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UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA

A clínica psicanalítica na contemporaneidade

Rio de Janeiro
17 de outubro 2008
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UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA

A CLÍNICA PSICANALÍTICA NA CONTEMPORANEIDADE

TATIANA SILVERA PORTO CAMPOS

Dissertação apresentada ao
Mestrado Profissional em
Psicanálise, Saúde e Sociedade
da Universidade Veiga de Almeida,
como requisito ao título de Mestre.
Área de concentração: Subjetividade
nas práticas da Ciência da Saúde

ORIENTADOR: Profa. Dra. Betty Bernardo Fuks.

Rio de Janeiro
17 de outubro 2008
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UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA

SISTEMA DE BIBLIOTECAS
Rua Ibituruna, 108 – Maracanã
20271-020 – Rio de Janeiro – RJ
Tel.: (21) 2574-8845 Fax.: (21) 2574-8891

FICHA CATALOGRÁFICA

B238p Porto Campos, Tatiana Silvera

A clínica psicanalítica na contemporaneidade / Tatiana Silvera


Porto Campos, 2008.

99p. ; 30 cm.

Dissertação (Mestrado) – Universidade Veiga de Almeida,


Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade,
Subjetividade nas Práticas das Ciências da Saúde, Rio de

Janeiro, 2008.

Orientação: Betty Bernardo Fuks

1. Anorexia-bulimia. 2. Clínica psicanalítica.


3. Contemporaneidade. 4. Patologias atuais.
Betty B. Fuks. II. Universidade Veiga de Almeida,
Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade,
Subjetividade nas Práticas das Ciências da Saúde l. III. Título.
CDD – 364.15554
Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Setorial Tijucal/UVA
4

A minha avó Thaís.


Aos meus amores Carlos, João Pedro, Miguel e Frederico.
5

AGRADECIMENTOS

De início, gostaria de agradecer a Betty Bernardo Fuks que me acompanhou com entusiasmo
e seriedade ao longo deste percurso. Por seu profissionalismo, rigor, atenção e respeito. E por
ser um exemplo de inteligência e pensamento produtivo. A expressão deste agradecimento
não é capaz de alcançar toda a gratidão por sua generosidade e carinho.

Às minhas amigas e companheiras de mestrado pela convivência, troca de idéias, estímulo e


confiança. Em especial, Gabriela Barbosa, Gabriela Abreu, Bárbara Caríssimi, Marisa
Siggelkow Guimarães e Ana Augusta Lucchezi.

A todos os professores do mestrado por sua inúmera e variada contribuição.

À secretária, Elaine, pela dedicação, carinho e bom humor.

À minha mãe pelo apoio, pelas conversas e pela leitura cuidadosa.

Agradeço a meus pais por tudo, e principalmente por terem me transmitido o gosto pela arte,
pelos estudos e leitura.

Ao meu marido e companheiro pelo compartilhamento da vida, e por seu apoio e incentivo
nesse trajeto acadêmico.

A meus filhos por suas presenças radiantes.


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RESUMO

A partir da perspectiva inaugurada por Freud ao estabelecer a relação intrínseca entre o


conceito de inconsciente e cultura, realizamos uma análise da praxis psicanalítica na
contemporaneidade. O nosso principal objeto de pesquisa foram os quadros de sofrimento
reconhecidos por sua crescente incidência na clínica hoje. Durante esta investigação, nossa
atenção recaiu sobre as teorizações freudianas a respeito das neuroses atuais, por nos
apercebermos de semelhanças significativas com essas patologias descritas como
contemporâneas. Porém, as neuroses atuais desde Freud são consideradas como casos
extremamente difíceis de tratar através da psicanálise por suas diferenças em relação às
psiconeuroses de defesa. Recorremos ao ensino de Lacan, especialmente ao conceito de gozo
e suas decorrências na clínica, com o intuito de embasar as análises e propostas clínicas
evocadas nesta pesquisa. Uma vez instrumentalizados por esses estudos e teorizações,
dedicamos dois capítulos à prática clínica na contemporaneidade. Com a finalidade de
provocar reflexões sobre a possibilidade de tratamento psicanalítico para esses quadros
clínicos, elegemos o par anorexia-bulimia, um dos exemplos paradigmáticos de sofrimento na
contemporaneidade.
Palavras-chave: psicanálise; contemporaneidade; neuroses atuais; anorexia-bulimia.

ABSTRACT

With basis on the Freudian perspective that established an intrinsic relationship between the
concept of unconscious and culture, this study analyzes the psychoanalytic praxis in
contemporaneity. Our main objects of research were certain clinical manifestations of distress
that are widely recognized for their increasing incidence in clinical practice today.
Throughout this investigation, our attention was drawn towards the Freudian theories on
actual neurosis, once significant similarities were perceived between these and the pathologies
currently described as contemporary. However, according to the Freudian theory, the actual
neuroses are seen as conditions that are extremely difficult to treat through psychoanalysis
due to their differences when compared to the neuroses of defense. The teachings of Lacan
were resorted to, especially the concept of jouissance and its clinical consequences, with the
intent of giving base to the analyses and clinical propositions evoked in this study.Using these
studies and theories as tools, two chapters are dedicated to the discussion of clinical practice
in contemporaneity. With the purpose of provoking reflections about the possibilities of
psychoanalytic treatment for these clinical manifestations, the anorexia/bulimia pairing was
elected as a paradigmatic example of distress in contemporaneity.
Keywords: psychoanalysis, contemporaneity, actual neurosis, anorexia-bulimia
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BANCA EXAMINADORA:

Orientadora: Professora Betty Bernardo Fuks


Doutora em Comunicação e Cultura – ECO-UFRJ

Professora Marylink Kupferberg


Doutora em Psicologia – PUC-RJ

Professora Vera Maria Pollo


Doutora em Psicologia – PUC-RJ

Suplente:

_________________________________________
Professora Maria Anita Carneiro Ribeiro
Pós-doutorado em Psicologia – PUC-RJ

Defendida em 17 de outubro de 2008.

Aprovada com louvor, indicada para publicação e indicada para o Doutorado.


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SUMÁRIO

Introdução, p. 10
Capítulo 1. O psicanalista, um crítico da cultura, p. 13
1.1. Modernidade e modernismo, p. 13
1.2. Uma controvérsia atual: modernidade ou pós-modernidade?, p. 15
1.3 A contemporaneidade, p. 19

Capítulo 2: A psicanálise na contemporaneidade, p. 24


2.1 Pela defesa da psicanálise, p. 24
2.2 A contemporaneidade como desafio à psicanálise, p. 29
2.3 Fenômenos psíquicos da atualidade, p. 31

Capítulo 3: Para destacar as neuroses atuais das psiconeuroses de defesa, p. 41


3.1 As neuroses atuais, p. 41
3.2 Neurose de angústia e neurastenia, p. 45
3.3 O gozo, p. 52

Capítulo 4: A clínica das neuroses reais, p. 60


4.1. Neurose real, angústia e real, p. 60
4.2. Transferência, fantasia e auto-erotismo na clínica das neuroses reais, p. 64
4.3. O Livro de Cabeceira, p. 70

Capítulo 5: Anorexia-bulimia: paradigma de neurose real na contemporaneidade, p. 75


5.1 Anorexia-bulimia como duas faces do mesmo pathos, p. 75
5.2. Anorexia-bulimia: pathos do vazio, p. 80
5.3. O Ideal do corpo magro e seu lugar na fantasia, p. 85
5.4. Anorexia e feminino, p. 89
5.5. Anorexia-bulimia e o fazer do analista, p. 92
Considerações Finais, p. 96
Referências, p. 100
ANEXO A, p. 103
9

O Real não é uma espécie de ponto central intocável, sobre o qual não se
possa fazer nada além de simbolizá-lo em termos diferentes. Não. A idéia de
Lacan é que se pode intervir no Real. A dimensão fundamental da
psicanálise, para Lacan, pelo menos o Lacan da maturidade, já não é da
simples ressimbolização, mas a de que algo de fato acontece. Ocorre uma
verdadeira mudança na psicanálise quando sua forma fundamental de
jouissance [gozo], que é justamente a sua dimensão real como sujeito, se
modifica. Portanto, a aposta básica da psicanálise é que você pode fazer
coisas com as palavras, coisas reais, que lhe permitem mudar os modos de
gozo, e assim por diante.
Zizek, Arriscar o impossível.
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1. Introdução

Questões decorrentes da prática na clínica psicanalítica me levaram a ingressar no


mestrado, e ao desenvolvimento desta investigação. As indagações dizem respeito a casos de
anorexia, bulimia, depressão, toxicomanias e síndrome do pânico, por mim atendidos.
Pudemos constatar traços comuns dentre estes quadros que os distinguem dos demais. Os
pacientes descreviam seus males através de um discurso distanciado, sem implicação,
esvaziado de emoção, sem relevos, em um encadeamento monótono. A falta de historicidade1
em seus relatos chamou a atenção como indicativa de uma debilidade na função simbólica,
além de exprimir uma maneira atípica de resistência à entrada em análise.
Esta situação direcionou perguntas, que consideramos linhas de condução desta
pesquisa: até que ponto este discurso esvaziado delata certo apagamento do desejo? Qual a
leitura da psicanálise para esses casos que se apresentam de forma distinta das psiconeuroses?
Podemos considerar que se trata de sintomas no sentido de uma formação do inconsciente,
que é oferecido como enigma a ser decifrado? Ou deveríamos circunscrever essas
manifestações no que se conhece como excesso de gozo pulsional? E ainda, qual é a relação
entre esses quadros de sofrimento e a cultura contemporânea uma vez que se tornam cada vez
mais frequentes na atualidade?
A frequência crescente dessas manifestações na atualidade leva a que sejam entendidas
como novas. Apesar de sua incidência, tais patologias não constituem novidade. Há registros
dessas manifestações clínicas que datam do século XVIII. No que diz respeito à psicanálise,
encontramos uma descrição muito próxima no modelo das “neuroses atuais”, proposto por
Freud em 1896 e elaborado ao longo de sua obra. Esta aproximação será aprofundada no
terceiro capítulo desta dissertação. Arriscaríamos antecipar, então, que o que está relacionado
à cultura contemporânea é mais o aumento e menos o aparecimento dessas manifestações
clínicas.
Estes fenômenos clínicos não serão entendidos aqui como uma estrutura, portanto,
podem estar presentes na neurose, psicose ou perversão. Nesta dissertação iremos nos ater à
neurose, por sua prevalência em minha prática clínica e para respeitarmos as limitações
impostas por este estudo. Interrogados pela dificuldade de entrada em análise, apresentada por

1
Segundo encontra-se em Houaiss: 1 qualidade ou condição do que é histórico; historicismo 2 PSIC conjunto
dos fatores que constituem a história de uma pessoa e que condicionam seu comportamento em uma dada
situação.
11

esses pacientes, objetivamos construir, baseados nos autores selecionados, uma abordagem
teórica desses fenômenos clínicos que nos auxilie a viabilizar o tratamento.
A sociedade de consumo e a lógica capitalista excluem as diferenças, via régia da
subjetividade. Prometem felicidade àquele que seguir suas normas, através das quais, se vê
forçado a gozar daquilo que não tem utilidade. Destituído de sua singularidade, o sujeito se
encontra submerso no imperativo da igualdade, sem espaço para as diferenças, compelido ao
tamponamento compulsivo da falta, promovido pelo discurso da complementaridade no lugar
da falta. A sociedade de consumo veicula a proposta de corresponder à demanda de
completude e saber absolutos, obstruindo assim a emergência do desejo.
Freud demonstrou a existência de um elo constitutivo entre cultura e inconsciente.
Lacan (1958), em seu retorno ao texto freudiano, introduziu o conceito de Outro, demarcou o
campo Simbólico e afirmou que o inconsciente é o discurso do Outro. A partir desta
abordagem, diz:

Que antes renuncie a isso (exercer a psicanálise), portanto, quem não


conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época. Que o
(analista) conheça bem a espiral a que o arrasta sua época na obra contínua
de Babel, e que conheça sua função de intérprete na discórdia das línguas
(Lacan, 1953, p.322).

Seguindo estes preceitos, elegemos o par anorexia-bulimia como um dos objetos de


estudo nesta pesquisa, por percebê-lo como um dos sofrimentos paradigmáticos no contexto
da cultura contemporânea. Mas também e, principalmente, com o objetivo de ressaltar a
perspectiva da psicanálise como contribuição à ciência. Sob o diagnóstico de distúrbios
alimentares – anorexia e bulimia – são consideradas pelo discurso científico patologias que só
devem ser tratadas através de abordagem cognitivista-comportamental e medicamentosa. O
tratamento psicanalítico para esses casos significa, então, abrir uma via de acolhimento ao
sujeito do inconsciente ali onde a ciência só tem reforçado sua exclusão. Um dos propósitos
desta dissertação é evidenciar que se faz necessária a sistematização de uma proposta de
tratamento psicanalítico para essas patologias.
No primeiro capitulo, ressaltaremos a relação intrínseca, estabelecida por Freud, entre
o conceito de inconsciente e a cultura. Para tanto, percorreremos alguns textos de Freud,
Lacan, e outros autores que vêm se debruçando sobre esses temas: Fuks (2000; 2003); Birman
(2006); Bauman (2000); Mousnier (1957); Debord ([1967] 2006).
No segundo capítulo, faremos uma análise da clínica psicanalítica na
contemporaneidade, no que diz respeito aos referidos quadros de sofrimento. Para nos auxiliar
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acerca das questões levantadas, evocaremos alguns autores do campo psicanalítico, que têm
se dedicado ao estudo desta temática: Roudinesco (2000); Kehl (2005); Birman (1999; 2006);
Sauret (2005); Recalcati (2004a, 2004b).
O terceiro capítulo será dedicado às teorizações de Freud, no que dizem respeito às
neuroses atuais, por termos encontrado aí semelhanças significativas com o que observamos
na clínica na contemporaneidade. Daremos atenção ao conceito de transferência, uma vez que
se trata de um operador clínico exclusivo da psicanálise, e ao conceito de gozo desenvolvido
por Lacan, embasamento fundamental para as questões apresentadas nesta pesquisa. Para isto,
recorreremos às obras de Freud, Lacan; Carneiro Ribeiro (2001); Recalcati (2004a); Dunker
(2002); Braunstein (2007); Vallas (2001); Fink (1998); Rabinovich (2004); Goldemberg
(2002).
O quarto capítulo tratará da prática clínica. Teceremos considerações acerca da
maquete subjetiva do sujeito contemporâneo, com a finalidade de provocar reflexões sobre a
possibilidade de tratamento psicanalítico dos referidos quadros. À guisa de ilustração, será
utilizado o filme “O Livro de Cabeceira”, de Peter Greenway (1996). Para nos acompanhar
nessa tarefa, invocaremos Freud, Lacan e ainda os seguintes autores: Fuks (2001); Rabinovich
(2004); Dunker (2002).
O quinto e último capítulo se voltará especificamente à clínica da anorexia-bulimia
que elegemos como um dos exemplos paradigmáticos do sofrimento na contemporaneidade.
Buscamos apresentar abordagem psicanalítica e proposta de tratamento clínico. Nesse
capítulo recorreremos aos trabalhos de Freud; Lacan; Sauret (2005); Pollo (2003); Recalcati
(2004a); Rabinovich (2004).
Ao longo de toda a dissertação estará presente uma preocupação em demonstrar a
perenidade da eficácia da psicanálise nos dias atuais.
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Capítulo 1. Psicanalista, um crítico da cultura

1.1. Inconsciente e cultura

Neste capítulo, de acordo com Freud e Lacan, propomos demonstrar a necessidade de


que cada analista abrace a função de crítico da cultura que testemunha.
Desde o século XIX, vinham ocorrendo debates filosóficos e políticos sobre a
oposição cultura e civilização. Freud se colocou fora destes debates, uma vez que, para ele,
estas duas dimensões da vida social eram articuladas entre si. Segundo Fuks (2003), para
Freud, a cultura é a:

[...] interioridade de uma situação individual – manifesta nos impulsos que


vêm desde dentro do sujeito – e a exterioridade de um código universal,
subjacente aos processos de subjetivação e aos outros regulamentos das
ações do sujeito com o outro (Fuks, 2003, p.10).

Do ponto de vista formal, Freud escreveu mais diretamente sobre cultura nos textos
tardios de sua obra. Porém, desde o início, podemos destacar a presença do tema em seus
escritos, como em Projeto para uma psicologia científica (1895), através do “Nebenmensch”
(termo traduzido por complexo do semelhante ou assistência alheia, p.422). Defendeu a idéia
de que o primeiro semelhante com o qual o ser humano se relaciona, que vem em seu socorro,
atende seu primeiro grito, permitindo que sobreviva (em geral, a mãe), inaugura sua
existência. O homem nasce desamparado e seu desamparo não é apenas biológico; o grito do
bebê também apela por sentido para a angústia que sente. Assim, este primeiro semelhante
não só atende como significa e nomeia as necessidades vitais, servindo de referência. Auxilia,
permitindo ao pequeno ser julgar e reconhecer os mundos interno e externo, habilitando-o ao
domínio da linguagem. Como nesse momento o bebê não possui discernimento algum, seu
primeiro objeto é de satisfação ao mesmo tempo em que é hostil, fonte da experiência mítica
de satisfação e prazer, que condena o homem à sua busca incessante, e também, uma presença
estranha e ameaçadora (Fuks, 2003).
Lacan (1949) sugeriu que o bebê antecipa, no plano imaginário, sua unidade corporal,
identificando-se com a imagem do semelhante – estágio do espelho. Porém, para que este
processo de constituição do eu se dê, é necessário o reconhecimento simbólico do Outro. O
Outro - conceito lacaniano - designa o registro do Simbólico, a linguagem, a cultura. Com o
14

estágio do espelho, Lacan reitera o sentido fundamental que Freud imprimiu ao demarcar o
surgimento do sujeito em sua dependência do semelhante e da linguagem – ou, do Outro.
Freud, em sua obra, assinala outro paradoxo intrínseco a essa relação do sujeito com o
Outro. A mãe – ao ocupar o lugar do Outro e representar a cultura – exerce a função de
erotizar a criança, acordando-a para vida, despertando seus desejos, para em seguida, reprimi-
la. É através das intervenções da educação, fundamental para a convivência humana, que se
vai impondo limites às realizações das pulsões eróticas e agressivas. Nas palavras de Freud:

A relação de uma criança com quem quer que seja responsável por seu
cuidado proporciona-lhe uma fonte infindável de excitação sexual e de
satisfação de suas zonas erógenas. Isto é especialmente verdadeiro, já que a
pessoa que cuida dela, que afinal de contas, em geral é a sua mãe, olha-a ela
mesma com sentimentos que se originam de sua própria vida sexual [...]
claramente a trata como um substitutivo de um objeto sexual completo. Uma
mãe ficaria horrorizada se lhe fosse dito que todos os seus sinais de afeição
estavam despertando as pulsões sexuais do filho e preparando-as para sua
intensidade ulterior. [...] O que chamamos afeição infalivelmente mostrará
seus efeitos, um dia também, nas zonas genitais. Além disso, se a mãe
entendesse mais da alta importância do papel desempenhado pelas pulsões
na vida mental como um todo – em todas as suas realizações éticas e
psíquicas – ela se pouparia quaisquer autocensuras mesmo após ser
esclarecida. Ela está apenas cumprindo o seu dever de ensinar o filho a amar
(Freud, 1905, p. 229).

Em 1920, Freud escreve Além do princípio de prazer e reformula sua teoria das
pulsões, introduzindo o conceito de pulsão de morte que opôs às pulsões de vida. A tese
freudiana de que o aparelho psíquico tem dois princípios reguladores: a busca de prazer e a
evitação de desprazer, já não era mais suficiente diante dos impasses que a clínica colocava.
Segundo Lacan, foi a percepção de um gozo pulsional no cerne do sintoma, um prazer na dor,
ou seja, no próprio desprazer, que chamou a atenção de Freud. O conceito de pulsão de morte
foi elaborado a partir da compulsão a repetir, da reação terapêutica negativa (como forma
radical de resistência ao tratamento), do sentimento inconsciente de culpa, dos ganhos
primário e secundário, relativos ao sintoma. Assim, nasceu a segunda tópica freudiana.
Nela formulou do supereu: instância proibitiva que representa a internalização da
cultura e das leis - função de censura - e ao mesmo tempo, tem sua raiz no id – reservatório
das pulsões. Paradoxal, o supereu é um duplo comando inconsciente, impossível de se
cumprir: “Você deveria ser assim (como seu pai)!” e “Você não pode ser assim (como seu
pai)!” (Freud, 1923, p.49). Ao mesmo tempo em que regula o desejo, viabiliza e mantém o
laço social, sendo igualmente responsável pelo sentimento de culpa. Quanto mais se renuncia
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ao desejo, maior é a culpa, mais cruel e exigente é o supereu. Esta instância acumula ainda a
característica de dentro e fora, de estranho e familiar, uma vez que é interno, íntimo,
originário e, simultaneamente, representante do Outro, da cultura, efeito do ato de civilizar.
De um modo geral, podemos dizer que desamparo, estranheza e angústia são noções que
acompanham a apreensão que a psicanálise dá aos mais diversos processos do sujeito e da
cultura (Fuks, 2003).
Ao contradizer a repartição entre psicologia individual e coletiva, sustentada pela
psicologia clássica, Freud inaugura uma nova maneira de conceber o indivíduo e seu contexto.
A partir de sua prática clínica, passou a considerar as relações que um indivíduo tem com o
outro como um fenômeno social, reconhecendo este outro como peça fundamental na
constituição da subjetividade, uma vez que acumula a função de transmitir a cultura e a
linguagem que o determina simbolicamente. No que diz respeito às experiências no campo
coletivo, Freud (1929) afirma que o indivíduo irá se posicionar de acordo com as leis que o
marcam.
Porém, Freud chama a atenção para o cuidado que se deve ter para não se recair no
equívoco de fazer uso de interpretações psicanalíticas selvagens e nem contribuir para a
divulgação de jargões e estereótipos da psicanálise. Para isso, é necessário manter o vínculo e
a direção da experiência clínica, que sempre foi o suporte do saber psicanalítico e de sua
transmissão. É de onde partimos e para onde endereçamos todo nosso trabalho e pesquisa.
A partir desta perspectiva propomos pensar impasses que têm surgido na clínica
contemporânea, em sua relação com a cultura.

1.2. Modernidade e modernismo 2

Para pensarmos a cultura contemporânea iniciaremos com a contextualização do


surgimento da própria psicanálise recorrendo à História e à Filosofia.
Do ponto de vista da História, a modernidade se inicia em torno dos séculos XV e
XVII. Caracteriza-se por ser uma nova visão que se contrapõe ao ponto de vista medieval.
Essa nova perspectiva de mundo é decorrente do desenvolvimento da economia mercantilista,
do descobrimento do Novo Mundo e das grandes navegações. Decorrente também da reforma
protestante e das novas teorias científicas no campo da física e da astronomia, entre as quais,

2
Foram utilizados para esta pesquisa os livros: FREDERICK. O moderno e o modernismo, 1988; FUKS. Freud
e a judeidade: a vocação do exílio, 2000. MARCONDES; JUPIASSÚ. Dicionário básico de filosofia, 1996, e
ainda anotações das aulas ministradas em 17 e 26 de ag /2007, no curso: Movimento Psicanalítico, (mestrado em
Psicanálise, Saúde e Sociedade), Universidade Veiga de Almeida, Campus Tijuca, Rio de Janeiro.
16

destacamos as de Galileu e Copérnico. Para as Artes, o Renascimento marca o surgimento da


modernidade, contrapondo-se ao espírito medieval e à escolástica. Para a Filosofia, considera-
se que a modernidade inicia com Descartes e Francis Bacon.
Antes da era moderna, a noção de indivíduo não era consistente, o homem vivia em
comunidade e nela tinha suas referências; sua participação, atividade, a inscrição no grupo a
que pertencia era o que o definia. O destino humano estava submisso às leis divinas e da
natureza. As instituições, a hierarquia, o sistema e a aceitação dos dogmas e verdades
estabelecidas caracterizavam a ordem social medieval. Já o pensamento moderno valoriza o
indivíduo, a consciência, a subjetividade, a experiência e a atividade crítica. Neste sentido,
identifica-se modernidade à idéia de progresso e ruptura com o passado. É a era da razão
científica em oposição ao mundo do divino e da natureza.
Com essa mudança, o indivíduo sofre um deslocamento para o centro do universo e o
discurso da ciência passa a ocupar a posição de produção e agenciamento da verdade,
substituindo progressivamente os discursos filosófico e teológico; a tecnologia transforma-se
no principal instrumento do exercício do saber sobre o humano. Uma vez que a razão
científica proporcionou ao homem autonomia diante da natureza e do mundo divino, a ciência
adquiriu o poder, praticamente exclusivo, de determinar a veracidade dos enunciados e dos
juízos.
Em torno de 1870, surge um movimento crítico à modernidade: o modernismo.
Fundamentado por peculiaridades referidas a cada lugar em que se desenvolveu,
caracterizava-se distintamente em cada região aonde surgia. Por exemplo, o modernismo
brasileiro diferenciava-se do vienense, ou do surgido em Paris, Praga, Berlim, e era possível
localizar as variadas diferenças em cada um deles. O que havia de constante no modernismo,
como movimento, era a crítica ao reino da razão e do eu, engendrado pela modernidade, que
questionava sua veracidade, além do desafio à autoridade e ao status quo.
O modernismo, caracterizado pela preocupação em inovar, para a literatura, trouxe
novas vozes, novos artifícios, novas formas narrativas, uma nova linguagem. Nas artes
plásticas, as cores traziam novidade, também foram desenvolvidas novas maneiras de
utilização da tela, do espaço, do vazio, dando origem a novos arranjos estéticos. Na música,
novos sons, novas progressões, novas sequências harmônicas.
Foi neste contexto que nasceu a psicanálise. Após descentrar o homem de si mesmo, a
disciplina freudiana passou a se configurar, segundo seu próprio criador, na terceira ferida
narcísica sofrida pela humanidade. Dessa forma, golpeia contundentemente a ilusão da
identidade entre consciência e psiquismo. Mas, em Viena, onde se originou a psicanálise, o
17

modernismo teve uma característica própria, que surtiu efeitos na obra de Freud. Na cidade
natal da psicanálise o ataque à autoridade, ao pai (do patriarcado) era particularmente penoso.
Havia ali um reconhecimento da autoridade dos antigos, uma valorização das tradições, que
instalou um sentimento de lamentação, de decadência, contra o qual se deveria reagir, uma
sensação de desabamento, de um futuro vago.
Sobre isto, Lacan (1938) assinalou que no decorrer de sua obra, principalmente no que
diz respeito à conceituação do complexo de Édipo e suas decorrências, Freud já demonstrava
uma preocupação com o “declínio social da imago paterna”:

Qualquer que seja seu futuro, esse declínio constitui uma crise
psicológica. Talvez seja a essa crise que se deve relacionar o
aparecimento da própria psicanálise. Apenas o sublime acaso do gênio
talvez não explique que tenha sido em Viena – então centro de um Estado
que era o melting-pot das formas familiares mais diversas, das mais
arcaicas às mais evoluídas, dos últimos agrupamentos agnáticos dos
camponeses eslavos às formas mais reduzidas do lar pequeno-burguês e
às formas mais decadentes do casal instável, passando pelos
paternalismos feudais e mercantis – que um filho do patriarcado judeu
tenha imaginado o complexo de Édipo. Seja como for, são as formas de
neurose dominantes no final do último século que revelaram que elas
estavam intimamente dependentes das condições da família (Lacan, 1938,
p.60).

A questão da permanência da modernidade ou não caracteriza uma controvérsia


contemporânea. São múltiplas as definições e caracterizações da modernidade, enunciadas
ultimamente, como problemática de ordem filosófica, histórica, política, social e estética.
Apesar de existirem exceções, de uma maneira geral, os analistas sociais se dividem em dois
posicionamentos principais: a corrente norte-americana defende que a modernidade acabou e
considera estarmos vivendo na pós-modernidade, ou pelo menos, na construção do mundo
pós-moderno; a corrente européia supõe que o que vivemos na contemporaneidade é
consequência de uma radicalização do projeto da modernidade, e apesar das diferenças
existentes, se compararmos os dias de hoje a seu início, ainda são mantidos os mesmos
pressupostos.
As diferenças existentes entre essas correntes estão associadas não somente às origens
históricas da modernidade, mas também aos seus desdobramentos na atualidade. Se a
modernidade foi construída na Europa, logo, defender sua extensão aos dias de hoje significa
reforçar e manter a influência européia, e seu lugar em escala mundial. Por outro lado, os
norte-americanos preferem utilizar o conceito de pós-modernidade para descrever os novos
tempos, justamente para afirmar que a influência e a hegemonia européias se tornaram
18

passado, junto com a modernidade. Os americanos enfatizam a ruptura crucial no projeto da


modernidade e a construção da pós-modernidade de maneira que sua hegemonia absoluta não
se restrinja mais aos pontos de vista econômico e político, mas que fique claro que agora o
american way of life é o estilo de vida da atualidade.
Um dos analistas sociais mais representativos na discussão dessas questões é o
sociólogo polonês Zygmunt Bauman3. Nasceu em 1925 e aos 14 anos, foi para Rússia com a
finalidade de escapar do holocausto, durante a Segunda Guerra Mundial. Retornou à Polônia,
após o fim da guerra, quando, então, se filiou ao partido comunista e ingressou na
Universidade de Varsóvia. Foi ali que construiu sua carreira como professor. Permaneceu lá
até surgir uma nova onda de anti-semitismo que o forçou ao exílio novamente. Após três anos
em Israel, assumiu o departamento de sociologia na Universidade de Leeds, na Inglaterra,
aonde reside, até hoje.
Bauman é um dos autores mais produtivos e renomados no campo da sociologia. Uma
das características de seu estilo é a escolha por temas abrangentes e variados: holocausto,
globalização, sociedade de consumo, amor, comunidade, individualidade são alguns
exemplos. Direciona sua análise para a vida cotidiana de homens e mulheres comuns, sempre
dando ênfase à dimensão ética e humanitária que, segundo ele, deve nortear tudo o que diz
respeito à condição humana. Bauman é uma das vozes a questionar, continuamente, a ação
dos governos neoliberais, que em sua concepção, promovem e estimulam as forças do
mercado, ao mesmo tempo em que renunciam ao dever de gerir justiça social.
Os termos pós-moderno e pós-modernidade aparecem em títulos de quatro de seus
livros. Por essa razão, Bauman foi considerado como um dos autores que defende a idéia de
que uma mudança cultural e social, suficientemente grande, ocorreu e que devemos admitir já
estarmos presenciando um novo período da história. Porém, em uma entrevista concedida à
professora brasileira, Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke4, o próprio Bauman esclareceu que
não gosta de ser enquadrado em nenhuma corrente, e por isso, cunhou os termos
“modernidade sólida” e “modernidade líquida” (p.4) para evitar algumas confusões. Diz que
seu interesse tem sido compreender o tipo de sociedade que vem surgindo, mas considera que
esta ainda se mantém eminentemente moderna em suas ambições e em seu modus operandi.
A distinção fundamental entre modernidade sólida e líquida é que esta última se
encontra desprovida das antigas ilusões de que os objetivos a serem alcançados, estavam logo

3
BAUMAN apud PALLARES-BURKE, M. L. Garcia. Folha de São Paulo, São Paulo, 19 out. 2003.
4
Professora aposentada da Faculdade de Educação da USP e pesquisadora associada do Center of
Latin American Studies, Universidade de Cambridge.
19

adiante. Diferentemente da sociedade moderna anterior - modernidade sólida - que


desconstruía a realidade herdada com intenção de torná-la melhor e sólida novamente, a
sociedade atual – modernidade líquida - carece da perspectiva de longa duração. Atualmente
tudo está sendo constantemente desmontado e sem perspectiva alguma de permanência - tudo
é temporário.
É nesse sentido que Bauman (2000), em seu livro Modernidade líquida, sugere a
metáfora da liquidez para caracterizar o estado da sociedade atual: “[...] como os líquidos, ela
caracteriza-se pela incapacidade de manter a forma. Nossas instituições, quadros de
referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se
solidificar em costumes, hábitos e verdades ‘auto-evidentes’” (2003, p.4). Reconhece que
Marx e Engels já apontavam para o caráter desenraizador, presente na vida moderna. Porém,
enquanto antigamente isso era feito para ser enraizado outra vez, na atualidade tudo -
empregos, relacionamentos, e mesmo o saber - tende a permanecer em fluxo, volátil,
desregulado e flexível.
Portanto, para Bauman, a era em que vivemos se caracteriza, não por quebrar as
rotinas e subverter as tradições, e sim por evitar que padrões de conduta se congelem em
rotinas e tradições. Seu interesse, então, é por ele definido como o de tentar compreender
quais as consequências dessa situação para a lógica do indivíduo, para seu cotidiano, pois
considera que virtualmente todos os aspectos da vida humana são afetados quando se vive a
cada momento sem que a perspectiva de longo prazo tenha mais sentido.

1.3. A contemporaneidade

Com o objetivo de não ficarmos entre as oposições citadas, e para evitar confusões,
decidimos adotar o termo contemporaneidade para nos referirmos aos dias de hoje. A partir
dessa última análise, tendemos a concordar com a vertente que defende a persistência da
modernidade, por reconhecer na atualidade, com todas as suas questões, a presença dos
fundamentos instituídos pela era moderna. Mas, apesar desse reconhecimento, é essencial
demarcar as diversas modificações que os sujeitos e a cultura sofreram desde o início da
modernidade até hoje. Podemos nos referir às características do indivíduo burguês do
capitalismo industrial como matriz daquilo a que assistimos surgir hoje, na
contemporaneidade. Na primeira metade do século XVII, o burguês era descrito como um
indivíduo forte, enérgico, inteligente, prático e pouco escrupuloso (Mousnier, 1957). Porém, a
subjetividade constituída no início da modernidade era pautada nas noções de interioridade e
20

reflexão sobre si mesma, enquanto que, a partir do final dos anos sessenta, encontramos a
descrição de um indivíduo extremamente exteriorizado, narcísico, que funciona, segundo a
lógica capitalista da sociedade de consumo e que estende esta lógica a todas as suas relações,
as quais passam a ter um tom frio, descartável e impessoal. Ao estabelecermos um paralelo
entre os perfis dados à subjetividade, na aurora da modernidade e na contemporaneidade,
observamos, hoje, uma retração da vida psíquica, uma vez que o espaço de reflexão interna
diminuiu drasticamente.
Guy Debord5, filósofo francês, foi, dentre outras coisas, um intelectual com uma
prática política. Para atuar de acordo com toda sua crítica sobre a sociedade moderna
burguesa, a que nomeou “sociedade do espetáculo” ([1967] 2006, p.45), criou o
situacionismo, projeto político de crítica radical à vida cotidiana no capitalismo. Debord
Fundou a Internacional Situacionista (IS) em 1958 e ele próprio a dissolveu em 1972.
Em 1967, publicou a mais importante obra teórica dos situacionistas: A sociedade do
espetáculo. O movimento situacionista opunha-se não somente à sociabilidade burguesa, mas
também àqueles que se antepunham oficialmente a tal sociabilidade. Apesar de se referir ao
trabalho de Marx e Hegel, Debord propunha o situacionismo como o negativo das negações
formais da sociedade burguesa, pois considerava os projetos revolucionários de seu tempo
como faces da mesma moeda das sociabilidades do projeto burguês, uma vez que apareciam
historicamente como concorrentes, e quase sempre, como parceiros na mesma esfera
institucional da sociedade burguesa.
Para Debord (2006), a sociedade do espetáculo é o mundo regido pela economia do
consumo, onde a mercadoria, como centro absoluto da vida social, engendra a passagem do
ser para o ter: os objetos, substituindo valores éticos, onde ocorre uma ininterrupta fabricação
de “pseudo-necessidades” (p.45). Ou seja, a inscrição de objetos como signos da felicidade,
sempre prontos para o consumo voraz, dirige a imposição de uma dinâmica na qual o
indivíduo acaba por ter suas escolhas condicionadas, a tal ponto que, até mesmo um outro ser
humano poderá ser transformado em um gadget6, e servir como via de satisfação imediata. E,
assim, tornar-se rapidamente descartável. O autor denominou esse processo de “fetichismo da
mercadoria” (p.45).
Debord descreve a contemporaneidade como o triunfo do individualismo em
associação ao consumo e como demanda incessante de prazer, gerando modelos de

5
Para a pesquisa feita sobre Guy Debord e sua obra, além de seu livro A sociedade do espetáculo, foi consultado
o artigo do Prof. Dr. João Alberto da Costa Pinto, professor Departamento de História da Universidade
Fluminense de Goiás, UFG.
6
Objeto de consumo supérfluo, engenhoca.
21

subjetivação, que enfatizam a “exterioridade” e “autocentramento” (p.108). Outro ponto


importante nas questões levantadas por ele é a modificação do tempo e suas consequências
para o indivíduo contemporâneo:

[...] o espetáculo, como a totalização da mercadoria na vida social, impõe a


esta não só o absoluto da reificação, mas também a negação de um tempo
histórico, que veja na sua irreversibilidade intrínseca a caracterização do
sentido da experiência social. O espetáculo paralisa o sentido social da
história e da memória, o espetáculo é a tradução da falsa consciência do
tempo (Debord, 2006, p.108).

Ele divide a transformação do tempo em três etapas: o tempo cíclico, característico da


produção agrária; o tempo irreversível da produção industrial e o tempo reificado da sociedade de
consumo.
A burguesia afirmou-se historicamente no tempo do trabalho. Liberou a sociedade do tempo
cíclico, o tempo das sociedades marcadas pelo modo agrário de produção e determinadas pelos
ciclos temporais da natureza. O tempo do trabalho, o tempo da produção, ao romper com o tempo
cíclico afirma a “vitória do tempo profundamente histórico” (p.107), como o nomeou Debord em
oposição ao tempo cíclico. Seria a vitória da sociedade em autotransformação permanente e
absoluta; mas ele também ressalta que “esse tempo é o tempo das coisas” (p.98) e o tempo das
coisas elimina crescentemente o sentido do tempo vivido. Isto é, no ciclo das sociedades agrárias, o
tempo, mesmo naturalizado, afirmava aos indivíduos a possibilidade real de um tempo histórico
vivido.
Com a produção industrial, o tempo torna-se irreversível, uma vez que esse tempo
socialmente vivido é eliminado. Na passagem histórica das sociedades de tempo cíclico para as
sociedades de tempo irreversível, formou-se a consciência histórica. Mas esta consciência tende à
eliminação com a disseminação do tempo das mercadorias na vida social.
A historicidade das sociabilidades passou a ser mediada pela historicidade das coisas-
mercadorias. Dessa maneira, o tempo só se diferencia pela quantidade das coisas: o tempo como
valor de troca. Este é o “tempo-espacializado” (p.97), não humano, o tempo reificado. O tempo das
coisas reconstituiu o caráter cíclico no cotidiano, a mercadoria naturalizou os homens.
O novo “tempo-cíclico”, no cotidiano, realiza-se no tempo mercadoria dos “atos-
mercadoria” (p.98), como o consumo: o dia de trabalho, o dia de descanso, as férias (que inclusive
passaram a ser vendidas). O tempo no cotidiano do capitalismo crescentemente perdeu o seu valor
de uso, tornando-se efetivamente valor de troca e, nesse momento, o tempo irreversível dos
acontecimentos é comandado pelo espetáculo; os homens, no cotidiano, podem apenas contemplá-
22

lo, mas nunca vivê-lo, efetivamente.


No cotidiano do viver capitalista, não existem mais acontecimentos, deixa de existir a
irreversibilidade do tempo para o existir do falso-acontecimento do espetáculo. No cotidiano da
reificação, não há história, mas o tempo cíclico das pseudo-necessidades, impostas pelo espetáculo:
o carro novo, o computador de última geração etc. O tempo é matéria-prima de novas mercadorias.
No tempo cíclico das pseudo-necessidades, a história deixa de existir. “O tempo pseudocíclico é o
disfarce consumível do tempo-mercadoria da produção” (p.104).
Com a globalização da economia capitalista, houve a unificação mundial do tempo,
irreversível. Cria-se assim a história universal, ela torna-se uma realidade, uma vez que o mundo
inteiro está reunido sob o desenvolvimento desse tempo: “o tempo da produção econômica,
recortado em fragmentos abstratos iguais, se manifesta por todo o planeta como o mesmo dia.”
(p.101), e esse momento de tempo unificado é o do mercado mundial, é o tempo unificado do
espetáculo.
Em 1967, Debord não só apresentava um diagnóstico de uma lucidez extraordinária, e que
ainda é tão atual, como também, derivou as consequências desse diagnóstico; ao apresentar a lógica
imperialista no mundo, anunciou a fragilidade das lutas promovidas pela esquerda mundial. Na
crítica a quase todos os programas da agenda revolucionária, que lhe era contemporânea, Debord
definia a revolução como o ato que haveria de reivindicar o viver do tempo histórico, e isso só seria
possível na revolução da vida cotidiana.
Quando Debord dissolveu a Internacional Situacionista em 1972, o fez para cumprir a
regra que modelava o movimento. Naquela ocasião, compreendeu que o próprio movimento
começava a requerer a liderança máxima, que nunca se quis como liderança, então para
manter-se fiel aos seus propósitos ele mesmo a dissolveu. Mesmo depois da dissolução o
situacionismo continuou sendo influente. Hoje, é inquestionavelmente uma referência clássica
do marxismo contemporâneo e uma expressão da crítica que se faz ao universo
espetacularizado da sociedade contemporânea.
Com o desenvolvimento do capitalismo tardio podemos observar a intensificação dos
efeitos da crise gerada pelo projeto da modernidade. A falta de referenciais sólidos, o fim das
utopias, essa nova apreensão do tempo, somados a toda a demanda imposta pela sociedade de
consumo, estimulou uma busca desesperada por soluções aliviadoras e imediatas, aliás, essa
tem sido considerada uma das principais causas da psicanálise estar sendo questionada quanto
a sua eficácia.
23

Seguindo, então, a proposta freudiana de pensarmos o sujeito e a cultura como


entrelaçados, no próximo capítulo, partiremos para a análise mais aprofundada do que é a
clínica psicanalítica na contemporaneidade e que questões ela nos impõe.
24

Capítulo 2. A psicanálise na contemporaneidade

2.1. Pela defesa da psicanálise

Para nos auxiliar com as questões que a clínica na contemporaneidade tem nos
colocado, recorremos a autores do campo da psicanálise, que têm se dedicado ao estudo do
tema. Dentre eles alguns consideram as patologias referidas, efeitos de uma nova forma de
subjetivação, outros as pensam como uma (re)significação, ou atualização das mesmas formas
de subjetivação já conhecidas e tratadas pela psicanálise. Porém, de uma maneira ou de outra,
todos as relacionam aos fenômenos econômicos, culturais, sociais e políticos da
contemporaneidade. A sociedade democrática moderna, em seu desenvolvimento atual, em
nome da globalização e do sucesso econômico, quer abolir de seu horizonte os conflitos
sociais, o infortúnio, a morte e a violência. Como já vimos no primeiro capítulo desta
dissertação, em contrapartida aos primórdios da modernidade, quando os eixos constitutivos
da formação subjetiva se baseavam na interioridade e na reflexão sobre si mesmo, hoje se
baseiam no autocentramento e na exterioridade. O imperativo é o consumo, o sujeito é
convocado, pela sociedade, como consumidor, seja de produtos, drogas, remédios, terapias,
religião ou qualquer coisa que lhes reforce o narcisismo e os afaste do desejo, pois assim, o
consumo torna-se sem fim.
Em seu livro - Por que a psicanálise? Roudinesco (2000) defende a pertinência da
psicanálise na atualidade, opondo-se às propostas da farmacologia e outras terapêuticas, que
argumentam não haver mais nem tempo nem espaço para a prática psicanalítica na
contemporaneidade. Esta autora diz que a morte, as paixões, a sexualidade, a loucura, o
inconsciente e a relação com o outro moldam a subjetividade de cada um. Acredita que essas
questões permanecerão sempre presentes apesar das diversas tentativas do projeto da
modernidade para excluí-las. Diz ainda que a psicanálise tem sido fundamental para que a
civilização avance sobre a barbárie, uma vez que resgata a idéia de que o homem é livre por
sua fala, e que não se restringe nem é determinado por sua biologia. Dessa maneira, vislumbra
um lugar para a psicanálise, no futuro: dar continuidade ao trabalho psicanalítico e “lutar
contra as pretensões obscurantistas que almejam reduzir o pensamento a um neurônio ou
confundir o desejo com uma secreção química” (p.9).
A autora observa que o sofrimento psíquico, na atualidade, tende a manifestar-se como
depressão, significante empregado para representar a mistura de apatia e tristeza que acomete,
25

cada vez mais, um número maior de indivíduos que não conseguem nem se dar o tempo de se
interrogar sobre as origens de seu sofrimento. Deduz que a “era da subjetividade” está sendo
substituída pela “era da individualidade” (p.14), que quanto mais a sociedade enuncia a
igualdade e unificação, mais acentua as diferenças no sentido da exclusão. No âmago dessa
proposta, cada um reivindica sua singularidade, mas sem querer identificar-se com as
referências da universalidade já dadas como ultrapassadas. Dessa maneira, os indivíduos do
mundo contemporâneo criam para si mesmos “a ilusão de uma liberdade sem limites, de uma
independência sem desejo e de uma historicidade sem história, o homem de hoje transformou-
se no contrário de um sujeito” (p.14).
Dentro de uma lógica de normatização, ou seja, de adequação dos indivíduos a
padronizações impostas pela sociedade, o homem contemporâneo recorre à medicina e a
propostas de terapias, que julga serem mais apropriadas ao reconhecimento de sua identidade.
Esta é a causa, segundo a autora, para o crescimento tanto de práticas místicas e religiosas,
quanto do cientificismo que valoriza o “homem-máquina” (p.15) em detrimento do homem
desejante. Acrescenta ainda, que não se trata de mudança de estrutura e sim de uma mudança
de paradigma, ou seja, “o contexto do pensamento, o conjunto das representações ou o
modelo específico, que são próprios de uma época” (p.17). Entende que toda revolução
científica é traduzida numa mudança desse porte, porém, afirma que nos campos da medicina,
psiquiatria e psicanálise, um modelo novo não exclui o precedente, o inclui, atribuindo-lhe
significação nova. Neste sentido, considera que a histeria não deixou de existir e hoje “é cada
vez mais, vivida e tratada como uma depressão” (p.17). Afirma ainda que tal mudança de
paradigma não é sem intenções, essa substituição vem junto a uma valorização dos processos
psicológicos que têm como objetivo a normalização, em detrimento das formas de exploração
do inconsciente. Desse modo, a depressão não é considerada neurose, psicose ou melancolia,
e sim, uma entidade nova que remete a um estado de fadiga, déficit ou enfraquecimento da
personalidade:

Em outras palavras, a concepção freudiana de um sujeito do inconsciente,


consciente de sua liberdade, mas atormentado pelo sexo, pela morte e pela
proibição, foi substituída pela concepção mais psicológica de um indivíduo
depressivo, que foge de seu inconsciente e está preocupado em retirar de si a
essência de todo conflito (Roudinesco, 2000, p.19).
26

Além da depressão, a toxicomania também invade a sociedade contemporânea, não


sem razão. Para Roudinesco, o toxicômano é outro exemplo paradigmático do indivíduo
contemporâneo, símbolo do “anti-sujeito” (p.20), já que, uma vez condenado ao esgotamento
pela falta de uma perspectiva revolucionária, recorre à droga ou à religiosidade ou ainda ao
culto de um corpo perfeito como via para atingir o ideal de uma felicidade impossível.
Em Sobre ética e psicanálise Kehl (2005), assim como Roudinesco (2000), considera
a depressão, no final do século XX, como sintoma predominante do sofrimento psíquico. Kehl
atribui este fato ao investimento da sociedade contemporânea em tentar eliminar todo o mal-
estar, assim como toda a angústia de viver, através de terapias exclusivamente
medicamentosas, comportamentais, ou de técnicas de auto-ajuda ou ainda, através de novas
formas de espiritualidade - uma espiritualidade que visa resultados práticos e materialistas -
que partem do pressuposto de que o sujeito pode se livrar dos incômodos produzidos pelo
inconsciente e se tornar um indivíduo pragmático, feliz, adaptado às expectativas transmitidas
pela cultura do individualismo e do narcisismo:

O homem contemporâneo quer ser despojado não apenas da angústia de


viver, mas também da responsabilidade de arcar com ela; quer delegar à
competência médica e às intervenções químicas a questão fundamental
dos destinos das pulsões; quer, enfim, eliminar a inquietação que o habita
em vez de indagar seu sentido. Mas não percebe que é por isso mesmo
que a vida lhe parece cada vez mais vazia, mais insignificante (Kehl,
2005, p.8).

O sintoma da depressão denuncia que o sentido da vida não lhe é intrínseco, uma vez
que tem como aspecto principal a perda de significado da existência. O homem está sempre
tentando atribuir sentido à vida, à morte, ao sexo, ao desconhecido, mas esta produção de
sentido não é individual – “seu alcance simbólico reside justamente no fato de ser coletiva, e
seus efeitos, inscritos na cultura” (p.9).
Essa autora conduz sua análise pelo viés das modificações causadas pelo projeto da
modernidade e os efeitos do capitalismo tardio sobre ele. Afirma que enquanto os antigos
tinham um “fundamento ético” (p.9), pelo qual se pautar, na modernidade o sentido da vida
não podia mais ser ditado por uma verdade transcendental precedente à existência individual.
Porém, a tarefa de dar sentido à vida é da cultura, uma tarefa simbólica, que se constitui
através das narrativas e discursos sobre o que é, ou deve ser.
Constata assim que, nas últimas décadas, houve um empobrecimento dos discursos
dominantes, atribuído à prevalência das razões de mercado em detrimento das filosóficas,
27

anteriormente, mais valorizadas. Compreende que enquanto razões filosóficas e religiosas, e


grandes utopias políticas, apontam sempre na direção de uma transformação do sujeito ou do
mundo que ele habita, ou ainda, para alguma forma de gozo que não fique reduzida ao prazer
corporal (como exemplo, a contemplação para os antigos, o êxtase para os místicos e o
sublime para os românticos), as razões de mercado se consomem em si mesmas. Ou seja, sua
satisfação não remete a nada além da fruição presente do objeto:

As razões de mercado só nos oferecem a repetição de sua própria


trivialidade, revestida das aparências de um ‘saber viver’ que só funciona se
conseguimos reduzir a vida à sua dimensão mais achatada: o circuito da
satisfação de necessidades (Kehl, 2005, p.10-11).

Dentro da lógica de mercado, os objetos são objetos fetiche, uma vez que, ao invés de
apontar para a falta, e consequentemente animar o desejo, são objetos oferecidos para saciar
necessidades também criadas pelo mercado. Deste modo:

[...] os discursos que organizam as razões de mercado consistem em cadeias


metafóricas muito pobres, muito curtas, que vão do objeto ao sujeito (e não
ao contrário) e se encerram quando promovem a ilusão de um encontro entre
os dois (Kehl, 2005, p.11).

Para a autora, todo esse quadro configura uma “crise ética” (p.12), dividida em duas
vertentes: a dificuldade do reconhecimento da lei, e a desmoralização do código. A primeira
diz respeito aos impasses criados pelo imperativo do gozo - mandamento contemporâneo - em
reconhecer a lei da castração, ou a dívida simbólica: que é o preço que pagamos pela condição
humana, ou seja, por sermos marcados pela linguagem e pela vida em sociedade, a relação
intrínseca entre indivíduo e cultura, explanada no primeiro capítulo desta dissertação. Afirma,
ainda, que as sociedades modernas, por terem feito de seus ideais liberdade, autonomia
individual e valorização narcísica do indivíduo, criou novos modos de alienação, orientados
para o gozo e consumo imediatos, agravados, nas últimas décadas do século XX, com o
declínio da era industrial e ascensão da indústria virtual e da informática, e junto à enorme
produção de bens supérfluos, serviços e lazer. Kehl, assim como os outros autores estudados,
também ressalta como consequência disto uma falta de historicidade do sujeito; em suas
palavras:

Cada geração se constitui pelo rompimento com o que ainda teria restado
de ‘tradição’ para as gerações anteriores. Cada indivíduo se crê pai de si
mesmo, sem dívida nem compromisso com os antepassados, incapaz de
28

reconhecer o peso do laço com os semelhantes, vivos e mortos, na


sustentação de sua posição subjetiva (Kehl, 2005, p.13-14).

Desta maneira, a sustentação da lei pela cultura sofre grande enfraquecimento, e ao


mesmo tempo, a dívida simbólica permanece. Ou seja, o gozo pleno é impossível e a origem
da lei não se inscreve na história individual, a linguagem precede o sujeito, as estruturas de
parentesco, ainda que formalizadas de maneiras bastante diversas das de outras épocas,
determinam o pertencimento simbólico a um lugar: “[...] os desejos e fantasias de nossos pais
emprestam significados à nossa existência muito antes do nosso nascimento. Esses são os
fundamentos do inconsciente como discurso do Outro [...]” (p 15). Por isso, o efeito do
imperativo do gozo da sociedade contemporânea é o de dificultar o reconhecimento da lei por
faltar uma base discursiva que confira apoio e significado à impossibilidade do gozo.
A outra vertente da crise da ética trabalhada por Kehl (2005) diz respeito à falência do
código que regeu por dois séculos a vida burguesa, e submeteu outras classes sociais aos seus
valores e ideais. Ressalta que desde a época de Freud, já se observava a decadência desses
valores, mas nada comparado à indiferença com que as regras do convívio social são tratadas
atualmente. A causa dessa desmoralização do código burguês se deu pela própria contradição
entre ele e o individualismo, que sustenta imaginariamente os sujeitos na sociedade de
consumo. Como no exemplo citado pela autora, do conhecido refrão: “é proibido proibir”
(p.18), pichado nos muros de Paris, há mais de trinta anos, e que hoje pode ser lido como a
bandeira da juventude consumista, encampada pela publicidade que os convoca a ir além de
todos os limites.
Ao contrário da lei, o código tem uma origem e depende de sua divulgação para se
tornar consensual, dispensando então razões e explicações. O que demonstra sua vigência
máxima é quando o código dispensa a explicação sobre seu motivo, sua causa. Quando se
questiona o seu porquê, isto indica que sua sustentação simbólica já se esfacelou.
Em resumo, Kehl (2005) deduz que os impasses apresentados pelos indivíduos na
contemporaneidade têm como ponto central o que denominou: crise ética. Tal crise é fruto dos
rumos que o projeto da modernidade tomou e das contraposições inerentes a ele mesmo.
No que diz respeito às patologias cada vez mais frequentes na contemporaneidade,
Kehl está de acordo com Roudinesco (2000), as concebendo como uma nova versão da
neurose. Porém, adverte sobre a necessidade de uma construção ética para a
contemporaneidade. Quanto a esta construção, destaca a psicanálise como contribuição
29

fundamental, uma vez que a psicanálise propõe um valor que toma como essencial para a
humanidade - a alteridade:

Para além do que a clínica psicanalítica pode propor como uma ética na
condução da cura dos analisandos, o corpo teórico da psicanálise tem
condições de sustentar, [...] que a aceitação do outro em sua semelhança
na diferença é condição essencial para se construir alguma proposta ética
para os tempos atuais (Kehl, 2005, p.192).

2.2. A contemporaneidade como desafio à psicanálise

O interesse dos sujeitos por psicoterapias breves e tratamentos biológicos, o


ressurgimento de uma necessidade de crenças salvadoras no campo da religião, a procura do
alívio imediato, oferecido pelos psicofármacos, e pelo êxtase das drogas, são pontos também
destacados por Birman (1999). Diz ainda, que tudo isso é acompanhado de um desinteresse,
também crescente, pelo tratamento psicanalítico. Porém, este autor se distingue dos demais
por estar dentre os que consideram a mudança de paradigma uma transformação radical capaz
de produzir novas subjetividades. Para ele, no quadro contemporâneo configura-se uma crise
da psicanálise, na qual o que está em questão é a articulação entre os fundamentos da cultura
atual e os fundamentos da psicanálise. Para este autor, a doutrina freudiana não é capaz de
interpretar totalmente a situação histórica e antropológica. Mas acredita ser possível construir
uma via que proporcione um resgate da psicanálise, posicionando-a face às problemáticas
colocadas pela atualidade para os indivíduos, e através de reformulações de conceituação.
Em outro livro seu: Arquivos do mal-estar e da resistência, Birman (2006) dá
prosseguimento à sua análise. O autor destaca a categoria de desamparo na obra de Freud
como estrutural e estruturante na construção da subjetividade. Considera que há uma
intensificação do desamparo na atualidade que ele associa à humilhação imposta à figura do
pai inerente ao projeto da modernidade. O autor atribui a esse contexto as condições do
surgimento da própria psicanálise, que visa não só apontar os efeitos desta desordenação
simbólica, como também uma reorientação do sujeito em direção ao pai. Como vimos, Lacan
já havia demarcado o declínio da função paterna ao contextualizar o surgimento da
psicanálise, fato que parece ter sido ignorado pelo autor.
Birman (2006) presume que essa humilhação do pai colocou os sujeitos
contemporâneos em uma condição extrema de desamparo e, por isso, pode-se constatar o
surgimento de novas subjetividades - que seriam um efeito dessa condição de maior
30

desamparo. Sua hipótese é a de que a psicanálise foi surpreendida por essas transformações e
ainda não sabe lidar com o que existe de inédito.
O autor defende que, no lugar das “antigas modalidades de sofrimento” (Birman,
2006, p.174), centradas no conflito psíquico, o mal-estar na atualidade se evidencia em três
registros: do corpo, da ação e do sentimento. Essas novas formas de subjetivação são
consequências de um excesso, que habita o fundamento do mal-estar contemporâneo. Num
esforço para evitar a angústia resultante deste excesso, o sujeito contemporâneo cria saídas
patológicas que servem como descarga pulsional. Aponta ainda outra característica, que
entende como significativa e presente na atualidade – “a ausência do registro do pensamento”
(p.189).
Não concordamos com estas proposições. Parece-nos que com isso Birman apresenta
leitura mais drástica dessa fragilidade da função simbólica, considerada como característica
presente na atualidade, por diversos autores abordados nesta pesquisa. Utiliza a ausência do
pensamento como argumentação para defender o surgimento de novas subjetividades, o que
tem como decorrência a necessidade de reformular a psicanálise.
Para Birman (2006), tanto o desamparo quanto o excesso são efeitos da derrocada do
poder do patriarcado. Sendo assim, considera necessário superar o valor atribuído ao falo
como signo da tradição patriarcal para que se possa iniciar um novo começo “pós-patriarcal”
(p.300). Como se já não bastasse, o autor insiste: faz uma crítica aos primeiros textos de
Freud, e a Lacan, afirmando que ambos teriam assumido uma posição “falocêntrica” (p.302).
Diz que Lacan radicalizou esta posição com o destaque dado ao Nome-do-Pai e que para ele,
a teorização lacaniana representa, e ao mesmo tempo, reforça, a “[...] superioridade
hierárquica da figura do homem em relação à da mulher. Em decorrência disso, Lacan pôde
enunciar incisivamente que a mulher não existe e, de forma correlata, que não existiria
relação sexual.” (p.303). Afirma ainda que somente no final de sua obra, Freud se redimiu ao
deslocar a feminilidade para a origem.
Segundo nosso entendimento, o autor comete graves equívocos em sua leitura dessas
obras. O que nos parece que Freud, através da psicanálise, inaugurou, foi justamente um
campo de saber onde, na medida em que novas conceituações ou posicionamentos surgiam, os
precedentes não eram extintos ou abandonados, e sim, reintroduzidos. Por exemplo, quando
Freud conceituou a pulsão de morte e reformulou a teoria das pulsões, seus textos anteriores
não perderam valor, nos revelam a presença muda, a música silenciosa de Tânatos desde a
origem da psicanálise.
31

A feminilidade originária põe em evidência que a psicanálise não toma uma posição
falocêntrica nem patriarcal: homens e mulheres são construídos pela lógica fálica e o outro
sexo é a feminilidade originária. Lacan ressaltou isto na obra freudiana, através do
desenvolvimento do conceito de gozo. A inexistência d’A Mulher, assim como a
impossibilidade da relação sexual dizem respeito, justamente, ao campo para além do falo
demarcado e conceituado por Lacan em seu ensino. Parece-nos faltar ainda, para o autor, a
distinção marcada por Kehl (2005) entre o pai do patriarcado e o pai simbólico da lei, já que é
a direção a este pai simbólico que a psicanálise propõe.

2.3 Fenômenos psíquicos da atualidade

Em Psychanalyse et politique, Sauret (2005) elege uma forma de abordar psicanálise e


política: promover a análise das relações entre sintoma e campo social, do mesmo modo que
encontramos nos textos freudianos sobre psicanálise e cultura e na teoria lacaniana acerca do
laço social. Em seu entendimento, a psicanálise permite revisitar qualquer uma das questões
que se coloque na sociedade, pois possui recursos de doutrina, de onde o campo social pode
tirar proveito.
O autor inicia sua análise, a partir do estabelecido por Freud: a função paterna marca a
passagem do estado de animalidade para o de humanidade, garantindo a lei que interdita o
incesto. Esta lei permite ao sujeito assegurar-se dos fundamentos de sua relação com a
linguagem e com o gozo, sem os quais não existiria sociedade. O acesso à humanidade não é
algo que está por ser feito e, portanto, aquele que se inscreve no laço social deve pagar sua
cota de gozo à sociedade. Por conseguinte, o efeito da renúncia ao sexual, ao gozo, é a
neurose, sequela da dessexualização que fundamenta a origem do sujeito. A partir desses
pressupostos, a psicanálise se estabeleceu como prática de tratamento e teoria da neurose.
Mas, não é todo gozo que passa à castração, portanto, sublinha Sauret, a entrada no laço social
produz um resto, um além do princípio de prazer. É este resto de gozo, ineliminável, que o
sintoma fixa. Dessa maneira, o neurótico encontra-se situado entre a relação sintomática com
o sexual e com o social, e ao mesmo tempo, o caráter singular do gozo de seu sintoma fere
esse mesmo laço social, fazendo objeção a ele.
Toda essa elaboração, feita por Freud, foi renovada por Lacan. Ao destacar o
Complexo de Édipo como estrutural, através da operação da metáfora paterna, introduz o
significante do Nome-do-Pai como aquele que promove um ideal de renúncia ao gozo e opera
no sentido da inclusão do sujeito em uma realidade dessexualizada. Qualquer que seja o ideal
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proposto, ele se apresenta como um significante mestre, destacado como o significante que
polariza um saber do exterior, que ordena aquilo que se apresenta em um discurso, presidindo
sua lógica interna e ditando seu lugar aos sujeitos que o tomam. Por advir do exterior, o S1 é
arbitrário. Ele toma como exemplo os significantes macho e fêmea, que inseridos num
discurso teriam como S1, a biologia.
O Nome-do-Pai, como significante mestre, ordena o sacrifício do gozo, cultivando as
neuroses, uma vez que já trazem incluídos em seus sintomas, a necessidade e o meio de
reiterar o laço social. O autor ressalta que o tratamento psicanalítico conduz o sujeito ao ponto
de descoberta do que é irredutível aos outros, seus semelhantes, confirma, ou cria, uma via
singular para instalar-se, renovando-se no laço social. Do que depreende que essa dimensão
do social é indissociável do fim da análise.
Sauret (2005) levanta uma questão sobre a perenidade da psicanálise, será que cem
anos depois de sua invenção ainda é possível sustentar, com Freud, o caráter revolucionário
da psicanálise? O autor responde que para pensar a contemporaneidade à luz da psicanálise, é
preciso incluir elementos do ensino lacaniano, que não são homogêneos nem ao laço social,
que funciona sob a ordenação simbólica, nem à neurose. Entende que existe uma
homogeneidade de estrutura entre o laço social contemporâneo e a psicose. Ambos se referem
a um gozo “deslocado” (p.13), à foraclusão da castração, e a uma tentativa imaginária de
regulação. Porém, enfatiza que isso não significa que os sujeitos contemporâneos sejam
psicóticos, e acrescenta que há, na sociedade atual, uma série de sujeitos não psicóticos que
encontraram nessa rejeição do sexual um meio de se “desembaraçar das barras do sexual”
(p.13).
Coloca ainda que Freud percebeu que os neuróticos não adotavam uma solução
religiosa que os dispensasse da neurose ou de criar para si mesmos uma resolução individual.
Desse modo, chamou atenção para o protesto sintomático do neurótico contra a possibilidade
de ser reduzido a um elemento do saber religioso. Nesse sentido, Freud afirmou que a neurose
constituía um progresso sobre a religião.
Mas, quanto às configurações presentes na sociedade atual, o autor diz que a situação
parece ser muito diferente. O pensamento único, a ideologia dominante, é compatível com
uma “desaparição das neuroses” (p.17). As patologias preponderantes, na atualidade, são
feitas de localização, de acumulação, de proteção dos gozos particulares de cada um. Então,
“[...] a sociedade, doravante, longe de exigir mais sacrifício, reivindica a presença como
outros signos de riqueza: psicossomatização generalizada, toxicomania, e adições diversas, de
um lado, e depressão, anorexia e bulimia, de outro” (p.17).
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Além dessas manifestações clínicas, o autor aponta alguns outros destinos


contemporâneos como um retorno ao religioso pela via das ideologias sectárias, racistas e
integralistas, correspondente à tentativa de erigir um pai na desmesura do gozo, um Pai da
Horda. Esforço para não deixar nenhum espaço de incerteza no lugar da lei, que é
acompanhado por um aumento, sem precedentes, de atos e afazeres que colocam em causa, os
políticos:

Não está aí a marca da desaparição de uma das consequências do parricídio


freudiano: a culpabilidade? Em seu lugar cinismo, indiferença, busca
desenfreada de gozo, solipsismo. E a necessidade de retornar à velha
ideologia racista para traçar os novos limites da comunidade: abandono do
laço social pela horda primitiva! (Sauret, 2005, p.15)7.

Isso não significa, diz o autor, que violência, racismo e exclusão não tenham existido
antes. Contudo, hoje se inscrevem em outra lógica, a serviço desse novo laço social – o
capitalismo- que lhe confere novo vigor. Porém, ao mesmo tempo, para Sauret, a existência
de poetas, escritores, certos filósofos, e da própria psicanálise, prova que o discurso capitalista
não é o único.
Sauret (2005) defende a idéia de que a psicanálise se faz necessária, nesse contexto,
pelo diagnóstico que apenas ela porta. O inconsciente, o caráter intelectual da sexualidade, o
falo e a castração, o lugar do pai, a função do sintoma, a pulsão, o tratamento da neurose pelos
meios da transferência e da interpretação, são conceitos e noções que o autor destaca como
determinantes e que não existiriam sem Freud: “Após a invenção da psicanálise o mundo
mudou” (p.65). E com ela, pode continuar mudando.
Assim como Sauret (2005), Recalcati (2004b) nos oferece uma leitura da situação
contemporânea à luz do ensino de Lacan. Entretanto, enquanto o primeiro dá ênfase ao campo
social, para o segundo a clínica é preeminente. Em seu artigo intitulado: “A questão
preliminar na época do Outro que não existe”, Recalcati (2004b) se debruça sobre questões
em torno do atendimento psicanalítico, expondo teorizações sobre os denominados “novos
sintomas” (p.1). Segundo o autor, hoje, há uma promoção do “sujeito-gadget” (p.1). Ou seja,
o sujeito é chamado ao lugar de consumidor dentro da lei atual do mercado, que não o

7
“N’est-ce pás la marque de la disparition d’une des conséquences Du parricide freudien: la culpabilité?À la
place, cynisme, indifférence, quête effrénée de jouissance, solipsisme. Et la nécessité de revenir à la vieille
idéologie raciste du bouc émissaire pour tracer les nouvelle limites de la communauté: abandon du lien social
pour la horde primitive!” (tradução livre da autora).
34

particulariza. Ela valoriza apenas a necessidade de produção de novos objetos, oferecidos


como solução imediata para a falta-a-ser que habita o sujeito. Essa configuração associada ao
discurso da ciência – promoção do saber especialista como solução pragmática do problema
da verdade – realiza uma expulsão-anulação do sujeito do inconsciente.
Para Recalcati (2004b), os “novos sintomas” são um efeito desta expulsão “[...] sendo
produtos específicos do discurso capitalista em seu enredamento espectral com o discurso da
ciência” (p.1). As toxicomanias, depressão, anorexia e bulimia, são incluídas, por esse autor,
na nomenclatura de “novos sintomas”.
Lacan (1966) sistematiza suas reflexões sobre o enlace entre a ciência positivista e a
psicanálise, ao demonstrar que o sujeito da psicanálise é o mesmo sujeito da ciência. Na era
clássica, o cartesianismo fundou o método científico da modernidade. Com a criação de sua
conhecida reflexão “Cogito, ergo sum” (Penso, logo sou, 1619) Descartes permitiu emergir
uma linguagem conceitual na qual objetos antes inapreensíveis passaram a ter existência.
Assim, criou a possibilidade de fazer existir o sujeito como objeto do pensamento, distinto da
imagem deste sujeito e distinto do real.
Nesse sentido, Lacan afirmou que a psicanálise nasce da ciência por lidar com o
sujeito como objeto do pensamento. Porém, enquanto a ciência quer se dedicar,
exclusivamente, ao que é possível pensar, dizer e conceituar, a psicanálise, além de trazer à
luz o que o saber científico tenta ocultar, se dedica, também, ao sujeito como vazio de
significantes, ao impossível de pensar, de dizer, ao real do sujeito, que é justamente o que a
ciência exclui.
Podemos, então, referir a psicanálise à metodologia cartesiana por inserir-se nos
mesmos fundamentos da ciência moderna. E tomar a disciplina fundada por Freud, assim
como ele sempre o fez, como método de investigação, mas um método que tem como único
intuito resgatar aquilo que a ciência, propriamente dita, exclui de seu âmbito: o sujeito. É
neste ponto, justamente, que a psicanálise funciona como contribuição à ciência, na direção de
fazer aparecer o sujeito aonde ele parecia estar excluído.
Diante disso, Recalcati (2004b) sublinha que há uma “questão preliminar” (p.1) a ser
pensada para que a psicanálise possa fazer resistência a esta expulsão-anulação do sujeito do
inconsciente. Não que o autor destitua a existência do sujeito do inconsciente ou que suponha
que não se possa mais considerar o inconsciente freudiano ao tratarmos do sujeito
contemporâneo. Mas, sim, que o sujeito não é um dado de fato, há condições que propiciam
ou não sua existência. Seu ponto de vista é o de que a cultura promovida pela sociedade de
consumo, na medida em que tenta extinguir de seu horizonte os conflitos, caminha em uma
35

direção contrária ao sujeito dividido:

Se realmente, na época de Freud, o inconsciente era o inaudito, o


escandaloso, a peste, hoje parece confinado aos territórios arcaicos da
superstição. Em outras palavras, a resistência social ao sujeito do
inconsciente não assume mais a forma – descrita no tempo de Freud – da
refutação escandalizada, mas a de um ceticismo desencantado. Enquanto,
de fato, a histeria freudiana celebrava a verdade do sujeito do
inconsciente, os novos sintomas negam cinicamente sua existência. Um
programa de psicanálise aplicada ao social se impõe: como introduzir
novos significantes para continuar a fazer existir o sujeito do
inconsciente? (Recalcati, 2004b, p.2).

Partindo desta questão, o autor propõe primeiramente um programa de aplicação da


psicanálise no campo social como intervenção além da dimensão terapêutica. Especialmente
em uma época em que constatamos o predomínio das psicoterapias de orientação cognitivo-
comportamental, que impõem um conceito de efeito terapêutico, totalmente adaptativo,
reduzido à restauração das funções normais do sujeito. E, para a clínica, propõe um
tratamento preliminar direcionado aos sujeitos que apresentam essas sintomatologias
específicas.
Para dar prosseguimento à sua proposta Recalcati evoca a teorização lacaniana acerca
da questão preliminar. Inicialmente, Lacan se refere a esta questão no que diz respeito à
clínica das psicoses, e depois a situa em relação à dialética do tratamento como tal. Nas
psicoses, não há de fato recalque e como consequência, não há “realização simbólica do
sujeito do inconsciente” (Recalcati, 2004b, p.2). O que ocorre é um retorno, diretamente no
real, do que não pode ser simbolizado.
Ao comparar a clínica das psicoses com a das neuroses, o autor ressalta que, no caso
das neuroses, o real do gozo recebe um tratamento realizado pela operação da metáfora
paterna, que tem como efeito a castração do gozo (do Outro) e que abre simbolicamente o
lugar do sujeito.
Já a clínica das psicoses se funda justamente sobre o fracasso desse tratamento
preliminar do gozo ministrado pela operação simbólica, que gera a exigência de uma clínica
que faça suplência a ele. Em outras palavras, é pela falência da função simbólica no nível da
estrutura do sujeito, que Lacan reconhece a necessidade teórica e clínica de um tratamento
preliminar no âmbito das psicoses. Nesse ponto, em conformidade com a análise também
adotada por Sauret (2005), Recalcati (2004b) relaciona essa primeira direção da questão
preliminar com as questões da clínica contemporânea:
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É muito importante lembrar esta origem da questão preliminar em Lacan


porque a clínica contemporânea confronta-se precisamente com a
fraqueza estrutural e generalizada da metáfora paterna, com os efeitos –
vários – do retorno do gozo no real que tornam irredutíveis os novos
sintomas ao regime significante da equivalência sintoma = metáfora
(Recalcati, 2004b, p.2).

A respeito das entrevistas preliminares para além da clínica das psicoses, Recalcati
ressalta a insistência de Lacan sobre a importância do exercício dessa prática. Esta insistência
baseia-se no fato de o sujeito do inconsciente não poder ser tomado como um objeto empírico,
pois: “O pressuposto essencial para a existência do sujeito do inconsciente é, ao contrário, a
oferta da escuta analítica que prepara inclusão do analista no próprio conceito de inconsciente
enquanto constitui, dele o endereçamento” (Recalcati, 2004b, p.2).
Sendo assim, no âmbito das neuroses, o tratamento preliminar visa a entrada em
análise. O sintoma é causa da demanda de análise, que, por sua vez, é ponto de mediação e
articulação entre sintoma e transferência. Esse início requer uma dupla transformação da
demanda. A primeira está na posição que o sujeito assume em relação ao sofrimento do qual
padece. Trata-se de uma transformação ética, ou seja, consiste em indicar ao sujeito a parte
que ele tem na produção e manutenção da sua condição de sofrimento.
A segunda ressalta a dimensão da verdade. Há uma demanda de ajuda, um apelo a
uma solução que venha do Outro, uma vontade de curar-se sem querer saber sobre a causa do
seu sofrimento, sem querer saber. A operação preliminar deve abrir, no sujeito, uma questão
sobre isso, que não possa responder imediatamente, e que o mobilize na direção da busca de
sua verdade, e “Nesse sentido, deve tornar-se mais importante a verdade da causa do que a
extirpação do sofrimento sintomático” (Recalcati, 2004b, p.3).
Para o autor, na atualidade, a questão preliminar se coloca na medida em que podemos
constatar, através do trabalho clínico, uma predominância do agir em relação à simbolização.
Por isso, Recalcati (2004b) diz, mais uma vez em concordância com Sauret (2005), que a
clínica psicanalítica na contemporaneidade parece revelar sua “dimensão genericamente
psicótica” (p.3). Porém, enfatiza que isso não significa reduzir o sintoma contemporâneo a um
diagnóstico ou à estrutura da psicose. Em contrapartida, afirma a necessidade de
reconhecermos que “a clínica do recalcado – e, portanto, o sintoma como formação do
inconsciente – não pode incluir a nova clínica que é, aponto, uma clínica marcada pela
desagregação do caráter simbólico do sintoma e do retorno do gozo no real” (Recalcati,
2004b, p.4). É neste sentido, então, que ele pensa ser necessário um trabalho preliminar
específico.
37

Dando prosseguimento à sua análise, o autor utiliza o termo: “demanda convulsiva”


(Recalcati, 2004b, p.4) para demarcar as diferenças da demanda contemporânea, engendrada,
e altamente estimulada, pela cultura de consumo. Esse termo foi pinçado da História por
Jacques-Alain Miller8, para denominar a demanda gerada pelo consumismo e distingui-la da
demanda que se mantém em relação ao desejo.

[...] a demanda convulsiva não responde ao desejo como ‘resto’. Essa é


antes eletrizada pelo objeto de gozo e sua marca que, no discurso do
capitalista contemporâneo, é aquilo que mede o poder causador do
objeto-fetiche mais além do seu valor de troca (Recalcati, 2004b, p.4).

Não se trata do resto da satisfação da demanda, que funcionaria como índice do desejo
a orientar a demanda com a falta-a-ser do sujeito, situada em seu centro, mas:

[...] é o discurso do capitalista que produz seja o vazio do objeto (criando


uma infinita pseudofalta), seja o objeto capaz (ilusoriamente) de
preenchê-lo. [...] Em outras palavras, o sujeito contemporâneo não vai ao
supermercado para procurar o que lhe falta, mas é o supermercado como
agência da demanda convulsiva que indica ao sujeito aquilo que lhe falta
(Recalcati, 2004b, p.4).

Outra vertente, explorada pelo autor, é a demanda melancólica ou o “caráter


melancólico da demanda” (p.5). Na melancolia, há uma presença excessiva do objeto, o
sujeito melancólico é invadido pelo objeto, assim pode-se dizer que “A melancolia é
efetivamente o avesso do luto; o objeto está bastante presente e impede o sujeito de proceder
em direção à simbolização de sua perda” (Recalcati, 2004b, p.5).
Enquanto, na demanda convulsiva, o objeto se torna ativo, ganha poder uma vez que
retratado como objeto-gadget, na demanda melancólica, o sujeito se esvai, se dissolve junto
com os objetos e o tudo se reverte em nada. Em outras palavras, “A dimensão melancólica da
demanda contemporânea alude, portanto, como também a dimensão da demanda convulsiva, a
um afastamento radical da simbolização do objeto perdido” (Recalcati, 2004b, p.5).
Na clínica, e de acordo com essa configuração da demanda na contemporaneidade, a
“tríade clássica sintoma-demanda-transferência” (p.6), característica do tratamento preliminar
na condução da análise nos casos de neurose, torna-se mais complexa quando não se
apresenta desarticulada. Segundo Recalcati: “Esta desarticulação é gerada pelo fato de que os
novos sintomas não manifestam tanto o sujeito dividido [...]” (p.6). O autor entende que nos

8
‘O Outro que não existe e seus comitês de ética’, curso desenvolvido no Departamento de Psicanálise da
Universidade de Paris VIII, lição de 11 de dezembro de 1996.
38

casos em que o sujeito faz um uso perverso do objeto, com o qual pretende cobrir a falta, cria
uma via perversa para lidar com a divisão subjetiva.
Outra dificuldade da articulação do sintoma com a demanda ocorre quando este parece
estar mais do lado do traço identificatório – S1 – do que do sujeito dividido. A transferência,
então, não surge mais do par sintoma-demanda porque não se endereça ao saber, apresenta-se
como fixada ao S1, ou ao objeto de gozo: “[...] o desenvolvimento simbólico da transferência
encontra na transferência à identificação idealizante ou ao objeto de gozo uma força que
parece desarranjar a tríade sintoma-demanda-transferência” (Recalcati, 2004b, p.6).
Dentre os efeitos mais evidentes dessa “paralisia” (p.6) da transferência analítica, o
autor destaca o uso dado à palavra que “em vez de colocar-se no centro da dialética do desejo,
aparece como esvaziada de sentido, supérflua, impotente” (p.6). Desse modo, a dialética da
palavra, assim como a dialética do desejo, aparecem como que anuladas por essa fixação da
transferência ao objeto no lugar da transferência endereçada ao saber. E neste contexto, a
demanda fica reduzida à exigência superegóica de preservar essa solução sintomática.
Seguindo sua teorização, Recalcati (2004b) conclui que essas soluções sintomáticas
não são, a rigor, formações do inconsciente, no sentido clássico do termo, não se organizam
num regime significante. Ao invés disso, apresentam-se como prática pulsional, “[...] técnica
de gozo que contrasta com o sujeito do inconsciente” (p.7). Diante desse quadro, o analista se
interroga sobre como poderá operar, como tornar possível uma aplicação eficaz da psicanálise
nesses casos. Para o autor, o que é um elemento de estrutura, ou seja, a diferenciação entre o
plano simbólico do significante e esse real do gozo apresenta-se “[…] radicalmente
amplificado na nova clínica, impondo à aplicação da psicanálise uma inevitável rearticulação”
(p.7).
Sua suposição é a de que para tornar a interpretação eficaz, nesse contexto, há de se
promover, primeiramente, uma retificação do Outro para que se possa, posteriormente,
realizar a retificação do sujeito. Em sua compreensão, esses fenômenos clínicos resultam de
uma relação com um Outro incapaz de operar com a própria falta que o sujeito encontrou em
sua história. Esta incapacidade faz com que este Outro se apresente como se fosse um outro
pleno. O Outro é o lugar de alteridade e por isso mesmo, a existência de um Outro sem falta é
impossível. É neste sentido que o autor recorre à expressão Outro que não existe para apontar
esse paradoxo que se apresenta concomitantemente na história pessoal dos pacientes e na
cultura do nosso tempo. Nas suas palavras:
39

Este desenvolvimento exige, de fato, na nova clínica, um ‘sim’ preliminar


ao sujeito, que possa introduzir um Outro diverso do Outro (traumático
por excessiva presença ou excessiva ausência) que o sujeito encontrou em
sua própria história. […] Na época do Outro que não existe devemos
tentar reintroduzir o sujeito numa dialética possível de viver com o Outro
(Recalcati, 2004b, p.7).

Retificar o Outro seria encarnar, como analista, “um Outro que saiba não excluir, não
anular, não refutar, não silenciar, não preencher, não sufocar, não atormentar” (p.7). O
objetivo da retificação do Outro é o de implicar o sujeito numa transferência com o Outro. A
prática das entrevistas preliminares na “clínica clássica das neuroses” (p.7) visa a retificação
da posição do sujeito, que tem como decorrência a apropriação da responsabilidade subjetiva,
que provoca uma “mutação radical da demanda” (Recalcati, 2004b, p.7).
Na “nova clínica” se faz necessária uma “mutação radical da oferta” (p.7). Para o
autor o analista deve refletir sobre as seguintes questões: “qual Outro estamos à altura de
oferecer ao sujeito? Qual Outro-parceiro estamos à altura de ser para um sujeito, presa de um
excesso de gozo, que parece extinguir o poder da palavra e anular a própria existência do
inconsciente?” (p.7). Dessa maneira, propõe que a ênfase dada na direção do tratamento
preliminar na clínica contemporânea esteja em pensar sobre o lugar do Outro na dinâmica
psíquica do sujeito a fim de que se possa construir, nesse primeiro tempo, um sintoma
propriamente dito.
Portanto, Recalcati supõe que a origem dessas respostas sintomáticas está na relação
que o sujeito estabeleceu com um Outro que não sabe lidar com sua própria falta e, assim, vê
a retificação do Outro como uma possibilidade - no contexto do trabalho clínico com
pacientes graves – de promover o desenvolvimento da transferência sobre o eixo simbólico,
necessário para que a análise propriamente dita se dê. Retomaremos essa proposta no quinto
capítulo, dedicado à clínica.
Apesar das diferenças entre suas perspectivas, os autores revisitados para esta pesquisa
têm alguns pontos em comum. Todos reconhecem que na contemporaneidade há uma
tendência para tentar eliminar o conflito, a inquietação, a falta que habita o sujeito, ao invés
de se indagar seu sentido. Reconhecem ainda a busca crescente por soluções imediatas que
funcionem dentro da lógica da normatização e que são propostas adaptativas. Descrevem o
indivíduo contemporâneo como o avesso do sujeito do inconsciente, e enfatizam o
empobrecimento do uso da função simbólica, cujas manifestações são exemplificadas, dentre
outras, por cadeias metafóricas curtas, pobres, falência da função paterna. Outros pontos
reconhecidos pelos autores são o aprisionamento do sujeito em um curto-circuito gerado pela
40

satisfação das pseudonecessidades, os objetos como gadgets, objetos-fetiche, que funcionam


como satisfação ilusória e não apontam para o desejo.
A partir desta revisão bibliográfica, tomamos alguns posicionamentos. Por termos
identificado falhas conceituais importantes na argumentação teórica, discordamos da vertente
que defende a hipótese das novas formações subjetivas e a necessidade de reformulação dos
conceitos fundamentais da psicanálise, posicionamento ilustrado com os trabalhos de Birman
(1999 e 2006). Porém, da mesma forma, não ficamos satisfeitos com a apreensão de que o que
vemos na clínica hoje é o mesmo de sempre sob nova roupagem, posição assumida por
Roudinesco (2000) e Khel (2005).
Posicionamo-nos de acordo com as análises empregadas por Sauret (2005) e Racalcati
(2004b) de que há uma mudança significativa no modo como o sujeito se situa em relação ao
sexual, ao gozo e ao social. Não que se trate de uma subjetividade inédita - esses quadros de
sofrimento já existiam anteriormente - porém, como disse Sauret, este novo laço social, o
capitalismo, lhes renova o vigor. Sob esta perspectiva e com o objetivo de nos
fundamentarmos teoricamente, antes de abordarmos de maneira mais direta a clínica,
recorremos à obra de Freud, na qual encontramos, na teorização sobre os quadros clínicos das
neuroses atuais, a iluminação precisa que estávamos necessitando.
41

Capítulo 3: As neuroses atuais

3.1.Para destacar as neuroses atuais das psiconeuroses de defesa

Sabe-se que a psicanálise foi criada por Freud no alvorecer do século XX para atender
pacientes que apresentavam sintomas incompreensíveis e diagnosticados equivocadamente, o
que resultava em tratamentos inadequados ao sofrimento apresentado pelo sujeito. Tais
sintomas, evidentemente, não estavam descontextualizados, nasciam em meio à modernidade
e ao que se convencionou chamar de falência do patriarcado.
Como vimos no primeiro capítulo desta dissertação, em 1938, Lacan localizou o
nascimento da psicanálise e a posicionou em meio à ebulição cultural que dissolvia as mais
variadas formas de composição da família e outras organizações sociais, constituintes do
quadro paternalista feudal e mercantil. Ressaltamos, mais uma vez, a evidência da relação
entre os sintomas surgidos à época de Freud e o aparecimento da psicanálise como um método
de tratamento para as psiconeuroses de defesa.
A psicanálise foi direcionada, primeiramente, ao tratamento da histeria e, logo, se
estendeu à neurose obsessiva, que até então era considerada pela psiquiatria como psicose
(Carneiro Ribeiro, 2001). Freud trabalhou na direção de pensar um aparelho psíquico em
íntima consonância com o saber inconsciente. De acordo com esta visada, estendeu sua
teorização à cultura, passo fundamental para o desenvolvimento da psicanálise, e que
contribuiu substancialmente para a crítica psicanalítica ao processo civilizatório. Entretanto, a
clínica sempre foi sua referência e as psiconeuroses sempre tiveram um lugar de destaque em
seu pensamento.
Sobre estas, Freud as definiu, inicialmente, como a consequência de um conflito entre
dois princípios - o de realidade e o de prazer - que resultava num acordo, uma formação de
compromisso entre as exigências da pulsão e os limites impostos pelo Eu. Esta formação de
compromisso era manifesta em forma de sintoma. Um sintoma psiconeurótico é sempre uma
substituição simbólica, uma substituição de representações. Freud postulou que o discurso
inconsciente, para o qual inaugurou uma escuta, se estabelece através de representações - são
os Vorstellung repräsentanz, manifestados sob a forma de deslocamento e condensação.
Os sintomas neuróticos sempre remontam à origem infantil. A fim de transpor as
questões suscitadas pela oposição entre causas endógenas e exógenas, Freud sistematiza a
formação da psiconeurose em um esquema, que denominou série complementar, onde o fator
42

endógeno – fixação da libido, subdividido em hereditariedade e vivência infantil –, e o fator


exógeno – frustração da libido – atuam em composição (Freud, 1916, p.406 e 423).
Em síntese, o sintoma da psiconeurose é uma formação do inconsciente, resultante de
um conflito entre o desejo inconsciente e as exigências da realidade, efeito do recalcamento.
O sintoma é então o retorno do recalcado sob a forma de representação psíquica simbólica. Na
mesma conferência citada, Freud (1916), ao tratar da etiologia das neuroses, dá destaque à
adesividade pulsional, que define como a “[...] tenacidade com que a libido adere a
determinadas tendências e objetos” (p.406). Considera esta adesividade fundamental na
etiologia das neuroses, uma vez que contribui para a fixação da libido. Esta fixação da libido
será relacionada ao que Freud identificou como um núcleo resistente à análise, algo no
sintoma que faz com que o paciente, apesar de todo sofrimento, resista ao tratamento.
Referidos ao ensino de Lacan, podemos dizer que se trata do núcleo de gozo do sintoma.
Mais uma vez, guiado pela experiência clínica, Freud se refere a outro quadro de
sofrimento no decorrer de sua obra: as neuroses atuais9. As menciona pela primeira vez em
1888, todavia, começa a interessar-se mais pelo assunto em 1892, ano em que escreve uma
carta a Fliess, a respeito da neurastenia (Freud, apud Masson, 1986, p.37,).
O termo – neurastenia - foi cunhado em 1879, por George Miller Beard, neurologista
norte americano, para designar um estado de fadiga física e psicológica permanente,
acompanhado de diversos outros distúrbios funcionais. Sua pesquisa resultou no livro:
American nervousness, its causes and consequences; supplement to nervous exhaustion
(neurasthenia), 1881. Beard considerava a neurastenia uma doença americana, que acometia
principalmente os homens, e acreditava que sua causa era o ritmo de vida excessivamente
acelerado, ao qual, estava submetido o homem do Novo Mundo. Foi um dos primeiros a
relacioná-la ao alcoolismo, em expansão no séc.XIX, “Neurasthenia as a cause of inebriety”,
187910.

9
Freud se refere às neuroses atuais em: Histeria, 1888, Um caso de cura pelo hipnotismo; Rascunho: A; 1892;
Rascunho B; 1893; Estudos sobre histeria: casos clínicos: 2, 3 e 5; Considerações teóricas: (6) Disposição
inata: desenvolvimento da histeria; Psicoterapia da histeria, 1893-95; Rascunhos: D; E; F; Carta 18; As
neuropsicoses de defesa; Obsessões e fobias: seu mecanismo psíquico e sua etiologia; Sobre os critérios para
destacar da neurastenia uma síndrome particular intitulada ‘neurose de angústia’, 1894; Rascunhos: G; I; 1895;
Rascunho K; Carta 52; Réplicas ao meu artigo sobre neurose de angústia, 1896; A sexualidade na etiologia das
neuroses, 1898; Psicopatologia da vida cotidiana: Tomo VII: O esquecimento de impressões e intenções, 1901;
Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa,1908; A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da
visão; Psicanálise ‘silvestre’, 1910; Contribuições a um debate sobre a masturbação, 1912; O narcisismo: uma
introdução, 1914; Conferências introdutórias: conferência. XXIV: O estado neurótico comum, 1916-7;
Psicanálise e telepatia, 1921; Dois verbetes para enciclopédia: (A) Psicanálise, 1923; Um estudo
autobiográfico, 1925; Inibições, sintomas e ansiedade; Questão da análise leiga; 1926; Novas conferências
introdutórias: conferência XXXII: Ansiedade e vida instintual, 1932.
10
LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J. B., Vocabulário da psicanálise, (p.312). São Paulo: Martins Fontes, 1988.
43

Freud (1908) não concordava com o neurologista americano quanto às causas da


neurastenia. Contestou as posições de Beard, e da maioria dos analistas sociais da época, por
ditarem como causadores da doença nervosa, fatores externos como as exigências provocadas
pela modernidade. Considerava as condições externas, principalmente no que dizem respeito à
moral sexual civilizada e toda sua força repressora, como dispositivos das neuroses atuais,
porém, sustentou que a etiologia era de ordem sexual, com fonte endógena. Em 1908, Freud
as entendia como um efeito da tensão sexual sem descarga, devido às dificuldades que
homens e mulheres encontravam para agir de acordo com as exigências da civilização e, ao
mesmo tempo, alcançar a satisfação necessária, percurso similar ao das psiconeuroses.
Entretanto, Freud percebeu uma diferença decisiva - no caso das neuroses atuais, a tensão
acumulada não encontra o caminho da representação psíquica; a libido retida é descarregada
diretamente no corpo, sem ganhar sentido algum, sem se utilizar da função simbólica. Este
fato pareceu intrigá-lo principalmente porque, além de marcar a distinção entre as neuroses
atuais e as psiconeuroses de defesa, tornava as primeiras extremamente difíceis de serem
tratadas:

A essência das teorias a respeito das ‘neuroses atuais’ que apresentei no


passado e estou defendendo hoje reside na minha declaração, baseada em
experimentos, de que seus sintomas, diferentemente dos psiconeuróticos, não
podem ser analisados. [...] não admitem serem remontadas, histórica ou
simbolicamente, a experiências operantes, e não podem ser compreendidas
como substitutos da satisfação sexual ou como conciliações entre moções
pulsionais11 opostas, como é o caso dos sintomas psiconeuróticos (ainda que
os últimos talvez possam ter a mesma aparência) (Freud, 1912, p.314, grifo
nosso).

Neuroses atuais foi a denominação que Freud deu a tais quadros clínicos,
Aktuellneuroses, caracterizados principalmente por sua falta de historicidade12. Ou seja, a
contemporaneidade dos sintomas que, pelos próprios pacientes, não eram atribuídos, às suas
vidas, às suas histórias, como se pode ler na citação anterior. E, ainda, pelo seu caráter súbito
sem a mediação encontrada na formação dos sintomas das psiconeuroses. No Seminário 7, ao
tratar da pulsão, Lacan (1959-60), de acordo com o pensamento freudiano, também relaciona

11
Nesse trecho substituímos “impulsos instituais” por moções pulsionais. Optamos por adotar o termo pulsão,
tradução já consagrada para o original em alemão trieb, no lugar do termo instinto. Sob mesmo argumento ao
longo do texto, nos utilizaremos das seguintes substituições: ansiedade por angústia, ego por eu, id por isso,
repressão por recalque (todos referidos aos termos cunhados por Freud no original em alemão).
12
Segundo encontra-se em Houaiss: 1 qualidade ou condição do que é histórico; historicismo 2 PSIC conjunto
dos fatores que constituem a história de uma pessoa e que condicionam seu comportamento em uma dada
situação.
44

o historicismo ao Simbólico: “Essa dimensão é introduzida desde que a cadeia histórica é


isolável, e que a história se apresenta como algo memorável e memorizado no sentido
freudiano, algo que é registrado na cadeia significante e suspenso à sua existência” (Lacan,
1959-60, p.260). Ou seja, para Lacan história, memorização e rememoração dependem do
registro significante, do registro simbólico da pulsão: “A rememoração, a historização, é
coextensiva ao funcionamento da pulsão no que se chama de psiquismo humano” (p.256).
Sem se utilizar do recurso da representação no que implica no uso da memória, o
sujeito se torna incapaz de circunscrever-se historicamente, de remontar sua experiência
relacionando-a com sua própria história (o que é muito presente no discurso de alguns jovens,
na contemporaneidade, que parecem recusar sua inscrição na história e na família, como se
esta evitação garantisse certa liberdade almejada). É o que podemos observar nos seguintes
relatos13:
- “Aonde estou? Eu não sei. Aonde vou parar? Também não. O que sei é que estou indo
pelo MEU caminho”.
- “Ame não o que você é, mas o que você pode se tornar”.
- “Não deixe o desapontamento de ontem estragar o hoje”.

As neuroses atuais se dividem em neurastenia e neurose de angústia, para a qual Freud


deu especial destaque, exatamente, por sua relação com a angústia. Em 1894, Freud
estabeleceu pela primeira vez a base de toda sua teorização a respeito deste afeto. Muito foi
acrescentado posteriormente, porém a matéria-prima já se encontra nesse escrito. Sobre a
origem da angústia, demarcou dois campos: a origem exógena e a origem endógena. A
primeira não causaria grandes problemas, pois “A fonte de excitação está do lado de fora e
envia para a psique um aumento de excitação, que é tratado de acordo com sua quantidade.”
Portanto, “Para esse fim, basta qualquer reação que diminua a excitação psíquica interna na
mesma quantidade” (Freud apud Masson, 1986, p.80).
A origem endógena, esta sim, muito mais complexa, com sua fonte sediada no próprio
corpo, necessita de uma ação específica que impeça um aumento de excitação de tal ordem
que ultrapasse um certo limite. Num primeiro momento, é esse acúmulo que irá “despertar a
libido” e o desejo. Porém, se por algum motivo, a ação específica não ocorrer e a excitação
acumulada exceder o limite, torna-se “perturbadora” (p.80). Essa fonte endógena da angústia
está na base da neurose de angústia:

13
Disponível em: www.freewebs.com/annamialifestyle. Acessado em:jun 2008.
45

[...] nela, as coisas se desvirtuam da seguinte maneira: a tensão física


aumenta e atinge o valor limítrofe em que é capaz de despertar o afeto
psíquico; no entanto, por diversas razões, a ligação psíquica que lhe é
oferecida permanece insuficiente: o afeto sexual não pode formar-se, pois
falta algo nos determinantes psíquicos. Por conseguinte, a tensão física,
não sendo psiquicamente ligada, transforma-se em angústia (Freud, 1894,
apud, Masson, 1986, p.80).

Nesse manuscrito, Freud distinguiu pela primeira vez a neurose de angústia da


histeria. Diz que num momento inicial, supôs ser a neurose de angústia uma histeria, por
serem ambas neuroses de “represamento” (p.81) e deslocarem a libido para o corpo. Porém,
constatou que enquanto na histeria o que fora represado se transformava em representação – a
excitação é psíquica e se direciona para o campo somático - na neurose de angústia: “[...]
trata-se de uma tensão física que não consegue penetrar no campo psíquico e, por
conseguinte, permanece na via física” (p.82, grifo nosso).
Freud já apontava para uma falha na função simbólica, na esfera psíquica “[...] na
neurose de angústia deve haver um déficit assinalável no afeto sexual, na libido psíquica”
(p.81). Em consequência deste déficit simbólico, dessa falta de inscrição distingue a angústia
presente na neurose de angústia da angústia presente na histeria, “[...] a angústia da neurose de
angústia não pode ser uma angústia prolongada, recordada, histérica” (p.78).

3.2. Neurose de angústia e neurastenia

Apesar de somente em 1926, Freud ter situado a angústia como afeto original e único,
anterior ao recalque, relacionado ao desamparo fundamental e à pulsão de morte, desde 1894,
em Sobre os fundamentos para destacar da neurastenia uma síndrome específica denominada
neurose de angústia, já pôde perceber sua relevância e dar ao quadro clínico da neurose de
angústia o devido destaque.
Neste artigo descreveu uma série de sintomas que este quadro clínico compreende,
todos relacionados diretamente à angústia e à falta de representação simbólica. Dentre eles
estão a irritabilidade geral – consequência de um acúmulo de excitação ou inabilidade para
lidar com este acúmulo, e a expectativa ansiosa – sintoma nuclear uma vez que indica a
presença de um “quantum de angústia em estado de livre flutuação” (Freud, 1894b, p.110).
Muitas vezes esse quantum de angústia é tão alto que a expectativa ansiosa se assemelha a
uma fobia, porém o que as difere é que nos casos de neurose de angústia “[...] o afeto não se
46

origina de uma idéia recalcada, mas mostra não ser posteriormente redutível pela análise
psicológica, nem equacionável pela psicoterapia” (p.114).
Ao descrever o ataque de angústia, Freud inclui: distúrbios das atividades digestiva,
cardíaca, respiratória; a sudorese, tremores, calafrios e a “fome devoradora” – um dos nomes
para a bulimia – que literalmente significa: fome de boi:

Esse tipo de ataque de angústia pode consistir apenas no sentimento de


angústia, sem nenhuma representação associada, ou ser acompanhado da
interpretação que estiver mais à mão, tal como representações de extinção da
vida, ou de um acesso, ou de uma ameaça de loucura; ou então algum tipo de
parestesia (similar à aura histérica) pode combinar-se com o sentimento de
angústia, ou, finalmente, o sentimento de angústia pode estar ligado ao
distúrbio de uma ou mais funções corporais - tais como a respiração, a
atividade cardíaca, a inervação vasomotora, ou a atividade glandular. Dessa
combinação o paciente seleciona ora um fator particular, ora outro. Queixa-
se de “espasmos do coração”, “dificuldade de respirar”, “inundações de
suor”, “fome devoradora”, e coisas semelhantes; e, em sua descrição, o
sentimento de angústia frequentemente recua para o segundo plano ou é
mencionado de modo bastante irreconhecível, como um “sentir-se mal”,
“não estar à vontade”, e assim por diante (Freud, 1894b, p.111).

Como podemos perceber através da citação, o que hoje está classificado nos
compêndios de psiquiatria – DSM-IV – Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações
Mentais (American Psychiatric Association, Jan-02) e CID-10 – Classificação Estatística
Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – Décima Revisão – com a
designação de patologias contemporâneas como a depressão distímica, a bulimia, a anorexia
e os transtornos do pânico, Freud já havia agrupado sob a denominação de neurose de
angústia. É impressionante o modo como a descrição feita por Freud foi ignorada,
deliberadamente, por seus críticos da ciência médica, em particular os da tradição cognitivista
que a ele não fazem referência alguma.
Vale destacar que tais diagnósticos são distribuídos com frequência por médicos, na
atualidade, que apesar das contribuições trazidas pela psicanálise a esse respeito, seguem
ainda a mesma tese de Beard (1881) de que essas patologias são derivadas de um efeito de
exigências cada vez mais intensas e estressantes do mundo contemporâneo.
Dunker (2002) ressalta que ao examinar o texto de Freud (1894b) dos setes traços
apontados pelo CID-10, como constitutivos do Transtorno do pânico, apenas um – sensação
de irrealidade – não é apontada de forma direta pelo inventor do método analítico. O que a
psiquiatria atual chama de transtornos, Freud designava de síndrome. Portanto, não seria
difícil demonstrar, segundo este autor brasileiro, que “[...] a atual ‘nova forma de sintoma’ é
47

na verdade uma das mais antigas contribuições clínico descritivas de Freud – a neurose de
angústia” (Dunker, 2002, p. 195).
Sentimo-nos então justificados a trilhar o caminho percorrido por Freud em suas
teorizações sobre as neuroses atuais, nesta pesquisa sobre a clínica psicanalítica na
contemporaneidade, principalmente no que se refere ao quadro clínico da neurose de angústia.
Com a perspectiva de, com rigor, seguirmos essa via, acrescida de contribuições posteriores
de Lacan, deixaremos de fora outras abordagens.
Retomando o texto de 1894, destacamos as distinções entre neurastenia e neurose de
angústia: efeito de descarga inadequada da excitação sexual e efeito de um acúmulo de
excitação sexual não consumada, respectivamente:

[...] constatamos, antes, uma espécie de antítese entre os sintomas da


neurose de angústia e os da neurastenia, que poderia evidenciar-se em
rótulos como “acúmulo de excitação” e “empobrecimento da excitação”.
Essa antítese não impede que as duas neuroses se misturem; mesmo
assim, porém, transparece no fato de que as formas mais extremas de
cada uma das neuroses são também, em ambos os casos, as mais puras.
(Freud 1894b, p.134)

Trinta anos depois, Freud retomou suas teorizações a esse respeito e repetiu essa
distinção reafirmando a neurose de angústia como efeito de um acúmulo de excitação sexual
não consumada e a neurastenia como um efeito de descarga inadequada da excitação sexual
através de masturbação e/ou polução noturna:
Ainda em 1894, a respeito da distinção entre neurose de angústia e histeria, Freud
alertou para a importância que deve ser dada às diferenças existentes entre elas, uma vez que
ambas as neuroses se assemelham e que a neurose de angústia era para Freud, como já
dissemos, intratável pela psicanálise. Confundi-las poderia criar uma direção clínica
equivocada e infrutífera:

A sintomatologia da histeria e a da neurose de angústia mostram muitos


pontos em comum, [...] traços que as duas doenças têm em comum
permitem até a suspeita de que uma parcela nada insignificante do que se
atribui à histeria poderia, com maior justiça, ser posta na conta da neurose
de angústia.[...] E ainda, tanto na segunda como na primeira, em vez de
uma elaboração psíquica da excitação, há um desvio dela para o campo
somático; a diferença está apenas em que, na neurose de angústia, a
excitação, em cujo deslocamento a neurose se expressa, é puramente
somática (excitação sexual somática), ao passo que, na histeria, ela é
psíquica (provocada por um conflito) (Freud, 1894b, p.134).
48

Mais uma vez, vemos a dimensão dada por Freud a essas diferenças desde a sua
primeira concepção da histeria. Mesmo mais tarde, já com a teorização de que a angústia
antecedia e causava o recalcamento, demarcou duas categorias de angústia. Portanto, essa
importância permaneceu por todo o seu percurso teórico clínico.
Comparando-se então as neuroses de transferência (ou psiconeuroses de defesa) às
neuroses atuais temos:

Neuroses de Transferência; Neuroses Atuais:


Histeria e Neurose de angústia e
Neurose obsessiva Neurastenia
satisfação substitutiva ausência de satisfação
sexual /excesso de
excitação sexual ou
satisfação inadequada
representação psíquica descarga direta no corpo
sem representação psíquica
ou masturbação/polução
noturna
há regressão da libido não há regressão da libido
causa auxiliar/ concorrente causa específica + causa
desencadeante
constituição sexual + excesso de excitação sexual
trauma infantil + fator traumático atual
conflito e defesa contra o descarga direta no corpo ou
desejo recalcado descarga inadequada

Nota-se que se destaca, em ambos os grupos, a etiologia de cada afecção ligada à


sexualidade de forma diversa. As neuroses de transferência estão ligadas à representação
psíquica, portanto, se inserem dentro do quadro teórico da hipótese do recalcamento produtor
de conflito. Isto é o que nos permite dizer, com Freud e Lacan, que se trata, neste caso, da
sexualidade histórica.
49

Nos quadros de neurose atual, a sexualidade, por sua vez está ligada ao momento
presente e à descarga direta; portanto a-histórica. Na histeria e na neurose obsessiva a
representação sustenta o sintoma; na neurose de angústia e na neurastenia, a questão está,
justamente, no vazio de representações, isto é, na falta de inscrição psíquica da libido. Pode-se
dizer, então, à luz do ensino de Lacan, que na neurose de angústia um gozo sem suporte
fálico, especular, detona a angústia. A libido, então, retorna no Real sob a forma de angústia.
Nesse sentido, a neurose de angústia foi abordada por Freud como um sofrimento
determinado por razões econômicas.
Em Contribuições a um debate sobre a masturbação (1912a), ao distinguir as duas
categorias de neurose atual, Freud localiza a neurose de angústia como “núcleo do sintoma”
neurótico, o que será reforçado ao longo de seus escritos posteriores, na medida em que a
angústia é posicionada como peça fundamental na construção do psiquismo:

[...] (as neuroses atuais) fornecem às psiconeuroses a necessária submissão


somática, elas fornecem o material excitativo, que é então psiquicamente
selecionado e recebe um ‘revestimento psíquico’, de maneira que, falando de
modo geral, o núcleo do sintoma psiconeurótico – o grão de areia no centro
da pérola – é formado de uma manifestação somática. Isto é mais claro, é
verdade na neurose de angústia e sua relação com a histeria do que na
neurastenia [...]. Na neurose de angústia, [...], há no fundo um pequeno
fragmento de excitação não descarregada, [...], que emerge como sintoma de
angústia ou fornece o núcleo para a formação de um sintoma histérico
(Freud, 1912a, p.313, grifo nosso).

Neste mesmo texto, Freud vai articular de maneira mais detalhada a neurastenia à
masturbação, sublinhando características peculiares a esta associação. Constata que quando a
masturbação ocorre na puberdade e se apresenta com frequência elevada posteriormente, isto
provavelmente acontece como resultado de uma fixação de objetivos sexuais infantis, uma
“persistência de infantilismo psíquico”, e que, no que se refere à fantasia, são “conciliações
prejudicais” (p.317).
Quinze anos antes, em uma carta para Fliess, de 22 de dezembro de 1897, disse que a
masturbação é “o vício primário” do qual derivariam os demais. O tema foi retomado em
Dostoieviski e o parricídio (1927), quando interpretou um conto de Zweig como uma fantasia
edipiana masturbatória, típica do início da puberdade. Esta fantasia estaria representando o
desejo do menino de que sua mãe o iniciasse na vida sexual, e desta maneira, o retirasse da
prática masturbatória. Nesse conto, Freud destaca o importante papel da simbologia do
jogador: “[...] a paixão pelo jogo constitui um equivalente da antiga compulsão a se masturbar
[...]” (p.222).
50

Hoje, o debate sobre masturbação segue atual, na medida em que há um uso


significativo e ascendente da internet e de centrais telefônicas, que escancaram a pornografia
como incremento à masturbação, o que denuncia a sexualidade auto-erótica tão presente na
atualidade.
Na conferência XXIV, Freud apresentou, com clareza, outra característica das
neuroses atuais - a toxidade:

As neuroses ‘atuais’, nos detalhes de seus sintomas e também em sua


característica de exercer influência em todo sistema orgânico e toda função
mostram uma inconfundível semelhança com os estados patológicos que
surgem da influência crônica de substâncias tóxicas externas e de uma
suspensão brusca das mesmas — as intoxicações e as situações de
abstinência (Freud, 1916, p.452).

Chamou atenção para a relação direta do auto-erotismo característico da masturbação,


marcadamente um curto-circuito pulsional onde não há investimento objetal, signo da falta de
laço social, que Freud relaciona diretamente à adição. É o que também assinala Braunstein
(2007):

A droga não é um objeto sexual substitutivo, carece de valor fálico; é, pelo


contrário, um substituto da sexualidade mesma, um modo de afastar-se das
coações relacionais impostas pelo falo. É assim que a droga se assemelha ao
auto-erotismo da proibição originária: o sujeito administra em si mesmo uma
substância que o conecta diretamente com um gozo que não passa pelo filtro
da aquiescência ou pelo forçamento do corpo de outro; consegue-se deste
modo a substituição da sexualidade (Braunstein, 2007, p.281).

É neste sentido que entendemos a nomenclatura neuroses tóxicas. Esta toxidade


mostra, uma vez mais, o excesso tão presente hoje, principalmente como traço comum da
clínica na contemporaneidade.
Além da equivalência entre masturbação e auto-erotismo, a persistência de um
“infantilismo psíquico” (Freud, 1912a, p.317), diretamente relacionado à sexualidade, nos
remete às elaborações freudianas posteriores sobre o masoquismo primário. O prazer no
sofrimento estrutural baseia-se num excesso de excitação sexual num período que antecede a
fase fálica. Logo, se trata de um gozo sem suporte fálico. O mesmo irá se dar com a excitação
causada pelo sofrimento e pelo desprazer que terá grau variável de um sujeito para o outro,
mas que está para todos como fundação para o que mais tarde irá se constituir como o
masoquismo erógeno (Freud, 1924).
51

Ao longo de suas teorizações a respeito do tema, Freud (1914) levanta ainda a hipótese
da hipocondria ser uma possível terceira neurose atual. Faz esta consideração pela semelhança
no que diz respeito à erogenidade do corpo, evidenciada nos sintomas tanto das neuroses
atuais quanto da hipocondria:

Podemos decidir considerar a erogenidade como uma característica geral de


todos os órgãos e, então, podemos falar de um aumento ou diminuição dela
numa parte específica do corpo. Para cada uma das modificações na
erogenidade dos órgãos poderia, então, verificar-se uma modificação
paralela da catexia libidinal no eu. [...] Vemos que, se acompanharmos essa
linha de raciocínio, nos defrontaremos não só com o problema da
hipocondria, mas também com o das outras neuroses ‘reais’ — a neurastenia
e a neurose de angústia (Freud, 1914, p.99).

Essa erogenidade do corpo todo situa a neurose de angústia como numa anterioridade
lógica, pois é no início da vida que o corpo todo guarda o potencial de ser investido
eroticamente.
A psicanálise introduz uma diferença entre o corpo humano e o organismo vivente,
este último é condicionado pelas leis biológicas, pelo instinto, pela hereditariedade e está
inserido no acervo genético de uma espécie. O corpo humano, por sua vez, não é redutível ao
campo biológico natural do instinto, é produto da ação do significante que torna o corpo
pulsional. É o que Freud (1905) apontou ao estabelecer as zonas erógenas como uma
topologia da pulsão. Sendo assim, o desmame, o controle dos esfíncteres, a interdição do
incesto são etapas a que o sujeito é submetido, nas quais seu corpo será manipulado, limpo,
vestido, tratado, de acordo com a cultura à qual pertence e que o marca de maneira radical.
Lacan, a este respeito, afirma que o corpo está no campo do Outro, pois o campo do
Outro é exatamente de onde se dá esse tratamento significante. Portanto, a entrada no campo
do Outro tem como efeito uma inscrição simbólica que não se efetua sem uma perda de gozo.
(Lacan, 1964). Esta perda de gozo corresponde ao vazio original do sujeito, vazio que
constitui o ponto mais íntimo e mais estranho a ele. Vazio que abre uma falta radical no
sujeito que não pode ser aplacada por nenhum objeto. É o que Lacan nomeou falta-a-ser.
Porém, esse vazio pode ser tomado como objeto, tendo o nada como sua figuração. É o
que ocorre no quadro clínico da anorexia-bulimia. A anoréxica come o nada e se oferece, pela
via da identificação, ela mesma para ser o vazio. A bulímica encontra com o vazio ao fim de
cada crise de fome desenfreada, através do vômito que esvazia seu corpo. Crise que
demonstra a impossibilidade do objeto-comida preencher seu vazio, como veremos mais
detalhadamente no quinto capítulo desta dissertação.
52

3.3. O gozo

A partir das diretrizes proporcionadas pela metapsicologia freudiana, Lacan


conceituou o gozo e formulou o objeto a que, relacionados diretamente à angústia e ao
registro do Real, são instrumentos fundamentais para a realização desta pesquisa, o que nos
leva a apresentar breve resumo do conceito de gozo no ensino de Lacan.
Em 1953, frente às distorções que a psicanálise havia sofrido, por parte de
psicanalistas pós-freudianos, Lacan fez sua conhecida proposta de um retorno a Freud. Em
seguida, lançou a mais conhecida de todas as suas teses: o inconsciente é estruturado como
uma linguagem (Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise, 1953). Os textos
freudianos em que se baseou foram: A interpretação dos sonhos (1900), Psicopatologia da
vida cotidiana (1901) e Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905b).
Lacan sustentou que o campo da linguagem é constituído por formações linguísticas
tais como o lapso, os sonhos, os chistes e os sintomas, conforme já havia demarcado Freud.
Nesse primeiro período de seu ensino, Lacan equivale o Simbólico à linguagem e ao
inconsciente, e o desejo é correlato às leis da linguagem. O significante, definido a partir do
sujeito do inconsciente, é aquilo que representa o sujeito para outro significante. O campo da
linguagem corresponde ao conjunto de significantes, que Lacan denominou de grande Outro
(A – Autre). O Outro é este lugar que se constitui, toda vez que alguém fala, que é uma
alteridade para todos nós. É o lugar do inconsciente e também onde se situa a cultura e o
registro do Simbólico.
Em A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud, Lacan (1957)
utilizou-se da imagem dos significantes, dispostos na forma de um colar que estaria enlaçado
a outros colares, para dar a dimensão das conexões inconscientes. Dessa maneira, ilustra que o
inconsciente tem leis. Estas são as leis da linguagem, a metonímia e a metáfora, equivalentes
ao que Freud chamou de deslocamento e condensação, respectivamente. À luz do ensino de
Lacan, podemos extrair de A interpretação dos sonhos, no capítulo intitulado O trabalho de
condensação (Freud, 1900, p.295-361), uma descrição dessa malha de significantes:

Em vista do número muito grande de associações produzidas na análise a


cada elemento individual do conteúdo de um sonho, alguns leitores poderão
ser levados a duvidar se, como questão de princípio, temos como
justificativa para considerar como parte dos pensamentos oníricos todas as
associações que nos ocorrem durante a análise subsequente – se estamos
justificados, vale dizer, em supor que todos esses pensamentos já eram ativos
durante o estado de sono e desempenharam seu papel na formação do sonho.
53

[...] Sem dúvida é verdade que algumas cadeias de pensamento surgem pela
primeira vez, durante a análise. Mas podemos nos convencer, em todos esses
casos, de que essas novas ligações somente se estabelecem entre os
pensamentos que já estavam ligados de alguma outra forma nos pensamentos
oníricos. As novas conexões são, por assim dizer, linhas entrelaçadas ou
curtos-circuitos, tornadas possíveis pela existência de outras linhas de
ligação mais profundas (Freud, 1900, p.298-99)

Na introdução a esse mesmo capítulo, Freud diz que o sonho é um rébus, uma imagem
que se dá a ler. Para interpretar um sonho o analista deve colocar a crítica de lado e não tentar
decifrá-lo como um pictograma fazendo corresponder as imagens às palavras numa
associação direta. Uma vez que tomamos o sonho como uma escritura do inconsciente, é
necessário permitir que as associações corram, mas sem esquecer que nenhuma interpretação
é capaz de esgotar os muitos sentidos que um sonho pode ter. Sempre haverá uma outra
interpretação possível, e ao mesmo tempo um impossível de se interpretar: o umbigo dos
sonhos. Isto porque o texto do sonho necessita ser aberto, transformado:

[...] só podemos formar um julgamento adequado do rébus, se pusermos de


lado as críticas como estas de toda a composição e de suas partes e se, em
lugar disso, tentarmos substituir cada elemento separado por uma sílaba ou
palavra que possa ser representada por aquele elemento de alguma maneira
ou de outra. As palavras que juntamos dessa forma não deixam mais de fazer
sentido, mas podem formar uma frase poética de maior beleza e significado.
Um sonho é um enigma de figuras dessa espécie e nossos antecessores no
campo da interpretação dos sonhos cometeram o erro de tratar o rébus como
uma composição pictórica e, como tal, ela lhes pareceu sem sentido e
destituída de valor (Freud, 1900, p.299).

Trinta anos depois da primeira publicação de seu livro sobre os sonhos, Freud
escreveu no prefácio à terceira edição inglesa, que a Traumdeutung, contém “[...] a mais
valiosa de todas as descobertas que tive a felicidade de fazer” (Freud, 1930, vol.IV, p.xli).
Depois de tanto tempo e de tudo que pensou e teorizou na psicanálise, não por acaso, Freud
enalteceu A interpretação dos sonhos. O conceito lacaniano de letra e sua distinção do
significante nos esclarecem sobre o alcance do que Freud propõe no trabalho sobre os sonhos.
A letra diferencia-se do significante por sua consistência, por ter atributos, certa identidade e
por sua capacidade de ser transmissível. Enquanto o significante não é nada em si, é definido
pelo seu lugar, não transmite nada e não pode ser transmitido, a letra “[...] por essa
transmissibilidade própria, ela transmite aquilo de que ela é, no meio de um discurso, o
suporte;[...]” (Milner, 1996, p.105). O significante, por sua vez, representa um sujeito para
54

outro significante. Portanto, o trabalho de interpretação dos sonhos, tal qual foi proposto por
Freud, se faz da “leitura à letra” (Fuks, 2000, p.130).
Freud afirma que não é possível chegar a uma interpretação final, que sempre há
possibilidades de outras interpretações, porém isto não quer dizer que qualquer interpretação é
possível, pois o sentido obedece à direção de uma verdade singular e histórica do sujeito. É o
que chama atenção Fuks que diz: “há que se ‘dar alma’ à escritura psíquica, conforme se
aprende com Freud. Isto significa fazer com que o sujeito venha subjetivar seu próprio texto,
sua história.” (Fuks, 2000, p.130).
Porém, no “primeiro classicismo” do ensino de Lacan a distinção entre letra e
significante ainda não estava muito clara, esta distinção só irá ser elaborada posteriormente
(Milner, 1996, p.104).
Em 1910, Freud escreveu A Significação antitética das palavras primitivas, no qual
ressaltou outra característica presente nas formações do inconsciente e que é própria aos
significantes: com apenas um caractere representar significados opostos simultaneamente. O
significado só se define pelo lugar que o significante ocupa numa frase, a partir dos outros
caracteres que o rodeiam e, certas vezes, pela entonação ou leve variação fonética com que é
expresso.
No capítulo I de A psicopatologia da vida cotidiana (Freud, 1901), há o relato do
esquecimento de um nome próprio – Signorelli - cometido por ele mesmo. De maneira
exemplar, trabalha o significante - som, suporte material da palavra - que conduz às
associações reveladoras da causa daquele significante, que lhe era familiar e recorrente, ter
estado sob recalque naquelas circunstâncias específicas. É um exemplo importante, por
demonstrar também a dinâmica do inconsciente e seu funcionamento, através de
deslizamentos e condensações presentes em cadeias associativas e suas redes de significantes.
Em seu retorno a Freud, Lacan formula o inconsciente estruturado como uma
linguagem, regido pelas leis da metáfora e da metonímia, em relação ao sujeito do
inconsciente. Metonímia é o deslizamento de significante para significante; metáfora é a
substituição de um significante por outro.
Lacan acrescentou um Apêndice ao texto A instância da letra no inconsciente ou a
razão desde Freud (1957) denominando-o A metáfora do sujeito (1961). Neste, começou a
formular algumas leis em relação ao sujeito do inconsciente: enquanto na metonímia, a barra
do recalque que separa significante e significado se mantém, na metáfora é suspensa. É esta
suspensão que produz o efeito metafórico encontrado, por exemplo, na poesia.
55

Até esse ponto da obra de Lacan14, o gozo recebe a acepção de júbilo, no sentido em
que é definida a reação do bebê diante da imagem especular, através da qual o eu se constitui
(Lacan, 1949). Tratamento similar ao dado por Freud, que utiliza, na maioria das vezes, a
palavra – Lust - para designar prazer.
O desejo, por sua vez, está na enunciação dos enunciados, por isso é metonímico,
corre, rola ao longo das cadeias de significantes. É através da enunciação, que o desejo,
irrepresentável, passa. As leis da linguagem são a metáfora e a metonímia, e as leis da fala
incluem o sujeito e o desejo.
No texto Subversão do sujeito e dialética do desejo, Lacan define o Outro como
portador de uma falta radical. Esta falta é referente ao gozo foracluído do Simbólico que
retorna no Real. Inspirando-se em Totem e tabu (1913), Lacan atribui a este gozo um
significante que faz exceção em relação aos outros significantes: o Falo simbólico Φ. Porém,
ao situar o desejo na cadeia significante, Lacan se depara com a questão de como articulá-lo
com o sexual. Recorre à noção de falo, que Freud havia estabelecido como objeto central na
economia do desejo, para conceituar o falo como um objeto que, assim como o desejo, está
alocado na metonímia da cadeia significante. Lacan define o falo como aquilo que falta à mãe,
compondo para o bebê a significação da presença-ausência da mãe – o falo é o significado do
desejo da mãe, objeto faltante, escreve-se -φ e é o objeto imaginário da castração na
articulação do desejo.
Até aqui a referência principal é o Simbólico, o significante, e o gozo é o gozo fálico,
todavia, o sujeito é o que escapa à representação significante, logo, nem tudo é significante
para o sujeito, a problemática do gozo persiste. A partir de O seminário 7: a ética da
psicanálise, Lacan começa a elaborar o conceito de gozo de maneira mais sistemática. Mas,
um pouco antes, na lição de 5 de março de 1958 do Seminário 5: as formações do
inconsciente, já colocava como pólos opostos gozo e desejo (Braunstein, 2007). A partir do
texto freudiano, mais uma vez, irá demarcar esta distinção entre gozo e desejo, para ele
fundamental.
Freud não transformou o gozo em conceito, mas o tema sempre foi alvo de sua
atenção. No início de sua obra, entendeu a economia do aparelho psíquico através do jogo
entre princípio de prazer e o princípio de realidade. Porém, justamente por se deparar em seu
trabalho clínico com certo prazer, onde, de acordo com o princípio de prazer, deveria
encontrar desprazer, Freud começa a se questionar e vai além do princípio de prazer. Na

14
Seguimos aqui os roteiros sugeridos por Patrick Vallas (2001) e Braunstein, (2007).
56

maioria das vezes, ele se utiliza da palavra Lust para designar prazer, mas, algumas poucas
vezes, recorre ao vocábulo Genuss. É o caso de quando descreve a expressão que percebe no
rosto de seu paciente “o homem dos ratos”, relatando a tortura dos ratos, penetrando o orifício
anal. E da mesma forma, quando se refere ao neto de 19 meses, brincando de fort-da com um
novelo (Braunstein, 2007).
Para nos aproximarmos do conteúdo aqui expresso, vejamos a distinção entre as duas
palavras15:
Genuss, Genüsse - significa prazer, deleite, satisfação; gozo, consumo, ingestão.
Lust (Lust) Lüste - prazer, gozo, volúpia; vontade, gosto, disposição, desejo.
Lust haben zu: estar com vontade de.
Na primeira acepção, temos Genuss associado a deleite e satisfação, enquanto Lust
significa volúpia, prazer. Mas é a segunda acepção destes termos que chama atenção,
enquanto Lust é aproximado ao desejo, disposição e vontade, Genuss é remetido ao gozo, ao
consumo, à ingestão. O que nos remete à toxidade das neuroses atuais e ao lugar destinado ao
objeto na atualidade, ou seja, de objeto de consumo, tomado como gadget, como objeto
fetiche. Esta tradução também corrobora a observação de Braunstein (2007), que destaca a
necessidade afirmada por Lacan, em seu Seminário sobre a angústia (1962-63), de distinguir-
se gozo não somente de desejo, mas também do prazer: “[...] é necessário que o conceito de
gozo tenha que se esclarecer em uma dupla oposição, por um lado, com relação ao desejo e,
por outro, com relação àquele que parece ser seu sinônimo: o prazer” (Braunstein, 2007,
p.16). Ainda segundo o autor, Lacan toma o termo jouissance do vocabulário jurídico com o
objetivo de não confundi-lo com o prazer, inspirado pela filosofia do direito de Hegel:

Lacan se nutre com a filosofia do direito de Hegel, na qual aparece o


Genuss, o gozo, como algo que é “subjetivo”, “particular”, impossível de
compartilhar, inacessível ao entendimento e oposto ao desejo que resulta de
um reconhecimento recíproco de duas consciências e que é “objetivo”,
“universal”, sujeito à legislação. A oposição entre gozo/desejo, central em
Lacan, tem, pois, raiz hegeliana (Braunstein, 2007, p.16-17).

Segundo Braunstein (2007), a noção hegeliana já traz incluída no significado de gozo,


a ausência de laço social, uma vez que Hegel o define como algo que não é possível
compartilhar, o valor atribuído ao gozo é, para ele, particular: “Se expresso que uma coisa
também me agrada ou se me remeto ao gozo, somente expresso que a coisa tem esse valor

15
Michaelis online. Disponível em: http://michaelis.uol.com.br. Acessado em: 10 maio 2008.
57

para mim. Com isso, suprimi a relação possível com os outros, que se baseia no
entendimento” (Hegel apud, Braunstein, 2007, p.17).
Vallas (2001) acrescenta que para o Direito gozo é definido como ‘usufruto’, com
etimologia no par uti-frui, elaborado por Santo Agostinho:

Santo Agostinho distingue duas espécies de amor. Um amor que goza (frui)
do seu objeto, e um amor que utiliza (uti) esse objeto como meio para chegar
ao gozo de outra coisa. [...] Agostinho faz assim a distinção entre um bom e
um mau gozo, em referência à Lei divina. Sem recobrir as definições
agostinianas no registro da psicanálise, Freud e Lacan, como veremos,
fazem, a partir da incidência da Lei (a da proibição do incesto), uma
distinção entre um gozo nocivo (o gozo incestuoso) e um gozo satisfatório
para o sujeito (Vallas, 2001, p.94-95 nota 7).

Ao conceituar a pulsão de morte, Freud a relaciona diretamente com esse Genuss. Em


O problema econômico do masoquismo, determina o masoquismo primário como um núcleo
associado à pulsão de morte, um resto resistente ao desenvolvimento da sexualidade que se
mantém como componente desta. É importante destacarmos que Freud trata tais
circunstâncias como um excesso, que interrompe os processos do princípio de prazer, que
irrompe suas barreiras, mas também como algo nuclear, primário. Nas palavras de Vallas:

Sem dúvida alguma, há na elaboração da pulsão de morte uma abordagem do


gozo que Freud não conceitua, mas cujo campo ele delineia, traçando a
fronteira que o situa mais-além do prazer. É isso que constituirá o ponto de
partida de Lacan para definir o gozo (Vallas, 2001, p.25).

O que esses autores parecem enfatizar é que Lacan, ao buscar um termo que
designasse gozo de forma conceitual, quis que este expressasse tanto o auto-erotismo e a
particularidade do gozo quanto a necessidade de delimitá-lo pela Lei.
Lacan (1959-60) assinalou que desde o início Freud se deparou com a complexidade
de demonstrar a relação entre a realidade externa e a interna, as causas internas e externas de
aumento de tensão e de excitação. Em sua leitura do texto freudiano Projeto para uma
psicologia científica (1895), destaca das Ding, a Coisa, termo mencionado pouquíssimas
vezes pelo criador da psicanálise, mas localizado como origem do desejo. Lacan situa das
Ding, o objeto impossível de (re)encontrar e impossível de não perseguir, no centro das
representações, atribuindo- lhe a propriedade de ser “êxtimo” ao sujeito. O neologismo criado
por Lacan quer dizer que das Ding é ao mesmo tempo estrangeiro e íntimo, e que está situado
fora do Simbólico, fora do significante, está no Real (Vallas, 2001). Sendo assim, Lacan situa
58

das Ding do lado do gozo. Esta concepção será a base para o desenvolvimento do conceito de
objeto a, que Lacan irá formalizar em O Seminário 10: a angústia (1962-63).
Designado pelo próprio Lacan como sua maior contribuição à psicanálise, o objeto a é
um conceito que foi elaborado durante um longo período de seu ensino. Segundo Fink (1998)
esta elaboração durou vinte anos, da década de 1950 à década de 1970. A Sua amplitude e
efeitos na obra de Lacan são tão extensos que não seria possível, no contexto deste trabalho,
abordá-los em sua totalidade, portanto, nos limitaremos a uma breve síntese, com ênfase nos
aspectos mais relevantes para esta pesquisa.
Da operação significante há um resto real, um resto impossível de ser inscrito, que
permanece apesar da simbolização como a causa traumática, “[...] como aquilo que
interrompe o funcionamento tranquilo da lei e o desdobramento da cadeia significante” (Fink,
1998, p.108). Este resto é o objeto a. Dotado da característica de extimidade, não se restringe
às limitações de dentro e fora, interno e externo; em sua dimensão de real o objeto a foi
conceituado por Lacan em articulação com o desejo e com a pulsão. Destas articulações
derivou o objeto a como causa de desejo e como mais-gozar.
Uma das consequências da ação do significante é tornar o corpo pulsional, é retirá-lo
da condição de organismo biológico. É nesse sentido que Lacan situa o corpo no campo do
Outro. O conceito de gozo depende desta ação significante, dessa subjetivação do corpo,
sendo fundado naquilo que escapa a esta ação do Simbólico. O gozo é do corpo enleado pelo
significante, não do organismo biológico da necessidade, trata-se do corpo relacionado à
pulsão, inseparável do gozo. “Existe, pois, uma solidariedade entre os conceitos de gozo,
corpo e pulsão em Lacan” (Rabinovich, 2004, p.10).
No Seminário 10: a angústia (1962-63), Lacan dá ênfase ao objeto a como causa de
desejo - é aquilo que o evoca. Sabemos, com Lacan e Freud, que o desejo não tem objeto
específico e que é desejo do Outro. Ou seja, o que causa o desejo no sujeito, desde sempre, é
aquilo que advém de sua falta: o desejo do Outro e não a demanda do Outro. A voz e o olhar
são associados ao objeto a, na medida em que transmitem o desejo que ultrapassa o objeto da
demanda, e por serem impossíveis de simbolizar; portanto, se referem à pulsão, ao Real.
No Seminário 16: de um outro ao Outro (1968-69), Lacan dá ênfase ao objeto a como
recuperador de gozo, como mais-gozar. Sumariamente, podemos dizer que foi Marx quem
denunciou a incorporação, nos valores de troca e uso de mercadorias, da diferença entre o
custo de um operário e o lucro que se obtém com seu trabalho – a mais-valia. A função de
mais-gozar, elaborada por Lacan, é referida à mais-valia de Marx, na medida em que diz
respeito a um excesso. Freud colocou o falo como objeto central na economia do desejo, por
59

ser efeito da castração, caracterizada pela interdição que recai sobre o gozo. Há um gozo
referido ao uso do objeto – gozo fálico, e um gozo excedente, que fica retido. O mais-gozar
configura a diferença entre o valor fálico de troca e o valor de uso do objeto. Nas palavras de
Goldenberg:

Lacan se apropria da operação crítica que permitiu a Marx identificar a


mais-valia no interior de um sistema de produção de valores pecuniários
para chamar a atenção para a diferença entre valor fálico de troca e valor
de uso (gozo) do objeto erótico. E se permite a extravagância de anunciar
que a Meherwert é um Merherlust! (a mais-valia é um mais-gozar). Sem
entrar no mérito do alcance desta expropriação psicanalítica da lógica
marxista, o que se pretende afirmar é que assim como o modo de
produção capitalista gira em torno de um valor excedente, que não entra
na contabilidade, o aparelho psíquico se vê à volta com um gozo
excessivo, traumático porque irrepresentável. Lacan dirá que se trata de
‘fazer passar o gozo ao inconsciente, isto é, à contabilidade’ (Goldenberg,
2002, p.29-30).

Em concordância com Rabinovich, para esse autor este excesso de gozo na teoria
lacaniana significa a recuperação de uma perda, de uma renúncia ao gozo. Sendo assim, a
condição prévia do mais-gozar é a renúncia ao gozo. “A renúncia ao gozo é, como tal, em boa
lógica, anterior a sua recuperação; todo ganho acarreta uma perda como sua condição mesma”
(Rabinovich, 2004, p.12). Essa concepção de recuperação só será introduzida por Lacan em
1968-69, já a renúncia ao gozo é desenvolvida junto ao conceito de objeto a como causa de
desejo, no Seminário10 (1962-63). A renúncia de que se trata é a renúncia ao gozo do corpo
que traz em si a divisão do sujeito, o objeto a se configura aí como resto da operação de
divisão do sujeito.
Resumindo: a função do objeto a trabalhada primeiramente por Lacan é a de causa do
desejo, e o gozo que é enfatizado é o gozo fálico; não obstante, é esse o caminho que o
conduz a pensar na função de mais-gozar do objeto a. Ao assinalar a diferença entre gozo e
prazer, demonstra que enquanto o prazer está referido à homeostase do aparelho psíquico, tal
qual elaborado por Freud em 1920, o gozo é o que está referido ao mais além do princípio do
prazer. “Enquanto equiparado ao mais-além do princípio do prazer, Lacan pôde situar o gozo
na dimensão da pulsão de morte, designá-lo como subordinado ao Tânatos” (Rabinovich,
2004, p.13).
Instrumentalizados por estas considerações teóricas, nos próximos capítulos
trataremos mais diretamente do trabalho clínico.
60

Capítulo 4. A clínica do nosso tempo

4.1. O conceito de angústia na obra de Freud: um breve resumo

Toda a teorização de Freud sobre as neuroses atuais nos levou a pensar que os
chamados novos sintomas ou transtornos contemporâneos são quadros clínicos, há muito,
descritos por ele. A novidade, que geralmente é atribuída às patologias, nos parece estar, em
realidade, no aumento da incidência desses quadros de sofrimento, como vimos no primeiro
capítulo. Encontramos na obra de Freud, no texto O narcisismo: uma introdução, o termo
“neuroses reais” (Freud, 1914, p.99) para designar as neuroses atuais. Foi o tradutor quem
inseriu o termo real em substituição a atual, a partir da tradução para o inglês. Porém, apesar
de Freud ter utilizado apenas aktuell (atual, relevante16), em 1926 reafirma que as neuroses
atuais são o núcleo das psiconeuroses e localiza a neurose de angústia como resposta ao
trauma original. É evidente que não foi por nenhuma associação teórica que o tradutor inglês
introduziu este termo, e sim por razões semânticas. Mas, a partir do ensino de Lacan,
enfatizamos a articulação desses quadros de sofrimento com a angústia, o conceito de gozo e
com o registro do Real, conferindo-lhes novas possibilidades de trabalho teórico e clínico.
Assim, consideramos o termo neurose real bastante pertinente a clínica do nosso tempo, e
pensamos que poderia ser adotado no lugar da nomenclatura de “novos sintomas”.
Neste capítulo, trataremos mais diretamente do fazer do analista, recorrendo às
17
teorizações na medida em que nos clareiam sobre as principais dificuldades que
encontramos no trabalho clínico. Iniciaremos com um breve resumo do conceito de angústia
na obra freudiana para depois prosseguir com as demais articulações.
Em 1919, Freud escreveu concomitantemente O Estranho; Uma criança é espancada;
Introdução à psicanálise e às neuroses de guerra e deu início a um de seus principais textos:
Além do princípio de prazer. Todos estes trabalhos demonstram que era chegada a hora de
introduzir no corpo teórico da psicanálise o que insistia na clínica - o ruído silencioso da
pulsão de morte; a angústia como manifestação do impossível de representar.
Em Introdução à psicanálise e às neuroses de guerra, Freud aproxima as neuroses de
guerra e as neuroses de transferência, na medida em que deduz que o perigo temido em ambos

16
Michaelis online: site: http://michaelis.uol.com.br
17
Utilizamos além das obras de Freud e Lacan, roteiros e abordagens clínicas sugeridos nas seguintes obras:
RABINOVICH, 2004. Clínica da pulsão; DUNKER, 2002. O cálculo neurótico do gozo; VALLAS, 2001. As
dimensões do gozo; BRAUNSTEIN, 2007. Gozo; RECALCATI, 2004. La ultima cena: anorexia y bulimia.
61

os casos é interno, em contraste com as “neuroses traumáticas puras”. Porém, reúne estas três
neuroses ao atribuir-lhes uma mesma origem:

De fato poder-se-ia dizer que, no caso das neuroses de guerra, em contraste


com as neuroses traumáticas puras e de modo semelhante às neuroses de
transferência, o que é temido é, não obstante, um inimigo interno. As
dificuldades teóricas que se erguem no caminho de uma hipótese unificadora
desse tipo não parecem insuperáveis: afinal de contas, temos todo o direito
de descrever o recalque, que está na base de cada neurose, como uma reação
ao trauma — como uma neurose traumática elementar (Freud, 1919c, p.263).

Não podemos deixar de notar que Freud apresenta essa idéia de uma neurose
traumática elementar, no mesmo sentido em que já havia apresentado as neuroses atuais
como núcleo das psiconeuroses, ou seja, referida à origem traumática do sujeito.
Com Lacan podemos dizer que a exposição ao trauma é inseparável do advento do
sujeito. O traumático pertence ao domínio do Real. E o trauma tem efeitos. Um dos efeitos
deste trauma originário, ou do encontro do sujeito com o Real, é a fantasia, recurso do qual o
sujeito lança mão diante do vazio. O conceito de Outro tem origem no axioma: o inconsciente
é estruturado como uma linguagem, e da interrogação que Lacan coloca sobre a estrutura que
está em jogo na linguagem. Com isso Lacan elabora a distinção de três registros articulados
Real, Simbólico e Imaginário, que não existem na obra freudiana. A partir dessa perspectiva,
podemos ler no texto freudiano Uma criança é espancada (1919) a noção de fantasia como
aquilo que vela o Real; é um texto através do qual Freud trabalha no campo do que escapa ao
sintoma.
Segundo nota do editor, Freud deu início à escrita de Além do princípio de prazer em
março de 1919, mesmo mês no qual completou seu artigo Unheimlich (O Estranho, 1919a).
Neste artigo, incluiu um parágrafo referindo-se à compulsão à repetição como algo
proveniente das pulsões, que despreza o princípio de prazer, e que era presente no
comportamento de crianças e no trabalho clínico.
No curso de seu seminário sobre a angústia, Lacan dá ênfase à importância da noção
de Unheimlich na abordagem das questões relacionadas a este afeto. Ele situa o fenômeno do
estranho como “[...] aquilo que aparece no lugar em que deveria estar o menos-phi. [...]
Quando aparece algo ali, portanto, se assim posso me expressar, a falta vem a faltar” (Lacan,
1962-63, p.51-52). Ou seja, Lacan localiza Unheimlichkeit como uma abertura entre os
registros do Real e do Simbólico; que geralmente se apresentam unidos pelo Imaginário.
62

A partir desta ótica, Lacan passa à leitura do que considerava o último grande texto de
Freud sobre a angústia: Inibição, sintoma e angústia (1926). Ao chamar a atenção para esta
abertura para o Real, causa da emergência da angústia no fenômeno do estranho, Lacan
assinala também que enquanto este fenômeno se refere ao inconsciente, a angústia se articula
ao Real. Sobre isso, Fuks ressalta que esta distinção é ferramenta preciosa para a leitura da
teoria desenvolvida por Freud em 1926 e que é decorrente da torção realizada por ele em
Além do princípio de prazer (1920):

A distinção que Lacan introduz entre Unheimlich e angústia – referindo o


primeiro termo a Outra cena e articulando o segundo ao real que subjaz ao
significante – facilita apreender melhor todo o movimento que levou Freud a
inverter a relação do recalque com a angústia na formulação de sua
segunda teoria da angústia (Fuks, 2001. p.15, grifo meu).

Em Inibição, sintoma e angústia (1926), operou-se uma mudança fundamental:


posterior e consequentemente à formulação do conceito de pulsão de morte, Freud situou a
angústia como anterior ao recalque, como único afeto proveniente do isso e diretamente
relacionada à pulsão de morte. Até então, situava o desejo pela mãe como o elemento
fundamental da constituição do sujeito. Uma vez proibido, este desejo desencadeava o
recalque e, consequentemente, o sintoma; a angústia seria um resto desta operação, resultado
da transformação da libido correspondente ao desejo interditado.
Em 1926, Freud localiza a angústia antecedendo o desejo: ao trabalhar o caso do
pequeno Hans, demonstra que a ameaça de castração transforma o amor pela mãe em algo
proibido, na medida em que associa a angústia aos conteúdos desse amor, o que os leva a
serem recalcados. No caso de Hans, o recalque vai resultar em uma substituição do pai pelo
cavalo, circunscrevendo a angústia através da representação que é o objeto da fobia. Na
passagem do pai para o cavalo, a angústia é ligada a uma representação específica. A angústia
de caráter súbito e difuso transforma-se em um medo específico; a castração estrutural
análoga ao desamparo biológico transforma-se em ameaça de castração.
Mas, Freud vai além e, numa anterioridade lógica, acrescenta às distinções dos tipos
de angústia que podemos encontrar uma “angústia primeva” – a Automastische Angst. Por
consequência de seu desamparo biológico, o bebê necessariamente sofreria um elevado nível
de aumento de tensão, que se traduziria em angústia “[...] como um fenômeno automático é
um sinal de salvação, verifica-se que a angústia é um produto do desamparo mental da
criança, o qual é um símile natural de seu desamparo biológico” (Freud, 1926, p.162).
63

Já num segundo tempo, esta angústia se transforma em angústia diante da perda do


objeto, uma vez que a criança aprende que a ação específica da qual necessita está vinculada
ao outro que cuida dela, a ausência da mãe se configura então como uma ameaça de que a
situação traumática se estabeleça novamente:

[...] Quando a criança houver descoberto pela experiência que um objeto


externo perceptível pode pôr termo à situação perigosa que lembra o
nascimento, o conteúdo do perigo que ela teme é deslocado da situação
econômica para a condição que determinou essa situação, a saber, a perda de
objeto. É a ausência da mãe que agora constitui o perigo, e logo que surge
esse perigo, a criança dá o sinal de angústia, antes que a temida situação
econômica se estabeleça. (Freud, 1926, p.161-2).

Freud se utiliza de três termos ao subdividir a angústia: Realangst – angústia diante de


um perigo real, neste caso a angústia é gerada por um perigo real e externo, Automastische
Angst – angústia automática, seu aparecimento é involuntário e automático, é relativa ao
perigo de desamparo psíquico e é apropriada ao perigo de vida quando o eu do sujeito ainda é
imaturo, e Angstsignal – angústia como sinal, neste caso a angústia antecipa o perigo e
corresponde à ameaça de que a situação traumática se restabeleça18.
Incluídas nesta subdivisão estão: angústia relativa ao desamparo psíquico e ao trauma
original, angústia relativa ao perigo da perda de objeto, correlacionada à primeira infância,
quando o sujeito ainda se acha na dependência de outros; a angústia diante da ameaça de
castração, correlacionada à fase fálica, e a angústia moral correspondente ao medo do
supereu, correlacionado ao período de latência.
Mas, apesar de estabelecer tais correlações, Freud assinala que todas essas situações de
perigo causadoras de angústia podem manter-se concomitantemente e fazer com que o eu
reaja com angústia num período posterior ao apropriado ou, ainda, entrar em ação
simultaneamente. E acrescenta: “É possível, além disto, que haja uma relação razoavelmente
estreita entre a situação de perigo que seja operativa e a forma assumida pela neurose
resultante” (Freud, 1926, p.166).
Nesse texto, Freud faz uma atualização e revisão dos conceitos que havia estabelecido
em torno da angústia. Com isto, não invalida suas teses anteriores nem as superpõe às suas
novas teorizações, reorganiza sua metapsicologia.

18
ROUDINESCO, E. e PLON M., Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: JZE, 1998.
64

Há angústia resultante do recalque e da formação do sintoma, como já havia


formulado antes, porém há outra categoria de angústia que não só antecede, mas causa o
recalque. A angústia permanece como angústia do eu, na medida em que apenas o eu pode
senti-la. Entretanto, a angústia sentida pelo eu é proveniente de processos que ocorrem no isso
e provocam os mecanismos de defesa que a direcionam ao eu. Porém, a angústia nem sempre
irá emergir por essa via da representação. Ou seja, além dessa passagem do isso para o eu,
através dos mecanismos de defesa, a angústia também poderá se manifestar de forma
automática:

Aqui estamos mais uma vez fazendo uma distinção correta entre dois
casos: o caso no qual ocorre algo no isso que ativa uma das situações de
perigo para o eu e que o induz a emitir o sinal de angústia para que a
inibição se processe, e o caso no qual uma situação análoga ao trauma
do nascimento se estabelece no isso, seguindo-se uma reação automática
de angústia. Os dois casos podem ser mais aproximados, se se ressaltar
que o segundo corresponde à situação de perigo mais antiga e original,
ao passo que o primeiro corresponde a qualquer um dos determinantes
ulteriores de angústia que dela se tenha originado; ou, conforme aplicado
à perturbação com que de fato nos defrontamos que o segundo caso é
atuante na etiologia das neuroses ‘atuais’, ao passo que o primeiro
permanece típico para o das psiconeuroses (Freud, 1926, p.165, grifo
meu).

Nota-se que Freud retorna ao tema das neuroses atuais, e mais uma vez as localiza
como um núcleo que está além do campo das representações e do sintoma. A angústia da
neurose de angústia se configura então como a angústia que está articulada ao Real. É o que
Lacan assinala no Seminário 10 quando se refere à neurose de angústia em sua leitura do texto
freudiano Inibição, sintoma e angústia. Tal configuração tem como efeito uma desarticulação
da função simbólica que se apresenta de forma precária, é o déficit na função simbólica ao
qual Freud se refere e que descreve como característico dos quadros de neuroses atuais
(conforme está no terceiro capítulo, desta dissertação). Uma vez situado nessa posição
nuclear, e com o recurso da função simbólica debilitado, resta como defesa ao sujeito a
fantasia, que segundo Lacan é um dos efeitos do encontro com o Real.

4.2. Transferência, fantasia e auto-erotismo na clínica atual

Uma das principais dificuldades que se apresenta no atendimento aos referidos


quadros de sofrimento é a de se estabelecer a transferência. A desarticulação da função
simbólica e o aprisionamento do sujeito na fantasia não promovem o endereçamento
65

transferencial típico do sintoma da psiconeurose. Por esta razão, inclusive, Freud considerou o
tratamento das neuroses atuais extremamente difícil; tendo chegado a classificá-las de
intratáveis pela psicanálise. Porém, com os avanços da teorização freudiana e as contribuições
que o ensino de Lacan proporcionou à psicanálise acreditamos que hoje temos recursos
suficientes para pensar essa clínica.
Em Clínica da pulsão – as impulsões, Rabinovich (2004) faz uma descrição de
quadros clínicos que se assemelham bastante aos que estamos investigando. O livro é o
registro do trabalho que a psicanalista desenvolveu a partir de interrogações que esses
quadros, cada vez mais presentes na clínica de nossa época, lhe impuseram. Segundo a autora,
tais transtornos figuram nas psicopatologias e foram nomeados de impulsões e
caracteropatias. Ela não os compreende como estruturas uma vez que podem se apresentar na
neurose, psicose ou perversão. E acrescenta que a escuta do analista deve estar avisada, pois a
direção do tratamento depende da estrutura na qual tais fenômenos clínicos irão se apresentar.
Em sua análise, ela relaciona as impulsões ao auto-erotismo, ao ato e à fantasia, mais
do que propriamente ao sintoma; na medida em que o sintoma é uma substituição simbólica,
constituído como um enigma que se oferece ao deciframento. Nas suas palavras: as impulsões
são “[...] vinculadas ao ato em qualquer de seus matizes: passagem ao ato, ato e acting-out, e,
obviamente, o fantasma desempenha nelas um papel fundamental. Estão do lado do fantasma
e remetem ao auto-erotismo, não se situam do lado do sintoma” (p.19). A fantasia é, então,
atuada como um roteiro, um script do qual o sujeito não pode abrir mão diante do Real.
Podemos relacionar estas observações às distinções que destacamos anteriormente a respeito
do que Freud estabeleceu em relação às neuroses atuais: o auto-erotismo está situado na
satisfação inadequada da excitação sexual, e a ênfase dada pela autora à fantasia reforça a
associação com a angústia.
Em relação às dificuldades na clínica das impulsões Rabinovich (2004) também
assinala que se trata de um “campo de perturbações” (p.18) que tem como ponto em comum,
severas dificuldades no estabelecimento da relação psicanalítica, ou seja, da transferência:

Trata-se de sujeitos que não se apresentam exatamente no que


poderíamos chamar uma posição de objeto causa, coisa que a histérica
pode simular muito bem, por alguma razão o objeto tem um lugar
particular em seu discurso, mas, precisamente, pacientes nos quais esta
posição de objeto implica um ganho, um mais-de-gozar, que deve ser
perdido antes que a análise possa ser iniciada, em sentido estrito
(Rabinovich, 2004, p.18).
66

A presença da fantasia na configuração desses quadros clínicos parece estar


diretamente relacionada com essa dificuldade de se estabelecer a transferência. Vejamos o
porquê: para Lacan, a transferência só se estabelece com suposição de saber que só se dá a
partir da pergunta sobre o desejo do Outro, e cuja resposta é: deseja o que te falta, “Pode-se
ver que a transferência supõe, pois, de maneira estruturalmente intrínseca para Lacan, esse
lugar de convergência das perguntas que é o desejo do Outro” (Rabinovich, 2004, p.30).
Conforme visto no terceiro capítulo desta dissertação, Lacan ao conceituar o objeto a
em sua dimensão de Real o fez em articulação com o desejo e com a pulsão. Dessas
articulações, derivou o objeto a como causa de desejo (desejo) e como mais-gozar (pulsão).
Adotaremos a proposta de tomarmos essas articulações como funções do objeto a, e situá-las
como “dobradiças” entre desejo e gozo (causa de desejo), desejo e pulsão (mais-gozar),
respectivamente. Pois a idéia de função expressa uma possibilidade de fluxo através dessas
articulações, que é importante para viabilizar a ascensão do desejo onde há predominância de
gozo. Nesta perspectiva “[...] a função do mais-gozar é uma espécie de dobradiça entre o
conceito de desejo e o conceito de pulsão” (Rabinovich, 2004, p.9).
Retomando, a proposta da autora é pensarmos as impulsões como efeito da
identificação do sujeito com o objeto a. O sujeito estaria, a princípio, no campo da enunciação
como significação do Outro – a significação de que se trata aqui não é a significação que se
assemelha a uma produção imaginária, mas sim relacionada a um efeito de recuperação de
gozo, recuperação que tem como função mascarar sua perda. É a função da significação do
Outro como a de mascarar a consequência maior do discurso: a exclusão do gozo. Uma vez
“[...] o sujeito instalado no lugar da resposta como sede de um gozo auto-erótico, se
quisermos usar os termos freudianos, não pode iniciar a análise na medida em que se vê
obturada a pergunta que constitui o S.s.S.” (p.32).
Em outras palavras, esses sujeitos se apresentam a partir da resposta e não da
pergunta, resposta que é tomada como uma maneira de sustentar a consistência do Outro,
objetivo no qual se baseia a identificação com o objeto a. Porém, não estamos tratando de
perversão, logo podemos dizer que esses sujeitos se apresentam como semblantes do objeto a.
Sua hipótese é que a alienação do sujeito nessa posição faz deste semblante um
“personagem”. Nesse sentido é que coloca que tais pacientes se apresentam, no início do
tratamento, de um “ponto de partida caracteropático” (p.52). Explica como toma o desígnio: o
termo em inglês é character que, além de caráter, também significa personagem.
Esse personagem é para o sujeito uma maneira de assumir o eu, é uma forma de ser,
desenvolvida como resposta diante do desejo do Outro. A fim de manter-se e de manter a
67

consistência do Outro, apresenta-se como uma forma de ser que não faz perguntas. Mesmo o
incômodo difuso e confuso que, na maioria dos casos, leva o sujeito a procurar a análise é
tomado como um modo de ser, como parte de si, “algo como um incomodo em sua própria
pele” (p.53).
Segundo Lacan a fantasia, assim como o sintoma, também é uma resposta à
interrogação sobre o desejo do Outro. Porém, em relação a esses casos Rabinovich marca uma
diferença: enquanto o sintoma pode ser situado como uma resposta ao Outro da demanda, o
“personagem – character” (p.54) faz consistir o Outro.
Dunker (2002) se utiliza da noção de quadros clínicos na obra de Freud para pensar
sobre a clínica psicanalítica na contemporaneidade. Afirma que para isto é necessário
introduzir uma nova dimensão entre o sintoma e a estrutura. Esta nova dimensão
corresponderia à concepção freudiana de funcionamento psíquico, que o autor delimita com a
noção de cálculo neurótico do gozo.
No capítulo que dedica ao quadro clínico das neuroses atuais, Dunker postula que o
que impede o gozo a menos, inscrito pela posição do falo, o – phi, e o gozo a mais, inscrito
pela posição do objeto a, o mais-gozar, façam “um único conjunto” (p.198), ou seja, se
configurem num sintoma, como acontece nas psiconeuroses de defesa, é a presença do nada:

O nada faz parte de uma das definições mais precisas do conceito de gozo,
ou seja, o gozo é aquilo que não serve pra nada. Poderíamos aventar se não é
este nada que o alcoolista bebe ou que o drogadito consome um nada que faz
do ato de consumo sempre o primeiro ato, que impede o sujeito de contar e
que o faz um consumidor perene do mesmo (Dunker, 2002, p.198).

Como já dissemos no terceiro capítulo, trata-se de um gozo sem suporte fálico,


especular, o que desencadeia a angústia. Porém, o que Dunker quis ressaltar é que esse vazio
na inscrição, que tanto chamou a atenção de Freud na clínica das neuroses atuais, pode ser
tomado como objeto através do nada como sua figuração. É o que escutamos na crise de
angústia quando o sujeito tem a sensação de que vai se tornar um nada, ou na anorexia que
come o nada, ou na bulimia na qual o vômito ao final das crises de fome evidencia que nada
pode preencher de fato o vazio.
O autor percebe isso presente na fala de seus pacientes e aponta para as dificuldades
que esse discurso fechado traz para o trabalho de análise:
68

Neles, o discurso converge no sentido da contínua produção de saber e de


descrições sobre os sintomas, sensações corporais e inibições
correspondentes. No entanto esse conjunto de lembranças, ligações e
associações pouco realizam do ponto de vista da retificação subjetiva
envolvida. O saber assim constituído é simplesmente mais saber, mais gozo,
mais nada (Dunker, 2002, p.201).

O autor coloca, ainda, que a maneira como o sujeito lida com este nada é a maneira
como ele produz seu sintoma no lugar da não relação sexual. Este ponto nos pareceu
importante por se apresentar como ponto nodal na escolha do sujeito por essa saída ao se
deparar com a divisão subjetiva.
Não é pouco comum localizarmos o desencadeamento desses quadros clínicos na
juventude, e associados ao encontro do sujeito com o real do sexo. Este encontro tem como
efeito colocá-lo em confronto com a divisão subjetiva. Freud em suas considerações sobre as
neuroses atuais também fez essa relação na medida em que as refere às questões em torno da
sexualidade, e como um recuo diante destas questões.
Um dos pontos fundamentais da construção do conceito de inconsciente em
psicanálise, estabelecido por Freud, é que não há um representante para o sexo feminino no
inconsciente. Este ponto foi também enfatizado por Lacan ao afirmar que não há um
significante para representar A Mulher. Tal ausência condiciona todo ato sexual ao suporte
fálico, e põe em evidência que não se pertence biologicamente a um sexo. Por isso, podemos
dizer que o ato sexual faz furo, pois confronta o sujeito com o real do sexo. Em A lógica da
fantasia, Lacan diz que “[...] não existe ato sexual – subentenda-se: que tenha peso para
afirmar no sujeito a certeza de que ele é de um sexo” e acrescenta, “[...] só há o ato sexual,
implicando: do qual o pensamento tem razão de se defender, já que nele o sujeito se fende”
(Lacan, 1966-67, p.326). E é aí que a fantasia irá operar.
Rabinovich (2004) reforça que esse furo remete ao gozo e não ao desejo, corroborando
que na fantasia, o objeto a opera a função de mais-gozar. Uma vez que a origem do sintoma
vai se situar também aí, a autora trabalha - referindo-se ao que em Freud (1926) encontramos
como ganho primário da doença - com a idéia de infiltração do sintoma pelo gozo: “Essa
infiltração do sintoma pelo gozo introduz uma dimensão que escapa ao sintoma definido
como metáfora.” (Rabinovich, 2004, p.88). A falta, apresentada no campo do Simbólico, do
significante, é a condição para que algo se inscreva como valor para o desejo. Porém, quando
a falta falta, e o nada se interpõe aí, o sujeito fica estagnado, paralisado, preso num curto
circuito de gozo. Sendo assim, quanto mais a falta se inscreve no plano fálico há mais
69

possibilidade do sujeito se direcionar de acordo com o desejo e produzir menos gozo. Na


direção contrária, quanto maior é a produção de gozo, menor será a inscrição fálica da falta.
Portanto, retomando a elaboração de Dunker, contar com a falta é instituir o sacrifício
em nome de algo, sacrifício de gozo, enquanto que contar com o nada é “[...] contar com o
objeto que anula a lógica deste sacrifício” (Dunker, 2002, p.199). A hipótese que o autor
constrói acerca dos quadros de neuroses atuais, e principalmente para os casos de neuroses de
angústia, é a de que se trata de um retorno da função do nada sem a formação de um sintoma
como retorno do recalcado, “Trata-se de uma espécie de incoordenação entre falo e mais-de-
gozar cujo traço fundamental é a angústia e a iminência de fragmentação, catástrofe ou
desmantelamento, inclusive corporal.” (Dunker, 2002, p.200).
Percorrendo mais uma vez as teorizações de Freud sobre a neurose de angústia: o que
escapa à função simbólica é descarregado diretamente no corpo. Sendo assim, a dimensão do
corpo como suporte do gozo leva a pensar em algo que já não é da ordem do Outro do
significante, Outro lugar da verdade ao qual sempre remete o sintoma neurótico, o que agrava
a dificuldade no estabelecimento da transferência analítica.
Sabe-se que a operação significante tem o corpo como sua primeira superfície, é a
inauguração do corpo pulsional, a inscrição significante no corpo. Inscrição primária que não
configura a função simbólica propriamente dita e que é causa dessa descarga direta no corpo.
A esse respeito Lacan comenta:

[...] apoiamos o fato de que esse lugar do Outro não deve ser buscado em
parte alguma senão no corpo, que ele não é intersubjetividade, mas cicatrizes
tegumentares no corpo, pedúnculos a se enganchar [brancher] em seus
orifícios, para neles exercer o ofício de ganchos [prises], artifícios ancestrais
e técnicos que o corroem (Lacan, [1967] 2003, p.327).

Para ilustrar o que acabamos de enunciar trazemos o filme do diretor inglês Peter
Greenway, O livro de cabeceira19, pois “Os escritores criativos são aliados muito valiosos,
[...] costumam conhecer toda uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais a
nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar” (Freud, 1906, p.18).
Passemos ao filme:

19
GREENWAY, P., 1996, atores principais: Vivian Wu e Ewan McGregor. Roteirista: Greenway. Título no
Brasil: O Livro de Cabeceira,Título Original: The Pillow Book; País de Origem: França / Inglaterra / Holanda /
Luxemburgo; Estúdio/Distrib.: SPECTRA.
70

4.3. O Livro de Cabeceira


Este filme é a história de Nagiko. Ela é a protagonista e exerce a função de narradora.
Há outros personagens: o pai, a tia, o primeiro marido, Jerome o amante, o editor e muitos
outros que compõem o movimento de ação em torno de Nagiko. Com o objetivo de
explorarmos melhor o conteúdo fílmico o dividiremos em três tempos.
Primeiro tempo: Nagiko sendo marcada pela escrita do Outro (no caso o pai)

Desde pequena ela era submetida a um ritual pelo pai, um escritor. Nos aniversários da
menina ele recitava e escrevia em seu rosto e corpo, as seguintes palavras: “quando Deus
criou seu primeiro modelo de barro, pintou seus olhos, lábios e sexo. Aprovada sua criatura
lhe trouxe à vida assinando seu nome.” Isto era um mito de origem e em Nagiko quem o
assinava era seu pai.
Quando Nagiko fez quatro anos ficou sabendo, através de sua tia, que tinha o mesmo
nome que Nagiko Sei Shonagon, que escrevera há mil anos atrás uma série de diários
compilados sob o título de Livro de cabeceira. Além de seu nome ser uma homenagem à
autora, a outra coincidência que lhe foi revelada era de que no dia em que iria completar 28
anos o livro de Sei Shonagon iria completar mil anos exatos.
A cena em que sua tia lê o primeiro diário em voz alta para Nagiko é montada por
Greenway assim: pela porta do quarto em que está a menina presencia o pai sendo
sodomizado pelo editor de seus livros.
Aos seis anos, assim que é alfabetizada, Nagiko começa a escrever seu próprio livro
de cabeceira. Tarefa que carregará pelo resto de sua vida.
Quando faz dezoito anos, o pai deixa de praticar o ritual de aniversário e ela é entregue
a um casamento arranjado com um sobrinho do editor. O marido recusa-se a continuar o ritual
que trata como infantilidade, capricho. Ela se dedica a seu diário intensamente, o que o
aborrece ainda mais. O conflito entre eles se exacerba, ele queima o diário de Nagiko. Em
resposta, ela coloca fogo na casa.

Segundo tempo: Nagiko fica aprisionada na fantasia, no lugar de objeto, buscando


incessantemente recuperar o gozo de outrora.

Nagiko parte para longe de sua cidade de origem e torna-se uma profissional da moda
bem sucedida. Porém, isto não parece ter importância para ela. Dedica sua vida à procura de
um homem que reúna as características de um bom amante e um excelente calígrafo a fim de
71

dar continuidade ao ritual. A escrita está em primeiro plano, seu pedido é de que assinem seu
nome sobre seu corpo. Se a caligrafia não lhe agrada fica com raiva e dispensa o candidato.
Nesta busca, usa homens como objetos descartáveis e a escrita feita por eles sobre seu corpo
como substância de gozo. Nessas cenas, fica evidenciado que logo em seguida ao texto ter
sido escrito por um desses personagens masculinos sobre o seu corpo, o vazio aparece; ela se
lava e segue a procurar.

Terceiro tempo: o encontro com o estrangeiro, Jerome.

A busca é incessante. Até que encontra Jerome, um tradutor estrangeiro, que a irrita
porque não é um escritor. Ela julga sua caligrafia ruim, então ele lhe faz uma proposta
inusitada: que ao invés dele escrever nela, que ela escreva nele. O que é recusado de imediato.
Porém, Nagiko resolve fazer uma experiência em outro homem estrangeiro. Assim,
escreve em um corpo pela primeira vez: “Agora não sou mais apenas papel, sou também
caneta”. Ela retoma o projeto de tornar-se escritora que havia interrompido após o incêndio de
sua casa. Fotografa seus primeiros trabalhos escritos sobre os corpos e os leva ao mesmo
editor de seu pai. Lá vê Jerome com o editor, da mesma maneira em que vira seu pai. Nesse
instante passa a se interessar pelo tradutor. Vai atrás dele e tornam-se amantes. Expressam
amor escrevendo um no outro mutuamente. Ela admite para ele seu desejo de ser escritora
como uma forma de honrar seu pai. Como o editor rejeitara o trabalho de Nagiko, o
estrangeiro sugere então uma nova subversão: que ela escreva sobre o corpo dele sua proposta
de trabalho e ofereça além de sua obra, seu amante ao editor.
O editor excitado pelo texto e pelo corpo nu do amante aceita o primeiro de uma série
de treze livros, intitulado: A agenda. Deste encontro o rapaz não retorna. Inicia uma relação
de amante com o editor e lá permanece por muito tempo. Enraivecida, ela contrata dois irmão
suecos e neles escreve O livro do inocente e O livro do idiota, respectivamente. É interessante
notar que a partir do encontro com Jerome ela não mais procura amantes, apenas contrata
mensageiros encarregados de levar para o editor em suas próprias peles a escrita de seus
livros. Escreve então O livro do impotente, sua quarta obra. O seguinte é o quinto: O livro do
exibicionista. Nesse ponto o editor já está tão interessado no texto de Nagiko quanto nos
homens que ela lhe envia. Jerome assistindo a outros servindo de papel para os escritos de
Nagiko sente-se enciumado e tenta retornar para ela sem sucesso. Com o intuito de ganhar sua
atenção arma um falso suicídio. Mas, se perde nas misturas que faz de drogas e tintas e
termina por se matar. Tomada por um grande desespero diante da morte do amante Nagiko
72

escreve sobre o corpo morto O livro do amante. Depois desse evento trágico ela queima todas
suas posses, no segundo incêndio de sua vida, e retorna à cidade natal.
O editor descobre sobre o destino da sexta obra de Nagiko. Exuma o corpo de Jerome
e retirando sua pele a transforma em um livro para sua contemplação, que mantém protegido
dentro do seu travesseiro de madeira. Sabendo disso, e estando grávida de Jerome, Nagiko
propõe-lhe trocar o livro feito da pele de Jerome pelos sete livros que ela teria que escrever
para completar a série inicialmente proposta. O editor, que a esta altura torna-se cada vez mais
obcecado pelos livros dela, aceita. Seu único interesse passa a ser aguardar os textos de
Nagiko.
O seguinte, O livro da juventude, inicia-se com a benção que o pai de Nagiko escrevia
em sua face de menina. Mas, o mensageiro deste atravessa forte chuva no caminho até o
editor e danifica severamente o texto. Furioso, o editor aceita o que restou do texto e o corpo
do mensageiro em compensação. O próximo da série é O livro do sedutor, escrito sobre a pele
de um mensageiro tão belo que é fotografado pelo editor.
Para o nono livro Nagiko se atém a registrá-lo em lugares ocultos do corpo de um
monge. Trata-se de, O livro dos segredos. Na sequência vem, O livro do silêncio. Traz o
texto: “Sussurrar pode ser um descanso do rumoroso mundo das palavras” e é grafado sobre a
língua do mensageiro. Os dois seguintes, O livro do traído e o O livro dos nascimentos e
começos, são feitos de modo que não possam ser lidos pelo editor.
No último: O livro do morto, Nagiko anuncia a morte do editor:

“Esta é a escrita de Nagiko Kiyohara no Motosuke Sei Shonagon,


E eu sei que você chantageou, violou e humilhou meu pai.
Eu suspeito que você também arruinou meu marido.
Você agora cometeu o maior dos crimes
Você dessacralizou o corpo do meu amante.
Você e eu sabemos que você já viveu tempo demais.” (trecho final).

Ao ler o editor fica abalado, mas termina por concordar com a própria morte. O
lutador de sumô, no qual o livro está escrito, lhe corta o pescoço.
Nagiko, de posse do livro-corpo-resto do amante, o enterra de modo cerimonial,
embaixo de uma árvore bonsai em flor. É o dia de seu 28º aniversário, seu bebê completa o
primeiro ano de vida, e O livro de cabeceira de Sei Shonagon faz mil anos. O filme termina
com a narração feita por Nagiko, que agora poderá iniciar a escritura de seu próprio livro de
cabeceira no qual relatará como, finalmente, pôde encontrar o amor. Com o corpo tatuado
com o texto de O livro do amante, inicia o ritual de aniversário, escrevendo no rosto de seu
73

filho, como o pai fazia com ela.


No primeiro tempo, vimos como a menina Nagiko é marcada pela escrita do pai.
Escreve-se numa criança, é a enunciação à qual fica aprisionada. Ocorre uma infiltração do
sintoma pelo gozo que se interpõe e causa uma debilidade na inscrição da falta no campo
Simbólico. Nagiko fica paralisada, presa em um curto circuito de gozo. A busca incessante da
personagem para recuperar o gozo perdido ilustra a função de mais-gozar do objeto a.
É interessante notar que é o estrangeiro quem consegue interferir como alteridade e
subverter a situação opressora em que Nagiko se encontrava. Isto se dá quando ele lhe oferece
a possibilidade de metaforizar ao propor que ela escreva no corpo dele promovendo, dessa
maneira, uma torção nas posições até então estabelecidas e fixadas por ela.
No que ela permite sua entrada, o estrangeiro passa a transitar entre ela e o editor
(aquele que Nagiko supunha saber sobre o gozo, já que seu pai se submetia a ele). Jerome
ocupa o lugar do falo, objeto destacável. Circula entre Nagiko e o editor e faz surgir, nela, o
desejo. Ele se oferece, metaforicamente, como papel e com isso permite a Nagiko aceder ao
amor objetal. Ela passa da identificação com o objeto a na função de mais-gozar, presa no
roteiro de sua fantasia, ao objeto a na função de causa de desejo. Temos aqui um exemplo de
um trânsito entre as funções do objeto a.
Como efeitos desta passagem-torção destacamos:
1. Nagiko escreve quatro livros ao sentir falta de seu amante quando ele demora a
retornar.
2. Depois da morte de Jerome, apesar da dor, ela escreve um livro dedicado a ele. Dá
prosseguimento à relação com o editor, porém de outra forma. De início, seu endereçamento a
este passava pela honra do pai. Depois, seu objetivo será recuperar o livro-corpo do amante.
3. O lugar destinado às suas obras também se modifica. Primeiramente, a ênfase
estava nos mensageiros que enviava ao editor. Após a morte de Jerome, seu texto torna-se o
mais esperado.
4. Surge em Nagiko uma capacidade de negociação que antes não havia. Ela conduz a
relação com o editor até conseguir matá-lo, recuperar o livro-corpo de Jerome e enterrar o
amante.
5. Sua mudança de posição cessa a busca incessante de recuperação de gozo. Seu
corpo agora é tatuado, registro permanente que interrompe a repetição.
6. Da relação de amor com Jerome, Nagiko tem um filho, o que representa a passagem
do amor fálico à posição feminina por excelência.
74

Se tomarmos o filme como um caso clínico, poderemos dizer que se trata de uma
forma neurótica de fazer consistir o Outro, mas em uma arquitetura onde de início o suporte
fálico parece faltar. Para obturar esta falta, o sujeito cria um roteiro – fantasia atuada – como
um recurso que o protege do real, da angústia. Essa fantasia é vivida como a única
possibilidade de existir, e o sujeito fica identificado com a posição de objeto. O estrangeiro,
na medida em que pôde oferecer-se como um outro Outro para Nagiko, abriu uma via de
fluxo entre as funções do objeto a, e inaugurou uma nova acessibilidade ao campo Simbólico.
Consequentemente, novas possibilidades de vir-a-ser para Nagiko.
75

Capítulo 5: Anorexia-bulimia: uma tentativa de teorização

5.1 Anorexia-bulimia: faces do mesmo pathos

Como vimos ao longo desta dissertação, nos dias de hoje, destacam-se as depressões,
drogadição, pânico, anorexia-bulimia como manifestações típicas dos tempos atuais. Com o
propósito de nos aprofundarmos mais nas questões clínicas elegemos o par anorexia-bulimia
por considerá-lo um dos exemplos paradigmáticos da cultura contemporânea.
Apesar da atualidade da anorexia não podemos deixar de lembrar sua presença na
história. Na Idade Média, santas e beatas da Igreja exerciam jejum auto-imposto com a
finalidade de alcançar a ascese que as colocaria em comunhão com Deus. Há vários registros
que testemunham a anorexia das santas. De uma maneira geral, considera-se a cultura do
corpo perfeito e a ênfase que a cultura de consumo dá à imagem as principais causas da
anorexia e bulimia entre as jovens de hoje. Porém, distantes da conotação estética, do culto
ditatorial à beleza, à boa forma do corpo, impostos ao sujeito pelos meios de comunicação, as
santas mantinham uma prática constante de restrição alimentar causando riscos à saúde e
possibilidade de morte conforme a anoréxica contemporânea. O que marca a diferença dessas
manifestações de anorexia é que no caso das santas o sacrifício era endereçado a Deus.
Em muitas sociedades anorexia e bulimia já se encontram registradas entre as
patologias mais frequentes e difíceis de tratar. Segundo a revista Veja20 constatou-se através
de um estudo realizado em um centro pediátrico na Grã-Bretanha, que no período de um ano
206 meninas de até 12 anos (a mais nova tinha apenas 6 anos) se utilizavam de métodos da
anorexia e bulimia, ou seja, uso de laxantes, vômitos provocados, dietas rigorosas que
comprometiam seu desenvolvimento e crescimento, com o objetivo de manterem-se magras.
Outro fato que chama a atenção é a enorme quantidade de blogs e websites pró Ana e Mia,
como são chamadas a anorexia e a bulimia, respectivamente, pelas adeptas (a participação é
majoritariamente feminina). Nesses espaços virtuais, elas constroem diários confessionais,
trocam experiências, dietas, e até promovem concursos de privação, e praticas de vigilância
dietética. Encontramos como uma das principais temáticas dos sites a afirmação de que Ana e
Mia são estilos de vida e tem vocabulário específico desenvolvido pelas que se identificam
com esse estilo. Através de seus registros podemos constatar que esta adesão à anorexia-

20
Disponível em: vejaonline.abril.com.br. Acessado em: jun.2008.
76

bulimia traduz a qualidade da resistência que encontramos no trabalho clínico. Resistência da


ordem do gozo.
Nas palavras de uma Ana Mia21:

“Quero começar mandando algumas pessoas para puta que pariu. Eu não preciso de
vocês para que me vejam e julguem: ‘VOCÊ ESTÁ MAGRA’, ‘VOCÊ ESTÁ GORDA’.
Primeiro que se eu me importasse com a opinião dos outros eu continuaria com meu
corpo normal que é o aceito por 95% do resto do mundo. Eu sou egoísta e estou
moldando um corpo perfeito que eu escolhi para mim e fodam-se vocês que se sentem
incomodados com a minha decisão. [...]. É o seguinte: semana passada eu, Netotchka
Malu e Mia que não tem blog nem nada combinamos de ontem, na sexta, tomarmos
Benflogim, 20 comprimidos. Marcamos hora e tudo mais. Tomamos, eu tomei com
vinagre também e dei umas pitadas de desodorante que queimou minha boca toda. Somos
um bando de resmungonas e ficamos da uma até três e meia enchendo o saco uma da
outra.
Fiquei tendo alucinações das mais psicóticas do mundo até nove da manhã. [...] de sete
até as onze da manhã eu não parei de vomitar [...] lá pelas dez também tive febre. Pois
então, eu passei muito mal, mas sei lá, foi estranho, foi horrível, mas foi divertido. Eu
adorava ver uma velha estranha andando pela casa, libélulas presas nas mechas roxas
do meu cabelo, armário flutuando, gavetas molengas feitas de maria-mole, arrrrrg! nojo!
Uma hora eu estava deitada e meus pés começaram a ter câimbra, eu chorei de tanta
dor, foi horrível. Ah, agora ao longo do dia eu só não posso ficar na mesma posição, que
qualquer parte do corpo fica dando formigamentos. Bom, agora vamos falar da parte do
vomitar que foi estupendo! Sabem por que eu desandei a vomitar? Eu estava vegetando
na cama olhando para frente e de repente um pastel assado de frango fedido e brilhando
de gordura veio em minha direção e veio entrando na minha boca, eu enjoei ali mesmo,
saí correndo esbarrando e derrubando tudo que via, ou melhor, que não via pela frente e
mesmo assim não deu tempo de chegar na privada, foi na pia mesmo. Tinha que ser a
comida. Massa porca ainda por cima.
A questão é: valeu a pena tudo isso? Valeu. Na verdade eu sequei, minha pele ficou a
coisa mais seca, pálida e sem vida. Olheiras não têm nem o que falar o tanto. Boca seca,
mas não podia tomar água porque vomitava. Repetiria? Não. Porque agora em
novembro vou tomar Xenical. Hoho!”

21
Retirado do Weblog: Die Anna. Disponível em: http://www.anorexianervosa.weblogger.terra.com.br. Acesso
em: 23 ag. 2008.
77

A anorexia nervosa, enquanto transtorno alimentar, se caracteriza por perda de peso


abrupta, sistemática, premeditada e alcançada pela consecução de dietas rígidas. O objetivo
central é o alcance da magreza, marcada pela distorção brutal da auto-avaliação da imagem
corporal. A bulimia é caracterizada por crises de fome compulsiva que se alternam com
práticas purgativas através de vômito induzido e uso de laxantes. A principal diferença entre
anorexia e bulimia é a perda de peso abrupta e progressiva da primeira.
No CID-10 (classificação internacional de doenças 10a revisão), a anorexia e a bulimia
encontram-se como duas patologias diferenciadas, ambas classificadas na categoria
transtornos alimentares (Eating disorders). Observa-se ser comum a ocorrência dos dois
transtornos nos mesmos pacientes e admitem-se traços em comum nas duas patologias, porém
são consideradas separadamente. Desta forma, compreendem-se tais transtornos como
disfunções do apetite e, nos casos de anorexia, também se inclui uma disfunção da percepção
cognitiva da própria imagem. A direção do tratamento é, frequentemente, a da normatização
das funções alteradas através de técnicas de condicionamento comportamental e terapia
medicamentosa.
Optamos por considerar a anorexia e a bulimia como dois lados do mesmo pathos
porque apesar das diferentes manifestações compartilham o mesmo Ideal do corpo magro, que
representa controle e perfeição, e a mesma ameaça da fome devoradora. A anorexia é
almejada pelas bulímicas, e a fome bulímica é uma ameaça e uma compulsão compartilhada
pelas anoréxicas. Vejamos alguns exemplos:

“Meus motivos para ser Ana Mia:


Porque é só nisso que eu penso.
Porque eu sou mais forte que a comida.
Porque comida é igual crack.
Porque eu vou me odiar se não fizer.”

A partir dos depoimentos colhidos nos espaços virtuais pró Ana e Mia, e de relatos
clínicos, podemos afirmar que anorexia e bulimia não estão separadas. Além de serem
consideradas como integrantes de um mesmo estilo de vida, há um vocabulário próprio e mais
ainda um jeito de utilizar esse vocabulário que se repete entre as adeptas que frequentam os
blogs.
Para a psicanálise, a direção do tratamento não visa à normalização das funções
orgânicas alteradas, e sim propiciar uma escuta para a fala daquele sujeito proporcionando a
abertura do inconsciente que a palavra pode promover. Não consideramos o par anorexia-
78

bulimia como uma estrutura, podendo estar presente na neurose, psicose ou perversão. Porém,
de acordo com nossa prática clínica e com os limites deste trabalho nos restringiremos ao
âmbito das neuroses. A partir deste direcionamento abordaremos esses quadros de sofrimento
reconhecendo que há algo que configura um discurso anoréxico-bulímico. Apesar do
fechamento, da pobreza no exercício da função simbólica, e da dificuldade de apresentar um
sintoma no sentido do sintoma das psiconeuroses (como visto no terceiro capítulo) apostamos
numa configuração mínima, por assim dizer, de um discurso que ordena de algum modo a
relação do sujeito com o Outro. Por esse motivo essa abordagem nos interessa, já que é
justamente através da relação do sujeito com o Outro que podemos pensar a transferência e o
trabalho clínico.
Instrumentalizados pela psicanálise e seguindo as teorizações apresentadas a respeito
do tema, faremos uma análise da relação entre esses fenômenos clínicos e a sociedade
contemporânea.
Em Psychanalyse et politique: huit questions de la psychanalyse au politique (2005),
Sauret afirma que o capitalismo parece prometer, efetivamente, a cada um, par-e-passo com a
ciência positivista moderna, a possibilidade de recuperação do gozo que lhe fez falta (gozo
perdido), e que, simultaneamente a isso, promete ainda se acomodar aos “pequenos gozos” de
cada um. (p.11). Dá ênfase à radicalização da evitação da castração, que podemos observar na
atualidade, ao ressaltar que um dos traços dominantes desse laço social -o capitalismo- reside
no que Lacan qualifica de foraclusão da castração (como vimos no segundo capítulo): “não
se requer mais do sujeito que ele simbolize aquilo que perde de gozo por falar, onde o
recalque é constitutivo da sexualidade humana, já que no gozo ele se banha.” 22 (p.11-12).
Outro aspecto da cultura contemporânea que este autor enfatiza é uma espécie de
substituição da ordenação pelo Simbólico por um suporte imaginário que tende a se fechar
narcisicamente e a empobrecer as vias de laço social: “O Um do narcisismo, ou seja, sua
própria imagem toma o lugar do Um simbólico, do significante mestre, dos nomes do pai.” 23
(p.12). Isto não significa reduzir o sujeito contemporâneo ao diagnóstico de psicose, mas
Sauret (2005) marca uma diferença do que ocorre na atualidade no âmbito das neuroses,
observa que uma série de sujeitos não psicóticos encontrou nessa rejeição do sexual um outro
meio, distinto da neurose, de se posicionar diante do sexual. Isto, porém não é sem
consequências, traz outro tipo de sofrimento, diferente do sofrimento do sintoma

22
“[...] il n’est plus requis du sujet qu’il symbolise ce qu’il perd de jouissance à parler et dont lê refoulement est
constitutif de la sexualité humaine, puisque dans la jouissance il y baigne.” (Tradução livre da autora).
23
“Lê Um du narcissisme, c’est-à-dire as prope image, prend lê relais du Um symbolique, du signifiant maître,
dês Noms-du-Père [...]” (Tradução livre da autora).
79

psiconeurótico. Dentre os sofrimentos presentes na contemporaneidade, associados a esse


contexto cultural, Sauret cita a anorexia e bulimia.
Em “A direção do tratamento e os princípios de seu poder” (1958b), Lacan afirmou
que amar é dar o que não se tem, é dar ao Outro o que não se tem, ou seja, dedicar ao Outro a
falta, signos da própria falta, a fim de escavar no Outro uma falta. Esse lugar no Outro, torna-
se um lugar de extremo valor para o sujeito: ter valor para o Outro, fazer falta para o Outro.
Na história pessoal das pacientes anoréxicas e bulímicas encontramos um Outro que
parece não deixar margem para que esse lugar possa ser criado. É um Outro materno que
responde rapidamente as demandas como necessidades, sem deixar espaço para que o desejo
apareça. É a mãe da anoréxica descrita por Lacan nesse mesmo texto: um Outro que “[...]
empanturra-a com a papinha sufocante daquilo que ele tem, ou seja, confunde seus cuidados
com o dom de seu amor” (Lacan, 1958, p.634). Dessa maneira, fica ressaltado o aspecto de
oposição que a anorexia traz em relação a esse aplacamento do desejo. A bulimia também
compartilha esse aspecto na medida em que ao vomitar no final das crises de fome devoradora
ostenta o fato de que nenhum objeto ou substância é capaz de preencher sua falta.
É nesse sentido que Recalcati (2004b) irá afirmar que nesses casos trata-se de um
Outro que se propõe como pleno, um Outro que não sabe operar com sua própria falta.
Podemos facilmente reconhecer a cultura contemporânea como um Outro muito próximo da
descrição da mãe da anoréxica dada por Lacan. Em uma análise aproximada à de Sauret
(2005), Recalcati (2004b) e Rabinovich (2004) afirmam que na época contemporânea há uma
promoção do sujeito-gadget. O sujeito é chamado ao lugar de consumidor dentro da lei atual
do mercado, que não o leva em consideração e valoriza apenas a produção de
pseudonecessidades e de novos objetos, oferecidos como solução imediata e que mascaram a
falta. Isso, aliado ao discurso da ciência positivista – promoção do saber especialista como
solução pragmática do problema da verdade – realiza certa anulação do sujeito do
inconsciente e do desejo.
É nesse contexto que, em concordância com esses autores, destacamos a alta
incidência na contemporaneidade do par anorexia-bulimia como efeito da cultura
contemporânea e ao mesmo tempo oposição a ela. Resposta ao Outro, que não sabe operar
com sua falta, na medida em que se identifica com o lugar de objeto para esse Outro e o faz
consistir, e oposição à lógica de mercado na medida em que recusa os objetos que o Outro lhe
empurra goela abaixo, numa tentativa de manter, minimamente, seu desejo.
80

5.2. Anorexia-bulimia: pathos do vazio

Comer, para os seres humanos não é alimentar-se, comer é um ato cultural, sentar-se à
mesa e compartilhar uma refeição é um ritual de transmissão de modos, costumes, cultura,
história. Como dizia o folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo:

O significado da comida ultrapassa o simples ato de alimentar-se. São muitas


as tradições que consideram a hora da refeição como semi-sagrada, de
silêncio, compostura e severidade. Manda-se respeitar a mesa e, no interior,
não se comia trazendo armas, chapéu na cabeça ou sem camisa. Comer junto
é aliar-se, a palavra companheiro vem do latim cum panis: de quem
compartilha o pão. (Câmara Cascudo, [1943] 1983, p.44).

Com Lacan podemos dizer que o homem só come por que está alienado no campo do
Outro. A existência da Cultura gastronômica e da Arte culinária evidencia esse desvio da
natureza em direção ao campo do Outro teorizado por Lacan e enunciado pelo historiador:

A arte de comer, cerimonial festivo e íntimo, é um patrimônio que orgulha o


homem, distinguindo-o do gorila, do orangotango e do chimpanzé, senhores
de uma norma nutricionista bem mais superior à dos humanos. Comer é um
ato orgânico que a inteligência tornou social. Todo animal sabe escolher e
saborear seu alimento. Não sei se posso afirmar o mesmo dos meus
semelhantes, implumes e bípedes (Câmara Cascudo, [1943] 1983, p.73).

Freud desde o início de sua obra diferenciou com clareza a necessidade do desejo
através do modelo da amamentação. Nesse exemplo a necessidade está referida à fome e tem
objeto específico: o alimento; porém, com apoio na necessidade, e de um só golpe, advém o
desejo, que se direciona ao objeto da pulsão oral - o seio - em busca do objeto para sempre e
desde sempre perdido - das Ding. Dessa maneira, o enlace fundamental entre desejo e
demanda encontra-se realizado.
Lacan ao estabelecer o Outro como o campo do Simbólico, evidenciou que a demanda
é a dimensão da necessidade subordinada pelo significante, e radicalizou ainda mais essa
distinção: uma vez que o sujeito já nasce incluído no campo do Outro, encontra-se apartado
da necessidade como função orgânica desde sempre. Para que o choro de um bebê signifique
que ele está com fome, é necessário que alguém interprete esse choro como demanda de leite.
Senão, é só um choro perdido, sem fim. É somente através do outro que interpreta o choro do
bebê como fome que o choro se converte em demanda. É por isso que quando se trata do
campo das relações humanas podemos afirmar que não existem necessidades naturais.
81

Dessa maneira, podemos perceber a anorexia-bulimia como uma forma de romper


com as regras do Outro: na recusa a comer, a sentar-se junto, a compartilhar - da anoréxica, e
na devoração de uma quantidade absurda de alimentos, sem discernimento, fora de hora e
obedecendo a uma voracidade brutal - da bulímica. Ou seja, o comer nada ou a fome
devoradora que recusa o critério simbólico para a escolha da comida, são formas de recusar-se
a sentar-se à mesa do Outro (Recalcati, 2004a, p.50-52).
Outro aspecto evidenciado pela arte da culinária é o lugar de objeto causa de desejo
ocupado pela comida nas mais variadas culturas. Entretanto, há um resto de real do gozo que
a ação sublimatória da culinária não consegue inscrever. É o que Freud apontou quando
localizou o seio como objeto da pulsão oral e das Ding como objeto do desejo. Ou seja, a
pulsão incita a comer, mas não a comida, e sim o vazio, como resto impossível de comer. A
bulímica põe isso em evidência ao demonstrar que nada, comida alguma, pode preencher este
vazio. A anoréxica também torna isso evidente ao eleger o nada, figuração do vazio, como
objeto de seu apetite, elevando o nada à dignidade da Coisa.
Ao mesmo tempo, é comum que as anoréxicas-bulímicas desenvolvam um saber sobre
a comida e não só um saber sobre as calorias e dietas, mas um saber sobre a cozinha. É como
no caso de uma paciente que havia trabalhado durante muito tempo para uma rede
distribuidora de alimentos que possuía, dentre outros setores, um especialmente destinado ao
público interessado em reeducação alimentar, para o qual esta paciente trabalhava. Apesar de
sua função não ter ligação direta com a culinária, durante esse tempo aprendeu não só
diversas receitas como também as propriedades de vários alimentos, chegando a criar alguns
pratos que foram incorporados ao cardápio.
Outra paciente relatou que quando não estava nos períodos em que era acometida
pelos ataques de fome, tinha como passatempo predileto cozinhar para os outros. Cozinhar e
servir o Outro, é outro modo de escapar da mesa. É o Outro que queria ver comer.
Outra paciente anoréxica dizia que seu horror a engordar era tamanho que só esta idéia
a apavorava, mas que isso só se aplicava a ela, quando se tratava dos outros, mesmo os
namorados ou as amigas, não se importava, até gostava de vê-los comer, gostava de
acompanhá-los aos restaurantes para vê-los comer.
Retomando a teorização sobre sujeitos que se encontram fixados no enredo da
fantasia, vemos aqui um exemplo. Ameaçada pela fantasia oral de devoração pelo Outro, a
anoréxica-bulímica dá de comer ao Outro para evitar ser devorada pelo Outro, pelo menos
enquanto o Outro come, ele não a devora. No seminário 11, Lacan associa a pulsão oral às
fantasias de devoração: “Venhamos à pulsão oral. O que ela é? Fala-se das fantasias de
82

devoração, se fazer papar. Todo mundo sabe, com efeito, está mesmo aí, confinando com
todas as ressonâncias do masoquismo, o termo outrificado, da pulsão oral.” (Lacan, 1964,
p.184).
Em 1905, Freud declarou a sexualidade humana como perversa e polimorfa por estar
submetida às pulsões e não aos instintos naturais (biológicos). Em outras palavras, a pulsão é
um desvio da natureza, sustentada pela relação originária do sujeito com o Outro. Ao
estabelecer as zonas erógenas do corpo, Freud cria uma topologia da pulsão. E ao recorrer à
idéia de apoio - o desejo se apóia numa necessidade - Freud demonstra como no homem as
necessidades estão submetidas às exigências pulsionais. Nesse sentido, a anorexia põe em
evidência a superioridade da pulsão, uma vez que subverte uma necessidade fundamental à
existência: a fome.
Contudo, podemos nos valer de um exemplo menos radical: o bebê. Mesmo depois de
saciar a fome, o bebê continua a chupar o dedo, ou a chupeta, ou ainda outros objetos, em
busca de outra satisfação. Ou seja, a pulsão não tem objeto definido, e no caso da pulsão oral,
especificamente, ela busca através do seio o objeto desde sempre perdido: a Coisa. Por isso
Lacan afirma que o alvo da pulsão é o retorno em circuito: contornar o vazio do objeto.
Essa leitura de Lacan refere-se ao que Freud desenvolveu desde os primórdios de suas
teorizações a respeito do desejo: não é possível (re) encontrar a Coisa, apenas objetos parciais,
substitutos daquele que seria capaz de promover um gozo absoluto que está para sempre (e
desde sempre) perdido. No seminário 11 Lacan diz, a respeito do objeto da pulsão oral, o
seguinte:

[...] este objeto que de fato é apenas a presença de um cavo, de um vazio,


ocupável, nos diz Freud, por não importa que objeto, e cuja instância só
conhecemos na forma de objeto perdido, a minúsculo. O objeto a minúsculo
não é a origem da pulsão oral. Ele não é introduzido a título de alimento
primitivo, é introduzido pelo fato de que nenhum alimento satisfará a pulsão
oral, senão contornando-se o objeto eternamente faltante. (Lacan, 1964,
p.170)

Trata-se, mais uma vez, de distinguir o objeto da necessidade - o alimento, do objeto


da pulsão. Porém, o homem por ser pulsional desnaturaliza o objeto da necessidade na medida
em que cria um saber sobre a comida; é a invenção da gastronomia. Assim, a cozinha se
transforma em história, em cultura:
83

O alimento é desviado de sua origem natural através da manipulação


gastronômica-culinária para valorizar ao máximo a função de objeto
pulsional e desse modo introduzir no campo de satisfação da necessidade
outra satisfação: uma satisfação pulsional. Deste ponto de vista, a ação da
Cozinha é homóloga à ação pulsional com a qual a criança pretende
reencontrar a primeira satisfação perdida através dos ‘sucessores’ do seio.
(Recalcati, 2004a, p.45).24

Em outras palavras, o homem não come para aplacar sua fome, nem come somente
comida, o homem come a fim de atingir um gozo, come também para comer o seio e
consequentemente o vazio. O seio para o qual se dirige a pulsão oral não é um objeto
propriamente, mas uma fantasia que recobre o vazio do objeto a.
A arte culinária é um desdobramento simbólico decorrente disso, pois o vazio é
impossível de ser comido. Portanto, é a partir desse impossível que o discurso da culinária é
construído; a partir desse vazio que habita o objeto da necessidade se criou a cultura da mesa.
Por tudo isso, não podemos conceber a anorexia e a bulimia como distúrbios de um
comportamento biológico e natural - a alimentação, e sim como uma fixação do sujeito nessa
fantasia, se empenhando em tentar recuperar o vazio do objeto para sempre perdido a fim de
recuperar o gozo para sempre perdido. A anoréxica o faz comendo nada e encarnando ela
mesma o vazio. A bulímica tenta desesperadamente preencher o vazio da Coisa através do
objeto comida, que tem para ela consistência imaginária, para ao final das crises devoradoras,
através do vômito, tornar evidente a inconsistência da comida-substância incapaz de
preencher esse vazio.
Muitas vezes encontramos na descrição da anorexia um horror à fome bulímica. As
pacientes dizem que não comem nada porque tem medo da comida, tem medo de começar a
comer e não conseguir parar mais: comer nada para não correr o risco de comer tudo.
Era como no caso de Amanda que fazia uso de inibidores de apetite que “descolava”
com uma amiga. Sem seguir a prescrição, usava-os de acordo com a “ameaça da fome”, em
alguns dias nos quais se sentia mais vulnerável tomava o remédio, em outros não. Essa
inversão anoréxico-bulímica corrobora a idéia de serem dois lados de um mesmo quadro.

24
El alimento es desviado de su origen natural a través de la manipulación gastronómica-culinaria para
valorizar al máximo la función de objeto pulsional y de esse modo introducir em el campo de la satisfacción de
la necesidad outra satisfacción: uma satisfacción pulsional. Desde este punto de vista la acción de la Cocina es
homologable a la acción pulsional com la cual el niño intenta reencontrar la primera satisfacción perdida a
través de la succión de los “subrogados” del seno. (tradução livre da autora).
84

Além da clínica, nos depoimentos encontrados nos espaços virtuais criados e mantidos
pelos sites Pró Ana Mia, também constatamos o mesmo: na grande maioria dos depoimentos
há a referência ao medo da comida, comer é sempre ameaçador porque pode resvalar em fome
desenfreada. Na maioria desses relatos, a anorexia aparece como ideal e a bulimia torna-se
uma opção para quando a compulsão vence. Algumas poucas vezes encontramos uma
anorexia sem bulimia, porém não encontramos bulimia sem o horizonte anoréxico.
No caso da Amanda, essa inversão anoréxico-bulímica nos parece corresponder à
outra inversão em relação ao seu Outro materno, bastante invasor e incapaz de suportar a
separação da filha, super protetora ao extremo e ao mesmo tempo totalmente dependente dela.
Amanda descreve o amor de sua mãe pelos filhos como imenso, e com ela ainda mais
intensificado, o que ela atribui ao fato de ser a filha mais velha. Sua mãe desenvolveu com ela
“uma relação de necessidade”, diz que a mãe sempre precisou dela. Quando era pequena sua
mãe a fazia de “escudo” nas brigas com o pai. E quando ela não se utilizava desse recurso, ou
seja, quando não colocava Amanda, literalmente entre o casal, o pai espancava a mãe. Ela diz
que em sua relação com a mãe se sente “sugada”, mas que ao mesmo tempo a mãe é a pessoa
a quem ela mais ama no mundo. Aparece, nesse caso, a fantasia de ser devorada pelo Outro,
logo, torna-se fundamental comer nada para não ser comida.
Também foi a mãe quem lhe deu remédios para emagrecer pela primeira vez. Quando,
no início de sua adolescência, Amanda lhe perguntou sobre o aspecto de seu corpo, se estaria
“gordinha”, a mãe respondeu-lhe com uma caixa dos medicamentos, confundindo, mais uma
vez, desejo com necessidade, sem oferecer escuta alguma para a filha que perguntava à mãe
sobre o amor.
Diante desses relatos, e retomando a idéia de considerarmos diferentes funções do
objeto a: como causa de desejo, e como mais-gozar, podemos pensar a Arte culinária como
vertente do objeto a como causa de desejo e a anorexia-bulimia como vertente mais-gozar,
ambas relacionadas às fantasias associadas à pulsão oral.
Tanto na anorexia-bulimia quanto na gastronomia e na culinária a busca é de outra
satisfação através da comida, em ambos os casos é das Ding, é o gozo que é o alvo. O que é
encontrado também é o mesmo em ambos os casos: o vazio. Porém, enquanto no primeiro
caso a fixação na recuperação do gozo impera, no segundo há uma saída - a partir do vazio
cria-se um discurso da cozinha, da gastronomia, cria-se a Arte Culinária.
Lacan (1964) situa o desejo na cadeia significante, no intervalo do discurso do Outro,
cortando os significantes, através da metonímia o desejo comparece e escapa: “[...] é lá que
desliza, é lá que foge como furão o que chamamos desejo.” (Lacan, 1964, p.201). Ou seja, é a
85

presença do real na estrutura significante, o objeto a como causa de desejo. Neste mesmo
seminário, apesar de ainda não ter designado a função de mais-gozar para o objeto a, Lacan
parece tratar desta função quando delimita o estatuto do objeto a enquanto presente na pulsão,
o que localiza na fantasia: “O sujeito se situa a si mesmo como determinado pela fantasia.” A
exceção estaria no caso da perversão, neste caso, temos “O sujeito que se determina a si
mesmo como objeto, em seu encontro com a divisão da subjetividade.” (p.175).
A partir das teorizações levantadas durante a realização desta dissertação, podemos
levantar a suposição de que, nesses casos, trata-se de sujeitos determinados pela fantasia,
fixados a uma identificação imaginária com o objeto em seu encontro com a divisão subjetiva,
à moda da perversão. Lacan também afirmou que a fantasia é a sustentação do desejo, e não o
objeto, e que essa posição de objeto assumida pelo perverso é uma posição de gozo. Sendo
assim, apostamos que nos casos apresentados em nosso estudo há a possibilidade de um
trabalho preliminar que possa promover uma perda de gozo que tenha como efeito uma
mobilidade maior para esse sujeito.

5.3. O Ideal do corpo magro e seu lugar na fantasia

Em 1914, Freud ressaltou o valor libidinal que a constituição do Eu, o investimento


narcísico através do qual se dá a aquisição da imagem corporal, tem para o sujeito. Trata-se de
uma identificação primária com o Eu ideal, identificação que se dá à moda da pulsão oral, ou
seja, o sujeito incorpora essa unidade narcísica:

Esse eu ideal é agora o alvo do amor de si mesmo (self-love) desfrutado na


infância pelo eu real. O narcisismo do indivíduo surge deslocado em direção
a esse novo eu ideal, o qual, como o eu infantil, se acha possuído de toda
perfeição de valor. Como acontece sempre que a libido está envolvida, mais
uma vez aqui o homem se mostra incapaz de abrir mão de uma satisfação de
que outrora desfrutou. (Freud, 1914, p.111).

Em prosseguimento a sua teorização, Freud diz que a partir da intervenção de terceiros


e de sua própria auto-crítica o sujeito se vê incapaz de “reter aquela perfeição” (p.111). É
assim que surge o ideal do eu, outra forma, menos identificatória e mais simbólica de procurar
recuperar algo dessa perfeição e gozo infantis.
No caso da anorexia-bulimia vemos o mesmo ideal do corpo magro estabelecido como
objetivo a ser alcançado, e como representante de perfeição. Aliás, perfeição é um significante
recorrente no discurso anoréxico-bulímico. Então, propomos pensar o ideal do corpo magro
86

como um Eu ideal, e a anorexia-bulimia como um quadro clínico que fica estabelecido aí,
nessa passagem de eu ideal para ideal do eu. Diante da intervenção de terceiros, o sujeito ao
invés de caminhar na direção de uma nova forma de ideal, recua e reinveste em não abrir mão
de um gozo que outrora desfrutou, porém, ao preço de ficar identificado imaginariamente,
logo, aprisionado a esse eu ideal.
Sauret em sua análise demonstra que na cultura contemporânea vemos o Um do
narcisismo, ou seja, sua própria imagem, tomar o lugar do Um simbólico, do significante
mestre e que isso provoca um rompimento da solidariedade entre os organismos que
compõem o laço social, sem que nenhuma norma, nenhum significante mestre venha regular
(p.12). No caso da anorexia-bulimia parece acontecer o mesmo: O Um do narcisismo, sua
própria imagem, o ideal do corpo magro toma o lugar do Um simbólico, do significante
mestre, e isso provoca essa impermeabilidade à intervenção e a dificuldade no
estabelecimento da relação transferencial que encontramos no trabalho clínico.
Em O estágio do espelho como formador da função do eu. (1949), Lacan apresenta a
constituição da imagem corporal como estruturante e fundamental. Trata-se da passagem do
corpo fragmentado à unidade corporal. O corpo do bebê é um corpo fragmentado,
despedaçado, desagregado. Desprovido de coordenação motora e do recurso da fala, o bebê
encontra-se nas mãos do Outro; por esse motivo, Lacan afirmou que esta Imagem Ideal, essa
unidade corporal é imaginária, ilusória e antecipada.
Em 1966 Lacan acrescentou um parágrafo ao texto Função e campo da fala e da
linguagem, (1953), onde diz o seguinte:

[...] (o sujeito) acaba reconhecendo que nunca foi senão um ser de sua obra
no imaginário e que essa obra desengana nele qualquer certeza. Pois nesse
trabalho que faz de reconstruí-la para um outro, ele reencontra a alienação
fundamental que o fez construí-la como um outro, e que sempre destinou a
lhe ser furtada por um outro (Lacan, 1953, p.302).

O estágio do espelho é o que possibilita o reconhecimento do sujeito, e lhe assegura


um domínio, imaginário, do próprio corpo. Porém, esse reconhecimento só se dá através do
Outro que leva a criança até o espelho e a faz reconhecer-se em seu duplo especular. Entra aí
a palavra do Outro, o simbólico que torna possível a identificação imaginária. É necessária
uma duplicação para se ver no Outro e reconhecer no Outro a si mesmo. Junto a isso o
domínio do próprio corpo que essa identificação proporciona é causa de um júbilo, que
podemos compreender como um gozo aliado à percepção da própria imagem.
87

Esse gozo da imagem, fazer da imagem do próprio corpo um lugar investido


libidinalmente, como disse Freud, é concernente ao narcisismo, mais especificamente ao Eu
ideal, ou seja, ao eu que toma a si mesmo como objeto libidinal.
O que Freud e Lacan puseram em evidência é que o domínio e unidade corporais
chegam demasiadamente antecipados em relação ao real do corpo, não há correspondência,
logo, não são uma etapa do desenvolvimento cognitivo, nem um produto da consciência e sim
constitutivos do sujeito.
Lacan apontou, ainda, que essa falta de equivalência narcísica faz operar uma
subtração da imagem que produz um resto, é a partir daí que podemos localizar no estágio do
espelho o objeto a como causa de desejo. Nos casos de anorexia-bulimia o Eu ideal é tomado
como solução narcísica capaz de anular essa discrepância e por isso ganha valor extremado,
essa tentativa de recuperação de gozo corresponderia à função de mais-gozar do objeto a.
Essa entrada do terceiro, apontada por Freud (1914), seria o confronto com a
castração, que no caso da anorexia-bulimia já é, de saída, pouco suportável para seu Outro
materno. Como vimos, a imagem corporal necessita do Outro para ser constituída. E, sendo
assim, não lhe é oferecido um suporte fálico especular que permita um trâmite simbólico
eficaz. Ao invés disso, a anoréxica-bulímica é forçada a tamponar a castração com sua própria
imagem. A imagem ideal, esse Eu ideal anoréxico fica estabelecido como a solução para a
castração, e o controle que busca sobre sua imagem e seu corpo corresponde ao domínio
(imaginário) do corpo pulsional.
Porém, essa imagem deve obedecer ao Eu ideal, mas não realizá-lo. A imagem que a
anoréxica vê no espelho é sempre discrepante em relação ao real de seu corpo, por mais
magra que esteja ela sempre verá um excesso de carne, uma excrescência que precisa
eliminar. O ideal da anoréxica é tirânico, e assim, seu projeto de domínio do corpo pulsional
através da imagem a converte em uma serva do impossível.
O trecho a seguir, intitulado Espelho, foi retirado de um diário virtual e ilustra o que
enunciamos25:

“Espelho...
Ele tenta desviar o olhar, mas não pode.
Então, reclama do meu desleixo,

25
Retirado do Weblog: Doce ilusão. Disponível em: http://www.doceilusao.weblogger.terra.com.br. Acessado
em: 23 ag 2008.
88

critica minha postura,


diz que meu cabelo está desarrumado...
Além disso, minha barriga está enorme,
e a bunda desproporcional.
Ele me conta que sou um pouco estrábica,
os dentes são tortos, o pescoço comprido demais....
Sugere também que a pele oleosa faz meu nariz parecer ainda maior,
e a roupa é cafona...
As coxas são grossas demais,
As sobrancelhas são esquisitas,
o rosto muito redondo,
seios pequenos e murchos,
e um calo no pé....
Daí, ele me conta onde eu posso comprar uns frasquinhos
E diz que a felicidade estará lá dentro.
Eu sei que ele está mentindo,
mentindo desavergonhadamente como sempre faz.
Mesmo assim, eu vou comprar...”

Esse fascínio que o ideal anoréxico exerce condiz com a carga de gozo que comporta.
Em seu texto sobre o narcisismo, Freud ressalta o eu como objeto pulsional, Lacan assinala o
júbilo do espelho, ou seja, o gozo da imagem. No caso da anorexia-bulimia esse gozo da
imagem parece estar intensificado, o Eu ideal parece estar infiltrado pelo gozo.
A falta, apresentada no campo do Simbólico, que marca a falta na imagem, que subtrai
a imagem, é a condição para que algo se inscreva como valor para o desejo: o objeto a na
função de causa de desejo. Porém, quando a falta falta, o sujeito fica estagnado, paralisado,
preso num curto circuito de gozo.
Como já vimos, o Outro na história pessoal da anoréxica é um Outro que não sabe
operar com sua própria falta, trata-se de um Outro que não deixa margem para o desejo.
Podemos identificar, incluída na anorexia, uma das fantasias infantis mais comuns na relação
das crianças com seus pais: a fantasia da própria morte, ou de seu desaparecimento. No
Seminário 11, Lacan (1964) ao tratar da alienação se refere a esta fantasia como resposta do
sujeito ao enigma do desejo do Outro e a relaciona com a anorexia:

O primeiro objeto que ele (sujeito) propõe a esse desejo parental cujo objeto
é desconhecido é sua própria perda – Pode ele me perder? A fantasia de sua
morte, de seu desaparecimento, é o primeiro objeto que o sujeito tem a pôr
em jogo nessa dialética, e ele o põe, com efeito – sabemos disso por mil
fatos ainda que fosse pela anorexia mental. Sabemos também que a fantasia
de sua morte é brandida comumente pela criança em sua relação de amor
com seus pais. (Lacan, 1964, p.201)
89

Lacan coloca que são duas faltas, uma falta recobre a outra, a falta no Outro, desejo do
Outro e a falta do sujeito, desejo do sujeito. A morbidez da anorexia, que coloca em jogo sua
própria vida, parece interrogar se faz falta pro Outro, e ao mesmo tempo, parece tentar fazer
falta no Outro. Questiona de maneira atuada seu valor para o Outro, se tem lugar no desejo do
Outro e ao mesmo tempo afirma de modo precário, seu próprio desejo. Nas palavras de
Recalcati (2004a): “Subtrair-se, desaparecer, atuar a fantasia da própria morte para escavar
uma cavidade no Outro.” (p.160)26.

5.4. Anorexia e feminino

Conforme apontado na introdução, a anorexia-bulimia não é compreendida por nós


como uma estrutura, podendo se apresentar na neurose, psicose e perversão. Propomo-nos
abordá-la somente no âmbito das neuroses. Porém, mesmo nos mantendo dentro desta
restrição é necessária uma explicação. Sabe-se que episódios anoréxicos, às vezes graves e
duradouros, ocorrem em casos de histeria. Entretanto, interessou-nos pesquisar aqueles que se
diferenciavam mais claramente das psiconeuroses de defesa por não apresentarem um sintoma
no sentido estrito do termo. Nestes casos encontramos maiores dificuldades clínicas. Por outro
lado, trabalhamos com a hipótese de que provavelmente trata-se de uma histeria ainda não
plenamente estabelecida. A distinção importante é a construção do sintoma histérico.
Acreditamos que pode haver períodos em que a histérica lança mão da anorexia-bulimia, e
que aí a função simbólica falha por alguma razão e a função do objeto a como mais-gozar se
torna prevalente. No entanto, a via simbólica já está devidamente instaurada, o endereçamento
transferencial e a demanda de análise possibilitam que o trabalho analítico siga seu curso,
pois, aí, o fluxo entre as funções do objeto a já é mais contínuo.
Tomemos como exemplo um caso clínico apresentado por Pollo em seu livro
Mulheres histéricas (2003). Trata-se de Márcia uma adolescente de 12 anos que, sob o
diagnóstico médico de anorexia nervosa, sofrera internação de dois meses, da qual recebeu
alta por estar bem de saúde, apesar de ainda estar bastante magra. A mãe se queixa da falta de
apetite da filha, mas revela em entrevistas com a analista a inserção da filha em sua fantasia.
Márcia por sua vez, leva questões sobre o amor. A recusa do objeto comida está diretamente
associada à demanda de amor. Como protesto, Márcia recusa o alimento que a mãe lhe
oferece. “Recusar o alimento é fazer existir algo além do objeto: amor, dom, gratuidade.”

26
“Sustraerce, desaparecer, actuar el fantasma de la propia muerte para excavar um hueco em el Outro.”
(tradução livre da autora).
90

(Pollo, 2003, p.52). Porém, “Fora desse eixo a- a’, Márcia revela seu gozo fálico, isto é,
aquilo que do gozo se deixa apreender pelo significante.” Pollo acrescenta, “Ela produz em
série três sonhos claramente faloformes e testemunha, deste modo, sua inscrição de ser falante
com base na identificação viril.” (p.54). Portanto, trata-se de um caso que ilustra a anorexia
numa histeria francamente instalada.
Já os casos de anorexia-bulimia que tomamos como objeto de estudo nesta dissertação
são justamente os que se apresentam cristalizados nesse eixo a-a’, sem dar-nos testemunho de
sua inscrição fálica. E que por isso mesmo tornam a entrada em análise um trabalho mais
árduo.
A anorexia é, reconhecidamente, um mal que atinge principalmente as mulheres.
Entretanto, a afinidade entre anorexia e feminino não tem sua origem na indústria da moda e
da estética, é uma afinidade por estrutura. O discurso anoréxico, como vimos, gira em torno
do amor. A incessante busca da anoréxica para obter o signo de amor do Outro corrobora esta
hipótese. Porém, essa demanda desesperada e infinita resiste à dialética por estar aprisionada
ao eixo imaginário especular. Assim, a transmutação do amor em ódio e vice-versa é direta.
“O sujeito feminino não usa somente a anorexia para extrair do Outro o signo do amor, mas
também para destruir o Outro do amor como tal.” (Recalcati, 2004a, p.135) 27.
Freud demarcou o campo pré-edípico como território da relação mãe e filha. Lacan
descreve esta relação como de amor e ódio - devoração e recusa recíprocas - que sem a
mediação fálica pode tornar-se devastadora. Recalcati (2004a) afirma que a questão anoréxica
se situa também aí uma vez que gira em torno desta relação. Diz que nos casos de anorexia
podemos constatar uma relação especular na qual a mãe investe na filha como sua saída
narcísica que a pouparia de se haver com sua própria falta. Em resposta, a filha tende a
assumir esse lugar encarnando-o e se oferecendo como objeto para a falta de seu Outro
materno, o que a mantém aprisionada ali.
Quando recebi Ana Clara28 ela estava no início da adolescência. Foi levada à análise
por sua mãe que se queixava das oscilações de humor e apetite da filha. A jovem, por sua vez
só reclamava de enxaquecas “homéricas” que a deixavam “inútil”, mas acreditava que a
solução para seu mal era um analgésico eficiente e que a causa de suas enxaquecas era
genética. Ao descrever a filha, sua mãe comparava-a com o irmão exaltando-o ao mesmo
tempo em que a desqualificava num tom tão casual que ficou evidente que não escutava o que

27
“El sujeto femenino no usa solamente la anorexia para extraer del Outro el signo de amor, sino también para
destruir al Outro del amor como tal.” (tradução livre da autora).
28
Todos os nomes utilizados são fictícios.
91

dizia. Atribuía a si mesma toda a culpa pelos “sintomas” da filha, pois afinal ela sempre
sofrera demais e deveria ter “passado toda sua depressão para a filha”.
A mãe de Bela, outra paciente que estava no início da adolescência, diz que nunca
entendeu muito bem o porquê, mas que com sua filha não conseguiu ser a mesma mãe que
fora para seus dois filhos homens, mais velhos. Enquanto amamentou e desmamou com
tranquilidade os meninos, com Bela teve enorme dificuldade em parar de amamentá-la. Não
conseguia introduzir alimentos em sua dieta, “a única coisa que ela comia era peito”. O
desmame só se deu por intervenção pediátrica, quando a menina já tinha quase quatro anos de
idade e estava desnutrida por falta de alimentos. Quando, finalmente, Bela começou a comer
não conseguia ter moderação, passou de uma criança esquálida a uma criança obesa. Na
adolescência a fome desenfreada perdurou, e as crises bulímicas se iniciaram. Apesar de
narrar toda essa história, a mãe não se implicou em nenhum momento, atribuiu a diferença de
seu desempenho materno ao fato de Bela ser menina. (Outro ponto que chamou a atenção é
que a mãe escolheu um nome-apelido para a filha e ao se apresentar também usou seu apelido
ao invés do nome, pronunciando-o em conjunto com o da filha: “Bela-Lú”).
A localização da anorexia no campo do pré-edípico aproxima a solução anoréxica-
bulímica das toxicomanias (também no que concerne ao campo das neuroses). São saídas que
o sujeito acredita serem alternativas à via edípica. Nos casos de anorexia-bulimia a relação de
devastação entre mãe e filha se repete na relação com o objeto comida que é tomado da
mesma maneira que a substância na toxicomania. É a presença perceptível da Coisa na fome
desenfreada que ameaça e submete o sujeito anoréxico-bulímico. Na clínica, é notória a
semelhança entre a descrição da relação de dependência que as pacientes têm com o alimento
e com suas mães; além do uso recorrente de remédios pelas anoréxicas-bulímicas. É o que
explicita uma adepta do estilo Ana Mia ao registrar numa lista de motivos para aderir à
anorexia a seguinte frase: “Porque comida é igual crack.”29 Além disso, é frequente o uso
abusivo de remédios e outras substâncias nos quadros de anorexia-bulimia.
Mas, nesses dois quadros de sofrimento o que está em jogo é o domínio fálico do
gozo. Na drogadição é a potência da substância que proporciona a ilusão desse domínio,
enquanto que na anorexia-bulimia essa potência está atribuída à imagem corporal. Assim, ao
invés de radicalizar a feminilidade a anorexia-bulimia se apresenta como resistência a assumir
uma posição sexual, é uma tentativa de manter-se indiferente à diferença sexual - “livrar-se
das barras do sexual” - (Sauret, 2005, p.13).

29
Ana Mia The lifestyle. Disponível em: www.freewebs.com/annamialifestyle. Acessado em: 23 ag 2008.
92

No vocabulário específico desenvolvido e divulgado nos blogs pró Ana Mia elas se
referem a si mesmas como: anjo, boneca, criança, princesa30, significantes que apontam para
esta tentativa de manter-se fora dessa diferenciação.
A falta de um significante que represente o sexo feminino torna mais difícil subjetivar
o corpo enquanto feminino. Como afirmou Lacan, uma mulher não pode ser reduzida ao
registro fálico do ter, mas, para situar-se mais além do falo é necessário um salto no vazio, um
abandono do falo como referência absoluta. A anoréxica não se vê capaz de dar este salto,
recua e se dedica a tentar se desvencilhar da diferença sexual e de suas consequências.
A partir de sua vasta experiência clínica especificamente dedicada à anorexia-bulimia,
Recalcati afirma que essa negação do corpo sexuado e concomitantemente da castração não se
sustenta, e acaba por reverter-se em morte. Na anorexia-bulimia a beleza não vela o real. A
suposição do autor é que no espelho o sujeito não encontrou o olhar de sustentação do Outro,
e sim desqualificação superegóica. O encontro com a própria imagem especular na
experiência anoréxico-bulímica torna-se a reedição da experiência devastadora em si mesma.
A presença dessa desqualificação superegóica do Outro está no trato que a anoréxica-bulímica
dá a si mesma e a seu corpo. Outro fato que os depoimentos dos blogs testemunham através
da forma depreciativa que as usuárias utilizam para se referir a elas mesmas, sua imagem e
seus corpos, principalmente quando contam que perderam o controle (ou como costumam
dizer: tiveram uma compulsão).

5.5. Anorexia-bulimia e o fazer do analista

Procuramos nesta pesquisa traçar os principais eixos da montagem da anorexia-


bulimia, dando destaque à relação da anoréxica-bulímica com o Outro a fim de nos
instrumentalizarmos melhor para o trabalho clínico, principalmente no que diz respeito à
transferência e à entrada em análise.
A importância das entrevistas preliminares e da retificação subjetiva foi ressaltada por
Lacan em seu ensino. Um sujeito só pode entrar em análise depois de se responsabilizar, se
implicar naquilo de que se queixa, ao invés de depositar sobre o Outro a responsabilidade por
todo seu sofrimento, “Esta retificação se apóia num sujeito que não pretende descarregar seu
30
webblogs consultados: Ana Mia Diva. Disponível em: www.anamiadiva.weblogger.terra.com.br. Acessado
em: 23 ag 2008; Ana Mia My diary. Disponível em: mydiary.spaceblog.com.br. Acessado em: 23 ag 2008; Meu
mundo Ana Mia. Disponível em: meumundoanamia.zip.net. Acessado em: 23 ag 2008; Pró Ana Mia. Disponível
em: anamia2007.blogspot.com. Acessado em: 23 ag 2008. Ana Mia The lifestyle. Disponível em:
www.freewebs.com/annamialifestyle. Acessado em: 23 ag 2008.
93

mal sobre o Outro, e sim, que assume o peso deste mal e o eleva à dignidade de um enigma.”
(Recalcati, 2004a, p.139)31.
Porém, uma das principais dificuldades que a clínica atual apresenta é em seguirmos
essa direção do tratamento, como já vimos ao longo deste capítulo. No que diz respeito
especificamente à anorexia-bulimia, Recalcati apresenta uma proposta que consideramos
interessante: segundo ele, seria necessário um preliminar do preliminar. Baseado na análise
do Outro materno da anoréxica-bulímica como um Outro do desprezo e do olhar crítico, o
psicanalista propõe que esta retificação primeira seja do olhar do Outro ao invés da retificação
do sujeito. Neste primeiro tempo, o analista teria que acolher o sujeito, sustentar seu desejo,
proporcionar a experiência de um Outro que sabe operar com sua própria falta. Mas, ressalta
que isto não é uma utilização da contratransferência, nem tampouco se trata de maternagem.
Apesar de concordarmos com a necessidade de outro tratamento preliminar nesses
casos, restam algumas questões: como fazer esse acolhimento se o recurso da interpretação
não parece ter muito efeito sobre o sujeito anoréxico-bulímico? Qual seria a especificidade
deste trabalho inicial?
Como assinalou Rabinovich (2004a), há a necessidade de promover uma perda de
gozo para que o sujeito possa aceder ao Simbólico e desvencilhar-se das amarras de sua
condição fantasmática. Porém, essa mesma condição coloca esses quadros clínicos mais no
âmbito do ato em todas as suas modalidades do que da fala. Assim como Recalcati (2004a) e
Dunker (2002), a autora também sugere um tratamento preliminar, que antecederia a
retificação subjetiva, para a clínica das impulsões. O caminho que esses pacientes indicam é o
que os leva ao consultório: um mal-estar difuso. Mas, como a configuração desses quadros
clínicos compõe mais uma resposta do que uma pergunta ao Outro, a psicanalista sugere que
de início se escute, e acolha reclamações que o paciente faz em relação ao Outro. Que lhe dê
razão ao invés de colocar questões a respeito de suas queixas, pois perguntar poderia ser
tomado como demanda de resposta, mais uma vez. A direção é a de afiar as queixas até que
comecem a furar a consistência do Outro, mantida por essa configuração sintomática.
Rabinovich (2004) comenta que em sua experiência clínica, observou que essa
estratégia produzia como efeito primeiro atuações dos pacientes fora da análise. Entende estas
atuações como tentativas de obturar o furo que começava a aparecer no campo do Outro.
Como no exemplo em que uma paciente ao se queixar do trabalho, pela primeira vez, parece
dar-se conta do quanto está insatisfeita ali. Na semana seguinte retorna dizendo que havia

31
“Esta retificación se apoya em um sujeto que no pretende descargar su mal sobre el Outro, sino que se asume
el peso de este mal y lo eleva a la dignidad de um enigma”. (tradução livre da autora).
94

resolvido tudo pedindo demissão. Porém, ela constata que, aos poucos, essas atuações vão
sendo transformadas em actings-out, ou seja, passam para o âmbito da análise, endereçamento
ao analista. Rabinovich (2004) diz também, que esse percurso passando pelo acting out, foi
ponto em comum aos casos de impulsões que atendeu até então; ela deixa como questão, mas
acredita que talvez seja outra característica desses quadros clínicos estabelecer a transferência
através de actings-out. Em Recordar, repetir e elaborar, Freud (1912b) ao tratar do tema da
resistência, fez uma notação de que há pessoas que só conseguem entrar em análise ou tornar-
se acessíveis a ela depois de realizarem algum tipo de atuação na vida, que pode ser
prejudicial a elas próprias, e de sua tendência a repetir em ato na análise ao invés de se utilizar
do recurso simbólico da rememoração e da fala.
Nos casos de anorexia-bulimia, em geral, a paciente, quando não é levada por outra
pessoa, chega ao tratamento esperando encontrar um especialista que irá curá-la de seus
distúrbios alimentares. Expectativa estabelecida por quem a leva ao tratamento, literalmente
ou indiretamente. É claro, que de alguma maneira essa expectativa se torna da paciente, que
não tem certeza de que quer deixar de ser anoréxica-bulímica, mas, no melhor dos casos,
também não tem mais a certeza de que quer permanecer anoréxica-bulímica.
Esse é o material transferencial com o qual podemos trabalhar de início. Trata-se de
uma transferência imaginária e frágil. Como vimos, anorexia-bulimia se compõe como uma
resposta ao Outro. Sendo assim, criar uma indagação sobre essa expectativa imaginária, pode
ser uma abertura para alguma interrogação. A apresentação do analista como alguém que se
dispõe a escutar o inconsciente e não a retificar uma função orgânica pode, igualmente,
provocar algumas indagações. É o que encontramos dentre as propostas de um tratamento
preliminar para a clínica anorexia-bulimia no livro de Recalcati (2004a), como retificação da
demanda.
Mas, nesse processo de retificação da demanda há de se ter um extremo cuidado no
manejo clínico para não repetir o Outro materno típico da anoréxica-bulímica: um Outro que
responde às necessidades sem deixar margem para o desejo. Talvez isso seja o principal
motivo do fracasso dos tratamentos de abordagem cognitivo comportamental na clínica da
anorexia-bulimia, porque assumem o lugar de um Outro onipotente que sabe como curar um
sujeito que não quer saber nada sobre si mesmo e que se oferece como objeto, porém,
somente para provar, mais uma vez, a impotência do Outro. Essa abordagem acaba
proporcionando o que a anoréxica-bulímica necessita para continuar gozando.
Dessa maneira, a direção do tratamento preliminar ao invés de ser a de mobilizar o
saber especializado do Outro, é a de colocar o sujeito para trabalhar. É fundamental, que se dê
95

o esvaziamento do Outro do saber, não permitir que o saber seja tratado como comida.
Empanturrar o sujeito com respostas e soluções objetivas não produz nada além do reforço da
própria anorexia-bulimia como resposta frente a um Outro que tem tudo.
Em contrapartida, geralmente os psiquiatras não indicam a psicanálise nesses casos,
porque constatam uma resistência ao tratamento pela palavra, e pelo tempo que uma análise
pode tomar. Tempo que nos casos mais graves não se tem. Concordamos que considerar a
anorexia-bulimia como um sintoma psiconeurótico é infrutífero. Esta dificuldade clínica foi a
causa de nossa pesquisa. Porém, a partir da análise da arquitetura anoréxica-bulímica e sua
relação com o Outro, podemos pensar em um manejo clínico diverso, sem deixar de fazer
valer os conceitos fundamentais da psicanálise. Nesse preliminar da clínica da anorexia-
bulimia, o acolhimento, a escuta, o esvaziamento do Outro do saber são fundamentais.
Em nossa experiência clínica percebemos que os efeitos desse primeiro momento
transferencial se traduzem em atuações na vida dos pacientes e depois em actings-out. O
acintg-out é o endereçamento transferencial que abre a oportunidade da intervenção do
analista ter um efeito de virada na análise. Mas, constatamos também que essa intervenção do
analista deve ser em ato, já que a anoréxica-bulímica tende a tomar a interpretação como
resposta-saber-comida e assim anular seu efeito. A prática psicanalítica trabalha com um
movimento de subtração, de criar uma falta, um furo no saber que possa abrir espaço para a
dimensão inconsciente do discurso, e consequentemente fazer o sujeito trabalhar. Porém, é
necessário admitir que isso possa vir a levar bastante tempo e nos casos mais graves,
realmente, não se tem esse tempo. A anorexia restritiva, ou seja, de privação de alimentos,
está entre as patologias psiquiátricas que levam o sujeito à morte com frequência relevante.
Logo, nestes casos, o trabalho multidisciplinar torna-se uma indicação necessária.
Acreditamos que a escuta analítica, passando a fazer parte do tratamento seja uma alternativa
ao Outro especialista, que faz diferença e assim pode contribuir para que o tratamento se torne
realmente eficaz, na medida em que proporcione, além da dimensão da necessidade, um
espaço para o desejo.
96

Considerações finais

Ao longo desta dissertação, buscamos fundamentar possíveis argumentações em torno


das indagações que moveram e sustentaram esta pesquisa. Partimos das seguintes
constatações: não é recente o aparecimento da anorexia-bulimia, depressão, toxicomanias e
síndrome do pânico; estas patologias são presentes há muito na história da humanidade. Para a
psicanálise também não configuram novidade, apresentam semelhanças com o modelo das
neuroses atuais elaborado por Freud. O que tem chamado a atenção dos analistas são as
dificuldades clínicas que estes quadros apresentam e o fato de que são mais frequentes hoje do
que no passado. Estas ponderações nos direcionaram ao exame do sujeito contemporâneo.
Vimos que a sociedade de consumo gerada pelo capitalismo colabora para esta nova
configuração da clínica psicanalítica, na medida em que contribui para desfalcar o sujeito de
sua especificidade, favorecendo sua uniformização, apagando diferenças e assim, logrando
desconstruir a subjetividade.
Propusemos pensar os fenômenos investigados, quando situados na neurose, como
efeitos da identificação do sujeito com o objeto a: o sujeito estaria situado no campo da
enunciação como significação do Outro. A suposição de saber, mola mestra da instalação
transferencial na análise, diz respeito à interrogação sobre o desejo do Outro. Esses pacientes
se apresentam a partir da resposta e não da pergunta, o que funciona como uma maneira de
sustentar a consistência do Outro, objetivo no qual se baseia a identificação com o objeto a.
Relacionada a um efeito de recuperação de gozo, esta significação tem como função mascarar
sua perda, que é a consequência maior do discurso (exclusão do gozo). Ou seja, trata-se de um
sujeito atado ao lugar do objeto a em sua função de mais-gozar. Nestes casos o gozo é sem
suporte fálico, especular, e por isso, há o desencadeamento da angústia.
A respeito da clínica das neuroses atuais, Freud assinala uma ausência de inscrição.
Relacionamos esta ausência de representação ao Real lacaniano. O vazio do Real pode ser
tomado como objeto através do nada como sua figuração. É o que escutamos na crise de
angústia, quando o sujeito tem a sensação de que vai se tornar um nada, na anorexia que come
o nada, ou na bulimia na qual o vômito ao final das crises de fome evidencia que nada pode
preencher de fato o vazio. Ao tomar o vazio como objeto, o sujeito faz uma tentativa de se
livrar das questões em torno da sexualidade, que impõem o confronto com a divisão subjetiva.
Não é pouco comum localizarmos o desencadeamento desses quadros clínicos
associados ao encontro com o real do sexo, que remete o sujeito ao Real e ao gozo. Diante
disto, a fantasia é tecida como véu que encobre o Real. De acordo com o ensino de Lacan,
97

podemos destacar que na fantasia o objeto a opera a função de mais-gozar. Entretanto, a


origem do sintoma também se situa aí, e constitui uma abertura ao campo Simbólico. Nos
casos aos quais dedicamos este estudo, parece haver uma fragilidade na inscrição simbólica
da falta, condição para que opere a função do objeto a como causa de desejo. A precariedade
desta inscrição simbólica da falta tem como efeito o aprisionamento do sujeito em um curto-
circuito de gozo.
De acordo com a proposta inicial, para trabalharmos mais especificamente a clínica,
escolhemos o par anorexia-bulimia. Conforme apontamos, não consideramos esses fenômenos
como estruturas. Reconhecemos que podem estar presentes em todas elas, e que podem
também ser um recurso do qual o sujeito lança mão quando, por alguma razão, a função
simbólica não opera. Neste trabalho, nos propusemos a nos ater à estrutura da neurose e a nos
dedicarmos aos casos nos quais o sintoma parecia não estar propriamente bem estabelecido.
Dentro deste recorte, perseguimos o objetivo de elucidar o que seria um discurso anoréxico-
bulímico. Apostamos poder depreender daí esclarecimentos sobre o que ordena de algum
modo a relação do sujeito com o Outro, uma vez que é através desta relação que podemos
pensar a transferência e o trabalho clínico.
Circunscrita no campo pré-edípico, a questão anoréxica gira em torno da relação mãe-
filha que, como sinalizou Lacan, sem a mediação fálica pode tornar-se devastadora. Nos
casos de anorexia-bulimia, pudemos constatar uma relação especular na qual a mãe investe na
filha como sua saída narcísica, inserindo-a em sua fantasia, a fim de evitar confrontar-se com
sua própria falta. A filha tende a tomar para si este lugar de objeto, encarnando-o de tal
maneira que fica aprisionada ali como se fosse sua única possibilidade de existir. Observamos
que há uma negação do corpo sexuado que, sem o apoio da castração não se sustenta, e que
pode resultar em morte. Na anorexia-bulimia a beleza não serve para velar o Real. No espelho
o sujeito não encontrou o olhar de sustentação do Outro, e sim desqualificação superegóica. O
encontro com a própria imagem especular torna-se a reedição da experiência devastadora. A
presença dessa desqualificação superegóica do Outro se revela no trato que a anoréxica-
bulímica dá a si mesma e a seu corpo.
No que diz respeito ao atendimento para estes pacientes, concordamos com a idéia de
que é necessário um tratamento preliminar específico. Com base na análise do Outro materno
da anoréxica-bulímica como um Outro do desprezo e do olhar crítico, primeiramente o
analista teria que acolher o sujeito, sustentar seu desejo, lhe proporcionar a experiência de um
Outro que sabe operar com sua própria falta. Nestes casos o manejo clínico é extremamente
delicado. Há de esvaziar o Outro do saber, pois essas pacientes tendem a se situar frente a um
98

Outro que tem tudo, logo, facilmente tratam o saber como comida, o que reforçaria a resposta
anoréxica-bulímica. É imprescindível, então, que se propicie a abertura da dimensão
inconsciente do discurso. O gênio de Freud, ao criar a escuta analítica, foi justamente
inaugurar esta via. Sendo assim, justificamos a pertinência da psicanálise no tratamento
desses casos.
Vemos como objetivo maior desta pesquisa ter-se destinado a contribuir para manter o
vigor da produção da própria psicanálise como modo de intervenção frente aos desafios
impostos por essas formas de subjetivação. E ainda, ter buscado demonstrar que, seja no
consultório particular, seja em outros ambientes institucionais em que se possa sustentar o
dispositivo analítico, a psicanálise é alternativa valiosa e importante a ser sustentada como
causa, como trabalho e como causa de trabalho, frente à abundância das práticas de gozo, que
surgem em resposta ao imperativo de gozo da sociedade contemporânea.
Durante a realização desta dissertação, pudemos constatar que há uma demanda, por
parte dos profissionais da área de saúde, no sentido de trocar informações e experiências a
respeito do tema da anorexia-bulimia. Sabe-se que a abordagem psicanalítica sobre este tema
é pouco conhecida e acessível. Diante destas constatações, nosso objetivo incluiu a elaboração
de uma oficina destinada a esses profissionais32. O formato de oficina nos pareceu adequado à
demanda, porque oferece entendimento mais consolidado pela interação com os participantes,
possibilitando o esclarecimento de possíveis dúvidas. Além disto, cria a oportunidade de se
colocar em discussão os trabalhos que vêm sendo realizados por eles. Nossa proposta inclui
ainda a produção de material impresso simples, com conteúdo em apresentação concisa e
linguagem acessível, a respeito da abordagem e tratamento psicanalíticos da anorexia e
bulimia e, também, a alternativa de trabalho multidisciplinar para os casos mais graves.
A partir da elaboração do projeto da oficina, fomos convidados para colocá-la em
prática pela psicóloga e coordenadora do serviço de psicologia da Policlínica do Exército. A
experiência nos serviu como piloto para o produto apresentado nesta dissertação.
O público era formado por nutricionistas, psicólogas, psiquiatras, dentistas,
dermatologistas e fisioterapeutas, todos sem formação em psicanálise. As nutricionistas e
psicólogas presentes coordenam um grupo de atendimento para pacientes com distúrbios
alimentares.
Iniciamos com uma apresentação oral da abordagem psicanalítica da anorexia-bulimia,
conforme o proposto. Em seguida as coordenadoras do grupo apresentaram um caso clínico

32
Proposta detalhada em anexo.
99

de bulimia, colocando em pauta algumas dúvidas. Fizemos uma leitura e algumas


observações, a partir da psicanálise, sobre o caso. Obtivemos um bom retorno nessa
experiência inaugural. Os profissionais que participaram ficaram satisfeitos e demonstraram
que puderam tirar proveito da apresentação.
100

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______ (1905) Os chistes e sua relação com o inconsciente. v.8. In: ESB. Rio de Janeiro:
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______ (1908) Moral sexual civilizada e doença nervosa. v.9. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago,
1980.
101

______ (1910) A significação antitética das palavras primitivas. v.11. In: ESB. Rio de
Janeiro: Imago, 1980.
______ (1912a) Contribuições a um debate sobre a masturbação. v.12. In: ESB. Rio de
Janeiro: Imago, 1980.
______ (1912b) Recordar, repetir e elaborar. v.12. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
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______ (1914) Sobre o narcisismo: uma introdução. v.14. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago,
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______ (1916) Conferência XXIV: O estado neurótico comum. v.16. In: ESB. Rio de Janeiro:
Imago, 1980.
______ (1919a) O estranho. v.17. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
______ (1919b) ‘Uma criança é espancada’: uma contribuição ao estudo da origem das
perversões sexuais. v.17. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
______ (1919c) Introdução a A psicanálise e as neuroses de guerra. v.17. In: ESB. Rio de
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______ (1920) Além do princípio de prazer, v.18. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
______ (1923) O ego e o id. v.19. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
______ (1924) O problema econômico do masoquismo. v.19. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago,
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______ (1925) Um estudo autobiográfico v.20. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
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______ (1927) Dostoiévski e o parricídio. v.21. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
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______ (1961) APENDICE II: a metáfora do sujeito. In: Escritos, Rio de Janeiro: JZE, p.903-
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______ (1957-58) O Seminário: livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: JZE,
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VALLAS, P., As dimensões do gozo. Rio de Janeiro: JZE, 2001.


103

ANEXO
Proposta de Oficina

Oficina:
Apresentação oral, concisa e em linguagem acessível, acerca da abordagem psicanalítica da
anorexia e bulimia; contendo esclarecimento sobre a proposta de tratamento psicanalítico para
esses quadros clínicos e a discussão sobre alternativas de trabalho multidisciplinar para os
casos mais graves. A oficina incluirá ainda, uma etapa na qual os participantes poderão trazer
suas dificuldades para debate e esclarecer possíveis dúvidas. Como complemento será
oferecido material impresso do conteúdo exposto.
Publico alvo: profissionais da área de saúde.

Objetivos:
1) Dar a conhecer uma concepção psicanalítica dos casos de anorexia e bulimia e, assim,
inaugurar novas vias de reflexões em torno dos trabalhos desenvolvidos com esses pacientes.
2) Introduzir esta abordagem à luz da psicanálise de maneira acessível aos profissionais que
não possuem formação psicanalítica.
3) Ampliar o acesso à psicanálise e introduzi-la como alternativa de tratamento possível em
âmbitos dos quais se encontra excluída.
4) Manter viva e atuante a psicanálise na contemporaneidade que necessita dela, mais do que
nunca.

Justificativa:
Durante a realização desta dissertação pudemos constatar a crescente frequência com que os
casos de anorexia e bulimia têm se apresentado, e as dificuldades que são encontradas nos
tratamentos destes. Portanto, pudemos deduzir que há demanda, por parte dos profissionais da
área de saúde, de trocar informações e experiências sobre esse tema. Também pudemos
perceber a necessidade da leitura psicanalítica da anorexia e bulimia tornar-se mais acessível.
Em geral, esses profissionais não conhecem esta proposta, restringindo-se à abordagem
cognitivista comportamental, exclusivamente.
Propomos o formato de oficina por oferecer entendimento mais consolidado pela interação, e
ainda, pela viabilidade de esclarecermos as possíveis dúvidas dos participantes. Além disso,
104

através deste formato podemos ofertar aos participantes a oportunidade de trazer para
discussão os trabalhos que vêm sendo realizados por eles.

Sugestão:
Devido às dificuldades de acesso, tempo e disponibilidade, tão características da atualidade,
que podem ser minimizadas pelo veículo digital, sugerimos a construção de um site. Este
espaço virtual disponibilizaria aos profissionais da área de saúde a utilização das vantagens da
acessibilidade e das tecnologias existentes, para criar e manter um lugar de intercâmbio que
possa enriquecer o trabalho clínico e auxiliar nas dificuldades encontradas no cotidiano de
nossos ofícios.

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