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JORNALISMO E ENTRETENIMENTO: análise de um programa ‘‘Alterosa Esporte’’ da TV Alterosa de 2010

JORNALISMO E ENTRETENIMENTO: análise de um programa ‘‘Alterosa Esporte’’ da TV Alterosa de 2010

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Thiago Rios Gomes

JORNALISMO E ENTRETENIMENTO:
análise de um programa ‘‘Alterosa Esporte’’ da TV Alterosa de 2010

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte 2010

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Thiago Rios Gomes

JORNALISMO E ENTRETENIMENTO:
análise de um programa ‘‘Alterosa Esporte’’ da TV Alterosa de 2010

Monografia apresentada ao curso de Jornalismo do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel. Orientador: Prof. Edmundo de Novaes Gomes

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte 2010

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AGRADECIMENTOS

A Deus. Em seguida agradeço à minha mãe, Áurea Márcia, pois nem sei o que seria de mim sem ela sempre ao meu lado e à minha irmã, Carolina Rios, que nunca deixou de me apoiar. À minha namorada, Marcella Cardinali, que não poupou esforços para me ajudar a concluir mais essa etapa de minha vida. Ao meu pai, que deixou toda a „base‟ pronta para que eu e minha família pudéssemos continuar a caminhada. Saiba que sempre me lembrarei de você com muito orgulho e saudade. Ao professor Edmundo, que tornou possível o desenvolvimento e a apresentação da monografia, mesmo que eventualmente acreditasse ser difícil isso acontecer. Professor, eu me esforcei como sugeriu, e acho que consegui. Aos amigos, em especial ao Alexandre Felipe, Gustavo Bicalho e Pablo Maia, que souberam lidar com a minha ausência durante o semestre e, mesmo assim, continuam próximos. Ao pessoal da MIND, em especial, a Adriana Barbosa, Christian Sanchez e Marcus Quiroga, que me entenderam e, de alguma forma, também me ajudaram a terminar essa monografia. Obrigado a todos.

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A maneira de entregar o futebol para a sociedade não é tão difícil, embora trabalhosa
(SÓCRATES citado por CALDAS, 2000).

O que o espetáculo oferece como perpétuo é fundado na mudança, e deve mudar com sua base. O espetáculo é absolutamente dogmático e, ao mesmo tempo, não pode chegar a nenhum dogma sólido. Para ele, nada pára. Este é seu estado natural e, no entanto, o mais contrário à sua propensão
(DEBORD, 2007).

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RESUMO
Este estudo desejou responder quais as estratégias midiáticas utilizadas no programa „Alterosa Esporte‟, da TV Alterosa, Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), no ar há quatro anos com sucesso de público e crítica, ou seja, o que houve por detrás das câmeras no dia 5 de abril de 2010. Por isso, para analisar como jornalismo e entretenimento se misturaram no programa „Alterosa Esporte‟ após a primeira partida do campeonato mineiro de 2010, da TV Alterosa, com a presença de representantes dos três principais times mineiros e capitaneados por Leopoldo Siqueira, âncora mediador, tornou-se necessário caracterizar os seguintes objetivos secundários: analisar a linguagem do programa ‘Alterosa Esporte’: identificar quais gêneros jornalísticos estiveram presentes no programa; mostrar quais elementos jornalísticos, critérios de noticibilidade e estratégias de entretenimento utilizados; o tempo de duração gasto com informação e o tempo gasto com o entretenimento. O objetivo deste trabalho acadêmico foi cumprido de forma diferente como têm sido abordados os aspectos midiáticos do futebol na TV, e essa foi sua relevância: apresentar uma cultura de massa por detrás das câmeras e suas estratégias de entretenimento e lazer. Na realidade, quando alguém assiste a um programa como o analisado não pode imaginar o que se passou, ou seja, tudo o que implicou em sua audiência e sucesso. Como futuro jornalista do segmento esportivo, atividade que se pretende abraçar, entende-se que se pôde dar um panorama geral no que se refere ao futebol na mídia televisiva. Como as mídias funcionam segundo uma lógica dupla, ou seja, a econômica, que faz com que o organismo da informação aja como uma empresa; e a simbólica, que busca participar da construção da opinião pública, concluiu-se ter havido entretenimento e lazer, porque o „jogo da verdade‟ foi bem sucedido e, pelas edições subsequentes do programa, também os patrocinadores devem estar satisfeitos. Palavras-chave: Jornalismo e entretenimento, estratégias midiáticas, debate, futebol na TV.

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 9

2 A TV E SUAS ESTRATÉGIAS ............................................................................... 14 2.1 Gênero de informação midiática .......................................................................... 14 2.2 A tipologia da informação midiática ..................................................................... 15 2.3 O contrato da comunicação................................................................................. 17 2.3.1 Os dados externos ........................................................................................... 17 2.3.2 Os dados internos ............................................................................................ 19 2.4 A identidade das instâncias de informação ......................................................... 20 2.5 A finalidade do contrato de comunicação ............................................................ 21 2.5.1 Visada de informação ....................................................................................... 21 2.5.2 Visada da captação .......................................................................................... 23 2.6 Os dispositivos de encenação ............................................................................. 24 2.6.1 Televisão, um dispositivo visual ....................................................................... 25 3 O FUTEBOL E A TELEVISÃO: UMA PARCERIA QUE DEU CERTO.................... 27 3.1 O futebol brasileiro e suas particularidades ......................................................... 27 3.2 As mídias e o futebol ........................................................................................... 32 3.3 A relevância do futebol na vida social brasileira .................................................. 34 3.4 O jornalismo esportivo na televisão ..................................................................... 37 3.5 Cultura de massa: TV e futebol ........................................................................... 42 3.6 História: TV e futebol no Brasil ............................................................................ 45 4 METODOLOGIA ..................................................................................................... 50 4.1 Tipo do estudo e percurso metodológico............................................................. 50 4.2 Caracterização do programa „Alterosa Esporte‟ .................................................. 51 4.2.1 A „bancada democrática‟ .................................................................................. 51 4.2.2 Os componentes da bancada ........................................................................... 52 4.2.3 O apresentador................................................................................................. 53 4.2.4 O cenário do programa „Alterosa Esporte‟ ........................................................ 53 4.2.5 Figurinos........................................................................................................... 54 5 ANÁLISE DO PROGRAMA „ALTEROSA ESPORTE‟ DO DIA 05 DE ABRIL DE 2010.................................................................................................................. 55 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 62 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 66

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1 INTRODUÇÃO

Abordar mídias, o entretenimento e tentar analisar o discurso da informação na TV não são tarefa fácil. Conforme Charaudeau (2009, p. 21), as mídias funcionam segundo uma lógica dupla: a econômica, que faz com que o organismo da informação aja como uma empresa, e a simbólica, que busca participar da construção da opinião pública. Com a finalidade de prender o maior número de espectadores, cada suporte de difusão o faz por meio de suas próprias estratégias, mas a mais comum é o quadro temporal que define a notícia como „atualidade‟. Esta noção “é de importância central no contrato midiático, tanto que pode dizer ser ela quem guia as escolhas temáticas” (CHARAUDEAU, 2009, p. 133).

Por ter se tornado, ao longo do tempo, um produto cultural de massa no Brasil, o futebol, como todo fenômeno social de grande alcance, tem sido sistematicamente tema de debates em todos os veículos de comunicação (CALDAS, 2000, p. 105).

O caráter de entretenimento do futebol influenciou para que o SBT, através da TV Alterosa, formatasse um programa que mesclasse humor, interatividade com o telespectador e informação. O „Alterosa Esporte‟, exibido de segunda a sexta feira às 12h15, possui um formato que cobre essas exigências do mercado. O apresentador Leopoldo Siqueira comanda uma bancada de três comentaristas que discutem sobre futebol com muita irreverência e bom humor. O „Alterosa Esporte‟ tem duração de 35 minutos. O cenário do programa é composto por uma bancada onde representantes das três principais agremiações mineiras ocupam seus espaços, e uma grande e moderna televisão de plasma, em que o apresentador expõe os temas para sua bancada e para os telespectadores. Quando há convidados, eles ocupam outra bancada, ao lado do apresentador.

Os principais quadros que compõem o programa são os: Gols da Rodada, parte do „Alterosa Esporte‟ que exibe os gols e os resultados ocorridos nos jogos dos principais campeonatos nacionais; Compacto da Rodada, em que são mostrados os

7 melhores lances dos três times de mineiros; Gol Contra, em que é feita seleção dos lances mais esdrúxulos da rodada e os erros de gravação ocorridos durante o programa, exibidos com bom humor; Invadindo a Área, em que é mostrada a intimidade dos jogadores de futebol em suas casas ou ambientes íntimos; e o Marcação Cerrada, no qual é escolhido um jogador, técnico ou componente da comissão técnica e, durante o jogo, ele é o foco principal. Durante o programa são lidas mensagens de internautas, realizadas promoções e os intervalos do programa são exibidos na internet. O programa „Alterosa Esporte‟ não segue os tradicionais padrões utilizados pelos demais programas esportivos, como é o caso do „Globo Esporte‟ exibido na Rede Globo, que tem como objetivo principal a obtenção da notícia, sem se importar muito com o aspecto „entretenimento‟ do telespectador.

A paixão da população brasileira pelo futebol faz com que a sociedade se torne uma grande massa, que cada vez mais consome os produtos produzidos pela indústria cultural. O futebol gera personagens que, através do mercado da indústria cultural, tornam-se semideuses, ditando tendências e fomentando sonhos na vida da grande massa. Na partida final da Copa de 2002, realizada simultaneamente na Coréia do Sul e no Japão, contra a Alemanha, o atacante Ronaldo Nazário, popularmente conhecido por „Fenômeno‟, raspou a cabeça deixando apenas um resto de cabelo na parte da frente, lançando, assim, um corte que foi copiado por muitos brasileiros, principalmente crianças.

As emissoras de televisão aproveitam os fatos ocorridos durante os jogos para montar seus programas. O formato desses programas pode ser apenas de caráter informativo ou conduzido através de mesas redondas, em que participam jornalistas, comentaristas, jogadores e técnicos de futebol discutindo sobre os jogos, como fazem vários programas da TV por assinatura, o „Meio de Campo‟ (TV Minas), „Bola na Rede‟ (Rede TV) e o „Terceiro Tempo‟ (TV Bandeirantes), todos exibidos aos domingos após as rodadas dos campeonatos futebolísticos.

Coberturas esportivas exigem dos jornalistas criatividade e uma constante busca por novidades e inovações durante a realização dos programas. O caráter do

8 entretenimento faz parte do conjunto esportivo, e a imprensa não poderia trilhar caminho diferente. Devido a essa maior liberdade, os programas sobre futebol podem possuir um formato menos formal que a de telejornais.

Para Débord (2007), a comunicação da atualidade tem se baseado no espetáculo. Sob todas as suas formas particulares, informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto de divertimentos, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. Não se pode opor abstratamente o espetáculo e a atividade social efetiva. O espetáculo que inverte o real é, efetivamente, produzido pela mídia. Ao mesmo tempo, a realidade vivida é materialmente invadida pela contemplação do espetáculo, e retoma, em si própria, a ordem espetacular, dando-lhe uma adesão positiva. A mídia busca o domínio da audiência e a satisfação dos patrocinadores.

José Arbex (2002, p. 53), autor do livro Showrnalismo, não aprova o modelo de como essa miscelânea vem sendo executada, caracterizando-o como “o enfraquecimento ou total apagamento da fronteira entre o real e o fictício”. Entretanto, não se pode partir apenas do pressuposto que apenas informações dos noticiários clássicos sejam absorvidas. Descartar o que as pessoas assimilam durante seus momentos de lazer e diversão indicaria que as informações transmitidas nesses momentos não teriam conseqüências significativas para a sociedade em que elas baseiam e atuam. O „Alterosa Esporte‟ está inserido na discussão entre jornalismo e entretenimento. Pretendeu-se neste trabalho responder a um aspecto que não tem se inserido em artigos publicados nem em muitos trabalhos acadêmicos: a análise entre diversão, entretenimento e informação jornalística propriamente dita, ou seja, se a utilização dos elementos de entretenimento/informação/debate é possível e até que ponto esses dois elementos podem caminhar juntos.

Em

outras

palavras,

este

estudo

deseja

responder:

como

jornalismo

e

entretenimento se fundem durante o programa „Alterosa Esporte‟, da TV Alterosa, Sistema Brasileiro de Televisão (SBT)?

9 Para Bistane e Bacellar (2006), autoras do livro Jornalismo de TV, programas de auditório misturam entretenimento, notícias sobre a vida de pessoas famosas e notícias informativas. As autoras citam o crítico da imprensa Eugênio Bucci, para quem esses programas não são programas jornalísticos, mas um „circo‟ e faz críticas a esse formato, entendendo isso não se configurar jornalismo, confundindo a cabeça do telespectador. Cabe aqui lembrar Guy Debord (2007, p. 38), filósofo precursor da análise crítica da sociedade moderna: “a sociedade portadora do espetáculo não domina as regiões subdesenvolvidas apenas pela hegemonia econômica. Dominaas como „sociedade do espetáculo‟”. O „Alterosa Esporte‟ se insere na discussão sobre esse tipo de jornalismo, que mistura informação e entretenimento. O futebol ocupa espaço considerável nas grades de programação das emissoras de televisão. O „Alterosa Esporte‟ está inserido nesse segmento e, levando em consideração os recursos utilizados para fazer o programa, buscou-se verificar se o jornalismo está sendo praticado ou se registra, apenas, uma espécie de entretenimento.

Lima e Reilly (1991) entendem a comunicação como a transmissão de idéias e informações. Entretanto, pode ser observado que o ato em si é um processo cuja realização eficiente é prejudicada quando se trata de um público distante e/ou variado, como é o caso deste trabalho.

Assim, definiu-se como objetivo geral analisar como jornalismo e entretenimento se misturaram no programa „Alterosa Esporte‟ após a primeira partida do campeonato mineiro de 2010, da TV Alterosa, com a presença de representantes dos três principais times mineiros e capitaneados por Leopoldo Siqueira, âncora mediador.

Para a consecução desse objetivo, tornou-se necessário caracterizar os seguintes objetivos secundários: Analisar a linguagem do programa ‘Alterosa Esporte’. Identificar quais gêneros jornalísticos estão presentes no programa. Mostrar quais elementos jornalísticos são utilizados no ‘Alterosa Esporte’. Identificar os critérios de noticibilidade utilizados pelo programa.

10 Verificar as estratégias de entretenimento utilizadas durante o programa. Observar o tempo de duração gasto com informação e o tempo gasto com o entretenimento.

O trabalho foi estruturado da seguinte forma:

Na Introdução, Capítulo 1, o tema foi contextualizado, bem como apresentados sua situação problemática, seu objetivo geral e os secundários, além da justificativa e relevância de seu desenvolvimento.

O Capítulo 2 aborda as estratégias televisivas: gênero; contrato de comunicação e suas finalidades; instâncias de informação; e os dispositivos de encenação.

O futebol e a televisão, como uma parceria que deu certo, são tema do Capítulo 3, em que se apresenta um pouco de sua história e evolução no Brasil até seu surgimento e sua permanência na mídia.

O Capítulo 4 informa sobre a metodologia utilizada e caracteriza o programa objeto de análise, seu âncora mediador, participantes, cenário e figurinos utilizados. A análise do programa „Alterosa Esporte‟ do dia 5 de abril de 2010, estudo de caso, encontra-se inserida no Capítulo 5.

Em seguida, seguem-se as considerações finais obtidas, que respondem ao problema e aos objetivos propostos e a lista de referências que possibilitaram seu desenvolvimento e análise.

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2 A TV E SUAS ESTRATÉGIAS

Definiu-se como autor principal neste capítulo de fundamentação teórica Patrick Charaudeau (2009) em sua obra „Discurso das mídias‟. O autor faz relevantes análises sobre as estratégias midiáticas para a obtenção de maior número de espectadores, principalmente em um debate sobre a realidade, neste caso a análise de um jogo de futebol importante para os aficionados desse esporte. 2.1 Gênero de informação midiática

O gênero de informação midiática pode ser definido conforme o resultado do cruzamento entre um tipo de instância enunciativa, um de modo discursivo, um de conteúdo e um de dispositivo (CHARAUDEAU, 2009, p. 206-207): O tipo de instância enunciativa se caracteriza pela origem do sujeito falante e

seu grau de implicação. A origem pode estar na própria mídia (um jornalista) ou fora da mídia (um especialista ou uma personalidade convidada a falar); O tipo de modo discursivo transforma o acontecimento midiático em notícia,

atribuindo-lhe propriedades que dependem do tratamento geral da informação. Os modos discursivos se organizam em torno de três categorias de base, e isso permite distinguir a „reportagem‟ (acontecimento relatado); o „editorial‟ (acontecimento comentado) e o „debate‟ (acontecimento provocado); O tipo do conteúdo temático constitui o domínio abordado pela notícia, e isso

permite fazer uma distinção nem sempre clara nas mídias, a „seção‟ e a „rubrica‟. A seção significa um acontecimento em macrotemas, no caso deste estudo o esporte do futebol; a rubrica corresponde à combinação de um modo discursivo com um tema particular, que se situa no interior de uma seção, ou seja, um programa da TV Alterosa em determinado dia; O tipo de dispositivo, por sua materialidade, traz especificações para o texto e

diferencia os gêneros de acordo com o suporte midiático, o que permite distinguir

12 uma entrevista radiofônica de uma entrevista televisionada, e suas múltiplas incidências nos papeis desempenhados por entrevistador e entrevistados. 2.2 A tipologia da informação midiática “Tipologia é o resultado de uma determinada classificação de gêneros” (CHARAUDEAU, 2009, p. 208). Para construir uma tipologia, torna-se necessário escolher alguma variável para a obtenção de um modelo proposto. A sugestão do autor é a construção de uma tipologia de base e, em seguida, construindo-se outras variáveis no interior dos eixos base, fundamentam-se tipologias sucessivas, que se encaixam no modelo de base. A Figura 1 demonstra essa tipologização de gêneros:

Instância interna (+ engajada)

Editorial Crônica (cinema, livro) Títulos e composição Comentário – análise de jornalistas especializados Reportagem Investigação AR Notas-boxes (despachos) Análises de especialistas exteriores Tribuna – opinião Tribuna - política Instância externa (+ engajada) Legenda: AR = acontecimento relatado; AC = acontecimento comentado; AP = acontecimento provocado. Figura 1 – Tipologia dos textos de informação midiática Fonte: CHARAUDEAU, 2009, p. 208. (- engajada) AC (- engajada) AP Entrevista Debate

O eixo horizontal da Figura 1 não é graduado entre dois polos opostos, mas trata-se do eixo no qual se situam os modos discursivos em três grandes zonas: numa extremidade, o „acontecimento relatado‟, zona na qual se impõe o acontecimento

13 exterior; na extremidade oposta, o „acontecimento provocado‟, zona na qual se impõe o mundo midiático; entre as duas, o „acontecimento comentado‟, pois este pode abarcar os outros dois.

O eixo vertical da Figura 1 opõe duas zonas de instância do discurso midiático, de acordo com as intervenções que partem de jornalistas ou de pessoas exteriores ao organismo de informação. Em cada uma dessas zonas se inscreve um eixo graduado que representa o grau de engajamento, maior ou menor, da instância da enunciação. “Entende-se por engajamento o fato de o enunciador manifestar mais ou menos sua própria opinião ou suas próprias apreciações na análise que propõe, ou na maneira de encenar o acontecimento” (CHARAUDEAU, 2009, p. 209) (como nos debates, caso deste trabalho). Na zona superior, há o „editorial‟ e a „crônica‟, que se incluem na categoria „acontecimento comentado‟. „Títulos‟, „composição de primeira página‟ e „perfil‟ encontram-se na zona de „acontecimento relatado‟, mas integrando elementos de comentário mais ou menos explícitos, daí porque se acham entre AR e AC, com um grau médio de engajamento. Os „comentários‟ e análises de especialistas jornalistas se situam no meio do eixo horizontal porque se incluem na categoria de „acontecimento comentado‟, e estão colocados em uma altura média porque, embora os jornalistas sejam especialistas, nos programas são analistas engajados. A „reportagem‟ está mais alinhada com „acontecimento relatado‟ e a „investigação (ou pesquisa)‟ está mais orientada para uma problemática e, por isso, mais próxima do „acontecimento comentado‟. Não é fácil estabelecer distinção quanto ao grau de engajamento, que depende do modo da presença do jornalista em sua enunciação. A posição do gênero „entrevista-debate‟ se justifica pelo fato de que a instância midiática quem monta todas as peças do acontecimento pela exibição espetacular da palavra, mesmo quando essa instância deva, obrigatoriamente, fazer o jogo da transparência (CHARAUDEAU, 2009, p. 210). Na zona inferior da Figura 1, há os „especialistas-analistas‟, geralmente especialistas das ciências humanas e sociais ou técnicos em um domínio particular, daí seu menor engajamento. Nas „tribunas de opinião‟, em contraste, os que fazem

14 intervenções são especialistas exteriores à instância midiática, engajados em suas declarações: comentam o acontecimento e, muitas vezes, ao fazê-lo, o provocam.

O debate, objeto de análise deste estudo, é uma forma que reúne uma série de convidados em torno de um animador, para tratar de um determinado tema. Isso é completa e totalmente organizado e gerenciado pela instância midiática. Desse ponto de vista, ele está situado na parte superior (instância interna) direita (acontecimento provocado) dos eixos de tipologização (FIG. 1).

A televisão conferiu ao debate o que ele não possuía na escrita, ou seja, a alternância de réplicas diretas e regulação das intervenções por encenações diversas, “oferecendo em espetáculo uma democracia midiática” (CHARAUDEAU, 2009, p. 210).

2.3 O contrato da comunicação

Como preleciona Bourdieu (1996, p. 95), a eficácia simbólica das palavras só se exerce na medida em que aquele que a experimenta reconhece aquele que a exerce como no direito de exercê-la.

Para a construção de seu interesse social, todo discurso depende das condições específicas de sua situação de troca. O reconhecimento necessário e recíproco das restrições da atuação pelos parceiros da troca de linguagem indica que eles estão ligados por uma espécie de „acordo prévio‟ sobre os dados desse quadro de referência. Em outras palavras, um contrato de comunicação, que resulta das características próprias da situação de troca, os „dados externos‟, e das características discursivas decorrentes, os „dados internos‟ (CHARAUDEAU, 2009, p. 67-71).

2.3.1 Os dados externos

Estes podem ser agrupados em quatro categorias, em que cada uma corresponde a um tipo de condição de enunciação da produção da linguagem:

15 Condição de identidade – o ato da linguagem é intersubjetivo, e a identidade

dos parceiros engajados na troca é a condição que requer que todo ato de linguagem dependa dos sujeitos envolvidos. A convergência dos traços identitários que interferem no ato de comunicação devem levar em conta a pertinência com a situação do momento; Condição de finalidade – requer que todo ato de linguagem seja ordenado em

função de um objetivo, e se define por meio da expectativa do sentido em que se baseia a troca. Assim, da parte de cada um, se faz com que o outro seja incorporado à sua própria intencionalidade. A resposta á essa influência se dá em termos de „visadas‟ operatórias: • • • • Prescritiva – consiste em querer levar o outro a agir de uma determinada maneira; Informativa – consiste em querer transmitir um saber a quem se presume não possuí-lo; Incitativa – consiste em querer levar o outro a pensar que o que está sendo dito é verdadeiro (ou possivelmente verdadeiro); e Visada do páthos1 - que consiste em provocar no outro um estado emocional agradável ou desagradável; Condição de propósito – requer que todo ato de comunicação se construa em

torno de um domínio de saber, uma maneira de recortar o mundo em „universos de discurso tematizados‟. Corresponde ao universo dominante ao qual a troca deve se reportar, uma espécie de macrotema (no caso deste estudo, o futebol), admitido antecipadamente por todos os parceiros; e, finalmente, o Contrato do dispositivo – requer que o ato de comunicação se construa de

uma maneira particular, segundo as circunstâncias materiais em que se desenvolve. O dispositivo constitui o quadro tipológico da troca, mais ou menos organizado. Em certos casos, é objeto de uma montagem cênica pensada de maneira estratégica, como nas mídias televisuais (debates, emissões de variedades e jogos). O dispositivo é o que determina variantes de realização no interior de um mesmo contrato de comunicação (CHARAUDEAU, 2009, p. 67-70).
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Palavra grega que significa paixão, excesso, catástrofe, passagem, passividade, sofrimento e assujeitamento. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Pathos>. Acesso em 29 maio 2010.

16 2.3.2 Os dados internos

Uma vez determinados os dados externos, torna-se necessário definir como devem ser os comportamentos dos parceiros, suas maneiras de falar, os papéis que devem assumir, as formas verbais que devem empregar, tudo em função das instruções contidas nas restrições da situação. Podem ser divididos em três espaços de comportamentos linguageiros (CHARAUDEAU, 2009, p.70-71): Espaço da locução – aquele no qual o sujeito falante deve resolver o

problema da „tomada da palavra‟. Deve justificar sua interferência, impor-se como sujeito falante e, de algum modo, conquistar seu direito de poder se comunicar; Espaço da relação – aquele em o que o sujeito falante, ao construir sua

própria identidade de locutor e a de seu interlocutor, estabelece relações de força ou de aliança, de exclusão ou inclusão, de agressão ou de conivência com seu interlocutor; Espaço da tematização – no qual é tratado ou organizado o domínio do saber

e o tema da troca, tanto predeterminados por instruções contidas nas restrições comunicacionais ou introduzidos pelos participantes da troca. O sujeito falante deve não apenas tomar posição com relação ao tema imposto pelo contrato (aceitando-o, rejeitando-o, deslocando-o, propondo outro); escolhendo um „modo de intervenção‟ (diretivo, de retomada, de continuidade etc.), mas, também, escolher um „modo de organização discursivo‟ particular (descritivo, narrativo, argumentativo) para esse campo temático, em função das instruções contidas nas restrições situacionais.

No ato de comunicação, não há possibilidade de predeterminação. Geralmente, o sujeito falante estará sempre sobredeterminado pelo contrato de comunicação que caracteriza cada situação de troca, considerado por Charaudeau (2009, p. 71) como a “condição de socialidade do ato de linguagem e da construção de sentido”. Entretanto, apenas em parte isso acontece, porque o sujeito falante dispõe de uma margem que lhe permite realizar seu projeto de fala pessoal, ou seja, conforme suas próprias habilidades e modos de expressão.

17 Sintetizando, contrato de comunicação e projeto de fala se completam porque trazem: (1) um quadro de restrições situacionais e discursivas; e (2) se desdobram num espaço de estratégias, “o que faz com que todo ato de linguagem seja um ato de liberdade, sem deixar de ser uma liberdade vigiada” (CHARAUDEAU, 2009, p. 71).

2.4 A identidade das instâncias de informação

Como em todo ato de comunicação, a comunicação midiática possui duas instâncias: uma de produção e outra de recepção. A primeira possui um duplo papel: de fornecedor de informação (deve saber fazer) e de propulsor do desejo de consumir as informações (deve captar seu público). A instância de recepção deve manifestar seu interesse e/ou prazer em consumir tais informações (ou mais informações correlatas) (CHARAUDEAU, 2009, p. 72-85).

Entretanto, na realidade, não se trata somente de transmitir saber, mas de se confrontar com os acontecimentos que se produzem no mundo ou inteirar-se de sua existência, e de construir, a esse respeito, certo saber. Isso funciona, por um lado, em um tratamento que depende da maneira pela qual se constroem as representações sobre o público; e por outro, porque o público não se deixa atrair nem seduzir com facilidade, pois segue seus próprios movimentos de idéias.

Dessa maneira, a instância de produção deve ser considerada ora como organizadora de um conjunto de sistemas de produção, num lugar externo, ora como organizadora da enunciação discursiva da informação. A instância da recepção também deve ser desdobrada: de um ponto de vista interno à instância midiática, e é designada como „instância-alvo‟; e um ponto de vista externo, como instância de recepção propriamente dita, com uma instância própria de consumo, ou seja, „instância público‟.

Por conseqüência, devem ser considerados tanto os discursos de justificativa, produzidos pelos profissionais das mídias sobre „seu modo de fazer‟ quanto às características do funcionamento da máquina midiática em si.

18 2.5 A finalidade do contrato de comunicação

A informação midiática sempre é minada por contradições: (a) precisa do maior número de cidadãos à busca de suas informações; (b) nem todos se encontram nas mesmas condições de acesso; (c) é necessário que a informação seja digna de fé, mas suas fontes são diversas e podem gerar uma tomada de posição parcial; (d) além disso, a maneira de relatá-la pode satisfazer a um princípio de dramatização que nem a todos agrada; (e) é necessário que os cidadãos possam se expressar, dar sua opinião, mas a mídia só se interessa que essa opinião se torne pública quando essa palavra anônima se integre em uma encenação que dramatize.

Para Charaudeau (2009, p.86-93), a finalidade do contrato de comunicação midiática se acha numa tensão entre duas visadas: (1) a de „fazer saber‟ ou visada de informação propriamente dita, que tende a produzir um objeto de saber segundo uma lógica cívica: informar o cidadão; e (2) a visada do „fazer sentir‟ ou visada de captação, que tende a produzir um objeto de consumo segundo uma lógica comercial: captar as massas para sobreviver à concorrência.

A visada de captação diz respeito, primordialmente, à finalidade do contrato publicitário, e a visada de informação é domínio do contrato de informação midiática. Embora possa parecer que o contrato de informação midiática também procure „fazer sentir‟ ou „seduzir‟, isso não seria aceitável sob o ângulo das representações sociais, porque “o jogo de mascaramento de uma visada pela outra é inverso nos dois contratos, cada um deles tira sua legitimidade da visada oposta: o contrato midiático da visada de informação, o publicitário da visada de captação” (CHARAUDEAU, 2009, p. 87).

2.5.1 Visada de informação

A instância midiática faz saber ao cidadão o que aconteceu ou o que está acontecendo no mundo da vida social, e o faz de duas formas: pela „descriçãonarração‟ e pela „explicação‟. Em ambos os casos, coloca-se um problema de relação com a verdade.

19 „Dizer o exato‟ é uma das responsabilidades da instância midiática, que deve „autenticar‟ os fatos, descrevê-los de forma verossímil, sugerir suas causas e justificar as explicações dadas. “A autenticação nas mídias é a prova pelo „visto-ditoouvido‟, ou deve atestar „o que é‟, mesmo quando se trata do inominável” (CHARAUDEAU, 2009, p. 89). „Dizer o que aconteceu‟ significa que não há coincidência temporal entre o dito e o fato, e que o relato instaurado só pode ser o de uma „reconstituição‟. Por este motivo, o problema que se coloca é o da veracidade da reconstituição, ou seja, tentar fazer crer que o relato corresponde à reconstituição mais provável. Nas mídias, os meios utilizados são a imagem, os testemunhos e a tecnologia, que permitem reconstituir os fatos, permitindo a expressão „foi assim que aconteceu‟ e, dessa forma, poder revelar até intenções ocultas de outras informações, convocando a credibilidade para si. “Dizer a intenção‟ é dizer o que foi pensado, em uma relação de transparência. Nas mídias, os procedimentos que permitem provocar revelações são as entrevistas, os bate-papos e os debates, acompanhados de investigações e pesquisas. „Fornecer a prova‟ implica em demonstrar a inteligibilidade dos fatos, permitindo o acesso do público-alvo à verdade, fundamentando a validade das explicações. Nas mídias, os procedimentos dependem da „demonstração‟, cujos meios são diversos: uns são obtidos pela análise (apelando para provas técnicas ou científicas), outros por meio de uma investigação, e outros ainda através unicamente do poder demonstrativo da imagem, em sua função de visualização do que não se viu quando aconteceu.

Sintetizando esse jogo da verdade das mídias, que correspondem aos imaginários sociais que as questionam, pode-se afirmar que: „dizer o exato‟ significa dar a impressão de controlar o mundo no momento em que surge o fato, pois a verdade é capturada; „dizer o que aconteceu‟ é construir a memória das pessoas e permitir a elas se apropriarem do passado, que sempre foge; „revelar a intenção oculta‟ equivale a triunfar sobre forças do poder que se apóiam no segredo e na mentira, como nas entrevistas e nos debates políticos; ou então a triunfar sobre enigmas

20 constituídos pelo conhecimento do homem, como pode ser observado em alguns talk shows; „fornecer as provas das explicações‟ significa manifestar o triunfo da razão, o poder da inteligência humana e a dominação do pensamento sobre a matéria, sem a qual a descrição dos fatos não teria qualquer utilidade. Pelo acima exposto, entre fatos e comentários, pode-se afirmar que “um não existe sem o outro, pois o que justifica que se fale dos fatos é que se faça um comentário a respeito” (CHARAUDEAU, 2009, p. 91).

2.5.2 Visada de captação

Toda visada de captação está orientada para o parceiro da troca, alguém não natural (instituído como destinatário de uma mensagem); um parceiro não passivo (porque possui duas próprias faculdades de interpretação); e não ter sido conquistado antecipadamente pelo interesse que a mensagem pudesse ter despertado (é necessário persuadi-lo, seduzi-lo).

Na mídia, é necessário mostrar-se credível, deve sê-lo para a maioria do público e, por isso, por uma dupla razão: pelo fato de estar em concorrência com os demais organismos de informação, o que a coloca num campo de luta comercial por sua própria sobrevivência econômica, e porque, em nome da posição que ocupa institucionalmente no espaço público, tem como dever informar o mais corretamente possível. Entretanto, “quanto maior for o número a atingir, principalmente quando não cativos a priori, menos os meios para atingi-los dependem de uma atitude racionalizante” (CHARADEAU, 2009, p. 91).

Assim, a instância midiática acha-se submetida a duas exigências: emocionar seu público e mobilizar sua afetividade, a fim de desencadear o interesse pela paixão pela informação que lhe é transmitida. O efeito produzido por essa visada encontrase no extremo oposto ao efeito da racionalidade que deveria direcionar a visada da informação, e daí decorre a tensão já mencionada na introdução deste item 2.5.

Para satisfazer seu princípio da emoção, a mídia deve proceder a uma encenação sutil do discurso da informação, baseando-se, ao mesmo tempo, nos apelos

21 emocionais que prevalecem em cada comunidade sociocultural e no conhecimento dos universos de crenças que ali circulam. Por isso, o contrato da informação midiática é, em seu fundamento, marcado pela contradição: finalidade de saber fazer, que
[...] deve buscar um grau zero de espetacularização da informação para satisfazer o princípio de seriedade ao produzir efeitos de credibilidade; finalidade de fazer sentir, que deve fazer escolhas estratégicas apropriadas à encenação da informação para satisfazer o princípio de emoção ao produzir o efeito da dramatização (CHARAUDEAU, 2009, p. 92).

Na tensão entre os pólos de credibilidade e de captação, quanto mais as mídias tendem para o primeiro, cujas exigências são as da austeridade racionalizante, menos tocam o grande público; quanto mais tendem para a captação, cujas exigências são as da imaginação dramatizante, menos credíveis serão. No aspecto da „objetividade da informação‟, em que algumas instâncias midiáticas tentam se firmar, Charaudeau (2009, p. 93, nota 14) comenta ser isso uma falácia, que essa questão não procede, e não por razões éticas, mas porque essa dupla finalidade já está inscrita no próprio contrato da informação. Complementa afirmando que uma mídia que apenas satisfizesse ao rigor sóbrio do „fazer‟ saber estaria condenada a desaparecer. 2.6 Os dispositivos de encenação

Estes representam uma maneira de pensar a articulação entre vários elementos que formam um conjunto estruturado, pela solidariedade combinatória que os liga. Assim Charaudeau (2009, p. 104) define os dispositivos de encenação, informando serem eles de “ordem material, bem localizados agenciados e repartidos segundo uma rede conceitual mais ou menos complexa”. Por isso formatam a mensagem e, com isso, contribuem para lhes conferir um sentido. No „material‟, configura-se o „suporte‟ com o auxílio de uma „tecnologia‟ específica. No estudo dos dispositivos utilizados pela instância midiática é incluída a natureza da textura do material: a vibração da voz, o pigmento das cores, a tipografia, etc. “Esses materiais estão organizados em sistemas semiológicos, conjuntos de redes de significantes que permitem a configuração das unidades do sentido: sistema

22 fônico, sistema gráfico; sistema minigestual e sistema icônico” (CHARAUDEAU, 2009, p. 105).

O suporte também é elemento material e funciona como um canal de transmissão, e ele pode ser fixo ou móvel: pergaminho; papel; madeira, uma parede; ondas sonoras; uma tela de cinema ou uma tela de vídeo.

A tecnologia é o conjunto de equipamentos, mais ou menos sofisticados, que regula a relação entre os diferentes elementos do material e do suporte. Ela combina oralidade, escrituralidade, gestualidade e iconicidade; localiza de certa maneira os elementos sobre o suporte e chega mesmo a organizar a topologia, ou seja, ordenar o conjunto dos participantes no ato de comunicação, determinar suas possíveis conexões ou regular uma parte de suas relações (o tipo de disposição espacial pode facilitar a polêmica ou o consenso).

Na comunicação midiática, esses componentes da tecnologia permitem distinguir os três grandes „suportes‟ de mídia: rádio, televisão e imprensa escrita. Como este estudo se refere ao estudo da TV e às suas estratégias no futebol, os demais não são abordados.

2.6.1 Televisão, um dispositivo visual

A TV é imagem e fala, fala e imagem e em tal solidariedade que não se pode dizer de qual das duas depende a estruturação do sentido. Talvez a imagem possa jogar mais com a representação do „sensível‟, enquanto a palavra usa da „evocação‟ que passa pelo conceitual, em que cada uma goza de certa autonomia em relação à outra.

A mídia televisual pode criar a ilusão do contato entre a instância de enunciação e instância de recepção na representação, pela imagem de uma situação face a face entre essas suas instâncias: a posição do apresentador, diante da câmera, logo, diante do telespectador, simula o face a face da situação. Como o rádio, a TV pode recorrer a estratégias de interatividade (telefone, e-mail, sondagens imediatas, etc.). Entretanto, sabe-se que essas, na realidade, produzem apenas um simulacro de

23 contato, “pois o receptor interveniente é imediatamente „fagocitado‟ 2 pela encenação midiática” (CHARAUDEAU, 2009, p. 111).

Apesar disso, há um efeito de contato, pois a TV, ao se utilizar desses procedimentos, pode criar a ilusão de que representa o mundo dos acontecimentos tal como ele é: próximo ou distante, o mundo se torna presente; cria a ilusão de „encarnação‟, que é suscetível de produzir: (1) um efeito de autenticação do acontecimento; (2) um efeito de fascinação do telespectador; e, ainda, (3) um efeito de voyeurismo, que pode fazer com que o telespectador tenha a impressão de penetrar em uma intimidade sem que a pessoa observada tenha essa noção. Sintetizando, pode-se dizer “que a televisão cumpre um papel social e psíquico de reconhecimento de si através de um mundo que se fez visível” (CHARAUDEAU, 2009, p. 112). Ou, como Claire Belisle (1984) citada pelo autor, essa semiotização do real pela imagem em que cada um se projeta no que lhe aparece como um reflexo de seu ambiente é constitutiva do sujeito.

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A fagocitose consiste na absorção e na digestão de bactérias e partículas estranhas por qualquer célula com capacidade para ingerir material estranho. Informação disponível em: <http://www.infopedia.pt/$fagocitose>. No corpo humano, a fagocitose é usada principalmente como meio de defesa (em alguns casos, como nos protozoários, a fagocitose é usada mais como meio de nutrição). Informação disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Fagocitose>. Acesso em 09 jun. 2010.

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3 O FUTEBOL E A TELEVISÃO: UMA PARCERIA QUE DEU CERTO

3.1 O futebol Brasileiro e suas particularidades Ao se referir ao Brasil, todos o associam como o “país do futebol”, vencedor de cinco Copas do Mundo e que possui uma seleção cheia de atletas que gozam de fama internacional e que já foram agraciados com o título de melhor jogador do mundo, como Ronaldinho Gaúcho, jogador do Milan, da Itália, Kaká, atualmente defendendo o Real Madrid, da Espanha e Ronaldo Nazário, atuando pelo Corinthians, do Brasil.

Mas ao contrário do que muitas pessoas mundo afora pensam, o futebol não foi inventado no Brasil. O jogo, como é disputado atualmente, apareceu pela primeira vez na Inglaterra, por volta dos anos de 1830. Foram os ingleses que inventaram as regras adotadas até os dias atuais, com pequenas alterações. O escritor José Sebastião Witter, em seu livro Breve história do futebol brasileiro (1996), relata que essas modificações do esporte no país da rainha Elizabeth foram influenciadas pela Revolução Industrial que ocorria no país no século XVIII.

Conforme Witter (1996), a primeira vez que os brasileiros tiveram contato com o futebol foi em 1894, através de um brasileiro, filho de pai escocês e mãe brasileira, Charles Miller, que trouxe com ele duas bolas usadas; um par de chuteiras; um manual com as regras do futebol; e uma bomba para encher a bola quando retornou da Inglaterra após passar algum tempo se dedicando aos estudos.

Witter (1996, p. 12) relata que, no princípio, o futebol era um esporte para pessoas que possuíam uma situação financeira confortável, e sofreu muitas influências de estrangeiros que vinham para o Brasil em busca de trabalho. Jogar futebol naquela época não era barato, já que os materiais, como a bola e as chuteiras, vinham de fora das fronteiras do país e, por isso, os preços eram bastante elevados. “As classes privilegiadas e os imigrantes com posses acabaram sendo os primeiros responsáveis pela consolidação do futebol no Brasil”.

25 Roberto Da Matta (1994, p. 11), no artigo Antropologia do Óbvio, considera esse princípio do futebol no Brasil como um produto que significava o „novo‟. Através do esporte, a sociedade se modernizaria, constituindo-se “uma atividade destinada a redimir e modernizar o corpo pelo exercício físico e pela competição, dando-lhe a higidez necessária à sua sobrevivência num admirável mundo novo”.

Essa face moderna do futebol atiçou o interesse dos ingleses que trabalhavam nas grandes empresas de São Paulo e exerciam funções de chefia, como a Companhia de Gás, o Banco de Londres, e os colégios tradicionais que adotaram o futebol como forma de recreação. Waldenyr Caldas (1994, p. 41), no artigo Aspectos Sociopolíticos do Futebol brasileiro, aborda as primeiras competições que foram disputadas em solo brasileiro:
O primeiro “grande” jogo foi realizado em São Paulo, em 1899, na presença de 60 torcedores. Um acontecimento singular. Os adversários eram um time de funcionários da Empresa Nobiling contra os ingleses da Companhia de Gás, da São Paulo Railway e do Banco de Londres. O resultado final era previsível: 1x0 para os ingleses.

A primeira agremiação futebolística brasileira foi a Associação Atlhética Ponte Preta, fundada em 1903 pelos grandes produtores de café da época, de acordo com registros oficiais da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Waldenyr Caldas fala do aumento no número de empresas que incentivavam a prática futebolística aos seus empregados, e enfatiza a criação do The Bangu Athletic Club, na década de 1910, pelo seu protesto contra a situação social para a qual o futebol caminhava. O The Bangu Athletic Club era um time formado por empregados de baixo escalão da Companhia Industrial do Brasil (Cia. Progresso), localizada em uma região conhecida como Bangu, na capital carioca.

Mesmo assim, essa questão mais social seguia padrões bem rígidos. Para conseguir uma vaga no time, era necessário passar por uma série de testes fora das quatro linhas. O rendimento profissional, o tempo trabalhado na empresa e o comportamento individual de cada empregado eram critérios adotados na seleção dos funcionários que atuariam pelos times das empresas. Aqueles que acumulavam as funções de jogador e empregado obtinham algumas facilidades, como, por exemplo, sair mais cedo nos dias dedicados a treinamentos. Eles também gozavam

26 de certo status, pois a Companhia Industrial do Brasil fazia marketing com conquistas obtidas pela equipe.
A Cia. Progresso tem um caráter duplamente pioneiro. Foi umas das primeiras indústrias de manufatura têxtil do país, quando ainda não se pensava objetivamente numa política industrial. Além disso, transformou a imagem da empresa numa instituição vitoriosa, graças às conquistas do Bangu nos campos de futebol. A população associava os tecidos Bangu (era esse o nome da produção têxtil da Cia. Progresso) ao vitorioso time de futebol (CALDAS, 1994, p.41).

No início do século XX, a prática do futebol era um processo de grande desenvolvimento por todo o Brasil, tendo surgido diversas agremiações, como o Fluminense, em 1902; o Botafogo, em 1910; e o Flamengo, em 1911, todos esses na cidade do Rio de Janeiro. Em São Paulo, foram fundados: o Corinthians, em 1910; o Palmeiras, em 1914; o Clube Atlético Juventus, em 1924; e o São Paulo Futebol Clube, em 1930. Em 1908, no estado de Minas Gerais, foi a vez do Villa Nova e do Atlético Mineiro. Também surgiram no Estado o América (1912) e o Cruzeiro (1921). No Rio Grande do Sul, destacaram-se o Internacional (1903) e o Grêmio (1909).

Várias indústrias dedicavam parte de seus lotes para a construção de campos de futebol, com o objetivo de integrar seus empregados. Empresas como essas desempenharam papel fundamental para a divulgação do futebol pelo território nacional. No início do XX, as partidas de futebol levavam um elevado número de espectadores aos estádios.

Esse caráter populista do futebol não ficou restrito apenas aos clubes fundados pelas empresas. Campos para a prática do esporte surgiram de improviso por todo o país, principalmente nas várzeas dos rios. É por isso que o futebol amador do país ficou conhecido por futebol de várzea. “Em São Paulo, nas margens dos rios Pinheiros e Tietê, havia incontáveis campos de futebol que, por aproveitamento das várzeas dos rios, acabaram sendo classificados como futebol varzeano” (WITTER, 1996, p.18).

Desses campos, surgiram grandes jogadores que alcançaram papel de destaque, como, por exemplo, o anjo de pernas tortas, Garrincha, que mais tarde sagrou-se

27 ídolo do povo brasileiro. Durante a Copa do Mundo de 1958, disputada na Suécia, e a Copa do Mundo de 1962, disputada no Chile, Garrincha encantou o mundo com seus dribles desconcertantes, tendo se sagrado bicampeão mundial pela seleção brasileira de futebol.

Porém, esse celeiro formador de jogadores vem sofrendo ameaças, pois o crescimento desenfreado das cidades vem diminuindo o número de campos para a prática futebolística. E é cada vez mais raro encontrar campos de várzea para que qualquer pessoa jogue futebol livremente.

Futuramente, essa diminuição brusca de espaço pode acabar comprometendo a formação de novos atletas e futuros ídolos, pois foram nesses campos que atletas de renome mundial, como Rivaldo (meia do Barcelona e da seleção brasileira) surgiu. Também foram nesses campos que meninos pobres e ricos estiveram pela primeira vez do mesmo lado, rompendo, assim, barreiras sociais.

Mesmo depois de tantos avanços, o esporte não gozava de um status profissional, pois ainda não passava de uma prática amadora. Na década de 1920, o futebol iniciou o processo de profissionalização no país, graças às mudanças políticas que aconteceram no Brasil. Tal década foi marcada pelo fenômeno pós-guerra, seguido por um grande crescimento demográfico. Nas terras brasileiras, ocorreram mudanças que afetariam a vida da sociedade: (1) a fundação do Partido Comunista, popularmente chamado de Partidão, que baseava suas ideias na filosofia dos pensadores Karl Marx e Friedrich Engels; (2) a Semana de Arte Moderna em 1922, na cidade de São Paulo, representou verdadeira renovação de linguagem, na busca de experimentação, na liberdade criadora da ruptura com o passado e até corporal, pois a arte passou, então, da vanguarda para o modernismo; e (3) a política do Café com Leite, que trazia o revezamento do poder nacional executado na República Velha pelos estados de São Paulo e Minas Gerais. Durante esse período, os times do Brasil iniciaram uma série de excursões para fora do país. Witter (1996) refere-se ao clube Paulistano como o primeiro clube a atuar fora do domínio das terras canarinhas. A equipe partiu de São Paulo rumo à França em fevereiro de 1925, onde conquistou a mídia local como uma série de apresentações de gala.

28 O status conquistado pelos atletas deu início ao debate sobre a regulamentação do futebol como profissão oficialmente reconhecida. Entretanto, com o início da internacionalização do futebol e o começo das transações de jogadores entre os clubes e para outros países, as equipes foram praticamente obrigadas a se profissionalizar. “Sem dúvida, a questão da profissionalização acompanhou a popularização do esporte e o crescente prestígio dos jogadores, que se tornavam conhecidos em outros países” (WITTER, 1996, p. 22).

O processo de profissionalização do futebol brasileiro foi influenciado pelo golpe político de 1930, aplicado por Getúlio Vargas, e sua plataforma de governo intitulada “Programa de Reconstrução Nacional” determinava uma reforma na Constituição e instituía enfoques trabalhistas, beneficiando o atleta e o futebol brasileiro. Durante o getulismo, doutrina do presidente Vargas, foi implantada a Legislação Social e Trabalhista, que regulamentou várias profissões, com o futebol fazendo parte da lista. Oficialmente, o futebol foi reconhecido como profissão em janeiro de 1933.

Depois de anos de amadorismo, a prática futebolística começou a tornar-se menos confusa, tornando-se um negócio lucrativo. Witter (1966, p. 26) descreve que a prática da compra do passe do jogador começou a ser ocorrência do cotidiano e, depois desses acontecimentos, os praticantes de futebol começaram a se tornar atletas profissionais. Apesar dessa nova era, as transações entre os clubes ficaram suspensas devido à Segunda Guerra Mundial, mas foram retomadas em 1945 com o início de competições internacionais que mudariam a concepção sobre o mundo futebolístico novamente.

No Brasil, foram iniciados os preparativos para o Mundial de 1950, a primeira e única Copa realizada em solo brasileiro até 2010. As equipes passaram por um processo de modernização e estádios surgiram por todo o território nacional, como o Maracanã, construído especialmente para a realização do Mundial. Witter (1996) comenta sobre o desenvolvimento científico que o esporte da época passava; ter habilidades não era o único aspecto abordado, os atletas profissionais tinham que se preocupar com seu condicionamento físico, pois ele se tornou primordial. Foi durante esse período que surgiram as figuras de médicos e massagistas nas delegações das equipes.

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Mesmo depois da trágica derrota do Brasil em 1950, o esporte continuou se desenvolvendo no país, sagrando-se campeão nos mundiais de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. O futebol tornou-se um negócio ainda mais lucrativo. Nomes como o Pelé, no Brasil, e Franz Beckenbauer, na Alemanha, tornaram-se mundialmente conhecidos. As transações envolvendo os clubes começavam a alcançar cifras muito altas, nunca antes constatadas na história do futebol.

Após a Copa do Mundo de 1970, vencida pela seleção de Pelé, o Brasil passou seis mundiais sem conquistar nenhum título do torneio. Foram exatos 24 anos. Mesmo assim, os futebolistas brasileiros ocupavam cada vez mais espaço nos mercados estrangeiros. Todos os setores do futebol aumentaram seu faturamento.

3.2 As mídias e o futebol

Desde o primeiro contato do Brasil com o futebol, o jornalismo esportivo enfrenta preconceitos dentro das empresas de comunicação. Durante o processo de profissionalização do futebol brasileiro, grandes nomes do jornalismo e da literatura da época não podiam conceber a idéia de que uma matéria esportiva fosse capa de uma edição de um jornal. Mas eles estavam enganados: o esporte tornou-se popular no país e hoje é o orgulho de muitos brasileiros, ocupando um espaço considerável na impensa do Brasil.

Durante a consolidação do esporte na sociedade brasileira, o futebol enfrentou enormes dificuldades nas redações, e renomados nomes da literatura nacional se opunham ao espaço que o futebol vinha conquistando nos jornais. Existia até um trio de pensadores brasileiros que eram contra o futebol: Lima Barreto, Graciliano Ramos e Oswald de Andrade. De acordo com Francisco Costa (1994, 1994, p. 86), no artigo Futebol na ponta da caneta (1994), o trio usava de suas habilidades com as letras para combater o futebol. Costa escreve que: “biliosos efervescentes e cerebrais, em suas vidas de cronistas, disparavam verdadeiros scunds contra o futebol”.

30 Mas com o passar dos anos também aumentou o número de intelectuais que gostava de futebol. Nomes que gozavam de grande prestígio, como o poeta Vinícius de Moraes, o pintor Di Cavalcanti e os escritores José Lins do Rêgo e Nelson Rodrigues apoiavam abertamente o esporte. Costa (1994, p. 88) destaca as crônicas de Nelson Rodrigues sobre o futebol, descrevendo-o como o “maior crítico de futebol surgido até hoje nesta terra”. O autor procura demonstrar a importância do escritor citando suas caracteristicas:
Nelson é um trágico, um autor que vê a bola, o estádio, os jogadores, o juiz, os bandeirinhas, os locutores e os críticos, como elementos de um drama, uma tragédia, que se desenrola no gramado. Um drama que não se repete, perfeito em sua forma plástica e emocional. Seus artigos são expressões de forma do dramaturgo fervoroso, do torcedor idem (COSTA, 1994,p.89).

Entre opositores e simpatizantes, o futebol ganhou espaço na mídia internacional. Mário Filho, irmão mais velho de Nelson Rodrigues, foi um dos que mais contribuiu para a popularização do esporte. José Sérgio Leite, no artigo A vitória do futebol que incorporou a pelada (1994), sustenta que Mário Filho praticamente inventou o jornalismo esportivo.

Depois de colaborar com os grandes jornais da época como O Globo, o Correio da Manhã, Mário Filho comprou em 1936 o Jornal dos Sports e mudou a forma de se tratar o jornalismo esportivo procurarando usar expressões nacionais na construção de seus textos. Anteriormente, predominavam expressões inglesas. Ele contribuiu para a transformação do futebol, ajudando a transformar o esporte antes praticado por uma elite de ingleses em um produto de grande apelo popular.

Mário Filho foi peça findamental na popularização do futebol brasileiro, promovendo junto com os cartolas discussões sobre o assunto, aproveitando-se de seu prestígio para conseguir mais adeptos para sua causa. José Sérgio Leite (1994, p. 72) descreve o papel de Mário Filho nesse aspecto:
Mário Filho estará presente nas articulações que se abrem entre os dirigentes dos clubes em consequência dos seus artigos publicados. Seu papel será importante na medida que o interesse pelo fenômeno que representa o futebol é global, independente dos interesses imediatos dos clubes, e sua prática da profissão de jornalista facilita-lhe a construção de uma posição de árbitro.

31 Mário Filho conseguiu contribuir para a consolidação do futebol brasileiro, tornandoo um evento atraente para as grandes massas. Em 1966, o antigo Estádio Municipal do Maracanã recebeu o nome de Estádio Jornalista Mário Filho, em homenagem póstuma a um dos prercursores do jornalismo esportivo no Brasil.

O jornalista Paulo Vinicius Coelho, em seu livro Jornalismo Esportivo (2003), também aborda o fundamental papel do Jornal dos Sports, que travou grande batalha contra as editorias mais tradicionais para implementar esse foco midiático. Coelho argumenta sobre os fundamentos desses preconceitos, pois, contra o jornalismo esportivo, pesava a acusação da falta de dinheiro e da pouca cultura dos destinatários.

Devido a essas dificuldades, várias publicações surgiram e desapareceram rapidamente. Durante os anos de 1960 surgiam os primeiros cadernos esportivos nos tradicionais jornais daquele tempo. Coelho fala sobre esse tempo: “A partir da segunda metade dos anos de 1960, com cadernos esportivos mais presentes e de maior volume, o Brasil entrou na lista dos países com imprensa esportiva de larga extensão” (COELHO, 2003, p. 10). 3.3 A relevância do futebol na vida social brasileira Quando o futebol chegou ao país, ele era encarado por muitos como um sinal da modernidade. O antropólogo Roberto da Matta (1994, p. 12), em seu artigo Antropologia do óbvio, trata dessa modernidade que chegava ao Brasil: “o velho esporte bretão entrava em conflito com valores tradicionais. Habituada a jogar e não a competir, a sociedade brasileira, construída de favores e hierarquias, e ainda repleta de ranços escravocrata, reagia ambiguamente ao futebol”.

Mas, mesmo com todas as dificuldades, o esporte se firmou no país, transformandose em um orgulho para a sociedade. Da Matta (1994, p.12) associa o surgimento do futebol com a democratização brasileira.
Não foi através do nosso Parlamento que o povo aprendeu a respeitar as leis, mas assistindo a jogos de futebol, esses eventos onde o vitorioso não tem o direito de ser um ditador, e o perdedor, vale repetir, não deve ser humilhado. Desse modo, o velho e bretão football Association foi apropriado

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por toda a sociedade e sendo rebatizado no Brasil como “futebol” virou uma paixão das massas e um acontecimento festejado e amado pelo povo.

Um grande exemplo da paixão dos brasileiros pelo futebol são os simuladores criados pela indústria. Antigamente, existia o futebol de botão, e hoje em dia é comum encontrar pessoas de todas as idades simulando jogos de futebol em video games moderníssimos. Trata-se de uma prática que possibilita ao jogador viver a experiência de ser atleta, dirigente, técnico e torcedor. O antroplógo Roberto Da Matta (1994, p. 13) afirma que o futebol contribuiu, de certa forma, para a formação da cultura cívica dos brasileiros, e complementa:
Sua função no mundo moderno tem uma ligação íntima com dois aspectos fundamentais da vida burguesa. O primeiro é a disciplina das massas que o esporte ensina e reafirma, quando exige que todos cheguem aos estádios em horas certas, pagando corretamente as entradas. E o segundo é a sua ligação íntima com a idéia de fair-play, pois esporte trivializa a vitória e a derrota.

Atualmente, o futebol exerce certo poder sobre a população e alguns políticos o utilizam como forma para angariar votos. Nesse sentido, pode ser registrada a eleição em 2004 de alguns veradores belo horizontinos, que se tornaram conhecidos graças ao futebol, como o narrador esportivo Alberto Rodrigues e Reinaldo Lima, exjogador profissional do Clube Atlético Mineiro; em 2008, Alberto Rodrigues se reelegeu e seu colega de profissão, João Vitor Xavier, assumiu seu primeiro mandato.

O futebol sempre esteve na pauta dos governantes: um exemplo claro foi a campanha feita pelo Governo Militar em 1970, na Copa do Mundo do México. O governo do presidente Emílio Garrastazu Médici utilizou a campanha da seleção brasileira, campeã mundial, para promover seu governo, com a marcha musical “Pra frente Brasil”, composta por Miguel Gustavo e o slogan “Ninguém segura mais esse país”.

Janet Jever (1983, p. 91), no livro A Loucura do Futebol, relata que o futebol é usado pelos políticos como forma de autopromoção. Segundo a autora, “os políticos brasileiros há muito acreditam que os projetos relacionados com o futebol lhes valem mais popularidade que obras públicas importantes”.

33 Caldas (1994, p. 45) cita o escritor Robert Levine que acredita que “o futebol é mais que o ópio do povo, serve ainda de instrumento da classe dominante para manipular as massas como forma de sublimar a miséria e as desventuras da pobreza”. Na visão de Debord (2007, p. 98), “a vitória da burguesia é a vitória do tempo profundamente histórico, porque é o tempo da produção econômica que transforma a sociedade, de modo permanente e absoluto”.

Assim, no futebol ocorre o que Debord (2007, p. 24) afirma ser a alienação do espectador em favor do objeto contemplado, ou seja,
[...[ quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecerse nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo. Em relação ao homem que age, a exterioridade do espetáculo aparece no fato de seus próprios gestos já não serem seus, mas de um outro que os representa. [...]. O trabalhador não se produz a si mesmo, produz uma força independente. O sucesso dessa produção, sua abundância, volta para o produtor como abundância da despossessão.

Dessa forma, “o espetáculo na sociedade corresponde a uma fabricação concreta da alienação. [...]. O espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem” (DEBORD, 2007, p. 24).

Entretanto, contrariando a maioria, Caldas (2000, p. 105) discorda do entendimento que a classe dominante se serve do futebol para manipular as massas como forma de sublimar a miséria e as desventuras da pobreza, através do sucesso meteórico da conquista de um campeonato doméstico ou internacional, e afirma que não é o futebol em si
[...] nem enquanto manifestação lúdica nacionalmente consagrada que aliena, que desvia a sociedade dos seus problemas mais urgentes. Esse fato decorre, isto sim, do uso ideológico que o Estado possa fazer desse esporte, como faria de qualquer outra manifestação que tivesse força popular idêntica. Assim, fica claro o seguinte: não é o futebol enquanto tal que aliena. Quem aliena são os governantes que, deliberadamente, usam os esportes de massa com objetivos políticos, quase sempre sem nenhum escrúpulo, sem nenhuma ética.

Por outro lado, o futebol também serve como caminho para se livrar da miséria e do preconceito social. Ele é visto como uma forma de sair do anonimato e transformar marginalizados em heróis nacionais. Janet Jever comenta sobre esse sonho: “cada menino sonha em ser descoberto e contratado por um time profissional. Os pais

34 concedem os direitos de tutela aos clubes, na esperança de que os meninos tenham uma chance de escapar da miséria” (JEVER, 1983, p. 169).

Outra estratégia tem sido utilizada pelos grandes clubes: a renovação. Popularmente chamado de „peneira‟, o sistema é o seguinte: pelo menos a cada quinze dias, milhares de jovens que desejam seu espaço no futebol profissional têm a oportunidade de treinar nas dependências de um time grande ou médio, sob o olhar atento de um de seus treinadores, que seleciona os melhores. Posteriormente, devem confirmar sua aptidão futebolística em outros treinos e, caso aprovados, passam por exames médicos rigorosos e eventuais tratamentos. A partir de então, integram as categorias juniores e treinam com os profissionais para adquirir a experiência necessária, além de receberem uma ajuda de custo e algum custeio para suas despesas pessoais. Não assinam contrato, mas um „acordo de cavalheiros‟: não podem deixar o clube, mas, em contrapartida, podem ser aproveitados para jogar no time profissional.

Nesse sentido, ao receber um prêmio da TV Bandeirantes recentemente, Pelé fez um pronunciamento político, no qual denunciava a precária situação dos profissionais de futebol no Brasil, conclamando-os a se filiarem ao seu sindicato, para formarem uma categoria profissional politicamente forte (CALDAS, 2000, p. 110-111). 3.4 O jornalismo esportivo na televisão

O jornalismo esportivo, particularmente sobre o futebol, sobrevive ao tempo e às mudanças. O interesse dos veículos de comunicação pelo futebol aumentam através dos tempos no Brasil. Com o passar dos anos muitas revistas e jornais foram surgindo e desaparecendo, mas nunca deixaram de existir. Nos anos 1960 a Revista dos Esportes do jornalista Mário Filho foi sucesso de vendas, e atualmente o Diário Lance, que mantém publicações sobre os times de cada estado, ocupa esse espaço.

Segundo Paulo Vinicius Coelho (2008), o rádio foi o veículo de comunicação pioneiro nas coberturas sobre o futebol ao vivo. Na „época de ouro do rádio‟

35 brasileiro, década de 1940, as emissoras promoviam uma grande cobertura; todos os domingos, dia tradicional de pelejas futebolisticas, os ouvintes ficavam atentos aos lances dos jogos de futebol. Grandes nomes na locução esportiva apareceram nessa época, como Waldir Amaral, no Rio de Janeiro, e Osmar Santos, em São Paulo, este inclusive o radialista mais bem pago do jornalismo esportivo, em uma época em que o rádio tinha o status que a televisão tem hoje. Pelas habilidades e técnicas de seu discurso, Osmar era garantia certa de audiência.

Com as transmissões esportivas na televisão o rádio perdeu audiência e consequentemente cotas de patrocínio, que ajudavam a manter nomes como Osmar Santos, porém a falta de dinheiro não conseguiu acabar com as transmissões esportivas nas ondas do rádio. As emissoras de rádio tiveram que se adaptar à situação, mas o rádio conta com a agilidade e com os comentários opinativos de comentaristas que nas transmissões de rádio são mais enfáticos do que na televisão. Talvez por isso, os ouvintes de rádio sejam mais fiéis, “eles acompanham tudo ao mesmo tempo e com um atrativo a mais, a opinião. Blábláblá para alguns, é transmissão com publico cativo” (COELHO, 2003, p.31).

O primeiro espaço conquistado pelo futebol na televisão brasileira foi uma reportagem sobre um jogo entre as equipes da Portuguesa e do São Paulo, transmitido pela TV Tupi em 1950. Mas foi somente no ano de 1970 que o futebol passou a ser transmitido pela televisão, na Copa do Mundo realizada no México.

Dado o pontapé inicial, a Rede Globo de Televisão lançou, em 1973, o programa semanal Esporte Espetacular, que ocupa a grade da emissora até hoje. Apesar de apresentar alguns quadros sobre outros esportes, o Esporte Espetacular tem sua grade recheada de notícias sobre o futebol. E em 1978 a Globo lançou o Globo Esporte, jornal diário que busca informar sobre os eventos esportivos,

principalmente o futebol.

Na transmissões televisivas, o futebol é apresentado como um grande espetáculo. Segundo Paulo Vinicius Coelho (2008), a cobertura de uma partida de futebol é sempre apresentada, com muito glamour, sempre destacando os fatos positivos,

36 deixando de fora os problemas como a falta de público e o péssimo estado dos estádios brasileiros, tudo isso para não perder o interesse dos telespectadores.

Mas para realizar esse grande espetáculo, as emissoras precisam pagar caro pelos direitos de transmissão, que atualmente são exclusivos da Rede Globo. Essa dominação da emissora faz com que suas concorrentes busquem soluções criativas para montarem uma programação esportiva, como a criação de programas sobre os jogos.

Se até a década de 1970 as experiências com jornais esportivos na televisão eram regionais e instáveis, atualmente existe enorme variedade de programas e telejornais esportivos em todas as redes de sinal aberto e alcance nacional no país. Atualmente são exibidos os programas: Globo Esporte, Esporte Espetacular, na Rede Globo; Esporte Record News, na Rede Record News; Jogo Aberto, Band Esporte Clube e Terceiro Tempo na Rede Bandeirantes; TV Esporte Notícias (híbrido de noticiário esportivo e geral), Rede TV Esporte e Bola na Rede, na Rede TV!; ‘Alterosa Esporte’, na TV Alterosa.

O que se pode perceber é uma valorização crescente do esporte, seja enquanto produto jornalístico ou enquanto produto de entretenimento, em todas as emissoras de sinal aberto e cobertura nacional.

Os

programas de

mesas-redondas

são uma

manifestação recorrente

do

telejornalismo esportivo no Brasil. Todas as emissoras, com exceção da Rede Globo, possuem um programa semelhante, veiculado normalmente aos domingos, após as rodadas dos campeonatos.

O jornalismo esportivo na Internet seguiu o boom dos anos 90, com grandes investimentos e muitos profissionais indo atrás desse que seria um grande negócio, “Foi só em 1999, no entanto, que a Internet virou um fenômeno tão grandioso que começou a tirar alguns dos melhores profissionais do jornalismo esportivo.” (COELHO, 2008, p.59). Com salários astronômicos, não demorou para aparecer grandes sites especializados, como o Gazeta Esportiva, que deixou de ser impresso para investir somente no espaço virtual. Essa maravilha acabou com a crise dos

37 investimentos na Internet em 2001, que atingiu todas os segmentos, desde os sites sobre carros aos esportivos.

Herótodo Barbeiro e Patrícia Rangel (2006, p. 20), no livro Manual do Jornalismo Esportivo, discutem a reportagem, umas das ferramentas mais utilizadas no jornalismo, seja ele político, esportivo, econômico, na qual o que muda são as fontes. No esporte, principalmente no futebol, tem-se uma impressão de haver uma cartilha de perguntas e respostas, o que prejudica a qualidade das reportagens.
Por isso, é essencial fugir daquelas perguntas eternamente repetidas para os atletas antes, durante ou depois das competições como: “o que você acha do jogo” ou “como você está vendo o jogo”. Caso contrário, o repórter corre o risco de ouvir uma resposta como a do técnico Oswaldo Brandão deu certa vez: “Com os olhos”.

Uma boa reportagem depende de boas perguntas feitas para as pessoas que tenham o conhecimento sobre o assunto, no caso do esporte, os profissionais do meio. A reportagem depende também de fatores como uma boa apuração, credibilidade e criatividade para inovar.

Paulo Vinicius Coelho (2003) cita a criatividade como característica fundamental para fazer um bom trabalho. Segundo ele, não basta ser apaixonado pelo esporte para fazer um produto de qualidade, os jornalistas devem ser criativos, inovadores. Essa criatividade que o autor sugere é o diferencial dos bons profissionais.

Os esportes trabalham muito com a emoção, tanto do atleta, dos torcedores ou até mesmo dos profissionais da imprensa que, na maioria das vezes, estão perto dos atletas, ou seja, nos centros geradores de emoção. Herótodo Barbeiro e Patrícia Rangel (2006, p. 22) comentam sobre essa questão ao afirmarem que “emoção é um atributo de todo ser humano, e ajuda a aquecer as transmissões esportivas. Não se pode confundir com a paixão, que cega quem tem o dever de enxergar ou atrelar o jornalismo a uma causa ou a um ídolo”.

Ainda de acordo com os autores, a emoção é a própria alma do esporte. Ela está presente em todas as etapas, nos jogadores que disputam a partida, na alegria das vitórias, na tristeza das derrotas, nas palavras dos locutores. Contudo essa emoção

38 pode acabar se transformando em uma armadilha para a prática jornalística, pelo fato de esse sentimento não combinar com a razão.

No futebol, a emoção pode atrapalhar a razão na questão do time de coração do jornalista. A emoção também pode acabar influenciando na produção jornalística. Paulo Vinicius Coelho (2003, p.58-59) entende ser esse um fator muito importante na questão da credibilidade das notícias, e que o profissional não precisa ocultar seu time de coração, mas precisa tomar muito cuidado para que essa paixão não atrapalhe seu trabalho. O autor afirma que não é proibido declarar suas opções. O que não deve acontecer é deixar que essa paixão influencie no trabalho final.
Vergonha para jornalista de qualquer área é não declarar sua preferência. Jornalista político tem o direito e o dever de votar…Da mesma forma, jornalista esportivo não deve nunca se envergonhar de torcer por essa ou pró aquela equipe. Vergonha, para jornalista, é equivocar-se na informação, coisa comum quando se trata de apuração. Mas mentir sobre uma coisa que diz respeito á sua própria vida é esquecer- se do maior compromisso do jornalista: o compromisso com a verdade.

Barbeiro e Rangel discutem a linguagem esportiva, que segundo eles não possui um padrão. Ela é definida de acordo com as tentativas, considerando os acertos e reparando os erros. Essa linguagem muda com o tempo e com os meios.

Desde o início das transmissões esportivas no rádio, a linguagem é criada através da emoção, os locutores gritam para descrever lances importantes, como o gol. Essa linguagem é o diferencial da rádio, que precisa disputar com a imagem da televisão. No impresso o tempo mudou a linguagem, nos anos 1950, as prosas e crônicas faziam parte da linguagem da imprensa esportiva, os lances se transformavam em acontecimentos épicos pelos relatos de jornalistas como Nelson Rodrigues. Atualmente, a linguagem nas editorias de esporte construída pela imprensa é mais descritiva, com a preocupação com o compromisso com a verdade, deixando as reportagens mais frias. Para Charaudeau (2009, p. 49), isso significa o „efeito da verdade‟, que não existe fora de um um dispositivo enunciativo de influência psicossocial, no qual cada um dos parceiros da troca verbal tenta fazer com que o outro dê sua adesão a seu universo de pensamento e de verdade. E isso se deve à busca da „credibilidade‟ do

39 enunciado, ou seja, aquilo que determina o „direito á palavra‟ das pessoas que se comunicam e as condições da palavra emitida.

A informação esportiva na televisão é exibida de acordo com a linha editorial de cada emissora. A notícia tem a linguagem refletida na identidade da emissora, que trata os acontecimentos como espetáculos. Na televisão percebe-se muito a informação opinativa, dada pelos comentaristas e componentes das mesasredondas.

O modelo atual de cobertura privilegia os bastidores, as celebridades que se identificam com o público, os vários ângulos possíveis para mostrar uma jogada e o processo final de edição, que determina o efeito que a notícia pode ter sobre a audiência. Jornalismo esportivo só de resultados é hoje em dia um modelo tão obsoleto quanto as transmissões em preto e branco porque os bastidores e as situações inusitadas passaram a fazer parte da matéria básica da mídia esportiva. 3.5 Cultura de massa: TV e Futebol

No livro Comunicação do Grotesco, Muniz Sodré (1972) fala sobre a formação da cultura e seu envolvimento com a comunicação. Segundo ele, essa relação é arcaica, já que não houve uma sociedade em que não existissem uma cultura e um meio de comunicação. Os movimentos culturais passaram por uma grande transformação ao longo dos tempos, principalmente na transição do feudalismo para o capitalismo no século XVII. O que antes era um movimento elitista foi se transformando em algo tangível a todos.

A cultura, representada pelos produtos artísticos, no século XVI era restrita aos intelectuais, que denominavam a cultura como superior ou elevada. “A cultura era campo particular dos privilegiados de espírito, dos aristocratas” (SODRÉ, 1972, p.15). Com essa restrição cultural da época, século XVI, a comunicação era fechada aos grupos participantes, essa comunicação era feita de forma oral, ou seja, seu alcance era limitado.

40 Com a revolução industrial e a formação da burguesia capitalista, que viria para substituir a nobreza, a cultura começou a ser difundida para a sociedade. Com o aparecimento dos medias (meios de comunicação) mudou-se o jeito de transmitir a mensagem: o que antes era passado pelo sistema oral passou a ser propagado por mecanismo de maior alcance, como a mídia impressa, o rádio e a televisão. Contudo para os medias, não era interessante difundir uma cultura superior, mas uma cultura de massa, que pudesse ser do gosto de todos e recebida com mais facilidade. A idéia de cultura de massa é vender o cotidiano, seduzir a alma e o espírito, segundo Edgar Morin (1997), no seu livro Cultura de Massa no Século XX. O amor, a raiva, o medo e a emoção são mercadorias nessa nova indústria. Nesse sentido, Sodré (1972) explica que a cultura de massa segue os padrões das demais culturas, os medias não criaram uma nova estrutura, adaptaram as existentes para o mercado.

A cultura de massa passou a ser um grande negócio para a indústria cultural que, no novo mundo capitalista ganhou espaço. Com isso, as indústrias começaram a vender cultura destinada à massa social, e transmitida pela televisão, cinema, propagandas e outros meios de comunicação. Com a revolução industrial as sociedades passaram a ser consideradas capitalistas, necessitando absorver o mercado.

Segundo Edgar Morin (1997, p. 16), com os acontecimentos do século XVIII, as sociedades passam a ser policulturais, ou seja, as diferentes culturas (religiosa, nacional ou de massa), se encontravam em um mesmo individuo. “Focos culturais de naturezas diferentes encontram-se em atividade: a religião, o Estado nacional, a tradição das humanidades afrontam ou conjugam suas morais, seus mitos”.
Essa homogeneização dos valores serve para romper as barreiras culturais, já que os produtos serão consumidos por pessoas das mais diferentes nacionalidades. “A tendência homogeneizante é ao mesmo tempo uma tendência cosmopolita, que tende a enfraquecer as diferenciações culturais nacionais em prol de uma cultura das grandes áreas internacionais”. (MORIN, 1997, p.43).

Esse controle exercido pela indústria cultural sobre o individuo faz com que a massa não tenha uma identidade fixa. Segundo Stuart Hall no livro A identidade cultural na

41 pós-modernidade (2006, p. 13), “a identidade torna-se uma celebração móvel formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam”.

Com propriedade, Charaudeau (2009, p. 63) afirma que
[...] a verdade não está no discurso, mas somente no efeito que produz. O discurso da informação midiática joga com essa influência, pondo em cena, de maneira variável e com consequências diversas, efeitos de autenticidade, verossimilhança e dramatização.

Segundo Muniz Sodré (1989, p. 136) no livro O Monopólio da Fala, o esporte moderno surgiu junto com o capitalismo na Revolução Industrial, e
[...] a diferença entre os modernos jogos olímpicos e os praticados pelos gregos está em que estes, embora voltados para a competição, não eram esportes, mas torneios, que recebiam o seu sentido das celebrações rituais exercidas no interior de uma Polis sacralizada.

Sodré descreve os esportes, principalmente o futebol, como um produto cultural, um grande espetáculo de massa. O autor cita os torcedores (consumidores da indústria cultural) como peça fundamental desse grande evento.
No espetáculo futebolístico, o torcedor é espectador e ator ao mesmo tempo. Espectador, porque não participa fisicamente do que se passa em campo. Ator, porque a “torcida” (a discussão acalorada, o arrebatamento, enfim a maneira como o espectador desempenha seu papel) faz parte necessária do show (SODRÉ, 1989, p. 141).

Os esportes são um grande produto dessa indústria, já que atingem os indivíduos na esfera das emoções, como a paixão e o ódio. No Brasil o futebol se destaca entre os demais esportes, os torcedores são consumidores do entretenimento esportivo, com a indústria cultural promovendo verdadeiros espetáculos. O futebol é vendido como um produto sem distinção de classes, raças, religiões. Ele é um produto de massa, que atinge mercados distintos na mesma proporção. Segundo Roberto da Mata (1994, p. 17), o futebol proporciona às massas brasileiras experimentar a vitória, mesmo que através de seus times favoritos.
O futebol proporciona à sociedade brasileira a experiência da igualdade e justiça social. Pois, produzindo um espetáculo completo, mas governado por regras simples que todos conhecem, o futebol reafirma simbolicamente que o melhor, o mais capaz e o que tem mais mérito pode efetivamente vencer. Que a aliança entre o talento e o desempenho pode conduzir à vitória inconteste. E, melhor que tudo, que as regras valem para todos. Para os

42
times campeões e para os times comuns, para os ricos e pobres, negros e brancos, e para os sãos e doentes.

O futebol é apresentado pela cultura de massa como um produto em constantes atualizações, representado pela escolha do seu time de coração. A indústria cultural não deixa de utilizar o passado, a imagem dos jogadores brasileiros na Copa do Mundo de 1970, no México, que ainda são usados pelos veículos de comunicação, despertando na massa o orgulho e a admiração.

3.6 História: TV e futebol no Brasil

No dia 18 de setembro de 1950, Assis Chateaubriand, dono do Diários Associados, inaugurou oficialmente a primeira emissora de televisão no Brasil. A TV Tupi entrou no ar às 21 horas com o programa TV na taba, apresentado por Homero Silva. O programa era de entretenimento, com música, humoristas, danças e quadros de dramaturgia.

Assis Chateaubriand mandou instalar duzentos aparelhos de televisão em pontos estratégicos da cidade de São Paulo. Chateaubriand armou um verdadeiro espetáculo para que a estréia da televisão no Brasil fosse algo inesquecível. O programa foi exibido para o povo paulistano, marcando o início da televisão no Brasil.

Vera Iris Paternostro (1999, p. 29) relata no livro O texto na TV: manual de telejornalismo a história da TV no Brasil. Segundo a autora, quatro meses depois da estréia em São Paulo, em janeiro de 1951, a TV Tupi chegou ao Rio de Janeiro. No início a programação era de seis horas, das dezoito às onze da noite, e a programação contava com filmes, espetáculos de auditório e noticiário.
Enfim, TV na taba, o espetáculo de estréia, foi ao ar e, na base do improviso, durou quase duas horas. Cassiano Gabus Mendes comandou artistas como Mazzaropi, Walter Foster, Lia de Aguiar, Hebe Camargo, Lima Duarte, Wilma Bentivegna e Lolita Rodrigues, entre outros – estava dada a largada! A TV brasileira era uma realidade.

No início os profissionais da TV eram oriundos do rádio. Daniel Filho (2001, p. 16), autor do livro O circo Eletrônico, relata esse momento: “no principio, a televisão

43 brasileira utilizava principalmente profissionais que vinham do rádio. Os atores da Rádio Tupi, das Associadas, foram os primeiros a passar para a televisão”.

Segundo Vera Iris Paternostro (1999), até o final da década de 1950 a televisão já estava encravada na sociedade nacional. Já funcionavam as emissoras TV Tupi, Record (1953) e Paulista (1952) em São Paulo; TV Tupi (1951) e Excelsior (1959) no Rio de Janeiro; e Itacolomi (1956) em Belo Horizonte. O primeiro telejornal a ser exibido nas telas brasileiras foi o „Imagens do Dia’, veiculado pela TV Tupi de São Paulo, em 1950. Paternostro (1999, p. 35) relata que “o primeiro jornal de sucesso, sinônimo de telejornalismo no Brasil foi o Repórter Esso, que estreou em 1953 na Tupi e ficou no ar por quase 20 anos”.

Segundo Paternostro, programas radiofônicos, como O Repórter Esso e Chacrinha, ganharam uma versão na televisão. E vários novos programas foram criados para preencher as grades como Câmera Um (Tupi Rio); Noite de Gala, com Flávio Cavalcanti (TV Rio); e Sítio do Pica-pau Amarelo (Tupi de São Paulo).

Para Robert Levine (1982, p.23), a história do futebol compreende quatro fases: 1894-1904, quando se manteve restrito aos clubes de imigrantes estrangeiros; 19051933, fase amadora, marcada por forte divulgação e pressão para melhorar o nível do futebol; 1933-1950, início do profissionalismo; e a fase pós-1950, quando houve o reconhecimento internacional do futebol brasileiro.

Os anos de 1960 foram marcantes para a televisão brasileira, em que esse tipo de mídia ganhou definitivamente espaço no mercado publicitário. Paternostro (1999, p. 30) relata esse acontecimento: “Na disputa pelas verbas publicitárias, ela assume definitivamente, seu caráter comercial: começa a briga pela audiência! Uma briga que dura até os dias de hoje, cada vez mais acirrada, com lances e estratégias dignos de uma guerra”.

Foi, também, nos anos de 1960, que surgiu o videotape, fato que mudaria a produção televisiva, já que se criava a possibilidade da edição. A TV Tupi de São Paulo foi a pioneira na utilização dessa nova tecnologia. Dessa maneira, estava

44 instaurada a revolução do VT: operações atualizadas, racionalização da produção, economia de custo e tempo, melhor qualidade nos programas. Nessa época, as primeiras máquinas de videotape tinham dois metros de altura e pesavam quase uma tonelada. As fitas de gravação registravam duas polegadas de largura (PATERNOSTRO, 1999).

Em 1965 surgiu a TV Globo, no Rio de Janeiro, com Paternostro afirmando que a emissora se propunha a um sistema popular. Entretanto, foi somente em 1969 que a TV Globo lançou seu primeiro programa em rede nacional. No dia 1º de setembro de 1969, entrou no ar o Jornal Nacional, programa que permanece até os dias de hoje. Definir qual é o carro chefe da programação de uma emissora de televisão é, sem sombra de dúvida, uma tarefa subjetiva. O entretenimento, a prestação de serviço e a informação são elementos de igual importância para as emissoras, cada um com suas características, que dividem o disputado espaço, isso quando não se unem em um só elemento.

Luciana Bistane e Luciane Bacellar (2006) afirmam que a televisão é, sem dúvida, o meio de comunicação mais influente no Brasil. Os telejornais são referências na busca pela informação e, apesar de serem acusados de fornecer a notícia de forma vaga, são o carro-chefe das empresas de comunicação. Segundo dados do IBGE, a televisão está presente em cerca de 90% dos municípios do país. Em pesquisa realizada pelo Ibope em 2004 o Jornal Nacional, da Rede Globo, foi visto por mais de três milhões de pessoas em São Paulo, enquanto o jornal Folha de São Paulo teve uma tiragem de 307 mil exemplares no mesmo período.

As autoras supracitadas explicam a importância do texto, já que na televisão é preciso sintetizar os fatos para cumprir o tempo da reportagem. Esse texto deve ser simples, curto e direto. “Em televisão, não se devem usar palavras “metidas à besta”. Estas devem ser substituídas por termos que empregamos no dia-a-dia, para conversarmos com os amigos, com o zelador do prédio, com o professor” (BISTANE; BACELLAR, 2006, p.15).

45 Heródoto Barbeiro e Paulo Rodolfo de Lima (2005, p. 97), no livro Manual de Telejornalismo, citam outros aspectos da linguagem jornalística na televisão. “O texto do telejornal tem uma estrutura de movimento, instantaneidade, testemunhalidade, indivisibilidade de imagem e som, sintetização e objetividade”.

Paternostro (1999, p. 74) acrescenta a importância do texto, no sentido de ele estar em harmonia com a imagem: “em telejornalismo, a preocupação é fazer com que texto e imagem caminhem juntos, sem um competir com o outro: ou o texto tem a ver com o que está sendo mostrado ou não tem razão de existir”.

O repórter de televisão deve estar sempre atento aos elementos que envolvem sua matéria, deve ter um conhecimento prévio sobre o assunto, ele deve aprender a captar os sinais, a entender o que não foi dito. Um dos momentos mais complicados para os jornalistas na televisão é fazer ao vivo, sem a ajuda da edição. O grande medo é o do erro, já que não há possibilidade de corrigir uma pronúncia errada ou até mesmo uma frase mal dita. Entretanto, com a modernização dos equipamentos e a melhoria da técnica, essa prática esta cada vez mais presente.

Na televisão, a imagem é o grande diferencial; ler sobre um determinado fato pode atrair a atenção, mas ver a imagem do fato acontecendo, com certeza é muito mais atrativo.
Imagens dão credibilidade e força à notícia, sobretudo às denúncias. Ler que Waldomiro Diniz, ex-chefe da casa civil, exigiu propina quando era diretor da LOTERJ, no Rio de Janeiro, tem um peso. Vê-lo e ouvi-lo estipulando o quanto queria causou muito mais impacto” (BISTANE; BACELLAR, 2006, p. 42).

A imagem também pode influenciar na conduta do jornalista, que pode confundir sua exposição na mídia. Barbeiro e Lima (2005, p.78) comentam esse problema, observando que “o apresentador de programa na TV não é artista nem notícia, trabalha com ela”.

Para Charaudeau (2009, p. 39), comunicar ou informar, tudo faz parte da escolha:
Não somente escolha de conteúdos a transmitir, não somente escolha das formas adequadas para estar de acordo com as normas do bem falar e ter

46
clareza, mas escolha de efeitos de sentido para influenciar o outro, isto é, no fim das contas, escolha de estratégias discursivas.

Não há dúvidas que o telejornalismo disputa a atenção dos telespectadores que buscam mais que informações. A produção jornalística na televisão deve informar com certo grau de emoção, para poder capturar o público, as autoras citam Eugênio Bucci, que prega que essa espetacularização da notícia é ruim para o público. “Você é quem transforma as notícias em peças de degustação na guerra e na paz, na miséria e no luxo. Sempre tem uma ponta de entretenimento e isso nivela um pouco” (citado por BISTANE; BACELLAR, 2006, p. 86).

As autoras afirmam que são muitas as vantagens e desvantagens de se produzir jornalismo na televisão. Desde sua chegada no Brasil, a televisão vem crescendo e mudando de acordo com as exigências dos telespectadores. Ao contrário do que muitos dizem, a TV não molda a sociedade, mas a sociedade molda a televisão.

Nesse sentido, Charaudeau (2009, p. 103) afirma existir um propósito no contrato de informação midiática, que se inscreve em um processo de construção de um evento e deve apontar para o que é „notícia‟. Esse propósito recorta o mundo em certo universo de discursos tematizados, transformando-os em rubricas e tratando-os segundo critérios de atualidade, socialidade e imprevisibilidade. Isso assegura visibilidade e publicização, produzindo um possível efeito de captação. Dessa maneira, “compreende-se que o espaço público se confunda com o próprio acontecimento midiático, tal como aparece em sua configuração discursiva”.

47

4 METODOLOGIA

4.1 Tipo do estudo e percurso metodológico

Optou-se por uma pesquisa experimental, com a finalidade de descobrir o modo e as causas que levaram um fenômeno a ser produzido (RUDIO, 1999); e descritiva, por meio de uma pesquisa documental (FRANÇA; VASCONCELLOS, 2008). Este fenômeno se caracterizou pelo programa „Alterosa Esporte‟, da TV Alterosa, exibido logo após a primeira partida válida pelas quartas-de-finais do campeonato mineiro de 2010.

Tratou-se de pesquisa também qualitativa, porque os dados geraram interpretação e reflexão, ao mesmo tempo em que foi longitudinal, pois ficou delimitada a um único período de observação (FRANÇA; VASCONCELLOS, 2008, p. 83-84), ou seja, 5 de abril de 2010, de 12h15min às 12h50min.

O programa foi gravado em DVD para que fosse mais facilmente analisado e totalizou 50 minutos, sendo 35 minutos de programa e 15 de inserções publicitárias.

A pesquisa bibliográfica demandou três meses, de fevereiro a abril de 2010, em que se buscou literatura que pudesse informar sobre as características do futebol, sua história, evolução e inserção da instância midiática, bem como auxiliar na análise do programa.

Embora se tenha revisado um conjunto de trabalhos acadêmicos e/ou científicos acerca de tema similar, não se encontrou nenhum que o fizesse da maneira como este estudo se propôs, mesmo que experimental e empírico, e esta é sua relevância. O autor deste trabalho pretende fundamentar sua carreira de jornalista como comentarista esportivo da televisão, e a análise possibilitou que se descobrisse uma série de porquês e como um debate de futebol na TV se fundamenta e funciona.

48 4.2 Caracterização do programa ‘Alterosa Esporte’ O programa „Alterosa Esporte‟ surgiu em 1997, ainda sem a presença dos representantes dos três principais times de Belo Horizonte. O intuito do então gerente de programação da TV Alterosa, Ricardo Massara, era resgatar uma antiga tradição dos tempos da extinta TV Itacolomi, em que torcedores comentavam sobre as rodadas dos campeonatos de futebol. O „Alterosa Esporte‟ chegou à televisão mineira buscando levar aos telespectadores um programa com o espírito despojado, que traria de volta para a televisão mineira a irreverência das ruas, muito forte na cultura esportiva local. Esse conceito diferenciado faz o programa ganhar alguma evidência junto aos telespectadores e diversos testes com profissionais de imprensa são realizados, na tentativa de encontrar aqueles que mais se adequariam ao estilo proposto pelo programa.

A emissora seguiu em busca de uma equipe que pudesse representar as expectativas de seus telespectadores. Encontrá-los daria início à era da "Bancada Democrática". O jornalista Antônio Melane e o narrador Jorge Luis foram os primeiros componentes do programa, mas não permanecem. O jornalista Otávio di Toledo é o torcedor mais antigo da equipe, fazendo o papel de representante do América Mineiro desde a estreia da bancada em meados de 1997. O colega do extinto jornal Diário da Tarde, Neuber Soares, firma-se como representante do Cruzeiro e o jornalista Carlos Cruz ocupa o posto de atleticano da bancada nos primeiros anos, sendo substituído mais tarde por Dadá Maravilha.

O caráter de entretenimento do futebol influenciou para que a o SBT, através da TV Alterosa, formatasse um programa que mesclasse humor, interatividade com o telespectador e informação. Assim, ficou definido que o „Alterosa Esporte‟ possuísse um formato para cobrir essas exigências do mercado. 4.2.1 A „Bancada Democrática‟ O „Alterosa Esporte‟ conta com uma bancada onde os representantes dos três principais times de Belo Horizonte (América, Cruzeiro e Atlético) discutem e

49 comentam as partidas de seus times de uma forma descontraída e despojada. Cada um ocupa seu espaço em uma bancada que é decorada com as cores e o escudo de seus respectivos times. A reunião desses três representantes em uma bancada ficou conhecida com a “Bancada Democrática”. Atualmente, ocupam a “Bancada Democrática” Otávio di Toledo, representante do América, Dadá Maravilha, representante do Atlético e Vibrantinho, representante do Cruzeiro. O comando e a apresentação do programa ficam a cargo do jornalista Leopoldo Siqueira.

4.2.2 Os componentes da bancada

Otávio Di Toledo é natural de Belo Horizonte e foi criado nas imediações da Igreja da Boa Viagem. Aos 10 anos jogou o pré-mirim de futsal do Cruzeiro e aos 13 anos ingressou no futebol de campo, onde ganhou dois títulos. Aos 19 anos entrou para o curso de jornalismo da antiga Faculdade de Filosofia, atualmente Uni-BH. Nessa época, teve que optar entre o futebol, a universidade e o futsal. O atual representante do América na bancada ficou com a segunda opção e, no futebol de salão, ainda sagrou-se campeão brasileiro e metropolitano. Em 1993, ingressou no extinto jornal „Diário da Tarde‟ como repórter esportivo. Transferido para a editoria da „Grande-BH‟, tornou-se editor após o falecimento de Naeme Elias Mansur, então editor. Em 1998, foi convidado para compor a “Bancada Democrática”. Já na TV Alterosa, foi convidado pelos diretores do programa “Viação Cipó” para ser o apresentador, a ideia deu certo e há quatro anos ele permanece no ar. Único integrante original da bancada, dedica-se exclusivamente à emissora. No „Alterosa Esporte‟, idealizou o Forrobol, time de amigos que jogava de „brincadeira‟ pelo interior de Minas. O projeto cresceu e hoje se transformou em uma Organização Não governamental (ONG), voltada a atender crianças e jovens em situação de risco3.

Dário José dos Santos, o Dadá Maravilha, foi ídolo da torcida atleticana e um dos maiores artilheiros do futebol brasileiro, marcando 926 gols por 16 times de todo o
3

TV Alterosa. Disponível em: <http://www.alterosa.com.br/html/ae_bancadademocratica/ae_bancada democratica.shtml>. Acesso em 29 maio 2010.

50 Brasil. Destaque no Campeonato Brasileiro de 1971, Dadá foi o autor do gol que levou o Atlético ao título do campeonato brasileiro daquele ano. Após algum tempo fora da bancada, Dadá retornou à TV Alterosa, trazendo de volta seu humor peculiar, cheio de piadinhas e trocadilhos. (TV ALTEROSA, 2010).

Artur Rodrigues, o Vibrantinho, filho do locutor esportivo da rádio Itatiaia, Alberto Rodrigues, surgiu para a televisão no programa “BH Esporte” e, em seguida, participou do “Clube do Meu Coração”, ambos da televisão por assinatura. Começou no „Alterosa Esporte‟ como reserva de Neuber Soares, antigo representante do Cruzeiro. Atualmente, representa os torcedores do Cruzeiro na “Bancada Democrática” além de apresentar o programa “Papo de Esporte”, pela Rede Super de Televisão (TV ALTEROSA, 2010).

4.2.3 O Apresentador

Leopoldo Siqueira é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, foi repórter de esporte do jornal Tribuna de Minas e da antiga Rádio Sociedade, atualmente Rádio Solar. Em 1987, veio para Belo Horizonte assumir a editoria de esporte do jornal Tribuna de Minas. No mesmo período, foi também jornalista da rádio Globo. Pelo jornal, foi premiado por uma matéria sobre hipismo e, pelo rádio, por uma reportagem sobre catadores de papel. Passou pela TV Record e pela editoria de polícia do jornal Estado de Minas antes de entrar para a TV Alterosa, em 1992 4. 4.2.4 O cenário do programa „Alterosa Esporte‟ O cenário do programa „Alterosa Esporte‟ é uma pintura em tons pastéis, de um campo de futebol em “movimento”, simulando um chute para o gol. O programa é transmitido de dentro de um estúdio que possui piso escuro. Dentro do cenário existem três bancadas, uma ao lado da outra, sendo a bancada do representante do América localizada entre a bancada do representante do Cruzeiro e do Atlético. Cada bancada é decorada com a cor e o escudo de seu respectivo time. Ao lado de
4

Disponível em: <http://www.alterosa.com.br/html/apresentador_ae/apresentador_ae.shtml>. Acesso em 29 maio 2010.

51 cada bancada, é possível observar a presença do boneco-mascote do respectivo time.

A bancada principal é a do apresentador, Leopoldo Siqueira, localizada em frente à “Bancada Democrática” e não possui decoração. Apenas um notebook, no qual o apresentador lê participações dos telespectadores e informa sobre brindes relacionados aos times representados no programa. Entre a “Bancada Democrática” e a bancada do apresentador, há uma grande e moderna TV de plasma. Durante o programa, o apresentador expõe as matérias para os componentes da “Bancada Democrática” e para os telespectadores.

4.2.5 Figurinos

O apresentador do programa costuma trajar calça jeans com camisa social e cada componente da “Bancada Democrática” usa a camisa de seu respectivo time.

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5 ANÁLISE DO PROGRAMA ‘ALTEROSA ESPORTE’ DO DIA 05 DE ABRIL DE 2010

Charaudeau (2009, p. 88) afirma que tratar da verdade não é tarefa simples. O ponto de vista exposto não é filosófico, mas linguístico, pois liga de maneira intrínseca e problemática do verdadeiro e do falso à linguagem, numa perspectiva construtivista. O verdadeiro e o falso como noções, remetendo a uma realidade ontológica, não pertencem a uma problemática linguística. O autor, entretanto, assinala que noções como as de “significar o verdadeiro” e “significar o falso”, isto é, produzir um valor de verdadeiro ou de falso por meio do discurso, encontra-se no domínio linguístico. “Dizer o exato” significa haver coincidência entre o que é dito e os fatos do mundo. No discurso da informação, contudo, não se trata da verdade em si, mas da verdade ligada à maneira de reportar os fatos. Não é bem das condições de emergência da verdade que se trata, mas das “condições de veracidade”.

A escolha do programa exibido no dia 5 de abril de 2010 se deu por ser o primeiro programa exibido logo após a primeira partida válida pelas quartas-de-finais do campeonato mineiro, onde os três principais times de Belo Horizonte estavam envolvidos e isso interferiria na sequência do campeonato. O tipo de modo discursivo foi o debate (acontecimento provocado), e os tipos de modo temático registraram a seção (futebol mineiro) e a rubrica (programa da TV Alterosa em determinado dia). Quanto à materialidade do dispositivo, já havia predeterminação quanto aos papeis desempenhados pelo mediador e convidados. Entende-se que a posição do gênero „entrevista-debate‟ se justifica pelo fato de que a instância midiática é quem monta todas as peças do acontecimento pela exibição espetacular da palavra, mesmo quando essa instância deva, obrigatoriamente, „fazer o jogo da transparência‟. No programa „Alterosa Esporte‟ sob análise, o apresentador, Leopoldo Siqueira, iniciou o primeiro bloco, fora de sua bancada, ao lado da TV de plasma, cumprimentando os componentes da “Bancada Democrática” (Vibrantinho, Dada

53 Maravilha e Otávio de Toledo). Para a construção de seu interesse social, todo discurso depende das condições específicas da situação de troca e, nesse caso, os componentes são figuras proeminentes no futebol. Por isso, gera credibilidade.

Leopoldo falou sobre o inicio das quartas-de-finais do campeonato mineiro e chamou uma matéria sobre os bastidores do jogo Atlético X América, 1ª partida entre os dois times e válida pelas quartas-de-finais do campeonato mineiro, realizado no domingo de páscoa de 2010.

Como afirma Charaudeau (2009), estudar e compreender os textos que se configuram dentro de um domínio maior como o das mídias requer entender um pouco da dinâmica que rege a veiculação das informações midiáticas. Isso se deve ao fato de que tal informação não é apenas um produto que se repassa, objetivando criar determinados efeitos intencionais, mas um processo discursivo dialógico, constantemente negociado entre as instâncias de produção e recepção, ao mesmo tempo em que regido por complexa rede institucional, comercial e ideológica. As relações são instauradas entre os imaginários do “saber”, do “poder dizer o que se sabe”, do “para quem se dizer” e do “valor de se dizer”, as quais criam relações de subjetividade, manipulação e poder.

Durante a matéria, o repórter Sid Marcus entrevistou torcedores dos dois times. Vale destacar o tom de descontração usado na matéria, como, por exemplo: o uso de trocadilhos entre o time do América, cuja mascote é um coelho, e o domingo de páscoa. Foi feita a seguinte pergunta pelo repórter aos entrevistados: “quem levará chocolate para casa, Atlético ou América?” Percebeu-se a estratégia de emocionar o público e mobilizar sua afetividade, a fim de desencadear o interesse pela paixão pela informação que estava sendo transmitida.

Após as entrevistas, o repórter interrompeu seu discurso e mostrou alguns momentos do jogo, terminando a matéria, mais uma vez, em tom de descontração, informando que o jogo havia terminado empatado e que nenhum dos dois times levou „chocolate para casa‟. Cabe destacar a trilha sonora usada durante toda a matéria, a música “Coelhinho da Páscoa que traz isso pra mim”. Para satisfazer seu princípio da emoção, a mídia deve proceder a uma encenação sutil do discurso da

54 informação, baseando-se, ao mesmo tempo, nos apelos emocionais que prevalecem em cada comunidade sociocultural e no conhecimento dos universos de crenças. Entretanto, “à instância midiática cabe autenticar os fatos, descrevê-los de maneira verossímil, sugerir as causas e justificar as explicações dadas” (CHARAUDEAU, 2009).

Ao fim da matéria e de volta ao estúdio, o apresentador esteve sentado e leu uma pergunta enviada por um telespectador: “O vencedor de Atlético X América será o campeão mineiro”? A câmera se voltou para a “Bancada Democrática”. Todos estavam sorridentes. Logo em seguida, a câmera focou o comentarista, Dadá Maravilha, que naquele momento brincava com um boneco de madeira vestido com o uniforme do Atlético. O comentarista do Cruzeiro, Vibrantinho, se pronunciou, afirmando que o telespectador estava “louco” e que o campeão mineiro seria, fatalmente, o Cruzeiro. A discussão continuou e todos afirmavam que o time que representavam seria o campeão. No final, valeram uma aposta sobre o resultado. Observou-se que, durante o embate, o atleticano deu um leve empurrão no americano, que neste momento confirmou a aposta.

Na opinião de Charaudeau (2009), o mediador do debate deve empreender um trabalho de montagem e roteirização, numa posição semelhante à de alguém em uma narrativa de ficção. Entretanto, ele é pressionado pelo dever de credibilidade, que o obriga a „ficar colado‟ no acontecimento bruto, mas contemporizar situações. Com isso, ele fica em posição ambígua, e pode reagir de quatro maneiras: (1) introduz uma abertura (o ataque, como se diz em jargão jornalístico) mais ou menos dramatizante e de diferentes maneiras, que dependem de sua habilidade; (2) tenta reconstituir os fatos segundo um princípio de coerência: a cronologia. Quando o fato não se presta a uma cronologização, é a narrativa que o constrói inteiramente, inserindo-o em uma perspectiva cronológica; (3) desenvolve um comentário explicativo inserido após a reconstituição para tentar explicar o „por que‟ e o „como‟ dos fatos, recuperando o desenrolar dos acontecimentos ou desvendando as intenções dos responsáveis por esses fatos; e, finalmente, (4) deve fechar a narrativa, mas não do próprio fato, mas de sua narrativa, porque o discurso da informação midiática se sustenta num processo de continuidade. Geralmente, o

55 fechamento se caracteriza por novo questionamento, que reabre a narrativa sob novas perspectivas. Nesse segmento, percebeu-se que houve preponderância do „espaço da relação‟, aquele em o que o sujeito falante, ao construir sua própria identidade, estabelece relações de força ou de aliança, de exclusão ou inclusão, de agressão ou de conivência com seu interlocutor. Os demais espaços (locução e tematização) já se encontravam instalados.

Depois da discussão, em que se constatou que todo ato de linguagem é um ato de liberdade, sem deixar de ser uma liberdade vigiada, o câmera focalizou novamente o âncora do „Alterosa Esporte‟, que informou sobre os jogos que aconteceriam pelas quartas-de-finais da super liga de vôlei. Este primeiro bloco, que teve duração aproximada de quatro (04) minutos e treze (13) segundos, se encerrou com chamadas para as matérias que seriam exibidas no bloco seguinte: “Páscoa sem chocolate azul no Mineirão”; “Clássico família reúne animados e pacíficos americanos e atleticanos”; “Tigre vence galo carijó e a pantera acua o leão”; “sacode a rede paulista”, “zebu assusta, mas para a raposa basta outro empate”; “os melhores momentos do clássico”, e “a marcação cerrada no Tiago Ribeiro”. O segundo bloco foi iniciado com o apresentador chamando o quadro “Gol da Rodada”, em que os telespectadores votaram no gol de sua preferência. Esse bloco, de curta duração, durou cerca de um (01) minuto e quarenta e oito (48) segundos. (No DVD do minuto 08:34 ao 10:16). Foram exibidos para a votação os gols de Alessandro (jogador do Ipatinga); Eraldo (jogador do Democrata de Governador Valadares); Douglas (do Uberaba); Leonardo Silva (do Cruzeiro); Rodrigo (do América); e Fabiano (do Atlético). Durante a apresentação, a “Bancada Democrática” comentou os gols, deixando claro suas preferências, sempre exaltando os gols marcados pelos jogadores de seus respectivos times. Conforme Charaudeau (2009), um programa bem elaborado oferece em espetáculo uma democracia midiática.

De volta ao estúdio, a câmera focalizou a camisa do Atlético que seria sorteada entre os participantes da promoção do quadro “Gol da Rodada”. Leopoldo Siqueira

56 leu a participação de uma telespectadora, que perguntou sobre a chance do jogador Rodrigo (do América), autor do gol contra o Atlético, voltar a defender as cores atleticanas. O representante do América, Toledinho, ironizou a colocação da telespectadora. Em seguida, o apresentador chamou a matéria “Páscoa sem chocolate azul no Mineirão”, exibida depois de um longo comercial, que, pressupõese, seria realizado para separar o segundo do terceiro bloco.

Ao se considerar que a propaganda anterior realmente serviu para dividir o 2º do 3º bloco, o 3º bloco foi iniciado com a matéria do Cruzeiro. A matéria, diferentemente daquela exibida no primeiro bloco, que mostrou o jogo entre América X Atlético, registrou tom mais jornalístico, voltado para a informação sobre os acontecimentos da partida. O repórter, Marcelo Jordy, entrevistou o autor do gol cruzeirense, Kleber, ainda na beira do gramado. Foram, também exibidos trechos da entrevista coletiva com o zagueiro Leonardo Silva, autor do segundo gol do Cruzeiro, e com o técnico, Adílson Batista.

Depois da matéria, o mediador Leopoldo Siqueira leu mais uma participação de um telespectador, que questionou sobre a escalação do time do Cruzeiro e pediu a opinião do representante cruzeirense, Vibrantinho. Após ouvir Vibrantinho o apresentador informou que seria exibido o compacto da partida do Cruzeiro para a análise da bancada e, na seqüência, chamou a matéria “sacode a rede paulista”, em que foram exibidos os gols do campeonato paulista, contando, também, com comentários da “Bancada Democrática”. A TV, ao se utilizar desses procedimentos, pode criar a ilusão de que representa o mundo dos acontecimentos tal como ele é; próximo ou distante, o mundo se torna presente, e telespectadores se sentem unidos em torno de um objetivo comum.

Voltando ao estúdio, Leopoldo Siqueira leu mais algumas participações enviadas ao programa através do vídeo chat. A bancada discutiu os temas propostos pelos internautas e respondeu as perguntas em tom bastante descontraído. A câmera voltou a focalizar o apresentador, que estava ao lado da televisão de plasma, onde os componentes da bancada costumavam assistir as matérias. A câmera focalizou, novamente, a bancada, onde se iniciou breve discussão que, em certo momento, ficou difícil a identificação de quem estava falando, tamanha a confusão formada.

57 Nessa hora, o âncora interrompeu e chamou a matéria seguinte: “tigre vence galo carijó e a pantera acua o leão”, que mostrou as redes balançando no interior mineiro. Durante a exibição da matéria, a “Bancada Democrática” comentou sobre os gols.

De volta ao estúdio, a bancada foi focalizada, quando a bancada democrática ainda comentava sobre as partidas realizadas entre os times do interior, que disputavam as quartas de finais do campeonato mineiro.

A câmera voltou a focalizar o apresentador, que chamou os compactos dos jogos de América X Atlético e Cruzeiro X Ituiutaba, que foram exibidos após a inserção de mais um comercial. O primeiro compacto exibido foi Cruzeiro X Ituiutaba. Durante a exibição do compacto, a “Bancada Democrática” comentou os melhores momentos, procurando sempre alfinetar os rivais, mesmo que em tom de descontração. Os comentários e discussões continuaram na volta ao estúdio. Mais uma vez, o apresentador interrompeu a discussão, lendo a participação de mais um telespectador.

Os representantes do Cruzeiro e do Atlético travaram pequeno embate sobre qual seria o melhor time, embate esse encerrado com o apresentador chamando o compacto seguinte, América X Atlético. A seqüência foi muito parecida com a

relatada anteriormente, mas, dessa vez, a discussão principal ficou entre Dadá Maravilha e Toledinho, representantes de Atlético e América, respectivamente, e envolvidos diretamente no compacto que acabava de ser exibido.

Na seqüência, o âncora leu mais algumas participações de telespectadores, inclusive uma pergunta de caráter pessoal e dirigida ao ex-jogador e atual representante do Atlético, Dadá Maravilha, que respondeu em tom bem humorado.

Momento que valeu destaque especial foi quando o apresentador se dirigiu até o lugar ocupado por Dadá Maravilha e deixou com ele um papel com a participação enviada ao programa por um telespectador, que reclamava do time atleticano. Dadá leu seu conteúdo, defendeu o time e Leopoldo voltou a ficar ao lado da televisão de plasma. Nesse momento, chamou o quadro “marcação cerrada”, em que o destaque foi o atacante do Cruzeiro, Tiago Ribeiro. O quadro procurou acompanhar o atacante

58 durante toda a partida, mesmo quando entrevistado pelo repórter Marcelo Jordy, ao fim do primeiro tempo e também ao término da partida. Ao término do quadro “marcação cerrada” o apresentador, Leopoldo Siqueira, apareceu juntamente com os representantes dos três principais times de Belo Horizonte na “Bancada Democrática”. Ali, ele encerrou o programa em tom bastante descontraído e convidou o telespectador a assistir o programa seguinte com a seguinte frase: “amanhã tem marcação cerrada diferente e mais polêmica aqui, com a nossa Bancada Democrática”. Este bloco teve duração de aproximadamente 20 minutos (no DVD de 11:18 às 11:31:06).

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6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo desejou responder quais as estratégias midiáticas utilizadas no programa „Alterosa Esporte‟, da TV Alterosa, Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), no ar há quatro anos com sucesso de público e crítica, ou seja, o que houve por detrás das câmeras no dia 5 de abril de 2010.

Por isso, para analisar como jornalismo e entretenimento se misturaram no programa „Alterosa Esporte‟ após a primeira partida do campeonato mineiro de 2010, da TV Alterosa, com a presença de representantes dos três principais times mineiros e capitaneados por Leopoldo Siqueira, âncora mediador, tornou-se necessário caracterizar os seguintes objetivos secundários: Analisar a linguagem do programa ‘Alterosa Esporte’:

-

Houve quatro tipos: (1) a „condição de identidade‟, em que o ato da linguagem foi intersubjetivo e a identidade dos parceiros engajados na troca foi a condição que dependeu dos sujeitos envolvidos e da convergência dos traços identitários com a situação do momento; (2) a „condição de finalidade‟, na qual todos os atos de linguagem foram ordenados em função de um objetivo e se definiu por meio da expectativa do sentido em que se baseou a troca. Assim, da parte de cada um, se fez com que o outro fosse incorporado à sua própria intencionalidade. A resposta a essa influência se deu em termos de „visadas‟ operatórias, em que a principal foi a visada do páthos5, que consistiu em provocar no outro um estado emocional agradável ou eventualmente desagradável; (3) a „condição de propósito‟, universo dominante ao qual a troca se reportou, uma espécie de macrotema (no caso deste estudo, o futebol), admitido antecipadamente por todos os parceiros; e, finalmente, (4) o „contrato do dispositivo‟, em que foi objeto de uma montagem cênica pensada de maneira estratégica. Além disso, houve três espaços de comportamentos linguageiros: (1) o „espaço da locução', no qual o sujeito falante resolveu o problema da „tomada da palavra‟, justificou sua interferência, impôs-se como sujeito falante e,
5

Palavra grega que significa paixão, excesso, catástrofe, passagem, passividade, sofrimento e assujeitamento. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Pathos>. Acesso em 29 maio 2010.

60 de algum modo, conquistou seu direito de poder se comunicar; (2) o „espaço da relação, em que o sujeito falante, ao construir sua própria identidade de locutor e a de seu interlocutor, estabeleceu relações de força, de inclusão ou de conivência com seu interlocutor; e (3) o „espaço da tematização‟, tratado ou organizado no domínio do saber e no tema da troca, tanto predeterminados por instruções contidas nas restrições comunicacionais quanto introduzidos pelos participantes da troca. O sujeito falante não apenas tomou posição com relação ao tema imposto pelo contrato, como escolheu um „modo de intervenção‟, e escolheu um „modo de organização discursivo‟ particular, conforme suas habilidades. Identificar quais gêneros jornalísticos estiveram presentes no programa:

Foram identificados os quatro gêneros: o cruzamento entre um tipo de instância enunciativa, um de modo discursivo, um de conteúdo e um de dispositivo: (1) o tipo de instância enunciativa se caracterizou pela origem do sujeito falante e seu grau de implicação (um jornalista) e de fora da mídia (três especialistas do esporte do futebol); (2) o tipo de modo discursivo foi caracterizado pelo „debate‟ (acontecimento provocado); (3) o tipo do conteúdo temático (o futebol) foi a rubrica, um programa da TV Alterosa em determinado dia; e (4) o tipo de dispositivo, por sua materialidade, trouxe especificações para o texto e diferenciou os gêneros de acordo com o suporte midiático, ou seja, uma entrevista televisionada e suas múltiplas incidências nos papeis desempenhados por entrevistador e entrevistados. Mostrar quais elementos jornalísticos foram utilizados no ‘Alterosa Esporte’:

Inicialmente, demonstrou-se por meio da Figura 1, que os „comentários‟ e análises de especialistas jornalistas se situaram no meio do eixo horizontal porque se incluem na categoria de „acontecimento comentado‟, e estão colocados em uma altura média porque, embora os jornalistas sejam especialistas, nos programas são analistas engajados. Nas „tribunas de opinião‟, em contraste, os convidados, que fazem intervenções, são especialistas exteriores à instância midiática, engajados em suas declarações: comentam o acontecimento e, muitas vezes, ao fazê-lo, o provocam, como também provocam os outros envolvidos. O debate, objeto de análise deste estudo, é uma forma que reúne uma série de convidados em torno de um animador, para tratar de um determinado tema. Isso é completa e totalmente organizado e

61 gerenciado pela instância midiática. Desse ponto de vista, ele está situado na parte superior (instância interna) direita (acontecimento provocado) dos eixos de tipologização. Identificar os critérios de noticibilidade utilizados:

Esses não se referiram, apenas, ao transmitir o saber, mas de confrontar com os acontecimentos que se produziram no mundo ou inteirar-se de sua existência, e de construir, a esse respeito, certo saber. Isso funcionou, por um lado, em um tratamento que dependeu da maneira pela qual se construíam as representações sobre o público; e por outro, porque o público não se deixou atrair nem seduzir com facilidade, pois seguiu seus próprios movimentos de idéias. A instância da recepção também foi desdobrada: de um ponto de vista interno à instância midiática, designada como „instância-alvo‟; e um ponto de vista externo, como instância de recepção propriamente dita, com uma instância própria de consumo, ou seja, „instância público‟. A finalidade do contrato de comunicação midiática se achou numa tensão entre duas visadas: (1) a de „fazer saber‟ ou visada de informação propriamente dita, que tendeu a produzir um objeto de saber segundo uma lógica cívica: informar o cidadão; e (2) a visada do „fazer sentir‟ ou visada de captação, que tendeu a produzir um objeto de consumo segundo uma lógica comercial: captar as massas para sobreviver à concorrência. Por conseqüência, foram considerados tanto os discursos de justificativa, produzidos pelos profissionais das mídias sobre „seu modo de fazer‟ quanto às características do funcionamento da máquina midiática em si. Verificar as estratégias de entretenimento utilizadas:

O programa do dia 5 de abril de 2010 procedeu a uma encenação sutil do discurso da informação, baseando-se, ao mesmo tempo, nos apelos emocionais que prevalecem em cada comunidade sociocultural e no conhecimento dos universos de crenças que ali circulam. Por isso, o contrato da informação midiática foi, em seu fundamento, marcado pela contradição: finalidade de saber fazer, que buscou não um grau zero de espetacularização da informação para satisfazer o princípio de seriedade ao produzir efeitos de credibilidade (porque o programa sempre se utiliza dessa estratégia; e a finalidade de fazer sentir, que fez escolhas estratégicas

62 apropriadas à encenação da informação para satisfazer o princípio de emoção ao produzir o efeito da dramatização. Os materiais também foram organizados em sistemas semiológicos, conjuntos de redes de significantes que permitiram a configuração das unidades do sentido: sistema fônico, sistema gráfico; sistema minigestual e sistema icônico. O suporte também foi elemento material e funcionou como um canal de transmissão, por uma tela de vídeo. Observar o tempo de duração gasto com informação e o tempo gasto com o

entretenimento: O tempo com informações e entretenimento totalizou 25 minutos e o de inserções publicitárias 10 minutos. Foi criado, então, um efeito de autenticação do acontecimento e de fascinação do telespectador, com total habilidade do mediador do programa. Por conseqüência, entendeu-se como cumprido o objetivo deste trabalho acadêmico de forma diferente como têm sido abordados os aspectos midiáticos do futebol na TV, e essa foi sua relevância: apresentar uma cultura de massa por detrás das câmeras e suas estratégias de entretenimento e lazer. Na realidade, quando alguém assiste a um programa como o analisado não pode imaginar o que se passou por detrás das câmeras, ou seja, tudo o que implicou em sua audiência e sucesso. Como futuro jornalista do segmento esportivo, atividade que se pretende abraçar, entende-se que se pôde dar um panorama geral no que se refere ao futebol na mídia televisiva. Como as mídias funcionam segundo uma lógica dupla, ou seja, a econômica, que faz com que o organismo da informação aja como uma empresa, e a simbólica, que busca participar da construção da opinião pública, concluiu-se ter havido entretenimento, porque o „jogo da verdade‟ foi bem sucedido e, pelas edições subsequentes do programa, também os patrocinadores devem estar satisfeitos.

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REFERÊNCIAS
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