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Livro - O Mundo Dos Filosofos

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  • Dualismo Grego
  • O Gênio Grego
  • Divisão da História da Filosofia Grega
  • Primeiro Período
  • Escola Jônica
  • A Pátria Estelar
  • Demócrito e suas Teorias
  • Teoria do Conhecimento
  • Teoria do Comportamento
  • Os Sofistas
  • Período Sistemático
  • A Sofística
  • Protágoras de Abdera
  • Górgias de Leôncio
  • Defesa Contra os Antigos Acusadores Calúnia a Respeito do Saber de Sócrates
  • O Que é o Saber de Sócrates O Oráculo de Delfos
  • Pesquisa Junto aos Políticos
  • Pesquisa Junto aos Artesãos
  • O Verdadeiro Saber Consiste em Saber Que Não se Sabe
  • As Muitas Inimizades e a Acusação
  • Defesa Contra Meleto
  • Meleto Não Sabe o Que é Educar Nem Corromper
  • Meleto Acusa Sócrates de Ateísmo e se Contradiz
  • Repugnância e Abstenção Socrática da Política Comum
  • Epílogo - Sócrates não quer Misericórdia
  • Segunda Parte - A Pena Do Esperado da Pena
  • Terceira Parte - Após a Condenação Aos que Votaram Contra
  • Aos que o Absolveram
  • O Pensamento: A Gnosiologia
  • As Almas
  • O Mundo
  • Moral
  • A Política
  • A Religião e a Arte
  • A Academia
  • O Epicurismo
  • O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica
  • A Moral e a Religião
  • Ceticismo e Ecletismo
  • O Estoicismo
  • A Moral e a Política

Os Pré-Socráticos

Dualismo Grego
A característica fundamental do pensamento grego está na solução dualista do problema metafísico-teológico, isto é, na solução das relações entre a realidade empírica e o Absoluto que a explique, entre o mundo e Deus, em que Deus e mundo ficam separados um do outro. Conseqüência desse dualismo é o irracionalismo, em que fatalmente finaliza a serena concepção grega do mundo e da vida. O mundo real dos indivíduos e do vir-a-ser depende do princípio eterno da matéria obscura, que tende para Deus como o imperfeito para o perfeito; assimila em parte, a racionalidade de Deus, mas nunca pode chegar até ele porque dele não deriva. E a conseqüência desse irracionalismo outra não pode ser senão o pessimismo: um pessimismo desesperado, porque o grego tinha conhecimento de um absoluto racional, de Deus, mas estava também convicto de que ele não cuida do mundo e da humanidade, que não criou, não conhece, nem governa; e pensava, pelo contrário, que a humanidade é governada pelo Fado, pelo Destino, a saber, pela necessidade irracional. O último remédio desse mal da existência será procurado no ascetismo, considerando-o como a solidão interior e a indiferença heróica para com tudo, a resignação e a renúncia absoluta.

O Gênio Grego
A característica do gênio filosófico grego pode-se compendiar em alguns traços fundamentais: racionalismo, ou seja, a consciência do valor supremo do conhecimento racional; esse racionalismo não é, porém, abstrato, absoluto, mas se integra na experiência, no conhecimento sensível; o conhecimento, pois, não é fechado em si mesmo, mas aberto para o ser, é apreensão (realismo); e esse realismo não se restringe ao âmbito da experiência, mas a transpõe, a transcende para o absoluto, do mundo a Deus, sem o qual o mundo não tem explicação; embora, para os gregos, o "conhecer" - a contemplação, o teorético, o intelecto - tenham a primazia sobre o "operar" - a ação, o prático, a vontade - o segundo elemento todavia, não é anulado pelo primeiro, mas está a ele subordinado; e o otimismo grego, conseqüência lógica do seu próprio racionalismo, cederá lugar ao pessimismo, quando se manifestar toda a irracionalidade da realidade, quando o realismo impuser tal concepção. Todos esses elementos vêm sendo, ainda, organizados numa síntese insuperável, numa unidade harmônica, realizada por meio de um desenvolvimento também harmônico, aperfeiçoado mediante uma crítica profunda. Entre as raças gregas, a cultura, a filosofia são devidas, sobretudo, aos jônios, sendo jônios também os atenienses.

Divisão da História da Filosofia Grega
Os Períodos Principais do Pensamento Grego Consoante a ordem cronológica e a marcha evolutiva das idéias pode dividir-se a história da filosofia grega em três períodos: I. Período pré-socrático (séc. VII-V a.C.) - Problemas cosmológicos. Período Naturalista: présocrático, em que o interesse filosófico é voltado para o mundo da natureza; II. Período socrático (séc. IV a.C.) - Problemas metafísicos. Período Sistemático ou Antropológico: o período mais importante da história do pensamento grego (Sócrates, Platão, Aristóteles), em que o interesse pela natureza é integrado com o interesse pelo espírito e são construídos os maiores sistemas filosóficos, culminando com Aristóteles; III. Período pós-socrático (séc. IV a.C. - VI p.C.) - Problemas morais. Período Ético: em que o interesse filosófico é voltado para os problemas morais, decaindo entretanto a metafísica; IV. Período Religioso: assim chamado pela importância dada à religião, para resolver o problema da vida, que a razão não resolve integralmente. O primeiro período é de formação, o segundo de apogeu, o terceiro de decadência.

Primeiro Período
O primeiro período do pensamento grego toma a denominação substancial de período naturalista, porque a nascente especulação dos filósofos é instintivamente voltada para o mundo exterior, julgando-se encontrar aí também o princípio unitário de todas as coisas; e toma, outrossim, a denominação cronológica de período pré-socrático, porque precede Sócrates e os sofistas, que marcam uma mudança e um desenvolvimento e, por conseguinte, o começo de um novo período na história do pensamento grego. Esse primeiro período tem início no alvor do VI século a.C., e termina dois séculos depois, mais ou menos, nos fins do século V. Surge e floresce fora da Grécia propriamente dita, nas prósperas colônias gregas da Ásia Menor, do Egeu (Jônia) e da Itália meridional, da Sicília, favorecido sem dúvida na sua obra crítica e especulativa pelas liberdades democráticas e pelo bem-estar econômico. Os filósofos deste período preocuparam-se quase exclusivamente com os problemas cosmológicos. Estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem, na sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito, é a grande questão que dá a este período seu caráter de unidade. Pelo modo de a encarar e resolver, classificam-se os filósofos que nele floresceram em quatro escolas: Escola Jônica; Escola Itálica; Escola Eleática; Escola Atomística.

Escola Jônica
A Escola Jônica, assim chamada por ter florescido nas colônias jônicas da Ásia Menor, compreende os jônios antigos e os jônios posteriores ou juniores. A escola jônica, é também a primeira do período naturalista, preocupando-se os seus expoentes com achar a substância única, a causa, o princípio do mundo natural vário, múltiplo e mutável. Essa escola floresceu precisamente

em Mileto, colônia grega do litoral da Ásia Menor, durante todo o VI século, até a destruição da cidade pelos persas no ano de 494 a.C., prolongando-se porém ainda pelo V século. Os jônicos julgaram encontrar a substância última das coisas em uma matéria única; e pensaram que nessa matéria fosse imanente uma força ativa, de cuja ação derivariam precisamente a variedade, a multiplicidade, a sucessão dos fenômenos na matéria una. Daí ser chamada esta doutrina hilozoísmo (matéria animada). Os jônios antigos consideram o Universo do ponto de vista estático, procurando determinar o elemento primordial, a matéria primitiva de que são compostos todos os seres. Os mais conhecidos são: Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Anaxímenes de Mileto. Os jônios posteriores distinguem-se dos antigos não só por virem cronologicamente depois, senão principalmente por imprimirem outra orientação aos estudos cosmológicos, encarando o Universo no seu aspecto dinâmico, e procurando resolver o problema do movimento e da transformação dos corpos. Os mais conhecidos são: Heráclito de Éfeso, Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazômenas.

Tales de Mileto (624-548 A.C.) "Água"
Tales de Mileto, fenício de origem, é considerado o fundador da escola jônica. É o mais antigo filósofo grego. Tales não deixou nada escrito mas sabemos que ele ensinava ser a água a substância única de todas as coisas. A terra era concebida como um disco boiando sobre a água, no oceano. Cultivou também as matemáticas e a astronomia, predizendo, pela primeira vez, entre os gregos, os eclipses do sol e da lua. No plano da astronomia, fez estudos sobre solstícios a fim de elaborar um calendário, e examinou o movimento dos astros para orientar a navegação. Provavelmente nada escreveu. Por isso, do seu pensamento só restam interpretações formuladas por outros filósofos que lhe atribuíram uma idéia básica: a de que tudo se origina da água. Segundo Tales, a água, ao se resfriar, torna-se densa e dá origem à terra; ao se aquecer transforma-se em vapor e ar, que retornam como chuva quando novamente esfriados. Desse ciclo de seu movimento (vapor, chuva, rio, mar, terra) nascem as diversas formas de vida, vegetal e animal. A cosmologia de Tales pode ser resumida nas seguintes proposições: A terra flutua sobre a água; A água é a causa material de todas as coisas. Todas as coisas estão cheias de deuses. O imã possui vida, pois atrai o ferro. Segundo Aristóteles sobre a teoria de Tales: elemento estático e elemento dinâmico. Elemento Estático - a flutuação sobre a água. Elemento Dinâmico - a geração e nutrição de todas as coisas pela água. Tales acreditava em uma "alma do mundo", havia um espírito divino que formava todas as coisas da água. Tales sustentava ser a água a substância de todas as coisas.

Anaximandro de Mileto (611-547 A.C.) "Ápeiron"
Anaximandro de Mileto, geógrafo, matemático, astrônomo e político, discípulo e sucessor de Tales e autor de um tratado Da Natureza, põe como princípio universal uma substância indefinida, o ápeiron (ilimitado), isto é, quantitativamente infinita e qualitativamente indeterminada. Deste ápeiron (ilimitado) primitivo, dotado de vida e imortalidade, por um processo de separação ou "segregação" derivam os diferentes corpos. Supõe também a geração espontânea dos seres vivos e a transformação dos peixes em homens. Anaximandro imagina a terra como um disco suspenso no ar. Eterno, o ápeiron está em constante movimento, e disto resulta uma série de pares opostos - água e fogo, frio e calor, etc. - que constituem o mundo. O ápeiron é assim algo abstrato, que não se fixa diretamente em nenhum elemento palpável da natureza. Com essa concepção, Anaximandro prossegue na mesma via de Tales, porém dando um passo a mais na direção da independência do "princípio" em relação às coisas particulares. Para ele, o princípio da "physis" (natureza) é o ápeiron (ilimitado). Atribui-se a Anaximandro a confecção de um mapa do mundo habitado, a introdução na Grécia do uso do gnômon (relógio de sol) e a medição das distâncias entre as estrelas e o cálculo de sua magnitude (é o iniciador da astronomia grega). Ampliando a visão de Tales, foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo cósmico total. Diz-se também, que preveniu o povo de Esparta de um terremoto. Anaximandro julga que o elemento primordial seria o indeterminado (ápeiron), infinito e em movimento perpétuo. Fragmentos "Imortal...e imperecível (o ilimitado enquanto o divino) - Aristóteles, Física". Esta (a natureza do ilimitado, ele diz que) é sem idade e sem velhice. Hipólito, Refutação.

Anaxímenes de Mileto (588-524 A.C.) "Ar"
Segundo Anaxímenes, a arkhé (comando) que comanda o mundo é o ar, um elemento não tão abstrato como o ápeiron, nem palpável demais como a água. Tudo provém do ar, através de seus movimentos: o ar é respiração e é vida; o fogo é o ar rarefeito; a água, a terra, a pedra são formas cada vez mais condensadas do ar. As diversas coisas que existem, mesmo apresentando qualidades diferentes entre si, reduzem-se a variações quantitativas (mais raro, mais denso) desse único elemento. Atribuindo vida à matéria e identificando a divindade com o elemento primitivo gerador dos seres, os antigos jônios professavam o hilozoísmo e o panteísmo naturalista. Dedicou-se especialmente à meteorologia. Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe sua luz do Sol. Anaxímenes julga que o elemento primordial das coisas é o ar. Fragmentos "O contraído e condensado da matéria ele diz que é frio, e o ralo e o frouxo (é assim que ele expressa) é quente". (Plutarco). "Com nossa alma, que é ar, soberanamente nos mantém unidos, assim também todo o cosmo sopro e ar o mantém". (Aécio).

Heráclito de Éfeso Vida de Heráclito
Heráclito nasceu em Éfeso, cidade da Jônia, de família que ainda conservava prerrogativas reais (descendentes do fundador da cidade). Seu caráter altivo, misantrópico e melancólico ficou proverbial em toda a antigüidade. Desprezava a plebe. Recusou-se sempre a intervir na política. Manifestou desprezo pelos antigos poetas, contra os filósofos de seu tempo e até contra a religião. Sem ter sido mestre, Heráclito escreveu um livro Sobre a Natureza, em prosa, no dialeto jônico, mas de forma tão concisa que recebeu o cognome de Skoteinós, o Obscuro. Floresceu em 504-500 a.C. - Heráclito é por muitos considerados o mais eminente pensador pré-socrático, por formular com vigor o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias. Estabeleceu a existência de uma lei universal e fixa (o Lógos), regedora de todos os acontecimentos particulares e fundamento da harmonia universal, harmonia feita de tensões, "como a do arco e da lira".

Filosofia de Heráclito
Heráclito concebe o próprio absoluto como processo, como a própria dialética. A dialética é: A. Dialética exterior, um raciocinar de cá para lá e não a alma da coisa dissolvendo-se a si mesma; B. Dialética imanente do objeto, situando-se, porém, na contemplação do sujeito; C. Objetividade de Heráclito, isto é, compreender a própria dialética como princípio. É o progresso necessário, e é aquele que Heráclito fez. O ser é o um, o primeiro; o segundo é o devir - até esta determinação avançou ele. Isto é o primeiro concreto, o absoluto enquanto nele se dá a unidade dos opostos. Nele encontra-se, portanto, pela primeira vez, a idéia filosófica em sua forma especulativa; o raciocínio de Parmênides e Zenão é entendimento abstrato; por isso Heráclito foi tido como filósofo profundo e obscuro e como tal criticado. O que nos é relatado da filosofia de Heráclito parece, à primeira vista, muito contraditório; mas nela se pode penetrar com o conceito e assim descobrir, em Heráclito, um homem de profundos pensamentos. Ele é a plenitude da consciência até ele uma consumação da idéia na totalidade que é o início da Filosofia ou expressa a essência da idéia, o infinito, aquilo que é.

O Princípio Lógico
O princípio universal. Este espírito arrojado pronunciou pela primeira vez esta palavra profunda: "O ser não é mais que o não-ser", nem é menos; ou ser e nada são o mesmo, a essência é mudança. O verdadeiro é apenas como a unidade dos opostos; nos eleatas, temos apenas o entendimento abstrato, isto é, apenas o ser é. Dizemos, em lugar da expressão de Heráclito: O absoluto é a unidade do ser e do não-ser. Se ouvimos aquela frase "O ser não é mais que o não-ser", desta maneira, não parece, então, produzir muito sentido, apenas destruição universal, ausência de pensamento. Temos, porém, ainda uma outra expressão que aponta mais exatamente o sentido do princípio. Pois Heráclito diz: "Tudo flui (panta rei), nada persiste, nem permanece o mesmo". E Platão ainda diz de Heráclito: "Ele compara as coisas com a corrente de um rio - que não se pode entrar duas vezes na mesma corrente"; o rio corre e toca-se outra água. Seus sucessores dizem até que nele nem se pode mesmo entrar, pois que imediatamente se transforma; o que é, ao mesmo tempo já novamente não é. Além disso, Aristóteles diz que Heráclito afirma que é apenas um o que permanece; disto todo o resto é formado, modificado, transformado; que todo o resto fora deste um flui, que nada é firme, que nada se demora; isto é, o verdadeiro é o devir, não o ser - a determinação mais exata para este conteúdo universal é o devir. Os eleatas dizem: só o ser é, é o verdadeiro; a verdade do ser é o devir; ser é o primeiro pensamento enquanto imediato. Heráclito diz: Tudo é devir; este devir é o princípio. Isto está na expressão: "O ser é tão pouco como o não-ser; o devir é e também não é". As determinações absolutamente opostas estão ligadas numa unidade; nela temos o ser e também o não-ser. Dela faz parte não apenas o surgir, mas também o desaparecer; ambos não são para si, mas são idênticos. É isto que Heráclito expressou com suas sentenças. O não ser é, por isso é o não-ser, e o não-ser é, por isso é o ser; isto é a verdade da identidade de ambos. É um grande pensamento passar do ser para o devir; é ainda abstrato, mas, ao mesmo tempo, também é o primeiro concreto, a primeira unidade de determinações opostas. Estas estão inquietas nesta relação, nela está o princípio da vida. Com isto está preenchido o vazio que Aristóteles apontou nas antigas filosofias - a falta de movimento; este movimento é aqui, agora mesmo, princípio. É uma grande convicção que se adquiriu, quando se reconheceu que o ser e o nada são abstrações sem verdade, que o primeiro elemento verdadeiro é o devir. O entendimento separa a ambos como verdadeiros e de valor; a razão, pelo contrário, reconhece um no outro, que num está contido seu outro - e assim o todo, o absoluto deve ser determinado como o devir. Heráclito também diz que os opostos são características do mesmo, como, por exemplo, "o mel é doce e amargo" - ser e não-ser ligam-se ao mesmo. Sexto observa: Heráclito parte, como os céticos, das representações correntes dos homens; ninguém negará que os sãos dizem do mel que é doce, e os que sofrem de icterícia que é amargo - se fosse apenas doce, não poderia modificar sua natureza através de outra coisa e assim também para os que sofrem de icterícia seria doce. Zenão começa a sobressumir os predicados opostos e aponta no movimento aquilo que se opõe - um por limites e um sobressumir os limites; Zenão só exprimiu o infinito pelo seu lado negativo - , por causa de sua contradição, como o não verdadeiro. Em Heráclito, vemos o infinito como tal expresso como conceito e essência: o infinito, que é em si e para si, é a unidade dos opostos e, na verdade, dos universalmente opostos, da pura oposição, ser e não-ser. Tomamos nós o ente em si e para si, não a representação do ente, do pleno, assim o puro ser é o pensamento simples, em que todo o determinado é negado, o absolutamente negativo - nada é o mesmo, apenas este igual a si mesmo - , passagem absoluta para o oposto, ao qual Zenão

não chegou! "Do nada, nada vem." Em Heráclito o momento da negatividade é imanente; disto trata o conceito de toda a Filosofia. Primeiro tivemos a abstração de ser e não-ser, numa forma bem imediata e universal; mais exatamente, porém, também Heráclito concebeu as oposições de maneira mais determinada. É esta unidade de real e ideal, de objetivo e subjetivo; o objetivo somente é o devir subjetivo. Este verdadeiro é o processo do devir; Heráclito expressou de modo determinado este pôr-se numa unidade das diferenças. Aristóteles diz, por exemplo, que Heráclito "ligou o todo e o não-todo" (parte) - o todo se torna parte e a parte o é para se tornar o todo - , o "que se une e se opõe", do mesmo modo, "o que concorda e o dissonante"; e de que de tudo (que se opõe) resulta um, e de um tudo. Este um não é o abstrato, a atividade de dirimir-se; a morta infinitude é uma má abstração em oposição a esta profundidade que vemos em Heráclito. Sexto Empírico cita o seguinte que Heráclito teria dito: A parte é algo diferente do todo; mas é também o mesmo que o todo é; a substância é o todo e a parte. O fato de Deus ter criado o mundo Ter-se dividido a si mesmo, gerado seu Filho, etc. - todos estes elementos concretos estão contidos nesta determinação. Platão diz, em seu Banquete, sobre o princípio de Heráclito: "O um, diferenciado de si mesmo, une-se consigo mesmo" - este é o processo da vida, "como a harmonia do arco e da lira". Deixa então que Erixímaco, que fala no Banquete, critique o fato de a harmonia ser desarmônica ou se componha de opostos, pois que a harmonia se formaria de altos e baixos, mas da unidade pela arte da música. Mas isto não contradiz Heráclito, que justamente quer isto. O simples, a repetição de um único som não é harmonia. Da harmonia faz parte a diferença; é preciso que haja essencial e absolutamente uma diferença. Esta harmonia é precisamente o absoluto devir, transformar-se - não devir outro, agora este, depois aquele. O essencial é que cada diferente, cada particular seja diferente de um outro - mas não de um abstrato qualquer outro, mas de seu outro; cada um apenas é, na medida em que seu outro em si esteja consigo, em seu conceito. Mudança é unidade, relação de ambos a um, um ser, este e o outro. Na harmonia e no pensamento concordamos que seja assim; vemos, pensamos a mudança, a unidade essencial. O espírito relaciona-se na consciência com o sensível e este sensível é seu outro. Assim também no caso dos sons; devem ser diferentes, mas de tal maneira que também possam ser unidos - e isto os sons são em si. Da harmonia faz parte determinada oposição, seu oposto, como nas harmonia das cores. A subjetividade é o outro da objetividade, não de um pedaço de papel - o absurdo disto logo se mostra - , deve ser seu outro, e nisto reside sua identidade; assim cada coisa é o outro do outro enquanto seu outro. Este é o grande princípio de Heráclito; pode parecer obscuro, mas é especulativo; e isto é, para o entendimento que segura para si o ser, o não-ser, o subjetivo e objetivo, o real e o ideal, sempre obscuro.

Os Modos da Realidade
Heráclito não ficou parado, em sua exposição, nesta expressão em conceitos, no puro lógico, mas além desta forma universal, na qual expôs seu princípio, deu à sua idéia também uma expressão real. Esta figura pura é precipuamente de natureza cosmológica, ou sua forma é mais a forma natural; por isso, é incluído ainda na Escola Jônica, e com isto deu novos impulsos à filosofia da natureza. Sobre esta forma real de seu princípio os historiadores, contudo, não estão de acordo entre si. A maioria diz que ele teria posto a essência ontológica como fogo, outros dizem que como ar, outros dizem que antes o vapor que o ar; mesmo o tempo é citado, em Sexto, como o primeiro ser do ente. A questão é a seguinte: Como compreender esta diversidade? Não se deve absolutamente crer que se deva atribuir estas notícias à negligência dos escritores, pois as testemunhas são as melhores, como Aristóteles e Sexto Empírico, que não falam destas formas de passagem, mas de modo bem determinado, sem, no entanto, chamar a atenção para estas diferenças e contradições. Uma outra razão mais próxima parece-nos resultar da obscuridade do escrito de Heráclito, o qual, na confusão de seu modo de expressão, poderia dar motivos para mal-entendidos. Mas, considerando mais detidamente, esta dificuldade desaparece; esta mostra-se mais para uma análise superficial; no conceito profundo de Heráclito acha-se a verdadeira saída deste empecilho. De maneira alguma podia Heráclito afirmar, como Tales, que a água ou o ar ou coisa semelhante seria a essência absoluta; e não o podia afirmar como um primeiro donde emanaria o outro, na medida em que pensou ser como idêntico como o não-ser ou no conceito infinito. Assim, portanto, a essência absoluta que é não pode surgir nele como uma determinidade existente, por exemplo, a água, mas a água enquanto se transforma, ou apenas o processo. A. - Processo abstrato, tempo. Heráclito, portanto, disse que o tempo é o primeiro ser corpóreo, como exprime Sexto. "Corpóreo" é uma expressão inadequada. Os céticos escolhiam muitas vezes as expressões mais grosseiras ou tornavam os pensamentos grosseiros para mais facilmente liquidá-los. "Corpóreo" significa sensibilidade abstrata; o tempo é a intuição abstrata do processo; diz que ele é o primeiro ser sensível. O tempo, portanto, é a essência verdadeira. Na medida em que Heráclito não parou na expressão lógica do devir, mas deu a seu princípio a forma de um ente, deduz-se disto que primeiro tinha que oferecer-se a forma do tempo; pois precisamente, no sensível, no que se pode ver, o tempo é o primeiro que se oferece como o devir; é a primeira forma do devir. Enquanto intuído, o tempo é o puro devir. O tempo é puro transformar-se, é o puro conceito, o simples, que é harmônico a partir de absolutamente opostos. Sua essência é ser e não-ser, sem outra determinação ser puro e abstrato não-ser, postos imediatamente numa unidade e ao mesmo tempo separados. Não como se o tempo fosse e não fosse, mas o tempo é isto: no ser imediatamente não-ser e no não-ser imediatamente ser - esta mudança de ser para não-ser, este conceito abstrato, é, porém, visto de maneira objetiva, enquanto é para nós. No tempo não é o passado e o futuro, somente o agora; e este é, para não ser, está logo destruído, passado - e este não-ser passa, do mesmo modo, para o ser, pois ele é. É a abstrata contemplação desta mudança. Se tivéssemos de dizer como aquilo que Heráclito reconheceu como a essência existe para a consciência, nesta pura forma em que ele o reconheceu, não haveria outra que nomear a não ser o tempo; é, por conseguinte, absolutamente certo que a primeira forma do que devém é o tempo; assim isto se liga ao princípio do pensamento de Heráclito.

B. - A forma real como processo, fogo. Mas este puro conceito objetivo deve realizar-se mais. No tempo estão os momentos, ser e não-ser, postos apenas negativamente ou como momentos que imediatamente desaparecem. Além disso, Heráclito determinou o processo de um modo mais físico. O tempo é intuição, mas inteiramente abstrata. Se quisermos representar-nos o que ele é, de modo real, isto é, expressar ambos os momentos como uma totalidade para si, como subsistente, então levanta-se a questão: que ser físico corresponde a esta determinação? O tempo, dotado de tais momentos, é o processo; compreender a natureza significa apresentá-la como processo. Este é o elemento verdadeiro de Heráclito e o verdadeiro conceito; por isso, logo compreendemos que Heráclito não podia dizer que a essência é o ar ou a água ou coisas semelhantes, pois eles mesmos não são (isto é o próximo) o processo. O fogo, porém, é o processo: assim afirmou o fogo como a primeira essência - e este é o modo real do processo heracliteano, a alma e a substância do processo da natureza. Justamente no processo distinguem-se os momentos, como no movimento: 1. o puro momento negativo, 2. os momentos da oposição subsistente, água e ar, e 3. a totalidade em repouso, a terra. A vida da natureza é o processo destes momentos: a divisão da totalidade em repouso da terra na oposição, o pôr desta oposição, destes momentos - e a unidade negativa, o retorno para a unidade, o queimar da oposição subsistente. O fogo é o tempo físico; ele é esta absoluta inquietude, absoluta dissolução do que persiste - o desaparecer de outros, mas também de si mesmo; ele não é permanente. Por isso compreendemos (é inteiramente conseqüente) por que Heráclito pode nomear o fogo como o conceito do processo de sua determinação fundamental. C. - O fogo está agora mais precisamente determinado, mais explicitado como processo real; ele é para si o processo real, sua realidade é o processo todo no qual, então, os momentos são determinados mais exata e concretamente. O fogo, enquanto o metamorfosear-se das coisas corpóreas, é mudança, transformação do determinado, evaporação, transformação em fumaça; pois ele é, no processo, o momento abstrato do mesmo, não tanto o ar como antes a evaporação. Para este processo Heráclito utilizou uma palavra muito singular: evaporação (anathymíasis) (fumaça, vapores do sol); evaporação é aqui apenas a significação superficial - é mais: passagem. Sob este ponto de vista, Aristóteles diz de Heráclito que, segundo sua exposição, o princípio era a alma, por ser ela a evaporação, o emergir de tudo, e este evaporar-se, devir, seria o incorpóreo e sempre fluído. As determinações mais próximas deste processo real são, em parte, falhas e contraditórias. Sob este ponto de vista, afirma-se, em algumas notícias, que Heráclito teria determinado o processo assim: "As formas (mudanças) do fogo são, primeiro, o mar e, então, a metade disto, terra, e a outra metade, o raio" - o fogo em sua eclosão. Este é universal e muito obscuro. A natureza é assim esse círculo. Neste sentido ouvimo-lo dizer: "Nem um deus nem um homem fabricou o universo mas sempre foi e é e será um fogo sempre vivo, que segundo suas próprias leis (métro) se acende e se apaga.". Compreendemos o que Aristóteles cita, que o princípio é a alma, por ser a evaporação, este processo do mundo que a si mesmo se move; o fogo é a alma. No que se refere ao fato de Heráclito afirmar que o fogo é vivificante, a alma, encontra-se uma expressão que pode parecer bizarra, isto é, que a alma mais seca é a melhor. Nós certamente não tomamos a alma mais molhada como a melhor, mas, pelo contrário, a mais viva; seco quer dizer aqui cheio de fogo: assim a alma mais seca é o fogo puro, e este não é a negação do vivo, mas a própria vida. Para retornar a Heráclito: ele é aquele que primeiro expressou a natureza do infinito e que compreendeu a natureza como sendo em si infinita, isto é, sua essência como processo. É a partir dele que se deve datar o começo da existência da Filosofia; ele é a idéia permanente, que é a mesma em todos os filósofos até os dias de hoje, assim como foi a idéia de Platão e Aristóteles. "Os homens são deuses mortais e os deuses, homens imortais; viver é-lhes morte e morrer é-lhes vida". "Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos".

Pitágoras de Samos
Pitágoras, o fundador da escola pitagórica, nasceu em Samos pelos anos 571-70 a.C. Em 532-31 foi para a Itália, na Magna Grécia, e fundou em Crotona, colônia grega, uma associação científico-ético-política, que foi o centro de irradiação da escola e encontrou partidários entre os gregos da Itália meridional e da Sicília. Pitágoras aspirava - e também conseguiu - a fazer com que a educação ética da escola se ampliasse e se tornasse reforma política; isto, porém, levantou oposições contra ele e foi constrangido a deixar Crotona, mudando-se para Metaponto, aí morrendo provavelmente em 497-96 a.C. Segundo o pitagorismo, a essência, o princípio essencial de que são compostas todas as coisas, é o número, ou seja, as relações matemáticas. Os pitagóricos, não distinguindo ainda bem forma, lei e matéria, substância das coisas, consideraram o número como sendo a união de um e outro elemento. Da racional concepção de que tudo é regulado segundo relações numéricas, passa-se à visão fantástica de que o número seja a essência das coisas. Mas, achada a substância una e imutável das coisas, os pitagóricos se acham em dificuldades para explicar a multiplicidade e o vir-a-ser, precisamente mediante o uno e o imutável. E julgam poder explicar a variedade do mundo mediante o concurso dos opostos, que são - segundo os pitagóricos - o ilimitado e o limitado, ou seja, o par e o ímpar, o imperfeito e o perfeito. O número divide-se em par, que não põe limites à divisão por dois, e, por conseguinte, é ilimitado (quer dizer, imperfeito, segundo a concepção grega, a qual via a perfeição na determinação); e ímpar, que põe limites à divisão por dois e, portanto, é limitado, determinado, perfeito. Os elementos constitutivos de cada coisa - sendo cada coisa número - são o par e o ímpar, o ilimitado e o limitado, o pior e o melhor. Radical oposição esta, que explicaria o vir-a-ser e o múltiplice, que seriam reconduzidos à concordância e à unidade pela fundamental harmonia (matemática), que governa e deve governar o mundo material e moral, astronômico e sonoro. Como a filosofia da natureza, assim a astronomia pitagórica representa um progresso sobre a jônica. De fato, os pitagóricos afirmaram a esfericidade da Terra e dos demais corpos celestes, bem como a rotação da Terra, explicando assim o dia e a noite;

etc. Portanto. na origem há a descoberta das analogias numéricas no universo. ilimitado. e as práticas ascéticas e abstinenciais. Dizem. Os eleatas dizem: "Não há não-ser. Desde que se têm o ponto. ilimitado. direita. A música. logo. Contentou-se. pitagórica. tratava-se sempre de elementos e de sua combinação. De um lado têm-se. mau. cinco o casamento. esquerda. nesse sentido. afirma-se que as qualidades residem na diversidade das proporções. etc. Nossa ciência é. Na química. só existe em nossos nervos e em nosso cérebro. As qualidades nasciam por combinação ou por dissociação. dois a opinião. Chamar o Ápeiron de Par é sua grande inovação. reto. portanto a diversidade. À primeira vista. a essa força. que reaparece aqui pela última vez. esquerda. davam nascimento a uma série limitada de números. De outro lado. não-ser e. o não-ser é noite e. a Unidade veio a ser. portanto. 5): delimitado. um conceito contraditório. compõe-se somente das relações numéricas quanto ao ritmo. relação de intervalos. toda coisa nasce de dois fatores opostos. e a delimitação. portanto. masculino. Remetem-se. [Simbolismo dos números pitagóricos: um é a razão. Portanto. fora de nós ou em si mesma (no sentido de Locke). O ponto de partida me parece ser a apologia da ciência matemática contra o eleatismo. luz. temos uma mistura de atomismo e de pitagorismo. reto. quadrado. Lembramo-nos da dialética de Parmênides. os gnómones. da unidade procede a série dos números aritméticos (monádicos). teriam entendido por ela a proporção (aquilo que fixa as . fogo. Mas estes são apenas. 4) que não pode nem mover-se nem estar em repouso. etc. que não está em parte nenhuma. feminino. ponto de vista inteiramente novo. conforme se considere o elemento harmônico ou o elemento rítmico. ímpar. e quanto à tonalidade. problemas secundários. inqualificado e qualificado. mas delimitações do ilimitado. pois. é uma especulação totalmente insólita. o Ápeiron de Anaximandro. Mas esse presentimento estava ainda longe da aplicação exata. não quantidades de elementos (água. um é o ponto. assim. A harmonia das esferas. ao absolutamente Indeterminado. Mas ambos compõem o Uno. Portanto. trevas. Nela. ablongo. também uma pluralidade". e da Harmonia que une as qualidades opostas. De novo. Como é possível uma pluralidade? Pelo fato de o não-ser ter um ser. Se houvessem tomado emprestado de Heráclito a palavra lógos. ablongo. com relação à metempsicose e à reincarnação das almas. Parmênides chamava Aphrodite. o número é a essência própria das coisas. No mesmo sentido. quatro o volume. pois. O ponto de partida que permite afirmar que tudo o que é qualitativo é quantitativo encontra-se na acústica. as superfícies e os corpos. pai de todas as coisas. luz. que não se deve confundir com o Sol. há também uma pluralidade. do qual a música é. é preciso partir do eleatismo. modo dórico. contra o eleatismo. etc. uno. para a qual Ecphantus na Antiguidade passa por ter aberto o caminho. a imagem. quadrado. curvo. os números quadrados. por outro lado. tiveram de erigir a noção de número. Simbolizava a gênese de todas as coisas a partir da oitava. portanto: delimitado. sutil. masculino. 2) que tampouco tem limites. provisoriamente. àquilo que não tem nenhuma qualidade. a possibilidade de uma investigação exata em física.e afirmaram também a revolução dos corpos celestes em torno de um foco central. múltiplo. passivo. par. agitado. não há nada além de quantidades. Pelo que diz respeito à moral. é dito da Unidade (supondo que não existe pluralidade): 1) que ela não tem partes e não é um todo. E tal é. [Teoria das cordas sonoras. este é análogo ao ser potencial da hyle de Aristóteles. estritamente. têm-se também os objetos materiais. poder-se-ia exprimir o ser do universo. aqui. inicialmente. isso porque os ímpares. dez a perfeição. Decompuseram os dois elementos de que nasce o número em par e ímpar. pois. quatro a justiça. Os pitagóricos: "A própria unidade é o resultado de um ser e de um não-ser. delimitado e movido pelo fogo de Heráclito. agora. do Ápeiron. dominam no pitagorismo o conceito de harmonia. não há qualidades. se se trata de sua quantidade. uno. curvo. direita. e o número. Nos outros sistemas de física. A contribuição original dos pitagóricos é. portanto há. bom. o primeiro sistema de Parmênides.] A música. Cosmogonia. Trata-se de encontrar fórmulas matemáticas para as forças absolutamente impenetráveis. portanto. Para defender essa idéia contra a doutrina unitária dos eleatas. se o Uno existe. pelo menos em certo sentido. o domínio da química e das ciências naturais. a linha. con efeito. o Ser e a Unidade dão a Unidade existente. se se trata de sua qualidade. foi em todo caso formado por dois princípios. Assim.). que. E acreditavam discernir a essência verdadeira das coisas em suas relações numéricas. cuja tarefa é. nesse caso. Identificaram essas noções com termos filosóficos já usuais. em todo caso. portanto. O Universo e os planetas esféricos. e as partes múltiplas. ímpar. retomaram então a idéia heraclitiana do pólemos. É um procedimento análogo: ataca-se o conceito da Unidade existente porque comporta os predicados contraditórios e é. O ser é luz e. 3) portanto. enfim. encontra-se.. bastava-lhes que fosse afirmada a existência da Unidade para deduzir dela também a pluralidade. evidentemente. que fazia nascer todas as coisas de uma dualidade. é essencialmente uma força calculadora. Isso lembra o quadro-modelo de Parmênides. exclusivamente com o auxílio de números. depois os números geométricos ou grandezas (formas espaciais). agora. delimitado e ilimitado. Os matemáticos pitagóricos acreditavam na realidade das leis que haviam descoberto. do qual se pode dizer que é impar. trevas. impossível. I. Mas identificam esse limite com o fogo de Heráclito. frio. enfim. a isso opõe-se o absolutamente Determinado. tudo é uma unidade". depois. feminino. há também uma pluralidade. denso. Para compreendermos seus princípios fundamentais. dissolver o indeterminado em tantas relações numéricas determinadas. com analogias fantasiosas. uma invenção extremamente importante: a significação do número e. quente. o Péras. dois é a linha. portanto. logicamente conexo com a filosofia pitagórica. três a superfície. bom. ativo. agitado. imóvel. como tal. foi preciso que também a Unidade tivesse vindo a ser. imóvel. múltiplo. é o melhor exemplo do que queriam dizer os pitagóricos. dualismo.] Se se pergunta a que se pode vincular a filosofia pitagórica. portanto. Mas. mau. e a pluralidade do ser. Notável quadro estabelecido por Aristóteles (Metaf. par. a Anaximandro. identificam o não-ser ao Ápeiron de Anaximandro.

Os pitagóricos teriam podido dizer o mesmo do universo. Não consideramos apenas lenda o que se escreveu sobre essa vida maravilhosa. que é representada inteiramente destituída de qualidade. que preferem declará-lo como não existente. esta sacerdotiza vaticinou-lhe um grande papel. ainda. a historicidade de Pitágoras (como alguns o fazem). por não se ter às mãos documentação bastante. foi finalmente destruído. em seu incêndio. Dióspolis e Heliópolis. fundou o seu famoso Instituto. Tendo esta. sem dúvida. aluno de Tales. O fato de negar-se. . Acontece com Pitágoras o que aconteceu com Shakespeare. (¹) O exercício de aritmética oculto do espírito que não sabe calcular. ou Pythaia. ao nosso ver. então tirano de Samos. também. sinteticamente. que. era filho de Menesarco e de Partêmis. relata-se que esteve em contato com os órficos. pereceu Pitágoras. teve como primeiros mestres a Hermodamas de Samos até os 18 anos. Observa-se. e se essa seita foi tão combatida. foi iniciado nos mistérios egípcios. Podemos assim parafrasear o que foi dito quanto a Shakespeare. Em 1917. no Peloponeso. peremptoriamente. que ainda existe e tem seus seguidores. Sua idéia fundamental é esta: a matéria. Suas lições atraíram-lhe muitos discípulos. Numa obra. vamos a seguir relatar algo. essa ordem. natural de Tiro. em Babilônia. Afirma-se. nessas descrições. que liga Roma a Nápoles. mas sem poder dizer quem faz o cálculo. como foi Gautama Buda. não impede que seja o pitagorismo uma realidade empolgante na história da filosofia. combatido pelos democratas de então. desvirtuam o pensamento genuíno de Pitágoras de Samos. cuja existência foi tantas vezes negada. Antes de sua localização na Magna Grécia. afirma-se. deve-se mais ao fato de ser secreta do que propriamente por suas idéias. jaz envolta num véu de mistério. entre 592 a 570 antes da nossa era. sob os trilhos da estrada de ferro. naquele mesmo século em que surgiram tantos grandes condutores de povos e criadores de religiões. segundo uns. em Crotona. o que levou a mãe a devotar-se com o máximo carinho à sua educação. que antes. quando foi feito prisioneiro pelas tropas de Cambísis. posteriormente. cujo nome significa o Anunciador pítico (Pythios). mebora esteja. averigou-se ser pitagórica. enquanto outros afirmam que conseguiu fugir. em sua juventude. influindo no pensamento Ocidentel. tendo sido daí conduzido para a Babilônia. contando-nos a lenda que. Carcopino (La Brasilique pythagoricienne de la Porte Majeure) dá-nos um amplo relato desse templo. o qual. há 2. quando de sua estada nessa grande metrópole da antiguidade. ao dizer que a música é "exercitium arithmeticae occultum nescientis se numerare animi" (¹). Sabe-se hoje. Zoroastro (Zaratustra). Relata a lenda que Pitágoras. onde se reuniam os membros de uma seita misteriosa. pondo de lado esses escrúpulos ingênuos de certos autores. porque há. tendo sido.. Dentre as religiões de mistérios. proliferavam os templos pitagóricos. perto de Porta Maggiori. Posteriormente verificou-se que se tratava de uma construção realizada nos tempos de Cláudio. Foi depois discípulo de Sonchi. E foi inegavelmente essa descoberta tão importante que impulsionou novos estudos. nos santuários de Mênfis.600 anos vem. a doutrina pitagórica foi a que mais se difundiu na antiguidade. hoje cara aos pitagóricos. que se realizaram sobre a doutrina de Pitágoras. pois uns afirmam ter sido ele de origem egípcia. chamava-se Pitágoras. Isso lembra a palavra de Leibniz. tendo então conhecido a famosa sacerdotiza Teocléia de Delfos. porque aí é que funda o seu famoso Instituto. irremediavelmente infectada de idéias estranhas que. somente por relações numéricas adquire tal ou tal qualidade determinada. Inúmeras são as divergências sobre a verdadeira nacionalidade de Pitágoras. Conta-nos. de caráter iniciático. ou seja. junto com os seus mais amados discípulos. o que fez o sábio exilar-se na Magna Grécia (Itália). O vir-a-ser é um cálculo. durante vinte e cinco séculos. e que nada mais era do que um templo. outros. com base histórica. Foi em sua viagem a essa metrópole da Antiguidade. por volta de 41 a 54 d. que se julgou a princípio fosse a porta de uma capela cristã subterrânea. Se não existiu Pitágoras de Samos. como o Péras fixa o limite). como se houvesse maior validez na negação da sua historicidade do que na sua afirmação. também. que conheceu o pensamento das antigas religiões do Oriente. A força mística do grande filósofo e reformador religioso. por casualidade. inúmeras viagens e peregrinações. em torno dessa lenda. desde os tempos da antiguidade. depois Ferécides de Siros. Consta que Pitágoras. mas provocaram. cuja influência atravessa os séculos até nossos dias. o assírio Zaratustra ou Zoroastro. a lenda que o hierofante Adonai aconselhou-o a ir ao Egito.C. e ouvinte das conferências de Anaximandro. levado o filho à Pítia de Delfos. em nossos dias. já em tempos de César. onde. Mas.proporções. Mas é na Itália que desempenha um papel extraordinário. afinal. Confúcio e Lao Tsé. os quais tendem a mostrar o grande papel que exerceu na história. Notas Biográficas sobre Pitágoras A doutrina e a vida de Pitágoras. Tal é a resposta dada ao problema de Anaximandro. que Pitágoras nasceu em Samos. ademais. houve com certeza alguém que construiu essa doutrina. que realizou um retiro no Monte Carmelo e na Caldéia. poderosamente. certa vez. onde. recomendado ao faraó Amom. ainda. a inimizade de Policrates. porém. e que. que este realizou. tendo voltado para Samos já com a idade de 56 anos. um sacerdote egípcio. em todas as fontes que nos relatam a vida de Pitágoras. como já esteve no passado. que desde criança se revelava prodigioso. É aceito quase sem divergência por todos que se debruçaram a estudar a sua vida. síria ou. tomando um rumo que permaneceu ignorado. já em decadência. conhecido Zaratos. em Mileto. muito de histórico do que é fruto da imaginação e da cooperação ficcional dos que se dedicaram a descrever a vida do famoso filósofo de Samos. e freqüentou as aulas ministradas por famosos mestres de então. foi descoberta uma cripta. tendo.

Pitágoras deve ter falecido entre 510 e 480.como virão a ser mais tarde -. (tão importante como propiciadora de vivências religiosas estáticas) em relação à matemática. deus libertador que completava a libertação preparada pelas práticas catárticas (entre as quais se incluia a abstinência de certos alimentos).o Número A partir do próprio Pitágoras.de Orfeu. sobretudo. a alma semelhante ao cosmo. sustentada pela ordem e pela proporção. (Pitágoras) A Pátria Estelar Dentre as religiões de mistério. fugindo à tirania de Polícrates. (Pitágoras) Em Todas as Coisas. Estes não seriam.que descreve o cenário cósmico. A alma aspiraria. na transmigração da alma através de vários corpos. as unidades comporiam os números. Os órficos acreditavam na imortalidade da alma e na metempsicose. e que se manifesta como beleza. contudo. recolhe". que ele teria deixado Samos (na Jônia). já que ela foi objeto de uma série de relatos tardios e fantasiosos. Os primeiros números. por sua própria natureza. uma revivescência da vida religiosa. (Pitágoras) O Pitagorismo Durante o século VI a. A purificação resultaria do trabalho intelectual. em algumas regiões do mundo grego. transferindo-se para Crotona (na Magna Grécia) fundou uma confraria científico-religiosa.não só de natureza como também de valor . mas não a carregues". entre todos os seres. (Pitágoras) Salvação pela Matemática Pitágoras de Samos.era uma religião essencialmente esotérica. uma teve enorme difusão: o culto de Dioniso. Ou seja. em geral. e que passou a constituir o núcleo da religião órfica. tendo desaparecido quando do famoso massacre de Metaponto. Pitágoras criou um sistema global de doutrinas. a retornar à sua pátria celeste. depois do pitagórico Filolau. que se tornou figura legendária na própria Antiguidade. pois realizou uma modificação fundamental na doutrina órfica. Pitágoras teria chegado à concepção de que todas as coisas são números através inclusive de uma observação no campo musical: verificou no monocórdio que o som produzido varia de acordo com a extensão da corda sonora. meros símbolos a exprimir o valor das grandezas: para os pitagóricos. Natural que dentro de tal concepção . onde se processa a purificação da alma . em lugar do deus Dioniso colocou a matemática. mínimo de . porém. são a própria "alma das coisas". bastavam para justificar o que há de essencial no universo: o um é o ponto. como os referentes às suas viagens e a seus contatos com culturas orientais. que primeiro teria recebido a revelação de certos mistérios e os teria confiado a iniciados sob a forma de poemas musicais . das divindades "oficiais" -. em substituição às representações literais mais arcaicas. transformando o sentido da "via de salvação". Essa similitude profunda entre os vários existentes era sentida pelo homem sob a forma de um "acordo com a natureza". depois da derrota da liga crotoniata. entendido como unidade harmônica. "O que fala. "Todas as coisas são números". teria sido antes de mais nada um reformador religioso. para garantir seu papel de líderes populares e para enfraquecer a antiga aristocracia .C. garantida pela presença do divino em tudo. vivo. às estrelas. na segunda metade do século VI a. verificou-se. O orfismo . do ciclo das reincarnações. a fim de efetivar sua purificação.que se supunha descendente dos deuses protetores das polis. será qualificada como uma "harmonia". os pitagóricos adotaram uma representação figurada dos números. Os historiadores mostram que um dos fatores concorreram para esse fenômeno foi a linha política adotada. quando os pitagóricos falam que as coisas imitam os números estariam entendendo essa imitação (mimesis) num sentido realista: as coisas manifestariam externamente a estrutura numérica inerente. da música. que descobre a estrutura numérica das coisas e torna. descobriu que há uma dependência do som em relação à extensão. Da vida de Pitágoras quase nada pode ser afirmado com certeza. de caráter iniciático. uma distinção . Mínimo de extensão e mínimo de corpo. Segundo a cosmologia pitagórica . as regras da vida individual e do governo das cidades. o pitagorismo pressupunha uma identidade fundamental. que. A grande novidade introduzida certamente pelo próprio Pitágoras na religiosidade órfica foi a tranformação do processo de libertação da alma num esforço puramente humano.Segundo as melhores fontes. de onde caíra. Assim. De acordo com essa concepção. de natureza divina. portanto. porque basicamente intelectual. portanto . Para libertar-se. cuja finalidade era descobrir a harmonia que preside à constituição do cosmo e traçar. representados figurativamente. o pitagorismo primitivo concebe a extensão como descontínua: constituída por unidades indivisíveis e separadas por um "intervalo". "Ajuda teus semelhantes a levantar sua carga. o homem necessitaria da ajuda de Dioniso. A representação figurada permitia explicitar a lei de composição dos números e torna-se um fator de avanço das investigações matemáticas dos pitagóricos. os números são reais. usadas pelos gregos e depois pelos romanos. ou seja. assim. são entidades corpóreas constituídas por unidades contíguas e a prenunciar os átomos de Leucipo e Demócrito. A sociedade pitagórica continuou após a sua morte.o que escuta.o mal seja entendido sempre como desarmonia. originário da Trácia. "Com ordem e com tempo encontra-se o segredo de fazer tudo e tudo fazer bem". inalaria o ar infinito (pneuma ápeiron) em que estaria imerso. A religião órfica pressupunha.vista por alguns autores como o fundamento do "mito helênico" . pelos tiranos. Partindo de idéias órficas. semeia . Parece certo.C. os tiranos favoreciam a expansão de cultos populares ou estrangeiros.entre a alma ignea e imortal e os corpos pereciveis através dos quais ela realizava sua purificação.esse "intervalo" resultaria da respiração do universo que. são essências realizadas (usando-se um vocabulário filosófico posterior). de acordo com ela.

Segundo muitas lendas. Apesar desses impasses . O "escândalo" dos irracionais manifestava-se no próprio teorema de Pitágoras (o quadrado construído sobre a hipotenusa é igual a soma dos quadrados construídos sobre os catetos).Considerado criador da dialética (entendida como argumentação combativa ou erística).Escreveu várias obras em prosa: Discussões. a fortaleza de sua alma tornou-se célebre pela sua morte. diante de seu povo. no entanto. A característica de Zenão é a dialética. no 'não-ser é' se contradizem sujeito e predicado". contra as críticas dos adversários. seria a própria tessitura do que o homem considera "silêncio". Zenão. pelo fato de (exceto sua viagem a Atenas) ter sua residência fixa em Eléia. de valores sem possibilidade de determinação exaustiva. Em sua vida não apenas era algo de muito respeito em seu Estado. mas não o vemos. Sua astronomia.ela aponta. por não revelar o nome dos comparsas. presos a esferas homocêntricas. o que se evidenciava pelo aparecimento na tradução aritmética da relação entre elas. Já por sua própria notação figurativa evidencia-se que a primitiva matemática pitagórica constitui uma aritmo-geometria. naquilo que é afirmado como sendo sua destruição. como V¯². Zenão delatou primeiro todos os amigos do tirano como participantes da conjuração. tendo. perdeu a vida. influenciando praticamente todo o desenncolcimento da ciência e da filosofia gregas. no pitagorismo. dando leis à sua pátria. Sobre a Natureza. faze aquilo que te parece justo". De modo violento e furioso de sua reação. também descobrimos tal afirmar e sobressumir daquilo que o contradiz. Zenão erigiu-se em defensor de seu mestre. para lá colher fama. Essa geometrização do cosmo estava aliada. liquidá-lo e assim libertar-se. e ao perguntar pelos inimigos do Estado. quanto na base mesma da matemática. é a razão que realiza o começo . não é.o pensamento pitagórico evoluiu e expandiu-se. aquelas linhas não apresentavam "razão comum" ou "comum medida". Ela teria salvo um Estado (não se sabe se sua pátria Eléia ou se Sicília) de seu tirano. torturado e. Pois até agora só vimos nos eleatas a proposição: "O nada não possui realidade. "Educai as crianças e não será preciso punir os homens". a associar intimamente os aspectos numéricos e geométrico. Obras e Pensamento Zenão floresceu cerca de 464/461 a. estreitamente vinculada à sua religião astral foi o ponto de partida das várias doutrinas que os gregos formulariam. a alma pura da ciência . Ele é o mestre da Escola Eleática. Explicação Crítica de Empédocles. Ao contrário de Heráclito. Assim. Defendeu o ser uno. Seu pai verdadeiro chamava-se Teleutágoras. para arrancar-lhe a confissão dos nomes dos outros conjuradores. Platão o lembra: de Atenas e de outros lugares vinham homens a ele para entregar-se à sua formação. descontínuo e divisível dos pitagóricos. Ou então. sacrificando da seguinte maneira sua vida: Teria participado de uma conjuração para derrubar o tirano. acabava-se por se concluir pelo absurdo de que um deles não era afinal nem par nem ímpar. Parmênides afirmou: "O universo é imutável.Vida. . porém. Atribuiu-se-lhe orgulhosa auto-suficiência. surgem grandezas inexprimíveis naquela concepção de número. Nasceu em Eléia (Itália). sons de acorde perfeito. pelo contrário. a relação entre o lado e a diagonal do quadrado (que é a da hipotenusa do triângulo retângulo isósceles com o cateto) tornava-se "irracional". Essa "harmonia das esferas".C. Tendo conspirado contra a tirania e o tirano (Nearco?). acabou preso. mas também em geral era célebre e muito respeitado como professor. permanentemente soante. às concepções musicais também desenvolvidas pela escola: separadas por intervalos equivalentes aos intervalos musicais. principalmente os pitagóricos. Parmênides. pelo contrário. mordendo-lhe. esta sido traída. para caírem sobre o tirano. Diz-se que ele se postou como se quisesse dizer ainda algo aos ouvidos do tirano. mas somente é ser. Este o amava muito e o adotou como filho. em seu movimento. interveio na política.e em grande parte por causa deles . é o nada para ela. O principal impasse enfrentado por essa aritmo-geometria baseada em inteiros (já que as unidades seriam indivisíveis) foi o levantado pelo números irracionais. a orelha e . Dessa maneira. Contra os Físicos.corpo. negando-se a viver por mais tempo na grande e poderosa Atenas. . diz: "Afirmai vossa mudança: nela enquanto mudança. ao mesmo tempo. o três gera a superfície. enquanto o quatro produz o volume. Tanto na relação entre certos valores musicais (expressos matematicamente). a hipotenusa seria igual a V¯². a quantidade e sua expressão espacial. unidade de extensão. pleno para aquela mudança. e aquilo que é surgir e desaparecer cai fora". desde que se atribuísse valor 1 ao cateto de um triângulo isósceles.é o iniciador da dialética. o fez torturar de todos os modos. (Pitágoras) O Escândalo dos "Irracionais" A primitiva concepção pitagórica de número apresentava limitações que logo exigiriam dos próprios pitagóricos tentativas de reformulação. o dois determina a linha. contínuo e indivisível de Parmênides contra o ser múltiplo. Também Zenão era um eleata. aquelas esferas produziram. "Pensem o que quiserem de ti. ou ela não é nada". é o mais jovem e viveu particularmente em convívio com Parmênides. Em Zenão. pois na mudança seria posto o não-ser daquilo que é. nela seu puro pensamento torna-se o movimento do conceito em si mesmo. Nisto consistia o movimento determinado. tranqüila em si mesma. começar com esta afirmação. Zenão falou e voltou-se contra o movimento como tal ou puro movimento. chamando então o tirano mesmo a peste do Estado. (Pitágoras) Zenão de Eléia . as poderosas admoestações ou também as torturas horríveis e a morte de Zenão ergueram os cidadãos e levantaram-lhes o ânimo. Quando o tirano. Com efeito. quando se pressupunha que os valores correspondentes à hipotenusa e aos catetos eram números primos entre si. pressupondo o universo harmonicamente constituído por astros que desenvolvem trajetórias.

só que nós deixamos valer como ser também o finito. deve ter seu fundamento no infinito. portanto. e é assim. portanto. Pois imóvel é a) o não-ente" (no não-ente não se realiza nenhum movimento. Do nada é imediatamente nada. mas. o poder de Deus. "que. "Tampouco pode surgir o desigual do desigual. da . desta maneira. deuses. o que é impossível. enquanto algo negativo. impossíveis. Ou também partimos das coisas finitas para as espécies. Para ir a esta abstração fazemos um outro caminho. até o dia de hoje. portanto. uma dialética que se pode denominar de raciocínio metafísico. 0 princípio da identidade Ihe serve de fundamento: "O nada é igual ao nada. Em tudo isto. as coisas finitas e a mudança." Do fato de nada poder provir. pois este não possui nem meio. nem uma parte tal coisa é o ilimitado. de outro lado. mas enquanto Ihe faltasse o poder sobre os outros não seria Deus. que dele se produza mais do que deve ser produzido. o mais antigo. está afastada a determinação do negativo. então só há um Deus. determinado como algo unilateral. Ou passamos do finito para o infinito. No que se refere às determinações deve-se observar que elas. como é apenas um. válido. o que os eleatas desprezaram. inversamente. do ser. não está nem em repouso nem se movimenta. ele não é limitado. ele cortou a língua com os próprios dentes e a cuspiu no rosto do tirano. houvesse mais deuses. como deve ela ser concebida. inteiramente igual à que vimos em Xenófanes e Parmênides. somente é o múltiplo. porém.e pelo fato de. idêntico a si mesmo e esférico nem ilimitado nem limitado. pois o igual não é nem pior nem melhor que o igual . "pois teria que surgir ou do igual ou do desigual. nosso caminho é trivial e mais óbvio. Em Xenófanes e Parmênides tínhamos ser e nada. algo incompreensível: pois do um. as partes de Deus dominariam uma sobre a outra" (uma estaria onde a outra não está. É a mesma separação. este afundarse no abismo da identidade do entendimento. e deixamos. assim como se pressupõe o ser. Outros narram que ele teria ferrado os dentes em seu nariz. O ser. não seria capaz de tudo o que quisesse. "o que é impossível. pelo contrário. é demonstrada a unidade de Deus: "Se Deus é o mais poderoso de tudo. a partir daí. nem fim. nem começo. que os momentos e as oposições são expressos mais como conceitos e pensamentos. Aristóteles conclui que. Nós dizemos que Deus é imutável. pois não é aqui assim. ele já está mais avançado no sobressumir das oposições e determinações. a mudança é em si contradição. porém. nem vai para coisa alguma. quando algo é. pois não se parece nem com o não-ente nem com o múltiplo. do ser. Vemos. é em toda parte igual. um e esférico. surja" (ele relaciona isto com a divindade). 0 ilimitado é o indeterminado. segurando-o assim. Em todas estas formas que nos são bem familiares está contida a mesma dificuldade da questão que se levanta no que diz respeito ao pensamento eleático: De onde vem a determinação. assim. pois não se pode atribuir. por conseguinte. "É impossível". Como Deus é em toda parte igual. a mudança apenas se atribui às coisas finitas (isto como que sendo uma proposição empírica). quer do igual quer do desigual. Ser e não-ser situam-se assim. mas sem qualquer determinação. eles seriam mais poderosos e mais fracos um em face do outro. originar-se-ia o não-ser do ente. uma parte teria determinações que faltariam às outras). se houvesse mais deuses".ou não se distingue dele. "O um. ou se. a reflexão em si. o um da Escola Eleática é apenas esta abstração. ouve. pois. dizendo que o finito. Deus é eterno." Com a aceitação da igualdade. não passa para o ser. gêneros." Movido só é o que é diferente de outro. Já que os iguais devem ter entre si as mesmas determinações. ou tudo é eterno. que deixa o finito de lado. pelo fato de terem posto mãos à obra de maneira especulativa . nada pode provir". Esta a maneira comum de nós raciocinarmos. pois um dever-se-ia mover para o outro. assim não é o ente. tendo suas respostas sido seguidas de enormes torturas. de nosso modo de refletir comum. "pois para ele nenhuma outra coisa advém. Se. é apenas afirmativamente. não fosse assim. ou nada existe fora de Deus. por exemplo. em toda parte. lado a lado. vê e possui também. ser. depois disso teria sido triturado num pilão. que. como no modo como o infinito se manifesta no finito? Os eleatas distinguem-se. que repousaria sobre a proposição ex nihilo nihil fit." Assim Zenão também mostra: "O um não se move. Já em seu elemento tético vemos progresso. negando-se predicados. Deus se comporta assim." Isto foi denominado panteísmo (spinozismo). pressupõe-se uma multiplicidade de tempo. pois. Outros ainda dizem que. reprimi-la-ia. estes diferentes não são expressos como diferentes. com a falta de movimento estaria posto o não-ser ou o vazio. em seu conteúdo. não seriam. diz ele. de um lado temos. é o não-ente. nas assim chamadas demonstrações da unidade de Deus. Como. igualdade como igualdade pressupõe o movimento do pensamento e a mediação. seria o nãoente. Pois. devem ser mantidas afastadas do ser positivo e apenas real. portanto. tanto no um mesmo. apenas com esta diferença fundamental. na medida em que dele houvesse dois ou ainda mais. Se. de argumentar é ainda. desaparece a diferença entre o que produz e aquilo que é produzido. sem que sua unidade seja concebida como a de diferentes. então Ihe é próprio que seja um. e o gênero mais alto é então Deus. porém. em seu pensamento. terem mostrado que. nem em repouso nem em movimento. enquanto limitado.cerrando os dentes até ter sido trucidado pelos outros. possui ele a forma esférica. se houvesse diversos. mas em toda parte igual. para lhe mostrar que dele nada arrancaria. b) Dar-se-ia delimitação mútua. ele nao é nem infinito (ilimitado) nem limitado. ele mesmo. o negativo de lado. por exemplo. nem vice-versa. b) Movido. Este modo. não utilizamos a dialética que usa a Escola Eleática. Deus é e se ele é de tal natureza. mas assim já é. ao igual. a imutabilidade nesta unidade abstrata e absoluta consigo mesma.o especulativo tem lugar no fato de afirmarem que a mudança não é . A isto vemos ligada uma outra espécie de raciocínio metafísico: são feitas pressuposições. a) ilimitado é o não-ente. portanto. do igual. nem é imóvel. ele não teria poder sobre eles. passo a passo. a filosofia de Zenão é. espaço. pois ele é eterno e um." Diz ainda: "Já que é eterno. raciocinando-se. os outros sentimentos. Ser é a igualdade expressa como imediata. Em Zenão a desigualdade é o outro membro em oposição a igualdade. o negativo. 1) Segundo seu elemento tético. o imóvel é negativo. a supressão do ser. "Sendo um. pois faz parte da natureza de Deus não ter acima de si nada mais poderoso. em tal tipo de raciocínio. Em seguida. Ambas as coisas são. o pior viesse do melhor. em outra parte de outro modo. enquanto o ser supremo. pois se do mais fraco se originasse o mais forte ou do menor o maior ou do pior o melhor.

suprimem com isto essa determinação. Zenão possui o aspecto importante de ser o descobridor da dialética: se não é ele propriamente. procurando dar a impressão de que está dizendo algo de novo. isto é. Como sempre é o caso quando um sistema filosófico refuta o outro. Isto é a determinação mais exata da dialética objetiva. Parmênides. a realidade do mundo finito. Platão fá-lo falar assim sobre isto: faz Sócrates dizer que Zenão afirma em seu escrito o mesmo que Parmênides. Diz que combateu aqueles que afirmam o ser do múltiplo. porque não concorda com o meu". assim. para demonstrar que disto resultariam muito mais coisas discordantes que da proposição de Parmênides. assim negou ele do um o que deveria dizer-se do nada. ao menos é quem está em seu começo. em Zenão. ela é posta através da negação. antes contra aqueles que procuram tornar ridícula (komodeiñ) a proposição de Parmênides. ser-em-si. pois ele nega predicados que se opõem. Assim a coisa é facilitada: "O outro sistema não possui verdade. O falso não deve ser apresentado corno falso porque o oposto é verdadeiro. não menos. também o ser em oposição ao não-ser é uma determinação. De nada ajuda demonstrar meu sistema ou minha proposição e então concluir: portanto. mas ambas as negações que se opõem. no que vimos. Mas junto a eles ainda não vingou a determinação. A gente se põe inteiramente dentro da coisa. esta dialética é muito bem descrita. segundo o pressuposto. levar a guerra para território inimigo. . através da distinção que faço de que um lado é o verdadeiro. Mas o mesmo deveria acontecer com o resto. mas ele se dissolve segundo sua natureza inteira. como a essência. uma grande abstração Particularmente digno de nota é o fato de que. o nada não é. Xenófanes. Zenão responde que escreveu isto. Sócrates diz que Parmênides afirma em seu poema que tudo é um: Zenão. onde encontram. também é determinação. e ao nada se atribuem os mesmos predicados que ao ser: o puro ser não é movimento. a essência do com-preender. não segundo circunstâncias exteriores. demonstrada para o puro conceito do conteúdo. portanto.o lado negativo da dialética. o oposto. Antes é negado o movimento e a essência absoluta aparece como em repouso. ele se demonstra a si mesmo. na negação absoluta. Esta dialética mais alta encontramo-la em Platão. é o nada do movimento. porque previu que o ser é o oposto do nada. de neles apontar razões e aspectos. Isto pressentiu Zenão. Eu não devo demonstrar sua não-ver dade através de um outro. A dialética como tal é a) dialética exterior. Nesta consideração. através dos quais se torna vacilante o que em geral vale como firme. então. em seu Parmênides. mas. Esta convicção racional vemos despertar em Zenão. em nossa representação. os eleatas foram mais conseqüentes. que ele é o nulo. que o múltiplo não é. A outra dialética. Podem ser então razões bem exteriores. porém. mostra que possui determinações opostas. b) não é um movimento apenas de nossa intuição. Aqui isto surge apenas referido a algumas determinações não com referência às determinações do um e do ser mesmo. ou é negada enquanto finita. quando mostram quantas coisas ridículas e que contradições contra si mesmos resultam de suas afirmações. algo exterior. ainda que deva ser por nós admirada. o afirmativo que nela se esconde ainda não aparece. nos sofistas. é a consideração imanente do objeto: ele é tomado para si. sem pressuposições. numa determinação. também ela finita. Portanto. ou o igual (como diz Melisso) é a essência. ligação através de mediação. eu declaro isto como imediatamente verdadeiro. fortalecido. 2) Já lembramos que também encontramos a verdadeira dialética objetiva igualmente em Zenão. idéia. mas em si mesmo. Conforme a representação corrente da ciência. Como movimento: Verifiquei algo e vejo que é o nulo. pelo contrário. o sistema que se opõe está errado. mas o outro sistema tem o mesmo direito de dizer assim. mas apenas o ser para o outro é. Zenão põem como fundamento a proposição: Nada é nada. porém. pois o poder é também o não-ser absoluto de um outro. razões. não ser negada apenas uma determinação. contudo. como o nada. Mas. Mas uma outra consciência não verifica aquilo. 0 um é o mais poderoso e nisto determinado propriamente como o destruir absoluto. em que proposições são resultado da demonstração. mas ela deve ser considerada também de seu lado positivo. ou seja. A dialética verdadeira não deixa nada sobrando em seu objeto. Isto. Enquanto nós deixamos valer. é. Do mesmo modo. a outra consciência tem razão em afirmar uma outra: coisa como imediatamente verdadeira. que raciocina.multiplicidade. A consciência mais alta é a consciência sobre a nulidade do ser enquanto algo determinado em face do nada. para esta proposição aquela sempre parecerá algo de estranho. e então é puramente infinita. é a demonstração o movimento da convicção. Aquela dialética é uma mania de contemplar objetos. por exemplo. dever-ser. sua nulidade não aparece nela mesma. com isto não permanece verdade alguma. A esta dialética verdadeira pode juntar-se o que os eleatas fizeram. mas a partir da coisa mesma. isto é. devendo então. este movimento distinto do compreender deste movimento. que se suprime (sobressume): esta dialética encontramos precipuamente junto aos antigos. através de minha afirmação. no movimento. No Parmênides de Platão (127-128). que contenha em si uma contradição. torna-se norma quando se concede: "No correto está o incorreto e no falso também o verdadeiro". que tudo é um: mas que nos procura enganar com uma expressão. ficaram parados na idéia de que através da contradição o objeto se torna nulo. A dialética subjetiva. esta somente se suprime através de um outro. mas em si mesmo. Eles põem-no fixamente. demonstrei isto. leis. 0 resultado desta dialética é zero.conseqüência que. o negativo. Este lado possui a dialética na consciência de Zenão. Sendo a essência absoluta posta como o um ou o ser. o primeiro sistema é posto como fundamento e a partir dele se entra em debate contra o outro. a multiplicidade está sobressumida. avançando até a afirmação de que só o um é e de que o negativo não é . eles afirmam um dos predicados que se opõem. o outro sem importância (nulo) (parte-se de uma determinada proposição). é determinada como o negativo e. a certeza da consciência individual e a certeza como refutação . isto é. baseando-se em razões exteriores. de tal modo que apresentaria falhas apenas de um lado. o vazio. e. 0 um é igualmente o não dos muitos: tanto no nada como no um. o descobridor da dialética em sua plenitude. assim. o movimento. considera o objeto em si mesmo e o toma segundo as determinações que possui. isto se dá. parte em Heráclito e. conclui-se. isto é. Nesta dialética não vemos afirmar-se o pensamento simples para si mesmo. não de maneira que se suprima a si mesma. já há a consciência mais alta de que uma determinação é negada de que esta negação mesma é novamente uma determinação.

portanto. espaço e tempo.e cada tempo e espaço sempre tem uma grandeza . Zenão nem teve a idéia de negar o movimento. Mas estes dois estão postos numa unidade. no espaço e no tempo. então é grande e pequeno: grande. este espaço possui assim uma metade. O que se move deve atingir uma determinada meta. mas é algo limitado.um passar além de uma determinação oposta para outra. a saber. Aristóteles afirma que Zenão teria negado o movimento pelo fato de possuir contradição interna. mas apenas divisíveis. também é posto já o fenômeno da contradição. no movimento. não há elefantes. o momento no tempo contínuo seja posto ou que seja afirmado o agora do tempo como uma continuidade. sobressumir-se. A coisa tem. pois ele é contradição. pois. no processo. o que é infinito não é mais grande. é o positivo que é posto. sua dialética mesma em si. Parece.uma resposta geral para a representação. estas devem ser percorridas e. Da mesma maneira a gente não deve satisfazer-se com a certeza sensível. O fato de a dialética ter tido atraída sua atenção primeiro para o movimento é a razão de a dialética mesma ser este movimento ou o movimento mesmo ser a dialética de todo ente. o absoluto distinguir-se e a supressão de toda igualdade e homogeneidade com outro. o puro ser para si. Mas esta continuidade também novamente nada é de absoluto. um posto segundo sua essência. ser afirmado um deles como o essencial. pois. e. o movimento possui certeza sensível. infinito é o negativo do múltiplo. Vemos aqui desenvolvido o infinito aparecer. porque o movido deveria atingir primeiro a metade do espaço como sua meta. sempre surge este mesmo estado de coisas. o Cínico. de maneira que não tem mais grandeza". "Aqui mostra ele que o que não tem tamanho. mas seu conceito contradiz-se a si mesmo. o que é movido nunca atinge sua meta. e o movimento é: tornar-se outro. se o professor havia discutido com argumentos. nada". de maneira muito simples. fora da representação que não pode atingi-lo. do mesmo modo. deve-se ultrapassar a multiplicidade. de todo ser para si. É um inacabado ultrapassar. Aristóteles diz isto de maneira tão breve por ter tratado antes amplamente o objeto e tê-lo exposto detidamente. o movimento foi tratado particularmente por Zenão. Mas o caráter exaustivo que vemos no Parmênides de Platão não Ihe corresponde. Que o movimento existe. também não é. Neste sentido. nem massa (ónkos). Zenão toca aqui na divisibilidade infinita do espaço. entretanto. 1) Primeira forma: Zenão diz que o movimento não tem verdade alguma. se não tem tamanho e grandeza. mas presente no conceito . seu questionar vai em busca de sua verdade. O movimento que seria o percurso destes momentos infinitos nunca termina. assim o que foi acrescentado não é nada. mas põe o oposto nela . nem espessura. Mas esta metade é novamente um todo. ano).do ponto contra a continuidade. O mesmo aconteceria ao ser retirado. portanto. nada poderia acrescentar ao tamanho do outro. Isto deve ser compreendido de maneira mais universal. uma duração (dia. pelo contrário. enquanto esta aparece.uma consciência dele. É a continuidade de um espaço. na medida em que combate o movimento sensível. o ponto é. para passar para o infinito. primeiro em sua contradição . quando é o múltiplo. Os argumentos repousam sobre a infinita divisão do espaço e do tempo.limite que divide ao meio. não poderiam ser divididos ao infinito . Até o infinito .com isto nos representamos um além. Pois o movimento e a essência. de continuidade para negatividade. mas é preciso compreender. Com isto quer ele dizer que não se Ihe deveria atribuir verdadeiro ser. nunca se pode parar com a divisão. não se conseguiu ainda passar além dela e a questão fica esquecida no indeterminado. levantou-se em silêncio e caminhou de cá para lá . portanto. que. de outro modo. Mas o limite que divide ao meio não é limite absoluto ou em si e para si. o não-ente. energeía). Mas não se deve entender isto assim como se o movimento não fosse . Diógenes o castigou pela simples razão de que. ele só poderia deixar valer uma refutação também com argumentos. O movimento. não há rinocerontes. deve. isto nem está em questão. o que é movido deve antes ter percorrido a metade.é novamente divisível em duas metades. É para esta contradição que Zenão chama a atenção. O mais fácil é mostrá-la no movimento. o outro não seria por isso diminuído. segundo a grandeza" (tò mégethos). Primeiro Zenão põe o progresso contínuo de maneira tal que não se atinge nada igual a si. continuidade. Pois se fosse acrescentado a um outro não aumentaria a este. de maneira objetiva e dialética. "Ele demonstra que. Pelo fato de espaço e tempo serem absolutamente contínuos. um determinado . a continuidade é absoluta homogeneidade. não é. mesmo onde colocamos um espaço o menor possível. enquanto são divisíveis (potentia. ter atingido antes a metade desta metade. Mas a estória é continuada também assim: a um aluno que se contentara com esta refutação. este caminho é um todo. também devem estar efetivamente divididos infinitamente. portanto. Para percorrer o todo. . o oposto é também posto para a representação. A resposta geral e a solução de Aristóteles é que espaço e tempo não são divididos infinitamente. É conhecido como Diógenes de Sínope. que ele é fenômeno. de todo negativo.ele as refutou pela ação. Vemos desaparecer para a consciência de Zenão o simples pensamento imóvel para tornar-se ele mesmo movimento pensante.nenhum espaço limitado. Destes dois momentos pode. e assim até o infinito. a metade ainda é continuidade e assim até o infinito. Os aspectos mais exatos desta dialética nos conservou Aristóteles. ou Zenão afirma o avanço neste limitar. Cada grandeza .A dialética da matéria de Zenão não foi até hoje ainda refutada. mas o movimento é não verdadeiro. "pequeno. é pressuposta a continuidade do espaço. como existem elefantes. que não pode ser atingido. dynámei. elas estão diante de nós. nem mais múltiplo. ele o dá a si. enquanto se move. (consideramos a forma dos momentos) em suas diferenças da pura igualdade consigo mesmo e da pura negatividade . mas com isto novamente não é posto o limite da continuidade. não actu. é novamente continuidade.como nós dizemos. a contradição. Agora a meta é o fim desta metade. o puro aparecer em si mesmo é o objeto e surge como um pensado. assim o múltiplo é infinito. enquanto limite indiferente. é eliminação de toda diferença. Zenão mostra então que a representação do movimento contém uma contradição e apresenta quatro modos de refutação do movimento. e nele o limite que o divide ao meio. é posta. Pelo contrário. A igualdade consigo mesmo. a realidade do tempo e do espaço. átomos. refutou tais provas da contradição do movimento. pois. Na nossa representação não parece contraditório que o ponto no espaço ou. de negatividade para continuidade. portanto.

Zenão. é falso. movendo-se. isto aqui e isto aqui e mais um outro. caminha dois pés para o oeste. Zenão apenas faz valer o limite. No aqui agora como tais. 3) "O terceiro argumento" tem a forma que Zenão descreve assim: "A flecha em vôo repousa". Para determinar qual deles se move é preciso mais de dois lugares. mas repouso: o que sempre está no aqui e agora. porque separa em sua distinção aqueles momentos de um objeto. se Ihe for permitido ultrapassar o limite. o absoluto ser-limitado. Aqui a distância de um corpo é a soma do afastar se de ambos. e aqui e aqui. assim estamos distantes um do outro quatro pés . partindo do mesmo ponto. um a partir do fim do estádio. e. isto. dos quais um está na frente e outro o segue numa determinada distância. e isto ele demonstra assim: o que segue necessita de uma determinada parte do tempo para "alcançar o lugar de onde partiu o que está em fuga". o outro a partir do meio. Sobre este terceiro argumento diz Aristóteles que ele se origina do fato de se aceitar que o tempo consiste de "agoras". porém. que trata disto. Assim que dizemos que sempre é o mesmo. se admite que tempo e espaço são contínuos. o mover-me é movimento com relação ao navio. repousa. surge a pergunta se um repousa ou se ambos se movem. o olho repousa ou se move. por isto surge a contradição. o aqui é sempre o mesmo aqui. mais rapidamente que aquele. No argumento agora em questão é retido o aspecto inverso. não são distintos entre si. nulo. no que se move e no que está em repouso. um em torno do outro. etc. é inteiramente o mesmo. a diferença é apenas aparente. contudo. deixou atrás de si novo espaço que o segundo novamente deverá percorrer numa parte desta parte do tempo. pois pelo movimento de ir para frente e para trás há aqui coisas opostas que se suprimem. um espaço maior ou menor. Se num navio caminho na direção oposta da direção em que se move o navio. pois. se não se concede isto. Esta quarta forma diz respeito à contradição no movimento oposto. sabemos que o segundo alcançará o primeiro. Ou avancei e retrocedi dois pés . o homem dos pés velozes. A. A continuidade. são limitados. Ou. Aristóteles. Se. mas apenas continuidade absoluta. 4) "O quarto argumento" e tomado de corpos iguais que se movem no estádio ao lado de um igual.isto é. será percorrido por B na metade de uma hora. o movimento mais rápido nada ajuda ao segundo corpo para percorrer o espaço intermediário que o separa do outro. a isto. conforme uma proposição de Newton: se dois corpos giram. a coisa percorre uma mesma extensão em tempo igual.portanto. b) é apenas posto como verdadeiro (como sendo) o que cada parte faz para si. não se pode tirar a conclusão a que Zenão chegou. um momento. os fios estendidos (tensio filorum). quando o homem comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal. diz: "O mais vagaroso nunca poderá ser alcançado nem mesmo pelo mais rápido". O que gera a dificuldade sempre é o pensamento. Nos dois primeiros argumentos a continuidade no avançar é o que predomina: não existe limite absoluto. É uma dificuldade superar o pensamento e é somente ele que causa esta dificuldade. vencido por A. No espaço. 0 movimento é. Desta maneira. um ponto é tão bem um aqui como o outro. ao menos três. igualmente. são limites um para o outro. diz brevemente sobre o mesmo: "Este argumento representa a mesma divisão infinita'' ou o infinito ser dividido através do movimento. Newton quer decidir isto por uma circunstância exterior. mas repouso com relação a outra coisa. em círculo. com velocidade igual. não há diferença. não conquista um outro espaço. a divisão. ao contrário. ambos são positivos. Nesta representação são admitidos dois pontos de tempo e dois de espaço que estão separados entre si . é o que acontece quando caminho dois pés para o leste e outro. se. katà tò íson). Mas uma coisa é correta: o movimento é absolutamente relativo.no mesmo ponto. no começo desta determinada parte do tempo. porém. então eles são. o ser limitado é posto como tal. um em direção do outro. o comum. o momento da separação de espaço e tempo em sua total determinação. Não é neste estado de coisas. Ou deve-se dizer da flecha que sempre está no mesmo espaço e no mesmo tempo. a interrupção da continuidade. Aqui o tornar-se outro foi sobressumido. transgredir todos os limites. no espaço absoluto. pois o rápido. o tempo de que necessita. nenhuma passagem para outro. nem espaço limitado. na realidade unidos. no mesmo tempo. porém." A resposta é correta e contém tudo. ele está aqui. e assim se vai até o infinito. disto se deveria concluir que a metade do tempo é igual ao dobro. a igualdade do aqui e afirmada aqui contra a opinião da diferença. Durante o tempo em que o segundo atingiu o ponto onde o primeiro se achava. 0 pensamento produziu a queda original. mas o limitar é. De dois corpos que se movem numa direção. de maneira tal que dois pontos do tempo ou dois pontos de espaço se relacionam entre si de maneira contínua. não saí do ponto em que estava. e "com isto ele já sempre conseguiu uma vantagem".2) "O segundo argumento" (que também é pressuposição da continuidade e posição da divisão) chama-se "argumento de Aquiles". . o mesmo. ainda que tenha andado quatro pés. B percorre numa hora duas milhas. porém. Isto acontece também na mecânica: pergunta-se qual se move de dois corpos. o limitado. a saber. não consegue ultrapassar seu espaço. e isto porque "o que se move sempre está no mesmo agora" e no aqui igual a si mesmo. alcançará o vagaroso. uma milha. na medida em que são dois também não dois . portanto. este já avançou para mais longe.aqui ambos devem ser somados. Cada lugar é lugar diferente . não chamamos movimento. enquanto realiza para si apenas uma parte. no "nãodistinguível" (en tõ nyn. O erro da conclusão consiste no fato de admitir que. Os antigos gostavam de vestir as dificuldades com representações sensíveis.. Se estão separados entre si por duas milhas. Mas o espaço (uma milha). e assim ao infinito. então B chegou numa hora onde A estava no começo da hora. mas no mundo do espirito que se manifesta a verdadeira e objetiva diferença. A oposição possui aqui uma outra forma: a) mas também novamente o universo. "É algo não verdadeiro. que deve ser atribuído inteiramente a cada parte. contudo.são idênticos. mas também ressarce este prejuízo. na distância de ambos. com velocidade igual. isto é. contudo. também o mais vagaroso sempre tem à sua disposição. por exemplo.

Todas as outras qualidades são secundárias. se dois corpos pudessem ocupar o mesmo lugar no espaço. O não ser é. pesado. produzidas pela ação das qualidades primárias sobre os órgãos de nossos sentidos. os corpos são idênticos a esses predicados. mas nisto também reside uma diferença. os seres só diferem pela quantidade. A difere de N pela forma. todo o resto é não-verdadeiro". sua solidão. ele as tinha em sua consciência e nelas mostra o aspecto contraditório. é o mundo. tão bons ou tão maus como os pardais. mas muitas lendas. o mundo é em si absolutamente verdadeiro. Se deve subsistir um pleno. não se pode fazer abstração delas. O ser. Pode-se. gosto. Se toda grandeza fosse divisível ao infinito. Demócrito esforçou-se por caracterizá-los a partir de seus átomos da mesma natureza. a proposição universal da escola eleática foi. Mas se há movimento deve haver um espaço vazio. Percebe-se. Na Bíblia diz Cristo: "Pois não sois melhores que os pardais?" Nós o somos enquanto pensamos . não haveria movimento. a cinza desaparece nos interstícios vazios da água. mas. odor. etc. é preciso que a divisão não possa ir ao infinito. . se há separação no espaço.enquanto seres sensíveis. Se um átomo fosse o que o outro não é. com suas formas infinitamente diversas . é definido como pleno. portanto. Uma coisa nasce quando se produz um certo agrupamento de átomos. No todo é o mesmo princípio: "O conteúdo da consciência é apenas um fenômeno. fazemos dele um fenômeno.Isto é então a dialética de Zenão. . Ele afirma: Voltando-se para o mundo. a impermeabilidade. os elementos . pois o menor poderia acolher em si o maior. As antinomias de Kant nada mais são do que aquilo que Zenão aqui já fizera. Com efeito: 1) o movimento espacial só pode ter lugar no vazio. thésis). Elas só se distinguem pela forma (rhysmós. que Empédocles foi utilizado a fundo. A dialética de Zenão ainda se conteve nos limites da metafísica: mais tarde. que o ser deve ser semelhante a si mesmo em todos os pontos. etc. Mas o movimento demonstra o ser. um ser. Demócrito afirma. pois o pleno não pode acolher em si nada que Ihe seja heterogêneo. nastón (de nasso. as honras que recebeu de seus concidadãos. nos outros elementos estão misturados átomos diversos. são: a extensão. desaparece quando esse grupo se desfaz. dotado de uma forma. o que acrescentamos. Este conteúdo também é nulo em Zenão. isto é. Demócrito de Abdera De sua vida sabemos poucas coisas seguras. São chamadas também idéai ou skhémata. dos quais são apenas as impressões: cor. tornou se universal. Mas o ponto de partida de Demócrito é acreditar na realidade do movimento porque o pensamento é um movimento. polido. é nosso pensar. Só nosso conhecimento é fenômeno. pois este havia discernido o dualismo do movimento em Anaxágoras e recorrido à ação mágica. portanto: "0 verdadeiro é apenas o um. isto é. que indica diferença de grandeza e de peso. voltando-se para ele. só nossa aplicação. como a filosofia kantiana chegou ao resultado: "Conhecemos apenas fenômenos". é preciso que sejam de natureza idêntica. o que é uma contradição. muda quando muda a situação ou a disposição desse grupo ou quando uma parte é substituida por outra. skhéma). Somente nossos sentidos nos mostram coisas qualitativamente diferentes. Nào é. o que eqüivale a dizer que o não-ser é tão real quanto o ser. Como todos os seres são da mesma natureza. a atividade de nosso espírito o elemento mau . nada verdadeiro". táxis). O ser não pertence mais a um ponto do que a outro. nosso acréscimo o arruína para nós. o mesmo peso. O que resta são os átomos. Demócrito adota uma posição adversa. Ele captou as determinações que contém nossa representação do espaço e tempo. 2) a rarefação e a condensação só se explicam pelo espaço vazio. O peso pertence a cada corpo (como medida de todas as quantidades). também o pleno. nada vale. porém. 4) em um vaso cheio de cinza pode-se ainda derramar tanta água quanta se ele estivesse vazio. tanto quanto o não-ser. som. Anaxágoras reconhecia quatro elementos. É preciso.este lado não possui verdade em si mesmo". porque é obra nossa. pois. Esse é seu ponto de ataque: o movimento existe porque eu penso e o pensamento tem realidade. Todas as qualidades são nómo. o stereón. remeter todas as qualidades a diferenças quantitativas. seu grande poder de trabalho. não haveria mais ser. determinações da reflexão. A principal diferença está na forma. AN de NA pela ordem. Se o espaço é absolutamente pleno. fazer abstração da natureza dos corpos na medida em que é apenas a ação dos nervos sobre os órgãos sensoriais. o peso deve pertencer igualmente a todos. a ruína material.é uma enorme humildade do espírito não ter confiança no conhecimento. ou aperto). Uma tradição tardia afirma que ele ria de tudo. Viagens extraordinárias. o que aparece em si que é não-verdadeiro. Isto é então a grande diferença. O fogo é feito de átomos pequenos e redondos. Mas. Z de N pela posição. pela ordem (diathigé. poderia haver uma infinidade deles. fora de nossa representação. O mundo torna-se não-verdadeiro pelo fato de Ihe jogarmos em cima uma massa de determinações. Toda ação de uma coisa sobre outra se produz pelo choque dos átomos. Demócrito e Leucipo partem do eleatismo. como Pitágoras. o número. rugoso. em Kant. segundo Zenão. O ser é a unidade indivisível. não pode haver movimento. Cresce quando Ihe são acrescentados novos átomos. Em Kant é o elemento espiritual que arruína o mundo. recorre-se à teoria das aporrhoaí. portanto. O pleno é aquilo que não contém nenhum Kenón. é a atividade de nosso pensamento que atribui ao exterior tantas determinações: o sensível. moleza. portanto. Se somente o não ser existisse. quando o pensamento se dirige para o mundo exterior (para o pensamento também o mundo dado no interior é algo exterior). 3) o crescimento só se explica porque o alimento penetra nos interstícios do corpo. isto que pensa Kant. dureza. Segundo Kant. Pois Zenão e os Eleatas afirmaram sua proposição com a seguinte significação: "O mundo sensível é em si mesmo apenas mundo fenomenal. haveria um não-ser. peia posição (tropé. a forma. se esses seres devem agir uns sobre os outros pelo choque. com os sofistas. pois. O elemento universal da dialética. portanto. Temos aqui a distinção que reaparece em Locke: as qualidades primárias pertencem às coisas em si mesmas. O sentido da dialética de Zenão possui maior objetividade que esta dialética moderna. não haveria mais nenhuma grandeza. à mesma massa.

não se pode indicar sua velocidade. pode ocorrer que a vida seja restaurada depois da desaparição de uma parte da alma. uma hipótese cientificamente utilizável. isso seria equivalente ao repouso absoluto. Estes se movem perpetuamente. 48. O sono . que nos traz constantemente de fora novos átomos de fogo e de alma para substituir os átomos desaparecidos e que prende no interior do corpo aqueles que quereriam escapar. Isso não acontece em um instante. produz-se um movimento giratório.: ''Admito que a matéria de todo o universo está em um estado de dispersão geral e faço dele um perfeito caos. eles se encontram. Sinto o prazer de ver um todo bem ordenado nascer sem o auxílio de fábulas arbitrárias. Pouco a pouco ela tomou uma posição fixa no centro do universo. O que é preciso dizer é que há uma causalidade sem finalidade. É por isso que a água. Esta é uma maneira muito pouco filosófica de se exprimir. Estes nasceram e perecerão. É disso que nos preserva a respiração. a terra e o ar podem nascer um do outro por dissociação. Epicuro. Esse invólucro vai-se tornando cada vez mais fino. mas um conjunto de leis rigorosas. pois. O sol e a lua. efeitos que parecem os desígnios de uma sabedoria suprema. disso nasce a representação das coisas. A teoria dos poros e das aporrhoaí preparava a do kenón. o ar. o que é de mesma natureza. a massa entra em rotação. a idéia de que todo movimento pressupõe uma contradição e de que o conflito é o pai de todas as coisas. ser feita da matéria mais móvel. como o espaço é infinito e a queda regular não há medida para essa velocidade. os elementos repelidos para fora depositam-se no exterior como uma película. Duas condições . e esse todo é tão semelhante ao universo que temos sob os olhos que não posso impedir-me de tomá-lo por ele mesmo. tem em comum os ápeira ou matérias originais. os mais leves são repelidos para o vazio exterior. É a concepção mais terra-a-terra. Nascimento dos seres animados. a velocidade sendo desigual. . esta hipótese. no espaço infinito. Esse turbilhão aproxima. censurou-se desde a Antigüidade esse ponto de partida. o de Demócrito é o mais lógico: pressupõe a mais estrita necessidade presente em toda parte. História Natural do Céu.morte aparente. Demócrito pensa. é este que domina todas as suas concepções fundamentais. O contato não é imediato. o fogo. todo esse universo cheio de ordem e de exata finalidade. Se a respiração cessa. A alma deve. Por causa de sua sutileza e de sua mobilidade arriscam-se a serem arrancados do corpo pelo ar circundante. Os átomos centrais formam a terra. Naturalmente. Ihe é comum com Anaxágoras e Empédocles. Disso resulta a morte. pelo choque. é esta que move os seres animados. Cada vez que nasce um mundo. Eis como Demócrito se representa a formação de um mundo dado: os átomos flutuam. há infinitos mundos. como a hipótese do Nous ou as causas finais de Aristóteles. Vejo as substâncias se formarem em virtude de leis conhecidas de atração e modificarem. certas partes sendo atraídas para o centro pela rotação. que somente o semelhante age sobre o semelhante. Demócrito. mas o ar que os leva é por sua vez levado em um rápido turbilhão. Leucipo. Demócrito deduz todo movimento do espaço vazio e do peso. O ponto de partida de Demócrito. pelo efeito de leis mecânicas bem conhecidas. movia-se de um lado para outro. com o auxílio de um mecanismo cego. com Empédocles. Cada um desses conglomerados que se separam da massa dos corpos primitivos é um mundo.. da espécie mais comum. alguns são repelidos. seu movimento. Leia-se Kant. O movimento original é. uma queda regular e eterna no infinito do espaço. segundo o qual o mundo se compunha de ser e de não-ser. concursu quodam fortuito. . Não há acaso. Como os átomos vieram a operar movimentos laterais. perpetuamente agitados. Assim a terra se solidifica. Os átomos pesados caem e fazem subir os átomos leves com sua pressão. lisos e arredondados (de fogo). pois. que o "acaso cego" reinaria entre os materialistas. a realidade do movimento. parte das qualidades reais da matéria. foram apanhados pelas massas que se moviam em torno do núcleo terrestre e desse modo viram-se atraídos para nosso sistema sideral. Ele retorna ao primeiro sistema de Parmênides. em certo sentido. Quando os átomos em equilíbrio são tão numerosos que não podem mais se mover. Só então o pensamento se desprende de toda a concepção antropomórfica do mito. não há nem interrupção brusca nem intervenção estranha no curso natural das coisas. a formar turbilhões na regularidade das combinações que se faziam e se desfaziam? Se tudo caía na mesma velocidade. ultrapassar as forças mais simples. entrelaçando-se e formando uma espécie de conglomerado. embora não racionais. A matéria que se move segundo as Ieis mais gerais produz. sob o efeito combinado de forças opostas. Rosenkr. as partículas do corpo terrestre são pouco a pouco arrancadas pelos ventos e pelos astros e se acumulam em água nos ocos. De todos os sistemas antigos. p. o materialismo. aqueles que se elevam formam o céu. primeiramente. anánke sem intenções. no começo. Do mesmo modo. Com Anaxágoras. não procura logo de início. quando ela era ainda pequena e leve. sem muita imprudência: 'Dai-me a matéria. neste eles secam pouco a pouco e se inflamam pela rapidez do movimento (astros). é que uma massa produzida pelo choque de átomos heterogêneos se separou. A essência da alma reside em sua força animadora.. de átomos sutis. os outros permanecem juntos.distinguem-se apenas pela grandeza de suas partes. sempre foi da maior utilidade. em um estágio antigo de sua formação. Toma emprestado de Heráclito a crença absoluta no movimento. Alguns formam massas espessas. Teoria das percepções dos sentidos... e eu vos farei um mundo' ". opera-se por meio das aporrhoaí. entre todos os átomos corporais se intercala um átomo de alma. as partes mais leves são empurradas para o alto. o fogo interior escapa. Essas partículas de fogo estão espalhadas por todo o corpo. vertical. Parece-me que se poderia dizer aqui. tem-se. Estas penetram no corpo pelos sentidos e espalham-se por todas as partes. dizendo que o mundo teria sido movido e teria nascido por "acaso". bem entendido. O pensamento é um movimento. é antes de tudo de Parmênides que ele procede. tem muita analogia com a minha. provavelmente também sua dedução a partir da realidade do pensamento. enfim. Não contestarei então que a teoria de Lucrécio ou de seus predecessores. É um grande pensamento reconduzir às manifestações inumeráveis de uma força única. como se fossem expulsos.

potanto material. e a terra acaba por ser o que é. mas sentimos sua força poética. extenso. a cada mil anos uma pedrinha é juntada às outras. é raro que um escritor considerável tenha tido de sofrer tantos ataques devidos o razões diversas. logrou executar o enérgico desígnio de Platão. Simplicidade do método. para cuja produção cooperamos sempre. Se este é o inventor da idéia principal. Todos esses ataques se desenrolam em um terreno que não podemos mais defender. . Viagens.. na verdade. ele não perde o senso da poesia. e sem dúvida um século anticósmico devia considerar os escritos de Demócrito. Sobre o problema da origem do mundo. assim como os de Epicuro. tudo aquilo que o materialismo considera como seu fundamento mais solido. graças às quais se apresenta como extenso no espaço e agente no tempo. e todos os seus resultados permanecem verdadeiros para nós. Os fragmentos de Moral (= Estudos Éticos) têm. que o veneno já estava por demais alastrado. Anotações sobre Demócrito Deveríamos a Demócrito muitos sacrifícios fúnebres. o materialismo é uma hipótese preciosa e de uma verdade relativa. Inquietações conjugais: adoção de filhos. Sentir-se liberto de todo Incognoscível. . . podemos entretanto atribuir também a Demócrito uma grande diversidade de concepções. Aversão ao bizarro. Sobre a questão da criação do mundo. um tom desenvolto de homem do mundo e uma bela forma. por um lado. que passou pelo mecanismo do cérebro e acomodou-se às formas do tempo. seu juízo sobre os poetas. foi reservado à nossa época negar também a grandeza filosófica do homem e atribuir-lhe um temperamento de sofista. resultado do estudo cientifico. "Contenta-te com o mundo tal como é". enfim. não passa de um dado extremamente mediato. deduzir o único dado imediato. O divino Platão chegou mesmo a considerar seus escritos tão perigosos que pretendia destruí-los em um auto-de-fé privado e só foi impedido disso por considerar que já era tarde demais. O materialismo é o elemento conservador na ciência como na vida. porque ele próprio começa a sentir seu prõton pseudos. Por outro lado. suspendia sua montaria apertando-a entre as pernas e se suspendia a si mesmo por meio de sua peruca. os obscurantistas da Antigüidade se vingaram dele. A ética de Demócrito é conservadora. agente. simplesmente para reparar os erros do passado para com ele. se o homem é infeliz. o que imputou ao pai de todas as tendências racionais uma reputação de grande mágico. do espaço e da causalidade. Uma seqüência infinita de anos. se a alma é levada por esse movimento à temperatura conveniente. Fé absoluta em seu sistema.. O absurdo consiste em partir do dado objetivo. de repente. igualmente. as representações são falsas e o pensamento é malsão. Trata-se do mundo que é o nosso. o último elo aparece como o ponto de partida de que já dependia o primeiro elo da corrente. aqui e ali. mas. um concreto extremamente relativo. Com efeito. Não acreditamos nos contos. que. Sentimento de um progresso poderoso. Não são indignos de Demócrito. A percepção é idêntica ao pensamento. sob sua marca. todo dado objetivo é determinado de várias maneiras pelo sujeito pensante e desaparece totalmente quando se faz abstração do sujeito. Inquietações míticas: racionalismo. enquanto. Arrojo poético (poesia do atomismo). percebe exatamente os objetos. Características do Pensamento de Demócrito Gosto pela ciência. É um problema psicológico saber se foi ele que os escreveu. Uma e outro são modificações mecânicas da matéria da alma. Assim. é uma representação cômoda nas ciências naturais. é por não conhecer a natureza. Juntase a isso a obscuridade em que nos encontramos a respeito de Leucipo. O cristianismo nascente. Tudo o que é objetivo. introduzindo. Inquietações morais: ascetismo. É na moral que está a chave da física de Demócrito. Inquietações políticas: quietismo. quando atravessava o rio a cavalo. Paz de espírito. lembram Aristóteles e sua metropathía. como a encarnação do paganismo. que considera como profetas da verdade (isso Ihe parece um fato natural). Somente o semelhante sente o semelhante. Todos os materialistas pensam que.são necessárias: uma certa força da impressão e a afinidade do órgão que a recebe. Teólogos e metafísicos acumularam sobre seu nome suas acusações inveteradas contra o materialismo. Mais tarde. Assim o Sistema da Natureza começa nestes termos: "O homem é infeliz porque não conhece a natureza". de uma completa clareza. O Mal excluído de seu sistema. A tradição não prova nada. se não no absoluto. É o que prova sua própria descrição. Aitíai. Enfim. agora. Não recendem a estoicismo nem a platonismo. o contrabando de seus escritos de magia e de alquimia. Uma plena virilidade do pensamento e da investigação aparece cm Demócrito. é o cânon moral que o materialismo produziu. É aqui que começam as verdadeiras dificuldades do materialismo. É de um tal dado que o materialismo quer. Clareza. percebemos as coisas por meio das partes de nosso ser que Ihes são análogas. Se o movimento a aquece ou a esfria excessivamente. É uma prodigiosa petição de princípios. comparou-se o materialismo ao Barão de Crac (sic). que puxava para cima. Demócrito é perfeitamente claro. ele foi. a representação. Entretanto. Vauvenargues diz com razão que os grandes pensamentos vêm do coração. mesmo depois que se descobriu o prõton pseudos. Pitágoras. o pensamento é sadio.

Sente-se impelido a correr o mundo. ele tentou responder ao seu distinto concidadão Protágoras. conservou. bem como. cedo demais. conhece bem Demócrito. como Sócrates. ele era jovem. sob o reinado de Tibério. Isto esclarece o seu conhecimento geométrico. que tinham a obrigação de ter estudado o homem a quem deviam tanto. e a partir dai concluiu-se que nasceu em 460 a. são facilmente explicadas pelas influências pitagóricas que afetaram a ambos. através dos scus fragmentos. Ao contrário de Sócrates. um racionalista confiante. É. e. detestavam qualquer tipo de estudo. defrontou-se com as dificuldades referentes ao conhecimento. Racionalista encarnado. reduzido. Mesmo a partir de fundamentos meramente cronológicos. com a idade de noventa ou cem anos. ao passar em revista os sistemas anteriores. acomodava à sua maneira os deuses. Quanto à data do seu nascimento. a de Glauco de Régio. porém. mas há uma certa razão para se acreditar que o fragmento onde isto é mencionado (fragmento 298 b) é apócrifo. que chegou a conhecê-las através de Leucipo. seu contemporâneo. e nós ainda podemos constatar. Demócrito. organizada em tetralogias. aquilo que lhe parecia inteligível e simples. considerando que pode dar origem a dois homens de tanta envergadura. o espetáculo dos sacrifícios.. Sabemos extremamente pouco sobre a vida de Demócrito. e obscurece o fato de que. Os sistemas anteriores não Ihe davam isso. Se disse isto. bem como as de Demócrito) continuaram a existir. Disse também algures que. a Anaxágoras.C. outrossim. Ele se desempenha com excessiva rapidez dos encargos de construir o mundo e a moral. a queda e o choque. sem dúvida. pois era também jônio do Norte. até o dia em que seus parentes tomam as dores do morto e em que se elevam monumentos em honra daquele que. outros aspectos do seu sistema. deve igualmente ser incluído entre os melancólicos. visto estar baseado na hipótese de que tinha quarenta anos quando se encontrou com Anaxágoras. pois. desprezado em vida. que as obras completas de Demócrito (que incluem as obras de Leucipo e outros. uma cidade que nem mereceria a reputação proverbial de embotamento. esse Humboldt do mundo antigo. exatamente como sua edição dos diálogos de Platão. Os problemas mais profundos Ihe permanecem ocultos. levantadas pelo seu concidadão Protágoras e outros. de qualquer maneira ainda vivia quando Platão fundara a Academia. Diz-se ter visitado o Egito. sabemos menos a seu respeito do que de Sócrates. e é isso que Ihe dá sua segurança e sua confiança em si. Queria sentir-se no mundo como em um quarto claro. Como Protágoras. Ele se atrela a este.– É a meta de sua filosofia. Recusam-lhe uma sepultura honrada. Se Demócrito morreu. Fez menção a Anaxágoras. foi possível para Trasilo. Um membro posterior da escola. afirmou que elas foram escritas 730 anos após a queda de Tróia. e temos uma prova contemporânea. ele era um autor volumoso. temos apenas conjeturas para nos orientar. Para nos. Havia nessa época e posteriormente diversas eras em uso. ainda que Demócrito naturalmente estivesse ciente de ser ela pitagórica. Mesmo isso não foi suficiente para preservá-las. como um mendigo. Não é certo que Platão haja conhecido alguma coisa sobre Demócrito. e provavelmente nem se preocuparam em multiplicar os exemplares de um escritor cujas obras teriam sido um testemunho permanente para a carência de originalidade que caracterizou o próprio sistema deles. quase morrera de fome. que também os pitagóricos foram seus mestres. e as suas obras na realidade nunca foram bem conhecidas em Atenas. é como se não tivesse escrito quase nada. entretanto. quando. é falso classificar Demócrito entre os predecessores de Sócrates. e parece ter dito que a sua teoria do sol e da lua não era original. deu grande atenção ao problema do comportamento. como se diz. Retorna pobre e sem recursos. Por isso. Em uma das principais obras. Demais. Apolodoro de Quizico. de seus raros predecessores. sem dúvida deu a entender que não conseguira causar uma impressão tal como o fizera o seu mais brilhante concidadão .. Sua cidade natal o toma por um pródigo. segundo a suposição dele. que Demócrito falou nas obras das doutrinas de Parmênides e Zenão. A meta é o otium litteratum: "ter a paz" Demócrito. a viver das esmolas de seu irmão. por outro lado. porém. como aquelas de Anaxágoras e outrem. o que parece muito provável. Isto pode referir se à explicação dos eclipses. e a expressão "jovem" sugere menos que esta idade. Demócrito foi discípulo de Leucipo. É que sua vontade é a mola de sua investigação. uma abundância infinita de pontos de vista diversos. É certo. não obstante. e condenou sem indulgência a intrusão de um mundo mítico. e sem dúvida alguma na Jonia. Como Sócrates. que geralmente fora atribuída em Atenas. contudo. não sabemos. na biblioteca da Academia. pai do racionalismo.. que era um dos maiores escritores da Antigüidade. quando Anaxágoras era velho. porquanto a escola as conservou em Abdera e Teos ao longo dos tempos helenísticos. onde teriam tido a possibilidade de serem preservadas. pois que as poucas passagens no Timeu e alhures. Isto deve-se ao fato de ele ter escrito em Abdera. Aristóteles. ao qual também os sofistas deram impulsos. de fato.aquilo que Ihe era homogêneo. Ainda não havia notado. Os epicuristas. da mesma forma que ele. o que quer é terminá-la e atingir o conhecimento último. no qual parece que o reproduz. Sabemos. pois deixavam subsistir um elemento irracional. Eis por que ele procurou remeter tudo àquilo que é mais fácil de compreender. era natural de Abdera na Trácia. etc. isto ocorrera. diz que tomou conhecimento por intermédio de Filolau. crê na capacidade liberadora de seu sistema e elimina dele tudo aquilo que é mau e imperfeito. Há um outro (fragmento 116) no qual ele diz: "Eu fui a Atenas e ninguém tomou conhecimento de mim". Parece. Demócrito e suas Teorias Demócrito fez uma tentativa bem independente de reconstrução. cumpre-nos encontrar um espaço para Leucipo entre eles [Demócrito] e Zenão. fazer uma edição das obras de Demócrito.

bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras. cuja verdadeira natureza não pode ser apreendida pelos sentidos próprios. mas sim o cabeça de uma escola regular. Se não houvesse ar. porém. ressalva a possibilidade de ciência. As diferenças de cor devem-se à lisura ou aspereza das imagens ao tato. contudo. portanto. há os átomos e o vazio. porém. por convenção há o amargo. por convenção há a cor". ao ouvido junto com aquelas porções do ar que se Ihe assemelham. Ademais. "Há". A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. ensinando e escrevendo em Abdera. As diferenças de paladar são devidas às diferenças nas figuras (eide. uma semelhança exata do corpo do qual provém. afirmando que existe uma outra fonte de conhecimento que não a dos sentidos próprios. Disto decorre que os objetos da visão não são estritamente as coisas que nós mesmos presumimos ver. e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides. Demócrito. diz ele (fragmento 11). por exemplo. se a distância for grande. e é realmente verdade se entendermos por tato o sentido que percebe qualidades. o paladar e o tato. A imagem na pupila do olho era considerada como a coisa essencial em visão. Menos ainda está no seu sistema cosmológico. e é provável que ele seja o autor da doutrina minuciosa dos átomos com respeito a este assunto. mas somente alguma coisa que muda de acordo com a disposição do corpo e das coisas que nele penetram ou Ihe opõem resistência". posto que elas não têm uma contrapartida real fora do objeto sensível. e era isto que exigia uma solução. Esta é a razão por que a mesma coisa às vezes dá a sensação de doce e às vezes de amargo. felizmente. Uma vez que a alma se compõe de átomos como qualquer outra coisa. pois. Não era um sofista itinerante do tipo moderno. o molhado e o seco e outros que tais. Seguindo o exemplo de Protágoras. ele deve ter despendido a maior parte do seu tempo no estudo. "Por convenção (nómo)": disse ele (fragmento 125). e o fato. Este. e por que. deve ser cautelosamente distinguido do sentido próprio do tato. embora não com os mesmos detalhes. está fora da discussão. mas as "imagens" (deíkela. O legítimo. Porém. a audição. é afetado de acordo com a forma e o tamanho dos átomos chocando nele. por conseguinte. mas somente o vazio. A audição explica-se de uma maneira similar. Nisto. Teoria do Conhecimento Demócrito procedeu como Leucipo ao fazer uma avaliação puramente mecânica da sensação. está precisamente na mesma linha que a de Sócrates. naturalmente. é tanto amargo quanto doce. tamanho e peso. o problema do comportamento tornara-se premente. Sua doutrina. foi-nos preservada através de suas próprias palavras. o tato. como eles. De modo idêntico. que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. Deveras. isto não seria assim. exatamente como fizeram os pitagóricos e Sócrates. Esta é a resposta de Demócrito a Protágoras. pois "a verdade jaz num abismo" (fragmento 117). A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio. A possibilidade de ciência havia sido negada. apesar de serem causadas por algo fora de nós. considera falsas todas as sensações dos sentidos próprios. Parmênides afirmara claramente que o paladar. Na realidade. por convenção há o quente e por convenção há o frio. portanto. Ele diz que o mel. as cores. "Pelos sentidos". e o olfato explica-se semelhantemente. considerado como o sentido pelo qual sentimos o calor e o frio. Este é o motivo por que vemos as coisas a distância de um modo embaraçado e indistinto.Protágoras. todavia. pelo contrário. então é possível que este fragmento também seja apócrifo. é "não mais tal do que tal" (oudèn mãllon toion è toion). . "duas formas de conhecimento (gnóme): o legítimo (gnesíe) e o ilegítimo (skotíe). e os órgãos dos sentidos devem ser simplesmente ''passagens" (póroi = poros) através das quais estes átomos se introduzem. "nós na verdade não conhecemos nada de certo. as nossas sensações não representam nada de externo. está separado daquele". temos que considerar a doutrina do conhecimento "legítimo" e "ilegítimo". Chegou. É aqui que Demócrito entra nitidamente em conflito com Protágoras. Sexto Empírico e Plutarco afirmaram claramente que Demócrito argüiu contra Protágoras. tais como forma. A originalidade de Demócrito. Por outro lado. O som é uma torrente de átomos que jorram do corpo sonante e produzem movimento no ar entre ele [corpo] e o ouvido. Demócrito. Demétrio de Falerão afirmou que Demócrito jamais visitou Atenas. doce para mim e amargo para você. Para compreender esta questão. pois está sujeita às distorções causadas pela interferência do ar. "poderíamos ver uma formiga rastejando no firmamento". entre nós e os objetos da visão. "há o doce. está em conformidade com a tradição eleática onde repousa a teoria atômica. o som e outros semelhantes eram apenas "nomes" (onómata). Vê-se que esta doutrina tem muito em comum com a distinção moderna entre as qualidades primárias e secundárias da matéria. Seja como for. Demócrito foi obrigado a ser explícito com referência à questão. Não é. apesar de não haver razão de se acreditar que ele tenha elaborado uma teoria sobre o assunto. que asseverou serem todas as sensações igualmente verdadeiras para o objeto sensível. eídola) que os corpos estão constantemente emitindo. rejeita a sensação como fonte de conhecimento. Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens. não podemos vê-las de modo algum. na realidade (etee). que deriva mormente de Anaxágoras. que acima foi descrito. o olfato. afirmou Demócrito (fragmento 9). e é bastante idêntico a Leucipo que disse algo de parecido. Aristóteles afirma que Demócrito reduziu todos os sentidos ao tato. Ao ilegítimo pertencem todos estes: a visão. skhémata) dos átomos que entram em contato com os órgãos desse sentido. Não podemos conhecer a realidade deste modo. a sensação deve consistir no impacto dos átomos externos sobre os átomos da alma.

Deve ter conhecido ainda o sistema mais cientifico de Filolau. ter certeza sobre quais dos preceitos morais a ele atribuídos são genuínos. Para compreender isto. mas nele penetram em qualquer direção. Ele herdara a teoria dos átomos e do vazio de Leucipo. Ele também aderiu a Anaxágoras defendendo que a Terra era sustentada no ar "como a tampa de uma tina". as nossas informações são extremamente escassas para possibilitar mesmo uma reconstrução aproximada do seu sistema. e o cone terá a aparência de um cilindro. que é composto de círculos iguais e não desiguais. chegando assim a conhecê-los como realmente são. da mesma natureza do "ilegítimo". Teoria do Comportamento As concepções de Demócrito sobre o comportamento seriam até mais interessantes do que a sua teoria do conhecimento. [O tratado] partia (fragmento 4) do princípio de que o prazer e a dor (térpsis e aterpsíe) são o que determina a felicidade. julgar e discernir o valor dos diferentes prazeres. Teu tiro é uma capitulação. a doutrina da felicidade ensinada por Demócrito é intimamente afim com a de Sócrates. o que é o maior absurdo". o sossego do corpo. cuja concepção Sócrates rejeita enfaticamente. apesar de tudo. e Sócrates é descrito no Fédon tomando-a por certa. quem escolhe os bens do 'tabernáculo' (isto é. escolhe os mais divinos. De um lado. com efeito. O que devemos nos esforçar por conseguir é o "bem-estar" (euestó) ou a "alegria" (euthymíe). A perda da edição completa das suas obras feita por Trasilo é talvez a mais deplorável . e seus objetos são como os "sensíveis comuns" de Aristóteles. pois ele terá muitas incisões em forma de degraus e muitas asperezas. Os homens puseram a culpa na sorte. tem sido usada no sentido equivalente de "boa sorte". parece que Demócrito prosseguiu afirmando que o volume do cone era a terça parte do volume do cilindro sobre a mesma base e do mesmo peso. pois. Defendeu. "A felicidade não reside em rebanhos. Este é. afinal de contas. O "conhecimento legítimo" é. Demócrito ocupou-se com o problema da continuidade. devemos lembrar que a palavra daímon. que é a alegria. pitagórico. que o seu real interesse está em outro sentido. É muito difícil. e não há nada que os impeça de ter contato imediato com os átomos externos. "é por causa de nós que conseguiste as provas com as quais atiras contra nós. embora dê mais ênfase ao prazer e à dor. quanto ao resto. farão irregular o cone. ele o confirma desta forma: "Se um cone fosse cortado por um plano em linha paralela à base. como o fizera do ilegítimo. a alma é a moradia do daímon" (fragmento 171). Os átomos da alma não se restringem a algumas partes específicas do corpo. poderemos alcançar o sossego. Para o nosso presente objetivo. e facilmente se transformam ao contrário. os prazeres dos sentidos são de duração demasiado curta para preencher uma vida. Não há dúvida de que o tratado Sobre a Boa Disposição ou Bem-Estar (Perí Euthymíes) era seu. Em uma passagem digna de nota (fragmento 155). Infelizmente. mas o agradável é diferente para gente diferente" (fragmento 69). Nós somente podemos ter certeza de superar a dor pelo prazer se não procurarmos os nossos prazeres nas coisas "mortais" (fragmento 189). e este é um estado da alma. então as partes cortadas serão iguais. Como seria de esperar de um seguidor dos pitagóricos e de Zenão. que os átomos fora de nós poderiam afetar diretamente os átomos da nossa alma sem a intervenção dos órgãos dos sentidos. Se aplicarmos este critério aos prazeres. se fosse preciso uma demonstração. contentou-se em adotar a crua cosmologia dos jônios. que é a saúde. É evidente. 0 grande principio que nos deve guiar é o da "simetria" ou "harmonia". mas uma espécie de sentido interno. mas esta é apenas uma "imagem" que inventaram para justificar a sua própria ignorância (fragmento 119). a Terra era ainda um disco. o corpo). e Demócrito recusou-se. e a palavra grega que traduzimos por "felicidade" (eudaimonía) baseia-se neste uso. Para Demócrito. pois.Ao mesmo tempo. Além disso. como foi dito. imagina ele os sentidos dizerem (fragmento 125). como Sócrates." O conhecimento "legítimo" não é. Se forem iguais. Isto quer dizer fundamentalmente que a felicidade não deve ser procurada nos bens exteriores. que significava propriamente um espírito protetor do homem. nem em ouro. o que se deveria pensar das superfícies das duas partes cortadas? Seriam iguais ou desiguais? Se forem desiguais. "O melhor para o homem é levar a vida com o máximo de alegria e o mínimo de aborrecimentos" (fragmento 189). cujo teorema foi demonstrado primeiro por Eudoxo. e. que "a ignorância do melhor" (fragmento 83) é a causa do erro. que foi um verdadeiro gênio neste campo. Os prazeres dos sentidos são prazeres verdadeiros tão breves como as sensações são verdadeiro conhecimento. Por outro lado. porém. como Sócrates. o aspecto individual de týkhe. se pudéssemos restabelecê-las integralmente. não se pode ignorar que Demócrito dera uma explicação puramente mecânica deste conhecimento legítimo. Isto não é. Foi utilizado livremente por Sêneca e Plutarco. não é necessário discutir detalhadamente a cosmologia de Demócrito. Demócrito afirmou. "Pobre Mente". É. Segundo um comentário de Arquimedes. A idéia da forma esférica da Terra era amplamente difundida na época de Demócrito. pensamento. a fazer uma separação absoluta entre os sentidos e o conhecimento. hedonismo vulgar. que ele estava empenhado em problemas tais como aqueles que finalmente deram origem ao método infinitesimal do próprio Arquimedes. e alguns fragmentos importantes do tratado sobreviveram. escolhe os humanos" (fragmento 37). "O bom e o verdadeiro são a mesma coisa para todos os homens. Demócrito parece ter contribuído valiosamente à ciência natural. como Leucipo houvera feito. Ela é totalmente retrógrada e demonstra. devemos ser capazes de ponderar. sem dúvida. cujo sossego se deve procurar principalmente nos bens da alma. e o sossego da alma. "Quem escolhe os bens da alma. porém. Para atingi-lo. Vemos mais uma vez como foi importante a obra de Zenão como um fermento intelectual.

da metafísica passa-se à gnosiologia e à moral. então é possível que este . pela importância e o lugar central destinado ao homem e ao espírito no sistema do mundo. como se diz. Os epicuristas. exatamente como sua edição dos diálogos de Platão.teve duração bastante curta. detestavam qualquer tipo de estudo. e temos uma prova contemporânea. O interesse dos filósofos gira. não sabemos. isto ocorrera. Sabemos.apesar de o aristotelismo ter superado logicamente o platonismo.C. quando. foi possível para Trasilo. que tinham a obrigação de ter estudado o homem a quem deviam tanto. Mesmo a partir de fundamentos meramente cronológicos. Este. Platão e Aristóteles. Tem-se a impressão de que ele se situa à parte da corrente principal da filosofia grega. que também os pitagóricos foram seus mestres. o século IV a.C. e é a esta que devemos agora retornar. não obstante. fazer uma edição das obras de Demócrito. e sem dúvida alguma na Jonia. Em uma das principais obras. segundo a suposição dele. Apolodoro de Quizico. através de Sócrates e Platão . Isto pode referir se à explicação dos eclipses. Um membro posterior da escola. Se Demócrito morreu. e provavelmente nem se preocuparam em multiplicar os exemplares de um escritor cujas obras teriam sido um testemunho permanente para a carência de originalidade que caracterizou o próprio sistema deles. sem dúvida deu a entender que não conseguira causar uma impressão tal como o fizera o seu mais brilhante concidadão Protágoras. uma cidade que nem mereceria a reputação proverbial de embotamento. afirmou que elas foram escritas 730 anos após a queda de Tróia. cumpre-nos encontrar um espaço para Leucipo entre eles [Demócrito] e Zenão. substancialmente. considerando que pode dar origem a dois homens de tanta envergadura. Parece. outrossim. e a expressão "jovem" sugere menos que esta idade. de qualquer maneira ainda vivia quando Platão fundara a Academia. e parece ter dito que a sua teoria do sol e da lua não era original. visto estar baseado na hipótese de que tinha quarenta anos quando se encontrou com Anaxágoras. Fez menção a Anaxágoras. Como Protágoras. Havia nessa época e posteriormente diversas eras em uso. que as obras completas de Demócrito (que incluem as obras de Leucipo e outros. sob o reinado de Tibério. sendo principais a cínica e a cirenaica. e a partir dai concluiu-se que nasceu em 460 a. porém. O que temos dele foi preservado principalmente porque ele foi um grande criador de frases notáveis. diz que tomou conhecimento por intermédio de Filolau. ele era jovem. Há um outro (fragmento 116) no qual ele diz: "Eu fui a Atenas e ninguém tomou conhecimento de mim". Sabemos extremamente pouco sobre a vida de Demócrito. e é muito duvidoso se de fato conhecemos as suas idéias mais profundas. que chegou a conhecê-las através de Leucipo. Demais. Quanto à data do seu nascimento. porém. com a idade de noventa ou cem anos. Os Sofistas Período Sistemático O segundo período da história do pensamento grego é o chamado período sistemático. mas em torno do homem e do espírito. que sobreviverão também no período seguinte e além ainda. É certo. Disse também algures que. ele tentou responder ao seu distinto concidadão Protágoras. nesse período realiza-se a sua grande e lógica sistematização. ainda que Demócrito naturalmente estivesse ciente de ser ela pitagórica. outros aspectos do seu sistema. como Sócrates. Do nosso ponto de vista.. organizada em tetralogias. do estoicismo e do epicurismo do período seguinte. Por outro lado. entretanto. Diz-se ter visitado o Egito. e através também da precedente crise cética da sofística. Isto esclarece o seu conhecimento geométrico. o único fato importante com referência a Demócrito é que ele também sentiu a necessidade de uma resposta a Protágoras. e em seus desenvolvimentos neoplatônicos em especial . quando Anaxágoras era velho. não em torno da natureza. cedo demais. e obscurece o fato de que. o que parece muito provável. culminando em Aristóteles. até então limitado à natureza exterior. deles procedendo a Academia e o Liceu . de preferência. especialmente a Academia por motivos éticos e religiosos. Com efeito. daí derivando as chamadas escolhas socráticas menores. que foram dignas de constar nas antologias. que fixam o conceito de ciência e de inteligível. bem como as de Demócrito) continuaram a existir. Ao mesmo tempo. mas há uma certa razão para se acreditar que o fragmento onde isto é mencionado (fragmento 298 b) é apócrifo. Abraça. Por isso. é falso classificar Demócrito entre os predecessores de Sócrates. temos apenas conjeturas para nos orientar. era natural de Abdera na Trácia.depois do qual começa a decadência . não podemos deixar de reconhecer que é sobretudo pelo seu mérito literário que lamentamos a perda das obras. que Demócrito falou nas obras das doutrinas de Parmênides e Zenão. Daí ser dado a esse segundo período do pensamento grego também o nome de antropológico. porquanto a escola as conservou em Abdera e Teos ao longo dos tempos helenísticos. que geralmente fora atribuída em Atenas.das muitas perdas desse tipo. e compreende um número relativamente pequeno de grandes pensadores: os sofistas e Sócrates. Demócrito foi discípulo de Leucipo. a de Glauco de Régio. a Anaxágoras. É possível que tenham sido abandonadas à ruína porque Demócrito chegara a compartilhar do descrédito que o prendera aos epicureus. Mesmo isso não foi suficiente para preservá-las. Se disse isto. respectivamente. Esse período esplêndido do pensamento grego . não é o tipo de material que se requer para a interpretação de um sistema filosófico. Demétrio de Falerão afirmou que Demócrito jamais visitou Atenas. precursoras. bem como.

Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens. mas sim o cabeça de uma escola regular. bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras. E visto que o domínio pessoal. a cultura. não a natureza humana racional. A originalidade de Demócrito. depende da capacidade de conquistar o povo pela persuasão. mas a natureza humana sensível. E tentam criticar a vaidade desta lei. mortificador. no prazer e no domínio violento dos homens. Seria. não é o direito fundado sobre a natureza racional do homem. em nome do direito natural. na justiça para com os outros. Diversamente dos filósofos gregos em geral. capital democrática de um grande império marítimo e cultural. têm freqüentemente conseguido grande êxito no mundo e. mas como meio para fins práticos e empíricos e. ao impulso. Os sofistas maiores foram quatro. não lhe interessa. Protágoras foi o maior de todos. muitas vezes arbitrário. instintiva. Menos ainda está no seu sistema cosmológico. contra o direito positivo.bem como a moral natural . superficial. a sofística sustenta o relativismo prático.que a submissão à lei torne os homens felizes. Como é verdadeiro o que tal ao sentido. que deriva mormente de Anaxágoras. como na gnosiologia e na moral. Esse domínio violento é necessário para possuir e gozar os bens terrenos. os mestres de eloqüência. mas prudência e habilidade. tirânico.dizem . que a causa seja justa ou não. considerando a lei como fruto arbitrário. aliás. exige que o forte. compreende-se a importância que. materiais. ensinando aos homens ávidos de poder político a maneira de consegui-lo. sequiosos de conquistar fama e riqueza no mundo. quer política. houve um triunfo político da democracia. devia ter a oratória e. A possibilidade de ciência havia sido negada. visto estes bens serem limitados e ambicionados por outros homens. como a lei que potencia profundamente a natureza humana. mas sobejamente retribuído. Mas este direito natural .é concebida pelos sofistas não como lei racional do agir humano. que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. Seja como for. de repente. mediante graves crimes. Então. Direito e Religião Em coerência com o ceticismo teórico. e entendendo por natureza. o ensinamento dos sofistas não era ideal.chegam até o extremo. pois a verdadeira justiça conforme à natureza material. o problema do comportamento tornara-se premente. segundo o ideal dos sofistas. A Sofística Após as grandes vitórias gregas. na verdade tão mutável conforme os tempos e os lugares. quer moral. até o ateísmo. mas . a Atenas de Péricles. Górgias declara plena indiferença para com todo moralismo: ensina ele a seus discípulos unicamente a arte de vencer os adversários. o poderoso. O conteúdo desse ensino abraçava todo o saber. como acontece todas as vezes que o povo sente. tornaram-se mestres de eloqüência. Não era um sofista itinerante do tipo moderno. ele deve ter despendido a maior parte do seu tempo no estudo. no domínio de si mesmo. A respeito da religião e da divindade. contra o império persa. É esta. os sofistas estabelecem uma oposição especial entre natureza e lei. bem como a sua utilidade comumente celebrada: não é verdade . pois grandes malvados. A época de ouro da sofística foi .de harmonia com o ceticismo deles . embora sem importância filosófica. interessado. portanto. naturalmente. em tal regime. O centro foi Atenas. contingente. A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. pelo menos . a única forma de vida social possível num mundo em que estão em jogo unicamente forças brutas. de retórica. pois em uma sociedade em que estão em jogo apenas forças brutas. ensinando e escrevendo em Abdera. a única regra de conduta é o interesse particular. Os sofistas. em situação semelhante. o único sistema jurídico admissível.fragmento também seja apócrifo. não para si mesma. mas no engrandecimento ilimitado da própria personalidade. Então a realização da humanidade perfeita. animal. continuando até depois de Sócrates. como norma universal de conduta . passional. e sim sobre a sua natureza animal. oprima o fraco em seu proveito. à paixão de cada um em cada momento. está precisamente na mesma linha que a de Sócrates. por conseguinte. não é mister justiça e retidão. assim é bem o que satisfaz ao sentimento. um prejuízo a igualdade moral entre os fortes e os fracos. mas como um empecilho que incomoda o homem. Quanto ao direito e à religião. aliás. Moral. e era isto que exigia uma solução. chefe de escola e teórico da sofística. a experiência ensina que para triunfar no mundo. Ao sensualismo. desinteressado. uma enciclopédia. portanto. destruidor da moral. Os menores foram uma plêiade. a força e a violência podem ser o único elemento organizador.a segunda metade do século V a. portanto. instintiva. Ademais. atenienses. isto é. A moral. destruidor da ciência. uma pura convenção. Desta maneira. o direito natural é o direito do mais poderoso.pode-se dizer . a posição da sofística é extremista também.C.segundo os sofistas. A sofística move uma justa crítica. os sofistas não só trilham a mesma senda dos filósofos racionalistas gregos do período precedente e posterior. ao empirismo gnosiológicos correspondem o hedonismo e o utilitarismo ético: o único bem é o prazer. A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio. não está na ação ética e ascética. a sua força. portanto. e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides.

por certo. Tinha ele diante dos olhos da alma não uma solução empírica para a vida terrena. onde teria morrido com 109 anos de idade. gravemente ferido. Em suma. podemos dizer que Sócrates não teve. honestos. Esse estado de ânimo hostil a Sócrates concretizou-se. Nasceu Sócrates em 470 ou 469 a. a feição austera de seu caráter. tomou forma jurídica. na qual desenvolve as três teses: Nada existe. Quanto à política. Sócrates desdenhou defender-se diante dos juizes e da justiça humana. ensinando na sua cidade natal. partiu dos princípios da escola eleata e concluiu também pela absoluta impossibilidade do saber. Menos profundo.praticamente. negador dos valores teoréticos e morais.pelo ano 480. que contrastavam com o seu temperamento crítico e com o seu reto juízo. Esta doutrina enunciou-a com a célebre fórmula. Formou a sua instrução sobretudo através da reflexão pessoal. mas também ela não teve um marido ideal no filósofo. onde morreu com setenta anos (410 a. sobretudo entre os jovens. Górgias de Leôncio Górgias nasceu em Abdera. que deveria estabelecer o que é verdadeiro e o que é bem! Quem valorizou a descoberta do homem feita pelos sofistas. hostilidade popular. o homem é a medida de todas as coisas. onde teve grande êxito. bem como de certos elementos racionários. servem-se da injustiça e do muito mal que existe no mundo. porém. social. Combateu a Potidéia. criaram descontentamento geral. onde foi processado e condenado por impiedade. pois. na Magna Grécia. em 480-375 a.C. para pedir auxílio contra os siracusanos. que agiam para o próprio proveito e formavam grandes egoístas. aparecia Sócrates como chefe de uma aristocracia intelectual. parteira. Aprendeu a arte paterna. a liberdade de seus discursos. Acusado de ateísmo. É autor duma obra intitulada "Do não ser". a sua atitude crítica. não obstante sua pobreza. mas na sua forma conhecida.. relativismo e sensualismo são as notas características do seu sistema de ceticismo parcial. Em 427 foi embaixador de sua pátria em Atenas. em contato com o que de mais ilustre houve na cidade de Péricles. e a sua obra sobre os deuses foi queimada em praça pública. Anito e Licon: de corromper a mocidade e negar os deuses da pátria introduzindo outros.diversamente dos sofistas. foi Sócrates. na Sicília. na moldura da alta cultura ateniense da época. Mas. quarenta dedicados à sua profissão. sutis uns. uma mulher ideal na quérula Xantipa. Inteiramente absorvido pela sua vocação. em geral. se alguma coisa existisse não a poderíamos conhecer. segundo a via real do pensamento grego. mas dedicou-se inteiramente à meditação e ao ensino filosófico. Ensinou na Sicília. Platão deu o nome de Protágoras a um dos seus diálogos. irônica e a conseqüente educação por ele ministrada. mediante o ensinamento da retórica. em outras cidades da Grécia. Protágoras de Abdera Protágoras nasceu em Abdera . inferiu Protágoras a relatividade do conhecimento. e de Fenáreta. mais eloqüente que Protágoras. Diante da tirania popular. foi ele valoroso soldado e rígido magistrado. Os sofistas. dos quais. Subjetivismo. E preferiu a morte. temperados . Entretanto. até estabelecer-se em Larissa na Tessália.). escultor. para negar que o mundo seja governado por uma providência divina. na acusação movida contra ele por Mileto. exagerador dos artifícios da dialética eleática. é mais ou menos o que acontece com o jornalismo moderno. apesar de sua probidade.C .representa a maior expressão prática da sofística. orientando-a para os valores universais. Julgava que devia servir a pátria conforme suas atitudes. foi um filósofo ocasional. Para remediar este extremo individualismo.pátria de Demócrito . Viajou por toda a Grécia. inimizades pessoais. A prova de cada uma destas proposições e um enredo de sofismas. Protágoras recorre à convenção estatal. vivendo justamente e formando cidadãos sábios. não na sua realidade física. Esta máxima significava mais exatamente que de cada homem individualmente considerado dependem as coisas. Górgias declara que a sua arte produz a persuasão que nos move a crer sem saber. para a imortalidade. Sócrates . Quanto à família.C. e especialmente em Atenas. teoricamente. porém.correlacionado com Empédocles . sem recompensa alguma. Desempenhou alguns cargos políticos e foi sempre modelo irrepreensível de bom cidadão. conservou-se afastado da vida pública e da política contemporânea. cuja escola conheceu . e sim o juízo eterno da razão. Dos princípios de Heráclito e das variações da sensação. Refugiou-se então na Sicília. outros pueris. onde carregou aos ombros a Xenofonte. e a um outro o de Górgias. teve de fugir de Atenas. em Atenas. ocupado com outros cuidados que não os domésticos. conforme as disposições subjetivas dos órgãos. se a conhecêssemos não a poderíamos manifestar aos outros. em Atenas. onde salvou a vida de Alcebíades e em Delium. não se deixou distrair pelas preocupações domésticas nem pelos interesses políticos. e foi honrado e procurado por Péricles e Eurípedes. No Górgias de Platão.A Vida . humilhando-se e desculpando-se mais ou menos. filho de Sofrônico. capazes unicamente de se acometerem uns contra os outros e escravizar o próximo. e não a persuasão que nos instrui sobre as razões intrínsecas do objeto em questão.

Morreu Sócrates em 399 a. Platão.Declarado culpado por uma pequena minoria. governa o mundo com sabedoria e o homem pode propiciá-lo com sacrifícios e orações. c) com o argumento moral: a lei natural supõe um ser superior ao homem. estável. Apesar destas doutrinas elevadas. não entendeu o pensamento filosófico de Sócrates. Deus não só existe. eliminar-lhes as diferenças individuais. No primeiro caso. bem como o seu biógrafo genial. Xenofonte. fim supremo do homem. o particular. E alcançava em Sócrates intensidade e profundidade tais. mas não define o livre arbítrio. Xenofonte. a teodicéia de estímulo à virtude e de natural complemento da ética. recusou. justo será o que sabe a justiça". pedreiro o que sabe edificar. Sócrates não deixou nada escrito. permanente. Em teodicéia. estabelece a existência de Deus: a) com o argumento teológico. concluíram os sofistas pela impossibilidade absoluta e objetiva do saber. "Conhece-te a ti mesmo" . Sócrates ensina a bem pensar para bem viver. cabe-lhe a glória e o privilégio de ter sido o grande historiador do pensamento de Sócrates. Especialmente famoso é o diálogo sobre a imortalidade da alma . Conclusão: grandeza moral e penetração especulativa. determinando o verdadeiro objeto da ciência. que remonta do indivíduo à noção universal. Método de Sócrates É a parte polêmica. a essência da coisa. formulando claramente o princípio: tudo o que é adaptado a um fim é efeito de uma inteligência. declarando não querer absolutamente desobedecer às leis da pátria. O meio único de alcançar a felicidade ou semelhança com Deus. em seus Ditos Memoráveis. identificando a vontade com a inteligência. tratando-se de um discípulo (e era muitas vezes o próprio adversário vencido).o lema em que Sócrates cifra toda a sua vida de sábio. É a parte culminante da sua filosofia. assentou-se com indômita fortaleza de ânimo diante do tribunal. assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até colher o adversário presunçoso em evidente contradição e constrangê-lo à confissão humilhante de sua ignorância. E passou o tempo preparando-se para o passo extremo em palestras espirituais com os amigos. Sócrates professa a espiritualidade e imortalidade da alma. Sócrates adotava sempre o diálogo. um legislador. sendo mais um homem de ação do que um pensador. devemo-las especialmente aos seus dois discípulos Xenofonte e Platão . Esta doutrina. Com efeito. b) com o argumento. É a ironia socrática. em memória da profissão materna. foi filósofo grande demais para nos dar o preciso retrato histórico de Sócrates. . multiplicava ainda as perguntas. É que o deus da medicina tinha-o livrado do mal da vida com o dom da morte. No segundo caso. uma definição geral do objeto em questão. Este conceito ou idéia geral obtém-se por um processo dialético por ele chamado indução e que consiste em comparar vários indivíduos da mesma espécie. Insistindo no perpétuo fluxo das coisas e na variabilidade extrema das impressões sensitivas determinadas pelos indivíduos que de contínuo se transformam. A psicologia serve-lhe de preâmbulo. ignorância e vício são sinônimos. de estilo simples e harmonioso. com 71 anos de idade. dirigindo-as agora ao fim de obter. Sócrates aceita em muitos pontos os preconceitos da mitologia corrente que ele aspira reformar. Como é sabido. Praticamente. antes. mas é um meio de generalização. Doutrinas Filosóficas A introspecção é o característico da filosofia de Sócrates.que se teria realizado pouco antes da morte e foi descrito por Platão no Fédon com arte incomparável. da causa eficiente: se o homem é inteligente. na exposição polêmica e didática destas idéias.pois uma lei vedava as execuções capitais durante a viagem votiva de um navio a Delos . O objeto da ciência não é o sensível. porém. "Se músico é o que sabe música. é o inteligível.C. Por onde se vê que a indução socrática não tem o caráter demonstrativo do moderno processo lógico. nem sempre é fácil discernir o fundo socrático das especulações acrescentadas por ele. mas sem profundidade. Moral. conforme se tratava de um adversário a confutar ou de um discípulo a instruir.como sendo o ápice da sabedoria. que a promulgou e sancionou.isto é. torna-te consciente de tua ignorância . que é o desejo da ciência mediante a virtude. não obstante a sua devoção para com o mestre e a exatidão das notícias. Seja como for. é a prática da virtude. virtude e ciência. Sócrates. sensitivo e intelectual. denominava ele maiêutica ou engenhosa obstetrícia do espírito. de feição intelectual muito diferente. E exprime-se no famoso lema conhece-te a ti mesmo . é conseqüência natural do erro psicológico de não distinguir a vontade da inteligência. que vai do fenômeno à lei. que revestia uma dúplice forma. uma das mais características da moral socrática. Em psicologia. Tendo que esperar mais de um mês a morte no cárcere . A virtude adquiri-se com a sabedoria ou. Sócrates restabelece-lhe a possibilidade. apenas esboçado. a natureza. A este processo pedagógico. mas é também Providência. um conceito. as qualidades mutáveis e reter-lhes o elemento comum. foram: "Devemos um galo a Esculápio". que facilitava a parturição das idéias. também inteligente deve ser a causa que o produziu. o indivíduo que passa. distingue as duas ordens de conhecimento. O perfeito conhecimento do homem é o objetivo de todas as suas especulações e a moral. o centro para o qual convergem todas as partes da filosofia. que se concretizava. se personificava na voz interior divina do gênio ou demônio. Suas últimas palavras dirigidas aos discípulos. o conceito que se exprime pela definição.o discípulo Criton preparou e propôs a fuga ao Mestre. por indução dos casos particulares e concretos. que o condenou à pena capital com o voto da maioria. com ela se identifica. pelo contrário. autor de Anábase. As notícias que temos de sua vida e de seu pensamento. depois de ter sorvido tranqüilamente a cicuta. legou-nos de preferência o aspecto prático e moral da doutrina do mestre. pode-se dizer que Sócrates é o protagonista de todas as obras platônicas embora Platão conhecesse Sócrates já com mais de sessenta anos de idade.

donde é preciso extraí-la. pois. mediante a razão. direta ou indiretamente.afora a teoria geral de que a ciência está nos conceitos . no dizer de Sócrates. Este conceito é. com finalidades práticas. consciência de si mesmo quer dizer. no agnosticismo filosófico por falta de uma metafísica. A gnosiologia de Sócrates. como a gnosiologia socrática carece de uma especificação lógica. pela ausência de uma metafísica. mediante o . de um ceticismo de fato. assim é o fundador. definição. a favor da reflexão livre e da convicção racional. expressão da vontade divina promulgada pela voz interna da consciência. da experiência ao conceito. espiritual. ação racional. cumpre desembaraçar o espírito dos conhecimentos errados. como Xenofonte. Esta feição utilitarista empana-lhe a beleza moral do sistema. a indução: isto é. Não é. sugere quase sempre a utilidade como motivo e estímulo da virtude.se baseia em normas objetivas e transcendentes à experiência. racionalismo. mas é a certeza objetiva da própria razão . limita-se à gnosiologia e à ética. esta intimidade da ciência . trata-se. a qual é um valor universal. em prática. mas o mestre deve tirá-la da mente do discípulo. reivindica a independência da autoridade e da tradição. no entanto.independente do arbítrio humano. antes de tudo. o itinerário. O procedimento lógico para realizar o conhecimento verdadeiro. pela novidade de suas idéias. em geral. pois.realizando-se o bem mediante a virtude. O moralismo socrático é equilibrado pelo mais radical intelectualismo. por conseguinte. que se concretizava no seu ensinamento dialógico.Sócrates reconhece também. pragmatismo. já aureolado pela austera grandeza moral de sua vida. para construir uma ética é necessário uma teoria. Sócrates. além dos vulgarizadores da sua moral (socratici viri).patenteiam-se no famoso dito socrático "conhece-te a ti mesmo" que. no entanto. ainda que com finalidade diversa. indução. que será percorrido por Platão e acabado. no sentido de que o homem tanto opera quanto conhece: virtuoso é o sábio. nem deixou algo de escrito.tornava impossível o livre arbítrio. maiêutica. Mas. havia verdadeiros filósofos que se formaram com os seus ensinamentos. mediante a doutrina do conceito. a gnosiologia deve preceder logicamente a moral. dele depende. para realizar o próprio fim. isto é. Esta interioridade do saber.bem como ignorância e vício . introspecção. ignorância. e nos dá a essência da realidade. no pensamento de Sócrates. o ignorante. A filosofia socrática. desenvolverão uma gnosiologia acabada. A Moral Como Sócrates é o fundador da ciência em geral. morais. Entretanto. subindo até à razão. rotina. Esta ignorância não é. embora o pensamento socrático fique. Entretanto. que declara auxiliar os partos do espírito. Estes dois filósofos. acima das leis mutáveis e escritas. a qual. não particulares. dos preconceitos. A seguir será possível realizar o conhecimento verdadeiro. a respeito da metafísica. não o seu conteúdo. opiniões. consciência da própria ignorância inicial e. A única ciência possível e útil é a ciência da prática. ciência. tenha. uma grande metafísica e. enfim. a ética une pela primeira vez e com laços indissolúveis a ciência dos costumes à filosofia especulativa. razão. Entre os seus numerosos discípulos. Sublime nos lineamentos gerais de sua ética. Vale dizer que o agir humano . a ciência. uma moral. desenvolveram exageradamente algumas de suas partes com detrimento do conjunto.como ensinavam os sofistas. descobriu o método e fundou uma grande escola. malvado. pela razão imanente e constitutiva do espírito humano. Se o fim do homem for o bem . portanto. Sócrates. necessidade de superá-la pela aquisição da ciência. ele é cético a respeito da cosmologia e. porém.bem como o conhecer humano . o prático depende. mas apenas metódico. tradição. representando o ideal e a conclusão do processo gnosiológico socrático. como Alcibíades e Eurípedes. nem pode precisar este bem. Sócrates não elaborou um sistema filosófico acabado. saídos das escolas anteriores não lograram assimilar toda a doutrina do mestre. exercido sobre os contemporâneos tamanha influência. mediante a doutrina de que eticidade significa racionalidade. Traçou. é mister conhecê-lo. não descendo até à animalidade . alguns. superado. Escolas Socráticas Menores A reforma socrática atingiu os alicerces da filosofia. não de direito. Por isso. pode-se esquematicamente resumir nestes pontos fundamentais: ironia. mas dirigida para os valores universais. sentimentalismo. dada a sua revalidação da ciência. Dentre estes. costume. significa precisamente consciência racional de si mesmo. todavia.que não é absolutamente subjetivista. Isto quer dizer que a instrução não deve consistir na imposição extrínseca de uma doutrina ao discente. precisamente porque lhe falta uma metafísica. lei positiva. portanto. de admirar que um homem. totalmente. Sócrates achou apenas a forma conceptual da ciência. depois. Tudo isto tem que ser criticado. opinião comum. sem metafísica. como sua mãe auxiliava os partos do corpo. É a famosa maiêutica de Sócrates. Antes de tudo. logo. antes de tudo. esta felicidade. O fim da filosofia é a moral. ativismo. identificando conhecimento e virtude . e a virtude mediante o conhecimento Sócrates não sabe. ceticismo sistemático. não sentimento. Gnosiologia O interesse filosófico de Sócrates volta-se para o mundo humano. conceptual é. Virtude é inteligência. universal.assim a ética socrática carece de um conteúdo racional. toda a especulação grega que se seguiu. em particular da ciência moral. se o fim da filosofia é prático. que está contra todo voluntarismo. da crítica. remontar do particular ao universal. do teorético. além de simples amadores. partindo dos pressupostos socráticos. por Aristóteles. este é o momento da ironia. por sua vez. de par com os sofistas. Como os sofistas. científico. de fato. para organizar racionalmente a própria vida. a existência de uma lei natural . determinado precisamente mediante a definição. fonte primordial de todo direito positivo. da opinião à ciência. É sabido que Sócrates levava a importância da razão para a ação moral até àquele intelectualismo que. A doutrina do conceito determina para sempre o verdadeiro objeto da ciência: a indução dialética reforma o método filosófico. precisa . um poderoso impulso para o saber.

. chegou a tomar parte da acusação contra Andócides.C. vemos que Sócrates. a influência exercida por Ânito constituiu o elemento mais respeitável no desfecho do processo. por haver sido essa também uma acusação de impiedade. sendo uma delas se se tratava do personagem citado por Aristófanes. é culpado de corromper a juventude. A escola socrática maior é a platônica. À parte o problema da mudança de lado .. é aquele que. Mas não há elementos em que basear essa suposição. se a acusação não fosse considerada procedente pelo júri. Após ter sido enviado ao exílio pelos Trinta Tiranos. em janeiro de 399 a. não disse que Meleto era um desses homens. mais tarde recresceram transformadas ou degeneradas em outras seitas filosóficas.C. com seu nome sendo citado sempre com evidente desapreço. 445). comerciante de couro. O pouco que conhecemos ou podemos presumir a respeito de Lícon é que pouca importância e autoridade teve no decorrer do processo. A escola cirenaica ou hedonista. Desse modo. já então tido como um fanático religioso. mas não só ele. degenerou. seria muito conveniente. neste caso. que derrotara e expulsara esses mesmos Trinta Tiranos –. juntamente com Trasíbulo e outros. Exceto se reputarmos que essa defesa não seja de fato de Sócrates. exagerando a doutrina socrática do desapego das coisas exteriores. Ânito era filho de Antemione. talvez porque seja um homem jovem e desconhecido.C. porém. sustentando-o com a autoridade de seu nome. porém nada exigia que o acusador oficial fosse o mais respeitável. c. No Eutífron. tendo sido o único a recusar-se a obedecer. sendo estratego em 410 a. que se vale do nome de Meleto. Julgar tratar-se do Meleto que. barba rala e nariz em forma de bico de pássaro". o mais importante dos acusadores.de partidário dos Trinta Tiranos tornar-se aliado de Ânito. durante o segundo período. porém. juntamente com outros quatro homens recebera a ordem de deter a Leon de Salamina. e sim escrita por Platão. Meleto era o acusador oficial. contra Sócrates.C. além de considerar que Sócrates insiste no fato de que Meleto é desconhecido. pouco provavelmente chamaria a atenção de Aristófanes em 405 a. foi a que segue: "A seguinte acusação escreve e jura Meleto. podemos considerar Meleto de Sócrates o mesmo Meleto de Andócides. ao se aproximar do Pórtico do Rei. o seu mais ilustre continuador foi o sublime Platão. verdadeiros continuadores da tradição socrática. Contudo. dominado pelas altas especulações de Platão e Aristóteles . que tentou uma conciliação da nova ética com a metafísica dos eleatas e abusou dos processos dialéticos de Zenão. Apologia de Sócrates Introdução à Apologia de Sócrates De acordo com Diógenes Laércio. Dentre os herdeiros de Sócrates. Ânito. fundada por Aristipo. em 399 a.. com os mesmos direitos à palavra no decorrer do processo.C. que a ele alude como se Meleto fosse seu subordinado. ao ser inquirido pelo adivinho Eutífron a respeito de quem era aquele que o acusava. Sócrates é culpado de não aceitar os deuses que são reconhecidos pelo Estado. também Ânito e Lícon.o conceito . A respeito de saber com exatidão quem era esse Meleto. o herdeiro genuíno de suas idéias. a acusação apresentada contra Sócrates. pois um jovem poeta de 399 a. vegetaram na penumbra. e. logicamente. que conforme ele mesmo afirma na Apologia. dava a impressão de conhecer Sócrates. (n. Estas . 2. do povoado de Alópece. Estas escolas. Pena: a morte" A cidade de Atenas não podia mover ações. se prestaram a deter Leon de Salamina. mas um cidadão podia. de introduzir novos cultos. O acusador era Meleto. mas somente aquele que assinava a acusação.C. de acordo com a própria informação de Andócides: esse Meleto foi um dos que. a fim de engrandecer o mestre desaparecido. onde fora afixada a acusação por Meleto. como se deste tivesse se originado a idéia da pena de morte para persuadir Sócrates a abandonar a cidade antes que o processo tivesse seguimento. respondeu: "Sei bem pouco a respeito dele. em verdadeiro desprezo das conveniências sociais. no célebre processo por causa da mutilação da estátua de Hermes e da profanação dos Mistérios. do povoado de Piteo.pensamento socrático. sobra a dificuldade de explicar por que motivo Sócrates. fundada por Antístenes (n. em 404 a. o vértice e a conclusão da grande metafísica grega. por último. filho de Meleto.juntamente com o elemento vital do pensamento precedente. e já havia exercido importantes cargos e magistraturas.. existem muitas dúvidas. E. já que nada corrobora realmente esta pretensão. representa o desenvolvimento lógico do elemento central do pensamento socrático . São fundadores das escolas socráticas menores. São bem conhecidas as excentricidades de Diógenes. 3. Fora desta escola começa a decadência e desenvolver-se-ão as escolas socráticas menores.mesmo diferenciando-se bastante entre si . valoriza o pensamento dos pré-socráticos desenvolvendo-o em sistemas vários e originais. nascera por volta de – 150 a. que. c. hábil ou temível. que. que foi por ele zelosamente preparado nas reuniões dos diversos cidadãos.C. A escola de Megara. A escola cínica. fundada por Euclides (449-369). das quais as mais conhecidas são: 1. existe outro obstáculo. assumindo. de cabelos lisos. embora. Isto aparece imediatamente nas escolas socráticas. não resta dúvida. assim solucionando o problema que tanta discussão tem provocado.concordam todas pelo menos na característica doutrina socrática de que o maior bem do homem é a sabedoria. também. por ordem dos Trinta Tiranos. filho de Sofronisco. regressou de File com estes e tomou parte da . total responsabilidade. e culmina em Aristóteles. do povoado de Piteo. Acredito chamar-se Meleto. 425) que desenvolveu o utilitarismo do mestre em hedonismo ou moral do prazer. fique apenas no campo da suposição.

expulso de Atenas em decorrência de um processo parecido com o seu. vindo a ser. condenado. Nessa fase seria de fato correto crer que alguém sofresse um processo por questões religiosas. que juntamente com Trasíbulo fora seu principal defensor. e não se pode afirmar. que com muita facilidade te dedicas à maledicência. executando os trabalhos mais necessários à sobrevivência e à defesa. da mesma maneira que se dá com condenações por motivos políticos. que fosse singularmente prudente ou diplomático em sua maneira de discutir. Crísias. um dos aspectos de Zeus. como Anfitrite. a exigência de que o piloto do barco conheça seu ofício. não era possível levar em conta as culpas passadas de Sócrates para condená-lo. e a argumentação de Burnet. isto é. Ártemis e Cérbero. o líder máximo. O que significava aquela sabedoria. nessa época de instalação do regime democrático. embora não seja verdade que permanecesse fora do âmbito do governo. isto é. isso presumindo que existisse alguma. Coloquemos a questão com mais clareza: as lendas referem a revolta patriarcal contra o matriarcado. é necessário recordar que Sócrates manteve relações com os Trinta Tiranos: estes não Ihe teriam ordenado a prisão de Leon de Salamina se não o considerassem um deles. onde manifesta uma ameaça velada a este: "Afigura-se-me. não era matá-lo. Era todo o ensinamento socrático que se tornava perigoso. de fato. afirmara-se o culto patriarcal. ou o Agnos-Deus. e era necessário arranjar o pretexto para executá-lo. convinha afastar de Atenas o mestre de Crísias. mas à época de Sócrates tudo isso já se encontrava devidamente solidificado. Réia vem a ser adorada como Hera. proclamada superior até mesmo pelo oráculo. No que concerne à condenação por motivos religiosos. e eu te aconselho. pois com freqüência era visto discutindo em público. que era sempre devorado pelo tempo. Tanto isso é verdade que. e permanece virgem. o qual. que voltara a ser assunto pela recente inclusão de seu nome entre os envolvidos na profanação dos Mistérios. como o próprio Sócrates repete. revela-se. bem pouco confiável. considerando-se a anistia garantida até mesmo pelo próprio Ânito. durante o mandato dos Trinta. mediante palavras e atos. se quiseres me ouvir. e não os novos fatos. Portanto. em cujas culturas o patriarcalismo era arraigado. Ânito manteve relação com Sócrates. que tenhas cuidado". fora discípulo de Anaxágoras. E mais: Sócrates menciona a seu favor sua participação no caso do exílio de Querofonte. o Deus-Agnes. iriam acabar desrespeitando qualquer autoridade que não se identificasse com a inteligência e a sabedoria. era a suprema deusa e gerava uma vez por ano a Dionisos – Zagreus. em que Zeus era o deus-pai. e sim afastá-lo de Atenas. Desde a época de Sócrates. o homem que sempre se recordava de haver sido discípulo de Arquesilau. segundo comprova sua atuação no Mênon. patente mostra de sua obstinada repulsa aos governos democráticos. lunar e noturno. minianos e jônios. A Tripla Deusa. Numerosas revoltas começaram a eclodir com a chegada de contínuas levas de dórios. Anfitrite é esposa de Posêidon. as múltiplas facetas da deusa prevaleciam. A bem da verdade. em sua defesa. por conseguinte. e os jovens. enquanto Sócrates pôde permanecer. a superioridade do saber sobre a aclamação do povo. provocando ainda o desapreço por tudo que não buscasse a sabedoria. As mais importantes orientações da vida eram subvertidas por seu orgulho de ter consciência da sua ignorância. e também Alcebíades. vemos o réu inverter a ordem das acusações e colocar em primeiro lugar a última imputação: corromper os jovens. ó Sócrates. seu filho. poderíamos presumir que Sócrates teria adotado a defesa do culto da deusa. porém. desprezando a economia doméstica e a riqueza. mas sim por questões evidentemente políticas. seus instrumentos de fertilização e prazer. seu culto tendo sido de novo extinto durante o período de estabelecimento do culto olímpico. A opinião de Platão a esse respeito é bem clara: não foi por razões religiosas que Sócrates recebeu a condenação. e seus aspectos: marinho. Portanto. tornou-se um dos mais eminentes cidadãos de Atenas. quando afirma "que esses novos deuses da cosmologia jônica eram uma antiga história e que poderia ser uma violação da anistia colocá-los de novo à luz do dia". Mas é preciso frisar que o propósito. Apologia de Sócrates . que pode significar tanto o deus desconhecido quanto o deus-carneiro. constituindo as sacerdotisas os verdadeiros líderes das povoações e os homens. Ártemis é filha de Zeus. e se isso não ocorreu deveu-se à demasiada teimosia do próprio Sócrates. portanto. Some-se a isto que Sócrates jamais desejou exercer nenhuma magistratura. venerada como Réia. que acabaram por fomentar a rebelião de Zagreus contra seu pai e mãe. assim. Zagreus torna-se Zeus. nem participar de alguma forma do governo de sua cidade. pelos testemunhos que possuímos. o texto da sentença preocupa-se muito mais em esconder do que apresentar as verdadeiras causas. Ademais. um movimento reacionário em termos de culto.expedição armada contra o governo dos tiranos. outro aspecto de Zeus. que consistia em saber que não se sabe? Qual a postura dos políticos diante disso? Que direitos seriam mais opostos aos da democracia do que aqueles originados da experiência e da competência. quanto a Cérbero. Querofonte foi obrigado a se exilar. Dessa maneira. Sócrates dera.Preâmbulo . Se a acusação tivesse se dado em épocas mais antigas. sendo fiel guardião dos domínios de Hades. e a superioridade da inteligência sobre os direitos da assembléia popular e soberana? É isso que causou a condenação de Sócrates. Depois da restauração do regime democrático. insiste no fato de que. esposa de Cronos. por sua vez. em seus três aspectos: lua crescente. representa Hécate. o mais feroz dos Tiranos. lua cheia a lua minguante. que em vez de escolher o exílio preferiu a proposta de uma multa irrisória. havia sido seu discípulo. em seu comentário à Apologia.

aprimorados em substantivos e verbos. vós ouvireis a verdade inteira. Pois muitos que se encontram entre vós já me acusaram no passado. ó atenienses. homem de muita sabedoria. tal o poder de persuasão de sua eloqüência. e então reconhecereis que devo defender-me destes em primeiro lugar. e. será excelente para vós e para mim.Desconheço atenienses. Seja como for. de mim. a mesma linguagem que habitualmente emprego na praça. Defesa Contra os Antigos Acusadores Calúnia a Respeito do Saber de Sócrates Vamos começar desde o início e examinar que tipo de acusação motivou essa calúnia. na qual Meleto se baseou para redigir sua acusação neste processo. Uma. que poderia ser talvez pior. sinto-me. se é mesmo verdade que haja cientistas de tais ciências. e esses me causam bem mais temor do que Ânito e seus amigos. Portanto. e assim descobrirei se aquela calúnia. e de outro. Faço-vos. A Defesa de Sócrates Primeira Parte Diversidade Entre Duas Antigos e os Recentes Categorias de Acusadores: os Em princípio. que transforma as razões mais fracas nas mais consistentes. os que já me acusam há bastante tempo e dos quais tenho falado a respeito. pois à lei é necessário obedecer e defenderse. sem dúvida me desculparíeis o sotaque e o linguajar de minha criação. e recorro à maioria de vós para que sirvam de . porém. é legítimo que eu me defenda das calúnias das primeiras acusações que me foram dirigidas e dos primeiros acusadores. Estes. E não digo isso por julgar aquelas ciências coisas vis. assim. não corarem de me haver eu de desmentir prontamente com os fatos. ao mostrar-me um orador nada formidável. que não me ocupo desses assuntos. a mim próprio. não a estranheis nem vos revolteis por isso. em resumo. junto das bancas. procuraram convencer-vos de acusações não menos caluniosas contra mim: que existe um certo Sócrates. caluniaram-me quando vós tínheis aquela idade em que é bastante fácil – alguns de vós éreis crianças ou adolescentes – dar crédito às calúnias. acusaram-me obstinadamente. Nisso reside o mérito de um juiz. De verdades. embora deva fazê-lo em tão curto prazo. na minha defesa. como crianças que deviam ser educadas. e acusar de mentiroso a quem não responde. Acontece que venho ao tribunal pela primeira vez aos setenta anos de idade. o de um orador. os que me acusam há pouco tempo. acompanhando Meleto. nos termos que me ocorrerem. Defender-me-ei. Não faltaria quem. o que é mais grave. ou os que pretenderam convencer os outros por estarem verdadeiramente convencidos e de boa fé –. se ouvirdes. sem que eu contasse com alguém para me defender. e investigando o que existe embaixo da terra e no céu. de verdades eles não disseram alguma. Com efeito. quase me fizeram esquecer quem sou. Se eu fosse de fato um estrangeiro. Que tudo se passe de acordo com a vontade do Deus. na qual um certo Sócrates aparece andando de lá para cá. Que afirmavam meus detratores? Façamos de conta que se trate de uma acusação juramentada de acusadores reais e dos quais seja preciso ler o texto: "Sócrates é réu de haver-se ocupado de assuntos que não eram de sua alçada. não ficaria bem a um velho como eu vir diante de vós modelar seus discursos como um rapazinho. que não consigo compreender nem um pouco. E o que é mais assombroso é que seus nomes não podem sequer ser citados. Mas não por Zeus. e depois das mais recentes acusações e dos novos acusadores. porém. peço-vos nesta oportunidade a mesma tolerância. que esquadrinha todos os segredos obscuros. nem acusar ninguém por difamação. que é de justiça a meu ver. e que examineis com atenção se o que digo é justo ou não. em verdade. nem se pode exigir que ao menos alguns deles venham até aqui. vós deveis vos certificar de que existem duas categorias de acusadores: de um lado. repito-o. Ainda mais porque esses acusadores fizeram-se ouvir por vós antes e mais demoradamente do que aqueles que vieram depois. para a minha linguagem. atenienses. E esses acusadores são muito numerosos e me acusaram há bastante tempo. embora estes sejam acusadores perigosos. me espantou das muitas perfídias que proferiram: a recomendação de precaução para não vos deixardes seduzir pelo orador formidável que sou. as pessoas acreditam que quem se dedica a tais investigações não admite a existência dos deuses. porém os outros – os que. e assim. que martiriza meu coração há tanto tempo. não ouvireis discursos como os deles. sou um orador. atenienses. em dizer a verdade. a fim de me defender só posso lutar contra sombras. Mas os primeiros são muito mais perigosos. por inveja ou por vício em fazer falsas acusações. porque deposito confiança na justiça do que digo. em estilo florido. e. aqueles que convivendo com a maior parte de vós. um pedido. se é o que entendem. ó atenienses. serão expressões espontâneas. ó cidadãos. são os acusadores que mais receio. E se eu for bem-sucedido. talvez melhor. Verdadeiramente. e em outros lugares. ó atenienses. fizesse contra mim uma acusação tão grave! Eu só vos asseguro. onde tantos dentre vós me haveis escutado. se conseguir acarretar-vos algum benefício com a minha defesa. que especula a respeito das coisas do céu. não disseram nenhuma. exceto o de um comediógrafo. procurando transformar a mentira em verdade e ensinando-a às pessoas". A acusação possui mais ou menos este teor. salvo se essa gente chama formidável a quem diz a verdade. senhores. porque. portanto. possa ser extirpada. Assististes a alguma coisa semelhante na comédia de Aristófanes. que propalaram essas coisas acerca de mim. eis o que me pareceu a maior de suas insolências. ao ouvi-los. contudo. completamente estrangeiro à linguagem do local. procuraram colocarvos contra mim. e outro amontoado de tolices. Bem sei quanto isto é difícil e tenho plena consciência da enorme dificuldade que me espera. ó atenienses. que influência tiveram meus acusadores em vosso espírito. esses todos não podem ser encontrados. eu admitiria que. em contraste com eles. afirmando que caminha em cima das nuvens. sobretudo. sempre faltando com a verdade. uma súplica premente. nem espere outra coisa qualquer um de vós.

mas o de uma testemunha que merece toda a vossa confiança. de quem vos falava há pouco. parabenizei esse tal de Eveno. de Paros. mas aquele acreditava saber e não sabia. invocarei como testemunha.testemunhas. como não sabia. entre os que possuem reputação de serem mais sábios que aqueles. é verdade que adquiri renome por possuir certa sabedoria. e este homem aparentava ser sábio. juntamente com muitos outros. refleti da seguinte maneira: "Que pretende o deus dizer? Qual é o significado oculto do enigma? Tendo em vista que eu não me considero sábio. nem acredito sabê-lo. em virtude de este haver falecido. que educação. Escutai-me. partiu no último exílio em vossa companhia e regressou também em vossa companhia. mas teus filhos são homens. – E quem é ele? – indaguei-lhe. . e tive a impressão de que. basta dizer que era um de nossos políticos –. – de onde é e quanto cobra para ensinar? – Eveno de Paros. no entender de muitas pessoas e especialmente de si mesmo. e também este me dedicou ódio. isto também não passa de mentira. Afastei-me dali e cheguei à conclusão de que era mais sábio que aquele homem. e então compreendereis que tudo o mais que dizem sobre mim possui o mesmo valor. O Que é o Saber de Sócrates O Oráculo de Delfos Algum de vós poderia questionar-me: "Ó Sócrates. recebendo em troca dinheiro e ainda por cima gratidão. enfim. Eu mesmo me orgulharia se fosse capaz de tal coisa. se é de fato possuidor dessa doutrina e a ensina a tão baixo preço. Peço que revelem publicamente quantos de vós já me ouviram falar a respeito dessas coisas. E seu preço é cinco minas – respondeu-me. Pesquisa Junto aos Políticos Saberão agora o motivo pelo qual vos relato isso: meu intento é pôr-vos a par de onde se originou a calúnia contra mim. ao menos numa pequena coisa. o próprio deus de Delfos. estou falando sério. que nós. e eles se tomariam cavalariços ou agricultores. fosse mais sábio que ele. mas talvez não o fosse de verdade. não se deveu ao fato de que nada fizeste fora do comum. ao arrepio de minha vontade. e quem diz o contrário mente. homem que gastou mais dinheiro com sofistas do que qualquer outro ateniense. tantas vozes não teriam se erguido se tivesses te comportado como todos se comportam Conte o que fizestes. Ó atenienses. pois não desejamos julgar-te irrefletidamente". fiz a experiência que irei descrever-vos. se de fato se trata de sabedoria. e convencem esses jovens a preferir a sua companhia à dos seus. A pitonisa respondeu que não existia ninguém. se ouvistes alguém declarar que instruo os homens em troca de dinheiro. neste sentido. porque não sei. e de sua natureza. E longamente me mantive nesta dúvida. enquanto eu. aos quais seria mais fácil. ao contrário. se muitos te acusaram. Por fim. e o soube por intermédio de Cálias. Resumindo: nada existe em tudo isso que corresponda à verdade. que tivesse a capacidade de Ihes ensinar as virtudes para serem acrescentadas à sua natureza. terias de contratar e pagar uma pessoa que tomasse conta deles. Procurei fazê-lo compreender que embora se julgasse sábio. embora possais ter a impressão de que eu esteja proferindo palavras por demais fortes. pois ele não pode mentir". que quer dizer o deus ao afirmar que sou o mais sábio dos homens? Com certeza não mente. talvez sejam possuidores de uma sabedoria sobre-humana. Mesmo que. não. como também muitos dos que se encontravam presentes. não o era. que possui muita sabedoria e veio morar em Atenas. julgando que somente assim poderia desmentir o oráculo e responder ao vaticínio: "Este é mais sábio que eu e afirmastes que era eu". se me afigure coisa em absoluto nada condenável. portanto. Após ter ouvido a resposta do oráculo. Existe alguém capaz de fazê-lo? – Claro que sim – respondeu-me. uma sabedoria estritamente humana. E a respeito de ser sábio. Ouvi também referências a outro homem. que não é meu depoimento. Em vista disso. analisando e raciocinando em conjunto. contudo eu não sei. então: tencionas proporcionar-lhes? Quem entende das virtudes que Ihes são necessárias. mas afirmo que não a conheço. Peço-vos para não fazer algazarra. Fui ter com um daqueles que possuem reputação de sábios. receio possuir esta única sabedoria. Sabeis que tipo de homem era Querofonte e de como era determinado em suas resoluções Dirigiu-se em certa ocasião a Delfos e atreveu-se a perguntar ao oráculo se existia alguém mais sábio que eu. mais ainda. ou seja. Era meu amigo desde o tempo da juventude e pertencente ao vosso partido popular. diante de vós. É possível que alguns entre vós creiam que eu esteja brincando. este com que. Todos vós conheceis Querefonte. Pródico de Ceo e Hípias de Élida. fazer-se instruir por um de seus concidadãos. Procurarei esclarecer-vos a respeito da causa dessas calúnias contra mim. filho de Hipônico. ou seja. nem de belo. não só ele passou a me odiar. e me ocorreu exatamente a mesma coisa. ó cidadãos. se teus dois filhos fossem dois potros ou duas vitelas. apenas com o intuito de caluniar-me. ó atenienses. Ao passo que esses. e. o que fazes então? Que motivo originou essas calúnias? Com certeza. De minha sabedoria. comecei a investigar acerca disso. Como testemunho deste fato se prestará o irmão de Querefonte. Esses valorosos homens percorrem as cidades com o propósito de instruir os jovens. e sem ter de gastar dinheiro. Aí procurei um outro. também não julgava saber. Perguntei a ele: – Cálias. eu e ele. a partir daquele momento. se alguém se propõe a instruir homens como fazem Górgias de Leontini. das virtudes do homem e cidadão? Acredito que pensaste a respeito disso quando puseste os filhos no mundo. E que tipo de sabedoria é essa? Possivelmente. No íntimo. podíamos não saber nada de bom. ó atenienses. Mas enquanto estava analisando este – o nome não é necessário que eu vos revele.

porém. náo se refere propriamente a mim. é o que ocorre entre os poetas. e. ó atenienses. Em seguida aos políticos. porque. afigurava-se-me impossível deixar de atentar para as palavras do deus. "Se almejas saber o que o oráculo quer dizer". Resumindo. e isto eu percebi com clareza. É por esta razao que ainda hoje procuro e investigo. ambiciosos. embora saiba que sou odiado por muitos exatamente por isso. é que esses homens demonstraram ser pessoas que dão a impressão de saber tudo. deparam-se com numerosos homens que julgam saber alguma coisa e sabem pouco ou nada. toda vez que participava de uma discussão. a fama de sábio. Desta maneira. é outra. dizem as coisas que comumente são ditas contra todos os filósofos. e que também ensina a não acreditar nos deuses e apresenta como melhores as piores razões. por intermédio de seu oráculo. de contar-vos a verdade! Mas é obrigatório que eu a diga. convencido de que diante daqueles confirmaria minha ignorância e sua superioridade. ó cidadãos. Contudo. nada respondem." Por isso. ó atenienses. que dizem de fato muitas coisas belas. dizia a mim mesmo. fiz numerosas e perigosíssimas inimizades. como os adivinhos e vaticinadores. todas as outras pessoas presentes discorriam melhor a respeito do que os poetas haviam escrito que os próprios autores. conforme minha pesquisa. mas não conhecem nada do que dizem. as que considerava mais bem construídas. E se alguém indaga: "Afinal. só para não evidenciar que estão confusos. e se regozijam em assistir a esta minha análise dos homens. se existe alguém entre os atenienses ou estrangeiros que possa ser considerado sábio e. Por sinal. e aproximadamente o mesmo. dirigi-me aos artesãos.Não obstante isso. além de afirmar que ele especula sobre as coisas que se encontram no céu e as que ficam embaixo da terra. continuei diligentemente com minha pesquisa. A verdade. com desagrado e assombro. em nome do oráculo. é muito sábio entre vós aquele que. e eu a revelo por completo. porém. Mas desejo terminar de relatar-vos minhas peregrinações e as fadigas que sofri para convencer-me de que a palavra do oráculo era incontestável. não querem dizer a verdade. As Muitas Inimizades e a Acusação Vós tendes conhecimento de que os jovens que dispõem de mais tempo que os outros. e nisso eram mais sábios do que eu. indaguei a mim mesmo se deveria permanecer tal como era. e a partir destas inimizades surgiram muitas calúnias. Lícon por causa dos oradores. que de sua arte tinha a consciência de não conhecer nada. com a certeza de ser mais sábio que eles. pareceram-me quase todos em maior erro. ambas as coisas. naturalmente. dominados pela paixão e numerosos como são. ó atenienses. E outros. Peguei suas melhores poesias. tanto os que escreviam ditirambos' e tragédias como os demais. sem fama alguma. E tomado como estou por esta ânsia de pesquisa. contudo. juro-vos que este foi o resultado da minha pesquisa: os que eram famosos por possuírem maior sabedoria. Então afastei-me deles. devo dizer-vos de novo a verdade. é . Este é o motivo pelo qual. julgavam-se os mais sábios dos homens até mesmo em outras coisas em que realmente não o eram. como vos disse desde o início. Logicamente. finalmente. e todos da mesma opinião nesta difamação a meu respeito e com argumentos que podem parecer também convincentes. não me restou mais tempo para realizar alguma coisa de importante nem pela cidade nem pela minha casa. Estou com vergonha. como se tivesse dito: "Ó homens. "deves visitar todos aqueles que possuem reputação de sabedoria. E não me equivoquei. nem mesmo esquivando-me dela. analisar alguma pessoa. De forma que eu. mas só usa meu nome como exemplo. aqueles que são analisados por eles voltam-se contra mim e não contra quem os analisou. por sua própria conta. eles conheciam coisas que eu não conhecia. porque o desconhecem. pelo fato de fazerem poesias. e este importante defeito deslustrava toda sua sabedoria. lançaram-se contra mim Meleto. E compreendi também que os poetas. e entre as calúnias. e eles sabiam que eu os considerava conhecedores de numerosas e belas coisas. Pesquisa Junto aos Artesãos No final. porque dessa maneira aprenderia alguma coisa com eles. Porém. mas por uma propensão e inspiração natural que eu desconheço. seguemme de livre e espontânea vontade. e então. e respondi a mim e ao oráculo que convinha continuar tal qual eu era. conforme a palavra do deus. sem escrúpulo algum encheram vossos ouvidos com suas calúnias. e. diante disto. fui procurar os poetas. porém. Sócrates. cada um deles julgava-se extremamente sábio. venho em ajuda ao deus provando que nao há sábio algum. sem ocultar-vos nada. pelo mesmo motivo que era mais que os políticos. que todos passaram a me odiar e que. como eles. a verdade. é levo uma existência miserável por conta deste meu serviço ao deus. embora notando. ao afirmar que Sócrates é sábio. como acho que ninguém o seja. que muito pouco ou nada vale a sabedoria do homem. as pessoas julgavam que eu fosse sábio naqueles assuntos em que somente punha a descoberto a ignorância dos demais. Ânito por causa dos artesãos e dos políticos. também os artesãos famosos apresentavam o mesmo defeito dos poetas: por conhecerem muito bem sua arte. inúmeras vezes procuram imitarme e tentam. o que faz e o que ensina este Sócrates para corromper os jovens?". seria de fato um verdadeiro milagre se eu tivesse a capacidade de arrancar-vos do coração esta calúnia que possui raízes tão firmes e profundas. os filhos das famílias mais ricas. A verdade. até mesmo em outros assuntos de maior realce e dificuldade. de acordo com a palavra do deus. Esta é. declarando que Sócrates é homem por demais infame e corruptor dos jovens. se me afiguraram melhores e mais sábios. ó atenienses: quem sabe é apenas o deus. e indaguei aos próprios poetas o que eles pretendiam dizer. descobri que não era por nenhum tipo de sabedoria que eles faziam versos. tenha admitido que sua sabedoria nao possui valor algum". Ânito e Lícon: Meleto profundamente irado por causa dos poetas. nem sabedor de minha sabedoria nem ignorante de minha ignorância. O Verdadeiro Saber Consiste em Saber Que Não se Sabe Em virtude desta pesquisa. e ele quer dizer. igualmente a Sócrates.

Vês. Vou começar desde o início e como se na verdade dissesse respeito a outra espécie de acusadores. SÓCRATES: — Afirmas. Os maus não prejudicam aqueles que Ihes são próximos? E os bons não Ihes fazem o bem? MELETO: — Com toda a certeza. que talvez aqueles das Assembléias Populares corrompam os jovens? Ou também aqueles os tornam melhores? MELETO: — Também aqueles. porque aborda com leviandade assuntos sérios e tão inescrupulosamente leva homens diante do tribunal. na verdade. É isto que queres dizer? MELETO: — Exatamente isto. com o intuito de fazer crer que se preocupa com coisas com as quais. Com certeza o sabes. então. e recebereis sempre a mesma resposta. realmente. dize aos juizes o que os faz melhores. Meleto afirma que corrompo a juventude. ou alguns sim e outros não? MELETO: — Todos. os juizes. conforme dizes. SÓCRATES: — Pode existir alguém que esteja com eles e que prefira receber o mal em lugar do bem? Responde. então. por Hera! E grande a quantidade de bons educadores! Também estes que estão nos ouvindo tornam os jovens melhores ou não? MELETO: — Sim. então. sem saber o que dizer? E isto não te se afigura vergonhoso. isso é o bastante para a defesa das culpas a mim atribuídas. . Portanto. demonstrei que nunca tiveste preocupação com as coisas pelas quais me trouxeste diante deste tribunal. procurarei em seguida defender-me de Meleto. que estes possuem a capacidade de educar os jovens e torná-los melhores? MELETO: — Afirmo. Meleto. ó atenienses. deve ter conhecimento. ou poucos. MELETO: — Estes. SÓCRATES: — Então. não é difícil o que te pergunto. ó excelente homem. e por este motivo citaste-me diante do tribunal e me acusaste. como ficas calado. Analisemos esta acusação minuciosamente. Mais ainda. SÓCRATES: — Quer dizer. Vamos. mostra-te e responde. homem digno e patriota. excelente homem. SÓCRATES: — Não se trata disto. Agora dize-me. ó Sócrates. SÓCRATES: — Dizes bem. SÓCRATES: — E os senadores? MELETO: — Também os senadores. pois esta é uma preocupação tua e descobriste quem os corrompe. ao contrário. viver entre bons cidadãos ou entre maus cidadãos? Amigo. exceto eu. ó Meleto. todos. prossegue. Pode existir alguém que prefira receber o mal? MELETO: — Não. e prova suficiente do que afirmo: que nunca te preocupaste com estes assuntos? Vamos. e que esta é a calúnia contra mim e esta a causa. SÓCRATES: — Como sou infeliz! Mas responde-me a isto: também com os cavalos crês que seja assim? Que todos os homens os tornem melhores e somente um os mutile? Ou. como ele mesmo se define. Meleto. SÓCRATES: — Todos os atenienses que te ouvem tornam os jovens bons e belos. Meleto. trouxeste-me a este tribunal porque corrompo os jovens por querer è os torno maus. das leis. que o réu é o próprio Meleto. aos juizes o que os torna melhores. Meleto Não Sabe o Que é Educar Nem Corromper Meleto. SÓCRATES: — Crês que todos. já que demonstrei a contento que tu nunca te preocupaste com os jovens. sou eu quem os corrompe. digam Ânito e tu mesmo que sim ou não. responde. responde: que os faz melhores? MELETO: — As leis. Não julgas de suprema importância que os jovens consigam se tornar os melhores possíveis? MELETO: — Julgo. Mas. Meleto. nunca se preocupou. de não crer nos deuses nos quais a cidade crê e também de praticar cultos religiosos extravagantes". E procurarei provar-vos que isso é a pura verdade. SÓCRATES: — Dize. Indagai quanto quiserdes. conforme afirmas. ou faço isto sem querer? MELETO: — Afirmo que é por querer. que somente um os torne melhores. Indago-te qual é o homem que. também estes. aqueles que são peritos em cavalos. e eu digo. analisemos também o ato de acusação deste. agora ou depois. e que os demais se sirvam dos cavalos e os mutilem? E não acontece assim. Defesa Contra Meleto No que diz respeito aos meus primeiros acusadores. Seria uma grande felicidade para os jovens se correspondesse à verdade que somente um Ihes causa danos e todos os outros os educam e melhoram. ó Meleto.outra prova de que digo a verdade. o que mais convém. Também a lei deseja que respondas. Declarou mais ou menos isto: "Sócrates é réu de corromper os jovens. e dos acusadores que virão depois. em primeiro lugar. com os cavalos e com todos os seres vivos? Com certeza é assim. meu amigo.

que pensas conhecer melhor do que eu que os maus sempre causam algum mal. De outra forma.SÓCRATES: — Quer dizer. e que os bons façam o bem. não posso ser culpado disso. se afirmas que existem demônios. Meleto. que o estou ridicularizando e me contradigo? Ou conseguirei enganá-lo e a todos aqueles que me ouvem?" Com efeito. não mais farei o que fazia sem querer. da mesma maneira que os outros homens. que a . não corrompo os jovens. tudo isto se me afigura desaforado e atrevido. Apesar disso. conforme dizes. recordai-vos de não me interromper se continuo a raciocinar à minha maneira. embora tenhas sido obrigado pelos juizes. se estes demônios são deuses. Há quem não acredite na existência de cavalos. e é claro que. meu bom Meleto. e naquilo que afirmas. e não censurados. tanto para mim como para estes juizes. é por causa disso que me trazes a este tribunal. por faltas involuntárias. E vós. se os corrompo. exceto que haja sido para pôr-me à prova. Meleto. dize-nos. porque não consigo compreender a quais deuses eu ensino que os jovens devem acreditar. E não consideramos estes demônios filhos dos deuses? MELETO: — Logicamente. uma vez que digo existirem demônios. Existe alguém. então. SÓCRATES: — Ó excelente Meleto! Por que dizes que não acredito. se estes demônios são filhos dos deuses. mas também de acreditar nos deuses". mesmo se fraco de intelecto. ó juizes. a ti e aos outros que aqui se encontram. SÓCRATES: — Pensas. eu corrompo a juventude? Não o faço. e que eu ignore essas coisas a ponto de não saber que se se torna mau a um deles corre-se o risco de receber algo mau dele e que. SÓCRATES: — Quanta satisfação me proporcionou tua resposta. quem poderá pensar que existam filhos de deuses e de deuses não? Seria disparate igual se pensasse que os mulos fossem filhos de jumentos e cavalos e que estes últimos não existissem. e não criai tanta agitação por causa de uma palavra. ó Meleto. tua sabedoria sendo maior que a minha. não existe lei alguma que poisa me obrigar a vir até aqui. ó Meleto. aquele grande sábio. Se eu os corrompo sem querer. parece-me que Meleto se contradiz na acusação. devo obrigatoriamente crer em demônios. ó Meleto. Parece-me que aceitas. Responde. tendo eu os anos que tenho. pois se naqueles que acredito são deuses. e quem escreveu esta acusação foi desaforado e a escreveu por atrevimento e desrespeito juvenil. mas sim que faça com que seja afastado. pensas de fato que eu não acredite em deus algum? MELETO: — Em nenhum. que acredite na existência de fatos humanos e não em homens? Fazei com que responda. são também filhos bastardos gerados por ninfas ou outras mães. mas não em demônios? MELETO: — É completamente impossível. E isto significa desejo de se divertir. que o sol e a lua sejam deuses? MELETO: — Com certeza. eu mesmo respondo. ensinando-os a não acreditar nos deuses nos quais a cidade acredita. SÓCRATES: — Em nome desses mesmos deuses a respeito dos quais agora falamos. ensinando estas coisas que os corrompo? MELETO: — Sim. Portanto. explica-te com maior clareza. não o quiseste fazer de forma alguma e me trazes aqui. não sou ateu e. principalmente àqueles mais próximos deles. creio que não consegues persuadir nem a ti mesmo. é impossível. se este as apresentasse como suas. Mas responde ao menos à pergunta seguinte: existe quem possa acreditar em coisas demoníacas. a fim de advertir-me ou censurar-me. eu digo exatamente isto. mas em outras divindades novas? Não é. Por isso. no caso de saber disso. não é assim? Com certeza é assim. embora as leis estabeleçam que aqui sejam trazidos somente os que devem ser castigados. como se declarasse: "Sócrates é réu de não acreditar nos deuses. de que maneira. ou. com certeza. Ou seja. SÓCRATES: — Ninguém acredita em ti. já que não contestas. por que são outros ou por que afirmas que não acredito de maneira alguma nos deuses e ensino isto aos jovens? MELETO: — Eu afirmo que não acreditas de maneira alguma nos deuses. afirmo a sua existência. uma vez advertido. ainda mais sendo tão extravagantes? Por Zeus. de acordo com tua opinião. Na verdade. ó atenienses. embora não acreditando na existência dos deuses. se não queres responder. Nem acredito que possas persuadir a ninguém. e sim outros. ou é necessário dizer que não sabias do que me acusar? Mas que consiga convencer quem quer que seja. cidadãos de Atenas. é isto que afirmas e que juraste no teu ato de acusação. por conseguinte. ó Meleto. é neste ponto que eu digo que fazes enigmas e brincadeiras. É como se alguém desejasse por-me à prova compondo uma espécie de enigma: "Dar-se-á conta Sócrates. Ó atenienses. mas sim nas coisas relativas a cavalos? E que não acredite na existência de flautistas. acusas-me de acreditar em coisas demoníacas e de ensiná-las. analisai comigo de que maneira creio que ele se contradiz. SÓCRATES: — Ora. em acusar também Anaxágoras? E tens em tão pouca estima e reputas tão ignorantes nas letras a estes juizes. na tua idade. que tenhas escrito contra mim uma acusação como esta. ó atenienses. Meleto Acusa Sócrates de Ateísmo e se Contradiz Neste momento. como já vos exortei no começo. faço-o sem querer. então. a ponto de não saberem que os livros de Anaxágoras de Clazomena estão repletos destes ensinamentos? E por que motivo os jovens iriam aprender de mim estas coisas que por uma simples dracma podem comprar na ágora e zombarem de Sócrates. mas sim que existam sons de flauta? Não ha ninguém. como afirma com clareza a acusação que apresentaste contra mim. quando declaras que eu. ó Meleto. Mas se acredito em coisas demoníacas. é bastante evidente aquilo que eu afirmava: que Meleto nunca se preocupou com essas coisas. eu me empenhe em torná-los maus? Não me persuadirás disto. mesmo que não sejam os da cidade. de maneira que em ambos os casos mentes. Tens evitado encontrar-te comigo e advertir-me. pois afirma que o sol é uma pedra e a lua é feita de terra.

não pretendemos dar. mas sim este ódio. ao passo que em Potidéia. receando muito mais viver miseravelmente sem vingar o amigo. mas o interrogaria. teriam sido néscios todos os heróis que morreram em Tróia. Declaro-vos. repito. agora. porque. tu. que a mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar nem em demônios. existiriam então motivos para trazer-me aqui no tribunal como sendo um desumano que não cresse nos deuses. recear a morte não passa de julgar ser sábio e não sê-lo. jovens e velhos. aqui. também morrerás'. tivesse desertado do posto a mim designado pelo deus. quando sua mãe. a fim de que ela . arriscando minha vida. por temor à morte ou a outra desgraça semelhante. cidadão da maior cidade e mais célebre por sabedoria e poder. morrerás". aí. tamanho desdém mostrou pelo perigo. as infames. e também com vós. que és o melhor dos homens. contra a vontade de Ânito que. considerando ser aquele seu lugar mais honroso. ó cidadãos. não te envergonhas de haveres exercido tal atividade. da verdade e da tua alma. que um profundo ódio ergueu-se contra mim. de que não deveis vos preocupar nem com o corpo. que. ó atenienses. Seria algo. como qualquer outro. eu vos responderia: "Ó atenienses. nem em deuses. desde o começo. atenienses. à exceção de na desonra e na vergonha. acompanhando este teu raciocínio. e a quem quer que eu encontrasse de vós. e declarou: 'Rapidamente eu morra. nem que para isso me torne objeto de desprezo'. e enquanto for capaz. com este meu caminhar não faço outra coisa a não ser convencer-vos. que como não sei nada de preciso a respeito das coisas do Hades. em qualquer ocasião. Em verdade. acredito. já que desobedece ao oráculo. o impugnaria. seja homem. sem te preocupar em cuidar da inteligência. isto é impossível. para que se tornem tão boas quanto possível?" E se algum de vós retrucasse que cuida de fato delas. mas obedecerei primeiro ao deus do que a vós. seja deus. ao receber ordens do deus. a mais vergonhosa das ignorâncias. vós sabeis. conversando da minha maneira habitual. e se fores surpreendido a praticar ainda estas coisas. que agora coloca em risco tua vida?" Eu responderia a este: "Não falas bem se pensas que alguém. Algum de vós poderia talvez altercar-me: "Sócrates. creio. me dissésseis: "Ó Sócrates. isto é o bastante para demonstrar que não sou culpado das acusações de Meleto. sem se envergonhar. ó atenienses. somente por isto o diria. mesmo sendo pequeno. e se me atrevesse a dizer que em alguma coisa sou mais sábio que os outros. Obedecer ao Deus Permanecer no Lugar Adequado.mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar em coisas divinas e. atenienses. pois não se faz necessária uma defesa muito longa. ou onde tenha sido instalado por quem ordena. se consigo safar-me da condenação. de outra forma. seus filhos prosseguindo a praticar os ensinamentos de Sócrates. dizia. Chega. como dizia. atenção a Ânito e deixamos-te livre. eu o envergonharia demonstrando-lhe que considera infames as coisas mais estimáveis e de valor. contudo. pela qual deveria viver filosofando e dedicando-me a conhecer a mim mesmo e aos outros. uma vez aqui trazido. e enquanto tiver ânimo. disse-lhe. e o mais néscio de todos seria o filho de Tétis que. Com efeito. logo após ter castigado a quem matou. desde que não empregues mais teu tempo nessas pesquisas. Por outro lado. daquele momento em diante. o analisaria. O que eu vos disse. ateniense. é verdade. nunca acontecerá que eu fuja diante daqueles de que não sei se por acaso não são bens. eu vos amo. nem em heróis. desde o início. isto bem sei que é coisa vergonhosa e indecente. e se algo me causará dano. Portanto. ninguém sabe se. Acreditas que Aquiles tenha pensado na morte e no perigo?" É assim que deve ser. ao ouvir este raciocínio de Ânito. acreditar saber o que não se sabe? Ora. é ordem do deus e estou convencido de que haja para vós maior bem na cidade do que esta minha obediência ao deus. se bem me lembro: 'Ó filho. por acaso. se vingares a morte do teu companheiro Pátroclo e matares Heitor. receiam-na como se soubessem que ela é a maior das desgraças. vós não desconheceis. E não é ignorância. estariam inapelavelmente perdidos e corrompidos. nem te ocupes mais de filosofia. mesmo que me concedesses a liberdade. deve ficar e enfrentar os riscos e não pensar na morte. se. ao contrário. Aquiles negligenciou o perigo e a morte. não pararei de filosofar. ao menos conforme pude ouvir e interpretar essa mesma ordem. em verdade. Pessoas estas que já causaram a perda de tantos outros e valorosos homens. de fato. esta calúnia e esta raiva das pessoas. A Missão Divina Fazer o Que é Justo. com esta condição me deixásseis em liberdade. dado que significa pensar saber aquilo que não se sabe. receia a morte e julga ser sábio sem sê-lo. Por isso. não te envergonhes de pensar em acumular o máximo de riquezas. e se me afigurasse que não possui virtude mas apenas afirma possuí-la. não será nem Meleto nem Ânito. que me sois mais estritamente próximos. ou. deva calcular os riscos de vida ou de morte e não deva olhar o injusto e se pratica as ações de homem honesto e corajoso ou de infame e mau. que meu comportamento seria anormal e excêntrico se. estando ele ávido do sangue de Heitor. tendo a capacidade de fazer algum bem. fama e honras. e vindo de muitas pessoas. atenienses ou estrangeiros. também nada penso saber a esse respeito. nem com qualquer outra coisa antes e mais que com a alma. Mas ser injusto e desobedecer a quem é melhor que nós. anormal e. digo. não havendo perigo que causem somente a minha perda. quando os comandantes que vós elegestes me designaram uma posição. ela não seja o maior de todos os bens que podem ser dados ao homem e. que onde alguém se haja instalado. nem em outra desgraça qualquer. nem com as riquezas. uma deusa. Ao ouvir tais palavras. Isto. não o deixaria afastar-se nem iria embora. outros ainda irão perder. acredito distinguir-me por este motivo e precisamente neste ponto da maior parte dos homens. lá fiquei. E agiria assim com qualquer um que eu quisesse: jovens ou velhos. E. assim diria: "E tu. se. não pararei de estimular-vos e censurar-vos. declarava não ser necessário que eu viesse até este tribunal. como ocorre diante dos males que sei que são nefastos. Anfípolis e Délio. e. que era impossível não condenar-me à morte.

ou não dareis. mas se alguém afirma que falo diferentemente e não deste modo. aponta no ato da acusação. E naquela ocasião. nunca paro de exortar-vos. É como uma voz que possuo dentro de mim desde criança. um por um. me poreis a salvo. de falar-vos. e votei contra. os Trinta mandaram-me chamar. e nunca me convence a realizar qualquer outra coisa. ó cidadãos. e tente impedir que muitas vezes se cometam injustiças as leis na cidade. talvez. então me falte coragem. depois que surgiu a oligarquia. que. aqueles dez capitães que não haviam recolhidos os náufragos e os mortos depois da batalha naval das Arginusas. Repugnância e Abstenção Socrática da Política Comum É possível que pareça estranho eu me encontrar sempre próximo e me dar tanto ao trabalho de fornecer conselhos a este ou àquele em particular. e vós a intigá-los e a gritar. e é também preciso que aquele que luta em defesa do que é justo. permiti que vos diga. estando a vosso lado. de maneira alguma estou falando em minha defesa. E o motivo disso me haveis ouvido dizer várias vezes e em vários lugares. Poderá sim. A mim não causarão dano nem Meleto nem Ânito. e sim com fatos. E nem o poderiam. Não promoveis algazarra. levaram-nos à sala do Tolo e ordenaram que retirássemos de Salamina o Leon de Salamina. mas pelo seu próprio tamanho. lembrai-vos de meu pedido de que não causásseis balbúrdia diante do que eu dissesse. e que. além de não ceder. Daquilo que afirmo eu mesmo posso oferecer-vos provas cabais. justamente no dia em que era o vosso desejo julgar em conjunto. Assim parece-me que o deus me colocou aos flancos da cidade. não me causareis maior dano que podeis causar a vós mesmos. de convencer-vos. às quais. também Meleto. E se for eu mesmo a pessoa indicada pelo deus para presentear a cidade. que outro como eu não nascerá facilmente. um pouco lerdo e necessitado de estímulo. a respeito do qual. me ocupado dos negócios de Estado. penso que seja um mal bem mais grave aquele que é cometido por esses que tentam condenar à morte um homem inocente. Sabeis perfeitamente. cuidando das vossas. Falarei um pouco grosseiramente. se de fato pretende escapar da morte. ó atenienses. Mas se estais irritados comigo como o que está em vias de adormecer com quem o desperta. Os oradores habituais já estavam prontos para suspender-me da função e aprisionar-me. ó atenienses. Não penso que seja possível que um homem de bem receba o mal de um malvado. Ânito. que se eu tivesse. ó cidadãos. erguereis a voz. creio que vos será útil escutar. e depois. estou pronto a morrer. para que este viesse a morrer. não encontrarão facilmente um outro igual a mim. e de que das riquezas não se origina a virtude. isto significará que minhas palavras são nocivas. de que nunca exerci em nossa cidade magistratura alguma. então diz coisas insensatas. e em seguida acolhestes todos ao meu parecer. de qualquer forma. aí sim haveria uma razão. condenar-me-eis à morte.se torne excelente e muito virtuosa. condenando-me à morte. que me acusaram tão despudoradamente de tantas outras culpas. a mim que sou como vos disse. lutando para que nada fosse feito contra a lei. contra o dom do deus. mas do que mais necessitais: fatos. Mais tarde. e sempre. mesmo que não só uma. se. Convencei-vos: se me condenardes à morte. Não existe homem que possa se salvar ao opor-se com sinceridade. não o creio eu. tanto para os cidadãos individualmente como para o Estado. não com palavras. Por tudo isso. para convencer-vos a buscar a virtude. não fazei assim. se a palavra não soar por demais vulgar. um ferrão. pondo-me frente a frente com uma testemunha. pois. e golpeais como a matar um inseto inoportuno. E davam ordens semelhantes a vários outros homens. não riam da comparação. em todo lugar. somente uma. mas de não cometer injustiças ou . Restam-me algumas outras coisas a dizer-vos. pois é a verdade. demonstrei que a morte. está certo. Não.Então eu me opus. espoliar-me dos direitos civis. Logo. mas vistes que meus detratores. Se ao falar desta maneira corrompo os jovens. não possui importância alguma para mim. julguei que era meu dver correr aquele risco mantendo-me ao lado do direito e do justo em vez de apoiar-vos e deliberar o injusto por temer a prisão e a morte. Tendes conhecimento. mas da virtude se originam as riquezas e todas as outras coisas que são venturas para os homens. e que. na tentativa de envolver em seus atos cruéis o maior número de pessoas possível. Que se desta vida tirasse algum proveito e se pelos conselhos que dou recebesse alguma compensação. Escutai o que me sucedeu e vereis então que diante do que é justo não sou homem de ceder a ninguém por temor à morte. se o deus não vos mandar algum outro para substituir-me. dormireis tranqüilamente. teria sido morto também num curto espaço de tempo e não teria realizado nada de útil. no decorrer de todo o resto de vossa existência. sempre faz com que eu desista do que estou para fazer. mas que vos limitásseis a ouvir. e a mais outros quatros. mas a qualquer outra multidão. ou ao desterro. mas. que não necessitais pecar. estando por perto como estaria um pai ou irmão mais velho. que provasse ter eu recebido uma única vez compensação ou de havê-la solicitado. ao se tratar de aconselhar a cidade e de ir à tribuna para falar ao povo. ó cidadãos. tende a certeza de que nunca agirei de outra maneira que esta. mas muito mais vezes devesse morrer. E a prova cabal de que é verdade o que vos declaro. como fazem alguns dos freqüentadores dos tribunais. por algum tempo. mesmo que por breve tempo. tudo em que este homem crer e outros crerem serão grandes males. que existe em mim não sei que espírito divino e demoníaco. toda vez que eu a ouço. mas com sinceridade. exceto uma vez em que fiz parte do Conselho. E não me desprezei se falo assim. ao contrário. nem por vós nem por mim. e parece-me que faz muito bem em agir dessa forma. ao arrepio da lei. e não palavras. tenha sido colocado de fato pelo deus aos flancos da cidade como aos flancos de um cavalo grande e de boa raça. Pois se me matardes. E isto ocorreu quando a cidade ainda era regida por uma democracia. absolver-me-eis ou não. não digo a vós. e se desejais me ouvir. eu dou: a minha pobreza. mas falo por vós. podereis me reconhecer por isso: que não parece humano que haja descuidado todos os meus negócios e ainda agüentar por tantos anos que tenham sido descuidadas as coisas da minha casa. de viver de forma privada e não exercer funções públicas. por obediência a Ânito. desta não tiveram o despudor de me acusar. como alguém poderia achar. É essa voz que me impede de me ocupar das coisas do Estado. Afirmo. com jeito de estar se divertindo. ó cidadãos atenienses: ou dareis ouvidos a Ânito. Ademais. condenar-me à morte.

embora. nem para provar que sou corajoso diante da mote. esteja arriscando a vida . Talvez esses. Ao fazer isso. se aquele governo não tivesse sido deposto logo em seguida. meu dever mais alto? Com certeza. que enviassem hoje para cá as pessoas de sua família. cumpro as ordens do deus. são estas. se os que lhe são caro sofreram algum mal por mim causado. e aí está Parálio. ao pensar em si mesmo. A uma pessoa assim. cedo-lhe o lugar. cujos irmãos viveram comigo familiarmente. um homem que diante do justo nunca cedeu a quem quer que fosse. ó cidadãos. e aqui caberia aquele dito de Homero: 'Que não de carvalho. que os apresente agora. não existe homem que o tivesse conseguido! Em verdade. Nunca fui mestre de quem. mas pela minha reputação. E estas coisas. todos falarão a favor do corruptor. quem quer que me indague e deseje ouvir as minhas respostas. desta forma.e ainda Antífon de Cefísia. filho de Demódoco. se entre os homens que me freqüentam. eu os vejo. fico calado. e também Lisânias de Esfeto. os corrompidos. ó atenienses. se procedessem dessa maneira. não me pareceu honroso agir dessa maneira. e que me fizessem pagar por isso. apesar de prepotente. Ora. deseja escutar-me. ou por outra virtude qualquer. mas aqueles que não foram corrompidos. porque corre pela cidade que. nunca me refutaram. de quem temos aqui o irmão Apolodoro. não afirmo categoricamente que há. não me obrigou a cometer um ato injusto. possa irritar-se comigo se. e por outros meios de que se serve a providência divina para ordenar ao homem que faça alguma coisa. em defesa daquele que causa o mal de seus familiares. E conseguiria indicar vários outros que Meleto poderia apresentar como testemunhas na sua acusação. e ali estão outros. irmãos. E disto que relatei possuo muitas testemunhas. se existe alguma testemunha deste tipo. filho de Teozótides. com seu filho Ésquino. como privadamente. seja velho. porque estou da mesma maneira à disposição de todos. e Aantodoro. tivesse lutado em defesa da justiça e tivesse considerado esta defesa. Ali está Críton. que talvez esteja entre vós. O Testemunho dos Discípulos. Eu também possuo família. pais. algum dia. não é desagradável. filho de Aríston. e algumas mais. Muitos destes estão presentes. Por conseguinte. meu contemporâneo e conterrâneo com sei filho Critóbulo. e como Teódoto faleceu. pela vossa e de toda a cidade. e outros. Porém. enfim. ao envelhecerem. que outra razão podem ter para me defender exceto esta. e ali Adimanto. nas poucas vezes que me ocupei de coisas públicas. alguma coisa que todos os outros não tenham aprendido ou ouvido. são verdadeiras e demonstráveis. Sócrates se distingue da maioria dos homens. ó atenienses. não será justo que eu receba elogios ou impropérios. já que não prometi ensinamento algum a ninguém. quer que seja. e. se recebo dinheiro. sempre fui o mesmo. seja jovem. E poderia nomear muitos outros. Diante disso. pobres e ricos. que se manifeste. nem por desprezo. tanto em público. não poderá falar com o irmão a meu favor. como afirmam Meleto e Ânito. um se torne de boa formação moral ou não. em particular. Se de fato eu corrompo os jovens. como é necessário.crueldades. eu falo e se não recebo. quando saímos do Tolo e os outros quatro se dirigiram para Salamina a fim de retirar Leon. pai de Epígeno. vereis que todos farão o contrário. tenhais a certeza de que este não diz a verdade. seria vergonhoso. deixei-os ir e voltei para casa.Sócrates não quer Misericórdia Cidadãos. nem nunca ensinei coisa alguma.de quem era irmão Teages. enraivecido com minha atitude. eu já teria morrido. principalmente se é uma pessoa que . E se há quem diga que aprendeu ou ouviu alguma coisa de mm. tenho três filhos. tenham alguma razão para me defender. quando falo ou atendo àquilo que acredito ser meu ofício. de quem ali se encontra o irmão Platão. um já crescido e dois ainda crianças. de seus Pais e Irmãos Credes que eu teria vivido por tantos anos se houvesse me ocupado de assuntos públicos e. quando eram réus em um processo. repito-vos. são bem poucos diferentes destas. que eu disse toda a verdade: têm prazer de ouvir-me quando submeto à prova aqueles que pensam serem sábios e não o são. mas não os trouxe aqui para despertar vossa misericórdia e absolver-me".É possível que alguém. tomassem consciência de que quando eram jovens eu os aconselhei a praticar o mal. não me atemorizou. mas de criaturas humanas'. se aquele que entre vós possuem fama de se distinguirem pela sabedoria e coragem. que são agora anciãos. se não quisessem fazê-lo diretamente. e. atenienses. e que viessem à tribuna para acusar-me e para exigir minha punição. E não é por orgulho que me comporto assim. emita seu voto com raiva. verdadeiro ou falso que seja. além disso. ainda mais na minha idade e com o meu nome. suplicou clemência aos juizes. seria ainda necessário que estes. ao ter de enfrentar um processo menos arriscado do que este. dadas por intermédios de vaticínios e sonhos.E aquele governo. e não é verdade que. fazendo-o como homem de bem. Acredito que só por causa disso. poderei responder da seguinte maneira: "Meu estimado amigo. em toda minha existência. nem de pedra nasci. Com efeito. irmão de Teódoto. e pessoas desse tipo. em quaisquer aspectos. porém. . que é verdadeira e justa: a certeza de que Meleto mente e eu digo a verdade? Epílogo . como é possível que a alguns agrade estar comigo tanto tempo? Vós ouvistes. eu também trouxe alguém da minha família. e. a ninguém. ao fazer intimamente esta comparação. atenienses. embora possuíssem alguma boa . É possível que alguém entre vós. as razões que posso apresentar em minha defesa. Nicóstrato. se deixe influenciar pelo amor-próprio ferido e. ao que parece. eu mesmo presenciei muitas vezes. trouxe ao tribunal os filhos e vários de seus parentes e amigos. ao passo que eu não me porto desta maneira. isto sim me importa acima de qualquer coisa. se já corrompi algum. que. e nem mesmo àqueles que os caluniadores chamam de meus discípulos. se ele se esqueceu disso.

de acordo com o direito. Contudo. Estes. Acredito nos deuses mais do que qualquer um dos meus acusadores. e não só haver escapado delas. mas algo bastante diferente. talvez seja precisamente esta pena que desejastes para mim. têm atitudes excepcionais. com cavalo. e sim em mais. eu que sou acusado por Meleto. E acredito que se houvesse leis entre nós. o de terem votado pela minha condenação. Porque sei muito . tivemos muito pouco tempo para nos entendermos. como as que há entre outros povos. seria culpado de não crer nos deuses. como se achassem que iriam sofrer sabe-se lá que tortura se devessem morrer e como se tornassem imortais se não fossem condenados à morte por vós. tenham conseguido triunfos nos Jogos Olímpicos. porque não possuo dinheiro para pagá-la. Pedirei o exílio? Sim. não é isso. E também pensa em prejudicar a mm mesmo ao declarar que sou merecedor da pena e pedir que esta pena seja aplicada a mim. cargos militares e políticos e todas as outras magistraturas. ó atenienses. procurásseis ser os melhores e mais sensatos possível. a serviço da eterna magistratura dos Onze? Uma pena em dinheiro e permanecer enjaulado enquanto não for paga? Mas é exatamente a mesma coisa que a anterior. penso haver escapado das mãos de Meleto. O que. no entanto. pois sempre me considerei por demais honesto para conseguir salvar-me se me dedicasse a tais coisas e convencido de que não teria sido útil nem para mm nem para vós. de impiedade. que excelente vida seria a minha. e as agitações e conspirações que acontecem nas cidades. envergonham a toda a cidade. e que vos esforçásseis ao máximo para trabalhar em prol da cidade. peço se alimentado no Pritaneu. E é justamente o contrário que sucede. Não considero justo. tentando convencer-vos de que. perseguido em todos os lugares. aquilo a que faço jus. pois acreditava que seria condenado por muito mais votos. E eu. com o que acaba de ocorrer. que eu cometesse diante de vós atos que reputo desonestos. não nos portamos dessa maneira é o que compete a nós. Que mereço por sempre haver agido desta forma? Algum grande bem. desta acusação. não é fácil livrar-se em tão breve espaço de tempo de acusações tão graves. injustos e vis. interesses particulares. e eu menos ainda. que enquanto vós. mediante súplicas. que minha companhia foi tão desagradável que procuras agora livrar-vos dela. ao longo da minha existência. eu teria de estar imbuído de uma bem ingênua vontade de viver se fosse assim tão irracional a ponto de não poder nem mesmo fazer este raciocínio. Por isso. Os juízes não se encontram aqui para favorecer o justo. mas sim mostrar a todos que julgais com maior rigor quem encena esses dramas lastimosos e cobre a cidade de ridículo do que quem suporta com serenidade o próprio destino. estaríeis convencidos. mudando sempre de país para país. mas para julgar o justo. Não. ó cidadãos. em verdade. Segunda Parte . não fostes capazes de agüentar minha companhia e os meus discursos. então. mas sim infomá-los e convencê-los. devo pedir. e por ter desprezado aquilo que atrai a maioria. ó atenienses. tentar influir nos juízes e. e. Porque estes vos proporcionam felicidade. Portanto. eu vos ensinaria que. livrar-me da condenação. e ao do deus. o que aprendi. Nem vos conviria. nem juraram que favorecerão a quem lhes paga. que pena apresentarei em oposição à vossa. por meio de súplicas procurasse convencer-vos e obrigar-vos a violar o juramento. Que será apropriado para um pobre benfeitor que precisa de tempo para aconselhar-vos nos vossos assuntos? O que mais seria conveniente a esse homem. ó atenienses? Não é evidente que seja a mesma que me foi imposta? Qual será então? Que pena merecerei ou que multa. então. ó cidadãos. não é necessário que vos habitueis a isso. Este homem. nesta idade. e também a mim. pensa que mereço a pena capital. riquezas. e não precisam ser sustentados como eu precioso. talvez julgais notar quase o mesmo sentimento de ofensivo orgulho que acreditáveis ter percebido quando falava a respeito de suplicar e despertar comiseração. que temos fama de sermos ainda alguma coisa. tanto que qualquer forasteiro poderia imaginar que aqueles atenienses que se distinguem por sua virtude e que seus concidadãos elegem à magistratura e outras honras não são em nada melhores que as mulheres. que outros a agüentariam de bom grado? E ainda. Se. aqui presente. atenienses. ó atenienses. e porque sempre acudi rapidamente aonde quer que eu reputasse poder proporcionar o maior bem a cada um de vós em particular. eu teria sido multado em mil dracmas por não haver conseguido um quinto dos votos. se nos comportássemos assim. Portanto. sim. nem vos nem eu. com apenas mais trinta votos a meu favor teria sido absolvido. se é que devo ser recompensado como mereço.reputação. se Ânito e Lícon não tivessem vindo para me acusar. o que é bastante evidente. isso deve-se. Ao que me parece. exilado. Porque é evidente que se eu. e mais. biga ou quadriga. mesmo assim. e deixo a vosso critério. e não por tão poucos. Não iríeis querer então. por não haver usufruído em paz. ó atenienses. e mesmo assim não logrei convencer-vos. deixar-nos fazê-lo. entre outras razões. embora sendo meus concidadãos. não faremos coisas boas e piedosas. mesmo nestas minhas palavras de agora. julgar o que será para vós e para mim o melhor. Penso nunca haver prejudicado ninguém por querer. E por temer o que eu deveria agir dessa forma? Talvez por temer sofrer aquilo que Meleto exige para mim e que eu declaro não saber se é bom ou mau? E em troca desta pena devo escolher outra entre aquelas que eu sei serem más? Deverei solicitar a prisão? E por que motivo deverei viver preso. mas que farão justiça de acordo com as leis. ao fato de não haver sido apanhado de surpresa.A Pena Do Esperado da Pena Se eu não estou abalado. mas. Porém. que proíbem que uma pena de morte seja aplicada em apenas um dia. atenienses não seria mantê-lo no Pritaneu com muito maior razão do que aqueles que. antes de qualquer coisa e de vós mesmos. me causa mais estranheza é o grande número de votos favoráveis a mm .

tampouco me pesa agora da maneira por que me defendi. matando homens. lamentos e gemidos. eu vo-lo asseguro. Se imaginais que. ficai comigo mais um pouco. ágeis e velozes. que o castigo os vos alcançará logo após a minha morte e será. estais enganados. como o maior dos males. eis-me chegado àquele momento em que os homens vaticinam melhor. Se vos dissesse que esse é o maior bem para o homem. Por conseguinte. vamos partir. Não dirijo essas palavras a todos vós. porque muito mais difícil é escapar à maldade.bem que aonde quer que eu vá. sim. se vos dissesse que significaria desobedecer ao deus e que. ao sair de casa. mas o resultado será inteiramente oposto. como a amigos. atenienses. por conseguinte. os que vos quiserem censurar. . enm é inteiramente eficaz nem honrosa. preparar-se para ser o melhor possível. aqueles que desejarem injuriar a cidade vos impingirão a fama e a acusação de terdes matado Sócrates. multo-me em uma mina de prata. que eles mesmos garantirão. quando eu ia cometer um erro. de fato. Acerca do futuro. nas batalhas. Não se tenha por difícil escapar à morte. a da divindade. senhores. Porque. se vos dissesse isto. senhores. porém é difícil convencer-vos. se antes achei que o perigo não justificava indignidade alguma. mas de atrevimento e descaramento. Critóbulo e Apolodoro querem que eu me multe em trinta minas. Poderei pagar-vos apenas uma mina de prata. é isto que vos digo. Mas vedes. serão estes mesmos que me farão perseguir. quando estão para morrer. não poderias viver após ter saído de Atenas?" Isso seria simplesmente impossível. e. não teria me infligido mal algum. Contudo. a própria natureza satisfaria o vosso desejo. homens que me mandais matar. Por outro lado. mas aos que votaram pela minha morte. não estou habituado a considerar-me merecedor de mal algum. não de discursos. ó Sócrates. fomos apanhados. em vez de tapar a boca dos outros. condenados pela verdade a seu pecado e a seu crime. Aos que o Absolveram Com os que votaram pela absolvição. se na minha opinião se devesse tudo fazer e dizer para escapar à justiça. muitas vezes se pode escapar à morte arrojando as armas e suplicando piedade aos perseguidores. Quer no tribunal. Se eu possuísse dinheiro. os jovens acorrerão a fim de me ouvir. Bem sabeis a minha idade. o sentido exato de que me aconteceu agora. chamar-me-ão de sábio. Quero explicar-vos. mas a advertência divina não se me opôs de manhã. serei perseguido por seus pais e demais parentes. acreditar-me-iam menos ainda. e se não os repelir. enquanto os magistrados estão ocupados e antes de ir para onde devo morrer. A usual inspiração. porque. Sim. ó atenienses. no entanto. apesar de que eu não o seja. quero fazer-vos um vaticínio. em cada perigo. Engano! Perdi-me por falta. exceto se desejeis multar-me de uma quantia que eu tenha a possibilidade de pagar. adito o seguinte: talvez imagineis. Terceira Parte . tem muitos outros meios de escapar à morte quem ousa tudo fazer e dizer. O que me ocorreu senhores juízes. é evidente que. ó atenienses. sempre foi rigorosamente assídua em opor-se a ações mínimas. assim. agora. um sábio. e que uma vida desprovida de tais análises não é digna de ser vivida. tais como costumais ouvir dos outros. tinha de ser assim e penso que não houve excessos. é a mais honrosa e mais fácil. acaba de me ocorrer o que vós estais vendo. a vós é que chamo com tino de juízes. Portanto. foi algo prodigioso. Mas não possuo dinheiro e não posso fazer isso. e há quem o faça. ela corre mais ligeira que a morte. muito mais folgo em morrer após a defesa que fiz. eu. Eu aceito a pena imposta. por Zeus. Multo-me então em trinta minas.Após a Condenação Aos que Votaram Contra Por não haverdes aguardado mais um pouco. Por certo. e vossa irritação será maior. Eu vos afianço. esta outra. se eu os repelir. essa não é uma forma de libertação. já distante da vida e próxima da morte. evitareis que alguém vos repreenda a má vida. eles serão tanto mais importunos quanto são mais jovens. meditar todos os dias sobre a virtude e acerca dos outros assuntos que me ouvistes discutindo e analisando a meu respeito e dos demais. Serão mais numerosos os que vos pedirão contas. serão garantes dessa quantia. que me perdi por falta de discursos com que vos poderia persuadir. eu e os meus acusadores. E esses homens. Críton. eles. muito mais duro que a pena capital que me impusestes. eles igualmente. dignos de crédito e confiança. meus condenadores. gostaria de conversar com respeito ao que se acaba de suceder. Se esperásseis mais algum tempo. despeço-me de vós que me condenastes. Com efeito. pela mais ligeira. o que se poderia considerar. Neste momento. Algum de vós talvez pudesse contestar-me: "Em silêncio e quieto. poderia ter-me aplicado uma multa que conseguisse pagar. porém. não deve ninguém lançar mão de todo e qualquer recurso para escapar à morte. Para esses mesmos. não seria possível que eu vivesse em silêncio. nem quando ia dizer alguma coisa. por me recusar a proferir o que mais gostais de ouvir. condenado por vós à morte. não acreditaríeis e pensaríeis que estivesse sendo sarcástico. quer na guerra. eu. do que folgaria em viver após fazê-la daquele outro modo. Ora. até agora eu os continha e vós não os percebíeis. a malvadez. que sou um velho vagaroso. Agora. convencendo os mais velhos. não devo eu. ao contrário. nem enquanto subia aqui para o tribunal. pela mais lenta das duas. Vós o fizestes supondo que vos livraríeis de dar boas contas de vossa vida. Com este vaticínio. como aqui. que Platão. fazendo e dizendo uma porção de coisas que declaro indignas de mm. nada obsta que nos entretenhamos enquanto dispomos de tempo.

se a tradição está certa. em 428 ou 427 a. Se não há nenhuma sensação. exceto para a divindade. a gente vai encontrar os verdadeiros juízes que. toda a duração do tempo se apresenta como nada mais que uma noite. é chegada a hora de partirmos. se isso é verdade. segundo consta. se eu. conversando com eles. trata-se duma mudança. sem ter nenhum.C. A que devo atribuir isso? Vou dizer-vos: é bem possível que seja um bem para mim o que aconteceu e não é forçoso acreditar que a morte seja um mal. Platão nasceu em Atenas. para sujeitar a exame aquele que comandou a imensa expedição contra Tróia. repreendei-os. senhores juízes. como se costuma dizer. livre curso ao seu talento poético. do lugar deste mundo para outro lugar. quantas vezes ela me conteve em meio de outros discursos! Mas hoje não se me opôs vez alguma no decorrer do julgamento. castigai-os. . tanto assim que várias partes de suas obras não têm verdadeira importância e valor filosófico. Quando discípulo de Sócrates e ainda depois. Por isso é que a advertência nada me impediu. mal algum. marido de Pasífae. se é como um sono em que o adormecido nada vê nem sonha. de antiga e nobre prosápia. se a morte é isso. uma emigração da alma. não valeria a pena a viagem? Quanto não daria qualquer de vós para estar na companhia de Orfeu. e meus filhos também. Se. a morte é como a mudança daqui para outro lugar e está certa a tradição de que lá estão todos os mortos. ou.¹ Radamanto. Hesíodo e Homero? Por mm. a que se deu o nome de orfismo. sábio legislador. juiz dos Infernos com Éaco e Triptólemo.mais velho do que ele quarenta anos . passar o tempo examinando e interrogando os de lá como aos de cá. Verdade é que não me acusaram e condenaram com esse modo de pensar. com quem seria uma felicidade indizível estar junto. manifestando-se na expressão estética de seus escritos. se não fosse uma ação boa o que eu estava para praticar. em nenhuma ação ou palavra. senhores juízes. deveis bem esperar da morte e considerar particularmente esta verdade: não há. para o homem bom. Façamos mais esta reflexão: há grande esperança de que isto seja um bem. eu. senhores juízes? Se. bem posso imaginar que. cantava e tocava a lira com tal perfeição que até as feras se aquietavam e vinham deitar-se a seus pés. quando encontrasse Palamedes. se vós. porque. na mocidade. Minos. como vos fiz eu. ao chegar ao Hades. ² Célebre aedo da era pré-homérica. Disso tenho agora uma boa prova. Quanto não se daria. Bem. vós para a vida. Atribuía-se-lhe a invenção da lira e dos rituais mágicos e divinatórios. vejo claramente que era melhor para mim morrer agora e ficar livre de fadigas. entre outros motivos. O meu não é conseqüência do acaso. não me seria desagradável comparar com os deles os meus sofrimentos e. Morrer é uma destas duas coisas: ou o morte é igual a nada. ou Sísifo? Milhares de outros se poderiam nomear. digo que é uma vantagem. que o acompanhou durante a vida toda. lá distribuem a justiça. Ajax de Telamon e outros dos antigos. Logo.e gozou por oito anos do ensinamento e da amizade do mestre. filho de Europa e de Zeus. que tenham morrido por um sentença iníqua. e os deuses não descuidam de seu destino. só tenho um pedido a lhes fazer: quando meus filhos crescerem. eu de modo especial acharia lá um entretenimento maravilhoso. eu terei recebido de vós justiça. quer na morte. o que é mais. não o sendo. quer na vida.manifestação característica e suma do gênio grego deu. eu para a morte. Aos vinte anos. Platão estudou também os maiores présocráticos. por serem imortais pelo resto do tempo. se estiverem supondo ter um valor que não tenham. já não digo um homem comum. porque a usual advertência não poderia deixar de opor-se. a ver quem deles é sábio e quem. se devêssemos identificar uma noite em que estivéssemos dormindo tão profundamente que nem mesmo sonhássemos e. cuida que é. contrapondo a essa as demais noites e dias de nossa vida. mas na suposição de que me causavam dano: nisso merecem censura. sujeitando-os a exame! Os de lá absolutamente não matam por uma razão dessas! Os de lá são mais felizes que os de cá. mas o próprio rei da Pérsia acharia fácil enumerar tal noite entre as outras noites e dias. pensar e dizer quantos dias e noites de nossa existência vivemos melhor e mais agradavelmente do que naquela noite. A Vida e as Obras Diversamente de Sócrates . No entanto. Temperamento artístico e dialético .. Quem segue melhor destino. ¹ Rei lendário de Creta. homens e mulheres. entretanto isto prejudicou sem dúvida a precisão e a ordem do seu pensamento. origem de seitas místicas. Platão travou relação com Sócrates . Se vós assim agirdes. livre dessas pessoas que se intitulam juízes. estou pronto a morrer muitas vezes. atormentai-os com os mesmíssimos tormentos que eu vos infligi. ou Ulisses. por não cuidarem do que devem e por suporem méritos. do outro lado. Platão retirou-se com outros socráticos para junto de Euclides. Triptólemo e outros semideuses que foram justiceiros em vida. em Mégara. Não me insurjo absolutamente contra os que votaram contra mm ou me acusaram. e não sente nenhuma sensação d coisa nenhuma.² Museu. que maravilhosa vantagem seria a morte! Bem posso imaginar que.no entanto. se achardes que eles estejam cuidando mais da riqueza ou de outra coisa que da virtude. então. que era filho do povo. que maior bem haveria que esse. de pais aristocráticos e abastados. Vós também. é segredo para todos. Depois da morte do mestre. assim sendo. Éaco.

porém. Caído. angustioso. Morreu o grande Platão em 348 ou 347 a. que ilumina o primeiro conhecimento. transição espontânea entre o ensinamento oral e fragmentário de Sócrates e o método estritamente didático de Aristóteles. ao contrário. como também Platão. donde pode passar indiferentemente o conhecimento diverso. a paixão contrasta com a razão. intelectualmente. no seu valor. muitos são apócrifos. a terminologia científica que tanto caracterizam os escritos do sábio estagirita.Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico. com oitenta anos de idade. cunhado daquele. erro e mal-posição e distinção que o sentido não pode operar por si mesmo. o saber sensível. ao campo antropológico e moral . Poder-se-ia também dizer que o primeiro sabe que as coisas estão assim. moral. Platão. chegar à contemplação do inteligível. isto é. O conhecimento sensível. imutável.Daí deu início a suas viagens. absoluto. dos jardins de Academo. perto de Colona. tirano de Siracusa e travou amizade profunda com Dion. porém. onde levantou um templo às Musas. embora verdadeiro. Platão como Sócrates. a precisão. em face do mal. na segunda. além de ser um conhecimento verdadeiro. da qual a filosofia . não podendo de modo algum ser substituído por um conhecimento diverso. voltou duas vezes . o conhecimento humano integral fica nitidamente dividido em dois graus: o conhecimento sensível. O conhecimento sensível deve ser superado por um outro conhecimento. A forma dos escritos platônicos é o diálogo. Deve. filosófico. até o tempo do imperador Justiniano (529 d. através da especulação. sabe que o é. ao ensino filosófico e à redação de suas obras. idênticas. precisamente porque é ciência. a Itália meridional. nascer e perecer de todas as coisas. pela viva sensibilidade do filósofo em face do universal vir-a-ser. cair no erro sem o saber. a Sicília. que estão efetivamente presentes no espírito humano. voltou a Atenas. estando. considera Platão o espírito humano peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. pelo ano de 387. Este fim prático realiza-se. A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos da sua vida: desde a morte de Sócrates . e fez um vasto giro pelo mundo para se instruir (390-388). porquanto no conhecimento humano. mas que dele não se pode derivar. Faltam-lhe ainda o rigor. Platão dedicou-se inteiramente à especulação metafísica. não admite que da .à Dion. Em Atenas. o mito e a poesia confundem-se muitas vezes com os elementos puramente racionais do sistema. lógica e formal. para o qual é atraído por um amor nostálgico. e o conhecimento intelectual. Esta veio operar aquela libertação definitiva do cárcere do corpo. particular. até a sua morte. outros de autenticidade duvidosa. Assim. porém. povoado da Ática. Foi assim que o filósofo. o absoluto (do conceito). pois. Arquistas no governo do poderoso estado de Tarento. o método.C. da opinião. a imutabilidade. conceptual. religioso da filosofia. Platão.C. conhecimento das coisas pelas causas. isto é. o sentido se opõe ao intelecto. parte do conhecimento empírico. Platão é o primeiro filósofo antigo de quem possuímos as obras completas. Platão fundava a sua célebre escola. e ainda menos pode o conhecimento sensível explicar o dever ser. onde surgiu. mais ou menos. da desordem que se manifesta em especial no homem. Dos 35 diálogos. O Pensamento: A Gnosiologia Como já em Sócrates. tem o caráter científico. que limitava a pesquisa filosófica. que tem por sua característica a universalidade. da opinião do vulgo e dos sofistas. ao passo que o segundo sabe que as coisas devem estar necessariamente assim como estão. pelo eros platônico. Voltando para Atenas. a toda a realidade. assim em Platão a filosofia tem um fim prático. então. Sócrates estava convencido. isto é. do socratismo ao aristotelismo. racional em geral. que falta a gnosiologia socrática. para chegar ao conhecimento intelectual. onde conheceu Dionísio o Antigo.em 366 e em 361 . os valores de beleza. verdade e bondade. onde teve ocasião de travar relações com os pitagóricos (tal contato será fecundo para o desenvolvimento do seu pensamento). mas julgava. que. no entanto. conceptual. sensível. que se tornou propriedade coletiva da escola e foi por ela conservada durante quase um milênio. universal. errôneo. em Platão é tornado especialmente vivo. interessou-se vivamente pela política e pela filosofia política. transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim. mutável e relativo. não tiveram melhor êxito do que a precedente: a primeira viagem terminou com desterro de Dion. A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos . poder construir indutivamente o conceito da sensação. uma herdade. está nisto: o conhecimento sensível. todavia. o conhecimento conceptual. é a grande ciência que resolve o problema da vida. No fundador da Academia. mutável e relativo. apresentam-se elementos que não se podem explicar mediante a sensação. particular. de que admirou a veneranda antigüidade e estabilidade política. a opinião verdadeira e o conhecimento intelectual. Estas duas viagens políticas a Siracusa. não sabe que o é. Platão foi preso por Dionísio. segundo certa ordem cronológica. Este caráter íntimo. de que o saber intelectual transcende.. A diferença essencial entre o conhecimento sensível. atividade que não foi interrompida a não ser pela morte. e foi libertado por Arquitas e pelos seus amigos. humano. que correm sob o seu nome. não pode explicar o conhecimento intelectual. esperando poder experimentar o seu ideal político e realizar a sua política utopista. foi vendido como escravo. Visitou o Egito. Mas diversamente de Sócrates. após a morte de Dionísio o Antigo. A gnosiologia platônica. ao passo que o segundo. na desgraça do tirano pela sua fraqueza. tomou o nome famoso de Academia. universal e imutável.como lemos no Fédon . onde o corpo é inimigo do espírito.). do conhecimento da ciência. porém. Segundo Platão. ainda que as conclusões sejam.não é senão uma assídua preparação e realização no tempo. Libertado graças a um amigo. sem saber porque o estão.em três grupos principais. como efetivamente. fealdade. Adquiriu. e se distinguem diametralmente de seus opostos. que representa a evolução do pensamento platônico. ao contrário de Sócrates.

isto é. para poder explicar verdadeiramente o conhecimento humano na sua efetiva realidade. dá ao conhecimento racional.que é precisamente o conhecimento adequado à sua natureza inferior. inatos no espírito humano. representações intelectuais. de natureza espiritual. relembrar conforme a lei da associação. melhor. Assim a idéia de homem é o homem abstrato perfeito e universal de que os indivíduos humanos são imitações transitórias e defeituosas. a idéia do Bem. tanto no homem como nos outros seres. Além disso. Entre as idéias e a matéria estão o Demiurgo e as almas. Deste mundo material e contigente. Todas as idéias existem num mundo separado. situado na esfera celeste. para ser verdadeiramente tal. que são os conceitos. a ordem e a harmonia. não há ciência. negar a existência do fieri. e estas contrapõe-se a matéria obscura e incriada. conceptual.no dizer de Platão . racional . Deve. ontológica) esclarecer. caído no mundo material como que por uma espécie de queda original. começa e progride . um conhecimento sensível verdadeiro . material. em geral. o mundo dos inteligíveis. Portanto. pois. Desta personalidade e atividade criadora . Pode haver conhecimento apenas do mundo imaterial e racional das idéias pela sua natureza superior. um objeto adequado ao conhecimento conceptual. A Metafísica . de que este nosso mundo imperfeito participa e a que aspira. quer dizer. é a realidade suprema. são realidades objetivas. A certeza da sua existência funda-a Platão na necessidade de salvar o valor objetivo dos nossos conhecimentos e na importância de explicar os atributos do ente de Parmênides . dá ao conhecimento empírico. imutáveis. donde têm de ser oportunamente tirados. com ele. inteligível. deveria representar o verdadeiro Deus platônico. Deve portanto. transferidos da ordem lógica à ontológica. do outro. No entanto. no sistema platônico. E. Platão aprofunda-lhe a teoria e procura determinar a relação entre o conceito e a realidade fazendo deste problema o ponto de partida da sua filosofia. uma base real.se possa de algum modo tirar o conceito universal. o dever ser.sensação . deveria ser. anima toda a realidade. Esse conhecimento.As Idéias O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias. de cujo modelo se serve para ordenar a matéria e transformar o caos em cosmos. à qual comunica o movimento e a vida.ou. em que vivemos. diz que os conceitos são a priori. O divino platônico é representado pelo mundo das idéias e especialmente pela idéia do Bem. é inferior às idéias. se impõe ao lado e acima do conhecimento sensível. Assim. de superioridade. que é papel da dialética (lógica real. Este mundo ideal. imutáveis e eternos (Sócrates). todavia. no sentido platônico. pelo contrário. e sim a ocasião para fazê-los reviver. que está no vértice. donde dependem todas as demais idéias. ordenadora . Ora. exagerando. As Almas A alma. como as concebiam Heráclito e os sofistas .opinião verdadeira . a alma humana.é. logo. esta libertação. através de que desce das idéias à matéria aquilo de racionalidade que nesta matéria aparece. formas abstratas do pensamento. Do mesmo modo. E. sem. devido à sua natureza inferior. estando no vértice a idéia do Bem. no máximo. o mundo ideal é provado pela necessidade de justificar os valores. portanto. um objeto próprio: as idéias eternas e universais. existir. imutável. e todos os valores (éticos. são ordenadas em sistema hierárquico. modelos e arquétipos eternos de que as coisas visíveis são cópias imperfeitas e fugazes. diversamente de Sócrates. durante a vida terrena. ou alguns conceitos da mente. ao conhecimento certo deve corresponder a realidade. em dependência de uma ação do Demiurgo sobre a alma. de um lado. alma de toda filosofia platônica. sensível. assim a multiplicidade das idéias é unificada na idéia do Bem.particular. além do fenomenal. ao Demiurgo e à matéria). é o ser sem o qual não se explica o vir-a-ser. de um mal radical. Visto serem as idéias conceitos personalizados. que se obtém mediante a divisão e a classificação. contigente e transitório (Heráclito). um objeto próprio: as coisas particulares e mutáveis. libertar-se do corpo. relativa . desenvolvendo. mas apenas é possível. dotado o Demiurgo o qual. em vista dos seus impelentes interesses morais e ascéticos. centro em torno do qual gravita todo o seu sistema. A ciência é objetiva. embora superior à matéria. personalizados. dá à alma humana um lugar e um tratamento à parte. Assim é que considera ele a alma humana como um ser eterno (coeterno às idéias. Estas realidades chamam-se Idéias. Logo. mutável. tudo no mundo é individual. necessários. e sustenta que as sensações correspondentes aos conceitos não lhes constituem a origem. os nossos conceitos são universais. porquanto Platão é um pampsiquista. um outro mundo de realidades. absoluto. Ele. religiosos e místicos. lógicos e estéticos) que se manifestam no mundo sensível. Como a multiplicidade dos indivíduos é unificada nas idéias respectivas. A existência desse mundo ideal seria provada pela necessidade de estabelecer uma base ontológica. aliás. Aqui devemos lembrar que Platão. uma base e um fundamento reais. assim como o Demiurgo. As idéias não são. exasperando a doutrina da maiêutica socrática. como de um cárcere. à opinião verdadeira. científico. Teoria das Idéias Sócrates mostrara no conceito o verdadeiro objeto da ciência. as idéias terão aquela mesma ordem lógica dos conceitos. serão universais.transcende inteiramente o mundo empírico. desempenha papel de mediador entre as idéias e a matéria. objetivamente dotadas dos mesmos atributos dos conceitos subjetivos que as representam. falta-lhe a personalidade e a atividade criadora. terão consequentemente as características dos próprios conceitos: transcenderão a experiência. Tal a célebre teoria das idéias.

donde a virtude da fortaleza. uma dedução das famosas quatro virtudes naturais. irracional. O dualismo dos elementos constitutivos do mundo material resulta do ser e do não-ser. a única virtude verdadeiramente humana e racional. que desvencilha para sempre a alma do corpo. a união da alma espiritual com o corpo é extrínseca. fortaleza. unida ao corpo e aos sentidos. pois. e é o devir ordenado. de racional no vira-ser da experiência. embora a esta naturalmente inferior. depende da religião. e. a virtude suma. Em geral. A faculdade principal. deve existir um princípio de uma e outra.prudência. passiva. a saber. a filosofia. resulta da síntese de dois princípios opostos.mediante a filosofia. segundo Platão. Mas a alma está no corpo como num cárcere. antes de tudo.indeterminada. Em todo caso. mas na sua final supressão. sendo que a alma racional é. o universo sensível. que devem ser trabalhosamente relembradas. na separação da alma do corpo. do bem e do mal. dotado de atividade sensitiva e vegetativa. É a clássica concepção grega do eterno retorno. ao corpo. destarte. Temos. depois. o intelecto é impedido pelo sentido da visão das idéias. explicando-se deste modo o movimento circular deles. tais funções seriam desempenhadas por outras duas almas . Consoante a astronomia platônica. A terra está no centro. apenas mediante uma disciplina ascética do corpo. que é. uma alma do mundo e. . conexa ao clássico dualismo grego. que residiria no peito. temperança. para o espírito. ao redor. a natureza do homem é racional. Conforme a cosmologia pampsiquista platônica. tudo que há de negativo na experiência. antes de tudo. ao contrário. na razão realiza o homem a sua humanidade: a ação racional realiza o sumo bem. Então a realização da natureza humana não consiste em uma disciplina racional da sensibilidade. o inteligível. introduzindo no caos a alma. O mundo. a vontade no impulso. Entretanto. e da qual depende totalmente a ação moral. e filosofar é suprimir o sensível. dos mistérios órfico-dionisíacos. que domina também a grande concepção platônica. condenadas eternamente. derivando daí a virtude da temperança. neste mundo.depende tudo quanto há de positivo. Naturalmente a alma sensitiva e a vegetativa são subordinadas à alma racional. Da idéia . a alma do corpo. bondade. um ciclo de dez mil anos. Tal harmônica distribuição de atividade na alma conforme a razão constituiria. as almas dos astros. mas um obstáculo . separando-se. etc. 2. a contemplação. chamadas depois cardeais .ser. Quanto ao destino das almas depois da morte. terminados os quais. ao mundo.sobre a base da metafísica platônica da alma. Moral Segundo a psicologia platônica. A alma não encontra no corpo o seu complemento. em forma de esfera e. são esféricos. unida a um corpo. As que cometeram pecados expiáveis. tudo recomeça de novo. ao mesmo tempo. o cosmos platônico. verdade. Agir moralmente é agir racionalmente. dependentes e inferiores. o mundo. uma classificação. até violenta. O Demiurgo plasma o caos da matéria no modelo das idéias eternas. o destino da alma depende da sua filosofia. justiça . E. que é separação espiritual da alma do corpo. o homem realiza a sua verdadeira natureza: a contemplação intuitiva do mundo ideal. segundo Platão. Da matéria .que Platão explica mediante um dualismo filosófico-religioso de alma e de corpo: o intelecto encontra um obstáculo nos sentidos. dos homens. não no sentido do progresso.assim como a alma racional residiria na cabeça. os astros. partes da alma. de fato. beleza . as idéias e a matéria. essencial da alma é a de conhecer o mundo ideal. como o adequado conhecimento sensível está entre o saber e o não-saber. na morte. a idéia. pois. e agir racionalmente é filosofar. morrer aos sentidos.depende. princípio de movimento e de ordem. para que se realize a sabedoria. virtude fundamental. juntamente com a sapiência. e assim por diante. a alma concupiscível. Segundo Platão. O Mundo O mundo material. haveria. transparentes. Entretanto. visto que a alma humana racional se acha. que aparecem no mundo. esta natureza racional do homem encontra no corpo não um instrumento. cravados em esferas ou anéis rodantes. No seu conjunto. a justiça. da razão. e se realiza com a morte. que residiria no abdome . por conseqüência. deve principiar a sua vida moral sujeitando o corpo ao espírito. e domine também a alma irascível. e é a opinião verdadeira. é necessário que a alma racional domine. da ordem e da desordem. As que cometeram pecados inexpiáveis. então. na realidade. as estrelas e os planetas. transcendental: contemplação em que se realiza a natureza humana. mas no da decadência. eis o pensamento de Platão: em geral. E diga-se o mesmo da vontade a respeito das tendências. em especial. chegado o grande ano do mundo. informe. felicidade e virtude. à espera de que a morte solte definitivamente a alma dos laços corpóreos. está entre o ser (idéia) e o não-ser (matéria). e mediante a morte libertadora. Noutras palavras.ou partes da alma: a irascível (ímpeto). espacial . que o mortifica inteiramente. Logo. o seu instrumento adequado. mutável. para impedir que o primeiro seja obstáculo ao segundo. o mundo físico percorre uma grande evolução. de fato. e a concupiscível (apetite). distingue ele três categorias de alma: 1.

espiritual. Na República. a ação oposta.diz Platão . O estado deve. pelo vulgo. estatais. e. a quem cabem as virtudes mais elevadas. sobretudo.pelo povo. que Platão propugna para as classes superiores. mas o sábio. porquanto representa precisamente . . A educação das classes superiores importa. O grande. pela plebe. são a República. música e ginástica. a família. segundo as virtudes que se referem a cada classe. o reino do espírito. ateísmo . todas as atividades presididas pelas Musas . as dos filósofos. a ordem ideal do mundo e. não realiza tanto as obras exteriores. antes de tudo. a dos produtores. As que viveram conforme à justiça. o indivíduo ao estado. etc. são incompatíveis com a condição de um homem livre em geral. o estado ideal deveria ser dividido em classes sociais. a distinção em classes. À classe dos filósofos cabe dirigir a república. Esta educação é dispensada essencialmente às classes superiores . dos quais e juntamente com os quais. Entretanto. enfim. então. fortificadora. portanto. contemplam eles o mundo das idéias. por isso. se preocupa com espiritualizar os homens. é necessária porquanto os trabalhos materiais. Segundo Platão. servis. o verdadeiro político não é . pois. ética. a direção da república. não. essencialmente. visto a alma concupiscível estar sujeita à alma racional. o pensador.ao menos positivamente . corresponderiam respectivamente às almas racional. respectivamente. consequentemente. inteiramente entregues à conservação moral e física do estado. mas dessemelhantes e desiguais.consoante seu pensamento . como única e total expressão da eticidade transcendente. não uma sociedade de indivíduos semelhantes e iguais. todavia. promover. e estão. mas. das mulheres e dos filhos.é. sociais.o homem prático e empírico.. o bem espiritual dos cidadãos. mas pela grande importância e função moral por ele atribuída ao estado. com a sua natureza gentil e civilizadora. cultivada apenas para fins práticos e morais. traça o seu estado ideal. encarnam-se de novo. Os guerreiros representam a força a serviço do direito. a dominação e a riqueza. em geral.e pelos gregos em geral . especialmente. em castas. também das outras duas classes.o trabalho material. A essência do estado seria então. no organismo do estado. para receber a pena ou o prêmio merecidos. Tal especificação e concretização da divisão do trabalho seria representada pela instituição da escravidão. pode causar impressão. os guerreiros receberam a educação. em chocante contraste com os estados e a política deste mundo. à altura de orientar racionalmente o homem e a sociedade para o fim verdadeiro. a sua finalidade primordial é pedagógicoespiritual. E não hesita em sacrificar totalmente os interesses inferiores aos superiores. estar substancialmente nas mãos do estado. libertados da vida temporal para sempre. a ordem da sociedade humana. Desta maneira é concebido o estado educador de homens virtuosos. À classe dos guerreiros cabe a defesa interna e externa do estado. tal instituição. fundamentalmente. representado pelos filósofos.abrangendo também a poesia. econômicos e. a educação deve. Tinha ele compreendido bem que os interesses particulares. porém. da ginástica. estas classes: a dos filósofos. seria mister acrescentar uma quarta categoria de almas. a obra fundamental de Platão sobre o assunto. A música . e. educá-los para a virtude. e ocupar-se com o seu bem estar material apenas secundária e instrumentalmente. a dos trabalhadores ocupa o ínfimo lugar. idolatrando a grandeza moral. de conformidade com a ordem estabelecida pelos filósofos.eticamente considerados. portanto. materialismo. por conseguinte.3. Com efeito.agricultores e artesãos . Platão tende a desvalorizar a grandeza militar e comercial. que representam um desenvolvimento social e uma sistematização estável da divisão do trabalho no âmbito de um estado. privados. da razão. e. consoante Platão. a dos guerreiros. Desta variedade de necessidades humanas origina-se a divisão do trabalho e. por conseqüência. a riqueza. domésticos. sendo estes naturalmente superiores àqueles . a de organismo ético-transcendente. Platão foi levado a esta concepção política .um altíssimo valor moral terreno. pois este fim supremo é unicamente a contemplação das idéias. Na hierarquia das classes. Platão reconhece a .não certamente por estes motivos. Segundo o pensamento que lemos no Fédon. estão efetivamente em contraste com os interesses coletivos. como veículo dos valores transcendentais da Idéia. o estado em nada se interessa . consistindo sua virtude apenas na obediência. A Política Os escritos em que Platão trata especificamente do problema da política. à primeira vista. o Político e as Leis. Tal atividade política constitui um dever para o filósofo. o comunismo dos bens. Se a natureza do estado é. irascível e concupiscível no organismo humano. pelo desprezo com que era considerado por Platão . As almas destas últimas duas categorias nascem de novo. videntes de idéias. a história.submetida às duas precedentes.tornada depois sinônimo de imanentismo. ascética do estado platônico. pois. Qual é. a justificação da sociedade e do estado? Platão acha-a na própria natureza humana. Na concepção ideal. cabe a conservação econômica do estado. porquanto cada homem precisa do auxílio material e moral dos outros. Ao contrário. as quais. conhecem a realidade das coisas. Três são. dos filósofos. Deveria ela equilibrar.especialmente aos filósofos. cuja formação é inteiramente material e subordinada. político-religioso. o fim supremo. À classe dos produtores.

anteriores e contemporâneos . semelhante à religião e ao amor.embora transcendente. inicialmente.C.deveria ser um itinerário especial do espírito para o Absoluto e o inteligível. a arte deveria ser. Para Entender Platão Platão.torna-se outro tanto danosa no campo moral. prevalece a desvalorização por dois motivos. A antiga academia dura até o ano de 260 a. sua matemática desemboca numa metafísica. inclusive Homero. as aparências coloridas do universo. É este o último esforço grandioso do pensamento grego para resolver o problema filosófico. A Academia A escola filosófica fundada por Platão. aquele mesmo ideal inteligível que a filosofia atinge abstratamente. A Religião e a Arte A idéia do Bem seria o centro da religião platônica. Ao lado. como a ciência.cronologicamente e logicamente . Por conseqüência. pelos mitos fantásticos e imorais. dissimulam relações numéricas que constituem o fundo das coisas: idéia capital. estão as demais idéias. inferior à ciência. que não só reencontramos em Platão. nascido em 428 a. No entanto. como para o falso. impura fonte gnosiológica .C. sobreviveu-lhe por quase um milênio. provavelmente também pela influência de Aristóteles . encarnada em formas sensíveis. nem sequer da religião assim chamada natural. Costuma-se dividila . este absoluto . narrados em torno dos deuses e dos heróis.de saída.reformada e purificada . reitores. que toma uma orientação cética. portanto. precisamente denominados pré-socráticos.importância da ginástica. porquanto deveria atingir intuitivamente. prevalecendo simpatias pitagóricas . não pode tornar-se objeto de religião. pois . aceita francamente o politeísmo. isto é. É governada por discípulos. fundador de sociedades iniciáticas que visam à salvação de seus membros. Apesar de repelir os deuses da mitologia popular e poética. Os pitagóricos acreditam na . A ela pertencem homens insignes e de grande doutrina. quase um século. desenvolvendo o dualismo no panteísmo emanatista. Seja como for. e subordinadas a esta espécie de Deus supremo. e valorizando o elemento religioso positivo. subordinados ao Demiurgo. também é um místico. A arte. encontramos em Platão uma tentativa de valorização da arte em si. ou seja. que tem por objeto a Beleza eterna e os graus que levam até ela . sendo considerada a arte como uma espécie de loucura divina. até querer banidos de seu estado ideal os poetas. na sua pureza lógica. que foi um dos indícios da decadência grega. Pitágoras (que teria inventado a palavra filosofia. o pensamento de seu mestre Sócrates. como religião do seu estado ideal.dada esta sua inferior natureza teorética. Daí a sua aversão ao culto idolátrico dos exercícios físicos. a Academia. já que Pitágoras acredita que os números são o princípio e a chave de todo o universo. como também uma tendência para uma sempre maior sistematização do pensamento platônico.a religião helênica.em antiga.como o amor. Seu culto essencial é representado pela ciência e. Atuando cegamente sobre o sentimento. depois. As doutrinas estéticas de Platão são algo oscilantes entre uma valorização e uma desvalorização da arte. pela virtude que deriva necessariamente da ciência. Platão hostiliza o antromorfismo. Na realidade. de mania. Entretanto. gnosiologicamente. de evocar Pitágoras de Samos. que é já uma cópia do mundo ideal. que viveu no século V antes de nossa era e que sabemos ter sido um ilustre matemático. prático outro. cópia não de essências. A doutrina pitagórica da salvação está muito próxima dos mistérios do orfismo.. Em todo caso. conservar .C. teorético um. segundo os interesses do último Platão. dadas a sua impersonalidades e inatividade a respeito do mundo. a obra de Platão só pode ser entendida em função de outros pensamentos. como também o pensamento dos filósofos anteriores. mas não passa de uma importância instrumental e parcial. O motivo teorético é que a arte resultaria como cópia de uma cópia: cópia do mundo empírico. a academia platônica sobreviverá ainda e tomará uma última forma e feição com o neoplatonismo. infinitamente diversas. pois o prevalecer da cultura física do corpo torna os homens grosseiros e materiais. mas de fenômenos. é o primeiro grande filósofo da tradição ocidental a deixar uma obra escrita considerável.). Finalmente. Segue-se na média academia. conceptual. Quanto à avaliação da religião positiva. Chegamos assim ao princípio da era vulgar. pois. Vai-se acentuando a importância da experiência.o Bem e as idéias . uma espécie de revelação superior. Platão pode. mais ou menos. sucessores de Platão. espiritual e ético.C. para o bem como para o mal. a arte nos atrai para o verdadeiro. sobretudo graças a Carnéades (213-128 a. os assim chamados deuses visíveis. assim como a natureza do som é função do comprimento da corda que vibra. até o VI século d. bem como à idéia do Bem e às outras idéias. deuses eternos.. amor à sabedoria). no conjunto do seu pensamento. animados e racionais. cujas divindades são os astros e o cosmo. Tratemos. denominadas por Platão. É um politeísmo estranho. que Platão já tinha valorizado no mito. a nova academia volta ao antigo dogmatismo e. média e nova. Todavia. orienta-se para o ecletismo. algo como que uma filosofia. O motivo prático é que a arte . em oposição ao seu gênio e ao gênio artístico grego. mas que está na origem da ciência moderna.

água. aos quais traiu para assumir a liderança do outro partido). Seu método é. Tal é a maiêutica socrática. a noite ao dia. seus ancestrais paternos. O fluxo que faz do universo uma torrente é constantemente produzido e destruído por um Fogo cósmico. É um jovem aristocrata que une aos seus dons intelectuais e físicos (duas vezes coroado nos jogos atléticos nacionais. não pretende ensinar coisa alguma sobre a natureza humana. que "o homem é a medida de todas as coisas". portanto.C. Na Atenas vencida. o não-ser é a mudança (mudar é deixar de ser o que se é para ser o que não se é). segundo ele. Demócrito tenta conciliar as duas doutrinas por intermédio de sua filosofia de átomos.. ajudá-los a trazer à luz o que já trazem em si mesmos. porém. Anaxágoras. Platão. A destruição da frota. uma cidade que seja a encarnação da Justiça. deve-se deixar aos deuses o cuidado de se ocupar com o universo. seu encontro com Sócrates.. torna-se prisioneira de um corpo (soma = sema. ao pé da letra. A esta filosofia da mobilidade universal se opõem Parmênides e seu discípulo Zenão de Eléia: para eles. ele funda todas as suas esperanças na verdade tão somente. mas tão somente opiniões relativas ao homem (este vinho. Sócrates. Sócrates. por iniciativa de um certo Anytos (filho de um rico empreiteiro e antigo amigo dos Trinta. Condenação injusta e escandalosa que exprime uma incompatibilidade trágica entre o poder político e a sabedoria do filósofo. mas uma cidade cuja potência é antes moral e espiritual do que material. de fato. Em outras palavras: não existe verdade absoluta. A verdade e a justiça (das quais Sócrates será o símbolo) não possuem bom aspecto. com a capitulação de Atenas. corpo = túmulo). Diremos uma palavra sobre os sofistas. assinalam a importância da catástrofe. tudo muda infinitivamente. segundo um ritmo regular. que. a peste. o nascimento mais prestigioso: sua mãe descendia de Sólon. ele se comparava à sua mãe. do último rei de Atenas. aristocrata jovem e belo. condena Sócrates a beber a cicuta como corruptor da juventude e adversário dos deuses da cidade. delicioso para o amador. o não-ser não é". o Nous. A morte anuncia o renascimento num outro corpo até que a alma. o real é o Ser único. O verdadeiro ponto de partida da filosofia de Platão é a morte de Sócrates em 399 a. só há salvação pelo saber. Platão tinha quatro anos quando começaram as guerras do Peloponeso e trinta e um quando eles terminaram. Sócrates não pretende. 4. Devemos agora. simultaneamente purificada pela virtude e pela prática de ritos iniciáticos. Na realidade. é belo e vigoroso: apelidam-no "Platão" em virtude de seus ombros largos). Aborda com humildade fingida os sofistas inflados de falso-saber.com inigualável poder marítimo . Ao mesmo tempo que convida o interlocutor a tomar consciência de seu próprio pensamento. eterno. esboroa-se na época em que Platão atinge a idade adulta. se Sócrates é o primeiro a reconhecer sua própria ignorância. Esta máxima gravada no frontão do templo de Delfos. "Planta rei". Sócrates tem sessenta e três anos quando. Empédocles vê na matéria quatro elementos (terra. Alain falou a propósito desse "choque dos contrários": Platão. imóvel. que foi professor de Péricles. dizia. pertencem a um mundo que não o das aparências. Mas Atenas. como punição de faltas passadas. em 407. de um modo geral. dos problemas que eles colocam. de preferência. um esforço de definição. antes de tudo.. a tomar consciência dos nossos próprios pensamentos. mereça ser finalmente libertada de toda materialização. que. no entanto. E as perguntas feitas por Sócrates levam o interlocutor a descobrir as contradições de seus pensamentos e a profundidade de sua ignorância. o arrasamento dos famosos muros (uniam a cidade ao Pireu) pelos esparciatas vencedores. cujo ceticismo é engendrado pela multiplicidade de doutrinas contraditórias. de novo no poder. velho e muito feio (seus olhos salientes e seu nariz achatado são célebres). elementos eternos. ar e fogo). Daí as resoluções que Platão nos apresenta na sétima carta. Segundo sua perspectiva racionalista. por aquilo que nos concerne diretamente. "Reconheço que todos os Estados atuais. "Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio". "Conhece-te a ti mesmo". são mal governados. só reencontra a filosofia a partir de preocupações de caráter político. é a palavra-chave do humanismo socrático. faz perguntas e sempre dá a impressão de buscar uma lição no interlocutor. que era parteira. Se conhecessem verdadeiramente a justiça. que por ocasião do nascimento de Platão se encontra no apogeu . recordemos o acontecimento fundamental da juventude de Platão. 2.metempsicose. ignora o que acreditava saber. Nada ensinava e limitava-se a partejar os espíritos. Sócrates fá-lo compreender que. Por exemplo: partindo dos aspectos os mais diversos da justiça. segundo o testemunho de Platão. Tal é a ironia. Sócrates possui tal confiança no saber e na verdade que está firmemente persuadido que os injustos e os maus não passam de ignorantes. enquanto o ódio que dissocia e o amor que unifica seriam os princípios motores do universo. acha que os elementos constitutivos do mundo são ordenados por uma Inteligência cósmica. portanto. Platão vai sonhar com a reconstrução de uma cidade. eles a praticariam. ele procura depreender o conceito de justiça. "O Ser é. na verdade. cujas combinações mutáveis são infinitas. é amargo para o enfermo). a mobilidade não passa de uma ilusão que engana nossos sentidos. não quer nos comunicar um saber que não possuiríamos. Protágoras de Abdera. tudo flui: a morte sucede à vida. a idéia geral que contém os caracteres constitutivos da justiça. todavia. a uma brilhante carreira política. e constata que os Trinta acumulam injustiças e violências. pelo incremento do individualismo e decadência dos costumes após Péricles. Para compreender isto. ele se retrai. o jovem Platão é convocado por parentes e amigos a participar do governo autoritário dos Trinta. Para Heráclito de Éfeso. a vigília ao sono. Duas doutrinas se opõem radicalmente entre si. 3. Acontecimento político: é o partido popular. Um dos mais célebres. Ajuda-nos tão somente a refletir. pois ninguém é "maus voluntariamente". E isto é significativo e simbólico.É somente pela filosofia que se pode discernir todas as formas de . significa a arte de interrogar. isto é. Muitas outras doutrinas dessa época tentam explicar o mundo. torna-se discípulo de um cidadão de origem modesta. A encarnação é tão somente um encarceramento provisório para a alma. sem exceção. como Empédocles ou Heráclito. Estava destinado. pelo abuso da retórica (um orador hábil pode demonstrar o que quiser) e. elaborar uma cosmologia. Muitas vezes. caracterizar os grandes traços da filosofia de Sócrates: 1. devemos nos interessar. A alma. Platão a ele se une.

A idéia platônica é uma promoção ontológica do conceito socrático. segundo a doutrina órfico-pitagórica. uma vez que as Idéias constituem absolutos referenciais . o Sofista. os chefes cuja Justiça é. Podemos mostrar de duas maneiras que a intuição fundamental de Platão se prende ao ensinamento de Sócrates: a) Recordemos o ensinamento socrático sobre a definição.visto que sua união com o corpo é acidental e monstruosa .. o Teeteto. Platão. não se revelou muito adequado para se tornar o rei filósofo que Platão quisera fazer dele. a Justiça em si. cunhado do novo tirano. o Timeu. Platão prefere a aristocracia e. Tal é o sonho que Platão tentaria realizar em Siracusa. Como diz muito bem André Bonnard. Platão retornou a Atenas.. as Idéias contam mais que a vida. restam-nos. Talvez a solução seja a evasão do filósofo que "foge daqui debaixo" para se refugiar na meditação pura (tal é o filósofo cujo retrato nos é traçado no Teeteto. Este último. só é belo porque participa da Beleza em si. a emoção que rebata a alma diante da Beleza . e o mundo das aparências sensíveis. a República. Platão sustenta contra Cálicles (no Górgias). é preciso tomar a palavra em seu sentido etimológico: governo dos melhores.é o meio de uma conversão dialética: o amor por um belo corpo. para ele. o jovem escravo que Sócrates interroga no Mênon descobre propriedades geométricas quase sem ajuda. contra Trasímaco e Gláucon (na República) o valor absoluto da Idéia de justiça. a vontade e o espírito. filosofia e a arte de governar as cidades segundo a justiça. depois pelas belas almas e pelas belas virtudes conduz à redescoberta do Belo em si (leia-se o Banquete). na ilha de Egina. a cidade que vê triunfar a injustiça e a mentira é "um mundo ao inverso.C. Se quiséssemos resumir a filosofia de Platão em uma palavra. por punição de alguma falta. a iluminação direta pela Idéia (noesis). A política de Platão distingue. todavia. Acrescenta-se que o mundo das Idéias é. Devemos representar a Academia como uma espécie de Universidade onde se ensina matemáticas (não entra aqui quem não for geômetra). o Banquete. pode ser redespertada . Ela também se encontra em cada uma das virtudes particulares: a temperança nada mais é que uma sensibilidade regulamentada segundo a justiça. aos quarenta anos. mas Deus é que é a medida de todas as coisas. b) Mas é sobretudo a vida e a morte de Sócrates que suscitam o idealismo platônico. o Político. Em suma. a coragem é a justiça da vontade e a sabedoria é a justiça do espírito. é preciso que exista algo além dos homens particulares e diferentes entre si que nós reconhecemos. A teoria platônica da alma está ligada à doutrina das Idéias. o único mundo verdadeiro. Os temas principais do platonismo podem ligar-se à distinção entre o mundo das Idéias eternas e o mundo das aparências mutáveis. É então que ele funda. Resgatado por Anikeris de Cítera por vinte minas. pela tranqüilidade quase contente de sua morte. A morte de Sócrates feriu-o mortalmente. Platão dá realidade ao conceito socrático. e. finalmente. em seguida pelos belos corpos. nos jardins de Academos. Desse modo. isto é. reservado aos iniciados) dado por Platão a seus discípulos só nos é conhecido atualmente pelas críticas de Aristóteles. por exemplo.por que não seria eterna como as Idéias que ela tem por vocação contemplar? Do mesmo modo. para que haja. Platão concede ao mundo sensível uma certa realidade. uma sombra. E Sócrates. "esse belo risco a ser corrido". por exemplo. no dia em que os filósofos forem reis ou no dia em que os reis forem filósofos).a sensibilidade. o pensamento discursivo (dianoia) que constrói o raciocínio partindo de figuras. Todavia. poderíamos dizer que ela é fundamentalmente um dualismo. o Fedro. podemos ligar à distinção dos dois mundos algumas observações sobre o mito platônico: . As almas outrora contemplaram às Idéias à vontade. no fundo. nele. como Sócrates o estabeleceu. secreto. em seguida. Assim. elas continuam capazes de reminiscência. seus diálogos célebres tais como o Górgias. uma essência universal do homem. Um belo efebo. como fazem os geômetras. eternas. uma definição do homem em geral. A ascensão dialética.não o homem. Platão pensa igualmente que a emoção amorosa.é preciso renunciar do oportunismo e à imoralidade dos sofistas. é o itinerário pelo qual nos levamos do mundo sensível ao mundo das Idéias: no mais baixo grau. fê-lo expor no mercado de escravos para ser vendido. antes de tudo. a obra escrita de Platão.de todas as idéias a mais fácil de reconhecer . uma vez que guardaram uma lembrança obscura . perto de Colona. O ensino esotérico (isto é. É no mundo invisível que a justiça e a verdade triunfam". no entanto. o Parmênides. Depois. uma escola de filosofia à portas da cidade. no mais alto grau. Sabedoria e que são filósofos longamente instruídos. um mundo de pernas para o ar". À doutrina das Idéias também se correlaciona a esperança da imortalidade da alma. o pensamento intuitivo. filósofo puramente contemplativo que nem sabe onde se reúne o Conselho e cujo corpo está apenas presente na Cidade). Dionísio I prendeu Platão e. Finalmente. sobre o conceito.de seu antigo contato com as Idéias. mostra que. A justiça é a hierarquia harmônica das três partes da alma . Platão morre em 348 a. Dionísio I. três classes sociais: os artesãos dos quais a Justiça exige a temperança. A justiça política é uma harmonia semelhante à justiça do indivíduo. elas foram aprisionadas no corpo. Uma vez que a alma é feita para as Idéias .que. por exemplo. perpetuamente mutáveis. à imagem de todas as sociedades indo-européias primitivas. Mas uma outra solução seria o próprio filósofo encarregar-se do governo da cidade (a Justiça reinará. atesta a existência desse mundo invisível. as opiniões estabelecidas (pistis). de certo modo. mas ele só existe porque participa do mundo das idéias do qual é uma cópia ou. o Fédon. as simples impressões sensíveis (eikasia). porém. a cidade que condena Sócrates à morte. um pouco mais acima. as Leis. o idealismo platônico "traz a marca de um grave traumatismo. diz Platão. objeta Platão a Protágoras . mais exatamente. as Idéias. Encontrara aí um discípulo estusiasta na pessoa de Dion. Esses trabalhos esotéricos de Platão constituem a mais pura jóia da filosofia de todos os tempos. reconcilia Parmênides e Heráclito ao admitir a existência de dois mundos: o mundo das idéias imutáveis. um outro mundo onde exista o Homem em si. os militares nos quais a Justiça será coragem. mas "escritas em caracteres mais fortes" na escala do Estado.justiça política e individual". Entre todas as formas de governo.

V. para se dedicar à investigação científica. de pesquisas. os motivos políticos. corresponde muito bem à intenção do autor. e pertencentes à filosofia teorética. em 384 a. de que foi ele o criador. Esta escola seria a grande rival e a verdadeira herdeira da velha e gloriosa academia platônica. em três livros. Aristóteles fundava. segundo Platão. devido a Eudemo. incompleta. de estudo. Escritos lógicos: cujo conjunto foi denominado Órganon mais tarde. inteiramente recolhido na elaboração crítica do seu sistema filosófico. colônia grega da Trácia. em 367. a Poética.C. O . no seu estado atual. c) O mito indica que o pensamento filosófico vem se abeberar nas fontes das crenças religiosas tradicionais. perto do templo de Apolo Lício. inacabada. temos naturalmente muito menos a revelar do que em torno do caráter de Platão. refazimento da ética de Aristóteles. não por Aristóteles. II. no litoral setentrional do mar Egeu. I. como a sua cultura e seu gênio universal. conseguindo um êxito na sua missão educativo-política. de pensamento. que se foi isolando da vida prática. As obras de Aristóteles as doutrinas que nos restam . pois a inteligência abstrata só compreende o eterno e não pode bastar para evocar o que pertence à história. organizando outras em corpo coerente de doutrinas e sobre todas espalhando as luzes de sua admirável inteligência. em dois livros. sem enfeites míticos ou poéticos. De volta a Atenas. Escritos morais e políticos: a Ética a Nicômaco. em oito livros. estéticos e místicos tiveram grande influência. agudeza de penetração. até à famosa expedição asiática. éticos. em face do qual a atitude inicial do espírito é o assombro do mistério. salvo uns apócrifos e umas interpolações. exposição e expressão breve e aguda. a sua escola. perfeição maravilhosa da terminologia filosófica. seu filho. treze anos depois da morte de Platão. Nesse período estudou também os filósofos pré-platônicos. Aristóteles foi essencialmente um homem de cultura. clara e ordenada. constituindo algumas desde os primeiros fundamentos. em 335. que considerava a lógica instrumento da ciência. "Assimilou Aristóteles escreve magistralmente Leonel Franca todos os conhecimentos anteriores e acrescentou-lhes o trabalho próprio.C. em dez livros. não o problema da vida. numa linguagem de imagens uma verdade filosófica estranha ao mundo sensível! É o mundo das Idéias eternas transposto em imagens sensíveis. juntamente com a metafísica. traduz uma espécie de narração poética legendária. nasceu em Estagira. sugerido pelo mundo das imagens! b) O mito é o único meio de exposição para os problemas de origem (acontecimentos sem testemunhos) e dos fins últimos (que ainda não existem!). a Ética a Eudemo. procedimento pedagógico paradoxal.manifestam um grande rigor científico. A poesia mítica é uma mensagem metafísica. O grande estagirita explorou o mundo do pensamento em todas as suas direções. Aristóteles faleceu. em Siracusa. estourando uma reação nacional. Tinha pouco mais de 60 anos de idade. substancialmente autêntica. Escritos sobre a física: abrangendo a hodierna cosmologia e a antropologia. mais uniforme e linear a de Aristóteles. onde ficou por vinte anos. isto é. O seu problema fundamental é o problema do ser. É uma compilação feita depois da morte de Aristóteles mediante seus apontamentos manuscritos. existem entre a poesia e a verdade. poder admirável de síntese. Morto Alexandre em 323. que Platão não conseguiu. Preveniu ele a condenação. Do diferente caráter dos dois filósofos. Aristóteles. o belo não é senão o "esplendor do verdadeiro" e a arte está em segundo lugar em relação à filosofia. rei da Macedônia. foi para Atenas e ingressou na academia platônica. fruto de muita observação e de profundas meditações. O nome. Pelo elenco dos principais escritos que dele ainda nos restam. é apenas uma parte da obra de Aristóteles. Aristóteles A Vida e as Obras Este grande filósofo grego. referentes à metafísica geral e à teologia. em especial da segunda. que lhe foram úteis na construção do seu grande sistema. Aqui classificamos as obras doutrinais de Aristóteles do modo seguinte. provavelmente publicada por Nicômaco. filho de Nicômaco. também chamada peripatética devido ao costume de dar lições. A atividade literária de Aristóteles foi vasta e intensa. ao qual é dedicada. variada e romanesca a de Platão. d) Finalmente. que. chefiada por Demóstenes. foi acusado de ateísmo. até à morte do Mestre. no verão de 322. O nome de metafísica é devido ao lugar que ela ocupa na coleção de Andrônico. em catorze livros. por certo. passeando nos umbrosos caminhos do ginásio de Apolo. faculdade de criação e invenção aliados a uma vasta erudição histórica e universalidade de conhecimentos científicos. como preceptor do Príncipe Alexandre. tendo presente a edição de Andronico de Rodes. A respeito do caráter de Aristóteles. então jovem de treze anos. social e política. Aos dezoito anos. ao contrário. vigor de raciocínio. A primeira edição completa das obras de Aristóteles é a de Andronico de Rodes pela metade do último século a. o mito ressalta as relações que. em amena palestra. Escritos retóricos e poéticos: a Retórica. Não lhe faltou nenhum dos dotes e requisitos que constituem o verdadeiro filósofo: profundidade e firmeza de inteligência. dependem também as vicissitudes exteriores das duas vidas. poder-se-á avaliar a sua prodigiosa atividade literária". em que. Aí ficou três anos. desfez-se politicamente o seu grande império e despertaram-se em Atenas os desejos de independência. médico de Amintas. IV. Daí o nome de Liceu dado à sua escola. a filosofia é essencialmente teorética: deve decifrar o enigma do universo. III. Escritos metafísicos: a Metafísica famosa. a Grande Ética. Em 343 foi convidado pelo Rei Filipe para a corte de Macedônia. Escreveu sobre todas as ciências. que a colocou depois da física. no ano seguinte. O Pensamento: A Gnosiologia Segundo Aristóteles. entretanto. malvisto pelos atenienses.a) O mito. a Política. após enfermidade. sem se deixar distrair por motivos práticos ou sentimentais. compêndio das duas precedentes. retirando-se voluntariamente para Eubéia.

passagem da potência ao ato. Foi dito que. destarte. se confirmam. a posteriori. Filosofia de Aristóteles Partindo como Platão do mesmo problema acerca do valor objetivo dos conceitos. o necessário. Geralmente. compreende-se que Aristóteles. rejeitara a experiência como fonte de conhecimento certo.reminiscência. entretanto. baseada sobre a imediata experiência. porquanto os sentidos por si nunca nos enganam.conforme Aristóteles. em que unicamente temos ou não temos a verdade. fica eternamente inexplicável. gnosiologicamente. seja constrangido a elaborar. é dedutiva. do inteligível. seu nexo. isto é. a quem Aristóteles chega através de uma sólida demonstração. causa absoluta. enquanto é vir-a-ser. indiscutível. isto é. tirados da experiência. o processo dedutivo e indutivo aplica-os. que corresponde a uma derivação real. uma doutrina da indução. A Teologia Objeto próprio da teologia é o primeiro motor imóvel. por último. pois. Os elementos primeiros. razão . clássico. ela não está efetivamente acabada.mediante o intelecto da experiência. 3. onde o fenômeno particular depende da lei universal e o efeito da causa. Os caracteres desta grande síntese são: 1. portanto. A teorética. mas certíssima. e) refuta. também os elementos primeiros do conhecimento . mas abandonando a solução do mestre. divide-se em física. em que está a solução do seu problema. porque aí está a sua gnosiologia. é sempre verdadeira. as formas são imanentes na experiência. de cujo sistema é banida toda forma de inatismo. matemática e filosofia primeira (metafísica e teologia). em todas as suas obras. b) passa a enumerar-lhes as soluções históricas. Trata Aristóteles os problemas lógicos e gnosiológicos no conjunto daqueles escritos que tomaram mais tarde o nome de Órganon. Aristóteles. intuição intelectual. Objeto essencial da lógica aristotélica é precisamente este processo de derivação ideal. que constituem precisamente o objeto próprio do nosso conhecimento sensível. em seguida. isto é. em estilo lapidar e conciso e criando uma terminologia filosófica de precisão admirável. portanto. como idéia era o objeto da ciência platônica. 2. da representação sensível. bem como segundo Platão . porquanto o primeiro elemento depende do segundo. d) indica.tem como objeto o universal e o necessário. isto é. é essencialmente dedutiva. Com efeito. A necessidade deste primeiro motor imóvel não é absolutamente excluída pela eternidade do vir-a-ser. porém. mas o ponto de partida da dedução é tirado . as sentenças contrárias. Como é que se formam os princípios da demonstração. Aristóteles procede por partes: a) começa a definir-lhe o objeto. o universal. a coisa parece mais complicada. analítico. consoante Platão. dividir-seia em teorética. ambas objetivas. como o conceito. No sentido estrito. do movimento. O seu processo característico. Então só resta possível uma indução incompleta. são fruto de uma visão imediata. Por certo. entretanto. isto é. uma resenha de todos os casos os fenômenos particulares para poder tirar com certeza absoluta leis universais abrangendo todas as essências. nos indivíduos. o pensamento do pensamento. a poética em estética e técnica. requer finalmente um não-vir-a-ser. que é o nosso primeiro conhecimento. origem extra-temporal. Entretanto. de um modo e de outro. a "desindividualização" do universal do particular. por sua vez. Segundo Aristóteles. buscando na realidade um apoio sólido às suas mais elevadas especulações metafísicas. ao lado e em conseqüência da doutrina de dedução. a posteriori. Pode considerar-se como o autor da metodologia e tecnologia científicas. Rigor no método • Depois de estudas as leis do pensamento. portanto. um motor já em ato. Sob o ponto de vista metafísico. de que constituem a essência. O erro começa de uma falsa elaboração dos dados dos sentidos: a sensação. no sentido de que os elementos do juízo os conceitos são tirados da experiência. as formas e suas relações. A filosofia aristotélica é. bem como a platônica. de outra forma teria que ser movido por sua vez. a própria solução. A formação do conceito é. mais positivo. Quanto aos elementos primeiros do conhecimento racional. em que o universal é imanente. motor imóvel. a filosofia prática divide-se em ética e política. um ato puro enfim. conceptual como a de Platão mas parte da experiência. é anterior ao particular. e que é o elemento constitutivo da ciência. o universal e o necessário. demonstrativa. o contigente. do mundo. Assim sendo. tirada da experiência. apodíctica. se correspondem. os juízos imediatamente evidentes. mesmo admitindo que o mundo seja eterno.Sua vasta obra filosófica constitui um verdadeiro sistema. ato puro. prática e poética. que não tem princípio e fim no tempo. cuja verdade imediata ele defende. o inteligível. explicação do condicionado mediante a condição. no estudo de uma questão. racional. Limitar-nosemos mais especialmente aos problemas gerais da lógica de Aristóteles. Todas as partes se compõem. a filosofia aristotélica é dedução do particular pelo universal. o sensível. A ciência platônica e aristotélica são. é o silogismo. ao sensível: mas. Por certo. a saber. como ciência especial. os conceitos. uma verdadeira síntese. pois. substituindo à linguagem imaginosa e figurada de Platão. psicologicamente existe primeiro o particular. é denominada por ele analítica e representa a metodologia científica. Aristóteles constrói um sistema inteiramente original. na lógica. colhido imediatamente pelo intelecto humano mediante a sua evidência. a ciência. contraditório. segundo Aristóteles. Este vir-a-ser. Unidade do conjunto . Observação fiel da natureza • Platão. ontologicamente. passagem da potência ao ato.devem ser. a filosofia . toma sempre o fato como ponto de partida de suas teorias. Também aqui se segue a ordem da realidade. A filosofia. realistas: tudo que se pode aprender precede a sensação e é independente dela. c) propõe depois as dúvidas. realidade do vira-ser. as verdades evidentes. o objeto da ciência aristotélica é a forma. todo o saber humano. metafisicamente. com rara habilidade. os princípios supremos. sem um primeiro motor imóvel. idealista. Quanto ao juízo. ao contigente. sobre a base socrático-platônica. A lógica aristotélica. em relação com a sua doutrina do contato imediato da alma com as idéias . são as essências imutáveis e a razão última das coisas. da representação sensível. mas pode-se integrar logicamente segundo o espírito profundo da sua filosofia. a coisa parece simples: a indução nada mais é que a abstração do conceito. é a priori. da passagem da potência ao ato. Deus.objeto próprio da filosofia.conceito e juízos . abrangendo. pois não pode haver ciência em torno do individual e do contingente. donde temos a ciência? Aristóteles reconhece que é impossível uma indução completa. conhecidos sensivelmente. necessidade objetiva. em geral. Aristóteles é o criador da lógica.

torna-se quase uma segunda natureza e. como . da vontade. Visto que o estado se compõe de uma comunidade de famílias. domina as paixões. Em Aristóteles o pensamento grego conquista logicamente a transcendência de Deus. pensamento de si. todavia. isto é. uma disposição constante. na ação de um homem. a sua lei. mas concreto. mecaniza-se. a virtude não é inata. tem. o possível puro. pois. Aristóteles sustenta o primado do conhecimento. o real puro. porquanto esta tem como objetivo o indivíduo. reta. entre duas paixões opostas: porquanto o sentido poderia esmagar a razão ou não lhe dar forças suficientes. a política é a doutrina moral social. Da análise do conceito de Deus. sobre a ação. condição e complemento da atividade moral individual. ser completamente resolvido na razão. que precede cronologicamente o estado. contudo. e. a vida. que a transcendem. a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso. ao contrário. atividade teorética. morais. Pelo que diz respeito à virtude. mas uma ação com ciência. Deus não atua sobre o mundo. e. e não pode. Aristóteles distingue duas categorias fundamentais de virtudes: as éticas. o seu bem. Logo. certamente. E. a mulher. visto ser a virtude ação consciente segundo a razão. aquela a coletividade. que é precisamente uma atividade conforme à razão. como as partes precedem o todo. Aristóteles. do chefe a que pertence a direção da família. a que é necessária à virtude. mais precisamente é ela um hábito segundo a razão. uma atividade que pressupõe o conhecimento racional. por natureza. assim como estas se compõem de muitos indivíduos. torna-se de fácil execução . não é abstrato. As virtudes intelectuais. antes de tratar propriamente do estado será mister falar da família. realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente e senso disto consciente. portanto. é aquilo que move sem ser movido. maior valor uma outra doutrina aristotélica: precisamente a da virtude concebida como hábito racional. Desta ciência trata Aristóteles precisamente na Política. porquanto a família.metafísica de todo devir. político.como o vício. As virtudes éticas. Deus. O estado é um organismo moral. Deus é. a família compõe-se de quatro elementos: os filhos. é superior ao indivíduo. É uma distinção e uma hierarquia. Deve fazer frutificar seus bens. metafísico. isto é. a política. Se o agir. e as dianoéticas. Se a virtude é. A política. uma vez adquirida. mas implicam. porém. De Deus depende a ordem. de que acima se falou. voltando-se para ele. Uma doutrina aristotélica a respeito da virtude doutrina que teve muita doutrina prática. o fim do homem é a felicidade. A ética é a doutrina moral individual. não é unicamente ciência. mas unicamente conhecer e pensar. como ato puro. auto-suficiente. e só assim. que constituem propriamente o objeto da moral. Segundo Aristóteles. não são mera atividade racional. tendo como objeto unicamente a própria perfeição. popular. contemplativas. com o pensamento e a vontade. Deve ele guiar os filhos e as mulheres. a sua felicidade. por conseqüência. teoréticas. Deus é unicamente pensamento. porque o fim último do estado é a virtude. a vontade. e. este justo meio. e menos ainda opera sobre ele. está a beatitude divina. da filosofia. no mesmo tempo. atraente. concebido. enquanto qualquer outra atividade teria fim extrínseco. mas unicamente como o fim último. pois o homem. natureza segundo a qual e na qual o homem deve operar. um elemento sentimental. conquistado através do precedente raciocínio. o bem comum superior ao bem particular. naturalmente. e fundamento primeiro da suprema atividade contemplativa. incompatível com o ser perfeito. Consoante sua doutrina metafísica fundamental. consegue a felicidade mediante a virtude. que deve ser governado pela razão. igual para todos e sempre. O estado. conhecer a si próprio e pensar em si mesmo. como queria o ascetismo platônico. as diversas paixões predominantes dos vários indivíduos. do intelecto. pode deduzir logicamente a natureza essencial de Deus. E assim consegue ele a felicidade e a virtude. Naturalmente. Deus não pode agir e querer. embora se apresente especulativamente assaz discutível é aquela pela qual a virtude é precisamente concebida como um justo meio entre dois extremos. sem se mover a si mesmo. razão pura. Noutras palavras. não as aniquila e destrói. concebido como primeiro motor imóvel. a racionalidade do mundo. logo. de que se falou quando das obras dele. em razão da imperfeição destes. que é pensamento puro. estabilizase. o racionalismo. não pode realizar a sua perfeição sem a sociedade do estado. tem também um fim econômico. A característica fundamental da moral aristotélica é. isto é. isto é. portanto. E nesta autocontemplação imutável e ativa. como causa final. Se Deus é mera atividade teorética. isto é. permanece o dualismo. os escravos. mas adquiri-se mediante a ação. além de um fim educativo. como pensamento de si mesmo. A razão aristotélica governa. que exige o conhecimento absoluto. A Moral Aristóteles trata da moral em três Éticas. relativo a cada qual. porquanto a coletividade é superior ao indivíduo. ele. que têm uma importância essencial em relação a toda a filosofia e especialmente à moral. sendo naturalmente animal social. não conhece o mundo imperfeito. os bens. e a esta é necessária a razão. a prática. A Política A política aristotélica é essencialmente unida à moral. A virtude ética não é. a matéria. antes de tudo. no dizer de Aristóteles. e variável conforme as circunstâncias. o querer têm objeto diverso do sujeito agente e "querente". além. Unicamente no estado efetua-se a satisfação de todas as necessidades. pensamento de pensamento. ativas. o exercício e. isto é. é aquilo que é movido. passional. teoréticas. mas uma aplicação da razão. Como já foi mencionado. fundamentalmente. nem providência do mundo. é distinta da moral. mas. como as virtudes intelectuais. uma atividade segundo a razão. como não é inata a ciência. como causa eficiente e formal (exemplar). afetivo. da natureza e do universo. por conseqüência. um costume moral. à atualização plena da sua forma: e nisto está o seu fim. para dar uma explicação filosófica da relatividade do mundo pondo ao seu lado esta realidade independente dele. práticas. que vem anular aquele mesmo Absoluto a que logicamente chegara. Visto ser a razão a essência característica do homem. consequentemente. então. são superiores às virtudes éticas. não é criador. todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza.

isto é. num particular. e sim uma síntese de indivíduos substancialmente distintos. para que a propriedade seja produtora. ao lado do Ato Puro e a ele subordinado. como Platão. graças ao artista. não governa. Se bem que a arte seja imitação da realidade no seu elemento essencial. e não diz que ela teria um fundamento racional na verdade filosófica da existência da divindade. a que o homem se teria facilmente elevado através do espetáculo da ordem celeste. e cuja degeneração é a demagogia. intelectuais e. como seja tarefa essencial do estado a educação. que é o governo de poucos. e sim imitação direta da própria idéia. possuidores. Quanto à forma exterior do estado. que exigem indivíduos particulares. Explica e justifica a religião positiva. conservação e engrandecimento. como o trabalho. físicas. político. No entanto. de outro modo irrealizáveis. universal. a que fica assim tirada fatalmente a possibilidade de providenciar a cultura da alma. só este último possui aquela unidade substancial que falta aos dois precedentes. e. excluídas pelas próprias características qualidades materiais de tais indivíduos. platônicos. bem como aptas qualidades espirituais. Aristóteles como Platão considera a arte como imitação. cujo caráter e valor estão na qualidade.ao estado. porém. Reconhece Aristóteles a divisão platônica das castas. do inteligível imanente no sensível. e não máquinas. Por isso. a forma. a democracia. além de imitação do universal verossimilhança e necessidade coerência interior dos elementos da representação artística. Se se quiser a unidade absoluta. Aristóteles considera a arte a poesia de Homero que tem por conteúdo o universal. até sem correção alguma. Não obstante esta concepção filosófica da divindade. E não fica nenhum outro objeto religioso. A arte é. Exporemos portanto. As leis da obra de arte serão. diversamente de Platão. cujo caráter e valor estão na liberdade. são necessários instrumentos inanimados e animados. subordinadamente. salva o direito privado. imitação da forma imanente na matéria. não cria. não está em condições de se tornar objeto de religião. Na arte. mítica. não exclui uma espécie de politeísmo. visa a conquista e a guerra. mais do que as transcendentes idéias platônicas. cujo caráter e valor estão na unidade. importantíssimas a poesia e a música. O estado provê. pois. purificadora da arte. e cuja degeneração é a tirania. as materiais. precisamente. a felicidade dos súditos mediante a ciência. Compreende-se. a aristocracia. o sensível. os deuses astrais. dos trabalhadores. necessária e universalmente. Deste seu conteúdo inteligível. concretizado pelo artista num sensível. universal é encarnado. destarte. mas constata que na sociedade são necessários também os trabalhos materiais. princípio dos movimentos e das formas do mundo. sem direitos políticos. a dos cidadãos e a dos escravos. De qualquer maneira a condição indispensável para uma boa constituição. e põe a conquista acima da virtude. deve promover a virtude e. que faz da guerra a tarefa precípua do estado. portanto. dessa forma. e cuja degeneração é a oligarquia. Daí a escravidão. deve ser encarnado. tradicional. A Metafísica A metafísica aristotélica é "a ciência do ser como ser. produção mediante a imitação. inicialmente. evidência e vivacidade de expressão. Aristóteles não nega a natureza humana ao escravo. particularmente de Atenas. o estado em particular. como superior à história e mais filosófica do que a história de Heródoto que tem como objeto o particular. como Platão. condena o estado que. No entanto. E critica. estes últimos seriam os escravos. esses seres divinos não parecem e não podem ter função religiosa e sem física. são apenas meios para a paz e o lazer sapiente. reconhece Aristóteles que a melhor forma de governo não é abstrata. mas o que por natureza deve. tornando intuitivo. e sim concreta: deve ser relativa. duas classes reconhece: a dos homens livres. Aristóteles. como é o fenômeno. Não obstante a sua concepção ética do estado. ou dos princípios e das causas do ser e de seus atributos essenciais". ainda que encarnado fantasticamente num particular. isto é. e como fruto da tendência humana para as representações antropomórficas. de conformidade com o fundamental realismo grego. defesa e segurança. pelo seu efetivo isolamento do mundo. que ele não conhece. esse inteligível. num particular e. que é o governo de um só. a propriedade particular e a família. concretizado num sensível. então. o imutável. Não. agora. As preferências de Aristóteles vão para uma forma de república democráticointelectual. este Deus. é-lhe essencial a propriedade. o universal. Ela abrange ainda o ser imóvel e incorpóreo. imitação de uma imitação. o inteligível. como obra política para moralizar o povo. depende a eficácia espiritual pedagógica. pelo fato de ser o homem um animal naturalmente social. Aristóteles distingue três principais: a monarquia. tempo e liberdade. mas em seus aspectos universais e necessários. e admite. O fim da educação é formar homens mediante as artes liberais. o mutável. ao invés de se preocupar com uma pacífica educação científica e moral. com o seu profundo realismo. O estado não é uma unidade substancial. A Religião e a Arte Com Aristóteles afirma-se o teísmo do ato puro. é que o fim da atividade estatal deve ser o bem comum e não a vantagem de quem governa despoticamente. este inteligível recebe como que uma nova vida através da fantasia criadora do artista. negativas e positivas. a educação militar de Esparta. acontecer. que é o governo de muitos. e a diferença entre as várias artes é estabelecida com base no objeto ou no instrumento de tal imitação. a satisfação daquelas necessidades materiais. se exclui filosoficamente o antropomorfismo. acomodada às situações históricas. isto precisamente porque o inteligível. íntimo sentimento do conteúdo. a forma de governo clássica da Grécia. Vejamos. Entretanto. conseqüentemente. será mister reduzir o estado à família e a família ao indivíduo. as questões gerais da . O comunismo como resolução total dos indivíduos e dos valores no estado é fantástico e irrealizável. isto é. O objeto da arte não é o que aconteceu uma vez como é o caso da história . antes de tudo. admite que os corpos celestes são animados por espíritos racionais. bem como o mundo mutável e material. Também Aristóteles. enquanto a guerra. para tanto. às circunstâncias de um determinado povo. seja embora real. mediante um treinamento profissional. Eis porque Aristóteles. Mas o seu fim essencial é espiritual. Aristóteles admite a religião positiva do povo. O estado surge. No entanto. que deve desenvolver harmônica e hierarquicamente todas as faculdades: antes de tudo as espirituais. pois os homens têm necessidades materiais. visto ser necessário.

de matéria e de forma. Esta realização do possível. ainda que a forma seja princípio de atuação e determinação da própria matéria. propriamente. O motor pode ser unicamente ato. de uma potencialidade anterior. a individualidade. Aristóteles explica o indivíduo. que tanto atormenta Platão. aquilo que move deve ser diverso daquilo que é movido. tem esta como objeto o mundo que vem-a-ser . I. depois de ter eficazmente criticado o dualismo platônico. Desta doutrina da matéria e da forma. que tem por princípio a alma racional. particular e universal. metafísica especial. Por exemplo. que é intuitiva. Todas estas três almas são objeto da psicologia aristotélica. isto é. O primeiro elemento é chamado matéria (prima). capacidade de ser. O indivíduo é.bem como a matéria não pode ser atuada . a forma é. Eis a grande doutrina aristotélica do motor e da coisa movida. que tem por princípio a alma e se distingue essencialmente do mundo inorgânico. é a nutrição e a reprodução. Segundo Aristóteles. a segunda e a terceira todo o ser em que está presente a matéria. imutáveis. forma do corpo.a idéia . já iniciada pelos últimos pré-socráticos e grandemente aperfeiçoada por Demócrito e Platão.a matéria. Aristóteles não nega o vir-a-ser de Heráclito. porém. O primeiro é potência. que possui já o que a coisa movida deve vir-a-ser. A doutrina da potência e do ato é fundamental na metafísica aristotélica: potência significa possibilidade. universal particularizado. entre a matéria e a forma. mais tarde. pois ela é também condição indispensável para concretizar a forma. A matéria sem forma. em que a forma introduz as determinações. A primeira e a última abraçam todo o ser. deve operar para um fim. portanto. ato puro. A matéria aristotélica. eternas. visto que a alma racional cumpre no homem também as funções da vida sensitiva e vegetativa. A mudança. não-ser atual. que é precisamente síntese . Esta doutrina fundamental da potência e do ato é aplicada . por sua vez. em que se sucedem os acidentes. isto é. isto é. Mediante a doutrina da matéria e da forma. a coisa movida . vamos logo falar. matéria enformada.enquanto tal . conforme o grau de perfeição. e as determinações que se realizam neste substrato. portanto. é o substrato imutável. a mudança. nem o ser de Parmênides. aperfeiçoa-se. porém. a natureza que ele assume. não existe por si. pressupõe uma realidade imutável. a essência. A essência . é precisamente a sensibilidade e a locomoção.realizadora. ser efetivo. pode ser levada a efeito unicamente por um ser que já está em ato. A realidade. potência. Da relação entre a potência e o ato. A mudança é. o imperfeito o perfeito. é composta de indivíduos. consiste ou na sucessão de várias formas na mesma essência. Enfim. A Psicologia Objeto geral da psicologia aristotélica é o mundo animado. substâncias. pela qual toda substância é original e se diferencia de todas as demais. visto ser impossível que o menos produza o mais. pois. absolutamente imóvel. mero princípio de decadência. causa concomitante de todos os seres reais. Aristóteles faz o primeiro . Ao contrário. doutrina que culmina no motor primeiro. surge o movimento. é um absolutamente interminado.sínolo . em geral. Os elementos constitutivos da realidade são. especificadora da matéria .igual em todos os indivíduos de uma mesma espécie . mas vice-versa.por Aristóteles especialmente quando da doutrina da matéria e da forma. as formas aristotélicas são universais. a substância física. a única realidade efetiva no mundo. que dirige a causa eficiente para a atualização da matéria mediante a forma. a forma sem a matéria. A característica da vida animal. para depois chegarmos àquela que foi chamada.e desenvolvida .metafísica. Mesmo que um ser se mova a si mesmo.um sínolo . que tem por princípio a alma sensitiva. portanto. segundo Aristóteles diversamente de Platão todo ser vivo tem uma só alma. De sorte que. e sim imanente e operante nela. A síntese .e culmina no que não pode vir-a-ser. em diversas proporções. que tem por princípio a alma vegetativa. e esta. por uma substância em ato. inteligível. o princípio superior cumpre as funções do princípio inferior. o segundo é atualidade . porém. matéria. produzindo esta síntese o indivíduo. Por conseqüência. deve ser composto de um motor e de uma coisa movida. e ato significa realidade. portanto. princípio de ordem e finalidade.de matéria e forma. que é precisamente a síntese da forma e da matéria. que são uma síntese . e. matéria e forma. que é precisamente a alma. é portanto uma síntese . movido e motor. isto é.de potência e de ato.deriva da forma. III. como as idéias platônicas. Todo ser. A característica essencial e diferencial da vida e da planta. a forma e a matéria. forma concretizada da matéria. Um ser desenvolve-se. chamada matéria-prima. Daí a necessidade de um terceiro princípio. de realidade dos vários seres. possibilidade de assumir várias formas. IV. esta passagem da potência ao ato é atualização de uma possibilidade. que constitui precisamente a substância. que tem por objeto específico o homem. o segundo forma (substancial). a forma aristotélica não é separada da matéria. elemento imutável da mudança. Deus. que fazia os dois elementos transcendentes e exteriores um ao outro. não é o puro não-ser de Platão.o sinolo . para poder explicar a realidade efetiva das coisas. por sua vez.imanente no segundo . a alma é que move o corpo. a mudança. o ser vivo diversamente do ser inorgânico possui internamente o princípio da sua atividade. as qualidades acidentais. Podem-se reduzir fundamentalmente a quatro as questões gerais da metafísica aristotélica: potência e ato. depende da matéria. passando da potência ao ato. que não seja o Ser perfeitíssimo. perfeição. ingrediente necessário para a existência da realidade material. mas une-os em uma síntese conclusiva. a característica da vida do homem. forma. a realização do possível. é o pensamento. racional. Então não existe.natureza e homem . o vir-a-ser. A causa eficiente.. vivente. perfeição. Daí uma quarta causa. que representam a potência e o ato no mundo. portanto. imperfeição. a pura matéria. Diversamente da idéia platônica. é um mero possível. Deus. que é de duas espécies. na natureza em que vivemos. II. ainda que haja nele funções diversas faculdades diversas . Um substrato comum.a não ser por um outro indivíduo.pode ser unicamente potência. potência realizada.da matéria e da forma constitui a substância. a potência o ato. Com respeito à matéria. a causa eficiente. Aqui nos limitamos à psicologia racional. a que é submetido tudo que tem matéria. estes dois princípios não são suficientes para explicar o surgir dos indivíduos e das substâncias que não podem ser atuados . em que a mudança se realiza. a causa final.um sínolo . Mediante esta doutrina é explicado o problema do universal e do particular.

A vontade é o impulso. O sensível próprio é percebido por um só sentido. se se tiver presente que o homem é um animal racional. que prestará a estrutura física à Divina Comédia de Dante Alighieri. Fim de todo devir é o desenvolvimento da potência ao ato. ato puro. e a matéria. sempre o que é mais belo". mas um espírito que anima um corpo animal. mudança. isto é. primeiro escritor da história da filosofia. se desdobra em dois graus. que a ele confluem. Assim. e se tornam. funções. na sensação propriamente dita. figura. tendo a função de coordenar. de fenômenos . e são logicamente separáveis da sua filosofia. Movimento qualitativo . Especialmente célebre é a sua doutrina astronômica geocêntrica. O conhecimento sensível. 4. na própria teoria aristotélica. Sua moral. princípio potencial. é a análise dos vários tipos de movimento. a falsidade. "A natureza faz. sempre verdadeira com respeito ao próprio objeto. etc. O dualismo primitivo e irredutível entre Deus. contrapondo-lhe a concepção do intelecto como tabula rasa. porquanto se manifesta efetivamente com atos diversos. Movimento espacial .mudança de forma. a sensação. ele é o verdadeiro fundador da ciência moderna e "ainda hoje está presente com sua linguagem científica não somente às nossas cogitações. e dessa depende a prática. moralista. o imaterial. Movimento substancial . contemplativa e ativa. deve ser espiritual e. por isso. A sensação embora limitada é objetiva. O senso comum é uma faculdade interna. E assim. o material. cognoscitiva e operativa. as essências. conhecendo o imaterial. dependente do sentimento. ou a possibilidade da falsidade. conforme Aristóteles. Outra especial e importantíssima questão da física aristotélica é a concernente ao espaço e ao tempo. que é a forma do corpo. Acima do conhecimento sensível está o conhecimento inteligível. representações. movimento. isto é. começa com a síntese. especificamente diverso do primeiro. que ele descortina em a natureza. Como se vê. são percebidas por mais sentidos.finalismo . O tempo é definido como sendo o número . como enigma insolúvel e inexplicável. sendo embora uma e única. Juízo sobre Aristóteles É difícil aquilatar em sua justa medida o valor de Aristóteles.porquanto se dão atos diversos. físicas e especialmente astronômicas. segundo Aristóteles. pois. o ser absoluto. O homem é uma unidade substancial de alma e de corpo. como filosofia da natureza. Mas o fato físico transforma-se num fato psíquico. metafísico. as doutrinas aristotélicas têm apenas um valor histórico. Vista Retrospectiva . com o juízo. condicionando todas as demais espécies de mudança.como sendo relações de substâncias.por ele propugnado com base na finalidade. tem várias faculdades. As faculdades fundamentais do espírito humano são duas: teorética e prática. pelos vários sentidos. Cada uma destas. que já sabemos ser passagem da potência ao ato. por sua vez depende do conhecimento sensível. A Cosmologia Uma questão geral da física aristotélica. Objeto do sentido é o particular. Quanto às ciências químicas. ainda que rejeite o inatismo platônico. político. porém. Analogamente às atividades teoréticas. a atividade fundamental da alma é teorética. quer dizer. mas instrumento da alma racional. em que a primeira cumpre as funções de forma em relação à matéria. pelo que ela é espírito. em torno dos quais fez ele investigações profundas. em virtude da específica faculdade e atividade sensitivas da alma. isto é. do "antes" e do "depois". senão também à expressão dos sentimentos e das idéias na vida comum e habitual". o contingente. as sensações específicas são percebidas. o apetite guiado pela razão. a saber. uma idéia da envergadura de seu gênio excepcional. a existência dos seres fora de Deus. O sentido recebe as qualidades materiais sem a matéria delas.isto é. Aristóteles aceita a essencial distinção platônica entre sensação e pensamento. Mas a alma humana desempenha também as funções da alma sensitiva e vegetativa. repouso. Aristóteles distingue quatro espécies de movimentos: 1. patriarca das ciências naturais. que. diversamente de Platão. O apetite é a tendência guiada pelo conhecimento sensível. sendo superior a estas. imediata ou à distância. que tem um valor teorético. sem idéias inatas. Movimento quantitativo . uma verdadeira contradição e deixa subsistir. 3. autor do primeiro tratado de psicologia científica. o imutável. o sensível comum. Uma terceira questão fundamental da filosofia natural de Aristóteles é a concernente ao teleologismo . 2.mudança de propriedade. a realização da forma na matéria. ativa. deve ser imperecível. é. respectivamente. as qualidades gerais das coisas tamanho. O que caracteriza a alma humana é a racionalidade. enquanto possível. o necessário. sensitivo e intelectivo. unificar as várias sensações isoladas. o limite imóvel do corpo "circundante" com respeito ao corpo circundado. percepções. como a cera recebe a impressão do selo sem a sua matéria. o pensamento. a inteligência. sem obrigação nem sanção. duas são as atividades práticas da alma: apetite e vontade. é defeituosa e mais gravemente defeituosa ainda que a teodicéia. cognoscitiva. Por conseqüência. e é próprio da alma animal. Admitidas as precedentes concepções de espaço e de tempo . não é um espírito puro. o aspecto. quanto a tal. o corpo humano não é obstáculo. Nem por isso podemos deixar de apontar as lacunas do seu sistema. as formas das coisas e os princípios primeiros do ser. através do movimento de um meio. realização de uma possibilidade. a alma humana. Esse apetite é concebido precisamente como sendo um movimento finalista. A influência intelectual por ele até hoje exercida sobre o pensamento humano e à qual se não pode comparar a de nenhum outro pensador dá-nos.é evidente que fora do mundo não há espaço nem tempo: espaço e tempo vazios são impensáveis. o mutável. O espaço é definido como sendo o limite do corpo. e é própria da alma racional.mudança de lugar. a medida . Objeto do intelecto é o universal. nascimento e morte.do movimento segundo a razão. sobretudo na parte que trata das relações de Deus com o mundo. a alma humana. Criador da lógica.acrescimento e diminuição. no grau sensível bem como no grau inteligível. que é constituída pelo segundo. pressupões um fato físico. a ação do objeto sensível sobre o órgão que sente.

iguais qualitativamente e diversos quantitativamente . missões. Precisamente. pela qual também os deuses vêm a ser compostos de átomos.divide a filosofia em lógica.. gosto para a formosura. A escola epicurista durou até o IV século d. que é imediata. feita de nobreza de sentimentos. Portanto. seguindo as pegadas de Demócrito. canônica) epicurista é rigorosamente sensista.. é tarefa do conhecimento do mundo. a ciência à moral. retoma o mesmo problema no pé em que o pusera Platão e dá-lhe.I século a. a origem e a variedade das coisas. gravada nas jóias. mas sempre materiais perece com o corpo.C. de outro. a apatia. e foi criado em Samos. que entende com a metafísica.Com Sócrates entre a filosofia em seu caminho definitivo. a alma . com o seu espírito positivo e observador. A originalidade deveria manifestar-se na vida. senso refinado.libertar o homem dos grandes temores que ele tem a respeito da sua vida. no peso. mas conservou-se fortemente organizada. como com aquilo que precede o nascimento. ou mediatamente através dos sentidos. daí derivam encontros e choques de átomos e. a percepção sensível. os quais aplicaram a sua doutrina à vida e dela fizeram a substância de sua arte. mas encalha. em sua honra celebravam-se festas comemorativas. E foi um mestre eficaz de sabedoria aristocrática. eternos. dum lado. Em torno desta questão fundamental.diz Epicuro . o ideal da fidalguia antiga: fazer da formosura o princípio inspirador da vida. a serenidade.habitadores felizes de intermundos . com setenta anos de idade. Entretanto. deu vida a uma sociedade genial. Os átomos são animados de movimento necessário para baixo. o mais precioso legado da civilização grega que declinava à civilização ocidental que surgia. a psicologia e a lógica. mas teve escasso desenvolvimento. em 341 a. física e ética. discípulos e amigos. para a cultura superior. que seriam imagens em miniatura das coisas. nasceu em Atenas. Epicuro expôs a sua doutrina num grande número de escritos. O epicurismo teve. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica Também o epicurismo . para garantir ao homem o bem supremo. Todo o nosso conhecimento deriva da sensação. por conseqüência. A filosofia é a arte da vida. nenhuma preocupação com a morte.como o estoicismo . que se tornaram centro das reuniões aristocráticas dos seus admiradores. arrancar-seiam destas e chegariam até à alma imediatamente. os vórtices e . recorre Epicuro à física atomista. Aristóteles. Tito Lucrécio Caro . desde logo. invisíveis. Em 306 abriu a sua famosa escola em Atenas. uma solução satisfatória e definitiva nos grandes lineamentos. consequentemente. daí. homogêneos. da física . indispensável para que seja possível o movimento e. Dada tal gnosiologia coerentemente sensista. resolvese numa física. mecanicista. espontâneos (clinamen). Platão dá um passo além. a sua imagem. Igualmente. na figura. A ele devemos as melhores notícias sobre o sistema epicurista. que constitui a realidade originária. provavelmente. infinito. não é excluído o fato de que a necessidade universal oprimiria o homem ainda mais do que o arbítrio divino. evidente. As amizades dos epicuristas ficaram famosas como as dos pitagóricos. concebe os elementos últimos constitutivos da realidade como corpúsculos inúmeros. indivisíveis (átomos). Também segundo Epicuro. e .desinteressam-se por completo dos homens. os átomos estão no espaço vazio. resumida em catecismos. pela maior parte perdidos. onde encontramos. sobretudo. em todos os tempos e lugares. indivíduo material. mediante uma estável constituição. do ateniense Néocles. Como a gnosiologia epicurista é rigorosamente sensista. O mestre pareceu aos discípulos como que um redentor. democritiana. A mãe praticava a magia. no movimento uniforme retilíneo para baixo introduz Epicuro desvios múltiplos. fundador da escola que tomou o seu nome.o poeta entusiasta. Cedo dedicou-se à filosofia. nas dificuldades insolúveis de um realismo exagerado. rápida e vasta difusão no mundo romano. nos jardins da sua vila. e fruir dessa formosura na própria existência pessoal. também subordina a teoria à pratica. procurando determinar a relação entre o conceito e a realidade. a evidência sensível é o único critério de verdade no campo teorético. autor de De rerum natura. de Deus e fazer com que ele atue de conformidade. pela teoria da abstração e da inteligência ativa. houve todavia. sem causa. do além-túmulo. Estas nos dão o ser. da mesma forma o sentimento (prazer e dor) será o critério supremo de valor no campo prático. Epicuro foi pessoa fidalga e refinada. O problema do objeto e da possibilidade da ciência é posto em seus verdadeiros termos e resolvido. imutáveis. a sua filosofia foi considerada como uma religião. pertencentes a classes sociais elevadas.C. a sua doutrina. Faleceu em 270 a. nas extravagâncias dum idealismo extremo. é natural que o critério fundamental e único da verdade seja a sensação. Se não houve pensadores epicuristas notáveis depois de Epicuro no mundo clássico nem depois. ajudas materiais. intuitiva. conforme o desejo do mestre. Como a sensação. O processo cognoscitivo da sensação é explicado mediante os assim chamados fantasmas. A gnosiologia (lógica. homens famosos. Em seus jardins. A associação espalhou-se depois. nem com o além-túmulo: seria igualmente absurdo preocupar-se com aquilo que se segue à morte. cartas. da morte. num sereno lazer.formada de átomos sutis. sendo iniciado por Nausífanes de Teo no sistema de Demócrito. que venerava Epicuro como uma divindade.C. nas suas linhas gerais. em que dominava o vínculo da amizade. semelhante ao dos deuses. que queria os discípulos fiéis até a letra do sistema. Aliás. pela doutrina do conceito. O Epicurismo Epicuro. é uma complicação de sensações.C. mensais e anuais. a paz. a metafísica epicurista é rigorosamente materialista: quer dizer. Epicuro. se vão desenvolvendo harmoniosamente as outras partes da filosofia até constituírem em Aristóteles esta grandiosa síntese do saber universal.no tamanho. .

Epicuro é também hostil à atividade pública. Nunca nos encontraremos com a morte. ou de nenhum sofrimento menor. visto ser o desejo inimigo do sossego: eis as condições fundamentais da felicidade. sabiamente. esteticamente. Os deuses de Epicuro são muitos. do indeterminismo universal. porém. satisfazendo suas necessidades essenciais. não tem a coragem de ensinar a renúncia aos prazeres positivos espirituais. dar uma unidade estética e racional à vida. e nada mais seriam que complicações de prazeres sensíveis. e a morte é a ausência de sensibilidade. trata-se do prazer imediato. E sustenta isto em contradição com a sua ascética radical. a vida ideal do sábio. Aqui. É mister dominar os prazeres. e na morte. no sono. a virtude ética de Aristóteles). o bem espiritual não consiste unicamente na contemplação (cfr. não ser perturbado no espírito. escolhido prudentemente. Não sofrer no corpo. O único bem é o prazer. do filósofo. paz e contemplação. quando for preciso. a virtude. afinal. não teriam explicações se os átomos caíssem todos com movimentos uniforme e retilíneos para baixo . que aspira a liberdade e à paz como bens supremos.como na Academia e no Liceu. diversamente do imanentismo estóico. em vigiar-se. a não ser em vista de um prazer. na conversa arguta e delicada: numa palavra. até um verdadeiro pessimismo e ascetismo. nenhum prazer deve ser recusado. porquanto acarretam fatalmente inquietação e agitação. bem como contradiz a sua metafísica materialista com a sua moral. O epicurismo. pois todo mal e todo bem se acham na sensação. não naturais e não necessários . pelos mesmos motivos. considerado vulgarmente como propulsor de devassidão e sensualidade. aos prazeres positivos.por exemplo. portanto. Mediante o clinamen Epicuro justifica ainda o livre arbítrio. como os mais altos prazeres. para os quais não há lugar no seu sistema. No epicurismo não se trata. No entanto. nos jardins de Epicuro. Nesse mundo o homem. sem alma imortal. é natural que Epicuro seja hostil ao matrimônio e à família. O prazer espiritual diferenciarse-ia do prazer sensível. no isolamento do mundo. critério único de moralidade é o sentimento. refletido. . perturbam a serenidade e a paz. como o único mal é a dor. O sábio satisfaz os primeiros. consistiria na renúncia a todos os desejos possíveis. Epicuro. os quais exigem muito pouco e cessam apenas satisfeito. a maneira grega. aliás geralmente desvalorizado no mundo grego. Não obstante o seu materialismo teórico e o seu ateísmo prático. porque quando nós somos. Mas precisamente ainda.desceriam até nós dos intermundos. a não ser por causa de conseqüências dolorosas. refletido. Assim. que encontra precisamente a mais perfeita realização nestes bens espirituais. a amizade genial. por conseguinte. Verdade é que Epicuro mira os prazeres estéticos e intelectuais. racionado? Na satisfação de uma necessidade. que é uma simples combinação da contingência. Nisto estão toda a sabedoria. O verdadeiro prazer não é positivo. A Moral e a Religião A moral epicurista é uma moral hedonista. A filosofia toda está nesta função prática. renuncia os segundos. uma norma de vida ordinária e espiritual. que é precisamente liberdade e paz. que representa o ideal supremo na concepção grega da vida. especialmente durante o sono. a vida se inspirava nos mais requintados costumes. A serenidade do sábio não é perturbada pelo medo da morte. esse prazer imediato. avaliado pela razão. preenchida com as mais nobres ocupações . praticamente ateu. para estar tranqüilo.como os fantasmas de todas as outras coisas . da paixão. e não se deixar por eles dominar. o instinto da reprodução. na insensibilidade. mas também na ação (cfr. a virtude dianoética de Aristóteles). Em que consiste. inversamente. Epicuro divide os desejos em naturais e necessários . não defende o suicídio que poderia justificar com maior razão do que os estóicos. que nasce de exigências não satisfeitas. sem providência divina. quando ela é nós não somos mais. no precaver-se contra as surpresas irracionais do sentimento. melhor é conhecer do que agir. a moral epicuristas. que é unicamente presente. Epicuro. portanto. está certamente em contradição com a sua metafísica materialista. representa. portanto. O mundo e a vida são um espetáculo: melhor é ser espectadores e atores. do vulgo. do prazer imediato. que não pode ser senão cópia de realidade. de sofrimento. na remoção do sofrimento. vivendo ocultamente. O universo não é concebido como finito e uno. mais do que ao mundo. ela não é. ter a faculdade de gozar e não a necessidade de gozar. filosoficamente. e precisamente em uma vida curta e refinada. Epicuro admite a divindade transcendente. porém. sujeitos ao nascimento e à morte. da emoção. de fato. Este prazer imediato deveria ficar sempre essencialmente sensível. O fim supremo da vida é o prazer sensível. Almejava. e nenhum sofrimento deve ser aceito. a ambição. Dado este conceito da vida concebida como liberdade. espalhado pelo espaço infindo. à política considerando a família e a pátria como causas de agitações e inimigos da autarquia.como pensava Demócrito. físicos e espirituais.os mundos. A prova da existência da divindade estaria no fato de que temos na mente humana a sua idéia. mas infinito e resultante de mundos inúmeros divididos por intermundos. consistindo na ausência do sofrimento. na apatia. na unidade da amizade. estéticos e intelectuais. na quietude.por exemplo. porquanto o primeiro se estenderia também ao passado e ao futuro e transcende o segundo. Os fantasmas dos deuses proviriam dos próprios deuses . Estes. Em realidade. e. É de fato. deve adaptar-se para viver como melhor puder. renunciando a todos os desejos possíveis. no entanto. como é desejado pelo homem vulgar. mas ainda renuncia os terceiros. se ele faz uma afirmação profunda. se ensina a renúncia. mas negativo. mesmo quando Epicuro fala de prazeres espirituais.

que concebem a filosofia popularmente. embora acriticamente. Chega-se. a grande metafísica platônico-aristotélica é posta de lado. que importa na contemplação do ideal. uma religião desinteressada. sem qualquer metafísica. feita de abstratas generalidades ou de particularidades secundárias. faz uso da dialética eleática. mas não é atacada pelo ceticismo. dotados de corpos luminosos. O estoicismo procura realizar a apatia ainda mediante uma metafísica positiva. não para receber auxílio. Vivem. procura-se realizar finalmente tão almejada paz. pois a filosofia é escolha.) . O pragmatismo eclético foi. para não serem contaminados. tendo forma humana belíssima. nem a da afirmação. destarte. Contém muito menos elementos céticos e epicuristas. Epicuro venera os deuses. cuja escola terminou pouco depois do seu discípulo Timon. O ceticismo visa sempre um fim último ético-ascético. negando todo absoluto e transcendente. do relativismo sofista. na beata solidão dos intermundos.beatos. enfim. O ceticismo critica o conhecimento sensível. embora imperfeita. mesmo negativa. Encarna-se na média academia com Argesilau e Carnéades. a segunda afirma-se de modo original graças a Carnéades.segundo ideal grego da vida . A felicidade não é mais uma coisa positiva. como uma suma de elementos estóicos. portanto. . organismo especulativo. Através da mais absoluta indiferença. desesperada por não ter podido resolver o problema da vida mediante a razão. perturbados. E isto basta aos fins ético-empíricos dos ecléticos. como o ceticismo. dada a natureza crítica do ceticismo. de várias escolas filosóficas. inteiramente voltada para a prática e para a ação. mas porque eles encarnam o ideal estético grego da vida. Persiste nos céticos uma fé nostálgica e realista e o conceito da objetividade da ciência: o ser. É preciso venerá-los para imitá-los. Deste modo. não filosóficos. que implica sempre numa crítica.C. A primeira escola cética serve-se.o mal da religião. o objeto. O Período Ético (300 a. e também a opinião. É uma teologia refinada de ateniense e de artista.. característico . que é inacessível ao homem". moralisticamente. e a coerência materialista do epicurismo. surge de novo na forma pirroniana com Enesidemo e Sexto Empírico.529 D. construção. mais ou menos). O nem-nem dos céticos é mudado em e-e pelos ecléticos. prática e teorética. Substancialmente. se os deuses não proporcionam ao homem nenhuma vantagem prática. sutis e luzentes. É o ceticismo a última palavra da sabedoria antiga. embora imensamente inferior ao ceticismo.C. à destruição de todos os valores.não atuam sobre o mundo e a humanidade.como acontece nos períodos de decadência especulativa . a terceira. mas não se podem conhecer por falta de meios. existem. O ceticismo clássico começa com Pirro de Elis (365-275 a. Ceticismo e Ecletismo O ceticismo apresenta-se mais coerente do que as escolas precedentes. no período helenista e depois ainda. com os fins práticos de uma filosofia da renúncia. proclamado ateu. É o ecletismo filosofia de espíritos pragmáticos ou decadentes. encarnando na serenidade do mármore o ideal grego contemplativo e estético da vida. cuja grande obra. Diz Argesilau: "Deus unicamente conhece a verdade.como as idéias transcendentes de Platão e ato puro de Aristóteles . ou não têm a força da crítica. E. portanto será não a filosofia. O ecletismo apresenta-se como uma síntese prática ou.constituídos de átomos etéreos. conversando em grego! Mas . sistema. O advento de uma semelhante filosofia foi favorecido pela permanência e pela coexistência. enfim. depois acadêmico e.C. sorvendo ambrósia. e por demais despersonalizadas. favorecido pelo contato do pensamento grego com a romanidade dominante. escapando destarte a fatal destruição dos mundos. se nada é verdadeiro. segundo os elementos de uma ou de outra escola na síntese prática do próprio ecletismo. substitui ao critério da verdade o da verossimilhança. e não justaposição mecânica de peças sem vida.entre os limites impostos pelo pensamento grego e pelo seu pensamento . melhor ainda. em ordem cronológica. geralmente. de tendência pirroniana. semelhantes e diversos ao mesmo tempo dos fins éticos-ascéticos dos céticos. Temos precisamente. do sossego. peripatético. acadêmicos e também peripatéticos. mas pode ser alcançada unicamente negando o saber. fora do mundo e dos mundos. nos espaços entre mundo e mundo. da indiferença. Então. imortais diversamente dos deuses estóicos . proporcionam-lhe contudo o bem da elevação. especialmente do que o estoicismo. uma espécie de puro amor de Deus dos ascetas e dos místicos. um ecletismo estóico.de sorte que se torna fácil a síntese eclética. em princípios da era vulgar. contemplados . O ecletismo apresenta-se como um sistema afim. e sim o jus. esvaziadas do seu conteúdo original. Também o ecletismo. que surgiram em tempos diferentes. ideal que tem uma expressão concreta precisamente nas belas divindades do panteão helênico. que vive no mundo de estátuas divinas. tudo vale igualmente. nem está no saber e não se pode alcançar mediante o saber. O epicurismo tende a realizar o mesmo fim com uma metafísica negativa. enfim. bem como o intelectual. Epicuro. incoerente. da tese e da antítese.sempre acordados e sentados em jovial convívio. teria praticado .

faltando ao homem interesse e a força para a especulação pura. juntamente com a atividade didática. em terceiro lugar. física. significando a expansão da cultura grega. leva para ele. Finalmente. Tudo isto torna dolorosa a vida do homem. o vigor especulativo. história. antes de tudo. o direito romano. voltando-se para a sofística. como julga Platão. do lugar onde ele costumava ensinar: pórtico em grego. que lhe despertam o entusiasmo para com os estudos filosóficos.dedica-se à filosofia. mas vastas orientações e escolas. matemática. nem moral. ao passo que a metafísica esmorece. o qual. depende de cultura grega. isto é. No terceiro período do pensamento grego não se encontram mais alguns poucos e grandes pensadores. em que não há mais metafísica alguma. Não filosofia teorética. e. freqüentando por algum tempo várias escolas e mestres. a saber. a primazia da ética e a união de filosofia e vida.ecletismo e estoicismo. porém. anuladas. que se chamou estóica. cínica e cirenaica. Em seus escritos já se encontram a clássica divisão estóica da filosofia em lógica. na história da filosofia denomina-se período ético. E.C. Seu pai. pelo que diz respeito à filosofia. entre os quais o cínico Crates. libertar o homem das preocupações transcendentais. Do contingente e do temporal. ciências naturais. uma orientação moral. Na história da civilização e da cultura. consequentemente. mais ou menos). à erudição e às ciências especiais que se desenvolvem. literatura. A arte resolve-se no virtuosismo e na imitação. física e ética.Características Gerais O Estoicismo O Pensamento: A Gnosiologia e a Metafísica A Moral e a Política Características Gerais O terceiro período do pensamento grego abrange os três séculos que decorrem da morte de Aristóteles ao início da era vulgar.perdidos seus bens . desenvolve-se naturalmente a técnica. e. o helenismo. O interesse teorético. Iniciou. como na idade moderna. o homem volta-se para o transcendente e para o eterno. do temor de além-túmulo. filosofia moral e moral prática. bem como à moral das escolas socráticas menores. um período recente ou religioso. geografia. retorna-se à metafísica naturalista dos pré-socráticos. o estoicismo pode-se dividir em três períodos: um período antigo ou ético. ciência e técnica. com relação às ciências especiais. por conseqüência. a filosofia torna-se uma preparação para a morte. A grandeza verdadeira e original do pensamento latino é o jus. como opina Aristóteles. stoá. Nesta civilização cosmopolita encontram-se dois valores universais: o pensamento e a arte dos gregos. um período médio ou eclético. em que a metafísica tem apenas uma função negativa. valor universal como a filosofia grega. e anacrônica. astronomia. como na escola eclética. medicina. encontrando-a na renúncia ao mundo e à própria vida. e a sabedoria é desapego da ação. enfim exporemos o pensamento latino. Em conclusão. pelo ano 300. da escola estóica. em segundo lugar. menosprezando o grande desenvolvimento filosófico platônicoaristotélico. bastante divergentes do estoicismo clássico. e precisamente desse terceiro período . toda moral. O primeiro valor dá o conteúdo. que procura na filosofia um conforto. uns tratados socráticos. o segundo a forma . funda a sua escola. mas afirmações dogmáticas. o jus e a política dos romanos. Primeiramente (estoicismo e epicurismo).Graecia capta ferum victorem cepit. Trataremos. mas filologia. em contradição consigo mesma e com a moral. porquanto o interesse filosófico é voltado para os problemas morais. aí . Os dois últimos. em que ainda há uma metafísica. bem como na profunda tristeza dos tempos e na profunda sensibilidade diante do mal. restringem-se ao particular.. O Estoicismo Em seu conjunto. O fundador da antiga escola estóica é Zenão de Citium (334-262 a. em que a metafísica e moral são sincretistas. depois (ceticismo e ecletismo). a cultura helenista reduz-se à erudição e ao virtuosismo. da escola epicuréia. no mundo civilizado. de Atenas. como no precedente. mercador. da escola cética. Aos vinte e dois anos vai para Atenas. . Os motivos desta filosofia pragmatista devem ser procurados na decadência espiritual e moral da época. a de escritor. anula-se toda metafísica e. não sistemas críticos. elementar. helênica. este período toma o nome de helenismo. portanto.

Os estóicos dividem a lógica em dialética e retórica. também da moral. uma tendência irracional. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica O estoicismo não apresenta o fenômeno de um grande filósofo. ao prazer e ao sofrimento . quer se trate de piedade. é sempre e substancialmente má. Não obstante esse absorvente moralismo. em especial no homem. seguindo-se o aniquilamento da ciência. a única atitude do sábio estóico deve ser o aniquilamento da paixão. o conhecimento parte dos dados imediatos do sentido. a física iguala a metafísica. imaginam-no como espírito ordenador. morbo e vício da alma . mas a virtude. O conceito. o fim supremo. a felicidade. que se manifesta no mundo. pois é movimento irracional. O conhecimento intelectual nada mais pode ser que uma combinação. como o Sol faz brotar da semente a planta. Com o desenvolvimento do estoicismo. assim o mal único e absoluto é o vício. todavia. e sim como sendo ela própria um bem imediato. surge pela influência de outras escolas e para responder às objeções dessas escolas.substância metafísica da realidade -. uma ética. a virtude acaba por se tornar meio para a felicidade da tranqüilidade. A virtude estóica é. a sabedoria. os estóicos distinguem na filosofia uma lógica. naturalmente. na filosofia estóica. Dada a indiferença estóica do suicídio como voluntário e moral afastamento do mundo. pois. no fundo. seguido por uma série de discípulos mais ou menos originais. uma necessidade mecânica. Esta matéria está em perpétuo vir-aser. por conseguinte. e dar uma explicação à razão. da autarquia do sábio. decadente. razão da vida. A mente humana é concebida como uma tabula rasa. ao repouso e à fadiga. mas sim uma turma bastante uniforme de pensadores medíocres. atribuem-lhe arbitrariamente os atributos divinos da sabedoria e da providência. sacerdotal. pode tornar-se bem se for unido com a virtude. segundo uma ordem teológica. e cujo curso é fatalmente determinado. De tal forma. da metafísica e.pois o prazer é julgado insana vaidade da alma. uma emoção. em correspondência com o discurso interior e exterior. fornecer alguma base à sua ética do dever. uma física. há o vício quando à indiferença se ajunta a paixão. A paixão. moralizadoras. que nasce da virtude negativa da apatia. devem-se conceber materialisticamente também Deus. não como ciência. à riqueza e à pobreza. o único bem do homem.A escola estóica média ou eclética. donde derivam o desejo. a independência interior. mal se for ligado ao vício. amiúde apresentando-se como a filosofia dos não filósofos que têm pretensões filosóficas. a paixão. a metafísica dos estóicos é uma metafísica elementar. Podem-se. A Moral e a Política No pensamento dos estóicos. indiferença e renúncia a tudo. o estoicismo. Entende-se. rigoristas. as propriedades das coisas. incoerentemente declaram racional o fogo . logo. a indiferença e a renúncia a todos os bens do mundo que não dependem de nós. E não tanto pelo dano que pode acarretar ao vicioso. destino. para firmar a virtude e. porquanto é radicalmente materialista: se tudo é material. todavia. ordem são afirmados ao lado dos conceitos opostos de fado. Deus. como geralmente acontece. uma complicação quantitativa de elementos sensíveis. a dor. à maneira de Demócrito. ainda que se acabe por repudiá-lo como perturbador da indiferença. Tudo aquilo que não é virtude nem vício. da serenidade. às honras e à obscuridade. à saúde e à doença. não é o prazer. a virtude. pois. No dizer dos estóicos. Como se vê. não é concebida como necessária condição para alcançar a felicidade. moralistas. isto não se concilia. inclusive da política e da religião. é destruído. providência. mas a sua destruição total. o vício. Daí a guerra justificada do estoicismo contra o sentimento. no fundo. metafísicos. inteiramente absorvidos na prática. toda atividade é movimento. Como em Aristóteles. a ética é o fim último e único de toda a filosofia. mas. numa palavra. mecanicismo. quanto pela sua irracionalidade e desordem intrínseca. metafísica. agrupar na escola estóica nova ou religiosa os que entendiam absolutamente a filosofia. A felicidade do homem virtuoso é a libertação de toda perturbação. para assegurar ao homem a felicidade. E compreende-se o seu vasto êxito em todos os tempos. fazendo emergir todas as qualidades da matéria. da indiferença universal. para dar lugar unicamente à razão: maravilhoso ideal de homem sem paixão. A metafísica estóica reduz-se à física.quer se trate de ódio. a tarefa essencial da filosofia é a solução do problema da vida. e a lei desse princípio material só pode ser. mas apenas indiferença. mas pragmatistas. acaba não sendo mais filosofia. que constituem os únicos bens verdadeiros: indiferença e renúncia à vida e à morte. a tranqüilidade da alma. a alma. contraditória. da serenidade. e os estóicos não são filósofos. Devendo os estóicos. diversamente de Aristóteles. Na lógica trata-se da gnosiologia. mas como uma missão e uma prática religiosa. a filosofia é cultivada exclusivamente em vista da moral. . até a apatia. o conhecimento é limitado ao âmbito dos sentidos. que devem ser aniquilados. isto é. em outras palavras. Por conseguinte. na ética. não é nem bem nem mal. pois. a emoção. como a filosofia estóica chega a ser substancialmente pragmatista e. salvo e pensamento. logo. conforme a concepção de Heráclito. O ideal ético estóico não é o domínio racional da paixão. a autarquia. espírito. Como o bem absoluto e único é a virtude. necessidade. que anda como um deus entre os homens. não obstante as repetidas e múltiplas declarações estóicas em louvor da razão.

salvo o seu pensamento cujo conteúdo é. e se conforma com o demais. magoado pela possível e freqüente carência dos bens terrenos.porém. morte moral. não a alma. de tal maneira. se a ordem do universo é racional. como precisamente afirmam os estóicos. porém. Diz o estóico Musônio: "O mundo é a pátria comum de todos os homens". é uma pura palavra. em definitivo. A sabedoria estóica é ação negadora da expansão das forças espirituais. de direito natural. único bem da alma. com a virtude da fortaleza que o estoicismo reconhece e louva. e a tudo renuncia. até para os infelizes e os escravos. Com efeito. Tal cosmopolitismo foi fecundo em progresso. destinada a resolver-se na matéria. a apatia dos estóicos seria. inteiramente fechado na sua torre de marfim. promove todavia os conceitos de sociedade universal. A serenidade. pois no sistema estóico. em civilização humana e moral. que são o verdadeiro. a serenidade. sentimento este inteiramente desconhecido ao mundo antigo. de uma dura virtude. O sábio é beato. a que os estóicos não podem fornecer uma base racional e metafísica. político por natureza. Pelo que diz respeito à política. quando o homem se torna indiferente a tudo. a paz. Não Deus. e nem se pode explicar racionalmente o suicídio. que existe. supremo. o sossego. esta mesma renúncia -. não lhe resta efetivamente mais nada. de perdão. pois sabe que tudo é efeito de um determinismo universal. clássico. torna-se cosmopolita por natureza. livres e íntegros. fruto de uma fatigosa conquista. os estrangeiros e os inimigos. apenas para os concidadãos. em virtude da doutrina que afirma a identidade da natureza humana. manifesta-se na filosofia estóica um racionalismo cosmopolita radical a propósito da sociedade estatal: o homem. nada lhe acontece que não seja por ele querido. conceitos que deveriam ser deduzidos da natureza racional do homem. Destarte. Abre-se caminho a um sentimento de caridade. de lei racional. sem dúvida. . onde campeia solitária uma justiça. esse cosmopolitismo. e para não perder. porque. O estóico pratica esta indiferença e renúncia para não ser perturbado. sem saudades e sem esperanças. E até começam a nascer instituições caritativas para com os pobres e os doentes. Mas é uma virtude absolutamente negativa. virtude corrosiva.

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