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Afundação Roberto Marinho

A série Denúncia da Editora Tchê!, com Afundação Roberto Marinho, de Roméro C.


Machado, oferece, não só ao público tradicionalmente leitor, mas também ao julgamento de toda a
sociedade brasileira, talvez o título mais polêmico das últimas décadas. Num empreendimento
editorial de enorme ousadia, um notável trabalho de investigação jornalística. Primeiro volume da
Trilogia Global, este livro é um empreendimento corajoso que aborda tema considerado por
muitos mítico e inenarrável. De indiscutível credibilidade, quer pela fartura documental, quer pela
privilegiada autoridade do autor (Roméro foi auditor da Rede Globo, contro-ller da Fundação e
assessor da Vice-presidência de Operações da Rede), a obra enfoca a luta pelo poder, dentro e
fora da empresa, e as mais inimagináveis ilicitudes, desde a falsificação de concorrência até a
obtenção ilegal de verbas, passando por transações em dólares não registradas (caixa-dois),
compra de notas frias para prestação de contas com o MEC, e "operações" envolvendo José
Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, Vice-presidente das Organizações Globo e responsável
pela vitória de Escrito nas Estrelas, música interpretada porTetê Espíndola, no Festival dos
Festivais. O júri tinha escolhido Mira ira. Como um jurado não podia saber do voto do
companheiro, foi fácil para Boni falsificar o resultado. Na mais poderosa indústria televisiva do país,
o poder fabrica outra espécie de indústria: a política do abuso. Incontáveis personagens — todos
com seu honrado nome de batismo declarado — envolvem-se em falcatruas que a argúcia e a
honestidade quase suicida do autor auscul-taram. De forma impiedosa e transparente, este inacre-
ditável reino da safadeza acaba, finalmente, de ser retratado com fidelidade. Afundação Roberto
Marinho é um dos livros mais denunciadores que a bibliografia brasileira já registrou.

O Autor
Roméro da Costa Machado nasceu a 11.09.48. Reside no Rio de Janeiro e foi
aprovado para Agente Fiscal de Tributos entre os setenta primeiros lugares entre milhares
de participantes. Foi auditor nas seguintes empresas: Auditor, Coopers IkLybrand, Bouci-
nhas-Campos e Claro, Grupo Portland/Lone Star (Cimento Mauá) e, por último, Rede
Globo (holding). E controller: Grupo Portland/Lone Star e Fundação Roberto Marinho.
Além disso, foi Assessor Especial do Vice-presidente da Rede Globo, José Bonifácio de
Oliveira Sobrinho, o Boni.
Resumo
A imagem da Rede Globo no espelho televisivo é recebida nos lares brasileiros
com um fervor admirativo que quase não comporta críticas, e uma fidelidade de um
público responsável por altíssimos índices de audiência que torna o que seria um simples
lazer num autêntico costume nacional. Esta imagem, aparentemente irretocável, agora
posta à prova de forma inédita em Afundação Roberto Marinho, ameaça desfazer-se,
ou melhor, adquirir seus verdadeiros contornos, sua face mais real, a que o vídeo é
incapaz de captar. Em seu primeiro volume, a Trilogia Global, de Roméro C. Machado,
investe impiedosamente contra um mundo que a televisão mais mascara do que revela.
Aqui temos a devassa da Fundação, com os desmandos e estratagemas internos cujo
único objetivo é acobertar a fabricação de fortunas pessoais e ações políticas que
certamente envergonhariam Maquiavel.
Mais do que acender o rastilho da explosiva Trilogia, este livro de abertura oferece às
mais variadas faixas de leitores e a todos os profissionais de Comunicação um exemplo
notável de coragem pessoal e honestidade de ofício. O autor, auditor durante anos na
poderosa Rede e mais tarde controller na Fundação Roberto Marinho, "olhos e ouvidos do
dono", além de assessor de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, vê-se justamente
pela extensão de suas funções, frente a frente com as mais inimagináveis falcatruas.
Acusar? Incriminar? Ou simplesmente registrar os infindáveis buracos negros do universo
dos corruptos cada vez mais em expansão? Dúvidas quase intransponíveis, cujos
obstáculos morais, econômicos, sobretudo de autopreservaçâo (principalmente física)
geralmente direcionam para uma desistência culposa ou, na maioria das vezes, para uma
negociação indigna de interesses mútuos.
Sem fazer vistas grossas ou sem aliar-se às quadrilhas de importantes executivos
(todos com seu "santo nomezinho" devidamente apontado), o perigo é iminente, certo.
Roméro corre todos os riscos, menos o de relapso em sua atividade; expõe-se à sanha
mafiosa, menos à covarde cumplicidade de quem irresponsavelmente preferiria lavar as
mãos. Mãos ousadas, astutas, que tão logo desligaram-se do imenso mar de lama Global,
escreveram um dos livros mais denunciadores que a bibliografia brasileira já registrou.
Afundação Roberto Marinho

Roméro C. Machado.

ÍNDICE
 A título de introdução
 Prefácio
 Explicação necessária
 Antes da primeira auditoria
 A primeira auditoria
 São Paulo, aqui vou eu
 A segunda auditoria
 O primeiro confronto

A Título de Introdução
Este livro é o primeiro de uma trilogia, a ser complementada com outros dois; sendo um
composto de uma história seqüencial e segmentada, Inside Globo, e outro com histórias isoladas.
Atrás do Espelho.
Como o Afundação Roberto Marinho está situado no interregno de duas fases de auditoria,
deveria conter, por isso mesmo, toda a fase adestrita à Fundação Roberto Marinho. Entretanto, por
uma questão de clima, o autor optou por reconstituir uma pequena fase pré-auditoria, bem como
dar uma pequena seqüência à fase pós-auditoria, fazendo com que os inícios e fins de cada livro
sejam irrelevantes, quer por não ficarem presos ao tempo, quer por não pretenderem encerrar um
principio moral e pedagógico.
Gostaria de ressalvar que todos os diálogos deste livro são rigorosamente verdadeiros em sua
essência. Entretanto, como nem todos eles foram gravados, e a maioria foi reproduzida de
memória e anotada à época, poderá ocorrer o uso de sinônimos para algumas palavras ditas, até
mesmo uma ligeira distorção, principalmente em virtude da pontuação, do ritmo. Porém, não há
qualquer modificação na essência e conteúdo dos mesmos.
O Autor.
Prefácio*
*Assunto de responsabilidade de Francisco Eduardo Ribeiro, Responsável Geral pela Auditoria de todas as
empresas das Organizações Globo.

Foi deixada uma página em branco, em sinal de silêncio, uma vez que zilhões de razões
que conheço, impedem Francisco Eduardo Ribeiro de utilizar este espaço para expor os seus
motivos e/ou justificar sua posição diante de todos os fatos de que ele é ciente.
A despeito de eu haver alertado, durante anos, sobre a sua posição de cavalo em A
revolução dos Bichos, e de caixeiro-viajante em A Morte do Caixeiro-Viajante, e que de nada
adiantaria ele tentar se superar, trabalhando cada vez mais, pois o futuro seria inexorável, e nada
deteria a decretação do seu ostracismo, e até mesmo a implacável perseguição, tão logo o Dr.
Roberto morresse ou delegasse a administração das empresas a inimigos seus.
Ele, Francisco Eduardo, transformou-se em assistente de sua própria agonia e morte, em vida;
amargando a ingratidão, mais uma vez, e pagando alto preço por não atentar para o que se
desenhava como óbvio.

Explicação Necessária
Tudo o que compõe estes livros foi objeto de relatórios internos e/ou relatos verbais a pessoas
tidas como responsáveis internos pelos assuntos aqui abordados.
A minha promoção a Controller da Fundação não representou o esperado por mim, pois abri
mão desta posição ao ver que se tornava inútil o meu trabalho e que nada mudaria dentro daquela
instituição, e não ser que a fizesse sangrar, indo tão fundo quanto achava que devesse ir.
Poderia ter envelhecido ou me aposentado na confortável posição de Controller-Conivente,
caso me dispusesse a aceitar coisas como elas estavam.
Foram dadas (por mim) aos dirigentes da Fundação todas as oportunidades de recomeçar e
higienizar, a partir de um processo de lavar roupa suja dentro de casa. Neste sentido, foi tentada
toda a sorte de comunicação com o Secretário-Geral da Fundação. Mas a certeza da impunidade
fez com que a alta direção da Fundação supusesse a minha acomodação e meu amedrontamento
diante de tão grandes e graves problemas, sentindo-se seguros pelo cinturão de fidelidade,
apostando contra a minha obstinação ou, o mais infantil, contra a minha crença nos meus
princípios.
0 mesmo aconteceu com o assunto-objeto dos dois outros livros, que a despeito de relatórios
formais, e até mesmo após um rompimento verbal decretado por mim, foi objeto de descaso,
tratado como se destituído de aplicabilidade de prática.
Assim como na Fundação, onde recomendei o afastamento de todos os diretores, o que
era considerado hipótese absurda (consumando^e mais tarde), o mesmo aconteceu em relação ao
restante das Organizações Globo, onde propus a higienização, eliminando-se contrabando,
sonegação, desvios de recursos para o exterior e toda a sorte de falcatruas. Principalmente, a não-
manipulação de homens públicos — defensores dos interesses da Globo.
Assim como na Fundação, foi tentada toda a sorte de comunicação com as pessoas
responsáveis dentro das Organizações Globo, alertadas inclusive, e principalmente, para o fato de
que seriam tornados públicos todos estes assuntos, caso eles não fossem resolvidos internamente.
Esgotados todos os recursos de diálogo, após haver dado ciência, por carta e telegrama da
intenção de edição destes livros, a José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni vice-presidente das
"Organizações Globo"; a João Carlos Magaldi, Diretor da "Central Globo de Comunicações"; a
Francisco Eduardo Ribeiro, Responsável pela Auditoria de todas as empresas das "Organizações
Globo"; a Nilo Sérgio de Almeida, Diretor Administrativo e Financeiro da Editora Globo, e haver
mostrado intenção de ceder prioridade de edição destes livros à própria Editora Globo — desde
que sanadas todas as irregularidades denunciadas; impondo, inclusive, sérias e pesadas multas
caso não fossem editados tais livros —, vi-me obrigado e compelido a tornar público todos estes
assuntos, através da publicação por uma editora ou editoras, que satisfizesse(m) aos meus
interesses enquanto autor.
Não espero nenhum grande movimento em torno da apuração de responsabilidades dos
denunciados, até porque estamos no Brasil, um país de covardes e de corrupção institucionalizada.
Mas o inverso, que eu seja alvo de investigação, denúncias, boatos, verdades fabricadas, e até
mesmo, objeto de processo — hábito muito comum neste país colonizado por presos e
degregados —, onde processa-se o acusador ao invés do acusado; e uma vez provada a
acusação, não se toma nenhuma providência contra o acusado, e seus crimes considerados como
Cotidiano brasileiro. Mas, ainda que demore séculos, ainda que ultrapasse o tempo da minha
existência, ainda que o regime da republiqueta mude, ainda que se censure a obra, ela será
atemporal e subsistirá. Enquanto a verdade do dia anunciada pela televisão, se desfará qual bolha
de sabão. E a história fará a sua parte.

Antes da Primeira Auditoria


Rua Jardim Botânico, 266. Para os funcionários existem: a Emissora (Rua Lopes Quintas e
Von Martius), o 266 e o Teatro (Fênix).
Lógico, a Globo não é só isto. Existem trocentos endereços em diversas casas diferentes. Mas
a base é esta: Emissora — 266 — Teatro.
Mais um dia. Igual a tantos outros, igual a qualquer outro. Passo na portaria fingindo colocar o
crachá, para não ter que usá-lo, pois detesto este penduricalho. O segurança observa de longe, já
sabendo que não vou colocá-lo. Às vezes, ele, o segurança, só de birra vem atrás de mim. Eu
aperto o passo e tento rapidamente chegar ao elevador. Ando bem rápido, ele também. Conto com
que um dos elevadores esteja no hall. De passagem, vejo o elevador de serviços com a porta
fechada e um dos sociais quase fechando. Corro, seguro a porta, ela se abre. Fico de frente para o
segurança. Olho para ele, de dentro do elevador. Ponho as mãos na cintura, e abrindo o paletó
deixo que veja que estou sem o crachá. Rio com os olhos e fico absolutamente sério, ao mesmo
tempo em que o elevador fecha a porta e sobe rapidamente ao 79 andar.
Eu gosto deste jogo de gato e rato com o segurança, principalmente porque isto é super
importante para ele e absolutamente desimportante para mim. E como tenho aversão à segurança
tipo ordis é ordis, divirto-me sendo um equilibrista em cima do limite de legalidade e ilegalidade.
Principalmente, pela atroz dúvida que o assalta diariamente: eu vou colocar o crachá ou não
(Incrível ... isto é importante para ele). A minha implicância é que segurança só pára e incomoda
quem não tem nada com a história. IMa Globo, por exemplo, já entrou uma velha maluca na sala
do Dr. Roberto, que ninguém sabe de onde veio. Tem dezenas de ambulantes vendendo tudo: de
empadinha até tóxico e contrabando grosso. Mas o segurança só pára funcionário, a trabalho.
Isto acontece diariamente, mais de uma vez, pois em minhas saídas esporádicas para o
almoço ou lanche a cena se repete. Às vezes com variações. Coloco o crachá na frente do
segurança e, logo em seguida, ao dar as costas, finjo tirar o crachá e aperto o passo para o
elevador. Ele vem seco para cima de mim. No meio do ha// paro, mexo com alguém e viro-me para
o segurança, exibindo o crachá. Ele quer morrer. Olha para mim. Finge que não houve nada e fica
fazendo hora. Entro no elevador e à medida que o elevador ameaça fechar a porta eu tiro
lentamente o crachá, como num debochado streap-tease, e olho para o segurança
interrogativamente.
Chego ao 7º andar e cumprimento os habitues que chegam cedo (no horário). No primeiro
salão estão os administrativos e a galera (trainees, assistente, semi-seniores, etc). No segundo
salão está a elite, setor fiscal, especiais, supervisores e assessores). Ao todo uns 30 funcionários.
Coloco o paletó nas costas da cadeira, cumprimento o pessoal da segunda sala e vou papear
no salão da galera. Embora isto seja muito mal visto por alguns colegas elitizados, que
desconhecem o doce sabor da simplicidade e de se permitir a irresponsabilidade da vulgaridade.
Brinco com a secretária (Norminha) e com o Azulão (Edson). Provoco a treinizada e inicio um
barata-voa de catarse. Sento-me à mesa coletiva e começo a puxar assunto com o March, que não
gosta de conversar antes de ler o jornal. E aí, para variar, e só para encher o saco, fico puxando
assunto com ele, até ele não agüentar mais e fechar o jornal.
O March agüenta o quanto pode. Até que desiste e resolve se vingar: — O Azulão] (Azulão é o
apelido do Edson, pois todo contínuo da Globo é obrigado a andar vestido de azul.) Vai buscar um
café pro Chips para ver se ele para de encher. (March apelidou-me de Chips, pois na época eu
tinha uma moto com bagageiro. E com moto de bagageiro, terno, capacete e calculadora financeira
presa ao cinto da calça, eu era o próprio personagem do seriado Chips ).
Todo mundo gozava todo mundo, observando-se uma certa hierarquia: trainee não fala, só diz:
"Sim senhor!", "Não senhor!" e "Posso ir embora?" e a lei máxima: Pato novo não mergulha fundo.
Respeitando-se esta hierarquia, o riso era livre. E as gozações gerais. Lógico, existiam os
preferidos: Pedrinho Bilé (puxa-saco oficial do Francisco, e cagüete contumaz); Fernando Chileno
(também chamado de Que Pasa ou Repassa, pois ele não fazia o seu trabalho e sempre
repassava para alguém). Gozava-se, também, os dotes físicos de cada um: March era o Velhinho;
Nilo era o Careca; Alberto, o Garnizé; Luiz Carlos era o Baixinho. Todo mundo, praticamente, tinha
apelido. Até Francisco, quando a galera estava com bronca, virava Chico-Peste (sem ele saber).
Mas o clima era o da mais perfeita união. Broncas pessoais à parte, o clima era sempre bom. Salvo
quando Pedrinho chegava, pois ninguém gosta de cagüete, ou de empregado-patrão. Parecia
combinado. Ele chegava e todo mundo calava a boca, mas o riso continuava, contido.
Luiz Carlos, um misto de profissional, competente e cinicamente consciente das coisas
realmente importantes, só chegava atrasado. E ele conseguia, religiosamente, chegar 5 a 10
minutos antes do Francisco. Raras foram as vezes que Francisco conseguiu chegar cedo. Ele
sempre chegava depois das 11 horas, e nunca pegava Luiz Carlos chegando tarde. Houve mesmo
uma vez, em que o Francisco ligou de casa, umas 10 horas, e Luiz Carlos, raridade, tinha chegado
cedo. Não sei porque cargas d'água, Francisco pediu para chamar o Luiz Carlos ao telefone, e,
sem graça e sem assunto, começou a dar esculacho. No ato, Luiz Carlos saiu-se com uma tirada
seca: "Olha aqui... eu estou no trabalho e você em casa. Eu estou trabalhando desde as nove
horas e você está acordando agora. Quer dar esporro? Venha até aqui. Não aceito bronca por
telefone. Bronca só ao vivo e a cores". E desligou o telefone. Sério, para, logo em seguida,
imaginar a cara estupefata do Francisco, e esboçar um riso cínico de pequeno triunfo pessoal.
Uma hora mais tarde, Francisco entrava bufando pela porta, carregando, como sempre,
duas malas de relatórios, que ele levava para tudo que era canto, e com o paletó solto nos ombros.
Gritando: — Luiz Carlos, venha cá no meu escritório.
Ele ia, meio rindo, meio sacana, mas com a certeza dos que estão certo.
Bronca a portas fechadas, no inicio até que ouvíamos os berros. Mas logo sumiam. E meia
hora após, Luiz Carlos, com a habilidade política habitual, conseguia fazer Francisco esquecer os
problemas momentâneos com os quais estava envolvido e lembrar-se dos grandes problemas
envolvendo todo o staff.
Aí, era sagrado, Francisco puxava o follow-up e saía cobrando. Sobrava esporro para todo
mundo. Do boy ao último assessor. Numa dessas, a bronca já havia passado pelo boy, pela
secretária, pelos datilógrafos, pela galera, já entrara na sala da elite, começou a sobrar para o Luiz
Carlos que estava cheio de relatórios e não os liberava. Aí, a bronca foi em seqüência: Fernando
Chileno, que controlava e não controlava a parte administrativa; Nilo, que estava cheio de
relatórios (sem efeito) e não os colocava para fora (não os editava). E, logo, a coisa ia chegando
em mim.
Uma vez, entre raros momentos, vi Francisco ficar bravo com Nilo, pois Nilo era mais velho
do que Francisco, e já esteve, anteriormente, em cargo superior ao dele (quando éramos da Bouci-
nhas, Campos, Coopers and Lybrand Auditores Independentes). E Nilo era uma espécie de ídolo
do Francisco. Pois bem, naquela oportunidade, Francisco esbravejou: — Porra, Nilo! Não sei
porque você está com estas merdas destes relatórios e não edita. . . (Não sei porque, mas o
coloquial do tratamento parece, às vezes, vulgar e infantil, ou infanto-juvenil. Mas, a despeito deste
tratamento, a postura era rigorosamente profissional.)
Nilo retrucou: — Mas, Francisco... Só tem relatório bobo e ponto babaca. Para editar troço
sem efeito é melhor não editar. Você acha que eu vou mandar um Sumário Executivo pro RIM
(Roberto Irineu Marinho) e RM (Roberto Marinho) sem efeito?
Francisco: — Sem efeito é o cacete! Você é que está ficando velho e não quer levantar o
rabo da cadeira. Daí, fica serviço sendo feito nas coxas, sem supervisão. E vocês passam por cima
dos elefantes e não enxergam.
O diálogo era duro, rasteiro, mas objetivo, eficiente e franco. Ninguém mandava ninguém
às fezes. Era à merda, mesmo. E nem esbravejava: — Caspite! — Era um bom e sonoro: — Porra!
— Machado! (Meu nome de guerra), o que você está fazendo? Pronto! Sobrou pra mim.
Retruquei: — Estou com um effective-ness para fazer. Tenho dois relatórios de serviços especiais.
Estou preparando testes para candidatos, e tenho que preparar material para treinamento, além do
serviço todo da parte fiscal.
No duro, isto não era nada. Era o meu refresco quando não estava à mil por hora,
envolvido em operação pega-ladrão e apaga-fogo.
Francisco: — Pára com tudo isto e pegue um dos serviços do Nilo. O Luiz Carlos também.
Chileninho também. Cada um pega um trabalho e eu quero ver isto pronto para ontem. Vamos
dividir o serviço e vocês que se virem. Quero tudo pronto até o fim da semana.
Para mim coube: — Fundação Roberto Marinho.
Histórico da Fundação: trabalho feito há vários anos. Nunca teve problema. Tem auditoria
interna (da Globo) e externa. É fiscalizada pelo poder público. Tem tudo controlado. Nunca houve
um ponto grave em relatório. Os relatórios dos anos anteriores eram de uma folha só. Ou seja,
empresa sem problema nenhum.
Nilo: — Machadinho, meu amigo (em tom de deboche), vais pegar um servicinho beleza.
Nada para fazer. Nada para relatar.
Falei pro Francisco: — Vou levar dois auditores da equipe especial. Tudo bem?
Francisco: — Porra nenhuma! Programe a equipe especial para outro serviço. O serviço da
Fundação é babaca e você faz até sozinho em menos de 24 horas.
— Faço em 5 minutos — retruquei. — É só copiar o relatório, de uma folha só, do Nilo.
Agora, se você quer um troço direito, deixa eu fazer ele direito — disse, malcriadamente.
Francisco: — Está bem! (O Francisco nunca teve muita paciência para discutir comigo.) Vá
até lá e veja o que precisa. Mas se não der nada você vai compensar as horas perdidas com a
equipe.
— Tudo bem — falei. Já estava habituado, e compensar era trivial-simples, pois
trabalhávamos em ritmo louco, quase sem tempo para almoçar. Na maioria das vezes sandubando,
ou então comendo em cima da mesa de trabalho. Trabalhando até às 11 horas, meia-noite. E o
pior, declarando no Time-Sheet que só trabalhávamos 8 horas por dia (para dar exemplo e não
criar contingências trabalhistas, justo dentro da auditoria).
Saí da sala e ao atravessar o salão da galera, March, que vivia sentado à mesa coletiva,
ironizou: — É, Chips, quero ver é agora. . . Fazer altos relatórios com a tua equipe especial e
equipe fiscal é mole . . . Quero ver fazer altos relatórios num trabalho feijão com arroz.
— O March, — retruquei — até parece que você quer nivelar por baixo. Você duvida que eu vá lá e
arranque mais do que num serviço especial ou apaga-fogo ou pega-ladrão? Isto é igual ao caso do
cara que era vendedor de sapatos e foi mandado para uma visita a uma tribo africana. Ele voltou e
disse que era impossível vender sapatos, pois lá ninguém usava sapato. Todos andavam
descalços. Enquanto que um colega seu, com a mesma incumbência, mandou um telex de
resposta: "Estou vendendo tudo que é sapato, pois aqui todos andavam descalços e eu estou
calçando todo mundo". E, em auditoria é assim: nunca vi empresa sem problema. E quando não
aparece problema, é sinal que há encrenca braba. É uma questão de ponto de vista — completei.
— A mesma coisa pode ser vista de mais de uma forma, É visão ou miopia. E sabe do quê mais,
velhinho? Vá procurar sua turma. Vá arranjar um trabalho. Veja se sai daqui do escritório, que este
negócio de auditoria com o rabo sentado na cadeira nunca deu camisa a ninguém. E você está
ficando com, craca no rabo de fazer auditoria da BEC e Starlight aqui no Brasil, sem nunca saber
como são as coisas lá nos Estados Unidos.
Nisto, vem entrando o entregador de malotes (Lessa), que traz sempre escondido, numa
segunda sacola, vários tipos de sanduíches e salgadinhos para vender de sala em sala. E o March,
no ritmo, pega o maloteiro: — Aí, ô do malote! O que que leva dentro? Vende um sanduba pro
Chips que o mal dele é fome. E eu tô aturando um papo de maluco aqui que não é mole.
— Olha a brincadeira, seu March. — Disse, humildemente. — Dentro eu não levo nada,
não senhor. Na sacola tem sanduíche de ovos mexidos, pasta de atum, bolinho de carne, e
empadinhas. Vai querer? — Perguntou, olhando para mim e pro March.
— Nem pensar — falei. — Sanduíche de ovos repugnantes, sardinha espremida com
maionese, boi ralado e empada que sobrou do restaurante da Central. Prefiro ir "sandubar" na
padaria — disse em tom de brincadeira.
— Aí, Chips! Vamos comer, que teu mal é fome. Quem sabe, depois do almoço, você
consegue ir na Casa do Bispo (Sede da Fundação) e ficar tomando chazinho com biscoitinho com
o Jair Lento (Diretor Financeiro) e depois dizer: nada a comentar ... nada a relatar. Está tudo em
ordem. — Insistia o March, no firme propósito de provocar-me a todo custo.
— O, March . . . Deixa eu sair. Eu vou almoçar decentemente no Hotel de Trânsito (da
Marinha). Vou até a Fundação, e vou fazer um trabalho como você nunca viu. Vai ser tão bom que
você até vai ter o que fazer: conferir a datilografia do meu relatório. Tchau e bença. — Encerrei,
como quem não quer mais aquele tipo de conversa e está se preparando para encarar as coisas
com a seriedade necessária.
Embora possa parecer o contrário, mas nós tínhamos uma necessidade quase que
mórbida de sermos e nos tratarmos de forma vulgar e coloquial, quando em nosso ambiente de
trabalho, no escritório. Quando no desempenho das funções de autoditor - auditando empresas —
éramos sérios, frios, formais, e absolutamente distantes e imparciais no trato com pessoas. Creio
que isto era uma compensação, ou "válvula de escape" para a pressão a que éramos submetidos.

A Primeira Auditoria
A vida de auditores é sempre ingrata. Em geral você é odiado por onde passa. Todos
desejam muito mal a você. Ninguém gosta de um auditor. Com raras exceções, só suas mães lhes
são caras (a alguns nem isto). Talvez por isso o auditor guarde um incomum e solitário senso de
humor, e excessivo instinto de auto-recreação; rindo, permanentemente, de sua própria desgraça,
e fazendo piada de tudo que lhe seja adverso.
Particularmente, eu tinha até um certo receio em ficar endurecido e "perder a ternura'" E de
que, anos e anos a fio fazendo quase que sempre a mesma coisa, tornasse-me automático e
insensível. Eu sempre me policiei muito para não me distanciar da condição de ser humano. Ou
seja, eu não queria que fosse normal e trivial descobrir a falcatrua, desvendar intrincados rombos e
trambiques, e viver jogando pólo-diretor (esporte que se resume a bater em baixo e ver o diretor
cair) ou como era comumente chamado: "pega-ladrão". Mas fazer auditoria, na Globo, e não pegar
ladrão era quase que impossível. E, às vezes, eu me perguntava: Para que tanta técnica? Para
que tanto estudo tributário? Para que refinado Management, Business and Administration, se na
Globo a coisa era policialesca e rastaqüera? Era como pescar num barril. (Bem parecido com um
país chamado Brasil.) Eu questionava muito esta condição de auditor-policial, vez que toda técnica
e estudo de auditoria eram violentamente desvirtuados para um imediatismo policialesco. E esta,
positivamente, era uma condição que me incomodava muito, motivo de longas brigas minhas com
o Francisco. Lutar contra a maré?. Sempre!
É difícil você colocar ordem no desordenamento institucionalizado. É como pregar no
deserto. Certas coisas são possíveis ou não em função de quem faz. Ou seja, a administração, na
Globo, é totalmente pessoal (o que contraria tudo que é norma ou técnica); uma determinada coisa
pode ou não ser aceita, unicamente, em função de quem pratica a ação. Dois exemplos clareiam
bem este assunto. 0 primeiro é o "caso do Jaboti" e o segundo, o da impunidade".
Certa feita, após concluir brilhantemente um trabalho, um colega vem me prestar contas do
serviço, que supúnhamos arrasador. Entretanto, frustrado, disse ele que a coisa dera em água.
— Mas como? Nós temos tudo provado, constatado. . . Como? — Eu estava estarrecido.
Ele então esclareceu: — Quando eu falei com o diretor envolvido, ele me esclareceu
calmamente: "O que você faria se visse um jaboti em cima da árvore?" Respondi: "Sei Ia', uai..." E
o diretor: "Não. Não é isso. Você deve dizer: 'Jaboti não sobe em árvore. Quem será que colocou o
Jaboti na árvore?' Lembre-se: aqui na Globo é mais importante saber quem colocou o Jaboti na
árvore, do que o fato do Jaboti estar trepado nela."
Mais tarde pude constatar a religiosidade desta regra, na Globo.
O segundo caso é de um outro auditor, que eu havia encarregado de uma revisão fiscal e que
deixou passar um "ponto" enorme, envolvendo uma fantástica contingência fiscal. Nota:
Contingência, em auditoria, é algo sobre o qual pesa o risco de vir a ser pago um valor por uma
irregularidade.
Fui igual a uma fera para cima dele: "Como? Mas como você não viu um troço deste
tamanho? Como você pode engolir uma mosca assim?" E ele, calmo como um monge: "Ué, nós
não estamos impunes!'"
"Impune é o cacete. Nós não estamos impunes e nem imunes. Eu não aceito este tipo de
brincadeira", adverti seriamente.
Ele, sem perder a calma: "Você é engraçado. Quer descobrir uma coisa errada, que não
será consertada, nem sequer levada em conta. Ou melhor; quer saber o quanto seria devido pela
contingência se nós fôssemos pagar o que nunca pagaremos. Não é melhor abandonarmos isto e
pegar desvios, roubos, falcatruas, etc, que dão mais ibope no relatório, e dão demissão?" A minha
vontade diante do real era de chorar. Era duro constatar no que estávamos nos transformando. E,
o pior, era real. Era duro ter que dar razão à retilinidade do raciocínio dele, e á cruel prostituição de
nossas funções.
Respirar. Engolir. Respirar. Ir em frente.
Minha vida não era muito diferente da dos demais mortais. E era o bastante. Vivia,
profissionalmente, no mundo da televisão, mas com grande ojeriza pelo meio artístico. E em minha
privacidade era cinófilo, ou "cachorreiro".
Muito embora nada tenha a ver uma coisa com a outra, pude experimentar, de perto, a
proximidade e a fusão destas vidas; e como a proximidade delas influir no meu comportamento.
O Jornal Nacional noticiava uma "ilha de tranqüilidade", é não tocava nos assuntos
censurados e proibidos. Era fim de ditadura. Porém, a coisa estava na base do vira-não-vira, tem-
golpe-não-vai-ter-golpe. É hoje. É amanhã. Os militares estão unidos e coesos. Correi. (Este era o
clima.)
Fora do campo profissional, minha vida particular tinha pouca variação: Não confiava em
ninguém, a não ser nos meus cães. (Um canil de fila brasileiro. Cães extremamente fiéis para
comigo e violentamente agressivos para com terceiros.) E justamente este hobby cinófilo
complementava um quadro bastante eclético e altamente bizarro. Permitia a tranqüila convivência,
por exemplo, entre um torturador e um torturado; um terrorista de direita e um terrorista de
esquerda. Neste brasileiríssimo ambiente surrealista convivia tranqüilamente no meu
universo particular;
— HNRB, ou Prof. Reis, ou Reis Júnior, ou Doutor Reis, ou o terrível Dr. Barreto. Matador frio,
responsável pelo extermínio de dezenas, talvez centenas de "ladrões", "assassinos" e "inimigos do
regime". Hoje, anistiado pela "anistia-recíproca", H. exerce, tranqüilamente, suas atividades
"profissionais". É dono de uma personalidade incomum, capaz de apostar gratuitamente sua vida
contra a de um marginal, e de entrar na Rocinha ou Cidade de Deus debaixo de cerrado fogo
cruzado e avançar celeremente até arrancar, sozinho, o marginal de dentro de seu barraco. (Isto,
para ele, é a glória.)
Sua maior satisfação é a caçada humana, apostando sua própria pele nisto. De preferência,
sozinho. Sua maior irritação é prender bandido e ter que dá-lo de presente a delegado high-society
para posar para fotografia do jornal do dia seguinte.
Amigo fiel, prometia que, em nome desta amizade, caso o regime virasse novamente e
voltasse à tortura, eu e Andréa teríamos um fim indolor. (Isto, para ele, era uma grande prova de
"lealdade" e "amizade".) Chamava-me carinhosamente, de "guerreiro". (Pela minha "capacitação"
ideológica e política, por eu ser pára-quedista militar, com curso de comando, guerrilha urbana e
na selva, e por curso militar de sobrevivência.) Ele tentava a todo custo, e sem sucesso, saber das
notícias off da Globo, e em transformar-se em mais um extrema direita. Era criador de fila brasileiro,
dono do Canil Xambioá (nome bastante sugestivo).
— Andréa Blumen, ex-Déa Duarte. Terrorista. Trotskista. Militante torturada no Recife,
trocou de identidade no Rio de Janeiro. Hoje chama-se Andréa Blumen. Era criadora e juíza de fila
brasileiro, dona do Canil Curumaú.
— Walter Jacarandá. Torturador, preso e identificado por suas vítimas. (Pouco discreto e
pouco prudente.) Criador de boxer, dono do Canil Morumbi. (Se fosse criador de fila, teria mais
sucesso; pelo menos como torturador.)
— Chacal (Por motivos de segurança, prefiro não identificá-lo nominalmente, assim como a
outros exterminadores profissionais, cujos codinomes não quero citar.) Exterminador frio, agia
sempre como agente infiltrado na esquerda. Junto com Reis Júnior des-

montou vários aparelhos. Carrega um sem número de mortes nas costas. É handler de cães de
luxo.
— José Sales e Regina Rache. Membros ativos e Iíderes de extrema esquerda. Segundo
Dr. Barreto, agitadores profissionais e de altíssima periculosidade. Criavam fila e bulldog francês,
eram donos do Canil Luxemburgo.
— Marlize K. de Biase. Militante superativa de esquerda. Junto com José Sales e Regina
Rache era, segundo Dr. Barreto, pessoa muito perigosa para a estabilidade do regime. Em caso de
golpe, deveria ser neutralizada de imediato. Criadora de fila, dona do Canil Jiruá.
— Comandante Paulo. Único da "curtíssima" lista que não morava em Jacarepaguá. Era
comandante do Forte, em Niterói. Sua única aparição pública foi na capa da Veja e Isto é, posando
ao lado de Alexandre Baumgarten, na traineira Mirimi. Foi "transferido" para o Amazonas e
afastado do centro das atenções do Caso Baumgarten. Criador de fila brasileiro.
Conforme podem ver, tudo gente fina, da melhor qualidade.
Não era à toa que o maior centro de tortura ficava situado em Jacarepaguá, na estrada do
Pau da Fome, mais precisamente no Sítio do Manoel Português. Local das maiores torturas do
regime militar, de onde as pessoas saíam de barriga aberta (para não boiarem) para serem
jogadas, de avião, em alto mar, próximo da restinga da Marambaia.
Quer dizer: minha opção de vida era ótima. Ou Globo ou cinofilia. E a diferença era muito
pouca. De certa forma, eu invejava àquelas pessoas comuns que trabalhavam normalmente,
tinham amigos normais e ignoravam a luta do dia a dia do País. Pessoas que só conhecem a
história oficial do Jornal Nacional.
É bom que se diga que a lista de "notáveis" não parava aí. Ao contrário, é extensa. Só
estou citando alguns poucos "cachorreiros" de Jacarepagua cuja proximidade era inevitável, assim
como o convívio, e pelo exótico, grotesco, e surrealista da questão: em que ficavam sentados,
frente a frente, na mesma sala, na mesma casa, torturador e torturado. A ponto de eu imaginar: só
no Brasil.
Um dizia, como quem vai à padaria: "Com licença que eu vou telefonar." A uns 5 ou 6
metros conspirava. Outro disfarçava, e recebia visitas estranhíssimas de alcagüetes e entreguistas,
e contra-conspirava. Tudo isso a pouquíssimos metros um do outro.
Como a coisa ficava muito brasileiramente descarada, eu escrachava: "Bom, você já deu
sua conspiradinha, já armou seu cirquinho. Tudo bem. E você, que já telefonou para Brasília, já
infor-mou aos órgãos de segurança, e já armou o desmantelamento da panfletagem e o incêndio
do jornal e das bancas, agora vamos conversar sobre coisa séria: Vamos falar sobre cachorro." (Aí
o papo rolava solto.)
Eê, Brasil!
De volta ao ambiente de trabalho, a coisa fluía como um colírio para os meus olhos
irritados. Era aquele ambiente de descontração, ainda que houvesse pressão e muita marcação.
Mas quanto maior fosse a carga, mais doce seria o deboche. (Era uma necessidade compulsiva de
escracho.)
— Miguel (Duarte) —, que estava fora por vários meses, ouvia o pedido do Francisco —
preciso com urgência, desesperadamente, que você me faça mais este outro serviço fora. (Mais
um mês fora, sem ver a mulher e a filha.)
— Tudo bem, Francisco. Minha filha, quando eu cheguei em casa da última vez perguntou
para a mãe: Mamãe, quem é esse moço? Agora eu chego em casa e digo para a minha mulher
que vou passar mais um mês fora.. . ela vai querer se separar de mim.
O Danilo, que vinha passando, interrompeu: — Pode deixar, Miguel (Duarte), eu assumo a
paternidade e a patroa. Você não está dando assistência à comadre, mesmo. Deixa que eu tomo
conta. Antes eu do que o Ricardão.
— Tudo bem — retruca o Miguel (Duarte) —, pode tomar conta. . . Guardar mulher com
você é como guardar dinheiro em banco suíço. . . Ninguém toca, principalmente você que é
totalmente inofensivo.
A galera se deliciava com o pingue-pongue rápido. O jogo de cintura era o trivial simples. E
isto é um tipo de "cultura" especial, chamada de "hora de esquina" e "tempo de janela'"
Apesar do ambiente relaxado, eu estava irritado. Tinha ido à Fundação e não havia
arrancado nada do Jair Lento. Ao contrário. Ele, com pouca habilidade, havia tentado me enrolar
— o que me irritara profundamente. E, para irritar-me mais ainda, colocou duas outras barreiras:
fez com que eu ficasse esperando uma infinidade de tempo (o que deu-me a oportunidade de fazer
"auditoria de cafezinho" e bate-papo) e se posicionou como doutor Jair (que para ele era um belo
de um cartão de visita), e não como major Jair.
— Francisco — falei.—, tem bronca braba no ar.
— Lá vem você com suas teorias — retrucou o Francisco.
— Mas é claro, cara. Veja bem. — Ele me fez esperar mais de uma hora. Jogou conversa
fora por mais outra hora; tentou me impressionar mostrando conhecimento do serviço dele e,
principalmente, do meu. E, por fim, veio com tudo pronto. (Baseado no que o Nilo pedia sempre.)
Resumindo: gastou 4 a 5 horas do meu tempo, para me dar, de mãos beijadas, um serviço pronto.
— E daí, Machadinho? Quer dizer que só porque o cara se apresenta como doutor já é
sinal de fraqueza de personalidade? Que o fato de ele ter feito você esperar, te irritou? E só porque
ele tinha tudo organizado para atender ao seu pedido isto era suspeito?
— Vamos por parte. Se apresentar como doutor já é um grave sintoma de desvio de
personalidade. É o primeiro sintoma de ocultação de fragilidades e inseguranças pessoais. Todo
sujeito que põe uma barreira e se recusa a conversar de igual para igual com quem quer que seja
é um portador de um caráter em desvio.
— Você está sendo genérico e radical. Olha o "Doutor-patrão" — retrucou o Francisco.
(Lembrando a figura do Doutor Roberto.)
— Genérico, porra nenhuma. Quanto ao Dr. Roberto, eu não quero nem comentar para a
gente não brigar. Mas é óbvio que isto implica e envolve "trocentas" questões sociais e
psicológicas. Envolve reis, príncipes, nobres, parlamentares, juizes, militares, ma-çons, imortais
iletrados e todo mundo que se fantasia.

— Lá vem você e suas teorias inéditas. Não dá para a gente conversar só sobre auditoria?
— Você é quem quis saber o porquê da minha observação.
— Vamos lá. Direto ao ponto. Da forma que eu gosto. Sem rodeios! — Questionou-me.
— Tudo bem! Você não quer entender, então tá! Eu não estou dizendo que todo doutor é
maluco ou tarado. Eu estou dizendo é que todo cara que faz questão de se apresentar como
doutor, excelência ou qualquer título honorífico, ou se veste com paramentos, é um anormal. Você
acharia normal você se apresentar como Doutor Francisco Eduardo, ao invés de, simplesmente,
Francisco Eduardo, sem o doutor? Você se fantasiaria como um membro da academia brasileira de
letras, cheio de paramentos? Já pensou você desfilando no chazinho das cinco: 'E agora Doutor
Francisco Eduardo, no seu novo modelito fardão-ave-do-paraíso. . .' Existe troço mais escroto do
que uma medalha no peito? Existe troço mais ridículo do que um cara de toga e cabeleira postiça?
E esta merda de gravata que nós somos obrigados a usar? Tem paramento mais estúpido do que
uma gravata?
— Isto dá até teses de doutorado: A importância da gravata no desenvolvimento das
amebas na América Latina.
— Peraí, Francisco. Quem quiser que assuma as suas anormalidades. Mas não me
venhas de borzeguim ao leito. Isto que eu estou explicando é bem diferente do que você, de
sacanagem, não quer entender. O ponto é: 1) Ele não é o Jair Lento. É o Doutor Jair. (Isto para
mim é pior do que ficha suja de delegacia.) 2) Tentou gastar meu tempo, sabendo que nós
trabalhamos com tempo contado. 3) Apresentou tudo certinho. O que, para mim, é gravíssimo.
Nada é mais errado do que tudo certo. 4) Aposto minha vida no meu faro. Meu feeling indica
fortemente para uma grande falcatrua na Fundação.
— Tá legal — disse o Francisco — e dai? O que você sugere? — Indagou, meio descrente.
— Vou dar corda para ele se enforcar. — Disse, como quem arma algo cujo resultado já
sabe.
No dia seguinte fomos à Fundação, eu e minha equipe. Providenciei acomodações para o
pessoal, e fingi pouca importância no serviço, indo embora antes do almoço e deixando a equipe
instalada. Porém, não sem antes alertar aos auditores que eu não queria auditoria formal, e sim
"auditoria de observação". E que, após o expediente da Fundação, eu os estaria esperando no
escritório do 266 para reorientação geral sobre o que, como e onde auditar.
Como que para corroborar integralmente com o que eu havia esplanado anteriormente, a
equipe ratificou ponto por ponto o perfil que eu havia traçado do Jair Lento. E mais, mostrou outros
erros mais contundentes. Ou seja: as "acomodações" foram retiradas, e a equipe foi colocada em
duas mesas no corredor, com tudo devassado (pasta, papéis de trabalho, documentos, etc.), e foi
dada ordem expressa, pelo próprio Jair Lento, para que todo documento só fosse entregue à
auditoria em xerox, e não em original. Com isto, ele pretendia constranger a equipe, colocar tudo
que era empecilho, mostrar força, e desgastar, pela irritação, a todos. Pois cada vez que um
auditor solicitava um documento, administrativo, contábil, ou fiscal, tinha que preencher uma
requisição solicitando o documento, requisitar uma xerox, e, finalmente, no dia seguinte, a cópia de
tal documento estaria à disposição da auditoria. Quer dizer: o prazo que nós tínhamos iria estourar,
e o fim do serviço iria para as "Calendas Gregas".
— E agora, Francisco? Tenho ou não razão em ir fundo neste trabalho? Tenho ou não
razão em achar que tem bronca braba no ar? — Indaguei, pedindo confirmação de minhas
suspeitas.
— É... tá certo, Machadinho. Vai fundo e peça o que for preciso. Eu nunca imaginei que ele
(Jair Lento) fosse tão burro. Ele praticamente atraiu para si a auditoria.
— Francisco.. ., o cara passou muito tempo envolvido com cavalos, ordem unida,
autoritarismo, impunidade, etc.. . Não tem nenhum preparo para dirigir uma empresa. Que dirá uma
Fundação. (No duro, Jair Lento estava trombando com a única entidade que não se deve trombar
dentro da Globo.)
— É..., concordo. . .
— E agora? O que você pretende fazer, Machado?
— Vou instruir e preparar a equipe, para que eles possam trabalhar sem se irritar, e vou a
São Paulo assuntar o resto, mas sozinho.
— Mas você acha necessário ir a São Paulo sozinho?
— Claro. Já que ele colocou este empecilho, vou botar todos os auditores para auditar por
bate-papo aqui no Rio. Vou querer todo mundo conversando. Batendo papo com os diretores, com
a telefonista, com os boys, com os seguranças, com as secretárias. Quero todo mundo sem lápis e
sem papel na mão. Quero conversa de almoço, de cafezinho. Enquanto isto, eu vou a São Paulo, e
passo uma semana avaliando os dois maiores departamentos da Fundação: Educação e Televisão.
Na volta eu te dou um retorno.
As histórias da semana, no Rio, haviam sido hilariantes. O Jair não assimilou bem o golpe
e perdeu-se ante a postura da auditoria, a ponto de tontear e enfeixar todas as informações,
centralizando tudo nele. Tentando evitar que seus funcionários dessem informações
desencontradas. Enquanto isso, a equipe, previamente preparada, dava uma no cravo e outra na
ferradura. Levantou quem era quem, traçando o perfil de cada um. Quem fazia o quê. Quem não
se topava, e começou a montar a rede de informações, para que eu as negociasse da forma como
eles sabiam que eu fazia.
Em São Paulo tudo havia corrido às mil maravilhas. Conversei com o Calazans Fernandes,
diretor responsável pelo Departamento de Educação, que se prontificou a historiar a Fundação
desde os primórdios da Rio Gráfica Educação e Cultura, seus períodos de penúria, suas faltas de
verba cíclicas, suas demissões e admissões temporárias, e suas dificuldades generalizadas.
Calazans fez questão de deixar bem claro sua condição de fundador e "Provedor de
recursos oficiais da Fundação", achando, inclusive, que não era justo que desse um duro danado
para arrancar suadas verbas no MEC, para manter a Fundação (São Paulo), enquanto que os
parasitas (diretores) do Rio não faziam nada e também eram sustentados pelas verbas que ele
obtinha. Ou seja: ele, arrumava verbas para a Tele-Educação (São Paulo) e para as reuniões de
"canapés e biscoitinhos" (Rio).
Conversei com outras pessoas, e fiz várias entrevistas com os principais responsáveis pelo
Depto. de Educação. Conversei com o Nelson Santonieri (o executor técnico das idéias do
Calazans). Fiz uma longa entrevista com a Sylvia Magaldi (a grande orquestradora e cérebro da
tele-educação e dos multimeios). Até mesmo tentei uma "ponta-de-lança" com a Sandra, que na
época, era a Gerente Administrativa, e embora fosse radicada em São Paulo, funcionária do Rio de
Janeiro. (Mais tarde, Sandra foi demitida pelo Jair Lento, por ter deixado vazar informações para
mim.)
Ainda naquela semana, aproveitando a estada em São Paulo, fui à Santana verificar as
condições do estúdio de televisão e fazer uma análise de escopo genérico no Departamento de
Televisão.
O papo com o Diretor do Depto. de Televisão, Jorge Matsumi, foi bastante esclarecedor.
Pude constatar as dificuldades de produção e as inventividades utilizadas para se levar a efeito
uma gravação, em principio simples; mas que, segundo Matsumi, toda vez que queria fazer alguma
coisa correta e dentro das normas, era incentivado exatamente para o lado oposto.
— Veja bem, Machado, nós queremos contratar os funcionários de forma legal, com tudo
que é direito; com as garantias sindicais e trabalhistas. Vem o Jair e manda a gente não registrar
os caras, para não ter contingência trabalhista e arranjar notas em substituição aos serviços de
mão-de-obra. Aqui é tudo ao contrário: o artista trabalha, mas quem recebe é uma loja de material.
O material de cenário sai em nome de uma firma de prestação de serviços. E por aí vai. Não tem
nada certo. Quer ver um exemplo? Veja as instalações de Santana (Rua Francisca Júlia) e o
estúdio de gravação. Se eu pedisse ao Jair, como eu pedi, ele negaria a verba (como negou). Mas
tem que gravar, tem que fazer o programa, tem que ter espaço para a produção, tem que ter mil
coisas que ele não entende porque não conhece televisão. Aí, o que eu faço? Invento notas e
despesas e faço o que eu quero. Está vendo as instalações? Eu construi e/ou reformei quase tudo.
Se eu quisesse roubaria para mim como todo mundo faz. Eu não sou mais honesto do que
ninguém, mas a burrice da administração empurra a gente para o ilegal. Quer ver um exemplo? Eu
sugeri comprar uma câmera de gravação para pagar em quatro vezes. A câmera custava 100 e ia
ser pago em quatro parcelas de 25. Sabe o que o Jair fez? Negou. Daí, eu perguntei pro Jair: E
alugar pode? Ele respondeu: Pode! Daí, eu aluguei a câmera por 25 mensais, e ao fim de quatro
meses a câmera estava paga. E, como o Jair disse que a Fundação não poderia ter ativo fixo, só
alugar, eu peguei a câmera para mim, pois estava sem dono, e continuei alugando esta mesma
câmera para a Fundação. Só que isto, eu não oculto de ninguém. Não tenho culpa de não haver
controle e administração na Fundação. Aqui é uma zona de desorganização, e o cara que deveria
entender disto é um militar imposto por um outro militar (Coronel Paiva Chaves. Aliás, apelidado de
Paiva Chivas), que não entende nada de administração e finanças, que dirá de televisão. —
Concluiu, zangadamente, Jorge Matsumi.
Tive oportunidade, ainda, de discutir, com alguma profundidade, com o Gerente de
Produção, Hugo Graff, e com dois outros diretores de televisão: Hugo Barreto e Carlos Justino
(Carli-nhos). Voltei para o Rio, estupefato com a babel que era a Fundação, e espantado com o
altíssimo grau de desorganização. Aquela altura já me indagava se era um caos proposital e
conveniente, ou era uma burrice acidental. A sensação era, descrita anteriormente, do vendedor de
sapatos diante de uma tribo descalça. Ou seja: os dois maiores departamentos da Fundação,
justamente o que providenciava os recursos e o que gastava, estavam virgens em termos de
auditoria e na mais completa desorganização. Era inacreditável que isto estivesse ocorrendo, mas
era verdade.
De volta ao Rio, segunda-feira, era dia de todos estarem no escritório para avaliação do
serviço e novas redistribuições de tarefas. Era dia de injeção de ânimo, e uma catarsezinha de
uma a duas horas, e de muita expectativa para mim. Quase não dei atenção aos colegas.
Observava, de longe, as farras, as brincadeiras e as gozações, e quase não falava, como que para
não deixar transparecer o meu pensamento. Sim, pois, o caos da Fundação era muito superior

às minhas expectativas, e eu tinha medo de pensar no assunto e alguém ouvir meus pensamentos.
Como de hábito, chamei o Luiz Carlos para um cafezinho na cozinha. Eu não gostava de
ser visto segredando com o Luiz Carlos, pois logo os outros iriam achar que estávamos tramando
algo, devido à nossa pecha de "politizados"' e pela grande influência de amizade que tínhamos
com o Francisco.
Era comum a minha confidencia com o Luiz Carlos, eu admirava bastante sua linha e
conduta profissional. Ele é um dos mais competentes e equilibrados auditores que conheci. Neste
meio, onde a acuidade, sagacidade e inteligência contam ponto, você só se faz respeitar e só
respeita outro profissional se ele for um ótimo técnico. E esta era a linha direta e meu canal de
ligação imediato com ele.
Assim, antecipei ao Luiz o ocorrido, e ansiava pela chegada do Francisco, para
desmantelar alguns serviços bobos em andamento e requisitar uma grande equipe para a
previsível grande massa de informações que iríamos ter.
Procurei saber, por alto, como havia sido o trabalho da equipe no Rio, mas não queria
reorientar o serviço, de imediato, pois eu tinha mil planos na cabeça e não queria que vazasse
nada.
Estava ansioso e não queria antecipar coisa alguma sem antes discutir com o Francisco.
Mas, apesar disto, ria das brincadeiras do pessoal, principalmente do Danilo e Miguel (Duarte), que
nasceram para gozar um do outro. (Era a baixaria fundamental.)
O Miguel inventava mil histórias sobre o Danilo, e ambos rememoravam histórias do
Paraná da Foz do Iguaçu, das fazendas do Dr. Roberto no pantanal, e das bravatas de cada um.
Pareciam colegiais em férias. Vê-los assim, difícil seria supor que por detrás de toda aquela
peraltice estavam escondidos profissionais da maior seriedade.
O March, em seu canto de observação, não falava com ninguém. Olhava
interrogativamente para tudo aquilo e, numa das passagens de olhos por mim, notou algo errado:
— Chips. O Chips. Vem cá.
— Não quero papo — respondi.
— É sério, preciso da tua ajuda. Venha cá. Não é brincadeira não.
Ao aproximar-me, ele se tornou solene:
— Acertou na mosca em São Paulo, não é?
— Não quero papo, March.
— Tudo bem. Tenho certeza que perdi a parada. Já vi pelo movimento da galera que o
trabalho da Fundação vai estourar, e pelo teu silêncio, vejo que o negócio em São Paulo foi bom e
que a coisa vai longe. Mas não é sobre isto que eu queria falar, não. O papo é outro. Eu quero uma
idéia sua. Como você é um cara que vive dando idéias e tem uma cabeça ótima, eu queria uma
idéia sua.
— Qual é? É sacanagem...? — Perguntei
— Não. Não é nada disso — falou —, é sério. Eu e o Pedrinho estamos com um problema
com um arquivo de fitas e a gente não sabe o que fazer com ele. Você poderia dar uma idéia do
que fazer, ou de como abordar o ponto?
— Para você e Pedrinho? — Perguntei.
— É. Nós estamos fazendo um serviço juntos — ele completou.
— Nem pensar. Eu quero que vocês se danem — respondi, já saindo (irritado).
— Peraí, Chips, é para mim. — Ele reforçou.
— Tudo bem. Qual é o caso? Mas é para você, heim!
— É o seguinte: nós estamos fazendo um. . .
— Nós? Você e o Pedro?
— Peraí, Chips. É para o Pedro também, mas é principalmente para mim. Larga mão de
ser bobo e de implicar com ele. Você e o Luizinho vivem de guerra com ele. Pô. . ., refresca o cara.
Esquece que ele está na jogada. Faz de conta que ele não está neste serviço. — Explicou o March.
— Tudo bem. Mas o ponto é para você. Eu não vou dar nada de bandeja pro Pedro.
— É o seguinte: há um arquivo de fitas. Imagine o CEDOC (Centro de Documentação). O
que você faria se fosse o dono e estivesse aquilo tudo parado? Você tem alguma sugestão de
como melhorar, aperfeiçoar ou criar algo em cima?
— Eu faria um museu." Respondi, no ato,curto,seco e grosso.
— Porra. . . Um museu? Você está de sacanagem, Chips. Eu estava aqui te elogiando
dizendo que ia pedir uma ajuda sua pois você é um cara com a cabeça a mil, sempre com idéias
incríveis, e você me vem com uma idéia de Museu? Você está de sacanagem comigo. . .
— É o seguinte, March. Imagine o primeiro museu da televisão, mostrando como se faz
televisão. Mostrando a evolução da televisão no Brasil e no mundo. Mostrando as evoluções dos
aparelhos de TV. Enfim, com tudo sobre televisão. E, haveriam vários displays, tipo daqueles que
se usam em Shopping Centers, para você se localizar, e que seriam acoplados a vários micros,
que dariam a você toda sorte de informações: por ano, por tipo de assunto; enfim, de todas as
formas. E você poderia solicitar para assistir qualquer assunto em cabines especiais de vídeo. Por
exemplo: Você poderia digitar o ano de 1966 e veria no"menu" do micro tudo aquilo que constasse
daquele ano, e você escolheria o assunto. Ou então, você daria o assunto, por exemplo, o "Festival
da Canção", e veria no "menu" os vários anos para você escolher qual deles. E, assim por diante.
Sendo que você poderia assistir lá no Museu, como numa fonte de consulta permanente, ou
poderia comprar uma fita copiada pela Globovídeo, sobre qualquer assunto em arquivo no Museu.
Já imaginou? O Dr. Roberto iria ficar super-vaidoso com o Museu. O arquivo passaria a ter uma
situação prática. Daria emprego para muita gente. Seria auto-sustentável, e a Globovídeo faturaria
uma nota. . .
— Pô, Chips, você é realmente incrível. Uma idéia dessas em um minuto. É realmente
"du-cacete" esta idéia de Museu.
— Tá legal, March, agora o ponto é seu.
— Meu é o cacete, eu vou falar com o Francisco.
Nisto vem entrando o Pedro, e March o chama à medida em que eu vou saindo. Meia hora
depois, March me procura novamente, irritado, dizendo que o Pedro não havia gostado da idéia.
Eu ri, e disse: "Não liga não, ele está certo".
Esta idéia do Museu da Televisão foi levada por mim, mais tarde, pessoalmente, ao
Magaldi e ao Boni, e foi recusada. E todas as recusas tiveram "sólidos" e "bons motivos".
Pedro não topou porque a idéia não era dele.
Magaldi não topou por estar "fora dos objetivos" da Fundação Roberto Marinho.
Boni não topou por ser algo muito lucrativo para a Globo-vídeo, e ele não tinha nenhuma
participação na Globovídeo. Pena não ter ninguém defendendo os interesses do dono.
Francisco chegou, e a lista de interessados em falar com ele era grande, e todos
disputavam a preferência. Cada qual justificando a sua urgência. Uns tinham que viajar, outros
tinham reuniões marcadas. Enfim, a disputa estava quase ombro a ombro.
De cara entraram dois ao mesmo tempo para falar com o Francisco. E eu, esperava,
pacientemente pela minha vez, já sabendo no que ia dar a minha reunião. Por causa disto, deixava
que cada qual se achasse com maior prioridade e avidez em ir na frente. Até como uma maneira
de ir à forra mais tarde.
Quando já havia entrado na sala dele o terceiro da lista, eu fiz, estudadamente, minha
interrupção. Entreabri a porta e, rapidamente, joguei a isca: "Preciso falar com você. É urgente."
Já sabia, de antemão, que viria uma resposta áspera, mas era a resposta que eu queria,
para fazer uma provocação maior e obrigá-lo a entrar no meu clima.
Como um relógio, bastante previsível, ele retrucou: — Querer falar comigo não é novidade.
Urgente, tem um monte de gente dizendo a mesma coisa. Você sabe: quem se desloca recebe,
quem grita primeiro tem prioridade. Você vai ter que esperar. Tem gente aqui com coisa urgente
também e que gritou primeiro.
— Tudo bem. — Falei. — Eu não tenho nada para fazer até o almoço mesmo, eu posso
esperar. Pena que você vai ter que desfazer toda a programação que você está fazendo, pois eu
vou requisitar duas equipes grandes. E, se a coisa for como eu suponho, eu vou requisitar metade
do escritório. Mas tudo bem. Escute quem você acha que tem que escutar e depois avalie você
mesmo. Afinal, todo mundo acha que tem assunto urgente, e você é quem vai dizer o que é
urgente ou não. — Disse de forma provocativa e sacana.
— Tá legal, Machado. Entre e fale — Aquiesceu ele, com enfado.
Nisto há uma revolta, por eu ter "furado fila". E, os que já haviam conversado com ele, se
apressavam para sair rapidamente do escritório antes de eu terminar a reunião.
Aí, deliberadamente, como numa vingança pelo frisson e corre-corre anterior, preparei
outra maldade. — Francisco, vou precisar de duas equipes grandes e gente de apoio no escritório
para fazer o serviço da Fundação. Tem coisa braba no ar, e como nosso papo vai ser longo para
orquestrarmos a operação, é melhor não deixar ninguém sair do escritório.
Ato contínuo, até porque o Francisco sabe quando eu estou de brincadeira e deboche e
quando eu estou falando sério, ele se levantou, foi até a porta e anunciou: — Ninguém sai do
escritório. (Grita geral. Inconformismo. Mil justificativas. Alguns até explicavam, quase implorando,
que não podiam ficar e que tinham compromissos, reuniões fora, etc. . .)
— Não quero saber. Ninguém sai do escritório — e virando-se para o Edson, pediu: —
Edson, peça ao Bá para trazer água e café.
— A minha eu quero com gás — completei, sem me virar da cadeira e sem voltar-me para
o salão, (riso contido) pois eu já sabia da reação do pessoal.
2
De fato, trinta e poucos homens, de terno e pasta, espremidos num salão de uns 40m , era
barulhento, desconfortável e irritante. Até porque não tinham acomodações para que metade
pudesse sentar-se. E, logo vieram as retaliações e ameaças (mas tudo de brincadeira), uns
fingindo me bater, outros desejando que eu fosse pro inferno, e alguns até justificando que se
tivessem que comer "pizza" no escritório (algo muito comum nestes casos), iam cuspir nos meus
pedaços. E chegavam a disputar: — Deixa que eu levo o pedaço do Machado para ele comer.
Ao longe, meus olhos captavam, por entre várias cabeças e duas nesgas de porta, o
sorriso do Luiz Carlos, como que a dizer: — Você não tem remédio. Tudo tem que ser da forma
que você quer.
Logo chegou o Bá ou como ele gostava de se anunciar. (Falando bem rápido, igual a uma
metralhadora) "Edmilson Evangelista Calixto de Mesquita Bá." Cada hora, o nome dele mudava,
aumentando ou diminuindo, mas em geral começava com Edmilson, e terminava com Bá. (No duro,
o Bá não existe no nome dele, mas o incorporou por auto-recreação. A origem da expressão Bá é
oriunda do chamamento: O do Bar — O Bar, veja um cafezinho aí. E, como ninguém chamava ele
pelo nome, virou "Bar" ou simplesmente Bá.)
Eu o chamava de "lôrram", e ele ficava intrigado. Eu dizia que era em homenagem a um
parente seu: Johann Sebastian Bach (estou certo que nunca entendeu).
De fato, a reunião havia sido bastante longa, e eu pude relatar, para o Francisco, cada
detalhe do ocorrido, e consegui expor, minuciosamente, como eu achava que deveria ser
deflagrada a operação. E, felizmente, como o Francisco é bastante acessível, desde que você
explique com clareza e sem rodeios, direto ao ponto, eu pude vender o meu peixe. Eu queria uma
equipe de apoio e seleção de informações no escritório. Uma equipe razoável na Fundação/Rio e
uma equipe pequena em São Paulo, com ampla liberdade para transitar, dissimular e confundir os
auditados, para que não soubessem como a coisa estava sendo coordenada, quem coordenava, e,
principalmente onde começava e onde terminava a auditoria.
Ele topou integralmente. E, já estávamos prestes a dar inicio às primeiras providências
(quem comporia as equipes, providenciar passagens e hospedagens, etc), quando tocou o telefone.
Era o Jair Lento dizendo que sabia da minha volta a São Paulo, e que seria melhor ele
acompanhar-me nesta viagem, de maneira a poder me dar uma assistência mais eficiente. O
próprio Magaldi (Secretário Geral da Fundação) achava que ele —Jair Lento — deveria colaborar,
de perto, com a auditoria.
— Você segura essa? — Perguntou-me o Francisco, sem desligar o telefone. Eu ri,
imaginando a possível conversa havida entre o Magaldi e o Jair Lento.
— Tudo bem. Pode confirmar. Eu vou tocar um rebu tão grande longe de onde ele está,
que vai querer ficar longe de mim.
— Mas ele vai grudar no seu pé, Machado. — Disse o Francisco, contrariado.
— Vai nada. Quando chegarmos em São Paulo, eu solto os "cachorrinhos" aqui no Rio, e
faço eles chegarem bem perto do problema, para provocar a volta dele imediata. É só mandar o
Kebian, por exemplo, tocar de leve no que a gente já sabe que é problema, e dar uma prensa no
contador, que vive escondendo tudo; e em 24 horas, o Jair volta à jato.
O Francisco, então, combinou com o Jair a nossa viagem a São Paulo.
Como num jogo roubado ou numa cena com script decorado, a coisa se desenrolou
exatamente como o previsto. O Jair ficou só dois dias em São Paulo e voltou correndo e apavorado
para o Rio deixando-me solto para fazer o serviço, com liberdade, da forma como eu queria fazer.
Daí por diante, tudo se desenrolou encenadinho. A equipe do Rio fingia ignorância e
evitava chegar perto dos problemas, para me dar tempo de levantar, por São Paulo, tudo com
alguma profundidade, e assim, somente após sabermos do escopo gerai e da amplitude total do
serviço, iríamos entrar nos detalhes. Mas, aí, de forma irreversível, pois já saberíamos de tudo,
restando tão somente comprovar de forma documental e irrefutável.
O Calazans, a esta altura, inundava-me de informações e de certa forma, contagiava-me
com o seu ideário. Mostrava-me estatísticas, níveis de aproveitamento, artigos elogiosos à
Fundação, premiações ao Dr. Roberto em nome da Fundação, medalhas e troféus (inclusive os
dados pelo "Chacrinha", que, de certa forma, para mim denegria, estragava, e desacreditava tudo o
que havia sido dito antes. Mas, enfim . . .).
Para efeito do que eu queria, não importava que as estatísticas fossem falsas, conforme
afirmava o Diretor Cultural José Car

los Barbosa, ferrenho adversário do Calazans, e que não escondia sua opinião sobre o telecurso
ser o curso mais caro do mundo, pela relação verba/aproveitamento de aluno. Achava, ainda, José
Carlos Barbosa que o telecurso era uma grande empulhação estelionatária e que um dia todos os
diretores acabariam presos como coniventes com o Calazans. Entretanto, a mim, não importava
que os níveis de aproveitamento fossem falsos e que os artigos elogiosos à Fundação fossem
escritos sob encomenda (o Calazans já havia sido jornalista, e manejava bem a manipulação da
notícia. Sabia "plantar" uma noticia, um boato, ou mesmo trabalhar um jornalista para, assim como
quem não quer nada, escrever rasgados elogios sobre coisas que não conhecia bem, e depois ele
mesmo mandava cópia do artigo para o Dr. Roberto). Nada disso importava. Tudo isto ficaria
registrado para uma análise futura, mais profunda e impiedosa. No momento, eu estava
interessado nos meus aspectos macro e nada me afastaria deste objetivo. Mais tarde eu voltaria
para outro tipo de enfoque.
Trabalhando mais diretamente o lado pessoal de cada um, fui abrindo e explorando
Calazans (Educação) e Matsumi (Televisão).
Matsumi encurtou demais, e não fez um só rodeio. Foi franco e aberto. Pude ir fundo, cada
vez mais, e em momento algum ele reagiu. Em pouquíssimo tempo estava tudo claro: Não havia
estrutura normativa, não havia controle administrativo, nem financeiro, e nem orçamentário. 0 meu
relatório poderia ser feito em uma só folha (igual ao do Nilo) só com uma pequena diferença,
bastaria uma só frase para relatar tudo: Estava tudo errado.
A posição e clareza do Matsumi ajudaram muito. Era simples e transparente — Sou diretor
de Televisão, e entendo disto. A zona que você está vendo aí e da qual não entendo e faço
questão de não entender é de responsabilidade do Diretor Administrativo e Financeiro. Afinal, a
Fundação tem um e que ganha muito bem. Vá cobrar dele.
Juntando o que eu pude ver e ouvir nos Departamentos de Educação e Televisão, poderia
sair um relatório preliminar simples, dizendo quase tudo, pois não havia organograma, nem
definição hierárquica, nem atribuição de função, nem delegação de autoridade (para atribuir e
imputar responsabilidades), nem formalização de procedimentos (ordens verbais eram regra geral
e aceitas tranqüilamente). Ninguém queria assinar nada, e nem se comprometer com documentos.
Não havia Normalização (normas, rotinas, procedimentos, formulários, contratos, etc), e nem
Sistema de Informações gerenciais (relatórios, demonstrativos, balancetes, orçamentos,
prestações de contas, etc). Era difícil de acreditar, mas era verdade. Uma empresa como a
Fundação Roberto Marinho não possuía nada, e quando possuia era errado. A bem da verdade
havia uma única coisa feita: O relatório do MEC e Deus sabe como.
Os exemplos de desorientação eram grotescos. Uma Editora, no relatório do MEC, era
contratada como secretária. A secretária era contratada como Assistente. E como elas não podem
aparecer como empregadas, para efeitos fiscais na escrituração interna (só existiam fisicamente)
recebiam por uma nota de compra de um produto qualquer como material de cenário, ou até
mesmo por uma nota de prestação de serviços (comprada ao custo de 10% a 12%).
Eu me arrepiava só de pensar o que aconteceria se nós fossemos um país evoluído e
civilizado, com Sindicatos fortes. E se o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de
Diversões agisse contra a Fundação? Mas infelizmente, o artista é um pedin-te, pobre miserável,
obrigado a engolir a dignidade em troca da sobrevivência. . .
Quanto ás notas fiscais compradas não havia novidade. Estávamos no Brasil e dentro da
Globo. E, por estarmos no Brasil, ainda havia o exótico da questão, pois havia uma divisão: Notas
fiscais "frias de boa-fé", e Notas fiscais "frias de má-fé". Explique-se: Se, por exemplo, se quisesse
pagar a uma pessoa física (a-tor, por exemplo) e não se quisesse envolvimento (leia-se pagamento)
de I. Renda, INPS, ISS, etc, comprava-se uma Nota fiscal (pagando de 10% a 12%). Ou seja:
Dava-se o dinheiro ao ator e a per-centagem ao vendedor da Nota. Esta era a Nota fria de "boa-fé".
Já a nota fria de "má-fé" era aquela que não se pagava nada a ninguém, a não ser a percentagem
do vendedor da nota, e o dinheiro ficava para o Gerente ou o Diretor que fazia o negócio.
A grande surpresa é que isto não era exceção e sim a regra. 0 que rolava na Fundação era
nota de PJ. (Pessoa Jurídica. E, Graças a Deus nota não fala. E depois de um tempo, até que
pareciam honestas.
Perguntado ao Matsumi sobre como ele distinguia uma nota de outra, ele respondeu: — Eu
não distingo. Se a produção quiser roubar, rouba. Se os diretores quiserem roubar, roubam. Não
há controle algum. E, todos, inclusive eu, são suspeitos e passíveis de desvios de toda sorte. E,
uma vez que não há controle, tudo é possível.
— A que se deve este estágio alarmante de descontrole? — Perguntei ao Matsumi.
— A própria Globo, que institucionalizou a sacanagem. Veja bem, vem de lá a criação de
pagar uma pessoa física como PJ (Pessoa Jurídica). Isto ocorreu, inicialmente, por uma questão
de mercado, depois virou zona. É o seguinte: Por uma questão de concorrência, a Globo consegue
pagar mais aos seus artistas e diretores porque não os paga como pessoas físicas (que têm altos
impostos na fonte, e cujo valor líquido é baixo e raríssimas deduções são permitidas na declaração
final de renda). Ao contrário, pagando a estas pessoas (artistas e diretores) como pessoas
Jurídicas (PJ), o valor bruto é alto e você só paga impostos se for burro pois a retenção na fonte
não existe ou é insignificante, e você deduz tudo (qualquer despesa) como custo (até papel
higiênico).
— Mas isto é uma puta sacanagem. Não que isto seja novidade. Até entendo que a Globo
o faça, por estar politicamente impune. É compreensível. Mas, a Fundação é a vidraça do Dr.
Roberto. . . É o passaporte dele pro céu. — Disse eu.
— Machado. Aqui é igual à Globo. Quando você atinge uma faixa salarial alta ou um cargo
elevado você deixa de ser pessoa física, para não pagar imposto e passa ser uma pessoa Jurídica.
E aí começa a zona. Afinal, você não está na Suíça. Existe alguém neste país que ganhe muito e
pague imposto? Quem paga imposto no Brasil não é a classe média? Então? Aqui é igual. É
Fundação. É Globo. É Brasil. Pode ver que todos os diretores, todos sem exceção, recebem por PJ
(Pessoa Jurídica), inclusive eu, Jorge Matsumi.
A frieza e firmeza do Matsumi às vezes me assustava. Era tão franco que parecia cínico.
Era frio diante do inevitável e absolutamente calmo e consciente em relação ao seu papel social. O
"Japonês" (apelido do Matsumi) partia de uma lógica racional bem simples: "Sou só eu?" E, me
desconcertava com sua retinilidade lógica: Ele tinha consciência de que não roubara nada. Não era
responsável pela desorganização. O que havia de errado na Fundação era cópia da Globo. E a
Globo era o Brasil.
Cabeça cheia. Eu tinha que me preparar para abrir o Calazans. Mas antes, tinha que
selecionar a massa de informações que estava recebendo, e fazer um grande mergulho interior
para buscar forças dentro de mim. Embora não fosse artista, e tivesse horror de pensar nesta
possibilidade, valia-me de um recurso artístico: o laboratório.
Nestas horas a "pilha" ia gastando (eu trabalhava 12 ou 14 horas, em média, por dia) e
costumava ir tornando-me diferente, calado, introspectivo. Era preciso me policiar. Eu tinha que
estar alegre, feliz, despreocupado, para poder assimilar tudo sem sentir. Estar apto a ouvir o maior
absurdo e não mover um músculo nem demonstrar o golpe. E, para isso tinha que me por em
equilíbrio.
As providências eram simples: Primeiro trocar de hotel. (Por causa do Jair eu acabei me
hospedando num hotel tipo Shopping Center.) Eu detestava hotéis impessoais tipo Shopping
Center e como eu vivi minha vida como auditor hospedando-me em hotel, eu era muito intolerante
com as más qualidades de um serviço.
Queria um hotel fora do tumulto. Por isso escolhi o Eldorado — Higienópolis, pois o local é
arborizado, silencioso, relaxante, e eu poderia ir andando até a Fundação (pela manhã), colocando
todos os meus pensamentos em ordem. (Era parte da higiene mental e tranqüilidade que eu
precisava.)
Segundo, eu precisava parar de almoçar e jantar comidas exóticas com o Calazans e o
Matsumi pois meu estômago estava acabando com o meu humor. (E tinha que preparar o meu
fígado.)
Terceiro, eu precisava rir, ouvir bobagens e tirar o peso da carga de auditor. E, para isto,
bastava sair à noite com a equipe e vagabundear sem nenhuma responsabilidade.
Fiz um grande laboratório e um bom preparo a nível de estabilidade emocional.
Parcialmente recuperado, comecei a preparar-me para o Calazans.
Eu sentia que ele queria falar, e eu tinha que fazê-lo falar. Sabia que era alcoólatra, mas
não queria convidá-lo abertamente para beber. Tinha que fazê-lo me convidar, de preferência à
noite, quando não teria maiores preocupações com o tempo.
Como todo bom nordestino, gostava de prosa, e politizado como ele é, não foi difícil esticar
o papo do escritório para o bar. Fomos a dois bares diferentes em duas noites diferentes. Numa
estávamos eu, Claudinho e Calazans (na Taberna anexa ao Hotel Eldorado). Na outra, estávamos
só eu e o Calazans (no David, na Oscar Freire).
O papo era genérico. Falávamos de tudo. Principalmente de política. Falávamos da
ditadura, do sistema, das injustiças sociais, da falência e descrédito nas instituições. Eu curtia, de
certa forma, uma admiração pelo Calazans. Não pelos seus métodos sujos. Não pelos seus
propósitos. Mas pela sua inteligência, e pelo seu bom gosto, (dentre outras coisas gostava de
Goethe, Nietsche, Hermann Hesse, Monteiro Lobato, Voltaire e Aldous Huxley).
Em meio a uma grande salada cultural, e com o Calazans no ponto, parti para a
provocação e para a abertura. Já sabendo, de antemão, que, por perfil o Calazans dirigiria suas
baterias contra Magaldi e cia., até porque Magaldi ocupava o cargo que ele almejava (Secretário
Geral), e, na retaliação valia tudo.
Comecei pelo óbvio: Jair Lento.
Por Jair Lento ser militar (major) já era motivo mais do que suficiente para Calazans
desancá-lo sem piedade.
Atirei a "queima-roupa" — É verdade que você é sócio dos erros do Jair?
— Doutor (vício nordestino que Calazans não perdia), é duro eu ir a Brasília, disputar
palmo a palmo, ombro a ombro as verbas. Arrancando, muitas vezes, estas verbas do esgoto.
Tirando de verbas que deveriam ajudar o povo do nordeste, para chegar aqui em São Paulo e
sofrer o boicote vindo de ponte-aérea do Rio de Janeiro.
— "Mas, Calazans, alguém tem que controlar estas verbas. Você não acha que o Jair faz o
que deveria ser feito?
— De forma alguma. Ele quer é tomar verba da Educação e Televisão para sobrar mais
pro sustento daqueles parasitas do Rio de Janeiro. No duro, eles querem é que eu morra, para
sobrar mais verba para eles no chá com biscoito e queijinho.
— Você não acha que é muita verba para chá com biscoito?
— Ironizei.
— Não. A verba acaba financiando tudo: chá, biscoito, os projetos falidos deles, e a
sacanagem da Casa do Bispo (Sede da Fundação).
— É muito forte você atribuir tudo só ao Jair Lento. Não tem um exagero aí? — Provoquei.
— Não. Aquilo lá é uma máfia. É tudo igual. Tanto faz: Jair, José Carlos, Magaldi. É tudo
igual. São todos juntos contra mim. Mas não adianta, doutor. 0 mundo se acaba e o nordeste não
se rende. Eu sou um sobrevivente.
— Máfia? Você falou em máfia por força de expressão ou você enlouqueceu de vez? Você
está com raiva dos caras e vem dizer que eles são mafiosos. . . peraí Calazans. . . Isso aí é muito
forte.
— Fiz-me de desentendido, embora soubesse o que ele queria dizer. Eu já ouvira o boato,
antes.
— Olha, eu vou contar uma história para você entender, já que você pensa que eu estou
maluco. Sabe porque o cargo do Magaldi é Secretário Geral? É porque ele é comunista, e como
comunista ele idealizou uma Fundação capitalista com o cargo máximo do Soviet Supremo. Já
que ele não pode ser nada no Partido e ele não se assume como comunista, até porque o regime
não deixa, ele vem brincar de ''Secretário Geral" aqui na Fundação.
— E daí... que que isto tem de mais? Você vai querer me convencer que ele come
criancinha na hora do almoço?
— Nada disso. 0 Magaldi é comunista e italiano. E como italiano é mafioso.
— Socorro... Policia... Enlouqueceu Calazans?
— Não. Vou te contar a história:
Fui chamado ao Rio de Janeiro para uma reunião de diretoria. Eu não gosto de ir, mas fui. Mesmo
sabendo que eu ia encontrar o parasita do Galliano — que ninguém sabe o que ele faz na
Fundação — puxa-saco oficial do Magaldi. Mesmo sabendo que eu ia encontrar o milico do Jair
Lento e o mau caráter do José Carlos Barbosa. De todos os diretores o único que presta é o
Nelson (Mello e Souza).
— E daí, Calazans?
— Daí que eu cheguei e perguntei pela pauta da reunião. Não tinha pauta. Era uma
reunião de acerto. Fui chamado para a reunião para fazer um pacto mafioso. Nós todos
deveríamos jurar fidelidade ao Magaldi, e ele seria o "Capo", protegendo a nós de tudo que fosse
alienígena ou atentasse à sobrevivência do Grupo. Era uma troca. Nós faríamos um Cinturão de
Fidelidade em torno do Magaldi e estaríamos protegidos "ad eternum" contra qualquer um que
ameaçasse um dos nossos cargos. Tomei um susto, gritei e ameacei sair, e Magaldi me chamou
num canto e me pediu desculpas. Disse que ele não sabia de nada daquilo. Não concordava com
aquela proposta absurda, e que estava envergonhado pelo que os amigos dele tinham tido a
coragem de fazer.
— A posição do Magaldi foi correta, ou não? Indaguei.
— Correta nada, doutor. Eu não nasci ontem... Eles quiseram me iniciar, e como a coisa
"melou", o Magaldi arranjou esta saída. Ele é mafioso sim. E, pior: é perigoso.
— Você está delirando, Calazans?
— Delirando porra nenhuma. Você quer ver como eles são mafiosos? Faz parte do pacto
deles o uso da Fundação para benefício próprio e para especulação. Sabe o que eles estão
fazendo? Estão usando chamadas de Televisão para especulação imobiliária.
— Como assim, Calazans? — Perguntei curioso.
— Eles compram terra em Parati, Angra dos Reis e Porto Seguro, depois lançam
campanhas institucionais para "preservar" o patrimônio histórico daqueles lugares. Daí, um tempo
depois, eles vendem tudo com um lucro fabuloso.
— E você tem prova disto? — Perguntei.
— O que você chama de prova? Eu estou te contando o que aconteceu. Você se quiser,
deve ir nos cartórios destes locais e verificar. Mas, lembre-se, eles podem estar fazendo a
operação em nome de terceiros, amigos, etc.
— E como você descobriu isto? — Perguntei.
— Tudo aconteceu por acidente. Numa conversa com o Humberto Pereira (Diretor
responsável pelo "Globo Rural"). O Humberto me falou que nestas andanças, Brasil afora, uma das
equipes do "Globo Rural" ao chegar em Porto Seguro, elogiou a beleza das praias nativas, quase
virgens. E ouviu, de moradores locais, que aquelas praias eram particulares. Foram compradas por
diretores da Globo e da Fundação Roberto Marinho. Daí, Humberto veio me gozar, achando que
eu e o Magaldi havíamos comprado aquelas praias.
— E você não comprou nem uma praiazinha? — Perguntei de deboche.
Calazans finge que não escuta e continua...
— Com cuidado e paciência eu acabei descobrindo que a patota do Magaldi havia
comprado aquelas praias. E logo percebi a relação entre os lugares e as campanhas institucionais
veiculadas pela Fundação, na Globo. Daí, para descobrir tudo foi um pulo. Afinal, eu não nasci
ontem, né doutor. Confirme com o Matsumi, pois uma equipe dele que estava no nordeste soube
da mesma coisa. Completou Calazans.
— Mas isso aí, Calazans é muito difícil de provar. E, ainda que se prove, não há nada
contra se comprar terreno em Parati,

Angra dos Reis e Porto Seguro. Não vai ser por isso que você vai derrubar a turma do Magaldi. —
Arrisquei a constatação.
— Pode até não ser por isso... Mas, afinal, que porra de auditor é você? Fica me fazendo
falar. Eu falo. Dou todas as dicas de como você pode pegar aqueles parasitas e você não está
interessado? — Disse ele, irritado.— Interessado eu até que estou. Mas eu não quero algo
discutível. Entenda, Calazans, quando eu faço um relatório, eu não coloco nada superficial. Nada
que se possa contestar. Quando eu coloco um "ponto" no meu relatório, ele é incontestável e
definitivo. Se você quiser pegar o Magaldi e a turma dele você vai ter que me dar algo mais
contundente.
— Então tá, vou te contar outra história...
— Eu não quero história. Quero fatos e provas — Interrompi bruscamente.
— É o seguinte: Magaldi arquitetou um plano para envolver e comprometer o Doutor
Roberto; para que nunca seja feito nada contra ele, Magaldi, e sua turma.
— Como assim? — Perguntei.
— O Magaldi age na cabeça do Dr. Roberto, lembrando ou fazendo sempre lembrar, que o
Dr. Roberto tem rabo preso na mão dele. E uma das formas que o Magaldi encontrou de subjugar
o Dr. Roberto, é insinuando sempre que ele é homossexual, devasso, e que um fato obscuro,
envolvendo um dos filhos do Dr. Roberto, que atirou num rapaz, amante do pai, foi resolvido e
abafado por ele, Magaldi. O Dr. Roberto, com medo, permite ao Magaldi e à sua turma, todo tipo
de bandalheira aqui na Fundação.
— Bela história. E o que isso prova? Que o Dr. Roberto é homossexual? O boato de que o
velho é homossexual corre no Brasil há anos. Até nos jornais isto sai descarado. O Hélio
Fernandes, na "Tribuna" vive botando interrogação na palavra homem quando se refere ao Dr.
Roberto. Você acha que o Dr. Roberto vai ficar na mão do Magaldi só porque ele sabe que o Dr.é
homossexual? — Concluí, fingindo irritação.
— Não. Mas aí é que está. O Magaldi engendrou algo diabólico contra o Dr. Roberto.
Sabendo que o "velho" não admite a morte, e que ele tem dois grandes pavores: o primeiro é o
medo de morrer, e o segundo é não querer que a igreja o abandone no meio da estrada. Magaldi
juntou todas as peças, e criou algo que coloca o velho contra a igreja, explorando exatamente, este
lado devasso do Dr. Roberto."
— Pô, Calazans. Lá vem você, de novo, com histórias. — Disse irritado.
— Não. O caso é real. O Magaldi, na realidade não necessariamente ele, mas a máfia dele,
em conjunto com o Pacote, que você deve conhecer da Televisão, usando de uma coleção de
quadros de sacanagens e altamente libidinosos de outro homossexual, o Sérgio (Beto Carrero)
Murad, montou um livro só de putaria, com a assinatura da Fundação Roberto Marinho, numa
edição limitada. Mas, a grande intenção dele, não era editar o tal livro. Era, antes de tudo, que o Dr.
Roberto soubesse da edição e entrasse em pânico, com medo que a igreja viesse a saber, ou que
este livro fosse a público envolvendo o nome da Fundação."
— E esse livro foi editado, realmente? — Perguntei, como quem está com enfado de ouvir
besteiras.
— Claro. Foram editados 3.500 exemplares numerados. Mas ficou tudo encaixotado. E, daí,
quando o Dr. Roberto soube, mandou destruir tudo. O Magaldi, posando de bom moço, disse pro
Dr. Roberto: "Claro. Imagine se isso vem a público. Imagine a manchete dos jornais contra a
Fundação. Imagine a reação da Igreja sabendo que a Fundação e o senhor, Dr. Roberto, se
prestam a este tipo de coisa. É assim que o Magaldi age na cabeça do Dr. Roberto. É a mensagem
subliminar. Como publicitário ele sabe fazer isto bem.
— Mas do que adianta isto, Calazans? Você vive me contando histórias cujas provas são
quase impossíveis. De que me adianta saber disso, se os livros foram destruídos? — Disse, como
quem não quer nada, mas tentando "pescar"
— Mas nem todos foram destruídos. Todos os diretores amigos do Magaldi possuem um
exemplar e eu consegui salvar do incêndio três exemplares para mim. Vou dar dois exemplares a
você. Um para si e outro pro Francisco Eduardo.
Ainda aturei muita conversa do Calazans naquela noite. Mas, confesso, estava indócil para
dormir, acordar no dia seguinte e rezar para que ele não tivesse esquecido a conversa da noite
anterior.
No dia seguinte deixei o pessoal da equipe, que ainda estava tomando café no hotel e saí
sozinho. A pé. Só. Tentando ordenar meus pensamentos. Eu já possuía, na minha cabeça, um
relatório técnico todo delineado e com um volume grande de informações. Informações estas, que
não poderiam e nem deveriam estar imiscuídas com dados técnicos. Eu começava a temer pelo
excesso de informações, e estava preocupado em como fazer um relatório curto, seco e grosso,
sem misturar coisas muito importantes, com outras importantes também, mas de efeito relativo ou
discutível. (Relatar tudo era impossível. Nem pensar.)
Foi assim, em meio a estes pensamentos, que resolvi fazer vários relatórios, com vários
enfoques e com vários níveis de abrangência.
Era preciso voltar ao Rio. Era preciso amarrar as informações de São Paulo com os
documentos do Rio.
Informei ao Calazans que eu iria voltar ao Rio, e que iria fazer um relatório preliminar ao Dr.
Roberto. Aproveitando a oportunidade perguntei se ele não tinha mais nenhum documento para
me entregar.
Para surpresa minha, ele entregou-me vários documentos, e dois exemplares do tal livro,
objeto de nossa conversa da noite anterior. E, como que retomando nossa conversa disse: —Faça
bom uso, e espero que você e o Francisco saibam como utilizá-los.
Era claro e nítido que o Calazans queria uma cartada definitiva com Magaldi e Jair Lento, e
estava me usando para isto.
De volta ao Rio, o clima era de grande expectativa. Como que sentindo que havia algo no
ar, os colegas de escritório olhavam-me com muita interrogação. E, alguns, sentindo que houvera
êxito em São Paulo, tentavam alguma antecipação, quer por uma sondagem discreta, quer pela
pergunta direta.
Era segunda-feira, dia de todos estarem no escritório. Em tese, as brincadeiras eram
quase sempre as mesmas, mas a graça se renovava a toda hora. Para variar, naquele dia, com o
escritório repleto de homens, entrou uma menina, que trabalhava no CPD e que era muito bonita e
bem feita de corpo, para conversar algo rápido com a Norminha. Foi o que bastou.
Miguel (Duarte) que fora do serviço é um palhaço em tempo integral, quicou a bola. — Aí. . .
(apontando com os olhos) Fazia?
Um mais afoito se antecipa. — Frente, verso e autenticado. — Pareciam colegiais
primários.
A Norminha morria de vergonha, conhecia o pessoal, e sabia cada expressão nossa. Cada
código.
Miguel, muito amigo da Norminha, sentindo o embaraço dela, tenta constrangê-la mais
ainda — 0 Norminha, apresenta a moça pro pessoal. "Garnizé", cumprimenta a moça, seu mal-
educado. E sucedia-se uma enxurrada de gracinhas anônimas:
— Aí, March, já pensou se você não fosse velho?
— Quando chegar em casa eu vou matar minha mulher de porrada.
— Bota tudo em meu nome.
— Fica quieto, Júnior.
Norminha, sentindo que não ia conseguir conversar, sai com a moça e excomunga: — Pôxa, até
parece que vocês não vêem mulher. . .
— Ver até que a gente vê, mas não dessa qualidade.
— Tem gente aqui que viaja tanto que nem lembra mais como é.
Passado o incidente, o clima continua. Mudado o motivo, procura-se um novo.
— Machado, comeu bem em São Paulo?
— Não. A última vez que eu comi bem foi quando eu fui na sua casa. Na inocência e na
maldade somos todos iguais.
— É, depois que ele voltou de Curitiba e experimentou a comida do "Metrô", ele não come
noutro lugar.
Nisto vem passando a Rosângela, auditora séria, que não gosta de brincadeira e dava
esculacho no Miguel todo dia.
Para variar, o Miguel perdia o amigo, mas não perdia a piada.
— O Rosângela, você já andou de Metrô?
(Nota: O 'Metrô' é uma boate em Curitiba. Quando uma equipe ia auditar a TV Paranaense, era
inevitável — toda noite o bando garantia a freqüência da boate, pois ninguém pagava a entrada,
dava-se carteirada com o crachá da Globo, e a conta vinha sempre com um grande desconto. O
dono, ou gerente, ficava feliz da vida com a nossa presença e com as nossas brincadeiras.
Como o clima estava solto, até os que não costumavam entrar na brincadeira se atreviam:
— Olha lá, Machado, quem está se coleteando...
— O Chileno... que porra é essa de se coleteando?
Aí o Chileno tinha que explicar o seu idioma para a gente. Coletear, segundo o Chileno, é a
expressão usada para designar a alegria que o cachorro demonstra abanando o rabo.
Eu perguntei quem é que estava se coleteando, pois eu não havia entendido a piada. AT
respondeu que era o Pedrinho, e falou — Repara só. Ninguém dá atenção pra ele e aí ele vai num,
vai noutro, procura atenção, e fica se coleteando para ver se alguém faz festa para ele.
Nisto, entra o Francisco e alguém grita — Sujou.
Francisco amarra a cara e deixa claro que escutou o sujou.
A figura é a da sempre: Óculos escuros para não se entregar pelos olhos, paletó nas
costas, e duas pesadas malas de auditor (que parecem de propagandista de remédio).
— A festa está boa né Luiz carlos? — Luiz era sempre o mais visado e o escalado pra
bronca inicial, tivesse ou não culpa. Aí ele abrandava um pouco — O Nilo, até você?
Vira-se para mim — com você eu nem falo, senão vai querer responder e eu não quero
brigar. Hoje eu estou calmo, satisfeito, estava brincando com a Vanessa (filha dele) até agora e
não vai ser este bando de malucos que vai me tirar o humor.
Eu mudava de assunto rápido, para a coisa não render — OIha... tenho mil novidades e um
presente incrível. — Eu sabia que depois de provocar a curiosidade, ele até podia fazer tipo, mas
não ia atender ninguém antes de saber sobre S. Paulo e sobre o presente.
Ainda de pé, antes de entrar na sala, ele perguntava para a Norminha sobre possíveis
recados, telefonemas etc.
— Vamos lá, Machado — chamava.
Era religiosamente sagrado, Pedrinho entrava junto, para ouvir, e arranjava um pretexto
qualquer para permanecer na sala. Mas, como eu sou descaradamente mal-educado, calava a
boca e esperava ficar aquele silêncio mortal.
O Francisco ainda provocava. Perguntava sobre S. Paulo, e sobre a Fundação. Eu falava
um monte deabobrinhas, mas não falava nem sobre S. Paulo e nem sobre a Fundação.
Percebendo a situação, Francisco procurava não esticar o jogo e gritava "cai fora Pedro".
Aí, para deixar bem claro que a coisa era pessoal com o Pedro, eu dizia: "Pode chamar o
Nilo, o Chileno, o March, o Luiz Carlos. Chame quem você quiser. Não tem problema, não."
— Pôxa, Machado, porque vocês fazem isso com o Pedro?
— Nós já falamos para você. Você sabe. Que você não queira fazer nada, a gente até
entende. Agora, o que não dá, é você querer que a gente o aceite.
— Francisco, aqui só tem técnico. Tudo profissional de altíssimo nível, tirando uma meia
dúzia de Assistentes, o Staff é de Senior para cima. Aqui, você só é respeitado se for bom
profissional. Ninguém atura esse papo de capinar sentado e administração por time-sheet. Você
sabe... se o cara que está em baixo sente que é melhor do que você, profissionalmente, te engole
ou te faz comer grama. A nossa profissão é uma das raras que só se aprende fazendo, e só sobe
se for bom. Não dá para ter mamãezada e protecionismo.
— Vamos lá... E São Paulo? — Pergunta, mudandoe encurtando o assunto.
Expus-lhe o que havia sido levantado em S. Paulo, ao mesmo tempo em que entregava o
livro que o Calazans havia enviado de presente. Disse que o relatório já estava todo escrito, na
minha cabeça, e que iríamos gastar mais uma semana auditando a Fundação no Rio, e mais uma
semana seria necessária para limpar alguns pontos e/ou colher um ou outro documento.
Francisco estava surpreso e ainda meio desorientado quanto à forma correta de
enfocarmos o assunto para o Dr. Roberto, até porque, o que para mim já fora objeto de reflexão,
para ele ainda era assunto novo. E o volume de informações era muito grande.
Acertamos então a estratégia e linhas gerais. Neste relatório só abordaríamos os
Departamentos de Educação e Televisão, deixando para o futuro os demais departamentos. Mas
não abriríamos mão de ir fundo no trabalho da Fundação. Afinal, foram anos de normalidade, e
tínhamos de dar a volta por cima.
Reuni a equipe do Rio. Orientei o pessoal que ia ficar no escritório, e dirigindo-nos para a
Fundação/Rio.
Todos estavam avisados para não aceitar provocações, e deveriam aceitar a situação, por
mais adversa que ela fosse, não importando os tropeços e as pedras. O objetivo era mais
importante. E, se alguém tivesse que bater de frente, eu iria usar a minha reputação. (Se o
Francisco trombasse, seria abuso de autoridade. Se um subalterno trombasse, seria
insubordinação. Se eu trombasse, seria medição de força.) Neste caso, o melhor era eu trombar.
Estrategicamente, Jair fez funcionar o seu plano, usando o Contador como "agente
provocador". Não dava recados telefônicos para os auditores, mesmo quando o escritório
telefonava. Quando um auditor ia telefonar ele ficava deliberadamente ao lado do telefone. A cada
documento solicitado, o Contador mostrava-o antes para o Jair, para saber se podia ou não
entregar. Demorava horas entre o pedido de um documento e a entrega do mesmo. Eram
entregues pastas erradas, faltavam documentos. E tudo que era sabotagem foi tentado.
Transcorrida a semana o pessoal da equipe estava impassível, aceitando tudo, e
absorvendo todos os golpes. O Contador ia, paulatinamente, se atrevendo cada vez mais, até que
eu resolvi acabar com a brincadeira, pois nós já tínhamos, praticamente,

quase tudo o que queríamos.


— Zé Carlos! (Este era o nome do Contador) Vá falar pro Jair que eu quero falar com ele
agora de manhã. (Era sexta-feira.)
Tudo, dentro do que eu disse, era provocativo. Pois o Contador se apresentava como Sr.
Cruz, e quando muito, dependendo, aceitava Sr. José Carlos, mas jamais "Zé Carlos". Segundo,
porque eu, deliberadamente, falei a coisa em tom de ordem Vá falar. Terceiro, porque eu disse isto
na frente de toda a minha equipe e dos funcionários dele. Quarto, eu chamei o Jair de Jair e não
de doutor Jair. E, finalmente, porque eu determinei prazo e horário.
Ele se empavonou todo, demonstrou haver sentido o golpe e retrucou: "Eu vou ver se o
Doutor Jair pode receber você (e, caprichou no Doutor e no você)".
Internamente eu ri muito, pois senti que a cintura dele era dura e ele não entendia nada de
mind games e de briga de cozinha. E pensei cá com meus botões: "Você não sabe ainda o que te
espera de despedida."
Ele voltou com a resposta, todo satisfeito: "O doutor Jair só vai poder atendê-lo depois do almoço e
da reunião."
Eu poderia ir falar com o Jair a qualquer tempo. Não havia problema, eu sabia disto, mas tinha que
dar uma ralada no Contador por conta das sacanagens que ele havia aprontado com o pessoal
enquanto eu estava em São Paulo.
— Volte lá e diga pra ele que eu quero falar agora. Diga também, para interromper tudo porque eu
estou encerrando os trabalhos e não volto aqui para discutir relatório se ele não me atender agora.
Dessa vez, ele não teve nem tempo de tirar o paletó. Explique-se: nós estávamos num pavilhão
auxiliar, que distava uns 50 metros da sala do Jair, e toda vez que o Contador ia falar com o Jair
tinha que botar o paletó (para falar com o "Diretor") E, dessa vez, meio assustado e surpreso com
o meu tom de voz, ele saiu batido.
Após esses sucessivos bota-e-tira paletó, e um infindável ir e vir ele avisa: "Tudo bem. O
Doutor Jair pode receber você agora."
— OK. vamos lá — concordei.
— Mas é melhor você colocar o seu paletó e acertar a manga de sua camisa. Eu estava,
como sempre, de manga arregaçada. Ele provocou e procurou apoio, com o olhar, dentre os
funcionários dele.
— Vá à merda. Eu falo com ele como e quando quiser. Eu sou um profissional e me faço
respeitar profissionalmente, independentemente da forma como eu estou vestido. Vá procurar a
sua turma, ô capacho!
Eu jamais pensei em ter que dizer isto a um profissional. Mas embrulha-me o estômago
todo tipo de "puxa-saquismo." Principalmente porque ele lambia quem estava em cima e pisava
sem dó em quem estava em baixo. Eu presenciara o seu rebaixamento em várias oportunidades. E
o pior, por mais que ele se rebaixasse, mais o Jair exigia. A ponto de gritar com ele em público,
espinafrá-lo em tom e com palavras degradantes. Ao que o Contador respondia:"Sim senhor,meu
diretor."
Eu tinha engulhos. Tinha vontade de interferir e obrigá-lo a reagir. Queria dizer para ele:
Reaja, faça alguma coisa! Grite, dê uma porrada nele, mas faça alguma coisa! Seja até demitido,
coma merda, mas não coma seu talento e sua dignidade. Afinal, você está vendendo seu trabalho
e não a sua honra." Mas, enfim, a gente não pode viver a vida dos outros ou pelos outros.
Acabei de falar e, ato contínuo, saí em direção à sala do Jair (com o Contador no meu
calcanhar).
Entrei na ante-sala, a secretária (outra que vivia debaixo do tacão do terror) disse. — Um
momento, que eu vou ver se ele está. Como quem não dá importância ao que ouve, eu respondi.
— Está sim, que o Zé Carlos me disse — e automaticamente bati na porta e entrei sem esperar
resposta.
Conforme eu previra, Jair não se mostrou surpreso Ao contrário, estava até alegre, como
que se estivesse esperando por aquilo. Só que ele não estava esperando pelo meu irracional
controlado.
Entrei. Sentei-me em frente dele e o José Carlos justificou: — Não tive culpa, doutor Jair,
ele veio sem paletó e não quis esperar a secretária anunciá-lo.
— Jair, peça pro contador se retirar porque a conversa é com você. — Disse eu,
rispidamente.
Muito calmamente, e até de forma estudada, como se tivesse apartando a briga de dois
colegiais, o Jair falou para o Contador, em tom suave e brando: "Pode deixar Zé Carlos. Eu e o
Machado temos muito para conversar. Está tudo bem." Assim que o Contador saiu, Jair perguntou:
"E aí Machado? Tudo bem? Falta alguma coisa? Posso servi-lo em algo? Estão tratando vocês
bem?" Disse, com fina ironia.
— Tudo bem — falei. Eu vim me despedir e agradecer a colaboração.
— Como? Já acabou? Acabou a auditoria? Não vai discutir o relatório comigo? — Indagou
com espanto e perplexidade, e já sem ironia.
— Não Jair. O relatório é reservado e confidencial. Vai direto pro Dr. Roberto e para o
Magaldi. É bem possível que mais tarde eles o convoquem para ler e dar seu ponto de vista ou
justificativas.
Este não é o procedimento correto de auditoria, mas era exatamente o que ele merecia
ouvir. Eu tinha consciência disto, tanto que mais tarde, ao redigir o relatório eu encaminhei o
"sumário executivo" aos Drs. Roberto e Roberto Irineu, e o relatório, propriamente dito, foi
encaminhado ao Magaldi, com cópia ao Miguel Pires Gonçalves, Humberto Palma, Calazans
Fernandes, e, por último, Jair Lento. (Mas, até receber a cópia do relatório ele ficou com a minha
resposta entalada.)

São Paulo, Aqui Vou Eu


Terminada a primeira fase da auditoria, eu esperava por um relativo e merecido descanso.
Entretanto, parecia não ser esta a minha sina, pois apesar de eu poder começar a parar em casa,
chegando até umas nove ou dez horas da noite, ao invés de uma ou duas da manhã, tendo,
conseqüentemente, mais tempo para o meu lazer e hobby, não seria este, necessariamente, o
meu descanso merecido.
Mas este hobby seria mesmo um descanso?
Devido ao meu hobby de criar cães de raça fila brasileiro, acabei sendo Presidente da
Associação de Fila Brasileiro do Estado do Rio de Janeiro (AFBERJ). Este cargo compeliu-me a
diversas lutas em defesa desta raça nacional, de sua preservação — sem nenhum auxilio oficial —,
e de uma melhoria a nível de divulgação, no Brasil e no exterior. (Isto era algo que irritava-me
profundamente, pois convivendo com a Fundação, eu via que não eram preservados: o fila
brasileiro, o cavalo pantaneiro, o boto cor de rosa, o mico-leão, a ararajuba, etc. Mas, sobrava
verba para financiar livro de sacanagem.)
Afora os problemas normais desta atividade, e da luta em prol da raça fila brasileiro, vi-me
envolvido, por força do cargo, na punição do Presidente da Confederação do Brasil Kennel Club.
Um cartola (eles não existem só no futebol) que pretendia viver às custas de clubes e entidades
filantrópicas. Quer dizer, nós mantinhamos os clubes, e os clubes sustentavam as federações e a
confederação. Ou seja, nós punhamos dinheiro, e ele tirava.
Numa primeira análise, havia de tudo: Ele, o presidente da Confederação, se auto
remunerava, se dava gratificações, 13? salário, mordomias, além de fazer turismo em nome da
Cinofilia. (Numa entidade filantrópica os diretores não podem ser remunerados.) Como
administrador, ele malversou verbas, se auto concedeu empréstimos sem juros nem correção
monetária, e fez trocentas remessas de dólares ilegais para o exterior, cujo resultado final foi uma
ação fiscal que, praticamente, faliu com a Cinofilia e nos retirou a condição de entidade sem fins
lucrativos.
O mais interessante, é que enquanto durou nossa apuração dos fatos este sujeito tentou, o
tempo todo, ameaçar-me e intimidar-me, dizendo-se amigo do Ministro da Justiça (Abi Ackel) e de
um grande e influente empresário: Sr. Machiline (da Sharp). E não foi uma, nem duas vezes que,
por vias transversas, chegou, na Globo, a notícia de que eu estaria perseguindo um pobre coitado
bem intencionado. E, até mesmo fortes lobbies foram tentados, sentido de afastar-me ou demitir-
me da Globo. (Mas isto é uma outra história.)
Por conta, ainda, deste "hobby" cinófilo, eu acabava vendo, encontrando, conversando e
convivendo com algumas das honoráveis "figuras" citadas por mim como eventuais transeuntes do
meu círculo de amizades. Muito embora eu fosse visto com muita reserva política por algumas das
pessoas que faziam parte deste meio. Pois, para eles, nunca foram muito claras as minhas
colocações ideológicas, vez que para a Esquerda radicalíssima eu era parte do sistema ou vendido
por trabalhar para a Globo. Já para o pessoal do Direitão fanático, eu era esquerda radical-chiq.
Isto porque eu usei, durante muito tempo um bottom de lapela com a estrela do PT - Partido dos
Trabalhadores. Mas jamais fui filiado a qualquer partido político.
Resumindo: Minha vida particular não se diferenciava, em nada, da minha vida profissional.
Ao contrário, era muito semelhante, e, às vezes até mais tensa. Como, por exemplo, quando em
uma oportunidade fui procurado por um grupo de justiceiros ou Polícia Mineira, no sentido de
emprestar dois de meus cães para um "serviço de justiça".
Houvera um estupro (crime detestado até por bandidos) de parentes de uma pessoa
conhecida, e queriam uma justiça particular a qualquer custo. Tanto que até já haviam obtido o
retrato falado dos marginais e distribuído a diversos amigos em várias delegacias, para que tão
logo os marginais caíssem, fossem os primeiros a serem avisados.
Eu neguei-me a ceder um par de cães (super agressivos) para este trabalho, e ainda
aleguei que, sendo quem eram, nem precisariam de cães para esta finalidade, bastariam os seus
próprios métodos, ou seja: Um torno com pressão no cérebro até o esmagamento, ou um estilete
para coçar, a frio, os ossos do paciente. Entretanto, a alegação era de que a pressão da mandíbula
de um fila, através de sucessivas mordidas e esmagamentos, seria mais dolorido do que os
métodos tradicionais utilizados pela repressão. E, no caso, o que eles queriam era uma morte
dolorida para os estupradores.
Embora "sensibilizado" com os argumentos declinei do convite, e, fiz com que
transparecesse como normal a justiça com as próprias mãos. Afinal, o que dizer para um agredido
diante da justiça brasileira. Pois, eu sabia que se os estupradores fossem pobres, seriam presos e
violentados na prisão. E, no caso contrário, se fossem ricos, ficariam em liberdade, e as moças
ainda seriam acusadas de haverem se oferecido aos estupradores, e não lhes faltariam quem lhes
viesse bater à porta e acusá-las de "piranhas". (Não é novidade o que eu estou a dizer, mas a lei,
no Brasil, só é aplicada contra pobre. E embora eu seja brasileiro, ainda me espanto em ver um
juiz apreciar a filigrana, a exegese, a hermenêutica, a loquacidade e firúlas de um advogado
influente, ao invés de apreciar o mérito do fato concreto.)
Dias após, ao passar por um dos justiceiros ouvi: — Eles caíram. (Era sinal de que os
estupradores estavam presos.)
Na semana seguinte eu ouvi a simplicidade e a ironia da frieza: Apitaram para subir.
Suicidaram-se com va'rias estiletadas pelo corpo e alguns esmagaram as cabeças contra a parede.
"Mas, o gozado é como é que eles, todos, conseguiram abrir a própria barriga com uma faca. (E
nunca foram ou serão encontrados.)
A justiça estava feita.
A ditadura havia feito escola, e deixara suas seqüelas.
Ar. Eu precisava de ar. E a opção, dentro ou fora da Globo, era nenhuma. Eu precisava de
100 gramas de Suíça e 200 gramas de justiça americana. Afinal, eu me recusava a ser mais um
selvagem da republiqueta latino-americana. E a realidade era brasileiríssima.
Eu estava mentalmente cansado, queria um refresco.
— Francisco. Por favor, deixa eu ficar um pouco no escritório, voltar a fazer a parte fiscal,
treinar novos auditores, e fazer recrutamento e seleção.
Eu não agüentava mais as operações de pega-ladrão, apaga-fogo ou especiais. Queria
respirar um pouco. Eu estava dando choque.
— Tudo bem, Machadinho. Vou te dar uma merecida folga. Você vai para a TV Globo-
Recife passar duas semanas na maior moleza. Hotel em frente à praia da Boa Viagem. Muita
comida típica nordestina, que você gosta, que eu sei. E um servicinho absolutamente normal.
— Não tem sacanagem? — Perguntei.
— Não. Na TV Globo-Recife não tem sacanagem. O Cléo Nicéas tem tudo controladinho. É
uma auditoria normal. Só balanço, relatórios, procedimentos, análise fiscal. Tudo normal.
Não sei porque, mas eu não acreditava naquilo. Era bom demais para ser verdade. Nada
de roubo, trambique, falsificação, desvios, mutretas, etc. Nem parecia trambique.
Preparei meu espírito e meu coração. Enfim, um serviço normal após tanto tempo.
Na véspera da viagem (tudo confirmado: passagens, hospedagens, papéis de trabalho,
equipe, etc), o Francisco me chamou para um último papo.
— Machado, preciso só te avisar de duas coisinhas. Mas, são coisas bobas: deve ter um
roubo grande do Diretor Financeiro e um outro roubo menor no Frevança (Festival de Frevo). Mas
é tudo muito simples. Você tira isto de letra.
— Porra, Francisco! Você me disse que ia ser tudo normal. Sem roubo, sem trambiques,
sem nenhuma sacanagem.
— Mas eu não menti. Há um tititi de funcionários que querem dedurar os roubos do
Armando (Diretor Financeiro), que por sinal é amigo do Miguel (Pires Gonçalves), o que não é
nenhuma novidade amigo do Miguel ser ladrão. E o Frevança foi um festival. Você já viu festival ou
qualquer outro evento, na Globo, dar lucro ou não ter roubo?
— Mas você disse que não ia ter esse troço. . . Choraminguei.
— É simples, Machado, E SÓ levantar os depoimentos dos funcionários, o total roubado, os
bens dele, uma confissão, e os procedimentos normais. E no Frevança é mais simples ainda, é só
ver quem roubou e quanto.
— Só? — Perguntei como quem quer esganá-lo.
— Pense positivo. (Com ironia.) Veja só: praia, passeio, tudo pago, mordomias, e um
grande relax fora da tensão daqui do escritório. — Disse com suavidade, como quem sabe que não
vai convencer.
Se morrer fosse reversível, eu queria morrer uma semaninha só.
Durante o fim de semana que antecedeu a minha viagem ao Recife, passei a maior parte
do tempo lendo os documentos que o Calazans havia me enviado naquela semana. Era um malote
por dia, com uma média de 3 kgs de papéis diários.
Apesar da primeira fase do serviço da Fundação haver terminado, e o relatório ter sido
entregue, o Calazans mantinha viva a ligação, diuturnamente atualizando-me, e tentava, a todo
custo, convencer-me a falar com o Dr. Roberto (para demitir o Jair Lento e o Magaldi), ao mesmo
tempo em que ele batalhava, por todos os meios, no sentido de impor meu nome como um nome
de consenso (consenso só dele e do Matsumi) para ocupar um cargo na Fundação, acima da
Diretoria, e que seria o elo de ligação desta com o Secretário Geral. Isto porque, dentre as diversas
sugestões apresentadas pela auditoria, no relatório constava uma, de caráter geral, que era
exatamente esta: entre o Secretário Geral — que é um cargo político — e a diretoria, deveria haver
um cargo técnico (controller) para apreciação e avaliação de todos os projetos e suas
movimentações financeiras. Além de vir a ser o responsável por toda organização e normatização
daí pra frente.
Só que a visão da auditoria era técnica, e os cargos existiriam independentemente de
pessoas, enquanto que para o Calazans, que acha que até aniversário de criança é fato político, a
coisa seria um pouco diferente. Bastaria uma ligeira pressão e ele se transformaria em Secretário
Geral, eu então controller, e os demais diretores continuavam como estavam. Entretanto, eu não
apoiava esta opinião, pois até determinação em contrário, esta seria uma decisão pessoal do Dr.
Roberto, e o Magaldi deveria continuar sendo o Secretário Geral.
Fui para o Recife com o firme propósito de não envolver-me emocionalmente com os fatos
da auditoria, e, tanto quanto possível, ser irresponsável — quase tanto quanto um empresário
brasileiro.
Resolvi levar rigorosamente a sério as recomendações iniciais do Francisco: praia, passeio,
mordomia e relax. Acordava às 6h30min, às 7 horas já estava correndo na praia, e descansava até
8h 30min. Ia pro hotel, tomava banho, e fazia um farto desjejum (próprio de bons hotéis). Às 9h
30min eu já estava na TV Globo-Recife. Procurava preocupar-me com o que almoçar, aonde jantar
e o que fazer após o jantar. Recusava-me a pensar em trabalhar após as 19h. Queria ser um
trabalhador comum, com hora para entrar, hora para almoçar e hora para sair. Queria experimentar
um pouco desta normalidade.
Como quem apronta seu roteiro de viagem, eu me impunha uma antevisão do almoço e do
jantar: carne de sol, com cebola doce em cima, manteiga de garrafa e farinha grossa. Refresco de
pitanga para acompanhar. E, para sobremesa, queijo frito com mel de engenho. A noite, após o
jantar, curtindo a brisa marinha e o calor das noites quentes do Recife, comer sobremesa andando
pela calçada da praia: chupando serigüela ou pitomba. Eu adoro curtir a simplicidade das coisas.
Felizmente tive a oportunidade de, em função de ser auditor, viajar Brasil afora, podendo curtir
cada pedaço de chão desta terra maltratada. Às vezes pensando em como é difícil para o brasileiro
comum curtir o Brasil. Seus lugares, seus hábitos. Desde, no norte, subir o rio num "motor", e
comer uma "banda" de tambaqui na brasa, ou enrolado em folha de bananeira. Tomar guaraná no
Amazonas. Descer pro nordeste e sentar num restaurante de beira de praia e comer patinha de
uçá (aquela pata enorme — maior do que o próprio caranguejo) com limão e batida. Comer a
lagosta e o camarão do nordeste. As frutas de cada região. A apimentada comida baiana. A
"lambreta" com limão e pinga. Ao leste, curtir a tradicional comida mineira, a carioquice da feijoada,
do mocotó, da rabada com polenta e agrião, do cozido, da peixada com pirão e molho de camarão.
Ir ao Sul e ver: o que é melhor do que um churrasco de costela de ripa em meio ao interior gaúcho?
Quem sabe um "pintado" na brasa bem no coração do pantanal, no Centro-Oeste.
Gozado, vendo e revendo agora certas coisas, eu comecei a notar que conheci mais
lugares pela boca do que de qualquer outra forma. Creio que é por isso que detesto almoço e janta
de hotel (qualquer que seja o hotel). Nada é pior do que isso, ou do que comida de restaurante de
centro de cidade (exceto São Paulo; São Paulo é o mundo gastronômico dentro do Brasil).
Meus pensamentos iam longe, muito além da realidade pernambucana. Levando-me aos
meus filhos e aos meus cães. Eu pensava em como é bom abrir todos os canis e soltar todos os
cães de uma só vez. Ver as crianças rindo e brincando com os cães, todos em perfeita harmonia e
equilíbrio, numa muito positiva troca de energia.
Incrível, como um animal tão violento como um fila pode ser tão meigo e dócil. É fantástica
a fidelidade de um fila. Eu sempre amei demais os meus cães, e genericamente a raça fila
brasileira. A fusão desta paixão à minha paixão maior, que eram os meus filhos, era tudo que eu
tinha de mais caro na vida.
Sempre me senti um privilegiado: a vida me tratava muito bem, e eu não admitia haver, no
mundo, ninguém mais feliz do que eu. E esta era a paz que eu precisava para enfrentar o resto.
A partir daí não importavam as circunstâncias de pressão, e nem as possíveis
adversidades. Eu tinha a paz interior necessária para o meu tipo de serviço.
Voltando para o motivo da minha presença no Recife: já sabíamos como o diretor
(Armando) roubava: ele pegava todo o dinheiro em caixa do início do mês e devolvia no final.
Neste meio tempo ele aplicava este dinheiro, particularmente, onde o crédito era direto em sua
conta. E já tínhamos depoimentos, provas documentais, e uma noção da extensão do golpe.
Sabíamos sobre os bens particulares comprados por este diretor, e tínhamos tudo alinhavado em
grandes números.
A princípio, o golpe era muito simples, mas havia alguns requintes em sua elaboração, pois
todos os balancetes estavam perfeitos, fechavam corretamente mês a mês, e, se ninguém o
delatasse, ou se não houvesse alguém superior ao diretor financeiro para cobrar dele o que era
feito com o dinheiro {Source and applications of funds), muito dificilmente ele seria descoberto, ou
pelo menos levaria um longo período praticando sua "operaçãozinha" particular.
Já quanto ao Frevança, a coisa era mais complicada. Pois, de concreto, só tínhamos os
tapes, onde via-se um grande número de público, num estádio cheio, em contraste com uma venda
espelhada no bordereaux de menos de 10% do público real. Como não havíamos sido chamados
para tomar as medidas necessárias antes do festival, o nosso papel passava a ser de apenas
constatadores de evidências. (Isto porque, como é regra da turma que rouba nos "eventos", tudo
era destruído posteriormente: talões, canhotos, tickets, mapas, controles, documentos etc. Sem
falar nos acertos verbais: Merchandising acidental, contratos de boca, etc.)
Eu já havia antecipado isto ao Francisco, e não esperava grandes coisas num caso comum
de diretor ladrão, e de um roubo generalizado em "eventos". Mas, para ele, Francisco, era sempre
bom pegar um dos amigos do Miguel (Pires Gonçalves) roubando, pois demonstrava, para o Dr.
Roberto, que se ele (Miguel) não havia ainda sido pego roubando na Globo, a regra pros seus
amigos era bem ao contrário. (Havia, no Francisco, um prazer especial em provar que os amigos
do Miguel roubavam.)
Após a primeira semana retornei ao Rio para passar o fim de semana, pois não queria ficar
sábado e domingo no Recife. E, além do mais, eu tinha que fazer um relato verbal ao Francisco
sobre como estavam as coisas, e receber toda a minha (vastíssima) correspondência da semana.
(Os malotes do Calazans.)
Para variar, Calazans havia me mandado quilos e mais quilos de correspondência, via
malote. Havia deixado vários recados telefônicos dizendo que precisava falar comigo com urgência.
Vim a saber que àquela altura ele já estava quase que impingindo meu nome, usando como
pressão: Humberto Palma, Miguel Pires Gonçalves e o próprio Magaldi.
O Francisco colocou para mim que era quase que inevitável a minha transferência para
São Paulo. E indagou-me se eu queria que ele negociasse a minha transferência. Concordei e
tracei as exigências básicas: queria um bom aumento, acima dos 25% de transferência. Queria
uma casa de três quartos e muito quintal pros meus cachorros, em um local de bom padrão, na
zona sul (Morumbi, Cidade Jardim ou Cidade Universitária) ou zona oeste (Lapa, Perdizes ou
Pacaembú). Tinha certeza de que o Francisco seria melhor negociador do que eu pois, ao
contrário do que se possa pensar, ele era muito cioso na defesa dos interesses dos auditores que
saíam para ocupar cargos em outras empresas do Grupo. E ficava orgulhoso quando a
transferência era para uma posição importante, uma vez que era a forma de demonstrar que a
melhor opção para o Grupo era um ex-auditor num cargo de direção.(Assim não teriam tantos
ladrões dentro da Globo.)
Ainda passei mais duas semanas no Recife, encerrando o "caso Armando", quando, no
último dia, já no hotel, com as malas arrumadas, faltando umas duas horas para o embarque, toca
o telefone. Era uma conhecida voz feminia falando com torte sotaque castelhano. Eu não
acreditava em como a Terezita (Assistente/Secretária) do Calazans havia conseguido me localizar
no hotel, principalmente porque na auditoria ninguém dava o paradeiro de ninguém. (Mas o
Calazans havia telefonado para Deus e o mundo para saber em quais empresas havia trabalho de
auditoria. E, por tentativa e erro, chegou na TV Globo Recife, no Cléo Nicéas e, conseqüentemente,
no hotel onde eu estava.)
Para variar, exaltou as qualidades e importância da Fundação, e da importância da minha
aceitação e ida para trabalhar em São Paulo. Foi quase uma hora de conversa, tentanto
convencer-me a aceitar o cargo de Controller, alegando inclusive, que já havia um consenso
Global em torno do meu nome. E que só dependeria de mim e das exigências que eu estava
impondo ou que pudesse impor.
Ao chegar no Rio, Francisco confirmou a pressão que o Calazans estivera fazendo (isso
ele fazia como ninguém), e que só dependeria de mim a aceitação da transferência, pois tudo o
mais havia sido acertado e concordado por todos.
— Todos concordaram com a minha indicação para o cargo de controller? — Perguntei.
— Bem, todos, todos, não. 0 Jair Lento foi contra. Mas isso não é importante. Ele está com
medo e com ciúmes. Está tudo acertado, É SÓ você ir lá conversar com o Magaldi, acertar os
detalhes finais e sua mudança que, por sinal, a Globo também vai pagar. — Concluiu o Francisco.
Assim as coisas foram se desenrolando. Cada vez mais rápido, no sentido de eu ir de vez
para São Paulo. Como já estávamos próximo do fim de ano, o clima era típico daquele que
antecede o Natal. Tudo era motivo para comemorar. Havia o almoço de confraternização da
auditoria, o meu almoço de despedida, a bagunça de fim de ano no escritório, a festa da Fundação,
no Depto. de Educação, a festa da Fundação, no Depto de Televisão, e a festa geral da Globo.
Enfim, não faltava motivo para eu comemorar a transferência e o Natal.
Eu sentia muita energia positiva na sinceridade dos meus colegas auditores.
— Aí, hem... crachá prateado! (Símbolo máximo de vaidade Global.)
— Vais pagar um almoço no melhor restaurante do Rio. — Eu brincava e dizia que não
havia "o melhor restaurante do Rio"; havia o menos pior.
Foram tantas as manifestações que realmente era doloroso sair da auditoria.
Principalmente pelo ambiente de camaradagem, capaz de transformar em máxima uma frase de
caminhão: "Nóis sofri, mais nóis ri."
Fui dispensado de todo o serviço e autorizado a "voar" com liberdade, tempo exclusivo
para dedicar-me a cuidar de meus assuntos pessoais. Pude sentir-me como um perfeito
vagabundo, pois não estava acostumado a não justificar, todo o dia, o que, como e onde eu havia
gasto o meu tempo. Era uma sensação estranha não ter que preencher time sheet e não justificar
dia a dia o meu trabalho.
Eu fui a todas as festas, principalmente às da Fundação em São Paulo, e pude ir me
entrosando, mesmo antes da transferência oficial. Até porque fui muito bem recebido pelo
Calazans e pelo Matsumi, e por todos os componentes de seus departamentos.
Sentia-me completamente à vontade, e achava que em razão disto teria todas as
condições possíveis para desenvolver um bom trabalho e colocar toda a parte organizacional da
Fundação em ordem.
As ajudas vieram de toda parte. Desde a assistente do Calazans, Terezita, que ajudou-me
a encontrar uma casa no Morumbi e providenciou toda a minha acomodação. Tratando inclusive da
mudança. Até o Matsumi, que se prontificou a ser meu fiador no aluguel da casa. (Isto porque a
Globo não quis alugar diretamente em seu próprio nome e resolveu conceder-me o pagamento
através de uma PJ — Pessoa Jurídica — aberta em meu nome, especificamente para receber
aluguéis e gratificações futuras, e fugir do imposto de renda. Casa de ferreiro, espeto de pau.)
Seria mesmo?
Se, por um lado eu temia por perder o pique das brincadeiras do pessoal do escritório do
Rio, por outro, eu sentia que o pessoal de S. Paulo era tão bem humorado quanto. Matsumi era um
palhaço. Vivia de brincadeira com outros diretores, dentro e fora do seu departamento, e até
mesmo com alguns funcionários. Adorava tirar o Calazans do sério, e inventava mil histórias. Dizia
que o Maruilson (afilhado do Calazans e seu auxiliar direto) foi coiteiro do "Coroné Chiquinho". (0
Matsumi chamava o Calazans de "Coro-né Chiquinho", pois o nome completo do Calazans é
Francisco Calazans Fernandes. E ainda segundo Matsumi, Calazans era um grande latifundiário
no Rio Grande do Norte, sua terra natal.) Inventava um diálogo, possível, entre Maruilson (então
um menino de porteira da fazenda do Calazans) e o próprio Calazans:
— Maru... (apelido do Maruilson) pega us pau pra disatolá us boi (imitava a voz do
Calazans, com forte sotaque nordestino).
— Vou não, coroné (imitando o Maruilson).
— Vai, minino. Us boi tá tudo atolado.
— Vou não, coroné. O coroné é muito rui cumigo.
— Ruim como? Minino cabra da peste...
— Da úrtima veis, eu tarra disatolanu us boi pela bunda i o coroné ferruou elis, i elis
bostejarum tudu mi mim . . . vô nada. . .
O Maruilson xingava o Matsumi de tudo que era forma. O Calazans ria e dava o troco.
Sabia que não podia ficar competindo com o Matsumi em sacanagem.
— É, Japonês... Você é alegre mas é para esconder a tristeza de não saber quem são teus
pais. Japonês chega ao Brasil sem pai e nem mãe. O pai, foi o último que saiu do bordel; a mãe,
ainda trabalha lá.
Matsumi ignorava, solenemente, toda provocação.
— Coroné... (imitando nordestino) u sinhô ainda comi raspa de tijolo e ingoli vrido? —
Ataca Matsumi como que não ouvindo a provocação.
— Japonês... Você sabe por que japonês tem olho puxado?
Como o Matsumi sabia a resposta ( que era: porque o médico, ao invés de dar o primeiro
tapinha no traseiro do recém-nascido, enfiava o dedo), dizia:
— É porque é descendente de nordestino, que tem os olhos apertados de fome e é
amarelo de icterícia.
E se deixasse, a coisa ia longe. Virava, mexia, e lá estava o Matsumi sacaneando quem
quer que fosse. A graça das coisas que ele dizia, é que sempre havia uma seqüência, embora
breve e seca. Se, por exemplo, o Maruilson perguntasse pro Calazans: — Onde estão os fotolitos
pro jornal assim assado...? — Se o Matsumi ouvisse, atravessava a conversa e sacava: — Lá nu
quartu de guardá us páu dus boi. — Aí o Maruilson "subia a serra".
Matsumi virava-se para o Guerra (Gerente Administrativo), que é português, e dizia: —
Grande Guerra... Isso é inteligente que dói. Português inteligente (ironizava). Meu sonho era ser
português. Se não fosse japonês, eu queria ser português. Era o sonho da minha vida. Desde
criança, eu vivia pedindo pro meu pai: Papai, papai... quando eu crescer deixa eu ser português? E
o meu pai respondia: Larga mão de ser maluco menino, porque senão você acaba burro que nem
português.
O Guerra fingia que não ouvia. Às vezes ria, mas não ligava. Não adiantava.
Um dia o Jorge Matsumi e o Carlinhos (Carlos Justino) — um diretor geral, outro, diretor
executivo — resolveram me contar (a sério) o porquê do cacoete do Jair Lento. Explico: Jair Lento,
diretor financeiro e administrativo da Fundação, tem um cacoete bastante visível, que é distorcer a
voz, e falar pelo nariz, ao mesmo tempo em que vira a cabeça para o lado, esticando o pescoço e
simulando estar ajeitando o colarinho.
No tempo em que o Jair era recruta e ordenança do Coronel Paiva Chaves (Diretor da
Globo), ele cuidava da égua do coronel. De tanto viver esfregando a água, e a água bater com o
rabo espantando as moscas, ele pegou o cacoete de fugir do rabo da égua, esticando o pescoço e
virando a cabeça pro lado.
Jair foi subindo de posto no exército, foi subindo, até que um dia já podia ter seu próprio ordenança.
Pegou a égua, levou na Lopes Quintas (Emissora), enfiou ela no elevador e colocou na sala do
Coronel Paiva Chaves. Que, naquela época, era um importante diretor da Globo. O Coronel,
quando reviu o soldado Jair, que agora era major, falou pra ele: — Jair. O que você está fazendo
atualmente? Jair respondeu: — Nada, Coronel. — O Coronel convidou:
— Quer trabalhar na Globo? — Jair, de pronto: — Claro. — Coronel:
— E o que você sabe fazer? — Jair: — Nada, Coronel. — Coronel:
— Não faz mal... vai pra Fundação que ninguém nota.
Calazans se esforçava para não rir. Mas ficava mais engraçado fazendo tipo e
dissimulando o riso do que risse abertamente. Numa dessas vezes, justamente na segunda
reunião de diretoria a que compareci, quase que vai tudo pro espaço. O Jair, talvez sentindo-se
desconfortável com minha presença, ficou atacado do cacoete. Era um tal de segura o colarinho e
estica o pescoço, que irritava. Carlinhos, sentado entre Calazans e eu, sussurrou no ouvido do
Calazans, mas audível para quem estivesse ao lado: — Tch, tch, tch... ôôô... Calma. — Calazans
ficava vermelho, disfarçava, e do outro lado o Matsumi atacava (alto): — A égua hoje está fogo...
Calazans perdia o controle, não falava mais nada com nada. Esticava a conversa, tipo conversa de
potítico, para dar tempo de raciocinar e pôr os nervos em ordem. O Nelson (Mello e Souza), que
não estava entendendo nada, perguntava: — Égua? Que égua?
— O Matsumi consertava: — Não é égua não. É a égua. A água está fogo. Está quente, e o calor
está brabo. — E tudo ficava no lugar.
Era muito difícil uma conversa ser chata com o pessoal da Fundação (São Paulo). Tinha
muita gente inteligente, e o pique era bastante elétrico.
— Dá-lhe co-piloto.
— É a velha.
Este insólito diálogo era uma rápida passagem minha diante da porta do Luiz Lobo.
O Lobo estava escrevendo o Zero a Seis (um programa da Fundação, voltado para a
discussão dos problemas da faixa etária de zero a seis anos) e, como o tempo de televisão tem
que ser coordenado com o texto, o Lobo escrevia os textos com um cronômetro ao lado. Daí, toda
vez que eu pegava ele distraído, eu soltava um "co-piloto" ou então provocava: "Lupus", "a", "um";
e ele fazia um gesto obsceno, mandando-me para algum lugar, ou mandava mesmo.
O Lobo tem um mau humor ótimo. Além desta, tem outras qualidades: é flamengo e não
gosta da Mangueira. Como todo carioca, adotivo e adotado, pertencente à intelligentzia é blasé e
iconoclasta. (Regra máxima da Intelligentzia de bar.) Não gostava quando eu desancava com a
Intelligentzia, e dava a "receita do bolo" do intelectual carioca: "Pegue um carioca qualquer, faça
uma imersão cultural de seis meses de leitura de orelha de livro e de leitura de sinopses de best-
sellers. Posicione-o contra tudo, principalmente contra o óbvio e os consensos. Ensine-o a ser
blasé e a achar absolutamente normal, do quotidiano à aterrisagem de um disco voador no Bairro
Leblon. Encha-o de chopp, pois estão intimamente ligadas a inteligência e a metragem cúbica de
chopp. Mexa bem, e aí nós teremos um intelectual especializado em generalidades."
Aí eu virava "reacionário", "conservador", "anti-contracultura", "sintetizador de rótulos", ou
simplesmente um "fidaputa".
Eu não estava sentindo muita diferença entre o clima do pessoal do Rio (auditoria) e de
São Paulo (Fundação). O pique do pessoal era muito bom. Eu só não sabia é se em São Paulo o
pessoal iria reagir igual, ou tão bem, diante da pressão e adversidade.
Em termos de satisfação particular, eu sentia-me melhor e mais bem instalado em São
Paulo do que no Rio. A qualidade de vida em São Paulo é ótima, e há uma reação expansionista
interessante, pois a miséria é expulsa para a periferia, como numa máxima econômica de que a
moeda boa expulsa a moeda má. E com isto, a partir do centro, pode-se morar bem na zona sul,
na zona oeste, ou até mesmo na zona norte (exceto zona leste). Bem diferente do Rio, que mesmo
quando você mora bem, está a cinco minutos da favela mais próxima. Eu não tenho nada contra a
pobreza e a miséria. Muito pelo contrário. O que indigna-me é a pobreza com a falta de dignidade.
Pois você vai ao Sul e vê gente paupérrima, morando em casas de madeira, e vê tudo bem
cuidado, bem tratado. A maior limpeza. Você não vê sujeira. Não há imundice e nem indignidade.
Enquanto que a pobreza no Rio é sempre indigna. 0 sujeito mora e convive com o lixo. Ele vive e
mora numa lixeira. Atira lixo pela janela. Joga lixo na rua, e acostuma-se a viver na pocilga.
A diferença básica é que a pobreza no Sul é digna e limpa. No Rio, a pobreza é humilhante,
indigna e porca.
Eu curtia São Paulo, e não tinha o menor receio em dizer isto, no Rio ou em São Paulo.
Sabia que as pessoas não acreditavam, pois alguns paulistas achavam que eu gostava de São
Paulo de forma circunstancial. Ou seja: só porque agora estava morando lá. Outros, cariocas,
achavam que eu gostava de São Paulo por traição ao Rio. Era difícil fazer-me entender diante de
uma coisa simples: a qualidade de vida lá era melhor. Podia-se andar horas e horas sem ver ou
conviver com sujeira e imundice. Para mim isto era ótimo.
Quando eu voltava ao Rio, a passeio, revia amigos e conhecidos, e procurava informar-me com
alguns cinófilos como estavam as coisas no clube, na federação e na confederação. E era difícil
fugir da sabatina óbvia:
— E São Paulo... É bom?
— Está estranhando o clima?
— O pessoal é legal?
— E a adaptação das crianças, escola, e amigos novos?
Mas o mais constrangedor, mesmo, era ter que fugir da inevitável sabatina política. Ainda mais
quando a indignação esquentava o sangue e a língua coçava. Pois havia um movimento monstro
pelas "diretas já", e a Globo anunciava tudo, menos o movimento de povo na rua. Panelas batendo
e buzinas na rua? Nem pensar. O país anunciado no Jornal Oficial Nacional da Globo era ótimo.
Tudo estava bem. Não havia fome, miséria, insatisfação e nem nada. E, nessas horas, assim como
a maioria dos jornalistas dignos e que são proibidos de noticiar o que sabem, eu morria de
vergonha de trabalhar num veículo tão indigno. Tudo que eu via era a distorção da verdade, o
escamoteamento, e verdades de uma perna só. Ouvir as duas versões? Nem pensar. Meu sangue
fervia como num miserável John Doe. Como esperar alguma coisa de um canal concedido,
subserviente ao órgão concedente, e dizendo a verdade em função de quem anuncia? Como
esperar isenção e decência de uma verdade orwelliana? O próprio país era regido pel'A Revolução
dos Bichos. Todos eram iguais perante a lei, só que uns eram mais iguais do que os outros. Kafka
era "processado" todos os dias. O banditismo elitizado campeava. Eu tinha nojo de viver numa
republiqueta terceiromundista. O Brasil sempre foi um país de cagões, Deixamos de ser Estados
Unidos do Brasil para ser Re-publiqueta Federativa do Brasil por imposição dos Estados Unidos da
América do Norte. Vi o nosso presidente, humilhado, representante máximo de todo o povo
brasileiro, que há muito posava de machão, que prendia, torturava, batia e arrebentava, fazer uma
das mais patéticas declarações e confessar: — Não posso mexer na lei de remessa de lucros,
senão a Cl.A. me derruba no dia seguinte. — Eu ficava espantado e tinha vergonha de viver num
país com gente assim. A antítese do admirável mundo novo, e da velhice shakesperiana: "Oh
Wonder. How many beautifull themankind is".
— Tudo bem?
Esta era a pergunta mais alienada e provocativa que eu podia ouvir. Era duro ter
consciência da realidade e viver de fantasia. Duro era ter que dissimular. Não ser um incendiário
prum radical, e nem "bombeiro" prum alegro ma non tropo beautifful people.
Provocações? Enfrentava com galhardia.
— Como é, guerreiro, foi para São Paulo para agitar no PT?
— Vai ficar mais perto do Lula, né...?
— A coisa mais séria que surgiu no Brasil nestes vinte anos foi o PT. — Eu respondia
irritado, mas dissimulando a irritação.
— É... mas a coisa vai mudar. E, logo logo esta "esquerdinha festiva" vai estar toda
cantando no pau de arara, de novo. — Dizia, ameaçadoramente. — E o teu patrão (Roberto
Marinho)? Vai apoiar quem pra suceder o Figueiredo? Aureliano ou Maluf? — Provocava,
novamente.
— Sei lá... qualquer um que for presidente. (Com o poder, sempre.) E você, está com
Figueiredo e não abre? — Mudei um pouco o lado da vidraça, e dei uma de provocador (O
resultado foi imediato).
— Eu quero que ele morra: vendido pra Globo, com filho corrupto e envolvido em
escândalo. Ele só comendo menininhas em Brasília, e a mulher borboleteando com Deus e o
mundo — disse irritadíssimo.
— Ué... Mas ele não era o chefe do SNI? Não foi teu chefe? Não era o "modelo" da linha
durai — Estoquei mais fundo.
— Linha dura porra nenhuma. Nem ele, nem Golbery, nem Nini ou Etchgoyen. Da mesma
forma como a esquerda se divide, a direita se reparte. — Disse, com profunda irritação.
— Cuidado que o Frota sobe a rampa e toma o poder na porrada — aticei mais ainda.
— Pode parar. Você não fala nada da Globo e fica querendo pescar as coisas comigo. Vai
procurar a sua turma, Guerreiro. Afinal, você é infiltrado ou não? Tremendo agente capacitado do
imperialismo dando uma de esquerda radical chiq, com estrelinha do PT no peito. — Ele tentou
devolver-me a bola.
— Eu não sou maniqueísta, mas o grosso dos problemas brassileiros passa pelo
maniqueísmo: patrão/empregado. E o PT teve a coragem de explorar isto, ainda que debaixo de
porrada. Veja bem: Os políticos são patrões, defendendo seus interesses. As notícias são dadas
por patrões. A polícia defende os patrões (e dá porrada em empregados). Não há segurança para
os cidadãos (empregados), mas para defender o dinheiro dos patrões há até perseguição com
helicóptero. A própria lei só é observada contra empregados, pois contra os patrões a lei vira "letra
morta", ou lei que "não pegou". Pode? Um país sério com leis sofisticadíssimas para infernizar a
vida dos pobres e proteger os ricos? Imagine o cúmulo: Você é obrigado a estar servindo um
patrão, caso contrário, você é preso como vadio. Pode: Quando um patrão dá trambique, não
deposita o FGTS, não paga salário, sonega e manda seus funcionários irem procurar a "Injustiça
do Trabalho", não acontece nada. Ele é patrão e a polícia está do lado dele. Agora, quando um
empregado reivindica algo, entra na porrada, dadas pela própria polícia que é mantida com os
impostos do povo. É isso aí. Eu tenho é uma puta vergonha de viver num país assim, onde a maior
discriminação não é, como se pensa, contra a mulher ou contra o preto, mas contra o pobre. Você
não nota, mas a sociedade, a mídia e os meios de comunicação ensinam, deslavadamente, o ódio
contra o pobre. Ensinam a desprezar o perdedor, a cultuar o vencedor e o babaca do herói. Esta
sociedade que está aí sufoca e não dá meios a todos e, quando você cresce, você aprende a odiar
aqueles que não tiveram chance social. Aprende a achar que lugar de pobre é no xadrez. Cara. . .
isto é pregação hereditária do ódio entre seres humanos. Estamos esquecendo o básico: nós todos
somos seres humanos.
— Quer dizer que o Lula é a salvação do país? — Nova estocada de provocação.
— Eu não estou dizendo nada disso. Lula não é a panacéia, mas ele é muito maior do que
você possa supor. O PT é criação dele, e a partir do PT surgiram Menegheli, Olívio, Genoíno,
Greenhalg, Barelli, Pazzianoto e um monte de gente que surgiu e surgirá. Eles estão criando
sociedade. Para eles se você puder. — Complementei.
— É tudo farinha do mesmo saco. Vão chegar no poder, se chegar, e vão fazer tudo o que
os outros fizeram. Vão comprar mansões, remeter dólares pro exterior por baixo do pano, e o povo
que se dane. — Retrucou H.
— Pode até ser. O perfil histórico brasileiro indica isto, mas um dia a base mata eles. —
Ameacei.
— Como assim? — Indagou curioso.
— Nós caminhamos para o controle do Legislativo, do Judiciário e para os "pequenos
assassinatos". Onde o Legislativo vai ter que pagar imposto igual a todo mundo; não vai poder
votar lei em seu próprio benefício; vai ter que trabalhar senão seus integrantes perderão seus
cargos, serão demissíveis como qualquer trabalhador; e a composição da Câmara e Senado será
paritária (metade representada por patrões e metade representada por empregados). Enquanto
que o Judiciário terá que promover a justiça, ou as justiças particulares engolirão os próprios
conceitos de lei, direito e justiça. E isto não é algo pra cinco, dez ou quinze anos, mas caminhamos
para lá. Pois o povo não crê nas instituições, não crê mais em nada. Há uma puta falência de
credibilidade. Por outro lado, tem a turma do osso, que guarda, não divide, não larga e quer o
continuísmo. Cedo ou tarde a sociedade irá partir para as "justiças particulares", e aí sim teremos a
grande revolução social brasileira. Pois enquanto os donos do poder não se sentirem ameaçados.
Enquanto eles puderem rir, cinicamente do semelhante, nada mudará. Mas eles esquecem que a
mudança que ocorrerá no Brasil será sangrenta, pois não há mudança sem dor. (E justiças e
injustiças serão praticadas, tudo em nome dos excessos revolucionários.)
— Que porra é esta de "pequenos assassinatos"? — Perguntou ele, com notada
indignação e curiosidade.
— Isto é da tua e da minha geração. Eu não digo que a intelectualidade de esquerda do
Caderno B só lê e só vê o que for assunto de bar? Mas voltando ao assunto e satisfazendo a sua
curiosidade: "pequenos assassinatos" (e que Elliot Gould me perdoe) é quando um parente seu é
morto por um PM e a corporação não pune o culpado. Dai', você cai na clandestinidade e mata um
PM por dia até eles entenderem que enquanto a lei não for respeitada, vale a lei da selvageria. É
contra todos. "Pequenos assassinatos" é quando você vê um empresário sair ileso, e de repente
você nota que ele, ou parente dele, foi morto por um grupo de extermínio, acima da lei. Quer dizer,
são fiscais do cumprimento da lei usando suas regras próprias. É um movimento lento, que aos
poucos irá tomando forma, até que, como agora, onde a impunidade de quem tem dinheiro
campeia solta, as pessoas se sentirão com coragem de praticar os "pequenos assassinatos", por
se sentirem impunes ou com justos motivos. E no dia em que, por medo, terror, pavor, ou o nome
que você queira dar, os donos do poder entenderem que serão justiçados por injustiçados, e que a
lei da selvageria é incontrolável e animalesca e será usada contra eles, irão sentar-se e fazer um
novo Contrato Social, com leis para valer e serem cumpridas. Antes disso, eu não creio em nada.
São só homens, são só nomes. Meros vampiros sociais.
Gozado. Eu falando desta forma com o H. Fosse alguns anos antes, e eu sumiria
rapidamente só por externar este tipo de pensamento. Mas estávamos em fins de ditadura militar,
entrando na ditadura empresarial, e falar e pensar eram quase permitidos.
Graças a Deus, eu estava em São Paulo, e na Fundação teria tempo suficiente para pôr
minha cabeça em ordem. Ficar um pouco alienado das injustiças sociais, das mentiras da
informação do Jornal Oficial Nacional, e longe do "pega-ladrão"da auditoria. Eu precisava desta
folga. Estava muito indignado com tudo que se passava com o Brasil e receoso da minha postura.
Até porque eu me conhecia bem. Bem o suficiente para saber das minhas reações. Por isso, levar
o trabalho sério a sério, e as pessoas na brincadeira, seria, para mim, antes de tudo, sobrevivência.

A Segunda Auditoria
Eu estava empenhado em ajudar um amigo, Raul Queiróz, a encontrar uma boa casa, pois,
assim como eu, ele havia sido transferido da auditoria para São Paulo, para ser o Diretor
Administrativo Financeiro do Sistema Globo de Rádio em São Paulo. Eu queria eliminar todos os
problemas que havia encontrado quando da minha transferência, fazendo com que ele tivesse
menos problemas do que eu tive em termos de achar um bom local para morar, um bom colégio
pros filhos e que sua adaptação fosse menos sentida.
A minha preocupação era devido ao fato de o Raul haver tido uma péssima experiência em
termos de transferência anteriormente. Ele havia feito um trabalho excelente quando das
negociações e compra da Almec (Pegeaut), tendo sido convidado para um cargo ótimo, a nível de
superintendência, e mudou-se com armas e bagagens para Montes Claros. Entretanto, num
curtíssimo espaço de tempo, por motivos absolutamente financeiros, a Globo resolveu vender a
empresa, e o Raul teve que retornar ao Rio, com toda a família, e morar em hotel. (Os móveis
foram para um Guarda-móveis, as crianças ficaram desorientadas em termo de escola, e a própria
família nem sabia mais onde morava.) Em razão disto, eu, assim como outros amigos da auditoria,
trabalhando em São Paulo, estávamos empenhados nesta tarefa de ajudá-lo.
Seria muito bom ter mais um amigo por perto, mas não era só um simples amigo, e sim um
de qualidade. Pois o Raul é daqueles que trombam fácil, com o mundo inteiro, em nome de uma
amizade sincera. Nosso último trabalho juntos havia sido exatamente no Sistema Globo de Rádio,
que, para variar, fora mais um grande "pega-ladrão", e que será objeto de um enfoque mais
minucioso no livro Inside Globo, parte desta trilogia.
O trabalho do Sistema Globo de Rádio fora iniciado quase que de maneira semelhante ao
da Fundação. Deveria ser um serviço normal, igual ao feito todos os anos, até que mudou-se a
equipe e o enfoque, abrindo-se feridas e mais feridas. Na realidade, não foi nem bem uma
mudança de equipe, mas uma competição de equipe. Pois eu não havia concordado com a ótica
que estava sendo dada ao trabalho. Disse e escrevi isto ao Francisco, chegando mesmo a ser
deselegante com um colega que coordenava os trabalhos, alegando que de nada adiantavam
todas aquelas pastas, todos aqueles papéis, documentos, circulares e etc, e com os números
todos "cruzadinhos", tudo batendo. Se ninguém conversava com os números ou não dava um
enfoque macro aos tipos de problemas que o Sistema Globo de Rádio tinha. Pois eu não achava
normal ver a briga surda de entrega-entrega entre o Superintendente (Lemos) e o Diretor
Financeiro (Mourão), ou que fosse desprezível o apelido do Waldyr Amaral, que às escondidas era
chamado por grande parte dos funcionários da Rádio Globo, de Waldyr do Jabá. ("Jabá", em meio
artístico, significa "bola", "propina". É usado para designar o dinheiro que se dá para que o
comunicador faça merchandising sem a empresa saber, ou para promover um cantor, um artista,
ou para que toque determinada música.)
Fiquei no serviço até que fui convocado (para variar) para outro pega-ladrão, ou apaga-fogo, mas o
Raul continuou com o Sistema Globo de Rádio até o fim.
Deste trabalho restou, de interessante, dentre as outras coisas que serão enfocadas no
Inside Globo, a colocação folclórica do Mourão, Diretor Financeiro; inventor da história do Jaboti, já
contada no inicio deste livro. E que foi ocasionada pela descoberta da troca de notas fiscais entre
empresas do mesmo Grupo. Vale dizer, as rádios que tinham prejuízo faturavam contra a Rádio
Globo (que era lucrativa), para que fechassem o mais próximo do zero a zero, ou seja: com um
pequeno prejuízo ou um pequeno lucro. E, com isto, o lucro da rádio Globo seria diluído entre as
demais rádios do Sistema. (Um interessante sistema capitalista cooperativado.)
Imprensado diante desta realidade provada e documentada; mostrando, inclusive, a
irrealidade do faturamento, e a falta de lógica em se anunciar no próximo veiculo que retransmite
sua própria programação, Mourão, folcloricamente, cunhou a história do Jaboti, como que a dizer:
"Só cumpro ordens. Quem botou o Jaboti na árvore foi o doutor-patrão".
Criatividade nunca foi o forte dos que se sentem impunes.
De volta à Fundação, sentia-me com toda a motivação do mundo em organizar tudo.
Praticamente criando do zero. E foi pensando nisto que convoquei a equipe de O&M da Globo para
implantarmos toda a parte normatizável (a que funciona) na (da) Globo.
Iríamos fazer um trabalho em conjunto, e eu esperava que em um curto espaço de tempo
(um ano) teríamos implantado 80 a 90% de toda normatização necessária. Estava imbuído no mais
puro empenho profissional no sentido de fornecer e municiar de dados a Secretaria Geral, para
que J.C. Magaldi pudesse administrar, eficientemente, a Fundação. Entretanto, este seria um jogo
em que só eu estava com as cartas à mostra. E pude perceber isto muito rapidamente. Pois na
primeira reunião de diretoria ocorrida no Rio de Janeiro, Calazans e Matsumi não foram (fui
sozinho), demonstrando, claramente, que nada havia mudado. Nesta reunião eu pude perceber o
resto: colocaram os meus assuntos para serem conversados em primeiro lugar, e tão logo eu
expus a parte que in teressava à Fundação em São Paulo, gentilmente fui liberado para poder
voltar a São Paulo e não perder muito tempo com as bobagens que iriam ser discutidas pelos
diretores do Rio. Quer dizer, eles saberiam o que estava se passando em São Paulo, e eu (assim
como Calazans e Matsumi) não saberia o que se passava no Rio.
Ao chegar em São Paulo, já havia um comitê de recepção à minha espera. Reunidos na
sala do Calazans, estavam: o próprio, mas Matsumi e Carlinhos. Convidaram-me para a tal reunião,
e Calazans foi curto seco e grosso:
— Como foi a reunião no Rio, Machado? - Perguntou com com uma ponta de ironia na voz.
— Tudo bem. Por que vocês não foram? — Indaguei, com o intuito de confirmar minhas
suspeitas.
— Não fomos para não sermos marionetes. Você acha que mudou alguma coisa com a
sua vinda pra S. Paulo? — Colocou, Calazans, secamente.
— Peraí. Se vocês não forem lá, não lutarem, não mostrarem seus pontos, nada vai
mudar. Eu não posso mudar tudo sozinho. — Justifiquei.
— É que antes a coisa era ruim e nós sabíamos, mas não contávamos que você fosse ao
Rio, e ainda por cima fosse nos trair. - Disse Calazans bastante zangado. (Matsumi e Carlinhos só
olhavam.)
— Que história é essa Calazans? Que papo é esse de traição? — Perguntei com raiva e já
com o sangue prestes a ferver.
— O Nelson (Mello e Souza) telefonou para mim, dizendo para abrir o olho com você, pois
você é espião do Magaldi, e que vai nos trair e trair a Fundação São Paulo. — Disse Calazans,
bem calmo e questionando-me com um olhar.
— Olha aqui, Calazans, não sou espião de ninguém. Estou aqui porque você forçou a
barra e fez com que eu fosse convidado para este cargo. Mas, nem você, por me haver convidado,
nem o Magaldi, por ser Secretário Geral, irão alterar a minha conduta profissional. O que está a
venda é o meu trabalho profissional, não a minha dignidade. Vou fazer o meu trabalho como eu sei
fazer. Se eu não puder fazer, pego meu chapéu e vou embora. Não preciso desta merda de cargo
e não vai ser você nem o Magaldi que vão mudar minha postura. — Disse, em tom bem áspero e já
perdendo a compostura, para acabar com insinuações.
O Matsumi interferiu, junto com o Carlinhos, e fizeram a turma do deixa-disso.
— Calma, Machado. O Nelson (Mello e Souza) envenenou o Calazans contra você dizendo
que você era espião do Magaldi. Você sabe como é... O Nelson é do Rio mas entrega tudo o que
se passa lá, pro Calazans saber. E como você foi propor uma estrutura organizacional tendo como
dirigente máximo o Magaldi, sem mudar nada do que é atualmente, Calazans achou que você era
espião do Magaldi, e mais um membro do cinturão da fidelidade. — Explicou Matsumi.
— Eu não mudei, nem vou mudar as pessoas e a estrutura. Quem designa quem dirige o
quê, é o Dr. Roberto, não eu. Eu estou é implantando normas, padrões, critérios, procedimentos, e
mais uma porrada de coisas que a Fundação não tem. Isto aqui é zona, cada um faz o que quer: o
orçamento é uma zona, não há delegação de autoridade, plano de componentes (plano de contas
departamental), política e prática de investimentos. Vocês querem o quê? Eu não vim aqui para
ajudar o Calazans a derrubar o Magaldi. Eu vim aqui para fazer o meu trabalho. Se o Magaldi é o
Secretário Geral, o problema é de vocês, pois eu vou respeitar a hierarquia, até quando ela for
decente, na minha opinião. - Continuei, sem baixar o tom.
Calazans, sentindo que o caminho escolhido — confronto direto comigo — não seria uma
boa escolha, mudou de tática.
— Desculpas, Machado. Mas a gente tinha que saber se você era firme ou não. Se estava
com São Paulo ou não. Não é que a gente quizesse testar você, mas sabe como é: você é carioca,
pertence à corte (Globo Rio), e tem muito mais afinidade com o Magaldi, com o Miguel e com o
Humberto Palma do que com a gente. — Calazans falou, meio sem graça.
— Nada disso, eu posso ser conhecido de quem quer que seja. Mas, se qualquer um fizer
merda, eu passo com um trator por cima. Não tenho trato e nem acordo com ninguém. Você é que
vive vendo fantasma pra todo lado (amansei um pouco a voz). Eu vou te dar uma vassoura,
daquelas tipo bruxa, não é de piaçava não, para você se divertir espantando seus fantasmas aqui
na sua sala. — Conclui, já mais afável.
A partir daí a coisa voltou a transcorrer aparentemente normal. Digo aparentemente, pois
logo depois tudo se tornou bastante claro. Todos definiram suas posições:
Calazans — Boicotou todo tipo de controle e organização. Principalmente, quando este
controle representava avaliar os seus orçamentos e discuti-los com o MEC.
Jair Lento — Boicotou todo tipo de controle e organização, com receio e ciúmes. (Era o
que eu achava, na época.) Outrora adversário ferrenho do Calazans, aliou-se a ele para minar e
sabotar toda a implantação. Tanto que o trabalho de O&M morreu no nascedouro, e os orçamentos
e projetos do Calazans que foram recusados ou criticados por mim, foram mantidos, por debaixo
do pano, com o consentimento do Jair Lento.
J. C. Magaldi - Adotou uma postura de Jesus Cristo de prostíbulo. Assistia a tudo,
impassível.
A ação de Jair e Calazans era bem coordenada e orquestrada. Algo para ter todo o
sucesso com qualquer um que ocupasse o meu cargo. Pois, se por um lado Calazans não era
simpático ao Magaldi, Jair Lento contava com o seu irrestrito apoio. E, juntos, eles destruíam, à
noite, tudo o que eu construía de dia. Só cometeram um erro fundamental: esqueceram que eu era
auditor, e que eles iriam jogar o jogo que para mim é como um jogo roubado (sem chances para
eles).
A partir do momento em que senti como iriam ser as coisas, armei um esquema de efeito
futuro, de denúncia sistemática, de modo a deixá-los como irresponsáveis e incompetentes (no
mínimo) para todo o sempre.
Março/84 — Calazans recusa-se a seguir a regra do jogo e se opõe ao exame dos
convênios. (Eu denuncio formalmente o fato ao Magaldi.)
Abril/84 — Jair Lento boicota as operações de leasing e todas as proposituras de novas
implantações. (Reitero a denúncia a J. C. Magaldi.)
Maio/84 — Denúncia minha feita a Magaldi, Miguel Pires e Humberto Palma, de que
Calazans havia inchado a estrutura da Fundação, contratando, em massa, um incalculável número
de pessoas, sem que houvessem recursos para tanto. (Além das contratações, ele promoveu
quase todo mundo do departamento dele.) A política do Calazans era a seguinte: sem funcionários
e sem projetos aprovados, ele seria só mais um simples diretor (o que, para ele, era a morte). Mas,
se ele inchasse seu departamento, mesmo sem projetos ou recursos, a Globo seria obrigada a
cobrir o rombo e manter os funcionários. E, caso eu gritasse, cancelasse as promoções e pusesse
os funcionários na rua, ele seria o bonzinho, que contrata e promove; e eu o sacana, que demite.
Isto, sem contar que eu sabia que ele iria aos jornais para plantar a notícia de que a Fundação
estaria demitindo gente em massa, e obrigaria o Dr. Roberto a recuar da decisão.
Esta foi uma das raras vezes em que após uma denúncia minha houve interferência direta
do Rio, até porque eu não tinha nem seis meses de Fundação, e seria um desprestígio muito
grande não atender a uma denúncia destas (principalmente para quem me indicou para o cargo).
Graças a esta denúncia, todos os recém-contratados foram demitidos, e foi alertado ao
Calazans como seria a regra do jogo, e que ele teria que respeitá-la.
De porre, após a reunião que decidiu pelas demissões e cancelamentos de promoções,
Calazans gritava pela janela, quando me via passar em baixo: "DÓl-CODI. . . Sendero Luminoso. . .
Eu estou com sangue nas canelas. E uma sangüeira só. Mas o mundo se acaba e o nordeste não
se rende. Não vai ser um auditorzinho que vai dar piruada aqui no meu pedaço.
Mas, Calazans não é cavalo que se coloca rédea e cabresto. Eu sabia que ele iria
continuar.
Ele estava entre a cruz e a espada. O MEC estava demorando a liberar os projetos. Eu,
internamente, não deixava ele andar sem projeto. Ele teria duas opções: Ou plantava uma notícia
contra a Fundação para obrigar a readmissão dos demitidos, ou plantava uma notícia contra o
MEC.
Foi um mês duro. Eu entrava na Fundação com tudo que era funcionário rosnando pra mim.
O que me desejava menos mal queria que eu morresse de lepra. A tal ponto o ódio foi disseminado
contra mim, que certa feita eu pedi à minha secretária para procurar um local no mapa do guia de
ruas, e ela ao perguntar a um funcionário do departamento de educação: "Você tem um guia?",
(obviamente, referindo-se a guia de ruas) o funcionário (Jaime), um dos que havia sido promovido
de contínuo a assistente, e depois rebaixado, respondeu irritadíssimo: (supondo Guia, como Guia
espiritual) "Tenho Guia sim, e ele me protege contra tudo. E não vai ser um carioca desses que vai
me derrubar. Deus é pai". (A neurose do Calazans, agora era coletiva.)
O humor do Calazans piorava a cada dia. Os porres eram freqüentes. Estava irritado com
Brasília e comigo. Gritava no telefone, com a janela aberta, no andar de cima, e eu escutava da
minha sala, no andar de baixo. (Gritando com o pessoal de Brasília.)
— Eu vou arrasar com a vida de vocês. Vou denunciar esta corrupção toda do MEC. Esta
sapatona (Ministra) filha da puta, que vive alienada igual a Maria Antonieta, e que usa roupa
importada comprada com dinheiro da corrupção, vai ter que cumprir com o combinado. Está todo
mundo levando. Se não aprovarem meus projetos eu denuncio a Ecilda, a Ana e o Veronese.
(Ecilda Ramos é quem aprova as prestações de contas da Fundação, Ana Bernardes é quem
assina os convênios da Fundação, e Marco Antônio Veronese é quem aprova os convênios.)
Alguns dias após, a notícia estava plantada na Folha de São Paulo (17.05.84) sob o título:
"Deputado faz acusações a pessoal do MEC."
Num passe de mágica os nós foram se desatando, e os recursos foram liberados.
Fundo musical: "Brasil... meu Brasil brasileiro... vou contar-te nos meus velsos..."
Junho/84 — Alertado ao Magaldi que os recursos do telecurso 29 Grau seriam
insuficientes, pois estava havendo utilização de verba para cobrir rombos de outros projetos.
Calazans começa a entrar em grande depressão. Os porres agora eram mais freqüentes,
pois ele gastava por-conta, e os recursos do MEC iriam ser desviados para cobrir o rombo do
Telecurso do Bradesco e usados como se fossem a fundo-perdido. Posteriormente seriam cobertos
com notas fiscais, compradas ou excedentes de outros projetos, para efeito de prestação de
contas com o MEC...
"DOI-CODI filho da puta! Sendero Luminoso! Auditor desgraçado! Eu quero que você
morra!" Berrava Calazans quando eu passava em baixo da sua janela, para que eu pudesse ouvir.
(Eu fingia que não ouvia, e isso irritava-o mais ainda.)
Julho/84 — Reiterado ao Magaldi (várias vezes dentro do próprio mês) que Calazans
estava negociando projetos do MEC, sem que soubéssemos a que valores, e quais projetos. E
mais, nenhuma diretriz orçamentária estava sendo respeitada por ele.
Paralelamente, começa a aliança Jair Lento-Calazans, e inicia-se o grande boicote quando
Jair instrui aos seus funcionários, principalmente ao seu Gerente Administrativo, José Alves Guerra,
para ocultar documentos e informações. E, como se fosse um deboche, pede-me informações que
ele deveria dar a mim.
Agosto/84 — É feito um pedido ao Secretário (Magaldi) para admissão de um funcionário
para executar uma determinada tarefa auxiliar, de competência da Controladoria. Ao que o diretor
administrativo e financeiro (Jair Lento) reage, admitindo este mesmo funcionário, para executar
esta mesma tarefa, só que no seu departamento, usurpando, assim, atribuições da Controladoria,
com a complacência do Secretário Geral.
Setembro/84 — Amparado pela não-mediação do problema pelo Secretário Geral
(Magaldi), o Diretor Financeiro (Jair Lento) ousa, cada vez mais; assumindo, paulativamente, em
aliança com o seu outrora inimigo Calazans, o controle orçamentário dos projetos.
A tal ponto estava a interação dos dois, que todos os orçamentos do ano seguinte (1985),
foram aprovados, às escondidas, pelo diretor financeiro (Jair Lento), ainda que tal atribuição fosse
de minha responsabilidade. Mas, como eles sabiam que eu jamais aprovaria uma seqüência de
projetos irreais, cujo dinheiro teria aplicação diversa da pleiteada (tapar rombos de outros projetos),
eles optaram por tentar neutralizar as minhas atribuições.
Outubro/84 — Calazans muda de tática e tenta ser simpático comigo, ao mesmo tempo
em que inicia uma catequese, tentanto reativar todo o processo anterior que motivou a minha
transferência para S. Paulo, mostrando os ideais da Fundação, a (pseudo) erradicação do
analfabetismo, os propósitos altaneiros de filantropia (com o dinheiro dos outros), e tenta uma
aproximação direta. Pois sente que o recrudescimento iria deixar marcas profundas e àquela altura
o próprio Departamento de Televisão já estava escusando-se a comungar com as atitudes anti-
éticas e anti-profissionais, mantendo-se alheio e distante dos diretores dos departamentos de
educação e financeiro.
Como num passe de mágica, passo a ser convidado para almoços, representações e a
várias conversas na sala do Calazans, que antes era restrita aos seus convidados de Brasília.
Entretanto, eu sabia que ele não fazia nada sem segundas intenções, e não tardou a
mostrar o que ele queria: meu apoio para obtenção dos recursos do BID.
Isto determinou o rompimento da recente aliança, pois tão logo percebeu que eu não iria
fazer o que ele queria, mas sim o que eu achasse melhor para a Fundação, e que ao analisar o
projeto eu consideraria os pontos que ele delíberadamente omitiu do Magaldie do Miguel Pires — e
tão logo ficaram sabendo que o dinheiro que o Calazans dizia ser de graça, desviado do esgoto e
das prioridades do nordeste, deveria ser posto em igualdade de condições pela Rede Globo (meio
a meio: o mesmo valor posto pelo BID deveria ser posto pela Rede Globo), e que em razão disto
(segundo Miguel Pires) não haveria interesse por parte da Rede Globo no projeto — ele (Calazans)
reassumiu sua postura de guerra aberta comigo.
Se antes ele convidava-me para conversar com Didonet (MEC), Veronese (MEC), e José
Carlos de Azevedo (Reitor da Universidade de Brasília), agora ele partia para o desafio aberto.
Antes, discutíamos desde a sucessão post-mortem do Dr. Roberto até a sucessão
presidencial no Brasil:
— E você, Machado, que conhece bem a corte (Rede Globo-Rio) e que antecipa bem os
passos do Dr. Roberto, quem você acha que ele vai indicar para Ministro da Fazenda e da
Educação? — Perguntava Calazans, sob a observação do reitor.
— Ninguém. Ele vai indicar o Ministro das Comunicações, o Ministro do Exército e o das
Minas e Energia. — Respondi, no ato.
— Mas não tem lógica. Ministro forte é o da Fazenda. E o maná de recursos está no MEC.
Retrucou Calazans, com a firmeza dos que sabem onde os dinheiros dormem (como ele mesmo
dizia).
— A lógica é a seguinte: Ministro do Exército (Nós somos uma republiqueta sujeita a
golpes. Vivemos a maior parte de nossas vidas debaixo de ditadura. Quem controla o Ministro do
Exército governa o país e adquire impunidade.); Ministro das Comunicações (O ramo do Dr.
Roberto é comunicações. Ele quer um satélite exclusivo, e quer engolir a Embratel. Além do mais,
ele precisa controlar as concessões que forem dadas daqui pra frente — para evitar concorrente
forte.); Ministro das Minas e Energia (A auditoria está sendo convocada para se especializar neste
assunto. Quer dizer, o Dr. Roberto vai investir firme em minério, e vai precisar de mais um Ministro
na algibeira. Isto, sem contar que o grupo todo centraliza suas aplicações (na maior parte) em
ações da Petrobrás e Banco do Brasil. E toda vez que ele (Grupo) quiser manipular a bolsa, basta
anunciar no Jornal Oficial Nacional: "record na produção de petróleo", "descoberto novo poço
monstruoso de produção de petróleo"; e ainda vai contar com o apoio das Minas e Energias e do
Presidente da Petrobrás. O ganho é fabuloso. Basta comprar antes da descoberta e vender depois
— nos Estados Unidos isto é um crime inominável, mas no Brasil não. Pois o conceito de crime no
Brasil é de ilícito, praticado em violação à lei penal por um sujeito de classe economicamente
pobre — Axioma jurídico penal brasileiro: É vedada a prisão, reclusão ou detenção de qualquer
indivíduo com mais de cem mil dólares de renda ou patrimônio. Pois, por princípio, todo pobre é
culpado até prova em com

trário, devendo sua inocência ser sobejamente demonstrada. Enquanto que aos ricos cabe a
presunção da inocência, mesmo diante de incontestáveis e irrefutáveis provas).
— E quem serão estes ministros? — Indagou-me o reitor, curioso.
— Sebastião ou Leônidas, Aureliano e um outro qualquer. Não sei... — Respondi.
— Não tem sentido. Aureliano é candidato à presidência; e os dois, Sebastião ou Leônidas,
dependem do Almanaque do Exército. — Reafirmou o reitor.
— Eu não sei o quê, nem como o Dr. Roberto fará, mas ele não iria colocar o Miguel Pires
como Superintendente Geral de todas as empresas se ele não pudesse controlar o tio (Sebastião)
ou o pai (Leônidas). E, quanto ao Almanaque, é ver para crer. Quem viver verá. — Encerrei o
assunto.
— É Machado, você vive vendo sacanagem em alta escala, daí você acaba delirando. O
que você diz não tem lógica. O exército não vai mudar o Almanaque e o Aureliano não vai abrir
mão de ser presidente para ser ministro. — Arrematou Calazans.
Nota do Autor: Das previsões feitas ao Calazans e ao reitor, só houve um erro, ou melhor,
uma falta de previsão: O Ministro das Comunicações, indicado pelo Dr. Roberto acabou sendo
Antônio Carlos Magalhães. E, acidentalmente, a Globo cancelou, sem nenhum motivo, a
retransmissão da programação da Globo pela TV Aratu, na Bahia, ao mesmo tempo em que
autorizava esta retransmissão por uma televisão de um parente do Ministro Antônio Carlos
Magalhães.
Fundo musical: "Brasil... meu Brasil brasileiro... vou cantar-te nos meus velsos..."
Novembro/84 — Alertado a J. C. Magaldi sobre a omissão de documentos e pagamentos
de Lobby — anglicismo designativo dos jargões:propina, bola, jabá, para obtenção ilícita e
apressada de algo. No caso, liberação de verbas. Este mesmo termo pode designar, também, fina
e socialmente: pressão.
Dezembro/84 — É recomendado ao Controller (no caso, eu): parar de escrever
(Magaldi/Humberto Palma). Calazans assume a briga francamente aberta e parte para um desafio:
— Nós vamos engolir você. Não adianta você ser da auditoria, que já foi o segundo poder
na Globo, pois a auditoria agora está decadente. Se você não aceitou ficar do nosso lado, se
prepare pois eu vou passar com um trator por cima e esmagar você, e o Jair vai passar com outro
trator tambe'm. Eu me associo com o diabo, mas arraso com a sua posição na Fundação. São
Paulo vai ficar pequeno pra você.
Janeiro/85 — Como eu não prometo pancada sem dar, eu não costumo subestimar as
ameaças dos outros. Preparei as formalidades de implantação. Entreguei os manuais de O&M à
Secretaria Geral (que o Magaldi jamais se dignou a implantar), eu fui fazer o que eu sei fazer de
melhor: auditar (a Fundação, por dentro). Indo no osso, expondo as vísceras.
Transformei meu escritório em uma base de auditoria e preparei a maior rede de
operações que qualquer empresa da Rede Globo já viu.
Nesta altura, os telefones da Rede Globo, que sempre foram grampeados, passaram a
ficar com grampo, sobre-grampo e sobre-grampo. A tal ponto, que era comum ligar pro Rio ou do
Rio para São Paulo, e deixar recado no ar, pro outro interlocutor, via agente-de-escuta. (O
assessor da Vice-Presidência de Operações da Globo é especialista em telefonia. Função meio
estranha para um assessor.).
— O do Grampo. Eu tenho que falar com o fulano, dá para você interromper a ligação dele
e conectar a minha que é mais importante? (Silêncio como resposta).
— O da escuta, eu estou precisando de um funcionário de confiança. Você tem alguém
para indicar? (Silêncio como resposta).
— Francisco — aí falando (mesmo) com ele —, sabe que a miséria está acabando? —
Perguntei ao Francisco, levantando a bola.
— Sei não, por que Machado? — Respondia ele, já quase prendendo o riso, pois ele sabia
que quando eu levanto uma bola é pra chutar.
É porque aqueles meninos, pobrezinhos, filhos das prostitutas do mangue, que viviam
vendendo bala no trem, agora cresceram e estão bem amparados e com um ótimo futuro em vista.
— Eu ironizava.
É mesmo? Estão fazendo o quê, agora? — Perguntava o Francisco, já armando pra eu
chutar.
Estão todos trabalhando na Globo, escutando conversa dos outros. (Silêncio. Clic. Minha
risada. Risada do Francisco. E o papo seguia, sem "escuta".)
a coisa tinha mil variações. Qualquer conversa era pretexto para envolver o cara da
"escuta" na conversa. Bastava haver uma discussão, e logo estávamos chamando o "escuta" para
ser mediador ou juiz da conversa. Combinávamos almoço ou jantar, e convidávamos os caras da
"escuta". E foram tantas e tantas vezes, que os caras já haviam se transformado em amigos
íntimos. Já não derrubavam nossas ligações, e nem se ouvia mais o clic quando falávamos da vida
das irmãs e mães dos caras da "escuta". (Abrasileiraram-se).
omo tudo nem sempre é totalmente ruim, ou nem sempre é totalmente bom, eles eram os
melhores meios para disseminarmos as informações falsas. E não foi uma nem duas vezes que
inventávamos notícias (as mais loucas), e logo estas mesmas notícias estavam circulando na
"Central Globo de Boatos". Mas, quando queríamos conversar, realmente, parecia código de
guerra. Era um verdadeiro papo de maluco. Era tanto código, tanto contra-códi-go, que às vezes
tínhamos que nos encontrar pessoalmente para podermos nos fazer entender. Tamanha era a
complicação.
Certa feita eu quase tive cólicas de tanto rir, imaginando a cara dos "Censores" e do
pessoal da "escuta" ao ouvir uma conversa minha com o Pastori, por telefone:
— Machado! — Começou a conversa o Pastori.
— Hã? — Respondi, seco.
— Vou para Petrópolis (lugar onde ele mora, realmente). — Is

to queria dizer que ele ia para São Paulo encontrar-se comigo.


— Vou passar o fim de semana colocando figurinhas e lendo gibi. — Isto queria dizer que a
Rio Gráfica fora autuada em São Paulo num processo fiscal (livros e figurinhas) e que tinham
outras encrencas com a Rio Gráfica. E o assunto era sério.
— Deixa que eu levo "Mineirinho" e "Bohêmia". Isto quer dizer nada, ou melhor, quer dizer
que ele iria comprar "Mineirinho" (bebida que eu adoro e não tem em São Paulo) e "Bohêmia" (a
melhor cerveja do Brasil, feita só em Petrópolis, pela Antarctica, com água mineral).
Eu dava cambalhota de rir — instinto de auto-recreação — imaginando a cara do sujeito da
"escuta" falando pro chefe dele: "Olha chefe. Esse negócio de figurinha e gibi deve ter algo a ver
com a Rio Gráfica, mas esse troço de mineirinho e boêmia, eu não sei o que é não..."
Fevereiro/85 — A "base" de auditoria já estava toda montada por mim na Fundação em
São Paulo. Paralelamente, havia uma grande operação de "pega-ladrão", para "variar" na Rio
Gráfica.
Eu fiz de tudo para ficar de fora. Somente cedi parte das minhas salas para alojar alguns
auditores a trabalho.
Entretanto, vários outros fatos mexeram muito com a auditoria. Um deles foi durante o meu
descanso do carnaval.
Eu estava em casa, deitado no chão e assistindo televisão sozinho, pois é intolerável
assistir televisão comigo. Eu mudo de canal inúmeras vezes, vejo vários programas
simultaneamente. E não precisa dar intervalo para mudar de canal. Basta ser de desinteresse
momentâneo para eu mudar, procurar outro (s) canal (is) ou até mesmo voltar ao canal inicial após
rápido manuseio do controle remoto. Isto sem contar com a minha rabujice habitual de resmungar
e falar sozinho: "Tem muita luz... Não tem teto... Está com excesso de maquiagem... Que merda de
interpretação... é parente de quem?... Que comercial mal feito... Erro de continuismo... Que
pobreza de recurso... Etc."
Quando, de repente, surge uma tomada, ao vivo, do carnaval da Av. Tiradentes, em São
Paulo. A tomada termina com uma

abertura de panorâmica da avenida, com um baita merchandising, ao fundo, da Vasp.


— Alguém levou - pensei. - Pior, que agora vou ter que ficar assistindo só a Globo, pois se
alguém "levou", não deve ter sido para uma só chamada, e eu quero ver quantas serão.
Não demorou muito para repetir a cena, e novamente saiu a quele merchandising. Liguei
direto para a casa do Francisco, no Rio, e antecipei: — Mande alguém rápido aqui em São Paulo
para requisitar as fitas, antes que passe o prazo do Dentei e o pessoal destrua as fitas
"acidentalmente", ou mande cópia "editada" pro Rio.
— Qual o tamanho da coisa? - Perguntou o Francisco.
— Por baixo, estão envolvidos o Diretor Regional de São Paulo (Leopoldo Collor de Melo)
e o Diretor do Jornalismo (Dante Matiussi). Respondi.
— Por que você acha isto? — Replicou, perguntando.
— Se alguém levou, no jornalismo, não levou sem o diretor saber. Senão, nem ia pro ar; e
o pior, não haveria "repeteco", e a equipe toda de rua estaria demitida: Daí, como o anúncio era da
"Vasp", só há um meio de ser feito: por cima. A Vasp é do governo, e o homem da Globo junto ao
Governo é o Leopoldo (Diretor Regional). — Conclui.
A minha intenção não era de pré-julgamento, mas alertar para que o auditor que viesse a
São Paulo não se dirigisse inocentemente ao Diretor Regional, nem ao Diretor de Jornalismo. Pois
eles eram os principais suspeitos.
A partir daí, foi desencadeado novo pega -ladrão, do qual fiz questão de ficar fora. Mais
tarde, após a conclusão da auditoria, ambos os diretores foram gentilmente demitidos. (Leopoldo
Collor e Dante Matiussi.)
Muito embora a coisa fervilhasse ao meu lado, pois tinha pega-ladrão no Sistema Globo de
Rádio, na TV Globo - São Paulo, na Rio Gráfica, e eu decretara o meu pega-ladrão particular na
Fundação, as minhas atenções estavam voltadas para Brasília, mais
especificamente para o Calazans. Pois eu sabia que era fim do governo Figueiredo, haveria o
apaga a luz, e o MEC seria o botim.
Com efeito, o Calazans armou uma concorrência e obteve a aprovação (chegou a ser
aprovado) do projeto "Vivendo e aprendendo", que era o maior embuste já tentado de uma só vez:
60 (sessenta bilhões de cruzeiros ou 2 (dois) milhões de dólares, para um projeto inexistente. Um
verdadeiro estelionato intelectual, destinado a tapar todos os furos dos projetos deficitários da
Fundação.
Comuniquei, de imediato, ao Magaldi, ao Francisco e ao Humberto Palma, que este seria o
trem da alegria mais vergonhoso da Fundação, e que se não fosse cancelado este trem, a
Fundação iria se transformar na maior vidraça do Dr. Roberto.
Ao tomar conhecimento da gravidade da situação a diretoria da Rede Globo interferiu junto
ao MEC, cancelando e pedindo a retirada do projeto da concorrência, mesmo após havê-la ganho.
Quando Calazans soube do acontecido, a coisa foi ao seu limite máximo de resistência: —
DÓl-CODI Filho da puta... Sendero Luminoso carioca. Você tem que morrer. Quer dizer que o
Amaral Neto pode ter verba cativa a fundo perdido. Eu, se pegar dinheiro no MEC, sou ladrão.
Fique sabendo que seu sou "garimpeiro de verbas públicas" e se a Fundação existe, agradeça a
mim. — Berrava Calazans pela janela, ao me ver passar.
Março/85 — O clima era péssimo. Jogavam água fervente nas plantas todas, que
ornamentavam o meu departamento (Violetas, Árvores da Felicidade, Dólares, Pencas de Tostão,
Samambaias, Chefréias). Foram mais de cinqüenta plantas destruídas. O meu carro e o de minha
secretária foram riscados com pregos e clips, na porta da Fundação, e na frente do guarda de
segurança da Rangers. (Que, com medo de ser demitido, coitado, disse nada ter visto. Mesmo que
os carros estivessem, como estavam, a dois metros de sua cadeira.)
Foi reiterada a J. C. Magaldi a denúncia sobre a omissão de informações, fornecimento de
informações falsas, e ausência de documentos.
Agora, de forma acintosa, eram omitidos dados de todas as origens. E, pela permissidade
do Secretário Geral em não punir e nem impedir as novas tentativas do diretor financeiro, até a
gerência adm./financeira, por determinação do seu diretor, alegava ter ordens de impedir o meu
acesso a dados e documentos de qualquer origem.
Abril/85 — Emiti um penúltimo documento a João Carlos Magaldi, explicando que, face à
limitação das condições de trabalho e da impossibilidade de cumprir com o Job discription, eu não
teria mais como auxiliá-lo na minha função. Função para a qual fui convocado pelo próprio Magaldi
e Calazans, dentre outros. Passei a não mais incomodar-me com o dia a dia da Fundação, e
resolvi auditar tudo, particularmente. Pois, já que eu estava ali, por que não trabalhar e produzir?
Decidi que não iria me aposentar na cômoda posição de controller — conivente (e nem viver até
morrer de velho nesta posição). Não lutar não estava nos meus planos e eu iria terminar, a
qualquer custo, a auditoria que havia interrompido antes de entrar para a Fundação.
Comecei a juntar minhas anotações da auditoria anterior e a armar toda a operação. Pois
tudo que havia sido feito de ilegal, antes, estava sendo feito pior, agora. E, com um agravante: com
a ciência de um ex-auditor da própria Rede Globo.
Listei os principais casos, a começar por aqueles que implicavam em intervenção pelos
órgãos públicos — caso fossem descobertos — até descer, em grau, para os casos de sonegação,
contingências trabalhistas, efeitos políticos adversos, roubos e falcatruas etc. A lista inicial era boa
e prometia: uso de verba pública para cobrir projetos deficitários; verbas da Petrobrás obtidas
ilegalmente, com pagamento de comissão (escândalo abafado pelo Presidente da Petrobrás, Hélio
Beltrão, que, por coincidência era vice-presidente da Fundação Roberto Marinho); pagamento de
"comissão" à agência de publicidade para a obtenção de "doações" de empresas privadas; sobras
de verbas e aplicações financeiras não tributadas como lucro pelo imposto de renda; importação
ilegal de equipamento, ou como é chamado na Globo B2; convênio em dólares, sem registro
contábil, estando estes dólares na conta da BEC (empresa da Rede Globo, situada no exterior);
pagamento de "gratificações" a diretoria e funcionários; desvio dos objetivos sociais da Fundação,
por utilização da Fundação para venda de "comerciais" para a TV Globo; compra de notas fiscais
frias para prestar contas com o MEC; pagamento a diretores e funcionários através de notas fiscais
de PJ ( Pessoa Jurídica) para fugir a impostos; caixa dois — em cruzeiros (na época) e dólares;
falsificação de concorrência para algumas compras, e ausência de concorrência (obrigatória para
as Fundações) para as demais compras; concorrência ganha pelo perdedor da concorrência para
beneficiar o diretor da TV Globo; recibos de doação não registrados contabilmente na Fundação (e
sem numeração), "negociados" com terceiros e com empresas das Organizações Globo; e
pagamentos à Globotec para uso de facilidades.
Sem me esforçar muito, eu teria um relatório preliminar bom. E, já que não interessava ao
Magaldi sanar estes problemas, só me restava uma opção: sair da Fundação e voltar para a
auditoria.
Redigi um último documento, intitulado: Cerceamento ao desempenho de função, com os
anexos: Carta de apresentação do Controller, Job discription e Porque a Controladoria não
funciona, historiando, mês a mês, correspondência a correspondência, tudo que foi denunciado e
cujas providências não foram tomadas pelo Secretário Geral (J. C. Magaldi). Este documento foi
enviado a Miguel Pires Gonçalves (Superintendente da Rede Globo), Humberto Palma (Assessor
da Superintendência), Francisco Eduardo Ribeiro (Responsável pela auditoria das empresas das
Organizações Globo), e João Carlos Magaldi (Secretário Geral da Fundação Roberto Marinho e
Diretor da Divisão de Comunicação da Rede Globo).
O primeiro a procurar-me foi o Francisco Eduardo, colocando a auditoria a meu inteiro
dispor para ocupar o cargo que eu quisesse (desde que não fosse o dele, obviamente). Chegando,
mesmo, a reunir a elite e, na frente de todos os colegas, fazer o oferecimento. Eu aceitei, de
imediato, antes mesmo de sair da Fundação ou de mudar-me de volta para o Rio. Só fiz uma
exigência: queria de volta o que antes era meu: a minha equipe especial e o "tax" (Departamento
de impostos).
Era estranho, mas a comemoração pelo meu retorno era quase tão efusiva como quando
eu fui para a Fundação em São Paulo. Os colegas fizeram festa, e nós comemoramos com almoço
e com muita brincadeira o meu retorno. Creio, até, que este retorno representava um alento para o
Francisco, pois ele acabara de perder cinco auditores bons: O Faria foi para a Roma DTVM
(empresa do grupo que faz as operações com títulos e aplicações); o Miguel (Duarte) foi para a
Globovídeo, e March, Nilo e Danilo foram para a Rio Gráfica (Editora Globo) para serem Diretores
de, respectivamente, Comercialização, Finanças, e Administração.
O segundo a procurar-me foi o Humberto Palma:
— Machado... você não acha que este problema da Fundação pode ser contornado?
— Pode. Eu saio. Lava-se a roupa suja dentro da casa. E o Dr. Roberto toma as
providências que deve tomar. — Respondi meio seco.
— Não é isso. Eu falo com relação às encrencas que estão no ar e que dá pra gente sentir.
Não dá para segurar e a gente administrar isto politicamente? — Disse ele, como quem sonda e
arrisca.
— Nem pensar... Vai acontecer o que tiver que acontecer.
— Continuei seco.
— Sabe o que é... você sabe... o Jair Lento é meu melhor amigo, aqui na Globo. Minha
mulher é amiga da mulher dele. Nós temos muita afinidade. E eu sei que ele te sacaneou, te
boicotou, e fez de tudo para você desistir da Fundação. Mas ele não esperava que você fosse ir
tão fundo. Agora, ele está desesperado, e tem certeza de que você só sossegará com a cabeça
dele nas mãos. — Completou Humberto, cheio de rodeios. E continuou: — Eu falei para ele não
trombar com você. Avisei até ao Magaldi para interceder nesta briga. Avisei que era burrice querer
bater de frente com você. Tentei abrir os olhos dele de todas as maneiras, mas ele achava que
estava seguro por ser da "patota do Magaldi" e porque era procurador do Dr. Roberto.

— É... ele foi muito burro, mesmo. As pessoas aqui na Globo costumam perder o senso da
realidade e avaliam mal a maioria dos problemas. — Concordei.
— Eu só quero saber uma coisa. Responda-me, se puder: tem roubo e trambique brabo na
Fundação?
— Tem — respondi.
— O Jair está no rolo? — Perguntou.
— Está.
— Você quer a cabeça dele? — Perguntou.
— Quero.
— Ele tem chances?
— Não — respondi seco.
— Obrigado — disse Humberto, e abaixou a cabeça, sabendo o que viria pela frente.
— Olha, Humberto, eu não tinha nada contra ele. Ele é quem me torrou desde a primeira
auditoria, e piorou quando eu entrei na Fundação. Eu parti para caçar a cabeça dele porque ele me
provocou, burramente, e ainda obrigou ao Magaldi a ficar impassível. Agora, ele vai sambar porque
fez merda, e como ele, vão todos os outros diretores. Não vai ficar ninguém em pé. O próprio Dr.
Roberto se coloca em risco se não tomar nenhuma providência.
O terceiro a procurar-me foi o Magaldi. Antes disso, porém, na nossa conversa anterior,
ainda na sala do Humberto Palma, este preparou meu espírito:
— O Magaldi quer falar com você. Ele está envergonhado porque não teve pulso para
administrar as brigas da Fundação. Afinal, você entrou lá fundamentalmente, para ajudar ao
Magaldi, que era o Secretário Geral, e justamente ele deixou você sozinho contra Calazans e Jair
Lento juntos. Você se incomoda de conversar com ele aqui na minha sala?
— Tudo bem, Humberto. Eu não tenho nada contra o Magaldi. Ele não tinha obrigação de
ser meu tutor ou protetor. Já sou meio grandinho para me cuidar sozinho, e trombar com diretor pra
mim sempre foi festa. — Aquiesci.
O Magaldi entra, meio acabrunhado e, apesar de tudo, há um sentimento recíproco de admiração.
Eu considerava o Magaldi um monstro da mídia eletrônica (algo desconhecido por todos os donos
de televisão do país, que se acham competentes só porque tiveram sucessos pessoais, mas que
não sabem o que, como e porque a coisa mágica do vídeo funciona psicológica e socialmente nos
indivíduos). Ele costumava brincar abertamente e chamar-me pelo primeiro nome (Roméro) e de
"auditor inteligente". (Um deboche e alfinetada no Francisco Eduardo, que ele costumava chamar
de "Xerife" ou "Xerife Lobo" — alusão ao seriado da televisão.)
— Grande Roméro... como vão os filas? — Perguntava tentando descontrair.
— Tudo bem, Magaldi. Os cães vão bem, e eu também. — Respondi meio tenso.
— Você sabia — falou, virando-se para o Humberto — que nosso amigo Roméro é um dos
melhores criadores de fila do país? Os cães dele são capas de várias revistas, e ele é louco por
filas. Magaldi tentava entrar de leve, e continuou: — O único problema é que ele acaba assumindo
a personalidade dos cães, e quando ele fica agressivo é pior do que um fila brasileiro raivoso. —
Concluiu, tentando tornar o assunto engraçado... mas o ar era pesado.
— Magaldi, é até bom você puxar esse assunto de cachorro, pois eu tenho algo para falar
com vocês dois. É o seguinte: fizeram duas fofocas e dois pedidos diferentes por pessoas
diferentes, pedindo a minha cabeça, aqui na Globo, por conta de briga na Cinofilia. O primeiro foi
feito via Miguel Pires, e o segundo foi feito via você mesmo, Magaldi. É obvio que não deu em
nada, até por eu ser quem sou. Mas se eu fosse um funcionariozinho, que trabalha dia a dia pelo
seu sustento, com todas as fragilidades da relação de emprego patrão-empregado, eu estaria frito,
demitido, e no olho da rua. Isto é só para lembrar que eu não estou frito, mas que poderia estar.
Assim, devolvam a bola e avisem pros dois caras que fizeram a intriga, que assim que eu tiver
tempo eu vou prum ajustes de contas, do jeito que eu sei fazer. — Arrematei, esclarecendo algo
que já durava algum tempo.
— Não esquenta com estes caras não, Roméro — contemporizou Magaldi.
— Eu não estou esquentando agora, que eu estou sem tempo pra isso. Mas tão logo eu
tenha tempo, vou acertar umas contas com esse babaca rastejante aprendiz de beautifull people,
que quer emprego pra mulher dele aqui na Globo, e com o outro, uma bichona gorda oligofrênica e
atacada. — Disse com raiva.
— Mas voltando à vaca fria — retoma o assunto Magaldi —, eu queria conversar com você
para a gente passar a limpo um monte de coisas. Queria pedir desculpas por não ter conseguido
administrar a sua briga com o Jair, e dizer que eu não sabia como conciliar a coisa. O Jair tomou
bronca de você, e por mais que eu o pressionasse, ele estava sempre tentando sacanear você.
Você me conhece... Eu jamais demitiria um ou outro. Deixei o problema se agravar, para sair uma
solução natural ou para o Dr. Roberto decidir. Se você fosse sair da Fundação, a gente colocaria
você noutro lugar. Se quem saísse fosse o Jair, a gente faria a mesma coisa com ele. Eu estou
preocupado é com a pessoa, com o ser humano. E, como eu sei que você ira' voltar para a
auditoria por vontade própria, eu fico mais aliviado. Eu só quero que você saiba que continuo seu
amigo. Gosto muito de você, e não queria que você curtisse bronca da Fundação e nem
perseguisse o M (símbolo da Fundação). — Concluiu.
— Eu não vou perseguir ninguém (imagina!). Só vou fazer o meu trabalho. Tanto, que a
auditoria que está sendo feita na Fundação, agora, é coordenada por outras pessoas. Eu estou
fora. Estou ocupado com Grande Sertão: Veredas, e com o Festival dos Festivais. Você vai ver que
eu estarei totalmente fora desta auditoria da Fundação — Falei sem convicção, na certeza de que
ele saberia que não era verdade.
De fato, parte do que eu dissera era verdade, pois tão logo cheguei na auditoria foi traçado
um programa de ação, cuja linha mestra era: eu não deveria, em hipótese alguma, ir para o
"campo" fazer auditoria. Eu deveria ficar no escritório coordenando os trabalhos em andamento e
as equipes de São Paulo (Departamentos de Educação e Televisão) e serviço de rua; além das
equipes do Rio de Janeiro (Departamentos Cultural, Adm. Financeiro, Comunicação e Comunitário),
serviços de rua e pessoal de escirtório.
Eu sabia que seria mais útil na coordenação de retaguarda do que no serviço de frente. Até
porque eu era o único com visão macro de todos os problemas da Fundação. E, em razão disto,
cada departamento da Fundação teria uma equipe própria, fixa, auditando aquela área, porque a
massa de informações seria muito grande. O único ponto de planejamento que eu discordava do
Francisco era que eu achava que o Mendes (Chico Mendes) deveria coordenar São Paulo, e o Luiz
Carlos deveria coordenar o Rio. Isto porque eu sabia que quando a coisa esquentasse, o Francisco
iria crucificar o Mendes e condená-lo a pagar o pato pelo que não fez, e que o Luiz Carlos iria
"bater de frente" com o Francisco pela forma como ele iria tentar coordenar os trabalhos. (Ou seja:
o Francisco ficaria à distância, no início, mas sabíamos que à medida que a temperatura subisse
ele ia querer dirigir tudo pessoalmente. E aí seria trombada interna geral.)
Por conta de previsíveis brigas futuras, eu ouvia as lamúrias das partes, embora fossem
profissionais que se admiravam e amigos que se gostavam muito.
— Machado... põe juízo na cabeça do Luizinho. Eu não agüento mais ele. Ele está
ranzinza e ranheta. Está preguiçoso. Não tem mais motivação. Não tem mais saco nem para
revisar pasta de trabalho. Acho que ele enjoou de auditoria. — Lamentava o Francisco a respeito
do Luiz Carlos.
— Machado... o Francisco está maluco. Está ficando esclerosado. Eu não agüento mais
ele. Está um ditador insuportável. Antes de você ir para São Paulo, a gente até que tirava ele do
sério. Agora, com a saída deChileno, Faria, March, Nilo, Daniloe Miguel e este monte de auditores
novos entrando, ele endoidou de vez. Eu acho que vou sair da auditoria. Não dá mais para
aguentar. Não vou aturar ser chamado à atenção feito criança. — Lamentava o Luiz Carlos a
respeito do Francisco.
— Machadinho... tá ruim de segurar com a mão. Isto não vai dar certo. Tem tudo pra dar
errado. O chefe está atacadíssimo. Não larga do meu pé. Isso só pode ser menopausa. —
Reclamava o Mendes sobre as constantes implicâncias do Francisco, que criticava a fala alta do
Mendes, a risada alta do Mendes, a falta de coragem do Mendes em ter carro e telefone. E por aí a
fora. Bobagens do retalho, mas que acabam influindo no atacado.
Embora houvesse um clima interior de euforia pela antevisão do sucesso do trabalho,
havia, também, um estranho clima, mistura desta euforia com nostalgia, ocasionado por saudade
recente das pessoas que foram trabalhar em outras empresas. Era como se nunca mais fôssemos
nos ver. Algo como se as pessoas já estivessem cheias de fazer o que estavam fazendo. Ou como
dizia o próprio Mendes: — Nem a Globo, nem a Fundação, nem a auditoria serão mais os mesmos
após esta auditoria. Nada mais será igual.
Embora o Francisco fosse o responsável máximo pela auditoria, ele era superdemocrático.
Pois ele só era ditador para pequenas decisões, e só tomava grandes decisões ouvindo antes a
decisão do Conselho. Foi este mesmo Conselho (Eu, Luiz Carlos, Mendes, Wanderley e Pedro)
que decidiu que a auditoria na Fundação teria que ser de força, com todo o poder. E foi com base
nisto que o Francisco foi ao Dr. Roberto, com os dados do meu relatório preliminar, e com as
pastas de documentos que amparavam aquele relatório, para pedir o afastamento, temporário, do
Jair e do Magaldi, do centro das decisões, para que pudéssemos fazer uma auditoria irrestrita.
O Dr. Roberto fez o correto: manteve o Magaldi e o Jair fora do centro das decisões,
nomeando o Francisco como procurador, com plenos poderes, e determinou que nenhum
documento (cheques, convênios, contratos, demissões, admissões etc.) poderia ser assinado sem
a "segunda assinatura" da auditoria. Amparados por este respaldo, demos início à mais profunda
das auditorias já efetuadas na Globo.
Paralelamente, como eu acabava tendo um pouco de tempo por ter que ficar radicado no
escritório, acabei assumindo outros serviços que estavam em andamento, que eram: Grande
Sertão: Veredas, e Festival dos Festivais.
Grande Sertão deveria ser uma mera experiência laboratorial para acompanharmos outras
produções de Minisséries brasileiras. Tanto, que os auditores designados para este trabalho eram
todos novos em termos de Globo. Entretanto, apesar disto, as informações off eram muito
interessantes. Davam conta de roubos, desvios, abusos e uma infinidade de irregularidades numa
única produção.
A auditoria fora designada para acompanhar, e somente acompanhar, toda a produção da
minissérie, do inicio ao fim, para que a experiência servisse para avaliar a melhor forma de se
auditar uma produção de grande porte. No entanto, era incontestável o manancial de informações
disponíveis.
Já havia sido encerrada a fase de gravação, estávamos na fase de edição e logo logo o
programa iria ao ar. Em razão disto apressei os trabalhos de conclusão e fui à TV Globo-Tijuca
conversar com o Ary Grandinetti, responsável final pelo programa, para debater alguns pontos que
considerávamos estranhos. Para surpresa minha, nada era surpresa para o Ary Grandinetti. Todos
os fatos ocorridos na gravação eram "normais", bastante comuns. E, como que era demonstrar
com maior precisão o que falava, ele recomendou: — Vou mandar a Stella (de Carli) falar com
você, para ela contar em detalhes, e com documentos, tudo que ela sabe e constatou de Grande
Sertão.
No dia seguinte entra porta adentro pela auditoria uma figura espevitada, falando muito,
conversando com todo mundo como se fosse amiga de infância de todos. Cabelo cortado rente à
cabeça, sardenta e com os olhos claros, grandes e vivos. Era a Stella, que cumprimentava os
auditores que conheceu há alguns dias atrás, mas já os tratando como velhos conhecidos.
— Mas você é que é o Machado? — Perguntou espantada.
— Sim, sou eu. Por quê?
— É que a imagem que você tem na empresa é a de um sujeito frio, calculista e implacável.
E você não me parece nada disso. Você parece normal. Tem até uma cara boa. — Disse, ainda
estupefata.
— Eu sou normal. O inferno são os outros. Eu só como criancinhas às sextas-feiras, após
o expediente. — Respondi brincando.
Trancamo-nos numa sala, e começamos a conversar sobre os principais problemas da
minissérie. Stella, como controladora de produção, era muito eficiente, e tinha todos os atributos
para NÃO SER uma produtora. Demonstrou as duplicidades de saques pela mesma pessoa,
prestações de contas absurdas, omissões de informações, abusos de toda ordem, e disparates
diversos que, somados ao já relatado pelos auditores, formavam um farto manancial. Além do
reforço das manchetes dos jornais locais que acusavam os abusos da Globo. (Na maioria das
vezes, os funcionários de apoio contratavam tudo como sendo particular — por preço bem baixo;
depois que contratavam, falavam, empoladamente, que eram "da Globo". Finalmente, deixavam a
conta sem pagar e embolsavam o dinheiro na certeza da impunidade, por serem "da Globo" e por
lidarem com gente humilde do interior.) São casos e mais casos, numa incontável ciranda de
abusos, desde o aproveitamento pelos funcionários de baixa remuneração (doisa três salários
mínimos) que compravam roupas novas e até motos após a produção, até alguns, mais graduados,
que ficaram com quantias elevadíssimas em suas contas bancárias. A regra geral era: tudo que era
comprado para a produção acabava sumindo ou desgastando-se: armas, roupas, equipamentos,
materiais etc. A certeza de impunidade era tamanha, que algumas prestações de contas
demonstravam algo curioso: o número de refeições era suficiente para alimentar o pessoal todo da
minissérie cinco a seis vezes ao dia (possivelmente o clima deveria ser responsável pelo apetite).
Sem contar os abusos eliti-zados: aluguel de avião (proibido sem autorização da vice-presidência
de Operações) para passeios sob a alegação de que seria para escolher locais para tomadas;
brincadeiras de "duro-na-queda" com carros alugados como se fossem para a gravação (vários
foram literalmente destruídos, no "enduro da produção"); e o mais triste, os atentados aos animais:
mataram, para dar "realidade", a jaguatirica que na tela aparece como morta pelo Riobaldo
(Tatarana) Toni Ramos; mataram, de sacanagem, um tamanduá e vários animais silvestres;
fizeram churrasco com um jacaré emprestado pelo IBDF local; mataram dezenas de passarinhos
que ficavam amontoados em caixotes, e que seriam-liberados e jogados para o alto, para que a
imagem dos pássaros libertos fosse sobreposta à do véu da noiva Diadorim Bruna Lombardi no
sonho de Riobaldo; os cavalos que deveriam ser "mortos" em cena, eram violentamente drogados
para darem alguns passos e logo caírem com seus cavaleiros, simulando morte por tiro. (Alguns
destes cavalos morreram com problemas cardíacos.)
Não era intenção da auditoria fazer um relatório sob este enfoque, mas a renitência da
Stella empurrava-me para um inevitável relatório ao Dr. Roberto, para que ele soubesse como são
produzidas as "belezas" que vão ao ar, e como são os abusos dos funcionários durante uma
locação.
— Você até parece um padre. Eu estou falando, demonstrando, provando, e você vem com
este papo de: "Calma, vamos apurar melhor, vamos seguir os trâmites normais". Afinal, você é ou
não auditor? Você é ou não os olhos e ouvidos do Velho? — Dizia a Stella, irritada.
— Calma. Eu vou fazer um draft para discutir com o Ary Grandinetti. Se ele, como
responsável final pela minissérie, achar que deve levar ao Boni, ele leva. Caso contrário, assunto
encerrado. E não se fala mais nisso. — Eu disse, tentando encerrar o assunto.
— Quer dizer que não vai dar nada para ninguém? Todo mundo rouba, embolsa dinheiro,
saqueia a produção, comete abusos, e você me vem com este papo de "calma"? — Replica Stella,
irritadíssima.
— Stella, veja por este ângulo. O Laborda, seu principal alvo de acusação, é o produtor
exclusivo do Avancini. Dizem que não se sabe se o Avancini atura o Laborda porque ele faz o que
o Avancini quer, não importando o que e como ele tenha que fazer, ou se é o Laborda o único
produtor que atura as loucuras e excentricidades do Avancini. Portanto, é fora de cogitação o
rompimento Laborda/Avancini. Por outro lado, o Avancini é o maior gênio no gênero televisão, e o
Boni sabe disso. Vai daí, que a permissividade vem de cima. O Boni aceita o Avancini, o Avancini
aceita o Laborda, e o Laborda aceita o que é feito pela equipe. E isto tem um custo. Qual é esse
custo? 20, 30, 50 ou 100% a mais do normal? Pro Boni isto não importa, ele vai ganhar 500%
acima do custo da produção. Daí, não interessa esse tipo de controle. E não adianta você
espernear. — Expus meu raciocínio.
— Mas isto é sacanagem. Serve de péssimo exemplo pro resto. É por isso que tem esse
rouba-rouba na Globo. Por isso é que passou a ser normal ser desonesto. — Stella continuava
irritada e, agora, decepcionada.
— Você tem dúvidas de que o Grande Sertão será sucesso? E quando o programa for ao
ar e encantar o público, o Avancini será condecorado como gênio, mais uma vez. O Boni estará
supersatisfeito! As coisas que o Laborda fez ou permitiu que se fizesse serão perdoadas! E você,
Stella, será guindada à posição de ridícula! — Eu disse com frieza.
— Padre, você é ruim. Agora eu sei porque você é considerado frio — Disse Stella, com
profunda decepção.
— Mas não será bem assim. Eu vou te dar uma colher de chá. É o seguinte: eu vou
entregar o draft ao Ary Grandinelli, pois esta é a minha obrigação. E ele pode matar o relatório aí e
nem levar o assunto ao Boni. Entretanto, há um Sumário Executivo que é uma síntese de tudo isto
que nós estamos discutindo, que é um relatório supersintético para o Dr. Roberto. E isto, nem o
Superintendente e nem o Vice-presidente podem parar. É a comunicação direta dos olhos e
ouvidos com o dono. E esta é a função maior da auditoria interna. Quer dizer, o Boni saberá das
coisas que foram feitas na produção, ou de baixo para cima, ou de cima para baixo; sendo que
esta última é uma forma bastante desconfortável. — Expliquei para Stella.
— É, mas quem vai se ferrar, sou eu; que cometi o crime e a imprudência de querer ser
honesta na Globo. Agora, ninguém mais vai querer trabalhar comigo. — Lamentou ela.
— Liga não. Dentro ou fora da Globo, mesmo sozinha você estará em boa companhia. Só
em ficar longe do que você abomina, você já estará bem acompanhada. — Tentei consolá-la.
— Com a minissérie eu não trabalho mais. Pra Globo-Tijuca eu não volto. Vou procurar um
lugar aqui na Globo para trabalhar. E, se não tiver lugar, eu saio da empresa. — Setenciou, com
violência.
Eu ainda recebi várias e várias vezes a Stella no escritório da auditoria, para complementar
informações, trazer documentos e relatar fatos novos. E, mais tarde, eu a vi trabalhando com Ítalo
Granato/Marcelo Rosa. Até que, cheia da produção e da repetição destes acontecimentos,
mudando somente os personagens, ela saiu da empresa em busca de algo oxigenado e mais puro.
E, por falar em Stella, Ítalo Granato e Marcelo Rosa, o outro trabalho que estávamos
desenvolvendo era exatamente Festival dos Festivais, com produção de Ítalo Granato/Marcelo
Rosa. Para mim, era mais uma diversão e relaxamento do que propriamente um trabalho. Pois foi
um trabalho feito para provar que a Globo poderia produzir um evento sem que este evento fosse
deficitário. (Nota: Todos os eventos produzidos pela Globo, até então, eram deficitários. Ainda que
o evento fosse Roberto Carlos, Simone, Gal ou qualquer outro.) É que o número de safadezas e
falcatruas era tão grande, que tornava-se impossível produzir um evento lucrativo. Daí, alguém
teve a feliz idéia — por falta de assunto, por ter tomado um drink a mais, porque a picanha estava
no ponto — e resolveu lançar um desafio: "Se a auditoria entrar em eventos, eles se tornam
lucrativos." (A bem da verdade, a auditoria já havia sido responsável pela extinção de eventos
especiais, pela mediocrização da Showmar e pela separação da dupla Legey/Lacet e seu fiel
iluminador.) E, com base neste altruísta mote etílico-pedagógico, "convidaram" a auditoria para a
tarefa de acompanhar e fazer os ajustes necessários, in loco, para que o evento pudesse se tornar
lucrativo.
Não havia nada demais. Era tudo simples e imediato. Não havia truque. E todos os
procedimentos recomendados foram seguidos. Tornando-se lucrativos os eventos de Recife, Porto
Alegre e São Paulo. Eu só tinha medo do Rio, pois haveria a 49 eliminatória, Semifinal e Final, com
vários agravantes: o roubo institucionalizado do Maracanã (zinho), o câmbio negro oficial, a
segurança da casa, as carteiradas habituais (policia, juizado, bombeiro, ex-combatente, sócio
proprietário, permanente, autoridades empavonadas, dignatários de capitanias, escoteiros,
lobinhos, balus e ativistas da Sociedade Amigos das Lésbicas dos Últimos Dias). Sem contar com
a indefectível casta dos artistas, diretores e amigos dos mesmos. (Nada é pior para esse pessoal
do que não ser reconhecido ou ser barrado num evento da empresa. Pois, apesar do preço do
ingresso ser insignificante, e de, internamente, nós distribuirmos aproximadamente 10% do total da
lotação do estádio para funcionários — diretores e artistas, inclusive e principalmente —, eles
davam seus ingressos de presente, entravam na marra ("Você sabe com quem está falando"), e
ainda exigiam crachá para transitar livremente. E, são estas as mesmas pessoas, liberais e
democratas, que criticam a empáfia do autoritarismo.
Lógico, havia exceções, mas a regra geral era terrível. Pois, para cada Toni Ramos e
esposa, bem comportados, que precisavam ser retirados, por nós, de junto do público para serem
acomodados em locais reservados e destinados a convidados, haviam centenas de "Cigarras" e
"Galinhas Carimbadas" alojadas em locais que não lhes diziam respeito.
É engraçado você estar num local assim, abrir uma panorâmica, distanciar-se de todos e
olhá-los como espécimes sob análise. Um dos tipos mais comum, a "Galinha Carimbada" (alusão
ao tempo em que as galinhas abatidas levavam um carimbo irremovível da inspeção federal), é
aquela risonha figura que abre-se diante de uma máquina fotográfica, sacrifica-se para se fazer
convidada para todas as festas, freqüenta locais onde possa ser vista e convidada para qualquer
trabalho. Algumas freqüentam todos os bailes de carnaval, saem em escolas de samba, se
convidam para ser júri do Chacrinha, aparecem em todas as fotos, todos os anos, nas revistas pós-
carnaval e raramente trabalham em sua profissão. E, quando o fazem, é em papéis menores
(manicures, empregadas domésticas, fofoqueiras, intriguentas etc). Há até as que conseguem
casar-se com jogador ou ex-jogador de futebol. É dura a vida de "artista".
Outro tipo folclórico é a "Cigarra", que zumbe, roda, bate asa e adora conversar, desde que
seja aos berros e à distância, e que entre ela e seu interlocutor haja pelo menos dez metros, e uma
dezena de pessoas ao redor.
Tipo é o que não falta em televisão. Principalmente para o pessoal que quer uma chance,
quer entrar e subir a qualquer custo, ou quer ser convidado para qualquer coisa. E este, dentre
outros, é o que me causa maior repulsa no meio artístico. Onde a regra é a da miserabilidade de
condições e eterna mendicância. Hoje no vídeo, amanhã esmolando. É tão dura esta condição do
meio artístico, que eu ouvi, certa vez, de um contratador e descobridor de talentos: "Tem certas
artistas que ao invés de cachê deveriam receber é michê" (nos dois sentidos).
Mas voltando ao Festiva/, e tirando-se os inconvenientes, tudo estava a salvo. A quarta
eliminatória ainda deu lucro, mas as condições da semifinal e da final eram péssimas. Dirigi-me ao
Ítalo:
— Não vai dar para controlarmos. Vocês estão liberando tudo. Não querem bater de frente
com os penetras. Estão distribuindo convites, ingressos e crachás muito acima do permitido, e para
pessoas que não têm nada com o espetáculo. Além do mais, o Marcos Lázaro não quer me
entregar os fotolitos dos ingressos feitos na Gráfica Laga e disse que você havia concordado com
isso. Eu não vou me responsabilizar pelos ingressos falsos-verdadeiros, falsos-falsos e pelos
cambistas. Vai ter muito mais gente do que a lotação oficial. — Disse a ele.
— Tudo bem, Machado. Não esquenta não. Liberou geral. 0 Bonifácio (Boni) está feliz. O
Festiva/ é um sucesso. Está com todos os comerciais bem vendidos e deu um puta lucro pra Globo.
Nós estamos é de parabéns, cara. Respondeu-me.
Uma vez ouvindo isto, passei a colocar-me em posição de mero espectador, liberando o
pessoal da equipe para um relaxamento. Pois, àquela altura, alguns já estavam quase chegando
às vias de fato com os "roleteiros" (Roleta de quina) do Maracanã(zinho) — com os auxiliares"do
Marcos Lázaro, com os seguranças e com os cambistas. Disse ao pessoal que não controlassem
mais nada. Que simplesmente pegassem alguns ingressos falsos para darmos de presente ao
Marcos Lázaro e para o Ítalo Granato, junto com o relatório, e que eles (auditores) não precisavam
trombar com mais ninguém. Cancelei a venda homeopática de ingressos e liberei a venda maciça
pros cambistas deitarem e rolarem. Da forma como eles queriam: casa cheia (não importando
como).
Acabei assistindo o final do festival em uma posição privilegiada. Vendo, ao vivo, ao pé do
palco, e ao mesmo tempo com um monitor de TV, localizado na minha frente, que era assistido por
Daniel Filho e Boni, entre outras pessoas. O que proporcionou-me um flagrante inédito: na
finalíssima, antes de serem anunciadas as vencedoras, veio o Marcelo Rosa, e logo atrás o Solano,
da VPI, com os resultados do júri, para conferirmos com o nosso bolo (havíamos apostado em
quem seria a grande vencedora do Festival). Quando o Boni viu Mira Ira como vencedora, pegou o
papel e esbravejou:
— Estes merdas não entendem nada disso. Votaram tudo errado. — Virando-se para o
Ítalo, emendou: — Onde é a sala do júri?
Ítalo vira-se, apavorado, para mim e pergunta, como se não soubesse:
— Onde é, Machado?
— Eu ri. Fingi que não escutei, e o Marcelo Rosa intercedeu apontando o local.
Como que para fugir do meu olhar de acusação, o Ítalo se justificou: "O voto dele vale mais
do que de todo o júri junto."
O Boni dirigiu-se para lá, célere e impulsivamente. E, dentro de alguns poucos minutos,
voltou sorrindo, como um chefe que colocou tudo no lugar. Em seguida, foram sendo anunciadas
as vencedoras, até que Tetê Espíndola, com Escrito nas Estrelas, foi aclamada, em delírio, como a
grande vencedora do Festival.
O público gostou, e a troupe de "baba-ovo" (como o próprio Boni costuma chamá-los, sem
esconder o desprezo por eles mas sem afastá-los de perto) desfez-se em elogios:
— Ele é gênio. — Dizia um.
— Entende tudo de gosto popular. — Dizia outro.

— Esse é que é o verdadeiro resultado — arrisca, um outro "baba-ovo" mais fervoroso.


Eu olhava, ria, afastava-me em panorâmica. Olhava o público e pensava: "Pobre do
Martinho da Vila — que sacanagem de vingança covarde fizeram com ele (anteriormente). Pobre
desse grupo, Tarancón, Placa-Luminosa e Lula Barbosa. Garfados pelo "dono da festa". Salve
Albino Forjas de Sampaio: 'A vida é dos de coração gelado e hirto. Amanhã é tarde, depois é
impossível. Tudo na vida é transitório. Tudo passa, tudo esquece. A criança será homem, o lacaio
será senhor, o arbusto será árvore, o ontem será hoje, e o bom será meu. Ai dos que param. Ai
dos vencidos.'"
Tudo acontecia quase que simultaneamente. Eram vários trabalhos ao mesmo tempo. Era
Fundação, era Grande Sertão, era Festival, e ainda queriam que eu fosse controlar o Show do
Roberto Carlos no Maracanãzinho, que serviria de base para a gravação do especial de fim de ano.
Eu conseguia almoçar decentemente, pois a temperatura elevada estava na Fundação (Rio
e São Paulo), e eu podia pegar a galera e ir almoçar como um ser humano normal. Nada de
sanduba, pizza ou salgadinhos. Valia comer qualquer coisa, desde que não fosse no Plataforma.
Eu não agüentava tanta "Galinha Carimbada", "Cigarra" e tipos diversos fazendo o papel de tipos
diversos. Tudo que eu queria era entrar num restaurante sem ver a cara de um só artista, um só
funcionário ou diretor da Globo. Queria algo asséptico e respirável.
Esta era a única compensação a que eu me permitia para agüentar o bando de loucos, que
após as 20:00 hs entrava auditoria adentro e me fazia trabalhar até de madrugada. Não raras
foram as vezes que dormimos direto no escritório, ou que entrávamos em briga profunda em plena
madrugada.
— Eu não agüento mais você, Luiz. Ao invés de auditar o Depto. Cultural, você quer ajudar
o José Carlos Barbosa a dirigir o departamento dele (Cultural) — esbravejava o Francisco.
— Porra, tudo é nas minhas costas. Não sou eu que quero pegar o lugar do Magaldi e
botar o Pedro de Diretor Administrativo.
— Contra-atacava mordazmente o Luiz Carlos, fazendo insinuações quase que diretas ao
Francisco.
— Francisco, larga do pé do Luiz — dizia eu ao pé do ouvido dele.
— Deixa ele é o cacete. Eu estou cercado por um bando. Eu não agüento mais. O
Wanderlei não faz o que eu mando. O Mendes a gente não acha ele. Não tem carro e nem telefone
(psicose braba do Francisco em relação ao Mendes). E, você fica aí no bem-bom só cuidando de
Festival e Grande Sertão e ainda vem defender o Luiz Carlos e o Magaldi. — Atacava o Francisco.
— Não faz nada é uma ova. Eu estou trabalhando quase vinte horas por dia, minha família
está em São Paulo. Eu trabalho a semana inteira aqui no Rio, num ritmo louco e ainda tenho que
ouvir abobrinha de você. Vai se catar. Respondi agressivamente.
— Calma, calma, pessoal... Nós todos somos amigos. Todos nós trabalhamos demais, e
somos testemunhas uns dos outros. Não adianta a gente sair na porrada. Nós estamos dando uma
de babaca: o cara que roubou está dormindo. O dono do dinheiro, que foi roubado, está dormindo.
São quatro horas da manhã e nós aqui saindo na porrada. Vamos parar. — Profetizou Mendes. Foi
um jato d'água tão forte que ninguém contestou. Fomos para casa.
Dia seguinte, por uma dessas coisas raras do destino, o Francisco chegou cedo e, para
variar, quem chega tarde? Luiz Carlos.
— Luiz, isto são horas de chegar? Já são dez horas. Está todo mundo aqui e você chega
agora? Tá vendo Machado? Tá vendo? Defende ele agora. Defende. — Dizia o Francisco,
revivendo a raiva anterior.
O Luiz Carlos olhava para mim com cara de quem diz "eu mato esse cara. Trabalhei ontem
até as quatro da manhã e quando chego às dez horas da manhã ele diz que eu cheguei tarde..."
Eu olhava para o Luiz e dizia: "Não esquenta. Fica quieto que ele está debaixo de pressão e o
escalado pro desabafo foi você. Não responde pra não piorar."
— Machado, vamos tomar café? — Era o sinal de que o Luiz queria conversar comigo algo
em particular.
— O que é? — Perguntei.
— Vou-me embora da auditoria. Não agüento mais o Francisco. Depois que você saiu
(para São Paulo), ele piorou demais. Quando os outros auditores foram embora (para outras
empresas) tudo sobrou nas minhas costas. Eu não agüento mais, cara. Eu não tenho que aturar
mais ele. Eu vou-me embora porque eu gosto dele e quero preservar esta amizade. E, se eu ficar
aqui, a gente vai se destruir. — Lamentava o Luiz.
— E você já tem para onde ir? Perguntei.
— Vou para TV Globo-Juiz de Fora. — Balbuciou, como que querendo minha opinião.
— Você vai ser gerente? Um simples gerente de uma regional medíocre? Eu não acredito.
Você enlouqueceu, Luiz? — Falei abismado.
— É o seguinte: em primeiro lugar é uma cidade pequena e sem a zona da TV Globo-Rio.
É a terra da minha mulher; eu quero paz e sossêgo, e pago qualquer preço por isto. Vou ter hora
para entrar, hora para sair, vou almoçar todo dia,e jantar em casa com a minha mulher. Vou ser um
cara normal. E essa paz vale o dobro do meu salário. Em segundo lugar, há planos de expansão
em Minas. A TV Globo-Juiz de Fora vai acabar controlando Varginha, que será inaugurada em
breve, e logo irá controlar o sul de Minas, e mais tarde o estado todo. — Explicou Luiz Carlos.
— Bom, neste caso, eu te desejo felicidades, e muito sucesso. Acho que eu consigo te
entender. O estômago virou de vez, não é? — E emendei: — O Francisco já sabe?
— Não, e não quero que saiba. Deixa eu fechar as negociações com o Aleixo e com o
Humberto, e aí então eu falo com ele, sem chances de argumentos ou dele melar a minha saída.
— Justificou.
— É irreversível a decisão? — Arrisquei a pergunta.
— É — disse ele, mordendo os lábios e com pena de largar tantos anos de auditoria, tantos
amigos, e sentido por ter que decidir.
Enquanto isso, o clima na Fundação esquentava, pois além do que se sabia e do que se
apurou posteriormente, dois casos explodiram além dos normais e mereciam contornos políticos
imediatos: um o da Varese, que ao responder a uma circularização (carta de confirmação) nossa,
ameaçou processar a Fundação, por jamais ter sido convidada para qualquer concorrência (apesar
de perder todas) e que eram falsos os impressos, os preços e as assinaturas da empresa. (Era
tudo feito a partir de xerox de cartões de visita disponíveis na loja.) E o outro caso era o da
obtenção ilícita de verba da Petrobrás, envolvendo comissão paga a dois conhecidos membros do
mundo dos escândalos (ambos com outros escândalos recentes em jornais): Romeu Onaga e Atan
Barbosa.
No primeiro dos casos fomos, eu e Francisco, para tentar resolver com o Presidente da
Varese, que disse cobras e lagartos da Fundação e da Globo, principalmente porque as evidências
demonstravam que, no mínimo, o gerente de confiança da diretoria estava envolvido no escândalo
e que tudo indicava que o próprio diretor daquele departamento era o próprio beneficiário do ato
ilícito.
Não dissemos nada que concordasse ou negasse o fato, mas empenhamos nossas
palavras no sentido de que iríamos responsabilizar o autor e que daríamos ciência da decisão do
Dr. Roberto à Varese.
No segundo dos casos fui sozinho á Petrobrás, usando todos os meios de que dispunha e
de diversos conhecimentos, chegando até o Sr. Duque Estrada e o "adjunto". E, dentro do sigilo
que se fazia necessário para o momento, foi-me garantido que o próprio Presidente da Petrobrás
(e Vice-Presidente da Fundação Roberto Marinho), Sr. Hélio Beltrão, iria abafar o caso, evitando
que o nome da Fundação viesse a público no escândalo. E mais, que o Diretor da Petrobrás, Atan
Barbosa, já estava afastado e o caso encaminhado a inquérito administrativo.
A temperatura volta a subir em São Paulo, e o Matsumi vem ao Rio para conversar com o
Magaldi, mas, antes, passa na auditoria e convida-me para almoçar e assuntar para saber se eu
queria dar algum recado para o Magaldi. Isto porque circulava na Central Globo de Boatos a
notícia de que eu havia traído a Fundação e agora queria destruí-la, movido por um sentimento
pessoal contra o Magaldi, e que ele estava de bronca comigo.
Esclareci ao Matsumi que o Magaldi estava mal orientado e muito mal assessorado, pois
eu, reiteradas vezes, tentei fazer com que ele assumisse, junto ao Dr. Roberto, em conjunto com o
Francisco, todo o processo de higienização da Fundação, e que se ele perdesse esta oportunidade,
iria perder o bonde da história.
Como é de hábito, algumas pessoas ficam ou se sentem enebriadas com sua própria
capacidade e poder. E, cercado pela turma yes man ou vulgarmente puxa-saco, sentem-se mais
poderosos ainda. E minimizam os efeitos do que lhes possa ser adverso. Sentindo-se, mesmo,
com coragem para enfrentar aquilo que eles substimam. Infelizmente, e de forma lastimável, isto
aconteceu com o Magaldi. (E acontece freqüentemente com os poderosos da Globo. O que lhes
falta é adversário à altura.)
— Matsumi, diz pra ele que não tem mais jeito. Vai tudo pro espaço. Não vai sobrar
ninguém. Ele tem que ter habilidade política para se engajar no processo e não tentar medir força.
O papo é outro. Não cabe medição de força. — Pedi ao Matsumi.
— Ele não vai aceitar, porque o Calazans telefonou para ele, de sacanagem, para "prestar
solidariedade" neste momento difícil em que ele estava tão fraco. Daí, o Magaldi, infantilmente se
sentiu melindrado, ficou puto da vida e resolveu mostrar que ele podia mais sozinho do que toda a
auditoria junta. E era isto que o Calazans queria. — Explicou Matsumi.
— Tudo bem, Japonês. Encurtando a história, o recado é: eles estão fudidos do primeiro
ao quinto. Cabe ao Magaldi mostrar cintura ou cabeça dura. — Concluí.
Matsumi vai á emissora, e na volta vem decepcionado, dando-me integral razão:
— Machado, ele enlouqueceu. Eu não conheço mais o Magaldi, Ele acha que não está
acontecendo nada na Fundação, e que a auditoria vai discutir um roubo de bolas, materiais
esportivos, e só. Ele vai bancar o jogo, no escuro. — Disse Matsumi assustado.
— Eu te falei. Não foi por falta de aviso. Tem gente que acha que é só botar meu nome na
boca do sapo e soltar uma fofoca qualquer na Central Globos de Boatos que resolve o problema.
Ledo engano. Foi o pior e mais lastimável erro de avaliação de um cara que eu reputo inteligente.
Mas, afinal, ningue'm tem obrigação de ser inteligente 24 horas por dia... — Finalizei.
Ainda estiquei a conversa com o Jorge Matsumi, basicamente em função do que estava
sendo apurado no departamento dele. E, como ele estava aberto, nada mais lógico do que saber
dele as justificativas para as principais irregularidades na televisão:
— Compra de notas fiscais - "Fui orientado pelo Jair Lento, e segui a prática da Globo."
— Caixa dois — "Todo o funcionamento foi instruído pelo diretor financeiro (Jair Lento)."
— Frota de veículos locados à Fundação de propriedade de um "motorista" da Globo —
"Tenho um cartão do Boni mandando eu atender o Brás" (motorista da Globo que atende ao Boni
em S. Paulo). E mostrou o cartão.
— Fitas sumidas (500 mil dólares) — "Controle estabelecido pelo diretor adm.-financeiro, e
tráfego de fitas controlado pela TV Globo- São Paulo." ("É só procurar nas produtoras
independentes e na TVS, que você acha tudo.")
Notas fiscais de diferentes empresas, manuscritas pela mesma pessoa — "São as PJ
(Pessoas Jurídicas) que recebem o "por fora" conforme instruções da Globo."
— Compra de equipamentos com notas de serviço — "Instruções do Diretor Financeiro."
— Despesas de viagens falsificadas — "As notas vem em branco para o Guerra (Gerente
Administrativo e Financeiro) e o Jair Lento (Diretor Adm.-Financeiro) Poderem matar as prestações
de contas com o MEC."
— Globotec cobrando serviço de "facilidades" à Fundação — "Instruções superiores."
— Funcionários da Globo que recebem por notas frias — "Eles trabalham na Globo e na
Fundação ao mesmo tempo. Na Globo recebem em carteira. Na Fundação recebem por notas
compradas, conforme instrução do diretor adm.-financeiro (Jair Lento).
— Contingências trabalhistas e direitos autorais — "Todo mundo que trabalha em qualquer
empresa da Rede Globo tem uma grande questão trabalhista para reclamar. Pois a partir de
determinado salário o sujeito abre uma firma e fatura contra a Globo para fugir dos impostos e para
que a Globo possa pagar melhor do que os concorrentes. Isto é um caso genérico e comum a
todas as empresas da Rede Globo, e não um erro só da Fundação.
— Contratação de Parentes — "Se isto fosse problema, a Globo não teria funcionários.
Não vejo porque abordar isto no meu departamento, se o próprio Secretário Geral (Magaldi) tem
irmã (Sylvia Magaldi) e filhos (Álvaro B. Magaldi e Sérgio B. Magaldi) trabalhando na Fundação.
Isto tem em tudo que é departamento e em tudo que é empresa da Rede Globo."
— Aluguei de câmera e equipamentos de TV de sua propriedade — "Eu já te contei esta
história. O Jair não aceitava comprar equipamento, alegando que a Fundação não podia ter ativo
fixo. Daí, eu continuei alugando, só que eu disse pro cara que me alugava que eu estava
comprando. E no final de quatro a cinco meses a câmera estava comprada e eu continuava
alugando para a Fundação. Não tenho culpa de botarem um "milico" para dirigir uma empresa
como a Fundação."
A posição do Matsumi era de calma e de absoluta segurança. Sabendo que até poderia ser
demitido, e que, fazendo ou não o "jogo do poder", isto aconteceria ou não, independentemente de
sua vontade. E não seria sendo "bonzinho" ou "mauzinho" que ele iria preservar seu emprego. ("Se
sair daqui, tenho uma grande reclamação trabalhista ou uma grande indenização. Vou trabalhar
em qualquer concorrente ou ser produtor independente.")
Aproveitando o fato de eu ainda estar morando em São Paulo (eu passava os fins de
semana lá e trabalhava durante a semana no Rio), resolvi esticar a semana em São Paulo para
fechar o assunto Calazans, pois o serviço de rua dava conta de que a ficha do Calazans era
péssima, e que duas pessoas importantes na vida dele, dentre outras, estavam dispostas a dar
depoimentos sobre ele. Em duas oportunidades distintas colhi estes depoimentos. Foram: Terezita
Yolanda, sua ex-secretária particular e assistente por quase dez anos, demitida numa das crises
alcoólicas do Calazans, que espantando os seus fantasmas, supôs, e não era verdade, que
Terezita passava-me informações; e José Alcione, Diretor da Abril seu ex-amigo, quase falido por
ter sido avalista oficial do Calazans.

Papel timbrado da Rede Globo — Título: Relatório — Impresso nº 14.826-1


GLOBOGRAFICA

FRANCISCO CALAZANS FERNANDES

Breve relato, a partir de uma entrevista feita com sua secretária profissional e particular
Terezita Yolanda, em 17 e 18/07/85.
"Calazans iniciou-se em escândalos e corrupções no Rio Grande do Norte, quando ainda
era secretário da educação. Foi acusado, e vários jornais da época publicaram parte da história,
sobre desvio de material escolar, alimentos de merenda escolar e donativos para pobres e
necessitados do nordeste, doados por órgãos de cooperação latino-americana (Aliança para o
Progresso, MEC/USAID,etc).
Ainda como secretário de educação, aprendeu como retirar dos orçamentos dos órgãos
públicos os recursos necessários para a execução de programas que seriam ou não controlados a
posteriori. Daí veio o seu grande sonho em estabelecer contacto com um grande empresário de
maneira a permitir vôos mais altos.
Foi buscar tal empresário em São Paulo (como todo nordestino), e os esforços foram vãos.
Teve que trabalhar como jornalista (free-lancer) e os outrora bem-estar e bem-viver aparentes
começam a comprometer sua vida particular.
Os sonhos megalômanos começam a ir água abaixo, e seu futuro como jornalista fica
comprometido, pois passa a viver de pequenos expedientes e trambiques em colegas. Sua maior
vítima, na Abril, é o ex-colega Alcione, na época "amigo da fé" e "avalista de plantão".
Calazans começa a ter graves problemas em casa. Primeiro são as execução judiciais;
depois, a toma de bens; e mais tarde, a perda dos amigos, principalmente do Alcione, executado
junto com o Calazans e indo ao fundo do poço. (Daí em diante, Alcione iria devotar a Calazans um
ódio mortal. Tanto que anos mais tarde, Calazans já empregado e com a vida semi-estabilizada,
tentou pagar algumas dívidas com o Alcione, que nunca reatou com aquele e nem o perdoou.
No interregno do grande débâcle, Calazans vira alcoólatra contumaz, e nos momentos de
lucidez procura um advogado para segurar o grosso das execuções. (Dr. Gilberto.)
A secretária deste advogado era Terezita Yolanda, que mais tarde viria a ser sua secretária
profissional, e particular. Penalizada com o drama da família, o advogado e a secretária tentam
ajudar jurídica e pessoalmente o "agora humilde" Calazans.
Terezita passa a dedicar-se à recomposição de uma família, e tenta (extra-oficialmente)
elaborar os planos do grande sonho do Calazans (Telecurso). Terezita compilou dados,
datilografou, deu forma final, e comprou uma passagem para Calazans vir ao Rio falar com o Dr.
Roberto. Após algumas negociações, Dr. Roberto compra a idéia, e é criada a precursora da
Fundação Roberto Marinho ou seja, a Rio Gráfica Educação e Cultura.
A Rio Gráfica vivia patronada por um megalômano que orçava qualquer valor para fazer
qualquer projeto, quando o único objetivo era arrancar dos órgãos governamentais aqueles
recursos. Obvio que os orçamentos, historicamente, sempre foram deficitários, e como num
endividamento sem fim (agora usando o nome de um grande empresário) os limites de crédito
foram sendo potencializados até os vultosos números de hoje.
Nos intervalos entre as liberações de verbas, as crises eram inevitáveis. Pois se um projeto
custasse 1.000 e o orçado fosse 800, ele aceitava qualquer valor liberado pelo MEC, por menor
que fosse. No caso de um projeto de 1.000 com liberação de 400, era executado usando-se todos
os tipos de artifícios, pois o vermelho seria empurrado para frente.
As pressões psicológicas desta roda-viva, mais a condição de alcoólatra, agravaram as
crises voltadas para o alcoolismo. Calazans passa a comparecer contumazmente embriagado ao
trabalho, tendo como "santos protetores" e ocultadores desta situação duas pessoas: Terezita
Yolanda (sua secretária) e Luís Eugênio Barbosa (Controller).
Ocorrem situações absolutamente grotescas, como escândalos na porta da Rio Gráfica,
caída em sarjeta na presença de funcionários da TV Globo-SP, ofensa a funcionários do governo
que recusavam seus projetos ( tudo em nome de Dr. Roberto), obrigação de completa submissão
dos funcionários públicos aos quais ele havia corrompido. E, a esta altura, com um poder de fogo
cada vez maior, ele participa, em Brasília, de indicações, nomeações, e montagem de um
esquema de corrupção que envolvia funcionários menos graduados, até altos funcionários como
Reitor da Universidade de Brasília (José Carlos Azevedo) e os Secretários de Educação (Ana
Bernardes e Marco Antônio Veronese). Suas maiores armas são: o suborno, a corrupção, o favor e
a intimidação.
Tanto que, quando alguns tentam fugir do esquema, ele intimida. Como foi o caso da
recusa de seus projetos pelo MEC (1984), quando ele acabou conseguindo a liberação por haver
"plantado" na imprensa paulista parte do que seria uma grande denúncia, abrigando Veronese e
Ana Bernardes a recuarem e aprovarem seus projetos. Ou seja, quando alguém lhe diz não, ele
usa de todos os meios disponíveis para pressionar e conseguir seus objetivos. E, no caso
específico, Veronese e Ana Bernardes sentiram a ponta do arpão do que seria a grande denúncia
(firmas de computadores, firmas de assessoria, etc, tipo Madeira Inteligente).
A sua classe de sustentação é Carlos Alberto Felizola (um Calazans em menor escala, de
âmbito estadual) e José Maruílson Costa (seu "afilhado"), sendo este último suspeito de vender
fitas e fascículos que seriam doados a comunidades pobres, mas que são, na realidade, vendidos
por ele em proveito próprio.

Na realidade, Calazans age com uma procuração implícita, ou seja, com a gazua que abre
as portas fechadas a ele em Brasília: o Dr. Roberto Marinho."
Papel timbrado da Rede Globo — Título: Relatório — Impresso nº 14.826.1
GLOBOGRAFICA
Entrevista feita com o Sr. José Alcione, Diretor da Abril, feita no dia 23/09/85, segunda-feira,
na rua Jaguaretê, 213/5º andar, Casa Verde, São Paulo.
"Alcione se confessa um ex-velho amigo de 20 anos, cujos filhos, dele e de Calazans,
cresceram juntos e se fizeram amigos, amizade que terminou por problemas financeiros graves.
(Nota: Ambos são do Rio Grande do Norte e moraram juntos no Rio e em São Paulo.)
Segundo Alcione, Calazans sempre foi um perdulário e megalômano. Vive assombrado por
sonhos magistrais. Tudo a que ele se propõe tem que ser faraônico. Ele não pede uma passagem,
a
pede blocos de passagens. Em hotel fica como hóspede VIP, assim como só viaja de 1 classe e
briga por ser recebido como VIP nos aeroportos e hotéis. E nas empresas e nos contatos age
sempre em nome do dono. Externamente, na Abril, se dizia representante dos Civita. Internamente,
amedrontava funcionários informando sempre as conversas teóricas com o dono. (Ele
transformava um encontro em vários, e de dois pontos montava uma história.)
Com isso, ele conseguiu adiantamentos, passagens e hospedagens, gastos de aluguéis e
verbas de representação, onde requisitava, aprovava e escondia. Dizendo sempre que esteve com
o patrão, que agia por ordens do patrão. Os funcionários morriam de medo. Até ser descoberto.
Quando foi descoberto e todo o seu débito levantado, foi demitido por "justa causa" como
estelionatário, por um desfalque de mais ou menos 700 mil em 1968 (hoje cerca de 1 bilhão).
Diante de tal fato, Calazans utilizou o seu recurso mais comum: chantagem. Chantageou
os Civita com a história do terreno e da construção do Hotel 4 Rodas. Ao que tudo indica, com
grandes irregularidades envolvendo doações ilegais, desvio de mão-de-obra, material público etc.
Ante a ameaça de escândalo público, sua saída foi negociada.
Saída que passou a ser uma demissão pura e simples (sem o estelionato caracterizado).
Porém, ele assinou várias promissórias para cobrir as dívidas. (Mais tarde, ele deixaria de pagar
algumas das promissórias e a Abril entraria com ação de execução contra imóvel de Calazans.)
Passa então a atuar como free-lancer e consegue ir para a Bloch. Mas rapidamente
descobrem quem era, logo é demitido em meio a uma viagem-safari para a África para uma
reportagem com Bokassa.
Fica uns tempos na África com o "imperador" e vive dias de glória. Enquanto, no Brasil,
Alcione provia as necessidades da família de Calazans.
Como de hábito, Calazans pretende viabilizar seus sonhos faraônicos. Ao ver o sítio do
amigo Alcione, em Itapecerica da Serra, propõe sociedade.
Constrangido, Alcione, sob pressão — uma vez que Calazans já transformara em hábito a
presença no sítio — aceita e propõe-se a pagar a metade do valor do sítio. (Este custara 42 mil, e
Calazans assina várias promissórias até o montante de 21 mil.)
Propõe, então, transformar o sítio, numa mansão nunca vista. Mandou fazer terraplanagem,
calçamento, meio fio, pavimentação, jardinagem, construiu uma mansão com anfiteatro, com
piscina suspensa e jardim idem. Só que a conta, não paga, era mais do dobro do valor do sítio.
Daí começam as cobranças, e as execuções. Alcione, então, entre perder o sítio para os
credores e pagar as dívidas, opta por dar o sítio ao Calazans (que garante pagar tudo). Ou seja,
Calazans tomou o que nunca fora seu. Puro golpe.
Para salvar o "amigo Calazans", Alcione passa a ser o seu avalista oficial. Só que, como os
bancos mandavam os títulos em branco, Calazans dizia que ia pedir um empréstimo num valor e
tomava muito mais. (Provocando um endividamento sem fim.)
A síntese deste desastre foram 52 ações de execução, onde Alcione perdeu tudo o que
tinha, salvando tão somente a residência, pois, segundo instruções do advogado, entrou com
embargo de terceiros (filhos herdeiros e mulher meeira e herdeira), provando que o imóvel era
mais de terceiros do que do próprio Alcione.
Calazans, por seu turno, para se livrar dos credores, aplica o golpe de vender o sítio va'rias
vezes a diversas pessoas, para ficar com o sinal e a entrada. Uma vez que uma ação a mais ou
uma a menos não faria diferença. Entretanto, se dá mal, pois um dos compradores, seu primo,
promove uma ação — não de execução, mas de estelionato — e consegue, com isso, resolver
vários problemas. Ao invés de pagar ao Calazans, ele começou a pagar a todos que haviam
entrado com ação de execução do sítio, para, só depois, pagar ao Calazans.
Com isto, Alcione viu grande parte das dividas serem pagas. Para ajudar, vai até Calazans
e propõe receber bens de família no Nordeste, vendê-los e pagar as dívidas de Calazans, para que
ele possa ter tranqüilidade e estabilidade. E, tão logo as coisas se normalisassem, Calazans lhe
devolveria o dinheiro.
Calazans, como de hábito, não admite o insucesso, e assumindo ares de importância diz
que iria pagar todo o débito — porque estava trabalhando com o maior empresa'rio do país (Dr.
Roberto Marinho) — e que iria mandar para o Alcione uma carta com toda a quitação das dividas,
aproveitando para romper a amizade com ele, que não confiava no amigo.
Alcione então, ofendido, retruca que aceitava a quitação do débito, mas que não ia
aguardar a tal carta para romper a amizade. Pois, para ele, a partir daquele momento considerava
a amizade rompida.
Calazans, dentro da própria casa, ofende, ameaça e humilha ó ex-amigo, pondo-o para
fora como um cão vadio. (Detalhe: Calazans é alto e corpulento, e Alcione, baixo e franzino.)
Alcione rompe com Calazans, após 20 anos de amizade e abstém-se de qualquer outro
contato. Limitando-se a receber as quitações das dívidas que eram enviadas.
Calazans e esposa tentam, por inúmeras formas, reatar com Alcione. Este se limita a
receber cheques e documentos, mas não a pessoa do Calazans.
Alcione termina o relato demonstrando uma grande admiração por Calazans, dizendo que
a garra do Calazans, é algo de fantástico, e que ele tem um faro incrível para dinheiro: "Ele sabe
onde estão os dinheiros". Mas, ao mesmo tempo, demonstra uma profunda e irrecuperável mágoa.
Dizendo que o Calazans é o maior mau caráter, o maior perdulário e o indivíduo mais irresponsável
que existe sobre a face da terra.
Capaz de devastar a fortuna de um Roberto Marinho ou de um Onássis em pouquíssimo
tempo. Sua capacidade de endividar-se e gastar dinheiro alheio é ilimitada. E arremata: "Pobre do
Dr. Roberto..."
Nota: Igual ao acontecido na Abril, Calazans deve á Rede Globo uma grande soma de
dinheiro, várias vezes superior aos seus ganhos. Ao tempo da auditoria (1985) Calazans devia 112
milhões à Rede Globo (cerca de vinte mil dólares)."
Com a aproximação do fim dos trabalhos de auditoria, começam a ficar evidenciados os
desesperos. Vazam notícias, e chega até nossos ouvidos que o cinturão de fidelidade do Magaldi
aceitaria entregar a cabeça do Diretor Administrativo Financeiro, Doutor Jair Lento, em troca de
uma não retaliação profunda.
Esta notícia, proveniente da Central Globo de Boatos, teve alguns efeitos interessantes,
pois se para mim era totalmente indiferente — eu não quis entrar na briga e agora não aceitava
sair —, para o Francisco a coisa tomou ares de fragilidade e de desespero por parte dos boateiros.
Fazendo com que ele ordenasse que se cortasse mais fundo, e que os auditores deveriam
intensificar mais e mais seus trabalhos, não importando que já existisse material suficiente para
demitir toda a diretoria.
Estava ocorrendo o que prevíramos no início. O Francisco iria atropelar e querer dirigir tudo
sozinho, tão logo percebesse que poderia manejar com todos os botões ao mesmo tempo.
Entretanto, esta intensificação final e atabalhoada, em clima de "vamos arrasar", acabou trazendo
algum transtorno para mim. Acuados e com medo, algumas pessoas passaram para uma posição
de desespero. Sabendo que eu deixava, habitualmente, a minha família sozinha em São Paulo
durante a semana, passaram a recortar noticias terríveis de jornais sangrentos como Notícias
Populares, e punham alguns recortes destas noticias na caixa do correio para atemorizar minha
mulher e meus filhos: Seqüestro, Estupro, Morte, Assassinato, Estragulamento, Chacina, etc. Eram
as "noticias" encontradas na caixa do correio.
Óbvio que o efeito foi imediato. Minha mulher entrou em pânico. Passou a andar armada.
Levava as crianças para o colégio (em frente da casa — Colégio Miguel de Cervantes) escoltada
por um par de cães fila. Era claro e evidente o medo que ela demonstrava.
Foi preciso muita doutrina e explicação para convencê-la de que estávamos diante de um
fato irremediável. E que eu teria que fazer as coisas à minha maneira.
— O trabalho de auditoria já está praticamente todo feito. O Dr. Roberto já sabe de 80% do
que nós encontramos, pois ele vem sendo informado gradativamente, à medida que nós
encerramos cada assunto. Não há mais como parar a auditoria. Tudo virou irreversível. Ele irá
tomar, ou não, as medidas que julgar convenientes, e eu sofrerei, ou não, as conseqüências de
haver iniciado tudo isto. É inevitável a possibilidade de represálias que eu possa sofrer. Não dá
para fugir; não dá para correr. É parar e encarar. Eu não vou conseguir esconder vocês para
sempre. Portanto, só há um meio possível de encarar isto. É assumir a possibilidade de eu morrer,
ou de vocês morrerem, ou de morrermos todos, e tomar a estratégia de sobrevivência à partir daí.
— Dizia eu, de forma, fria, realista e bastante consciente. (Até mesmo para conscientizá-la.)
— Eu quero que o Roberto Marinho morra. Eu quero que você pare com essa auditoria e
saia da Globo. Não há motivo ou justificativa para você se envolver e envolver a vida de seus filhos
nesta loucura. Pare com isto tudo. — Pedia ela.
— Você acha que agora dá para parar? Depois que todos forem demitidos; você acha que
dá para você se esconder?— Eu perguntava.
Óbvio que a princípio ela não aceitava, nem entendia qualquer justificativa minha.
Acreditava, ainda, na possibilidade de viajarmos, de fugirmos, ou mesmo de sermos guardados e
protegidos 24 horas por dia.
— Imagine seus filhos sendo brutalmente assassinados. O que você faria? — Questionava
eu de forma ensaísta.
— Não sei. Não sei se há uma outra chance... — Duvidava ela.
— Você morreu. Seus filhos morreram... Este é o real com que você tem que lidar. Qual
seria sua nova chance, se você pudesse, reviver? — Eu insistia, sobre o imutável. E foram tantas e
tantas as vezes as insistências, que ela acabou, por medo e falta de opção, concordando:
— Ok. Faça o que você acha que tem que ser feito, e o que garanta a você e a nós a
tranqüilidade ou a sobrevivência. — Aquiesceu ela.
— Nada garante nada. Nada pára nada. Há uma chance de parar, mas eu não vou contar
com isto. Você tem que se imaginar morrendo. Você tem que imaginar seus filhos morrendo, e
tomar suas decisões a partir daí, não importando qualquer outra possibilidade. — Tentava
doutriná-la para o inevitável.
— Eu não quero morrer e nem que meus filhos morram e não sei ser fria como você. Faça
alguma coisa que pare isto tudo. Faça o que você achar melhor e, se possível, nem me conte, pois
eu imagino o que você fará. — Encerrou, lamentando pela sua possibilidade de envolvimento e
pelo envolvimento involuntário das crianças.
Foi preciso muita doutrina, principalmente espiritual, para que ela admitisse a possibilidade
de morte dos próprios filhos. Estávamos lidando com o imponderável, incontrolável e imutável, e
não poderíamos agir como pessoas que costumam se fragilizar a partir dos outros, antes do que a
si próprias. Foi com base nisto que pedi para que ela ficasse sempre junto das crianças. Morrendo
junto, se possível. Pois, mesmo no caso eventual de minha morte isolada, ela não deveria, sequer,
esboçar qualquer reação, pois o efeito retardado faria a sua parte. E a "justiça particular" se
cumpriria, mesmo depois da minha morte.
Com base nisto fui consultar "meus caros amigos" de Jacaré-paguá, pois, afinal de contas,
nada nem ninguém melhor do que eles para lidar profissionalmente com profissionais. Isto, eles
sabiam fazer melhor do que ninguém, (É certo que às vezes eles se enganam e erram no varejo,
explodindo bombas antes do tempo, aleijando quem não deviam, ou falhando no efeito retardado
na destruição de uma oficina de jornal. Mas, no atacado, eles acertam em 99% dos casos. E
jamais deixam de cumprir um contrato.)
Encomendado o serviço, veio a orientação técnica: eram três as pessoas que estavam
envolvidas nas gracinhas e ameaças. A sugestão era para que o serviço fosse feito por Justiceiros
de São Paulo mesmo, ou pela Mineira de Iá. Fui contra a sugestão por vários motivos,
principalmente porque haveria mais gente envolvida do que eu desejava e por ter que ser
executado por pessoas que eu não conhecia e não confiava na qualidade do serviço.
Exigi e paguei, mais uma vez, a ida de dois profissionais a S.Paulo, para dar um primeiro e
único recado aos autores das gracinhas e de maneira a deixar bem claro como seria o processo de
troca: para um o processo iniciar-se-ia pela mãe. Para outro a troca seria por ele mesmo. E,
finalmente, para o último seria começando a troca pelos netos, indo depois aos filhos, até chegar
nele próprio. E tudo seria irreversível e incontrolável.
Tive que manter à distância, inicialmente, um terceiro dos especiais caros amigos, pois
este queria dar, imediatamente, uma demonstração do aviso, um exemplo de como seriam as
coisas caso meus filhos, minha mulher ou eu sofrêssemos qualquer atentado ou "acidente". Não
que este amigo especial fosse afoito ou não fosse profissional, mas é que sua compulsiva tara por
matar precisava ser nivelada ou compensada. E eu não queria ser o motivo para esta sede e
compulsão. Sabia que uma precipitação poderia pôr tudo a perder.
Exigia uma certa habilidade em ter que lidar com isto, e com as multifacetas de cada um.
Com os gostos, taras e vaidades pessoais de cada caro amigo. Pois tudo tinha que funcionar
mesmo após uma possível morte minha. E nada deveria justificar a sua não execução. Ainda que
eu morresse num acidente de ponte aérea, ou mesmo num simples acidente de carro, nada
deveria ser questionado. Os motivos, os fatores e a possível acidental idade da minha morte não
deveria ser o obstáculo para não se executar, ou não se concluir o serviço. Eu queria a garantia de
que sob qualquer hipótese, por mais acidental que fosse, que tudo se desencadeasse
normalmente. Seria um banho de sangue por qualquer morte na minha família.
Tentei esboçar uma conversa inicial com o Francisco sobre o que estava acontecendo
comigo em São Paulo. Mas ele, obstinadamente, teimava com as baboseiras de lei, ordem, justiça
etc. Quando eu questionava sobre qual tribunal devolveria a vida dos meus filhos, ele fugia do
assunto e transformava-se: — Não me conte o que você vai fazer, pois se eu não souber eu não
me sinto seu cúmplice.
— Obrigado - dizia eu. — Muito obrigado. Eu fico de frente com os caras, sou ameaçado,
exponho minha família, e quando contrato profissionais para um serviço sou um animal selvagem e
insensível? Cara, isto aqui não é brinquedo, não. Não dá pra ter estômago fraco. E é de mortes,
violências e assassinatos que nós estamos falando.
Francisco levantava, saía da sala, fugia do prédio e ia para outro local. Ele não me tirava a
razão, mas não queria participar, sequer como ouvinte.
Há muito que a auditoria deixara de ser um procedimento técnico ou um meio profissional
de investigação. Por vício do próprio vício do sistema corrupto e corruptível da Rede Globo,
transformava-se a técnica rebuscada de administração, finanças, negócios, economia, estatística e
legislação tributária em algo policialesco. Foram tantos e tantos os pega-ladrão, que eu me
indagava sobre a prostituição das funções de auditor, que antes de mais nada é o meio de
extensão dos olhos e ouvidos do acionista ou dono do empreendimento e uma das principais
fontes de consulta e orientação sobre a probidade do sistema de negócios utilizada na empresa.
A escolha era terrível. Antes eram FASBs, APBs, Procedures, e um milhão de
conhecimentos técnicos. A realidade da Globo era de roubos, falcatruas, desvios, sacanagens e
putaria generalizada. Eu me sentia como um computador utilizado para cálculos primários, ou
como um profissional respeitado contratado para executar uma tarefa rastaqüera. Era, para mim, a
prostituição de todos os meios técnicos. Como contratar um médico para um aborto criminoso ou
uma eutanásia injustificável. Como contratar um químico para inventar uma praga bactereológica.
Um financista para falir com a própria empresa. E eu me sentia parte daquilo tudo. Ajudava,
orientava e instruía; e tudo que eu fazia era para amparar e ajudar a legitimar tudo que eu era
visceralmente contra, e que arrasava e empobrecia, cada vez mais, a população,
institucionalizando a corrupção. Eu me sentia pior do que consciência de advogado de traficante de
tóxico. Me sentia pior desempenhando minhas funções como auditor na Globo do que contratando
o extermínio coletivo de famílias e pessoas que atentavam contra a minha família. E sentia, na pele,
como é duro ter que desempenhar um papel socialmente hipócrita numa sociedade brasileira idem.
O tempo foi passando, e ficou bem claro que as pessoas que lançaram aquelas ameaças
haviam entendido o recado dos meus caros amigos, pois não apareceu mais nenhum recorte de
jornal ameaçando a minha família. Entendi que eles não aceitaram a troca proposta. Mas nem por
isso relaxei com a segurança. Ao contrário, passei a mudar de alvo, pois sabia que outros e outros
casos iriam aparecer e outras e novas ameaças iriam pairar sobre minha família. Assim, transferi
simultaneamente várias vezes o alvo do serviço pago e contratado, mantendo vivo o "contrato de
execução", face ao tipo de serviço desenvolvido na Rede Globo. Não havia outro meio de lidar com
o banditismo que não fosse com o próprio banditismo. Este era o raciocínio equacionai a que eu
era conduzido por esta merda de país sem lei em que eu vivia. Era a selvageria do princípio dos
"pequenos assassinatos".
O trabalho em auditoria continuava solto, mas o clima de briga e rompimento era evidente.
Todo mundo dava choque, e a tensão era muito grande. Até porque, conforme prevíramos ao início,
o Francisco assumiu, de vez, a direção geral do trabalho, tentando fazer com que chovesse antes
do tempo, e cobrando das pessoas, colegas de trabalho, mais do que a capacidade física e mental
individual de cada um. Isto levou ao rompimento generalizado, pois passei a ser o defensor do
Magaldi (na opinião do Francisco), tinha me insurgido contra o "gelo" a um colega (Wagner, que
era auditor, e ao mesmo tempo, por acidente, futuro genro do Jair Lento), e apoiava a posição do
Luiz Carlos em deixar a auditoria. O Mendes passou a ser acusado de não "dar pressão" nos
funcionários em baixo, e de não ter carro, telefone, rir alto, falar alto e todas as outras neuras que o
Francisco tinha em relação a ele. O Wanderley era acusado de não falar e de ter uma postura
introspectiva, e o Claudinho era afoito e destemperado. Em suma: éramos um bando em choque
permanente com o poço de virtudes do Francisco.
Ele insistia comigo:
— Machado, porque você defende tanto o Magaldi? Ele te sacaneou até não poder mais. É
um administrador relapso. Joga no time dos bandidos. E você vive defendendo ele. Você é mulher
de malandro, cara?
— Não é nada disso. Você não entende ou finge não entender. O fato que aconteceu
comigo na Fundação não tem nada a ver. Considero o Magaldi um péssimo administrador. Faz
vista grossa pros amigos dele. E não tem a menor condição de dirigir, empresarialmente, qualquer
empresa. Mas, por outro lado, eu não acho que ele seja ladrão ou bandido, como você apregoa,
pois nada foi provado contra ele, a não ser a péssima administração. Diferente da maioria dos
outros diretores, que roubaram mesmo. Daí, eu faço uma grande distinção: ele não serve para ser
o Secretário Geral da Fundação, pois é um desastre como administrador, mas acho que é um dos
caras mais inteligentes da televisão e o melhor profissional para dirigir o Departamento
(posteriormente Central) de comunicação. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. É só deixar
ele criar, produzir e fazer aquela coisa mágica do vídeo, do subconsciente, do subliminar, que ele
vai estar no campo dele. O negócio

dele é vinheta, criação, Agência da Casa, Cedoc, plim-plim etc.


— É, mas ele é mau caráter assumido. Pois quem finge que não vê os amigos roubando é
o quê? E o caso do Simonal, lembra? — Insistia o Francisco.
— O fato de ele deixar os amigos roubarem é uma coisa que depõe contra ele como
administrador, e isto eu já disse que concordo com você, mas quanto ao fato de generalizar eu não
aceito. Não aceito, por exemplo, esta citação do Simonal, pois o que o Magaldi fez foi tomar as
dores do contador, por ter o rabo preso com ele em declarações de imposto de renda e
outrascoisitas; daí, inventou que o Simonal era cagüete do DOPS e dedo-duro oficial. Mas ele só
fez isso porque era uma "briga de cachorro grande"; era ele contra o Simonal. E, como o Magaldi
sabe que a sociedade engole tudo, menos dedo-duro, inventou que o Simonal era dedo-duro;
lançou o boato na Central Globo de Boatos; fez circular a boataria pelos meios de comunicação, e
pela inteligenzia de chopp com batata frita de Ipanema e Leblon. Aí, ficou fácil. Boato vai, boato
vem, apareceu até quem viu o Simonal dedurar. Outros juravam que tinham amigos influentes e
que viram até a "carteirinha" do Simonal como Agente do DOPS. Teve gente, mais fervorosa, que
até jurou, confessou e se penitenciou por ter sido dedo-duro junto com o Simonal, e se curou no
psicanalista do Dr. Lobo. É dose. O que esta inteligenzia de merda é capaz para ser assunto, e
"naturalmente deslumbrado", você não acredita. E, com isto, o Simonal sofreu o maior boicote que
pode existir, que é o boicote intelectual. Neguinho fugia dele como quem foge de leproso, e a
brilhante carreira de um cara que era tudo na MPB de repente sumiu e acabou igual fumaça ao
vento. — Conclui.
— É, então... Daí você concorda que ele é um cara safado e crocodilo... — Pedia a
confirmação o Francisco.
— Concordo porra nenhuma. O que ele fez foi o que qualquer um faria, se fosse
medianamente inteligente, se fosse vingativo e se dispusesse do poder de fogo que ele dispõe.
Ponha-se no lugar dele e veja se você não faria o mesmo contra um inimigo seu. Veja o que você
faz com os amigos do Miguel. Veja o que você faz com os amigos do Magaldi. Veja o que eu estou
fazendo com o Jair Lento. Não tem diferença, cara. Amigo é amigo. Inimigo a gente pega, mata e
come. Não se faz amigo na guerra. — Repliquei.
— É, mas nós não inventamos nada para destruir ninguém. Nós estamos pegando os
caras pelo que eles fizeram de errado. Não há invenção para perseguir. O Magaldi não. Ele destrói
as pessoas só pelo fato de serem inimigas dele, e não pelas coisas erradas que os outros fizeram.
— Insistiu o Francisco.
— Quer dizer que o ditado "amigo não tem defeito; inimigo, quando não tem, a gente
coloca" é só para os outros... Não vale para você? Vou acreditar... — Coloquei provocativamente.
— Não adianta. Você, quando gosta de alguém, não tem jeito. Tudo isto só porque você
acha que ele é inteligente. — Insistia o Francisco.
— Francisco, tem duas coisas especiais que devem ser cultuadas: os amigos reais e as
inteligências brilhantes. Pois é tão raro existir um amigo e um inteligente que quando encontrados
devem ser preservados. Eu não estou dizendo que o Magaldi seja meu amigo, mas é uma
inteligência brilhante da qual eu admiro, e deve ser preservado, ainda que ele tenha defeitos.
Existem tantos medíocres travestidos de gênios, tantos onagros guindados ao posto de gênio pelo
simples sucesso pessoal, que é preciso dismistificar estes gurus da genialidade imediatista e
preservar as verdadeiras inteligências isoladas e solitárias. E, neste caso, eu relevo as cagadas
que ele fez enquanto administrador, até porque ele não é ladrão. E em nome da falta de provas e
da inteligência dele, eu o defendo, parcialmente. — Conclui.
— Quer dizer que a inteligência justifica tudo? — Questionou ele.
— Não. A inteligência até que deveria ser algo bem normal e natural. O cara inteligente é
acometido de todas as idiossincrasias, os mesmos erros e acertos, do restante da humanidade,
com direito a ter dor de barriga como todo mundo. A diferença é que ele vive a vida com o útero. É
mais sensitivo, É mais perceptivo. E sofre mais do que os outros, pois tem mais consciência da
realidade. Não adianta eu ficar aqui me esgoelando. Ou você entende sem eu ter que dizer, ou eu
não terei palavras para me fazer explicar, É uma coisa muito difícil de explicar com palavras. O que
ele fez foi uma grande cagada, e agora ele está ciente disto, e está arrasado. Ele desconhecia o
tamanho do monstro que ele havia criado. Os outros não. São safados, e vão fazer novas
safadezas na primeira oportunidade que tiverem.
— Tudo bem. Não adianta discutir com você em relação às pessoas que você gosta. —
Encerrou o assunto o Francisco.
Logo após esta nossa conversa, como que a desmentir toda a sua teoria, o Francisco
adotou uma postura absolutamente vingativa. Decretou uma invasão no território do Magaldi,
colocando auditores na Globotec, na Agência da Casa, no Cedoc, no Videographic, no Aldeão e
por todo o Departamento de Comunicação. Fez um memorando comunicando a invasão ao
Magaldi, e deu-me para assinar, bem como a todas as cartas de circularização endereçadas ao
Diretor do Depto. de Comunicação. Para ficar bem evidente aos olhos do Magaldi que era eu,
Roméro da Costa Machado, que o estava invadindo e perseguindo de todas as formas.
Eu tinha razão: na inocência e na maldade somos todos iguais.
Paralelamente, eu insistia, de todas as formas, via Matsumi, no sentido de fazer Magaldi
assumir o controle do descontrole e posicionar-se ao lado do Francisco na função higienizadora da
Fundação. Junto ao Francisco eu pedia que este se unisse ao Magaldi para que ambos, numa
ação conjunta e coordenada com o Dr. Roberto, pudessem levar a termo a apuração de todas as
responsabilidades. Mas a realidade era bem outra. A Fundação estava sendo loteada, e rifada,
onde cada departamento com cada diretor com cabeça a prêmio transformava-se num apetitoso
cargo a preencher. E isto, revoltava-me demais, pois era contra tudo que eu pregara, e contra a
minha própria saída da Fundação. Eu não admitia haver saído da Fundação para limpá-la e ver
colegas disputando a tapas cada possível cargo vacante. Este passou a ser o nosso principal
ponto de discordância interna, tanto que não tardou a motivar a explosão de atos isolados
contrários a esta postura.
— Machado... Machado... Chegue aqui. — Chamava o Francisco, quase desfalecido.
— O que é? Que que aconteceu? — Perguntei assustado.
— É o Luiz Carlos. Ele está pedindo demissão. Ele ficou maluco. — Disse o Francisco,
espantadíssimo.
— E daí? Se ele quer sair, deixe ele sair... - Disse eu, calmamente.
— Deixa sair é o cacete. Sabe para onde ele vai e fazer o quê?
— Sei. — Disse, monossilabicamente. — O quê!?
— É... eu sei, e já sabia há muito tempo. — Continuei calmo.
— Quer dizer que é traição conjunta? — Perguntou espantado.
— Traição nada. Ele me contou e eu não tenho o direito de trair o que ele me confiou. —
Insistia na calma.
— Então você acha normal ele sair daqui para ser um gerentinho regional em Juiz de Fora,
ganhando menos do que ganha aqui?
— Acho normal e lógico. Não dentro da minha lógica, mas dentro da lógica dele. Ele vai
poder se livrar de tudo isto daqui. Vai poder ficar perto da família, não terá que viajar igual a um
louco celerado. Vai tomar café, almoçar, jantar e dormir igual um ser humano normal. Isto é a
loteria da vida dele. Vai pro mato criar galinha, ganhando o suficiente para viver. — Expliquei.
— Ele vai ganhando menos. Imagine a repercussão disto dentro da Globo. Vão me
questionar o porquê desta saída, e porque um cara como ele, que poderia ser, no mínimo, diretor
em qualquer empresa do Grupo, vai sair da auditoria para ser gerente em Juiz de Fora. —
Indagava assustado.
— Entendi sua preocupação. Você está preocupado com você. Com o que os outros vão
pensar de você. E você não terá uma só justificativa para explicar a saída dele. Não é isso? —
Questionava maldosamente.
— Bela hora para me criticar. Porra. Eu não posso perder um cara como o Luiz Carlos.
Fale com ele. Coloque seu empenho nisto. Vocês são amigos. Faça ver a ele o que ele ira' perder.
Negocie com ele. Diga que eu tenho verba sobrando no departamento, e posso remanejar essa
verba e dar um bom aumento e promoção para ele. Tente tudo. Não aceito a saída dele. E avise
que se ele duvidar eu melo a transferência dele. — Pedia e ameaçava ao mesmo tempo.
— Eu não vou falar nada. Respeito a opinião dele e sei que não há dinheiro no mundo que
faça ele continuar aqui. E não adianta ameaçar melar a transferência dele, pois ele já acertou tudo
com o Aleixo e com o Miguel. É irreversível. — Assegurei a ele.
— Porra. Ainda por cima fui traído descaradamente. Tudo foi feito nas minhas costas: você,
ele, Aleixo e Miguel Pires — constatou, espantado, o Francisco.
— É isso aí. Você permitiu e até estimulou a cobiça dos cargos da Fundação. Você tem
que parar de se auto-analisar. Ver como é perniciosa esta ambição estimulada. Ver que existem
pessoas aqui, que acreditam no que fazem. Ver que você está sendo um ditador. Está atropelando
todo mundo. Está perdendo o senso de controle e poder. Você está jogando fora seus amigos.
Você está pisando em quem te ajuda. E deixando que a possibilidade de poder, na Fundação,
tome conta de você. Pare e reflita, antes que você acabe sozinho.
— Do que você está falando? Agora eu sou o culpado de tudo?
— Não é isso. Você não está percebendo que você está me pressionando ao máximo.
Está pegando no pé do Wanderley. Está massacrando o Mendes. Está saindo na porrada com o
Luiz Carlos todo o dia, e protegendo o Pedro contra tudo e contra todos. E, ao mesmo tempo,
ambiciona cargos na Fundação, como uma extensão e prolongamento do poder. Você vai acabar
sozinho na auditoria, ou só você e o Pedro.
— Tudo bem. Eu topo... Começo tudo do zero com o Pedro. Se vocês quiserem sair em
bando, podem sair... — Disse, desafiadoramente.
— Tá legal. A escolha é sua. — Aceitei o desafio.
A partir daí, as coisas, internamente, pioraram muito, pois o Francisco mudou, mas de uma
forma bem sacana. Passou a tratar a todos muito bem (mas eu sabia que era forçado) e tentou
isolara galera e o senadinho de mim, mantendo-me longe da possibilidade de influir no restante do
staff. E, ao mesmo tempo, colocou o Pedro para fazer public relations junto ao staff e mostrar-se
bastante agradável e camarada. Era o Pedro newlook. Era tão "natural" como um hipopótamo
dançando balé.
A reação da galera e do senadinho foi imediata. Recusavam-se aos apelos de "canto de
sereia", e passaram a encontrar-se comigo às escondidas. Mas eu sabia que a longo prazo isto
teria um fim ruim, principalmente para a indefesa "turma de baixo". E, por esta razão, passei a
precipitar as coisas e partir para um prematuro confronto com o Francisco, não perdoando e não
relevando nele o que antes eu aceitava como natural e digerível.
Quando já tínhamos quase tudo concluído em termos de trabalho na Fundação, faltando
algumas pequenas arestas, e estávamos discutindo a forma de enxugarmos o relatório,
principalmente como fazer um Sumário Executivo com tantos pontos envolvendo tanta gente, o
nível de discussão passou a ser mais franco e aberto, pois as acusações passaram a ser frontais e
quase ameaçadoras. Ficou bem claro que haviam duas correntes: a minha e a do Francisco.
Certa feita, no pique da "guerra-fria", o Francisco chegou a reunir seus auxiliares mais
diretos para dizer que vários pontos do relatório tinham vazado, e que ele tinha ficado em maus
lençóis diante do Dr. Roberto, num confronto com o Magaldi, sugerindo que alguém teria
municiado o Magaldi de informações, assessorando estrategicamente sua conduta, e que esta
pessoa que havia feito isto era alguém de confiança dele (Francisco) e com visão total do relatório
e dos problemas da Fundação. Em suma: havia um traidor na auditoria, e este traidor era eu. (Ele
não disse, mas deixou isto bem claro.)
A raiva subiu-me ao rosto e eu principiei perdendo o controle. Queria voar no pescoço dele
e do Pedro, que a esta altura ria e ironizava, insinuando que alguém logo logo seria convidado
para ser diretor na Comunicação ou na Produção. Chegando mesmo a sugerir chamar o Hélio
Vigio (funcionário para-oficial da Globo), mais uma vez, para apurar "assuntos internos".
Eu já estava prestes a agredir um ou outro, quando os colegas Luiz Carlos, Mendes e
Wanderley, que não podiam crer no que ouviam, compondo a turma do deixa-disso, pediam-me
calma, pois de uma forma ou de outra, cedo ou tarde, tudo se esclareceria. Foi preciso muito pano
quente para acalmar os ânimos, já que muita coisa desagradável foi dita de parte a parte.
Naquele dia não almocei. Voei para a sala do Magaldi para apurar os fatos e tirar a limpo
tudo que havia acontecido entre o Dr. Roberto, o Francisco e o Magaldi.
— Não foi nada disto. — Explicou-me calmamente o Magaldi. — Avise pro Xerife que foi
ele mesmo quem entregou uma minuta de relatório para o Dr. Roberto e o Dr. Roberto entregou a
mim para responder e justificar os pontos levantados pela auditoria. E, como eu tive tempo para ler,
analisar e responder, me posicionei em cima do que a auditoria estava enfocando. Não houve
vazamento nenhum. Está aqui a minuta dele. Leve e dê de presente para o Xerife Lobo — ironizou
o Magaldi.
Voltei a mil por hora, voando, para o 266, e sai' catando o Francisco. Mendes e Wanderley,
vendo-me transtornado, trancaram-me numa sala. Aos berros, eu explicava aos dois o que havia
acontecido e como tinha acontecido. Transtornado, eu queria a-char o Francisco e o Pedro.
— Eu quero achar eles e jogar tudo na cara daqueles filhos da puta. Vão insinuar traição
pra mãe. Não quero mais papo com o Francisco de forma alguma. Hoje mesmo eu saio desta
merda. Não fico aqui de jeito nenhum. Saio da auditoria, saio da Globo, como merda mas não vou
aturar isso de ninguém.
Com muito esforço, paciência e doutrina, Mendes e Wander ley foram colocando meus
nervos no lugar, e ficaram o resto do dia trancados comigo para evitar que eu cometesse um
desatino com o Francisco na frente de todo o staff. (Eu queria ridicularizá-lo na frente de todos.
Seria uma ida sem volta.) Daí para frente, todo diálogo meu com o Francisco tinha que ser
assistido por assessores e pela turma do deixa-disso. E eu vi que a minha saída da auditoria seria
uma questão de tempo.
Voltamos a discutir a forma final do relatório, só que debaixo de muita tensão e ironia de
parte a parte.
— Reze para que o Dr. Roberto aja contra todos, porque senão eu vou fazer com a Globo
o que fiz com a Fundação. Não vai ter meias medidas. Ou dançam todos, ou boto tudo no
ventilador. — Passei a ameaçar.
— O problema é dele. Eu acho que ele não fará nada com o Calazans e nem com o
Magaldi. — Retrucava o Francisco.
— Eu não quero nem saber. Ou dançam todos, ou não tem acordo. Não tem essa de
demitir só gerente ou diretor fraco. Todos têm que dançar. — Insistia.
— Ele não fará nada com o Calazans porque o Calazans é bandido e vai chantagear o Dr.
Roberto, como fez com os Civita e com os Bloch. Ainda mais que no curriculum dele constam
pessoas como o presidente do PDS — José Sarney — e correligionários como Aluísio Alves. Se o
Calazans jogar merda no ventilador do Dr. Roberto e contar tudo sobre o MEC, o Dr. Roberto se
suicida. Por outro lado, Magaldi tem o controle moral sobre o velho, da vida paralela dele, e
controla o Roberto Irineu — complementou o Francisco.
Nota: A figura do Presidente, no Brasil, ao contrário do existente no resto do mundo, é de
inatingibilidade. Pois, ainda que este Presidente se confesse como réu, não há instituição capaz de
julgá-lo. E, ainda que o Presidente da República mate, roube, assalte, corrompa, ou pratique um
incalculável número de delitos e crimes, ele estará fora do alcance das leis brasileiras. (São
exceções de incompetência não ensinadas nas faculdades, e não constam em direito comparado
ou fazem parte da história do direito. Exceção de incompetência: Ratione Status, Ratione Pecuniae,
Ratione annus non libertus — o que vulgarmente pode ser traduzido como: não alcançável pela lei
em razão de sua posição social, em razão de sua condição financeira ou em razão do rabo preso
do réu e de seu julgador.)
O mais interessante é que este poder corrupto alcança também aos parentes, amigos do
presidente e ministros de sua confiança; como nos casos Capemi (filho do ex-presidente
Figueiredo) e da compra de votos constitucionais em troca de concessões de rádio e TV (Ministro
das Comunicações Antônio Carlos Magalhães).
O único denominador comum a todos estes crimes e fator de interligação entre corruptos e
corruptores chama-se Roberto Marinho (Vide volume 2 da Trilogia Global, Inside Globo).
— Vai ter que entrar todo mundo. — Eu insistia, feito criança contrariada. — O Magaldi não
pode ser mais o Secretário Geral e o Calazans não pode ser Diretor do Depto. de Educação. Não
adianta só demitir diretor fraco. Ou higieniza tudo, ou não se faz nada.— Insistia, renitentemente.
— Porra, eu vou entregar o relatório. Se o Dr. Roberto não tomar providências o problema
é dele. Não é meu problema, nem teu problema. Nós não temos nada com isso. — Disse o
Francisco, deforma irada.
— Não tem o cacete, isto é uma Fundação, não é uma empresa privada. Se não tomarem
as providências corretas, eu jogo no ventilador publicamente, É esperar para ver. — Ameacei.
Nota: Uma Fundação não é como uma empresa comercial comum. Ela não tem dono,
sócio ou outra forma de controle individual. Uma Fundação é criada à partir da doação de bens por
parte do fundador, e aí ela passa a ter vida própria e independente de seu fundador, sendo
controlada pelo poder público (Curadoria de Fundações); não podendo e nem devendo seu
fundador geri-la à sua conveniência.
— Você não é louco, você some antes disto virar escândalo. — Disse, Francisco, mas já
sem muita certeza.
— Sumir é o de menos. Pior é quem some logo atrás de mim. Eu estou preparado para
morrer desde que nasci. Os filhos e netos deles estão? — Retruquei, calmamente.
— Machado, vamos encerrar o papo. Eu só quero ficar fora desta sua briga futura. Não me
envolva nisto. — Encerrou, curtame nte.
Mais do que obstinação, aquilo era um ponto de desafio. Algo que eu sabia, tanto quanto o
Francisco, que não seria cumprido. Era óbvio que o Dr. Roberto não se atreveria a demitir o
Calazans, pois o poder de fogo e envolvimento dele era muito grande. Envolvia toda a cúpula do
MEC, com trânsito por diversos outros ministérios, órgãos públicos (Seplan, Subin, Universidade
de Brasília, etc.) e diversos políticos de expressão no cenário nacional, como o presidente do PDS,
José Sarney (mais tarde, Presidente da República), dentre vários outros (principalmente os
políticos da ala nordestina liderada por Aluísio Alves).
Demitir o Magaldi, da Fundação, era outra impossibilidade, pois sempre foi evidente a
ascendência do Magaldi sobre o Dr. Roberto e sobre o Roberto Irineu. E, no fundo, no fundo isto
dava um certo desalento, pois eu iria assistir às demissões de vários diretores (quase todos),
vários gerentes, e outros funcionários menos graduados; e os dois maiores envolvidos em toda a
briga de poder dentro da Fundação iriam recolher suas armas para num futuro próximo começar
tudo de novo.
Eu me sentia como um zumbi. Olhava e não via. Escutava e não ouvia. E nada, nada mais
me restituía o interesse pela continuidade da auditoria. Todos os fatos que se seguiram após este
torpor foram como se me atravessassem e não mais me interessassem.
Passou a ser indiferente, para mim, a briga nova, agora entre Francisco e Jair Lento, pois,
em estado de profundo desespero, Jair Lento juntou vários documentos de irregularidades graves
que provocariam uma intervenção na Fundação, com perda do controle da Família Marinho para o
poder público, e os encaminhou ao auditor externo, numa tentativa de jogar tudo no ventilador e
propor uma saída negociada. Mas, mais uma vez o poder do Dr. Roberto se fez presente, e tudo
foi abafado na Curadoria de fundações.
Não satisfeito, Jair Lento denuncia que a auditoria da Rede Globo não teria autonomia para
auditar a Fundação Roberto Marinho (e isto é real), tentando, desesperadamente, colocar a
auditoria para fora da Fundação, numa atitude correta, mas desesperada. Mas, uma vez mais. por
vias transversas as coisas acabaram se resolvendo, pois foi colocado para a Curadoria de
fundações que o auditor externo era inepto e jamais vira qualquer das irregularidades detectadas
pela auditoria interna da Rede Globo. Em razão disto, nomeou-se como auditor interno (só para
legitimar a presença de cerca de trinta auditores internos da Rede Globo, dentro da Fundação) um
funcionário da Sigla (Som Livre), lotado na auditoria, mas que, de fato, jamais pisou na Fundação
para fazer qualquer trabalho - embora recebesse, também, salário pela Fundação — era o Sr.
Orlando José de Barros.
Era uma briga que antes até mexia comigo, mas agora, diante do que eu vislumbrava
como desfecho, uma sacanagem a mais ou a menos não fazia diferença. Pois eu sabia que a lei só
seria rigorosa para os que não tivessem interesse político para o Dr. Roberto, e que a justiça seria
feita em quase toda a sua extensão. Tudo isto, junto, acabava me anestesiando. Meu estado de
torpor e decepção era tão evidente, que até Francisco, antes disposto a uma briga aberta comigo,
resolveu propor uma trégua, tentar um cessar-fogo.
— Machado, Dr. Roberto já decidiu sobre as demissões. —Antecipava, Francisco,
alegremente.
— E daí? — Respondi, mal-humorado.
— Como e daí? O Jair vai ser demitido, cara! - Dizia, como que querendo me alegrar.
— Sacanagem, estou com pena dele. — Disse, de forma sentida.
— Que foi, ficou maluco? Porra, você não fez tudo para caçar a cabeça dele. Agora vem
me sacanear dizendo que está com pena dele. — Dizia ele, ante estupefato e indignado.
— Cara, eu lamento que ele tenha trombado comigo. Lamen to por tudo que passei, e por
tudo que acabei fazendo ele passar. Eu até já esqueci e perdoei as sacanagens que ele fez
comigo. Só as noites de insônia que ele passou; só perder o poder e a empáfia, já foi um castigo
grande para ele. Eu lamento que seja demitido. No duro, estou com pena. Ele foi só um executor.
Eu estou é puto da vida porque os verdadeiros poderosos não foram alcançados.
— Mas vai todo mundo ser demitido, Machado. Não vai sobrar ninguém.
— Vai, Francisco. Cedo ou tarde Magaldi volta a dirigir a Fundação, é só dar tempo ao
tempo. E Calazans jamais será punido pelo Dr. Roberto. — Disse, com profunda decepção.
— E daí, batemos o recorde de demissões de diretores numa empresa. Vão todos pra rua:
José Carlos Barbosa, Mário de Almeida, Nelson Mello e Souza, Jair Lento, Jorge Matsumi...
— Coitado do Japonês, não fez nada diferente do que qualquer outro diretor de televisão
da TV Globo faz, e vai para a rua por ter tido peito de assumir tudo, desassombradamente. —
Lamentei, interrompendo o Francisco.
— É, também, quem mandou ele querer acabar com a mamata do Brás (motorista do Boni).
No final, o Brás continua na Globo. É motorista e dono de duas transportadoras com uma frota
enorme. Quem tem padrinho não morre pagão.
— É a justiça mais filha-da-puta que já vi. Nego não pega quem tem que pegar, pega quem
eles querem pegar. É igual ao cara que perde o dinheiro no escuro, mas vai procurar debaixo do
poste porque é mais iluminado. Eu custo a acreditar.
— Pô, até parece que você perdeu a família inteira. Que cara de enterro é esta? —
Tentava me animar.
— É fim de festa, Francisco! Como disse o Mendes, nada mais será igual. A auditoria não
será mais a mesma. A Fundação não será mais a mesma. Nós não seremos mais os mesmos.
Acho que é hora de eu pensar em algo para fazer. — Lamentava, com decepção .
— Por falar em fim de festa, Luiz Carlos está indo embora. —
Lamentou Francisco.
— É, vou me despedir dele. Ele é que é feliz. Vai para a tranqüilidade. Vai viver em paz e
calma. Eu vou dar os parabéns e felicidades a ele, e um pacote de pregos.
— Pacote de pregos? — Indagou ele.
— É, para pregar o tapete bem pregado, para filho-da-puta nenhum puxar.
— Você ainda está na bronca comigo? — Perguntou, quase se
penitenciando.
— Não, cara! Eu fiquei com raiva. Quis briga. Esbravejei. Queria que você fosse pro inferno,
mas já passou. No fundo, no fundo, somos todos vítimas dessa merda de vida que a gente leva. A
gente esquece que o inferno são os outros, e o pau acaba comendo dentro de casa. Novamente,
Mendes tem razão: o ladrão está dormindo, o dono do dinheiro está dormindo, e só o babaca do
auditor está acordado de madrugada, saindo na porrada com seu amigo mais próximo.
— Que que você está afim de fazer? Algum serviço especial?
— Questionou-me.
— É, quero seguir o meu faro. Estou puto com esse negócio de notas compradas, notas
fiscais frias-frias, frias-quentes. Principalmente pelo fato de algumas das notas serem de diretores
da Globo. Não me desce esse negócio de ter encontrado nota fria da JOB (Empresa do Boni). O
que será que o Boni tem com isso?
— Não! Lá vem você de novo!
— Não, não é nada disso! De repente, ele nem sabe do caso. Eu só quero assuntar a coisa
por fora. Nada oficial. — Expliquei.
— Como assim? — Indagou, curioso.
— É o seguinte, a gente levanta pelo DECAE (Departamento de Contratação de Artistas e
Elenco) e pela contabilidade, quais são as empresas que são empresas, e quais são as pessoas
físicas que burlam através de PJ (Pessoas Jurídica).
— E daí?
— E daí... a gente faz um grande mapa com todas as empresas de notas frias da Globo.
Mandamos a treinizada checar os endereços. Mandamos o serviço-de-rua levantar os documentos
nos cartórios, e finalmente a gente mata tudo centralizando nos contadores destas empresas. Se
estou certo, 80% deve estar distribuído em dois ou três contadores só, e os outros 20% são feitos
por vários contadores. Daí, que a gente mata tudo numa porrada só, e termina a charada de todas
as notas frias, e quais contadores estão vendendo notas ou arrumando os faturamentos de umas
com outras. Isso deve estar uma suruba só. — Expliquei.
— E o que isso tem a ver com o Boni? — Perguntou ele.
— Tudo. Você acha que o Boni, ele, pessoa física, vendeu notas frias para a Fundação?
Eu não creio. Deve ter merda na assessoria dele ou com o contador dele. É só descobrir quem é o
contador dele, que a gente soluciona tudo. E, se o contador dele está vendendo nota, a gente pega
metade da Globo nesta canoa furada.
— Estás afim de levantar isso? — Perguntou o Francisco já meio eufórico.
— Claro, e por que não? — Respondi.
— E se o Boni estiver neste rolo? — Questionou ele.
— Aí a gente muda. Ao invés de pólo-diretor, a gente joga pólo-vice-presidente. —
Respondi, brincando.

O Primeiro Confronto
O levantamento feito pelo DECAE (Departamento de Contratação de Artistas e Elenco) e
pela contabilidade foi de uma serventia incalculável. Pois, mais do que o imaginado anteriormente,
apuramos cerca de 240 empresas de porte razoável a grande, com operações ilícitas (Diretores,
funcionários, artistas, etc). Desprezamos a arraia miúda, e separamos estas PJs por diversos
grupos, após identificarmos o grosso de suas localizações e seus respectivos contadores. (A
maioria estava, conforme previsto, em três grandes contadores, e o restante em contadores
isolados.)
Estávamos já muito próximos de um grande "estouro" quando uma incrível "coincidência"
aconteceu:
— Machado, sabe quem acabou de me telefonar querendo uma reunião urgente-
urgentíssima? — Questionou o Francisco, de forma alegre e debochada.
— Não, quem? — Perguntei, com real curiosidade.
— Marcos Bordini. Assistente e Secretário Particular do Boni.
— Ah, é? — Disse eu, quase rindo. — Neste caso, o Boni já está sabendo pelo serviço de
escuta do Maurício Antunes (assessor do Boni, especializado em "telefonia") que tem várias notas
frias da firma dele (JOB) na Fundação. (Os diretores que usaram estas notas, já não escondiam o
assunto nem por telefone.) Vamos ouvir o que o Marcos quer nessa reunião. — Conclui, com ironia.
Coincidência ou não, o assunto era o mesmo: Boni estaria preocupado com o que pudesse
estar acontecendo com a (PJ) empresa dele, já que o controle sobre o contador estava, de certa
forma, "fugindo ao controle".
Fomos para a reunião, e ficamos sabendo, pelo Marcos Bordini, que o contador do Boni,
Afrânio — que por sinal fazia o grosso das escriturações das PJs de artistas e diretores da Globo
— deveria estar fazendo algo de bem irregular, pois havia chegado um documento grave de
fiscalização, num antigo endereço de uma antiga firma do Boni. E, partindo da premissa de que se
havia fumaça havia fogo, ele (Boni) queria que fizéssemos uma auditoria no escritório do Afrânio,
envolvendo todas as ex-PJs do Boni, bem como a sua PJ atual.
Coincidência ou não, ficou claro para nós que o Boni teria tido, no passado, várias PJs e
que elas haviam sido entregues ao Afrânio para serem baixadas. Entretanto, as evidências
demonstravam que as empresas estavam funcionando, e com vários processos na área de
execução do Ministério da Fazenda.
Antes de aceitarmos o trabalho, eu expus ao Francisco que eu não iria fazer nada de graça.
Pelo contrário, iria cobrar e fazer o serviço não como funcionário da Rede Globo, mas como uma
pessoa independente. Utilizando, para tanto, o meu horário de almoço, e o horário após as 19:00hs.
(Aí eu passei a exigir sair no horário, para poder atender ao Boni e porque o trabalho Fundação
estava encerrado.)
O Francisco concordou, pelas vantagens óbvias que ele teria, e até ajudou na
intermediação da apresentação de uma proposta formal de trabalho, aceita, de pronto, pelo Boni.
A excitação tomava conta do Francisco, de forma quase que descontrolada. Pois a
oportunidade de montarmos uma base no escritório do Afrânio era tudo que ele sonhara. Ele não
estava nem um pouco preocupado com o serviço do Boni, mas com a possibilidade, ainda que por
vias transversas, de tentar chegar às declarações dos principais diretores da Fundação. Porque
Jair Lento, Mário de Almeida e até o próprio Magaldi tinham escrituração centralizada no escritório
do Afrânio.
— Agora a gente pega eles de vez. Você vai ter que me mostrar se os tais terrenos de
Angra, Parati e Porto Seguro estão nas declarações de impostos de renda de pessoa física desses
caras. — Tentava intimidar-me o Francisco.
— Porra nenhuma, vou fazer o meu trabalho. Se cair na rede é peixe. Mas não vou ficar
correndo atrás disto. Você parece maluco. Encasquetou esta neurose, e agora quer provar a todo
custo que o Magaldi fez estas transações com terrenos. O que isto prova? Aonde isto vai levar?
Esquece! — Tentava eu afastá-lo de sua obstinada renitência.
— Nada disso. Agora que nós entramos na casa dos bandidos, vamos pegar todos eles
juntos. — Dizia com satisfação o Francisco.
— Pode esquecer. Eu não vou ajudar você nisso. O que você quer é a cabeça do Magaldi
e quer me usar para isso. Veja bem: se você tivesse que derrubá-lo, já teria feito com o que está
exposto no relatório, demonstrando que ele é um administrador daninho e relapso... E, se o Dr.
Roberto não o demitiu até agora da posição de Secretário Geral, não será mais uma ou menos
uma sacanagem que irá mudar a posição do velho. Esqueça o Magaldi e parte para outra. — Eu
teimava em meu ponto de vista.
— Qual o problema em você me ajudar? Se você tiver acesso à declaração dele, por que
não tirar uma cópia para mim? Só mais um empurrãozinho e ele cai. Deixa só eu mostrar pro Dr.
Roberto o tipo de sacanagem que o Magaldi está aprontando... — Pedia-me quase de forma
infantil.
— Francisco, eu estou fora. Até parece que você não me conhece. Não vou insistir neste
assunto. Se aparecer fato novo, eu até topo explorar, mas insistir nisto é ridículo. Para mim o
assunto Magaldi e Fundação são casos encerrados.
— Não acredito. Você com a declaração dele na mão e não vai me dar nem uma cópia? —
Perguntava ele, brincando.
— Pode apostar. Você vai se decepcionar. — Insistia eu, posição firmada.
Aguardamos muito pouco tempo por uma resposta, e uma vez aceito o serviço, sem
restrições, por parte do Boni, parti para uma auditoria tranqüila, com a calma de quem já tem o
peixe fisgado. (Isto porque, nos exames prévios e paralelos,eu já possuía a comprovação de quase
todas as graves irregularidades. Bastaria tão somente saber a extensão da coisa.)
O Afrânio tentou tudo que é truque e artifício para fugir ou postergar o exame. Eu ia para o
escritório da Rua Jardim Botânico, e ele ia para o escritório dele na Rua Evaristo da Veiga (no
Centro). Eu punha um auditor em cada escritório, e ele ficava em casa ou não era encontrado.
Tanto pior. Dava-me a oportunidade de viver o movimento dos escritórios dele, e de observar um
número cada vez maior de diretores e artistas envolvidos com suas irregularidades.
Quando eu pus a mão nos documentos que eu já supunha serem irregulares, veio o pânico
e a tremedeira generalizada. Afrânio perdeu o controle, tremia feito vara verde. Deixava montes e
montes de dinheiro vivo em cima da mesa, mas tinha medo de me abordar e piorar as coisas.
Tentou uma aproximação por intermédio de dois funcionários seus (que tiveram respostas
atravessadas e foram recebidos quase que a ponta-pés).
Dentro de muito pouco tempo eu já sabia tudo que queria saber, e tinha constatações
horríveis. Quer pela Fundação, quer pelo Boni, quer por toda a estrutura da Rede Globo.
Para efeitos legais, no período até 1982 (inclusive) a JOB era de propriedade do Boni e do
Marcos Bordini. Conseqüentemente, todas as notas vendidas à Fundação eram de
responsabilidade deles. E, após 1982, quando o Boni teoricamente vendeu a JOB para o Afrânio
continuar a vender notas dentro da Globo, e abriu uma nova PJ chamada VPO (símbolo da Vice-
Presidência de Operações — cargo do Boni) a situação não mudou, pois houve um processo de
continuidade, uma vez que quase todas as despesas da VPO eram suportadas por notas frias da
própria JOB (agora em nome do Afrânio). Ou seja: JOB e VPO eram extensão uma da outra, e
continuava tudo igual: O Boni recebia todos os seus honorários (entre um milhão e meio a dois
milhões de dólares) por notas contra a Rede Globo (com isto burlava o Imposto de renda na fonte
e na declaração final da quase totalidade de seus rendimentos, se recebidos como pessoa física).
Deduzida irregularmente 100% de suas receitas com 20% em notas inadequadas (xerox de notas;
vinhos; bebidas; comidas; manutenção de casa; mercado; etc.) e 80% por notas frias da própria
JOB. Ou seja, um dos maiores salários do Brasil não pagava nada de imposto de renda. (Enquanto
a classe média. . .)
Olhar para os extratos bancários era um horror. Estava tudo lá. Não havia um só cheque
que correspondesse a uma despesa legítima. Além do mais, aplicações elevadíssimas no Open,
sem o menor reconhecimento fiscal.
A esta altura, eu já considerava quase que dispensável falar em erros menores como a não
escrituração de alguns livros legais; excessos tributários não oferecidos à tributação; valores das
declarações em desacordo com a contabilidade; falta de correção monetária; falta de
documentação de imobilizações; falta de documentos de aplicações fiscais; falta de certificados de
investimentos; rasuras em livros e documentos; etc. Mas, logo aconteceu o pior. Justo quando o
Afrânio já estava prestes a aceitar, pacificamente, todas as irregularidades, de bom grado.
Apareceram as autenticações frias em vários e vários documentos fiscais, envolvendo três bancos:
o Banerj , com autenticações seqüenciais em meses distintos. Exemplos: 06 de agosto —
autenticação número 094, funcionária Ana; 08 de outubro - autenticação 096, funcionário Jorge; 09
de novembro - autenticação número 098, funcionária Ana; 09 de fevereiro — autenticação número
00, funcionário Jorge. O Banco Nacional, com autenticações de meses distintos feitas na mesma
máquina, com o mesmo número de autenticação, e com algumas autenticações, em off-set. Por
último, o Banco Econômico, com autenticações desconhecidas por funcionários da própria agência
daquele banco.
Os valores eram absolutamente significativos, pois, só para efeito de comparação de
algumas guias destas, tomemos como exemplo os anos de 1984 e 1985, em seus meses de maior
incidência.
Fev/84 — Valor mensal envolvido: 46 milhões de cruzeiros (autenticação fria de guia). Só
para efeito de comparação, nesta época eu era auditor da Rede Globo e ganhava um milhão por
mês. O valor daquele mês era 46 vezes o valor do meu salário.
Fev/85 — Valor mensal envolvido: 120 milhões de cruzeiros (autenticação fria de guia).
Para efeito de comparação, nesta época eu era controller da Fundação Roberto Marinho e
ganhava seis milhões por mês. O valor daquele mês era 20 vezes o valor do meu salário.
Diante de tamanhos descalabros, mostrei ao Francisco o que estava acontecendo e
discutimos sobre a participação conveniente ou não, e o nível de envolvimento do próprio Boni
nisto tudo. Sim, pois a tendência seria o Boni imputar a culpa ao Afrânio. O Afrânio imputar a culpa
a um funcionário menor seu. E um pobre diabo qualquer acabar recebendo uma grana preta para
bancar de autor da façanha. (Bode espiatório pago.)
— Mas é isso que vai acontecer, Machado! — Dizia o Francisco, de forma bem simples e
equilibrada.
— É isso o cacete! Só de contingência fiscal o Boni deve, pelos cinco últimos anos, por
baixo, ao imposto de renda, a bagatela de cerca de dez milhões de dólares. Isto, sem contar que
não é de cinco anos o período prescricional nos casos em que há dolo, fraude ou simulação. O que
leva a contingência prum valor incalculável. Ou seja, não sendo prescritível nunca, a coisa fica
acima de qualquer valor estimado otimistamente. E é fácil provar pois, no caso, tanto o Boni quanto
o Afrânio enriqueceram às custas de falcatruas grossas, facilmente identificáveis. Não dá para pôr
a culpa num Zé Mané qualquer por uma sonegação de mais de dez milhões de dólares, quando só
o patrimônio do Boni (incluindo doações a filhos e ex-esposas) é superior a isto. E o próprio Afrânio
tem um patrimônio de alguns milhões de dólares. (Só o apartamento da Praia Guinle — Praia do
Pepino — vale um milhão de dólares.) — Disse eu, de forma cética.
— É, Machadinho, eu não queria estar na tua pele não. Lidando com trambique alto no
imposto de renda, falsificações que emvolvem até a policia federal. Sei não, a coisa está feia. Veja
só a merda em que você se meteu. — Brincou, mas de forma preocupada, o Francisco.
— Eu me meti nada. Eu tenho culpa de enfiar a mão e só sair isso aqui dentro da Globo?
— Respondi, questionando.
— E agora, o que você vai dizer pro Boni? — Questionou-me.
— A verdade curta, seca e grossa! — Respondi.
E não foi de outra forma. Fiz um relatório sucinto. Tirei as cópias dos documentos e fui para a
reunião com o Boni.
— E aí, Machado, tudo negro? — Indagou-me Boni, jocosamente, como quem está
acostumado a decidir sobre grandes e incalculáveis problemas.
— É negra mesmo, bem preta a situação! — Respondi.
— Qual o tamanho da coisa? — Indagou, mas já com certa preocupação, ao ver o meu
semblante carregado.
— Por baixo, você está envolvido em venda de notas frias para a Fundação Roberto
Marinho e para diversos outros diretores e organizações da casa. Tem uma contingência fiscal
superior a dez milhões de dólares; ocasionado por 80% das despesas serem constituídas de
despesas com notas frias da JOB, e 20% por despesas inaceitáveis. E está envolvido com
falsificação e autenticação de guias frias. — Disse, de forma seca, até meio áspero.
— Eu estou merda nenhuma. Quem está é o Afrânio. Eu não tenho nada com isso! —
Respondeu, grosseiramente, tentando intimidar-me.
— Quanto a ser parceiro ou não do Afrânio é discutível, mas é inquestionável que o
legítimo dono da JOB até 1982 seja você. Assim como não é questionável o seu benefício próprio
alcançado com a sonegação de imposto de renda. E, neste caso, só você se beneficiou disso. O
máximo que você pode discutir é se você é ou não cúmplice do Afrânio na falsificação de guias
frias. Pois o resto não há nem o que discutir. — Disse, de forma firme, sem titubear.
Ele parou. Pensou. Olhou para mim. Olhou para o relatório. — Quais são os riscos que eu
corro? — Indagou-me.
— São dois: imposto de renda e polícia federal. A rigor você pode ter todos os seus bens
seqüestrados, mas os dólares que estão no exterior estão à salvo. E quanto aos federais, você
pode ter sua prisão decretada de imediato. — Esclareci, de forma bem simples.
— Há como a gente resolver isto por baixo? — Questionou-me.
— Não! — Respondi.
— É que por cima a coisa complica. Vamos ter que fazer um novo delegado da receita
para aceitar isto. E isto vai dar trabalho e deixar rabo de fora. Já quanto à policia federal é tranqüilo:
entra tudo no pacote da Globo. A turma de cima já está feita. — Raciocinou em voz alta.
— Tudo bem. O assunto agora é com você. — Disse eu.
A esta altura, Marcos Bordini estava transparente de medo. Não havia uma só gota de
sangue visível em seu rosto. Seus olhos estavam esbugalhados e suas mãos tremiam que ele mal
conseguia segurar as pastas com papéis. E até hoje eu não sei como ele conseguiu descer as
escadas da Emissora, do 99 ao 59 andar, atrás de mim.
Ele tomou remédio, bebeu água com açúcar, tomou maracujina, remédio para pressão e
tudo mais que tinha direito. Enquanto isto, o Jomar (advogado e amigo do Marcos) tentava
tranqüilizá-lo, sem sucesso.
O dia seguinte foi pior ainda, pois a notícia de que alguma coisa de muito errado estava
acontecendo no escritório do Afrânio, era o prato do dia da Central Globo de Boatos — AN (Alto
Nível: diretores de primeira linha). E não tardou que viesse uma avalanche de pessoas (diretores
importantes) querendo sair do escritório do Afrânio a todo custo.
Eu não atendi e nem dei trela para ninguém. Salvo duas exceções, a pedido do próprio
Boni: Paulo Ubiratan, que estava prestes a ser operado de safena, e Magaldi.
Quanto ao resto, segundo orientações do Boni, foi cada um pra si, e Deus contra. Mesmo
quanto às PJs do Paulo Ubiratan e do Magaldi, eu fui cético. Aconselhei ao Paulo Ubiratan
encerrar a empresa e abrir uma nova chamada Safena, em homenagem ao seu coração,
começando tudo do zero. E em caso de uma eventual fiscalização era melhor ele não ter nada
escriturado do que ter o que estava confessado lá na PJ anterior. Ele, pelo menos, estava
consciente de que tudo que tinha era ilegal, e que se a fiscalização do imposto de renda exigisse o
devido, ele estava propenso a entregar tudo sem luta. Era uma condição consciente e cínica. Mas
era real.
— Machado, assim como todo mundo aqui na Globo que entrega a declaração pro Afrânio,
para não pagar imposto, eu tenho consciência que nunca paguei porra nenhuma. E se o imposto
de renda me exigir o devido, o mínimo que posso fazer, é entregar o que nunca paguei. E lógico!
— Paulo Ubiratan colocou seu raciocínio de forma bem retilínea e justa.
Complementando, arrematou: — Eu não vejo porque ter que pagar, voluntariamente, se os
caras que administram este dinheiro usam-no mal. Empregam parentes; usam em gastos
particulares; se dão mordomias, e um monte de sacanagem que a gente sabe. Então, eu pergunto,
se não há redistribuição de renda, por que colocar o meu no fogo para não ser redistribuído?
Assim como é direito do preso tentar fugir, é direito do contribuinte sonegar. Isto é um problema
institucional do Brasil, e não meu.
— É, mas um dia a gente tem que começar. E começar por alguém. — Complementei,
esclarecendo. — Um dia esta merda toda muda. E se você perder, no peito e na marra, tudo o que
conquistou, não vá reclamar da sorte. — Respondi, ameaçando.
Com o Magaldi não foi diferente. Assim como eu sabia que não seria diferente com toda a alta
cúpula da Rede Globo.
— Magaldi, desculpas por não poder ajudar mais, mas a coisa é tão grave que se torna
simples: abra uma nova empresa. Acenda uma vela, e reze. Isto tudo pode não dar em nada.
Afinal, estamos nesta merda de país chamado Brasil. — E, brincando, arrematei cinicamente: —
Veja se seus bens são superiores a cem mil dólares. Pois neste caso você passa para a classe
social dos impunes. (No Brasil, todo sujeito com menos de cem mil dólares de renda ou patrimônio,
é suspeito, perigoso e deve ser encarcerado para não pôr em risco a sociedade.)
A esta altura, Francisco estava em cólicas. Tinha delírios mirabolantes. Queria consertar o
país, sozinho:
— Machado, vamos chamar o Nilton Claro (Tio do Francisco e um dos sócios de uma das
maiores empresas de auditoria do país: Boucinhas, Campos, Claro, Auditores Independentes) e
propor a ele pegar todos estes caras em situação irregular aqui na Globo, e levar para um
escritório que a gente abriria só para isto. Veja bem, são mais de 300 clientes de uma só vez.
Podemos padronizar tudo. Colocar tudo em micro com impressora. Teríamos o maior e mais bem
montado escritório do Rio. Iríamos atender a todos estes caras, de forma super decente. Eles
teriam uma escrituração limpa, correta, com informações gerenciais, aplicações e orientações
fiscais. Seria um dos melhores escritórios técnicos do país, e seria auto-sustentável, já de cara, no
primeiro mês. Você topa? — Francisco estava eufórico.
Apesar de todas as nossas brigas, apesar do dia a dia que esmaga e violenta a gente, era
por situações assim que eu via como o Francisco era ingênuo e crédulo para certas coisas.
— Francisco, você está maluco! Você sabe com quem você quer se meter? Com artistas e
diretores da Globo, cara! Pirou de vez? O mais bobo toma esmola de cego, empurra paraplégico
em ladeira e interna a mãe em sanatório. Você acha que algum deles irá querer tudo certinho-
certinho? Eles até podem querer sair do escritório do Afrânio. Mas na hora em que você disser que
os caras têm que pagar pelo menos um pouco de imposto de renda, ISS, PIS, etc, você passará a
ser um contador burro e o Afrânio inteligente. Pois na mente destes caras o contador bom é aquele
que faz você pagar nada. Acorde. Você está no Brasil. Pagar imposto é um problema de cultura. E
não se exige isto, justo dentro da Globo. —Concluí de forma cruel.
— Tudo bem, mas a gente pode tentar! Você topa uma reunião com o Nilton Claro aqui na
Globo, e alguns diretores da casa? — Indagou-me, insistentemente.
— Tá legal! Mas depois não diga que eu não avisei. E outra coisa, veja lá quem são esses
diretores. Pois se você convidar gente de peso, o resto vem todo atrás. Mas se você convidar
diretor Zé Mané, danou-se.
Encontro marcado. Reunião acertada. Tudo certo. Encontramo-nos: Francisco Eduardo,
Nilton Claro e eu. Apesar de tudo, Francisco ainda continuava eufórico. Mas tomou uma ducha fria
quando perguntei quem seria convidado para a reunião. Pois tão logo ele começou a declinar os
nomes, eu fui ficando sério, sério, até que expus meu desacordo.
— Não vai dar certo. Com estes caras, nem pensar.
— Mas, por que, qual o problema? Cliente é cliente. — Ponderou.
— Não pode dar certo um troço que comece com o ítalo Gra-nato, com o Élio de Nardi, ou
com o Marcelo, entre outros. Enlouqueceu?
— Qual é o problema? — Perguntou-me, incrédulo.
— Qual é o problema? O Marcelinho é genro do Afrânio. A dupla de vôlei de praia, Ítalo-
Élio, travestida de diretor-global, é unha e carne com o Afrânio. Realmente, não tem nada de mais.
— Completei, cinicamente.
— Você tem bronca do Ítalo e aí mete todo mundo no rolo.
— Justifica ele.
— Não tem nada uma coisa com a outra. Eu não gosto dele como pessoa. Acho ele um
babaca. Tenho bronca pela arrogância e prepotência dele. Desde que eu soube da sacanagem
que ele fez com um ascensorista. (O Elevador só parava após o sétimo andar, Ítalo ordenou que
parasse no quarto andar. Como o cabineiro disse que não podia parar, Ítalo esfregou o crachá
prateado na cara do cabineiro e obrigou-o a parar no quarto andar, e ainda humilhou o pobre do
homem na frente de todo mundo.) Mas, não é esse o ponto e não é por isso, não. É pelo time
inicial que você formou. Não pode dar certo com este pessoal. Mas se você acha que vale a pena
reunir todo mundo, vamos à tal reunião. — Concordei.
Fomos para a reunião e, por sensibilidade ou espiritismo, Nilton Claro (a esta altura, já
desconfiado) concordou comigo. E, após a reunião, deixou bem claro para o Francisco que seria
inviável, se não impossível, trabalharmos corretamente com o pessoal da televisão, tendo eles a
mentalidade que tinham. Foi um jato de água fria definitivo no ânimo do Francisco, na medida em
que eu já estava fora de questão na possível união de forças para um trabalho em conjunto. E
agora Nilton Claro também mostrou-se sem interesse neste tipo de empreendimento.
Motivado por uma série de fatores, e por um vazamento de informações boca a boca, já
corria solta nos corredores da Globo e na Central Globo de Boatos a notícia de que havia algo de
podre no escritório do Afrânio. Não demorou muito para a Cidinha Campos noticiar em seu
programa matinal de rádio, por alto e de leve, que havia um grande rebu no escritório do Afrânio,
envolvendo uma auditoria e grande quantidade de diretores e artistas da Globo. E aos círculos
mais altos já começava a vazar a notícia sobre a Beth Faria, que, inocentemente, ao ser indagada
formalmente sobre pagamentos de imposto de renda, apresentou como comprovantes guias frias
quitadas. De pronto, envolvida em inquérito na polícia federal, livrou-se por ser filha de general e
por trabalhar na Globo. A coisa começava a esquentar.
Boni chamou-me urgente, para apresentar a solução por ele
imaginada:
— Machado, está tudo resolvido. A polícia federal é da casa e não vai ter problema. Mas
nós temos que dar um jeito na documentação falsa e no imposto de renda, senão fica o rabo de
fora. Eu decidi o seguinte, como o Bráulio (Café) é sócio do Afrânio nas transações de imposto de
renda, vamos comprar os dois, por um preço até que bem barato, porque a cagada foi deles. O
Bráulio revisa os livros e dá um OK em tudo. Daí, a gente banca a promoção dele para delegado
da receita e mais tarde para secretário da receita, e fica tudo em casa, e na mão da gente. Eu já
acertei tudo com eles, e está OK. Já mandei o Marquinhos preparar os cheques. Eu só queria que
você fosse como testemunha com o Marquinhos, para não ter problemas. — Disse ele, à queima-
roupa.
Eu só não caí porque estava sentado.
— Mas... cheque? — Perguntei assombrado, Tentando falar qualquer coisa (e isto foi a
primeira bobagem que me ocorreu balbuciar).
— É, não tem problema não. Eles aceitam. É ao portador, cruzado. Assim fica tudo selado
e recebido. — Afiançou Boni.
Eu não acreditava. Era muita loucura. Tudo ali, reduzidoà expressão mais simples, sem
nenhum receio. Eu estava assombrado com a frieza da impunidade, com a falta de cuidado em
sequer tomar a mínima precaução em legitimar qualquer coisa.
— Boni, você sabe que isso é imprescritível, se a coisa mudar você pode se complicar! —
Observei, espantado.
— Não tem problema não. A gente contorna isso. É por isso que o Bráulio tem que ser
promovido. — Respondeu-me com tranqüilidade.
— Mas o negócio já vazou muito. Está até no programa de rádio da Cidinha. — Argumentei.
— Não tem problema não. Ela é escrota e despeitada. O humor dela varia em função do
garotinho que ela leva para cama. Logo, logo, ela fica quieta. — Argumentou Boni.
Aí, foi a minha vez de descer do nono andar ao quinto, meio trôpego. E, incrédulo,
continuei a conversa com o Marquinhos (Marco Bordini).
— Vocês enlouqueceram? Isso vai dar cagada geral. — Disse assombrado.
— Que nada, seu Boni sabe o que faz. Não tem problema não. Os cheques já estão até
prontos e assinados. Vamos até a cidade para entregar o cheque para eles. — Disse-me com
tranqüilidade o Marquinhos.
Mais espantado fiquei ao testemunhar a transação. Afrânio recebeu o cheque e assinou
uma promissória, para parecer, em última análise, um empréstimo pessoal. O Bráulio recebeu a
parte dele, simples e tranqüilamente, com um cheque ao portador, cruzado. Detalhe: as salas dos
dois são no mesmo andar, no mesmo prédio, na Rua Evaristo da Veiga.
Na saída, questionei o Marquinhos: — Vocês não têm medo de tudo isso ser descoberto?
Existe a cópia dos cheques. Os Cheques na conta de um e depósito na conta de outro. As notas
frias. As guias frias autenticadas. Os livros sacramentados com todas estas ilegalidades, e
abonados pelo Bráulio.
— Que nada... Vão pegar como? — Questionou-me ele com tranqüilidade.
— É só o imposto de renda fazer uma triagem de quantias acima de um determinado valor
em contas bancárias que pega tudo. — Respondi.
— É, mas pega todo mundo também. Inclusive eles. E aí fica difícil, É um sistema de mão
dupla. — Ironizou o Marquinhos.
E contra a força não há resistência. — concordei, ressabiado*.
Diante do ocorrido, da realidade dos fatos e em face do que se delineava no horizonte, abri
mão, também, de ajudar os Trapalhões, que estavam, àquela altura, mais atrapalhados do que
tudo no mundo. Pois, ao saber que eles, porém coitados, haviam sido iludidos (realmente) por um
outro contador e pelo gerente deles, fiquei com pena, e comecei a ajudá-los (a pedido do Boni).
Mas, na medida em que vi que a coisa era irreversível, que já estava sob a forma de processo
constituído e dívida ativa, e que a solução proposta era, novamente, via Bráulio Café, pedi sinceras
desculpas, e deixei-os transarem diretamente com o Bráulio — sem minha interferência. (Minha
última participação foi um almoço de aproximação e apresentação, em Copacabana, com os
Trapalhões e o Bráulio. A partir daí, eu sumi.)
Contei ao Francisco tudo o que tinha acontecido, como tinham sido as transações, e deixei
antever o que estava para acontecer. Ao que ele se posicionou de forma assustada:
— Eu estou fora disto. Já chega o que sei da Globo.
— É... Mas para mim, só está começando. Vou rever tudo dentro da Globo, ponto por
ponto. E não vai escapar nada. Vou mergulhar fundo, e vou no osso. — Complementei.
— Cuidado. Você vai lidar com bandido de verdade. É jogo de vida e morte. Saia fora
disso... — Aconselhou-me.
— Nada disso. Recebi um convite formal do Boni para ser assessor dele, e vou aceitar.
Vou mergulhar fundo, levantar tudo por dentro, igual na Fundação, só que com um panorama
infinitamente maior. — Esclareci.
— Machado, você analisou bem os prós e os contras de tudo que você levantou? Você já
fez o "advogado do diabo"? Você sabe que eles vão arranjar desculpas para tudo, não sabe?
— Não tem saída. O máximo que pode ser usado em defesa de uma PJ é que não se pode
estabelecer limitações às condições de trabalho. Ê que cada um pode ser contratado da forma que
mais convir, fugindo do imposto das formas e maneiras que forem julgadas convenientes às partes.
Entretanto, existem coisas, flagrantes, que não se pode ir contra: subordinação hierárquica,
limitação de horário, local de trabalho, perenidade na prestação de serviços, em alguns casos,
concomitância de serviço — ora como empregado com carteira assinada, ora como prestador de
serviços para disfarçar rendimentos que não se quer tributar como assalariado (quer por ser em
volume elevado dos ganhos mensais, quer por ser uma gratificação anual que não se queira
tributar como fruto tributável do rendimento assalariado). É óbvio que com essa justiça filha da
puta* só na justiça do trabalho é que haveria ganho de causa, caso o trabalhador viesse a reclamar.
Isto porque nem o imposto de Renda e nem o INPS iriam, de modo próprio, agir contra uma Rede
Globo, e buscar o que lhes é devido, pelo próprio sistema corrupto instaurado dentro daqueles
órgãos. Mas, no caso específico dos donos das PJs, nem se fossem honestas e regulares estas
PJs, eles estariam em situação excusa'vel, pois nada se coaduna com nada, e elas (as PJs) não
resistem ao menor exame. Haja visto o caso das PJs do Boni, onde suas despesas eram
embasadas por notas frias de ex-empresas suas, cedidas ao Afrânio para vender nota para ele
mesmo, e mais tarde falir com estas PJs. (Nada justifica isto, ou a falsificação de guias.) Não há
dúvida. Estas empresas não resistem à menor analise séria. Ou seja: o problema não é se elas são
corretas ou não, se são legais ou não, mas se os corruptos órgãos públicos querem puni-las ou
não. É por isso, essas e outras, que eu desanco com as instituições brasileiras, dizendo que o
Brasil é um país de cagões, dirigido por um bando de filhos da puta, e que só na porrada as coisas
irão mudar.
— Você vai se meter num caminho sem volta. Vai ter que se envolver até os cabelos no
jogo deles... — Aconselhou-me, novamente.
— Tudo bem. Eu sei com quem estou lidando. Para evitar algum "acidente", neste meio
tempo, vou transferir aquele contrato dos "meus caros amigos", que acabou não sendo cumprido
na Fundação, para o Boni.
— Você enlouqueceu... Aonde quer chegar? Aonde isto vai te levar? Você pode morrer
por nada. — Alertou-me, assustado.
— Francisco... contra bandido, só o banditismo. É a única linguagem que eles entendem. O
jogo deles não me assusta. Aliás, a gente só se assusta com aquilo que não espera. E nada, ou
quase nada, me assusta na vida ou na morte. Encostar uma arma em mim? Não será a primeira
vez . . . Levar tiros? Não será a primeira vez. (Tenho um tiro no calcanhar esquerdo e um outro na
canela direita.) Morrer? Nem isto será a primeira vez... (Eu sofro de catalepsia, e nasci morto. Morri
a primeira vez em 11.09.48, no dia em que nasci, na Maternidade Clara Basbaum, na Rua da
Passagem, 90, em Botafogo. E graças a um médico, que eu não sei nem que é — só que se
chamava Roméro —, acabei "ressuscitando" de uma morte clinica. Posteriormente, morri mais
duas outras vezes, na infância e na juventude. Conseqüentemente, minha próxima morte será a
quarta.) — Coloquei de forma tranqüila.
— E o que você espera com isso? — Questionou-me.
— Nada... É só um desafio pessoal. — Respondi.
— Você acha que vai mudar alguma coisa se jogar tudo no ventilador? — Perguntou-me
de forma cética.
— Não. Eu não estou preocupado com os outros. Eu só quero fazer a minha parte. Nada
muda, e nada mudará, ainda que eu conte tudo. Pois, no fundo, no fundo, tudo que possa ser
revelado é a cara do Brasil. Os homens e as instituições que aí estão são coniventes e têm
consciência de cada coisa errada que existe. Não há é a mínima vontade de mudar nada. Não
fosse assim, e não teríamos em liberdade os Ronald Levinghson, os Garnero, os Delfim, e uma
lista interminável de impunes (de ex-presidentes e ministros, até capitães de indústria). Gente que
se arvora a ares superiores e inatingíveis. Mas, um dia, e não vai demorar, esta guerra surda de
submundo entre pobres massacrados e obrigados a seguir as leis e os ricos impunes acabará
tomando forma definitiva, franca e aberta; e o miserável irá exigir seus direitos de uma forma
anímalesca e incontrolável. É esta selvageria que temos que impedir antes que chegue. Após uma
nova invasão ao Palácio de Versailles, não vai ter lobby que pare a caçada e os abusos. E em
nome da justiça a estas injustiças, várias atrocidades serão cometidas e justificadas. E nós (ou
pelo menos a sociedade remanescente da época) iremos reviver todo o animalismo e selvageria
de uma verdadeira revolução de justiça pelas próprias mãos. Só aí um juiz terá vergonha na cara,
quando ele puder prender gente rica, sem constrangimento. No dia em que um novo Contrato
Social for decidido, a partir do medo da selvageria. Francisco... Só o medo da selvageria pode
mudar isto tudo. Só quando os impunes se sentirem caçados por injustiçados, é que eles irão
propor um cessar fogo social. E estamos muito perto disto acontecer. Os impunes têm endereço
público. Estão nas manchetes de jornais, nas colunas sociais, nas saudações do Chacrinha e nos
elogios da Globo.
— Belo discurso, mas de aplicação prática pouco provável. — Disse enfaticamente.
— Tudo bem. — Respondi. — Até lá vamos ter que comer muita grama. Vamos assistir, no
Jornal Oficial Nacional, patrocinado, descaradamente, por anúncios com verbas públicas não
controladas, via Embratel, o balé dos colunáveis terceiromundistas e contraventores sociais. O
baile de novos ricos (trambiqueirus vulgaris) com traficantes e contrabandistas. (Esta "sociedade"
se merece.) E, no bloco econômico, as últimas notícias: Bolsa — Em alta. A Petrobrás descobre
novo poço de petróleo (Logo após Roberto Marinho comprar um pacote de ações); ORTN (hoje
OTN) — Cotação tal; Dólar — No câmbio oficial, tanto; no câmbio negro (Globo), tanto; Marcos
Bordini, tanto; Casa Piano, tanto; Menezes, tanto (A cotação será desmembrada em papel 1ª,
papel 2ª, e "colocada" no exterior. Tóxico - Na Globo (4º e 8º andares), tanto por "papelote" (com
flash ao vivo); na "boca'', tanto pro consumo e tanto pro distribuidor (dependendo da safra, haverá
cotação por variedade: coca, fumo, haxixe etc); Muamba — Na Globo (cotação direta da sala do
Walter Sampaio), tantos dólares por Kg. No aeroporto tantos dólares por Kg. E aí a câmera e
equipamentos, importados ilegalmente, fecha (com direção do Roberto Tal ma e Daniel Filho,
totalmente down), lentamente, sobre o Cid Moreira, com fundo musical do Tim Maia (idem), e ele
diz: "Boa noite". É a cara do Brasil.— Dizia eu, cinicamente.
— Rapaz, rapaz. Veja lá o que você vai aprontar... — Duvidava o Francisco.
— Que nada. Eu estou ótimo. Vou assumir esta assessoria numa boa e fazer o meu
trabalho. — Disse eu, debochadamente.
— Em compensação, você vai ouvir grito e esporro do Boni o dia inteiro. — Disse ele
quase às gargalhadas.
— Ele não é besta. Sabe que educação é bom e ajuda a conservar os dentes. Você está
me achando com cara de baba ovo? Afundo os dentes dele no primeiro grito que der. — Respondi
rispidamente.
— É. Aí você vai estar feliz da vida, trabalhando com gente "inteligente"... — Provocou-me
com ironia.
— Lá vem você de novo... Desde quando sucesso pessoal é avalista de inteligência? —
Questionei.
— Quer dizer que o homem que mais entende de televisão no Brasil e talvez um dos que
mais entende de TV no mundo, não é inteligente o suficiente para você? — Ironiza ele.
— Não é isso. Há uma inteligência localizada... e só. É como algo que ressaltou nele. Mas,
na média das outras coisas, o Boni é um cara bastante comum: é medroso prum monte de coisas,
supersticioso, inseguro, apavora-se diante do místico. É manipulável em seus pontos fracos
evidentes. Ou seja: é um cara altamente inteligente para televisão (de uma forma bem localizada),
medianamente inteligente para negócios, e burro para um monte de coisas do dia a dia. Na média,
eu diria que ele é razoavelmente inteligente, não chegando a ser um sujeito especial ou muito
acima do normal. — Concluí, de forma bem sacana e irreverente.
— Quem pra você é gênio, então? — Interrogou-me irritado o Francisco.
— Tem uma carrada de gente. Não é o caso de fazer uma lista ou concurso, mas eu tenho
conhecido gente altamente inteligente, em absoluto anonimato. E volto a dizer: sucesso pessoal
não é avalista de inteligência de ninguém, e nem é atributo hierárquico. Fose assim, e o Walter
Clark seria mais inteligente que o Boni*; o Dr. Roberto seria mais inteligente do que o Walter Clark;
o presidente de plantão no País seria mais inteligente que o Dr. Roberto. E até mesmo um débil
mental que acerte na loteria passa neste caso, automaticamente, a ser mais inteligente do que
você. — Devolvi-lhe a ironia.
— Tudo bem. Deixando esta discussão boba de lado, diga-me: qual é a sua idéia e quais
são os seus planos para esta assessoria?
— Bem... o negócio é o seguinte: eu vou entrar.
* (pág 70) Ao tempo da primeira edição deste livro - (2º semestre de 1988) - o Sr. Bráulio
Café já havia sido guindado ("feito") à posição de Delegado da Receita no Estado do Rio de
Janeiro, com a inexorável perspectiva de vir a ser o próximo Secretário da Receita Federal, e futuro
Ministro da Fazenda (mais um) da Rede Globo (Roberto Marinho).
* (pág 71) Não se assaca aqui contra instituições In abstrato, mas especificamente contra
maus representantes dessas instituições. Denigrem a figura do juiz a liberdade e o convívio social
do meliante Castor "Cordeiro de Deus" de Andrade, ou a condenação dos assaltantes da
residência do Boni (trambiqueirus vulgaris) — não pelo crime de roubo, mas por terem suas penas
agravadas e multiplicadas pelo número de assaltados ricos (os pobres foram excluídos) presentes
na cada no dia do roubo. E não é diferente para os casos de juiz que dá parecer, concede
mandatos ou prolata sentenças em casa aos sábados, domingos e feriados.
Isto é a corrupção de todos os costumes, praticada por figuras que deveriam ser o último
baluarte de dignidade de uma nação, mas que, no entanto, matam de vergonha colegas seus,
dignos, como a figura do Presidente do Tribunal Superior do Trabalho, que mandou às favas um
Ministro da Fazenda (Bresser Pereira-Jumbo-Pão de Açúcar), por tentar intimidá-lo ou constrangê-
lo a decidir "contra legem" ou contra suas convicções pessoais.
Enquanto persistir esta indignidade, "juiz honesto" deixará de ser pleonasmo para ser mero
adjetivo raro. E que me perdoem meus professores, os juízes (honestos) José Carlos Moreira,
Sérgio Cavallieri e Laerson Mauro, entre outros.
* (pág 73) Em vez de inteligente, a palavra correta é esperto. Maior salário do Brasil, Boni
recebe restituição do Imposto de Renda, e seu filho, Boninho, declara á Receita Federal um salário
mínimo por mês e mora num apartamento próprio na Praia do Pepino no valor de um milhão de
dólares.