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Livro - O Mundo Dos Filosofos

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  • Dualismo Grego
  • O Gênio Grego
  • Divisão da História da Filosofia Grega
  • Primeiro Período
  • Escola Jônica
  • A Pátria Estelar
  • Demócrito e suas Teorias
  • Teoria do Conhecimento
  • Teoria do Comportamento
  • Os Sofistas
  • Período Sistemático
  • A Sofística
  • Protágoras de Abdera
  • Górgias de Leôncio
  • Defesa Contra os Antigos Acusadores Calúnia a Respeito do Saber de Sócrates
  • O Que é o Saber de Sócrates O Oráculo de Delfos
  • Pesquisa Junto aos Políticos
  • Pesquisa Junto aos Artesãos
  • O Verdadeiro Saber Consiste em Saber Que Não se Sabe
  • As Muitas Inimizades e a Acusação
  • Defesa Contra Meleto
  • Meleto Não Sabe o Que é Educar Nem Corromper
  • Meleto Acusa Sócrates de Ateísmo e se Contradiz
  • Repugnância e Abstenção Socrática da Política Comum
  • Epílogo - Sócrates não quer Misericórdia
  • Segunda Parte - A Pena Do Esperado da Pena
  • Terceira Parte - Após a Condenação Aos que Votaram Contra
  • Aos que o Absolveram
  • O Pensamento: A Gnosiologia
  • As Almas
  • O Mundo
  • Moral
  • A Política
  • A Religião e a Arte
  • A Academia
  • O Epicurismo
  • O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica
  • A Moral e a Religião
  • Ceticismo e Ecletismo
  • O Estoicismo
  • A Moral e a Política

Os Pré-Socráticos

Dualismo Grego
A característica fundamental do pensamento grego está na solução dualista do problema metafísico-teológico, isto é, na solução das relações entre a realidade empírica e o Absoluto que a explique, entre o mundo e Deus, em que Deus e mundo ficam separados um do outro. Conseqüência desse dualismo é o irracionalismo, em que fatalmente finaliza a serena concepção grega do mundo e da vida. O mundo real dos indivíduos e do vir-a-ser depende do princípio eterno da matéria obscura, que tende para Deus como o imperfeito para o perfeito; assimila em parte, a racionalidade de Deus, mas nunca pode chegar até ele porque dele não deriva. E a conseqüência desse irracionalismo outra não pode ser senão o pessimismo: um pessimismo desesperado, porque o grego tinha conhecimento de um absoluto racional, de Deus, mas estava também convicto de que ele não cuida do mundo e da humanidade, que não criou, não conhece, nem governa; e pensava, pelo contrário, que a humanidade é governada pelo Fado, pelo Destino, a saber, pela necessidade irracional. O último remédio desse mal da existência será procurado no ascetismo, considerando-o como a solidão interior e a indiferença heróica para com tudo, a resignação e a renúncia absoluta.

O Gênio Grego
A característica do gênio filosófico grego pode-se compendiar em alguns traços fundamentais: racionalismo, ou seja, a consciência do valor supremo do conhecimento racional; esse racionalismo não é, porém, abstrato, absoluto, mas se integra na experiência, no conhecimento sensível; o conhecimento, pois, não é fechado em si mesmo, mas aberto para o ser, é apreensão (realismo); e esse realismo não se restringe ao âmbito da experiência, mas a transpõe, a transcende para o absoluto, do mundo a Deus, sem o qual o mundo não tem explicação; embora, para os gregos, o "conhecer" - a contemplação, o teorético, o intelecto - tenham a primazia sobre o "operar" - a ação, o prático, a vontade - o segundo elemento todavia, não é anulado pelo primeiro, mas está a ele subordinado; e o otimismo grego, conseqüência lógica do seu próprio racionalismo, cederá lugar ao pessimismo, quando se manifestar toda a irracionalidade da realidade, quando o realismo impuser tal concepção. Todos esses elementos vêm sendo, ainda, organizados numa síntese insuperável, numa unidade harmônica, realizada por meio de um desenvolvimento também harmônico, aperfeiçoado mediante uma crítica profunda. Entre as raças gregas, a cultura, a filosofia são devidas, sobretudo, aos jônios, sendo jônios também os atenienses.

Divisão da História da Filosofia Grega
Os Períodos Principais do Pensamento Grego Consoante a ordem cronológica e a marcha evolutiva das idéias pode dividir-se a história da filosofia grega em três períodos: I. Período pré-socrático (séc. VII-V a.C.) - Problemas cosmológicos. Período Naturalista: présocrático, em que o interesse filosófico é voltado para o mundo da natureza; II. Período socrático (séc. IV a.C.) - Problemas metafísicos. Período Sistemático ou Antropológico: o período mais importante da história do pensamento grego (Sócrates, Platão, Aristóteles), em que o interesse pela natureza é integrado com o interesse pelo espírito e são construídos os maiores sistemas filosóficos, culminando com Aristóteles; III. Período pós-socrático (séc. IV a.C. - VI p.C.) - Problemas morais. Período Ético: em que o interesse filosófico é voltado para os problemas morais, decaindo entretanto a metafísica; IV. Período Religioso: assim chamado pela importância dada à religião, para resolver o problema da vida, que a razão não resolve integralmente. O primeiro período é de formação, o segundo de apogeu, o terceiro de decadência.

Primeiro Período
O primeiro período do pensamento grego toma a denominação substancial de período naturalista, porque a nascente especulação dos filósofos é instintivamente voltada para o mundo exterior, julgando-se encontrar aí também o princípio unitário de todas as coisas; e toma, outrossim, a denominação cronológica de período pré-socrático, porque precede Sócrates e os sofistas, que marcam uma mudança e um desenvolvimento e, por conseguinte, o começo de um novo período na história do pensamento grego. Esse primeiro período tem início no alvor do VI século a.C., e termina dois séculos depois, mais ou menos, nos fins do século V. Surge e floresce fora da Grécia propriamente dita, nas prósperas colônias gregas da Ásia Menor, do Egeu (Jônia) e da Itália meridional, da Sicília, favorecido sem dúvida na sua obra crítica e especulativa pelas liberdades democráticas e pelo bem-estar econômico. Os filósofos deste período preocuparam-se quase exclusivamente com os problemas cosmológicos. Estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem, na sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito, é a grande questão que dá a este período seu caráter de unidade. Pelo modo de a encarar e resolver, classificam-se os filósofos que nele floresceram em quatro escolas: Escola Jônica; Escola Itálica; Escola Eleática; Escola Atomística.

Escola Jônica
A Escola Jônica, assim chamada por ter florescido nas colônias jônicas da Ásia Menor, compreende os jônios antigos e os jônios posteriores ou juniores. A escola jônica, é também a primeira do período naturalista, preocupando-se os seus expoentes com achar a substância única, a causa, o princípio do mundo natural vário, múltiplo e mutável. Essa escola floresceu precisamente

em Mileto, colônia grega do litoral da Ásia Menor, durante todo o VI século, até a destruição da cidade pelos persas no ano de 494 a.C., prolongando-se porém ainda pelo V século. Os jônicos julgaram encontrar a substância última das coisas em uma matéria única; e pensaram que nessa matéria fosse imanente uma força ativa, de cuja ação derivariam precisamente a variedade, a multiplicidade, a sucessão dos fenômenos na matéria una. Daí ser chamada esta doutrina hilozoísmo (matéria animada). Os jônios antigos consideram o Universo do ponto de vista estático, procurando determinar o elemento primordial, a matéria primitiva de que são compostos todos os seres. Os mais conhecidos são: Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Anaxímenes de Mileto. Os jônios posteriores distinguem-se dos antigos não só por virem cronologicamente depois, senão principalmente por imprimirem outra orientação aos estudos cosmológicos, encarando o Universo no seu aspecto dinâmico, e procurando resolver o problema do movimento e da transformação dos corpos. Os mais conhecidos são: Heráclito de Éfeso, Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazômenas.

Tales de Mileto (624-548 A.C.) "Água"
Tales de Mileto, fenício de origem, é considerado o fundador da escola jônica. É o mais antigo filósofo grego. Tales não deixou nada escrito mas sabemos que ele ensinava ser a água a substância única de todas as coisas. A terra era concebida como um disco boiando sobre a água, no oceano. Cultivou também as matemáticas e a astronomia, predizendo, pela primeira vez, entre os gregos, os eclipses do sol e da lua. No plano da astronomia, fez estudos sobre solstícios a fim de elaborar um calendário, e examinou o movimento dos astros para orientar a navegação. Provavelmente nada escreveu. Por isso, do seu pensamento só restam interpretações formuladas por outros filósofos que lhe atribuíram uma idéia básica: a de que tudo se origina da água. Segundo Tales, a água, ao se resfriar, torna-se densa e dá origem à terra; ao se aquecer transforma-se em vapor e ar, que retornam como chuva quando novamente esfriados. Desse ciclo de seu movimento (vapor, chuva, rio, mar, terra) nascem as diversas formas de vida, vegetal e animal. A cosmologia de Tales pode ser resumida nas seguintes proposições: A terra flutua sobre a água; A água é a causa material de todas as coisas. Todas as coisas estão cheias de deuses. O imã possui vida, pois atrai o ferro. Segundo Aristóteles sobre a teoria de Tales: elemento estático e elemento dinâmico. Elemento Estático - a flutuação sobre a água. Elemento Dinâmico - a geração e nutrição de todas as coisas pela água. Tales acreditava em uma "alma do mundo", havia um espírito divino que formava todas as coisas da água. Tales sustentava ser a água a substância de todas as coisas.

Anaximandro de Mileto (611-547 A.C.) "Ápeiron"
Anaximandro de Mileto, geógrafo, matemático, astrônomo e político, discípulo e sucessor de Tales e autor de um tratado Da Natureza, põe como princípio universal uma substância indefinida, o ápeiron (ilimitado), isto é, quantitativamente infinita e qualitativamente indeterminada. Deste ápeiron (ilimitado) primitivo, dotado de vida e imortalidade, por um processo de separação ou "segregação" derivam os diferentes corpos. Supõe também a geração espontânea dos seres vivos e a transformação dos peixes em homens. Anaximandro imagina a terra como um disco suspenso no ar. Eterno, o ápeiron está em constante movimento, e disto resulta uma série de pares opostos - água e fogo, frio e calor, etc. - que constituem o mundo. O ápeiron é assim algo abstrato, que não se fixa diretamente em nenhum elemento palpável da natureza. Com essa concepção, Anaximandro prossegue na mesma via de Tales, porém dando um passo a mais na direção da independência do "princípio" em relação às coisas particulares. Para ele, o princípio da "physis" (natureza) é o ápeiron (ilimitado). Atribui-se a Anaximandro a confecção de um mapa do mundo habitado, a introdução na Grécia do uso do gnômon (relógio de sol) e a medição das distâncias entre as estrelas e o cálculo de sua magnitude (é o iniciador da astronomia grega). Ampliando a visão de Tales, foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo cósmico total. Diz-se também, que preveniu o povo de Esparta de um terremoto. Anaximandro julga que o elemento primordial seria o indeterminado (ápeiron), infinito e em movimento perpétuo. Fragmentos "Imortal...e imperecível (o ilimitado enquanto o divino) - Aristóteles, Física". Esta (a natureza do ilimitado, ele diz que) é sem idade e sem velhice. Hipólito, Refutação.

Anaxímenes de Mileto (588-524 A.C.) "Ar"
Segundo Anaxímenes, a arkhé (comando) que comanda o mundo é o ar, um elemento não tão abstrato como o ápeiron, nem palpável demais como a água. Tudo provém do ar, através de seus movimentos: o ar é respiração e é vida; o fogo é o ar rarefeito; a água, a terra, a pedra são formas cada vez mais condensadas do ar. As diversas coisas que existem, mesmo apresentando qualidades diferentes entre si, reduzem-se a variações quantitativas (mais raro, mais denso) desse único elemento. Atribuindo vida à matéria e identificando a divindade com o elemento primitivo gerador dos seres, os antigos jônios professavam o hilozoísmo e o panteísmo naturalista. Dedicou-se especialmente à meteorologia. Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe sua luz do Sol. Anaxímenes julga que o elemento primordial das coisas é o ar. Fragmentos "O contraído e condensado da matéria ele diz que é frio, e o ralo e o frouxo (é assim que ele expressa) é quente". (Plutarco). "Com nossa alma, que é ar, soberanamente nos mantém unidos, assim também todo o cosmo sopro e ar o mantém". (Aécio).

Heráclito de Éfeso Vida de Heráclito
Heráclito nasceu em Éfeso, cidade da Jônia, de família que ainda conservava prerrogativas reais (descendentes do fundador da cidade). Seu caráter altivo, misantrópico e melancólico ficou proverbial em toda a antigüidade. Desprezava a plebe. Recusou-se sempre a intervir na política. Manifestou desprezo pelos antigos poetas, contra os filósofos de seu tempo e até contra a religião. Sem ter sido mestre, Heráclito escreveu um livro Sobre a Natureza, em prosa, no dialeto jônico, mas de forma tão concisa que recebeu o cognome de Skoteinós, o Obscuro. Floresceu em 504-500 a.C. - Heráclito é por muitos considerados o mais eminente pensador pré-socrático, por formular com vigor o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias. Estabeleceu a existência de uma lei universal e fixa (o Lógos), regedora de todos os acontecimentos particulares e fundamento da harmonia universal, harmonia feita de tensões, "como a do arco e da lira".

Filosofia de Heráclito
Heráclito concebe o próprio absoluto como processo, como a própria dialética. A dialética é: A. Dialética exterior, um raciocinar de cá para lá e não a alma da coisa dissolvendo-se a si mesma; B. Dialética imanente do objeto, situando-se, porém, na contemplação do sujeito; C. Objetividade de Heráclito, isto é, compreender a própria dialética como princípio. É o progresso necessário, e é aquele que Heráclito fez. O ser é o um, o primeiro; o segundo é o devir - até esta determinação avançou ele. Isto é o primeiro concreto, o absoluto enquanto nele se dá a unidade dos opostos. Nele encontra-se, portanto, pela primeira vez, a idéia filosófica em sua forma especulativa; o raciocínio de Parmênides e Zenão é entendimento abstrato; por isso Heráclito foi tido como filósofo profundo e obscuro e como tal criticado. O que nos é relatado da filosofia de Heráclito parece, à primeira vista, muito contraditório; mas nela se pode penetrar com o conceito e assim descobrir, em Heráclito, um homem de profundos pensamentos. Ele é a plenitude da consciência até ele uma consumação da idéia na totalidade que é o início da Filosofia ou expressa a essência da idéia, o infinito, aquilo que é.

O Princípio Lógico
O princípio universal. Este espírito arrojado pronunciou pela primeira vez esta palavra profunda: "O ser não é mais que o não-ser", nem é menos; ou ser e nada são o mesmo, a essência é mudança. O verdadeiro é apenas como a unidade dos opostos; nos eleatas, temos apenas o entendimento abstrato, isto é, apenas o ser é. Dizemos, em lugar da expressão de Heráclito: O absoluto é a unidade do ser e do não-ser. Se ouvimos aquela frase "O ser não é mais que o não-ser", desta maneira, não parece, então, produzir muito sentido, apenas destruição universal, ausência de pensamento. Temos, porém, ainda uma outra expressão que aponta mais exatamente o sentido do princípio. Pois Heráclito diz: "Tudo flui (panta rei), nada persiste, nem permanece o mesmo". E Platão ainda diz de Heráclito: "Ele compara as coisas com a corrente de um rio - que não se pode entrar duas vezes na mesma corrente"; o rio corre e toca-se outra água. Seus sucessores dizem até que nele nem se pode mesmo entrar, pois que imediatamente se transforma; o que é, ao mesmo tempo já novamente não é. Além disso, Aristóteles diz que Heráclito afirma que é apenas um o que permanece; disto todo o resto é formado, modificado, transformado; que todo o resto fora deste um flui, que nada é firme, que nada se demora; isto é, o verdadeiro é o devir, não o ser - a determinação mais exata para este conteúdo universal é o devir. Os eleatas dizem: só o ser é, é o verdadeiro; a verdade do ser é o devir; ser é o primeiro pensamento enquanto imediato. Heráclito diz: Tudo é devir; este devir é o princípio. Isto está na expressão: "O ser é tão pouco como o não-ser; o devir é e também não é". As determinações absolutamente opostas estão ligadas numa unidade; nela temos o ser e também o não-ser. Dela faz parte não apenas o surgir, mas também o desaparecer; ambos não são para si, mas são idênticos. É isto que Heráclito expressou com suas sentenças. O não ser é, por isso é o não-ser, e o não-ser é, por isso é o ser; isto é a verdade da identidade de ambos. É um grande pensamento passar do ser para o devir; é ainda abstrato, mas, ao mesmo tempo, também é o primeiro concreto, a primeira unidade de determinações opostas. Estas estão inquietas nesta relação, nela está o princípio da vida. Com isto está preenchido o vazio que Aristóteles apontou nas antigas filosofias - a falta de movimento; este movimento é aqui, agora mesmo, princípio. É uma grande convicção que se adquiriu, quando se reconheceu que o ser e o nada são abstrações sem verdade, que o primeiro elemento verdadeiro é o devir. O entendimento separa a ambos como verdadeiros e de valor; a razão, pelo contrário, reconhece um no outro, que num está contido seu outro - e assim o todo, o absoluto deve ser determinado como o devir. Heráclito também diz que os opostos são características do mesmo, como, por exemplo, "o mel é doce e amargo" - ser e não-ser ligam-se ao mesmo. Sexto observa: Heráclito parte, como os céticos, das representações correntes dos homens; ninguém negará que os sãos dizem do mel que é doce, e os que sofrem de icterícia que é amargo - se fosse apenas doce, não poderia modificar sua natureza através de outra coisa e assim também para os que sofrem de icterícia seria doce. Zenão começa a sobressumir os predicados opostos e aponta no movimento aquilo que se opõe - um por limites e um sobressumir os limites; Zenão só exprimiu o infinito pelo seu lado negativo - , por causa de sua contradição, como o não verdadeiro. Em Heráclito, vemos o infinito como tal expresso como conceito e essência: o infinito, que é em si e para si, é a unidade dos opostos e, na verdade, dos universalmente opostos, da pura oposição, ser e não-ser. Tomamos nós o ente em si e para si, não a representação do ente, do pleno, assim o puro ser é o pensamento simples, em que todo o determinado é negado, o absolutamente negativo - nada é o mesmo, apenas este igual a si mesmo - , passagem absoluta para o oposto, ao qual Zenão

não chegou! "Do nada, nada vem." Em Heráclito o momento da negatividade é imanente; disto trata o conceito de toda a Filosofia. Primeiro tivemos a abstração de ser e não-ser, numa forma bem imediata e universal; mais exatamente, porém, também Heráclito concebeu as oposições de maneira mais determinada. É esta unidade de real e ideal, de objetivo e subjetivo; o objetivo somente é o devir subjetivo. Este verdadeiro é o processo do devir; Heráclito expressou de modo determinado este pôr-se numa unidade das diferenças. Aristóteles diz, por exemplo, que Heráclito "ligou o todo e o não-todo" (parte) - o todo se torna parte e a parte o é para se tornar o todo - , o "que se une e se opõe", do mesmo modo, "o que concorda e o dissonante"; e de que de tudo (que se opõe) resulta um, e de um tudo. Este um não é o abstrato, a atividade de dirimir-se; a morta infinitude é uma má abstração em oposição a esta profundidade que vemos em Heráclito. Sexto Empírico cita o seguinte que Heráclito teria dito: A parte é algo diferente do todo; mas é também o mesmo que o todo é; a substância é o todo e a parte. O fato de Deus ter criado o mundo Ter-se dividido a si mesmo, gerado seu Filho, etc. - todos estes elementos concretos estão contidos nesta determinação. Platão diz, em seu Banquete, sobre o princípio de Heráclito: "O um, diferenciado de si mesmo, une-se consigo mesmo" - este é o processo da vida, "como a harmonia do arco e da lira". Deixa então que Erixímaco, que fala no Banquete, critique o fato de a harmonia ser desarmônica ou se componha de opostos, pois que a harmonia se formaria de altos e baixos, mas da unidade pela arte da música. Mas isto não contradiz Heráclito, que justamente quer isto. O simples, a repetição de um único som não é harmonia. Da harmonia faz parte a diferença; é preciso que haja essencial e absolutamente uma diferença. Esta harmonia é precisamente o absoluto devir, transformar-se - não devir outro, agora este, depois aquele. O essencial é que cada diferente, cada particular seja diferente de um outro - mas não de um abstrato qualquer outro, mas de seu outro; cada um apenas é, na medida em que seu outro em si esteja consigo, em seu conceito. Mudança é unidade, relação de ambos a um, um ser, este e o outro. Na harmonia e no pensamento concordamos que seja assim; vemos, pensamos a mudança, a unidade essencial. O espírito relaciona-se na consciência com o sensível e este sensível é seu outro. Assim também no caso dos sons; devem ser diferentes, mas de tal maneira que também possam ser unidos - e isto os sons são em si. Da harmonia faz parte determinada oposição, seu oposto, como nas harmonia das cores. A subjetividade é o outro da objetividade, não de um pedaço de papel - o absurdo disto logo se mostra - , deve ser seu outro, e nisto reside sua identidade; assim cada coisa é o outro do outro enquanto seu outro. Este é o grande princípio de Heráclito; pode parecer obscuro, mas é especulativo; e isto é, para o entendimento que segura para si o ser, o não-ser, o subjetivo e objetivo, o real e o ideal, sempre obscuro.

Os Modos da Realidade
Heráclito não ficou parado, em sua exposição, nesta expressão em conceitos, no puro lógico, mas além desta forma universal, na qual expôs seu princípio, deu à sua idéia também uma expressão real. Esta figura pura é precipuamente de natureza cosmológica, ou sua forma é mais a forma natural; por isso, é incluído ainda na Escola Jônica, e com isto deu novos impulsos à filosofia da natureza. Sobre esta forma real de seu princípio os historiadores, contudo, não estão de acordo entre si. A maioria diz que ele teria posto a essência ontológica como fogo, outros dizem que como ar, outros dizem que antes o vapor que o ar; mesmo o tempo é citado, em Sexto, como o primeiro ser do ente. A questão é a seguinte: Como compreender esta diversidade? Não se deve absolutamente crer que se deva atribuir estas notícias à negligência dos escritores, pois as testemunhas são as melhores, como Aristóteles e Sexto Empírico, que não falam destas formas de passagem, mas de modo bem determinado, sem, no entanto, chamar a atenção para estas diferenças e contradições. Uma outra razão mais próxima parece-nos resultar da obscuridade do escrito de Heráclito, o qual, na confusão de seu modo de expressão, poderia dar motivos para mal-entendidos. Mas, considerando mais detidamente, esta dificuldade desaparece; esta mostra-se mais para uma análise superficial; no conceito profundo de Heráclito acha-se a verdadeira saída deste empecilho. De maneira alguma podia Heráclito afirmar, como Tales, que a água ou o ar ou coisa semelhante seria a essência absoluta; e não o podia afirmar como um primeiro donde emanaria o outro, na medida em que pensou ser como idêntico como o não-ser ou no conceito infinito. Assim, portanto, a essência absoluta que é não pode surgir nele como uma determinidade existente, por exemplo, a água, mas a água enquanto se transforma, ou apenas o processo. A. - Processo abstrato, tempo. Heráclito, portanto, disse que o tempo é o primeiro ser corpóreo, como exprime Sexto. "Corpóreo" é uma expressão inadequada. Os céticos escolhiam muitas vezes as expressões mais grosseiras ou tornavam os pensamentos grosseiros para mais facilmente liquidá-los. "Corpóreo" significa sensibilidade abstrata; o tempo é a intuição abstrata do processo; diz que ele é o primeiro ser sensível. O tempo, portanto, é a essência verdadeira. Na medida em que Heráclito não parou na expressão lógica do devir, mas deu a seu princípio a forma de um ente, deduz-se disto que primeiro tinha que oferecer-se a forma do tempo; pois precisamente, no sensível, no que se pode ver, o tempo é o primeiro que se oferece como o devir; é a primeira forma do devir. Enquanto intuído, o tempo é o puro devir. O tempo é puro transformar-se, é o puro conceito, o simples, que é harmônico a partir de absolutamente opostos. Sua essência é ser e não-ser, sem outra determinação ser puro e abstrato não-ser, postos imediatamente numa unidade e ao mesmo tempo separados. Não como se o tempo fosse e não fosse, mas o tempo é isto: no ser imediatamente não-ser e no não-ser imediatamente ser - esta mudança de ser para não-ser, este conceito abstrato, é, porém, visto de maneira objetiva, enquanto é para nós. No tempo não é o passado e o futuro, somente o agora; e este é, para não ser, está logo destruído, passado - e este não-ser passa, do mesmo modo, para o ser, pois ele é. É a abstrata contemplação desta mudança. Se tivéssemos de dizer como aquilo que Heráclito reconheceu como a essência existe para a consciência, nesta pura forma em que ele o reconheceu, não haveria outra que nomear a não ser o tempo; é, por conseguinte, absolutamente certo que a primeira forma do que devém é o tempo; assim isto se liga ao princípio do pensamento de Heráclito.

B. - A forma real como processo, fogo. Mas este puro conceito objetivo deve realizar-se mais. No tempo estão os momentos, ser e não-ser, postos apenas negativamente ou como momentos que imediatamente desaparecem. Além disso, Heráclito determinou o processo de um modo mais físico. O tempo é intuição, mas inteiramente abstrata. Se quisermos representar-nos o que ele é, de modo real, isto é, expressar ambos os momentos como uma totalidade para si, como subsistente, então levanta-se a questão: que ser físico corresponde a esta determinação? O tempo, dotado de tais momentos, é o processo; compreender a natureza significa apresentá-la como processo. Este é o elemento verdadeiro de Heráclito e o verdadeiro conceito; por isso, logo compreendemos que Heráclito não podia dizer que a essência é o ar ou a água ou coisas semelhantes, pois eles mesmos não são (isto é o próximo) o processo. O fogo, porém, é o processo: assim afirmou o fogo como a primeira essência - e este é o modo real do processo heracliteano, a alma e a substância do processo da natureza. Justamente no processo distinguem-se os momentos, como no movimento: 1. o puro momento negativo, 2. os momentos da oposição subsistente, água e ar, e 3. a totalidade em repouso, a terra. A vida da natureza é o processo destes momentos: a divisão da totalidade em repouso da terra na oposição, o pôr desta oposição, destes momentos - e a unidade negativa, o retorno para a unidade, o queimar da oposição subsistente. O fogo é o tempo físico; ele é esta absoluta inquietude, absoluta dissolução do que persiste - o desaparecer de outros, mas também de si mesmo; ele não é permanente. Por isso compreendemos (é inteiramente conseqüente) por que Heráclito pode nomear o fogo como o conceito do processo de sua determinação fundamental. C. - O fogo está agora mais precisamente determinado, mais explicitado como processo real; ele é para si o processo real, sua realidade é o processo todo no qual, então, os momentos são determinados mais exata e concretamente. O fogo, enquanto o metamorfosear-se das coisas corpóreas, é mudança, transformação do determinado, evaporação, transformação em fumaça; pois ele é, no processo, o momento abstrato do mesmo, não tanto o ar como antes a evaporação. Para este processo Heráclito utilizou uma palavra muito singular: evaporação (anathymíasis) (fumaça, vapores do sol); evaporação é aqui apenas a significação superficial - é mais: passagem. Sob este ponto de vista, Aristóteles diz de Heráclito que, segundo sua exposição, o princípio era a alma, por ser ela a evaporação, o emergir de tudo, e este evaporar-se, devir, seria o incorpóreo e sempre fluído. As determinações mais próximas deste processo real são, em parte, falhas e contraditórias. Sob este ponto de vista, afirma-se, em algumas notícias, que Heráclito teria determinado o processo assim: "As formas (mudanças) do fogo são, primeiro, o mar e, então, a metade disto, terra, e a outra metade, o raio" - o fogo em sua eclosão. Este é universal e muito obscuro. A natureza é assim esse círculo. Neste sentido ouvimo-lo dizer: "Nem um deus nem um homem fabricou o universo mas sempre foi e é e será um fogo sempre vivo, que segundo suas próprias leis (métro) se acende e se apaga.". Compreendemos o que Aristóteles cita, que o princípio é a alma, por ser a evaporação, este processo do mundo que a si mesmo se move; o fogo é a alma. No que se refere ao fato de Heráclito afirmar que o fogo é vivificante, a alma, encontra-se uma expressão que pode parecer bizarra, isto é, que a alma mais seca é a melhor. Nós certamente não tomamos a alma mais molhada como a melhor, mas, pelo contrário, a mais viva; seco quer dizer aqui cheio de fogo: assim a alma mais seca é o fogo puro, e este não é a negação do vivo, mas a própria vida. Para retornar a Heráclito: ele é aquele que primeiro expressou a natureza do infinito e que compreendeu a natureza como sendo em si infinita, isto é, sua essência como processo. É a partir dele que se deve datar o começo da existência da Filosofia; ele é a idéia permanente, que é a mesma em todos os filósofos até os dias de hoje, assim como foi a idéia de Platão e Aristóteles. "Os homens são deuses mortais e os deuses, homens imortais; viver é-lhes morte e morrer é-lhes vida". "Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos".

Pitágoras de Samos
Pitágoras, o fundador da escola pitagórica, nasceu em Samos pelos anos 571-70 a.C. Em 532-31 foi para a Itália, na Magna Grécia, e fundou em Crotona, colônia grega, uma associação científico-ético-política, que foi o centro de irradiação da escola e encontrou partidários entre os gregos da Itália meridional e da Sicília. Pitágoras aspirava - e também conseguiu - a fazer com que a educação ética da escola se ampliasse e se tornasse reforma política; isto, porém, levantou oposições contra ele e foi constrangido a deixar Crotona, mudando-se para Metaponto, aí morrendo provavelmente em 497-96 a.C. Segundo o pitagorismo, a essência, o princípio essencial de que são compostas todas as coisas, é o número, ou seja, as relações matemáticas. Os pitagóricos, não distinguindo ainda bem forma, lei e matéria, substância das coisas, consideraram o número como sendo a união de um e outro elemento. Da racional concepção de que tudo é regulado segundo relações numéricas, passa-se à visão fantástica de que o número seja a essência das coisas. Mas, achada a substância una e imutável das coisas, os pitagóricos se acham em dificuldades para explicar a multiplicidade e o vir-a-ser, precisamente mediante o uno e o imutável. E julgam poder explicar a variedade do mundo mediante o concurso dos opostos, que são - segundo os pitagóricos - o ilimitado e o limitado, ou seja, o par e o ímpar, o imperfeito e o perfeito. O número divide-se em par, que não põe limites à divisão por dois, e, por conseguinte, é ilimitado (quer dizer, imperfeito, segundo a concepção grega, a qual via a perfeição na determinação); e ímpar, que põe limites à divisão por dois e, portanto, é limitado, determinado, perfeito. Os elementos constitutivos de cada coisa - sendo cada coisa número - são o par e o ímpar, o ilimitado e o limitado, o pior e o melhor. Radical oposição esta, que explicaria o vir-a-ser e o múltiplice, que seriam reconduzidos à concordância e à unidade pela fundamental harmonia (matemática), que governa e deve governar o mundo material e moral, astronômico e sonoro. Como a filosofia da natureza, assim a astronomia pitagórica representa um progresso sobre a jônica. De fato, os pitagóricos afirmaram a esfericidade da Terra e dos demais corpos celestes, bem como a rotação da Terra, explicando assim o dia e a noite;

De novo. o Ser e a Unidade dão a Unidade existente. ímpar. os números quadrados. portanto. retomaram então a idéia heraclitiana do pólemos. 3) portanto. da unidade procede a série dos números aritméticos (monádicos). aqui. E acreditavam discernir a essência verdadeira das coisas em suas relações numéricas. tudo é uma unidade". De um lado têm-se. As qualidades nasciam por combinação ou por dissociação. masculino. [Simbolismo dos números pitagóricos: um é a razão. Identificaram essas noções com termos filosóficos já usuais.). agitado. evidentemente. pai de todas as coisas. A música. delimitado e movido pelo fogo de Heráclito. Nos outros sistemas de física. dualismo. a possibilidade de uma investigação exata em física. Desde que se têm o ponto. e as práticas ascéticas e abstinenciais. Para compreendermos seus princípios fundamentais. I. não há nada além de quantidades. tiveram de erigir a noção de número. foi em todo caso formado por dois princípios. poder-se-ia exprimir o ser do universo. identificam o não-ser ao Ápeiron de Anaximandro. os gnómones. há também uma pluralidade. pois. direita. dois é a linha. múltiplo. as superfícies e os corpos. com analogias fantasiosas. quadrado. não quantidades de elementos (água. Os matemáticos pitagóricos acreditavam na realidade das leis que haviam descoberto. E tal é. 2) que tampouco tem limites. ablongo. Mas ambos compõem o Uno. dois a opinião. portanto: delimitado. Mas. cinco o casamento. Simbolizava a gênese de todas as coisas a partir da oitava. De outro lado. logicamente conexo com a filosofia pitagórica. é o melhor exemplo do que queriam dizer os pitagóricos. a linha. e o número. e da Harmonia que une as qualidades opostas. Mas identificam esse limite com o fogo de Heráclito. isso porque os ímpares. do qual a música é. bom. estritamente. No mesmo sentido. feminino. é essencialmente uma força calculadora. Os pitagóricos: "A própria unidade é o resultado de um ser e de um não-ser. cuja tarefa é. pitagórica. ao absolutamente Indeterminado. portanto. O ser é luz e. uma invenção extremamente importante: a significação do número e. Para defender essa idéia contra a doutrina unitária dos eleatas. o domínio da química e das ciências naturais. mau. e a delimitação. agitado. pelo menos em certo sentido. Chamar o Ápeiron de Par é sua grande inovação. encontra-se. reto. assim. Decompuseram os dois elementos de que nasce o número em par e ímpar. que não se deve confundir com o Sol. O Universo e os planetas esféricos. toda coisa nasce de dois fatores opostos. Parmênides chamava Aphrodite. esquerda. Portanto. que. Na química. Mas estes são apenas.. Isso lembra o quadro-modelo de Parmênides. Os eleatas dizem: "Não há não-ser. portanto a diversidade. direita. tratava-se sempre de elementos e de sua combinação. o Péras. impossível. Como é possível uma pluralidade? Pelo fato de o não-ser ter um ser. têm-se também os objetos materiais. davam nascimento a uma série limitada de números. depois. ilimitado. dissolver o indeterminado em tantas relações numéricas determinadas. como tal. com relação à metempsicose e à reincarnação das almas. uno. feminino. que fazia nascer todas as coisas de uma dualidade. o Ápeiron de Anaximandro. o não-ser é noite e. 4) que não pode nem mover-se nem estar em repouso. ativo. bom. nesse caso. e as partes múltiplas. imóvel. À primeira vista. o número é a essência própria das coisas. àquilo que não tem nenhuma qualidade. etc. Se houvessem tomado emprestado de Heráclito a palavra lógos. agora. por outro lado. dominam no pitagorismo o conceito de harmonia. frio. mas delimitações do ilimitado. contra o eleatismo. ilimitado. a Unidade veio a ser. sutil. [Teoria das cordas sonoras. logo. nesse sentido. A harmonia das esferas. Mas esse presentimento estava ainda longe da aplicação exata. múltiplo. relação de intervalos. A contribuição original dos pitagóricos é. para a qual Ecphantus na Antiguidade passa por ter aberto o caminho. conforme se considere o elemento harmônico ou o elemento rítmico. teriam entendido por ela a proporção (aquilo que fixa as . denso. temos uma mistura de atomismo e de pitagorismo. fora de nós ou em si mesma (no sentido de Locke). do qual se pode dizer que é impar. também uma pluralidade". que não está em parte nenhuma. portanto. pois. este é análogo ao ser potencial da hyle de Aristóteles. Portanto. quadrado. portanto. curvo. O ponto de partida que permite afirmar que tudo o que é qualitativo é quantitativo encontra-se na acústica. reto. Remetem-se. ablongo. passivo. Nela. problemas secundários. só existe em nossos nervos e em nosso cérebro. trevas. do Ápeiron. luz. em todo caso. par. etc. e a pluralidade do ser. se se trata de sua qualidade. quatro o volume. a essa força. par. um conceito contraditório. é preciso partir do eleatismo. Pelo que diz respeito à moral. exclusivamente com o auxílio de números.e afirmaram também a revolução dos corpos celestes em torno de um foco central. trevas. se se trata de sua quantidade. a Anaximandro. agora. enfim. modo dórico. não há qualidades. portanto. compõe-se somente das relações numéricas quanto ao ritmo. na origem há a descoberta das analogias numéricas no universo. etc. há também uma pluralidade. inicialmente. provisoriamente. Lembramo-nos da dialética de Parmênides. luz. Dizem. Contentou-se. curvo. afirma-se que as qualidades residem na diversidade das proporções. mau. 5): delimitado. Notável quadro estabelecido por Aristóteles (Metaf. se o Uno existe. o primeiro sistema de Parmênides. quatro a justiça. ponto de vista inteiramente novo. etc. fogo. esquerda. O ponto de partida me parece ser a apologia da ciência matemática contra o eleatismo. é dito da Unidade (supondo que não existe pluralidade): 1) que ela não tem partes e não é um todo. dez a perfeição. um é o ponto. depois os números geométricos ou grandezas (formas espaciais). não-ser e. Trata-se de encontrar fórmulas matemáticas para as forças absolutamente impenetráveis. ímpar. con efeito. pois. e quanto à tonalidade.] A música. portanto há. foi preciso que também a Unidade tivesse vindo a ser. Portanto. a imagem.] Se se pergunta a que se pode vincular a filosofia pitagórica. enfim. uno. três a superfície. Assim. bastava-lhes que fosse afirmada a existência da Unidade para deduzir dela também a pluralidade. É um procedimento análogo: ataca-se o conceito da Unidade existente porque comporta os predicados contraditórios e é. Nossa ciência é. Cosmogonia. inqualificado e qualificado. portanto. a isso opõe-se o absolutamente Determinado. delimitado e ilimitado. é uma especulação totalmente insólita. masculino. que reaparece aqui pela última vez. quente. imóvel.

Sua idéia fundamental é esta: a matéria. onde. quando foi feito prisioneiro pelas tropas de Cambísis. e que nada mais era do que um templo. porque aí é que funda o seu famoso Instituto. em Mileto. como o Péras fixa o limite). (¹) O exercício de aritmética oculto do espírito que não sabe calcular. ou Pythaia. Confúcio e Lao Tsé. por casualidade. Acontece com Pitágoras o que aconteceu com Shakespeare. mas sem poder dizer quem faz o cálculo. em todas as fontes que nos relatam a vida de Pitágoras. O fato de negar-se.600 anos vem. porém. irremediavelmente infectada de idéias estranhas que. onde se reuniam os membros de uma seita misteriosa. pondo de lado esses escrúpulos ingênuos de certos autores. . Podemos assim parafrasear o que foi dito quanto a Shakespeare. poderosamente. chamava-se Pitágoras. foi finalmente destruído. Foi depois discípulo de Sonchi. entre 592 a 570 antes da nossa era. desde os tempos da antiguidade. O vir-a-ser é um cálculo. perto de Porta Maggiori. ou seja. com base histórica. averigou-se ser pitagórica. a inimizade de Policrates. que realizou um retiro no Monte Carmelo e na Caldéia. Numa obra. e freqüentou as aulas ministradas por famosos mestres de então. em nossos dias. Foi em sua viagem a essa metrópole da Antiguidade. tendo voltado para Samos já com a idade de 56 anos. Mas. tendo. hoje cara aos pitagóricos. que preferem declará-lo como não existente. Se não existiu Pitágoras de Samos. depois Ferécides de Siros. sinteticamente.C. era filho de Menesarco e de Partêmis. também. enquanto outros afirmam que conseguiu fugir. sem dúvida. Tal é a resposta dada ao problema de Anaximandro. Suas lições atraíram-lhe muitos discípulos. quando de sua estada nessa grande metrópole da antiguidade. Em 1917. ao nosso ver. Observa-se. que liga Roma a Nápoles. proliferavam os templos pitagóricos. que se julgou a princípio fosse a porta de uma capela cristã subterrânea. como já esteve no passado. que é representada inteiramente destituída de qualidade. houve com certeza alguém que construiu essa doutrina. mas provocaram. um sacerdote egípcio. o que fez o sábio exilar-se na Magna Grécia (Itália). também. a lenda que o hierofante Adonai aconselhou-o a ir ao Egito. Consta que Pitágoras. Os pitagóricos teriam podido dizer o mesmo do universo. inúmeras viagens e peregrinações. em torno dessa lenda. tendo então conhecido a famosa sacerdotiza Teocléia de Delfos. combatido pelos democratas de então. e que. síria ou. levado o filho à Pítia de Delfos. junto com os seus mais amados discípulos. em seu incêndio. tendo sido daí conduzido para a Babilônia. desvirtuam o pensamento genuíno de Pitágoras de Samos. nos santuários de Mênfis. teve como primeiros mestres a Hermodamas de Samos até os 18 anos. os quais tendem a mostrar o grande papel que exerceu na história. posteriormente. o assírio Zaratustra ou Zoroastro. ao dizer que a música é "exercitium arithmeticae occultum nescientis se numerare animi" (¹). conhecido Zaratos. durante vinte e cinco séculos. É aceito quase sem divergência por todos que se debruçaram a estudar a sua vida. peremptoriamente. como se houvesse maior validez na negação da sua historicidade do que na sua afirmação. foi iniciado nos mistérios egípcios. recomendado ao faraó Amom. no Peloponeso. e se essa seita foi tão combatida. que este realizou. em Babilônia. ainda. Mas é na Itália que desempenha um papel extraordinário. Sabe-se hoje. aluno de Tales. de caráter iniciático. pereceu Pitágoras. que. ainda. Carcopino (La Brasilique pythagoricienne de la Porte Majeure) dá-nos um amplo relato desse templo. que antes. já em tempos de César. há 2. naquele mesmo século em que surgiram tantos grandes condutores de povos e criadores de religiões. nessas descrições. como foi Gautama Buda. cuja influência atravessa os séculos até nossos dias. Conta-nos. que conheceu o pensamento das antigas religiões do Oriente. não impede que seja o pitagorismo uma realidade empolgante na história da filosofia. afinal. que ainda existe e tem seus seguidores. tendo sido. Dentre as religiões de mistérios. Afirma-se. Dióspolis e Heliópolis. jaz envolta num véu de mistério. A força mística do grande filósofo e reformador religioso. influindo no pensamento Ocidentel. Notas Biográficas sobre Pitágoras A doutrina e a vida de Pitágoras. natural de Tiro. cujo nome significa o Anunciador pítico (Pythios). sob os trilhos da estrada de ferro. em Crotona. Isso lembra a palavra de Leibniz.. Relata a lenda que Pitágoras. essa ordem. ademais.proporções. fundou o seu famoso Instituto. mebora esteja. muito de histórico do que é fruto da imaginação e da cooperação ficcional dos que se dedicaram a descrever a vida do famoso filósofo de Samos. somente por relações numéricas adquire tal ou tal qualidade determinada. esta sacerdotiza vaticinou-lhe um grande papel. contando-nos a lenda que. Tendo esta. vamos a seguir relatar algo. Inúmeras são as divergências sobre a verdadeira nacionalidade de Pitágoras. por volta de 41 a 54 d. Não consideramos apenas lenda o que se escreveu sobre essa vida maravilhosa. tomando um rumo que permaneceu ignorado. então tirano de Samos. segundo uns. em sua juventude. outros. já em decadência. cuja existência foi tantas vezes negada. que Pitágoras nasceu em Samos. certa vez. e ouvinte das conferências de Anaximandro. a doutrina pitagórica foi a que mais se difundiu na antiguidade. a historicidade de Pitágoras (como alguns o fazem). Zoroastro (Zaratustra). por não se ter às mãos documentação bastante. relata-se que esteve em contato com os órficos. onde. Antes de sua localização na Magna Grécia. o qual. o que levou a mãe a devotar-se com o máximo carinho à sua educação. pois uns afirmam ter sido ele de origem egípcia. E foi inegavelmente essa descoberta tão importante que impulsionou novos estudos. foi descoberta uma cripta. deve-se mais ao fato de ser secreta do que propriamente por suas idéias. Posteriormente verificou-se que se tratava de uma construção realizada nos tempos de Cláudio. que se realizaram sobre a doutrina de Pitágoras. afirma-se. porque há. que desde criança se revelava prodigioso.

uma distinção . Pitágoras teria chegado à concepção de que todas as coisas são números através inclusive de uma observação no campo musical: verificou no monocórdio que o som produzido varia de acordo com a extensão da corda sonora. mínimo de . em lugar do deus Dioniso colocou a matemática. são a própria "alma das coisas". fugindo à tirania de Polícrates. as regras da vida individual e do governo das cidades. Pitágoras criou um sistema global de doutrinas. do ciclo das reincarnações. bastavam para justificar o que há de essencial no universo: o um é o ponto. que ele teria deixado Samos (na Jônia). semeia . A representação figurada permitia explicitar a lei de composição dos números e torna-se um fator de avanço das investigações matemáticas dos pitagóricos. depois do pitagórico Filolau. O orfismo . Os primeiros números. Para libertar-se. portanto. transformando o sentido da "via de salvação". transferindo-se para Crotona (na Magna Grécia) fundou uma confraria científico-religiosa. A sociedade pitagórica continuou após a sua morte.vista por alguns autores como o fundamento do "mito helênico" . A alma aspiraria. inalaria o ar infinito (pneuma ápeiron) em que estaria imerso. (Pitágoras) A Pátria Estelar Dentre as religiões de mistério. representados figurativamente. será qualificada como uma "harmonia". "Todas as coisas são números". porém. A purificação resultaria do trabalho intelectual. o homem necessitaria da ajuda de Dioniso. pois realizou uma modificação fundamental na doutrina órfica. (Pitágoras) Em Todas as Coisas. em geral. a fim de efetivar sua purificação.entre a alma ignea e imortal e os corpos pereciveis através dos quais ela realizava sua purificação. de acordo com ela. Pitágoras deve ter falecido entre 510 e 480. que se tornou figura legendária na própria Antiguidade. usadas pelos gregos e depois pelos romanos. são essências realizadas (usando-se um vocabulário filosófico posterior). da música. sobretudo. e que passou a constituir o núcleo da religião órfica. assim. Partindo de idéias órficas.era uma religião essencialmente esotérica. porque basicamente intelectual. os números são reais.de Orfeu. já que ela foi objeto de uma série de relatos tardios e fantasiosos. na segunda metade do século VI a. Natural que dentro de tal concepção . por sua própria natureza. Mínimo de extensão e mínimo de corpo. e que se manifesta como beleza. que descobre a estrutura numérica das coisas e torna.que descreve o cenário cósmico. são entidades corpóreas constituídas por unidades contíguas e a prenunciar os átomos de Leucipo e Demócrito. uma revivescência da vida religiosa. "O que fala. A grande novidade introduzida certamente pelo próprio Pitágoras na religiosidade órfica foi a tranformação do processo de libertação da alma num esforço puramente humano. (Pitágoras) O Pitagorismo Durante o século VI a. Os órficos acreditavam na imortalidade da alma e na metempsicose. Da vida de Pitágoras quase nada pode ser afirmado com certeza. ou seja. entendido como unidade harmônica.o que escuta. os pitagóricos adotaram uma representação figurada dos números. depois da derrota da liga crotoniata. pelos tiranos. garantida pela presença do divino em tudo. na transmigração da alma através de vários corpos. Parece certo. sustentada pela ordem e pela proporção. onde se processa a purificação da alma . às estrelas. o pitagorismo primitivo concebe a extensão como descontínua: constituída por unidades indivisíveis e separadas por um "intervalo". (Pitágoras) Salvação pela Matemática Pitágoras de Samos. para garantir seu papel de líderes populares e para enfraquecer a antiga aristocracia .Segundo as melhores fontes. deus libertador que completava a libertação preparada pelas práticas catárticas (entre as quais se incluia a abstinência de certos alimentos). Estes não seriam. Segundo a cosmologia pitagórica .C. uma teve enorme difusão: o culto de Dioniso. meros símbolos a exprimir o valor das grandezas: para os pitagóricos. das divindades "oficiais" -. A religião órfica pressupunha.não só de natureza como também de valor .C. (tão importante como propiciadora de vivências religiosas estáticas) em relação à matemática. de caráter iniciático. quando os pitagóricos falam que as coisas imitam os números estariam entendendo essa imitação (mimesis) num sentido realista: as coisas manifestariam externamente a estrutura numérica inerente. que primeiro teria recebido a revelação de certos mistérios e os teria confiado a iniciados sob a forma de poemas musicais . como os referentes às suas viagens e a seus contatos com culturas orientais. Assim. a alma semelhante ao cosmo. cuja finalidade era descobrir a harmonia que preside à constituição do cosmo e traçar. tendo desaparecido quando do famoso massacre de Metaponto. de natureza divina. em algumas regiões do mundo grego. verificou-se. "Com ordem e com tempo encontra-se o segredo de fazer tudo e tudo fazer bem". teria sido antes de mais nada um reformador religioso.que se supunha descendente dos deuses protetores das polis. recolhe". originário da Trácia. que. entre todos os seres. mas não a carregues". contudo. em substituição às representações literais mais arcaicas.como virão a ser mais tarde -. o pitagorismo pressupunha uma identidade fundamental.o Número A partir do próprio Pitágoras. Os historiadores mostram que um dos fatores concorreram para esse fenômeno foi a linha política adotada. os tiranos favoreciam a expansão de cultos populares ou estrangeiros.esse "intervalo" resultaria da respiração do universo que.o mal seja entendido sempre como desarmonia. "Ajuda teus semelhantes a levantar sua carga. portanto . vivo. as unidades comporiam os números. De acordo com essa concepção. Ou seja. a retornar à sua pátria celeste. descobriu que há uma dependência do som em relação à extensão. de onde caíra. Essa similitude profunda entre os vários existentes era sentida pelo homem sob a forma de um "acordo com a natureza".

Defendeu o ser uno. . Também Zenão era um eleata. sacrificando da seguinte maneira sua vida: Teria participado de uma conjuração para derrubar o tirano. sons de acorde perfeito. De modo violento e furioso de sua reação. Já por sua própria notação figurativa evidencia-se que a primitiva matemática pitagórica constitui uma aritmo-geometria. naquilo que é afirmado como sendo sua destruição. o que se evidenciava pelo aparecimento na tradução aritmética da relação entre elas. é a razão que realiza o começo . as poderosas admoestações ou também as torturas horríveis e a morte de Zenão ergueram os cidadãos e levantaram-lhes o ânimo. "Educai as crianças e não será preciso punir os homens". Em sua vida não apenas era algo de muito respeito em seu Estado. Sua astronomia. acabava-se por se concluir pelo absurdo de que um deles não era afinal nem par nem ímpar. Zenão falou e voltou-se contra o movimento como tal ou puro movimento. contra as críticas dos adversários. é o mais jovem e viveu particularmente em convívio com Parmênides. Assim. tranqüila em si mesma. desde que se atribuísse valor 1 ao cateto de um triângulo isósceles. Tendo conspirado contra a tirania e o tirano (Nearco?). Sobre a Natureza. é o nada para ela.e em grande parte por causa deles . Ou então. (Pitágoras) Zenão de Eléia . Nasceu em Eléia (Itália). dando leis à sua pátria. Parmênides. Essa "harmonia das esferas". Dessa maneira. Platão o lembra: de Atenas e de outros lugares vinham homens a ele para entregar-se à sua formação. Este o amava muito e o adotou como filho.ela aponta. contínuo e indivisível de Parmênides contra o ser múltiplo. torturado e. mas também em geral era célebre e muito respeitado como professor. a fortaleza de sua alma tornou-se célebre pela sua morte. o fez torturar de todos os modos. no 'não-ser é' se contradizem sujeito e predicado".corpo. Essa geometrização do cosmo estava aliada. Quando o tirano. Zenão delatou primeiro todos os amigos do tirano como participantes da conjuração. Apesar desses impasses . também descobrimos tal afirmar e sobressumir daquilo que o contradiz. descontínuo e divisível dos pitagóricos. começar com esta afirmação. chamando então o tirano mesmo a peste do Estado. Com efeito. influenciando praticamente todo o desenncolcimento da ciência e da filosofia gregas.Vida. pelo contrário. unidade de extensão. o dois determina a linha. liquidá-lo e assim libertar-se.Considerado criador da dialética (entendida como argumentação combativa ou erística). Ao contrário de Heráclito. Zenão erigiu-se em defensor de seu mestre. Ele é o mestre da Escola Eleática. Seu pai verdadeiro chamava-se Teleutágoras. nela seu puro pensamento torna-se o movimento do conceito em si mesmo. diante de seu povo.é o iniciador da dialética. enquanto o quatro produz o volume. pleno para aquela mudança. presos a esferas homocêntricas. Ela teria salvo um Estado (não se sabe se sua pátria Eléia ou se Sicília) de seu tirano. surgem grandezas inexprimíveis naquela concepção de número. como V¯². de valores sem possibilidade de determinação exaustiva. no entanto. Parmênides afirmou: "O universo é imutável. pelo fato de (exceto sua viagem a Atenas) ter sua residência fixa em Eléia. esta sido traída. mas somente é ser. não é. seria a própria tessitura do que o homem considera "silêncio". interveio na política. O "escândalo" dos irracionais manifestava-se no próprio teorema de Pitágoras (o quadrado construído sobre a hipotenusa é igual a soma dos quadrados construídos sobre os catetos). O principal impasse enfrentado por essa aritmo-geometria baseada em inteiros (já que as unidades seriam indivisíveis) foi o levantado pelo números irracionais. por não revelar o nome dos comparsas. aquelas linhas não apresentavam "razão comum" ou "comum medida". A característica de Zenão é a dialética. faze aquilo que te parece justo". e aquilo que é surgir e desaparecer cai fora". Segundo muitas lendas. para lá colher fama. Zenão.C. negando-se a viver por mais tempo na grande e poderosa Atenas. mordendo-lhe. Obras e Pensamento Zenão floresceu cerca de 464/461 a. Pois até agora só vimos nos eleatas a proposição: "O nada não possui realidade. porém. Contra os Físicos. a orelha e . aquelas esferas produziram. acabou preso. "Pensem o que quiserem de ti. e ao perguntar pelos inimigos do Estado. Atribuiu-se-lhe orgulhosa auto-suficiência.o pensamento pitagórico evoluiu e expandiu-se. quando se pressupunha que os valores correspondentes à hipotenusa e aos catetos eram números primos entre si. mas não o vemos. em seu movimento. ou ela não é nada". Em Zenão. permanentemente soante. tendo. às concepções musicais também desenvolvidas pela escola: separadas por intervalos equivalentes aos intervalos musicais. pressupondo o universo harmonicamente constituído por astros que desenvolvem trajetórias. quanto na base mesma da matemática. o três gera a superfície. a associar intimamente os aspectos numéricos e geométrico. principalmente os pitagóricos. a quantidade e sua expressão espacial. a relação entre o lado e a diagonal do quadrado (que é a da hipotenusa do triângulo retângulo isósceles com o cateto) tornava-se "irracional". pois na mudança seria posto o não-ser daquilo que é. para caírem sobre o tirano. no pitagorismo. a hipotenusa seria igual a V¯². Diz-se que ele se postou como se quisesse dizer ainda algo aos ouvidos do tirano. Explicação Crítica de Empédocles. a alma pura da ciência . estreitamente vinculada à sua religião astral foi o ponto de partida das várias doutrinas que os gregos formulariam. para arrancar-lhe a confissão dos nomes dos outros conjuradores. Nisto consistia o movimento determinado. perdeu a vida. ao mesmo tempo. pelo contrário. diz: "Afirmai vossa mudança: nela enquanto mudança. . Tanto na relação entre certos valores musicais (expressos matematicamente). (Pitágoras) O Escândalo dos "Irracionais" A primitiva concepção pitagórica de número apresentava limitações que logo exigiriam dos próprios pitagóricos tentativas de reformulação.Escreveu várias obras em prosa: Discussões.

enquanto limitado. nem uma parte tal coisa é o ilimitado. Em seguida. nosso caminho é trivial e mais óbvio. e o gênero mais alto é então Deus. Em todas estas formas que nos são bem familiares está contida a mesma dificuldade da questão que se levanta no que diz respeito ao pensamento eleático: De onde vem a determinação. Ou passamos do finito para o infinito. mas sem qualquer determinação. as coisas finitas e a mudança. assim. tendo suas respostas sido seguidas de enormes torturas. b) Movido. ao igual. o um da Escola Eleática é apenas esta abstração. "O um. Deus se comporta assim. Este modo. Ambas as coisas são. "o que é impossível." Assim Zenão também mostra: "O um não se move. b) Dar-se-ia delimitação mútua. é o não-ente. 0 ilimitado é o indeterminado. a mudança é em si contradição. eles seriam mais poderosos e mais fracos um em face do outro. algo incompreensível: pois do um. ou tudo é eterno. até o dia de hoje. Ser e não-ser situam-se assim. pois. vê e possui também. as partes de Deus dominariam uma sobre a outra" (uma estaria onde a outra não está. estes diferentes não são expressos como diferentes. como no modo como o infinito se manifesta no finito? Os eleatas distinguem-se. a) ilimitado é o não-ente. apenas com esta diferença fundamental. "que. "pois teria que surgir ou do igual ou do desigual. o que é impossível. para lhe mostrar que dele nada arrancaria. Vemos. deve ter seu fundamento no infinito. de nosso modo de refletir comum. Esta a maneira comum de nós raciocinarmos. Para ir a esta abstração fazemos um outro caminho. não fosse assim. pelo fato de terem posto mãos à obra de maneira especulativa . na medida em que dele houvesse dois ou ainda mais. se houvesse diversos. sem que sua unidade seja concebida como a de diferentes. ou nada existe fora de Deus. mas enquanto Ihe faltasse o poder sobre os outros não seria Deus. 0 princípio da identidade Ihe serve de fundamento: "O nada é igual ao nada. pois este não possui nem meio. ele nao é nem infinito (ilimitado) nem limitado. o que os eleatas desprezaram. Em Zenão a desigualdade é o outro membro em oposição a igualdade. Deus é e se ele é de tal natureza. determinado como algo unilateral. então só há um Deus. raciocinando-se. e é assim. dizendo que o finito. ele cortou a língua com os próprios dentes e a cuspiu no rosto do tirano. e deixamos. originar-se-ia o não-ser do ente. que. segurando-o assim. como é apenas um. é em toda parte igual. em toda parte." Do fato de nada poder provir. Ou também partimos das coisas finitas para as espécies. a filosofia de Zenão é. em tal tipo de raciocínio. passo a passo. uma dialética que se pode denominar de raciocínio metafísico. só que nós deixamos valer como ser também o finito. a partir daí. Como. este afundarse no abismo da identidade do entendimento. somente é o múltiplo. uma parte teria determinações que faltariam às outras). da .ou não se distingue dele. ou se. não está nem em repouso nem se movimenta. do ser. que deixa o finito de lado. então Ihe é próprio que seja um. quer do igual quer do desigual. os outros sentimentos. o negativo de lado. de outro lado. pois se do mais fraco se originasse o mais forte ou do menor o maior ou do pior o melhor. Pois. o mais antigo. porém. pelo contrário. Deus é eterno. diz ele. quando algo é.e pelo fato de. pois faz parte da natureza de Deus não ter acima de si nada mais poderoso. a reflexão em si. porém." Isto foi denominado panteísmo (spinozismo). a imutabilidade nesta unidade abstrata e absoluta consigo mesma. Outros narram que ele teria ferrado os dentes em seu nariz. "É impossível". portanto.cerrando os dentes até ter sido trucidado pelos outros. devem ser mantidas afastadas do ser positivo e apenas real. ele já está mais avançado no sobressumir das oposições e determinações. pois ele é eterno e um. Outros ainda dizem que. se houvesse mais deuses". lado a lado. impossíveis. desaparece a diferença entre o que produz e aquilo que é produzido. "Tampouco pode surgir o desigual do desigual. seria o nãoente. um e esférico. terem mostrado que. Do nada é imediatamente nada. que repousaria sobre a proposição ex nihilo nihil fit. por conseguinte. nem fim. assim como se pressupõe o ser. não passa para o ser. assim não é o ente. O ser. Pois imóvel é a) o não-ente" (no não-ente não se realiza nenhum movimento. está afastada a determinação do negativo. não seria capaz de tudo o que quisesse. ele não teria poder sobre eles. o poder de Deus. É a mesma separação. em seu conteúdo. mas. Já que os iguais devem ter entre si as mesmas determinações. ele mesmo. 1) Segundo seu elemento tético. por exemplo. Já em seu elemento tético vemos progresso. Em tudo isto." Diz ainda: "Já que é eterno. houvesse mais deuses. Se. o negativo. reprimi-la-ia. Ser é a igualdade expressa como imediata. o pior viesse do melhor. "Sendo um. A isto vemos ligada uma outra espécie de raciocínio metafísico: são feitas pressuposições. nem vice-versa. pois um dever-se-ia mover para o outro. espaço. de um lado temos. Nós dizemos que Deus é imutável. nem começo. válido. portanto. pois o igual não é nem pior nem melhor que o igual .o especulativo tem lugar no fato de afirmarem que a mudança não é . igualdade como igualdade pressupõe o movimento do pensamento e a mediação. Como Deus é em toda parte igual. nem é imóvel. nas assim chamadas demonstrações da unidade de Deus. mas assim já é. depois disso teria sido triturado num pilão. nada pode provir". mas em toda parte igual. gêneros. pressupõe-se uma multiplicidade de tempo. portanto. que os momentos e as oposições são expressos mais como conceitos e pensamentos. Aristóteles conclui que. o imóvel é negativo. do igual. em seu pensamento. é apenas afirmativamente. ser. a mudança apenas se atribui às coisas finitas (isto como que sendo uma proposição empírica). possui ele a forma esférica. pois. portanto. enquanto o ser supremo. como deve ela ser concebida. inteiramente igual à que vimos em Xenófanes e Parmênides. não seriam. com a falta de movimento estaria posto o não-ser ou o vazio. de argumentar é ainda. em outra parte de outro modo. que dele se produza mais do que deve ser produzido. surja" (ele relaciona isto com a divindade). é demonstrada a unidade de Deus: "Se Deus é o mais poderoso de tudo. No que se refere às determinações deve-se observar que elas. não utilizamos a dialética que usa a Escola Eleática. ele não é limitado. idêntico a si mesmo e esférico nem ilimitado nem limitado. porém." Com a aceitação da igualdade. pois não se parece nem com o não-ente nem com o múltiplo. por exemplo. do ser. nem vai para coisa alguma. desta maneira. portanto. "pois para ele nenhuma outra coisa advém. enquanto algo negativo. inversamente. tanto no um mesmo." Movido só é o que é diferente de outro. Se. negando-se predicados. a supressão do ser. pois não é aqui assim. nem em repouso nem em movimento. Em Xenófanes e Parmênides tínhamos ser e nada. deuses. pois não se pode atribuir. ouve.

também ela finita. mas ele se dissolve segundo sua natureza inteira. eu declaro isto como imediatamente verdadeiro. onde encontram. por exemplo. através dos quais se torna vacilante o que em geral vale como firme. 0 resultado desta dialética é zero. Sendo a essência absoluta posta como o um ou o ser. fortalecido. parte em Heráclito e. assim negou ele do um o que deveria dizer-se do nada. Mas uma outra consciência não verifica aquilo. pelo contrário. no que vimos. na negação absoluta. pois ele nega predicados que se opõem. não segundo circunstâncias exteriores. o nada não é. que raciocina.o lado negativo da dialética. isto é. também o ser em oposição ao não-ser é uma determinação. a essência do com-preender. o negativo. Mas o mesmo deveria acontecer com o resto. mas em si mesmo. contudo. isto é. porém. Aqui isto surge apenas referido a algumas determinações não com referência às determinações do um e do ser mesmo. b) não é um movimento apenas de nossa intuição. Isto. isto é. para demonstrar que disto resultariam muito mais coisas discordantes que da proposição de Parmênides. em nossa representação. Isto pressentiu Zenão. Conforme a representação corrente da ciência. demonstrei isto. o outro sem importância (nulo) (parte-se de uma determinada proposição). Nesta consideração. mas o outro sistema tem o mesmo direito de dizer assim. e. assim. ficaram parados na idéia de que através da contradição o objeto se torna nulo. o primeiro sistema é posto como fundamento e a partir dele se entra em debate contra o outro. que contenha em si uma contradição. algo exterior. Sócrates diz que Parmênides afirma em seu poema que tudo é um: Zenão. devendo então. Assim a coisa é facilitada: "O outro sistema não possui verdade. em que proposições são resultado da demonstração. Podem ser então razões bem exteriores. mas apenas o ser para o outro é. ligação através de mediação. o movimento. Nesta dialética não vemos afirmar-se o pensamento simples para si mesmo. considera o objeto em si mesmo e o toma segundo as determinações que possui. Este lado possui a dialética na consciência de Zenão. também é determinação. nos sofistas. que ele é o nulo. porém. ser-em-si. a realidade do mundo finito. pois o poder é também o não-ser absoluto de um outro. que tudo é um: mas que nos procura enganar com uma expressão. procurando dar a impressão de que está dizendo algo de novo. como o nada. o vazio. . através de minha afirmação. Aquela dialética é uma mania de contemplar objetos. Zenão possui o aspecto importante de ser o descobridor da dialética: se não é ele propriamente. não menos. com isto não permanece verdade alguma. é a demonstração o movimento da convicção. Diz que combateu aqueles que afirmam o ser do múltiplo. Eu não devo demonstrar sua não-ver dade através de um outro. antes contra aqueles que procuram tornar ridícula (komodeiñ) a proposição de Parmênides. isto é. o oposto. em seu Parmênides. Mas. o afirmativo que nela se esconde ainda não aparece. mas em si mesmo. ainda que deva ser por nós admirada. ou o igual (como diz Melisso) é a essência. O falso não deve ser apresentado corno falso porque o oposto é verdadeiro. ao menos é quem está em seu começo. Eles põem-no fixamente. que o múltiplo não é. o descobridor da dialética em sua plenitude. como a essência. portanto. A consciência mais alta é a consciência sobre a nulidade do ser enquanto algo determinado em face do nada. Parmênides. De nada ajuda demonstrar meu sistema ou minha proposição e então concluir: portanto. a certeza da consciência individual e a certeza como refutação . Como movimento: Verifiquei algo e vejo que é o nulo. em Zenão. Esta convicção racional vemos despertar em Zenão. mas a partir da coisa mesma. suprimem com isto essa determinação. avançando até a afirmação de que só o um é e de que o negativo não é . de neles apontar razões e aspectos. mas. assim. ele se demonstra a si mesmo. é a consideração imanente do objeto: ele é tomado para si. isto se dá. a outra consciência tem razão em afirmar uma outra: coisa como imediatamente verdadeira. a multiplicidade está sobressumida. é. Antes é negado o movimento e a essência absoluta aparece como em repouso. Isto é a determinação mais exata da dialética objetiva. baseando-se em razões exteriores. porque não concorda com o meu". o sistema que se opõe está errado. 0 um é o mais poderoso e nisto determinado propriamente como o destruir absoluto. A gente se põe inteiramente dentro da coisa. mas ela deve ser considerada também de seu lado positivo. Esta dialética mais alta encontramo-la em Platão. sem pressuposições. esta somente se suprime através de um outro. e ao nada se atribuem os mesmos predicados que ao ser: o puro ser não é movimento. mas ambas as negações que se opõem. numa determinação. os eleatas foram mais conseqüentes. Do mesmo modo. leis. porque previu que o ser é o oposto do nada. não ser negada apenas uma determinação. Zenão responde que escreveu isto. é determinada como o negativo e.multiplicidade. razões. conclui-se. no movimento. 0 um é igualmente o não dos muitos: tanto no nada como no um. 2) Já lembramos que também encontramos a verdadeira dialética objetiva igualmente em Zenão. através da distinção que faço de que um lado é o verdadeiro. este movimento distinto do compreender deste movimento. A dialética como tal é a) dialética exterior. já há a consciência mais alta de que uma determinação é negada de que esta negação mesma é novamente uma determinação. A dialética subjetiva. ou seja. A dialética verdadeira não deixa nada sobrando em seu objeto. Xenófanes. Platão fá-lo falar assim sobre isto: faz Sócrates dizer que Zenão afirma em seu escrito o mesmo que Parmênides. Zenão põem como fundamento a proposição: Nada é nada. ela é posta através da negação. e então é puramente infinita. então. ou é negada enquanto finita. esta dialética é muito bem descrita. A outra dialética. demonstrada para o puro conceito do conteúdo. No Parmênides de Platão (127-128). dever-ser. torna-se norma quando se concede: "No correto está o incorreto e no falso também o verdadeiro". A esta dialética verdadeira pode juntar-se o que os eleatas fizeram. eles afirmam um dos predicados que se opõem. Enquanto nós deixamos valer. sua nulidade não aparece nela mesma. que se suprime (sobressume): esta dialética encontramos precipuamente junto aos antigos. para esta proposição aquela sempre parecerá algo de estranho. segundo o pressuposto. levar a guerra para território inimigo. idéia. de tal modo que apresentaria falhas apenas de um lado. mostra que possui determinações opostas. uma grande abstração Particularmente digno de nota é o fato de que. Portanto. é o nada do movimento. Como sempre é o caso quando um sistema filosófico refuta o outro. não de maneira que se suprima a si mesma. quando mostram quantas coisas ridículas e que contradições contra si mesmos resultam de suas afirmações.conseqüência que. Mas junto a eles ainda não vingou a determinação.

O mais fácil é mostrá-la no movimento. Isto deve ser compreendido de maneira mais universal. o oposto é também posto para a representação. Pelo contrário. pelo contrário. O mesmo aconteceria ao ser retirado. não se conseguiu ainda passar além dela e a questão fica esquecida no indeterminado. não há rinocerontes. a continuidade é absoluta homogeneidade. a contradição. também não é.nenhum espaço limitado. o momento no tempo contínuo seja posto ou que seja afirmado o agora do tempo como uma continuidade. mas põe o oposto nela . segundo a grandeza" (tò mégethos). o ponto é. nem mais múltiplo. O que se move deve atingir uma determinada meta. uma duração (dia. primeiro em sua contradição . no espaço e no tempo. Da mesma maneira a gente não deve satisfazer-se com a certeza sensível. entretanto. "pequeno. também é posto já o fenômeno da contradição. e nele o limite que o divide ao meio. de negatividade para continuidade. ser afirmado um deles como o essencial. É conhecido como Diógenes de Sínope. a realidade do tempo e do espaço. portanto.A dialética da matéria de Zenão não foi até hoje ainda refutada. nem massa (ónkos). e o movimento é: tornar-se outro. Com isto quer ele dizer que não se Ihe deveria atribuir verdadeiro ser. o que é movido nunca atinge sua meta. pois.como nós dizemos. ele o dá a si. portanto. É para esta contradição que Zenão chama a atenção. assim o que foi acrescentado não é nada. mas o movimento é não verdadeiro.limite que divide ao meio. enquanto são divisíveis (potentia. Mas estes dois estão postos numa unidade. que não pode ser atingido. de todo ser para si. se não tem tamanho e grandeza. seu questionar vai em busca de sua verdade. o Cínico. (consideramos a forma dos momentos) em suas diferenças da pura igualdade consigo mesmo e da pura negatividade . A igualdade consigo mesmo.e cada tempo e espaço sempre tem uma grandeza . na medida em que combate o movimento sensível. O movimento. Zenão nem teve a idéia de negar o movimento. Neste sentido. Zenão toca aqui na divisibilidade infinita do espaço. Vemos aqui desenvolvido o infinito aparecer. que. de maneira muito simples. Pelo fato de espaço e tempo serem absolutamente contínuos. Aristóteles afirma que Zenão teria negado o movimento pelo fato de possuir contradição interna. Mas o limite que divide ao meio não é limite absoluto ou em si e para si. o outro não seria por isso diminuído. a saber. mas é algo limitado. ter atingido antes a metade desta metade. é o positivo que é posto. o movimento possui certeza sensível. então é grande e pequeno: grande. Mas não se deve entender isto assim como se o movimento não fosse . não é.ele as refutou pela ação. de outro modo. mas apenas divisíveis. O fato de a dialética ter tido atraída sua atenção primeiro para o movimento é a razão de a dialética mesma ser este movimento ou o movimento mesmo ser a dialética de todo ente. do mesmo modo. . de continuidade para negatividade. Zenão mostra então que a representação do movimento contém uma contradição e apresenta quatro modos de refutação do movimento.do ponto contra a continuidade. enquanto esta aparece. elas estão diante de nós. É um inacabado ultrapassar. deve. Destes dois momentos pode. o absoluto distinguir-se e a supressão de toda igualdade e homogeneidade com outro. Cada grandeza . nunca se pode parar com a divisão. dynámei. Os argumentos repousam sobre a infinita divisão do espaço e do tempo. nada". estas devem ser percorridas e. deve-se ultrapassar a multiplicidade. mesmo onde colocamos um espaço o menor possível. Mas o caráter exaustivo que vemos no Parmênides de Platão não Ihe corresponde. Na nossa representação não parece contraditório que o ponto no espaço ou. também devem estar efetivamente divididos infinitamente. assim o múltiplo é infinito. portanto. quando é o múltiplo. é novamente continuidade. refutou tais provas da contradição do movimento. átomos. Aristóteles diz isto de maneira tão breve por ter tratado antes amplamente o objeto e tê-lo exposto detidamente. Mas esta metade é novamente um todo. Pois se fosse acrescentado a um outro não aumentaria a este. a metade ainda é continuidade e assim até o infinito. portanto. e. de todo negativo. o puro ser para si. pois. é posta. fora da representação que não pode atingi-lo.uma resposta geral para a representação. é eliminação de toda diferença. infinito é o negativo do múltiplo. Pois o movimento e a essência. levantou-se em silêncio e caminhou de cá para lá . Mas esta continuidade também novamente nada é de absoluto. e assim até o infinito. se o professor havia discutido com argumentos. isto nem está em questão.é novamente divisível em duas metades. "Aqui mostra ele que o que não tem tamanho. Vemos desaparecer para a consciência de Zenão o simples pensamento imóvel para tornar-se ele mesmo movimento pensante. o movimento foi tratado particularmente por Zenão. um determinado . A coisa tem. portanto. enquanto limite indiferente. mas é preciso compreender. Até o infinito . como existem elefantes. porque o movido deveria atingir primeiro a metade do espaço como sua meta. este caminho é um todo. 1) Primeira forma: Zenão diz que o movimento não tem verdade alguma. mas presente no conceito . enquanto se move. de maneira que não tem mais grandeza". um posto segundo sua essência. Parece. nem espessura. energeía). o não-ente.um passar além de uma determinação oposta para outra. "Ele demonstra que. continuidade. ano). ou Zenão afirma o avanço neste limitar. não poderiam ser divididos ao infinito . pois. Diógenes o castigou pela simples razão de que. Mas a estória é continuada também assim: a um aluno que se contentara com esta refutação. este espaço possui assim uma metade. o que é movido deve antes ter percorrido a metade. não actu. mas seu conceito contradiz-se a si mesmo. É a continuidade de um espaço. que ele é fenômeno. de maneira objetiva e dialética. pois ele é contradição. é pressuposta a continuidade do espaço. para passar para o infinito. no processo. o que é infinito não é mais grande. Para percorrer o todo. sua dialética mesma em si. não há elefantes.com isto nos representamos um além. no movimento. sobressumir-se. Que o movimento existe. o puro aparecer em si mesmo é o objeto e surge como um pensado.uma consciência dele. Primeiro Zenão põe o progresso contínuo de maneira tal que não se atinge nada igual a si. sempre surge este mesmo estado de coisas. ele só poderia deixar valer uma refutação também com argumentos. A resposta geral e a solução de Aristóteles é que espaço e tempo não são divididos infinitamente. espaço e tempo. nada poderia acrescentar ao tamanho do outro. Agora a meta é o fim desta metade. O movimento que seria o percurso destes momentos infinitos nunca termina. Os aspectos mais exatos desta dialética nos conservou Aristóteles. mas com isto novamente não é posto o limite da continuidade.

mas repouso com relação a outra coisa. se. no mesmo tempo. porém. Newton quer decidir isto por uma circunstância exterior. Aristóteles. Zenão apenas faz valer o limite. mas repouso: o que sempre está no aqui e agora. ao menos três. então eles são. um ponto é tão bem um aqui como o outro. o mesmo. Nesta representação são admitidos dois pontos de tempo e dois de espaço que estão separados entre si . a coisa percorre uma mesma extensão em tempo igual. são limites um para o outro. Ou. vencido por A.isto é. o momento da separação de espaço e tempo em sua total determinação. Não é neste estado de coisas. porém. a isto. no começo desta determinada parte do tempo. portanto. mas o limitar é.aqui ambos devem ser somados. conforme uma proposição de Newton: se dois corpos giram. O que gera a dificuldade sempre é o pensamento. o mover-me é movimento com relação ao navio. nenhuma passagem para outro. no "nãodistinguível" (en tõ nyn. não chamamos movimento. na medida em que são dois também não dois . de maneira tal que dois pontos do tempo ou dois pontos de espaço se relacionam entre si de maneira contínua. é inteiramente o mesmo. ao contrário. Mas uma coisa é correta: o movimento é absolutamente relativo. é falso. Desta maneira. etc. É uma dificuldade superar o pensamento e é somente ele que causa esta dificuldade. A continuidade. a igualdade do aqui e afirmada aqui contra a opinião da diferença. o movimento mais rápido nada ajuda ao segundo corpo para percorrer o espaço intermediário que o separa do outro. no espaço absoluto. contudo. diz: "O mais vagaroso nunca poderá ser alcançado nem mesmo pelo mais rápido". este já avançou para mais longe. com velocidade igual. alcançará o vagaroso. com velocidade igual. No aqui agora como tais. isto aqui e isto aqui e mais um outro. não consegue ultrapassar seu espaço. "É algo não verdadeiro.são idênticos. disto se deveria concluir que a metade do tempo é igual ao dobro. mas também ressarce este prejuízo. na realidade unidos. De dois corpos que se movem numa direção. surge a pergunta se um repousa ou se ambos se movem. Se num navio caminho na direção oposta da direção em que se move o navio. Se. um a partir do fim do estádio. Durante o tempo em que o segundo atingiu o ponto onde o primeiro se achava. Assim que dizemos que sempre é o mesmo. em círculo. . a diferença é apenas aparente. na distância de ambos. ainda que tenha andado quatro pés. diz brevemente sobre o mesmo: "Este argumento representa a mesma divisão infinita'' ou o infinito ser dividido através do movimento.portanto. o homem dos pés velozes. caminha dois pés para o oeste.no mesmo ponto. contudo. O erro da conclusão consiste no fato de admitir que. se não se concede isto. e assim se vai até o infinito. um em torno do outro. e "com isto ele já sempre conseguiu uma vantagem". movendo-se. Nos dois primeiros argumentos a continuidade no avançar é o que predomina: não existe limite absoluto. e isto ele demonstra assim: o que segue necessita de uma determinada parte do tempo para "alcançar o lugar de onde partiu o que está em fuga". Sobre este terceiro argumento diz Aristóteles que ele se origina do fato de se aceitar que o tempo consiste de "agoras". o outro a partir do meio. deixou atrás de si novo espaço que o segundo novamente deverá percorrer numa parte desta parte do tempo. No espaço. No argumento agora em questão é retido o aspecto inverso. 3) "O terceiro argumento" tem a forma que Zenão descreve assim: "A flecha em vôo repousa". são limitados. pois o rápido." A resposta é correta e contém tudo. o absoluto ser-limitado. enquanto realiza para si apenas uma parte. não conquista um outro espaço. o tempo de que necessita. o olho repousa ou se move. porém. sabemos que o segundo alcançará o primeiro. por isto surge a contradição. Ou avancei e retrocedi dois pés . transgredir todos os limites. e. Isto acontece também na mecânica: pergunta-se qual se move de dois corpos. pois pelo movimento de ir para frente e para trás há aqui coisas opostas que se suprimem.. a saber. não há diferença. e assim ao infinito. a divisão. mas no mundo do espirito que se manifesta a verdadeira e objetiva diferença. a interrupção da continuidade. também o mais vagaroso sempre tem à sua disposição. Aqui o tornar-se outro foi sobressumido. o ser limitado é posto como tal. contudo. A oposição possui aqui uma outra forma: a) mas também novamente o universo. então B chegou numa hora onde A estava no começo da hora. Para determinar qual deles se move é preciso mais de dois lugares. Esta quarta forma diz respeito à contradição no movimento oposto. será percorrido por B na metade de uma hora. porque separa em sua distinção aqueles momentos de um objeto. se Ihe for permitido ultrapassar o limite. partindo do mesmo ponto. o comum. mais rapidamente que aquele. mas apenas continuidade absoluta. ambos são positivos. que deve ser atribuído inteiramente a cada parte. nulo. repousa. o aqui é sempre o mesmo aqui. não saí do ponto em que estava. isto.2) "O segundo argumento" (que também é pressuposição da continuidade e posição da divisão) chama-se "argumento de Aquiles". porém. um em direção do outro. dos quais um está na frente e outro o segue numa determinada distância. b) é apenas posto como verdadeiro (como sendo) o que cada parte faz para si. Os antigos gostavam de vestir as dificuldades com representações sensíveis. Cada lugar é lugar diferente . quando o homem comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal. B percorre numa hora duas milhas. Ou deve-se dizer da flecha que sempre está no mesmo espaço e no mesmo tempo. que trata disto. no que se move e no que está em repouso. 0 pensamento produziu a queda original. uma milha. Zenão. não são distintos entre si. nem espaço limitado. 0 movimento é. e aqui e aqui. um espaço maior ou menor. A. Mas o espaço (uma milha). se admite que tempo e espaço são contínuos. é o que acontece quando caminho dois pés para o leste e outro. Aqui a distância de um corpo é a soma do afastar se de ambos. um momento. pois. 4) "O quarto argumento" e tomado de corpos iguais que se movem no estádio ao lado de um igual. igualmente. por exemplo. isto é. ele está aqui. assim estamos distantes um do outro quatro pés . katà tò íson). não se pode tirar a conclusão a que Zenão chegou. o limitado. e isto porque "o que se move sempre está no mesmo agora" e no aqui igual a si mesmo. Se estão separados entre si por duas milhas. os fios estendidos (tensio filorum).

o peso deve pertencer igualmente a todos. gosto. 4) em um vaso cheio de cinza pode-se ainda derramar tanta água quanta se ele estivesse vazio. Isto é então a grande diferença. a proposição universal da escola eleática foi. tornou se universal. o que acrescentamos. Segundo Kant. O peso pertence a cada corpo (como medida de todas as quantidades). Ele captou as determinações que contém nossa representação do espaço e tempo. o que eqüivale a dizer que o não-ser é tão real quanto o ser. O sentido da dialética de Zenão possui maior objetividade que esta dialética moderna. pela ordem (diathigé. Uma coisa nasce quando se produz um certo agrupamento de átomos. Pode-se. o stereón. Temos aqui a distinção que reaparece em Locke: as qualidades primárias pertencem às coisas em si mesmas. o mundo é em si absolutamente verdadeiro. nosso acréscimo o arruína para nós. à mesma massa. O elemento universal da dialética. tão bons ou tão maus como os pardais. O pleno é aquilo que não contém nenhum Kenón. nastón (de nasso. também o pleno. Percebe-se. Cresce quando Ihe são acrescentados novos átomos. nos outros elementos estão misturados átomos diversos. Elas só se distinguem pela forma (rhysmós. É preciso. . A difere de N pela forma. moleza. etc. No todo é o mesmo princípio: "O conteúdo da consciência é apenas um fenômeno. 2) a rarefação e a condensação só se explicam pelo espaço vazio. é preciso que a divisão não possa ir ao infinito. Demócrito esforçou-se por caracterizá-los a partir de seus átomos da mesma natureza. dureza. se dois corpos pudessem ocupar o mesmo lugar no espaço. todo o resto é não-verdadeiro". thésis). fora de nossa representação. Uma tradição tardia afirma que ele ria de tudo. quando o pensamento se dirige para o mundo exterior (para o pensamento também o mundo dado no interior é algo exterior). é definido como pleno. Todas as qualidades são nómo. se esses seres devem agir uns sobre os outros pelo choque. skhéma). com suas formas infinitamente diversas . Nào é. Viagens extraordinárias. O fogo é feito de átomos pequenos e redondos.este lado não possui verdade em si mesmo". isto que pensa Kant. pois este havia discernido o dualismo do movimento em Anaxágoras e recorrido à ação mágica. Demócrito e Leucipo partem do eleatismo. 3) o crescimento só se explica porque o alimento penetra nos interstícios do corpo. Se deve subsistir um pleno. haveria um não-ser. com os sofistas. O que resta são os átomos. voltando-se para ele. recorre-se à teoria das aporrhoaí. A dialética de Zenão ainda se conteve nos limites da metafísica: mais tarde. a forma. AN de NA pela ordem. pois. remeter todas as qualidades a diferenças quantitativas. O ser é a unidade indivisível. o mesmo peso. portanto. odor. mas nisto também reside uma diferença. determinações da reflexão. se há separação no espaço.enquanto seres sensíveis. portanto. Se somente o não ser existisse. mas. que o ser deve ser semelhante a si mesmo em todos os pontos. O não ser é. táxis). ele as tinha em sua consciência e nelas mostra o aspecto contraditório. poderia haver uma infinidade deles. a atividade de nosso espírito o elemento mau . não haveria mais ser. como a filosofia kantiana chegou ao resultado: "Conhecemos apenas fenômenos". O ser não pertence mais a um ponto do que a outro. peia posição (tropé. a impermeabilidade. fazer abstração da natureza dos corpos na medida em que é apenas a ação dos nervos sobre os órgãos sensoriais. Demócrito adota uma posição adversa. em Kant. pois o pleno não pode acolher em si nada que Ihe seja heterogêneo. um ser. dos quais são apenas as impressões: cor. são: a extensão. Este conteúdo também é nulo em Zenão. não haveria mais nenhuma grandeza. porque é obra nossa. como Pitágoras. São chamadas também idéai ou skhémata. ou aperto). porém. o número. Demócrito afirma. desaparece quando esse grupo se desfaz. Mas. pesado. fazemos dele um fenômeno. é nosso pensar. portanto: "0 verdadeiro é apenas o um. . é o mundo. nada verdadeiro". segundo Zenão. a ruína material. Como todos os seres são da mesma natureza. o que aparece em si que é não-verdadeiro. Toda ação de uma coisa sobre outra se produz pelo choque dos átomos. que Empédocles foi utilizado a fundo. sua solidão. muda quando muda a situação ou a disposição desse grupo ou quando uma parte é substituida por outra. Todas as outras qualidades são secundárias. o que é uma contradição. Com efeito: 1) o movimento espacial só pode ter lugar no vazio. Mas se há movimento deve haver um espaço vazio. Demócrito de Abdera De sua vida sabemos poucas coisas seguras. é preciso que sejam de natureza idêntica. isto é. é a atividade de nosso pensamento que atribui ao exterior tantas determinações: o sensível. A principal diferença está na forma. som. Ele afirma: Voltando-se para o mundo. rugoso. Na Bíblia diz Cristo: "Pois não sois melhores que os pardais?" Nós o somos enquanto pensamos . Esse é seu ponto de ataque: o movimento existe porque eu penso e o pensamento tem realidade. os seres só diferem pela quantidade. nada vale. mas muitas lendas. Só nosso conhecimento é fenômeno.é uma enorme humildade do espírito não ter confiança no conhecimento. Se um átomo fosse o que o outro não é. isto é. os corpos são idênticos a esses predicados. Anaxágoras reconhecia quatro elementos. etc. dotado de uma forma. não se pode fazer abstração delas. não pode haver movimento. seu grande poder de trabalho.Isto é então a dialética de Zenão. só nossa aplicação. Somente nossos sentidos nos mostram coisas qualitativamente diferentes. polido. portanto. tanto quanto o não-ser. Em Kant é o elemento espiritual que arruína o mundo. Mas o movimento demonstra o ser. os elementos . O mundo torna-se não-verdadeiro pelo fato de Ihe jogarmos em cima uma massa de determinações. não haveria movimento. portanto. pois. pois o menor poderia acolher em si o maior. produzidas pela ação das qualidades primárias sobre os órgãos de nossos sentidos. a cinza desaparece nos interstícios vazios da água. O ser. Se toda grandeza fosse divisível ao infinito. Mas o ponto de partida de Demócrito é acreditar na realidade do movimento porque o pensamento é um movimento. Z de N pela posição. as honras que recebeu de seus concidadãos. que indica diferença de grandeza e de peso. As antinomias de Kant nada mais são do que aquilo que Zenão aqui já fizera. Se o espaço é absolutamente pleno. Pois Zenão e os Eleatas afirmaram sua proposição com a seguinte significação: "O mundo sensível é em si mesmo apenas mundo fenomenal.

que o "acaso cego" reinaria entre os materialistas. concursu quodam fortuito. provavelmente também sua dedução a partir da realidade do pensamento. o materialismo. pois.. Estes se movem perpetuamente. há infinitos mundos. O ponto de partida de Demócrito. não há nem interrupção brusca nem intervenção estranha no curso natural das coisas. tem muita analogia com a minha. a velocidade sendo desigual. Parece-me que se poderia dizer aqui. todo esse universo cheio de ordem e de exata finalidade. mas o ar que os leva é por sua vez levado em um rápido turbilhão. 48. uma queda regular e eterna no infinito do espaço. o ar. isso seria equivalente ao repouso absoluto. alguns são repelidos. no começo. Estas penetram no corpo pelos sentidos e espalham-se por todas as partes. Esta é uma maneira muito pouco filosófica de se exprimir. embora não racionais. Disso resulta a morte. a formar turbilhões na regularidade das combinações que se faziam e se desfaziam? Se tudo caía na mesma velocidade. Como os átomos vieram a operar movimentos laterais. bem entendido. primeiramente. Nascimento dos seres animados. não procura logo de início. A matéria que se move segundo as Ieis mais gerais produz. Não contestarei então que a teoria de Lucrécio ou de seus predecessores. Só então o pensamento se desprende de toda a concepção antropomórfica do mito. O sono . História Natural do Céu.. segundo o qual o mundo se compunha de ser e de não-ser. vertical. O contato não é imediato. quando ela era ainda pequena e leve. e esse todo é tão semelhante ao universo que temos sob os olhos que não posso impedir-me de tomá-lo por ele mesmo. ser feita da matéria mais móvel. . é antes de tudo de Parmênides que ele procede. que nos traz constantemente de fora novos átomos de fogo e de alma para substituir os átomos desaparecidos e que prende no interior do corpo aqueles que quereriam escapar. Ele retorna ao primeiro sistema de Parmênides. aqueles que se elevam formam o céu. Demócrito deduz todo movimento do espaço vazio e do peso. sem muita imprudência: 'Dai-me a matéria. Demócrito pensa. Por causa de sua sutileza e de sua mobilidade arriscam-se a serem arrancados do corpo pelo ar circundante. Toma emprestado de Heráclito a crença absoluta no movimento. opera-se por meio das aporrhoaí. É a concepção mais terra-a-terra. é esta que move os seres animados. De todos os sistemas antigos. pelo efeito de leis mecânicas bem conhecidas. a idéia de que todo movimento pressupõe uma contradição e de que o conflito é o pai de todas as coisas. A alma deve. perpetuamente agitados. os elementos repelidos para fora depositam-se no exterior como uma película. da espécie mais comum. Esse turbilhão aproxima. Rosenkr. Ihe é comum com Anaxágoras e Empédocles. O sol e a lua. foram apanhados pelas massas que se moviam em torno do núcleo terrestre e desse modo viram-se atraídos para nosso sistema sideral. Esse invólucro vai-se tornando cada vez mais fino. o que é de mesma natureza. em um estágio antigo de sua formação. não se pode indicar sua velocidade. Eis como Demócrito se representa a formação de um mundo dado: os átomos flutuam. os mais leves são repelidos para o vazio exterior. Os átomos centrais formam a terra. como o espaço é infinito e a queda regular não há medida para essa velocidade. seu movimento. . certas partes sendo atraídas para o centro pela rotação. É disso que nos preserva a respiração. o fogo interior escapa.: ''Admito que a matéria de todo o universo está em um estado de dispersão geral e faço dele um perfeito caos. Isso não acontece em um instante. esta hipótese. O pensamento é um movimento. enfim. com o auxílio de um mecanismo cego. pode ocorrer que a vida seja restaurada depois da desaparição de uma parte da alma. ultrapassar as forças mais simples. Pouco a pouco ela tomou uma posição fixa no centro do universo. os outros permanecem juntos. movia-se de um lado para outro. Quando os átomos em equilíbrio são tão numerosos que não podem mais se mover. efeitos que parecem os desígnios de uma sabedoria suprema. Demócrito. p. tem-se. pois. anánke sem intenções. como se fossem expulsos. Vejo as substâncias se formarem em virtude de leis conhecidas de atração e modificarem. que somente o semelhante age sobre o semelhante. uma hipótese cientificamente utilizável. é que uma massa produzida pelo choque de átomos heterogêneos se separou. com Empédocles. A essência da alma reside em sua força animadora. as partículas do corpo terrestre são pouco a pouco arrancadas pelos ventos e pelos astros e se acumulam em água nos ocos. Do mesmo modo. como a hipótese do Nous ou as causas finais de Aristóteles. A teoria dos poros e das aporrhoaí preparava a do kenón. Leia-se Kant. produz-se um movimento giratório. lisos e arredondados (de fogo). Cada um desses conglomerados que se separam da massa dos corpos primitivos é um mundo. o fogo. a terra e o ar podem nascer um do outro por dissociação. sempre foi da maior utilidade. Os átomos pesados caem e fazem subir os átomos leves com sua pressão. e eu vos farei um mundo' ". sob o efeito combinado de forças opostas. Estes nasceram e perecerão. Cada vez que nasce um mundo. O movimento original é. Assim a terra se solidifica. mas um conjunto de leis rigorosas. É por isso que a água. Duas condições . é este que domina todas as suas concepções fundamentais. entrelaçando-se e formando uma espécie de conglomerado. no espaço infinito. a massa entra em rotação. tem em comum os ápeira ou matérias originais. o de Demócrito é o mais lógico: pressupõe a mais estrita necessidade presente em toda parte. É um grande pensamento reconduzir às manifestações inumeráveis de uma força única. Alguns formam massas espessas. pelo choque. de átomos sutis. parte das qualidades reais da matéria. entre todos os átomos corporais se intercala um átomo de alma.morte aparente. dizendo que o mundo teria sido movido e teria nascido por "acaso". Sinto o prazer de ver um todo bem ordenado nascer sem o auxílio de fábulas arbitrárias. Teoria das percepções dos sentidos. censurou-se desde a Antigüidade esse ponto de partida. Com Anaxágoras. em certo sentido. disso nasce a representação das coisas. Naturalmente. O que é preciso dizer é que há uma causalidade sem finalidade. a realidade do movimento. eles se encontram. Leucipo. Não há acaso. Se a respiração cessa. Essas partículas de fogo estão espalhadas por todo o corpo. as partes mais leves são empurradas para o alto. Epicuro... neste eles secam pouco a pouco e se inflamam pela rapidez do movimento (astros).distinguem-se apenas pela grandeza de suas partes.

igualmente. Simplicidade do método. a representação. Inquietações míticas: racionalismo. mas. Sobre a questão da criação do mundo. Inquietações morais: ascetismo. o contrabando de seus escritos de magia e de alquimia. o materialismo é uma hipótese preciosa e de uma verdade relativa. O cristianismo nascente. Se este é o inventor da idéia principal. Todos os materialistas pensam que.. Assim. Sobre o problema da origem do mundo. quando atravessava o rio a cavalo. Inquietações conjugais: adoção de filhos. Anotações sobre Demócrito Deveríamos a Demócrito muitos sacrifícios fúnebres. enfim. Clareza. Juntase a isso a obscuridade em que nos encontramos a respeito de Leucipo. se a alma é levada por esse movimento à temperatura conveniente. enquanto. sob sua marca. foi reservado à nossa época negar também a grandeza filosófica do homem e atribuir-lhe um temperamento de sofista. Uma e outro são modificações mecânicas da matéria da alma. Somente o semelhante sente o semelhante. é por não conhecer a natureza. Os fragmentos de Moral (= Estudos Éticos) têm. Aversão ao bizarro. de repente. como a encarnação do paganismo. Trata-se do mundo que é o nosso. Não recendem a estoicismo nem a platonismo. É aqui que começam as verdadeiras dificuldades do materialismo. "Contenta-te com o mundo tal como é". logrou executar o enérgico desígnio de Platão. O divino Platão chegou mesmo a considerar seus escritos tão perigosos que pretendia destruí-los em um auto-de-fé privado e só foi impedido disso por considerar que já era tarde demais. mas sentimos sua força poética. é raro que um escritor considerável tenha tido de sofrer tantos ataques devidos o razões diversas. graças às quais se apresenta como extenso no espaço e agente no tempo. aqui e ali. para cuja produção cooperamos sempre. porque ele próprio começa a sentir seu prõton pseudos. de uma completa clareza. introduzindo. . É de um tal dado que o materialismo quer. Pitágoras. Vauvenargues diz com razão que os grandes pensamentos vêm do coração. um concreto extremamente relativo. Aitíai. É uma prodigiosa petição de princípios. as representações são falsas e o pensamento é malsão. é uma representação cômoda nas ciências naturais. Não acreditamos nos contos. resultado do estudo cientifico. O absurdo consiste em partir do dado objetivo. Com efeito. é o cânon moral que o materialismo produziu. podemos entretanto atribuir também a Demócrito uma grande diversidade de concepções. seu juízo sobre os poetas. Uma seqüência infinita de anos. É o que prova sua própria descrição. um tom desenvolto de homem do mundo e uma bela forma. O Mal excluído de seu sistema. Sentir-se liberto de todo Incognoscível. que puxava para cima. Características do Pensamento de Demócrito Gosto pela ciência. ele não perde o senso da poesia. por um lado. Teólogos e metafísicos acumularam sobre seu nome suas acusações inveteradas contra o materialismo. assim como os de Epicuro. Assim o Sistema da Natureza começa nestes termos: "O homem é infeliz porque não conhece a natureza". que. Inquietações políticas: quietismo. lembram Aristóteles e sua metropathía. os obscurantistas da Antigüidade se vingaram dele. Enfim. potanto material. deduzir o único dado imediato. Demócrito é perfeitamente claro. extenso. . A ética de Demócrito é conservadora. Fé absoluta em seu sistema. A tradição não prova nada. se não no absoluto. e sem dúvida um século anticósmico devia considerar os escritos de Demócrito. ele foi. do espaço e da causalidade. o que imputou ao pai de todas as tendências racionais uma reputação de grande mágico. a cada mil anos uma pedrinha é juntada às outras. É um problema psicológico saber se foi ele que os escreveu. percebe exatamente os objetos. Todos esses ataques se desenrolam em um terreno que não podemos mais defender. na verdade. se o homem é infeliz. Se o movimento a aquece ou a esfria excessivamente. simplesmente para reparar os erros do passado para com ele. percebemos as coisas por meio das partes de nosso ser que Ihes são análogas. Não são indignos de Demócrito. Entretanto. Uma plena virilidade do pensamento e da investigação aparece cm Demócrito. e todos os seus resultados permanecem verdadeiros para nós.são necessárias: uma certa força da impressão e a afinidade do órgão que a recebe. comparou-se o materialismo ao Barão de Crac (sic). agora.. suspendia sua montaria apertando-a entre as pernas e se suspendia a si mesmo por meio de sua peruca. O materialismo é o elemento conservador na ciência como na vida. que o veneno já estava por demais alastrado. o último elo aparece como o ponto de partida de que já dependia o primeiro elo da corrente. todo dado objetivo é determinado de várias maneiras pelo sujeito pensante e desaparece totalmente quando se faz abstração do sujeito. Arrojo poético (poesia do atomismo). que passou pelo mecanismo do cérebro e acomodou-se às formas do tempo. Sentimento de um progresso poderoso. Paz de espírito. não passa de um dado extremamente mediato. . Por outro lado. mesmo depois que se descobriu o prõton pseudos. o pensamento é sadio. Mais tarde. e a terra acaba por ser o que é. A percepção é idêntica ao pensamento. É na moral que está a chave da física de Demócrito. Tudo o que é objetivo. que considera como profetas da verdade (isso Ihe parece um fato natural). agente. Viagens. tudo aquilo que o materialismo considera como seu fundamento mais solido.

Sabemos. por outro lado. cumpre-nos encontrar um espaço para Leucipo entre eles [Demócrito] e Zenão. a queda e o choque.. diz que tomou conhecimento por intermédio de Filolau. pois deixavam subsistir um elemento irracional. Aristóteles. porém. de seus raros predecessores. sabemos menos a seu respeito do que de Sócrates. Quanto à data do seu nascimento. outrossim. Isto esclarece o seu conhecimento geométrico. porquanto a escola as conservou em Abdera e Teos ao longo dos tempos helenísticos. desprezado em vida. É certo. etc. outros aspectos do seu sistema. porém. Em uma das principais obras. da mesma forma que ele. Para nos. Demais. que Demócrito falou nas obras das doutrinas de Parmênides e Zenão. na biblioteca da Academia. Como Protágoras. defrontou-se com as dificuldades referentes ao conhecimento. o que quer é terminá-la e atingir o conhecimento último. É. com a idade de noventa ou cem anos. ele era jovem. esse Humboldt do mundo antigo. Não é certo que Platão haja conhecido alguma coisa sobre Demócrito. Apolodoro de Quizico. Os epicuristas. isto ocorrera. o que parece muito provável. Há um outro (fragmento 116) no qual ele diz: "Eu fui a Atenas e ninguém tomou conhecimento de mim". Como Sócrates. Parece. detestavam qualquer tipo de estudo. Por isso. Ainda não havia notado. e temos uma prova contemporânea. temos apenas conjeturas para nos orientar. conservou. Diz-se ter visitado o Egito. que também os pitagóricos foram seus mestres. ao qual também os sofistas deram impulsos. seu contemporâneo. A meta é o otium litteratum: "ter a paz" Demócrito. Sabemos extremamente pouco sobre a vida de Demócrito. quando Anaxágoras era velho. Demócrito e suas Teorias Demócrito fez uma tentativa bem independente de reconstrução. pois.aquilo que Ihe era homogêneo. que chegou a conhecê-las através de Leucipo. aquilo que lhe parecia inteligível e simples. Mesmo isso não foi suficiente para preservá-las. Mesmo a partir de fundamentos meramente cronológicos. e a partir dai concluiu-se que nasceu em 460 a. uma abundância infinita de pontos de vista diversos. pois que as poucas passagens no Timeu e alhures. Demócrito. que era um dos maiores escritores da Antigüidade. ele era um autor volumoso. Queria sentir-se no mundo como em um quarto claro. um racionalista confiante. como Sócrates. e provavelmente nem se preocuparam em multiplicar os exemplares de um escritor cujas obras teriam sido um testemunho permanente para a carência de originalidade que caracterizou o próprio sistema deles. de fato. era natural de Abdera na Trácia. reduzido. considerando que pode dar origem a dois homens de tanta envergadura. deu grande atenção ao problema do comportamento. e obscurece o fato de que. quase morrera de fome.. não obstante. Sua cidade natal o toma por um pródigo. ainda que Demócrito naturalmente estivesse ciente de ser ela pitagórica. bem como as de Demócrito) continuaram a existir. é falso classificar Demócrito entre os predecessores de Sócrates. Os sistemas anteriores não Ihe davam isso. Havia nessa época e posteriormente diversas eras em uso. deve igualmente ser incluído entre os melancólicos. e as suas obras na realidade nunca foram bem conhecidas em Atenas.C.– É a meta de sua filosofia. o espetáculo dos sacrifícios. até o dia em que seus parentes tomam as dores do morto e em que se elevam monumentos em honra daquele que. ele tentou responder ao seu distinto concidadão Protágoras. de qualquer maneira ainda vivia quando Platão fundara a Academia. como se diz. a viver das esmolas de seu irmão. onde teriam tido a possibilidade de serem preservadas. É que sua vontade é a mola de sua investigação. e a expressão "jovem" sugere menos que esta idade. levantadas pelo seu concidadão Protágoras e outros. Se disse isto. Os problemas mais profundos Ihe permanecem ocultos. é como se não tivesse escrito quase nada. exatamente como sua edição dos diálogos de Platão. sem dúvida. que geralmente fora atribuída em Atenas. Sente-se impelido a correr o mundo. a Anaxágoras. Ele se atrela a este. contudo. sob o reinado de Tibério. e nós ainda podemos constatar. Recusam-lhe uma sepultura honrada. fazer uma edição das obras de Demócrito. Retorna pobre e sem recursos.. bem como. sem dúvida deu a entender que não conseguira causar uma impressão tal como o fizera o seu mais brilhante concidadão . e sem dúvida alguma na Jonia. afirmou que elas foram escritas 730 anos após a queda de Tróia. Um membro posterior da escola. entretanto. acomodava à sua maneira os deuses. uma cidade que nem mereceria a reputação proverbial de embotamento. são facilmente explicadas pelas influências pitagóricas que afetaram a ambos. como aquelas de Anaxágoras e outrem. e. que tinham a obrigação de ter estudado o homem a quem deviam tanto. segundo a suposição dele. não sabemos. crê na capacidade liberadora de seu sistema e elimina dele tudo aquilo que é mau e imperfeito. cedo demais. e condenou sem indulgência a intrusão de um mundo mítico. Isto deve-se ao fato de ele ter escrito em Abdera. pois era também jônio do Norte. Se Demócrito morreu. visto estar baseado na hipótese de que tinha quarenta anos quando se encontrou com Anaxágoras. como um mendigo. conhece bem Demócrito. quando. mas há uma certa razão para se acreditar que o fragmento onde isto é mencionado (fragmento 298 b) é apócrifo. Ao contrário de Sócrates. Fez menção a Anaxágoras. no qual parece que o reproduz. e parece ter dito que a sua teoria do sol e da lua não era original. Ele se desempenha com excessiva rapidez dos encargos de construir o mundo e a moral. através dos scus fragmentos. Racionalista encarnado. Demócrito foi discípulo de Leucipo. organizada em tetralogias. pai do racionalismo. foi possível para Trasilo. ao passar em revista os sistemas anteriores. e é isso que Ihe dá sua segurança e sua confiança em si. Disse também algures que. Eis por que ele procurou remeter tudo àquilo que é mais fácil de compreender. Isto pode referir se à explicação dos eclipses. a de Glauco de Régio. que as obras completas de Demócrito (que incluem as obras de Leucipo e outros.

está fora da discussão. Nisto. afirmando que existe uma outra fonte de conhecimento que não a dos sentidos próprios. Esta é a resposta de Demócrito a Protágoras. Esta é a razão por que a mesma coisa às vezes dá a sensação de doce e às vezes de amargo. pelo contrário. isto não seria assim. não podemos vê-las de modo algum. e é realmente verdade se entendermos por tato o sentido que percebe qualidades. Teoria do Conhecimento Demócrito procedeu como Leucipo ao fazer uma avaliação puramente mecânica da sensação. que acima foi descrito. a audição. Para compreender esta questão. o paladar e o tato. posto que elas não têm uma contrapartida real fora do objeto sensível. ao ouvido junto com aquelas porções do ar que se Ihe assemelham. A imagem na pupila do olho era considerada como a coisa essencial em visão. Demétrio de Falerão afirmou que Demócrito jamais visitou Atenas. A audição explica-se de uma maneira similar. mas sim o cabeça de uma escola regular. porém. Aristóteles afirma que Demócrito reduziu todos os sentidos ao tato. Não podemos conhecer a realidade deste modo.Protágoras. por convenção há o amargo. está separado daquele". Sexto Empírico e Plutarco afirmaram claramente que Demócrito argüiu contra Protágoras. . bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras. entre nós e os objetos da visão. naturalmente. foi-nos preservada através de suas próprias palavras. é "não mais tal do que tal" (oudèn mãllon toion è toion). rejeita a sensação como fonte de conhecimento. e é bastante idêntico a Leucipo que disse algo de parecido. "duas formas de conhecimento (gnóme): o legítimo (gnesíe) e o ilegítimo (skotíe). embora não com os mesmos detalhes. Vê-se que esta doutrina tem muito em comum com a distinção moderna entre as qualidades primárias e secundárias da matéria. porém. pois está sujeita às distorções causadas pela interferência do ar. exatamente como fizeram os pitagóricos e Sócrates. Uma vez que a alma se compõe de átomos como qualquer outra coisa. mas somente o vazio. Se não houvesse ar. por convenção há a cor". ensinando e escrevendo em Abdera. Não é. Parmênides afirmara claramente que o paladar. Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens. é tanto amargo quanto doce. A originalidade de Demócrito. diz ele (fragmento 11). por exemplo. que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. Ele diz que o mel. se a distância for grande. o som e outros semelhantes eram apenas "nomes" (onómata). "Pelos sentidos". que deriva mormente de Anaxágoras. e era isto que exigia uma solução. Deveras. o tato. apesar de serem causadas por algo fora de nós. "nós na verdade não conhecemos nada de certo. está precisamente na mesma linha que a de Sócrates. as cores. pois. na realidade (etee). e os órgãos dos sentidos devem ser simplesmente ''passagens" (póroi = poros) através das quais estes átomos se introduzem. O som é uma torrente de átomos que jorram do corpo sonante e produzem movimento no ar entre ele [corpo] e o ouvido. mas somente alguma coisa que muda de acordo com a disposição do corpo e das coisas que nele penetram ou Ihe opõem resistência". uma semelhança exata do corpo do qual provém. o olfato. Demócrito. Seja como for. Este é o motivo por que vemos as coisas a distância de um modo embaraçado e indistinto. o problema do comportamento tornara-se premente. A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio. doce para mim e amargo para você. "poderíamos ver uma formiga rastejando no firmamento". tamanho e peso. Demócrito. como eles. por conseguinte. Menos ainda está no seu sistema cosmológico. A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. Por outro lado. e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides. contudo. e o fato. Ademais. "Há". felizmente. é afetado de acordo com a forma e o tamanho dos átomos chocando nele. afirmou Demócrito (fragmento 9). Ao ilegítimo pertencem todos estes: a visão. considera falsas todas as sensações dos sentidos próprios. que asseverou serem todas as sensações igualmente verdadeiras para o objeto sensível. está em conformidade com a tradição eleática onde repousa a teoria atômica. mas as "imagens" (deíkela. O legítimo. portanto. Seguindo o exemplo de Protágoras. então é possível que este fragmento também seja apócrifo. ressalva a possibilidade de ciência. e é provável que ele seja o autor da doutrina minuciosa dos átomos com respeito a este assunto. portanto. temos que considerar a doutrina do conhecimento "legítimo" e "ilegítimo". skhémata) dos átomos que entram em contato com os órgãos desse sentido. As diferenças de cor devem-se à lisura ou aspereza das imagens ao tato. Sua doutrina. pois "a verdade jaz num abismo" (fragmento 117). e o olfato explica-se semelhantemente. Não era um sofista itinerante do tipo moderno. por convenção há o quente e por convenção há o frio. De modo idêntico. Na realidade. a sensação deve consistir no impacto dos átomos externos sobre os átomos da alma. As diferenças de paladar são devidas às diferenças nas figuras (eide. Disto decorre que os objetos da visão não são estritamente as coisas que nós mesmos presumimos ver. cuja verdadeira natureza não pode ser apreendida pelos sentidos próprios. ele deve ter despendido a maior parte do seu tempo no estudo. e por que. Este. eídola) que os corpos estão constantemente emitindo. "Por convenção (nómo)": disse ele (fragmento 125). Demócrito foi obrigado a ser explícito com referência à questão. considerado como o sentido pelo qual sentimos o calor e o frio. o molhado e o seco e outros que tais. apesar de não haver razão de se acreditar que ele tenha elaborado uma teoria sobre o assunto. tais como forma. as nossas sensações não representam nada de externo. "há o doce. há os átomos e o vazio. Chegou. Porém. É aqui que Demócrito entra nitidamente em conflito com Protágoras. todavia. A possibilidade de ciência havia sido negada. deve ser cautelosamente distinguido do sentido próprio do tato.

farão irregular o cone. o que é o maior absurdo". apesar de tudo. se fosse preciso uma demonstração. cujo sossego se deve procurar principalmente nos bens da alma. e. e este é um estado da alma. pois. afinal de contas. a fazer uma separação absoluta entre os sentidos e o conhecimento. e Sócrates é descrito no Fédon tomando-a por certa. Nós somente podemos ter certeza de superar a dor pelo prazer se não procurarmos os nossos prazeres nas coisas "mortais" (fragmento 189). quanto ao resto. Ele também aderiu a Anaxágoras defendendo que a Terra era sustentada no ar "como a tampa de uma tina". mas uma espécie de sentido interno. O "conhecimento legítimo" é. cujo teorema foi demonstrado primeiro por Eudoxo. que os átomos fora de nós poderiam afetar diretamente os átomos da nossa alma sem a intervenção dos órgãos dos sentidos. Isto quer dizer fundamentalmente que a felicidade não deve ser procurada nos bens exteriores. Defendeu. como o fizera do ilegítimo. Para compreender isto. Os átomos da alma não se restringem a algumas partes específicas do corpo. [O tratado] partia (fragmento 4) do princípio de que o prazer e a dor (térpsis e aterpsíe) são o que determina a felicidade. Para o nosso presente objetivo. "é por causa de nós que conseguiste as provas com as quais atiras contra nós. Para Demócrito. Ela é totalmente retrógrada e demonstra. que significava propriamente um espírito protetor do homem. Para atingi-lo. É evidente. e o cone terá a aparência de um cilindro. chegando assim a conhecê-los como realmente são. "Quem escolhe os bens da alma. e Demócrito recusou-se. devemos lembrar que a palavra daímon. Vemos mais uma vez como foi importante a obra de Zenão como um fermento intelectual. como foi dito. quem escolhe os bens do 'tabernáculo' (isto é. A perda da edição completa das suas obras feita por Trasilo é talvez a mais deplorável . mas nele penetram em qualquer direção. nem em ouro. A idéia da forma esférica da Terra era amplamente difundida na época de Demócrito. com efeito. Teu tiro é uma capitulação. que é composto de círculos iguais e não desiguais. se pudéssemos restabelecê-las integralmente. que "a ignorância do melhor" (fragmento 83) é a causa do erro. e seus objetos são como os "sensíveis comuns" de Aristóteles. devemos ser capazes de ponderar. Teoria do Comportamento As concepções de Demócrito sobre o comportamento seriam até mais interessantes do que a sua teoria do conhecimento.Ao mesmo tempo. imagina ele os sentidos dizerem (fragmento 125). da mesma natureza do "ilegítimo". De um lado. a alma é a moradia do daímon" (fragmento 171). "Pobre Mente". Como seria de esperar de um seguidor dos pitagóricos e de Zenão. que foi um verdadeiro gênio neste campo. que ele estava empenhado em problemas tais como aqueles que finalmente deram origem ao método infinitesimal do próprio Arquimedes. Isto não é. os prazeres dos sentidos são de duração demasiado curta para preencher uma vida. É. escolhe os humanos" (fragmento 37). e facilmente se transformam ao contrário. mas o agradável é diferente para gente diferente" (fragmento 69). Os prazeres dos sentidos são prazeres verdadeiros tão breves como as sensações são verdadeiro conhecimento. 0 grande principio que nos deve guiar é o da "simetria" ou "harmonia". "A felicidade não reside em rebanhos. e a palavra grega que traduzimos por "felicidade" (eudaimonía) baseia-se neste uso. tem sido usada no sentido equivalente de "boa sorte". pensamento. Este é. "O bom e o verdadeiro são a mesma coisa para todos os homens. pois ele terá muitas incisões em forma de degraus e muitas asperezas. Segundo um comentário de Arquimedes. ele o confirma desta forma: "Se um cone fosse cortado por um plano em linha paralela à base. O que devemos nos esforçar por conseguir é o "bem-estar" (euestó) ou a "alegria" (euthymíe). poderemos alcançar o sossego. Se forem iguais. pois. as nossas informações são extremamente escassas para possibilitar mesmo uma reconstrução aproximada do seu sistema. sem dúvida. mas esta é apenas uma "imagem" que inventaram para justificar a sua própria ignorância (fragmento 119). julgar e discernir o valor dos diferentes prazeres. o corpo). ter certeza sobre quais dos preceitos morais a ele atribuídos são genuínos. Além disso. que o seu real interesse está em outro sentido. parece que Demócrito prosseguiu afirmando que o volume do cone era a terça parte do volume do cilindro sobre a mesma base e do mesmo peso. É muito difícil. porém. e alguns fragmentos importantes do tratado sobreviveram. como Sócrates. Demócrito parece ter contribuído valiosamente à ciência natural. Os homens puseram a culpa na sorte. o aspecto individual de týkhe. Foi utilizado livremente por Sêneca e Plutarco. como Sócrates. e não há nada que os impeça de ter contato imediato com os átomos externos. cuja concepção Sócrates rejeita enfaticamente. contentou-se em adotar a crua cosmologia dos jônios. não se pode ignorar que Demócrito dera uma explicação puramente mecânica deste conhecimento legítimo. Por outro lado. e o sossego da alma. não é necessário discutir detalhadamente a cosmologia de Demócrito. Demócrito afirmou. Infelizmente. como Leucipo houvera feito. Demócrito ocupou-se com o problema da continuidade. Em uma passagem digna de nota (fragmento 155). o que se deveria pensar das superfícies das duas partes cortadas? Seriam iguais ou desiguais? Se forem desiguais. que é a saúde. que é a alegria. então as partes cortadas serão iguais. Deve ter conhecido ainda o sistema mais cientifico de Filolau. o sossego do corpo. "O melhor para o homem é levar a vida com o máximo de alegria e o mínimo de aborrecimentos" (fragmento 189). Ele herdara a teoria dos átomos e do vazio de Leucipo. escolhe os mais divinos." O conhecimento "legítimo" não é. Se aplicarmos este critério aos prazeres. porém. embora dê mais ênfase ao prazer e à dor. hedonismo vulgar. pitagórico. a doutrina da felicidade ensinada por Demócrito é intimamente afim com a de Sócrates. Não há dúvida de que o tratado Sobre a Boa Disposição ou Bem-Estar (Perí Euthymíes) era seu. a Terra era ainda um disco.

visto estar baseado na hipótese de que tinha quarenta anos quando se encontrou com Anaxágoras. a Anaxágoras. Isto pode referir se à explicação dos eclipses. Este. O que temos dele foi preservado principalmente porque ele foi um grande criador de frases notáveis. Os Sofistas Período Sistemático O segundo período da história do pensamento grego é o chamado período sistemático. o século IV a. especialmente a Academia por motivos éticos e religiosos. da metafísica passa-se à gnosiologia e à moral. deles procedendo a Academia e o Liceu . Sabemos extremamente pouco sobre a vida de Demócrito. culminando em Aristóteles. Os epicuristas. e obscurece o fato de que. É possível que tenham sido abandonadas à ruína porque Demócrito chegara a compartilhar do descrédito que o prendera aos epicureus. que foram dignas de constar nas antologias. e através também da precedente crise cética da sofística. organizada em tetralogias. e a partir dai concluiu-se que nasceu em 460 a. era natural de Abdera na Trácia. foi possível para Trasilo. não obstante.apesar de o aristotelismo ter superado logicamente o platonismo. precursoras. como Sócrates. que chegou a conhecê-las através de Leucipo. Como Protágoras. o único fato importante com referência a Demócrito é que ele também sentiu a necessidade de uma resposta a Protágoras. ele tentou responder ao seu distinto concidadão Protágoras. e sem dúvida alguma na Jonia. considerando que pode dar origem a dois homens de tanta envergadura. com a idade de noventa ou cem anos. isto ocorrera. cedo demais. detestavam qualquer tipo de estudo. quando. que sobreviverão também no período seguinte e além ainda. Demais. que também os pitagóricos foram seus mestres. e compreende um número relativamente pequeno de grandes pensadores: os sofistas e Sócrates. mas há uma certa razão para se acreditar que o fragmento onde isto é mencionado (fragmento 298 b) é apócrifo. então é possível que este . Em uma das principais obras. Mesmo a partir de fundamentos meramente cronológicos. Por outro lado. e a expressão "jovem" sugere menos que esta idade. Diz-se ter visitado o Egito. ainda que Demócrito naturalmente estivesse ciente de ser ela pitagórica. Quanto à data do seu nascimento. Um membro posterior da escola. cumpre-nos encontrar um espaço para Leucipo entre eles [Demócrito] e Zenão. através de Sócrates e Platão .depois do qual começa a decadência . que tinham a obrigação de ter estudado o homem a quem deviam tanto. Mesmo isso não foi suficiente para preservá-las. que geralmente fora atribuída em Atenas. a de Glauco de Régio. Daí ser dado a esse segundo período do pensamento grego também o nome de antropológico. não em torno da natureza. segundo a suposição dele. mas em torno do homem e do espírito. afirmou que elas foram escritas 730 anos após a queda de Tróia. do estoicismo e do epicurismo do período seguinte. Abraça. de qualquer maneira ainda vivia quando Platão fundara a Academia. daí derivando as chamadas escolhas socráticas menores. Se disse isto. porém. que as obras completas de Demócrito (que incluem as obras de Leucipo e outros. entretanto. Por isso. sem dúvida deu a entender que não conseguira causar uma impressão tal como o fizera o seu mais brilhante concidadão Protágoras. como se diz. de preferência. Com efeito. ele era jovem. Platão e Aristóteles. Do nosso ponto de vista. que Demócrito falou nas obras das doutrinas de Parmênides e Zenão. sob o reinado de Tibério. que fixam o conceito de ciência e de inteligível. não é o tipo de material que se requer para a interpretação de um sistema filosófico.. Sabemos. uma cidade que nem mereceria a reputação proverbial de embotamento. pela importância e o lugar central destinado ao homem e ao espírito no sistema do mundo. não podemos deixar de reconhecer que é sobretudo pelo seu mérito literário que lamentamos a perda das obras. O interesse dos filósofos gira. Há um outro (fragmento 116) no qual ele diz: "Eu fui a Atenas e ninguém tomou conhecimento de mim". Tem-se a impressão de que ele se situa à parte da corrente principal da filosofia grega. e em seus desenvolvimentos neoplatônicos em especial . e parece ter dito que a sua teoria do sol e da lua não era original. e temos uma prova contemporânea. fazer uma edição das obras de Demócrito. porém. Havia nessa época e posteriormente diversas eras em uso. sendo principais a cínica e a cirenaica. bem como as de Demócrito) continuaram a existir. o que parece muito provável. quando Anaxágoras era velho. Demócrito foi discípulo de Leucipo.teve duração bastante curta. e é a esta que devemos agora retornar. bem como.das muitas perdas desse tipo. Apolodoro de Quizico. Fez menção a Anaxágoras. porquanto a escola as conservou em Abdera e Teos ao longo dos tempos helenísticos. até então limitado à natureza exterior. é falso classificar Demócrito entre os predecessores de Sócrates.C. nesse período realiza-se a sua grande e lógica sistematização. outrossim. outros aspectos do seu sistema. e é muito duvidoso se de fato conhecemos as suas idéias mais profundas. respectivamente. Demétrio de Falerão afirmou que Demócrito jamais visitou Atenas. temos apenas conjeturas para nos orientar. Ao mesmo tempo. Isto esclarece o seu conhecimento geométrico. Disse também algures que. não sabemos. exatamente como sua edição dos diálogos de Platão. e provavelmente nem se preocuparam em multiplicar os exemplares de um escritor cujas obras teriam sido um testemunho permanente para a carência de originalidade que caracterizou o próprio sistema deles. É certo. Se Demócrito morreu. diz que tomou conhecimento por intermédio de Filolau. Esse período esplêndido do pensamento grego . Parece. substancialmente.C.

interessado. o ensinamento dos sofistas não era ideal. um prejuízo a igualdade moral entre os fortes e os fracos.pode-se dizer . mas como um empecilho que incomoda o homem. destruidor da ciência. superficial. ensinando e escrevendo em Abdera. desinteressado. e sim sobre a sua natureza animal. segundo o ideal dos sofistas. A originalidade de Demócrito. ao empirismo gnosiológicos correspondem o hedonismo e o utilitarismo ético: o único bem é o prazer. mas a natureza humana sensível. E visto que o domínio pessoal. não a natureza humana racional. compreende-se a importância que. mas sim o cabeça de uma escola regular.fragmento também seja apócrifo. A Sofística Após as grandes vitórias gregas. mas sobejamente retribuído. a força e a violência podem ser o único elemento organizador. portanto.C. Seja como for. A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio. depende da capacidade de conquistar o povo pela persuasão. a Atenas de Péricles. não está na ação ética e ascética. pois em uma sociedade em que estão em jogo apenas forças brutas. contra o império persa. houve um triunfo político da democracia. considerando a lei como fruto arbitrário. e entendendo por natureza. ensinando aos homens ávidos de poder político a maneira de consegui-lo. Mas este direito natural . e era isto que exigia uma solução. Os menores foram uma plêiade.é concebida pelos sofistas não como lei racional do agir humano. em nome do direito natural. Quanto ao direito e à religião. Ademais. têm freqüentemente conseguido grande êxito no mundo e. A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. Menos ainda está no seu sistema cosmológico. não para si mesma. como a lei que potencia profundamente a natureza humana. destruidor da moral. Diversamente dos filósofos gregos em geral. a sofística sustenta o relativismo prático. chefe de escola e teórico da sofística. não é mister justiça e retidão. quer moral. instintiva. capital democrática de um grande império marítimo e cultural. o problema do comportamento tornara-se premente. à paixão de cada um em cada momento. uma pura convenção.a segunda metade do século V a. a posição da sofística é extremista também. aliás. ele deve ter despendido a maior parte do seu tempo no estudo.chegam até o extremo. de retórica. visto estes bens serem limitados e ambicionados por outros homens. como norma universal de conduta . uma enciclopédia. Moral. como na gnosiologia e na moral. em tal regime.bem como a moral natural . bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras. bem como a sua utilidade comumente celebrada: não é verdade .segundo os sofistas. animal. Os sofistas. pois grandes malvados.dizem . A época de ouro da sofística foi . A moral. tirânico. Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens. isto é. mas no engrandecimento ilimitado da própria personalidade. o poderoso. não lhe interessa. oprima o fraco em seu proveito. Direito e Religião Em coerência com o ceticismo teórico. na justiça para com os outros. os sofistas estabelecem uma oposição especial entre natureza e lei. portanto. Desta maneira. naturalmente. muitas vezes arbitrário. assim é bem o que satisfaz ao sentimento. os sofistas não só trilham a mesma senda dos filósofos racionalistas gregos do período precedente e posterior.de harmonia com o ceticismo deles . portanto. pelo menos . a experiência ensina que para triunfar no mundo. instintiva. no prazer e no domínio violento dos homens. pois a verdadeira justiça conforme à natureza material. tornaram-se mestres de eloqüência. ao impulso. em situação semelhante. A respeito da religião e da divindade. devia ter a oratória e. exige que o forte. a única regra de conduta é o interesse particular. mortificador. O conteúdo desse ensino abraçava todo o saber. embora sem importância filosófica. Os sofistas maiores foram quatro. contra o direito positivo. a sua força. Como é verdadeiro o que tal ao sentido. portanto. Protágoras foi o maior de todos. Esse domínio violento é necessário para possuir e gozar os bens terrenos. mediante graves crimes. mas . o direito natural é o direito do mais poderoso. não é o direito fundado sobre a natureza racional do homem. no domínio de si mesmo. materiais. o único sistema jurídico admissível. atenienses. mas prudência e habilidade. que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. mas como meio para fins práticos e empíricos e. a cultura. passional. que a causa seja justa ou não. sequiosos de conquistar fama e riqueza no mundo. Górgias declara plena indiferença para com todo moralismo: ensina ele a seus discípulos unicamente a arte de vencer os adversários. na verdade tão mutável conforme os tempos e os lugares. Seria. Não era um sofista itinerante do tipo moderno. e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides. A possibilidade de ciência havia sido negada. quer política. Então. A sofística move uma justa crítica.que a submissão à lei torne os homens felizes. continuando até depois de Sócrates. a única forma de vida social possível num mundo em que estão em jogo unicamente forças brutas. está precisamente na mesma linha que a de Sócrates. Ao sensualismo. contingente. como acontece todas as vezes que o povo sente. Então a realização da humanidade perfeita. os mestres de eloqüência. até o ateísmo. aliás. O centro foi Atenas. É esta. E tentam criticar a vaidade desta lei. por conseguinte. que deriva mormente de Anaxágoras. de repente.

não na sua realidade física. ensinando na sua cidade natal. na Sicília. dos quais.C. ocupado com outros cuidados que não os domésticos.praticamente. servem-se da injustiça e do muito mal que existe no mundo. foi Sócrates. cuja escola conheceu . Entretanto. Aprendeu a arte paterna. foi ele valoroso soldado e rígido magistrado. porém. relativismo e sensualismo são as notas características do seu sistema de ceticismo parcial. inimizades pessoais. sobretudo entre os jovens. orientando-a para os valores universais. se alguma coisa existisse não a poderíamos conhecer. Esta máxima significava mais exatamente que de cada homem individualmente considerado dependem as coisas. Tinha ele diante dos olhos da alma não uma solução empírica para a vida terrena. Formou a sua instrução sobretudo através da reflexão pessoal. quarenta dedicados à sua profissão. Acusado de ateísmo. social. e a sua obra sobre os deuses foi queimada em praça pública. e especialmente em Atenas. Ensinou na Sicília. negador dos valores teoréticos e morais. uma mulher ideal na quérula Xantipa. temperados . irônica e a conseqüente educação por ele ministrada. outros pueris. conservou-se afastado da vida pública e da política contemporânea. que contrastavam com o seu temperamento crítico e com o seu reto juízo. onde carregou aos ombros a Xenofonte.). Dos princípios de Heráclito e das variações da sensação. para pedir auxílio contra os siracusanos. na Magna Grécia. hostilidade popular. Quanto à família.pátria de Demócrito . e não a persuasão que nos instrui sobre as razões intrínsecas do objeto em questão.pelo ano 480. conforme as disposições subjetivas dos órgãos. partiu dos princípios da escola eleata e concluiu também pela absoluta impossibilidade do saber. Protágoras recorre à convenção estatal.correlacionado com Empédocles . em outras cidades da Grécia. vivendo justamente e formando cidadãos sábios. Viajou por toda a Grécia. honestos. para a imortalidade. onde morreu com setenta anos (410 a. mas também ela não teve um marido ideal no filósofo. Para remediar este extremo individualismo. foi um filósofo ocasional. Esse estado de ânimo hostil a Sócrates concretizou-se. que agiam para o próprio proveito e formavam grandes egoístas. humilhando-se e desculpando-se mais ou menos. Menos profundo. Desempenhou alguns cargos políticos e foi sempre modelo irrepreensível de bom cidadão. Sócrates .C . A prova de cada uma destas proposições e um enredo de sofismas.diversamente dos sofistas.representa a maior expressão prática da sofística. Refugiou-se então na Sicília. onde teve grande êxito. Diante da tirania popular. onde teria morrido com 109 anos de idade.A Vida . tomou forma jurídica. criaram descontentamento geral. até estabelecer-se em Larissa na Tessália. Nasceu Sócrates em 470 ou 469 a. É autor duma obra intitulada "Do não ser". Subjetivismo. mais eloqüente que Protágoras. gravemente ferido. Os sofistas. e a um outro o de Górgias. inferiu Protágoras a relatividade do conhecimento. não obstante sua pobreza. e de Fenáreta. Anito e Licon: de corromper a mocidade e negar os deuses da pátria introduzindo outros. o homem é a medida de todas as coisas.C. Górgias declara que a sua arte produz a persuasão que nos move a crer sem saber. pois. Combateu a Potidéia. na moldura da alta cultura ateniense da época. mas dedicou-se inteiramente à meditação e ao ensino filosófico. Esta doutrina enunciou-a com a célebre fórmula. bem como de certos elementos racionários. parteira. Em 427 foi embaixador de sua pátria em Atenas. Em suma. a feição austera de seu caráter. capazes unicamente de se acometerem uns contra os outros e escravizar o próximo. exagerador dos artifícios da dialética eleática. Julgava que devia servir a pátria conforme suas atitudes. a sua atitude crítica. Górgias de Leôncio Górgias nasceu em Abdera. Inteiramente absorvido pela sua vocação. é mais ou menos o que acontece com o jornalismo moderno. porém.. em 480-375 a. escultor. No Górgias de Platão. e sim o juízo eterno da razão. por certo. a liberdade de seus discursos. se a conhecêssemos não a poderíamos manifestar aos outros. Protágoras de Abdera Protágoras nasceu em Abdera . podemos dizer que Sócrates não teve. para negar que o mundo seja governado por uma providência divina. apesar de sua probidade. na acusação movida contra ele por Mileto. em geral. segundo a via real do pensamento grego. teoricamente. em contato com o que de mais ilustre houve na cidade de Péricles. onde salvou a vida de Alcebíades e em Delium. aparecia Sócrates como chefe de uma aristocracia intelectual. Quanto à política. mas na sua forma conhecida. em Atenas. e foi honrado e procurado por Péricles e Eurípedes. não se deixou distrair pelas preocupações domésticas nem pelos interesses políticos. Mas. Sócrates desdenhou defender-se diante dos juizes e da justiça humana. onde foi processado e condenado por impiedade. em Atenas. na qual desenvolve as três teses: Nada existe. E preferiu a morte. Platão deu o nome de Protágoras a um dos seus diálogos. filho de Sofrônico. que deveria estabelecer o que é verdadeiro e o que é bem! Quem valorizou a descoberta do homem feita pelos sofistas. sem recompensa alguma. mediante o ensinamento da retórica. sutis uns. teve de fugir de Atenas.

porém. em seus Ditos Memoráveis. permanente. Como é sabido. pelo contrário. autor de Anábase. conforme se tratava de um adversário a confutar ou de um discípulo a instruir. O meio único de alcançar a felicidade ou semelhança com Deus. torna-te consciente de tua ignorância . "Se músico é o que sabe música. que remonta do indivíduo à noção universal. E exprime-se no famoso lema conhece-te a ti mesmo . apenas esboçado. de feição intelectual muito diferente. No primeiro caso.Declarado culpado por uma pequena minoria. assentou-se com indômita fortaleza de ânimo diante do tribunal. Deus não só existe. uma das mais características da moral socrática. é conseqüência natural do erro psicológico de não distinguir a vontade da inteligência. Com efeito. a natureza. mas não define o livre arbítrio.como sendo o ápice da sabedoria. Apesar destas doutrinas elevadas. que revestia uma dúplice forma. Sócrates professa a espiritualidade e imortalidade da alma. que vai do fenômeno à lei. b) com o argumento. com ela se identifica. que se concretizava. E alcançava em Sócrates intensidade e profundidade tais. Método de Sócrates É a parte polêmica. Tendo que esperar mais de um mês a morte no cárcere . ignorância e vício são sinônimos. As notícias que temos de sua vida e de seu pensamento. mas é um meio de generalização. Seja como for. foram: "Devemos um galo a Esculápio". "Conhece-te a ti mesmo" . antes. c) com o argumento moral: a lei natural supõe um ser superior ao homem. concluíram os sofistas pela impossibilidade absoluta e objetiva do saber. Praticamente. um conceito. também inteligente deve ser a causa que o produziu. estabelece a existência de Deus: a) com o argumento teológico.o lema em que Sócrates cifra toda a sua vida de sábio. sensitivo e intelectual. não entendeu o pensamento filosófico de Sócrates. Platão. o conceito que se exprime pela definição. fim supremo do homem. Xenofonte. Em teodicéia. Suas últimas palavras dirigidas aos discípulos. cabe-lhe a glória e o privilégio de ter sido o grande historiador do pensamento de Sócrates. justo será o que sabe a justiça". que o condenou à pena capital com o voto da maioria. que a promulgou e sancionou. A virtude adquiri-se com a sabedoria ou.isto é. É que o deus da medicina tinha-o livrado do mal da vida com o dom da morte. bem como o seu biógrafo genial. Sócrates ensina a bem pensar para bem viver. Moral.pois uma lei vedava as execuções capitais durante a viagem votiva de um navio a Delos . pode-se dizer que Sócrates é o protagonista de todas as obras platônicas embora Platão conhecesse Sócrates já com mais de sessenta anos de idade. Esta doutrina. mas sem profundidade. A este processo pedagógico. devemo-las especialmente aos seus dois discípulos Xenofonte e Platão . que facilitava a parturição das idéias. Insistindo no perpétuo fluxo das coisas e na variabilidade extrema das impressões sensitivas determinadas pelos indivíduos que de contínuo se transformam. depois de ter sorvido tranqüilamente a cicuta. virtude e ciência. Por onde se vê que a indução socrática não tem o caráter demonstrativo do moderno processo lógico. o particular. com 71 anos de idade. . pedreiro o que sabe edificar. um legislador. governa o mundo com sabedoria e o homem pode propiciá-lo com sacrifícios e orações. Doutrinas Filosóficas A introspecção é o característico da filosofia de Sócrates. se personificava na voz interior divina do gênio ou demônio. Morreu Sócrates em 399 a. Em psicologia. legou-nos de preferência o aspecto prático e moral da doutrina do mestre. Xenofonte. O perfeito conhecimento do homem é o objetivo de todas as suas especulações e a moral. denominava ele maiêutica ou engenhosa obstetrícia do espírito. determinando o verdadeiro objeto da ciência. de estilo simples e harmonioso. assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até colher o adversário presunçoso em evidente contradição e constrangê-lo à confissão humilhante de sua ignorância. que é o desejo da ciência mediante a virtude. Sócrates. nem sempre é fácil discernir o fundo socrático das especulações acrescentadas por ele. não obstante a sua devoção para com o mestre e a exatidão das notícias. tratando-se de um discípulo (e era muitas vezes o próprio adversário vencido). as qualidades mutáveis e reter-lhes o elemento comum. Este conceito ou idéia geral obtém-se por um processo dialético por ele chamado indução e que consiste em comparar vários indivíduos da mesma espécie. Sócrates aceita em muitos pontos os preconceitos da mitologia corrente que ele aspira reformar.C. o indivíduo que passa. recusou. O objeto da ciência não é o sensível. na exposição polêmica e didática destas idéias. em memória da profissão materna. identificando a vontade com a inteligência. uma definição geral do objeto em questão. o centro para o qual convergem todas as partes da filosofia. A psicologia serve-lhe de preâmbulo.o discípulo Criton preparou e propôs a fuga ao Mestre. formulando claramente o princípio: tudo o que é adaptado a um fim é efeito de uma inteligência. foi filósofo grande demais para nos dar o preciso retrato histórico de Sócrates. Sócrates não deixou nada escrito. da causa eficiente: se o homem é inteligente. multiplicava ainda as perguntas. por indução dos casos particulares e concretos. mas é também Providência. É a parte culminante da sua filosofia. estável. sendo mais um homem de ação do que um pensador. distingue as duas ordens de conhecimento. a essência da coisa. Especialmente famoso é o diálogo sobre a imortalidade da alma . E passou o tempo preparando-se para o passo extremo em palestras espirituais com os amigos. Sócrates restabelece-lhe a possibilidade. Conclusão: grandeza moral e penetração especulativa.que se teria realizado pouco antes da morte e foi descrito por Platão no Fédon com arte incomparável. Sócrates adotava sempre o diálogo. é a prática da virtude. declarando não querer absolutamente desobedecer às leis da pátria. eliminar-lhes as diferenças individuais. é o inteligível. No segundo caso. a teodicéia de estímulo à virtude e de natural complemento da ética. É a ironia socrática. dirigindo-as agora ao fim de obter.

O procedimento lógico para realizar o conhecimento verdadeiro. no entanto. embora o pensamento socrático fique. não sentimento. Gnosiologia O interesse filosófico de Sócrates volta-se para o mundo humano. dos preconceitos. que se concretizava no seu ensinamento dialógico. ele é cético a respeito da cosmologia e. como sua mãe auxiliava os partos do corpo. Dentre estes. a qual é um valor universal. Sócrates. esta felicidade. fonte primordial de todo direito positivo. opiniões.assim a ética socrática carece de um conteúdo racional. descobriu o método e fundou uma grande escola. definição. precisamente porque lhe falta uma metafísica. isto é. introspecção. subindo até à razão. consciência de si mesmo quer dizer. de um ceticismo de fato. no sentido de que o homem tanto opera quanto conhece: virtuoso é o sábio. Isto quer dizer que a instrução não deve consistir na imposição extrínseca de uma doutrina ao discente. significa precisamente consciência racional de si mesmo. trata-se. havia verdadeiros filósofos que se formaram com os seus ensinamentos. o prático depende. desenvolverão uma gnosiologia acabada. no pensamento de Sócrates. Tudo isto tem que ser criticado. saídos das escolas anteriores não lograram assimilar toda a doutrina do mestre. pode-se esquematicamente resumir nestes pontos fundamentais: ironia. um poderoso impulso para o saber. o itinerário. Esta ignorância não é. a ética une pela primeira vez e com laços indissolúveis a ciência dos costumes à filosofia especulativa. portanto. Esta feição utilitarista empana-lhe a beleza moral do sistema.tornava impossível o livre arbítrio. É sabido que Sócrates levava a importância da razão para a ação moral até àquele intelectualismo que. além de simples amadores. espiritual. de par com os sofistas. conceptual é. A filosofia socrática. donde é preciso extraí-la. do teorético. a ciência. este é o momento da ironia. indução. Entretanto. além dos vulgarizadores da sua moral (socratici viri). universal. remontar do particular ao universal. Traçou. pela razão imanente e constitutiva do espírito humano. tenha. mas dirigida para os valores universais. sem metafísica. representando o ideal e a conclusão do processo gnosiológico socrático. portanto. porém. ceticismo sistemático. pragmatismo. ação racional. depois. ciência. por Aristóteles. ignorância. mas apenas metódico.bem como ignorância e vício . malvado.Sócrates reconhece também. razão. esta intimidade da ciência . como Alcibíades e Eurípedes. Antes de tudo. Sócrates. pois. sentimentalismo. dele depende. em prática.que não é absolutamente subjetivista.realizando-se o bem mediante a virtude. tradição.afora a teoria geral de que a ciência está nos conceitos . pois. Sócrates não elaborou um sistema filosófico acabado. rotina. Mas. toda a especulação grega que se seguiu. é mister conhecê-lo. mediante a razão. não de direito. morais. não descendo até à animalidade . precisa . a existência de uma lei natural . como Xenofonte. consciência da própria ignorância inicial e. A Moral Como Sócrates é o fundador da ciência em geral. mas é a certeza objetiva da própria razão . O fim da filosofia é a moral. em geral. não particulares. e a virtude mediante o conhecimento Sócrates não sabe. da experiência ao conceito. Sublime nos lineamentos gerais de sua ética. identificando conhecimento e virtude . Esta interioridade do saber. enfim. A única ciência possível e útil é a ciência da prática. como a gnosiologia socrática carece de uma especificação lógica. para realizar o próprio fim. racionalismo. pela ausência de uma metafísica. se o fim da filosofia é prático. logo. acima das leis mutáveis e escritas. que declara auxiliar os partos do espírito. já aureolado pela austera grandeza moral de sua vida. com finalidades práticas. É a famosa maiêutica de Sócrates.bem como o conhecer humano . limita-se à gnosiologia e à ética. no entanto. de fato. maiêutica. Como os sofistas. nem deixou algo de escrito. assim é o fundador. opinião comum. que está contra todo voluntarismo. direta ou indiretamente. Vale dizer que o agir humano . não o seu conteúdo. para organizar racionalmente a própria vida. a favor da reflexão livre e da convicção racional. lei positiva. Não é. ainda que com finalidade diversa. determinado precisamente mediante a definição. exercido sobre os contemporâneos tamanha influência. mediante a doutrina de que eticidade significa racionalidade. da opinião à ciência. ativismo. partindo dos pressupostos socráticos. mediante a doutrina do conceito. totalmente. todavia. no dizer de Sócrates. para construir uma ética é necessário uma teoria. expressão da vontade divina promulgada pela voz interna da consciência. no agnosticismo filosófico por falta de uma metafísica. uma grande metafísica e. dada a sua revalidação da ciência. sugere quase sempre a utilidade como motivo e estímulo da virtude. Sócrates achou apenas a forma conceptual da ciência. Se o fim do homem for o bem . a gnosiologia deve preceder logicamente a moral. Estes dois filósofos.se baseia em normas objetivas e transcendentes à experiência. a respeito da metafísica. Este conceito é.patenteiam-se no famoso dito socrático "conhece-te a ti mesmo" que. superado. necessidade de superá-la pela aquisição da ciência.independente do arbítrio humano. Por isso. A gnosiologia de Sócrates. a qual. uma moral. por conseguinte. científico. desenvolveram exageradamente algumas de suas partes com detrimento do conjunto. pela novidade de suas idéias.como ensinavam os sofistas. antes de tudo. de admirar que um homem. da crítica. mediante o . Escolas Socráticas Menores A reforma socrática atingiu os alicerces da filosofia. antes de tudo. a indução: isto é. e nos dá a essência da realidade. costume. Entre os seus numerosos discípulos. mas o mestre deve tirá-la da mente do discípulo. alguns. cumpre desembaraçar o espírito dos conhecimentos errados. A seguir será possível realizar o conhecimento verdadeiro. Entretanto. em particular da ciência moral. reivindica a independência da autoridade e da tradição. O moralismo socrático é equilibrado pelo mais radical intelectualismo. nem pode precisar este bem. A doutrina do conceito determina para sempre o verdadeiro objeto da ciência: a indução dialética reforma o método filosófico. por sua vez. que será percorrido por Platão e acabado. Virtude é inteligência. o ignorante.

Apologia de Sócrates Introdução à Apologia de Sócrates De acordo com Diógenes Laércio. regressou de File com estes e tomou parte da . porém nada exigia que o acusador oficial fosse o mais respeitável. filho de Sofronisco. no célebre processo por causa da mutilação da estátua de Hermes e da profanação dos Mistérios. durante o segundo período. A escola de Megara. São bem conhecidas as excentricidades de Diógenes. tendo sido o único a recusar-se a obedecer.. dominado pelas altas especulações de Platão e Aristóteles . Estas escolas. a fim de engrandecer o mestre desaparecido. fundada por Aristipo. contra Sócrates. sendo uma delas se se tratava do personagem citado por Aristófanes. neste caso. sustentando-o com a autoridade de seu nome. com seu nome sendo citado sempre com evidente desapreço. total responsabilidade..mesmo diferenciando-se bastante entre si . não resta dúvida. No Eutífron. São fundadores das escolas socráticas menores. o vértice e a conclusão da grande metafísica grega. Após ter sido enviado ao exílio pelos Trinta Tiranos. A respeito de saber com exatidão quem era esse Meleto. talvez porque seja um homem jovem e desconhecido. Estas . além de considerar que Sócrates insiste no fato de que Meleto é desconhecido.o conceito . se prestaram a deter Leon de Salamina. logicamente. À parte o problema da mudança de lado . e culmina em Aristóteles. dava a impressão de conhecer Sócrates. Pena: a morte" A cidade de Atenas não podia mover ações. existe outro obstáculo. e sim escrita por Platão. pois um jovem poeta de 399 a. O pouco que conhecemos ou podemos presumir a respeito de Lícon é que pouca importância e autoridade teve no decorrer do processo. Acredito chamar-se Meleto. de introduzir novos cultos.juntamente com o elemento vital do pensamento precedente. que se vale do nome de Meleto. Isto aparece imediatamente nas escolas socráticas. exagerando a doutrina socrática do desapego das coisas exteriores. que a ele alude como se Meleto fosse seu subordinado.C.C. também Ânito e Lícon. Contudo. assim solucionando o problema que tanta discussão tem provocado. vemos que Sócrates. Sócrates é culpado de não aceitar os deuses que são reconhecidos pelo Estado. em verdadeiro desprezo das conveniências sociais. a acusação apresentada contra Sócrates. chegou a tomar parte da acusação contra Andócides. fundada por Antístenes (n. ao se aproximar do Pórtico do Rei. mas não só ele. porém. 3. que. Dentre os herdeiros de Sócrates. Fora desta escola começa a decadência e desenvolver-se-ão as escolas socráticas menores. ao ser inquirido pelo adivinho Eutífron a respeito de quem era aquele que o acusava.C. do povoado de Piteo.de partidário dos Trinta Tiranos tornar-se aliado de Ânito. filho de Meleto. a influência exercida por Ânito constituiu o elemento mais respeitável no desfecho do processo. foi a que segue: "A seguinte acusação escreve e jura Meleto. existem muitas dúvidas. hábil ou temível. podemos considerar Meleto de Sócrates o mesmo Meleto de Andócides. se a acusação não fosse considerada procedente pelo júri. com os mesmos direitos à palavra no decorrer do processo. sobra a dificuldade de explicar por que motivo Sócrates. por ordem dos Trinta Tiranos. representa o desenvolvimento lógico do elemento central do pensamento socrático . e.C. juntamente com Trasíbulo e outros. já que nada corrobora realmente esta pretensão. é aquele que.. como se deste tivesse se originado a idéia da pena de morte para persuadir Sócrates a abandonar a cidade antes que o processo tivesse seguimento. Julgar tratar-se do Meleto que. seria muito conveniente. por último. respondeu: "Sei bem pouco a respeito dele. juntamente com outros quatro homens recebera a ordem de deter a Leon de Salamina. Mas não há elementos em que basear essa suposição. 425) que desenvolveu o utilitarismo do mestre em hedonismo ou moral do prazer. que derrotara e expulsara esses mesmos Trinta Tiranos –. verdadeiros continuadores da tradição socrática.C. Desse modo. também. 445).pensamento socrático.C.. pouco provavelmente chamaria a atenção de Aristófanes em 405 a. A escola socrática maior é a platônica. sendo estratego em 410 a. já então tido como um fanático religioso. Ânito era filho de Antemione. E. barba rala e nariz em forma de bico de pássaro". que conforme ele mesmo afirma na Apologia. o herdeiro genuíno de suas idéias. porém. fundada por Euclides (449-369). comerciante de couro. de cabelos lisos. A escola cínica. onde fora afixada a acusação por Meleto. em janeiro de 399 a. mas um cidadão podia. em 404 a. em 399 a. O acusador era Meleto. e já havia exercido importantes cargos e magistraturas.concordam todas pelo menos na característica doutrina socrática de que o maior bem do homem é a sabedoria. o seu mais ilustre continuador foi o sublime Platão. c. não disse que Meleto era um desses homens. 2. que tentou uma conciliação da nova ética com a metafísica dos eleatas e abusou dos processos dialéticos de Zenão. Ânito. degenerou. valoriza o pensamento dos pré-socráticos desenvolvendo-o em sistemas vários e originais. vegetaram na penumbra. é culpado de corromper a juventude. A escola cirenaica ou hedonista. de acordo com a própria informação de Andócides: esse Meleto foi um dos que. por haver sido essa também uma acusação de impiedade. o mais importante dos acusadores.C. Exceto se reputarmos que essa defesa não seja de fato de Sócrates. Meleto era o acusador oficial. embora. c. das quais as mais conhecidas são: 1. do povoado de Alópece. mais tarde recresceram transformadas ou degeneradas em outras seitas filosóficas. fique apenas no campo da suposição. que. nascera por volta de – 150 a. mas somente aquele que assinava a acusação. que foi por ele zelosamente preparado nas reuniões dos diversos cidadãos. assumindo. do povoado de Piteo. (n.

A bem da verdade. Ártemis é filha de Zeus. insiste no fato de que. é necessário recordar que Sócrates manteve relações com os Trinta Tiranos: estes não Ihe teriam ordenado a prisão de Leon de Salamina se não o considerassem um deles. As mais importantes orientações da vida eram subvertidas por seu orgulho de ter consciência da sua ignorância. isto é. por conseguinte. Se a acusação tivesse se dado em épocas mais antigas. A Tripla Deusa. Depois da restauração do regime democrático. que voltara a ser assunto pela recente inclusão de seu nome entre os envolvidos na profanação dos Mistérios. Coloquemos a questão com mais clareza: as lendas referem a revolta patriarcal contra o matriarcado. que em vez de escolher o exílio preferiu a proposta de uma multa irrisória. lua cheia a lua minguante. quando afirma "que esses novos deuses da cosmologia jônica eram uma antiga história e que poderia ser uma violação da anistia colocá-los de novo à luz do dia". como Anfitrite. executando os trabalhos mais necessários à sobrevivência e à defesa. lunar e noturno. um dos aspectos de Zeus. de fato. e não se pode afirmar. enquanto Sócrates pôde permanecer. ou o Agnos-Deus. havia sido seu discípulo. minianos e jônios. em seu comentário à Apologia. Desde a época de Sócrates. Zagreus torna-se Zeus. embora não seja verdade que permanecesse fora do âmbito do governo. E mais: Sócrates menciona a seu favor sua participação no caso do exílio de Querofonte. as múltiplas facetas da deusa prevaleciam. que consistia em saber que não se sabe? Qual a postura dos políticos diante disso? Que direitos seriam mais opostos aos da democracia do que aqueles originados da experiência e da competência. Mas é preciso frisar que o propósito. não era matá-lo. nem participar de alguma forma do governo de sua cidade. condenado. outro aspecto de Zeus. em seus três aspectos: lua crescente. revela-se. um movimento reacionário em termos de culto. patente mostra de sua obstinada repulsa aos governos democráticos. seu culto tendo sido de novo extinto durante o período de estabelecimento do culto olímpico. proclamada superior até mesmo pelo oráculo. o líder máximo. provocando ainda o desapreço por tudo que não buscasse a sabedoria. e a argumentação de Burnet. Some-se a isto que Sócrates jamais desejou exercer nenhuma magistratura. sendo fiel guardião dos domínios de Hades. que acabaram por fomentar a rebelião de Zagreus contra seu pai e mãe. quanto a Cérbero.Preâmbulo . e era necessário arranjar o pretexto para executá-lo. pois com freqüência era visto discutindo em público. vindo a ser. e a superioridade da inteligência sobre os direitos da assembléia popular e soberana? É isso que causou a condenação de Sócrates. bem pouco confiável. Apologia de Sócrates . Numerosas revoltas começaram a eclodir com a chegada de contínuas levas de dórios. não era possível levar em conta as culpas passadas de Sócrates para condená-lo. expulso de Atenas em decorrência de um processo parecido com o seu. mas à época de Sócrates tudo isso já se encontrava devidamente solidificado. considerando-se a anistia garantida até mesmo pelo próprio Ânito. que pode significar tanto o deus desconhecido quanto o deus-carneiro. e sim afastá-lo de Atenas. era a suprema deusa e gerava uma vez por ano a Dionisos – Zagreus. Sócrates dera. convinha afastar de Atenas o mestre de Crísias. fora discípulo de Anaxágoras. durante o mandato dos Trinta. seus instrumentos de fertilização e prazer. A opinião de Platão a esse respeito é bem clara: não foi por razões religiosas que Sócrates recebeu a condenação. desprezando a economia doméstica e a riqueza. representa Hécate. Réia vem a ser adorada como Hera. em cujas culturas o patriarcalismo era arraigado. Portanto. venerada como Réia. Dessa maneira. O que significava aquela sabedoria. isto é. em sua defesa. Ártemis e Cérbero. tornou-se um dos mais eminentes cidadãos de Atenas. esposa de Cronos. da mesma maneira que se dá com condenações por motivos políticos. isso presumindo que existisse alguma. por sua vez. que juntamente com Trasíbulo fora seu principal defensor. e se isso não ocorreu deveu-se à demasiada teimosia do próprio Sócrates. o qual. a superioridade do saber sobre a aclamação do povo. o texto da sentença preocupa-se muito mais em esconder do que apresentar as verdadeiras causas. e os jovens. nessa época de instalação do regime democrático. e seus aspectos: marinho. iriam acabar desrespeitando qualquer autoridade que não se identificasse com a inteligência e a sabedoria. se quiseres me ouvir. Querofonte foi obrigado a se exilar. Nessa fase seria de fato correto crer que alguém sofresse um processo por questões religiosas. o homem que sempre se recordava de haver sido discípulo de Arquesilau. afirmara-se o culto patriarcal. o mais feroz dos Tiranos. pelos testemunhos que possuímos.expedição armada contra o governo dos tiranos. Anfitrite é esposa de Posêidon. Era todo o ensinamento socrático que se tornava perigoso. Ademais. Tanto isso é verdade que. portanto. onde manifesta uma ameaça velada a este: "Afigura-se-me. e também Alcebíades. No que concerne à condenação por motivos religiosos. e permanece virgem. como o próprio Sócrates repete. Crísias. segundo comprova sua atuação no Mênon. o Deus-Agnes. em que Zeus era o deus-pai. que com muita facilidade te dedicas à maledicência. a exigência de que o piloto do barco conheça seu ofício. porém. poderíamos presumir que Sócrates teria adotado a defesa do culto da deusa. Ânito manteve relação com Sócrates. que tenhas cuidado". assim. Portanto. e não os novos fatos. constituindo as sacerdotisas os verdadeiros líderes das povoações e os homens. e eu te aconselho. que era sempre devorado pelo tempo. que fosse singularmente prudente ou diplomático em sua maneira de discutir. ó Sócrates. vemos o réu inverter a ordem das acusações e colocar em primeiro lugar a última imputação: corromper os jovens. mediante palavras e atos. mas sim por questões evidentemente políticas. seu filho.

porém. repito-o. na minha defesa. aqueles que convivendo com a maior parte de vós. e de outro. ó cidadãos. ao mostrar-me um orador nada formidável. Acontece que venho ao tribunal pela primeira vez aos setenta anos de idade. atenienses. em resumo. sobretudo. nos termos que me ocorrerem. que poderia ser talvez pior. embora deva fazê-lo em tão curto prazo. Defesa Contra os Antigos Acusadores Calúnia a Respeito do Saber de Sócrates Vamos começar desde o início e examinar que tipo de acusação motivou essa calúnia. acompanhando Meleto. Que afirmavam meus detratores? Façamos de conta que se trate de uma acusação juramentada de acusadores reais e dos quais seja preciso ler o texto: "Sócrates é réu de haver-se ocupado de assuntos que não eram de sua alçada. talvez melhor. que esquadrinha todos os segredos obscuros. nem acusar ninguém por difamação. que propalaram essas coisas acerca de mim. E esses acusadores são muito numerosos e me acusaram há bastante tempo. de mim. ó atenienses. por inveja ou por vício em fazer falsas acusações. as pessoas acreditam que quem se dedica a tais investigações não admite a existência dos deuses. procurando transformar a mentira em verdade e ensinando-a às pessoas". E o que é mais assombroso é que seus nomes não podem sequer ser citados. e depois das mais recentes acusações e dos novos acusadores. contudo. e esses me causam bem mais temor do que Ânito e seus amigos. o que é mais grave. em verdade. não ouvireis discursos como os deles. exceto o de um comediógrafo. e. o de um orador. aprimorados em substantivos e verbos. e assim descobrirei se aquela calúnia. salvo se essa gente chama formidável a quem diz a verdade. vós deveis vos certificar de que existem duas categorias de acusadores: de um lado. Faço-vos. serão expressões espontâneas. são os acusadores que mais receio. junto das bancas. peço-vos nesta oportunidade a mesma tolerância. não ficaria bem a um velho como eu vir diante de vós modelar seus discursos como um rapazinho. assim. Com efeito. um pedido. os que me acusam há pouco tempo. em estilo florido. e. que martiriza meu coração há tanto tempo. esses todos não podem ser encontrados. Seja como for. e investigando o que existe embaixo da terra e no céu. que especula a respeito das coisas do céu. homem de muita sabedoria. nem espere outra coisa qualquer um de vós. não disseram nenhuma. tal o poder de persuasão de sua eloqüência. Estes. Mas os primeiros são muito mais perigosos. portanto. que não me ocupo desses assuntos. uma súplica premente. vós ouvireis a verdade inteira. a mesma linguagem que habitualmente emprego na praça. ao ouvi-los. me espantou das muitas perfídias que proferiram: a recomendação de precaução para não vos deixardes seduzir pelo orador formidável que sou. em dizer a verdade. será excelente para vós e para mim. não corarem de me haver eu de desmentir prontamente com os fatos. os que já me acusam há bastante tempo e dos quais tenho falado a respeito. Ainda mais porque esses acusadores fizeram-se ouvir por vós antes e mais demoradamente do que aqueles que vieram depois. pois à lei é necessário obedecer e defenderse. Verdadeiramente. atenienses. se é mesmo verdade que haja cientistas de tais ciências. sempre faltando com a verdade. ó atenienses. senhores. nem se pode exigir que ao menos alguns deles venham até aqui. quase me fizeram esquecer quem sou. na qual Meleto se baseou para redigir sua acusação neste processo. porém os outros – os que. para a minha linguagem. Assististes a alguma coisa semelhante na comédia de Aristófanes. como crianças que deviam ser educadas. Pois muitos que se encontram entre vós já me acusaram no passado. acusaram-me obstinadamente. Bem sei quanto isto é difícil e tenho plena consciência da enorme dificuldade que me espera. onde tantos dentre vós me haveis escutado. Mas não por Zeus. porque deposito confiança na justiça do que digo. eu admitiria que. ó atenienses. em contraste com eles. Não faltaria quem.Desconheço atenienses. Uma. a fim de me defender só posso lutar contra sombras. E se eu for bem-sucedido. não a estranheis nem vos revolteis por isso. e em outros lugares. porém. ó atenienses. e outro amontoado de tolices. completamente estrangeiro à linguagem do local. e assim. que influência tiveram meus acusadores em vosso espírito. ou os que pretenderam convencer os outros por estarem verdadeiramente convencidos e de boa fé –. que transforma as razões mais fracas nas mais consistentes. na qual um certo Sócrates aparece andando de lá para cá. fizesse contra mim uma acusação tão grave! Eu só vos asseguro. que é de justiça a meu ver. possa ser extirpada. e acusar de mentiroso a quem não responde. embora estes sejam acusadores perigosos. se conseguir acarretar-vos algum benefício com a minha defesa. sem dúvida me desculparíeis o sotaque e o linguajar de minha criação. é legítimo que eu me defenda das calúnias das primeiras acusações que me foram dirigidas e dos primeiros acusadores. eis o que me pareceu a maior de suas insolências. caluniaram-me quando vós tínheis aquela idade em que é bastante fácil – alguns de vós éreis crianças ou adolescentes – dar crédito às calúnias. procuraram colocarvos contra mim. E não digo isso por julgar aquelas ciências coisas vis. A Defesa de Sócrates Primeira Parte Diversidade Entre Duas Antigos e os Recentes Categorias de Acusadores: os Em princípio. que não consigo compreender nem um pouco. e então reconhecereis que devo defender-me destes em primeiro lugar. sou um orador. se ouvirdes. afirmando que caminha em cima das nuvens. A acusação possui mais ou menos este teor. a mim próprio. procuraram convencer-vos de acusações não menos caluniosas contra mim: que existe um certo Sócrates. De verdades. porque. Nisso reside o mérito de um juiz. de verdades eles não disseram alguma. Portanto. se é o que entendem. e recorro à maioria de vós para que sirvam de . e que examineis com atenção se o que digo é justo ou não. sinto-me. Se eu fosse de fato um estrangeiro. sem que eu contasse com alguém para me defender. Que tudo se passe de acordo com a vontade do Deus. Defender-me-ei.

é verdade que adquiri renome por possuir certa sabedoria. se me afigure coisa em absoluto nada condenável. e me ocorreu exatamente a mesma coisa. Como testemunho deste fato se prestará o irmão de Querefonte. mas teus filhos são homens. e então compreendereis que tudo o mais que dizem sobre mim possui o mesmo valor. enfim. O Que é o Saber de Sócrates O Oráculo de Delfos Algum de vós poderia questionar-me: "Ó Sócrates. de quem vos falava há pouco. talvez sejam possuidores de uma sabedoria sobre-humana. podíamos não saber nada de bom. receio possuir esta única sabedoria. ao arrepio de minha vontade. Afastei-me dali e cheguei à conclusão de que era mais sábio que aquele homem. invocarei como testemunha. ou seja. e quem diz o contrário mente. e de sua natureza. e tive a impressão de que. Pesquisa Junto aos Políticos Saberão agora o motivo pelo qual vos relato isso: meu intento é pôr-vos a par de onde se originou a calúnia contra mim. ao menos numa pequena coisa. que não é meu depoimento. De minha sabedoria. também não julgava saber. mas o de uma testemunha que merece toda a vossa confiança. Era meu amigo desde o tempo da juventude e pertencente ao vosso partido popular.testemunhas. contudo eu não sei. se alguém se propõe a instruir homens como fazem Górgias de Leontini. no entender de muitas pessoas e especialmente de si mesmo. homem que gastou mais dinheiro com sofistas do que qualquer outro ateniense. o próprio deus de Delfos. como também muitos dos que se encontravam presentes. e também este me dedicou ódio. se é de fato possuidor dessa doutrina e a ensina a tão baixo preço. A pitonisa respondeu que não existia ninguém. parabenizei esse tal de Eveno. Por fim. ó atenienses. se muitos te acusaram. tantas vozes não teriam se erguido se tivesses te comportado como todos se comportam Conte o que fizestes. que possui muita sabedoria e veio morar em Atenas. partiu no último exílio em vossa companhia e regressou também em vossa companhia. e o soube por intermédio de Cálias. Fui ter com um daqueles que possuem reputação de sábios. Após ter ouvido a resposta do oráculo. mas talvez não o fosse de verdade. pois não desejamos julgar-te irrefletidamente". Em vista disso. ó cidadãos. como não sabia. nem acredito sabê-lo. Procurei fazê-lo compreender que embora se julgasse sábio. E que tipo de sabedoria é essa? Possivelmente. que tivesse a capacidade de Ihes ensinar as virtudes para serem acrescentadas à sua natureza. terias de contratar e pagar uma pessoa que tomasse conta deles. se ouvistes alguém declarar que instruo os homens em troca de dinheiro. E longamente me mantive nesta dúvida. É possível que alguns entre vós creiam que eu esteja brincando. . este com que. fazer-se instruir por um de seus concidadãos. mais ainda. não se deveu ao fato de que nada fizeste fora do comum. que educação. embora possais ter a impressão de que eu esteja proferindo palavras por demais fortes. se de fato se trata de sabedoria. em virtude de este haver falecido. neste sentido. diante de vós. Peço-vos para não fazer algazarra. mas aquele acreditava saber e não sabia. das virtudes do homem e cidadão? Acredito que pensaste a respeito disso quando puseste os filhos no mundo. refleti da seguinte maneira: "Que pretende o deus dizer? Qual é o significado oculto do enigma? Tendo em vista que eu não me considero sábio. uma sabedoria estritamente humana. Sabeis que tipo de homem era Querofonte e de como era determinado em suas resoluções Dirigiu-se em certa ocasião a Delfos e atreveu-se a perguntar ao oráculo se existia alguém mais sábio que eu. pois ele não pode mentir". ó atenienses. de Paros. Ó atenienses. que nós. entre os que possuem reputação de serem mais sábios que aqueles. Ouvi também referências a outro homem. Aí procurei um outro. Pródico de Ceo e Hípias de Élida. – E quem é ele? – indaguei-lhe. Escutai-me. Resumindo: nada existe em tudo isso que corresponda à verdade. e convencem esses jovens a preferir a sua companhia à dos seus. e. enquanto eu. E a respeito de ser sábio. Peço que revelem publicamente quantos de vós já me ouviram falar a respeito dessas coisas. se teus dois filhos fossem dois potros ou duas vitelas. Mas enquanto estava analisando este – o nome não é necessário que eu vos revele. e este homem aparentava ser sábio. fiz a experiência que irei descrever-vos. E seu preço é cinco minas – respondeu-me. Esses valorosos homens percorrem as cidades com o propósito de instruir os jovens. Ao passo que esses. estou falando sério. porque não sei. nem de belo. No íntimo. juntamente com muitos outros. eu e ele. não só ele passou a me odiar. portanto. então: tencionas proporcionar-lhes? Quem entende das virtudes que Ihes são necessárias. ou seja. comecei a investigar acerca disso. julgando que somente assim poderia desmentir o oráculo e responder ao vaticínio: "Este é mais sábio que eu e afirmastes que era eu". não o era. e sem ter de gastar dinheiro. que quer dizer o deus ao afirmar que sou o mais sábio dos homens? Com certeza não mente. ao contrário. recebendo em troca dinheiro e ainda por cima gratidão. – de onde é e quanto cobra para ensinar? – Eveno de Paros. o que fazes então? Que motivo originou essas calúnias? Com certeza. Eu mesmo me orgulharia se fosse capaz de tal coisa. Perguntei a ele: – Cálias. a partir daquele momento. Mesmo que. Todos vós conheceis Querefonte. Procurarei esclarecer-vos a respeito da causa dessas calúnias contra mim. apenas com o intuito de caluniar-me. isto também não passa de mentira. basta dizer que era um de nossos políticos –. analisando e raciocinando em conjunto. mas afirmo que não a conheço. e eles se tomariam cavalariços ou agricultores. fosse mais sábio que ele. filho de Hipônico. não. Existe alguém capaz de fazê-lo? – Claro que sim – respondeu-me. aos quais seria mais fácil.

porém. como os adivinhos e vaticinadores. contudo. o que faz e o que ensina este Sócrates para corromper os jovens?". "Se almejas saber o que o oráculo quer dizer". continuei diligentemente com minha pesquisa. é o que ocorre entre os poetas. como eles. e respondi a mim e ao oráculo que convinha continuar tal qual eu era. O Verdadeiro Saber Consiste em Saber Que Não se Sabe Em virtude desta pesquisa. porém. ó cidadãos. A verdade. com desagrado e assombro. juro-vos que este foi o resultado da minha pesquisa: os que eram famosos por possuírem maior sabedoria. porque o desconhecem. convencido de que diante daqueles confirmaria minha ignorância e sua superioridade. julgavam-se os mais sábios dos homens até mesmo em outras coisas em que realmente não o eram. e eu a revelo por completo. pelo fato de fazerem poesias. eles conheciam coisas que eu não conhecia. e a partir destas inimizades surgiram muitas calúnias. Desta maneira. não me restou mais tempo para realizar alguma coisa de importante nem pela cidade nem pela minha casa. Logicamente. descobri que não era por nenhum tipo de sabedoria que eles faziam versos. dominados pela paixão e numerosos como são. deparam-se com numerosos homens que julgam saber alguma coisa e sabem pouco ou nada. Ânito e Lícon: Meleto profundamente irado por causa dos poetas. venho em ajuda ao deus provando que nao há sábio algum. náo se refere propriamente a mim. dizia a mim mesmo. como se tivesse dito: "Ó homens. ambiciosos. em nome do oráculo. diante disto. é muito sábio entre vós aquele que. mas não conhecem nada do que dizem. Estou com vergonha. De forma que eu. as pessoas julgavam que eu fosse sábio naqueles assuntos em que somente punha a descoberto a ignorância dos demais. e nisso eram mais sábios do que eu. ó atenienses: quem sabe é apenas o deus. igualmente a Sócrates. pareceram-me quase todos em maior erro. porque. e. como acho que ninguém o seja. E não me equivoquei. a fama de sábio. que de sua arte tinha a consciência de não conhecer nada. Lícon por causa dos oradores. nem sabedor de minha sabedoria nem ignorante de minha ignorância. E outros. dirigi-me aos artesãos. aqueles que são analisados por eles voltam-se contra mim e não contra quem os analisou. de contar-vos a verdade! Mas é obrigatório que eu a diga. e todos da mesma opinião nesta difamação a meu respeito e com argumentos que podem parecer também convincentes. com a certeza de ser mais sábio que eles. não querem dizer a verdade. lançaram-se contra mim Meleto. ó atenienses. até mesmo em outros assuntos de maior realce e dificuldade. Esta é. tenha admitido que sua sabedoria nao possui valor algum". como vos disse desde o início. nem mesmo esquivando-me dela. Resumindo. e ele quer dizer. mas por uma propensão e inspiração natural que eu desconheço. As Muitas Inimizades e a Acusação Vós tendes conhecimento de que os jovens que dispõem de mais tempo que os outros. de acordo com a palavra do deus. Este é o motivo pelo qual. toda vez que participava de uma discussão. conforme minha pesquisa. e eles sabiam que eu os considerava conhecedores de numerosas e belas coisas. Ânito por causa dos artesãos e dos políticos. nada respondem. naturalmente. Porém. é outra. por sua própria conta. por intermédio de seu oráculo. E se alguém indaga: "Afinal. declarando que Sócrates é homem por demais infame e corruptor dos jovens. os filhos das famílias mais ricas. Em seguida aos políticos. É por esta razao que ainda hoje procuro e investigo. e este importante defeito deslustrava toda sua sabedoria. conforme a palavra do deus." Por isso. e isto eu percebi com clareza. porém. se existe alguém entre os atenienses ou estrangeiros que possa ser considerado sábio e. seguemme de livre e espontânea vontade. ó atenienses. é levo uma existência miserável por conta deste meu serviço ao deus. Então afastei-me deles. além de afirmar que ele especula sobre as coisas que se encontram no céu e as que ficam embaixo da terra. é que esses homens demonstraram ser pessoas que dão a impressão de saber tudo. ambas as coisas. seria de fato um verdadeiro milagre se eu tivesse a capacidade de arrancar-vos do coração esta calúnia que possui raízes tão firmes e profundas. também os artesãos famosos apresentavam o mesmo defeito dos poetas: por conhecerem muito bem sua arte. sem escrúpulo algum encheram vossos ouvidos com suas calúnias. mas só usa meu nome como exemplo. que dizem de fato muitas coisas belas. e. e indaguei aos próprios poetas o que eles pretendiam dizer. Peguei suas melhores poesias. ao afirmar que Sócrates é sábio. dizem as coisas que comumente são ditas contra todos os filósofos. e se regozijam em assistir a esta minha análise dos homens. sem fama alguma. que muito pouco ou nada vale a sabedoria do homem. que todos passaram a me odiar e que. e aproximadamente o mesmo. e que também ensina a não acreditar nos deuses e apresenta como melhores as piores razões. tanto os que escreviam ditirambos' e tragédias como os demais. analisar alguma pessoa. Por sinal. fui procurar os poetas. inúmeras vezes procuram imitarme e tentam. Pesquisa Junto aos Artesãos No final. porque dessa maneira aprenderia alguma coisa com eles. só para não evidenciar que estão confusos. embora notando. é . E compreendi também que os poetas. Sócrates. e então. finalmente. sem ocultar-vos nada. "deves visitar todos aqueles que possuem reputação de sabedoria. embora saiba que sou odiado por muitos exatamente por isso. se me afiguraram melhores e mais sábios.Não obstante isso. A verdade. cada um deles julgava-se extremamente sábio. e entre as calúnias. pelo mesmo motivo que era mais que os políticos. todas as outras pessoas presentes discorriam melhor a respeito do que os poetas haviam escrito que os próprios autores. afigurava-se-me impossível deixar de atentar para as palavras do deus. devo dizer-vos de novo a verdade. as que considerava mais bem construídas. indaguei a mim mesmo se deveria permanecer tal como era. ó atenienses. Contudo. Mas desejo terminar de relatar-vos minhas peregrinações e as fadigas que sofri para convencer-me de que a palavra do oráculo era incontestável. E tomado como estou por esta ânsia de pesquisa. fiz numerosas e perigosíssimas inimizades. a verdade.

Também a lei deseja que respondas. responde. e prova suficiente do que afirmo: que nunca te preocupaste com estes assuntos? Vamos. Indagai quanto quiserdes. então. que talvez aqueles das Assembléias Populares corrompam os jovens? Ou também aqueles os tornam melhores? MELETO: — Também aqueles. como ficas calado. SÓCRATES: — Não se trata disto. MELETO: — Estes. então. ou alguns sim e outros não? MELETO: — Todos. SÓCRATES: — Crês que todos. que somente um os torne melhores. ó Sócrates. Vou começar desde o início e como se na verdade dissesse respeito a outra espécie de acusadores. Meleto Não Sabe o Que é Educar Nem Corromper Meleto. Meleto afirma que corrompo a juventude. os juizes. SÓCRATES: — Então. SÓCRATES: — Dize. mostra-te e responde. isso é o bastante para a defesa das culpas a mim atribuídas. prossegue. Meleto. Pode existir alguém que prefira receber o mal? MELETO: — Não. como ele mesmo se define. não é difícil o que te pergunto. Meleto. aos juizes o que os torna melhores. porque aborda com leviandade assuntos sérios e tão inescrupulosamente leva homens diante do tribunal. demonstrei que nunca tiveste preocupação com as coisas pelas quais me trouxeste diante deste tribunal. realmente. ó Meleto. responde: que os faz melhores? MELETO: — As leis. Agora dize-me. excelente homem. SÓCRATES: — Pode existir alguém que esteja com eles e que prefira receber o mal em lugar do bem? Responde. Analisemos esta acusação minuciosamente. na verdade. viver entre bons cidadãos ou entre maus cidadãos? Amigo. todos. o que mais convém. ou poucos. agora ou depois. SÓCRATES: — Afirmas. digam Ânito e tu mesmo que sim ou não. aqueles que são peritos em cavalos. Vês. dize aos juizes o que os faz melhores. ó atenienses. exceto eu. procurarei em seguida defender-me de Meleto. e que esta é a calúnia contra mim e esta a causa. pois esta é uma preocupação tua e descobriste quem os corrompe. analisemos também o ato de acusação deste. sem saber o que dizer? E isto não te se afigura vergonhoso. Mas. meu amigo. Com certeza o sabes. É isto que queres dizer? MELETO: — Exatamente isto. Portanto. ó excelente homem. . e que os demais se sirvam dos cavalos e os mutilem? E não acontece assim. com os cavalos e com todos os seres vivos? Com certeza é assim. então. Meleto. por Hera! E grande a quantidade de bons educadores! Também estes que estão nos ouvindo tornam os jovens melhores ou não? MELETO: — Sim. e por este motivo citaste-me diante do tribunal e me acusaste. Indago-te qual é o homem que. Meleto. Vamos.outra prova de que digo a verdade. que o réu é o próprio Meleto. Defesa Contra Meleto No que diz respeito aos meus primeiros acusadores. Declarou mais ou menos isto: "Sócrates é réu de corromper os jovens. deve ter conhecimento. SÓCRATES: — Como sou infeliz! Mas responde-me a isto: também com os cavalos crês que seja assim? Que todos os homens os tornem melhores e somente um os mutile? Ou. conforme afirmas. SÓCRATES: — Quer dizer. conforme dizes. das leis. em primeiro lugar. Mais ainda. nunca se preocupou. e recebereis sempre a mesma resposta. sou eu quem os corrompe. com o intuito de fazer crer que se preocupa com coisas com as quais. Seria uma grande felicidade para os jovens se correspondesse à verdade que somente um Ihes causa danos e todos os outros os educam e melhoram. também estes. de não crer nos deuses nos quais a cidade crê e também de praticar cultos religiosos extravagantes". SÓCRATES: — Dizes bem. já que demonstrei a contento que tu nunca te preocupaste com os jovens. e dos acusadores que virão depois. e eu digo. SÓCRATES: — E os senadores? MELETO: — Também os senadores. homem digno e patriota. SÓCRATES: — Todos os atenienses que te ouvem tornam os jovens bons e belos. Não julgas de suprema importância que os jovens consigam se tornar os melhores possíveis? MELETO: — Julgo. trouxeste-me a este tribunal porque corrompo os jovens por querer è os torno maus. que estes possuem a capacidade de educar os jovens e torná-los melhores? MELETO: — Afirmo. ao contrário. ó Meleto. E procurarei provar-vos que isso é a pura verdade. ou faço isto sem querer? MELETO: — Afirmo que é por querer. Os maus não prejudicam aqueles que Ihes são próximos? E os bons não Ihes fazem o bem? MELETO: — Com toda a certeza.

porque não consigo compreender a quais deuses eu ensino que os jovens devem acreditar. SÓCRATES: — Quanta satisfação me proporcionou tua resposta. a ponto de não saberem que os livros de Anaxágoras de Clazomena estão repletos destes ensinamentos? E por que motivo os jovens iriam aprender de mim estas coisas que por uma simples dracma podem comprar na ágora e zombarem de Sócrates. tendo eu os anos que tenho. é impossível. quando declaras que eu. De outra forma. já que não contestas. mas sim que faça com que seja afastado. se afirmas que existem demônios. parece-me que Meleto se contradiz na acusação. SÓCRATES: — Em nome desses mesmos deuses a respeito dos quais agora falamos. não corrompo os jovens. faço-o sem querer. pois se naqueles que acredito são deuses. como se declarasse: "Sócrates é réu de não acreditar nos deuses. Ou seja. SÓCRATES: — Ora. afirmo a sua existência. ó Meleto. uma vez advertido. eu digo exatamente isto. Responde. ó Meleto. por que são outros ou por que afirmas que não acredito de maneira alguma nos deuses e ensino isto aos jovens? MELETO: — Eu afirmo que não acreditas de maneira alguma nos deuses. SÓCRATES: — Ó excelente Meleto! Por que dizes que não acredito. não existe lei alguma que poisa me obrigar a vir até aqui. Parece-me que aceitas. SÓCRATES: — Ninguém acredita em ti. ou. embora tenhas sido obrigado pelos juizes. se os corrompo. É como se alguém desejasse por-me à prova compondo uma espécie de enigma: "Dar-se-á conta Sócrates. Se eu os corrompo sem querer. na tua idade. Na verdade. que pensas conhecer melhor do que eu que os maus sempre causam algum mal. de que maneira. ó juizes. e não censurados. mas em outras divindades novas? Não é. não posso ser culpado disso. devo obrigatoriamente crer em demônios. Meleto Acusa Sócrates de Ateísmo e se Contradiz Neste momento. embora as leis estabeleçam que aqui sejam trazidos somente os que devem ser castigados. eu mesmo respondo. analisai comigo de que maneira creio que ele se contradiz. é por causa disso que me trazes a este tribunal. mas sim que existam sons de flauta? Não ha ninguém. pensas de fato que eu não acredite em deus algum? MELETO: — Em nenhum. se estes demônios são filhos dos deuses. com certeza. não mais farei o que fazia sem querer. Ó atenienses. cidadãos de Atenas. a fim de advertir-me ou censurar-me. mas não em demônios? MELETO: — É completamente impossível. então. e sim outros. se este as apresentasse como suas. ó Meleto. Por isso. SÓCRATES: — Pensas. e quem escreveu esta acusação foi desaforado e a escreveu por atrevimento e desrespeito juvenil. como já vos exortei no começo. Existe alguém. conforme dizes. Mas responde ao menos à pergunta seguinte: existe quem possa acreditar em coisas demoníacas. ensinando-os a não acreditar nos deuses nos quais a cidade acredita. mas sim nas coisas relativas a cavalos? E que não acredite na existência de flautistas. em acusar também Anaxágoras? E tens em tão pouca estima e reputas tão ignorantes nas letras a estes juizes. Tens evitado encontrar-te comigo e advertir-me. Apesar disso. pois afirma que o sol é uma pedra e a lua é feita de terra. são também filhos bastardos gerados por ninfas ou outras mães. não sou ateu e. Mas se acredito em coisas demoníacas. não é assim? Com certeza é assim. Meleto. eu corrompo a juventude? Não o faço. ou é necessário dizer que não sabias do que me acusar? Mas que consiga convencer quem quer que seja. tudo isto se me afigura desaforado e atrevido. no caso de saber disso. que tenhas escrito contra mim uma acusação como esta. e que eu ignore essas coisas a ponto de não saber que se se torna mau a um deles corre-se o risco de receber algo mau dele e que. Meleto. se estes demônios são deuses. e que os bons façam o bem. de acordo com tua opinião. não o quiseste fazer de forma alguma e me trazes aqui. por conseguinte. principalmente àqueles mais próximos deles. Há quem não acredite na existência de cavalos. mesmo se fraco de intelecto. creio que não consegues persuadir nem a ti mesmo. então. acusas-me de acreditar em coisas demoníacas e de ensiná-las. que o sol e a lua sejam deuses? MELETO: — Com certeza. é bastante evidente aquilo que eu afirmava: que Meleto nunca se preocupou com essas coisas. E isto significa desejo de se divertir. recordai-vos de não me interromper se continuo a raciocinar à minha maneira. como afirma com clareza a acusação que apresentaste contra mim. e é claro que. de maneira que em ambos os casos mentes. Portanto. E vós. e naquilo que afirmas. mesmo que não sejam os da cidade. explica-te com maior clareza. da mesma maneira que os outros homens. que o estou ridicularizando e me contradigo? Ou conseguirei enganá-lo e a todos aqueles que me ouvem?" Com efeito. ó atenienses. aquele grande sábio. ó atenienses. por faltas involuntárias. é neste ponto que eu digo que fazes enigmas e brincadeiras. exceto que haja sido para pôr-me à prova. que acredite na existência de fatos humanos e não em homens? Fazei com que responda. é isto que afirmas e que juraste no teu ato de acusação. dize-nos. mas também de acreditar nos deuses". ó Meleto. uma vez que digo existirem demônios. a ti e aos outros que aqui se encontram. tua sabedoria sendo maior que a minha. meu bom Meleto. se não queres responder. ainda mais sendo tão extravagantes? Por Zeus. Nem acredito que possas persuadir a ninguém. e não criai tanta agitação por causa de uma palavra. E não consideramos estes demônios filhos dos deuses? MELETO: — Logicamente.SÓCRATES: — Quer dizer. eu me empenhe em torná-los maus? Não me persuadirás disto. tanto para mim como para estes juizes. embora não acreditando na existência dos deuses. ó Meleto. ensinando estas coisas que os corrompo? MELETO: — Sim. quem poderá pensar que existam filhos de deuses e de deuses não? Seria disparate igual se pensasse que os mulos fossem filhos de jumentos e cavalos e que estes últimos não existissem. que a .

contra a vontade de Ânito que. tendo a capacidade de fazer algum bem. e se algo me causará dano. ó atenienses. agora. e a quem quer que eu encontrasse de vós. que como não sei nada de preciso a respeito das coisas do Hades. ela não seja o maior de todos os bens que podem ser dados ao homem e. não pararei de filosofar. receando muito mais viver miseravelmente sem vingar o amigo. as infames. uma vez aqui trazido. dado que significa pensar saber aquilo que não se sabe. se vingares a morte do teu companheiro Pátroclo e matares Heitor. nem que para isso me torne objeto de desprezo'. que és o melhor dos homens. pois não se faz necessária uma defesa muito longa. e se fores surpreendido a praticar ainda estas coisas. Por outro lado. O que eu vos disse. Ao ouvir tais palavras. não havendo perigo que causem somente a minha perda. ó cidadãos. receiam-na como se soubessem que ela é a maior das desgraças. porque. se. estando ele ávido do sangue de Heitor. não te envergonhes de pensar em acumular o máximo de riquezas. e se me afigurasse que não possui virtude mas apenas afirma possuí-la. receia a morte e julga ser sábio sem sê-lo. Por isso. é verdade. Algum de vós poderia talvez altercar-me: "Sócrates. com esta condição me deixásseis em liberdade. mesmo sendo pequeno. de fato. jovens e velhos. conversando da minha maneira habitual. e enquanto tiver ânimo. disse-lhe. Pessoas estas que já causaram a perda de tantos outros e valorosos homens. deva calcular os riscos de vida ou de morte e não deva olhar o injusto e se pratica as ações de homem honesto e corajoso ou de infame e mau. eu o envergonharia demonstrando-lhe que considera infames as coisas mais estimáveis e de valor. que me sois mais estritamente próximos. morrerás". de que não deveis vos preocupar nem com o corpo. ateniense. à exceção de na desonra e na vergonha. isto bem sei que é coisa vergonhosa e indecente. lá fiquei. em verdade. vós sabeis. mas obedecerei primeiro ao deus do que a vós. como dizia. ó atenienses. não pretendemos dar. Mas ser injusto e desobedecer a quem é melhor que nós. arriscando minha vida. atenienses ou estrangeiros. por acaso. tamanho desdém mostrou pelo perigo. ao ouvir este raciocínio de Ânito. nem em deuses. nem em heróis. o analisaria. Chega. desde que não empregues mais teu tempo nessas pesquisas. estariam inapelavelmente perdidos e corrompidos. declarava não ser necessário que eu viesse até este tribunal. esta calúnia e esta raiva das pessoas. ninguém sabe se. outros ainda irão perder. pela qual deveria viver filosofando e dedicando-me a conhecer a mim mesmo e aos outros. anormal e. acreditar saber o que não se sabe? Ora. não o deixaria afastar-se nem iria embora. se consigo safar-me da condenação. por temor à morte ou a outra desgraça semelhante. eu vos amo. assim diria: "E tu. para que se tornem tão boas quanto possível?" E se algum de vós retrucasse que cuida de fato delas. E não é ignorância. nem em outra desgraça qualquer. que a mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar nem em demônios. nem com qualquer outra coisa antes e mais que com a alma. ou. atenienses. isto é o bastante para demonstrar que não sou culpado das acusações de Meleto. cidadão da maior cidade e mais célebre por sabedoria e poder. que agora coloca em risco tua vida?" Eu responderia a este: "Não falas bem se pensas que alguém. quando os comandantes que vós elegestes me designaram uma posição. o impugnaria. da verdade e da tua alma. daquele momento em diante. Em verdade. repito. e também com vós. que era impossível não condenar-me à morte. nem com as riquezas. creio. a fim de que ela . Obedecer ao Deus Permanecer no Lugar Adequado. se bem me lembro: 'Ó filho. seja homem. Acreditas que Aquiles tenha pensado na morte e no perigo?" É assim que deve ser. que um profundo ódio ergueu-se contra mim. se. mesmo que me concedesses a liberdade. ao receber ordens do deus. atenção a Ânito e deixamos-te livre. digo. mas o interrogaria. nunca acontecerá que eu fuja diante daqueles de que não sei se por acaso não são bens. acompanhando este teu raciocínio. aqui. como ocorre diante dos males que sei que são nefastos. não te envergonhas de haveres exercido tal atividade. tu. dizia. é ordem do deus e estou convencido de que haja para vós maior bem na cidade do que esta minha obediência ao deus. vós não desconheceis. e se me atrevesse a dizer que em alguma coisa sou mais sábio que os outros. e o mais néscio de todos seria o filho de Tétis que. ao contrário. isto é impossível. seus filhos prosseguindo a praticar os ensinamentos de Sócrates. e declarou: 'Rapidamente eu morra. contudo. Portanto. com este meu caminhar não faço outra coisa a não ser convencer-vos. tivesse desertado do posto a mim designado pelo deus. ou onde tenha sido instalado por quem ordena. Isto. considerando ser aquele seu lugar mais honroso. uma deusa. que meu comportamento seria anormal e excêntrico se. acredito distinguir-me por este motivo e precisamente neste ponto da maior parte dos homens. desde o começo. recear a morte não passa de julgar ser sábio e não sê-lo. em qualquer ocasião. acredito. me dissésseis: "Ó Sócrates. E agiria assim com qualquer um que eu quisesse: jovens ou velhos. Anfípolis e Délio. não pararei de estimular-vos e censurar-vos. não será nem Meleto nem Ânito. também morrerás'. ao menos conforme pude ouvir e interpretar essa mesma ordem. também nada penso saber a esse respeito. e enquanto for capaz. eu vos responderia: "Ó atenienses. já que desobedece ao oráculo. Declaro-vos. desde o início. Com efeito. ao passo que em Potidéia. somente por isto o diria. fama e honras. que onde alguém se haja instalado. atenienses. aí. E. logo após ter castigado a quem matou. seja deus. teriam sido néscios todos os heróis que morreram em Tróia. existiriam então motivos para trazer-me aqui no tribunal como sendo um desumano que não cresse nos deuses. Seria algo. como qualquer outro. nem te ocupes mais de filosofia. sem se envergonhar. deve ficar e enfrentar os riscos e não pensar na morte. mas sim este ódio. quando sua mãe. de outra forma.mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar em coisas divinas e. sem te preocupar em cuidar da inteligência. A Missão Divina Fazer o Que é Justo. que. e. a mais vergonhosa das ignorâncias. e vindo de muitas pessoas. Aquiles negligenciou o perigo e a morte.

um ferrão. E não me desprezei se falo assim. Não penso que seja possível que um homem de bem receba o mal de um malvado. espoliar-me dos direitos civis. com jeito de estar se divertindo. que. e sempre. então me falte coragem. absolver-me-eis ou não. permiti que vos diga. além de não ceder. em todo lugar. ó cidadãos atenienses: ou dareis ouvidos a Ânito. Afirmo. mas. de qualquer forma. e é também preciso que aquele que luta em defesa do que é justo. então diz coisas insensatas. mas falo por vós. lembrai-vos de meu pedido de que não causásseis balbúrdia diante do que eu dissesse. ó cidadãos. no decorrer de todo o resto de vossa existência. julguei que era meu dver correr aquele risco mantendo-me ao lado do direito e do justo em vez de apoiar-vos e deliberar o injusto por temer a prisão e a morte. nunca paro de exortar-vos. sempre faz com que eu desista do que estou para fazer. que provasse ter eu recebido uma única vez compensação ou de havê-la solicitado. se de fato pretende escapar da morte. se. e em seguida acolhestes todos ao meu parecer. Que se desta vida tirasse algum proveito e se pelos conselhos que dou recebesse alguma compensação. Não existe homem que possa se salvar ao opor-se com sinceridade. depois que surgiu a oligarquia. um por um. como alguém poderia achar. e nunca me convence a realizar qualquer outra coisa. desta não tiveram o despudor de me acusar. penso que seja um mal bem mais grave aquele que é cometido por esses que tentam condenar à morte um homem inocente. os Trinta mandaram-me chamar. ao arrepio da lei. mas se alguém afirma que falo diferentemente e não deste modo. não me causareis maior dano que podeis causar a vós mesmos. Convencei-vos: se me condenardes à morte. mas que vos limitásseis a ouvir. e sim com fatos. mas do que mais necessitais: fatos. aí sim haveria uma razão. justamente no dia em que era o vosso desejo julgar em conjunto. não digo a vós. condenar-me-eis à morte. pois é a verdade. Ademais. estando por perto como estaria um pai ou irmão mais velho. se a palavra não soar por demais vulgar. Escutai o que me sucedeu e vereis então que diante do que é justo não sou homem de ceder a ninguém por temor à morte. e de que das riquezas não se origina a virtude. toda vez que eu a ouço. ao se tratar de aconselhar a cidade e de ir à tribuna para falar ao povo. A mim não causarão dano nem Meleto nem Ânito. Logo. Por tudo isso. mas muito mais vezes devesse morrer. Mas se estais irritados comigo como o que está em vias de adormecer com quem o desperta. E davam ordens semelhantes a vários outros homens. de viver de forma privada e não exercer funções públicas. e a mais outros quatros. Ânito. E isto ocorreu quando a cidade ainda era regida por uma democracia. se o deus não vos mandar algum outro para substituir-me. me poreis a salvo. talvez. não encontrarão facilmente um outro igual a mim. condenando-me à morte. E o motivo disso me haveis ouvido dizer várias vezes e em vários lugares. também Meleto. a mim que sou como vos disse. e tente impedir que muitas vezes se cometam injustiças as leis na cidade. mas de não cometer injustiças ou . ou ao desterro. mas da virtude se originam as riquezas e todas as outras coisas que são venturas para os homens. não fazei assim. que existe em mim não sei que espírito divino e demoníaco. Falarei um pouco grosseiramente. aponta no ato da acusação. demonstrei que a morte. E a prova cabal de que é verdade o que vos declaro. de convencer-vos. levaram-nos à sala do Tolo e ordenaram que retirássemos de Salamina o Leon de Salamina. mas com sinceridade. Restam-me algumas outras coisas a dizer-vos. ó atenienses. tudo em que este homem crer e outros crerem serão grandes males. eu dou: a minha pobreza. E se for eu mesmo a pessoa indicada pelo deus para presentear a cidade. Mais tarde. de que nunca exerci em nossa cidade magistratura alguma. Não. mas pelo seu próprio tamanho. Daquilo que afirmo eu mesmo posso oferecer-vos provas cabais. Se ao falar desta maneira corrompo os jovens. me ocupado dos negócios de Estado. pondo-me frente a frente com uma testemunha. ou não dareis. como fazem alguns dos freqüentadores dos tribunais. mesmo que não só uma. É como uma voz que possuo dentro de mim desde criança. É essa voz que me impede de me ocupar das coisas do Estado. estou pronto a morrer. tanto para os cidadãos individualmente como para o Estado. Poderá sim. e parece-me que faz muito bem em agir dessa forma. e depois. um pouco lerdo e necessitado de estímulo. não com palavras. contra o dom do deus. às quais. lutando para que nada fosse feito contra a lei. dormireis tranqüilamente. nem por vós nem por mim. podereis me reconhecer por isso: que não parece humano que haja descuidado todos os meus negócios e ainda agüentar por tantos anos que tenham sido descuidadas as coisas da minha casa. não possui importância alguma para mim. Tendes conhecimento. para que este viesse a morrer. para convencer-vos a buscar a virtude. tenha sido colocado de fato pelo deus aos flancos da cidade como aos flancos de um cavalo grande e de boa raça. E naquela ocasião. erguereis a voz. exceto uma vez em que fiz parte do Conselho. por obediência a Ânito. não riam da comparação. que me acusaram tão despudoradamente de tantas outras culpas. somente uma. ao contrário. condenar-me à morte. ó atenienses. E nem o poderiam. e que. que se eu tivesse. e vós a intigá-los e a gritar. que outro como eu não nascerá facilmente. Pois se me matardes. e golpeais como a matar um inseto inoportuno. isto significará que minhas palavras são nocivas.Então eu me opus. de falar-vos. ó cidadãos. pois. teria sido morto também num curto espaço de tempo e não teria realizado nada de útil. mas a qualquer outra multidão. Repugnância e Abstenção Socrática da Política Comum É possível que pareça estranho eu me encontrar sempre próximo e me dar tanto ao trabalho de fornecer conselhos a este ou àquele em particular. e não palavras. tende a certeza de que nunca agirei de outra maneira que esta. estando a vosso lado.se torne excelente e muito virtuosa. por algum tempo. mesmo que por breve tempo. e que. e votei contra. está certo. ó cidadãos. Assim parece-me que o deus me colocou aos flancos da cidade. Sabeis perfeitamente. e se desejais me ouvir. Não promoveis algazarra. Os oradores habituais já estavam prontos para suspender-me da função e aprisionar-me. de maneira alguma estou falando em minha defesa. que não necessitais pecar. a respeito do qual. mas vistes que meus detratores. creio que vos será útil escutar. cuidando das vossas. aqueles dez capitães que não haviam recolhidos os náufragos e os mortos depois da batalha naval das Arginusas. não o creio eu. na tentativa de envolver em seus atos cruéis o maior número de pessoas possível.

se entre os homens que me freqüentam. como afirmam Meleto e Ânito. se não quisessem fazê-lo diretamente. Com efeito. tanto em público. Eu também possuo família. suplicou clemência aos juizes. apesar de prepotente. pobres e ricos. não será justo que eu receba elogios ou impropérios. que os apresente agora. Nunca fui mestre de quem. enraivecido com minha atitude. possa irritar-se comigo se. sempre fui o mesmo. pais. e que viessem à tribuna para acusar-me e para exigir minha punição. tenho três filhos. seria vergonhoso. E se há quem diga que aprendeu ou ouviu alguma coisa de mm. E estas coisas. tivesse lutado em defesa da justiça e tivesse considerado esta defesa. não existe homem que o tivesse conseguido! Em verdade. mas aqueles que não foram corrompidos. cumpro as ordens do deus. mas de criaturas humanas'. eu falo e se não recebo.E aquele governo. e ali Adimanto. as razões que posso apresentar em minha defesa. repito-vos. além disso. e aí está Parálio. porque corre pela cidade que.crueldades. fico calado. se os que lhe são caro sofreram algum mal por mim causado.e ainda Antífon de Cefísia. Ora. E disto que relatei possuo muitas testemunhas. quando saímos do Tolo e os outros quatro se dirigiram para Salamina a fim de retirar Leon. seja jovem. em defesa daquele que causa o mal de seus familiares. trouxe ao tribunal os filhos e vários de seus parentes e amigos. como privadamente. esteja arriscando a vida . como é possível que a alguns agrade estar comigo tanto tempo? Vós ouvistes. principalmente se é uma pessoa que . Ao fazer isso. deixei-os ir e voltei para casa. deseja escutar-me. um já crescido e dois ainda crianças. nem por desprezo. porque estou da mesma maneira à disposição de todos. enfim. seria ainda necessário que estes. são bem poucos diferentes destas. atenienses. que se manifeste. A uma pessoa assim. de quem ali se encontra o irmão Platão. que eu disse toda a verdade: têm prazer de ouvir-me quando submeto à prova aqueles que pensam serem sábios e não o são. que são agora anciãos. se existe alguma testemunha deste tipo. nunca me refutaram. se deixe influenciar pelo amor-próprio ferido e. Nicóstrato. tenham alguma razão para me defender. irmão de Teódoto. em toda minha existência. . filho de Teozótides. ao envelhecerem. ó atenienses. Se de fato eu corrompo os jovens. vereis que todos farão o contrário. ao ter de enfrentar um processo menos arriscado do que este. ao passo que eu não me porto desta maneira. e aqui caberia aquele dito de Homero: 'Que não de carvalho. embora possuíssem alguma boa . ó cidadãos. irmãos. quando eram réus em um processo. Porém. O Testemunho dos Discípulos. Ali está Críton. mas pela minha reputação. e por outros meios de que se serve a providência divina para ordenar ao homem que faça alguma coisa. a ninguém. nem para provar que sou corajoso diante da mote. e. não afirmo categoricamente que há. cedo-lhe o lugar. algum dia. porém. Acredito que só por causa disso. tenhais a certeza de que este não diz a verdade. que enviassem hoje para cá as pessoas de sua família. poderei responder da seguinte maneira: "Meu estimado amigo. que outra razão podem ter para me defender exceto esta. quem quer que me indague e deseje ouvir as minhas respostas. filho de Demódoco. e que me fizessem pagar por isso. não poderá falar com o irmão a meu favor. eu também trouxe alguém da minha família. não me atemorizou. fazendo-o como homem de bem. e ali estão outros. e algumas mais. alguma coisa que todos os outros não tenham aprendido ou ouvido. Por conseguinte. ao que parece. e nem mesmo àqueles que os caluniadores chamam de meus discípulos. seja velho. É possível que alguém entre vós. não me pareceu honroso agir dessa maneira. e como Teódoto faleceu. desta forma. embora. ainda mais na minha idade e com o meu nome. e. eu já teria morrido. pai de Epígeno. todos falarão a favor do corruptor. filho de Aríston. eu os vejo. e não é verdade que. mas não os trouxe aqui para despertar vossa misericórdia e absolver-me". e. que. tomassem consciência de que quando eram jovens eu os aconselhei a praticar o mal. atenienses. emita seu voto com raiva. meu contemporâneo e conterrâneo com sei filho Critóbulo. um se torne de boa formação moral ou não. Diante disso. se recebo dinheiro. ó atenienses. nas poucas vezes que me ocupei de coisas públicas. e Aantodoro. se já corrompi algum. cujos irmãos viveram comigo familiarmente. se procedessem dessa maneira. com seu filho Ésquino. ao fazer intimamente esta comparação. não é desagradável. em quaisquer aspectos.de quem era irmão Teages. E não é por orgulho que me comporto assim. de quem temos aqui o irmão Apolodoro. dadas por intermédios de vaticínios e sonhos. são estas. e outros. de seus Pais e Irmãos Credes que eu teria vivido por tantos anos se houvesse me ocupado de assuntos públicos e. em particular. E poderia nomear muitos outros. verdadeiro ou falso que seja. Talvez esses. isto sim me importa acima de qualquer coisa. como é necessário. e também Lisânias de Esfeto. um homem que diante do justo nunca cedeu a quem quer que fosse. meu dever mais alto? Com certeza. ou por outra virtude qualquer. quer que seja. Sócrates se distingue da maioria dos homens. que talvez esteja entre vós. pela vossa e de toda a cidade.É possível que alguém. quando falo ou atendo àquilo que acredito ser meu ofício. se aquele que entre vós possuem fama de se distinguirem pela sabedoria e coragem. são verdadeiras e demonstráveis. que é verdadeira e justa: a certeza de que Meleto mente e eu digo a verdade? Epílogo .Sócrates não quer Misericórdia Cidadãos. se ele se esqueceu disso. ao pensar em si mesmo. já que não prometi ensinamento algum a ninguém. se aquele governo não tivesse sido deposto logo em seguida. nem de pedra nasci. os corrompidos. nem nunca ensinei coisa alguma. Muitos destes estão presentes. não me obrigou a cometer um ato injusto. eu mesmo presenciei muitas vezes. E conseguiria indicar vários outros que Meleto poderia apresentar como testemunhas na sua acusação. e pessoas desse tipo.

ó cidadãos. exilado. Segunda Parte . antes de qualquer coisa e de vós mesmos. tentar influir nos juízes e. Os juízes não se encontram aqui para favorecer o justo. procurásseis ser os melhores e mais sensatos possível. então. de acordo com o direito. pois sempre me considerei por demais honesto para conseguir salvar-me se me dedicasse a tais coisas e convencido de que não teria sido útil nem para mm nem para vós. e também a mim. eu teria de estar imbuído de uma bem ingênua vontade de viver se fosse assim tão irracional a ponto de não poder nem mesmo fazer este raciocínio. injustos e vis. perseguido em todos os lugares. Porque estes vos proporcionam felicidade. com o que acaba de ocorrer. se nos comportássemos assim. se é que devo ser recompensado como mereço. então. Este homem. tanto que qualquer forasteiro poderia imaginar que aqueles atenienses que se distinguem por sua virtude e que seus concidadãos elegem à magistratura e outras honras não são em nada melhores que as mulheres. o que é bastante evidente. mudando sempre de país para país. e por ter desprezado aquilo que atrai a maioria. deixar-nos fazê-lo. peço se alimentado no Pritaneu. E eu. Que mereço por sempre haver agido desta forma? Algum grande bem. Acredito nos deuses mais do que qualquer um dos meus acusadores. mas algo bastante diferente. mas. embora sendo meus concidadãos. e não por tão poucos. Penso nunca haver prejudicado ninguém por querer. em verdade. biga ou quadriga. Porque é evidente que se eu. ao longo da minha existência. Pedirei o exílio? Sim. que temos fama de sermos ainda alguma coisa. Não iríeis querer então. e deixo a vosso critério. e ao do deus. ao fato de não haver sido apanhado de surpresa. se Ânito e Lícon não tivessem vindo para me acusar. e não precisam ser sustentados como eu precioso. não faremos coisas boas e piedosas. ó cidadãos. entre outras razões. Portanto. desta acusação. riquezas. com cavalo. E por temer o que eu deveria agir dessa forma? Talvez por temer sofrer aquilo que Meleto exige para mim e que eu declaro não saber se é bom ou mau? E em troca desta pena devo escolher outra entre aquelas que eu sei serem más? Deverei solicitar a prisão? E por que motivo deverei viver preso.reputação. ó atenienses. e sim em mais. eu vos ensinaria que. cargos militares e políticos e todas as outras magistraturas. mediante súplicas. de impiedade. que minha companhia foi tão desagradável que procuras agora livrar-vos dela. como se achassem que iriam sofrer sabe-se lá que tortura se devessem morrer e como se tornassem imortais se não fossem condenados à morte por vós. que excelente vida seria a minha. Nem vos conviria. e mais. ó atenienses. mesmo assim. não é isso. o de terem votado pela minha condenação. E acredito que se houvesse leis entre nós. nem juraram que favorecerão a quem lhes paga. ó atenienses. mas para julgar o justo. e que vos esforçásseis ao máximo para trabalhar em prol da cidade. devo pedir. Não. tentando convencer-vos de que. Portanto. tenham conseguido triunfos nos Jogos Olímpicos. pois acreditava que seria condenado por muito mais votos. a serviço da eterna magistratura dos Onze? Uma pena em dinheiro e permanecer enjaulado enquanto não for paga? Mas é exatamente a mesma coisa que a anterior. aqui presente. que enquanto vós. Ao que me parece. mesmo nestas minhas palavras de agora. não é necessário que vos habitueis a isso. aquilo a que faço jus. porque não possuo dinheiro para pagá-la. que pena apresentarei em oposição à vossa. Porém. ó atenienses. me causa mais estranheza é o grande número de votos favoráveis a mm . não é fácil livrar-se em tão breve espaço de tempo de acusações tão graves. como as que há entre outros povos. e mesmo assim não logrei convencer-vos. pensa que mereço a pena capital. tivemos muito pouco tempo para nos entendermos. Não considero justo. mas que farão justiça de acordo com as leis. isso deve-se. e não só haver escapado delas. que eu cometesse diante de vós atos que reputo desonestos. julgar o que será para vós e para mim o melhor. seria culpado de não crer nos deuses.A Pena Do Esperado da Pena Se eu não estou abalado. estaríeis convencidos. livrar-me da condenação. penso haver escapado das mãos de Meleto. Por isso. por meio de súplicas procurasse convencer-vos e obrigar-vos a violar o juramento. Porque sei muito . Estes. e porque sempre acudi rapidamente aonde quer que eu reputasse poder proporcionar o maior bem a cada um de vós em particular. e. E também pensa em prejudicar a mm mesmo ao declarar que sou merecedor da pena e pedir que esta pena seja aplicada a mim. ó atenienses? Não é evidente que seja a mesma que me foi imposta? Qual será então? Que pena merecerei ou que multa. e as agitações e conspirações que acontecem nas cidades. O que. atenienses não seria mantê-lo no Pritaneu com muito maior razão do que aqueles que. atenienses. têm atitudes excepcionais. que proíbem que uma pena de morte seja aplicada em apenas um dia. não fostes capazes de agüentar minha companhia e os meus discursos. mas sim infomá-los e convencê-los. Que será apropriado para um pobre benfeitor que precisa de tempo para aconselhar-vos nos vossos assuntos? O que mais seria conveniente a esse homem. com apenas mais trinta votos a meu favor teria sido absolvido. Se. talvez seja precisamente esta pena que desejastes para mim. E é justamente o contrário que sucede. eu teria sido multado em mil dracmas por não haver conseguido um quinto dos votos. não nos portamos dessa maneira é o que compete a nós. mas sim mostrar a todos que julgais com maior rigor quem encena esses dramas lastimosos e cobre a cidade de ridículo do que quem suporta com serenidade o próprio destino. talvez julgais notar quase o mesmo sentimento de ofensivo orgulho que acreditáveis ter percebido quando falava a respeito de suplicar e despertar comiseração. sim. interesses particulares. e eu menos ainda. eu que sou acusado por Meleto. no entanto. nem vos nem eu. o que aprendi. Contudo. envergonham a toda a cidade. por não haver usufruído em paz. que outros a agüentariam de bom grado? E ainda. nesta idade.

Por conseguinte. Algum de vós talvez pudesse contestar-me: "Em silêncio e quieto. Neste momento. se vos dissesse isto. mas de atrevimento e descaramento. Portanto. tampouco me pesa agora da maneira por que me defendi. por conseguinte. a vós é que chamo com tino de juízes. nem quando ia dizer alguma coisa. muito mais duro que a pena capital que me impusestes.bem que aonde quer que eu vá. fomos apanhados. matando homens. não deve ninguém lançar mão de todo e qualquer recurso para escapar à morte. um sábio. Porque. eu. ao contrário. Ora. poderia ter-me aplicado uma multa que conseguisse pagar. mas a advertência divina não se me opôs de manhã. Com efeito. nas batalhas. serão garantes dessa quantia. estais enganados. ao sair de casa. por me recusar a proferir o que mais gostais de ouvir. em cada perigo. enm é inteiramente eficaz nem honrosa. como aqui. Serão mais numerosos os que vos pedirão contas. sempre foi rigorosamente assídua em opor-se a ações mínimas. o que se poderia considerar. O que me ocorreu senhores juízes. não teria me infligido mal algum. os jovens acorrerão a fim de me ouvir. pela mais ligeira. mas o resultado será inteiramente oposto. meus condenadores. exceto se desejeis multar-me de uma quantia que eu tenha a possibilidade de pagar. como a amigos. E esses homens. e há quem o faça. porque. que me perdi por falta de discursos com que vos poderia persuadir. e. serão estes mesmos que me farão perseguir. vamos partir. multo-me em uma mina de prata. a própria natureza satisfaria o vosso desejo. o sentido exato de que me aconteceu agora. atenienses. os que vos quiserem censurar. Poderei pagar-vos apenas uma mina de prata. esta outra. no entanto. aqueles que desejarem injuriar a cidade vos impingirão a fama e a acusação de terdes matado Sócrates. que eles mesmos garantirão. porém é difícil convencer-vos. convencendo os mais velhos. Por outro lado. a malvadez. se vos dissesse que significaria desobedecer ao deus e que. quero fazer-vos um vaticínio. não devo eu. evitareis que alguém vos repreenda a má vida. já distante da vida e próxima da morte. tinha de ser assim e penso que não houve excessos.Após a Condenação Aos que Votaram Contra Por não haverdes aguardado mais um pouco. Com este vaticínio. nada obsta que nos entretenhamos enquanto dispomos de tempo. eu. porque muito mais difícil é escapar à maldade. condenado por vós à morte. Vós o fizestes supondo que vos livraríeis de dar boas contas de vossa vida. quando estão para morrer. não seria possível que eu vivesse em silêncio. Não dirijo essas palavras a todos vós. eles igualmente. ó atenienses. até agora eu os continha e vós não os percebíeis. Se eu possuísse dinheiro. ficai comigo mais um pouco. do que folgaria em viver após fazê-la daquele outro modo. assim. Contudo. Para esses mesmos. agora. ela corre mais ligeira que a morte. muitas vezes se pode escapar à morte arrojando as armas e suplicando piedade aos perseguidores. se antes achei que o perigo não justificava indignidade alguma. eles. e que uma vida desprovida de tais análises não é digna de ser vivida. Bem sabeis a minha idade. adito o seguinte: talvez imagineis. Multo-me então em trinta minas. que o castigo os vos alcançará logo após a minha morte e será. Quero explicar-vos. tais como costumais ouvir dos outros. . foi algo prodigioso. e vossa irritação será maior. Eu vos afianço. senhores. eles serão tanto mais importunos quanto são mais jovens. ó atenienses. dignos de crédito e confiança. acaba de me ocorrer o que vós estais vendo. não poderias viver após ter saído de Atenas?" Isso seria simplesmente impossível. Aos que o Absolveram Com os que votaram pela absolvição. muito mais folgo em morrer após a defesa que fiz. de fato. Sim. que sou um velho vagaroso. meditar todos os dias sobre a virtude e acerca dos outros assuntos que me ouvistes discutindo e analisando a meu respeito e dos demais. Critóbulo e Apolodoro querem que eu me multe em trinta minas. que Platão. porém. Mas não possuo dinheiro e não posso fazer isso. a da divindade. nem enquanto subia aqui para o tribunal. eu e os meus acusadores. Se esperásseis mais algum tempo. gostaria de conversar com respeito ao que se acaba de suceder. Quer no tribunal. como o maior dos males. é a mais honrosa e mais fácil. lamentos e gemidos. tem muitos outros meios de escapar à morte quem ousa tudo fazer e dizer. despeço-me de vós que me condenastes. pela mais lenta das duas. se eu os repelir. por Zeus. não de discursos. sim. serei perseguido por seus pais e demais parentes. não acreditaríeis e pensaríeis que estivesse sendo sarcástico. mas aos que votaram pela minha morte. Se imaginais que. chamar-me-ão de sábio. essa não é uma forma de libertação. quer na guerra. quando eu ia cometer um erro. condenados pela verdade a seu pecado e a seu crime. é isto que vos digo. Terceira Parte . Mas vedes. Eu aceito a pena imposta. homens que me mandais matar. ó Sócrates. enquanto os magistrados estão ocupados e antes de ir para onde devo morrer. Não se tenha por difícil escapar à morte. Críton. senhores. é evidente que. eu vo-lo asseguro. Se vos dissesse que esse é o maior bem para o homem. ágeis e velozes. e se não os repelir. eis-me chegado àquele momento em que os homens vaticinam melhor. preparar-se para ser o melhor possível. fazendo e dizendo uma porção de coisas que declaro indignas de mm. se na minha opinião se devesse tudo fazer e dizer para escapar à justiça. apesar de que eu não o seja. Agora. Acerca do futuro. em vez de tapar a boca dos outros. não estou habituado a considerar-me merecedor de mal algum. acreditar-me-iam menos ainda. A usual inspiração. Engano! Perdi-me por falta. Por certo.

² Museu. Aos vinte anos. ao chegar ao Hades. ou Ulisses. se vós.manifestação característica e suma do gênio grego deu. eu. para o homem bom. a que se deu o nome de orfismo. é segredo para todos. então. Atribuía-se-lhe a invenção da lira e dos rituais mágicos e divinatórios. Platão retirou-se com outros socráticos para junto de Euclides. Por isso é que a advertência nada me impediu. manifestando-se na expressão estética de seus escritos. o que é mais. não me seria desagradável comparar com os deles os meus sofrimentos e. Platão travou relação com Sócrates . repreendei-os. Minos. já não digo um homem comum.mais velho do que ele quarenta anos . ou. Se não há nenhuma sensação. só tenho um pedido a lhes fazer: quando meus filhos crescerem. eu de modo especial acharia lá um entretenimento maravilhoso. como vos fiz eu. digo que é uma vantagem. na mocidade. é chegada a hora de partirmos. mas na suposição de que me causavam dano: nisso merecem censura. ² Célebre aedo da era pré-homérica. juiz dos Infernos com Éaco e Triptólemo. Quem segue melhor destino. mas o próprio rei da Pérsia acharia fácil enumerar tal noite entre as outras noites e dias. vejo claramente que era melhor para mim morrer agora e ficar livre de fadigas. quer na morte. se isso é verdade. assim sendo. senhores juízes. ou Sísifo? Milhares de outros se poderiam nomear. marido de Pasífae. que maior bem haveria que esse. não o sendo. segundo consta. por serem imortais pelo resto do tempo. Bem. por não cuidarem do que devem e por suporem méritos. Logo. No entanto. vós para a vida. exceto para a divindade. sem ter nenhum. O meu não é conseqüência do acaso. bem posso imaginar que. e os deuses não descuidam de seu destino. com quem seria uma felicidade indizível estar junto. porque. senhores juízes. Temperamento artístico e dialético .no entanto. origem de seitas místicas. A que devo atribuir isso? Vou dizer-vos: é bem possível que seja um bem para mim o que aconteceu e não é forçoso acreditar que a morte seja um mal. quer na vida. Hesíodo e Homero? Por mm. a ver quem deles é sábio e quem.¹ Radamanto. Quando discípulo de Sócrates e ainda depois. Disso tenho agora uma boa prova. quantas vezes ela me conteve em meio de outros discursos! Mas hoje não se me opôs vez alguma no decorrer do julgamento. atormentai-os com os mesmíssimos tormentos que eu vos infligi. que era filho do povo. em nenhuma ação ou palavra. Se. que o acompanhou durante a vida toda. Morrer é uma destas duas coisas: ou o morte é igual a nada. a morte é como a mudança daqui para outro lugar e está certa a tradição de que lá estão todos os mortos. toda a duração do tempo se apresenta como nada mais que uma noite. se é como um sono em que o adormecido nada vê nem sonha. eu para a morte. se não fosse uma ação boa o que eu estava para praticar. não valeria a pena a viagem? Quanto não daria qualquer de vós para estar na companhia de Orfeu. de antiga e nobre prosápia. se achardes que eles estejam cuidando mais da riqueza ou de outra coisa que da virtude. livre curso ao seu talento poético. Éaco. castigai-os. como se costuma dizer. trata-se duma mudança. passar o tempo examinando e interrogando os de lá como aos de cá. cuida que é. Platão estudou também os maiores présocráticos. quando encontrasse Palamedes. homens e mulheres. lá distribuem a justiça. de pais aristocráticos e abastados. tanto assim que várias partes de suas obras não têm verdadeira importância e valor filosófico. Se vós assim agirdes. Triptólemo e outros semideuses que foram justiceiros em vida. se a morte é isso. entretanto isto prejudicou sem dúvida a precisão e a ordem do seu pensamento. a gente vai encontrar os verdadeiros juízes que. ¹ Rei lendário de Creta. Façamos mais esta reflexão: há grande esperança de que isto seja um bem. porque a usual advertência não poderia deixar de opor-se. A Vida e as Obras Diversamente de Sócrates .. sujeitando-os a exame! Os de lá absolutamente não matam por uma razão dessas! Os de lá são mais felizes que os de cá. em Mégara. e meus filhos também. do lugar deste mundo para outro lugar. Platão nasceu em Atenas. eu terei recebido de vós justiça. Verdade é que não me acusaram e condenaram com esse modo de pensar. para sujeitar a exame aquele que comandou a imensa expedição contra Tróia. deveis bem esperar da morte e considerar particularmente esta verdade: não há. Ajax de Telamon e outros dos antigos. mal algum. se eu. em 428 ou 427 a.e gozou por oito anos do ensinamento e da amizade do mestre. senhores juízes? Se. filho de Europa e de Zeus. uma emigração da alma. entre outros motivos. pensar e dizer quantos dias e noites de nossa existência vivemos melhor e mais agradavelmente do que naquela noite. que tenham morrido por um sentença iníqua. contrapondo a essa as demais noites e dias de nossa vida. do outro lado. . se estiverem supondo ter um valor que não tenham. se a tradição está certa. estou pronto a morrer muitas vezes. que maravilhosa vantagem seria a morte! Bem posso imaginar que. e não sente nenhuma sensação d coisa nenhuma. sábio legislador. Quanto não se daria.C. cantava e tocava a lira com tal perfeição que até as feras se aquietavam e vinham deitar-se a seus pés. Não me insurjo absolutamente contra os que votaram contra mm ou me acusaram. Vós também. Depois da morte do mestre. livre dessas pessoas que se intitulam juízes. conversando com eles. se devêssemos identificar uma noite em que estivéssemos dormindo tão profundamente que nem mesmo sonhássemos e.

da desordem que se manifesta em especial no homem. Mas diversamente de Sócrates. universal. através da especulação. Platão. e se distinguem diametralmente de seus opostos. no seu valor. Voltando para Atenas. A diferença essencial entre o conhecimento sensível. assim em Platão a filosofia tem um fim prático. angustioso. Platão fundava a sua célebre escola. Assim. intelectualmente. errôneo. universal e imutável. Libertado graças a um amigo. Este fim prático realiza-se. do conhecimento da ciência. interessou-se vivamente pela política e pela filosofia política. tem o caráter científico. a Sicília. além de ser um conhecimento verdadeiro. Arquistas no governo do poderoso estado de Tarento. voltou duas vezes . o sentido se opõe ao intelecto. porquanto no conhecimento humano. o saber sensível. que se tornou propriedade coletiva da escola e foi por ela conservada durante quase um milênio. não sabe que o é. Caído. A gnosiologia platônica. que ilumina o primeiro conhecimento. para o qual é atraído por um amor nostálgico. tomou o nome famoso de Academia. que representa a evolução do pensamento platônico. onde o corpo é inimigo do espírito. perto de Colona. ao contrário de Sócrates. segundo certa ordem cronológica. Platão é o primeiro filósofo antigo de quem possuímos as obras completas. do socratismo ao aristotelismo. conceptual. Poder-se-ia também dizer que o primeiro sabe que as coisas estão assim. atividade que não foi interrompida a não ser pela morte. onde surgiu.à Dion. isto é. pela viva sensibilidade do filósofo em face do universal vir-a-ser. não podendo de modo algum ser substituído por um conhecimento diverso. pois. em face do mal. a precisão. Platão dedicou-se inteiramente à especulação metafísica. filosófico. o conhecimento humano integral fica nitidamente dividido em dois graus: o conhecimento sensível. com oitenta anos de idade. Estas duas viagens políticas a Siracusa. A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos da sua vida: desde a morte de Sócrates . mutável e relativo. conceptual. cair no erro sem o saber. verdade e bondade. imutável. da opinião. mas julgava. Faltam-lhe ainda o rigor. humano. erro e mal-posição e distinção que o sentido não pode operar por si mesmo. em Platão é tornado especialmente vivo. os valores de beleza. então. Visitou o Egito. racional em geral. mutável e relativo. pelo eros platônico. da qual a filosofia .Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico. Platão foi preso por Dionísio. lógica e formal. que limitava a pesquisa filosófica. apresentam-se elementos que não se podem explicar mediante a sensação.em 366 e em 361 . Em Atenas. conhecimento das coisas pelas causas. Platão como Sócrates. Adquiriu. o mito e a poesia confundem-se muitas vezes com os elementos puramente racionais do sistema. precisamente porque é ciência. e ainda menos pode o conhecimento sensível explicar o dever ser. moral. donde pode passar indiferentemente o conhecimento diverso. a imutabilidade. Foi assim que o filósofo. está nisto: o conhecimento sensível. fealdade. como efetivamente. não tiveram melhor êxito do que a precedente: a primeira viagem terminou com desterro de Dion. Segundo Platão. Morreu o grande Platão em 348 ou 347 a. ao passo que o segundo sabe que as coisas devem estar necessariamente assim como estão. cunhado daquele. como também Platão. mais ou menos. de que admirou a veneranda antigüidade e estabilidade política. Este caráter íntimo. transição espontânea entre o ensinamento oral e fragmentário de Sócrates e o método estritamente didático de Aristóteles. onde conheceu Dionísio o Antigo. onde teve ocasião de travar relações com os pitagóricos (tal contato será fecundo para o desenvolvimento do seu pensamento). na desgraça do tirano pela sua fraqueza. voltou a Atenas. particular. que tem por sua característica a universalidade. porém. ao contrário. isto é. particular. O conhecimento sensível. todavia. o absoluto (do conceito). após a morte de Dionísio o Antigo. foi vendido como escravo. absoluto. embora verdadeiro. porém.como lemos no Fédon . Dos 35 diálogos. Esta veio operar aquela libertação definitiva do cárcere do corpo. o conhecimento conceptual. onde levantou um templo às Musas. A forma dos escritos platônicos é o diálogo. O conhecimento sensível deve ser superado por um outro conhecimento. dos jardins de Academo.C. a Itália meridional. na segunda.C. que falta a gnosiologia socrática. da opinião do vulgo e dos sofistas.). muitos são apócrifos. estando. a opinião verdadeira e o conhecimento intelectual.não é senão uma assídua preparação e realização no tempo. esperando poder experimentar o seu ideal político e realizar a sua política utopista. e foi libertado por Arquitas e pelos seus amigos. até o tempo do imperador Justiniano (529 d. porém. no entanto. transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim. chegar à contemplação do inteligível. e fez um vasto giro pelo mundo para se instruir (390-388).Daí deu início a suas viagens. sem saber porque o estão. que estão efetivamente presentes no espírito humano.em três grupos principais. ao ensino filosófico e à redação de suas obras. ao campo antropológico e moral . que correm sob o seu nome.. A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos . Platão. nascer e perecer de todas as coisas. porém. a paixão contrasta com a razão. Deve. povoado da Ática. a toda a realidade. e o conhecimento intelectual. para chegar ao conhecimento intelectual. a terminologia científica que tanto caracterizam os escritos do sábio estagirita. idênticas. parte do conhecimento empírico. Sócrates estava convencido. sensível. mas que dele não se pode derivar. ainda que as conclusões sejam. isto é. sabe que o é. No fundador da Academia. tirano de Siracusa e travou amizade profunda com Dion. pelo ano de 387. religioso da filosofia. que. não pode explicar o conhecimento intelectual. até a sua morte. é a grande ciência que resolve o problema da vida. considera Platão o espírito humano peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. não admite que da . uma herdade. poder construir indutivamente o conceito da sensação. o método. outros de autenticidade duvidosa. O Pensamento: A Gnosiologia Como já em Sócrates. ao passo que o segundo. de que o saber intelectual transcende.

imutáveis. começa e progride . Platão aprofunda-lhe a teoria e procura determinar a relação entre o conceito e a realidade fazendo deste problema o ponto de partida da sua filosofia. serão universais. Assim é que considera ele a alma humana como um ser eterno (coeterno às idéias. Além disso. no sistema platônico. do outro. donde têm de ser oportunamente tirados. um objeto adequado ao conhecimento conceptual. Todas as idéias existem num mundo separado. uma base e um fundamento reais. sem. Aqui devemos lembrar que Platão. Ora. deveria ser. religiosos e místicos. Assim a idéia de homem é o homem abstrato perfeito e universal de que os indivíduos humanos são imitações transitórias e defeituosas. libertar-se do corpo. A certeza da sua existência funda-a Platão na necessidade de salvar o valor objetivo dos nossos conhecimentos e na importância de explicar os atributos do ente de Parmênides . contigente e transitório (Heráclito). Pode haver conhecimento apenas do mundo imaterial e racional das idéias pela sua natureza superior. material. todavia. dá à alma humana um lugar e um tratamento à parte. como as concebiam Heráclito e os sofistas . Este mundo ideal. ao conhecimento certo deve corresponder a realidade. são ordenadas em sistema hierárquico. terão consequentemente as características dos próprios conceitos: transcenderão a experiência. não há ciência. ou alguns conceitos da mente. e sustenta que as sensações correspondentes aos conceitos não lhes constituem a origem. a idéia do Bem. que se obtém mediante a divisão e a classificação. ordenadora . representações intelectuais. necessários. de cujo modelo se serve para ordenar a matéria e transformar o caos em cosmos. quer dizer. um objeto próprio: as idéias eternas e universais. Deste mundo material e contigente. embora superior à matéria. para poder explicar verdadeiramente o conhecimento humano na sua efetiva realidade. o dever ser. devido à sua natureza inferior. Deve portanto. estando no vértice a idéia do Bem. ontológica) esclarecer. em dependência de uma ação do Demiurgo sobre a alma.que é precisamente o conhecimento adequado à sua natureza inferior. de um mal radical. os nossos conceitos são universais.sensação . científico. as idéias terão aquela mesma ordem lógica dos conceitos. além do fenomenal. um objeto próprio: as coisas particulares e mutáveis. é o ser sem o qual não se explica o vir-a-ser.ou. Visto serem as idéias conceitos personalizados. um outro mundo de realidades. um conhecimento sensível verdadeiro . As idéias não são. Tal a célebre teoria das idéias. Teoria das Idéias Sócrates mostrara no conceito o verdadeiro objeto da ciência. são realidades objetivas. para ser verdadeiramente tal. que são os conceitos. a alma humana. Estas realidades chamam-se Idéias. desempenha papel de mediador entre as idéias e a matéria. Logo.é. tanto no homem como nos outros seres. como de um cárcere. pelo contrário. Assim. logo. assim como o Demiurgo. dá ao conhecimento empírico. que é papel da dialética (lógica real. aliás. diversamente de Sócrates. de que este nosso mundo imperfeito participa e a que aspira. E. mutável. A existência desse mundo ideal seria provada pela necessidade de estabelecer uma base ontológica. portanto.no dizer de Platão . é a realidade suprema. exasperando a doutrina da maiêutica socrática. à opinião verdadeira.particular. anima toda a realidade. Desta personalidade e atividade criadora . em vista dos seus impelentes interesses morais e ascéticos. Entre as idéias e a matéria estão o Demiurgo e as almas. Como a multiplicidade dos indivíduos é unificada nas idéias respectivas. objetivamente dotadas dos mesmos atributos dos conceitos subjetivos que as representam. tudo no mundo é individual. assim a multiplicidade das idéias é unificada na idéia do Bem. e todos os valores (éticos. caído no mundo material como que por uma espécie de queda original. uma base real. modelos e arquétipos eternos de que as coisas visíveis são cópias imperfeitas e fugazes. existir. o mundo dos inteligíveis. ao Demiurgo e à matéria). mas apenas é possível. imutáveis e eternos (Sócrates). no máximo. O divino platônico é representado pelo mundo das idéias e especialmente pela idéia do Bem. personalizados. Ele. donde dependem todas as demais idéias. com ele. desenvolvendo. racional . dotado o Demiurgo o qual. centro em torno do qual gravita todo o seu sistema. inteligível. Do mesmo modo. de natureza espiritual. à qual comunica o movimento e a vida. melhor. sensível. e estas contrapõe-se a matéria obscura e incriada. exagerando. o mundo ideal é provado pela necessidade de justificar os valores. inatos no espírito humano. de um lado. porquanto Platão é um pampsiquista. Esse conhecimento. imutável. falta-lhe a personalidade e a atividade criadora. é inferior às idéias. situado na esfera celeste. a ordem e a harmonia. relativa . alma de toda filosofia platônica. conceptual. diz que os conceitos são a priori. transferidos da ordem lógica à ontológica. dá ao conhecimento racional. isto é. Deve.opinião verdadeira . relembrar conforme a lei da associação. lógicos e estéticos) que se manifestam no mundo sensível. formas abstratas do pensamento. que está no vértice. no sentido platônico. durante a vida terrena. A ciência é objetiva. de superioridade. absoluto.se possa de algum modo tirar o conceito universal.transcende inteiramente o mundo empírico. Portanto. esta libertação. As Almas A alma. pois. através de que desce das idéias à matéria aquilo de racionalidade que nesta matéria aparece. negar a existência do fieri. em que vivemos. deveria representar o verdadeiro Deus platônico. se impõe ao lado e acima do conhecimento sensível.As Idéias O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias. A Metafísica . E. No entanto. e sim a ocasião para fazê-los reviver. em geral.

as estrelas e os planetas. ao mesmo tempo. pois. para o espírito. A alma não encontra no corpo o seu complemento. para impedir que o primeiro seja obstáculo ao segundo. etc. está entre o ser (idéia) e o não-ser (matéria). uma classificação. na morte. depois. Segundo Platão. separando-se. E. antes de tudo. derivando daí a virtude da temperança. beleza . Logo. introduzindo no caos a alma. à espera de que a morte solte definitivamente a alma dos laços corpóreos. em forma de esfera e. tais funções seriam desempenhadas por outras duas almas . Da idéia . para que se realize a sabedoria. a filosofia. as idéias e a matéria. os astros. No seu conjunto. e é a opinião verdadeira. donde a virtude da fortaleza. morrer aos sentidos. partes da alma. que residiria no abdome . Entretanto. chegado o grande ano do mundo. na razão realiza o homem a sua humanidade: a ação racional realiza o sumo bem. as almas dos astros. 2. que desvencilha para sempre a alma do corpo. juntamente com a sapiência. ao contrário. que o mortifica inteiramente. por conseqüência. da razão. o destino da alma depende da sua filosofia. Em geral. sendo que a alma racional é. resulta da síntese de dois princípios opostos. e agir racionalmente é filosofar. . Da matéria .sobre a base da metafísica platônica da alma. a natureza do homem é racional. em especial. O Mundo O mundo material. deve existir um princípio de uma e outra. a virtude suma. a única virtude verdadeiramente humana e racional. a vontade no impulso.que Platão explica mediante um dualismo filosófico-religioso de alma e de corpo: o intelecto encontra um obstáculo nos sentidos. A terra está no centro. transparentes. a alma concupiscível. a alma do corpo. As que cometeram pecados inexpiáveis. que é separação espiritual da alma do corpo. deve principiar a sua vida moral sujeitando o corpo ao espírito. então.ou partes da alma: a irascível (ímpeto). virtude fundamental. unida ao corpo e aos sentidos. e da qual depende totalmente a ação moral. princípio de movimento e de ordem. bondade.mediante a filosofia. passiva. Então a realização da natureza humana não consiste em uma disciplina racional da sensibilidade. o intelecto é impedido pelo sentido da visão das idéias. o cosmos platônico. o mundo físico percorre uma grande evolução. não no sentido do progresso.ser.depende. temperança. Tal harmônica distribuição de atividade na alma conforme a razão constituiria. mas um obstáculo . terminados os quais. o inteligível. mutável. tudo recomeça de novo. distingue ele três categorias de alma: 1. a contemplação. um ciclo de dez mil anos. Entretanto. fortaleza. explicando-se deste modo o movimento circular deles. unida a um corpo. de fato. espacial . Consoante a astronomia platônica. uma alma do mundo e. transcendental: contemplação em que se realiza a natureza humana. o mundo. irracional. depende da religião. haveria. ao corpo. O mundo. As que cometeram pecados expiáveis. O dualismo dos elementos constitutivos do mundo material resulta do ser e do não-ser. e. a saber. dos homens. que residiria no peito. o homem realiza a sua verdadeira natureza: a contemplação intuitiva do mundo ideal. A faculdade principal. dotado de atividade sensitiva e vegetativa. o universo sensível. a justiça. Em todo caso. e a concupiscível (apetite). Noutras palavras. que é. É a clássica concepção grega do eterno retorno. e filosofar é suprimir o sensível. pois. uma dedução das famosas quatro virtudes naturais. dos mistérios órfico-dionisíacos. que devem ser trabalhosamente relembradas. mas na sua final supressão. antes de tudo. e é o devir ordenado. tudo que há de negativo na experiência. a idéia. justiça .prudência. condenadas eternamente. visto que a alma humana racional se acha. a união da alma espiritual com o corpo é extrínseca. são esféricos. é necessário que a alma racional domine. na realidade. Mas a alma está no corpo como num cárcere. mas no da decadência. que domina também a grande concepção platônica. do bem e do mal.depende tudo quanto há de positivo. e mediante a morte libertadora. essencial da alma é a de conhecer o mundo ideal. verdade. ao redor. Agir moralmente é agir racionalmente. Moral Segundo a psicologia platônica. como o adequado conhecimento sensível está entre o saber e o não-saber. informe. Temos. O Demiurgo plasma o caos da matéria no modelo das idéias eternas. Quanto ao destino das almas depois da morte. o seu instrumento adequado. cravados em esferas ou anéis rodantes. segundo Platão. esta natureza racional do homem encontra no corpo não um instrumento. e assim por diante.indeterminada. dependentes e inferiores. neste mundo. chamadas depois cardeais . ao mundo. de fato. embora a esta naturalmente inferior. e se realiza com a morte. E diga-se o mesmo da vontade a respeito das tendências. eis o pensamento de Platão: em geral.assim como a alma racional residiria na cabeça. conexa ao clássico dualismo grego. na separação da alma do corpo. da ordem e da desordem. e domine também a alma irascível. até violenta. segundo Platão. de racional no vira-ser da experiência. que aparecem no mundo. apenas mediante uma disciplina ascética do corpo. destarte. felicidade e virtude. Conforme a cosmologia pampsiquista platônica. Naturalmente a alma sensitiva e a vegetativa são subordinadas à alma racional.

por conseguinte. também das outras duas classes. seria mister acrescentar uma quarta categoria de almas. para receber a pena ou o prêmio merecidos. Com efeito. tal instituição. à altura de orientar racionalmente o homem e a sociedade para o fim verdadeiro. Segundo Platão. ética. pode causar impressão. a ordem ideal do mundo e. videntes de idéias. ascética do estado platônico. Os guerreiros representam a força a serviço do direito. consoante Platão. o fim supremo. das mulheres e dos filhos. a obra fundamental de Platão sobre o assunto. mas o sábio. encarnam-se de novo. a história. À classe dos produtores.é. Tal atividade política constitui um dever para o filósofo. As que viveram conforme à justiça. a sua finalidade primordial é pedagógicoespiritual. que representam um desenvolvimento social e uma sistematização estável da divisão do trabalho no âmbito de um estado. porquanto representa precisamente . Qual é.o homem prático e empírico. Platão reconhece a . o estado ideal deveria ser dividido em classes sociais. representado pelos filósofos. fundamentalmente. a riqueza. que Platão propugna para as classes superiores. estas classes: a dos filósofos. como única e total expressão da eticidade transcendente. a dominação e a riqueza. consistindo sua virtude apenas na obediência. é necessária porquanto os trabalhos materiais. a dos guerreiros. e. a quem cabem as virtudes mais elevadas.pelo povo. Três são.diz Platão . a família. sobretudo. espiritual. e estão. e.agricultores e artesãos . irascível e concupiscível no organismo humano. consequentemente. O estado deve. Desta maneira é concebido o estado educador de homens virtuosos. o indivíduo ao estado. o estado em nada se interessa . A Política Os escritos em que Platão trata especificamente do problema da política.3. Deveria ela equilibrar.submetida às duas precedentes. a direção da república. A música . portanto. todavia. educá-los para a virtude. Platão foi levado a esta concepção política . domésticos. Na hierarquia das classes. em geral. a dos trabalhadores ocupa o ínfimo lugar. se preocupa com espiritualizar os homens. cultivada apenas para fins práticos e morais. todas as atividades presididas pelas Musas . visto a alma concupiscível estar sujeita à alma racional. traça o seu estado ideal. cuja formação é inteiramente material e subordinada. sendo estes naturalmente superiores àqueles . sociais. essencialmente. porém.abrangendo também a poesia. de conformidade com a ordem estabelecida pelos filósofos. enfim. a educação deve. especialmente. político-religioso. com a sua natureza gentil e civilizadora. em chocante contraste com os estados e a política deste mundo.consoante seu pensamento . a distinção em classes.. pois. não realiza tanto as obras exteriores. a dos produtores.ao menos positivamente . As almas destas últimas duas categorias nascem de novo. no organismo do estado. pela plebe. estão efetivamente em contraste com os interesses coletivos.tornada depois sinônimo de imanentismo. os guerreiros receberam a educação. o Político e as Leis. a ordem da sociedade humana. corresponderiam respectivamente às almas racional.o trabalho material. A educação das classes superiores importa. ateísmo . materialismo. são a República. Platão tende a desvalorizar a grandeza militar e comercial. portanto. o verdadeiro político não é . pois. da ginástica. mas dessemelhantes e desiguais.especialmente aos filósofos. Na concepção ideal. não. idolatrando a grandeza moral. as dos filósofos. conhecem a realidade das coisas. servis. inteiramente entregues à conservação moral e física do estado. a ação oposta. o reino do espírito. Tinha ele compreendido bem que os interesses particulares. Se a natureza do estado é. e ocupar-se com o seu bem estar material apenas secundária e instrumentalmente. . estatais. O grande. mas. pelo vulgo. dos quais e juntamente com os quais. segundo as virtudes que se referem a cada classe. e. são incompatíveis com a condição de um homem livre em geral. estar substancialmente nas mãos do estado. não uma sociedade de indivíduos semelhantes e iguais. libertados da vida temporal para sempre. promover. Tal especificação e concretização da divisão do trabalho seria representada pela instituição da escravidão.eticamente considerados. Entretanto. dos filósofos. como veículo dos valores transcendentais da Idéia. Ao contrário. Desta variedade de necessidades humanas origina-se a divisão do trabalho e. cabe a conservação econômica do estado. contemplam eles o mundo das idéias. pelo desprezo com que era considerado por Platão . à primeira vista. então. em castas. por isso.não certamente por estes motivos. a justificação da sociedade e do estado? Platão acha-a na própria natureza humana. o pensador. E não hesita em sacrificar totalmente os interesses inferiores aos superiores. respectivamente. fortificadora. econômicos e.um altíssimo valor moral terreno. as quais. por conseqüência. pois este fim supremo é unicamente a contemplação das idéias. o bem espiritual dos cidadãos. À classe dos guerreiros cabe a defesa interna e externa do estado. antes de tudo. música e ginástica. A essência do estado seria então. a de organismo ético-transcendente.e pelos gregos em geral . Na República. Esta educação é dispensada essencialmente às classes superiores . o comunismo dos bens. etc. privados. mas pela grande importância e função moral por ele atribuída ao estado. À classe dos filósofos cabe dirigir a república. Segundo o pensamento que lemos no Fédon. da razão. porquanto cada homem precisa do auxílio material e moral dos outros.

deveria ser um itinerário especial do espírito para o Absoluto e o inteligível. Platão hostiliza o antromorfismo. portanto. como também o pensamento dos filósofos anteriores. este absoluto . Por conseqüência. ou seja. deuses eternos. que não só reencontramos em Platão.C. que viveu no século V antes de nossa era e que sabemos ter sido um ilustre matemático.torna-se outro tanto danosa no campo moral. Ao lado. média e nova. A Academia A escola filosófica fundada por Platão. em oposição ao seu gênio e ao gênio artístico grego. Costuma-se dividila . Na realidade. na sua pureza lógica. No entanto. e valorizando o elemento religioso positivo. no conjunto do seu pensamento.. O motivo teorético é que a arte resultaria como cópia de uma cópia: cópia do mundo empírico. pois . até querer banidos de seu estado ideal os poetas. prevalecendo simpatias pitagóricas . A arte. a academia platônica sobreviverá ainda e tomará uma última forma e feição com o neoplatonismo. conceptual. também é um místico. animados e racionais. nem sequer da religião assim chamada natural. Pitágoras (que teria inventado a palavra filosofia. a Academia.de saída. O motivo prático é que a arte . sobreviveu-lhe por quase um milênio. prevalece a desvalorização por dois motivos. já que Pitágoras acredita que os números são o princípio e a chave de todo o universo. precisamente denominados pré-socráticos. uma espécie de revelação superior. subordinados ao Demiurgo.C. de evocar Pitágoras de Samos. para o bem como para o mal. segundo os interesses do último Platão. Vai-se acentuando a importância da experiência. A antiga academia dura até o ano de 260 a. algo como que uma filosofia. depois. Chegamos assim ao princípio da era vulgar. que tem por objeto a Beleza eterna e os graus que levam até ela . cujas divindades são os astros e o cosmo. Platão pode. espiritual e ético. mas de fenômenos.reformada e purificada . e subordinadas a esta espécie de Deus supremo. amor à sabedoria). até o VI século d. mas não passa de uma importância instrumental e parcial. quase um século. como para o falso. prático outro. bem como à idéia do Bem e às outras idéias.o Bem e as idéias . aquele mesmo ideal inteligível que a filosofia atinge abstratamente. desenvolvendo o dualismo no panteísmo emanatista. que é já uma cópia do mundo ideal. provavelmente também pela influência de Aristóteles . Seu culto essencial é representado pela ciência e. Daí a sua aversão ao culto idolátrico dos exercícios físicos. cópia não de essências. fundador de sociedades iniciáticas que visam à salvação de seus membros. pelos mitos fantásticos e imorais. porquanto deveria atingir intuitivamente. teorético um. assim como a natureza do som é função do comprimento da corda que vibra.embora transcendente.em antiga. como a ciência. gnosiologicamente. que toma uma orientação cética. encarnada em formas sensíveis. mas que está na origem da ciência moderna. sucessores de Platão. sendo considerada a arte como uma espécie de loucura divina. A doutrina pitagórica da salvação está muito próxima dos mistérios do orfismo. a arte deveria ser.cronologicamente e logicamente . que foi um dos indícios da decadência grega. aceita francamente o politeísmo. Quanto à avaliação da religião positiva. Entretanto. Seja como for. impura fonte gnosiológica . É governada por discípulos. infinitamente diversas.dada esta sua inferior natureza teorética. não pode tornar-se objeto de religião. Tratemos. inclusive Homero. É este o último esforço grandioso do pensamento grego para resolver o problema filosófico. é o primeiro grande filósofo da tradição ocidental a deixar uma obra escrita considerável. Segue-se na média academia. dissimulam relações numéricas que constituem o fundo das coisas: idéia capital. Para Entender Platão Platão. mais ou menos. anteriores e contemporâneos . que Platão já tinha valorizado no mito. a arte nos atrai para o verdadeiro. a nova academia volta ao antigo dogmatismo e.C. Finalmente. Todavia. orienta-se para o ecletismo. inferior à ciência. inicialmente. pois o prevalecer da cultura física do corpo torna os homens grosseiros e materiais. semelhante à religião e ao amor. reitores. A ela pertencem homens insignes e de grande doutrina.como o amor. Os pitagóricos acreditam na . nascido em 428 a. encontramos em Platão uma tentativa de valorização da arte em si. pois. sobretudo graças a Carnéades (213-128 a. dadas a sua impersonalidades e inatividade a respeito do mundo. denominadas por Platão.).importância da ginástica. Em todo caso.. Atuando cegamente sobre o sentimento. as aparências coloridas do universo. sua matemática desemboca numa metafísica. a obra de Platão só pode ser entendida em função de outros pensamentos. pela virtude que deriva necessariamente da ciência. os assim chamados deuses visíveis.a religião helênica. Apesar de repelir os deuses da mitologia popular e poética. de mania. como religião do seu estado ideal. o pensamento de seu mestre Sócrates. como também uma tendência para uma sempre maior sistematização do pensamento platônico. conservar . As doutrinas estéticas de Platão são algo oscilantes entre uma valorização e uma desvalorização da arte. É um politeísmo estranho.C. A Religião e a Arte A idéia do Bem seria o centro da religião platônica. estão as demais idéias. isto é. narrados em torno dos deuses e dos heróis.

por aquilo que nos concerne diretamente.. pelo incremento do individualismo e decadência dos costumes após Péricles.com inigualável poder marítimo . o Nous. Empédocles vê na matéria quatro elementos (terra. Duas doutrinas se opõem radicalmente entre si. Muitas vezes. cujo ceticismo é engendrado pela multiplicidade de doutrinas contraditórias. A verdade e a justiça (das quais Sócrates será o símbolo) não possuem bom aspecto. Muitas outras doutrinas dessa época tentam explicar o mundo. o arrasamento dos famosos muros (uniam a cidade ao Pireu) pelos esparciatas vencedores. como punição de faltas passadas. 3. velho e muito feio (seus olhos salientes e seu nariz achatado são célebres). o nascimento mais prestigioso: sua mãe descendia de Sólon. pelo abuso da retórica (um orador hábil pode demonstrar o que quiser) e. "Planta rei". na verdade. seu encontro com Sócrates. ajudá-los a trazer à luz o que já trazem em si mesmos. Para Heráclito de Éfeso. Platão. que foi professor de Péricles. 4. Alain falou a propósito desse "choque dos contrários": Platão.É somente pela filosofia que se pode discernir todas as formas de . ar e fogo). Sócrates. O verdadeiro ponto de partida da filosofia de Platão é a morte de Sócrates em 399 a. corpo = túmulo). Mas Atenas. É um jovem aristocrata que une aos seus dons intelectuais e físicos (duas vezes coroado nos jogos atléticos nacionais. que. esboroa-se na época em que Platão atinge a idade adulta. de um modo geral. dizia. é amargo para o enfermo). se Sócrates é o primeiro a reconhecer sua própria ignorância. Se conhecessem verdadeiramente a justiça. Protágoras de Abdera. o não-ser não é". "O Ser é. segundo o testemunho de Platão. faz perguntas e sempre dá a impressão de buscar uma lição no interlocutor. que. só reencontra a filosofia a partir de preocupações de caráter político. "Reconheço que todos os Estados atuais. de preferência. "Conhece-te a ti mesmo". uma cidade que seja a encarnação da Justiça. Devemos agora. Tal é a ironia. Segundo sua perspectiva racionalista. condena Sócrates a beber a cicuta como corruptor da juventude e adversário dos deuses da cidade. não pretende ensinar coisa alguma sobre a natureza humana. aos quais traiu para assumir a liderança do outro partido). dos problemas que eles colocam. cujas combinações mutáveis são infinitas. elementos eternos. O fluxo que faz do universo uma torrente é constantemente produzido e destruído por um Fogo cósmico. que era parteira.metempsicose. Em outras palavras: não existe verdade absoluta. E as perguntas feitas por Sócrates levam o interlocutor a descobrir as contradições de seus pensamentos e a profundidade de sua ignorância. A alma. só há salvação pelo saber. Diremos uma palavra sobre os sofistas. ele se comparava à sua mãe. Sócrates possui tal confiança no saber e na verdade que está firmemente persuadido que os injustos e os maus não passam de ignorantes. Ao mesmo tempo que convida o interlocutor a tomar consciência de seu próprio pensamento. Daí as resoluções que Platão nos apresenta na sétima carta. que "o homem é a medida de todas as coisas". caracterizar os grandes traços da filosofia de Sócrates: 1. acha que os elementos constitutivos do mundo são ordenados por uma Inteligência cósmica. portanto. segundo um ritmo regular. Tal é a maiêutica socrática. Platão a ele se une. ele funda todas as suas esperanças na verdade tão somente. pois ninguém é "maus voluntariamente". enquanto o ódio que dissocia e o amor que unifica seriam os princípios motores do universo. não quer nos comunicar um saber que não possuiríamos. em 407. torna-se discípulo de um cidadão de origem modesta. ao pé da letra. de novo no poder. E isto é significativo e simbólico. tudo muda infinitivamente. Estava destinado. Sócrates. ele se retrai. mereça ser finalmente libertada de toda materialização. Seu método é. deve-se deixar aos deuses o cuidado de se ocupar com o universo. Platão tinha quatro anos quando começaram as guerras do Peloponeso e trinta e um quando eles terminaram. como Empédocles ou Heráclito. seus ancestrais paternos. a tomar consciência dos nossos próprios pensamentos.. A morte anuncia o renascimento num outro corpo até que a alma. A encarnação é tão somente um encarceramento provisório para a alma.C.. a idéia geral que contém os caracteres constitutivos da justiça. A esta filosofia da mobilidade universal se opõem Parmênides e seu discípulo Zenão de Eléia: para eles. Esta máxima gravada no frontão do templo de Delfos. e constata que os Trinta acumulam injustiças e violências. Sócrates fá-lo compreender que. Demócrito tenta conciliar as duas doutrinas por intermédio de sua filosofia de átomos. a mobilidade não passa de uma ilusão que engana nossos sentidos. assinalam a importância da catástrofe. a noite ao dia. por iniciativa de um certo Anytos (filho de um rico empreiteiro e antigo amigo dos Trinta. Por exemplo: partindo dos aspectos os mais diversos da justiça. o jovem Platão é convocado por parentes e amigos a participar do governo autoritário dos Trinta. ele procura depreender o conceito de justiça. 2. Nada ensinava e limitava-se a partejar os espíritos. porém. a uma brilhante carreira política. pertencem a um mundo que não o das aparências. eterno. portanto. um esforço de definição. do último rei de Atenas. isto é. é belo e vigoroso: apelidam-no "Platão" em virtude de seus ombros largos). Sócrates tem sessenta e três anos quando. elaborar uma cosmologia. de fato. todavia. são mal governados. recordemos o acontecimento fundamental da juventude de Platão. Um dos mais célebres. tudo flui: a morte sucede à vida. Sócrates não pretende. mas tão somente opiniões relativas ao homem (este vinho. que por ocasião do nascimento de Platão se encontra no apogeu . o real é o Ser único. eles a praticariam. Para compreender isto. mas uma cidade cuja potência é antes moral e espiritual do que material. antes de tudo. no entanto. a vigília ao sono. a peste. Na Atenas vencida. "Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio". Ajuda-nos tão somente a refletir. ignora o que acreditava saber. Acontecimento político: é o partido popular. é a palavra-chave do humanismo socrático. imóvel. segundo ele. Anaxágoras. Aborda com humildade fingida os sofistas inflados de falso-saber. sem exceção. Condenação injusta e escandalosa que exprime uma incompatibilidade trágica entre o poder político e a sabedoria do filósofo. com a capitulação de Atenas. Platão vai sonhar com a reconstrução de uma cidade. devemos nos interessar. aristocrata jovem e belo. A destruição da frota. delicioso para o amador. água. o não-ser é a mudança (mudar é deixar de ser o que se é para ser o que não se é). simultaneamente purificada pela virtude e pela prática de ritos iniciáticos. torna-se prisioneira de um corpo (soma = sema. Na realidade. significa a arte de interrogar.

A idéia platônica é uma promoção ontológica do conceito socrático. seus diálogos célebres tais como o Górgias. três classes sociais: os artesãos dos quais a Justiça exige a temperança. é o itinerário pelo qual nos levamos do mundo sensível ao mundo das Idéias: no mais baixo grau.que. Desse modo. secreto.de seu antigo contato com as Idéias. isto é. podemos ligar à distinção dos dois mundos algumas observações sobre o mito platônico: . à imagem de todas as sociedades indo-européias primitivas. o pensamento discursivo (dianoia) que constrói o raciocínio partindo de figuras. Resgatado por Anikeris de Cítera por vinte minas. restam-nos. Finalmente. antes de tudo. o único mundo verdadeiro. e.visto que sua união com o corpo é acidental e monstruosa . mas ele só existe porque participa do mundo das idéias do qual é uma cópia ou. A teoria platônica da alma está ligada à doutrina das Idéias. o Banquete. Platão prefere a aristocracia e.de todas as idéias a mais fácil de reconhecer . Os temas principais do platonismo podem ligar-se à distinção entre o mundo das Idéias eternas e o mundo das aparências mutáveis. É então que ele funda. sobre o conceito. a iluminação direta pela Idéia (noesis). a coragem é a justiça da vontade e a sabedoria é a justiça do espírito. Devemos representar a Academia como uma espécie de Universidade onde se ensina matemáticas (não entra aqui quem não for geômetra). Platão. por exemplo. uma vez que guardaram uma lembrança obscura . E Sócrates. o idealismo platônico "traz a marca de um grave traumatismo. um pouco mais acima. Dionísio I. o Fédon. uma essência universal do homem. as opiniões estabelecidas (pistis). uma definição do homem em geral. É no mundo invisível que a justiça e a verdade triunfam". como Sócrates o estabeleceu. é preciso tomar a palavra em seu sentido etimológico: governo dos melhores. em seguida pelos belos corpos. Platão dá realidade ao conceito socrático. objeta Platão a Protágoras . por punição de alguma falta. Entre todas as formas de governo. Platão sustenta contra Cálicles (no Górgias). A justiça política é uma harmonia semelhante à justiça do indivíduo. um mundo de pernas para o ar". as Idéias. Mas uma outra solução seria o próprio filósofo encarregar-se do governo da cidade (a Justiça reinará. Platão morre em 348 a. Em suma. Ela também se encontra em cada uma das virtudes particulares: a temperança nada mais é que uma sensibilidade regulamentada segundo a justiça. todavia. no mais alto grau. por exemplo. "esse belo risco a ser corrido". no dia em que os filósofos forem reis ou no dia em que os reis forem filósofos). elas continuam capazes de reminiscência. perpetuamente mutáveis.é preciso renunciar do oportunismo e à imoralidade dos sofistas. filosofia e a arte de governar as cidades segundo a justiça. Todavia. Este último. Encontrara aí um discípulo estusiasta na pessoa de Dion. fê-lo expor no mercado de escravos para ser vendido. Se quiséssemos resumir a filosofia de Platão em uma palavra. Acrescenta-se que o mundo das Idéias é. Esses trabalhos esotéricos de Platão constituem a mais pura jóia da filosofia de todos os tempos. é preciso que exista algo além dos homens particulares e diferentes entre si que nós reconhecemos. perto de Colona. aos quarenta anos. Podemos mostrar de duas maneiras que a intuição fundamental de Platão se prende ao ensinamento de Sócrates: a) Recordemos o ensinamento socrático sobre a definição.a sensibilidade. A ascensão dialética. À doutrina das Idéias também se correlaciona a esperança da imortalidade da alma.C. Tal é o sonho que Platão tentaria realizar em Siracusa. as simples impressões sensíveis (eikasia). Um belo efebo.é o meio de uma conversão dialética: o amor por um belo corpo. A política de Platão distingue. mostra que. não se revelou muito adequado para se tornar o rei filósofo que Platão quisera fazer dele. as Leis.não o homem. Platão retornou a Atenas.justiça política e individual". cunhado do novo tirano. a cidade que condena Sócrates à morte. para ele. e o mundo das aparências sensíveis. b) Mas é sobretudo a vida e a morte de Sócrates que suscitam o idealismo platônico. por exemplo. Depois. nele. a obra escrita de Platão. Talvez a solução seja a evasão do filósofo que "foge daqui debaixo" para se refugiar na meditação pura (tal é o filósofo cujo retrato nos é traçado no Teeteto. a emoção que rebata a alma diante da Beleza . Uma vez que a alma é feita para as Idéias . o Teeteto. reservado aos iniciados) dado por Platão a seus discípulos só nos é conhecido atualmente pelas críticas de Aristóteles.. o pensamento intuitivo. o jovem escravo que Sócrates interroga no Mênon descobre propriedades geométricas quase sem ajuda. Platão concede ao mundo sensível uma certa realidade. o Parmênides. Platão pensa igualmente que a emoção amorosa. depois pelas belas almas e pelas belas virtudes conduz à redescoberta do Belo em si (leia-se o Banquete). Sabedoria e que são filósofos longamente instruídos. só é belo porque participa da Beleza em si. pela tranqüilidade quase contente de sua morte. de certo modo. A morte de Sócrates feriu-o mortalmente. os militares nos quais a Justiça será coragem. eternas. Assim.. a Justiça em si. para que haja. segundo a doutrina órfico-pitagórica. a cidade que vê triunfar a injustiça e a mentira é "um mundo ao inverso. na ilha de Egina. atesta a existência desse mundo invisível. elas foram aprisionadas no corpo. um outro mundo onde exista o Homem em si. a República.por que não seria eterna como as Idéias que ela tem por vocação contemplar? Do mesmo modo. mas "escritas em caracteres mais fortes" na escala do Estado. mais exatamente. uma sombra. As almas outrora contemplaram às Idéias à vontade. mas Deus é que é a medida de todas as coisas. como fazem os geômetras. contra Trasímaco e Gláucon (na República) o valor absoluto da Idéia de justiça. no fundo. o Fedro. o Timeu. Dionísio I prendeu Platão e. filósofo puramente contemplativo que nem sabe onde se reúne o Conselho e cujo corpo está apenas presente na Cidade). uma escola de filosofia à portas da cidade. em seguida. O ensino esotérico (isto é. pode ser redespertada . finalmente. diz Platão. nos jardins de Academos. poderíamos dizer que ela é fundamentalmente um dualismo. as Idéias contam mais que a vida. a vontade e o espírito. o Sofista. A justiça é a hierarquia harmônica das três partes da alma . uma vez que as Idéias constituem absolutos referenciais . no entanto. o Político. porém. os chefes cuja Justiça é. Como diz muito bem André Bonnard. reconcilia Parmênides e Heráclito ao admitir a existência de dois mundos: o mundo das idéias imutáveis.

juntamente com a metafísica. no verão de 322. referentes à metafísica geral e à teologia. "Assimilou Aristóteles escreve magistralmente Leonel Franca todos os conhecimentos anteriores e acrescentou-lhes o trabalho próprio. perfeição maravilhosa da terminologia filosófica. existem entre a poesia e a verdade. no ano seguinte. procedimento pedagógico paradoxal. vigor de raciocínio. numa linguagem de imagens uma verdade filosófica estranha ao mundo sensível! É o mundo das Idéias eternas transposto em imagens sensíveis. Aos dezoito anos. fruto de muita observação e de profundas meditações. malvisto pelos atenienses. conseguindo um êxito na sua missão educativo-política. até à famosa expedição asiática. a sua escola. ao contrário. traduz uma espécie de narração poética legendária. I. treze anos depois da morte de Platão. Pelo elenco dos principais escritos que dele ainda nos restam. rei da Macedônia. a filosofia é essencialmente teorética: deve decifrar o enigma do universo. Aristóteles faleceu. poder-se-á avaliar a sua prodigiosa atividade literária". De volta a Atenas. perto do templo de Apolo Lício. É uma compilação feita depois da morte de Aristóteles mediante seus apontamentos manuscritos. a Poética. médico de Amintas. que se foi isolando da vida prática. em catorze livros. então jovem de treze anos. a Grande Ética. sem enfeites míticos ou poéticos. III. os motivos políticos. As obras de Aristóteles as doutrinas que nos restam . onde ficou por vinte anos. IV. foi para Atenas e ingressou na academia platônica. seu filho. Escritos sobre a física: abrangendo a hodierna cosmologia e a antropologia. Do diferente caráter dos dois filósofos. O nome de metafísica é devido ao lugar que ela ocupa na coleção de Andrônico.C. em 367. em especial da segunda. A atividade literária de Aristóteles foi vasta e intensa. compêndio das duas precedentes. Aristóteles A Vida e as Obras Este grande filósofo grego. provavelmente publicada por Nicômaco. em face do qual a atitude inicial do espírito é o assombro do mistério. em 384 a. A primeira edição completa das obras de Aristóteles é a de Andronico de Rodes pela metade do último século a. d) Finalmente. O Pensamento: A Gnosiologia Segundo Aristóteles. colônia grega da Trácia. estourando uma reação nacional. clara e ordenada. constituindo algumas desde os primeiros fundamentos. substancialmente autêntica. Escritos metafísicos: a Metafísica famosa. e pertencentes à filosofia teorética. de estudo. O . passeando nos umbrosos caminhos do ginásio de Apolo. V. estéticos e místicos tiveram grande influência. Escreveu sobre todas as ciências. como a sua cultura e seu gênio universal. Daí o nome de Liceu dado à sua escola. de pesquisas.manifestam um grande rigor científico. inacabada. c) O mito indica que o pensamento filosófico vem se abeberar nas fontes das crenças religiosas tradicionais. em que. de pensamento. mais uniforme e linear a de Aristóteles. no seu estado atual. O nome. para se dedicar à investigação científica. II. a Política. Aristóteles. como preceptor do Príncipe Alexandre. sugerido pelo mundo das imagens! b) O mito é o único meio de exposição para os problemas de origem (acontecimentos sem testemunhos) e dos fins últimos (que ainda não existem!). devido a Eudemo. em oito livros. que a colocou depois da física. chefiada por Demóstenes. Escritos retóricos e poéticos: a Retórica. dependem também as vicissitudes exteriores das duas vidas. filho de Nicômaco. temos naturalmente muito menos a revelar do que em torno do caráter de Platão. segundo Platão. de que foi ele o criador. que Platão não conseguiu. que considerava a lógica instrumento da ciência. que.a) O mito. em dois livros. Esta escola seria a grande rival e a verdadeira herdeira da velha e gloriosa academia platônica. em dez livros. em 335. até à morte do Mestre. Em 343 foi convidado pelo Rei Filipe para a corte de Macedônia. Aristóteles foi essencialmente um homem de cultura. corresponde muito bem à intenção do autor. refazimento da ética de Aristóteles. sem se deixar distrair por motivos práticos ou sentimentais. em três livros. Preveniu ele a condenação. A poesia mítica é uma mensagem metafísica. exposição e expressão breve e aguda. desfez-se politicamente o seu grande império e despertaram-se em Atenas os desejos de independência. Nesse período estudou também os filósofos pré-platônicos. em amena palestra. também chamada peripatética devido ao costume de dar lições. éticos. variada e romanesca a de Platão. a Ética a Eudemo. isto é. nasceu em Estagira. entretanto. ao qual é dedicada. organizando outras em corpo coerente de doutrinas e sobre todas espalhando as luzes de sua admirável inteligência. inteiramente recolhido na elaboração crítica do seu sistema filosófico. o belo não é senão o "esplendor do verdadeiro" e a arte está em segundo lugar em relação à filosofia. Escritos lógicos: cujo conjunto foi denominado Órganon mais tarde. é apenas uma parte da obra de Aristóteles. tendo presente a edição de Andronico de Rodes. social e política. incompleta. Aristóteles fundava. A respeito do caráter de Aristóteles. agudeza de penetração. no litoral setentrional do mar Egeu. Não lhe faltou nenhum dos dotes e requisitos que constituem o verdadeiro filósofo: profundidade e firmeza de inteligência. Aí ficou três anos. O grande estagirita explorou o mundo do pensamento em todas as suas direções. salvo uns apócrifos e umas interpolações. Escritos morais e políticos: a Ética a Nicômaco. após enfermidade. Morto Alexandre em 323. Tinha pouco mais de 60 anos de idade. por certo. O seu problema fundamental é o problema do ser. retirando-se voluntariamente para Eubéia. poder admirável de síntese. pois a inteligência abstrata só compreende o eterno e não pode bastar para evocar o que pertence à história.C. faculdade de criação e invenção aliados a uma vasta erudição histórica e universalidade de conhecimentos científicos. não por Aristóteles. não o problema da vida. que lhe foram úteis na construção do seu grande sistema. Aqui classificamos as obras doutrinais de Aristóteles do modo seguinte. em Siracusa. foi acusado de ateísmo. o mito ressalta as relações que.

o objeto da ciência aristotélica é a forma. mas o ponto de partida da dedução é tirado . pois não pode haver ciência em torno do individual e do contingente. é sempre verdadeira. conhecidos sensivelmente. O seu processo característico. dividir-seia em teorética. Os elementos primeiros. o universal. A ciência platônica e aristotélica são. ato puro. baseada sobre a imediata experiência. a posteriori. isto é. a coisa parece mais complicada. A teorética. enquanto é vir-a-ser. abrangendo. como idéia era o objeto da ciência platônica. matemática e filosofia primeira (metafísica e teologia). A formação do conceito é. ambas objetivas. porém. tirada da experiência. como ciência especial.reminiscência. na lógica. consoante Platão. bem como segundo Platão . Limitar-nosemos mais especialmente aos problemas gerais da lógica de Aristóteles. isto é. clássico. mais positivo. colhido imediatamente pelo intelecto humano mediante a sua evidência. é o silogismo. que não tem princípio e fim no tempo. 2. ao contigente. origem extra-temporal. mesmo admitindo que o mundo seja eterno. idealista.mediante o intelecto da experiência. seja constrangido a elaborar. Pode considerar-se como o autor da metodologia e tecnologia científicas. de outra forma teria que ser movido por sua vez. em seguida. c) propõe depois as dúvidas. são fruto de uma visão imediata. o pensamento do pensamento. um motor já em ato. se correspondem. em relação com a sua doutrina do contato imediato da alma com as idéias . sem um primeiro motor imóvel. mas certíssima. Filosofia de Aristóteles Partindo como Platão do mesmo problema acerca do valor objetivo dos conceitos. em estilo lapidar e conciso e criando uma terminologia filosófica de precisão admirável. A Teologia Objeto próprio da teologia é o primeiro motor imóvel. a própria solução. bem como a platônica. em todas as suas obras. Todas as partes se compõem. Este vir-a-ser. com rara habilidade. do mundo. causa absoluta. isto é. do movimento. Segundo Aristóteles. demonstrativa. buscando na realidade um apoio sólido às suas mais elevadas especulações metafísicas. um ato puro enfim. os conceitos. substituindo à linguagem imaginosa e figurada de Platão. portanto. Assim sendo. se confirmam. nos indivíduos. entretanto. do inteligível.tem como objeto o universal e o necessário. sobre a base socrático-platônica. portanto. divide-se em física. Sob o ponto de vista metafísico. Quanto aos elementos primeiros do conhecimento racional. uma resenha de todos os casos os fenômenos particulares para poder tirar com certeza absoluta leis universais abrangendo todas as essências. é denominada por ele analítica e representa a metodologia científica. compreende-se que Aristóteles. porquanto os sentidos por si nunca nos enganam. Por certo. Também aqui se segue a ordem da realidade. as sentenças contrárias. que é o nosso primeiro conhecimento. a coisa parece simples: a indução nada mais é que a abstração do conceito. o inteligível. em que unicamente temos ou não temos a verdade. a poética em estética e técnica. Os caracteres desta grande síntese são: 1. a "desindividualização" do universal do particular. uma doutrina da indução. de que constituem a essência. toma sempre o fato como ponto de partida de suas teorias. A lógica aristotélica. a quem Aristóteles chega através de uma sólida demonstração. a ciência. o sensível. é a priori. mas pode-se integrar logicamente segundo o espírito profundo da sua filosofia. a saber. realistas: tudo que se pode aprender precede a sensação e é independente dela. realidade do vira-ser. ela não está efetivamente acabada. ontologicamente. 3. Quanto ao juízo. é essencialmente dedutiva. isto é. Deus. também os elementos primeiros do conhecimento . que constituem precisamente o objeto próprio do nosso conhecimento sensível. Como é que se formam os princípios da demonstração. fica eternamente inexplicável. razão . porque aí está a sua gnosiologia. A filosofia aristotélica é. isto é. da representação sensível.Sua vasta obra filosófica constitui um verdadeiro sistema. uma verdadeira síntese. de um modo e de outro. os princípios supremos. o necessário. todo o saber humano. O erro começa de uma falsa elaboração dos dados dos sentidos: a sensação. A necessidade deste primeiro motor imóvel não é absolutamente excluída pela eternidade do vir-a-ser. em que está a solução do seu problema. requer finalmente um não-vir-a-ser. onde o fenômeno particular depende da lei universal e o efeito da causa. entretanto. Aristóteles procede por partes: a) começa a definir-lhe o objeto. a filosofia aristotélica é dedução do particular pelo universal. Trata Aristóteles os problemas lógicos e gnosiológicos no conjunto daqueles escritos que tomaram mais tarde o nome de Órganon. destarte. Então só resta possível uma indução incompleta. seu nexo. psicologicamente existe primeiro o particular. pois. as verdades evidentes. Com efeito.conforme Aristóteles. donde temos a ciência? Aristóteles reconhece que é impossível uma indução completa. passagem da potência ao ato. gnosiologicamente. mas abandonando a solução do mestre. A filosofia. o contigente. metafisicamente. cuja verdade imediata ele defende. analítico. intuição intelectual. da representação sensível. a filosofia prática divide-se em ética e política. indiscutível. prática e poética. Entretanto. a filosofia .devem ser. é anterior ao particular. são as essências imutáveis e a razão última das coisas.objeto próprio da filosofia.conceito e juízos . rejeitara a experiência como fonte de conhecimento certo. e que é o elemento constitutivo da ciência. contraditório. de cujo sistema é banida toda forma de inatismo. Geralmente. da passagem da potência ao ato. d) indica. Aristóteles é o criador da lógica. as formas e suas relações. em geral. porquanto o primeiro elemento depende do segundo. racional. por último. Por certo. Observação fiel da natureza • Platão. Unidade do conjunto . a posteriori. Aristóteles constrói um sistema inteiramente original. passagem da potência ao ato. o processo dedutivo e indutivo aplica-os. tirados da experiência. Rigor no método • Depois de estudas as leis do pensamento. é dedutiva. motor imóvel. explicação do condicionado mediante a condição. necessidade objetiva. Aristóteles. pois. Objeto essencial da lógica aristotélica é precisamente este processo de derivação ideal. que corresponde a uma derivação real. como o conceito. segundo Aristóteles. portanto. as formas são imanentes na experiência. apodíctica. em que o universal é imanente. ao lado e em conseqüência da doutrina de dedução. o universal e o necessário. no estudo de uma questão. ao sensível: mas. No sentido estrito. os juízos imediatamente evidentes. b) passa a enumerar-lhes as soluções históricas. Foi dito que. no sentido de que os elementos do juízo os conceitos são tirados da experiência. conceptual como a de Platão mas parte da experiência. e) refuta. por sua vez.

Se Deus é mera atividade teorética. mas unicamente como o fim último. tendo como objeto unicamente a própria perfeição.metafísica de todo devir. isto é. sobre a ação. como . para dar uma explicação filosófica da relatividade do mundo pondo ao seu lado esta realidade independente dele. pode deduzir logicamente a natureza essencial de Deus. a virtude não é inata. uma atividade segundo a razão. e a esta é necessária a razão. domina as paixões. a que é necessária à virtude. mas uma ação com ciência. Visto que o estado se compõe de uma comunidade de famílias. uma atividade que pressupõe o conhecimento racional. porque o fim último do estado é a virtude. mecaniza-se. além. este justo meio. o real puro. porém. Como já foi mencionado. atraente. e. como pensamento de si mesmo. por natureza. por conseqüência. a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso. torna-se quase uma segunda natureza e. de que se falou quando das obras dele. A política. conquistado através do precedente raciocínio. no mesmo tempo. pensamento de pensamento. As virtudes éticas. pensamento de si. e menos ainda opera sobre ele. uma disposição constante. natureza segundo a qual e na qual o homem deve operar. igual para todos e sempre. conhecer a si próprio e pensar em si mesmo. metafísico. o fim do homem é a felicidade. a vida. fundamentalmente. é aquilo que é movido. incompatível com o ser perfeito. não é abstrato. assim como estas se compõem de muitos indivíduos. Naturalmente. contudo. É uma distinção e uma hierarquia. As virtudes intelectuais. embora se apresente especulativamente assaz discutível é aquela pela qual a virtude é precisamente concebida como um justo meio entre dois extremos.como o vício. popular. mas adquiri-se mediante a ação. teoréticas. um costume moral. pois. e. como causa final. mas concreto. ele. aquela a coletividade. mas unicamente conhecer e pensar. que exige o conhecimento absoluto. contemplativas. que é precisamente uma atividade conforme à razão. não as aniquila e destrói. portanto. portanto. todavia. naturalmente. enquanto qualquer outra atividade teria fim extrínseco. como as partes precedem o todo. reta. e variável conforme as circunstâncias. Aristóteles sustenta o primado do conhecimento. sem se mover a si mesmo. a política é a doutrina moral social. auto-suficiente. tem também um fim econômico. tem. que constituem propriamente o objeto da moral. Deus. ativas. voltando-se para ele. Deus é. teoréticas. Deve ele guiar os filhos e as mulheres. a matéria. a família compõe-se de quatro elementos: os filhos. e. Deus é unicamente pensamento. que têm uma importância essencial em relação a toda a filosofia e especialmente à moral. A Moral Aristóteles trata da moral em três Éticas. a sua lei. na ação de um homem. que precede cronologicamente o estado. entre duas paixões opostas: porquanto o sentido poderia esmagar a razão ou não lhe dar forças suficientes. todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza. concebido como primeiro motor imóvel. e só assim. uma vez adquirida. A Política A política aristotélica é essencialmente unida à moral. logo. da filosofia. morais. Aristóteles distingue duas categorias fundamentais de virtudes: as éticas. isto é. Se a virtude é. Aristóteles. porquanto a coletividade é superior ao indivíduo. condição e complemento da atividade moral individual. não são mera atividade racional. E assim consegue ele a felicidade e a virtude. afetivo. está a beatitude divina. consequentemente. A característica fundamental da moral aristotélica é. são superiores às virtudes éticas. O estado. como não é inata a ciência. A razão aristotélica governa. não é criador. Desta ciência trata Aristóteles precisamente na Política. o bem comum superior ao bem particular. a vontade. estabilizase. realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente e senso disto consciente. Em Aristóteles o pensamento grego conquista logicamente a transcendência de Deus. o querer têm objeto diverso do sujeito agente e "querente". da natureza e do universo. antes de tudo. como causa eficiente e formal (exemplar). em razão da imperfeição destes. é superior ao indivíduo. sendo naturalmente animal social. nem providência do mundo. Deus não pode agir e querer. pois o homem. e as dianoéticas. relativo a cada qual. E. e fundamento primeiro da suprema atividade contemplativa. isto é. Unicamente no estado efetua-se a satisfação de todas as necessidades. Uma doutrina aristotélica a respeito da virtude doutrina que teve muita doutrina prática. mas implicam. A virtude ética não é. mas. Visto ser a razão a essência característica do homem. o exercício e. da vontade. e não pode. maior valor uma outra doutrina aristotélica: precisamente a da virtude concebida como hábito racional. certamente. a sua felicidade. de que acima se falou. com o pensamento e a vontade. do chefe a que pertence a direção da família. como as virtudes intelectuais. além de um fim educativo. mais precisamente é ela um hábito segundo a razão. ao contrário. não é unicamente ciência. Consoante sua doutrina metafísica fundamental. que a transcendem. não conhece o mundo imperfeito. Pelo que diz respeito à virtude. isto é. isto é. as diversas paixões predominantes dos vários indivíduos. Se o agir. passional. Da análise do conceito de Deus. Deve fazer frutificar seus bens. porquanto esta tem como objetivo o indivíduo. que vem anular aquele mesmo Absoluto a que logicamente chegara. os bens. porquanto a família. práticas. razão pura. não pode realizar a sua perfeição sem a sociedade do estado. do intelecto. como ato puro. político. antes de tratar propriamente do estado será mister falar da família. que deve ser governado pela razão. o possível puro. visto ser a virtude ação consciente segundo a razão. como queria o ascetismo platônico. a prática. Deus não atua sobre o mundo. no dizer de Aristóteles. à atualização plena da sua forma: e nisto está o seu fim. a mulher. De Deus depende a ordem. é distinta da moral. que é pensamento puro. ser completamente resolvido na razão. é aquilo que move sem ser movido. a política. Noutras palavras. os escravos. O estado é um organismo moral. mas uma aplicação da razão. Logo. concebido. E nesta autocontemplação imutável e ativa. A ética é a doutrina moral individual. consegue a felicidade mediante a virtude. Segundo Aristóteles. torna-se de fácil execução . atividade teorética. a racionalidade do mundo. por conseqüência. isto é. então. o racionalismo. permanece o dualismo. um elemento sentimental. o seu bem.

defesa e segurança. condena o estado que. Aristóteles não nega a natureza humana ao escravo. é que o fim da atividade estatal deve ser o bem comum e não a vantagem de quem governa despoticamente. subordinadamente. Aristóteles distingue três principais: a monarquia. antes de tudo. duas classes reconhece: a dos homens livres. O estado não é uma unidade substancial. do inteligível imanente no sensível. De qualquer maneira a condição indispensável para uma boa constituição. como obra política para moralizar o povo. purificadora da arte. não governa. são necessários instrumentos inanimados e animados. O estado provê. importantíssimas a poesia e a música. visto ser necessário. o imutável. Eis porque Aristóteles. graças ao artista. diversamente de Platão. concretizado num sensível. possuidores. e a diferença entre as várias artes é estabelecida com base no objeto ou no instrumento de tal imitação. sem direitos políticos. mas constata que na sociedade são necessários também os trabalhos materiais. que exigem indivíduos particulares. a propriedade particular e a família. como Platão. Ela abrange ainda o ser imóvel e incorpóreo. e põe a conquista acima da virtude. Na arte. como Platão. inicialmente. a forma. dos trabalhadores. Quanto à forma exterior do estado. Mas o seu fim essencial é espiritual. O comunismo como resolução total dos indivíduos e dos valores no estado é fantástico e irrealizável. a aristocracia.ao estado. Explica e justifica a religião positiva. depende a eficácia espiritual pedagógica. só este último possui aquela unidade substancial que falta aos dois precedentes. O fim da educação é formar homens mediante as artes liberais. Não obstante a sua concepção ética do estado. para que a propriedade seja produtora. não está em condições de se tornar objeto de religião. ao invés de se preocupar com uma pacífica educação científica e moral. e sim concreta: deve ser relativa. que é o governo de poucos. a educação militar de Esparta. isto é. como o trabalho. e. e não máquinas. e cuja degeneração é a tirania. as materiais. num particular. se exclui filosoficamente o antropomorfismo. mediante um treinamento profissional. porém. até sem correção alguma. esse inteligível. como superior à história e mais filosófica do que a história de Heródoto que tem como objeto o particular. cujo caráter e valor estão na qualidade. acomodada às situações históricas. e cuja degeneração é a demagogia. Não. Compreende-se. No entanto. platônicos. No entanto. As preferências de Aristóteles vão para uma forma de república democráticointelectual. como seja tarefa essencial do estado a educação. que faz da guerra a tarefa precípua do estado. Também Aristóteles. deve ser encarnado. A Metafísica A metafísica aristotélica é "a ciência do ser como ser. e não diz que ela teria um fundamento racional na verdade filosófica da existência da divindade. o mutável. Daí a escravidão. com o seu profundo realismo. produção mediante a imitação. Aristóteles. ainda que encarnado fantasticamente num particular. a felicidade dos súditos mediante a ciência. e sim imitação direta da própria idéia. os deuses astrais. Aristóteles considera a arte a poesia de Homero que tem por conteúdo o universal. enquanto a guerra. agora. Exporemos portanto. às circunstâncias de um determinado povo. que ele não conhece. é-lhe essencial a propriedade. Se bem que a arte seja imitação da realidade no seu elemento essencial. a que o homem se teria facilmente elevado através do espetáculo da ordem celeste. deve promover a virtude e. ao lado do Ato Puro e a ele subordinado. e como fruto da tendência humana para as representações antropomórficas. que é o governo de um só. então. O estado surge. E critica. intelectuais e. num particular e. o universal. de outro modo irrealizáveis. mas o que por natureza deve. A arte é. mas em seus aspectos universais e necessários. tempo e liberdade. excluídas pelas próprias características qualidades materiais de tais indivíduos. particularmente de Atenas. universal. a dos cidadãos e a dos escravos. isto é. universal é encarnado. A Religião e a Arte Com Aristóteles afirma-se o teísmo do ato puro. de conformidade com o fundamental realismo grego. não cria. físicas. No entanto. Deste seu conteúdo inteligível. a forma de governo clássica da Grécia. seja embora real. isto precisamente porque o inteligível. político. íntimo sentimento do conteúdo. imitação da forma imanente na matéria. além de imitação do universal verossimilhança e necessidade coerência interior dos elementos da representação artística. dessa forma. conservação e engrandecimento. visa a conquista e a guerra. que deve desenvolver harmônica e hierarquicamente todas as faculdades: antes de tudo as espirituais. pois. este inteligível recebe como que uma nova vida através da fantasia criadora do artista. como é o fenômeno. Entretanto. Vejamos. estes últimos seriam os escravos. será mister reduzir o estado à família e a família ao indivíduo. tornando intuitivo. acontecer. destarte. princípio dos movimentos e das formas do mundo. salva o direito privado. Reconhece Aristóteles a divisão platônica das castas. pois os homens têm necessidades materiais. bem como o mundo mutável e material. Aristóteles como Platão considera a arte como imitação. Não obstante esta concepção filosófica da divindade. As leis da obra de arte serão. e sim uma síntese de indivíduos substancialmente distintos. para tanto. são apenas meios para a paz e o lazer sapiente. pelo seu efetivo isolamento do mundo. e admite. cujo caráter e valor estão na liberdade. cujo caráter e valor estão na unidade. mítica. E não fica nenhum outro objeto religioso. este Deus. ou dos princípios e das causas do ser e de seus atributos essenciais". Por isso. pelo fato de ser o homem um animal naturalmente social. e cuja degeneração é a oligarquia. Aristóteles admite a religião positiva do povo. a que fica assim tirada fatalmente a possibilidade de providenciar a cultura da alma. precisamente. O objeto da arte não é o que aconteceu uma vez como é o caso da história . esses seres divinos não parecem e não podem ter função religiosa e sem física. admite que os corpos celestes são animados por espíritos racionais. a democracia. tradicional. a satisfação daquelas necessidades materiais. imitação de uma imitação. mais do que as transcendentes idéias platônicas. conseqüentemente. o inteligível. Se se quiser a unidade absoluta. negativas e positivas. o estado em particular. reconhece Aristóteles que a melhor forma de governo não é abstrata. concretizado pelo artista num sensível. isto é. necessária e universalmente. que é o governo de muitos. bem como aptas qualidades espirituais. não exclui uma espécie de politeísmo. as questões gerais da . evidência e vivacidade de expressão. portanto. o sensível.

enquanto tal . e as determinações que se realizam neste substrato. a característica da vida do homem. vamos logo falar. visto ser impossível que o menos produza o mais. A causa eficiente. mero princípio de decadência. isto é. A matéria aristotélica.de potência e de ato. é o substrato imutável. a segunda e a terceira todo o ser em que está presente a matéria. passando da potência ao ato. mais tarde.um sínolo . que possui já o que a coisa movida deve vir-a-ser. pois. O motor pode ser unicamente ato. imperfeição. A Psicologia Objeto geral da psicologia aristotélica é o mundo animado. Ao contrário. O primeiro é potência. Esta realização do possível. particular e universal. a forma é. possibilidade de assumir várias formas.e desenvolvida . perfeição. Mesmo que um ser se mova a si mesmo. que dirige a causa eficiente para a atualização da matéria mediante a forma.natureza e homem . que tem por princípio a alma e se distingue essencialmente do mundo inorgânico. tem esta como objeto o mundo que vem-a-ser . é composta de indivíduos. isto é. Desta doutrina da matéria e da forma. que não seja o Ser perfeitíssimo. ainda que haja nele funções diversas faculdades diversas . que é de duas espécies. O indivíduo é.por Aristóteles especialmente quando da doutrina da matéria e da forma. que é intuitiva. potência. a realização do possível. Daí uma quarta causa.igual em todos os indivíduos de uma mesma espécie . e sim imanente e operante nela. ingrediente necessário para a existência da realidade material.pode ser unicamente potência. ato puro.de matéria e de forma. Mediante esta doutrina é explicado o problema do universal e do particular. de realidade dos vários seres. de uma potencialidade anterior. Um ser desenvolve-se.um sínolo . potência realizada.a matéria. pode ser levada a efeito unicamente por um ser que já está em ato. Daí a necessidade de um terceiro princípio. a forma sem a matéria. elemento imutável da mudança. mas une-os em uma síntese conclusiva. portanto. que tem por princípio a alma racional. a essência. que é precisamente a alma. O primeiro elemento é chamado matéria (prima). aquilo que move deve ser diverso daquilo que é movido. substâncias.sínolo . A matéria sem forma. capacidade de ser.deriva da forma. é o pensamento. A primeira e a última abraçam todo o ser. Então não existe. III. portanto. Esta doutrina fundamental da potência e do ato é aplicada . II. imutáveis. matéria e forma. Eis a grande doutrina aristotélica do motor e da coisa movida. o segundo é atualidade . Os elementos constitutivos da realidade são.metafísica. a substância física. ser efetivo. por uma substância em ato. que representam a potência e o ato no mundo. que tem por princípio a alma vegetativa. deve operar para um fim. isto é. pois ela é também condição indispensável para concretizar a forma. que constitui precisamente a substância. inteligível. princípio de ordem e finalidade. Deus. visto que a alma racional cumpre no homem também as funções da vida sensitiva e vegetativa. Diversamente da idéia platônica. movido e motor. surge o movimento. especificadora da matéria . deve ser composto de um motor e de uma coisa movida. forma. em que se sucedem os acidentes. a causa final. ainda que a forma seja princípio de atuação e determinação da própria matéria. para depois chegarmos àquela que foi chamada. Aristóteles não nega o vir-a-ser de Heráclito. o imperfeito o perfeito. a mudança. A síntese . perfeição. Por exemplo.o sinolo . produzindo esta síntese o indivíduo. causa concomitante de todos os seres reais. que é precisamente a síntese da forma e da matéria. as qualidades acidentais. absolutamente imóvel. em que a forma introduz as determinações. não existe por si. Aristóteles faz o primeiro . portanto. Deus. Segundo Aristóteles. é precisamente a sensibilidade e a locomoção. isto é. não é o puro não-ser de Platão. estes dois princípios não são suficientes para explicar o surgir dos indivíduos e das substâncias que não podem ser atuados . esta passagem da potência ao ato é atualização de uma possibilidade. Todo ser. portanto. na natureza em que vivemos. segundo Aristóteles diversamente de Platão todo ser vivo tem uma só alma. por sua vez. Mediante a doutrina da matéria e da forma. depois de ter eficazmente criticado o dualismo platônico.da matéria e da forma constitui a substância. as formas aristotélicas são universais. chamada matéria-prima. que tanto atormenta Platão. A característica da vida animal. racional. propriamente. a forma e a matéria.bem como a matéria não pode ser atuada . que tem por objeto específico o homem. em que a mudança se realiza. I. aperfeiçoa-se. Um substrato comum. universal particularizado. já iniciada pelos últimos pré-socráticos e grandemente aperfeiçoada por Demócrito e Platão. o vir-a-ser.a idéia . portanto. o segundo forma (substancial). Aqui nos limitamos à psicologia racional. entre a matéria e a forma. Com respeito à matéria. a que é submetido tudo que tem matéria. forma concretizada da matéria. e. De sorte que. é portanto uma síntese . Da relação entre a potência e o ato. que fazia os dois elementos transcendentes e exteriores um ao outro. em diversas proporções. mas vice-versa. porém. A característica essencial e diferencial da vida e da planta.de matéria e forma. A essência . nem o ser de Parmênides. A mudança é. pressupõe uma realidade imutável. que é precisamente síntese . doutrina que culmina no motor primeiro. a potência o ato. Enfim. a alma é que move o corpo.realizadora. é a nutrição e a reprodução. o princípio superior cumpre as funções do princípio inferior. em geral. não-ser atual. a individualidade. Por conseqüência. a natureza que ele assume. a única realidade efetiva no mundo. metafísica especial. a causa eficiente. a coisa movida . IV.a não ser por um outro indivíduo. Podem-se reduzir fundamentalmente a quatro as questões gerais da metafísica aristotélica: potência e ato. e ato significa realidade. forma do corpo. Aristóteles explica o indivíduo. por sua vez. porém. matéria. Todas estas três almas são objeto da psicologia aristotélica. o ser vivo diversamente do ser inorgânico possui internamente o princípio da sua atividade. é um absolutamente interminado. como as idéias platônicas. e esta. a mudança. consiste ou na sucessão de várias formas na mesma essência. a pura matéria.imanente no segundo . que tem por princípio a alma sensitiva. vivente. a forma aristotélica não é separada da matéria. que são uma síntese . eternas. porém. pela qual toda substância é original e se diferencia de todas as demais.. A mudança. A realidade. A doutrina da potência e do ato é fundamental na metafísica aristotélica: potência significa possibilidade. depende da matéria. conforme o grau de perfeição. é um mero possível. matéria enformada.e culmina no que não pode vir-a-ser. para poder explicar a realidade efetiva das coisas.

nascimento e morte. a sensação. o limite imóvel do corpo "circundante" com respeito ao corpo circundado. o ser absoluto. sobretudo na parte que trata das relações de Deus com o mundo. As faculdades fundamentais do espírito humano são duas: teorética e prática. quer dizer. segundo Aristóteles. são percebidas por mais sentidos. conforme Aristóteles. Objeto do intelecto é o universal. a existência dos seres fora de Deus. e são logicamente separáveis da sua filosofia.como sendo relações de substâncias. O sentido recebe as qualidades materiais sem a matéria delas. ele é o verdadeiro fundador da ciência moderna e "ainda hoje está presente com sua linguagem científica não somente às nossas cogitações. primeiro escritor da história da filosofia. princípio potencial. as formas das coisas e os princípios primeiros do ser. sempre o que é mais belo". as essências. condicionando todas as demais espécies de mudança. é defeituosa e mais gravemente defeituosa ainda que a teodicéia. Objeto do sentido é o particular.do movimento segundo a razão. O dualismo primitivo e irredutível entre Deus. funções.mudança de lugar. Fim de todo devir é o desenvolvimento da potência ao ato. Esse apetite é concebido precisamente como sendo um movimento finalista. Juízo sobre Aristóteles É difícil aquilatar em sua justa medida o valor de Aristóteles. Nem por isso podemos deixar de apontar as lacunas do seu sistema. sem idéias inatas. pressupões um fato físico. Aristóteles distingue quatro espécies de movimentos: 1. a medida . repouso. como enigma insolúvel e inexplicável. sem obrigação nem sanção. porquanto se manifesta efetivamente com atos diversos. o necessário. Mas o fato físico transforma-se num fato psíquico. dependente do sentimento.acrescimento e diminuição. as doutrinas aristotélicas têm apenas um valor histórico. é a análise dos vários tipos de movimento. não é um espírito puro. Cada uma destas. Movimento substancial . 4. em virtude da específica faculdade e atividade sensitivas da alma. E assim.mudança de propriedade. "A natureza faz. Criador da lógica. por sua vez depende do conhecimento sensível. sendo embora uma e única. Movimento qualitativo . O apetite é a tendência guiada pelo conhecimento sensível. que tem um valor teorético. especificamente diverso do primeiro. como filosofia da natureza.por ele propugnado com base na finalidade. isto é. o imutável. em torno dos quais fez ele investigações profundas. mas instrumento da alma racional. imediata ou à distância. como a cera recebe a impressão do selo sem a sua matéria.mudança de forma. Outra especial e importantíssima questão da física aristotélica é a concernente ao espaço e ao tempo. a ação do objeto sensível sobre o órgão que sente. de fenômenos . a saber. Assim. pelos vários sentidos. Quanto às ciências químicas. deve ser espiritual e. a inteligência. com o juízo. ato puro. respectivamente. Como se vê. a realização da forma na matéria. conhecendo o imaterial. as qualidades gerais das coisas tamanho. A vontade é o impulso. o apetite guiado pela razão. Vista Retrospectiva . que é constituída pelo segundo. do "antes" e do "depois". sendo superior a estas. Acima do conhecimento sensível está o conhecimento inteligível. ainda que rejeite o inatismo platônico. mudança. tendo a função de coordenar. Mas a alma humana desempenha também as funções da alma sensitiva e vegetativa. político. o material. o imaterial. representações. que. ou a possibilidade da falsidade. e a matéria. 3. uma verdadeira contradição e deixa subsistir. isto é.é evidente que fora do mundo não há espaço nem tempo: espaço e tempo vazios são impensáveis. a alma humana. diversamente de Platão. em que a primeira cumpre as funções de forma em relação à matéria. quanto a tal. na sensação propriamente dita. O homem é uma unidade substancial de alma e de corpo. unificar as várias sensações isoladas.finalismo . isto é. o aspecto. começa com a síntese. uma idéia da envergadura de seu gênio excepcional. e dessa depende a prática. O sensível próprio é percebido por um só sentido. cognoscitiva e operativa. o mutável. O senso comum é uma faculdade interna. duas são as atividades práticas da alma: apetite e vontade. pelo que ela é espírito. metafísico. O que caracteriza a alma humana é a racionalidade. A influência intelectual por ele até hoje exercida sobre o pensamento humano e à qual se não pode comparar a de nenhum outro pensador dá-nos. que prestará a estrutura física à Divina Comédia de Dante Alighieri. Por conseqüência. e é própria da alma racional. contrapondo-lhe a concepção do intelecto como tabula rasa. Movimento quantitativo . sempre verdadeira com respeito ao próprio objeto. O espaço é definido como sendo o limite do corpo. as sensações específicas são percebidas. Analogamente às atividades teoréticas. deve ser imperecível. a alma humana.porquanto se dão atos diversos. Admitidas as precedentes concepções de espaço e de tempo . percepções. sensitivo e intelectivo. na própria teoria aristotélica. físicas e especialmente astronômicas. o corpo humano não é obstáculo. porém. moralista. contemplativa e ativa. Especialmente célebre é a sua doutrina astronômica geocêntrica. é. mas um espírito que anima um corpo animal. a atividade fundamental da alma é teorética. Sua moral. e é próprio da alma animal. O conhecimento sensível. O tempo é definido como sendo o número . que a ele confluem. que já sabemos ser passagem da potência ao ato. figura. tem várias faculdades. autor do primeiro tratado de psicologia científica. por isso. A Cosmologia Uma questão geral da física aristotélica. o pensamento. patriarca das ciências naturais. Uma terceira questão fundamental da filosofia natural de Aristóteles é a concernente ao teleologismo . se desdobra em dois graus. e se tornam. movimento. o sensível comum. que ele descortina em a natureza. pois.isto é. enquanto possível. A sensação embora limitada é objetiva. no grau sensível bem como no grau inteligível. senão também à expressão dos sentimentos e das idéias na vida comum e habitual". a falsidade. cognoscitiva. o contingente. realização de uma possibilidade. Movimento espacial . que é a forma do corpo. através do movimento de um meio. Aristóteles aceita a essencial distinção platônica entre sensação e pensamento. etc. 2. ativa. se se tiver presente que o homem é um animal racional.

consequentemente.como o estoicismo .formada de átomos sutis. As amizades dos epicuristas ficaram famosas como as dos pitagóricos. resolvese numa física. Em seus jardins. indivisíveis (átomos). num sereno lazer. do além-túmulo. O Epicurismo Epicuro. sobretudo. Também segundo Epicuro. no peso. indispensável para que seja possível o movimento e. mas encalha. em 341 a. não é excluído o fato de que a necessidade universal oprimiria o homem ainda mais do que o arbítrio divino.. iguais qualitativamente e diversos quantitativamente . que constitui a realidade originária. retoma o mesmo problema no pé em que o pusera Platão e dá-lhe. Epicuro foi pessoa fidalga e refinada. nas suas linhas gerais. Tito Lucrécio Caro . sem causa. mas teve escasso desenvolvimento. a metafísica epicurista é rigorosamente materialista: quer dizer. O processo cognoscitivo da sensação é explicado mediante os assim chamados fantasmas. Em torno desta questão fundamental. A filosofia é a arte da vida. a sua imagem. que é imediata. nos jardins da sua vila. Faleceu em 270 a. nas dificuldades insolúveis de um realismo exagerado. com setenta anos de idade. Como a gnosiologia epicurista é rigorosamente sensista. Como a sensação. feita de nobreza de sentimentos. ajudas materiais.libertar o homem dos grandes temores que ele tem a respeito da sua vida. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica Também o epicurismo . cartas. A mãe praticava a magia. Portanto. também subordina a teoria à pratica. . provavelmente. deu vida a uma sociedade genial.divide a filosofia em lógica. O epicurismo teve. A ele devemos as melhores notícias sobre o sistema epicurista. que entende com a metafísica.diz Epicuro .C. a evidência sensível é o único critério de verdade no campo teorético. pela doutrina do conceito. mensais e anuais. invisíveis. no movimento uniforme retilíneo para baixo introduz Epicuro desvios múltiplos.o poeta entusiasta. de outro. em todos os tempos e lugares.C. autor de De rerum natura. que se tornaram centro das reuniões aristocráticas dos seus admiradores. e fruir dessa formosura na própria existência pessoal. O mestre pareceu aos discípulos como que um redentor. da mesma forma o sentimento (prazer e dor) será o critério supremo de valor no campo prático. a apatia. senso refinado. intuitiva.habitadores felizes de intermundos . daí derivam encontros e choques de átomos e. semelhante ao dos deuses. nasceu em Atenas. o ideal da fidalguia antiga: fazer da formosura o princípio inspirador da vida. discípulos e amigos. Se não houve pensadores epicuristas notáveis depois de Epicuro no mundo clássico nem depois. Aristóteles. pela qual também os deuses vêm a ser compostos de átomos. Entretanto. Todo o nosso conhecimento deriva da sensação. A associação espalhou-se depois. que seriam imagens em miniatura das coisas. os vórtices e . e . da morte. da física . a origem e a variedade das coisas. canônica) epicurista é rigorosamente sensista. o mais precioso legado da civilização grega que declinava à civilização ocidental que surgia. os átomos estão no espaço vazio. dum lado. Em 306 abriu a sua famosa escola em Atenas. a alma . Aliás. nem com o além-túmulo: seria igualmente absurdo preocupar-se com aquilo que se segue à morte. se vão desenvolvendo harmoniosamente as outras partes da filosofia até constituírem em Aristóteles esta grandiosa síntese do saber universal. em sua honra celebravam-se festas comemorativas. missões. resumida em catecismos. em que dominava o vínculo da amizade. mecanicista. Epicuro. pertencentes a classes sociais elevadas. Cedo dedicou-se à filosofia. E foi um mestre eficaz de sabedoria aristocrática. onde encontramos. concebe os elementos últimos constitutivos da realidade como corpúsculos inúmeros. é uma complicação de sensações.. do ateniense Néocles. gravada nas jóias.no tamanho. democritiana. por conseqüência. desde logo. é natural que o critério fundamental e único da verdade seja a sensação. a serenidade. a sua filosofia foi considerada como uma religião. os quais aplicaram a sua doutrina à vida e dela fizeram a substância de sua arte.C. pela maior parte perdidos. espontâneos (clinamen). Estas nos dão o ser. a percepção sensível. mas sempre materiais perece com o corpo. física e ética. O problema do objeto e da possibilidade da ciência é posto em seus verdadeiros termos e resolvido. infinito. sendo iniciado por Nausífanes de Teo no sistema de Demócrito. Precisamente. A originalidade deveria manifestar-se na vida. nenhuma preocupação com a morte. como com aquilo que precede o nascimento. e foi criado em Samos. mas conservou-se fortemente organizada. mediante uma estável constituição. a psicologia e a lógica. homogêneos.C. seguindo as pegadas de Demócrito. na figura. ou mediatamente através dos sentidos. a sua doutrina. conforme o desejo do mestre. indivíduo material. procurando determinar a relação entre o conceito e a realidade. Epicuro expôs a sua doutrina num grande número de escritos. evidente. imutáveis. A escola epicurista durou até o IV século d. uma solução satisfatória e definitiva nos grandes lineamentos. eternos. homens famosos.desinteressam-se por completo dos homens. daí. para a cultura superior. houve todavia. que queria os discípulos fiéis até a letra do sistema. com o seu espírito positivo e observador.Com Sócrates entre a filosofia em seu caminho definitivo. Igualmente.I século a. pela teoria da abstração e da inteligência ativa. gosto para a formosura. fundador da escola que tomou o seu nome. Platão dá um passo além. rápida e vasta difusão no mundo romano. de Deus e fazer com que ele atue de conformidade. que venerava Epicuro como uma divindade. A gnosiologia (lógica. arrancar-seiam destas e chegariam até à alma imediatamente. nas extravagâncias dum idealismo extremo. Dada tal gnosiologia coerentemente sensista. Os átomos são animados de movimento necessário para baixo. para garantir ao homem o bem supremo. é tarefa do conhecimento do mundo. recorre Epicuro à física atomista. a ciência à moral. a paz.

de sofrimento. praticamente ateu. Os fantasmas dos deuses proviriam dos próprios deuses . a virtude ética de Aristóteles). não defende o suicídio que poderia justificar com maior razão do que os estóicos. que encontra precisamente a mais perfeita realização nestes bens espirituais. sujeitos ao nascimento e à morte. No entanto. melhor é conhecer do que agir.como pensava Demócrito. que nasce de exigências não satisfeitas. refletido. no isolamento do mundo. sem providência divina. avaliado pela razão. O sábio satisfaz os primeiros. à política considerando a família e a pátria como causas de agitações e inimigos da autarquia.por exemplo. dar uma unidade estética e racional à vida. Almejava. É mister dominar os prazeres.os mundos. Epicuro. não ser perturbado no espírito. e. portanto. porém. O fim supremo da vida é o prazer sensível. na conversa arguta e delicada: numa palavra. renuncia os segundos. que é unicamente presente. Nunca nos encontraremos com a morte. da emoção. em vigiar-se. sem alma imortal.desceriam até nós dos intermundos. trata-se do prazer imediato. representa. consistindo na ausência do sofrimento. Não obstante o seu materialismo teórico e o seu ateísmo prático. o bem espiritual não consiste unicamente na contemplação (cfr. para estar tranqüilo. do filósofo. e precisamente em uma vida curta e refinada. na unidade da amizade. a vida ideal do sábio. Assim. e nada mais seriam que complicações de prazeres sensíveis. Epicuro admite a divindade transcendente. pois todo mal e todo bem se acham na sensação. mas também na ação (cfr. Este prazer imediato deveria ficar sempre essencialmente sensível. está certamente em contradição com a sua metafísica materialista. é natural que Epicuro seja hostil ao matrimônio e à família. a vida se inspirava nos mais requintados costumes. ter a faculdade de gozar e não a necessidade de gozar. no entanto. aliás geralmente desvalorizado no mundo grego. O epicurismo. e na morte. bem como contradiz a sua metafísica materialista com a sua moral. do prazer imediato. de fato. no precaver-se contra as surpresas irracionais do sentimento. se ele faz uma afirmação profunda. Os deuses de Epicuro são muitos. a virtude dianoética de Aristóteles). na insensibilidade. que é precisamente liberdade e paz. Mediante o clinamen Epicuro justifica ainda o livre arbítrio. não tem a coragem de ensinar a renúncia aos prazeres positivos espirituais. esteticamente. Epicuro é também hostil à atividade pública. deve adaptar-se para viver como melhor puder.como na Academia e no Liceu. E sustenta isto em contradição com a sua ascética radical. Não sofrer no corpo. O universo não é concebido como finito e uno. esse prazer imediato. filosoficamente. O único bem é o prazer. paz e contemplação. da paixão. porque quando nós somos. como o único mal é a dor. O mundo e a vida são um espetáculo: melhor é ser espectadores e atores. do indeterminismo universal. como é desejado pelo homem vulgar. a amizade genial. quando ela é nós não somos mais. afinal. do vulgo. satisfazendo suas necessidades essenciais. diversamente do imanentismo estóico. ou de nenhum sofrimento menor. No epicurismo não se trata. a maneira grega. Estes. A filosofia toda está nesta função prática. . A serenidade do sábio não é perturbada pelo medo da morte. racionado? Na satisfação de uma necessidade. porém. mas negativo. na remoção do sofrimento. Nesse mundo o homem. porquanto o primeiro se estenderia também ao passado e ao futuro e transcende o segundo. nos jardins de Epicuro. quando for preciso. nenhum prazer deve ser recusado. como os mais altos prazeres. preenchida com as mais nobres ocupações . Dado este conceito da vida concebida como liberdade.como os fantasmas de todas as outras coisas . para os quais não há lugar no seu sistema. que não pode ser senão cópia de realidade. inversamente. mas ainda renuncia os terceiros. A Moral e a Religião A moral epicurista é uma moral hedonista. a ambição. escolhido prudentemente. até um verdadeiro pessimismo e ascetismo. a não ser em vista de um prazer. vivendo ocultamente. a virtude. Mas precisamente ainda. Nisto estão toda a sabedoria. Em que consiste. se ensina a renúncia. mais do que ao mundo. A prova da existência da divindade estaria no fato de que temos na mente humana a sua idéia. Em realidade. visto ser o desejo inimigo do sossego: eis as condições fundamentais da felicidade. consistiria na renúncia a todos os desejos possíveis. mesmo quando Epicuro fala de prazeres espirituais. e não se deixar por eles dominar. Verdade é que Epicuro mira os prazeres estéticos e intelectuais.por exemplo. que é uma simples combinação da contingência. os quais exigem muito pouco e cessam apenas satisfeito. Epicuro. por conseguinte. físicos e espirituais. Aqui. e a morte é a ausência de sensibilidade. uma norma de vida ordinária e espiritual. na apatia. sabiamente. perturbam a serenidade e a paz. É de fato. pelos mesmos motivos. que representa o ideal supremo na concepção grega da vida. refletido. O prazer espiritual diferenciarse-ia do prazer sensível. a moral epicuristas. e nenhum sofrimento deve ser aceito. portanto. O verdadeiro prazer não é positivo. espalhado pelo espaço infindo. na quietude. não teriam explicações se os átomos caíssem todos com movimentos uniforme e retilíneos para baixo . aos prazeres positivos. especialmente durante o sono. no sono. renunciando a todos os desejos possíveis. não naturais e não necessários . estéticos e intelectuais. ela não é. mas infinito e resultante de mundos inúmeros divididos por intermundos. considerado vulgarmente como propulsor de devassidão e sensualidade. a não ser por causa de conseqüências dolorosas. Epicuro divide os desejos em naturais e necessários . que aspira a liberdade e à paz como bens supremos. critério único de moralidade é o sentimento. o instinto da reprodução. portanto. porquanto acarretam fatalmente inquietação e agitação.

embora imperfeita.entre os limites impostos pelo pensamento grego e pelo seu pensamento . sutis e luzentes. O ecletismo apresenta-se como um sistema afim. mais ou menos). e não justaposição mecânica de peças sem vida. O ceticismo visa sempre um fim último ético-ascético. Contém muito menos elementos céticos e epicuristas. segundo os elementos de uma ou de outra escola na síntese prática do próprio ecletismo. A felicidade não é mais uma coisa positiva.como as idéias transcendentes de Platão e ato puro de Aristóteles . destarte. com os fins práticos de uma filosofia da renúncia. se os deuses não proporcionam ao homem nenhuma vantagem prática. Persiste nos céticos uma fé nostálgica e realista e o conceito da objetividade da ciência: o ser. nem a da afirmação.. não para receber auxílio. nem está no saber e não se pode alcançar mediante o saber. fora do mundo e dos mundos. mas não é atacada pelo ceticismo. sistema. A primeira escola cética serve-se. Encarna-se na média academia com Argesilau e Carnéades.de sorte que se torna fácil a síntese eclética. mas não se podem conhecer por falta de meios. peripatético. enfim. enfim. que é inacessível ao homem". mas porque eles encarnam o ideal estético grego da vida. Epicuro venera os deuses. O nem-nem dos céticos é mudado em e-e pelos ecléticos. cuja grande obra. portanto será não a filosofia. desesperada por não ter podido resolver o problema da vida mediante a razão. não filosóficos. uma espécie de puro amor de Deus dos ascetas e dos místicos. Deste modo. que concebem a filosofia popularmente. em princípios da era vulgar. geralmente.o mal da religião. que vive no mundo de estátuas divinas. moralisticamente.beatos. substitui ao critério da verdade o da verossimilhança. prática e teorética. favorecido pelo contato do pensamento grego com a romanidade dominante.sempre acordados e sentados em jovial convívio. da indiferença. e a coerência materialista do epicurismo. Vivem.não atuam sobre o mundo e a humanidade. É uma teologia refinada de ateniense e de artista. especialmente do que o estoicismo. que importa na contemplação do ideal. imortais diversamente dos deuses estóicos . do relativismo sofista. e por demais despersonalizadas. É o ceticismo a última palavra da sabedoria antiga. ou não têm a força da crítica. dotados de corpos luminosos. conversando em grego! Mas . cuja escola terminou pouco depois do seu discípulo Timon. Temos precisamente. tendo forma humana belíssima. O ceticismo critica o conhecimento sensível. O pragmatismo eclético foi.C. do sossego. . tudo vale igualmente. que surgiram em tempos diferentes. para não serem contaminados. inteiramente voltada para a prática e para a ação. de várias escolas filosóficas. escapando destarte a fatal destruição dos mundos. sem qualquer metafísica. na beata solidão dos intermundos. bem como o intelectual. depois acadêmico e. de tendência pirroniana.) . existem. em ordem cronológica. O estoicismo procura realizar a apatia ainda mediante uma metafísica positiva. O ceticismo clássico começa com Pirro de Elis (365-275 a. no período helenista e depois ainda. perturbados. encarnando na serenidade do mármore o ideal grego contemplativo e estético da vida. o objeto.C. incoerente. surge de novo na forma pirroniana com Enesidemo e Sexto Empírico. dada a natureza crítica do ceticismo. E. organismo especulativo. se nada é verdadeiro. característico . contemplados . É preciso venerá-los para imitá-los. um ecletismo estóico. a segunda afirma-se de modo original graças a Carnéades. mas pode ser alcançada unicamente negando o saber. da tese e da antítese. Então. O Período Ético (300 a. que implica sempre numa crítica. mesmo negativa.529 D. à destruição de todos os valores. proclamado ateu. proporcionam-lhe contudo o bem da elevação. Chega-se. enfim. como uma suma de elementos estóicos. Diz Argesilau: "Deus unicamente conhece a verdade.segundo ideal grego da vida . ideal que tem uma expressão concreta precisamente nas belas divindades do panteão helênico. faz uso da dialética eleática. a terceira. acadêmicos e também peripatéticos. E isto basta aos fins ético-empíricos dos ecléticos. O ecletismo apresenta-se como uma síntese prática ou. uma religião desinteressada. Substancialmente. teria praticado . Também o ecletismo. O advento de uma semelhante filosofia foi favorecido pela permanência e pela coexistência.como acontece nos períodos de decadência especulativa .constituídos de átomos etéreos. e sim o jus. melhor ainda. É o ecletismo filosofia de espíritos pragmáticos ou decadentes. embora imensamente inferior ao ceticismo. Através da mais absoluta indiferença. a grande metafísica platônico-aristotélica é posta de lado. procura-se realizar finalmente tão almejada paz. embora acriticamente. pois a filosofia é escolha. esvaziadas do seu conteúdo original. negando todo absoluto e transcendente.C. sorvendo ambrósia. Epicuro. construção. Ceticismo e Ecletismo O ceticismo apresenta-se mais coerente do que as escolas precedentes. O epicurismo tende a realizar o mesmo fim com uma metafísica negativa. nos espaços entre mundo e mundo. portanto. e também a opinião. feita de abstratas generalidades ou de particularidades secundárias. como o ceticismo. semelhantes e diversos ao mesmo tempo dos fins éticos-ascéticos dos céticos.

freqüentando por algum tempo várias escolas e mestres. ciências naturais. como julga Platão. que se chamou estóica. valor universal como a filosofia grega. de Atenas. No terceiro período do pensamento grego não se encontram mais alguns poucos e grandes pensadores. Finalmente. anuladas. menosprezando o grande desenvolvimento filosófico platônicoaristotélico. retorna-se à metafísica naturalista dos pré-socráticos. a filosofia torna-se uma preparação para a morte.ecletismo e estoicismo. como na idade moderna. à erudição e às ciências especiais que se desenvolvem. mas vastas orientações e escolas. A arte resolve-se no virtuosismo e na imitação.C. no mundo civilizado. e. Em seus escritos já se encontram a clássica divisão estóica da filosofia em lógica. stoá. Os dois últimos. este período toma o nome de helenismo. como na escola eclética. bem como na profunda tristeza dos tempos e na profunda sensibilidade diante do mal. da escola estóica. uma orientação moral. mais ou menos). helênica. Não filosofia teorética.. como no precedente. isto é. enfim exporemos o pensamento latino. porém. cínica e cirenaica. que lhe despertam o entusiasmo para com os estudos filosóficos. o helenismo. Em conclusão. do temor de além-túmulo.perdidos seus bens . por conseqüência. aí . um período recente ou religioso. em segundo lugar. bastante divergentes do estoicismo clássico. voltando-se para a sofística. mas afirmações dogmáticas. Seu pai. física e ética.Características Gerais O Estoicismo O Pensamento: A Gnosiologia e a Metafísica A Moral e a Política Características Gerais O terceiro período do pensamento grego abrange os três séculos que decorrem da morte de Aristóteles ao início da era vulgar. o qual. geografia. encontrando-a na renúncia ao mundo e à própria vida. em que a metafísica e moral são sincretistas. Iniciou. com relação às ciências especiais. consequentemente. E. Primeiramente (estoicismo e epicurismo). como opina Aristóteles. O interesse teorético. Trataremos. em contradição consigo mesma e com a moral. juntamente com a atividade didática. antes de tudo. pelo que diz respeito à filosofia. em que ainda há uma metafísica. restringem-se ao particular. e precisamente desse terceiro período . O primeiro valor dá o conteúdo. entre os quais o cínico Crates. Aos vinte e dois anos vai para Atenas. depois (ceticismo e ecletismo). não sistemas críticos. a de escritor. o estoicismo pode-se dividir em três períodos: um período antigo ou ético.Graecia capta ferum victorem cepit. em que a metafísica tem apenas uma função negativa. toda moral. Do contingente e do temporal. em terceiro lugar. O fundador da antiga escola estóica é Zenão de Citium (334-262 a. libertar o homem das preocupações transcendentais. e. bem como à moral das escolas socráticas menores. O Estoicismo Em seu conjunto. porquanto o interesse filosófico é voltado para os problemas morais. literatura. o homem volta-se para o transcendente e para o eterno. astronomia. mas filologia. o direito romano. Os motivos desta filosofia pragmatista devem ser procurados na decadência espiritual e moral da época. medicina. funda a sua escola. o segundo a forma . do lugar onde ele costumava ensinar: pórtico em grego. história. elementar. pelo ano 300. o vigor especulativo. . leva para ele. A grandeza verdadeira e original do pensamento latino é o jus. depende de cultura grega. a primazia da ética e a união de filosofia e vida. que procura na filosofia um conforto. a saber. em que não há mais metafísica alguma. Tudo isto torna dolorosa a vida do homem.dedica-se à filosofia. filosofia moral e moral prática. e anacrônica. significando a expansão da cultura grega. da escola cética. portanto. nem moral. matemática. mercador. a cultura helenista reduz-se à erudição e ao virtuosismo. Na história da civilização e da cultura. ao passo que a metafísica esmorece. desenvolve-se naturalmente a técnica. física. anula-se toda metafísica e. da escola epicuréia. o jus e a política dos romanos. um período médio ou eclético. ciência e técnica. na história da filosofia denomina-se período ético. e a sabedoria é desapego da ação. Nesta civilização cosmopolita encontram-se dois valores universais: o pensamento e a arte dos gregos. faltando ao homem interesse e a força para a especulação pura. uns tratados socráticos.

pois é movimento irracional. Tudo aquilo que não é virtude nem vício. morbo e vício da alma . pois. para firmar a virtude e. que se manifesta no mundo. o vício. que constituem os únicos bens verdadeiros: indiferença e renúncia à vida e à morte. no fundo. da metafísica e. e os estóicos não são filósofos. não obstante as repetidas e múltiplas declarações estóicas em louvor da razão. isto não se concilia. à saúde e à doença. pode tornar-se bem se for unido com a virtude. fornecer alguma base à sua ética do dever. diversamente de Aristóteles. O conhecimento intelectual nada mais pode ser que uma combinação. Como o bem absoluto e único é a virtude. todavia. acaba não sendo mais filosofia. O conceito. no fundo. E não tanto pelo dano que pode acarretar ao vicioso. o único bem do homem. por conseguinte. mas. Os estóicos dividem a lógica em dialética e retórica. donde derivam o desejo. surge pela influência de outras escolas e para responder às objeções dessas escolas. mas como uma missão e uma prática religiosa. metafísicos. logo. logo. e dar uma explicação à razão. ainda que se acabe por repudiá-lo como perturbador da indiferença. a tranqüilidade da alma. não é nem bem nem mal. No dizer dos estóicos. naturalmente. Podem-se. Devendo os estóicos. da autarquia do sábio. a tarefa essencial da filosofia é a solução do problema da vida. a indiferença e a renúncia a todos os bens do mundo que não dependem de nós. Na lógica trata-se da gnosiologia. mas sim uma turma bastante uniforme de pensadores medíocres. inteiramente absorvidos na prática. A virtude estóica é. a paixão. e cujo curso é fatalmente determinado. ao prazer e ao sofrimento . mal se for ligado ao vício. destino. . a virtude acaba por se tornar meio para a felicidade da tranqüilidade. Não obstante esse absorvente moralismo. mas a virtude. também da moral. O ideal ético estóico não é o domínio racional da paixão. providência. e sim como sendo ela própria um bem imediato.quer se trate de ódio. ordem são afirmados ao lado dos conceitos opostos de fado. porquanto é radicalmente materialista: se tudo é material. incoerentemente declaram racional o fogo . os estóicos distinguem na filosofia uma lógica. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica O estoicismo não apresenta o fenômeno de um grande filósofo. metafísica. quer se trate de piedade. o conhecimento parte dos dados imediatos do sentido. contraditória. o fim supremo. espírito. seguido por uma série de discípulos mais ou menos originais. é destruído. para dar lugar unicamente à razão: maravilhoso ideal de homem sem paixão. conforme a concepção de Heráclito. pois. para assegurar ao homem a felicidade. necessidade. às honras e à obscuridade. que devem ser aniquilados. Com o desenvolvimento do estoicismo. moralizadoras. da serenidade. Esta matéria está em perpétuo vir-aser. a alma. mas apenas indiferença. uma ética. a felicidade. agrupar na escola estóica nova ou religiosa os que entendiam absolutamente a filosofia. Por conseguinte. a independência interior. uma física. devem-se conceber materialisticamente também Deus. a emoção. como geralmente acontece. a dor. toda atividade é movimento. não é concebida como necessária condição para alcançar a felicidade.substância metafísica da realidade -.pois o prazer é julgado insana vaidade da alma. A Moral e a Política No pensamento dos estóicos. A mente humana é concebida como uma tabula rasa. e a lei desse princípio material só pode ser. uma complicação quantitativa de elementos sensíveis. moralistas. em especial no homem. a autarquia. as propriedades das coisas. mas pragmatistas. a filosofia é cultivada exclusivamente em vista da moral. A metafísica estóica reduz-se à física. imaginam-no como espírito ordenador. amiúde apresentando-se como a filosofia dos não filósofos que têm pretensões filosóficas. à maneira de Demócrito. todavia. indiferença e renúncia a tudo. mecanicismo. que nasce da virtude negativa da apatia. uma emoção. Como em Aristóteles. Como se vê. rigoristas. que anda como um deus entre os homens. da serenidade. a física iguala a metafísica. A paixão. a sabedoria. como o Sol faz brotar da semente a planta. razão da vida. como a filosofia estóica chega a ser substancialmente pragmatista e. pois. fazendo emergir todas as qualidades da matéria. isto é. não é o prazer. Entende-se. atribuem-lhe arbitrariamente os atributos divinos da sabedoria e da providência. sacerdotal. da indiferença universal. inclusive da política e da religião. Dada a indiferença estóica do suicídio como voluntário e moral afastamento do mundo. E compreende-se o seu vasto êxito em todos os tempos. quanto pela sua irracionalidade e desordem intrínseca. assim o mal único e absoluto é o vício. ao repouso e à fadiga. seguindo-se o aniquilamento da ciência. De tal forma. mas a sua destruição total. não como ciência. na filosofia estóica. A felicidade do homem virtuoso é a libertação de toda perturbação. é sempre e substancialmente má. uma necessidade mecânica. há o vício quando à indiferença se ajunta a paixão. à riqueza e à pobreza. em outras palavras. na ética. a metafísica dos estóicos é uma metafísica elementar. o conhecimento é limitado ao âmbito dos sentidos. em correspondência com o discurso interior e exterior. segundo uma ordem teológica. uma tendência irracional. Deus. salvo e pensamento. numa palavra. o estoicismo. a virtude. a única atitude do sábio estóico deve ser o aniquilamento da paixão. a ética é o fim último e único de toda a filosofia. decadente.A escola estóica média ou eclética. Daí a guerra justificada do estoicismo contra o sentimento. até a apatia.

conceitos que deveriam ser deduzidos da natureza racional do homem. salvo o seu pensamento cujo conteúdo é. porque. Com efeito. pois no sistema estóico. com a virtude da fortaleza que o estoicismo reconhece e louva. Não Deus. a serenidade. Pelo que diz respeito à política. a paz. que existe. os estrangeiros e os inimigos. em definitivo. nada lhe acontece que não seja por ele querido. não lhe resta efetivamente mais nada. como precisamente afirmam os estóicos. pois sabe que tudo é efeito de um determinismo universal. Diz o estóico Musônio: "O mundo é a pátria comum de todos os homens". sentimento este inteiramente desconhecido ao mundo antigo. Mas é uma virtude absolutamente negativa. de direito natural. até para os infelizes e os escravos. supremo. O sábio é beato. esta mesma renúncia -. em virtude da doutrina que afirma a identidade da natureza humana. de perdão.porém. porém. de uma dura virtude. de lei racional. a apatia dos estóicos seria. A serenidade. sem saudades e sem esperanças. é uma pura palavra. onde campeia solitária uma justiça. Destarte. apenas para os concidadãos. em civilização humana e moral. clássico. e nem se pode explicar racionalmente o suicídio. A sabedoria estóica é ação negadora da expansão das forças espirituais. a que os estóicos não podem fornecer uma base racional e metafísica. O estóico pratica esta indiferença e renúncia para não ser perturbado. Abre-se caminho a um sentimento de caridade. Tal cosmopolitismo foi fecundo em progresso. que são o verdadeiro. de tal maneira. fruto de uma fatigosa conquista. esse cosmopolitismo. destinada a resolver-se na matéria. promove todavia os conceitos de sociedade universal. único bem da alma. e se conforma com o demais. não a alma. magoado pela possível e freqüente carência dos bens terrenos. morte moral. torna-se cosmopolita por natureza. inteiramente fechado na sua torre de marfim. o sossego. quando o homem se torna indiferente a tudo. . e a tudo renuncia. se a ordem do universo é racional. sem dúvida. manifesta-se na filosofia estóica um racionalismo cosmopolita radical a propósito da sociedade estatal: o homem. e para não perder. livres e íntegros. E até começam a nascer instituições caritativas para com os pobres e os doentes. político por natureza. virtude corrosiva.

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