TERESA RAQUIN

Emile Zóla
Tradução de Joaquim Pereira Neto

CAPÍTULO I

No princípio da Rua Génégaud, para quem vem do cais, encontra-se a passagem da Ponte Nova, uma espécie de corredor estreito e sombrio, que vai da Rua Mazarino à Rua do Sena. Esta passagem tem 30 passos de comprimento por dois de largura, no máximo; é pavimentada com lajes amareladas, gastas, sem juntas e revelando uma umidade acre; a vidraça que a cobre, cortada em ângulo reto, está negra de imundície. Nos dias belos de verão, quando um sol pesado queima as ruas, uma claridade esbranquiçada cai das vidraças sujas e projeta-se miseravelmente na passagem. Nos dias feios de inverno, nas tardes de nevoeiro, as vidraças só projetam a noite nas lajes viscosas, a noite imunda e ignóbil. À esquerda, abrem-se lojas obscuras, baixas, como que esmagadas, deixando escapar frios bafos de adegas. Existem ali alfarrabistas, comerciantes de brinquedos, cartonageiros, cujas mercadorias cinzentas de pó dormem vagamente na sombra; as vitrinas, feitas de pequenos quadrados, fazem ondular estranhamente as mercadorias com reflexos esverdeados; por detrás das prateleiras, as lojas tenebrosas são outros tantos buracos lúgubres nos quais se agitam formas bizarras. À direita, a toda a extensão da passagem, estende-se um muro de que os lojistas fronteiros se serviam para montar estreitos armários; ali, objetos sem nome, mercadorias esquecidas 'há mais de 20 anos, estão expostas ao longo de estreitas prateleiras pintadas de um horrível castanho. Uma vendedora de jóias de fantasia estabeleceu-se com um dos armários onde vende anéis a 15 soldos, delicadamente dispostos em estojos de veludo azul, dentro de uma caixa de mogno. Por cima da vidraça, o muro sobe, negro, toscamente rebocado, como que recoberto de lepra e todo sulcado de cicatrizes. A passagem da Ponte Nova não é um lugar de passeio. É atravessada para encurtar caminho, para poupar alguns minutos. Cruzam-na pessoas apressadas cuja única preocupação é a de caminhar rapidamente, de seguir em frente. Vêemse aprendizes com o avental de serviço, operárias transportando o seu trabalho, homens e mulheres com embrulhos debaixo do braço; vêem-se também alguns velhos arrastando-se no crepúsculo melancólico que escorrega das janelas, e bandos de crianças que para ali vão, à saída da escola, fazendo ecoar ruidosamente os tamancos sobre as lajes. Durante todo o dia, ouve-se o ruído seco e insistente de passos sobre a pedra, com irritante irregularidade; ninguém fala, ninguém se detém; cada qual corre para as suas ocupações, de cabeça baixa, passo rápido, sem dirigir o olhar para as lojas. Os comerciantes olham com ar inquieto para os transeuntes que, por um milagre, se detenham junto das vitrinas.

À noite, a passagem é iluminada por três bicos de gás, dentro de pesados candeeiros quadrados. Dependurados acima do lajedo, sobre o qual lançam fugidias manchas de luz, criam à sua volta um pálido clarão que vacila e por instantes parece desaparecer. A passagem adquire o aspecto sinistro de autêntico refúgio de malfeitores; as sombras alongam-se pelas lajes e da rua desprendem-se baforadas úmidas; dir-se-ia uma galeria subterrânea vagamente iluminada por três candeeiros funerários. Para iluminar as suas vitrinas, os comerciantes contentam-se com os débeis raios de luz emitidos pelos bicos de gás; além disso, acendem na loja uma lâmpada munida de quebra-luz, que colocam a um canto do balcão, o que permite aos transeuntes distinguir o que existe no fundo daqueles buracos onde a noite habita durante o dia. No alinhamento escuro das fachadas, brilha a vitrina de um cartonageiro: duas lâmpadas de xisto furam a sombra com duas chamas amarelas. E, do outro lado, uma vela dentro de uma chaminé de vidro, arranca estrelas de luz da caixa de jóias de fantasia com as mãos escondidas sob o xale, a vendedora cochila no fundo da tenda. Há alguns anos atrás, encontrava-se diante desta vendedora uma loja de cujo forro de madeira de um verde-garrafa escorria umidade por todas as fendas. A tabuleta, feita de uma tábua estreita e comprida, ostentava, em letras negras, a palavra Capelista, e num dos vidros da porta um nome de mulher, Teresa Raquin, em letras vermelhas, À direita e à esquerda, fundas vitrinas, revestidas de papel azul. Durante o dia, à luz difusa, não se distinguia nada para além da vitrina. De um lado, algumas peças de roupa branca: toucas de tule em canudos a dois e a três francos, mangas e golas de musselina; depois, peças de tricô, meias, coturnos, alças. Cada objeto, amarelecido e amarrotado, estava lamentavelmente pendurado num gancho de ferro. De alto a baixo, a vitrina estava assim abarrotada de farrapos esbranquiçados, que adquiriam um aspecto lúgubre na semiobscuridade. As toucas novas, um pouco mais brancas, formavam manchas cruas sobre o papel azul que guarnecia as prateleiras. Presos a uma vara, os coturnos de cor punham uma nota sombria na presença turva e vaga dá musselina. Do outro lado, numa vitrina mais estreita, amontoavam-se grossos novelos de lã verde, botões pretos em cartões brancos, caixas de todas as cores e todas as dimensões, redes de pérolas de aço dispostas sobre rodelas de papel azulado, feixes de agulhas de tricotar, amostras de tapeçarias, rolos de fitas, um amontoado de objetos opacos e desbotados, que ali dormiam, sem dúvida, há cinco ou seis anos. Todas as cores se tinham uniformizado num cinzento sujo, naquele armário que o pó e a umidade apodreciam. Por volta do meio-dia, no verão, quando o sol aquecia as ruas e as casas com os seus raios fulvos, avistava-se, por detrás das toucas da outra vitrina, o perfil pálido e grave de uma jovem. Salientava-se vagamente da penumbra que reinava na loja; da testa baixa e seca descia o nariz comprido,

parecia uma criança doente e mimada. e o queixo. era apenas visível o perfil. de uma brancura mate. estava uma lareira de cerâmica colocada num nicho. O casal entrava no seu quarto: este tinha uma segunda porta. Enrolado a um canto do balcão. Era baixo. das cores. O marido. retirava-se para o seu quarto. Ao fundo e por detrás de uma parede divisória envidraçada. com os cabelos louros desbotados. Demorava nisso alguns minutos. o gato seguia os donos. A quadra parecia nua. depois de abraçar o filho e a nora. a velha senhora acordava. de aspecto débil. Esta última tinha cerca de 60 anos. A velha. Ronronando. À noite. Habitualmente. A escada terminava na sala de jantar. encontravam-se duas mulheres sentadas atrás do balcão: a jovem de perfil grave e uma velha senhora que dormia sorrindo. À esquerda. as filas de caixas verdes. metia-se na cama. as cadeiras estavam encostadas às paredes e o centro da sala era ocupado por uma mesa redonda. de pêlo rajado. o rosto cheio e plácido brilhava ao clarão do candeeiro. Não se avistava o corpo. enquanto isso. que se estende para um e outro lado da galeria. De encontro às paredes alinhavam-se as vitrinas. num dos extremos localizava-se um pequeno balcão. que servia simultaneamente de sala de estar. não tiravam partido do conjunto. observava-a no seu sono. as mercadorias. imóvel e sossegada. quatro cadeiras e uma mesa completavam o mobiliário. O andar superior estava dividido em três compartimentos. glacial. no outro uma escada em caracol comunicava com os compartimentos no primeiro andar. os armários. que desembocava na passagem por meio de um corredor estreito e obscuro. entre duas toucas sobre as quais as varas úmidas deixaram manchas de ferrugem. Ali permanecia durante horas. Sentado numa cadeira. quando o candeeiro estava aceso. dentro das embalagens. ficava a cozinha enegrecida. que dava para uma escada. Um pouco antes das 10 horas. constantemente a tremer de febre. um homem de uns 30 anos lia ou conversava a meia voz com a jovem. comprimidas nos cantos. Fechavam a loja e toda a família subia para se deitar. Opostos à sala de jantar. que se perdia na sombra.estreito e afilado. os lábios eram dois traços delgados de um rosa-pálido. via-se o interior da loja. esfregando a cabeça em todas as grades da escada. diante da escada erguia-se o bufê. situavam-se dois quartos. Era mais comprida do que funda. O gato dormia sobre uma cadeira. de grosseiro reboco. por vezes alegre. defronte do muro negro. Passeava . onde brilhavam dois olhos negros muito abertos e que pareciam esmagados sob os espessos cabelos negros. um gato gordo. a barba escassa e o rosto coberto de sardas. breve e nervoso. na cozinha. completamente aberta. a jovem abria a janela para fechar as persianas. ligava-se ao pescoço por uma linha flexível e suave.

Ali aprendera ortografia e aritmética. todas as doenças imagináveis. Durante os raros intervalos das doenças. CAPÍTULO II A senhora Raquin tinha sido capelista em Vernon. por sua vez. as janelas davam para o rio e para as vertentes desertas da outra margem.pelo muro um olhar vago e. teve lições de escrituração e de contabilidade. Levava uma vida de reclusa. Mais tarde. sem uma palavra. Durante cerca de 25 anos vivera numa pequena loja daquela localidade. Mediante uma renda de 400 francos. As economias acrescentadas ao valor da venda colocaram-lhe nas mãos um capital de 40. A senhora Raquin começou a tremer quando a aconselharam a mandar o filho para o colégio. entre o filho Camilo e a sobrinha Teresa. Os membros franzinos tinham movimentos lentos e fatigados. A mãe rodeava-o dos mesmos mimos da meninice. que lembrava vagamente um claustro. dizia que os livros o matariam. A senhora Raquin sustentou uma luta de 15 anos contra males terríveis. ignorando as alegrias e as preocupações pungentes deste mundo. e vendeu os seus bens. sabia que ele morreria longe dela. com desdenhosa indiferença. pelos seus cuidados. Alguns anos depois da morte do marido. situado no meio de extensos prados. conservando os traços dos repetidos abalos que sofrera na carne. o rapaz freqüentara uma escola comercial de Vernon. A todos venceu pela sua paciência. Era uma residência murada e discreta. alugara uma pequena casa cujo jardim descia até à margem do Sena. Camilo cresceu. foi tomada pelo abatimento e pelo enfado. que já passara a casa dos 50. . A criança tivera sucessivamente todas as febres.000 francos. Afetado no desenvolvimento. A mãe amava-o ainda mais por causa desta fraqueza que o dominava. Os seus conhecimentos limitaram-se às quatro operações e umas noções muito superficiais da gramática. não passou de uma estatura pequena e débil. A boa senhora. Camilo tinha então 20 anos. Esta renda dava-lhe para viver tranqüilamente. criara uma existência de paz e de tranqüila ventura. Salvo da morte. que pôs a render e do qual obtinha 2. envolveu-se nesta solidão e aqui experimentou uma serena alegria. um caminho estreito dava acesso a este retiro. Adorava-o por tê-lo disputado à morte durante uma longa juventude de sofrimentos. que se sucediam e se agravavam para lhe arrancar o filho. Olhava a insignificante e pálida figura com protetora ternura e lembrava-se sempre que lhe dera a vida mais de uma dezena de vezes.000 francos de juro. deitava-se. pela sua adoração.

O capitão. O jovem bateu o pé. que o salvava das tisanas e dos remédios. Teresa cresceu. entregou-lhe uma certidão de nascimento na qual perfilhava Teresa. quando a senhora Raquin ainda tinha a capelista. Quando a envolvente afeição da senhora Raquin o enjoava. A irmã poucas perguntas lhe fez acerca da criança que ele lhe confiava. A ternura e a dedicação da mãe tinham-lhe criado um egoísmo feroz. Um dia. amando apenas o seu ego. Dou-te. corria à beira do Sena com sua prima Teresa. ficava agachada diante do fogo. trouxera-lhe nos braços uma criança. sorriu-lhe e beijou-lhe as faces rosadas. que tinha o seu nome. procurando por todos os meios possíveis aumentar os seus prazeres.Camilo não prosseguiu os estudos e a sua ignorância foi mais uma fraqueza a juntar às que já possuía. teve de discutir com a mãe. Teresa ia fazer 18 anos. no entanto. não por espírito do dever mas por instinto. aborrecendo-se mortalmente no ambiente morno em que a mãe o rodeava. mais calmo neste trabalho fatigante. julgava gostar de quem o amava e acariciava. de cabeça vazia. esta queria-o sempre junto de si. olhando as chamas sem mexer as pálpebras. desfrutava infinitas voluptuosidades no fundo do enfraquecimento que se apossava dele. Durante horas. o capitão Degans. — És tia desta criança — dissera-lhe ele com um sorriso. por necessidade natural. a permanecer imóvel e muda numa cadeira. vivia à parte. Soube vagamente que a pequena nascera em Orã e que a mãe fora uma indígena de grande beleza. — A mãe morreu.. Aos 18 anos. na realidade. dormindo no mesmo leito de Camilo e sob os mornos carinhos da tia. ocioso. Degans ficou oito dias em Vernon. Partiu e não mais foi visto. reclamou o trabalho como as crianças exigem os brinquedos. À noite. habituou-se a falar em voz baixa. Estava. lançava-se com delícia numa ocupação tola. o irmão. entrou como caixeiro a serviço de um comerciante de tecidos. partilhando os medicamentos que o primo tomava e vivendo no ambiente abafado do quarto do doente. pensativa. Ganhava 60 francos por mês. Não sei o que fazer dela. que o mantinha debruçado todo o dia sobre as faturas. sobre as somas intermináveis. das quais soletrava laboriosamente cada parcela. O seu espírito inquieto tornava-lhe a ociosidade insuportável. estafado. à noite. a caminhar sem fazer ruído. no regresso do escritório. A senhora Raquin pegou na menina. alguns anos mais tarde morreu na África. porém. de olhos . Esta vida de convalescente forçada tornou-a introvertida. longe dos acidentes e da vida.. uma hora antes de partir. no fundo de si mesmo. Depois. Para entrar a serviço do comerciante de tecidos. 16 anos atrás. Acabava de chegar da Argélia. Tinha uma saúde de ferro mas recebeu os mesmos cuidados de uma criança débil. entre dois cobertores.

sonhava com as suas somas. Teresa vibrou secretamente de alegria. olhava em desafio o rio que rumorejava. músculos prontos e poderosos. dos vastos prados verdes que desapareciam no horizonte. A senhora Raquin olhava os jovens com serena bondade. Camilo. tinha os movimentos suaves. na relva. junto de uma criança moribunda. No serão. fica quieta". ia até à janela e contemplava as casas fronteiras sobre as quais o sol projetava manchas douradas. sentia o coração latejar-lhe com força no peito: mas nem um só músculo do rosto mexia. Uma palavra murmurada de vez em quando perturbava por instantes a quietude do ambiente entorpecido. E quando erguia um braço. o corpo prestes a saltar. ela ergueu-o e transportou-o com um gesto brusco. Quando a senhora Raquin vendeu os bens e se retirou para a pequena casa à beira do rio. Julgava-se sempre no quarto do primo. Tantas vezes a tia lhe repetira "não faças barulho. Pela sua cabeça passavam sonhos loucos. junto da água.abertos sem expressão. mas interiormente vivia uma existência ardente e arrebatada. como que preparando-se para a defesa. e esta demonstração de força fizera-lhe subir vivamente o sangue ao rosto. Tinha resolvido casá-los. Manteve o modo suave de andar. não enfraqueceu o corpo magro mas robusto. Teresa cosia junto da tia. o rosto adquiriu apenas um tom pálido. limitando-se a sorrir quando a tia lhe perguntava se lhe agradava a nova casa. sentia-se nesses movimentos uma flexibilidade felina. que conservava cuidadosamente escondidos no íntimo todos os arrebatamentos da sua natureza. como um animal. a placidez e as palavras balbuciantes de uma velha. E assim ficava durante horas. quando avançava um pé. a fisionomia calma e indiferente. enterrado numa poltrona. e interrogava-se com raiva para saber como poderia vencer as ondas. ligeiramente amarelado e que na sombra quase parecia feio. não pensando em nada. uma tranqüilidade aparente. continuou a ser a criança que tinha crescido no leito de um doente. Por vezes. imaginando as águas a abaterem-se sobre si para a atacarem. por falta de forças. . mordida pelo sol. o primo caiu. que mascarava uma enorme exaltação. Um dia. Possuía um sangue-frio insuperável. estendia-se de bruços. que escorria molemente do abajur. tremia ao pensar que um dia morreria e o deixaria só e doente. os olhos negros dilatados. feliz por enterrar os dedos na terra. retesava-se então. toda uma energia e uma paixão que dormiam latentes na sua carne. Quando estava só. A vida tornou-se então melhor para ela. à vista do rio branco. A vida de clausura que levava e o regime debilitante a que era submetida. o seu rosto parecia dormir à luz amortecida. Sempre tratara do filho débil. Quando ia ao jardim. assaltava-a o desejo selvagem de correr e de gritar. calma e silenciosa.

por hábito. Camilo. Via nela a camarada condescendente. de escapar às meiguices que lhe provocavam náuseas. Camilo irritava-se com os incessantes cuidados da mãe. precipitou-se sobre ele de braços erguidos. Falava-se em família desta união como de uma coisa necessária. quando os jovens esposos desceram. de cair doente. Camilo escorregou para o chão. Tinha-a criado. entrou no do primo. a jovem ergueu-se instantaneamente num ímpeto selvagem e. os dois jovens escapavam no fim da tarde para a margem do rio. A jovem ouviu a tia e no fim abraçou-a sem dizer palavra. Igualmente a jovem parecia ficar fria e indiferente. O casamento era acontecimento previsto. firmado. Nisso consistiu a alteração que se deu na sua vida nesse dia. falou-lhe do pai e da mãe. era como se fosse um rapaz. queria dá-la ao filho como um anjo da guarda. Um dia. com o seu ar tranqüilo. de rosto ardente e olhos injetados. À noite. Quando se falava do casamento. Os jovens sabiam há muito que um dia casariam. A senhora Raquin chamou Teresa de parte. No verão. cuja doença enfraquecera o sangue. contou-lhe a história do seu nascimento. Teresa. que ficava à esquerda da escada. Continuava a ser criança perante a prima. que fatalmente aconteceria. os seus mudos sacrifícios. Arrastava então Teresa. Jamais. abraçando-a como abraçava a mãe. Tinham crescido dentro deste pensamento. Teresa escutava com gravidade. sem nada perder da sua tranqüilidade egoísta. ignorava os ávidos desejos da adolescência. dizendo de si para si que a jovem seria uma enfermeira para Camilo. Sentiu medo. por vezes. permanentemente doce e solícito por uma vontade implacável. Correram os meses e os anos." E esperavam pacientemente. lhe preparava a tisana. sentia revolta e tinha vontade de correr. que se situava à direita. Somente os lábios revelavam nessas ocasiões pequenos movimentos imperceptíveis. limitando-se a aprovar com a cabeça tudo o que dizia a senhora Raquin. empurrou a prima e fê-la cair. olhando-o durante longos minutos com soberana calma. provocava-a para lutar.Lembrava-se então de Teresa. Camilo adormecia. para se rebolar na erva. nem um frêmito lhe perpassava pela carne. sem rubor. lhe ocorreu o pensamento de beijar os lábios quentes de Teresa. Fixava por vezes os grandes olhos em Camilo. Nada se conseguia ler naquele rosto fechado. que se tornara para eles familiar e natural. sem perturbação. No dia seguinte. O dia fixado para o casamento chegou. A senhora Raquin dissera: "Esperaremos que Teresa chegue aos 21 anos. nesses momentos. em vez de entrar no seu quarto. Quando brincava com ela e a tinha entre os braços. a sobrinha inspirava-lhe confiança sem limites. . que se abstinha de o aborrecer e que. que se debatia rindo nervosamente.

fazia o que eles fizessem. A decisão de Camilo alterava-lhe por completo a vida e ela procurava.. que sejas da minha opinião. e Teresa mantinha a doce indiferença. Uma velha senhora de Vernon tinha-lhe indicado uma parente que ali possuía uma loja que queria vender. Era necessário ganhar dinheiro. sem mesmo parecer saber que mudava de lugar. É o menos que pode suceder. passearás ao sol ou procurarás emprego. Considerou que o jovem casal podia ter filhos e que a pequena fortuna já não seria suficiente. já se encontrava habituada à idéia da partida e construíra o plano para uma vida nova. de assustadora calma. mas ao atravessar Paris tinha-se assustado com o ruído nas ruas. sem uma queixa. com as mangas de alpaca. Teresa não foi consultada. sentia-se com ar de prazer ao ver-se em pensamento no meio de um vasto escritório. O filho teve uma crise de nervos e ameaçou cair doente se ela não cedesse ao seu capricho. No almoço mostrou-se alegre. Ela ia para onde eles fossem. e . hoje que tenho uma vontade. A senhora Raquin ficou espantada: tinha disposto da existência do filho e não queria alterar um único ponto. Queria empregar-se num grande escritório. — Jamais te contrariei os desejos — disse-lhe. — Eis o que vamos fazer — disse para os filhos. A senhora Raquin não dormiu nessa noite. Aos poucos. voltar ao comércio. procurarei um pequeno estabelecimento de capelista e voltaremos. Camilo. — Desposei a minha prima. recuperou a calma. com o luxo das vitrinas.Camilo conservava o abatimento doentio. Camilo manifestou claramente à mãe a intenção de deixar Vernon e ir viver em Paris. — Procurarei emprego — respondeu o jovem. a fisionomia contida. tomei todas as drogas que me deste. — Irei a Paris amanhã. Partiremos no fim do mês. a vender agulhas e linhas. por em ordem a sua existência. sem uma censura. encontrar uma ocupação lucrativa para Teresa. a santa tranqüilidade de egoísta. Com isso nos ocuparemos. desesperadamente. mostrara sempre tamanha obediência que a tia e o marido acharam nem valer a pena perguntar-lhe a opinião. Teresa e eu. CAPÍTULO III Decorridos oito dias após o seu casamento. A verdade é que Camilo se sentia possuído por uma súbita ambição.. farás o que quiseres. a pena atrás da orelha. No dia seguinte. Tu. A senhora Raquin foi a Paris e dirigiu-se imediatamente para a passagem da Ponte Nova. A antiga capelista verificou que a loja era um pouco pequena e algo escura.

via-a cômoda. A família deixou finalmente a casa à beira do Sena.. teve a sensação de enterrar-se no fundo viscoso de uma fossa. descobrindo remédio a cada novo inconveniente que surgia. Sentiu um aperto de repugnância na garganta e arrepios de pavor. respirou fundo. Sentia-se gelada. A passagem é cheia de gente. para as necessidades do dia a dia. defender a aquisição que fizera.. Eu não chegarei antes das cinco ou seis horas.. sem mobiliário. Verás que não nos aborreceremos.000 francos. sem conseguir chorar. arrepiavam pela solidão e pelo mau estado em que se encontravam. não tocaria nos rendimentos que acresceriam ao capital para dotar os filhos. segundo pensava. Perante a realidade. O ordenado de Camilo e os lucros do comércio seriam suficientes. esteve no armazém.. sossegada. nessa mesma noite instalou-se na passagem da Ponte Nova. radiante. Estarão as duas juntas e não se aborrecerão. Revelavam-se de novo os instintos de comerciante. Julgou-se ainda na província. decorridos alguns dias de conversas ao serão. — Bah! — respondia Camilo — tudo isso é muito conveniente. O aluguel da loja e do primeiro andar ficava por 1. as mãos hirtas. Aqueles compartimentos nus. Percorreu com os olhos a galeria suja e úmida. sobre as compras e sobre as manhas do pequeno negócio. era dela por 2. a senhora Raquin calculou que poderia pagar a loja e o primeiro ano de renda sem tocar na sua fortuna. entrou em todas as divisões. A jovem não esboçou um gesto. Aliás. assim. adiantava conselhos à Teresa sobre a venda. tão sossegada. espaçosa..aquela estreita galeria de vitrinas modestas fez lembrar-lhe a antiga loja. O preço modesto fê-la decidir-se.. subiu ao primeiro andar. — Ah! minha boa Teresa — dizia — verás como seremos felizes naquele cantinho! Tem três belos quartos em cima. Procurou. . os soluços atravessados na garganta.000 francos. pensou que os filhos queridos seriam felizes naquele canto ignorado.. A tia e o marido desceram e ela sentouse num baú. só estaremos aqui à noite. explicando que a obscuridade era causada pelo tempo encoberto e concluindo com a afirmação que uma vassourada bastaria para pôr tudo em ordem. Faremos umas vitrinas atraentes. a senhora Raquin estava embaraçada.. a loja úmida e obscura da passagem transformara-se em palácio.. dizendo que encontrara uma pérola. Regressou. Quando Teresa entrou na loja onde passaria a viver dali em diante. a Vernon. Pouco a pouco.. no entanto.200 francos. um local delicioso em plena Paris. não pronunciou uma palavra. envergonhada dos sonhos que alimentara. Não se cansava de falar a respeito da loja. dotada de mil vantagens incalculáveis. Como as suas economias chegavam aos 4.

que fazia duas vezes por dia. À noite. pelas viaturas e pelas vitrinas dos armazéns. Muitas vezes ficava parado diante de Notre-Dame. contratou uma mulher para a limpeza e forçou a tia a sentar-se junto de si. Saía de casa às oito horas. Ganhava 100 francos por mês. com um gozo de imbecil perante os seus movimentos. Dizia de si para si que estaria aquecido durante o dia e que. observava-as. de lábios abertos. vagueando durante todo o dia. do Instituto ao Jardim das Plantas. Finalmente. em passos lentos. entrou para o escritório da estrada de ferro de Orleans. a loja e a habitação permaneceram em desordem. pedir papel para forrar as paredes. olhos escancarados. sem saber por quê. Ali ficava uma meia hora. Durante uma longa semana. Não pensava em nada. não obstante . julgara que a jovem se empenharia em embelezar a casa. recordando qualquer história tola ouvida no escritório. Gostava de ver o andar pesado e bamboleante das feras. A senhora Raquin admirou-se com aquela atitude de desalento. Logo que chegava. o seu sonho tinha-se realizado. Descia a Rua Génégaud e chegava ao cais. Permanecia o menos tempo possível na loja. seguia o Sena. jamais o aborrecia. O tédio invadiu-o a tal ponto que falou de voltar para Vernon. Comprara as obras de Buffon e propusera-se a ler a cada serão 20 ou 30 páginas. Desde o primeiro dia. não temos necessidade de luxo. Prosseguindo o seu caminho. então em reparação. dava uma olhadela no Porto dos Vinhos e contava os fiacres que chegavam da gare. Camilo ficou um mês sem conseguir encontrar emprego. à noite. Decidia-se então a regressar. as mãos nas algibeiras. Teresa acabou por se impacientar por vê-la incessantemente a passar diante dos seus olhos de um lado para outro. atravessava o Jardim das Plantas e ia ver os ursos. Quando sugeria um arranjo qualquer. embrutecido. contemplando os andaimes que rodeavam a igreja. seguindo as evoluções dos animais. O longo percurso. se acaso não tinha pressa. arrastando os pés e passeando os olhares pelos transeuntes. Teresa sentou-se atrás do balcão e não arredava dali. as grossas vigas divertiam-no. tomava a sua refeição e em seguida dedicava-se à leitura. Acompanhava o curso das águas. inclinado para o fosso. pôr cortinas e tapetes. se deitaria cedo.Jamais o jovem teria consentido em viver em semelhante pocilga se não estivesse a contar com o doce aconchego do escritório. detinha-se para ver passar os barcos que desciam o rio. ouvia a resposta tranqüila da sobrinha: — Para quê? Estamos muito bem assim. colocar flores nas janelas. Foi a senhora Raquin quem teve de arranjar os quartos e de pôr um pouco de ordem na loja. Dali.

o comissário de polícia Michaud. de Lamartine. Mantinha. por outro lado. No serão. pouco a pouco. e também obras de divulgação científica. Espantava-se de que Teresa se mantivesse pensativa e silenciosa durante todo um serão. mais expansiva e. Esse serão sobrepunha-se a todos os outros. Teresa repelia os livros com impaciência. Michaud abandonara a província alguns meses mais tarde para passar a viver . Acreditava trabalhar para a sua educação. com um sorriso que lhe animava mecanicamente os lábios. Deitavam-se às 11 horas. de Thiers. entrara nos hábitos da família como se se tratasse de uma orgia burguesa de alegria louca. os lucros eram idênticos. a família Raquin recebia. CAPÍTULO IV Uma vez por semana. trazendo-lhe cada noite o mesmo leito frio. sem sentir a tentação de pegar num livro. no fundo. era ela quem atraía e conservava a clientela. A clientela era composta por operários que viviam no bairro. Pensava. os dias correram quase iguais. rarearam. de certas anedotas. a bem dizer. a mãe e a mulher mal saíram da loja. Todos os meses. uma disposição uniforme e dócil. a História do Consulado e do Império. que a mulher tinha uma pobre inteligência. na quinta-feira. em fascículos de 10 cêntimos. Vivendo na úmida sombra. depois. Teresa atendia sempre com as mesmas palavras. os contatos. de suprema condescendência e abnegação. A senhora Raquin mostrava-se mais servil. Lia ainda. Era um acontecimento importante. A senhora Raquin encontrara em Paris um dos seus velhos amigos. de olhos fixos e o pensamento flutuante e perdido no espaço. Preferia ficar inativa. num silêncio morno e esmagador. Estabelecera-se assim estreita amizade entre eles. Camilo não faltou uma única vez ao emprego. quando a viúva vendera os bens para morar na casa à beira do rio. acendia-se um candeeiro grande na sala de jantar e punha-se no fogo o bule para fazer chá. O negócio caminhava sem sobressaltos. nua. Durante três anos. e cada manhã o mesmo dia vazio. Teresa via a vida estender-se à sua frente. que exercera o seu cargo em Vernon durante 20 anos e que habitara a mesma casa em que vivera a capelista. e a História dos Girondinos. forçava a mulher a ouvir a leitura de algumas páginas. Por vezes. toda a sua vontade se aplicava a transformar o seu ser num instrumento passivo. De cinco em cinco minutos entrava uma jovem e comprava alguns sous de mercadoria.o tédio que tal leitura lhe causava.

nessa mesma noite jantava na casa dos Raquin. Desta forma se iniciaram as recepções das quintas-feiras. Acabou por trazer o filho Olivier. Olivier tinha na prefeitura da polícia um emprego de 3. Quando o grupo estava completo. enquanto com a outra colocava as pedras do dominó. um dia que Grivet morresse. Grivet tinha 20 anos de serviço. seco.500 francos da sua reforma. morno. pelo qual Camilo se mostrara particularmente invejoso: era o funcionário principal no departamento da polícia da ordem e da segurança. Desde o primeiro dia. e limpava as peças do serviço de chá do bufê. Ao cabo de seis meses. Num dia de chuva. Teresa jogava com uma indiferença que irritava Camilo. salpicado dos ruídos secos. Entravam. que chegavam sempre atrasados. na Rua do Sena. dos 1. a senhora Raquin servia o chá. Desde logo as reuniões tornaram-se agradáveis. Grivet ficou encantado com o acolhimento da senhora Raquin e passou a ir todas as semanas com perfeita regularidade. os jogadores questionavam durante dois ou três minutos e voltava o silêncio. um moço de 30 anos. Nada mais se ouvia além do entrechocar das pedras. toda a família subia ao primeiro andar e sentavam-se em volta da mesa. Após cada partida. a visita da quinta-feira era para ele um dever: dirigia-se para a passagem da Ponte Nova da mesma forma como todas as manhãs ia para o escritório. era primeiro amanuense e ganhava 2. os velhos Michaud e Grivet encontravam-se diante da loja. mecanicamente. o gato que a senhora Raquin trouxera de Vernon e que se aninhava no seu colo.000 francos. parada e doente. aguardando Olivier Michaud e a mulher. Pensava que. encontrara a velha amiga na passagem da Ponte Nova. Grivet. com uma das mãos acariciava François. alto. Às oito horas precisas. vindos um da Rua do Sena e outro da Rua Mazarino. Era ele quem distribuía o trabalho pelos empregados no escritório de Camilo e este testemunhava-lhe um certo respeito.calmamente em Paris. .100 francos. instintivamente. e magro. um velho empregado da estrada de ferro de Orleans. O antigo comissário da polícia adquiriu o hábito de aparecer pontualmente uma vez por semana. que casara com uma mulher pequena. colocava o candeeiro no centro da mesa. Camilo esvaziava a caixa do dominó sobre o tampo encerado. Camilo. por sua vez. perto um jogo de dominó. apresentou um outro convidado. Teresa detestou o rapaz hirto e frio que dava ares de honrar a loja ao passear nela a magreza do seu grande corpo e a fraqueza da pobre mulher. o substituiria. ao fim de 10 anos. Às sete horas a senhora Raquin acendia o fogo. e cada um mergulhava no seu jogo.

Olivier. . de uma forte enxaqueca. os olhos redondos e os lábios delgados de um cretino. era pálida. Teresa não encontrava um homem. E até às 11 horas ficava abatida na sua cadeira. por vezes. A jovem levantava-se a custo e retomava o seu lugar diante do velho Michaud. Não raro queixava-se de indisposição.Os serões de quinta-feira eram para ela um suplício. Com um cotovelo sobre a mesa e a face apoiada na palma da mão. fitando François. descia rapidamente. ostentava gravemente sobre um corpo ridículo uma cabeça hirta e insignificante. Na porta do armazém tinha sido colocada uma campainha. Grivet está com uma sorte dos diabos.. Os olhos saltavam-lhe de um para outro com profunda repulsa. marcada de pontos avermelhados. feliz por abandonar a sala de jantar. Grivet tinha o rosto estreito. cujo tilintar agudo anunciava a entrada dos clientes. Todos aqueles rostos a exasperavam. Não podia. cujos ossos pareciam furar a pele.. o silêncio arrepiante e o clarão amarelado do candeeiro incutiam-lhe um pavor vago. um desses rostos de velho caído na infância. lábios esbranquiçados e expressão frouxa. Ao ficar só. Era. Camilo irritava-se com a sua ausência. aninhado no colo para não ver as bonecas de cartão que faziam caretas à sua volta. procurava a mulher com o olhar: — Então! — dizia — que fazes tu aí? Por que não sobes?. sentava-se por detrás do balcão. que meneavam a cabeça e agitavam os braços e as pernas quando se lhes puxava os cordéis. O ambiente denso da sala de jantar era insuportável. receando subir e sentindo verdadeira satisfação por não ter nem Grivet nem Olivier diante dos olhos. de olhos vagos. Acaba de ganhar outra vez. para não jogar e ficar de lado. Teresa ficava de ouvido à escuta. a mulher de Olivier. uma inexprimível angústia. permanecer muito tempo assim. Atendia o cliente vagarosamente. quando a campainha tocava. e Teresa recaía na espécie de sonho que lhe era habitual. julgando-se fechada no fundo de uma caverna na companhia de cadáveres mecânicos. O ar úmido da loja acalmava a febre que lhe queimava as mãos. presa de alucinações. ficava olhando os convidados da mãe e do marido através da espécie de nevoeiro amarelado que se desprendia do candeeiro. porém. semi-adormecida. O velho Michaud estendia uma face pálida. retardando-se o mais possível. um ser vivo entre as criaturas grotescas e sinistras daquele círculo. Debruçado sobre a escada. com surda irritação. não compreendia como se podia preferir a loja à sala de jantar nas noites de quintafeira. cujos lábios pendentes desenhavam sorrisos repugnantes. num alívio. Quanto a Susana.

deviam formar um punho enorme. que fez entrar na loja com um gesto familiar. que Laurent tinha estendidas sobre os joelhos. Não te lembras?. Tu jantas conosco. É tão grande e tão importante essa repartição! — prosseguiu Camilo. os lábios vermelhos e o rosto de traços regulares de beleza sangüínea. deteve-se longamente nas mãos. abria os olhos e mordia os lábios. Laurent. já ganha 1. sem cerimônia. — Como! — exclamou Camilo — não reconheces Laurent. Camilo ia acompanhado de um rapaz de ombros largos. onde nascia uma indomável cabeleira negra. Sacudiu a cabeça e acrescentou: — Oh! Mas ele porta-se bem. de perfil algo pesado. as faces cheias. e que só hoje nos encontramos. Não é assim. que não dissera ainda uma palavra. Teresa. se encontrava comigo de manhã.. — Calculem que este farsante está empregado na estação da estrada de ferro de Orleans há mais de ano e meio. fez desabar uma onda de recordações e de mimos maternais. e tu davas-lhe fatias de pão com compota. rebuscou nas suas recordações mas nada encontrou. Eu ia à escola com ele. Em seguida. lembras-te deste senhor? A senhora Raquin olhou para o rapaz. o pequeno Laurent. A senhora Raquin foi para a cozinha. de costas arqueadas. Contemplava com uma espécie de espanto a testa baixa. estudou. espesso e poderoso. observava o recém-chegado. A compleição robusta e o rosto fresco de Laurent causavam-lhe admiração.CAPÍTULO V Numa quinta-feira. Laurent sentou-se. orgulhoso por ser insignificante peça de enorme maquinismo. O pai mandou-o para o colégio. Ao mesmo tempo que fazia este comentário. Os dedos eram nodosos. o filho do tio Laurent. querendo fazer esquecer o acolhimento frio. Havia bem 20 anos que não o via e. A senhora Raquin recordou-se bruscamente do pequeno Laurent. Tirou o chapéu e instalou-se na loja. Sob a roupa adivinhavam-se-lhe os . que achou extraordinariamente desenvolvido. que era nosso vizinho.. estudou direito e aprendeu pintura. saindo da casa do tio. capaz de abater um boi. de ar tranqüilo e obstinado. — Mãe. ao voltar do escritório. Laurent era um autêntico filho de camponês. Deteve por instantes o olhar no pescoço: era largo e curto.500 francos. que possui belas searas para os lados de Jeufossê?. de movimentos lentos e precisos. sorriu tranqüilamente e lançou à sua volta olhares calmos e desembaraçados... Teresa seguia a cena com ar plácido.. Laurent?. Nunca vira um homem.. fechados.. — Com muito gosto — respondeu..

cada vez mais admirado. O pai soube que lhe mentia. Sofria.. que é pintor. A partir da sopa.. Sentaram-se à mesa..músculos desenvolvidos num corpo espesso e rijo. Sob o olhar direto que a parecia penetrar. os fascículos de 10 cêntimos. cortoume os 100 francos da mesada e disse-me para ir cavar a terra com ele. como que respondendo à pergunta que fazia a si próprio há alguns instantes: — Mas tu deves conhecer a minha mulher. — Como vai o teu pai? — Não sei — respondeu Laurent — estamos zangados.. Oh! O tio Laurent só tem ambições úteis. o cavalheiro tem idéias próprias. Depois. A família Raquin escancarou os olhos. — Infelizmente. mau comércio. Passávamos o dia a fumar e a gracejar. é uma profissão extravagante e que não fatiga. Como não tive dúvidas que ia morrer de fome.. Ensaiou um sorriso forçado e trocou algumas palavras com Laurent e com o marido. mesmo das loucuras quer tirar partido. — Bah! — exclamou Camilo. Como está permanentemente em litígio com os vizinhos. Teresa examinava-o com curiosidade.. aquela vida não podia continuar. Camilo não mais deixou de se ocupar do amigo. — Palavra que não — respondeu o amigo. . — Sim.200 francos que meu pai me mandava. Camilo mostrou os seus volumes de Buffon. exprimindo desta forma o seu espanto. Vivia com um dos meus camaradas de colégio. O pai acabará morrendo.. a jovem sentiu uma espécie de mal-estar. — Durante dois anos fingi que seguia o curso para receber a pensão de 1. e comecei também a dedicar-me à pintura.. Não te lembras daquela priminha que brincava conosco em Vernon? — Reconheci-a perfeitamente — respondeu Laurent.. Divertia-me. sorrindo. há mais de cinco anos que não nos escrevemos. espero que isso aconteça para viver sem fazer nada... para mostrar ao amigo que também ele trabalhava. olhando Teresa de frente.. mandei a arte ao diabo e procurei um emprego. sonhando ter mais tarde em mim o advogado que lhe ganharia todas as causas. Tentei então pintar quadros religiosos. — E não quiseste ser advogado? — interrogou Camilo. percorrendo-o com os olhos dos punhos ao rosto. sentindo ligeiros arrepios quando se detinha no pescoço taurino. não tardando a ir ter com a tia. meteu-me no colégio.

de desejos determinados. Sonhava com uma vida de voluptuosidades baratas. acreditava no êxito fácil. Imaginava aquelas mulheres mostrando a pele nua. pois. uma bela vida recheada de mulheres. à vontade na sua profissão de empregado. de prazeres fáceis e constantes. o jovem. além disso. vivia uma existência primária. Apenas duas coisas o irritavam: a falta de mulheres e as refeições dos restaurantes a 18 sous. mandou ao diabo a pintura no dia em que compreendeu que ela jamais lhe satisfaria os desmedidos apetites. viu a miséria no horizonte e começou a refletir. um preguiçoso. Estava. gostava de não pensar no amanhã. mal concebidas. esperando encontrar aí um ofício de preguiçoso. de repouso sobre divãs. Sentiu-se sem coragem perante as privações. que não satisfaziam as vorazes necessidades do seu estômago. Este mundo de prazeres deixara-lhe vivas necessidades carnais.Laurent falava com voz calma. não queria aceitar um dia sem comer por amor à arte. O pincel afigurava-se-lhe instrumento leve. A profissão de advogado tinha-o assustado e estremecia à idéia de trabalhar no campo. não demonstrava a mínima ponta de vaidade como artista nem manifestou excessivo desgosto quando foi necessário abandonar os pincéis. sonhava puerilmente com a vida de ateliê de que o amigo falava. o que o fatigava e lhe embotava o espírito. Queria apenas comer bem. dormir melhor. Era. sem arriscar o mínimo esforço. aquele vasto ateliê no qual se refestelou voluptuosamente durante quatro ou cinco anos. Tal como disse. Depois. no fundo. que se espojasse em permanente e ociosa saciedade. Além disso. Camilo escutava-o com um espanto de néscio. Lamentou ainda as mulheres que posavam e cujos caprichos estavam ao alcance da sua bolsa. satisfazer fartamente os apetites sem mudar de lugar. As suas telas empastadas. ao mesmo tempo que olhava para Teresa. de apetites sangüíneos. . desencorajavam toda a crítica. sorrindo. E interrogava Laurent: — Mas houve então mulheres que tiraram a roupa diante de ti? — Claro que sim — respondia Laurent. que tinha já 30 anos. Dedicara-se à arte. Aquele corpo possante só pedia que nada fizesse. O rapaz débil. ridículas. cujo corpo sem energia jamais tivera um frêmito de desejo. que entretanto empalidecera. Do que realmente teve pena foi do ateliê do camarada de colégio. de festins e farras. o seu olhar de camponês tinha uma perspectiva estreita e desajeitada da natureza. O sonho durou enquanto Laurent pai enviou dinheiro. Acabava de contar em poucas palavras uma história que caracteristicamente o descrevia por completo. Os primeiros trabalhos não tinham atingido sequer a mediocridade.

. A natureza sangüínea daquele homem. Os olhos. de um negro aveludado. Era no fim da refeição e a senhora Raquin descera à loja para atender uma cliente.— Isso devia fazer um efeito singular em vocês — volvia Camilo. largo e voluptuoso. Laurent comportou-se bem. e através dos lábios entreabertos viam-se reflexos rosados. Parecia esmagada pelo que ouvia. Era uma questão de oito dias.. não procuravam os seus.. o diabo da arte. dirigiu-se bruscamente a Camilo: — Sabes? preciso fazer o teu retrato. Erguendo a cabeça. que a jovem acompanhou com os olhos. A idéia encantou a senhora Raquin e o filho. Nessa noite. as risadas pastosas e . rubro de satisfação — jantas conosco. quis agradar. É bastante divertido.. Os dedos tremiam-lhe ligeiramente e o rosto enrubesceu: — A primeira vez — disse. Aliás. Olivier e Susana chegaram a seguir. Depois de retirada a toalha. as ancas de uma largura. A primeira vez deves ter ficado estúpido. eu friso o cabelo e visto a sobrecasaca preta. A frase terminou-a com um gesto. pareciam dois poços sem fundo. Laurent viu Teresa diante de si. Grivet comprimiu os lábios. Compreendeu a situação. Tive por modelo uma ruiva adorável: carnes rijas. Camilo apresentou o amigo ao grupo. Contou histórias. A jovem olhava-o com ardente fixidez. evitando os olhares de Laurent. jogou. — Estamos no verão — continuou Laurent — e como saímos do escritório às quatro horas. — Eu ficaria embaraçado. — É isso — respondeu Camilo.. muda e imóvel. Teresa não procurou pretexto para descer à loja. que durante alguns minutos permanecera pensativo. cujo ordenado tinha subido demasiado depressa. com uma risada infantil. Detestava Laurent.. Até às 11 horas não se levantou da cadeira. Teresa não saiu do seu mutismo. fazer-se aceitar rapidamente. que. Laurent. mas simplesmente não dá um sou. aliás. Laurent olhava fixamente para a palma da grossa mão. Grivet e Michaud entraram. O ex-pintor reteve um sorriso. era toda uma questão de apresentação de um novo convidado: o círculo dos Raquin não podia receber um desconhecido sem uma certa frieza. na sua opinião. conversou. Os olhares de Laurent foram de Teresa para Camilo... peito soberbo. animou o serão com as suas gargalhadas e conquistou a amizade do próprio Grivet. poderia vir aqui e pintar durante duas horas. como se falasse apenas para si próprio — creio que achei natural. Soaram as oito horas. a voz cheia.

Subia depois a Rua de Saint-Victor. Não partia antes de ajudar Camilo a fechar a loja. o artista começou a sua obra no próprio quarto do casal. rígido e seco.o odor acre que se desprendia dele. Finalmente. cheio de palavras e de atenções amistosas. comprou-se a tela e fizeram-se minuciosos preparativos. que lhe custava três sous. de mais luz. Morava na Rua de Saint-Victor. Laurent passava o mínimo tempo possível no seu sótão. em traços curtos. No fim de cada sessão. Era uma mansarda. sem vigor. Ficava até às 10 horas. tranqüilo. como se estivesse em sua casa. Poupava os três sous do seu café com aguardente e bebia avidamente o excelente chá da senhora Raquin. era grotescamente primitivo. que se estreitava para o céu e que não tinha mais de seis metros quadrados. A loja da passagem da Ponte Nova tornou-se para ele um lugar agradável. com a mão hesitante e uma exatidão desastrada. detendo-se algumas vezes nos bancos quando o tempo a isso convidava. com uma clarabóia. levou o cavalete e a paleta. Pontilhando a tela de pequenas manchas grosseiras. fazia depois sombreados curtos e cerrados. num pequeno apartamento mobiliado. como não tinha dinheiro para se arrastar pelos bancos dos cafés. dispôs sobre a paleta pequenas quantidades de cores e começou a pintar com a ponta dos pincéis. segundo dizia. Na quarta sessão. a senhora Raquin e Camilo ficavam extasiados. demorava-se no pequeno restaurante onde habitualmente jantava. provocando-lhe uma angústia nervosa. Ocupou três serões desenhando a cabeça. Laurent ia dizendo que era necessário esperar. pelo qual pagava 18 francos por mês. que a semelhança se veria depois. . CAPÍTULO VI A partir daí. que emprestava à figura um ar contraído. demorando-se ao longo do cais. Antes de encontrar Camilo. Começaria no dia seguinte o retrato de Camilo. Passava cuidadosamente o carvão sobre a tela. em frente do Porto dos Vinhos. Reproduziu a face de Camilo como um aluno principiante. fumando cachimbo e bebericando o seu café com aguardente. como se desenhasse a lápis. dispunha ali. Laurent passou a aparecer quase todas as noites na casa dos Raquin. o desenho. perturbavam a jovem. Um dia. fazendo indolentemente a digestão.

tanto pior — exclamava — abraço-a na primeira ocasião. mais pálida e mais muda. em seguida. olhando absortamente para as águas do Sena. refletindo bem. olhando para mim. Laurent voltava-se para ela. — Ora. ao lembrar-se da magreza pálida do amigo. Teresa não era bonita e que não a amava. Sempre grave. Teresa não deixou o quarto transformado em ateliê. ao mínimo pretexto subia. Tem o nariz comprido e a boca grande. Laurent revolveu estes pensamentos durante uma longa semana. Treme.. Se não fosse isso. sorria-lhe e perguntava-lhe se gostava do retrato. seguia atentamente o trabalho dos pincéis. por que não eu. Eram razões de ordem econômica que o aconselhavam a apossar-se da mulher do amigo. pesando-me. então. havia muito tempo que não satisfazia os seus apetites. refreava a carne e não queria deixar escapar de maneira nenhuma a ocasião de a saciar. Prudente como era. medindo-me. para. mas. Enfim. retomar a atitude estática.. vou. à Rua de Saint-Victor. certamente. semelhante ligação . passando horas esquecidas vendo Laurent pintar. isso vê-se-lhe nos olhos. Deixou a tia só atrás do balcão. — Ela aborrece-se naquela loja — prosseguia — mas eu vou lá porque não sei para onde ir.. É úmida. por outro lado. muda e apaixonada. É certo que tem necessidade de um amante. Ela respondia com dificuldade. não me apanhavam muitas vezes na passagem da Ponte Nova.. a cena não parecia diverti-la muito. estremecendo. Avaliou todos os incidentes possíveis de uma ligação com Teresa e somente se decidiu a tentar a aventura quando se convenceu da existência de um verdadeiro interesse em o fazer. É certo que.Desde o dia em que o retrato foi começado. triste. sendo o dinheiro escasso. ia para lá como que impelida por ignorada força e ali ficava como que pregada. Agrado-lhe. com ar enfatuado. Uma mulher deve morrer naquele lugar. em vez de qualquer outro? Detinha-se. — Aqui está uma mulher que será minha amante quando eu quiser. oprimida. para ele. é feia. além disso. As mulheres que comprava por pouco dinheiro não eram. Contudo. Está sempre ali.. tem uma figura esquisita. Aposto que me cai nos braços a seguir. Ao regressar. Não a amo. nem mais belas nem tampouco as amava também.. Além disso. talvez. Laurent discutia consigo próprio longamente se devia ou não tornar-se amante de Teresa. Laurent ria interiormente. atirar-me a uma história desagradável e isso precisa ser bem pensado. É preciso dizer que Camilo é um pobre diabo. assaltavam-no as indecisões: — Apesar de tudo. Por vezes... ela nada lhe custaria. Recomeçando a caminhar. a meu lado. estou certo disso. à noite.

Camilo podia chegar. A senhora Raquin declarou que jantariam todos e festejariam a obra do pintor. Voltando-se bruscamente. arrebatada. examinava a tela. . No dia seguinte. Depois de bem admirar a sua figura. A senhora Raquin voltou para a loja. O artista ficou a sós com Teresa. Mas Camilo estava encantado. abatê-lo-ia a soco.não poderia dar mau resultado: Teresa tinha interesse em dissimular tudo e abandoná-la-ia facilmente quando quisesse. de um cinzento sujo com largas manchas violáceas. anunciou que ia buscar duas garrafas de champanha. a ocasião talvez não voltasse a repetir-se. e. a questão apresentava-se a Laurent fácil e tentadora.'ato contínuo. abandonou-se. palpitante. Teresa estava sempre ali. o desenho tosco tornava convulsivos os traços. O tempo passava. Estava decidido a agir com decisão na primeira oportunidade. Passava assim o tempo calmamente. A jovem mantivera-se dobrada sobre si própria. selvagem. além disso. da senhora Raquin receberia os afagos de uma mãe. o pintor ficou diante de Teresa. O retrato era ignóbil. De qualquer ângulo. evitar-lhe-ia que se aborrecesse demasiado na loja. exagerado os traços pálidos do modelo e o rosto de Camilo lembrava a face esverdeada de um afogado. Parecia esperar. toda a família se reuniu para gabar a semelhança. acentuando mais a sinistra semelhança. abatida e ansiosa. Todos os Raquin concorreriam para o seu prazer: Teresa apaziguaria os ardores do seu sangue. e Camilo. depois de Laurent ter dado a última pincelada. Tinha. Laurent curvou-se e apertou a jovem contra o peito. conversando com ele. Ela teve uma sacudidela de revolta. deslizando para o chão. Tornava-se evidente que teria de anunciar a conclusão do retrato para o dia seguinte. olharam um para o outro. brincando distraidamente com os pincéis. aguardando o momento propício. O ato foi silencioso e brutal. Com um movimento violento. admitindo mesmo que Camilo descobria e reagia despeitadamente. Laurent hesitou. Tombou-lhe a cabeça para trás. Laurent não sabia utilizar as cores mais claras sem as tornar opacas e pastosas. O retrato estava chegando ao fim e não tinham surgido ocasiões. olhando vagamente para a frente. Não trocaram uma só palavra. mas Camilo não saía do quarto um único instante e Laurent sentia-se impotente para afastá-lo nem que fosse por uma hora. dizia que a tela tinha um ar distinto. esmagando-lhe os lábios contra os seus. Durante alguns segundos. Via à sua frente serões bem agradáveis.

Laurent aceitou. feita de arrebatamento. Como Teresa não podia sair. apalpando as paredes escorrendo umidade. nascendo para a paixão.CAPÍTULO VII Desde o princípio. que se retesavam. Laurent achou a amante bela. Teresa comprimia-se contra ele. libertavam um odor tépido. A porta abriu-se. O aspecto grave e calmo da amante convidava-o a saborear uma paixão tão ousadamente oferecida. Foi necessário aguardar que estivesse ocupada. sem embaraço. Subia dela um odor morno. a temeridade do homem que possui dois fortes punhos. Combinaram os encontros. Passava dos braços . resplandecente. Parecia acordar de um sonho. As entrevistas teriam lugar no seu quarto. viu Teresa em camisola e saia. No limiar. subiu a escada estreita e escura. Ao primeiro beijo ela revelou-se cortesã. Dir-se-ia que o corpo se iluminara interiormente e que através da pele escapavam labaredas. um cheiro a roupa branca e a corpo recentemente lavado. Da sua prudência fazia parte uma espécie de temeridade brutal. abraçaram-se. ficou decidido que Laurent iria à sua casa. obteve do chefe uma licença de duas horas e correu para a passagem da Ponte Nova. como se a intimidade fosse de há longos anos. toda ela resplandecia. Era um plano muito audacioso. com completa tranqüilidade e impudência. Jamais vira aquela mulher. inteiramente natural. recortada na luz. O seu rosto de amante parecia ter-se transfigurado. fatal. A jovem possuía uma beleza estranha. A vendedora de bijuterias estava sentada precisamente diante da porta que tinha de franquear. onde lhe abriria a porta da escada. Ela fechou a porta e dependurou-se-lhe no pescoço. sem rubor. Escolheu um pretexto. Flexível e forte. Então. O corpo insatisfeito lançou-se perdidamente na voluptuosidade. os lábios úmidos. os olhos brilhantes. penetrante e acre. O gosto voluptuoso da aventura começou à entrada da passagem. que o sangue em ebulição e os nervos. que chegasse uma jovem operária para comprar um anel ou um par de brincos de cobre. A jovem descreveu com voz clara e firme o meio que encontrara. Atordoado. Viviam sem constrangimento a nova situação. Camilo estaria no escritório e a senhora Raquin na loja. O amante passaria pelo corredor que dava para a passagem. penetrou no corredor. tinha um ar fogoso e acariciador. que daria resultado. os cabelos apanhados no pescoço. No primeiro encontro trataram-se por tu. os amantes consideraram a ligação necessária. atirando a cabeça para trás e pelo rosto perpassavam-lhe ardentes clarões e apaixonados sorrisos. Os pés batiam nos degraus de pedra e a cada passo sentia uma queimadura que lhe atravessava o peito. rapidamente.

Teresa não sentia essas dúvidas. à noite afastava-me dele. Ficou surpreendido. ao mesmo tempo que lhe excitavam a voluptuosidade. e tu não podes amar-me como eu te amo. o sangue materno. já senhor da sua calma e prudente. Mas eu teria preferido o abandono à sua hospitalidade. não queria tomar os remédios que eu recusava partilhar. Todos os instintos de mulher nervosa estalaram com violência inaudita. recolheram-me e defenderam-me da miséria. Os soluços e as crises de Teresa quase o espantavam. Era mau e teimoso. Não sei como não morri. pondo a nu todo o seu ser e contando a sua vida. estendendo-lhe os braços. quase virgem. abraçava Laurent e prosseguia com um ódio surdo: — Não lhes desejo mal. mas em seguida vacilou. contudo. para agradar a minha tia. Estendia-se. A partir desse dia Teresa entrou na sua vida. aos amores secos e sem entusiasmo. enojada do seu cheiro. Tornaram-me feia. Tinha aguda necessidade de ar livre. Entregava-se sem governo. Esta mulher. Não a aceitava ainda. Longos estremecimentos percorriam-na da cabeça aos pés. sentir as suas carícias doces e simultaneamente brutais e. a sua imagem não deixava de lhe aparecer. os terrores e as inquietações tombavam perante os seus desejos. Cedeu e foi a novo encontro na passagem da Ponte Nova. eu tinha que tomar todas as drogas. pouco à vontade. No dia seguinte. multiplicaram-se.. momentos de prudência... vacilava como um ébrio. a latejar furiosamente no seu corpo magro. As suas amantes não costumavam recebê-lo com tamanho arrebatamento. mas submetia-se a ela. Porém. Dormia com Camilo. Tinha horas de pavor. oferecia-se com soberano impudor. erguia-se enfim. Estava acostumado aos beijos frios e indiferentes. a ligação abalava-o desagradavelmente. O sofrimento físico que a visão lhe causava tornou-se intolerável. roubaram-me tudo o que tinha.débeis de Camilo para os braços vigorosos de Laurent e a aproximação a um homem possante causava-lhe um brusco abalo que a arrancava do sono em que mantivera a carne. que as circunstâncias tinham curvado. começou a correr. não voltar a ver a nudez de Teresa. em suma. com a voz ainda palpitante: — Oh! Se soubesses quanto sofri! Cresci no ambiente quente e úmido do quarto de um doente. A primeira reação foi a de ficar em casa. Jamais Laurent conhecera mulher assim. seguindo em linha reta para onde a paixão a puxava. Quando a deixou. o sangue africano que lhe queimava as veias. mostrava-se. Os encontros sucederam-se. . perguntou a si próprio se voltaria para junto da amante cujos beijos o deixavam febril. Chorava. Queria esquecer. Educaram-me. implacável.. Às vezes passava os braços em volta do pescoço de Laurent e encostada ao seu peito dizia.

Mas antes de chegar a esse ponto de prostração. Não é verdade que quando me viste tinha o ar de um animal? Estava esmagada. Por duas vezes quis fugir.. tenho como eles um rosto triste e imbecil.. e desejaria não a ter deixado nunca. Fiquei. atada às suas costas. Depois.. Digo-te tudo isto para que não sintas ciúmes.. queixava-se tanto e tinha sempre aquele cheiro característico de doente que tanto me repugnava outrora. Eu sentia a repulsa subir- . não tardava a cair quando corria.. descalça na poeira. sentindo inteiriçarem-se os membros. Já não esperava nada. embrutecida. Aquela criança fazia-me dó. Fizeram de mim uma hipócrita e uma mentirosa. faltava-me a coragem.. pedindo esmola. menti sempre. Não podia mover-me porque a minha tia ralhava-me se fazia barulho. Baixei os olhos.. Era débil. vingava-se.. pensava que um dia acabaria no Sena. quantas noites de cólera! Em Vernon. Depois de um breve silêncio. vivendo como os ciganos. as narinas finas abriam-se e fechavam-se nervosamente. Disseram-me que minha mãe era filha do chefe de uma tribo.. mordia a almofada para não me ouvirem chorar. mas já estava embrutecida.. — Não podes acreditar quanto me tornaram má. Ah! que juventude a minha! Ainda sinto repulsa e revolta quando me recordo dos longos dias passados no quarto onde Camilo agonizava. querendo bater e morder. Quando brincava com ele sentia os dedos enterrarem-se nos seus membros como se fossem argila. na África. Não protestei. Sonhei muitas vezes com ela. Abafaram-me na sua doçura burguesa e nem sei como tenho ainda sangue nas veias. olhando estupidamente ferver as tisanas.. batia a mim própria e chamava-me covarde. por uma espécie de desdenhosa indiferença. Aceitei-o porque a minha tia me oferecia e nunca tive intenção de me incomodar com ele. passei grandes alegrias na pequena casa à beira do rio. enterraram-me viva nesta loja ignóbil. ir em frente ao sol.. passou os lábios úmidos no pescoço de Laurent. Ficava acocorada diante do fogo. E encontrei no meu marido o rapazinho doente com o qual já dormira aos seis anos. para atravessar as areias.em pequena sonhava correr pelos caminhos.. Menti. compreendi que lhe pertencia pelo sangue e pelos instintos.. Teresa arfava. no meu quarto frio. amolecida e silenciosa.. mal sabia andar. A jovem deteve-se. apertando o amante com ambos os braços.. eles tinham feito de mim um animal dócil com a sua benevolência mole e enjoativa ternura. O sangue queimava-me e fazia-me rasgar o corpo. acrescentou: — Não sei por que consenti em desposar Camilo. tive a vida morta que eles têm. Mais tarde.

porém.. para roçar o vestido na tua roupa.. Lançava-se no adultério com uma espécie de franqueza. fazia-me sofrer... Não sei como te amava. o pescoço forte. — Amo-te. esperava a tua chegada. tinha vergonha dessa força invencível. sentia os nervos prestes a romper a pele. detestava-te.. ou antes. de uma vez. Tu esconder-te-ás. Quisera bater-te. Eu tinha consciência de que parecia implorar beijos. lembrava-me das drogas que tivera de beber e afastava-me dele. Mas tu.. Não revelava uma hesitação. 'não sei como isso aconteceu. os dedos presos nas mãos grossas de Laurent.. deitava-se para trás. Recordar-te quando pintavas aqui: uma força fatal empurrava-me para o teu lado. É verdade. A jovem parecia comprazer-se na audácia e na impudência. respirava o teu ar com cruel delícia.. lá. no primeiro dia. — Bah! — era a resposta.. porém.. tremia de frio. Quando se aproximava a hora da chegada do amante. tu. à fraqueza... malgrado a revolta surda que sentia. E depois. quando tu estavas. olhando os seus ombros largos.. falava. que venha. passava noites terríveis. amo-te desde o dia em que Camilo te trouxe à loja. sentia que se me tocasses cairia.. afrontando o perigo e como que ufanando-se de o desafiar. desenrolavam-se ardentes cenas de paixão. Tinha Laurent ébrio sobre o seu peito e. Cedia.. Cada novo encontro trazia crises mais fogosas. . que queres tu que ela venha fazer aqui? Tem medo que a roubem. a cabeça ficava vazia e via tudo vermelho..... Oh! como sofria! Mas procurava esse sofrimento. o mínimo medo. Tu talvez não gostes de mim porque me entreguei inteira. Teresa empertigava-se. O teu olhar irritava-me. Parecia-me que o teu sangue projetava baforadas de calor e era essa espécie de nuvem ardente em que me envolvias que me atraía e me retinha junto de ti. energicamente. Laurent assustava-se. quando me abraçaste e me deitaste no chão neste quarto. esperando que me tomasses nos braços. Sou altiva. Eu caçoo dela. Teresa calava-se. se quiser. Ela está pregada atrás do balcão. A senhora Raquin pode subir. A princípio. Amo-te.. com uma sensação de orgulho e de vingança. — Por Deus! — dizia em voz baixa para Teresa — não faças tanto barulho.me à garganta.. rodeava a tua cadeira para respirar-te o hálito. de sinistra brutalidade. andava de um lado para o outro. tinha a precaução de prevenir a tia que ia subir para repousar. entre sorrisos estás sempre a tremer. no quarto nu e glacial. agia ousadamente sem pensar por um momento em evitar o ruído. sou arrebatada. fremente.

— Bem vês que nada temos a temer aqui — disse Teresa triunfante — são todos cegos: eles não amam.. delirante. mergulhado em diabólico êxtase. porém. rindo em silêncio. sem maiores sobressaltos. em desalinho. bocejou. — Teresa — perguntou a capelista com solicitude — estás doente. Lançou sobre Laurent as suas roupas e por último a sua própria saia branca.Estas palavras não sossegavam muito Laurent. . A paixão não tinha ainda adormecido a sua prudência sonsa de camponês. e tinha razão. Pegou-lhe num braço com força e fê-lo encolher-se num canto perto da cama. ainda corada e fremente. o chapéu. receando que a sobrinha estivesse doente. perturbou-se e procurou nervosamente o colete. estava sentado sobre as patas traseiras. Não te mexas. Suplicou à tia que a deixasse dormir. Não tardou no entanto que o hábito o levasse a aceitar. Um dia. Teresa começou a rir ao ver a singular expressão do seu rosto. Quando Laurent ouviu os passos pesados subindo a escada de madeira. minha filha? Teresa abriu os olhos. Os dois amantes. onde ninguém os iria procurar. pois estava há quase três horas no quarto. Não poderiam ter encontrado lugar mais seguro do que aquele quarto. sem baixar as pálpebras. olhava os dois amantes com os grandes olhos redondos. A velha senhora afastou-se do mesmo modo que viera. E davam curso ao seu amor em plena tranqüilidade. François. A jovem fingia dormir. no meio do quarto. sem fazer qualquer ruído. Parecia examiná-los atentamente. Uma ocasião a jovem teve uma idéia bizarra: comportava-se às vezes como louca. Todos estes preparativos foram feitos com gestos rápidos e precisos. A amante repetia-lhe que o perigo poupa aqueles que o desafiam de frente. voltou-se e respondeu com voz dolente que sentia uma atroz enxaqueca. Laurent suava debaixo das roupas. abraçaram-se com apaixonada violência. A senhora Raquin abriu a porta docemente e aproximou-se do leito em passos abafados. os riscos dos encontros em pleno dia no quarto de Camilo. Grave. imóvel. sem o mínimo ar de pânico. seminua.. a senhora Raquin subiu. a dois passos da velha cape lista. Depois deitou-se. ao mesmo tempo que lhe dizia em voz muito baixa e calma: — Fica aqui. O gato. Teresa levava a audácia ao ponto de não fechar com ferrolho a porta do quarto que dava para a sala de jantar.

só os olhos pareciam estar vivos. dava uma volta pelo cais com Camilo. ele sabe belas histórias a nosso respeito.. que dormia num sótão e dissera-lhe insistentemente que tinha sempre lugar posto à mesa. Tinha pelo jovem aquela ternura expansiva dos velhos pelos conterrâneos. imitava o gato alongando os dedos em forma de garras e imprimindo aos ombros ondulações felinas. para a refeição da senhora Raquin. Laurent sentiu frio nos ossos. Laurent sentia-se infeliz. assim. não desconfiam de mim. abrindo a porta da loja. A ambos agradava a intimidade. François mantinha a imobilidade de pedra. que comia mal. peço que os metam na prisão. mas como os seus amores criminosos me aborrecem.. sabia que tinha dificuldades. dirigia-lhe galanteies banais. — Ele faria assim — continuou Teresa levantava-se e apontando para mim com uma das patas e para ti com a outra. Tratava a jovem com amistosa naturalidade. Depois de sair do escritório. no seu íntimo restava um pouco do malestar que experimentara aos primeiros beijos de Teresa.. Habitualmente acompanhava Camilo no regresso do escritório. sem deixar de contemplar Teresa. Laurent servia-se largamente da hospitalidade assim oferecida. não perturbarão a minha sesta. Diz lá se não seria divertido se começasse a falar na loja um destes dias. A presença de Teresa não o constrangia absolutamente nada. Laurent fazia-se dono da casa. esparramava-se nas cadeiras. A amante não o dominava ainda inteiramente. Na realidade. A idéia de François poder falar divertiu singularmente a jovem. os cantos da boca repuxados imprimiam um esgar de riso à cabeça que dir-se-ia de animal empalhado. Achava ridícula a brincadeira de Teresa.— Repara em François. A senhora Raquin sentia por ele uma amizade maternal. exclamava: "Este senhor e esta senhora abraçam-se no quarto. conversavam enquanto vagueavam. Levantou-se e levou o gato para a porta. fumando e cuspindo como se estivesse em sua casa." Teresa brincava como uma criança. ao serão. que trazem consigo recordações do passado distante.. sentia medo. aborreciam-se menos. gracejava. sem mover um só músculo do . Encaminhavam-se então para a loja. Dir-se-ia que compreende e que vai contar tudo esta noite a Camilo. Laurent olhou para os grandes olhos verdes do gato e sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. CAPÍTULO VIII Na loja.

Em certos momentos subia-lhe à cabeça um cálido júbilo. áspera. Tinha. nisso não era como Laurent. as audácias comedidas. Mais nervosa e vibrante. Quando Laurent entrava. sem remorsos. menino mimado da mãe. o egoísmo com que saboreava os seus prazeres protegia-o contra qualquer falta. o nariz mais comprido e os lábios mais delgados. ela sabia que procedia mal e sentia desejos ferozes de se levantar da mesa e abraçar Laurent à vista de todos. dominando os anseios febris. Se não a abraçava diante de todos era pelo receio de não poder voltar. como homem pobre e faminto. Não tinha a mínima consciência daquilo a que poderia conduzir a descoberta da sua ligação. graças à sábia hipocrisia que provinha da sua educação. quando o amante não estava ali e não havia qualquer perigo de se trair. amigo do marido. achava-a grave. tão seguro estava da sua prudência e da sua calma. que não devia beijar e que não existia para ele. Sentia amarga voluptuosidade em enganar Camilo e a senhora Raquin. Deixava-se embalar nos infinitos prazeres que a família Raquin lhe proporcionava. Não lhe era assim difícil afivelar a máscara de morte que lhe gelava o rosto. Estas explosões de alegria encantavam a senhora Raquin. Teresa era obrigada a desempenhar outro papel. Desprezava Camilo sem cólera. e por muito boa comediante que fosse não conseguia nessas ocasiões evitar de cantar. Era feia. as atitudes desinteressadas e atrevidas. carrancuda. Daí a sua beatíssima tranqüilidade. o cuidado de não exagerar os efeitos. Jamais vivera em tamanha satisfação dos seus apetites. estava firmemente convencido de que ambos se detestavam. aliás. a sua posição no seio da família parecia-lhe inteiramente natural. arisca. Aliás.rosto. Apenas esta circunstância o detinha. a amante era uma mulher como qualquer outra. E desempenhava-o com perfeição. com implacável vontade para parecer melancólica e submissa. Durante perto de 15 anos mentira. Camilo ria e. exteriorizava a personalidade sem chamar a atenção por demasiada brusquidão. Julgava agir simplesmente. A jovem comprou vasos de flores para a . Não se preocupava com os gestos nem com as palavras. para mostrar ao marido e à tia que não era um animal e que tinha um amante. Na loja. inconsciente do dever. Para este as coisas tinham-se passado como previra: era amante da mulher. Chegou mesmo um dia a criticar Teresa pelo que chamava de frieza em relação a Laurent. como a mulher só respondesse ao amigo por meio de monossílabos. afundado na rude satisfação dos seus desejos. como qualquer outro no seu lugar. De outro modo teria abertamente escarnecido da dor de Camilo e da mãe. que acusava a sobrinha de demasiada gravidade.

imóvel e tranqüila como os outros. que nesses dias se aborrecia mortalmente. na sombra transparente e morna. depois da sobremesa. voltava para o seu lugar e reassumia o ar mal humorado. do que se passara na véspera e das perspectivas para o dia seguinte. havia risos selvagens. à mesa. móveis de palissandro. rápido e deslumbrante. A natureza e as circunstâncias pareciam tê-la destinado àquele homem e tê-los empurrado um para o outro. Em volta da mesa. os lábios aos lábios do amante. num céu morto. do outro lado do estreito tabique. a dois passos. ofegante. No silêncio. mandou colar papel novo nas paredes. gestos obsequiosos. formavam um par poderosamente ligado. todo o seu ser escarnecia mas o rosto exteriorizava apenas uma rigidez fria. Então. No seu íntimo. Completavam-se e protegiam-se mutuamente. estas trocas de amabilidades sorridentes. fazia . Todo este luxo era para Laurent. estes enganos da vida. Dizia para si. Era como que um clarão de paixão. Se acaso a senhora Raquin e Camilo desciam à loja. redobravam o ardor no sangue da jovem. era ali que se rebolava nas asperezas do adultério. assim permanecendo. o homem másculo e rude. elevavamse palavras amistosas. seguia estas alegrias burguesas. à luz pálida do candeeiro. com energia quase brutal. tanto quanto podia gostar um egoísta satisfeito. seminua. até ouvir estalarem os degraus da escada. Teresa erguia-se de um salto e colava silenciosamente. com requintes de voluptuosidade. que algumas horas antes estivera no quarto vizinho. para os comparar com a cena morta que tinha diante dos olhos. Camilo gostava de Laurent. prolongava-os na memória. Laurent por sua vez retomava a conversa interrompida com Camilo. cortinados. Ah! Como enganava aquelas boas pessoas e como se sentia feliz de as enganar com tão triunfante impudência! Era ali. que recebia um homem. com o qual não devia importar-se. Com voz calma.janela do quarto. falava-se de mil insignificâncias do dia. olhares atenciosos. sentia-se a força da sua união. sobre o peito de Laurent. Eram serões calmos e doces. nervosa e hipócrita. em desordem. A mulher. Essa atroz comédia. recordava cada pormenor dessa tarde de paixão louca. à vista do rosto rude e sorridente de Laurent perante a máscara impenetrável de Teresa. trocavam frases amistosas. Dir-se-ia uma reunião de velhos amigos que se conheciam e repousavam na confiança da sua amizade. um camarada do marido. e Laurent parecia retribuir-lhe o afeto. o serão era um pouco mais animado. uma espécie de imbecil e de intruso. À noite. Na quinta-feira. quis um tapete. com um movimento brusco. E naquele instante o amante tornava-se um desconhecido. O rosto plácido da senhora Raquin revelava a paz com que envolvia os filhos no ar tranqüilo que respiravam. Teresa. Laurent. a comparação entre os beijos ardentes da tarde e a indiferença afetada da noite.

a jovem aproximava-se de Laurent e apertava-lhe a mão. Pregado à secretária ficou em desespero até à hora da saída. receava apenas que acabasse a bela existência que levava. que lhe pareciam os menos maçantes. No serão. passou a noite em claro arquitetando complicados planos de encontros. Por vezes. falando em voz baixa. abraçava-o atrevidamente. do escritório. A ansiedade de ambos estava tanto mais viva quanto sentiam a desorientação por não saberem onde se encontrarem para conversar e combinar uma solução. Não sabia como explicar à amante a sua ausência ao encontro. quando Laurent se preparava para sair do escritório e correr para junto de Teresa que o esperava. Era nessas noites que Teresa fixava a hora e o dia dos encontros. Os amantes viviam uma felicidade completa.no entanto questão de não faltar a nenhuma dessas reuniões: como medida de prudência queria travar conhecimento e amizade com os amigos de Camilo. saciado. coberto de atenções. o chefe mandou chamá-lo dizendo-lhe que daí em diante não podia ausentar-se. O jovem refugiava-se junto de Olivier e Suzana. Grivet falava ao mesmo tempo dos seus subordinados. Camilo voltava. e apressava-se a reclamar a partida de dominó. Laurent tinha de retirar-se sem poder dar mais explicações. quando todos estavam de costas. CAPÍTULO IX Um dia. A jovem marcou novo encontro . Tinha de escutar as conversas de Grivet e do velho Michaud. aproximou-se rapidamente da jovem: — Não podemos voltar a ver-nos — disse-lhe em voz baixa — o meu chefe recusa-se a dispensar-me. Aproveitando a hora em que Camilo fechava a loja. à tarde. deixando Teresa debaixo do efeito da súbita notícia. Exasperada. não conseguiu conversar com Laurent por mais de um minuto. nada mais desejava. ainda mais gordo. Na agitação da despedida. o rosto irritado de Teresa foi para ele uma tortura. quando a senhora Raquin e Camilo acompanhavam os convidados à porta. Tinha de ganhar o seu pão e não podia contribuir para que o despedissem. Laurent. Que abusara das dispensas e que a administração estava decidida a demiti-lo se voltasse a sair. Esta vida de agitação e ao mesmo tempo de saciedade manteve-se durante oito meses. sem querer admitir a interrupção dos seus sensuais prazeres. Na quinta-feira seguinte. este passava o tempo a repetir as histórias de mortes e de roubos. Teresa já não se aborrecia. dos chefes.

Teresa entrou nas águas-furtadas. A partir daí. com um gesto rápido. Tudo parecia inconsciente na sua pujante natureza rude. como no fundo de um buraco. alegando estar fatigado. acotovelando os transeuntes na pressa de chegar. pois. obedecia aos instintos. Teresa. mas. por sua vez. a que este pela segunda vez faltou. Não sentia já nenhum mal-estar nos abraços da amante. por outro lado. O surdo peso dos desejos atuara nele. A cliente morava em Batignolles. como se tem necessidade de comer e de beber. de uma exigência aguda. certamente. Passaram-se 15 dias sem que Laurent pudesse aproximar-se de Teresa. e que iria deitar-se em seguida. Sentia suor no rosto. invadira-lhe pouco a pouco cada uma das fibras do corpo. A amante prometia-lhe chegar por volta das oito horas da noite.. e acabara por submetê-lo de pés e mãos atados às quentes carícias de Teresa. ela só tinha uma idéia fixa: voltar a vê-lo. o hábito da voluptuosidade criara-lhe novos apetites. Parecia ébria. Sentiu então a falta que ela lhe fazia. arrancou o chapéu e. na qual esta lhe pedia para ficar em casa no dia seguinte. livrou-se de Camilo. Tinha necessidade daquela mulher para viver. A paixão tinha-se-lhe infiltrado nos músculos e agora que lhe retiravam a amante. debruçado sobre o lanternim. . Ao sair do escritório. desempenhou o seu papel depois do jantar: falou de uma cliente que mudara de casa sem lhe pagar e declarou que iria reclamar a dívida. Receava. Amava furiosamente. os olhos vagos. a clarabóia dava passagem à frescura da noite sobre o leito ardente. Galgou rapidamente a escada da pensão e. apoiou-se à cama. não mostraram admiração e Teresa saiu com toda tranqüilidade. com as suas carícias felinas e os seus estremecimentos nervosos. esquecer a prudência e não se atrevia a ir à passagem da Ponte Nova para não cometer uma loucura. deixava-se conduzir pelas vontades do seu organismo. no sexto andar. que a aguardava. cometido uma imprudência se não fosse receber uma carta de Teresa. sem que disso se desse conta. quase a desfalecer.com o amante. a paixão estalava-lhe com cega violência. viu Laurent. escorregando nas ruas. a amante. Teria. Completamente aberta. Por longo tempo os amantes ali permaneceram. Não era já senhor de si. antes os procurava agora com a obstinação de um animal esfaimado. custasse o que custasse. as mãos queimavam-lhe.. ofegante. A jovem correu para o Porto dos Vinhos. A senhora Raquin e Camilo disseram-lhe que era longe e a tentativa perigosa. nas quais a ampla saia rodada mal cabia. Um ano antes ter-se-ia rido às gargalhadas se lhe dissessem que viria a ser escravo de uma mulher a ponto de comprometer a sua tranqüilidade.

De súbito, Teresa ouviu soar 10 horas no relógio da Pitiê. Desejou nesse instante ser surda; penosamente, ergueu-se, atou as fitas e sentou-se, dizendo com voz lenta: — Tenho de partir. Laurent ajoelhou-se diante dela e pegou-lhe nas mãos. — Adeus — acrescentou Teresa, sem se mexer. — Adeus não — exclamou ele — isso é muito vago... Quando voltas? Ela olhou-o. — Queres que seja franca? Pois bem, creio que não voltarei. Não tenho pretexto, não posso inventar mais nada. — Então, temos de dizer adeus. — Não, não quero! Teresa pronunciou as palavras com arrebatamento. Mais suavemente, depois, sem saber o que dizia e sem abandonar a cadeira, acrescentou: — Vou-me embora. Laurent estava absorto. Pensava em Camilo. — Não lhe quero mal — disse, por fim, sem o nomear — mas, na verdade, atrapalhanos muito... Não poderias tu fazê-lo viajar para qualquer lugar bem longe? — Ah! Sim, mandá-lo viajar! — repetiu Teresa, abanando a cabeça. — Tu pensas que um homem como ele consente em viajar... Só há uma viagem de onde não se regressa... Mas será ele a enterrar-nos a todos; as pessoas doentes são as últimas que morrem. Houve um silêncio. Laurent, arrastando-se de joelhos, abraçou a amante, apoiando a cabeça no seu peito. — Tenho um sonho — disse ele. — Queria passar uma noite inteira contigo, adormecer nos teus braços e acordar no outro dia com os teus beijos... Queria ser o teu marido... Compreendes? — Sim, sim — respondeu Teresa, estremecendo. Inclinou-se repentinamente para o rosto de Laurent, que cobriu de beijos. Roçou as fitas do chapéu na barba; não se lembrava que estava vestida e que amassava as roupas. Soluçante, balbuciava palavras por entre lágrimas. — Não digas essas coisas — repetia — porque perco as forças para te deixar, ficarei aqui... Dá-me antes coragem; diz-me que nos voltaremos a ver... Não é verdade que precisas de mim e que um dia encontraremos maneira de viver juntos? — Então vem, vem amanhã — respondeu-lhe Laurent, cujas mãos trêmulas lhe subiam ao longo do corpo.

— Mas não posso voltar... Disse-te que já não tenho pretexto. Ela torcia as mãos. — Oh! — disse — o escândalo não me mete medo. Se quiseres, quando voltar, digo a Camilo que és meu amante e volto para dormir aqui... É por ti que temo; não quero ser estorvo na tua vida, desejo dar-te uma existência feliz. Os instintos de prudência do jovem voltaram à superfície: — Tens razão, é preciso não agir como crianças. Ah! Se o teu marido morresse... — Se o meu marido morresse... — repetiu lentamente Teresa. — Poderíamos casar, nada mais teríamos a recear, desfrutaríamos o nosso amor... Que vida boa e doce! A jovem endireitou-se. Pálida, encarava o amante com olhos sombrios; os lábios tremiam-lhe. — As pessoas morrem em certas ocasiões murmurou por fim. — Somente, é perigoso para aqueles que sobrevivem. Laurent não respondeu. — Todos os meios conhecidos são maus continuou ela. — Não me compreendeste — disse calmamente Laurent. — Não sou tolo, quero amarte em paz... Estava pensando que acontecem acidentes todos os dias, que se pode escorregar, uma telha cair... Percebes? Neste último caso só o vento é que tem a culpa. Falava com voz estranha. Sorriu em seguida e acrescentou em tom acariciador: — Vai, fica descansada, amar-nos-emos, viveremos felizes... Uma vez que não podes voltar eu tratarei de tudo... Se ficarmos vários meses sem nos vermos não me esqueças, pensa que estou trabalhando para a nossa felicidade. Envolveu nos braços Teresa, que abria a porta para partir. — És minha, não é verdade? — disse ainda. — Juras entregar-te toda inteira, sempre, quando eu quiser? — Sim — exclamou a jovem — pertenço-te, faz de mim o que quiseres. Por momentos, permaneceram mudos e assustados. Depois, Teresa arrancou-se aos braços que a prendiam, com brusquidão e, sem voltar a cabeça, saiu da mansarda e desceu a escada. Laurent ficou a ouvir o ruído dos passos que se afastavam. Quando voltou o silêncio, entrou e deitou-se. Os cobertores estavam mornos. Estava abafado naquele buraco estreito que Teresa enchera com o ardor da sua paixão. Parecia-lhe respirar ainda o odor da jovem; estivera ali, espalhando penetrantes emanações de violeta e agora nada mais podia apertar nos braços do que o fantasma inatingível que flutuava à sua

volta; sentia o desejo febril de novos e insatisfeitos amores. Não fechou a janela. Deitado de costas, os braços nus e as mãos abertas, sequiosas de frescura, permaneceu pensativo, olhando o quadrado azul sombrio talhado pela moldura no céu. A idéia fixa não o abandonou até o nascer do dia. Antes da visita de Teresa não pensava na morte de Camilo; falara nisso sob impulso dos fatos, irritado pelo pensamento de que não mais veria a amante. E era assim que nova faceta da sua natureza inconsciente acabava de se revelar: na exaltação do adultério, pensava no assassínio. Mais calmo agora, a sós no meio da noite tranqüila, estudava o assassínio. A idéia de morte, lançada com desespero entre dois beijos, aguilhoava-o implacavelmente. Dominado pela insônia e enervado com o perfume acre que Teresa deixara atrás de si, Laurent engendrava emboscadas, pesava os riscos e enumerava as vantagens que teria em tornar-se assassino. Todos os seus interesses o impeliam para o crime. Dizia-se que o pai, o camponês de Jeufossê, não se decidia a morrer; teria, talvez, de continuar empregado por mais 10 anos, comendo em restaurantes baratos e a viver sem mulher numas águas-furtadas. A idéia exasperava-o. Ao contrário, com Camilo morto, desposaria Teresa, herdaria da senhora Raquin, apresentaria a demissão e passaria a perambular ociosamente ao sol. Agradava-lhe sonhar com essa existência de preguiça; via-se já sem nada fazer, comendo e dormindo e a esperar pacientemente pela morte do pai. Caindo em si, via em Camilo o obstáculo e cerrava os punhos como que para o abater. Laurent queria Teresa, queria-a só para ele, sempre ao alcance da mão. Se não fizesse desaparecer o marido, a mulher escapava-lhe. Ela dissera-lhe: não podia voltar. Podia arrebatá-la, levá-la para qualquer lugar, mas acabariam por morrer de fome. Arriscava menos matando o marido; não provocava nenhum escândalo, afastava simplesmente um homem para tomar o seu lugar. Na sua lógica brutal de camponês achava o meio excelente e natural. A prudência aconselhava-lhe mesmo este rápido expediente. Dava voltas na cama, ensopado em suor, colando o rosto úmido à almofada em que desfizera o penteado de Teresa. Mordia o tecido com os lábios secos, bebendo o leve perfume que ficara e ficava suspenso, sem alento, sufocado, vendo passar lâminas de fogo através das pálpebras cerradas. Perguntava a si próprio como poderia matar Camilo. Instantes depois, quando lhe faltava o fôlego, virava-se de um golpe e ficava de costas, de olhos abertos, a receber em pleno

não queria o punhal nem o veneno. sem gritos. Lentamente. Quando se deitou. um plano para o assassínio. com a cabeça em fogo. . parecia cansado. O ar frio afastara do quarto a sombra cálida e perfumada de Teresa. Os membros ainda ardentes estremeceram-lhe de repugnância. procurando nas estrelas um conselho. mais impenetrável e pacífica do que antes. respirando com serena regularidade. mas todo o seu ser reclamava imperiosamente prudência. Afastou-se. A senhora Raquin redobrava de atenções para com o amigo da casa. Encontrou a senhora Raquin e Camilo ansiosos e solícitos. dizendo que fizera uma caminhada inútil e que esperara uma hora por um ônibus. sem terror. Pretendia um crime dissimulado. achou os lençóis frios e úmidos. A paixão excitava-o e impelia-o para diante. Dir-se-ia que estava mais imóvel. Laurent continuava a ir à loja todas as noites. Tinha dito à amante que não era nem criança nem idiota. Era demasiado covarde e voluptuoso para arriscar a tranqüilidade. Um círculo violáceo rodeava-lhe os olhos e os lábios estavam pálidos e rachados. Parecia-lhe que saíra naquele instante da casa de Laurent. decidiu que esperaria por uma ocasião favorável e o pensamento cada vez mais fugidio embalava-o. sem dar conta do caminho percorrido. Laurent deixou-se invadir por uma espécie de torpor doce e vago. Teresa chegou em casa às 11 horas. Não encontrava nada. Matava a fim de viver calmo e feliz. uma espécie de extinção sinistra. vendo-o cochilar numa espécie de febre latente. a boca aberta. Apesar disso revelava a mesma pesada tranqüilidade. respondeu secamente às perguntas que ambos lhe fizeram. Aniquilado. a tal ponto lhe soavam aos ouvidos as suas palavras." Cinco minutos mais tarde dormia. Teresa retomara a atitude muda e distante. Camilo não tardou a adormecer e Teresa ficou por longo tempo a observar-lhe o rosto descorado pousado estupidamente no travesseiro. adoentado. Antes de adormecer.rosto o ar fresco que entrava pela janela. chegou à passagem da Ponte Nova automaticamente. uma desaparição pura e simples. olhava Camilo de frente e manifestava-lhe a mesma franca amizade. com vontade de abater o punho fechado sobre aquela boca. CAPÍTULO X Passaram-se quase três semanas. o sono dominou-o. murmurando: "Matá-lo-ei. matá-lo-ei. levado a cabo sem perigo. o pensamento tenso.

Não pediam mais.. com a sua voz áspera — se não são presos é porque se ignora que já mataram alguém. mal o olhava. Quando as circunstâncias permitiam. Quantos crimes permanecem desconhecidos! Quantos assassinos escapam à justiça dos homens! — Como! — exclamou Grivet com espanto quer dizer que existem por aí à solta canalhas que mataram e que não são presos? Olivier começou a sorrir com ar de desdém. ir até ao fundo daquela febre turva que ensopava o cérebro numa espécie de vapor espesso e acre." Os dois amantes não tinham voltado a encontrar-se. aquele contato de mãos era a única coisa que possuíam para apaziguar os desejos. Nesse dia Michaud. sentiam no íntimo uma tempestade de paixão. Havia em Teresa arrebatamento e abandono.. dirigia-se-lhe raramente. — Meu caro senhor — disse por sua vez. tratando-o com perfeita indiferença.Parecia que Laurent não existia para ela. Tenho de acreditar que a polícia atua como deve e que não poderei cruzar-me num passeio com um assassino. zombaria cruel. Esperavam. A bondade da senhora Raquin. e nele punham todo o corpo. Eu conheço-a. acrescentou abanando a cabeça: — E não se sabe tudo. no serão. Assustava-os tanto quanto os divertia. Eles próprios não ousavam olhar para o íntimo. cujos pormenores tinham arrepiado o auditório. fazer-lhe perguntas acerca das estranhas e sinistras aventuras em que estivera envolvido. estreitavam silenciosamente as mãos atrás da porta. os convidados da senhora Raquin. que acabava de contar as cenas de um tenebroso assassínio. que sofria com esta atitude. em Laurent obscura brutalidade. Olivier viu um ataque pessoal nestas palavras. de pavor e de desejo. Depois da noite na Rua de SaintVictor não tinham estado a sós. indecisões pungentes. o rosto parece frio mas o coração está cheio de ternura e de dedicação. como habitualmente. Num dos serões das quintas-feiras. antes de começarem a jogar. aparentemente calmos e estranhos um ao outro.. Quando se olhavam face a face. Camilo acorreu em seu auxílio: — Eu sou da opinião do senhor Grivet. com o semblante assustado e ao mesmo tempo atento de crianças às quais se contam as aventuras do Barba-Azul ou do Pequeno Polegar.. dizia por vezes ao rapaz: "Não faças caso da frieza da minha sobrinha. O argumento não pareceu convencer Grivet. Um dos assuntos obrigatórios era falar ao velho Michaud sobre as suas antigas funções. Grivet e Camilo escutavam então as histórias do comissário de Polícia. Tinham vontade de arrancar mutuamente pedaços de carne. . num aperto rude e breve. conversaram durante alguns momentos.

. no fundo de uma vala. O corpo foi encontrado em pedaços. pode até ser nosso vizinho e talvez o senhor Grivet o encontre quando voltar para casa. De cotovelos apoiados na mesa. Camilo continuou. Pequenas gotas de suor perlaram a raiz dos cabelos de Teresa e Laurent sentiu um sopro gelado estremecer-lhe imperceptivelmente a pele. Teresa e Laurent tinham-se mantido silenciosos durante a conversa. seriam capazes de escapar ao próprio Deus. escutavam. Não é verdade. irritado por ver o chefe metido a ridículo. — É imoral — concluiu Grivet. — Mãe. dirigindo-se a Michaud: — Então a polícia é impotente. não quero acreditar nisso... Olivier riu-se com ar de zombaria. meu pai? — Sim. os olhos vagos. é isso que quer dizer? Que há assassinos que andam a passear? — Infelizmente sim — respondeu o comissário. Talvez ainda seja vivo. a sensação de medo fascinava-o. que foi presa por roubar aos patrões um talher de prata. Há celerados que aprenderam o crime na escola do diabo. ao cortarem uma árvore. Nunca se deitou a mão ao culpado. Grivet ficou branco como a cal. dá-nos o dominó. Nem mesmo tinham sorrido da tolice de Grivet. Grivet exultava. Como vêem. sem saber bem o que dizia — não. Os olhares encontraram-se por um momento. sim — apoiou o velho Michaud que acrescentou: — Quando estavam em Vernon — talvez se lembre disto. — Não foi isso que o senhor Grivet quis dizer — interveio Camilo. Enquanto a senhora Raquin ia buscar a caixa. — Mas no entanto não podemos fazer o impossível. Fora a pega a ladra e a criada foi solta. os culpados são sempre castigados.. — Então meteram a pega na prisão — disse. bem! — balbuciou. — Ah.. Também eu sei de um caso: uma criada. os rostos cobertos por palidez.. Ficou imóvel.. senhora Raquin — um carroceiro foi morto na estrada principal.. . algo vexado.— Certamente que a polícia faz o que deve replicou. negros e ardentes. pensando que o assassino do carroceiro estaria atrás de si. Por outro lado. descobriram o talher num ninho de pega. sem ousar virar a cabeça. Dois meses depois.

comentários e silêncios de imbecil. O outono anunciava já a sua chegada. Deixava-os enfim afastar-se. — E sobretudo — dizia-lhes — tenham cuidado com os acidentes. E eram as recomendações sem fim.. Um domingo. dos quais se começava a falar um mês antes. Voltava então para a loja. O passeio estava projetado desde há muito e devia ser o último do verão. Eram considerados dias de extravagância. estes passeios que lhe permitiam respirar ar livre até às 10 ou 11 horas da noite. Nesses dias a senhora Raquin acompanhava os filhos até ao fim da passagem. Era preciso aproveitar os últimos momentos de bom tempo. com as suas ilhas cobertas de verdor. Saint-Ouen lembrava-lhe Vernon. sem falar quase. Prometam-me não se misturarem com a multidão. Outras vezes. rígido e contrafeito na roupa domingueira. acompanhando-os longamente com os olhos. A jovem preferia ficar na obscuridade úmida da loja. Abraçava-os como se fossem partir para uma viagem. fazia todo o possível para provocar o cumprimento.. Teresa aceitava de boa vontade. Enquanto rasgava e sujava o vestido nas pedras e na terra molhada. Nessa manhã o céu mantinha-se ainda azul. Camilo insistia. andava por andar. depois do almoço. Camilo estendia cuidadosamente o lenço e acocorava-se a seu lado com mil precauções. sentia acordar a atração que desde criança sentia pelo Sena. fatigava-se e aborrecia-se ao lado do marido. por vezes. Quando encontrava algum colega. detendo-se diante das grandes lojas com exclamações de espanto. As pernas pesavam-lhe e não lhe permitiam grandes caminhadas. Sentava-se no saibro. mais raramente. O sol estava quente e as sombras agradáveis. mergulhava as mãos na água e sentia-se viver sob os ardores do sol que temperavam as sombras frescas das árvores. . Fora isso. arrefecendo o ar das tardes. sobretudo um dos chefes. Teresa e Laurent partiram para Saint-Ouen por volta das 11 horas. quando o tempo estava bom. há tantos carros por essa Paris!. Nos últimos tempos Laurent acompanhava o casal quase sempre. embrutecido e vaidoso. a dar um passeio nos Campos Elísios. gostava de mostrar a mulher. o casal saía de Paris: iam a Saint-Ouen ou a Asnières e almoçavam num dos restaurantes à beira da água. que a arrastava pelos passeios. . os pedidos insistentes. animando o passeio com as suas gargalhadas e a sua força de camponês. Camilo forçava Teresa a sair.CAPÍTULO XI No domingo. Camilo.. quase com satisfação. Para Teresa era um sofrimento ter semelhante homem a seu lado..

O ar. Ficaram cerca de três horas na clareira. com bancos. Passaram numa ilha e embrenharam-se numa pequena mata. protegendo-se sob o chapéu de sol. Laurent aproximou-se suavemente da jovem. das inquietas efusões da velha capelista. Depois. olhava para a perna enquanto escutava o amigo que se insurgia contra o governo declarando que todas as ilhotas do Sena deviam ser transformadas em jardins ingleses. fatigado. sem parecer sentir os raios de sol que lhe mordiam o pescoço. acompanhados das lamentações. Quando chegaram a Saint-Ouen apressaram-se a procurar a sombra de uma árvore com erva fresca para se estenderem. como feixes de colunatas góticas. dava pontapés nas pedras e. deitado ao comprido. ficando meio encoberta pelas pregas do vestido que se levantou à sua volta. queimava. ouviam o rumorejar do Sena. caminhos cobertos de saibro. O caminho. Camilo falou da repartição. em grande número. excitando-lhe o sangue e irritando- . batido pelo sol. descobrindo-lhe uma das pernas até ao joelho. num lugar melancólico.Os três tomaram um fiacre. estendeu os lábios e beijou-lhe a botina e o artelho. Teresa abateu-se sobre as folhas. Teresa caminhava em passos curtos. dava em certa altura a sensação de cegar. levantando as abas da sobrecasaca. simulando dormir. com o queixo na terra. Camilo escolheu um ponto seco e sentou-se. o contato com o couro e com a alva meia. O cheiro acre da terra e o perfume tênue de Teresa misturavam-se e envolviam-no. Atravessaram Paris e deixaram o fiacre perto das fortificações. deixou-se cair para trás e adormeceu. uma estreita clareira silenciosa e fresca. espesso e acre. contou histórias sem interesse. Era meio-dia. queimou-lhe a boca. onde as folhas avermelhadas formavam no solo uma camada que estalava debaixo dos pés com um frêmito seco. seguindo o caminho ao longo do rio. À volta. de vez em quando. com o chapéu sobre os olhos. Teresa por seu lado estava há um bom pedaço de pálpebras descidas. Os troncos erguiam-se eretos. Com grande ruído de saias amarrotadas. coberto de poeira. Laurent. esperando que o sol começasse a declinar para passearem pelos campos antes do jantar. Atrás seguia Laurent. os ramos desciam quase até à cabeça dos passeantes que por horizonte tinham assim a abóbada acobreada das folhas agonizantes e os frutos esbranquiçados e negros dos choupos e dos carvalhos. Pelo braço de Camilo. Estavam sós. lançava olhares turvos aos meneios das ancas da amante. assobiava. árvores talhadas como nas Tulherias. chegaram a Saint-Ouen. enquanto o marido se abanava com um lenço enorme.

A caminhada sob o sol ardente pela estrada de Saint-Ouen. Voltou a cabeça. Estendido como estava. Camilo provocava irritação e nojo.Com um movimento brusco. lentamente. cujo corpo deformado revelava a sua magreza. uma fria rigidez. não voltando sequer o olhar para o amante. vê-lo. pousou a bota e afastou-se alguns passos. Sempre aquele homem surgia como um obstáculo. manchavam-lhe a carne pálida. distinguia-se a boca semi aberta. Aquela cabeça branca e morta. queria viver ao sol. . A cabeça esmagada não tardaria a pô-lo nas mãos da polícia. carregado de penetrantes desejos. As costas doíam-lhe e levantou-se. contudo. Durante alguns segundos. uma espécie de arrepio. Empalideceu e fechou os olhos. depois do crime. Como morta. Laurent julgou que dormia. Depois. cor de tijolo. alguns pêlos ruivos. De um golpe. esmagar-lhe-ia o rosto. Laurent levantou o pé. Laurent contemplou-a. porém. num local rodeado de sombra e de silêncio e não podia apertar contra o peito a mulher que lhe pertencia. como para evitar os salpicos de sangue. O rosto. Viu então que a jovem olhava para o alto com dois grandes olhos abertos e brilhantes. encostando-se a uma árvore. incendiara-o. O marido poderia acordar. Os olhos fixos pareciam um abismo sombrio onde apenas se via a noite. E o amante beijava silenciosamente a botina e a meia branca. Sentia vontade de se curvar e fechar com um beijo os grandes olhos escancarados. tinha uma palidez mate. dormia também Camilo.lhe os nervos. que lhe cobria parcialmente o rosto. de pé atrás de si. entre os braços deitados para trás. Vivia há um mês uma castidade carregada de cólera. torcida grotescamente. ressonava levemente. Quase envolvido pelas saias. suspensa sobre a cabeça de Camilo. oscilava a cada ronco. Laurent manteve a perna erguida. Teresa susteve um grito. envolta nas pregas das saias. O pobre. quase assustado pela sua imobilidade e por vê-la tão insensível às carícias. como o assassino do carroceiro do caso contado pelo velho Michaud. enrugado. no qual a maçã-de-adão. Queria livrar-se de Camilo unicamente para desposar Teresa. Teresa sonhava. e a cabeça deitada para trás deixava-lhe a descoberto o pescoço magro. Estavam isolados. Teresa não fazia um movimento. Disse para si que seria um assassínio imbecil. frustrar os seus cálculos de prudência. espalhados sobre o queixo franzino. sob o chapéu. provocava-lhe. Continuou imóvel.

Para a direita e para a esquerda estendiam-se os restaurantes baratos e barracas de feira. um grupo de barqueiros passava. Por entre as sebes corriam crianças vestidas com roupas de cores claras. encaminharam-se para as passagens percorridas por grupos em passeio domingueiro. de inventar um homicídio cômodo e sem perigo para si. mas as pernas tremiam-lhe de ansiedade. sob os caramanchões.Foi até à beira da água. a caminho! Teresa não tinha fome. Gostava de Laurent pelas piadas que o faziam rir. Em seguida sacudiu a mulher. filas de casais. Saindo da ilha. Apoiada na balaustrada. detinha-se a observar o amante e o marido. ria dos gracejos e das provas de força do amigo. cuja sonoridade era ampliada pelos tabiques finos. Teresa olhava para o cais. que tinha os olhos cerrados. — Sim — respondeu ela. misturados com canções e ruído de pratos e copos. ergueu-se e achou graça da brincadeira. Sentaram-se à mesa numa espécie de terraço de pranchas de uma taberna cheirando a gordura e a vinho. conversava com Laurent. Ignorava os projetos de Laurent. por entre as raras folhas . a jovem seguia de cabeça baixa. — Eh! Não tens fome? — disse-lhe Camilo. Camilo caminhava sem dar o braço à Teresa. em todos os compartimentos e no salão estavam grupos que falavam em altas vozes. Camilo espirrou. De todos os lados soavam gritos. Quando ficava para trás. curvando-se de vez em quando para arrancar uma erva. Os criados faziam estremecer a escada com as idas e vindas. baixando para o horizonte. de empregados com as esposas. e assim que Teresa se levantou por sua vez e sacudiu das saias as palhas secas. a brisa que soprava do rio afastava os cheiros da comida. vendo correr o rio com ar estupidificado. que saltava vaiados e levantava pesadas pedras. Acordou Camilo. quebrando pequenos ramos à sua passagem. à beira dos vaiados. lançava um imenso lençol de luz pálida sobre as árvores tingidas de vermelho e sobre as veredas brancas. No terraço. — Então. Em seguida e bruscamente voltou-se: acabava de imaginar um plano. Do lado oposto do caminho. os três passeantes deixaram a clareira. estava simplesmente cansada e inquieta. de velhos. caminhavam pausadamente. Cada caminho parecia uma rua movimentada e ruidosa. Do céu começava a tombar uma frescura penetrante. Voltaram para a margem e procuraram um restaurante. entoando uma canção. Apenas o sol conservava a sua generosa tranqüilidade. fazendo-lhe cócegas com uma palha no nariz.

Vamos aborrecer-nos durante uma hora à espera. A verdade é que tinha um medo horrível da água. a doentia juventude não lhe permitira chapinhar no Sena. prevenindo que estariam de volta dentro de uma hora. correndo e rindo. um ar azulado e vago que envolvia as árvores com leve e transparente neblina. enquanto assam o nosso frango. senão mergulharemos. que sentia sobre si o olhar fixo de Laurent. cuja leveza assustou Camilo. de darmos um passeio no rio. ele passava o tempo entre dois cobertores. Laurent tornara-se nadador intrépido. De chapéu caído para as costas e cabelos em desalinho. Tateou com o pé a borda do bote. — Não.. Laurent escolheu um barco pequeno. rindo estás sempre a tremer. Tínhamos tempo.. — Vamos. como se mudasse de idéia: — Que dizes. Alguns estudantes que fumavam cachimbos de barro seguiam as suas evoluções. como para se assegurar da sua solidez. Como o proprietário do restaurante alugava botes. as pessoas passavam de um lado para o outro. entoando uma canção infantil. — Como quiseres — foi a resposta indolente de Camilo — mas Teresa está com fome. coloriam-se suavemente de rubores virginais. de cabeça descoberta. — Diabo — comentou — é preciso não nos mexermos lá dentro. atirando-lhes pesados gracejos. enquanto os camaradas de escola corriam a brincar no rio. no Sena. das saias vivas das mulheres. descia a serenidade da noite. Camilo conservara o medo que as crianças e as mulheres têm das águas profundas. não. brincavam de mãos dadas como crianças. entra — incitou Laurent. Em Vernon. remador infatigável. Por baixo de Teresa. Camilo. O odor de frituras e de pó espalhava-se pelo ar calmo. escolheram o menu. Reencontravam um fio de voz fresca. Antes de sair marcaram uma mesa. pelas encostas. . pediram-lhe que soltasse a amarra de um deles.amarelecidas. Ao ruído forte da multidão juntavam-se as canções lamentosas dos realejos. marcados por brutais carícias. Voltaram a descer. distinguia-se o branco das toalhas e os contornos negros dos paletós. algumas jovens do quartier Latin faziam roda. — Eh! rapaz — disse Laurent debruçando-se sobre o corrimão — então esse jantar? E em seguida. antes de irmos para a mesa?. e os rostos sem cor. Mais além. Pelos seus olhos impuros passavam névoas de enternecimento. posso esperar — apressou-se a dizer Teresa.

pois receava romper em soluços e cair por terra.. Ela entra. Os ruídos das margens chegavam ali amortecidos. O bote não tardou a deslizar no meio do rio. ao lado do amante que segurava a amarra. As árvores formavam grandes sombras e as águas escureciam. Teresa lançou-lhe um olhar estranho. — Ah! Ah! — exclamou Camilo para Laurent — olha para a Teresa.. obedece-me. — Entra — acrescentou em voz baixa Laurent. Ao sentir as pranchas debaixo dos pés. Emudecidos. Empregava todas as suas forças para se dominar. Soprava uma brisa fria. Ela não se moveu.. Água e céu pareciam cortados da mesma matéria esbranquiçada. No meio do rio viam-se largas faixas prateadas. com os olhos desmesuradamente abertos. Tinha-se estendido ao longo do banco traseiro. as árvores deixam cair as folhas mortas. Laurent pegou nos remos e afastou-se da margem. Diante deles. Não há nada mais dolorosamente calmo do que um crepúsculo de outono. Estavam longe do cheiro das frituras e do pó. olhavam para as derradeiras manchas de luz que iluminavam ainda os pontos mais altos.. melancólicos.. Uma luta terrível desencadeava-se dentro de si. Laurent murmurou rapidamente: — Presta atenção.. vou jogá-lo n'água. sentados no barco que deslizava ao sabor da corrente. pareciam duas largas barras que se uniam no horizonte. Baixando-se. os cantos e os gritos ouviam-se vagamente. O crepúsculo descia. as ilhas e as margens não eram mais do que manchas acastanhadas e cinzentas que se confundiam numa bruma leitosa. Os raios empalidecem no ar tremulante. ela não entra.. Os campos. desenhava-se o maciço avermelhado das ilhotas. com os cotovelos apoiados na borda e bamboleava-se com ar fanfarrão. grave e imóvel.. sentando-se à proa. Nos céus há sopros lamentosos de desespero. de um castanho-escuro com manchas cinzentas. o céu. o riso de zombaria do pobre atuou nela como um chicote.Camilo transpôs a borda e em passos vacilantes tomou lugar à ré. As grandes massas avermelhadas escureciam. o Sena. É ela que tem medo!. trazendo o seu lençol de sombra. tentando revelar coragem. queimados pelos raios ardentes do sol de verão. A noite cai do alto. respondo por tudo. Estava imóvel. Aproximavam-se das ilhotas. toda a paisagem se desvanecia e simplificava no crepúsculo.. As duas margens. com lânguida tristeza. os três. . com um salto brusco entrou na barca.. dirigindo-se lentamente para as ilhotas. A jovem tornou-se terrivelmente pálida. esboçou um ar de à-vontade. e ficou pregada ao solo. sentem chegar a morte com os primeiros ventos frios. gracejou. Teresa estava em terra.

imóvel. Os nervos de Teresa não resistiram a este apelo. assim. as grossas mãos afagavam os joelhos. terrivelmente convulsionado. com o instinto da fera que se defende. que estalava e dançava. Tinha a cabeça um pouco inclinada e a sua vítima. Camilo fendeu a água lançando um uivo. Teresa esperava. Camilo conseguiu voltar-se e deparou com o rosto medonho do amigo. e ela estalou em soluços. Do outro lado ouvia-se a canção entoada por um grupo de barqueiros que devia subir o Sena. — Teresa! Teresa! — exclamou com voz abafada e sibilante. como morta. Ao longe. A mulher olhava-o. uma contração invencível mantinha-os escancarados. . Havia momentos que os seus olhos percorriam as margens com inquietação. contorcendo-se desesperadamente.. Hirta. entre duas ilhotas. seguia a cena.Camilo. mergulhando as mãos na água: — Safa! Está fria! Não era nada agradável meter aqui a cabeça! Laurent não respondeu. com ambas as mãos presas a um dos bancos da canoa. Laurent continuava a sacudir Camilo. projetou bruscamente para o rio a vítima com um pedaço da sua carne entre os dentes. Não compreendeu imediatamente. vais fazer-me cair. Este. Conseguindo finalmente arrancá-lo. nos braços vigorosos. Vamos lá. — Teresa! Teresa! — exclamou de novo o infeliz. e cerrava os lábios nervosamente. Por duas ou três vezes veio à superfície. que acabara por se deitar de bruços. louca de raiva e de pavor. — Ah! — exclamou Camilo contorcendo-se de riso — fazes-me cócegas. Não conseguia fechar os olhos. exclamou. apertando-lhe com uma das mãos a garganta. A canoa avançava na direção de um braço do rio. acaba com isso. onde desfaleceu. fixados no espetáculo horrível da luta. Laurent ergueu-se e pegou Camilo pelo tronco.. pôs-se de joelhos. Laurent apertou mais fortemente e deu uma sacudidela. lançando gritos cada vez mais abafados. mas sentiu-se invadido por um vago terror. retendo um grito de dor. Muda e rígida. agarrando-se na borda da canoa. A crise que temia lançou-a em farrapos para o fundo do bote. dobrada sobre si própria. Durante alguns segundos lutou nessa posição. sombrio e estreito. num estertor. Quis gritar e sentiu uma mão rude apertar-lhe a garganta. o rio estava deserto. para montante. ergueu-o no ar como uma criança. a cabeça ligeiramente inclinada. avançou os dentes e mergulhou-os no pescoço descoberto do algoz.

torcendo os braços. A verdade é que temia a exaltação incontrolada de Teresa. ao mesmo tempo que gritava lamentosamente por socorro. aproximaram-se. — Nós bem os vimos — disseram — que diabo! uma canoa não é assim tão sólida como chão firme! Ah! A pobre jovem vai ter um mau despertar! Os barqueiros voltaram a pegar nos remos e com a canoa a reboque conduziram Teresa e Laurent para o restaurante. A notícia do acidente espalhou-se por Saint-Ouen em poucos minutos. procurou Camilo em pontos onde sabia que não o poderia encontrar. compreendendo que acontecera uma desgraça. Teresa. Queria regressar a Paris só. — A culpa é minha — gritava — não devia ter deixado o pobre rapaz dançar e mexerse como fez.. onde o jantar esperava. gritou-me que salvasse a mulher. preferindo dar-lhe tempo para pensar e dominar a sua atitude. pretenderam ter testemunhado o acidente.. para comunicar a terrível notícia à senhora Raquin com todas as cautelas possíveis. Em remadas vigorosas. ergueu Teresa nos braços. O proprietário e a mulher. Recolheram Teresa. como sempre acontece. teve uma crise de nervos e rebentou em lancinantes soluços. Foram os barqueiros que comeram o jantar de Camilo. Lançando-se à água. que se virou. consolá-lo. Levantou a gola do casaco para esconder o ferimento. Os barqueiros contaram-no como se o tivessem presenciado. que manifestara desespero pela morte do amigo. Os barqueiros tentaram acalmá-lo. puseram o guarda-roupa à disposição dos náufragos. sendo necessário deitá-la num leito: a natureza ajudava assim a sinistra comédia que acabara de se desenrolar. e com um golpe brusco virou o bote. A certa altura estávamos os três no mesmo lado do barco. mergulhando por sua vez no rio.Laurent não perdeu um segundo.. Quando caiu.. boa gente.. ao voltar a si. que deitaram sobre um banco e em seguida Laurent. Dois ou três barqueiros.. Quando a jovem ficou mais calma. e diante do restaurante juntou-se uma pequena multidão compadecida. arrancando os cabelos. voltando a chorar. . como um fardo. os barqueiros que momentos antes se encontravam do lado oposto da ilhota. Laurent confiou-a aos cuidados dos donos do restaurante.

que coisa medonha!. É horrível. Desceram os quatro. assim. Enquanto Laurent falava.... Não conseguia. O assassino lançarase de cabeça baixa nas mãos de homens da polícia. soltando novas exclamações a cada frase. que vamos nós dizer-lhe?. arrastando os pés. procurou a bengala e o chapéu. no fundo. Via desconfiança onde não havia mais do que estupefação e lástima. na Rua do Sena. se bem que. remexia-se na cadeira. não se preocupasse sobremaneira. soltava exclamações de terror. com a voz entrecortada — meu Deus. não obstante. Iremos contigo. Laurent contou-lhe o acidente. com frases entrecortadas. sondando por hábito o rosto de Laurent. tomou um fiacre e mandou seguir para a casa do velho Michaud. Encontrou o antigo comissário da polícia à mesa.CAPÍTULO XII No canto escuro da carruagem que o levava para Paris.. parecendo sufocado pela dor e pela fadiga. Não teria coragem de ir sozinho à casa da mãe... Olivier olhava-o fixamente e de frente... de espanto. perfeitamente frio. sem a mais leve suspeita da sinistra verdade. evitar um arrepio. Michaud deteve Laurent: . e fez repetir a Laurent os pormenores da catástrofe.. revelando uma audácia que o salvaria.. Certamente que fez bem em vir ter conosco.. estava prestes a perder os sentidos. acompanhado de Olivier e de Suzana. — Ah! Meu Deus — dizia. estava desesperado e receava não ser capaz de desempenhar o papel com suficiente convicção. Suzana. Depois. a dor daquela mãe tocava-o de certo modo. Olivier. ao sentir sobre si os olhares que pareciam querer penetrá-lo. Estava quase seguro da impunidade. Eram nove horas da noite. O olhar de Michaud fixou-o interrogativamente quando o viu entrar envergando as roupas grosseiras do dono do restaurante. essa mãe. Chegado à barreira de Clichy. tinha uma expressão de dolorosa surpresa. que a idéia da morte aterrorizava e cujo coração permanecia. Estranhamente. de um golpe. esbravejando e levantando os olhos para o teto.. À entrada da passagem da Ponte Nova. Levantando-se.. Peço-lhe que me acompanhe. pálida e mais frágil. a alegria do crime consumado. porém.. Laurent acabou por amadurecer o seu plano. Sentia uma alegria pesada e ansiosa. — Vim ter contigo — concluiu — porque não sabia o que fazer das duas mulheres tão cruelmente atingidas pelo infortúnio. para o caso de ser considerado suspeito e para evitar ir ele próprio anunciar a terrível notícia à senhora Raquin. Dirigia-se ali em busca de proteção. Sai-se de casa e morre-se. este passo repugnava-lhe. E a pobre senhora Raquin. Quanto ao velho Michaud. de comiseração.

e teria caído se Suzana não a tivesse abraçado pela cintura. Não comera nada desde a manhã. olhava para as lojas. Cada um deles afundou-se a um canto do fiacre.. E eis que morria longe dela. recuperando o sangue-frio à medida que o tempo passava. subitamente. esquecido por momentos do que se passara. foi ter com Laurent a fim de partirem em seguida para Saint-Ouen. sufocada.. acompanhado de Olivier. A infeliz mãe adivinharia imediatamente uma infelicidade e forçar-nos-ia a contar a verdade mais depressa do que o devemos fazer. sacudidos pelos buracos da estrada. que estremecia à idéia de penetrar na loja. na sombra que envolvia o carro. lançando de vez em quando gritos agudos. A pobre mãe via o filho envolvido nas águas turvas do Sena. O velho Michaud apressou-se a sair. Espere-nos aqui. Ficou na rua uma longa meia hora. O sinistro acontecimento que os reunia envolvia-os numa lúgubre opressão. fundos soluços e estremecimentos dobraram a velha senhora. Exigiu a verdade com um arrebatamento de desespero e uma violência de lágrimas e gritos que fizeram ceder o velho amigo. cortada por instantes pelo clarão de um bico de gás. Poucas palavras trocaram durante a viagem. Dez vezes lutara e 10 vezes vencera. Conservaram-se imóveis e silenciosos. das frases suavizadas e amigáveis do velho Michaud.— Não venha — disse-lhe — a sua presença seria uma espécie de testemunho brutal. amava o filho com todo o amor que lhe testemunhava há 30 anos. Olivier e o pai voltavam a cabeça. Apesar de todas as precauções.. Quantos cuidados durante a débil infância. a senhora Raquin sentia um nó na garganta. Mais calmo. . De pé. assobiava entre dentes e voltava-se para ver as mulheres que com ele se cruzavam. o corpo rígido e horrivelmente deformado. como um cão. via-o ao mesmo tempo no berço. Ficou comprimida.. A sugestão tirou um peso de cima do assassino. quando lutava para o arrancar às garras da morte. a sua dor foi trágica. a senhora Raquin não tardou a compreender que acontecera uma desgraça ao filho. que é preciso evitar. numa crise louca de terror e de angústia. sentia-se morrer. Deixou Suzana com a velha capelista e. erguendo para ela os olhos banhados de lágrimas. ficou a subir e a descer o passeio e aparentando despreocupação. Lembrava os quentes cobertores com que o envolvia. na água fria e suja. comovidos pelo espetáculo que lhes feria o egoísmo. Ao conhecer toda a extensão dos acontecimentos. quantos afagos e ternura para o ver um dia miseravelmente afogado! A estes pensamentos. entrou numa pastelaria e encheu-se de bolos. Na loja da capelista passava-se uma cena lancinante. estrangulada pelo desespero. sentiu fome.

semelhantes testemunhos teriam sido suficientes para a desvanecer. Laurent sentiu a satisfação insuflar-lhe na carne uma vida nova. num delírio. encontraram Teresa deitada. segundo um plano há muito delineado.. via sempre Camilo e Laurent lutando na borda da canoa. Mas nem por um instante tinham duvidado da veracidade da versão de Laurent. Veja. enorme. sem querer ver ninguém com receio de falar. distinguia marido. Era apenas o instinto de conservação que o dominava. no clarão avermelhado que lhe atravessava as pálpebras. Quando as declarações foram encerradas. horrível. Os jornais no dia seguinte noticiaram o acidente com grande soma de pormenores. recorrera ao subterfúgio da doença. pelo contrário. encolhida. com a certeza da impunidade. suspeita. as formalidades ficaram concluídas em 10 minutos. escutava ansiosamente tudo o que se dizia à sua volta. Agora. chegaram ao restaurante junto do rio. O velho Michaud tentou falar-lhe para a consolar. cujo relato foi feito por toda a imprensa parisiense e seguidamente divulgado nos jornais de província. a infeliz mãe. descrevendo a maneira como os três ocupantes tinham sido projetados ao rio e dando-se a si próprios como testemunhas oculares. Se Olivier e o pai tivessem qualquer. com o lençol puxado até o queixo.Quando. Olivier identificou-se e na qualidade de funcionário superior da Prefeitura. o amigo nobre e corajoso. O comerciante disse-lhes a meia voz que a jovem tinha uma febre violenta. agira mecanicamente. precisa repousar. — Deixe-a. E. o sangue retomava nas suas veias a normal . indo até a ponto de fazerem incluir nas declarações que o jovem se lançara à água para salvar Camilo Raquin. A verdade é que Teresa. um agente da polícia procedia ao auto do acidente. apresentaram-no ao agente como o melhor amigo da vítima. finalmente. pálido. Embaixo. Os barqueiros encontravam-se ainda ali. elevando-se das águas lodosas. as mãos e a cabeça ardentes. nada faltou ao caso. ficara tenso. senhor — disse o comerciante ela estremece ao mínimo ruído. A partir do momento em que a sua vítima lhe cravara os dentes no pescoço. Mantinha um teimoso mutismo. o rosto meio escondido no travesseiro. recomeçando a soluçar. Com um movimento de impaciência ela voltou-se. ditando-lhe as palavras e aconselhando-lhe os gestos. A visão implacável ativava-lhe a febre que a possuía.. contando o afogamento com todos os pormenores. na sala. seguidos de Laurent. sentindo-se fraca e sem energia. os lábios e as pálpebras cerrados. Michaud e o filho desceram. temendo denunciar o assassínio. a viúva inconsolável.

Ergueu-se penosamente. A viagem foi silenciosa. colavam-se e os dedos. Venha. magoavam-se mutuamente a cada sacudidela do fiacre. deixando-a só com a mulher do dono do restaurante. com perfeita impudência e enorme audácia. . Ao ouvir-lhe a voz. bruscas carícias. Estava sentado à sua frente.. que Teresa conservava caído para o peito. A senhora Raquin estava deitada. com passos vacilantes. O fiacre deteve-se e Michaud e o filho desceram em primeiro lugar. sem responder. Os homens saíram. que a ajudou a vestir-se. as mãos eram uma espécie de fogão ardente onde fervilhavam as suas vidas. Estava trêmula e tinha um ar distante. pelo contrário. desceu a escada e entrou no fiacre. Laurent retirou-se e lentamente encaminhou-se para a Rua de Saint-Victor. presa de violento delírio. os seus desejos brutais. amparada por Olivier. vendo que tudo corria à medida dos seus desejos. Ambos tinham a sensação que o sangue de um passava para o outro através das mãos unidas. estremecendo. não via o rosto. Teresa. — Está sujeita a ficar gravemente doente e é absolutamente necessário conduzi-la para Paris. fazendo. suplicou a Teresa que se deixasse levar para a passagem da Ponte Nova. Sentia-se tremer mas a amante não a retirou. Esta convicção provocou-lhe uma espécie de transpiração de prazer ao longo do corpo. Manteve na sua a mão de Teresa até chegarem à Rua Mazarino. sonhava com Teresa. que estava deitada no andar superior. num sopro de voz. A polícia passara ao lado do crime e nada vira. com saber e segurança incompatíveis. a jovem estremeceu e abriu dois grandes olhos para ele.circulação. fora lograda e acabava de o absolver. estreitamente apertados.. A jovem abriu os lábios pela primeira vez depois da morte do marido: — Oh! Não me esquecerei — respondeu. um calor que restituiu a flexibilidade aos seus membros e à sua inteligência. Olivier estendeu-lhe a mão para a ajudar a descer.. Enleadas. estavam úmidas. Laurent deslizou a mão ao longo da saia e prendeu nos seus os dedos de Teresa. Teresa arrastou-se até à sua cama e Suzana mal teve tempo de a despir. na sombra indecisa. — Não podemos deixar aqui esta infeliz jovem — disse para Michaud. Depois. Subiu ao quarto e falou. No meio da noite e do silêncio opressivo. convencê-la-emos a ir conosco. Continuou a desempenhar o papel de amigo lacrimoso.. as duas mãos queimavam. no fundo. Mantinha. Tranqüilizado. Laurent dessa vez foi até à loja. as mãos furiosamente apertadas eram como que um peso esmagador sobre a cabeça de Camilo para a manter debaixo da água. lembra-te que temos muito que esperar. Laurent inclinou-se para Teresa e disse-lhe docemente: — Coragem. Estava salvo.

lavou-se abundantemente. Matara Camilo. e durante uma semana os empregados da . o silêncio e a sombra davam-lhe fugazes sensações de volúpia. Laurent olhava para o espelho. Ia viver tranqüilo. a mordida parecia adquirir um tom acastanhado e aspecto grave. A custo se lembrava das cenas da véspera. A frescura fazia-lhe bem. mostrava a carne avermelhada.Passava da meia-noite. sentindo os membros e os pensamentos pesados sob a ação da fadiga. Durante o sono. Dormira bem e o ar frio que entrava pela janela ativava-lhe o sangue espesso. agora seco e estalado. Afastou o colarinho da camisa e observou o ferimento num espelho de 15 sous pendurado na parede. Caminhava com despreocupação. dizendo de si para si que a ferida estaria cicatrizada em poucos dias. Laurent tornou-se um autêntico herói. tranqüilamente. com manchas negras. leves crispações nervosas perpassaram-lhe pelo rosto. Quando os colegas leram as descrições na imprensa. Sobre as pedras dos passeios ouvia-se apenas o ruído regular dos seus passos. sofria cruelmente. que lhe devolvia a imagem de um rosto torcido numa careta de dor. Um ar fresco corria pelas ruas desertas e silenciosas. tinham corrido para o ombro. No pescoço branco. depois de um calmo serão. estava refeito dos sofrimentos que lhe tinham causado a hesitação e o receio. Deitou-se e adormeceu profundamente. era precisamente abaixo da orelha direita. Ali contou o acidente em tom comovido. Estava um pouco fraco. o buraco. de onde a pele tinha sido arrancada. A ferida era do tamanho de uma moeda de dois sous. respirava à vontade. Parecia-lhe o lento penetrar de uma dúzia de agulhas na sua carne. como era seu hábito. CAPÍTULO XIII Laurent acordou fresco e bem disposto. agora que estava consumado sentia o peito livre. não fora a dor aguda no pescoço e julgaria que se deitara às 10 horas. aguardando a ocasião para tomar posse de Teresa. Era caso consumado de que não mais se falaria. Em seguida vestiu-se e encaminhou-se para a repartição. A mordida de Camilo era um ferro em brasa encostado à sua pele. De pescoço estendido. quando o pensamento se detinha na dor que lhe causava o ferimento. Fios de sangue. A idéia do assassínio tinha-o por vezes abafado. Finalmente tinha-se livrado do seu crime. Satisfeito com o exame.

Mas todos os afogados eram gordos. alguns corpos conservavam as carnes virgens na rigidez da morte. Aqui.estrada de ferro de Orleans não tiveram outro tema de conversa: estavam orgulhosos por um deles se ter afogado. Laurent hesitava. via ventres enormes. quando era fácil ver a cor da água ao atravessar-se uma ponte. A princípio. um odor neutro. Ao fundo. brancas e vermelhas. Laurent passou a dirigir-se todas as manhãs à Morgue. procurando reconhecer Camilo entre eles. atrozmente desfigurado. Assim que entrava. mas o assassino queria ter recuperado o cadáver para permitir a formalização do ato. Apesar da repugnância que lhe assaltava o coração. colava o rosto sem cor aos vidros e olhava. Interessavam-lhe apenas os afogados. examinava os corpos. apesar dos estremecimentos que por vezes o sacudiam. os corpos nus punham manchas verdes e amarelas. Pouco a pouco distinguia os cadáveres e aproximava-se então. quando havia vários cadáveres enrodilhados e azulados pela água. Ia direto à parede envidraçada que separava os espectadores dos cadáveres. Não raro. Aos seus ouvidos chegava o ruído de água corrente. braços redondos e fortes. A carne estava mole e . pernas inchadas. Observava há minutos um afogado. ficava arrepiado diante daqueles farrapos esverdeados que pareciam escarnecer em horríveis esgares. os ossos furando a pele amolecida. Tinham sido inúteis as buscas levadas a cabo no dia seguinte ao do acidente. os rostos apresentavam-se sem pedaços de pele. Uma manhã. caminhou para a Morgue durante mais de oito dias. de pequena estatura.e ali. sentia uma inquietação latente. no caminho para a repartição. contudo. pendiam da parede calças e saias. buscando a magreza da sua vítima. Alguns homens agitavam ativamente o rio. outros pareciam montes de carne sangrenta e podre. de carne lavada. na ambição do prêmio. Tinha jurado tratar ele próprio dos seus assuntos. Grivet não cessava de falar na imprudência que era aventurar-se em pleno Sena. farrapos lamentáveis que davam uma nota caricata à nudez do estuque. A morte de Camilo não pudera ser verificada oficialmente. À sua frente alinhavam-se as filas de lajes cinzentas. Laurent só via o conjunto opaco do mármore e das paredes. a umidade das paredes parecia ensopar-lhe as roupas. causava-lhe repugnância e sentia arrepios pelo corpo. um acontecimento deixou-o verdadeiramente apavorado. reduzindo-os a papas. examinando os rostos de todos os afogados estendidos nas lajes. manchado de vermelho e de negro pelas roupas e pelos corpos. estaria sem dúvida preso nalguma cavidade. Indeciso. sob as margens das ilhotas. para encontrar o cadáver. O marido de Teresa estava morto e bem morto. olhava-os avidamente. que se tornavam mais pesadas. Laurent.

entra quem quer. declarando que a Morgue nesse dia saiu-se bem. público heterogêneo que se compadecia e escarnecia em comum. Quando não havia mortos por afogamento na última fila de lajes. Laurent olhou-a longamente. que parecia dormir sobre a laje. enquanto ali se encontrava. Entravam operários. dir-se-ia uma cortesã se não apresentasse no pescoço um sulco violáceo que parecia um colar de sombra. achavam a morte divertida. ouvia à sua volta o vaivém das pessoas que entravam e saíam. fresco e bem provido de carne. e os seios avançavam de maneira provocante. com um pão e as ferramentas debaixo do braço. sobretudo se havia mulheres expondo a nudez do colo. Laurent conheceu depressa o público que ali acorria. acabara de se enforcar. Se as lajes estão vazias. a repulsa e o terror apossavam-se dele enquanto permanecia no ambiente da Morgue. com um prazer estranho em olhar de frente a morte violenta nas suas atitudes lugubremente bizarras e grotescas. mostrando os dentes brancos: a cabeça do afogado rebentou em riso. chamavam carvoeiros . forte. o corpo. De cada vez que julgava reconhecer Camilo. a sua carne revoltava-se. os visitantes comprimem-se. quando há uma boa exposição de carne humana. esburacados por vezes. este desfez-se. a boca esboçava ainda um sorriso na cabeça um pouco inclinada. saem desapontados. Viu uma vez uma jovem do povo aparentando uns 20 anos. manchados de sangue. dando-se emoções baratas. passeando os olhos ao longo do corpo. bruscamente. O espetáculo divertia-o. Quando estão bem providas. A porta está aberta. Amadores há que fazem um desvio para não perder uma destas representações da morte. a repugnância não se fazia sentir. queria ser forte. murmurando entre dentes. alvejava. aplaudem ou assobiam como no teatro e retiram-se satisfeitos. As visitas à Morgue povoaram-lhe as noites de pesadelos e de frêmitos que o faziam arquejar. absorvido numa espécie de desejo tímido. os lábios desapareceram. que pobres ou ricos oferecem gratuitamente a si próprios. Desejava ardentemente encontrar o corpo da sua vítima. Transformava-se então num simples curioso. respirava aliviado. Todas as manhãs. deleitam-se. mas sentia a fraqueza invadilo quando imaginava vê-lo diante de si. dizia de si para si que não era criança. a caminho do trabalho. assustam-se. atraía-o e retinha a sua atenção. num desespero de amor. não obstante. Entre eles encontravam-se os que faziam sorrir a galeria a cada frase sobre o ricto de cada cadáver. Tentava sacudir os terrores. A nudez brutal daqueles corpos estendidos. A Morgue é espetáculo ao alcance de todas as bolsas. Laurent sentia uma queimadura no coração. O jato que caía sobre o rosto abria um buraco ao lado do nariz e.decomposta a tal ponto que a água com que era lavada a arrastava pedaço a pedaço. com tons suaves de grande delicadeza. A jovem.

que iam de um extremo ao outro da divisória. havia também mulheres do povo. um véu cobria-lhe o rosto e através das luvas adivinhavam-se as mãos pequenas e finas. Camilo olhava-o. saias brancas. parecendo querer virá-lo com o olhar. com expressões lamentosas. e a carne branca e espessa. limpas. Ao cabo de uma semana. Este sofrimento. gravando no fundo da . O assassino aproximou-se lentamente da divisória. os cadáveres estripados ou esmagados. excitavam-lhes a imaginação zombeteira e com voz que lhes tremia ligeiramente balbuciavam frases cômicas no silêncio arrepiante da sala. os assassinados. Apoiavam as mãos nos vidros e passeavam atrevidamente os olhos pelos colos nus. recebeu um violento golpe no peito: à sua frente. Ergueu uma ponta do véu. Rodeava-a um aroma suave de violeta. os enforcados. arrastando negligentemente o vestido de seda. Chegavam depois pequenos proprietários. velhos magros e secos. Acotovelavam-se e lançavam ditos jocosos: aprendiam o vício na escola da morte. estendido a alguns passos sobre a laje. rudes. abrindo muito os olhos atentos como se estivessem diante da vitrina de uma loja de novidades. malgrado seu. Laurent estava enojado. Não sofria. Usava uma deliciosa saia de seda cinzenta. a morte transformara-o em mármore. e damas bem postas. a repugnância diária que impunha a si próprio acabou por perturbá-lo a tal ponto que resolveu fazer apenas mais duas visitas. As mulheres eram em grande número. Permaneceu imóvel durante cinco longos minutos. ociosos que entravam ali por não terem nada que fazer e que olhavam para os corpos estupidamente e com modos de pessoas pacíficas e delicadas. apenas experimentava um enorme frio interior e leves picadas à flor da pele. de músculos fortes e curtos. havia jovens operárias de cores rosadas. Julgara que tremeria mais. lançou um último olhar ao corpo e saiu. É na Morgue que os jovens vadios têm a primeira amante. os afogados. numa laje. toda absorvida no espetáculo daquele homem. Um dia. absorto numa contemplação inconsciente. A dama examinava-o. o peito era quadrado. a cabeça levantada e os olhos entreabertos. estendido de costas. pesava-o. No dia seguinte. ao entrar. Sonhava à noite com os cadáveres que via pela manhã. com um grande mantelete de renda negra. como que atraído e sem conseguir afastar os olhos da sua vítima.aos que tinham morrido queimados. lentamente. Olhava para o cadáver de um rapaz. rapazes de 12 a 15 anos que corriam ao longo da divisória só se detendo diante dos cadáveres de mulheres. Laurent viu uma destas senhoras imóvel a alguns passos da divisória envidraçada. apertando o nariz com um lenço de cambraia. um pedreiro que morrera instantaneamente ao cair de um andaime. Às vezes apareciam bandos de garotos.

e somente a pele adquirira uma tonalidade esverdeada e lamacenta. estava torcida num trejeito. Todo o dorso estava em decomposição. as costelas marcavam faixas negras. que a mãe alimentava com tisanas. estúpido e doente. cobertas de manchas imundas. É ignóbil. todas as comadres e mexeriqueiras . um ar mirrado. Quando Laurent se conseguiu arrancar à curiosidade pungente que o mantinha imóvel e de olhos escancarados. que crescera entre cobertores aquecidos. as pernas alongavam-se." Tinha a sensação de que o seguia um odor acre. a cabeça ficara mais assustadora de dor e de terror. Laurent continuava com os olhos pregados em Camilo. Na passagem. A cabeça magra. Camilo estava ignóbil. o flanco esquerdo apresentava-se aberto e rodeado de farrapos de carne escurecida. encolhia-se na podridão. Na pele esverdeada do peito. O cadáver tinha.memória todos os contornos horríveis. Aquele pobre corpo. o odor que devia exalar aquele corpo em decomposição. as clavículas furavam a pele dos ombros. Mais firmes. Dirigiu-se à casa do velho Michaud e disse-lhe que acabava de reconhecer Camilo na Morgue. Laurent lançou-se com volúpia no esquecimento do crime e das cenas desagradáveis e penosas que se tinham sucedido. O corpo parecia um monte de carne amolecida. todas as cores sujas do quadro que tinha diante dos olhos. por outro lado. Foram cumpridas as formalidades. Estivera 15 dias na água.200 francos. por entre a brancura dos dentes aparecia uma ponta da língua escurecida. Doravante tranqüilo. A vitrina. enterrou-se o afogado e foi passada a certidão de óbito. tiritava sobre a laje fria. Quando reabriu. os lábios torcidos e pendendo para um dos cantos da boca tinham um ricto atroz. amarelecida pela poeira. o rosto de Teresa estava mais pálido. O rosto parecia ainda firme e rígido. Por detrás das toucas suspensas nas varas enferrujadas. A loja da passagem da Ponte Nova ficou fechada durante três dias. sofrera horrivelmente. Os pés tombavam. Como que curtida e esticada. não cessando de repetir: "Ali está o que fiz. saiu e caminhou rapidamente ao longo do cais. parecia ostentar o luto da casa. Os braços estavam deslocados. de uma imobilidade e de uma calma sinistras.magro e franzino. as pálpebras levantadas mostrando o globo turvo. parecia mais sombria e mais úmida. tudo estava ao abandono nas vitrinas sujas. ossuda e ligeiramente tumefacta. Não tinha ainda visto um afogado com aspecto tão pavoroso. com os cabelos colados às têmporas. Era fácil adivinhar que estava ali um funcionário de 1. fazia apenas um pequeno monte. conservando os traços. de cor mais terrosa. conservando aparência humana.

Teresa afastou as cobertas e sentou-se na cama num reflexo rápido. Durante três dias. que escondia os olhos secos numa prega da roupa. olhava vagamente à sua frente com olhos de idiota. gritava e delirava. com uma espécie de febril decisão. ficou surpreendida por vê-la levantada. atravessou rapidamente a sala de jantar e entrou no quarto da senhora Raquin. Quedava-se horas inteiras inerte. Depois saltou para o tapete. Quando terminou olhou-se a um espelho. nem consolar a senhora Raquin. Em seguida. Quando Teresa entrou. A morte do filho fora um golpe demasiado rude que a atingira profundamente. a continuar a repousar. Tinha os membros avermelhados e com arrepios de febre. passou as mãos pelo rosto como para apagar qualquer coisa. No quarto contíguo. Teresa manteve-se naquela posição. Suzana. A velha capelista. inclinando o rosto de cera sobre os dois leitos. vestia-se com gestos apressados e trêmulos. muda e oprimida. que se colocou à sua frente. Dir-se-ia que escondia na sombra da alcova os pensamentos que a conservavam rígida. As duas mulheres contemplaram-se durante alguns segundos. aconselhou-a a deitar-se de novo. e conservou por momentos as mãos na testa. a sobrinha com ansiedade crescente e a tia fazendo penosos esforços de memória. sem conseguir fazer mudar a posição de Teresa. Teresa não a escutava. esfregou os olhos. absorta no vazio do seu desespero. depois acometiam-na crises durante as quais chorava. sem pressa. Permanecia assim. de olhos fixos. meu pobre Camilo! Rompeu em choro e as lágrimas secavam na pele ardente da viúva. sem fazer um movimento. como curiosidade interessante e lamentável. que tratava das duas. parecendo ainda refletir. Decorridos três dias. placas lívidas marcavam-lhe a pele que em alguns pontos se enrugava como por falta de carne. voltara o rosto para a parede e puxara as cobertas até aos olhos.manifestaram compaixão. a senhora Raquin e Teresa ficaram de cama sem se falarem e sem mesmo se verem. Tinha envelhecido. deixando a velha mãe . Coordenando finalmente as idéias. voltou a cabeça e seguiu com os olhos a jovem viúva. a senhora Raquin estendeu os braços trêmulos e rodeando o pescoço de Teresa. repartia-se entre uma e outra. em tom calmo e suave. A vendedora de bijuterias mostrava a cada cliente o perfil emaciado da jovem viúva. gritou: — Meu pobre filho. que tinha bruscos movimentos de impaciência. sentada e recostada nas almofadas. movendo-se suavemente. cujas lágrimas corriam quando uma voz a arrancava do seu abatimento. A velha capelista estava numa fase de calmo embrutecimento. Suzana. Teresa parecia dormir. que entrava nesse instante. sem pronunciar uma palavra. hirta e muda. Afastou os cabelos.

chamava-a então para junto de si e abraçava-a entre soluços. dizendo sufocadamente que não tinha mais ninguém no mundo. Quando viu a senhora Raquin mais calma. pregada numa serena dor. Agradeceu à Suzana os seus cuidados. e sentou-se atrás do balcão. Teresa sonhava e esperava. Atrás deles chegaram Olivier e Suzana. Desceu pesadamente a escada de madeira. A velha capelista quase voltara à infância. A seu lado. A velha capelista considerava-o o salvador da sobrinha. restituindo-lhe a memória e a consciência das coisas e dos seres que a rodeavam. chegaram o velho Michaud e Grivet. e tinham chegado ao mesmo tempo. A partir desse dia ficou ali. conversou. um coração nobre que tudo fizera para lhe trazer o filho. O funcionário e o antigo comissário tinham cada um por seu lado concluído que podiam retomar os hábitos que lhes eram caros sem se mostrarem importunes. que não esperava ninguém. a descer à loja. A loja retomou a soturna calma. cujas paredes lhe pareceram vacilar à sua volta. Receara aquele primeiro encontro depois do crime. Ficava na loja. de dois em dois ou três em três dias. cada um diante da sua . como que impelidos pela mesma mola. apressou-se a acender o candeeiro e a fazer chá.dar livre curso ao pranto. à noite. CAPÍTULO XV Laurent aparecia à noite. A inesperada aparição da sobrinha causara-lhe um choque benéfico. Foi ela no entanto que insistiu para que se abrisse a loja a partir do dia seguinte. Receava enlouquecer no quarto. Quando todos estavam à mesa. pousando ambos os pés em cada degrau. Subiram à sala de jantar. retardara-o mantendo-se na cama. Olhava Teresa mover-se e rompia em lágrimas. Teresa pôde ver em toda a extensão o golpe que atingira a tia. embora enfraquecidamente e cheia da tristeza que por momentos a abafava. agitou-se à sua volta incitando-a a levantarse. A senhora Raquin. a fim de melhor refletir sobre o papel terrível que tinha de desempenhar. À noite acedeu a levantar-se e tentar comer. sem ter olhado Teresa de frente. Eram oito horas. Era com enternecida bondade que o recebia. conversando com a senhora Raquin durante uma meia hora. As pernas da pobre velha tinham-se tornado pesadas e foi amparada a uma bengala que se arrastou até à sala de jantar. em que Laurent se encontrava na loja. Partia. Numa quinta-feira.

Secou os olhos. . sabendo que teria necessidade daquelas reuniões para atingir os seus fins. Todos os rostos tinham um ar de beatitude egoísta e de repente sentiram-se incomodados. . num esforço supremo. — As lamentações não lhe restituirão o seu filho — sentenciou Olivier. pálida e recolhida. Laurent estava encantado pelo regresso aos serões das quintas-feiras. sentia-se mais à vontade entre aquelas pessoas que conhecia. olhou para os visitantes e rompeu em soluços. Teve talvez consciência do feliz egoísmo dos que ali se encontravam. — Vamos. As pedras do dominó tremiam-lhe nas pobres mãos e as lágrimas que tinham ficado suspensas nas pálpebras não a deixavam ver. o lugar do filho. Estava vazio um lugar. Pode ficar doente. hem? Que dizem? A capelista susteve o pranto. — Peço-lhe — murmurou Suzana — não nos faça sofrer. vestida de negro. a pobre mãe. e ousava olhar Teresa de frente. . Jogaram. sem conseguir deter as lágrimas: — Vamos. Teresa continuava a pertencer-lhe. Depois. Compreenda que viemos aqui para a distrair. A cena de desespero gelou e perturbou os circunstantes. vamos — insistiu Michaud — um pouco de coragem. procuremos esquecer. Desejava-os ardentemente. E como a senhora Raquin soluçasse mais intensamente. trêmula ainda. surgiu a seus olhos com uma beleza para ele até ali desconhecida. Laurent e Teresa tinham assistido à curta cena com expressão grave e impassível. nos seus corações não existia a mínima recordação de Camilo. Que diabo! Não vamos entristecer-nos.chávena e espalhadas as pedras do dominó. Sentiu-se feliz por reencontrar os seus olhares e por vê-los deterem-se nos seus com corajosa fixidez. — Somos todos mortais — afirmou Grivet. subitamente volvida ao passado. de carne e coração. Vamos jogar a dois sous a partida. cara senhora — exclamou o velho Michaud com ligeira impaciência — é preciso que não se desespere assim. A jovem. sem saber porque.

CAPÍTULO XVI Passaram-se 15 meses. conversando calmamente. tinham conseguido. ficavam ali. Os espinhos das primeiras horas suavizaram-se. A casa era deles. matando Camilo. já não era um obstáculo. entrevada. estava mais sorridente e mais doce. Desaparecera-lhe a palidez. cada dia trazia um pouco mais de tranqüilidade e de conformação. Eram raras as expressões em que a sua boca. nessa intimidade nada encontravam para dizer um ao outro. Tinha pequenas atenções que cativavam a velha capelista. Não comia. E no entanto teriam tido mil facilidades para realizar a vida livre de amor cujo desejo os levara ao assassínio. O crime parecia-lhes uma alegria dolorosa que os levara a sentir tédio e repulsa pelos abraços amorosos. Levavam a frieza da atitude à conta da prudência. olhando-se sem rubor e sem estremecimentos. no dia seguinte pedia humildemente desculpa. parecia ter recuperado a saúde. Evitavam mesmo estar a sós. Mas o amor já não os tentava. receando ambos revelar mutuamente a frieza interior. com o monótono embrutecimento que se sucede às grandes crises. . Tranqüilamente. apertando-se numa contração nervosa. explicar a si próprios a razão da indiferença e do sobressalto entre eles. parecendo ter esquecido os loucos abraços que lhes magoaram a carne e fizeram estalar os ossos. reduzida a um estado de idiota. Chegava às nove e meia e despedia-se depois de ter fechado o armazém. cavava duas rugas profundas que lhe davam um estranho ar de dor e de terror. Quando as suas mãos se tocavam experimentavam uma espécie de mal-estar com o contato. no entanto. Dir-se-ia que cumpria um dever ao colocar-se ao serviço das duas mulheres. porém. nem tampouco ficava os serões inteiros. A senhora Raquin. O crime tinha como que apaziguado momentaneamente a ardência voluptuosa da carne. contentar os desejos impetuosos e insaciáveis que não tinham satisfeito nos braços um do outro. A princípio. Laurent e Teresa abandonaram-se à existência nova que os transformava. Laurent não tardou a aparecer todas as noites na loja. Na quinta-feira ajudava a senhora Raquin a acender o fogo e a fazer as honras da casa. Teresa olhava-o agitar-se à sua volta. A calma e a abstinência eram. Os dois amantes não procuravam ver-se a sós. desenrolava-se neles um trabalho surdo que seria necessário analisar com extrema delicadeza se se quisesse assinalar-lhe todas as fases. Julgavam. os apetites tinham-se desvanecido. a vida retomava o seu curso com frouxidão. Se acaso um dia não cumpria a tarefa. podiam sair para onde quisessem. Não tinham voltado a combinar um encontro e tampouco tinham trocado furtivamente um beijo. como no passado.

imersa em pensamentos de ódio e de vingança. de teto alto. Esteve apaixonada durante uma semana. À noite. não mais vivendo surdamente revoltada. quando aí chegassem. de olhos bem abertos. o resultado da aplicação do maior bom senso. tranqüila no meio do silêncio e da sombra. o ruído e o movimento de vaivém divertia-a. Esta esperança acalmava-os. apertando a combinação contra o corpo e dizendo a si própria que se tivesse m homem deitado a seu lado não seria presa de semelhantes terrores súbitos. que lhe exasperava a carne e a mergulhava em desejos insatisfeitos. De manhã à noite observava as pessoas que atravessavam a passagem.segundo eles. durante um verão inteiro. consideravam vestígios do medo. Durante o dia. tinha necessidade de agir e de ver. Persuadiam-se de que se amavam como antigamente. que vivia numa hospedaria mobiliada ali perto e que passava muitas vezes diante da loja. todas as noites. sentia-se feliz. agradava-lhe. Todas as vontades implacáveis do seu ser afrouxavam de pressão. mulher. já que. compridos cabelos de poeta e um bigode de oficial. veio a reparar num jovem. o adormecimento do coração. saía de si própria. Pensava no amante como num cão que a guardasse e protegesse. trêmula. nada mais tendo a recear. pela sua pele fresca e alma não perpassava um só frêmito de desejo. A fantasia impacientava-a. Na espécie de espionagem que criou. Tornava-se curiosa e tagarela. estudante. interessava-se pelo que se passava à sua volta. desfrutariam as delícias sonhadas. ficou horas a olhar para as pedras cinzentas e para as estreitas faixas de céu estrelado que as chaminés e os telhados deixavam ver. com espanto. um peso surdo do castigo. Agarravam-se então à idéia do casamento próximo. que a sua imaginação estava vazia. na loja. Teresa achou-o distinto. Pretendiam ser conseqüência da vontade a tranqüilidade da carne. apaixonada como uma . aguardavam a hora que os tornaria completamente felizes unindo-os para sempre. virgem. até ali. vasto e algo frio. Estava sem dúvida melhor. Não pensava em Laurent senão quando um pesadelo a acordava sobressaltada. detendo-lhes ainda a queda no vazio que entre eles se cavara. sentava-se. Teresa jamais tivera o espírito tão tranqüilo. entregues um ao outro. procuravam reatar os sonhos ardentes do passado e davam-se conta. não mais sentia a seu lado o rosto macilento e o corpo definhado de Camilo. numa palavra. Por outro lado. os cantos obscuros e um odor a claustro. Já gostava até do grande muro negro diante da janela. O rapaz tinha uma beleza pálida. Julgava-se de novo criança. a repugnância e o mal-estar que sentiam. sozinha no leito. O quarto. debaixo de brancas cortinas. apenas tivera atos e idéias de homem. Por vezes impunham a esperança a si próprios. voltariam a encontrar a paixão.

. cheios de pavor e de desconfiança. o equilíbrio. — Sem dúvida que estava bêbado — pensava — esta mulher embriagou-me com carícias. não o faria. abatido sob o próprio peso.colegial. Sentia então no pescoço o frio da lâmina. Se alguém estudasse aquele grande corpo. quanto mais procurava um meio para desposar o amante nesse mesmo instante. que tendia a estabelecer-se. Engordou e ficou mais flácido. Laurent cedeu. tudo correu bem. julgando ter tido um pesadelo. Interrogavase por vezes com espanto. Olhava agora para trás e ao ver o abismo que acabava de transpor assaltavam-no desfalecimentos de pavor. foi rompido. Fez-se assinante de um clube literário e apaixonou-se pelos heróis de todos os contos que lhe passavam debaixo dos olhos. Adquiriu uma sensibilidade nervosa que a fazia rir ou chorar sem aparente motivo. caminhara em linha reta. Este súbito interesse pela leitura exerceu grande influência sobre o seu temperamento. Enfim. Ficou o animal indomável que queria lutar com o Sena e que se lançara violentamente no adultério. mais buscava salvar-se. Leu romances. Caiu numa espécie de sonho vago. Ao falarem-lhe de castidade e de honra. mas teve por outro lado consciência da bondade e da doçura. amara até ali com o sangue e os nervos apenas e começou a amar com a cabeça. compreendeu o rosto mole e a atitude frouxa da mulher de Olivier. toda a sua prudência e covardia o faziam estremecer e sentia suores frios na testa à idéia de que o crime poderia ter sido descoberto e por ele ter morrido na guilhotina. tinhase mudado sem dúvida. se efetivamente lançara Camilo à água e vira o seu cadáver estendido numa laje da Morgue. teve a percepção que podia não ter morto marido e ser feliz. ficou sem energia. Um dia. estava como que aliviado de um peso enorme. Por momentos o pensamento de Camilo sacudia-a e lembrava-se de Laurent com renovados desejos. Então não se entendeu a si própria. jamais se teria julgado capaz de praticar um assassínio. A recordação do crime surpreendiao estranhamente. não voltar a vê-lo. Meu Deus! Como fui estúpido e louco. A princípio saboreava profunda tranqüilidade.. o estudante desapareceu. . Se tivesse de voltar ao princípio. Voltou assim às suas angústias. mais covarde e mais prudente que nunca. entrou numa existência de indecisão cruel. os romances ergueram-lhe como que um obstáculo entre os instintos e a vontade. Laurent passou por diferentes fases febris e de acalmia. A leitura abriu-lhe românticos horizontes que desconhecia. Teresa esqueceu-o em poucas horas. Por seu lado. comparou o jovem a Laurent e concluiu que este era bem mais gordo e pesado. com embrutecida obstinação e cegueira. Enquanto agira. Arriscava-me à guilhotina com uma coisa destas.

Voltou aos hábitos antigos. Abandonaria a repartição. Esta mulher constituiu mais um equilíbrio na sua vida. Estas perspectivas levavam-no todas as noites à loja da passagem. A mulher ria de vez em quando. jamais soube se a amava e jamais lhe passou pela cabeça que traía Teresa. Laurent. malgrado o vago mal-estar que experimentava quando entrava. Durante alguns meses foi de novo um empregado modelo. estendida sobre um pedaço de tecido. sentado diante dela. Continuava porém a não se sentir à vontade diante dela. prolongando a refeição o mais possível. Era tudo. Aguardava a hora do casamento pacientemente. A indecisão em que a via assustava-o. Durante o dia. O sangue começou a fluir-lhe com mais rapidez e os nervos sensibilizaram-se com a contemplação. a cabeça dobrada para trás. foi à casa do antigo companheiro do colégio. A sua carne parecia morta e não pensava muito em Teresa. comia e vestia-se. fumava o seu cachimbo. aceitou-a como um objeto útil e necessário para manter a saúde e a paz do seu corpo. mastigando lentamente. à noite adormecia com um sono pesado e sem sonhos. Durante quase um ano teve-a por amante. o jovem pintor com o qual vivera durante bastante tempo. era feliz. a barriga cheia e o cérebro vazio. num futuro indeterminado. sem saber o que fazer. O luto de Teresa acabou entretanto. Ao fundo do ateliê estava estendido o modelo. O artista trabalhava num quadro que contava enviar ao Salão e que representava uma bacante nua. De rosto rosado e gordo. achando-o um belo homem. A jovem voltou a vestir roupas claras e um dia Laurent encontrou-a remoçada e mais bonita. observava-a. em seguida. o tronco torcido e as ancas erguidas. pintaria por distração e passearia. Ficou até à noite e levou a mulher para as suas águas-furtadas. . A pobre moça começara a amá-lo. De manhã partia para posar durante todo o dia e regressava regularmente à mesma hora todas as noites. Jantava num pequeno restaurante na Rua de Saint Victor. jamais sonharia em acusá-lo de violência e de crueldade. aborrecido. parecia-lhe agora febril. cortando o pão em pequenos pedaços. que não se preocupava absolutamente nada em saber donde ela vinha ou que poderia ter feito. Lembrava-se dela como se pensa numa mulher com quem se há de casar. encostado à parede. esquecendo a mulher para ter presente apenas a nova situação que iria ter. num espreguiçar de músculos para descansar. porque em parte adivinhava as suas lutas e perturbações. fazendo o seu trabalho com exemplar monotonia. cheia de caprichos. mantinha-se enfim. Sentia-se mais gordo e mais feliz. entristecendo-se sem motivo. não pensava em nada. estendendo o peito e alongando os braços. Um domingo. com o dinheiro que ganhava. fumando ao mesmo tempo que conversava com o amigo.que parecia não ter nem ossos nem nervos. não custando um sou a Laurent. Dir-se-ia um bom chefe de família.

ele vivia em paz. enlanguecia e abandonava-se sob os olhares de Laurent. Um domingo a jovem não apareceu. Depois. pareceu-lhe ridículo e fê-lo sorrir. . Tinham assim voltado ambos à angústia e ao desejo. talvez ela fosse revelar tudo à justiça.Começou a ser invadido pela hesitação. Camilo morrera há quase 15 meses. que lhe pertencia. A jovem por sua vez. creio eu — volveu Laurent — estou cansado. serei tua. se não a desposasse. à noite. depois. ao recordar o crime. O primeiro choque que teve e que lhe sacudiu o entorpecimento foi o pensamento de que devia finalmente encarar o casamento. Lançar um homem à água para lhe roubar a viúva. A febre voltou a apossar-se dele. enlouquecida. disse de si para si que não podia ter matado um homem para nada. Aliás. Laurent pouco se preocupou. quero-te. Tinha medo da cúmplice. com um medo atroz de comprometer a tranqüilidade. depois de um longo ano de tédio e de indiferença. Por momentos assaltou-o o desejo de não se casar. estava simplesmente habituado a ver. esperar 15 meses e decidir-se por fim a viver com uma jovem que arrastava o corpo por todos os estúdios. não raciocinava estas conclusões. — Não. sentia por instinto as angústias que a posse de Teresa lhe causaria. — Já espero há muito tempo. por vingança e por ciúme. Voltou a instalar-se. Teresa olhou-o. em sábia satisfação dos seus apetites e receava arriscar o equilíbrio unindo-se a uma mulher nervosa. de deixar Teresa e manter o modelo cujo amor complacente e pouco dispendioso o satisfazia. sentia ardores queimarem-lhe as mãos e o rosto. uma mulher deitada a seu lado e deu-se conta de um vazio súbito na sua existência. Uma noite. Não estava aliás unido à Teresa por um laço de sangue e de horror? Sentia-a vagamente gritar e contorcer-se dentro de si. Estas idéias martelavam-lhe a cabeça. encontrara sem dúvida um pouso mais quente e mais confortável. Pareceu hesitar. Oito dias depois os seus nervos revoltaram-se. durante serões inteiros. os esforços terríveis feitos para possuir exclusivamente aquela mulher que agora o perturbava. a quem as longas leituras a que se entregava deixavam fremente. sentiu que o assassínio seria inútil se não a desposasse. não. esperemos. — Queres que venha esta noite ao teu quarto? — perguntou-lhe com voz ardente. olhando de novo para Teresa com olhares repassados de clarões rápidos. ao fechar a loja. Neste entretempo a modelo abandonou-o subitamente. na loja da passagem. cuja paixão já o tinha enlouquecido. Laurent reteve um instante Teresa na passagem. A jovem fez um gesto de pavor. Sejamos prudentes. em tom brusco: — Casemo-nos.

Imobilizou-se. Pensava em Teresa e irritava-se contra ela. O hálito quente e o consentimento de Teresa reacendiam-lhe os apetites de outros tempos. A taberna fechou e ele ficou à porta. Aliviado. enchiam-no de um vago mal-estar. à porta da pensão. à sua passagem. Encaminhou-se para o cais. imóvel e mudo sentado a uma mesa. Laurent tinha um longo caminho a percorrer antes de acender a sua vela. Os fósforos partiam-se-lhe entre os dedos. imprevisível. Jamais se sentira dominado por semelhante pusilanimidade. sem forças para fugir e riscou alguns fósforos na parede úmida. comprimiu-se contra a parede oposta: aquela massa de sombra ainda o aterrorizava. O fósforo extinguiu-se.CAPITULO XVII Laurent saiu da loja com o espírito tenso e a carne em sobressalto. Laurent avançou com precaução. O fósforo crepitou. As sombras vacilantes que se criam quando alguém está numa escada com uma luz. teve medo de subir. até que conseguiu acender um. Ao passar diante da entrada para a adega. que não o quisera receber nessa noite no seu quarto e que. para receber no rosto e na cabeça todo o ar que pudesse. poderiam estar assassinos que lhe saltariam à garganta. Nem sequer tentou definir o estranho frêmito que o sacudia. . a pequena mancha de luz tornou-se mais clara. de encontrar um homem escondido nas águas-furtadas. bebendo maquinalmente grandes copos de vinho. Os restantes degraus foram transpostos com mais calma. na luz pálida e azulada. no clarão breve da chama. Habitualmente atravessava as trevas com indiferença. O escritório da pensão ficava no primeiro andar. Galgou depois vivamente os degraus que do escritório da pensão e considerou-se salvo ao pegar na vela. Voltou a entrar para pedir fósforos. As escadas às escuras apavoravam-no. O enxofre começou a borbulhar. a inflamar a madeira com uma lentidão que redobrou a angústia de Laurent. de ficar só. mas nessa noite não ousava tocar a campainha dizendo de si para si que na reentrância formada pela entrada para a adega. não teria sentido medo. Tinha a sensação de ouvir vozes e passos à sua frente. julgou distinguir formas monstruosas. até à meia-noite. com mão trêmula pela ansiedade. com a vela elevada acima da cabeça e a luz varrendo todos os cantos diante dos quais tinha de passar. entrou numa taberna e ficou ali durante uma hora. ofegante. acendeu um fósforo e avançou pelo corredor. inexplicável. apossou-se dele. ora aproximando-se ora afastando-se dele. se tal tivesse acontecido. Ao chegar à Rua de Saint-Victor. tomando o cuidado de não lhe faltar a luz. de chapéu na mão. Decidiu-se finalmente a tocar. O pavor infantil.

os argumentos que os seus desejos e a sua prudência alternadamente lhe forneciam a favor ou contra a posse de Teresa. Fechou a clarabóia. ofegante. pensando que bem poderia alguém penetrar por ali. não conseguia impedir o curso dos pensamentos. experimentava as alegrias penetrantes de outrora. ao mesmo tempo que se admirava dos seus terrores. vamos dormir. Nunca fora medroso e não encontrava explicação para aquela crise súbita de terror. na escada estreita por onde passara tantas vezes. Pensou levantar-se. que a insônia dominava a carne e o pensamento.Quando chegou ao alto. As recordações tornaram-se realidades que excitaram todos os seus sentidos: sentia o cheiro enjoativo do corredor. o trabalho surdo do raciocínio recomeçava. recordava-se dos deliciosos terrores. . e chamar criança a si próprio. a porta abria-se e Teresa que o esperava surgia. A fantasia tinha uma lucidez extraordinária. ele avançava pela estreita galeria. uma após outra. Acabou por sorrir. em saiote. Via-se nas ruas. Faria com que lhe abrissem a grade. Finalmente raspava na porta. A primeira preocupação foi a de olhar para debaixo da cama e passar minuciosa revista ao quarto. felicitando-se por poder chegar até junto de Teresa sem ser visto pela vendedora de bijuterias. toda branca. dizia de si para si: "Chega de pensar. No aconchego dos cobertores o seu pensamento foi de novo para Teresa. iria bater à pequena porta da escada e Teresa recebê-lo-ia. atravesso este cruzamento para chegar mais depressa. com os olhos obstinadamente fechados. abandonando a mente às recordações da jovem. que o medo tinha por momentos feito esquecer. Vendo que não conseguia dormir. O equilíbrio estava rompido. o calor da febre do passado sacudia-o de novo. Subia degrau a degrau. imaginava-se em seguida no corredor. abriu a porta e fechou-a rapidamente atrás de si. para se certificar de que não havia ninguém escondido. caminhando depressa ao longo das casas e dizia para si mesmo: "vou por este bulevar. de repente estava mergulhado numa espécie de fantasia que no fundo do cérebro lhe desenrolava as necessidades do casamento. de ouvido atento. tocava nas paredes viscosas. contentando já os desejos neste aproximar receoso da mulher desejada. das picantes volúpias do adultério. Tomadas estas disposições sentiu-se mais calmo e começou a despirse. Deitou-se. Voltandose de vez em quando. tenho de levantarme amanhã às oito horas para ir para o escritório. Ali. procurando o sono. voltar à passagem da Ponte Nova. que se encadeavam e lhe apresentavam sempre as vantagens que teria em casar-se o mais depressa possível." Redobrava de esforços para conciliar o sono. mas as idéias continuavam a surgir. sombria e deserta." Depois a cancela da passagem rangia. via a sombra suja que arrastava. Sentiu o sangue afluir-lhe ao pescoço ao chegar a este ponto do seu pensamento. ficou de costas e de olhos abertos.

um pouco mais fresco. Até ali o afogado não tinha perturbado as noites de Laurent. com olhos fixos na sombra. teve a impressão que lhe devorava a carne. embaixo. acendeu a vela e chamou imbecil a si próprio. Devia adormecer ao meter-me na cama e não pensar num monte de coisas: foi isso que me causou insônia. O cansaço começava a descontrair-lhe os nervos.Os pensamentos desenrolavam-se à sua frente em espetáculos reais. os pés nus. "Fiz mal em beber na taberna". no fim da caminhada pelas ruas. suavemente então. julgou distinguir Teresa. Os pensamentos ligavam-se agora a Camilo com aterradora fixidez. cravou os dedos no colchão. esmagador. imaginou que Camilo se escondera sob a cama e a sacudira para fazê-lo cair e mordê-lo em seguida. O sangue afluiu-lhe ao pescoço com violência. que lhe parecia sentir estremecer cada vez com mais violência." O brusco movimento arrancou-o da alucinação: sentiu o frio do chão e teve medo. Retirou vivamente a mão mas continuava a senti-la. via. "Não sei o que tenho esta noite. Para acalmar a febre interior. ardente e pálida.. O assassino não ousava abrir os olhos. permaneceu naquela posição. um terror invencível. engoliu um grande copo de água. Tenso e irritado. com os cabelos em pé. E eis que pensar em Teresa arrastava o espectro do marido. pensou. firmemente decidido a não pensar em mais nada. receava descobrir a vítima num canto do quarto. com cautelas plenas de ansiosa presa voltou a enfiar-se na cama e enrolou-se. com o pescoço em fogo e os dentes a tremer de medo. Parecia-lhe ouvir ruído no mosaico. da entrada na passagem e da subida da escada estreita. saltou vivamente da cama. Quis cocar delicadamente. Para não arrancar a pele fechou ambas as mãos entre os joelhos encolhidos. Fora de si. com uma sensação de queimadura. com a ponta da unha. como para se esquivar a uma arma. É estúpido. que quase esquecera por completo. O terror invadiu-o de novo. murmurando: "Tenho de ir. o ardor terrível redobrou. este pensamento fez-lhe correr um arrepio frio pela espinha. Sentando-se. Reagiu. Olhou desconfiadamente pelo quarto e viu arrastarem-se pedaços esbranquiçados de claridade. Se fosse à casa de Teresa. E quando. Amanhã no escritório estou estafado. ." Soprou de novo a vela. era necessário passar de novo diante da porta da adega. A certa altura pareceu-lhe que a cama estremecera estranhamente. Levantou a mão e sentiu sob os dedos a cicatriz da mordida de Camilo. escondendo-se. à escuta. ela espera-me. a não voltar a sentir medo. a uma faca que o ameaçasse. Por momentos ficou imóvel. apercebendo-se que o leito estava imóvel. furando-lhe a pele. mergulhou a cabeça no travesseiro. Ficou aterrado ao senti-la. Vamos dormir. devoradora..

na languidez da semi-sonolência o abandonou de novo. possuía suficiente energia para afastar o fantasma da vítima. Puxou o cobertor para os olhos. Estava ensopado em suor gelado. subiu a escada estreita e arranhou a porta. esverdeado e atrozmente desfigurado. Os sonhos voltaram. Na sua furiosa obstinação encaminhava-se sempre para Teresa e sempre esbarrava no corpo de Camilo. Camilo tal qual o vira na Morgue. O cadáver estendia-lhe os braços. Durante uma hora Laurent debateu-se nesta sucessão de pesadelos. correndo para ver Teresa e mais uma vez o afogado a abrir-lhe a porta. deslizou lentamente para uma sonolência vaga. Ansiava por um sono de chumbo. fez todo o percurso que fizera antes. Então. mergulhado num embrutecimento doce e voluptuoso. ao sonhar de olhos abertos. encolerizado contra si mesmo. um após outro. e esforçou-se por voltar a adormecer. foi uma sucessão de entorpecimentos voluptuosos e despertares bruscos e dilacerantes. ei-lo no início da idéia fixa. pelo mesmo percurso. com lentidão. a partir porém do momento em que deixava de ser senhor do espírito. defendera-se da vigília. e. o mesmo abatimento. Este mesmo desfecho sinistro que de cada vez o fazia acordar sobressaltado. os pensamentos voltaram suavemente. a carne em brasa. Afastara os pensamentos. Enquanto acordado. pesado e profundo. e 10 vezes viu o afogado oferecer-se ao seu abraço no momento em que estendia os braços para cingir a amante.Não dormiu o sono habitual. não lhe abrandava o desejo. Laurent soltou um grito e acordou em sobressalto. entrou na passagem da Ponte Nova. . com minuciosa exatidão. Queria poder afugentar o implacável pesadelo. reapossando-se do seu ser abatido. mostrando um pedaço da língua escurecida por entre o branco dos dentes. Depois. Conseguiu-o como anteriormente. este conduzia-o para o terror ao levá-lo para a volúpia. o desejo fazia-o esquecer o cadáver ignóbil que o esperava e corria em busca do corpo tépido e macio de uma mulher. minutos depois. era Camilo quem lhe abria a porta. Por 10 vezes fez o caminho. ofegante e desvairado. teve as mesmas sensações. o mesmo procedimento. partiu. quando ficou sonolento. de novo adormecido. censurando-se. quando a vontade. Mas em lugar de Teresa. a inteligência mantinha-se acordada na carne adormecida. que esmagasse os seus pensamentos. Voltou a fazer o caminho que o separava de Teresa: desceu as escadas. de colo nu. Não deixara de sentir o corpo. passou correndo diante da porta da adega e encontrou-se na rua. Tentou uma vez mais adormecer. quando as forças lhe faltaram e a vontade lhe escapou. o miserável sentou-se na cama. Aterrado. Estava como que simplesmente entorpecido. com um riso ignóbil. em lugar da jovem em saiote.

Estes preparativos refrescaram-lhe a cabeça e dissiparam-lhe os últimos terrores. Bastarão alguns beijos. um clarão acinzentado e triste entrava pela clarabóia. O dia rompia. Simultaneamente. se Teresa tivesse dormido comigo. Vejamos esta dentada. não sentindo mais do que uma grande fadiga nos membros. Decididamente. toda avermelhada. Raciocinava agora com fluidez... dizia para si mesmo enquanto acabava de se vestir. Ao passar diante da porta de acesso à adega. Na rua caminhou em passos lentos." Aproximou-se do espelho e estendeu o pescoço. . E repetia: "Não devia ter pensado em tudo isto. no ar fresco da manhã. Distinguindo a marca dos dentes da sua vítima. Agora vou talvez acreditar nisso todas as noites. não lutar mais. Lavou o rosto e passou o pente pelos cabelos. com surda irritação.. tenho de casar o mais depressa possível. Laurent experimentou uma certa emoção. a cada sobressalto. não pensarei muito em Camilo. devia dormir e agora estaria fresco e bem disposto. É absurdo crer que o pobre diabo está debaixo da minha cama.. precisava andar. Tinha necessidade de tomar ar. como se lhe estivessem a enterrar agulhas naquele ponto. temia passar outras noites idênticas à que acabava de suportar. Laurent sentiu picadas agudas.. A cicatriz adquiriu um tom avermelhado sob a onda de sangue.. A última agitação foi de tal modo violenta e dolorosa que decidiu levantar-se. passava as mãos pelo rosto pisado e abatido por uma noite febril. ao longo dos passeios desertos.. espreguiçava-se. Laurent vestiu-se lentamente. Eram cerca de cinco horas. Ah! Se Teresa tivesse querido. no pescoço gordo e branco. sentiu o sangue afluir-lhe à cabeça e deu conta do estranho fenômeno. Quando Teresa me apertar nos braços. Como sou estúpido em pensar nestas coisas!" Pôs o chapéu e desceu. o prostravam com um pavor mais agudo. No fundo. tornou-se viva e sangrenta destacando-se. Abraçar-me-á pelo pescoço e deixarei de sentir a dor atroz que senti. Estava exasperado por não ter dormido. "Bah! Teresa curará isto.ininterruptos e sempre renovados que... A cicatriz tinha um tom rosado. esfregava os membros. "bem me importo com Camilo.. Apressadamente ergueu o colarinho. contudo. "E no entanto não sou um covarde".. sorriu.. Enquanto enfiava as calças. exasperado por se ter deixado invadir por um terror a que chamava agora infantilidade. assegurou-se da solidez do gancho da porta." A idéia de que Teresa lhe teria evitado o medo tranqüilizou-o um pouco. que cortava no céu um quadrado esbranquiçado e cor de cinza. a noite passada.

os terrores comuns. acabrunhada e cansada como ele. tinhaa bruscamente espicaçado. doía-lhe e pendia não obstante os seus esforços. na .Laurent passou um dia terrível. porque idêntico arrepio nervoso atravessou os seus rostos. — A nossa pobre Teresa passou mal a noite — disse-lhe a senhora Raquin quando ele se sentou — parece que teve pesadelos. Enquanto a tia falava. CAPÍTULO XVIII Também Teresa fora visitada pelo espectro de Camilo durante aquela noite febril. Encontrou-a febril. viu surgir-lhe o afogado. ela debatia-se no desejo e no terror e. compreendendo-se. Teresa olhava fixamente para Laurent. falando de banalidades. Teresa e Laurent arrastaram sem esforço a cadeia cravada nos seus membros e que os unia. A carne fervilhou quando. acabaram por alquebrar-lhe os membros. Esta comunidade. quis ir ver Teresa. Um parentesco de sangue e de volúpia estabelecera-se entre eles. Teve de lutar contra o sono que dele se apossou no escritório durante a tarde. na prostração que se seguiu à crise aguda do assassínio. sem dúvida. conjurando-se pelo olhar para apressar o momento em que poderiam unir-se contra o afogado. que não voltaria a sentir tais sofrimentos quando o amante estivesse entre os seus braços. Adivinharam. Ficaram frente a frente até às 10 horas. numa espécie de fraternidade pungente. estes sobressaltos. como Laurent. à mesma hora.. Estremeciam sob os mesmos frêmitos. Por entre os sobressaltos da insônia. endireitava-a bruscamente sempre que ouvia os passos de um dos seus chefes. uma espécie de desequilíbrio nervoso que os entregava. esta penetração mútua é um caso de psicologia e de fisiologia que ocorre freqüentemente em seres atirados uns contra os outros com violência por grandes abalos nervosos. A cabeça pesava-lhe. Passaram a ter um só corpo e uma só alma para o prazer e para o sofrimento. Durante mais de um ano. e não obstante o cansaço. como ele. A ardente proposta de Laurent para um encontro. decorrido mais de um ano de indiferença.provocando-lhe ansiedade intolerável. Acontecera. ansiosos e aterrados. Esta manhã estava mesmo doente. oprimiam-se sob o peso das mesmas angústias. os corações de ambos. uma insônia terrível. dizia a si própria que não mais teria medo. nesta mulher e neste homem. aos seus terríveis amores. À noite. Esta luta. pensou que o casamento teria lugar em breve. Várias vezes a ouvi gritar.. já deitada.

vivia com confiança de irracional. a corrente esticou violentamente e receberam um safanão tal que se sentiram ligados um ao outro para sempre. No fundo. Se tinham pressa de chegar ao fim era porque não mais podiam ficar separados e isolados. Os amantes tremiam à idéia de cometer uma imprudência. a mais insignificante palavra. cheia de perigos. fazer-lhe sobretudo acreditar que a idéia era deles e só deles partia. os dois forçados acreditaram serem livres. Compreendendo que não podiam falar de casamento. por não querer dormir. trabalhou surdamente para preparar o caminho do seu casamento com Laurent. a insônia aferrava-os a um leito de carvões em brasa. estavam devorados pela impaciência que lhes retesava os nervos. Todas as noites tinham a visita do afogado. Um tremor apossou-se dos seus . de despertar suspeitas. O estado de irritação em que viviam ativava ainda mais em cada serão a febre do seu sangue. Tratava-se nem mais nem menos de fazer nascer naquelas pessoas a idéia de voltar a casar Teresa. calculando o mínimo gesto. a cadeia arrastava-se por terra. imediatamente via Camilo e reabria os olhos em sobressalto. que não os ligava um anel de ferro. No dia porém em que as circunstâncias os forçaram de novo a trocar palavras ardentes. Teresa empenhou-se na obra. para conservar os olhos bem abertos. No dia seguinte. a partir de então tremia e empalidecia ao mínimo ruído. Teresa não se atrevia a subir ao quarto. Viviam em permanente irritação. iluminado por estranhos clarões e povoado de fantasmas. Era uma tarefa difícil. avançavam com extrema prudência. descansavam.repulsa e na carência de calma e de esquecimento que se sucedera. de revelar com demasiada brusquidão o interesse que tinham tido na morte de Camilo. arrastava-se. depois de escassas horas de sono. decidiram um plano inteligente. procuravam outros amores. era insuportável a angústia que sentia por ter de se encerrar até de manhã naquele grande compartimento. no qual os virava com pinças de fogo. viver com sábio equilíbrio. A partir do dia seguinte. atingidos por uma espécie de estupor feliz. A comédia foi longa e delicada de desempenhar. Quanto a Laurent. Teresa e Laurent puxavam cada um para si o papel que lhes convinha. como uma criança. criando-lhes diante dos olhos alucinações atrozes. era-lhes necessária toda a sua energia para exteriorizarem ares sorridentes e calmos. antes. aquilo que não ousavam pedir. Quando a fadiga lhe baixava as pálpebras. tornara-se decididamente covarde depois da noite em que sentira medo de passar diante da porta de acesso à adega. cansada e alquebrada. Passou a deixar a vela acesa. que consistia em fazer com que lhes fosse oferecido pela própria senhora Raquin e pelos convidados das quintas-feiras. Assim que o crepúsculo chegava.

Era assim que queriam a sua união. sentiam a necessidade imperiosa de vendar os olhos a si próprios. ficou durante seis horas a ver correr as águas sujas na sombra esbranquiçada. mudos. aliás. dia após dia os pesadelos os esmagavam. de certo modo. da espera ansiosa e dos tímidos desejos. sob o arco da ponte. depois de os terem levado até ao crime. inclinados um para o outro. No íntimo. encolhido. aguardando o dia do casamento como o dia da salvação. Dia após dia o terror dos dois amantes aumentava. Numa ocasião permaneceu até de manhã numa ponte. com um vago desespero que tomavam a suprema resolução de se unirem abertamente. tinham receio. afrouxando-lhes os membros. estas sensações bruscas e alternadas de volúpia e de repugnância. com aguda volúpia. ao mesmo tempo que. naquele grande corpo flácido. fincados. Os seus desejos causavam calafrios. houve momentos em que o terror o lançou sobre a terra ensopada: parecia-lhe ver. os contatos sucessivos de carne ardente de amor e de carne gélida. deixavam-no ofegante e trêmulo. De noite sofria ainda mais do que Teresa. Estavam. Contavam somente com os seus beijos para matar a insônia. Quanto mais tremiam diante um do outro. a passar as noites inteiras percorrendo a pé as ruas desertas. Era. as vertigens lhes provocavam a atração da queda.membros e não mais o abandonou. gelado. fechava-se com duas voltas e até ao romper do dia debatia-se em horríveis acessos de febre. Durante as horas de indiferença tinham hesitado. Muitas vezes se sentia tentado a não voltar para casa. cada um esquecendo as razões egoístas e apaixonadas que se tinham como que desvanecido. sonhava que a amante o envolvia num quente abraço. Quando. um casamento legítimo lhes assegurava. num abraço glacial. mais adivinhavam o horror do precipício no fundo do qual se . de sonhar com um futuro de felicidade amorosa e de prazeres calmos. como sobre um abismo cujo horror os atraía. sem forças para se levantar e caminhar para a margem. num estertor de angústia. dobravam-se mutuamente sobre o seu próprio ser. enlouqueciam-nos cada vez mais. a que se seguiria uma noite feliz. vencido pelo cansaço e pelo abatimento subia ao quarto. para fruir em seguida os prazeres que. causava profundas perturbações. segundo eles. no fundo da paixão e do egoísmo. passarem longas filas de afogados ao sabor da corrente. não se atreviam a encontrarem-se. com a febre de novo a consumi-los. O mesmo pesadelo surgia com persistência: dos braços ardentes e apaixonados de Teresa caía nos braços frios e viscosos de Camilo. como o desejo que tinham de dormir um sono calmo. Por prudência. amolecida pelo lodo. para em seguida sonhar que o afogado o apertava contra o peito decomposto. o medo. debaixo de forte chuva. Mas diante das circunstâncias. Era com cruel apreensão que via chegar o fim de cada dia. voltavam a encontrar os verdadeiros motivos que os tinham decidido a matar Camilo.

Laurent passava o tempo a repetir tais pensamentos. A bem dizer ela não raciocinava. lançava-se na paixão. beberia e dormiria até se fartar. começava a aborrecer-se singularmente na repartição. de temperamento menos sensível. obstinavase em não morrer e. reconstituía todos os antigos cálculos. Mas por mais que forçasse a . teria. Além disso. pois a pobre velha morria um pouco cada dia. enfim. a herança podia fazer-se esperar bastante tempo. a carne irritada pelas insônias cruéis que se prolongavam por semanas. Teresa desejava casar unicamente porque tinha medo e o seu organismo reclamava as carícias violentas de Laurent. em desenrolar à sua frente os fatos invencíveis que fatalmente os conduziriam ao casamento. esqueceria tudo. comeria. Depois do casamento ter ficado decidido entre Teresa e ele. o trabalho leve que lhe estava confiado tornava-se cansativo para a sua preguiça. de ser tratado como ele. ser completamente feliz. se apenas o movesse a paixão não teria revelado tanta covardia e tanta prudência. assim. repetia para si próprio ser tempo de colher o proveito esperado pela morte de Camilo. rebuscava ainda outras vantagens e ficava imensamente satisfeito quando julgava ter encontrado um novo argumento no seu egoísmo. enfim. É certo que o desejo de possuir só para si a amante pesara bastante na idéia do crime. um rapaz que tratava das terras a pleno contento do velho Laurent. Para ganhar coragem. uma vida de animal repleto. a satisfação duradoura dos seus apetites. através do assassínio. lhe ocorriam. os benefícios da sua futura existência: deixaria a repartição. Lembrava-se então que tinha afogado Camilo para desposar Teresa e passar a não fazer nada. o camponês de Jeufossê. não tardaria a herdar os 40 e tal mil francos da senhora Raquin. Enumerava as vantagens. Estava atormentada por uma crise nervosa que a deixava louca. de gozar uma felicidade permanente. a verdade é que procurava assegurar. mas consumara-o talvez mais pela esperança de ocupar o lugar de Camilo. embora cedendo aos seus terrores e desejos. de espírito alterado pelos romances que lera. entendia dever raciocinar a sua decisão. E ele. Laurent. O pai. ele ficaria sempre pobre. que reforçava o casamento com a viúva do afogado. a calma e ociosidade da sua vida.iam precipitar e mais se empenhavam em fazer a si próprios promessas de felicidade. dormindo mal e comendo ainda pior. receava mesmo que lhe escapasse para as algibeiras de um dos seus primos. viveria mergulhado em deliciosa indolência. conscientes ou inconscientes. Para se convencer que o casamento lhe era necessário e que ia. O resultado das suas reflexões era sempre o de que a suprema felicidade consiste em nada fazer. Todos estes pensamentos. numas águas-furtadas. viveria sem mulher. contava não trabalhar durante toda a vida. teria constantemente ao alcance da mão uma mulher ardente para lhe restabelecer o equilíbrio do sangue e dos nervos. para dissipar os vagos receios que o assaltavam.

a senhora Raquin acabou por se assustar seriamente. no fundo da loja úmida da passagem. respondia invariavelmente que se sentia bem. sem nada precisar. Sentia atingidas as poucas consolações que ainda a ajudavam a manter-se viva. Um pouco de egoísmo se misturava ao derradeiro amor da sua velhice. CAPÍTULO XIX Entretanto.esperança. que parecia morrer aos poucos de um mal desconhecido. E sucediam-se as sufocações. o trabalho secreto levado a cabo por Teresa e por Laurent começava a dar resultados. sentia sempre bruscos arrepios percorrerem-lhe o corpo e experimentava por momentos uma ansiedade que abafava a alegria na garganta. Num dos serões de quinta-feira reteve-o na loja e deu-lhe conta dos seus temores. perguntando a si própria o que podia fazer para curá-la dos mudos desesperos. isso vê-selhe nos olhos. — Sabe por quê? Diga depressa — volveu a capelista — se pudéssemos curá-la! — Oh! O tratamento é fácil — continuou Michaud sorrindo — a sua sobrinha definha porque está só. Quando a tia insistia nas perguntas. inquietou a senhora Raquin. os silêncios opressivos de vazio e de desespero. dobrada sobre si própria. falou em tristeza. à noite. A velha capelista quis saber o que tanto entristecia a sobrinha. no quarto. não tinha mais ninguém no mundo além da sobrinha e todas as noites rezava a Deus para que lhe conservasse aquela filha para lhe fechar os olhos. seguindo as tristezas da jovem. A franqueza brutal do antigo comissário chocou dolorosamente a senhora Raquin. A partir daí não mais deixou de observar a sobrinha. ao pensar que podia perder Teresa e morrer só. Pensava ela que a ferida que sentia sempre a sangrar depois do horrível acidente de Saint- . por mais que sonhasse com um futuro de plena ociosidade e de volúpia. Ela precisa de um marido. que ignorava a causa da sua prostração. em dores nervosas vagamente. A jovem desempenhou então o seu papel de viúva inconsolável com requintada habilidade. há quase dois anos. passados alguns dias. os sorrisos pálidos e doloridos. — Por Deus! — respondeu o velho com a rudeza franca das suas antigas funções — há muito tempo que me apercebi que Teresa anda enfadada e sei muito bem a razão por que está pálida e triste. Teresa assumira uma atitude melancólica e desesperada que. Perante tão graves circunstâncias. em abatimento. Perante o comportamento da jovem. que chorava sem saber por quê. entendeu dever aconselhar-se com o velho amigo Michaud.

E eis que Michaud afirmara. que Teresa estava doente por falta de marido. Pouco a pouco tornou-se indispensável na loja. Procurava um marido para a sobrinha e isso enchia-lhe a cabeça. Chorou. creia. esquecia mesmo um pouco o filho. e é bom. A pobre mãe compreendeu que apenas ela conservava no fundo do ser a recordação viva do filho querido. parecia-lhe que não podia haver outro marido para a sobrinha. no meio do silêncio glacial da loja. na existência morta que levava deu-se como que um despertar. porque receava vivamente que o novo marido da jovem viesse perturbar os últimos momentos da sua velhice. carícias. começou a meditar. desempenhava a comédia do abatimento. Estava sempre pronto a ser útil às duas mulheres. — Case-a o mais depressa possível — voltou a dizer. à noite.Ouen. A escolha de um marido era um assunto importante. impelindo-a de falar abertamente com a sobrinha acerca de casamento. principalmente à senhora Raquin. vida. que cumulava de delicadas atenções. com a perfeita hipocrisia que a educação lhe dera. Desde que a sobrinha deixara de falar e ali se conservava pálida e acabrunhada. embora contrariada. como que novas vontades e motivos para ocupar o espírito. afável. espírito de sacrifício. a pobre velha meditava nela ainda mais do que Teresa. O velho Michaud não chegara a pronunciar o nome de Camilo e gracejara ao falar da pretensa doença de Teresa. Laurent chamara a si o papel de homem sensível e solícito. nas palavras de Michaud e a acostumar-se à idéia de comprar um pouco de felicidade à custa de um casamento que. todo um temperamento benévolo. É este o meu conselho. queria casá-la de maneira a que ela própria fosse feliz. enquanto saía — se não a quer ver definhar-se por completo. A idéia de que ia introduzir um estranho no seu dia-a-dia assustava-a. Sentia-se pouco à vontade diante de Teresa. era ele a única pessoa a pôr um pouco de alegria naquele buraco escuro. minha cara senhora. Quando lá não estava. melancólica e taciturna. Depois de se ter lamentado. na sensibilidade da sua memória. se matinha também viva e cruel no fundo do coração da jovem viúva. Não era um espírito rígido e seco. a velha capelista olhava à sua . a sorrir. havia nela compreensão. dos que sentem uma alegria ávida em viver em eterno desespero. que a impelia a viver rodeada de ternura ativa. alguma coisa de doce e alegre que a ajudasse a esperar sossegadamente a morte. Custou à senhora Raquin habituar-se à idéia de que o filho já estava esquecido. efusões. queria sentir afeto à sua volta. a existência tornara-se-lhe intolerável. Estes desejos inconscientemente sentidos fizeram-lhe aceitar o projeto de voltar a casar Teresa. e pareceu-lhe que Camilo acabava de morrer pela segunda vez. Morto o filho. a loja parecia-lhe um túmulo. lhe matava de novo o filho. era somente isto que a sustinha. Enquanto Teresa.

conversava. Nada a curará. Arranjara uma voz de ator. A recordação do filho perturbava-a e cegava-a. — Veja — dizia ainda — a morte do meu pobre amigo foi um golpe terrível para ela. ao deparar com os olhares estranhamente fixos de Teresa. pensava que Laurent tinha um coração afetuoso e generoso. depois do dia funesto em que perdeu Camilo. estremecia. aterrorizou-a mostrando-se ele próprio muito assustado com as mudanças e os estragos que dizia ver no rosto da jovem. ele próprio acabando por acreditar no que dizia acerca do afogado. apesar da surda revolta das suas entranhas que estremeciam. Depois sentava-se. a ternura de coração e o espírito de Camilo. inquieta. exaltava a sua vítima com cinismo perfeito. Em certas ocasiões. Durante toda a conversação. abandonava-se. Laurent notara o efeito perturbador e a comoção que se produzia nela. suave e penetrante.volta. apenas . que empregava para lisonjear os ouvidos e o coração da boa velha. nada vendo do que se passava à sua volta. Estas impudentes mentiras faziam chorar à velha senhora lágrimas de sangue. subitamente preso de atroz ciúme. Em várias ocasiões. Podia fazê-la chorar quando quisesse. puxava a conversação de modo a falar sobre as raras qualidades. Enquanto chorava. Aliás. Todas as noites. Demonstrava sobretudo grande inquietação pela saúde de Teresa. e abusava desse poder mantendo-a submissa e dolorida na sua mão. Ah! A nossa pobre felicidade. falando a sós com a senhora Raquin. todos os dias se dirigia para a loja ao sair da repartição e ali ficava até ao encerramento da passagem. — Não podemos dissimular a nós próprios que ela está bem doente. emudecia então. que se deslocava com dificuldade. Há dois anos que definha. Cada vez que se falava em Camilo rompia em soluços. como se algo lhe faltasse. Laurent apenas faltava uma noite para melhor acentuar a sua falta. Temos de nos resignar. como amigo. Fazia recados e dava à senhora Raquin. temendo que a viúva amasse o homem que lançara à água e que agora exaltava com convicção de alucinado. a senhora Raquin derramava lágrimas. Laurent levava a audácia a ponto de falar de Camilo. teria abraçado a pessoa que pronunciava o nome do seu filho. os agradáveis e tranqüilos serões! A senhora Raquin escutava-o com angústia. todos os objetos de que ela tinha necessidade. levá-la a um estado de emoção que a privasse da visão clara das coisas. como homem sensível cuja alma sofre com o sofrimento alheio. — Não tardaremos a perdê-la — murmurava com lágrimas na voz. quase sentindo medo de se encontrar à sós com os desesperos de Teresa.

ao amigo do filho. ali está o marido que convém à sua sobrinha.Michaud encarregara-se de apalpar o terreno. que Teresa seria menos infiel à recordação de Camilo casando com Laurent. que a coisa não saía da família. Enquanto os dois jovens estavam perto um do outro. Ao sair. que os observava. para os presentes. o seu papel de amigo afetuoso e preocupado. a ela e à sobrinha. ao dar um arrimo a Teresa rodearia a sua velhice com uma nova alegria. não sentia a mínima revolta ao pensamento de a entregar nos braços do antigo camarada do filho. O antigo comissário de polícia insistiu. Antes de se despedir. Numa quinta-feira. depois tomou afetadamente Laurent pelo braço. Laurent trocou um rápido olhar com Teresa. O casamento não mais faria do que apertar os laços que já os uniam. como se costuma dizer. inclinou-se para a velha senhora Raquin e disse. amando-o como ao próprio filho. Estranhas delicadezas têm os sagrados deveres do coração. encontraria um segundo filho naquele rapaz que ao cabo de três anos lhe testemunhava filial afeição. Michaud trocou algumas palavras em voz baixa com a senhora Raquin. se for necessário. Michaud sorriu maliciosamente com a sua saída.ele se lembrava do filho. chegando mesmo a . Parecia-lhe. que amava como irmã a viúva do seu pobre amigo e que acreditaria cometer um verdadeiro sacrilégio desposando-a. com voz comovida. trocando algumas palavras. Dessa maneira não introduziria um estranho em casa. achou que o jovem estava muito dedicado às duas mulheres. num abrir e fechar de olhos viu todas as vantagens que pessoalmente retiraria do casamento de Teresa e de Laurent. Durante todo o serão. Trate depressa do casamento. enquanto os convidados jogavam dominó. Sentou-se um instante a seu lado desempenhando. Michaud. ao coração excelente que as vinha distrair ao serão. que teria chorado ao ver um estranho abraçar a jovem viúva. a velha capelista observou os jovens com olhares enternecidos que fizeram adivinhar a um e a outro que a comédia até então representada alcançava êxito e que o desenlace estava próximo. mas surpreendido a com a idéia de casamento com Teresa. deu uma centena de boas razões para obter um consentimento. um olhar cheio de insistentes recomendações. À senhora Raquin pareceu-lhe ver um relâmpago. Michaud e Grivet encontravam-se já na sala de jantar quando Laurent entrou e se aproximou de Teresa inquirindo solicitamente sobre a sua saúde. A senhora Raquin. Na sua idéia. Laurent acrescentou. Nós ajudaremos. pelo contrário. não corria o risco de ser infeliz. além disso. Teresa devia precisar de um marido vigoroso. apenas ele se lhe referia ainda com voz trêmula e comovida. E secando as lágrimas olhava para ele com infinita ternura. declarando que o acompanharia durante um pedaço do caminho. apontando para Laurent: — Olhe. Pensava.

com um ingênuo egoísmo pintou o quadro das suas derradeiras felicidades entre os dois filhos queridos. A senhora começou a chorar. forçando os jovens a ficarem noivos nessa mesma noite. esvaziou a alma. fingiu ceder à emoção. Quero torná-la feliz. sobre as vantagens de semelhante união. pronta a satisfazer-lhe os mínimos desejos. surpreendida e perturbada por ter sido a primeira a esquecer o filho.. pálida e vacilante como de costume. Como não obtivesse mais do que respostas vagas. Teresa escutou-a. Quando este obteve um sim formal despediu-se. Ao deitar-se. como dizia o velho Michaud. Teresa teve uma exclamação de espanto. repetiu em voz alta tudo aquilo em que estivera a pensar durante todo o serão. Michaud e a sua velha amiga tiveram uma breve conversa na passagem. de cabeça baixa. diante da porta da loja. E veio a seguir uma torrente de palavras sobre a conveniência. caminhando lentamente ao longo do cais. afirmou que não pensava nisso e que ficaria fiel a Camilo. Enquanto Michaud falava com Laurent. Uma vez que o deseja. Esperava que me deixasse chorar em paz. Falando contra o coração. a dizer ao jovem que era seu dever restituir um filho à senhora Raquin e um marido à Teresa. deu a entender que o desespero não pode ser eterno. Laurent deixou-se convencer. ditada pela dedicação e pelo dever. por fim. esfregando as mãos. a senhora Raquin tinha uma conversa quase idêntica com Teresa. falou dos vazios da viuvez e pouco a pouco foi concretizando a possibilidade de novo casamento.. citou bruscamente o nome de Laurent. Deram-se mutuamente conta do resultado das suas diligências e concordaram em levar as coisas até ao fim. acusando-se de ser menos forte do que Teresa. — Gosto de Laurent como de um irmão disse dolorosamente quando a tia acabou. a senhora Raquin soluçou amargamente. concluindo por perguntar abertamente a Teresa se não tinha secretamente o desejo de voltar a casar. aceitar a idéia do casamento como idéia caída do céu. A velha capelista reteve Teresa por alguns instantes. Pouco a pouco. pois que se trata da sua felicidade.falar em dedicação. . Interrogou-a com voz suave. mas enxugarei as lágrimas. resignada e submissa. se preparava para se retirar. estava convencido de que acabava de alcançar uma grande vitória e regozijava-se por ter sido sua a idéia do casamento que devolveria aos serões de quinta-feira toda a alegria de outrora. de querer por egoísmo o casamento que a jovem viúva aceitava simplesmente por abnegação. que lhe confessasse as causas do tormento que a acabrunhava. No dia seguinte de manhã. tentarei amá-lo como um esposo. quando esta. em resposta a um grito da jovem dizendo que jamais substituiria Camilo. suplicando-lhe que fosse franca. Abraçou a velha senhora.

o sangue subiu-lhe ao rosto. o antigo comissário segredou-lhe ao ouvido: — Ela aceita. Os dois amantes tiveram um frêmito ao sentirem o contato da pele do outro. Laurent. sentiu-se afogueada e ardente. ela que ignorava o pudor e que nunca enrubescera na infâmia dos seus amores. Ouvindo as últimas palavras de Laurent. compreenderam que deviam aceitar a posição sem hesitar e acabar com aquilo de vez. balbuciava: — Sim. Teresa retirou a mão. meu amigo. O casamento estava decidido. com voz hesitante. — Querida mãe — disse-lhe a sorrir — falei com o senhor Michaud ontem à noite sobre a sua felicidade. como que se consultando.Às cinco horas Michaud já se encontrava no armazém quando Laurent chegou. abafada pelos soluços. queimada pelos dois beijos do amante. fitando impudentemente Laurent. que empalideceu. Laurent sentiu estranho mal-estar ao pousar os lábios na face da viúva e esta por sua vez recuou bruscamente. quer que criemos à sua tia uma existência alegre e sossegada? — Sim — respondeu a jovem com voz fraca — temos uma missão a cumprir. case com ela. Ficaram de mãos cerradas e ardentes. confio-a a ti. sem conseguir pronunciar palavra. colocou-a na de Laurent. que também estava comovido até às lágrimas. Assim que o jovem se sentou. Michaud. Pegou vivamente na mão de Teresa e. o meu filho lhe agradecerá do fundo do túmulo. Laurent sentiu-se fraquejar e apoiou-se no espaldar de uma cadeira. Laurent voltou-se então para a senhora Raquin e acrescentou: — Quando Camilo caiu à água. que fazia todos os esforços para reter as lágrimas. empurrou-o na direção de Teresa. dizendo: — Beijem-se. gritou para mim: "Salva a minha mulher. Esta frase seca e brutal foi ouvida por Teresa. chegavam finalmente ao fim que procuravam há tanto tempo." Creio cumprir o seu último desejo desposando Teresa. Nesse mesmo serão . Eram as primeiras carícias que aquele homem lhe fazia diante de testemunhas. Passado este mau momento. Sentira como que uma pancada no peito. Olhava estupidamente. enquanto a senhora Raquin. Os seus filhos querem fazê-la feliz. torne-a feliz. sim. Laurent ergueu-se e pegou na mão da senhora Raquin. será o vosso beijo de noivado. os dois assassinos respiraram. num aperto nervoso. o cinismo do amante confundira-a. perguntou: — Teresa. Os dois amantes entreolharam-se durante alguns segundos. A pobre velha deixou correr livremente as lágrimas ao ouvir "querida mãe".

com uma espécie de respeitoso terror. A senhora Raquin olhava-os com pálidos sorrisos. Laurent nada trazia para o casamento. radiantes.. deu mesmo a entender que não ficaria para sempre no emprego. com suave e reconhecida benevolência. Aliás. Os circunstantes mostraram-se. Laurent tinha de escrever ao pai para lhe pedir o consentimento. fui eu que os casei. acrescido dos lucros da capelista. Abreviaram-se as formalidades tanto quanto foi possível. Tinham o ar de quem cumpre um ato de suprema devoção. A atitude de Teresa e de Laurent manteve-se digna e prudente. despojando-se assim inteiramente a favor dos noivos e confiando-se ao bom coração de ambos ao querer deles receber toda a felicidade. encantados. O velho camponês de Jeufossê. em boa verdade. se quisesse. e Grivet arriscou alguns comentários picantes que tiveram reduzido êxito. Havia algumas formalidades a cumprir. o rendimento dos 40 e tal mil francos. Dir-se-ia que cada um deles tinha pressa de empurrar Laurent para o quarto de Teresa. Olivier e à mulher deste. Na quinta-feira seguinte o casamento foi anunciado a Grivet. mortiça e branca. passando talvez a dedicar-se à pintura. Olivier cumprimentou a tia e a sobrinha. Teriam exatamente o suficiente para serem felizes. sombria e rígida. A pobre criatura. todos se viam já na boda. a senhora Raquin teve um impulso de bondade que a impeliu a fazer um disparate. . tornarase amiga da jovem viúva.. Manifestavam mutuamente uma amizade terna e solícita. respondeu-lhe em quatro linhas. fez-lhe compreender que. Amava-a como criança. Depois de ter lido a carta daquele pai desnaturado. dariam para três pessoas viverem sem dificuldades. dizendo que podia casar-se e enforcar-se. Michaud estava radiante ao dar a novidade. que quase esquecera a existência do filho em Paris. repetia: — Fui eu que pensei nisto. o deixava senhor do seu corpo e o autorizava a cometer todas as loucuras do mundo. Vão ver o belo par! Suzana abraçou silenciosamente Teresa. apenas.ficou tudo combinado. resolvido a não lhe dar nunca um sou que fosse. declarando que tudo correra pelo melhor. Uma tal autorização inquietou singularmente Laurent. em suma. Transferiu para a sobrinha os 40 e tantos mil francos que possuía. o futuro da pequena família estava assegurado. Nas suas fisionomias nada podia fazer suspeitar os terrores e os desejos que os abalavam. Os preparativos para o casamento foram acelerados. O dia desejado chegou finalmente. esfregando as mãos.

vestindo-se vagarosamente. oito dias antes. esfregou o corpo com água de colônia e em seguida procedeu minuciosamente à toalete. com a sensação de que o tecido hirto lhe cortava a carne. metera-lhe na mão. sabendo das suas dificuldades. Tremia. a fim de a acompanhar ao cartório e em seguida à igreja. que seriam as suas testemunhas. Laurent cerrou os lábios e empalideceu. oferecer a Teresa as prendas de praxe. Sobre duas cadeiras estavam as calças pretas. Acabou de se vestir. além disso. Estava-se em dezembro. Não voltariam a deitar-se sós. O dinheiro da velha capelista permitira-lhe. o botão escapava-se-lhe por entre os dedos e impacientou-se. a camisa e a gravata de bom tecido. o tecido do colarinho atuava como pinça sobre a cicatriz do ferimento que os dentes da vítima lhe tinham feito. Amarrotou o colarinho e escolheu outro que colocou com mil cuidados. esperando por Suzana que deveria ajudá-la a preparar-se para a cerimônia. Levantou-se. Ao apertar o colarinho. cujo pescoço estava entalado no tecido gomado. O jovem aceitara sem hesitação e vestira-se de novo dos pés à cabeça. defender-se-iam mutuamente do afogado. não ousava voltar a cabeça. Ia finalmente deixar aquele pardieiro e ter uma mulher sua. sentia-se apertado na roupa nova. Laurent e Teresa acordaram nesse dia com o mesmo pensamento de profunda alegria: ambos disseram para si mesmos que acabara a sua derradeira noite de terror. Por seu lado. sentiu uma dor no pescoço. . Laurent ficou sentado na cama durante alguns minutos. um colarinho alto e engomado. Saltou para o mosaico. por causa do ligeiro roçar do colarinho. uma bolsa com 500 francos. No caminho passou pelas casas de um funcionário da estrada de ferro de Orleans e do velho Michaud. Laurent ensaboou-se. a casaca bem como o colete branco. Queria apresentar-se belo. Foi neste sofrimento. despedindo-se das suas águas-furtadas que achava ignóbeis. Teresa olhou à sua volta com um estranho sorriso. A senhora Raquin. todas as suas economias.CAPÍTULO XX Cada um no seu quarto. Ergueu o pescoço: a mordida estava tingida de vermelho vivo. Ao descer. no incômodo de agudas picadas que tomou um carro e se dirigiu para junto de Teresa. A cada movimento. irritou-se à vista daquela mancha que lhe maculava o pescoço. medindo mentalmente o grande leito. dizendo para si mesmo que à noite teria calor.

e invadia-os uma estupefação crescente. quando ainda um obstáculo material se erguia à sua frente. o ar tranqüilo escondia a fúria dos pensamentos que os dominavam. Em seguida. estava tudo a postos. espantados. parecia-lhes que durara meses. perguntavam a si próprios por momentos se poderiam atravessar esse abismo. e Suzana. dentro de algumas horas. correndo os olhos mortiços pelas lojas e pelos transeuntes. que eles próprios procuravam não definir. Ajudaram-na a subir numa viatura e partiram todos. Decorreu tudo normalmente no cartório e na igreja. Fora decidido que o copo-d'água se faria em família. aliás. comiam. pela rapidez das formalidades e da cerimônia que acabava de os unir para sempre. Evitaram olhar-se de frente. numa indiferença que os embotava e que tentavam sacudir com esporádicas gargalhadas. sem . Enquanto aguardavam as seis horas o cortejo passeou de carro ao longo dos bulevares. quando subiram no carro tinham a sensação de ser mais estranhos um ao outro do que antes. Os esposos estavam graves. No meio da lassidão que lhes envolvia o espírito. o longo passeio pelos bulevares tinhaos como que embalado e adormecido. encaminharam-se depois para o restaurante onde estava posta uma mesa para sete num compartimento pintado de amarelo que cheirava a pó e a vinho. olhavam-se então. que olhava para a noiva como as crianças olham para as bonecas que acabam de vestir. enquanto permaneciam sentados ou ajoelhados lado a lado. respondiam quando lhes falavam e moviam os membros como máquinas. quis acompanhar os filhos. encontravam-se ali Grivet e Olivier. Pronunciaram o sim sacramental com emoção. Julgavam-se no tempo anterior ao crime. desde as primeiras horas. a mesma espécie de pensamentos fugazes surgia incessantemente. A senhora Raquin. Desde a manhã que experimentavam sensações estranhas. Não obstante. nessa mesma noite.Quando chegaram à loja. Sentados frente a frente. isso espantava-os profundamente. A refeição não foi alegre. num pequeno restaurante para os lados de Belleville. Os Michaud e Grivet eram os únicos convidados. sorriam constrangidos e voltavam a cair em pesado devaneio. Imaginavam que um abismo os separava ainda. Sentiam-se num sonho. tinham-se deixado conduzir sem impaciência pela monotonia das ruas. embora mal pudesse andar. Ao entrar no restaurante sentiam sobre os ombros o peso de uma fadiga invencível. Estavam casados e não tinham consciência da nova situação. recordavam-se bruscamente que estariam dormindo juntos. Depois. Sentiam-se aturdidos. A atitude calma e modesta dos nubentes foi assinalada e mereceu a aprovação de todos. que comoveu o próprio Grivet. testemunhas de Teresa. pensativos.

incompreensíveis e monstruosos. esqueciam mesmo a alegria sentida nessa manhã. a pobre mãe sentir-se-ia ferida por demasiada alegria.compreender a razão por que isso lhes seria permitido. sem esperança. E Laurent. Não sentiam a sua união. Grivet não tinha as mesmas idéias. Ergueu a cabeça com curiosidade. Era necessário corresponder ao brinde. Os seus desejos tinham-se desvanecido com o tempo. Chegou a imaginar que lhe corria um fio de sangue pelo peito manchando-lhe a brancura do colete. Não eram ainda nove e meia quando o cortejo chegou à loja da passagem. No fundo do abatimento agitava-se uma ansiedade vagamente dolorosa. Os convidados. invisível. O olhar não escapou aos dois e ambos ficaram aterrorizados. a alegria profunda que deles se apossara à idéia de que não mais teriam medo. frente a frente. Conseguiu no entanto levantar-se uma vez e fez um brinde: — Bebo à saúde dos filhos do casal — disse em tom brejeiro. Teresa e Laurent tinham ficado extremamente pálidos ao ouvir as palavras de Grivet. Estavam simplesmente cansados e atordoados com tudo o que se passara. Tocaram os copos com um gesto nervoso e fitaram-se. eles balbuciaram. enrubesceram e não conseguiram tratar-se de modo mais íntimo diante de todos. sorridentes. Enquanto o conservador lhe lera o código. Estavam ali. diante da caixa guarnecida de veludo azul. Não tardaram a levantar-se da mesa. enquanto o padre falava de Deus. Talvez a velha . Essa possibilidade causou-lhes um arrepio glacial. a entregar Teresa nas mãos de Laurent. todo o passado desaparecera. em todos os minutos daquele longo dia sentira os dentes do afogado penetrarem-lhe a pele. para ela o filho estava ali. não esperando nada. que riam tolamente à sua volta. A vendedora de bijuterias encontrava-se ainda na sua tenda. A senhora Raquin ficou interiormente reconhecida aos esposos pela sua gravidade. sentia uma aguilhoada ardente. surpreendidos. olhando os recém-casados com um sorriso. quiseram ouvi-los tratarem-se por tu para dissipar o acanhamento. transtornados por se encontrarem ali. o colarinho postiço mordia-lhe a cicatriz da mordida de Camilo. a cerimônia estava triste e esforçava-se por a alegrar não obstante os olhares de Michaud e de Olivier que o pregavam na cadeira de cada vez que tinha intenção de se levantar e dizer um gracejo. os acontecimentos daquele dia revolviam na sua cabeça. mudos. Tinham perdido os violentos apetites de volúpia. Os convidados quiseram acompanhar os esposos até ao quarto de núpcias. pensavam pelo contrário que acabavam de ser afastados violentamente e atirados para longe um do outro. Nunca lhes tinha passado pela cabeça que poderiam ter filhos. a cada movimento do pescoço.

Teresa estava sentada numa cadeira baixa. acolhedor e perfumado. para colar os lábios à pele nua. Teresa retirou-se quase imediatamente. As chamas crepitavam vivamente na lareira. A camisola descera-lhe um pouco ao longo do ombro que surgia. em mangas de camisa. com o queixo entre as mãos. olhava fixamente as chamas ondulantes. apoiando-se à porta como um ébrio. A senhora Raquin fizera questão de preparar com requinte o quarto.vendedora soubesse dos seus antigos encontros. a sua brancura ressaltava à luz ardente da lareira. um canto ignorado. um desses locais preparados para as sensualidades e para as necessidades de mistério da paixão. projetando clarões amarelos que dançavam no teto e nas paredes. meio encoberto por uma mecha de cabelos negros. Laurent não manifestava a mínima impaciência. que na ausência das mulheres a eles se dedicavam abertamente. CAPÍTULO XXI Laurent fechou cuidadosamente a porta atrás de si e ficou por instantes encostado a ela. ouvia complacentemente os pesados gracejos do velho Michaud e de Grivet. olhou de novo para Teresa que se mantinha imóvel. comprazera-se em guarnecer o leito com rendas e colocara grandes ramos de rosas nas floreiras da lareira. Espalhava-se pelo quarto um calor doce e aromas suaves. de voluptuoso entorpecimento. do lado direito da lareira. acompanhada da senhora Raquin e de Suzana. Laurent avançou alguns passos sem pronunciar palavra. Hesitou. depois apertou febrilmente as mãos que lhe estendiam e encaminhou-se para o quarto. sobre uma mesa. como para servir de ninho a jovens e frescos amores. Tirou a casaca e o colete e. A jovem furtou-se ao . este estremeceu e ficou momentaneamente atordoado. Os homens permaneceram na sala de jantar. que estava todo branco e perfumado. isolado de todos os ruídos. O quarto estava assim iluminado com luz vacilante mas viva. trêmulo. ouvia-se o crepitar da lenha na lareira. Não moveu a cabeça à entrada de Laurent. Abatido. um ambiente de calmo recolhimento. emitia apenas uma luz pálida no meio do clarão das chamas. vendo Laurent deslizar ao longo do estreito corredor. De saiote e camisola rendada. enquanto a noiva procedia à toalete de noite. rosado. Quando Suzana e a senhora Raquin saíram do quarto e com voz comovida a velha capelista disse a Laurent que a mulher o esperava. o candeeiro. viu o ombro de Teresa e inclinou-se. No meio do silêncio. percorrendo o quarto com os olhos inquietos e embaraçados. Dir-seia um deserto feliz.

. imóveis. a fim de não passarem por imbecis aos seus próprios olhos. sem convicção. tinham-se contido. vazios. Os sonhos ardentes desembocavam numa estranha realidade: bastara terem conseguido matar Camilo e casarem-se. prometendo mutuamente loucas voluptuosidades. Laurent tentou então falar de amor. Quando novos desejos os invadiram. A jovem. os braços pendiam-lhes. perturbado. A espaços. fazendo apelo à imaginação para ressuscitar os antigos carinhos. mudos. tomados por súbita inquietação. assegurada que estivesse a sua impunidade. A prudência refreara-lhes a carne. hirtos.. evocar as recordações. aguardando a noite de núpcias. Mas qual! Pertenciam um ao outro. e contudo ali estavam. cada um em seu extremo da lareira.. E finalmente a noite de núpcias chegava e ali estavam frente a frente. Olhavam-se sem desejo. podemos amar-nos em paz. e se entregado um ao outro. continuando a fitar as chamas. Eu chegava por aquela porta. tinham matado um homem e desempenhado atroz comédia para terem a possibilidade de se espojarem com impudência numa saciedade permanente. a mente conturbada e a carne morta. Tinham decorrido cerca de dois anos desde que os dois amantes se tinham encontrado naquele mesmo quarto. Parecia-lhes que a pele estava vazia de músculos. recordas-te das nossas tardes neste quarto?. enrolada sobre si própria na cadeira.. sentiam vergonha de permanecer calados e abatidos. durante cinco longos minutos.. como se estivessem já saciados de amor. mal se tinham permitido um aperto de mãos. sós. Hoje entrei por esta. um beijo furtivo de tempos em tempos. ansiosos. sofrendo ao mesmo tempo pela atitude silenciosa e fria de ambos. escapavam-se dos troncos chamas avermelhadas que arrancavam reflexos sangrentos aos rostos dos assassinos. Somos livres. Bastava-lhes estender os braços para se unirem num abraço apaixonado. do outro lado da lareira. O embaraço e a inquietação aumentavam. ele próprio tomado de terror e de repulsa. A opressão do dia esmagava-os cada vez mais. A voz de Laurent era hesitante. parecia não o escutar. Laurent continuou: .. Ambos procuravam desesperadamente em si próprios um pouco da paixão que outrora os consumia. com tímido embaraço. e contudo. fixando em Laurent um olhar tão estranho de repugnância e de terror que ele recuou. Ficaram assim. Sentou-se diante de Teresa. Semelhante desfecho acabou por lhes parecer de um ridículo horrível e cruel. na Rua de Saint Victor. bastara que a boca de Laurent tivesse aflorado o ombro de Teresa para que a luxúria ficasse saciada até ao enfado e ao pavor. Queriam sentir força para se estreitarem e despedaçarem.contato e voltou-se bruscamente. — Teresa. flácidos. vazia de nervos. Não tinham tido um único encontro amoroso desde o dia em que Teresa incutira em Laurent a idéia de assassínio. depois da morte de Camilo.

o odor das rosas impregnava o ambiente e no silêncio ouviam-se os pequenos ruídos da lenha a estalar.. agredirem-se talvez.. Teresa fez um movimento. Então. estupidificados. olhou o rosto sangüíneo e estremeceu. Teresa e Laurent voltavam a sentir o cheiro frio e úmido do afogado no ar quente que respiravam.. O futuro pertence-nos. A troca de olhares aterrorizados. ensaiou alguns passos pelo quarto. a garganta seca e estrangulada. para os obrigar a viver de novo as angústias do assassínio. diante das chamas.. O espectro de Camilo acabava de se sentar entre ambos. Posso agora satisfazer este sonho. pálidos e trêmulos. O nome da vítima foi suficiente para os encher do passado. Laurent insistiu : — Conseguimos. o mudo relato que iam fazer do crime causou-lhes uma apreensão aguda. Fez esforços para responder às perguntas de Laurent. vencemos todos os obstáculos e somos um do outro. As recordações desapareceram. mas olharam-se e ambos tiveram o mesmo pesadelo. Com um estremecimento súbito.. Os dois assassinos entreolharamse. ambos mergulharam os olhares na mesma história cruel. Teresa sentira um choque nas entranhas. Para afastar as recordações. em cujo rosto se refletia um clarão avermelhado.— Lembras-te? Sonhei uma vez que queria passar uma noite inteira contigo. Teresa. diziam para si mesmos que se encontrava ali um cadáver. Teresa. tirou as botas e enfiou as pantufas. Ele apressou-se a falar das rosas. Os clarões amarelados da lareira continuavam a dançar no teto e nas paredes. Mais perturbado e mais inquieto. depois. acabariam por gritar. de amor satisfeito. Laurent emudeceu. Camilo já não existe. como que surpreendida por ouvir uma voz balbuciar-lhe ao ouvido. ambos se voltaram para a pequena porta. não é assim? Um futuro de tranqüila felicidade. Laurent disse que estava calor no quarto e Teresa observou que passava uma corrente de ar debaixo da porta que dava para a escada. perto deles. intolerável. sem ousar mover-se. do fogo. Sentiam-se ameaçados por uma crise de nervos. voltou a sentar-se no canto da lareira e tentou falar de banalidades. ela . Ao ouvir o nome de Camilo. e examinavam-se mutuamente. toda a história terrível do crime se desenrolou no fundo da sua memória. sem poder continuar. Laurent arrancou-se violentamente ao êxtase apavorado em que o mantinha o olhar de Teresa. adormecer nos teus braços e acordar no dia seguinte com os teus beijos. Falaram da chuva e do bom tempo. de tudo aquilo em que os seus olhos pousavam. Não abriram os lábios.. compreendeu. Procuraram deliberadamente uma conversação banal. encarou Laurent.

o terrível instante do assassínio. com a preocupação de esquecer quem eram e tratarem-se como estranhos que o acaso reunira. Laurent compreendia que ela dizia recordar-se ou não de um pormenor do crime. no ambiente calmo e soturno do quarto. assumiam ares desprendidos. mais nítidas. a queda surda de Camilo. Teresa compreendia perfeitamente que ele lhe recordava a luta no bote. e o seu cadáver está estendido entre nós. gravando frases nítidas e agudas. um estranho fenômeno fazia com que adivinhassem mutuamente os pensamentos que escondiam sob a capa da banalidade das suas palavras. Laurent e Teresa tinham reportado a narrativa muda ao dia da primeira entrevista na loja. que lhes sacudia o organismo. Pensavam irresistivelmente em Camilo. Fora nesse momento que tinham cerrado os lábios. contradiziam-se. sem necessidade de palavras e falando de outra coisa. pararam de falar. brilhante. Os olhos continuavam a revelar o passado. mencionando o afogado.conseguia encontrar monossílabos para responder. ser-lhes-ia possível prosseguirem bruscamente as confidências em voz alta sem deixar de se compreender. frase atrás de frase. Conversavam assim. No silêncio pesado que se estabeleceu. interrompendo a conversação banal. As recordações seguiram-se umas s outras. estranho e delicado: era tão nítida a sensação de ler os pensamentos um do outro. os dois criminosos continuaram a pensar na vítima. os sentidos deixavam-se iludir. e quando Teresa respondia laconicamente sim ou não a qualquer pergunta. mais visíveis. os momentos de hesitação e de cólera. Esta espécie de adivinhação. se não se calassem. ordenadamente. esforçando-se por não deixar decair a conversa. Não se teriam entendido melhor se tivessem gritado com voz dilacerada: "Nós matamos Camilo. bem viam que adivinhavam mutuamente os pensamentos e que. esta obstinação da memória em apresentar-lhes incessantemente a imagem de Camilo. Por momentos julgavam ouvir o outro falar em voz alta. Estas nada significavam. descrevendo o assassínio. que esses pensamentos adquiriam um som estranho. a vista tornou-se uma espécie de ouvido. Parecia-lhes que os olhares penetravam mutuamente na carne. todo o seu ser se aplicava à troca silenciosa das recordações pavorosas. seguiam ao sabor dos seus secretos pensamentos. com receio . a gelarnos os membros. enlouquecia-os pouco a pouco. Além disso. enquanto pronunciavam palavras desprovidas de sentido. as palavras lhes subiriam por si à boca. com o coração nas mãos. Quando Laurent falava das rosas ou do fogo. sem consciência das palavras que pronunciavam. Apesar de tudo. Recolhiam-se um no outro. contaram um ao outro as horas de volúpia. eram desligadas. pouco a pouco. uma conversação muda acompanhava as palavras trocadas." E as terríveis confidências voltavam sempre. Apertando com força os lábios.

— Beija-me. forçada por uma mão de ferro a abrir os lábios. Olhou para o pescoço de Laurent. — Sim — respondeu com voz estrangulada. Teresa erguera-se. E levantava o queixo. na direção de Teresa. esticava o pescoço. prosseguiu em voz alta: — Viste-o na Morgue? Laurent parecia esperar a pergunta. sem se deterem. Teresa voltou. Hesitou. Quase estendida sobre o mármore da lareira. Queria que Teresa beijasse a cicatriz. E o miserável estendia o pescoço. embora contrariado : — Foi Camilo que me mordeu. sem querer.. como para afastar uma visão ignóbil.. Levantou-se. sabes. suplicante: . Fez um gesto de terror. beija-me. Não é nada. para evitar o beijo. — Isto — balbuciou — isto. Beija-me. para a receosa espera que se seguira ao assassínio. com o rosto e o pescoço em fogo. e Teresa. Calaram-se por instantes. perguntou ao marido: — Que tens tu aqui? Não te conhecia esta ferida. E os pensamentos. Teresa teve um gesto de suprema repugnância e exclamou. com o cotovelo apoiado sobre o mármore da lareira. que o queimava. A Laurent pareceu que o dedo de Teresa lhe furava a garganta. Acabava de ver uma mancha rosada na brancura da pele que o fluxo de sangue avermelhava. Os criminosos sentiram um arrepio.. estendendo o pescoço. como para fugir a um sopro gelado que subitamente atravessasse o quarto. no barco.. surdamente: — Parecia ter sofrido muito? Laurent não conseguiu responder. Chegaram-se mais para o fogo e estenderam as mãos para as chamas. tinham-nos levado em seguida para a angústia. foi até à cama e voltou com violência.de mencionar de repente o nome de Camilo. Laurent transmitiu a Teresa todo o pavor que sentira. beija-me — repetia Laurent. encolhidos. acocorados. contava que o beijo daquela mulher abrandasse as mil picadas que lhe dilaceravam a carne. sem poder dominar-se mais. e apoiando o dedo na dentada de Camilo. está sarado. A jovem voltou a cabeça ainda mais. ao cadáver estendido numa laje. Num olhar. Chegaram assim à Morgue. de braços abertos. inclinou-se. mas não pôde mentir. soltando um ligeiro grito de dor. — Beija-me — disse. Recuou bruscamente ao contato. Acabara de a ler no rosto branco da jovem. pálida na sua toalete de noite.

trêmula. — Ali — exclamava Laurent aterrorizado. Ao voltar da janela em direção à cama. — Sim..— Oh! Não. com os cabelos em pé. O beijo alcançado pela violência fizera-o cair em si. tão doloroso fora o choque. tornando mais espesso o ambiente com o seu aroma. Dominada pelo terror. Por cerca de uma hora Teresa permaneceu abatida e Laurent mediu o quarto em todos os sentidos.. as flores murchavam. apoiando-se a um móvel. Ficou pregado ao tapete. subitamente. o levara a exigir um beijo de Teresa. Quando se soltou dos dedos dele. . é o seu retrato. apontava para o canto sombrio no qual via o rosto sinistro de Camilo. E olhava para a mulher com a qual viveria e que estremecia. manteve esmagada contra a pele a cabeça de Teresa. O rosto da sua vítima estava esverdeado e convulso. A minha tia devia tê-lo levado para o seu quarto. — O seu retrato — repetiu Laurent. tu sabes. dobrada diante do fogo. Laurent julgou ter uma alucinação. Há sangue. o quadro que pintaste. silenciosamente. O quarto abafava de calor. olhando vagamente para Teresa. obrigando Teresa a passar os lábios pelo pescoço. tomou-lhe a cabeça entre as grandes mãos. desfalecido. que tinham aniquilado os desejos ao matar Camilo. Laurent deu lentamente alguns passos entre o leito e a janela. Não pronunciou uma palavra. Por nada do mundo queria repeti-lo. Baixou o queixo. Depois. soltando lamentos abados pelo pescoço de Laurent.. com o braço estendido. o sofrimento aumentava ao sentir frios os lábios dela sobre a cicatriz em brasa. Ao ouvir o grito surdo que ele soltara. passou violentamente a mão pela boca e cuspiu na lareira. com a testa entre as mãos. voltando-lhe as costas. — Claro. Por instantes. Esqueceu-se com certeza de o fazer. viu Camilo num canto menos iluminado. pela dentada de Camilo.. tal como o vira sobre a laje da Morgue. Caiu sobre a cadeira baixa. o odor horrível. Laurent ficou estupefato. Ambos reconheciam que a paixão estava morta. apertou-a ferozmente. Teresa ergueu a cabeça. Teresa foi apertar-se contra ele. Envergonhado da sua brutalidade. Só o sofrimento. como se a figura do antigo marido a pudesse ouvir. repetia para si próprio que já não amava aquela mulher e que ela também não o amava. um braseiro brilhava sobre as cinzas. — É o seu retrato — murmurou em voz baixa. s chamas na lareira morriam lentamente. De súbito. entre a chaminé e o toucador. aí não. Esta abandonara-se.

murmurando: — Não. — Voltá-lo-emos para a parede. tenho medo — respondeu a jovem com um arrepio. — Suplico-te.. pouco a pouco. que Laurent. recuou. — Oh! Não. Não podia evitar. julgando que o ruído provinha do retrato. que lhe recordavam exatamente os olhos putrefatos do afogado na Morgue. A sua obra espantava-o e esmagava-o pela fealdade atroz. tens razão. assistindo à sua noite de núpcias. sentindo que o retrato o olhava. levou-o a perder a cabeça por completo. Arquejou por momentos. já não teremos medo. O terror fazia-o ver o quadro tal como era. Diante da lareira. destacavam-se sobretudo os dois olhos brancos flutuando nas órbitas flácidas e amareladas. Na sua perturbação. mal feito. pensando que Teresa mentia para o sossegar. ignóbil. Um acontecimento. tão demorado. observando-os. vai tirá-lo. a tua tia retirá-lo-á amanhã. espalhado aquelas tintas opacas que o apavoravam agora. — Vai tirá-lo — disse num sopro. empurrava a jovem na direção da tela. — Não. que lhe seguia os movimentos. a espreitá-lo. Teresa. pode acalmar-se. . E retomou as evoluções de um lado para o outro. de cabeça baixa. não posso. da sombra vinham os olhares baços e mortiços do afogado.O criminoso hesitava em reconhecer a tela. Mas o retrato teve um olhar tão esmagador e ignóbil. empastado. não. — Não. Teresa soltou-se e ele teve um ímpeto de audácia: aproximou-se do quadro e levantou a mão. que Camilo descia da moldura. esquecia que ele próprio tinha desenhado aqueles traços angulosos e duros. ouviu uma espécie de raspar de unhas. naquele canto. Empalideceu. acabou por enlouquecer Laurent de terror e de desespero. não podemos. nada mais via do que os dois olhos brancos olhando para ele fixamente. Distinguiu depois a moldura e. tateando o prego. O pensamento de que Camilo estava ali. que teria feito sorrir qualquer outra pessoa.. mostrando sobre um fundo negro um rosto caricato de cadáver. não conseguindo suportar a sua fixidez. Parecia-lhe que a moldura desaparecia. onde se encontrava. Laurent começou a tremer. relancear os olhos para a tela. vencido e dominado. ocultava-se atrás dela para se furtar aos olhares do afogado. a Teresa e a ele. O criminoso. covardemente. de quando em quando.

Laurent não gostava de gatos e François quase lhe metia medo. as garras saídas. Aquele animal devia saber tudo: havia pensamentos nos seus olhos redondos. "Camilo entrou neste gato. Preparava-se para dar um pontapé em François. Teresa sentara-se de novo diante do fogo. de febril receio.. .Compreendeu depois que o som se dera perto da escada. Laurent aproximou-se e viu o gato da senhora Raquin que ficara por descuido fechado no quarto e dali tentava sair. François mantinha atitude belicosa. Não teve porém coragem de levar para diante o seu intento. — Está alguém na escada — murmurou. Um único desejo os dominava. Tem o ar de uma pessoa. — Não lhe faças mal. a carne e o coração estavam bem mortos. Laurent sentiu-se embaraçado pelo brilho metálico dos olhos. não se atreveram a mexer-se. o desejo de sair daquele quarto onde abafavam. Naquela hora que atravessava. Ambos pensavam no afogado e em ambos o mesmo suor gelado cobriu a testa. Olhou para Teresa. Ocorreu-lhe uma idéia absurda. dando-lhes a sensação de que a sua vítima arranhava a madeira da porta para entrar. à espera de ver a porta abrir-se bruscamente para deixar tombar no chão o cadáver de Camilo. A exclamação de Teresa causou-lhe uma estranha impressão. ouviu-se um miado. que o terror imobilizara.. François teve medo de Laurent e saltou para uma cadeira. Durante cerca de cinco minutos. não pensaram em deitar-se. quando o gato testemunhava os beijos que trocavam. Disse para si mesmo que o animal sabia demasiado e que tinha de o jogar pela janela. com um ar duro e cruel. estranhamente dilatados. o dorso arqueado por surda irritação. nos tempos de volúpia. Depois lembrou-se das brincadeiras de Teresa. mais seco e mais irregular. E assim esperaram o dia. de pêlo eriçado e as patas tensas. Refugiaram-se no fundo do quarto. apressou-se a abrir a porta e o gato desapareceu soltando um miado agudo. Quem poderá vir por ali? A jovem não respondeu. seguia os mínimos movimentos do seu inimigo com tranqüilo desdém. Tenho de matar este animal." Não deu o pontapé. Laurent baixou as pálpebras perante a fixidez daquele olhar. com receio de ouvir François falar-lhe com a voz de Camilo. pensou que o animal ia saltar-lhe à cara para vingar Camilo. Laurent retomou o percurso entre o leito e a janela. fitava o novo dono. agora apagado. Finalmente. O ruído persistia. empurrando a porta com as garras.

nos tempos de paixão.. Quando a pálida claridade se espalhou pelo quarto. À conversação mais simples. sofriam crises atrozes de terror ao trocarem uma simples palavra. trazendo um frio penetrante.. O amante dava o sangue. ao mínimo encontro a sós. — Compreendes — prosseguiu Laurent não me casei para passar as noites em claro.Sentiam verdadeiro mal-estar por estarem encerrados juntos. para se defenderem do afogado e. de mudas censuras que ambos ouviam distintamente na tranqüilidade do ambiente. Teresa erguera-se e desfazia a cama para iludir a tia. — Ah. para fazer crer numa noite feliz.. Estas infantilidades não podem continuar. estranhamente. preferiam que estivesse ali alguém para deixarem de estar sós. incapazes de fazer ressuscitar a paixão. Exasperavam-se. Riu contrafeito. Antes.. para os tirar do cruel embaraço em que se debatiam. Olhou de frente para o retrato de Camilo e viu-o tal como era.. deliravam. sem saber porque ria. nublado e alvacento.. CAPÍTULO XXII As noites seguintes foram mais cruéis ainda. — Farei o possível — respondeu a jovem. Os prolongados silêncios torturavam-nos. completando. a amante os nervos e viviam um no outro. Teresa deitou-lhe um olhar grave e profundo. Laurent. com os teus ares do outro mundo. à noite. estabelecendo entre eles uma espécie de equilíbrio. sentindo a necessidade dos beijos para regularizar o mecanismo do seu ser. Esta noite trata de ficar alegre e de não me assustares. um simples olhar. o seu organismo. não — disse-lhe Laurent com rudeza — espero que durmamos esta noite. banal e pueril. eram carregados de queixas amargas e desesperadas. Os criminosos tinham querido estar juntos. encolhendo os ombros e chamando estúpido a si próprio. A natureza seca e nervosa de Teresa agira estranhamente sobre a natureza espessa e sangüínea de Laurent. as diferenças de temperamento tinham feito daquele homem e daquela mulher um casal poderosamente ligado. por respirarem o mesmo ar. por assim dizer. frente a frente. os nervos sobre- . que tiritava. Mas acabava de se dar um desequilíbrio. Foste tu que me perturbaste. tirou-o da parede. irritavam-se. O dia chegou enfim. agora que estavam os dois tremiam ainda mais. sem falar. exaltavam-se. sentiu-se mais calmo. Estamos sendo crianças.

Os seus remorsos eram puramente físicos. que nascem na carne. Uma existência nervosa. exaltando-lhe os sentidos. Apenas o corpo. Laurent possuía a lentidão. Esta existência decuplicou-lhe as volúpias. adquiriu sentidos menos grosseiros. satisfeito consigo próprio. sentia os terrores. Laurent. não tardam a atingir o cérebro e daí todo o indivíduo. No fundo da carne espessa. respirava pesadamente. imprimiu um caráter tão agudo aos seus prazeres que a princípio ficou como que enlouquecido. Em qualquer momento. Todas as circunstâncias. Teve um momento em que os nervos e o sangue se mantiveram em equilíbrio. o temperamento tornara-se-lhe pouco a pouco o de uma jovem tomada por aguda neurose. a lentidão. Estas alterações. abandonou-se desvairadamente à embriaguez que o sangue jamais lhe tinha proporcionado. Dormia. gordo e mole. a febre do assassínio. as ansiedades dos temperamentos nervosos. Laurent sentira-se lançado de um golpe em pleno eretismo nervoso. O ser assustadiço e espantado.excitados de Teresa tinham imperado. em todas as circunstâncias da existência diária. Eram estas sensações que Teresa transformava em horríveis agitações. as carícias felinas de Teresa. A partir daí Laurent rolara para a vida intolerável. Ela tinha desenvolvido naquele grande corpo. Deu-se então nele estranha modificação. martelandolhe brusca e repetidamente os nervos. a calma prudente. para o eterno temor em que se debatia. a vida sangüínea de um filho de camponês. penetrante e nova. Seria curioso estudar as alterações que por vezes se dão em certos organismos. trazendo com ela a alucinação. Perdeu a calma. Em seguida os nervos dominaram e ele caiu nas angústias que sacodem os corpos e os espíritos transtornados. mal sentia por vezes algumas sensações. os nervos irritados e a carne trêmula tinham medo do afogado. de existência perfeita. o indivíduo novo que acabava de se libertar do camponês espesso e embrutecido. um sistema nervoso de extraordinária sensibilidade. Por fim a insônia viera fatalmente. comia. Antes de conhecer Teresa. . um pouco embrutecido pela gordura. e bebia calmamente. Fora assim que Laurent começara a tremer diante de um canto sombrio como criança medrosa. essa foi uma hora de alegria profunda. que outrora desfrutara a vida mais pelo sangue do que pelos nervos. em conseqüência de determinadas circunstâncias. sob a influência ardente da jovem. os nervos desenvolveram-se e arrastaram-no para além do elemento sangüíneo e este fato modificou a sua natureza. foi-lhe bruscamente revelada com os primeiros beijos da amante. a espera apavorada da volúpia tinham-no enlouquecido. deixou de viver uma vida adormecida.

O miserável não sentia arrependimento.A consciência em nada participava dos seus terrores. quando o terror comum os agitava. sentia ânsias de se lançar de joelhos e de implorar ao espectro de Camilo. no quarto. de afecção nervosa. Nela. chegara a uma espécie de estupor doentio. A idéia de se estenderem lado a lado na cama causava-lhes uma espécie de assustada . Laurent fora para ela o que ela fora para Laurent. que lhe destorciam os sentidos ao mostrarem-lhe o rosto esverdeado e ignóbil da sua vítima. Assim que a noite caía. teria cometido de novo o crime se pensasse que o seu interesse lhe exigia. Amassava vendavais dentro de si. Desde os 10 anos que aquela mulher era perturbada por desequilíbrios nervosos. crises de nervos que voltavam todas as noites. de uma espécie de histeria do crime. sentados diante do fogo. Ficavam à espera que o dia nascesse. quando o espectro não se encontrava junto de si. porém. fluidos poderosos que viriam a desencadear mais tarde autênticas tempestades. assim que ficava só com a mulher. tinha vagos remorsos. como na noite de núpcias. a pedir-lhe perdão jurando apaziguá-lo com o seu arrependimento. Nas primeiras noites não conseguiram deitar-se. quando estava calmo. era realmente o único que se aplicava aos pavores de Laurent. Desde o primeiro abraço amoroso o temperamento seco e voluptuoso que possuía viera à superfície com selvagem energia. a natureza primitiva não tinha feito mais do que exaltar-se desmedidamente. era Teresa e só ela quem provocava cenas desagradáveis à noite. O nome de doença. tudo a impelia para a loucura. devidos em parte à maneira como crescera. Dir-se-iam acessos de uma doença medonha. O seu rosto contorcia-se e os membros ficavam hirtos. No meio dos terrores mostravase mais mulher do que com o atual marido. sacudiam-no terrores infantis. uma espécie de choque brutal. mas a alma permanecia ausente. O corpo sofria horrivelmente. Talvez Laurent se apercebesse destas fraquezas de Teresa. prometia a si próprio ser forte. ele irritava-se e tratava-a com brutalidade. não vivia para outra coisa além da paixão. Abandonando-se cada vez mais à febre que a consumia. a paixão de Teresa transmitira-lhe um mal pavoroso e era tudo. Também Teresa era assaltada por profundos sobressaltos. ou passeando de um lado para o outro. no ambiente frouxo e nauseabundo do quarto onde agonizava o pequeno Camilo. Sofria assim crises periódicas. Os acontecimentos esmagavam-na. via-se que os nervos se lhe contorciam. não tinha o mínimo remorso por ter matado Camilo. segundo ele era Teresa quem estremecia. Durante o dia zombava dos seus temores. repreendia asperamente Teresa. que acusava de o perturbar. lamentações inconfessadas. suores gelados afloravamlhe a pele.

Lutavam aliás contra o sono. Não tinham uma palavra de amor. Cochilavam e descansavam durante o dia. para acordarem em sobressalto sob o efeito de desenlace sinistro de um pesadelo. fingiam ter esquecido o passado. Teresa por detrás do balcão e Laurent na repartição. Sentavam-se nos extremos da lareira e falavam de mil banalidades. Esta visão que tinham tido na noite de núpcias voltava todas as noites. revelando mutuamente estranhos pudores. Tacitamente. mudo e trocista. davam a sensação de acreditar que todos os recém-casados se comportavam de igual maneira nos primeiros dias de casamento. empalidecendo ao menor ruído. o rosto salpicado de manchas lívidas. Parecia-lhes que teriam um doloroso abalo ao mínimo contato. receando o contato da pele. evitaram abraçar-se e nem mesmo olhavam para a cama que Teresa desfazia todas as manhãs. Este cadáver que assistia. pareciam aceitarse. cochilavam durante uma ou duas horas nas poltronas. Ao manterem-se em pé até de manhã. Quando a fadiga os dominava. declarou por sua vez que o calor lhe fazia mal. Ambos tinham a esperança de esconder os seus tédios e os seus temores. Puxou a poltrona para junto do leito e ficou abatida. limitando-se a deitar-se sobre a coberta. Ao fim de duas . tiritando de desconforto. Teresa compreendeu que Laurent devia ver Camilo como ela o via. De vez em quando abria a janela. Não tardou que o abatimento os dominasse a tal ponto que uma noite decidiram estender-se na cama. Fato mais estranho era ainda a atitude que mantinham diante um do outro. deixando o frio das noites de janeiro varrer o quarto com o seu sopro glacial. Não se despiram. esforçando-se por não deixar morrer a conversação. enquanto o marido retomava as passadas pelo quarto. o corpo horrivelmente desfigurado que estava sempre ali. que ficaria melhor a alguns passos da lareira. Laurent acabou por não querer sentar-se. À noite imperava a dor e o temor. tolerar-se mutuamente como doentes que sentem secreta pena pelos padecimentos comuns. imaginavam que Camilo tinha puxado uma cadeira e ocupava aquele espaço e aquecia os pés de uma forma lugubremente escarnecedora. Diante da lareira ficava um largo espaço entre eles. tanto quanto podiam. sem confessar a Teresa a causa da decisão. Durante uma semana os recém-casados passaram assim as noites inteiras. Isso acalmava-lhe a febre. enchia-os de uma ansiedade permanente.repugnância. Quando voltavam a cabeça. mal se falando. com os membros hirtos e doloridos. vergonha de mostrar a sua repugnância e terror. contemplavam-se estupefatos por se verem ali. e nenhum deles parecia pensar na estranheza das noites que passavam e que devia esclarecê-los sobre o verdadeiro estado do seu ser. Era a hipocrisia desastrada de dois loucos. às suas conversas.

. receando dar origem a uma crise ainda mais terrível. todos os seus sentidos eram tomados de alucinação. Assim que os dois criminosos ficavam estendidos sob os mesmos lençóis e fechavam os olhos. Mas os seus lábios estavam tão frios que parecia que a morte se colocara entre as suas bocas. Pensava a seguir que o afogado se deitava entre eles para os impedir de se abraçarem. de sono entrecortado e inquieto. O assassino delirava: — Sim. esta suposição de que o afogado podia puxar-lhe os pés..noites de procedimento idêntico. chegavam a trocar um beijo tímido para ver o que acontecia.. O jovem troçava da mulher e ordenava-lhe que o abraçasse. Teresa tinha um arrepio de horror e Laurent. sem se atreverem a falar ao outro da visão. Laurent esperava alguns momentos e deitava-se. A febre e o delírio apossavam-se deles e aquele obstáculo materializava-se. irritava-se contra ela. Quando uma alucinação lhes fazia ver a máscara pálida do afogado. respiravam o odor infecto daquele montículo de podridão humana. perdidos de angústia. com mais violência. o pobre homem já não sente os ossos a esta hora. envolvendo-se no terror. sim — balbuciava para a mulher tu tens medo de Camilo. silenciosos. Acabou por compreender que o afogado era ciumento. acusava Teresa de ter medo de Camilo. fazia eriçar os cabelos a Laurent.. porém. Quando Laurent. dizendo para si mesmo que não poderia estender a mão sem reter um punhado da carne mole de Camilo. Bem o vejo. Outras vezes. não tens dois sous de coragem. viam-no estendido. como um farrapo esverdeado e desfeito. À presença da imunda companhia de leito mantinha-os imóveis. tocavam naquele corpo. Laurent pensava por vezes tomar violentamente Teresa nos braços. mas não ousava mover-se. este nome. Evitavam confiar um ao outro a causa dos seus arrepios. e encostava-se à parede. contudo. Vamos. Eh! dorme tranqüila. Teresa deitava-se em primeiro lugar. — Por que tremes tu? — exclamava.. pronunciado em voz alta. que diabo! És uma tola. dilacerando-se a si próprio: . Era como que um obstáculo ignóbil que os separava. afastados e com todas as preocupações para não se tocarem. Acometiam-lhes náuseas. Mantiveram-se. Entre eles ficava um grande espaço: ali se deitava o cadáver de Camilo. Mas continuava. — Estás com medo de Camilo?. esgotado. por eu estar deitado contigo. junto da borda. fechavam os olhos.. que ouvia os dentes a bater. deitada no meio da cama e que lhes gelava a carne. enraivecido de desespero. começavam a sentir o corpo úmido da sua vítima. aos pés da cama. aventuraram-se a tirar as roupas e a enfiarem-se entre os lençóis. Acreditas que o teu primeiro marido venha puxar-te pelos pés. dando acuidade intolerável às sensações. Esta idéia. redobrava-lhe a angústia.

como dono. Não sejas criança. quis finalmente puxar a mulher para o peito.. no estranho acabrunhamento da noite de núpcias. No primeiro momento de estupor.. Foi uma revolta soberba de brutalidade. não é verdade?. Laurent tornara-se o marido de uma mulher que já tinha por marido um afogado. Tinha-o jogado na água e ei-lo que não estava completamente morto. por desespero.. Laurent chegou à loucura.. Mas sob os repetidos golpes dos pesadelos uma irritação surda o invadiu e vencendo as fraquezas. enlouquecida e ele estava tão trêmulo como ela. É asneira estragar a nossa felicidade. Vamos. Com a cabeça entre os lençóis. agora que a possuía. Não vês. nem mesmo tentara a cura. sem se lembrar que tudo fizera para possuir Teresa. a sua carne dilacerada pelas mais atrozes crises. Quando os criminosos julgavam ter completado o assassínio e poder dedicar-se em paz às doçuras dos seus amores. ele não sabe que o jogamos na água. minha tonta. — Atiramo-lo à água porque nos atrapalhava — recomeçava Laurent. Durante mais de 15 dias Laurent perguntou a si próprio o que poderia fazer para matar de novo Camilo. a vítima ressuscitava para lhes gelar a cama. a esperança de que os beijos de Teresa lhe curariam as insônias o único fato que o levara ao quarto da jovem. Decidiu-se a varrer Camilo da sua cama. o que é uma vantagem. Quando ali se viu... depois evitara tocar na pele de Teresa.. Vamos. Teresa soltava lamentos abafados.. CAPÍTULO XXIII Pouco a pouco. Sê forte. gelada. conseguira esquecer as razões que o tinham levado ao casamento. preferindo esmagá-la a deixá-la ao espectro da sua vítima.. Teresa não era viúva. e teremos gozado livremente o nosso amor. Fora. Por raiva. E ficara como que esmagado durante três longas semanas. A princípio deitara-se todo vestido. abraça-me. Abriremos o caixão de Camilo e verás o monte de podridão! Talvez deixes de ter medo. O excesso de angústia fê-lo sair deste embrutecimento. que surgia todas as noites para se deitar na cama de Teresa. A jovem abraçou-o. não podendo tocar-lhe sem aumentar os seus sofrimentos. quando morrermos não seremos nem mais nem menos felizes debaixo da terra por termos lançado um imbecil ao Sena. em suma.. — Voltaríamos a faze-lo. Lembrou-se que se casara para .— Tenho de levar-te uma noite ao cemitério. restituiu-lhe a memória.

Era ali que estava a chaga viva. E apertaram-se num abraço horrível. Teresa procurou com os lábios a dentada de Camilo no pescoço grosso de Laurent e sobre ela colou a boca com arrebatamento. Enquanto trocavam os medonhos beijos. pareceu-lhe que lhe tinham aplicado um ferro em brasa sobre o pescoço. Desvairada. decidida a deixar-se consumir pelas carícias daquele homem. E dizia para si mesma que não voltaria a empalidecer ao ver os sinais dos seus próprios dentes. Mas os lábios queimavam e Laurent afastou-a violentamente. A dor e o pavor substituíram-se aos desejos. De cada vez os nervos reagiram. voltaram a enlear-se e de novo se afastaram. debatendo-se no horror das carícias. Várias vezes tentaram vencer a repugnância. esquecer tudo. se retesaram. e apertou-a com violência. os criminosos dormiriam em paz. que se consumiam e martirizavam: não conseguiam apaziguar os nervos aterrorizados. Também a jovem estava no limite das suas forças. Laurent porém protegia o pescoço dos seus beijos. Cada abraço só servia para tornar mais aguda a sua repulsa. sentia picadas pavorosas e repelia-a de cada vez que ela estendia os lábios. curada esta ferida. que levasse as marcas da antiga. mais profunda. esmagando-se ignobilmente entre ambos. Era em vão que se comprimiam em abraços terríveis. causandolhes tamanha exasperação que provavelmente morreriam de enervamento se continuassem . que gritavam de dor. Sentiam claramente que não faziam mais do que aumentar os sofrimentos. ter-se-ia lançado ao fogo se pensasse que as chamas lhe purificariam a carne e a libertariam dos sofrimentos.afastar os pesadelos ao abraçar estreitamente a mulher. dominavam-nos horrorosas alucinações. Lutaram assim. ambos julgaram ter caído num braseiro. Quando os seus membros se tocaram. para que entre eles não ficasse espaço para o afogado. com um gemido surdo. imaginavam que o afogado os puxava pelos pés e imprimia ao leito violentos safanões. Então bruscamente uma noite tomou Teresa nos braços. invencíveis revoltas nervosas. Sentiam repugnância. destruindo os nervos. como se lhes estivessem a enterrar na carne agulhas em brasa. Soltaram um grito e apertaram-se ainda mais. Teresa quis beijar de novo a cicatriz. A jovem compreendia isso e tentava cauterizar o mal com o fogo das suas carícias. ofegantes. gelando-lhes a pele nalguns pontos enquanto o resto do corpo ardia. com risco de passar sobre o corpo do afogado. de fazer uma nova ferida. Correspondeu ao abraço de Laurent. Mas não quiseram ser vencidos. Soltaram-se momentaneamente. sentia uma volúpia acre em pousar a boca naquele ponto onde tinham mergulhado os dentes de Camilo. ou a encontrar nelas um alívio. Os seus beijos foram terrivelmente cruéis. E contudo sentiam sempre os farrapos de Camilo. de lhe arrancar um enorme pedaço de carne. Por um instante teve a sensação de estar mordendo o marido.

para chorar o seu defunto. em cada semana esperavam receber a despedida definitiva. derramavam lágrimas de sangue e perguntavam a si próprios com angústia o que ia ser deles. por assim dizer. parecia. a partir do dia seguinte ao da boda. sem saberem o que fazer. Esses serões tinham corrido um grande perigo quando da morte de Camilo. Durante mais de um ano tinham sentido estes receios. tinham sido vencidos. Por fim. os serões de quinta-feira retomaram a antiga alegria. os separaria para sempre. mas eles obstinavam-se. Enquanto aguardavam estes tempos maus. Sentindo o frio do cadáver que. e que assim ficariam na rua. viam-se na passagem. A crise de amor louco que tinham tentado provocar para aniquilar os seus terrores. na quinta-feira à noite. Diziam para si mesmos que a velha mãe e a viúva partiriam uma bela manhã para Vernon ou para qualquer outro lugar. acabara por encerrá-los mais profundamente no pavor. O pensamento de que a porta da loja acabaria sem dúvida por fechar-se diante deles assustava Michaud e Grivet. o choque foi de uma inaudita violência e julgaram cair em epilepsia. Tinham deixado de se sentir à vontade. como nos tempos de Camilo. perante a derrota. uma crise mais aguda prostrou-os.nos braços um do outro. Arrojados cada um deles para uma borda da cama. Camilo estendeu-se suavemente entre eles. daí em diante. desfrutavam timidamente as derradeiras alegrias. CAPÍTULO XXIV Tal como esperava o velho Michaud ao trabalhar para o casamento de Teresa e de Laurent. por entre os soluços. agora. Os convidados tinham passado a aparecer receosamente naquela casa enlutada. não ousando expandir-se nem rir em face das lágrimas da senhora Raquin e dos silêncios de Teresa. Este combate contra o próprio corpo exaltara-os até ao paroxismo. Tinham tentado um meio supremo. Não tinham conseguido escorraçá-lo da cama. sonhando com intermináveis partidas de dominó. compreendiam que. errando lamentavelmente. parecia-lhes escutar as risadas de triunfo e de escárnio do afogado. que de novo deslizava para debaixo dos lençóis. E. na ânsia de o vencer. romperam em soluços. que roubavam cada . repetindo constantemente que talvez não voltassem mais. que se agarravam aos seus hábitos com o instinto e a obstinação de animais. não teriam coragem para trocar um único beijo. febris e martirizados. enquanto Laurent chorava de impotência e Teresa tremia à idéia de que ocorresse ao cadáver a fantasia de tirar proveito da vitória e apertá-la por sua vez entre os braços putrefatos. como senhor legítimo.

sem nunca as abraçar. Pela sua atitude seráfica e confiante via-se que. assim que o dia dissipava os terrores da noite. ao encher o estômago. podiam pôr de lado a pequena hipocrisia e instalar-se francamente. Depois da refeição. A jovem falou de pôr aquela gente na rua. o espectro que os gelava. as suas reflexões estúpidas.serão passado em volta da mesa da sala de jantar. já não receavam que lhes fosse interditada. os convidados podiam rir sem afligir ninguém e isso mesmo deviam fazer para alegrar a excelente família que tão bem os recebia. Grivet e Michaud fizeram uma entrada triunfal. diante da enorme chávena de café com leite que Teresa lhe preparava. Laurent sentia-se renascer no ar fresco. Tinham vencido. Teresa cedeu. A recordação de Camilo já não existia. Foi por esta altura que a vida dos esposos se desdobrou de certa maneira. acabava de ter lugar uma revolução. A partir de então. viram com felicidade estender-se à sua frente uma longa série de agradáveis serões. readquiria pouco a pouco o domínio de si mesmo. Fora nestas circunstâncias desesperadas que o egoísmo levara o velho Michaud a dar um golpe de mestre. A sala de jantar era novamente deles. fora escorraçado pelo marido vivo. daqueles imbecis que os protegiam contra qualquer suspeita. respirava profundamente estes sopros de vida nova que caem dos céus de abril e de maio. cada semana reunia uma vez em volta da mesa aquelas cabeças mortas e grotescas que outrora exasperavam Teresa. era necessário que o presente se assemelhasse ao passado tanto quanto possível. mal podendo descer à loja. Porém Laurent fez-lhe compreender que semelhante despedida seria um erro. Embaixo o rio corria com ruídos acariciadores. O passado ressuscitava e com ele as suas alegrias. sorria maternalmente a vê-lo comer. E em todas as semanas existia um serão de quinta-feira. Grivet e Michaud. Laurent substituía Camilo. para eles. e dirigia-se para a repartição caminhando despreocupadamente. desapareciam todos os motivos para tristezas. o marido morto. era sobretudo necessário conservar a amizade da polícia. bem recebidos. bebia um pequeno copo de conhaque. Ele dizia "até logo à tarde" à senhora Raquin e à Teresa. Só se sentia à vontade. impossibilitada. cochilar diante um do outro ao ruído seco das pedras de dominó. Laurent vestia-se a toda a pressa. de um rendilhado leve verde-pálido. que há quase 18 meses ali iam com o pretexto de consolar a senhora Raquin. as árvores do cais cobriam-se de folhas. casando a viúva do afogado. procurava o sol. os convidados. instalaram-se e disseram de enfiada os antigos gracejos. Entraram como pessoas felizes. irritavam-na nas suas gargalhadas grosseiras. os raios das primeiras manhãs de sol tinham uma tepidez suave. Ficava então completamente recomposto. Na quinta-feira seguinte ao casamento. detendo-se para olhar os reflexos de prata que deslizavam . De manhã. A senhora Raquin. Ao engolir o pão torrado. no alto. só retomava o ar calmo e egoísta na sala de jantar. A primavera chegava.

com o estômago cheio e o rosto refrescado. Assaltavam-na idéias de ordem e de arrumação. Até ao meio-dia estes trabalhos caseiros mantinham-na de pé. embrutecido e cheio de tédio. na loja como em casa. acabava por chegar à loja. Sentia a carne flexível. lavando a louça. limpando o pó e os quartos. para escutar a agitação do cais. a senhora Raquin desolava-se por vê-la constantemente a levantar-se para ir buscar os pratos. que lhe acalmava os nervos. o seu organismo teria estalado sob a tensão do sistema nervoso. vencida pelas vigílias. de cansar os membros tensos. Sem estes momentos de calma. A idéia fixa de Camilo desvanecia-se. onde passava o dia inteiro a bocejar. À tarde. depois de ter desejado a hora da saída desde a manhã. À mesa. varrendo. impregnada contudo de vago encanto. caminhava ao longo do cais. ativa e silenciosa. Por mais lentamente que caminhasse. deixando-se penetrar pelos odores acres da manhã e desfrutando com todos os sentidos a hora clara e feliz. sonhava vagamente com uma nova existência de lazer e essa idéia bastava para o ocupar até à tarde. pensava então no afogado. sem lhe deixarem tempo para pensar em algo mais do que as teias de aranha que pendiam do teto e a gordura que sujava os pratos. É evidente que não pensava em Camilo. e mergulhava numa espécie de vazio tépido e reparador. dizendo que estava tudo em desordem e sujo. Depois da refeição. a esperar a hora da saída. sentia-se à vontade. Tinha dispensado a mulher da limpeza. Jamais a recordação da loja da passagem o vinha perturbar. da mesma forma que um homem corajoso refletiria acerca de um pavor tolo que tivesse sentido. mal chegando a baixar as pálpebras. A verdade é que tinha necessidade de andar. ralhava-lhe e Teresa respondia que era preciso fazer economias. Em seguida metia-se na cozinha e preparava o almoço. a jovem vestia-se e decidia-se finalmente a juntar-se -à tia atrás do balcão. Teresa experimentava as mesmas sensações. de cabeça vazia. Não passava de um empregado como os outros. . A única idéia que o dominava então era a de apresentar a demissão e alugar um ateliê. reencontrava a tranqüilidade espessa e chegava à repartição. o espírito livre. do outro lado do rio. saía com pena. Não passava de leve sonolência. cochilava. Assaltava-a então a sonolência. esperava-o o pavor. por vezes dava consigo a contemplar maquinalmente a Morgue. Ela aliás não adormecia. cedia ao voluptuoso entorpecimento que dela se apossava assim que se sentava. passava pelo repouso profundo dos doentes aos quais os sofrimentos deixam repentinamente de afligir. Enquanto Laurent não estava junto de si. Não parava durante toda a manhã. de fazer qualquer coisa. a eles ia buscar as forças necessárias para continuar a sofrer e a ser presa do terror na noite seguinte. perdida no fundo de um sonho de paz. sentia-se enternecida e simultaneamente incomodada pela atividade da sobrinha.pelo Sena. surdamente perturbado e inquieto. Ali. fazendo as tarefas que outrora a teriam enfadado.

quando entrava um cliente, abria os olhos e aviava os poucos sous de mercadoria pretendida, tombando de novo no seu devaneio flutuante. Passava assim três ou quatro horas, perfeitamente feliz, respondendo por monossílabos à tia, abandonando-se com profundo prazer ao delíquio que lhe esvaziava o pensamento e que a prostrava. De vez em quando lançava uma olhadela para a passagem, sentindo-se ainda mais à vontade com o tempo cinzento, em que melhor escondia o seu abatimento na sombra. A rua úmida e ignóbil, cruzada por uma multidão de pobres diabos encharcados, cujos guarda-chuvas gotejavam sobre as lajes, parecia-lhe o caminho de um lugar perigoso, uma espécie de corredor sujo e sinistro onde ninguém a iria procurar e perturbar. Por momentos, vendo os clarões terrosos que se arrastavam à sua volta, sentindo o odor acre da umidade, imaginava que acabava de ser enterrada viva; via-se dentro da terra, no fundo de uma fossa comum onde os mortos se agitavam. E este pensamento consolava-a, acalmava-a; dizia para si mesma que estava agora em segurança, que ia morrer, que não sofreria mais. Outras vezes precisava ficar de olhos abertos; Suzana visitava-a e ficava bordando junto de si toda a tarde. A mulher de Olivier, com o seu rosto flácido, os gestos lentos, agradava-lhe agora e Teresa sentia um estranho alívio em olhar para aquela pobre criatura desfeita. Fizera dela uma amiga, gostava de vê-la a seu lado, sorrindo com um sorriso pálido, vivendo apenas em parte, introduzindo na loja um cheiro tênue de cemitério. Quando os olhos azuis de Suzana, de uma transparência vítrea, se fixavam nos seus, sentia um frio benéfico até ao fundo dos ossos. Teresa permanecia assim durante quatro horas. Subia então para a cozinha, buscando de novo a fadiga, preparando o jantar para Laurent com uma pressa febril. E quando o marido se recortava no limiar da porta, a garganta fechava-se-lhe, a angústia torcia de novo todo o seu ser. Dia após dia, as sensações de ambos eram quase as mesmas. Durante o dia, em que não estavam juntos, desfrutavam horas deliciosas de repouso; quando a noite os reunia, um pungente mal-estar envolvia-os. Por outro lado, eram serões calmos. Teresa e Laurent, que estremeciam à idéia de entrar no quarto, faziam prolongar o serão o mais possível. Meio deitada numa larga poltrona, a senhora Raquin ficava entre eles e conversava com a sua voz plácida. Falava de Vernon, sempre pensando no filho mas evitando pronunciar o seu nome por uma espécie de pudor; sorria aos filhos queridos e fazia para eles projetos de futuro. O candeeiro projetava-lhe no rosto branco clarões pálidos; as suas palavras adquiriam extraordinária doçura no ambiente morto e silencioso. De cada lado, os dois criminosos, mudos, imóveis, parecendo ouvi-la com recolhimento; ria verdade, não procuravam seguir o sentido das divagações da pobre senhora,

sentiam-se simplesmente satisfeitos por escutar o som das palavras doces que os impediam de ouvir o clarão dos seus pensamentos. Não ousavam olhar-se e fitavam a senhora Raquin para terem uma atitude aceitável. Nunca falavam em deitar-se; ficariam ali até de manhã, no tagarelar acariciador, no ambiente calmo que criava à sua volta a velha capelista, se não fosse ela própria a manifestar a vontade de ir para a cama. Só então deixavam a sala de jantar para se recolherem ao quarto com desespero, como quem se lança num precipício. A estes serões íntimos, cedo preferiram os serões de quinta-feira. Quando estavam sós com a senhora Raquin não podiam aturdir-se; o fino fio de voz da tia, a sua alegria enternecida, não abafavam os gritos que os dilaceravam. Sentiam chegar a hora de se deitarem e estremeciam quando o acaso lhes encaminhava o olhar para a porta do quarto; a espera do momento em que estariam a sós tornava-se cada vez mais cruel à medida que a noite avançava. Às quintas-feiras, pelo contrário, entonteciam-se com tolices, cada um esquecia a presença do outro, sofriam menos. A própria Teresa acabou por desejar ardentemente o dia da recepção. Se Michaud e Grivet não viessem, ela iria procurá-los. A existência de estranhos na sala de jantar entre si e Laurent fazia-a sentir-se mais calma; desejaria que houvesse sempre convidados, ruído, qualquer coisa que a aturdisse e a isolasse. Perante as pessoas, manifestava uma espécie de nervosa vivacidade. Também Laurent reencontrava os pesados gracejos de camponês, as grandes gargalhadas, os gracejos de antigo pintor. As recepções jamais tinham sido tão alegres e ruidosas. Era desta maneira que uma vez por semana Teresa e Laurent conseguiam estar frente a frente sem estremecer. Em breve porém um receio os invadiu. A paralisia dominava pouco a pouco a senhora Raquin e não tardaram a prever o dia em que ficaria pregada à poltrona, impotente e idiota. A pobre velha começava a balbuciar frases desconexas; a voz enfraquecia-lhe, os membros morriam um após outro. Transformava-se num objeto. Teresa e Laurent viam com terror desaparecer o ser que os separava ainda e cuja voz os arrancava aos pesadelos. Quando a inteligência abandonasse a antiga capelista e esta ficasse muda e hirta no fundo da poltrona, encontrarse-iam sós; à noite não poderiam escapar a um terrível encontro a sós. Então o terror começaria às seis horas em lugar de ser à meia-noite; enlouqueceriam. Empenharam todos os esforços em conservar à senhora Raquin a saúde que lhes era tão preciosa. Mandaram chamar médicos, rodearam-na dos maiores cuidados, chegando mesmo a encontrar nessa tarefa de vigilantes o esquecimento, um apaziguamento que os levou a redobrar de desveles. Não queriam perder quem lhes tornava os serões suportáveis; não

queriam que a sala de jantar, toda a casa, se tornasse um local sinistro e cruel como o seu quarto. A senhora Raquin ficou particularmente sensibilizada pelos diligentes cuidados que lhe prodigalizavam; por entre lágrimas, felicitava-se por os ter unido e por lhes ter abandonado os seus 40 e tal mil francos. Depois da morte do filho, jamais contara com semelhante afeição a rodear-lhe as últimas horas; a sua velhice estava sendo acalentada pela ternura dos seus filhos queridos. Não sentia a implacável paralisia que, apesar de tudo, a imobilizava dia após dia. Entretanto, Teresa e Laurent continuavam a sua dupla existência. Em cada um deles havia dois seres bem distintos: um nervoso e aterrorizado que estremecia assim que caía o crepúsculo, e o outro, entorpecido e descuidado, que respirava à vontade com o nascer do sol. Viviam duas vidas, gritando de angústia a sós, e sorrindo calmamente diante de outras pessoas. Nunca o seu rosto, em público, deixava adivinhar os sofrimentos que os dilaceravam na intimidade; pareciam calmos e felizes, ocultando instintivamente os seus males. Ninguém teria suspeitado, ao vê-los tão tranqüilos durante o dia, das alucinações que os torturavam à noite. Tomá-los-iam por um casal abençoado pelo céu, vivendo em plena felicidade. Galantemente, Grivet apelidava-os de "os pombinhos". Quando os seus olhos exibiam olheiras provocadas pelas prolongadas vigílias, perguntava-lhes, gracejando, quando era o batismo. E todos riam. Laurent e Teresa empalideciam ligeiramente e conseguiam sorrir; habituavam-se aos gracejos pesados do velho empregado. Enquanto permaneciam na sala de jantar, dominavam os terrores. Não se podia adivinhar a horrível mudança que se produzia neles quando se encerravam no quarto. Sobretudo à quintafeira a modificação era de uma brutalidade de tal violência que parecia ter lugar num mundo sobrenatural. O drama das suas noites, pela estranheza, pelos arrebatamentos selvagens, ultrapassava tudo o que se pode imaginar e ficava profundamente oculto no fundo do seu ser martirizado. Se falassem, julgá-los-iam loucos. — Como são felizes, estes apaixonados! dizia muitas vezes o velho Michaud. — Não falam muito, mas nem por isso pensam menos. Aposto que se devoram de carícias quando não estamos aqui. Era esta a opinião dos habituais convivas. Chegou-se a dar Teresa e Laurent por casal modelo. Toda a passagem da Ponte Nova celebrava o afeto, a felicidade tranqüila, a permanente luade-mel dos dois esposos. Só eles sabiam que o cadáver de Camilo se deitava entre ambos; só eles sentiam, por debaixo do aspecto calmo do seu rosto, as contrações dolorosas que, à noite, lhes repuxavam horrivelmente as feições e alteravam a expressão plácida da sua fisionomia numa máscara ignóbil e dolorosa.

CAPÍTULO XXV

Decorridos quatro meses, Laurent pensou em colher do casamento os benefícios que a si próprio prometera. Teria abandonado a mulher e fugido diante do espectro de Camilo três dias depois da boda, se os seus interesses não o tivessem pregado na loja da passagem. Suportava as noites de terror, permanecia no meio das angústias que o abafavam para não perder os proveitos do seu crime. Deixando Teresa voltava para a miséria, era forçado a manter o emprego; ficando com ela podia, pelo contrário, satisfazer os seus apetites de preguiça, viver fartamente, sem nada fazer, dos rendimentos que a senhora Raquin colocara em nome da mulher. É de crer que teria desaparecido com os 40 mil francos, se os pudesse realizar; mas a velha capelista, aconselhada por Michaud, tivera a prudência de salvaguardar no contrato os interesses da sobrinha. Laurent via-se, assim, ligado a Teresa por um laço poderoso. Em compensação pelas atrozes noites que passava, queria ao menos viver em feliz ociosidade, bem alimentado, bem agasalhado, tendo na algibeira o dinheiro necessário para satisfazer os caprichos. Apenas por este preço admitia deitar-se com o cadáver do afogado. Uma noite anunciou à senhora Raquin e à mulher que se despedira e que deixaria a repartição no fim da quinzena. Teresa esboçou um gesto de inquietação. Ele apressou-se a acrescentar que ia alugar um pequeno ateliê onde voltaria a pintar. Falou demoradamente sobre os aborrecimentos no emprego e sobre os largos horizontes que a arte lhe abria; agora que tinha algum dinheiro e que podia tentar o êxito, queria ver se era capaz de grandes coisas. A tirada que declamou a este propósito escondia simplesmente o feroz desejo de voltar à antiga vida de ateliê. com os lábios comprimidos, Teresa não respondeu; não entendia que Laurent gastasse a pequena fortuna que assegurava a sua liberdade. Quando o marido a apertou com perguntas para lhe arrancar o consentimento, deu algumas respostas secas. Fez-lhe compreender que, se deixava a repartição, nada mais ganharia e ficaria completamente às suas custas. Enquanto Teresa falava, Laurent observava-a de modo tão penetrante que a perturbou e lhe susteve na garganta a recusa que se preparava para dar; nos olhos do cúmplice julgou ler este ameaçador pensamento: "Digo tudo, se não consentes." Teresa começou a balbuciar. A senhora Raquin disse por sua vez que o desejo do seu querido filho era bastante justo e que era necessário fornecer-lhe os meios de se tornar um homem de talento. A boa senhora mimava Laurent como tinha mimado Camilo; estava sensibilizada pelas carícias que o jovem lhe prodigalizava, pertencia-lhe e submetia-se sempre à sua opinião.

Ficou, pois, decidido que o artista alugaria um ateliê e que disporia de 100 francos por mês para as diversas despesas que teria de fazer. O orçamento da família ficou determinado da seguinte maneira: os lucros da capelista pagariam a renda da loja e da casa e quase chegariam para as despesas cotidianas; Laurent retiraria o aluguel do ateliê e os seus 100 francos mensais dos 2.000 e algumas centenas de francos do rendimento; os rendimentos remanescentes seriam aplicados de acordo com as necessidades comuns. Desta forma não se mexeria no capital. Teresa ficou um pouco mais tranqüila. Fez jurar ao marido que nunca ultrapassaria a soma que lhe ficava destinada. Aliás, dizia para si mesma que Laurent não podia apoderar-se dos francos sem ter a sua assinatura, e ela firmemente prometia não assinar fosse que papel fosse. No dia seguinte Laurent alugou um pequeno ateliê que cobiçava há um mês, no fundo da Rua Mazarino. Não queria deixar o emprego sem possuir um refúgio para passar tranqüilamente os dias, longe de Teresa. No fim da quinzena, disse adeus aos colegas. Grivet ficou estupefato com o despedimento. Um homem novo – dizia — que tinha diante de si um belo futuro, um jovem que em quatro anos atingira o vencimento que ele, Grivet, levara 20 anos para alcançar! Maior foi o seu espanto quando Laurent lhe disse ir dedicar-se inteiramente à pintura. O artista instalou-se finalmente no seu ateliê. Era uma espécie de águas-furtadas, de forma quadrada, com cerca de cinco ou seis metros; o teto inclinava-se bruscamente, em queda abrupta, com uma larga janela que deixava passar uma luz branca e crua sobre o chão e as paredes enegrecidas. Os ruídos da rua não chegavam àquelas alturas. A janela, silenciosa, embaraçada, abrindo-se para o céu, parecia um buraco, um buraco aberto em argila cinzenta. Laurent mobilou o ateliê modestamente; duas cadeiras sem palha, uma mesa que encostou à parede para que não caísse, um velho aparador de cozinha, a caixa das tintas e o antigo cavalete; todo o luxo consistia num vasto divã que comprou por 30 francos num saldo. Ficou 15 dias sem pensar em mexer em pincéis. Chegava entre as oito e as nove horas, fumava, deitava-se no divã, esperava pelo meio-dia, satisfeito por ser manhã e ter ainda diante de si longas horas de dia. Ao meio-dia ia almoçar e apressava-se a voltar, para estar só, para não ver por mais tempo o rosto pálido de Teresa. Fazia então a digestão, dormia, de ventre para cima, até à noite. O seu ateliê era um lugar de paz onde não tremia. Um dia, a mulher pediu-lhe para visitar o seu querido refúgio. Recusou e como, não obstante a recusa, ela foi bater à porta, não abriu. Disse-lhe depois que tinha passado o dia no museu do Louvre. Temia que Teresa introduzisse com ela o espectro de Camilo.

defronte do Instituto. Parecia-lhe que Laurent assumia ares distintos.A ociosidade acabou por lhe pesar. — Tornaste-te um belo rapaz — exclamou o artista sem se conter — tens o aspecto de um embaixador. o seu espanto redobrou. Comprou uma tela e tintas e pôs mãos à obra. todo o corpo revelava mais dignidade e leveza. Começou uma cabeça de homem. Aliás. trabalhava durante duas ou três horas todas as manhãs e empregava as tardes a vaguear através de Paris e pelos arredores. resolveu pintar ao sabor da fantasia. É certo que não subia os cinco andares para ver as novas obras de Laurent. — Ah! Meu pobre Laurent. — Casado. A que escola pertences. A verdade é que o pintor não reconhecia no marido de Teresa o rapaz bronco e vulgar que conhecera noutros tempos. — Casei-me — respondeu ele embaraçado. duas cabeças de mulher e três de homem. E que fazes agora? — Arrendei um pequeno ateliê. então? O exame a que estava se abruptamente. depois falou dos seus projetos de futuro com voz febril. de manhã. — Como. O amigo olhava-o espantado e o fato perturbava-o e inquietava-o. Laurent contou o seu casamento em poucas palavras. Emagreceste. que parecia não ter pressa de o deixar. que alcançara um belo êxito no último Salão.. e cada peça sobressaía em impressões magníficas do fundo cinza claro. Sem dinheiro suficiente para pagar a modelos. Foi ao regressar de um desses longos passeios que encontrou. pinto um pouco. o pintor estava desejoso de visitar o ateliê do antigo camarada. — De boa vontade — respondeu este. sem se preocupar em pintar ao vivo. Sem compreender as modificações que via. és tu! — exclamou o pintor. Quando chegou ao cimo e relanceou os olhos pelas telas penduradas nas paredes. nunca te teria reconhecido. não ficava fechado muito tempo. O artista aproximou-se vivamente e. — Queres subir por um instante ao meu ateliê? — perguntou por fim ao amigo. sem mesmo procurar ocultar a sua surpresa: . tu! Isso espanta-me mais do que ver-te tão esquisito. estupefato. pintadas com autêntica energia. o traço era cheio e firme. Estás na última moda. era apenas a vontade de satisfazer a curiosidade.. que certamente lhe causariam náuseas. o seu rosto tinha-se afilado e tinha uma certa palidez de bom gosto. o antigo amigo de colégio. Estavam ali cinco estudos.

Laurent tornara-se lentamente um artista como se tornara assustadiço. via passar estranhas criações. Partiu com o seu espanto.. cego pelo espesso vapor de saúde que o rodeava. Compreendes. na seqüência do enorme desequilíbrio que lhe alterara a carne e o espírito. São esboços que vão servir-me para um grande quadro que estou preparando. mas possuíam uma singularidade tal e um caráter tão poderoso que revelavam um sentido artístico dos mais desenvolvidos. o cérebro desvairado parecia-lhe imenso e. nunca te julgaria capaz de pintar assim. és tu verdadeiramente o autor disto? O pintor não se atreveu a responder: "Porque estas telas são de um artista e tu nunca passaste de um ignóbil borra-botas. mais magro. agudas e delicadas sensações. a sério. trêmulo. abafava sob o peso do sangue. olhou uma vez mais para as telas e disse para Laurent: — Só tenho uma censura a fazer-te: é a de que todos os teus estudos têm um ar de família. fantasias de poeta." Ficou longo tempo em silêncio diante dos estudos. É difícil à análise penetrar em tais profundezas. o seu pensamento delirava e elevava-se até ao êxtase do gênio. O amigo desistiu de encontrar explicação para o nascimento do artista. depois que matara. E fora desta maneira que os seus gestos tinham adquirido súbita distinção. Antes. As próprias mulheres têm não sei que aspecto violento que lhes dá o ar de homens disfarçados. Antigamente. voltou-se para o autor: — Francamente. Não podia adivinhar a espantosa convulsão que modificara aquele homem.— Foste tu que fizeste isto? — perguntou. Onde diabo aprendeste a ter talento? É coisa que habitualmente não se aprende. — Sim. as sensações vivas e penetrantes dos temperamentos nervosos. Quando acabou de examinar as telas. Sem dúvida um fenômeno estranho tivera lugar no organismo do assassino de Camilo. criando-lhe nervos femininos. se queres . E observava Laurent. a sua carne tinha-se adelgado. transformadas de um só golpe em obras muito pessoais e vivas. fora por isso que as suas obras eram belas. a doença de certo modo moral. Certo é que aqueles estudos eram desajeitados. cuja voz lhe parecia ser mais suave e cada gesto ter uma espécie de elegância. porém. Dir-se-ia pintura vivida. O amigo de Laurent nunca tinha visto esboços tão prometedores. inoculava-lhe um sentido artístico de esquisita lucidez. na brusca amplitude do pensamento. Na vida de terror que levava. agora. Estas cinco cabeças parecem-se umas com as outras. — Vejamos.. a neurose em que todo o seu ser se debatia. manifestava a inspiração inquieta.

E surgiram-lhe cinco Camilos à sua frente. já no patamar. A segunda representava uma jovem loura. Dir-se-ia Camilo disfarçado de velho. adquirindo a caracterização que o pintor lhe queria dar. Lentamente. terás de modificar algumas das fisionomias. Cada uma delas mostrava uma ligeira ruga do lado esquerdo da boca. rindo: — Na verdade. os teus personagens não podem ser todos irmãos. por aterradora singularidade. isso faria rir. que repuxava os lábios num esgar. Esta ruga. Laurent reentrou no ateliê. como que esmagadas pelo mesmo sentimento de horror. julgou ver as figuras animarem-se. avançou até às telas. e a jovem olhava-o com os olhos azuis da sua vítima. o pintor. As três restantes figuras revelavam cada uma delas um ou outro traço do afogado. Recuou e sentou-se no divã. com uma comprida barba branca. deu-me grande satisfação voltar a ver-te. — Ele tem razão — murmurou — parecem-se todas. imprimia a todas um sinal de ignóbil parentesco. com uma ponta de carvão esboçou uma figura em poucos traços. Laurent compreendeu que tinha olhado demais para Camilo na Morgue. meu velho. cinco Camilos que os seus próprios dedos tinham poderosamente criado e que. Laurent apagou abruptamente o esboço e tentou outro. um suor gelado molhava-lhe as costas. Parecem-se com Camilo. acrescentou. Quando o amigo lhe fizera a observação de que todas as cabeças tinham um ar familiar. Colocou uma tela nova no cavalete. A figura lembrava Camilo. A primeira era um rosto de velho. terrível. cuja recordação o seguia para todo o lado. Saiu do ateliê e. voltara-se bruscamente para encobrir a palidez. Quis saber de pronto se era senhor da sua mão.. sem poder afastar os olhos das cabeças esboçadas.fazer um quadro com esses esboços. adquiriam todas as idades e todos os sexos. sem que disso desse conta... Levantou-se. Durante uma hora debateu-se . se ele próprio o povoasse de retratos da sua vítima. por debaixo da barba. vivamente perturbado. mas mantendo sempre o caráter geral da sua fisionomia. uma a uma. Pouco a pouco. Meu Deus! Estarás tu normal? Desceu. Agora vou passar a acreditar em milagres. Existia ainda uma outra semelhança. Um súbito receio o assaltou: o de não poder desenhar uma cabeça sem que lhe saísse a do afogado. de moça. entre as cabeças: pareciam sofredoras e aterrorizadas. à medida que as contemplava. A imagem do cadáver tinha-se-lhe gravado profundamente. e agora a sua mão. Essa fatal semelhança já lhe tinha saltado à vista. o artista adivinhava o queixo magro de Camilo. Ao mesmo tempo dizia para si mesmo que morreria de pavor no seu ateliê. despedaçou as telas e lançou-as para longe. que Laurent se recordou de ter visto na face convulsa do afogado. traçava sempre as linhas daquele rosto atroz.. que se remexia no divã.

surgia sempre na tela. de virgens com auréolas. criança e bandido. pensando com desespero no seu grande quadro. guerreiro. quando conversava sossegadamente com Teresa e Laurent. tomou-lhe a garganta e envolveu-lhe o corpo. não mais se atreveria a trabalhar. Acabou por desenhar animais. a cabeça pálida e assustada do afogado. Em cada tentativa surgia a cabeça do afogado. malgrado seu eram essas as linhas que traçava. Estava muda e imobilizada. deteve-se no meio de uma frase. Bem procurava dominar a vontade. exagerou as feições. Quando quis gritar. chamar por socorro. Até ali esboçara com rapidez. as figuras que se parecessem todas entre si fariam rir. Não podia agora pensar mais nele. cães e gatos. O pensamento de que os seus dedos tinham a faculdade fatal e inconsciente de reproduzir constantemente o retrato de Camilo. caricato e dolorido. Uma noite. temendo sempre ressuscitar a sua vítima à mínima pincelada. os cães e os gatos tinham uma vaga semelhança de Camilo. de crianças louras e rosadas. empenhou-se então a utilizar a ponta de carvão com lentidão. como lhe dissera o amigo.contra a fatalidade que lhe guiava os dedos. inventou cabeças grotescas e não conseguiu mais do que tornar mais horríveis os retratos flagrantes da sua vítima. Uma raiva surda apoderou-se de Laurent. Imaginava o que teria sido a sua obra. o afogado renascia sempre. era sucessivamente anjo. Bruscamente. A língua tornara-se-lhe de pedra. não mais deveria pintar. As mãos e os pés estavam hirtos. a boca escancarada: tinha a sensação de que a estrangulavam. fez monstruosos perfis. evitar as linhas que tão bem conhecia. Furou a tela com um soco. de velhos bandidos cheios de cicatrizes. virgem. a paralisia. que há vários meses lhe subia ao longo dos membros. de guerreiros romanos com elmo. O artista esboçou sucessivamente as cabeças mais diversas. e exasperou-o. obedecia aos músculos e aos nervos revoltados. Se queria viver sossegadamente no seu ateliê. homens e mulheres. cabeças de anjos. Se assim fosse. apenas balbuciou sons roucos. tinha a consciência de que doravante só desenharia a cabeça de Camilo e. sempre prestes a entrevá-la. O resultado foi o mesmo: Camilo. . via sobre os ombros dos personagens. o singular espetáculo que evocava pareceu-lhe de um ridículo atroz. Parecia-lhe que aquela mão já não lhe pertencia. fê-lo olhar para a mão com terror. Então Laurent tentou a caricatura. CAPÍTULO XXVI A crise que ameaçava a senhora Raquin declarou-se.

fixou neles olhares suplicantes. Quando a senhora Raquin adormecia e baixava as pálpebras. Compreenderam então que não tinham diante de si mais do que um cadáver semivivo. procurando acreditar que a senhora Raquin falaria e poderia desse modo lembrar-lhes a sua presença. sucumbida. cobriramna de perguntas tentando saber a causa do seu sofrimento. mantendo uma imobilidade que apavorava. o rosto. no fundo. um local terrível onde se erguia o espectro de Camilo. transportava-a para a poltrona e. A partir desse dia. as faces e a boca estavam como que petrificadas. a manter-se acordada. a vida tornou-se-lhes intolerável. De manhã Laurent levantava-a. à noite. rolando rapidamente nas órbitas. Desde que estava enferma era necessário cuidar dela como de uma criança.Teresa e Laurent levantaram-se. Aquele cadáver já não os separava. Eram então dominados pelos terrores noturnos e a sala de jantar tornava-se. Era igualmente ele quem empurrava a . assim. Teresa e Laurent. era verdadeiramente o de um cadáver. só os olhos mexiam. como um objeto e eles ficavam sós. Sem poder responder. em que o confundiam com os móveis. que viveriam daí em diante permanentemente a sós. agora inteiramente lívido e mudo. Jazia numa poltrona. nos dois extremos da mesa. apavorados pelo raio que fulminara a velha capelista em menos de cinco segundos. Passaram serões cruéis. Obrigavam-na. Os cuidados que lhe prodigalizavam forçavam-nos a sacudir os pensamentos. que via e ouvia mas não podia falar. ela continuou a fitá-los com profunda angústia. Consideravam-na uma distração que os arrancava aos pesadelos. como um embrulho. Se a conservavam. Esta crise desesperou-os. Aquele rosto flácido e descorado teria sido espetáculo insustentável para outros. Sofriam assim quatro ou cinco horas mais por dia. faziam ruído até a paralítica erguer as pálpebras e os fitar. como o quarto. havia momentos em que o esqueciam. Instalavam sempre a velha paralítica sob a luz crua do candeeiro. voltava a colocá-la no leito. era pesada e ele tinha de empregar toda a sua força para lhe pegar delicadamente e transportá-la. era porque os seus olhos ainda viviam e sentiam por vezes algum alívio em vê-los mover-se e brilhar. choravam antes por si. embaraçados e inquietos. Dir-se-ia a máscara desvanecida de uma morta. se não se livraram dela. A partir do crepúsculo estremeciam. baixando o candeeiro para não se verem. na qual tivessem sido colocados dois olhos com vida. deixando de sentir alguém consigo. para lhe iluminar bem o rosto e terem-na permanentemente à sua frente. mas eles sentiam uma necessidade tal de companhia que repousavam nele o olhar com verdadeira alegria. Quando. pouco se preocupavam com os sofrimentos da paralítica. diante da impotente velha que não mais lhes adormecia o pavor com as doces tagarelices.

mas também as mãos lhe morreram. não sabiam que comportamento deviam assumir. conseguindo escrever numa ardósia e por essa forma pedir aquilo de que tinha necessidade. A fim de não ficarem sós. sem nunca se deixarem perturbar pela expressão rígida do seu rosto. As reuniões às quintas-feiras continuavam e a elas a paralítica assistia. como se lhes fosse necessária para viverem. Servia-lhes apenas para quebrar o encontro a sós. Durante o dia muitas vezes a sobrinha subia as escadas e andava à sua volta. faziam-na assistir às suas refeições. era pequeno o pesar que sentiam e perguntavam a si próprios qual a medida conveniente de tristeza a manifestar. Teresa e Laurent empurravam logo de manhã a poltrona da pobre senhora para a sala de jantar. A . Ao agir assim. que gracejavam. como as meninas falam às bonecas. Às oito horas Laurent partia para o ateliê. Acabaram por simular ignorar completamente o seu estado.poltrona. o que lhe criou uma ocupação para o corpo e para o espírito. em seguida ao almoço ficava de novo só até às seis horas. não lhe era dado o direito de viver à parte. Nos primeiros dias. tornando-se necessário que a sobrinha adivinhasse o que ela queria. que lhe foi benéfica. Era um espetáculo estranho. quando ela manifestava o desejo de se recolher ao quarto. As outras tarefas eram desempenhadas por Teresa: era ela quem vestia a paralítica. a todos os seus encontros. Fingiam não compreender. quem procurava compreender-lhe os mínimos desejos. olhando sucessivamente os convidados com penetrantes clarões. Aproximavam a poltrona da mesa. por outro lado. tendo com ela conversações muito animadas. Durante alguns dias a senhora Raquin conservou o uso das mãos. como antigamente. riam por ela e por si. A jovem devotou-se ao ingrato papel de enfermeira. A paralítica mantinha-se hirta e muda diante deles. Teresa descia à loja e a paralítica ficava só na sala de jantar até ao meio-dia. acreditavam dar provas de delicadeza. quem lhe dava de comer. faziam as perguntas e davam as respostas. a partir daí restou-lhe apenas a linguagem do olhar. Deviam falar àquela face morta ou não deviam dar-lhe qualquer importância? Pouco a pouco optaram por tratar a senhora Raquin como se nada tivesse acontecido. Michaud e Grivet congratularam-se pelo excelente procedimento. multiplicavam os gestos. evitavam a si próprios as condolências de praxe. Os amigos da família não sabiam que elogios inventar para exaltar as virtudes de Teresa e de Laurent. aqueles homens pareciam falar com naturalidade para uma estátua. Colocavam-na entre eles. o velho Michaud e Grivet ficavam um pouco embaraçados diante do que restava da velha amiga. não mais podendo erguê-las e segurar um giz. das oito às 11 horas mantinha os olhos abertos. Conversavam com ela. para se certificar de que nada lhe faltava.

ao acaso. Apenas Teresa possuía esse dom. Não é verdade. que vivia apenas o suficiente para assistir à vida sem nela tomar parte? Ela via. Também essa era uma atenção delicada. mas não possuía gestos.. Freqüentemente interrompia a partida de dominó. feliz pelos desveles e pela afeição dos seus filhos queridos. coisa fácil entender as vontades da pobre velha. É certo que teria desejado conservar a fala para agradecer aos . ela diz-me que tenho razão. pudesse decidir os destinos do mundo.. mesmo se um movimento. abrir a boca. a senhora Raquin sentia-se feliz. sim. Comunicava-se facilmente com aquela inteligência emparedada. Essa circunstância não desarmava Grivet. rodeada de dedicações e de carinhos. Que se passaria naquela criatura miserável. ainda viva mas enterrada no fundo da carne morta. Não era. ouvia e raciocinava sem dúvida de forma nítida e clara. debate-se e passa-se sobre ele sem lhe escutar os atrozes lamentos.. que bastava olhá-la para compreender o que ela desejava. uma palavra. Só que Grivet enganava-se de todas as vezes.. a senhora Raquin não tinha pedido nada ou pedia algo completamente diferente. grita. cara senhora?. Afirmava entenderse perfeitamente com a senhora Raquin. Grivet faziase notar então pela falta de jeito das suas sugestões. contudo. Sempre sonhara acabar daquela forma. Muitas vezes Laurent olhava para a senhora Raquin. observava a paralítica cujos olhos acompanhavam calmamente o jogo e declarava que ela estava pedindo isto ou aquilo. colocando toda a vida nos olhos vivos e rápidos. permitiam-se divertir-se na sua presença sem o menor escrúpulo. portanto.senhora Raquin devia sentir-se lisonjeada por ser tratada como pessoa importante e. e dizia para consigo: — Quem sabe no que estará pensando. Laurent e os convidados enumeravam um após outro todos os objetos que ela podia pretender. O caso era bem diferente quando a paralítica manifestava abertamente um desejo. sugerindo sempre o contrário do que a senhora pretendia. Grivet tinha uma mania. Sim. não possuía voz para exprimir os pensamentos que lhe ocorriam.. que lançava um vitorioso "Era o que eu lhes dizia!" e recomeçava minutos depois. as mãos estendidas sobre os joelhos. os lábios cerrados. Não poderia erguer a mão. Feita a verificação.. Deve passar-se um drama cruel no fundo desta morta. Laurent enganava-se. O seu espírito era como um ser vivo enterrado por engano e que despertasse de noite. Vejam. Teresa. não o impedia de repetir: — Leio-lhe nos olhos como num livro. aliás. na terra. O que. dois ou três metros abaixo da superfície. Falava em tudo o que lhe passava pela cabeça. As idéias certamente a abafavam. lentamente.

Não havia nada de mais singular do que aqueles olhos que riam como lábios naquelas feições mortas. Estava enganada. Uma noite. Eram belos os seus olhares. por um instante desperta. enquanto a parte superior se iluminava divinamente. Subitamente. Logo que pela manhã Laurent a tomava nos braços para a transportar. Era sobretudo para os filhos queridos que manifestava assim todo o seu reconhecimento. Os olhos. Desde que os lábios torcidos e inertes não mais podiam sorrir. e o seu temperamento doce. com olhares repletos de terna efusão. .amigos que a ajudavam a morrer em paz. Depois. tinham-se tornado negros e duros. Voltara a ser criança. não a deixavam sentir com demasiada rudeza os sofrimentos da mudez e da paralisia. de onde se desprendiam raios de aurora. Os seus olhos adquiriam cada dia uma doçura e uma luminosidade mais penetrantes. julgando-se ao abrigo de qualquer nova desgraça. perpassavam-lhe clarões umedecidos pelas órbitas. todo o afeto da alma num simples olhar. de forma singular e encantadora. os órgãos que lhe faltavam. mas ela não tinha já vida suficiente para os separar e defendê-los das suas angústias. Então balbuciavam. Laurent foi acometido por uma espécie de crise durante a qual falou como um alucinado. como uma criança. frases que acabavam por revelar tudo à senhora Raquin. Teresa e Laurent bem a colocavam entre si. malgrado seu. desapareceu. que os via e ouvia. no rosto cujas carnes pendiam flácidas e rugosas. com adorável ternura. a paralítica ficou mais abatida. Esta espécie de choque foi tanto mais horrível quanto parecia ser um cadáver que se galvanizava. um golpe medonho abateu-se sobre ela. em plena luz. passava dias sem se aborrecer. a paralítica compreendeu. Quando esqueciam que ela se encontrava ali. deixavam. para pedir e para agradecer. Supria assim. olhando à sua frente. invadia-os a loucura. agradecia-lhe com amor. Assim viveu durante várias semanas. mais pálida. era com o olhar que sorria. como pedaços de metal. Chegou mesmo a saborear os encantos de permanecer quieta na sua poltrona. aguardando a morte. habitualmente tão doces. escapar confissões. Uma horrorosa contração passou-lhe pelo rosto e sentiu tamanho sobressalto que Teresa julgou que iria vê-la saltar e gritar. caiu numa rigidez de ferro. Servia-se agora dos olhos como de uma mão. recordando o passado. a parte inferior do rosto permanecia abatida e opaca. de uma boca. de celestial bondade. Mas a sensibilidade. Mas aceitava o seu estado sem revolta. davam conta da presença de Camilo e procuravam escorraça-lo. A vida sossegada e retirada que sempre levara.

sentia a língua fria contra o céu da boca. quando se preparava para levar para a sepultura a crença nas calmas venturas da existência. O pavor e a angústia percorriam-lhe furiosamente o corpo sem encontrarem saída. para soltar a garganta e dar assim livre curso à onda do seu desespero. de tudo compreender. O véu que se rasgava mostrava-lhe. Toda a sua vida estava devastada. As suas sensações assemelhavam-se às de um homem caído em letargia. Porém. E pensava: "vou esmigalhar-me no fundo. renegando a amizade. Se pudesse levantar-se. ou deixá-la então partir com a sua inocência e a sua cegueira. Tinha tido uma vida de afeto e de doçura e eis que nas derradeiras horas. depois de lhe aplicar na boca uma mordaça que lhe abafava os soluços. Uma incapacidade de cadáver mantinha-a rígida. A sinistra verdade queimou como um relâmpago os olhos da paralítica e penetrou nela como o demolidor impacto de um raio. Em vão recorria às últimas energias. e que tinham um prazer atroz em repetir-lhe "Matamos Camilo". A raiva que se desencadeou no seu coração foi ainda mais terrível. amaldiçoar os assassinos do seu filho. se pudesse blasfemar. era impotente para se arrancar da morte. devia ter-lhe dito a verdade mais cedo. sem ver a vida real arrastar-se na lama sangrenta das paixões. Agora nada mais lhe restava do que morrer renegando o amor. que era a de queda horrível. Teria injuriado Deus. enchendo-lhe os olhos com quadros de tranqüila alegria. acreditando totalmente em mil ninharias. Sentiu um desmoronamento que a prostrou. parecia-lhe que tombava num buraco negro e frio. um espetáculo aterrador de sangue e de vergonha. depois de ter ouvido tudo. conservando em si o clamor da sua dor. uma voz lhe gritava que tudo é mentira e que tudo é crime." . E ela ficara criança. Para além do crime e da luxúria não existia nada. todas as suas ternuras e bondade. Deus enganara-a durante mais de 60 anos. Fazia esforços sobre-humanos para levantar o peso que a oprimia. Tinha apenas uma sensação. a quem enterrassem e que. renegando a dedicação. soltar o grito de horror que lhe subia à garganta. Como era possível! Camilo morrera às mãos de Teresa e de Laurent e estes tinham concebido o crime por entre as vergonhas do adultério! Para a senhora Raquin havia um tal abismo neste pensamento que não conseguia raciocinar com clareza e minúcia. todas as suas dedicações acabavam de ser brutalmente amarfanhadas e pisadas. teria sofrido menos. Deus era mau. para além do amor e da amizade que julgara ver. Tinha a sensação de que Teresa e Laurent a tinham amarrado.Jamais desespero algum se abatera tão rudemente sobre um ser. pregado na poltrona para a impedir de se atirar. tinha de ficar imóvel e muda. amordaçado pelos laços da carne. ouvia sobre a cabeça o ruído das pazadas de terra. tratando-a como mocinha doce e boa.

sentiu nascer na carne moribunda um novo ser. Adivinhava pormenores tão ignóbeis. com um ruído ensurdecedor. maquinal e implacável. que tinha vontade de estrangular. apontando para a tia. mole e abandonada. a senhora Raquin teve a esperança que uma mola poderosa a colocasse de pé e tentou um supremo esforço. assistia em pensamento a um duplo espetáculo de ironia tão atroz que desejou morrer para não mais pensar. Nada foi mais doloroso do que aquele desespero mudo e inabalável. Deus não podia permitir que Laurent a apertasse contra o peito. Na brusca modificação dos seus sentimentos procurava-se a si própria desvairadamente e não se reconhecia. quando adquiriu a convicção sobre o adultério e o crime ao recordar-se de pequenas circunstâncias para as quais outrora não encontrara explicação. ofereciam um espetáculo pungente. Continuou abatida. ficava esmagada sob o tropel brutal dos pensamentos de vingança que substituíam toda a bondade da sua vida. Quando findou a transformação. como uma trouxa de roupa. Curvou-se em seguida para a tomar nos braços. resignou-se ao silêncio e à imobilidade e grossas lágrimas tombaram lentamente dos seus olhos. Isto girava-lhe na cabeça como imensa roda. dava-se conta de uma hipocrisia tão grande. As lágrimas que corriam por aquele rosto morto. Quando sucumbiu sob o abraço tenaz da paralisia. Teresa e Laurent eram indubitavelmente os assassinos de Camilo. impiedoso e cruel. que fitava de olhos escancarados pelo horror. Nesse instante. por aquelas feições inertes e pálidas que não podiam chorar por todos os seus traços e onde apenas os olhos soluçavam. Uma idéia única. Teresa que ela criara.Depois do primeiro abalo. fezse negro dentro de si. — É preciso deitá-la — disse a Laurent. martelava-lhe o cérebro com o peso e a obstinação de uma mó. Mas nenhuma mola a impulsionou e o céu não enviou nenhum trovão. que gostaria de morder os assassinos do filho. a monstruosidade do crime pareceu-lhe inverossímil. Repetia para si mesma: "Foram os meus filhos que mataram o meu filho" e não encontrava mais nada para exprimir o desespero. Laurent apressou-se a empurrar a paralítica para o quarto. passiva. Laurent que ela amara como mãe devotada e terna. experimentou a angústia de se sentir. quando compreendeu que não podia saltar à garganta de Teresa e de Laurent. A cabeça rolou-lhe sobre o ombro de Laurent. Foi agarrada. erguida e transportada pelo assassino. . em que nem uma ruga mexia. esperava ver um raio fulminá-lo se cometesse a monstruosa impudência. Uma piedade aterrorizada invadiu Teresa. entre os braços do assassino de Camilo. Receou depois enlouquecer.

— Vamos. — É isso — respondeu Laurent — e aquele imbecil do Michaud entraria logo no quarto para mesmo assim ver a velha amiga. porque estão demasiado longe da verdade.. Vais ver. será no derradeiro estertor da agonia. Hesitou. O seu último pensamento fora de terror e de repugnância. O que queria dizer-te era que poderíamos fechar a minha tia no quarto e fingir que está pior.. Teresa estremeceu. vamos.. poderia fazer despertar suspeitas. teriam evitado semelhante revelação por humanidade. Oh! Tens razão. De manhã Teresa perguntou a Laurent se achava prudente deixar a paralítica na sala de jantar durante o serão. tudo correrá bem.. Seria uma excelente maneira de nos perdermos... — Não. Nem um nem outro eram cruéis. querendo parecer tranqüilo e a ansiedade fê-lo balbuciar: — É melhor deixar correr as coisas. Desde aquela noite que lhe leio nos olhos um pensamento implacável — argumentou Teresa. . de suportar o abraço imundo dos braços de Laurent. — Bah! — exclamou Laurent — ela não consegue mexer o dedo mínimo. Como queres tu que dê com a língua nos dentes? — Talvez encontre um meio. que está dormindo. Jamais terão suspeitas.. Deitou-a com brutalidade em cima da cama. Se chegar a falar alguma vez. Já não faltará muito. Daí em diante teria. Tu sabes que o médico me disse que para ela estava tudo acabado. — Não me compreendeste — exclamou. certamente que não compreenderão nada dos desesperos mudos da velha. se a sua segurança não lhes tivesse imposto já como lei manterem o silêncio. Ela sabia tudo. basta de sangue. a fazer confissões na presença da senhora Raquin. A paralítica perdeu os sentidos. Uma vez feita a experiência ficaremos tranqüilos sobre as conseqüências da nossa imprudência. olha bem para mim murmurou ele — os teus olhos não me comerão. Será asneira sobrecarregar mais a nossa consciência impedindo-a de assistir a este serão. vamos. Na quinta-feira seguinte ficaram singularmente inquietos.. Essa gente é estúpida como os gansos. de manhã e à noite. CAPÍTULO XXVII Só uma crise de terror pudera levar os dois a falar...

erguendo-a ligeiramente do joelho onde estava sempre estendida. pensava que Laurent a faria desaparecer. Tinha reunido as últimas forças para denunciar os culpados. quando se viu na presença dos convidados. perguntas às quais eles próprios deram excelentes respostas. os dois criminosos aguardavam. matá-la-ia talvez. Hem! Não é isso. entre a lareira e a mesa. Quando viu que a deixavam ficar. tinha seguido. Estendeu um dedo. Tinham baixado mais o candeeiro. sentiu uma alegria confortante ao pensar que ia tentar vingar o filho. sem se preocuparem mais com a pobre velha. a paralítica nunca tinha movido as mãos. Graças a uma espantosa força de vontade. branca e flácida. ficaram surpreendidos... os dois. em seguida conseguiu arrastá-la lentamente ao longo de um dos pés da mesa à sua frente e colocá-la sobre o oleado. conseguiu galvanizar de certo modo a mão direita. — Por Deus. com o braço no ar. Ofegantes. Mal tinha feito uns tantos traços quando Grivet exclamou de novo. Posto isso. cara senhora? A senhora Raquin fez um violento sinal negativo. — Eh! Veja isto. na angustiosa expectativa do incidente que não poderia deixar de dar-se. triunfante: . a senhora Raquin esperava febrilmente por aquele serão. Grivet imobilizou-se. no meio do movimento em que ia colocar vitoriosamente a dobra seis.À noite. agitou fracamente os dedos como para chamar a atenção.... e olhava para a mão da tia. sim! — disse por sua vez Grivet — ela deseja qualquer coisa. assim como Laurent. Consciente de que a sua língua estava morta. ocultando os calafrios. Até ao último momento receou não assistir. Os convivas mergulharam na conversação banal e ruidosa que precedia invariavelmente a primeira partida de dominó. Ela quer sem dúvida qualquer coisa — exclamou Michaud. quando os convidados chegaram. a senhora Raquin ocupava o lugar habitual.. lívida à luz crua do candeeiro. Quando os jogadores notaram entre eles aquela mão de morta. encolheu os outros com infinita dificuldade e começou penosamente a traçar letras sobre a mesa. apenas o oleado encerado da mesa estava iluminado. Grivet e Michaud não deixaram de dirigir à paralítica as perguntas de praxe acerca da sua saúde. como uma mão vigorosa que fosse falar. Ela quer jogar dominó. Desde o ataque. Teresa não conseguiu responder. tentou uma nova linguagem. Desde que sabia o horrível segredo.. inerte. o esforço inaudito da paralítica. como era habitual.. mergulharam deliciados no jogo. ou pelo menos a deixaria fechada no quarto. Laurent e Teresa fingiam bom humor. Oh! Nós entendemo-nos bem. Teresa. Ali. a senhora Raquin está agitando os dedos.

Quis seguidamente terminar. deslizando. lançando sobre os criminosos olhares esmagadores.. Michaud e Olivier voltaram a sentar-se. — Está perfeito." Olivier inquiriu: — O que é que eles têm.. — Que diabo! Deixe a senhora Raquin falar. sentia a paralisia descer lentamente ao longo do braço e de novo apoderar-se do pulso.. esta se abateu sobre a mesa. Mas a cada instante Grivet interrompia. caiu sobre o joelho da paralítica como uma massa de carne inanimada. . E baixando os olhos sobre o oleado. Vejamos: "Teresa e. sentiu sobre si o peso e o frio do castigo ao ver aquela mão reviver para revelar o assassínio de Camilo. desapontados. enquanto Teresa e Laurent sentiam uma satisfação tão crua que julgaram desfalecer sob o fluxo brusco de sangue que lhes latejava no peito. presos de terror louco. Teresa quase gritou de angústia. subitamente. minha velha amiga.. que tinha compreendido e rematava com uma tolice. A paralítica lançou sobre o velho empregado um olhar terrível e recomeçou a palavra que queria escrever. estiveram prestes a terminar a frase em voz alta. Teresa. Olhava os dedos da tia deslizarem sobre o oleado e parecia-lhe que aqueles dedos traçavam o seu nome e a confissão do seu crime em caracteres de fogo. a suprema vontade que os galvanizava escapava-lhe. traçou ainda uma palavra. os dedos da paralítica cansavam-se.. declarando que não era necessário. O velho Michaud leu em voz alta: — "Teresa e Laurent têm. A vossa tia escreveu os vossos nomes: "Teresa e Laurent. Julgou que estava tudo perdido. de forma cada vez mais hesitante.. ela acaba de escrever o seu nome. depois de uma convulsão e. tinham começado uma palavra mais de 10 vezes e essa mesmo deslizando para um lado e para o outro. sem conseguir ler. forçando a paralítica a recomeçar sempre do princípio. A senhora Raquin continuava a escrever. A paralisia voltara e detivera o castigo. Michaud e Olivier debruçaram-se.. cara senhora. Mas os seus dedos estavam hirtos... os seus queridos filhos? Os criminosos.— Percebo: diz que fiz bem em pôr o doble seis." A velha senhora fez repetidos sinais afirmativos. leio muito bem — continuou Olivier passados alguns instantes e encarando os esposos." Termine. Laurent erguera-se violentamente. Porém. perguntando a si próprio se não iria precipitar-se sobre a paralítica e partir-lhe o braço. — Ah! bem — exclamou de súbito Olivier desta vez li.. Fale. Freneticamente. Michaud acabou por mandá-lo calar. como se apurasse o ouvido. Contemplavam a mão vingadora com olhos fixos e perturbados quando.

— É muito claro — exclamou. E acrescentou." Grivet sentiu-se satisfeito com a sua imaginação. cheios de ameaças surdas. que tão bons se mostravam para a pobre senhora. Ela quis dizer: "Teresa e Laurent têm cuidado bem de mim.. CAPÍTULO XXVIII Há dois meses que Teresa e Laurent se debatiam nas angústias da sua união. A partida prosseguiu. Sentia-a agora pesada como chumbo. Sentiam bem que se magoavam reciprocamente. O céu não queria que Camilo fosse vingado. jamais a poderia levantar. revoltavam-se e exaltavam-se. porque todos foram da sua opinião. o amor transformou-se em terror e tinham sentido uma espécie de medo físico dos seus beijos. Eu não tenho necessidade que ela escreva na mesa. Onde estávamos?. Pensou ser chegado o momento de reconquistar a infalibilidade completando a frase inacabada da senhora Raquin. depois. diziam para si mesmos que teriam uma existência tranqüila se não estivessem . Então o ódio começou lentamente a nascer neles e acabaram por lançar um ao outro olhares de cólera. sob o sofrimento que o casamento e a vida em comum lhes impunha.Grivet estava vexado por não terem acreditado em si. sentindo-se doravante inútil.. Sofriam um pelo outro. com uma paixão quente. parece-me. Baixou as pálpebras. privava a mãe do único meio de dar a conhecer aos homens o crime de que fora vítima. A sua mão acabava de a trair. Tinham-se amado como selvagens. O ódio tinha forçosamente de chegar. com explosões terríveis. agora. E a infeliz pensava que nada mais podia fazer do que juntar-se ao filho debaixo da terra. no meio dos enervamentos do crime. mergulhada em horroroso desespero. Grivet ia colocar o doble seis.. pegando nas pedras de dominó: — Vamos. — Não há dúvida que a senhora Raquin quis prestar homenagem às ternas atenções que lhe prodigalizam os filhos — disse gravemente o velho Michaud. A paralítica olhou para a mão. Grivet pôs a doble seis. estúpida e monótona. enquanto os outros procuravam o sentido da frase — adivinho a frase completa nos olhos da senhora. — Isso honra toda a família. Era um ódio atroz.. toda de sangue. continuemos. basta-me um dos seus olhares. E começaram a elogiar os esposos. desejando estar a partir desse momento na noite do túmulo.

Então. contudo. sabiam que a esperança ludibriada de luxúria e de felicidade calma só os conduzia aos remorsos. Miravam-se. um gesto. Tinham a consciência de que o mal era incurável. flagelavam-se a si próprios. sem sofrer e sem delirar. se tivessem podido abraçar-se em paz e viver com alegria não teriam lamentado Camilo. recusavam-se a ouvir a voz interior que lhes gritava a verdade. a contrariedade mais vulgar. Todo o seu ser se encontrava predisposto à violência. apresentando-lhes a história da sua vida. e esta idéia de sofrimento perpétuo exasperava-os. aumentavam de forma estranha no seu organismo desequilibrado e tornavam-se imediatamente . remexendo nas feridas. irritados pelas cordas que lhes cortavam a carne. cada um deles lia nitidamente no fundo da cólera. Sem saber quem atingir. por eliminar. que se esforçavam por afastar. não podendo suportar uma palavra. Quando estavam juntos sentiam-se abafados por um peso enorme. aturdindo-se com os gritos e as acusações. Não viam mais do que um futuro horrível de dor. conseguirem libertar-se. E. deixando-as em carne viva e sentindo uma acre volúpia em provocarem gritos de dor. nas crises de arrebatamento que os sacudiam. a mais ligeira impaciência. que sofreriam até à morte com o assassínio de Camilo. cansados de si próprios. um desenlace sinistro e violento. apertavam os lábios e perpassavam-lhes pelos olhos pensamentos de violência. o desespero de terem transtornado para sempre as suas vidas. contudo. sentindo a cada hora crescer o mal-estar. No fundo. Não queriam reconhecer abertamente que o casamento era a punição fatal pelo crime. e interrogavam-se com terror onde os levaria o pavor e o asco. Recordavam o passado. Todas as noites estalava a discussão. repugnados pelo contato mútuo. adivinhava os furores do seu ser egoísta que os lançara no crime para satisfazer os apetites e que no assassínio não encontrava mais do que uma existência desoladora e intolerável. censuravam-se mutuamente.sempre frente a frente. para distender os nervos inteiriçados. Mas os seus corpos tinham-se revoltado. um único pensamento os consumia: a irritação contra o seu crime. retesavam os músculos e os nervos. sentindo ânsias de se devorarem mutuamente. Daí provinha toda a cólera e todo o ódio. como dois inimigos a quem tivessem amarrado juntos e que faziam esforços vãos para escapar ao abraço forçado. abominavam-se. teriam tirado proveito do crime. tentavam sofrer menos. Compreendendo que jamais escapariam ao laço. esquecendo que eles próprios se tinham ligado um ao outro e sem poder suportar os laços por mais um instante. Dir-se-ia que os criminosos buscavam ocasiões para se exasperarem. Viviam assim envolvidos em irritação permanente. tratar os ferimentos que faziam um ao outro ao recriminaram-se sangrentamente. inteiriçavam-se sem. tateavam-se com o olhar. rejeitado a união. um olhar.

E só paravam quando a fadiga os abatia. pouco a pouco desceu até às vilezas e aos crimes daqueles a quem tinha chamado filhos queridos. a cabeça reta. Um prato demasiado quente. Os seus olhos seguiam os criminosos com uma fixidez aguda. Por vezes Teresa sentia remorsos perante aquela máscara lívida pela qual corriam silenciosamente grossas lágrimas. Veio assim a saber. as mãos pendentes sobre os joelhos.cheias de brutalidade. Era depois da refeição que Teresa e Laurent habitualmente se exasperavam. dos pequenos fatos que os dois deixavam escapar no meio do arrebatamento e que iluminavam o crime com sinistros clarões. o rosto mudo. um meio de conseguir o sono pelo embotamento dos nervos. pedia misericórdia. em dado momento da disputa. gritos ignóbeis. no meio do silêncio e da tranqüilidade do ambiente. uma janela aberta. descortinaram-lhe diante do espírito aterrorizado. Uma vez por dia aquela mãe ouvia a descrição do assassínio do filho e. adquiriam dilacerante aridez. E sempre. um a um. E à medida que penetrava mais no lamaçal sangrento. Todas as noites ficava sabendo um novo pormenor. bastavam para os lançar em autênticas crises de loucura. cada dia. os episódios da horrível aventura. mas sofria ainda mais pelo impacto daqueles golpes repetidos. A senhora Raquin ouvia-os. na sua poltrona. exaltavam-se até ao paroxismo da raiva. sufocações. brutalidades vergonhosas. fechavam-se na sala de jantar para que o ruído do seu desespero não fosse ouvido. pormenor por pormenor. Ouvia tudo e a sua carne morta não tinha um frêmito. naquela sala úmida. implorando com o olhar a Laurent que se calasse. os acontecimentos que tinham precedido e que se tinham seguido à morte de Camilo. . Podiam devorar-se ali à vontade. uma simples observação. um desmentido. As discussões tornaram-se para eles uma necessidade. As discussões deixaram-na ao corrente das mínimas circunstâncias. espécie de cova que o candeeiro iluminava com clarões amarelados. gritada aos seus ouvidos com mais crueldade e energia. A primeira vez fora brutal e esmagadora. mais esmiuçada. Um pequeno nada provocava uma tempestade que durava até ao dia seguinte. e no entanto continuava a descer. Eram cenas atrozes. atiravam o afogado à cara um do outro. parecia-lhe estar perdida num sonho de horror que não teria fim. As suas vozes. Palavra atrás de palavra chegavam a recriminar o afogamento em Saint-Ouen. julgava tocar no fundo da infâmia. Apontava para a tia. Sempre a terrível história se desenrolava à sua frente. nessas horas viam tudo vermelho. só então podiam ter algumas horas de repouso. essa descrição tornava-se mais horrorosa. pancadas. Devia ser atroz o seu martírio. Estava sempre ali.

ruidosa. Parece que é água do rio. Se o joguei no Sena foi porque tu me empurraste para o crime. Teresa repetiu: — Água do rio. — Não consegui arranjar gelo — respondeu secamente Teresa. A piedade cedia à covardia e impunham à senhora Raquin indizíveis sofrimentos porque tinham necessidade da sua presença como escudo contra as alucinações. Assim que o nome de Camilo era pronunciado... áspera. de fechar a paralítica no quarto durante as discussões. Será que sou mais feliz do que ela?. Receavam bater um no outro se deixasse de estar entre eles aquele cadáver meio vivo.. Uma associação de idéias dera-se no seu espírito. Todas as suas disputas eram idênticas e levavam às mesmas acusações. Temos o seu dinheiro.. Nem Teresa nem Laurent se atreviam a ceder ao pensamento de piedade que por vezes os assaltava.. — Mentes! — insurgiu-se o assassino com veemência — confessa que mentes. — Eu! Eu! — Sim. assim que um deles acusava o outro de o ter morto. não me obrigues a fazer-te confessar à força a verdade. Bem sabes.. — Esta água é muito boa. . empalidecia. que aceites a tua parte no assassinato... adivinhando a resposta. achou que a água da garrafa estava morna. — Está quente e tem gosto de lodo.. Isto sossega-me e alivia-me. E a discussão prosseguia. Um dia. não tenho necessidade de constranger-me.— Eh! Deixa! — exclamava Laurent brutalmente — sabes bem que ela não pode denunciar-nos. durante o jantar. tu!. não beberei. — Mas não fui eu quem afogou Camilo. Oh! Meu Deus! Meu Deus! Foste tu que o mataste.. — Está bem. Não te faças de inocente. declarou que a água morna lhe causava náuseas e que queria água fresca... E rompeu em soluços. produzia-se um choque terrível. Laurent. — Choro — soluçou a jovem — choro porque tu. ao mesmo tempo que. — Por que choras? — interrogou Laurent. Preciso que confesses o teu crime... que procurava um pretexto para se irritar. poupando-a assim à narrativa do crime. matando de novo Camilo.

Bem vês que o assassinaste comigo. — Não é verdade. tu ainda me enlouqueceste mais. não fazia mal a ninguém. se conseguisse. Teria muitas coisas a censurar-te. revelaste-me volúpias de enlouquecer. Há três anos pensava eu em tudo isto? Era eu um velhaco? Vivia tranqüilo.. entraste no barco.. — Tem cuidado. cheirava-te a criança doente. Se te enlouqueci.. Espera. Acometiam-no desejos de bater na jovem para a fazer confessar que era ela a mais culpada... desgraçada. dizias-me tu quando te vinha ver aqui. não me irrites porque isto pode acabar mal... Só tu cometeste o crime. no quarto do teu marido. não discutamos mais. com desesperada obstinação que fazia Laurent perder a cabeça.. — Ah! A miserável! A miserável! — balbuciava com voz estrangulada — quer enlouquecer-me. — Não. Oh! Finges espanto e esquecimento. a idéia de ter um cúmplice aliviava-o. Tal como tu. Eu estava louca. — Não é verdade. lembra-te. não te lembras de nada! Entregaste-te a mim como uma perdida. e eu disse-te em voz baixa: "vou* jogá-lo no rio. Confessa que tinhas previsto tudo isto. — Foste tu que mataste Camilo — repetia Teresa. — Que terias tu a censurar-me? . Sem dúvida que me aceitaste por amante para que eu lutasse com ele e o liquidasse. posso dizer que antes de te conhecer era uma mulher honesta e nunca tinha feito mal a ninguém. que me embriagaste de carícias. inclinou-se para a jovem e com o rosto transtornado gritou-lhe na cara: — Estavas à beira da água. como um homem honesto. mil vezes sim. Laurent.. com que então. foste tu. delirante. ali..— Sim.." Então tu aceitaste. gritando. Ouve.. teria tentado provar a si próprio que todo o horror do crime recaía sobre Teresa.. Levantou-se da mesa.. que odiavas Camilo e que desde há muito o querias matar. Seria incapaz de matar uma mosca. não sabia o que fazia.. vou avivar-te as recordações. digo-te que foste tu — replicou ele com terrível energia. Começou a caminhar de um lado para o outro. para me convenceres a livrar-te do teu marido? Desagradavate.. mas nunca quis matá-lo. foste tu!. Eh! Não foste tu que uma noite subiste ao meu quarto como uma prostituta. Tal como confessava.. sob os olhares fixos da senhora Raquin. Não tens o direito de censurar a minha fraqueza. Os constantes desmentidos torturavam Laurent. É monstruoso o que dizes!..

não me acuses de ter matado Camilo. comprazeste-te em destruir a minha vida. por misericórdia.. nada. Perdoo-te isso tudo. As disputas terminavam sempre da mesma forma. — Não diga isso — insurgiu-se a jovem em cólera — eu nunca gritei. voltavam sempre à carga. sofrerei menos. Os olhos confessavam o que os lábios negavam.. a disputa toda de palavras de dois miseráveis que mentiam por mentir. cada um por sua vez. eu ouço-te gritar. vencidos pela fadiga. fazendo pesar sobre o outro as acusações mais graves. recomeçavam-no todas as noites com cruel obstinação. Ele suspendeu o gesto. sabes que és tão culpada como eu.. O maior benefício . Laurent levantou a mão para bater na cara de Teresa. as afirmações ridículas. mas tentavam sempre. não queiras aterrorizar-me ainda mais. Mas. protestavam a sua inocência. Queres tentar uma prova? vou dizer tudo ao procurador e verás se não somos ambos condenados. Sabes perfeitamente que o cometemos juntos.. Recorda-te dos dois anos a seguir ao crime.. defenderem-se como se estivessem no tribunal. se bem que o processo a que se submetiam não chegasse a alguma conclusão. estou inocente! Olharam-se aterrorizados. Estou inocente.. Por que queres tu tornar o meu fardo mais pesado dizendo-te inocente? Se estivesses inocente não terias consentido em casar comigo. Sucessivamente assumiam o papel de acusador e. que não conseguiriam apagar o passado... aproveitaste-te dos meus abandonos. O mais estranho era que não conseguiam iludir-se com os juramentos. — Camilo deixa-me em paz — disse Laurent pálido e trêmulo — és tu que o vês passar nos teus pesadelos. mas Camilo sabe bem que tu fizeste tudo. receando ter evocado o cadáver do afogado. Guarda o teu crime para ti. Os constantes esforços visavam rejeitar. pegou numa cadeira e sentou-se ao lado da jovem. procuravam enganar-se a si próprios para afugentarem os pesadelos. sem poder ocultar que mentiam. Eram as mentiras pueris.. aguilhoados pela dor e pelo pavor. Estremeceram e Teresa replicou: — Os homens talvez me condenassem. — Escuta — disse-lhe com voz que se esforçava por tornar calma — é covardia querer rejeitar a tua parte no crime. Oh! Compreendo. não vejo o espectro chegar. ambos recordavam perfeitamente as circunstâncias do assassínio.. — Bate-me — exclamou ela — prefiro isso. Ele não me atormenta à noite como atormenta a ti. a responsabilidade do crime. Sabiam que nada provariam. E estendeu-lhe a face. procuras afastá-lo de ti. antecipadamente vencidos pela esmagadora realidade.— Não. Tu não me salvaste de mim própria.

talvez que o afogado. experimentava uma tal lassidão que se vergou e foi vencida. Depois de ter lutado com todas as suas nervosas energias contra o espectro de Camilo. Assim que sentia necessidade de chorar. CAPÍTULO XXIX Uma nova fase se manifestou. já não sentindo forças para se retesar. Por outro lado sentia uma espécie de prazer físico em abandonar-se. remorsos por cálculo. procurando curá-los somente com a força de vontade. Esgotada pelo medo. para se manter febrilmente em pé diante dos seus terrores. Semelhante enternecimento tivera já nos primeiros dias de casada. Como certas devotas que pensam enganar Deus e arrancar um perdão orando com os lábios e assumindo humilde atitude de penitência. Teresa começou a chorar alto o afogado diante de Laurent. mesmo menina. sufocava. de novo mulher. . Oprimiu a senhora Raquin com o seu desespero lacrimoso. Esse estado de espírito voltou. enquanto se acusavam. assim. incapaz de encontrar um pensamento consolador. ajoelhava-se diante da paralítica e assim gritava. Deu-se nela uma brusca quebra. esperando encontrar aí algum alívio. representava apenas para si uma cena de remorsos que a aliviava ao mesmo tempo que a debilitava. Uma alegria ardente brilhava-lhe nos olhos quando Laurent levantava a larga mão sobre a cabeça de Teresa. Tentou tirar partido das fraquezas da carne e do espírito que a assaltavam. como reação necessária e fatal. em oferecer-se à dor sem resistência. E enquanto duravam os arrebatamentos. Demasiado tensos os seus nervos romperam-se. a paralítica não despregava deles o olhar. batia no peito. cedesse perante as suas lágrimas. dizendo para consigo que era certamente o melhor meio de apaziguar e de satisfazer Camilo. nas lágrimas e nas lamentações. revoltada contra os sofrimentos. lançou-se na piedade. em se sentir mole e abatida. A paralítica tornou-se numa utilidade cotidiana. servia-lhe de certa maneira de genuflexório.que tiravam das suas disputas era o de produzir uma tempestade de palavras e de gritos cujo barulho momentaneamente os aturdia. assim Teresa se humilhava. a sua natureza seca e violenta amoleceu. buscava palavras de arrependimento sem ter no fundo do coração algo mais do que o medo e a covardia. de móvel diante do qual podia sem temor confessar os pecados e pedir perdão. que não cedera diante das suas irritações. depois de viver vários meses em surda irritação. de se aliviar soluçando. Então. Teve.

se soubesse como sofro. não existe piedade para mim. talvez sentisse piedade. Teresa acabou por se atrever a beijar a tia. algumas frases da sobrinha faziam-lhe afluir à garganta recusas esmagadoras. atônita. E. as palavras da jovem penetravam-lhe no espírito. ouvia-a. e descia à loja. passando do desespero para a esperança. durante todo o dia tinha de ouvir pedidos de perdão. sem nunca a interromper. Nunca me perdoará.— Sou uma miserável — balbuciava — não mereço misericórdia. sem temer romper em soluços nervosos diante dos clientes. que não pode jogar a cabeça para trás. A paralítica adivinhava o egoísmo que se ocultava sob aquelas efusões de dor. mais calma. O único meio de defesa de que podia dispor era o de fechar os olhos quando a sobrinha se lhe ajoelhava aos pés. Acreditou por momentos que os criminosos lhe infligiam o suplício por diabólica crueldade. apressava-se a subir e a ajoelhar-se ainda aos pés da paralítica. se visse dentro de mim os remorsos que me dilaceram. mas ao menos não a via. condenando-se para em seguida se perdoar. arrastei o seu filho para a morte. Desta maneira monologava durante horas inteiras. Por vezes chegava mesmo a esquecer que estava ajoelhada diante da senhora Raquin. A impossibilidade em que.. A carne . continuava o monólogo como num sonho. erguia-se vacilante. simulou surpreender nos olhos da paralítica um pensamento de misericórdia. atirava-se no chão e levantava-se a seguir. Sofria horrivelmente com os longos monólogos que era forçada a suportar a todo o instante e que colocavam sempre diante de si o assassínio de Camilo. durante um acesso de arrependimento. Um dia. A verdade é que se se procurasse inventar um suplício para torturar a senhora Raquin não se teria seguramente encontrado nada mais terrível do que a comédia do remorso representada pela sobrinha. obedecendo a todos os impulsos de humildade e de orgulho. lentas e plangentes como um canto irritante. contudo. Queria morrer assim aos seus pés. ora baixa..se encontrava de gritar e de tapar os ouvidos enchia-a de inexplicável tormento. preces humildes e covardes. Quisera responder. falava com voz de criança doente. Não. Enganei-a. depois beijou a testa e as faces da pobre velha. arrastou-se de joelhos. ora lamurienta.. Uma após outra. Quando as próprias palavras a tinham já aturdido. Se novo ataque de remorsos a assaltava.. de arrependimento e de revolta que lhe passavam pela cabeça. ergueu-se e gritou com voz desvairada: "Perdoou-me! Perdoou-me!". mas tinha de permanecer muda deixando Teresa defender a sua causa. contudo. esmagada pela vergonha e pela dor. E a cena repetia-se 10 vezes ao dia. Teresa nunca pensava que as suas lágrimas e a exibição do seu arrependimento causassem à tia angústias indizíveis. Era-lhe impossível perdoar e rodeavase de um pensamento implacável de vingança que a sua incapacidade mais aguçava e.

Era preciso que a paralítica aceitasse os agradecimentos e as efusões que o coração repelia. Fazes tudo isso para me perturbar. Era demasiado para a paralítica. Muitas vezes fez esforços supremos para soltar um grito de protesto. essas entranhas viviam.. Vês-me a chorar.. boneca que vestiam.. O que a exasperava sobretudo era o absurdo atroz da jovem ao pretender ler-lhe pensamentos de misericórdia no olhar. Passado algum tempo acreditava na realidade da comédia. Quedava-se entre as suas mãos.. como as lágrimas e os remorsos.fria na qual pousou os lábios causou a Teresa violento asco. diante da sobrinha submissa que inventava ternuras para a recompensar daquilo a que a chamava a sua celeste bondade. imaginava ter obtido o perdão da senhora Raquin e só falava da felicidade que sentia por ter merecido a sua misericórdia. quando esse olhar quereria poder fulminar a criminosa. quando Laurent lhe pegava para a erguer ou para a deitar. sorria-lhe com expressão feliz. como se só tivesse farelo nas entranhas e. . Sofria ainda mais desde que a cúmplice se arrastava à sua volta. levantava-a com brutalidade. cuidava dela com sinais de apaixonado afeto. com os beijos da sobrinha sentia a mesma sensação acre de repugnância e de raiva que a enchia de manhã e à noite. passou daí em diante a beijar a paralítica. Mas Teresa. por penitência e como alívio. ao mínimo contato de Teresa e de Laurent. pousava a cabeça sobre os seus joelhos. revoltadas e dilaceradas. Os seus olhares estão cheios de piedade... A partir daí viveu cheia de irritação amarga e impotente. de que se serviam consoante as suas necessidades e os seus caprichos. Estou salva. Estava obrigada a suportar as carícias imundas da miserável que traíra e matara o seu filho. Julgou morrer.. Estava transformada em boneca dos criminosos de Camilo. no entanto. Pensou que essa sensação seria. os lábios suplicantes. nem mesmo com a mão podia afastar os beijos que aquela mulher lhe deixava no rosto. concentrou todo o ódio nos olhos. Se Laurent estava presente quando a mulher se ajoelhava diante da senhora Raquin. a mim?. — Oh! Como é boa! — exclamava por vezes — bem vejo que as minhas lágrimas a comoveram. um excelente meio de apaziguar os nervos.. dizendo: — Chega de comédia. beijava-lhe as mãos. que tirava proveito em repetir a si própria 20 vezes por dia que estava perdoada. os olhos vermelhos de lágrimas. vêsme prosternado. Durante longas horas sentia aqueles beijos que a queimavam. redobrava de carícias sem nada mais querer compreender. Os remorsos de Teresa agitavam-no estranhamente. que viravam para um lado e para o outro. E cobria-a de carícias.

Mas peço-te que não me atordoes a cabeça com as tuas lágrimas. enquanto que tu continuarás a levar uma vida triste. Chora. — Eh! Deixa-a! Não vês que a tua vista e os teus cuidados lhe são odiosos? Se ela pudesse levantar a mão esbofeteava-te. queria desligar-se de si. — Escuta — dizia Teresa ao marido — somos grandes culpados. No entanto és covarde. Sei que és diabolicamente hábil e hipócrita. pelo menos representar a comédia do remorso.. Quisera também ele arrepender-se. Nem mesmo tens coração para evitar à minha pobre tia o espetáculo das tuas ignóbeis cóleras. Laurent estava exasperado. Teria preferido que ela continuasse tensa e ameaçadora. não digo isso. Andava à sua volta. mas procuro fazer perdoarme e conseguirei. reconhecia agora voluntariamente a sua participação no crime. Repara que desde que choro estou mais calma. fazia-se de fraca e receosa. Depois. afundar-se nos lamentos a fim de se furtar aos abraços do afogado. cada noite.. Oh! Conheço todo o horror do meu pecado.. Imita-me. Vamos dizer juntos que somos punidos justamente por ter cometido um crime horrível. E beijava a senhora Raquin. prodigalizando-lhe mil atenções. o único a ter medo.A visão daquele vivo pesar duplicava-lhe os terrores. Por momentos dizia para si mesmo que talvez ela tivesse tomado o bom caminho. Laurent. Bem via qual era a sua tática. As palavras arrastadas e queixosas da mulher. A atitude irritava Laurent. Era como que uma censura constante a caminhar pela casa. que as lágrimas lhe afastariam os terrores e estremecia à idéia de ser o único a sofrer. que fechava os olhos. jamais lhe dirigiste uma palavra de pena. as suas atitudes resignadas faziam-no pouco a pouco cair em cega cólera. para experimentar. Devia ter salvo o meu marido das tuas mãos. — Bah! — respondia Laurent com brusquidão — diz o que quiseres. — Ah! Tu és mau. receava que o arrependimento levasse um dia a mulher a revelar tudo. ajeitando a almofada da cabeça. apanhaste Camilo à traição. — Queres dizer que sou o único culpado? — Não. acusava-se a si própria. defendendo-se com empenho das acusações que lhe fazia. daí partindo para implorar a redenção com ardente humildade. rejeitas o remorso. pôrse de parte. mais culpada do que tu. temos de nos arrepender se queremos desfrutar de alguma tranqüilidade. mais opressivas e sinistras. Mas ela mudara de tática. As disputas eram. se isso te pode distrair. . aumentava-lhe o mal-estar. Sou culpada..

ah! Na verdade. desfalecia. E nós o matamos. Querias braços mais vigorosos do que os daquele infeliz.. Pelo cúmulo da irritação. não é verdade? Já esqueceste. eu sei — escarnecia Laurent — tu queres dizer que era estúpido. Não conheces nada do coração das mulheres. Lembro-me de um dia em que te arrastavas sobre o meu peito dizendo-me que Camilo te causava repugnância assim que os teus dedos lhe mergulhavam na carne como se fosse barro. — Amava-o como irmã. Camilo amava-me e eu o amava. — Tu o amavas. Era o filho da minha benfeitora..mas não encontrava os soluços e as palavras necessárias. Oh! Eu sei porque me amaste. — Ele era bom e foi preciso sermos muito cruéis para aniquilar aquele excelente coração que nunca teve um mau pensamento. Laurent encolhia os ombros.. a princípio. indignada por ouvir elogios de Camilo em semelhante boca. redobrando assim os seus terrores. — Não troces. tanto mais humilde e arrependida quanto mais rude ele se mostrava. Foi sem dúvida por amares o teu marido que me tomaste para amante. possuía todas as delicadezas das naturezas frágeis. meu Deus! Meu Deus! Chorava.. — Ora bem. Laurent.. — Era bom. A jovem quedava-se. Laurent.. procurando um meio eficaz para abafar os remorsos de Teresa.. que não podia abrir a boca sem deixar escapar uma tolice. preferia que estivesse vivo e que tu estivesses no seu lugar debaixo da terra. com vantagens para o primeiro. Laurent atingia o auge da raiva. Só te faltava insultar o homem que assassinaste. Teresa acabava sempre por fazer o panegírico de Camilo. . A senhora Raquin lançava-lhe olhares penetrantes. nada podendo fazer contra aquela torrente de lágrimas. então? Dizias que à mínima palavra sua te irritavas. O que porém o deixava fora de si era a comparação que a viúva do afogado nunca deixava de fazer entre o primeiro e o segundo marido. respondendo com submissões lacrimosas aos seus ataques de cólera.. aí está uma coisa bem achada. e lançava-se na violência. sim! — exclamava — ele era melhor do que tu. por descrever as qualidades da sua vítima.. sim. Tudo o que de bem ouvia dizer acerca da sua vítima acabava por lhe provocar penetrante ansiedade.. eu sei. andava de um lado para o outro febrilmente. mostrava-se nobre e generoso. deixava-se por vezes arrastar pelo tom dilacerante da mulher e acreditava realmente nas virtudes de Camilo. sacudia Teresa para a irritar e arrastá-la consigo na loucura furiosa.

um homem brutal. tu és um assassino. animando-se — talvez não o tenha amado em vida. a cada instante ouvia a mulher elogiar e lamentar o primeiro marido. imobilizava-a debaixo do joelho. batia-lhe. Serão essas as minhas derradeiras volúpias. o punho levantado. Teresa abandonava-se aos golpes. Desvairado.— Podes dizer o que quiseres — continuava Teresa. miserável! — Por que hei de calar-me? Digo a verdade. Ah! Quanto choro e sofro! Foi por minha culpa que este celerado assassinou o meu marido. matar-te-ia se isso pudesse ressuscitar Camilo e devolver-me o seu amor. mas tu. Como queres tu que te ame. Tenho de ir uma noite beijar a terra onde ele descansa. misturando desta forma a recordação do afogado com os . — Cala-te. A partir desse momento. Era aquilo ainda um remédio contra os padecimentos da sua vida. mata-me.. ofereciase e provocava o marido para que lhe batesse mais. Teresa empregava toda a sua maldade para tornar mais cruel a tortura que infligia a Laurent para ela própria se proteger.. A existência do assassino era horrível desde o dia em que Teresa tivera a infernal invenção de sentir remorsos e de lamentar Camilo em voz alta. sem coração. agora que te vejo coberto do sangue de Camilo?. dormia melhor à noite quando era sovada. Por duas vezes pouco faltou para a estrangular. um homem honesto que um patife matou. Tu. furioso pelas cenas atrozes que Teresa lhe desenrolava diante dos olhos.. moendo-lhe o corpo a pontapés. Oh! Não me metes medo. — É isso — gritava Teresa — bate-me. Nunca Camilo me levantou a mão. espicaçado por estas palavras. Camilo tinha esta qualidade. Sabes bem que és um miserável. ouves. e a ti odeio-te. Laurent precipitava-se e lançava-a por terra.... ele foi uma vítima. E Laurent. martirizavalhe o corpo com o punho fechado.. gozava uma volúpia acre em ser sovada. A senhora Raquin gozava viva delícia quando Laurent arrastava a sobrinha pelo chão. Camilo fazia aquilo.. Sempre Camilo.. sem alma. Descia aos mais íntimos pormenores. — E ele. sempre frases entristecidas que lamentavam amorte de Camilo. mas agora me lembro e amo-o. tu és um monstro. vê tu. Resgataria o perdão com o preço do teu sangue. Camilo tinha todas as ternuras para mim e eu matar-te-ia. — Cala-te! — vociferava Laurent. Camilo gostava daquela maneira. contou os mil nadas da juventude com suspiros de pena. o miserável vivia permanentemente com a sua vítima. A circunstância mais insignificante tornava-se um pretexto: Camilo fazia isto.. sacudia-a com raiva.

para não ouvir mais as palavras que o lançavam no delírio: todas as disputas terminavam em luta. Fez-lhe intermináveis discursos para provar-lhe que tinha de viver. teve a idéia de se deixar morrer de fome. não via necessidade de lhe recusar os meios para o conseguir. Decidiu livrar-se daquelas carícias e daqueles abraços que tamanha repugnância lhe causavam. o criminoso acabou por sentir algo bizarro que por pouco não o enlouqueceu. servia-se dos móveis. não podia suportar por mais tempo o martírio que constituía para si a permanente presença dos criminosos. e sonhava procurar na morte o supremo alívio. para escapar aos sofrimentos que suportava. zangou-se mesmo. preferia morrer completamente e deixar entre as mãos dos assassinos apenas um cadáver que nada sentiria e do qual fariam o que bem quisessem. sem que Teresa lhe fizesse sentir que Camilo lhe tocara antes dele.acontecimentos cotidianos. Cada dia que passava tornava as suas angústias mais vivas. Laurent não podia tocar num garfo. empregando as últimas forças a cerrar os dentes. à força de ser comparado com Camilo. foi introduzido abertamente. Uma vez que já não tinha vida bastante para vingar o filho. O cérebro estalava-lhe e então atirava-se à mulher para a fazer calar. numa escova. dos objetos espalhados pela casa. que já assombrava a casa. imaginou que era Camilo. O cadáver. . perguntava a si própria onde iria chorar e arrepender-se quando a tia deixasse de estar 'ali. voltando à antiga cólera e abriu os maxilares da paralítica como quem abre à força a boca de um animal. desejava a sua morte. de se servir dos objetos de que Camilo se servira. chorou. A senhora Raquin resistia. quando Laurent a tomava nos braços e a carregava como uma criança. mas já que desejava morrer. rejeitando tudo o que lhe conseguiam meter na boca. Sentava-se nas cadeiras. Teresa estava desesperada. Agora que a presença da velha senhora lhes era inútil. quando Teresa a beijava. que se identificava com a sua vítima. Durante dois dias recusou qualquer alimento. Constantemente empurrado contra o homem que matara. fosse no que fosse. Laurent permanecia perfeitamente neutro e indiferente. era uma luta odiosa. Admirava-se da raiva que Teresa aplicava para impedir o suicídio da paralítica. à mesa. Não a teria matado. A sua coragem estava no limite. CAPÍTULO XXX Chegou a hora em que a senhora Raquin. estendia-se na cama.

que depois da sua morte ambos tivessem horas calmas e felizes.— Eh! Deixa-a — dizia para a mulher — será um alívio. Para dormir em paz o sono da morte tinha de adormecer com a alegria viva da vingança. opunham-se à sua fuga obstáculos materiais: não sabiam o que fazer da paralítica nem o que dizer aos convidados das quintas-feiras. que não tinha o direito de desaparecer antes de assistir ao desenlace da sinistra aventura. todos os seus dias se passavam no meio de ansiedades. Teresa e Laurent tornavam-se a cada momento mais ameaçadores um para o outro. martirizando-se. querem separar-se mas que no entanto continuam a encontrar-se para se crivarem de novas injúrias. A explosão que tudo destruiria estava iminente. tinham a sensação estranha de duas pessoas que. Em cada dia a situação entre o casal tornava-se mais tensa. ali. Tomou os alimentos que a sobrinha lhe apresentava. rodeada do frio e do silêncio da terra. que o desfecho não podia estar longe. . Cada um por seu lado já tinha sonhado fugir. de crises dilacerantes. dormiria eternamente atormentada pela incerteza do castigo dos seus carrascos. depois de discutirem. Se fugissem talvez se suspeitasse de qualquer coisa. aliás. Além disso. Mas não se atreviam. mais insustentável. Via. Não se dilacerarem mutuamente. Uma espécie de repulsão e de atração afastava-os e puxava-os ao mesmo tempo." A idéia do suicídio tornou-se-lhe subitamente pesada ao pensar no desconhecimento com que entraria no túmulo. ter algum repouso. Disse para si mesma que era covarde em deixar-se morrer. com ânsias de se lançarem no fundo do abismo que sentiam debaixo dos pés. E ficavam por covardia.. Só então poderia descer à escuridão. tornando amargo e cruel o que faziam e o que diziam. Esta frase. um sonho que teria durante a eternidade. não conseguiam salvar-se. longe da passagem da Ponte Nova. Estavam aferrados ao ódio e à crueldade. Receou que a esperança de Laurent se realizasse. não ficarem ali para sofrer e fazer sofrer. repetida várias vezes à sua frente.. A idéia de separação era bem-vinda para ambos. cuja umidade e imundície pareciam feitas para as suas vidas desoladas. provocou à senhora Raquin uma estranha emoção. Talvez sejamos mais felizes quando ela já não estiver aqui. Viviam num inferno. consentiu uma vez mais em viver. para dizer a Camilo: "Estás vingado. Não era já apenas à noite que sofriam com a intimidade. tombando por sua vez. ficavam e arrastavam-se miseravelmente no horror da sua existência. parecialhes impossível. imaginavam então que seriam perseguidos e guilhotinados. tinha de levar um sonho de ódio satisfeito. Tudo se lhes transformava em terror e em sofrimento.

Tinha outra ocupação. enquanto Olivier estava na repartição. deixava a loja apodrecer. o lugar da senhora Raquin. e a campainha da porta tilintava imperiosamente. para não serem perturbadas nas suas conversas. durante a manhã e a tarde. Cheirava a mofo. tinha de descer. das banalidades da sua vida monótona. cheirando a cemitério. habituadas às amabilidades dengosas da senhora Raquin. A partir desse dia Teresa desligou-se um pouco da tia. esperando que a presença da pobre criatura. Desde que a tia estava imobilizada na poltrona. Quando estava em cima. há muito tempo que tinha o desejo de trabalhar com ela. Teresa tinha dias em que saía durante tardes inteiras. Quando esta passou a estar acompanhada de Suzana. À noite. doce . As modestas operárias do bairro. Estes modos pouco simpáticos não eram de molde a atrair as pessoas. Teresa andava entre a sala de jantar e a loja. Suzana aceitou a oferta com satisfação. que falava da sua casa. o abandono foi completo: as duas mulheres. sem quase ter tempo para compor os cabelos ou limpar as lágrimas. afastaram-se diante das rudezas e dos olhares enlouquecidos de Teresa. inquieta e perturbada. a acalmaria. A partir de então o comércio de capelista deixou de contribuir para as necessidades da casa.Quando Laurent não estava. arranjaram maneira de despachar as derradeiras clientes que ainda apareciam. abandonava os artigos ao pó e à umidade. entristecia-se por morrer no fundo daquela fossa sombria. espancada por Laurent ou sacudida por uma crise de pavor. quando voltava. com olheiras . Pouco a pouco perdeu toda a clientela da loja. Sentia-se ociosa quando não estava a lamentar-se aos pés da tia ou a ser espancada e injuriada pelo marido. Ninguém sabia aonde ia. Não havia dúvida que pedira companhia a Suzana não apenas para não estar só mas também para tomar conta da loja durante as suas ausências. gostava de Teresa com uma espécie de amizade respeitosa. surpreendia-se por vezes a interessar-se por tolices e então sorria amargamente. Isso fazia com que se esquecesse de si própria. Esforçava-se por escutar com interesse as tagarelices pausadas de Suzana. estafada. respondendo do alto da escada que não tinha o artigo pretendido.e pálida. O que aliás afastou os clientes foi a estranha maneira com que Teresa os recebia por vezes. Recorreu a Suzana para passar dias inteiros consigo. Ao ver-se só na loja assaltava-a o acabrunhamento e olhava com ar vazio as pessoas que atravessavam a galeria suja e negra. as aranhas desciam do teto e o chão quase nunca era varrido. atrás do balcão. Levou o bordado e ocupou. Subia menos vezes para lhe chorar sobre os joelhos e beijar-lhe o rosto morto. servia com brusquidão a clientela e não raro nem isso acontecia. foi preciso entrar no capital dos 40 e tal mil francos. sem saber como preencher o vazio que cada dia cavava mais em si.

Quer estivesse no ateliê. abandonava-se ao vazio que se apoderava do seu ser. o acabrunhamento era o mesmo. Quis livrar-se a todo o custo daquela criança que a gelava e que não podia continuar a gerar. os meses e os anos que o esperavam. O pensamento de ter um filho de Laurent parecia-lhe monstruoso. sorrindo vagamente. como um idiota. Dirigiase ao ateliê por hábito. A ociosidade matava-o. Tinha feito novas tentativas e sempre o rosto de Camilo surgia sobre a tela a escarnecer. por mania. Arrastavase pela vida. Deitava-se no divã. sombrios e implacáveis. Teve a certeza de estar grávida. enchia-o de uma tristeza muda. Laurent levava uma existência horrorosa. Os dias pareciam-lhe insuportavelmente longos. a fazê-lo de novo. Laurent já não sentia revolta. um dia. sem que soubesse explicar a razão. O local. malgrado seu. E até à noite seguia em frente. de braços pendentes e o pensamento oprimido. Teresa foi tomada de pânico. acabou por atirar a caixa de tintas para um canto e ficar na mais completa ociosidade. caindo-lhe em cima e sufocando-o lentamente. hesitando sobre as distrações a ter. Não se atrevia a tocar num pincel. deprimida. acometido de frêmitos bruscos sempre que olhava para o Sena. Tinha vagamente medo de dar à luz um afogado. o presente adquire uma amargura ignóbil. passava a . Parecia-lhe sentir nas entranhas o frio de um cadáver desfeito e mole. depois de o ter cruelmente provocado e de ele erguer um pé. No dia seguinte recomeçava. cada um deles trazia as mesmas angústias. Ficava durante meia hora no passeio da Rua Mazarino consultando-se. sem saber aonde ir. que todos lhe trariam idênticos sofrimentos. Cerca de cinco meses depois do casamento. chegando em fila. Quando não há esperança no futuro. E via as semanas.de cansaço. de paredes cinzentas. encontrava a pequena mulher de Olivier atrás do balcão. Sabia que os seus dias seriam sempre iguais. na mesma postura em que a tinha deixado cinco horas antes. De manhã saía. enojado só de pensar em fazer o que fizera na véspera e forçado. quer andasse pelas ruas. Não disse nada ao marido e. apresentou-lhe o ventre. Para não enlouquecer. À tarde interrogava-se angustiosamente para saber o que havia de fazer. em cada noite aterrorizado pela lembrança do dia e pela espera do dia seguinte. Deixou que ele batesse à vontade. Por seu lado. os mesmos pesados dissabores. No dia seguinte abortava. perdia a energia. Afastava a idéia de subir de novo ao ateliê e decidia-se sempre por descer a Rua Guéguénaud e dali caminhar ao longo do cais. donde não se avistava mais do que um quadrado deserto de céu. Esta preguiça forçada pesava-lhe extraordinariamente. que oprimiam a horas fixas com monotonia e regularidade esmagadoras.

que a ociosidade tornava as suas angústias mais cruéis ao deixar-lhe todas as horas da vida para pensar nos seus desesperos e ao aprofundar a agrura incurável.manhã estendido no divã e de tarde arrastava-se ao longo do cais. acometiam-no súbitas raivas e aproximava vivamente a navalha. procurava arranhá-lo ali. Acabou por crer que os dentes do afogado tinham mergulhado ali um verme que o devorava. era o seu castigo. era como carne estranha que ali tivesse sido colocada. Argumentava consigo próprio que fazia mal em sofrer. a existência de animal com que sonhara. avermelhava a cicatriz e esta começava a roer-lhe a pele. Quisera obrigar-se a ser feliz. e que era um imbecil por não gozar em paz essa felicidade. a picada ardente que julgava sentir lembrava à carne e ao espírito o crime. quando erguia o queixo e via a mancha avermelhada debaixo da espuma branca do sabão. Tinha de confessar. A verdade era que apenas experimentava algum alívio quando batia em Teresa. Esta espécie de ferimento vivo despertando. agora que alcançara a suprema felicidade que consiste em cruzar os braços. Isso fazia-o sair da sua dor entorpecida. e ficava espantado. Sentira já tentações. Se chegava a esquecer o passado. o sangue afluía-lhe ao pescoço. à noite. sofrimento físico e moral. como carne envenenada que apodrecia os seus próprios músculos. para a tornar ainda mais insuportável para Laurent. Diante do espelho. Transportava assim para toda a parte a recordação viva e devoradora do seu crime. Porém. horrorizava-o e torturava-o. Mas as suas razões caíam perante os fatos. conseguia-o por vezes e as suas unhas faziam-no uivar de dor. Em certos momentos imaginava que a cicatriz lhe cobria todo o corpo. O local onde se encontrava a cicatriz parecia-lhe já não pertencer ao corpo. tinha . Laurent lembrava-se por vezes de que matara Camilo para passar a não fazer nada. Fazia aquilo há meses e poderia ter que fazê-lo durante anos. agora que nada fazia. avermelhando e mordendo-lhe à menor perturbação. Habitualmente ela fingia soluçar ao ver a dentada. por suportar tais padecimentos. O padecimento mais agudo. Toda a vingança que ela extraía das suas brutalidades era martirizá-lo por meio daquela dentada. quase a cortar a carne. o frio da navalha fazia-o voltar a si. quando a espancava. de cortar o pescoço para fazer desaparecer os sinais dos dentes do afogado. Por momentos desejava ardentemente uma ocupação que o arrancasse aos pensamentos. caía sob o peso da fatalidade surda que lhe amarrava os membros para mais seguramente o esmagar. Teresa. era o causado pela dentada de Camilo no pescoço. no fundo. Não podia pôr-se diante de um espelho sem ver realizado o fenômeno que tantas vezes notara e que sempre o aterrorizava: sob efeitos da emoção. ao barbear-se. A preguiça. Depois abandonava-se.

fosse em que momento fosse. duas grossas lágrimas correram-lhe pelas faces. assim como a senhora Raquin. procurando voltarse para morder a mão de Laurent. Dizia para si mesmo que o gato. A senhora Raquin compreendeu. Quando estava cansado de discutir e de bater em Teresa. Sentia particularmente ódio ao gato tigrado François que." Quando conseguia pisar-lhe uma pata ou a cauda fazia-o com uma espécie de medonha satisfação e o miado do pobre animal deixava-lhe um vago terror. perguntava a si próprio o que lhe queriam aqueles olhos que não se despregavam dele. Se Laurent não o matara ainda fora porque. sabia do crime e denunciá-lo-ia se algum dia falasse. François olhou tão fixamente para Laurent que este. perdia a cabeça. no auge da irritação. em rigor.um desfalecimento. ia refugiar-se sobre os joelhos da paralítica. fê-lo dar duas ou três voltas e projetou-o com toda a força contra o enorme muro negro fronteiriço. Isso aliviava-o. À noite só saía do entorpecimento para entrar em cóleras cegas e fúteis. Empalidecia. François espalmou-se ali e caiu sobre o envidraçamento da passagem. acabou por sentir verdadeiro pavor. era obrigado a sentar-se e esperar que a covardia dominada lhe permitisse acabar de fazer a barba. Não tardou que Laurent se sentisse de novo inquieto. Abriu completamente a janela da sala de jantar e pegou no gato pela pele do pescoço. diz-me finalmente o que queres de mim. imaginando coisas absurdas. Eram aqueles olhos. À mesa. procurava qualquer coisa para partir. como se tivesse ouvido o grito de dor de uma pessoa. não se atrevia a apanhá-lo. Durante toda a noite o miserável bicho se arrastou pela goteira. Laurent. Depois sobretudo que este vivia sobre os joelhos da paralítica. Este porém segurava-o com firmeza. quase chegava a gritar para o gato: "Eh! Fala. debaixo das janelas. na sombra. Teresa teve uma crise de nervos atroz. Finalmente. na verdade. Ô gato fitavao com enormes olhos redondos de diabólica fixidez. dava pontapés nas paredes como as crianças. uma noite. assim que entrava na sala. Nessa noite a senhora Raquin chorou François quase tanto como chorara Camilo. Os lamentos do gato eram sinistros. tinha medo de François. o assassino de Camilo estabelecia uma vaga semelhança entre o animal irritado e a paralítica. soltando miados roucos. O animal começou a miar. . a contorcer-se. Assustavam-no certas modificações que notou no comportamento da mulher. como no interior de uma fortaleza inexpugnável da qual podia impunemente dirigir os olhos verdes sobre o inimigo. que o exasperavam. decidiu que tinha de acabar com ele. com a espinha quebrada. sempre abertos sobre si. no meio de uma discussão ou de um longo silêncio se voltava subitamente a cabeça apercebia-se dos olhares de François examinando-o com ar denso e implacável.

Estava vestida com roupas claras e ele. Começou a espiá-la. Na véspera. arrastou-se pela casa. sabia . Dir-se-ia que. Subiu a Rua Mazarino. Laurent ficou aterrorizado. tentando o remorso sem que a tivesse aliviado. Laurent seguiu-a. pela primeira vez. com um vestido de cauda comprida. seguindo pela Rua do Sena. Laurent instalou-se numa taberna a uma esquina da Rua Génégaud. acabrunhada. de indiferença egoísta. Teve a idéia de entrar na galeria e de se ocultar no próprio corredor ao lado da casa. adquirindo nova forma em Teresa. levantando a frente do vestido que mostrava as pernas. Sabia que a mulher ia sempre pela Rua Mazarino. se voltara para outro remédio. se manifestavam agora pelo tédio sombrio que notava nela. muda. esgotada pelo sofrimento e ele tinha de a amordaçar. Multiplicava as saídas. os beijos reconhecidos.Teresa tornou-se sombria. como coisa inútil que já nem de consolação servisse. Os homens voltavam-se para trás depois de se cruzarem com ela. Dali começou a observar as pessoas que surgiam no passeio da Rua Mazarino. Seguiu pela Rua da Escola de Medicina. a jovem dissera que sairia cedo e não voltaria certamente antes da noite. bamboleava-se pelo passeio provocantemente. um pensamento fixo apoderara-se dele: Teresa ia fazer revelações. reparou que se vestia como uma mulher da rua. chegava a ausentar-se quatro a cinco vezes por semana. Quando começava a impacientar-se viu Teresa sair vivamente da passagem. de reter-lhe as confissões na garganta. Retomara diante da paralítica os ares de crueldade fria. Essas alterações surpreenderam e alarmaram Laurent. Espreitava Teresa. chegou por momentos a recear que lhe escapasse. Dava-lhe as atenções estritamente necessárias para não a deixar morrer de fome. olhando para os homens. Já não prodigalizava à senhora Raquin as efusões de arrependimento. que preparava a sua traição. em vez de subir ao ateliê. Olhou a paralítica com uma espécie de desdém. as botinas de cordões e as meias brancas. taciturna. A partir daí. Ocorreu-lhe que tinha fora um confidente. O tempo estava ameno e a jovem caminhava lentamente com a cabeça um pouco inclinada e os cabelos caídos sobre as costas. CAPÍTULO XXXI Uma manhã. A sua tristeza resultava sem dúvida da impossibilidade de acalmar a sua vida. diante da passagem. Laurent esperou uma longa meia hora. Por duas vezes a seguiu e a perdeu nas ruas. Acreditou que os remorsos.

tomado do súbito receio de ser detido. do outro lado da praça. bater-lhe. Não tinha pensado nisso porque a sua carne estava morta.que em algum lugar ali perto havia um posto policial. Ficou no meio da calçada. Ali viu-os entrar numa casa de aluguel de aposentos mobilados. não pensa em fazer mal. Laurent seguiu-os até à Rua de Saint-André-des-Arts. levantou-se. repetindo que estava tudo acabado. Espantava-se agora por não ter sido ele a pensar primeiro em lançar-se no vício. que não poderia salvar-se e que seria guilhotinado. Chegaram duas mulheres que se inclinaram para a mesa e a trataram por tu com voz rouca.. A janela fechou-se com um ruído seco. enquanto a mulher se exibia ao sol pelo passeio. ocultou-se no vão de uma porta. O medo emprestava-lhe uma espécie de cega convicção. a uma das mesas sobre o passeio. da mesma forma como se caminha para o suplício. se se mostrasse. forçá-la a calar-se. Teresa dirigiu-se para um café que então se situava à esquina com a Rua Monsieur-le-Prince. Laurent compreendeu. de olhos levantados a olhar para a fachada da casa. ao desembocar na antiga praça de Saint-Michel. Quando Teresa acabou de beber o absinto. os mínimos movimentos da jovem contribuíam para essa certeza. — Bah! — dizia para si mesmo enquanto se encaminhava para o cais — sendo assim tem uma ocupação. e porque não sentia o mínimo apetite de devassidão. Bruscamente. que estava imóvel. tomou o braço do jovem louro e desceu a Rua de La Harpe.. Depois pediu um absinto. Cada passo que a via dar parecia-lhe um passo mais para o castigo. O percurso foi para ele uma verdadeira agonia. É diabolicamente mais esperta do que eu. As palavras grosseiras e as gargalhadas chegavam aos ouvidos de Laurent. A uma esquina ela olhou para um agente da polícia que passava e Laurent temeu vê-la abordar aquele polícia. A mulher apareceu momentaneamente a uma janela aberta do segundo andar. Podia aí encontrar remédio contra o terror. Sentou-se no meio de um grupo de mulheres e de estudantes. Prometeu lançar-se sobre ela se entrasse na delegacia e suplicar-lhe. Seguia-a. diante dos transeuntes que nem sequer voltavam a cabeça. ele caminhava atrás. Perfeitamente à vontade. Familiarmente. satisfeito. os homens beijavam-nas em plena rua. Julgou depois distinguir as mãos do jovem louro a deslizar em volta da cintura de Teresa. À sua volta as mulheres fumavam cigarros. sereno. conversava com um jovem louro que sem dúvida a esperava há algum tempo. que a mulher ia seguramente denunciá-lo. pálido e trêmulo. apertou a mão de todos. displicente e impudica. A infidelidade da mulher deixava-o . ia para onde ela ia. disse para si mesmo que não podia haver dúvida. Sem esperar mais partiu tranqüilamente. arrastando as saias. no vão de um portal.

Largaste o emprego. que ainda não chegara. característico dos botequins. vais dar-me de qualquer maneira. Caminhou sem destino. Extenuada..000 francos. A aventura tivera um desfecho totalmente imprevisto que o surpreendera agradavelmente. . parecia-lhe que tinha seguido a mulher de um camarada e ria da boa peça que a mulher pregava ao marido. — Reflete. quando ele julgava que se dirigia para uma delegacia. era-lhe agradável.. O que via de mais claro em todo o incidente era que tremera inutilmente. não recuses assim. tê-la-ia vendido e dado 100 vezes para obter uma hora de calma.000 francos e tê-los-ei. e que devia por sua vez experimentar o vício para ver se este lhe dava alívio. Pelo contrário. À noite. À sobremesa.. queres acabar como começaste. Ignoras a nossa posição? Caminhamos diretamente para a miséria. Digo-te que quero 5. Ela estava meio embriagada. o negócio da capelista não anda nada bem e não é com o rendimento do meu dote que podemos viver. quero o dinheiro. O jantar foi silencioso.. Pensava que o vício custa caro a um homem. Teresa tornara-selhe estranha a tal ponto que não a sentia mais viver no seu peito. Quando a mulher chegou fez-se amável e não falou da espionagem que fizera de manhã. Laurent pôs os cotovelos em cima da mesa e pediu-lhe sem rodeios 5. entendes? É inútil. — Não — respondeu Teresa secamente — se eu te deixasse livre.. estás às nossas custas. A tranqüila obstinação de Laurent irritou Teresa e acabou de a embriagar. Só vieste a esta casa para comer e beber e. arruinavas-me. Laurent decidiu que pediria alguns milhares de francos à mulher e que empregaria os grandes meios para os obter. o rosto aqui e ali com manchas lívidas.. das suas roupas em desalinho escapava o aroma acre do tabaco e da bebida. ao voltar à loja. ela cambaleava. Esperou pacientemente por Teresa.completamente frio. Não terás mais nada. não sentia nenhuma revolta no sangue e nos nervos ao pensar que estava nos braços de outro homem. Cada dia reduzo o capital para te alimentar e dar-te os francos por mês que me arrancaste. gozando a reação súbita e feliz que acabava de o fazer passar do pavor para a paz. — Não. — Ah! Eu sei. — É possível — volveu ele tranqüilamente para mim dá no mesmo. sob o peso da vergonhosa fadiga do dia. Teresa não comeu. invejava vagamente a sorte das mulheres que podem vender-se. atordoando-lhe os pensamentos. Há quatro anos que te mantemos. Quase agradecia à mulher por ir com um amante. desde então. mil vezes não!.

Limitou-se a responder: — Aprendes bonitas palavras no mundo em que vives agora. inquietos.. que nada revelasse. não terás um sou. muito bem! És um. Foi a única alusão que se permitiu fazer aos amores de Teresa. posso mesmo dizer-te que conto empregá-los para assegurar a nossa tranqüilidade. contentando-se em dizerlhe friamente que estava cansado da vida e que ia contar a história do crime ao comissário da polícia do bairro. vem comigo ao comissário. E pronto! — Julgas que me metes medo? — gritou Teresa — estou tão cansada como tu. a tentação de se ajoelhar cada um diante do outro e suplicar-lhe que ficasse. Sou eu quem vai ao comissário da polícia.. com voz trêmula: — Escuta. Mas Laurent nem sequer se aproximou. fez-se pequena. não tenho a tua covardia.. Ela teve medo de ser espancada. a prisão. Pedi-te 5. Parecia-lhes que acabavam de os pregar ao chão. tudo isto repentinamente e com clareza. não adianta nada.. — Levas-me a esse extremo.000 francos porque preciso deles. Seria prudente entendermo-nos. Depois de um estranho sorriso. Seremos julgados e condenados os dois. apavorados. prosseguiu: — Vamos. se tu não fores. decidida a não ceder à sova.O cavalheiro não faz nada... Vamos. Ah! Estou pronta a acompanhar-te para o cadafalso. de braços cruzados. depois.. O marido levantou-se violentamente. no fundo do seu ser sentiram o desfalecimento. não nos zanguemos. Queres que te diga. O medo e o ... não terás nada. Não. Esta ergueu vivamente a cabeça e atirou-lhe em tom azedo: — Em todo o caso não vivo com assassinos.. Já não tenho coragem. — Está tudo pensado — respondeu a jovem — já te disse. Laurent tornou-se muito pálido.. — É isto mesmo — balbuciou Laurent vamos juntos. E. Ficou um instante silencioso com os olhos fixos na mulher. nem para ti nem para mim. Prefiro acabar tudo. Laurent começou a rir sacudindo os ombros. as conseqüências de uma confissão. minha filha. Os escassos segundos que tinham levado descendo a escada de madeira bastaram para lhes mostrar. E disse o nome. a guilhotina. o cavalheiro arranjou-se de maneira a viver à minha custa. Viram simultaneamente os gendarmes. se não queremos que aconteça o pior. pensa. num relâmpago. nem um sou.. dá-me a tua última palavra. tornas-me a vida insuportável. o tribunal criminal. Quando desceram à loja olharam-se. Levantara-se e dirigia-se já para a escada.

enervava-se com os beijos e com os festins. dava de comer à senhora Raquin. vivia de noite. Ficava inerte na luxúria. jurava então não voltar a sair. levava inutilmente uma vida suja e turbulenta. arrastou-se no meio de uma vida ruidosa e desvairada. queimado pelo álcool. os prazeres físicos já não a abalavam suficientemente para lhe proporcionarem o esquecimento. Procurava esquecer-se na imundície. Enojado. Depois. A partir do momento em que Laurent se viu com o ouro no bolso passou a embriagarse. Estavam de novo na casa sombria e úmida da passagem.enleio conservou-os imóveis e silenciosos durante dois ou três minutos. saturados. procurando emoções fortes. enregelado. Durante um mês viveu como Laurent. à noite. A devassidão não os quisera e acabava de os remeter para as suas angústias. Logo que os dois criminosos voltaram assim a encontrar-se frente a frente. nada mais encontrava junto dos amantes do que tédio e lassidão. apenas encontrava uma pesada tristeza no fundo da saciedade. a conviver com as prostitutas. nos cafés. tendo um e outro esgotado todos os meios de se salvarem. ouvia o enorme e terrível silêncio que havia dentro de si. a lassidão provocava-lhe crises terríveis de terror. nos passeios. como que interiormente rígido. os sentidos e o estômago. Foi invadida por um desleixo desesperado e ficava em casa. quando uma amante o beijava. quando via a senhora Raquin e Teresa. se te der já. Mas só conseguiu sucumbir ainda mais. Entrava por instantes. sentiu que o vício não lhe dava mais resultado do que a comédia do remorso. Teresa saía cada vez menos. Então deixou-os. quando esvaziava o copo. não conseguia excitar a imaginação. o seu ser. quando regressava. dizendo para si mesma que lhe eram inúteis. deitava-a e saía de novo até ao dia seguinte. compreenderam que não teriam já forças para lutar. Vem a dar no mesmo. os cabelos em desalinho. doravante como prisioneiros porque muitas vezes tinham tentado a salvação e jamais tinham conseguido quebrar o laço sangrento . Por seu lado. Não tinha sido feito para a luxúria e para os excessos gastronômicos. Arrastara-se em vão por todas as hospedarias do Bairro Latino. Estava como os ébrios cujo céu da boca. a devassidão. Depois acometeu-a profunda repugnância. Ela e o marido estiveram uma ocasião quatro dias sem se verem. ansiando por fugir à realidade. Quando havia ruído à sua volta. com uma saia enxovalhada. ficar no sofrimento para se habituar a ele e vencê-lo. Dormia fora de casa e durante o dia. a cara e as mãos sujas. fica insensível ao fogo das mais fortes bebidas. Foi Teresa quem primeiro se decidiu a falar e a ceder: — No fim sou tola em te negar o dinheiro disse — acabarás por o comer um dia ou outro. Sofria ainda um pouco mais ao obrigar-se à libertinagem e era tudo. Tinha os nervos arrasados.

cada um ouvia com terror o que o outro dizia. porque nunca seriam capazes de falar e de buscar a paz na punição.000 francos teve lugar a breve trecho de manhã e à noite. duravam todo o dia. Tal estado de guerra não podia continuar. Se ameaçavam mutuamente confessar o crime era unicamente para se aterrorizarem e tirarem dali a idéia. ora era Teresa que corria a denunciar-se. aliás.que os unia. quando os convidados estavam lá. Laurent seguia-a. Ao ódio juntou-se a desconfiança e a desconfiança acabou por enlouquecê-los. Teresa colocava-se a seu lado. se Laurent ficava à porta. As suas suspeitas e o terror da confissão voltaram a juntá-los. Laurent não saía de casa e Teresa não o deixava nunca sair só. Nem sequer pensaram mais em tentar a tarefa impossível. depois de terem trocado insultos e súplicas ardentes. esmagados e ligados pelas circunstâncias. Cada crise deixava-os mais desconfiados e mais assustados. Então espancavam-se ou imploravam misericórdia. o outro imaginava que a intenção era ir ao comissário da polícia. Sofriam horrivelmente mas não sentiam coragem para se libertar pousando um ferro em brasa sobre a chaga. Não saíam daquilo. À quinta-feira. Nunca. As pancadas e os gritos. para se certificar de que ele não falava a ninguém. arrepiavam-se. E encontravam-se sempre na rua e sempre se decidiam a esperar mais uma vez. Olhavam-se de manhã à noite. . Se Teresa descia à loja. Na cólera que os envolvia gritavam que iam correndo revelar tudo e apavoravamse de morte. os criminosos lançavam mutuamente olhares suplicantes. um atrás do outro. a tal ponto que tomaram consciência de que seria ridícula qualquer revolta. e jamais tinham sofrido tanto. humilhavam-se. Retomaram a vida em comum mas o ódio transformou-se em raiva furiosa. A cena que se seguira ao pedido dos 5. prometiam por entre lágrimas amargas guardar silêncio. a uni-los numa intimidade atroz. preferiam suportar as dores mais pungentes a separarem-se durante uma hora. As disputas noturnas recomeçaram. Por mais de 20 vezes foram até à porta da esquadra. Mas não obstante as angústias que impunham a si próprios. temendo que ela falasse com uma cliente. vendo as pessoas que cruzavam a passagem. Sentiram medo um do outro. desde o casamento. Sentiram-se impelidos. Ora era Laurent que queria confessar o crime. fazia um gesto. A idéia fixa de ambos era a de que o outro o queria denunciar. à espera de uma confissão do cúmplice e dando às frases começadas sentidos comprometedores. Quando um dizia uma palavra. não se perdiam de vista. tinham vivido tão estreitamente ligados um ao outro.

Nem mesmo o discutiram. que é fulminante e deixa poucos vestígios. e arriscavam-se à guilhotina cometendo o segundo. Diziam simplesmente para si mesmos que conseguiriam fugir. agiam febrilmente. ambos ansiaram pela separação eterna. um antigo camarada de colégio e que era preparador no laboratório de um químico célebre que se debruçava bastante sobre toxicologia.Teresa e Laurent. Era absolutamente necessário que um deles desaparecesse para que o outro desfrutasse de algum repouso. pensou ser aquele o veneno que lhe convinha. que iriam viver no estrangeiro depois de se apossarem de todo o dinheiro. O colega proporcionara-lhe uma visita ao laboratório. depois de se decidir ao crime. cada um por seu lado. aceitando o projeto como o único meio de salvação. vendo Teresa beber um copo de água açucarada. Não seriam denunciados pelo primeiro crime. aliás. Sentiam invencivelmente a necessidade de matar. Laurent resolveu que mataria Teresa porque Teresa o incomodava. ambos sentiram a necessidade urgente de separação. fatal. Laurent tinha encontrado. forçadamente trazido pela morte de Camilo. obedeciam a essa necessidade como feras furiosas. Teresa levantara os escassos milhares de francos que restavam do seu dote e fechara-os numa gaveta que Laurent conhecia. Laurent lembrou-se de ter visto no laboratório um pequeno frasco de arenito contendo ácido prússico. A firme resolução do assassínio acalmou-os um pouco. visitou o amigo e aproveitando uma ocasião em que este estava de costas. Tomaram as suas disposições. não cuidando de assegurar a fuga e a impunidade. roubou o pequeno frasco de arenito. porque podia entregá-lo com uma palavra e porque lhe causava insuportáveis padecimentos. apenas vagamente pensavam nas conseqüências prováveis de novo crime. Teresa decidiu que mataria Laurent pelos mesmos motivos. que tinham dissimulado com tanta habilidade. Havia ali uma contradição de conduta de que nem se apercebiam. Decorridos 15 ou 20 dias. Nem por um momento se preocuparam com o que aconteceria à senhora Raquin. . Uma noite. sem muita prudência. que nem mesmo pensavam em ocultar. chegaram a pensar em libertar-se por meio de um novo crime das conseqüências do primeiro. Um dia conseguiu escapar de casa. Esta reflexão ocorreu-lhes ao mesmo tempo. O assassínio que lhes surgiu no pensamento pareceu-lhes natural. algumas semanas antes. Recordando o que lhe dissera o jovem preparador sobre os efeitos terríveis daquele veneno. mostrando-lhe os aparelhos e indicando-lhe os nomes das drogas.

Suzana. que estava grávida. Como a conversa naquela noite tivesse substituído o jogo. Feito isto escondeu a faca num canto do aparador. Jamais tinham suspeitado por um instante do drama que se representava naquela casa. os Michaud e Grivet nem uma só vez se tinham saturado daqueles serões monótonos que se sucediam com enervante regularidade. Perante as dilacerações dos criminosos adivinhava a crise que devia estalar de um dia para o outro. bem. sonharia tratarem-se de marcas dos punhos de Laurent. dizendo aos convidados que tinha caído. as contusões que se lhe viam no rosto. aproveitando a ausência de Laurent. por duas ou três vezes. Nos últimos tempos Teresa tivera de explicar. com os olhos fixos e os lábios cerrados. achava que falavam. Ao se retirar. Ao cabo de quase quatro anos que passavam as quintas-feiras em casa dos Raquin. as pálpebras. tão calma e doce desde que entravam. Grivet declarou que nunca tinha passado horas mais agradáveis. Teresa mandou afiar uma grande faca de cozinha com a qual partia o açúcar. A paralítica não tinha voltado a tentar revelar-lhes as infâmias que se ocultavam por detrás da tranqüilidade morna dos serões de quinta-feira. todo doçura e amor. dizia que a sala de jantar cheirava a homem honesto. declarou ingenuamente que as histórias do antigo comissário da polícia o divertiam quase tanto como uma partida de dominó. cobriam-lhe de sombra todo o rosto. provocada pela . aliás. inclinava por vezes a cabeça. Nenhum deles. Tinha aliás por eles um certo respeito. prestava permanentemente atenção às narrativas do velho Michaud e de Olivier. Teresa parecia ouvi-la com grande interesse. como gracejo de polícia. Prolongou-se até às 11 e meia. e que estava cheia de mossas. falou durante todo o tempo com Teresa acerca das suas dores e das suas alegrias. estavam convencidos de que os seus anfitriões eram um casal modelo. CAPÍTULO XXXII Na quinta-feira seguinte. baixando-se. Habitualmente Olivier. Grivet chamava-lhe o Templo da Paz. Para não ficar atrás. o serão em casa dos Raquin — como os convidados continuavam a chamar o lar dos seus anfitriões — decorreu com particular alegria. Laurent por seu lado. Estes nunca estavam calados e Grivet mal conseguia meter uma palavra entre duas frases do pai e do filho.Nesse mesmo dia.

eu que normalmente me deito às nove horas — apoiou Michaud.sucessão fatídica dos acontecimentos. com um gesto enfático: — Esta sala é o Templo da Paz. Desde a véspera estavam mais sombrios. os lábios pálidos. Ao subirem. Suzana atava as fitas do chapéu e dizia para Teresa: — Virei amanhã às nove horas. Quando soaram as 11 e meia. Acompanhou os convidados até à passagem. Mas nem um olhar obteve em troca. Antes de deitarem a senhora Raquin. . mostrando os dentes amarelecidos — cheira a gente honesta esta sala: é por isso que se está tão bem. deixou atuar as conseqüências do assassínio de Camilo. os convidados levantaram-se prontamente. que deviam por sua vez matar os assassinos. tinham o hábito de arrumar a sala de jantar. de preparar um copo de água com açúcar para a noite. — Está-se tão bem em vossa casa que nunca se pensa em partir — exclamou Grivet. Quando ficaram sós. Pediu somente ao céu que a deixasse viver para assistir ao desfecho violento que previa. o seu derradeiro desejo era o de saciar os olhos com o espetáculo dos supremos sofrimentos que aniquilariam Teresa e Laurent. — O fato é que nunca adormeci aqui. os olhos vagos. caminhando assim de um lado para o outro diante da pobre paralítica até tudo estar em ordem. A sua voz era estranha. As mãos de ambos tinham ligeiros tremores convulsivos e Laurent viu-se obrigado a pousar o candeeiro em cima da mesa para evitar deixá-lo cair. soltaram ambos um suspiro de alívio. Laurent desceu também. Sairei com certeza durante a manhã.. Entretanto. e acabou por compreender que os fatos não precisariam da sua intervenção. uma impaciência surda devia tê-los devorado durante toda a noite. Olivier entendeu dever ser igualmente amável: — Como vêem — disse. A partir de então apagou-se. — Não — apressou-se a jovem a responder — venha só à tarde. Evitaram olhar-se e subiram silenciosamente.. Naquela noite Grivet instalou-se a seu lado e falou muito. sentaram-se por instantes. naquela noite. perturbada. com um candeeiro na mão. mais inquietos diante um do outro. como habitualmente. fazendo as perguntas e dando as respostas. Grivet pôs-se a declamar. Aborrecido por ter sido ultrapassado.

Olharam-se. compreendiam. Ambos tiveram a sensação de que algo de doce e de terno lhes despertava no peito. como se tivesse sentido um frio intenso. que parecia emergir em sobressalto de um sonho. Então. tiveram piedade e horror. — Sim. — Deixa — exclamou o marido. encontrando finalmente a consolação na morte. Ao lerem mutuamente o seu secreto desígnio. Enquanto isso. Cada um deles ficou gelado por encontrar o seu próprio pensamento no pensamento do cúmplice. Uma crise suprema venceuos.. Teresa abaixara-se diante do bufê. pensando na vida enlameada que tinham levado e que continuariam a ter. Sentindo que o desenlace estava próximo. deitamo-nos — respondeu Teresa estremecendo. Ergueu-se e pegou na garrafa. lançando-os nos braços um do outro. E bruscamente Teresa e Laurent romperam em soluços. Choraram. Teresa pegou no copo. com voz que se esforçava por fazer soar com naturalidade eu preparo o copo de água com açúcar. Tirou a garrafa das mãos da mulher e encheu um copo de água. durante alguns segundos. Os cadáveres ficaram toda a noite no chão da sala de jantar contorcidos. Trata da tua tia. Nesse momento. Virando-se um pouco. fulminados. sem falar. mudos e frios. frágeis como crianças. fez ambos voltarem a cabeça num movimento instintivo. a mulher curvada diante do bufê. a sensação estranha que previne da aproximação de um perigo. Foi um relâmpago.— Ora bem! Não nos deitamos? — perguntou ao cabo de um silêncio Laurent. a senhora Raquin olhava-os fixa e penetrantemente. sob a recordação do passado. . despejou em seguida o pequeno frasco de arenito e introduziu um pedaço de açúcar. sentiram-se tão cansados e repugnantes de si próprios que experimentaram uma necessidade imensa de repouso. Examinaram-se. se fossem suficientemente covardes para continuarem a viver. na cicatriz que tinham deixado os dentes de Camilo. sim. Trocaram um derradeiro olhar.. sob os clarões amarelados da luz que o candeeiro projetava sobre eles. espojados. de vazio. Teresa viu o frasco nas mãos de Laurent e este apercebeu-se do reflexo branco da faca que brilhava por entre as pregas da saia de Teresa. pegara na faca de cozinha e procurava fazê-la deslizar para uma das grandes algibeiras que lhe pendiam da cintura. um olhar de agradecimento à vista da faca e do copo de veneno. nos rostos conturbados. o marido junto da mesa. assim. bebeu metade e estendeu-o a Laurent que o esvaziou de um trago. Tombaram um sobre o outro. A boca da mulher foi de encontro ao pescoço do marido.

. sem conseguir afastar os olhos. hirta e muda.E durante quase 12 horas. a senhora Raquin contemplava-os a seus pés. até ao meio-dia seguinte. esmagando-os com olhares pesados.

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