções importantes, tais
como proteção contra frio, atrito, camuflagem contra predadores e até mesmo atração do sexo oposto
para reprodução. Sendo assim, as aves gastam boa parte do dia cuidando da limpeza e manutenção
das penas.

Diversas aves no Brasil e no mundo encontram-se ameaçadas de extinção. A crescente destruição do


habitat tem levado várias espécies ao declínio populacional. Mediante este contexto, é nossa
responsabilidade proteger e manter em cativeiro aves que hoje são raras em vida livre para que no
futuro possam ser devolvidas aos seus locais de origem como conseqüência de programas de
reprodução.

Alguns fatores são fundamentais para a manutenção e a criação de aves em cativeiro. Manejo,
alojamento, alimentação e condições reprodutivas são pontos extremamente importantes a serem
observados para se obter sucesso.

COMPORTAMENTO

Ema, avestruz, emu e casuar – estas aves geralmente não são agressivas com exceção do casuar e da
avestruz que podem ser imprevisíveis, agressivos e até mesmo perigosos. Qualquer uma destas aves
pode causar traumas severos ao homem se não for manejada apropriadamente. Nunca se deve ficar
em frente a estas aves que podem dar violentos chutes. O casuar possui uma grande, fina e forte unha
em um dedo do pé que é usada como forma de defesa, podendo causar severos traumatismos.

Estas aves podem ser coagidas a moverem-se para frente se andarmos devagar e silenciosamente ao
lado delas. Alguns podem seguir uma pessoa com uma cesta de comida. Estes animais podem também
ser contidos por pessoas experientes.

Pássaros ou outras aves – devido a grande diversidade deste grupo, é praticamente impossível
determinar como agir em caso de fuga. Os procedimentos irão variar de acordo com a espécie. A
tendência inicial da ave é se afastar do local da fuga. Animais territoriais que escapam geralmente
tendem a ficar nas proximidades de seu recinto. Animais que vivem em bando também tendem a
retornar para próximo de seus companheiros. Para efetuar a recaptura destas espécies recomenda-se o
uso de outro animal para atrair o que fugiu, armadilhas com isca e o uso de redes.

CONTENÇÃO FÍSICA

O manejo adequado compreende todos os fatores que determinam a sobrevivência da ave em


cativeiro, desde a sua contenção até a distribuição de poleiros no recinto, tipos de ninhos fornecidos,
espécies colocadas em um mesmo viveiro, etc. Cada grupo ou espécie de ave exige diferentes
estratégias de manejo, variando de acordo com a biologia e o comportamento destes grupos
individualizados. Assim, para conseguirmos a manutenção e a reprodução de determinada espécie em

12
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

cativeiro, devemos conhecer ao máximo o seu comportamento na natureza para podermos atender suas
exigências básicas no ambiente de cativeiro.

A contenção física deve ser realizada com extremo cuidado. Caso contrário, é comum haver
traumatismos envolvendo as pernas, pés e asas, muitas vezes levando a ave à morte.

Na contenção física de praticamente todas as espécies de aves deve-se usar alguns materiais básicos
como luvas, puçás e caixas. Deve-se tomar cuidado para escolher o puçá correto pois este pode
machucar a ave durante a sua captura. O ideal é que seja leve, com aro flexível, de arame galvanizado
e com malha resistente. Os puçás com aro de ferro e pano, ou sombrite, devem ser utilizados apenas
para aves maiores, tais como mutuns, pavões, aracuãs, faisões, urubus, etc.

No grupo dos Psittaciformes - papagaios, araras, cacatuas, lóris, etc., a captura deve ser feita com o
puçá e o uso de luvas de couro. Deve-se segurar a cabeça da ave com cuidado para não machucar os
olhos e ao mesmo tempo evitar que o forte bico fique livre de modo a ferir quem estiver imobilizando a
ave.

No grupo dos Falconiformes:


Falconiformes gavião real, gavião caboclo, urubu-rei, a captura é feita com o puçá.
Nesse caso, o uso de luvas de couro também é fundamental. Porém nesse grupo o maior perigo está
nas garras. Assim, deve-se ter cuidado com as patas e unhas da ave segurando as pernas juntas para
imobilizá-la com segurança.

Já nas aves ratitas (que não voam), como os avestruzes, emas e casuares é conveniente ter um corredor
de tela dentro do próprio recinto para as manobras de contenção. Elas devem ser guiadas para este
corredor e após a imobilização, coloca-se um puçá escuro na cabeça da ave. Este puçá escuro ofusca-
lhe a visão, permitindo que ela seja guiada sem maiores problemas.

Para maior segurança da pessoa que estiver contendo a ave é conveniente o uso de perneiras de couro
e joelheiras, pois as aves ratitas se defendem dando coices para a frente podendo atingir os membros
inferiores de quem a segura. Vale ressaltar que o casuar é uma ave extremamente agressiva e defende-
se com chutes sendo que nas patas ele possui uma unha maior que as outra que mede,
aproximadamente, 10 cm, bastante afiada que pode perfurar e cortar facilmente.

Visando evitar traumatismos, deve-se ter como regra sempre procurar imobilizar as asas e pernas das
aves. Nunca persistir na tentativa de segurar algum membro (asa ou perna) ou até mesmo a ave,
quando esta fizer movimentos bruscos que levem a perda da imobilização da parte envolvida. Nesse
caso é melhor soltar a ave e tentar a imobilização novamente, pois é nessa hora que ocorre a maior
parte dos traumatismos.

13
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

Acidentes que podem acontecer

Deslocar coluna
com a AVE ao ser

Quebrar pernas

Danificar penas

Quebrar garras

Quebrar o bico

Quebrar ossos
Quebrar asas
manipulada pelo
TRATADOR DE
ANIMAIS

ANIMAIS
Papagaios; Araras; Lóris; Jandaias; Tiribas;
√ √ √ √ √ √
Curicas; Periquitos.
Avestruz; Ema; Casuar. √ √ √ √
Garças; Socós; Grous; Curicacas; Guarás; Coró-
√ √ √ √ √ √
corós.
Marrecos; Patos; Gansos; Cisnes. √ √ √ √ √
Mutuns; Pavão; Vulturinas; Faisão. √ √ √ √ √
Perdiz; Jaós; Inhambús. √ √ √ √
Gaviões √ √ √ √ √
Corujas √ √ √ √ √
Tucanos; Pica paus; Araçaris. √ √ √ √ √
Jacamins; Saracuras. √ √ √ √
Quero-quero √ √ √ √
Martim pescador √ √ √ √ √ √
Flamingos √ √ √ √ √ √
Turacos √ √ √ √ √
Pássaros em geral √ √ √ √ √ √

Reações possíveis da AVE ao ser


Ataque com garras

Ataque como bico

Investida contra a

Manipulada pelo
TRATADOR DE
ANIMAIS
Arranhar

e unhas

pessoa
Coice

ANIMAIS

Papagaios; Araras; Lóris; Jandaias; Tiribas;


√ √
Curicas; Periquitos.
Avestruz; Ema; Casuar. √ √ √
Garças; Socós; Grous; Curicacas; Guarás; Coró-

corós.
Marrecos; Patos; Gansos; Cisnes. √ √
Mutuns; Pavão; Vulturinas; Faisão. √
Perdiz; Jaós; Inhambús. √
Gaviões √ √ √ √
Corujas √ √ √
Tucanos; Pica paus; Araçaris. √ √
Jacamins; Saracuras. √
Quero-quero √ √
Martim pescador √ √

14
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

RECINTOS

Para que as aves se sintam à vontade e seguras, é necessário que elas tenham um recinto apropriado,
atendendo às necessidades de cada espécie. Devemos levar em consideração sua envergadura, seus
hábitos alimentares, tipos de poleiros, necessidade de lagos e, principalmente, as condições de higiene.
Precisamos considerar também a compatibilidade de cada espécie. Existem espécies de aves que não
devem compartilhar o mesmo viveiro, como exemplo os gaviões, que precisam de um viveiro só para
eles. Já os pássaros ou outras aves de vôo geralmente podem conviver harmonicamente com inhambus
e pequenos marrecos.

RESUMO DAS CONDIÇÕES APROPRIADAS PARA AS AVES

Os viveiros devem ter coberta, no mínimo, 1/3 de sua área, para proteger as aves contra as intempéries
(chuvas intensas, ventos fortes e sol intenso ).

O piso pode ser de terra, areia, pavimentado, com vegetação rasteira do tipo grama ou arbustiva, com
moitas de capim ou ser telado (no caso de viveiros aéreos).

Devem ter uma base para evitar a entrada de animais invasores como camundongos, gambás, etc.
Recomenda-se uma fundação de, no mínimo, 80cm a 90cm; a mureta de proteção ao redor com até
50cm e rufo nas extremidades.

A tela dos viveiros deve ser de fio resistente e malha de no mínimo 3/4” para evitar a entrada de aves
invasoras como pardais, rolinhas, anus, etc.

A ambientação adequada é necessária para propiciar às aves um ambiente mais ameno e saudável.
Pode-se usar árvores frutíferas de pequeno porte como goiabeiras, pitangueiras, romãzeiras, ou
pequenos arbustos ornamentais como Hibiscus sp, Malvaviscus sp, Murraya exotica. A ambientação
natural, além de ser agradável às aves, permite-lhes o uso de poleiros de várias dimensões (ótimo
recurso para o exercício dos pés e mesmo para quebrar a rotina do cativeiro).

Na ausência da vegetação, pode-se usar poleiros de ripas ou galhos secos, nas dimensões mais
apropriadas para os pés das aves. Os vegetais e/ou poleiros devem ser colocados de forma espaçada
para não impedir o exercício de vôo das aves.

Em casos de aves que não permitem que a vegetação cresça nos viveiros, tais como os psitacídeos
(papagaios e araras), a vegetação deve ser colocada fora dos recintos.

ALIMENTAÇÃO

Uma boa alimentação é a condição básica para se manter uma ave saudável e, conseqüentemente,
apta a se reproduzir no cativeiro. A alimentação é específica para os determinados grupos de aves, mas
o fator higiene é decisivo para todos os grupos, sendo o principal fator responsável por mortes e
doenças das aves.

É fundamental a limpeza diária de comedouros e bebedouros. Estes devem ser higienizados, no mínimo,
duas vezes por semana com cloro. Alimentos de rápida degradação devem ser retirados no fim da tarde
para evitar seu pernoite nos comedouros. Muitas aves adoecem e morrem em conseqüência de
alimentos com presença de fungos ou fermentados; as frutas se estragam com muita facilidade,
principalmente no calor, e as rações podem ser contaminadas com fungos quando houver excesso de
umidade.

15
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

Os comedouros devem ficar protegidos contra chuva e sol e em uma posição que facilite o acesso das
aves. Porém, é importante que sejam colocados de maneira tal que impeçam o acesso de ratos e
camundongos durante a noite. Lembre-se que esses invasores só serão atraídos para aos viveiros se
houver alimentos disponível para eles.

A alimentação deve ser rigorosamente balanceada para fornecer todos os nutrientes exigidos pela
espécie. Em alguns casos é importante que seja variada para evitar a rotina e servir também como um
enriquecimento para as aves.

O alimento deve ser fornecido, no mínimo, três vezes ao dia para alguns grupos, como exemplo os
psittaciformes (papagaios, araras, cacatuas, lóris, etc). Para os demais grupos (exceto os noturnos), deve
ser fornecido duas vezes ao dia visando a renovação de alimentos degradáveis que, se permanecerem
expostos por todo o dia, tornam-se prejudiciais às aves.

A alimentação das aves varia de acordo com a biologia da espécie. Existem grupos que são
classificados como:

Carnívoros alimentam-se de carne: urubus, gaviões, corujas, etc.


Insetívoros alimentam-se de insetos: andorinhas, bem-te-vi, etc.
Frugívoros alimentam-se de frutos: sanhaços, saíras, gaturamo, etc.
Granívoros alimentam-se de grãos e sementes: curiós, rolinhas, tico-tico, etc.
Nectarívoros alimentam-se de néctar das flores: lóris, beija-flor, cambacica.
Piscívoros alimentam-se de peixes: biguás, martim-pescador, etc.
Onívoros alimentam-se de matéria animal e vegetal: ema, avestruz, gralha, tucano, etc.

REPRODUÇÃO

A primeira condição para se ter sucesso reprodutivo é manter juntos indivíduos de sexo oposto. Porém,
nem todas as aves apresentam dimorfismo sexual (diferença visível entre os sexos). Como exemplo de
aves com dimorfismo sexual podemos citar o marreco-mandarim (Aix galericulata), faisão-dourado
(Crysolophus pictus) e mutum-de-penacho (Crax fasciolata). Os papagaios e araras são exemplos de
aves sem dimorfismo sexual.

Quando este dimorfismo não é evidente, temos que usar métodos de sexagem como o cirúrgico, a
análise cromossômica, a análise hormonal ou a análise de DNA.

A análise cirúrgica é feita através da laparoscopia, que consiste em uma incisão abaixo da asa
esquerda da ave introduzindo um aparelho chamado laparoscópio, que possibilita a visualização das
gônadas, o ovário ou testículo.

A análise cromossômica ou cariotipagem é a coleta de um material existente no interior das penas


jovens. Após a confecção de uma lâmina com este material, observa-se no microscópio os
cromossomos XW (fêmea) ou WW (macho). A análise hormonal é feita através das fezes das aves. A
análise do DNA é feita através do sangue. Em alguns casos a separação de sexos pode ser feita pela
observação das diferenças comportamentais existentes entre macho e fêmea. Ex. jacamins (Psophia
creptans) e mutum-cavalo (Mitu tuberosa). Após a separação dos casais, temos que observar diversos
fatores que influenciam na capacidade reprodutiva. È necessário oferecer ninhos, alimentação,
ambientação de viveiros adequados e fundamentalmente, tranqüilidade.

Em muitos casos os pais chocam seus ovos e criam seus filhotes normalmente. Esta é a melhor forma de
criação, pois as aves crescem de forma mais natural. Algumas aves, por questões de insegurança no
ambiente, ninhos inadequados ou muita interferência no viveiro, abandonam seus ninhos ou apenas
16
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

colocam seus ovos em locais aleatórios. Quando isso acontece é necessário a incubação artificial. Este
procedimento também é feito nos casos em que se deseja aumentar a capacidade de procriação de
determinadas espécies. Assim, o criador retira os ovos das fêmeas evitando que elas os choquem. Tal
fato faz com que a ave coloque mais ovos por postura provocando geralmente mais de uma postura
por ano.

A incubação artificial consiste em uso de chocadeiras artificiais. As chocadeiras são caixas equipadas
com uma fonte de calor, uma fonte de umidade e de um ventilador. Algumas chocadeiras têm um
mecanismo de viragem dos ovos, outras não, sendo então necessária a viragem manual dos ovos, no
mínimo três vezes ao dia. Para o acompanhamento da incubação dos ovos é aconselhável elaborar um
fichário com o início da incubação, o número de ovos eclodidos, número de ovos não eclodidos, etc. É
necessário marcar os ovos, anotando a data em que foram colocados na chocadeira visando seu futuro
deslocamento para uma eclodideira três dias antes da data prevista do nascimento.

Para cada espécie ou grupo de aves existe um período de incubação específico:

Na incubação artificial, os filhotes nascidos são mantidos em criadeiras, sendo que o tratamento varia
de acordo com cada espécie. A criação artificial requer cuidados mais rigorosos como: higiene, coleta
e estocagem correta dos ovos e, principalmente o manuseio adequado dos filhotes. Estes devem ser
aquecidos e, de acordo com a espécie, devem receber vacinas e coccidiostáticos (medicamento
utilizado para prevenir ou combater doenças bacterianas).

17
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

MAMÍFEROS

Ocupam a posição mais alta na hierarquia zoológica, graças ao desenvolvimento de sua capacidade
mental e ao fato de terem alcançado um maior grau de independência em relação ao ambiente.

Os mamíferos caracterizam-se principalmente pela presença de pêlos, glândulas mamárias e por serem
endotérmicos, ou seja, possuem a temperatura do corpo constante. Além disso, a presença de dentes
diferenciados e especializados, o desenvolvimento do cérebro, pele com numerosas glândulas que
liberam líquidos e odores específicos, são também características desta classe.

COMPORTAMENTO

Grandes Carnívoros:
Carnívoros

Felinos e Ursos – grandes carnívoros são solitários e territoriais, com exceção dos leões que são sociais.
A maioria são ágeis trepadores. Ursos são curiosos e cavam muito bem. Felinos tendem a ser mais
reservados e noturnos. Ambos devem ser considerados perigosos, especialmente se acuados.

Os carnívoros podem ficar desorientados durante um evento de fuga. Eles irão fugir se perceberem
algum perigo e atacam quando não existe nenhuma rota de escape. A tendência inicial é ficar próximo
ao ambiente que lhe é familiar. Eles primeiro irão procurar um lugar seguro e escondido e só então
iniciarão com muita cautela a exploração do ambiente. Felinos, usualmente, começam a procurar por
comida à noite. Ursos começam a explorar o ambiente quase imediatamente e durante o dia. Todos os
carnívoros são perigosos quando se aproximam do homem, especialmente quando não existe uma rota
de fuga. Estas espécies podem retornar aos lugares que lhe são familiares principalmente se estas áreas
estiverem quietas, livres de pessoas e com algum tipo de isca.

Apenas pessoas treinadas, com experiência, e de posse de equipamento adequado deverão estar
envolvidas no processo de recaptura destes animais. A imobilização farmacológica é considerada a
melhor opção para se recapturar estes animais. Estas espécies são muito susceptíveis ao barulho e a
presença humana. Portanto, todo o processo deve ser feito com CALMA, sem a presença de trânsito,
barulho ou pessoas curiosas.

Elefantes, Rinocerontes e grandes herbívoros – estes grupos de animais são comedores de capim e/ou
pontas de galhos, e possuem tendência a permanecer em bandos. Apesar de alguns animais poderem
ser condicionados a obedecer certos comandos, podem se tornar imprevisíveis sob estresse. Todo
grande herbívoro deve ser considerado perigoso. Estes animais costumam ficar desorientados e em
pânico quando fora do seu território. Irão fugir se perceberem qualquer perigo, ignorando os
obstáculos e podendo causar e/ou sofre ferimentos durante a fuga. A tendência destes animais, no
entanto, é tentar voltar ao grupo e procurar por água e comida.

É extremamente perigoso tentar controlar elefantes em um local não familiar. Isto só deverá ser feito
após uma avaliação da situação e dependendo do indivíduo.

Grandes herbívoros podem ser direcionados com o auxílio de barreiras visuais.

Em qualquer situação, pessoas estranhas devem ser mantidas afastadas da área. Estes animais
necessitam de uma grande distância de fuga e correm em pânico facilmente.

Apenas pessoas treinadas, com experiência, e de posse de equipamento adequado deverão estar
envolvidas no processo de recaptura destes animais. A imobilização farmacológica é considerada a
melhor técnica de contenção para se recapturar estes animais. Estas espécies são muito susceptíveis ao

18
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

barulho e a presença humana. Portanto, todo o processo deve ser feito com CALMA, sem a presença de
trânsito, barulho ou pessoas curiosas.

Áreas afastadas de barulho, curiosos e cercadas por árvores ou alguma barreira visual poderão ser
usadas para manter estes animais temporariamente até que todas as medidas de segurança sejam
tomadas. Deve-se evitar qualquer movimentação estranha para não assustar ainda mais os animais em
um evento de recaptura.

Pequenos antílopes, cervídeos e lhamas – estes animais têm tendência a se manterem agrupados.
Podem ficar desorientados no primeiro momento e procurar lugares protegidos para se esconderem.
Após a fuga, eles procurarão voltar para áreas próximas ao grupo. Os machos devem ser considerados
perigosos.

Em alguns casos pode se tentar conduzir estes animais com o uso de barreiras visuais. Durante este
procedimento as pessoas envolvidas devem se mover devagar e silenciosamente. A distância de fuga
deve ser mantida e qualquer procedimento deve ser feito com o animal podendo ver as pessoas
envolvidas. Nunca deve-se tentar esconder, pois para o animal é o predador quem geralmente se
esconde. A aproximação deve ser feita com o uso de escudos. A contenção farmacológica geralmente é
a técnica de contenção preferível para a captura.

Grandes Primatas – estes animais são diurnos e, com algumas exceções, sociáveis. Podem se deslocar
pelo chão mas sobem nas árvores com facilidade quando estressados. Todos devem ser considerados
perigosos e imprevisíveis.

Durante uma fuga, eles podem ficar desorientados e a tendência é fugir de qualquer coisa que
considerem perigosa, podendo atacar se nenhuma rota de fuga estiver disponível.

Estes animais tendem a se esconder (freqüentemente em cima de árvores ou outro lugar alto) e tentar
achar o grupo (vocalizações e interações agressivas são muito comuns nesta fase). Podem voltar para
próximo da área que lhe é mais familiar ou não. Quando se sentirem mais seguros, começarão a
explorar o ambiente em busca de comida.

Deve-se tentar atrair o animal para algum “recinto” ou área mais segura através do uso de alimentos.
Se o animal for encurralado em uma árvore, a contenção farmacológica geralmente é a técnica de
contenção preferível para a captura.

Estes animais podem ser muito destrutivos e são extremamente inteligentes. Apenas pessoas treinadas,
com experiência, e de posse de equipamento adequado deverão estar envolvidas no processo de
recaptura destes animais. Essas espécies são muito susceptíveis ao barulho e a presença humana.
Portanto, todo o processo deve ser feito com CALMA, sem a presença de trânsito, barulho ou pessoas
curiosas.

Pequenos primatas – a maioria são diurnos e arbóreos. São muito ágeis e curiosos. Dependendo do
indivíduo, ele poderá ser conduzido ao recinto. Mas, em geral, estes animais, quando fogem, não
gostam da presença humana, podendo morder com facilidade ao se sentirem ameaçados.

No início, costumam ficar desorientados. Sua tendência é fugir procurando alguma área onde possam
se sentir seguros. Caso façam parte de um grupo poderão ficar nas proximidades do bando. Quando
se sentirem seguros poderão explorar o ambiente à procura de comida. Para a recaptura destes animais
pode se tentar o uso de redes e/ou armadilhas com iscas. No entanto deve-se ter em mente que estes
animais são muito ágeis.

19
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

CONTENÇÃO FÍSICA

Toda contenção física deve ser planejada previamente, a fim de que todos os cuidados possam ser
tomados. Em geral, os mamíferos são difíceis de serem contidos e costumam não cooperar com os
tratadores. Em certas situações, não havendo urgência, é preferível desistir do trabalho de contenção
naquele momento e reiniciar a atividade em outro dia. É imprescindível que os tratadores levem para o
local da contenção todos os equipamentos que serão necessários. A falta de material adequado de
contenção no momento certo pode ocasionar a morte do animal.

EQUIPAMENTOS PARA CONTENÇÃO FÍSICA DE MAMÍFEROS

Antílopes e cervídeos redes, caixas de transporte, laços


Camelídeos laços, cabrestos, capuz, caixas de transporte
Girafas caixas de transporte
Hipopótamos, caititus e queixada caixas de transporte
Canídeos pau de couro, puçá, caixas de transporte
Felinos cordas, caixas de transporte, puçá, pau de couro
Tamanduás pau de couro, caixas de transporte, luvas
Capivaras puçá, caixas de transporte, redes
Pacas e cutias puçá, caixas de transporte
Anta caixas de transporte
Elefantes correntes para contenção nas patas (alternadamente)
Rinocerontes idem a elefantes
Primatas (pequenos e médios) puçá, caixas de transporte, luvas, redes, ninhos móveis
Procionídeos e mustelídeos puçá e caixas de transporte

Uma contenção por mais simples que seja requer atenção absoluta dos tratadores. Uma pequena
distração pode ocasionar acidentes sérios.

O Jardim Zoológico da FZB-BH vem utilizando com sucesso a técnica de condicionamento animal para
auxiliar na contenção e manejo de algumas espécies. Esta técnica que é executada por pessoas
experientes e devidamente treinadas, diminui o estresse dos animais e aumenta a segurança das
operações de contenção e manejo.

20
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

ACIDENTES QUE PODEM OCORRER AO MANIPULAR MAMÍFEROS SILVESTRES EM CATIVEIRO


Ações por parte dos
ANIMAIS

Arremessar, sacudir com violência


Triturar com a mandíbula
Perigosos com as garras
ESPÉCIE

Perigosos em grupos

Chifrar, cornear
Estrangular
Dar coice

Arranhar

Esmagar
Espinhar
Morder

Investir

Cuspir
Cangurus √

Morcegos √

Macacos grandes √ √ √

Macacos pequenos √ √ √

Preguiças √

Tamanduás √ √

Coelhos √ √

Ratos √ √

Grandes roedores √ √

Porco espinho √

Canídeos √ √

Ursos √ √ √ √

Felinos √ √ √ √

Elefantes √ √ √

Zebras √ √

Antas √ √

Rinocerontes √ √ √ √ √

Camelos √ √ √

Búfalos √ √ √ √

Hipopótamos √ √

Girafas √ √

Cabras √

Ovelhas √

Cervídeos √ √ √ √

Antílopes √

21
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

RECINTOS

Conhecer sobre a biologia de cada espécie e como é o ambiente natural em que vivem é fundamental
para se manter mamíferos em cativeiro. Cada recinto deve ser planejado de forma a proporcionar
condições adequadas para a vida dos animais.

Assim, o estudo do comportamento das espécies fornece subsídios para definir sobre dimensões do
recinto e áreas de cambiamento e maternidade, presença ou ausência de piscinas, tipos de pisos, telas,
vidros ou alvenaria, barreiras de segurança, tocas, abrigos, troncos, arborização, etc.

No Brasil, os Jardins Zoológicos são regulamentados e fiscalizados pelo IBAMA – Instituto Brasileiro do
Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, que determinam os parâmetros mínimos para a
manutenção e criação de animais silvestres

As áreas de manejo têm, necessariamente, que ser duplas ou as vezes, triplas. Isso se deve às várias
situações em que os animais precisam ser isolados, podendo ser todo o grupo ou parte deste grupo do
restante. Para se fazer limpeza geral e/ou capina no recinto, todos os animais devem ser isolados,
principalmente aqueles que são agressivos ou que se estressam com facilidade, para garantir o bem-
estar dos mesmos e a segurança do tratador, enquanto se executa o trabalho. O isolamento parcial
geralmente ocorre para separar fêmeas gestantes e/ou filhotes recentes, animais levemente
machucados, com dieta especial ou ainda, animais que serão introduzidos no grupo e, por isso,
requerem um período de aproximação, entre outros. Estas áreas de manejo ou cambiamento devem ser
limpas diariamente, principalmente os comedouros e bebedouros.

A área de exposição exige conservação períodica. Os artifícios utilizados para proporcionar sombra,
exercício e distração devem ser renovados, evitando o excesso de rotina para os animais.

ALIMENTAÇÃO

É sempre bom enfatizar que os alimentos oferecidos para os animais devem estar em boas condições de
conservação e que a dieta deve ser balanceada de acordo com a necessidade de cada animal.

Dependendo da espécie, o horário de distribuição e a quantidade de vezes em que os alimentos são


oferecidos podem variar. Aquelas que possuem hábito de vida noturno Alimentam-se melhor quando
recebem os alimentos no final da tarde. A quantidade de vezes está relacionada com o metabolismo, o
tipo de sistema digestivo e o hábito alimentar de cada espécie.

É interessante oferecer alguns alimentos variados, no intuito de alterar a rotina dos animais. Esses
alimentos podem ser frutos de época, sementes, tipos variados de vegetais, como bambu, folhas de
girassol, feijão, milho, etc. Devem ser distribuídos aos animais fora do horário normal de alimentação,
proporcionando-lhes ocupação e distração. Esses alimentos podem ser oferecidos de maneira que
propicie aos animais dificuldade em encontrá-los. Para isso, eles necessitam utilizar os sentidos do
olfato, tato, paladar e visão. Esta estratégia chamada de enriquecimento alimentar e/ou ambiental deve
ser realizada somente segundo um planejamento adequado e com a devida orientação dos técnicos
responsáveis.

A utilização de presas vivas, não só para primatas, mas principalmente para felídeos e canídeos, além
de promover um ótimo enriquecimento, ajuda a manter o instinto de caça dessas espécies.

22
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

REPRODUÇÃO

O estímulo primário que conduz os mamíferos à cópula é a condição fisiológica da fêmea que, em
certas épocas do ano, entra no estado de estro ou cio. O estro ocorre quando se produz a ovulação e
coincide com a produção, por parte das fêmeas, de estímulos olfativos (odores), que exercem atração
sobre os machos. Alguns animais alteram o seu comportamento, como os cervídeos machos que
emitem sons nesta época.

Existem espécies que, preferencialmente, se reproduzem quando isoladas durante boa parte do ano, se
encontrando com o seu par apenas na época reprodutiva (lobo-guará, tigre, onça, etc). Outras, quando
estão em grupos e em uma quantidade equilibrada (que pode variar de acordo com cada espécie) entre
machos e fêmeas (gorila, chimpanzé, capivara, etc). Neste caso, há sempre um macho dominante que
disputa as fêmeas com os demais. No período reprodutivo podem ocorrer diversas lutas entre eles,
podendo até ocorrer a morte de algum destes indivíduos. Este tipo de comportamento, apesar de
natural é indesejável no cativeiro e, portanto, deve-se tomar algumas providências como separar
temporariamente os outros machos.

Outro fator a ser considerado é que, para algumas espécies, o macho pode permanecer com a fêmea
durante o período do parto e pós-parto, colaborando até mesmo com a criação e defesa da prole
(lobo-guará, hipopótamo, elefante, etc). Em outras, a separação do casal é necessária (jaguatirica,
paca, onça, etc). Isso é percebido, na natureza, quando a fêmea se isola do macho, procurando locais
tranqüilos e seguros para dar a luz aos seus filhotes. Em alguns casos, o macho (pai) torna-se uma
ameaça pois é capaz de matar e comer seus filhotes. Esse tipo de comportamento é entendido por
controle natural da população. Em cativeiro, o canibalismo pode ocorrer também devido ao estresse
provocado por condições de manutenção inadequadas como por exemplo recintos pequenos que não
ofereçam privacidade ou por uma dieta pobre em nutrientes. Portanto, deve-se ter um cuidado especial
ao projetar um recinto acrescentando área adequada para maternidade e vegetação natural que serve
como local de proteção.

Para quase todas as espécies, deve haver uma suplementação na dieta das fêmeas durante a prenhez e
amamentação pois, nesta fase, elas apresentam uma carência maior de diversos nutrientes. O tratador
tem um papel especial no processo reprodutivo dos animais desde o momento em que ele observa a
mudança no comportamento para ocorrência dos cruzamentos. Caso ocorra, a data deve ser anotada
a fim de que se saiba a data provável do parto, considerando o período normal de gestação para cada
espécie. Outras medidas suplementares devem ser tomadas, como por exemplo colocação de capim
seco, tablado de madeira, aquecedor, etc. na área de manejo, cambiamento ou toca em que a fêmea
terá seus filhotes. Em algumas espécies, como lobo-guará, raposa, cutia e outras, são as fêmeas que
constroem o seu próprio ninho. Neste caso, pode-se colaborar deixando moitas naturais de capim e
folhas secas no recinto.

Uma vez nascidos os filhotes, o tratador deve redobrar a sua atenção junto aos animais, observando-os
no mínimo duas vezes ao dia. Os aspectos principais que devem ser acompanhados são: amamentação
e condições físicas dos filhotes, o cuidado dos pais, quantidade e qualidade dos alimentos oferecidos,
sinais de doenças ou alguma outra anormalidade que venha a ocorrer. Havendo a impossibilidade da
criação natural dos filhotes (pelos pais), esta condição deverá ser detectada imediatamente
possibilitando a criação artificial dos filhotes.

Em cativeiro, um manejo muito importante é a separação de indivíduos aparentados, de modo que os


mesmos não reproduzam entre si, evitando desse modo a consangüinidade, que pode diminuir o vigor
e proporcionar o aparecimento de doenças. Por causa deste e de outros controles necessários para o
manejo adequado dos espécimes , os animais precisam ser identificados através de marcações como:
tatuagem, brinco, colares, sistema eletrônico (microchip) e outros, possibilitando seu manejo adequado
na época de reprodução.

23
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

TÉCNICAS DE MANIPULAÇÃO, CONTENÇÃO E IMOBILIZAÇÃO

HISTÓRICO

Os animais silvestres eram originalmente capturados pelos antecessores do homem moderno como
fonte de proteína para sua alimentação. Não havia portanto, naqueles tempos, nenhum motivo para
evitar a morte dos animais pois, ao contrário, deviam ser mortos para o consumo humano. Com a
criação de animais silvestres em cativeiro para outras finalidades, como os zoológicos, foi necessário o
desenvolvimento de métodos de captura com maior êxito de sobrevivência.

No entanto, durante anos, devido ao pouco conhecimento que se tinha sobre a biologia dos animais e
as técnicas rudimentares de captura, as populações de espécies silvestres foram tratadas
inadeqüadamente, o que ocasionou a morte de um grande número de indivíduos.

Através dos anos foi-se aprimorando o conhecimento sobre as bases teóricas que apoiaram as técnicas
modernas de manipulação e contenção de animais silvestres.

FATORES IMPORTANTES AO MANEJAR ANIMAIS SILVESTRES EM CATIVEIRO

Para uma apropriada manipulação de espécies animais nos modernos zoológicos, tem-se desenvolvido
técnicas para a captura, imobilização e manejo de espécimes, que garantem o bem-estar e a saúde dos
mesmos, minimizando o sofrimento físico e o estresse causado por uma manipulação inadequada e
ainda, permitindo o manejo eficiente dos espécimes em situações de risco e/ou emergência. Isso requer
conhecimento adequado das técnicas para manipulá-los e planejamento prévio das mesmas.

CONDIÇÕES PARA MANIPULAR ANIMAIS

Condições Ambientais

A temperatura e a umidade são fatores de grande importância. A luta de um animal para evitar sua
contenção produz excessiva atividade muscular que gera altos níveis de calor. Neste momento, ele
possui poucas possibilidades de termorregular sua temperatura corporal.

Outro fator a ser considerado é o relógio biológico dos animais; deve-se manipulá-los quando se
encontram em seu nível mais baixo. Espécies noturnas são melhor manipuladas durante o dia, pois seu
estado físico geral encontra-se adormecido. O contrário se aplica aos animais diurnos.

Aspectos de Comportamento

O comportamento dos animais influencia as técnicas de manipulação que serão aplicadas. Por isso, é
imprescindível conhecer o comportamento dos animais.

Hierarquia

Animais dominantes são mais difíceis de serem manipulados que os subordinados. Eventualmente,
atacam quando seus subordinados são contidos.

Estado de Saúde

Manipular animais silvestres em estado avançado de enfermidade pode provocar choque fatal. A
observação à distância é importante e a experiência e o bom senso deverão ser levados em conta para
determinar quando intervir.

24
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

Territorialidade

Animais territoriais protegerão sua área de qualquer intruso. Trocar um animal de lugar pode ajudar a
diminuir o risco em manejá-lo pois ele não irá reconhecer este novo ambiente como seu território.

Estresse

O estresse é uma reação natural do organismo que possibilita uma reação imediata para atender a
alguma necessidade vital. Geralmente situações de luta ou fuga. Entretanto, quando o manejo
necessário do animal desencadeia uma reação de estresse, pode trazer risco à vida do mesmo.

Algumas das espécies mais susceptíveis a este quadro são os cervídeos (mamíferos), e os tinamiformes
(aves).

Durante o estresse, a distribuição do sangue no corpo se altera, com maior afluxo sanguíneo para os
músculos e órgãos vitais e menos para a pele. Além disto, o animal tem outras alterações como
dilatação da pupila e liberação de substâncias que diminuem a sensibilidade à dor.

Esta reação pode ocorrer de forma muito intensa fazendo com que o animal tenha lesões nos músculos
e alterações na composição do sangue que podem levá-los inclusive até a morte.

O manejo feito de forma correta e contínua é a melhor forma de prevenção. A contenção das espécies
mais susceptíveis deve ser química, de preferência, ou física desde que realizada de maneira rápida e
cuidadosa.

Em Resumo

1. Os animais requerem respeito e deve-se evitar ou minimizar qualquer situação estressante ou


dolorosa para o animal.

2. O planejamento da técnica a ser utilizada, a experiência e a destreza dos manipuladores são fatores
básicos que devem ser considerados.

3. A segurança da equipe envolvida no manejo é uma prioridade em qualquer técnica a ser utilizada.

4. Diminuir a percepção do animal à estímulos externos e ganhar sua confiança por diferentes meios
ajudará a minimizar o estresse dos animais que vão ser manipulados.

5. Existem diferentes dispositivos, equipamentos e etapas para obter-se uma contenção física
adequada. Alguns equipamentos podem ser adquiridos comercialmente ou por fabricação própria.

6. A contenção física é uma técnica útil para a aplicação de inúmeros procedimentos sobre os
animais. No entanto, somente quando aplicada de forma planejada e responsável, produz os efeitos
desejados pois, de outra maneira, tanto o animail como a equipe encarregada corre perigo de
sofrer danos severos.

TIPOS DE MANIPULAÇÃO

Deve-se conhecer previamente a anatomia, fisiologia e comportamento da espécie envolvida assim


como os padrões de comportamento individual.

Pode-se manipular animais em ambientes escuros, luz atenuada ou em ambientes luminosos,


dependendo dos hábitos do animal (diurnos ou noturnos). Uma vez em nossas mãos, podemos diminuir

25
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

ainda mais sua percepção, impedindo a visão com panos ou diminuindo a capacidade auditiva,
utilizando algodão nos ouvidos.

Para obter a confiança dos animais, a melhor maneira é a segurança do tratador nele mesmo. Um
método efetivo é o efeito de uma voz calma e suave sobre os animais. Interações positivas como o uso
de alimentos ou toques de carícia em locais específicos também produzem bons efeitos para induzir o
animal a cooperar voluntariamente com certos procedimentos.

CONTENÇÃO FÍSICA

Pode ser utilizada como método único ou como parte de uma imobilização química. Os aspectos
específicos da contenção física de répteis, aves e mamíferos foram abordados nas seções referentes aos
grupos.

CONFINAMENTO

Implica em colocar o animal em zonas restritas para facilitar sua manipulação. Existem vários graus de
confinamento, desde a ação de cercá-los ou rodeá-los para diminuir sua área de fuga, até colocá-los
em uma pequena jaula, gaiola ou caixa.

Não se esqueça que, quanto menor a área em que se situe um animal, maior a chance de que ele
apresente reações de estresse.

O confinamento pode ser feito de várias maneiras:

• Barreiras (cercas e escudos);

• Jaulas, caixas de transporte e gaiolas;

• Extensões de braços (pau-de-couro, cambão e gancho);

• Redes e malhas (coador ou puçá, redes retangulares e malhas de distância);

• Cordas;

• Força física.

CONTENÇÃO QUÍMICA OU FARMACOLÓGICA

A contenção química é a aplicação de medicamentos que imobilizam o animal. Estes medicamentos


podem provocar paralisia ou perda da consciência temporária.

Principais medicamentos

Os medicamentos mais utilizados no Zôo são a xilazina, que tem um efeito de relaxamento muscular e
analgésico e a quetamina que tem um efeito de alterar o estado de consciência do animal fazendo com
que ele perca a capacidade de reação a estímulos externos. Outros medicamentos também são usados
já que cada um tem sua indicação e respectiva contra-indicação.

Formas de aplicação

A forma de aplicação utilizada é a injetável. Esta aplicação é geralmente feita através do dardo e
zarabatana para se evitar a proximidade com o animal, o que é indesejável. O dardo é feito utilizando-
se seringas adaptadas ou tubos de metal. Na aplicação injetável, a absorção do medicamento é mais
26
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

rápida. Alguns medicamentos só devem ser administrados por via injetável. Muitas vezes devemos
conter o animal para a aplicação do medicamento injetável. Isto dificulta esta forma de aplicação.

Vias de aplicação

A medicação injetável pode ser subcutânea, quando aplicada sob a pele; intramuscular, quando
aplicada no músculo, ou endovenosa, quando aplicada na veia.

A via mais comum utilizada no Zôo é a intramuscular, devido à sua grande vascularização e rápida
absorção. É feito com auxílio de seringas e agulhas. No caso dos animais selvagens, utilizamos com
muita freqüência os dardos de zarabatana e dardos da arma anestésica.

PRINCIPAIS GRUPOS DE DROGAS UTILIZADOS NAS CONTENÇÕES FARMACOLÓGICAS

Tranqüilizantes: são drogas que promovem certa analgesia, alteração da percepção a estímulos do
ambiente e relaxamento muscular.

Anestésicos: são drogas capazes de suprimir temporariamente a dor (forma reversível).

O profissional habilitado para a prescrição de drogas para utilização em animais é o Médico-


Veterinário. Portanto, a utilização desse recurso sempre será realizada segundo a orientação e a
responsabilidade desse profissional.

27
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

EMERGÊNCIAS COM OS ANIMAIS - FUGAS

As fugas de animais em zoológicos ocorrem apesar da competência e dedicação dos funcionários e das
proteções físicas. A natureza humana, inadequações nos recintos, falta de manutenção e o
comportamento dos animais, combinados, permitem a fuga ocasional.

Programas de treinamento de segurança na rotina e constante vigilância ajudam a prevenir erros que
resultem em fuga. A revisão periódica e inspeção das instalações também são necessárias para evitar
fugas.

A prevenção de fugas de animais inclui a formulação e implementação dos Planos de Recaptura Animal
(PRA), que deve abranger as diversas situações possíveis, ser escrito e divulgado junto aos funcionários,
discutido em todos os detalhes e aperveiçoado sempre que necessário.

PRA efetivos são formulados abrangendo funcionários das mais diferentes áreas (administradores,
tratadores, vigias, veterinários, biólogos, diretores, monitores de recintos e outros). Os elementos de um
bom PRA incluem categorização de riscos, listas de pessoas a serem notificadas, descrição das
necessidades. Deve conter ainda a lista de endereços e telefones das pessoas a serem notificadas, as
obrigações de cada um, quem está no comando e procedimentos de segurança para o público.

REGRAS BÁSICAS DE SEGURANÇA

Manipular, conter e imobilizar animais silvestres requer destreza e experiência por parte das pessoas
envolvidas. A segurança deve ser considerada uma prioridade.

1. Levar em conta o potencial natural de periculosidade que possui todo animal e não deverá
enganar-se pelo aparente estado de mansidão que o mesmo pode apresentar em cativeiro.

2. Se um animal for considerado “não perigoso”, ao ser tratado por uma pessoa específica, não
significa que será igualmente inofensivo com os demais.

3. Evitar ações bruscas e/ou violentas com os animais, utilizando os diferentes tipos de equipamentos
existentes, buscando assim minimizar o estresse.

4. A manipulação direta deve ser empregada só quando for absolutamente necessário e não como
parte da rotina diária. Deve-se preparar um plano de ação antecipadamente.

28
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

RECAPTURA

PRINCÍPIOS GERAIS

Um procedimento considerado básico para se entender o processo de recaptura em caso de fuga de


animais é manter o que chamamos de “distância de fuga”. Distância de fuga é a distância mínima entre
o animal e o “inimigo” (você) ou seja, é a distância onde o animal permanece quieto sem tentar fugir.
Se esta distância for invadida, o animal se apavora e, geralmente, sai correndo. É preciso lembrar que
esta distância varia de acordo com a espécie e com a situação. Por exemplo: animais dentro de um
recinto costumam ficar a uma pequena distância do observador caso haja uma barreira entre eles. No
entanto, quando esta barreira não existe e o lugar em que se encontram é totalmente estranho, a
tendência é aumentar esta distância.

Existem dois tipos de reações básicas quando esta distância é invadida: primeiro – o animal pode sair
correndo e, portanto, a recaptura se torna mais difícil; segundo – e talvez a mais perigosa é quando o
animal fica aparentemente “imobilizado”. Geralmente quando o animal é novo ou fica muito assustado
a tendência é ficar momentaneamente parado e na maioria dos casos atacar o invasor.

Em um processo de recaptura todo e qualquer procedimento deve ser feito com calma e após uma
minuciosa avaliação das condições. Uma vez que o animal foi localizado, é preciso deixar ele se
acalmar e achar um local em que o mesmo se ache seguro. Se o animal possui nome no zoológico,
procure sempre chamá-lo pelo nome; isto poderá ajudar a acalmá-lo. Feito isso, e com toda a equipe
reunida, é que se deve tomar alguma atitude.

LEMBRE-SE: DEPENDENDO DO ANIMAL VOCÊ TERÁ UMA ÚNICA CHANCE DE RECAPTURA. SUA
FALHA, NESSE CASO, PODE SIGNIFICAR A VIDA DO ANIMAL OU DE SEU COLEGA.

29
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

NUTRIÇÃO

Um programa correto de nutrição para animais de zoológico deve utilizar diversos tipos de manejo de
dietas (que inclui a aquisição de alimentos, sua armazenagem, preparação e distribuição), procurando
atender às necessidades fisiológicas (funcionamento normal do organismo) e o comportamento das
várias espécies de animais. Ainda que na última década tenha havido um grande progresso no campo
da nutrição de animais silvestres, não existe uma lista simples dos alimentos que assegurem uma
nutrição adequada dos animais e que, além do mais, permita uma troca de informações. A parte mais
difícil na avaliação da dieta é saber quanto exatamente fornecer vitaminas ou minerais. Recomenda-se
o uso de vitaminas e minerais de uma maneira prudente, ou seja, quando forem necessários. O
cuidado e a alimentação dos animais de zoológico são, na realidade, uma mistura de ciência e arte.

NUTRIENTES

É o que realmente o organismo animal utiliza após a ingestão e digestão dos alimentos. Cada nutriente
está contido em maior ou menor quantidade de acordo com o tipo de alimento. Os nutrientes de
interesse são as proteínas, os carboidratos (açúcares), as gorduras, os minerais, as vitaminas e a água.
Existem alimentos ricos em proteína (a carne, o ovo, o farelo de soja, etc.), ricos em carboidratos (o
milho, o sorgo, o mel, etc.), os ricos em gordura (a semente de girassol, o coco, etc.), enquanto que os
minerais e vitaminas estão presentes, variavelmente, em todos alimentos. Alguns alimentos podem ser
considerados como boa fonte de um determinado mineral ou vitamina. O leite e a alfafa, por exemplo,
são boas fontes de cálcio; a cenoura é de vitamina A; as frutas cítricas (limão, laranja, etc.) são de
vitamina C.

Água: os animais satisfazem suas necessidades de água de três maneiras: a água de beber, a água
contida nos alimentos e a água produzida dentro do animal durante a digestão (chamada água
metabólica). A ingestão de água é afetada pelo tipo de alimento que o animal come (alimentos mais
secos fazem o animal beber mais água, como feno por exemplo); pela temperatura ambiente (o
consumo de água pode ser mais do que o dobro do normal em dias com temperatura muito elevada);
pelo estado fisiológico do animal, ou seja, fêmeas aleitando filhotes necessitam mais água devido à
produção de leite; estado de saúde (como febre), entre outras. A qualidade da água é muito
importante: deve ser sempre fresca e limpa, e estar à vontade para os animais.

TIPOS DE DIGESTÃO E HÁBITOS ALIMENTARES

Mamíferos: animais que têm como base de sua dieta alimentos fibrosos, ou seja, ricos em fibras (como
capim, feno, silagem, palhas e outros), chamamos de herbívoros. Esses são mais eficientes em utilizar a
fibra dos alimentos como nutriente do que os não-herbívoros. Os herbívoros são divididos em duas
categorias, que se diferenciam pela maior ou menor eficiência em aproveitar os alimentos fibrosos,
devido ao tipo de estômago que possuem:

Herbívoros Monogástricos – elefante, anta, rinoceronte, capivara, cutia, paca, etc., possuem um
estômago simples, mas têm a porção inicial do intestino grosso (ceco e colo) bem desenvolvido,
permitindo, assim, a fermentação da parte fibrosa dos alimentos por microorganismos (bactérias, fungos
e protozoários) ali existentes, que transformam essa porção fibrosa em outros nutrientes, principalmente
energia (a mais aproveitada por esses animais).

Herbívoros Ruminantes – girafa, bisão, camelo, lhama, elande, cervídeos, etc., possuem o estômago
dividido em quatro partes (rumem, retículo, omaso e abomaso), sendo no rumem e no retículo onde
ocorre a fermentação da parte fibrosa dos alimentos pelos microorganismos. Essa categoria é mais

30
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

eficiente na utilização de fibra, uma vez que a maior parte da fermentação da fibra e sua conseqüente
transformação em nutrientes ocorre antes do intestino delgado (duodeno, jejuno e íleo), que é o local
de maior absorção de nutrientes. Também possuem um ceco e colo bem desenvolvidos.

Carnívoros – onça, leão, tigre, jaguatirica, jaguarundi, etc., são monogástricos que alimentam-se
exclusivamente de proteína de origem animal (carnes). Em cativeiro, é ideal que se ofereça, de vez
quando, presas vivas; quando a dieta for a base de carne pura, não se deve esquecer de adicionar uma
fonte cálcio (carbonato de cálcio), uma vez que a carne, apesar de ser uma boa fonte de fósforo, não
fornece cálcio. Sempre que possível, é interessante que tenham à disposição ossos, pois ajudam a
manter os dentes limpos e as gengivas sadias.

Onívoros – furão, lobo-guará, irara, urso, chimpanzé, etc., são monogástricos que consomem tanto
proteína de origem animal (carne, ovos, insetos, etc.) como de origem vegetal (frutas, verduras, folhas,
sementes, etc.).

Aves: também monogástricas, pois possuem um estômago simples; têm uma grande variedade de
hábito alimentar.

Granívoras – pombos, mutuns, faisões, etc., alimentam-se mais de grãos e sementes na natureza, sendo
que muitas espécies consomem uma grande quantidade de insetos quando possível. Um exemplo de
dieta balanceada para essas espécies é procurar manter uma proporção de 25% de frutas, 25% de
vegetais e 50% de concentrado (ração). A dieta para essas aves deve ser baseada em ração e
suplementada com frutas e vegetais para melhorar os níveis de proteína, vitaminas e dar uma maior
variedade à dieta. É recomendado usar ração de manutenção em vez de ração para postura, que
possui um nível muito alto de cálcio, desnecessário fora da época de reprodução.

Carnívoras – corujas, gaviões, falcões, pelicanos, garças, colhereiros, etc., têm como base de sua dieta
carnes (pequenos roedores, pequenos répteis, anfíbios, etc.) e peixes. Utilizam, basicamente, proteína
de origem animal. Em cativeiro, deve-se evitar dar pintinhos de um dia de idade para essas aves, pois
possuem alto teor de gordura, devendo-se preferir pintinhos a partir de dois dias.

Mistas (frugívoras-carnívoras) – tucanos, araçari, etc. têm a base da dieta em frutas e proteína de
origem animal (filhotes de pássaros, ovos em ninho, etc.). Os tucanos, especificamente, dentre as
espécies de aves consideradas onívoras, são sensíveis ao excesso de ferro na sua dieta, sendo
necessário dosar bem os alimentos a serem oferecidos que contenham um alto nível desse mineral. Em
cativeiro, pode-se oferecer uma dieta com uma proporção de 52,5% de frutas, 22% de carne, 25% de
vegetais verdes e 0,5% de suplemento de cálcio.

Mistas (frugívoras-granívoras) – aos papagaios, araras, etc., deve-se oferecer uma dieta que contenha
uma proporção de 2% de suplemento de cálcio, 22% de frutas, 23% de sementes ou grãos, 23% de
vegetais e 30 de ração.

Especial – flamingos, guarás, etc., apesar de terem sido classificadas como especiais, não existe muita
dificuldade em se alimentar essas espécies em cativeiro. Deve-se ter a preocupação de fornecer uma
fonte de caroteno (se transforma em vitamina A) para manter a coloração das penas, fundamental na
reprodução. Pode-se oferecer uma dieta a base de ração para cachorro (alta em proteína), cenoura
(boa fonte de caroteno), ração para aves e farinha de peixe ou peixe moído. O uso do colorau
(urucum) na dieta colabora para uma boa coloração nas penas.

31
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

Répteis: São, sem dúvida, as espécies menos estudadas e, conseqüentemente, as que se têm menos
informações sobre suas necessidades em cativeiro. Algumas tabelas de recomendação de dietas e
nutrientes chegam a ser baseadas em estudos feitos com mamíferos.

Herbívoros – jabutis, cágados, igüanas, etc. Apesar do termo herbívoro, a maioria das tartarugas
terrestres e aquáticas ocasionalmente comem proteína de origem animal na natureza. Com isso, a
sugestão de dieta que existe para essas espécies deve manter uma proporção de 75% de vegetais
verdes, 20% de frutas e 5% de carne (ou outra fonte de proteína animal). Existem espécies como o
igüana que, quando jovens, consomem maiores quantidades de proteína animal (principalmente
insetos) e, quando adultos, mudam sua dieta para quase totalmente herbívora.

Carnívoros – jibóias, tartarugas, cascavel, jacarés, crocodilos, etc., assim como para os mamíferos
carnívoros, quando não se utilizar presas vivas, é importante adicionar na carne oferecida uma fonte de
cálcio para corrigir a falta desse mineral.

RAÇÕES

Tipos de Ração:

Não são encontradas no mercado nacional, de uma maneira geral, rações específicas para animais
silvestres, exceto uma ou outra que deixam dúvidas quanto a sua composição e se atendem realmente
às exigências de algumas espécies silvestres. Sendo assim, normalmente, utiliza-se rações comerciais
para animais domésticos (bovinos, aves de corte, aves de postura, eqüinos, etc.), tentando-se adaptar,
dentro da variedade de tipos de rações disponível, às diversas espécies silvestres. O pouco que se sabe
hoje sobre nutrição de animais silvestres tem como base estudos em animais domésticos. Com isso não
chega a ser uma grande dificuldade adaptar essas rações aos animais silvestres em cativeiro, uma vez
que o tipo de digestão das espécies silvestres são, com algumas exceções, muito semelhantes aos
animais domésticos.

Forma Física da Ração:

Diz respeito basicamente à forma da ração. Três são as formas mais utilizadas:

Farelada: tem a desvantagem para aves de permitir a seleção de um ou outro alimento que compõe a
ração. Estimula, ao ser misturada com volumosos (capim picado por exemplo) que estes sejam
consumidos por herbívoros;

Peletizada: em forma de grãozinhos, é ideal para aves, pois impede a seleção (cada grãozinho vem
com todos alimentos que compõe a ração), evita problemas respiratórios ao impedir que o animal
aspire a ração (como o elefante que utiliza sua tromba para pegar a ração);

Extrusada: em formas de pequenos biscoitos, muito utilizada para rações de cães, difere da peletizada
basicamente na sua forma de processamento (na maneira como é fabricada), pois o processo de
extrusão deixa a ração mais fácil de ser aproveitada (digerida) pelo animal.

MANEJO ALIMENTAR

Diz respeito à maneira como é apresentado o alimento (picado, inteiro, moído, etc.), a freqüência com
a qual ele é fornecido diariamente, a variação de alimentos de acordo com a necessidade, entre outros.
A freqüência alimentar (quantas vezes o animal come ao dia) é muito importante pois, quanto menor a
quantidade de alimento e maior o número de vezes que este alimento está disponível para o animal,
melhor será o seu aproveitamento. Isso tem maior importância, principalmente, para animais que
consomem grandes volumes de alimento em um dia (como o elefante e o hipopótamo). Outros itens

32
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

importantes são o cocho de alimento, o cocho de sal e o bebedouro. O ideal é que os três não fiquem
juntos, pois evita-se que o sal molhe, fique com sobras de alimentos e ajuda a manter o bebedouro
limpo, além de obrigar o animal a fazer mais exercício.

ALTERAÇÕES NO CONSUMO (FATORES AMBIENTAIS E PSICOLÓGICOS)

O clima (temperatura ambiente), o tipo de recinto (sua ambientação, ou seja, estar mais agradável para
o animal) e a disponibilidade de alimento naturalmente no recinto, o estresse, dentre outros fatores,
estimulam ou não o animal a ter um consumo normal. Entre os animais que vivem em grupos,
normalmente, existe um indivíduo dominante (seja pela força, seja porque é o mais velho ou mais
esperto), o que faz, às vezes, a se ter consumos totalmente diferentes dentro de um mesmo recinto. Isso
leva, com o passar do tempo, a se ter animais com peso acima do desejado e outros abaixo. O estado
fisiológico (crescimento, gestação, reprodução, doenças, etc.) também influencia muito o consumo pelo
animal. Daí a grande importância da observação constante do animal, conhecendo-se, na medida do
possível, seu estado normal. O metabolismo normal do animal, ou seja, o comportamento mais ou
menos ativo, também influencia o consumo entre algumas espécies. Os jacarés e crocodilos, por
exemplo, são animais que possuem um metabolismo muito baixo, gastando, com isso, muito pouca
energia. Logo, consomem alimentos uma vez por semana no verão, chegando a ser preciso alimentá-
los somente quinzenalmente no inverno. Pequenos primatas são super ativos normalmente, gastando
muita energia constantemente (metabolismo mais elevado). Com isso, precisam comer mais de uma vez
por dia e todos os dias, para continuarem sempre ativos.

33
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

AS PLANTAS NOS RECINTOS DE UM JARDIM ZOOLÓGICO

IMPORTÂNCIA DAS PLANTAS

Produtoras de Alimentos e Oxigênio: a maior importância das plantas para o Reino Animal é tornar a
vida possível na Terra. Devemos lembrar que toda produção de alimento no mundo tem origem em um
vegetal. A produção de alimentos se dá através de um processo exclusivo das plantas chamado
fotossíntese. Neste processo a planta, usando a luz do sol como fonte de energia, pega a água da terra
e o gás carbônico do ar e transforma-os em alimentos e oxigênio.

Graças à grande produção vegetal ao longo dos tempos, utilizando o processo da fotossíntese, o nosso
ar tornou respirável, desde a formação da Terra até os nossos dias.

Paisagismo: paisagismo é o arranjo que é feito com as plantas para tornar um ambiente bonito e
agradável, tanto para os animais quanto para as pessoas. Pode-se usar plantas de diferentes cores e
tamanhos, pedras, tocos, etc.

Refúgio: as plantas ajudam os animais a se esconderem quando se sentirem ameaçados, seja por
excesso de barulho feito pelos visitantes ou mesmo pela agressão de outros animais no mesmo recinto.

Temperatura: ajudam também a regular a temperatura do ambiente. Os animais sempre procuram a


sombra nas horas mais quentes do dia para se protegerem. Além de diminuir a temperatura durante o
dia, as plantas ajudam a conservar a temperatura à noite.

Ambientação: a ambientação de um recinto leva em consideração o paisagismo e o refúgio, não sendo


conseguida só com as plantas. É um conjunto de ações que torna o recinto o mais adequado possível
ao hábito de vida do animal, de preferência parecido com o seu lugar de origem. Esta ambientação
deve proporcionar ao animal o desenvolvimento total do comportamento característico da espécie,
como: alimentar, andar, esconder, trepar, dependurar, nadar, voar, reproduzir, etc.

Para ambientação utilizamos plantas, pedras, piscinas, manilhas, árvores secas, cordas, lameiro,
montes, troncos, etc.

34
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

O TRABALHO DO TRATADOR E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL

A proposta educativa que vem sendo desenvolvida pela equipe da FZB-BH busca a valorização do
conhecimento sobre a natureza, aprendido no convívio do dia a dia, como forma de estimular nas
pessoas o respeito pela vida em toda a sua diversidade. Uma das dificuldades para colocar essa
proposta em prática é a falta de estudos sobre o comportamento e as formas de adaptações das
espécies de animais e de plantas diante dos desafios que encontram para garantir a sobrevivência de
seus descendentes, principalmente nos ambientes que estão sempre sendo modificados pelos seres
humanos.

Por isso mesmo a educação ambiental que propomos inclui tanto o aprendizado de novos modos e
formas das pessoas conviverem com a natureza, quanto o aprendizado e a reflexão sobre o próprio ser
humano e seu papel na sociedade.

Os livros e outros trabalhos sobre os animais silvestres, na natureza e em cativeiro, principalmente os


naturais do nosso país, são poucos e não satisfazem as necessidades dos técnicos, nem as curiosidades
do público que visita os jardins zoológicos. Esse problema acontece também em relação às plantas,
dificultando a união das experiências e dos conhecimentos das diferentes áreas do saber, tão necessária
ao estudo dos problemas ecológicos.

Muitos visitantes, sejam crianças ou adultos, esperam encontrar respostas para todas as suas perguntas
sobre bichos e plantas e a importância ecológica das espécies, mas, geralmente, não conseguem
satisfazer suas curiosidades. Por isso é necessário que as equipes de funcionários dos zoológicos
encontrem maneiras interessantes de repassar as informações ao público, procurando relacioná-las aos
valores culturais de pessoas das diferentes faixas sócio-econômicas, que existem em países como o
Brasil.

Para “gostar gratuitamente” da natureza, para “querer aprender com ela” e para saber respeitar e
valorizar sua beleza e diversidade, independentemente do valor econômico ou comercial que ela possa
representar, há um longo caminho a percorrer. Acredita-se que é possível desenvolver uma educação
ambiental capaz de sensibilizar as pessoas nessa direção e que o tratador pode dar a sua contribuição.
A sensibilidade é um dom que está presente em todas as pessoas e pode proporcionar-lhes um
“conhecimento de dentro para fora” e despertar o interesse pela beleza que cada um percebe naquilo
que faz no seu dia-a-dia. O tratador satisfeito com o que faz conhece as belezas do seu trabalho e
pode compartilhar esse sentimento com as outras pessoas.

O trabalho do tratador lhe oferece uma vivência única e especial em cada zoológico que, somada com
suas experiências anteriores, muitas vezes da área rural, cuidando de animais domésticos ou cultivando
plantas, permite-lhe um conhecimento rico e variado, mas poucas vezes reconhecido e valorizado por
ele e pela instituição onde trabalha. Os “casos” dos animais, que fazem parte do dia-a-dia da sua vida
e do seu trabalho, têm uma riqueza de vivências e até novos conhecimentos, e não devem ficar sem
registro e divulgação.

Espera-se, portanto, que os tratadores ajudem os técnicos em todos os sentidos, inclusive colecionando
dados e informações que, somados à suas experiências anteriores, possam ser organizados e
divulgados como complemento aos conhecimentos científicos existentes. Esse trabalho deve ser
devidamente coordenado e estimulado por meio de planejamento e organização, envolvendo
treinamentos e estudos periódicos. Também ao compartilhar com os colegas os conhecimentos
adquiridos no seu trabalho, o tratador estará desenvolvendo-se como profissional e como ser humano.

Dessa forma, o tratador pode contribuir para as atividades de educação ambiental participando e
ajudando as atividades dos colegas que lidam diretamente com o público. Mas pode também estar em

35
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte

contato diário com os visitantes do zoológico, dependendo do setor onde trabalha, das tarefas que faz,
do estímulo da sua chefia e de suas habilidades pessoais. O tratador que trabalha apenas em locais
internos como o setor-extra ou o hospital veterinário de um zoológico terá menos oportunidades de se
encontrar com os visitantes. Sua ajuda, nesse caso, deve ser programada em atividades conjuntas com
a equipe de educação ambiental.

Aproveitando a experiência da FZB-BH, podemos citar alguns exemplos de situações em que o tratador
pode participar:

• receber bem os visitantes quando encontrá-los nas áreas do Zoológico;

• ajudar na preparação do material de apoio, como textos, pegadas e bandejas de alimentos, entre
outros;

• dar informações em bate-papos e palestras para grupos de visitantes, estagiários e colegas de


trabalho;

• estar presente em seminários, cursos e palestras oferecidos pelo Zoológico e outras instituições;

• manter os recintos limpos, ajardinados, capinados e com cercas e grades bem cuidadas;

• sugerir maneiras dos animais ficarem ocupados e acordados, utilizando alimentos e algum tipo de
atividade, de acordo com suas necessidades de vida;

• trabalhar de maneira integrada com a turma da limpeza e da manutenção, ajudando sempre que
possível, não deixando que fique lixo espalhado nem lixeiras entornadas e destampadas nas
proximidades de sua área de trabalho;

• manter bem guardadas ferramentas, escadas e outros materiais de trabalho para evitar problemas
com os visitantes;

• ajudar a colecionar materiais “produzidos” pelos animais para coleções, e materiais didáticos, tais
como ovos, penas, ninhos, chifres e pêlos, entre outros. Nesse caso, é importante estar atento aos
animais em cativeiro e àqueles que vivem soltos; também à vegetação, onde é comum encontrar
ninhos, frutos, sementes e outros materiais de interesse educativo.

Outros tantos exemplos poderiam ser citados para a importância da participação do tratador nas
atividades educativas, mas estando atento e interessado pelos animais e pela imagem que os visitantes
têm do Zôo, o próprio tratador pode dar novas idéias. Ele pode até ajudar a sugerir mudanças e
melhorias nos recintos e no manejo dos animais de maneira a conciliar as tarefas necessárias à
conservação das espécies com a visitação pública. Os visitantes reclamam muito quando, por algum
motivo, não conseguem ver os animais, seja porque eles estão escondidos no “mato”, ou dormindo, ou
alimentando-se nas manobras. Conhecendo o comportamento dos animais, o funcionamento do
Zoológico como um todo e o que os visitantes esperam encontrar, o tratador pode sugerir alternativas
para diminuir esse problema e tornar seu trabalho melhor e mais reconhecido.

Vale lembrar ainda que existem zoológicos em outros países onde os próprios tratadores promovem
palestras e outras atividades sobre os animais com as pessoas que visitam o Zôo. Acreditamos que tal
prática é positiva e valiosa tanto para a instituição e o tratador quanto para o público. Ela pode ser
realizada em qualquer zoológico em que os funcionários estejam devidamente preparados e equipados
para tornarem esse tipo de atividade interessante e agradável para todos os envolvidos. Entende-se que
um dos objetivos mais importantes dos zoológicos é o de promover a educação ambiental e, para que
isso possa ser conseguido, são fundamentais a sensibilização e o envolvimento de todos os seus
funcionários.

36